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1 ANDRÉ BUENO · JOSÉ MARIA NETO ENSINO DE HISTÓRIA: MÍDIAS E TECNOLOGIAS 2 Reitor Ricardo Lodi Ribeiro Vice-Reitor Mario Sérgio Alves Carneiro Chefe de Gabinete Domenico Mandarino Edições Especiais Sobre Ontens Comissão Editorial & Científica Dulceli Tonet Estacheski [UFMS] Everton Crema [UNESPAR] Carla Fernanda da Silva [UFPR] Carlos Eduardo Costa Campos [UFMS] Gustavo Durão [UFPI] José Maria Neto [UPE] Leandro Hecko [UFMS] Luis Filipe Bantim [UFRJ] Maria Elizabeth Bueno de Godoy [UEAP] Maytê R. Vieira [UFPR] Nathália Junqueira [UFMS] Rodrigo Otávio dos Santos [UNINTER] Thiago Zardini [Saberes] Vanessa Cristina Chucailo [UNIRIO] Washington Santos Nascimento [UERJ] Rede: www.revistasobreontes.site Coordenador José Maria Neto Ficha Catalográfica Bueno, André; Neto, José Maria (org.) Ensino de História: Mídias e Tecnologias. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Sobre Ontens/UERJ, 2020. ISBN: 978-65-00-02130-1 534pp. Ensino de História; Mídias; Tecnologias Educacionais; Jogos; Cinema. 3 Sumário APRESENTAÇÃO ............................................................................................................................. 8 PODCASTS PARA USO NO ENSINO SUPERIOR DE HISTÓRIA por Douglas Mota Xavier de Lima e Rosiangela Campos Picanço ........................................................................................................ 10 EL USO DEL PODCAST EN LA ENSEÑANZA DE LA HISTORIA: DE LAS VERSIONES TRADICIONALES A LAS ALTERNATIVAS COMUNICACIONALES por María Isabel Guevara e Fabián Andrés Llano. 17 UMA EXPERIÊNCIA DE PESQUISA ARTICULANDO ENSINO DE HISTÓRIA E NOVAS TECNOLOGIAS por Adaiane Giovanni .................................................................................................................. 23 O USO DE TECNOLOGIAS NA SALA DE AULA E OS IMPACTOS NA APRENDIZAGEM HISTÓRICA por Albano Gabriel Giurdanella e Mayla Louise Greboge Montoia ............................................ 32 MÍDIAS DIGITAIS: O ENSINO DE HISTÓRIA NO UNIVERSO DA INFORMAÇÃO por Alesy Soares Oliveira ........................................................................................................................................ 40 EXPERIÊNCIAS DE PRODUÇÃO E DIFUSÃO DE MATERIAIS DIDÁTICOS PARA O ENSINO BÁSICO NO CURSO DE LICENCIATURA EM HISTÓRIA por Alicy de Oliveira Simas ................................... 47 HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NO ENSINO DE HISTÓRIA ANTIGA: O USO DAS HQS NA SALA DE AULA por Allef de Lima L. Fraemanm Matos .............................................................................. 54 AS NOVAS TECNOLOGIAS COMO MAIS UM INSTRUMENTO PARA A EDUCAÇÃO PATRIMONIAL por Ana Carolina Pereira ............................................................................................................. 62 O USO DO PODCAST NO ENSINO DE HISTÓRIA DO BRASIL por Bruna Carolina Marino Rodrigues ..................................................................................................................................................... 70 FAKE NEWS: DE PROBLEMA SOCIAL À INSTRUMENTO CRÍTICO NO ENSINO DE HISTÓRIA por Bruno dos Santos Nascimento e Marize Helena de Campos ...................................................... 79 O CONHECIMENTO ESTÁ A UM CLICK: O USO DAS TECNOLOGIAS DIGITAIS NO ENSINO DE HISTÓRIA por Carlos Alexandre Souza Prado .............................................................................. 86 TAUTISMO, CULTURA HISTÓRICA E CIÊNCIAS HUMANAS: FUNÇÕES DE UMA EDUCAÇÃO HISTÓRICA EM SITUAÇÕES DE ESQUIZOFRENIA MIDIÁTICA por Cássio Pereira Oliveira ........... 94 O USO DAS TECNOLOGIAS NAS DIRETRIZES DA BNCC E DA BNC-FORMAÇÃO por Cláudia Cristina do Lago Borges e Priscilla Gontijo Leite ...................................................................................... 99 “EU APRENDI ISSO NA VÍDEO-AULA”: O CONHECIMENTO HISTÓRICO NA ERA DA VIRTUALIZAÇÃO por Larissa Klosowski de Paula e Adriana Aparecida Pinto ............................ 106 POSSIBILIDADES DE USO DO PREZI COMO RECURSO NAS AULAS DE HISTÓRIA por Daiane Arend Flores de Oliveira ....................................................................................................................... 112 A FOTOGRAFIA COMO EXPERIÊNCIA HISTÓRICA por Daiane dos Santos Piassarollo ............... 118 O ANO DE 1968 NO PARÁ EM QUESTÃO: OS PASSADOS VIVOS E A HISTÓRIA ENSINADA por Davison Hugo Rocha Alves ........................................................................................................ 125 4 A DIFUSÃO DO REVISIONISMO HISTÓRICO NO YOUTUBE E A DESVALORIZAÇÃO DO SABER HISTORIOGRÁFICO E DO PROFESSOR DE HISTÓRIA por Elís Saraiva Santana e Lívia Diana Rocha Magalhães ................................................................................................................................. 132 POCAHONTAS (1995), O ENSINO DE HISTÓRIA DA AMÉRICA E OUTRAS APRENDIZAGENS NA EDUCAÇÃO BÁSICA por Emy Falcão Maia Neto e Ana Cristina Pereira Lima ............................ 140 OS DIREITOS HUMANOS EM UMA ABORDAGEM A PARTIR DO CINEMA DE GLAUBER ROCHA por Eva Dayna F. Carneiro e Adriano Versiani Pinto ....................................................................... 148 HISTÓRIA EM QUADRINHOS COMO FERRAMENTA PEDAGÓGICA PARA O ENSINO DE HISTÓRIA: CONSTRUINDO UM DIÁLOGO HISTORIOGRÁFICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA por Fabian Filatow 153 EDUCAÇÃO E TECNOLOGIAS: O USO DE MÍDIAS NO ENSINO DE HISTÓRIA por Franciele Aparecida de Araujo e Rudy Nick Vencatto .............................................................................. 162 “DETETIVES DA HISTÓRIA”: POSSIBILIDADES NO ENSINO DE HISTÓRIA E JOGOS ELETRÔNICOS por Gabriela Harumi Araki e Maria Rita Chaves Ayala Brenha ................................................. 170 O ENSINO DE HISTÓRIA DAS RELIGIÕES E RELIGIOSIDADES: POSSIBILIDADES A PARTIR DO CINEMA por Gabriella Bertrami Vieira ...................................................................................... 176 RELATO DE EXPERIÊNCIA: ERA VARGAS E AS PROPAGANDAS por Gabrielle Legnaghi de Almeida e Guilherme Meneghetti X. da Silva .................................................................................................. 183 FASCISMOS E STAR WARS: UMA PROPOSTA DE ENSINO “FRACASSADA” COM O FILME STAR WARS: EPISÓDIO III – A VINGANÇA DOS SITH por Giovan Sehn Ferraz .................................... 190 A REVOLUÇÃO IRANIANA A PARTIR DE UM JOGO ELETRÔNICO por Irineu João Luiz e Silveira Junior ......................................................................................................................................... 197 TEMPOS HISTÓRICOS: PARA UMA LEITURA CRÍTICA DA NOTÍCIA por Isaias Holowate e Audrey Franciny Barbosa ....................................................................................................................... 205 HISTÓRIA OU FICÇÃO? UMA REFLEXÃO ACERCA DOS FILMES HISTÓRICOS E O ENSINO DE HISTÓRIA por Israel de Lima Miranda ....................................................................................... 213 “TRABALHAR E SUAR BASTANTE PARA ESCAPAR DA FOME”: REFLEXÕES SOBRE ENSINO HISTÓRIA E OS DILEMAS SOCIAIS REPRESENTADOS NO FILME GERMINAL por Jessica Caroline De Oliveira ................................................................................................................................. 218 EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA: BREVES CONSIDERAÇÕES ACERCA DA SUA ESTRUTURA, FUNCIONAMENTO E DESAFIOS NO BRASIL por Jessica Caroline de Oliveira ............................ 229 SANTA JOANA (1957): CONSIDERAÇÕES SOBRE O USO DE FILMES NO ENSINO DE HISTÓRIA por Jheniffer Souza .......................................................................................................................... 240 OBJETOS DE APRENDIZAGEM PARA OENSINO DE HISTÓRIA: POSSIBILIDADES DISPONÍVEIS NA WEB por João Otávio Tomazini Fardin ..................................................................................... 245 POR QUE AINDA CRIAR UM BLOG EM TEMPOS DE INSTAGRAM? REVENDO POSSIBILIDADES NUMA EXPERIÊNCIA DE ENSINO DE HISTÓRIA NA “GALÁXIA DOS CELULARES” por João Gilberto Neves Saraiva ............................................................................................................................ 254 5 “DEIXO A VIDA PARA ENTRAR NAS CHARGES”: O USO DE CHARGES PARA O ENSINO DE HISTÓRIA SOBRE A ERA VARGAS por João Matheus Ramos e Júlia Ribeiro Nicolodi ............... 261 A APRENDIZAGEM DE HISTÓRIA ATRAVÉS DAS MÍDIAS DIGITAIS: REFLEXÕES SOBRE O USO, PRODUÇÃO E DIFUSÃO DE PODCASTS NO ENSINO MÉDIO por João Paulo de Oliveira Farias e Vanderlene de Farias Lima ........................................................................................................ 271 MEMÓRIAS SOBRE UM SUPOSTO MÉDICO NAZISTA EM MAMBORÊ-PR: PROPOSTAS DE INTERVENÇÕES NO DIÁLOGO ENTRE ENSINO DE HISTÓRIA E HISTÓRIA PÚBLICA por Jocimara Maciel Correia ........................................................................................................................... 278 A QUEM PERTENCE ESSE PATRIMÔNIO? VIVÊNCIAS EDUCATIVAS NO ENSINO DE HISTÓRIA EM UM MUSEU ARQUEOLÓGICO por Jonas Clevison P. de M. Júnior e Wirlanny Evelyn O. Barros ................................................................................................................................................... 286 O KAHOOT! COMO INSTRUMENTO DIDÁTICO NO ENSINO DE HISTÓRIA por Jorgeana Roberta A. Teixeira e Kássia Maria de Souza Barros ............................................................................... 296 NARRATIVAS FÍLMICAS NO ENSINO DE HISTÓRIA: O MALOGRO DE MÃE! (2017) por José Carlos Da Silva Neto e Arthur Melo Florêncio ...................................................................................... 302 HISTÓRIA PÚBLICA DIGITAL EM PODCASTS DE HISTÓRIA por Josias José Freire Júnior ........... 308 APRENDIZADO HISTÓRICO EM PRODUÇÕES AUDIOVISUAIS ESTUDANTIS: (UMA) EXPERIÊNCIA (D)E ENSINO por Juliana Ribeiro Marra ..................................................................................... 315 O LADO HISTÓRICO DA FORÇA: POSSIBILIDADES DO ENSINO DE CONCEITOS HISTÓRICOS NO ENSINO FUNDAMENTAL COM ELEMENTOS DO UNIVERSO STAR WARS PARA O DEBATE DE TOTALITARISMO E DEMOCRACIA por Kédson Nascimento Maciel .......................................... 323 SERIOUS GAMES NO ENSINO DE HISTÓRIA: POSSIBLIDADES DE LETRAMENTOS DIGITAIS EM SALA DE AULA por Laís Shauany Faustino da Silva e Rafael Leite Sobreira Viana .................... 331 O ENSINO E SEUS PÚBLICOS: AS TECNOLOGIAS DIGITAIS DE INFORMAÇÃO E DA COMUNICAÇÃO - TDICs NA CONSTRUÇÃO DO SABER HISTÓRICO por Leandro de Araújo Crestani ..................................................................................................................................... 340 QUANDO SUA PROFESSORA ACORDA COM O PÉ ESQUERDO: O GÊNERO MEME NO ENSINO DE HISTÓRIA por Letícia Costa Silva ............................................................................................... 349 O USO DO APLICATIVO PLICKERS EM SALA DE AULA por Letícia Monteiro Barros .................. 360 A GUERRA DO PARAGUAI ATRAVÉS DAS IMAGENS FOTOGRÁFICAS: COMPLEMENTAÇÃO DE ANÁLISE PARA O ENSINO FUNDAMENTAL II por Lidiane Álvares Mendes ............................... 367 NAZISMO E O ENSINO DE HISTÓRIA ATRAVÉS DOS JOGOS por Lucas Gomes .......................... 376 O ENSINO DE HISTÓRIA E AS POLÍTICAS DE CURRÍCULO: APONTAMENTOS SOBRE A CULTURA DIGITAL NOS PCN, DCNEB E BNCC por Marcella Albaine .......................................................... 383 A ANÁLISE FÍLMICA COMO RECURSO NA UTILIZAÇÃO DE OBRAS CINEMATOGRÁFICAS NO ENSINO DE HISTÓRIA por Marcelo Gonçalves Ferraz ............................................................... 388 6 OS SUPER-HERÓIS NA SALA DE AULA: AÇÃO PEDAGÓGICA E DIÁLOGOS COM CULTURAS JOVENS NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO INTERDISCIPLIINAR por Marcos de Araújo Oliveira ...................................................................................................................................... 398 A PEDRA DE LIOZ ESQUECIDA EM BELÉM: A CONSTRUÇÃO DE UMA NARRATIVA MEDIADA PELO FACEBOOK EM RELAÇÃO AO MONUMENTO por Matheus de Sousa Oliveira .......................... 406 A HISTÓRIA A LA CARTE DO BRASIL PARELO E O ENSINO DE HISTÓRIA: EXPLICANDO EM SALA DE AULA A IMPORTÂNCIA DA PESQUISA HISTÓRICA por Mauro Henrique Miranda de Alcântara e Katiane da Silva ...................................................................................................................... 413 O JORNAL EM SALA DE AULA: A DITADURA CIVIL-MILITAR NA “GAZETA DE SERGIPE” [1968- 1978] por Mayra Ferreira Barreto ............................................................................................. 421 RACIONAIS MC'S E A HISTÓRIA: RELATO DE EXPERIÊNCIAS INICIAIS NO ENSINO DE HISTÓRIA ATRAVÉS DO RAP por Rafael Amaral e Jheniffer Souza ............................................................ 435 CONVERGÊNCIAS ENTRE A PEDAGOGIA HISTÓRICO-CRÍTICA E O ENSINO DE HISTÓRIA MEDIADO PELAS TECNOLOGIAS DIGITAIS por Renan Bolonha Sancio e Jaqueline Maissiat .... 440 AS POTENCIALIDADES DO USO DE BLOG EM SALA DE AULA por Richard Batista Silveira ........ 447 O ENSINO DE HISTÓRIA E PATRIMÔNIO CULTURAL: AS TECNOLOGIAS E A ATUALIZAÇÃO NO MODO DE SE COMPARTILHAR O CONHECIMENTO HISTÓRICO por Romero Romulo da Silva Júnior ......................................................................................................................................... 453 A IMAGINAÇÃO E O DESPERTAR PELO GOSTO DE IR AO CINEMA por Ronyone de Araújo Jeronimo .................................................................................................................................... 458 ENSINO DE HISTÓRIA NA ERA DIGITAL: A PLATAFORMA YOUTUBE COMO RECURSO DIDÁTICO EM POTENCIAL por Rosane Louzeiro Dias ................................................................................ 463 RELATO DE UMA PRÁTICA: CONSIDERAÇÕES SOBRE O USO DO RECURSO CINEMATOGRÁFICO NO ENSINO DE HISTÓRIA E SUAS POTENCIALIDADES por Sara Pereira Ferreira ...................... 468 A TRANSIÇÃO DO MEDIEVO PARA A MODERNIDADE: A UTILIZAÇÃO DO JOGO ASSASSIN’S CREED II NO ENSINO DE HISTÓRIA por Silvio Lucas Alves da Silva ............................................ 475 ENSINO DE HISTÓRIA E JOGOS DIGITAIS: UMA FERRAMENTA FACILITADORA PARA A APRENDIZAGEM por Sueli da Silva Lima ................................................................................... 483 OS SENTIDOS DO CONHECER NA SÉRIE FONTES por Tathianni Cristini da Silva 489_Toc42012887 TECNOLOGIAS PARA O ENSINO INDÍGENA DENTRO DAS AULAS DE HISTÓRIA por Vanessa Aparecida CamperlingoSerra .................................................................................................... 496 JOGOS DIGITAIS NO ENSINO DE HISTÓRIA E CULTURA JAPONESA por Victoria Regina Borges Tavares Melo ............................................................................................................................. 503 OS DESAFIOS EDUCACIONAIS NA ERA DIGITAL, O PAPEL DA ESCOLA E AS CONTRIBUIÇÕES DO PROFESSOR DE HISTÓRIA por Walace Ferreira e Stella de Sousa Martins ............................... 510 ENSINO DE HISTÓRIA E PODCAST: PORQUE CIÊNCIA HISTÓRICA TEM QUE SER DIVERTIDA por Willian Spengler ........................................................................................................................ 518 7 APRENDENDO SOBRE O SEGUNDO REINADO BRASILEIRO EM POSTS DA PÁGINA PEDRO II DO BRASIL NO FACEBOOK por Yasmim Careta Santos e Mauro Henrique Miranda de Alcântara . 526 8 APRESENTAÇÃO Escrevo esse texto durante o primeiro mês de quarentenadevido à pandemia da covid-19, que levou 1/3 da população mundial a uma quarentena forçada, e me proponho a abrir um livro sobre mídias e tecnologias no ensino de História. Vou reunir as pontas do mundo anterior a esse fato histórico àquelas que se apresentaram durante ele, e ao fazê-lo apresentar esta publicação. O mundo anterior à pandemia trazia já em si uma aguda confrontação, qual seja, como ensinar a uma nova geração que já nasceu conectada às igualmente novas tecnologias no âmbito de instituições de ensino de estrutura multissecular – a quadratura desse círculo não é de fácil resolução. Por mais que, do ponto de vista pedagógico, venhamos debatendo e rediscutindo os papéis exercidos por professores e alunos em sala de aula, em essência eles não são muito diferentes daqueles encontrados nas escolas (e, principalmente, nas universidades) do século XIX: a disposição das carteiras, a organização em salas, disciplinas, turmas, turnos. Em muitas escolas, até mesmo em públicas, o acesso a projetores, conferiu um perfume de contemporaneidade a uma estrutura bastante antigo – ou seja, ornamentou-lhe sem, contudo, transformá-la. É esse o contexto no qual se inserem as novas gerações. Num país como o Brasil, desigual até a medula, o acesso às novas tecnologias disseminou-se: segundo o IBGE, em 2018 nada menos que 116 milhões de pessoas acima dos 10 anos de idade acessava a internet via smartphones, equivalendo a 64,7% da população nacional. Das cinco regiões do país, a que estava menos conectada, o Norte, já contava com 52,3% de acesso. Como lidar com esse universo? Não apenas do ponto de vista da inclusão (ainda há vastas camadas sem qualquer acesso ao mundo digital) como também do aproveitamento dessa ferramenta no ensino de História? Muitos dos textos incluídos neste livro refletem sobre essa nova realidade. Os trabalhos e experiência que vão das iniciações científicas nas graduações aos doutorados, no Brasil e fora dele, mostram que os profissionais de História estão atentos e buscando corresponder a ela: sem se ater mais tanto à questão do livro didático, um exercício comum de análise até uns anos atrás, exploram-se as mais diversas possibilidades do ensino: filmes, quadrinhos, arqueologia, museus, realidades virtuais, extensão. Em boa parte destas experiências o papel do professor, declarada ou sub- repticiamente, já foi transformado, e de um promotor de um determinado conhecimento passou efetivamente a seu co-construtor, guia numa determinada vereda exploratória. Em muitas escolas brasileiras de ponta, já não se pergunta se o celular deve ou não fazer parte da aula (que dirá ser proibido!), mas sim o incorporam no quotidiano letivo. É um objeto do dia a dia, através do qual acessam-se vídeos, textos, imagens. As aulas transbordaram os limites do tempo escolar; têm seguimento em canais do Youtube, ou em plataformas 9 virtuais criadas para receber os alunos. Essa prática precisa ser aprofundada, pois ao tirar proveito da conectividade de que hoje dispomos, ocupamos, inclusive, espaços hoje assenhorados por mascates de teorias perversas, que oferecem teorias da conspiração camufladas de boa ciência – de tal modo que o emprego das tecnologias e mídias é não apenas bem- vindo como necessário. Mas há, igualmente, o outro ponto da conversa: o mundo que a pandemia nos trouxe. Analistas dos mais diversos têm se dedicado a profetizar os contornos dessa nova realidade que virá durante e após o confinamento, e muitos deles afirmam peremptoriamente que todas as coisas serão feitas novas, em todos os campos – aí incluído o ensino. O olhar para o passado nos serve de baliza: grandes epidemias provocaram, sim, diversas alterações; a recessão econômica que se prenuncia será das maiores já vistas, e tem tudo para não ser breve, em especial no Brasil. Nesse contexto, a educação à distância terá um importantíssimo papel a desempenhar, particularmente enquanto o convívio social tiver de permanecer restrito. A técnica e a criatividade dos profissionais de história terão de se manifestar das mais variadas formas, tentando preencher algumas das lacunas abertas por esse período de confinamento, o qual sequer sabemos por quanto tempo ainda teremos de aturar. Mas o olhar para o passado também nos aponta uma outra realidade: muito do que conhecemos antes da pandemia permanecerá. Dificilmente a população se transformará em uma coleção de indivíduos atomizados enfurnados em suas casas acessando seus celulares ou computadores – mesmo aqueles que os têm tem demonstrado claramente o desejo de sair de casa, de conviver. Não se educa gente sem gente, e tão logo seja possível as escolas irão reabrir, e com elas aos velhos desafios hão de juntar-se novos: a utilização das novas mídias e tecnologias permanecerá, então, tão importante quanto já era, só que agora aliada às demandas de uma sociedade que não apenas vive/viveu o trauma de uma pandemia/recessão/crise política quanto precisa de novas práticas de saúde coletiva para manter-se bem em sua convivência formativa. O leitor certamente encontrará nos textos aqui reunidos possíveis caminhos para essa realidade que se aproxima. José Maria Gomes de Souza Neto Recife, 29 de abril de 2020. 10 PODCASTS PARA USO NO ENSINO SUPERIOR DE HISTÓRIA Douglas Mota Xavier de Lima e Rosiangela Campos Picanço Desde finais do século XX, com a maior difusão dos computadores pessoais e o acesso crescente à internet, a informação e a comunicação passaram por transformações muito significativas, tanto na esfera da vida cotidiana como em atividades especializadas de trabalho e pesquisa [SILVA; FONSECA, 2007]. As Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação [TDIC] tem gerado, ao menos, três tipos de efeitos: elas alteraram a estrutura de interesses – as coisas em que pensamos; mudaram o caráter dos símbolos – as coisas com as quais pensamos; e modificaram a natureza da comunidade – a área em que se desenvolve o pensamento [SANCHO, 2006]. Essa revolução tecnológica resultou, inclusive, no advento de uma geração que passou a ser denominada de nativos digitais [PRENSKY, 2001] ou homo zappiens [VEEN; VRAKKING, 2009]. A Educação não ficou à parte dos impactos dessas tecnologias e isso tem suscitado mudanças nas formas de aprendizagem e no acesso à informação, particularmente no Ensino Superior, nosso foco de reflexão. Atualmente, cresce o recurso às redes de relacionamento via internet e muitos jovens universitários realizam boa parte de suas atividades mediante o uso de ferramentas digitais, seja em sites institucionais, periódicos on-line, blogs ou em páginas diversas encontradas em sites de busca. Em termos de conhecimento e informação, a rede possibilita uma constante conexão entre as pessoas e um número incalculável de imagens, narrativas, registros jornalísticos etc.; entretanto, a captação da informação nem sempre se traduz em conhecimento adquirido, sendo comum a identificação de métodos inadequados de pesquisa e estudo, a ausência de capacidade crítica e a baixa confiabilidade de algumas informações disponíveis na rede. Sabe-se que há um claro aspecto positivo nas informações disponíveis na internet, porém há também aspectos negativos, expressos, por exemplo, na veiculação de conteúdos inverídicos que carregam uma aparência de verdade. Mostra-se, assim, imprescindível saber se conduzir minimamente nesse emaranhado de informações escritas, visuais e auditivas. A ampliação dos sites dedicados aos domínios da História tem criado um desafio de grande envergadura ao ensino e a pesquisa na área, visto que os alunos têm utilizado mais o recurso da internet do que os espaços tradicionais de conhecimento, como bibliotecas, enciclopédias e os próprios livros [SÁ, 2009]. Contudo, apesar do crescimento do conteúdo on-line da área de História [videoconferências, documentos digitalizados, documentários etc.],observa-se o número reduzido de recursos com finalidade didática, em especial, voltados às tecnologias móveis. Diante dos elementos expostos, busca-se discutir o uso de um recurso relacionado às TDIC, os podcasts, como materiais didáticos, ou seja, referenciais para o ensino de história, com destaque para o Ensino Superior e a formação de professores. 11 Tecnologias digitais na educação Segundo Moran [2012], as tecnologias digitais podem ser utilizadas na Educação para melhorar o desempenho do que já existe, por exemplo, auxiliando o professor na organização de materiais e na ilustração de conteúdo; e podem propiciar a criação de espaços e atividades dentro da instituição de ensino, como o uso de vídeos nas aulas e o desenvolvimento de atividades em laboratórios de informática ou ambientes virtuais, como blogs e fóruns. As tecnologias têm pressionado a novas práticas educacionais, tanto repensando o espaço de aprendizagem como enfatizando práticas de cooperação e interação. Nesse campo, um dos exemplos para a modalidade é o blended learning [ensino híbrido], definido como “qualquer programa educacional formal no qual um estudante aprende, pelo menos em parte, por meio do ensino on-line, com algum elemento de controle do estudante sobre o tempo, o lugar, o caminho e/ou o ritmo” [HORN; STAKER, 2015, p.34]. A própria orientação do uso pelos docentes de vídeos, documentos e outros materiais on-line, e a abundância desses materiais na rede, resulta das transformações ocorridas nas tecnologias digitais e, em especial, na web, desde finais do século passado, mudança que pode ser representada pelo termo web 2.0. Entre as principais mudanças proporcionadas por essa nova versão da web está a passagem do isolamento para a interligação e a colaboração. Na web 1.0, um administrador inseria documentos ao servidor que administrava a rede, em geral, textos e imagens estáticas. Nessa versão, os internautas acessavam a informação da mesma forma que os meios tradicionais de comunicação, como leitor es ou espectadores. Com a Web 2.0, as páginas passam a ter serviços de interação onde se pode criar e compartilhar informação, sendo comum a utilização de ferramentas de partilha de imagens, áudios, vídeos, mapas interativos e textos, como Youtube e Dropbox, e ferramentas de criação de conteúdo, como Wikis, blogues, Prezi, entre outros. Tal compartilhamento se dá tanto em tempo real como de maneira interativa, permitindo ao usuário criar e editar os conteúdos [ADELL, 2012]. Para Marc Prensky, as gerações nascidas nas últimas décadas do século XX, inseridas desde o nascimento no universo da tecnologia digital, “passaram a vida inteira cercados de computadores, videogames, DVD players, câmeras de vídeo, celulares, sites de leilões on-line, iPods e todos os outros brinquedos e ferramentas da era digital, usando todos eles” [PRENSKY, 2010, p. 58]. Prensky [2001] argumenta que o resultado dessa integração das tecnologias digitais à vida das novas gerações gerou uma mudança fundamental entre as gerações, resultando na formação de uma geração de “nativos digitais”, crianças e jovens que “processam informações de uma maneira fundamentalmente diferente”, distinção que afeta, inclusive, a organização cerebral. A definição de Prensky o leva, consequentemente, a defender que a geração que foi introduzida tardiamente nesse universo digital, pode ser denominada de “imigrantes digitais”. Entre as consequências dessa diferença geracional apontadas, destaca-se: 12 “Na verdade, sob o meu ponto de vista, o maior problema da educação hoje é que os pais e professores imigrantes, que vêm da era pré-digital, estão se esforçando para ensinar uma população que fala uma língua completamente nova. Nas escolas, em todos os níveis, o sotaque de instrutores imigrantes digitais é um obstáculo ao aprendizado – os nativos com frequência não entendem o que os imigrantes estão dizendo” [PRENSKY, 2010, p. 59-60]. Apesar das importantes modificações geradas pela revolução técnico- científica-informacional, persiste uma resistência em relação ao uso destas tecnologias nas escolas. Para Ferreira: “essa dificuldade faz da escola uma instituição com pouca vontade de investir em novas formas de transmitir o conhecimento e de adaptação à realidade” [FERREIRA, 1999, p. 47]. A relutância das escolas em utilizar ferramentas do cotidiano dos alunos no espaço escolar é algo que deve ser levando em consideração e problematizado. O ambiente escolar compete com inúmeros outros espaços sociais e atrativos extraclasse, os quais, por vezes, desviam o foco dos estudantes em sala de aula. Contudo, como demonstra Arruda [2013], não se trata da escola acompanhar a velocidade dos microchips, apenas inserido as tecnologias digitais no ambiente escolar, é imprescindível problematizar a utilização destas e reformular a formação docente nas licenciaturas, incorporando as mídias em todas as dimensões da prática do professor universitário. A proposição de Arruda contribui para que o foco de observação se concentre no ambiente universitário e, em particular, na formação de professores. Destarte, diante dos elementos expostos e a partir dos dados do projeto “E-learning e formação docente em História” [2019-2020], em desenvolvimento na Universidade Federal do Oeste do Pará, passa-se a discussão acerca dos podcasts no ambiente universitário. Podcasts Os podcasts estão na moda e, considerando o mercado brasileiro, fala-se atualmente em “era de ouro dos podcasts” [BARROS, 2019], devido ao exponencial aumento do número de ouvintes e programas disponibilizados e aos investimentos no mercado. O podcast pode ser definido como arquivos de áudio que tratam de temas diversos e são disponibilizados na rede. Eles são gravados nas extensões .mp3, .ogg ou .mp4, formatos digitais que permitem armazenar músicas e arquivos de áudio num espaço relativamente pequeno, além de geralmente estarem anexados a um feed [arquivo de informação] que permite que se assine os programas recebendo as informações sem precisar ir ao site do produtor. Além do fácil acesso, outro elemento que diferencia o podcast de outras mídias de áudio é o sistema de “pull” e “push”, o qual permite aos usuários maior liberdade de escolha na sua relação com o conteúdo, como a seleção de seus programas preferidos sem depender de conteúdos previstos em uma grade de programação, em que o usuário não precisa necessariamente seguir uma ordem cronológica de conteúdo [SOUZA, 2017]. Além disso, o ouvinte pode acessar o podcast online ou fazer o download do arquivo para 13 ouvir em qualquer momento de sua escolha. Essas duas características, fácil acesso e flexibilidade no uso, podem ser os principais fatores que explicam a popularidade que esse tipo de conteúdo tem alcançado na Web 2.0, tanto pelo crescente número de adeptos ou ouvintes como pela multiplicidade de programas nesse formato disponíveis na podosfera [termo utilizado para o espaço digital onde os arquivos de podcast são disponibilizados e circulam]. Os programas têm periodicidade variada - diária, semanal e mensal - e envolvem temáticas das mais diversas, como: História, Política, Economia, Cultura, Educação, Cinema, Culinária, Humor, Mundo Nerd, curiosidades etc. Geralmente, cada episódio trata de um tema específico, variando entre dez minutos a mais de uma hora de duração. O podcast possui uma história recente e relacionada com a democratização da produção e comunicação de conteúdos proporcionada pelas mudanças na Web [SILVA; SILVA, 2017], além disso, resulta do maior acesso a smartphones e da melhora da qualidade de conexão. Outro fator positivo relacionado aos podcasts é a adequação da ferramenta para o ensino de estudantes com deficiência visual [FREIRE, 2011; BOTTENTUIT JÚNIOR; COUTINHO, 2009]. Tal aspecto amplia a sua relevância e atualidade ao considerar-se que, de acordocom os dados do Censo da Educação Superior [2017], entre os anos de 2009 e 2017 ocorreu um aumento gradativo do número de matrículas de alunos com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento ou altas habilidades no ensino superior, alcançando o quantitativo de 38.272 estudantes em 2017. Dessa distribuição das matrículas por tipo de deficiência, destaca-se numericamente o grupo de alunos com baixa visão e cegueira, os quais podem ser prioritariamente alcançados pelo recurso dos podcasts. Com base nesses apontamentos, avança-se para o último item de nossa reflexão: o uso de podcasts como materiais didáticos no ensino superior de História. Podcast como recurso didático – um projeto em desenvolvimento Há um sensível crescimento das reflexões produzidas na área de História acerca da relação mídia e educação, particularmente do uso de jogos eletrônicos, da gameficação e de recursos como os podcasts [ALBAINE, 2017; ARRUDA, 2014]. Apesar disso, prevalecem as lacunas e, particularmente do que se relaciona aos podcasts, percebe-se que as reflexões se orientam para a contribuição dos programas para a divulgação histórica [SILVA; SILVA, 2017] ou para o produção de discursos de maneira coletiva, por grupos geralmente sem voz e pelos próprios alunos [SOUZA, 2017; BARROS; MENTA, 2007]. No projeto “E-learning e formação docente em História”, nosso foco de pesquisa é a aprendizagem por meio dos dispositivos eletrônicos, mormente dos dispositivos móveis. No que pese a relevante contribuição dos cursos, palestras, programas on-line e animações disponibilizados em canais nacionais como UNIVESP-TV e CEAv UNICAMP, ou nos espanhóis HISTORIA A DEBATE, CANAL UNED e ACADEMIA PLAY, observa-se que são poucos os 14 materiais disponíveis na rede que podem dar suporte ao estudo acadêmico, sendo mais volumoso o conjunto de materiais apenas dedicados ao entretenimento, ao contato com o grande público ou voltados para a Educação Básica. Outrossim, por vezes, os materiais disponíveis não apresentam bom áudio ou são muito longos, dificultando a compreensão do conteúdo e, inclusive, o acesso em termos dos dados demandados. Tais circunstâncias dificultam o desenvolvimento de atividades pautadas, por exemplo, nas TDIC e no ensino híbrido, e tendem a reforçar a centralidade das mídias impressas. Ao concentrar a atenção nos podcasts, visamos discutir como eles podem ser incorporados nas disciplinas como referência acerca de determinado conteúdo, sendo um material didático complementar aos livros, artigos, dicionários e filmes comumente usados como referência nos componentes curriculares. Tal inclinação pauta-se, por exemplo, no levantamento realizado em 2017 com os alunos do curso de Licenciatura em História da Universidade Federal do Oeste do Pará, onde percebeu-se que o smartphone era o principal dispositivo de acesso à internet pelos estudantes e que o acesso ao computador ocorria, sobretudo, na própria universidade [em laboratórios e salas de informática]. Do mesmo modo, conforme os dados disponibilizados pela própria instituição a partir das matrículas, uma parte considerável dos alunos necessita de medidas de assistência estudantil para o prosseguimento da vida acadêmica, o que, por vezes, resulta em dificuldades para a compra de livros ou para a produção de cópias – situação que se agrava pelos insuficientes recursos para a ampliação dos acervos físicos das bibliotecas universitárias –, circunstâncias que afetam negativamente o rendimento acadêmico e o aprendizado por parte dos discentes. Considerando a alto número de podcasts disponíveis e tendo como eixo de interesse a relação indicada, isto é, como essa mídia pode servir de referência nas disciplinas, temos procurado caracterizar os programas em duas categorias: Podcast acadêmicos e Podcast informativos. A primeira categoria faz referência aos conteúdos que são criados dentro das universidades e outras instituições acadêmicas, seja pela iniciativa individual de pesquisadores, por projetos de extensão ou por grupos de pesquisa que tem nessa mídia uma via de divulgação do conhecimento produzido na academia. A segunda envolve os podcasts sem vínculo acadêmico, idealizados por profissionais da área de história ou não, geralmente voltados para o entretenimento e a discussão de temas abertos, contando com menor rigor acadêmico ou apelo científico. A investigação visa construir um guia de podcasts a ser disponibilizado aos estudantes de História, indicando aspectos positivos e negativos relacionados aos programas selecionados, assim como as temáticas abordadas por cada um. Pela proposta que orienta nossa pesquisa, a questão do conteúdo mostrou- se premente. Em virtude das características da própria mídia, não é comum os programas indicarem referências que fundamentem a discussão realizada ou materiais para aprofundamento. Ademais, os podcasts tendem a ser permeados pela informalidade e, em alguns casos, pela sobreposição entre 15 conhecimentos especializados e curiosidades históricas ou o senso comum. Outra preocupação é a crescente produção de materiais audiovisuais, entre eles podcasts, que veiculam posicionamentos revisionistas sem lastro nas pesquisas historiográficas. Nesse sentido, respeitando a natureza flexível dos podcasts, temos privilegiado programas produzidos por grupos de pesquisa, com vínculo acadêmico ou que sejam conduzidos por historiadores, como o podcast “DominiumCast”, ligado ao grupo de pesquisa homônimo da Universidade Federal de Sergipe, e , o podcast “Mais História, Por favor”, iniciativa conjunta do Programa de Pós-Graduação em História e do Programa de Mestrado Profissional em Ensino de História da Universidade Federal de Santa Maria. Como indicado, nosso projeto está em desenvolvimento e, ao compartilhar a presente reflexão, buscamos, por um lado, promover as discussões acerca das TDIC na Educação, em particular no Ensino Superior; por outro, fomentar o debate acerca dos podcasts, recurso acessível que muito pode contribuir na formação acadêmica dos futuros professores de história. Referências Douglas Mota Xavier de Lima é professor Adjunto da Universidade Federal do Oeste do Pará, Doutor [2016], Mestre [2012], Bacharel e Licenciado [2009] em História pela Universidade Federal Fluminense. Rosiangela Campos Picanço é graduanda em Licenciatura em História na Universidade Federal do Oeste do Pará e bolsista do PROENSINO no projeto “E-learning e formação docente em História” [2019-2020] ADELL, J. Educação 2.0. In: BARBA, C. & CAPELLA, S. (org.). Computadores em sala de aula. Métodos e usos. Porto Alegre: Penso, 2012, p.25-38. ARRUDA, E. P. Aprender história com jogos digitais em rede: possibilidades e desafios para os professores. In: CIAMBARELLA, A.; et. al (org.). Ensino de história: usos do passado, memória e mídia. Rio de Janeiro: FGV, 2014, p. 239-254. ARRUDA, E. P. Ensino e aprendizagem na sociedade do entretenimento: desafios para a formação docente. Educação, Porto Alegre, v.36, n.2, p.232-239, maio/ago. 2013. ALBAINE, M. Ensino de história e games. 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Porto Alegre: Artmed, 2009. 17 EL USO DEL PODCAST EN LA ENSEÑANZA DE LA HISTORIA: DE LAS VERSIONES TRADICIONALES A LAS ALTERNATIVAS COMUNICACIONALES María Isabel Guevara e Fabián Andrés Llano Introducción El siguiente texto retoma algunos elementos del proyecto de tesis doctoral titulado prácticas comunicativas digitales y construcción de subjetividades: el uso del podcast como dispositivo socializador para los nuevos prosumidores en el ámbito escolar de la estudiante María Isabel Guevara, también retoma algunos elementos del proyecto de investigación Gabo y la ciudad de los poetas: Hacia el reconocimiento de Bogotá como ciudad literaria. DOI 10.17605/OSF.IO/MAUZ4, financiado por la Universitaria Uniagustiniana. Ante la actual pandemia que ha puesto al mundo en crisis, una de las preguntas relevantes que ha empezado a circular en el campo educativo es cómo la escuela puede enfrentar este desafío. Tal cuestionamiento, que ha superado la escala local y regional, pone de manifiesto que la escuela requiere acomodarse no sólo a las nuevas tecnologías de la información y la comunicación, sino que tal vez deba revisar si los contenidos y los sentidos del acto pedagógico y didáctico requieran pasar por un proceso de resignificación. Esta búsqueda permite incorporar nuevas tecnologías y medios de comunicación en los procesos de enseñanza. El uso del Podcats, además de ser una alternativa interesante que conecta con el actual cibersujeto prosumidor (que produce y consume información) puede potenciar la enseñanza de la historia desde contenidos que se ajusten mucho más a realidades cercanas siempre y cuando se incorpore el tema de la empatía histórica y se tome distancia frente a la enseñanza de una historia de personajes, fechas y líneas de tiempo. Problemática La enseñanza de la historia se ha convertido en un campo de luchas entre historiadores que se arrogan el derecho legítimo a transmitir las representaciones del pasado y científicos sociales que a partir de los desarrollos epidisciplinares y el ensombrecimiento de las disciplinas que, otrora representaban la validez del conocimiento, buscan el reconocimiento de sus investigaciones en la enseñanza de la historia. En un país como Colombia, esta tensión se hace visible en la ley 1874 de 2017 que abre la vieja discusión sobre la importancia del conocimiento histórico en las aulas. Valdría la pena recordar que esta discusión permitió, a comienzos de siglo XX específicamente en la guerra de los mil días, la legitimación de la Academia Colombiana de Historia y su paternidad en la distribución de textos escolares; este argumento de falta de patriotismo también se repitió a mediados del siglo XX con el conocido bogotazo que dejó a la ciudad de Bogotá semidestruida tras el asesinato del caudillo Jorge Eliecer Gaitán en 1948, Bogotá. 18 En esta lucha por la legitimidad de un conocimiento histórico en el ámbito escolar se ha desvirtuado una pregunta esencial ¿cuál es la pertinencia formativa de la enseñanza de la historia? Bajo límites analíticos anclados en prejuicios y falsas creencias, como por ejemplo, que al tener más horas de historia se obtienen mejores aprendizajes o que no es necesario pensar en el valor formativo de la enseñanza de la historia, porque este está implícito en el aprendizaje de ciertos contenidos sustantivos lo que permite dejar en evidencia que aún no se ha presentado una reflexión seria que permita involucrar estas discusiones con mayor seriedad, de cara a transformar, vía política pública, la enseñanza de la historia en un país como Colombia. Más que preguntarse sobre la pertinencia de la disciplina histórica , ya que eso no está en discusión, habría que preguntarse sobre ¿qué sentido y significado tiene aprender historia en el ámbito escolar e incluso en el universitario?, ¿serán los historiadores los únicos encargados de la enseñanza de la historia?, ¿qué pasa con los debates actuales sobre las disciplinas escolares?, ¿serán los Licenciados en Ciencias Sociales los encargados de enseñar historia?, ¿harán falta programas de educación específicos para la enseñanza de la historia?, ¿cuál será el camino para dirimir estas contradicciones entre historiadores, profesionales de las ciencias sociales y licenciados en ciencias sociales? Ya se trate de historiadores, profesionales de las Ciencias Sociales o de Licenciados, la pregunta que requiere ser recuperada es ¿qué significa enseñar historia, para qué sirve la historia en el ámbito escolar?, ¿será que se sigue enseñando una historia lineal y memorística que no tiene mucho que ver en el presente?, ¿interesa aprender el dato frio y acontecimientos del pasado sin ningún interés ni vínculo con el presente? En este sentido aparece, aunque parezca contradictorio, la necesidad de contextualidad en la enseñanza de la historia, más que disponer contenidos y formas clásicas de la historia, habría que hacer énfasis en un aprendizaje situado que permita la decodificación, la resignificación y la generación de escenarios futuros desde el presente. El desarrollo de la creatividad y la capacidad para generar empatía histórica mediante ucranias (¿qué hubiera pasado si…?), utopías (¿cómo puede ser el futuro?) y distopías (sociedades indeseables) permite establecer la construcción de contenidos estratégicos. Al partir del presente al futuro y nuevamente al pasado, el estudiante requiere desarrollar habilidades, para orientarse en el tiempo y principios meta históricos, donde ponga en juego dimensiones cognitivas, emocionales, estéticas, éticas y políticas. Bajo estas consideraciones la enseñanza de la historia requiere poner en tensión en primer lugar la enseñanza de una historia de las conmemoraciones patrióticas lo los clásicos libros de texto (Llano 2012; Arias 2014, Ibagón, 2016, Padilla, A., y Bermúdez, A. 2016; Aguilera Morales, A. 2017; Pantoja Suárez, 2017). Además, estos contenidos desactualizados y descontextualizados se distancian de una subjetividad juvenil y de unos ecosistemas comunicativos que suponen diferentes empatías cognitivas y expresivas de unos saberes 19 múltiples y fragmentados (Barbero, 2002).Estos contenidos enseñados se relacionan muy poco con la realidad y los modos de ver, leer, aprender y conocer de un sujeto que participa de unas prácticas comunicativas mucho más digitales. La enseñanza de la historia: entre el lenguaje, la comunicación y la subjetividad Desde esta problemática una de las formas de enfrentar la enseñanza de la historia en el campo educativo está precisamente en poner en valor la relación entre lenguaje, comunicación y subjetividad por medio de un dispositivo socializador como el podcast. En efecto, la producción de podcast cuenta con el desafío que implica reflexionar sobre qué tipo de producción de “ideas, símbolos, deseos y estados del alma” se desean replicar, para promover consciencia social desde la esfera local (Preciado, 2008, p. 45). Aunque, los archivos de audio inicialmente conllevan a describir lo que acontece en el entorno inmediato, pueden servir como un dispositivo socializador que ponga en circulación diferentes representaciones del pasado. Al incluir diferentes perspectivas, percepciones, sentimientos, argumentaciones e incluso, resoluciones de dilemas éticos en la enseñanza de la historia, a través del uso del podcast, se abre la posibilidad de enriquecer y develar puntos de vista no tan evidentes, para la audiencia escolar. Desde los distintos modos de hacer podcasts surgen estrategias que permiten interactuar con los hechos del pasado, para explicarlos desde diferentes ángulos en su relación con un concernimiento personal, es decir, con situaciones políticas, socioeconómicas y culturales actuales, para buscar resonancia entre interesados y afectados por la dificultad o curiosidad que se esté abordando. No obstante, el tránsito de unos problemas de la historia a un plano didáctico resulte en ocasiones difícil de realizar en términos epistemológicos, desde una racionalidad práctica las alternativas comunicacionales permiten además de las formas de visibilidad social, unas formas narrativas que pueden convertir el saber histórico en un conocimiento más cercano. Un ejemplo de esto, son los proyectos de radio transmedia que expanden las estrategias del storytelling para conducir a otras formas de compromiso de la participación de la audiencia. Ahora bien, la expansión de las narraciones que emergen desde los espacios geográficos en los cuales los agentes escolares cohabitan demuestran la inmediatez de los procesos subjetivos, a través de los cuales, se reconoce los temas que interesan a los jóvenes, quienes construyen una memoria sobre los asuntos que en realidad les preocupan. En este sentido, desde ejercicios didácticos sesudos, abiertos y flexibles, la enseñanza de la historia puede concatenar saberes actuales con representaciones del pasado desde una discusión sometida a la lógica de los audios. 