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Geologiaae
Barragens-
Walter Duarte Costa
© Copyright 2012 Oficina de Textos
1ª reimpressão 2014 \ 2ª reimpressão 2018
Grafia atualizada conforme o Acordo Ortográfico da Língua
Portuguesa de 1990, em vigor no Brasil a partir de 2009.
Conselho editorial Cylon Gonçalves da Silva; José Galizia Tundisi; Luis Enrique Sánchez;
Paulo Helene; Rozely Ferreira dos Santos; Teresa Gallotti Florenzano
Capa e projeto gráfico Malu Vallim
Foto da capa Barragem de !rapé, construída pela Cemig no Rio Jequitinhonha. Com 200 m de altura, é
a barragem de terra mais alta do Brasil. Acervo da Cemig, cedida por cortesia dessa empresa.
Diagramação Douglas da Rocha Yoshida
Preparação de textos Gerson Silva
Revisão de textos Elisa Andrade Buzzo
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Costa, Walter Duarte
Geologia de barragens / Walter Duarte Costa. -
São Paulo : Oficina de Textos, 2012.
Bibliografia
ISBN 978-85-7975-296-4
1. Barragens - Projeto e construção 2. Geologia
3. Geologia de engenharia 4. Geomorfologia
5. Geotécnica I. Titulo.
12-04914 CDD-624.151
Índices para catálogo sistemático:
1. Geologia de barragens 624.151
Todos os direitos reservados à Oficina de Textos
Rua Cubatão, 798
CEP 04013-003 - São Paulo - Brasil
Fone (11) 3085 7933
www.ofitexto.com.br e-mail: atend@ofitexto.com.br
Aos mestres e amigos Fernando Olavo
Francis e Jaime de Azevedo Gusmão Filho,
eméritos conhecedores da geologia de enge
nharia, aos quais devo grande parte de meu
saber;
À minha esposa, Solange, filhos e netos,
razão de meu viver;
Aos meus pais (in memoriam) e irmãos,
pelo legado e carinhoso afeto.
O autor
Nascido em Recife,
em 1938, Walter
Duarte Costa diplo
mou-se em Geologia
pela Universidade Fe
deral de Pernambuco
(UFPE). Ingressou na
Sudene, onde exerceu
a função de hidrogeó
logo durante cinco anos. Posteriormente,
ingressou na empresa Sondotécnica, do
Rio de Janeiro, onde passou a dedicar
-se à Geologia aplicada à Engenharia
também durante cinco anos. Nessa
cidade, obteve os títulos de Mestre em
Geologia de Engenharia e de Aperfei
çoamento em Mecânica das Rochas na Uni
versidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
e lecionou na Pontifícia Universidade Ca
tólica (PUC) e na Universidade Federal
Fluminense (UFF).
De volta a Pernambuco, lecionou durante
18 anos na UFPE, nos cursos de graduação
em Geologia e no mestrado de Hidrogeo
logia. Exerceu paralelamente, por meio de
sua própria empresa (Geotecnia), a ativi
dade de consultor nas áreas de Geologia de
engenharia e Hidrogeologia, quando asses
sorou projetos e construção de barragens
em todo o Nordeste brasileiro. A partir de
1984, passou a residir em Belo Horizonte,
contratado pela empresa Enerconsult-SP
para desenvolver estudos hidrelétricos para
a Cemig. Na década de 1990, fundou sua
atual empresa de consultoria (Ecogeo) e in
gressou na Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG), onde lecionou durante 12
anos nos cursos de Geologia, Engenharia
Civil, Engenharia de Minas e Arquitetura.
Em 1997 fez um curso de aperfeiçoamento
em contaminação de águas subterrâneas
na Universidade de Alcalá de Henares, em
Madri. Em 2002 obteve o título de Doutor
em Geociências pela Universidade de São
Paulo (USP). Em sua atual empresa, exerce
a consultoria nas áreas de geotecnia, hidro
geologia, mineração e meio ambiente.
Nas empresas em que trabalhou ou nas
suas próprias empresas, participou como
projetista ou consultor na construção de
170 barragens em todo o Brasil, além
de realizar vários estudos geotécnicos sobre
túneis, rodovias, portos e áreas urbanas.
Na hidrogeologia, participou de projetos
sobre abastecimento de água em cidades,
irrigação, indústria de água mineral e con
taminação de aquíferos. Na mineração,
elaborou inúmeros relatórios de pesquisa
mineral e, no meio ambiente, desenvolveu
estudos para mineração, indústria e obras
de engenharia. Atuou como perito judicial
em mineração e meio ambiente.
Possui 23 trabalhos publicados sobre
barragens, 17 sobre hidrogeologia, 4 sobre
mineração e 3 sobre meio ambiente. É só
cio-fundador da Associação Brasileira de
Geologia de Engenharia e sócio do Comitê
Brasileiro de Grandes Barragens.
Muito além de lembranças
O livro Geologia de Barragens é um importante registro do desenvolvimento e evo
lução da hidroenergia na matriz energética nacional. A LEME Engenharia, desde sua
fundação, há mais de quatro décadas, esteve presente na elaboração e execução de pro
jetos de diversas barragens citadas neste documento histórico. A expertise acumulada
pela empresa, conta com a inestimável contribuição de dois grandes profissionais: Mário
Bittencourt e Mário Guedes.
Bittencourt, engenheiro civil, participou
e coordenou mais de 30 empreendimentos
na América Latina. Pela LEME Engenharia,
esteve à frente de vários projetos, como as
Usinas Hidrelétricas de Quitaracsa (Peru),
Mazar e Sopladora (Equador).
Em sua trajetória profissional como
geólogo, Guedes participou de mais de 50
projetos no Brasil e exterior. Como colabo
rador da LEME Engenharia, compartilhou
seus conhecimentos com o Complexo Hi
drelétrico Capim Branco e com as Usinas
Hidrelétricas de Estreito, Irapé, Itiquira,
São Salvador e Nova Ponte.
Juntos, Bittencourt e Guedes, deixa
ram suas assinaturas na Usina Hidrelétrica
de Jirau (Rondônia); Las Placetas, na
República Dominicana e no Projeto dos
Mares, no Panamá.
Mais do que projetos, a grandeza é o
que os fizeram tão importantes e o que
eles deixaram vai além de lembranças:
marcaram nossas vidas com seus feitos
e ensinamentos.
Mário Bittencourt e Mário Guedes.
Dois nomes que ficarão registrados na
história. Que seus exemplos e legados
nos inspirem!
Aos colegas, nosso agradecimento
eterno.
Flavio Campos
Presidente LEME Engenharia
Mário Guedes Mário Bittencourt
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O presente livro não tem a pretensão
de esgotar o vasto e complexo campo da
Geologia aplicada a barragens, nem consti
tuir um estado da arte sobre tão delicado
assunto. Ao escrevê-lo, o autor foi movido
por dois objetivos básicos: propiciar uma
objetiva literatura técnica sobre o assunto
aos alunos de Geologia e de Engenharia; e
orientar os profissionais dessas duas áreas
sobre a melhor forma de aplicar os conhe
ámentos geológicos em prol de projetos de
barragens mais seguros e econômicos.
Nos 30 anos em que o autor lecionou a
disciplina de Geologia Aplicada à Engenha
ria em cursos de Geologia e de Engenharia
nas universidades de Pernambuco, Rio de
Janeiro e Minas Gerais, deparou-se sempre
com a mesma dificuldade enfrentada pela
maioria dos alunos não versada em línguas
estrangeiras: a falta de bons livros sobre
essa ciência editados em português. Essa
deficiência foi bastante minorada com a
publicação em 1998, pela Associação Brasi
leira de Geologia de Engenharia Ambiental
;ABGE), do livro Geologia de Engenharia.
Assim, um dos objetivos do autor foi com
plementar para esses alunos os frutos
advindos da publicação do livro da ABGE,
especificamente para o caso de barragens. E
por que barragens? É que, nas 170 obras de
barragens em que o autor tevea felicidade
de participar, seja na fase de projeto ou de
construção, pôde constatar que muitos dos
profissionais envolvidos não conheciam as
reais potencialidades oferecidas pela geo
logia para a otimização de um projeto de
barragem.
As intrínsecas dependências desse tipo
de obra com os aspectos geomorfológicos,
geológicos, geotecnológicos e hidrogeo
técnicos mostram uma implícita relação
entre a obra e a natureza. As incontáveis
variações ocorridas nessas relações impe
dem que se conjecturem fórmulas rígidas
aplicáveis a diferentes situações, a exemplo
de uma receita de bolo, pois essas varia
ções contextuais impingem ao projeto de
uma barragem a assertiva de que cada caso
é um caso.
Por isso, faz-se necessário ao geólogo e
ao engenheiro que lidam com esse tipo de
obra um perfeito conhecimento de todas as
condicionantes que possam exercer qual
quer influência na obra a projetar, bem
como das principais características previs
tas preliminarmente para o projeto. A esses
profissionais caberá sempre a decisão de
recomendar os tipos de barragem mais ade
quados ao local escolhido e, para isso, será
sempre necessário possuir, minimamente,
um perfeito conhecimento das seguin
tes condicionantes: morfologia das bacias
hidrográfica e hidráulica, bem como dos
possíveis eixos barráveis; caracterização
geomecânica das fundações, obras comple
mentares e bacia hidráulica; caracterização
PROJETOS E CONSULTORIA LTDA.
A ECOGEOCIÊNCIA é uma empresa de prestação de serviços nas áreas de geologia,
geotecnia, hidrogeologia, mineração e meio ambiente que alia a experiência adquirida
nos vários anos de funcionamento à larga vivência profissional de seu corpo técnico. Esse
somatório de experiência é complementado pela incessante busca no aprimoramento
de técnicas de metodologias de trabalho, objetivando fornecer aos seus clientes um
serviço de máxima qualidade. Suas principais áreas de atuação são:
GEOLOGIA:
Fotointerpretação geológica; mapeamento geológico; mapeamento estrutural; e análi
se macro e micropetrográfica.
GEOTECNIA:
Estudos geotécnicos para as diversas etapas de um projeto de barragens (foto abaixo);
estudos de mecânica das rochas para túneis, dutos e galerias subterrâneas; estudos de
contenção de taludes em áreas urbanas, barragens, estradas e mineração; estudos para
fundações de obras de engenharia; análises de erosão e assoreamento; estudos para
projetos de irrigação; projetos viários e portuários; carta geotécnica.
HIDROGEOLOGIA:
Caracterização hidrodinâmica dos aquíferos; análise das possibilidades de explotação
de aquíferos; caracterização físico-química e bacteriológica das águas subterrâneas;
contaminação de aquíferos; explotação de águas minerais.
MINERAÇÃO:
Prospecção através de poços e trincheiras; avaliação de ocorrências minerais; Relatório
Final de Pesquisa; Plano de Aproveitamento Econômico; requerimento para pesquisa
mineral; planejamento de lavra.
MEIO AMBIENTE:
Relatório de Controle Ambiental - RCA; Plano de Controle Ambiental - PCA; Estudo
de Impacto Ambiental - EIA/RIMA; Plano Diretor relacionado com áreas urbanas ou
bacias hidrográficas.
RESPONSÁVEL TÉCNICO
Geólogo Doutor Walter Duarte Costa (forma
do em 1962 e doutorado em 2002)
ENDEREÇO ADMINISTRATIVO
Rua Volta Grande, 581 - CEP 31.030-340
Belo Horizonte - MG
ENDEREÇO TÉCNICO
Rua Washington, 886 apto. 1201 - Bairro Sion
CEP 30.315-540 - Belo Horizonte - MG
Telefones: (31) 3241.3925 - (31) 85005813
(31) 99738407
e-mail: wa1ter1938@gmail.com
BARRAGEM DE IRAPÉ - Estudos geotécnicos da etapa
de viabilidade executados por Walter Duarte Costa
dos materiais naturais de construção; e
impactos ao meio ambiente passíveis de
ocorrer com a implantação da obra.
Por outro lado, é fundamental a esses
profissionais conhecer bem os objetivos
para os quais a obra será projetada, pois
é comum constatar-se a realização de
processos investigativos ou construtivos
inadequados para a finalidade com que será
construída a barragem, como, por exemplo,
impermeabilizar as fundações de uma bar
ragem prevista para controle de enchentes,
mesmo que a percolação pelas fundações
não comprometa a segurança da obra.
Outra deficiência constatada em inú
meros profissionais que lidam com as
obras de barragens reside na elaboração
dos relatórios técnicos. Às dificuldades
de redação consequentes do mau apren
dizado da língua pátria somam-se a falta
de objetividade e um melhor conheci
mento dos aspectos a abordar, resultando
em documentos imprecisos, inelegíveis e
incompletos, desprovidos de um roteiro
conciso, bem explicativo e com boas ilus
trações. Por esse motivo, o presente livro
dedica um de seus capítulos iniciais à ex
planação de conteúdos para a elaboração
de um relatório técnico nas diversas etapas
em que se divide uma pesquisa para projeto
de uma barragem, desde a sua construção
até sua operacionalização.
Seguem-se os capítulos que abordam, da
forma mais compreensível possível, os se
guintes aspectos ligados ao projeto de uma
barragem: bacias hidrográfica e hidráulica;
eixo barrável e obras complementares;
investigações de campo e laboratório; tra
tamento das fundações; materiais naturais
de construção; monitoramento; meio am
biente; e critérios para a escolha do tipo de
barragem.
Dessa forma, o presente livro representa
uma modesta contribuição no sentido de
aprimorar cada vez mais os conceitos de
uma obra de barramento segura, econô
mica e minimamente impactante.
Finalizando, o autor deseja expressar
sua profunda gratidão ao professor Edézio
Teixeira de Carvalho, pela revisão final
do presente trabalho; ao professor Paulo
Roberto Aranha, pela revisão e pelas suges
tões no capítulo de geofísica; e às entidades
Cemig, Sondotécnica e ABGE, pela autori
zação para uso de algumas figuras.
O Autor
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'i'iõs!_ . - .. . . . ��
'
Apresentação
Um livro sobre Geologia de barragens,
ou para barragens. Será um anacronismo?
Nos últimos tempos - ponha-se logo o
marco: ao término do milênio passado-, as
(grandes) barragens pareciam ter seus dias
contados. O Brasil tinha parado em Tucu-
ruí. Em termos de altura, lembro que Minas
ainda fazia Irapé, mas o empreendimento
grande de fato, dos últimos anos no mundo,
é Três Gargantas, na China. Os grandes
"barrageiros" brasileiros, engenheiros, geó-
logos e a multidão de operários que a partir
dos anos 1960 migravam como aves de ar-
ribação de um canteiro para outro tinham
quase sumido como por encanto. Todavia,
as Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs)
prosperaram, contando-se às centenas as
obras simultâneas, nos vários estados bra-
sileiros, tocadas por muito menos gente,
em parte pelo porte muito menor e, em
parte, pelo avanço da mecanização, que
cortou muitos empregos no operariado.
Geólogos e engenheiros, ou pararam na
chegada da idade de aposentadoria, caíram
num recolhimento voluntário, quase um
ostracismo autoimposto, ou entregaram-
-se a outros afazeres. Nessas PCHs, embora
-ecnicamente mais simples, os respectivos
cadernos de encargos tornaram-se mais
omplexos para atendimento a exigências
ambientais crescentes.
Lembro-me bem, ainda cursando Geologia
na Escola de Minas de Ouro Preto, das dis-
cussões sobre as perspectivas que então se
desenhavam de retração da energia nuclear
como parte importante da matriz energé-
tica, por causa dos problemas - dados como
insolúveis - da questão ambiental envol-
vida, ainda então concentrada no destino
dos resíduos e nos acidentes com os reato-
res; isso bem antes do vazamento de Three
Miles Island. Havia também uma certa ex-
pectativa de esgotamento do petróleo. "Não
dura mais que 30 anos" foi muitas vezes
falado com certeza absoluta. Curiosamente,
há alguns anos, dei com uma análise do ce-
nário para o petróleo e o carvão, e, no caso
do petróleo, não obstante o consumo cres-
cente, constava que em todos os anos, desdea crise do petróleo, as reservas tinham au-
mentado, exceto durante a guerra dita do
Golfo. Hoje sabemos que a questão nuclear
continua mal resolvida, apesar de países
como o Japão, a França, os Estados Unidos
e outros terem aí parte substancial de seu
suprimento energético.
Evidentemente, com as dificuldades do
petróleo (agora acirradas com a presunção
do aquecimento global), do carvão e da ener-
gia nuclear, os brasileiros se sentiram mais
bem preparados para o futuro com energias
"limpas" de fontes renováveis, hidráulica,
solar direta, eólica e da biomassa. Natural-
mente, essas convicções são abaladas por
processos de aprovação algo atribulados,
como o de Belo Monte no Xingu (empreen-
dimento antigamente, nos anos 1970/ 1980,
chamado Kararaô e Babaquara).
Parece evidente que, se os grandes bar-
ramentos fossem todos dotados de eclusas
para a navegação, como no São Francisco,
Tocantins e Paraná, teria o setor energé-
tico recebido da sociedade brasileira um
reconhecimento muito maior, porque a
navegação interna, condição essencial de
sustentabilidade para qualquer país de di-
mensões continentais, contaria como
impacto positivo das grandes barragens, e
-se a reunir em livro um pouco do muito que
sabe do tema, com bom arranjo didático-
-pedagógico, em linguagem simples e
objetiva. São 12 capítulos de conteúdo ex-
positivo e 4 apêndices: glossário de termos
técnicos; normas da ABNT; conversão de
unidades; e relação das obras de barragens
em que o Autor participou.
Sem pretender repetir o sumário, anoto
que o Autor apresenta a matéria da se-
não negativo. A relação com os atingidos, guinte forma:
principalmente os que são removidos de Capítulo 1: conceitos introdutórios
suas residências ou que têm suas proprie-
dades inundadas, também tem importante
papel na formação de uma consciência des-
favorável aos empreendimentos do gênero.
O geólogo Walter Duarte Costa teve boa
formação desde o ensino fundamental até a
universidade e pós-graduação. É natural de
Pernambuco, Estado que se notabiliza por
ter dado ao Brasil homens de grande estatura
científica, técnica, cultural, social e política,
e que, portanto, não inovou em dar-nos o
Autor do livro que honradamente prefacio.
Houve por bem ele centrar em Minas Gerais
a segunda parte de sua vida profissional,
como geólogo e consultor e como professor
universitário no Departamento de Geolo-
gia do Instituto de Geociências da UFMG,
onde, por tempo mais curto que o desejado,
chegamos a conviver. Homem de ameno
trato e de falar sóbrio, sempre conduzido
com moderação e, nas questões técnicas,
sempre guarnecido de bons referenciais da
lógica. É o Walter que vi em artigos técni-
cos, em exposições de encontros científicos,
nas conversas de corredores escolares, nos
colegiados deliberativos.
As barragens não deixarão de ser
construídas. É o que nos diz ele ao dispor-
sobre as questões territoriais pertinentes,
os objetivos das barragens e os seus prin-
cipais tipos.
Capítulo 2: fases do projeto e da vida das
barragens, temas apresentados com clara
fundamentação, justificando as atividades
das diversas fases de estudo, projeto, cons-
trução e observação do comportamento.
Esses capítulos introdutórios já incluem ar-
gumentos lógicos vinculados à importância
relativa das diversas ocasiões de tomadas de
decisões. A leitura é agradável, mesmo para
quem formalmente já tenha passado por
esses temas, de outros autores, em cursos
de graduação ou pós-graduação.
Capítulo 3: apresenta o Autor um sumá-
rio dos aspectos geológicos mais relevantes
da bacia de contribuição, distinguindo bem
a hidrográfica, total, e a hidráulica, inclusa
na primeira e, no caso, a que fica inteira-
mente submersa em condição de pleno
armazenamento. Mais uma vez compa-
recem aspectos da lógica da investigação,
distinguindo-se as necessidades de investi-
gação de cada um deles.
Capítulos 4 e 5: aprofundam-se as re-
lações interativas entre a barragem e seus
diversos setores e órgãos auxiliares com
o sítio de implantação das estruturas in-
tegrantes, com destaque para o corpo da
barragem em si quanto às tensões de con-
tato com o terreno, a bacia hidráulica em
relação aos fenômenos de percolação e fe-
nômenos de alteração das rochas presentes.
Dá-se grande destaque às descontinuida-
des dos maciços rochosos em relação ao
comportamento a prever diante das soli-
citações típicas quanto a deformabilidade,
resistência (estabilidade) e permeabilidade,
em face das cargas hidráulicas aplicadas.
Apresentam-se conhecimentos fundamen-
tais dos domínios da mecânica dos solos,
da mecânica das rochas e dos fenômenos
de percolação, ainda que à guisa de revisão,
sem fundamentações excessivas.
Capítulos 6 e 7: seriam, a rigor, soma-
dos aos dois anteriores, o bloco nuclear do
livro. Com efeito, a exposição sistemática
dos capítulos anteriores constitui uma fase
preparatória, com justificações técnicas fun-
damentadas, para a fase de investigação, cuja
execução, principalmente em grandes em-
presas, costuma estar entregue a equipes de
geólogos e engenheiros de campo, que podem
participar de programações e interpretações
precoces em campo. Nessas investigações,
dependendo do porte da barragem e da
complexidade do sistema geológico local,
podem ser incluídos ensaios especiais, como
os de cisalhamento in situ, dilatométricos
ou de determinação do estado de tensão, ge-
ofísicos especiais e outros.
Capítulo 8: importante capítulo no qual,
partindo da caracterização do terreno de
implantação da obra e das característi-
cas desta, com as respectivas solicitações
previstas, expõe o Autor os tratamentos a
serem aplicados ao terreno, destinados a
melhorar as suas características, de modo
a garantir o comportamento adequado
diante dessas solicitações.
Capítulo 9: trata dos materiais de
construção, um dos itens de investigação
geológica inevitável na construção de uma
barragem. Com efeito, dependendo do tipo
em causa, a construção de barragens con-
some obrigatoriamente rochas em blocos
ou britadas, areia, saibro e solo residual
comum. A disponibilidade, ou a ausên-
cia desta, quanto aos principais materiais
dessa lista pode determinar mesmo o tipo
de barragem a ser construído, de modo que
a investigação em relação a esses materiais
deve iniciar-se precocemente e desenvol-
ver-se dinamicamente para o atendimento
das especificações de qualidade e de quan-
tidade.
Capítulo 10: trata do monitoramento,
que é a essência do processo de acompanha-
mento do desempenho da obra.
Capítulo 11: meio ambiente é tema
obrigatório de todas as obras de grande
porte, e, no caso das barragens, é parti-
cularmente importante o fato de, através
dos cursos d'água, as barragens imporem
aos territórios a jusante, e até a montante,
sob determinadas circunstâncias, impactos
ambientais que vão dos suaves e toleráveis
até os de grande intensidade, para muitos
considerados intoleráveis.
Capítulo 12: o Autor fecha o conteúdo
como se estivesse revisando em parte os
capítulos iniciais. De fato, volta a referir-se
a aspectos geológicos, topográficos e outros
na exposição de critérios de escolha do tipo
de barragem a construir.
Foi feliz o Autor na escolha da marcha
de apresentação do conteúdo, em sucessão
lógica, facilitando a apreensão gradual de
complexidades crescentes.
Algumas linhas atrás, comentei que o
Autor acredita na continuidade da barra-
gem como tipo de obra que a humanidade
não dispensará. Ora digo que, sem em-
bargo, isso não impede que novas barragens
propostas terão de passar por crivos cada
vez mais severos, quer no plano ambiental,
quer na efetiva contribuição que venham a
ter para o desenvolvimento local, regional,
dos países, por grandes que sejam.
Antes de terminar essas despretensio-
sas notas sobre otrabalho apresentado pelo
Autor, acredito caber aqui uma palavra de
estímulo aos principais destinatários do
livro: provavelmente estudantes ainda em
nível de graduação. Ao signatário deste,
a barragem apresenta-se como objeto só
menos diverso que a cidade em termos de
desafios. Com efeito, a barragem é maior
que a obra viária, até porque, para a sua
construção e operação, requer o acesso
viário; é maior que o aeroporto; maior que
o túnel; maior que a mina, porque terá mais
de uma para supri-la; só não é maior que a
cidade, que decide fazê-la ou não.
De outro lado, vejo os construtores
de barragens, desde já e cada vez mais no
futuro, aproximando-se de algumas justas
objeções de ambientalistas, daqueles que
são atingidos diretamente e da sociedade
em geral, no sentido de reduzir a intensi-
dade dos impactos negativos e ampliar a
dos positivos, não só por meio de justas
compensações aos atingidos diretamente,
mas também, não menos importante,
agregando às barragens funções adicio-
nais, como o auxílio à navegação por meio
de eclusas, que tanta falta fazem onde não
foram feitas. Nos casos de barragens de
usos múltiplos, a submissão operacional
a necessidades superiores, como a do con-
trole de inundações - relegado em muitos
casos -, deve ser uma disposição sempre
presente.
Finalmente, de uma ótica muito pessoal,
vejo as barragens, onde bem justificadas,
como dispositivos que têm uma virtude
intrínseca muito importante, qual seja, a
de atravessarem-se no caminho das águas
que escoam rapidamente de volta ao mar.
São, portanto, dispositivos que, embora
tardiamente, concedem às águas um tempo
a mais de estarem nas áreas continen-
tais contribuindo de várias maneiras para
tornar melhor a vida da humanidade, o que
não deve ser confundido com barragens
mal justificadas, que apenas ampliam o
poder de quem as detenha.
' Tenho certeza de que é sempre nessa
perspectiva que o Autor tem construído
uma carreira laureada de grandes serviços
prestados ao Brasil, estando o livro desti-
nado a ser um dos maiores .
Belo Horizonte, 18 de junho de 2011
Edézio Teixeira de Carvalho
Sumário
1 Conceitos introdutórios ....................................................................................... 21
1.1 Critérios de projeto .. ................. ........ ... ... ... ... ................. .... .. ..... ... ... ... ..... .... ..... ....... ... . 21
1.2 Objetivos e sua importância no projeto ........................... ..... .... ......... .... .... ... ....... .. .. .. . 22
1.2.1 Barragens de regularização .. .... .. .... .. .. .. .. .... .. .. .......... .. .. .. ..... .. .. .. .. .. .... ... ... .. ...... .... .... .. ... .. ....... 22
1.2.2 Barragens de contenção ......................................................................................... .. ............ 22
1.2.3 Incidência dos objet ivos no planejamento da obra .. ........ .... .. .......... .. ... .. .... ... .... .. .. .... .. ... .. .. 23
1.3 Tipos de barragens .. ... ... ........ ... ...... ..... .. ....... .... .......... ... ... ....... ... .... ..... .. .... .. ....... ... .. ... . 24
1.3.1 Barragen s convencionais .. .. .......... .... ........... ............ ........... ... ... ........................................ ..... 24
1.3.2 Barragens não convencionais ... ... .. .. .... .. .. .... .... .. .. ... .. .............. ... ...... .. .... .. ....... .... ... .. ............ . 27
1.4 Conceitos , nomenclatura e terminologia .......................... .. .......... .. ......... .. .......... .. ...... 28
1.5 Arranjo de uma obra de barragem .. ....................... ..... ...... ... ..... ... ... ... ..... ... .... ... ... ... ... . 29
2 Fases e métodos de investigação geológico-geotécnica em barragens ............... 31
2.1 Etapas na vida de uma barragem .. .. ..... .. .. .... .. .. .. .. .... .... .. .... .... ....... .. ... .... .... ..... ..... .. ... .. 31
2.2 Fases de um projeto .... ....... .. .. ....... .. .. ... ..... ... ..... ... .. ...... ....... ..... ... ... ... ... ... .. ... ...... ... .... .. 31
2.2.1 Inventário ou plano diretor .... .. ... ....... .... .. .. .... .. ..... ..... .. .. .. .. ....................... ............. .. .. .. ...... .. . 31
2.2.2 Viabilidade .... .... ..... .. ... .. ... ... ............ ... ......... .... ...... ..... ....................... .............. ...... ...... ... ..... . 31
2.2.3 Projeto básico .............. ..... ............................ ........................................................ .. .... .. .... .. .. 31
2.2.4 Projeto executivo .. ... .......... .. .... ........ .. ..... ... .. .. .... .... .. ... ... ..... .... ... .... .. .. ... ... ... .... .... ....... .... .. .. .. 32
2.3 Investigações geológico-geotécnicas em barragens .. .... ............. ..... .. .......... .. ... .. ......... 32
2.3.1 Fase de inventário ou plano diretor .................................... ......... .. .... ... .. .. .... ... .......... .... .. .. .. . 32
2.3 .2 Fase de viabilidade .. ... .. .... ... .... ......... .. .. ... .... .. ........ ... ... .... .... .... .. ... ...... .. ... ........... ..... ........ .... . 34
2.3.3 Fase de projeto básico .......... ... ....... .. .............. ... .. ...... ............... ....... ... .. ............ ... ...... ........... 37
2.3.4 Fase de projeto executivo ..... .. .................................... .. ............. ................ ............. .. .. 39
2.3.5 Observação do comportamento da obra .............. ........ .. .... ... ........ ... .... .. ...... .... ... .... .. .. ... ...... 41
3 Aspectos geológicos ligados às bacias hidrográfica e hidráulica ........................ 43
3.1 Erosão e assoreamento ..... ... ...... ........... .............. .... ........................ ........ ... ...... ...... ..... 43
3.1 .1 Erosão ..... ....... .......... .. ..................................... ... .................. .. ... ... .. .... .. ... .. ......... .. .. .. ..... .. ...... 43
3.1.2 Assoreamento ... .... .... .. ........ ... .. ... ... .. ..... .. ....... .. ... ... ......... ... ... ...... ...... .. .. ..... .. .. .. .... ... .. .. .... ..... 44
3.1.3 Riscos de erosão e assoreamento .. .. .... .. .. .... .. ........ .. .. .. .... ... .. ..... .... .. ... ............ .. .... ... .. .. .. ..... .. 45
3.1.4 Medidas preventivas contra a erosão e o assoreamento ........................... .. .. .. .. .... .. ....... .. ..... 46
3.2 Instabilidade de encostas ....... .................... ................... ... ..... ... ... ... ........... ...... ... .. ..... .. 47
3.2.1 Agentes predisponentes ... ..... .. ........ .. .. ....... ... .... .... ... ... .... .. .. ... ... ..... ... .. ..... .. .. ... .. .... .. ... ... ...... 47
3.2.2 Agentes efetivos ... ... .... ... ................. .. ......... ......... ............................ .................... ...... .. ... ..... 52
3.3 Fugas naturais .. ........ ........ .. ...... ... .... ..... ....... ..... ..... ... .... ... .. ... ... .. .. .. ... .. ... .. .... ...... .. ..... ... 53
3.4 Sismicidade induzida ...... .... ..... ... ....... .... .. ... ..... ..... ..... ... ... .. .. .... ... ... ..... ............ .. ... ... .. ... 54
3.4.1 Causas dos sismos induzidos ............................................................. .. ........ .. .. ....... .. .. ... ....... 55
3.4.2 Estudos preventivos ................... .......................... ... ........ ... ... .. ..... .. .. .... ... ...... ....... ... ... ... .. .... 55
3.5 Contribuições indesejáveis ........ ....... .. .. ...... .. .... ...... .......... ....... ..... ..... .. ... ........ ...... ....... 56
4 Problemas geotecnológicos da fundações de uma barragem .............................. 57
4.1 Identificação geológico-geotécnica das fundações ... ........ ......... ...... .. ... .... ... .... ............ 57
4.1.1 Caracterização ..... .. ......... ... .. ... ... ... ... .... .. .. ... ...... ........ .... .... .... ....... ... ...................................... 57
4.1.2 Classificação ..... ..... ...... ....................... .......... ... ... .. .......... ... ...... ......... ... .. ... .... .. ... .. ................. 64
4.1 .3 Compartimentação .. ..... ......... ..... ... ... .. ..... .... ...... ..... ....... ......... ... ................... .. .. ..... ...... .. ....... 67
4.1.4 Modelagem .... .. .. ... ......... .. ... .. ....... ................ .......... ... ........ .. ... .. ... ......... .. .... ... .... ..... .. ............ 68
4.2 Caracterização geomecânica e hidrogeotécnica das fundações da barragem ...... ..... ... 72
4.2 .1 Deformabilidade ou compressibilidade .. ... ... ... ..... .... ... .. .. ..................... .... ........ .. .... ... .. ... ....... 73
4.2.2 Estabilidade ......... ... ............ .... .. ........ .. .. ... .... .. ... ................ .... .............. .. ....... .... .. ... ................ 78
4.2.3 Estanqueidade .. .. .... ... ..... ..... ..... .. .............. ... .. .......... .. ... ...... .... .... ... ................ .... ...... ........ ... . 87
4.2.4 Classificação geomecânica das fundações de uma barragem .... ... ............. .. .... .... .. .......... ..... 96
5 Geotecnia das obras complementares ............................................................... 105
5.1 Canais de adução e restituição .. ..... ........ .. ... ............. ................ ...... ...... ..... ... .... ....... .. 105
5.1.1 Caracterização geológico-geotécnica .. .. .... .......... .... ... ................... .. .. ...... ............ ... ...... ....... 105
5.1.2 Condições de estabilidade ... .. .... .. .... .... .... .... ... ............................................. ... ...... ... ... .... ... 106
5.1.3 Modelo geomecânico de escavação ... ........ ..... ........ ... .... ..... ..... ... ... ............ ....... ..... ... ......... 106
5.2 Vertedouro ... ........ ........ .... ... .... .... .... ........ .... ... ......... ... ... .. .... ............. ... ....... .. ....... .... . 106
5.3 Erosão a jusante ....... ... .... .. .. ...... ... .......... ... ........... .. ... .. ......... .. .. ..... ......... ..... .. ....... .. ... 108
5.4 Obras subterrâneas ..... ... ... ... ..... .. .... ...... .... ..... ..... ... ...... ... ..... ... .............. ........... ........ . 111
5.4.1 Tipos de obras subterrâneas ... ...... ...... .. ... .... ............... ...... .... ............. ... ... ...... .... .. .... .......... . 111
5.4.2 Influências da geologia nas obras subterrâneas ....................... ...... ... .... .... .. ..... ...... ...... ..... .. 112
5.4.3 Influência do estado de tensões ... ... ..................... .. ..... ... ... ..... ......... ... .... ............................ 116
5.4.4 Influência da geometria do túnel .... .. .... .... .. ... ... ....... ... ............. .... .. ... .. ........ .. ... .. ... .... .......... 118
5.4.5 Classificação geomecânica ....... ... .. .... ... .. ... .. ... .. ... .............. .................. ....... ....... .. ..... ....... ... 119
5.5 Áreas de acampamento e de canteiro de obras ............... ...... ...... ... .... .... ...... .. .. .... ..... 119
5.6 Acessos ..... ... ... .... .. ..... ......... ........ ............ ..... ..... .. .. .... ....... .... ..... .... .......... ............ .... .. 121
5.7 Ensecadeiras .... ........ ... ......... ... .......... ... ... ....... ....... ........... ..... ..... ...... .. .... .. ... .. .......... .. 122
5.7.1 Configuração em planta ........... ... ...... ..... ... .......... ...... ..... .... ..... ...... ............... ............. .......... 122
5.7.2 Construção da ensecadeira ... .. ... ... .... ... .. ... ... ............ ... ..... ....... ..... ......... ..... .............. ....... ... 123
5.7.3 Aspectos geotécnicos ... .. ... .......................... ....... ......... .. ... ... ....... .. .... ... ... ..... ........ ..... .. .. .. .... 125
6 Investigações para obras de barragens .............................................................. 127
6.1 Tipos de prospecção .. .. ...... ..... ...... ........... ....... .... ......... .. .. ...... .... .... .... ...... .. .... ........... 128
6.2 Prospecção indireta ...... .... .. ..... ..... ....... ....... ... ..... ..... ........ .. ... ...... ......... ... .............. .... . 129
6.2.1 Eletrorresistividade ...... ... ... .. .. .. ... .. ...... .... .. ............ ....... ..... ... ......... .... ......... ........ .. ............... 129
6.2.2 Sísmica ..... .. ... ....... .. ......................................... .... .......................... ... .. ... .. .. ... ............ .... ...... 137
6.2.3 Georradar (GPR) ... .. ... .. ... ... .. .. ..... .. .... .. ... ... ...... ... .. .... ........ ..... ... .. ... .... .. ......... ..... ....... .. .. .. ... . 145
6.3 Prospecção semidireta .... ........................ .... .... .. ..... ... ....... .. ..... .. ... .............. ...... .... ... ... 149
6.3.1 Sondagem a varejão (SV) ... ....... ... .... ... .... .... .. ... .. .. ............................. ....... ........ .. .... ... ........ 151
6.3 .2 Sondagem a trado (ST) ..... .. .. ..... ......... .. ... ...... ...... .. .... ... .. ... ... ....... .. .. ..... .... .... .... ... .. ... .... ..... 151
6.3.3 Sondagem a percussão (SP) .. .. ... .. ... ... ... ........ .... .. ... .... .. ... ... ..... .. ......... ......... ... ........ ...... .... . 153
6.3.4 Sondagens rotativas (SR) ...... ................................. ......... .... .............. ... ........... ....... ... ..... .. .. 157
6.3.5 Sondagens mistas (SM) ........... ..... ..................... ...... ..... ......... ... ........ ... .... .. ..... .... ..... .... ....... 172
6.3.6 Sondagem com rotopercussão ................................. ..... .. ... ...... .. ... ... .... ... .. .. ... .......... ...... .... 172
6.4 Prospecção direta .. .... ... ...... ... ...... .... .... ... .... ............. .. ...................... ... .... .. ... .. ... .. ..... .. 174
6.4.1 Poços ... .. ... ... ...... .. .... ... ...... .... .. ..... ............. .. ........ .... .............. ..... ...... ... ... ..... .... ...... ...... .... .... 175
6.4.2 Trincheira .......... ... ... ...... .... .... ..... .. .. ... ... .. ... ... ... ..... ..... ................. .... ...... ... ........................... 177
6.4.3 Túneis ...... ..... .. ..... ..... ..... .... .. .......... ... ... ... .. ... .. ..... .. .................. ... .... ........ ... .. .... ....... .. ..... ... ... 179
7 Ensaios e testes ..... ........................................... .. .. .... .......................................... 181
7.1 Ensaios in situ .. ...... .. .. ... .. ...... .... .. ...... .......... .. ... ...... .... .......... .. .... .. ........ .... .. ............ .... 181
7.1 .1 Ensaios in situ em materiais inconsol idados ... ........ ................. .. .. ........... ... ... .......... ..... ......... 181
7.1 .2 Ensaios in situ em materiais consolidados ..... ..... .. ... ......... .. ..... .. ............... ........ .. .... ... ... ..... .. 188
7.2 Ensaios de laboratório .... ... .... .. ...... ... .. ... .. ...... ..... .. .. .... .. .... .... ....... .... .. .. ..... ........ ... ... ... 202
7.2.1 Ensaios de laboratório em materiais inconsolidados ...... ............ ..... ... ... .. .. ... ... ... .. ....... ... ...... 202
7.2.2 Ensaios de laboratório em materiais consolidados .... ... ........ .......... .... .. ......... ............ ....... ... . 216
8 Tratamento de maciços naturais .................................................. ... .................... 231
8 .1 Métodos de tratamento .... .... .... ...... .... .... .. .......... ........ ... ... .... .......... ........ ...... .......... .. 232
8.1 .1 Substituição dos materiais da fundação ... .......... ... ... ... ... ... .. .. .... ........ ..... ..... ... .. ................ .. ... 232
8.1.2 Injeções ...... ..... .. .... .. ... .... .... ...... .... .... .... .... ....... .. ... ... .... .... .... ... ........ .. ... .......... .. ..... .... ... ... . 236
8.1. 3 Drenagem subterrânea ......... ........ ............. ...... ... ..... .. ... .... ...... .... ..... .. ... ..... .. .. ..... ... .. ..... .. ... . 253
8.1.4 Congelamento ...................... ..... .. .. .. ... ... .. ... ..... ... .. ... ... ... ... ...... .. ............ .... ......................... 254
8 .2 Apl icabilidade de cada método .. .. ... ... .. ...... ... ... .. .. .. .. ... ........ ... .... .... ............ .... ..... ... ... 255
8.2 .1 Melhoramento da resistência .. ..... ... .... ... ... .. ... ... ... .. .. ................ ...... ..... ......... .... ..... .... .. .. .. .... 255
8.2 .2 Redução da percolação ... .. .. ..... .... ... .. ............................... .... ... ... ..... .. ... ... ... .. .... ..... .... ... ..... 255
8.3 Critérios para definir a necessidade de tratamento .... .......... ..... .. .... .. ........ ... .. .. .. ... ..... 263
9 Materiais naturais de construção ....................................................................... 269
9 .1 Tipos de materiais e fontes de obtenção .... ..... ........ ... ... ... ..... ...... ...... .... .... ... ......... ... . 269
9 .2 Materiais pétreos .... .. ............. .. ... ..... ... .. ..... .............. ...... ... ........ ... ... .......... ... ...... ....... 270
9.2.1 Utilização do material pétreo ........ ...... .... ...... .. ... ... ... .... ....... ...... .... ... ..... .... .. .... .. ...... ............ 270
9.2.2 Pesquisa, explotação e beneficiamento do material pétreo .... ......... .... ......... ... .. .... .. ... .... .. . 270
9.2.3 Caracterização do material pétreo ..... ... ... ..... ..... .. .. .. .. .. .... ..... ... .. .. .. ... ..................... ...... ... ... 275
9.2.4 Apresentação dos resultados .............. ...... ...... ... ... .. .... ... .. ... ... ...... ... ... ............... .... .. ... ... ..... 287
9.3 Material arenoso ........ ............... ..... ... .. .... .. ... .. ........ .... ... ............... .. .................... ... .... 288
9.3 .1 Utilização do material arenoso ... .. .. ..... .. ... .. .... ..... .... .... ........... .. ... ... .... .. ..... ... .............. ......... 288
9.3.2 Pesquisa, explotação e beneficiamento do material arenoso .. .... ... .. .. .. ..... .. .......... .... ........ 289
9.3.3 Caracterização do material arenoso .. .. .. ... ... .... ..... .... .. .. ... .. ..................... .... ...... ... ... ... .... .. .. 291
9.3.4 Apresentação dos resultados ... .... ..... .. .... .. .. .. .. .. .. .. ... .. ..... ... ....... ... .... ...... .......... .. ... ...... ... ... 294
9. Material terroso .......... .. .... ........ .... ...... ..... ..... ...... ........ ..... .. ..... ........... .. ....... ... ..... ...... 294
9.4.1 Tipos de materiais terrosos e suas aplicações ......... ......... ........ ......... ... ...... ... ....... ... ... ... .... .. 294
9.4.2 Pesquisa e explotação dos materiais terrosos .............................. .... .. ... .. ... ... .. ..... ... .. .. .... .... 296
9.4.3 Caracterização técnica dos materiais terrosos .. ... ... ... ... .. ... .......... ... .. ... .... .. .. .. ... .... ...... .... .... 297
9. .4 Apresentação dos resultados ........... ... .. ... .. ... ... .... ... ... ... ... .. ....... ... .. .. .. .. ... .......... ........... ...... 298
10 Monitoramento ................................................................................................ 303
10.1 Inspeção visual. .... ... .. ............ ..... ..... ....... ... ............... ... ....... ... ..... ... ........ .. .... ........... .. . 303
10.2Topografia ...................... .... ...... ... ... .. ............................................ .. .. ..... ...... .... .. ..... .. 304
10.3 Instrumentação ..... ... ... ........... .... .. ... .. ......... ... .. ........... ...... ........ ... .... ...... .. ... ... ... ......... 305
10.3.1 Medição do nível d'água .. .. .... .. ..... .. .. ............ .. .. .... .. .. .. ........ .. ... ... .... ... .... ............. .. .. ........ 307
10.3.2 Medição da pressão neutra ..... ..... .. ... ... .... ... ... ... .. ..... .. .. .... ... .. ........ .. ... .... .. ... ........ ... .. ... ... . 308
10.3.3 Medição da tensão total .. ..... ...... .. ... .... .. .... ..... ..... ..... .. ... ... ... .. .. ...... .. .. .. ..... .... .. ..... .... ... ..... 308
10.3.4 Medição de deslocamento ....... .. ...... ...... .. ..... .... .. ... ... .. ... .... .. ... .. .. .... ....... ... .......... ... ... .. ... 308
10.3.5 Medição da vazão ........................ ...... ... .. ..... ..... .... ..................................... .. ..... .... .. ... ..... 310
10.3.6 Medição de aceleração sismológica ........ ... ..... .... ........ .. .......... .. .... ... ........ .... .. .... ..... .. .. .. .. 310
10.3.7 Frequência das medições ... ... .... .. .... ... ... ... .. .... .. ........ ............. ... ... ........... ......... .... ............. 311
11 Meio ambiente ................................................................................................. 313
11 .1 Critérios de estudo .... .. ..... .... .... .. ...... ..... ... .. .. ..... ..... ..... .... .. .... .. ......... ..... ........ ..... .... ... 313
11 .2 Fase de projeto ....... ...... ...... .. ... .. .... .. .. ...... ......... ..... ... ...... ... ... .......... .. .. ................. ..... 315
11 .2.1 Abertura de acessos .................. ... ....... .... .. .. ..... ...... .. .. .. ... .... .. .. .. ... .......... ... .... .... ... ... ..... .. .. 315
11.2.2 Execução de sondagens ..... ............. ... ............ ............. ........... ..... ... ............. .. ... ... .. .. .... ... . 315
11 .2 .3 Abertura de túneis ..... .... .. ..... .. ... .. ... ....... .... .. ... .. .... ... ....... ... ..... ......... ..... .... ... .. .... .. .... .. .. ... 316
11.2 .4 Expectativas sociais .. ....... .. ... ... .... ..... .... .. .... .. .... .. ... .. .. ..... ... .. ... .. .. ...... ....... ... .................... 316
11.3 Fase de instalação do canteiro, acampamento e acessos .. .............. ... ....... ........... ...... 317
11.3.1 Impactos gerados pelo canteiro de obras ..... ... .. ........ ..... .. .... .. .... .. .. .. ... ....... .. ...... .... .. ........ 317
11.3.2 Impactos gerados pelo acampamento ... ... .... .. .. .... .. .... .. .... .. ... ........ ..... .. ..... .. .. .... .. ... .. ... .... 317
11.3.3 Impactos causados pela abertura de acessos ............. .. .. .... ... .. .. ..... ... ... .... .. ... .. .. ..... .... ...... 319
11.4 Fase de construção e preparação do reservatório .. ... .... .... ........... .. ....... .......... ............. 319
11.4.1 Impactos gerados pela construção ..... ..... ...... ..... ... .. ..... .. ... ... ... ... .. .... .. .... .. .... .. ... .... .. .. .. .... . 319
11.4.2 Impactos gerados pela explotação de materiais naturais de construção ......... .... ...... .. ... ... 320
11.4.3 Impactos gerados na preparação do reservatório ...... .. .... .... ... .. .. .. .... .. .... .... .... ... ...... ...... .. 320
11.5 Fase de enchimento do reservatório ........... .. .... ...... ... .. ..... .... ... .... ...... ..... .. ... ... .. ... ... .. . 321
11 .5.1 Inundação das áreas marginais ..... ... .. .. ... .... ..... .. ... .. ... .... ... .. ... .... .. .. ... .. ... .... .. .. ..... ... ....... .. . 321
11.5.2 Redução de água a jusante ............... ...... .... .. ..... ....... .... ... .... ... .... .. .... ... ... .. .. .... .. .. .... ... ... .. 321
11.5.3 Modificação da qualidade das águas ... ...................................... .... ..... ... ........ .. ... .. .......... 322
11 .6Fase de desmobilização do canteiro e do acampamento .... .......... ... .... ... .... ............. .. 322
11 .6.1 Desmobilização do canteiro de obras ................. .... ................. ........ ........... ............... ..... . 322
11.6.2 Desmobilização do acampamento ...... ........... ... ... .. .. ..... .. ......... ... ... ........... ....................... 322
11 .7 Fase de operação ...................... .... ..... ........ ................... ... ... ........ ... ... ... ... ............ .. .... 323
11.7.1 Variação do nível do reservatório ................... ..... ..... ...... ............... ...... .. ... ... .... ..... .... ... ..... 323
11.7.2 Manutenção da infraestrutura remanescente .... .. ...... .. .. .... ... ...... .. .. .. .. ..... ... ............ ... .... ...... .. ..... 324
11 .8 Estudos ambientais ... ... .... .... ... ... ....... .... ... ....... ... .. ..... ... ..... ... .. ........... .. .. ...... ... ... ..... ... 324
11 .8.1 Documentação ... .. .... ... ...... ...... .... .... .... .. .... ... ....... .......... .... .......... .. .. .... .. ... ..... ... ........ ... ... . 324
11 .8.2 Licença Prévia (LP) .................... ..... ..... ..... ........... .................... .. .. ....... .... .. .... .. ... ... .. .. ... .... .. 325
11 .8.3 Licença de Instalação (LI) .... ........ .. ...... .... .... .. ... .......... ..... ... .............. ..... ....... ....... .. ....... ... 325
11 .8.4 Licença de Operação (LO) ... ........ ... .. ..... ...... .... ... ..... .... ... ............................ .......... ......... 327
12 Critérios para escolha dos tipos de obras ......................................................... 329
12.1 Topografia ............................ .... .... .... .. ...... ... ........ ... ...... ..... ... ...... ... ... ..... ... ... ..... .... ... . 329
12 .1.1 Corpo da barragem ..... .. ............................................... ................. ............... ................... 329
12 .1.2 Vertedouro ................. ... ... ......... .... .. .... ... ... .. ... .. .. .... .... .. ... .. .. ... ... .. ... .... ... .. .. .. ... .... .. .. ... ... .. 329
12.1.3 Desvio do rio .. .. .. .. .... .. .... .. .. .. ...................... .. ........ ................... ........ .. .... .. .. .. .. .... ... .. .. .. .. .. .. 330
12.1 .4 Obras auxiliares .... ........... ...... ......... ... .. .. ..... .. ........ .. ................. ... .. .... .. ... ....... .. ..... ............. 330
12 .2 Geologia das fundações .................. ......... .... .... .......... .. .... ..... .... .... .. .... ... .. .... ... ...... .... 330
12 .2.1 Corpo da barragem ..... .. .... .. .... ..... ................ ... ............ .. .... .... ............ ... ... .. .. .. ........ ........... 330
12 .2.2 Obras auxiliares .... ... .... ...... ... .... ... .. ..................... ........... .......... ............... ...... .. ... ... .... ..... .. . 333
12.3 Materiais naturais de construção ... ... ...... ... ...... ....... ... .. ... ......... ................... ......... ..... . 333
12.3.1 Localização ... ... ... ..... ........ ... ...... .. .... .. ... .. ... ... .............. .. .... .. ........ ................. ........... ......... .. 333
12 .3.2 Quantidade .... .. ... .. .. .... .. .... .. .. .. ... ... ... .. .. .. .... ......... ... .... .. .... .. .. .. ... .. .. .... ..... ... .. .. .. ....... .. ........ 334
12.3.3 Características técn icas do material .... .. ...... .. ...... ... .. .... .. ... .. ... .. ... .... .. .. .... ... .. ........... .. .... .. .. 334
12 .4 Meio ambiente ... ... ..... ...... ... ... .. ..... ... ... ........... ... ... ... ... .. .... ....... .... .... .... ...... .. .... ......... 334
12.4.1 M ateriais naturais de const rução .. ..... .. .... .. ................... ... .... .. .. .. .... ..... .. ........ ... .. .. .... ... .. .. .. 334
12.4.2 Áreas inundadas. .... ... . . ............ ...... .. ........ .... .. .... .. .... ... ... ........... ........... .................. 334
12.5 Fase de definição do tipo de barragem .. .......................... ........... ...... .... .. ... .... .. ..... .. .. 335
Apêndice 1 - Glossário de termos técnicos ........... ................................................ 337
Apêndice 2 - Principais normas técnicas da ABNT
aplicadas a solos e agregados ............................................................................... 341
Apêndice 3 - Conversão de unidades do Sistema Internacional
de Unidades {SI) para as principais unidades {Frazão, 2002; lnmetro, 1989) ........ 343
Apêndice 4 - Barragens que tiveram a participação do autor ............................... 345
Bibliografia recomendada ..................................................................................... 348
eferências bibliográficas ....................... ....................................... ....................... 351
1 Conceitos introdutórios
1.1 CRITÉRIOS DE PROJETO
O projeto de uma barragem envolve as-
?ectos muito diversificados, sobretudo por
abranger fatores de natureza bastante dis-
tinta quando considerados em função do
aspecto enfocado: obra propriamente dita
ou ambiente em que a obra será inserida.
