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Ciência Política
e
Teoria do Estado
DESCRIÇÃO
O Estado Nacional como objeto das preocupações do pensamento político moderno ocidental e sua constituição histórica.
PROPÓSITO
O Estado, como aparelho burocrático-militar-institucional, é uma das invenções mais importantes da modernidade ocidental, tendo sido difundido pelo mundo a partir das experiências de colonização que os países europeus impuseram a outros territórios. Por isso, é fundamental compreender, em suas dimensões teórica e prática, o Estado Nacional Moderno.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Identificar como o “Estado” tornou-se a questão fundamental para os tratados filosóficos que fundaram o pensamento político moderno
MÓDULO 2
Descrever a formação dos Estados Nacionais e do nacionalismo como ideologia política, fenômenos típicos da experiência histórica que chamamos de “modernidade”
MÓDULO 3
Exemplificar as diversas revoluções sociais que, na modernidade, confrontaram a estrutura do Estado-nação
INTRODUÇÃO
Entre os séculos XVI e XIX formou-se na Europa aquela que se tornou uma das principais organizações institucionais da modernidade, estruturando nossas vidas até os dias atuais: o Estado Nacional, entendido como aparelho burocrático-militar-institucional mais ou menos centralizado e capaz de exercer soberania sobre determinado território.
Nosso conteúdo está dividido em três partes: primeiro, examinaremos as discussões conceituais que definiram filosoficamente o Estado nos textos mais emblemáticos do pensamento político moderno. Em seguida, analisaremos a história da construção do Estado Moderno, tomando como estudos de caso algumas regiões da Europa. Por último, estudaremos as revoluções sociais que, desde o final do século XVII, estão confrontando o Estado.
MÓDULO 1
Identificar como o “Estado” tornou-se a questão fundamental para os tratados filosóficos que fundaram o pensamento político moderno
O CONCEITO DE ESTADO
The Course of Empire - Destruction, de Thomas Cole.
O conceito “Estado” costuma ser utilizado para definir o organismo institucional que nasceu na Europa, na transição do século XIV para o século XV, sendo caracterizado pela centralização administrativa, burocrática e militar e pela capacidade de exercer soberania sobre um território delimitado por fronteiras.
Na próxima seção, estudaremos com mais detalhes a história da formação do Estado na Europa. Por ora, é importante entender como essa organização política chamou a atenção dos autores que, na época, tentavam interpretar as sociedades europeias.
Certamente, o intelectual florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527) é um dos nomes mais destacados entre os primeiros esforços de criação de uma teoria do Estado Moderno, sendo conhecido como o fundador da Ciência Política. Maquiavel costuma ser conhecido pelo livro O Príncipe, publicado postumamente em 1532, com a máxima os “fins justificam os meios”, que, no senso comum, se tornou sinônimo de tolerância com a perversidade política.
Fonte: Santi di Tito/Wikimedia commons/licença (CC BY 3.0...)Nicolau Maquiavel
Porém, se estudarmos com mais cuidado os escritos de Maquiavel, perceberemos que seu interesse era desenvolver uma teoria de governo capaz de garantir a “virtude da República”. A ideia de “República” que, segundo o historiador inglês Quentin Skinner, Maquiavel herdou da tradição republicana, é fundamental para o pensamento político do intelectual florentino e para o próprio pensamento político moderno.
Essa ideia de virtude foi desenvolvida, em um primeiro momento, na Grécia Clássica, especialmente por Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), sendo trabalhada também em Roma por autores como Cícero (106 a.C.- 43 a.C.) e Tito Lívio (59 a.C. – 17 d.C.), chegando até Maquiavel por uma série de debates políticos que estavam sendo travados na Península Itálica desde o final do século XII.
Foi nesse momento, ainda segundo Quentin Skinner, que as estruturas políticas dos principados medievais, comandados por monarcas com direito hereditário, começaram a ser repudiadas no território que, no século XIX, passaria a ser chamado de “Itália”. As sociedades italianas, ou regnum italicum, como eram chamadas na época, estavam preocupadas em desenvolver formas de convivência coletiva capazes de resistir ao despotismo monárquico e garantir a estabilidade interna e externa, proporcionando aos seus cidadãos aquilo que Aristóteles chamava de “boa vida”.
Para isso, era necessário encontrar meios que impedissem, ou amenizassem, a “corrupção” da República — outro conceito trazido do vocabulário político aristotélico. Corrupção, disse Aristóteles no tratado da Política, é o efeito natural do tempo nos governos, podendo, no máximo, ser atenuado por governantes virtuosos. Foi essa atmosfera conceitual dentro da qual Maquiavel pensou, escreveu e atuou politicamente, como analista, poeta, historiador e conselheiro do poder.
Tito Lívio, autor e historiador romano que registrou a história de Roma e seu significado político, elaborou o texto Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio entre 1513 e 1521. Na obra, Maquiavel tem interesse de entender as leis, a liberdade e as instituições políticas no funcionamento de uma República. Em sua discussão sobre política e governos, Maquiavel parte da premissa de que os assuntos terrenos estão na alçada das competências humanas, não restando espaço para a interferência divina.
REPÚBLICA
República é uma ideia romana em que público e privado se separavam e a função do governo era estabelecer a administração do que era público, além de zelar para que os limites do privado não fossem ultrapassados.
REFLEXÃO
A boa vida comum, portanto, é da responsabilidade dos seres humanos, a eles cabendo desenvolver mecanismos que tornem possível o convívio coletivo harmônico. A Ciência Política elaborada por Maquiavel afirma a laicização da vida social.
LAICIZAÇÃO
É o processo pelo qual a sociedade se torna laica, sem os incentivos religiosos ou o pragmatismo natural das religiões.
O NASCIMENTO DE UMA CIDADE SE DÁ PELA AÇÃO DOS HOMENS. NÃO É, CONTUDO, PRODUTO DE INDIVÍDUOS, MAS SIM DE POVOS OU GRUPOS QUE VIVEM DISPERSOS E, DE ALGUMA FORMA, DECIDEM UNIR-SE EM UMA MESMA ÁREA, SEJA EM RAZÃO DE SUA SEGURANÇA OU DE QUALQUER OUTRO MOTIVO [...] NO MOMENTO DA CONSTITUIÇÃO DO ESTADO, OS INDIVÍDUOS JÁ ESTÃO REUNIDOS EM GRUPOS. E É COMO TAL QUE SE ORGANIZAM PARA FORMAR O ESTADO. A PROSPERIDADE E A SEGURANÇA DA CIDADE NÃO SÃO MATÉRIA INDIVIDUAL, DE FORO ÍNTIMO, MAS SIM ASSUNTO DOS GRUPOS.
(MAQUIAVEL, 1982)
Temos, na citação, muitos elementos que nos permitem compreender o núcleo do pensamento político de Maquiavel para além dos clichês compartilhados no senso comum. Na época de Maquiavel, Florença era objeto de constantes assédios de repúblicas vizinhas e impérios estrangeiros, o que colocou o tema da estabilidade do governo no primeiro plano das preocupações do autor.
A cidade, que no texto de Maquiavel pode ser tomada como sinônimo de “Estado”, é resultado de uma escolha racional, feita por grupos humanos, que antes viviam de forma desagregada e esparsa. Não há em Maquiavel um “Estado natural”, pré-social, como vamos encontrar em outros teóricos do Estado Moderno. A agregação social é um “desde sempre” no pensamento do escritor florentino.
O Estado surge quando esses grupos, movidos por necessidade prática, decidem que é melhor se unir e pactuar a organização de um poder relativamente centralizado que seja capaz de defender os interesses de todos. A partir desse momento fundacional, o desafio da comunidade política passa a ser a defesa da “virtude” da República, entendida como a capacidade de prover o bem comum contra os assédios internos das facções e os ataques dos inimigos estrangeiros.
É essa a discussão que Maquiavel desenvolve em O Príncipe, sem dúvida um dos livros mais famosos da literatura política ocidental. O interesse do autor é aconselhar o príncipe no melhor caminho para a conservação da República.
O PRÍNCIPE
Um breve manual direcionado a governantes do momento em que Maquiavel viveu, na busca de melhoriade sua condição social. Era influenciado pela tradição greco-latina, bem como pelo seu contexto de observação do entorno, como no Império Turco-Otomano.
DEVE, POIS, ALGUÉM QUE SE TORNE PRÍNCIPE MEDIANTE O FAVOR DO POVO CONSERVÁ-LO AMIGO, O QUE SE LHE TORNA FÁCIL, UMA VEZ QUE NÃO PEDE ELE SENÃO NÃO SER OPRIMIDO. PORÉM, QUEM SE TORNA PRÍNCIPE PELO FAVOR DOS GRANDES, CONTRA O POVO, DEVE ANTES DE MAIS NADA GANHAR ESTE PARA SI, O QUE SE LHE TORNA FÁCIL QUANDO ASSUME SUA PROTEÇÃO. E PORQUE OS HOMENS, QUANDO RECEBEM O BEM DE QUEM ESPERAVAM SOMENTE O MAL, OBRIGAM-SE MAIS AO SEU BENFEITOR, TORNA-SE O POVO DESDE LOGO MAIS SEU AMIGO DO QUE SE TIVESSE SIDO POR ELE LEVADO AO PRINCIPADO.
(MAQUIAVEL, 2002)
O governante, diz Maquiavel, deve ser julgado por critérios específicos, diferentes daqueles usados para avaliar o caráter dos homens comuns. Temos aqui a diferença entre os governantes e os homens comuns, entre a vida política e a vida privada, estabelecida por Maquiavel como “razão de Estado”.
A política teria moral própria e seu objetivo sempre é manter a “saúde cívica da República”, ainda que para isso o governante precise fazer aquilo que seria considerado inadequado para o homem comum, como matar. É fundamental que o governante, continua Aristóteles, tenha sorte (fortu) e a capacidade de ser amado pela comunidade (virtu). Um governante azarado e odiado pela maioria jamais conseguiria manter a República saudável e capaz de exercer “soberania sobre territórios e corações”.
Fonte: Artist is Elihu Vedder/Santi di Tito/Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)Governo, 1896, de Elihu Vedder. Pintura exposta na Biblioteca do Congresso, em Washington. Na placa, pode-se ler: "um governo das pessoas, pelas pessoas, para as pessoas".
Se é fundamental ser “amigo do povo”, o governante precisa dosar os bons e os maus atos. Os bons atos são executados em ritmo lento para “perpetuar a memória da bondade”, enquanto os “maus atos” devem ser “executados de uma só vez para que sua memória seja curta”.
Então, ao governante é permitido ser mau?
Para Maquiavel, sim, desde que isso seja necessário para garantir a integridade da República. Não se trata da defesa da maldade em si, mas sim do reconhecimento de que o governo da cidade demanda escolhas difíceis. Por isso, o governante deve ser “sábio, ilustrado e corajoso”.
ESTADO E CONTRATO SOCIAL
Teoria do Estado bastante distinta da de Maquiavel foi aquela desenvolvida pelos autores que costumamos agrupar na corrente dos “contratualistas”, que se desenvolveu na Europa entre os séculos XVII e XVIII, encontrando em Thomas Hobbes (1588-1679) e Jean Jacques Rousseau (1712-1778) seus principais expoentes.
Isso não significa que tenham abordado o tema do Estado da mesma maneira, pois há diferenças substantivas entre os pensamentos políticos desenvolvidos pelos dois autores. Em comum entre eles estão a sintaxe política e os conceitos acionados na reflexão.
Então, o que é Estado na visão do contratualismo?
O contratualismo parte da premissa de que o Estado é o resultado de um contrato social, de um acordo coletivo movido pela racionalidade humana no qual a maioria, deliberada ou tacitamente, decide que viver em comunidade é melhor do que viver isoladamente.
Disso depreende-se que, diferentemente de Maquiavel e da tradição aristotélica, os contratualistas reconhecem a possibilidade de existência de um momento pré-político, de um “estado natural”, quando os seres humanos não viviam de forma gregária.
Thomas Hobbes é autor do Leviatã, publicado em 1651 e um dos mais famosos tratados de filosofia política da modernidade, popularmente reconhecido pela máxima “o homem é o lobo do homem”. Porém, da mesma forma como fizemos há pouco com Maquiavel, é necessário entender o pensamento político de Hobbes para além dos clichês e como um esforço de teorizar sobre a própria ontologia humana.
Fonte: Gustave Doré/Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)Destruição do Leviatã, 1865, Gustave Doré
GREGÁRIA
Que vivem em bandos ou em grupos. Em sentido mais amplo, aqueles que são sociáveis, que vivem bem socialmente.
LEVIATÃ
O livro traz a ideia de um grande ser, monstruoso, mas que precisava ser entendido para que o senso e o coletivo não permitissem ser o monstro que era.
Fonte: Desconhecido/Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)Capa original de Leviatã, de Thomas Hobbes, no qual ele discute o conceito de contrato social.
Toda a discussão que o autor propõe a respeito do Estado parte de uma premissa ontológica, segundo a qual nós, seres humanos, somos naturalmente ruins e racionais. Ou seja, nascemos perversos, egoístas e apetitosos, mas nascemos também capazes de entender que nossa natureza é potencialmente destrutiva, e que é necessário domá-la para que a própria vida seja possível.
O estado natural, então, é violento, selvagem, uma situação de “guerra de todos contra todos”, como o próprio Thomas Hobbes afirmava.
ONTOLÓGICA
Reflexão a respeito do sentido abrangente do ser.
SE DOIS HOMENS DESEJAM A MESMA COISA, ELES PODEM TORNAR-SE INIMIGOS, SE FOR IMPOSSÍVEL QUE AMBOS ALCANCEM O QUE DESEJAM AO MESMO TEMPO. E NO CAMINHO PARA SEU FIM (QUE É PRINCIPALMENTE SUA PRÓPRIA CONSERVAÇÃO, E ÀS VEZES APENAS SEU DELEITE), ESFORÇAM-SE POR SE DESTRUIR OU SUBJUGAR UM AO OUTRO. DISSO SEGUE-SE QUE, QUANDO UM INVASOR NADA MAIS TEM A RECEAR DO QUE O PODER DE UM ÚNICO OUTRO HOMEM, SE ALGUÉM PLANTA, SEMEIA, CONSTRÓI OU POSSUI UM LUGAR CONVENIENTE, É PROVAVELMENTE PARA ESPERAR QUE OUTROS VENHAM PREPARADOS COM FORÇAS CONJUGADAS, PARA DESAPOSSÁ-LOS E PRIVÁ-LOS, NÃO APENAS DO FRUTO DE SEU TRABALHO, MAS TAMBÉM DE SUA VIDA E DE SUA LIBERDADE. POR SUA VEZ, O INVASOR FICARÁ NO MESMO PERIGO EM RELAÇÃO AOS OUTROS.
(HOBBES, 1983)
Jean-Jacques Rousseau, autor de Contrato Social, publicado em 1762, parte de premissa ontológica diametralmente oposta. Tal como Hobbes, Rousseau também afirma a existência de um mundo pré-social, onde os homens viviam isolados. Porém, a natureza humana, para Rousseau, é boa e generosa.
O estado de natureza é pacífico, harmonioso, é o “império da felicidade”.
NO PRINCÍPIO, QUANDO VIVIAM ENTREGUES AO LIVRE-ARBÍTRIO DOS SEUS INSTINTOS, OS HOMENS NÃO PRATICAVAM VILANIA, TIRANIA OU ASSASSÍNIO. ERAM DOCES COMO ANIMAIS DOMÉSTICOS, INOFENSIVOS COMO CRIANÇAS, E A TERRA ABUNDAVA, DANDO O NECESSÁRIO PARA TODOS VIVEREM COM FARTURA.
(ROUSSEAU, 1999)
Em Hobbes, o estado natural é o inferno na Terra. Em Rousseau, é o Éden.
Em comum entre eles está a ideia de que a saída da situação pré-social se deu por um acordo, por um contrato estabelecido pela maioria e movido pelos imperativos da razão. Diz Hobbes que os primeiros humanos perceberam que o estado de natureza, se perpetuado, significaria a extinção da espécie. Pactuaram, então, que melhor seria abrir mão das liberdades primitivas para submeterem-se a um poder externo, acima de todos, e que fosse capaz de garantir a vida e a propriedade, tornando a própria existência coletiva possível.
O FIM ÚLTIMO, CAUSA FINAL E DESÍGNIO DOS HOMENS (QUE AMAM NATURALMENTE A LIBERDADE E O DOMÍNIO SOBRE OS OUTROS), AO INTRODUZIR AQUELA RESTRIÇÃO SOBRE SI MESMOS SOB A QUAL OS VEMOS VIVER NOS ESTADOS, É O CUIDADO COM SUA PRÓPRIA CONSERVAÇÃO E COM UMA VIDA MAIS SATISFEITA. QUER DIZER, O DESEJO DE SAIR DAQUELA MÍSERA CONDIÇÃO DE GUERRA QUE É A CONSEQUÊNCIA NECESSÁRIA (CONFORME SE MOSTROU) DAS PAIXÕES NATURAIS DOS HOMENS, QUANDO NÃO HÁ UM PODER VISÍVEL CAPAZ DE OS MANTER EM RESPEITO, FORÇANDO-OS, POR MEDO DO CASTIGO, AO CUMPRIMENTO DE SEUS PACTOS E ÀQUELAS LEIS DE NATUREZA QUE FORAM EXPOSTAS.
(HOBBES, 1983)
RESUMINDO
Na teoria hobbesiana, então, o Estado nasce de uma situação original de caos e violência e como produto da racionalidade humana. Em Rousseau, a decadência não é original, intrínseca à natureza humana, mas sim resultado de uma escolha infeliz: a invenção da propriedade privada, que se deu no momento em que o primeiro ser humano “demarcou no chão um pedaço de terra para dizer que era seu, encontrando outros inocentes o suficiente para acreditar nele”.
Começava aqui a guerra geral rousseauniana,porque, não havendo nenhum poder externo capaz de regular os limites de cada propriedade, estabeleceu-se o “reino da força”, que, no limite, não era proveitoso para ninguém, “pois nada garante que o mais forte hoje se manterá forte amanhã, e a obrigação de se manter forte para sempre é fardo tão pesado que ninguém pode carregar sobre os ombros” (ROUSSEAU, 1999).
Surge, então, o Estado, como um pacto no qual os homens abdicam de sua liberdade original para dar aval à existência de um poder comum, responsável pela salvaguarda do interesse coletivo.
Rousseau, no entanto, resguarda a possibilidade de ruptura com esse poder, desde que ele não cumpra seu papel no contrato. Então, o contrato social para Rousseau poderia ser rompido unilateralmente pela sociedade civil, em uma ação revolucionária.
A FIM DE QUE NÃO CONSTITUA, POIS, UM FORMULÁRIO INÚTIL, O PACTO SOCIAL CONTÉM TACITAMENTE ESTA OBRIGAÇÃO, A ÚNICA A PODER DAR FORÇAS ÀS OUTRAS: QUEM SE RECUSAR A OBEDECER À VONTADE GERAL, A ISTO SERÁ CONSTRANGIDO PELO CORPO EM CONJUNTO, O QUE APENAS SIGNIFICA QUE SERÁ FORÇADO A SER LIVRE. ASSIM É ESTA CONDIÇÃO: OFERECENDO OS CIDADÃOS À PÁTRIA, PROTEGE-OS DE TODA DEPENDÊNCIA PESSOAL; CONDIÇÃO QUE PROMOVE O ARTIFÍCIO E O JOGO DA MÁQUINA POLÍTICA E QUE É A ÚNICA A TORNAR LEGÍTIMAS AS OBRIGAÇÕES CIVIS, AS QUAIS, SEM ISSO, SERIAM ABSURDAS, TIRÂNICAS E SUJEITAS AOS MAIORES ABUSOS.
(ROUSSEAU, 1999)
Fonte: Maurice Quentin de La Tour/ Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)
Jean-Jacques Rousseau
Fonte: anónimo/ Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)
Thomas Hobbes
ESTADO E LIBERDADE
Outra tradição que, na modernidade, trouxe o Estado para o centro de suas preocupações filosóficas foi o liberalismo político, um “fenômeno histórico pertencente à história europeia e marcado pelos embates com o absolutismo monárquico e outras formas de tirania política que existiram na Europa no início da modernidade” (MATEUCI, 2000).
Fonte: artistique7/Shutterstok.com
Entre os fundadores do liberalismo político estão nomes como:
Fonte: Godfrey Kneller/ Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)
John Locke (1632-1704)
Fonte: Laderer (graveur)/ Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)
Benjamin Constant (1767-1830)
Locke e Constant notabilizaram-se por delinear dimensões mais claras ao ideário político liberal, escrevendo importantes tratados sobre a limitação institucional do poder do Estado. Destacam-se aqui o Primeiro tratado sobre o governo civil e o Segundo tratado sobre o governo civil, escritos por Locke e publicados em 1689, além de Sobre a liberdade dos antigos comparada com a dos modernos, escrito por Constant e publicado em 1819.
LIBERAL
Princípio filosófico que discute o sentido do ser, a capacidade de escolha e liberdade, do seu corpo, das suas ações, entre outros.
Ambos os autores partem da premissa de que a boa vida em comunidade somente é possível a partir de uma premissa: a existência de um Estado comprometido com o bem-estar coletivo e com a defesa da vida e da propriedade dos indivíduos (entendidas como direitos naturais), sem que com isso se exerça tirania ou poder absoluto sobre a sociedade.
A noção de “governo consentido” é fundamental para Locke, que acredita que os seres humanos, dotados de racionalidade intrínseca, são perfeitamente capazes de idealizar formas de governo que atendam às suas necessidades, ou seja, a defesa da vida e da propriedade. Segundo Locke, portanto, a existência dos governos, e no limite do próprio Estado, justifica-se pelas necessidades da sociedade civil e não pelos interesses do próprio governo, ou do próprio Estado.
SE O HOMEM NO ESTADO DE NATUREZA É LIVRE COMO SE DISSE, SE É SENHOR ABSOLUTO DA SUA PRÓPRIA PESSOA E SUAS PRÓPRIAS POSSES, IGUAL AO MAIS EMINENTE DOS HOMENS E A NINGUÉM SUBMETIDO, POR QUE HAVERIA ELE DE SE DESFAZER DESSA LIBERDADE? POR QUE HAVERIA DE RENUNCIAR A ESSE IMPÉRIO E SUBMETER-SE AO DOMÍNIO E AO CONTROLE DE QUALQUER OUTRO PODER? A RESPOSTA EVIDENTE É A DE QUE, EMBORA TIVESSE TAL DIREITO NO ESTADO DE NATUREZA, O EXERCÍCIO DO MESMO É MUITO INCERTO E ESTÁ CONSTANTEMENTE EXPOSTO À VIOLAÇÃO POR PARTE DOS OUTROS [...]. TAIS CIRCUNSTÂNCIAS O FAZEM QUERER ABDICAR DESSA CONDIÇÃO, A QUAL, CONQUANTO LIVRE, É REPLETA DE TEMORES E PERIGOS CONSTANTES. E NÃO É SEM RAZÃO QUE ELE PROCURA E ALMEJA UNIR-SE EM SOCIEDADE COM OUTROS QUE JÁ SE ENCONTRAM REUNIDOS OU PROJETAM UNIR-SE, PARA A MÚTUA CONSERVAÇÃO DE SUAS VIDAS, LIBERDADES E BENS, AOS QUAIS ATRIBUO O TERMO GENÉRICO DE PROPRIEDADE. O FIM MAIOR E PRINCIPAL PARA OS HOMENS UNIREM-SE EM SOCIEDADES POLÍTICAS E SUBMETEREM-SE A UM GOVERNO É, PORTANTO, A CONSERVAÇÃO DE SUA PROPRIEDADE.
(LOCKE, 1990)
Benjamin Constant, por sua vez, está interessado em entender as especificidades da liberdade moderna quando comparada com a antiga, com o objetivo de teorizar formas de governo adequadas às modernas sociedades de massa, em muitos aspectos diferentes das sociedades antigas. O autor argumenta que, na Antiguidade, a liberdade republicana era viável, pois garantia aos cidadãos participarem diretamente do governo.
Esse tipo de liberdade somente seria possível em pequenos territórios, ocupados por populações pouco numerosas. Como na modernidade a situação é bastante diferente, uma vez que as nações modernas costumam ser mais extensas e populosas do que as repúblicas antigas, fez-se necessária a reconceituação das ideias de liberdade e de participação política.
A LIBERDADE MODERNA CONSISTE NO DIREITO, PARA CADA UM, DE INFLUIR SOBRE A ADMINISTRAÇÃO DO GOVERNO, SEJA PELA NOMEAÇÃO DE TODOS OU DE CERTOS FUNCIONÁRIOS, SEJA POR REPRESENTAÇÕES, PETIÇÕES, REIVINDICAÇÕES, ÀS QUAIS A AUTORIDADE É MAIS OU MENOS OBRIGADA A LEVAR EM CONSIDERAÇÃO. COMPARAI AGORA A ESTA A LIBERDADE DOS ANTIGOS. ESTA ÚLTIMA CONSISTIA EM EXERCER COLETIVA, MAS DIRETAMENTE, VÁRIAS PARTES DA SOBERANIA INTEIRA, EM DELIBERAR NA PRAÇA PÚBLICA SOBRE A GUERRA E A PAZ, EM CONCLUIR COM OS ESTRANGEIROS TRATADOS DE ALIANÇA, EM VOTAR AS LEIS, EM PRONUNCIAR JULGAMENTOS, EM EXAMINAR AS CONTAS, OS ATOS, A GESTÃO DOS MAGISTRADOS; EM FAZÊ-LOS COMPARECER DIANTE DE TODO UM POVO, EM ACUSÁ-LOS DE DELITOS, EM CONDENÁ-LOS OU EM ABSOLVÊ-LOS.
(CONSTANT, 2019)
Aqui o autor está formulando aquela que é uma das principais características do liberalismo político: a defesa de uma democracia fundada em instituições legislativas responsáveis por representar os interesses da população, que participaria do governo de forma indireta. Assim, seria possível garantir direitos políticos às populações numerosas, que periodicamente seriam convocadas ao debate público, no período eleitoral, para escolher livremente seus representantes.
Outra filosofia política moderna que se preocupou em teorizar limites institucionais ao poder do Estado foi o Constitucionalismo, principalmente com Montesquieu (1689-1756), autor do tratado O espírito das leis, publicado em 1748 e considerado a matriz teórica inspiradora das Constituições modernas. No texto, Montesquieu idealizou o sistema de “freios e contrapesos”, segundo o qual o poder do Estado é dividido em três partes independentes entre si:
PODER LEGISLATIVO
PODER EXECUTIVO
PODER JUDICIÁRIO
COMO A VIRTUDE É NECESSÁRIA EM UMA REPÚBLICA E NA MONARQUIA A HONRA, O MEDO É NECESSÁRIO EM UM GOVERNO DESPÓTICO, POIS NELE A VIRTUDE NÃO É NECESSÁRIA E A HONRA SERIA PERIGOSA. O IMENSO PODER DO PRÍNCIPE PASSA INTEIRAMENTE ÀQUELES QUE ELE CONFIA E SE TORNA PERIGOSO INSTRUMENTO DE OPRESSÃO CONTRA A LIBERDADE DE TODOS. MANTER O PODER DO PRÍNCIPE RESTRITO A LEIS PACTUADAS COLETIVAMENTE É A ÚNICA FORMA DE GARANTIR AS LIBERDADES INDIVIDUAIS E COLETIVAS.
(MONTESQUIEU, 1990)
Percebe-se claramente como a preocupação com a liberdade contra a tirania do Estado pauta o pensamento político moderno desde o século XVI, junto com outras questões, como a segurança territorial contra as invasões estrangeiras e a prosperidade econômica da República.
ESTADO E A PRODUÇÃO DE RIQUEZA
A teoria política marxista, desenvolvida por Marx e Engels no século XIX, trouxe para a discussão a agenda da libertação das classes oprimidas.No Manifesto comunista, publicado em 1848, os autores argumentam que:
O ESTADO É UM ÓRGÃO ESPECIAL QUE SURGE EM CERTO MOMENTO DA EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA HUMANIDADE, E QUE ESTÁ CONDENADO A DESAPARECER NO DECURSO DA MESMA EVOLUÇÃO. NASCEU DA DIVISÃO DA SOCIEDADE EM CLASSES E DESAPARECERÁ NO MOMENTO EM QUE DESAPARECER ESTA DIVISÃO. NASCEU COMO INSTRUMENTO NAS MÃOS DA CLASSE DOMINANTE, COM O FIM DE MANTER O DOMÍNIO DESTA CLASSE SOBRE A SOCIEDADE, E DESAPARECERÁ QUANDO O DOMÍNIO DESTA CLASSE DESAPARECER.
(ENGELS; MARX, 2003)
RESUMINDO
No vocabulário marxista, portanto, o Estado não é o resultado de uma racionalidade humana intrínseca nem tampouco uma evolução em relação à situação das liberdades primitivas. O Estado é resultado de uma realidade material e objetiva, na qual as classes superiores desenvolvem aparelhos institucionais para dominar as classes inferiores.
Essa relação de dominação somente seria superada pela abolição da divisão de classes e do próprio Estado, dando lugar a uma sociedade comunista em que as pessoas viveriam solidariamente, consumindo o que produzem, sem se apropriarem da riqueza produzida por outros.
No próximo módulo, nos debruçaremos sobre a realidade histórica que, na Europa, deu origem ao Estado Nacional, buscando entender como foi forjada a estrutura de poder que por tanto tempo tem sido o principal objeto do pensamento político ocidental.
VEM QUE EU TE EXPLICO!
O Estado e o Príncipe: a visão de Maquiavel
O Liberalismo e o Estado: entre Jhon Locke e Adam Smith
MAQUIAVEL
LIBERALISMO
Resumo da história de Maquiavel;
Defensor da separação de Estado x Igreja apresentado a ideia de que os homens é quem deveriam resolver assuntos terrenos.
A creditava que o surgimento do estado se dá quando grupos se unem e organizam um poder centralizado para defender os interesses de todos.
Para ter a estabilidade do governo, Maquiavel defendia a Razão do Estado, o governante precisa fazer aquilo que o homem comum é inadequado.
Virtude - tomar as melhores decisões para o fortalecimento de seu poder.
Fortuna - está ligado a sorte. Nada poderia acontecer para limitar o poder do rei.
O motivo do homem abdicar de sua liberdade e se submeter a um governo é a conservação da propriedade.
Locke defende a limitação institucional do poder do Estado se justifica pelas necessidades da sociedade civil e não pelos interesses do próprio governo, ou seja, a soberania não está no Estado, mas sim na população.
O bom governo devia estar comprometido com o bem-estar coletivo, defesa da vida e da propriedade privada.
Princípio da divisão dos três poderes.
A não intervenção estatal na economia.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. O INTELECTUAL FLORENTINO NICOLAU MAQUIAVEL COSTUMA SER RECONHECIDO PELA MÁXIMA “OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS”, QUE SE TORNOU SINÔNIMO DE LEGITIMAÇÃO DA PERVERSIDADE POLÍTICA. NO ENTANTO, A OBRA DE MAQUIAVEL É MUITO MAIS COMPLEXA. ASSINALE, ENTRE AS ALTERNATIVAS A SEGUIR, AQUELA QUE MELHOR DEFINE A OBRA DE MAQUIAVEL.
Maquiavel estava interessado em discutir como seria possível defender a monarquia e a tirania do príncipe, sendo assim o principal teórico do autoritarismo político na modernidade.
Maquiavel estava interessado em discutir a abolição da propriedade privada e a revolução social, sendo, por isso, o precursor do comunismo na modernidade e a fonte onde beberia Karl Marx.
Maquiavel estava interessado em discutir formas de garantir a estabilidade interna e externa da República, e, dessa maneira, atenuar os efeitos da corrupção, sendo o republicanismo de Aristóteles sua principal referência.
Maquiavel estava interessado em afirmar a liberdade do mercado, sendo, portanto, o precursor do liberalismo econômico, e a fonte onde a escola austríaca beberia.
Maquiavel estava interessado em defender a total abolição do Estado, sendo um dos primeiros pensadores a formular o ideal anarquista.
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2. THOMAS HOBBES E JEAN JACQUES ROUSSEAU SÃO OS PRINCIPAIS EXPOENTES DA CORRENTE DE PENSAMENTO POLÍTICO QUE COSTUMAMOS CHAMAR DE “CONTRATUALISTA”. ASSINALE, ENTRE AS ALTERNATIVAS A SEGUIR, AQUELA QUE MELHOR DEFINE A PREMISSA DO CONTRATUALISMO.
A premissa do contratualismo afirma a organização política como o resultado de um acordo coletivo segundo o qual, racionalmente, os homens decidem que viver em coletividade é melhor do que viver em situação de desagregação.
A premissa do contratualismo afirma que o homem é naturalmente gregário e, por isso, a questão principal é desenvolver mecanismos de aprimoramento da sociedade política, visto que a sua existência se confunde com a própria natureza humana.
A premissa do contratualismo afirma que o Estado Moderno é o resultado da vitória política da burguesia, que acumulou poder suficiente para organizar uma estrutura de dominação, cujo objetivo é a exploração do trabalho.
A premissa do contratualismo afirma que os homens estão naturalmente vocacionados à liberdade, sendo o Estado o artifício criado pela tirania divina com o objetivo de impedir a plena realização da natureza humana.
A premissa do contratualismo afirma que os seres humanos são naturalmente gregários, logo o Estado é um “desde sempre” que não precisa ser necessariamente explicado, mas apenas aprimorado.
Parte inferior do formulário
GABARITO
1. O intelectual florentino Nicolau Maquiavel costuma ser reconhecido pela máxima “os fins justificam os meios”, que se tornou sinônimo de legitimação da perversidade política. No entanto, a obra de Maquiavel é muito mais complexa. Assinale, entre as alternativas a seguir, aquela que melhor define a obra de Maquiavel.
A alternativa "C " está correta.
Maquiavel é herdeiro do republicanismo aristotélico, sendo seu interesse, portanto, discutir a ação do governo no sentido de preservar a “virtude” da República.
2. Thomas Hobbes e Jean Jacques Rousseau são os principais expoentes da corrente de pensamento político que costumamos chamar de “contratualista”. Assinale, entre as alternativas a seguir, aquela que melhor define a premissa do contratualismo.
A alternativa "A " está correta.
Diferentemente do republicanismo maquiavélico de matriz aristotélica, o contratualismo parte do princípio de que a organização política é o resultado de uma escolha racional, e não a manifestação da natureza humana.
MÓDULO 2
Descrever a formação dos Estados Nacionais e do nacionalismo como ideologia política, fenômenos típicos da experiência histórica que chamamos de “modernidade”
ESTADO NACIONAL
O Estado Nacional, entendido como estrutura de poder centralizada e capaz de exercer soberania burocrática, política e militar sobre um território delimitado por fronteiras, é resultado da história europeia ocidental entre os séculos XIV e XVII.
Nesse período, entende-se por “Europa Ocidental”, segundo o historiador inglês Perry Anderson (2004), a aproximação de França e Inglaterra com a Península Ibérica, formada por Portugal e Espanha. Crises democráticas agudas, guerras civis religiosas, início da laicização das mentalidades e dos costumes, modernização das relações econômicas, urbanização. São essas as experiências que aconteceram em uma Europa Ocidental plural e extremamente diversificada, e que serviram de pano de fundo para o surgimento dos Estados Nacionais.
Começar a contar a história da origem dos Estados Nacionais nos convida, segundo Guy Fourquin, a entender a dinâmica da prosperidade material vivida pela Europa no século XI. O crescimento produtivo aumentou a quantidade de alimentos disponíveis para o comércio, fazendo com que seus preços dos víveres alimentícios diminuíssem e a qualidade de vida aumentasse, resultando no crescimento demográfico e, consequentemente, no crescimento das cidades e na intensificação da atividade comercial.
GUY FOURQUIN
Professor na Universidade de Lille, Guy Fourquin foi um dos mais reconhecidos especialistas franceses em matéria de História Medieval, seja no domínio da história econômica, seja no da organização social e institucional.
E essa evolução também pode ser percebidanos âmbitos artístico e intelectual.
Na vida cultural, observou-se notória expansão das atividades artísticas e intelectuais, com a difusão de universidades pelo continente. Tratava-se, portanto, de um ciclo virtuoso experimentado em graus distintos em diversas regiões da Europa e que aponta para um cenário de desenvolvimento econômico, prosperidade material e grandeza cultural, bem diferente da imagem de uma Idade Média atrasada e decadente, que muitas vezes modula o imaginário histórico coletivo.
Fonte: Etienne Collault/ Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)Manuscrito medieval mostrando uma reunião de doutores na Universidade de Paris
Um dos resultados desse cenário, ainda seguindo os estudos de Fourquin, foi o aumento do custo de vida da aristocracia feudal, pois, com a Revolução Comercial, para utilizarmos as palavras de Henri Pirenne (apud FOURQUIN, 1987), ficou mais caro manter os signos de distinção tão importantes para alimentar o ethos aristocrático em sociedades pré-modernas.
HENRI PIRENNE
Historiador, Henri Pirenne (1862-1935) fez grandes contribuições para o entendimento sobre a formação do mundo ocidental, compreendendo a dinâmica de ocupação maior do Norte após a expansão islâmica. A formação e o espírito das cidades marcam um ideal de vida europeu, e a reestruturação do comércio mercantilista é a base do fortalecimento da Europa nos séculos decorrentes.
ETHOS
Conjunto de costumes e hábitos fundamentais no âmbito do comportamento (instituições, afazeres etc.) e da cultura (valores, ideias ou crenças). Muitas vezes traduzido por espírito, é mais intenso do que a ideia de cultura.
E, com isso...
A consequência dessa situação foi o endividamento em massa da nobreza europeia, fenômeno detectado por Fourquin (1987) a partir da análise de inventários post mortem. Ao estudar essas fontes, o autor detectou que os nobres europeus, em geral, estavam morrendo endividados.
Temos aqui um impasse que, na racionalidade econômica moderna, capitalista, não seria dos mais difíceis de se resolver. Bastaria que a nobreza diminuísse seus gastos ou aumentasse os impostos cobrados sobre seus dependentes. No entanto, a racionalidade econômica feudal funciona a partir de outras prioridades, como demonstra Witold Kula (1974) no livro Teoria econômica do sistema feudal.
WITOLD KULA
Witold Kula (1916-1988) foi cientista social, historiador e economista polonês, próximo da metodologia do materialismo histórico.
Fonte: anonymous (Queen Mary Master)/ Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)Obrigações Feudais
O autor argumenta que a economia, entendida como o conjunto de atividades sociais desenvolvidas com o objetivo de garantir a existência material das pessoas, não pode ser pensada de forma separada dos valores culturais. A cultura feudal é fundada na ideia da desigualdade natural, ou seja, na premissa de que as pessoas nascem diferentes entre si, divididas em inferiores e superiores, e assim ficarão até morrer. Isso não significa, entretanto, que essa mesma tradição não reconheça os direitos adquiridos pelos “de baixo”.
O princípio da reciprocidade de direitos e deveres entre fortes e fracos, diz Kula, também é basilar da cosmovisão feudal.
E O QUE SIGNIFICA ESSE PRINCÍPIO?
VERIFICAR
Se o menor deve obediência e impostos (em forma de serviços e produtos) ao seu senhor, o aristocrata também tem suas obrigações, como proteger seus dependentes e não cobrar taxas abusivas. O endividamento da aristocracia colocava, então, um impasse ao sistema.
Ou seja, se a nobreza não pode cortar gastos porque precisa manter seu estilo de vida ostentatório, e os servos não aceitam impostos que consideram abusivos, o que fazer? Essa situação é o ponto de partida para a famosa “crise do feudalismo”. A crise do feudalismo, portanto, foi o resultado da disfunção do próprio sistema, pois suas causas foram endógenas, isto é, internas. A epidemia de Peste Negra, que assolou a Europa durante o século XIV, não foi a causa da crise, mas sim o seu agravante.
Pressionada e endividada, parte da nobreza começou a quebrar os acordos consuetudinários (legitimados pelos costumes), o que provocou uma revolta geral junto ao campesinato, dando início ao que alguns autores chamam de “anarquia feudal”. Em alguns lugares da Europa Ocidental, os conflitos foram mais intensos do que em outros, mas a realidade de colapso estrutural foi comum a todo o continente, de acordo com as pesquisas desenvolvidas pelo historiador francês Georges Duby.
Diante da real possibilidade da destruição física e do desaparecimento do estamento social, a aristocracia europeia aceitou fazer algo que, em condições normais, jamais aceitaria: abnegar de sua autonomia, inclusive militar, para permitir que uma família aristocrática centralizasse o poder, dominando todas as outras e, dessa maneira, reunisse condições políticas, econômicas e militares para o restabelecimento das hierarquias feudais, ameaçadas pelas guerras camponesas.
GEORGES DUBY
Georges Duby (1919-1996) foi um dos grandes medievalistas de seu tempo, teve foco principal sobre as dinâmicas da organização política da França, decorrentes da formação do Estado francês.
ESTAMENTO SOCIAL
O estamento constitui uma forma de estratificação social com camadas mais fechadas do que as classes sociais, e mais abertas do que as castas, ou seja, possui maior mobilidade social do que o sistema de castas, e menor mobilidade social do que o sistema de classes sociais.
Aconteceu, nesse momento, aquilo que Perry Anderson, no livro Linhagens do Estado Absolutista, chama de Revolução Militar, que marcou o nascimento dos exércitos modernos, formados não mais por servos que pagavam o “tributo de sangue”, mas sim por soldados profissionais, remunerados e subordinados ao Estado centralizado, personificado na pessoa do rei, o “primeiro entre iguais, o primus inter pares”, como se costumava dizer na época.
A ideia de monarquia precede a de República, mas a ideia de noção de identidade nacional remete diretamente às dinâmicas da construção da identidade monárquica.
EXEMPLO
No Brasil, a identidade monárquica é tão forte, que, mesmo na tentativa de ruptura republicana, as cores e muitos dos símbolos foram mantidos.
Agora, uma casa aristocrática específica detinha o poder sobre as outras e sobre o território. Surgiu, assim, o Estado Nacional, impulsionado pela tentativa de salvar as hierarquias tradicionais da destruição, preservando o máximo possível a ordem social feudal. Para isso, entretanto, foi necessário mudar, e a nobreza perdeu suas antigas liberdades, passando a estar subordinada ao rei.
Desse jeito foi possível impor ao campesinato a “segunda servidão”, novamente utilizando as palavras de Perry Anderson. Essa foi a contradição que caracterizou a formação dos Estados Nacionais. Para salvar a ordem feudal, o novo arranjo político deixou aquele que era um dos seus valores fundamentais: a autarquia aristocrática.
Surgiu, junto com o Estado, um novo tipo de nobreza. Não mais aquela que vivia no campo, com hábitos rústicos e no controle de seu exército particular. O nobre deixou de ser o “senhor da guerra” para tornar-se o cortesão, sedentarizado, desarmado, vivendo na corte, sob controle do trono.
Retrato do "Tratados de Münster", um dos caminhos percorridos para a Paz de Vestfália, onde o conceito de Estado-nação foi criado.
FORMAÇÃO DOS ESTADOS MODERNOS: PORTUGAL
Fonte: Zulske heraldry/Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)
Portugal foi o primeiro caso de modernidade política na Europa, no pleno sentido do termo, com sistema fiscal, exército e burocracia em dimensão centralizada, supralocal. Tal como aconteceu no restante da Europa, o Estado surgiu em Portugal como um dos resultados de experiências de intensa movimentação militar e guerra civil provocadas pelo cenário geral da crise feudal, que estudamos anteriormente.
Foi a chamada Revolução de Avis, iniciada em 1383 e terminada em 1385, que levou D. João (1385-1433), chefe da casa de Avis, ao trono português, com o título de D. João I. A partir de então, todos os empreendimentosda sociedade portuguesa, inclusive a expansão marítima e comercial a partir do final do século XIV, seriam coordenados pela autoridade central do Estado. Comparado com o restante da Europa, Portugal tinha vantagem em termos de eficiência e rapidez, o que explica a dianteira que tomou na geopolítica continental na época.
Batalha de Aljubarrota, de Jean de Wavrin.
Para entender como se deu a construção da modernidade em Portugal, é importante, segundo Luiz Felipe Tomaz, estudar o processo de recristianização da Península Ibérica, pois, somente mais tarde — a partir do século XI —, o território foi incorporado à cristandade. Desde a Idade Média, argumenta Tomaz, Portugal contava com uma estrutura política e militar relativamente centralizada. Quem comandou a reconquista cristã (avanço da cristandade sobre os mouristas) foi a monarquia.
D. Afonso Henriques, fundador da nação e da dinastia borgonhesa
Entre os séculos VII e XI, a Península Ibérica foi controlada pelos muçulmanos. Nesse momento, a cristandade resumia-se a senhorios que se encontravam ao norte da península. Um dos principais senhorios era o Condado Portucalense, onde vigorava a família de Borgonha (origem francesa), sendo Afonso Henriques (1110-1185) o principal líder. A princípio, o Condado Portucalense estava subordinado ao Reino de Leão.
Esse condado, juntamente com os outros senhores do norte, manifestou o desejo de ampliar seus domínios (autoridade e riqueza) por meio da expansão militar e da guerra com os muçulmanos. Nesse momento, as cidades do Porto e de Viana eram extremamente importantes para o contato comercial com Flandres, atual Bélgica e centro comercial da época. A aliança com essas cidades, que eram chefiadas por uma oligarquia mercantil, permitiu à coalizão cristã a aquisição de recursos para a formação de exércitos.
Nessas cidades tinha-se grande autonomia municipal, pois as câmaras detinham forte poder em relação aos senhores do norte. Essas câmaras eram governadas pelos homens bons (elite local), que tinham interesse em garantir sua autonomia, que estava sendo contestada pelos senhores do norte.
Afonso Henriques surgiu nesse contexto para oferecer proteção militar a fim de que essas cidades mantivessem sua autonomia. Em troca, essas cidades ofereceriam dinheiro a Afonso Henriques.
Por meio da aliança com as cidades, Afonso Henriques acumulou dinheiro e, com os nobres, otimizou a atividade militar. Tal fato conferiu notória força militar ao Condado Portucalense, a ponto de outras casas aristocráticas reconhecerem sua ascendência sobre elas. A partir do século XII, essas casas aristocráticas proclamaram a família dos Bourbon como dinastia real.
Surge, assim, a monarquia feudal em Portugal, liderada por um grande senhor de terras, que se sobrepõe aos demais.
A expansão marítima e comercial portuguesa, portanto, foi potencializada por uma monarquia com longo histórico de centralização administrativa, que gerenciou a nobreza com ethos militar e que efetivamente se lançou aos mares.
RECOMENDAÇÃO
Fonte: Luís Vaz de Camões/Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)
Para entender melhor esses acontecimentos históricos, leia os textos de Luís Vaz de Camões, em especial Os Lusíadas, obra de poesia épica da epopeia portuguesa.
FORMAÇÃO DOS ESTADOS MODERNOS: ESPANHA
Fonte: Heralder/Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)
O caso do Estado Nacional espanhol remete à principal experiência imperialista dos primeiros anos da modernidade, visto o poder que a Espanha exerceu sobre grande parte do continente americano e sobre o extenso território na própria Europa. Mais do que qualquer outro país europeu, a Espanha beneficiou-se da política de alianças matrimoniais/diplomáticas característica das sociedades monárquicas.
No século XIV, pressionados pela crise estrutural que assolava as sociedades europeias e pela ocupação muçulmana, alguns reinos ibéricos decidiram unir-se com o objetivo de centralizar esforços para a superação da crise e a reconquista cristã do território. Entre esses reinos, os maiores eram o de Castela e o de Aragão, que se uniram por meio do casamento de Isabel I e Fernando II, em 1649. Localização de Castela
Fonte: Unidentified painter/Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)
ISABEL I
FERNANDO II
Perry Anderson mostra como, durante a escassez de mão de obra provocada pela crise geral do feudalismo, Castela mostrou-se sede de uma lucrativa economia lanífera(Que produz lã.). Enquanto isso, Aragão, que já era potência territorial e comercial com capacidade de controlar territórios mediterrânicos, como a Sicília e a Sardenha, garantia o fluxo comercial para abastecer o Estado espanhol.
O DINAMISMO POLÍTICO E MILITAR DO NOVO ESTADO LOGO SE REVELARIA DRAMATICAMENTE EM UMA VASTA SÉRIE DE CONQUISTAS EXTERNAS.
VERIFICAR
Granada, o último reduto mouro, foi destruída, completando a reconquista.
Nápoles foi anexada.
Navarra, absorvida.
E, acima de tudo, as Américas foram descobertas e subjugadas.
O Império espanhol chegou ao apogeu, em 1519, com Carlos I (1550-1558), que foi também o Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico. Devido a uma complexa teia de relações dinásticas, Carlos, ao mesmo tempo um Bourbon e um Habsburgo, acabou herdando aqueles que na época eram os maiores impérios do mundo: o espanhol, voltado ao Atlântico, e o Habsburgo, continental, voltado ao centro da Europa. Surgiu assim, comandado a partir de Madri, o maior império da era moderna.
RECOMENDAÇÃO
A transição espanhola é muito bem explorada na literatura de Dom Quixote, que fala sobre um novo mundo e os grupos apegados. No grande livro de Miguel de Cervantes (1547-1616), é trabalhada a “confusão” de ideias entre um velho e um novo mundo, com a transição da mentalidade e a confusa relação entre o ideal de cavalaria e a velha aristocracia.
FORMAÇÃO DOS ESTADOS MODERNOS: FRANCESES X INGLESES
Na França, o Estado Nacional formou-se na transição do século XIV para o século XV, a partir da sobreposição de duas situações de crise: a crise estrutural do feudalismo e a famosa Guerra dos Cem Anos (1339-1453) contra a Inglaterra. Em desvantagem na guerra e pressionada pela crise das hierarquias feudais, a nobreza francesa permitiu que o rei Carlos VII concentrasse em si a talha, que era o imposto de sangue que o campesinato pagava à aristocracia em forma de serviços militares esporádicos. Nasceu assim a “talha real”, que direcionou à dinastia a prerrogativa de apropriar-se do serviço militar dos camponeses.
Fonte: Virgil Master and his atelier/ Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)Soldados ingleses que desembarcaram na Normandia, c. 1380–1400, durante a Guerra dos Cem Anos
GUERRA DOS CEM ANOS
Guerra travada na transição do medievo e da modernidade. O objetivo era, pelas relações consanguíneas, o pleito inglês ao trono francês. Depois de uma primeira fase de vitórias ingleses a partir de Calais, os franceses retomaram as terras continentais. O trajeto também é mitológico, com representações como a de Joana D’Arc (1412-1431).
Fonte: Alonso de Mendoza/ Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)Joana D’Arc
Temos aqui, também segundo Perry Anderson, o evento que fundou o exército moderno, ao centralizar no rei o direito exclusivo de convocar e coordenar a força militar. A nobreza foi, então, desarmada, sedentarizada, em um ato voluntário, consentido, por uma questão de sobrevivência. Como se diz popularmente: “entregou os anéis para não perder os dedos”.
Já na Inglaterra...
A formação do Estado Nacional deu-se de maneira distinta quando comparada à situação dos países continentais (Portugal, Espanha e França). Para entender essas particularidades, precisamos conhecer a situação de quase colapso na qual se encontrava a Inglaterra na segunda metade do século XV.
Após perder a guerra para os franceses, a Inglaterra, que tinha tradição de descentralização político-administrativa, foi dividida por uma guerra civil travada entre duas de suas principais casas aristocráticas.
