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Tupari - Povos Indígenas no Brasil
Em seus contatos iniciais com os não-indígenas, nas primeiras décadas do século
XX, os Tupari os denominaram Tarüpa, "maus-espíritos", por serem portadores
de doenças e outras adversidades. Os Tupari compartilharam com outros povos
de Rondônia um histórico do contato marcado primeiramente pela exploração e
expropriação por seringalistas, e a partir da década de 1980 também por
madeireiros e garimpeiros. Nos últimos anos os Tupari vêm procurando reverter
esse quadro e lutam, com outros povos da região, contra a instalação de
barragens no rio Branco.
Localização e população
Segundo dados da ONG Kanindé, havia, em 2005, 329 Tupari na Terra Indígena
Rio Branco, situada no município de Costa Marques em Rondônia. Lá moram
também os Makurap, Arikapu, Kanoê, Aikanã, Aruá e Djeoromitxí. O quadro
abaixo mostra a distribuição demográfica dos Tupari nas aldeias da TI Rio
Branco em 2005:
Aldeia Homens Mulheres Total
Serrinha 29 26 55
Trindade 23 14 37
Nazaré 11 16 27 53
Colorado 29 21 50
Encrenca 14 19 33
Cajuí 09 12 21 33
Estaleiro 0 6 6
Morro Pelado 20 25 45
Manduca 0 2 2
Castilho 0 1 1
Palhal 21 15 36 51
Bom Jesus 6 4 10
São Luis 2 4 6
Total 164 165 382
De acordo com a Funai, em 2005, havia 49 índios Tupari, distribuídos em sete
famílias, na Terra Indígena Rio Guaporé, onde também vivem os grupos Wajuru,
Aikanã, Aruá, Kanoê, Wari, Makurap, Mequém, Arikapu e Djeoromitxí. Essa TI
está localizada no município de Guarajá Mirim em Rondônia.
Histórico do contato
http://ti.socioambiental.org/pt-br/#!/pt-br/terras-indigenas/3842
http://ti.socioambiental.org/pt-br/#!/pt-br/terras-indigenas/3842
http://ti.socioambiental.org/pt-br/#!/pt-br/terras-indigenas/3842
http://ti.socioambiental.org/pt-br/#!/pt-br/terras-indigenas/3842
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Makurap
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Makurap
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Arikap%C3%BA
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Arikap%C3%BA
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Kano%C3%AA
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Kano%C3%AA
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aikan%C3%A3
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aikan%C3%A3
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aru%C3%A1
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aru%C3%A1
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Djeoromitx%C3%AD
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Djeoromitx%C3%AD
http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/funai
http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/funai
http://ti.socioambiental.org/pt-br/#!/pt-br/terras-indigenas/3847
http://ti.socioambiental.org/pt-br/#!/pt-br/terras-indigenas/3847
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wajuru
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wajuru
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wari%27
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wari%27
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Sakurabiat
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Sakurabiat
Foto: Lucia Mindlin Loeb, 1991
Há estimativas de que houvesse cerca de 3 mil Tupari no início do século XX. O
etnólogo Franz Caspar supôs que tenham visto o homem branco pela primeira
vez na década de 1920. Desde então, passaram a manter um contato
intermitente com seringueiros e outros não-indígenas. O primeiro etnólogo a
visitá-los foi Snethlage, em 1934, quando encontrou apenas 250 indivíduos.
Caspar, em 1948, registrou 200 e, em seu retorno em 1955 (meses após uma
epidemia de sarampo), apenas 66.
Em 1948, quando Caspar passou vários meses entre os Tupari, registrou o
seguinte relato de Waitó, primeiro pajé e líder político da aldeia:
https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/8/6/3/1_98f714c4164660c/58631scr_9c00bd6d91a5bac.jpg?v=2020-06-03+19%3A39%3A20
https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/8/6/3/1_98f714c4164660c/58631scr_9c00bd6d91a5bac.jpg?v=2020-06-03+19%3A39%3A20
No meu tempo de criança, os Tupari não sabiam que ao oeste viviam
homens brancos e pretos. Só nós, os Tupari, vivíamos nesta região, e,
à nossa volta, as tribos vizinhas. Éramos todos bons amigos. Nossos
pais só travaram lutas ferozes com os selvagens Hamno. Nossos
melhores amigos eram os Makurap, que chamamos Tamo na nossa
língua. Íamos sempre visitá-los, embora o caminho fosse muito
difícil, pois nas grandes savanas o sol queimava nossas cabeças o dia
inteiro. (...). Um dia, soubemos pelos nossos amigos terem chegado
homens estranhos pelo rio. Uns tinham a pele branca, outros preta.
Não andavam nus como nós, mas traziam calças e camisas.
Navegavam pelo rio em barcos grandes que lançavam uma fumaça
monstruosa. Não caçavam com arco e flecha, mas atiravam com um
canudo que fazia um estrondo forte, lançando carocinhos duros no
corpo do bicho. Esses homens falavam uma língua que ninguém
compreendia.
Logo chegaram até as malocas dos Makurap. Não eram maus, pelo
contrário, deram aos Makurap muitos colares, espelhos, facas e
machados. Depois construíram a sua choça, à beira do rio, e foram
procurar as árvores chamadas por nós de herub com cujo suco
fazemos bolas para jogar. Os homens brancos, no entanto, não
fizeram bolas de brinquedo com o suco do herub, mas grandes bolões
que levavam rio abaixo nos seus barcos. Derrubaram também muitas
árvores e plantaram uma porção de milho, banana, mandioca,
também arroz e muitas outras coisas. Empregavam os Makurap e
davam-lhes mais facas e machados, também calças e camisas, redes e
mosquiteiros. Para isso, pediam aos Makurap para os ajudarem a
derrubar árvores e abrirem picadas através das matas.
Vimos os machados e facas que os Makurap receberam dos
estrangeiros. Esses eram muito mais duros do que os nossos de
pedra, com os quais trabalhávamos e não se quebravam com o uso.
As facas também eram muito melhores do que as nossas de bambu e
talo de cana, com que cortávamos a carne e as penas das setas.
Queríamos também ter tais machados e facas, mas tínhamos medo
dos estranhos. Os velhos diziam não serem estes gente, mas Tarüpa,
maus espíritos, portadores da doença que mata as pessoas. Assim,
chamamos os estrangeiros de Tarüpa e até agora os chamamos
assim. Sabemos não serem maus espíritos, embora tenham trazido a
doença entre nós.
Quando pela primeira vez trouxemos à casa a notícia dos
estrangeiros, as mulheres choraram e disseram: os Tarüpa chegarão
até aqui para nos matar e aos nossos filhos também. Fomos logo
procurar de novo os nossos amigos Makurap. Mostraram-nos mais
presentes dados pelos estrangeiros. Pedimos uns machados e eles
nos deram alguns já usados que não precisavam mais, porque
sempre ganhavam dos brancos outras ferramentas novas e boas.