Os fatores relacionados com a obra pro-
?riamente dita referem-se à concepção e ao
dimensionamento dos diferentes compo-
nentes da obra e podem, em geral, admitir
a seguinte abordagem:
• Objetivo da obra;
• Tipo de barragem;
• Arranjo de obras;
• Dimensionamento da barragem, le-
vando em conta suas características de
deformabilidade, estabilidade e estan-
queidade;
• Dimensionamento das obras com-
plementares, como vertedouro, canais,
túneis e casa de força, em função de cri-
térios de projeto e segurança das obras;
• Metodologia de construção;
• Cronograma e custos;
• Monitoramento das obras projetadas;
• Critérios operacionais .
Os fatores relacionados com o ambiente
em que a obra será inserida dizem respeito
às condicionantes naturais do local de
implantação da obra e do reservatório for-
mado, podendo, em princípio, abordar os
seguintes tópicos:
• Climatologia e recursos hídricos;
• Morfologia;
• Geologia e Geotecnia;
• Impactos ambientais.
Normalmente é difícil dissociar as in-
terdependências dos fatores relacionados
às condicionantes naturais de alguns fato-
res ligados à própria obra, principalmente
no que se refere aos parâmetros necessários
à definição da concepção do projeto. Assim,
dificilmente se pode conceber o melhor ar-
ranjo de obra sem levar em conta, ao mesmo
tempo, os seguintes fatores:
• Objetivo da obra;
• Balanço hídrico;
• Relevo;
• Condições geológico-geotécnicas das
fundações;
• Disponibilidade de materiais naturais
de construção;
• Impactos ambientais relevantes.
Os fatores listados são essenciais não
apenas para definir o melhor arranjo das
obras de uma barragem, mas também
para analisar a própria viabilidade dessa
obra. Os demais fatores relacionados ao
dimensionamento serão fundamentais
para a definição do método construtivo, dos
custos e da segurança na fase operacional.
Dos fatores essenciais mencionados
anteriormente, apenas o balanço hídrico
não será abordado na presente obra, por se
constituir num campo vasto da Hidrologia,
22 1 Geologia de Barragens
responsável pelo dimensionamento de todo
o volume afluente e pelas responsabilida-
des em contê-lo com a máxima segurança.
Igualmente não serão analisados os aspec-
tos ligados ao dimensionamento de obras
de engenharia, quer ligados à própria bar-
ragem ou às obras complementares.
1.2 ÜBJETIVOS E SUA
IMPORTÂNCIA NO PROJETO
Os objetivos para os quais as barragens
são concebidas são de inteiro conhecimento
daqueles que lidam com tais obras; todavia,
é necessário enfatizar que a sua defini-
ção constitui a primeira condicionante no
planejamento de uma barragem. Em prin-
cípio, com relaçãoao objetivo, as barragens
podem ser separadas em dois grandes
grupos: regularização e retenção.
1.2.1 Barragens de regularização
Como indica o próprio nome, essas
barragens objetivam regularizar o regime
hidrológico de um rio, armazenando água
nos períodos em que a afluência é maior que
a demanda, para utilizá-la nos períodos de
déficit de afluência em relação à demanda.
Essa operação, que é esquematizada na
Fig. 1.1, possibilita reduzir a amplitude
das vazões naturais no primeiro período e
garantir, no segundo, vazões efluentes su-
periores às naturais.
Dependendo da finalidade específica da
regularização, pode-se buscar aumentar o
volume de água armazenada, elevar o nível
natural com tal armazenamento ou, sim-
plesmente, criar um lago. O aumento de
volume é objeto de toda barragem que visa
a qualquer tipo de abastecimento, como
doméstico, industrial e irrigação. A eleva-
ção do nível da água destina-se sobretudo
à geração de energia elétrica, por meio
da transformação da energia potencial
hidráulica criada pela queda d'água. Sub-
sidiariamente, a elevação do nível busca
melhorar as condições de navegação fluvial,
tanto a jusante, por meio da regularização
das vazões no período de estiagem, como
a montante, por meio do afogamento de
eventuais corredeiras e cachoeiras. Final-
mente, a simples criação do lago pode ser
necessária para o aproveitamento turístico.
Deve-se adicionar aos objetivos das bar-
ragens de regularização o melhoramento
das condições de piscicultura, não só no re-
servatório criado, mas ao longo de todo o
trecho de jusante.
1.2.2 Barragens de contenção
As barragens de contenção objetivam
reter água de forma temporária ou acu-
mular sedimentos, resíduos industriais ou
rejeitas de mineração. No caso de retenção
de água, essas barragens têm a finalidade
de amortecer a onda de enchente para
evitar inundações a jusante. Conforme
mostrado na Fig. 1.2, a onda de cheia é
Q
Vazão regularizada
Período de armazenamento Período de regularização
FIG. 1.1 Regularização do regime hidrológico
-emporariamente armazenada e liberada
àe forma que a vazão efluente não cause
anos a jusante. As barragens de retenção
e carga sólida ou mista buscam evitar que
os materiais retidos danifiquem o leito dos
cursos d'água a jusante, tanto fisicamente,
por meio do assoreamento, quanto quimi-
camente, quando tais materiais contêm
carga tóxica poluente.
Q
Descarga
(máxima natural
Descarga
natural,
Vazão
amortecida
Descarga
máxima efluente
Descarga
efluente -
FIG. 1.2 Amortecimento de uma onda de enchente
1.2.3 Incidência dos objetivos no
planejamento da obra
A escolha do melhor local para implanta-
ção de uma barragem e do tipo de obra mais
apropriado pode ser bastante influenciada
pelo objetivo a que se destina a barragem.
Pode-se constatar essa influência quando se
observam as características exigidas para os
diversos objetivos de barragens discutidos
anteriormente, que podem ser sintetizados
da forma que segue:
Barragens para abastecimento: exigem
condições morfológicas que propiciem um
grande volume armazenado e podem, ainda,
em função da finalidade específica, exigir
as seguintes condições:
• abastecimento doméstico: águas com
baixo teor de salinização, sendo pro-
1 - Conceitos introdutórios 1 23
tegida a área de alimentação contra
poluentes químicos tóxicos, além de
proibida a atividade de recreação em seu
lago;
• abastecimento industrial: águas com
restrições de salinização, em função do
tipo de indústria, sendo, em geral, evita-
das águas duras (carbonatadas);
• abastecimento para irrigação: águas com
restrições de salinização, em função do
tipo de cultura e das características do
solo a irrigar.
Barragens para hidrelétrica: devem
priorizar os desníveis do perfil longitudinal
do rio, onde é maior o potencial hidráulico;
o regime hidrológico é importante, pois
não podem ser admitidas grandes deple-
ções do reservatório.
Barragens para navegação: além de
exigirem a construção de eclusas, precisam
garantir um nível de regularização de todo
o rio compatível com o calado das embarca-
ções previstas .
Barragens para turismo: devem pro-
piciar a formação de lagos extensos e com
declividade suave nas margens, para im-
plantação de equipamentos marginais,
como píer e ancoradouros para pequenas
embarcações; o reservatório não poderá
sofrer depleções; devem-se evitar condi-
ções favoráveis ao assoreamento.
Barragens para piscicultura: o reser-
vatório formado deve levar em conta a
qualidade da água, a natureza dos fundos
e das margens, a profundidade e a ilumina-
ção, evitando-se a eutrofização, que poderá
inviabilizar a vida piscosa.
Barragens para controle de enchen-
tes: além de exigirem um volume de
armazenamento compatível com a neces-
24 1 Geologia de Barragens
sidade de contenção da onda de enchente,
devem contemplar áreas em que não seja
muito prejudicial a inundação temporária
a montante.
Barragens de contenção: devem apre-
sentar o máximo de segurança quanto à
possibilidade de escapamento de produtos
tóxicos armazenados, tanto por superfície
quanto por meio de infiltrações, quando
podem poluir as águas subterrâneas.
Como se observa das exigências, não
apenas é fundamental levar em conta o
objetivo no planejamento inicial de uma
barragem, como também é difícil conci-
liar mais de um objetivo para uma mesma
barragem, no projeto denominado de fina-
lidades múltiplas. Assim, uma barragem
projetada para hidrelétrica ou para abas-
tecimento, em que a demanda é grande em
relação ao volume afluente, pode apresentar
depleções do reservatório que inviabilizem
qualquer aproveitamento turístico de seu
lago. Da mesma forma, uma barragem para
abastecimento doméstico não permite o
aproveitamento para lazer; e a manuten-
ção de um volume vazio para amortização
de enchentes inviabiliza o aproveitamento
para fins de abastecimento ou de produ-
ção de energia elétrica. Portanto, qualquer
aproveitamento múltiplo deve ser prece-
dido de uma rigorosa análise hidrológica
para verificar o balanço entre os volumes
afluente, efluente e utilizado em cada uma
das finalidades.
1.3 TIPOS DE BARRAGENS
Desde os remotos tempos em que o
homem tenta barrar os cursos d' água com
as mais variadas finalidades, as barragens
evoluíram muito em tecnologia. Todavia,
ainda hoje, alguns tipos mais primitivos
de barragens são eventualmente utilizados
quando a obra assume pequenas propor-
ções, principalmente quando executada
por pequenos fazendeiros com o objetivo
de armazenar água para próprio consumo
e da forma mais barata possível. Por isso,
quanto ao tipo, devem as barragens ser
divididas em dois grandes grupos: con-
vencionais, que são as mais utilizadas e
cujo mecanismo é de amplo conhecimento
na literatura especializada; e não con-
vencionais, que incluem as que são pouco
utilizadas, embora algumas delas possam
ter sido desenvolvidas recentemente.
1.3.1 Barragens convencionais
Barragens de terra
• homogêneas: a barragem é con-
siderada homogênea quando há
predominância de um único material,
embora possam ocorrer elementos di-
versificados, como filtros, rip-rap etc.
(Fig. 1.3a).
• zonadas: nesse tipo de barragem, há
um zoneamento de materiais terrosos
em função de suas características de ma-
teriais e/ou permeabilidade (Fig. 1.3b).
Barragens de enrocamento
• com núcleo impermeável: na barra-
gem de enrocamento, o material rochoso
é predominante e a vedação da água,
nesse caso, é feita por meio de um núcleo
argiloso, separado do enrocamento por
zonas de transição, para evitar o carre-
amento do material fino para o interior
do enrocamento. O núcleo pode ficar
centralizado (Fig. 1.3c) ou inclinado
para montante (Fig. 1.3d).
• com face impermeável: nesse tipo de
barragem,a vedação da água é garan-
tida pela impermeabilização da face de
montante da barragem, seja por uma
camada de asfalto, seja por uma placa de
concreto (Fig. l .3e), ou ainda, por uma
chapa de aço (Fig. 1.3f).
Barragens de concreto
• gravidade: são barragens maciças
de concreto, com pouca armação, cuja
característica física é ter sua estru-
tura trabalhando apenas à compressão
(Fig. 1.4a). Essa barragem pode ter seu
0 Terra homogênea
0 Enroc~ento com núcleo central
, ...... /
8 Enrocamento com face de concreto
Plinto
FIG. 1.3 Barragens de terra e de enrocamento
1 - Conceitos introdutórios 1 25
traçado retilínio (crista) ou em curva
(em arco).
• gravidade aliviada: trata-se de uma
estrutura mais leve, onde a barragem de
gravidade convencional acha-se vazada
com o objetivo de imprimir menor
pressão às fundações ou economizar
concreto, que pode atingir menos da
metade do consumo de uma barragem
de gravidade. Nesse tipo de barragem,
ocorrem esforços de tração que exigem
um maior uso de armação (Fig. 1.4b).
A exemplo da barragem de gravidade,
essa barragem pode ter seu traçado re-
tilínio ou curvilíneo.
• em contraforte: essa barragem
assemelha-se à de gravidade aliviada,
0 Terra zonada
0 Enrocamento com núcleo inclinado
-----=-----r.;;u•
Tapete
impermeável
(D Enrocamento com chapa de aço
<..
26 1 Geologia de Barragens
porém é ainda mais leve (Fig. 1.4c).
Por concentrar em pequena área da
fundação os esforços causados pela
pressão hidrostática, apresenta maiores
tensões de contato, exigindo uma maior
armação. Das três barragens de con-
creto, é a que apresenta menor volume
de concreto.
• de concreto rolado ou compactado:
trata-se de uma barragem de gravidade
em que o concreto é espalhado com
trator de esteira e depois compactado.
Como o concreto não é vibrado, a sua es-
tanqueidade é garantida por uma camada
de concreto convencional construída no
paramento de montante (Fig. 1.4d).
• abóbada: as barragens de concreto
abóbadas ou em arco são aquelas em que
a curvatura ocorre em duplo sentido, ou
seja, na horizontal, ao longo de seu tra-
çado, e na vertical (Fig. 1.4e). São, por
isso, chamadas de barragens de dupla
curvatura, e os arcos formados podem
ser simples (Fig. 1.4f) ou múltiplos
(Fig. 1.4g). Nesse tipo de obra, parte
das pressões hidráulicas é transmitida
às ombreiras pelo efeito de arco. Por ser
um obra esbelta, é a que consome menor
volume de concreto por metro quadrado
de superfície represada.
Barragens mistas
A barragem pode ser considerada mista
em sua seção ou em seu traçado. A barra-
gem de seção mista é aquela constituída por
diferentes materiais ao longo de uma seção
0 Concreto gravidade 0 Concreto aliviada
0 Concreto em contraforte 0 Concreto rolado
·convencional
0 Concreto de abóbada (D Arco simples (D Arcos múltiplos
-- -- ·-
FIG. 1.4 Barragens de concreto
transversal. Os tipos mais conhecidos são:
terra/enrocamento (Fig. 1 .Sa); terra/con-
creto (Fig. 1.Sb); e enrocamento/concreto
(Fig. 1.Sc). A barragem é mista ao longo do
seu traçado quando parte da obra é de um
tipo e parte, de outro, entre as barragens
convencionais. Não se considera barragem
mista aquela em que o corpo principal é
de terra ou enrocamento e o vertedouro
é de concreto, mesmo que constitua uma
continuidade do traçado (Fig. 1.Sd).
G) Terra/enrocamento
0 Enrocamento/concreto
8 Gabião
Manta de gabião
Terra Bidim Enchimento
com pedra
Gabião (gaiola
de arame)
FIG. 1.5 Barragens mistas e não convencionais
1 - Conceitos introdutórios 1 27
1.3.2 Barragens
não convencionais
Barragens de gabião
A barragem de gabião é uma obra de pe-
queno porte (geralmente inferior a 10 m
de altura) projetada para ser parcial ou to-
talmente vertedoura. Conforme mostra a
Fig. 1 .Se, essa obra é constituída por uma
parede de gabião com extensão para ju-
sante formando a bacia de dissipação e
(B Terra/concreto
@ Terra com vertedouro lateral
1 1
/2 11
1
Í
(D Madeira
Chapa de aço
\ V:
\ Tora de madeira
Enchimento
· com pedra
28 1 Geologia de Barragens
aterrada a montante com material argiloso.
Ela necessita de uma transição ou manta de
bidim entre a argila e o gabião para evitar
o carreamento de finos. Uma placa de con-
creto na parte de vertência deverá garantir
a proteção do coroamento para grandes
vazões efluentes.
Barragens de madeira
Essa barragem exige madeira de boa
qualidade e deve ser revestida com uma
chapa de aço que garantirá a sua vedação.
As caixas formadas pela armação de ma-
deira devem ser preenchidas com rocha
para evitar o seu deslocamento pelas pres-
sões hidrostáticas (Fig. l .Sf) .
1~~ :::.: ~
'3~r::~
FIG. 1.6 Arranjo geral da barragem Foz do Areia-PR
Fonte: CBGB (1982).
Barragens de alvenaria de pedra
Constitui uma variação da barragem de
gravidade, em que o concreto é substituído
pela alvenaria de pedra rejuntada manual-
mente com cimento. Não exige a utilização
de armação nem de f ôrma.
1.4 CONCEITOS, NOMENC LATURA
E TERMINOLOGIA
A conceituação relacionada com o pro-
jeto e a construção de barragens, incluindo
a nomenclatura e a terminologia adotadas
nessa área da engenharia, implicaria a ela-
boração de um autêntico dicionário técnico,
· ~
agem Foz do Areia
Foz do Areia dam
Planta geral
General plan
que extrapolaria o nível do presente está-
gio de conhecimentos. Assim, o Apêndice 1
traz um glossário dos principais termos
relacionados a essa matéria, não só por ser
necessário ao conhecimento e à discussão
dos assuntos abordados nos capítulos sub-
sequentes, mas principalmente por dirimir
dúvidas quanto ao emprego dúbio e até
errado que muitas vezes é dado a alguns
desses termos .
1 - Conceitos introdutórios 1 29
1.5 ARRANJO DE UMA OBRA
DE BARRAGEM
Na Fig. 1.6 são mostradas em planta
algumas das obras relacionadas com a
barragem Foz do Areia, localizada no rio
Iguaçu, no Estado do Paraná, na qual
podem ser observadas várias das termino-
logias apresentadas no glossário técnico.
2 Fases e métodos de investigação
geológico-geotécnica em barragens
2.1 ETAPAS NA VIDA DE
UMA BARRAGEM
Como toda obra de engenharia, uma
obra de barramento possui uma vida útil
e considera todo o seu período de utiliza-
-o, na hipótese de um dia vir a tornar-se
aproveitável para os objetivos que nortea-
ram a sua construção. Essa vida, na verdade,
micia-se com o projeto da obra, admitindo
ês etapas distintas e bem características:
_ rojeto, construção e operação.
O projeto considera todo o conjunto de
:nvestigações, estudos e análises que per-
:::::tite definir o tipo de obra mais adequado
"' oda a metodologia para a sua construção.
_:..,,. construção abrange não apenas a barra-
~ propriamente dita, mas todas as obras
a 'liares que possibilitarão a utilização
::..a barragem, segundo os objetivos para os
- ais a obra foi concebida. A construção é
::.ada por concluída com o enchimento do
.eservatório criado. Por sua vez, a operação
=orresponde ao efetivo funcionamento da
· ra, que poderá ter início com o uso parcial
- sua capacidade de utilização, incremen-
- do esse uso no decorrer do tempo.
2.2 FASES DE UM PROJETO
O projeto de uma barragem é execu-
~do em fases sucessivas, cujos objetivos e
:netodologia variam não só em função da
escala de estudo, mas principalmente em
decorrência do progressivo detalhamento
que as fases mais decisivas passam a exigir.
As fases de estudo de um projeto e suas
principais características são descritas a
seguir.
2.2.1 Inventário ou plano diretor
Essa fase corresponde a um primeiro
planejamento para a escolha de locais
passíveis de serem barrados em uma de-
terminada bacia hidrográfica, e pode ser
concluída com uma ordem de prioridade
das alternativas inventariadas, em função
dos objetivos e das condicionantesnaturais
de cada local.
2.2.2 Viabilidade
Nessa fase, terão início os estudos espe-
cíficos para uma determinada alternativa
inventariada, ao final dos quais estarão de-
finidos: a exata posição do eixo barrável, o
melhor tipo de barragem, as diferentes solu-
ções de arranjo de obras e, principalmente, a
viabilidade técnica e econômica do empreen-
dimento. Em geral, um projeto de viabilidade
não excede os dois anos de duração; todavia,
no Brasil, barragens mais complexas têm ex-
trapolado em muito esse prazo.
2.2.3 Projeto básico
Nessa fase, serão analisados todos os
estudos e investigações necessários à confi-
guração final do projeto de obras, fornecendo
todos os elementos que possibilitem licitar a
32 1 Geologia de Barragens
construção dessas obras. Uma vez que esse 2.3 INVESTIGAÇÕES GEOLÓGICO-
projeto é fundamental para a licitação das -GEOTÉCNICAS EM BARRAGENS
obras, é imprescindível que as investigações
realizadas conduzam a custos realísticos.
Para isso, não apenas serão necessários es-
tudos geotécnicos criteriosos, mas também
uma acurada análise dos problemas so-
ciopolíticos, econômicos e ambientais. A
postergação de questões fundamentais para
a fase executiva, com o objetivo de minimi-
zar os custos para viabilizar o projeto, pode
acabar onerando posteriormente a obra e,
com isso, inviabilizando-a. Muitas vezes, fa-
tores aparentemente pouco representativos
para o cômputo dos custos, como a esco-
lha do melhor equipamento ou da melhor
metodologia, podem significar a diferença
entre um projeto economicamente viável e
um inviável.
2.2.4 Projeto executivo
Essa fase é realizada durante a cons-
trução da obra e tem um duplo objetivo:
complementar o projeto básico com as in-
formações obtidas por meio das escavações
e possibilitar a modificação de algumas
feições do projeto em decorrência de pro-
blemas surgidos na construção. Além dos
estudos relacionados com o projeto da
barragem, são ainda desenvolvidos estu-
dos para acompanhar o comportamento
da obra durante a operação. Esses estudos
são geralmente desenvolvidos nos cinco
primeiros anos de funcionamento da obra,
período em que costumam ocorrer os
principais problemas relacionados com a
operação do sistema. Nessa fase, só devem
ser criadas novas alternativas se surgirem
novos dados que não foram conhecidos na
fase anterior.
2.3.1 Fase de inventário ou
plano diretor
I - Objetivos do estudo
a] selecionar os melhores locais barráveis
em função da geologia e da topografia;
b] caracterizar superficialmente os eixos
barráveis selecionados sob o ponto de
vista geológico e geotecnológico;
c] definir as macrocaracterísticas dos re-
servatórios formados em cada eixo;
d] definir superficialmente as característi-
cas do materiais naturais de construção.
II - Atividades a desenvolver
a] levantamento de todos os elementos geo-
lógicos e cartográficos existentes (mapas,
aerofotos, relatórios, projetos etc.);
b] escolha da base geológica para caracte-
rizar a geologia regional (escala entre
1:100.000 e 1:250.000 para grandes
bacias, e entre 1:25.000 e 1:50.000 para
pequenas áreas);
c] fotointerpretação geológica de uma faixa
que cubra com folga todos os reservató-
rios estudados, usando, de preferência,
as seguintes escalas: 1:40.000 a 1:25.000
(aerofotos) e 1:100.000 (mapa resul-
tante). Nessa fotointerpretação devem
ser contemplados os seguintes aspectos:
• litologia com contatos entre as diferen-
tes rochas e coberturas incoerentes;
• macroestruturas geológicas;
• evidências de instabilidade de taludes
e/ou erosão; .
• análise geomorfológica dos divisores
das bacias hidráulicas;
2 - Fases e métodos de investigação geológico - geotécnica em barragens 1 33
• aspectos hidrogeológicos (fontes);
• impactos ambientais criados com as
inundações;
d] controle de campo para a identificação
das rochas mapeadas, caracterização
dos solos de cobertura (alúvio, elúvio e
colúvio) e medições das estruturas ge-
ológicas regionais . Observar ainda os
seguintes aspectos:
• evidências de salinização;
• presença de minas e garimpas;
• jazidas ou ocorrências minerais nas
áreas de inundação;
• formas de utilização das águas sub-
terrâneas;
e] fotointerpretação geológica das áreas
correspondentes à localização dos eixos
barráveis e suas proximidades. Em espe-
cial, observar:
• tipos litológicos e eventuais contatos;
• cobertura incoerente e seus contatos;
• grandes linhas estruturais (linea-
mentos, dobras, fraturas, falhas etc.);
• evidências de escorregamentos (cica-
trizes, deslocamentos) e de erosão;
• cobertura vegetal (densidade, natu-
reza, nativa ou implantada etc.);
• acessos ao local;
• atividades antrópicas (formas de ocu-
pação humana);
• aspectos hidrogeológicos (fontes);
• possibilidades de materiais naturais
de construção em função do relevo;
atudo de campo visando caracterizar
elhor todos os aspectos indicados pela
;:o ointerpretação, em especial para de-
::nir:
• estado de alteração das rochas;
• medição das estruturas presentes nas
rochas locais;
• classificação tato-visual dos materiais
incoerentes de cobertura;
• classificação tato-visual de todos os
materiais naturais de construção;
• classificação das rochas presentes
nos eixos barráveis segundo a ABGE
(classificação do estado de alteração,
fraturamento e coerência);
• evidências de salinização (superficial
ou subterrânea) .
III - Produtos a fornecer
a] relatório geotecnológico;
b] mapa geológico regional (compilação
utilizando a escala indicada em II.b);
e] mapa fotogeológico da área de interesse
aos reservatórios (conforme II.e);
d] mapa fotogeológico das áreas contíguas
a cada eixo barrável escolhido (escala de
apresentação = 1:40.000 a 1:25 .000)
IV - Itemização do Relatório Final
a] introdução (objetivos, localização, con-
dições de contorno, acessos);
b] metodologia utilizada;
e] aspectos fisiográficos (clima, relevo, ve-
getação, solos, hidrografia);
d] geologia regional:
• litoestratigrafia;
• tectônica e estruturas;
• intemperização e solos resultantes;
e] geotecnologia das bacias de inundação:
• estabilidade de taludes;
• erosão e assoreamento;
• fugas de natureza geológica;
• salinização;
34 1 Geologia de Barragens
f] hidrogeologia:
• tipos de aquíferos;
• influências previstas entre a hidroge-
ologia e os reservatórios;
g] recursos mmera1s:
• substâncias minerais existentes na
área inundável;
• situação perante o DNPM;
h] geologia e geotecnologia dos eixos bar-
ráveis:
• características litológicas e geotecno-
lógicas das rochas locais;
• tipos de rochas;
• estruturas presentes (plotar em este-
reograma polar);
• estado de alteração e provável espes-
sura dos solos;
• fundações (estimativas);
• características de estabilidade:
o resistência ao cisalhamento das
rochas;
o relação entre os esforços e as des-
continuidades;
• características de deformabilidade;
• características de estanqueidade;
i] obras subterrâneas:
• eventuais problemas do traçado e
formas de evitá-los ou minimizá-los;
• problemas de emboques de túneis:
o estabilidade dos cortes;
o interceptação com drenagem super-
ficial;
j] materiais naturais de construção:
• material pétreo (enrocamento e agre-
gado): localização, características (esti-
madas) e condições de explorabilidade;
• material arenoso (filtros e agregado):
mesmo que para o pétreo;
• material terroso: mesmo que para o
pétreo;
k] meio ambiente:
• impactos ambientais esperados;
• medidas mitigadoras recomendadas;
l] recomendações para o projeto:
• em função das características topo-
gráficas, geológicas e de materiais de
construção, fazer as seguintes reco-
mendações para cada local estudado:
o melhor tipo de barragem;
o melhor arranjo de obras.
2.3.2 Fase de viabilidadeI - Objetivos do estudo
a] caracterizar com mais detalhes algumas
alternativas para barramento;
b] detalhar os problemas do reserva-
tório, inclusive sob o ponto de vista
ambiental;
c] selecionar o melhor eixo barrável entre
as alternativas priorizadas;
d] caracterizar a viabilidade do eixo sele-
cionado.
II - Atividades a desenvolver
a] conforme 2.3.1-II.a;
b] escolha das bases geológicas:
• AI - área de influência (bacia hidro-
gráfica): 1:100.000 a 1:250.000;
• ADA - área diretamente afetada (bacia
hidráulica) 1:50.000 a 1:100.000;
• AEB - área do eixo barrável: 1:5.000;
c] fotointerpretação geológica na ADA,
procurando definir:
2 - Fases e métodos de investigação geológico - geotécnica em barragens 1 35
• tipos litológicos (contatos);
• macroestruturas (plotar em diagra-
mas radiais percentuais);
• áreas com solos aluviais;
• acessos;
• atividades antrópicas;
• explorações mineiras;
• focos de erosão;
• evidências de instabilidade de encostas;
• presença de condições cársticas;
• caracterização dos interflúvios mais
baixos nos limites do reservatório;
.: geologia de campo na área do reservató-
rio (ADA), visando, além de aferir todos
os dados da fotointerpretação, definir:
• possibilidades de salinização (infor-
mar-se sobre a qualidade das águas);
• coletar água para análise quando sus-
peitar de sua qualidade química;
• caracterizar os tipos litológicos e seu
estado de alteração;
• observar nos cortes a espessura da co-
bertura de solo;
• observar as ações antrópicas na gera-
ção dos seguintes problemas:
o erosão;
o instabilidade de taludes;
• medir as macroestruturas (foliação,
xistosidade, falhas etc.);
f] estudos nos eixos barráveis:
• mapeamento de detalhe (1:5 .000),
com levantamento de:
o tipos de rochas, classificando-as
pelaABGE;
0 coberturas de materiais incoerentes
(elúvio, colúvio e alúvio);
o estruturas com plotação em estereo-
grama polar;
0 evidências de movimentos de encos-
tas;
• levantamentos geofísicos (eletrorre-
sistividade ou sísmica de refração),
objetivando definir:
0 espessura de solos residuais quando
o eixo for muito aberto;
o espessura de aluvião nas planícies
de inundação;
o espessura de capeamento de solo em
canais e túneis;
o fraturamento em áreas muito ex-
tensas;
• abertura de poços e/ou trincheiras ao
longo do eixo barrável para inspeção
• e classificação dos materiais;
• sondagens rotativas com ensaios de
perda d' água e, eventualmente, a per-
cussão, visando a um conhecimento
geológico em profundidade, indepen-
dentemente do arranjo de obras;
• observar as explorações mineiras g] estudo de materiais de construção:
(minas, garimpas etc.); • cubagem preliminar dos materiais
• observar o tipo e a densidade das
fontes de água;
• levantar os poços tubulares e caracte-
rizar o seu uso;
e] fotointerpretação nas áreas de alterna-
tivas de barramento (AEB):
• conforme 2.3.1-II.e;
pétreos, arenosos e terrosos com base
nas seguintes pesquisas:
o definição do expurgo de pedreiras
com furos de sondagem;
0 definição da área e da espessura dos
areais por meio de prospecção;
o definição do volume de material ter-
roso por meio de malha de furos;
36 1 Geologia de Barragens
• caracterização in situ dos materiais de
construção;
• coleta de materiais para ensaios de la-
boratório;
• ensaios laboratoriais de todos os ma-
teriais naturais de construção.
III - Produtos a fornecer
a] relatório geotecnológico;
b] mapa geológico regional da AI (copi-
lado utilizando escala indicada em
2.3 .2-II.b);
c] mapa fotogeológico da ADA (escala e
conteúdo definidos em 2.3 .2-II.c);
d] mapa geológico da AEB (1:5.000).
IV - Itemização do Relatório Final
a] introdução (conforme 2.3.1-IV.a);
b] metodologia utilizada (escritório, campo
e laboratório);
c] aspectos fisiográficos (conforme 2.3 .1-
-IV.c);
d] geologia da AI:
• litoestratigrafia;
• tectônica e estruturas;
• intemperismo e solos resultantes;
• sismicidade natural;
e] geotecnologia da bacia de inundação:
• detalhamento do item 2.3.1-IV.e;
f] hidrogeologia:
• tipos de aquíferos;
• recarga, fluxos e exutórios;
• características hidrodinâmicas subter-
râneas;
• características hidroquímicas subter-
râneas;
• uso atual da água subterrânea;
• potencialidade de utilização futura;
• fontes de poluição da água subterrânea;
• influência do reservatório para as
águas subterrâneas;
g] recursos minerais:
• ocorrências minerais na AI;
• jazidas e garimpos na ADA:
o reservas e produção;
o perspectivas de aproveitamento antes
da inundação;
0 recursos minerais que serão inun-
dados;
• situação da pesquisa e lavra no DNPM;
h] geologia dos eixos barráveis:
• síntese das características de todos os
eixos barráveis:
o critérios geológicos influentes na se-
leção do eixo;
o problemas dos eixos eliminados;
• características detalhadas do eixo se-
lecionado:
0 fundações: conforme 2.3 .1-IV.h,
acrescido das informações de son-
dagens;
0 geologia: detalhamento litológico e
estrutural com elaboração de mode-
los geomecânicos;
0 obras auxiliares: detalhamento geo-
lógico e modelos geomecânicos;
i] obras subterrâneas:
• detalhamento do contido em 2.3 .1-
-IV.i, utilizando dados de sondagens;
j] materiais naturais de construção:
• para cada tipo de material, fazer as se-
guintes considerações:
0 reservas: usar dados das cubagens
realizadas;
2 - Fases e métodos de investigação geológico - geotécnica em barragens 1 37
o caracterização: com base nos resul-
tados dos ensaios de laboratório;
o condições de exploração: com base
nas características morfológicas,
acesso à obra, localização e condi-
ções relacionadas com eventuais
impactos ambientais;
k] meio ambiente:
• impactos gerados pela obra nas fases
de implantação e operação;
• impactos gerados pelo reservatório;
• impactos gerados pelo acampamento
e canteiro de obras;
• medidas mitigadoras para os impac-
tos prognosticados;
1] recomendações para o projeto:
a]
b]
c]
d]
e]
a]
b]
• detalhamento das recomendações
contidas em 2.3 .1-IV.l, com base nos
elementos pesquisados na presente
etapa de estudos, com referência ao
eixo selecionado.
2.3.3 Fase de projeto básico
I - Objetivos do estudo
detalhar os problemas geológicos e geo-
técnicos do eixo barrável escolhido;
detalhar os problemas do reservatório;
apresentar recomendações técnicas para
os problemas caracterizados;
apresentar programas para minimizar
os impactos decorrentes da obra;
apresentar programas orientativos para
a fase de construção.
II - Atividades a desenvolver
conforme 2.3.1-11.a;
escolha de bases geológicas:
• ADA- área diretamente afetada (bacia
hidráulica): 1:20.000 a 1:50.000;
• AEB - área do eixo barrável: 1:500 a
1:2.000;
c] fotointerpretação na ADA (pref. na
escala 1:20.000), procurando definir:
• detalhamentos geológicos relevantes;
• detalhamentos de geologia aplicada
mais importantes, a saber:
o erosão;
o assoreamento;
o instabilidade de taludes;
o possibilidade de fuga de natureza
geológica;
d] geologia de campo na ADA, visando:
• aferir a fotointerpretação;
• coletar amostras para ensaios labora-
toriais;
• locar eventuais áreas para prospecção
geofísica;
• locar eventuais sondagens rotativas;
e] fotointerpretação na área de interesse
ao eixo barrável, visando caracterizar e
detalhar os problemas diagnosticados
em 2.3.2-11.e;
f] estudos no eixo barrável:
• mapeamentos localizados conforme
2.3.2-II.f;
• levantamentos geofísicos visando
extrapolar ou interpolar feições geo-
tecnológicas caracterizadas no estudo
efetuado em 2.3.2-II.f;
• abertura de poços e/ou trincheiras
com coleta de materiais indeforma-
dos;
• sondagens rotativas e/ou a percussão,
visando definir as características ge-
38 1 Geologiade Barragens
otecnológicas e hidrogeotécnicas no
entorno das principais estruturas da
obra, em função do arranjo concebido
na fase de viabilidade e das modifica-
ções introduzidas no projeto básico;
• ensaios in situ de mecânica das rochas
em túneis e galerias, visando caracte-
rizar:
o estado de tensões do maciço rochoso;
o condições de resistência ao cisalha-
mento;
o condições de deformabilidade em
função da anisotropia;
o condições reológicas do maciço ro-
choso;
g] estudo de materiais naturais de cons-
trução:
• detalhamento das características in
situ de alguns dos materiais estuda-
dos em 2.3.2-II.g;
• coleta de materiais para ensaios com-
plementares de laboratório;
• caso seja necessário aumentar o volume
de material estudado na fase de viabili-
dade, as jazidas ou pedreiras novas ou
ampliadas deverão ser amostradas e
ensaiadas em laboratório;
• o número de amostras coletadas será
compatível com o detalhamento re-
querido;
• cubagem de todas as ocorrências se-
lecionadas de materiais construtivos;
h] elaboração de programas de controle e
monitoramento, a saber:
• programa de tratamento das funda-
ções;
• programa de instrumentação das fun-
dações e obras subterrâneas;
• programa de escavações de obras
superficiais, com plano de fogo;
• programa de escavações (plano de
fogo) e contenções (escoramento) de
obras subterrâneas;
• programa de monitoramento de en-
costas;
• programa de monitoramento do
maciço da barragem;
• programa de monitoramento das
obras subterrâneas;
• programa de monitoramento relativo
à sismicidade natural e induzida;
• programa de aproveitamento de ma-
teriais escavados;
• plano de exploração de materiais
construtivos;
• plano de depósito de materiais esté-
reis;
• plano de recuperação de áreas degra-
dadas pela exploração de materiais de
construção e construção de acessos,
acampamento e canteiro de obras.
III - Produtos a fornecer
a] relatório geotecnológico;
b] mapa geológico de detalhes do eixo bar-
rável com seções ilustrativas;
c] mapa geológico de detalhes de estrutu-
ras auxiliares da obra;
d] mapa geológico de túneis e galerias;
e] programas e planos de controle e moni-
toramento.
IV - Itemização do Relatório Final
a] introdução (conforme 2.3.1-IV.a);
b] metodologia utilizada (conforme 2.3 .2-
-IV.b);
c] síntese dos estudos de viabilidade;
d] geologia da área de inundação:
2 - Fases e métodos de investigação geológico - geotécnica em barragens 1 39
• detalhamento das feições relevantes; b] identificar feições geológicas durante as
• recomendações para solucionar os escavações;
problemas caracterizados; c] modificar as recomendações e progra-
e] geologia do eixo barrável:
• detalhamento de feições relevantes;
• geologia das obras auxiliares;
• problemas específicos de fundações;
• soluções t écnicas e análise econômica
para todos os problemas geotecnoló-
gicos;
f] obras subterrâneas:
• características geológicas;
• problemas construtivos;
• soluções técnicas e análise econômica
para os problemas caracterizados;
g] materiais naturais de construção:
• características e restrições de uso;
• problemas de propriedade;
• volumes disponíveis;
• plano de exploração das jazidas e pe-
dreiras;
h] recomendações para o projeto:
• elaboração dos programas e planos
descritos em 2.3.3-II .h;
• sugestões para eventuais modifica-
ções no arranjo de obras;
• recomendações para estudos comple-
mentares durante a construção da obra;
• sugestões para minimizar os impac-
tos ambientais.
2.3.4 Fase de projeto executivo
I - Objetivos do estudo
a] complementar os estudos do projeto
básico;
mas fornecidos no projeto básico em
função dos conhecimentos adquiridos
durante a construção;
d] apontar soluções imediatas para proble-
mas surgidos durante a construção.
II - Atividades a desenvolver
a] bacia hidráulica:
• observar problemas de erosão e ins-
tabilidade de encostas durante o
desmatamento;
• detalhar feições geológicas passíveis
de fugas do reservatório;
b] escavação das fundações da barragem e
de obras auxiliares:
• plano de rebaixamento do nível freá-
tico;
• mapeamento geológico das paredes
de escavação e superfícies de concre-
tagem;
• locação de sondagens e ensaios in situ
complementares;
• acompanhamento dos serviços comple-
mentares, introduzindo as modificações
que se fizerem necessárias;
• analisar as características do material
escavado, visando ao seu aproveita-
mento na obra;
c] escavação de obras subterrâneas:
• ajustes no plano de desmonte elabo-
rado no projeto básico;
• mapeamento das paredes e tetos dos
túneis e cavernas;
• recomendações para imediata conten-
ção de trechos inst áveis;
40 1 Geologia de Barragens
• planejamento de ensaios in situ com-
plementares;
• acompanhamento dos serviços com-
plementares com eventuais modifica-
ções;
d] tratamento das fundações:
• ensaios de qualidade de caldas de inje-
ção no laboratório e in situ;
• locação de furos de sondagens com
eventuais modificações do plano ela-
borado no projeto básico, em função
dos conhecimentos adquiridos na es-
cavação;
• acompanhamento do tratamento,
definindo as condições de parar a in-
jeção ou intensificar o tratamento em
função dos resultados obtidos;
e] construção da barragem:
• introduzir modificações na concepção
da obra em função do máximo aprovei-
tamento dos materiais de escavação e
das informações obtidas durante as
escavações;
• acompanhar as condições de compac-
tação em função das características
previstas para os materiais de cons-
trução e dos materiais de escavação;
• acompanhar a instalação de equipa-
mentos para monitoramento;
• indicar soluções para quaisquer pro-
blemas construtivos relacionados à
interação obra/geologia;
f] obras auxiliares:
• recomendar modificações para os pro-
jetos de obras auxiliares em função de
problemas geotecnológicos identifica-
dos nas escavações;
• acompanhar a construção das obras,
apontando soluções imediatas para
os problemas eventualmente surgidos
na interação obra/geologia;
g] materiais de construção:
• acompanhar as escavações, com espe-
cial atenção para as heterogeneidades
surgidas;
• ensaiar todos os materiais que
apresentem características visual-
mente diferentes da jazida estudada;
• indicar a utilização dos materiais des-
critos anteriormente;
• recomendar novas jazidas em função
de eventuais modificações do projeto;
h] meio ambiente:
• recomendar a localização do depósito
de estéreis das escavações e jazidas;
• orientar o tratamento das pilhas dos
depósitos de estéreis;
• orientar a recuperação das áreas de-
gradadas.
III - Produtos a fornecer
• relatório de acompanhamento
IV - Itemização do Relatório Final
a] introdução (conforme 2.3.1-IV.a);
b] caracterização geológico-geotécnica da
obra:
• bacia de inundação;
• barragem;
• obras auxiliares;
• obras subterrâneas;
c] problemas construtivos e soluções ado-
tadas:
2 - Fases e métodos de investigação geológico - geotécnica em barragens 1 41
• escavações;
• tratamento das fundações;
• construção da barragem;
• obras auxiliares superficiais;
• obras subterrâneas;
• materiais naturais de construção;
• instrumentação de monitoramento;
• ensaios de laboratório;
• ensaios in situ;
d] meio ambiente:
• impactos causados;
• medidas mitigadoras adotadas;
• medidas de recuperação.
2.3.5 Observação do
comportamento da obra
I - Objetivos
a] analisar o comportamento da obra
diante do enchimento do reservatório e
das variações de fluxo anuais;
b] observar o comportamento das encos-
tas desmatadas ao longo do reservató-
rio;
c] possibilitar a tomada de decisão rápida
no caso de eminente acidente com
algum componente do sistema.
II - Atividades a desenvolver
a] reservatório:• observar evidências de erosão e/ou
instabilidade de encostas;
• verificar a formação de surgências no
lado oposto do divisor de águas que
possam representar fugas do reserva-
tório;
• proceder a leituras de piezômetros
eventualmente instalados em encos-
tas instáveis;
• verificar a ocorrência de sismos nas
proximidades do reservatório;
• observar o eventual uso impróprio
das encostas que possa propiciar a
contaminação das águas do reserva-
tório;
• observar o eventual uso impróprio
das águas do reservatório;
b] barragem e obras auxiliares:
• fazer medições periódicas em toda a
instrumentação instalada;
• observar o aparecimento de trincas ao
longo do maciço da barragem;
• observar se a água de percolação pela
barragem ou pelas fundações não está
carreando material argiloso;
• observar o surgimento de trincas em
estruturas de concreto;
• observar o eventual desplacamento
das lajes de concreto do vertedouro;
• observar se as águas efluentes não
estão provocando erosões que com-
prometam qualquer parte da obra;
• analisar periodicamente o comporta-
mento das obras subterrâneas;
• observar a eficácia do tratamento
de recuperação das áreas degrada-
das pela construção, em função da
reconstituição da flora e fauna.
III - Produtos a fornecer
• relatórios trimestrais
IV - Relatório
• a abordagem do relatório será
variável em função dos problemas
efetivamente constatados no período
analisado, pois não será necessário
analisar situações estáveis.
3 Aspectos geológicos ligados às
bacias hidrográfica e hidráulica
A abordagem da influência de fatores
geológicos simultaneamente em ambas
as bacias que se relacionam com o barra-
mento de um rio deve-se ao fato de que,
na maioria dos casos, esses fatores são
comuns a essas duas áreas. À medida que
tais fatores forem abordados, será dada
ênfase à área em que são mais importan-
tes; eles podem, todavia, em alguns casos,
estar ausentes em uma dessas áreas .
3 .1 EROSÃO E ASSOREAMENTO
Esses fatores são abordados em con-
junto por estarem intimamente ligados
como um perfeito exemplo de causa/
efeito, pois é sabido que a erosão é a causa
da remoção dos componentes de um solo
ou rocha, enquanto o assoreamento dos
cursos d'água e dos reservatórios , de-
corrente da sedimentação do material
erodido, constitui o efeito dessa erosão. No
processo erosão/sedimentação, faltaria
apenas a componente do transporte, que
geralmente é o mesmo veículo responsável
pela erosão, ou seja, a água. Ainda assim,
será feita uma análise da fenomenologia
de cada processo separadamente e, depois,
analisado o risco de erosão e assoreamento
como um único processo em termos de
danos causados a um reservatório.
3 .1.1 Erosão
A erosão é um processo que resulta
no deslocamento de partículas que com-
põem um solo ou uma rocha. No presente
trabalho, será analisada apenas a erosão
provocada pela água (o vento, o mar e as
geleiras ficarão fora dessa análise), não
apenas pelo fato de esta ser o mais impor-
tante agente erosivo, mas também pela
inexistência ou fraca atuação dos demais
agentes com relação a barragens no Brasil.
A erosão pelo efeito da água pode ser
pluvial, quando exercida diretamente
pelas águas de chuva, ou fluvial, quando
provocada pelos rios . Em termos de re-
servatório, a erosão pluvial é muito mais
significativa, pois a área exposta a esse pro-
cesso em uma bacia hidrográfica é muitas
vezes superior àquela em que pode ocorrer
a erosão fluvial (margens do rio apenas).
Na erosão pluvial, interferem muitos fa-
tores de natureza bastante diversificada,
e os mais significativos são: pluviosidade,
declividade, natureza do solo, cobertura
vegetal e atividade antrópica.
A influência da pluviosidade se faz
sentir mais na forma como ocorre do que
no volume da precipitação pluviométrica
anual. Nas regiões onde a pluviosidade
é concentrada em poucos meses do ano,
os efeitos das precipitações pluviais
sobre a erosão dos solos são muito mais
intensos. Em 1988, na região norte do
Estado de Minas Gerais, foi constatada
uma precipitação pluvial em cinco dias
correspondente a 40% da média anual
44 1 Geologia de Barragens
prevista para a região, o que constitui,
sem dúvida, uma concentração pluvial de
elevado poder erosivo.
A declividade tem sua influência óbvia
na intensidade da erosão, uma vez que
atua diretamente no gradiente das águas
percoladas, aumentando sensivelmente a
sua velocidade e, consequentemente, seu
poder erosivo.
A natureza do solo diz respeito prin-
cipalmente aos agentes que influem na
coesão das partículas que o compõem. Os
materiais sem coesão são mais facilmente
erodíveis, como é o caso dos solos mais
arenosos e siltosos. A lateritização ou a
calcificação aumentam significantemente
a resistência à erosão dos solos.
A cobertura vegetal é imprescindível
como proteção dos solos contra a erosão,
pois sua rede de raízes funciona como ele-
mento fixador do solo, aumentando sua
resistência à erosão. A sua copa também
exerce uma proteção contra a erosão, re-
duzindo o impacto da chuva diretamente
sobre o solo.
A ação antrópica é geralmente danosa
no processo da erosão, pois o desen-
volvimento reflete-se no contínuo
desmatamento, que expõe o solo aos efei-
tos da erosão pluvial. Em áreas urbanas,
a concentração de fluxos que encami-
nham as águas pluviais e de despejo para
as áreas periféricas constitui um forte
agente erosivo, responsável pela forma-
ção de voçorocas que têm comprometido
inúmeras cidades brasileiras. Na área
rural, o desmatamento para implantação
da agricultura tem propiciado a forma-
ção dos mais variados tipos de erosão,
responsáveis pelo assoreamento de rios
e reservatórios. A mineração não contro-
lada expõe extensas áreas decapeadas
sujeitas à erosão.