Foi a chamada Guerra das Duas Rosas (1450-1485), envolvendo os York e os Lancaster. A guerra foi tãolonga e sangrenta que praticamente extinguiu as duas casas, abrindo um vazio de poder que foi ocupado por outra dinastia, a dos Tudor.
Fonte: Unknown Derivative/Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)Guerra das Duas Rosas
Henrique VII (1457-1509) foi o primeiro rei da dinastia Tudor, diante da fragilidade das outras casas aristocráticas, sempre rivais potenciais da dinastia. O projeto de centralização político-administrativa liderado por Henrique VII, na avaliação do historiador Perry Anderson, teve três movimentos:
PRIMEIRO MOVIMENTO
Desarmar a nobreza, fragilizando-a ainda mais e concentrando, na autoridade central, o poder de convocar e formar exércitos.
SEGUNDO MOVIMENTO
Mais complexo, consistiu no esvaziamento político da nobreza.
TERCEIRO MOVIMENTO
Como consequência direta, foi o rompimento com a tradição que orientava o monarca a delegar cargos para a aristocracia, nomeando em seu lugar novas famílias emergentes e enriquecidas em virtude do comércio de lã.
Assim, a monarquia feudal menos centralizada da Europa Ocidental fortaleceu sua autoridade central em virtude do profundo esgotamento da aristocracia, e não por causa dos esforços do grupo em sobreviver à crise estrutural do feudalismo, como aconteceu no continente.
O irrestrito amor à nação como elemento formador de uma nova visão política
O processo de construção do Estado Nacional, no entanto, não envolve apenas centralização política, administrativa e militar, mas também representações simbólicas que sejam capazes de construir vínculos identitários entre as pessoas.
RESUMINDO
Trata-se de convencer todos os que nasceram no território controlado por determinado Estado de que fazem parte de uma comunidade, de que existem vínculos afetivos que os irmanam.
Para isso, foi fundamental o “nacionalismo”, um ambiente político-cultural que teve seu lugar na Europa e nas Américas durante o século XIX.
Os diversos nacionalismos mobilizaram os estudos históricos, geográficos, e os rituais da cultura popular com o objetivo de inventar ritos e tradições capazes de fomentar sensações de pertencimento à nação que, antes de ser o território e seu aparato de poder institucional, é uma “comunidade imaginada”, nas palavras do historiador norte-americano Benedict Anderson (2008).
Mural nacionalista irlandês, em Belfast, mostrando solidariedade com o nacionalismo basco.
A nação é um tipo de comunidade imaginada socialmente, construída de modo a fazer as pessoas pensarem sobre si próprias como parte de um grupo. A invenção da nação é de interesse direto do Estado, pois não há poder que consiga se sustentar apenas pela repressão, sem contar com nenhum consentimento.
A afetividade e a identidade fomentadas pela simbologia identitária, nesse sentido, são fundamentais para a própria efetividade do poder público. Por isso, e essa foi uma das principais caraterísticas da história política do século XIX, o Estado investe tanto na “invenção de tradições”, como dizem os historiadores ingleses Eric Hobsbawm (1917-2012) e Terence Ranger (1929-2015).
POR “TRADIÇÃO INVENTADA” ENTENDE-SE UM CONJUNTO DE PRÁTICAS, NORMALMENTE REGULADAS POR REGRAS TÁCITA OU ABERTAMENTE ACEITAS; TAIS PRÁTICAS, DE NATUREZA RITUAL OU SIMBÓLICA, VISAM INCULCAR CERTOS VALORES E NORMAS DE COMPORTAMENTO ATRAVÉS DA REPETIÇÃO, O QUE IMPLICA, AUTOMATICAMENTE, UMA CONTINUIDADE EM RELAÇÃO AO PASSADO. ALIÁS, SEMPRE QUE POSSÍVEL, TENTA-SE ESTABELECER CONTINUIDADE COM UM PASSADO HISTÓRICO APROPRIADO.
(HOBSBAWM; RANGER, 2004)
VEM QUE EU TE EXPLICO!
Nação e Nacionalismo: caminhos diversos
Estados em conflito: a era dos extremos
NAÇÃO E NACIONALISMO
A ERA DOS EXTREMOS
Foi necessário a criação de vínculos identitários entre as pessoas como a criação de tradições, ícones e sentimento de pertencer.
Revolução inglesa como ponto de partida para a descentralização do poder real, formação da monarquia parlamentarista.
Com a Revolução francesa o conceito de nação se torna mais próximo de todos, o poder sai das mãos de uma elite e o estado passa a ser comandado por parte da população;
Fazer com que as pessoas se sintam parte daquela luta e anseiem em defender os interesses do seu grupo gera um sentimento de pertença que ajuda a construir a ideia de nação.
Os discursos nacionalistas são usados não mais para unir o povo, agora é necessário atacar os adversários, provar a superioridade da nação.
O belicismo como consequência dos conflitos entre nações;
Durante o século XX regimes como Nazismo e Fascismo usaram do discurso nacionalista para atacar inimigos e promover a guerra.
ATIVIDADE
VAMOS REFLETIR SOBRE O QUE APRENDEMOS?
Para isso, complete as frases com as palavras do quadro.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. A ANARQUIA FEUDAL, CARACTERÍSTICA DA CRISE DO FEUDALISMO, FOI O PONTO DE PARTIDA PARA A FORMAÇÃO DOS ESTADOS NACIONAIS NA EUROPA OCIDENTAL. ASSINALE ENTRE AS OPÇÕES A SEGUIR AQUELA QUE JUSTIFICA CORRETAMENTE ESSA AFIRMAÇÃO.
As guerras camponesas (a anarquia feudal) levaram ao estabelecimento de uma aliança entre o campesinato e a aristocracia, que juntos derrotaram a burguesia e mantiveram a estrutura político-administrativa descentralizada. Nasceu, assim, o Estado Nacional Moderno.
As guerras camponesas (a anarquia feudal) levaram ao estabelecimento de uma aliança entre as famílias aristocráticas, que favoreceram o fortalecimento de uma delas para centralizar os esforços de repressão ao campesinato. Nasceu, assim, o Estado Nacional Moderno centralizado.
As guerras camponesas (a anarquia feudal) levaram ao estabelecimento de uma aliança entre as frações da burguesia comercial, que favoreceram o fortalecimento de uma delas para centralizar os esforços de repressão ao campesinato. Nasceu, assim, o Estado Nacional Moderno centralizado.
As guerras camponesas (a anarquia feudal) levaram ao estabelecimento de uma aliança entre a Igreja Católica e as frações da burguesia comercial, que favoreceram o fortalecimento de uma delas para centralizar os esforços de repressão ao campesinato. Nasceu, assim, o Estado Nacional Moderno centralizado.
As guerras camponesas (a anarquia feudal) levaram ao estabelecimento de uma aliança entre a Igreja Católica e as famílias aristocráticas, que favoreceram o fortalecimento de uma delas para centralizar os esforços de repressão ao campesinato. Nasceu, assim, o Estado Nacional Moderno centralizado.
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2. PORTUGAL FOI O PRIMEIRO CASO DE MODERNIDADE POLÍTICA NA EUROPA. ASSINALE ENTRE AS OPÇÕES A SEGUIR AQUELA QUE MELHOR EXPLICA POR QUÊ.
Portugal foi o primeiro caso de modernidade política na Europa porque já vinha desenvolvendo relações comerciais no campo desde o século XI, o que potencializou a formação de um Estado burguês.
Portugal foi o primeiro caso de modernidade política na Europa porque precisou formar um exército nacional e centralizado pra lutar contra a França no conflito que ficou conhecido como Guerra dos Cem Anos.
Portugal foi o primeiro caso de modernidade política na Europa porque já contava com situação de relativa centralização militar e administrativa desde a Idade Média, quando a aristocracia cristã formou uma coalizão pra reconquistar o território ibérico, então ocupado pelos muçulmanos.
Portugal foi o primeiro caso de modernidade política na Europa porque a expansão marítima comercial forneceu recursos para a burguesia portuguesa, que se articulou politicamente e fundou o primeiro Estado capitalista do mundo.
Portugal foi o primeiro caso de modernidade política na Europa porque a guerra com a Espanha fortaleceu a nobreza, que derrotou a burguesia incipiente, fundando assim o primeiro Estado aristocrático do mundo.
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GABARITO
1. A anarquia feudal, característica da crise do feudalismo, foi o ponto de partida para a formação dos Estados Nacionais na Europa Ocidental. Assinale entre as opções a seguir aquela que justifica corretamente essa afirmação.
A alternativa "B " está correta.
As guerras camponesas travadas entre os séculos XIII e XIV colocaram a hierarquiafeudal em perigo, o que fez com que a nobreza europeia pactuasse que casas aristocráticas específicas centralizariam os esforços para o restabelecimento da ordem.
2. Portugal foi o primeiro caso de modernidade política na Europa. Assinale entre as opções a seguir aquela que melhor explica por quê.
A alternativa "C " está correta.
Portugal já havia centralizado esforços administrativos e militares na época da reconquista, sob o comando de Afonso Henriques, chefe do Condado Portucalense.
MÓDULO 3
Exemplificar as diversas revoluções sociais que, na modernidade, confrontaram a estrutura do Estado-nação
ESTADO NACIONAL: REAFIRMAÇÃO E REVOLUÇÕES
O período compreendido entre os séculos XVII e XIX foi, ao mesmo tempo, o momento de consolidação e crise dos Estados Nacionais. Foi nessa época que o modelo de Estado centralizado, originado na Europa Ocidental no século XIV, se espalhou pelo mundo, mas foi também quando a sociedade civil questionou e confrontou a autoridade centralizada.
Estudaremos aqui o ciclo de rebeliões sociais e políticas que aconteceu na Europa e nas Américas nesse período. Foram experiências tão transformadoras que chegaram a modificar o vocabulário político, como demonstra a filósofa alemã Hannah Arendt (1998), que identificou aquela que teria sido a principal transformação político-semântica trazida pela modernidade: a mudança no sentido do conceito “revolução”.
Se antes “revolução” era uma palavra associada ao movimento circular dos corpos celestes, agora passa a ser um sinônimo de ruptura social e política drástica, que transforma para melhor as sociedades, que acelera a marcha da história rumo ao futuro, como, por exemplo:
Fonte: William Shakespeare Burton/ Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)
Alegoria da Guerra Civil Inglesa, por William Shakespeare Burton.
REVOLUÇÃO INGLESA
Fonte: E. Percy Moran /Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)
Os britânicos avançam em Bunker Hill, por Percy Moran.
A INDEPENDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS
Fonte: Eugène Delacroix/Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)
A Liberdade guiando o povo, por Eugène Delacroix.
A REVOLUÇÃO FRANCESA
Foi assim que se construiu uma memória positiva desse conjunto de rebeliões sociais e políticas que aprendemos a chamar de “Revoluções Burguesas”.
Vamos começar pela Revolução Inglesa!
INGLATERRA
Ainda no século XVII, a Inglaterra foi desestabilizada por um conjunto de revoltas sociais que acabaram por instituir aquele que se tornaria um dos valores mais sagrados das democracias liberais modernas: o Constitucionalismo, que, como vimos no módulo 1, está fundado na premissa de que o poder do Estado deve ser limitado pela lei.
CONSTITUCIONALISMO
É o exercício de estruturar a sociedade a partir da lei e da submissão de todos às suas regras, públicas e claras por meio de Constituições nacionais.
 SAIBA MAIS
A Revolução Inglesa foi bastante estudada na bibliografia especializada, que apresenta diferentes, e por vezes conflitantes, interpretações do evento. Certamente, as duas principais referências para o assunto são os livros O mundo de ponta cabeça: ideias radicais durante a Revolução Inglesa de 1640, de Christopher Hill, publicado em 1987, e o livro As causas da Revolução Inglesa, de Lawrence Stone, publicado em 1988.
Enquanto Christopher Hill, em perspectiva marxista, afirma que a Revolução Inglesa foi o evento de inauguração da fase moderna da luta de classes, ao decretar a primeira grande vitória da burguesia sobre a aristocracia; Stone argumenta que o processo de aburguesamento da Inglaterra se deu pela modernização da própria nobreza rural, a gentry.
Seja como for, apesar das diferenças, ambos os autores interpretam as revoluções inglesas do século XVII como o momento de fundação da ordem capitalista, que passaria a estruturar a vida social e política no mundo ocidental.
A Revolução Inglesa (1640-1688) foi um processo plural, cheio de idas e vindas e atravessado por diversas guerras civis. Desde o século XVI, a burguesia inglesa (famílias ricas, mas sem signos aristocráticos de distinção) era um grupo influente devido ao processo de cercamento dos campos, que pioneiramente passou a subordinar o espaço rural às demandas comerciais e industriais urbanas.
Fonte: Desconhecido/ Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)Guerra Civil Inglesa durante a Revolução Inglesa
O campo inglês especializou-se em criar ovelhas para servirem como fonte de matéria-prima para a incipiente indústria têxtil. Esse foi o “cercamento dos campos”, enclosures, aquilo que Karl Marx (1818-1883) chamou de “acumulação primitiva do capital”.
Entretanto, essa burguesia ascendente estava sub-representada na estrutura da monarquia aristocrata inglesa. Podemos dizer que essa situação de sub-representação foi um dos principais focos de tensão que implodiram o sistema político inglês. No processo, o rei Carlos I foi morto, em janeiro de 1649, no primeiro regicídio, ou seja, assassinato do rei, moderno da história.
VOCÊ SABIA
Regicídios são normais nas monarquias, pois é comum que o trono seja objeto de desejo e alvo de conspirações, quase sempre envolvendo grupos aristocráticos próximos ao monarca.
No caso da morte de Carlos I, o regicídio não foi conspiratório, mas sim realizado em execução pública, em nome da “autoridade do povo”. O povo, então, empoderou-se a ponto de condenar o rei à morte, o mesmo monarca que até então era visto como o portador de um direito divino.
Depois da execução de Carlos I, a Inglaterra viu, ainda, a formação de uma ditadura comandada por um líder militar chamado Oliver Cromwell (1599-1658). A monarquia foi restaurada com a dinastia dos Stuart, e uma nova guerra civil, a Revolução Gloriosa, em 1688, instituiu a primeira monarquia constitucional da história.
Agora, a verdadeira soberania não pertencia ao rei, mas sim à lei, entendida como a manifestação da vontade do “povo”.
É a máxima que diz que “o rei reina, mas não governa”.
Em todo esse período, o trono esteve em conflito com o parlamento, disputando a quem caberia o controle político da monarquia. O parlamento venceu. O parlamentarismo sobrepôs-se ao absolutismo.
INDEPENDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS
Na segunda metade do século XVIII, o mundo inglês protagonizaria outro evento que seria reconhecido como um dos momentos de fundação da cultura democrática moderna. Foi a independência das treze colônias inglesas, ou a Revolução Americana, que trouxe ao mundo a novidade de um país independente na América.
COMENTÁRIO
A formação dos Estados Unidos nunca contou com uma organização única, tendo cada uma das colônias estruturas singulares. Sua unidade nunca feriu esse princípio, não à toa foi ali que se consolidou o modelo de federalismo.
Declaração da independência dos Estados Unidos.
Diferentemente das revoluções inglesas do século XVII, a Revolução Americana não questionou a monarquia ou a autoridade do rei, mas sim o parlamento, acusado de violar direitos coloniais adquiridos. Até o fim do processo, as elites coloniais insurgentes pediram a proteção do rei contra a espoliação feita pelo parlamento britânico. Por isso, como afirma John Pocock, a independência dos EUA deve ser inserida no contexto mais amplo das transformações das instituições britânicas que vinham se processando desde o século XVII.
SÉCULO XVII
Entre os períodos de 1641 a 1660 e entre 1688 a 1689, ocorreram crises nas relações entre a Coroa inglesa e a classe inglesa proprietária de terras, das quais o King-in-Parliament saiu fortalecido, embora profundamente transformado. A capacidade da Inglaterra de criar e consolidar a “Grã-Bretanha” e seguir em busca de um império atlântico foi um dos subprodutos de 1688. Porém, em 1776, ou mais propriamente entre 1764 e 1801, a capacidade do parlamento de exercer o governo sobre as províncias — e, em menor grau, a maneira como ele agora governava a sociedade inglesa — foi severamente desafiada. Nas colônias americanas teve lugar a revolução contra o parlamento (POCOCK, 2003).
E como os conflitos começaram?
Guerra dos Sete Anos
Os conflitos entre as colônias e o parlamentocomeçaram na década de 1760, logo após o fim da Guerra dos Sete Anos (1756-1763).
Brasão de Armas (Parlamento britânico)
Tendo saído da guerra com as contas desequilibradas, o parlamento britânico, que, como sabemos, governava o Império desde a Revolução Gloriosa (1688), apertou o rigor em suas relações mercantis com as colônias.
Caricatura britânica representando as leis como uma violação de Boston
Entre 1764 e 1774, o parlamento criou dura legislação que pressionou os interesses econômicos coloniais.
O primeiro congresso continental, 1774.
Em 1774, as lideranças coloniais organizaram o I Congresso da Filadélfia, quando redigiram um manifesto pedindo proteção e apresentando suas reclamações ao rei George III.
A Inglaterra era o parceiro governante e as raízes do parlamento estavam na sociedade inglesa comercial e de proprietários de terra. Era isso o que “tornaria a conciliação com as colônias, em última instância, impossível” (POCOCK, 2003).
Diante da recusa do parlamento inglês em atender às reivindicações das colônias, os representantes coloniais reuniram-se novamente em 1776, quando Thomas Jefferson (1743-1826) redigiu a Declaração de Independência dos EUA. Começou, então, um ciclo de conflitos que se arrastaria até 1783, mostrando ao mundo o caso inédito de colônias que confrontaram a autoridade de sua metrópole e venceram.
THOMAS JEFFERSON
Um dos mais importantes intelectuais norte-americanos. Notabilizou-se como um defensor da República pela atuação na Constituição, e foi presidente dos Estados Unidos.
Para Bernard Bailyn (2003), o que alimentou a insatisfação das colônias foi a convicção de que seus direitos tradicionais estavam sendo atacados, de que suas liberdades adquiridas corriam risco. O algoz não era a monarquia centralizada. Era o parlamento.
NO FIM, CHEGUEI À CONCLUSÃO DE QUE O MEDO DE UMA CONSPIRAÇÃO AMPLA CONTRA A LIBERDADE NO MUNDO DE LÍNGUA INGLESA – UMA CONSPIRAÇÃO QUE SE ACREDITAVA TER SIDO ALIMENTADA NA CORRUPÇÃO E SOBRE A QUAL SE SENTIA QUE A OPRESSÃO NA AMÉRICA DO NORTE ERA APENAS A PARTE MAIS IMEDIATAMENTE VISÍVEL – ESTAVA NO CORAÇÃO DO MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO.
(BAILYN, 2003)
Sem dúvida alguma, as revoltas sociais que desestabilizaram o mundo francês durante as décadas de 1780 e 1790, e que posteriormente ficariam conhecidas como Revolução Francesa, tornaram-se o evento simbolicamente mais importante da cultura política moderna. Já tendo sido objeto de diversos estudos especializados, a Revolução Francesa precisa ser pensada como um processo complexo, cheio de idas e vindas e não restrito apenas ao território europeu francês, visto que se manifestou também em terras coloniais, como na ilha caribenha de Santo Domingo, palco da mais radical e violenta revolução social dos primeiros anos da modernidade.
MODERNIDADE
A independência de uma parte da ilha conhecida atualmente como Haiti, liderada pelos negros locais, gerou uma intensa reação dos senhores do restante da ilha, Santo Domingo, além de desestabilizar o governo revolucionário haitiano.
Nos diversos momentos dos conflitos, em alguns de forma mais aguda, em outros de maneira mais pálida, a “tirania” do Estado monárquico foi questionada pela sociedade. O historiador francês Albert Soboul (1914-1982) divide o processo revolucionário em três momentos, cada qual apresentando níveis diferentes de radicalismo disruptivo e projetos distintos para a organização político-institucional do Império francês.
Entre 1789 e 1791, o projeto vitorioso foi o girondino, marcado pelo objetivo de transformar a monarquia absolutista comandada pelos Bourbons em uma monarquia constitucional, à moda inglesa. A propriedade privada foi defendida e a desigualdade social não foi pautada como problema estrutural da sociedade francesa.
FOI UM MOMENTO DE COMPROMISSO ENTRE A BURGUESIA E OS SETORES MAIS PROGRESSISTAS DA ARISTOCRACIA E DA IGREJA. O OBJETIVO DO PACTO ERA ABOLIR A FEUDALIDADE, AMPLIAR O ACESSO AOS DIREITOS POLÍTICOS, NUMA REVOLUÇÃO PACÍFICA QUE NÃO ALMEJAVA QUESTIONAR A PROPRIEDADE PRIVADA E A AMPLIAÇÃO DE DIREITOS SOCIAIS.
(SOBOUL, 1995)
REVOLUÇÃO FRANCESA
Revolução Francesa
A partir de 1792 até 1795, começaria o momento de maior radicalidade do conflito, quando a própria estrutura da sociedade francesa foi posta em questão pelo projeto jacobino, comandado pela aliança entre operariados urbanos e a pequena burguesia liderada por Maximilien François Marie Isidore de Robespierre (1758-1794). Esses grupos situavam-se mais à esquerda do espectro político francês e demandavam mais do que apenas o fim da monarquia absolutista e o fim da feudalidade. Desejavam questionar a estrutura fundiária, a divisão de terras, a miséria dos trabalhadores urbanos.
Mas, politicamente, quem eram os jacobinos?
Politicamente, os jacobinos eram republicanos e não estavam dispostos a negociar com a estrutura monárquica. O resultado foi o acirramento dos conflitos sociais e a militarização efetiva da crise francesa, dando início àquilo que já na época ficou conhecido como “terror”, quando o tribunal revolucionário executou milhares de pessoas, incluindo o rei Luís XVI e o próprio Robespierre.
Os efeitos da guerra revolucionária atravessaram o oceano Atlântico, chegando à ilha de Santo Domingo, colônia francesa na América. Santo Domingo era uma sociedade escravocrata, em que a minoria branca comandava uma economia agroexportadora, movida pelo trabalho escravo da maioria negra.
Nos anos da Revolução Pacífica girondina, como explica Eugene Genovese, a elite colonial manifestou o desejo de ser representada na Assembleia dos Estados Gerais e gozar da ampliação dos direitos políticos. Porém, com a radicalização jacobina, a escravidão foi abolida em todo o império colonial francês.
Nesse momento, as forças revolucionárias eram lideradas pelo comandante e governador de Santo Domingo Toussaint Bréda (1743-1803), e o objetivo era defender a Revolução, o que significava defender a abolição da escravidão, tanto dos ataques restauradores internos como dos externos.
Fonte: Desconhecido/ Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)Toussaint Bréda
O termo “revolucionário” provocou a formação de um amplo arco de forças, que passou a ter o objetivo de derrotar a agenda social e republicana dos jacobinos. Nobreza, clero, potências internacionais e alta burguesia juntaram-se para atacar a Revolução Jacobina e retroceder o processo ao estágio do capitalismo monárquico liberal, tal como era o objetivo na fase jacobina do processo.
Em Santo Domingo, a reação colocou a emancipação política na agenda dos revolucionários, agora comandados J. J. Dessalines (1758-1806), outra importante liderança militar negra. Os conflitos foram sangrentos e a minoria branca foi quase completamente exterminada naquela que foi a primeira revolução moderna a trazer a discussão racial para o centro da pauta dos conflitos.
Em 1º de janeiro de 1804 foi proclamada a independência da República do Haiti, que se tornou o segundo país independente das Américas, logo depois dos EUA. Na França, a monarquia foi restaurada, a propriedade privada respeitada e as demandas jacobinas por direitos sociais sufocadas. Napoleão Bonaparte (1769-1821) tornou-se a principal liderança política do Império francês.
NAPOLEÃO BONAPARTE
Comandante militar do Egito e convocado para comandar a França Revolucionária ao fim do processo relatado.
Fonte: Jacques-Louis David / Wikimedia commons/licença(CC BY 3.0...)Napoleão Bonaparte
Os questionamentos ao Estado Moderno continuariam no século XIX, novamente nas duas margens do Atlântico: dezenas de processos emancipacionistas decretaram o fim da dominação colonial europeia nas Américas, novas revoluções sociais desestabilizaram a França, em 1830, 1848 e 1871, apresentando amplo leque de projetos políticos, indo do liberalismo burguês ao comunismo.
Se, entre os séculos XIV e XVI, a Europa construiu o Estado Moderno, com sua estrutura política, administrativa e militar centralizada e com seu espírito aristocrático, os séculos XVIII e XIX questionaram tanto a centralização como a dimensão feudaldos Estados Nacionais, dando origem a uma série de disputas ideológicas que marcariam a história humana no século XX.
VEM QUE EU TE EXPLICO!
Estados Modernos e a invenção do capitalismo
ESTADOS MODERNOS
A consolidação dos Estados também se da quando se tem a transição do mercantilismo para o capitalismo;
Monetização das relações entre Estados;
Revolução industrial como fato acelerador da implementação do capitalismo nos Estados;
A busca por mercados não é só econômica é também por influência política em outros territórios;
Partilha da África como símbolo desse momento da história, onde a busca por mercados, matéria prima e poder de influência vai fazer com que Estados europeus subjuguem o continente africano a sua vontade;
ATIVIDADE
VAMOS REFLETIR SOBRE O QUE APRENDEMOS?
Para isso, complete as frases com as palavras do quadro.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. A REVOLUÇÃO AMERICANA GUARDA ALGUMAS PARTICULARIDADES QUANDO COMPARADA COM AS REVOLUÇÕES INGLESAS DO SÉCULO XVII. ASSINALE ENTRE AS ALTERNATIVAS A SEGUIR AQUELA QUE MELHOR APRESENTA ESSAS PARTICULARIDADES.
Diferentemente das revoluções inglesas do século XVII, que questionaram o poder político da burguesia, a Revolução Americana questionou o poder político da Igreja, considerada responsável pelo endurecimento das relações coloniais a partir da década de 1760.
Diferentemente das revoluções inglesas do século XVII, que questionaram o poder político da Igreja, a Revolução Americana questionou o poder político da burguesia, considerada responsável pelo endurecimento das relações coloniais a partir da década de 1760.
Diferentemente das revoluções inglesas do século XVII, que questionaram a autoridade do rei, a Revolução Americana questionou o poder do parlamento, considerado responsável pelo endurecimento das relações coloniais a partir da década de 1760.
Diferentemente das revoluções inglesas do século XVII, que questionaram a autoridade do parlamento, a Revolução Americana questionou o poder do rei, considerado responsável pelo endurecimento das relações coloniais a partir da década de 1760.
Diferentemente das revoluções inglesas do século XVII, que questionaram a autoridade do rei, a Revolução Americana questionou o poder da Igreja, considerada responsável pelo endurecimento das relações coloniais a partir da década de 1760.
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2. A REVOLUÇÃO FRANCESA FOI UM PROCESSO HISTÓRICO COMPLEXO, HETEROGÊNEO E CHEIO DE IDAS E VINDAS, QUE NO FINAL DO SÉCULO XVIII DESESTABILIZOU O MUNDO FRANCÊS. ASSINALE ENTRE AS ALTERNATIVAS A SEGUIR AQUELA QUE MELHOR DEFINE A REVOLUÇÃO FRANCESA.
A Revolução Francesa não ficou restrita apenas ao território europeu, chegando também à América, e a partir disso surgiu o segundo país independente das Américas: a República do Haiti, fundada em janeiro de 1804.
A Revolução Francesa ficou restrita ao território europeu francês, chegando às Américas apenas no plano das ideias políticas, levando o continente a restaurar as relações coloniais, abolidas desde a independência dos EUA, na década de 1770.
A Revolução Francesa não ficou restrita apenas ao território europeu, chegando também à América, e a partir disso surgiu o segundo país independente das Américas, os EUA, fundado em janeiro de 1804.
A Revolução Francesa não ficou restrita apenas ao território europeu, chegando também à América, e a partir disso surgiu o primeiro país independente das Américas, os EUA, fundado em janeiro de 1804.
A Revolução Francesa ficou restrita ao território europeu francês, chegando às Américas apenas no plano das ideias políticas, levando o continente a adotar o comunismo, tal como havia sido pregado em Paris, na década de 1780.
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GABARITO
1. A Revolução Americana guarda algumas particularidades quando comparada com as revoluções inglesas do século XVII. Assinale entre as alternativas a seguir aquela que melhor apresenta essas particularidades.
A alternativa "C " está correta.
A rebelião das Treze Colônias inglesas aconteceu pela insatisfação com o parlamento, e não com o rei, ou seja, o alvo da revolta colonial não foi a monarquia centralizada, mas sim as políticas fiscais mercantis desenvolvidas pelo parlamento britânico.
2. A Revolução Francesa foi um processo histórico complexo, heterogêneo e cheio de idas e vindas, que no final do século XVIII desestabilizou o mundo francês. Assinale entre as alternativas a seguir aquela que melhor define a Revolução Francesa.
A alternativa "A " está correta.
A Revolução Francesa foi um processo histórico intercontinental vivenciado no império colonial francês, tanto na Europa como na América. Um de seus principais desdobramentos foi a independência do Haiti, que em 1804 tornou-se a segunda nação autônoma das Américas.
CONCLUSÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como aprendemos, estudar a história dos Estados Nacionais nos convida e entender a heterogeneidade dos processos históricos que, em diversos lugares da Europa, levaram à formação de estruturas políticas centralizadas, cujo objetivo foi salvar o feudalismo da experiência de crise que começou no século XIV.
O tempo passou e, nos séculos XVIII e XIX, os Estados Nacionais tornaram-se alvo de contestações das sociedades civis europeias, em um momento de urbanização e industrialização do Velho Mundo. Vários projetos políticos foram formulados nesse momento: liberalismo, anarquismo, comunismo, que seriam aprofundados no século XX e, de alguma maneira, estão presentes até hoje nos conflitos políticos do nosso tempo.
DESCRIÇÃO
As estruturas políticas do Estado moderno, sua origem e elementos constitutivos.
PROPÓSITO
Discutir as condições de surgimento do Estado moderno e os processos de formação de sua organização política, objetos fundamentais para a compressão do funcionamento das instituições e do conjunto de leis que regulam nossas vidas nas sociedades contemporâneas.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Identificar o surgimento dos princípios políticos da sociedade contemporânea
MÓDULO 2
Relacionar o conceito de Estado moderno, a transição do absolutismo ao Estado liberal com a ascensão e consolidação da burguesia no poder
MÓDULO 3
Reconhecer os poderes do Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) por meio da análise do seu surgimento, suas capacidades específicas e mecanismos de independência
INTRODUÇÃO
Para início de conversa, podemos pensar que na sociedade contemporânea, como a nossa, vivemos experiências e conflitos cotidianos (seja qual for nosso país, etnia, gênero ou classe social) que nos relembram diariamente que precisamos agir conforme as leis, regras e/ou convenções para conviver da forma mais harmoniosa possível. Não é à toa que, ao falar dos amplos conflitos sociais, normalmente sintonizamos nosso discurso ao ente, com autoridade e legitimidade, capaz de dirimir, atenuar ou intervir diretamente sobre os problemas que nos assolam. Esse é o momento em que evocamos quase automaticamente a noção de Estado através de suas instituições, poderes ou representantes.
Neste tema, aprenderemos um pouco mais sobre a sociedade contemporânea, as instituições que a compõem e seu surgimento na história. E, como, afinal, surgiu o Estado em que vivemos? Como podemos defini-lo? Que poderes os governantes possuem? O que os regulam? Questões como estas serão abordadas nos nossos estudos.
Partiremos a discussão sobre a nossa sociedade atual, seu surgimento e suas características. Depois, entenderemos qual é a estrutura do Estado moderno. Por fim, veremos quais poderes atuam dentro desse Estado, suas características e formas de controle mútuo. Também aprenderemos a encontrá-los em nosso país.
MÓDULO 1
Identificar o surgimento dos princípios políticos da sociedade contemporânea
SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA: A IDENTIDADE SOCIOPOLÍTICA DO HOMEM
Quando pensamos em sociedade, temos em mente o modo como vivemos atualmente. Lembramos de nossas relações no âmbito familiar, no ambiente de trabalho, na faculdade e com os amigos. Também pensamos em problemas: violência, desemprego, miséria,doenças etc. Se nos falam de sociedades diferentes, lembramos das diferenças culturais entre os países e povos. Mas sempre temos por base a nossa experiência em sociedade e nosso momento histórico. Apesar de esperarmos mudanças tecnológicas e sociais, acreditamos que as coisas sempre foram ou tendem a ser parecidas com o que vivemos. Contudo, essa é uma percepção enganosa, deturpada da realidade.
Foto: Shutterstock.com.
A sociedade em que vivemos é algo relativamente recente do ponto de vista histórico. Quando olhamos para o passado, é comum imaginarmos que as pessoas viviam de forma parecida com a nossa, talvez com menos tecnologias. No entanto, vários conceitos que usamos atualmente, como patriotismo, leis escritas, liberdades e direitos individuais, ou não existiam, ou não tinham o mesmo sentido que damos a eles hoje. A própria noção de indivíduo não fazia parte do ideário das sociedades antigas e medievais.
ATENÇÃO
Quando tratamos de sociedade contemporânea, nos referimos a um movimento acelerado de mudanças nas esferas políticas, econômicas, culturais e tecnológicas que modificaram a estrutura social e o modo do homem compreender o mundo. Essas transformações são resultado do desenvolvimento do capitalismo, especialmente a partir do século XIX, com o avanço da ciência, o crescimento da indústria, a expansão do comércio e da vida urbana, as modificações das práticas culturais, a as relações com o trabalho etc.
Na mesma proporção, a aceleração do tempo e de ritmo de vida do homem devolveu em resposta uma paisagem social trágica: aumento das desigualdades sociais, empobrecimento da população, exploração do trabalho e miséria. Ao mesmo tempo, revoltas populares por melhores condições de vida, movimentos operários reivindicando por participação política (sufrágio universal, por exemplo) expandiram-se por toda a Europa do século XIX.
Domínio Público.Motim cartista em Londres.
 O movimento cartista iniciou-se
em 1830 a partir da luta dos operários por inclusão política.
A partir do momento que os problemas sociais são considerados passíveis de serem resolvidos — e prevenidos —, tornam-se objetos de investigação científica. É nesse cenário que nasce a Sociologia. Mas, antes dela, é Auguste Comte (1798-1857), filósofo francês que formulou a doutrina do Positivismo, quem primeiro a toma como ciência, buscando compreender o funcionamento da nova sociedade para prevenir que as desigualdades sociais não desestruturem a ordem social.
A partir desse período que podemos compreender a sociedade contemporânea como um produto, resultado das condições históricas e políticas, fabricado pela ascensão da burguesia e o novo modo de produção capitalista no final do século XVIII e início do século XIX. São essas condições que modificam as relações sociais e concebem um homem, cidadão do mundo, desgarrado dos antigos laços sociais. Basta lembrarmos que as sociedades antigas e medievais possuíam estruturas assentadas em pertencimentos locais — cidade, vila — ou religiosos — o cristão, o islâmico, o judeu —, ou ainda por profissão — agricultor, padre, nobre.
Não é à toa que a Sociologia nasce com a perspectiva de compreender essa nova sociedade e seus efeitos. Karl Marx (1818-1883), com seu método, o materialismo histórico e dialético, chamou atenção para o modo como a produção da vida material — os bens materiais que necessitamos para sobreviver, como, por exemplo, mesa, cadeira, roupas etc. – determina uma nova relação de produção no sistema capitalista: um grupo social – a burguesia – passa a dominar outro grupo social – o proletariado.
Karl Marx, por John Jabez Edwin Paisley Mayall, 1875.
Essas classes sociais estabelecem necessariamente as desigualdades entre os homens através da exploração do trabalho. O capital e o lucro são produtos dessa relação e, ao mesmo tempo, motores da sociedade contemporânea.
Vejamos um trecho do Manifesto Comunista, obra de Marx de 1848:
A TRANSFORMAÇÃO CONTÍNUA DA PRODUÇÃO, O ABALO INCESSANTE DE TODO O SISTEMA SOCIAL, A INSEGURANÇA E O MOVIMENTO PERMANENTES DISTINGUEM A ÉPOCA BURGUESA DE TODAS AS DEMAIS. AS RELAÇÕES RÍGIDAS E ENFERRUJADAS, COM SUAS REPRESENTAÇÕES E CONCEPÇÕES TRADICIONAIS, SÃO DISSOLVIDAS, E AS MAIS RECENTES TORNAM-SE ANTIQUADAS ANTES QUE SE CONSOLIDEM. TUDO O QUE ERA SÓLIDO DESMANCHA NO AR, TUDO O QUE ERA SAGRADO É PROFANADO, E AS PESSOAS SÃO FINALMENTE FORÇADAS A ENCARAR COM SERENIDADE SUA POSIÇÃO SOCIAL E SUAS RELAÇÕES RECÍPROCAS.
(MARX, 2008, p. 15-16)
Se olharmos a passagem bem de perto, percebemos que Marx está nos contando uma história de ruptura de uma velha ordem social. E é exatamente essa nova ordem social – burguesa – a geradora das mudanças nos hábitos, costumes, relações familiares, concepções de vida etc.
A Sociologia de Marx não é a única interpretação possível da sociedade contemporânea. Ao lado dele, Émile Durkheim (1858-1917) e Max Weber (1864-1920) formam a base teórica clássica da Sociologia. Por caminhos e métodos distintos, os três autores nos apresentam uma ciência ocupada com a relação indivíduo-sociedade. Se repararmos bem, seus conceitos — classe social (Marx), fato social (Durkheim) e ação social (Weber) —, só pelos nomes, já trazem o peso dos impactos sociais sobre a vida do homem.
international.Imagem de Londres, Litogravura de Gustave Doré, séc. XIX.
FORMAÇÃO POLÍTICA, JURÍDICA E INSTITUCIONAL DO ESTADO
Mais do que os aspectos econômicos, é importante perceber que esta nova estrutura social que narramos tem íntima relação com a formação política, jurídica e institucional do Estado.
É o Estado liberal quem dá a identidade sociopolítica do que chamamos de sociedade contemporânea.
Calma! vamos explicar: as ideias liberais fazem parte de um conjunto de princípios baseados na defesa da liberdade, da igualdade jurídica e da propriedade privada. Basta que percebamos que são esses os princípios — defendidos pela burguesia — que formam grande parte das nossas ideias sobre direitos, deveres, justiça, bens etc. Isso porque também são eles que formam o arcabouço jurídico, — a Constituição — do nosso Estado. Se observamos bem, todos os países têm constituições que garantem esses direitos aos seus cidadãos.
Você deve estar percebendo o curioso caminho que tomamos: o capitalismo e as ideias liberais são as bases subjacentes à vida social contemporânea. Essas bases não são claras ou óbvias. Precisamos fazer um exercício de reflexão para desvelar sua percepção.
Por exemplo, ao falarmos “eu tenho direitos trabalhistas”, “Sou livre para votar em quem eu quiser” ou “com o meu dinheiro compro o que eu quiser” está implícita a ideia de que estes indivíduos foram “fabricados” em sociedades dos nossos dias e que, por sua vez, são reguladas pelas noções de liberdade e direitos. Dificilmente ouviríamos essas palavras de um homem da Antiguidade ou do período medieval.
Foto: Alf Ribeiro / Shutterstock.com.Imagem das Jornadas de Junho, São Paulo, Brasil, 2013.
Pois, bem. São em sociedades como a nossa que o indivíduo se tornou um sujeito de direito, regulado por um Estado. Podemos dizer que a sociedade contemporânea é uma Sociedade de Indivíduos, que também é o título da obra de um sociólogo alemão chamado Norbert Elias. Para o autor, em sociedades contemporâneas, não há como falarmos de uma separação entre indivíduo e sociedade, justamente porque acredita numa relação de interdependência, processo de influência mútua.
MAS, SE É ASSIM, COMO CHEGAMOS ÀS IDEIAS LIBERAIS? COMO ELAS SE FORMARAM?
Vamos analisar um pouco melhor as idéias embrionárias que, de certo modo, formaram a base de nossa identidade sociopolítica atual.
O NASCIMENTO DO INDIVÍDUO E O CONTRATO SOCIAL: SOCIEDADES INVENTADAS
Se buscarmos o “nascimento” da noção de indivíduo, provavelmente a encontraremos na obra de René Descartes (1596-1650). O famoso filósofo francês, em seu livro Discurso do Método (1637) escreveu sua frase mais conhecida:
“PENSO, LOGO EXISTO”.
(DESCARTES, 2001)
Imagem: Frans Franchoisz Hals/Wikimedia Commons/ Domínio público.Retrato de René Descartes, por Frans Franchoisz Hals,cerca de 1649-1700.
A frase apresenta uma grande inovação para época. O “eu” embutido na conjugação verbal nos leva a pensar na ideia de sujeito-indivíduo. Em um momento histórico no qual a sua existência era definida por sua atividade, seu local de nascimento, sua religião ou outro fator externo, Descartes inaugura a ideia de que indivíduos vivem em sociedade, mas existem aquém dela. Ou seja, nos apresenta a ideia de um “eu” universal, definido pela razão.
Esta ideia de indivíduo que surge no pensamento de Descartes, e que independe de fatores sociais para sua definição, passa a ser alvo de indagações de filósofos posteriores. A questão principal é a seguinte:
SE OS INDIVÍDUOS EXISTEM INDEPENDENTEMENTE DA SOCIEDADE, POR QUE ESCOLHEM VIVER NELA?
Para responder essa questão, os filósofos passam a usar a ideia de um momento hipotético, no qual as comunidades não existissem e os homens vivessem sozinhos, isolados uns dos outros. A essa ideia damos o nome de estado de natureza.
O estado de natureza foi mobilizado por vários filósofos, os mais conhecidos são:
Domínio público.
THOMAS HOBBES
(1588 – 1679)
JOHN LOCKE
(1632 – 1704)
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
(1712-1778)
Cada um desses autores lança hipóteses distintas sobre o estado de natureza. O ponto comum entre eles é que, no estado de natureza, os indivíduos seriam completamente livres, viveriam independentes, ou seja, agiriam de acordo com suas próprias regras, executariam suas atividades da forma que quisessem, e, julgariam conforme seus interesses próprios. As únicas limitações existentes seriam aquelas impostas pela natureza (tempestades, terremotos, enchentes etc.).
Como você já deve imaginar, nem tudo funciona tão bem quanto parece. Isso porque os seres humanos possuem características naturais, físicas e intelectuais distintas que, consequentemente, os põem em condição de desigualdade no estado de natureza. Por exemplo, alguns possuem mais força ou mais rapidez, outros possuem uma visão mais aguçada e um raciocínio mais rápido. Como no estado de natureza não existiriam leis gerais e muito menos alguém que aplicasse tais leis, a tendência é a de que os mais fortes oprimissem os mais fracos. Por outro lado, os astutos poderiam oprimir os mais fortes. Para esses teóricos, a percepção dos riscos do estado de natureza é o momento-chave para nossa reflexão.
VAMOS REFLETIR...
Sem um controle, os indivíduos tenderiam a um confronto eterno, o que reduziria suas liberdades e seus direitos. Para garantir esses direitos, eles apresentam a ideia de que os homens escolheriam abandonar o estado de natureza para constituírem uma sociedade politicamente organizada, através de uma espécie de contrato, no qual os indivíduos delegam parte — ou o todo — de seus poderes no estado de natureza para um “outro”, tendo em vista que esse “outro” proteja seus direitos naturais — ou parte deles.
A ESTA TRADIÇÃO DE PENSAMENTO CHAMAMOS DE CONTRATUALISMO, JUSTAMENTE PORQUE AS SOCIEDADES POLÍTICAS OU O ESTADO CIVIL SURGEM BASEADAS EM UM CONTRATO SOCIAL.
Não podemos esquecer, entretanto, que estamos em uma situação hipotética e o contrato é uma abstração. Mas com ela podemos prospectar que os indivíduos aceitam viver em sociedade para sua própria proteção, segurança ou potencializar suas liberdades. Advém daí a percepção de que algo externo e ao mesmo tempo comum aos homens deveria estabelecer regras que garantisse a vida e a liberdade de todos.
Cabe mencionar que esses autores têm características específicas no desenvolvimento de suas ideias sobre o contrato social.
Imagem: National Portrait Gallery/Wikimedia Commons/ Domínio público.
Hobbes partia da noção de que homens tendem ao conflito por sua própria natureza e necessitariam de um poder comum que os controlassem, ainda que para isso fosse um poder absoluto.
Imagem: Gottfried Kniller/Wikimedia Commons/ Domínio público.
Locke propunha que deveria existir uma proteção à propriedade privada que, em sua concepção, incluiria a vida e a liberdade, além da propriedade material em si, e para isso propõe as formas de organização do governo civil nessa sociedade, reduzindo a possibilidade de opressão aos indivíduos.
Imagem: Maurice Quentin de La Tour/Wikimedia Commons/ Domínio público.
Rousseau entendia que a instituição da propriedade corrompia o homem e que o poder comum deveria surgir de uma sociedade política que representasse a vontade geral.
LIGANDO OS PONTOS
Os modelos hipotéticos dos contratualistas — cada qual a sua maneira — nos chamam a atenção para um aspecto basilar: eles fazem emergir teorias que apresentam os indivíduos como detentores de direitos naturais (fundamentais) invioláveis. Se violados, colocaríamos a vida humana em risco. Se olharmos bem de perto, percebemos que os contratualistas nos dão os princípios das doutrinas liberais que, alinhadas ao desenvolvimento do modo de produção capitalista — com a emergência da classe burguesa —, nos fornecem o quadro político e econômico das sociedades contemporâneas.
A questão a responder seria a seguinte:
PARA QUEM OU PARA O QUE OS HOMENS DEVERIAM DELEGAR SEUS PODERES PARA GARANTIR SEUS DIREITOS NATURAIS?
RESPOSTA
Podemos deduzir que esse “quem” ou “que” seria o Estado (Sobre ele discutiremos no próximo módulo).
CIÊNCIA POLÍTICA: UM CAMPO EM FORMAÇÃO
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. NESTE MÓDULO, APRENDEMOS QUE A NOSSA SOCIEDADE É CONSTITUÍDA A PARTIR DE UMA IDEIA RECENTE DE INDIVÍDUO. TRATAMOS DO ESTADO COMO UMA FORMA DE PROTEGER O INDIVÍDUO, SUAS LIBERDADES E DIREITOS. TODAVIA, COMO ESSAS LIBERDADES E DIREITOS FORAM DESCOBERTAS? ASSINALE A ALTERNATIVA QUE EXPLICA CORRETAMENTE COMO OS DIREITOS E LIBERDADES INDIVIDUAIS FORAM CONCEITUALIZADOS.
O Estado de Direito criou todas as liberdades e direitos individuais. Antes do Estado de Direito, os homens não eram livres e não tinham direitos.
O rei absolutista, representante de Deus na Terra, deu aos indivíduos os direitos e liberdades em troca da servidão.
Os direitos e liberdades individuais são conceitualizados a partir da abstração hipotética denominada de Estado de Natureza.
A Reforma Protestante criou os direitos individuais baseadas em uma nova interpretação da bíblia.
Os direitos e liberdades individuais não existem na sociedade contemporânea. Somente existem em governos absolutistas.
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2. A FORMA COMO OS INDIVÍDUOS SE ENCONTRAM EM SOCIEDADE SUPÕE UMA ACEITAÇÃO DE REGRAS E SANÇÕES, O QUE OCORRE ANTES MESMO DO NOSSO NASCIMENTO. QUAL É O NOME QUE DAMOS À IDEIA PELA QUAL OS INDIVÍDUOS ACEITAM VIVER EM SOCIEDADE?
Contrato de trabalho: forma pela qual ingressamos verdadeiramente na sociedade.
Contrato social: ideia pela qual estamos em sociedade por aceitar que o Estado proteja nossas liberdades e direitos, em troca de delegarmos poderes a ele.
Pacto de não agressão: decisão tomada entre os indivíduos de cessar a guerra de todos contra todos, viver em paz e construir uma sociedade.
União social: instituição criada para fomentar a sociedade, baseando-se nas características profissionais dos membros da sociedade e suas escolhas religiosas.
Batismo social: transformação de selvagens em cidadãos por meio da aceitação das leis de determinada sociedade.
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GABARITO
1. Neste módulo, aprendemos que a nossa sociedade é constituída a partir de uma ideia recente de indivíduo. Tratamos do Estado como uma forma de proteger o indivíduo, suas liberdades e direitos. Todavia, como essas liberdades e direitos foram descobertas? Assinale a alternativa que explica corretamente como os direitos e liberdades individuais foram conceitualizados.
A alternativa "C " está correta.
O Estado de Natureza, abstração na qual os homens viveriam sozinhos antes das sociedades, serviu de base para vários filósofos conceitualizarem os direitos e liberdades naturais dos homens. Ou seja, quais direitos e liberdades os homens teriam (ou deveriam ter) antes mesmo da vida em sociedade.
2. A forma como os indivíduos se encontram em sociedade supõe uma aceitaçãode regras e sanções, o que ocorre antes mesmo do nosso nascimento. Qual é o nome que damos à ideia pela qual os indivíduos aceitam viver em sociedade?
A alternativa "B " está correta.
O contrato social é a ideia pela qual a sociedade é fundada a partir da aceitação dos indivíduos em delegar seus poderes ao Estado, tendo em vista sua própria proteção. Para muitos filósofos, esse é o momento de criação da sociedade, assim como a justificativa pela qual devemos obedecer às suas regras, dado que escolhemos estar nela.
MÓDULO 2
Relacionar o conceito de Estado moderno, a transição do absolutismo ao Estado liberal com a ascensão e consolidação da burguesia no poder
COMO CHEGAMOS, AFINAL, AO ESTADO?
Você já deve ter ouvido muitas definições de Estado. Dentre elas, a de que o Estado é o guardião da sociedade e do conjunto de indivíduos que habitam um território, possuidores de direitos que devem ser protegidos constantemente das ameaças. Ou ainda que essa função de proteger caberia a um poder comum, que fosse independente ou relativamente neutro, tanto em relação aos governados quanto aos governantes.
Como vimos no módulo anterior, a noção de Estado tem a ver com algumas destas características. Entretanto, precisamos dar especial atenção a alguns aspectos centrais para sua definição mais rigorosas.
Nos termos do sociólogo alemão Max Weber:
Devemos conceber o Estado contemporâneo como uma comunidade humana que, dentro dos limites de determinado território — a noção de território corresponde a um dos elementos essenciais do Estado — reivindica o monopólio do uso legítimo da violência física.
(WEBER, 1997, p. 56).
.Max Weber, 1918.
Com uma definição aparentemente simples, Weber nos convida a aprofundar os significados das expressões “território” e “monopólio do uso legítimo da violência física”, palavras que saltam na sua escrita e que terão seus significados aprofundados neste módulo.
Foto: Alf Ribeiro / Shutterstock.com.Motim da Polícia Militar durante um protesto contra o estupro coletivo de uma garota de 16 anos em uma favela no Rio de Janeiro, na Avenida Paulista em São Paulo, Brasil, 2016.
Sem muitos rodeios, percebemos com Weber que a configuração desta instituição política nem sempre assumiu uma única forma ao longo da história. Longe de nos conduzir a um conceito universal, independente das circunstâncias sociais, a definição do autor reporta à manutenção de uma estrutura política determinada espacial e historicamente que se constituiu na Europa, entre os séculos XIII e XIX.