No entanto, notamos também que muitos Makurap tossiam e
morriam. A tosse era trazida pelos barcos a motor das aldeias dos
estrangeiros. Todos os Makurap tossiam e muitos e muitos morriam.
Os Tarüpa também foram visitar os Jabuti, Wayoró, Aruá e Arikapu
e os levaram para trabalhar nas suas plantações e florestas de
borracha. Também eles receberam facas, camisas e calças. Mas
também começaram a tossir, sentir dores de cabeça e febre. A maior
parte morreu. Poucos sobraram.
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Makurap
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Makurap
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Djeoromitx%C3%AD
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Djeoromitx%C3%AD
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wajuru
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wajuru
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aru%C3%A1
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aru%C3%A1
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Arikap%C3%BA
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Arikap%C3%BA
Por fim, os estrangeiros vieram até aqui. Chegaram dois homens
brancos às nossas malocas. Chamavam-se Cravo e Awitchi. Foram
trazidos por Bipey, cacique dos Makurap. Muitos Arikapu
carregavam as bagagens. Ainda não havíamos visto um Tarüpa e nos
assustamos muito. Agarramos nossos arcos e flechas e as mulheres
fugiram com as crianças para a mata, ou se esconderam na choça,
gritando e chorando.
Porém, Bipey nos disse que os brancosdesejavam ser nossos amigos
e haviam-nos trazido muitos presentes. Os Tarüpa distribuíram
entre nós sal, açúcar e muitas outras coisas e Bipey nos disse que
devíamos ir trabalhar para eles no barracão. Assim, ganharíamos
machados e terçados. Não pude ir com eles, porque um jacarezinho
me mordera no braço - veja aqui, ainda tenho a cicatriz. Porém,
muitos foram com os Tarüpa para derrubar o mato. Estavam
trabalhando já há alguns dias, quando uma árvore caiu sobre um
branco moço e o matou. Os Tupari ficaram com medo e fugiram.
Muitos trouxeram machados para casa. Foram os primeiros
machados bons que tivemos.
Quando Cravo esteve entre nós, tossia muito e punha uma
mucosidade pelo nariz. Nossos homens, mulheres e crianças
começaram também a tossir, a mucosidade lhes corria do nariz,
sentiam dor de cabeça e no peito. Muitos Tupari morreram, também
muitos capitães e pajés. Assim, ficamos com medo e não queríamos
mais ir trabalhar com os brancos. Mas desejávamos possuir mais
machados e facas.
Quando já me tinha casado e minha filha Maéroka já estava no
mundo, apareceu aqui um outro Tarüpa, foi o Toto Alemão [O Dr.
Alemão era o Dr. E. Heinrich Snethlage]. Veio com muitos homens
Jabuti, Wayoró e Arikapu e com mais três Tarüpa. Um deles era
negro e se chamava Nicolau. O Toto Alemão trouxe muitos
presentes: facas, machados, pentes, colares, roupas e outras coisas
mais. Era um homem muito bom, muito grande, maior do que você e
do que todos daqui. O negro Nicolau ria e dançava muito com nossas
mulheres e nos deu contas de vidro. Porém, o Toto Alemão estava
doente. Tossia muito. Nossas mulheres recomeçaram a tossir e
muitas morreram. Quando ele partiu, nós o acompanhamos até a
cabana dos brancos. Trabalhamos lá e recebemos mais machados,
facas e também calças e camisas.
Mais tarde voltamos, outra vez, aos brancos. Regino sempre nos dava
de tudo que precisávamos. Ele é muito bom. Rivoredo também é
bom. Quando meu irmão pegou a tosse em São Luís e morreu, ele me
deu um terçado.
Uma das vezes em que fomos trabalhar com os brancos em São Luís,
levamos conosco algumas mulheres. Lá não havia ninguém para nos
fazer a chicha. Duas delas morreram de tosse. Agora as mulheres não
querem mais ir para os Tarüpa. Uma vez, o Rivoredo levou-nos no
barco a motor, de São Luís, até o rio grande. Lá vimos um barco a
vapor cheio de Tarüpa que nos olharam muito e queriam comprar
nossos arcos e flechas. Construímos um grande barracão e voltamos
para São Luís. Muitos sentiram dor de cabeça por causa do motor. O
motor nos deixa doentes e traz a tosse.
Já fui cinco vezes aos Tarüpa para ganhar um machado ou uma faca.
Uma vez, o Regino veio até aqui e nos levou para trabalhar. O negro
Pedro também veio com o Severino, quando já morávamos aqui
mesmo. Ficaram três dias aqui. Não eram bons. Levaram-nos para
trabalhar em São Luís, dizendo que nos dariam machados, facas,
camisas e calças. Mas foi tudo mentira. Trabalhamos, mas não
recebemos machados, nem facas. Chegaram muitos outros Tarüpa
para colherem borracha.
Na última estação da chuva, vieram Tiboro, sua mulher Maria e Rosa
e Ricardo (o jornalista de Buenos Aires e seus companheiros).
Cantavam, dançavam e bebiam também muita chicha e não tossiam.
Estava bom. Tiboro e Maria levaram muitos arcos, flechas, redes e
muita outra coisa e não nos deram machados e facões. Isto não foi
bom.
Agora veio você. Você também não tosse. Está bom. Você trabalha e
caça muitos macacos e não é mau. Você vai ficar aqui e nunca mais
irá embora. Somos agora poucos Tupari. Temos só duas choças, a
minha e a de Kuarumé. Porém trabalhamos muito e temos muito
milho, amendoim, inhame, cará para nós, nossas mulheres e filhos. E
bebemos muita chicha e cantamos e dançamos. Isto é bom. Aqui,
onde agora moramos, não morre mais muita gente. Os Tarüpa dizem
que devemos ir morar em São Luís. Mas isso não é bom para nós.
Queremos ficar aqui. É bom morar nestas choças grandes. Lá com os
Tarüpa existe muita doença e os seringueiros perseguem todas as
mulheres. A vida lá não é boa. Queremos ir a São Luís só quando
quisermos machados e facas. Então, trabalhamos para os Tarüpa e
voltamos, outra vez, para as nossas malocas Assim está bom" (1948:
146-9).
Como aponta o testemunho, nessa época a presença dos seringueiros, patrões da
borracha e outros brancos já era incisiva, trazendo doenças à aldeia e relações de
troca assimétricas. Nota-se também o papel dos Makurap como primeiros e
principais interlocutores dos brancos. Caspar comenta que o Makurap tornara-
se uma espécie de língua franca na região, dominada pela maioria dos outros
grupos indígenas. O etnólogo ressalta também que o contato com os Tupari com
os não-indígenas ainda era bastante intermitente. Faziam visitas aos barracões,
oferecendo trabalho em troca de machados, terçados, roupa, sal e tabaco,
ficando depois de dois a três anos sem aparecer. São Luís, o seringal mais
próximo à aldeia Tupari, ficava a oito ou nove dias de caminhada.