20 El podcast: la comunicación y el deseo en la enseñanza de la historia Desde la reflexión que se ha realizado hasta el momento sobre la enseñanza de la historia y su relación con dispositivos socializadores, como el podcast, cabría preguntarse además por la pertinencia de involucrar esta clase de dispositivos en la enseñanza. El podcast además de ser un dispositivo escolar que nutre las relaciones entre el lenguaje, la comunicación y la subjetividad, también, logra poner en circulación, intereses, deseos que si bien están localizados obedecen a la dinámica global. De acuerdo con (Preciado, 2008), los soportes técnicos y mediáticos sostienen discursos que se reproducen a través de las plataformas como “el capitalismo fármaco pornográfico, el deseo sexual y la enfermedad” (p, 40) desde los cuales el mundo global se nutre, a partir de parámetros homogenizantes; de este modo, si los discursos globales permean la escuela, desde la reflexión pedagógica y didáctica en la enseñanza de la historia se buscaría comprender estos fenómenos y deconstruirlos. Es por ello que, se requiere comprender el lenguaje como juego de las diferencias, un producto de intereses y las relaciones de poder. De acuerdo con (Moya, 2011), el lenguaje visto como modelo que reconoce múltiples contextos, intenciones, interpretaciones, las subjetividades juveniles cooptan la información e interactúan desde aquello que comprende o les inquieta desde la cotidianidad. Cada vez que se publica audios se disemina información que debería organizar ideas, para manifestar las distintas probabilidades de ser, debido a que como lo menciona (E & Bogotá, s. f.) el mensaje mismo puede crear la realidad de lo que sucede, a partir del uso de la palabra codificada. Desde esta perspectiva, la sistematización de la información en podcast entendida como la codificación en audio de los enunciados, se materializa en el soporte físico del espacio, en la forma de soporte sonoro que se hace visible en función de producir conocimiento frente a la realidad (Lévy & Medina, 2007). La interacción entre los agentes prosumidores que está codificada a través de enunciados en formato digital construye un espacio de democratización, construcción de identidad y representación social. En el ciberespacio, la información en flujo se pliega y despliega construyendo amplio espectro de estructuras de poder en la ciudadanía, donde la democracia participativa valida acciones y relaciones de poder a través de los acuerdos que se hacen entre los sujetos, mientras se trabaja en colectivos desde los cuales se conquistan nuevos modos de significar los procesos académicos. El espacio isomorfo es producto de las interrelaciones (Cl et al., 2020), donde las representaciones sociales refleja el espacio de la subjetividad como disputa de poder desde los actos de confrontación, conflicto, construcción que muestra las relaciones socio políticas, a partir de la democracia participativa, donde los enunciados dan validez a las acciones. Finalmente, una enseñanza de la historia proclive a los fenómenos más inmediatos que afectan al mundo y a las subjetividades juveniles, 21 como las dinámicas comunicacionales actuales, permite acortar las distancias entre una ortodoxia amparada en el historicismo y los desafíos digitales del ciberespacio, la cultura digital y unas prácticas comunicativas que la escuela requiere con urgencia involucrar en los procesos formativos. La expansión del reporte de radio a través de narraciones que describen vivencias, relatos de vida, espacios geográficos y las representaciones del pasado, permiten acercar la intimidad, la domesticidad, la inmediatez y el territorio virtual a una enseñanza de la historia con pertinencia académica y social Referencias María Isabel Guevara: Estudiante del doctorado en educación y sociedad de la Universidad de la Salle, Bogotá –Colombia. En la actualidad desarrolla la tesis doctoral titulada prácticas comunicativas digitales y construcción de subjetividades: el uso del podcast como dispositivo socializador para los nuevos prosumidores en el ámbito escolar dirigida por el Dr. Fabian Andrés Llano. Magister en Educación Universidad de los Andes, Psicóloga Universidad Nacional Abierta y a Distancia y Licenciada Lenguas Modernas Universidad Distrital Francisco José de Caldas. Se ha desempeñado como docente Orientador de la Secretaria de Educación Distrital de Bogotá. Fabián Andrés Llano: Doctor en Ciencias Humanas del Patrimonio y la Cultura Universidad de Girona (España) Magister en Investigación social interdisciplinaria de la Universidad Distrital Francisco José de Caldas, Licenciado en Ciencias Sociales. Investigador Adscrito al Instituto de patrimonio Cultural de Cataluña. Se ha desempeñado como coordinador de la línea en educación, lenguaje y comunicación del doctorado educación y sociedad, Universidad de la Salle, docente de la maestría en educación de la Universidad la Gran Colombia. En la actualidad se desempeña como docente investigador del programa de Hoteleríay Turismo de la Universitaria Uniagustiniana. Fabian.llano@uniagustiniana.edu.co llanofabian@hotmail.com ID 0000-0003-2181-3476 Aguilera, A. (2017). La enseñanza de la historia y las ciencias sociales hoy: contrasentidos y posibilidades. Recuperado de https://doi.org/10.17227/01234870.46folios15.27 Arias, D. (2014). La enseñanza de las ciencias sociales en Colombia: lugar de las disciplinas y disputa por la hegemonía de un saber. Revista de estudios sociales, número 52. Barbero, J. M. (2002). Jóvenes: comunicación e identidad. Pensar Iberoamérica. Revista de Cultura de la OEI, (9), 5. Bárcena, F. (2004). Enseñar Auschwitz. El aprendizaje de una decepción. 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Buscamos, também, trazer uma proposta de metodologia para o uso das tecnologias no ensino de história. O projeto iniciou em meados de 2018, realizando um levantamento bibliográfico da temática tecnologias na interface com o ensino de história. No ano seguinte foi realizada a tabulação de dados obtidos por meio de questionário aplicado em 5 cidades em um projeto anterior ao ano de 2018 intitulado “A WebQuest no ensino de História”, dentre as quais, destacamos neste texto o Colégio Santo Ignácio de Loyola – da cidade de Fênix, no interior do estado do Paraná para o desenvolvimento da primeira etapa. Essa parceria possibilitou à Universidade estreitar um diálogo com a escola bem como ampliar as relações sociais com os estudantes, ao considerar as suas experiências de vida na relação com as tecnologias tanto no espaço escolar como não escolar. Acreditamos que ao incluir a dimensão cultural dos estudantes envolvidos no projeto, compreendemos melhor a sua realidade social bem como superamos as tendências instrumentais que desconsideram o fazer dos sujeitos. Na primeira etapa da pesquisa, após levantamento bibliográfico analisamos dados de questionário com questões abertas e fechadas, aplicado aos alunos pautado nos eixos: novas tecnologias de informação e comunicação; tecnologias e ensino de história; metodologias de ensino dos professores de história, pois acreditamos que as experiências vividas pelos estudantes fornecem elementos necessários para avançarmos no debate sobre o uso das novas tecnologias no ensino de história e indicativos para construirmos práticas de ensino de história mais interativas e inventivas (GALZERANI, 2008a). Sendo assim, neste artigo apresentamos as experiências dos estudantes com a integração das diferentes tecnologias no cotidiano e no espaço escolar. Dos 59 estudantes matriculados no 9º ano do ensino fundamental 24 – séries finais –distribuídos no período matutino e vespertino, tivemos a participação de 54 estudantes respondendo o questionário. Depois de sistematizar os dados, realizamos uma análise quantitativa e qualitativa das respostas dos estudantes. Fundamentamos a pesquisa a partir dos pressupostos teórico-metodológicos de Edward Palmer Thompson (1981) baseado no diálogo entre sujeito e objeto no processo de produção de conhecimento histórico, ou seja, apresentaremos uma análise dialógica na relação com as experiências dos estudantes. Acesso e integração dos estudantes com as novas tecnologias O primeiro questionamento realizado buscava compreender as percepções e acesso dos estudantes com a rede de internet em suas residências e no espaço escolar e a relação do uso da internet para fins educativos. Chama atenção o fato de que o meio pelo qual acessam internet em casa está majoritariamente conectada ao uso dos Smartphones, pois 81% dos investigados responderam que é este o recurso que possuem em sua residência. Temos vivido uma nova fase das mudanças tecnológicas com a entrada da chamada tecnologia digital. O impacto da tecnologia digital é extremamente representativo em nosso contexto, pois, como destacou Tavares (2012, p. 301), “[...] é inegável que as transformações tecnológicas, aliadas à crescente produção de equipamentos e programas em atendimento às demandas de mercado, vêm fazendo uma significativa alteração de usos, costumes e práticas, especialmente entre os mais jovens”. Esta é uma realidade cada vez mais comum. Quanto à frequência com a qual utilizam a internet para auxílio nos estudos, apenas 14% que aqui representam 8 estudantes, afirmaram utilizar ‘sempre’ este recurso para os estudos. A maioria dos estudantes (68%) assinalaram que sempre utilizam a internet para outras atividades, que não envolvem os estudos como: redes sociais, jogos e site de notícias. Esse modo dos estudantes se relacionarem com as tecnologias é questionável, pois qual o motivo que se apropriam dos recursos tecnológicos para o lazer e não para fins educativos? Uma questão cultural? Ou um problema mais complexo relacionado com as dificuldades no processo de ensino e aprendizagem? Pudemos perceber que o meio pelo qual acessam internet em casa é através dos Smartphones, pois 81% dos estudantes possuem apenas este recurso em sua residência. Será esse o obstáculo para apropriar-se das tecnologiaspara fins educacionais? 25 As novas tecnologias no espaço escolar: uma realidade ou utopia? Para compreender a relação entre as tecnologias na interface com o ensino de história foi importante alguns questionamentos para os estudantes, entre eles, o uso da sala do laboratório de informática na escola. A maioria (74%) dos estudantes afirmaram que às vezes o laboratório de informática é utilizado no ensino de história. Essa questão levanta várias problemáticas necessárias para serem refletidas. Primeiramente é importante destacar que os laboratórios de informáticas são frutos da política pública educacional de inserção de tecnologias na rede de ensino no estado do Paraná chamado Proinfo. Tal programa também foi responsável pelo processo de formação dos professores para utilizar os computadores durante as suas aulas. Para a concretização desse projeto, foram implantados nos Estados dentro dos núcleos regionais de educação, os Núcleos de Tecnologia Educacional – NTE, um grupo constituído de educadores e por especialistas em informática e em “sistemas” de tecnologias para a implementação no espaço escolar. O NTE atua na escola no processo de inclusão digital, na orientação aos educadores quanto ao uso do computador no laboratório de informática e na manutenção do equipamento. Porém, o número de escolas a serem atendidas é maior em relação ao número de pessoas do NTE em cada Estado, isso significa que nem todos os professores puderam participar do processo de formação quanto ao uso de tecnologias. Além disso, existem professores que participaram, mas destacaram que são formações corriqueiras, superficiais e meramente técnicas, sem comprometimentos com os fins pedagógicos, ou seja, distante das metodologias de ensino necessária para a especificidades das disciplinas (FRANÇA, 2009; 2015). Em outras palavras, podemos compreender que os formadores do NTE se utilizam das mesmas metodologias de ensino para todos os professores, independente da área a que estes pertencem. Portanto são cursos de informática que “treinam” os docentes para trabalhar com as máquinas. Instruí-los sobre o uso das máquinas – o conhecimento superficial do hardware e dos softwares industrializados disponíveis em cursos de curta duração, para o adestramento tecnológico, ou mesmo em séries de cursos para a aquisição da fluência digital. Consideram também que é suficiente o simples treinamento para a utilização dos principais programas: processadores de textos, programas básicos do Office e softwares educativos (KENSKI, 2003, p.77). É sabido que formações isoladas, esporádicas e instrumentais/técnicas não levam a “mudanças substanciais no meio educativo, principalmente, se for apresentada ao grupo de professores de maneira estanque e desligada da prática pedagógica realizada na escola” (BEHRENS, 1999, p.115). 26 Além do possível problema pedagógico quanto ao uso do laboratório de informática por parte dos professores na escola, temos ainda aqueles relacionados às questões estruturais como a falta de computadores suficientes para todos os estudantes, ou muitas vezes o laboratório não tem acesso a rede de internet dificultando também a realização de aulas na sala de informática. Essas questões foram pontuadas como uma das possibilidades para entendermos a baixa frequência do uso do laboratório de informática apontado pelos estudantes, já que entendemos que dificuldades de ordem pedagógica por parte dos professores por conta de formações instrumentais ou questões estruturais podem contribuir para essa situação apontada pelos estudantes, entre outras possíveis que não foram investigadas nessa pesquisa. Apesar de 92% dos estudantes considerarem a internet como importante para potencializar o processo de ensino e aprendizagem, no entanto, o uso das tecnologias não garante uma mudança substantiva no modo de ensinar e aprender, visto que podemos trabalhar com metodologias inovadoras, mas o modo de concebê-las e utilizá-las ainda são pautadas em práticas tradicionais/instrumentais (FRANÇA, 2009). A inserção das tecnologias em sala de aula não deve acontecer sem análise crítica, para que os docentes e estudantes não reproduzam, por meios tecnológicos, os “velhos” métodos tradicionais (BITENCOURT, 2011; FERREIRA, 2004; MONERO, 2010). Por outro lado, sabemos que a utilização de tablets e computadores em sala de aula pode ser uma alternativa integradora dos alunos com o ensino. Entretanto, é preciso ter claro que a tecnologia não é a única resposta às necessidades que visualizamos no contexto da sala de aula, pois não basta ter a tecnologia se ela não é utilizada pedagogicamente. Ela é uma ferramenta que viabiliza novas práticas educativas, mas a questão central é como fazer isso se efetivar, com vistas a uma produção de conhecimento histórico escolar crítico e reflexivo. Entendemos que os docentes devem responder as demandas sociais do tempo presente e buscar caminhos formativos, mas não podemos esquecer de alguns questionamentos importantes: “Mudar como? Mudar para onde? Aonde queremos chegar? Estamos fadados a “ter que” usar tecnologia? Para quê, exatamente? Entendo que precisamos achar um “caminho do meio” quando o assunto é tecnologia: nem as “lamentações nostálgicas”, nem os “entusiasmos ingênuos” (COSTA, 2015, p. 249). Recursos tecnológicos no ensino de história: meios de reprodução ou produção de conhecimento? Os estudantes compartilharam experiências significativas que viveram no ensino de história articuladas com recursos tecnológicos como os filmes, documentários e minisséries. Interessante essa resposta pelo fato de que ao falar abertamente sobre a disciplina, vários estudantes responderam 27 abordando a prática da professora e a utilização do vídeo nas aulas como potencializadores no processo de ensino e aprendizagem. É importante ressaltarmos que os filmes, documentários e minisséries circulam por diferentes canais de comunicação e podem ser entendidas como linguagens mediadoras e produtos culturais que produzem saberes, no sentido em que fazem circular representações sobre épocas históricas, modos de vidas, relações sociais, organizações políticas e questões econômicas. Porém, essas diferentes linguagens foram criadas para objetos de consumo, cabe ao professor junto com seus alunos construírem relações de diálogo entre sujeito (estudantes) e objeto (filmes, documentários e minisséries) durante o ato de produção de conhecimento histórico (THOMPSON, 1981) para promover uma experiência de encontro entre as experiências dos estudantes e outras experiências, outros tempos e espaços. “Uma experiência de encontro com o passado através da leitura de seus traços é significativa, se e quando nos desloca de nosso presente, isto é, quando nos traz estranhamento e nos leva em busca de outra temporalidade”. [...] É no estranhamento, nas asperezas, nos silêncios, momentos de suspensão do sentido, que podemos flagrar as fendas na narrativa historicista (KOYAMA, 2015, p. 316). Esses procedimentos teórico-metodológicos inspirados em Thompson (1981) pode ser um dos caminhos para potencializar leituras plurais do passado na relação com o presente e promissor para um ensino de história na interface com as novas tecnologias de informação e comunicação. A metodologia da WebQuest como potencializadora no processo de produção de conhecimento histórico escolar A partir do mapeamento das experiências dos estudantes sobre a integração das tecnologias em seu cotidiano e no espaço escolar e as potencialidades dos recursos tecnológicos no ensino de história, pudemos conhecer os sujeitos com quem dialogaríamos na segunda parte do projeto de pesquisa bem como partir da sua realidade escolar. Portanto, na segunda etapa do projeto, propomos a construção e desenvolvimento de WebQuest junto com esses estudantes sobrea história local. Segundo Cainelli e Oliveria (2011, p. 131), a relação com o saber implica relação com os “lugares, com a escola, com os professores, com os alunos, com os pais, mas é determinada pelo próprio sujeito, na medida em que aprende a se apropriar do mundo e nele constituir-se como sujeito”. Partimos antes para conhecer seus conhecimentos prévios sobre a história do seu município e depois colocamos em ação essa metodologia na interface com o ensino de história. Para esse artigo, vamos apenas apresentar a metodologia da WebQuest, quanto a construção e desenvolvimento com os alunos dessa atividade educativa será objeto de 28 análise em outro texto, pois temos uma limitação de páginas para a publicação nesse simpósio. A WebQuest foi criada em 1995 e, paulatinamente, tem sido objeto de investigações na área da educação sobre aprendizagem colaborativa. No ano de 2014, a Secretaria de Estado da Educação do Paraná propôs cursos sobre tecnologias móveis para os professores da rede, considerando a utilização desta metodologia (TAVARES, 2012). Essa inclinação ao seu uso pôde ser tomada como uma legitimação para a continuidade dos estudos. A WebQuest é elaborada pelo professor com questões e tarefas a serem solucionadas pelos alunos na pesquisa de fontes, como: livros, artigos, vídeos, sites e demais documentos de informação. Para a atividade ser considerada uma WebQuest é necessário que seja composta por algumas etapas, a saber: (i) introdução ao tema, com objetivo de preparar a proposta e fornecer informações gerais; (ii) a tarefa com linguagem simples, para estimular o aluno a desenvolvê-la; (iii) o processo no qual o aluno deverá se orientar para a realização da tarefa; (iv) os recursos caracterizados como pistas disponíveis na web para a produção do conhecimento; (v) a avaliação, que fornece ao aluno os indicadores qualitativos e quantitativos referentes à atividade proposta; e (vi) a conclusão, que propõe um desfecho da proposta sobre o que aprenderam, mas que também aponta para a continuidade da investigação (BOTTENTUIT JUNIOR; COUTINHO, 2012). Esses são elementos base, mas não anulam a possibilidade de outras inserções criativas e inventiva dos estudantes e professores. A metodologia possibilita uma aproximação dos alunos com as tecnologias, um maior acesso à informação e visa promover aprendizagem colaborativa. O trabalho com a WebQuest é de cooperação em grupo e da participação direta na construção do conhecimento, sendo a fonte histórica elemento essencial nesse processo. Caimi (2009) e Bittencourt (2005) ressaltam a importância do uso das fontes históricas em sala de aula para favorecer o desenvolvimento do pensamento histórico e o entendimento do processo de produção do conhecimento, rompendo, dessa forma, com o verbalismo, a reprodução e a memorização nas aulas de História, possibilitando a formação de um estudante ativo, ou seja, produtor de conhecimento. A proposta de estudo com a metodologia WebQuest surgiu do contato com investigações desenvolvidas em duas Universidades brasileiras. A primeira, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO, sob coordenação das professoras Keila Grinberg e Anita Almeida, com textos publicados sobre o tema e o desenvolvimento do projeto “Detetives do Passado”. (ALMEIDA; GRINBERG, 2009). A segunda iniciativa que estimulou esse projeto de pesquisa foram experiências desenvolvidas sobre WebQuest na Universidade Federal do Maranhão – UFMA, pelo professor João Batista Bottentuit Junior. 29 Com inspiração nas duas iniciativas apresentadas, um caminho foi construído até chegar a esse projeto de pesquisa “WebQuest e Ensino de História”, inclusive vivendo uma experiência de construção e desenvolvimento de WebQuest durante a realização de uma pesquisa de mestrado. A metodologia WebQuest vem sendo desenvolvida em vários países em diferentes áreas de conhecimento. No entanto, ainda temos poucas notícias de experiências e estudos sobre esta metodologia nas escolas públicas brasileiras. Enfim, associar História e recursos tecnológicos, levando em consideração fatores como distanciamento geracional entre alunos e professores, limitações técnicas das instituições e formação para esta área, é um desafio significativo, mas que podem ser superados em um trabalho coletivo no espaço escolar. Algumas conexões possíveis entre ensino de história e novas tecnologias Com essa experiência vivida nesse projeto “WebQuest e Ensino de História” compreendemos o ensino de história no diálogo com as novas tecnologias distantes dos modelos racionais/instrumentais, em que o passado por meio dos recursos tecnológicos é apresentado de modo estanque, com atividades descritivas e desvinculados das experiências dos estudantes, ainda comum pelas tendências hegemônicas de ensinar história. Acreditamos na potencialidade das novas tecnologias quando esta ferramenta possibilitar uma produção de conhecimento histórico escolar tecido por relações dialógicas, coletivas (THOMPSON, 1981). Defendemos que as práticas de ensino de história no diálogo com as tecnologias pode ser promissora se: a) estimular um pensamento histórico- coletivo, polissêmico, relacional, questionador b) promover uma formação de estudantes capazes de se reconhecerem no tempo e no espaço; c) instigar os estudantes se constituírem na relação com o “outro”; d) desnaturalizar os sofrimentos humanos (próprios e alheios), na construção de relações mais solidárias e autônomas (GALZERANI, 2008; 2013). Enfim, acreditamos na potencialidade das novas tecnologias, a partir de metodologias que estimulem nos estudantes (re) inventar narrativas que tragam à tona os conflitos, os silêncios, as resistências e as contradições sociais, pois no seio dessas narrativas a contrapelo, percebemos que emergem o insignificante, o miúdo, as diferenças, as exclusões, bem como as identidades plurais (FRANÇA, 2018, PAIM, 2005). Defendemos práticas de ensino de história que dialoga com o passado na relação com o presente em busca de uma sociedade mais inclusiva, democrática, igualitária e sobretudo, humana. Referências Adaiane Giovanni, mestra em Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Estadual do Paraná - campus de Campo Mourão. Professora 30 colaboradora na mesma instituição e das séries finais do Ensino Fundamental na rede privada de ensino. ALMEIDA, Anita Correia Lima de; GRINBERG, Keila. As WebQuests e o ensino de história. In: ROCHA, Helenice; MAGALHÃES, Marcelo; GONTIJO, Rebeca. A escrita da história escolar: memória e historiografia. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009, p. 201-212. BEHRENS, Marilda. Formação Continuada e a Prática Pedagógica dos professores. Curitiba: Champagnat, 1999. BITTENCOURT, Circe. Identidade nacional e ensino de História do Brasil. História em sala de aula: conceitos, práticas e propostas. São Paulo: Contexto, 2005. p.185-204. BITTENCOURT, Circe. Ensino de História: fundamentos e métodos. 4ed. São Paulo: Cortez, 2011 BOTTENTUIT JUNIOR, João Batista; COUTINHO, Clara Pereira. Recomendações de qualidade para o processo de avaliação de WebQuests. Ciências & Cognição, v. 17, nº 1, p. 73-82, 2012. CAIMI, Flávia Eloísa. História escolar e memória coletiva: Como se ensina? Como se aprende? In: MAGALHÃES, Marcelo; ROCHA, Helenice; GONTIJO, Rebeca (Org.). A escrita da história escolar: memória e historiografia. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009. p. 65-79. CAINELLI, M. R; OLIVEIRA, S. R. F. A relação entre aprendizado histórico e formação histórica no processo de ensinar história para crianças. In: CAINELLI, M. R; SCHMIDT, M. A. M. S (Org.). Educação Histórica: teoria e pesquisa. Ijuí: Ed. Unijuí, 2011, p.123-139. COSTA, Marcella Albaine F. Ensino de História e tecnologias digitais: trabalhando com oficinas pedagógicas. Revista História Hoje, vol. 4, nº8, p. 247-264 FERREIRA, A.A. 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O historicismo por sua vez, ainda que vinculado fortemente às instituições, trouxe uma visão histórica dos fenômenos humanos, colocando em xeque a equivalência de método com as ciências exatas. O marxismo ampliou todos esses debates ao colocar em evidência que o ponto de vista de uma determinada classe impacta diretamente na sua forma de compreender o mundo e, que por esse mesmo motivo, a sociedade seria repleta de contradições internas, fruto da luta de diferentes classes [LOWY, 1992]. Todas essas visões de mundo, acompanhadas de diferentes metodologias, ajudaram a definir a ciência histórica, diferenciando-as das demais ciências e impulsionando o aprofundamento de questões teóricas, metodológicas e didáticas da mesma. Subsequente à estes “ismos”, vemos um novo movimento historiográfico no século XX através da Escola dos Annales, que voltou a buscar aproximação com outras áreas, ampliou as fontes utilizadas, tirando o foco somente das oficiais, mudando não só de perspectiva como também, dando ênfase em uma história-problema. O novo leque de opções apresentados pelos Annales enriqueceu o trabalho historiográfico e potencializou as práticas didáticas de História no que diz respeito ao trabalho com fontes históricas. O desenvolvimento de pesquisas de ensino de História acompanhou esse desenvolvimento historiográfico. Longe de transpor as pesquisas da academia para a sala de aula, os novos problemas levantados por elas, assim como muitas de suas fontes, puderam ser utilizadas de forma mais atrativa no ambiente escolar. A tecnologia facilitou o trabalho com imagens, filmes, músicas, obras de arte e mesmo com documentos oficiais, permitindo uma aproximação dos alunos da evidência, estimulando de sobremaneira a interpretação e desenvolvimento da consciência histórica. Contudo, para que muitas dessas possibilidades acima mencionadas sejam efetivas, é necessário não somente um planejamento pedagógico pertinente, como também, de estrutura material para sua realização. Nesse sentido, a tecnologia aparece como uma faca de dois gumes, pois ao mesmo tempo que facilita esse contato não o democratiza. Apesar disso, atualmente a tecnologia é um grande desafio na sala de aula. Além de concorrermos com o uso de smartphones, a demanda por sua incorporação de ferramentas tecnológicas vem muitas vezes da escola, assim como a demanda de interdisciplinaridade. Contudo, como articular a interdisciplinaridade e novas tecnologias de forma a aprofundar o 33 conhecimento histórico, sem abrir mão da nossa metodologia? Quais as possibilidades e desafios encontrados em diferentes espaços educacionais? Esta comunicação tem como objetivo discutir essas questões com base em experiências realizadas no ano de 2019 em duas escolas públicas, durante a prática de docência obrigatória para os cursos de licenciatura de História. Uma delas, escola periférica do município de São José dos Pinhais - PR, com turmas de 6o ano do Ensino Fundamental e, a outra, uma escola federal do centro de Curitiba - PR com turmas do 1o ano do Ensino Médio e Técnico. Em ambas turmas foi utilizado o período de 2 horas-aula para o desenvolvimento do planejamento, que em decorrência da diferença dos níveis escolares tiveram conteúdos diferentes, embora com resultados que dialogam. As questões suscitadas e as conclusões a que chegamos neste artigo partem do conceito de aprendizagem histórica (o objetivo a ser perseguido pelo ensino de história) tal como formulado pelo arcabouço teórico da Educação Histórica, especialmente pelo britânico Peter Lee [LEE, 2016]. De acordo com ele, aprender história pode ser comparado ao processo de alfabetização: assim como aprendemos palavras que nos ajudam a interpretar e a nos expressar em nossa língua, aprendemos história quando nos apropriamos das ideias-chave que embasam o conhecimento sobre o passado. Essa ideias ficaram conhecidas como categorias do pensamento histórico, tais como evidência, mudança, empatia, narrativa, etc. Aprender história é, portanto, apreender o funcionamento dessas categorias e instrumentá-las para conhecer o passado, sendo por isso indispensável o contato com fontes históricas e com a própria ciência da história. É por isso que Peter Lee entende como objetivo central do ensino de história promover o que ele chama de literacia histórica, que poderíamos entender também como alfabetização histórica, algo muito diferente do que convencionalmente somos levados a crer, a saber, que os professores de história tem o papel de simplificar os conteúdos produzidos na academia. Além disso, para Lee a aprendizagem histórica só acontece de fato quando o sujeito é capaz de modificar a sua própria percepção do mundo em que vive, de forma mais complexa e racional. Partindo desta abordagem teórica é que os conteúdos das aulas foram pensados. Com as turmas de 1o ano o conteúdo preparado foi referente ao Islã, previsto no material didático aprovado pelo PNLD mas, bem pouco explotado por este. Tendo a instituição uma ótima estruturafísica e de equipamentos, foi possível preparar um material diferente para as aulas e bastante visual. Para iniciar o debate uma pergunta foi lançada aos alunos: “Quando você ouve as palavras: árabe, Islã e muçulmano, que imagens vêm à sua cabeça?”. Nas duas turmas o resultado inicial foi bastante semelhante, associações a grupos terroristas, eventos como o atentado às torres gêmeas, Alcorão, fundamentalismo, foram bastante comuns. Na sequência uma série de desenhos (carnaval, música, praia, futebol e mulher semi-nua) foram apresentados no projetor e os alunos questionados novamente: “A qual país você acha que as imagens abaixo se referem?”. A resposta foi unanime: “Brasil”. A partir desta ideia, foi desenvolvido o 34 conceito de estereótipos, pensando inicialmente se eles se sentiam representados por aquelas imagens e se acreditavam que todo o Brasil, de norte à sul tivesse os mesmos gostos. Feito isso eles foram questionados novamente sobre por que então, temos tantos estereótipos sobre árabes e muçulmanos em nossa mente, associando-os à eventos terroristas. Para refletir sobre o conceito, alguns materiais audiovisuais foram usados para pensar a representação dos povos e do oriente médio nas artes e mídia. Inicialmente foi assistida a abertura do filme Aladdin, com ênfase na legenda da música inicial: “Noite na Arábia”. Na letra algumas estrofes criam um estereótipo das pessoas e do ambiente, conforme os trechos: “Imagine um lugar muito longe daqui / Com camelos pra passear / É uma imensidão, um calor e exaustão / Como é bárbaro o nosso lar”, que foram discutidos com os alunos e debatidos juntamente com os conceito de bárbaro e civilizado. Antes de adentrar no conteúdo foram esclarecidas algumas palavras que podem gerar confusão como: árabe, Oriente Médio e muçulmano e depois foram trabalhados de maneira mais detida elementos básicos da cultura islâmica, de seu surgimento até sua expansão. Como forma de aproximação do presente os alunos foram confrontados com dados estatísticos sobre o islamismo hoje no mundo e questionados: “Mas mesmo com tantos adeptos, qual o motivo de tanta islamofobia?”. E, para explicar o conceito de islamofobia foi passado um pequeno trecho do documentário “Filmes Ruins, Árabes Malvados: Como Hollywood Vilificou um Povo” que se dedica a explicar este conceito através do cinema de Hollywood, em como, e porque os americanos representaram os árabes de maneira tosca e perigosa. Assistido e debatido o trecho, o conceito de “Orientalismo” de Edward Said foi explicado aos alunos para pensar de que forma este campo de estudos contribui com a reflexão acerca dos estereótipos em relação aos povos do Oriente. Por fim, foi realizada uma leitura conjunta da reportagem “A intolerância religiosa na visão de muçulmanos que vivem na periferia de São Paulo”, publicada em janeiro de 2019 no jornal on-line Brasil de Fato e foi proposta a uma atividade. Nela, o objetivo era que os alunos relacionassem os conceitos de orientalismo e islamofobia, utilizando o filme e a reportagem como fontes de análise e, podendo também pesquisar nos seus celulares com acesso a internet da instituição. Os resultados se mostram muito efetivos, indo ao encontro aos pressupostos da educação histórica, estimulando principalmente o desenvolvimento do conceito de segunda ordem “empatia”, que diz respeito à capacidade dos alunos de compreender as diferenças históricas evitando os julgamentos característicos do senso comum. Nas respostas das atividades foi comum ver que muitos alunos reconheceram seus preconceitos iniciais sobre o assunto, identificando através da aula uma reflexão positiva e de mudança sobre suas próprias posturas. Apesar de trabalhar com fontes contemporâneas para estimular o desenvolvimento de 35 uma consciência histórica mais complexa, as respostas utilizaram muitos elementos históricos para explicar o presente e, articularam acontecimentos locais (como o recorrente ataque à terreiros de umbanda no Brasil e Curitiba) com o global (atentado às torres gêmeas, conflitos atuais do Oriente). Nesse sentido, os exemplos utilizados e as construções narrativas recordaram muitos elementos visuais da aula que foram utilizados inclusive em aulas posteriores. A resposta às tecnologias utilizadas na sala, se mostraram portanto, bastante vantajosas no que se refere ao ensino e aprendizagem históricas. Com as turmas de 6º ano, o objetivo das aulas partiu dos conteúdos relativos à Roma antiga e, da discussão sobre o consumo de água dessa população em comparação com a nossa relação com esse recurso natural (novamente o local e o global articulados). As aulas foram programadas com base em um estudo exploratório realizado previamente com a metodologia da “chuva de ideias” [BARCA, 2004] sobre o conceito de meio ambiente. Novamente partindo dos pressupostos da educação histórica, as aulas privilegiaram o trabalho com as fontes e buscaram aproximar os conteúdos da experiência real dos alunos. Com vistas a lograr esse objetivo, utilizaram-se duas fontes de suportes diferentes: um trecho de cartas trocadas entre o imperador Trajano e Plínio, o Jovem, governador da província da Bitínia; um pequeno vídeo com imagens do jogo Assassin’s Creed Odissey, que mostrava a construção de um aqueduto. Por último, a ideia era apresentar aos alunos um roteiro organizado no Google Maps que mostra a trajetória percorrida pela água no município de São José dos Pinhais, desde a captação na bacia do rio Miringuava, passando pelas estações de tratamento, e chegando na escola que frequentam diariamente. Pensava-se que assim eles poderiam ter uma maior dimensão das diferenças e semelhanças entre o consumo de água nos antigos romanos e em nossa sociedade. Ao final das aulas foi solicitado uma atividade na qual se pedia aos alunos que, através de um pequeno texto ou de um desenho, relacionassem o consumo de água dos antigos romanos com o que eles mesmo experimentam cotidianamente, estabelecendo semelhanças e diferenças. Após a reflexão sobre essa experiência, concluímos que ela apresentou mais fracassos que logros, especialmente se compararmos com a experiência com as turmas de 1o ano do Ensino Médio. Os alunos do 6o ano mostraram ter entendido as diferenças técnicas relativas à captação e distribuição da água entre os dois contextos históricos, mas muito pouco além disso. O trabalho com as fontes não foi bem executado, em parte por problemas técnicos e em parte por descuido em relação aos objetivos da aprendizagem histórica [AUXILIADORA & SCHMIDT, 2009], a saber, o de promover a literacia histórica, ou seja, a alfabetização histórica dos alunos. Os problemas técnicos são típicos da infraestrutura de escolas periféricas: neste caso, não havia projetores nas salas da aula, o que nos levou a desenvolver a atividade na única sala que possui computadores (uma espécie de laboratório de informática, conhecida como sala multimídia, e 36 bastante disputada pelos professores), que deve ser reservada junto à direção com pelo menos uma semana de antecedência. O computador conectado ao projetor era bastante ultrapassado, e durante a apresentação dos slides desligou duas vezes, o que comprometeu o tempo da aula e diminuiu a concentração dos alunos. Isso nos mostra os limites materiais da tecnologia em sala de aula, que - assim como tudo na forma social em que vivemos - atinge de maneira desigual os diferentes estratos da sociedade. Tanto esse problema quanto os outros, contudo, se relacionam diretamente com a incompreensão da cultura da escola por parte do professor - nesse caso, do estagiário [FORQUIN, 1993]. A escola constitui uma das principais bases sobre a qual se ergue a aprendizagem histórica, sendo tarefa do professor estabelecer uma compreensão sólida tanto do funcionamento da escola quanto da cultura histórica experimentada pelos alunos(carências de orientação, preocupações com o presente, etc.). O trabalho ficou incompleto também devido ao fato de que apenas uma análise prévia sobre as ideias históricas dos alunos foi incapaz de apreender a totalidade dessas questões, que exigem constante revisão e reflexão de propostas. Além disso, a inexperiência própria de professores em formação fez com que a atividade com fontes não fosse tão bem executada, o que levou, em certo sentido, a que os alunos as interpretassem - especialmente o jogo de videogame - como uma ilustração da realidade. A aprendizagem histórica pautada na ciência de referência, pelo contrário, pressupõe exatamente a quebra dessa concepção do senso comum, que confunde o passado em si com os vestígios que deles chegaram até nós. Ao fim destas duas experiências com condições materiais e sociais bastante diferentes do espaço escolar, podemos realizar alguns apontamentos no que se refere ao uso de mecanismos próprios da ciência histórica e da educação histórica na sala de aula, bem como sobre o alcance e os limites da tecnologia. Nem todas as escolas e instituições de ensino tem tecnologias disponíveis para potencializarem suas práticas pedagógicas - como a dificuldade encontrada por escolas rurais. Os escassos recursos precisam ser muitas vezes divididos entre diferentes professores e disciplinas, sendo que muitas vezes sua existência não se traduz necessariamente em bom funcionamento, seja pela condição dos equipamentos ou conexão de internet (segundo o PISA de 2015, o Brasil tem a segunda pior conectividade dentre todos os países avaliados). Outro ponto a ser destacado é que a tecnologia por si só não promove a aprendizagem histórica. Ela é sim uma ferramenta importante, mas deve estar articulada aos objetivos específicos do ensino de história. Dessa forma, existem limites materiais de sua efetividade e também limites epistemológicos, ligados diretamente à proposta de aprendizagem histórica que se tem em mente. Isso significa que nenhuma tecnologia é capaz de apresentar o passado tal como ele foi, limitando-se a servir de recurso pedagógico para o professor, que deve estabelecer seus próprios objetivos. Considerando portanto esses dois pontos, quanto às turmas de 1o ano do Ensino Médio, a reflexão histórica expressa nas atividades correspondeu aos objetivos previamente estabelecidos de quebra de estereótipos e empatia 37 com o “outro”. Dessa forma, percebe-se que o ensino de história transformou de fato o modo com que os alunos enxergam o mundo ao seu redor, o que significa que houve aprendizagem histórica. Contudo, cabe uma reflexão sobre o objetivo alcançado e apreensão da atenção dos alunos ter sido possível também por condições de funcionamento da escola e também da tecnologia disponível. Já a experiência com a escola de São José dos Pinhais demonstrou que o uso da tecnologia pode, inclusive, comprometer a aprendizagem histórica quando não é utilizada de maneira articulada aos objetivos da didática da história. Sempre corre-se o risco de que a interatividade que os efeitos audiovisuais proporcionam sejam interpretados pelos alunos como o próprio passado, e isso não é aprender a pensar historicamente. Qual é a diferença fundamental entre uma aula tradicional em que o professor transmite aos alunos as respostas sobre o conteúdo, geralmente através de afirmações sobre o passado que são colocadas no quadro e devem ser decoradas, e uma aula na qual as mesmas informações (as verdades que devem ser decoradas) são expostas em slides coloridos, com imagens e vídeos? Pensar sobre essa questão é de vital importância para refletirmos quais os objetivos do ensino de história e também para avaliarmos a forma pela qual esse conhecimento é apreendido pelos alunos. REFERÊNCIAS Albano Gabriel Giurdanella, Bacharel e Licenciado em História pela UFPR Mayla Louise Greboge Montoia, Bacharela e Licenciada em História pela UFPR BARCA, Isabel. Aula oficina: do projeto à avaliação. 