A ascensão do que chamamos de Estado é produto de um contexto de guerras e revoluções que, por sua vez, modelaram o desenvolvimento econômico, político, social e tecnológico de sociedades do chamado Antigo Regime.
A substituição paulatina das diversas unidades políticas, os feudos — sob domínio da nobreza (os senhores feudais) —, por uma estrutura de poder centralizada em torno das cidades — especialmente motivada pela expansão comercial da burguesia —, forma o cenário propício para a configuração do aparelho estatal e de uma nova ordem social. Neste processo, percebemos a expansão do poder político, integrado a um único domínio territorial, mais amplo que as unidades feudais. E, consequentemente, concentrando em torno de si, as relações políticas e comerciais.
O aprofundamento deste processo de centralização política e formação de unidades territoriais assume novos contornos a partir da aparição, nos séculos XV e XVI, dos chamados Estados Nacionais, os primeiros surgidos em territórios que conhecemos atualmente como Itália, Espanha, Inglaterra e Portugal.
Como você deve estar percebendo, nossa trajetória analítica em torno da aparição do Estado nos conduz necessariamente às origens da chamada Idade Moderna, período que vai do século XV ao século XVIII. Isso não é mera coincidência. Mas também não podemos simplificar a tal ponto de concluir que o Estado recebe a nomeação de Moderno porque já nasce completo nos princípios de nossa Idade Moderna.
ATENÇÃO
Estamos tratando de processos históricos e políticos e, portanto, são mudanças gradativas que delineiam o que hoje consideramos como as estruturas políticas do “Moderno”.
É importante destacarmos que o adjetivo “moderno”, como sugere o próprio nome, integra um conjunto de inovações nas instituições administrativas, no sistema de defesa nacional, na gestação de códigos legais, na adoção de critérios fiscais e no exercício do poder.
VAMOS COM CALMA!
Em primeiro lugar, devemos ter em mente que o conceito de Estado moderno, em si, já nos indica uma separação entre o governante e o Estado, uma novidade quando comparada às formas anteriores de organização política. E isso também acontece porque o próprio sentido ou significado da palavra Estado se transformou ao longo da história. Segundo o historiador inglês Quentin Skinner (1996), do ponto de vista conceitual, este processo tem início no século XIII e é concluído no século XVI quando os elementos conceituais do Estado moderno existem no ideário histórico. O principal passo nesse sentido é a transformação do significado da palavra estado, que antes tinha relação com a “conservação do estado” de governante, para a ideia de uma ordem legal e constitucional, quando o papel do governante é conservar “o” Estado.
Olhemos mais atentamente esta mudança de significado do termo “estado”.
Quando, por exemplo, Nicolau Maquiavel (1469-1527) fala sobre um príncipe que deseja manter seu estado, ele se refere à posição social do príncipe e seus poderes. Ou seja, manter o estado, nessa frase, significa manter a posição de poder como governante. Quando pensamos no conceito moderno de Estado, a situação é bem diferente. Conservar o Estado significa proteger o reino de ameaças, manter a unidade territorial, dentre outras funções, e, com isso, manter o governo sobre o Estado. Antes o estado aparece como uma circunstância inerente ao governante e, depois, no conceito moderno, como algo externo ao governante, que deve ser protegido e que temporariamente está sob seu controle.
Imagem: Santi di Tito/ Wikimedia Commons/ Domínio público.Nicolau Maquiavel, Roma, séc. XVI.
A esta noção moderna juntam-se transformações históricas, muitas das quais advindas da conformação absolutista do Estado, uma das primeiras aparições do Estado moderno. A autonomia política e o monopólio financeiro do Estado substituíram as diferentes moedas e tributos que existiam durante o período feudal, no qual os senhores locais instituíam formas diversas de taxação e cobranças. Com as unificações territoriais, onde antes existiam pequenos principados, passou a existir um reino unificado sob o controle de um só rei. Para a proteção desse reino contra ameaças externas, são criados os exércitos permanentes, que são remunerados e devem lealdade ao soberano único. Vale mencionar que os exércitos, antes do absolutismo, não eram permanentes. Na verdade, os nobres possuíam pequenos contingentes armados que se uniam sob o comando de um rei, todavia, esses exércitos não eram estáveis e possuíam vários senhores.
ATENÇÃO
No contexto medieval, os reis possuíam um poder reduzido e dependiam da relação direta com outros nobres. Com a unificação territorial, autonomia financeira e exército permanente, os reis do período absolutista concentram em si grande poder. Além disto, esse rei e sua corte detinham a capacidade de criar leis e julgar os crimes, dando ao soberano o monopólio da punição. Os nobres, que antes detinham bastante poder em suas localidades, passam a aceitar os reis absolutos em troca de cargos no governo central.
A modernização (racionalização) destas estruturas políticas teve íntima relação com a expansão dos Estados Absolutos. Diferentemente do início da conversa neste módulo, a formação do Estado moderno não se deu por um gesto benevolente dos seus fundadores para a proteção aos indivíduos com leis que lhe assegurassem direitos e por preocupação com o bem-estar da população em geral. Ela esteve intimamente ligada às disputas territoriais no continente europeu, e, mais que isso,à busca incessante pelo monopólio da violência, como nos lembra a definição weberiana.
E A IDEIA DE LEGITIMAÇÃO? O QUE WEBER QUER NOS DIZER COM A IDEIA DO “MONOPÓLIO DO USO LEGÍTIMO DA FORÇA FÍSICA”?
Devemos ter em mente que a concentração de poderes no Estado absolutista gerava insatisfação, especialmente naqueles que não participavam do governo. Poderíamos enumerar uma série de excluídos. Mas a título de nossa análise, vale destacar uma classe em plena ascensão: a burguesia(Falamos da burguesia no módulo I. Lembra?).
Com o acúmulo de riquezas advindas das trocas comerciais, os burgueses possuíam um grande poder econômico, mas eram sub-representados politicamente.
Os reis, para manterem-se no controle dos territórios, afastar as ameaças externas e formar seus exércitos, eram tensionados a fazer concessões à burguesia — que, em troca, lhes dava dinheiro, em forma de empréstimo ou de pagamento de impostos – para custear os gastos da coroa. Algumas destas concessões, por exemplo, vinham em forma de leis para o estímulo do comércio e das atividades manufatureiras e, consequentemente, da flexibilização de sua atuação sobre economia.
Imagem: Shutterstock.com.
Ora, a negociação de interesses através das leis funcionava como um meio de impor limites sobre o poder monárquico ao mesmo tempo que o autorizava a exercer o controle do Estado.
RELEMBRANDO
Neste ponto, precisamos voltar ao que aprendemos no Modulo I: as ideias liberais que vimos com os contratualistas (direitos naturais) passam a ganhar importância quando falamos das leis. É nesse momento que elas passam a ser reivindicadas pela burguesia.
Chegamos à questão da legitimação, no sentido de Weber. No contexto do Estado absolutista, especialmente do século XVIII, presenciamos o tensionamento perene para limitar os poderes do monarca e livrar-se dos seus arbítrios através do aporte das leis (e da criação de parlamentos, por exemplo). A legitimidade tem a ver com o consentimento: o poder exercido por alguém é legítimo quando é aceito por aqueles que se submetem a ele. Nesse sentido, a máxima weberiana do “monopólio do uso legítimo da força física”, quer dizer, antes de tudo, que a forma moderna de Estado se emoldura de tal modo que o uso das forças militares (exército, por exemplo) seja consentido, legitimado e inscrito nas normas legais como recurso para proteção de todos.
VAMOS REFLETIR...
Estamos diante de um jogo de negociações e confrontos para provocar o Estado moderno a satisfazer as exigências de legitimidade dos cidadãos e, no contexto que analisamos, especialmente da burguesia.
Mas nem sempre esse jogo tomou um rumo harmonioso. Podemos, por exemplo, entender os movimentos revolucionários como uma situação limite de busca por legitimidade da classe burguesa. O caso mais emblemático desta ideia é a Revolução Francesa.
REVOLUÇÃO FRANCESA, ESTADO MODERNO E MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA
/Musée de l’Histoire de France
.A queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789, símbolo das reivindicações populares na Revolução Francesa, marca do fim da Era Moderna.
Você já deve ter ouvido falar que a Revolução Francesa (1789 – 1799) marcou o declínio das grandes monarquias absolutistas na Europa. O movimento de proporções continentais destituiu os privilégios da nobreza e do clero na França.
O país vivia uma crise alimentar, além de um alto endividamento. A insatisfação de setores populares e da ascendente burguesia com o governo de Luís XVI fomentou o movimento revolucionário que culminou na sua decapitação e de sua esposa, Maria Antonieta, em 1792. As instabilidades políticas duraram aproximadamente uma década até a ascensão de Napoleão Bonaparte ao poder, em 1799.
.A Execução de Luís XVI de França, a partir
de uma gravura alemã, 1793.
A Revolução Francesa estava imbuída de ideais do movimento filosófico conhecido como Iluminismo. Para os iluministas, a razão passa ocupar lugar de destaque, assim como o homem, reduzindo a importância das religiões. Este homem era visto como um indivíduo portador de direitos universais, como nas doutrinas dos direitos naturais. Unem-se às ideias iluministas, as expectativas da classe burguesa, motivada pelos interesses econômicos e políticos sobre o Estado.
O final do longo processo revolucionário é, justamente, a queda do absolutismo na França e, consequentemente, a ascensão da classe burguesa ao poder.
Os privilégios da nobreza são suprimidos, a influência do clero é reduzida e inaugura-se a Primeira República francesa, cujas bases políticas e legais assentam-se na constituição, simbolizadas pelo lema da liberdade, igualdade e fraternidade. As leis criadas por representantes eleitos emanariam da vontade do povo.
REPÚBLICA
A república, diferentemente da monarquia, é uma forma de organização do governo que, por sua vez é representada por uma autoridade que administra o Estado. Na República, a relação entre governantes e governados é mediada pela eleição, em que o chefe de Estado é eleito e legitimado pela população.
VOCÊ JÁ OUVIU FALAR NA DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM E DO CIDADÃO?
A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão é um documento originário da Revolução Francesa. Seus dezessetes artigos são os primeiros na história a sintetizar os ideais liberais (baseados nas doutrinas jusnaturalistas) e iluministas como direitos universais do homem.
Imagem da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão:
Imagem: Jean-Jacques-Francois Le Barbier/ Wikimedia Commons/ Domínio público.Representação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789.
Como já discutimos, do ponto de vista econômico, ergue-se um novo modo de produção que chamamos de capitalista.
CAPITALISTA
Por capitalismo, podemos entender um sistema econômico baseado no lucro e na acumulação de riquezas, intrinsecamente ligadas, de um lado, à burguesia — classe detentora da propriedade privada dos meios de produção (máquinas, indústrias) — e de outro ao proletariado — classe trabalhadora, que oferece sua mão de obra em troca de salários. Sua fase inicial está ligada à expansão comercial — caminhando com desenvolvimento da classe burguesa.
RESUMINDO
Quando tratamos de Estado moderno não temos uma precisão temporal de sua aparição. Por outro lado, vimos que a conformação dos primeiros Estados-nações e, posteriormente, Estados absolutos trazem processos históricos, mudanças político-institucionais, concepções de governo e, principalmente, um novo modo de conceber a autoridade política e o comando do Estado. Por isso mesmo, tratamos aqui como um processo de modernização, de racionalização, que atinge seu ápice no século XVIII, especialmente com a queda da monarquia absolutista. E, sem dúvida, a Revolução Francesa é um símbolo deste cenário.
Veja um quadro síntese do que consideramos Estado moderno:
Imagem: Marina de Freitas Garcia / Allan Gadelha.
Sobre a Revolução Francesa, sabemos que as interpretações histórico-filosóficas e sociológicas sobre suas influências e consequências são inúmeras. Para termos uma breve ideia, Karl Marx entende a Revolução Francesa como uma revolução burguesa, a inauguração do modo de produção capitalista na França. O novo Estado é elemento essencial para a exploração do proletariado. Esta forma de analisar o novo regime exclui a autonomia do político, analisando o Estado como uma conformação da luta de classes (burguesia x proletariado). Por outro lado, a perspectiva de Max Weber dá ênfase a essa inovação institucional. A secularização do estado, ou seja, separação entre política e religião, criação de instituições representativas, além da importância da constituição como lei máxima da sociedade.
O produto das nossas discussões nos convida a pensar que as características e a nova forma de organização do Estado, alcançadas com a chegada da burguesia ao poder, erige o que chamamos de Estado liberal.
Já conhecemos a lógica do Estado liberal, agora responda:
O ESTADO LIBERAL TEM SEU FUNDAMENTO EM QUAL IDEIA?
RESPOSTA
O Estado liberal tem seu fundamento na ideia de que as liberdades individuais e a propriedade privada devem ser garantidas.John Locke (1632-1704) é um dos primeiros autores a nos apresentá-la.
Tal modelo constituirá a forma predominante de organização do poder na sociedade contemporânea. E, claro, as derivações do modelo liberal invadirão as doutrinas políticas e econômicas em diferentes escolas nos séculos XIX e XX. Para termos uma ideia, autores como Adam Smith, David Ricardo, Milton Friedman, Friedrich Hayek são apenas alguns dos representantes.
Com essas pistas, podemos inferir que o desenvolvimento do sistema capitalista no mundo contemporâneo gerará sociedades cada vez mais complexas que, por sua vez, exigirão mecanismos e formas de regulação do poder político igualmente complexas.
ENTRE O ESTADO E O CAPITAL
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. ANALISAMOS VÁRIOS FATORES QUE LEVARAM À CONSOLIDAÇÃO DO CONCEITO ATUAL DE ESTADO MODERNO. TENDO EM VISTA A SAÍDA DO PERÍODO FEUDAL, QUAL DOS FATORES APRESENTA CORRETAMENTE UM ELEMENTO DA TRANSIÇÃO PARA O ESTADO MODERNO.
Diversidade de moedas e tributos que eram livremente criados por nobres, sem o aval do rei.
Leis criadas pelo povo, em praças públicas, e cumpridas pelo rei.
Proibição das crenças religiosas como forma de aplacar conflitos.
Concentração de poderes na figura do rei, com autonomia financeira e exército permanente.
Exércitos temporários e compostos por mercenários.
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2. COMO VIMOS, O SIGNIFICADO DA PALAVRA “ESTADO” SOFREU MUDANÇAS NO PERÍODO DO SÉCULO XIII AO SÉCULO XVI. ESSA MUDANÇA DE SIGNIFICADO FOI ESSENCIAL PARA O CONCEITO DE ESTADO MODERNO. LEIA AS OPÇÕES E ASSINALE QUAL IDENTIFICA A TRANSFORMAÇÃO OCORRIDA NO SIGNIFICADO DE ESTADO.
O conceito de Estado deixou de significar a circunstância ou posição social para ser entendido como uma entidade que existe para além dos indivíduos.
Estado passou a significar a situação social na qual o indivíduo se encontra.
O significado de Estado passou a ser relacionado à espiritualidade dos indivíduos.
A situação humana em cada momento histórico passou a ser descrita por estados.
As definições de Estado passaram a ser associadas à figura da nobreza.
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GABARITO
1. Analisamos vários fatores que levaram à consolidação do conceito atual de Estado moderno. Tendo em vista a saída do período feudal, qual dos fatores apresenta corretamente um elemento da transição para o Estado moderno.
A alternativa "D " está correta.
O período feudal era caracterizado por uma descentralização do poder. Embora existissem os reis, os senhores locais exerciam enorme poder, tal como julgar determinados delitos, criar tributos e moedas, assim como possuir contingentes armados. A concentração de poderes na figura do rei possibilitou a unificação dos Estados-nações, dando origem às bases do que entendemos atualmente por Estado moderno.
2. Como vimos, o significado da palavra “estado” sofreu mudanças no período do século XIII ao século XVI. Essa mudança de significado foi essencial para o conceito de Estado moderno. Leia as opções e assinale qual identifica a transformação ocorrida no significado de Estado.
A alternativa "A " está correta.
O uso e significado do termo “estado” estaria próximo do que entendemos hoje como “situação”, como uma substantivação do verbo “estar”. A mudança desse significado ocorre quando o “estado” é visto como algo em si mesmo, separado de um governante.
MÓDULO 3
Reconhecer os poderes do Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) por meio da análise do seu surgimento, suas capacidades específicas e mecanismos de independência
GOVERNOS AUTORITÁRIOS: ENTRE A HISTÓRIA E AS CIÊNCIAS SOCIAIS
Assista ao vídeo sobre o Brasil e a história dos seus regimes, com a professora Marina Garcia.
Atualmente, como conter governos autoritários e como corrigir os problemas de abusos de poder?
RESPOSTA
Aprendemos, a partir dos acontecimentos da Revolução Francesa, que a monarquia absolutista monopolizava o poder político e, com isso, centralizava em si o controle do Estado. A instauração da república foi uma aposta da burguesia para construir um Estado liberal, sob novas leis e normas para a garantia da liberdade e dos direitos. Assim, poderíamos dizer que a aprovação de leis — como a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão — é um recurso que inibe as infrações de direitos, promovem as liberdades e, consequentemente, repelem abusos de autoridade.
OBSERVANDO A REALIDADE, PERCEBEMOS QUE A RESPOSTA NÃO É SUFICIENTE. E, POR ISSO MESMO, VOCÊ JÁ CONCLUI QUE NÃO BASTAM AS IDEIAS, OS PRINCÍPIOS OU AS LEIS PARA QUE HAJA AS MUDANÇAS EFETIVAS.
O caso da França é um exemplo disto. Após um período de instabilidade política, a França passou a ser governada por Napoleão Bonaparte. Em um primeiro e breve momento, Napoleão assume o governo que ficou conhecido como Consulado (1799-1804). Neste regime, Napoleão era o primeiro cônsul e governaria com outros dois cônsules.
Na prática, Napoleão concentrou poderes até ser coroado Imperador, em 1804. A França saíra de um absolutismo monárquico, porém encontrava-se em um governo também autoritário e que concentrava poderes. Assim, a Revolução Francesa lançou bases para o conceito de Estado de Direito, mas não o realizou. Como descreve Modesto Florenzano:
[...] NA FRANÇA ACABOU POR, NO FINAL DAS CONTAS, VINGAR UM TIPO DE ESTADO REPUBLICANO, CENTRALIZADO E BASEADO EM UM SOBERANO ÚNICO, COMO NO ANTIGO REGIME, MAS DIFERENTEMENTE DO ANTIGO REGIME, EM UM SOBERANO ÚNICO COLETIVO, VALE DIZER, OS REPRESENTANTES DA NAÇÃO.
(FLORENZANO, 2007, p. 35)
Para entendermos o surgimento do Estado de Direto na história, devemos olhar para os acontecimentos que ocorreram na Inglaterra cem anos antes da Revolução Francesa.
1688 – 1689
A chamada Revolução Gloriosa consolidou o fim do absolutismo monárquico inglês, instaurando um regime que conhecemos como monarquia parlamentarista. Nesta forma de Estado, o monarca continua existindo, contudo, seus poderes são reduzidos.
1689
Foi promulgada a Declaração de Direitos (Bill of Rights). Neste documento, o parlamento aumenta seus poderes em matérias como impostos, leis e exército. Além disso, a segurança religiosa é reforçada. Também é possível enxergar uma primeira separação de poderes, na qual o monarca não pode alterar ou suspender leis sem o consentimento do parlamento.
MONTESQUIEU E A SEPARAÇÃO DOS PODERES
A Declaração de Direitos de 1689, assim como outras legislações inglesas, serviram de base para Montesquieu (1689 – 1755) formular sua teoria da separação de poderes. A esse conjunto de legislações, Montesquieu se refere como “Constituição Inglesa”. Para o autor, o objetivo do Estado moderno deveria ser garantir a liberdade de seus cidadãos. Esta liberdade seria diferente da encontrada no Estado de Natureza, Montesquieu entende a liberdade como a possibilidade de fazer tudo que é permitido pela lei (MONTESQUIEU, 2012, p. 189).
Imagem: Não identificado/Wikimedia Commons/Domínio Público*.Montesquieu
Para que essa liberdade seja preservada, é necessário que os poderes do Estado sejam separados, ou seja, não sejam exercidos por uma só pessoa ou conjunto de pessoas. Além disso, é preciso que esses poderes sejam independentes, criando mecanismos que dificultem a tentativa de concentração de poderes.
Montesquieu propõe a separação de poderes, os quais devem ser independentes uns dos outros, na sua atuação e composição. Eles são conhecidos atualmente como:
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EXECUTIVO
Ao Executivo caberia cuidar das relações do Estado com os outros Estados, algo que entenderíamos atualmente como política externa.
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LEGISLATIVO
O Legislativo estaria encarregado de criar leis permanentes.
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JUDICIÁRIO
O Judiciário julgaria as infrações cometidas, de acordo com as leis internas.
O autor francês identifica a origem desses poderes no Estado de Natureza; eles são delegados pelos indivíduos ao Estado por meio do contrato social.
A seguir, temos uma figura que ilustra esse movimento de delegação, concentração e separação dos poderes.ESTADO DE NATUREZA
· Origem dos poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário.
· Concetração dos poderes em cada indivíduo.
· Insegurança por não existir leis gerais, juízes neutros e um poder comum.
ABSOLUTISMO MONÁRQUICO
· Concentração dos poderes na figura do monarca.
· Unificação estatal (Estado moderno).
· Desrespeito às liberdades e direitos individuais.
ESTADO DE DIREITO
· Separação e independência dos poderes no Estado.
· Leis gerais e permanentes.
· Judiciário como poder neutro.
· Representantes eleitos (legislativo).
RELEMBRANDO
Durante os períodos absolutistas, já existiam instituições como o parlamento. A questão é que o poder do parlamento era limitado e, além disso, frequentemente dissolvido por ordem dos monarcas, justamente porque não existiam leis que estivessem acima de todos, como o caso das constituições, ou seja, leis que até mesmo os reis estivessem obrigados a obedecer.
Como sabemos, não basta existir leis para que elas sejam obedecidas. Tendo em vista a separação de poderes, Montesquieu salientou a necessidade de mecanismos que garantissem a independência dos poderes. Um exemplo que o autor traz é a capacidade do Executivo vetar leis que sejam produzidas pelo Legislativo. Todavia, a consolidação institucional, bem como a teorização, desse e de outros mecanismos que garantissem o equilíbrio entre os poderes, ocorre em um contexto fora da Europa.
FEDERALISTAS
Vamos analisar os acontecimentos relativos à constituição dos Estados Unidos da América.
Os Estados Unidos da América tornaram-se independentes do domínio inglês em 1776. Os conflitos não terminaram nesse ano e o país ainda passou por guerras internas até sua estabilização política. Alguns entraves existiam para a consolidação estadunidense após sua independência. Trata-se de um país de dimensões continentais, composto por estados autônomos e que demandavam um governo que fosse eleito e composto pelo povo.
Em uma série de artigos conhecidos como O Federalista (em inglês, The federalist papers), três autores fizeram a defesa da Constituição dos Estados Unidos da América, de 1787.
Veja quais foram eles:
Imagem: Federalist, Dawson edition, 1863.djvu/ Wikimedia Commons/ Domínio público.
ALEXANDER HAMILTON
(1755 – 1804)
.
JAMES MADISON
(1751 – 1836)
JOHN JAY
(1745 – 1829)
Esses autores partiam de uma percepção de que os homens são naturalmente ambiciosos.
COMO É IMPOSSÍVEL ANULAR ESSA CARACTERÍSTICA DA NATUREZA HUMANA, OS AUTORES PENSARAM EM FORMAS DE CONTRAPOR AS AMBIÇÕES, ANULANDO-AS MUTUAMENTE.
Os federalistas basearam-se na tríade Executivo-Legislativo-Judiciário de Montesquieu. No entanto, a composição desses poderes seria feita pelo povo, sem a presença de nobres ou monarcas. Embora a questão da monarquia não fosse um problema para os EUA, havia a questão dos estados. Os Estados Unidos são uma república federativa resultado da união de estados (as ex-colônias inglesas). Esses estados possuíam grande autonomia, leis e constituições próprias. Havia entre eles o receio de que a criação de um governo central (federal) pudesse subjugá-los da mesma forma que a Inglaterra fazia no período colonial. Assim como em Montesquieu, os federalistas entendiam que o maior risco à liberdade era a concentração de poderes.
A estrutura proposta pelos federalistas é bem parecida com o que possuímos hoje no Brasil. Além da separação dos poderes, temos as esferas de atuação: federal, estadual e municipal. O método de composição desses poderes varia conforme a esfera de atuação e sua natureza.
 SAIBA MAIS
Nos EUA, alguns cargos do Judiciário são compostos via eleição, enquanto aqui no Brasil isto só ocorre por meio de concurso, e, em uma minoria dos casos, por indicação do Poder Executivo.
O ponto central dos federalistas era criar um sistema que equilibrasse os poderes, além de garantir a autonomia dos estados federados.
Imagem: Shutterstock.com.
O Legislativo era visto como o mais poderoso. Para conter este poder, os autores criaram mecanismos que fortaleciam os demais poderes.
No caso do Executivo, o poder está na capacidade de vetar leis criadas pelo legislativo.
Do Judiciário, seria a guarda e interpretação última da Constituição. Atribuímos o nome de freios e contrapesos a esse sistema. Basicamente, os poderes possuem suas capacidades típicas e algumas atípicas que permitem a garantia de sua independência.
Para entender como esse sistema funciona no Brasil, vejamos um pouco da Ciência Política em nosso país.
GOVERNOS AUTORITÁRIOS: ENTRE A HISTÓRIA E AS CIÊNCIAS SOCIAIS
No caso brasileiro, para esses freios e contrapesos, possuímos uma separação de poderes e temos mecanismos institucionais para garantir a independência entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Entenda melhor abaixo:
EXECUTIVO
LEGISLATIVO
JUDICIÁRIO
EXECUTIVO
Um deles é o veto do Executivo, como vimos em Montesquieu e nos Federalistas, e que existem em nosso ordenamento jurídico.
Em cada uma das esferas, o Executivo recebe as leis aprovadas pelo Legislativo. O Executivo pode aprová-las (sanção) ou reprová-las (veto), no todo ou em parte. Essas leis, quando reprovadas, retornam ao Legislativo. Além disso, cabe ao Executivo a inciativa nas legislações relativas ao orçamento.
LEGISLATIVO
O Legislativo pode promulgar leis vetadas pelo Executivo. É necessária uma votação expressiva (maioria absoluta) do corpo legislativo para derrubar o veto, e promulgar a lei por meio de um decreto legislativo. Cabe também ao Legislativo fiscalizar as contas do Executivo e abrir processos de impeachment em caso de crimes de responsabilidade.
JUDICIÁRIO
O Judiciário obtém autonomia orçamentária — ou seja, os gastos do Judiciário são decididos por seus órgãos — a inamovibilidade dos juízes e a guarda da Constituição no caso do Supremo Tribunal Federal são mecanismos para garantir sua independência.
Foto: rafastockbr / Shutterstock.com.Praça dos três poderes na cidade de Brasília, Brasil, 2021.
Sobre as esferas de atuação, temos a União (federal), os estados e o Distrito Federal, e os municípios. Veja:
NA ESFERA FEDERAL
NA ESFERA ESTADUAL
NA ESFERA MUNICIPAL
NA ESFERA FEDERAL
O chefe do Poder Executivo é o presidente e o Legislativo é composto por duas casas: Câmara dos Deputados e Senado Federal. O Congresso Nacional é a união dessas casas e seus parlamentares.
NA ESFERA ESTADUAL
O Executivo tem como chefe o governador, o Poder Legislativo consiste na assembleia dos deputados.
NA ESFERA MUNICIPAL
Temos os prefeitos como chefes do Executivo e a câmara de vereadores pelo Legislativo.
O organograma a seguir resume o arranjo institucional dos poderes compostos pelo voto:
Imagem: Marina de Freitas Garcia / Allan Gadelha.
Este arranjo institucional foi criado tendo em vista a defesa de nosso Estado Democrático de Direito, pois nossos representantes são eleitos por meio do voto, com exceção do Poder Judiciário. Além disso, o voto é um direito de todos os brasileiros, maiores de 16 anos, sem qualquer restrição de renda, gênero, classe, raça ou religião.
.Simulação de um voto na urna eletrônica usada nas eleições do Brasil, 2020.
Os problemas tratados pelos filósofos e teóricos que vimos neste e nos outros módulos são distintos de nossa atualidade. Temos uma democracia consolidada na qual os direitos e liberdades são garantidos por uma Constituição e leis que limitam a atuação dos detentores do poder. Ainda assim, quando olhamos para história, constatamos que esta situação é bem recente.
SERÁ QUE PODEMOS CONSIDERAR QUE SEMPRE SEREMOS DEMOCRÁTICOS?
VAMOS REFLETIR...
No Brasil, a democracia tem pouco mais de trinta anos. Temos um longo passado autoritário no qual os poderes eram concentrados no Executivo.
A concentração de poderes, tão temida pelos filósofos que analisamos, parece ser um risco para a democracia.
Todavia, na atualidade, isso não ocorreria na figura de um monarca, por exemplo. Tendo por base a separação dos poderes e suas atribuições, a concentração de poder pode ocorrer quando um partido político, por exemplo, domina o Poder Executivo e o Legislativo. Mas consideramos, defato, um risco democrático quando esse partido persegue seus opositores, cria leis que impeçam a oposição e limite ou suprima as liberdades de expressão e de imprensa.
Frente a estes tipos de abusos, um mecanismo de defesa é a atuação do Poder Judiciário. Sendo um poder que não tem sua composição feita por meio do voto, o seu controle por algum partido fica mais difícil, embora possa ocorrer. O Judiciário deve ser politicamente neutro, como propôs Montesquieu. Compete a esse poder defender o Estado Democrático de Direito frente a possíveis abusos que venham dos poderes Executivo e Legislativo.
RESUMINDO
Neste módulo, vimos como se deu a institucionalização dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Discutimos a proposição clássica de Montesquieu e analisamos o que os federalistas propunham para o país recém-criado Estados Unidos da América. A partir dos mecanismos de separação e equilíbrio dos poderes, identificamos a sua presença na estrutura política brasileira dos dias atuais. Assim, reconhecemos os mecanismos que nossas instituições têm com o objetivo defender o Estado Democrático de Direito contra a concentração de poderes de um ator ou grupo político.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. NA CONSOLIDAÇÃO DOS ESTADOS MODERNOS, VIMOS QUE O PODER ESTAVA CONCENTRADO NA FIGURA DE MONARCAS. APÓS MOVIMENTOS REVOLUCIONÁRIOS, AS MONARQUIAS ABSOLUTISTAS FORAM DERRUBADAS, DANDO ORIGEM A ESTADOS COM PODERES SEPARADOS. ANALISE AS PROPOSIÇÕES E MARQUE A QUE APRESENTA UM MECANISMO PARA A SEPARAÇÃO DE PODERES.
Definir cada função, Executivo, Legislativo e Judiciário, e compor os poderes com pessoas da mesma classe social.
Eleger um representante, atribuindo a ele todas as funções do Estado.
Restaurar as monarquias derrubadas e conceder a elas o controle dos Parlamentos.
Promulgar uma constituição que se baseie na bíblia, separando os poderes mundanos dos espirituais.
Definir cada função, Executivo, Legislativo e Judiciário, por meio de uma Constituição e criar mecanismos de independência.
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2. A SEPARAÇÃO DE PODERES, ASSIM COMO O EQUILÍBRIO ENTRE ELES, SÃO CARACTERÍSTICAS DA ARQUITETURA INSTITUCIONAL BRASILEIRA. O SISTEMA DE FREIOS E CONTRAPESOS É PRESENTE EM TODAS AS ESFERAS (FEDERAL, ESTADUAL E MUNICIPAL) DE NOSSO SISTEMA POLÍTICO. ASSINALE A ALTERNATIVA QUE EXPLICITA UM MECANISMO DE INDEPENDÊNCIA DE UM PODER.
Veto emitido pelo Judiciário contra medidas do Legislativo.
Convocação do Exército por meio de decisão judicial.
Nota de repúdio emitida pelo presidente da Câmara dos Deputados.
Veto presidencial em lei aprovada pelo Congresso Nacional.
Decreto legislativo exonerando membros do Supremo Tribunal Federal.
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GABARITO
1. Na consolidação dos Estados modernos, vimos que o poder estava concentrado na figura de monarcas. Após movimentos revolucionários, as monarquias absolutistas foram derrubadas, dando origem a Estados com poderes separados. Analise as proposições e marque a que apresenta um mecanismo para a separação de poderes.
A alternativa "E " está correta.
A identificação dos poderes, deixando claros seus limites de atuação e a composição, é a forma pela qual a separação de poderes é preservada. Deste modo, um poder não interfere na atuação de outro poder, a não ser em situações constitucionalmente previstas, assim como um mesmo indivíduo ou corpo de indivíduos não exerce mais de um poder.
2. A separação de poderes, assim como o equilíbrio entre eles, são características da arquitetura institucional brasileira. O sistema de freios e contrapesos é presente em todas as esferas (federal, estadual e municipal) de nosso sistema político. Assinale a alternativa que explicita um mecanismo de independência de um poder.
A alternativa "D " está correta.
O veto do Executivo às leis aprovadas no Legislativo é uma forma de garantir a independência do Executivo. Desde modo, o Executivo não é obrigado a cumprir uma lei que não concorde ou que o prejudique na aplicação de outras leis.
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste tema, abordamos questões fundamentais para a compreensão de nosso mundo. Entendemos as características particulares de nossa sociedade e seu surgimento histórico, as bases do Estado no qual vivemos, os poderes e seus controles, na teoria e na nossa realidade nacional. Deste modo, possuímos agora uma visão mais apurada e embasada acerca dos nossos problemas atuais e das possíveis formas de solução deles.
Nosso objetivo foi apresentar a você como os poderes políticos funcionam, suas atuações e restrições, nas sociedades contemporâneas. Esse exercício possibilita que nós direcionemos nossas demandas, além de entender o que é permitido e o que não é. Enfim, conhecer melhor o mundo e país no qual vivemos, as influências e as origens históricas é, em si, um mecanismo de cidadania.
DESCRIÇÃO
O conhecimento sobre a formação das identidades políticas da sociedade ocidental, capitalista, seus fundamentos ideológicos e as formas de manifestação política.
PROPÓSITO
Estabelecer parâmetros de compreensão das correntes políticas que vigoram entre o século XIX e parte do século XX é essencial para todos os estudantes, especialmente aqueles das áreas de História, Sociologia, Direito, Administração, Geografia e Filosofia.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Identificar as particularidades da ideologia política conservadora, que surgiu na conjuntura da Revolução Francesa (1799–1899)
MÓDULO 2
Distinguir a ideologia política liberal, um dos desdobramentos do pensamento progressista que fundou a Modernidade
MÓDULO 3
Localizar o surgimento da ideologia nacionalista ao longo do século XIX
MÓDULO 4
Reconhecer o desenvolvimento dos fascismos na primeira metade do século XX
INTRODUÇÃO
A Modernidade europeia produziu ideologias políticas que foram expandidas pelo mundo na esteira da dominação colonial que os países europeus impuseram às outras regiões do planeta. Esses sistemas de pensamento inspiraram práticas políticas e diferentes formas de organizar o Estado. Aqui, neste conteúdo, estudamos as ideologias que foram desenvolvidas entre o início do século XVIII e meados do século XX, partindo da premissa elementar da Sociologia do Conhecimento: todo pensamento é produto de realidades sociais concretas.
No primeiro momento, nos debruçaremos sobre o conservadorismo moderno, que surgiu na conjuntura da Revolução Francesa (1789–1799). Em seguida, estudaremos o liberalismo, que foi um dos desdobramentos do pensamento progressista que fundou a Modernidade. Depois, analisaremos o nacionalismo, que foi a principal ideologia política formada ao longo do século XIX. Por último, examinaremos o fascismo, que desestabilizou o sistema internacional na primeira metade do século XX.
Este estudo está inserido na área de interesses da história do pensamento político. Partimos da premissa de que não existe distinção entre pensamento e ação política, pois toda ação é sempre prefigurada por determinado pensamento e todo pensamento é o resultado objetivo e prático de um conjunto de ações. Sendo assim, estudar as ideologias políticas que nasceram na Europa entre o século XVIII e meados do século XX nos possibilita a melhor compreensão das práticas políticas que marcaram a história ocidental nesse período.
MÓDULO 1
Identificar as particularidades da ideologia política conservadora, que surgiu na conjuntura da Revolução Francesa (1799–1899)
CONSERVADORISMO MODERNO
O sociólogo alemão Karl Mannheim (1893–1947) é autor de importante estudo sobre aquilo que denomina “estilo de pensamento conservador”. Mannheim é um dos principais representantes da área de estudos que costumamos chamar de Sociologia do Conhecimento, que tem como premissa elementar a ideia de que o conhecimento não se produz no vazio social, acima da realidade social. Em outras palavras: todo conhecimento, todo pensamento, é resultado de condições sociais concretas, pois os pensadores não vivem acima da sociedade, fora da realidade. Muito pelo contrário, já que estão sempre respondendoaos desafios do seu tempo.
Foto: Zusasa/Wikimedia commons/Domínio Público Karl Mannheim.
É a partir dessa premissa que nos debruçamos sobre o pensamento político conservador, que foi uma resposta a uma série de desafios colocados pela Modernidade ocidental entre os séculos XVIII e XIX. O próprio Karl Mannheim nos ajuda a entender quais foram as condições sociais concretas de nascimento do conservadorismo.
SOB A PRESSÃO IDEOLÓGICA DA REVOLUÇÃO FRANCESA SE DESENVOLVEU NA ALEMANHA UM CONTRA-MOVIMENTO INTELECTUAL QUE RETEVE SEU CARÁTER PURAMENTE INTELECTUAL POR UM LONGO PERÍODO E ASSIM FOI CAPAZ DE DESENVOLVER SUAS PREMISSAS LÓGICAS DE FORMA A MAIS EXTENSA POSSÍVEL. ELE FOI PENSADO ATÉ “AS SUAS ÚLTIMAS CONSEQUÊNCIAS”. A CONTRA-REVOLUÇÃO NÃO SE ORIGINOU NA ALEMANHA, MAS FOI NA ALEMANHA QUE SEUS LEMAS FORAM PENSADOS DE FORMA MAIS COMPLETA E LEVADOS ÀS SUAS CONCLUSÕES LÓGICAS. [...] A ALEMANHA CONTRIBUIU PARA ESSE PROCESSO DE “PENSAR ATÉ AS ÚLTIMAS CONSEQUÊNCIAS — UM APROFUNDAMENTO FILOSÓFICO E UMA INTENSIFICAÇÃO DE TENDÊNCIAS QUE SE ORIGINARAM COM BURKE E DEPOIS FORAM COMBINADOS COM ELEMENTOS GENUINAMENTE ALEMÃES. [ORTOGRAFIA ORIGINAL]
(MANNHEIM, 1987, p. 87)
FUNDAÇÃO DO CONSERVADORISMO MODERNO
A abertura dos Estados Gerais, em 5 de maio de 1789, na Salle des Menus Plaisirs, em Versalhes.
Os eventos fundadores do conservadorismo moderno, então, foram a Revolução Francesa (1784–1804) e a concepção progressista de tempo que lhe caracteriza. Segundo os estudos do historiador alemão Reinhart Koselleck (1923–2006), a Revolução Francesa foi o desfecho de uma nova concepção de tempo que vinha se desenvolvendo desde o fim do século XVII e que se tornaria a principal condição estrutural da Modernidade. Essa concepção de tempo é marcada pelo ideal do progresso e pela crença de que a história é potência em movimento e que as coisas mudam sempre para a melhor.
Essa nova forma de relação com o tempo mudou a posição que o passado ocupava nas culturas europeias ocidentais. Até então, as experiências pretéritas eram vistas como fonte de ensinamento à qual os contemporâneos recorriam com o objetivo de evitar cometer os mesmos erros de antes. Com a Modernidade, o passado se tornou o símbolo do obsoleto, do atraso, daquilo que deveria ser superado pela marcha inexorável da história.
O conservadorismo moderno surge como uma ideologia de oposição a esses valores progressistas, como um tipo de “contrarrevolução ideológica”, para utilizar as palavras de Karl Mannheim.
EM OUTRAS PALAVRAS, ESSA DIFERENÇA PODE SER EXPRESSA DA SEGUINTE FORMA: O PROGRESSISTA CONSIDERA O PRESENTE COMO O COMEÇO DO FUTURO, ENQUANTO O CONSERVADOR O VÊ SIMPLESMENTE COMO O ÚLTIMO PONTO APONTADO PELO PASSADO. A DIFERENÇA É TANTO MAIS FUNDAMENTAL E RADICAL NA MEDIDA EM QUE O CONCEITO LINEAR DE HISTÓRIA — QUE ESTÁ IMPLÍCITO AQUI — É ALGO SECUNDÁRIO PARA OS CONSERVADORES. PRIMEIRAMENTE, OS CONSERVADORES CONHECEM O PASSADO COMO SENDO ALGO QUE EXISTE COM O PRESENTE; CONSEQUENTEMENTE, A SUA CONCEPÇÃO DE HISTÓRIA TENDE A SER ALGO MAIS ESPACIAL DO QUE TEMPORAL; ELA ENFATIZA MAIS A COEXISTÊNCIA DO QUE A SUCESSÃO.
(MANNHEIM, 1987, p. 123)
É importante deixar claro, ainda de acordo com Karl Mannheim, que a ideologia conservadora não pode ser resumida ao que o autor chama de “conservadorismo ontológico”, que seria o incômodo que todos nós sentimos diante de uma mudança, de algo que desestabiliza a situação de vida com a qual já estamos habituados. O conservadorismo ontológico de que fala Mannheim é a sensação de desorientação que sentimos quando trocamos de emprego ou de vizinhança e que, muitas vezes, é angustiante, fazendo com que algumas pessoas sejam resistentes às mudanças.
O conservadorismo moderno é bastante diferente disso, consistindo em um complexo sistema de pensamento que buscou reagir aos desafios postos pela modernidade progressista, sendo ele mesmo uma interpretação dessa modernidade. Também é importante diferenciar o conservadorismo do reacionarismo, e aqui quem nos ajuda é o cientista político português João Pereira Coutinho.
O CONSERVADORISMO POLÍTICO RECUSA OS APELOS DO PENSAMENTO UTÓPICO, VENHAM ELES DE REVOLUCIONÁRIOS OU REACIONÁRIOS. MAS O CONSERVADORISMO NÃO SE LIMITA APENAS A RECUSAR ESSES APELOS UTÓPICOS, QUE FAZEM DA FUGA PARA O FUTURO (OU PARA O PASSADO) UM PROGRAMA DE AÇÃO NO MOMENTO PRESENTE. O CONSERVADORISMO, POR ENTENDER O POTENCIAL DE VIOLÊNCIA E REAGIR DEFENSIVAMENTE A TAIS APELOS — E “REAGIR” É A PALAVRA CRUCIAL PARA ENTENDER O CONSERVADORISMO COMO IDEOLOGIA.
(COUTINHO, 2014, p. 27)
CONSERVADOR X REACIONÁRIO
Andarilho acima do mar de nevoeiro, por Caspar David Friedrich (1817).
O que distinguiria o conservador do reacionário, segundo o autor, seria a relação com o tempo. O reacionário idealiza o tempo, tal como o revolucionário. A lógica seria a mesma, com a diferença de que o reacionário idealizaria o passado, considerado como o momento da plena realização da felicidade humana, enquanto o revolucionário idealizaria o futuro, defendendo a aceleração da marcha da história rumo à utopia progressista.
Diferente é o conservador, cético tanto com a promessa reacionária como com a promessa revolucionária. Para o conservador, o presente é a melhor experiência possível, pois sintetiza as experiências acumuladas ao longo do tempo, os repertórios que foram testados, que sobreviveram.
Não há, na sensibilidade conservadora, diferentemente do que acontece nas sensibilidades reacionária e revolucionária, a ideia de perfeição. O conservador é cético, desconfia das utopias e das promessas de perfectibilidade, partindo do princípio de que o ser humano é ontologicamente imperfeito, falho e, por isso, as tradições são importantes.
Porém, não nos enganemos em achar que o conservadorismo é, necessariamente, avesso à mudança. O conservador entende a importância da mudança, desde que aconteça à luz do repertório disponível, com inspiração nas experiências acumuladas. A mudança é prudente, sem a ruptura revolucionária. Segundo Karl Mannheim:
UMA DAS CARACTERÍSTICAS MAIS ESSENCIAIS DESSE MODO DE VIDA E DESSE PENSAMENTO CONSERVADOR PARECE SER A FORMA COMO ELE SE APEGA AO IMEDIATO, O REAL, O CONCRETO. O RESULTADO É UMA PERCEPÇÃO NOVA E EXTREMAMENTE DEFINIDA DO TERMO “CONCRETO” COM IMPLICAÇÕES ANTI-REVOLUCIONÁRIAS. CONHECER E PENSAR CONCRETAMENTE AGORA PASSA A SIGNIFICAR O DESEJO DE RESTRINGIR O ALCANCE DA PRÓPRIA ATIVIDADE ÀS REDONDEZAS IMEDIATAS ONDE SE ESTÁ LOCALIZADO E DE ABJURAR RIGIDAMENTE TUDO AQUILO QUE POSSA CHEIRAR À ESPECULAÇÃO OU HIPÓTESE. [...] O CONSERVADORISMO SEMPRE COMEÇA COM O CASO PARTICULAR QUE ESTÁ NA MÃO E NUNCA ESTENDE SEUS HORIZONTES ALÉM DE SEUS PRÓPRIOS ARREDORES PARTICULARES. ELE ESTÁ PREOCUPADO COM A AÇÃO IMEDIATA, COM DETALHES CONCRETOS EM MUDANÇAS E, PORTANTO, NÃO SE PREOCUPA REALMENTE COM A ESTRUTURA DO MUNDO EM QUE VIVE. [ORTOGRAFIA ORIGINAL]
(MANNHEIM, 1987, p. 111)
PENSAMENTO CONSERVADOR
Foto: desconhecido/Wikimedia commons/CC BY-SA 4.0 Pintura da execução de Maria Antonieta em 1793, do acervo do Museu da Revolução Francesa, em Vizille, na França.
Para compreender melhor os princípios políticos conservadores, é importante estudar com cuidado os escritos dos autores mais representativos dessa corrente de pensamento. Destacamos aqui quatro nomes: Jüstus Möser (1720–1794), Edmund Burke (1729–1797), Alexis de Tocqueville (1805–1859) e François-René de Chateaubriand (1768–1848).
Todos esses autores viveram sob os impactos da Revolução Francesa, e cada um, a seu modo, criticou o tipo de ideologia política que o evento propunha, principalmente na “fase do terror”, entre 1793–1794, quando o processo revolucionário foi conduzido pelos jacobinos.
O jurista alemão Jüstus Möser foi um dos primeiros autores a se debruçar com perspectiva crítica sobre os eventos da Revolução Francesa, desenvolvendo, assim, o repertório de ideias que se tornaria representativo de um tipo de pensamento político que passou a ser conhecido como “conservador”.
Na verdade, as “ideias conservadoras” de Möser já vinham sendo desenvolvidas antes mesmo doinício da Revolução Francesa. No livro História de Osnabruque, publicado pela primeira vez em 1768, Möser defendeu a tese, que se tornaria típica do pensamento conservador, de que as instituições jurídicas do Estado deveriam nascer de “modo orgânico”, a partir dos costumes do seu povo, e não de “artificial”, imposta pelo legislador “convencido de que detém o monopólio das luzes da razão”.
Foto: Jdsteakley/Wikimedia commons/Domínio Público Retrato de Justus Möser, por Ernst Gottlob (1777).
A BOA LEI NÃO É AQUELA QUE É INVENTADA PELO LEGISLADOR CONVENCIDO DE QUE DETÉM O MONOPÓLIO DAS LUZES DA RAZÃO, MAS SIM AQUELA QUE SURGE ESPONTANEAMENTE DOS COSTUMES MAIS GENUÍNOS DO POVO, DOS HÁBITOS E VALORES QUE SOBREVIVERAM AO TEMPO.
(MÖSER, 1992, p. 34)
Temos aqui um argumento que se tornaria estruturante do pensamento conservador ao longo do século XIX. Trata-se da crítica à pretensão de perfectibilidade característica do iluminismo, que foi o repertório filosófico que inspirou a Revolução Francesa. O iluminismo está fundado na crença de que a razão é o atributo humano mais virtuoso, sendo a partir dela possível conhecer perfeitamente a realidade e acelerar a marcha do progresso humano. O responsável por esse “conhecimento perfeito”, na lógica iluminista, seria o filósofo, entendido como o homem letrado.
É exatamente essa crença no poder do letramento e do conhecimento racional que está na alça de mira do organicismo jurídico que Jüstus Möser elabora nas páginas da sua História de Osnabruque. Möser afirma que o conhecimento humano mais genuíno não é necessariamente aquele encontrado nos livros, ou desenvolvido com os instrumentos da razão, mas aquele que é o resultado dos “instintos cotidianos”, da “intuição manifestada dos costumes e nos hábitos do povo”.
Assim, contrastando com a lógica iluminista, Möser afirma que a capacidade cognitiva humana é sempre lacunar e frágil, sendo o conhecimento prático, cotidiano e tradicional o mais genuinamente verdadeiro, justamente por ser um dos desdobramentos da tradição. No vocabulário de Möser, “tradição” não significa o passado estático, mas o amplo conjunto das experiências humanas acumuladas, e testadas, ao longo do tempo. Para Moser, os costumes e hábitos existentes são o resultado de uma maturação de longo prazo.
O tempo, então, mostra que o presente é resultado daquilo que deu certo, mesmo sem ser exatamente perfeito. A rejeição à utopia iluminista e o elogio às pulsões cognitivas pré-racionais foram afirmadas também por outros autores conservadores que beberam na fonte de Jüstus Möser.
Foto: PS Burton/Wikimedia commons/Domínio Público Retrato de Edmund Burke.
Tal como Möser, o político e jurista irlandês Edmund Burke também foi contemporâneo da Revolução Francesa. Em 1791, no calor dos acontecimentos, Burke publicou suas Considerações sobre a Revolução Francesa, livro que se tornaria um dos principais tratados da Filosofia Política do fim do século XVIII e importante documento de fundação do pensamento conservador.
A principal crítica de Burke aos revolucionários franceses referia-se ao que o autor julgava ser uma atitude “prepotente diante da história”. Nas palavras do próprio Burke, em discurso no parlamento britânico, posteriormente publicado em suas Considerações:
HOJE, A FRANÇA ESTÁ ENTREGUE AO MAIS LETAL ESTADO DE BARBÁRIE PORQUE A SOCIEDADE FRANCESA ALIMENTOU AS VULGATAS CANTADAS PELO AVENTUREIRO VOLTAIRE, QUE JAMAIS FEZ JUS AO TÍTULO DE FILÓSOFO, QUE SE ACHOU CAPAZ DE JOGAR NO LIXO SÉCULOS E SÉCULOS DE CONHECIMENTO ACUMULADO, MATURADO E CONSOLIDADO DA MELHOR FORMA POSSÍVEL NESTE NOSSO SÉCULO. PARA VOLTAIRE, TUDO ESTAVA ERRADO, TUDO DEVERIA SER JOGADO FORA EM FUNÇÃO DE UM CONHECIMENTO COMPLETAMENTE NOVO, FORMADO NUM PONTO ZERO DA HISTÓRIA E QUE PROMETIA O FUTURO PERFEITO. AS ELITES CULTAS FRANCESAS OUVIRAM VOLTAIRE, SEM IMAGINAR QUE POUCO TEMPO DEPOIS JÁ NÃO MAIS TERIAM OS OUVIDOS SOBRE SEUS PESCOÇOS.