É provável que o primeiro seringal instalado na região tenha sido no rio Branco,
próximo ao Guaporé, em 1910. Em 1912 um alemão abriu um outro seringal no
rio Colorado. Em 1927 a empresa norte-americana Guaporé Rubber Company
abriu outro seringal em Paulo Saldanha. Por volta de 1934, instalou-se, com a
colaboração de ex-funcionários do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), um
outro seringal no São Luís (que em 1980 se converteu em sede do Posto
Indígena Rio Branco, com a chegada da Funai na área) (Leonel, 1984).
Alguns seringueiros da região comentaram com Caspar o desaparecimento de
grupos por doenças transmitidas pelos brancos – “não suportam o catarro” – ou
por guerras (e canibalismo) que envolviam os Tupari. Mas havia entre esses
grupos também um intenso intercâmbio cultural, que envolvia casamentos e
festas de chicha. Antes de chegar à aldeia Tupari, por exemplo, Caspar
participou de uma festa a convite de um Aruá (identificado então como último
sobrevivente de sua aldeia), da qual participaram índios Jabuti, Makurap e
http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/o-servico-de-protecao-aos-indios-(spi)
http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/o-servico-de-protecao-aos-indios-(spi)
http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/funai
http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/funai
Tupari.
Em sua estadia, o principal grupo inimigo dos Tupari eram os Hamno, referidos
como ferozes caçadores de cabeças. Mas o etnólogo não viu nenhum membro
desse grupo e aquela geração de Tupari, ao que parece, tampouco os tinha visto
efetivamente (:148).
Os Tupari e os órgãos indigenistas oficiais
Quando Franz Caspar voltou ao Brasil e visitou o grupo, em 1955, encontrou-os
reduzidos a apenas 66 pessoas por conta de uma epidemia de sarampo que
assolara a aldeia no ano anterior. O órgão indigenista oficial (Serviço de
Proteção aos Índios – SPI) os atraíra para fora de suas malocas para fazê-los
trabalhar no seringal São Luís, onde contraíram a doença. O etnólogo estima que
mais de 400 índios de diversos grupos tenham falecido na sede do seringal.
O SPI já não se encontrava presente na região desde o início da década de 1930,
quando o órgão transferiu cerca de metade do contingente desses grupos para
uma colônia de trabalho mais perto de Guajará Mirim, e mais tarde para o Posto
Indígena Ricardo Franco (Caspar, 1955: 152).
Foi apenas em 1980 que a Funai (órgão indigenista que substituiu o SPI a partir
de 1967) instalou um Posto Indígena na região do rio Branco e que os direitos
territoriais dos Tupari e dos outros povos vizinhos começaram a ser
reconhecidos pelo Estado brasileiro. Nessa época, os índios sobreviventes das
grandes epidemias já eram mais resistentes às doenças trazidas pelos migrantes.
Mas o indigenista Mauro Leonel, que visitou a área em 1984, apontou dezenas
de casos de gripe com complicações e turberculose. A malária, quase inexistente,
tornou-se endêmica a partirde 1983. Em fevereiro de 1984, havia mais de 15
casos apenas na aldeia de São Luís, sem que houvesse assistência médica no
local (o atendente de enfermagem estava de licença e não havia sido
substituído).
As relações com os seringalistas eram marcadas pelo sistema de aviamento, em
que os índios eram convertidos em eternos devedores, precisando vender sua
força de trabalho em troca de mercadorias a preços exorbitantes nos chamados
“barracões”. No início da década de 1980, a Funai publicou relatório de
identificação do que viria a ser a Terra Indígena Rio Branco, em que apontava a
existência de 86 indígenas semi-escravizados por um seringalista. Mais ao sul,
em área que posteriormente foi convertida na Reserva Biológica do Guaporé,
mais 68 índios trabalhavam, também em regime de semi-escravidão, para um
fazendeiro. Apenas 33 índios, crianças, doentes e idosos, não serviram a um
destes dois senhores no sistema de aviamento.
Em 1983, a Terra Indígena Rio Branco foi finalmente demarcada. Contudo, seu
perímetro – então de 240 mil ha – deixou de fora sete aldeias. Ao norte, quatro
aldeias próximas à antiga sede de seringais, habitadas em sua maioria por
Makurap, ficaram fora dos marcos para a doação dessas terras pelo Incra a 10
mil famílias, no projeto de colonização do rio Branco. Outras três aldeias
ficaram fora da área demarcada, cujos habitantes, em sua maioria Tupari,
viviam em área próxima à Reserva Biológica do Guaporé.
Além da inadequação na extensão demarcada, um seringalista invasor continuou
a explorar o trabalho dos indígenas em suas própria terra. Como aponta
relatório de Mauro Leonel em 1984, as condições de atendimento do Posto
Indígena Rio Branco eram péssimas, e os índios tinham que arcar com viagens
de doentes, transporte de mercadorias e deslocamentos de funcionários do PI,
http://ti.socioambiental.org/pt-br/#!/pt-br/terras-indigenas/3842
http://ti.socioambiental.org/pt-br/#!/pt-br/terras-indigenas/3842
que eram financiados pela cantina da comunidade. Esta foi criada em 1980, com
apoio da Funai, para fazer frente ao barracão do seringalista invasor, até então
único provedor de mercadorias dos grupos da região.
Para o funcionamento da cantina, 30% da venda de borracha e 100% da
castanha pelos índios eram destinados à sua manutenção, que era feita pelo
administrador do PI. Entretanto, devido à ausência de infra-estrutura do posto,
o dono do barracão podia levar os produtos até as colocações onde trabalhavam
as famílias. Assim, apesar de cobrar mais pelas mercadorias, estas eram de
acesso mais fácil do que a cantina para muitos indígenas (Leonel, 1984:204).
Mesmo depois de décadas de contato, foi apenas em 1987 que alguns Tupari
conheceram uma cidade. Até então, só conheciam a floresta e os seringais. Mas a
partir de 1988, suas terras começaram a ser sistematicamente invadidas por
madeireiras e foram sendo pressionados por grupos econômicos locais a
negociarem a madeira e admitirem garimpos (Mindlin, 1993: 17).
Atividades produtivas
A agricultura consiste na principal atividade produtiva dos Tupari.
Tradicionalmente, segundo conta Franz Caspar, o trabalho nas roças envolve
uma divisão de papéis, cabendo aos homens queimar e limpar o terreno, bem
como preparar os orifícios em que as mulheres em seguida depositam as
sementes, e posteriormente fazem a colheita, trazendo os produtos para a aldeia
em bolsas trançadas com fibras de palmeira. Na época de Caspar eram
cultivados principalmente milho, aipim, cará, amendoim, cana, banana, feijão e
várias outras espécies de tubérculos.