3.1.2 Assoreamento
O assoreamento representa a deposi-
ção da carga sólida proveniente da erosão.
Um reservatório pode receber a carga
sólida de três fontes diferentes: do rio
principal a ser barrado; dos tributários
que afluem diretamente ao reservatório; e
das encostas que funcionam como interf-
lúvios desses tributários.
A carga sólida transportada por um
rio, seja o principal ou o tributário, é de-
positada sempre que ocorre uma redução
na velocidade da água que a transporta.
Essa redução de velocidade pode resul-
tar do aumento da seção da calha do rio,
quando existem condições topográficas
para o alargamento dessa calha, ou da re-
dução do gradiente do perfil longitudinal
do rio. Normalmente ocorre uma redução
do gradiente quando um rio penetra no
reservatório, onde a declividade do fluxo
superficial é mínima. Essa redução é res-
ponsável pelo assoreamento comum a
toda extremidade de montante de um
reservatório, e será tanto mais intensa
quanto maior for a declividade do leito do
rio antes de atingir o reservatório.
Nesses casos, o assoreamento inicia-
-se com a sedimentação da carga sólida
mais grosseira logo que penetra no reser-
vatório, e a carga de finos sedimenta mais
interiormente no lago. À medida que esse
assoreamento se intensifica, a carga do
material grosseiro vai avançando sobre a
sedimentação fina até completar o assorea-
mento de todo o reservatório (Fig. 3.la-c).
3 - Aspectos geológicos ligados às bacias hidrográfica e hidráulica 1 45
Esse problema varia muito segundo a
conformação da bacia hidrográfica. O caso
mais favorável é aquele em que predomina
o rio principal com afluentes curtos e de
pouca competência. Essa bacia é t ípica
de rios acanalados, formando extensos
cânions, que resultam em reservatórios
estreitos e alongados (Fig. 3.ld). Nesse
caso, o assoreamento do rio principal
levará muito tempo para ameaçar a vida
útil da barragem, principalmente porque
essa topografia geralmente favorece a edi-
ficação de barragensde grande altura. Na
Fig. 3.le, a drenagem dendrítica é pouco
h ierarquizada, propiciando reservatórios
espraiados, barragens baixas e a conse-
quente contribuição do assoreamento de
vários locais diferentes, embora de pe-
quena intensidade, por causa da extensão
0
desses afluentes. A pior situação é vista
na Fig. 3.lf, em que o reservatório recebe
grandes tributários nas vizinhanças da
barragem, o que proporcionará o assorea-
mento mais rápido de todo o reservatório.
A forma de evolução do assoreamento
pode ser observada na sucessão apre-
sentada na Fig. 3.lg-j. Nesse esquema,
mostra-se a penetração progressiva do as-
soreamento provocado pelo rio principal e
dois tributár ios, além da carga sólida pro-
veniente de três pontos situados ao longo
das encostas. Na Fig. 3.lj , o reservatório
acha-se já quase totalmente assoreado.
3 .1. 3 Riscos de erosão
e assoreamento
Na análise de riscos, algumas das
condicionantes da erosão não são conside-
0
FIG. 3.1 Assoreamento em um reservatório: (a), (b) e (e) fases de assoreamento; (d), (e) e (f) infl.uência da
configuração do reservatório; (g), (h), (i) e (j) evolução de um assoreamento
46 1 Geologia de Barragens
radas, pois tal análise visa fornecer dados
para um eventual zoneamento de áreas
problemáticas nesse aspecto, e alguns
fatores, como o clima, são geralmente
uniformes ao longo de toda a área de uma
bacia hidrográfica. Outros fatores, como
a ação antrópica, são muito localizados e
dinâmicos, de sorte que dificilmente as
condições no início dos estudos serão as
mesmas à época em que forem tomadas as
medidas preventivas ou corretivas.
Assim, serão considerados como fatores
variáveis e ponderáveis de risco de erosão
apenas a declividade, a natureza do solo
e a cobertura vegetal. Na Tab. 3.la, esses
TAB. 3.1 Hipóteses de agrupamento
de risco
(a) Fatores influentes na erosão
Fator Variação Número
< 20% 1
Declividade 20%-50% 2
> 50% 3
coesivo 4
Solo
não coesivo 5
eficiente 6
Vegetação
ineficiente 7
(b) Classificação do risco de erosão
Grau
li
Ili
IV
V
Combinação de
fatores (N°5)
1+4+6
1 + 4 + 7
1 + 5 + 6
2+4+6
1 + 5 + 7
2+4+7
2+5+6
3+4+6
2+5+7
3+4+7
3+5+6
3+5+7
Risco
nulo
reduzido
médio
alto
muito alto
fatores acham-se divididos em sete clas-
ses, de acordo com a variação considerada
para cada fator, em termos de influência
relativa média. O risco de erosão foi de-
finido em função da combinação desses
fatores, conforme indicado na Tab. 3.lb,
na qual foram consideradas cinco classes
de risco, do nulo ao muito alto.
3.1.4 Medidas preventivas
contra a erosão e o
assoreamento
No estudo de um reservatório, deve-
-se proceder ao levantamento de todas as
condições que favorecem a erosão e carac-
terizar as potencialidades morfológicas
de assoreamento do futuro lago formado
pela barragem. As medidas preventivas,
estabelecidas a partir de um diagnóstico
preciso dessas potencialidades, variam
desde o ataque das causas da erosão até a
medida extrema de deslocar a barragem
para um local melhor, pois o assorea-
mento pode constituir-se num fator que
inviabilize a construção da obra.
O ataque às causas da erosão resume-
-se ao eficaz controle de áreas desmatadas
e à proteção de pilhas de materiais soltos
provenientes de rejeitas e estéreis de mi-
neração ou da construção civil. Devem-se
evitar os cortes e aterros que fiquem des-
protegidos contra a erosão, bem como a
exposição demorada de solos entre o des-
matamento e o plantio agrícola.
Reduzidos os focos de erosão e plane-
jada a localização da barragem de forma
a evitar situações como a mostrada na
Fig. 3.lf, pode-se conviver com o assorea-
mento sem grandes traumas, desde que se
adotem as seguintes medidas:
3 - Aspectos geológicos ligados às bacias hidrográfica e hidráulica 1 47
a] calcular, em função do objetivo para
o qual a barragem foi construída, o
tempo em que o assoreamento do
reservatório comprometerá a sua uti-
lização. Esse cálculo é feito a partir da
medição da carga sólida transportada
pelo rio principal e seus tributários
que afluirão diretamente ao reservató-
rio, acrescida da carga sólida passível
de ser transportada pela erosão dos in-
terflúvios ao longo desse reservatório.
Se o tempo desse comprometimento
for inferior a 50 anos (limite arbitrado
pelas empresas de consultoria e de
construção), a obra não é viável.
b] planejar o uso das áreas assoreadas
a fim de evitar sua exploração in-
discriminada, que pode, inclusive,
comprometer a utilização do reserva-
tório remanescente.
c] verificar se o assoreamento não pre-
judicará o eventual uso que era feito
das águas armazenadas nas partes
terminal e marginal do reservatório,
principalmente em termos de recrea-
ção, turismo e lazer.
3.2 INSTABILIDADE DE ENCOSTAS
A partir dos acidentes ocorridos com
a barragem de Vayont, na Itália, em 1963
e, no ano seguinte, na barragem de Ge-
patsch, na Áustria, passou-se a dar maior
importância ao estudo de estabilidade
de encostas marginais aos reservatórios.
Em Vayont, constatou-se a magnitude
catastrófica que pode representar para
um reservatório o deslizamento de uma
grande massa de rocha e solo de suas en-
costas, pois um volume de 250 milhões de
metros cúbicos desses materiais deslocou-
-se com velocidade de 25 m /s para dentro
do reservatório, expulsando instanta-
neamente um volume de 40 milhões de
metros cúbicos de água por sobre a barra-
gem, para provocar a completa destruição
de três vilas a jusante.
A movimentação de massas de solos e
rochas ao longo das encostas marginais
de um reservatório decorre da inter-
veniência de uma série de fatores que
atuam como agentes predisponentes à
instabilização no momento em que se
instala um reservatório. A atuação de tais
agentes é, portanto, anterior à construção
da barragem, e o enchimento do reserva-
tório poderá atuar como agente efetivo
no desencadeamento da movimentação
de massa, se houver uma situação des-
favorável de instabilidade imposta pelos
agentes predisponentes. A caracteriza-
ção da estabilidade das encostas naturais
será, pois, objeto dos estudos geológicos
da bacia hidráulica, independentemente
da construção da barragem, bem como
a análise de como a formação do reser-
vatório poderá influir numa eventual
instabilidade caracterizada para essas
encostas.
3.2.1 Agentes predisponentes
Para a primeira caracterização, faz-se
necessário definir a forma de atuação
dos principais agentes predisponentes na
área marginal à bacia hidráulica, pois even-
tuais movimentações de solos ao longo da
bacia hidrográfica, a montante da bacia
hidráulica, somente poderão implicar o
assoreamento do reservatório pelo mate-
rial proveniente dessa movimentação.
48 1 Geologia de Barragens
Os principais agentes predisponentes
podem ser agrupados em forma de com-
plexos, a saber:
• complexo geológico;
• complexo morfológico;
• complexo climático-hidrológico;
• complexo biótico;
• complexo antrópico.
a) Complexo geológico
A Geologia pode exercer influência na
instabilidade de uma encosta de duas dife-
rentes formas: em função das propriedades
dos solos que recobrem o embasamento
rochoso e em função das características
de resistência inerentes ao próprio maciço
rochoso. O solo mais evoluído, resultante
da completa intemperização química
da rocha-mãe, pode apresentar caracte-
rísticas que induzam instabilidade em
função dos seguintes fatores : espessura,
textura, heterogeneidade e resistência
ao cisalhamento. Os solos homogêneos
são mais facilmente estudados, pois suas
características de resistência podem ser
admitidas para todo o pacote presente na
encosta. O maior problema são as hetero-
geneidades representadas pelas variações
de textura, concentrações de material ilu-vial, planos remanescentes de estruturas
reliquiares da rocha etc. Faz-se necessário,
portanto, caracterizar todas as variações
presentes em um solo residual, definindo,
para cada uma, suas características de
resistência ao cisalhamento. Análises de
instabilidade devem ser feitas prevendo
todos os tipos de ruptura, não só quanto
à forma (planar ou circular), mas quanto
à sua localização em relação à geologia (no
erior do solo ou no contato solo/ rocha)
e em relação à encosta (ao longo da encosta
ou em seu sopé). Quanto ao material de
cobertura do maciço rochoso mais íntegro,
denominado regolito, há que se considerar
toda a variação que ocorre desde a rocha
alterada até o solo mais maduro (eluvião),
conforme se pode observar no perfil de
intemperismo típico de regiões tropicais
(Fig. 3.2).
Esses materiais são caracterizados
pela profunda heterogeneidade de seus
constituintes, que resulta em elevada
anisotropia de suas propriedades geo-
mecânicas. Como as características mais
marcantes desses solos são os planos re-
liquiares de descontinuidade do maciço
rochoso, devem-se concentrar neles as
principais atenções sobre a estabilidade,
por tratar-se, geralmente, de elementos de
mais baixa resistência ao cisalhamento.
A perfeita caracterização desses planos
inclui: atitude, espaçamento, formas de
embricamento, relações com os esforços
que poderão induzir a movimentação de
massas e resistência ao cisalhamento.
O solo coluvionar apresenta uma cons-
tituição muito variada, em decorrência
de sua gênese. Embora não apresentem
estruturas planares nem diferenciação de
horizontes, esses solos são textural-
mente muito heterogêneos, principalmente
quando resultam da mistura de materiais
provenientes de rochas diferentes. Assim,
trata-se de solos de comportamento im-
previsível, sendo necessário, em cada caso,
caracterizar as suas eventuais heteroge-
neidades e definir separadamente as suas
propriedades de deformação.
O maciço rochoso íntegro pode, even-
tualmente, apresentar problemas de
3 - Aspectos geológicos ligados às bacias hidrográfica e hidrául ica 1 49
Classificação Perfil de intemperismo "' ~
"' o
Solo vegetal
Solo eluvial
(SE) 51
.a
::,
-o ·.,;
~
/ í/ o / I
i 1/ I o i/ V) I Solo de
alteração /1//1 (SA) 52
Saprolito Topo RAM
/
Rocha
~
alterada R3
mole (RAM)
"' Rocha ~ u alterada R2 o
e,: dura (RAD)
T Rocha sã ''º''/ R1 /quartzo (RS)
/ \
FIG. 3 .2 Perfil de intemperismo para regiões tropicais
Fonte: Vaz (1996).
~
~
Q.)
u e
o..
"' o u
"õj;
•O
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Métodos de
Comporta-
Escavação Perfuração
mento
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instabilidade ao longo de uma encosta,
mas nunca em decorrência das caracterís-
ticas de resistência da rocha propriamente
dita, e sim em função de suas desconti-
nuidades. Dessa forma, todo o problema
nesse campo reside em caracterizar muito
bem a influência que tais planos possam
exercer sobre a estabilidade da encosta,
sendo válidas para o saprólito todas as re-
comendações feitas .
50 1 Geologia de Barragens
b) Complexo morfológico
Como morfologia, podem-se analisar
as diferentes formas de relevo atuantes e a
declividade das encostas. Entre as formas
de relevo, podem ser mencionadas as en-
costas contínuas ou entrecortadas, planas
ou encurvadas, côncavas ou convexas.
Evidentemente, as influências que essas
diferentes morfologias exercem sobre
a instabilidade de encostas podem, em
alguns casos, ser significativas. Em geral,
porém, não é esse o maior peso do relevo
como fator predisponente à movimentação
de massas ao longo de encostas naturais.
A declividade é, na verdade, o aspecto
mais significativo do relevo na predis-
posição à instabilidade que pode ocorrer
em uma encosta. Em princípio, para a
análise de estabilidade, pode-se dividir
a declividade em três faixas : declividade
fraca (0% a 30%); declividade média
(30% a 100%); declividade forte (mais
de 100%). Na faixa de declividade fraca,
o risco de instabilidade em função do
relevo é de nulo a incipiente, embora tal
declividade favoreça a formação de solos
espessos, por ser maior a infiltração das
águas pluviais, bem como a sua manuten-
ção, por ser baixa a taxa de escoamento
superficial. Na faixa de declividade média,
o risco de instabilidade aumenta conside-
ravelmente, pois ainda é alta a infiltração,
moderada a erosão e espesso o solo for-
mado. Na faixa de declividade forte, há
uma compensação entre os fatores desfa-
voráveis e os favoráveis à estabilidade. O
fator desfavorável é, sem dúvida, a grande
influência da componente vertical, ou da
gravidade, na movimentação desses solos.
Por outro lado, as fortes declividades
reduzem a taxa de infiltração, com a con-
sequente inibição dos solos formados, e a
elevada velocidade que imprimem ao es-
coamento superficial aumenta o poder de
erosão dos solos formados . Assim, há con-
dições para movimentação do solo, mas
há pouco solo a ser movimentado.
e) Complexo climático-hidrológico
Embora possam ser incluídas nesse
complexo todas as componentes de um
clima, é a precipitação pluviométrica que
merece maior destaque como agente pre-
disponente no processo de instabilidade
de encostas. Isso porque todas as demais
componentes, como temperatura, umi-
dade, evaporação e insolação, atuam em
prazo muito longo por meio da contri-
buição à intemperização química dos
maciços rochosos, provocando o seu en-
fraquecimento com progressiva perda de
resistência ao cisalhamento.
As águas precipitadas não apenas
atuam como agente predisponente, cola-
borando na armação de um cenário crítico
em relação à estabilidade, mas ainda
podem constituir-se no próprio agente
efetivo, com responsabilidade direta sobre
a movimentação dos solos ou rochas.
Como agente predisponente, a parcela
das águas pluviais que se infiltra ao longo
dos poros dos solos ou pelas fraturas das
rochas pode exercer as seguintes influên-
cias perniciosas para a estabilidade:
• carrear o material coesivo, redu-
zindo parcela da resistência ao
cisalhamento;
• aumentar a subpressão hidrostática
(Una Fig. 3.3a), aliviando as tensões
3 - Aspectos geológicos ligados às bacias hidrográfica e hidráulica 1 51
normais impostas pelo peso próprio
do solo ou da rocha (N na Fig. 3.3a);
• provocar pressões neutras ao longo
de fendas e fraturas verticais ou
perpendiculares à encosta (V na
Fig. 3.3a), aumentando as tensões
cisalhantes (T na Fig. 3.3a).
A atuação da água da forma descrita
anteriormente reduz o fator de segurança
mostrado na Fig. 3.3a, deixando-o bem
próximo à unidade, o que configura um
estado de equilíbrio crítico entre as forças
que induzem o cisalhamento e a resistên-
cia do material envolvido. Nessa situação,
qualquer incremento nas condições des-
favoráveis constitui o agente efetivo que
provocará a ruptura do maciço, podendo
ser a própria água.
d) Complexo biótico
A influência do complexo biótico é re-
presentada pela atuação da vegetação,
pois é mínima a contribuição de micro-
-organismos animais na instabilidade de
uma encosta. Na maior parte, a influência
da vegetação é positiva, ou seja, tendea
melhorar as condições de estabilidade das
encostas por meio de duas formas diferen-
tes de atuação:
• redução da infiltração das águas plu-
viais, eliminando a sua perniciosa
influência na instabilidade;
• aumento da resistência do solo pelo
poder de fixação de suas raízes,
principalmente as pivotantes, que
alcançam maiores profundidades.
Há, todavia, casos em que a vege-
tação pode influir negativamente na
instabilidade de uma encosta, dos quais
destacam-se:
• quando o peso das árvores não é
compensado por uma eficiente fixa-
ção de suas raízes;
• quando a vegetação forma barrei-
ras contínuas à passagem do vento,
transmitindo ao solo todo o impacto
recebido durante as fortes ventanias;
• quando a vegetação possui rizomas
facilmente decomponíveis, como a
bananeira, pois, ao apodrecerem,
criam caminhos de infiltração exces-
siva da água para o interior do solo.
e) Complexo antrópico
Inclui todas as ações exercidas pelo
homem e que podem contribuir para a
criação de condições de instabilidade nas
encostas. Basicamente, essas ações podem
ser agrupadas em duas classes de proble-
mas: descompressão na base e compressão
no topo.
A descompressão na base da encosta é
representada por todos os tipos de esca-
vações realizadas ao longo ou no sopé de
uma encosta (Fig. 3.3b), seja para mine-
ração, construção civil ou qualquer outra
finalidade. Dependendo das característi-
cas de resistência do maciço que constitui
a encosta e da altura do corte realizado,
poderá ser gerada uma situação de insta-
bilidade potencial passível de desencadear
o processo de ruptura a qualquer incre-
mento de tal situação.
A compressão no topo da encosta é
consequente do depósito de materiais
(Fig. 3.3c) ou da construção de edifícios
com deficiências de fundações. Os de-
pósitos mais comuns são decorrentes do
52 1 Geologia de Barragens
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depois
NA inicial
FIG. 3 .3 Influências na instabilidade de taludes: (a) poropressão; (b) corte em pé de ta lude; (c) sobrecarga
no topo; (d) enchimento de reservatório; (e) depleção em reservatório
rejeito de minerações, bota-fora da cons-
trução civil e lixo urbano. Dependendo
das características do maciço e da geome-
tria da encosta, tais sobrecargas poderão
criar também situações de instabilidade
potencial da encosta subjacente.
3.2.2 Agentes efetivos
Interessa ao projetista de uma barra-
gem definir como pode a obra estudada
vir a tornar-se um agente efetivo na
mobilização de massa ao longo de uma
encosta que já se encontra em situação de
estabilidade crítica, constatada nos estu-
dos realizados . O reservatório criado pela
barragem induz modificações no regime
das águas subterrâneas das encostas
marginais ao lago, podendo exacerbar a
criticidade de instabilidade de duas dife-
rentes maneiras:
a] inicialmente, durante o enchimento do
reservatório, há uma inversão do fluxo
das águas subterrâneas, que antes
se dirigiam da encosta para o vale e
passam então a receber a infiltração
das águas do reservatório (Fig. 3.3d).
Completado o enchimento, novamente
se inverte o fluxo das águas subter-
râneas, que voltam a contribuir para
o próprio reservatório. Essa variação
no fluxo das águas subterrâneas pode
influir na estabilidade de várias ma-
neiras, a saber: cria novos caminhos de
percolação da água, com o consequente
arraste de material coesivo; aumenta
a poropressão em planos favoráveis à
instabilidade; aumenta a subpressão
hidrostática; promove a flutuação de
camadas sub-horizontais ao longo dos
planos de acamadamento. No caso da
barragem de Vayon, a ruptura ocorreu
durante o enchimento do reservatório,
o que indica que a fase final de inversão
do fluxo não chegou a ocorrer. Prova-
velmente as novas condições impostas
pelo nível intermediário da Fig. 3.3d
3 - Aspectos geológicos ligados às bacias hidrográfica e hidráulica 1 53
tenham exacerbado a instabilidade das
camadas sub-horizontais do calcário,
provocando o seu movimento para o
interior do reservatório. O movimento
das camadas contíguas ao nível da água
no reservatório descalçou um grande
volume do maciço rochoso da encosta
sobre o reservatório, que acompanhou
o movimento descendente, gerando a
catástrofe já descrita.
b] depleção criada por condições
climáticas e hidrológicas, ou de ope-
racionalidade do próprio reservatório,
pode deixar uma fatia da encosta sa-
turada (Fig. 3.3e). A tendência ao
imediato escoamento dessa água retida
na área hachurada dessa figura cria
condições de elevado fluxo no ponto
da encosta contíguo ao nível rebai-
xado do reservatório, podendo carrear
materiais e induzir elevadas tensões
hidrostáticas no maciço, suficientes
para provocar a sua ruptura. Esse pro-
cesso será tanto mais perigoso quanto
mais rápida for a depleção.
Além do efeito de instabilidade
criado diretamente pela ação da água
do reservatório, deve-se lembrar que
todas as encostas que serão submersas
pelo lago formado são desmatadas, para
evitar os problemas de eutrofização
das águas armazenadas . A retirada da
vegetação implica a redução de um dos
fatores que aumentam a resistência do
solo ao cisalhamento, e isso pode, em al-
gumas situações, exacerbar as condições
de criticidade da estabilidade nessas
encostas .
3.3 FUGAS NATURAIS
Serão analisadas no presente capítulo
apenas as possibilidades de fuga de água
do reservatório por infiltrações ao longo
de seus limites marginais, excluindo as
eventuais infiltrações sob a própria bar-
ragem, que serão objeto de análise no
Cap. 4. As possibilidades de fugas de água
laterais em um reservatório são comuns
quando o divisor de águas que limita a
bacia hidrográfica está próximo ao nível
máximo de acumulação (Fig. 3.4a). Essa
possibilidade de percolação é ainda maior
quando a rede de drenagem superficial se
acha condicionada pelo fraturamento do
maciço rochoso, como indicado na refe-
rida figura , pois o fraturamento constitui
um fácil caminho de percolação das águas
subterrâneas.
Outra condição geológica que favorece
essas fugas é a ocorrência de camadas
permeáveis que propiciem o fluxo subter-
râneo do reservatório para o seu exterior
(Figs. 3.4b-c) . Na primeira, uma camada
de calcário, facilmente solúvel, permite
a percolação das águas acumuladas atra-
vés de um divisor da bacia hidráulica;
na segunda, esse fluxo é propiciado por
uma camada de arenito. Também é muito
comum a existência de solos de alteração
que sofreram carreamento de sua fração
argilosa pelas águas percolantes e torna-
ram-se mais permeáveis (Fig. 3.4d). Esse
foi o motivo da fuga de água do reserva-
tório da barragem de Lajes, no Estado
do Rio de Janeiro, e somente após a sua
detecção e devido reparo foi possível atin-
gir a cota máxima de acumulação desse
reservatório.
54 1 Geologia de Barragens
0 ---
0 0 0
FIG. 3 .4 Fugas em reservatórios: (a) visão em planta; (b) fuga por camadas de calcário; (e) fuga por camada
permeável; (d) fuga pelo solo residual
3.4 SISMICIDADE INDUZIDA
A sismicidade induzida por reser-
vatórios tornou-se alvo de maiores
preocupações a partir da década de 1960,
quando foram registrados quatro gran-
des abalos sísmicos relacionados com o
enchimento dos seguintes reservatórios:
Hsinfengkiang, na China (1962, M = 6,1);
Kariba, na Zâmbia (1963, M = 6,1);
Kremasta, na Grécia (1966, M = 6,3); e
Koyna, na Índia (1967, M = 6,5). Esses
sismos provocaram muitas perdas huma-
nas e materiais, chegando a comprometer
as estruturas das barragens de Koyna e
Hsinfengkiang.No Brasil são conhecidos sismos rela-
cionados com os seguintes reservatórios:
Capivari-Cachoeira, no Paraná (1971,
V MM); Carmo do Cajuru, em Minas
Gerais (1970 a 1972, mb = 4,7); Porto Co-
lômbia e Volta Grande, divisa de Minas
Gerais e São Paulo (1973 a 1974, mb = 5,1);
Capivara, divisa de São Paulo e Paraná
(1976 a 1979, ML = 4 ,0); Marimbondo,
divisa de São Paulo e Minas Gerais (1975);
Paraibuna-Paraitinga, em São Paulo (1976
a 1977, mb = 3,2).
Apesar de serem relativamente recen-
tes os estudos sobre o assunto, é flagrante
a preocupação em diagnosticar as suas
causas e minimizar os seus efeitos por meio
de soluções preventivas incorporadas ao
projeto de uma barragem. Tal preocupação
é procedente, pois as consequências de um
sismo para uma grande barragem podem
ser profundamente catastróficas, se este
chegar ao ponto de provocar a sua ruptura.
3 - Aspectos geológicos ligados às bacias hidrográfica e hidráulica 1 55
3.4.1 Causas dos sismos
induzidos
A principal relação constatada
entre o enchimento do reservatório e a
indução de movimentos no interior do
seu embasamento rochoso parece ser
atribuída ao acréscimo de pressão neutra
ao longo dos planos de descontinuidade do
maciço rochoso, que reduzirá as pressões
normais responsáveis pela resistência ao
cisalhamento ao longo desses planos. Isso
corresponderia a deslocar, no sentido da
origem das abscissas, o semicírculo re-
presentativo das tensões normais cr1 e
cr3, provocando o seu tangenciamento à
envoltória de ruptura. Tem sido um con-
senso entre os estudiosos do assunto que
tal situação somente ocorreria se o maciço
já fosse potencialmente sísmico, ou seja,
se as condições estruturais da área do re-
servatório fossem consequentes de uma
tectônica com evidências de reativações,
mormente pós-terciárias. Isso justificaria
a completa ausência de sismos na maio-
ria dos reservatórios, principalmente os
relacionados com as barragens de porte
bastante elevado. Outras causas aventa-
das são:
• energia potencial armazenada pela
depressão elástica da crosta em
pontos onde as tensões já são consi-
deráveis, possibilitando a liberação de
energia sísmica;
• reajustamento das camadas do
subsolo em decorrência da sobre-
carga do reservatório;
• processos químicos tais como a
hidratação de moléculas de silicone-
-oxigênio, enfraquecendo o material
e ocasionando fadiga estática; esse
fenômeno é responsável pela for-
mação de novas fissuras na rocha,
permitindo a penetração da água a
maiores profundidades;
• o reservatório poderia mudar as
propriedades mecânicas do meio,
tornando-o mais heterogêneo como
um todo e, portanto, menos resis-
tente para suportar cargas.
3.4.2 Estudos preventivos
Os estudos com o objetivo de prevenir
a sismicidade induzida devem constituir
especial preocupação nos seguintes casos:
• em regiões sismicamente ativas, por
meio do levantamento de todos os
eventos sismológicos num raio de
100 km do eixo da barragem;
• em projetos em que a barragem
exceda os 100 m de altura ou o reser-
vatório, um bilhão de metros cúbicos.
Nesses casos, deve-se fazer um estudo
geotectônico e hidrogeológico detalhado,
principalmente nas áreas mais próximas
à barragem e de maior profundidade do
reservatório. É fundamental o levanta-
mento das fraturas e falhas existentes
nessa área, pois se notou, nos casos de
Carmo do Cajuru e Paraibuna-Paraitinga,
uma estreita relação entre os sismos
induzidos e as fraturas preexistentes.
Também é importante a caracterização
da tectônica regional para definição do
estado de tensões predominante na área
e que poderá direcionar os sismos induzi-
dos. Deve-se investigar a permeabilidade
do maciço rochoso nas maiores profundi-
dades possíveis.
56 1 Geologia de Barragens
Finalmente, deve-se completar o
estudo sismológico com a caracterização
da deformação da crosta esperada em
função do enchimento do reservatório.
O estudo sismológico deve ser concluído
com a recomendação de implantar sismó-
grafos que possam ser ativados antes da
construção da barragem.
3.5 CONTRIBUIÇÕES INDESEJÁVEIS
A caracterização dos problemas pe-
culiares à bacia hidrográfica ou à bacia
hidráulica, efetuada nas seções prece-
dentes, poderá indicar a necessidade de
modificar o local do eixo barrável, a fim
de evitar contribuições indesejáveis de de-
terminadas áreas dessas bacias. Entre as
contribuições já discutidas e outras ainda
não abordadas, podem-se aventar as se-
guintes causas para tais deslocamentos da
obra:
a) Cursos com elevada carga de
sedimentos transportada
É possível que alguns tributários de
maior competência transportem uma
elevada carga sólida, seja decorrente de
áreas erodíveis pela atividade agrope-
cuária, seja decorrente do transporte de
materiais de rejeito de minerações, es-
cavações urbanas etc. Nesses casos, se a
contribuição líquida desse tributário for
imprescindível para o objetivo do pro-
jeto a ser implantado, pode-se prever a
construção de uma obra para contenção
da carga sólida antes que ela adentre ao
futuro reservatório e vá acelerar o seu
assoreamento. Caso tal contribuição seja
prescindível, é melhor deslocar o barra-
mento para montante da confluência do
tributário indesejável, desde que sejam
válidas as condições topográficas, geoló-
gicas etc.
b) Cursos salinizados
Alguns cursos d'água são profun-
damente salinizados em função da
presença de sais provenientes da lixivia-
ção de solos salinos, principalmente em
climas semiáridos. A constatação desse
fato é fundamental no estudo da bacia
hidrográfica e, nesse caso, a única solução
é o afastamento do eixo para montante da
confluência, se a qualidade química das
águas armazenadas for necessária para o
objetivo para o qual está sendo projetada
a barragem.
c) Cursos d'água poluídos
A poluição de alguns cursos d ' água que
recebem efluentes de indústria, minera-
ção e centros urbanos pode também criar
sérios problemas para o reservatório a ser
formado. Nesse caso, são válidas todas as
recomendações feitas para o item anterior.
4 Problemas geotecnológicos das
fundações de uma barragem
O sítio de obras corresponde a toda a
área necessária à perfeita caracterização do
arranjo de obras em um projeto de barra-
gem. Inclui, assim, a obra relacionada com
o barramento propriamente dito e todas as
obras complementares, como vertedouro,
canais de adução, obras subterrâneas, en-
secadeiras, acessos, área de acampamento
e canteiro de obras. No presente capítulo,
porém, serão analisados apenas os aspec-
tos ligados às fundações da barragem.
4.1 IDENTIFICAÇÃO GEOLÓGICO-
- GEOTÉCNICA DAS FUNDAÇÕES
Como fundação será considerado todo
o embasamento geológico existente no
local onde será assentada a barragem ou
suas obras complementares (vertedouro,
canais, tubulações para adução, usina etc.),
independentemente se tal material será
conservado ou retirado para a construção
da obra em projeto. Assim, a fundação in-
cluirá não apenas o maciço rochoso, mas
todo o material incoerente - ou regolito -
que o recobre, seja produzido in situ, como
os diversos estágios de material intempe-
rizado, cuja gradação vai da rocha sã até o
solo residual maduro, seja transportado
(aluvião, coluvião, tálus etc.).
A completa identificação desses mate-
riais constitui um processo evolutivo com
as etapas de estudo de uma barragem. To-
davia, deve-se sempre levar em conta que
o objetivo final é chegar ao modelo geo-
mecânico das fundações, que retratará a
definitiva relação entre as condicionantes
geológicas, morfológicas e hidrogeológicas
com as características das obras a proje-
tar. Essa identificação envolve processos
distintos, embora superpostos em alguns
casos, que variam em função do crité-
rio identificatório e do volume de dados
disponíveis.Esses processos são: caracte-
rização, classificação, compartimentação e
modelagem.
4.1.1 Caracterização
A caracterização corresponde à etapa
mais importante do processo identificató-
rio, pois, nessa etapa, deverão ser definidos
todos os parâmetros que permitam dis-
tinguir os diferentes materiais envolvidos
em uma fundação. É baseada em todos
os meios de investigação geológica e
geotécnica, a saber: fotointerpretação,
geologia de campo, sondagens diretas e
indiretas, ensaios in situ e de laboratório.
Por meio dessas investigações, deverão ser
buscadas, para cada material existente, as
seguintes caracterizações:
Geologia:
• Materiais incoerentes: composição
granulométrica, coloração, espessura,
estrutura, grau de compacidade e con-
sistência.
• Materiais coerentes: tipo litológico,
composição mineralógica, estruturas,
estágios de alteração, estados de con-
58 1 Geologia de Barragens
sistência e características dos planos de Segue um roteiro dos processos e mé-
descontinuidade. todos para a caracterização dos materiais
Geotecnia:
• Materiais incoerentes: resistência à
compressão, permeabilidade e resistên-
cia ao cisalhamento.
• Materiais coerentes: caracterização Hi-
drogeotécnica e Geomecânica do maciço
rochoso.
Uma vez que a caracterização depende
do grau de investigações realizadas, é na-
tural que esse processo evolua com as
diferentes etapas de estudos de um projeto
de barragem, em que os meios de investi-
gação são aprimorados em função do maior
aporte de recursos destinados às sucessivas
etapas de estudo. Todavia, é importante
frisar que a etapa de viabilidade deve ser
encerrada com a perfeita caracterização
de todos os materiais existentes em uma
fundação, pois essa etapa é responsável
pela definição da viabilidade técnica e eco-
nômica do empreendimento. Para isso,
é necessário conhecer muito bem todas
as características dos materiais envolvi-
dos e suas adequações ao arranjo de obras
concebido.
A apresentação dos resultados da ca-
racterização deve ser feita de forma
dissertativa, com cada unidade geológica
constituinte da fundação descrita com
o máximo de detalhes, complementados
com os resultados obtidos nos ensaios
realizados. As ilustrações pertinentes à ca-
racterização devem restringir-se ao mapa
geológico, aos perfis de sondagens efetu-
adas e aos gráficos obtidos nos ensaios
realizados.
presentes em uma fundação de barragem,
por meio das investigações superficiais, da
análise de testemunhos de sondagens e da
interpretação dos ensaios realizados.
a) Materiais incoerentes
• Composição granulométrica: na fase
de inventário, é necessário estimar o
percentual das diferentes frações que
constituem o solo (argila, silte, areia e
pedregulho), por meio de exame tato-
-visual (ver Quadro 4.1); na fase de
viabilidade, essa caracterização deve ser
embasada em análise granulométrica
(peneiramento e sedimentação), princi-
palmente se for prevista a manutenção
do solo como fundação da barragem.
• Coloração: é importante caracterizar
a cor do solo, principalmente na fase
de inventário, pois as cores cinza, mor-
mente mais escuras, podem evidenciar
a presença excessiva de matéria orgâ-
nica, o que orientará o geólogo para o
planejamento de análises laboratoriais
específicas na fase de viabilidade, a fim
de caracterizar a real influência dessa
matéria para as propriedades físicas
do solo.
• Espessura: na fase de inventário,
em que é mínimo o número de sonda-
gens, a espessura dos solos deve ser
inferida pela extrapolação de dados
pontuais, interpretação das con-
dições de intemperização, análise
geomorfológica, cortes naturais (erosão)
e artificiais (estradas, mineração etc.)
e, eventualmente, pela utilização da
geofísica. Na fase de viabilidade, essa
111At,1to (.í.l!tassifkação expedita dos solos
Denominação a constar na descrição geológica
(além do nome científico)
Areia (fina, média e grossa)
Silte
Argila
Argila arenosa (fina, média e/ou grossa)
e argila siltosa
Areia (fina, média, grossa) argilosa e silte argiloso
Silte arenoso, areia siltosa, areia pouco argilosa
e silte pouco argiloso
Quando ocorrer cascalho, a porcentagem em relação
ao solo deverá ser estimada e a sua granulometria,
indicada conforme as seguintes faixas:
• Cascalho 4: diâmetro maior que 76 mm
• Cascalho 3: diâmetro entre 76 mm e 38 mm
• Cascalho 2: diâmetro entre 38 mm e 19 mm
- Cascalho 1: diâmetro entre 19 mm e 4,8 mm
Fonte: Monticeli (1986).
Características de reconhecimento
Quando seca, não forma torrão. Grãos visíveis ou percebíveis totalmente. Para a indicação das frações
predominantes, podem-se utilizar como modelo amostras previamente separadas e classificadas em
laboratório.
Quando seco, forma torrão que é esmagado com a pressão dos dedos.
Quando seco, forma torrão que é inquebrável com a pressão dos dedos.
Quando secas, formam torrões resistentes ou praticamente inquebráveis com a pressão dos dedos.
Na argila arenosa, é possível visualizar e sentir grande número de grãos de areia, mas na argila siltosa
isso não é possível. Imersas em água, a massa é amolgável e pode-se perceber as frações arenosas,
bem como indicações da predominância de argila ou silte (menor ou maior facilidade de separar as
partículas).
Quando secos, formam torrões que são esmagados com esforço pela pressão dos dedos. Imersos em
água, sente-se a presença de uma massa amolgável nos dedos (argila).
Quando secos, formam torrões que são esmagados com facilidade pela pressão dos dedos. Aspecto
farináceo após o esmagamento.
Quando houver matéria orgânica, deve-se indicar
sua maior ou menor ocorrência. Sugere-se a seguinte
gradação:
- com raízes;
- com pouca matéria orgânica;
- turfosa (c/ muita matéria orgânica);
• turfa.
Quando houver blocos ou matacões de rocha (escavados
ou perfurados com rotativa), deve-se indicar a litologia,
o diâmetro aproximado e parâmetros geotécnicos como
grau de alteração e coerência.
Exemplo de descrição:
Prof. (m): Material:
0,00 /5,50 Aluvião
Areia fina e média, cinza
0,00/2,00 com pouca matéria orgânica
4,50/5,50 com 30% de cascalho 1 e 2
(cascalho quartzítico)
5,50/8,40 Solo de alteração de gnaisse
Silte argiloso, cinza
esbranquiçado
8,00/8,40 com fragmentos de rocha
gnâissica
solo de alteração jovem)
.i,.
1
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3
V,
\()
60 1 Geologia de Barragens
espessura deve ser conhecida mais acu-
radamente por meio da intensificação
dos processos de investigação.
• Estrutura: deve-se descrever toda
estrutura existente no solo e que
possa constituir um eventual plano
de descontinuidade. Nos solos resi-
duais, podem-se encontrar estruturas
reliquiares da rocha-mãe, planos de
concentração de minerais por iluvia-
ção ou por delimitação de antigos
blocos alterados diferencialmente.
Nas aluviões, as estratificações cruza-
das e as intercalações de materiais de
granulometria diferenciadas podem
constituir importantes estruturas
influidoras na deformabilidade, estabi-
lidade ou estanqueidade das fundações.
Nos colúvios, podem ocorrer níveis de
tálus que constituem planos de elevada
descontinuidade, principalmente se
os blocos forem tabulares e estiverem
orientados paralelamente à encosta.
• Compacidade, consistência e resistên-
cia à compressão: esses dados são todos
relacionados com a sondagem a per-
cussão (SPT), que permite caracterizar,
para cada grau de compacidade de uma
areia ou consistência de uma argila, a
respectiva resistência à compressão.
Essa caracterização é feita segundo a
classificação dos diferentes graus de
compacidade, consistência e resistência
à compressão apresentada na Tab. 4.1 .
Esse tipo de identificação deve ser
bastante intensificado na fasede viabi-
TAB. 4 .1 Classificação dos solos pela consistência das argilas e compacidade das areias
Amostrador padrão Terzaghi-Peck (SPT)
Material
Nº de golpes Classificação
Coesão aproximada Pressão admissível
c (kg/cm2) qa (kg/cm2)
<2 muito mole < 0 ,1 25 < 0,3 - 0,22
2-4 mole 0,125 - 0,25
0,3 - 0,6
0,22 - 0,45
4-8 média 0,25 - 0,5
0,6-1 ,2
0,45 - 0,9
Argila
8 - 15 rija 0,5 - 1
1,2 - 2,4
0,9 -1,8
15 - 30 muito rija 1 - 2
2,4 - 4,8
1,8 - 3,6
> 30 dura > 2
> 4,8
> 3,6
O -4 muito fofa é necessári o
4 - 10 fofa compactação
Areia 10 - 30 média 0,7 - 2,5
30-50 compacta 2,5 - 4,5
> 50 muito compacta > 4,5
Obs.: 1) as pressões admissíveis da linha superior referem- se às fundações isoladas e as da linha inferior, às
fundações contínuas; 2) No valor de qa, apenas para as argilas foi considerado um fator de segurança igual a 3 -
pressão de ruptura= qa x 3.
Fonte: Monticeli (1 986).
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 61
lidade, caso seja prevista a permanência
do solo nas fundações da obra. Nesse
caso, e principalmente se o solo for
argiloso, é necessário caracterizar a de-
formação do solo com o tempo, por meio
do ensaio de adensamento, realizado em
amostras indeformadas.
• Permeabilidade: os testes de infiltração
do solo, por meio dos furos de sonda-
gens a percussão ou rotativas, devem
ser feitos apenas enquanto não houver
definição acerca do seu aproveitamento
ou da sua retirada como fundação. Se
for definida a sua retirada, torna-se to-
talmente desnecessário o conhecimento
dessa propriedade.
• Resistência ao cisalhamento: essa pro-
priedade do solo somente deve ser
caracterizada se for definida a per-
manência deste como fundação da
barragem, e, nesse caso, deverá ser
analisada na fase de viabilidade. Para
tal, coletam-se amostras indeformadas
em cada variação granulométrica ou
estrutural e realiza-se o ensaio de
cisalhamento direto ou triaxial.
b) Materiais coerentes
• Litologia, composição mineralógica e es-
truturas: a minuciosa análise geológica
dos maciços rochosos sãos ou alterados,
em afloramentos ou por meio de teste-
munhos de sondagens, deve permitir
uma completa identificação dos minerais
que constituem essa rocha, sua estrutura
e, finalmente , sua classificação litoló-
gica. Caso o exame a olho desarmado
seja insuficiente para tal determinação,
devem-se confeccionar lâminas delga-
das para identificação microscópica e
melhor caracterização do tipo litológico.
• Estado de alteração: a análise detalhada
da rocha e de suas descontinuidades
deve permitir a identificação das seguin-
tes feições relacionadas com a alteração
química:
o indícios de alteração dos minerais,
evidenciados pela perda do brilho,
descoloração ou perda de resistência
à escarificação com a lâmina de aço
(canivete);
o presença de películas de oxidação
ferruginosa (avermelhada) ou man-
ganesífera (preta), principalmente ao
longo de planos de descontinuidades;
o presença de minerais pulverulentos;
o percentagem dos materiais alterados
em relação ao total da amostra.
• Estado de consistência ou coerência:
esse parâmetro avalia a resistência da
rocha à desagregação com os dedos (fria-
bilidade), ao impacto com o martelo
(tenacidade) e ao risco (dureza). Nesse
caso, devem ser feitas as seguintes ob-
servações:
o resistência da rocha à quebra com o
martelo de geólogo;
o resistência da rocha à quebra com os
dedos;
o resistência da rocha ao risco com
lâmina de aço (canivete);
o resistência da rocha ao risco com a
unha;
o tipo de som (oco ou metálico) ao ser
percutida com o martelo.
• Características dos planos de des-
continuidade: considerando que as
propriedades de um maciço rochoso são
62 1 Geologia de Barragens
prioritariamente governadas pelas pro-
priedades das suas descontinuidades,
é extremamente importante a carac-
terização desses planos, o que inclui a
identificação dos seguintes parâmetros:
orientação, espaçamento, persistência,
rugosidade, abertura, preenchimento,
percolação e resistência das paredes . As
principais características a determinar
para tais parâmetros são:
o Orientação: atitude do plano re-
presentado pela direção e pelo
mergulho, e que deve ser anotada
em função do vetor do mergulho do
plano, conforme a seguinte anotação:
000°/00°; o número de três dígitos
indica o azimute do vetor (0° a 360°)
e o número de dois dígitos, o valor
do ângulo de mergulho (0° a 90°)
(Fig. 4 .la).
o Rugosidade: as paredes de uma des-
continuidade podem apresentar
formas de rugosidade conforme a
nomenclatura indicada na Fig. 4.2 .
Essa característica é de fundamen-
tal importância para a resistência ao
cisalhamento ao longo desse plano,
desde que não ocorra material de
preenchimento. Naturalmente, tal re-
0
Direção do plano: p
sistência é tanto maior quanto mais
irregular ou áspera for a superfície
desses planos; assim, a resistência
seria máxima no tipo I e mínima no
tipo IX dessa figura. No item 4 .2.2,
será analisada a influência da rugosi-
dade na estabilidade das fundações .
o Espaçamento: distância entre dois
planos de descontinuidade para-
lelos, medida perpendicularmente
ao plano. No caso de fraturas, um
conjunto de planos paralelos é de-
nominado família e um conjunto
de famílias, sistema. Quando o espa-
çamento é muito pequeno, o maciço
rochoso tem um comportamento ge-
omecânico mais próximo ao de um
material granular; nos espaçamentos
maiores, duas ou mais famílias de
fraturas , associadas ou não a outros
planos de descontinuidade, como
xistosidade ou estratificação, são res-
ponsáveis pela individualização de
blocos.
o Persistência: refere-se à extensão da
continuidade de um plano, tanto
na horizontal como na vertical
(Fig. 4 .lb). A persistência de duas
famílias de fraturas pode ser fun-
Sistema
subpersistente
Sistema
não persistente
Direção do mergulho: e = p + 90º
Ângulo de mergulho: a
Sistema
persistente
Vetor do mergulho: 0/a
~ . _ _ 1 Orientação de um plano (a) e persistência de fraturas (b)
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 63
Recortada
Irregular
li
Lisa
Ili
Polida com estria
Ondulado
IV
Irregular
V
Lisa
VI Polida com estria
Plana
VII
Irregular
VIII
Lisa
IX
Polida com estria
FIG. 4.2 Rugosidade de uma descontinuidade
Fo nte: ABGE (1983).
damental na determinação do grau
de embricamento entre os blocos
formados .
o Abertura: a distância entre paredes
de uma descontinuidade somente
pode ser considerada abertura se o
espaço resultante não estiver pre-
enchido. As maiores aberturas são
proporcionadas pelas juntas de
tração, principalmente quando
correspondem à posição vertical ou
subvertical. A principal influência da
abertura refere-se à estanqueidade
das fundações .
o Preenchimento: uma descontinui-
dade que se abriu pode ser preen-
chida por material sedimentado
(areia, silte, argila, matéria orgânica
etc.) ou precipitado quimicamente
(calcário, sílica, óxidos de ferro etc.).
Dependendo do tipo de preenchi-
mento, o comportamento físico da
descontinuidade poderá ser bastante
diversificado, tanto com relação à
deformabilidade quanto com relação
à estabilidade e à estanqueidade. O
comportamento físico do preenchi-
mento depende dos seguintes fatores,
que devem ser bem caracterizados:
mineralogia, tamanho das partícu-
las, largura e permeabilidade.
o Percolação: devem-se observar to-
dos os indícios de percolação de água
ao longo das descontinuidades, desde
o simples umedecimento até fluxos
contínuos ou intermitentes, nota-
damente em planos interceptados
por escavações superficiais ou sub-
terrâneas. Em projetos mais longos,
que envolvam mais de uma etapa da
climatologia anual, deve-se obser-
var a variação da percolação entre asépocas chuvosa e seca.
o Resistência das paredes: considerando
que a resistência à compressão de uma
rocha é reduzida à medida que essa
rocha se altera quimicamente, é ne-
cessário definir o estado de alteração
dos planos de uma descontinuidade,
notadamente fraturas, pois a pene-
tração da água nesses planos tende a
acelerar a intemperização da rocha a
partir dessa superfície para o interior
do maciço. Além dos procedimentos
referidos para a análise dos estágios
de alteração, será sempre útil estimar
64 1 Geologia de Barragens
a resistência à compressão in situ, por
meio do esclerômetro de bolso.
o Caracterização hidrogeotécnica: o
maciço rochoso tem, na maio-
ria dos casos, suas propriedades
hidrogeotécnicas ou hidrogeológicas
condicionadas pelas características
de suas descontinuidades, principal-
mente a abertura, o espaçamento e
a persistência. Exceto nos casos em
que o espaçamento é muito redu-
zido, quando então o maciço rochoso
apresenta um comportamento hi-
drogeológico semelhante ao dos
materiais granulares, a maioria dos
maciços caracteriza-se por condições
de percolação da água bastante he-
terogêneas e aleatórias, dificultando
o tratamento hidrogeotécnico pelas
leis da mecânica dos fluidos, que são
definidas para meios homogêneos,
isotrópicos e contínuos. Assim, o
comportamento hidrogeológico dos
maciços rochosos é extremamente
condicionado pelo direcionamento e
abertura das descontinuidades, exi-
gindo uma pesquisa calcada numa
perfeita definição desses parâmetros.