(BURKE, 2014, p. 72)
Na citação fica muito claro o argumento, já visto anteriormente, desenvolvido por João Pereira: o conservador não é igual ao reacionário, que fetichiza o passado como o momento ideal, perfeito, defendendo o resgate daquilo que já passou. O fundamental para o conservador é a noção de que o tempo é o juiz da história, a quem cabe submeter as experiências humanas ao teste da sobrevivência.
O erro de Voltaire, nesse sentido, teria sido o de ignorar deliberadamente o repertório acumulado, e testado, ao longo do tempo, idealizando um conhecimento meramente especulativo, sem fundamentos concretos e ingênuo, na medida em que, pela lógica inversa à do reacionário, idealizaria o futuro, visto como o desfecho do processo histórico, como o ponto ideal da trajetória humana.
A Revolução Francesa, que, na avaliação de Burke, tem Voltaire como seu pai espiritual, estaria levando a França à barbárie exatamente porque se achou capaz de refundar a história a partir de um ponto zero, desprezando a memória das experiências acumuladas ao longo do tempo. “Conservar”, para Burke, não significa evitar as mudanças, tampouco ressuscitar o passado, mas, sim, caminhar à luz dos conhecimentos acumulados, manter vivo o potencial pedagógico da tradição.
Foi exatamente esse o ponto retomado por Alexis de Tocqueville alguns anos depois. Diferentemente de Burke, Tocqueville escreveu sobre a Revolução Francesa com algum distanciamento histórico. Em 1856, publicou o livro O Antigo Regime e a Revolução, no qual podemos encontrar reflexões muito semelhantes àquelas que foram desenvolvidas por Edmund Burke, o que nos permite situar os dois autores como representantes de uma mesma linhagem do pensamento político moderno: o conservadorismo.
Tal como Burke, Tocqueville sai em defesa da tradição, que teria sido violada pelo “ímpeto patológico de renovação” dos revolucionários franceses. Diz Tocqueville:
Foto: Dmitry Rozhkov/Wikimedia commons/Domínio Público Retrato de Alexis de Tocqueville, por Théodore Chassériau (1850).
EMBORA A REVOLUÇÃO QUE SE OPERA NO ESTADO SOCIAL, NAS LEIS, NAS IDEIAS, NOS SENTIMENTOS DOS HOMENS ESTEJA BEM LONGE DE TERMINAR, JÁ NÃO SE PODERIA COMPARAR SUAS OBRAS COM NADA DO QUE FOI VISTO ANTERIORMENTE NO MUNDO. REMONTO DE SÉCULO EM SÉCULO ATÉ A ANTIGUIDADE MAIS REMOTA: NÃO PERCEBO NADA QUE SE PAREÇA COM O QUE ESTÁ DIANTE DOS MEUS OLHOS. COMO O PASSADO NÃO ILUMINA MAIS O FUTURO, O ESPÍRITO CAMINHA EM MEIO ÀS TREVAS.
(TOCQUEVILLE, 1997, p. 32)
[OS JACOBINOS] TINHAM UMA PREDILECÇÃO PELAS AMPLAS GENERALIZAÇÕES, PELOS SISTEMAS LEGISLATIVOS FEITOS À PRESSA E UMA HARMONIA PRETENSIOSA; O MESMO DESPREZO PELAS COISAS DIFÍCEIS; O MESMO GOSTO POR REFORMAR AS INSTITUIÇÕES EM MOLDES NOVOS, ENGENHOSOS E ORIGINAIS; O MESMO DESEJO DE REMODELAR TODA A CONSTITUIÇÃO SEGUNDO AS REGRAS DA LÓGICA E DE UM SISTEMA PRECONCEBIDO EM VEZ DE TENTAR MELHORAR AS SUAS PASSAGENS DEFEITUOSAS. O RESULTADO FOI QUASE UM DESASTRE; POIS QUE O QUE CONSTITUI MÉRITO NO ESCRITOR PODE BEM SER UM VÍCIO NO ESTADISTA, ·E AQUELAS MESMAS QUALIDADES QUE FAZEM A GRANDE LITERATURA PODEM CONDUZIR A REVOLUÇÕES CATASTRÓFICAS. [...] ATÉ A LINGUAGEM DOS JACOBINOS ERA EM GRANDE PARTE TIRADA DOS LIVROS QUE LIAM; ESTAVA CHEIA DE PALAVRAS ABSTRACTAS, DISCURSOS FLOREADOS, SONORAS FRASES FEITAS E JOGOS DE FRASES LITERÁRIOS. [ORTOGRAFIA ORIGINAL]
(TOCQUEVILLE, 1997, p. 68)
A leitura cuidadosa das duas citações nos permite perceber como Tocqueville relaciona o desprezo revolucionário pela tradição com a formulação de ideias equivocadas, puramente abstratas e sem amparo na realidade. Teria sido esse o grande crime cometido pelos jacobinos: crentes de que tinham imaginado a ideologia perfeita, dedicaram-se à implantação de suas ideias na realidade, a qualquer custo.
Foto: Khaerr ~ commonswiki/Wikimedia commons/Domínio Público Henri de La Rochejacquelein na brutal batalha de Cholet em 1793, por Paul-Émile Boutigny.
A certeza de que se tratava de um ideal superior fez com o que os revolucionários relativizassem qualquer regulação ética em função da realização de seu projeto. O resultado, nas palavras de Tocqueville,foi o “crime” e a “infâmia”, provocados pela utopia futurista revolucionária, que levou os jacobinos a se acharem prontos o suficiente para apagar a história, destruindo todo o legado acumulado, tratado como manifestação do atraso a ser superado pela ação revolucionária.
O núcleo duro dessa reflexão também pode ser encontrado nos escritos de François-René de Chateaubriand, que se dedicou a comparar a ideia de “liberdade” defendida pelos líderes da “Revolução Americana” (a independência dos EUA, em 1776) com o conceito de “liberdade” que inspirava os jacobinos durante a Revolução Francesa.
Escrevendo na década de 1830, Chateaubriand destacou as diferenças entre as duas experiências revolucionárias que até então pautavam o imaginário político ocidental. Para o autor, as lideranças coloniais da América Britânica estavam movidas por um ideal superior de liberdade, desenvolvido à luz da tradição, de um ideal de justiça desenvolvido com o tempo e que, desde meados do século XVIII, havia sido violentado pelo parlamento britânica e sua “nova política colonial”. Diferente era o caso dos revolucionários franceses, que desenvolveram sua utopia libertária no plano abstrato, sem nenhum respaldo na tradição.
HÁ DUAS ESPÉCIES DE LIBERDADES PRATICÁVEIS: UMA PERTENCE À INFÂNCIA DOS POVOS; É FILHA DOS COSTUMES DA VIRTUDE; A OUTRA NASCE DA VELHICE DOS POVOS; É FILHA DAS LUZES E DA RAZÃO; É ESSA LIBERDADE DOS ESTADOS UNIDOS. TERRA FELIZ QUE, EM MENOS DE TRÊS SÉCULOS, PASSOU DE UMA LIBERDADE À OUTRA QUASE SEM ESFORÇO, COM UMA LUTA QUE DUROU APENAS OITO ANOS. HOJE, O POVO AMERICANO É O MAIS LIVRE ENTRE OS POVOS CIVILIZADOS. [...] JÁ A LIBERDADE JACOBINA É FILHA DA IMAGINAÇÃO E DA PREPOTÊNCIA DAQUELES QUE, JULGANDO OCUPAR O TOPO DA EVOLUÇÃO HISTÓRICA, SE ACHARAM NO DIREITO DE LANÇAR AO FOGO TUDO O QUE FOI ENSINADO PELAS GERAÇÕES ANTERIORES.
(CHATEAUBRIAND, 1861, p. 23)
Novamente, encontramos a concepção de tempo típica da imaginação conservadora. O passado não é visto como a instância imutável, mas sim como a luz que conduz, que inspira as mudanças necessárias, e responsáveis, entendendo-se por “mudanças responsáveis” as transformações que se processem no sentido de atualizar as tradições, jamais de romper com elas.
A negação da ruptura é o elemento definidor da imaginação política conservadora. O conservador é reformista, reconhece que é necessário adaptar o que já existe às novas circunstâncias, melhorar aquilo que está disponível, entender que algo deve ser preservado, conservado, para que seja possível existir algum vínculo de solidariedade entre as gerações.
 RESUMINDO
Jüstus Möser, Edmund Burke, Alexis de Tocqueville e François-René de Chateaubriand reagiram à modernidade que marcou o mundo em que viveram, atravessado pela ideia de revolução, pela crença de que a história é um processo em marcha evolutiva orientada para o futuro e que o passado é o atraso que precisa ser superado. Ao criticar essas ideias dominantes, os autores acabaram propondo uma modernidade alternativa, conservadora, reformista, crítica à abstração revolucionária e defensora do potencial pedagógico das experiências acumuladas no tempo, da tradição.
Na próxima seção, estudamos o liberalismo, outra ideologia política moderna, rival da conservadora, e um dos desdobramentos do imaginário revolucionário que se consolida na Europa ocidental na segunda metade do século XVIII.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. KARL MANNHEIM ESTUDOU O “ESTILO CONSERVADOR” NA PERSPECTIVA TEÓRICA DA SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO. ASSINALE, ENTRE AS ALTERNATIVAS ABAIXO, AQUELA QUE MELHOR DEFINE ESSA PERSPECTIVA.
A Sociologia do Conhecimento parte da premissa de que o pensamento é sempre resultado da elaboração individual dos intelectuais, sem relações com a realidade que os cerca.
A Sociologia do Conhecimento parte da premissa de que o pensamento é sempre resultado da hegemonia da classe burguesa, o que a torna um desdobramento da teoria marxista.
A Sociologia do Conhecimento parte da premissa de que o pensamento é sempre resultado da hegemonia da Igreja Católica, o que a torna um desdobramento da Teologia.
A Sociologia do Conhecimento parte da premissa de que o pensamento é sempre resultado de condições sociais concretas, pois os pensadores estão a todo momento respondendo aos desafios de seu próprio tempo.
A Sociologia do Conhecimento parte da premissa de que o pensamento é sempre resultado da manipulação feita pelos meios de comunicação de massa, o que a torna um desdobramento da crítica à indústria cultural.
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2. SEGUNDO KARL MANNHEIM, O EVENTO FUNDADOR DO CONSERVADORISMO MODERNO FOI A REVOLUÇÃO FRANCESA (1789-1799). ASSINALE, ENTRE AS ALTERNATIVAS, AQUELA QUE COMPLEMENTA DE MANEIRA MAIS ADEQUADA ESSA AFIRMAÇÃO.
O conservadorismo moderno nasceu na conjuntura da Revolução Francesa porque foi nesse momento que a Igreja Católica se fortaleceu, o que colaborou para o desenvolvimento da teologia conservadora.
O conservadorismo moderno nasceu na conjuntura da Revolução Francesa porque foi nesse momento que o comunismo se fortaleceu, o que colaborou para o desenvolvimento do socialismo conservador.
O conservadorismo moderno nasceu na conjuntura de Revolução Francesa como o principal repertório crítico ao pensamento progressista, que vinha se desenvolvendo desde o início do século XVIII.
O conservadorismo moderno nasceu na conjuntura da Revolução Francesa porque foi nesse momento que se fortaleceu o liberalismo, o que foi fundamental para o desenvolvimento do conservadorismo liberal.
O conservadorismo moderno nasceu na conjuntura da Revolução Francesa porque foi nesse momento que se fortaleceu o positivismo, o que foi fundamental no desenvolvimento do conservadorismo científico.
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GABARITO
1. Karl Mannheim estudou o “estilo conservador” na perspectiva teórica da Sociologia do Conhecimento. Assinale, entre as alternativas abaixo, aquela que melhor define essa perspectiva.
A alternativa "D " está correta.
O objetivo da Sociologia do Conhecimento é mostrar que o pensador não vive acima da realidade, mas que é afetado por ela, que responde a ela. Logo, todo conhecimento é resultado de condições sociais concretas.
2. Segundo Karl Mannheim, o evento fundador do conservadorismo moderno foi a Revolução Francesa (1789-1799). Assinale, entre as alternativas, aquela que complementa de maneira mais adequada essa afirmação.
A alternativa "C " está correta.
O conservadorismo moderno foi a resposta ao fortalecimento do pensamento progressista, que se tornou hegemônico na mentalidade ocidental na conjuntura da Revolução Francesa.
MÓDULO 2
Distinguir a ideologia política liberal, um dos desdobramentos do pensamento progressista que fundou a Modernidade
LIBERALISMOS MODERNOS
Foto: Pyb/Wikimedia commons/Domínio Público Topo da representação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão em 1789, pintura de Jean-Jacques-François Le Barbier.
Tal como acontece com o termo “conservador”, a palavra “liberal” também é bastante utilizada no debate político, sendo bastante polissêmica. O que significa ser “liberal” no Brasil é algo bastante diferente do que significa ser liberal nos Estados Unidos. É exatamente por conta dessa polissemia que o correto é falar em “liberalismos”, no plural. Porém, é importante saber que, antes dessa pluralidade toda, formou-se, na especificidade da conjuntura europeia, um repertório de ideias baseado em certa noção de “liberdade”. Na definição proposta pelo cientista político Nicola Tranfaglia:
É NESTES DEBATES POLÍTICOS QUE COMEÇAM A SE DEFINIR, NUCLEARMENTE, OS PRINCÍPIOS DO LIBERALISMO. PORÉM, A VERDADEIRA E AUTÔNOMA FACE DO LIBERALISMO, SE MANIFESTA SOMENTE NA RESPOSTA, POR ELE DADA, AO PROBLEMA DA RUPTURA DA UNIDADE RELIGIOSA, RESPOSTA QUE, NUM PRIMEIRO MOMENTO, SE CHAMA TOLERÂNCIA E, NUM SEGUNDO MOMENTO, LIBERALIDADE RELIGIOSA: A LIBERDADE RELIGIOSA É O BERÇO DA LIBERDADE MODERNA.
(TRANFAGLIA, 2000, p. 687)
Aquilo que hoje chamamos de liberalismo, portanto,antes de ser uma corrente do pensamento político ocidental moderno, é um conjunto de princípios que nasceram na realidade concreta da história europeia, começando pelo século XVI, na conjuntura das guerras civis religiosas.
Depois de décadas de conflitos motivados por divergências religiosas, as sociedades europeias pactuaram o princípio da liberdade do culto privado. Tratou-se de uma resolução de ordem pragmática, desenvolvida em primeiro momento pelas pessoas comuns, em suas vivências práticas. Se as guerras civis religiosas estavam ceifando vidas, paralisando a atividade econômica, por que não pactuar um acordo segundo o qual cada um, nos limites de sua casa, pudesse seguir a religião que bem entendesse?
Em um segundo momento, essa resolução pragmática foi teorizada pelos pensadores da época, com destaque para John Locke (1632–1704), como veremos a seguir. Os grandes pensadores não criam a realidade, pois esta não é criada a partir de uma formulação filosófica. O que os grandes pensadores fazem é teorizar com excelência, é verbalizar com argumentos lógicos e coerentes aquilo que está acontecendo em suas sociedades, legando para a posteridade valiosos testemunhos sobre suas atmosferas de época.
Imagem: Uau/Wikimedia commons/Domínio Público Retrato de John Locke, por Godfrey Kneller (1697).
ORIGEM
Foto: Outisnn/Wikimedia commons/Domínio Público Fuzilamento dos Torrijos e seus companheiros nas praias de Málaga, por Antonio Gisbert (1888), representa as medidas repressivas tomadas pelo rei espanhol Fernando VII contra as forças liberais em seu país.
O liberalismo, então, começa em uma situação de urgência histórica, na qual sociedades estruturalmente colapsadas entenderam que era necessário fazer algo, pactuar princípios que tornassem possível a vida coletiva com mínima insegurança e com estabilidade e previsibilidade. Os princípios pactuados naquele momento e que até hoje são inegociáveis para nós são os seguintes:
· A divisão do mundo em duas esferas: a pública e a privada. A esfera pública é o espaço da regulação, da autoridade dos poderes legitimados socialmente. A esfera privada é o espaço das liberdades domésticas, da autoridade da casa, em que os governantes não podem interferir.
· Entre essas liberdades domésticas, está o livre direito ao culto privado. Assim, cada um, nos limites de sua casa, exerceria a religião que melhor fosse ao encontro de suas convicções pessoais. Nessa lógica, não há sentido nas guerras civis religiosas.
· A propriedade privada é um bem tão sagrado como a vida.
O primeiro autor a organizar esses valores em um sistema de pensamento lógico e dotado de coerência interna foi o filósofo inglês John Locke, que figura nos manuais de história da Filosofia como o pai do liberalismo. Em 1689, Locke publicou Dois tratados sobre o governo, que seria considerado o texto de fundação do liberalismo político.
Podemos encontrar sistematizados valores que hoje estruturam as nossas sensibilidades políticas. A ideia de que as “paredes da casa” são a “fortaleza da liberdade individual” é sagrada para qualquer um de nós, que tem sua vida privada protegida por volumosa legislação, pelo menos nos países sob inspiração da cultura jurídica ocidental.
Na segunda citação, Locke positiva o valor do trabalho, entendido como comportamento ativo de apropriação daquilo que está naturalmente dado pela natureza, mas cujo consumo só é possível mediante ação deliberada e organizada racionalmente, ou seja, trabalho. É importante perceber que o pensamento de Locke não está associado ao regime produtivo capitalista, que somente se constituiria como realidade histórica consolidada no século XIX, após a Revolução Industrial.
A preocupação política/filosófica de Locke é estabelecer limites para o poder do Estado, salvaguardando a liberdade individual, entendida pelo autor como o direito de livre movimentação do corpo, sem constrangimentos externos ao próprio corpo. Com isso, podemos concluir que o encontro entre o liberalismo e o capitalismo aconteceu tardiamente, pois o liberalismo tem trajetória histórica independente do capitalismo. Em Dois tratados sobre o governo, Locke formulou os valores fundamentais do Estado liberal. Esse aspecto do liberalismo lockeano foi analisado por Nicola Tranfaglia.
LOCKE, INDO MAIS ADIANTE, REIVINDICA, NO CAMPO POLÍTICO, A AUTONOMIA DA LEI MORAL OU “FILOSÓFICA”, EM RELAÇÃO À LEI CIVIL, OU SEJA, DO PODER ESPIRITUAL DO JUÍZO MORAL QUE É ATRIBUIÇÃO DA OPINIÃO PÚBLICA. SOMENTE NA CONSTRUÇÃO TEÓRICA DO UTILITARISMO INGLÊS, CRITICADO JUSTAMENTE POR JOHN STUART MILL, NÃO ENCONTRAMOS ESTE ELEMENTO ÉTICO. ESTA DEFESA DA AUTONOMIA MORAL DO INDIVÍDUO PROVOCA UMA CONCEPÇÃO DE RELATIVISMO, QUE ACEITA O PLURALISMO DOS VALORES COMO ALGO POSITIVO PARA TODA A SOCIEDADE, A IMPORTÂNCIA DA DISSENÇÃO, DO DEBATE E DA CRÍTICA E NÃO RECUA DIANTE DO CONFLITO E DA COMPETIÇÃO. A ÚNICA LIMITAÇÃO, PARA O CONFLITO E A COMPETIÇÃO, É A NECESSIDADE DE SUA INSTITUCIONALIZAÇÃO NOS COSTUMES MEDIANTE A TOLERÂNCIA, NA POLÍTICA MEDIANTE INSTITUIÇÕES SIGNIFICATIVAS, QUE GARANTAM O DEBATE, E MEDIANTE NORMAS JURÍDICAS GERAIS, UMA VEZ QUE SOMENTE NO DIREITO É POSSÍVEL ENCONTRAR UM CRITÉRIO DE COEXISTÊNCIA ENTRE AS LIBERDADES E/OU AS ARBITRARIEDADES DOS INDIVÍDUOS. UM TAL RELATIVISMO NÃO É EXPRESSÃO DE CETICISMO, E SIM DE ANTIDOGMATISMO, VISTO PRESSUPOR UMA TOTAL CONFIANÇA NA CAPACIDADE CRÍTICA DO PENSAMENTO, PRESENTE NA CULTURA ILUMINISTA, BEM COMO NA CULTURA HISTORICISTA, DESEMBOCADAS AMBAS — A PARTIR DE ASPECTOS DIVERSOS E DE DIFERENTES CONTEXTOS — NO LIBERALISMO QUE NOS É CONTEMPORÂNEO.
(TRAFAGLIA, 1995, p. 701)
Uma das principais colaborações de Locke ao liberalismo foi a ideia de “lei moral ou filosófica”, que nada mais é do que aquilo que hoje nós podemos chamar de opinião pública. A lei moral seria, para Locke, a média dos valores compartilhados pela sociedade, e deveria servir como principal modelo para o poder político, responsável por elaborar a “lei civil”, a legislação oficial do Estado cujo objetivo é regular a vida em comunidade. A lei civil, portanto, na lógica lockeana, não deve ser formalizada a partir dos interesses dos governantes, mas a partir dos valores e desejos da sociedade civil, consolidados nos costumes.
Temos aqui o deslocamento da soberania do Estado para a sociedade civil, o que é fundamental para o liberalismo. O Estado deixa de ser a manifestação do poder de Deus e passa a existir em função da sociedade, tutelado por ela, e a sociedade é formada por indivíduos livres. Em Locke, podemos encontrar os fundamentos conceituais daquilo que posteriormente seria conhecido como “Estado Liberal”.
CULTURA DO LIBERALISMO POLÍTICO
Após o século XVIII, o liberalismo deixou de ser apenas um repertório de ideias e valores cujo objetivo era proteger as liberdades individuais dos assédios do Estado, passando a fazer parte da cultura histórica moderna.
A partir dos estudos do já citado historiador alemão Reinhart Koselleck, a Modernidade foi fundada no século XVIII por uma nova forma de perceber o tempo, em que a história é lida como potência em eterno movimento, impulsionada por forças motoras e orientada para o futuro, entendido como progresso.
É como se a convicção da época fosse a de que o tempo traz melhoras na vida e o futuro será sempre evolução em relação ao presente, assim como o presente será evolução em relação ao passado.
Com essa convicção, desenvolveram-se diversas filosofias da história, cada qual tendo sua própria leitura do processo histórico, tendo seu projeto utópico, sua concepção de futuro. O liberalismo é uma dessas filosofias da história, baseado nos seguintes princípios:
· A busca pela liberdade (entendida como a liberdade individual, do corpo físico) é a potência que move a história humana.
· O movimento histórico caminha sempre da situação de menos liberdade, e de mais tirania, para a situação de mais liberdade, e de menos tirania.
· A utopia liberal idealiza uma situação de plenas liberdades individuais, em que o Estado teria suas competências tão reduzidas a ponto de possibilitaràs pessoas um tipo de vida similar ao das liberdades naturais, pré-sociais.
Foto: Scewing/Wikimedia commons/Domínio Público Retrato de John Stuart Mill em 1870.
Esses princípios foram explorados por diversos pensadores liberais ao longo dos séculos XIX e XX, o que nos mostra uma tradição de pensamento plural e diversificada. Concentraremos nossos esforços no filósofo britânico John Stuart Mill (1806–1873), que trouxe a liberdade para o primeiro plano de suas reflexões, tendo contribuído para o desenvolvimento da cultura jurídica que deu origem ao Estado de direito.
O texto mais importante de Stuart Mill foi o ensaio Sobre a liberdade, publicado pela primeira vez em 1859. No texto, Mill critica a doutrina dos direitos naturais, que havia animado os revolucionários tanto em França como nos EUA, e que afirmava a existência de direitos atribuídos diretamente por Deus aos homens e que não poderiam ser alienados pelo poder civil.
Como Mill fazia parte da corrente utilitarista do pensamento liberal, materialista e ateia, a existência de Deus era negada, o que reforçava ainda mais a importância da lei civil, pactuada pela sociedade. Caberia, então, à lei dos homens garantir a “boa vida”, que, no utilitarismo de Mill, significa a maior situação de liberdade possível. “Liberdade”, na concepção de Mill, significa viver em um Estado de direito. Nas palavras do próprio autor:
É PARA CADA UM O DIREITO DE NÃO SE SUBMETER SENÃO ÀS LEIS, DE NÃO PODAR SER PRESO, NEM DETIDO, NEM CONDENADO, NEM MALTRATADO DE NENHUMA MANEIRA, PELO EFEITO DA VONTADE ARBITRÁRIA DE UM OU DE VÁRIOS 1INDIVÍDUOS. É PARA CADA UM O DIREITO DE DIZER SUA OPINIÃO, DE ESCOLHER SEU TRABALHO E DE EXERCÊ-LO; DE DISPOR DE SUA PROPRIEDADE, ATÉ DE ABUSAR DELA; DE IR E VIR, SEM NECESSITAR DE PERMISSÃO E SEM TER QUE PRESTAR CONTA DE SEUS MOTIVOS OU DE SEUS PASSOS. É PARA CADA UM O DIREITO DE REUNIR-SE A OUTROS INDIVÍDUOS, SEJA PARA DISCUTIR SOBRE SEUS INTERESSES, SEJA PARA PROFESSAR O CULTO QUE ELE E SEUS ASSOCIADOS PREFERIREM, SEJA SIMPLESMENTE PARA PREENCHER SEUS DIAS E SUAS HORAS DE MANEIRA MAIS CONDIZENTE COM SUAS INCLINAÇÕES, COM SUAS FANTASIAS. ENFIM, O DIREITO, PARA CADA UM, DE INFLUIR SOBRE A ADMINISTRAÇÃO DO GOVERNO, SEJA PELA NOMEAÇÃO DE TODOS OU DE CERTOS FUNCIONÁRIOS, SEJA POR REPRESENTAÇÕES, PETIÇÕES, REIVINDICAÇÕES, ÀS QUAIS A AUTORIDADE É MAIS OU MENOS OBRIGADA A LEVAR EM CONSIDERAÇÃO. COMPARAI AGORA A ESTA A LIBERDADE DOS ANTIGOS.
(MILL, 1990, p. 3)
Como podemos perceber, a utopia idealizada por Mill não pode ser definida, simplesmente, como o mundo das liberdades totais. Não se trata, de forma alguma, do mundo das liberdades irrefreadas. Há a possiblidade do poder e da dominação no pensamento político de Mill, desde que venha da lei, entendida aqui como contrato coletivamente construído. O Estado de liberdade de que fala Stuart Mill é o Estado de direito, o que torna o autor herdeiro de Locke e nome incontornável na tradição político-jurídica que, no século XIX, seria a responsável pela invenção do Estado liberal, e que contaria ainda com outros nomes, como Montesquieu (1689–1755).
Foto: Alonso de Mendoza/Wikimedia commons/Domínio Público Retrato de Montesquieu.
Já Spencer, Keynes e Mises estavam preocupados com as questões econômicas que vieram à luz a partir do século XIX, nas modernas sociedades de massa industrializadas. Os três autores, cada um a seu modo, debruçaram-se sobre os temas da distribuição da riqueza social e da pobreza material. Entender melhor os argumentos deles nos ajuda a compreender a dinâmica dos conflitos sociais e políticos que atravessaram o século XX e chegaram até nós.
HERBERT SPENCER
Filósofo britânico (1820 – 1903).
JOHN MAYNARD KEYNES
Economista britânico (1883 – 1946).
LUDWIG VON MISES
Economista austríaco (1881 – 1973).
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. SEGUNDO O CIENTISTA POLÍTICO ITALIANO NICOLA MATTEUCCI, O LIBERALISMO NASCEU EM UMA CONJUNTURA ESPECÍFICA DA HISTÓRIA EUROPEIA. ASSINALE, ENTRE AS ALTERNATIVAS ABAIXO, AQUELA QUE DEFINE DE MANEIRA MAIS ADEQUADA ESSA CONJUNTURA.
A conjuntura histórica concreta que serviu como berço do liberalismo foi a formação das monarquias absolutistas no fim do século XIV, quando se formou o princípio da soberania nacional, que se tornaria o valor fundamental do repertório liberal.
A conjuntura histórica concreta que serviu como berço do liberalismo foi a revolução industrial no século XVIII, quando se formou o princípio da mais-valia, que se tornaria o valor fundamental do repertório liberal.
A conjuntura histórica concreta que serviu como berço do liberalismo foram as guerras civis religiosas do século XVI, quando se formou o princípio da liberdade privada de culto, que se tornaria o valor fundamental do repertório liberal.
A conjuntura histórica concreta que serviu como berço do liberalismo foi o renascimento artístico e cultural do século XVI, quando se formou o princípio do antropocentrismo, que se tornaria o valor fundamental do repertório liberal.
A conjuntura histórica concreta que serviu como berço do liberalismo foi a Revolução Inglesa, no século XVII, quando se formou o princípio da monarquia constitucional, que se tornaria o valor fundamental do repertório liberal.
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2. O FILÓSOFO BRITÂNICO JOHN STUART MILL É REPRESENTANTE DA CORRENTE UTILITARISTA DO PENSAMENTO LIBERAL. MARQUE, ENTRE AS ALTERNATIVAS ABAIXO, AQUELA QUE DEFINE DA MANEIRA CORRETA O UTILITARISMO.
O utilitarismo consiste na negação do princípio dos direitos naturais e na afirmação de que toda liberdade deve ser garantida pela lei civil, construída coletivamente em sociedade.
O utilitarismo consiste na afirmação do princípio dos direitos naturais, o que condiciona a lei civil aos direitos fundamentais que Deus teria delegado aos seres humanos.
O utilitarismo consiste na afirmação do materialismo histórico, o que consiste na ideia de que as sociedades humanas estão fundadas na exploração material.
O utilitarismo consiste na afirmação da teoria da origem divina do poder do Estado, o que fez dos utilitaristas como Mill herdeiros da escolástica medieval.
O utilitarismo consiste na ideia de que a lei civil deve ser formulada pelas aristocracias nacionais, o que fez de utilitaristas como Mill defensores das sociedades de antigo regime.
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GABARITO
1. Segundo o cientista político italiano Nicola Matteucci, o liberalismo nasceu em uma conjuntura específica da história europeia. Assinale, entre as alternativas abaixo, aquela que define de maneira mais adequada essa conjuntura.
A alternativa "C " está correta.
O estudante deve saber que foram as guerras civis religiosas europeias do século XVI que serviram como berço para o liberalismo, na medida em que serviram como gatilho para a formação do princípio da liberdade privada de culto, que se tornaria um dos valores basilares para o ideário liberal.
2. O filósofo britânico John Stuart Mill é representante da corrente utilitarista do pensamento liberal. Marque, entre as alternativas abaixo, aquela que define da maneira correta o utilitarismo.
A alternativa "A " está correta.
O estudante deve saber que o utilitarismo é materialista e ateu, tendo negado o princípio dos direitos naturais, na medida em que negou a própria existência de Deus.
MÓDULO 3
 Localizar o surgimento da ideologia nacionalista ao longo do século XIX
NACIONALISMO
O sonho das repúblicas democráticas e sociais mundiais, gravura de Frédéric Sorrieu (1848).
No fim do século XVIII, começou a nascer na Europa o nacionalismo, que se espalharia pelo mundo nos séculos XIX e XX, transformando-se na principal ideologia moderna. Não seria exagerado dizer que toda a história humana, do século XVIII ao século XXI, foi, em alguma medida, pautada pelo nacionalismo. Mas o que seria, exatamente, o nacionalismo?
É impossível definir o nacionalismo sem dedicar alguma atenção ao seu conceito-base: nação. O historiador britânico Eric Hobsbawm nos apresenta definições das ideias de nação e nacionalismoque são importantes para este estudo.
 RESUMINDO
A nação, portanto, não é um dado elementar da realidade, organização natural das coletividades humanas. A nação, entes de tudo, é uma elaboração conceitual resultando do sistema de pensamento nacionalista, que está fundamentado na tese de que a vida social humana somente é possível em comunidade nacional, na qual cidadãos que compartilham valores culturais, religiosos e linguísticos estão irmanados por vínculos identitários e de solidariedade, submetidos às mesmas estruturas de poder.
Retrato de Maximilien de Robespierre.
O processo de afirmação e consolidação histórica dessas categorias foi complexo e contraditório, sendo diretamente marcado pelos principais eventos da história mundial nos últimos trezentos anos. O berço do nacionalismo foi a França revolucionária, como testemunha Maximilien de Robespierre (1758–1794), líder jacobino e um dos protagonistas da Revolução Francesa:
NOS ESTADOS ARISTOCRÁTICOS A PALAVRA “PÁTRIA” TEM SENTIDO UNICAMENTE PARA AS FAMÍLIAS ARISTOCRÁTICAS, ISTO É, PARA OS QUE SE APODERARAM DA SOBERANIA. SOMENTE NA DEMOCRACIA O ESTADO É REALMENTE A PÁTRIA DE TODOS OS INDIVÍDUOS QUE O COMPÕEM E PODE CONTAR COM UM NÚMERO DE DEFENSORES, PREOCUPADOS PELA SUA CAUSA, TÃO GRANDE QUANTO O NÚMERO DE SEUS CIDADÃOS.
(ROBESPIERRE apud LEVI, 2000, p. 800)
As palavras do líder revolucionário francês apontam para a relação entre nação, nacionalismo e democracia, entendida aqui como situação política vocacionada para a ampliação de direitos. O que os revolucionários estavam propondo, especialmente durante o “terror jacobino”, momento mais radical da Revolução Francesa (1792–1794), era a inclusão do “povo” no território imaginado da “pátria”, que, no vocabulário político da revolução, significava o acesso às liberdades fundamentais, aos direitos políticas e ao conforto material.
A ruptura com o Estado aristocrático, que somente poderia ser feita por meio da guerra revolucionária, significava expandir o alcance da pátria. Agora, o ingresso na “pátria” passaria a se dar não com base no princípio da distinção natural, característica das sociedades aristocráticas, mas sim a partir da noção de igualdade natural entre todos aqueles que pudessem ser definidos como “franceses”, incluindo as pessoas escravizadas nos territórios coloniais. Nas palavras do cientista político italiano Lucio Levi:
FOI ASSIM QUE A NAÇÃO FOI SE TORNANDO A FÓRMULA POLÍTICA EM QUE A BURGUESIA, NUM PRIMEIRO MOMENTO, AS CLASSES MÉDIAS, A SEGUIR, E O POVO TODO, MAIS TARDE, IDENTIFICARAM A AFIRMAÇÃO DE SEUS DIREITOS E O PROGRESSO DAS CONDIÇÕES MATERIAIS CONTRA OS PRIVILÉGIOS E A DOMINAÇÃO ARBITRÁRIA DOS MONARCAS, DA ARISTOCRACIA E DO CLERO.
(LEVI, 2000, p. 800)
Em seu primeiro momento, então, o nacionalismo esteve associado à noção de soberania popular, tal como havia sido formulada por Jean Jacques Rousseau (1712–1778), um dos “pais espirituais” da Revolução Francesa. No tratado Contrato Social, publicado pela primeira vez em 1762, Rousseau desenvolveu conceitualmente o deslocamento da soberania que se tornaria elementar para a democracia moderna e para o novo conceito de “povo” que se afirmaria na Revolução Francesa. Nas palavras do filósofo:
Jean-Jacques Rousseau, por Maurice Quentin de La Tour.
O ESTADO NÃO É DOMÍNIO PESSOAL DO PRÍNCIPE, MAS PERTENCE AO POVO, CONSTITUÍDO PELO CONJUNTO DE CIDADÃOS E NÃO DE SÚDITOS. O ESTADO DEVE ENCARNAR OS INTERESSES DO POVO E NÃO OS INTERESSES DO PRÍNCIPE E DA NOBREZA. O ESTADO SOBERANO É AQUELE QUE EXISTE EM FUNÇÃO DO SEU POVO, QUE NÃO POUPA ESFORÇOS PARA LEVAR FELICIDADE PARA O SEU POVO. SE O ESTADO NÃO CUMPRE ESSE PAPEL, É DIREITO DO POVO MUDAR A ORGANIZAÇÃO DO ESTADO.
(ROUSSEAU, 2011, p. 33)
Haveria, para Rousseau, uma relação contratual entre o Estado, estrutura de poder controlada pelos governantes, e o povo, a totalidade das pessoas que habita determinado território cercado por fronteiras. Esse contrato, ao contrário do que afirmavam as teologias políticas do Antigo Regime, não era legitimado por Deus, mas sim por uma troca de interesses entre racionalidades distintas. De um lado, a racionalidade do Estado, com o objetivo de governar; do outro, a racionalidade do povo, interessado na “felicidade e no bem-viver”, para falar como o próprio Rousseau.
Se o Estado não cumpre sua parte no contrato, nada mais obriga o povo a cumprir a sua, ou seja, a permitir que aquele tipo de Estado continue existindo, que aquelas pessoas continuem governando. Nesse momento, a guerra revolucionária é legítima, para que o Estado volte a, de fato, atender aos interesses do povo. Em Rousseau, o Estado não é soberano em si. Sua soberania foi delegada pelo povo, pois pertence a ele.
NACIONALISMO E REVOLUÇÃO INDUSTRIAL
Outro momento decisivo para o nacionalismo foi a Revolução Industrial, que aconteceu entre o fim do século XVIII e meados do século XIX. Em síntese, podemos definir a Revolução Industrial como as mudanças estruturais ocorridas no processo de transformação de matéria-prima em produto acabado. O processo produtivo foi mecanizado, racionalizado, em um crescimento de eficiência inédito na história humana.
O resultado disso foi percebido em todas as esferas da vida, com destaque para o deslocamento de grande quantidade de pessoas para as cidades, estendendo as relações de troca e de trabalho para espaços mais ampliados do que as comunidades tradicionais, onde a vida produtiva se dava por meio do artesanato e de outras formas de trabalho manual. Novamente, é o cientista político Lucio Levi quem nos ajuda na compreensão.
A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL QUEBRA AS PEQUENAS UNIDADES PRODUTIVAS AGRÍCOLA-ARTESANAIS E AS LIMITADAS COMUNIDADES QUASE NATURAIS E TRADICIONAIS, QUE REPRESENTAVAM OS HORIZONTES DE VIDA DA GRANDÍSSIMA MAIORIA DA POPULAÇÃO, E AMPLIA ENORMEMENTE O CONTEXTO ECONÔMICO-SOCIAL A QUE O INDIVÍDUO PERTENCE. CONSEQUENTEMENTE, LIGOU-SE AO ESTADO UM NÚMERO CRESCENTE DE COMPORTAMENTOS, UMA VEZ QUE OS INDIVÍDUOS PASSARAM A EXIGIR A INTERVENÇÃO DESTE A FIM DE GARANTIR A EVOLUÇÃO ORDENADA DAS RELAÇÕES SOCIAIS NO ÂMBITO NACIONAL.
(LEVI, 2010, p. 802)
Se a Revolução Francesa fez do nacionalismo um discurso de ampliação de direitos considerados fundamentais, a Revolução Industrial condicionou o nacionalismo a um planejamento racionalizado e centralizado da atividade social e econômica. Agora, além de cidadão, o indivíduo passa a ser tratado como unidade produtiva, como alguém que teria, entre suas atribuições cívicas, a colaboração para o crescimento da riqueza nacional. Outra mudança importante no ideário nacionalista viria na década de 1870, com a unificação da Alemanha.
Imagem: 1970 O príncipe Frederico Carlos da Prússia dá ordem de ataque às suas tropas eufóricas, na Batalha de Königgrätz.
Em 1871, após uma série de conflitos, com destaque para a Guerra Franco-Prussiana, nasceu o Estado-nacional alemão. Inspirada em ideias nacionalistas, a unificação alemã trouxe a expansão imperialista e o belicismo para o repertório nacionalista, escanteando o ideário de cooperação transnacional e de fraternidade universal que pautou a ideologia nos anos da Revolução Francesa. O Estado-nacional alemão nasceu impulsionado pela doutrina da expansão do espaço vital, questionando as pretensões territoriais da Inglaterra, a principal potência da época.
O surgimento da Alemanha foi o marco inaugural de constante movimentação militar na Europa que se estenderia até metade do século XX, envolvendo, inclusive, duas guerras mundiais. O ideólogo nacionalista italiano Giuseppe Mazzini (1805–1872) viu com preocupação o nacionalismo belicista alemão.
EM NADA O NACIONALISMO DA JOVEM NAÇÃO ALEMÃ LEMBRA O NACIONALISMO DOS ANOS DA REVOLUÇÃO, ONDE A FRATERNIDADE UNIVERSAL E A PAZ MUNDIAL APONTAVAM PARA UM MUNDO FORMADO POR NAÇÕES CAPAZES DE RESPEITAR A AUTO-DETERMINAÇÃO UMAS DAS OUTRAS. O QUE VEMOS HOJE É A ASSOCIAÇÃO DO NACIONALISMO COM A GUERRA, COM AS RIVALIDADES E COM DISCÓRDIA ENTRE OS HOMENS. [ORTOGRAFIA ORIGINAL]
(MAZINNI apud LEVI, 2011, p. 802)
UM BARRIL DE PÓLVORA PRESTES A EXPLODIRGrandes canhões fabricados pela Bethlehem Steel Company (empresa siderúrgica dos Estados Unidos) em 1918.
O desenlace dos acontecimentos mostrou que a intuição de Mazinni estava correta. Cada vez mais, o sistema internacional europeu se tornava um barril de pólvora, atravessado por tensões e rivalidades que envolviam as grandes potências da época, como França, Inglaterra e Alemanha.
Veio à luz, nesse momento, outra tradição do pensamento político nacionalista, bem diferente daquela de Rousseau, Robespierre e do próprio Mazinni. Na França, o nacionalismo xenófobo e de extrema-direita teve no poeta e político Charles Maurras (1868–1952) o seu principal representante. Maurras foi diretor do jornal Action Française, no qual difundiu aquilo que ele mesmo chamava de “nacionalismo integral”, que pregava o ódio aos ingleses, alemães, judeus e a tudo aquilo que pudesse comprometer o que ele entendia como a “genuína nacionalidade francesa”.
Na Alemanha, tem destaque a figura de Alfred Hugenberg (1865–1951), empresário e político bastante influente durante os anos da República de Weimar (1918–1925), quando a Alemanha foi governada por uma constituição liberal-democrática. Hugenberg foi um dos grandes opositores do regime de Weimar, liderando um movimento nacionalista radical que por anos colaborou com o Partido Nacional-Socialista, liderado por Adolf Hitler (1889–1945).
Foto: DIREKTOR/Wikimedia commons/Domínio Público Hitler com membros do Partido Nazista em 1930.
Na Itália, o romancista Enrico Corradini (1865–1931) produziu muitos textos propagandeado o radicalismo nacionalista, tendo sido um dos inspiradores do fascismo liderado por Benito Mussolini (1883–1945).
O que podemos perceber é que, no fim do século XIX, a ideologia nacionalista abandonou os ideais democráticos de soberania popular e até mesmo a pretensão do planejamento econômico para sucumbir à xenofobia e à ambição de expansão militar, tornando-se, assim, prelúdio do nazifascismo que, como veremos na próxima seção, desestabilizou o sistema internacional na primeira metade do século XX.
EXISTE UMA RELAÇÃO MUITO ESTREITA ENTRE O PROGRAMA POLÍTICO DO MOVIMENTO NACIONALISTA E O DO FASCISMO E DO NAZISMO. O NACIONALISMO É UM COMPONENTE ESSENCIAL DAS IDEOLOGIAS FASCISTA E NAZISTA. PORÉM, O MOVIMENTO NACIONALISTA NUNCA CHEGOU A SER, DIFERENTEMENTE DO FASCISTA E DO NAZISTA, UM MOVIMENTO DE MASSA. O NAZI-FASCISMO, COMO MANIFESTAÇÃO DA FASE MÁXIMA DE DEGENERESCÊNCIA DO ESTADO NACIONAL, FOI UMA TENTATIVA PARA IR CONTRA A LINHA EVOLUTIVA DA HISTÓRIA, FOI A EXPRESSÃO DA VONTADE DE SOBREVIVÊNCIA DO ESTADO NACIONAL NUMA CONJUNTURA HISTÓRICO-SOCIAL NOVA. [ORTOGRAFIA ORIGINAL]
(LEVI, 2011, p. 805)
Não seria exagerado dizer que o nacionalismo foi a mais vitoriosa entre todas as ideologias modernas. Mais que o conservadorismo, o liberalismo, o comunismo e o fascismo, o nacionalismo mostrou grande capacidade de sobrevivência no tempo, estruturando, até hoje, a vida coletiva em, absolutamente, todos os lugares do mundo. Segundo o cientista político inglês Benedict Anderson, o nacionalismo é o principal sistema de crença já inventado pela humanidade.
Essa crença é muito forte e foi difundida pelo mundo nas experiências de emancipação nacional que aconteceram na América, na África e na Ásia entre os séculos XIX e XX, fundada naquilo que Anderson chama de “comunidade imaginada”: uma abstração, artificial, inventada, que, ao longo da modernidade, inspirou identidade, arte e cultura, mas também violência e morte. A seguir, estudaremos o desdobramento mais perverso do nacionalismo, corrente ideológica que transformou a política na indústria da morte.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL (ENTRE O FIM DO SÉCULO XVIII E MEADOS DO SÉCULO XIX) FOI UM MOMENTO DECISIVO NA HISTÓRIA DO NACIONALISMO. ASSINALE, ENTRE AS ALTERNATIVAS ABAIXO, AQUELA QUE EXPLICA DE MANEIRA MAIS ADEQUADA ESSA AFIRMAÇÃO.
A Revolução Industrial endossou os princípios da teologia política, reforçando a ideia de que nação consistiria em uma comunidade universal tutelada diretamente por Deus.
A Revolução Industrial marcou o início da revolução mundial do proletariado, reforçando a ideia de que a nação consistiria em uma comunidade de trabalhadores.
A Revolução Industrial deslocou massas populacionais para espaços geograficamente concentrados, o que acabou associando a nação ao planejamento racional da atividade econômica.
A Revolução Industrial fragmentou a população em unidades produtivas autocentradas, o que acabou aproximando o nacionalismo dos sentimentos comunitários que existiam na Europa antes do início da Modernidade.
A Revolução Industrial reforçou a ideia de que a Europa deveria seguir sua vocação agrícola e rural, o que fez do nacionalismo um desdobramento das ideias identitárias do colonato feudal.
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2. O SURGIMENTO DO NACIONALISMO COMO IDEAL POLÍTICO PODE SER VINCULADO AOS PROCESSOS ABAIXO IDENTIFICADOS:
I. REVOLUÇÃO INDUSTRIAL, EM QUE O CAPITAL BURGUÊS SE VALE DOS VALORES COLETIVOS PARA AFIRMAR SUA PRÓPRIA FORÇA.
II. REVOLUÇÃO AMERICANA, MARCO DE UM NOVO IDEAL POLÍTICO, EXPRESSO POR TOCQUEVILLE, VALORIZADO COMO BERÇO DO VERDADEIRO NACIONALISMO.
III. REVOLUÇÃO FRANCESA, EM QUE OS IDEAIS DO ANTIGO REGIME SÃO SUBSTITUÍDOS POR VALORES NACIONALISTAS, GUARDADAS A NECESSÁRIAS PROPORÇÕES.
ESTÃO CORRETAS AS AFIRMATIVAS:
Apenas I e II.
Apenas I e III.
Apenas II e III.
As afirmativas I, II e III.
Apenas a afirmativa I.
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GABARITO
1. A Revolução Industrial (entre o fim do século XVIII e meados do século XIX) foi um momento decisivo na história do nacionalismo. Assinale, entre as alternativas abaixo, aquela que explica de maneira mais adequada essa afirmação.
A alternativa "C " está correta.
O estudante precisa saber que a Revolução Industrial concentrou grandes contingentes populacionais nas cidades, o que fez do nacionalismo um tipo de planejamento racional da atividade econômica.
2. O surgimento do nacionalismo como ideal político pode ser vinculado aos processos abaixo identificados:
I. Revolução Industrial, em que o capital burguês se vale dos valores coletivos para afirmar sua própria força.
II. Revolução americana, marco de um novo ideal político, expresso por Tocqueville, valorizado como berço do verdadeiro nacionalismo.
III. Revolução Francesa, em que os ideais do Antigo Regime são substituídos por valores nacionalistas, guardadas a necessárias proporções.
Estão corretas as afirmativas:
A alternativa "E " está correta.
Os três eventos estão vinculados às transformações que dão sentido à emergência do nacionalismo, no entanto, a ideia de uma revolução marginal — ainda que importante — como a Americana é base do ideal nacionalista é um equívoco.
MÓDULO 4
Reconhecer o desenvolvimento dos fascismos na primeira metade do século XX
NAZIFASCISMO
Foto: Blight55/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0 Adolf Hitler faz um discurso na Kroll Opera House aos homens do Reichstag sobre o assunto Roosevelt e a guerra no Pacífico, declarando guerra aos Estados Unidos.
A história da primeira metade do século XX foi marcada pelo fortalecimento de ideologias políticas autoritárias e violentas, que transformaram o Estado em máquina de extermínio e perseguição. Trabalharemos, aqui, com as duas manifestações clássicas dessas ideologias: o nazismo alemão e o fascismo italiano, que desestabilizaram o sistema internacional nas décadas de 1930 e 1940.
Foto: MagentaGreen/Wikimedia commons/Domínio Público Benito Mussolini e Adolf Hitler durante a visita de Mussolini a Munique, em 19 de junho de 1940.
Esses regimes deixaram a semente do autoritarismo e do terrorismo de Estado plantados na cultura política ocidental. Até hoje, no século XXI, podemos observar, nos EUA, na América do Sul e em diversas outras partes do mundo, lideranças políticas e governos que se inspiram nos valores nazifascistas.
No caso alemão, segundo os estudos do cientista Karl Dietrich Bracher, a ascensão do nazismo deve ser explicadaa partir de duas matrizes distintas. A primeira se refere, como já vimos na seção anterior, ao nacionalismo agressivo e militarizado protagonizado no século XIX pela Prússia, Estado que liderou o processo de unificação da Alemanha. A segunda está na derrota alemã na Primeira Guerra Mundial (1914–1918) e nas sanções que a comunidade internacional impôs ao país.
COMO FENÔMENO HISTÓRICO, O NACIONAL-SOCIALISMO TEM QUE SER DEFINIDO FOCALIZANDO DOIS NÍVEIS PRINCIPAIS: COMO REAÇÃO DIRETA À PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E A SUAS CONSEQUÊNCIAS, PORÉM, TAMBÉM, COMO RESULTADO DE TENDÊNCIAS E IDEIAS BEM MAIS ANTIGAS, RELACIONADAS COM A PROBLEMÁTICA DA UNIFICAÇÃO POLÍTICA E DA MODERNIZAÇÃO SOCIAL — PROBLEMÁTICA QUE DOMINA O DESENVOLVIMENTO ALEMÃO DESDE O COMEÇO DO SÉCULO XIX.
(BRACHER, 2000, p. 807)
Segundo o autor, o fundamental para a compreensão da ascensão do nazismo ao controle do Estado alemão foi a combinação de uma retórica nacionalista fundada no princípio da expansão vital, que inspirou a unificação alemã em meados do século XIX, e o trauma da derrota da Primeira Guerra Mundial. No momento em que a Alemanha se tornou pária no sistema internacional europeu após o fim do conflito, a ideologia nacionalista, em toda sua agressividade, foi acionada pelas lideranças nazistas para insuflar a sociedade civil alemã em um desejo coletivo de revanche.