Foto: Lucia Mindlin Loeb, 1991
As aldeias Tupari são hoje compostas de casas, em sua maioria, cobertas de
palha com paredes de barro ou de paxiúba. Em 1948, a aldeia visitada por
Caspar era composta por duas malocas e as duas maiores roças eram as dos
chefes dessas casas comunais. Nessas roças, todos trabalhavam, mas convinha
que cada homem tivesse sua própria roça, plantando o seu fumo e o que mais
apetecia à família. Muitos índios possuíam até mais cana-de-açúcar em suas
roças do que o chefe, especialmente quando as suas mulheres a apreciavam
muito. Para as mulheres, também plantavam algodão e urucu. Os Tupari são
ainda grande apreciadores de amendoim, que fazem cozido ou assado.
A extensão das roças dos chefes possibilitava a estes convidarem todos os co-
residentes para as festas, que eram abundantes e costumavam durar três dias
inteiros. Nas palavras de Caspar: “Possuir um campo com imensas plantações de
milho, inhame, taioba, amendoim e, principalmente, aipim, e durante o ano
inteiro convidar sua gente e os vizinhos para festas e ser considerado por eles
como um perfeito anfitrião, era o maior empenho do chefe e estava nisso a
própria demonstração de sua autoridade. Para isso, o cacique era obrigado a
trabalhar muito mais do que seus subordinados. Tinha de ser o primeiro a
começar e o último a voltar para casa. Só assim o seu pessoal o respeitava e
estava pronto para colaborar no trabalho. (...) Do mesmo modo, porém, que cada
um tinha de ajudar ao tuxaua na derrubada, este também tinha de auxiliar a
cada um. A quantidade de colaboradores e o suor despendido na derrubada
eram o medidor seguro para sua influência na tribo” (:129-30).
https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/8/6/6/6_08107d8f0398224/58666scr_8ae1dbbb9aacc59.jpg?v=2020-06-03+20%3A32%3A01
https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/8/6/6/6_08107d8f0398224/58666scr_8ae1dbbb9aacc59.jpg?v=2020-06-03+20%3A32%3A01
Foto: Lucia Mindlin Loeb, 1991
Além da roça, a caça, a pesca e a coleta são atividades que mobilizavam boa
parte do cotidiano nas aldeias Tupari. Na década de 1940, em pequenos grupos,
havia épocas em que quase todos os Tupari costumavam deixar a maloca com o
arco e um feixe de flechas à esquerda e, às costas, uma pequena rede de viagem
e espigas de milho. Podiam ficar caçando ou pescando por uns cinco a dez dias.
Muitos levaram consigo as mulheres e filhos (Caspar,1948:191). A carne de
macaco era muito apreciada. Também caçavam paca, aguti, mutum, lagarto,
tatu, entre outros.
Enquanto os homens estavam ausentes na caçada, as mulheres por vezes faziam
https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/8/6/4/1_1237781e1086cfb/58641scr_8e6c43442c0d7ca.jpg?v=2020-06-03+19%3A55%3A06
https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/8/6/4/1_1237781e1086cfb/58641scr_8e6c43442c0d7ca.jpg?v=2020-06-03+19%3A55%3A06
excursões de um dia na floresta, em grandes e pequenos grupos. À noitinha,
voltavam com seus achados, tais como pequenos peixes, caranguejos e outros
crustáceos, larvas (que apreciavam misturadas ao mel), grilos, besouros e
lagartas de muitas espécies. Tais produtos eram colocados em moquecas sobre
as brasas, além de amendoins e raízes, para serem então consumidos.
Nas malocas, as cenas cotidianas destacadas pelo etnólogo são as mulheres se
ocupando com o fogão, desfiando algodão ou o fiando, ou fazendo um pouco de
chicha para o consumo diário, ou catando piolho uma da outra, ou pintando o
rosto e cortando-se os cabelos. De vez em quando, uma mulher enxotava as
galinhas e patos que tentavam roubar um bocado das panelas e grelhas, ou
agarrava, assustada, uma criança que engatinhava por perto de uma fogueira e
poderia queimar-se nas brasas (:131).
Foto: Lucia Mindlin Loeb, 1991
Mas, dentre todas as atividades cotidianas dos Tupari, o etnólogo destaca o fato
de serem grandes consumidores de chicha, fabricada pelas mulheres e
consumida em maior quantidade durante as festas. “O aipim nas plantações e o
milho nos depósitos dos Tupari pareciam ser inesgotáveis. Uma festa se sucedia
à outra” (:172). No caso da chicha de mandioca, esse tubérculo é descascado,
cortado, cozido, resultando numa pasta que é mastigada e cuspida nas panelas.
É então amassada no pilão, peneirada e mexida. Depois fica de repouso por
alguns dias para fermentação. Para fazer a chicha de milho, as mulheres trazem
do depósito grande quantidade de espigas, lavam as jarras com água trazida do
riacho e enchem grandes panelas com grãos de milho e água. Despejamos grãos
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de milho cozidos no pilão de madeira, onde é convertido em uma papa. O
processo de fermentação é semelhante ao da mandioca.
Décadas depois do testemunho de Caspar, na década de 1980, a organização
econômica dos Tupari foi descrita pelo indigenista Mauro Leonel como uma
mistura de sua forma tradicional com a extração da borracha, a coleta e quebra
da castanha para venda ou troca no mercado. Nessa época, operava o regime de
barracão, em que os índios vendiam seu trabalho ou produtos da floresta pelas
mercadorias trazidas da cidade e oferecidas nos barracões dos seringais e na
cantina do Posto Indígena.
Ainda segundo Leonel, apenas com a chegada da Funai, em 1980, os índios
começaram a dispor de algum dinheiro, cerca de US$ 50 a 100 por ano para
cada chefe de família. O sistema da cantina ou do barracão os abastecia no
fundamental: óleo, fósforos, querosene, facões, açúcar, sal, ferramentas, pilhas,
sabão, munição, entre outros itens.
Em junho os índios começavam a preparar as colocações, arrumar os tapiris e
fazer os cortes nas estradas (regiões de extração de seringa). Em setembro
faziam uma pausa para a queima dos terrenos das roças e a "coivara" (limpeza),
seguindo-se o plantio da mandioca. Em outubro plantava-se arroz e milho. Em
novembro voltava-se à seringa para o corte, prensa e o chamado "fabrico", que
preparava a borracha para a venda. Dezembro e janeiro eram dedicados à coleta
e quebra da castanha. Fevereiro e março eram para a colheita das roças, em
particular do milho e arroz, e o plantio do feijão. Em abril vinha a limpeza por
dentro, a "broca" da roça e o desmatamento, seguido da derrubada, em maio
(Leonel, 1984).
As roças familiares tradicionais tinham em média de 1/2 a 1 hectare. Plantava-se
geralmente macaxeira, três variedades de milho, banana, arroz, cará, amendoim,
tabaco e batata doce. Quando Leonel esteve na região, em 1984, havia sete roças
ao norte da sede do Posto Indígena (São Luís) e 21 ao sul. Oito núcleos
familiares dispunham de precárias casas de farinha.