Somente após tal definição devem
ser programadas as sondagens que
permitirão identificar, por meio dos
ensaios de perda d' água, as reais ca-
racterísticas hidrogeotécnicas do
maciço rochoso. Nesse sentido, as
sondagens deverão ser programadas
de forma a interceptarem o maior
número de descontinuidades poten-
cialmente abertas.
o Caracterização geomecânica: essa ca-
racterização envolve a definição dos
parâmetros elásticos e de resistência
à compressão e ao cisalhamento do
maciço rochoso. Esses parâmetros
variam em função do grau de altera-
ção e das relações existentes entre a
direção de aplicação das cargas im-
postas pela obra e as direções dos
planos de descontinuidade. Assim,
é necessário ter antes uma perfeita
caracterização geológica do maciço
rochoso e, a partir daí, progra-
mar os ensaios in situ ou a coleta de
amostras para ensaios laboratoriais.
No item 4.2 serão detalhados esses
procedimentos de pesquisa.
4.1.2 Classificação
O processo de classifi.cação corresponde a
uma graduação nos diferentes parâmetros
definidos pela caracterização, de sorte a
zonear diferentes graus de aplicação de cada
parâmetro caracterizado. O zoneamento é
sempre feito a partir do grau mais favorável
para o mais desfavorável. Assim é que, ao
classificar uma rocha quanto ao grau de al-
teração, designam-se as classes Al, A2, A3.
A4 e AS, sendo a classe Al correspondente
à rocha de maior sanidade e AS, a mais de-
composta. Da mesma forma, as classes Cl a
CS indicam a variação de coerência, da mais
coerente para a incoerente, e as classes Fl
a FS indicam a variação do menor ao maior
grau de fraturamento. A Fig. 4.3 apresenta
essas classificações, exemplificadas no
perfil de sondagem mostrado na Fig. 4.4.
A classificação do material constituinte
de uma fundação pode levar em conta l.llDa
grande variedade de parâmetros e ge~
mente procura adequar o zoneamento
características geológicas, hidrogeolólii
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 65
D ECOMPOSIÇÃO C ONSIST!NCIA
Grau Denominação Características Grau Denominação Características
A rocha apresenta seus minerais Rocha muito Rocha com som metálico, quebra com
D1 Rocha sã constituintes sem decomposição. C1
consistente
dificuldade ao golpe do martelo.
Eventual mente apresenta juntas oxidadas. Sua superfície é riscada pelo aço.
Rocha po uco A rocha apresenta decomposição Rocha Rocha com som fraco, quebra com relativa
D2 decomposta incipiente em sua matriz e ao longo dos C2 consistente faci lidade ao golpe de martelo. Ao ser planos de fraturas. riscada pelo aço deixa sulcos superficiais.
Rocha A rocha apresenta cerca de 1/ 3 de sua Rocha Rocha com som oco, quebra com facilidade
D3 medianamente matriz decomposta. A decomposição ao
C3 medianamente
ao golpe de martelo com fragmentos
decomposta longo das fraturas é acentuada .
consistente
quebradiços à pressão dos dedos.
A rocha apresenta cerca de 2/3 de sua
Sulco leve ao risco do aço .
D4
Rocha mui to matriz ou de seus minerais totalmente Rocha quebra com muita facilidade com
decomposta decompostos. Todas as fraturas C4 Rocha pouco martelo, bordas dos fragmentos facilmente
estão decompostas. consistente quebradas manualmente. Sulcos profundos
Rocha
ao risco do aço.
D5 extremamente A rocha apresenta todo o seu corpo Rocha esfarela-se ao golpe de martelo,
decomposta totalmente decomposto.
Rocha sem desagregando-se com a pressão dos dedos.
C5 consistência
(friável) Pode ser cortada com aço, sendo riscada
FRATURAMENTO com a unha.
Grau Denominação Fraturas/metro
Espaçamento entre
fraturas (m)
Ocasionalmente
C ONDUTIVIDADE HIDRÁULICA
F1 fraturada $1 2:1 ,0 Grau Denominação Perda d'água específica (1/mín . m.kg/cm 2)
F2 Pouco fraturada 1,1 a 5 0,20 a 0,50 H1 Muito baixa CH <0,1
Medianamente H2 Baixa 0,1 s CH < 0,5
F3 fraturada 5,1 a 10 0,10 a 0,17 H3 Média 0,5 s CH < 5,0
F4 Muito fraturada 10,1 a 20 0,05 a 0,09 H4 Alta 5 s CH < 25,0
F5
Extremamente
>20 <0,05 H5 Muito alta CH 2: 25,0 fraturada
LEGENDA DE SOLOS E ROCHAS
Solos
r--:7 Areia f"777A
t...::...:.'... seixos tLLLLi Silte
Rochas 1->~>~] Quartzo micaxisto
~~~:J Quartzo - sericita xisto
Abreviaturas
1===1 Argila ~ Fragmentos 1• ••; •I Concreções ~ de rocha ': • • • lateríticas ll1 1l 1 11 Raízes 1.:-:-:--j Mica
1/L.// 1 Quartzo micaxisto E2a Quartzo micaxisto carbonoso/ grafitoso caulinizado (:-;:;1 Pegmatito
1-ç:-;.1 Quartzo micaxisto □ Veio de quartzo lateritizado \
OX Oxidado
OFE Óxido de ferro
SE Sericita
TC Talco
Ba Biotita
C Cau linizada
CA Carbonatada
SU Sulfetada
MI M icácea
MN Manganês
SI Silicificada
SIMBOLOGIA DAS DESCONTINUIDADES PRINCIPAIS
Diáclase (D) { { Sem preenchimento (A)
Falha (F) Aberta Com preenchimento (P)
Xistosidade (X) (Entre parêntesis o material)
Contato (C) { Não cimentada (F)
Acabamento (A) Fechadas Cimentada (C)
Junta (J) (Entre parêntesis o material)
Regularidade: Plana 1-1 Curva 1 - ,
Aspereza: Espelhada 1 , , Lisa 1 , ,
Decomposição: Plana 1-1 Curva 1 - •
CRITÉRI OS PARA DEFINIÇÃO DA RECUPERAÇÃO
Irregular 1-1
Rugosa 1 • >
Irregu lar ,_,
Normal : Porcentagem do material recuperado em relação ao trecho perfurado. em função das características geológicas,
disponibilidade de equipamento e habilidade operacional
M odificada: (ROD) - porcentagem do somatório de peças de testeminho de tamanho superior a 10 cm, em relação ao trecho
perfurado, em função das descontinuidades do maciço rochoso.
FIG. 4.3 Classifi.cações do maciço rochoso de acordo com a decomposição, consistência, fraturamento e con-
du tividade hidráulica
Fonte: ABGE (1983).
Ê SPT V, ~ o o .s Q) ~o o ,c,s rn -o
V, -
golpes Q) .~ Q) ·u Q) e: rn .,, cr: o Q) "[ á3 -o lil -o e: -o Q) ~ -cij -o Q) 30cm •Q) :, E - u rn ·e; E :, o.. :, - :, o.. 'E bJ)
Descrição litológica
V, b 30 5c ~ E ~-~ rn rn :a·g -o e:;::; ~ G.ã Q) :2 '6 1-1-+-t-+- C) O ü e: a.. o '§_ ~ .D e: ·-e: u o ~ o ~ --2 o 20 6010 Q) u u o.. V, Q) e: -o '+- V, e .l9cr: rn Recupera- Q)
~ o a.. o ção (%) u 5 4 3 2 1 5 4 3 2 54 3 2
- li 1 o t 1 3x..QK..sH / - ~w IL JA-ºL1 1--- Carnonoso cinza escuro 1 _:- 1 1 / 59 ._ 2XA .Q2L_ SH - §~ Rocha mesocrática de - ~ - >-- 5XF.22L.SH f/eio de quartzo textura lamelar xistosa, 2.:. 1347.
xA.22L.sH 7 - 83 formada por minerais de -
Pouco carbonoso quartzo de granulometria JA--I3.: ~ ~
/ / =- cinza claro muito fina e mica em - 61 1 minúsculas palheras, 4..:
I r' principalmente seri cita e - ~ -· noc 3XF .QlL_SH r' ,, muscovita, com bioti ta 5..: ~ ~ ox ,, ,, em menor quantidade. - 5XA ........... SH Sericítico com
Rocha de resistência 45
2JA ~ SV
,, ,, formação de talco 6-: SE à compressão média nas juntas NVI .__
3XF...QLSH ,, ,, decompostas e condutividade -
7.:
JA....s.__l cinza claro hidráulica alta . ,, : 49 ,,
JF .Q2L_ 1 ,, 8..: 1--- f--
Veiodequartzocôm 7 - JA.Qg_l ,,_, ..... ,__ ,-1,
assimilacão da rocha 1 1341,' hOO - \ ... _ 9..: r' _, I L ___ _ __ -- ~ -
JF~I ,y,, 10~
80
JF~ I 1/" -11-= .__
- 3XFJ;6._SH
,,;; Pouco carbonoso, -
cinza claro com -
12..:
69 ox
/" níveis escuros M esma resistência JF - I ... ,,;; à compressão e ox
"h condutividade HI JF--I ._ ,, J,,
su ,. - .
FIG. 4 .4 Exemplo de um perfil de sondagem, em projeto do autor
Ensaio de perda d'água
rn
:, "' "' Pressão u -~ .s -i::~ -~ ·o E ~~ (kg/cm2) • rn
~~ -o -o ., E ]v o~ X ., e:
o ·E '"' bJJ Vazão específica z "'-" ""--- ~-~V (I/mín. x m) > o..
Trecho
não ensaiado
0,13 0,45 / 5 Q-Í/
-?,~/
-,\:>/ 3,20 0,70
o 16/06 7 / N - 9,90 0,71 3 / / t / rn 8,30 0.47 / ,o.~"-:, I a 1 / -3,13 0.45
5 1 7,17 0,25 10 1~ 5 :t I 0~/ 17/06 8.87 0,74 e/ -,\:>/
12.2C 3 / / 1,22 /
I / 8,83 0,74
I / ~ QS\±' , _,,,
5,63 0,42 lt~--
rn 5 10 15 u
~
Estanque PE (máx .) =
2,100 kg/cm2
I
o 1,25 7 :t i
§/ 0,30 2,55
-?,~/ .s 19/06 5 I -,\:>/ ~ -=- 0.92 3.95
13 / /
/
30/06 -=- i / // 0,47 2,55
E
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V,
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 67
cas e geomecamcas locais, e também às
necessidades impostas pelo tipo de obra.
Em geral, apresenta-se em forma de tabela,
na qual podem-se acrescentar valores ob-
tidos em ensaios in situ ou laboratoriais,
como no exemplo da Tab. 4.2.
Além das classificações puramente geo-
lógicas (mineralogia, litologia e estruturas)
e pedológicas (agronômicas e geotécnicas),
muitas outras levam em conta a aplicação
das características dos solos e das rochas
para um projeto de barragem. Segue uma
relação, à guisa de exemplo, dos principais
tipos de classificação adotados atualmente,
já que não existe uma padronização da
melhor forma de classificar uma fundação
para barragem:
• classificação do solo residual (ver
Fig. 3.2);
• classificação expedita dos solos (ver
Quadro 4.1);
• classificação de compacidade, con-
sistência e resistência dos solos (ver
Tab. 4.1);
• classificação de decomposição, consis-
tência e fraturamento (ver Fig. 4 .3);
• classificação em função de parâmetros
geotécnicos específicos (ver Tab. 4 .2);
• classificação do maciço rochoso como
fundação de barragem (ver Tabs. 4.8
a 4.13);
• classificação do maciço rochoso para
obras subterrâneas (ver Tab. 5.1).
4.1.3 Compartimentação
A compartimentação corresponde a
um zoneamento do maciço rochoso a
partir da interpolação ou extrapolação de
TAB. 4.2 Classificação do maciço rochoso em função de parâmetros geotécnicos específicos
(Usina Ilha Solteira)
Classificação
geológica
Brecha basáltica
argilosa
Basalto
compacto e
vesicular e
amigdaloidal
Classe de rocha
li
Ili
Ili *
IV
V
Classificação geotécnica
Fraturamento
Alteração
Descrição
Fraturas
por metro
Classe de rocha
Extremamente alterada Fraturamento irregular V
Muito alterada
Praticamente sã
Rocha extremamente
fraturada
Muito fraturada
Pouco fraturada
Ocasionalmente
fraturada
Módulo de deformabilidade (kg/cm2)
"' 200.000
125.000
35 .000
9.000
4.000
> 20
IV
Ili *
11 - 20 Ili
2 - 10 li
Parâmetros de cisalhamento
de projeto (kg/cm2)
, = 7,8 + crtg 56° (*)
, = 6 ,1 + crtg 48º
, = crtg 34º (O< cr < 6 kg/cm2)
1: = 1,6 + crtg 24° (6 < cr < 16 kg/cm2)
, = 1,0 + crtg 35°
1: = 0,5 + crtg 30°
(*) Nota: usado , = 8,0 + crtg 45° para o projeto das fundações.
Fonte: Monticeli (1986).
68 1 Geologia de Barragens
dados pontuais. Para tanto, utilizam-se
os dados da caracterização ou da clas-
sificação e são estabelecidas unidades
geológico-geotécnicas de forma bi ou tridi-
mensional, de sorte que se possa ter uma
visão ampla de todo o maciço da funda-
ção, com suas variações geomecânicas na
horizontal e na vertical. Na forma bidimen-
sional, a compartimentação é apresentada
por meio de seções, geralmente paralelas
ao eixo barrável, embora possam ser com-
plementadas por outras direções. Nessas
seções, devem-se plotar todas as infor-
mações obtidas nas investigações, sejam
diretas (poços, galerias e sondagens) ou in-
diretas (geofísicas). Em uma mesma seção,
pode-se apresentar mais de um tipo de elas-
sificação, ou mesmo uma seção para cada
compartimentação, conforme mostram as
Figs. 4.6 e 4.7. Além dos dados geológicos e
geomecânicos que embasarão essas compar-
timentações, devem ser explorados todos
os elementos topográficos e hidrogeotécni-
cos. Na compartimentação tridimensional,
procura-se integrar as três principais di-
reções relacionadas com a obra. Pode-se
realizá-la por meio de blocos diagramas ou
de diagrama de cerca, em que várias seções
serão entrelaçadas (Fig. 4.5).
4.1.4 Modelagem
Nessa etapa, procura-se estabelecer pro-
tótipos para as condicionantes geológicas
e geotécnicas, com base em todas as fases
--:.=..:=-
,
,;
r··'
•• ✓;y- ,
~;, J
~.:.r., )
'água/verted , .. '/'
/alte .~Canal de adução
,4é-L--- --<~~;,. tomada d'água/
\-• vertedour
.----- \'- (Alter
------------ \ ... -\
SR-03
c...c...<f:i
Tonada d'água
(Alternativa E
Túneis de desvio
FIG. 4.5 Diagrama de cerca mostrando quatro seções geológicas de uma obra de barramento (barragem de
Irapé-MG)
Fonte: cortesia da Cemig.
Cota
(m)
5
SR-49
5 ~º~ T
:25
23,... Linha de referênci
5
SP-48
T
t
~ I
Basalto compacto
SR-48
Condições geológicas
SP-73 SP-52 SR-46 SP-59
T T TT SP-54
l~ tl=T
j · · - ~ - - ·- - - - - - . .::~-- . -:r~ni~) :~~~:;• :,. f i 5~1ct~i~~~[~ç.
SP-73 SP-52
Basaltolcompacto
Fundação
SR-46
SP-63 SR-42
T T
-
Limon it1co e
echa basált~Js:ffo"g~
Bas. Ves . amigoaloidal 1 _
Basalto compacto
5
·25
5
T
.simI:~t
T T
~
T SP-63 SP-54 T SR-42 T
:23
5
Linha de
referência
5 ,--SP-49
r--.._ jP-94
2601 ,-r
5
F
1 ':~
8:}~:\:-:~~
SP-48
T SP-73 T SPj52
. A
Permeabilidade
SR-46
T
SP-59
T
>:~~'j;,';;:.r
F~--. ... .....
SP-63 SR-42
T T 5~llhtll»ht --- . 1
- ~ 1//.lY.17..--.,,L.. "// "l.l.ll.il'I.I.I.I.I J t'.-. - -1 ,--,Í~---~-,.;::--,,.dr--,:;-.:;?-=::::;;==--~-~-Uf1w,_,:;2i
~
3 ;;;;~;i11~= ;;:_'?:t} ::/;:;:/::-_ . . . . . ·-· - ··--·
220
.... 0 __ 5..__ _ _.10- -1-'-5- -2 .... 0-~25.___3_,_0....,[., 165 170 175 180 185 190 195 200 'v 445 450 455 460 465 470 475 480
FIG. 4.6 Compartimentação geológico-geotécnica da Usina Porto Primavera
Fonte: Monticeli (1986).
l:.
1
"'ti o
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(1)
3
li>
"' C/Q
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(1)
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(1)
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3
li>
O"
~
;;;
~
3
°' '°
70 1 Geologia de Barragens
(ONDIÇÕES DE FUNDAÇÃO CONDIÇÕES DE PERMEABILIDADE
P.E. em 1/ mín.m (kg/cm2)
~ PE ;;:: 100
~ 10$ PE < 100 {
[?~'(,:~>:{:] Solo com índice de resistência menor que 1 O golpes de
0 \ {5!f ~.\ penetração para os últimos 30 cm do barrilete amostrador SPT
o
v, ::•;:::••::: Solo com índice de resistência maior que 10 golpes de
:-;.:: •• =_:;. penetração para os últimos 30 cm do barrilete amostrador SPT
~ 5$PE<10
1 $ PE < 5
CJPE< 1
Não foram executados
ensaios de permeabilidade
no aluvião. Nos trechos
de argila estima-se PE < 1
ii = trecho no qual não
foi efetuado ensaio
de infiltração
Argila
Areia
.8
~
"' ro
Argila arenosa/
areia argilosa
Areia pouco argilosa
D " .li. Turfa/presença de matéria orgânica
'<§5>
~ dlo Cascalho
S3
E Local de ocorrência de estrias de fricção
EH: em fratura sub-horizontal
Ev: em fratura subvertical
- Arenito brando
Arenito resisten te -[
Cimento limonítico
Cimento limonítico e calcífero
- - - - - Juntas sub-horizontais
8 Rocha muito alterada (Tipo IV)
i---:-7 Rocha muito fraturada, praticamente sã
L_J (tipo Ili * > 20 fraturas por metro)
CJ Rocha praticamente sã (t ipo 1, li e 111)
CONDIÇÕES GEOLÓGICAS
Coluvião~ reia pouco argilosa
Solo de
alteração ~ reia pouco argilosa
de arenito
Arenito _]Cimento limonítico
eSt ratificado ~ imento limonítico e calcífero
-c
recha basáltica arenosa
Basalto
asalto compacto
Contato de unidades geológicas _______ J S,bdi, isão de ,o idades geológic,s
~ Nível d'água
ROC Trecho de ocorrência de rocha quebrada caoticamente
FIG. 4.7 Legenda das seções mostradas na Fig. 4 .6
anteriores de identificação, mostrando o
relacionamento entre tais condicionantes
e as necessidades do projeto. O modelo
consubstanciado nesse protótipo pode ser
geomecânico ou geo-hidrológico.
No modelo geomecânico, podem-se
indicar as relações qualitativas entre os
diferentes componentes geológicos e as va-
riadas alternativas de projeto, desde que
tais componentes sejam caracterizadas
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 71
200
150 ---- - --
5 ·-== · ----· 7 1 ----- -- ------------------ -------1 -- --
100 3 : 1
. -;;:-- -----=--,-;:::-- 4 ~ - :F
- ---- ---- 5 __ <ii:> ____ 5 --------------
------
2 -----------------------------------------
3
-50
Parâmetros geomecânicos
Unidades geomecânicas
c 0 E Kn Kt y K,q
(kg/cm2) (graus) (103kg/cm 2) kg/cm .cm
µ
(1/m 3) (cm/5)
1) Solo 0,2 28 0,3 0,30 1,7 10·4
2) Matacões de basalto 2,0 32 2 0 ,25 2,2 10•4
3) Basalto denso 15 45 200 0,18 2,9 10-5
4) Contato o 45 200 80 10°
5) Brecha arenosa 8 30 80 0,22 2,3 10 -4
6) Brecha argi losa o 27 40 0 ,22 2,2 10-3
7) Basalto vesicular e amigdaloidal 10 37 150 0,20 2,6 10·4
8) Descontinuidade sub-horizontal o 38 200 70 10°
9) Basalto denso 12 40 180 0,19 2,7 10-s
1 O) Contato aberto o 45 200 80 10°
11) Brecha arenosa intemperizada 6 30 60 o, 18 2,2 10·•
FIG. 4 .8 Modelo geomecânico de um bloco da Usina de Itaipu
Fonte: Monticeli (1986).
geomecanicamente no texto, conforme No modelo geo-hidrológico, procura-se
mostra o exemplo da Fig. 4 .8. Além disso, mostrar o comportamento generalizado do
no próprio modelo podem ser caracteri- maciço rochoso das fundações, em função
zados todos os parâmetros geomecânicos, das influências hidrogeotécnicas relaciona-
conforme mostra a Fig. 4.9. das com a infiltração das águas pluviais, seu
72 1 Geologia de Barragens
Modelo geomecânico
(Acima da cota 400 m) (Abaixo da cota 400 m)
Solo residual + colúvio 2 Xisto alterado (03/04) - zona de descompressão 3 Xisto são a pouco alterado (01 /02)
FIG. 4.9 Modelo geomecânico para a barragem de Irapé-MG
Fonte: cortesia da Cemig.
fluxo subterrâneo e a consequente alteração
das rochas. Esse modelo é fundamental na
análise da deformabilidade, estabilidade e
estanqueidade das fundações e pode ser vi-
sualizado pelo exemplo da Fig. 4 .10.
__ L --
Modelo geo-hidrológico
-- Superfície topográfica
- · - Limite da zona de descompressão
- - Nível de água subterrânea
Plano de xistosidade:
T J L Alterado
Descomprimido são
Fechado sâo
Fratura:
,,L-Seca
/-Saturada
FIG. 4.10 Modelo geo-hidrológico para a barragem
deirapé-MG
Fonte: cortesia da Cemig.
4.2 CARACTERIZAÇÃO
GEOMECÂNICA E
HIDROGEOTÉCNICA DAS
FUNDAÇÕES DA BARRAGEM
Neste capítulo, será considerado eixo
barrável não apenas a linha que materializa
a crista da obra ao longo de toda a seção
barrável, mas uma faixa que inclui toda a
obra de barramento. Nos estudos iniciais
de um projeto de barragem, a localização
do eixo barrável é condicionada priorita-
riamente pelo fator morfológico. À medida
que a geologia vai sendo conhecida, algu-
mas modificações no traçado desse eixo
podem ser necessárias, incluindo seu
eventual deslocamento. Por isso, é im-
portante iniciar os estudos geológicos e
geotécnicos em uma área que extrapole
os limites da própria obra, com relação ao
eixo inicialmente concebido. Assim, será
detalhada aqui a caracterização geomecâ-
nica e hidrogeotécnica das fundações de
uma barragem ao longo de uma área pas-
sível de receber uma obra de barramento e
de acordo com os princípios formulados no
item anterior. Os principais aspectos a ca-
racterizar para uma fundação de barragem
são, na área geomecânica, a deformabilidade
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 73
e a estabilidade, e na área hidrogeotécnica, a
estanqueidade.
4.2.1 Deformabilidade
ou compressibilidade
Como deformabilidade será analisado o
problema da deformação que uma funda-
ção de barragem poderá sofrer ao receber a
carga imposta pela obra, mas sem que tal de-
formação chegue a provocar a ruptura das
fundações . Evidentemente, essa deforma-
ção poderá implicar recalques da obra que
levem à sua ruptura, o que não significa que
as fundações também sofreram ruptura.
Em função do tipo de obra a projetar, as
fundações podem ser constituídas exclusi-
vamente por materiais coerentes (rochas)
ou incluir um capeamento de material inco-
erente (solo). Uma vez que os problemas de
deformabilidade são distintos nesses dois
tipos de fundação, tanto na caracterização
do problema como na forma de tratá-lo,
serão analisados separadamente os res-
pectivos processos de deformabilidade em
solos e em rochas.
a) Deformabilidade em solos
O problema da deformabilidade em solos
está intimamente relacionado à caracterís-
tica de compressibilidade desse material. O
efeito da deformação em solos compressíveis
é representado pelo recalque das estruturas
assentadas sobre ele, e esse recalque pode ser
uniforme ou diferencial. No primeiro caso, a
fundação se deformará com a mesma inten-
sidade em toda a base da obra, provocando
o seu afundamento por igual; no segundo
caso, o recalque é maior em um trecho e
menor em outro, mobilizando tensões na
obra que podem causar a sua ruptura. A
compressibilidade manifesta-se mais inten-
samente em dois tipos de solos: solos moles
e solos porosos e colapsíveis.
Os solos moles são representados por
argilas , areias argilosas e siltes argilosos.
A presença desses materiais exigirá um
estudo minucioso, com o objetivo de de-
finir dois aspectos da deformação: o tipo
de recalque e o tempo em que ocorrerá.
Para tal, é necessário realizar ensaios de
adensamento em todas as variações textu-
rais do solo, pois são as heterogeneidades
verificadas tanto na horizontal como na
vertical que constituem a principal causa
dos recalques diferenciais , embora estes
também possam ser provocados por desi-
gualdades nas tensões aplicadas pela obra.
O tempo de recalque deve ser o menor
possível e, de preferência, ao longo da fase
construtiva da obra. Esse tempo depende
da percentagem de consolidação, que varia
em função de vários fatores, conforme a se-
guinte equação:
onde:
t (l + e)K
U =----
(*r ªvYw
U - percentagem de consolidação;
t- tempo;
e - índice de vazios;
(4.1)
K - permeabilidade da camada argilosa;
H - espessura da camada a ser adensada;
N - número de camadas drenantes;
ªv - relação entre a variação de índice de
vazios e a variação de pressão;
Yw - densidade da água.
Conhecidos esses fatores, pode-se calcu-
lar o recalque total ocorrido nesse tempo,
de acordo com as seguintes equações:
7 4 1 Geologiade Barragens
onde:
r t - recalque alcançado no tempo t ;
U - percentagem de adensamento;
llh - variação na altura da camada;
h - altura da camada;
ei - índice de vazios inicial;
p - pressão imposta à camada;
llp - variação de pressão.
(4.2)
(4.3)
Em função dos dados calculados para
o valor dos recalques e do tempo em que
ocorrerá, pode-se sugerir uma das seguin-
tes alternativas para o projetista:
• remoção parcial ou total do material
mole, substituindo-o por aterro com-
pactado; a remoção será parcial quando
o · solo melhora suas características de
compressibilidade com a profundidade;
• adensamento normal com o abati-
mento dos taludes ou a construção de
bermas de equilíbrio, embora tais so-
luções interessem mais à estabilidade
(elas podem, eventualmente, exacerbar
os recalques pelo acréscimo do bulbo de
pressões);
• construção lenta, desde que o crono-
grama da obra o permita, pois o ritmo
lento ou a construção por etapas reduz a
intensidade do recalque;
• adensamento acelerado por uma so-
brecarga ou pela construção de drenos
verticais de areia, antecipando, assim, a
ocorrência dos recalques.
olho nu, com consequente alto grau de po-
rosidade e baixo teor de umidade, o que
resulta em baixo grau de saturação. Quando
a estrutura desses solos sofre colapso ao
serem saturados, são também denomina-
dos colapsíveis, o que os torna, nesses casos,
extremamente compressíveis. Geralmente
esses solos são resultantes da lixiviação de
óxidos de ferro e da iluviação das frações
finas pela ação das águas pluviais infiltradas.
Como é comum a ocorrência de solos poro-
sos entre os elúvios e os colúvios, e como a
espessura desses solos varia muito ao longo
de uma encosta, podem ocorrer recalques
diferenciais ao longo do eixo longitudinal de
uma barragem, com o surgimento de trin-
cas transversais ao eixo. Essas trincas são as
mais perigosas por comunicar a face de mon-
tante com a face de jusante da barragem.
De um modo geral, a compressibilidade
dos solos porosos aumenta com o aumento
do seu limite de liquidez. Quando subme-
tidos à saturação, sem acréscimo de carga,
esses solos podem sofrer recalques bruscos,
em consequência do colapso sofrido pela es-
trutura do solo ao ser saturado. Um exemplo
brasileiro de solos porosos é a argila do Terci-
ário da cidade de São Paulo, que pode recalcar
3% quando submetida à carga de 1 kgf/cm2,
com um acréscimo de 3% se for saturada
com a mesma carga. Assim, uma camada
de 5 m dessa argila pode sofrer um recalque
de 30 cm se for saturada a uma pressão de
1 kgf/cm 2.
Embora menos acentuado, o problema de
deformabilidade pode ocorrer em solos de
baixa compressibilidade, como os solos resi-
duais e coluviais. Nestes, o principal aspecto
Os solos porosos e colapsíveis são aque- que poderá influir na compressibilidade é a
les que apresentam macroporos visíveis a presença de descontinuidades, o que deve
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 75
ser bem caracterizado na fase de investi-
gações, conforme já mencionado. Nos solos
residuais, a presença de planos reliquiares
da rocha-mãe pode significar a ocorrência
de argilas de preenchimento de fraturas ou
de alteração de concentrados em feldspatos
(veios aplíticos e pegmatíticos), que podem
aumentar a compressibilidade do solo como
um todo. Nos solos coluviais, a seleção gra-
nulométrica imposta pelo transporte pode
levar à individualização de leitos mais
argilosos, com fracas características de
compressibilidade.
A compressibilidade dos solos pode
ainda ser medida por meio do módulo de
deformabilidade (E), consequente da relação
entre a carga aplicada (o) e a deformação
sofrida pelo solo (E):
A Tab. 4.3 mostra alguns exemplos desses
dois parâmetros em alguns solos brasileiros.
Como se pode observar, os valores do módulo
E decrescem à medida que aumentam as pres-
sões. Isso se deve à quebra do embricamento
entre blocos ou à ruptura da cimentação
entre os grãos. Com a redução progressiva da
porosidade, o material torna-se mais rígido e
esse módulo voltará a crescer com a continui-
dade do aumento das pressões.
b) Deformabilidade em rochas
Embora o efeito da deformação de
um maciço rochoso seja o mesmo veri-
ficado para o solo, ou seja, resulta em
recalque para a obra que lhe está assentada,
podem-se observar duas grandes diferen-
ças entre esses dois tipos de materiais, na
relação entre deformação da fundação e de-
(4.4) formação da obra, a saber:
No item seguinte serão detalhados os
procedimentos para essa determinação. A
compressibilidade pode ainda ser expressa
pelo coeficiente de compressibilidade
volumétrica (Cc), conforme a equação:
(4.5)
TAB. 4 .3 Valores de E e Cc para alguns solos
Material E kg/cm2 x 103
Solo residual 1,70
Solo saprolítico de basalto 0,60
0,50
Solo residual de gnaisse 0,40
0,35
Enrocamento de basalto
0,80
0,40
Brita corrida 0,73
Areia artificial 0,28
Fonte: Cruz (1996).
• no caso de solos, os recalques são mais
significativos que em rochas; todavia, as
barragens construídas em solo são dos
tipos de terra ou de enrocamento, cuja
flexibilidade pode admitir um acomo-
damento aos pequenos recalques das
fundações, mesmo diferenciais, sem
grandes danos para a obra;
Cc 1/kg/cm2 x 10-6 Nível de tensões kg/cm2
350 0-2
100 0-6
1.200 0-2
1.500 0-4
1.700 0-6
875 0-4
1.750 0 - 8
820 0-4
2.100 0-4
CJ
76 1 Geologia de Barragens
• no caso de rochas, os recalques são, em
geral, pouco significativos; porém, se a
obra construída for de concreto, sua ele-
vada rigidez poderá ser comprometida
pelos pequenos recalques diferenciais,
provocando o aparecimento de trincas que
poderão causar grandes prejuízos à obra.
O parâmetro que define a resistên-
cia à deformação das rochas é o módulo de
deformabilidade (E), já definido no item an-
terior. Esse módulo deve ser medido numa
curva tensão x deformação construída a
E1 = tga1
E2 = tga2
E1 + E2
E= --
2
0
0 r
r -------- 1 1 2
1
1 1
, ________ .J
2
___ ,,
X Ôx
2
Õy = Õy + Õy
2 2
Õx Õx
Õx = 2 + 2
Õy
Ey = -
Ó y
a= ~
Ey
Õx
Ex = -
Ó x
partir de ensaios in situ (ver item 7.1) ou de
laboratório (ver item 7.2). Nesses ensaios, o
maciço rochoso é carregado e descarregado
três vezes, devendo o módulo E ser medido
nos dois últimos carregamentos (Fig. 4.11a),
pois o primeiro carregamento é afetado pelo
fechamento das descontinuidades abertas.
O módulo E pode ser obtido pela apli-
cação de uma carga de compressão ou de
tração, e pode ainda ser uniaxial ou triaxial.
Em todos os casos, é denominado módulo de
deformabilidade estático (Eest)·
E
Eo
l l l
□□□
Creep
primário
2 3
Ruptura
J
FIG. 4.11 Parâmetros de deformabilidade: (a) curvas de deformação; (b) inf/.uência das descontinuidades; (e) coe-
fi.cien te de Poisson; (d) deformação lenta ou creep
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 77
O módulo de deformabilidade dinâmico
(Edin) é obtido por meio do emprego da
geofísica, especificamente pelo método de
sísmica (ver item 6.2.2). O módulo Edin é
aproximadamente igual ao módulo Eest
quando este é obtido por meio de uma
carga que não ultrapasse 30% da carga de
ruptura do material ensaiado. A partir daí,
o módulo Eest vai diminuindo em relação
ao módulo Edin, à medida que aumenta a
carga de ensaio nesse tipo de determina-
ção. Nessa situação, a relação entre esses
dois módulos é a seguinte:
micamente, sendo extremamente baixos
quando o solo representa o estágio final
dessa alteração.
Outra influência significativa pode ser
observada na Tab. 4.4, quando se compa-
ram as rochas quase homogêneas, como
o granito, com rochas orientadas, como o
micaxisto, em que a foliação resultante da
xistosidade é muito pronunciada. Essa fo-
liação representaplanos de descontinuidade,
os quais reduzem bastante o módulo de
deformabilidade, por tenderem a se fechar
quando o maciço rochoso é carregado pela
Edin = 8,3Eest + 0,97
obra. A influência da descontinuidade do
(4.6) maciço rochoso sobre o módulo Eest varia
com a relação entre a direção de aplicação
Nos maciços rochosos, a deformabi-
lidade é influenciada por quatro fatores
importantes: constituição mineralógica,
grau de alteração, planos de descontinui-
dade e relação entre a direção de aplicação
da carga e a direção da descontinuidade.
A constituição mineralógica de uma rocha
influi no módulo de deformabilidade da se-
guinte forma:
n
da carga e a direção desse plano, conforme
mostra a Fig. 4.llb. O módulo E será maior
quando a carga for aplicada na mesma di-
reção da descontinuidade e menor quando
aplicada perpendicularmente a ela.
Uma característica elástica da rocha
que influi no módulo de deformabilidade é
o Coeficiente de Poisson (u), definido con-
forme indicado na Fig. 4.llc, e cujos valores
médios das principais rochas acham-se indi-
Er = L Ei ·Vi
i=l
(4.7) cados na Tab. 4 .4. O módulo E é diretamente
proporcional ao Coeficiente de Poisson, ou
onde:
Er - módulo de deformabilidade da rocha;
Ei - módulo de deformabilidade de cada
mineral;
Vi - volume ocupado por cada mineral na
rocha;
i - número de minerais.
A Tab. 4.4 exemplifica uma relação dos
valores médios do módulo Eest para as
rochas em estado são. Esses valores vão pro-
gressivamente diminuindo à medida que as
rochas ou minerais vão se alterando qui-
seja, para uma carga aplicada na vertical, o
módulo E guarda a seguinte relação:
(4.8)
Finalmente, deve-se levar em conta o
tempo de aplicação da carga na deformação
dos maciços rochosos . Embora essa influ-
ência seja bem menos significativa que a
registrada para os solos argilosos, pode ser
problemática em função da rigidez das obras
de concreto que concentram as cargas sobre
78 1 Geologia de Barragens
TAB. 4.4 Valores médios do Módulo E e do Coeficiente de Poisson para algumas rochas
Grupo de rocha Rocha
Basalto e gabro
Anfibolito
Ígneas
Granito e granodiorito
Diabásio
Andesito
Riolito e fonolito
Mármore
Quartzito
Metamórficas Gnaisse
Quartzoxisto
Micaxisto
Calcário
Arenito
Sedimentares
Dolomito
Argil ito
Fonte: Legget (1962); Novik e Rzhevsky (1971).
tais rochas. A deformação lenta, ou fluên-
cia, que ocorre nos maciços rochosos com a
aplicação de uma carga constante pode ser
dividida em três fases, conforme se observa
na Fig. 4.lld. No instante t 0, de aplicação
da carga, tem-se a deformação i::0, corres-
pondente à relação cr/ E. Numa primeira
fase de fluência , ocorre o creep primário,
em que as deformações são um pouco mais
acentuadas no início, suavizando ao final.
Numa segunda fase, denominada creep se-
cundário, as deformações são constantes
com o tempo, resultando em uma reta a re-
lação deformação x tempo. Na última fase ,
quando a resistência básica da rocha começa
a ser vencida, ocorre o creep terciário, com
um aumento nas deformações até atingir a
ruptura. Evidentemente, essa condição não
ocorre de forma frequente e apenas é pro-
blemática nas duas seguintes situações:
• quando o módulo E é muito baixo;
Módulo de Young
E x 10-5 kg/cm 2
6,0 - 12,0
6,0 - 7,0
5,0- 9,0
3,0 - 9,0
1,2 - 3,5
1,0-2,0
6,0 - 9,0
4,0 - 10,0
2,5 - 6,0
1,2 - 3,0
1,0-2 ,5
4,0 - 8,0
1,5 - 5,0
2,0 - 3,0
1,5 - 3,0
Coeficiente de Poisson o
0,15 - 0,20
0,25 - 0,30
0,10 - 0,30
0,15 - 0,20
0,11 - 0,20
0,1 O - 0,20
0,11 - 0,20
0,15 - 0,20
0,08 - 0,20
0,15 - 0,20
0,10 - 0,15
0,10 - 0,20
0,07 - 0,15
0,08 - 0,20
0 ,1 0 - 0,25
• quando o fator de segurança em rela-
ção à estabilidade é inferior a 1,2.
4 .2.2 Estabilidade
Como estabilidade serão incluídas todas
as possibilidades de ruptura que possam
ocorrer em uma fundação de barragem
em decorrência das cargas impostas pela
obra. Não serão analisados aqui os casos
em que há rupturas no corpo da barragem
ou ao longo do contato barragem/ funda-
ção, mas sem haver ruptura nas fundações,
pois tais casos decorrem de uma das se-
guintes causas:
• projeto de engenharia deficiente;
• deficiência construtiva;
• erosão interna causada pela percola-
ção de água no corpo da barragem;
• recalque excessivo da obra por
problema de deformabilidade das fun-
dações;
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 79
• erosão interna nas fundações da bar-
ragem.
Das causas apresentadas, as três pri-
meiras nada têm a ver com a geologia; a
quarta já foi analisada no item anterior e a
quinta será objeto de análise no item 4.2.3.
A ruptura de uma fundação depende
essencialmente de duas condicionantes:
aplicação das cargas impostas e resistência do
material da fundação.
a) Aplicação das cargas impostas
A solicitação imposta a uma fundação
depende fundamentalmente do tipo de bar-
ragem. Nesse aspecto, essas obras podem
ser divididas em três grupos: barragem
de terra e/ou de enrocamento; barragem de
gravidade; e barragem delgada de simples
ou dupla curvatura.
A barragem de terra ou de enro-
camento exibe um comportamento
semiplástico, e a pressão exercida em um
ponto das fundações depende da espessura
da barragem nesse ponto. A distribui-
ção de pressões exercidas por esse tipo de
barragem sobre as fundações é muito se-
melhante àquela exercida pela água do
reservatório, conforme mostra a Fig. 4 .12a.
Em consequência dos ajustes internos do
material da barragem, as pressões exercidas
sobre as fundações são aproximadamente
iguais ao peso de prismas isolados de altu-
ras diferentes, e a distribuição das pressões
ao longo da base apresenta-se conforme
indicado na Fig. 4.12b. Essa figura mostra
que a influência da água do reservatório é
maior nos trechos mais profundos da face
de montante da barragem, decrescendo
com a redução de profundidade.
A barragem de gravidade funciona como
uma estrutura monolítica, rígida e coesa, de
forma que as pressões que ocorrem ao longo
de toda a fundação de uma barragem são
função do peso total distribuído ao longo
dessa fundação, como mostra o esquema da
Fig. 4.12c, variando muito pouco ao longo da
fundação. Em consequência, as tensões atu-
antes nas fundações são muito diferentes
quando o reservatório está vazio e cheio. No
primeiro caso, as tensões atuam na vertical
(Fig. 4.12c); ao se encher o reservatório, as
pressões hidrostáticas atuam em conjunto
com o peso da barragem, dando como re-
sultante de pressões um vetor dirigido para
jusante, como mostra a mesma figura . Além
dessa resultante, a pressão hidrostática in-
troduz no corpo da barragem uma tensão de
torque que tende a comprimir contra a fun-
dação o seu pé de jusante e a levantar o pé
de montante, como mostra a linha interrom-
pida na base da barragem (Fig. 4 .12d).
A barragem delgada de simples ou
dupla curvatura apresenta uma dis -
tribuição de tensões muito particular.
Primeiramente, o efeito de arco de seu eixo
promove uma distribuição das pressões
hidrostáticas, que são parcialmente dire-
cionadas no sentido das ombreiras, como
mostra em planta a Fig. 4.12e. Depois, o
alívio do peso da barragem, representado
pelo adelgaçamento de sua seção, reduz a
componente vertical, no caso de simples
curvatura, ou a componente inclinada, no
caso de dupla curvatura (Fig. 4.12f). Como
resultante dessas pressões, o vetor possui
uma inclinação mais suave no segundo
caso, porém a magnitude de todas as ten-
sões é significantemente inferior àquelas
causadas pela barragem de gravidade.
80 1 Geologia de Barragens
b) Resistência das fundações
A exemplo do problema da defor-
mabilidade, serão tratados separadamente
os casos de resistência de fundações em
solos e em rochas,pois as relações obra/
fundação são muito diferentes para esses
dois tipos de materiais .
• Estabilidade das fundações em solos
Conforme assinalado anteriormente, as
fundações em solos somente admitem bar-
ragens de material solto, preferencialmente
de terra. Por outro lado, foi explicado no
item anterior como se distribuem as pres-
sões impostas por esse tipo de barragem.
Assim, pode-se concluir que, em princípio, o
problema de estabilidade de uma fundação
em solo restringe-se ao trecho mais baixo da
seção barrável, pelos motivos que se seguem:
0 ,,. 0
: : ' ,,....-Reservatório .. K
Í cheio
Reservatório vazio
0
• as ombreiras possuem solos residuais
ou coluviais, geralmente mais resisten-
tes e menos espessos que os aluviais;
• as pressões verticais impostas pela
barragem de terra são reduzidas ao
longo das ombreiras;
• a presença de solos compressíveis está
sempre ligada a sedimentos fluviais ,
principalmente ao longo de bacias de
inundação marginais ao leito do rio,
quando o vale assume grandes larguras
em sua base e recebe a deposição de ma-
teriais argilosos;
• as maiores pressões das barragens de
terra são transmitidas em seu trecho
mais central, onde é maior a sua altura.
Nesses trechos, o problema é semelhante
ao já comentado para a deformabilidade,
ou seja, são os solos constituídos por ar-
(
/"' Reservatório
cheio
Reservatório vazio
--~---- - -k-----,:,-r71""- -,4""5-_ q> Y-
2 ~ Ili
/? '--- Cisalhamento linear
FIG. 4.12 Dist ribuição das cargas impostas por uma: (a) e (b) barragem de terra ou enrocamento; (e), (d) e (g)
barragem de gravidade; (e) e (f) barragem em arco de dupla curvatura
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 81
gilas moles ou aqueles colapsíveis que
podem se deformar até atingirem a rup-
tura. A ruptura desses materiais ocorre por
cisalhamento, e pode-se ter uma boa apro-
ximação da resistência à ruptura desses
solos por meio do ensaio de resistência à
penetração (SPT), que indica o limite da
pressão admissível, acima do qual poderá
ocorrer a ruptura (ver Tab. 4.1). Esse
recurso, que pode ser suficiente na caracte-
rização de uma fundação na fase preliminar
de estudos geológicos, deve ser complemen-
tado, nas fases mais detalhadas do projeto,
pelos ensaios de cisalhamento direto e
triaxial em amostras indeformadas coleta-
das desse material, conforme programação
discutida no Cap. 6. Nesses ensaios são de-
terminados os parâmetros de resistência ao
cisalhamento que permitem analisar a es-
tabilidade de um talude em solo em função
c - coesão mobilizada ao longo do plano
de ruptura;
cr - tensão normal ao plano de ruptura;
~ - ângulo de atrito, representando a
máxima obliquidade das tensões que mo-
bilizam o corte.
Embora os parâmetros e e ~ dependam
do estado de tensões instaladas no solo,
pode-se relacionar alguns exemplos para
solos residuais (Tab. 4.5).
• Estabilidade das fundações em
rochas
A ruptura de uma fundação constituída
de rocha pode ser analisada em função de
dois critérios: tipo de ruptura e aplicação da
carga imposta pela obra.
Tipos de ruptura
da seguinte equação:
t = e +crtg~
A ruptura de um maciço rochoso é uma
(4.9) função do estado de tensões que atua nesse
maciço, se uniaxial ou triaxial.
onde:
-r - tensão de cisalhamento;
No estado uniaxial, as tensões 0 2 e 0 3
são nulas (ver Fig. 4.13a). Nesse estado,
TAB. 4.5 Parâmetros de resistência ao cisalhamento de alguns solos residuais
Barragem Rocha de origem e' (kgf/cm2) ~• (º)
Porto Colômbia 0,20 - 0,25 17 - 24
Marimbondo Basalto 0,10 15
1,00 24
Metabasito 0,30
Tucuruí
25
Filito 0,36 24
Quartzito 0,31 22,5
Corumbá Cloritaxisto 1,20 29
Cana Brava Metagabro 0,40 - 0,80 20 - 22
Serra da Mesa Micaxisto 1,80 - 2,85 30
Simplício Migmatito 0,20 - 0,30 23 - 27
Sapucaia
Gnaisse
0,90 24
ltacoara 0,30 24
Fonte: Cruz (1996).
82 1 Geologia de Barragens
podem ocorrer rupturas por tração e por
cisalhamento. A ruptura por tração ocorre
quando a tensão de tração (crt) gerada pela
compressão uniaxial (cr1) supera a resis-
tência à tração do maciço rochoso (St),
antes de mobilizar tensões cisalhantes
(Fig. 4.13c). Nesse caso, a envoltória de rup-
tura tangencia o semicírculo das tensões
cr1 crt no ponto correspondente a crt, no cír-
culo de Mohr, como mostrado nessa figura.
Quando a resistência à tração supera a
tensão de tração gerada pela compres-
são uniaxial, são mobilizadas tensões de
cisalhamento ('r) que provocam a ruptura
por cisalhamento, desde que essas tensões
superem a resistência ao cisalhamento
do maciço rochoso (S5), como mostrado na
Fig. 4.13d, com respectiva demonstração
da ruptura no círculo de Mohr ao lado.
O estado triaxial é mostrado na
Fig. 4.136. Nesse estado, a ruptura ocorre
por tração quando a tensão de tração crt
gerada por cr1 encontra uma tensão de
confinamento também de tração (cr3), e a
soma dessas duas tensões tem a possibi-
lidade de ser tangenciada pela envoltória
de ruptura do maciço rochoso, como mos-
trado no círculo de Mohr da Fig. 4.13e. Esse
caso é incomum, pois geralmente as ten-
sões confinantes são compressivas, e não
tracionais, a não ser quando movimentos
epirogenéticos alçam blocos dantes compri-
midos orogeneticamente, criando trações
horizontais em consequência do maior
raio externo da crosta terrestre (teoria de
Price, 1966). Assim, os casos de ruptura
no estado triaxial são predominantemente
por cisalhamento (Fig. 4.13f). Os círculos
de Mohr indicados nessa figura mostram
a variação que sofre o ângulo 0 entre cr1 e
o plano de ruptura em função da variação
do ângulo de atrito interno, que varia nas
rochas entre 30° e 60°. O último círculo de
Mohr mostra a condição para que 0 fosse
igual a 45°, o que não ocorre na prática, já
que nenhuma rocha possui um ângulo de
atrito interno nulo.
Quando uma rocha é comprimida unia-
xialmente, pode ocorrer um esmagamento
decorrente da conjuminância das ruptu-
ras por tração e por cisalhamento, e, nesse
caso, utiliza-se a resistência à compres-
são (Se) como parâmetro de resistência do
maciço rochoso. A Tab. 4.6 mostra os valo-
res médios das resistências à compressão,
ao cisalhamento e à tração das princi-
pais rochas.
• Aplicação da carga imposta pela obra
Dada a maior resistência da rocha,
somente as barragens de concreto, que
impõem elevadas cargas concentradas,
podem influir na estabilidade de suas fun-
dações.
Em princípio, são previsíveis dois casos
distintos: cargas impostas na base das fun-
dações e cargas impostas às ombreiras.
As cargas impostas na base das funda-
ções são aquelas indicadas nas Figs. 4.12d
e 4.12f, em que o peso da barragem forma
uma resultante com a pressão hidrostática,
atuando a partir do centro de gravidade
da obra, no sentido do seu pé de jusante.
O peso da barragem representa a principal
componente dos esforços impostos à funda-
ção e o esquema de distribuição das tensões
geradas pode ser visualizado na Fig. 4.12g.