CONTEXTO
Foto: Ras67/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0 Tropas alemãs entram em Saaz (cidade na atual República Tcheca) em 1938.
Sem dúvida alguma, a Alemanha foi a grande derrotada na Primeira Guerra Mundial, sendo o Tratado de Versalhes, armistício assinado em 1918, o grande símbolo da nova ordem que se estabeleceu após o conflito. O Tratado de Versalhes impôs diversas sanções à Alemanha, indo desde indenizações que deveriam ser pagas aos países vencedores (Inglaterra e França, por exemplo), passando por concessões territoriais (como a Alsácia e Lorena, na fronteira com a França) e chegando até a proibições no que se refere à organização das forças armadas. Foi um golpe duro na autoestima do povo alemão, algo que foi potencializado pelo ex-militar austríaco Adolf Hitler, que rapidamente se tornou uma das principais lideranças do partido nazista.
EM TERMOS DE PSICOLOGIA SOCIAL, ELE [HITLER] REPRESENTA O HOMEM COMUM, EM POSIÇÃO DE SUBORDINAÇÃO, ANSIOSO PARA COMPENSAR SEUS SENTIMENTOS DE INFERIORIDADE ATRAVÉS DA MILITÂNCIA E DO RADICALISMO POLÍTICO. SEU NASCIMENTO NA ÁUSTRIA, SEU FRACASSO NA ESCOLA E NA PROFISSÃO E A EXPERIÊNCIA LIBERTADORA DA CAMARADAGEM MASCULINA DURANTE A GUERRA, FORJARAM, AO MESMO TEMPO, SUA VIDA E A IDEOLOGIA DO NACIONAL-SOCIALISMO.
(BRACHER, 2000, p. 810)
Militar de baixa patente sem grandes feitos militares, artista frustrado pelo não reconhecimento do mercado cultural, é como se Hitler representasse a própria Alemanha naquela conjuntura: apequenado, menosprezado e com ódio, muito ódio. Foi nas franjas desse ressentimento coletivo que o Partido Nacional-Socialista (“socialista”, aqui, não tem nenhuma relação com o socialismo, sistema social e político idealizado por Karl Marx), foi ganhando força e se tornando popular.
O nazismo foi se construindo na prática política sem se inspirar em grandes tratados de delimitação conceitual. Porém, se quisermos encontrar um “teórico do nazismo”, podemos destacar o escritor Alfred Rosenberg (1893–1946), autor do livro O mito do século XX, publicado pela primeira vez em 1930. Rosenberg chegou a ser ministro de Hitler, participando ativamente da deportação e do extermínio de milhares de pessoas.
O grande argumento de Rosenberg apontava para a incapacidade da República de Weimar — regime político liberal-democrático que governou a Alemanha entre 1918 e 1933 — de promover a “restauração da grandeza alemã”. Toda a propaganda política nazista, dirigida pessoalmente por Joseph Goebbels (1897–1945), o “marqueteiro de Hitler”, investiu na acusação de fraqueza para deslegitimar o regime de Weimar.
Foto: Quibik/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0 Alfred Rosenberg.
Outro fator explorado pela propaganda foi o medo das elites perante o fortalecimento do socialismo após 1918, com a Revolução Russa. Até então, muitos analistas, incluindo o próprio Karl Marx, acreditavam que a Alemanha seria o palco da primeira grande revolução socialista, por já contar com uma organização industrial sólida e uma numerosa classe operária.
Outro ponto importante para a propaganda nazista foi o estímulo ao antissemitismo, que já era presente no imaginário europeu desde a Antiguidade. Como a identidade judaica é antes religiosa que política, os judeus se consideram mais pertencentes a uma comunidade irmanada pela fé do que as comunidades nacionais unificadas pela identidade nacionalista. Nesse sentido, o judeu inglês, francês ou alemão tende a se considerar mais judeu do que inglês, francês ou alemão. Esse cosmopolitismo religioso judaico foi visto como uma ameaça à integração e à pureza da “nação alemã”.
BASES DO PENSAMENTO
Assim, podemos dizer que, em termos doutrinários, o nazismo apresenta as seguintes características:
· Discurso ultranacionalista que definiu a nacionalidade alemã como representante de uma raça evolutivamente superior e, por isso, vocacionada à expansão.
· Negação do regime democrático-liberal, acusado de ser fraco e incapaz de resgatar a “grandeza alemã”, que estava sendo comprometida pelas imposições do Tratado de Versalhes.
· Anticomunismo, o que fez com que as elites alemãs, assustadas com o espectro da Revolução Russa, não pensassem duas vezes antes de apoiar o partido nazista.
· Antissemitismo, por considerar o cosmopolitismo religioso judeu uma ameaça à “pureza” da nacionalidade alemã.
· Uma eficiente máquina de propaganda em massa, baseada na narrativa de que a história alemã era a história do conflito com os “outros”, e que o que estava em jogo nesse conflito era a sobrevivência e a pureza da pátria.
Combinando todos esses fatores, somados à percepção da sociedade alemã de que o governo democrático não seria capaz de superar os efeitos da derrota na Primeira Guerra Mundial, a década de 1920 foi marcada pela ascensão política meteórica do Partido Nazista. Em pouco tempo, Hitler deixou de ser uma figura caricata, alvo de piadas em jornais e folhetins, e se tornou a principal liderança política do país.
Após a tentativa de golpe frustrada em 1923, que levou Hitler à prisão por um ano, o Partido Nazista foi se acomodando às regras do jogo eleitoral, e assim foi corroendo a democracia por dentro. Em 1930, Hitler assumiu o cargo de chanceler, uma espécie de primeiro-ministro. Em 1933, após a morte do presidente Paul von Hindenburg (1847-1933), Hitler se tornou o ditador supremo da Alemanha, o Führer. O resultado para a Alemanha e para o mundo já é bastante conhecido.
A trajetória histórica do fascismo na Itália guarda algumas semelhanças com o caso do nazismo europeu, mas existem também diferenças que precisam ser destacadas. No que se refere às semelhanças, podemos destacar, a partir da leitura dos estudos desenvolvidos pelo cientista político italiano Edda Saccomani:
Foto: Ras67/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0
Nacionalismo agressivo: tal como aconteceu na Alemanha, a Itália também se construiu como nação unificada no século XIX, em um processo político marcado por intensa agitação militar.
 Reunião do partido nazista em Nurembergue em 1936.
Tal como Hitler, Benito Mussolini também se fortaleceu liderando um sentimento crítico ao liberalismo político, acusado de ser fraco e potencialmente corrupto. O fascismo italiano, assim como o nazismo alemão, defendia que a representação política deveria acontecer fora dos canais legislativos estabelecidos pelo liberalismo político. O chefe seria o único capaz de representar o povo, por meio de uma relação direta e não mediada.
 Benito Mussolini durante a marcha sobre Roma em 28 de outubro de 1922.
Foto: Diretor/Wikimedia commons/Domínio Público
As semelhanças entre Hitler e Mussolini não param por aí. Ambos foram militares, lutaram na Primeira Guerra Mundial e construíram suas trajetóriaspor dentro da democracia liberal, concorrendo a eleições e ocupando cadeiras no legislativo.
 Adolf Hitler e Benito Mussolini em Munique, na Alemanha.
UNIÃO E DISSEMINAÇÃO DE UM MODELO
Foto: RiccardoP1983/Wikimedia commons/Domínio Público A assinatura do Pacto de Aço em 22 de maio de 1939 em Berlim.
Essas semelhanças levaram a uma aliança entre Alemanha e Itália, firmada em maio de 1939, no acordo que ficou conhecido como “Pacto de Aço”. Por outro lado, a questão racial, especialmente o antissemitismo, não foi central para o fascismo italiano, intensificando-se mais depois da consolidação da aliança com a Alemanha. Outra diferença importante se refere ao peso da Primeira Guerra Mundial, que não foi tão grande para a ascensão de Mussolini como havia sido para Hitler.
Já as relações com o comunismo foram ainda mais tensas na Itália fascista do que foram na Alemanha nazista, e isso se explica pelo fato de que o próprio Mussolini começou sua trajetória política no partido socialista. O partido fascista disputou as mesmas bases sociais com o partido socialista: os trabalhadores urbanos organizados em sindicatos, que foram cooptados pela estrutura burocrática do Estado fascista.
Se, na Alemanha nazista, a perseguição nazista aos comunistas se deu pelo temor de que pudesse acontecer uma revolução socialista no país, na Itália, isso aconteceu, também, devido à disputa política direta entre fascistas e comunistas pela mesma base social.
Outra diferença importante se dá no plano da sistematização doutrinária. Enquanto o nazismo não chegou a produzir um tratado de definição teórica, o fascismo foi mais cuidadoso nesse sentido. O livro A doutrina do fascismo, escrito por Mussolini e pelo filósofo Giovanni Gentile (1875–1944), foi publicado em 1932. A doutrina fascista nega o individualismo, que é uma das principais invenções conceituais da Modernidade, como vimos na primeira parte de nosso estudo.
PODEMOS PENSAR QUE ESTE É O SÉCULO DA AUTORIDADE, UM SÉCULO DE DIREITA, UM SÉCULO FASCISTA; SE O SÉCULO XIX FOI O SÉCULO DO INDIVIDUALISMO (LIBERALISMO SEMPRE SIGNIFICA INDIVIDUALISMO), PODEMOS PENSAR QUE ESTE É O SÉCULO DO COLETIVISMO E, PORTANTO, O SÉCULO DO ESTADO.
(GENTILE; MUSSOLINI, 2019, p. 23)
O principal adversário ideológico do fascismo é o liberalismo individualista. A célula social básica para o fascismo é a coletividade social, representada, em espírito, pelo líder carismático. Na moralidade fascista, o individualismo é sinônimo de egoísmo e tem como resultado a desagregação da sociedade. O ideal, então, seria a coesão social, a partir de critérios definidos pelo próprio Estado, de cima para baixo, pautada em valores gerais como religião, ordem e família. Assim, o Estado teria autoridade para perseguir liberdades individuais, matar e torturar, sempre em nome da “razão coletiva”.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. ASSINALE, ENTRE AS ALTERNATIVAS ABAIXO, AQUELA QUE APRESENTA DA MANEIRA CORRETA AS ORIGENS HISTÓRICAS DO NAZISMO ALEMÃO.
Podemos falar em duas origens históricas: na Idade Média, por conta do fortalecimento da cultura germânica, e no século XIX, em virtude do nacionalismo agressivo protagonizado pela Prússia na ocasião da unificação do Estado alemão.
Podemos falar em duas origens históricas: na Idade Média, por conta do fortalecimento da cultura germânica, e no século XX, por conta dos desdobramentos da derrota na Primeira Guerra Mundial.
Podemos falar em duas origens históricas: no século XIX, em virtude do nacionalismo agressivo protagonizado pela Prússia na ocasião da unificação do Estado alemão, e no século XX, por conta dos desdobramentos da derrota na Primeira Guerra Mundial.
Podemos falar em duas origens históricas: a Antiguidade, em virtude da ocasião das invasões germânicas no Império Romano, e no século XX, por conta dos desdobramentos da derrota na Primeira Guerra Mundial.
Podemos falar em duas origens históricas: a Antiguidade, em virtude da ocasião das invasões germânicas no Império Romano, e no século XIX, em virtude do nacionalismo agressivo protagonizado pela Prússia na ocasião da unificação do Estado alemão.
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2. OS JUDEUS FORAM AS GRANDES VÍTIMAS DA MÁQUINA DE DESTRUIÇÃO NAZISTA QUE FUNCIONOU AO LONGO DOS ANOS 1930. ASSINALE, ENTRE AS OPÇÕES ABAIXO, AQUELA QUE EXPLICA POR QUE OS JUDEUS ESTIVERAM ENTRE OS PRINCIPAIS ALVOS DO NAZISMO.
Os judeus foram as grandes vítimas do nazismo porque eram, em grande parte, operários vinculados ao partido comunista.
Os judeus foram as grandes vítimas do nazismo porque eram, em grande medida, defensores do liberalismo democrático.
Os judeus foram as grandes vítimas do nazismo em virtude de seu cosmopolitismo religioso, que ameaçava o nacionalismo agressivo alemão.
Os judeus foram as grandes vítimas do nazismo porque, em grande parte, eram empresários ricos, e o governo nazista era comunista.
Os judeus foram as grandes vítimas do nazismo porque seu nacionalismo violento se tornou uma ameaça para o cosmopolitismo alemão.
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GABARITO
1. Assinale, entre as alternativas abaixo, aquela que apresenta da maneira correta as origens históricas do nazismo alemão.
O estudante deve saber que, segundo os estudos do cientista político alemão Karl Dietrich Bracher, o nazismo tem duas origens: o nacionalismo agressivo que resultou na unificação da Alemanha ainda no século XIX e o trauma da derrota na Primeira Guerra Mundial, já na década de 1920.
A alternativa "C " está correta.
2. Os judeus foram as grandes vítimas da máquina de destruição nazista que funcionou ao longo dos anos 1930. Assinale, entre as opções abaixo, aquela que explica por que os judeus estiveram entre os principais alvos do nazismo.
A alternativa "C " está correta.
O estudante precisa saber que a identidade judaica é antes religiosa que nacionalista, o que se tornou uma ameaça para o nacionalismo agressivo alemão.
CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS
Estudamos quatro sistemas de pensamento político que, desde o século XIX, inspiram comportamentos políticos de indivíduos e grupos e a própria organização do Estado. Conservadores, liberais, nacionalistas e fascistas deixaram heranças que até hoje se fazem presentes no debate político, ainda que, muitas vezes, não tenhamos consciência disso. Fundamental para nós é estudar esses repertórios e entender que a política é capaz de nos emancipar.
DEFINIÇÃO
Análise da política moderna, da esfera pública, da democracia e da poliarquia considerando as novas mídias.
PROPÓSITO
Compreender o conceito e as origens do regime político democrático e analisar o papel das novas mídias nas formas de vida pública e política contemporâneas.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Identificar as origens da noção de política moderna
MÓDULO 2
Definir a gênese da esfera pública
MÓDULO 3
Reconhecer a relação entre poliarquia e novas mídias
INTRODUÇÃO
A POLÍTICA MODERNA – UMA CONSTRUÇÃO SURGIDA DE QUATRO GRANDES INOVAÇÕES.
Figura 1. Cícero denuncia Catilina, por Cesare Maccari
O conceito contemporâneo de política, e a própria política moderna, tal como é praticada pela maior parte dos países atualmente, envolve quatro inovações ou quatro origens:
	A inspiração no ideal de democracia grega.
	A tradição republicana clássica e moderna.
	A instituição da representatividade.
	A lógica da igualdade como ideia impulsionadora da construção do sufrágio universal
 Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal
Esse conjunto de práticas, ideias e valores resultante de cada uma dessas origens produziu as inovações institucionais que formam as nossas modernas democracias. Todas essas diferentes origens, mescladas entre si no mundo moderno, dão forma à realidade política que vivemos.
Outra dimensão de grande importância, diretamente relacionada ao mundo das democracias modernas, é a emergência da esfera pública, não apenas ao se pensar o público, o comum, mas também a ideia de publicidade, da visão e da expressão do que é público. Recentementealguns teóricos começaram a pensar a poliarquia, um sistema mais igualitário ou com um melhor funcionamento da representatividade. Várias garantias institucionais desse modelo estão relacionadas ao papel da mídia, como veremos nos módulos a seguir.
MÓDULO 1
Identificar as origens da noção de política moderna
A CONSTRUÇÃO DO CONCEITO DE POLÍTICA
Figura 2. A Escola de Aristóteles, por Gustav Adolph Spangenberg
Durante a segunda metade do século XX, a democracia se tornou um regime político extremamente popular. Da mesma forma, as repúblicas passaram a ser uma das mais recorrentes imagens de bom governo ou governo equilibrado. A participação popular e as demandas do coletivo em função da política são outra característica. Essa construção é histórica, e a contemporaneidade política do conceito passa necessariamente por seus reconhecimentos. Sendo assim, passamos agora a buscar o entendimento da formação histórica da nossa ideia de política.
A maioria dos regimes se autoproclama democrático, e mesmo regimes ditatoriais se apropriaram de uma parte ou outra da linguagem democrática como forma de legitimar seu poder. Apesar da expansão sem precedentes na adoção do termo democracia para designar os regimes políticos, o termo passou a corresponder a uma ideia popular vaga. Assim, vale a pena começar este tema perguntando: o que significa politicamente a palavra democracia no mundo contemporâneo?
A noção contemporânea de democracia carrega os principais elementos da linguagem e da institucionalidade da política moderna. Para compreendermos o seu significado de modo mais profundo e amplo, é necessário entender que essa forma política é uma mistura de ideias, experiências, instituições e práticas que se formaram ao longo de mais de dois mil anos de história. Com o objetivo de tornar a compreensão dessa longa história mais acessível, podemos dizer que as democracias modernas têm quatro origens históricas, das quais passaremos a tratar.
A DEMOCRACIA DA GRÉCIA CLÁSSICA
Há cerca de dois mil e quinhentos anos (no século V a.C.) ocorreu uma grande transformação entre os gregos antigos na sua forma de se organizar. Muitos estudiosos marcaram esse importante momento, essa mudança profunda de mentalidade como a invenção da política. A História trata esse momento como uma transição importante de modelos palacianos – representados por lideranças familiares – para modelos políticos, adotados pela interação entre grupos aristocráticos diversos. A demokratia ateniense não foi a única, mas é a que foi recuperada mais recorrentemente, transformando-se em um ícone ocidental e fundamento desse modelo político.
DEMOKRATIA
A demokratia ateniense continuava a ser aristocrata. A minoria absoluta dos habitantes da cidade tinha direito à cidadania. Conceitualmente, ampliou-se a possibilidade de participação, mas recorrentemente os grupos locais precisavam pressionar pelo direito à cidadania, como os soldados durante os conflitos com outras póleis.
Este ponto é muito importante: o passado não é uma reminiscência, algo que fica e nos marca por ser muito importante no passado, mas sim um discurso, uma constante reinvenção.
Portanto, o que foi vivido nas póleis da sociedade grega clássica é importante não pelo que aconteceu, mas por ter sido considerado um evento muito emblemático e repetido por muitas sociedades ao longo da história. Podemos afirmar que a ideia de Ocidente passa pela admiração e reinvenção daquilo que aconteceu na Grécia. Leve essa informação com você para fazer todo o trajeto histórico sobre política.
Fonte: WikipediaFigura 3. Heitor adverte Páris por sua suavidade e exorta-o a ir à guerra, por Johann Heinrich Wilhelm Tischbein
O que ocorreu nesse período foi a invenção de uma forma de governo que até então era incomum. Predominavam governos compostos por reis ou famílias, que muitas vezes se comparavam a deuses (como no caso do Egito Antigo) ou acreditavam ter origens divinas, ou por tiranos (indivíduos que governavam segundo sua vontade, sem nenhuma restrição) e aristocratas (conselheiros de chefes guerreiros).
No século V a.C., os gregos inventaram uma nova forma de organizar o poder: a maioria dos homens livres e adultos podia decidir os assuntos mais relevantes de sua comunidade e escolher aqueles que exerceriam cargos importantes na direção da cidade-estado. A essa forma de organização política deu-se o nome de “democracia”, que em grego significa “governo do povo” ou “governo popular”.
Fonte: WikipediaFigura 4. O Parthenon, na Acrópole de Atenas
A democracia era baseada em duas importantes ideias que possuem forte influência até os dias atuais: a isegoria (o direito igual de fala para todos os cidadãos nos debates sobre os assuntos políticos) e a isonomia (igualdade de todos os cidadãos perante a lei – ideal que ainda encontra eco nos Estados democráticos de direito modernos). É elemento importante o fato de que esse modo de governo não legitimava seu poder de forma mágico-religiosa (ou seja, a religião não exercia autoridade nem tornava o poder legítimo). Também não era comum a todos aqueles povos antigos que conhecemos por gregos, mas tornou-se o modo particular de governo de uma cidade independente chamada Atenas. Sobre a democracia ateniense, é importante sabermos que:
	O número de participantes era muito restrito: tratava-se de uma cidade muito menor do que as cidades modernas. Além disso, seus cidadãos (os homens adultos e livres) eram poucos com relação à população geral.
	Apenas homens adultos e livres eram considerados cidadãos, a democracia ateniense excluía mulheres, estrangeiros e escravos – que eram a maior parte da população. Além disso, apenas os filhos de cidadãos atenienses eram considerados cidadãos (filhos de mães atenienses com estrangeiros não contavam nessa categoria).
	A participação dos cidadãos nos assuntos públicos e nos cargos políticos existentes era toda decidida e exercida em reuniões públicas (assembleias). Isso reduzia o espaço dessa forma de organização a apenas uma pequena cidade, como era o caso de Atenas nos tempos da antiguidade clássica.
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É importante destacarmos estas três características da democracia grega para compreendermos o quanto ela se distingue das atuais democracias:
	Era restritiva quanto ao direito de cidadania, que era concedido apenas a homens e excluía mulheres, estrangeiros e escravos.
	Era restrita ao pequeno território de uma cidade (ao contrário das democracias contemporâneas que cobrem populações de países inteiros).
	Era restrita a interesses homogêneos, os cidadãos tinham interesses, objetivos e mentalidades muito próximos (ao contrário das democracias contemporâneas, que tendem a ser mais conflituosas em função da sua heterogeneidade, ou seja, das diferenças de interesses, objetivos e mentalidades).
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Podemos dizer que a democracia ateniense era uma democracia restritiva se comparada às democracias modernas. Essa característica foi responsável por sua breve existência: essa experiência durou menos de duzentos anos, e os atenienses foram dominados e absorvidos por povos que possuíam formas de organização política que agregavam populações maiores e governavam territórios mais amplos.
A TRADIÇÃO REPUBLICANA
De todas as fontes de origem dos ideais, valores, princípios e instituições que inspiram nossas democracias modernas, a mais longa, diversificada e rica é, sem dúvida, a tradição do pensamento republicano. Rica em experiências, formas institucionais e elaboração jurídico-filosófica, é uma tradição que surge no auge da antiguidade clássica e reaparece com força na Europa da Idade Moderna.
Fonte: WikipediaFigura 5. Alto-relevo de Políbio no Museu da Civilização Romana
Apesar de ter seus primeiros vestígios no seio da cultura grega clássica, podendo ser vinculada à crítica democrática, à teoria das formas de governo do filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) e à ideia de governo misto do historiadorgrego Políbio (200-120 a.C.), a tradição republicana não deve suas origens à democracia grega. Filosoficamente, a concepção polibiana de governo misto ilustra bem as formas institucionais e as relações de governo da maior parte das experiências clássicas do republicanismo: a necessidade de representar todas as formas clássicas de governo em uma só para produzir um governo de grande estabilidade e ordem.
A CONCEPÇÃO DE POLÍBIO SOBRE UM REGIME MISTO
Para a tradição grega clássica, a política era uma arte e, por isso, tema recorrente nos embates públicos da ágora – espaço público do encontro dos cidadãos na Grécia. Os regimes de governo eram tema de debates intensos, principalmente em Atenas, abordando frequentemente a questão da superioridade do modelo aristocrático ou democrático, além da persistente crítica à tirania. Todos esses modelos comumente implementados em cidades gregas.
O modelo de governo misto proposto por Políbio procurava conciliar a ampliação da participação política, característica dos regimes democráticos, com a necessidade de se preservar o poder nas mãos de indivíduos capazes e experientes, que acreditava ser uma vantagem das aristocracias.
De maneira simplificada, é como se o governo misto juntasse a democracia (governo do povo), a aristocracia (governo dos melhores) e a monarquia (governo de um rei) numa mesma forma de governo. Em tese, isso eliminaria os defeitos e as instabilidades de cada uma das formas descritas, seus riscos de degeneração e desequilíbrio, produzindo uma forma de governo estável, equilibrada e ordenada.
 SAIBA MAIS
Para termos uma ideia clara do que significa essa tradição, precisamos atentar que nos notórios movimentos intelectuais da modernidade – Renascimento e Iluminismo – as teorias filosóficas sobre a República – gregas e romanas – foram relidas e influenciaram toda a imensa corrente de filósofos políticos que enriqueceram a tradição republicana nos tempos modernos: Nicolau Maquiavel (1469-1527), John Locke (1632-1704), Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), Montesquieu (1689-1755) e Immanuel Kant (1724-1804), por exemplo. Também inspiraram pensadores políticos e homens de Estado que tiveram fundamental importância na gestação dos republicanismos constitucionais inglês e americano entre os séculos XVII e XVIII, como o inglês John Harrington (1561-1612) e federalistas estadunidenses, como Alexander Hamilton (1755-1804), John Jay (1745-1829) e James Madison (1751-1836).
Figura 6. Origem da República Romana, por Casto Plasencia
Historicamente, a tradição republicana se “encarnou” na República Romana (entre os séculos VI e I a.C.), nas cidades-estados renascentistas de Veneza e Florença (entre os séculos X e XVIII) e na Inglaterra e nos Estados Unidos (séculos XVII e XVIII). Institucionalmente, sua grande inspiração foram as instituições da República romana clássica que ilustram também a ideia de governo misto: o poder popular tinha espaço através da magistratura dos tribunos da plebe, os aristocratas exerciam funções no Senado, a função monárquica do governo era exercida pelos cônsules.
Desse modo, o povo e os aristocratas participavam do governo, e estavam amalgamadas as três formas clássicas de governo: a democracia (representada pelos tribunos da plebe), a aristocracia (representada pelo Senado) e a monarquia (representada pelos cônsules). Tanto a cidade renascentista de Florença como a cidade de Veneza (recordada por ter mantido um regime republicano que durou centenas de anos) tinham instituições semelhantes e foram referências de governos mistos para os pensadores republicanos modernos.
Essa breve exposição da tradição republicana e da noção de governos mistos pode lembrar bastante as democracias modernas – sobretudo aquelas que são repúblicas federativas presidencialistas – como é o caso do Brasil e dos Estados Unidos da América. Mas é importante notar três grandes diferenças entre a história e as ideias da tradição republicana e a vida política das democracias contemporâneas:
	As repúblicas de governos mistos tinham que lidar com dois grupos de interesse opostos, mas homogêneos: o povo e a aristocracia. O mundo contemporâneo possui uma multiplicidade de grupos de interesses muito mais complexa.
	Os governos mistos tinham cargos que eram populares e aristocráticos, ocupados, respectivamente, por aqueles que eram oriundos de cada um desses grupos: um plebeu nunca se tornava senador no mundo da República romana. O Senado era reservado somente aos aristocratas nascidos de famílias antigas e poderosas. Tal situação se repetiu em outras repúblicas históricas, como as de Florença, Veneza e Inglaterra dos séculos XVII e XVIII.
	A participação pública, por meio de cargos e magistraturas importantes, era limitada a uma cidade central: não existia uma cidadania nacional como a das democracias modernas. O cidadão da República romana era somente o romano nascido em Roma de famílias romanas, o mesmo ocorria em Florença, Veneza e Inglaterra dos séculos XVII e XVIII.
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SENADO
Nas repúblicas ocidentais influenciadas pelos modelos europeus iluministas, ainda é recorrente encontrarmos Senados – como no Brasil e nos Estados Unidos – ainda que com funções e características diversas.
Podemos dizer que as democracias contemporâneas são mais democráticas que as repúblicas antigas e modernas. Além disso, elas possuem uma institucionalidade capaz de representar muito mais que apenas dois interesses opostos (povo versus aristocracia). Mas o que queremos dizer aqui com representação de interesses? Trataremos disso a seguir ao abordarmos a terceira fonte de origem das democracias contemporâneas.
O GOVERNO REPRESENTATIVO
NO TAXATION WITHOUT REPRESENTATION!
Essa sentença – traduzida para o português como: “Não pagaremos impostos se não tivermos representação!” – foi o slogan de uma das mais importantes revoluções dos tempos modernos: a Revolução Americana (1776-1783).
O que nos interessa aqui não são propriamente os acontecimentos, cenários e personagens dessa história, mas a invenção do governo representativo. Ao falarmos da democracia grega e da tradição republicana, observamos como suas origens e práticas históricas tiveram a limitação de serem localizadas em territórios muito pequenos: centralizados em apenas uma cidade (Atenas, a cidade de Roma, Florença, Veneza etc.).
Fonte: WikipediaFigura 7. Washington atravessando o Delaware, por Emanuel Leutze
Mesmo na Inglaterra, com a invenção de um Parlamento (dividido a princípio em Câmara dos Lordes – ocupada pelos aristocratas – e a Câmara dos Comuns – ocupada por aqueles que não tinham origem familiar na nobreza britânica), a participação era reduzida apenas aos habitantes da grande cidade que era Londres no século XVII. Desse modo, não eram todos aqueles que viviam sob o governo londrino – o governo inglês da época – que podiam participar das grandes decisões tomadas no Parlamento. Muitas dessas decisões eram relativas aos impostos cobrados, aos preços das mercadorias etc. E com o advento da Câmara dos Comuns, muitos negociadores, investidores e comerciantes (que não vinham de famílias nobres) passaram a tomar parte nessas decisões econômicas que os afetavam.
Fonte: WikipediaFigura 8. William Pitt discursando na Câmara dos Comuns sobre a eclosão da guerra com a Áustria, por Karl Anton Hicke
Antes da invenção da Câmara dos Comuns, era corriqueiro que a realeza e os nobres aumentassem os impostos sobre esses grupos mercantis e de negociadores para seus próprios fins. Ao tomarem parte nas decisões públicas, essa nova classe de comerciantes e negociantes prósperos passou a ter a capacidade de proteger seus próprios interesses. Mas isso se resumia apenas aos prósperos comerciantes e homens de negócio da grande cidade de Londres, não a todos aqueles que viviam sob o governo da recém-criada monarquia parlamentar inglesa.
Assim, eram poucos os que, sob o domínio do governo londrino, tinham meios de defender seus interesses: sendo que aqueles que viviamnas longínquas colônias do nordeste da América do Norte sequer tinham suas vozes ouvidas no recém-criado Parlamento de Londres.
O Parlamento inglês aberto aos “comuns” foi produto de um intenso conflito ocorrido na Inglaterra do século XVII, marcado por uma guerra civil – a Revolução Inglesa (1640-1651) –, uma ditadura – o período do Protetorado (1653-1659) – e uma ampla conciliação entre os grupos em conflito durante a Revolução Gloriosa (1688-1689). Esta última é chamada assim por ter transformado as instituições políticas sem guerra ou conflito sangrento: esse acordo entre as partes, que fez cessar o conflito, deu origem ao Parlamento e à Constituição moderna da Inglaterra.
Durante o período de 1640 a 1689, as longínquas colônias do nordeste da América do Norte se viram esquecidas por seus governantes, absorvidos nos conflitos mencionados. Elas edificaram uma vida bastante próspera e mais igualitária entre homens e mulheres brancos do que a realidade europeia do outro lado do Oceano Atlântico (não tão igualitária: lembremo-nos de que em alguns lugares dessas colônias, mas não em todos, existia a brutal escravidão negra – como houve no Brasil, na mesma época).
Não era um mundo perfeito, mas havia mais prosperidade – e menos luxo – do que na Europa da época, apesar das grandes desigualdades existentes. Durante essas décadas de abandono relativo dos assuntos coloniais por parte dos interesses britânicos, os colonos do norte da América puderam se autogovernar com um nível de autonomia muito grande para a época.
Com o fim dos conflitos ingleses, o governo britânico começou a reorganizar seus interesses nas suas colônias do outro lado do Atlântico mediante taxações e outras intervenções nos assuntos das colônias. Entretanto, seriam as taxações diretas sobre mercadorias como o chá (Lei do Chá, de 1773), o açúcar (Lei do Açúcar, de 1764) e sobre documentos impressos (Lei do Selo, de 1775), que taxava em moeda britânica revistas, jornais, documentos oficiais e outros materiais impressos pelos colonos americanos, que inflamariam o ânimo dos colonos.
Fonte: WikipediaFigura 9. Festa do Chá de Boston, de autor desconhecido
Tais taxações – entre outras – eram consideradas abusivas para os colonos da América do Norte, que viam isso como uma situação injusta por não terem seus interesses representados no Parlamento britânico. Daí o slogan da Revolução Americana ter sido “No taxation without representation” – ou seja, tratava-se inicialmente de uma exigência por representação no Parlamento britânico em função das taxações serem vistas como ilegítimas na ausência de uma representação colonial.
Fonte: WikipediaFigura 10. Assinatura da Constituição dos Estados Unidos, por Howard Chandler Christy
O desenvolvimento desse conflito culminou com a Independência Americana. Contudo, a demanda por representação por parte dos colonos americanos foi uma experiência que os influenciou a produzir uma forma de governo que levasse em conta a representação como um fator de grande importância. Desde a convenção que deu origem à Constituição americana (1787) até o modo como foi configurado o governo pós-independência, a representação teve um papel central e extremamente inovador na história da política moderna. A prática moderna de populações elegerem representantes que agem como mediadores de seus interesses na condução dos assuntos públicos, em um país de grandes proporções (a princípio apenas nas treze colônias originais), foi uma contribuição legada ao mundo moderno pelos nascentes Estados Unidos da América.
Outro elemento importante oriundo da experiência política estadunidense desse período foi a subordinação do poder militar à autoridade presidencial eleita e de natureza civil, aspecto que ganharia bastante importância em todas as democracias constitucionais modernas. Porém, devemos lembrar que a representação por voto nos Estados Unidos era bastante limitada em suas origens.
Apesar da representação americana ter sido, historicamente, um elemento inovador nas práticas de governo e um diferencial com relação à tradição republicana europeia, ela padecia de grandes limitações quando comparada às nossas democracias modernas por três motivos centrais:
	Tratava-se de uma lógica de representação restritiva, pois apenas homens brancos livres, proprietários de terras e alfabetizados podiam eleger seus representantes. Essas características designam o que chamamos de voto censitário: por estipular critérios que restringem o nível de participação política das populações.
	Os votos eram por distritos e não por pessoa. A lógica de que cada pessoa corresponde a um voto não era aplicada.
	A lógica do voto censitário não permitia que negros e mulheres votassem. Eles eram, portanto, excluídos do “governo representativo” dos Estados Unidos.
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Ao longo dos séculos, a representação e o direito ao voto nos EUA foram ampliados em um longo processo de conflitos e pressões por grupos diferentes da sociedade civil. Mas foi apenas em 1965 que o direito ao voto universal (aberto a todos e sem nenhuma restrição) foi adotado nos Estados Unidos.
Podemos dizer, como frisamos anteriormente, que as desigualdades existentes nos Estados Unidos na época da fundação de seu sistema de governo representativo restringiam bastante as suas inovadoras práticas de representação. A relação entre interesse e representação era demasiado restritiva. Essas restrições relativas à igualdade de todos os cidadãos no exercício da cidadania, do direito de voto e de, portanto, ter seus interesses representados na esfera dos assuntos políticos e no governo nos levam à quarta origem das democracias contemporâneas: a lógica da igualdade.
A LÓGICA DA IGUALDADE
Tal como as três origens distintas das democracias modernas que abordamos anteriormente, a lógica da igualdade tem sua própria história e não se vincula àquela da tradição democrática grega, nem da tradição republicana e nem da invenção da representação. Suas origens são modernas e podem ser reconduzidas ao humanismo e aos movimentos puritanos do século XVI que ressignificaram todo um conjunto de ideias religiosas.
O humanismo clássico teve o papel de trazer para a cultura europeia do século XVI o homem para o centro dos debates da época, relegando as discussões teológicas para um segundo plano, como afirma Skinner (1996). Foi do seio do humanismo clássico que surgiram as discussões filosóficas sobre tolerância religiosa e da dignidade humana como valor civilizacional de importância.
Fonte: WikipediaFigura 11. Retrato de Erasmus de Roterdã, o “príncipe dos humanistas”, por Quentin Matsys
Já o puritanismo teve um papel fundamental nos movimentos religiosos e políticos do século XVII ao trazer para a linguagem político-religiosa da época a ideia de igualdade dos homens perante Deus. As ideias religiosas de igualdade entre os homens pregadas pelos puritanos tiveram bastante impacto na Inglaterra e nos Estados Unidos e influenciaram muitos movimentos políticos entre os séculos XVII e XVIII.
Mas uma outra corrente filosófica teve uma influência mais radical nesse processo de defesa da igualdade entre os homens: o Iluminismo. Movimento intelectual de grande abrangência na Europa (Inglaterra, Países Baixos, Itália, Alemanha e, principalmente, França), o Iluminismo trazia em sua bagagem uma forte crítica ao Antigo Regime, ao clero e ao obscurantismo, forças que submetiam a maioria dos homens ao poder de poucos: os aristocratas e o clero.
Prisão do Palácio das Tulherias, por Jean Duplessis-Bertaux
Na França, as ideias dos filósofos iluministas (principalmente de Jean-Jacques Rousseau – crítico feroz das desigualdades, tal como podemos ver em sua obra Discurso sobre a desigualdade entre os homens) inspiraram os revolucionários de 1789 e, principalmente, a ala mais radical (os jacobinos) a derrubar o regime monárquico existente. O lema da Revolução Francesa (1789-1799), “Igualdade, Fraternidade e Liberdade”, tinha como inspiração o iluminismo francês.
Acrença iluminista e religiosa da igualdade entre os homens foi uma ideia bastante radical na época, mas teve, num primeiro momento, sua realidade limitada aos homens proprietários frente aos aristocratas que perdiam seus direitos de nascença.
Apesar dos direitos políticos e da cidadania terem se expandido com as revoluções dos fins do século XVIII e início do século XIX, eles ainda excluíam os pobres, as mulheres e, nas Américas, outras etnias, como negros e indígenas.
Seriam os movimentos sufragistas do século XIX que expandiriam o voto e os direitos de cidadania às mulheres e, posteriormente, no século XX, sob a rubrica dos direitos humanos universais, a lógica da igualdade se expandiria a outros povos e etnias. Essas ideias de igualdade tiveram histórias e crenças com fontes distintas, com bases sociais e movimentos diferentes e ocorreram em cada país moderno em épocas diversas. Essa lógica da igualdade formou o que chamamos de sufrágio universal, que é a última característica das democracias modernas abordadas aqui.
Vamos ouvir o professor Rodrigo Rainha aprofundando sobre a questão da Igualdade.
ATENÇÃO
A História não é feita de pilares sólidos sobre o que foi construído no tempo, mas sim no discurso, na construção idealizada. A política contemporânea bebe nessa relação que foi apresentada, não como pilares duros, basilares, e sim na invenção e reinvenção, na construção do valor de cada um desses discursos que constroem uma legitimidade do discurso político.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. POLÍTICA CONTEMPORÂNEA É UMA IDEIA HERDEIRA CONCEITUAL DE IMPORTANTES PROCESSOS HISTÓRICOS. A AFIRMATIVA QUE FAZ A RELAÇÃO CORRETA É:
A Grécia Clássica – ateniense – inaugura a ideia de democracia representativa, em que todos os cidadãos tinham direito à voz.
República é um fenômeno especialmente romano e com base em seus preceitos foi difundido no Ocidente.
A noção contemporânea de política baseia-se em dois pilares históricos fundamentais: república e democracia. Esses pilares são historicamente construídos e reafirmados ao longo do tempo.
A tradição iluminista inaugura princípios de liberdade, igualdade e fraternidade, sendo o mais importante na relação política do século XX.
Parte inferior do formulário
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2. AO IDENTIFICARMOS A TRADIÇÃO ILUMINISTA RELACIONADA À POLÍTICA, PRECISAMOS FALAR EM:
Liberdade, igualdade e fraternidade.
Democracia e república.
A lógica da igualdade.
A representatividade democrática.
Parte inferior do formulário
GABARITO
1. Política contemporânea é uma ideia herdeira conceitual de importantes processos históricos. A afirmativa que faz a relação correta é:
A alternativa "C " está correta.
O princípio contemporâneo da política é entendido como a junção de conjuntos históricos e filosóficos. Destaca-se, nesse processo, a tradição discursiva, adaptada, reformulada, mas recorrente de que os conceitos atuais são tributários dos conceitos de democracia e república.
2. Ao identificarmos a tradição iluminista relacionada à política, precisamos falar em:
A alternativa "C " está correta.
Apesar do valor dado ao lema da Revolução Francesa, o Iluminismo, como movimento intelectual, debatia sobre aspectos diversos da sociedade e entre os conceitos em que se ancoravam e discutiam a igualdade como uma operação intelectual lógica, como fundamento político – para várias direções do movimento – tornando-se a base.
MÓDULO 2
Definir a gênese da esfera pública
A GÊNESE DA ESFERA PÚBLICA
Quando nos debruçamos sobre as quatro origens da política e das democracias modernas, vimos que a participação política na experiência da democracia grega na antiguidade e das repúblicas clássicas era limitada apenas a uma vida em certas cidades centrais. Isso ocorria em função de as decisões e a participação nos assuntos públicos serem privilégio de uns poucos que podiam adentrar espaços bem delimitados.
Esses espaços foram se tornando mais abertos àqueles sem privilégios de nascença, mais “públicos”. A participação física em espaços públicos foi uma grande limitação da experiência republicana ao longo da história, sendo o alargamento da participação política ligado, nos últimos duzentos anos, a um fenômeno singular que trataremos aqui – a gênese da esfera pública.
Esfera pública não é o mesmo que espaço público. Usaremos uma definição de esfera pública que nos ajudará a perceber essa diferença:
ARENA DA DISCUSSÃO E DO DEBATE PÚBLICO NAS SOCIEDADES MODERNAS, PODENDO SER ESPAÇOS FORMAIS E INFORMAIS.
(GIDDENS, SUTTON, 2017)
A definição nos chama a atenção para um ponto: a esfera pública surgiu com a emergência da sociedade moderna – ou seja, não existia antes do século XVI. Isso não quer dizer que ela surge exatamente aí; pelo contrário, ela se desenvolveu nesses últimos quatro séculos até adquirir as características que atualmente podemos destacar. Para compreendermos melhor, analisaremos o principal fator relacionado aos seus primeiros desenvolvimentos: o surgimento de um público leitor.
NEWSLETTERS, SALÕES, CAFÉS E FILÓSOFOS: A EMERGÊNCIA DA ESFERA PÚBLICA CLÁSSICA
O surgimento da esfera pública é singular na história e tal fenômeno se desenvolveu apenas nos últimos quatro séculos. Tem correlação com uma série de invenções técnicas: da tipografia de Gutenberg às novas embarcações que permitiram viagens e comércio pelas regiões “descobertas” do século XVI em diante. Porém, o mais importante disso tudo não foram as invenções tecnológicas apenas, e sim a profunda transformação ocorrida com o surgimento de um público leitor.
GUTENBERG
Johannes Gutenberg (1400-1468) foi o criador da prensa mecânica europeia, invenção que transformou o mundo e ajudou a fundar a Idade Moderna. Sua máquina de tipos multiplicou a produção de impressos, tornando o conhecimento muito mais acessível, sobretudo em relação ao que era quando dependia do trabalho dos copistas.
O QUE SIGNIFICA A EXPRESSÃO PÚBLICO LEITOR?
Um público leitor é uma grande população de leitores – seja de que gênero de texto for. Vivemos em um mundo onde nunca houve um público leitor tão amplo: ideias, informações, sentimentos, percepções, notícias e acontecimentos circulam de forma escrita, podendo ser lidos por massas cada vez maiores de pessoas de um modo inimaginável nos últimos séculos. Esse público discute, comenta e escreve também, expressando-se de modo a conferir ainda mais dinamismo a esse movimento de circulação.
Fonte: bbernard/ShutterstockFonte: bbernard/Shutterstock.
MAS SEMPRE EXISTIU ESSA GRANDE MASSA DE LEITORES?
Fonte: Dayna More/ShutterstockFonte: Dayna More/Shutterstock.
A resposta a essa pergunta é um absoluto não!
Durante a maior parte da história, apenas uma minúscula parcela de pessoas dominava a técnica de ler e escrever: somente uma limitada aristocracia governante e seus funcionários (escribas, secretários etc.) era alfabetizada. A maior parte das pessoas era iletrada e ignorava qualquer forma de conhecimento formal como compreendemos atualmente.
Essa situação só começou a se modificar no século XVI e com o advento do protestantismo no século XVII. Ainda assim, as tipografias, recém-inventadas por Gutenberg, imprimiam sobretudo Bíblias – não jornais, livros e revistas. E mesmo com essa restrição, a Reforma Protestante foi um poderoso agente alfabetizador: como acreditavam que todos os homens eram dotados de uma luz natural e, por isso, capazes de acessar a palavra divina dos Testamentos, tratou-se de alfabetizar as massas conforme o protestantismo se disseminava.
Mas não foi exclusivamente o protestantismo que criou o público leitor moderno, precondição para a formação da esfera pública moderna. Esse fenômeno esteve ligado também a outros fatores, como a criação de novas formas, gêneros e modos de leitura. E as discussões ao redor desses escritos, promovidas em diferentes espaços (formais e informais), desempenharam um papel de grande importância na formação da esfera pública. Abordaremos a seguir diferentes aspectos desse fenômeno, que juntos deram origem à esfera pública.
NEWSLETTERS EPRAÇAS DE COMÉRCIO
As primeiras circulações de periódicos estiveram profundamente ligadas à ampliação das atividades mercantis entre a Europa e outros continentes, aos interesses dos mercadores e às bolsas de valores primitivas que surgiram nas grandes cidades europeias.
Essa necessidade de circulação de notícias estava associada inicialmente à demanda de informação dos grupos de comerciantes e investidores do comércio ultramarino surgida em meados do século XVII. De acordo com Brigs e Burke (2006), nos primeiros jornais desse gênero – surgidos em Amsterdã –, já havia críticas à Igreja e ao governo.
ATENÇÃO
Não existem leitores somente físicos. O espaço das praças de comércio era o local da reunião de muitos leitores de “ouvido”, leitores que multiplicavam a troca dos conhecimentos e, ainda que multiplicassem as informações a partir da força de um senso comum recorrente, faziam a cultura letrada circular. O termo em inglês – clássico entre os estudiosos de comunicação – fundamenta-se na tradição das cartas medievais. Cartas que uma vez recebidas eram lidas de forma pública. Então, quando a prensa, os jornais, os livretos começam a circular, não é possível imaginar a multiplicação automática de letrados, mas sim uma multiplicação efetiva de leitores – em todas as suas formas.
A ESFERA LITERÁRIA
O surgimento de gêneros literários novos como o romance de sentimentos (como A Nova Heloísa, de Jean-Jacques Rousseau) e o romance de formação (como Os anos de aprendizado do Jovem Wilhelm Meister, de Johann Wolfgang Goethe), de ampla circulação no século XVIII entre a população letrada, estimulou novas formas de identificação entre os leitores.
Fonte: WikipediaFigura 15. Edição de 1795 de Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, de Johann Wolfgang von Goethe
Por se identificarem com os personagens, os leitores sentiam empatia por eles para além da língua, classe social, sexo e país. Também foram importantes no sentido de formarem uma ideia geral e compartilhada de que as pessoas eram semelhantes em função de seus sentimentos íntimos, estimulando bastante uma noção sentimental de um senso de igualdade no público leitor de romances.
Entre os séculos XVII e XVIII, foi extremamente comum a formação de círculos literários nos salões das casas de senhoras abastadas, que reuniam pessoas em discussões sobre esses livros e promoviam debates e reflexões que abarcavam a vida cotidiana, a realidade sentimental e a noção de igualdade produzida pela leitura desses escritos.
Mais uma vez, devemos notar a maturação de longos processos históricos que se reproduzem na construção dessa esfera literária. Era comum, nas cortes e depois nas ruas, a reunião para ouvir os contadores de história. São famosos na literatura das tabernas e guardavam de cabeça as histórias rimadas e as multiplicavam. O mundo dos séculos XVIII e XIX era cada vez mais urbano, mais cheio de gente e informação, porém, as heranças ficaram. Agora eram os leitores públicos, os leitores de jornais, os jovens e tropeçadores leitores. No Brasil, livros famosos saíam em capítulos em séries de jornal; na França, alguns livretos muito picantes – como o de Marquês de Sade (1740-1814) – multiplicavam-se e faziam crescer o interesse pela leitura.
TROPEÇADORES LEITORES
O termo utilizado na alfabetização foi fortemente ampliado para estudantes que não conseguem reconhecer a ideia principal de um texto ou relacioná-lo com conhecimentos próprios. Então acabam lendo manchetes, fazendo leituras gerais, parciais ou que não geram plena compreensão.
AS IDEIAS FILOSÓFICAS E POLÍTICAS – CLUBES, CAFÉS E SALÕES
Fonte: WikipediaFigura 16. No salão de Madame Geoffrin, por Anicet Charles Gabriel Lemonnier
A ampla circulação de livros entre os grupos letrados da Europa moderna, principalmente no século XVIII, deu origem a espaços informais de discussão e associações que se expandiriam para além da lógica dos salões literários: as discussões ao redor de tratados filosóficos e políticos (gênero filosófico propriamente moderno) e de troca de opiniões sobre os acontecimentos fermentaram com grande força em países como a Inglaterra e a França.
Na Inglaterra, alguns dos primeiros jornais ingleses, como o Spectator, que começou a ser publicado em 1711, tinha como objetivo explícito trazer a Filosofia para fora das instituições acadêmicas a fim de ser tratada em clubes, assembleias, mesas de chá e cafés. O caso da França também é emblemático quanto a esse fenômeno – sendo o iluminismo francês extremamente importante para sua compreensão.
A Luz da Razão, – palavra-chave da época, utilizada para se opor à tradição, à fé, à superstição e ao preconceito – associada à noção de crítica (utilizada como forma de problematizar os excessos e abusos dos governos monárquicos e da Igreja católica francesa), teve um papel fundamental na criação da linguagem que formaria a ideia de público na França da época.
Eles se consideravam homens de letras e são vistos por muitos como os primórdios do intelectual público moderno, no sentido de serem os primeiros intelectuais independentes de patronos e por terem sido agentes engajados em promover um debate amplo sobre os assuntos públicos referente aos regimes sob os quais viviam. Difundiram suas ideias na França e fora dela para homens e mulheres, apesar de terem pouca intenção de atingir o povo.
. François-Marie Arouet de Voltaire, por Nicolas de Largillière
HOMENS DE LETRAS
O papel central desse movimento foi desempenhado por um conjunto de pensadores franceses chamados philosophes (filósofos, em francês), e entre esses personagens destacam-se Voltaire (1694-1778), Rousseau (1712-1798), Diderot (1713-1784) e D’Alambert (1717-1783).
As monarquias e os governos da época impunham uma forte censura aos escritos filosóficos (esta era menor na Inglaterra porque, após o período revolucionário de 1640 a 1688, criou-se um ambiente de maior tolerância e ampliação dos debates acerca dos assuntos de governo em função da criação do Parlamento), uma vez que estes eram considerados subversivos, ou seja, afetavam a ordem estabelecida por promoverem a agitação e o descontentamento.
Esse fator fez com que a discussão sobre esses escritos e ideias permanecesse fora dos ambientes formais, tornando extremamente importante a cultura oral dos cafés, clubes, associações e salões (encontros organizados por senhoras aristocráticas para promover debates com intelectuais). Além disso, a censura estimulava uma circulação extremamente importante de correspondência privada entre intelectuais de diferentes nações da Europa, o que foi um poderoso fator de circulação das ideias políticas da época.