Todas as atividades são permeadas, sempre que possível, pela caça e pesca. O
timbó é uma prática constante de todos os grupos, mas vêm enfrentando
dificuldades na pesca devido à construção de PCHs [Pequena Central
Hidrelétrica]. A caça é muito escassa, mas encontra-se porco do mato, tatu, paca,
tatu-canastra, veado, cotia, anta, quati, macacos e jabuti. Caçam também aves e
apreciam o mel, frutas e o amendoim.
O artesanato como mercadoria na década de 1980 era muito raro, mas hoje em
dia constitui uma das principais fontes de renda para os Tupari. Costumam
trocar ou vender sua famosa cesta de tucum. Com esse material também fazem
pulseiras e brincos de conchas de rio. Fazem ainda arcos, flechas e bordunas.
Modo de vida
A regra de residência tradicional entre os Tupari é uxorilocal, o que quer dizer
que o noivo passa a morar com seu sogro, precisando trabalhar para ele. Mas se
o esposo for mais idoso, especialmente se for um líder, ele leva a jovem consigo.
Em relação aos ornamentos, os homens Tupari usavam uma folha amarela que
lhes cobria o pênis. O nariz era furado, assim como os lábios e lóbulos das
orelhas. Através do orifício do septo nasal traziam um canudo da grossura de um
lápis, ou um bastãozinho colorido que quase lhes tapava as fossas nasais,
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tornando-as mais abertas. Espetavam nos lábios pedacinhos de madeira finos,
ou estão dois espinhos de porco-espinho. Nas orelhas usavam brincos de
pedacinhos de madrepérola e contas de vidro.
Vestiam ainda colares, braceletes e fitas de algodão nos pulsos e nas pernas.
Alguns usavam um cinturão de pequenas contas negras. Todos, porém, tinham o
corpo pintado, de alto a baixo, com pintas e riscos pretos ondulados. Alguns
tinham também o rosto pintado. O cabelo escorrido era repartido ao meio e em
alguns chegava quase ao ombro. Raspavam as sobrancelhas, barba e todos os
pelos no corpo.
Foto: Lucia Mindlin Loeb, 1991
https://img.socioambiental.org/d/236582-1/tupari_8.jpg
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As casas comunais foram descritas por Caspar como circulares, abobadadas. A
aldeia era então constituída por duas habitações comunais. Na casa principal
Caspar estimou morarem perto de cem pessoas, cerca de 30 famílias. E na casa
menor cerca de dez famílias. O centro não era habitado por pessoa alguma. Um
grande círculo de jarras de chicha era separado por um corredor largo. Desse
corredor, seguiam-se pequenas passagens que conduziam às redes (:86).
Entre as duas casas havia uma pequena praça, com galinheiros e uns ranchos-
depósitos. Na praça, os homens costumavam sentar em banquinhos esculpidos
de madeira.
Cosmologia
Antigamente, a terra não era povoada e no céu não havia nenhum
Kiad-pod [pajés primitivos]. Havia somente um grande bloco de
pedra, lindo, liso e brilhante. Esse bloco era, porém, uma mulher.
Um dia abriu-se ao meio e, entre torrentes de sangue, deu à luz um
homem. Era Waledjád. Mais uma vez, fendeu-se o bloco e nasceu um
outro homem. Chamou-se Wab. Ambos eram pajés. Não tinham
mulher, por isso cada qual fabricou para si um machado de pedra e
derrubaram duas árvores. Depois mataram um aguti, arrancaram-lhe
os dentes da frente e, com isso, esculpiram uma companheira para
cada um deles. 
Assim, nasceram também os outros pajés primitivos, os Wamoa-pod,
uns da terra, outros das águas. Waledjád era muito mau. Zangava-se
constantemente e, cada vez que ficava bravo, chovia copiosamente.
Assim, inundou toda a terra, morrendo afogados muitos Wamoa-pod.
Os sobreviventes não sabiam como se livrar de Waledjád. Um dos
pajés primitivos, Arkoanyó, escondeu-se em cima de uma árvore e
pingou cera de abelha líquida sobre Waledjád, que passava por baixo.
A cera lhe grudou os olhos, ventas e dedos. Assim, não podia mais
causar dano algum. Queriam levá-lo para longe e muitos pássaros
tentaram carregá-lo pelos ares, mas eram todos muito pequenos. Por
fim, apareceu um pássaro grande que era suficientemente forte para
levantá-lo e levá-lo para longe. Pegou Waledjád e voou com ele
longe, para o norte. Ali, o pássaro o abandonou e lá ele vive até hoje,
numa choça de pedra. Quando ele se zanga, chove aqui em nossa
terra.
Um outro mau pajé chamava-se Aunyain-á. Seus dentes eram
grandes como as presas de uma queixada. Tinha o costume de comer
os filhos de seus vizinhos. Estes, finalmente, resolveram fugir deste
ser terrível e abandonar a terra. Um dia, Aunyain-á foi à floresta para
caçar mutuns. Então eles subiram num cipó muito alto que pendia do
céu até a terra. Naquele tempo, o céu não estava tão alto como hoje,
mas estava pendurado pertinho da terra.
Quando Aunyain-á voltou da caçada, não achou mais os vizinhos.
Perguntou a um papagaio para onde haviam ido. O papagaio
mandou-o ir ao rio, mas lá Aunyain-á não encontrou pegadas na
areia. Então o papagaio deu uma gargalhada, dizendo que todos os
vizinhos haviam subido para o céu. Aunyain-á ficou furioso e quis
matar o papagaio, mas não lhe acertou a flechada. Aunyain-á
começou a trepar no cipó para agarrar os fugitivos. O papagaio voou
depressa para cima e começou a bicar o cipó que se partiu. 
Aunyain-á foi arremessado para a terra e ficou estraçalhado. De seus
braços e pernas nasceram os jacarés e iguanas; de seus dedos e
artelhos os lagartos de toda espécie. O resto foi devorado pelos
urubus. Desde aquele tempo, os pajés primitivos moram lá no céu.
São os Kiad-pod. Alguns ficaram na terra, mas moram longe daqui.
Muitos destes Kiad-pod parecem gente, mas sempre têm suas
peculiaridades. Um fala pelo nariz, outro tem a boca torta e um
terceiro, Wamóa-togá-togá,tem um umbigo do comprimento de um
palmo. Nenhum deles tem cabelo na parte posterior da cabeça.
Nesse céu, existem também pajés primitivos com corpo de bicho. Há
um macaco-prego, um macaco preto, um guariba e muitos outros que
também são verdadeiros feiticeiros. Sabem falar e cantar como gente.