Inicialmente, desenvolve-se uma cunha cuja
declividade é função do ângulo de atrito do
material da fundação; essa cunha, indicada
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 83
8 uniaxial
cr, <J
3 Triaxial
0 Ruptura por tração
0 Ruptura por cisalhamento
0 Ruptura por tração
0 Ruptura por cisalhamento
e= 45º - 0 12
FIG. 4.13 Estados de tensões e tipos de rupturas
--
<J
<J
<J
cr,
--... <J3 --
<J3 + cr, cr, <J
e= 60º
0 = 15°
<J3
,:
e= 30°
0 = 30°
<J3
,:
0 = 0°
0 = 45°
cr, cr
84 1 Geologia de Barragens
TAB. 4 .6 Valores médios de resistência das principais rochas
Grupo de
Rocha
Resistência à Resistência ao Resistência à
rocha compr. (kgf/cm2) cisalh. (kgf/cm2) tração (kgf/cm2)
Basalto e gabro 800 - 4 .000 50 - 400 60 - 200
Anfibolito 1.700 - 2.800 150-300100 - 150
Ígneas
Granito e granodiorito 1.200 - 2.800 100 - 300 100 - 250
Diabásio 1.200 - 2.500 100 - 150 100 - 200
Andesito 500 - 3.000 80 - 150 50 - 150
Riolito e fonolito 1.000 - 3.000 80 - 200 80 - 120
Mármore 600 - 1.800 100 - 250 60 - 160
Quartzito 2 .800 - 3 .000 150 - 200 150 - 200
Metamórficas Gnaisse 800 - 2.500 50 - 100 40 - 70
Quartzoxisto 1.300 - 2.500 120 - 150 100 - 150
Micaxisto 500 - 1.500 40 - 80 30 - 70
Calcário 600 - 1.800 100 - 180 50 - 120
Arenito 300 - 1.500 100 - 200 30 - 100
Sedimentares
Dolomito 200 - 1.200 80 - 150 25 - 100
Argil ito 400 - 1.000 40 - 70 30 - 50
Fonte: Legget (1962); Novik e Rzhevsky (1971 ).
por I nessa figura, produz duas zonas de
cisalhamento, cada uma delas constituída
por duas partes: uma de cisalhamento radial,
indicada por II e limitada por um arco de es-
piral logarítmica; e outra de cisalhamento
linear, indicado por III e definida pelo ângulo
de 45° - ~/ 2 com a horizontal, explicado
pelo esquema da Fig. 4 .14a. A capacidade de
suporte da fundação, que define a sua con-
dição de estabilidade, é igual à resistência
oferecida ao deslocamento pelas zonas de
cisalhamento radial e linear.
Uma vez que a resistência ao
cisalhamento de um maciço rochoso é con-
dicionada pelas suas descontinuidades, que
constituem planos de fraqueza do maciço,
pode-se constatar que as piores condições
de estabilidade de uma fundação em rocha
correspondem à situação em que a direção
de uma ou mais descontinuidades coincide
ou está próxima à direção em que se acha
mobilizada a tensão de cisalhamento linear
na Fig. 4 .12g.
A influência da direção do plano de
descontinuidade sobre a ruptura por
cisalhamento pode ser observada no gráfico
da Fig. 4.14b. Verifica-se essa influência até
45° entre as direções de descontinuidade
e de aplicação dos esforços, e ela se reduz
para ângulos inferiores a 45° e se anula to-
talmente a partir dos 60°. Assim, pode-se
prever que as descontinuidades do maciço
rochoso que possuem ângulos de 0° até 60°
no sentido de montante são passíveis de in-
fluenciar a estabilidade das fundações de
barragens de peso (Fig. 4.14c). A situação
mais crítica de instabilidade é aquela em que
ocorrem descontinuidades mergulhando
para jusante e para montante (Fig. 4.14d),
pois a intersecção desses planos favorecerá
a formação de cunhas instáveis que tendem
a se deslocar para jusante, a exemplo do
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 85
que ocorreu na barragem de Malpasset, na
::-rança.
Constitui, pois, objeto do estudo
aeológico definir as direções das descon-
·nuidades e, no caso de constatada a
coincidência abordada anteriormente, ca-
racterizar a resistência ao cisalhamento de
t ais planos.
Desde que não ocorram planos de des-
continuidade mergulhando para jusante e
para montante, ou que o maciço rochoso se
60°
45°
e
O 15° 30º 45° 60° 75° 90°
a
apresente próximo às condições ideais de
homogeneidade e isotropia, a resistência
da própria rocha pode ser representativa
para o maciço da fundação. Nesse caso,
as informações preliminares de resistên-
cia podem ser atendidas com os ensaios
de compressão simples e de cisalhamento
direto. A segurança desses resultados, pelo
fato de ser esperada uma maior resistência
em razão do confinamento do maciço ro-
choso in situ, compensa eventuais reduções
(J
20 = 90 - q>
e= 45 - .!.
2
Nos meios rochosos:
30° < q> < 60°
Logo:
15º<q>< 30º
/ Plano de ruptu ra
0
Plano de
descontinuidade
- .~--L--
...____ ,L.- .:,e;.,-"""":-- ~
----........
FIG. 4.14 Rupt uras por cisalhamento: (a) esquema no circulo de Mohr; (b) infl_uência dos planos de desconti-
nuidade; (e) e (d) cunha de deslizamento na fundação de uma barragem; (e) condições criticas de ruptura nas
ombreiras
86 1 Geologia de Barragens
na resistência em função de possíveis des-
continuidades não localizadas.
A resistência ao cisalhamento depende
não apenas dos parâmetros intrínsecos
do material envolvido, mas também das
componentes de tensões que são mobiliza-
das pela carga induzida, conforme mostra
a equação da resistência ao cisalhamento
indicada para os solos (4.9).
Os parâmetros e e ~ não são constantes
para um mesmo maciço rochoso, pois estão
intimamente relacionados com o estado
de tensões a que esse maciço está sujeito.
Ainda assim, são relacionados valores
médios para tais parâmetros na Tab. 4.7,
para diversos tipos de rochas.
Nos estudos mais detalhados, devem-
-se realizar ensaios de cisalhamento direto,
preferencialmente in situ. Caso sejam rea-
lizados em laboratório, as amostras devem
ser orientadas, a fim de que as pressões apli-
cadas no laboratório guardem as mesmas
relações com as descontinuidades das
cargas aplicadas pelas obras.
Em termos de maciço rochoso, merece
atenção especial o caso de calcários, uma
TAB. 4.7 Valores de coesão e ângulo de
atrito para diversos tipos de
rochas
Rocha
Coesão - e Ângulo de
(kgf/cm2) atrito -~ (º)
Granito 140 - 500 45 - 60
Dolerito 250 - 600 55 - 60
Basalto 200 - 600 50 - 55
Arenito 80 - 400 35 - 50
Folhelho 30 - 300 15 - 30
Calcário 100 - 500 35 - 50
Quartzito 200 - 600 50 - 60
Mármore 150 - 300 35 - 50
Fonte: Farmer (1968).
vez que nem sempre são visíveis as des-
continuidades desses maciços, que podem
ser representadas por dissoluções cársticas
caóticas, de dimensões e aberturas imprevisí-
veis. Essas descontinuidades podem reduzir
sensivelmente a resistência desses maciços,
provocando o seu colapso ao receberem
cargas concentradas. Nesses casos, deve-se
adensar a investigação de subsuperfície, com
a utilização de sondagens rotativas e geofí-
sica, conforme será abordado no Cap. 6.
As cargas impostas às ombreiras são aque-
las indicadas nas Figs. 4.12c e 4.12e. Para
as cargas resultantes do peso da barragem,
indicadas na primeira figura, os efeitos em
uma eventual ruptura são os mesmos já
analisados para a base das fundações.
Para as cargas hidráulicas direcionadas
pelo efeito de arco, a geometria das desconti-
nuidades passíveis de influir na ruptura por
cisalhamento é diferente (Fig. 4.14e). Nesse
caso, descontinuidades verticais, como fra-
turas, porém com direções dispostas como
indicado nessa figura, são extremamente
perigosas para a estabilidade do maciço
rochoso, que poderá formar cunhas com
deslocamentos no plano horizontal, as
quais poderão levar à ruptura da barragem.
Assim, constitui objeto das investigações
detalhadas o arranjo das descontinuidades
do maciço rochoso ao longo das ombreiras,
para o caso de uma barragem em arco.
A resistência do maciço isento de des-
continuidades nessas direções também
deve ser investigada, no caso em que são
esperadas menores resistências da própria
rocha, como em arenitos, calcários não
metamorfizados etc. É que, em geral, a des-
compressão por erosão induz tensões de
tração ao longo das encostas, o que favorece
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 87
a redução da resistência da rocha e pode
:avorecer o aparecimento de rupturas ao
ngo das direções indicadas na Fig. 4 .14e,
ao ser o maciço comprimido com tensões
e baixo ângulo com a encosta, como são
aquelas induzidas pela água.
• Estabilidade das fundações em sa-
prólito
Os casos até agora abordados consi-
deraram o solo maduro e a rocha sã, com
seus problemas específicos e diversificados .
Ocorre, todavia, uma grande variação de
situações entre a rocha sã e o solo maduro,
em função da progressiva atuação da
intemperização. Essa variedade de situ-
ações será incorporada em um só pacote,
correspondente ao saprólito, conforme in-
dicado na Fig. 3.2.
A intemperização química do maciço
rochoso reduz todas as suas resistências
pela tendência em transformar minerais
resistentes como o feldspato em argilas de
baixaresistência. O efeito pernicioso dessa
intemperização torna-se mais grave por
iniciar-se ao longo dos planos de descontinui-
dade, os quais, normalmente, já constituem
planos de menor resistência do maciço
rochoso. Assim, um gnaisse cuja xistosi-
dade mergulha para montante com ângulo
em torno de 30° constitui uma fundação
altamente instável caso ocorram intemperi-
zações ao longo de algum desses planos.
O saprólito bastante desenvolvido pode
·á apresentar características de um solo; to-
avia, a presença de planos reliquiares de
descontinuidade do maciço rochoso poderá
induzir orientações preferenciais onde a
resistência ao cisalhamento será menor
que a do próprio solo. Em resumo, o sapró-
lito considerado desde a rocha alterada em
seus planos de descontinuidade deve ser
encarado como um dos piores materiais
em termos de resistência ao cisalhamento,
merecendo análises cuidadosas de sua re-
sistência até para barragens de material
solto de maior peso, como as barragens de
enrocamento, mormente se tiverem grande
altura. A única vantagem desse material é
propiciar, com certa facilidade, a coleta de
amostras indeformadas para que se possa
avaliar em laboratório a real influência de
suas descontinuidades sobre a resistência
ao cisalhamento.
4.2.3 Estanqueidade
A propriedade de estanqueidade de um
meio qualquer relaciona-se com o impedi-
mento da percolação da água através dele.
No caso de barragens, a percolação da água
armazenada pode ocorrer através do corpo
da barragem ou pelas suas fundações.
Assim, considera-se uma barragem estan-
que quando não ocorre percolação de água
de montante para jusante, quer pelo seu
corpo, quer pela sua fundação.
Evidentemente, é impossível cons-
truir uma barragem totalmente estanque,
onde a percolação da água seja efetiva-
mente nula, pois os custos para obliterar
as minúsculas passagens da água seriam
incompatíveis com os efeitos esperados
para tal estanqueidade. Assim, busca-se, na
estanqueidade parcial de uma barragem,
reduzir a percolação a níveis aceitáveis em
função da segurança da obra e do objetivo
para o qual foi projetada. A percolação além
desses níveis será considerada excessiva e
pode ser responsável por um ou mais dos
seguintes prejuízos à obra:
88 1 Geologia de Barragens
• erosão interna da barragem ou das
fundações, levando à ruptura da obra;
• fugas excessivas de água do reser-
vatório, que comprometam o volume
armazenado em barragens para abas-
tecimento, ou a altura do nível do
reservatório, para hidrelétricas e barra-
gens de lazer;
• subpressões elevadas na base da bar-
ragem, comprometendo a estabilidade
da obra, no caso de barragem de con-
creto.
A percolação através do corpo da bar-
ragem ou no contato obra/fundação é um
problema puramente construtivo e, por-
tanto, não será abordado no presente livro.
A percolação através das fundações admite
duas grandes divisões, em função das ca-
racterísticas dessa fundação: percolação
em meios porosos e percolação em meios
fissurados.
a) Percolação em meios porosos
Os meios porosos em geologia são aque-
les constituídos por solos inconsistentes
ou por rochas sedimentares granulares
não cimentadas, como conglomerado, are-
nito etc. Nesses meios, embora possam
ocorrer anisotropias no parâmetro da
permeabilidade, segundo a horizontal e a
vertical, existem maiores aproximações
com a homogeneidade do meio e, para efei-
tos de percolação, este pode ser considerado
contínuo. Assim, é possível não apenas de-
terminar a permeabilidade média desse
meio, mas também estimar o fluxo de água
que poderá passar num determinado tempo.
Pode-se obter a permeabilidade por
qualquer tipo de ensaio in situ entre os des-
critos no item 7.1.lb. Evidentemente, para
realizar tais ensaios, a forma mais prática e
econômica será aproveitar todas as sonda-
gens executadas, sejam elas a percussão ou
rotativas, pois quanto maior for o número
de ensaios, mais representativa será a média
obtida para o valor da permeabilidade,
além de ser possível identificar eventuais
anomalias nesse parâmetro hidráulico,
em consequência das heterogeneidades do
meio granular.
Caracterizada a permeabilidade média,
pode-se calcular o volume de água perco-
lada num meio em um intervalo de tempo
qualquer (dia, mês, ano etc.). Para isso, é
necessário construir uma rede de fluxo que
represente a distribuição da água na base
da barragem, ou seja, no trecho da funda-
ção constituído por solo. Essa rede de fluxo
é obtida pelo traçado de duas famílias de
linhas contidas em um mesmo plano e que
são denominadas linhas de fluxo e linhas
equipotenciais (Fig. 4.15).
As linhas de fluxo representam o cami-
nho teórico que a água percorre quando
se locomove de montante para jusante ao
longo de uma fundação de barragem. As
linhas equipotenciais são linhas que ligam
pontos de mesmo potencial hidráulico no
interior de uma rede de fluxo. O potencial
hidráulico em um ponto qualquer da rede
de fluxo é dado pela equação de Bernouilli:
u v2
h=-+ z + - (4.10)
Ya 2g
onde:
h - potencial hidráulico em um ponto da
rede;
u - pressão neutra;
Ya - peso específico da água;
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 89
z - elevação do ponto em relação a um
'vel de referência;
~ - velocidade da água no ponto conside-
.,.ado;
- aceleração da gravidade.
Como a velocidade da água nos meios
_ orosos é muito pequena, o último termo
a Eq. (4.10) pode ser desprezado, ficando:
h=~+z
Ya
(4.11)
Na Fig. 4.15, o potencial hidráulico no
ponto A é representado pela soma de z + z'.
A pressão neutra u que atua no ponto A
é dada por:
u = z' ya (4.12)
e:
z'=~ e h=~+z c.q.d (4.13)
Ya Ya
Duas linhas equipotenciais consecuti-
·as de fluxo formam um canal, conforme
mostrado no exemplo da Fig. 4.15. A rigor,
seriam necessárias quatro linhas para ca-
racterizar tridimensionalmente um canal.
H
H
Linha equipotencial Linha de fluxo
FIG. 4.15 Rede de fluxo sob uma barragem
Como, na prática, os problemas de fluxo
em meios porosos podem ser resolvidos em
duas dimensões, considera-se a terceira di-
mensão com o valor unitário.
É necessário observar os seguintes cri-
térios no traçado de uma rede de fluxo:
• o número de fluxos não deve ser ex-
cessivo (entre 3 e S);
• as equipotenciais devem fazer ân-
gulos aproximadamente retos com as
linhas de fluxo;
• a distância entre equipotenciais deve
ser tal que a figura geométrica formada
por duas linhas de fluxo e duas equipo-
tenciais se aproxime de um quadrado,
ou seja, L = b na Fig. 4.15.
O número de canais de fluxo é denomi-
nado Nf.
O número de equipotenciais é denomi-
nado Neq.
O número de queda de potencial é deno-
minado Nq:
Nq = Neq - 1
Última equipotencial
Canal de flu xo Nível de referência
90 1 Geologia de Barragens
No exemplo da Fig. 4.15, temos: Nf = 4;
Neq = 14; e Nq = 13.
Pela Lei de Darcy:
Q = kiA (4.14)
ôh
Q=k ·--bd
L (4.18)
Se considerarmos a vazão correspon-
onde: dente à descarga no canal que tem uma
Q - vazão que passa em uma área de ex- largura unitária, temos:
tensão A;
k - coeficiente de permeabilidade;
i - gradiente hidráulico.
O gradiente hidráulico entre dois pontos
de uma rede de fluxo é dado pela relação
entre a diferença de carga hidrostática
entre esses pontos e a distância entre eles:
ôh
i=-
L
(4.15)
Para determinar 6h entre duas linhas
equipotenciais de uma rede, divide-se a di-
ferença entre as equipotenciais limites da
rede (ht) pelo número de queda de poten-
cial, ou seja:
(4.16)
Na Fig. 4.15, a primeira equipotencial
tem a carga H e a última, carga nula, ou, por
outro raciocínio, a primeira tem o poten-
cial H + Z e a última, Z. Subtraindo as duas,
tem-se uma diferença de carga igual a H.
ôh=_!i_
13
(4.17)
A área considerada paraa percolação
da água com descarga Q é transversal ao
plano da rede indicada na Fig. 4.15, ou seja,
corresponde a b.d, sendo d a largura do
canal de fluxo, ou a terceira dimensão, con-
siderada unitária na presente exposição.
Assim, a Lei de Darcy pode ser escrita da
eguinte forma :
Q b
-=q =k-ôh ·-
d L
(4.19)
Como um dos critérios da construção da
rede de fluxo é que b = L, tem-se:
q = Mh (4.20)
Essa é a vazão em um canal de fluxo.
A vazão total que flui através de Nf
canais de fluxo em uma rede será:
Qt = qNf = Mh-Nf
Como:
Nf
Qt =-·k·ht
Nq
(4.21)
A seguir serão arbitrados alguns dados
para a barragem exemplificada na Fig. 4.15
e calculada a vazão que passa por suas fun-
dações no período de um ano.
• Altura do nível d' água: 45 m;
• Extensão da barragem: 100 m;
• Permeabilidade do solo da fundação:
5 x 10-5 m /s.
4.5.10-5 -45-100 3
Qt =------= O 069m I s=
13 '
2.183.261,54 m3 / ano
No caso de haver uma permeabilidade na
horizontal (kx) diferente da permeabilidade
no sentido vertical (ky), deve-se mudar a
escala horizontal de todo o projeto antes d
construção da rede de fluxo. Para tal, toda
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 91
as medidas horizontais (eixo X) devem ser
mudadas de x para xt, de acordo com a se-
guinte equação:
(4.22)
O valor de k a entrar na Eq. (4.21) pas-
sará a ser k', a saber:
O gradiente hidráulico iBc será, então:
. 25,4-21,94 O 692
lBC = 5 = '
b) Percolação em meio fissurado
Nos maciços rochosos constituídos por
rochas ígneas e metamórficas e algumas
k' = .jky · kx
sedimentares, os interstícios entre os mi-
(4-23) nerais correspondem aos poros das rochas
sedimentares granulares e dos solos incon-
A rede de fluxo possibilita, ainda, de-
terminar as pressões neutras em qualquer
ponto da fundação, bem como o gradiente
h idráulico entre dois pontos.
• Cálculo da pressão neutra
Da Eq. (4.11) e considerando Ya = 1, tem-
-se:
h = u + z (4.24)
u = h - z (4.25)
Exemplo:
Com base na Fig. 4.15, em que z = 15 m,
calcular a pressão neutra no ponto B, que está
a uma altura de 8 m do nível de referência.
O potencial hidráulico da equipotencial
em que se situa o ponto B é:
h = (45 + 15) -10x3,46
h = 25,4m = 2,54kg/cm2
u = 25,4 - 8 = 17,4m = 1,74kg / cm2
• Cálculo do gradiente hidráulico
No mesmo exemplo da Fig. 4.15, calcular
o gradiente hidráulico entre os pontos B e C.
O potencial hidráulico em B, como já
visto anteriormente, é 25,4 m, enquanto
em C, esse potencial será de 21,94 m.
sistentes que formam os meios porosos já
discutidos. Ocorre que tais interstícios são
tão fechados que a porosidade denominada
intersticial é insignificante, sendo, por-
tanto, praticamente nula a permeabilidade
ao longo desses interstícios (geralmente da
ordem de 10-10 cm/s). Assim, em hidráulica
de rochas admite-se que o fissuramento
representa um papel preponderante, pois
oferece caminhos privilegiados ao fluxo das
águas subterrâneas.
O termo fissura, que caracteriza o meio
fissurado , é considerado no sentido amplo,
englobando todas as descontinuidades
abertas do maciço rochoso, independen-
temente de sua gênese geológica. Inclui,
assim, as juntas de estratificação, de xis-
tosidade e demais planos de fraturas e
falhas. Por meio de um cálculo muito
simples, pode-se concluir que algumas
fissuras, mesmo muito finas, propiciam
permeabilidade muito elevada ao maciço
rochoso, quando comparada àquela propi-
ciada pela matriz rochosa, ou resultante da
porosidade intersticial.
Em consequência, os fenômenos de
percolação nos maciços rochosos são ca-
racterizados por anisotropias hidráulicas
resultantes de uma ou mais orientações
92 1 Geologia de Barragens
privilegiadas do fluxo das águas percoladas
através das fissuras . A orientação desses
planos de anisotropia nunca é arbitrária
ou aleatória, mas obedece a padrões rigida-
mente controlados pela gênese geológica.
Em função dessa gênese, tais planos podem
ser agrupados em uma ou mais famílias de
fissuras planas paralelas.
A densidade desse fissuramento é funda-
mental na caracterização da condutividade
hidráulica de um meio rochoso. Como se
pode observar na Fig. 4.16a, se a densidade
do fissuramento é suficiente para indivi-
dualizar blocos centimétricos, o meio pode
ser considerado hidraulicamente contínuo, a
exemplo de um meio poroso, já tratado no
item anterior. Caso essa densidade indi-
vidualize blocos decimétricos a métricos,
como mostrado na Fig. 4.16b, o meio já pode
ser considerado hidraulicamente descontínuo,
sendo o fluxo comandado pela interação
tridimensional de todos os sistemas de fis-
suras. No caso mostrado na Fig. 4.16c, as
famílias de fissuras possuem espaçamen-
tos decamétricos e, nesse caso, além de
ser o meio hidraulicamente descontínuo,
devem-se tratar as diferentes famílias iso-
ladamente e verificar posteriormente a
influência entre os diferentes sistemas.
O caso b é o mais comum nos maciços
rochosos estudados como fundação de
barragens. Nesse modelo geo-hidrológico,
é possível analisar a distribuição do po-
tencial hidráulico definido na Eq. (4.11),
a partir de um modelo matemático que
integre as condições de fluxo nas varia-
das direções impostas pelas diferentes
famílias de fissuras . Esse estudo, além de
complexo, encontra pouca aplicabilidade
no projeto de uma barragem, motivo pelo
qual não será desenvolvido no presente
texto. O importante é definir o significado
da permeabilidade fissural e identificar as
famílias de fissuras que realmente sejam
mais significativas para a estanqueidade de
uma fundação de barragem.
O escoamento através de uma fissura
obedece à Lei de Darcy, definida por:
(4.26)
onde:
v - velocidade média de escoamento;
kf - permeabilidade ou condutividade hi-
dráulica da fissura;
Jf - projeção ortogonal do gradiente hi-
dráulico.
A condutividade hidráulica de uma fis-
sura é definida pela expressão:
onde:
S·g•e2
kt=---
12 -u -C
(4.27)
kf- condutividade hidráulica da fissura;
S - grau de abertura da fissura;
g - aceleração da gravidade;
e - abertura da fissura;
u - viscosidade cinemática do fluido;
C - coeficiente relacionado com a rugosi-
dade relativa da fissura.
Nas condições mais comuns de rugo-
sidade e temperatura, a relação g/12 uC
aproxima-se da unidade. Considera-se,
assim, que apenas dois elementos exercem
grande influência na permeabilidade da fis-
sura: Se e.
O grau de abertura de uma fissura é im-
portante, pois representa a relação entre a
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 93
0
0
2
3
Família
de fissuras
0
/ .
/
/
/
Área fechada (SF)
1 - Sistema de fissura k11
2 - Sistema de fissura k12
- Matriz rochosa de k
Sr= SA + SF
5= ~
Sr
/
FIG. 4 .16 Meio f,.ssurado: (a), (b) e (e) densidade do f,.ssuramento; (d) áreas abertas e fechadas de uma f,.ssura;
e) permeabilidade de diferentes sistemas de f,.ssuras
Fonte: Louis (1974).
area aberta de uma fissura e sua área total,
conforme mostrado na Fig. 4.16d. Embora
-eja muito difícil definir essa relação na prá-
. ca, pode-se atestar a sua influência quando
se compara o coeficiente de permeabilidade
obtido em ensaios in situ com os resultados
teóricos esperados para a abertura da fissura
conhecida. Assim é que, uma fissura por
metro, de 0,1 mm de abertura, corresponde
a uma condutividade da ordem de 10-4 cm/s,
e com 1,0 mm de abertura, para a mesma fre-
quência, corresponde ao valor de 10-1 cm/s.
Na prática, esses valores são muito menores,
o que mostra que a abertura da fissura não
somente pode variar muito, mas também se
torna nula em vários trechos.
A importância da abertura é óbvia,
já que o coeficiente de permeabilidade
da fissura é diretamente proporcional ao
seu quadrado.
94 1 Geologia de BarragensQuando se tem um sistema de fissu- tectônicos que atuaram na região e as es-
ras como o indicado na Fig. 4.16c, pode-se truturas que tais processos impuseram ao
calcular a condutividade hidráulica do maciço rochoso. Deve-se também analisar
maciço rochoso a partir da condutividade a influência dos fatores exogenéticos que
das fissuras elementares de acordo com atuaram no modelamento do relevo, pois
a expressão:
onde:
e
K=- ·kf +k b rn (4.28)
k - coeficiente de permeabilidade ou con-
dutividade hidráulica do meio;
e - abertura média das fissuras;
b - espaçamento médio entre fissuras;
kf - coeficiente de permeabilidade da fis-
sura;
km - coeficiente de permeabilidade da
matriz rochosa.
Para calcular a condutividade hidráulica
do sistema da fissuras nº 1 da Fig. 4.16e, os
ensaios in situ deveriam ser feitos em son-
dagens executadas perpendicularmente a
tal sistema, o mesmo ocorrendo para o sis-
tema de fissuras nº 2.
Na prática, km é quase sempre despre-
zível, dominando, assim, a condutividade
fissura!.
As Eqs. (4.27) e (4.28) mostram ser de
fundamental importância no estudo da
estanqueidade de uma fundação de barra-
gem, para a caracterização das famílias de
fraturas mais abertas, pois será segundo
esses planos que deverá ocorrer a maior
percolação das águas infiltradas.
Como o fissuramento dos maciços ro-
chosos está sempre relacionado a um
processo de gênese da própria rocha, é
de fundamental importância estabele-
cer todas as relações entre os processos
muitas das fissuras presentes nos maciços
rochosos resultam da descompressão cau-
sada pela erosão. Fissuras resultantes do
resfriamento do magma em rochas efusi-
vas nada têm a ver com esforços tectônicos
ou processos exogenéticos, mas podem
apresentar aberturas significativas.
Porém, como a maioria das fissuras é
ligada a processos diastróficos da crosta
terrestre, a primeira análise para caracteri-
zar sua gênese passa pelo comportamento
de deformação do maciço rochoso ao
sofrer esforços compressivos. Quando as
rochas são comprimidas, geralmente por
pressões tectônicas tangenciais à crosta,
podem ocorrer fraturas por cisalhamento
e por tração, dependendo da profundi-
dade em que ocorrer o diastrofismo e das
próprias características de resistência do
maciço comprimido.
As fraturas de cisalhamento fazem um
ângulo máximo de 30° com o esforço com-
pressivo, ao passo que as fraturas de tração
são paralelas ao esforço compressivo ou
perpendiculares ao esforço trativo.
Pela própria gênese do fraturamento,
as fraturas de cisalhamento são fechadas ,
pois resultam do deslizamento de um bloco
sobre o outro sob efeito compressivo. Por
sua vez, as fraturas de tração são geral-
mente abertas, pois os esforços trativos
tendem a separar os blocos fraturados .
Assim, deve-se iniciar toda a pesquisa de
percolação em meios fissurados com a ca-
racterização dos vários tipos de fraturas de
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 95
~ação que podem estar presentes em uma
fundação de barragem.
A Fig. 4 .17 mostra as principais situações
em que pode estar presente uma fratura
de tração. Em 4.17a é mostrado o esquema
eórico da ruptura por tração gerada por
compressão uniaxial. No círculo de Mohr,
constata-se que não houve mobilização de
ensões cisalhantes na ruptura, que ocorreu
por ter a tensão trativa gerada superado a
resistência à tração. Em 4.17b apresenta-
-se a relação entre blocos que, depois de
Fraturas de tração
Fraturas de descompressão (alívio de tensões)
~ Descompressão horizontal
Fraturas associadas a dobramentos
~ Juntas de contração
f
b
comprimidos orogeneticamente, são alça-
dos à superfície da crosta por movimentos
epirogenéticos. Como o raio externo da
crosta é cada vez maior que o interno, ocor-
rem folgas laterais no bloco soerguido, com
a consequente descompressão das tensões
acumuladas e segundo a mesma direção, ou
seja, aproximadamente horizontal (Price,
1966). Gerada a tração, o bloco se rompe so-
frendo colapso (fraturas e falhas) pelo efeito
da gravidade, que passará a funcionar como a
tensão máxima (compressiva) nessa ruptura.
0 Descompressão vertical (sheet joint)
Planos de ruptura por tração
c
A .
FIG. 4 .17 Descontinuidades potencialmente abertas
96 1 Geologia de Barragens
A Fig. 4.17c refere-se ao alívio de tensões
pelo efeito da erosão, ocorrida aproxima-
damente na horizontal, embora possam
tais fissuras ocorrer subverticalmente nas
encostas abruptas causadas pela erosão
fluvial. Essas fraturas são também cha-
madas de fraturas de relaxação do maciço
e são responsáveis pelo aumento de sua
intemperização por propiciarem o maior
afluxo das águas pluviais infiltradas. As
fraturas de tração mostradas em 4.17d são
consequentes do mesmo esquema de rup-
tura mostrado em a, porém ocorrente em
estratos dobrados. O plano ac nessa figura
corresponde à tração primária, relacionada
com o esforço compressivo crc, ao passo que
o plano bc corresponde à tração secundá-
ria, relacionada com os esforços de tração
crt, gerados na parte externa da dobra pelo
efeito do arqueamento. Finalmente, em
4.17e é apresentada a fissura de contração
resultante do resfriamento do magma.
Caracterizada a fratura de tração em
uma fundação, deve-se estabelecer o plano
de sondagens para interceptar o maior
número dessas fraturas. O procedimento
do ensaio de permeabilidade ao longo das
sondagens em maciços rochosos será deta-
lhado no item 7.1.2.
Como no meio fissurado a percolação
deverá ocorrer prioritariamente ao longo
de planos de descontinuidade abertos, é
muito importante observar a relação entre
as direções das descontinuidades abertas
e a direção do fluxo natural das águas de
montante para jusante na base de uma bar-
ragem. Dessa forma, na Fig. 4.18, a mesma
permeabilidade encontrada em furos de
sondagens executados nos eixos I e II em
A pode representar um grande problema
de estanqueidade para o eixo I e não ter
a menor importância para o eixo II. Isso
porque, a fratura aberta, segundo o este-
reograma dessa mesma figura (B), está na
direção NW-SE, paralela à direção do fluxo
no caso da barragem I, possibilitando uma
elevada percolação da água armazenada
através das fundações. No eixo II, por sua
vez, essa fratura aberta encontra-se para-
lela ao eixo, impedindo qualquer fluxo de
montante para jusante.
A permeabilidade dos maciços rochosos,
também denominada de condutividade
hidráulica, pode ser classificada em dife-
rentes graus em função da variação de seus
valores (ver Fig. 4.16).
No Cap. 8 será analisada a necessidade
de melhorar as características de estan-
queidade de um maciço rochoso.
4 .2.4 Classificação geomecânica
das fundações de uma
barragem
Ao longo do tempo, a mecânica das rochas
tem se desenvolvido predominantemente
em função das obras subterrâneas, notada-
mente no campo da mineração, onde grandes
nomes se destacaram por suas classificações
geomecânicas dos maciços rochosos, como
Laufer, Bieniawski e Laubscher. Eviden-
temente, tais classificações foram muito
utilizadas em outros tipos de obras subter-
râneas, como túneis viários, dutos e galerias
para os mais variados objetivos.
Uma obra de barramento, entendida
como um todo, é das mais complexas em
relação à participação do maciço rochoso.
Isso porque, além de funcionar como fun-
dação da barragem, esse maciço pode ser
solicitado de várias outras formas, como
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 97
an relação à estabilidade de taludes, canais
túneis para os mais variados fins (adução,
s.esvio, vertedouro etc.); obras subterrâ-
eas, como algumas hidrelétricas (Paulo
Afonso, p.ex.); materiais de construção;
acia de dissipação etc.
Assim, é quase inconcebível uma clas-
sificação genérica e abrangentedo maciço
rochoso para todas as finalidades que
contemplem um projeto completo de uma
barragem, daí a dificuldade em encontrar
classificações específicas para esse fim que
evem em conta os diferentes estágios de
conhecimento ou abordem todas as impli-
cações geológico-geotécnicas relacionadas
com esse tipo de obra. Como, na maior
parte dos casos, os maiores problemas de
uma fundação de barragem ocorrem no
maciço rochoso, o autor apresentou um
modelo de classificação de maciços rocho-
sos específico para barragens (Costa, 1999),
o qual será discutido a seguir.
a) Critérios de classificação
Em qualquer barragem a projetar, inde-
pendentemente do seu tipo, porte, objetivo,
sua condição topográfica e natureza geoló-
gica, a fundação deverá ser caracterizada e
classificada em função de suas proprieda-
des geomecânicas e capacidade de reter o
fluxo de água.
No caso dos maciços rochosos, a qualifi-
cação das fundações das barragens deverá
ser abordada como uma função da natu-
reza do meio rochoso, conhecida em nível de
w.bilidade do projeto, por se constituir na
etapa mais decisiva e importante de toda a
obra, pois é nessa fase que se deve definir a
interferência das condicionantes geológico-
-geotécnicas no projeto e nos custos da obra.
A natureza do meio rochoso é o principal
fator classifica tório da fundação, pois deverá
caracterizar as propriedades geomecâni-
cas envolvidas em uma obra de barragem
para um meio descontínuo, onde influem
não apenas a tipificação petrográfica, mas
principalmente as suas descontinuidades
(estratificação, xistosidade, fraturas, falhas,
dobras etc.) e o seu estágio de alteração.
Os principais aspectos envolvidos na
caracterização de um maciço rochoso que
funciona como fundação de barragem são
a deformabilidade e a estabilidade, entre as
propriedades geomecânicas, e a estanquei-
dade, na área da hidrogeotecnia.
• Deformabilidade
A deformabilidade de um maciço rochoso
aborda as características de deformação
que uma fundação de barragem poderá
sofrer ao receber uma carga imposta pela
obra. Essa deformação pode levar ou não
à ruptura do maciço rochoso, conforme
já descrito em 4.2.1. Evidentemente, tal
deformação poderá implicar recalques da
obra (geralmente diferenciais) que levem à
sua ruptura, o que não significa que as fun-
dações também sofreram ruptura.
A deformabilidade aqui considerada
é uma propriedade intrínseca da rocha,
e mesmo quando atinge a ruptura, não
seriam considerados os efeitos dos planos
de descontinuidade, já que tais influências
serão abordadas na análise da estabilidade
do maciço rochoso. Com relação à de-
formação sem ruptura, também é pouco
significativa a influência das desconti-
nuidades, pois as maiores deformações
causadas pelo fechamento dos planos de
descontinuidade ocorrem ao longo do início
98 1 Geologia de Barragens
da obra, quando as cargas ainda são pouco
significativas. Quando a barragem atinge
alturas maiores, com consequentes cargas
mais elevadas, já se encontram fechados
todos esses planos, e a deformação passa a
ser comandada pelos parâmetros geomecâ-
nicos inerentes à própria rocha.
Os principais parâmetros que m-
fluem na deformabilidade são: módulo de
deformabilidade, resistência à compressão
e estado de alteração da rocha.
O módulo de deformabilidade, também
conhecido como módulo de elasticidade,
módulo de Young ou módulo E, é definido pela
relação entre a carga aplicada pela obra (crz)
e a deformação sofrida pela rocha no
mesmo sentido da aplicação da carga (sz).
Esse módulo varia proporcionalmente à
participação volumétrica de cada mineral
e à sua variada resistência à decomposição.
A resistência à compressão deveria ser
definida pelo ensaio triaxial, que reconsti-
tuiria as condições reais de campo; todavia,
esse ensaio somente é recomendado na
etapa de projeto básico, razão pela qual
será considerada a resistência à compres-
são simples para dar uma ideia a favor da
segurança das condições de ruptura. Esta
resultaria, assim, da relação entre a carga
aplicada na ruptura (F em kgf) e a seção da
amostra (A em cm2).
O estado de alteração da rocha é fun-
damental, pois à medida que os vários
minerais vão se alterando, a resistência à
compressão vai diminuindo, atingindo os
valores mínimos quando a rocha chega à
condição de saprólito.
• Estabilidade
A estabilidade de uma fundação de bar-
ragem corresponde à resistência imposta
pelo maciço rochoso que integra tal funda-
ção aos fatores que induzem à ruptura.
No item 4.2.2, definiu-se que essa resis-
tência depende dos parâmetros e (coesão)
e <p (ângulo de atrito interno) do maciço
rochoso. Esses parâmetros são muito reduzi-
dos ao longo dos planos de descontinuidade
desse maciço, daí ser muito importante
uma perfeita caracterização dessas desconti-
nuidades no estudo da estabilidade de uma
fundação de barragem. À medida que a
rocha vai se alterando, também caem muito
os valores desses parâmetros, razão pela
qual constitui importante parâmetro para
avaliação da estabilidade das fundações de
uma barragem a caracterização do estado de
alteração do maciço rochoso, principalmente
ao longo dos planos de descontinuidade.
Nesses planos é mais acentuada a alteração
da rocha, por causa da percolação da água ao
longo deles, pois, como já citado, possuem
menor resistência ao cisalhamento, inde-
pendentemente de estar alterada a rocha em
seu entorno. Finalmente, a resistência à com-
pressão da rocha também influi na ruptura e,
consequentemente, na estabilidade das fun-
dações de uma barragem, pelo que também
deve ser considerada nessa análise.
• Estanqueidade
A propriedade de estanqueidade de uma
fundação de barragem relaciona-se com o
impedimento da percolação da água através
dela. Evidentemente, não se pode esperar
que uma fundação seja totalmente estan-
que, pois os custos para tornar o maciço
rochoso impermeável seriam incompatíveis
com os efeitos esperados para tal estanquei-
dade. Assim, com a estanqueidade parcial
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1 99
-.: um maciço rochoso, busca-se reduzir a
colação a níveis aceitáveis em função da
-\!Urança da obra e do objetivo para o qual
bra foi projetada.
Uma vez que a permeabilidade intersti-
:ial na maioria das rochas que constituem
= - fundações de uma barragem (rochas
~ eas e metamórficas) é praticamente
- ula (da ordem de 10-10 cm/s), pode-se
:oncluir que os planos de descontinuidade
;:onstituem-se no principal veículo de per-
:olação da água nos maciços rochosos.
:=>enominando genericamente de fraturas
_;_ maioria dos planos por onde percolam
as águas subterraneamente, pode-se defi-
::.ir como parâmetro mais importante para
=Ssa propriedade hidrogeotécnica a perfeita
::aracterização estrutural do maciço rochoso.
A condutividade hidráulica, que reflete a
uantidade de água na unidade de tempo
ue passa em um metro linear desses
?lanos de descontinuidade por unidade de
? ressão hidráulica, é o parâmetro que mede
a permeabilidade do maciço rochoso fratu-
N
t
o
rado. Trata-se de um importante critério
caracterizador da estanqueidade e, por-
tanto, imprescindível à classificação de um
maciço rochoso que atua como fundação de
uma barragem. É, contudo, imprescindível
analisar as perdas d' água juntamente com
a caracterização estrutural, conforme mos-
trado na Fig. 4.18.
b) Modelo de classificação
Definidos os critérios mais importantes
na caracterização dos principais aspectos
envolvidos na fundação de uma barragem,
restaria graduar os diferentes parâmetros
selecionados, de sorte a zonear graus de
aplicação de cada um deles.
O modelo escolhido foi inspirado na
classificação de Bieniawski (ver Tab. 5.1),
que atribui índices para ponderar as
cinco classes em que foram divididosos
parâmetros selecionados. O somatório
desses índices permite zonear cinco classes
para o enquadramento do maciço rochoso
para obras subterrâneas.
w
s
FIG. 4.18 Relações entre as direções de descontinuidades abertas e o sentido de f/.uxo das águas sob uma
barragem: (a) mapa com indicação de dois eixos barráveis; (b) estereograma de fraturas dessa área
E
100 1 Geologia de Barragens
Embora o princípio de classificação seja
o mesmo, os parâmetros são diferentes, em
função dos aspectos envolvidos na funda-
ção de uma barragem. A Tab. 4.8 mostra a
classificação geral dos maciços rochosos em
função dos critérios adotados.
O módulo de deformabilidade - E (GPa) foi
definido em 4.2.1 e as formas de execução
dos ensaios que permitem sua definição
serão descritas no Cap. 7.
A resistência à compressão uniaxial - Se
(MPa) foi definida em 4.2.2 e as formas de
sua determinação também serão descritas
no Cap. 7. Os graus de alteração da rocha
(D1 a D5) devem ser definidos em função
das características apresentadas por cada
um desses estágios de alteração, conforme
discriminado no Quadro 4.2. A presença
de um ou mais sistemas de descontinuidades
TAB. 4.8 Classificação geral dos maciços rochosos
Aspecto envolvido
!
Deformabilidade
!
t
Estabilidade
t
Estanqueidade
t
Somatório de índices
Parâmetro
Módulo E (GPa)
Resist. à compr.
uniaxial (MPa)
Alteração da rocha
(Quadro 4.2)
Sistemas de descont.
(Quadro 4.3)
Relação de direções
(Tab. 4.9)
Condição da
descont. (Quadro
44)
Espaçam. Entre
descont. (m)
Condutividade
hidráulica (Tab. 4.10)
Relação de direções
(Tab. 4.9)
Classe do maciço rochoso
Descrição do maciço rochoso
> 200
10
> 100
10
D1
16
A
8
a
8
a'
8
> 3,0
10
H1
15
a
15
81 - 100
1
M. Bom
é fundamental na análise de estabilidade.
Porém, mais importante que isso é a in-
tensidade e o sentido de inclinação desses
planos de descontinuidade, o que pode ser
bem evidenciado no Quadro 4.3.
O atrito e o embricamento provocado
pelas irregularidades ao longo dos planos de
descontinuidade, principalmente de fratu-
ras, influem decisivamente na resistência
ao cisalhamento. A abertura desses planos
e seu material de preenchimento são impor-
tantes fatores na análise dessa resistência.
O Quadro 4.4 mostra esse relacionamento
e comprova a necessidade de uma acurada
descrição de todas as descontinuidades
existentes em um maciço rochoso.
A influência do posicionamento das des-
continuidades analisadas em cada sistema
sobre a estabilidade da obra só pode ser bem
Variação de índices
100 - 200 50 - 100 10 - 50 <10
8 6 4 2
50 - 100 20 - 50 5 - 20 < 5
8 6 4 2
D2 D3 D4 D5
12 8 4 2
B c D E
6 4 2 o
b c d e
6 4 2 o
b' c' d' e'
6 4 2 o
1,0 - 3,0 0,3 - 1,0 0,05 - 0,3 < 0,05
8 6 4 2
H2 H3 H4 H5
10 7 4 o
b c d e
10 7 4 o
61 - 80 41 - 60 21 - 40 < 20
li Ili IV V
Bom Reg. Ruim M. Ruim
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem 1
QUADR04.2 Decomposição das rochas
Grau
D1
Denominação
Rocha sã
Características
A rocha apresenta seus minerais constituintes sem
decomposição. Eventualmente apresenta juntas oxidadas.
101
D2 Rocha pouco decomposta
A rocha apresenta decomposição incipiente em sua matriz e
ao longo dos planos de fraturas.
D3 Rocha medianamente decomposta
A rocha apresenta cerca de 1/3 de sua matriz decomposta.
A decomposição ao longo das fraturas é acentuada.
D4 Rocha muito decomposta
A rocha apresenta cerca de 2/ 3 de sua matriz ou de seus
minerais totalmente decompostos. Todas as fraturas estão
decompostas.
D5 Rocha extremamente decomposta
A rocha apresenta todo o seu corpo totalmente
decomposto.
compreendida quando considerada a relação
entre as direções desses planos e a direção do
eixo barrável. A Tab. 4.9 mostra a influência
dessa relação não apenas sobre a estabili-
dade, mas também sobre a estanqueidade,
e pode-se observar que essa influência é
otalmente oposta para essas duas pro-
priedades do maciço rochoso. Enquanto
um plano de descontinuidade torna-se
perigoso para a estabilidade quando se
aproxima da mesma direção da barragem,
QUADR04.3
Classe
A
Sistemas de descontinuidades
Características
Um sistema dos tipos : V ou MF
Um sistema dos tipos: JF ou Mf
esse mesmo plano dificulta a percolação da
água, mesmo se estiver aberto, tornando-
-se um fator favorável à estanqueidade.
Quanto menor o espaçamento entre os
planos de descontinuidade, maior a interco-
municabilidade entre eles, configurando
blocos isolados que reduzem a sua resis-
tência ao cisalhamento.
Em termos de estanqueidade, a maior
intercomunicabilidade entre os planos
abertos, quando é reduzido o seu espa-
Denominação
Muito favorável
B
Dois sistemas dos tipos: H/M F, H/Mf, V/JF, MF/JF
Favorável
e
D
E
Sim bologia
"1 - Horizontal
V- Vertical
Dois sistemas dos tipos: H/JF, HIV, JF/Jf, V/Jf, V/MF, MF/Mf
Três sistemas dos tipos: H/JF/Jf, H/V/JF, V/JF/Jf
Um sistema dos tipos: H ou Jf
Dois sistemas dos tipos: H/Jf ou V/Mf
Três sistemas dos tipos: H/V/Jf, H/V/M F, H/M F/Mf, V/M F/JF
Dois sistemas dos tipos: Jf/MF ou Mf/Jf
Três sistemas dos tipos não incluídos nas classes C e D
Mais de três sistemas
JF - Mergulhando para jusante com forte ângulo (>50°)
Jf - Mergulhando para jusante com fraco ângulo (< 30°)
M F - Mergulhando para montante com forte ângulo
Mf - M ergulhando para montante com fraco ângu lo
Regular
Desfavorável
Muito desfavorável
1 0 2 1 Geologia de Barragens
QUADRO 4.4 Condições da descontinuidade
Classe Descrição da superfície do plano de descontinuidade
a' Superfície rugosa, descontínua, paredes resisten tes
b' Superfície levemente rugosa, separação< 1 mm, paredes resistentes
e' Superfície levemente rugosa, separação< 1 mm, paredes fracas
d' Superfícies contínuas, estriadas ou com preenchimento< 5 mm ou com abertura de 1 a 5 mm
e' Superfícies contínuas com preench imento mole > 5 mm ou com abertura> 5 mm
TAB. 4.9 Influência entre as direções das descontinuidades e do eixo barrável com
relação à estabilidade e à estanqueidade das fundações
Classe Tipo de infl uência
Ângulo entre a descontinu idade e o eixo da barragem (º)
Com relação à estabilidade Com relação à estanqueidade
a Nula 71 - 90 O - 10
b Reduzida 51 - 70 11 - 30
e Regular 31 - 50 31 - 50
d Elevada 11 - 30 51 - 70
e Muito elevada O - 10 71 - 90
çamento, contribui decisivamente para
aumentar a permeabilidade do maciço
rochoso, chegando a conferir ao maciço ro-
choso, nos casos mais extremos, a condição
de aquífero granular (Fig. 4.16a).
A condutividade hidráulica é definida
pelos ensaios de perda d'água (ver Cap. 5).
A classificação do maciço em relação a esse
parâmetro é apresentada na Tab. 4.10.
A classificação geral apresentada na
Tab. 4.8 resulta do somatório de todos os
índices atribuídos aos diversos parâmetros
para cada uma das cinco classes em que foi
dividido o maciço rochoso.
c) Aplicabilidade do modelo de clas-
sificação do maciço rochoso para
barragens
O simples fato de classificar um maciço
se não fosse possível aplicar na prática tais
conceitos. Na verdade, uma classificação
genérica e abrangente, que atende a três
importantes e distintos aspectos de uma
fundação de barragem, serve tão somente
para que se tenha ideia da qualidade do
maciço rochoso na forma mais abrangente.
Isso porque, na prát ica, é possível que um
maciço rochoso considerado bom na clas-
sificação geral possa ser muito bom em
termos de deformabilidade, regular em
termos de estabilidade e ruim em termos de
estanqueidade. Nesse caso, seria necessário
concentrar as atenções apenas na estabili-
dade e na estanqueidade dessas fundações.
Para avaliar separadamente a influên-
cia dos parâmetros escolhidos nos três
aspectos enfocados, foram elaboradas as
Tabs. 4 .11, 4.12e 4.13, respectivamente
rochoso em função de sua finalidade e de para deformabilidade, estabilidade e
critérios eleitos como supostamente mais estanqueidade. Nas duas primeiras são re-
importantes não teria muito significado comendados diferentes tipos de barragens
4 - Problemas geotecnológicos das fundações de uma barragem j 103
TAB. 4.10 Condutividade hidráulica
Classe Denominação Permeabilidade cm/s Condut. hidráulica l/min.m.kg/cm2
H1 Muito baixa k < 10-5 C.H < 0,1
H2 Baixa 10-5 < k < 5.10-5 0,1 < C.H < 0,5
H3 Média 5.10-5 < k < 5.10-4 0,5 < C.H < 5,0
H4 Alta 5.10-4 < k < 2,5.10-3 5,0 < C.H < 25,0
H5 Muito alta k > 2,5.1 0-3 C.H > 25,0
em função da classificação do maciço ro-
choso, de acordo com suas características
de deformabilidade e estabilidade.
classificação do maciço rochoso quanto à
percolação da água subterrânea submetida
à pressão do reservatório.