OS PRIMEIROS JORNAIS
Muitos dos primeiros jornais, mais parecidos com o que chamamos por esse nome atualmente, surgiram no século XVIII e eram derivados dessa efervescente cultura dos cafés, salões e clubes surgida em meados do século XVII. A princípio, não eram grandes veículos de discussões políticas diretas, tratavam de manifestações artísticas (peças de teatro, literatura), publicavam contos, retratavam acontecimentos da vida cotidiana europeia, curiosidades etc.
O conteúdo dessas manifestações pode parecer um tanto trivial, contudo, seus editores demandavam de seus leitores uma ampla participação: pedindo que cartas com opiniões sobre todos esses assuntos fossem enviadas, sendo a maioria publicada. Isso estimulava uma cultura de troca de opiniões, um ambiente cultural de debate diversificado e fazia com que os jornais tivessem uma função de fóruns de discussão.
Fonte: WikipediaFigura 18. A Liberdade guiando o povo, por Eugène Delacroix
Já os acontecimentos políticos ganhariam destaque com os eventos efervescentes da Revolução Francesa: pelo menos 250 jornais foram fundados nos últimos seis meses do ano de 1789 na França. O ambiente político tumultuado do fim do século XVIII e da maior parte do século XIX (marcado por guerras, revoluções e movimentos populares de todo tipo) não somente estimulou os jornais a tratar os acontecimentos políticos, mas também uma cultura de panfletos de associaçõese movimentos sociais dos mais diversos: operários, sufragistas (defensores da ampliação do direito de voto) etc.
Todos esses fatores foram fundamentais para emergência do que chamamos de esfera pública. Apesar de seu desenvolvimento ter sido iniciado em ambientes informais (cafés, salões, clubes e associações) em função da censura dos governos monárquicos da época, o período de revoluções (Revolução Inglesa, Revolução Americana, Revolução Francesa e as Revoluções de 1830 e 1848) foi transformando a realidade política mais centralizada, fechada e aristocrática em formas políticas, republicanas e democráticas mais abertas. Assim, houve a ampliação da esfera de debates, opinião e discussão sobre os assuntos políticos, sociais e culturais, formando, portanto, as bases da esfera pública moderna.
Os debates que eram reservados apenas às discussões orais em ambientes informais ampliaram sua circulação por meio de jornais, revistas e periódicos de todos os tipos, podendo ser acessados por um grande público e discutidos nos mais diversos espaços sociais. Essa esfera, abstrata por ser discursiva (independente do meio pela qual se propaga) e se situando no espaço onde discussões e debates ocorrem (formais ou informais), é o que chamamos de esfera pública – sendo que a sua formação teve uma imensa influência e importância para o desenvolvimento das democracias como as conhecemos atualmente.
No século XIX, a esfera pública se opõe à esfera íntima, espaço da intimidade e da privacidade, ou seja, a dimensão das relações íntimas, da família, dos sentimentos pessoais. Por muitas décadas tratava-se de duas esferas distintas e rigidamente separadas. Atualmente, poderíamos dizer que as fronteiras entre elas se tornaram muito mais difusas. Além disso, com a multiplicação de novas mídias para além do texto impresso em função da multiplicação de novas tecnologias comunicacionais no século XX (primeiro o rádio, depois a televisão, e no final do século XX a internet), pode-se dizer que emergiram novas arenas constituintes da esfera pública.
Do mesmo modo, pode-se dizer que dos séculos XVIII e XIX aos séculos XX e XXI, ocorreu uma transformação na esfera pública muito grande com o surgimento da mídia de massa, que profissionalizaria todas as etapas de produção técnica da comunicação, formando grupos comerciais de comunicação, entre outros. Para muitos estudiosos da esfera pública, da mídia e da teoria da comunicação, tal mudança causou grandes transformações na esfera pública do século XX aos dias atuais.
HABERMAS E O DEBATE CONTEMPORÂNEO SOBRE A ESFERA PÚBLICA
Fonte: WikipediaFigura 20. Jürgen Habermas em 2007
No que se refere aos debates contemporâneos sobre a esfera pública, um trabalho de grande influência no tema foi a análise do filósofo alemão Jürgen Habermas no texto Mudança estrutural da esfera pública (1962). Nessa obra, Habermas preocupa-se em reconstituir a gênese histórico-sociológica da esfera pública e percebe que, em suas origens, ela envolvia a reunião de indivíduos igualitariamente como em um fórum para o debate público. Esse período inicial de desenvolvimento da esfera pública é chamado por Habermas de esfera pública burguesa.
Entretanto, em sua perspectiva, essa promessa inicial de desenvolvimento da esfera pública não se cumpriu: a emergência da mídia comercial, com uma linguagem de massa e baseada no entretenimento, teria feito a esfera pública definhar gradualmente.
Pela mídia comercial ser prisioneira da renda das propagandas e dos índices de audiência, haveria uma deformação de toda a possibilidade de formação de um debate público racional e aberto, sendo que a manipulação e o controle da audiência com fins de audiência por meio do entretenimento também começam a surgir.
Assim, a esfera pública deixa de ser uma arena de debates e torna-se uma esfera onde o consenso é fabricado pela publicidade. Essa atrofia da esfera pública, causada em parte pela mídia de massas, faz com que o entretenimento prevaleça sobre os debates e as polêmicas, enfraquecendo a participação dos cidadãos no debate público. Isso produziu um deslocamento na avaliação da importância da mídia com relação à esfera pública: de uma promessa capaz de engajar muitos indivíduos de maneira igualitária na arena dos assuntos públicos, ela teria – com a mídia de massa – mudado de foco e passado a constituir-se como parte dos problemas que concorrem contra o amadurecimento da esfera pública.
MUDANÇAS NA RELAÇÃO ENTRE AS ESFERAS ÍNTIMA E PÚBLICA: RICHARD SENNETT E AS TIRANIAS DA INTIMIDADE
Outra análise de grande importância nos estudos relativos às transformações na esfera pública contemporânea aparece no livro, do sociólogo Richard Sennett, O declínio do homem público: as tiranias da intimidade (1977). Para o sociólogo americano, a distinção entre as esferas pública e íntima tem se tornado cada vez mais tênue e diluída, sendo que nas últimas décadas podemos falar de uma “colonização da esfera pública pela esfera íntima”.
Richard Sennett em 2010
Isso se daria em função do fenômeno midiático da excessiva publicidade ao redor das grandes personalidades, o que afetaria a vida pública no sentido de as características pessoais e sentimentais dos homens públicos (sua vida privada, honestidade e sinceridade) terem ganhado mais importância do que características fundamentais em outros períodos, como o comprometimento público, a dedicação aos assuntos políticos etc.
RESUMINDO
Vamos recuperar o nosso debate:
A noção de que o espaço público é de um coletivo limitado para informações é ilusória. Demonstramos que a esfera pública sempre existiu – só não tinha essa concepção, essa materialização. O que Sennett aponta, cria, discute, é que o fato de haver uma mudança significativa do privado, retirando de esferas públicas elementos que não se tinha clareza de que eram intercessões, criando um novo espaço, uma nova esfera e que – dialogando com o primeiro módulo – transforma a política como um exercício da esfera pública, retirando seus aspectos privados e modificando suas dinâmicas privadas como contra o interesse público.
Vamos ouvir o professor Rodrigo Rainha refletindo sobre esfera pública.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. UM DOS MAIS IMPORTANTES AUTORES É HABERMAS. AO CARACTERIZAR A ESFERA PÚBLICA, ELE A DEFINE COMO:
Tendo origem na esfera pública aristocrática.
Uma tradição histórica iluminista que perdeu sentido conceitual na contemporaneidade.
Tendo origem na esfera pública burguesa.
Debates públicos que geram interesse para a maioria.
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2. SOBRE A CONSTRUÇÃO DA ESFERA PÚBLICA MODERNA, PODEMOS AFIRMAR QUE:
Emerge das práticas da Revolução Industrial.
Passa pela negação completa da religião, abandonada naquele momento.
É construída como ideia pelos salões das cidades no século XVIII, em especial franceses.
Os jornais alemães, a partir de Gutenberg, criam um público leitor ativo e político, construindo a noção de esfera pública.
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GABARITO
1. Um dos mais importantes autores é Habermas. Ao caracterizar a esfera pública, ele a define como:
A alternativa "C " está correta.
Como crítico da modernidade, Habermas afirma que o mundo é construído a partir dos discursos. O conceito de discurso de Habermas é considerado um prenúncio da pós-modernidade, que de alguma forma desconstrói as verdades do mundo burguês. Para tal, ele recupera a história da formação da burguesia e sua mudança de perspectiva social, que tem com pedra fundamental a criação da esfera pública.
2. Sobre a construção da esfera pública moderna, podemos afirmar que:
A alternativa "C " está correta.
A esfera pública é modificada com o tempo. A modernidade cria o modelo francês de público como espaço de troca e circulação pelo Iluminismo, por isso a ideia dos salões será vital.
MÓDULO 3
Reconhecer a relação entre poliarquia e novas mídias
POLIARQUIA
Fonte: WikipediaFigura 22. Robert Dahl em 1966
O conceito de poliarquia foi desenvolvido pelo cientista político estadunidense RobertDahl como uma forma mais realista de avaliar os regimes políticos contemporâneos. Em função de nenhum país contemporâneo conseguir encarnar em níveis absolutos a ideia de uma democracia plena, Dahl concebeu seu conceito de poliarquia como um modo de categorizar e nivelar o quanto os regimes políticos existentes se aproximam de um regime mais ou menos democrático.
ROBERT DAHL
Robert Dahl (1915-2014), cientista político e um dos mais importantes nomes da ciência política americana, foi considerado figura vital uma vez que, diante de um mundo polarizado, conseguiu fugir das relações de conflito entre EUA e URSS, buscando conceber dinâmicas de funcionamento político e superando a ideologização vivida.
O conceito de poliarquia é desenvolvido e categorizado em dois livros de Dahl, Um prefácio à teoria democrática (1956) e Poliarquia: participação e oposição (1971). Os temas centrais desses dois livros são abordados em uma obra mais acessível, atualizada e com um caráter mais didático: A democracia e seus críticos (1989). De maneira geral, definem-se como uma poliarquia plena os sistemas democráticos modernos em funcionamento nos países desenvolvidos.
Levando em conta o conjunto de obras mencionado anteriormente, poderíamos dizer que as características apontadas para o desenvolvimento de uma poliarquia plena (ou seja, de um regime político com características contemporaneamente consideradas democráticas, exercidas de maneira ampla e generalizada) são de duas naturezas:
	Relativas a um critério ligado às oportunidades disponíveis aos cidadãos e suas instituições
	Relativas ao seu caráter moderno, dinâmico e plural
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CARACTERÍSTICAS DAS INSTITUIÇÕES E OS DIREITOS NECESSÁRIOS
À EXISTÊNCIA DE UMA POLIARQUIA
Para Dahl (2005), a democracia é um sistema político que tem, como uma de suas características, a qualidade de ser inteiramente, ou quase, responsivo a todos os seus cidadãos. Para que um sistema seja considerado democrático sob as condições delimitadas, todos os cidadãos devem ter oportunidades plenas de:
Formular suas preferências;
Expressar suas preferências a seus concidadãos e ao governo por meio da ação individual e da coletiva;
Ter suas preferências igualmente consideradas na conduta do governo, ou seja, sem discriminação decorrente do conteúdo ou da fonte de preferência.
Para que essas preferências sejam devidamente passíveis de prática, é necessário um conjunto de garantias institucionais, como podemos ver a seguir:
	Para a oportunidade de:
	Formular preferências
	Exprimir preferências
	Ter preferências igualmente consideradas na conduta de governo:
	São necessárias as seguintes garantias institucionais:
	 Liberdade de formar ou aderir organizações;
 Liberdade de expressão;
 Direito de voto;
 Direito de líderes políticos disputarem apoio;
 Fontes alternativas de informação.
	 Liberdade de formar ou aderir organizações;
 Liberdade de expressão;
 Direito de voto;
 Elegibilidade para cargos políticos;
 Direito de líderes políticos disputarem apoio;
 Fontes alternativas de informação;
 Eleições livres e idôneas.
	 Liberdade de formar ou aderir organizações;
 Liberdade de expressão;
 Direito de voto;
 Elegibilidade para cargos públicos;
 Direito de líderes políticos disputarem apoio;
 Fontes alternativas de informação;
 Eleições livres e idôneas;
 Instituições para fazer com que as políticas governamentais dependam de eleições e de outras manifestações de preferência.
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Fonte: DAHL, 2005. p. 27. (adaptado)
Quanto mais inclusivas são essas oportunidades, maiores podem ser os níveis de contestação e, portanto, o nível de responsividade de determinado sistema político; e, desse modo, maior poderá ser o nível de uma poliarquia. Entretanto, não são apenas esses conjuntos de oportunidades referidos às garantias institucionais delimitadas anteriormente que atestam o funcionamento de uma poliarquia e sua estabilidade. Existem, além das características elencadas, um conjunto de fatores que está interrelacionado à existência de uma poliarquia, como veremos no próximo tópico.
OUTROS FATORES QUE PROPICIAM A FORMAÇÃO E ESTABILIDADE
DE UMA POLIARQUIA
SOCIEDADE MODERNA, DINÂMICA E PLURALISTA (MDP):
De acordo com Dahl (2012), pode-se perceber que, historicamente, as sociedades associadas ao desenvolvimento de uma poliarquia plena são marcadas por uma série de fatores interrelacionados:
	Nível relativamente alto de crescimento e de renda e riqueza per capita
	Alto nível de urbanização
	População agrícola em rápido declínio ou relativamente pequena
	rande diversidade ocupacional
	Ampla alfabetização
	Número comparativamente grande de pessoas que frequentaram instituições de nível superior
	Ordem econômica na qual a produção é desenvolvida principalmente por empresas relativamente autônomas e cujas decisões são orientadas para mercados nacionais e internacionais em níveis relativamente altos de indicadores convencionais de bem-estar, como médicos e leitos hospitalares para cada mil pessoas, a expectativa de vida, a mortalidade infantil, a porcentagem de famílias com diversos bens de consumo duráveis e assim por diante.
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Muitos desses fatores podem ser condensados em três ideias-chave: modernidade, dinamismo e pluralismo social.
Sobre a ideia de modernidade, podem ser compreendidos fatores como níveis mais altos de riqueza, renda, consumo e educação; maior diversidade ocupacional, ou seja, ampla gama de empregos diversificados; aumento da população urbana em proporção à rural; diminuição crescente da importância econômica da agricultura em função de setores econômicos que agregam maior valor à produção.
Sobre a categoria do dinamismo, podemos compreender fatores como o crescimento econômico, a competição empresarial e a possibilidade da ascensão do padrão de vida. E, por fim, sobre o pluralismo, seriam fatores como uma ampla gama de associações, grupos e organizações relativamente autônomos, particularmente no âmbito da esfera econômica.
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Essas três ideias condensam uma série de fatores econômicos, sociais e técnicos que formam o que Dahl conhece por países ou sociedades modernas, dinâmicas e pluralistas (o que o cientista político chama de MDP).
De acordo com Dahl (2012), uma sociedade ou um país com os fatores agregados ao MDP é marcado pelas seguintes características:
A dispersão dos recursos políticos, tais quais o dinheiro, o conhecimento, o status e o acesso às organizações;
A dispersão das localizações estratégicas, particularmente em assuntos econômicos, científicos, educacionais e culturais;
A dispersão das posições de negociação, tanto manifestas quanto latentes, nos assuntos econômicos, na ciência, nas comunicações, na educação e em outras áreas.
Uma sociedade com essas características tende a promover a inibição da concentração de poder em poucas pessoas ou grupos, dispersando-o entre uma série de grupos e pessoas independentes. Além disso, esses fatores favorecem atitudes, convicções e crenças favoráveis às ideias democráticas, como a de que ganhos conjuntos podem ser obtidos com o aumento dos resultados e de que a negociação e a barganha podem levar a acordos benéficos para toda a sociedade.
Portanto, essas características podem promover um sistema político competitivo no qual o acordo é considerado normal: sem que as partes políticas em oposição sejam vistas como inimigas ou dispostas em um conflito impossível de ser equilibrado. Mas a relação entre MDP e poliarquia não é uma relação de causa e efeito: uma sociedade com MDP pode não ser necessária e nem suficiente para garantir a poliarquia – historicamente, existem exceções a isso.
MÍDIA E POLIARQUIA: ALFABETIZAÇÃO, EDUCAÇÃO, INFORMAÇÃO
E PLURALISMO
O conjunto de oportunidades plenas que os cidadãos devem ter em umsistema considerado como uma poliarquia (formular, exprimir e ter preferências igualmente consideradas na conduta do governo) depende de várias garantias institucionais, entre elas duas que são interrelacionadas à mídia: a liberdade de expressão e o acesso a fontes alternativas de informação.
Quando falamos aqui em liberdade de expressão, trata-se de liberdade de crítica (no sentido filosófico do termo, como vimos quando tratávamos da gênese da esfera pública), que poderíamos condensar com a seguinte definição:
O DIREITO PROTEGIDO POR LEI À LIBERDADE DE EXPRESSÃO, PARTICULARMENTE À EXPRESSÃO POLÍTICA, INCLUINDO A CRÍTICA ÀS AUTORIDADES, À CONDUTA DE GOVERNO, AO SISTEMA POLÍTICO, ECONÔMICO, SOCIAL E À IDEOLOGIA DOMINANTE.
(DAHL, 2012)
Quanto ao acesso a fontes alternativas de informação, Dahl (2012) as define do seguinte modo: acesso a fontes alternativas de informação que não sejam monopolizadas pelo governo ou por nenhum outro grupo em particular.
Mas vejamos que esses itens não se sustentam autonomamente, eles estão vinculados a quatro fatores:
	Alfabetização
	Educação
	Informação
	Pluralismo
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O acesso à informação plural por um público alfabetizado e que tenha ao menos um nível de instrução médio é um fator muito mais importante para a formação de uma poliarquia que outros fatores elencados. Eles são fundamentais para a produção de uma opinião pública que possa amadurecer ao longo do tempo. Além disso, a correlação entre alfabetização ampla, acesso à educação – mesmo que modesta – e de uma pluralidade de meios de informação pode fazer com que países e sociedades satisfaçam os níveis mínimos requeridos para o funcionamento de uma poliarquia, mesmo em sociedades predominantemente agrícolas e que não tenham nenhuma indústria.
Em países onde se generalizou o acesso às primeiras letras e onde houve uma prematura ampliação dos meios de informação escritos, formou-se precocemente alguma forma de poliarquia, mesmo em condições rurais, como, por exemplo, Nova Zelândia, Austrália, Canadá, Noruega, Finlândia e Islândia.
O CONTROLE CIVIL DA COERÇÃO VIOLENTA
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Um fator de grande importância para a formação e estabilidade de uma poliarquia é aquilo que Dahl chama de controle civil da coerção violenta, ou seja, a submissão das forças policiais e militares ao poder civil. Uma das características do Estado são seus instrumentos para coerção física cuja tarefa é a ameaça ou o emprego da violência para a manutenção da ordem e da segurança.
Nos parâmetros de uma poliarquia, duas condições são necessárias para o exercício democrático: 1) Que o poder civil seja capaz de efetivar o controle das forças de coerção (militares e policiais); 2) Que os próprios civis que controlam as forças de coerção estejam sujeitos ao processo democrático.
Historicamente, quatro fatores têm ajudado nessa questão:
	Quando países reduzem seus contingentes militares e policiais à sua virtual insignificância (como nos casos do Japão e da Costa Rica).
	Quando as forças militares ou policiais são dispersadas em seus comandos em uma série de controles locais (o que é comum nos países de língua inglesa).
	Quando as tropas militares são formadas por pessoas com fortes convicções democráticas compartilhadas pela sociedade civil (como no caso da Europa pós-Segunda Guerra Mundial, onde as tropas terrestres são formadas por alistamento para breves períodos – ou seja, todos são civis de uniforme).
	O profissionalismo militar doutrinário, que incute nos militares profissionais a criação e a manutenção de crenças relacionadas ao regime democrático ao qual estão submetidos e que devem proteger por fidelidade.
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O quarto fator citado pode causar certas distorções, de acordo com Dahl:
TODAVIA, SOB CERTAS CIRCUNSTÂNCIAS, O CONTROLE CIVIL DE UMA INSTITUIÇÃO MILITAR PROFISSIONAL NUM PAÍS DEMOCRÁTICO PODE SER PREJUDICADO. O CONTROLE CIVIL É AMEAÇADO QUANDO O PROFISSIONALISMO CRIA UM PROFUNDO ABISMO SOCIAL E PSICOLÓGICO ENTRE OS MILITARES E CIVIS, DE FORMA QUE, COMO OCORREU NO BRASIL EM 1950 E 1960, OS MILITARES SE TORNAM UMA ORDEM SOCIAL CLARAMENTE À PARTE, UMA CASTA MILITAR ISOLADA DA SOCIEDADE CIVIL. OU AINDA, SE OS PROFISSIONAIS ACREDITAM QUE OS INTERESSES FUNDAMENTAIS DA INSTITUIÇÃO MILITAR ESTÃO AMEAÇADOS PELA LIDERANÇA CIVIL, É PROVÁVEL QUE RESISTAM AO CONTROLE CIVIL E É POSSÍVEL QUE O REJEITEM INTEIRAMENTE, COMO OCORREU NO BRASIL EM 1964, EM GANA EM 1965, E NA ARGENTINA, REPETIDAS VEZES, ENTRE 1955 E 1983.
(DAHL, 2012, p.392-393)
Assim, lideranças militares podem também, se não são devidamente doutrinadas pelo profissionalismo militar na crença e no dever de proteger o governo ao qual devem se submeter, ameaçar a estabilidade de uma poliarquia plena.
Fonte: WikipediaFigura 25. Militares protegendo o Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro, durante o Golpe Militar no Brasil em 1964
Em outras palavras, podem, em função de desordem, conflito civil, polarizações agudas, crises econômicas contínuas, efetivar golpes militares – e desarticular poliarquias instáveis, como ocorreu no Brasil em 1964, no Chile e no Uruguai em 1973 e na Argentina em 1976. A presença ou ausência de uma poliarquia não pode ser definida apenas pelo controle civil da coerção violenta, mas esse fator é um elemento que contribui para a estabilidade de um sistema poliárquico.
NOVAS MÍDIAS, NOVOS ATORES: A ESFERA PÚBLICA CONTEMPORÂNEA
Cientistas sociais sérios não costumam fazer muitas previsões quando se defrontam com fenômenos novos ou se encontram em meio a processos em curso: é sabido que é mais fácil compreender rigidamente processos que se estabilizaram ou ciclos de mudança que já terminaram.
Nos últimos 30 anos, com a expansão da internet e de outras redes de computadores, atividades econômicas, sociais, políticas e culturais têm sido cada vez mais estruturadas ao redor dessas novas redes informacionais, transformando nesse processo muitos modos tradicionais de nos relacionarmos, trabalharmos, produzirmos e a maneira como a esfera pública funciona.
Fonte: ArtShotPhoto/ShutterstockFonte: ArtShotPhoto/Shutterstock.
Apesar dessa ampla difusão e popularização tecnológica sem precedentes, a lógica, a linguagem e os limites da internet ainda não são completamente compreendidos pelas disciplinas acadêmicas que não pertencem diretamente a essa esfera tecnológica. A velocidade de transformação tecnológica, em ciclos mais curtos, ligada à emergência de novos serviços e mídias, contando com um número maior de agentes engajados em suas diversas utilizações, vem tornando cada vez mais difícil uma análise aprofundada desses fenômenos. Trata-se de um desafio para a pesquisa acadêmica, por isso há certa dificuldade para produzir estudos empiricamente embasados que analisem com rigor as transformações econômicas, políticas e sociais causadas pela aplicação crescente das tecnologias informacionais.
Esse vácuo de conhecimento acerca dos efeitos, limites e consequências múltiplas da expansão crescente dessas novas tecnologias tem sido preenchido frequentemente mais pela boataria, pelas visões utópicas ou distópicas e pela ideologia que permeiam a compreensão dos fenômenos ligados a esse tema, o que é comum ocorrer em tempos de rápida mudança social.
As últimas décadas têm sido repletas de previsões futurológicas apresentando um porvir de consequências simplistas baseadas nas maravilhas da tecnologia, enquanto, por outro lado, surgiram imagens de distopias críticas sugerindo os efeitos alienantes da internet antes mesmo deles acontecerem. Paralelo a isso, a mídia desejosa de informar seu público ansioso por novidade, mas carente das capacidades de analisar de modo rigoroso e embasado as diversas transformações em curso, espalhou boa parte dessas previsões futurológicas – negativas e positivas – com todos os elementos descritos (CASTELLS, 2003 p. 8-9).
O aumento de agentes operando nas redes de computadores, que temse expandido massivamente nas últimas décadas, gerou efeitos ambivalentes. Por um lado, foi extremamente importante na emergência de movimentos populares em diversos países, como, por exemplo: a Primavera Árabe, em 2011, possibilitada pela internet e pelas redes sociais; o Occupy Wall Street, também em 2011; as manifestações ocorridas na Turquia, em 2013, no Brasil, em 2013 e 2014, e também no Chile, em 2011 e 2013 (CASTELLS, 2017). Por outro lado, as relações entre os meios de comunicação e as redes sociais podem gerar efeitos corrosivos e causar crises no funcionamento das democracias liberais:
NOSSAS VIDAS TITUBEIAM NO TURBILHÃO DE MÚLTIPLAS CRISES. UMA CRISE ECONÔMICA QUE SE PROLONGA EM PRECARIEDADE DE TRABALHO E EM SALÁRIOS DE POBREZA. UM TERRORISMO FANÁTICO QUE FRATURA A CONVIVÊNCIA HUMANA, ALIMENTA O MEDO COTIDIANO E DÁ AMPARO À RESTRIÇÃO DA LIBERDADE EM NOME DA SEGURANÇA. UMA MARCHA APARENTEMENTE INELUTÁVEL RUMO À INABITABILIDADE DE NOSSO ÚNICO LAR, A TERRA. UMA PERMANENTE AMEAÇA DE GUERRAS ATROZES COMO FORMA DE LIDAR COM OS CONFLITOS. UMA VIOLÊNCIA CRESCENTE CONTRA AS MULHERES QUE OUSARAM SER ELAS MESMAS. UMA GALÁXIA DE COMUNICAÇÃO DOMINADA PELA MENTIRA, AGORA CHAMADA PÓS-VERDADE. UMA SOCIEDADE SEM PRIVACIDADE, NA QUAL NOS TRANSFORMAMOS EM DADOS. E UMA CULTURA, DENOMINADA ENTRETENIMENTO, CONSTRUÍDA SOBRE O ESTÍMULO DE NOSSOS BAIXOS INSTINTOS E A COMERCIALIZAÇÃO DE NOSSOS DEMÔNIOS.
(CASTELLS, 2018, grifo nosso)
A ampliação das novas tecnologias tem, portanto, gerado efeitos ambíguos e ainda pouco compreendidos em suas implicações diretas com o âmbito da esfera pública. Segundo Castells (2018), a hipotética “ágora virtual”, profetizada por vários utopistas tecnológicos, tem gerado muitos problemas em tempos onde as “notícias falsas” circulam na “velocidade do sinal eletrônico”: gerando problemas de deslegitimação para as mídias tradicionais e nos mecanismos institucionais das democracias estabelecidas.
Fonte: Panchenko Vladimir/ShutterstockFonte: Panchenko Vladimir/Shutterstock.
A própria popularização das notícias falsas nos meios digitais tem sido objeto de estudos na área de Comunicação e Jornalismo: seja analisando suas peculiaridades atuais e sua propagação nas redes, seja sob uma perspectiva de que se trata de um fenômeno semelhante a outros já ocorridos anteriormente em momentos de ampliação da esfera pública e de meios de informação alternativos.
É possível vermos positiva ou negativamente todos os fenômenos citados? É possível adotar uma narrativa acerca do futuro da esfera pública e suas relações com as novas tecnologias informacionais com o rigor acadêmico e alicerçado nos estudos de mídia e das Ciências Sociais atuais? Muito tem sido produzido na área atualmente, mas é difícil analisar ainda todas as suas consequências e os seus limites.
Vamos ouvir o que o professor Rodrigo Rainha tem a nos dizer sobre essa relação.
No debate atual, para além da análise das Ciências Sociais, como é colocada a questão dos movimentos sociais e políticos, da relação entre a mídia tradicional e a emergência das mídias alternativas, da ascensão de novos atores sociais e no que tange às novas tecnologias de informação? A seguir, fazemos uma síntese desses debates em três tópicos.
· Movimentos sociais e políticos
Dentro do contexto entre mídia e política, é importante citar que, principalmente a partir de 2010, houve a emergência de movimentos sociais e políticos que aparentavam ter três características gerais:
1) Busca por uma ação política direta;
2) Espontaneidade e abertura participativa;
3) Reivindicações específicas no início que se desenvolvem em pautas mais gerais.
Quando observamos certos movimentos, como o Occupy Wall Street (EUA, 2011), a Primavera Árabe (Oriente Médio e Norte da África, 2010), o movimento dos coletes amarelos (França, 2018) e as chamadas Jornadas de Junho (Brasil, 2013), é possível dizer que se trataram de movimentos de cunho social e político, manifestados de modo imediato e direto.
Isso quer dizer que tais movimentos não eram condicionados pelo intermédio de partidos políticos ou sindicatos – que até então se estruturavam como os próprios mediadores entre os indivíduos que possuíam demandas e os representantes nas instituições políticas.
Exatamente por isso eles possuem como característica comum não apenas a retomada de protestos de rua – ação política muito marcante nas décadas de 1960 e 1970 –, mas ainda se utilizaram da internet, principalmente das redes sociais, como meio de expor reivindicações, cobrar resoluções e exigir transparência diretamente.
Pode-se dizer que há uma maior abertura participativa, uma vez que cada indivíduo se faz como agente político engajado, não só confirmando a noção de uma crise de representação iniciada na última década, como ainda o fato desses movimentos apresentarem uma ação espontânea e até mesmo explosiva – basta um evento marcado no Facebook ou certa mobilização simbólica (caso dos coletes amarelos) para que se espalhe um entusiasmo crescente nos indivíduos e, por conseguinte, que eles se auto-organizem em tais manifestações. Isso marca a emergência de novos atores sociais, modificando também o próprio modo de fazer política.
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Por conta dessa espontaneidade e abertura participativa, é possível observar uma espécie de ligação cronológica em tais manifestações, uma vez que elas começam por demandas específicas (lembremo-nos de que as Jornadas de Junho foram incialmente deflagradas pelo aumento ínfimo nos preços do transporte público) e geram uma mobilização maior das massas que aumentam o escopo das reivindicações para demandas mais gerais, tais como o fim da corrupção ou o combate às desigualdades sociais.
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· Mídias alternativas
Principalmente com o advento da internet, começou-se a colocar em questão o modo como a informação é produzida e quais agentes se implicam financeiramente no campo midiático. Na medida em que o monopólio dos conglomerados de comunicação se tornou alvo de debates (a questão de grandes mídias que concentram o aparato informativo), mídias alternativas começaram a surgir, facilitadas pela internet e seu acesso mais democrático.
Assim, observa-se a eclosão de grupos que se propõem a comunicar estando fora de grandes corporações que até então ditavam o modo como a informação deveria ser veiculada – lembremos de certos modelos televisivos que se tornaram ultrapassados ou ainda o próprio jornal, mídia extremamente tradicional que cada vez mais perde leitores e assinantes. Um grande exemplo disso são revistas eletrônicas, sites de notícias e canais no YouTube que funcionam a partir de autogestão colaborativa (caso da Mídia Ninja) ou financiamento digital (crowdfunding) – como é o caso do The Intercept, que já se ramificou globalmente por meio desse tipo de financiamento.
O maior apelo desses canais midiáticos ditos alternativos é a recusa de estar refém de interesses, algumas vezes escusos, dos canais conservadores e tradicionais de mídia. Isso permite um movimento contra-hegemônico no âmbito da esfera pública, visto que contesta essa mídia tradicional pautada fundamentalmente em uma imparcialidade questionável, sendo possível se perguntar a quem interessam certas informações e quais grupos lucram com elas.
É dentro desse contexto que a própria ideia de informação imparcial passa a ser questionada, abrindo lugar para a possibilidade de uma mídia engajada ou ainda que deixe de modo transparente seus próprios referenciais teóricos e inclinações – como é o caso de editoriais prévios, a exemplo da revista de economia The Economist.
· Minorias e representatividade
É importante salientar que com a modificação atual tanto dos movimentos sociais e políticos como dos próprios canais de informação alternativos, há uma crescente democratização nesses campos que, justamente, abre espaço para protagonistas que até então eram social e politicamente negligenciados. É o caso de certas minorias sociaisque se alicerçam em pensamentos identitários e ganham espaço e representatividade com meios midiáticos que fogem das grandes corporações tradicionais.
Em termos políticos, essas mesmas minorias acumulam certas exigências no que se refere ao seu lugar na participação política, exigindo uma democracia que não seja apenas formal (ou seja, que não se limite ao voto de representantes muito distantes do eleitorado dos grupos minoritários), buscando uma expansão do sentido de representação e uma democracia real. Isso retroalimenta o alargamento da esfera pública que deixa de ter um perfil tradicional e se torna mais multicultural.
A ideia de multiculturalismo reflete um movimento cada vez mais intenso de pluralidade de culturas acompanhado de um reconhecimento mútuo dos indivíduos enquanto coparticipes da democracia.
A esfera pública também se torna a arena de divulgação e discussão de certas correntes de pensamento que possuem uma implicação claramente política, como feminismo, teoria queer, pensamento decolonial etc. A questão da representatividade e da necessidade do reconhecimento das demandas dos grupos minoritários envolvidos nessas correntes das ciências humanas começa a se fazer ouvir.
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A própria popularização de conceitos como lugar de fala e necropolítica são evidências não só da politização das minorias que exigem voz e mudança social, como ainda apontam demandas políticas cada vez mais democráticas – como, por exemplo, uma representação política cada vez mais paritária entre os gêneros masculino e feminino.
Um exemplo claro que não apenas demonstra uma abertura maior para agentes políticos até então negligenciados e que possuem um modo de participação profundamente condicionado pela internet e novas mídias sociais é o caso do Black Lives Matter, campanha virtual direcionada à discussão sobre racismo que conjuga elementos de militância, exigindo dos representantes políticos ações positivas no combate à discriminação e violência contra a comunidade negra.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE A ESFERA PÚBLICA E AS NOVAS TECNOLOGIAS INFORMACIONAIS, QUAL DAS ALTERNATIVAS ABAIXO ESTÁ CORRETA?
As redes sociais e a internet afastam as pessoas do contato pessoal e são poderosas forças de alienação em nossa sociedade.
Tal relação produz efeitos ambivalentes, que podem reforçar movimentos populares ao mesmo tempo que podem prejudicar o funcionamento das democracias instituídas.
O aumento do acesso à internet poderá produzir o surgimento de uma aldeia global, onde todos estarão integrados a uma esfera pública renovada e aberta, fortalecendo a democracia e os direitos humanos.
Temos grande conhecimento sobre a interação entre a ampliação das redes de computadores. Uma ampla gama de trabalhos acadêmicos extremamente rigorosos tem sido produzida nos últimos anos explicando a interação entre a esfera pública e as novas tecnologias informacionais.
Parte inferior do formulário
Parte superior do formulário
2. ACERCA DAS RELAÇÕES ENTRE AS FORÇAS DE COERÇÃO (POLICIAIS E MILITARES) E A ESTABILIDADE DE UMA POLIARQUIA, QUAL DAS RESPOSTAS ABAIXO ESTÁ CORRETA?
Os militares e policiais devem ser os guardiões da ordem e da estabilidade social, devendo interferir na ordem política sempre que esta for ameaçada.
Os militares devem estar subordinados ao Poder Executivo, que está acima de todas as leis.
As forças de coerção (policiais e militares) devem ser subordinadas a uma autoridade civil, que deve estar acima de qualquer lei.
A profissionalização das forças militares e policiais, sua subordinação a um poder civil que esteja sujeito ao processo democrático e a doutrinação de oficiais nas crenças democráticas e deveres de manutenção relativos ao sistema político (que tem o dever de defender) são fatores que tornam uma poliarquia estável.
Parte inferior do formulário
GABARITO
1. Sobre as relações entre a esfera pública e as novas tecnologias informacionais, qual das alternativas abaixo está correta?
A alternativa "B " está correta.
O debate atual sobre a tecnologia e os sistemas políticos passa pela necessidade de entender que vivemos um momento de reinvenções de práticas, sem que saibamos claramente para onde estamos indo. No entanto, é certo que os modelos tradicionais perderam seu sentido. Então, a resposta certa passa pela desestruturação de modelos tradicionais. Esse novo padrão, que emerge quando as velhas formas perderam o sentido, gera uma ambivalência por permitir a luta de grupos que viviam sob controle de forças e que veem eco para se unirem e lutarem e a ascensão de forças e práticas de negação do outro, pregando inclusive sua destruição, e da mesma forma encontrando ecos e parcerias.
2. Acerca das relações entre as forças de coerção (policiais e militares) e a estabilidade de uma poliarquia, qual das respostas abaixo está correta?
A alternativa "D " está correta.
Ainda que o conceito de poliarquia pareça abstrato, ele aumenta a responsabilidade ampla social, tirando os focos de determinação do Estado. Nessas respostas, nós percebemos a mudança da dinâmica das relações de poder relativizando a ação do Estado. Quando grupos que têm o monopólio da força passam a estar subordinados a um poder eleito pelo coletivo, há um alívio desse poder, mas só isso não basta. Para a poliarquia ser eficiente, ela precisa de uma ação educacional, plural, marcada pelo compromisso público. A formação do militar ao defender a democracia e não a sua própria força ou território.
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste tema, apresentamos a relação entre comunicação e política. Vimos que o conceito de política contemporânea é uma construção histórica, política e filosófica que tem como conceitos fundamentais a democracia, a república e a representatividade.
Aprendemos também que comunicar não é um mero ato, está em meio a uma complexa relação social. Essa relação social se manifesta de maneira política, por isso, é preciso definir seus espaços, seu entendimento, seu mundo e, para tanto, mergulhamos na história da esfera pública.
Por fim, entendemos a complexidade da estrutura política contemporânea por meio do conceito de poliarquia, segundo o qual o poder de comunicar encontra-se com o poder político no mundo contemporâneo, na internet e nas demandas de grupo.
DESCRIÇÃO
Construção da ciência jurídica como um campo de conhecimento relacionado ao homem e à busca de sua proteção.
PROPÓSITO
Fundamentar os conceitos básicos de justiça relacionados às Ciências Sociais na construção de debates que percebam o impacto do direito nas relações humanas.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Reconhecer o papel do constitucionalismo e suas relações históricas como conquistas sociais do mundo contemporâneo
MÓDULO 2
Conceituar o processo de judicialização e conquistas relacionados à luta pelos direitos humanos
MÓDULO 3
Identificar o papel da justiça na promoção da defesa de minorias vulnerabilizadas
INTRODUÇÃO
Este conteúdo visa relacionar a justiça, como conceito fundamental nas Ciências Jurídicas, ao ambiente dos debates das Ciências Políticas e dos Direitos Humanos.
Vamos apresentar três momentos-chaves: o conceito, a origem (ou as origens) e os limites do tema Poder Constituinte para a compreensão da legitimidade democrática e de seu resultado, que é a Constituição. Em seguida, vamos melhor laborar a relação entre Estado e Direito por meio do debate travado entre Kelsen e Schmitt no início da década de 1930 sobre quem é o guardião da constituição. Também estudaremos o famoso caso Marbury vs Madison e o surgimento do controle judicial das decisões (judicial review).
Trabalharemos conceitos como: direitos humanos, dignidade humana, soberania popular e a atuação dos chamados “grupos de pressão” e advocacy e a relação entre esses temas quando houver.
Por fim, veremos outros conceitos como minorias vulnerabilizadas, o tratamento constitucional dos povos indígenas, as relações étnico-raciais e a cultura afro-brasileira e, também, o racismo estrutural, e igualmentea relação entre esses assuntos quando houver.
MÓDULO 1
 Reconhecer o papel do constitucionalismo e suas relações históricas como conquistas sociais do mundo contemporâneo
INTRODUÇÃO AO CONSTITUCIONALISMO
Os temas Poder Constituinte, o debate Kelsen-Schmitt e o do judicial review estão ineridos no módulo “constitucionalismo” e serão estudados para que possamos compreender melhor as bases políticas do surgimento da supremacia constitucional e as críticas que vêm sendo feitas à chamada “expansão do judiciário”.
Imagem: Isidore-Stanislaus Helman e Charles Monnet / Wikimedia Commons, Domínio público A reunião dos Estados Gerais em 5 de maio de 1789 na Salle des Menus Plaisirs no Palácio de Versalhes. Pintura de Isidore-Stanislaus Helman e Charles Monnet, Biblioteca Nacional da França.
É função do constitucionalismo traçar os princípios ideológicos que serão a base de toda a organização interna da Constituição de um Estado; e o estudo dos temas propostos será de fundamental importância para compreender o processo de publicização do Direito que resultou na atual centralidade da Constituição.
Além disso, você verá que o debate Kelsen-Schmitt, tem se mostrado fundamental na atualidade porque recoloca, como questão central da teoria e da prática constitucional, a relação entre direito e política, entre direito e democracia. Da mesma forma, o estudo do chamado judicial review, cujas origens remontam ao célebre caso Marbury vs Madison, será muito importante para discutir separação de poderes, representatividade, o papel do STF(Supremo Tribunal Federal) e diferenciar judicialização da política de ativismo judicial.
PODER CONSTITUINTE
A Teoria do Poder Constituinte surge mais recentemente, no século XVIII, com a publicação do livro do abade de Sieyès(Emmanuel Joseph Sieyès (1748-1836)): O que é o Terceiro Estado?, publicado às vésperas da Revolução Francesa, no qual Sieyès abordou tese inovadora que rompia com a legitimação divina e incontestável do poder.
Poder constituinte é aquele que cria a Constituição, enquanto os poderes constituídos são os estabelecidos por ela, ou seja, aqueles que resultam de sua criação. As questões primordiais são: titularidade, legitimidade, seus limites e sua natureza.
A titularidade do poder constituinte, que é a capacidade de fazer e determinar que se observe uma Constituição, precisa ser legitimada para que tenha tal poder de fato. A discussão sobre a titularidade e legitimidade está em definir quem detém soberania. Historicamente, diversos “soberanos” foram os detentores desse poder (monarca, ditadores, nação, povo etc.)
QUANDO O POVO É O TITULAR DO PODER CONSTITUINTE, SEU EXERCÍCIO É CONSIDERADO DEMOCRÁTICO.
Muitas vezes, a Constituição é criada por ditadores ou grupos que conquistam o poder por meio da força. Mas, historicamente, a teoria de que o poder constituinte é titularizado pelo povo tornou-se vitoriosa — a chamada soberania popular. Assim, a Constituição é o resultado do exercício dessa soberania e considerada, portanto, a lei suprema; e os poderes do Estado são os denominados poderes constituídos, fazendo com que a soberania popular se converta em supremacia da Constituição.
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Com relação à natureza, existe diferença entre as perspectivas jusnaturalistas e as do positivismo jurídico. Para a primeira, a natureza do poder constituinte é de um poder de direito fundado em um direito natural, não no ordenamento vigente, e teve origem junto à teoria desenvolvida pelo abade de Sieyés. Para o positivismo jurídico, não se reconhece um direito preexistente ao Estado, sendo o poder constituinte um fato pré-jurídico, externo ao Direito.
O poder constituinte pode ser de dois tipos: originário ou derivado.
Poder constituinte originário é o poder de criar uma nova Constituição. Apresenta seis características que o distinguem do derivado:
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POLÍTICO
INICIAL
INCONDICIONADO
PERMANENTE
ILIMITADO JURIDICAMENTE
AUTÔNOMO
POLÍTICO
É um poder de fato (e não um poder de direito) para a doutrina dominante (paradigma do positivismo jurídico). Ele é, portanto, anterior ao direito e cria o ordenamento jurídico de um Estado.
INICIAL
Dá início a uma nova ordem jurídica, rompendo com a anterior. A manifestação do Poder Constituinte tem o efeito de criar um Estado.
INCONDICIONADO
Não se sujeita a qualquer forma ou procedimento predeterminado para sua manifestação.
PERMANENTE
Pode se manifestar a qualquer tempo. Ele não se esgota com a elaboração de uma nova Constituição.
ILIMITADO JURIDICAMENTE
Não se submete a limites determinados pelo direito anterior. Pode mudar completamente a estrutura do Estado ou os direitos dos cidadãos, por exemplo, sem ter sua validade contestada com base no ordenamento jurídico anterior. Por esse motivo, o STF entende que não há possibilidade de se invocar direito adquirido contra normas constitucionais originárias. A doutrina se divide quanto a essa característica do Poder Constituinte.
Os positivistas entendem que, de fato, o poder constituinte originário é ilimitado juridicamente; já os jusnaturalistas dizem que ele encontra limites no direito natural, ou seja, em valores suprapositivos.
No Brasil, a doutrina majoritária adota a corrente positivista, reconhecendo que o poder constituinte originário é ilimitado juridicamente. Embora os positivistas defendam que o Poder Constituinte Originário é ilimitado, é importante que todos reconheçamos, como afirma Canotilho (2003), que ele deverá obedecer a “padrões e modelos de conduta espirituais, culturais, éticos e sociais radicados na consciência jurídica geral da comunidade”, ou seja, a observância de critérios de justiça, bem como os direitos humanos deve pautar a elaboração de uma nova Constituição.
AUTÔNOMO
Tem liberdade para definir o conteúdo da nova Constituição. Muitos autores tratam essa característica como sinônimo de ilimitado.
Vamos abordar agora uma segunda forma de Poder Constituinte: o Derivado.
O Poder Constituinte Derivado é o poder de modificar a Constituição Federal bem como de elaborar as Constituições Estaduais, estando previsto na própria Constituição. Tem como características ser:
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JURÍDICO
DERIVADO
LIMITADO OU SUBORDINADO
CONDICIONADO
JURÍDICO
É regulado pela Constituição, estando, portanto, previsto no ordenamento jurídico vigente.
DERIVADO
É fruto do poder constituinte originário.
LIMITADO OU SUBORDINADO
A forma de seu exercício é determinada pela Constituição. Assim, a aprovação de emendas constitucionais, por exemplo, deve obedecer ao procedimento estabelecido no artigo 60 da Constituição Federal (CF/88).
CONDICIONADO
A forma de seu exercício é determinada pela Constituição. Assim, a aprovação de emendas constitucionais, por exemplo, deve obedecer ao procedimento estabelecido no artigo 60 da Constituição Federal (CF/88).
O Poder Constituinte Derivado subdivide-se em dois e ambos devem respeitar as limitações e condições impostas pela Constituição Federal. Veja quais são:
PODER CONSTITUINTE REFORMADOR
Consiste no poder de modificar a Constituição.
PODER CONSTITUINTE DECORRENTE
É aquele que a CF/88 confere aos estados de se organizarem, por meio da elaboração de suas próprias constituições.
GUARDIÃO DA CONSTITUIÇÃO: DEBATE ENTRE HANS KELSEN E CARL SCHMITT
Foto: Amazon Capa do livro Quem deve ser o guardião da Constituição?, Hans Kelsen, Editora Mandamentos, 2008. 
Foto: Amazon Capa do livro O Guardião Da Constituição, Carl Schmitt, Editora Del Rey, 2007.
O debate constitucional mantido entre Carl Schmitt (1888-1985) e Hans Kelsen (1881-1973) sobre o guardião da Constituição é de extrema atualidade, uma vez que confronta direito e política a partir das diferenças de visão da teoria jurídica de cada um deles.
Schmitt publicou, em 1931, a obra O guardião da Constituição em que formula uma crítica ao Estado Constitucional e no qual busca resgatar a categoria do político em detrimento da concepção que subordina o Estado ao direito. Logo nasequência da publicação de seu livro, Schmitt obteve a reposta de Kelsen, em seu texto intitulado Quem deve ser o guardião da Constituição?, publicado por Kelsen também em 1931 na revista berlinense Die Justiz. Trabalharemos em torno deste debate e de sua atualidade.
 SAIBA MAIS
O debate travado entre Kelsen e Schmitt do início de século XX foi reacendido no Brasil quando da Proposta de Emenda Constitucional n. 33 (PEC 33/2011), que visava modificar a sistemática de controle de constitucionalidade ao propor que as decisões do STF fossem submetidas ao controle do Parlamento (Congresso Nacional). As discussões em torno desta proposta recolocaram, no centro do debate, a relação entre direito e política ou entre constitucionalismo e democracia.
Igualmente, no debate Kelsen-Schmitt, que ofereceu a possibilidade de se estabelecer uma reflexão mais profunda sobre política e direito, a PEC 33 também permitiu refletir melhor sobre a relação entre os Poderes Constituídos.
Essa proposta de emenda à Constituição alterava a quantidade mínima de votos de membros de tribunais para a declaração de inconstitucionalidade de leis, submetia o efeito vinculante de súmulas aprovadas pelo STF à aprovação pelo Poder Legislativo e submetia ao congresso Nacional a decisão sobre a inconstitucionalidade de emendas à Constituição.
Imagem: Shutterstock.com
Schmitt entendia que o perfil do guardião da Constituição estava em uma zona limítrofe entre a política (fenômeno pré-jurídico) e o direito propriamente dito (direito posto). Kelsen, de modo diverso, mostra-se favorável à instauração de um tribunal exclusivo para cuidar da guarda constitucional visto que, na visão de Kelsen, transformar o chefe do Poder Executivo no único defensor da Constituição implicaria uma violação à Constituição de Weimar, pois ignora a possibilidade de violação da Constituição por parte do chefe de Estado ou de governo.
O debate entre Schmitt e Kelsen propõe a retomada de uma série de questões sobre uma disputa de fundo que tem adquirido mais atualidade nas democracias em processo de consolidação; qual seja, a discussão sobre o papel do Poder Judiciário e, em especial, no que tange ao controle de constitucionalidade. A disputa entre a órbita política e a esfera jurídica tem apresentado progressiva radicalização no mundo.
CASO MARBURY VS. MADISON
Imagem: Rembrandt Peale / Wikimedia Commons, Domínio público William Marbury
Imagem: Rembrandt Peale / Wikimedia Commons, Domínio público James Madison
O que sobressaiu neste debate foi a precedência, ou não, da política (poder) sobre o direito (técnica), bem como a determinação da preeminência de um deles sobre o outro. No caso de Schmitt, teve lugar a afirmação da política sobre o direito (governo dos homens) e, no caso de Kelsen, do direito sobre a política (governo das leis). A PEC 33 também reforçou esse entendimento de que a relação entre política e direito segue tensa e como isso se reflete na interação entre os Poderes do Estado e especialmente na interpretação da Constituição.
JUDICIAL REVIEW
Judicial review (ou simplesmente controle judicial das leis) é o controle feito pelo Poder Judiciário de atos do Poder Executivo e de leis promulgadas pelo Poder Legislativo. Esse processo de judicialização da vida política e social é um fenômeno mundial que ganhou força no Brasil especialmente em razão de a Constituição de 1988 ser extremamente ampla e tratar de diversos temas, bem como de um sistema de controle de constitucionalidade abrangente.
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Este fenômeno não se confunde com ativismo judicial que, entre nós, é mais recente e se manifesta de maneira pontual para atender a demandas sociais específicas não satisfeitas pelos responsáveis pela implementação de políticas públicas. Trata-se do uso da interpretação constitucional para suprir lacunas legislativas ou de políticas públicas voltadas para a sociedade.