Quando nossos pajés cheiram tabaco e angico aqui na maloca, então
o pó voa para o nariz dos macacos do céu. Eles espirram e vêm do
céu até a terra, para tomar parte nas cerimônias de Waitó [o pajé
Tupari que está fazendo o relato]. As pessoas comuns não enxergam
esses habitantes do céu. Só os pajés se comunicam com eles durante
as evocações. Então, os Kiad-pod entram na maloca e a alma de
nossos pajés vai para o céu e peregrina pelas regiões mais longínquas
da terra. Lá recebem dos espíritos grãos amarelos misteriosos, o
Pagab. Com o Pagab, os pajés podem enfeitiçar e matar seus inimigos
(:211-2).
Caspar registrou ainda o seguinte relato de Waitó sobre o aparecimento da
humanidade sobre a terra:
Há muito tempo, não existiam na terra nem Tupari nem qualquer
outra pessoa. Nossos antepassados viviam debaixo da terra, onde o
sol nunca aparece. Sentiam muita fome, pois não tinham de comer
senão frutos da palmeira. Uma noite, descobriram um buraco na
terra e foram para fora. A saída não ficava longe da choça dos antigos
pajés Eroté e Towapod. Acharam ali as plantações de amendoim e
milho dos pajés. Comeram bastante e, pela manhã, sumiram outra
vez pelo buraco escondido entre pedras. Assim fizeram noite após
noite. Eroté e Towapod pensaram serem agutis que roubavam suas
plantações, mas uma manhã descobriram sinais dos homens e
acharam o buraco por onde eles saíam para fora. Levantaram a pedra
que cobria a saída e com uma vara comprida remexeram dentro do
buraco. Os homens começaram a sair, aos montes, até que os pajés
tamparam o buraco outra vez.
Os homens eram, então, horrendos. Tinham presas compridas como
o porco do mato e membranas entre os dedos e artelhos como os
patos. Eroté e Towapod quebraram-lhes as presas e formaram-lhes
as mãos e os pés. Desde então, os homens não têm mais presas
pontudas, nem membranas natatórias, mas dentes bonitos, dedos e
artelhos.
Muita gente ficou dentro da terra. Chamam-se Kinno e vivem lá até
hoje. Quando toda gente da terra morrer, então os Kinno sairão do
solo e virão morar aqui em cima. As pessoas tiradas da terra por
Eroté não ficaram vivendo todas no mesmo lugar. Nós, Tupari,
ficamos aqui, os outros emigraram para longe, por todos os lados.
São os nossos vizinhos, os Arikapu, Jabuti, Makuráp, Aruá e as tribos
restantes (:213-4).
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O mundo dos mortos
Além de Waitó, principal pajé, um importante informante de Franz Caspar era o
jovem pajé Padi, que contou a Caspar a respeito dos espíritos dos mortos. Diz ele
que muito longe há “uma grande água e uma grande aldeia”, onde vivem os
Tupari mortos... os Pabid. Ninguém os pode ver. Só os pajés podem visitar os
Pabid em sonhos. E nas sessões de xamanismo os Pabid eram trazidos para a
maloca (:182).
Quando um Tupari morre, as pupilas dos olhos saem-lhe do corpo e se
transformam num Pabid. O Pabid não anda na terra como os homens vivos, faz
a viagem para o reino dos mortos caminhando sobre o dorso de dois gigantescos
jacarés e duas imensas serpentes, um macho e outra fêmea. Os homens comuns
não enxergam estes jacarés, só os pajés os vêem em sonho. Às vezes, as
serpentes se empinam para o céu, em forma de arco, tornando-se visíveis
durante as chuvas. É o arco-íris. Os Pabid se encontram também com jaguares
ferozes que os amedrontam com seus urros. Porém, nenhum mal lhes fazem.
Por fim, os mortos alcançam seu novo lar, que se acha à beira de um grande rio,
Mani-Mani. A princípio, nada vêem, pois seus olhos ainda estão fechados. Assim
que chegam, são recebidos por dois vermes grossos e longos, um macho e uma
fêmea, que lhes abrem um buraco no ventre e comem-lhes todas as vísceras.
Depois saem.
Chega então Patobkia, pajé superior e cacique da maloca dos mortos. Pinga nos
olhos dos recém-chegados o sumo de uma pimenta muito ardida e só depois
disso é que os Pabid podem ver onde estão. Olham tudo pasmados e só
encontram desconhecidos. Todos têm barriga oca, porque os vermes já lhes
comeram os intestinos. Aí Patobkia lhes apresenta uma cuia de chicha. O novo
Pabid bebe e Patobkia o conduz para o interior da aldeia dos mortos. Dois pajés
velhíssimos estão à espera do recém-chegado. Quando o Pabid é homem, é
obrigado a possuir a velha gigante Waug'e, diante dos olhos de todos. Se, no
entanto, é uma mulher que chega, então será possuída pelo velho Mpokálero.
Depois disso os Pabid não copulam mais à maneira dos vivos; os homens
sopram um punhado de folhas e as insinuam por magia no ventre das mulheres.
Assim elas engravidam e dão à luz as criancinhas.
Os Pabid moram em grandes casas redondas, porém, não dormem em redes,
mas sim de pé, apoiados aos postes de arrimo, e cobrem os olhos com os braços.
Não abatem florestas e não cultivam a terra. Patobkia faz todo esse trabalho com
gestos mágicos e com seu sopro encantado. A chicha de amendoim, que as
mulheres dos Pabid fazem, não é fermentada, assim os mortos podem bebê-la
sem se embriagarem. Não obstante, cantam e dançam freqüentemente, todos
enfeitados de cocares. Os pajés Tupari ouvem suas canções, quando visitam, em
sonhos, as aldeias dos Pabid.
Além dos Pabid, há uma segunda alma dos mortos que não vai para a maloca
dos Pabid, mas sobe para o espaço, algum tempo depois da morte. Nas palavras
de Padi: 
Quando morre uma pessoa e suas pupilas dos olhos vão para os
Pabid, nós lhe enterramos o corpo na choça, ou onde queimamos
uma choça velha. Mal o corpo é enterrado, o coração começa a
crescer dentro do corpo e, depois de alguns dias, torna-se tão grande
como a cabeça de uma criança. No interior do coração aparece um
entezinho que vai crescendo e rompe o coração, como um passarinho
rompe a casca do ovo. É o Ki-apoga-pod. Ele não pode, porém, sair
do chão e chora de fome e sede. Por isso, os parentes do morto vão à
caça. Quando voltam, organizam três sessões de rapé com os pajés.