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Estas tecnologias, particularmente a internet, ganharam o cotidiano, tornando-se presentes de maneira cada vez mais impactante no mundo. Tendo em vista esse panorama recorreu-se em específico a utilização de vídeos e plataformas digitais das mais diversas assim como um produto final de toda a proposta materializada em um podcast. O projeto proposto iniciou-se em 27 de agosto de 2019, durando até 29 de outubro do mesmo ano, e teve como principal foco a prática docente e a aplicação do projeto de pesquisa na turma do 8º ano no turno da tarde. O projeto foi realizado na Escola Municipal Josafá Sisino Machado criada sob o Ato 942/1997, tendo o Ensino Fundamental I e II autorizado pela Portaria nº 0007/SEMEC/GS de 17/09/97, DOE de 19 de setembro de 1997, situada à Rua Rio Água Vermelha, S/N, no bairro do Parque Industrial/Emaús, município de Parnamirim no estado do Rio Grande do Norte. Funciona em uma sede própria e foi construída com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Dentro da perspectiva do projeto, intitulado “ O uso de mídias digitais como materiais didáticos” obteve-se como produto final a produção de um podcast que mobilizou toda a turma do 8º Ano. A temática desse podcast foi voltada para as independências dos países das Américas. A turma foi dividida em quatro grupos e cada um desses ficou responsável por pesquisar a respeito de um processo de independência de um país americano, que haviam sido estudados previamente. É pertinente enfatizar que as mídias digitais, ferramentas como podcasts ou vídeos, presentes em diversas plataformas digitais, estão ganhando espaço no contexto escolar sendo coordenadas pelos professores em sala de aula no processo de ensino-aprendizagem dos alunos. Os vídeos são importantes ferramentas por trazerem, em poucos minutos, informações em linguagem dinâmica e mais ilustrativa. Enquanto o podcast, segundo Raone Ferreira de Souza: “ permite aos usuários uma maior liberdade na sua relação com oconteúdo, permitindo que seja possível escolher seus programas preferidos sem depender exclusivamente de conteúdos previstos em uma grade de programação. As mídias tradicionais, como o rádio e a televisão, permitem apenas que os usuários recebam passivamente o conteúdo sem, no entanto, estabelecer uma relação interativa.”[Souza, 2017, P. 42-46] 41 O autor levanta uma questão pertinente, embora as mídias que representam o acesso rápido, fácil , democrático à informação e a comunicação, se faz necessário que os conteúdos desse meio também sejam submetidos a críticas. Inclusive, as críticas se configuram como importante espaço de aprendizagem em relação ao contato com a informação e coordenação do conhecimento provindo das análises de fontes, abarcando o conceito pressuposto por uma visão do professor- pesquisador, que notadamente se vale do método de pesquisa como intensificador de habilidades e competências sugeridas no âmbito escolar. Fundamentação teórica A formação da base teórica deste projeto consiste em relatar a dinamização das formas de aprendizado condizente com as modificações da atualidade, além de entender o processo de educação de forma construída, garantindo as ferramentas para o aluno pensar de forma independente. Seguindo os referenciais teóricos, que guiam a observação aqui presente, temos como base a prática do historiador explicada por Eric Hobsbawn, está sujeita às suas próprias experiências em detrimento do seu lugar privado que “inspeciona o mundo” [Hobsbawn, 1995, P.103]. Dessa forma, o experienciar da questão central do projeto pode ser entendido como o ato de inspecionar o mundo feito pelos alunos, quando compreendem conceitos históricos e se utilizam das práticas produzidas por meio deles. Por fim, a relação dos alunos com as formas de aprendizado, agora entendidas em diversas linguagens (vídeos, podcasts, dentre outras), direcionam todo o projeto. Entendendo como ponto principal a mudança das noções sobre os mecanismos que, em um primeiro olhar, funcionam como meios de transmissão de informações e, em um segundo, podemos torná-lo um importante aliado na sala de aula transformando e ampliando sua possibilidade de avaliação, se fazendo valer do conhecimento prévio dos alunos. O ensino de História e suas relações com as novas dinâmicas da sociedade é norte do artigo, coordenando-o para a sua concepção como uma metodologia. Em função dessa busca, por abordagens alternativas no método de ensino, utilizamos as experiências e relatos coletados para compor o projeto denominado, que foi aplicado em uma turma do ensino fundamental da rede pública de Parnamirim-RN no segundo semestre do ano de 2019. Tratar de ensino-aprendizagem no contexto das mídias digitais é dar espaço para o lugar de fala dos alunos, e se colocar na situação de ouvinte, aprendendo de forma conjunta os conceitos apresentados nas mídias. Nesse sentido, discutir sobre os conceitos e seus significados por meio de fontes históricas (entendendo previamente o significado dessas palavras) sejam elas digitais ou não, produziria uma fonte e um recurso midiático e didático simultaneamente, o podcast, que ilustraria melhor a questão sobre tais conceito. 42 A turma escolhida em questão para a aplicação do projeto, o 8º ano, já possuía afinidade para comigo, graças as etapas passadas do estágio supervisionado presente no curso de licenciatura em História que foram inseridas em sua sala. De forma geral, todos os alunos possuem a mesma faixa etária (13-14 anos) e já se mostram familiarizados com a presença de outros profissionais em sala, além do professor responsável pela disciplina. Ao início das aulas no dia, tratou-se de apresentar a proposta do projeto para os alunos que se mostraram interessados por um “novo tipo de aula” como disseram ao se referir ao projeto explicado. Tendo em vista às demandas da universidade e dos percalços que poderiam acometer a trajetória até o final do projeto em relação ao seu tempo de conclusão, foram estabelecidas prioridades em relação às dificuldades encontradas, tais quais: os inúmeros períodos sem aula que a escola periodicamente era atingida, com a base desses problemas possuindo raízes de natureza externa e que se tornam um empecilho a ser pensando em um trabalho com um tempo limite como este, pois se tratava da última etapa para conclusão de uma licenciatura. Com o inicio do projeto, foram ministrada as aulas abordando o Iluminismo (séculos XVII-XVIII) situando a turma no contexto do Antigo Regime (XVI- XVIII) e levantando questionamentos a respeito das condições de vida da população da época, levando em consideração as hierarquias existentes naquele período. Para explicar e estimular a curiosidade dos alunos sobre esses assuntos, foi proposto dinâmicas reflexivas, de forma com que eles se imaginassem enquanto sujeitos pertencentes aquele período. Outro método adotado durante essas primeiras aulas foi a organização de trabalhos em grupo voltados para a leitura e discussão de textos em sala, a respeito dos pensadores iluministas e suas principais ideias. Além disso, para reforçar o entendimento da turma aplicamos um jogo eletrônico, de perguntas e respostas, estimulando assim o trabalho em equipe. Uma parte importante do projeto foi o momento separado para a explicar os principais objetivos da proposta, o entendimento sobre as ações tomadas e os procedimentos a partir daí. O contato com as fontes e sua formas de apresentação seria exigido em todas as aulas praticamente, com isso entendemos que a leitura e a escrita estariam contidos em todas as etapas do nosso projeto. As mídias digitais são uma forma de comunicação e informação já bastante difundida no mundo, em especial as crianças e adolescentes nascidos na chamada “Geração Z”, que desde os primeiros anos de vida estão em contato direto com a tecnologia e já deram os primeiros passos em uma sociedade globalizada. Dessa maneira, esse auxílio não partiria de um campo incomum para os alunos, teria relação direta com sua vivência e sua abstrações perante sua vida. Nesse sentido, o conteúdo abordado seria mediado por de discussões que incluiriam as mídias digitais e fontes mais comuns na própria explicação do assunto (que estaria em relação ao contato com esse meio digital) e nas formas de auxílio (no uso de vídeos e podcasts que ilustram os exemplos da aula sobre o conteúdo) tendo como horizonte a produção de um podcast 43 específico que sintetizaria essas questões com posicionamentos, opiniões e relatos desses alunos que participaram ativamente da construção do seu próprio conhecimento e objeto de estudo. Outra parte importante dessa análise é a presença do livro didático, pois mesmo que o trabalho geral gire em torno da modernização e ampliação das formas de aprendizado, isso não anula as práticas comuns a estrutura da educação, leitura e escrita, dando um valor especial ao livro didático que no decorrer dos anos vem tentando se mostrar atual e prático, com muita informação pedagógica e referências a mídias trabalhadas em nosso projeto. Mais do que isso, ele demonstra que as novas tecnologias também são parte integrante da formação escolar. Porém, Gabriela D'Ávila Schüttz nos alerta que: “Em todos os casos, independentemente do tipo de mídia, elas podem ser exploradas em sala de aula, desde que sejam tomados alguns cuidados, sobretudo referentes à pertinência e à natureza de cada uma delas em relação aos conteúdos e aos objetivos propostos.” [Schuttz, 2015, P.138] A autora levanta uma questão fundamental sobre as mídias apresentadas, pois embora elas representem o acesso rápido, fácil e democrático à informação e a comunicação, é necessário que os conteúdos desse meio também sejam submetidos a uma visão crítica. Inclusive, essas críticas podem servir para que os alunos aprendam também a questionar as fontes quese apresentam no ambiente escolar e em sua vida cotidiana. Disponibilidade não quer dizer qualidade; vivemos numa era em que as informações dispersas na rede podem ser utilizadas de maneiras diversas e imprevisíveis, sem ao menos possuir um caráter crítico. Entretanto, mesmo diante deste latente empecilho, essas tecnologias têm se demonstrado bastante inclusivas. Como ressalta Eugênio Paccelli Aguiar Freire: “A abertura para a possibilidade de realização e acesso a produções atentas hegemonicamente ao interesse espontâneo dos Sujeitos em expressar sua voz, veiculando os diversos temas que permeiam a vida social [...], coloca a tecnologia podcast como um campo rico para o desvelar da pluralidade de vozes, fundamental à educação como ampliação de leitura de mundo”.[Freire, 2013, P. 107] Levando em consideração a pluralidade de sujeitos que compõem um ambiente de sala de aula, é imprescindível que tanto o professor quanto a escola apresentam formas para que as crianças e adolescentes possam contar com um mecanismo a mais, para que manifestem seus interesses e habilidades individuais, ao passo em que aprendem. A realização do projeto Após concluindo os apontamentos a respeito do iluminismo, tratou-se de trabalhar com a Revolução Francesa (1789) e suas características que em seu âmago traz a discussão da liberdade e dos limites possíveis para cada 44 cidadão (entendendo também qual o significado dessa palavra na época), com isso fora explicando a temática com vídeos e leituras do livro didático. Dito isso, dirigiu-se os alunos uma continuação das atividades ao decorrer das aulas, com o intuito de no final do projeto de construir um podcast que trataria das independências nas américas frente às influências da revolução francesa, com isso dividindo a turma em blocos para o diálogo mais informal sobre cada país (Brasil, Estados Unidos, Haiti e Venezuela). O uso do podcast, justamente no final de todo processo, foi pensado como a melhor alternativa, dada a maior aceitação dessa linguagem para os alunos, que se mostrava uma tarefa nova em sala de aula e de caráter desafiador. Em torno das dez aulas apresentadas para os alunos, todas tiveram a intenção de avaliar e fazer com que os estudantes entendessem sobre qual o motivo das diferentes formas de avaliação serem propostas, e com isso dar sentido aos processos avaliativos do desempenho escolar. Entendendo esse lugar do pesquisador-professor ou aquele que faz as suas perspectivas com base em seu método, no caso aqui o professor com o aluno, no qual irão construir o conhecimento com base nas demandas do cotidiano dos alunos, Ana Maria Monteiro pontua: “A partir de demandas emergentes que estão registradas nas diretrizes e propostas curriculares vigentes, exames vestibulares, avaliações sistêmicas, questionamentos dos alunos, tradições escolares, e que emergem dos debates políticos da sociedade da qual estão inseridos”. [Monteiro, 2013, P. 65] O percurso da turma na descoberta desses novos conhecimentos e nas novas formas de se lidar com o ambiente digital , possibilitou reflexões trazidas por pensadores da educação sobre a perspectiva educacional. O projeto é orientado pelo conceito de aprendizagem destacado por Vygotsky, que dessa forma esclarece que: “o aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento mental e põe em movimento vários processos de desenvolvimento que, de outra forma, seriam impossíveis de acontecer”[Vygotsky, 1998] Dessa forma, o aprendizado precisa ser organizado de forma que na interação do conteúdo feita pelo professor com os alunos, eles produzam um conhecimento específico para mediar o acesso a diferentes saberes. Os estudantes, por sua vez, devem trabalhar suas ideias baseadas no que foi abordado em aula com os colegas. O processo de internalização é fundamental para o desenvolvimento do funcionamento psicológico humano. A internalização envolve uma atividade externa que deve ser modificada para tornar-se uma atividade interna, é interpessoal e se torna intrapessoal. Outro aspecto que está intimamente ligado com a aprendizagem, é o ensino, que na perspectiva de Paulo Freire “não existe aprendizagem , sem ensino” e esse ensino deve estar pautado a contribuir para o aluno “pensar certo” , ou seja, de maneira independente e não apenas repetindo palavras de forma desprovida de sentido. Ainda nas palavras de Freire: 45 “Pensar certo [...] é uma postura exigente, difícil, às vezes penosa, que temos de assumir diante dos outros e com os outros, em face do mundo e dos fatos, ante nós mesmos. É difícil, não porque pensar certo seja forma própria de pensar de santos e de anjos e a que nós arrogantemente aspirássemos. E difícil, entre outras coisas, pela vigilância constante que temos de exercer sobre nós próprios para evitar os simplismos, as facilidades, as incoerências grosseiras.” [Freire, 1996, P. 49] Dessa maneira, entende-se por meio deste conceito freiriano, que a criação da autonomia do aluno é o principal objetivo a ser alcançado. O estudante se colocaria no papel de protagonista de sua história e usaria os conhecimentos construídos nas aulas como mecanismo de auto afirmação, enquanto ser pensante e ativo na sociedade. Com o término da atividade, dois alunos ficaram responsáveis pela distribuição e construção do site (rede social) do podcast, além de seu aporte em alguma plataforma digital, o que foi orientado pelos professorandos, para a disseminação de seu trabalho. Assim os alunos se sentirem bastante realizados com o resultado final de seu esforço visto que todas as aulas caminhavam para esse momento final que em partes pode ser comparado com o do historiador em função de seu tratamento com a fonte, além da perspectiva da pesquisa em sala de aula, graças a seus apontamentos baseados em pesquisas eles conseguiram relacionar os temas estudados com outras dinâmicas de sua realidade social, o que guardada as devidas proporções, pode ser entendido como uma forma de pesquisa histórica, o que é bem importante quando pensamos no valor da experiência dessas ações na escola. O experienciar da questão central do projeto pode ser entendido como o ato de inspecionar o mundo feito pelos alunos quando compreendem conceitos históricos. Além disso nossa perspectiva de mundo e as experiências que tivemos no campo pessoal moldam “inevitavelmente a forma como o vemos, e até mesmo o modo como determinamos a evidência à qual todos nós devemos apelar e nos submeter, independentemente de nossos pontos de vista” [Freire, 1996, P. 46]. Essa questão é polêmica, pois, as críticas levantadas contra a história do tempo presente são exatamente relativas à proximidade que os historiadores possuem em relação ao seu objeto. Espera-se que os historiadores mantenham uma distância cronológica do seu objeto de pesquisa para que não ocorram anacronismos e/ou juízos por parte do pesquisador, o que em alguma medida inevitável em sala de aula pois colocações é apontamentos se tornam mais fáceis com uso de analogias das mais diversas e anacrônicas possíveis, mas também a noção sobre a passagem do tempo e a sucessão de eventos pautados na mudança e permanência, entendendo que alguns exemplos se feitos de má forma ou simplesmente errados podem contribuir para fazer exatamente o que o projeto busca combater, pessoas afogadas em meio a um oceano de informações confusas e inacabadas. 46 Palavras ifnais Para todos os fins deste trabalho, a participação dos membros da escola e da universidade foi de uma importância vital para a finalização dessa primeira proposta de análise, deixando claro, que as leituras e o contato com o ambiente escolar e os sujeitos contidos nesse espaço, determinaram as presentes observações e ensejos teóricos que estão contidos neste documento, por fim as experiências conquistadas no projeto foram de muita importânciapara a formação inicial na docência, elucidando desafios e os benefícios que competem a profissão de professor. REFERÊNCIAS Alesy Soares Oliveira, graduado pelo curso de Licenciatura em História pela Univdersidade Federal do Rio Grande do Norte. FREIRE,Eugênio Pacceli Aguiar. Podcast: novas vozes no diálogo educativo. Interações, n.23, 2013. p. 102-127 FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. p. 49 HOBSBAWM, Eric. O presente como história: escrever a história de seu próprio tempo. Novos Estudos CEBRAP, v. 43, n. 11, 1995. p. 103-12 MONTEIRO,Ana Maria. Narrativa histórica no ensino de história.Fóruns Contemporâneos de Ensino de História no Brasil on-line, 2013. SCHUTTZ, Gabriela D’Ávila. As mídias e o processo de ensino-aprendizagem em História: relato de uma experiência no ensino médio politécnico em Sapiranga-RS. Revista Temas em Educação, João Pessoa, v.24, n1., jan- jun.2015.p. 138-156 SOUZA, Raone Ferreira de. O Podcast no ensino de História e as demandas do tempo presente:que possibilidades? Transversos: Revista de História. Rio de Janeiro, n.11 dez; 2017, p. 42-62. VYGOTSKY, L. S.. A formação da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 6. ed. São Paulo : Martins Fortes, 1998. 47 EXPERIÊNCIAS DE PRODUÇÃO E DIFUSÃO DE MATERIAIS DIDÁTICOS PARA O ENSINO BÁSICO NO CURSO DE LICENCIATURA EM HISTÓRIA Alicy de Oliveira Simas Compreender que o mundo de leitura é mais amplo que as páginas de um livro e que os jovens alunos do ensino básico estão imersos num mundo de navegação fez com que nos atentássemos à problemática das linguagens. Num tempo em que os diversos meios midiáticos constroem narrativas históricas e formulam também culturas históricas. Estas podem ser entendidas, em diálogo com o historiador Jörn Rüsen, como campo que abrange a racionalidade humana e a forma como dão sentido à vida prática. Assim, homens e mulheres dão sentido ao tempo e o seu presente é permeado de sentido histórico. Culturas históricas podem ser propagadas nos mais diversos meios e não necessariamente estão atreladas somente à escola, pois outros espaços e sujeitos são detentores de memórias históricas. Para Rüsen: “as suas atividades constituem cultura histórica e realiza-se de formas muito distintas, por exemplo, em monumentos, memoriais, museus, estudos históricos, filmes históricos, comemorações públicas, feriados nacionais, ensino de história na escola, literatura histórica, historiografia profissional e popular.” [RÜSEN, 2016, p. 167] Vivemos, portanto, em um presente em que disputas de narrativas sobre o passado se apresentam por variados suportes. Diversas são as séries televisivas, os livros biográficos ou romances históricos, filmes hollywoodianos, história em quadrinhos ou mesmo canais no Youtube que formulam versões sobre o passado. O professor de história é apenas um dos elementos de construção de ideias sobre a História num mar de informações, imagens e sons. Compreendendo este cenário foi que o projeto surgiu. Com a intenção de criar materiais didáticos sedutores, sensíveis e cativantes, bem como práticos e didáticos para utilização do professor em sala de aula. É preciso pensar, portanto, em uma História Pública que se expressa na necessidade de se fazer presente no debate público sobre o passado e compreender as tantas narrativas possíveis sobre ele. Para Thaís Nívia de Lima Fonseca a História Pública apresenta-se como uma alternativa para refletir sobre “os usos das mídias na divulgação da História como conhecimento academicamente produzido e como patrimônio coletivo”. [FONSECA, 2012, p.132]. Para a autora, diferentes mídias dedicam-se à divulgação do conhecimento histórico e acabam entrando no ensino de história. É sob este ponto de vista que os materiais didáticos foram produzidos, ou seja, entendendo que há diversas formas de construir o conhecimento histórico e que a escola e as aulas de história precisam 48 também ser atrativas e se mostrar como uma via possível e importante para a construção de saberes sobre o passado. Neste sentido, para pôr em prática o trabalho em questão, foi necessário um recorte de conteúdo para que os alunos pudessem pesquisar, estudar e criar. Em razão das leis 10.639/03 e 11.645/08 optou-se, primordialmente – mas não exclusivamente, pela confecção de materiais que se dedicassem a abordar o conteúdo de História da África e História do Brasil, envolvendo as relações entre as populações de origem africana, indígenas e europeus na formação do país. Durantes os dois semestres de 2016 o projeto foi alargado e tornou-se um trabalho final das disciplinas de História do Brasil I, História da África I e História de Santa Catarina I. Desta forma, para construção das narrativas e do conteúdo os alunos puderam contar com orientação de professores especialistas no assunto em questão. A proposta de produção de materiais didáticos logo na segunda fase do curso de História é um elemento fundamental para que os alunos de graduação – usualmente ainda muito jovens – passem a se ver como professores e construir uma identificação docente, deslocando as posições em sala de aula no sentido de tornarem-se responsáveis por conteúdos, formas e práticas a serem aplicadas em sala de aula. O projeto desenvolvido faz parte das atividades da disciplina Prática Curricular: Ensino de História e Suas Linguagens II, presente na segunda fase do novo currículo do curso de licenciatura em História da Universidade do Estado de Santa Catarina [UDESC]. A disciplina em questão foi ofertada pela primeira vez em 2014 pela professora Ana Luíza Mello Santiago de Andrade, que ficou à frente da mesma até o primeiro semestre do corrente ano. Tendo como ementa “usos, construção e/ou reelaboração de materiais didáticos com diferentes linguagens para o ensino de História na Educação Básica: filmes, canções, jogos, objetos e sítios eletrônicos” a disciplina apresenta uma proposta ampla mas bastante prática voltada diretamente para a produção de materiais didáticos e a problematização e reflexão sobre diferentes linguagens usualmente utilizadas no ensino de história escolar. Entre o primeiro semestre de 2016 e o de 2017 foram três turmas envolvidas, somando um total de 98 alunos. Isto gerou 21 materiais didáticos que compõem o site da disciplina [http://histlingue.wixsite.com/histlingue ], construído pela autora desse artigo, à época bolsista de monitoria da disciplina. O site tem por intenção ser a ponte de contato entre a Universidade e os professores em sala de aula e já foi divulgado nas redes sociais, eventos da área e publicações acadêmicas. Assim, o site funciona como um banco de dados de materiais didáticos, setorizados em categorias como História da África, História do Brasil, História Medieval, História Indígena, História Contemporânea. A intenção é que este banco de dados continue crescendo conforme crescem as produções acadêmicas. 49 Uma das necessidades sentidas nas primeiras experiências do projeto, nos anos de 2014 e 2015, foi um contato mais próximo com a escola. Buscando compreender as necessidades da disciplina de História no ensino básico foram chamados professores que atuam em escolas públicas e privadas para avaliar os trabalhos. Em um primeiro momento, em meados do semestre, os alunos apresentaram suas propostas de material para os professores que arguiram, fizeram sugestões na forma e no conteúdo, indicaram procedimentos metodológicos e transmitiram aos alunos suas experiências frente às salas de aula. Desta forma as contribuições dos professores Fernando Leocino, Gláucia Costa, Tâmyta Rosa Fávero e Pedro Eurico Rodrigues foram de fundamental importância para a finalização deste projeto e para a qualidade dos materiais produzidos e agora já em fase de divulgação.O curso de licenciatura em História da UDESC fomenta as práticas curriculares e compreende que a partir delas é possível incentivar a inventividade e a criatividade, utilizando-se dos conceitos e teorias aprendidos nas demais disciplinas da grade curricular e colocando-as em prática em disciplinas que oportunizam esta atividade. Assim, entende-se que, embora a Universidade não se encontre num grande centro, há importantes experiências desenvolvidas a serem partilhadas e divulgadas. A disciplina de Ensino de História e Suas Linguagens teve como prioridade estimular o debate sobre diferentes linguagens pelas quais uma dada cultura histórica se manifesta. Desta forma, a disciplina esteve organizada em quatro unidades de ensino: Livros Didáticos no Ensino de História, Narrativas nos objetos e nas cidades: Patrimônio Cultural e Ensino de História, Meios e mensagens: as mídias como linguagens, além de uma última destinada exclusivamente na produção dos materiais didáticos. Entendendo que as formas de contar uma história são plurais e que nem sempre são produzidas unicamente por profissionais da área de história, buscou-se estabelecer relações possíveis algumas linguagens bastante comuns à história escolar. Iniciando o debate pela mais comum e usual delas – os livros didáticos – foi feita uma aproximação inicial com tais materiais, entendendo-os na sua historicidade, como aponta Circe Bittencourt em sua tese Livro didático e Saber Escolar [BITTENCOURT, 2008], leitura obrigatória da disciplina. Assim, com base nos escritos de Bittencourt e Kátia Abud [In: BITTENCOURT, 2006], e com análise de livros didáticos – do presente e do passado – foi possível perceber o tom dos tempos na escrita, na linguagem, na iconografia e nos conteúdos apresentados nos livros. Na segunda unidade da disciplina priorizou-se o debate sobre o Patrimônio Cultural e suas conexões com o ensino de História, na compreensão que aqueles alunos serão muito em breve professores e estarão responsáveis por saídas de campo e visitas a museus. Neste sentido um dos tópicos abordados foi a relação entre o saber escolar e o espaço urbano, atentando para as construções, os monumentos e os processos que levaram as cidades às suas configurações atuais. Tal discussão se deu especialmente a 50 partir do livro História: o prazer em ensino e pesquisa de Marcos da Silva que propõe compreender o estudo de patrimônios culturais e o ensino como partes integrantes de um mesmo processo, sensibilizando para novos olhares sobre os monumentos, museus e cidades. [SILVA, 1995]. Neste sentindo, compreender os museus é temática importante para a história, entendendo que nas exposições de objetos e obras nestes espaços conta-se também uma história, cheia de escolhas, seleções e esquecimentos. A partir da perspectiva de Francisco Régis Lopes Ramos em A Danação do Objeto [RAMOS, 2000], problematizou-se as saídas de campo usualmente promovidas pelos professores de história do ensino básico e qual o papel dos objetos e dos museus na formação de uma cultura história e na produção de sentido sobre o passado. Ramos traz ao debate o potencial dos objetos comuns ao nosso presente, como um copo de plástico, para promover uma reflexão sobre objetos geradores, ou seja, explica metodologicamente como um simples objeto pode gerar importantes discussões de conteúdos históricos. Para abordar as mídias utilizou-se como base os debates promovidos por Marcos Napolitano [NAPOLITANO, 2002; 2004], Jesús Martin-Barbero [MARTIN-BARBERO, 1997] para organização de oficinas de análise de conteúdos midiáticos. Assim, filmes, programas de televisão e conteúdos virtuais foram analisados no sentido de refletir sobre a construção de passados históricos por meio das mídias e as estratégias de intervenção do professor de história frente aos conteúdos divulgados por outros meios tão presentes no cotidiano atual. Para a construção dos materiais didáticos os estudantes puderam contar com o auxílio e orientação de alguns professores especialistas em determinadas temáticas. Nos dois semestres de 2016 a disciplina de Prática Curricular: Ensino de História e suas Linguagens II foi elaborada no sentido de promover uma interlocução com as outras disciplinas da fase, especialmente as cadeiras de História do Brasil I [América Portuguesa], História da África I e História de Santa Catarina I, e assim o trabalho final foi comum a todas as disciplinas. Assim, nestes dois semestres foram priorizados os conteúdos que pudessem dar auxílio à prática docente no cumprimento das leis 10.639/03 e 11.645/08, produzindo e divulgando conteúdos temáticos referentes à História das Áfricas e Indígena. No primeiro semestre de 2017 o projeto de confecção dos materiais seguiu oficialmente sozinho não sendo um projeto conjunto da fase partilhado também pelas outras disciplinas e assim, os conteúdos dos materiais didáticos não foram, obrigatoriamente, elaborados com base nas temáticas abordadas nas disciplinas acima mencionadas. Com tema livre, os alunos optaram ainda por conteúdos que atendessem às leis já mencionadas, ou, em raros casos, optaram pela elaboração de materiais baseados em alguma comemoração histórica, como a Revolução Russa, que completa seu centenário no ano de 2017. Desta forma, buscando em primeiro momento estabelecer o debate sobre diferentes linguagens que possibilitam conhecer o passado [como os livros 51 didáticos, os museus, os monumentos, os filmes, entre tantos outros], e posteriormente promovendo a interlocução com os conteúdos específicos das disciplinas do curso de licenciatura em história, a disciplina de Ensino de História e suas Linguagens conseguiu promover a reflexão sobre a prática docente e a relação desta com os conteúdos teóricos acadêmicos. Uma disciplina que se caracteriza por ser uma prática curricular carrega especificidades. Pensando nisso, seu programa foi montado priorizando as atividades práticas, seja para discussão dos textos ou para confecção dos materiais. Dividida em quatro unidades – Livro didático e o ensino de História, Narrativas nos objetos e nas cidades, Meios e mensagens e Confecção de material didático – a disciplina dedicou-se inicialmente a discussão de alguns textos base. Aulas expositivas e dialogadas foram um importante recurso para o andamento do projeto, entretanto, poucos foram os textos estudados e debatidos em sala de aula, entendendo que, por ser uma disciplina prática, as oficinas deveriam ser mais presentes que as aulas expositivas. Contando com 7 créditos, quatro deles com aulas semanais e presenciais, buscou-se nas oficinas uma importante metodologia, baseada nos estudos de Isabel Barca, que entende que o trabalho com documentos históricos e oportunizar conexões entre passado e presente são elementos fundamentais para a construção do conhecimento histórico. [BARCA, 2004]. Para compreender os livros didáticos em seu tempo, entendendo-os como fontes históricas, como materiais que carregam suas marcas, os alunos entraram em contato com livros didáticos que circularam no Estado durante as décadas de 1920 e 1930, notando as intencionalidades naquela escrita em relação aos processos políticos e sociais do período. Da mesma forma puderam analisar livros didáticos do nosso presente, que circulam nas salas de aula do ensino básico do Brasil hoje. Assim, puderam perceber as diferentes intencionalidades na escrita de uma história escolar. Oficinas de análise de mídias também foram experimentadas, levando para a turma trechos de séries de televisão, novelas e telejornais. Um dos exemplos foi pensar a partir da minissérie Anos Rebeldes da Rede Globo a forma como a Ditadura Militar foi narrada nos anos 1990. As oficinas, portanto, buscaram dar conta das diferentes linguagens debatidas através dos textos e que se expressam até hoje nas aulas de história do ensino básico.Elas oportunizaram o contato com diferentes fontes históricas e incentivaram o olhar para diferentes linguagens pelas quais a história se manifesta, aproximando-os da prática de produção de materiais didáticos. Para produção dos materiais didáticos os alunos deveriam organizarem-se em grupos de 5 integrantes. Já no início do semestre começavam a pensar no material a ser feito e entregue ao final do semestre: selecionavam a temática, o formato e com o decorrer do tempo, deveriam pesquisar e 52 elaborar o material. Todas as etapas foram orientadas pela professora responsável pela disciplina. Em reuniões quinzenais discutia-se a adequação dos conteúdos abordados, as melhores estratégias de produção, as necessidades técnicas e de contato com outros profissionais. Enfim, um trabalho que se pautou no diálogo e que foi organizado a longo prazo. Além disso, após o trabalho das três unidades iniciais, os alunos puderam utilizar das quatro aulas semanais exclusivamente para a produção do material, apresentado sempre no último dia de aula do semestre. Assim, durante este último mês as orientações passaram a ser semanais e o contato com outros professores que pudessem auxiliar nos conteúdos específicos mais intenso. Nestas orientações os estudantes deveriam trazer as últimas produções e o caminho do projeto até o momento. Além disso, deveriam apresentar uma primeira versão antes da entrega final, que passasse por correções e avaliações antes da entrega e divulgação dos materiais. Os materiais elaborados, em boa parte dos casos, apresentam alto nível de complexidade: jogos de tabuleiro, sítios eletrônicos, livros e documentários necessitam leitura cuidadosa e muitas vezes domínio tecnológico. Os estudantes envolveram-se nisso, desenvolvendo habilidades para além das expectativas iniciais: aprenderam a montar um site, a desenhar, a editar. Para além do material didático os alunos precisavam construir um manual do professor, ou seja, um texto que pudesse guiar os professores interessados a utilizar seu produto. É no material do professor que se encontram as discussões teóricas, as indicações de atividades, as referências bibliográficas. Todo o caminho didático para a utilização do material foi também uma forma dos estudantes de licenciatura começaram a pensar como (futuros) professores, buscando compreender as diferentes realidades das salas de aula. REFERÊNCIAS: Alicy de Oliveira Simas é graduada em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina (2017) e atualmente é mestranda no Programa de Pós- Graduação em História da mesma universidade. Além disso, atuou como monitora da disciplina de Ensino de História e Suas Linguagens sob orientação da professora Ana Luíza Mello Santiago de Andrade. ALBUQUERQUE, Durval Muniz. Fazer defeitos nas memórias: para que servem o ensino e a escrita da história? In: Gonçalves, Marcia de Almeida et all (org.). Qual o valor da história hoje? Rio de Janeiro: FGV, 2012. BARCA, Isabel. Aula Oficina: do projecto à avaliação. ___________________ (Org.) Para uma educação histórica de qualidade. Actas das IV Jornadas Internacionais de Educação Histórica. Braga: Universidade do Minho, 2004, p.131144. BITTENCOURT, Circe (org.). O saber histórico na sala de aula. 11. ed. São Paulo: Contexto, 2006. BITTENCOURT, Circe. Livro didático e a construção do saber escolar. Belo Horizonte: Autêntica, 2008, p.23-61. 53 FONSECA, Thaís Nívia de Lima. Mídias e divulgação do conhecimento histórico. Revista Aedos, n.11, v.4, 2012. GAGO, Marília. Entrevista – Jörn Rüsen. Revista História Hoje v.5, n.9, 2016. MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1997. NAPOLITANO, Marcos. Como usar a televisão em sala de aula. São Paulo, Contexto, 2002. ___________________. Como usar o cinema em sala de aula. São Paulo, Contexto, 2003. RAMOS, Francisco Régis Lopes. A danação do objeto: o museu no ensino de história. Chapecó: Argos, 2004. RÜSEN, Jörn. Entrevista de Jörn Rüsen concedida a Marília Gago. Disponível em: file:///C:/Users/analu/Downloads/245-862-1-PB.pdf Acesso em 27 de agosto de 2017 SILVA, Marcos Antonio da. Patrimônios históricos. In: História: o prazer em Ensino e Pesquisa. S.Paulo: Brasiliense, 1995, p. 39-60. 54 HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NO ENSINO DE HISTÓRIA ANTIGA: O USO DAS HQS NA SALA DE AULA Allef de Lima L. Fraemanm Matos O Ensino de História está passando por um processo de expansão com inserção de novos conteúdos e introdução de novos recursos didáticos na sala de aula. Os alunos do século XXI convivem com uma vasta rede de informações, presentes através de Site de Pesquisa, Redes Sociais, Imagem, Serviços de Streaming, Películas e Histórias em quadrinhos, que podem ser usados na sala de aula. Na medida em que o professor diversifica as fontes, ele dinamizar a prática e democratiza o acesso ao saber. Dessa maneira, como aponta Fonseca (2003), a diversificação das fontes na sala de aula, permite o confronto e o debate de diferentes visões. Ao incorporar diferentes linguagens no processo de ensino de história reconhecemos não só a estreita ligação entre os saberes escolares e a vida social, mas também a necessidade de (re) construímos nosso conceito de ensino e aprendizagem. (FONSECA, 2003, p. 164). A partir da perspectiva de Fonseca, podemos compreender que existem diversos tipos de documentos que servem como fonte de informação de fatos históricos, sendo interessante levar aos discentes tais materiais para serem explorados a fim de extrair informações e coletar dados a respeito do conteúdo programático da aula em questão, como aponta Bittencourt: Contos, lendas, filmes de ficção ou documentários televisivos, músicas, poemas, pinturas, artigos de jornal ou revista, leis, cartas, romances são documentos produzidos para um público bastante amplo, que pode por intermédios do professor e seus métodos, se transformam em material didático. Eles não são necessariamente produzidos pela indústria cultural e podem ser selecionados de diferentes formas, de acordo com a opção de trabalho ou dos projetos pedagógicos da escola. (BITTENCOURT, 2004, p. 297). Nessa compreensão, os métodos de ensino têm que se articular com os novos recursos didáticos, pois como destaca Bittencourt “as transformações tecnológicas têm afetado todas as formas de comunicação em que se encontram introduzindo novos referenciais em relação à produção do conhecimento” (Ibidem,p. 297). Assim, temos que perceber quê; a inclusão de novos recursos pedagógicos na sala de aula trata-se de uma opção metodológica, que amplia o olhar do professor, e torna o processo de produção do conhecimento dinâmico e flexível, permitindo alcançar o objetivo do ensino de História da contemporaneidade, formação do cidadão político, por conseguinte, a História deve contribuir para formação de um cidadão crítico. 55 Desenhando um conceito de histórias em quadrinhos A primeira tentativa de analisar de forma acadêmica as histórias em quadrinhos desabrochou a partir dos estudos de Will Eisner, com publicação do livro Comics and Sequemtial Art (Quadrinhos e Arte Sequnecial), de 1985. Originalmente, o livro foi escrito como uma coletânea de ensaios publicados na revista The Spirit. A publicação do livro é também um reflexo do curso sobre arte sequencial ministrado por Eisner, na School of Visual Arts, em Nova York. Will Eisner aponta que a publicação do livro tinha como objetivo: “Aborda os princípios e as práticas da forma de arte mais popular do mundo de maneira estimular e pragmática tanto para estudante como profissional da área” (EISNER, 2010, prefácio. X). No livro, Eisner compreender os quadrinhos como arte sequencial, ou seja, uma história narrada através de sucessões de imagens. Sendo assim, nas palavras de Eisner,As histórias em quadrinhos empregam uma série de imagens repetitivas e símbolos reconhecíveis. Quando são usadas vezes e mais vezes para expressar ideias semelhantes, tornaram-se uma linguagem. E essa aplicação cria a “gramatica” da arte sequencial (Ibidem, p.02). A singular estética da Arte Sequencial como veículo de expressão criativa, uma disciplina distinta, uma forma artítica e literária que lida com a disposição de figuras ou imagens e palavras para narrar uma história ou dramatizar uma ideia (Ibidem, prefácio, p. IX) Contudo, Scott Mcloud, destaca que definição proposta por Will Eisner de Arte sequencial, para descrever as Histórias em quadrinhos, é conceituação extremante neutra, em questão do estilo e qualidade do assunto (MCLOUD, 1995, p. 05), pois ela também pode ser aplicada a outras mídias, como animação , storyboards, manuais de intuições. Já que, não adianta duas imagens sem que o leitor conclua o que está acontecendo na transição dos quadros. O Mestre Will Eisner usa o termo arte sequencial para descrever para as Histórias em quadrinhos. Tomadas individualmente, as figuras não passam disso... Figuras. No entanto, quando são partes de uma sequência só de duas, a arte da imagem é transformada em algo mais: Arte das histórias em quadrinhos (Ibidem, 1995,p. 05) Ou seja, a narrativa nos quadrinhos não é criado em um único quadro, mas combinação deles. E para Scott Mcloud, esse processo é chamado de “Conclusão”. De acordo com Daniel Brandão, esse fenômeno ocorre “na cabeça do leitor quando ele passa o olho pela sarjeta (ou “calha”, aquele espaço vazio entre os quadros), é o que dá unidade e sentido à narrativa sugerida pelas imagens. O autor imagina as cenas e as apresenta para o leitor, mas é o leitor que dá movimento, voz e sons à história” ( BRANDÃO,2018, p. 36). 