O precedente histórico famoso no estudo do judicial review e do controle de constitucionalidade é o caso Marbury vs. Madison, do início do século XIX, mais precisamente 1803. Trata-se de um lugar-comum, na teoria constitucional, o entendimento de que esse caso teria fundado a prática do controle judicial da constitucionalidade das leis.
Mas vamos a um resumo do caso:
ATIVISMO JUDICIAL
Apesar de ser um recurso importante, existe uma gama de juízes que o critica pelo dificuldade em definir o limite desta ação no equilíbrio entre os poderes.
A CONTURBADA ELEIÇÃO PRESIDENCIAL DE 1800, QUE DEIXA CLARA A DERROTA DOS FEDERALISTAS AO MESMO TEMPO EM QUE DEMORAM OS RESULTADOS DA ELEIÇÃO QUE ACABOU SENDO DECIDA PELA CÂMARA DAS REPRESENTANTES, DEIXA ESPAÇO PARA QUE ADAMS E OS PERDEDORES TOMASSEM MEDIDAS PARA GARANTIR INFLUÊNCIA FEDERALISTA NO ESTADO, SOBRETUDO ATRAVÉS DA CRIAÇÃO DE CARGOS NO JUDICIÁRIO. OS MIDNIGHT JUDGES, COMO SÃO CHAMADOS, SÃO NOMEADOS ÀS PRESSAS, NO APAGAR DAS LUZES DO MANDATO PRESIDENCIAL, NO ENTANTO NEM TODOS RECEBEM SEU ATO DE INSTITUIÇÃO A TEMPO, AINDA QUE NOMEADOS ALGUNS AMANHECEM EM 4 DE MARÇO DE 1801, DIA DA POSSE DO NOVO PRESIDENTE, SEM SUA INSTITUIÇÃO EM MÃOS. O NOVO PRESIDENTE, THOMAS JEFFERSON, NEGA A INSTITUIÇÃO ÀQUELES QUE HAVIAM SIDO NOMEADOS PELO SEU ANTECESSOR, MAS NÃO RECEBERAM OS RESPECTIVOS DOCUMENTOS. DENTRE ESTES ESTÁ MARBURY QUE INGRESSA NA SUPREMA CORTE CONTRA O SECRETÁRIO DE ESTADO REPUBLICANO MADISON, BUSCANDO SUA INSTITUIÇÃO. ESTÃO POSTOS OS FATOS E ARMADO O CENÁRIO DA MAIS IMPORTANTE E FAMOSA DECISÃO DA SUPREMA CORTE AMERICANA.
(STERN, 2016, p. 193)
O direito de Marbury de tomar posse não foi garantido pela decisão, mas se afirmou um poder muito maior à Suprema Corte. Atualmente, não é novidade encontrarmos decisões das Supremas Cortes com teor político. Naquele momento, no entanto, de disputa de poder entre Federalistas e Republicanos, entre Presidente e Suprema Corte, afirmar a competência da Suprema Corte para interpretar a Constituição e para o controle de constitucionalidade foi realmente um marco!
Com o tempo, o Direito constitucional foi ganhando centralidade, especialmente no Brasil, com a ascensão do paradigma pós-positivista, o uso dos princípios não mais apenas como preenchedores de lacunas, mas como normas (em igualdade de importância com as regras) de modo que o pluralismo da vida contemporânea foi demandando cada vez mais respostas para os momentos em que as políticas públicas não conseguiam atuar satisfatoriamente.
Mas a expansão da atuação do Poder Judiciário vem sendo alvo de muitas críticas e a principal delas é a representatividade democrática, porque juízes não são eleitos. Barroso (2012) contrapõe a esta crítica a noção de que democracia não se faz apenas por meio da vontade das maiorias eleitas, mas também em tudo que visa garantir e preservar os chamados “direitos fundamentais” de todos.
Casos considerados difíceis (hard cases) em que o STF atuou, agindo como verdadeiro substituto do Legislador, a despeito das discussões em torno de haver um conflito com o princípio da separação dos Poderes:
HARD CASES
São casos em que são apresentados o volume, o contraditório, e a consciência que a ação finda a partir do momento em que a matéria é finalmente regulamentada pelo legislador.
Imagem: Centros de Controle e Prevenção de Doenças / Wikimedia Commons, Domínio público
A ação de descumprimento de preceito fundamental sobre legitimidade da interrupção de gestação de feto anencéfalo (ADPF nº 54).
Ilustração de um bebê anencéfalo
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A Ação que reconheceu que as uniões homoafetivas possuem status de união estável (ADI nº 4277).
À falta de regra expressa, nos casos de ambiguidades na legislação, assim como com as transformações sociais, a Corte acaba sendo um refúgio contra majoritário para melhor equacionar o problema.
Casos difíceis são aqueles em que a solução não é facilmente encontrada nas leis postas e no ordenamento. Envolvem sempre questões jurídicas, políticas e morais controvertidas e uma atuação criativa do Tribunal para adaptar o direito à complexidade social, sempre pautado pelo princípio basilar dadignidade humana. Outros exemplos que temos de hard cases na jurisprudência:
Clique nas setas para ver o conteúdo. Objeto com interação.
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ADI (ação direta de inconstitucionalidade) nº 3510 sobre a constitucionalidade das pesquisas em células-tronco, julgada em 2008, em que o STF decidiu que tais pesquisas não violam o direito à vida, tampouco a dignidade da pessoa humana.
ADC (ação declaratória de inconstitucionalidade) nº 12 sobre a constitucionalidade da Resolução nº 7/2005 do CNJ. Em 2006, o STF decidiu pela constitucionalidade dessa norma, que proíbe a contratação, para cargos em comissão ou função gratificada (de livre nomeação e exoneração), de parentes até o terceiro grau de magistrados e de servidores em cargos de chefia e direção em todas as esferas da Justiça brasileira (nepotismo).
ADPF 347/MC (ação de descumprimento de preceito fundamental): estado de coisas inconstitucional do sistema carcerário. Tal estado ocorre quando se verifica a existência de um quadro de violação generalizada e sistêmica de direitos fundamentais, causado pela inércia ou incapacidade reiterada e persistente das autoridades públicas em modificar a conjuntura. Trata-se de medida excepcional, exigindo que haja, além da séria e generalizada afronta aos direitos humanos, também a constatação de que a intervenção da Corte é essencial para a solução do gravíssimo quadro enfrentado. Este ainda não foi decidido.
Existem muitos outros exemplos de casos em que o Supremo foi chamado a resolver uma questão complexa apresentada pela sociedade e que a solução teve de ser criativa.
A CARTA DE WEIMAR E O CONSTITUCIONALISMO SOCIAL
A História cria relações muito vívidas e que nos ajuda a entender os debates conduzidos até aqui. A professora Bianca Walther recupera um evento vital da história: a Carta de Weimar e sua relação com o constitucionalismo.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
Parte superior do formulário
1. (MPFDFT-2004 – ADAPTADA). JÁ QUE, PARA KELSEN, O DIREITO REGULA SUA PRÓPRIA PRODUÇÃO E APLICAÇÃO, A FUNÇÃO NORMATIVA DA AUTORIZAÇÃO DESEMPENHA, PARTICULARMENTE, UM IMPORTANTE PAPEL NO DIREITO. APENAS PESSOAS, ÀS QUAIS O ORDENAMENTO JURÍDICO CONFERE ESTE PODER PODEM PRODUZIR OU APLICAR NORMAS DE DIREITO. A RESPEITO DO CONCEITO, DA ESTRUTURA E FUNÇÃO DA CONSTITUIÇÃO, SEGUNDO HANS KELSEN, E DE SUA CONFIGURAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988, ANALISE AS FRASES ABAIXO:
I - A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA É O FUNDAMENTO DE VALIDADE DE TODA A ORDEM JURÍDICA NACIONAL.
II - A CONSTITUIÇÃO CONFERE UNIDADE AO ORDENAMENTO JURÍDICO, TENDO EM VISTA QUE A ORDEM JURÍDICA NÃO É UM SISTEMA DE NORMAS JURÍDICAS ORDENADAS NO MESMO PLANO.
III - A ORDEM JURÍDICA DE 1988 É UMA CONSTRUÇÃO ESCALONADA DE DIFERENTES CAMADAS OU DE NÍVEIS DE NORMAS JURÍDICAS.
IV = A CONSTITUIÇÃO DE 1988 E O NOVO CÓDIGO CIVIL SÃO O PONTO COMUM AO QUAL SE RECONDUZEM TODAS AS NORMAS VIGENTES NO ÂMBITO DO ESTADO BRASILEIRO.
ESTÃO CORRETAS AS AFIRMATIVAS:
I e II apenas.
I e III apenas.
II e III apenas.
I, II e III apenas.
II, III e IV apenas.
Parte inferior do formulário
Parte superior do formulário
2. SOBRE O CASO MARBURY VS. MADISON (1803), ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA (PGE-PA/2011):
Trata-se de um marco do constitucionalismo ocidental, porque a Suprema Corte dos Estados Unidos proferiu, pela primeira vez, uma decisão que condenou o então presidente George Washington, com fundamento na Constituição de 1787.
Trata-se de um marco do constitucionalismo ocidental, porque a Suprema Corte criou o modelo jurisdicional de controle de constitucionalidade concentrado e abstrato, assim como um Tribunal Constitucional, inspirado na Teoria Pura do Direito de Hans Kelsen, para decidir sobre a validade de atos emanados pelos Poderes Executivo e Legislativo.
Trata-se de um marco do constitucionalismo ocidental, porque a Suprema Corte criou o modelo jurisdicional de controle de constitucionalidade difuso e concreto, assim como um Tribunal Constitucional, inspirado no pensamento de Hans Kelsen, para decidir sobre a validade de atos emanados pelos Poderes Executivo e Legislativo.
Trata-se de um marco do constitucionalismo ocidental porque a Suprema Corte assentou que a imunidade do Executivo não era um valor absoluto e que, nas circunstâncias, deveria ser ponderada com a necessidade de produção de prova em um processo penal em curso. Determinou, assim, que o presidente John Adams entregasse ao Judiciário documentos que o incriminavam.
Decidido o mérito, afirmou, em seus dicta, o princípio da supremacia da Constituição, assim como a autoridade do Poder Judiciário para zelar por ela, inclusive invalidando os atos emanados dos Poderes Executivo e Legislativo que a contrariem.
Parte inferior do formulário
GABARITO
1. (MPFDFT-2004 – adaptada). Já que, para Kelsen, o Direito regula sua própria produção e aplicação, a função normativa da autorização desempenha, particularmente, um importante papel no Direito. Apenas pessoas, às quais o ordenamento jurídico confere este poder podem produzir ou aplicar normas de Direito. A respeito do conceito, da estrutura e função da Constituição, segundo Hans Kelsen, e de sua configuração na Constituição Brasileira de 1988, analise as frases abaixo:
I - A Constituição Brasileira é o fundamento de validade de toda a ordem jurídica nacional.
II - A Constituição confere unidade ao ordenamento jurídico, tendo em vista que a ordem jurídica não é um sistema de normas jurídicas ordenadas no mesmo plano.
III - A ordem jurídica de 1988 é uma construção escalonada de diferentes camadas ou de níveis de normas jurídicas.
IV = A Constituição de 1988 e o novo Código Civil são o ponto comum ao qual se reconduzem todas as normas vigentes no âmbito do Estado Brasileiro.
Estão corretas as afirmativas:
A alternativa "D " está correta.
Nas palavras de Luís Roberto Barroso (p. 368, 2009): “A fase atual é marcada pela passagem da Constituição para o centro do debate jurídico, de onde passa a atuar como o filtro axiológico pelo qual se deva ler o direito civil. É nesse contexto que se dá a virada axiológica do direito civil, tanto pela vinda de normas de direito civil para a Constituição, como sobretudo, pela ida da Constituição para interpretação do direito civil, impondo um novo conjunto de valores e princípios (…)”.
2. Sobre o caso Marbury vs. Madison (1803), assinale a alternativa correta (PGE-PA/2011):
A alternativa "E " está correta.
O caso Marbury vs. Madison significa falar de um marco no Direito constitucional, pois foi com esse caso, em 1803, nos Estados Unidos, que se instituiu o controle difuso de constitucionalidade, ao afirmar que a Constituição é soberana e que os atos e as leis que a contrariam são nulos, fazendo com que a Constituição seja contemplada como lei fundamental e suprema da nação. Além disso, esse caso que trouxe a ideia de que o Judiciário possui mais força na interpretação da constituição. Mas não podemos nos esquecer de que o controle concentrado de constitucionalidade tem origem na Áustria e nas teorias de Hans Kelsen.
MÓDULO 2
 Conceituar o processo de judicialização e as conquistas relacionados à luta pelos direitos humanos
INTRODUÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS
Os temas proteção do indivíduo e dignidade humana, soberania popular e grupos de pressão e advocacy estão inseridos neste módulo e estudados em conjunto para que possamos melhor compreender esses direitos, sua origem, seus desdobramentos e relações. Especialmente o tema dos grupos de pressão e advocacy e suas estratégias para a mudança de políticas públicas e busca de respostas favoráveis do Legislativo, quando o Poder Executivo se mostra inoperante ou não acompanha as demandas da complexidade social. Também a importância da atuação desses grupos fora desses Poderes será estudada.
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A temática dos direitos humanos tem na promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela ONU(Organização das Nações Unidas), em 1948, o marco do constitucionalismo moderno (estudamos constitucionalismo no nosso primeiro módulo), que consagra direitos do cidadão,do indivíduo em face do Estado. Sabemos, historicamente, que as ameaças aos direitos humanos podem vir do Estado e das Leis, bem como da sociedade massificada e seus conformismos e, também, da sociedade capitalista e toda a sua rede de desumanização.
1
Originalmente, os direitos declarados em 1948, em um contexto de pós-Segunda Guerra Mundial tinham uma carga mais individualista e exprimia a desconfiança do cidadão contra o Estado e todas as formas de Poder instituído e organizado. Desejava-se um Estado não intervencionista nas liberdades e nos direitos dos cidadãos.
Com o tempo, os direitos coletivos e sociais foram ganhando mais espaço na agenda dos direitos humanos, buscando-se até mesmo uma atuação positiva do Estado, sobretudo quando se trata de minorias e de marginalizados (veremos mais detidamente no terceiro módulo do nosso conteúdo, quando abordaremos o tema das minorias vulnerabilizadas).
2
Existem importantes teóricos dos direitos humanos que chegam a tratar das chamadas dimensões (ou “gerações”, termo este mais antigo) dos Direitos Humanos. Sendo a primeira dimensão aquela pautada nos valores de liberdade individual e concentrada nos direitos civis e políticos em face do Estado. A segunda baseia-se no princípio de igualdade social, são os chamados direitos econômicos, sociais e culturais.
A Constituição de Weimar (1919), na Alemanha, marca o início da ideia de um Estado Social de Direito e influenciou, assim como a Constituição do México (1917), a elaboração da Constituição brasileira (1934), a primeira a trazer um capítulo sobre direitos fundamentais sociais.
Na terceira dimensão dos direitos humanos temos o valor da fraternidade e o Estado já não é mais o único responsável para levar mais direitos àqueles vulnerabilizados, mas também os representantes da sociedade civil, os ditos “grupos de pressão”, as organizações não governamentais, as chamadas ações populares e as ações civis públicas. Passemos aos estudos de cada tópico.
Imagem: JonRoma/ Wikimedia Commons, Domínio público A Constituição de Weimar em formato de livreto. A constituição em si exigia que fosse entregue aos estudantes no momento de sua formatura.
PROTEÇÃO DO INDIVÍDUO E DIGNIDADE HUMANA: BREVE HISTÓRICO
Historiadores, geralmente, apontam a origem dos direitos humanos na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, no período de eclosão da Revolução Francesa no século XVIII, mas a verdade é que há dois antecedentes dessa declaração, que são: os Bills of Rights das colônias norte-americanas que se rebelaram em 1776; e o Bill of Right inglês, de 1689.
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Do ponto de vista de conceitos não há diferença significativa entre a Declaração Francesa e os Bills norte-americanos, uma vez que são produtos do clima cultural dominado pelo jusnaturalismo (paradigma considerando existirem direitos naturais prévios à formação da sociedade) e pelo contratualismo (os cidadãos firmam um contrato social de proteção com o Estado, mas esse deve respeitar o rol de direitos naturais anteriores à sociedade). Já o Bill inglês não reconhece direitos do homem, mas alguns direitos tradicionais e consuetudinários aos nobres em face da monarquia.
Essas declarações trouxeram a questão da relação com o ordenamento jurídico-político interno, pois a organização do poder, por meio do direito positivo, impõe que sejam estabelecidos direitos e deveres precisos. Então, ou os direitos enunciados nas declarações ficam como meros princípios abstratos e ideológicos ou são positivados para que possam ser exigíveis em face do Estado. Mas a primeira e única Constituição dos Estados Unidos (1787) alterou essa questão ao positivar alguns dos direitos dos cidadãos previstos nessas declarações.
Após as barbáries cometidas durante a Segunda Guerra Mundial, foi fundada a ONU, em 1945, com a assinatura da Carta das Nações Unidas. Os objetivos declarados eram restabelecer a paz mundial, a segurança internacional e a proteção de direitos humanos básicos (todos violados pelo nazismo na Alemanha).
Nesse clima de reconciliação internacional, a ONU promulga a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, sendo um marco para o Direito Internacional e, também, a primeira vez em que direitos humanos são declarados de forma global. Veremos que esse caráter universal será bastante criticado por pensadores como Boaventura de Sousa Santos.
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Em razão desse caráter universal, os indivíduos passaram a gozar de direitos e de proteção internacional pelo simples fato de serem pessoas, de existirem, independentemente de nacionalidade, raça, religião, etnia, sexo e língua. O direito a ter direitos e a ter uma vida digna como pessoa humana é um grande avanço na história do Direito internacional e se constitui no núcleo duro da proteção do indivíduo frente às violações perpetradas inclusive por seu Estado de origem.
 ATENÇÃO
O Brasil se rege nas suas relações internacionais por determinados princípios positivados pela Constituição de 88 e um deles é o da prevalência dos direitos humanos (art. 4º, II, CR/88).
Aqui, no Brasil, os direitos humanos positivados pelo ordenamento jurídico interno são denominados: direitos fundamentais. Em essência, significam a mesma coisa, só variando a nomenclatura de acordo com a localização normativa (se em Declarações e Convenções Internacionais; se na Constituição).
O valor inerente a esse conjunto de direitos é o princípio da dignidade humana, que se constitui em princípio jurídico de nível constitucional e encontra-se positivado como fundamento da República Federativa do Brasil (art. 1º, III, CR/88) na Constituição de 1988.
Barroso (2012, p. 44) fez uma interessante síntese do conteúdo jurídico da dignidade humana que é composto basicamente de três elementos:
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Dignidade como valor inerente a todos os seres humanos, como vida, igualdade, integridade física, moral e psíquica. Este é o núcleo da proteção individual, juntamente às autonomias privadas e públicas abaixo.
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Dignidade como autonomia de cada indivíduo de como conduzir a sua vida da melhor forma. Aqui estão as liberdades (de consciência, de crença, de expressão, de trabalho, de associação e outros direitos individuais). Também estão aqui os direitos de participação na condução da coisa pública (direitos políticos). A autonomia privada e a pública exigem a satisfação do chamado mínimo existencial como pressuposto para o exercício dessas liberdades e dos direitos políticos (quem passa fome não tem como exercer qualquer direito de liberdade, a necessidade escraviza). O mínimo existencial corresponde, assim, ao núcleo duro dos direitos fundamentais sociais e premissa para o exercício de uma vida livre, igual e autônoma.
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Dignidade como valor comunitário, no sentido de ser um limite ao exercício da autonomia individual. O indivíduo vive em sociedade e ela possui valores que implicam responsabilidades e deveres. Esse elemento social da dignidade visa à proteção dos direitos de terceiros; à proteção do indivíduo contra si próprio; e, também, à proteção de valores sociais (deve haver um consenso social e risco ao direito de outras pessoas em uma eventual violação).
SOBERANIA POPULAR E DIREITOS HUMANOS
O conceito de soberania está intimamente relacionado ao conceito de Estado e poder político e isso desde fins do século XVI. Matteucci (1998, p. 1179) afirma que a “soberania pretende ser a racionalização jurídica do poder, no sentido da transformação da força em poder legítimo, do poder de fato em poder de direito”. Com a formação dos grandes Estados, fundados na unificação e concentração de poder, a soberania é exercida por um único soberano, que centraliza o poder de vida e morte sobre seus súditos (aqueles sob seu domínio).
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O poder legitimava-se pela força bruta, com o tempo, além da força bruta, o poder passou a contar com um caráter divino de justificação. Então, a soberania do monarca com base na força e em um poder divino, deu lugar, com otempo, à ideia de uma soberania da nação, trazida pelo abade de Sieyés e que teve aceitação na França revolucionária (vontade da Nação e não vontade do povo).
A ideia de vontade soberana do povo surge no mesmo século XVI com Rousseau(Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)). Contudo, no século XX a soberania como conceito político-jurídico entra em crise, com o surgimento das teorias constitucionalistas, com a crise do Estado Moderno, que se mostra incapaz de atuar como centro único e autônomo de poder.
A partir do fim da Segunda Guerra Mundial, como vimos no tópico anterior, as relações internacionais ganham novos formatos e atributos (Estados Nacionais cada vez mais interdependentes política e economicamente), os direitos humanos passam a ser valorizados em nível global, bem como a realidade cada vez mais plural e democrática das sociedades esvaziaram bastante o conceito de soberania como plenitude do poder estatal.
A questão do reconhecimento de um rol de direitos humanos universais trouxe alguns problemas também para a questão da soberania. Para aqueles que entendem que os direitos humanos são direitos naturais, anteriores ao ordenamento posto, ao defenderem que o Estado deve reconhecê-los admitem claramente um limite preexistente à soberania estatal.
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Mesmo para os que não seguem esse paradigma jusnaturalista, os direitos humanos passam a ser exigíveis em seu núcleo essencial (vida, liberdade, integridade, mínimo existencial etc.), admitindo até mesmo interferências do tipo humanitárias em outros Estados para fazer valer tais direitos.
Na prática, os direitos humanos são invocados pela comunidade internacional para o tratamento de estrangeiros e, mais raramente em relação a grupos das chamadas “minorias vulnerabilizadas” (minorias étnicas, grupos religiosos, entre outros), pois os Estados ainda atribuem muita importância à soberania (externa) e, portanto, a atuação em prol de direitos humanos somente quando seus direitos e interesses ou direitos de seus cidadãos parecem estar em jogo. Então, a grande crítica que se faz é justamente a consideração de que o que se afirma universal é, em matéria de direitos humanos, a perspectiva hegemônica na disputa, aquela que “venceu” e se estabeleceu.
Com a progressiva juridicização do Estado de Direito não faz mais sentido falar em soberania nos moldes que vinha sendo abordada, uma vez que os poderes constituídos (como vimos no módulo sobre Constitucionalismo) são limitados pelos direitos e pela lei. A soberania, atualmente, atua na origem como “poder constituinte”, como criadora do ordenamento. Uma dessas formas de manifestação do poder constituinte é a soberania popular.
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O parágrafo único, do art. 1º, da Constituição de 1988 estabelece a soberania popular como fundamento da República:
“TODO PODER EMANA DO POVO, QUE O EXERCE POR MEIO DE REPRESENTANTES ELEITOS OU DIRETAMENTE, NOS TERMOS DESTA CONSTITUIÇÃO”.
Assim, esse poder instaura um Estado Democrático de Direito, onde o Estado e o poder político não só se sujeitam à Supremacia da Constituição, mas também à vontade popular.
O constitucionalismo, que traz em seu bojo, a ideia de separação de poderes, a supremacia da lei e da Constituição, bem como o pluralismo social e o federalismo tende a enfraquecer e a relativizar a ideia de soberania conforme antes concebida, mas não se pode esquecer de que a unidade do corpo político e a coesão do corpo social devem ser mantidas por meio de instituições democráticas fortes, sob pena de o enfraquecimento da soberania gerar um Estado de “guerra de todos contra todos” (referência a T. Hobbes(Thomas Hobbes (1588-1679))).
A relação que podemos traçar entre o exercício da soberania popular e os direitos humanos está em que tais direitos serão limites intransponíveis para o exercício do poder constituinte, seja ele originário, seja ele derivado (decorrente e reformador).
A teoria democrática tem como soberano o povo e a elaboração da Constituição será feita por assembleia com representantes eleitos democraticamente pelo povo. A Constituição passa a ser a lei suprema e que reconhece os direitos humanos declarados no plano internacional como direitos fundamentais na ordem interna.
Os poderes do Estado passam a ser constituídos e organizados de acordo com o princípio da separação dos poderes, limitados pelos direitos e pelas garantias individuais (direitos fundamentais).
GRUPOS DE PRESSÃO E ADVOCACY
Grupos de pressão são uma espécie de grupos de interesse (gênero). Tais grupos podem existir organizados e ativos sem, contudo, exercerem a pressão política(Organização partidária e eleições). Adotam uma postura direta de influência sobre as autoridades públicas, principalmente na esfera dos Poderes Executivo e Legislativo. Não se confundem com partidos políticos, pois os grupos defendem interesses gerais da sociedade e não de setores específicos.
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Advocacy é a defesa, a argumentação e a atuação em favor de uma causa que envolve a elaboração de políticas públicas importantes para a melhora de diversos setores sociais. É um processo de reivindicação de direitos, tendo por objetivo influir na implementação de políticas públicas que atendam às necessidades da população.
Utiliza-se o termo advocacy para descrever ações de pressão realizadas por organizações da sociedade civil que possuem representatividade e poder de influência para defender causas que carecem de atuação do poder público, seja por falta de vontade política, seja por dificuldades orçamentárias, seja por invisibilidade de determinados grupos.
Muito embora haja pouco material sobre grupos de pressão, no Brasil, eles são fundamentais para a democracia e para a promoção de direitos humanos porque podem contribuir para o aperfeiçoamento das políticas públicas; para o estabelecimento de limites à ação dos poderes; e promoção do interesse público em favor de determinadas causas sociais, como educação, saúde etc.
São muitas as modalidades de organização de interesse, inclusive no âmbito interno do Parlamento, onde tem sido comum a articulação de frentes parlamentares ou bancadas informais para a promoção de direitos, valores e interesses sociais.
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 ATENÇÃO
A função dos grupos de pressão (espécie ativa dos grupos de interesse) e da prática da chamada advocacy é tentar a mudar a lógica da luta pelo poder e influenciar governos, parlamentares e partidos políticos a enxergarem que as políticas voltadas às melhorias sociais, ambientais e educacionais são também instrumentos para que a luta pelo poder encontre limites civilizatórios e não seja apenas uma estratégia para “as próximas eleições”!
Existem diversos grupos atuando para melhorar e influenciar nas políticas públicas. No Esporte, na Educação, na Saúde, pelos direitos das mulheres e para atender a demandas dos movimentos negros, tais como a inclusão de estudos sobre a História e a cultura afro, bem como a liberdade de exercício de religiões de matizes africanas, demandas de reconhecimento e por igualdade de direitos dos movimentos LGBTQIA+. Enfim, veja que são muitas frentes de atuação.
Vamos citar alguns exemplos de organizações da sociedade civil em prol de direitos e políticas públicas eficientes:
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Atletas pelo Brasil: uma sociedade sem fins lucrativos e pioneira em que atletas e ex-atletas de diversas modalidades e de diferentes gerações atuam para a melhoria do Esporte, da Educação e, consequentemente, por causas sociais nacionais através da prática da advocacy.
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Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006): exemplo bem-sucedido de advocacy feminista em prol dos direitos das mulheres. Houve forte atuação e pressão de movimentos feministas, de organizações não governamentais feministas no cenário nacional que impulsionaram políticas públicas voltadas para a efetivação da cidadania das mulheres, especialmente no que se refere ao enfrentamento da violência.
Foto: Shutterstock.comInstituto Oncoguia (Operação Chaminé) e ACBG Brasil: trabalham para articular melhorias na prevenção e no tratamento de câncer, não só aos pacientes (advocacy para inclusão de tratamentos e exames nos planos de saúde e marcação preferencial na rede pública) como aos parentes, que acabam sendo bastante afetados psicológica e economicamente.
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Grupos de apoio à prevenção à AIDS (GAPA): atuam em prol de pessoas vivendo com HIV/Aids e seus familiares; mulheres; adolescentes (de 10 a 19 anos), especialmente por meio de ações de prevenção e promoção da Saúde (orientações, disponibilização de preservativos, palestras, capacitações em saúde etc.) e na advocacy por direitos (cidadania, discriminação, jurídicos etc.).
O CASO ANGELA DAVIS
A professora Bianca Walther nos conta sobre o ativismo judiciário nas questões dos direitos humanos.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. A RESPEITO DOS MARCOS HISTÓRICOS, FUNDAMENTOS E PRINCÍPIOS DOS DIREITOS HUMANOS, ASSINALE A OPÇÃO CORRETA (QUESTÃO DA BANCA CESPE/CEPRASPE, 2019).
Segundo a doutrina contemporânea, direitos humanos e direitos fundamentais são indistinguíveis; por isso, ambas as terminologias são intercambiáveis no ordenamento jurídico.
Os direitos humanos estão dispostos em um rol taxativo, internalizado pelo ordenamento jurídico brasileiro com a promulgação da Constituição Federal de 1988.
No Brasil, os direitos políticos são considerados direitos humanos e seu exercício pelos cidadãos se esgota no direito de votar e de ser votado.
A dignidade da pessoa humana, princípio basilar da Constituição Federal de 1988, é fundamento dos direitos humanos.
Em razão do princípio da imutabilidade, os direitos humanos reconhecidos na Revolução Francesa permanecem os mesmos ainda na atualidade.
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2. COM BASE NA RELAÇÃO ENTRE DIREITOS HUMANOS E ESTADO, ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA:
O Estado não deve buscar a efetivação dos direitos fundamentais porque esses direitos se satisfazem com o simples reconhecimento abstrato.
O poder público deve atuar de modo a garantir a efetivação dos direitos e garantias fundamentais, usando inclusive mecanismos coercitivos quando necessário.
Direitos humanos não são a mesma coisa, na essência, que direitos fundamentais.
O Estado Democrático de Direito surge do exercício da soberania popular e não tem por limite dos direitos humanos.
Os direitos humanos não se aplicam a todos os indivíduos, sendo dependente de questões de nacionalidade, sexo, raça, credo ou convicção político-filosófica.
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GABARITO
1. A respeito dos marcos históricos, fundamentos e princípios dos direitos humanos, assinale a opção correta (questão da Banca CESPE/CEPRASPE, 2019).
A alternativa "D " está correta.
Como vimos, a dignidade da pessoa humana é considerada o fundamento da proteção dos direitos humanos, além de ser indicada como um dos pilares da República Federativa do Brasil, conforme indica o art. 1º, III, da CR/88.
2. Com base na relação entre Direitos Humanos e Estado, assinale a alternativa correta:
A alternativa "B " está correta.
Os direitos e as garantias fundamentais não se bastam apenas pelo mero reconhecimento abstrato. É preciso, além do reconhecimento interno, encontrar meios para efetivá-los (princípio da efetividade dos direitos humanos – possibilidade real de ela ser efetivamente aplicada e observada).
MÓDULO 3
 Identificar o papel da justiça na promoção da defesa de minorias vulnerabilizadas
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DAS CHAMADAS MINORIAS VULNERABILIZADAS
Minorias e grupos vulneráveis originam-se de relações em que há assimetria social (econômica, educacional, cultural etc.). Partindo-se dessa premissa, minoria pode ser conceituada como a existência de grupos que se distinguem da maioria, entendida essa como aquele agrupamento generalizado, baseado na indeterminação de traços e que pertence ao “padrão normalizado” (branco, masculino e heteronormativo), considerado majoritário em relação a outro que dele destoa (negros, mulheres, população LGBTQI+ etc.).
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A vulnerabilidade advém das pressões impostas por esse suposto padrão de normalidade, que pressiona o diferente. Essa exclusão social é violenta e essa violência tanto pode ser física quanto simbólica, originária dessa opressão, que, muitas vezes, se manifesta na forma de preconceito, discriminação e rejeição, marginalizando o diferente.
QUEM OUSA SER DIFERENTE, EM UMA SOCIEDADE PATRIARCAL, DE PAPÉIS SOCIAIS BEM DEFINIDOS, PARA ATUAÇÃO EM PROL DO CAPITALISMO?
Há que se introduzir também a distinção de termos correlatos como preconceito e discriminação, mas que designam fenômenos diversos.
O preconceito refere-se a percepções mentais negativas em face de indivíduos e de grupos social e historicamente inferiorizados e representações do corpo social conectadas com tais percepções. O preconceito costuma ser estudado sob duas perspectivas:
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PSICOLÓGICA
SOCIOLÓGICA
PSICOLÓGICA
As abordagens psicológicas buscam respostas na dinâmica interna dos indivíduos para encontrar as raízes do preconceito em projeções de conflitos internos e frustrações sociais.
SOCIOLÓGICA
A perspectiva sociológica abarca a categorização e a construção de estereótipos para se desenvolver atitudes negativas e depreciativas em relação ao grupo invisibilizado nas relações sociais intergrupais.
Já discriminação se refere à materialização de atitudes arbitrárias em razão do preconceito e que produz a violação de direitos de indivíduos pertencentes a esses grupos minoritários e vulneráveis. Veja as modalidades de discriminação:
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DISCRIMINAÇÃO DIRETA
DISCRIMINAÇÃO INDIRETA
DISCRIMINAÇÃO DIRETA
É o desprezo escancarado a indivíduos ou grupos, motivado pela condição racial, religiosa, de sexo etc. Um exemplo, segundo Almeida (2019) é o que ocorre em países que proíbem a entrada de negros, judeus, muçulmanos, pessoas de origem árabe e os persas (esses como grupo populacional), ou ainda lojas que se recusem a atender clientes de determinada raça ou classe social. É também aquela discriminação que existiu durante o período de segregação racial nos EUA, imposta inclusive legalmente.
DISCRIMINAÇÃO INDIRETA
É um processo em que a discriminação de fato, em relação a grupos minoritários ou, por exemplo, o mito da neutralidade racial, da neutralidade em relação a certos grupos notoriamente discriminados, sem que se leve em conta a existência de diferenças econômico-sociais significativas, geram a chamada estratificação social. Não há intenção deliberada de discriminar, mas a norma ou a práxis social não pode ou não consegue prever as consequências discriminatórias advindas da aplicação de um conceito de neutralidade que esconde enormes desigualdades em relação a grupos invisibilizados e marginalizados.
A estratificação social é um fenômeno que se propaga por gerações, tornando o percurso de vida de todos os membros de determinado grupo social – o que inclui as chances de ascensão social, de reconhecimento e de sustento material – prejudicado de geração a geração, perpetuando e amplificando a pobreza e a marginalização.
 ATENÇÃO
No estudo das minorias vulnerabilizadas é importante destacar a contribuição de estudos culturais de identidades e de reconhecimento. E as identidades são produzidas a partir das diferenças, sendo a discriminação o ato de atribuir-se significado negativo às diferenças, cristalizando-as em de grupos excluídos.
Feita essa breve introdução, vimos que a existência de minorias vulnerabilizadas está intimamente relacionada com preconceitos, discriminações e pobreza intergeracional. Vamos aos assuntos propostos!
TRATAMENTO CONSTITUCIONAL DOS POVOS TRADICIONAIS E INDÍGENAS
A diversidade étnica brasileira é característica que nos faz um país plural. Apesar do extermínio sofrido por boa parcela dos grupos indígenas(Também chamados de população tradicional.),muitas populações resistiram à exploração, às doenças e à morte e, atualmente, são reconhecidos como sujeitos de direitos a serem protegidos pela ordem jurídica nacional.
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Por um tempo, essas populações eram tratadas como um obstáculo ao desenvolvimento nacional em razão de não cederem às pressões “civilizatórias” predominantemente europeizada e norte-americanizada. A legislação que existia antes da Constituição de 1988 era mais estigmatizante desses povos do que realmente emancipadora e promotora dos seus interesses, e foi assim desde o período colonial.
O trato da população indígena, no Brasil, passou por três momentos:
O do extermínio — período colonial, tentativa de escravização, tomada de suas terras, estímulo a conflitos entre aldeias distintas a fim de que a própria rivalidade entre eles os destruísse.
O da integração e tentativa de assimilação — Lei 6.001/73, conhecido como Estatuto do Índio é ainda dessa fase de política de integração dos considerados silvícolas, aqueles que viviam afastados das cidades.
O advento da Constituição de 1988 — reconhecimento de direitos, de identidade e ampliação do sistema protetivo e de garantias.
O Estatuto do Índio (Lei 6001/73), embora seja da fase integracionista, trata-se de legislação que se contradiz, ora defendendo a cultura indígena, ora obrigando-os a se adequarem aos moldes da sociedade considerada “civilizada”, o que a torna ultrapassada em relação ao disposto no art. 231, da Constituição (1988).
SÃO RECONHECIDOS AOS ÍNDIOS SUA ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COSTUMES, LÍNGUAS, CRENÇAS E TRADIÇÕES, E OS DIREITOS ORIGINÁRIOS SOBRE AS TERRAS QUE TRADICIONALMENTE OCUPAM, COMPETINDO À UNIÃO DEMARCÁ-LAS, PROTEGER E FAZER RESPEITAR TODOS OS SEUS BENS.
(CF, 1988)
A questão das terras indígenas e sua demarcação é o ponto de impasse na luta por reconhecimento e direitos. Em 2009, o STF encerrou o julgamento da Petição nº 3388 que questionava, em ação popular ajuizada por um senador da república, a demarcação da Terra Indígena Raposa do Sol e pedia a declaração de nulidade da Portaria nº 534 do Ministério da Justiça, homologada pela Presidência da República em 2005.
Os Ministros da Corte Suprema decidiram pela demarcação contínua da terra indígena e imediata retirada dos ocupantes não indígenas. Em 2019, um estudo feito sobre os avanços naquelas terras para a organização, desenvolvimento e sobrevivência dos povos da Raposa do Sol. O dossiê feito nos dez anos da decisão do STF mostra avanços nos aspectos social, cultural, ambiental e econômico, pois há atividades de produção e comércio de produtos agrícolas e artesanais nessas terras.
OS POVOS INDÍGENAS POSSUEM AUTONOMIA DE DECISÃO E PRODUZEM DE FORMA CONSCIENTE E RESPONSÁVEL.
Esse caso foi considerado um leading case e expôs o papel do STF como legislador positivo e, muito embora tenha sido favorável aos povos indígenas da Raposa do Sol, a decisão traz a tese do marco temporal que impede a demarcação de terras de povos que não se encontravam nas terras quando da promulgação da Constituição de 1988.
Trata-se de inovação jurídica que impõe uma interpretação restritiva aos direitos dos povos indígenas e que tem sido contestada por uma série de entidades indigenistas, além de povos indígenas. Referida tese interpretativa trouxe à reflexão os debates sobre os limites e a legitimidade da jurisdição constitucional em uma democracia.
RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS E CULTURA AFRO-BRASILEIRA
Primeiro vamos abordar os conceitos de etnia e raça, que apesar de serem empregados, muitas vezes, como sinônimos são palavras distintas, para depois abordarmos o que se entende por relações étnico-raciais e o reconhecimento da cultura afro-brasileira.
LEADING CASE
Caso decidido em tribunal que se torna um exemplo para a decisão de demais casos.
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Raça engloba mais características biológicas e fenotípicas de cor da pele, textura e cor dos cabelos e outros traços físicos característicos.
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Etnia, de acordo com o antropólogo da USP, Munanga (2016), é um conjunto de indivíduos que, historicamente, possuem um ancestral comum; uma língua que partilha da mesma origem, uma religião também com a mesma origem ancestral; uma mesma cultura e coabitam geograficamente o mesmo território.
O estudo das relações étnico-raciais é aquele aborda em conjunto a problemática dos preconceitos, discriminações de um grupo, sem se concentrar apenas na cor, mas abarcando também a vestimenta, a religião, a língua e a cultura de indivíduos pertencentes a um grupo racial e étnico historicamente discriminado pela sociedade.
A inclusão de uma educação étnico-racial nas escolas, desde o ensino infantil, é fundamental para o reconhecimento de culturas afrodescendentes e indígenas como partes da nossa formação social. Isso favorece à construção de uma sociedade plural e democrática em que grupos, historicamente marginalizados, sejam reconhecidos como importantes para a formação da nossa sociedade e nossa cultura. Para que sintam orgulho de serem diferentes, mas que essa diferença não sirva para torná-los vítimas constantes de violências físicas e institucionais.
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 EXEMPLO
Quase dois anos após a promulgação da Lei 10.639/03, líderes de religiões de matriz africana de diferentes partes do Brasil tiveram de buscar uma conversa oficial com o presidente do Supremo Tribunal Federal à época, ministro Nelson Jobim, com a finalidade de pedir o apoio institucional para a inclusão no currículo dos ensinos fundamental e médio das disciplinas de História da África e História do Negro (um exemplo de advocacy que já estudamos). Na ocasião, protocolaram uma representação dirigida ao Ministério Público Federal para pedir o cumprimento da lei que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação visando à inclusão de matérias relativas à História da África e à Cultura Afro-Brasileira nas escolas.
Trata-se de uma luta pelo resgate da cultura afro-brasileira, com o reconhecimento de suas religiões, de sua história, suas vestimentas e que isso comece pela educação primária. Com o objetivo de as crianças não aprenderem a discriminar o diferente, mas que conheçam a história e cultura desse diferente para entendê-la e respeitá-la.
 COMENTÁRIO
É preciso ter o cuidado de não focar a história desses grupos apenas na fase colonial e escravocrata, para não reforçar a estigmatização. É claro que a escravidão explica muito o racismo que vemos na sociedade, mas temos de reforçar o estudo da história desses povos, que é rica e que foi apagada pela Grande História, a dos conquistadores.
RACISMO ESTRUTURAL
O racismo estrutural consiste em encarar o preconceito e a discriminação de raça como algo que não só existe, mas que foi normalizado (naturalizado) pela sociedade. Isso não quer dizer que deva ser aceito, ou que seja aceito, mas sim que constitui e marca as relações sociais desde o período das grandes colonizações. É racismo como forma de estrutura social (nível político, econômico e de subjetividades) e que constitui as próprias relações. A sociedade “funcionando” no seu aspecto normal nesses três níveis (político, econômico e das subjetividades) produz desigualdades e estratificação social.
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Há a naturalização da violência contra a população negra.
A ESTRUTURA SOCIAL É CONSTITUÍDA POR INÚMEROS CONFLITOS – DE CLASSE, RACIAIS, SEXUAIS ETC. –, O QUE SIGNIFICA QUE AS INSTITUIÇÕES TAMBÉM PODEM ATUAR DE MANEIRA CONFLITUOSA, POSICIONANDO-SE DENTRO DO CONFLITO. EM UMA SOCIEDADE EM QUE O RACISMO ESTÁ PRESENTE NA VIDA COTIDIANA, AS INSTITUIÇÕES QUE NÃO TRATAREM DE MANEIRA ATIVA E COMO UM PROBLEMA A DESIGUALDADE RACIAL IRÃO FACILMENTE REPRODUZIR AS PRÁTICAS RACISTAS JÁ TIDAS COMO “NORMAIS” EM TODA A SOCIEDADE.
(ALMEIDA, 2019)
Dizer que o racismo está nas estruturas da sociedade (que se reproduz na economia, na política, no ordenamento jurídico e nas instituições públicas e privadas) não quer dizer que ele seja insuperável e que medidas em forma de ações e políticas antirracistas não sejameficazes. Além disso, importante frisar que o fato de o racismo ser estrutural não retira do indivíduo a sua responsabilidade pelo cometimento de atos racistas, só que apenas essa responsabilização não será suficiente para que a sociedade deixe de reproduzir preconceitos, discriminações e desigualdades com base na raça.
 EXEMPLO
Em julgamento histórico (HC 82.424-2/RS, ano de 2004), o STF concluiu pela consumação do crime de racismo (responsabilização individual prevista na Constituição e na Lei 7.716/89) refutando a tese defensiva que alegava que não seria possível haver racismo por ausência de fundamento biológico para a identificação de raças entre os seres humanos. O STF reforçou, nesse julgado, a ideia de que o preconceito e a discriminação decorrem de representações sociais falsas, construídas culturalmente e dirigidas contra um grupo e indivíduos que se identificam com esse grupo. Então, a Suprema Corte reforçou o entendimento de que raça é um conceito que só pode ser compreendido em perspectiva relacional.
As denominadas ações afirmativas são instrumentos que colaboram para tentar reverter esse quadro de desigualdades, especialmente na educação e na inserção no mercado de trabalho. Muitas vezes, estão associadas às ideias de cotas, tratamentos ditos “preferenciais”, sendo chamadas pejorativamente de “discriminação inversa”.
Só que reduzir as ações afirmativas às políticas de cotas é apenas simplificar a realidade. Um exemplo: dizer que alguém foi “beneficiado” com um emprego pelo fato de ser negro é algo que, à primeira vista, parece injusto, mas é totalmente diferente quando se enxerga que a decisão foi apenas um critério de desempate e que visa reparar as consequências de um racismo estrutural na sociedade.
As ações afirmativas como respostas à discriminação institucional e à discriminação indireta existente na sociedade não devem ser vistas como tratamentos preferenciais, mas como medidas de combate ao racismo e às desigualdades por ele perpetradas.
ENTÃO, MELHOR ENTENDER AÇÕES AFIRMATIVAS COMO O USO DE CRITÉRIOS RACIAIS, ÉTNICOS OU MESMO SEXUAIS COM O PROPÓSITO DE REDUZIR AS DESVANTAGENS PRÉVIAS ENFRENTADAS POR DETERMINADOS GRUPOS EM RAZÃO DESSES MESMOS CRITÉRIOS.
Nos Estados Unidos, onde essas ações foram bastante empregadas no contexto dos movimentos pelos direitos civis dos negros, um primeiro momento foi marcado pela proibição de discriminações em sistemas de educação e nos sistemas de recrutamento e seleção para postos de trabalho.
 EXEMPLO
Um desses casos emblemáticos foi o de Brown vs. Conselho de Educação, julgado pela Suprema Corte dos EUA em 1954. Ao ter a matrícula da filha negada, em uma escola pública de brancos, o pai da menina negra Linda Brown, que na época tinha apenas 8 anos de idade, entrou com uma ação judicial. O argumento da escola para a exclusão da menina era baseado em um caso de 1892, o famoso Plessy vs. Ferguson, no qual a Suprema Corte Norte-americana negou o direito de um negro que reivindicava ter assento no mesmo vagão de trem que os brancos. Esse caso ficou conhecido pela frase disposta na sentença: “separados, mas iguais” (separate, but equal), ou seja, brancos e negros eram iguais, mas deveriam permanecer separados, o que era um contrassenso completo e uma subversão do que seja igualdade.
No caso Brown vs. Conselho de Educação, em plena efervescência dos movimentos pelos direitos civis dos negros, a Corte decidiu que a doutrina do “separados, mas iguais” feria a XIV (décima quarta) Emenda Constitucional. A decisão foi no sentido de que a segregação racial presente nas escolas públicas fazia com que as crianças negras se sentissem inferiores às crianças brancas, o que prejudicava o aprendizado, fazendo com que muitas desistissem de estudar, perdendo oportunidades de ascensão social. Essa decisão acabou com a segregação nas escolas públicas norte-americanas.
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No direito brasileiro, o tema vem sendo tratado com seriedade há quase vinte anos, mas não sem muita controvérsia. Oficialmente, foram estabelecidas cotas para negros e indígenas nos vestibulares das universidades públicas , nas seleções de mestrado e doutorado, nas seleções de diversos concursos públicos e isso foi um movimento positivo das instituições públicas. O problema que vem sendo observado não é o seu uso criterioso e correto, mas o uso deturpado e as fraudes verificadas.
PÚBLICAS
As primeiras a instituírem cotas em seus vestibulares foram a UERJ, a UnB, a UFPR e a Universidade Estadual da Bahia.
 COMENTÁRIO
Reconhecer a existência de rica interdisciplinaridade no estudo dos direitos humanos, de racismos, de grupos minoritários em situação de vulnerabilidade, cultura afro, cultura indígena é entender que, a garantia de direitos mínimos para uma existência digna, são complexos e referidos histórica e socialmente, não podendo excluir nenhum indivíduo e nenhum grupo.
CASOS BRASILEIROS: JUSTIÇA E VULNERABILIDADE
Vamos a conhecer esses debates na prática. Conheça o caso Angela Davis.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. (VUNESP/2015) CONFORME O ANTROPÓLOGO KABENGLE MUNANGA, DOUTOR PELA USP, O CONCEITO DE ETNIA PODE SER DEFINIDO COMO:
Um grupo de pessoas que têm um ancestral comum e que possuem algumas características físicas em comum, designando a descendência ou a linhagem.
Um conjunto de indivíduos que, histórica ou mitologicamente, têm um ancestral comum; têm uma língua em comum, uma mesma religião ou cosmovisão; uma mesma cultura e moram geograficamente em um mesmo território.
Um grupo de indivíduos que possuem uma identidade biológica com qualidades psicológicas, morais, intelectuais e culturais adjacentes a essa genética.
Uma ideologia que postula a divisão da humanidade em grandes grupos, que possuem características físicas hereditárias comuns, sendo essas últimas suportes das características psicológicas, morais e intelectuais que se situam em uma escala de valores desiguais.
Uma classificação hierárquica, fundamentada na relação intrínseca entre o biológico (cor da pele, traços morfológicos) e as qualidades psicológicas, morais, intelectuais e culturais.
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1. (FUMARC, SEE MG, 2018 – ADAPTADA) “EM MUITOS CASOS, A DISCRIMINAÇÃO RACIAL COLOCA A POPULAÇÃO AFRODESCENDENTE NOS ESTRATOS MAIS BAIXOS DA SOCIEDADE E ELES ESTÃO AGRUPADOS ENTRE OS MAIS POBRES DOS POBRES. A DISCRIMINAÇÃO ENFRENTADA PELA POPULAÇÃO AFRODESCENDENTE PERPETUA CICLOS DE DESVANTAGEM E TRANSMISSÃO INTERGERACIONAL DE POBREZA, PREJUDICANDO O SEU DESENVOLVIMENTO HUMANO. AS BARREIRAS AO ACESSO E À CONCLUSÃO DE UMA EDUCAÇÃO DE QUALIDADE REPERCUTEM NO ACESSO AO MERCADO DE TRABALHO E NOS TIPOS DE EMPREGOS ENCONTRADOS”.
COM BASE NOS SEUS ESTUDOS, LEIA AS AFIRMATIVAS ABAIXO:
I - A DÉCADA INTERNACIONAL DE AFRODESCENDENTES É UMA OCASIÃO PARA PROMOVER MAIOR CONHECIMENTO, VALOR E RESPEITO ÀS CONQUISTAS DA POPULAÇÃO AFRODESCENDENTE E ÀS SUAS CONTRIBUIÇÕES PARA A HUMANIDADE. É UMA FERRAMENTA ÚTIL PARA ABRIR CAMINHO PARA O TRABALHO E A COOPERAÇÃO FUTURA ENTRE ESTADOS, ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS E REGIONAIS, SOCIEDADE CIVIL E OUTROS, A FIM DE APRIMORAR A SITUAÇÃO DOS AFRODESCENDENTES.