O pajé superior puxa o Ki-apoga-pod do chão, lava-o e forma seu
rosto e membros. Quando sai da terra, parece uma pelota de terra
sem forma. Depois o feiticeiro lhe dá de comer e beber e o solta nos
ares. Os Ki-apoga-pod vivem lá em cima. Quando o morto foi em
vida pajé, então seu Kia-poga-pod não voa para o espaço, mas fica
na maloca. Ali as almas dos pajés mortos comem da comida e bebem
da chicha dos vivos. Da cúpula das malocas, encantam os vivos
durante a noite e os fazem sonhar. As almas das mulheres dos pajés
também pairam ali" (:195-7)
Rituais
Na acepção Tupari nesse período em que Franz Caspar esteve entre eles, uma
mulher não ficaria grávida se um dos pajés demiurgos, Antaba ou Kolübé,
aproveitando-se da escuridão da noite, não viesse a ela e lhe trouxesse uma
criança. Essa criança cresce da carne dos dois Kiad-pod e tem, mais ou menos,
um palmo de tamanho. Os espíritos do céu, depois de desprendê-la de seu
próprio corpo, aproximam-se de uma mulher adormecida e, por meio de
feitiços, introduzem o pequeno ente em seu seio. Aí ele cresce e vem ao mundo.
Quando nascia a criança, a mãe raspava a testa do filho com um talo de grama e
pintava sua cabeça com tinta de jenipapo. Furava os lóbulos das orelhas e
enfiava nos orifícios um fio de fibra de folha de palmeira. Seu rosto era
adornado com traços e pontos pretos à moda dos adultos (:188).
Quando a criança estivesse suficientemente crescida para comer larvas de
palmeira, os pais eram obrigados a jejuar por cinco dias. Depois participavam de
um ritualministrado pelo conjunto dos pajés, que envolvia banhos numa bacia
com ervas, rodadas de rapé, o consumo de macacos caçados pelo pai da criança,
chicha e outras iguarias. O ponto culminante do ritual era quando a criança
comia pela primeira vez uma larva de palmeira (:128).
Iniciação feminina
Foto: Lucia Mindlin Loeb, 1991
Quando uma menina ficava menstruada pela primeira vez, sua mãe comunicava
o fato ao pajé superior. Erguia-se na maloca um tabique de folhas de palmeira e
esteiras, atrás da qual a jovem ficava reclusa. Durante cinco dias ela não recebia
nem água nem alimentos, até que o pajé benzesse uma jarrinha de chicha não
fermentada para ela. E também nos meses subseqüentes a chicha constituía o
alimento principal da jovem. Em hipótese alguma ela podia tocar carne ou
peixe. Não podia sair do compartimento, não podia tomar banho nem se lavar.
Ela permanecia sentada no chão ou em sua pequena rede, fiando algodão, a fim
de mais tarde tecer uma rede para seu marido. Se ela já tivesse marido, durante
todo esse tempo não deveria vê-lo nem lhe falar.
Somente depois de dois ou três meses a reclusão era suspensa. O marido da
jovem e seus parentes próximos partiam durante dez dias para a caça. A jovem,
porém, precisava jejuar rigorosamente por mais cinco dias e as mulheres
passavam terra úmida e podre na sua cabeça, para amolecer as raízes do cabelo.
Quando os caçadores retornavam, então os pajés realizavam com eles uma
cerimônia. Todos os participantes cheiravam pó de tabaco e angico, e o pajé
maior fazia conjuras à moça. As mulheres arrancavam-lhe os cabelos, e seu
corpo e a cabeça desnuda eram pintados com tinta vermelha e preta. Então a
jovem recebia, finalmente, de novo os primeiros alimentos e retornava à
comunidade da tribo. Mas, somente quando os cabelos tivessem crescido bem
ela poderia viver em comum com seu marido (:200-2).
Festas de chicha
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Hoje as festas tradicionais, segundo levantou o antropólogo Samuel Cruz (da
ONG Kanindé), só ocorrem uma vez por ano. Mas Caspar comenta inúmeras
vezes em sua obra a freqüência com que os Tupari realizavam festas, que
comumente duravam três dias inteiros, e quando se consumia uma imensa
quantidade de chicha fermentada de mandioca ou milho.
Comiam carne de caça e bebiam chicha de milho em grandes quantidades,
entremeadas por vômitos, para que pudessem recomeçar o consumo. Nas
palavras do etnólogo: “Faz parte da festa: beber, vomitar, beber, vomitar, até o
dia raiar” (:52). Produziam instrumentos de taboca e dançavam até o nascer do
sol, como nessa descrição:
Uma dúzia de músicos se alinhara ao redor de um pau fincado no
chão. Seguravam na mão esquerda a taboca e a mão direita estava
pousada no ombro do vizinho. Os dançarinos moviam-se em círculo,
dando passinhos para o lado, ao som de uma melodia simples. Não
demorou e outros dançarinos se juntaram. Todos traziam o arco e
flecha na mão, ou a espada [de palmeira e dois gumes] ao ombro. As
mulheres se alinharam na roda exterior. Davam-se as mãos, ou se
seguravam na cintura, ou no ombro.
As rodas se moviam lentamente em círculo, no ritmo da música. De
tempo em tempo, marcavam passo, faziam sempre na mesma
cadência uns passinhos para trás e depois, com um grito selvagem,
recomeçavam a rotação vagarosa para a direita. Ora os músicos
tocavam o solo, ora os dançarinos cantavam em coro. Uma cadência
característica anunciava o fim da dança, depois de um quarto de
hora, mais ou menos. A roda parava. Os índios soltavam um
‘huuuuuuh!’. Então corriam a fim de encher suas cuias e se
acocoravam ao pé das fogueiras que brilhavam em todos os cantos.
Os músicos iniciavam uma nova sessão (:101).
Tanto homens como mulheres bebiam muito. A despeito de serem as mulheres
as produtoras de chicha, nas festas masculinas os homens é que serviam as
mulheres e em porções bem menores. Já nas festas das mulheres eram elas que
bebiam e apenas ocasionalmente ofereciam bebida aos homens.
Para cada festa, os Tupari pintavam-se com a seiva do jenipapo. As mulheres
mastigavam os frutos verdes e cuspiam o suco em pequena cabaça. O suco era
passado no corpo com um chumaço de algodão e nesse momento é quase
invisível. Depois penetra na pele e torna-se preto-azulado. Os desenhos de riscas
onduladas, cruzes e pontos só desaparecem depois de uma semana (:81).
Quando deixou a aldeia, depois de meses de convivência, os Tupari pediram
para que Caspar tirasse sua camisa. Então algumas mulheres começaram a
esfregar seus corpos no etnólogo. Tal gesto foi assim explicado por uma índia:
“Cozinhamos para você, e lhe demos de comer. Agora precisamos comer outra
vez o nosso alento que está dentro de você.” Depois as crianças fizeram o
mesmo, e assim foi explicado: “Você brincou com eles e os carregou!” Por isso, o
etnólogo não devia partir sem retirar de dentro das crianças o seu sopro e fazê-
lo voltar para ele, pois mais tarde poderia lhe fazer falta (:217).