O somatório de índices apresentado nas
Tabs. 4.11 e 4.12 deve incluir os parâmetros
considerados entre as setas verticais que
aparecem acima e abaixo do nome de cada
aspecto enfocado na Tab. 4.8.
A Tab. 4.13 traz as providências reco-
mendadas para melhorar a condição de
estanqueidade das fundações em função da
Essas tabelas são uma tentativa de nor-
tear o geólogo e o engenheiro geotécnico
com relação a situações genéricas, o que não
impede de estreitar mais o grau de conhe-
cimento e necessidades da obra com dados
melhores e confiáveis, que possam mudar
um pouco os procedimentos recomendados
nessas tabelas.
TAB. 4.11 Aplicação da classificação quanto à deformabilidade
Somatório de índices 26 - 36 16 - 24
Classificação do maciço
Tipos de barragem recomendados
Bom
Concreto
Enrocamento
Terra
Regular
Enrocamento
Terra
TAB. 4.12 Aplicação da classificação quanto à estabilidade
Somatório de índices 42 - 60
Classificação do maciço
Tipos de barragem recomendados
Bom
Concreto
Enrocamento
Terra
26 - 40
Regu lar
Enrocamento
Terra
TAB. 4.13 Aplicação da classificação quanto à estanqueidade
Condutividade hidráulica H1 H2 - H3
Somatório de índices > 40 20 - 40
Classificação do maciço Bom Regular a ruim
< 16
Ruim
Terra
< 26
Ruim
Terra
H4- H5
< 20
Ruim a péssimo
Providências recomendadas Nenhuma
Injeção ao longo de duas
ou três linhas
Injeção ao longo de três
ou mais linhas
5 Geotecnia das obras complementares
5.1 CANAIS DE ADUÇÃO
E RESTITUIÇÃO
Em uma obra de barragem, os canais
. dem ser utilizados para o direcionamento
d.as águas do reservatório para diversas es-
3"1..lturas, como vertedouro, tomada d'água
~ túneis de desvio, ou como restituição das
aguas para jusante, a partir da casa de força
ou de túneis de desvio. Com base no co-
- ecimento das condicionantes geológicas,
.c:eotécnicas e morfológicas da área de en-
·orno da barragem, o geólogo deve auxiliar
engenheiro projetista quanto à melhor
:xalização dos canais necessários à obra,
?rincipalmente quando essas condicionan-
:es são muito diferentes nas duas margens
-=o rio. Uma vez selecionados os melhores
ocais sob o ponto de vista de arranjo de
bras e das condicionantes naturais, devem
·er caracterizados os problemas induzidos
. elo fluxo das águas nesses canais. Nessa
aracterização, três pontos devem ser bem
efinidos:
• natureza dos materiais de escavação
(solo ou rocha);
• geometria das descontinuidades;
• estabilidade das paredes de escavação.
S .1.1 Caracterização geológico-
-geotécnica
Conhecido o traçado previsto para o
canal e as condições de projeto (velocidade
de fluxo, seção do canal, cota do nível da água
e variação de profundidade de escavação),
deve-se programar a investigação geotécnica
(supondo-se já conhecer a geologia de super-
fície), que pode ser baseada em sondagens
mecânicas ou com o auxílio da geofísica.
Com os resultados das sondagens, deve-
-se apresentar uma seção longitudinal ao
canal e algumas seções transversais sempre
que ocorram variações, quer topográficas,
quer geológicas, que influam na defini-
ção dos problemas de estabilidade. Nessas
seções, devem ser compartimentadas as
diferentes unidades geológico-geotécnicas
presentes no futuro canal, conforme exem-
plo da Fig. 4.6. É sumamente importante
caracterizar nessas seções e em sua análise
os seguintes elementos:
a] contato solo/ rocha;
b] contato entre diferentes classes do
maciço rochoso;
c] características dos materiais no trecho
submerso do canal;
d] características dos materiais no trecho
submetido a variação do nível d' água
(NA);
e] características dos materiais no trecho
permanentemente emerso;
f] características dos materiais na entrada
do canal;
g] geometria das descontinuidades (plota-
das em estereograma polar);
h] persistência, extensão, rugosidade e
preenchimento das descontinuidades.
106 1 Geologia de Barragens
5.1.2 Condições de estabilidade
Os canais de adução ou de restitui-
ção são sempre veículos de fluxos com
vazões consideráveis, razão pela qual
devem ser constituídos de materiais que
ofereçam resistência à erosão. Assim, a pri-
meira consequência do estudo geológico
consiste em zonear os trechos de baixa re-
sistência à erosão e que necessariamente
tenham que ficar submersos, recomen-
dando não somente taludes de escavação
apropriados, mas também estruturas de
contenção para evitar sua erosão e/ou
seu desabamento.
Para os trechos de rocha sã, o canal não
deverá ser revestido, mas geralmente es-
cavado com taludes verticalizados. Nesses
trechos, é necessário definir as relações
entre as direções do fluxo das águas e as
direções das descontinuidades presentes
no maciço, bem como as condições de em-
bricamento dos blocos individualizados
por tais descontinuidades. Isso porque
eventuais situações desfavoráveis nessas
relações de direções podem induzir o ar-
rancamento de blocos das paredes, o que
funcionará como início de erosões pontuais
que poderão desencadear grandes instabi-
lidades ao longo da parede de escavação,
com os consequentes problemas de assore-
amento do canal e transporte de detritos
para as estruturas de jusante.
A Fig. 5.1 mostra duas situações de
estabilidade de talude em canais. Na pri-
meira (a), o fluxo de águas favorece o
arrancamento de blocos, podendo gerar
instabilidade da parede de escavação em
função das demais características de resis -
tência do maciço rochoso; na segunda (b),
o embricamento dos blocos dificulta o seu
arrancamento pelo fluxo das águas, ofe-
recendo boas condições de estabilidade à
parede de escavação.
5 .1.3 Modelo geomecânico
de escavação
Em função das características de es-
tabilidade diagnosticadas no estudo
geológico-geotécnico, deve-se estabelecer
um modelo geomecânico para as escava-
ções do canal em que conste:
• trechos sem revestimento;
• trechos com revestimento;
• taludes em solo e em rocha, no trecho
emerso e no trecho submerso;
• estruturas de contenção (placas, ti-
rantes etc.);
• proteção contra erosão no trecho
emerso em solo.
A Fig. 5.2 mostra um tipo de modelo
geomecânico de escavação para o canal
do vertedouro da barragem de !rapé
(Cemig).
5.2 VERTEDOURO
O vertedouro de uma barragem pode ser
de vários tipos, desde os mais convencio-
nais, em calhas incorporadas à barragem
ou em canais abertos em uma das margens,
até os mais incomuns, que incluem a tulipa
e os túneis.
No caso de tulipa, praticamente não há
qualquer interferência das condicionantes
geológicas, pois toda a estrutura é incorpo-
rada à própria barragem, merecendo, assim,
apenas os cuidados de um engenheiro pro-
jetista. Por esse motivo, esse tipo de obra
N
r
1
1
1
12
1
1
1 ?,
---
N
1
1
1
1
, 2
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1
1
1
1
'
1
__ .J._
_.,.
5 - Geotecnia das obras complementares 1 107
FIG. 5.1 Estabilidade de taludes em canais - barragem de Irapé-MG:(a) situação de instabilidade das
paredes com relação ao arrancamento de blocos; (b) sit uação de estabilidade das paredes com relação ao arran-
camento de blocos
Fonte: cortesia da Cemig.
não será discutido aqui. O vertedouro em
túnel, por sua vez, será abordado no item
correspondente a obras subterrâneas (5.4).
Os vertedouros em calhas incorporadas à
própria barragem são, a exemplo da tulipa,
um problema meramente construtivo da
engenharia, e a única relação com a geolo-
gia refere-se à erosão das águas restituídas,
o que será comentado no próximo item.
Resta, assim, como vertedouro a analisar,
o caso em que essa obra é localizada fora da
própria barragem, ou utilizando uma sela
topográfica, ou escavando um canal na en-
costa. No primeiro caso, geralmente não
há necessidade de canal de aproximação e
a estrutura do vertedouro é constituída de
três partes: ogiva, canal rápido e restituidor
(Fig. 5.3a).
A ogiva é uma estrutura de concreto
onde se situa a comporta para controle do
108 1 Geologia de Barragens
Superfície
topográfica
~
/~ 0.25
Solo / / 1.ov
coluvionar / / 2,00
/ / =t--t
/_,,,
Obs.: quando submerso o
micaxisto alterado deve ter
taludes com H:V = 0,33:1,0
+.--.'.-+ Variável
FIG. 5.2 Modelo geomecânico de corte (barragem
de Irapé-MG)
Fonte: cortesia da Cemig.
fluxo d 'água que será vertido. Ela funciona,
portanto, como uma pequena barragem
de gravidade, razão pela qual são exigidas
como sua fundação as mesmas caracterís-
ticas geomecânicas referidas no item 4.2,
com relação à deformabilidade e estabili-
dade. Assim, em princípio, deve ser fundada
em rocha D1/ D2.
O canal rápido corresponde ao trecho
intermediário situado entre a ogiva e o
restituidor, e geralmente possui grande
declividade (Fig. 5.3b). Dada a elevada velo-
cidade imposta pela grande vazão da água
passando em uma área reduzida e com
forte gradiente, esse canal deve ser reves-
tido não só na base, mas também em suas
paredes de escavação, mesmo quando a
rocha em que será assentado for da melhor
qualidade.
O problema que poderá ocorrer nessa
obra refere-se à fixação das placas no
maciço rochoso para evitar eventuais
desplacamentos decorrentes do efeito de
sucção provocado por vácuo hidráulico, o
que pode ser exacerbado pela subpressão
hidrostática na base dessas placas, quando
o maciço rochoso é muito fraturado.
O engenheiro projetista poderá reco-
mendar a utilização de tirantes para fixação
das placas ou de drenas para aliviar as sub-
pressões (Fig. 5.3c). Nesse caso, é necessário
caracterizar muito bem as reais caracterís-
ticas de resistência do maciço rochoso, bem
como suas condições de percolação de água.
O restituidor pode ser constituído por
uma bacia de dissipação, que amortizará a
velocidade da água efluente, restituindo-a
ao rio com reduzido poder erosivo
(Figs. 5.3a e 5.3c), ou por uma estrutura de
salto de esqui, que dirigirá a água vertida
a uma fossa no leito do rio (Fig. 5.3b). Em
ambos os casos, a obra de restituição será
construída em concreto e, apesar de eventu-
almente delgada, recebe a água com muita
velocidade, exigindo do maciço rochoso
boas características de deformabilidade e
estabilidade.
5.3 EROSÃO A JUSANTE
A erosão a jusante das estruturas de
efluxo de uma barragem, como túneis
de restituição e vertedouros, depende da
forma como as águas são restituídas ao
canal do rio a jusante da obra de barra-
mento. No caso de túneis , geralmente a
erosão é provocada unicamente pelo atrito
do fluxo da água, que chega ao rio com sua
velocidade amortecida pelo atrito ao longo
do canal de restituição. Nesses casos, a
erosão será mínima, pois o próprio colchão
5 - Geotecnia das obras complementares 1 109
a
Canal rápido
Bacia de dissipação
1
,, Comporta
Stop L _ ..
e
Draina
galle
ln]eçoes Drenagem
Grouting Drainage
FIG. 5.3 Tipos de vertedouro
Comporta
1
;!'
Salto de esqui
r._~ ·· !·•·······s.\
o · · ·- n~ ---~~u
Bacia de dissipação
1Furo de drenagem
Holes drainage
110 1 Geologia de Barragens
d' água existente no rio a jusante diminuirá
o poder erosivo dessas águas efluentes.
No caso de vertedouro, há duas espécies
de efluxo, conforme o tipo de vertedouro:
calha com bacia de dissipação e calha com
salto de esqui. No primeiro caso, o poder
erosivo das águas é amortecido na bacia
de dissipação, porém o grande volume das
águas restituídas pode criar correntes com
altas velocidades a jusante dessa bacia,
gerando os mesmos problemas de erosão
citados para os canais. Nesse caso, somente
um modelo hidráulico poderá caracterizar
as direções dessas correntes e prever a velo-
cidade do fluxo da água nessas direções . Aí,
então, deverá ser feita uma análise das in-
fluências das descontinuidades do maciço
rochoso e de suas relações com os fluxos
previstos, visando diagnosticar problemas
relacionados com a sua erosão. Também
é importante caracterizar para esses ma-
ciços todas as eventuais variações no seu
estado de alteração, desde as mais unifor-
mes em relação à profundidade até as mais
heterogêneas em consequência das descon-
tinuidades existentes.
No caso de vertedouro que termina
em salto de esqui, uma nova componente
é adicionada ao poder erosivo das águas
restituídas: o impacto causado pela queda
d'água sobre o maciço rochoso. Nesse caso,
o poder de erosão das águas restituídas
poderá escavar fossas muito profundas no
maciço rochoso, trazendo alguns proble-
mas se o mecanismo da erosão e transporte
do material erodido não for previsto antes
da operação da obra.
Ocorre que, à medida que a fossa vai
se aprofundando, os blocos resultantes da
erosão podem ir se acumulando em sua
borda de jusante (Fig. 5.4), formando bar-
reiras ao fluxo de jusante, que passa, com o
decorrer do tempo, a funcionar como uma
barragem. À medida que essa barragem vai
crescendo com o acúmulo de materiais,
o nível do rio a montante dela poderá ser
elevado, comprometendo eventuais estru-
turas da obra, como casa de força, pé da
barragem etc.
FIG. 5 .4 Fossa de erosão a jusante de vertedouro
Para evitar tais problemas, a fossa
deverá ser pré-escavada, reduzindo, assim,
o transporte do material resultante da
erosão natural das águas efluentes. A pro-
fundidade de escavação da fossa deve ser
prevista em função das características ine-
rentes ao projeto e ao maciço rochoso. A
equação utilizada pela maioria dos projetis-
tas para calcular a profundidade da erosão
na fossa é:
de = K. q 0,54 . H0,225
onde:
de - profundidade de erosão medida a
partir do NA de jusante;
K - coeficiente de resistência à erosão do
maciço rochoso;
q - vazão específica (m3/ s/ m);
H - desnível (m) entre o NA de montante e
o NA de jusante.
O valor de K nessa equação tem variado
muito de autor para autor, desde 0,525
(USBR) até 1,9 (Veronese). No trabalho In-
vestigação geomecânica a jusante de vertedouros
com dissipador em salto de esqui, Brito (1991)
estabeleceu critérios geológicos para estimar
o valor de K. Primeiramente, esse autor defi-
niu um quadro classificatório para o maciço
rochoso em função das características das
descontinuidades e condicionantes geome-
cânicas da rocha. Com base nas classes de
maciço assim identificadas, estabeleceu um
zoneamento para um gráfico que relaciona a
variável qº• 54 . Hº· 225 com a profundidade de
erosão a partir do NA de jusante. Na Fig. 5.5
acham-se reproduzidos o quadro classifica-
tório e o gráfico para zoneamento do valor
de K proposto por Brito (1991).
Como exemplo de aplicação dessa
metodologia, pode ser citado o projeto
da barragem de !rapé, em Minas Gerais ,
cujos valores relacionados com o maciço ro-
choso foram:
• resistência: Rl;
• diâmetro médio do bloco de rocha:
0,5 a 1,0 m;
• padrão de descontinuidade: PES.
Com base no quadroclassificatório, o
maciço rochoso enquadrou-se na Classe IV.
Pelo gráfico de zoneamento do valor de K,
esse parâmetro varia entre 0,9 e 1,5, tendo
sido escolhido o valor médio dessa faixa, ou
seja, 1,2. Em função dos dados de projeto,
calculou-se em 47 m a profundidade da
fossa de erosão.
5 - Geotecnia das obras complementares 1 111
5.4 ÜBRAS SUBTERRÂNEAS
5.4.1 Tipos de obras subterrâneas
As obras subterrâneas para barragem
podem ter as mais variadas finalidades, e
as principais são:
• desvio do rio na fase construtiva;
• vertedouro;
• adução para casa de força ou para
abastecimento;
• acesso a obras subterrâneas;
• chaminé de equilíbrio;
• câmara de válvulas;
• casa de força;
• restituição de águas turbinadas.
Com relação à geometria, essas esca-
vações podem ser classificadas em dois
tipos: túneis e cavernas. No primeiro
caso, estão as escavações em que a exten-
são é muito superior à largura e à altura, e
nelas incluem-se as escavações para desvio,
vertedouro, aduções, acesso, chaminé de
equilíbrio e restituição das águas turbina-
das. No segundo caso, a extensão é pouco
superior às outras dimensões, incluindo-se
aí as escavações para casa de força e câmara
de válvulas.
Com relação à horizontalidade, as caver-
nas são sempre dispostas na horizontal; a
chaminé de equilíbrio é um túnel vertical e
os demais túneis podem assumir qualquer
posição. Finalmente, quanto à tempora-
neidade, os túneis de desvio são as únicas
obras temporárias, sendo desativadas após
a conclusão das obras, embora possam con-
tinuar com um trecho em funcionamento
quando são parcialmente aproveitados
como vertedouro.
114 1 Geologia de Barragens
/2 .. .. . . . /
/ttttlff 111
I
/
0
FIG. 5.6 Emboques em túneis: (a) talude suave em solo; (b) talude íngreme em solo; (c) emboque em rocha
com descontinuidade mergulhando no mesmo sentido da encosta; (d) emboque em rocha com descontinuidade
mergulhando no sentido contrário ao da encosta; (e) intersecção de descontinuidades sobre o emboque
surge a possibilidade de um aprofunda-
mento diferencial do perfil de alteração,
tornando totalmente heterogêneo o contato
solo/ rocha.
A Fig. 5.7a mostra um túnel que atra-
vessa um maciço relativamente homogêneo,
com exceção do trecho indicado por C, onde
uma descontinuidade litológica ou estrutu-
ral, recebendo o fluxo de águas superficiais,
propiciou o aprofundamento diferencial do
manto de alteração. As investigações geoló-
gicas devem ser bastante detalhadas para
prever situações como a indicada nessa
figura e nortear um programa de investi-
gações que identifiquem a real situação do
maciço rochoso nos pontos B e C.
O ideal é que o túnel possua um recobri-
mento de rocha sã pelo menos igual a duas
vezes o seu diâmetro.
A orientação das descontinuidades em
relação ao traçado pode exercer influência
muito variada na estabilidade do teto e das
paredes laterais de escavação. Com base na
estratificação, por ser a descontinuidade
mais uniforme do maciço rochoso, podem-
-se analisar quatro casos distintos:
• Caso 1: rocha laminada com o teto do
túnel paralelo à laminação (Fig. 5.7b).
A rocha é considerada laminada quando
composta por uma sucessão de leitos pa-
ralelos, cujas espessuras são pequenas em
relação ao diâmetro ou à altura da abertura,
e quando a ligação entre os leitos é nula ou
possui resistência inferior à resistência à
tração dos leitos rochosos. Nesse caso, o
maciço pode ser considerado isotrópico para
a análise de estabilidade das paredes, que
serão estáveis, mas o teto oferece grandes
oblemas de estabilidade, em função das
:3acterísticas de resistência de cada leito,
que será discutido mais adiante.
• Caso 2: descontinuidade inclinada
e paralela ao traçado do túnel (Fig.
5.7c).
Se a= 0°, a situação é idêntica ao caso 1.
Para 0° < a < 20°, não haverá problema
::.e estabilidade nas paredes, mas a situação
:io teto será crítica e, geralmente, a forma
::o teto do túnel será condicionada pela la-
;ninação (Fig. 5.7d).
0
- -------- --u
' ' r1/'
Y, _J
...__
z
0
y....__
.... x
/
...__
CD
.
z
5 - Geotecnia das obras complementares 1 115
Para 70° < a < 90°, a situação de esta-
bilidade da escavação dependerá do estado
de tensões do maciço rochoso. Se as tensões
horizontais forem superiores a 1/ 3 das ten-
sões verticais, o maciço rochoso pode ser
considerado isotrópico e alguma caída de
blocos do teto e das paredes pode eventual-
mente ocorrer. Para evitá-la, utilizam-se
chumbadores . Caso crh < 1/3 crv, as tensões
de tração criarão grandes problemas de ins-
tabilidade no teto da escavação.
Para 20° < a < 70°, a situação de ins-
tabilidade no teto é semelhante ao caso
0
1
1
z
FIG. 5.7 Diferentes situações do traçado de um túnel: (a) decomposição diferencial das rochas; (b) desconti-
nuidade horizontal; (c) e (d) descontinuidade paralela ao túnel com inclinação para um de seus lados; (e) e (f)
descontinuidade perpendicular ao túnel; (g) descontinuidade vertical com inclinação qualquer em relação ao
túnel
116 1 Geologia de Barragens
anterior, porém a instabilidade das paredes
é maior, sendo mais iminente a ruptura por
cisalhamento em um dos lados da escava-
ção.
• Caso 3: descontinuidade inclinada e
perpendicular ao traçado do túnel
(Fig. 5.7e).
Se B = 0°, a situação é idêntica ao caso 1.
Para 0° < B < 20°, a situação das paredes
é idêntica ao caso 0° < a < 20°, mas a situa-
ção do teto é bem diferente. Agora o túnel
corre na direção do mergulho da desconti-
nuidade e, se ocorrer uma camada de baixa
resistência (Fig. 5.7.f), será muito extenso o
trecho em que o túnel terá tal camada como
teto, e isso exigirá um severo programa de
estabilização com tirantes.
À medida que B vai aumentando, dimi-
nui a necessidade de ancoragem no teto, e
não haverá problema de estabilidade para
as paredes, qualquer que seja o valor de p.
A melhor situação de intersecção de uma
descontinuidade por um túnel horizontal é
quando p = 90°.
• Caso 4: descontinuidade vertical e
fazendo um ângulo qualquer com a
direção do túnel (Fig. 5.7g).
Para y = 90°, a situação corresponde ao
caso em que a = 90°.
Para y = 0°, a situação é idêntica ao caso
em que P = 90°, ou seja, é a melhor situação
para a abertura de um túnel horizontal.
Para 70° < y < 90°, as condições do teto
e das paredes assemelham-se à situação em
que a= 90°.
Para 20° < y < 70°, algum suporte pode
ser necessário no teto e nas paredes.
5.4.3 Influência do estado
de tensões
O comportamento geomecânico de um
maciço rochoso ao ser escavado por um túnel
ou qualquer outro tipo de escavação sub-
terrânea é ditado pelo estado de tensões
gerado no entorno da abertura.
No caso de uma escavação circular, a
tensão tangencial às paredes de escavação,
sejam no teto ou lateralmente, desenvolve-
-se conforme indicado na Fig. 5.8a. Nessa
figura , a s é a tensão tangencial e CTy, a
tensão vertical. Observa-se que na crista do
teto as tensões são negativas e de mesmo
valor de ªy· Ocorre, assim, uma tração
horizontal no topo do teto do túnel de in-
tensidade igual à tensão imposta pelo peso
da rocha, considerando o efeito de arco im-
posto pela abertura.
As tensões tangenciais negativas se
anulam aproximadamente a 1/ 3 do arco
compreendido entre o raio na vertical (y) e
na horizontal (x). A partir daí, as tensões
tangenciais são compressivas, assumindo
o valor máximo na perpendicular à hori-
zontal, quando são correspondentes a 3ay.
Nessas circunstâncias, pode-se prever que
as tensões de tração no teto propiciarão a
abertura de fraturas paralelas ao traçado
do túnel, além de facilitarem a flexão de
camadas sub-horizontais. Por outro lado,
as tensões compressivas que se distribuem
para as paredes laterais aumentam as pos-
sibilidades de ruptura por cisalhamentoao longo dessas paredes, principalmente
quando as descontinuidades possuem um
ângulo a > 70° (Fig. 5.7c).
Com relação ao teto, deve-se analisar
se a geometria das descontinuidades, já
5 - Geotecnia das obras complementares 1 117
entada no item anterior, não exacerba problemas de rock bursts ou explosões na-
-?Oblema criado pelas tensões de tração. turais de rocha, quando grandes blocos
: casos mais críticos, devem-se executar podem ser destacados violentamente para
· os de flexão, deformabilidade e tração o interior da escavação.
rochas que compõem o teto. O problema das paredes laterais deve ser
_ o caso de laminações horizontais observado com mais atenção quando dois
maciço no teto, os valores de deflexão, ou mais túneis são abertos em paralelo,
- ão de cisalhamento e tensão de tração muito próximos entre si. Nesse caso, o es-
-~e atuam em uma lâmina de rocha no teto paçamento entre os túneis funciona como
:o dados pelas seguintes expressões: um pilar, o qual receberá o efeito do arque-
4 y· L
;nãx - 32E · t 2
n de:
3y· L y- L2 ' , =-- cr , =--max 4 max 2t
áx = deflexão máxima;
-=roáx = tensão de cisalhamento máxima;
máx = tensão de tração máxima;
:, = vão da lâmina no teto;
- = espessura da lâmina;
· = peso específico da rocha;
E = módulo de deformabilidade da rocha.
Para as paredes laterais, as consequências
do esforço compressivo não são as mais de-
sastrosas, a não ser que o estado de tensões
naturais ou virgens seja muito elevado, em
função da tectônica local, podendo levar a
cro
Cl"y
3
amento das tensões verticais provenientes
das duas escavações atuando simultanea-
mente. Assim, enquanto no caso de uma só
abertura a tensão cre - que assume o maior
valor quando atua perpendicularmente
no eixo horizontal (Fig. 5.8a) - decresce
rapidamente para o interior do maciço,
tornando nulo o efeito da abertura a uma
distância igual ao diâmetro da abertura
(Fig. 5.8b), esse efeito é somado quando
duas aberturas são feitas muito próximas
(Fig. 5 .8c).
Nesse caso, a tensão no "pilar" é calcu-
lada pelo valor médio <Jp, que depende da
relação entre o diâmetro da escavação (w0 )
e o espaçamento entre escavações (wp).
Por exemplo, para uma relação w0 / wp = 5,
a tensão vertical que atua no "pilar" (crp)
A+B
cro=-p- crp = (1 + WofWr)cry
FIG. 5.8 Distribuição de tensões no en torno de túneis: relação entre cre e cry nas paredes do t únel (a) e no
entorno do t únel (b); tensões sobre o pilar formado por dois túneis próximos (e)
118 1 Geologia de Barragens
existente entre as escavações é igual a 6cry,
o que pode ser suficiente para provocar a
ruptura do pilar.
Em função das descontinuidades exis-
tentes, torna-se necessário, nesses casos,
calcular a resistência do maciço rochoso
que integra o pilar e dividir essa resistência
pela tensão calculada pela equação de <Jp,
na Fig. 5.8c. Essa relação constitui o fator
de segurança do pilar contra a ruptura.
5.4.4 Influência da geometria
do túnel
A forma do túnel induz variações muito
significativas no estado de tensões gerado
no entorno da cavidade, ou, mais precisa-
mente, no teto e nas paredes.
Na Fig. 5.9 são mostrados gráficos com
base nos quais as tensões no teto e na
150:::
.8
C1J .a
+- ·;;:;
o .!: e:
"' "' E u ·x :e . .,,
C1J
E >
o o
'Bl 'Bl
e: e:
~ ~
o
'"' N "' o:'.
12
11
10
9
8
7
6
5
4
3
2
o
-1
~ = (Ak - 1)
Pz
o 2 3 4
Razão = Tensões horizontais "in situ" = k
Tensões verticais "in situ"
parede podem ser calculadas para diversas
formas de escavação, a partir do conhe-
cimento do estado de tensões virgens do
maciço rochoso (segundo Hoek e Brown,
1980). A título de exemplo, considere-se
que O"x = cry e que P z = 2,70 MPa. Analise-
-se as tensões que atuam no teto (crr) e na
parede lateral (cr5) para os seguintes tipos
de abertura: a) circular; b) elíptica com o
maior eixo na vertical; c) elíptica com
o maior eixo na horizontal.
Observa-se que cada tipo de abertura
apresenta um estado de tensões diferente.
Assim, quando for possível variar a forma
da escavação, deve-se conciliar a forma es-
colhida com as consequências que o estado
de tensões impuser à escavação, principal-
mente levando em conta a geometria das
descontinuidades do maciço rochoso.
15 o:::
' .8 .a 2 ·;;:;
o .!: e:
"' ro E u ·x :;::;
•ro :;;
E >
o o ,ro 'Bl V, e: e:
~ ~
o
'"' N ro
o:'.
Valores das contantes A e B
'""' ººººººººº A 5,0 4,0 3,9 3,2 3,1 3,0 2,0 1,9 1,8
B 2,0 1,5 1,8 2,3 2,7 3,0 5,0 1,9 3,9
6
5 ~ =(B-k)
Pz
4
3
2
o
-1
-2
-30 2 3 4
Razão = Tensões horizontais "in si tu " = k
Tensões verticais " in situ"
FIG. 5 .9 Inf/.uências da forma do túnel sobre as tensões que atuam em seu entorno
Fonte: Hoek e Brown (1980).
5.4.5 Classificação geomecânica
Em função das características geológicas
::: geomecânicas do maciço rochoso, deve-se
.:lassificar esse maciço com o objetivo de defi-
;!IT a sua aptidão para escavação subterrânea.
~xistem várias classificações geomecânicas
?<ilª escavações subterrâneas, porém as mais
~rilizadas são a de Bieniawski, proposta pelo
- uth African Council for Scientific and In-
~ustrial Research (CSIR); a de Barton, Lien e
_unde, proposta pelo Norwegian Geotechni-
cal Institute (NGI); e a de Laufer.
Pelos gráficos da Fig. 5.9, têm-se os se-
m intes valores:
a b e
crr 5,40 10,80 2,97
crs 5,40 2,70 10,80
A Tab. 5.1 apresenta a classificação de
ieniawski, por ser a mais simples e, por
:sso, a mais utilizada.
Nessa classificação, são levados em
conta critérios geológicos (características
as descontinuidades), hidrogeotécnicos
condições de percolação da água subterrâ-
:::iea) e geomecânicos (RQD e resistência à
compressão). A título de exemplo, segundo
essa classificação, o maciço rochoso da bar-
ragem de Irapé (MG) apresentou, para as
diversas obras subterrâneas previstas na-
quele projeto, um somatório de índices que
'ariou entre 67 e 87 pontos, o que permite
classificar aquele maciço como bom a muito
bom para obras subterrâneas.
5.5 ÁREAS DE ACAMPAMENTO
E DE CANTEIRO DE OBRAS
As áreas de acampamento e, principal-
5 - Geotecnia das obras complementares 1 119
mente, de canteiro de obras, geralmente
são localizadas em função de dois aspectos
principais: proximidade da obra e condições
topográficas. Assim, é pouco provável que o
fator geológico pese muito na escolha dessas
áreas, razão pela qual o papel da geologia
nesses casos tem sido resolver os problemas
gerados por uma localização que não atenda
às melhores condições geológico-geotécnicas.
Em geral, os problemas nessa área são:
• instabilidade de taludes em cortes
e aterros;
• geração de focos de erosão;
• inundações em áreas baixas próximas
às obras;
• obtenção de água para consumo.
Outros problemas são ligados à de-
gradação ambiental e serão abordados no
Cap.11.
A área de acampamento, por exigir ex-
tensões maiores, geralmente fica mais
distanciada da obra, e sua localização pode
ser mais adequada às condicionantes geoló-
gicas, geotécnicas e hidrogeológicas. Nesse
caso, o problema de inundação pode serdes-
cartado, pois geralmente o acampamento
fica localizado em áreas mais elevadas.
Dependendo do porte da obra, o con-
sumo de água para o acampamento pode ser
o maior problema e, nesse caso, o geólogo
deve perscrutar as melhores possibilida-
des de exploração das águas subterrâneas,
pois, além de constituir uma captação mais
barata, pode eliminar maiores aduções e
sistema de tratamento. Tal solução também
implica problemas ambientais muito me-
nores que a captação de água superficial,
principalmente se for necessária a constru-
ção de barragem para esse fim.
TAB. 5.1 Classificação geomecânica de maciços rochosos para túneis
-~ r<J ~í_n_d_ic_e_d_e_c_o_m_p_r_e_ss_ã_o_p_o_n_t_ua_l-+-___ 8_M_P_a ___ +-___ 4_-8_M_Pa___ +-__ 2_-4_M_P_a __ -+-___ 1_-2_M_P_a __ --+_U_t_ili_z_ar_e_n_s,a_io_d_e_co_m-.-p_r._s_i m_pl_e_s
~.c~--
u 10-25 3-10
~ ~ ~ Resistência à compr. simples 200 MPa 100-200 MPa 50-100 MPa 25-50 MPa MPa MPa 1-3 MPa
~ ~ 1------------+----------+----------+--------+----------+----+----+----
P e s o relativo 2 1 O 15 12 7 4
R.Q.D. % 25
21-----------------1--------+---------+--------1--------+-------------
90-100 75-90 50-75 25-50
Peso relativo 3 20 17 13 8
Espaçamento de fraturas < 50 mm
31-----'---'-------------1--------+---------+--------1--------+-------------
3m 1-3 m 0,3 -1 m 50-300 mm
Peso relativo 5 30 25 20 10
4 Condições das fraturas
5
rd
<lJ
e cê
<lJ ...,
..o
:J
V,
rd
:J
b.O
·<(
Peso relativo
Infi ltração em 10 m de túnel
Relação:
Pressão de água na fratura
Tensão principal máxima
Cond ições gerais
Peso relativo
Direção e mergulho
Peso relativo
Classe nº
Descrição
Soma dos pesos relativos
Tempo méd io de autossustentação
Coesão
Ângulo de atrito
1 ,,,,1, 1111 111 1 • 11 ( I" /1,
Superfícies
Superfícies pouco
Superfícies
muito rugosas. Não pouco rugosas.
contínuas. Fechadas.
rugosas. Separação
Separação < 1 mm.
Paredes duras
< 1 mm. Paredes duras
Paredes moles
25 20 12
nenhuma ou < 25 L/min ou
Oou ______ _ 0,0-0,2 ou
Completamente seco Umidade
10 7
Ajuste para orientação das descontinuidades
Muito favorável Favorável Aceitável
o -2 -5
Classes de maciço
l i Ili
Muito bom Bom Regu lar
100-81 80-61 60-41
Significado das classes
10 anos para 6 meses para 1 semana para
vão de 5 m vão de 4 m vão de 3 m
> 300 kPa 200-300 kPa 150-200 kPa
> 45° 40°-45° 35°-40°
Superfícies estriadas
ou preench. < 5 mm
ou abertura 1-5 mm.
Fraturas contínuas
6
25-125 L/mi r ou
0,2-0,5 ou
Água sob pressão
moderada
4
Desfavorável
-10
IV
Pobre
40-21
5 horas para
vão de 1,5 m
100-150 kPa
30°-35°
Preenchimento mole
> 5 mm ou abertura
> 5 mm. Fraturas contínuas
o
> 125 L/min ou
0,5 ou
Prob lemas graves de água
o
M uito desfavorável
-12
V
Muito pobre
20
10 min para vão de 0,5 m
< 100 kPa
< 30º
Deve-se levar em conta que tanto a área
de acampamento quanto a de canteiro de
obras podem constituir-se em obras per-
manentes. A primeira, por ser geralmente
utilizado o acampamento para outra finali-
dade após a construção da obra; a segunda,
porque em grande parte dessa área serão
construídas obras . Assim, os problemas
gerados não devem ser tratados como se
relativos a obras temporárias, onde as solu-
ções nem sempre são duradouras.
5.6 ACESSOS
Os acessos também serão, em grande
parte, utilizados após a construção das
obras, exceto aqueles para áreas de emprés-
t imos e pedreiras. Assim, deve-se tratá-los
como obras permanentes, com seus traça-
dos definidos no sentido de evitar grandes
obras de infraestrutura e oferecer a máxima
segurança ao tráfego de veículos leves e pe-
sados.
Os maiores problemas para a esco-
lha do traçado são relacionados com a
interação topografia/geologia. A dificul-
dade de atingir os vales mais profundos
através de encostas muitas vezes com acen-
tuada declividade impõe soluções que nem
sempre conseguem evitar a ocorrência de
problemas geológico-geotécnicos. Nesse
caso, os maiores problemas relacionam-se
com a estabilidade de taludes de corte e
aterro nas estradas a meia encosta.
Os principais aspectos a observar nesses
taludes são:
• natureza geológica do talude a proce-
der o corte;
• características de resistência ao
cisalhamento do solo;
5 - Geotecnia das obras complementares 1 121
• presença de estruturas reliquiares no
solo e no saprólito;
• relações entre as descontinuidades do
maciço rochoso e o talude do corte;
• natureza da cobertura vegetal da
encosta;
• presença de trincas a montante da
área de corte;
• relação entre as drenagens de encosta
e os taludes a serem abertos;
• características da encosta onde será
executado o aterro;
• possibilidades de uso do material de
corte no aterro;
• localização de bota-fora proveniente
de material de corte não aproveitado;
• eventuais jazidas de empréstimos
para aterro.
Nas encostas de elevada declividade,
deve-se estudar a possibilidade de construir
estradas mais estreitas e de mão única, con-
forme mostra o esquema da Fig. 5.10a. Essa
solução apresenta as seguintes vantagens:
• economiza a escavação do trecho
hachurado na figura;
• reduz a altura de corte, o que
aumenta a segurança do talude;
• reduz o risco de abalroamento de
veículos;
• facilita a drenagem, o que reduz os
problemas de erosão.
A única desvantagem é impedir as ul-
trapassagens, principalmente na eventual
quebra de veículos . Isso pode ser resol-
vido com a construção de alguns nichos
(Fig. 5.10b).
122 1 Geologia de Barragens
f-----,
Mão única
Mão dupla
-- ------ -
FIG. 5 .10 Infl.uência da topografia nas estradas de acesso: (a) configuração em duas vias de mão única;
(b) construção de nichos para ultrapassagens ou para atender à quebra de veículos
5.7 ENSECADEIRAS
Ensecadeiras são obras de barramento
temporário para permitir a construção
da barragem e obras complementares em
terreno seco. Para tal, deve-se construir
uma ensecadeira a montante e outra a ju-
sante da barragem, e desviar o curso do rio
a partir do lago formado pela ensecadeira
de montante até ultrapassar a ensecadeira
de jusante. Esse desvio pode ser feito por
meio de canal, mas geralmente é feito
por meio de túnel, que será posteriormente
tamponado ou aproveitado parcialmente
como obra definitiva (limpeza de fundo
ou vertedouro). As ensecadeiras podem
também ser destruídas após a conclusão da
obra ou incorporadas à própria obra.
Embora constituam um problema cons-
trutivo, de responsabilidade do engenheiro
projetista, as ensecadeiras também apre-
sentam problemas de fundações, além de
algumas implicações com a própria obra
de barramento, razão pela qual serão abor-
dadas no presente capítulo.
Em princípio, as ensecadeiras podem ser
consideradas "obras de risco", pois, além
de dimensionadas para vazões estimadas
para tempo de recorrência curto (10 a 50
anos), terão que ser construídas por meio
do lançamento dentro do rio, sem qualquer
compactação artificial, o que exige muita
engenhosidade não só em seu projeto, mas
principalmente em sua construção.
5.7.1 Configuração em planta
A disposição das ensecaderias em planta
depende de dois aspectos: largura do rio e
arranjo das obras. Em função desses dois
aspectos, pode-se optar por um dos seguin-
tes tipos de disposição: barramento parcial
ou barramento total do rio.
No barramento parcial, a ensecadeira
tem a forma de U deitado, com as duas ex-
tremidades fixadas nas margens do rio e a
parte curva dentro do rio (Fig. 5.lla).
Nessa opção, a obra é construída em
duas ou mais etapas . No caso mais sim-
ples (duas etapas), a obra é construída
na primeira etapa, no interior do U, que e
:-reviamente secado por meio de bombea-
ento da água que aí ficará retida. Nessa
e~pa, o rio continua fluindo no trecho não
:::nsecado (Fig. 5.lla). A obra construída
essa etapa deve incluir as estruturas de
:oncreto necessárias (vertedouro, toma-
.ias d' água etc.), devidamente providas de
adufas para permitir o fluxo das águas na
segunda etapa. Concluída a primeira etapa,
..:estroem-se as ensecadeiras em forma
e U, permitindo que o fluxo do rio passe
-ambém pelas adufas. Inicia-se a segunda
etapa pela construção de duas novas en-
ecadeiras que irão abraçar a estrutura
de concreto já existente, direcionando o
à uxo do rio para as adufas construídas
Fig. 5.llb). Secando-se o novo trecho
ensecado, completa-se a construção da bar-
ragem conforme mostrado nessa figura .
Findo o processo, eliminam-se as enseca-
deiras, fecham-se as adufas e inicia-se o
enchimentodo reservatório formado. A
grande vantagem dessa alternativa é dis-
pensar o desvio do rio.
No barramento total, são construídas
duas ensecadeiras e um dispositivo de
0 ~1 Ensecadeira
o
o ·;::
·;:: o
o o Adufas "D "D ·;:: "' "' o -e ...., "D 111111 :~ 111111 Q) o 111111 :::,
X 111111 O" "D :::, 11111 1 V,
E ü:
11111, Q)
Q) E
!:_ll Q)
"' !:_ll ~ !{ ;, . "' ~
5 - Geotecnia das obras complementares 1 123
desvio do rio (Fig. 5.12). Essa alternativa
é a mais empregada quando o curso do rio
apresenta uma largura que não permite o
seu barramento parcial para a constru-
ção da barragem. O exemplo dessa figura
corresponde à barragem de Foz do Areia,
no Paraná.
5.7.2 Construção da ensecadeira
a) Ensecadeira fundada em rocha
A ensecadeira fundada em rocha é
construída em duas etapas: pré-ensecadeira
e alteamento. A pré-ensecadeira é executada
com material lançado sem compactação,
preferencialmente na época em que a vazão
do rio encontra-se mais reduzida. Em geral,
a pré-ensecadeira é construída de forma
submersa, por um trecho em enrocamento,
seguindo-se em direção de montante,
por um material de transição (pedrisco e
areia) e por um material vedante (argiloso),
como indicado na Fig. 5.13. O alteamento,
por sua vez, é executado com uma parte
submersa (enrocamento), porém a maior
parte é construída a seco, com compacta-
CD
o
·;::
o
"D
.is
-~
'6
E
Q)
t>O
~
~
Ensecadeira
de montante
CM
Ensecadeira
de jusante
o
·;::
o
"D
o
X
:::,
ü:
l o ·;:: o "D
"' -e
Q)
:::,
~
Q)
E
Q)
!:_ll
"' ~
FIG. 5.11 Ensecadeira por barramento parcial do rio: (a) primeira etapa; (b) segunda etapa
124 1 Geologia de Barragens
ção (Fig. 5.13). A parte emersa geralmente é
constituída por um enrocamento a jusante
e um material vedante (argiloso) a mon-
tante, com a transição entre esses materiais
construída por areia e pedrisco.
Embora os materiais aqui apresentados
sejam os mais comumente utilizados para
a configuração das ensecadeiras, são co-
nhecidas ensecadeiras compostas dos mais
diferentes tipos de materiais, como estacas
de aço, madeira, sacos de areia e cimento,
enrocamento injetado com argamassa e até
de concreto, como a ensecadeira da barra-
gem de Funil, no Rio de Janeiro.
Também é comum fazer a incorpora-
ção das ensecadeiras no próprio corpo da
barragem (Fig. 5.14); nesses casos, porém,
embora constitua urna solução econômica,
é necessário que sejam rigorosamente obe-
decidos os mesmos requisitos de segurança
adotados para a barragem.
b) Ensecadeiras fundadas em solo
Geralmente o solo existente no leito
do rio é de origem aluvionar e, na maioria
das vezes, constituído por areia ou cas-
calho. Ocorre que, em rios que alternam
períodos de baixas e de elevadas vazões,
pode haver alternância de materiais finos
Material
vedante
Pré-ensecadeira
Tú neis
de desvio
Ensecadeira
\'1'l!WIIJl.!illlt,-✓ de jusante
FIG. 5 .1 2 Ensecadeira por barramento total do rio
(barragem de Foz do Areia - PR)
Fonte: modifzcado de CBGB (1982b).
e grossos, o que pode criar problemas de
deforrnabilidade e estabilidade das fun-
dações dessas ensecadeiras. Nesses casos,
é comum lançar sem compactação uma
camada de solo arenoargiloso ao longo
de uma faixa de largura bem superior à
Alteamento
Enrocamento
FIG. 5.13 Etapas de pré-ensecadeira e alteamento na construção de uma ensecadeira
Fonte: modifzcado de Cruz (1996).
Ensecadeira
de montante
5 - Geotecnia das obras complementares 1 125
Barragem principal
FIG. 5.14 Ensecadeiras incorporadas à barragem
:onte: modif,. cado de Cruz (1996).
oase prevista para a ensecadeira, em todo
o trecho submerso, formando uma pré-
-ensecadeira (Fig. 5.15). O alteamento será
eito na parte emersa por meio da compac-
~ação do material vedante, como mostrado
nessa figura, e pode, eventualmente, contar
com uma proteção de enrocamento no es-
paldar de jusante.
5.7.3 Aspectos geotécnicos
a) Fundações
Dada a dificuldade de coletar amostras
indeformadas de materiais inconsolidados
submersos, a caracterização das fundações
nos locais previstos para ensecadeiras deve
ser feita por meio de sondagens a percus-
são sobre plataforma fixa ou flutuante ,
definindo, por meio do SPT e da coleta com
amostradores especiais, o tipo de material
que recobre a rocha, bem como a sua espes-
sura. Esse estudo deve ser mais detalhado
quando se tenciona incorporar a enseca-
<leira ao corpo da barragem, pelos motivos
já explicitados no item anterior.
b) Materiais de construção
Antes de construir as ensecadeiras, é
necessário ter um bom conhecimento das
disponibilidades de materiais naturais
de construção, para evitar que o seu uso
nessas obras comprometa a sua utilização
na barragem principal. Como exemplos da
nefasta interferência entre a ensecadeira e
a obra, no que tange à utilização de mate-
riais de construção, podem ser citadas as
barragens de Passaúna e de Rosana. No pri-
meiro caso, a utilização de solo argiloso nas
ensecadeiras comprometeu o volume ne-
cessário desse material para a construção
do núcleo da barragem. No segundo caso,
foi necessário utilizar solo-cimento para
construir o rip-rap da barragem porque as
ensecadeiras consumiram os poucos blocos
de rocha não desagregável que poderiam
ser utilizados como rip-rap.
Solo
Compactado
FIG. 5 .15 Ensecadeira fundada em solo
ionte: modif,. cado de Cruz (1996).
Solo de vedação lançado
Aluvião
6 Investigações para obras de barragens
Entende-se por investigação ou pes-
-: · sa no estudo de uma barragem o
: njunto de operações que permitam
..;.:na perfeita caracterização de todas as
-_·ções geológicas e geotécnicas passíveis
- ser relacionadas com a implantação
-.,sse tipo de obra. A metodologia da
- squisa envolve desde a investigação
- campo, incluindo os estudos superfi-
· s, os diferentes meios prospectivos e
- ensaios tecnológicos desenvolvidos in
u, até os testes realizados em labora-
rio. Os estudos superficiais iniciam-se
escritório por meio do levantamento e
= análise dos dados fisiográficos , geoló-
- os, hidrogeológicos e geotecnológicos
=o apenas do local de barramento, mas
- oda a bacia hidrográfica contribuinte.
rue-se, ainda no escritório, a caracteri-
cào preliminar dessa área por meio da
-ointerpretação geológica. Esses estu-
têm continuidade em campo, com a
_rição da fotogeologia , caracterização
itu dos aspectos geológicos e geotéc-
os da bacia e dos locais de obra, além
·dentificação superficial dos materiais
rais de construção e dos prognósti-
- dos impactos ambientais.
.Sssa pesquisa superficial acha-se deta-
por etapa de investigação no Cap. 2
Será concluída com a programação das
est:igações subsuperficiais, por meio dos
entes tipos de prospecção, bem como
_ ensaios que se fizerem necessários para
o perfeito conhecimento das feições geoló-
gicas e geotécnicas do projeto a implantar.
O mais importante na programação
dessa pesquisa é racionalizar o seu uso em
função das reais necessidades requeridas
por cada etapa de investigação discutida
no Cap. 2. Isso porque o custo dessas in-
vestigações cresce muito com o grau de
detalhamento requerido nas fases de pro-
jeto básico e projeto executivo, razão
pela qual é totalmente desaconselhável
a realização de métodos mais avançados
de investigação antes que seja compro-
vada a viabilidade técnica e econômica da
obra na etapa de viabilidade. Esses cuida-
dos devem levar em conta não apenas o
tipo de investigação, mas também a sua
quantificação, uma vez que alguns tipos
de prospecção e de ensaios são iniciados
já na fase de viabilidade, como mostrado
no Cap. 2, continuando nas fases de de-
talhamento do projeto. Assim, deve-se
quantificar um número m ínimo desses
processos investigatórios na fase de viabi-
lidade, desde que atendam ànecessidade a
que se propõem, e aumentar esse número
nas etapas seguintes.
Outros aspectos relevantes na progra-
mação de uma investigação são: tipo de
obra, porte da obra, natureza geológica
do local de implantação, riscos envolvidos
e meio ambiente. Explicitou-se no Cap. 2
que uma das recomendações a ser feita no
relatório relacionado com a fase de inven-
128 1 Geologia de Barragens
tário ou plano diretor seria a indicação
do melhor tipo de barragem a projetar
para o local a ser investigado. Nessas
circunstâncias, o geólogo encarregado
de programar as investigações a partir
da etapa de viabilidade deve estar certo
de que as pesquisas programadas são as
mais adequadas para o tipo de barragem
preconcebido. Se as condicionantes envol-
vidas com a obra prevista contemplarem
outros tipos de obra que, na fase de via-
bilidade, possam ser cotejados com o tipo
preconcebido, é obrigação do geólogo abrir
o leque de investigações de modo a aten-
der às necessidades exigidas pelos demais
tipos passíveis de ser projetados.