56 Todavia, apesar dos quadros unidos criarem a narrativa, eles precisam de um ponto de referência para criar uma coesão entre as imagens. Como é de praxe, essa coesão costuma acontecer por um personagem que aparece em diversos quadros. Como destaca Harry Morgan, esse personagem oferece um ponto de referência para o leitor, permitindo que ele compreenda a lógica narrativa da obra. Scott Mcloud é outro teórico da linguagem dos quadrinhos, que propôs uma definição diferente Will Eisner. Em 1994 lança o livro Undertanding comis (Desvendando os quadrinhos), que tinha como objetivo revisar o conceito de quadrinhos, defendido por Will Eisner, pois de acordo com Mcloud, se as pessoas não compreendiam as HQs, era porque tinham uma definição muito superficial sobre eles, então era necessária uma conceituação mais adequada para objeto. Para Mccloud, histórias em quadrinhos podem ser compreendidas como: “imagens pictóricas e outras justapostas em sequência deliberada destinada a transmitir informação e/ou produzir uma resposta no espectador” (MCCLOUD, 1995, p. 9). Nesse aspecto, entende-se que as Histórias em quadrinhos são duas ou mais imagens, possuindo textos escritos ou não, colocados uma ao lado da outra em sequência com objetivo de passar uma determinada informação ao espectador. As definições de histórias em quadrinhos, não se restringiram apenas as conceituações de Will Eisner e Scott Mcloud, outros pesquisadores também aventura-se nessa jornada. Fábio Paiva vai ter uma definição sobre quadrinho diferente das defendidas por Mcloud e Einser. Paiva aponta que as HQs são um tipo de arte específica. “Não é literatura, não é pintura nem desenho, e sim uma junção de varias expressões artísticas, mas que forma outra que se diferencia das demais. É uma linguagem e também uma forma de comunicação, além de ser um meio de entretenimento” (PAIVA, 2017,p. 27). O conceito de História em Quadrinho, apresentado por Paiva, não prioriza uma definição técnica como nas propostas Einser e Mcloud. Para o autor, os quadrinhos recebem influência de diferentes gêneros artísticos e ao mesmo se diferencia, já que , cada uma destas formas de expressões artísticas contribuem para à criação de um gênero novo, as Histórias em quadrinhos. Waldomiro Vergueiro afirma que as histórias em quadrinhos constituem um sistema narrativo composto por códigos verbais e visuais, e que cada um desses códigos, ocupa dentro dos quadrinhos, um papel reforçando um ao outro e garantindo que mensagem seja transmitida com plenitude (VERGUEIRO, 2016, p, 31.). Outra definição considerada apropriada é de Barbara Postema, A autora vai apresentar os quadrinhos como uma forma de arte e narrativa, ressaltando a sua interligação entre o texto e imagem, e os elementos que compõem 57 uma HQ. Os elementos dos quadrinhos são parcialmente pictóricos, parcialmente textuais, e por vezes um híbrido dos dois. Esses elementos incluem as imagens dos quadrinhos; as molduras; balões de fala e as próprias palavras (POSTEMA, 2018, p. 15). Em suma, podemos afirmar que não existe uma definição consensual a respeito das histórias em quadrinhos, que existe, são elementos característicos essências presentes nas definições: sequência de imagens (arte sequencial), a presença ou não de textos, relação harmoniosa entre texto e imagem, a narrativa da história, contada por justaposição de imagem. Esses elementos contribuem para as diversas definições de história em quadrinho presente na contemporaneidade. Mesmo com essa heterogeneidade conceitual , as histórias em quadrinhos transformaram um elemento que extrapola mídias e culturas, transmitindo conceitos, aspectos culturais e informações científicas, e podem ser usados como um recurso didático. O uso das histórias em quadrinhos no ensino de história antiga As histórias em quadrinhos hoje representam uma mídia de grande penetração popular, como destaca Fábio Paiva, até os “menos atentos se deparam diariamente com imagens relacionadas aos personagens clássicos dos gibis, quando não, com os próprios apresentados nos produtos mais diversos, desenhos animados, comerciais e nas próprias HQs” (PAIVA, 2017, p. 46-47). Barbara Postema ressalta ainda que, “os quadrinhos uma das formas mais populares e penetrantes da nossa era visual” (POSTEMA, 2018, p. 17). Tanto que os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino de História ressaltam a importância do professor saber utilizar diferentes fontes e recursos tecnológicos para construção do conhecimento histórico. Certamente as Histórias em quadrinhos na contemporaneidade, virou um elemento que extrapola mídias e culturas, transmitindo conceitos, aspectos culturais e informações científicas. Souza Neto afirma, que as HQs: Emergem como poderosos elementos para o aprendizado [...], pois estão repletas de inquietações, servem às comemorações e rememorações da realidade, propiciam novas estratégias de ensino e a produção de conhecimento histórico [...] (SOUZA NETO, 2016). Assim como Denise Maria Margonari e Amaro Xavier Braga Jr. corroboram com a utilização das Histórias em quadrinhos em sala de aula. Para os autores, os quadrinhos são ótimos recursos pedagógicos, pois são ferramentas inseridas no cotidiano dos estudantes. Partindo desta perspectiva, Vergueiro e Santos discutem, que os usos das histórias em quadrinhos possibilitam o incentivo à leitura, o aprendizado de línguas estrangeiras, além do debate sobre determinados temas. As histórias em quadrinhos também podem ser aproveitadas em diversas aulas de maneira interdisciplinar e transdisciplinar, tornando aprendizagem 58 prazerosa e reflexiva. E conforme Fábio Paiva destaca, os quadrinhos são instrumentos que podem ser usados na educação, “especialmente como uma ferramenta interdisciplinar e transversal e como um gênero textual, no que se refere ao ensino e aprendizagem das linguagens” (PAIVA, 2017, p. 70). Já para as aulas de História, em especial o Ensino de História Antiga, as histórias em quadrinhosde Asterix fornecem material para o desenvolvimento de conceitos históricos, podem ser usados para ilustrar informações textuais e visuais da vida social de comunidades passadas. . Asterix foi criado por René Goscinny (escritor) e Abert Uderzo (desenhista). A primeira aparição do personagem foi na revista francesa Pilote em 1959, e sua primeira história em quadrinhos foi publicada em 1961, com o título de Astérix le Gaulois (Asterix, o gaulês). As histórias em quadrinhos e Asterix ocorrem no período da República romano, no ano de 50 a.C., e tem como contexto histórico conquista da Gália, por Júlio César. Os quadrinhos produzidos por René Goscinny e Albert Uderzo remetem a Roma Antiga, e permitem debates e questionamentos conceituais nas aulas de História Antiga. Nos Álbuns, Asterix, o Combate dos chefes; Asterix, o domínio dos deuses; Asterix, o gaulês; Asterix, o legionário; Asterix nos Jogos Olímpicos é possível problematizar os conceitos de Estado, Império, aculturação e expansionismo, civilização, barbárie e cidadania romana e romanização. Essas Histórias podem ser utilizas para debater o conteúdo da Roma Antiga para o 6.º ano do Ensino Fundamental II, como, servir de ponto de partida para discussões conceituais importantes presentes na disciplina, e conforme Vilela explica algumas HQs, “têm como fonte de inspiração, culturas e civilizações que existiram na antiguidade, podendo se constituir num excelente ponto de partida para debater e questionar conceitos” (VILELA, 2016, p. 110). Outra maneira de utilizar as HQs de Asterix na sala de aula é analisando como registros da época que foram produzidas. Pois, toda obra de ficção histórica fornece mais elementos com seu período de produção em que a época pretende representar. Nas Histórias em quadrinhos de Asterix não são diferentes, encontramos nas histórias, informações a respeito da época que foi produzida e elementos culturais da sociedade contemporânea. Vilela salienta que no álbum Asterix entre os bretões são possíveis encontrar informações que remetem a símbolos e costumes da Inglaterra do século XX. A carroça de dois andares (alusão aos ônibus de dois andares muito comuns nas ruas de Londres); o quarteto de bardos bretões que arranca gritos e suspiros das jovens bretãs (que são, nada mais, nada menos, os Beatles caricaturados); o fato de os bretões “ falarem ao contrário” colocando os adjetivos sempre antes dos substantivos (as “romanas patrulhas); e de 59 interromperem os combates com romanos para tomarem “quente água”, uma brincadeira com o hábito inglês da hora do chá. (Ibidem, p. 112) Os anacronismo presentes nas histórias em quadrinhos de Asterix podem ser aproveitados no Ensino de História, pelo próprio fato de proporcionar aos estudantes exemplos para compreenderem a noção de anacronismo. Dessa maneira, cabe ao professor mediar à leitura das histórias quadrinhos, chamando atenção para os anacronismos presentes na obra, assim, como aponta Vilela, “os ‘erros’ podem servir como ponto de partida para informações historicamente corretas, contribuindo para construção do conhecimento.” (Ibidem, p. 121). Ou seja, cabe ao professor informar para os alunos que as histórias em quadrinhos, analisadas durante atividade educacional proposta pelo docente, refletem mais o tempo que elas foram produzidas, que o período que propriamente propôs a discutir, e são obras de ficção, não tendo responsabilidade de ser fidedignos aos acontecimentos históricos por ele abordados, evitando assim, que o aluno tome a obra utilizada como algo condizente com a realidade. Além disso, é importante à identificação do material adequado para cada turma, pois sabemos que as histórias em quadrinhos são uma linguagem autônoma, que existem vários gêneros para diferentes públicos, faixas etárias e que são publicados de diferentes maneiras. E ao utilizar as HQs na sala no ensino de História, é interessante que o professor procure aplicar atividades diversas: leitura da obra; analise e interpretação dos signos presentes nas histórias em quadrinhos; discussão conceitual; estimular os alunos a produzir suas próprias histórias em quadrinhos sobre as problemáticas discutidas durante aula. As possibilidades dos quadrinhos na sala de aula A aplicação das histórias em quadrinhos enquanto consolidação do conteúdo abordado na sala de aula pode ocorrer de diversas maneiras e práticas. No primeiro momento, antes da realização da atividade com as HQs, podem ser usado o livro didático ou outros textos complementares para aprofundar os conceitos e os fatos históricos presentes nas revistas. Em seguida, podemos entregar as revistas em quadrinhos selecionados para cada grupo composto de cinco integrantes. Os grupos irão fazer as leituras dos quadrinhos apontando os fatos históricos e os conceitos presentes na obra. Outra experiência possível de atividade, é utilização de fotocopiadora( optamos por esse recurso devido a sua praticidade). Essa atividade tem por finalidade reproduzir os quadrinhos com os balões apagados e propor para os alunos criem os diálogos baseados nos conteúdos discutidos na aula. Como destaca Pereira: Neste recurso, foram contemplados balões preenchidos de forma incompleta e balões totalmente vazios, tendo o aluno que procurar a informação, nas 60 páginas indicadas em cada uma das Bandas Desenhadas, de forma a preenchê-los. Esta BD apresentava ainda balões por preencher, que não apelavam ao conhecimento histórico dos alunos, mas à sua criatividade ( PEREIRA, 2017, p. 64) A partir da produção das histórias em quadrinhos, pode ser instalado um acervo, Gibiteca Escolar, um espaço destinado ao armazenamento e leitura das histórias em quadrinhos (NOGUEIRA, 2015, p 90). O acervo pode conter as histórias em quadrinhos produzidos pelos próprios alunos ou recolhidas em bancas de revistas, ou sebo. Os professores podem programas visitas periódicas ao espaço, com objetivo de promover debate ou leitura individual e compartilhada. Uma forma de prática de realizar leitura compartilhada das histórias em quadrinhos é selecionar alguns alunos para interpretar os personagens das revistas. Cada estudante selecionado fica incumbido de ler as falas, como se estivesse interpretando uma peça de teatro, e caso a história tenha um narrador, um dos alunos podem ficar encarregado de ler as legendas (VILELA, 2019, p. 83). A seleção dos alunos para participar atividade, pode ocorrer por meio de sorteio, para evitar o questionamento que determinado aluno foi favorecido na atividade. Posteriormente, o professor poder ser feito um revezamento entre os alunos em uma atividade semelhante. Sendo assim, como destaca Vergueiro, não existem regras para utilização das HQs, “o único limite para seu bom aproveitamento em qualquer sala de aula é a criatividade do professor e sua capacidade de bem utilizá-los para atingir seus objetivos” (VERGUEIRO, 2016, p. 26). Ou seja, os limites do emprego dos quadrinhos em sala de aula, são os limites da criatividade de cada professor. Considerações finais As histórias em quadrinhos são ferramentas ricas em conteúdo, e podem para ser utilizadas no Ensino de História Antiga, contribuindo para dinamização da aula e renovação do processo de Ensino-aprendizagem. Partindo das percepções discutidas no trabalho, temos que compreender as HQs como um instrumento educacional de potencial abrangente, que permitem, com seu uso, as integrações entre as diferentes áreas do conhecimento e mídias, possibilitando nas instituições educacionais, um trabalho interdisciplinar e com diferentes habilidades interpretativas. Logo, podemos perceber que as histórias em quadrinhos, são mais uma ferramenta pedagógica para usa na sala e podem tornar cada vez mais difundidas na medida em que seu uso e aceitação estejam presentes no cotidiano das intuiçõeseducacionais. REFERÊNCIAS BITTENCOURT, Circe. O ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2004. 61 BRANDÃO, Daniel. A linguagem dos quadrinhos. In: NETTO, Raymundo; VERGUEIRO, Waldomiro. Coleção Quadrinhos na Sala de Aula: estratégias, instrumentos e aplicações. Fortaleza, CE: Fundação Demócrito Rocha, 2018, p. 33 – 48. EINSER, Will. Quadrinhos e Arte sequencial. São Paulo: Msrtins Fontes, 2012. FONSECA, Selva Guimarães. Didática e prática de e história: Experiências, reflexões e aprendizagem. Campinas, SP: Papirus, 2003. MCCLOUD, Scott. Desvendando os quadrinhos. São Paulo: Makron Books, 1995. NOGUEIRA, Natania A. S. Gibiteca: possibilidade de criação e uso no trabalho pedagógico com crianças, jovens e adultos. In: NETO SANTOS, Elydio dos; SILVA, Marta Regina Paulo da (orgs.). Histórias em Quadrinhos e práticas educativas: os gibis estão na escola, e agora?. São Paulo: Criativo, 2015, p. 89 – 101. SOUZA NETO, Ensino da História Antiga e arte sequencial: Esboços introdutórios. In: BUENO, André; ESTACHESKI, Dulceli.; CREMA, Everton (orgs.). Para um novo amanhã: visões sobre aprendizagem histórica. Rio de Janeiro/União da Vitória: Edição LAPHIS/Sobre Ontens, 2016. PAIVA, Fábio. Histórias em quadrinhos na educação. Salvador : Quadro a Quadro, 2017. PEREIRA, Juliana Martins. Banda Desenhada e o Cartoon no processo de ensino-aprendizagem de História e Geografia. Porto, 2017. 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São Paulo, Contexto, 2019, p. 73 – 102. 62 AS NOVAS TECNOLOGIAS COMO MAIS UM INSTRUMENTO PARA A EDUCAÇÃO PATRIMONIAL* Ana Carolina Pereira A tecnologia da informação passou por um rápido processo de transformação a partir do segundo decênio do século XX. Neste período, novos mecanismos de transmissão de dados foram difundidos (como o telefone e o rádio) e outros foram criados (como a televisão e o computador). Estes dispositivos mudaram a geração, o armazenamento, o processamento e a transmissão dos conhecimentos, consequentemente alterou os processos comunicativos, econômicos, pedagógicos, legais, da percepção da realidade, entre outros aspectos sociais e antropológicos. Tais inovações ajudaram a fomentar uma estrutura social diferente daquelas que anteriormente havia existido, pois permitiram que as pessoas interagissem umas com as outras por meio de equipamentos que instituem o contato fora da esfera material, de uma realidade palpável, ou seja, passou-se a utilizar recursos tecnológicos que permitiram a sociabilidade a partir do ambiente virtual. Este pode ser entendido como um ambiente artificial criado pelos aparelhos que possibilitam a difusão da informação, para Pierre Lévy, “real” e virtual não são categorias polarizadas, porque o segundo só se realiza devido à existência do primeiro. O conceito de virtual, para o autor supracitado, estaria ligado à “mutação da entidade espaço” e às realidades particulares que são geradas em dimensões que prescindem de lugar físico, de limitações específicas, de fronteiras, pois é possível estar presente em vários locais do planeta ao mesmo tempo, o que gerou um encurtamento das distâncias geográficas e uma liberdade maior para a formação, como também para a reorganização, dos arranjos sociais. Assim, pode-se dizer que “é virtual toda entidade ‘desterritorializada’, capaz de gerar diversas manifestações concretas em diferentes momentos e locais determinados, sem, contudo, estar ela mesma presa a um lugar ou tempo em particular” [LÉVY, 2009, p. 47]. A partir dos equipamentos tecnológicos virtuais as pessoas puderam, portanto, experienciar uma relação inédita de tempo e espaço, uma vez que a rede de computadores modificou as antigas formas de se comunicar e ao mesmo tempo criou outras (passou-se a poder enviar, bem como criar, dados independentemente da localidade e de maneira instantânea). Com a intensificação dos usos dos recursos tecnológicos informacionais em diversas esferas (como na educação, na comunicação, nas relações interpessoais, na cultura, na política e em outros “espaços antropológicos” [LÉVY, 2009, p. 129]) surge o que Manuel Castells [1999] denominou de “sociedade em rede”, nesta a “cultura da virtualidade real” e a economia da informação de caráter global (tal organização financeira e comunicacional, segundo o mesmo autor, surgiu a partir da década de 1970) mudaram as estruturas sociais em detrimento das disposições tradicionais (família, Estado, fragmentação dos movimentos sociais, entre outras) e a dimensão tempo-espacial. 63 Os novos arranjos da sociedade, para Castells, estariam baseados no pluralismo cultural interdependente e o ambiente virtual, por conseguinte, ampliou os usos da linguagem o que modificou as estruturas sociais (criando identidades cibernéticas individuais e/ou grupais a partir da criação de um léxico e símbolos próprios, fazendo surgir inéditas trocas simbólicas, etc.), engendrando, consequentemente, uma cultura cujas práticas, formas de se expressar e valores são reproduzidos na esfera informacional, mas não se restringindo a ela, porque se percebe comportamentos típicos do campo computacional serem utilizados no âmbito das relações estabelecidas no “real”. Devido a este fator ao alocar um determinado dado na internet quase que de maneira instantânea as pessoas conectadas ao ambiente virtual podem acessar essa informação, promover discussões acerca dela, transformá-la em conhecimento, divulgá-la para outros usuários do ciberespaço [LÉVY, 2009, p. 17], como também para os demais veículos de comunicação (rádio, televisão, jornal, etc.). O ciberespaço, portanto, modificou o acesso às informações, pois ele é um suporte novo, ou melhor, uma interface interativa que faz a mediação entre o usuário, a pesquisa e/ou a inserção de novos de dados na rede. Como a disposição destes na internet se dá de maneira difusa e os sistemas digitais mudam sua configuração com grande velocidade e de maneira perene, Lévy ressalta que a educação precisa ressignificar seu “modus operandi”, uma vez que a democratização do acesso às referências que fomentam o saber e a rápida mudança tecnológica modificaram a forma como o conhecimento é construído, como também o formato como ele é socializado. Devido a tais mudanças o modelo tradicional de ensino, na concepção do autor, deve ser questionado, suas práticas repensadas e os sistemas virtuais de aquisição e de edificação do conhecimento compartilhados [LÉVY, 2009, p.17] devem ser estimulados, pois as “tecnologias intelectuais” ampliaram [LÉVY, 1999], como também modificaram as funções cognitivas dos indivíduos. E estes “[...] aprendem cada vez mais fora da esfera acadêmica, cabendo, assim, ao sistema de educação implantar procedimentos de reconhecimento dos saberes e do savoir-faire adquiridos também no âmbito social e profissional” [LÉVY, 2009, p.175]. Com o surgimento do ciberespaço, portanto, novos estilos de aprendizagem foram e devem ainda ser criados, possibilitando que a construção de uma “inteligência coletiva” [LÉVY, 1998. p. 28] seja negociada, construída conjuntamente, organizada nos ambientes virtuais de maneira democrática e partilhadapara o maior número de usuários. A disseminação de ideias e as interações virtuais que as multiplicam - como também que as transformam em outros projetos, criações, representações mentais e conceitos possíveis - na concepção de Pierre Lévy são características da contemporaneidade que a rede mundial de computadores instaurou, pois esta tornou as relações sociais impessoais, circunscritas a um espaço não físico e muitas vezes restrito a alguns instantes de tempo ínfimos produzindo o que Manuel Castells denominou se “cultura da virtualidade real” [CASTELLS, 1999, p. 398]. Esta foi definida pelo autor 64 supracitado como um sistema no qual a realidade material e simbólica que as pessoas produzem passa a ser exercido em um ambiente virtual, no qual se constrói representações e valores que muitas vezes possuem significados apenas na rede de computadores que possui um âmbito intemporal (sem referência de antanho, presente e futuro porque todos eles se fundem nos textos interligados uns aos outros, no hipertexto) e espaço fluido. A “era da informação” provocou, portanto, mudança no comportamento sociocultural, consequentemente o processo educacional também passou por uma reestruturação. Quando se fala em ações educacionais voltadas para Patrimônio Cultural as ferramentas pedagógicas que normalmente são utilizadas durante o processo de aprendizagem - seja em sala de aula, em ambientes não formais ou em espaços informais de ensino (esse três sistemas educacionais são intercomunicantes, para Libâneo [2010, p.92] o que os diferencia é o intuito que para esse autor são processos de aprendizagem na qual a não- intencional equivale à informal e aquela que é intencional que poderia ser desmembrada nas formas formal e não formal) - ficam circunscritas a rodas de discussões, ao trabalho com cartilhas, na elaboração de maquetes, de exposição fotográficas e de desenhos. A formulação, assim como a utilização de materiais, cujo suporte seja virtual, isto é, que usa “[...] as tecnologias digitais (TDs) [pois elas] têm impulsionado mudanças e transformações significativas, vinculadas aos processos de ensinar e de aprender [...]” até o momento parecem ser pouco explorados para se promover atividades que contemplem a valorização e a difusão dos conteúdos relacionados aos bens culturais [SCHLEMMER; FROSI, p. 115]. Na esfera governamental, por exemplo, os órgãos de proteção - seja nos municípios, nos estados ou na União - as tentativas de recursos didáticos que utilizam plataformas digitais e/ou virtuais ainda se mostram insipientes. Como forma de aproximar o aluno da teoria patrimonial, como também romper com a concepção da escola reprodutora de conhecimentos estabelecidos nos currículos oficiais, desenvolver materiais que permitam a interatividade e consequentemente a colaboração entre os alunos, tanto quanto destes com os professores por meio das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC’s), se faz necessário. As TIC’s como suporte para um material pedagógico proporcionam intercâmbio de informações de maneira rápida (muitas vezes em tempo real), permitem que um grande número de pessoas tenha acesso aos conteúdos produzidos em diversas esferas sociais (universidades, institutos de preservação, etc.) e tornam ambientes de discussões acerca de um determinado assunto mais acessível a setores sociais que antes ficavam à margem das reflexões acerca dos conhecimentos, principalmente os acadêmicos. Tendo, portanto, em vista tais potencialidades que as TIC’s oferecem eles promoveriam um ambiente propício para empreender ações educacionais abordando-as de maneira lúdica os conceitos relativos à teoria patrimonial, os preceitos de proteção, de salvaguarda e de gestão colaborativa definidos na Constituição Federal, como também os que estão inscritos nas Convenções Internacionais das quais o Brasil é signatário. 65 Deve-se levar em consideração que significativa parcela da população brasileira ainda não tem acesso aos equipamentos e às informações que permitem usar as novas tecnologias digitais. As escolas - em muitos municípios - ainda são os principais locais onde se consegue usar computadores e ter acesso à internet, logo a ferramenta didática a ser pensada para a difusão patrimonial deve ser desenvolvida para usos principalmente nos computadores dos laboratórios de informática escolares, pontos de culturas ou qualquer outra localidade que possibilite acesso gratuito e amplo para o público em geral. Os ambientes de informática escolares, em especial, deveriam ser utilizados como espaços capacitadores, nos quais os alunos possam aprender a utilizar conjuntamente os materiais tradicionais (os livros, os paradidáticos, as revistas, os jornais, as fotografias, os Cd’s e DVD’s, os objetos antigos, as pinturas, as enciclopédias e os almanaques, a televisão, entre outros) e as TIC’s para realizar pesquisas, para produzir conteúdos e para avaliar de forma crítica as informações contidas em ambos os formatos. O ambiente escolar deveria, também, proporcionar aos alunos - assim como à sociedade em geral - acesso aos conhecimentos referentes ao manuseio dos recursos das tecnologias mais recentes, diminuindo, dessa forma, a “exclusão digital” [UNESCO, 2008] gerada não somente pela falta de equipamentos, mas também pela falta de informação acerca de como empregar os sistemas e as funções das TIC’s nos diversos âmbitos sociais. As Novas Tecnologias de Informação de Comunicação (TIC’s) permitem maior acesso aos saberes e possibilita a aprendizagem de múltiplas competências pelos diversos segmentos da sociedade, assim elas também proporcionam ao educando “[...] buscar, avaliar, usar e criar informações de forma efetiva para atingir seus objetivos pessoais, sociais, ocupacionais e educacionais. [E] Este é um direito humano fundamental no mundo digital e promove a inclusão social [...]” [UNESCO, 2008]. Durante uso das TIC´s para promover ações educacionais o professor/mediador deve atuar como um facilitador do processo cognitivo, pois ele aprende com os alunos e estes com o educador, ou seja, é um movimento dialógico [FREIRE, 1983]. Estes dois agentes, portanto, tornam- se corresponsáveis pelo trabalho de construção de um ensino reflexivo, questionador, investigativo, participativo e com cooperação. Ao utilizar as TIC’s o docente deve instigar a curiosidade dos educando, valorizar as habilidades das demais pessoas envolvidas no processo, como também tentar aproximar aos conteúdos curriculares com o cotidiano dos educandos (deixando-os com maior significado para possível aplicação em suas vivencias diárias). Ao trabalhar com as TIC’s o professor deve ajudar na seleção, na decodificação e na absorção do conteúdo das mensagens, pois em uma simples consulta nos sites buscadores - também denominados páginas de pesquisa - existentes na internet o aluno é direcionado a um número enorme de websites que muitas vezes possuem dados contraditórios, 66 incorretos, falseados e sem referência de autoria. Segundo François Marchessou [1997, p. 15]: “[...] excesso nas mídias, onde as performances tecnológicas e o consumo de informação submergem, “anestesiam” a capacidade de análise dessa informação e de reflexão tanto individual quanto social. Saturação e superabundância ameaçam o navegador da internet que, como certas pesquisas mostram, não tira partido das riquezas de informação pertinente, não estando formado para ir diretamente ao essencial”. Sem a ajuda do docente/mediador, portanto, a aprendizagem pode se tornar confusa, a aquisição de saberes se converter em processo difícil devido ao imenso número de sítios listados para consulta. E os dados alocados na internet são dispostos de maneira a permitir uma leitura não linear, ou seja, são interligados a partir da hipertextualidade que por ser uma teia labiríntica e entrelaçada de informações precisa daajuda do professor para triar os dados relevantes para um determinado contexto de aprendizado. Para Pierre Lévy [1998, p.17]: “A mediação digital remodela certas atividades cognitivas fundamentais que envolvem a linguagem, a sensibilidade, o conhecimento e a imaginação inventiva. A escrita, a leitura, a escuta, o jogo e a composição musical, a visão e a elaboração das imagens, a concepção, a perícia, o ensino e o aprendizado, reestruturados por dispositivos técnicos inéditos, estão ingressando em novas configurações sociais”. Mediação seria a um esforço entre professor e aluno para construir o conhecimento juntos, rompendo a relação vertical entre eles, ou seja, docente como detentor do conhecimento e educando como receptor passivo. O mediador deve estimular, orientar, planejar a melhor estratégia para se obter uma informação, pois ele possui maior prática social, conhecimento, experiência e se tornou especialista em educação. Tal desnível psíquico-pedagógico deve ser explorado para formar parcerias, para aprendizagem mútua e contínua, uma vez que cada indivíduo que está no processo de estruturação do saber contribui com os demais por possuírem vivências, características e interesses diferentes. Na contemporaneidade, as tecnologias podem fornecer suporte para o professor na formação de alunos críticos e criativos, mas não pode substituir a figura do educador, para tal a mediação deve ser usada a fim de incentivar a construção de habilidades necessárias à formação de pessoas que tenham estreita relação com seu entorno, como seu contexto histórico, com sua cultura, em outras palavras que exerçam os deveres que possuem e usem os direitos que lhes são conferidos de maneira que busquem o bem estar coletivo e uma postura cidadã. As TIC’s devem ser empregadas em sala de sala, portanto, com o intuito de tentar compreender as realidades diferentes, de trocar experiências, de empreender a cooperação, assim como novas formas de pensar e aprender integrando os currículos com as demandas sociais e interesses de aquisição de conhecimento do alunado. Logo: 67 “[...] É preciso pensar como incorporá-la no dia a dia da educação de maneira definitiva. Depois, é preciso levar em conta a construção de conteúdos inovadores, que usem todo o potencial dessas tecnologias. A incorporação das TICs deve ajudar gestores, professores, alunos, pais e funcionários a transformar a escola em um lugar democrático e promotor de ações educativas que ultrapassem os limites da sala de aula, instigando o educando a enxergar o mundo muito além dos muros da escola [...]” [RAMOS, 2016]. Abordar as questões patrimoniais com o auxílio das TIC’s pode aproveitar melhor a dinamicidade do aluno contemporâneo e promover um processo de ensino-aprendizado mais lúdico e consequentemente tornar informações aprendidas em conhecimentos duradouros, aplicáveis nas relações sociais, no dia a dia. As TIC’s podem ajudar também na disseminação das informações acerca dos bens culturais - sejam protegidos oficialmente ou não - dos locais que os alunos possuem sociabilidade, promover a aquisição de informações referentes à proteção, à conservação, à salvaguarda, à escolha, aos usos e à difusão do Patrimônio Cultural, pois como versou Roger Callois [1990], as ações que contém ludicidade são “meios privilegiados” para se conhecer costumes, tradições, hábitos, percepções de uma sociedade, pois é por intermédio delas que normalmente se manifestam, porque o que é lúdico possui uma dimensão socializante uma vez que a maioria delas são praticados coletivamente. Assim, partir da Educação Patrimonial é possível fazer uma reflexão acerca das versões que tratam das rupturas, das permanências, das lutas que se processaram na cidade, bem como dos discursos que instituíram as origens, os personagens, que justificou a instituição de um monumento e acerca da forma como a seleção patrimonial se deu em uma determinada localidade. Assim, tal trabalho pedagógico ajuda a questionar se os bens preservados possuem valor para a maior parte dos habitantes, para diversos grupos sociais ou se foram escolhidos apenas para comunicarem a ideologia de um conjunto de pessoas que estava no poder no momento em que foram reconhecidos como elementos de relevância patrimonial e como o esquecimento de outros artefatos repercutiu ou não nos discursos que justificavam tais escolhas. Segundo Crosara: “A educação para o patrimônio cultural, enquanto fonte de conhecimento e enriquecimento individual, busca levar as pessoas a um processo ativo de apropriação e valorização de uma tradição, de uma herança cultural que, juntamente com outras tradições locais, compõe uma identidade local e nacional. É indispensável, para a preservação sustentável de seus bens, o conhecimento e a apropriação do seu patrimônio. Esse conhecimento e apropriação também são indispensáveis para o fortalecimento dos sentimentos de identidade e cidadania. A sociedade que não reconhece e não se apropria de seu patrimônio, tem seus valores enfraquecidos. Sua participação na construção e fortalecimento de seu patrimônio cultural garante a sensação de pertencimento. O reconhecimento desse patrimônio, seja ele local, regional ou nacional, é 68 fonte inesgotável de aprendizado e enriquecimento, tanto do indivíduo, quanto da sociedade na qual ele está inserido” [CROSARA, 2011, p. 59]. A Educação Patrimonial juntamente com as TIC’s podem favorecer, portanto, o exercício crítico da cidadania, pois dependendo da maneira como forem realizadas salientarão a necessidade da participação da sociedade na gestão dos bens culturais junto com os órgãos competentes. Ajudarão a colocar em evidência os artefatos patrimoniais, os direitos à cultura, à cidade, à memória, ao conhecimento, bem como poderão trabalhar a importância em se reconhecer a diversidade cultural, ou seja, contribuirão para o fortalecimento da democracia, pois auxiliarão a construir uma série de posturas diante do contexto no qual se inseri, a desenvolver a tolerância, o respeito adiversidade, a cooperação e a busca do bem comum, ou seja, do interesse coletivo. Referências: Ana Carolina Pereira é mestre pelo Programa de Mestrado Profissional em Patrimônio Cultural, Paisagem e Cidadania da Universidade Federal de Viçosa (UFV) Bibliografia CAILLOIS, Roger. Os jogos e os homens. Lisboa: Cotovia, 1990. 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Ao apresentar esse texto buscou-se colocar em debate as novas possibilidades de se utilizar os recursos tecnológicos em sala de aula, evidenciando que para além de um recurso didático, o podcast, também possibilita ao professor(a) a produção de conteúdo em formato de áudio utilizando o ensino híbrido ( blended learning) em sua prática pedagógica. De acordo com Jörn Rüsen (2001) no âmbito dos princípios do pensamento histórico há um ponto em que as funções da historiografia se referem aos interesses do conhecimento histórico e que se manifestam na contemporaneidade como uma inquietação por mudança, uma vez que o conhecimento histórico é posto em movimento pelas problemáticas da contemporaneidade. Dessa forma, novos interesses surgem das carências de orientação de homens e mulheres no tempo propiciando que novas questões sejam elaboradas pelos historiadores que produzem novas representações do que é histórico na experiência com o passado. Neste contexto, à luz das discussões levantadas por Jörn Rüsen (2001), procurei fundamentar minhas reflexões a partir das problemáticas do tempo presente, no contexto, da cultura digital e de suas implicações para o ensino de História. De modo que como professora-historiadora, que atua diariamente em sala de aula e convive com os hábitos e comportamentos dos alunos, pude observar como a dinâmica da cultura digital têm transformado as redes de sociabilidades dessas crianças e jovens, bem como tem resultado em novas formas de acesso as informações, principalmente quando se trata das redes sociais que se tornaram o lugar privilegiado para acesso a informações e para entretenimento. O conhecimento histórico está na rede circulando pela web em sites e redes sociais de diversas formas, sendo reconstruído e recontado, o que por sua vez gera inúmeros impactos na consciência histórica dos alunos, o que implica em reconhecer o papel das mídias na circulação da História na sociedade (RÜSEN, 2006) e com isso buscar compreender o modo como esses discursos que circulam na web afetam a forma como nossos alunos apreendem História, bem como esses recursos tecnológicos podem ser usados a nosso favor para uma aprendizagem significativa. Práticas Digitais entre crianças, jovens e professores no Brasil Nas últimas décadas a educação tem sentido os impactos das transformações tecnológicas na sociedade, a cada ano as mudanças se tornam mais rápidas e intensas, sobretudo, porque a geração de crianças e 71 jovens na sala de aula estão imersos nas práticas digitais, vivenciando uma cultura dual (CHARTIER; LAS HERAS, 2001) entre a cultura escrita e a cultura digital. Crianças e adolescentes têm integrado cada vez mais práticas digitais em seus cotidianos, principalmente pelo barateamento de celulares como smartphones e do acesso à internet 3G e 4G, favorecendo então, a sua imersão na produção e disseminação da cultura digital. Segundo a pesquisa TIC Kids Online (2018) , cerca de 86% das crianças e adolescentes, entre 9 e 17 anos, em 2018, eram usuários ativos da internet. Os professores, por sua vez, são os agentes mais impactados pelas consequências dessa nova realidade, principalmente pela questão geracional, falta de infraestrutura e suporte pedagógico para sua formação. De qualquer forma, se no final do século XX um dos principais problemas do Brasil para atingir uma educação de qualidade era combater o analfabetismo e promover a valorização profissional docente. No século XXI, se somam a eles e ao cotidiano dos professores as problemáticas que advêm do universo tecnológico e em como integrar essas tecnologias digitais em suas práticas pedagógicas. Segundo a pesquisa TIC Educação (2018) os professores do Brasil têm superado esses desafios buscando apoio na internet para utilizar as tecnologias digitais em sala de aula através de vídeos ou podcast com tutoriais on-line . Neste contexto, tanto vídeos como podcast têm se tornado ferramentas para aprendizagem de professores e dos seus alunos, demonstrando então, que as tecnologias estão sendo integradas ao universo dos professores e dos estudantes. Uso das mídias no ensino de História As mídias na sociedade sempre exerceram uma função importante para as mudanças sociais, muitas vezes atuando como forma de dominação das massas através do poder da comunicação ou ainda como aglutinadora da voz da população em prol de um benefício comum. Segundo Peter Burke e Asa Briggs (2002) o conceito de mídia surgiu no século XX com o rádio, cinema e televisão. Neste sentido, o conceito de mídia passou a significar toda forma de comunicação verbal, não verbal, sonora ou escrita, possibilitando que pesquisas de outros tempos históricos pudessem ser pensadas e revisitadas utilizando esse conceito. A prensa gráfica na Europa Moderna, por exemplo, permitiu o surgimento da mídia gráfica revolucionando não apenas a escrita com os livros, mas também estimulando a construção de um sistema de comunicação de mensagens para a população através da imprensa. As mídias, então, sejam as tradicionais ( impressa, cinema, rádio e televisão) exercem um papel fundamental na produção material e simbólica das sociedades ao longo dos tempos, compreendendo-as como um importante lócus de mobilização popular e de opinião pública. 72 A História, neste contexto, buscou também se apropriar das mídias para compreender como os fatos ocorreram no passado e como se desdobraram no tempo presente. Historiadores por muito tempo tiveram na mídia impressa e oficial sua única fonte legítima de comprovação.Todavia, no século 20 com o movimento dos Annales e com os avanços tecnológicos outras fontes foram sendo incorporadas ao discurso histórico como: os registros do rádio, cinema, televisão e nos últimos anos as fontes digitais (RODRIGUES, 2019). Durante os anos de 1990 a internet através dos seus protocolos fez com que a informação chegasse a word wide web e as suas páginas demodo instantâneo, conectando os centros de pesquisas, arquivos, bibliotecas e universidades do mundo. O conhecimento poderia ser transmitido no ciberespaço, circulando e alimentando os conteúdos da rede. A grande capacidade de armazenamento da memória possibilitou que pela linguagem básica de 1s e 0s bits toda uma produção material e imaterial da humanidade fosse digitalizada em ambiente virtual. As bibliotecas, arquivos e museus têm gerado uma grande massa de informações e conhecimentos, bem como a digitalização de seus acervos engendraram uma nova categoria de fontes históricas para os historiadores, os documentos digitais e os born digital (ARÓSTEGUI, 2006; ALMEIDA, 2011), são aqueles que “nascem” da web, como as mídias sociais ( redes sociais, blogs e os mais variados sites da web). As mídias sociais contribuíram então para modificar esse cenário ao reorganizar a comunicação humana por meio da cultura digital. Os telespectadores das tradicionais mídias se tornaram produtores de conteúdos e produtos para a web e seus mercados. No ensino de História as fontes escritas tradicionalmente têm sido utilizadas pelos professores em suas aulas de História. Encontramos documentos escritos e imagens (ilustrações, gravuras, pinturas e fotografias) utilizados como recursos didáticos em livros didáticos ou em coletâneas que selecionam textos escritos de diversas naturezas como: textos legislativos, literários, artigos de jornais, artigos de revistas ou letras de músicas (BITTENCOURT, 2011, p.355). O cinema e os audiovisuais tem sido muito utilizado pelos professores de história, filmes, documentários, séries e novelas de televisão têm sido empregados pelos professores de história, como artefatos culturais, produtos de seu tempo, e que apresentam certa realidade histórica sobre o passado. A música têm se tornado objeto de pesquisa para História e o para o ensino de história, como documento e recurso didático, permitindo a nós professores uma maior aproximação do universo cultural dos jovens, sobretudo, porque as tecnologias digitais possibilitaram o maior acesso a população as músicas que desde os anos 2000 estão sendo disponibilizadas em diversos formatos como MP3, MP4 e em plataformas de vídeos e de músicas como Youtube e Spotify. 73 Neste contexto, surge a mídia podcast (arquivos de áudio) disponibilizados por pessoas, programas de entretenimento e jornalísticos para divulgação de algum conteúdo ao público. Assim, o podcast é uma mídia transmitida via feed RSS (Really Simple Syndication) em que se disponibiliza áudios para download. O conceito de podcast foi atribuído a um ex-vj da MTV Adam Curry, que criou o primeiro agregador de podcast em uma linguagem computacional, o Applescript , disponibilizando conteúdos em áudio através da internet. Sua popularização ocorreu primeiramente através do uso do iPod (SOUZA, 2017), posteriormente vários aparelhos com suporte para MP3 e MP4 surgiram possibilitando o maior acesso da população a esse tipo de mídia. Nos últimos anos com o avanço das tecnologias digitais e o surgimento dos serviços de streaming ( distribuição de conteúdo multimidia pela internet), a mídia podcast têm crescido no Brasil, principalmente entre os jovens. No cenário científico, o podcast têm sido uma importante ferramenta de divulgação científica à população. No Brasil do total de 120 milhões de usuários da internet , cerca de 50 milhões já ouviram algum podcast pela internet. Os jovens são a maioria no uso desse tipo de mídia. Segundo pesquisa do Ibope (2019) a preferência pelo podcast esteve relacionada a suas facilidades e funcionalidades de uso através do celular, sendo o equipamento mais usado pelos brasileiros para o acesso aos podcasts, além disso a possibilidade de escolher aquilo que quer ouvir atrai os jovens. Desse modo, visando então, se aproximar do universo cultural de meus alunos percebi que o podcast poderia ser um recurso didático importante para a aprendizagem em minhas aulas. Utilizando tecnologia na prática pedagógica: o podcast O ensino híbrido tem ganhando força no cenário mundial na última década, como parte das chamadas metodologias ativas, que buscam estimular o protagonismo e autonomia dos alunos para o aprendizado, principalmente dispondo do uso das tecnologias digitais. De modo que, as metodologias ativas não estão fechadas em um único significado e buscam desafiar os alunos com práticas de investigação que os levem a soluções de problemas da vida prática (MORAN, 2013). Não podemos esquecer que Paulo Freire (2009) já advogava em favor de uma educação que levasse em conta o protagonismo dos alunos em suas aprendizagens, sobretudo, através de suas experiências, isto é, que suas histórias estivessem conectadas aos seus estudos propiciando assim um significado para suas vidas. Na esteira dos estudos de Paulo Freire, nas últimas décadas no campo do ensino da História buscou-se também estimular a autonomia e protagonismo dos alunos em suas aprendizagens em História, valorizando o conhecimento prévio dos estudantes diante das suas variadas realidades socioeconômicas. (BITTENCOURT, 2011; CERRI, 2011, RAMOS, 2012; MONTEIRO et al, 2007; SCHMITD, CAINELLI, 2004). Nesse sentido, o ensino híbrido ( blended learning) é uma forma de combinar (mixar) aprendizagens que ocorram em sala de aula (offline) com práticas que sejam na internet (on-line) buscando a complementariedade dessas ações, objetivando a autonomia e o senso de responsabilidade dos alunos em relação a sua aprendizagem. Com isso, ao buscar compreender 74 os gostos, opiniões, hábitos e comportamentos dos alunos do 9º ano do ensino fundamental II, pude me deparar com esse novo universo cultural que advém da cultura digital, onde surgem práticas digitais configuradas pelas tecnologias e pelas novas funcionalidades do uso dessas ferramentas. Sendo assim, o professor como investigador social deve aprender a interpretar esse mundo cultural dos jovens, para que mergulhando em seu universo possa compreender e transformar positivamente suas concepções de mundo (BARCA, 2004). A ideia de utilizar o podcast surgiu através de uma conversa com os alunos sobre como os jovens estão mudando seus hábitos em relação a leitura. Muitos me indagaram como era na minha época, contei para eles e disse que sou da geração MP3 dos anos 2000, do começo da popularização das tecnologias e da internet discada no Brasil. No meio da discussão chegamos a debater a quantidade de informações ao nosso redor e sobre as Fake News até que chegamos no podcast. Nesse momento, percebi que a maioria deles já tinha utilizado essa mídia, principalmente para acessar notícias jornalísticas ou informações sobre músicas, séries ou filmes. A partir daí, a ideia foi se materializando e percebi que ao utilizar essa mídia poderia estimular o “ato da escuta” e da oralidade deles visando compreender também como esses jovens nos últimos anos têm aprendido História através da cultura digital. A ideia era de que eles começassem a se apropriar das ferramentas tecnológicas para buscar conhecimento e não como um mero suporte para o entretenimento. Por isso, a prática de ouvir músicas e notícias, poderia ser utilizada também para o estudo da História. No entanto, sabemos hoje da imensa dificuldade de fazer com que nossos alunos leiam e temos consciência que nas ciências humanas a leitura é essencial, sem ela não há interpretação, compreensão e aprendizagem em História. Para isso, a prática de leitura sempre esteve integrada a esse processo de aprendizagem, ela é a base para que os alunos tenham uma aprendizagem de História significativa. Essa experiência de aprendizagem abrangeu um período de 1º bimestre, sendo realizado no 4º bimestre de 2019. Neste contexto, foi trabalhado com os alunos do 9º ano “História do Brasil- Democracia e Desenvolvimentismo (1946-1964),Ditadura Militar (1964-1985), Redemocratização e Brasil Recente”. A professora trabalhou no formato de uma série com 5 episódios lançados a cada 15 dias. Os podcasts foram divulgados para os alunos via rede social WhatsApp por meio de um grupo informal da turma. Neles a professora montou um roteiro com o conteúdo trabalhado em sala de aula. Para produzir o áudio decidi que trabalharia com questões que os alunos tiveram maiores dificuldades ou que não foram aprofundadas em sala de aula. A gravação foi feita utilizando o celular da docente e o aplicativo de gravação de áudio. As músicas foram inseridas utilizando o aplicativo do gravador de voz. Os primeiros áudios tinham duração de 10 a 15 minutos, mas percebi que áudios grandes não eram escutados até o final, então mudei de estratégia e 75 decidi fazer com no máximo 6-7 minutos. Editei os áudios inserindo músicas do período estudado, por exemplo, quando falamos sobre a Campanha de Jânio Quadros para a presidência em 1960 utilizei a música de campanha “Varre, varre, vassourinha”. Esse podcast foi particularmente interessante pelo tipo de discussão que abrangeu a política, o sistema eleitoral brasileiro e as formas de se chegar ao poder, no caso eles relacionaram com a permanência de jingles para campanhas eleitorais até hoje em sua cidade conectando passado e presente. No podcast 3 em que foi tratado sobre Jango e seu discurso na Central do Brasil inseri a gravação original daquele discurso possibilitando que os alunos se transportassem para aquele tempo histórico e pensassem sobre as circunstâncias para o golpe militar de 1964. Outra experiência positiva foi o áudio 4 “ Músicas como forma de resistência à Ditadura no Brasil” em que comecei com a música “Cálice” Chico Buarque e muitos alunos não conheciam esse repertório cultural. Muitos chegaram no dia seguinte com informações pesquisadas em casa sobre as músicas, isto é, o podcast foi importante, pois estimulou sua curiosidade e busca por informações de maneira autônoma, os alunos, neste contexto, são os agentes de sua formação (BARCA, 2004). Essa experiência de aprendizagem utilizando as tecnologias digitais e as novas mídias como o podcast foi enriquecedora, eu como professora consegui me conectar mais aos meus alunos através dessa ferramenta. Todo o processo de produção também foi acompanhado por eles, que me auxiliariam em muitos aspectos, como na edição de músicas. Para os alunos que não tinham acesso ao celular, contei com a colaboração dos outros estudantes. Essa troca de conhecimentos fortaleceu nossos laços e estabeleceu um ambiente de trocas mútuas e respeito entre a professora e os alunos. Portanto, mergulhar no universo cultural desses jovens, aprender com eles e me desafiar produzindo conteúdo foi um estímulo para se pensar novas formas de se usar a tecnologia nas aulas de História. Além disso, o podcast como recurso didático estimulou a autonomia investigativa dos alunos incentivando sua criatividade e imaginação, permitindo que eles se transportassem a outros tempos e lugares. Vejamos, que essa etapa de produção foi realizada pela docente, a meta agora será de realizar essa experiência em forma de oficinas para que os alunos produzam o podcast, seja em formato de séries, radionovelas ou sobre fatos históricos. Conclusões As tecnologias digitais podem abrir um novo horizonte de possibilidades para o ensino de História. Além de ser um novo meio de pesquisa e busca das informações, podemos utilizar inúmeros recursos como fontes digitalizadas, produção de vídeos, podcast, aplicativos sobre história, quiz, jogos e as bibliotecas digitais, que quando inseridas na prática docente podem interferir positivamente no processo de aprendizagem dos alunos. 