Xamanismo
Segundo o antropólogo Samuel Cruz (da ONG Kanindé), todas as aldeias Tupari
têm um xamã que atua fazendo uso de sementes de angico, com teor
alucinógeno. Elas são maceradas até virar pó, então são misturadas com um tipo
especial de fumo, cultivado para este fim. Essa mistura é inalada por meio de
uma taboca, cuja extremidade contém um recipiente com o pó e é encostada na
narina do pajé, enquanto na outra extremidade uma pessoa assopra. Caspar
presenciou várias sessões de xamanismo no tempo em que esteve entre os
Tupari. Numa delas, uma velha gemia de dor. O pajé Tadjuru, acocorado sobre
seus calcanhares, passava a mão pelo corpo da paciente, depois levantava os
braços para o ar, parecia retirar alguma coisa de seus próprios membros para
fazê-la penetrar na mulher. Para terminar, inclinou-se sobre a doente imóvel e
sugou-lhe a nuca. Sempre acocorado, arrastou-se até a porta, onde cuspiu o mal
que havia sugado do corpo da velha (:75).
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Xamã tupari em uma sessão de cura. Foto: Lucia Mindlin Loeb,
1991
O mais comum era que as sessões de cura xamânica fossem com sucções e
cusparadas do mal que acometia os doentes. Mas uma vez, em que um homem
estava gravemente doente, Caspar teve oportunidade de testemunhar uma
sessão diferente dirigida por Waitó. A mulher do doente trouxe uma imensa
moqueca em que havia um macaco-prego assado.
A cabeça do macaco foi então cortada e o pajé esfregou-a por todo o corpo do
doente, esconjurando, respirando e dando estalos com a língua. Depois Waitó
explicou ao etnólogo que a cabeça de macaco tem o poder de sugar as doenças
do corpo e devorá-las (:194).
Na descrição de outra sessão xamânica, o etnólogo conta que se reuniu em
semicírculo uma dúzia de homens (pajés e aprendizes). Os participantes tiraram
os pauzinhos do septo nasal e Waitó e Kuayó (respectivamente primeiro e
segundo pajé), sopraram no nariz de cada um perto de vinte pitadas de rapé
(como chamava o pó de angico). Eles próprios aspiraram cerca de quarenta
pitadas. Os quatro pajés presentes viravam-se em seus banquinhos para a
abertura da porta da maloca e executaram uma série de conjurações. Nas
palavras do etnólogo: “Acenavam para fora com a mão direita, bufavam e
sopravam, pegavam coisas invisíveis do ar e as arremessavam para longe.
Emitiam sons esquisitos; parecia que se asfixiavam. Enquanto isso, tentavam
pegar, com as mãos, um ente misterioso que permanecia, para mim,
completamente invisível. Por fim, tombaram exaustos sobre os banquinhos,
murmurando palavras incompreensíveis” (:107).
Nessas sessões, também era freqüente que se alimentassem os espíritos que
vinham ter com os pajés, principalmente com macacos assados e chicha de
milho. Tanto nos rituais de couvade (quando nasce uma criança, descrito no
item Rituais),como nos de morte, Caspar comentava que antes das sessões
xamânicas era preciso caçar macacos, que eram oferecidos aos espíritos e depois
consumidos pelos participantes dos rituais.
Entre os instrumentos, o etnólogo destacou um maracá feito de ouriço redondo,
do tamanho de um punho, de castanha-do-pará. Era utilizado para chamar os
espíritos dos mortos. Caspar testemunhou uma sessão xamânica para que uma
criança que havia morrido há dias fosse para o céu. Além das iguarias acima
descritas – banho de ervas, rapé, chicha, macacos assados e outras iguarias,
como milho e amendoim –, nesse ritual arrumou-se sobre uma esteira de folhas
de palmeira vários adornos corporais: “penas para orelhas, pauzinhos para o
nariz e lábios, cordas para os braços, pulseiras, um colar de discozinhos de
madrepérola, um pente, uma pequena bolota de corante urucu e uma cuia de
óleo” (:184).
Depois de duas rodadas de rapé, invocações e o uso incessante do maracá,
chegaram os espíritos. Waitó aproximou-se deles cheio de respeito. Ele era o
único a ter permissão de se levantar impunemente e andar ereto pela esfera
sagrada. Waitó voltou-se para um desses espíritos, que Caspar supôs ser a
criança falecida, lavou-o com água fresca e depois penteou-lhe os cabelos.
Ofereceu-lhe então os enfeites para as orelhas, nariz e lábios, depois o colar, a
pulseira e a braçadeira, sempre um depois do outro, para que o espírito tivesse
tempo de pôr os enfeites. Para terminar, untou o Pabid com óleo. No fim, deu
também de comer aos demais Pabid. Waitó estendia, com os dedos, um bocado
de comida e oferecia aos seres invisíveis com muita paciência. Encheu, depois,
com uma minúscula colher uma cuia de chicha e ofereceu a bebida aos
hóspedes. Só não lhes serviu os macacos.
Afinal, os espíritos foram embora. Waitó os acompanhou, com os braços
erguidos, até a saída, entoando uma canção. Mal desapareceram os Pabid, os
índios se puseram a fazer movimentos apressados de comer e engolir, agitando
as mãos no ar. Explicaram a Caspar que estavam comendo a respiração dos
Pabid. “A cerimônia terminou depois de quase cinco horas. Os pajés esgotados e
também os adeptos, finalmente, podiam refrescar-se num banho e saciar sua
sede na chicha que os esperava nas vasilhas bojudas, repletas” (:185).
Fontes de informação
• ALVES, Poliana M. Análise fonológica preliminar da língua tupari.
Brasília : UnB, 1991. 96 p. (Dissertação de Mestrado)
• CASPAR, Franz. A aculturação dos Tuparí. In: SCHADEN, Egon. Leituras
de etnologia brasileira. São Paulo : Companhia Editora Nacional, 1976. p.
486-515.
• --------. Die Tuparí ein indianerstamm in Westbrasilien. Berlin : Walter de
Gruyter, 1975. 442 p.
• --------. Tupari : unter indios im urwald brasiliens. s.l. : Friedr. Vieweg &
Sohn Braunschweig, 1952. 218 p.
• --------. Tupari: entre os índios, nas florestas brasileiras. São Paulo:
Melhoramentos, 1953. 225p.
• MINDLIN, Betty. Tuparis e Tarupás : narrativas dos índios Tuparis de
Rondônia. São Paulo : Brasiliense ; Edusp ; Iamá, 1993. 123 p.
• ------- e narradores indígenas. Moqueca de maridos. Mitos eróticos. Rio de
Janeiro ; Rosa dos Tempos, 1997. 303 p.
• PRATES, Laura dos Santos. O artesanato das tribos Pakaá Novos, Makurap
e Tupari. São Paulo : USP, 1983. 149 p. (Dissertação de Mestrado)
• O Tapir. Dir.: Raquel Coelho. Vídeo cor, 4 min., 1996. Prod.: School of
Visual Arts; Raquel Coelho

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