O porte da obra também influi muito
na programação das investigações. Assim,
uma barragem com 20 m de altura deverá,
em princípio, exigir uma investigação
bem menos onerosa que uma barragem
com 100 m ou mais de altura.
A natureza geológica do local de im-
plantação das obras, tanto da própria
barragem como das obras auxiliares dis-
cutidas no Cap. 4, é fundamental para
uma perfeita adequação dos processos
investigatórios . Por exemplo, é muito di-
ferente o tipo de investigação programada
para uma barragem implantada sobre
uma aluvião espessa, daquele indicado
para uma fundação rochosa.
Os riscos envolvidos pela obra são
geralmente associados à possibilidade
de ruptura da barragem. Para minimizar
esses riscos, a investigação deve esclarecer
muito bem todas as feições que possam
comprometer a segurança das obras a pro-
jetar, bem como as possíveis consequências
de um acidente catastrófico para as popu-
lações localizadas a jusante das obras.
Finalmente, as investigações devem
ser programadas com a preocupação de
reduzir significantemente os impactos
ambientais decorrentes da implantação
das obras associadas à barragem a projetar.
Nas investigações que serão comenta-
das a seguir, será sempre indicada a melhor
forma de sua utilização em cada etapa de
projeto e, quando possível, quantificado
o tipo de pesquisa abordado. Embora os
diversos tipos de prospecção e de ensaios
sejam normalmente terceirizados com
companhias especializadas, é necessário
que o geólogo responsável pela Geologia
e Geotecnia de um projeto de barragem
conheça as particularidades, vantagens e
desvantagens de cada investigação. Esse
conhecimento não apenas lhe permite
adequar cada método programado à sua
situação específica, mas também lhe pro-
porciona meios de promover uma melhor
fiscalização dos trabalhos contratados.
6.1 TIPOS DE PROSPECÇÃO
A prospecção para uma obra de barra-
mento é uma forma de pesquisa que visa
caracterizar todas as feições naturais do
local em que será implantada a obra, não
apenas em superfície, mas até a profun-
didade que poderá interferir ou sofrer
interferência dessa obra. Em função do
contato com essas feições , principalmente
geológicas e geotécnicas, a prospecção
pode ser: indireta, semidireta e direta.
A prospecção indireta é aquela em
que não há qualquer contato entre o in-
vestigador e o material investigado, e o
conhecimento desse material é obtido
por meio da identificação de suas pro-
:-riedades físicas. Essa identificação é
.ealizada por meio da Geofísica, e as prin-
apais propriedades físicas investigadas
são: velocidade de propagação de ondas
sísmica), condutividade elétrica (ele-
orresistividade), propriedade dielétrica
radar), densidade (gravimetria) e susceti-
ilidade magnética (magnetometria) . No
. resente texto, serão abordados apenas os
rrês primeiros métodos geofísicos citados,
:>ar serem aqueles que encontram maior
aplicação nos projetos de barragem.
A prospecção semidireta não leva o
::nvestigador até a profundidade em que
o material (solo ou rocha) se encontra,
;nas permite o seu contato direto por meio
e amostras colhidas pelos diversos tipos
e sondagens. A prospecção direta, por
-ua vez, permite ao investigador um con-
~ato direto com o material investigado,
?ºr meio de escavações como poços, trin-
cheiras e túneis .
A seguir, serão comentados esses dife-
rentes tipos de prospecção, sempre com
a indicação de suas vantagens e desvan-
~agens, não apenas operacionais, mas
também em função da relação custo/ be-
efício.
6.2 PROSPECÇÃO INDIRETA
6. 2 .1 Eletrorresistividade
a) Princípios do método elétrico
A prospecção elétrica baseia-se nos
efeitos produzidos pela passagem de uma
corrente elétrica através de solos e rochas.
Os minerais que constituem esses mate-
riais apresentam diversas propriedades
6 - Investigações para obras de barragens 1 129
elétricas, entre as quais podem ser citadas:
potencial elétrico, condutividade elé-
trica (ou o inverso, resistividade elétrica),
constante dielétrica e permeabilidade
magnética. Dessas propriedades, a condu-
tividade elétrica é a mais importante para
a prospecção elétrica; as demais têm uma
significância bastante reduzida.
O método de eletrorresistividade
baseia-se, fundamentalmente, na Lei de
Ohm, descoberta experimentalmente
pelo alemão Georg Simon Ohm (Feitosa
et al., 2008). Essa lei expressa a proporcio-
nalidade entre a intensidade de corrente
elétrica que percorre um condutor me-
tálico e a diferença de potencial entre os
terminais desse condutor (Fig. 6.1).
Condutor de comprimento t.L, resistência t.R e
seção transversal t.A
m n
_é'_ )l ) l'>R
l'>L _____;_
M
Vm · Vn = -l'>V
i - intensidade da corrente elétrica (amperes)
R - resistência do material à passagem da corrente
elétrica (ohms)
V - potencial nos terminais M e N (volts)
L - comprimento do tubo condutor (m)
A - seção do tubo condutor (m2)
FIG. 6.1 Fundamentos da Lei de Ohm
Pela Lei de Ohm:
l'>i
(6.1)
A resistência elétrica do condutor varia
na razão direta do seu comprimento e na
razão inversa de sua seção, resultando na
seguinte expressão:
130 1 Geologia de Barragens
(6.2)
onde p é o fator de proporcionalidade de-
nominado resistividade. Esse fator, ao
contrário da resistência, é um parâmetro
que caracteriza o material, independen-
temente de suas dimensões.
Pode-se deduzir a medida da re-
sistividade a partir da expressão (6.2)
como segue:
2
L1R.M ohm.m h (,..,. )
p=---· =o m.m ~lm
L1L m
Pode-se, em alguns casos, utilizar
também a unidade ohm.cm (1 ohm.m =
100 ohm.cm).
A condutividade elétrica (cr) é o in-
verso da resistividade, ou seja:
1 L1L
CT= -=---
p L1R·M
Sua unidade será:
a= [m / (ohm.m2 )] = [1 / (ohm.m)] =
[(1 / ohm) · (1 / m)] = mho/m
(6.3)
De todas as propriedades físicas dos
minerais e rochas, a resistividade elé-
trica (p) é a que permite maior variação,
a saber, desde 1016 ohm.m (enxofre puro)
até 1,6 x 10-8 ohm.m (prata nativa).
Em função desse valor, os materiais
admitem a seguinte classificação:
Condutor: p < 10-5 ohm.m
Semicondutor: 10-5 < p < 107 ohm.m
Isolante: p > 107 ohm.m
Muitas rochas que são, por natureza,
semicondutoras ou até isolantes, podem
tornar-se condutoras quando se encon-
tram saturadas, quer através de seus
poros (rochas sedimentares) ou de suas
fissuras (rochas ígneas e metamórficas).
Nesses casos, a condutividade é eletrolí-
tica, por ocorrer através de um eletrólito,
que é a água. Essa condutividade poderá,
ainda, ser bastante elevada em função da
concentração de sais contidos na água.
A Tab. 6.1 mostra exemplos de resis -
tividade para vários tipos de rochas em
diferentes ambientes e de idades diferen-
tes, segundo Keller (1966), mostrando
quea resistividade aumenta com a idade
das rochas e diminui com a umidade,
principalmente se em presença de água
salinizada.
TAB. 6.1 Resistividades em função da idade das rochas e do ambiente de formação
Sedimento Sedimento Rochas Rochas Rochas
Idade geológica
marinho terrestre vulcânicas extrusivas carbonáticas
(arenito, (arenito, (basalto, (granito, gabro (calcário,
folhelho etc.) argilito etc.) riolito etc.) etc.) dolomito etc.)
Quaternário -
1 - 10 15 - 50 10 - 200 500 - 2.000 50 - 5.000 Terciário
Mesozoico 5 - 20 25 - 100 20 - 500 500 - 2.000 100 - 10.000
Carbonífero 10 - 40 50 - 300 50 - 1.000 1.000 - 5.000 200 - 100.000
Paleozoico 40 - 200 100 - 500 100 - 2.000 1.000 - 5.000 10.000 - 100.00
Pré-cambriano 100 - 2 .000 300 - 5.000 200 - 5.000 5.000 - 20.000 10.000 - 100.00C
A Tab. 6.2 most ra exemplos do au-
mento da condutividade de algumas
rochas em presença da água, segundo Tel-
ord, Geldart e Sheriff (1990).
Isso explica porque a argila é muito
melhor condutor que a areia. Em primeiro
lugar, os grãos da argila são infinitamente
menores que os da areia, propiciando uma
maior superfície específica para adesão
da água em suas partículas; em segundo
ugar, porque, como os poros da argila são
muito reduzidos, propiciam a entrada da
água pelo efeito da capilaridade. Assim,
pode-se dizer que a condutividade elétrica
das rochas depende dos seguintes fatores :
• litologia e composição mineralógica;
• porosidade total da rocha;
• geometria dos poros e extensão de
seu preenchimento;
• geometria das fraturas e fissuras e
respectivos graus de abertura;
• resistividade da água de saturação
(parcial ou total).
Por outro lado, a laminação de rochas
de origem argilosa, como o folhelho e a
ardósia, propicia uma elevada anisotropia
TAB. 6.2 Variação da resistividade das
rochas na presença da água
Rocha % H20 p (ohm.m)
Siltito
0,54 1,5x1O4
0,38 5,6 X 108
Arenito
1,00 4,2 X 103
0,10 1,4 X 108
Calcário
1,30 6,0 X 103
0,96 8,0 X 104
0,31 4,4 X 103
Granito 0,19 1,8 X 106
o 1010
Basalto
0,95 4,0 X 104
o 1,3x1O8
6 - Investigações para obras de barragens 1 131
na condutividade elétrica, uma vez que
a maior retenção da água ocorre nesses
planos de estratificação, conferindo maior
condutividade ao longo desses planos do
que no sentido perpendicular a eles. O
mesmo não ocorre com o arenito, cujas
propriedades elétricas se aproximam mais
de um meio isotrópico.
b) Medição da resistividade
A medição da resistividade p do
subsolo é feita com a utilização de um sis-
tema quadripolo (Fig. 6.2).
Por meio desse quadripolo, o circuito
elétrico é fechado através de dois eletro-
dos (A e B) cravados no solo, permitindo
a medição da corrente I no amperímetro.
A diferença de potencial (tN ) resultante
dessa corrente é medida entre dois outros
eletrodos (M e N) cravados no solo, no
domínio de influência da corrente I, por
meio de um potenciômetro.
Caso a separação dos eletrodos A e
B seja pequena e suficiente para deter-
minar com segurança a resistividade
de uma única camada (AB1 na Fig. 6.3),
cujas características se aproximem da
homogeneidade e isotropia, pode-se con-
siderar como real a resistividade obtida,
embora, na prática, essa possibilidade seja
remota.
O que geralmente ocorre é que a se-
paração entre os eletrodos "capta" a
resistividade de duas camadas (AB2 na
Fig. 6.3), ou heterogeneidades e/ou ani-
sotropias dentro de uma mesma camada.
Nesse caso, considera-se como resistividade
aparente aquela obtida na investigação.
Dependendo da separação entre A e
B na Fig. 6.3, poderão predominar na re-
1 32 1 Geologia de Barragens
Amperímetro Fonte •
r·•--···· .. ··········••U• "'·····-··-········ .. ········+ 11 ·•······••U••······· ?_circuito AB ............ .
dl
• ,•• •• •n••••• .. •••• ................. ... • .. ••• .. ••• • .. • • •• •••\,
i i Circuito MN (tN) i
l ! r ........ p ••• • ..i
A i ; M N ; Potenciômetro 8
Equipo~
Linhas de corrente
FIG. 6.2 Medição da resistividade do subsolo
Fonte: modi fi cado de Feitosa et ai. (2008).
A B, B,
1 I
1 I
p,
\ I
'
/
/
" ---------
p,
FIG. 6.3 Resistividades captadas em mais de
uma camada
A disposição do quadripolo encontra
uma grande variedade na literatura espe-
cializada, porém os tipos mais utilizados
são aqueles dispostos linearmente e que
guardam uma simetria entre os quatro
eletrodos e um ponto central a eles. São,
portanto, denominados quadripolos linea-
res simétricos. Os dois mais comuns são o
Schlumberger e o Wenner, esquematiza-
dos na Fig. 6.4.
Fonte: modificado de Fernandes (1984).
sistividade aparente final os efeitos da
resistividade p1 ou p2. A resistividade
aparente (pa) pode ser medida com o auxí-
lio do quadripolo indicado na Fig. 6.2, por
meio da seguinte equação:
Pa =K · !'N
I
(6 .4)
onde K é a constante geométrica do qua-
dripolo e corresponde à expressão:
K= rc- AM· AN
MN
No quadripolo Wenner, as distâncias
AM, MN e NB são iguais, enquanto no
Schlumberger a distância MN deve ser
menor que AB/ 5. O quadripolo Wenner
apresenta as vantagens de manter sempre
elevada a diferença de potencial fN e de
ser de fácil mensuração. Como desvanta-
gens, podem ser citadas duas principais:
torna as operações de campo mais lentas
e não permite distinguir entre efeitos
profundos e os eventualmente decorren-
tes de heterogeneidades superficiais. O
o
M
f
N B
i l l l
Schlumberger (MN < AB/5)
o
M
1
N B
i l l l
Wenner (AM = MN = NB)
FIG. 6.4 Quadripolos lineares simétricos
quadripolo Schlumberger tem como van-
~ gens principais agilizar as operações
e campo e possibilitar distinguir entre
efeitos profundos e superficiais. Sua prin-
cipal desvantagem é tornar mais difíceis
e menos precisas suas medições, princi-
?almente em presença de horizontes mais
resistivos, como as areias secas.
c) Técnicas de medição
Entre as variadas técnicas adota-
das para medição das resistividades
aparentes, serão analisadas as duas mais
empregadas na geologia de barragens:
sondagem elétrica vertical (SEV) e perfil
,;e eletrorresistividade.
- ndagem elétrica vertical - SEV
Como seu próprio nome indica, essa
e uma técnica de exploração vertical, em
• e é mantido fixo o centro do quadripolo,
realizando-se uma série de medições de re-
sistividade aparente por meio do aumento
::a distância AB a cada nova medição. Com
aumento de AB, a corrente elétrica, em
-ese, circulará a profundidade maior que
:ia medição anterior. Os valores de resis-
:ividade aparente obtidos por tal técnica
são plotados graficamente em papel bilo-
5arítmico, contra os respectivos valores
6 - Investigações para obras de barragens 1 133
de AB/ 2, propiciando a representação
gráfica da função Pa (AB/ 2). A curva resul-
tante dessa plotagem é denominada curva
de resistividade aparente, diagrama elétrico
ou, simplesmente, sondagem elétrica verti-
cal (SEV). A Fig. 6.5 mostra dois exemplos
de SEVs, em que foram investigadas três
camadas de diferentes resistividades.
Perfil de resistividade
A técnica de perfr_l de resistividade,
também denominada de caminhamento
elétrico, explora a continuidade horizon-
tal e vertical da resistividade aparente
no subsolo. Por meio dessa técnica, todo
o quadripolo é deslocado a cada nova
medição. Como o comprimento da linha
AB permanece constante, é possível in-
vestigar o subsolo lateralmente a uma
profundidade constante. Se a superfície
do terreno for horizontalizada, os levan-
tamentos serão à cota constante. Ao longo
de um perfil de resistividade é possível
identificar descontinuidades verticais,
como falhas em rochas sedimentares e
fraturas em rochas cristalinas. A pro-
fundidade de investigação corresponde
aproximadamente a 20% do comprimento
da linha AB. As Figs. 6.6 e 6.7 mostram as
diferenças entre a SEV e a perfilagem.Uma vez que a profundidade é cons-
tante nessa técnica de prospecção, é
possível, com os dados obtidos em cada
ponto, construir um mapa de isorresistivi-
dade da área investigada em profundidade,
como mostra o exemplo da Fig. 6.8.
Com base nesse mapa, podem-se fazer
as seguintes ilações geológicas:
• A área é dominada por solo ou rocha
sedimentar.
134 1 Geologia de Barragens
E
E
.L
º 2
e
<l)
~
o..
"' "' ·u
e
~ =
~
SEV Tipo Resistivo-Condutivo-Resistivo
Horizon te Resistivo
Horizonte Cóndutivo
AB/2 (m)
~
E
.L
º 2
e
e!
SEV Tipo Condutivo-Resistivo-Condutivo
g_ 1.---'
"' "' ·u
e
~
" e,::
Horizonte Cóndutivo
AB/2 (m)
FIG. 6.5 Exemplos de sondagens elétricas verticais (SEV)
Fonte: modificado de Feitosa et ai. (2008).
-,
I
FIG. 6.6 SEV
.-1<----'
i _ , ~f7,-, - i ...... ~... ...
A M N B
FIG. 6.7 Perfilagem elétrica
• Na área indicada por R, é provável a
ocorrência de rocha ígnea.
• A água salina do mar invade a área
sedimentar com concentração decres-
cente no sentido de sua interiorização.
P,
P,
--------,_ / __./ '.
\
\
AB/ 2
,.
.... --- "' \ ,- -· ...... __ ,,,,, -~ [!,. \
1 ' _ ,.
I
t--------------------- x
• É provável a presença de material
mais permeável (talvez um paleo-
vale) no entorno da seta maior, por
onde a água salina penetrou com
maior facilidade.
Evidentemente, para cada profundi-
dade investigada pode-se construir um
mapa idêntico ao da Fig. 6.8, o que per-
mite correlações geológicas a diferentes
profundidades e a construção de perfis
como o mostrado na Fig. 6.10.
d) Aplicações do método elétrico
para barragem
Em princípio, qualquer método de pros-
?ecção indireta tem suas limitações, dada
a variabilidade de resultados passíveis de
obter em consequência de condicionan-
-es como: variação da propriedade física
intrínseca da rocha e dos seus minerais;
200
100
50
30
25
20
6 - Investigações para obras de barragens 1 135
heterogeneidades, descontinuidades e
anisotropias dos meios (solo e rocha),
principalmente em decorrência dos efei-
tos diferenciais da intemperização; e
presença de agentes externos, como a
água. Nesse sentido, a prospecção elétrica
é das mais inseguras, principalmente em
função de dois fatores: a condutividade
elétrica dos minerais e rochas é aproprie-
dade física mais variável desses materiais;
a água propicia a condutividade eletrolí-
tica que pode afetar significantemente a
resistividade aparente desses materiais.
Assim, uma determinada resistividade
aparente pode ser resultante de espessu-
+--- ----+-------t---- -+------+(500)
(E = 200) (300) (400)
O 100 m
f---- ---<
: G. 6.8 Mapa de isorresistividade em profundidade
~ te: modificado de Fernandes (1984).
(500)
(Resistividades em f.lm)
(600)
136 1 Geologia de Barragens
e
ras muito diferentes de solos ou rochas
sedimentares, em função da constitui-
ção litológica e do tipo de água presente
nesses materiais, como mostra a Fig. 6.9.
Assim, recomenda-se sempre fazer uma
SEV próxima a uma sondagem mecânica
para aferir os resultados dessa sondagem
elétrica. Após tal aferição, é possível es-
tender a prospecção para uma área maior.
Na verdade, a melhor utilidade da pros-
pecção elétrica é permitir a interpolação
ou a extrapolação de resultados obtidos
com sondagens mecânicas muito espaça-
das , dada a diferença de custo entre esses
dois métodos investigativos. Os efeitos
da anisotropia elétrica podem ainda ser
detectados com a realização de uma SEV
perpendicular à realizada na investigação.
No estudo de uma barragem, pode-se
utilizar a prospecção elétrica nas seguin-
tes situações:
• caracterizar as fundações da barra-
gem;
• detectar a presença de diques , fratu-
ras e falhas;
Areia saturada
Argila seca
Areia seca
• detectar a presença do nível freático;
• caracterizar o recobrimento de túneis
e canais (adução, desvio ou verte-
douro);
• caracterizar jazidas de materiais ter-
rosos.
Para as fundações, esse método só é
recomendável no caso de serem constituí-
das por espessa camada de solo (aluvionar
ou eluvionar) ou por rocha sedimentar.
Ainda assim, não se recomenda esse
método para as ombreiras, principal-
mente no sopé de seus flancos, onde a
eventual ocorrência de blocos e matacões
presentes em tálus pode mascarar comple-
tamente os seus resultados. Na parte mais
horizontalizada do fundo do vale, uma
sondagem SEV deve ser feita próximo a
uma sondagem mecânica para melhor ca-
racterizar as litologias e suas espessuras.
A partir dessas informações, pode-se es-
colher o comprimento AB compatível com
a profundidade de investigação escolhida
a partir da SEV e desenvolver uma per-
Areia argilosa seca
Argila saturada
Areia argilosa
saturada
Argila saturada com
água salgada
FIG. 6.9 Espessuras (e) variadas de diferentes situações geológicas acusando uma mesma resistividade
aparente
agem elétrica ao longo de toda a área
?revista como base da barragem. Como
resultado dessa investigação, podem-
-se obter perfis elétricos transversais
ou longitudinais ao eixo barrável ou um
mapa de isorresistividade das fundações.
A Fig. 6.10 mostra um exemplo em que a
interpretação da eletrorresistividade nas
fundações de uma barragem poderia con-
duzir a um grande erro.
Observa-se claramente que os hori-
zontes condutores entre as distâncias
120 e 160 pés e entre 210 e 240 pés são
matacões dentro de um solo residual, e
o mesmo pode ocorrer com o maior ho-
rizonte condutor entre as distâncias 40
e 80 pés. Assim, o tracejado branco indi-
cando o topo rochoso é totalmente falso,
exigindo sondagens mecânicas para aferir
esses resultados. A interpretação para fra-
tura provavelmente está correta.
Ao longo dos traçados previstos para
canais ou túneis, pode-se adotar o mesmo
Topo rochoso
(bed rock)
Anomalia - Fratura
6 - Investigações para obras de barragens 1 137
procedimento recomendado para as fun-
dações, porém com a execução de apenas
um perfil ao longo do traçado previsto.
Devem-se adotar os mesmos cuidados
para evitar interpretações falsas apoiadas
unicamente na prospecção geofísica.
Finalmente, para jazida de materiais
terrosos, pode-se adotar a mesma metodo-
logia indicada para as fundações, inclusive
com a aferição mecânica dos resultados
obtidos pela Geofísica.
6.2.2 Sísmica
a) Princípios do método sísmico
O método sísmico utiliza a propaga-
ção de ondas elásticas e acústicas através
dos solos e rochas que integram a crosta
terrestre. Essa propagação depende
fundamentalmente das propriedades
elásticas/acústicas dos minerais e rochas,
mas sua velocidade sofre influências de
outros fatores, como vazios entre grãos e
Well #9 (90 ft. north)
rock at 6 ft. below ground surface
• 1.300 1.200
Leste Distância (pés) Oeste
280
1.100
O 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 220
20
FIG. 6 .10 Perfilagem ao longo de um eixo barrável
Fonte: AGI (2011).
Escala em pés - -O 20 40 60 80
1.000
900
800
700
<il 600
u
E 500 u
"' LÜ 400
300
200
100
138 1 Geologia de Barragens
ao longo de fraturas, e dos materiais que
podem preencher total ou parcialmente
esses vazios, sejam sólidos ou líquidos. Ao
produto da densidade e da velocidade de
propagação de ondas acústicas denomina-
-se impedância acústica .
Quando um impulso é gerado na su-
perfície do terreno, ou próximo a ela, há
geração de dois tipos de ondas: de corpo e
superficiais.
As ondas de corpo propagam-se para
o interior do maciço terroso ou rochoso,
como se uma tensão fosse aplicada a essa
superfície por esse impulso. Essa tensão,
independentemente do ângulo que faça
com a superfície, será decomposta em
duas tensões: uma normal à superfície (o)
e outra tangencial ('r). Da mesma forma
como incidem no momento do impulso,
essas tensões são introduzidasno interior
do corpo impactado, movimentando-se
sempre nas mesmas direções em que in-
cidiram, ou seja, as tensões normais se
interiorizam por meio de uma propagação
longitudinal em relação ao seu traçado,
enquanto as tensões tangenciais se propa-
gam no sentido transversal em relação ao
seu traçado. As tensões normais, ao serem
introduzidas em um maciço terroso ou
rochoso, correspondem às ondas primá-
rias (P) ou longitudinais, ou compressivas,
enquanto as tensões tangenciais geram as
ondas secundárias (S), também chamadas
de transversais ou cisalhantes. As veloci-
dades de propagação das ondas P e S são
muito diferentes, pois enquanto as ondas
P se propagam com velocidades proporcio-
nais ao módulo de elasticidade do meio,
as ondas S se propagam com velocidades
proporcionais ao módulo de rigidez. As
equações que regem essas proporcionali-
dades são:
[
E(l - u)g ]
112
VP = p(l + u)(l - 2u) (6.5)
(6.6)
onde:
VP - velocidade das ondas primárias;
V5 - velocidade das ondas secundárias;
E - módulo de elasticidade;
G - módulo de rigidez;
u - coeficiente de Poisson;
g - aceleração de gravidade;
p - densidade.
Considerando a relação entre os
módulos de elasticidade e rigidez, pode-
-se apresentar a equação para as ondas S
como segue:
[
Eg ]1/2
Vs = 2p(l +u) (6.7)
No caso de um meio com u = 0,25 e
p = 2,6 g/cm3, chega-se às seguintes ex-
pressões:
A relação V/V5 será de 1,74, o que rati-
fica a maior velocidade da onda P. Por ta:
motivo, as prospecções sísmicas normal-
mente utilizam a chegada da onda P em
suas investigações. Uma vez que o módulo
de rigidez é nulo nos fluidos, conclui-se
que nesse meio não há propagação das
ondas S, conforme comprova a Eq. (6 .6).
As ondas superficiais são geradas
pelo fato de o subsolo ser um meio he-
·erogêneo, descontínuo, anisotrópico e
:inito. Essas ondas são propagadas sobre
a superfície que sofre o impulso ou ime-
iiatamente abaixo dela, em todas as
·versas direções contidas nesse plano,
embora com velocidades que variam em
função das heterogeneidades peculiares
a essa superfície nas diferentes direções.
As duas principais ondas superficiais são:
:layleigh e Love. As ondas Rayleigh en-
volvem uma combinação de movimentos
longitudinais e transversais, segundo
uma trajetória elíptica; as ondas Love
apresentam movimento ortogonal ao
sentido de propagação. Ambas as ondas
superficiais apresentam velocidade infe-
rior às ondas S, motivo pelo qual não são
consideradas nas prospecções sísmicas.
As ondas Rayleigh são importantes nos
estudos sismológicos.
Nas prospecções sísmicas, denomina-
-se interface a superfície que delimita dois
meios com diferentes velocidades de pro-
pagação ondular (geralmente a onda P).
Essa interface pode ser representada por
um plano de acamadamento, um contato
entre rochas ou até mesmo pela separação
de um meio seco para o mesmo meio satu-
rado. Pode, ainda, ser um plano horizontal
ou inclinado, ou ser representada por uma
superfície plana ou curva. Em termos físi-
cos, essa interface constitui um plano de
descontinuidade entre meios com veloci-
dades diferentes de propagação das ondas.
A prospecção sísmica baseia-se no fato
de que um impulso gerado num ponto
próximo à superfície gerará ondas que,
ao encontrar uma interface, terão parte
da energia original retornada à super-
fície, enquanto outra parte atravessará
6 - Investigações para obras de barragens 1 139
essa interface, penetrando em outro meio,
com uma abrupta variação na direção de
sua propagação. A energia que volta à su-
perfície corresponde à refl.exão da onda
incidente, e a parte da energia que pene-
trará na interface corresponderá à refração
da onda incidente (Fig. 6.11).
Constata-se, assim, que a interface
representa um contraste de impedância
acústica de dois meios.
V,
V, Descontinuidade elástica
ou interface
FIG. 6.11 Ref/.exão e refração sísmicas
b) Mecanismo da reflexão
Na Fig. 6 .12, o ponto "O" é a fonte de
emissão de impacto, e ao longo da reta Ox
pode ser instalado um número qualquer
de geofones.
X
f
~===---=G=-------x
V,
V,
x/2
FIG. 6.12 Ondas ref/.etidas e refratadas
Nessa figura, a linha I representa uma
interface entre dois meios geológicos
de velocidades V 1 e V 2, situada na pro-
140 1 Geologia de Barragens
fundidade H da linha Ox. No geofone G,
situado na distância "x" de "O", chega-
rão duas ondas: uma direta, propagada
na superfície segundo o percurso OG; e
uma refletida na interface, fazendo um
ângulo de incidência "a" nessa interface,
cujo percurso seráOA +AG. Como o tempo
necessário à chegada de uma onda é dire-
tamente proporcional à extensão do seu
percurso e inversamente proporcional à
velocidade com que essa onda se desloca
no meio, tem-se:
Tempo de chegada da onda direta:
Tn = OG =~
V1 V1 (6.8)
Tempo de chegada da onda refle-
tida:
2 2 1/2
TRL = OA + AG = (x +4H ) (6 _9)
V1 V1
Como a velocidade V 1 é a mesma para
as duas ondas, deduz-se que a onda direta
chegará primeiro que a refletida. Todavia,
essa chegada é desprezada por ser facil-
mente reconhecida a influência que tais
ondas sofrem das ondas Rayleigh e Love.
Constata-se ainda, na Fig. 6.12, que, sendo
V 1 > V 2, o ângulo de refração p é menor
que o ângulo de incidência a e, nesse caso,
o raio refratado não volta à superfície para
ser detectado por geofone. Tem-se, assim, a
utilização do método de sísmica de refle-
xão. No caso V1 < V2, que é o mais comum
de ocorrer, há possibilidades de ser medi-
das a reflexão e a refração da onda.
A utilização desse método depende
de muitos fatores geológicos, principal-
mente com relação à capacidade dos solos
e rochas transmitirem altas frequências
do sinal refletido. Uma das vantagens
desse método é o fato de que parte da
energia emitida sempre retornará ao
sensor ao encontrar contrastes de impe-
dância acústica, e outra é a possibilidade
de se observar muito mais detalhes de
subsuperfície que não são atingidos pelo
método de refração.
e) Mecanismo da refração
Ao se analisar o caso mais comum,
em que V 1 < V 2, pode-se observar na
Fig. 6.13 que há muitas alternativas para
as ondas refletidas e refratadas.
Como mostra essa figura, o ângulo p
agora é maior que o ângulo a e aumenta
proporcionalmente com esse ângulo de
acordo com a Lei de Snell, ou seja:
sena.= senp
V1 V2
Quando o ângulo P chega a 90°, o que
corresponde a um ângulo de incidência ac>
a onda se propaga paralelamente à superfí-
cie de separação dos dois meios e se refrata
para o meio superior com ângulo igual à ac
O geofone G1 captará a onda refletida para
ac> sendo a distância OG1 denominada dis-
tância limite para que se produza a volta
da onda refratada em V 2. A partir do geo-
fone G3, a onda refratada chega primeiro
Assim, a distância OG3 é denominada dis-
tância crítica e o ângulo ac, de ângulo crítico
É importante ressaltar que, para qualque-
ângulo a superior a ac, como o ângulo y na
Fig. 6.13, somente haverá reflexão da onda
incidente, captada no geofone G2, embora
ocorram outros fenômenos, como a onda
gevanescente, que não é importante para a
reflexão ou para a refração. As ondas refie-
6 - Investigações para obras de barragens 1 141
O G, G2 G3 G4 ...---or--------------------------...--------,,.--- X
H
FIG. 6.13 Ondas ref/.etida s e refratadas
Fonte: modi(lcado de Fernandes (1984).
·das mais detalhadas para investigação do
horizonte V 1 são aquelas que chegam aos
geofones situados entre O e G1.
Num gráfico tempo-T x distância-X,
cada horizonte com velocidade diferente
será representado por uma série de pontos
que definirão linhas compatíveis com a
velocidade do meio atravessado por refra-
ção. A linha que une todos esses pontos
é chamada de dromocrônica (drama =
lugar para se correr + crana = tempo). É,pois, um gráfico que mostra o registro
dos tempos tomados pelas ondas refrata-
das para percorrerem várias distâncias. A
Fig. 6.14 mostra uma dromocrônica para
três horizontes, com V 1 < V 2 < V 3·
Na Fig. 6 .14, xc corresponde à dis-
tância crítica para a refração que ocorre
entre as camadas de velocidades V 1 e V 2,
e x'c corresponde à distância crítica para
a refração que ocorre entre as camadas
de velocidades V 2 e V 3 . Observa-se nessa
figura que os geofones que melhor capta-
rão as ondas refletidas no horizonte V 1
são aqueles de números 1 a 3 . Os geofo-
nes 4 a 10 captarão as ondas refratadas no
horizonte V 2 e a partir do geofone 11 são
E
o
Q_
E
~
Ponto
de tiro
V,
V,
XC x'c
2345 6 789 1º 12 14
1
11 13 15 •
V,
FIG. 6.14 Dromocrônica de três horizontes
Fonte: modi{lcado de Feitosa et ai. (2008).
Distância (x)
Geofones
V,
V,
captadas as refrações no horizonte V 3. A
Fig. 6.15 mostra um tipo de geofone, que
se acha conectado a uma haste para sua
fixação no solo.
d) Metodologia da prospecção
sísmica
A prospecção sísmica pode envolver
pequenas ou grandes profundidades de
142 1 Geologia de Barragens
investigação. Para pequenas profundida-
des, pode-se realizá-la com dois métodos
distintos: martelo ou explosivos.
O uso do martelo tem sua capacidade
restringida pela intensidade do impacto
produzido. Por meio desse método, faz-
-se percutir um martelo grande - na
verdade, uma marreta, como visto na
Fig. 6.16 - sobre uma placa de aço fixada
na superfície do terreno. As ondas produ-
zidas sofrerão reflexão em uma interface
não muito profunda, sendo captadas por
FIG. 6.15 Geofone
FIG. 6.16 Martelo usado na sísmica de re f'l.exão
um geofone. Pela fraca intensidade do im-
pacto produzido, esse método restringe-se
a investigar interfaces com profundidades
não superiores a 20 m. Outra restrição é a
presença de solos granulares secos, como
a areia, que produzem uma grande disper-
são das ondas nesse meio, fazendo com
que elas penetrem pouco na subsuperfície.
O uso de explosivos nas investiga-
ções de pequena profundidade é feito
por meio do disparo de uma carga explo-
siva a poucos centímetros da superfície,
permitindo que as ondas geradas por tal
impacto sejam refletidas e refratadas nas
interfaces encontradas, o que será cap-
tado por uma série de geofones instalados
na superfície, como mostrado no esquema
da Fig. 6.14. Para profundidades de inves-
tigação em torno de 50 m , são geralmente
utilizados 12 geofones. Para grandes pro-
fundidades , aprofunda-se mais a carga
explosiva, aumenta-se sua capacidade e
o número de geofones, que geralmente é
igual ou superior a 24. O registro básico
utilizado na interpretação dos dados da
refração sísmica chama-se sismograma. A
Fig. 6.17 mostra um modelo completo de
uma prospecção sísmica, com o perfil ge-
ológico, a dromocrônica e o sismograma
correspondente à chegada das ondas.
O sentido de propagação das ondas merece
uma especial atenção na programação
de uma prospecção sísmica de refração,
porque nem sempre uma interface se apre-
senta horizontalizada, como se pode ver
nas Figs . 6.12 a 6.14. Muitas vezes esse
plano encontra-se inclinado e, supondo-
-se conhecer o sentido do mergulho para
programar a prospecção nesse mesmo
sentido, podem-se encontrar duas situa-
6 - Investigações para obras de barragens 1 143
,::,
':' 300 l=--\~==.--,-,--..;.,..-.1L.,--,;L--11-,-,-,--!'-,-,--+-.,.....,..L..-,-.....,J:,----.-,,C...,-,--t,'-,-_J_,,_,......L_,-;.:~:.;,:;;~~-,l
::'
~ 600
::' .
5
õ 9 00 t ::t::_=:r_==_~~~:;:::::t:::::::;::= ~:r: _=~:;:_:::::::_e~ =_'.;=~=-:r~=-=r~~==i~-::.~r:=-=--T::::_=-_=1:_=-~-::.;::_=~:5:_::::T:'.'v:~~;;i-;;~:::j
::1G. 6.17 Modelo de prospecção sísmica
.:'an te: Dobrin (1981), modificado pelo Prof Paulo Aranha (UFMG).
cães distintas: a prospecção avança a favor
:io mergulho dessa interface, ou contra esse
:::iergulho. Na Fig. 6.18, observa-se urna
rospecção a favor do mergulho, enquanto
a Fig. 6.19, a prospecção é feita no sen-
"do contrário ao mergulho da interface.
Corno muitas vezes se desconhece o
entido para o qual mergulha a interface,
as apenas a sua direção, constitui rotina
a prospecção sísmica obter informações
os dois sentidos perpendiculares a essa
.iireção. A Fig. 6.20 mostra um exemplo
::rn que esse procedimento é adotado.
Por meio dessa metodologia, obtém-
-se urna velocidade aparente (Vap) para o
orizonte que gerou as ondas refratadas.
::ssa velocidade aparenta um valor que
_ de ser superior ou inferior à velocidade
~eal de V2 . Na Fig. 6.20, tem-se:
A favor
do mergulho:
·r - V1
· ap(F) -
sen(ac + 0)
Contra o
mergulho:
V1
V (C) - -~~-
ap - sen(ac + 0)
v,
'i'.T
- _ _j
l'.x
l'.x V,
1'.T ª sen (ac + 0)
FIG. 6.18 Propagação a favor do mergulho da interface
Fonte: modificado de Fernandes (1984) .
2Hocosac
v,
l'.x V,
l'.T sen (a,, + 0)
FIG. 6.19 Propagação contra o mergulho da interface
Fonte: modificado de Fernandes (1984).
144 1 Geologia de Barragens
Como: V2 = ____1_ , tem-se que:
senac
e) Aplicações da prospecção sísmica
em barragens
No projeto de uma barragem, a pros-
pecção sísmica com o uso do martelo só é
recomendada para a prospecção de jazidas
de materiais terrosos em áreas com espessa
camada de solo maduro, a fim de evitar as
imprecisões decorrentes da presença de
matacões. Ainda assim, deve haver uma
aferição de seus resultados por meio de
prospecções diretas, além de o método ser
utilizado apenas na etapa de viabilidade.
O método sísmico com a utilização de
explosivos pode ser empregado na caracte-
rização das seguintes feições relacionadas
com o projeto de uma barragem:
• fundações;
• canais;
• túneis e obras subterrâneas;
• pedreiras e jazidas de materiais ter-
rosos e arenosos;
• determinação do assoreamento do
reservatório.
A caracterização das fundações inclui
as seguintes definições:
• tipos de estratos em rochas
sedimentares;
• espessura do regolito, incluindo alú-
vios e elúvios;
• estruturas como falhas e fraturas
(método de reflexão);
• propriedades elásticas das rochas.
A exemplo da recomendação feita para
o método elétrico, não se recomenda esse
método para as ombreiras, em razão das
heterogeneidades presentes nos colúvios,
principalmente nos sopés de seus flancos,
onde é comum a presença de blocos e
L Tl--------------=:._ _________ __,_,T
0
FIG. 6.20 Prospecção sísmica t ipo direto e reverso
Fonte: modifzcado de Fernandes (1984).
--
(C)
Vap __ -
matacões nos tálus, que mascaram total-
mente esse tipo de investigação. Também
na parte aplainada do vale é comum a pre-
sença de grandes matacões resultantes da
intemperização diferencial das rochas.
Nesses casos, a detecção do contato com
a rocha sã pode ser totalmente falsa, pelo
que se recomenda sempre aliar a prospec-
ção sísmica a sondagens mecânicas que
possam aferir seus resultados. Em se tra-
tando de fundações, deve-se utilizar esse
tipo de prospecção na etapa de viabilidade.
Para canais projetados, como desvios
do rio, adução e aproximações do ver-
edouro, a prospecção sísmica objetiva
definir a espessura do recobrimento in-
consolidado e inconsistente, a fim de que
sejam projetados os taludes de escavação.
Os cuidados a tomar nessa prospecção são
os mesmos referidos para as fundações ,
principalmente em função das heterogenei-
dades propiciadas pela presença de blocos
e matacões. Assim, essas investigações
devem ser sempre aferidas por sondagens,
limitando-se à etapa de viabilidade.
Para túneis e obras subterrâneas, a
prospecção sísmica poderá prestar as se-
guintes informações:
• espessura e irregularidades do solo
de alteração, principalmente em
função da intemperização dife-
rencial ao longo de fraturas, como
mostrado na Fig. 5.7a;
• fraturamento(método de reflexão);
• propriedades elásticas do maciço ro-
choso.
Para as duas primeiras aplicações,
eve-se empregar a prospecção sísmica
a etapa de viabilidade, sempre aferidas
?Or sondagens mecânicas. Para as pro-
6 - Investigações para obras de barragens 1 145
priedades elásticas, é possível estender
essa prospecção até o projeto executivo,
quando muitas dessas obras já se encon-
tram parcialmente abertas. Nesses casos,
ultimamente tem sido muito empregada a
sísmica por meio de furos de sondagens,
denominada de método crosshole, cujo
esquema de funcionamento pode ser ob-
servado na Fig. 6.21. Com esse método,
torna-se fácil fazer correlações entre os
parâmetros geotécnicos estáticos, obtidos
por meio de ensaios convencionais (com-
pressão simples, ensaios triaxiais, módulo
de deformabilidade estático etc.), e os
módulos dinâmicos, em que não ocorre
qualquer perturbação no maciço rochoso.
Em pedreiras, a prospecção sísmica
pode definir a espessura do material es-
téril a decapear, condição imprescindível
para definir a viabilidade econômica de
sua utilização. Para jazidas de materiais
terrosos e arenosos, dependendo de sua
extensão, essa prospecção poderá reduzir
os custos da prospecção direta, definindo
a espessura do material a utilizar. Em
ambos os tipos de estudo, deve-se utilizar
essa forma de prospecção na etapa de via-
bilidade, devidamente aferida.
O assoreamento de reservatório pode
ser determinado com o uso do método de
perfilagem sísmica contínua. Por meio desse
método, desloca-se todo o sistema de emis-
são e captação do som através de um barco
sobre a água do reservatório, conforme
mostrado por Souza et al. em ABGE (1988).
6.2.3 Georradar (GPR)
a) Princípio do método
O método de georradar ou GPR
(Ground Penetration Radar) guarda re-
146 1 Geologia de Barragens
lações com os dois métodos geofísicos
anteriores. Com o método elétrico porque
se baseia em propriedades elétricas como
a condutividade, e com a sísmica porque
está relacionada com a reflexão de ondas
eletromagnéticas.
Campos eletromagnéticos (EM) são
➔
constituídos por campos elétricos (E) e
➔
campos magnéticos (H). Como as varia-
ções magnéticas nas rochas são, na sua
maioria, muito fracas , podem ser consi-
deradas desprezíveis (Daniels; Gunton;
Scott, 1988), daí que as propriedades elé-
tricas constituem os fatores dominantes
que controlam a resposta do subsolo ao
campo EM.
As movimentações de cargas elétricas
(correntes elétricas) no subsolo, resultan-
tes da ação de um campo eletromagnético,
podem ocorrer de duas formas : corrente
por condução e corrente por desloca-
mento.
. .. .. .. . . . . . . . .
. .. . . . . . ... . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . ' ....... . . . . . . . . . .
1 ....... . . . . " .. .. . . .. . . . . . ... . ..... . .... .. .
➔
A corrente por condução (Jc) é definida
como:
Jc = cr ·Ê (6.10)
➔
onde cr é a condutividade elétrica e E é o
campo aplicado no material.
Na corrente por deslocamento, a separa-
ção de cargas que ocorre em um dipolo no
➔
qual se aplica um campo (E) é dada pela
densidade D, assim expressa:
D= c·Ê (6.11)
onde E é a permissividade dielétrica.
Quando a condutividade e a permissi-
vidade dielétrica são constantes em um
meio, existe uma frequência de transição
em que as duas formas de cargas elétricas
se equivalem. Acima dessa frequência pre-
domina o deslocamento, quando a energia
se propaga como onda sem nenhuma ou
com pouca dispersão. Abaixo dessa fre -
Detalhe da tela do sismógrafo mostrando
um traço típico de ondas obtidas no
ensaio Crosshote:
P = chegada das ondas primárias
(longitudinais) . . . . . . . . ., .. . . . . . .. . . . . .. . . . . . . li: .... 11 .. • • • .. . .. . .. .. . . ..... . S = chegada das ondas secundárias
(transversais)
. . . ,. . . . . . . ' . ... .. . .. . . . . . . . .... ... . .
: : : : : : : : : :- L. ~~~~~~ :~~ ~:;~~ f : : : ~~~~~~~~:j
FIG. 6.21 Arranjo de campo de sismograma obt ido
Fonte: Dourado (1984).
. ... ,. . . ..
.uência, predomina a condução, em que a
aiergia se difunde no material.
Segundo Annan (1992), a veloci-
dade (V) e a atenuação (a) da onda no
eslocamento são relacionadas com a
? ermissividade dielétrica e com a condu-
·vidade elétrica, como segue:
(6 .12)
1,64 • cr
a=---
-JK
(6.13)
onde K é a constante dielétrica do mate-
rial, definida como:
(6.14)
onde:
Eo - permissividade dielétrica no vácuo;
E - permissividade dielétrica do material.
Quando uma onda eletromagnética
é gerada na superfície do terreno, irá se
propagar em subsuperfície num meio que
em constante dielétrica K1. Ao encontrar
uma interface que separa esse meio de um
outro com constante dielétrica K2, essa
onda se reflete e volta à superfície. O coefi-
➔ ➔
ciente de Reflexão R, para os campos E e H
gerados nesses meios, é definido, para in-
cidência normal à interface, como segue:
R= cp:; -)K;)i (j.f; +)K;)
(6.15)
Segundo Ulriksen (1982), a velocidade
e a atenuação das ondas EM são os fatores
que descrevem a propagação de ondas de
alta frequência no subsolo, os quais são
dependentes das variações dielétricas e
condutivas dos materiais aí existentes.
6 - Investigações para obras de barragens 1 147
Conforme Davis e Annan (1989), para
condutividades menores que 100 mS/m, a
velocidade permanece constante entre as
frequências de 10 e 1.000 MHz.
b) Metodologia do georradar
A prospecção por georradar ou G PR é
feita por meio de um sistema que envolve
quatro elementos principais: unidade
de transmissão, unidade de recepção,
unidade de visualização e unidade de gra-
vação. O esquema da Fig. 6.22 mostra a
relação entre esses elementos.
O transmissor produz um pulso elétrico
de alta voltagem e com mínima duração,
que é aplicado na antena transmissora
responsável pelo seu envio ao subsolo.
Esse sinal propaga-se no interior do solo
e, ao encontrar interfaces, é refletido para
a superfície, sendo detectado pela antena
receptora, que o repassa ao sistema de
recepção. O receptor amplifica o sinal,
acondicionando-o para ser visualizado na
tela, ao mesmo tempo que o imprime no
sistema de gravação. A Fig. 6.23 mostra o
caminhamente do pulso elétrico através
do subsolo, sua reflexão em diferentes
interfaces e sua reflexão até o retorno à
superfície, ao longo de um caminhamente
de GPR em uma linha.
O deslocamento das antenas em super-
fície é feito como mostrado na Fig. 6.24,
usualmente com distância constante,
ou seja, é mantida fi xa a distância entre
as antenas. Esse método é chamado de
common offset.
Os perfis de georradar podem ser
feitos de modo contínuo ou descontínuo,
dependendo da morfologia do terreno.
No modo contínuo, o conjunto de ante-
148 1 Geologia de Barragens
nas é movido seguidamente ao longo da
linha de deslocamento, utilizando como
referência para a emissão de ondas um
mecanismo de tempo ou de trecho per-
corrido. Essa metodologia (Fig. 6.24) é
aplicável em terrenos aplainados e com
poucos obstáculos, quando então se torna
extremamente rápida e de fácil execução.
Visor
Gravação
Transmissor Receptor
Antena Antena
Solo
Rocha
FIG. 6.22 Esquema dos elementos que compõem um
sistema GPR
Fonte: modif,.cado de Annan (1992).
Zona Anômala
No modo descontínuo, os dados são ob-
tidos em posições individuais, ficando as
antenas estacionadas momentaneamente
em cada ponto de medição durante a
emissão de ondas . Esse método é indicado
para terrenos acidentados ou com muitos
obstáculos.
A penetração do sinal de radar está con-
dicionada inicialmente pelas propriedades
elétricas do material atravessado (conduti-
vidade e constante dielétrica). Assim, esse
sinal pode atingir profundidades supe-
riores a 20 m em solos ou rochas de baixa
condutividade (resistividade < 50 ohm.m),mas poderá penetrar menos de 1 m em
argilas altamente condutivas. A frequên-
cia do sinal emitido também contribui
diretamente para uma maior penetração
e resolução do método. Frequências maio-
res (200 a 2.500 MHz) possibilitam maior
resolução, porém menor penetração. Ao
contrário, frequências menores (10 a
200 MHz) propiciam maior penetração,
porém com menor resolução vertical.
Deslocamento ~
Solo
Rocha
FIG. 6.23 Modelo geológico simplif,.cado com posicionamento do GPR ao longo de uma linha
Fonte: modif,. cado de Davis e A nnan (1989).
Como os diferentes tipos e tamanhos
as antenas permitem variar a frequência
.:o sinal emitido, é necessário, em cada
rogramação, conhecer a priori o tipo de
itologia esperado, a fim de que se possa
_ rogramar as antenas que propiciarão
..una maior profundidade de investigação
-em comprometer a resolução dos dados
obtidos.
e) Aplicações do georradar em bar-
ragens
Apesar das limitações impostas por
esse método de prospecção, principal-
;riente relacionadas com a profundidade
:nvestigada, o georradar tem sido muito
tilizado no Brasil, mormente na detec-
ão da conformação das estruturas das
rochas cristalinas, em projetos de implan-
uição de dutos subterrâneos, na detecção
do nível freático, em processos cársticos,
na determinação de aluviões submersas,
na identificação de pipping em solos etc.
Em barragens, pode-se aplicar esse
método nas seguintes situações:
• fundações da barragem e das obras
associadas;
• jazidas de areia e pedreiras;
• assoreamento do reservatório.