II - AS DESIGUALDADES SÃO PARTE DO LEGADO DE ERROS DO PASSADO. RACISMO, PRECONCEITO E DISCRIMINAÇÃO RACIAL CONTRA A POPULAÇÃO AFRODESCENDENTE TÊM SUAS RAÍZES NOS REGIMES DE ESCRAVIZAÇÃO, NO TRÁFICO DE ESCRAVIZADOS E NO COLONIALISMO. NA HISTÓRIA DO TEMPO PRESENTE, ESSAS HERANÇAS SÃO REFORÇADAS PELA DISCRIMINAÇÃO INTERPESSOAL, INSTITUCIONAL E ESTRUTURAL E MANIFESTAM-SE NA DESIGUALDADE E MARGINALIZAÇÃO EM ÂMBITO MUNDIAL.
III - HOMENS JOVENS AFRODESCENDENTES SÃO ESSENCIALMENTE VULNERÁVEIS. SÃO CIDADÃOS QUE CORREM MAIORES RISCOS DE SEREM APREENDIDOS NA RUA POR OCASIÃO DA FILTRAGEM RACIAL, ENFRENTAM MAIORES ÍNDICES DE VIOLÊNCIA POLICIAL E MORTES E, CONSEQUENTEMENTE, CONTINUAM SENDO DETIDOS, ENCARCERADOS E SUJEITOS A PENAS MAIORES COM MAIS FREQUÊNCIA.
IV - MULHERES AFRODESCENDENTES SOFREM DISCRIMINAÇÕES MÚLTIPLAS COM BASE EM RAÇA, CONDIÇÃO SOCIOECONÔMICA, GÊNERO,ACESSO LIMITADO À EDUCAÇÃO, AO TRABALHO E À SEGURANÇA. POR ISSO, A DÉCADA INTERNACIONAL DE AFRODESCENDENTES É UMA OPORTUNIDADE NÃO SÓ DE COMBATER A DISCRIMINAÇÃO RACIAL, MAS TAMBÉM DE ASSEGURAR O DESFRUTE IGUALITÁRIO DOS DIREITOS HUMANOS POR TODOS.
V - AS CONDIÇÕES ECONÔMICA E SOCIAL SOBREPÕEM-SE À CONDIÇÃO DE RAÇA E COR, OU SEJA, A DESIGUALDADE É UM PROBLEMA DE DISTRIBUIÇÃO DE RENDA E OPORTUNIDADES IGUAIS PARA TODOS.
AS AFIRMATIVAS CORRETAS SÃO:
I, II, III e IV.
I, III, IV e V.
I, II, IV e V.
I, II, III e V.
II, III, IV e V.
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GABARITO
1. (VUNESP/2015) Conforme o antropólogo Kabengle Munanga, doutor pela USP, o conceito de etnia pode ser definido como:
A alternativa "B " está correta.
O reconhecimento de conceitos das Ciências Sociais é fundamental para o entendimento do papel de justiça, então, o reconhecimento passa pelo processo social das situações aqui demarcadas.
2. (FUMARC, SEE MG, 2018 – adaptada) “Em muitos casos, a discriminação racial coloca a população afrodescendente nos estratos mais baixos da sociedade e eles estão agrupados entre os mais pobres dos pobres. A discriminação enfrentada pela população afrodescendente perpetua ciclos de desvantagem e transmissão intergeracional de pobreza, prejudicando o seu desenvolvimento humano. As barreiras ao acesso e à conclusão de uma educação de qualidade repercutem no acesso ao mercado de trabalho e nos tipos de empregos encontrados”.
Com base nos seus estudos, leia as afirmativas abaixo:
I - A Década Internacional de Afrodescendentes é uma ocasião para promover maior conhecimento, valor e respeito às conquistas da população afrodescendente e às suas contribuições para a humanidade. É uma ferramenta útil para abrir caminho para o trabalho e a cooperação futura entre Estados, organizações internacionais e regionais, sociedade civil e outros, a fim de aprimorar a situação dos afrodescendentes.
II - As desigualdades são parte do legado de erros do passado. Racismo, preconceito e discriminação racial contra a população afrodescendente têm suas raízes nos regimes de escravização, no tráfico de escravizados e no colonialismo. Na história do tempo presente, essas heranças são reforçadas pela discriminação interpessoal, institucional e estrutural e manifestam-se na desigualdade e marginalização em âmbito mundial.
III - Homens jovens afrodescendentes são essencialmente vulneráveis. São cidadãos que correm maiores riscos de serem apreendidos na rua por ocasião da filtragem racial, enfrentam maiores índices de violência policial e mortes e, consequentemente, continuam sendo detidos, encarcerados e sujeitos a penas maiores com mais frequência.
IV - Mulheres afrodescendentes sofrem discriminações múltiplas com base em raça, condição socioeconômica, gênero, acesso limitado à educação, ao trabalho e à segurança. Por isso, a Década Internacional de Afrodescendentes é uma oportunidade não só de combater a discriminação racial, mas também de assegurar o desfrute igualitário dos direitos humanos por todos.
V - As condições econômica e social sobrepõem-se à condição de raça e cor, ou seja, a desigualdade é um problema de distribuição de renda e oportunidades iguais para todos.
As afirmativas corretas são:
A alternativa "A " está correta.
A afirmativa V é a única resposta errada, pois essas condições não se sobrepõem, no sentido de uma ser mais importante do que a outra, mas são interseccionais (classe, raça, gênero), são sistemas de opressão inter-relacionados.
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Estudamos poder constituinte, suas origens, seu conceito, seus limites e características. Vimos o debate travado entre Kelsen e Schmitt sobre “Quem deve ser o guardião da Constituição” para entender as diferenças sobre a teoria normativa (Kelsen) e o decisionismo (Schmitt). Enquanto Kelsen entende que um Tribunal Constitucional deva controlar a constitucionalidade das leis, Schmitt entende que o fundamento último do direito deve estar no soberano.
Estudamos também a origem do chamado judicial review e o caso histórico Marbury vs. Madison, marcando o entendimento de que leis e atos, abaixo da Constituição, não podem contrariá-la sob pena de serem declarados nulos.
Vimos a definição de casos difíceis e apresentamos alguns exemplos, assim como vimos que a Constituição passou a ser o centro do ordenamento jurídico com a ascensão de novos direitos e novos princípios.
Visitamos os principais eventos históricos que culminaram na ascensão dos direitos humanos na arena internacional, as gerações de direitos, bem como internalização desses direitos nos ordenamentos internos para a proteção do indivíduo e garantia da dignidade humana.
Analisamos a relação entre direitos humanos e exercício da soberania popular como inauguradora de um Estado democrático de direito, no qual a Constituição e os direitos fundamentais passam a ser limites para a atuação dos poderes constituídos.
Abordamos um assunto muito interessante e ainda pouco estudado que se relaciona com os grupos de pressão e advocacy: as organizações não governamentais e sociedades sem fins lucrativas. Elas atuam em prol do reconhecimento de direitos e implementação de políticas públicas nas mais diversas áreas, fazendo com que grupos vulnerabilizados ganhem voz junto aos tomadores de decisão, o que não deixa de ser uma luta pela efetividade de direitos humanos fundamentais previstos por nossa Constituição.
Reconhecer a existência de rica interdisciplinaridade no estudo dos direitos humanos é entender que, justamente por serem garantidores de direitos mínimos a uma existência digna, são complexos e referidos histórica e socialmente.
Visitamos os principais conceitos que nos ajudam a melhor compreender os temas que tocam os direitos humanos, os direitos fundamentais de grupos que historicamente foram invisibilizados e marginalizados pela sociedade. O módulo trabalha com “minorias” vulnerabilizadas, mas, muitas vezes, verificamos que tais minorias são, na verdade, maiorias em termos quantitativos e populacionais (caso específico da população negra, não dos indígenas), mas são minorias nos espaços políticos, nas escolas, nos trabalhos de maior remuneração, nos cargos públicos de proeminência.
Estudamos o tratamento constitucional dado aos indígenas, as melhorias no amparo a eles dado que ocorreram com a promulgação da Constituição de 1988, vimos o caso Raposa da Serra do Sol, que muito embora tenha sido favorável àqueles grupos indígenas, representou um retrocesso na forma como estabeleceu o marco temporal das demarcações de terras indígenas.
Destacamos também a importância do estudo das relações étnico-raciais para o combate ao racismo estrutural desde o ensino básico, do resgate da história, da cultura e da religião afrodescendente para a consolidação de uma sociedade de fato plural e não discriminatória.
Estudamos racismo estrutural, seu conceito e suas implicações bem como formas de combatê-lo, por meio de políticas antirracistas por instituições públicas e privadas bem como por meio de ações afirmativas.
DESCRIÇÃO
Estudar a dinâmica do capitalismo, suas crises e reinvenções nas últimas décadas dos séculos XX e primeiras décadas do XXI.
PROPÓSITO
Compreender os fenômenos do capitalismo contemporâneo, parte fundamental na dinâmica mundial, é importante para profissionais que precisam analisar o mundo contemporâneo.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Descrever a dinâmica do modelo neoliberal de acumulação capitalista
MÓDULO 2
Examinar o fortalecimento dos projetos políticos que, no início do século XXI, questionaram o modelo neoliberal do capitalismo internacional
MÓDULO 3
Identificar o fortalecimento de populismos de extrema-direita
INTRODUÇÃO
O capitalismo se consolidou como realidade histórica num longo e complexo processo, que teve início no século XIV e se estendeu até o final do século XVIII. Nesse período, várias experiências colaboraram para o amadurecimento, lento e não linear, da ordem capitalista: a crise do feudalismo, a formação do Estado moderno, as reformas religiosas, a revolução científica, o descobrimentoda América e as revoluções burguesas, especialmente a Revolução Francesa e a Revolução Industrial. No início do século XIX, o capitalismo já era realidade estruturada e não havia região no mundo imune à sua influência. Mas seria equivocado supor que a afirmação do capitalismo como modo de vida hegemônico significa que o sistema não foi desestabilizado por crises internas e por questionamentos daqueles que tentaram superá-lo, propondo ordem social alternativa.
Ainda no século XIX, podemos destacar as revoluções sociais de 1848 e de 1871 na França, que trouxeram ao primeiro plano de suas reivindicações a superação do capitalismo. A crise geral de 1873 mostrou como a própria dinâmica interna do capitalismo era capaz de abalar o sistema. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi, em parte, resultado das contradições internas do capitalismo. Ao mesmo tempo, acontecia a Revolução Russa, que deu origem à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, com seu projeto de superação do capitalismo através da implantação do comunismo. Poderíamos falar, ainda, da crise geral do capitalismo da década de 1929, da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e da Guerra Fria, na segunda metade do século XX.
Em 1973, o capitalismo foi balançado por mais uma crise geral. A história do sistema econômico, portanto, é a história de suas mais diversas experiências críticas. É uma história marcada mais pela instabilidade do que pela estabilidade. Aqui, neste conteúdo, estamos interessados em estudar os capítulos mais recentes dessa história. Neste nosso século XXI, novamente a crise do capitalismo é realidade incontornável, seja no aspecto político, com a emergência de populismos de extrema-direita que ameaçam o modelo da democracia liberal burguesa, seja com a pandemia da covid-19, que colocou o ocidente capitalista de joelhos.
Nossa reflexão está dividida em quatro momentos: primeiramente, tratamos do neoliberalismo, modelo de acumulação capitalista hegemônico no final do século XX e que se tornou alvo de questionamentos ao longo das duas primeiras décadas do século XXI. Em seguida, estudamos os dois governos do democrata Barack Obama nos Estados Unidos (2009-2017), especialmente o programa “ Obama Care”, que, em diversos aspectos, tensionou o modelo neoliberal. Depois, nos debruçamos sobre os governos de centro-esquerda que ascenderam ao poder na América Latina na primeira década do século XXI, negando as premissas neoliberais. Ainda aqui, abordamos o desenvolvimentismo chinês, o grande adversário do neoliberalismo ocidental no cenário mundial. Nosso próximo passo é analisar a dinâmica ideológica dos populismos de extrema-direita, que se fortaleceram em meio à crise social provocada pelo neoliberalismo e colocaram em risco o modelo da democracia liberal burguesa ao longo da década de 2010. Por último, examinamos os efeitos da pandemia da covid-19 para o sistema capitalista internacional.
OBAMA CARE
Programa de saúde governamental do governo Obama, que foi muito criticado pela oposição.
MÓDULO 1
 Descrever a dinâmica do modelo neoliberal de acumulação capitalista
CONHECENDO O NEOLIBERALISMO
Assista ao vídeo abaixo com o professor Rodrigo Perez apresentando o papel do neoliberalismo.
NEOLIBERALISMO: HISTÓRIA E CONCEITOS FUNDAMENTAIS
Imagem: James Bourne/Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0 Manifestação contrária ao Imposto Comunitário na Trafalgar Square, em 31 de março de 1990.
No final da década de 1980, alguns governos de importantes países centrais, como Estados Unidos e Inglaterra, começaram a colocar em prática uma modalidade de gestão político-administrativa que ficaria conhecida como “neoliberalismo”.
O presidente norte-americano Ronald Reagan (1911-2004) e a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher (1925-2013) foram os primeiros líderes a seguirem o receituário neoliberal, caracterizado pelo corte abrupto nos gastos do Estado, o que significa precarizar(Ofertar o básico) serviços públicos e reduzir o arco de direitos sociais garantidos pelo governo. Em questão está o debate sobre qual seria a função do Estado, que, na lógica liberal, deve ficar restrita à garantia da segurança interna e da soberania nacional, intervindo o mínimo possível na economia, que deveria funcionar de acordo com a “lei do livre mercado”.
Assim, a relação capital versus trabalho, entre patrões e empregados, aconteceria sem nenhuma mediação do poder público, com o Estado se eximindo da responsabilidade de garantir proteção social aos trabalhadores e aos pobres em geral. Margaret Thatcher e Ronald Reagan chegaram ao comando político de seus países comprometidos com a agenda neoliberal, o que fez com que seus governos tenham sido marcados por muitas tensões e protestos promovidos pelos trabalhadores e por outros setores da sociedade civil organizada. Thatcher já era figura relevante na cena política inglesa desde meados da década de 1970, quando liderava a oposição conservadora contra o governo trabalhista comandado por James Callaghan (1912-2005).
Imagem: Autor desconhecido /Wikimedia Commons / Domínio público O presidente Ronald Reagan com a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, em Camp David, em 1986.
Em síntese, o governo trabalhista estava fundado no projeto da social-democracia, que defende o Estado como centro planejador do desenvolvimento econômico, da promoção da justiça social e da ampliação dos direitos sociais, como alimentação, moradia e proteção laboral aos trabalhadores. Todos esses direitos estariam garantidos através daquilo que alguns economistas chamam de taxação progressiva da sociedade.
OU SEJA, AS PESSOAS PAGARIAM IMPOSTOS DE ACORDO COM SUA RIQUEZA. OS RICOS PAGARIAM MAIS E FINANCIARIAM OS DIREITOS SOCIAIS DOS MAIS POBRES, QUE PAGARIAM MENOS IMPOSTOS. ASSIM, O ESTADO FUNCIONARIA COMO GARANTIDOR DA EQUIDADE SOCIAL.
Como podemos perceber, trata-se de uma concepção de Estado completamente diferente daquela que caracteriza o pensamento neoliberal. Margaret Thatcher se fortaleceu como liderança política questionando esse uso do Estado, argumentando que a taxa tributária necessária para garantir a manutenção da social-democracia seria demasiadamente alta e oneraria equivocadamente a sociedade civil, sufocando a iniciativa privada e o empreendedorismo individual. Assumindo o comando político da Inglaterra em maio de 1979, Thatcher fundou seu governo na ideia de desregulamentação: alterou a legislação trabalhista, o que provocou muitos protestos organizados pelas principais centrais sindicais do país; privatizou empresas públicas e diminuiu impostos. A popularidade que Thatcher havia acumulado nos anos de oposição diluiu-se rapidamente, a ponto de ela ter sido alvo, em 1984, de uma tentativa de assassinato.
TENTATIVA DE ASSASSINATO
A tentativa ocorreu em um atentado terrorista reivindicado pelo IRA (Exército Republicano Irlandês), com uma explosão no Grand Hotel Brighton, onde ocorria uma reunião do partido conservador.
Imagem: D4444n /Wikimedia Commons / Domínio Público Grand Hotel após a explosão de atentado ao assassinato de Thatcher.
Imagem: Autor desconhecido /Wikimedia Commons / Domínio Público Ronald Reagan.
Ronald Reagan foi eleito o 40° Presidente dos EUA em novembro de 1980, após derrotar o candidato democrata Jimmy Carter, que, na época, era o presidente em exercício, tentando reeleição. A vitória de Reagan foi esmagadora e traduziu um desejo de mudança compartilhado pela sociedade norte-americana.
A situação, em parte, era semelhante à inglesa. Na década de 1930, em virtude da crise geral do capitalismo, os Estados Unidos, sob a liderança do presidente Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), estabeleceram um tipo de governo que podemos definir como sendo de matriz social-democrata.
O Estado se tornou o principal investidor e, por meio de obras públicas, gerou milhares de empregos, agindo também como protetor social dos mais pobres, com forte legislação trabalhista. Isso tudo, às custas e tributação progressiva da sociedade civil, na qual os ricos pagam mais impostos e os pobres são os principais receptores dosdireitos sociais garantidos pelo Estado.
O plano de reestruturação econômica idealizado por Roosevelt, que ficou conhecido como New Deal, impactou o mundo no período entreguerras, demonstrando os limites práticos da tese do livre mercado, fundamental para o repertório liberal a partir do século XVIII, desde os textos de Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1772-1823). As guerras mundiais e o colapso do sistema capitalista internacional mostraram que, em momentos de crise aguda, somente o Estado é capaz de promover movimentos anticíclicos e estimular a economia quando os investidores privados estão assustados e pouco dispostos a correrem riscos. Segundo Pierre Dardot e Christian Laval, foi a “necessidade prática de intervenção do governo que pôs em crise o liberalismo dogmático, pautado numa ideia de desregulamentação que nunca se consolidou na prática” (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 38).
NEW DEAL
O plano tinha uma relação com um modelo econômico baseado em um capitalismo dirigido e intervencionista conhecido como keynesianismo.
Foto: Shutterstock.com Sinais para a eleição de 1936 nas ruas de Hardwick, Vermont, EUA.
A cultura do New Deal foi fundamental para a superação da crise catastrófica que se abateu sobre os EUA entre as décadas de 1930 e 1950. Porém, a partir do final da década de 1960, ganharam força os questionamentos ao modelo rooseveltiano do Estado provedor. Como demonstra Jürgen Habermas, as críticas à social-democracia, nos EUA, tiveram o resultado de refundar a direita norte-americana, dando início àquilo que o autor chama de “A nova obscuridade”. Além das críticas à carga tributária necessária para a manutenção do experimento social-democrata, ganhou forma, também, um tipo de crítica cultural, que explicava o comportamento considerado desregrado da juventude (movimento pelos direitos civis da população negra, movimento hippie, festival de Woodstock) pelas alegadas comodidades que o “Estado assistencialista” possibilitava. Isso teria dado origem a uma geração preguiçosa, hedonista e pouco afeita ao trabalho.
SEGUNDO OS NEOLIBERAIS, A SITUAÇÃO DE COLAPSO MORAL QUE ESTARIA SENDO VIVENCIADA NOS EUA, NAS DÉCADAS DE 1960 E 1970, SE EXPLICAVA PELA “INFLAÇÃO DE EXPECTATIVAS E REINVINDICAÇÕES IMPULSIONADA PELA CONCORRÊNCIA ENTRE OS PARTIDOS, PELAS MÍDIAS DE MASSA, PELO PLURALISMO DE ASSOCIAÇÕES ETC. ESSA PRESSÃO DAS EXPECTATIVAS DOS CIDADÃOS “EXPLODE” EM UMA AMPLIAÇÃO DRÁSTICA DAS TAREFAS ESTATAIS. OS INSTRUMENTOS DE CONTROLE DA ADMINISTRAÇÃO SE SOBRECARREGAM COM ISSO. A SOBRECARGA LEVA TANTO MAIS ÀS PERDAS DE LEGITIMIDADE QUANTO O ESPAÇO DE AÇÃO ESTATAL É ESTRANGULADO POR BLOCOS DE PODER PRÉ-PARLAMENTARES, E QUANDO OS CIDADÃOS RESPONSABILIZAM O GOVERNO PELAS PERDAS ECONÔMICAS PERCEPTÍVEIS. ISSO É TANTO MAIS PERIGOSO QUANTO MAIS A LEALDADE DA POPULAÇÃO DEPENDE DE COMPENSAÇÕES MATERIAIS.
(HABERMAS, 2015, p. 67)
Foi nesse clima de acirrado conflito e intensas disputas entre concepções de Estado diametralmente opostas que aconteceram as eleições presidenciais de 1980. Todo o debate eleitoral girou ao redor do legado do modelo rooseveltiano. A vitória esmagadora de Reagan decretou um novo momento na história dos EUA, caracterizado pela radicalização da perseguição às esquerdas, pelo enfraquecimento dos sindicatos e pelo desmonte da legislação destinada à proteção social.
Imagem: Casa Branca/Wikimedia Commons / Domínio Público Ronald Reagan dando seu discurso de aceitação da nomeação na Convenção Nacional Republicana, em Detroit, no estado de Michigan, em 17 de julho de 1980.
Com todo custo social que tiveram, os governos de Thatcher e Reagan conseguiram diminuir os gastos públicos e garantir maior rendimento aos setores mais dinâmicos e poderosos do capitalismo na época, transformando o modelo neoliberal de gestão em padrão hegemônico.
A FORÇA DO NEOLIBERALISMO PARECIA INABALÁVEL, TENDO SIDO COROADA PELO CONSENSO DE WASHINGTON, REALIZADO EM 1989.
O “consenso”, como ficou conhecido, foi um fórum internacional comandado pelo Banco Mundial, pelo Fundo Monetário Internacional, o FMI, e pelo Departamento de Tesouro dos EUA que definiram o receituário neoliberal como o único tecnicamente correto para administrar as economias nacionais. O encontro estabeleceu algumas “regras de ouro” para a boa prática da gestão econômica, como a desregulamentação dos gastos obrigatórios do Estado, a privatização das empresas públicas e diminuição da carga tributária.
O principal efeito ideológico do Consenso de Washington foi transformar aquilo que era uma orientação ideológica em obrigação técnica e, dessa forma, conseguir pautar o debate econômico mundial.
ATENÇÃO
A hegemonia neoliberal, no entanto, não duraria para sempre. O alvorecer do século XXI trouxe diversos questionamentos ao modelo neoliberal, impulsionando diferentes experiências de crise, como estudaremos nas próximas seções. Por enquanto, é importante dedicar mais atenção ao próprio neoliberalismo, às suas transformações, tentando entender seu lugar na história do pensamento político/econômico liberal.
AGENDA POLÍTICA NEOLIBERAL
A agenda política e econômica do neoliberalismo consiste na radicalização de preceitos liberais que vinham sendo desenvolvidos desde o século XVIII. Na primeira geração do liberalismo econômico, podemos situar:
Imagem: Thomas Phillips/Wikimedia Commons / Domínio Público
 David Ricardo.
David Ricardo (1772-1823)
Imagem: Autor desconhecido /Wikimedia Commons / Domínio Público
 Adam Smith.
Adam Smith (1723-1790)
Cada um a seu modo, ambos defenderam as ideias do Estado mínimo e do livre mercado, sem desconsiderar o dilema do combate à pobreza social, questão fundamental para o pensamento econômico liberal.
PARA RICARDO E SMITH, A POBREZA SOCIAL SE RESOLVERIA NATURALMENTE PELA LÓGICA DA COMPLEMENTARIEDADE.
Ou seja, setores com excesso produtivo compensariam o deficit produtivo de outros setores, naturalmente, em troca impulsionada pelo livre fluxo da atividade econômica, sem interferência do Estado, que somente atrapalharia o processo. Havia, nesses autores e nas práticas políticas que eles inspiraram, aquilo que podemos chamar de “utopia liberal”, segundo a qual o aprimoramento das liberdades individuais levaria à erradicação da pobreza social.
ATENÇÃO
O dilema da pobreza social tornou-se ainda maior no século XIX, com o aprofundamento da Revolução Industrial. Surgiram grandes conglomerados urbanos em diversos países da Europa, com trabalhadores amontoados em bairros proletários, com acesso precário à água e aos serviços sanitários. As doenças se espalhavam, assim como a violência.
Todos os grandes pensadores oitocentistas trouxeram a pobreza social para o primeiro plano de suas reflexões. No final do século XIX, o filósofo inglês Herbert Spencer (1820-1903) promoveu algumas mudanças no pensamento econômico liberal, especialmente no que se refere à questão da pobreza social, tornando-se matriz daquilo que posteriormente seria conhecido como neoliberalismo.
Tal como Ricardo e Smith, Spencer também defendia que a pobreza social seria naturalmente extinta pelo livre mercado. Porém, diferentemente dos seus antecessores, Spencer negava a lógica da complementariedade produtiva e, evocando os princípios do darwinismo, falava em competição social.
Imagem: Autor desconhecido /Wikimedia Commons / Domínio Público Herbert Spencer
PARA SPENCER, A POBREZA DESAPARECERIA COM O DESAPARECIMENTO DOS POBRES, QUE, MENOS PREPARADOS PARA A DISPUTA SOCIAL, TENDERIAM A DESAPARECER, A MORRER.
Para isso, o Estado não deveria intervir no processo, tampouco garantir amparo social aos pobres. Na lógica spenceriana, a pobreza social acabaria na medida em que os pobres desaparecessem. Nas palavras do próprio Spencer no livro O indivíduo contra o Estado, publicado pela primeira vez em 1884:
SENDO A AQUISIÇÃO DE UM BEM PARA O POVO O TRAÇO EXTERNO VISÍVEL COMUM NAS MEDIDAS LIBERAIS NOS TEMPOS ANTIGOS (E ESSE BEM CONSISTIA ESSENCIALMENTE NUMA DIMINUIÇÃO DA COERÇÃO), RESULTOU QUE OS LIBERAIS VIRAM O BEM DO POVO NÃO COMO UM OBJETIVO QUE ERA NECESSÁRIO ATINGIR DIRETAMENTE.E, PROCURANDO ATINGI-LO DIRETAMENTE, EMPREGARAM MÉTODOS INTRINSECAMENTE CONTRÁRIOS AOS QUE HAVIAM SIDO EMPREGADOS ORIGINALMENTE. (...) QUEREM LASTIMAR AS MISÉRIAS DOS POBRES MERITÓRIOS, EM VEZ DE REPRESENTÁ-LAS – O QUE NA MAIORIA DOS CASOS SERIA MAIS CORRETO – COMO AS MISÉRIAS DOS POBRES DEMERITÓRIOS. EM MINHA OPINIÃO, PODE-SE CONSIDERAR QUE UM DITADO CUJA VERDADE É ACEITA IGUALMENTE PELA CRENÇA COMUM E PELA CRENÇA DA CIÊNCIA GOZA DE UMA AUTORIDADE INCONTESTÁVEL. POIS BEM! O MANDAMENTO: “SE UMA PESSOA NÃO DESEJA TRABALHAR, NÃO DEVE COMER” É SIMPLESMENTE O ENUNCIADO CRISTÃO DESSA LEI DA NATUREZA SOB IMPÉRIO DA QUAL A VIDA ATINGIU SEU GRAU ATUAL, A LEI SEGUNDO A QUAL UMA CRIATURA QUE NÃO É SUFICIENTEMENTE ENÉRGICA PARA SE BASTAR DEVE PERECER.
(SPENCER apud DARDOT; LAVAL, 2016, pp. 46-47)
O spencerianismo inspirou a formação de um grupo de economistas que ficaria conhecido como Escola de Chicago, formada por nomes como George Stigler (1911-1991) e Milton Friedman (1912-2006). Em síntese, a Escola de Chicago defendia o monetarismo, confrontando o keynesianismo, que era o fundamento econômico da social-democracia. Outro importante grupo de economistas que sistematizou os valores do neoliberalismo foi a Escola Austríaca, representada por nomes como Carl Menger (1840-1921), Eugen von Böhm-Bawerk (1851-1914) e Ludwig von Mises (1881-1973). As ideias de voluntariedade e agência são norteadoras do pensamento econômico desenvolvido pela Escola Austríaca. Para os autores, as partes individuais devem ser totalmente livres para negociar suas interações econômicas, sem nenhum tipo de regulação por parte do Estado. Para os economistas da Escola Austríaca, o indivíduo é a célula fundamental da atividade econômica e, por isso, não deve ser constrangido por interesses externos a ele.
Nas palavras de Mises:
Imagem: Instituto Ludwig von Mises/Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0 Ludwig von Mises
Como podemos perceber na citação, o Estado, para Mises, é força coercitiva, cuja única função é constranger e limitar a liberdade individual. Estamos aqui muito distantes da concepção de Estado que foi desenvolvida por outros autores do escopo liberal, como John Locke (1632-1704), para quem o Estado tinha a função de garantir as liberdades individuais através da aplicação da lei. Em Mises, o Estado é a ameaça à liberdade individual, e, quanto menos Estado, mais liberdade.
Foi esse modelo neoliberal que se tornou hegemônico no capitalismo internacional em fins do século XX e, como veremos a seguir, entrou em colapso já nos primeiros anos do século XXI.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
Parte superior do formulário
1. O NEOLIBERALISMO SE CONSOLIDOU COMO MODELO HEGEMÔNICO DE GESTÃO DO CAPITALISMO NO FINAL DA DÉCADA DE 1980. ASSINALE A OPÇÃO QUE MELHOR DEFINE AS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DO MODELO.
As principais características do neoliberalismo são: privatização das empresas públicas, diminuição da taxa tributária, desregulamentação das relações de trabalho e concepção de Estado mínimo.
As principais características do neoliberalismo são: fortalecimento das empresas públicas, aumento da carga tributária para os mais ricos e concepção de Estado como provedor de direitos sociais.
As principais características do neoliberalismo são: privatização das empresas públicas, diminuição da taxa tributária, desregulamentação das relações de trabalho e concepção de Estado como provedor de direitos sociais.
As principais características do neoliberalismo são: fortalecimento das empresas públicas, aumento da carga tributária para os mais ricos e concepção de Estado mínimo.
As principais características do neoliberalismo são: fortalecimento das empresas públicas, diminuição da carga tributária para os mais ricos e concepção de Estado mínimo.
Parte inferior do formulário
Parte superior do formulário
2. MARGARET THATCHER E RONALD REAGAN SE FORTALECERAM COMO LIDERANÇAS POLÍTICAS CONFRONTANDO DETERMINADA CONCEPÇÃO DE ESTADO. ASSINALE A ALTERNATIVA QUE MELHOR DEFINE ESSA CONCEPÇÃO.
Neoliberal, caracterizada pela ideia do Estado mínimo, segundo a qual o poder público não tem compromisso com a justiça social e com a remediação da miséria.
Neoliberal, caracterizada pela ideia de que é dever do Estado coordenar e estimular o desenvolvimento nacional, protegendo o trabalho e provendo direitos sociais aos mais pobres.
Social-democrata, caracterizada pela ideia do Estado mínimo, segundo a qual o poder público não tem compromisso com a justiça social e com a remediação da miséria.
Social-democrata, caracterizada pela ideia de que é dever do Estado coordenar e estimular o desenvolvimento nacional, protegendo o trabalho e provendo direitos sociais aos mais pobres.
Comunista, caracterizada pela ideia de que o modelo ideal de sociedade é aquele no qual inexistem as diferenças entre as classes sociais e o resultado da riqueza econômica seja desfrutado por todos.
Parte inferior do formulário
GABARITO
1. O neoliberalismo se consolidou como modelo hegemônico de gestão do capitalismo no final da década de 1980. Assinale a opção que melhor define as principais características do modelo.
A alternativa "A " está correta.
O neoliberalismo, ao tensionar com o modelo da social-democracia, propõe o encolhimento das atribuições do Estado.
2. Margaret Thatcher e Ronald Reagan se fortaleceram como lideranças políticas confrontando determinada concepção de Estado. Assinale a alternativa que melhor define essa concepção.
A alternativa "D " está correta.
Thatcher e Reagan tensionaram o modelo social-democrata, questionando a alta carga tributária necessária para a manutenção dessa concepção de Estado.
MÓDULO 2
 Examinar o fortalecimento dos projetos políticos que, no início do século XXI, questionaram o modelo neoliberal do capitalismo internacional
CRISES DO NEOLIBERALISMO
Assista ao vídeo abaixo com o professor Rodrigo Perez sobre a crise do modelo neoliberal no mundo.
CRISE DO NEOLIBERALISMO NAS AMÉRICAS
Imagem: Shutterstock.com
O século XXI nasceu sobre os impactos da lógica neoliberal acumulados ao longo da década de 1990. Em regiões mais pobres do mundo, sobretudo na América Latina, as diretrizes do Consenso de Washington provocaram o empobrecimento geral das sociedades civis, a precarização de serviços públicos e o comprometimento da soberania nacional, com a privatização em empresas públicas estratégicas. Um dos principais efeitos do neoliberalismo se deu na transformação na ideia de Estado e, consequentemente, de função do poder público.
O ESTADO DEIXOU DE SER VISTO COMO O RESPONSÁVEL PELA SEGURANÇA E PELO BEM-ESTAR SOCIAL DA COMUNIDADE PARA SER TRATADO COMO UMA EMPRESA QUE JAMAIS PODE DAR PREJUÍZO.
É o “Estado-firma”, nas palavras de Wendy Brown.
TANTO AS PESSOAS QUANTO OS ESTADOS SÃO BASEADOS NO MODELO DA EMPRESA CONTEMPORÂNEA, ESPERA-SE QUE TANTO AS PESSOAS QUANTO OS ESTADOS SE COMPORTEM DE MODOS QUE MAXIMIZEM SEU VALOR CAPITAL NO PRESENTE E AUMENTEM SEU VALOR FUTURO, E TANTO AS PESSOAS QUANTO OS ESTADOS O FAZEM ATRAVÉS DE PRÁTICAS DE EMPREENDEDORISMO, AUTOINVESTIMENTO E ATRAÇÃO DE INVESTIDORES.
(BROWN, 2015, p. 22)
Como o autor deixa claro, a racionalidade liberal, ou a “nova razão do mundo”, para usarmos as palavras de Pierre Dardot e Christian Laval, afetou todas as relações humanas, tanto as públicas como as privadas. É como se o neoliberalismo tivesse inflado a lógica econômica a tal ponto que todas as ações humanas passaram a ser vividas a partir das ideias de lucro e prejuízo. Até mesmo a temporalidade, como argumenta Arthur Ávilla, foi afetada pela lógica neoliberal, com horizontes de futuro sendo fechados e a experiência humana sendo encerrada no eterno presente, no curto tempo da performance, da eficiência e do consumo.
A mundialização dos preceitos neoliberais provocou desconforto e mal-estar em diversas regiões do mundo, o que deu origem ao surgimento de diversos questionamentos que se fortaleceram já nos primeiros anos do século XXI. Podemos começar pela eleição de governos de centro-esquerda em vários países da América Latina, fortalecidos pela insatisfaçãodaquelas sociedades com o modelo de administração neoliberal. Em 2005, a empresa de comunicação britânica BBC realizou uma pesquisa e concluiu que ¾ dos 350 milhões de pessoas que viviam na América Latina naquela altura estavam sendo governadas por projetos políticos de esquerda ou de centro-esquerda.
Clique no botão abaixo e confira a lista de presidentes de esquerda e seus períodos de duração.
Clique no botão para ver as informações. Objeto com interação.
VEJA AQUI!
Na época, o fenômeno ficou conhecido como “guinada latino-americana”. Abaixo, a lista desses governos, com seus períodos de duração:
· Néstor Kirchner, na Argentina, entre 2003 e 2007.
· Cristina Kirchner, na Argentina, entre 2007 e 2015.
· Evo Morales, na Bolívia, entre 2006 e 2019.
· Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil, entre 2003 e 2011.
· Dilma Rousseff, no Brasil, entre 2011 e 2016.
· Ricardo Lagos, no Chile, entre 2002 e 2006.
· Michelle Bachelet, no Chile, entre 2006 e 2010 e entre 2014 e 2018.
· Oscar Arias, na Costa Rica, entre 2006 e 2011.
· Maurício Funes, em El Salvador, entre 2009 e 2014.
· Salvador Sánchez Cerén, em Salvador, entre 2014 e 2019.
· Rafael Correia, no Equador, entre 2007 e 2017.
· Manuel Zelaya, em Honduras, entre 2006 e 2009.
· Daniel Ortega, na Nicarágua, desde 2007.
· Fernando Lugo, no Paraguai, de 2008 a 2012.
· Tabaré Vázquez, no Uruguai, de 2005 a 2010 e depois de 2015 a 2020.
· José Mujica, no Uruguai, de 2010 a 2015.
· Hugo Chávez, na Venezuela, entre 1999 e 2013.
· Nicolás Maduro, na Venezuela, desde 2013.
Foto: Testing/Shutterstock.com Bandeira de Hugo Chávez durante as eleições presidenciais de abril em Caracas, Venezuela, 2018.
É claro que esses governos têm suas particularidades e qualquer tentativa de generalização é analiticamente perigosa. Entre esses governos, podemos encontrar desde projetos de conciliação nacional que tentaram negociar com as forças do capital, como foram os casos do kirchnismo na Argentina e do petismo no Brasil. Encontramos, também, governos de enfrentamento e de ruptura, como foi o de Chávez, na Venezuela, e de Morales, na Bolívia.
Mas, se é possível pensarmos em características comuns a todos esses governos, como a rejeição ao neoliberalismo e às diretrizes do Consenso de Washington e a recuperação da função social do Estado, suas trajetórias políticas também foram bastante diversas.
Alguns encontraram resistências e foram golpeados logo no início, como foram os casos de Manuel Zelaya, em Honduras, e de Hugo Chávez, na Venezuela, sendo que Chávez conseguiu reverter a situação e se manter no poder. Também Evo Morales foi golpeado, mas depois de anos de governo. Fernando Lugo, no Paraguai, e Dilma Rousseff, no Brasil, foram objeto de processos de impeachment polêmicos e definidos como “golpe parlamentar” por parte da bibliografia especializada.
KIRCHNISMO
Nome atribuído ao casal que se revezou na presidência argentina – Cristina e Néstor.
Imagem: Sherlock_wijaya /Shutterstock.com
As resistências ao neoliberalismo nos primeiros anos do século XXI não ficaram restritas à América Latina. Também nas duas principais potências do mundo, nos EUA e na China, aconteceram críticas e questionamentos ao neoliberalismo.
Seria exagerado dizer que o governo do democrata Barack Obama, entre 2009 e 2017, rompeu com os preceitos neoliberais. Mas seria equivocado supor que sua administração seguiu os mesmos passos dos governos republicanos anteriores, herdeiros de Ronald Reagan, que fizeram dos EUA o laboratório mundial das práticas neoliberais. Obama, ao menos dentro dos EUA, relativizou algumas dessas práticas, ainda que tenha as imposto a países mais pobres.
Barack Obama iniciou seu governo sob grande euforia da sociedade civil norte-americana. Cerca de 2 milhões de pessoas compareceram à cerimônia de posse em 24 de fevereiro de 2009, num clima de congraçamento político que poucas vezes se viu naquele país. Não era para menos, pois os EUA acabavam de eleger o primeiro presidente negro, concluindo um ciclo de lutas da população afro-americana que havia começado na década de 1960, com a jornada dos direitos civis. O governo de Obama foi bastante contraditório no que se refere à comparação entre as políticas externa e interna. Poucos presidentes dos EUA foram tão belicistas como Barack Obama, cuja administração foi marcada por intensa movimentação militar, sobretudo no Oriente Médio.
RESUMINDO
No plano da política interna, Obama tentou corrigir problemas estruturais históricos da sociedade norte-americana, como, por exemplo, a falta de um sistema de saúde ao qual os cidadãos pudessem recorrer. Pode parecer estranho aos nossos olhos, mas os EUA não têm um sistema de saúde para atender à população que não tem dinheiro para pagar pelo serviço privado. Até o governo de Obama, os pobres não tinham atendimento médico, o que traduz os valores de um país construído historicamente a partir da lógica do mercado, da iniciativa privada, que desconfia de tudo que é público.
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Ao criar o “Obama Care”, em 2010, Obama ofereceu plano de saúde subsidiado pelo Estado a todos os cidadãos americanos em situação de vulnerabilidade social. Com isso, o presidente trouxe o Estado para o debate nacional sobre o direito à saúde, recuperando a ideia, de matriz social-democrata, de que cabe ao poder público garantir acesso a direitos sociais básicos. Posteriormente, Donald Trump, sucessor de Obama, tomou o desmonte do “Obama Care” como prioridade política, o que estudaremos com mais calma na próxima seção, quando nos dedicaremos aos populismos de extrema-direita, que se fortaleceram em diversas partes do mundo como um dos resultados do colapso do neoliberalismo.
CRISE DO LIBERALISMO NO MUNDO
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Também do outro lado do Oceano Atlântico, na Ásia, diversos países organizaram estratégias de desenvolvimento econômico que confrontaram preceitos do neoliberalismo. Analisando justamente a crise do império capitalista estadunidense, o cientista político norte-americano Chalmers Johnson (1931-2010) foi o primeiro a utilizar o conceito “desenvolvimentismo asiático” para analisar projetos econômicos emergentes naquela região do mundo ao longo dos primeiros anos do século XXI. O livro de Johnson, publicado em 1982, se dedica principalmente ao “milagre econômico japonês”, mas as linhas gerais da análise do autor podem nos ajudar a compreender outros casos que configuram, em grande medida, a crise contemporânea do capitalismo neoliberal.
Em outra obra, publicada em 1993, Johnson se debruçou especificamente sobre a história econômica dos países asiáticos na segunda metade do século XX. Depois do trabalho de Johnson, tornou-se recorrente dizer que o “estado desenvolvimentista” foi o grande responsável pelo desenvolvimento econômico acelerado da Coreia do Sul, Taiwan e Singapura entre os anos 1960 e 1980, da China, a partir dos anos 1990, e do Vietnã, no início do século XXI.
O “MODELO ECONÔMICO” JAPONÊS DO PÓS-GUERRA NÃO ERA ORIGINAL E VINHA DOS ANOS 1920; E SUA CARACTERÍSTICA FUNDAMENTAL NÃO ERA ECONÔMICA, TINHA A VER COM A “INTENSIDADE” COM QUE A SOCIEDADE E O GOVERNO JAPONÊS SE DEDICAVAM AO ESTABELECIMENTO E CUMPRIMENTO DOS SEUS OBJETIVOS ESTRATÉGICOS. ESTA “INTENSIDADE” SE DEVIA AO FATO DE QUE O “MODELO” TINHA SIDO CONCEBIDO COMO UM INSTRUMENTO DE GUERRA E DE RECONSTRUÇÃO, DEPOIS DA GUERRA, E COMO INSTRUMENTO DE DEFESA DA SOBERANIA JAPONESA, FRENTE AOS DESAFIOS DO MUNDO E DO CONTEXTO GEOPOLÍTICO ASIÁTICO, NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX.
(JOHNSON, 2017, p. 91)
O QUE O AUTOR ESTÁ DIZENDO?
OS MOTIVOS QUE EXPLICAM O SUCESSO ECONÔMICO JAPONÊS SÃO MAIS POLÍTICOS DO QUE PROPRIAMENTE ECONÔMICOS.
Em um contexto de reconstrução nacional após a Segunda Guerra Mundial, o Estado japonês tomou para si a responsabilidade de zelar pelos interesses nacionais, condicionando toda atividade econômica ao que Johnson chamou de “pacto de desenvolvimento coletivo”. Não é difícil perceber que essa forma de tratar a relação do Estado com a economia é diametralmente oposta ao receituário neoliberal. A trilhaaberta pelo Japão foi seguida por outras nações asiáticas.
O recado que vinha da Ásia parecia claro: o neoliberalismo ocidental, com sua concepção de “Estado-firma”, não servia para aquela região do mundo. Foi exatamente dessa negação ao neoliberalismo que se fortaleceu outra ideologia político-econômica que na transição do século XX para o século XXI acabou reequilibrando a geopolítica mundial, fazendo da Ásia a região mais economicamente ativa e desenvolvida do planeta.
Em 1989, foi publicado outro livro sobre o desenvolvimentismo asiático, dessa vez assinado pela economista norte-americana Alice Amsden (1943-2012). Sugestivamente intitulado Asia’s Next Giant (O próximo gigante asiático, em tradução livre), Amsden ampliou a análise de Johnson para a Coreia do Sul, para o “milagre econômico coreano”, nas palavras da própria autora. Segundo Amsden, no caso da Coreia do Sul, o modelo de desenvolvimento também era caracterizado pelo protagonismo do Estado, fincando suas raízes na primeira metade do século XX, na luta anticolonialista contra o próprio Japão.
Sobre a China, Johnson também chama atenção para a experiência da guerra anticolonialista, o “campesinato revolucionário” como força de impulsão desenvolvimentista. Para os autores, as guerras fizeram com que as sociedades asiáticas criassem vínculos de solidariedade e confiança com o Estado, visto como o guardião dos interesses nacionais. A partir da leitura desses autores, podemos analisar o desenvolvimentismo asiático em quatro características principais:
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A prosperidade asiática observada em fins do século XX se deu pelo fortalecimento dos Estados nacionais, algo que aconteceu em meados do século passado, a partir de diversas experiências de guerras emancipatórias. Isso deu origem a um sistema interestatal regional altamente competitivo que ajudou a potencializar ainda mais o desenvolvimento dos países locais.
A estratégia econômica destes países asiáticos esteve sempre muito longe dos valores neoliberais, rejeitando frontalmente a premissa do “Estado mínimo”, ou do “Estado-firma”.
Não há nenhuma instituição ou política que explique isoladamente o sucesso do crescimento asiático, e que possa ser transplantada para países que tenham se constituído ou estejam fora de sistemas de poder altamente competitivos. A simples condição de latecomer ou de “capitalismo tardio” não explica nada, nem é capaz de gerar um projeto e uma estratégia de alto crescimento.
Os asiáticos nunca se referiram a si mesmos como “desenvolvimentistas”. Suas estratégias econômicas não têm nada a ver com o chamado “desenvolvimentismo latino-americano”. Sua política industrial, comercial e macroeconômica sempre esteve a serviço de sua “grande estratégia” social e nacional e da sua luta pela conquista ou reconquista de uma posição internacional autônoma e preeminente. Os asiáticos têm plena consciência de que a política econômica entregue a si mesma é cega e incapaz de gerar seus próprios objetivos. E muito menos ainda de definir os objetivos de uma sociedade e de uma nação.
Ao longo dos últimos séculos, os olhares do chamado “mundo ocidental” permaneceram bastante concentrados nos países que orbitavam em torno das economias europeias e dos Estados Unidos. Não fossem os países árabes, por sua participação decisiva no mercado global de petróleo, e pela Rússia, em função de seu desenvolvimento econômico e das tensões vestigiais da Guerra Fria, nossas preocupações provavelmente seriam ainda mais ocidentalizadas. Não sem razão, muitos se viram perplexos diante da emergência da China no cenário global, que passou a ostentar taxas médias de crescimento econômico de 10% a partir da década de 1990.
Ao longo dos anos, nenhum país ocidental conseguiu rivalizar com esses índices e, gradualmente, a frase Made in China começou a se fazer bastante presente em nossa vida cotidiana. Caso esteja lendo esse texto em seu computador, recomendamos que vire o mouse e procure o local em que o produto foi fabricado. A chance de encontrar um Made in China é grande. Se não acontecer, basta uma busca simples e você perceberá que muitos produtos que temos à nossa disposição são chineses. Ainda que os EUA continuem responsáveis por boa fatia do comércio internacional, o país asiático deve assumir a dianteira até 2026.
Por esse motivo, nenhuma análise sobre as dinâmicas comerciais do século XXI pode ignorar a participação chinesa no mercado global. Apesar das inúmeras variáveis e divergências que compõem o complexo jogo que garantiu essa mudança, muitos analistas se apoiam em duas explicações gerais para esse processo.
Segundo Rhys Jenkins (2019, p. 22), essas mudanças podem ser observadas a partir de duas lentes, uma externa e outra interna.
EXTERNA
Do ponto de vista externo, observa-se o impacto significativo do "abandono das políticas keynesianas do consenso pós-guerra e a adoção do neoliberalismo, especialmente sob Reagan nos Estados Unidos e Thatcher no Reino Unido. Uma das estratégias do capital para restaurar a lucratividade foi deslocar a mão de obra para reduzir os custos da produção”.
INTERNA
Em contraste, a abordagem interna “toma como ponto de partida as mudanças ocorridas na China após a morte de Mao Tsé-Tung em 1976. As reformas na política econômica começaram com Deng Xiaoping em 1978 e desencadearam um processo dinâmico de crescimento que ampliou a competitividade da China" (JENKINS, 2019, p. 22).
Nesse sentido, enquanto os países “ocidentais” diminuíram significativamente a presença do Estado na economia, a China adotou uma posição oposta, que permitiu o desenvolvimento tecnológico, a ampliação do mercado consumidor global e diversas outras ações que tornaram o país atrativo, inclusive, a investidores estrangeiros.
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Em 2001, as exportações chinesas ganharam novo impulso com a adesão à Organização Mundial do Comércio (OMC). Diversas empresas da China começaram a realizar obras no exterior, e os empréstimos de bancos chineses também consolidaram sua presença nos mercados financeiros globais.
EM SUMA, ESSA MUDANÇA ECONÔMICA DESENCADEOU UMA SÉRIE DE EFEITOS, COMO AS CHAMADAS “GUERRAS COMERCIAIS”, QUE REPRESENTAM, TALVEZ, UM DOS ASPECTOS MAIS VISÍVEIS DO PROTAGONISMO CHINÊS NESSE INÍCIO DO SÉCULO XXI.
MERCADOS IRREGULARES
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Ainda que a ênfase nos estudos sobre as dinâmicas comerciais se dê a partir de elementos visíveis, parte importante das transações econômicas globais acontece à margem dos esforços oficiais de contabilização. Para além dos grandes debates acerca do modus operandi de parte do mercado financeiro, da ausência de transparência em muitas transações, dos processos de lavagem de dinheiro e de depósitos que se avolumam em paraísos fiscais, parte do movimento no comércio global se desdobra para além da superfície através da venda e compra de produtos de inegáveis impactos políticos, sociais e econômicos.
EXEMPLO
O comércio ilegal de armas de fogo é um exemplo conhecido, assim como o de substâncias psicoativas. Esse último caso, inclusive, merece uma observação mais atenta.
Não menos importante, os processos de globalização e multilateralismo contribuíram francamente para o aumento do comércio internacional de drogas. Ainda que parte dos processos de importação e exportação de drogas se dê por vias próprias, a ampliação dos circuitos de trocas comerciais permitiu que muitos comerciantes incluíssem suas mercadorias proibidas em redes regulares, o que exige permanente esforço de fiscalização por parte das autoridades aduaneiras. Também é difícil rastrear o destino dos valores adquiridos com comércio ilegal. Ainda que traficantes locais façam investimentos locais e fracionados para “lavar” o dinheiro ilícito, acredita-se que parte importante das cifras seja regularizada através de aplicações no mercado financeiro, muito mais difíceis de identificar.
Foto: U.S. Customs and Border Protection/Wikimedia Commons / Domínio Público Oficial da aduana dos EUA recompensa

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