76 Como vimos, o ensino híbrido demonstrou ser uma forma interessante para estimular os alunos a uma aprendizagem autônoma e responsável, onde eles são os sujeitos de suas aprendizagens. O podcast evidenciou também ser um recurso didático importante que possibilitou a professora trabalhar com a oralidade, o ato de ouvir incentivando a expressão e a comunicação dos alunos em sala de aula. Essas mudanças culturais provocadas pelas mídias e tecnologias geraram sujeitos com novas habilidades e diferentes formas de compreender o mundo. Essas transformações exigiram que nós professores ultrapassemos a visão negativa das mídias e das tecnologias. Para que assim possamos compreender as configurações dessas culturas emergentes e assim estabelecer um diálogo frutífero com nossos alunos (BITTENCOURT, 2011, p.108). Em tempo de pandemia e crise sanitária, nós professores estamos sendo desafiados a utilizar as novas tecnologias e formas de aprendizagem on-line e a distância com nossos alunos. É uma questão muito importante e que merece nossa atenção e reflexão sobre quais caminhos a percorrer e das consequências dessas mudanças para o ensino e aprendizagem dos nossos estudantes. Portanto, esse texto, pretendeu elucidar um caminho possível para se aproveitar as potencialidades das mídias e das tecnologias na educação, não nos esquecendo também de suas contradições. Afinal, pensando em compartilhar minha experiência espero que esse texto possa inspirar outros professores(a) em suas histórias! Referência Ma. Bruna Carolina Marino Rodrigues, professora da rede pública municipal. Graduada em História (2016) e Mestra em História Social (2019) pela Universidade Estadual de Londrina. Pesquisadora das fontes digitais e do ofício dos historiadores na cultura digital. Atualmente têm pesquisado o impacto da desinformação no contexto social brasileiro e as possibilidades do uso da tecnologia na prática pedagógica dos professores de História. Bibliografia ALMEIDA, Fábio Chang. O historiador e as fontes digitais: uma visão da internet como fonte primária para pesquisas históricas. Revista AEDOS, n.8, v.3, 2011. ARÓSTEGUI, Julio. A pesquisa Histórica: teoria e método. Bauru, Sp: Edusc, 2006. BARCA, Isabel. Aula Oficina: do Projeto à Avaliação. In: Para uma educação de qualidade: Atas da Quarta Jornada de Educação Histórica. Braga, Centro de Investigação em Educação (CIED) /Instituto de Educação e Psicologia, Universidade do Minho, 2004. BITTENCOURT, Circe M. Fernandes. Ensino de História: fundamentos e métodos. 4° ed. São Paulo. Cortez, 2011. BURKE, Peter; BRIGGS, Asa. 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A frase se referia a afirmação feita pelo presidente de que o Nazismo, movimento partidário alemão que durante a Segunda Guerra Mundial prendeu e assassinou milhares de judeus, homossexuais, ciganos, negros e ...comunistas, era de esquerda. Seu respaldo comprobatório seria o nome do partido: Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Inserida num contexto global de tensões políticas, sociais e econômicas, a afirmação do líder máximo do Estado brasileiro gerou certo desconforto na sociedade israelense, pois, nesta mesma visita ao Museu, Bolsonaro sugeriu um “perdão” aos crimes hediondos contra os 6 milhões de Judeus durante o Holocausto [O Globo, 2019] É sabido que uma vasta historiografia sobre o fenômeno do Nazismo afirma que o mesmo foi um movimento de extrema-direita e que a opção pelo nome sugestivo do partido fora um instrumento para a adesão popular e uma afronta aos comunistas alemães da época. Na verdade, Hitler, líder máximo do Partido Nazista, nutria um ódio mortal pelos comunistas e o nome de seu partido funcionava como provocação estratégica: Mais do que qualquer outro grupo, os marxistas, ludibriadores da nação, deveriam odiar um movimento cujo escopo declarado era conquistar as massas que até então tinham estado a serviço dos partidos marxistas dos judeus internacionais. Só o título “Partido dos Trabalhadores Alemães” já era capaz de irritá-los [Hitler] Se a historiografia especializada é consensual sobre essa temática [Pragmatismo Político, 2017], e os próprios escritos de Hitler apontam para um desacordo ideológico, por que então nos deparamos hoje com uma discussão sem o mínimo fundamento científico ou histórico? Evidentemente que estamos tratando, sobretudo, de uma discussão política e ideológica, mas que não é mundial. A historiografia alemã, por exemplo, não se preocupa com a natureza ideológica do Nazismo, visto que já foi suficientemente demonstrada; mas, antes, com a natureza de sua existência na Alemanha da primeira metade do século XX. “Nazismo de esquerda” parece figurar uma disputa ideológica e simbólica somente brasileira [Uol, 2018]. Essa simplória incursão introdutória nos orienta como rastro sintomático de uma possível crise sobre o conceito de verdade no mundo contemporâneo, que inevitavelmente atinge diversos setores da vida cotidiana e, sobretudo, neste caso, a interpretação histórica sobre eventos importantes. Além disso, é patente que a difusão cada vez mais constante de informações e notícias 80 falsas esteja influenciando também o processo de ensino-aprendizagem e ainda a relação professor-aluno-escola-família, uma vez que o conflito ideológico brasileiro perpassa por diversos âmbitos da vida comum [Correio Brasiliense, 2018]. Agentes políticos como o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Movimento Escola Sem Partido estão cada vez mais em evidência no Brasil com uma espécie de revisionismo histórico e uma luta cega contra a “doutrinação comunista” nas escolas, protagonizando polêmicas conceituais e difusão de notícias falsas [O Globo, 2018], como “Nazismo de esquerda” e “Ideologia de Gênero”. Além disso, cada vez mais jornalistas acendem na discussão pública falando sobre história de maneira deliberada. O tal Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, escrito pelo jornalista Leandro Narloch, é uma das expressões mais cabais da vulgarização da história, pois trata de temas históricos polêmicos de forma sensacionalista e equivocada, aquém do rigor metodológico e científico da historiografia especializada [Narloch, 2009]. No que nos interessa a discussão em torno das assim chamadas Fake News, será tratada aqui como um problema social agudizado pelas novas redes digitais e também como instrumental para um ensino crítico de história que deve ter sua primazia pautada na pesquisa e análise das fontes, passadas e do tempo presente. Fake News: problema social de longa data Os termos “Fake News” e ”pós-verdade” ganharam atenção especial pelo mundo a partir de 2016. Eleita a palavra daquele ano, “pós-verdade” foi definida pelo Dicionário Oxford como: “Um adjetivo relacionado ou evidenciado por circunstâncias em que fatos objetivos têm menos importância na formação da opinião pública do que apelos por emoções ou crenças pessoais” [D’Ancona, 2018]. Essa definição, um tanto rasa, a partir de então buscou compreender eventos como a decisão do Reino Unido em sair da União Europeia, caso que ficou conhecido como Brexit (neologismo para Britain e Exit) e, sobretudo, a eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos [Genesini, 2018]. Tomados esses eventos, a imprensa internacional procurou dar atenção especial aoconsumo das chamadas notícias falsas, atribuindo a estas um status decisivo, como influenciadoras de resultados eleitorais e difusão da desinformação e ódio cibernético a partir de apelos emocionais e paixões pessoais. À primeira vista, tais termos dão a entender que antes de 2016 ou mesmo da geração web 2.0, a verdade era imperativa no mundo, coisa que não se confirma ao olharmos a história global. Notícias falsas sempre existiram e temos relatos de sua existência desde a Antiguidade como recurso retórico usado por políticos para chegar a determinados fins pessoais e ideológicos [El País, 2018]. Robert Darnton, renomado historiador estadunidense, em texto publicado pelo Jornal El País em 2017, elenca alguns casos na história em que já existiam a presença da difusão de notícias falsas: Procópio, o historiador bizantino do século VI, escreveu um livro cheio de histórias de veracidade duvidosa, História Secreta (Anedota no título original), que manteve em segredo até sua morte, para arruinar a reputação do imperador Justiniano, depois de ter mostrado adoração a ele em suas obras oficiais. Pietro Aretino tentou manipular a eleição do 81 pontífice em 1522 escrevendo sonetos perversos sobre todos os candidatos menos o preferido por seus patronos, os Médicis, e os prendendo, para que todo mundo os admirasse, no busto de uma figura conhecida como Il Pasquino, perto da Piazza Navona, em Roma. Os pasquins se transformaram em um método habitual para difundir notícias desagradáveis, em sua maioria falsas, sobre personagens públicos [El País, 2017] Dessa maneira, pode-se inferir que a difusão de notícias falsas não é um problema estritamente contemporâneo. Pelo contrário, atravessa a história humana de diversas formas e maneiras. Qual é então a diferença entre aquelas notícias falsas e as que localizamos hoje no tempo presente? A grande diferença está na difusão dessas notícias e sobretudo na sua recepção [D’Ancona, 2018]. As Fake News modernas não são meramente mentira, calúnia ou notícias tendenciosas, mas sim, como aponta Thiago Reisdorfer, “raramente são pura invenção ou criação de informações sem respaldo. Em geral partem de concepções, crenças ou mitos presentes na sociedade, ou em parcelas que se deseja atingir, para a construção de sua narrativa” [Reisdorfer, 2019]. A disputa por narrativas deve ser aí destacada. Uma disputa pela fabricação da verdade, ou melhor, das verdades. Verdades que são construídas em um campo aberto de novas possibilidades e sem precisar estarem atreladas às grandes instituições sociais. A novidade reside nessa nova era tecnológica, protagonizada pela internet e pelas grandes redes sociais de comunicação, em que existe uma exposição cada vez mais viral de informações das mais diferentes origens e destinações com um potencial de influência astronômico: “O novo é o Facebook, o Google e o Twitter, não a tentativa de contar mentiras ou falsificar informações, o que sempre existiu na história do mundo” [Genesini, 2018]. Esse novo mundo instituiu uma série de indiferenças e desconfianças com relação às instituições outrora detentoras de uma certa “verdade”, como a escola, a ciência e a política. Dessa forma, pode-se observar consequências agudas no campo social: negacionismo científico (terra planismo, nazismo de esquerda, vacinas que causam Autismo, ojeriza aos “especialistas” e negação do holocausto), hiperpolarização política e bolhas on-line (grupos que compartilham as mesmas ideias e percepções e que muitas vezes nutrem ódio pelo diferente e contraditório). Diante dessas pequenas inferências sobre o fenômeno das Fake News, como nós, professores de história, poderíamos combater esse problema social com relação ao grau de veracidade de notícias e informações amplamente difundidas no espaço virtual que a maioria de nossos alunos está imersa? O uso das fake News como instrumento de crítica e análise no ensino de História O combate às Fake News deve abarcar diversos níveis de conscientização e prática crítica. O presente texto não pretende esclarecer todas as variações de um possível combate, mas sim, dar sugestões de intervenção no âmbito educacional, especialmente no ensino de história. 82 O professor, seja de qualquer área do conhecimento, deve ser o primeiro a estar atento às fontes utilizadas pelos seus alunos quando solicitada qualquer pesquisa ou trabalho efetuado através da internet. Muitas vezes a desatenção do docente abre caminho para propagação de informações duvidosas no ambiente escolar. Checar as informações e fontes consultadas pelos alunos é imprescindível para um primeiro combate às Fake News. Dessa forma, podem ser exercitados com os alunos os seguintes passos para uma boa pesquisa: perceber quais os diferentes conteúdos que estão sendo criados e compartilhados na rede, assim como identificar possíveis motivações desses criadores e a forma como o conteúdo é disseminado. Quanto ao ensino de história, as Fake News históricas podem ser utilizadas como instrumental pedagógico e, assim fortalecer o senso crítico dos alunos a partir do momento que são confrontadas com textos de época e explanação da historiografia especializada. O confronto de interpretações abre espaço para ambientes de diálogo e amadurecimento cognitivo. É a partir da relação feita entre passado e presente, utilizando essas informações duvidosas que pode-se chegar a um combate mais eficaz em sala de aula contra a desinformação e as distorções históricas. A seguir, transcrevo um projeto de atividade proposto pelo professor de história, Thiago Reisdorfer, especialista em história do tempo presente pela UDESC, feita para estudantes do segundo ano do ensino médio, como instrumental analítico para o ensino de história que tem o uso de um vídeo tendencioso sobre o processo de Independência do Brasil como matéria de pesquisa consciente e programática: O grito do Ipiranga: Entre curiosidades e memória oficial A atividade que propomos tem por objeto a análise do processo de independência brasileiro. Assim, pode ser aplicada tanto no ensino fundamental, quanto no ensino médio. Como preparação docente, este deve estudar o texto “Memória Da Independência: Marcos e Representações Simbólicas‘, de Maria de Lourdes Viana Lyra. O mesmo se encontra online, com fácil acesso aos professores. Indica-se também, apesar de não ser mandatório, a visualização do programa “Caminhos da Reportagem: Caminhos da Independência – ‘O grito nas ruas‘ disponível na integra no Youtube. Como preparação para os estudantes, deve-se apresentar, em diálogo com o material didático cotidiano, o processo de independência brasileiro. Após essa discussão, pode-se iniciar a atividade. Em termos práticos a atividade consiste na exibição e no debate de um vídeo de 2015 do canal O Curioso, hospedado no Youtube. O vídeo foi disponibilizado no dia 7 de setembro de 2015 com o chamativo título “10 COISAS QUE VOCÊ NÃO SABE SOBRE A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL‘. Ali são apresentadas 10 informações que, teoricamente, seriam desconhecidas de boa parte das pessoas: 1.A ida de D. Pedro de Santos a São Paulo teria sido realizada no lombo de uma mula e não a cavalo como a memória oficial consagrou. 2. D. Pedro, teria sido traído por sua amante a Marquesa de Santos. 83 3. Um dia antes do 7 de setembro D. Pedro teria sido rejeitado por uma “mulata” em Santos, que teria dado um tapa no rosto do então príncipe, após ele ter dado um beijo na bochecha dela. Após isso, ele teria tentado comprar a “mulata”, o que teria sido negado pelo seu dono. 4. Nos dias que precedem o 7 de setembro, D. Pedro teria se alimentado com uma variedade de alimentos e bebidas em Santos. Para “tirar o gosto” dessa alimentação, ele teria bebido “muito vinho”. 5. Como consequência, D. Pedro teria tido diarreia durante a viagem. Essa condição teria sido a causa da parada as margensdo Rio Ipiranga. A tensão causada pela sua indisposição, juntamente como o recebimento de cartas de Maria Leopoldina teriam levado D. Pedro a proclamar a independência do Brasil. 6. O grito teria sido pura formalidade. O lema “independência ou morte” teria surgido depois. Mas a garantia da independência teria ocorrido apenas após “os brasileiros pegarem em armas”. 7.O grande organizador da estrutura estatal brasileira no período da independência seria José Bonifácio. 8. A maçonaria teria um papel importantíssimo nesse processo, sendo ―pilar fundamental‖ da Independência. 9. Exigência por parte de Portugal de indenização de 2 milhões de libras pelo reconhecimento da independência. Essa seria a origem da dívida externa brasileira. 10. Angola “quase teria” se tornado parte do território brasileiro. A partir da exibição do vídeo e da enumeração das “curiosidades” elencadas pelo mesmo inicia-se um processo de análise histórica do vídeo. Essa análise pode ser feita coletivamente, pela turma toda, ou pode-se propor uma pesquisa específica, dividindo a turma em grupos responsáveis pelo levantamento de informações a respeito de uma ou mais dessas curiosidades. O professor deve providenciar material historiográfico para que os estudantes possam fazer o levantamento dessas informações. Como elemento central os estudantes devem ser incitados a verificar as informações disponíveis no vídeo e no material disponibilizado para a pesquisa. Isso pode ser feito tanto pela contraposição entre diferentes documentos históricos, quanto pela elaboração de um roteiro de questões ao material disponível. Algumas são centrais e comuns ao ofício do historiador e à crítica textual, outras podem ser elaboradas a partir dos interesses específicos do professor e da classe. Seguem algumas sugestões: Quem produziu o texto/vídeo? Quando foi produzido? Qual sua intenção com essa narrativa? Como o texto/vídeo possui as informações apresentadas? Qual documento de época registrou o evento da forma narrada? Se não há registros, como é possível afirmar tal coisa? Quais os 84 motivos para a construção da narrativa sem se basear em fontes confiáveis? A partir desses questionamentos os estudantes poderão, de forma acessível, perceber que as “curiosidades” 2, 3, 4, 5 e 6, não se sustentam após a verificação de textos da época. As “curiosidades” 1, 7, 8, 9 e 10 são elementos com vasta sustentação historiográfica e documental. A partir disso chegamos à parte argumentativa da atividade. Com essas informações e conclusões, o professor pode, de maneira dialógica, realizar uma discussão sobre como se faz importante a problematização constante a aprofundada das informações que nos chegam. Produtos de entretenimento, notícias jornalísticas, “links” compartilhados pelo Facebook, são produtos de interesses políticos, culturais, sociais que precisam ser pensados. Aceitar sumariamente informações sem sua leitura, sem sua checagem se constitui em um dano à dimensão cidadã da experiência dos sujeitos. Deste modo, o incentivo constante a essa problematização é elemento importante do processo de formação escolar do qual o ensino de História não deve se omitir [Reisdorfer, 2019]. Considerações A temática aqui proposta buscou contemplar, ainda que de forma compacta, a problemática das famosas Fake News e da pós-verdade como fenômenos dotados de história, mas que encontram na contemporaneidade certo agudizamento, propiciado pelo vasto campo informacional das mídias digitais. Não se tratam de mentiras, são antes construções narrativas específicas em alto grau de tensão social, política e ideológica. Portanto, começar esse texto com a fala do presidente do Brasil afirmando que o nazismo teria sido um movimento de esquerda não foi mera casualidade estética. Um líder máximo de um país influencia uma massa de cidadãos que de forma desavisada propaga incoerências históricas e preconceitos (no sentido estrito do termo) que podem gerar discriminações, desacordos pessoais e ainda alimentar o ódio ao diferente e ao contraditório. Utilizamos como forma de combate às Fakes a tática do uso delas próprias como instrumental analítico no ensino de história. Por se tratar de um problema complexo e de difícil resolução, vide a história das notícias falsas, optamos por uma abordagem que coloque os estudantes como protagonistas da checagem dessas informações, confrontando textos e fontes de forma dialógica, crítica e consciente a partir de um projeto de aula feito pelo professor Thiago Reisdorfer para alunos do segundo ano do ensino médio. É de esperar-se que mais professores pensem a temática de forma crítica e que possam assim estar esquematizando estratégias educacionais frente ao nosso velho-novo problema com as informações. Referências Bruno dos Santos Nascimento é graduando de História pela Universidade Federal do Maranhão [brunobs2098@gmail.com] Prof.ª Dr.ª Marize Helena de Campos é docente do Curso de História pela Universidade Federal do Maranhão, Campus São Luís-MA 85 D’ANCONA, Matthew. Pós-verdade: A nova Guerra Contra os Fatos em Tempos de Fake News. Tradução Carlos Szlak. – 1. ed. – Barueri: Faro Editorial, 2018. [livro] GENESINI, Silvio. A pós-verdade é uma notícia falsa. Revista USP – São Paulo. N.116, janeiro/fevereiro/março 2018. [livro] HITLER, ADOLF. Minha Luta, p. 154-155. Disponível em:< https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=sites&srcid=dGFyZGluLm5ldHxm aXNpY2F8Z3g6MWE1MTdkOTNlZjcxMTVkMw> Acesso em: 11/07/2019. [internet] NARLOCH, Leandro. Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. Revisão Rosângela Viana. – LEYA, São Paulo, 2009. [livro] REISDORFER, Thiago. Fake News em sala de aula: o ensino de história e informação no tempo presente, p. 429-431. 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A internet proporcionou um “encolhimento” do mundo, podemos nos comunicar com pessoas a quilômetros de distância, até mesmo em outros países, ter informações em tempo real, o que antes levariam dias ou até semanas. Informações chegam de todo lugar, a todo o tempo é a chamada globalização da informação e isso gera um impacto dentro da sociedade e consequentemente dentro das escolas. As crianças do século XXI são bombardeadas por informações a todo o momento, pela TV, videogames, internet. E chegam as escolas com essa sobrecarga de informação, não é mais como antigamente quando as crianças iam com a cabeça “vazia” e na escola recebiam as informações e ali começavam seu processo de construir o conhecimento. A sociedade mudou, o mundo mudou, e cabe à escola acompanhar essas mudanças, sendo assim a escola tem o papel de preparar os jovens para se inserirem dentro desse mundo tecnológico, compreender esse mundo e principalmente a sociedade dentro dele. O uso das tecnologias digitais dentro do sistema educacional traz consigo mudanças dentro do processo de ensino-aprendizagem e na relação aluno- professor. Sabemos que o computador somado com a internet é um dispositivo de acesso a informações ilimitadas, assim Pierre Lévy (1999) aborda sobre a relevância do uso do computador: “Um computador conectado ao ciberespaço pode recorrer as capacidades de memória e de cálculo de outros computadores da rede (que, por sua vez, fazem o mesmo), e também a diversos aparelhos distantes de leitura e exibição de informações. Todas as funções da informática são distribuíveis e, cada vez mais, distribuídas. O computador não é mais um centro, e sim um nó, um terminal. (...) No limite, há apenas um único computador, mas é impossível traçar seus limites, definir seu contorno. É um computador cujo centro está em toda parte e a circunferência em lugar algum, um computador hipertextual, disperso, vivo, fervilhante, inacabado: o ciberespaço em si.” [LÉVY, 1999, p. 44] Percebemos a relevância que o computador tem dentro do processo do conhecimento, mas não é apenas o computador em si que vai fazer a diferença, o jovem precisa fazer uma seleção das informações, retirando aquilo que é importante para seu conhecimento, deixando as informações “não importantes” de lado. Mas um jovem sozinho não tem experiência para fazer essa seleção, ai que entra o papel do professor que vai orientar esse aluno, ensinando ele a como selecionar essas informações, a “navegar” na internet, saber onde buscar e como utilizar essas informações em seu processo de conhecimento: 87 “[...] o aluno que aprende a pesquisar, aprende a habilidade mais básica para sua permanente renovação profissional, sem falar naquela de estudar melhor e aprender de maneira reconstrutiva; não vem à instituição para escutar aula, tomar nota, fazer prova, mas para reconstruir conhecimento sistematicamente; este tipo de aluno tem peso no futuro do país e é a fonte principal para a instituição de novas vocações docentes.” [DEMO, 2004, p. 116] Assim o uso das tecnologias da informação e comunicação, podem proporcionar melhorias dentro do sistema educacional, existem inúmeros softwares educacionais, jogos educativos, que podem ser usados nas aulas como ferramentas pedagógicas para estimular o aluno e seu interesse no conteúdo. Existem milhares de sites e blogs com conteúdos educacionais espalhados na internet, onde o aluno consegue ter acesso com apenas um click. Mas seria ingenuidade nossa pensar que apenas o uso do computador dentro das escolas seria o suficiente para resolver o problema da educação existente no Brasil, tem que haver uma mudança estrutural dentro do sistema educacional, mudar as formas de se pensar a educação e todo o processo de ensino-aprendizagem que temos hoje, assim a inserção das tecnologias digitais dentro das escolas não são uma tarefa simples, precisa haver uma preparação e estrutura para se aproveitar o máximo que essas novas tecnologias têm a nos oferecer. E essa tarefa não cabe somente aos professores, mas é necessária toda uma colaboração e troca de saberes entre professores, gestores, diretores e alunos: “Para que o uso das TIC signifique uma transformação educativa que se transforme em melhora, muitas coisas terão que mudar. Muitas estão nas mãos dos próprios professores, que terão que redesenhar seu papel e sua responsabilidade na escola atual. Mas outras tantas escapam de seu controle e se inscrevem na esfera da direção da escola, da administração e da própria sociedade.” [IMBERNÓN, 2010, p. 36]. O uso das tecnologias digitais proporciona uma mudança significativa dentro da sala de aula, onde aluno e professor passam a interagir de uma nova forma, intermediados pela tecnologia, pois “a sala de aula não é apenas um espaço onde transmite informações, mas onde uma relação de interlocutores constrói sentidos.” [Bittencourt, 2012, p. 57]. A inserção das tecnologias digitais dentro da escola não fica restrita apenas no uso do computador ou de programas educativos, existem outros aparelhos que vieram junto com esse avanço tecnológico, e que podem ser usadas em favor da educação, como na utilização de data show para passar um slide, de uma caixa de som para ouvir uma música, ou até passando um trabalho pra casa indicando sites e artigos onde os alunos possam conseguir as informações, contribuindo diariamente para o processo de ensino- aprendizagem. As tecnologias digitais sendo utilizadas com os objetivos pedagógicos podem ser um grande auxiliador no processo do conhecimento, mas é preciso uma boa relação entre o professor e aluno: “A concepção de ensino e aprendizagem revela-se na prática de sala de aula e na forma como professores e alunos utilizam os recursos tecnológicos 88 disponíveis.A presença dos recursos tecnológicos na sala de aula não garante mudanças na forma de ensinar e aprender. A tecnologia deve servir para enriquecer o ambiente educacional, propiciando a construção de conhecimentos por meio de uma atuação ativa, crítica e criativa por parte de alunos e professores.” [MORAN apud MAINART; SANTOS, 2010, p. 04]. Um aluno consegue fazer toda uma pesquisa sem sair de sua casa, na internet encontramos livros digitalizados, artigos, acervo de jornais, imagens, enfim uma gama de documentação que antes precisaríamos ir a inúmeros lugares físicos para conseguir, e às vezes nem assim se conseguia. O aluno não fica mais “preso” apenas no livro didático, ou naquilo que o professor ensina em sala, ele próprio agora tem esse “poder” de ir além e conseguir informações que antes eram inacessíveis, não que o livro didático e o professor perderam sua importância, pelo contrário ainda são essenciais dentro desse processo, mas agora contam com a ajuda da internet. Essa que por sua vez nos proporciona um oceano de informações e cabe ao professor assim como uma bússola, guiar os alunos rumo ao mundo do conhecimento. As tecnologias digitais tomaram conta das nossas vidas, estamos rodeados, até mesmo sufocados por tanta tecnologia, cada dia surgem novos aparelhos com o intuito de facilitar e agilizar até as nossas mínimas práticas cotidianas, vivemos uma vida digital, em um mundo digital. Porém hoje a escola funciona como uma “barreira” quando os alunos passam pelo portão todo esse mundo tecnológico, onde eles estão crescendo fica para trás. É como se os alunos estivessem entrando em uma máquina do tempo, voltando para um tempo que eles não conhecem, para um sistema de ensino que não desperta seu interesse e que não faz parte de sua realidade. O fruto disso é o distanciamento do ensino do contexto de crianças e jovens, que por consequência acabam enxergando a escola como algo desinteressante. O aluno do século XXI precisa ser estimulado, desafiado e as tecnologias podem e devem contribuir muito nesse sentido, faz parte da função primordial da escola formar cidadãos que compreendam e interfiram na sociedade em que vivem, porém como fazer o aluno compreender esse novo mundo, utilizando um sistema educacional que não o prepara para tal? Não estamos falando aqui de distribuir mais computadores, tablets, acesso livre a internet com banda larga, liberar o uso ilimitado dos celulares em sala, enfim de lançar essas tecnologias na escola por si só e achar que o problema será resolvido. As tecnologias precisam ser inseridas do ponto de vista pedagógico, com objetivos e metas que auxiliem no processo de ensino-aprendizagem. Trazer essa realidade digital para dentro das escolas é um passo fundamental nesse processo de atrair o interesse dos jovens para o ensino na sala de aula, é utilizar as tecnologias que eles tanto usam e conhecem, para fazer com que eles aprendam os conteúdos que eles ainda não conhecem. As tecnologias digitais fazem parte das nossas vidas e se a escola continuar nesse caminho cada vez mais distante dessa realidade, as consequências serão negativas, pois quanto mais tempo passa, mais os jovens perdem o interesse e a vontade de ir para a escola. 89 O uso das Tecnologias Digitais no ensino de História A disciplina de História é uma das que mais tem a ganhar com a inserção das tecnologias. O ensino de História ainda continua predominantemente com um caráter factual, narrativo e positivista, e isso tem desestimulado tanto alunos, quanto professores. [Ferreira, 1999]. Aquele velho modelo tradicional e positivista de se ensinar apenas os grandes feitos e heróis fizeram a disciplina de História se tornar algo repetitivo e de certo modo algo “chato” para os alunos, mas parece que alguns professores ainda não perceberam, ou se perceberam não fazem nada para reverter isso. Mas claro que mudanças têm sido feitas dentro da disciplina para tentar reverter esse modelo tradicional de ensino, alguns livros didáticos recentes já trazem os conteúdos de outras formas, com uma linguagem mais simples, textos resumidos e objetivos, o que acaba instigando mais os alunos, e trazem até sugestões de livros, filmes e sites onde o aluno possa pesquisar. O professor de História também tem tido mudanças em seus métodos de ensino, mas essas mudanças ainda são poucas comparadas com o real potencial dessa disciplina para os alunos: “Mudanças foram sentidas e devemos nos congratular com todos os que, individual ou coletivamente, contribuíram e têm contribuído para a melhoria do ensino de História em todos os níveis. No entanto, no que se refere à prática cotidiana do professor de 1º e 2º graus, isto é, àquela instância denominada sala de aula, de um modo geral as mudanças ainda não são satisfatórias.” [BITTENCOURT, 2012, p. 55]. E assim como em todas as outras disciplinas, o uso das tecnologias digitais nas aulas de História é fundamental para auxiliar essas mudanças que a disciplina necessita. O aluno já chega à escola com o pensamento de que História é apenas contar o passado, algo distante do cotidiano deles e isso somado com uma aula no velho modelo tradicional, provocam de vez o desinteresse do aluno. Sendo assim a disciplina de História corre um sério risco de se tornar algo obsoleto o “ensino de História tem que avançar e se modernizar, acompanhando a tendência da sociedade, que vem sofrendo um ritmo lancinante de modificações, senão estará fadado a transmitir ideias e conhecimentos ultrapassados” [Ferreira, 1999, p. 146]. Também é verdade que muitas escolas públicas brasileiras ainda não possuem todo esse material didático e tecnológico, os programas do Governo ainda estão longe de atingir todas as escolas, assim essas se veem com um ensino ultrapassado, mas acabam dando permanência nesse ensino por falta de estrutura e investimento do Governo. O professor precisa estar preparado para saber lidar com essas tecnologias e como as utilizarem para ajudar no processo de aprendizagem, pois senão corre o risco de em vez de aliada, fazê-la se tornar uma inimiga no ensino da disciplina. Podemos dizer que as tecnologias são como uma espada de dois gumes, com a mesma intensidade com que elas ajudam no processo do conhecimento, elas também pode prejudicar esse processo. Existem muitas informações na internet e muitas delas não são verdadeiras, se o aluno não souber como e onde pesquisar corre o risco de adquirir 90 informações equivocadas é ai que entra o professor como um orientador. Sabendo-se como utilizar, as contribuições das tecnologias digitais para a educação são inúmeras: “As TIC trazem o mundo para o ambiente educativo, de forma interativa. Os alunos e os professores são agentes a interagir com estes recursos, despertando o interesse e a vontade de aprender sempre, funcionando como um agente motivador. Não há limite(s) para o que pode ser feito na área educativa e da história.” [FERREIRA, 1999, p. 148]. Segundo Marc Bloch [2001], a história tem por objeto o homem e por isso ela é a ciência que estuda os homens no tempo. Estudar história atualmente não é mais apenas “decorar” nomes e datas, ou só aquilo que se diz “importante”, é analisar toda a conjuntura, a sociedade, o cotidiano, a economia, a política, os costumes, enfim entender como aqueles fatos ocorreram e as mudanças que eles trouxeram. O que os novos historiadores chamam de a história vista de baixo, ou a história dos vencidos. Já que teve mudanças na maneira de como estudar a história, consequentemente teríamos mudanças na maneira de ensiná-la nas escolas. O ensino da disciplina deveria por objetivo, despertar no aluno seu censo crítico sobre a sociedade em que vive, e fazê-lo se sentir um sujeito histórico, pertencente e, portanto, atuante dentro da sociedade e do meio em que vive. Fazer o aluno compreender sua realidade é o primeiro passo para fazê-locompreender o passado. Já que o presente nada mais é que filho do passado. Nesse contexto, a sociedade do século XXI é a sociedade da tecnologia e informação e um dos desafios do ensino de história hoje, seja talvez despertar nesse aluno “digital” um interesse pelo estudo histórico: “Constitui-se hoje, para os educadores do ensino fundamental e médio, um desafio muito grande ensinar alunos que têm contato cada vez maior com os meios de comunicação e sofrem a influência da televisão, rádio, jornal, vídeo-games, fax, computador, redes de informações e etc. Como produzir uma boa aula? Como sair do tradicional giz e “cuspe”? Como romper com as imposições de um ensino que parou no tempo?” [FERREIRA, 1999, p.144] As contribuições que as tecnologias, e em especial a internet tem para o ensino de História são inúmeras. O professor já no Ensino Fundamental pode trabalhar com fontes e documentos que antes eram inacessíveis. Por exemplo, hoje alunos do Ensino Fundamental tem acesso às tragédias gregas que estão digitalizadas e disponíveis na internet, antes o acesso a essas tragédias eram difíceis até mesmo para estudantes da Graduação. Esse acesso rápido a esses documentos contribuem e muito para tornar as aulas de História mais dinâmicas, ricas e atrativas para o aluno. Segundo Ferreira [1999, p. 146] “é necessário, portanto, que os professores de história passem a compreender que os processos de inovação, derivados do emprego dos recursos tecnológicos, servirão para oxigenar a prática docente.” Elaborar aulas dentro dos laboratórios de informática é outra maneira bastante didática de estimular os alunos e de utilizar esse espaço 91 que em muitas escolas ficam apenas como enfeite, o computador no ensino de História deve ser utilizado para: “- desenvolver habilidades como criatividade, coordenação motora, percepção visual e auditiva; - motivar a pesquisa; - pôr os alunos em contato com a realidade através do programa (software) escolhido; - organizar as informações; - classificar dados; - traçar croquis, esboços e desenhos (fazer mapas, plantas da realidade estudada e outros); - organizar a vida escolar; - produzir trabalhos escolares, através de softwares de planilhas, banco de dados e processadores de texto; - elaborar gráficos estatísticos; - fazer apresentações mais dinâmicas.” [FERREIRA, 1999, p. 35]. Mas apenas introduzir o computador não significa melhorias na qualidade do ensino, o professor precisa ter o domínio dos conteúdos e das metodologias que pretende aplicar, desenvolvendo assim o conhecimento histórico. Fica assim então posto de que as tecnologias (computador, internet, etc.) são de grande auxilio para o estudo da História e, principalmente, na questão de estimular os alunos. Existem jogos com conteúdos históricos que podem ser utilizados pelos professores como, por exemplo: God of War (que retrata sobre a mitologia grega), Call of Dute (que retrata o período da segunda guerra mundial) e Age os Empires (que trazem os períodos da idade antiga, média e moderna), entre outros que podem ajudar nesse processo de aprendizagem histórica. Claro também que os livros didáticos e o professor não ficaram ultrapassados, devem sim passar por esse processo de modernização que a sociedade vive, mas seus papeis dentro da estrutura escolar e do processo de ensino continuam com a mesma importância. Trazer algo novo sempre é uma tarefa difícil, principalmente quando mexe com toda a estrutura de ensino. Mas no mundo de hoje com todas as tecnologias que nos cercam fica meio que impossível à escola querer perpetuar aquela velha prática de ensino deixando o avanço tecnológico da sociedade do lado de fora dos muros, já que os alunos vivem praticamente dominados por essas tecnologias quando estão fora da escola. Sendo assim e como já foi mencionando ao longo da pesquisa as tecnologias utilizadas com objetivos pedagógicos pode ser uma ferramenta didática incrível, em especial para o ensino de História, esta que deve ficar atenta para as mudanças que vem da nossa realidade e, assim, possibilitar o aluno a conseguir compreender, interpretar, criticar, qualificando-o nesse processo para tornar-se um cidadão ativo, consciente e preparado para as relações trabalhistas que essa realidade impõe. [Ferreira, 1999] Referências Carlos Prado é graduado em Licenciatura em História pela UNEB [Universidade do Estado da Bahia]. 92 BITTENCOURT, Circe (org.). O Saber Histórico na Sala de Aula. São Paulo: Contexto, 2012. BLOCH, Marc. “A história, os homens e o tempo”. In: Apologia da História ou O ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2001, pp. 51-68. DEMO, Pedro. “Iniciação científica: razões formativas.” In: MORAES, Roque de; LIMA, Valderez M. do R. (Org.). Pesquisa em sala de aula: tendências para a educação em novos tempos. 2 ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004, p. 103-126. FERREIRA, Carlos Augusto Lima. Ensino de história e a incorporação das novas tecnologias da informação e comunicação: uma reflexão. Revista da História Regional. v.4, n.2, 1999. Disponível em: http://www.revistas.uepg.br/index.php/rhr/article/download/142/78 IMBERNÓN, Francisco. Formação docente e profissional: formar-se para a mudança e a incerteza. 7. Ed. São Paulo: Cortez, 2010. LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999. MORAN apud MAINART, D. A.; SANTOS, C. M. A importância da tecnologia no processo ensino – aprendizagem, 2010. Disponível em: http://www.convibra.com.br/upload/paper/adm/adm_1201.pdf http://www.revistas.uepg.br/index.php/rhr/article/download/142/78 http://www.convibra.com.br/upload/paper/adm/adm_1201.pdf 93 94 TAUTISMO, CULTURA HISTÓRICA E CIÊNCIAS HUMANAS: FUNÇÕES DE UMA EDUCAÇÃO HISTÓRICA EM SITUAÇÕES DE ESQUIZOFRENIA MIDIÁTICA Cássio Pereira Oliveira Em dissertação defendida em setembro de 2018, a partir de experiências anteriores produzindo material didático para a internet, resolvemos pesquisar como se dá o processo de aprendizagem histórica no contato com jovens alunos do ensino médio com material didático de história disponível no YouTube. A intenção inicial era perceber se a mera mudança do suporte técnico, do analógico para o virtual, poderia causar por si mesma alguma alteração na maneira pela qual os alunos compreendiam e interpretavam o passado, naquilo que é chamado pelo historiador alemão Jörn Rüsen de consciência histórica: a capacidade de aprender com o passado para compreensão do presente e construção do futuro [2011]. Diversas conclusões puderam ser apuradas, mas talvez a principal delas tenha sido justamente a percepção de que a internet não criava nos alunos percepções ou alterava por si mesma a consciência histórica dos mesmos. Pelo contrário, o que se percebeu foi a cristalização de concepções anteriores de disciplina histórica e de consciência histórica. A rede em suas diferentes manifestações (YouTube, Facebook, etc.) captura elementos dispersos da cultura, fornecidos pelos próprios usuários, e os devolve como signos por meio desse aparato técnico disponível, que os repassa aos aparatos técnicos em um processo praticamente infinito. No presente texto, buscamos compreender esse processo de captura da cultura por meios técnicos, especialmente na era da comunicação e da comunicação em rede, que é distinta por sua própria natureza à formas “tradicionais” de comunicação, como foram o rádio e a televisão. E compreender a função de uma educação histórica saudável nesse novo contexto. Núcleo epistêmico e forma simbólica – Comunicação e Tautismo O cientista político francês Lucien Sfez [1994, p. 7-17] faz uma distinção explícita acerca da tecnologia e seus fundamentos epistemológicos, aquilo que ele chama de núcleo epistêmico, com as suas manifestações dentro da cultura, as formas simbólicas. Grosso modo, elas se referem, respectivamente, a aquilo que é possívele realizável dentro da cultura, e o que de fato foi realizado dentro destes limites mesmos – não é a toa que artistas e escritores (e, nesse caso, os cientistas) carreguem consigo o zeitgeist de seus contextos históricos. Partindo desse raciocínio, o autor francês apresenta todo o desenvolvimento de um determinado conceito de comunicação que se tornou evidente dentro dos centros de pesquisa e desenvolvimento tecnológicos dos EUA nos anos 1980, e se tomaram o espaço público na década seguinte, com suas diferentes manifestações. Conceitos de rede, informática, inteligência artificial e integração com o meio carregavam consigo uma ideia muito forte de uma comunicação técnica que se convertia em progresso e modernidade – a euforia com a 95 internet e as possibilidades de um mundo conectado de informação infinita, disponível à escolha dos usuários, deu o tom da rede em seus primóridos (VALAREZO, 2018). A crítica do autor francês é justamente de que uma comunicação assim dada é de que ela serviria como um substituto muito ruim para formas mais tradicionais de comunicação, e que de certa forma haviam sido princípios das instituições democráticas desde seus primórdios. A ideia, naquele momento, de uma sociedade de comunicação, trazia dois problemas: o primeiro é de que a comunicação, enquanto tal, é fundamento próprio de toda a cultura , de modo que só é capaz de fazer sentido acompanhada de outras designações culturais (cultura grega, latina, ocidental, árabe, etc…) – comunicação, por si só, é um termo vazio; e em segundo, que uma sociedade toda ela pautada na comunicação, que comunica o tempo todo com tudo, mata a comunicação – se tudo é comunicação, ela não existe. Tal contexto é exemplificado pela análise técnica que conduziu a esse estado de coisas. Não cabe aqui a análise em pormenor do percurso técnico da comunicação, que é complexa e extensa demais para essas linhas. Mas são passíveis de resumo em duas grandes concepções que tenderam a se confundir ao longo do tempo. A primeira dela é aquilo que chamamos de comunicação representativa: preocupada mais com os meios pelo qual uma mensagem e/ou informação é transmitida e recebida, seus teóricos (como Claude Shannon e Warren Weaver, pais da teoria da informação, são exemplos) se concetravam mais em questões como transmissão de informações, na qualidade e recepção da mensagem, na tentativa de garantir um livre fluxo e a correta interpretação da mensagem. Nascida e se contrapondo a esta primeira concepção de comunicação, os teóricos de uma comunicação expressiva se preocupavam mais na integração entre o homem e a máquina, Se a comunicação representativa se preocupava mais em unificar dois pontos dispersos pelo espaço por meios que transpussesem tais distâncias, a comunicação expressiva integra os meio disperso em uma única unidade de sentido, em que todo o espaço é passível de unidade e replicação dentro de um mesmo espaço orgânico. A máquina deixa de ser um ente externo ao homem para se converter em parte dele próprio, uma vez que o meio e a máquina existem por, em algum nível, fazerem parte do homem mesmo, que reflete e é refletido pela máquina. Em certo sentido, aqui temos os primórdios de uma noção contemporânea de rede. Dentro do paradigma chamado pelo autor francês de tradicional dentro da comunicação, ambas as esferas de complementam em um equilíbrio saudável – a representaçõa gera exterioridade à rede expressiva, enquanto esta se alimenta da primeira fornecendo ao sujeito que se expressa um objeto dado com o qual ele pode se opor e/ou falar sobre. Tal equilíbrio é quebrado quando, a partir dos anos 1980 e nos anos 1990 adentro, o núcleo epistemológico passa a se concetrar no estudo e funcionamento do próprio sujeito comunicante, o tornando parte funcional do sistema 96 comunicativo, quebrando a diferenciação e afastamento necessário ao diálogo entre ambas esferas. Dessa forma, nasce o tautismo, uma forma de comunicação sem sujeito, uma vez que o sistema se comunica única e exclusivamente consigo mesmo. Neologismo nascido na fusão entre as palabras autismo (o indivíduo que não se comunica, exceto consigo mesmo) e tautologia (repetição sistemática do mesmo), não há diálogo, mas proeminência totalitária da própria comunicação que se instituiu para a sociedade como um todo. Sfez identifica essa comunicação com o advento da ciência cognitiva, da publicidade e de toda uma política de comunicação que se instaura a partir dos anos 1990 [2007, p. 107-142]. Não cabe aqui aprofundar-se nos pormenores teóricos acerca de como tais pensadores (representativos e expressivos) concebiam a informação e a relação dos homens com suas máquinas, mas compreender que tal postura técnica possui um reflexo claro no campo político. Um ponto muito fundamental em Sfez é justamente o fato das tecnologias eclipsarem o fator de decisão do humano, e a técnica ter afastado do universo político uma unidade de sentido muito própria da cultura, comentada e praticada desde a antiguidade – o ser humano é um animal político por conseguir se reconhecer e se fazer reconhecer em uma unidade política, para os gregos a pólis. A cultura define regras, sentido e hierarquia ao social, e as formas de poder que emergem dessa cultura acabam dando materialidade e continuidade ao todo. O processo que é próprio da democracia é justamente o da contraposição e debate entre essas duas esferas, já que diferentes, portanto complementares. Toda a cultura necessita de uma base técnica para existir. No que nos interessa, a modernidade iluminista nasceu na república das letras nascida da imprensa de caracteres móveis criada por Gutenberg em 1500. Da mesma maneira, o nascimento do cinema foi “devidamente” apropriado por regimes fascistas do séc. XX, tanto a nível de propaganda, quanto da própria espetacularização do poder (Mussolini fizera uma ponta no final do filme “Roma Cidade Eterna). Porém, a técnica dentro das sociedades tradicionais refletem uma unidade que é própria de toda a cultura, reativam valores e funções simbólicas que saíram do caldo cultural maior, e que de certa forma a ela retornam por meio da ação dos sujeitos. A cultura vive e revive por meio da ação dos sujeitos. A comunicação tautista, ao unir ambas as esferas em um única dimensão da qual deixamos de ser agentes, esconde a própria capacidade da cultura de comunicar consigo mesma, e de criar categorias para o mundo. O mundo perde a sua ordem das coisas e afunda na anomia. Cultura histórica, educação histórica e tautismo A noção de tautismo e a própria análise de Sfez dão estatuto técnico as palavras de outro pensador francês, Jean Baudrillard (1991), e sua noção da sociedade dos simulacros, onde a ordem dos signos se impôs a própria ordem das coisas, e as coisas se confundem com as representações que deveriam dar sentido ao mundo. Aparência e essência se confundem, uma 97 vez que a cultura apreende a totalidade das coisas em seu modo de ser, em uma constante reprodução de valores e formas de pensar. Incapaz de gerar coisas novas, ela constantemente reproduz a si mesma por meio da devoração do real, que se confunde agora com a própria e inescapável ordem dos signos. Trazendo tal raciocínio para o pensamento até agora desenvolvido, o tautismo enquanto forma simbólica de uma tecnologia que gera confusão, confunde a ordem das coisas, tornando toda a realidade social em algo comunicável, portanto signo capturável e reproduzível. Assim sendo, tudo é comunicação é também simulacro: termo utilizado por Baudrillard que originalmente pertencia ao imaginário cristão, referindo-se ao receptáculo imperfeito de uma ideia perfeita, como a própria imagem do Cristo é uma representação grosseira do amor do mesmo. Em um mundo assim descrito, não há Cristo, somente o simulacro de Cristo. Baudrillard se preocupa mais com a apresentação de um estado decoisas, sem necessarimante apresentar saídas, em parte porque as saídas propostas são parte do problema, uma vez que, para o pensador, o mundo não tem de fato saídas. Retomando mais uma vez Sfez, é possível afirmar que aqui temos um dos “pontos fracos” do pensamento baudrillariano, justamente porque faltava ao francês as possibilidades de “uma semiótica crítica que desvela as dimensões ocultas da hiper-realidade permitindo uma desconstrução do regime dos signos” [SIQUEIRA, 2007]. Em certo sentido, para fins de educação histórica, não se trata de construir uma crítica ao regime dos signos, mas sim contrapor sistemas de signos, restituindo o real a partir de novas bases. Aqui entramos no terreno da educação histórica, e na criação de novos sentidos para o mundo. Porque, se a comunicação só é possível dentro do horizonte de diferença entre as representações da realidade com essa realidade mesma, tal diferenciação só é possível dentro do horizonte dado por aquilo que Jörn Rüsen [2014] e Estevão Martins chamam de cultura histórica. Ou seja, o conjunto de significações herdadas historicamente que permitem aos sujeitos interpretar o seu mundo e que permitem um determinado modo de vida de um povo [MARTINS, 2017, p. 86] – uma práxis vital. “Jogado” dentro do tempo, o homem fica a mercê daquilo tudo que é externo a ele próprio, e a cultura, enquanto significação do mundo, permite ao indivíduo ordenar os elementos do universo, antes dispersos, em um todo coerente. Esse sentido, chamado de Sfez de “bom senso” (ele, curiosamente, não faz uso do termo cultura) é o caminho pelo qual o tautismo, enquanto cristalização técnica de uma forma de compreender o mundo, pode ser combatido, justamente porque é essa a função da cultura histórica. Não no sentido de combater o tautismo em si, mas a anomia que ele gera, uma vez que se perde, em meio ao fluxo de informações, tanto a interpretação acerca do contigente, quanto a própria contingência percebida enquanto tal. Interpretação aqui se torna um ponto importante, porque a cultura, enquanto práxis, se reativa e se reatualiza por si mesma frente as adversidades que ela enfrenta. E, se a função das ciências humanas, dentro 98 de uma interpretação ruseana [2014, p. 224-240], se refere justamente ao processo de interpretação científica da cultura sobre ela própria, então acabamos por nos tornar mediadores não somente entre a política, mas também com a técnica que passa a ser mediadora entre nós e a realidade. Da mesma forma que o judaísmo e os medievais temiam que as imagens sagradas dos santos, os simulacros, se tornassem mais importante que as divindades em si mesmas, da mesma maneira trabalhamos para evitar que uma dada representação do mundo não se converta em mundo mesmo – especialmente em um momento em que grande parte da nossa comunicação passa pelo Whatsapp. Referências Prof. Cássio Pereira Oliveira é formado em história pela Universidade Federal de Santa Maria, com mestrado em educação pela mesma instituição. BAUDRILLARD, J. Simulacros e Simulação. Trad. Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio d’Água, 1991. MARTINS, E. C. R. Teoria e Filosofia de História: contribuições para o ensino de história. Curitiba: W. & A. Editores, 2017. OLIVEIRA, C. P. O Vlogueiro e o Educador: pensando a educação histórica em sites de compartilhamento de vídeos. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Santa Maria, Centro de Educação, Programa de Pós-Graduação emEducação, RS, 2018. RÜSEN, J. Cultura faz Sentido: orientações entre o ontem e o amanhã. Trad. Nélio Schneider. Petrópolos: Vozes, 2014. SFEZ, L. A Comunicação. Trad. Marcos Marcionilo. São Paulo: Martins Fontes, 2007. (Coleção Tópicos). _____. Crítica da Comunicação. Trad. Serafim Ferreira. Lisboa: Instituto Piaget, 1994. SIQUEIRA, H. S. G. Jean Baudrillard: importância e contribuições pós- modernas. Disponível em: http://www.angelfire.com/sk/holgonsi/baudrillard.html. Acesso em: <10 de abril de 2020>. VALAREZO, M. 1999: o ano em que o cinema quebrou a realidade. Youtube. 12 de abril de 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=fRMzCn3XVjs. Acesso em: 05 de abril de 2020. 99 O USO DAS TECNOLOGIAS NAS DIRETRIZES DA BNCC E DA BNC-FORMAÇÃO Cláudia Cristina do Lago Borges e Priscilla Gontijo Leite Pensar o ensino de História sempre foi um desafio para professores e pesquisadores em busca de torná-lo significativo para o aluno e alcançar o desenvolvimento da consciência histórica, um dos pilares fundamentais para o exercício pleno da cidadania. Nos tempos atuais, adiciona mais um desafio para o professor: a “concorrência” do mundo digital na sala de aula. A presença do virtual está cada vez mais forte no cotidiano por meio de ofertas de dispositivos, mídias, aplicativos e softwares, que, a princípio, tem se tornado atrativos para o público mais conectado com a internet, porém, isso não garante sua confiabilidade no quesito aprendizagem. Quando o professor não utiliza bem a tecnologia na sala de aula, ela deixa de cumprir o papel de ser uma ferramenta para uma aprendizagem significativa e crítica. Assim, a tecnologia deve ser sempre um aliado do professor no processo educativo e não encarado como um concorrente. Por outro lado, práticas educacionais juntamente com as estruturas escolares somam-se a outra gama de fatores que tornam o ensino de História um desafio tanto para quem já está em sala de aula, como para os que ainda irão começar essa jornada. Este complexo sistema, que tem sido bastante discutido nas bases teóricas da educação brasileira, se depara agora com dois marcos regulatórios: a BNCC, implantada em 2017, e a BNC-Formação, que regulamenta as diretrizes curriculares nacionais para a formação de professores, publicada em dezembro de 2019. Se partirmos para as ações práticas da sala de aula, nos deparamos hoje com um cotidiano considerado incomum há 20 anos, e que, apesar de estarmos totalmente inseridos nele, para muitas escolas e professores o uso das tecnologias digitais voltadas para a educação é considerado pedagogicamente inapropriado, ou ainda evitado por diversos fatores, desde não saber dominá-lo à precária infraestrutura física de algumas escolas, como indicou uma pesquisa realizada por professores da rede básica de João Pessoa em 2019. Porém, precisamos admitir que o uso das tecnologias hoje é tão costumeiro quanto levantarmos todos os dias para realizar nossos afazeres. A abrangência dos tipos de mídia e o acesso a internet têm aproximado cada vez mais os indivíduos ao universo digital e virtual, ao ponto de passarmos mais hora na frente de uma tela conectada do que fazíamos nos anos 2000. No confronto inevitável entre o ensino tradicional e a inserção de metodologias ativas, a qual inclui o uso de tecnologias digitais, o cenário brasileiro é desconcertante. Vários docentes e instituições de ensino não têm a menor ideia de como lidar com essa modalidade e nem mesmo possui qualquer condição estrutural para adaptar-se a esse modelo. Desta forma, em especial no Brasil, o nível e a abrangência de inserção de alunos, professores e escolas no sistema de uso das tecnologias no ensino ficam 100 apenas no discurso formal, como indica o relatório da UNESCO de 2014. Se compararmos os dados da UNESCO com o relato dos professores hoje, percebemos que concretamente poucas alterações ocorrerem, especialmente na rede pública de ensino. Assim como cita o documento: “[...] se um professor de finais do século XIX entrasse hoje em uma sala de aula típica de uma escola na América Latina, a maioria das coisas lhe seriam muito familiares: o giz e a lousa, as carteiras ou os livros didáticos são tão comuns agora como naquela época. Entretanto, não são muitos aqueles que parecem se dar conta de que este mesmo professor antiquado se surpreenderia pelas demandas dos currículos de hoje.” [UNESCO,2014, p. 12] E percorrendo hoje as escolas públicas do Brasil, e quanto mais afastadas dos centros urbanos for, vê-se que as condições de adequação ou adaptação para o uso das tecnologias voltadas para educação são realidades bastantes destoantes daquelas que vemos nas escolas privadas de áreas metropolitanas. Para debatermos aqui este perfil do mundo digital voltado para educação e sua relação com os marcos regulatórios, especificamente a BNCC e a BNC- Formação, dividiremos nossa discussão em três partes breves. Em primeiro lugar, vamos discutir sobre o uso das tecnologias aplicadas ao ensino de História; em segundo, vamos debater sobre esses novos marcos regulatórios e como eles se pronunciam quanto ao uso das tecnologias; e por último discutir como e quais os impactos do uso dessas tecnologias na condição real das estruturas escolares brasileira a partir da análise de entrevistas com professores da rede de João Pessoa. O temo TICs – Tecnologia da Informação e da Comunicação surgiu nos anos 1970, mas nos idos dos anos de 1990 sua abrangência, antes utilizada nas áreas de ciências e tecnologias, acabou se expandindo e sendo aplicado nas áreas de educação. A princípio, a introdução dessa ideia passou a ser relacionada quase exclusivamente ao uso dos computadores, especificamente para que os alunos se familiarizassem com o funcionamento básico da máquina. Foi quando então as escolas deram início a abertura de salas aulas de informática. Com o avanço tecnológico em curso, vimos também a “evolução” dessas aulas e seus dispositivos, que passaram do computador, depois para os tablets, e agora a popularização das aulas de robótica. O uso da tecnologia reforça como o aspecto prático é um componente importante para a aprendizagem significativa e a importância da escola ter vários espaços, a exemplos de laboratórios dos mais variados tipos, para além do tradicional modelo da sala de aula. Para os professores, a introdução dessa tecnologia no processo de aprendizagem ficou restrita ao uso de projetores, sem, no entanto, inserir os docentes no processo das metodologias ativas e inovadoras. Em outras palavras, a criação de salas de informática nas escolas inseriu os alunos, mas não os professores de outras áreas de conhecimento, que se mantiveram restritos ao uso do livro didático. Por outro lado, os docentes 101 assistiram o avanço do uso de dispositivos por seus alunos, sem que, para isso, recebessem suportes técnicos e de formação por parte das estruturas educacionais e governamentais. Se analisarmos a evolução das mídias e da facilidade de acesso a internet, vemos que com a chegada dos aparelhos móveis, como os smartphones, a disponibilização de informações ficou muito mais acessível, porém, muito mais vulnerável na sua credibilidade e confiabilidade. Aplicado ao ensino, a variedade de videoaulas, podcasts, filmes, games, aplicativos e software, pode instigar os alunos e auxiliar ao professor no processo de aprendizagem, porém, a questão é como esses recursos estão sendo usados. Segundo Conte e Martini: “[...]As tecnologias abrem horizontes para a curiosidade e criação humana da realidade e requerem a adoção de diferentes posturas e entendimentos no campo da formação educativa, como forma de superar os reducionismos e automatismos técnicos de ensino prescritivo para uma aprendizagem narrativa do mundo.” [CONTE; MARTINI, 2015, p. 1192] Assim, a questão do uso das tecnologias para o ensino de História confronta-se com a da abertura de um vasto caminho de informação, tais como a possibilidade de ler textos ou documentos originais, ver mapas e obras de arte que se encontram apenas em arquivos ou museus, visitar sítios arqueológicos ou entender a construção de cidades antigas através de uma animação em 3D, tudo na frente de uma tela, mas que pode também conduzir para um crescimento da desinformação, levando a crença e divulgação das Fake News. E aí, um dos problemas que percebemos em algumas mídias que usam a História como enredo ou cenário, é a total falta de elementos historiográficos confiáveis. Diante da ampliação do acesso a mídias que se utilizam da História, cabe- nos questionar como as políticas públicas de ensino pensaram nesse aspecto. Para tanto, iremos utilizar os marcos normativos produzidos pelo MEC nos últimos anos. Esses marcos tanto do ensino básico quanto o da formação de professores, segundo os próprios documentos, buscam uma regulamentação uniformizada para a educação brasileira, que, a princípio, deveria diminuir as discrepâncias no processo de ensino/aprendizagem em relação às questões regionais, sociais, econômicas etc. De acordo com a própria BNCC, a Base “[...] é um documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica, de modo a que tenham assegurados seus direitos de aprendizagem e desenvolvimento.” [BRASIL, 2017, p.7]. Já para a BNC-Formação, “[...]os professores devem desenvolver um conjunto de competências profissionais que os qualifiquem para colocar em prática as dez competências gerais, bem como as aprendizagens essenciais previstas na BNCC, cuja perspectiva é a de oferecer uma educação integral para todos os estudantes, visando não apenas superar a vigente desigualdade educacional, mas também assegurar uma educação de 102 qualidade para todas as identidades sobre as quais se alicerça a população brasileira[...].” [BRASIL, 2019, p.1] Posto que as diretrizes que nortearam a organização dos documentos, devemos questionar como superar o problema das desigualdades regionais de forma prática, sem que nenhuma região perca sua diversidade. Em termos pontuais, é possível pensarmos uma uniformização de aprendizagem de um aluno que estuda em uma escola pública em área ribeirinha no centro da Amazônia do mesmo modo que um aluno de uma escola privada na zona sul do Rio de Janeiro? E os professores dessas duas escolas, tiveram a mesma formação? Como fazer que as identidades tão diferentes reconheçam a si mesma e ao outro? Como lidar com os conteúdos de aprendizagem em cada região do país? E principalmente como garantir o acesso à tecnologia e a sua utilização crítica diante da enorme desigualdade social e econômica do Brasil? Neste sentido, o que os documentos trazem como proposta de “educação integral para todos” remete principalmente nas competências, sendo esta entendida pela BNCC como “[...] a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana[...]” [BRASIL, 2017, p.8], e no caso das competências gerais, cabe ao professor “compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.” [Idem, p.9, grifo nosso] Conforme o trecho acima, pressupõe que qualquer que seja a área de atuação, o professor deve não somente aplicar, mas também ter domínio para criar tecnologias digitais. Essa ideia também é defendida por Maria Lúcia Serafim e Robson Souza, quando afirmam que: “[...]é essencial que o professor se aproprie de gama de saberes advindos com a presença das tecnologias digitais da informação e da comunicac ão para que estes possam ser sistematizadas em sua prática pedagógica. A aplicac ão e mediac ão que o docente faz em sua prática pedagógica do computador e das ferramentas multimídia em sala de aula, depende, em parte, de como ele entende esse processo de transformac ão e de como ele se sente em relac ão a isso, se ele ve todo esseprocesso como algo benéfico, que pode ser favorável ao seu trabalho, ou se ele se sente ameac ado e acuado por essas mudanc as”. [SERAFIM, SOUZA, 2011, p. 20] Assim, recai sobre o professor a responsabilidade pelo o uso das tecnologias em sala de aula. Deve-se perguntar então se lhe é proporcionados meios suficientes para que o professor consiga cumprir com essa responsabilidade. Nesse sentido, devemos nos perguntar sobre seu processo formativo. Atualmente nem todos os cursos de licenciaturas e as formações continuadas permitem que os professores desenvolvam aparatos capazes de lhe instrumentalizar para o uso das tecnologias. Conforme as competências gerais da BNC-Formação, cabe ao professor: 103 “Pesquisar, investigar, refletir, realizar a análise crítica, usar a criatividade e uscar solu es tecnoló icas para selecionar, organizar e planejar práticas pedagógicas desafiadoras, coerentes e significativas”, e, reproduz o texto da BNCC, na qual o professor deve “Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informac o e comunicac o de forma cr tica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas docentes, como recurso pedagógico e como ferramenta de formac ão, para comunicar, acessar e disseminar informac ões, produzir conhecimentos, resolver problemas e potencializar as aprendizagens.” [BRASIL, 2019, p. 17, grifo nosso]. Diante destas diretrizes podemos questionar se a formação será a partir do currículo do próprio curso, cuja carga horária está voltada para o conceito das práticas pedagógicas e da formação específica, ou deverá o professor recorrer a cursos de formação continuada? E como os professores que se encontram em sala de aula deverão se adequar as exigências regimentais? E como a formação continuada irá acompanhar o desenvolvimento de novas tecnologias? Talvez a afirmação de remeter ao professor a tarefa de “criar tecnologias digitais” constitua uma ideia simplificada sobre o que seja a criação de tecnologias aplicadas ao ensino. Afinal, o desenvolvimento da tecnologia envolve competência e habilidades para além da didática. Não estaria, portanto, atribuindo ao professor uma tarefa além de sua formação? Buscando entender como todo esse sistema funcionará na prática, precisamos primeiro analisar a nossa conjuntura atual e quais as perspectivas futuras. Para isso, precisamos entender as demandas dos professores, bem como seus anseios para perceber se as normativas elaboradas pelo poder público lhes são pertinentes. Para isso, em 2019, o Grupo de Pesquisa Humanyzarte, do Departamento de História da UFPB realizou uma pesquisa entrevistando 273 alunos do 6º ano do Ensino Fundamental e 5 professores de História das respectivas turmas, todos de escolas públicas de João Pessoa. Dos professores, todos informaram recorrer ao uso das tecnologias para sua preparação de aula, mas, todos também concordaram que a escola não oferece algum tipo de plataforma ou fórum digital para interação entre professor e aluno nas atividades além da sala de aula. Também apontaram como propostas para as escolas dinamizarem a utilização desses recursos: uma maior acessibilidade tecnológica, além da projeção de slides e apresentação de filmes, interdisciplinaridade entre as aulas de História e de Informática, e a elaboração de oficinas para capacitação dos professores. No caso dos alunos, vemos que o acesso aos dispositivos móveis, como o smartphone são maiores, 93,8%. Porém, 63,4% disseram utilizar o livro didático para seus estudos, 86,1% informaram que na escola não é permitido o uso de celular em sala de aula, e 14,7% [o equivalente a 40 entrevistados] disseram não ter acesso a internet. Ou seja, diante deste quadro, percebe-se claramente as discordâncias entre o que está na regulamentação da BNCC e o que é na prática escolar. 104 Segundo o relatório da Unesco [2014], o uso das tecnologias digitais na educação tende a diminuir as desigualdades, pois aproxima alunos e professores de diversas áreas através de sistemas digitais e virtuais, e para isso “uso de métodos de ensino e aprendizagem que vão além das lições e dos livros escolares pode ajudar a conseguir que os estudantes aprendam melhor a partir de uma combinação de recursos adequadamente orquestrados pelo professor.” [UNESCO, 2014, p. 24] As análises apresentadas pelo relatório da UNESCO sobre o uso das tecnologias digitais na educação na América Latina, sem dúvida, traz um retrato sobre como a educação precisa acompanhar a atualização tecnológica, e como a escola e professores precisam adaptar-se a esse modelo que já se encontra vigente, e que, por mais que haja resistências, não retrocederá. Provavelmente, as orientações presentes nos marcos regulatórios da educação brasileira, a BNCC e a BNC-Formação, estejam buscando adotar a mesma regra nas competências gerais do professor e do processo de aprendizagem. Mesmo concordando com as propostas apresentadas pelos documentos aqui citados, e sendo favorável a uma mudança nos paradigmas das metodologias e práticas de ensino, não podemos nos furtar ao questionamento de como isso afeta alunos, professores e escolas das áreas mais vulneráveis de recursos governamentais. De acordo com os dados aqui apresentados pela pesquisa do Humanyzarte, a qual aponta para uma pequena amostragem de uma gigante realidade nacional, podemos afirmar que serão necessárias muitas mudanças para chegarmos ao que é indicado pelo estudo da Unesco e, também, ao que é desejado pelos normativas governamentais. E, diante do quadro exposto, faz-se necessário pensar a ampliação e adoção de políticas e sistemas de formação complementares para além dos currículos de formação, bem como de assistências técnicas as escolas, pois sem suportes e formação adequada, o uso das tecnologias para educação não passará de propostas teóricas. Referências Dra. Cláudia Cristina do Lago Borges é professora de Pré-história da UFPB e Coordenadora do ProfHistória da UFPB. Dra. Priscilla Gontijo Leite é professora História Antiga do Departamento de História da UFPB, coordenadora do Grupo de Pesquisa Humanyzarte. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. 2017. BRASIL. Portaria n. 22, de 20 de dezembro de 2019. CONTE, Elaine; Rosa Maria Filippozzi MARTINI. As Tecnologias na Educação: uma questão somente técnica? In: Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 40, n. 4, p. 1191-1207, out./dez. 2015. 105 SERAFIM, Maria Lúcia; SOUSA, Robson Pequeno de. Multimídia na educação: o vídeo digital integrado ao contexto escolar. In: SOUSA, R. P.; MOITA, F. M.; CARVALHO, A. B.G. (orgs.). Tecnologias digitais na educação. Campina Grande: EDUEPB, 2011. UNESCO. Tecnologias para a transformação da educação: experiências bem-sucedidas e expectativas. Relatório. 26 de outubro de 2014. Disponível em: http://www.unesco.org/new/fileadmin/MULTIMEDIA/FIELD/Brasilia/pdf/brz_ ci_preliminar_doc_tecnologias_transformacao_educacao.pdf. Acesso em 20 de novembro de 2019. 106 “EU APRENDI ISSO NA VÍDEO-AULA”: O CONHECIMENTO HISTÓRICO NA ERA DA VIRTUALIZAÇÃO Larissa Klosowski de Paula e Adriana Aparecida Pinto Quando se trata da produção de disseminadores do conhecimento histórico, são vastas as possibilidades de plataforma para tal, haja vista a existência de manuais, livros, revistas, jornais, panfletos, entre outras tipologias que podem congregar o que Salles (2014) categorizou enquanto disseminadores. Na atualidade, com o advento da Internet, somou-se a estes disseminadores as chamadas mídias digitais, que congregam blogs, sites, redes sociais, entre outros, que em seus sítios utilizam-se de um recurso bem conhecido na atualidade: as vídeo-aulas. É notório que estas mídias proporcionam ao conhecimento histórico ganhos e perdas, ao mesmo tempo. Ganhos no sentido de que as perspectivas de alcance desse conhecimento em relação ao sujeito sãoaumentadas, posto que principalmente as redes sociais são uma realidade no cotidiano. Perdas considerando-se que nem tudo que é propaga por tais meios pode ser considerado como histórico. Partindo desses pressupostos, Malerba (2017) já lançava o questionamento de como os historiadores podem disputar espaço nessas mídias, haja vista o público que elas atingem em magnitude: os jovens. Aqui, amplia-se esse questionamento para também congregar os professores, em exercício em sala de aula, haja vista que as frases “eu aprendi na vídeo-aula”, “tem vídeo-aula sobre isso?”, e demais de mesma significação, ganham espaço e tornam-se realidade também para o professor. Partindo desses pressupostos, a proposta que segue tem por objetivo promover discussões acerca do recurso das vídeo-aulas e seus reflexos na produção do conhecimento e no ensino de história. Para tanto, considera-se que há especificidades quanto à feitura desse material, caracterizando-o como uma tipologia de produção de conhecimento escolar, nas premissas de Chervel (1990), e que elas impactam das mais distintas formas no ensino de história, posto que transcendem o ambiente de sala de aula e respondem às carências de orientação no tempo advindas do aluno, como dispõe Rüsen (2011). Assim sendo, focar-se-á na seguinte questão: quais as características de uma boa vídeo-aula, considerando-se a história enquanto ciência na perspectiva de Jörn Rüsen? Para responder a esse questionamento, primeiramente se faz necessário considerar que uma vídeo-aula possui suas particularidades, dentre as quais, destacam-se as inerentes à produção do conteúdo, e a forma de aderência por parte do aluno que as procura. Levando isso em consideração, no que se refere à particularidade do contexto de produção, diferentemente do ambiente de sala de aula, a vídeo-aula possui a possibilidade de edição do conteúdo antes de disponibilizá-lo, bem como de recursos de edição que não se dispõe quando em exercício em sala de aula. São exemplos: a possibilidade de introdução de trilha sonora; a inserção 107 simultânea de imagens e vídeos junto à explicação do conteúdo; a ampliação e destaque de elementos de importância ao contexto de explicação; a não interrupção do fluxo explicativo; a edição de todos os componentes pós factum; entre outros. Assim sendo, cria-se um tipo de aula ideal, cujo a organização do conteúdo, seleção de recursos metodológicos e organização dos mesmos ocorre tal qual elaborado pelo proponente. Além disso, conta-se com o fato de que a atenção dirigida do aluno está voltada diretamente para o conteúdo, haja vista que o momento fora por ele selecionado; bem como o ambiente e a plataforma de exibição (celular, notebook, computador de mesa, smart TV, entre outros). Além disso, não há os elementos de distração que se encontram na sala de aula, tais como os demais colegas de turma, o desinteresse pelo aprendizado em horário não escolhido por ele, entre outros aspectos. Assim sendo, quando na procura por material online, o motivador está centralizado sujeito que procura, o que, no entanto, pode não ser o suficiente para tornar o aprendizado significativo do ponto de vista da ciência de referência, haja vista que nem todo conteúdo encontrado corresponde necessariamente a um que seja orientado pelas normativas científicas em relação aos conteúdo. Dessa forma, volta-se ao questionamento: quais as características de uma boa vídeo-aula? E estende-se à questão: O que transforma a história em ciência que deva ser ensinada? Para responder aos questionamentos supramencionados, recorrer-se-á às premissas do método histórico, haja vista que, de acordo com Rüsen (2001), mesmo que não se trate de considerar a história ensinada um reflexo preciso da ciência de referência, a história é e deve ser ensinada como tal, haja vista que possui métodos precisos para a pesquisa e produção de seus conteúdos. No que tange à questão dos métodos, vale ressaltar que mesmo estes não compondo uma fórmula unívoca, sua importância é imensurável, já que, de acordo com Grespan (2011, p. 291), foram estes um dos responsáveis por “(...) fixar e resguardar os limites do ‘território do historiador’, ao mesmo tempo em que o promovia à condição de cientista”. Através dos métodos o pesquisador afasta o resultado do seu trabalho da ficção, da literatura e da mera repetição informativa documental, sendo possibilitada a construção, de fato, de um conhecimento acerca do objeto analisado, afastando-se da exacerbada subjetividade. Neste sentido, desde a incursão da escola metódica, dita Positivista, “O próprio método, portanto, passa a ser concebido como um instrumento de trabalho, como ferramenta que pode ser bem ou mal utilizada, que se deve, de qualquer maneira, aprender a utilizar. Ele tem a ver com o sujeito mais do que com o objeto de pesquisa, mas o sujeito deve acostumar-se a ele, adestra-lo, desenvolvê-lo, treiná-lo.” (GRESPAN, 2011, p. 293) Mesmo com a incursão das escolas historiográficas posteriores à Metódica, a questão do método e da necessidade das fontes para a construção do conhecimento histórico continuaram baluartes para a história. Assim sendo, 108 quando se trata desse conhecimento em um suporte distinto do convencional, tal como são as vídeo-aulas na atualidade, é imprescindível que estejam explícitos para que se compreenda se o conteúdo proposto está ou não em consonância com a ciência história. Para tanto, faz-se necessário que quem procura tal suporte esteja preparado para identificar a importância desses recursos. A vídeo-aula possui fundamentação em fontes históricas? O produtor e disponibilizador das mesmas possui formação para tal? Para exemplificar, utilizaremos a vídeo-aula Zé Carioca e a Segunda Guerra Mundial, da seção de história do canal Nerdologia, cujo o conteúdo fora elaborado pelo pesquisador e professor Filipe Figueiredo. Embora não se tenha acesso direito ao currículo do pesquisador, o mesmo é também editor e autor do site XadrezVerbal e é graduado em História pela Universidade de São Paulo. No vídeo analisado, levar-se-á em consideração as concepções talhadas pelo historiador Jörn Rüsen acerca da ciência histórica. Para tanto, o vídeo fora assistido levando-se em consideração as premissas destacadas pelo autor como componentes para a construção do conhecimento histórico, que compreendem as dimensões da experiência, da interpretação e da orientação, para as quais o autor destaca que: “A competência perceptiva ou embasada na experiência consiste em saber perceber o passado como tal, isto é, em seu distanciamento e diferenciação do presente (alteridade histórica), em vê-lo a partir do horizonte de experiências do presente como um conjunto de ruínas e tradição. A competência interpretativa consiste em saber interpretar o que temos percebido como passo em relação e conexão de significado e de sentido com a realidade (a ‘História’ é a encarnação suprema dessa conexão). Finalmente, a competência de orientação consiste em admitir e integrar a ‘História como construção de sentido com o conteúdo de experiências do passado, no marco de orientação cultural da própria experiência de vida’.” (RÜSEN, In: SCHMIDT, BARCA e MARTINS p. 114) No que tange à competência da experiência, a vídeo-aula analisada contempla tais premissas à medida em que explana o contexto histórico em sua perspectiva cronológica, distanciando-o do presente do aluno e conclamando que o mesmo compreenda que tal passado aconteceu, de fato, e surtiu efeitos nas esferas econômica, política, cultural e social de sua temporalidade, atingindo-as de maneiras distintas. Para tanto, o autor do conteúdo busca explanar como as relações entre Brasil e Alemanha ocorriam, trazendo dados acerca da exportação de café e algodão; da compra de armas por parte do governo brasileiro; dos acordos firmados entre as nações; das aproximaçõesentre Brasil e Estados Unidos, entre outros aspectos. Para tanto, o professor se utiliza de recursos já conhecidos dos professores de história, tais como: a clivagem cronológica dos acontecimentos de grande influência, que, de acordo com Schmidt (2012, p. 160) constitui um 109 recurso que “[...] é um dos conceitos fundamentais, elegendo-se um momento como ponto de partida, descrevendo-se a evolução e apontando- se um momento como ponto de chegada” quando se trata da metodologia para o ensino de história; a apresentação do cenário político brasileiro e alemão, que, de acordo com Rüsen (2007a), é basilar quando se trata da história, haja vista que se necessita da explanagem do contexto para a clivagem do campo de experiência que ele possui; a comparação entre as nações, que de acordo com a autora supramencionada permite demonstrar aspectos importantes para a análise dos “porquês” dos fatos acontecerem como o foram e que, nas premissas de Rüsen (2007b), demonstram as possibilidade distintas de análise em relação aos espaços também distintos; a utilização de mapas que ressalta o espaço físico nos quais os fatos se desenrolara, recurso também destacado por Rüsen (2011); entre outros aspectos. Para fundamentar tais premissas, o autor faz uso de livros, artigos e resenhas, que cita no decorrer da vídeo-aula e disponibiliza na descrição do material. Foram alguns dos materiais consultados pelo professor os livros Os Brasileiros e a Segunda Guerra Mundial, de Francisco César Ferraz, lançado pela editora Zahar em 2005; e A Entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, de Ricardo Seitenfus, da editora EDIPUCRS do ano 2000. Dentre os artigos citados por ele, estão A produção Disney em época de Segunda Guerra Mundial: cinema, história e propaganda, de Alexandre Maccari Ferreira, disponível nos Anais do XXIV Simpósio Nacional de História da Associação Nacional de História de 2007; e As relações diplomáticas entre Alemanha e Brasil no período de 1937 a 1942, de Andrea Helena Petry Rahmeier, publicizado pela Revista História Unisinos, 2013. Além disso, o autor faz uso da resenha de Igor Lapsky e Rafael Araujo, publicada na Revista de História Comparada em 2011, do livro O Brasil e a Segunda Guerra Mundial, da editora Multifoco, lançado em 2010. Neste sentido, a vídeo-aula apresenta formas para que o aluno compreenda o passado e aumente seus saberes sobre tal, respeitando as relações entre as distintas temporalidades (presente e passado). Em relação à competência da interpretação, que, de acordo com Rüsen (2011), consiste na operação que dá sentido à experiência, desdogmatizando uma visão pragmática e construída sob apenas uma perspectiva, levou-se em consideração, para abordar essa dimensão, os métodos utilizados em relação à cientificidade do conteúdo apresentado e as formas de apresentação para as quais o professor recorreu. Nessa competência, o autor ressalta a necessidade do clivo das normas científica e da força de exposição, que são cumpridas pelo professor da vídeo-aula à medida em que ele recorre aos procedimentos da pesquisa histórica, como mencionado anteriormente, e expõe os fatos de acordo com os resultantes disso, e não fundamentando em torno de opiniões. Notou-se que, assim como delimitado por Rüsen acerca da necessidade de se levar os estudantes a levantarem hipóteses sobre o passado e elucida-las dentro do suporte que o aluno tem em mãos, é possibilitado ao aluno, de 110 certa forma, interpretar os dados do passado e analisar as informações construídas a partir dos métodos explanados anteriormente. Isso porque o professor levanta hipóteses acerca do contexto de guerra e as elucida, comprovando-as ou negando-as à medida em que expõe as fontes o referencial consultado; cita as fontes dos dados que menciona, tais como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; bem como demonstra algumas outras fontes por intermédio de imagens (tais como jornais da época em discussão e fotografias do período). Além disso, há a indicação, de maneira indireta, outras formas de abordagens do conteúdo, tais como filmes, que são indicados simultaneamente à fala do professor. No que se refere à competência da orientação, que, de acordo com Rüsen, consiste na que organiza o conteúdo apreendido nas duas instâncias anteriores e permite que o aluno construa uma opinião histórica acerca da temática, orientado, dessa forma, a sua identidade histórica, não se dispõe, dada à plataforma, de dados suficientes que permitam a análise de tal premissa, haja vista que não há, no decorrer da vídeo-aula, atividades que impulsionem os alunos a tal objetivo. Por fim, importante ressaltar que, seja aula presencial ou na modalidade vídeo-aula, o cerne metodológico da ciência história precisa ser resguardado, posto que a história é ciência tanto na pesquisa quanto no ensino. Assim sendo, respondendo à questão inicial que motivou essas breves considerações, uma boa vídeo-aula, assim como uma boa aula, é aquela que segue os métodos da ciência histórica. Referências Larissa Klosowski de Paula: Graduada em história e mestre em ensino pela Universidade Estadual do Paraná - UNESPAR / Campus de Paranavaí. Doutoranda em História pela Universidade Federal da Grande Dourados - UFGD. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Ensino, História e Educação (GEPEHED) da UFGD; e do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação e Diversidade do Campo da UNESPAR - Campus de Paranavaí. Bolsista CAPES. Adriana Aparecida Pinto: Professora Adjunto IV dos cursos de Graduação e Programa de Pós-Graduação em História - Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas Ensino, História e Educação – GEPEHED, certificado pelo CNPq. E-mail: adrianaaparecida@ufgd.edu.br Vídeo-aula analisada: Filipe, Figueiredo. Zé Carioca e a Segunda Guerra Mundia. Vídeo-aula. 9min06. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=MkIaUwpSE3U&list=PLyRcl7Q37- DXmpJEy_fj-HnWtvHuu_Ihi&index=89&t=19s. Acesso em 11/04/2020 Referências CHERVEL, André. História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa In: Teoria & Educação. N. 2. Porto Alegre: Pannonica, 1990. 111 MALERBA, Jurandir. Os historiadores e seus públicos: desafios ao conhecimento histórico na era digital. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 37, nº 74. 2017, p. 135-154 SALLES, André Mendes. Ensino de História, Livros Didáticos e Cultura Histórica. In: OLIVEIRA, Carla Mary S.; MARIANO, Serioja Rodrigues Cordeiro. Cultura Histórica e Ensino de História. João Pessoa, Editora da UFBP, p. 39-64, 2014. SCHMIDT, Maria Auxiliadora. Construindo conceitos no ensino de história: a captura lógica da realidade social. História & Ensino, 2012, 5: 147-164. SCHMIDT, Maria Auxiliadora; BARCA, Isabel; MARTINS, Estevão de Rezende. Jörn Rüsen e o Ensino de História. Orgs: Curitiba: Ed. UFPR, 2011 112 POSSIBILIDADES DE USO DO PREZI COMO RECURSO NAS AULAS DE HISTÓRIA Daiane Arend Flores de Oliveira O uso de tecnologias e mídias em sala de aula vem ocorrendo em exponencial crescente, de forma que a educação escolar não pode mais ser pensada sem suas aplicabilidades. As possibilidades de exploração e metodologias diversificadas são muitas, variando conforme as propostas pedagógicas e objetivos que se pretende alcançar; tanto a variedade das mídias quanto das tecnologias são empregadas conforme os interesses pedagógicos vigentes, em prol do desenvolvimento pleno dos alunos. Muitas vezes confundimos as terminologias ‘mídia’ e ‘tecnologia’, mas a diferenciação é simples: mídia é um termo empregado para designar os meios de suporte de difusão e veiculação da informação (tais como televisão, rádio, jornal) para originar informações por instrumentos, como máquina fotográfica e filmadora; também é entendido por ‘mídia’ as maneiras pelas quais as informaçõessão transmitidas (sendo exemplos mídia impressa, mídia digital, mídia eletrônica), atrelados ao aparato físico ou tecnológico utilizado no registro de informações (videocassete, DVD, CD- ROM). O termo ‘tecnologia’, por sua vez, é empregado para referenciar os mais diversos equipamentos e ferramentas. Logo, entende-se que a mídia é o meio de comunicação fazendo uso da tecnologia para complementar seu processo de propagação. Uma ferramenta interativa tecnológica que traz grandes contribuições e pode enriquecer de modo significativo as aulas de História denomina-se ‘prezi’, que se revela um recurso utilizado com a informática, como criador de apresentações dinâmicas e criativas. Neste estudo, são apresentadas possibilidades do mesmo, bem como de seus usos na comunicação. Em si toda a interação mediada por computador e ferramentas de web auxilia o derretimento dos preceitos da modernidade. A interatividade proveniente dessa área de conhecimento e ensino pode ajudar a alienar ainda mais ou a recuperar o senso de comunidade através da construção do próprio conhecimento através da facilidade de reação advinda da ação do pensamento, ou seja, a ferramenta ‘prezi’ tem o potencial de religar ou afastar os extremos tênues do conhecimento e da vida em sociedade. Assim, as redes sociais vêm incorporando as comunidades de aprendizagem e as comunidades de uma forma social também. Toda forma de interação derivada de um pensamento conjunto tende a um resultado mais abrangente dos respectivos assuntos abordados. Logo, o prezi tendo contato e sendo usado para fins acadêmicos, cria redes de interação em determinados grupos de pessoas, além de relativizar e sistematizar o conteúdo abordado, deixando margem para a dicotomia homem-máquina e não apenas o uso de metodologias por uma ou outra parte apenas. As funções de interatividade do prezi estão ligadas as alterações que se pode fazer através das modificações e construções em apresentações 113 predefinidas por um sujeito. Assim, ele também é um objeto de aprendizagem e como tal, proporciona a exploração e interação de uma forma dinâmica, instigante e inovadora, ofertando aos alunos o aprimoramento de suas habilidades e esquematização de saberes. Um sujeito representa o grupo, este por sua vez interage com o objeto de construção de conhecimento interagindo diretamente nas modificações, ideias e no resultado final do processo coletivo baseado nas tecnologias educativas. Embora, deve-se ter em mente que: “Contudo as tecnologias educativas não são nem auxiliares técnicos nem a pedra filosofal do processo ensino-aprendizagem. Essas tecnologias são elementos organizadores da ação formadora e das práticas de aprendizagem. Portanto, o estudo das práticas de ensino midiatizado deve apoiar-se na construção de um modelo global dos processos de ensino, integrando essas tecnologias no centro da dinâmica de ação” (Alava, 2002, p. 56). Alguns parâmetros transformam o prezi em uma ferramenta de assuntos universais, potencializando sua utilização em âmbito acadêmico, pois com possibilidades numerosas de combinações para designar propósitos específicos em suas criações, ele torna-se instigante e pretensioso para alguns fins por ele possibilitados, é também um ambiente muito rico que possibilita a interação, e assim como os softwares educativos, pode-se dizer que é tem: "a finalidade de levar o aluno a construir determinado conhecimento relativo a um conteúdo didático" (Oliveira, 2001, p.73). Logo, o saber pode e deve ser formado através de ações diversificadas, lúdicas, interessantes e que respeitem os interesses e necessidades dos alunos. O professor Michael Young (2007) citando John White postula que a escola é uma instituição com o intuito de proporcionar a obtenção do conhecimento, sendo que o autor afirma que esta função social vem sendo descuidada pelos poderes que tomam decisões políticas e também por pesquisadores da sociologia da educação, que por sua vez colocam a escola muito além de espaço de produção e propagação de saberes de modo sistematizado. Atualmente, entende-se que para o desenvolvimento integral do aluno faz- se necessário criar um ambiente desafiador e aberto a questionamentos, que instigue a curiosidade, mobilize seus conhecimentos, mostre suas lacunas e os estimule a eliminá-las, possibilitando a reflexão e compreensão para julgamento crítico e articulado próprio de um cidadão capaz de avaliar, sendo consciente, autônomo e transformador. É importante criar espaço para que os alunos possam ter autonomia para desenvolver suas aprendizagens, colaborando entre si, com respeito mútuo, com liberdade e com responsabilidade, promovendo a troca de experiências entre eles. O uso do prezi na construção de saberes O uso das mídias sociais e internet expandem as capacidades de comunicação e a transmissão do conhecimento, de modo que Alves (2013) 114 corrobora ao afirmar que: “as experiências mediadas por tecnologias que utilizam a realidade virtual abrem novas janelas nos processos de criação”. Desta maneira, entendemos que a tecnologia como um todo e suas respectivas mídias e redes possibilitam novas reflexões, experiências e possibilidades expressivas, sendo que a experiência terá impacto na vida de cada usuário conforme suas vivências e subjetividades. Os sujeitos envolvidos na construção de informações e conhecimento através da ferramenta têm como aliada a rede em sua totalidade, isso os deixa com um grande potencial de informações. A ferramenta proporciona sistematizar dialeticamente esse fluxo de informações, além de exigir atenção, raciocínio, memória e criatividade dos envolvidos, pois inicialmente o prezi tem uma complexidade em seus atributos devido à grande quantidade de recursos disponíveis; sob tal perspectiva, Alava (2002) afirma uqe o uso de recursos aliados a dispositivos midiatizados tornam-se fortes reorganizadores dos fazeres pedagógicos e das escolhas didáticas. Devido a fatores exteriores ligados a incansável busca por parâmetros de medição e evolução do conhecimento, a internet passou a exercer e proporcionar uma interação crescente no modo de construir o conhecimento através de uma metodologia renovada. Contudo se essa interação não for dosada e tornar-se única na forma de representar as intenções de conhecimento, os sujeitos podem estar relegados ao que Bauman (2001) define como ‘confinamento do próprio eu’. Em si toda a interação mediada por computador e ferramentas de web auxilia o derretimento dos preceitos da modernidade. A interatividade proveniente dessa área de conhecimento e ensino pode ajudar a alienar ainda mais ou a recuperar o senso de comunidade através da construção do próprio conhecimento através da facilidade de reação advinda da ação do pensamento, ou seja, a ferramenta em questão em nosso texto tem o potencial de religar ou afastar os extremos tênues do conhecimento e da vida em sociedade. Castells (2003) destaca o: “deslocamento da comunidade para a rede como forma central de organizar a interação” (p. 106). Assim, as redes sociais vêm incorporando as comunidades de aprendizagem e as comunidades de uma forma social também. Em nossa conjuntura com intenso uso de mídias, é importante que os alunos percebam o quão positiva pode ser a colaboração e uso adequado de materiais produzidos por outros, pois, como postula Sérgio Silveira (2006, p. 05) “no mundo das redes, a liberdade ao invés de aumentar simplesmente a competição, está consolidando a colaboração e a solidariedade”, percebe-se que a cibercultura está fortemente empregada em nossas realidades e deve ser empregada com uso benéfico e adequado a todos, favorecendo a criação e autoria a partir de tecnologias digitais. Sobre este aspecto, podemos relacionar a ação discente, pois utilizando recursos e instrumentos que dominam, os educandos tornam-se protagonistas de seus aprendizados,de forma que possam a sentirem-se como parte e autores reais daquilo que interagem, socializam e se apropriam 115 Quanto ao profissional da escola mais próximo ao aluno, o professor, entende-se que este possui a capacidade de transformar, estimular sujeitos, sendo que a identidade pessoal e profissional orientarão a prática docente. Entende-se que ministrar aulas requer primeiramente o domínio de conteúdo, envolvendo o conhecimento científico organizado em planejamentos, cujas metodologias de ensino utilizadas devem ir ao encontro com o plano de ensino e trazer novas experiências aos alunos; logo, entende-se que o professor deve atuar como mediador, constatando os interesses e necessidades dos educandos, a fim de saná-las, possibilitando que os alunos sejam os protagonistas de suas aprendizagens, uma vez que os projetos devem partir de temas de interesse ou aspectos de necessidades dos próprios alunos Toda forma de interação derivada de um pensamento conjunto tende a um resultado mais abrangente dos respectivos assuntos abordados. Logo, o prezi tendo contato e sendo usado para fins acadêmicos, cria redes de interação em determinados grupos de pessoas, além de relativizar e sistematizar o conteúdo abordado. Deixando margem para a dicotomia Homem-máquina e não apenas o uso de metodologias por uma ou outra parte apenas. Considerações finais O prezi compreende bem o entendimento de interação aliando tecnologia e aprendizado e conforme Sancho (1999) evidencia que: “o aprender com a tecnologia, parte do pressuposto que o aluno é um sujeito ativo, e que para que exista aprendizagem é necessário o pensar e a reflexão do aluno sobre o próprio processo”. Assim, complexidade de inúmeras possibilidades de interação relacionadas pelo uso da mediação computadorizada com a curiosidade do aluno formulam uma equação que sistematicamente trás resultados surpreendentes e aguardados, verificando-se que o ‘prezi’ atrai a atenção e propagação do conhecimento na relação um para um, um para todos ou todos para todos. Postula-se que a centralidade do construção e da aplicação do currículo precisa ser sempre o aluno, ou seja, é muito importante que professores, equipe diretiva, merendeiras, serviços gerais compreendam que o tempo que o educando passa na escola é uma oportunidade dela desenvolver sua cultura e também apropriar-se do patrimônio cultural e científico já produzido pela sociedade. É importante priorizar e permitir as experiências, possibilitando que os educandos vivenciem momentos prazerosos, para que através da ludicidade, construam-se seu entendimento de mundo e ampliem saberes nas diversas áreas do conhecimento. O planejamento das ações, verificação da disponibilidade de recursos, constatação de interesses e necessidades dos alunos são essenciais na construção do processo ensino-aprendizado, pois fundamentam os embasamentos, orientam caminhos e objetivos, possibilitam a análise dos méritos alcançados e etapas com necessidades de alterações; tais 116 procedimentos esmiúçam o que se pretende alcançar, como e por quais razões. Regina Haidt (2004) traz a importância do planejamento pedagógico em suas diversas funções, entre elas supor as dificuldades que podem ocorrer, evitar a repetição mecânica e rotineira das aulas, adaptar a prática às mídias disponíveis e as especificidades discentes dos alunos, ajustar os conteúdos, estratégias pedagógicas e as avaliações aos objetivos. Deste modo, o planejamento seria expresso em um produto, sobre o qual entende-se o “plano”, sendo este o resultado/ registro do processo mental de planejamento. Pode-se afirmar que longo do tempo, ocorreram muitas mudanças na forma como escola, alunos, professores são vistos e entendidos; a sociedade transforou-se e as propostas político-escolares acompanham estas mudanças. Assim, Young (2007) percebe que o cotidiano escolar acaba sendo um reflexo da forma como cada sujeito que por ele passa carregando sua bagagem, deixa suas marcas e coopera para sua construção. É necessário um olhar individual e ininterrupto sobre cada um dos alunos, verificando também as relações instituídas, bem como análise do ensino. Acredita-se que a proposta pedagógica desenvolvida nas escolas deve acolher os interesses, as curiosidades dos educandos ao mesmo tempo que proporciona um ambiente seguro, acolhedor e desafiador para que os alunos desenvolvam-se nos mais diferentes aspectos (afetivo, cognitivo, motor e social), pensando-os de forma integral, ou seja, não particionando os conhecimentos de acordo com o tempo disponível. Essa visão também contempla a maneira como os alunos constroem a sua identidade, ou seja, a ação deles sobre o mundo modifica-os e transforma aqueles com quem convivem, tornando-os coadjuvantes na formação de sociedades futuras. Referências: Daiane Arend Flores de Oliveira - Mestre em Processos e Manifestações Culturais e licenciada em História pela Universidade Feevale. Professora da Rede Pública Municipal de Taquara/ RS e Rede Estadual do Rio Grande do Sul. ALVES, Lynn. Games: novo lócus de aprendizagem. Disponível em: <http://www.multirio.rj.gov.br/portal/riomidia/rm_materia_conteudo.asp? idioma=1&idMenu=5&label= Artigos&v_nome_area=Artigos&v_id_conteudo=65515>. Acesso em: 10 fev. 2020. ALAVA, Séraphin (Org.).CIBERESPAÇO e formações abertas: rumo a novas práticas educacionais?. Porto Alegre, RS: Artes Médicas, 2002. BAUMAN, Zygmunt; Modernidade Líquida; tradução, Plínio Dentzein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001. 258p. CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. A ERA DA INFORMAÇAO: ECONOMIA, SOCIEDADE E CULTURA V.1. São Paulo. Editora Paz e Terra. 2003 117 HAYDT, Regina Célia C. Curso de Didática Geral. Editora Ática. SP.2003. OLIVEIRA, Celina Couto. Ambientes informatizados de aprendizagem: Produção e avaliação de software educativo. Campinas, SP: Papirus, 2001. SANCHO, JUANA G. A Caixa de Surpresas: possibilidades educativas da informática. Revista Pátio Ano 3 nº 9 Mai/Jul 1999. SILVEIRA, Sergio Amadeu da. O conceito de “commons” e a cibercultura. São Paulo. Faculdade de Comunicação Social Cásper Libero, 2006. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2007/resumos/R1202- 1.pdf> Acesso em: 10 fev. 2020. YOUNG, Michel. Para que servem as escolas? Educ. Soc. Campinas, vol. 28, n. 101, p. 1287-1302, set./dez: 2007. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/es/v28n101/a0228101.pdf> Acesso em: 03 jan. 2020. 118 A FOTOGRAFIA COMO EXPERIÊNCIA HISTÓRICA Daiane dos Santos Piassarollo O texto apresenta uma reflexão sobre uma atividade educativa, realizada durante a 18ª Mostra de Produção Universitária da Fundação Universidade do Rio Grande - MPU FURG, a qual visa estimular a troca de saberes, experiências e estudos nas diferentes áreas do conhecimento e caracteriza- se pela interação entre os participantes, pela articulação entre teoria e prática e a construção conjunta de conhecimentos. A proposta realizada no campus da FURG, ofertada aos alunos da mesma, apresentou fotografias da cidade do Rio Grande, a partir de um folheto digital e de um aplicativo com recurso em realidade aumentada [RA]. Além da observação das imagens, a oficina intitulada A FOTOGRAFIA COMO EXPERIÊNCIA HISTÓRICA, proporcionou teorizar sobre o uso da imagem fotográfica como instrumento de pesquisa da História, apresentando um breve histórico da fotografia, bem como suas trajetórias e representações. A experiência teve duração de 3 horas, realizada no dia 08/10/2019, no turno da tarde e contou com a participação de 6 alunos de diferentes cursos, como: História, Educação Física, Geografia, Artes e Pedagogia. A relevância dessa atividade está na apreciação iconográfica através do uso da tecnologia, proporcionando o desenvolvimento de uma prática educativa, que viabiliza o entendimento de queos objetos produzidos em outros tempos são suportes para experiências na atualidade. Dessa forma, objetivamos dar visibilidade às potencialidades de experiências com o passado, a partir do olhar sensível para fotografias da cidade, contribuindo para a construção do conhecimento histórico. Assim, pretendemos alcançar os objetivos, aliando conteúdo e tecnologia, através de um recurso que amplie as possibilidades dessa experiência. Nessa atividade, empregamos a abordagem teórica a partir de um trecho do texto introdutório do livro Fotografia & História de Boris Kossoy [KOSSOY, Boris. Fotografia & História. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.p.35-37]. Fotografia: o arquivo do mundo Como aponta Charles Monteiro, desde a Pré-História as imagens acompanham o processo de hominização e de socialização do homem, já que “antes de apreender e de interpretar o mundo por meio de códigos escritos, o homem desenha, pinta e educa o olhar através de imagens” [2013, p. 4]. Assim sendo, as sociedades vêm produzindo considerável material imagético, possibilitando olhares e diálogos de grande valia para a construção do conhecimento histórico. Dessa forma, as fontes imagéticas constituem-se um meio de conhecimento e acesso ao passado, pois segundo Caio César Boschi, “as imagens são sempre importante fonte informativa da época, das pessoas e da sociedade em que foram produzidas” [2007, p. 37]. Nesse sentido, destacamos a imagem fotográfica, que comporta as distintas formas de representação dos indivíduos e das sociedades, como recurso potente para as aprendizagens históricas. Pois, a fotografia, como entende 119 Ana Maria Mauad “assim concebida como forma de olhar o mundo pelos olhos da modernidade – um meio técnico de dar forma ao mundo por meio de imagens – é uma imagem ato – uma reserva de memória – o arquivo do mundo” [2014, p. 117]. Dada a sua característica de evidência, de prova do real, a fotografia “de forma testemunhal, nos mostra em seu conteúdo uma parcela da realidade congelada no espaço e no tempo possibilitando a reconstituição de aspectos vários da cena passada” [KOSSOY, 1980, p. 41]. Na mesma direção, Lucia Santaella aponta que “aquilo que vemos em uma foto não é uma imaginação, um sonho, uma recordação, mas a realidade em estado de passado. Disso decorre a função da fotografia como documento daquilo que passou e que a evanescência do tempo levou” [2012, p. 84]. Desde sua origem, a fotografia é tomada como recurso que comporta a realidade, no qual representamos o mundo e a nós mesmos, é recurso de amplas possibilidades de utilização pela História. Além da característica que as constituem como prova da verdade, as imagens fotográficas, segundo Boris Kossoy, nos mostram um fragmento selecionado da aparência das coisas, das pessoas, dos fatos congelados num dado momento de sua ocorrência e não se esgotam em si mesmas, pois, ao contrário, são o ponto de partida, “a pista para tentarmos desvendar o passado” [2009, p. 21]. Desse modo, a imagem gravada pela ação da luz sobre uma superfície sensibilizada quimicamente, registra imagens que poderão desencadear construções e leituras múltiplas. Nesse âmbito, buscamos oferecer uma oficina, que de forma breve, permitisse leituras, interpretações e aprendizados através da fotografia e da utilização de recursos tecnológicos. A possibilidade de ofertar uma atividade na MPU coincidiu com a conclusão, no mesmo ano, da pesquisa de mestrado da autora, no Programa de Pós- Graduação em História – Mestrado Profissional em História, Pesquisa e Vivências de Ensino-aprendizagem [PPGH-FURG]. O trabalho intitulado HISTÓRIA, MEMÓRIA E FOTOGRAFIA: RECONHECIMENTOS E RE- MEMORAÇÕES SOBRE O PASSADO produziu um recurso educativo, na forma de um folheto digital que apresenta imagens fotográficas atuais como referência para visualização de fotografias históricas, através de um APP com aplicação tecnológica de realidade aumentada, que na oportunidade da oficina ora relatada fora utilizado como forma de contribuir com as aprendizagens históricas. A fotografia como experiência histórica: uma imersão em realidade aumentada Ao proporcionar-nos uma nova linguagem visual, o invento da fotografia originou novas formas de representação dos indivíduos e das sociedades, tornando-se elemento de conhecimento e acesso ao passado. As imagens fotográficas concebidas em outras épocas documentam situações, cenários, estilos de vida, gestos e atores sociais e constituem-se importantes fontes para reconstituição histórica. 120 Essas imagens apresentam informações de realidades vividas em outros tempos, registros que podem ser rememorados posteriormente. Nessa direção, Mauad aponta que “a imagem fotográfica permite a presentificação do passado, como uma mensagem que se processa através do tempo” [1996, p. 10]. Ainda que apresentem elementos para o conhecimento das sociedades, há de se atentar para metodologias que considerem a compreensão das particularidades da linguagem fotográfica. Segundo Kossoy seus conteúdos jamais deverão ser entendidos como meras ilustrações ao texto, ao contrário: “As fontes fotográficas são uma possibilidade de investigação e descoberta que promete frutos na medida em que se tenta sistematizar suas informações, estabelecer metodologias adequadas de pesquisa e análise para a decifração de seus conteúdos e, por conseqüência da realidade que os originou” [KOSSOY, 2001, p. 32]. A partir desses entendimentos a oficina teve sua concepção de forma que teoria e experimentação proporcionassem interatividade e possibilitassem despertar reminiscências, interpretações, questionamentos e sentimentos. Assim, num primeiro momento utilizamos de metodologia expositiva e teórica, abordando sobre como a fotografia se constitui fonte de conhecimento histórico. Para tal, apresentamos em slides os tópicos: Breve histórico da fotografia e A fotografia: suas trajetórias e representações. Na seqüência discorremos sobre o texto já referido de Boris Kossoy, com intuito de contribuir com as aprendizagens sobre os entrelaçamentos da fotografia e da História e fomentar percepções sobre distintas interpretações que as imagens fotográficas podem suscitar. No seguimento foram distribuídas imagens fotográficas reproduzidas em tamanho 10x15cm, impressas em papel fotográfico fosco, que originalmente fazem parte do acervo da Fototeca Municipal Ricardo Giovannini, e que foram anteriormente disponibilizadas em mídia digital para utilização na já referia pesquisa de mestrado e que compõem o APP desenvolvido durante a mesma. Cada estudante recebeu 2 fotografias para observação, do total de 17 imagens utilizadas no aplicativo. Tais imagens apresentam prédios históricos, ruas, praças, pessoas, evidências da conformação do espaço urbano ao longo dos tempos e que datam a partir do final do século XIX. Orientados a observarem as imagens, alguns minutos depois, os participantes da oficina teceram suas observações, compartilhando o entendimento da transposição do tempo, através das mudanças pelas quais a cidade e seus habitantes conformam. Seus comentários disseram respeito às mudanças arquitetônicas, detalhes de vestimentas, modelos de carros, lembranças e tentativas de localização geográfica e temporal. Enfim, a última prática dessa atividade consistiu na apresentação de fotografias da cidade do Rio Grande a partir do folheto digital e do 121 aplicativo. Nessa proposta de interatividade oportunizamos uma experiência com recurso em realidade aumentada, proporcionando o acesso às imagens que compõem o acervo de um museu. Ronald Azuma define a RA como uma experiência imersiva que sobrepõe elementos virtuais ao ambiente real circundante, gerando a ilusão de que esses objetos virtuais existem nesse espaço [2018]. Seu funcionamento se constitui na apresentação de um marcador [imagem que serve como referência paraa posição do objeto virtual] no campo visual da câmera. Logo, o sistema, através do aplicativo, detecta e rastreia os marcadores, projetando os objetos virtuais sobre a marca, e este por sua vez pode ser visualizado simultaneamente ao ambiente pelo observador através da tela do dispositivo. Um marcador geralmente é uma imagem geométrica que serve como um código e, também, uma referência para a posição e orientação da câmera [MACEDO; SILVA; BURIOL, 2016]. Para a imersão nessa vivência, o usuário deve instalar o aplicativo em seu celular, que é disponibilizado através de um link ou de um QR code. Assim, ao abrir o aplicativo APP e apontar a câmera para as imagens do folheto [marcadores], que neste caso, utilizamos imagens da atualidade, inicia-se uma varredura para o reconhecimento dos marcadores, que são referenciais para a projeção da informação virtual [as fotografias do acervo da Fototeca]. Como podemos visualizar abaixo, uma página do folheto digital na tela do computador, apresenta uma vista aérea do Mercado Público de Rio Grande, no ano de 2014 e a frente apontando para a mesma, o celular com o APP ativo após rastrear o marcador, adiciona a imagem do mesmo local, porém esta imagem teve seu registro no passado [fig.1]: Fonte: arquivo pessoal Alguns participantes receberam em seus celulares o folheto e baixaram o APP pelo QR code, além disso, para agilizar a experiência e permitir o acesso de todos, o folheto foi disponibilizado para visualização num notebook também. E dessa forma, ainda que motivados pela possibilidade de interação a partir de seus celulares, todos optaram por acessar a experiência pelo computador para que fizéssemos de forma conjunta, enquanto alguns esperavam para completar o download do APP em seus aparelhos. De tal modo, ao observar o folheto oportunizamos a visualização de fotografias elaboradas na atualidade, que funcionam como marcadores para o reconhecimento da câmera do dispositivo. Dessa forma, assim que 122 reconhecidas pelo aplicativo, a projeção de outra fotografia na tela conforma a experiência, na qual é possível a partir de uma imagem do presente, conhecer uma fotografia do passado que teve sua ocorrência no mesmo espaço ou em situação semelhante. As reações quanto à experiência foram positivas, no sentido de entrosamento, deslumbramento e aprendizagem. Todos reagiram de forma participativa encerrando a atividade com entendimento a respeito dos temas abordados e com a sensação da vivência numa situação inusual, já que, a incorporação de elementos virtuais no mundo real apresenta uma dimensão singular, pois “Os objetos virtuais exibem informações que o usuário não pode detectar diretamente com seus próprios sentidos” [SOUZA et al., 2016, p. 793]. Nessa proposição, o observador, visualiza um objeto de museu, sem a presença física nesse espaço, mas, numa possibilidade de interação a partir de um recurso tecnológico. Desse modo, utilizar esse recurso para as aprendizagens oferece oportunidades de interação dos sujeitos com objetos originados no passado, promovendo a participação e autonomia nesse processo. Encerrando a atividade discutimos sobre os comentários anteriores referentes às imagens impressas e a respeito da experiência com as imagens fotográficas através do aplicativo, na qual os estudantes fizeram as relações de transposição temporal das fotos analisadas, identificando as suas mudanças e permanências, percebendo a fotografia como uma experiência histórica. Como aponta Mauad: “Nunca ficamos passivos diante de uma fotografia: ela incita nossa imaginação, nos faz pensar sobre o passado, a partir do dado de materialidade que persiste na imagem. Um indício, um fantasma, talvez uma ilusão que, em certo momento da história, deixou sua marca registrada, numa superfície sensível [...]” [MAUAD, 1996, p. 98]. Detonadoras de informações e sentimentos sobre o passado e constituindo- se potencialidades para a aprendizagem histórica, as fotografias imersas em recursos tecnológicos constituem propostas que aliam conteúdos com a tecnologia e são oportunidades para promover o conhecimento e propagá- lo. Considerações finais Ainda que, constituam-se objetos instigantes por natureza, nessa proposição, não só a fotografia, mas também a tecnologia conformam a proposta de uma atividade estimulante. Buscamos proporcionar uma atividade interativa com objetos produzidos em outros tempos, a partir de um instrumento que possibilitasse vivências e experiências com o passado e, portanto, propiciasse a aprendizagem histórica. Ponderando que a visualização dos elementos adicionais, no caso da RA baseada em marcações ocorre no momento que o dispositivo móvel reconhece as marcas estabelecidas, concebemos que uma forma de proporcionar uma experiência histórica, com fotografias, deveria oferecer situações, nas quais fosse possível observar as mudanças temporais e espaciais. Assim, as 123 imagens foram selecionadas de modo que pudessem proporcionar o entendimento da transposição do tempo, através das mudanças pelas quais a cidade e seus habitantes conformam. Ronald Azuma destaca que a combinação de real e virtual deve propiciar uma experiência significativa, de forma que a adição da realidade aumentada possa complementar a própria realidade, conformando um novo tipo de experiência que é mais persuasiva do que a realidade por si própria ou o conteúdo virtual por si mesmo [2015]. Dessa forma, entendendo a fotografia como representação do real, como uma fonte histórica que demanda interpretações e leituras, os alunos puderam interagir, compreendendo as transformações e permanências ocorridas durante o tempo. Conforme Jörn Rüsen, as imagens têm de constituir fonte de uma experiência histórica genuína, devem, pois, “admitir e estimular interpretações, possibilitar comparações, mas sobretudo fazer compreender a singularidade da estranheza e o diferente do passado em comparação com a experiência presente, e apresentar o desafio de uma compreensão interpretativa” [2010, p. 120]. Ao oportunizar o processo de ensino e de aprendizagem da História por meio da fotografia e de recursos tecnológicos, entendemos que é possível ampliar a compreensão e incitar experiências históricas. Nessa direção, os objetivos de contribuir com as aprendizagens sobre os entrelaçamentos da Fotografia e da História e de proporcionar e dar visibilidade para as experiências visuais, estéticas, afetivas e históricas, integrando as novas tecnologias da informação e comunicação [TIC’s] foram atingidos satisfatoriamente, na medida em que, cada participante interagiu, questionou, rememorou e percebeu as potencialidades de experiências com o passado. Considerando que, cada vez mais os aparatos tecnológicos estão inseridos no cotidiano e admitem finalidades diversas, constituem estes, possibilidades de desenvolver atividades educativas, integrando-as às novas tecnologias da informação e comunicação. As potencialidades proporcionadas pelos recursos tecnológicos estimulam a imaginação e possibilitam que o conhecimento seja construído dentro de um contexto interativo. Dessa forma, verifica-se uma contribuição para uma maior interação e autonomia no processo de aprendizagem e o incremento da experiência histórica. Referências Daiane dos Santos Piassarollo é Graduada em Educação Artística Licenciatura Plena-Habilitação Artes Plásticas, em Artes Visuais - Bacharelado e Mestre em História pela FURG. BOSCHI, Caio César. Por que estudar História? São Paulo: Ática, 2007. KOSSOY, Boris. A fotografia como fonte histórica: introdução à pesquisa e interpretação das imagens do passado. São Paulo: Museu da Indústria, Comércio e Tecnologia de São Paulo, 1980. 124 ______. Fotografia & História. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. ______. Realidades e ficções na trama fotográfica. 4.ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009.MACEDO, Alex de Cassio; SILVA, João Assumpção da; BURIOL, Tiago Martinuzzi. Usando Smartphone e Realidade aumentada para estudar Geometria espacial. Novas Tecnologias na Educação, v. 14 Nº 2, dez. 2016. MAUAD, Ana Maria. Através da imagem: fotografia e História – interfaces. Tempo. Rio de Janeiro, vol. 1, p. 73-98 dez, 1996. ______. Como nascem as imagens? Um estudo de história visual. História: Questões & Debates, Editora UFPR, Curitiba, n. 61, p. 105-132, jul./dez, 2014. MONTEIRO, Charles. A pesquisa em História e Fotografia no Brasil: notas bibliográficas. Anos 90, Porto Alegre, v. 15, n. 28, p.169-185, dez. 2008. RÜSEN, Jorn. O livro didático ideal. In: SCHMIDT, M. A; BARCA, I.; MARTINS, E. R. M. (Orgs.). Jörn Rüsen e o Ensino de História. Curitiba: Ed. UFPR, 2010. SANTAELLA, Lucia. Leitura de Imagem. São Paulo: Melhoramentos, 1ª edição. 2012. SOUZA et al. A realidade aumentada na apresentação de produtos cartográficos. Bol. Ciênc. Geod., sec. Artigos, Curitiba, v. 22, n 4, p.790 - 806, out - dez, 2016. 125 O ANO DE 1968 NO PARÁ EM QUESTÃO: OS PASSADOS VIVOS E A HISTÓRIA ENSINADA Davison Hugo Rocha Alves Em 2018, o presidente Jair Bolsonaro suscita dentro da opinião públicas discussões acerca dos governos militares. Durante as eleições presidenciais deste ano, ele afirma em entrevista que o objetivo é fazer o Brasil semelhante ao que tínhamos há 40, 50 anos. Portanto, estamos falando de 1978, de 1968 período em que o Brasil vivia os anos de chumbo. O discurso possibilita compreender que ele tem uma nostalgia dos governos militares, o período em que o Brasil era governado por militares, momento em que as liberdades democráticas foram cerceadas a partir das ações do presidente da República. Um Brasil antes da constituinte de 1988, que teve como grande marco recente o Ato Institucional nº 5, publicado em 13 de dezembro de 1968, ele faz uso político para construir sua imagem perante a sociedade brasileira. As questões socialmente vivas são fundamentais para entender o tempo presente, ou seja, são os objetos privilegiados do ensino de História que debatem as demandas de grupos identitários pela busca de direitos sociais em uma determinada sociedade [PEREIRA; SEFFNER, 2018]. Portanto, queremos apresentar neste texto o protagonismo dos estudantes universitários na cidade de Belém a partir do ano de 1968. O documentário foi produzido em rememoração aos 50 anos em 2018 do ano emblemático de resistência a ditadura militar. A reflexão teórico-metodológica que pretendemos abordar neste artigo é a construção de uma História escolar que acabe afaste-se de uma perspectiva histórica universalista, ela está voltada para a história do Estado-Nação, etnocêntrica, elitista e recuse o olhar sobre o outro como uma possibilidade de interpretar o passado em sala de aula. O estudo dos regimes autoritários no Brasil e no mundo permite com que o professor esteja sensível a ensinar e abordar temas considerados sensíveis. Os traumas, as violências na História, os acontecimentos recentes são considerados temos vivos dentro do espaço escolar, quando a questão é “delicada em sala de aula, quando o próprio professor pode ser colocado em dificuldade no que diz respeito aos conhecimentos necessários para ensinar, ou em função das reações dos alunos” [LEGARDEZ; SIMONNEAUX, 2006, p. 56]. Na Universidade Federal do Pará os debates sobre a reforma universitária, sobre o cotidiano dos estudantes universitários nas faculdades isoladas, bem como a implantação da Assessoria de Segurança e Informação (ASI) durante a gestão do ex-reitor José Silveira Netto são reflexos da expressão autoritária de controle e vigilância dentro do campus universitário do Guamá [FONTES; ALVES, 2013]. Os estudantes universitários apresentam em suas memórias as vivências sobre a repressão e o processo de modernização autoritária que ocorria durante os anos 1960 nas universidades brasileiras. 126 O documentário reúne diversos tipos de fontes históricas sobre o ano de 1968. Um olhar sobre a sociedade paraense e suas conexões com os acontecimentos do mundo e do Brasil estão presentes na fala dos estudantes universitários. Segundo Rodrigo Motta [2019, p. 155] as fontes orais permitiram enriquecer o trabalho ao oferecer um contraponto aos dados obtidos nos papéis ou nas imagens digitais. O professor pode apresentar como tema de discussão dentro da disciplina Estudos Amazônicos, haja vista, que os professores da educação básica se queixam da falta de material didático para uso em sala de aula. O presente artigo quer fazer uma reflexão sobre o ano de 1968 no Pará a partir de uma produção cultural desenvolvida em comemoração aos 50 anos dos eventos sociais e políticos que culminaram em 13 de dezembro de 1968 com a decretação do Ato Institucional nº 5. O laboratório virtual de Ensino de História possui uma página eletrônica em que está publicado uma pequena produção em vídeo, ele foi fruto de uma pesquisa documental realizada para construir a narrativa sobre os governos militares no Pará. O vídeo poder ser consultado através do link https://www.youtube.com/watch?v=AoTt_f5uNuU O documentário pode ser usado em sala de aula como forma de narrativa histórica a partir da história de vida dos sujeitos que tiveram nos anos 1960 uma relação com os governos militares por meio da ação estudantil na universidade Federal do Pará, ele pode ser um contraponto a narrativa didática presente nos livro didático de História usado pelo professor. Demonstrando que não existe uma única verdade sobre os acontecimentos históricos, mas versões do passado e que assim como o livro didático é feito de diversos documentos e foi escrito a partir da seleção de documentos escolhida pelos autores, o produto cultural também possui uma versão do passado, com a seleção de documentos escolhidos para a construção de sua narrativa. O documentário produzido possui como fontes históricas o uso de memórias, de imagens de época, da fotografia, de música usadas de forma intercaladas, com a intenção de construir uma narrativa sobre os governos militares no Pará. O uso de fontes históricas torna a aula de História um espaço de debate e de reflexão sobre determinado processo histórico. A variedade de fontes históricas permite com que o professor de História dialogue com o passado, elas são mediadoras do conhecimento histórico. As fontes históricas em sala de aula são consideradas uma possibilidade de produção do conhecimento histórico escolar [CAIMI, 2008]. O debate sobre fonte histórica permite que o professor dinamize as aulas de História ou de Estudos Amazônicos, fazendo com que ele saia do conteudismo e do verbalismo muito marcadamente na disciplina história desde os finais do XIX até o século XX. Em 2017, a Base Nacional Curricular Comum (BNCC) reafirma a importância de produzir um conhecimento histórico escolar mediado pelo uso de fontes e documentos. O documento legal reafirma que observar e compreender 127 que a história se faz com perguntas. Portanto, para aprender história, é preciso saber produzi-las [BRASIL, 2017, p. 417]. O segundo procedimento diz respeito à escolha de fontes e documentos. O exercício de transformar um objeto em documento é prerrogativa do sujeito que o observa e o interroga para desvendar a sociedade que o produziu. O documento, para o historiador, é o campo da produção do conhecimento histórico; portanto, é esta a atividade mais importante a ser desenvolvida com os alunos. Os documentos são portadores de sentido, capazes de sugerir mediações entre o que é visível (pedra, por exemplo) e o que é invisível (amuleto, por exemplo), permitindo ao sujeito formular problemas e colocar em questão a sociedade que os produziu [BRASIL, 2017, p. 416]. Podemos perceber que a BNCC possui para o 9º ano uma unidade temática intitulada Modernização, ditaduracivil-militar e redemocratização: o Brasil após 1946, ela possibilita que o professor tenha como objeto de conhecimento os seguintes conteúdos em sala de aula: (1) os anos 1960: revolução cultural? (2) A ditadura civil-militar e os processos de resistência (3) A questão indígena e negra e a ditadura. O documento legal reforça uma concepção historiográfica de ditadura e seu apoio civil aos militares que assumiram o poder em 1964. As notícias jornalísticas de fevereiro de 1968 demonstram a aprovação dos calouros no vestibular, onde naquele período os estudantes representavam apenas 0,5% da população nacional em sua maioria vindos da classe média. Os estudantes estavam reclamando por mais vagas nas universidades e que mobilizavam os estudantes excedentes nos vestibulares. Em março de 1968 os jornais locais noticiam as reivindicações dos estudantes no Rio de Janeiro, entre elas estavam as reformas do restaurante Calabouço. O local era administrado pelo governo estadual, que ofereciam refeições a baixo custo, depois de passarem pelas reformas o restaurante foi entregue em condições precárias o que levou a novos protestos. No dia 28 de março de 1968 quando os estudantes estavam no restaurante Calabouço para se preparem para um ato público, a polícia militar do Rio de Janeiro invadiu o local e durante a confusão o estudante paraense Edson Luís de Lima Ferreira foi atingido e morreu no local, até hoje ninguém sabe quem foi o autor dos disparos. A reportagem foi noticiada no jornal Folha do Norte, no dia 30 de março de 1968. O professor Elson Luiz Rocha Monteiro que era estudante em 1968 durante depoimento ao projeto A UFPA e os anos de Chumbo (1964-1985) nos lembra como conheceu o estudante paraense, ele diz: conheci o Edson Luís nos anos anteriores a 68 em Belém, ele era filho de uma emprega doméstica que trabalhava em uma casa na Arcisprestes. Quando chega a notícia daquele estudante morto, nós vimos nas fotografias, era o Edson Luís. A memória do professor Aloísio Lins Leal que na época era estudante de matemática da UFPA, em 1968, relembra sobre os acontecimentos no Pará após a morte de Edson Luís, foi bastante noticiado na imprensa jornalística que os estudantes fizeram uma grande mobilização para realizar a missa de 7º dia para o estudante Edson Luís. Como prova dos acontecimentos no Pará foram recortados trechos dos jornais que apresentam as 128 movimentações estudantis em Belém do Pará, elas evidenciam A Guerra em Paz dos Paraenses”, que foi noticiado no jornal A Província do Pará, dia 03 de abril de 1968, Arcebispo celebra dia 4 na catedral missa pela alma do Estudante assassinado no Rio. Houve uma mobilização de carro som na frente de escolas e faculdades durante dois dias. A matéria jornalística apresentando que em Belém os estudantes vão a assembleia legislativa exigindo um posicionamento por parte dos deputados, eles noticiam “Estudantes com vaias e aplausos participam de assembleia e acabam fazendo comício contra legislativo”, publicado no jornal A Província do Pará, em 03 de abril de 1968. A matéria jornalística mostrando que durante o mês de junho os estudantes foram para as ruas realizar novos protestos que acabaram ocorrendo em diversas capitais do país, as notícias jornalísticas afirmam: Comando reunidos no Rio para conter os estudantes: 48 prisões, publicado no jornal Folha do Norte, em 20 de junho de 1968, os Estudantes ocupam faculdade e aprisionam reitor e vice-reitor no Rio, publicado no jornal A província do Pará, em 21 de junho de 1968, ‘Dois mil jovens lutam com a tropa policial’, publicado no jornal O Liberal, em 22 e 23 de junho de 1968; ‘Quatro mortos e hospitais cheios no Rio’, jornal Folha do Norte, em 22 de junho de 1968 são alguns exemplos. As imagens das matérias jornalísticas continuam entrelaçadas nas memórias dos estudantes universitários dentro do documentário, como a passeata dos duzentos mil no Rio de Janeiro, publicado no jornal Folha do Norte, em 27 de junho de 1968. O depoimento da estudante Hecilda Mary Veiga para UFPA, estudante de Ciências Sociais da UFPA em 1968 relembrando os eventos, como a passeata dos cem mil no Rio de Janeiro, ela diz: então, parecia que nós estudantes como também tentava fazer os estudantes franceses sobre a liderança do Dany, o vermelho podia mudar o mundo. O depoimento do estudante universitário Roberto Corrêa que relembra a ocupação ocorrida em agosto de 1968 em forma de resistência ao ex-reitor Silveira Netto na Universidade Federal do Pará, ele diz nós ocupamos a universidade a partir de uma ocupação que começou a partir da faculdade de Química, aí estoura lá, nós vamos fazer a mesma coisa. O depoimento do estudante universitário de medicina Ruy Barata que também nos diz: em 2 de agosto de 1968 nós ocupamos as faculdades, durou 1 mês com todo o povo lá dentro, não era quatro gato pingado, era a massa ocupando a faculdade. O depoimento do estudante Waldir Paiva Mesquita que era estudante de Medicina da UFPA em 1968 demonstrando que a ocupação não era uma proposta do PCB ela era uma consequência das reivindicações menores, era a única forma de obtermos aquilo que nós queríamos. A matéria do jornal A Província do Pará de 29 de agosto de 1968 relatando sobre as ocupações na UFPA, em que aparece um estudante universitário pintando cartaz em forma de protesto com o seguinte dizer ‘Arquitetura completamente esquecida! Isto já tem 5 anos de idade ...’. O estudante Waldir Paiva Mesquita continua dizendo que o movimento estudantil era muito aguerrido e com muita garra. O depoimento da estudante 129 universitária Laíse Duarte Salles que era estudante de em 1968, dizendo que foi fazer uma assembleia, que era uma questão de solidariedade nacional a luta do nosso amigo de 16 anos Edson Luís, que havia sido morto e que isso não podia continuar, pois, já tinha a primeira vítima da ditadura. O documentário 1968, 50 anos depois também apresenta o informativo da Agência Nacional possuindo imagens do ex-presidente Costa e Silva e sua comitiva que transferiu provisoriamente o governo federal para a Amazônia, chegando a cidade de Belém para a inauguração do campus universitário do Guamá. A cidade de Belém torna-se a capital federal enquanto o presidente Costa e Silve os ministros visitam a cidade. No discurso oficial o governo vem trazer desenvolvimento para Amazônia. Segundo Edilza Fontes [2014, p. 286] durante o mês de agosto de 1968 foram ocupadas as seguintes faculdades na Universidade Federal do Pará: Direito, Medicina, Engenharia, Arquitetura, Química, História, Ciências Sociais, Geografia, Letras e Matemática com exceção das faculdades de Odontologia e Farmácia. Os estudantes universitários estavam protestando por melhores condições de estrutura física dentro do campus do Guamá. Posteriormente, a fim de conter os estudantes considerados como elementos subversivos foi instalada a Assessoria de Sistema de Informações (ASI) dentro da UFPA. O documentário apresenta matérias jornalísticas que relembra o mês de setembro de 1968, quando ocorreu uma passeata na Avenida Presidente Vargas, os estudantes universitários estavam gritando palavras de ordem contra a ditadura militar, como também está representado nos jornais da época ilustrando o dia da raça na cidade de Belém, como lembra em depoimento o professor Aluízio Lins Leal. No mês de outubro de 1968 ocorreu o congresso de Ibiúna, que é relembrado pelo depoimento do estudante universitário do curso de Humberto Rocha Cunha a preparação do congresso de Ibiúna foi uma assembleia de portas abertas. O evento está intercalado com a notícia da matéria da revista Veja, que foi noticiado na grande imprensa com o seguinte título Todos presos, assim acabou o congresso da ex-UNE. Os estudantes paraenses que participaram do referido congresso estudantil foram detidos. A repressão amedrontou a grandemassa dos estudantes como foi noticiado pela grande imprensa, Estudantes rebelam-se de norte a sul, publicado no jornal Folha do Norte, em 16 de outubro de 1968. No entanto, na cidade de Belém o movimento estudantil volta as ruas, mesmo que em menor número para protestar com os acontecimentos recentes, como os Protestos em Belém visa a soltura dos estudantes, publicado no jornal O Liberal, em 16 de outubro de 1968. O governo militar aperta o cerco contra os estudantes em todo o país. No mês de dezembro de 1968 também ocorreu uma formatura na UFPA, no momento de colação de grau do curso de Direito, pois, os estudantes teciam diversas críticas ao regime militar imposto em 1964. Os jornais da cidade também noticiam que o evento na cidade de Belém contou com a participação do ex-presidente Juscelino kubitschek, ele havia chegado do 130 exílio. Ocorreu um discurso inflamado contra o regime militar. O professor da UFPA e deputado Camillo Montenegro (ARENA/PA) em entrevista ao projeto UFPA e os Anos de Chumbo (1964-1985) relembra o episódio na Câmara dos deputados quando foi destituída a Comissão de deputados pelo presidente da República Costa e Silva e cassou-se logo em seguida o mandato do deputado federal Márcio Moreira Alves. Os jovens da geração de 1968 seguiam na resistência contra a ditadura militar, eles não se calavam diante dos acontecimentos turbulentos. Lutavam pela democratização das escolas e das universidades, eles eram contra o acordo de ensino pago, os acordos firmados com as assessorias de governos dos Estados Unidos conhecido como Acordos MEC-USAID, eles sonhavam construir um país igualitário. Um mundo melhor. Termina assim o documentário 1968, 50 depois. O uso da história oral é um excelente recurso para a construção da escrita da história dentro do espaço escolar. O documentário 1968, 50 anos depois permite com que o professor de História problematize diversos acontecimentos do ano emblemático de 1968 para os governos militares. As ações estudantis dentro da Universidade Federal do Pará, nas ruas e nos espaços privados demonstram que a sociedade não estava satisfeita com os militares no poder. O uso de trechos de documentários que relembram os embates dos estudantes com os policiais militares. O assassinato do Estudante Edson Luís bastante refletido na historiografia da ditadura militar e suas repercussões na grande impressa e na memória dos estudantes universitários, mostram que a juventude estava em constante debate dentro da sociedade paraense. O debate sobre o AI-5 e a cassação do deputado Márcio Moreira Alves sendo relembrado pela memória do deputado federal da ARENA reafirmam que os acontecimentos na câmara dos deputados, bem como os olhares sobre os eventos sempre tem algo a nos revelar sobre o passado recente brasileiro. Não era somente a esquerda e os estudantes que faziam oposição as ações arbitrárias do ex-presidente Costa e Silva, mas também dentro do grupo político da situação haviam deputados que estavam descontentes com as medidas do governo. O documentário possibilita contar uma outra versão sobre a ação estudantil dentro do espaço paraense, mesclando diversas fontes como jornais, fotografias, entrevistas, trechos de documentários e música para olhar para o passado recente e fazer uma contra-história a hegemonia dos discursos militares presentes na sociedade brasileira e consequentemente na sociedade paraense. As diversas formas de resistências encontradas pelos estudantes universitários, estudantes secundaristas e sociedade civil ao regime militar pode ser percebida no documentário 1968, 50 anos depois. O professor pode usar os diversos tipos de documentos para construir uma história social dos acontecimentos que eclodiram de março a dezembro de 1968 na sociedade paraense intercalando com eventos nacionais e internacionais. O ensino de temas sensíveis requer que o professor tenha a sensibilidade de usar diversas informações para a construção da narrativa histórica, o uso de 131 fontes orais permitem ser uma versão sobre o passado, não como a verdade histórica, mas uma abordagem sobre o tema que está se estudando. Portanto, ele possibilita reflexões diversas sobre o ano de 1968 no espaço escolar. Referência Davison Hugo Rocha Alves é Docente - Unifesspa BRASIL. Base Nacional Curricular Comum (BNCC). Brasília, 2017. CAIMI, Flávia. Fontes históricas na sala de aula: uma possibilidade de produção de conhecimento histórico escolar? Anos 90, Porto Alegre, v. 15, n. 28, p.129-150, dez. 2008. FERREIRA, Marieta. História, Tempo Presente e História Oral. 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Em tempos como o nosso em que os avanços das tecnologias da informação e comunicação parecem, ao mesmo tempo, estreitar laços de comunicação e facilitar a divulgação e o avanço científico, parece também dar vazão ao obscurantismo e anticientificismo, consequentemente colocando em dúvida o saber do professor de história e a própria historiografia. Nessa perspectiva, nos apropriamos da discussão sobre revisionismo histórico e das teorias da memória para analisar os vídeos 1964: o Brasil entre armas e livros e Guia Politicamente Incorreto [ambos disponíveis no Youtube], no que diz respeito a suas narrativas e observamos que os comentários de usuários no site a respeito da ditadura militar no Brasil, em sua maioria, são identificados com esses conteúdos revisionistas, tendo como base uma memória social e coletiva herdada, recebida, apreendida e vivida. Revisionismo Histórico O termo “revisionismo histórico” está associado à produções historiográficas do pós-guerra que, embora não correspondam a uma corrente historiográfica específica, possuem características comuns que evidenciam: “o objectivo político subjacente à sua releitura do passado” [TRAVERSO, 2012, p. 158]. Essa releitura estaria, segundo Poggio [2006], comprometida com uma visão conservadora do passado sendo, no plano historiográfico, parte de uma articulação: “en la compleja estratégia neoconservadora dirigida a atacar no sólo las bases materiales, sino también las posiciones culturales y la fuerza intelectualde la izquierda, entendida en su acepción histórica más amplia” [POGGIO, 2006, p. 200]. Assim, trabalhos que questionam a inevitabilidade da Revolução Francesa bem como o seu caráter burguês [HOBSBAWM, 1996]; obras que versam sobre a equivalência entre nazismo e comunismo ou defendem uma “reabilitação histórica” de Mussolini e Franco [TRAVERSO, 2012;MELO, 2013] transcendendo o campo historiográfico e atuando na “consciência histórica partilhada” pelos membros de cada país, demonstram que: “a sua 133 releitura do passado tem sobretudo a ver, muito para lá da interpretação de uma determinada época, com a nossa forma de ver o mundo em que vivemos e a nossa identidade no presente” [TRAVERSO, 2012, p. 161]. Esses trabalhos revisionistas ganharam força à medida que as políticas neoliberais foram implementadas no globo com o advento de governos conservadores como os de Reagan e Thatcher e do pensamento pós- moderno que declara, no campo das ideais, o fim da história e a democracia liberal como ápice do desenvolvimento político humano [SOUTELO, 2009]. No Brasil, o revisionismo histórico versa, entre outros temas, sobre o período da Ditadura Militar tendo como principais postulados uma análise que prioriza a atuação de agentes políticos; defende a eminência de um golpe de Estado tanto da direita quanto da esquerda; a condenação moral das resistências antes e após o golpe e o apoio massivo da sociedade brasileira aos militares: “A primeira operação realizada por essa ‘nova’ literatura foi a de deslocar a explicação daquele regime da problemática do capitalismo. Sob o argumento falacioso segundo o qual conectar o processo político à dinâmica econômica seria o mesmo que ‘economicismo’, uma leitura ‘politicista’ veio propor como explicação para o golpe e a ditadura um suposto ‘déficit democrático’ na sociedade brasileira, de acordo com o qual, nos idos dos anos sessenta, tanto a direita quanto a esquerda seriam igualmente ‘golpistas’” [MELO, 2013, p.62]. Essas análises empreendidas a partir dos anos 1990 ganham visibilidade por ocasião dos 40 anos do golpe, em 2004, em um contexto de aumento de uma demanda por História por parte da população de um forma geral [TOLEDO, 2004]. Segundo Malerba [2014], a gênese, no Brasil, dessa demanda social por história surgiu a partir das comemorações do quinto centenário da chegada dos portugueses ao território brasileiro. Na época, o mercado editorial procurou suprir essa demanda com o lançamento de obras voltadas para o público geral, algumas das quais se tornaram bastante populares. De forma geral não são obras escritas por historiadores e voltam-se muito mais para o entretenimento do que para análises ou debates historiográficos em si e apresentam narrativas simplistas, focadas em personagens ou processos históricos isolados, com uma análise eurocêntrica e conservadora. O autor atribui essas características a obras como, por exemplo, a coleção Terra Brasilis, do jornalista esportivo Eduardo Bueno que, assim como outros autores desse tipo de literatura, faz questão de se diferenciar dos historiadores de fato, como se fizessem uma história “melhor”. Malerba [2014] ressalta que, no entanto, Bueno não fez pesquisa documental, mas se ancorou em trabalhos historiográficos e cronistas de época para sua produção. De forma semelhante, o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, do jornalista Leandro Narloch, lançado em 2009 e atingindo grande sucesso 134 de vendas, a ponto de se desdobrar em uma série de “guias politicamente incorretos” e uma série televisiva, vale-se de um “ótimo repertório de livros e artigos de História”[VENANCIO, 2018, On-line]. Especificamente sobre o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil e os livros dele derivados, Malerba [2014] assevera que o autor: “[…] montou seus guias não como uma narrativa histórica, mas como um mosaico de episódios contados em tom de chiste, de forma pilhérica, picaresca, enfim, de forma anedótica, conceituada como uma narrativa concisa, baseada em uma estrutura dramática de três atos relativos à situação ou exposição, o encontro ou crise e a resolução [que guarda a lição de moral]” [MALERBA, 2014, p. 40]. Dessa forma, o problema não está nas fontes utilizadas nesses trabalhos, mas nas interpretações, omissões, exageros e distorções de forma que a história representada se distancia da complexidade, das relações de causalidade e de crítica às fontes inerentes ao trabalho historiográfico para se transformar em uma história pilhérica, episódica e distorcida. Aportes básicos da teoria da memória social e coletiva Nos ancoramos no campo teórico da memória social e coletiva para análise das narrativas contidas nos materiais em estudo, entendendo que o estudo das construções de determinadas memórias e sua transmissão possibilitam a discussão sobre questões políticas e sociais que compõem os projetos de sociedade defendidos por determinados grupos [MAGALHÃES, 2014]. Para Halbwachs [2004], sociólogo francês pioneiro nos estudos da memória em sua dimensão social, o ato de rememorar é consciente e parte do presente em direção ao passado a partir de interesses do agora. Além disso, ainda que a ação de lembrar seja do indivíduo, este só é capaz de fazê-lo ancorando-se em quadros sociais que dão sustentação a essa memória: “La operación de la memoria supone, efectivamente, una actividad a la vez constructiva y racional de la mente [...] no se ejerce sino en un médio natural y social ordenado, coherente, del cual reconocemos a cada instante en el plan de conjunto y las grandes direcciones” [HALBWACHS, 2004, p.55] Dessa forma, poderíamos dizer que tanto as narrativas construídas pelos autores dos materiais como os comentários dos usuários recorrem a memórias vividas ou herdadas socialmente e impregnadas de referências a valores conservadores voltados para determinados interesses de releitura do passado. Revisionismo Histórico veiculado nos vídeos estudados Com o surgimento do Youtube esses conteúdos revisionistas passaram a dispor de um canal de divulgação e interação mais direta com o público. 135 Assim como outras mídias sociais digitais, o Youtube dispõe da possibilidade de interação direta entre quem produziu ou carregou o vídeo no site com os usuários que o acessam através dos comentários que podem ser deixados por estes na caixa de comentários dos vídeos. Nesse espaço virtual são abundantes os conteúdos relacionados à história, desde vídeos amadores até videoaulas produzidas por empresas especializadas. Nesse espaço também é possível encontrar conteúdos com amplo alcance, tratando especificamente sobre a Ditadura Militar. Esse é o caso do documentário 1964: o Brasil entre armas e livros [1964, 2019], produzido e veiculado pela empresa Brasil Paralelo e do conjunto de vídeos correspondentes ao episódio sobre a Ditadura Militar da série televisiva Guia Politicamente Incorreto [GUIA, 2017] produzido e veiculado pela emissora History Channel, ambos disponibilizados no Youtube pelas próprias produtoras. No conjunto de vídeos analisados, constatou-se a presença de postulados comuns também aos trabalhos historiográficos classificados por Melo [2013;2014] e Toledo [2004] como revisionistas. No caso do documentário 1964: o Brasil entre armas e livros a narrativa gira em torno do avanço comunista no mundo pós-guerra e de uma eminente revolução socialista no Brasil encabeçada por agentes soviéticos infiltrados no país. Há uma sobrevalorização da real capacidade de atuação desses agentes em território brasileiro, enquanto a atuação norte-americana aparece essencialmente como uma espécie de “ajuda humanitária” sendo associada a verbos como “salvar” e “proteger”, enquanto os soviéticos são tachados de “furiosos” e o seu regime como “reino de terror vermelho” [1964, 2019]. Já a série Guia politicamente Incorretoé derivada do já citado livro do jornalista Leandro Narloch [2009] que aborda diversos períodos e personalidades da história do país. Centramos nossa análise no episódio correspondente à Ditadura Militar que, assim como o documentário do Brasil Paralelo, centra sua narrativa no combate ao comunismo bem como na condenação moral da luta armada. Também aborda outras questões como o “milagre econômico” e a repressão estatal, porém, embora procure passar a imagem de imparcialidade, a tônica geral é a condenação de uma história escrita pela esquerda e difundida nas universidades e escolas como enfatiza, em mais de um momento do programa, o filósofo Felipe Pondé [GUIA, 2017]. Comum às duas produções em análise está a interpretação de que, apesar de os militares terem vencido os comunistas no campo bélico e político ao tomar o poder em 1964, os primeiros teriam vencido no campo ideológico ao ocupar universidades, meios de comunicação e cultura e a escolas, justificando assim, a historiografia corrente sobre o período que teria produzido uma interpretação calcada na dicotomia entre bem e mal, onde os militares seriam os vilões e os guerrilheiros comunistas seriam os heróis [1964, 2019; GUIA, 2017]. Assim, o saber historiográfico é, em diversos momentos das duas produções, questionado e combatido. Os professores são transformados em doutrinadores responsáveis por difundir uma historiografia de esquerda nas 136 escolas. O teor de combate a essa suposta doutrinação de esquerda é tão acentuado que, no caso do Brasil Paralelo, por exemplo, não só nesse documentário específico, mas em boa parte da sua produção, a empresa vende a ideia de um trabalho educativo em contra partida à educação escolar impregnada pela esquerda, produzindo documentários, cursos e videoaulas: “São mais de 23 cursos que abordam as principais ideias da humanidade, passando por conceitos filosóficos, políticos, históricos, culturais e econômicos” [BRASIL PARALELO, 2020, On-line]. O professor de história e o saber historiográfico a partir dos vídeos e comentários dos usurários No conjunto de comentários coletados até o momento [duzentos e oitenta e dois, cujos trechos aqui reproduzidos estão referenciados com as iniciais dos usuários], é notável o uso da memória recebida ou vivida como recurso para legitimar as narrativas apresentadas nos vídeos referenciando positivamente o período da Ditadura Militar, mas também para outros aspectos que comparecem nas narrativas dos vídeos em questão, como a maneira como a educação e, mais especificamente, os professores de história são retratados nessas produções. No episódio sobre a Ditadura Militar da série Guia Politicamente Incorreto, afirmações de que grande parte dos professores de história são de esquerda e por isso mentem sobre o período em questão aparecem logo nos primeiros minutos do vídeo [GUIA, 2017]. De forma semelhante, o documentário 1964: o Brasil entre armas e livros defende que houve uma espécie de infiltração comunista nos âmbitos educacional e cultural, e por isso as escolas e universidades estariam impregnadas de militantes de esquerda difundindo a sua interpretação sobre o período ditatorial militar, chegando a citar pensadores marxistas como Georg Lukács e Antonio Gramsci para “denunciar” uma trama de dominação marxista pelas vias educacional e cultural [1964, 2019]. Já nos comentários comparecem registros que recorrem à memória supostamente vivida para endossar os posicionamentos dos vídeos, desacreditando a educação escolar e os professores de história como demonstra o trecho a seguir: “Espetacular, aprendi nesse documentário o que meus professores nunca sequer mencionaram […]” [S.M.R.C, 2019]. O descrédito em relação à educação escolar somada a uma suposta imparcialidade das obras em questão, como no comentário acima, é recorrente: “Ótimo registro histórico. Aprendi em duas horas o que não me ensinaram nas escolas durante 14 anos […]” [H.M.P., 2019], ou ainda: “[…] a maioria dos professores de historia mentiu para o povo […] nunca ouve ditadura” [WSC T., 2019]. Os trechos citados acima demonstram como os vídeos, além das interpretações revisionistas já citadas, atuam no sentido de deslegitimar o saber historiográfico e o professor de história e encontram respaldo por 137 parte de diversos usurários do Youtube que recorrem à memória para validar os conteúdos dos vídeos. A título de conclusão Nesse texto apresentamos um recorte da pesquisa que estamos realizando sobre a relação entre conteúdos revisionistas veiculados no youtube e a reconstrução de memórias coletivas. Nos vídeos analisados, a desvalorização e desconfiança em relação ao saber historiográfico e ao professor de história é um dos aspectos que comparece em suas narrativas e que repercute nos comentários dos usuários. O desenvolvimento da pesquisa tem evidenciado que os vídeos em questão apresentam um conteúdo ideológico pró-ditadura que acaba mobilizando memórias sociais e políticas, expressas nos comentários dos usuários que, ancorados em seus grupos de referências, utilizam dessas memórias para ratificar as narrativas apresentadas nos vídeos. Assim, no nosso estudo está sendo evidenciado que não podemos perder de vista que há múltiplos grupos sociais disputando o passado a serviço do presente histórico ou, como diria Halbwachs [2004], a rememoração é um ato consciente que reconstitui o passado a partir de interesses do presente. Referências biográficas Elís Saraiva Santana é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Memória: linguagem e sociedade pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB Lívia Diana Rocha Magalhães é doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP e pós-doutora em Psicologia Social pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ, vinculada à Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB Referências bibliográficas 1964 – o Brasil entre armas e livros. Produção: Brasil Paralelo. Brasil, 2019. 2h07min20seg. Disponível em: https://www.youtube.com/results?search_query=1964+o+brasil Acesso em: 20 de março de 2020. BRASIL PARALELO. Site Disponível em: https://site.brasilparalelo.com.br/sala-de-transmissao-a-patria- educadora/?gclid=Cj0KCQjwm9D0BRCMARIsAIfvfIZvhRJgmi2aw_EMls7yS7s dstqMmkOmwOCRD6XspJCpOKMdM8dMVEUaAil6EALw_wcB&ref=W2505782 1S . Acesso em: 06 de abril de 2020. GUIA Politicamente Incorreto. Ep. 02 Ditadura à brasileira. Produção: History Channel. 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Emy Falcão Maia Neto e Ana Cristina Pereira Lima Sobre o uso de filmes no Ensino de História, Rosália Duarte escreveu em seu livro “Cinema & Educação”: “Carruagens, naves espaciais, máquinas do tempo; índios, cowboys, prostitutas e astronautas; castelos, cocheiras e albergues; velas e candelabros e até mesmo gestos e falas dos atores carregam as marcas de como a humanidade representa (imagina) sua história, além de serem indicadores das mudanças históricas pelas quais o cinema passou. Um olhar mais atento permite identificar em praticamente qualquer filme conteúdos e temas que interessam ao ensino de História”. [DUARTE: 2009, p. 75] Atualmente, não é difícil justificar os usos de filmes nas aulas de história, apesar de ainda existirem alguns preconceitos da escola, de alguns colegas, dos pais e até dos alunos que vem no filme uma forma de “burlar” a “aula propriamente dita”. O cinema, de uma forma geral, possui uma relação consolidada com o ensino de história, construída a mais de um século. Segundo Circe Bittencourt, em 1912, o professor do Colégio Pedro II, Jonathas Serrano, escreveu em seu “Epítome de História Universal” (publicação que tinha a intenção de servir como um modelo para o ensino de história no período) sobre a necessidade do uso dos recursos fílmicos (documentários e ficções) para o ensino de História. [BITTENCOURT, 2008, p. 371-372] Não se ignora que esse relacionamento - do ensino de história com o cinema - mudou muito ao longo do tempo. Os usos dos filmes nas aulas de história, assim como o próprio acesso da população aos vídeos, mudaram bastante ao longo do último século. Contudo, isso não significa que o cinema se tornou mais popular e acessível no Brasil. Na verdade, como escreveu Guacira Lopes Louro: “O cinema possivelmente não ocupa, hoje no Brasil, a mesma posição que ocupava em décadas passadas, mas permanece como uma importante instância formativa. A ele se agregam outros múltiplos meios (entre eles a popular televisão, e em determinados círculos a Internet) que interpelam os sujeitos de formas distintas e que põem em funcionamento estratégias inéditas de regulação social” [LOURO, 2000, p. 443] Atualmente observa-se um aumento do alcance da televisão e, principalmente, da internet que leva conteúdos audiovisuais a lugares inimagináveis para o alcance das salas de cinema (mesmo que ainda não seja popular e acessível como deveria). Essa mudança traz uma implicação muito significativa para o consumo de conteúdo audiovisual, incluindo os filmes. Vivemos atualmente em uma sociedade em que as pessoas consomem muitos filmes nas televisões - em canais broadcasting ou em 141 cópias (originais ou não) - e na internet (em distribuições legalizadas ou não). Os saberes trazidos pelos educandos, construídos em relações sociais, são fundamentais para o êxito em um processo educativo, segundo Paulo Freire [1996, p. 30]. Assim, não podemos ignorar que grande parte da “pedagogia cultural” aprendida pelo público regular do ensino fundamental e médio é formada por filmes produzidos por grandes estúdios de cinema norte americanos. Nesse sentido, as animações possuem um papel de destaque na formação de crianças e jovens que consomem filmes distribuídos em vídeos na internet e vendidos nas ruas das cidades. A circulação desses filmes é de difícil abordagem, por se tratar de cópias realizadas de forma ilegal - afinal, não deixar rastros (registros) faz parte do sucesso do negócio. Apesar dessa dificuldade, observamos no cotidiano escolar relatos dessa outra “pedagogia”, obtida pela apropriação inventiva e subversiva desses filmes. Assim, por que não partir em uma aula de história de uma animação, muito provavelmente, já conhecida pelos educandos? Afinal, como escreveu Duarte, em trecho já citado neste artigo: em “praticamente qualquer filme” podemos identificar elementos que interessam à aula de história. Tomamos para este artigo a animação Pocahontas, dirigido por Mike Gabriel e Eric Goldberg, produzida pela Walt Disney Feature Animation e originalmente lançada nos cinemas em 1995 pela Walt Disney Pictures, que conta a história do “encontro” entre o mundo da ameríndia Matoaka e o do navegador europeu John Smith. Além de ser um filme conhecido pela maioria dos alunos, a escolha dessa animação se deu por possibilitar o debate de conceitos importantes (como os de cultura, de etnocentrismo, de colonização e de gênero) e de questões relevantes para o ensino de história da América. Eis o ponto de início proposto para uma aula de história. Um “filme de crian a” em sala de aula Trabalhar com filmes de animação em sala de aula não significa apenas pegar o projetor e exibir qualquer filme relacionado com o próximo conteúdo a ser vencido. Circe Bittencourt aponta que isso pode resultar em um grande desastre se não forem levadas em consideração as preferências e as experiências dos discentes como espectadores [BITTENCOURT, 2008, p. 375]. Isso não significa que não se possa usar narrativas fílmicas complexas em sala de aula, mas que, para isso, se faz necessário preparar - e isso pode levar algum tempo - o estudante para o que está por vir. Assim, antes de gerar discussão para um conteúdo, tema ou conceito, é necessário começar a ensinar a ver filmes. Como escreveu Rosália Duarte: “se admitimos que a significação de filmes é gradual e articulada aos modos de ver do grupo de pares e aos diferentes tipos de discursos produzidos em 142 torno dos filmes, faz sentido pensar que é possível ‘ensinar a ver’. Isso implica valorizar o consumo de filmes, incentivar discussões a respeito do que é visto, favorecer o confronto dediferentes interpretações, trazer a experiência com o cinema para dentro da escola.” [DUARTE,2009 p. 67-68]” A mudança do espaço já ajuda, afinal um filme visto na escola não é igual ao filme visto em casa. A experiência do filme na escola deve, segundo Marcos Napolitano, “propor leituras mais ambiciosas além do puro lazer, fazendo a ponte entre emoção e razão de forma mais direcionada, incentivando o aluno a se tornar um espectador mais exigente e crítico (...).” [NAPOLITANO, 2003, p. 15] Os discentes não ignoram o lugar, mas só isso não é suficiente. A animação “Pocahontas” em uma sala de aula de história deve ser outra coisa! Tem a obrigação de ser diferente do que foi quando visto do sofá de casa. Mas como? Os documentos (filmes, histórias em quadrinhos e desenhos animados) utilizados em sala de aula não são fontes históricas, mas materiais didáticos, e isso significa que a intenção nesses espaços não é fazer do aluno um “pequeno historiador”, como escreveu Circe Bittencourt [2008, p. 328], mas que ele tenha um contato que pode servir de ilustração, de fonte de informação ou/e “situação-problema”. O historiador, constitui suas fontes, segundo Michel de Certeau [2006, p. 83], a partir de uma “ação instauradora e por técnicas transformadoras”. O que é resultado (ou esperado) de uma trajetória com a ciência histórica. Essa não é a intenção do ensino de história para discentes da Educação Básica. Para Circe Bittencourt [2008, p. 330], os documentos (em seu sentido amplo) devem ser utilizados na educação básica de forma motivadora e que leve ao interesse e à curiosidade, favorecendo a inventividade do aluno . Assim, um filme de animação em sala de aula é para nós (historiadores e professores) fonte histórica que transformamos em material didático a ser utilizado pelos nossos alunos. Um filme em sala de aula deve ser objeto de uma escolha cuidadosa, aliando a sensibilidade do discente - observando a familiaridade deles com o universo cinematográfico - e os interesses pedagógicos do docente. [MORÁN, 1995, p. 30] Quando a animação “Pocahontas” foi lançada, as “animações de princesa” já possuíam um lugar consolidado nos estúdios Walt Disney, desde a “Branca de Neve e os Sete Anões” de 1937 (responsável pelo seu primeiro grande sucesso de bilheteria e cŕitica). Fernanda Cabanez Breder [2012, p. 31], em sua monografia “Feminismo e príncipes encantados: a representação feminina nos filmes de princesa da Disney”, definiu tais narrativas como filmes que trazem “garotas jovens, cheias de sonhos, que se destacam por suas personalidades e, principalmente, por por suas belezas (o que remete, bastante, ao estereótipo da Donzela)”. Contudo, Bremer percebeu algumas mudanças nos comportamentos das personagens ao longo do tempo e, por isso, as dividiu em três grupos: as princesas clássicas (1937-1959), as princesas rebeldes (1989 - 1998) e as princesas contemporâneas (2009 - 2012). 143 Quando a animação Pocahontas foi exibida em 1995, os espectadores já contavam com algumas rupturas significativas das “princesas clássicas” (Branca de Neve, Cinderela e Aurora). Afinal, já estavam acompanhando algumas diferenças no perfil das “princesas” desde Ariel (“A Pequena Sereia” de 1989) e da princesa árabe Jasmine (“Aladdin” em 1992). Michele Escoura Bueno percebeu nas "princesas rebeldes" da década de 1990 "negociações de significados" que permitem: "um produto midiático manter sua dimensão prazerosa ao público que o consome, um nível mínimo de contemporaneidade deve estar presente nas narrativas para que, com uma dose de realismo ao melodrama, a trama se torne ainda mais sedutora e agradável à audiência. Neste sentido, quando localizadas temporalmente, não é surpreendente que essas Princesas Rebeldes, personagens produzidas pela Disney já no entremeio da década de 1990, momento após três décadas de maturação dos ideais feministas nos EUA, tragam em suas narrativas elementos de uma feminilidade discrepantes daqueles trazidos pelas Princesas Clássicas da década de 1930 ou 1950." [BUENO, 2012, p. 46] Entre os elementos recorrentes nessas narrativas, o conceito de gênero é uma ferramenta importante. A animação Pocahontas também possibilita esse debate. As formas como são representadas os comportamentos masculinos e femininos, em geral, produzem subjetivações nas crianças e nos adultos acerca de papéis sociais esperados, definindo certas condutas e escolhas como “naturais”. Assim, os “mocinhos” aparecem como corajosos, desbravadores e, com o desenrolar da trama, éticos e afáveis – como é o caso do navegador John Smith. Nessa perspectiva, a decisão final de Pocahontas – que recusa o casamento arranjado, mas não segue o destino de seu amado, optando por seu pertencimento étnico – é, aparentemente, uma quebra de expectativa; um desvio do “felizes para sempre”. Isso não é casual. Durante muito tempo, a mulher que apenas acompanha seu amado, foi um comportamento imposto e naturalizado como “normal”. As tensões em torno dessa conduta esperada não são novas e, por isso, precisam ser consideradas. O final de “Pocahontas” é um diálogo com processos históricos que envolvem as relações de gênero, o lugar que as mulheres assumem na sociedade contemporânea. Pocahontas decide não seguir viagem com John Smith, por quem havia se apaixonado e que ferido precisava retornar à Inglaterra. O “casamento” - grande “horizonte de expectativa” das princesas Disney até então - não foi alcançado. O “felizes para sempre” foi outro: impedir “que ambos os povos se envolvam em uma guerra em que nenhum dos lados vai ganhar.” [DUNHAM; LARA, 2011] A forma como contamos e significamos histórias reais e fictícias tem tudo a ver com o nosso presente, com as preocupações da atualidade. Uma série de alterações sociais, culturais e psíquicas geradas por inquietações das 144 minorias, dos movimentos sociais – especialmente dos movimentos femininas – repercute nas temáticas cinematográficas, na publicidade e na educação. Pocahontas não deixa de ser uma princesa quando nega o casamento. Na verdade, a mensagem de que ela é sujeito de sua própria história, que pode tomar decisões importantes e racionais – e não apenas sentimentais como se essa fosse a única forma de pensar na perspectiva feminina – faz de Pocahontas uma representação mais atual de “princesa”. Ainda que existam muitas permanências sexistas nas formas de elaborar os modelos de “feminino” e de “masculino”, a pluralidade dessas definições e condutas está em constante reformulação. Pocahontas, portanto, é produto dessas inquietações. Além das questões de gênero, temos na animação o “encontro dos dois mundos” - do “velho” (a Europa) com o “novo” (América”). A primeira cena do filme se passa em Londres no ano de 1607 com diversos homens se preparando para embarcar em uma expedição para o “novo mundo”. Entres eles está Jonh Smith, navegador experiente conhecido por suas habilidades em “lidar” com os “selvagens” - expressão utilizada pelos navegadores na animação para designar os povos originários da América. Para Tzvetan Todorov, esse “encontro” iniciado no final do século XV, mas intensificado no século XVI, marca um momento muito significativo da história: “No início do século XVI, os índios da América estão ali, bem presentes, mas deles nada se sabe, ainda que, como é de esperar, sejam projetadas sobre os seres recentemente descobertos imagens e idéias relacionadas a outras populações distantes. O encontro nunca mais atingirá tal intensidade, se é que esta é a palavra adequada. O século XVI veria perpetrar-se o maior genocídio da história da humanidade.” [TODOROV, 2003, p. 5] No filme temos dois ameríndios feridos (um mortalmente, Kocoum) e um europeu (John Smith). Nele, o morticínio generalizado foi evitado pela intervenção de Pocahontas, mas a animação não pode servir para minimizaras mortes provocadas por esse “encontro de dois mundos”. Conforme escreveu Manuela Carneiro da Cunha, Esse morticínio nunca visto foi fruto de um processo complexo cujos agentes foram homens e microorganismos mas cujos motores últimos poderiam ser reduzidos a dois: ganância e ambição, formas culturais da expansão do que se convencionou chamar o capitalismo mercantil. [DA CUNHA 1992, p. 12] Esses aspectos estão presentes no filme, encarnados no Governador John Ratcliffe que, motivado pela ganância e pelo etnocentrismo, incita os conflitos presentes no filme, incluindo o tiro que atinge John Smith, mas destinado ao Chefe Powhatan. Este ponto da narrativa é importante e permite debater, de forma inicial, o conceito de cultura, de etnocentrismo e pormenores desse “encontro”. 145 Pocahontas aparece no filme como agente do diálogo. Em seu primeiro contato com o estrangeiro - possibilitado, na animação, por uma interação mágica do vento/brisa, que é também, manifestação da presença da mãe de Pocahontas - ela confronta os preconceitos trazidos por John Smith. O europeu a chama de selvagem, critica seus costumes (hierarquizando-os) e sua cultura. Nesse momento da animação, Pocahontas, após questionar muitas das afirmações de John Smith, resolve cantar (será que é para ver se assim ele entende?): “Se acha que eu sou selvagem, Você viajou bastante... Talvez tenha razão… Mas não consigo ver Mais selvagem quem vai ser... Precisa escutar com o coração... Coração... Se pensa que esta terra lhe pertence, Você tem muito ainda o que aprender, Pois cada planta, pedra ou criatura Está viva e tem alma: é um ser.” [MENKENDE; SCHWARTZ; MÜNCH, 1995] Com a música, cuja versão em inglês foi premiada com o Oscar de melhor canção original de 1996, Pocahontas mostrou para o navegador que era possível pensar nos recursos naturais de outra forma, seguindo outra lógica que não aquela dos europeus recém-chegados e que, diferente do que ele havia pensado inicialmente, poderia aprender muito com os Powhatan. A apreciação destes diálogos e da música possibilita uma reflexão sobre o etnocentrismo. Segundo Everardo Rocha: “Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomando como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é existência. No plano intelectual pode ser visto como a dificuldade de pensarmos na diferença; no plano afetivo, como sentimentos de estranheza, medo, hostilidade etc.” [ROCHA, 1994, p. 7] No filme, muitos exemplos desta prática podem ser observados. Mas é preciso entender que a visão etnocêntrica não é exclusiva de John Smith. Todas as culturas produzem etnocentrismos, incluindo os povos ameríndios. Isso também está presente no nosso dia a dia. Reconhecer é o primeiro passo para superar. Para isso, faz-se necessário começar a compreender o “outro” a partir dos seus próprios valores. Um exercício árduo, mas fundamental. 146 Considerações Finais O ensino de história da América mudou muito nos últimos anos. Hoje a utilização de recursos audiovisuais já não é exceção nas aulas de história, principalmente na educação básica. Contudo, apesar dessas alterações, não é raro encontrar egressos sistema escolar brasileiro que pense no “descobrimento da América” e em Cristóvão Colombo como pontos mais relevantes sobre o assunto, sem se questionar como poderia haver “descobridor” de uma terra habitada por civilizações, tão diversas quanto complexas. Se a história não é o relato da “saga do herói”, como contar outras histórias, com outros objetos e objetivos, a partir de narrativas cinematográficas que exprimem como regra essa “fórmula” nos roteiros? A escolha da História da América se deu por ser um tema que enfrenta, junto com história da África, um crescente interesse dos docentes e discentes de história, e que pode contribuir para a construção de novas subjetividades com relação aos povos indígenas. Ainda é preciso deslocar as narrativas eurocêntricas, pensando na pluralidade de povos e culturas envolvidas no processo de formação das Américas. Nesse sentido, a utilização de Pocahontas como recurso didático, possibilitou – através da sensibilização fílmica, da empatia e da abordagem lúdica – analisar elementos fundamentais da conquista da América, tais como colonialismo, diversidade cultural, territorialidade e identidades. Buscamos demonstrar com este artigo que a própria narrativa do filme – a forma como foi construída, a estética das cenas e a trilha sonora - também são objetos de análise em sala de aula. Como veículo de re(formação) de maneiras de ver e sentir, os filmes, incluindo as animações, dialogam com temáticas relevantes no presente; exprimem interesses e representações contemporâneas. Assim, Pocahontas também oportuniza uma reflexão dos sujeitos da história, da condição feminina e de novas formas de representar os modelos de “princesa”. O exercício de ver e debater uma animação em sala de aula comporta o encontro entre o consumo de filme dos estudantes e o uso educativo que o professor confere a esse consumo. Assim, não é uma tarefa sem complexidade. No debate, há de se notar contradições, permanências, etnocentrismos, naturalização de preconceitos que podem ser revisitados. Desta forma, percebemos que trabalhar com filmes em sala de aula não é tarefa fácil, muito pelo contrário. Exige preparação e pesquisa, mas pode ser uma experiência extremamente exitosa se realizada com seriedade e responsabilidade. Referências Dra. Ana Cristina Pereira Lima é doutora em História pela Universidade Federal do Ceará e professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte, campus Canguaretama, onde leciona no Ensino Médio, na licenciatura em Educação no Campo e na Especialização em Educação de Jovens e Adultos no Contexto da Diversidade. 147 Dr. Emy Falcão Maia Neto é Doutor em História pela Universidade Federal do Ceará (2015) e professor da rede estadual de ensino do Rio Grande do Norte (SEEC/RN), lotado na Escola Estadual Felipe Ferreira. BREDER, Fernanda Cabanez. Feminismo e príncipes encantados: a representação feminina nos filmes de princesa da Disney. Rio de Janeiro, 2013.Monografia de Graduação em Jornalismo. Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro BUENO, Michele Escoura. Girando entre Princesas: performances e contornos de gênero em uma etnografia com crianças. performances e contornos de gênero em uma etnografia com crianças. 2012. 163 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Antropologia Social, Antropologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012. CERTEAU, Michel de. A escrita da História. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. DUARTE, Rosália. Cinema & Educação. 3ª ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009. DUNHAM, M. L.; LARA, Bergen. Disney - Enciclopédia de Personagens Animados. São Paulo: Babel, 2011. LOURO, Guacira Lopes. "O cinema como pedagogia". In LOPES, Eliane Marta Teixeira; FARIA FILHO, Luciano Mendes de; VEIGA, Cynthia Greive (Orgs.). 500 anos de educação no Brasil. 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