Nas fundações, o GPR pode ser utili-
zado com os seguintes objetivos:
• definir a espessura de aluviões
submersas;
• caracterizar os materiais incoeren-
tes que recobrem o embasamento
rochoso;
• caracterizar o fraturamento do
maciço rochoso.
Como, em geral, as jazidas de areia são
-ubmersas, o GPR pode funcionar bem
6 - Investigações para obras de barragens 149
FIG. 6 .24 Deslocamento das antenas no método GPR
Fonte: cortesia do Prof Paulo Aranha (UFMG).
para definir a espessura dos depósitos ,
permitindo sua cubagem. As pedreiras,
por sua vez, geralmente possuem reco-
brimento de estéril pouco espesso, daí
poderem ter essa espessura investigada
pelo georradar.
O assoreamento do reservatório
de barragens de pequena altura, ou até
mesmo nas partes terminais das obras de
grande porte, pode ser definido pela utili-
zação do georradar (Fig. 6 .25).
6.3 PROSPECÇÃO SEMIDIRETA
Na prospecção semidireta, o pesquisa-
dor pode conhecer materiais geológicos
situados a diferentes profundidades de in-
vestigação, sem que tenha acesso ao local
investigado. Para tanto, ele se vale da ob-
tenção de amostras desses materiais por
meio dos diferentes tipos de sondagens.
Embora a amostragem de solos e rochas
seja um dos objetivos dessa prospecção,
150 1 Geologia de Barragens
nem sempre esse objetivo é plenamente
alcançado. Dependendo das condições do
material e do método de prospecção ado-
tado, ocorre uma das seguintes situações:
• amostragem deformada;
• amostragem indeformada;
• amostragem parcial;
• amostragem integral;
• nenhuma amostragem.
A amostragem deformada é aquela que
ocorre em materiais inconsolidados, em
que o método de prospecção altera a tex-
tura original desses materiais, destruindo
suas estruturas reliquiares e mascarando
inúmeras de suas propriedades físicas. Na
amostragem indeformada, preservam-se
a
as características dos materiais incon-
solidados amostrados. A amostragem
parcial está relacionada com as rochas ,
quando as condições de intemperização
e de fraturamento desses materiais não
permitem que se obtenha uma recupera-
ção total dos testemunhos de sondagem.
Na amostragem integral, todo o material
sondado é recuperado, enquanto que, em
alguns métodos de prospecção, nenhuma
amostragem pode ser obtida.
Os principais métodos de investigação
mecânica que integram a prospecção se-
midireta são:
• Sondagem a varejão - SV
• Sondagem a trado - ST
• Sondagem a percussão - SP
b
0,00
0,00
25,00
Distâncias - m
50,00 75,00 100,00
__ ... .. __ _
FIG. 6.25 Pesquisa de assoreamento em um reservatório de barragem: (a) imagem do procedimento geofísico
sobre um barco; (b) radargrama que mostra, na parte superior mais clara, o contorno do material arenoso
responsável pelo assoreamento
Fonte: cortesia do Prof Paulo Aranha (UFMG).
• Sondagem rot ativa - SR
• Sondagem mista - SM
• Sondagem rotopercussiva - SRP
6 .3 .1 Sondagem a varejão (SV)
Esse tipo de prospecção não permite
qualquer amostragem e presta-se apenas
para detectar a espessura e o tipo de ma-
erial granular submerso. Por isso, é mais
utilizado na pesquisa de materiais are-
nosos nos leitos dos rios, como forma de
obter esse tipo de material para suas di-
versas aplicações.
A sondagem é feita por meio da cravação
de uma haste metálica lisa, operada geral-
mente através de um barco. Essa cravação
pode ser manual ou por golpes de marreta,
e a percepção do tipo de material atraves-
sado pode ser feita pela reação sonora e
vibratória do processo. Nas areias, a pene-
tração é áspera, ao passo que nas argilas é
macia. Em superfície rochosa, o impacto é
duro e resvala. Uma das limitações desse
método é a reduzida profundidade de in-
estigação, que nunca ultrapassa os 3 m,
além da impossibilidade de coletar amos-
tra do material sondado.
Em projetos de barragem, utiliza-se
essa prospecção para o levantamento de
azidas de areias submersas e na avaliação
o assoreamento nas partes terminais do
reservatório. Em razão das limitações re-
:eridas, esse tipo de prospecção é muitas
.. ezes utilizado em complemento às pros-
:>ecções geofísicas, principalmente no
::nétodo G PR.
6 .3.2 Sondagem a trado (ST)
A sondagem a trado é uma das pros-
- ecções semidiretas mais rudimentares,
6 - Investigações para obras de barragens 1 151
embora utilizada desde os primórdios da
investigação do subsolo. Trata-se de uma
sondagem manual ou mecanizada, que
utiliza o trado como instrumento para
perfurar e amostrar o solo de baixa a
média resistência.
a) Perfuração com trado
O trado responsável pela escavação é
constituído por três partes: cruzeta, haste
e trado. O trado propriamente dito pode
ser do tipo concha ou helicoidal (Fig. 6. 26).
A cruzeta e as hastes são geralmente de
ferro galvanizado, com diâmetro mínimo
de 1" (2,5 cm). A cruzeta é conectada à
haste através de um T e as hastes, com
tamanhos de 1, 2 e 3 m, são interconec-
tadas com luvas do mesmo material. O
trado tipo concha é utilizado com os se-
guintes diâmetros: 3" (7,5 cm), 4" (10 cm),
6" (15 cm) e 8" (20 cm). O trado helicoi-
dal apresenta o diâmetro mínimo de 2 ½"
(6,3 cm), mas pode alcançar diâmetro
superior a 10" (25 cm) quando acionado
mecanicamente. O trado concha também
pode ser acionado mecanicamente com a
utilização de um pequeno motor respon-
sável pela sua rotação, conforme mostrado
na Fig. 6.27, em pesquisa realizada pelo
autor em sua tese de doutorado.
A sondagem deverá iniciar-se com o
trado concha, que, dependendo do tipo de
material a escavar, poderá ultrapassar fa-
cilmente os 15 m de profundidade (acima
do nível freático) . Sempre que forem en-
contradas concreções de seixos ou de
laterita, deve-se substituir a concha por
uma ponteira constituída por uma peça de
aço terminada em bisel, que poderá desa-
gregar ou reduzir as concreções, de sorte
152 j Geologia de Barragens
a propiciar a continuidade da escavação
com o trado concha. Ao atingir horizon-
tes de argila mais rija, ou argila abaixo do
nível freático, a concha deve ser substitu-
ída pelo trado helicoidal.
A sondagem a trado será encerrada nos
seguintes casos:
• quando atingir a profundidade que
interessa ao projeto;
• quando ocorrer desmoronamentos
sucessivos das paredesdo furo;
• quando o avanço da escavação for
inferior a 5 cm em 10 minutos de
operação contínua;
• quando se atingir o impenetrável à
perfuração, pela ocorrência de casca-
lho, matacão ou rocha (nesse caso, o
furo poderá ser deslocado num raio
de 3 m e tentada nova perfuração).
Caso seja encontrado o nível freático ,
a sua profundidade deverá ser anotada,
Haste
- Trado
Concha Hel icoidal
FIG. 6.26 Tipos de trado
Fonte: modi ficado de ABGE (1980).
o que também deve ser feito se houver
artesianismo não surgente. Os resultados
da perfuração devem ser apresentados
em perfis apropriados, onde constarão,
no mínimo:
• nome da obra e do cliente;
• identificação e localização do furo;
• diâmetro da sondagem;
• data de execução;
• cota, quando possível;
• descrição dos materiais atravessa-
dos;
• profundidade das amostras coletadas;
• medidas de nível de água, quando
possível.
O Boletim nº 3 da ABGE (1999) apre-
senta um modelo para o perfil desse tipo
de sondagem.
Em barragens, pode-se utilizar a son-
dagem a trado na pesquisa de materiais
terrosos (ver Cap. 9) e na caracterização
das fundações da barragem. Para as fun-
FIG. 6 .27 Trado mecanizado
Fonte: pesquisa do autor.
- ções, esse tipo de sondagem é muito
- pregado em complementação aos
tros tipos de investigação mecânica
para aferição da geofísica. Apresenta
- mo vantagens a rapidez da prospecção
:: o seu baixo custo, e como desvantagens,
- deformação da amostra, a dificuldade
:.e atravessar materiais granulares gros-
- iros e saturados e a impossibilidade de
rapassar blocos e matacões .
b) Amostragem com trado
As amostras devem ser coletadas a
:ada metro perfurado e dispostas em
:!ilhas sobre uma lona, para impedir seu
-ontato com o solo de superfície. As pilhas
rão separadas a cada mudança de mate-
ial (Fig. 6.28).
O acondicionamento da amostra varia
:om o objetivo da sua coleta. Quando se
:.estina a ensaios geotécnicos, devem ser
-oletadas duas amostras: uma com 100 g
:: acondicionada em um frasco, parafi-
:nzado ou selado com fita colante, para
-=eterminação da umidade natural; outra
: m cerca de 14 kg, em saco de lona ou
-.: ástico transparente, para determina-
:ão dos demais ensaios geotécnicos. Toda
~ostra coletada deverá receber duas
:: ·quetas: uma interna, devidamente
?TOtegida, e outra externa. Em ambas as
.:1 ·quetas devem constar: nome da obra e
-o cliente; nome do local; número do furo;
.:ata de coleta; intervalo de profundidade
:.a amostra; e nome do coletor.
6.3.3 Sondagem a percussão (SP)
A sondagem a percussão é um método
"'Vestigatório de materiais inconsolida-
:.os e incoerentes em que a perfuração
6 - Investigações para obras de barragens 1 153
~~ __,;--=:::_ ~.::..: __ _____._.-.
- ---=t,._i,,,_ .
- ~-·---==- --~-=-
- ·-__ -:' ' .
~~ rnostra. 1 /
: • • ,,.. t
·. A :
\ rnostra. 2 Separação das pilhas por \
diferença de material /
FIG. 6.28 Amostragem de uma t radagem
Fonte: modifi.cado de USBR (1973).
pode ser obtida por meio do golpeamento
de peças cortantes ou por lavagem combi-
nada com a percussão. Os dois principais
objetivos dessa sondagem são caracterizar
o material perfurado e definir a resis-
tência à penetração desses materiais.
Subsidiariamente, esse tipo de sondagem
presta-se à realização de inúmeros ensaios
in situ. Para conhecimento do material
perfurado, pode-se empregar o método de
lavagem, e para definir a resistência à pe-
netração com as diferentes interpretações
de seus resultados, emprega-se o método
de percussão, também chamado SPT
(Standard Penetration Test). A Fig. 6.29
mostra o esquema de montagem dos
equipamentos necessários a esse tipo de
sondagem.
a) Perfuração por lavagem
Execução da sondagem
A sondagem por lavagem é sempre
154 1 Geologia de Barragens
combinada com a sondagem a trado,
uma vez que esta permite uma melhor
amostragem. Assim, a perfuração é geral-
mente iniciada por um trado concha até
atingir o impenetrável a esse tipo de per-
furação, quando então troca-se o trado
concha pelo helicoidal, prosseguindo até
o impenetrável definido no item 6 .4.2a. A
partir desse ponto, inicia-se a sondagem
por lavagem, que consiste em penetrar
por percussão o trépano mostrado na
Fig. 6.30. Essa peça de aço possui dois
furos por onde sai a água introduzida
sob pressão nas hastes que conduzem
o trépano. Para facilitar a trituração do
Tripé
~
ovimentação
Haste _,,,,--
Parede do furo
Barrilete
FIG. 6.29 Esquema de montagem da sondagem
SPT
Fonte: modificado de ABGE (1998).
Orifício de saída da água
FIG. 6.30 Trépano
Fonte: modificado de ABGE (1980).
material escavado, faz-se subir manu-
almente a composição haste + trépano
por uma altura de 30 cm, soltando-a em
queda livre com um movimento manual
de rotação imprimido às hastes.
A sondagem por lavagem será dada por
concluída nos seguintes casos:
• quando atinge a profundidade es-
pecificada na programação dos
serviços;
• quando o avanço for inferior a 5 cm
durante 30 min.
Amostragem
A amostra na sondagem por lavagem é
obtida de três formas:
• amostra retirada dos trados;
• amostra obtida pela circulação da
água;
• amostra colhida por uma bomba
balde.
b) Perfuração a percussão com SPT
Execução da sondagem
Nesse tipo de sondagem, utiliza-se o
tripé mostrado na Fig. 6.29, onde uma
manivela permite acionar um cabo que
sustenta um peso de 65 kg. No interior
do furo encontra-se uma haste em cujo
topo há uma cabeça de cravação (ressalto
na Fig. 6.29) e na base, um barrilete que
funciona como escavador e amostrador.
O barrilete (Fig. 6.31) é um tubo oco com
dimensões internacionalmente padroni-
zadas para permitir o correlacionamento
dos seus resultados com outras experiên-
cias brasileiras e internacionais.
Inicia-se a perfuração com um tubo
#
concha até a profundidade de 55 cm.
Daí em diante, alternam-se trechos de
736,60 mm
-G. 6.31 Barrilete padrão para SPT
- e: modificado de ABGE (1980).
~- T com 45 cm de extensão com trechos
-: 55 cm escavados a trado ou por lava-
;em. Para execução do SPT, são feitas três
~arcas na haste (geralmente com giz),
.:.:stanciadas 15 cm entre si . Colocado
_ barrilete no fundo do furo, apoia-se
-~avemente o peso de cravação sobre o
~ssalto das hastes e anota-se a eventual
_ enetração observada, que corresponderá
a zero golpes.
Em seguida, suspende-se o peso de era-
ação até uma altura de 75 cm em relação
a cabeça de cravação da haste, fazendo-o
cair em queda livre sobre esse ressalto,
com a consequente cravação de parte do
arrilete. Continua-se com essa operação,
anotando-se quantos golpes foram neces-
sários para a cravação dos 30 cm iniciais e
dos 30 cm finais . Embora os 30 cm iniciais
possam dar alguma referência sobre a re-
sistência do solo penetrado, sempre há,
nos 55 cm superiores ao trecho perfurado
com SPT, uma influência da conturbação
provocada no trecho escavado a trado ou
por lavagem, motivo pelo qual os 30 cm
iniciais geralmente apresentam resistên-
cia inferior à dos 30 cm finais. Assim,
para efeito da aplicação desse método ao
projeto geotécnico, empregam-se apenas
os 30 cm finais, que corresponderiam
ao valor da resistência à penetração. A
6 - Investigações para obras de barragens 1 155
Seção A-A
Fig. 6.32 mostra um exemplo de apresen-
tação de uma sondagem SPT, em que se
pode visualizar a diferença entre as duas
medições anteriormente referidas .
A sondagem deverá ser dada por con-
cluída quando a penetração referente a dez
golpes consecutivos for inferior a 5 cm, não
se computando os cinco primeiros golpes do
teste, ou quando o número de golpes ultra-
passar 50 num ensaio em 30 cm. Nesses
casos, considera-se o material impe-
netrável à percussão. Na Fig. 6.32, o
impenetrável ocorreu quando foram ne-
cessários 18golpes para penetrar apenas
5 cm.
A aplicação da sondagem a percussão
em projetos de barragem praticamente se
resume à medição da resistência do solo
como suporte para cargas que lhe serão
aplicadas. Assim, o seu emprego tem sig-
nificativa importância para definir as
características das fundações da barra-
gem, quando se trata de solo espesso ou
de sedimento pouco consolidado. Nesses
casos, a barragem mais indicada é a de
terra, e o SPT esclarecerá dois pontos
fundamentais : a) a que profundidade se
encontra o impenetrável à percussão;
b) qual a profundidade em que o SPT é
compatível com a carga máxima imposta
pela obra a projetar.
156 1 Geologia de Barragens
Percussão
-- - 30 cm iniciais
- 30 cm finais
!Golpes 30 cm
Golpes/30 cm Iniciais Finais
10 20 30
1 3 4
1
! 4 5
5 5
1
', 3 5
'\
'r\ 9 11
't 16 17
1
1
) > 19 22
I
1
I 17 19
\
'[\
22 25 \
1
I
20 23
Infiltração
TestE Absorção
nº k=cm/Seg
Descrição do material
_._;
V,
V
>
V
cr::
:....:. · - Areia fina siltosa fofa,
0 87 - · - . cinza escura (aluvião) ê
' t _:/. Areia fina silto-argilosa pouco ~
V::-; compacta.cinza (aluvião)
2,00- 1,90 1<.:.-...:....L_ :..i. ___ ...:__ ______ --J '--
-
- -
.. Areia fina e média siltosa,
- com lente argilosas pouco
3,65 · NA "
4,00 ,-:---=-:-:- a median. compacta, - · - cinza escura (aluvião)
·-
- -..
6,00 5,98
/; Argila arenosa dura,
6,87
cinza escura (aluvião)
...
. . . . - Areia fina e média compacta,
· · cinza clara (aluvião)
8,00 8,00 i:,..:..· ~- .:....· +--- ---------1
✓-·.
Areia fina e média argilosa,
compacta cinza
clara (aluvião) ~ 1
0,00 10831<-y"-·.-'-_.L .• cj.... -----------1
' ·o: - o· Areia grossa com pedreg.
11,62 ~-o.º· ª;:;~;~?aá~íl/fi~~\~º)
12,00
\_ Final da perfuração
Observações:
- Impenetrável a percussão (alter. de rocha)
Localização:
Estaca 16 + 0,00 - montante 20 m
N=
Coordejnadas !Cota: !Operador:
E = 604,794 1 Assis
FIG. 6.32 Perfil de uma sondagem a percussão com SPT
1
Sondagem nº
SP.07
Data JVisto:
1 = 30/12/92 TT = 04/12/92
A quantidade de sondagens SPT para
uma fundação de barragem varia em
:unção das seguintes condicionantes:
atureza do solo, altura da barragem,
extensão do eixo e área da base da barra-
gem. Em função dessas condicionantes, o
espaçamento entre furos pode variar de
10 m a 50 m. O ideal é combinar o uso de
algumas dessas sondagens com a sonda-
oem rotativa, produzindo uma sondagem
mista (ver item 6.4.5).
Além dos objetivos anteriormente refe-
ridos para esse tipo de sondagem, podem
ainda ser feitas inúmeras correlações
entre a resistência à penetração e diversos
mdices dos solos. Para os solos arenosos,
por exemplo, é possível estimar o módulo
de deformabilidade, o ângulo de atrito e a
compacidade da areia, e para os solos argi-
losos, estimar o módulo de deformabilidade,
a coesão e a consistência da argila.
Amostragem na sondagem a percussão
A sondagem a percussão com SPT
utiliza o amostrador padronizado tipo
Raymond (Fig. 6.31). Como se pode ob-
servar no corte A-A dessa figura, o corpo
principal, com extensão de 55,88 cm,
é bipartido, formando, quando des-
montado, duas calhas em que se pode
analisar e coletar a amostra de solo que
aí fica retida. A espessura desse barrilete
é de 0,795 cm, o que equivale a uma in-
t rodução no solo pesquisado de 1,59 cm
de espessura total da ferramenta de
escavação que penetra sob impacto de
batidas . Obviamente que essa penetra-
ção dinâmica causa forte compressão da
amostra produzida, deformando sua es-
trutura original, motivo pelo qual não se
6 - Investigações para obras de barragens 1 157
deve utilizar essa amostra como amostra
indeformada para efeito de testes labo-
ratoriais. Para os demais usos, a amostra
coletada no barrilete de percussão pode
ser acondicionada segundo as recomen-
dações feitas em 6.4.2b.
Para os solos argilosos ou siltosos
de baixa consistência, é possível coletar
amostras praticamente indeformadas com
o uso do amostrador de solo de cravação
com paredes finas, também denominado
de Shelby, por ter sido a marca registrada
com essa utilidade. Como se pode ver na
Fig. 6.33, esse amostrador é composto por
um tubo metálico de paredes finas, em
geral com 50 cm de comprimento e diâ-
metro de 2 ½" ou 4", ligado a uma cabeça
provida de uma válvula de alívio.
O amostrador é introduzido no solo por
meio de cravação contínua e constante, e a
válvula permite o escape do ar e da água à
medida que o solo penetra nele. Concluída
a coleta, o tubo é desconectado da cabeça,
sendo raspados levemente cerca de 2 cm
do solo em cada extremidade, quantidade
substituída por parafina a fim de conser-
var a umidade natural da amostra. Em
laboratório, a amostra é retirada através
de um extrator e submetida a todos os
testes aplicados a amostras indeformadas.
6.3.4 Sondagens rotativas (SR)
Esse é um tipo de sondagem larga-
mente utilizado em obras de engenharia
que envolvem o conhecimento das rochas
sondadas, uma vez que permite a perfura-
ção e a extração de qualquer tipo de rocha.
Por meio desse método prospectivo, o
material rochoso é perfurado pela ação
conjugada de rotação e força de penetra-
158 1 Geologia de Barragens
ção, que cortam a rocha de forma cilíndrica
e contínua ao longo de todo o furo.
A amostra de rocha perfurada é deno-
minada testemunho.A Fig. 6.34apresenta
um esquema desse tipo de sondagem, em
que a engrenagem mecânica acionada
por um motor é responsável pela rotação
dos equipamentos de corte e amostragem,
denominados, respectivamente, coroa e
barrilete. A Fig. 6.35 mostra uma foto de
uma sonda rotativa em operação. A água
bombeada sob pressão objetiva evitar o
superaquecimento da coroa durante o
corte da rocha.
A quant idade de testemunhos retida
no barrilete, dada em percentagem entre
a extensão da amostra e o comprimento
perfurado, é denominada recuperação.
Considera-se como extensão da amostra
o somatório de todos os trechos em que
se compartimentou o testemunho du-
rante uma manobra, independentemente
do comprimento de cada um desses tre-
chos. Denomina-se manobra na sondagem
rotativa cada ciclo de corte e retirada dotes-
temunho do interior do barrilete. Algumas
classificações de maciços rochosos usam a
recuperação modificada, também deno-
minada RQD (Rock Quality Designation).
Por meio dessa metodologia, somam-se
em uma manobra todos os trechos de t es-
temunho que tenham individualmente
comprimento igual ou maior que 10 cm,
excluindo aqueles que foram partidos para
acomodação do t estemunho na caixa. O
RQD representa a relação entre a soma
desses pedaços e a extensão da manobra.
A perfuração pode ser feita em diver-
sos diâmetros padronizados pela DCDMA
(Diamond Core Drill Manufactures Asso-
, , · ~ Furo de sondagem
/ ,,,..,...,.,../ .✓
_ . alargado e limpo
/ Orifício para alívio de pressão
,?· · (válvula esferoidal interna) ,·
/ .
/
/
/
/
'/
Antes da cravação
Cabeçote com rosca para
' conector (niple adaptador)
. ·· . .,....,...-Tubo amostrador
_,;- (camisa fina de latão)
/
/
/
/
/ ,•
. / /
/ /
Após á cravação
FIG. 6.34 Esquema de uma sonda rotativa
:onte: modificado de ABGE (1998).
®
®
y
V
y
®~
V
V
\I
d ation), conforme indicado na Tab. 6.3,
na qual a primeira letra refere-se ao diâ-
metro do furo e a segunda (X ou W), ao
ipo de acoplamento dos tubos de reves-
timento.
a) Perfuração a rotação
Deve-se utilizar a sondagem rotativa
naqueles materiais que demonstraram
impenetrabilidade a outros métodos mais
simples de perfuração, como trado e son-
6 - Investigações para obras de barragens 1 159
Revestimento
Barrilete
Mangueira para
sucção de uma
fonte de água
dagem a percussão. Assim, admite-se
que tais métodos já foram utilizados nos
materiaisinconsistentes que recobrem
os maciços rochosos, incluindo o solo e
o saprólito. Em alguns casos, o saprólito
apresenta elevada resistência àqueles
processos mais simples, principalmente
em decorrência das heterogeneidades
consequentes da intemperização dife-
rencial, o que exige sua perfuração pelo
método rotativo.
160 1 Geologia de Barragens
FIG. 6.35 Sonda rotativa em operação
Fonte: projeto do autor.
TAB. 6.3 Diâmetros de perfuração
Denominação
Diâmetro Diâmetro do
do furo (mm) testemunho (mm)
EW-EX 37,71 21,46
AW-AX 48,00 30,10
BW-BX 59,94 42 ,04
NW-NX 75,69 54,73
HW-HX 99,23 76,20
O avanço da sondagem rotativa pode
ser manual ou hidráulico. O avanço
manual sob o controle de um sondador
experiente é recomendado em maciços ro-
chosos muito alterados ou extremamente
fraturados , a fim de se obter uma melhor
recuperação. Outras práticas para melho-
rar essa recuperação serão discutidas no
próximo item, referente à amostragem.
Definido o tipo de avanço da sonda-
gem rotativa, é necessário escolher o
tipo de coroa que cortará a rocha. Se o
maciço rochoso for brando, como algu-
rochas sedimentares, ou saprólito de
as. emprega-se a coroa de
-da de pastilhas
de vídia embutidas no corpo metálico da
coroa, projetando-se apenas o necessário
para uma eficaz ação de corte. As pasti-
lhas são formadas por uma liga de aço com
carboreto de tungstênio, que lhe confere
alta resistência para o corte. Para rochas
duras, é necessário utilizar coroa dia-
mantada, que pode ser de dois tipos: com
os diamantes cravados em torno da face
da coroa e incrustados até certa profun-
didade na matriz (Fig. 6.36b) ou com os
diamantes impregnados dentro da matriz
da coroa.
Escolhidos os tipos de avanço e de
coroa, inicia-se a perfuração em rocha
por meio de manobras compatíveis com o
estado de alteração e de fraturamento da
rocha. Quando a rocha possui boa quali-
dade nesses aspectos, a manobra pode
ser quase igual ao comprimento total do
barrilete (3 a 5 m). Quando as más carac-
terísticas do maciço rochoso dificultam a
amostragem, deve-se diminuir o compri-
mento da manobra.
Ao se atingir o nível freático, deve-
-se anotar sua profundidade e medi:
esse nível todas as manhãs, antes ce
reiniciar as operações. Concluída a so~-
dagem, deve-se esvaziar o furo e, no
seguinte, medir o nível corresponde --=
à estabilização do freático. Essa pro
dência visa evitar o mascaramento des
nível pela introdução da água para s
dagem, principalmente quando o solo
intemperização é argiloso, podendo le
muito tempo para que essa água se infil
e seja equilibrada a configuração hidrog-
ológica local. Situação como essa provoco
uma falsa interpretação da profundida "
do freático em um projeto de estabilizaç"
b
a
Corpo
6 - Investigações para obras de barragens 1 161
Saída
d'água
Batente
Face
Seção calibradora externa
Corpo
. 6.36 Coroas de sondagem rotativa do tipo vídia (a) e diamante (b)
. ;:e: modifzcado de ABGE (1980).
encosta no Rio de Janeiro, resultando
projeto de contenção oneroso e des-
_,,,cessário.
A apresentação dos resultados da per-
-:.!ração rotativa deve constar em um
-:-erfil apropriado (ver Fig. 4.4), no qual
- nstem as seguintes informações:
• nome da obra e do cliente;
• identificação e localização do furo;
• inclinação e rumo do furo;
• diâmetro da sondagem e tipos de
barrilete e de coroas utilizados;
• cotas e coordenadas;
• data de execução;
• nomes do sondador, da firma execu-
tora e do geólogo responsável;
• posição do revestimento;
• escala de profundidade;
• recuperação dos testemunhos em
percentagem por manobra;
• número de peças de testemunhos
por metro;
• RQD;
• graus de consistência, decomposição
e fraturamento;
• simbologia para as principais des-
continuidades;
• simbologia para o perfil geológico;
• descrição litológica;
• nível d 'água e suas variações, com
respectivas datas;
• ensaio de perda d' água, indicando:
vazão específica, pressão efetiva e
gráfico pressão x vazão;
• valor da permeabilidade por trecho
ensaiado;
• assinaturas do responsável pela son-
dagem e do geólogo fiscal.
b) Amostragem na sondagem rota-
tiva
A amostra de rocha obtida na sondagem
rotativa, ou testemunho, fica armazenada
no barrilete indicado na Fig. 6.34. Os
barriletes mais conhecidos são: simples,
duplo-rígido e duplo-giratório (Fig. 6.37).
O barrilete simples consta de um único
tubo, onde a passagem da água de circu-
lação ocorre entre sua parede interna e o
testemunho, que fica sujeito à ação abra-
siva dessa água impregnada de detritos,
além do atrito com a parede do barrilete.
Assim, deve-se utilizar esse barrilete so-
mente em rochas de excelente qualidade.
162 1 Geologia de Barragens
O barrilete duplo-rígido é constituído
por dois tubos concêntricos, ambos com o
mesmo movimento rotatório. A passagem
da água ocorre entre os dois tubos, o que
evita seu efeito erosivo sobre o testemu-
nho. Esse barrilete deve ser utilizado em
rochas de boa qualidade.
O barrilete duplo-giratório, além de
possuir dois tubos concêntricos, apre-
senta um sistema de rolamentos que
impede que o tubo interno, que armazena
o testemunho, acompanhe a rotação do
tubo externo. Assim, além de o testemu-
nho ficar livre do contato com a água de
circulação, que passa entre os dois tubos,
ele sofre o menor impacto possível. Deve-
-se utilizar esse barrilete para amostrar
rochas brandas, alteradas e fraturadas .
Adaptador
Tubo do barrilete
1
r
1
Existe ainda um barrilete utili-
zado para amostragem de materiais
inconsolidados, porém impenetráveis à
percussão e à lavagem, como algumas
argilas duras e folhelhos alterados. Trata-
-se do amostrador Denison (Fig. 6.38),
que possibilita a coleta de amostras
indeformadas desses tipos de materiais ,
semelhantemente ao Shelby, embora este
seja operado por pressão para solos moles
e o Denison, por rotação para solos duros .
Observa-se, assim, que a escolha do
barrilete é fundamental para a obtenção
de uma boa recuperação, além do t ipo de
avanço e do comprimento da manobra. A
experiência do sondador complementa os
cuidados para uma boa recuperação, pois,
na ausência do geólogo, o sondador deve
Cabeçote
Tubo externo
Tubo interno
Calibrador
Mola
Rolamento
Pino de guia
Tubo externo
Calibrador
Mola
Barrilete simples Barrilete duplo-rígido Barrilete duplo-giratório
FIG. 6.37 Tipos de barrilete para sondagem rotativa
Fonte: modificado de ABGE (1980).
tar apto a fazer as escolhas indicadas
teriormente, bem como minimizar os
pactos e abalos provocados pela im-
- rícia no fornecimento de cabo, que
-ontribuem para reduzir a recuperação.
_ ara que o maciço rochoso seja bem repre-
5entado, recomenda-se que a recuperação
:ião seja inferior a 90%.
Esgotados todos os recursos aqui expli-
'tados, caso a recuperação ainda seja muito
aixa (menor que 80%) e o conhecimento
o trecho não recuperado seja de signifi-
cativa importância para o projeto, pode-se
realizar a amostragem integral, recurso
esenvolvido pelo Laboratório Nacional de
:3ngenharia Civil (LNEC) de Portugal e já
aplicado no Brasil desde a década de 1970.
A Fig. 6.39 mostra o esquema de aplicação
dessa metodologia, modificada a partir
de um fôlder da Sondotécnica/ LNEC, e a
Fig. 6.40 mostra fotos de testemunhos de
sondagens obtidos por tal método.
Conforme mostra a Fig. 6. 3 9, em 1 a son-
dagem é executada no diâmetro normal D,
preferencialmente NX; em 2 inicia-se o
procedimento para a amostragem integral
do trecho abaixo do executado em 1, por
meio de uma perfuração em um diâmetro
menor (d), que poderia ser EX; em 3 são in-
roduzidas hastes referenciadas ao norte
magnético, sendo o trecho introduzido
no diâmetro d provido de orifícios; em 4
é feita a solidarização das hastesna base
do furo com diâmetro maior e introduzida
sob pressão uma calda com produto quí-
mico cimentante, que penetrará através
dos furos nos vazios da rocha perfurada
pelo diâmetro menor; em 5 a haste é des-
conectada no trecho de maior diâmetro e é
realizada uma sobreperfuração do trecho
6 - Investigações para obras de barragens 1 163
Rolamento
Haste
Cabeçote interno
Tubo interno
Camisa de latão
Retentor da amostra
Projeção do tubo interno
Sapata do tubo interno
FIG. 6.38 Barrilete amostrador tipo Denison
Fonte: modificado de ABGE (1980).
injetado, no mesmo diâmetro D da perfu-
ração inicial. O testemunho assim obtido
terá uma recuperação integral, uma vez
que as partes fraturadas e/ou alteradas
foram consolidadas pela injeção de pro-
duto colante. Além dessa vantagem, o
testemunho acha-se referenciado, o que
permitirá que sejam definidas as atitudes
de todas as suas descontinuidades.
Os testemunhos de sondagem devem
ser acondicionados cuidadosamente em
caixas de madeira ou de plástico, a fim de
evitar quebras, e mantendo as posições
relativas dos testemunhos obtidos. Cada
manobra deve ser separada da anterior e
164 1 Geologia de Barragens
da seguinte por tacos de madeira em que
serão anotados com tinta indelével a pro-
fundidade do início e do final da manobra.
Na tampa e num dos lados menores da
caixa, deverão ser anotados com tinta in-
delével os seguintes dados: nome da obra
e do cliente; número do furo; e localização
do furo. A Fig. 6.41 mostra um exemplo
de caixa com testemunhos em uma obra
supervisionada pelo autor.
e) Aplicações da sondagem rotativa
em projetos de barragens
A sondagem rotativa constitui ferra-
menta indispensável para qualquer obra
2 3
1/,
. ..P
de barramento, aplicável não apenas para
o conhecimento das rochas das fundações,
mas de todas as obras relacionadas com o
barramento. Assim, podem-se distinguir
as aplicações da sondagem rotativa nas
seguintes obras e feições de um projeto de
barragem: fundações, vertedouros, canais,
túneis, usinas hidrelétricas e pedreiras.
Sondagens rotativas para as fundações
da barragem
As sondagens ao longo das fundações
da barragem objetivam fornecer as se-
guintes informações:
• caracterização litológica;
4 5
l __ l
o
"" u-,
~
::,
't
<1J
o..
<1J
cr
= _ " .. 39 Esquema da execução de uma amostragem integral
6 - Investigações para obras de barragens 1 165
FIG. 6.40 Detalhe da amostragem integral e um testemunho com 2,20 m dessa amostragem
:::ante: cortesia da Sondotécnica.
• estado de alteração das rochas;
• tipo, posicionamento e abertura das
fraturas;
• grau de consistência das rochas;
• condutividade hidráulica do maciço
rochoso;
• coleta de amostras para ensaios la-
boratoriais;
• ensaios in situ;
• definição do fluxo das águas subter-
râneas .
Todas essas informações são
imprescindíveis para uma perfeita carac-
terização geomecânica e hidrogeotécnica
do eixo barrável, conforme analisado no
item 4 .2. Para obter o máximo aproveita-
mento dessas informações, é necessário
elaborar um programa de sondagens ade-
quado às reais necessidades do projeto,
considerando sempre que, em projeto de
barragem, cada caso é um caso. Assim,
não é possível estabelecer um programa
H /\ll 11 /\ G EM S. / \ ~ T O '\: I O )) E L I i\l /
SO~D/\GEi\l SIC 02 EST. :i+0,00-EIXO
:IG. 6.41 Caixa de testemunhos
166 1 Geologia de Barragens
de sondagens com se fosse uma receita
de bolo. Qualquer planejamento nesse
sentido deve-se apoiar nos seguintes co-
nhecimentos prévios:
• caracterização geológico-geotécnica
superficial, com ênfase para as es-
truturas geológicas presentes;
• caracterização morfológica da área
que interessa ao eixo barrável;
• premissas técnicas do projeto.
Com base nesses conhecimentos, deve-
-se partir para o planejamento das
sondagens, que envolve as seguintes
definições: número de sondagens; espa-
çamento entre as sondagens; inclinação
dos furos; profundidade; feições geológi-
cas passíveis de detalhamento; aferições
de prospecções indiretas; necessidades
específicas do projeto; dificuldades opera-
cionais; custo x benefício etc.
O número de sondagens varia muito
em função da extensão do eixo barrável,
do tipo de barragem e das características
geológicas a esclarecer. Entretanto, deve-
-se considerar que, em termos de reconhe-
cimento, por exemplo, para cotejar alter-
nativas diferentes na etapa de viabilidade,
é necessário um mínimo de quatro sonda-
gens, duas na parte baixa do vale e uma em
cada ombreira. Definido o eixo a estudar,
serão acrescentadas mais sondagens não
somente ao longo do eixo, mas também a
certa distância para montante e para ju-
sante. Essas sondagens rotativas podem
ser complementadas por sondagens a per-
cussão, como mostrado na Fig. 6.42, ou
por sondagens mistas, como mostrado na
Fig. 6.43, ambas as áreas referentes a pro-
jetos desenvolvidos pelo autor.
Embora a fase de viabilidade exija o
número suficiente de sondagens para es-
clarecer todos os problemas da fundação,
é sempre possível haver a necessidade
de realizar mais sondagens na etapa de
projeto básico, principalmente se houver
alguma mudança no projeto idealizado na
etapa de viabilidade.
O espaçamento entre sondagens
também não pode ser constante, pois varia
em função das exigências do projeto e das
necessidades em detalhar a geologia em
subsuperfície. Em áreas de geologia mais
homogênea, como regiões sedimentares,
o espaçamento pode ser mais regular,
variando entre 50 m e 100 m, como mos-
trado na Fig. 6.43, onde o espaçamento
ao longo do eixo barrável foi constante e
igual a 100 m. Em função dos primeiros
resultados obtidos, um espaçamento ini-
cialmente previsto poderá ser diminuído
ou aumentado.
A inclinação dos furos depende
da geologia das fundações. Em regiões
sedimentares, como na barragem de Con-
trato (Fig. 6.43), as sondagens podem ser
verticais (Fig. 6.44); em áreas cristalinas,
porém, onde a maioria das fraturas são
verticais, como na barragem de Serrinha
(Fig. 6.42), deve-se inclinar o furo de 10
a 30° com a vertical, a fim de interceptar
um maior número de fraturas (Fig. 6.45).
A profundidade tem relação direta
com a altura prevista para a barrage
imediatamente sobre o local da sondagem
Nesse sentido, há muitas divergências
entre os autores, que chegam a estabelec
profundidades que variam desde 0,5 H a e
1,0 H (H = altura da barragem). O mais re-
comendável seria adotar como parâme
6 - Investigações para obras de barragens 1 167
. ... /
/ .
/
/ .
. /.
/
I
I
l .
l ..
/ ·
/
SP-17
o
I
/· ./
._/.
./
/
. _;:..... , ___ ... '
· / . . .' · . SP-15
.· . . o ·- .
/ ' ',
SR:5, ·
30° .
Qal
·Eix0 barrável . ·
SP-14 , · o .
FIG. 6.42 Sondagens rotativas e a percussão na barragem de Serrinha (PE)
FIG. 6.43 Sondagens rotativas e mistas na barragem de Contrato (PI)
SP-13 o -
SR-4 .
SP-12
o ., .
médio 0,75 H, partindo do princípio de
não encerrar a sondagem sem que sejam
obtidos em duas manobras sucessivas,
de 3 m cada, todos os valores ideais para
168 1 Geologia de Barragens
o projeto (recuperação, consistência, al-
teração, fraturamento e condutividade
hidráulica).
m
A caracterização das feições geoló-
gicas passíveis de detalhamento pode
ocorrer na fase final de uma campanha de
sondagens na etapa de viabilidade ou no
projeto básico, sendo uma consequência da
interpretação das sondagens anteriores.
Nesses casos, a localização da sondagem
é definida pelo surgimento da necessidade
de detalhar uma feição geológica já iden-
tificada, como uma falha, um dique, uma
zona alterada, um paleovale etc.
A aferição de prospecções indire-
tas, como a geofísica, pode ocorrer de
duas formas: proceder a uma correlação
entre as prospecções semidiretase indi-
retas, como já comentado nos métodos
geofísicos; ou esclarecer feições determi-
nadas pela geofísica, como paleocanais,
heterogeneidades, fraturas etc. A Fig. 6.44
SR-11
25 30 35
mostra um paleocanal cuja presença foi
prevista pela geofísica e confirmada pela
sondagem SM-8.
As necessidades específicas do
projeto podem exigir a realização de son-
dagens localizadas ao longo das fundações
da barragem, como, por exemplo, na base
de futuras tubulações para tomada d' água
ou vertedouros tulipas. Também o projeto
de barragem em concreto pode exigir son-
dagens mais adensadas e localizadas sob
determinadas estruturas. A barragem de
enrocamento com face de concreto exigirá
sondagens sob o plinto.
As dificuldades operacionais geral-
mente são ditadas pela morfologia do eixo
e pela presença da água no rio. Em vales
com declividades muito íngremes, como a
barragem de Irapé, em Minas Gerais, torna-
-se impossível sondar em grande parte de
suas ombreiras. Uma solução para tais
casos seria a abertura de nichos ou peque-
40 45
FIG. 6.44 Seção no eixo da barragem de Contrato (PI), vendo-se o leito do rio entre as sondagens SM-9 e SM-1
Note-se que, além das sondagens mistas (SM-7 a SM-10), localizadas na bacia de inundação, também a son-
dagem rotativa (SR-11), localizada na ombreira esquerda, foi executada na vertical
6 - Investigações para obras de barragens 1 169
_; · ..
~
+
+-
8,Õ
2,
·50
-IG. 6.45 Seção no eixo da barragem de Serrinha (PE), mostrando todas as sondagens rotativas inclinadas
nos túneis que permitissem a localização de
sondas de pequenas dimensões. Também
o rio dificulta a realização de sondagens,
?rincipalmente quando a lâmina de água é
espessa. Essas situações exigem a implanta-
ão de plataformas fixas ou flutuantes que
oneram e retardam muito essas investiga-
ções. Quando a largura do rio não é muito
!!rande, podem-se realizar sondagens incli-
nadas a partir de suas margens, pelo menos
na fase de viabilidade (Fig. 6.46).
Finalmente, deve-se observar na
programação de sondagens a relação
custo x benefício. Isso não significa que,
em uma pesquisa para barragem, se faça
economia em detrimento da qualidade.
Ocorre que, muitas vezes, uma sondagem
a mais não trará informações adicionais
que justifiquem a sua execução, como
ambém, às vezes, duas sondagens podem
ser substituídas por uma sem representar
risco de comprometimento da pesquisa.
Assim, deve-se avaliar muito bem o bene-
fício advindo de cada sondagem.
Sondagens rotativas para vertedouros
Será abordada aqui apenas a situação
do vertedouro localizado fora do eixo bar-
rável, pois, do contrário, as sondagens
constituiriam uma das particularidades
já citadas para as fundações da barragem.
Fora do eixo barrável, o vertedouro geral-
mente tem a forma assumida na Fig. 5.3a,
podendo a ogiva situar-se em uma depres-
são do terreno ou ser implantada em uma
área escavada.
Em princípio, devem ser investigadas
por sondagens rotativas as fundações da
ogiva, do canal rápido e da bacia de dis-
sipação. O número de sondagens em cada
uma dessas obras dependerá de suas ex-
tensões e das características geológicas
locais, mas, se a ogiva localizar-se em uma
depressão morfológica, devem-se fazer
pelo menos três sondagens no sentido
transversal ao fluxo vertedor (Fig. 6.47).
Sondagens rotativas para canais
Em barragens, os canais podem ter
várias finalidades, como desvio do rio,
tomada d'água, aproximação do verte-
douro etc. As sondagens rotativas nessas
obras visam definir os contatos entre solo,
saprólito, rocha alterada e rocha sã, a fim
de possibilitar a análise de estabilidade
necessária ao projeto de taludamento dos
1 7 0 1 Geologia de Barragens
NA em 20/02/1974
25
20
15
10
5
o .__ ___________________________________ ____,
FIG. 6.46 Seção ao longo do eixo da barragem de Ma tapagipe (PE), em projeto coordenado pelo autor.
Observe-se que as sondagens inclinadas na fase de viabilidade resolveram o problema da lâmina d' água no rio
cortes a proceder no canal, como mos-
trado na Fig. 5.2 .
Caso o canal não seja muito extenso,
três sondagens são necessárias: uma no
seu trecho inicial, outra nas proximi-
dades da obra a que se destina (ogiva do
vertedouro, tomada d 'água etc.) e uma in-
termediária. Todas as sondagens deverão
atingir a cota prevista para o piso do canal.
Se o canal for muito extenso, recomenda-
-se interpolar a prospecção geofísica entre
essas três sondagens.
Sondagens rotativas para túneis
Entre as finalidades de obras subterrâ-
neas passíveis de ocorrer em um projeto
de barragem, enumeradas no item 5.4.1,
apenas a casa de força não pode ser consi-
derada um túnel. Assim, pelo menos sete
utilizações de túnel foram ali previstas, o
que dá uma ideia da importância da investi-
gação por sondagem para esse tipo de obra.
No item 5.4 ficou clara a distinção no
tratamento de duas porções de um túnel:
emboques e traçado. Nos emboques, a
caracterização das descontinuidades do
maciço rochoso e de seu regolito é fun-
damental para avaliar a melhor solução
do projeto, como mostrado na Fig. 5.6.
Assim, deverão ser executadas duas a
três sondagens no sentido contrário à de-
clividade do terreno sobre os emboques,
a fim de caracterizar todas as feições geo-
lógicas necessárias ao projeto . Quanto ao
traçado, o mapeamento geológico e uma
topografia de detalhe deverão indicar os
principais pontos a ser investigados por
sondagens rotativas . Assim, no túnel
mostrado na Fig. 5.7a seriam imprescin-
díveis as sondagens nos pontos B e C,
com profundidades que ultrapassassem a
cota prevista para o piso do túnel. Caso
essas sondagens revelassem situações
desfavoráveis à escavação desse túnel,
6 - Investigações para obras de barragens 1 171
55
50
.!{)
30
25 f.
· 20
.. f
FIG. 6.47 Sondagens rotativas executadas para a ogiva do vertedouro da barragem de Orobó (PE)
?ante: pesquisa do autor.
sondagens adicionais com espaçamento
de 10 m seriam executadas, a fim de
definir a extensão do problema. Nos in-
erflúvios, seriam feitas sondagens com a
profundidade suficiente para interceptar
o nível freático, podendo ser concluídas
após duas manobras de 3 m cada uma, que
apresentassem os parâmetros já citados
em conformidade com as necessidades
do projeto. Para túneis muito extensos,
as sondagens rotativas devem ser inter-
poladas com a prospecção geofísica.
Sondagens rotativas para usinas hidrelé-
tricas (casa de força)
As usinas hidrelétricas podem ser ins-
taladas no corpo da barragem, quando
as sondagens estariam incorporadas à
programação das fundações, discutidas
anteriormente. Desligada do corpo da
barragem, a usina pode admitir três situ-
ações de localização: abrigada, em poço
e subterrânea. Nos casos de abrigada ou
em poço, a localização fica muito próxima
à superfície, o que facilitaria sua investi-
gação por meio de sondagens rotativas
inclinadas, conforme especificado para
os emboques dos túneis . No caso de usina
subterrânea, a investigação dependerá da
sua distância em relação à superfície e
da morfologia local. Se essa distância for
muito grande e a declividade for muito
forte, pode ser mais econômico abrir um
túnel que poderá ser utilizado no futuro
f
172 1 Geologia de Barragens
pelo próprio projeto, como acesso à usina
ou para restituição das águas turbinadas,
e a partir desse túnel executar sondagens
rotativas horizontais que poderão subsi-
diar a elaboração de alguns testes in situ.
Sondagens rotativas para pedreiras
Como será discutido no Cap. 9, um dos
objetivos da pesquisa de material pétreo
para as obras de engenharia é a defini-
ção do expurgo das pedreiras, ou seja,
a caracterização de todos os materiais
que recobrem a rocha sã, bem como sua
espessura. Para tanto, é necessário utili-zar a sondagem rotativa. Dependendo da
extensão da pedreira, podem-se progra-
mar duas a três sondagens localizadas de
forma a propiciar uma boa representação
de toda a pedreira investigada. Para pe-
dreiras muito extensas, essas sondagens
poderão ser interpoladas e extrapoladas
com a prospecção geofísica. As sondagens
deverão ser concluídas ao se atingir duas
manobras de 3 m cada uma, com boa recu-
peração (acima de 90%).
6.3.5 Sondagens mistas (SM)
As sondagens mistas constituem
uma associação da sondagem a percus-
são e da sondagem rotativa. Assim, em
uma mesma sondagem são investigados
os materiais incoerentes, por meio da
percussão, e os materiais rochosos mais
resistentes, por meio da sonda rotativa.
Não será necessário, portanto, descrever a
metodologia de sua execução, uma vez que
é a mesma já referida nos dois tipos pros-
pectivos incluídos. Apenas se faz restrição
à inclinação do furo, pois, uma vez que a
sondagem a percussão é realizada apenas
na vertical, a sua continuidade por meio
da sondagem rotativa não pode ter qual-
quer inclinação com a vertical. Esse tipo
de sondagem é largamente utilizado para
pesquisar as fundações de uma barragem,
como exemplificam as Figs. 6.43 e 6.44.
6.3.6 Sondagem com rotopercussão
a) Equipamentos e metodologia
A sondagem rotopercussora utiliza
conjuntamente a percussão e a rotação,
visando à trituração da rocha. O sistema
de perfuração pode ser de três tipos:
manual, mantido sobre vagão e jumbo. O
tipo manual é também chamado marte-
lete (Figs . 6.48 e 6.49) .
Esse equipamento é constituído de três
partes: cabeça, haste e broca. Na cabeça
(ver Fig. 6.49), são imprimidas as ações de
percussão e de rotação. Os impactos pro-
duzidos por um pistão originam ondas de
choque que se transmitem à broca através
da haste. Com o movimento de rotação,
faz-se girar a broca para que os impactos se
FIG. 6.48 Corpo de um martelete
Fonte: ITGE (1994).
Movimento de
Percussão
Avanço
:IG. 6.49 Ação de um martelete
.=-onte: modificado de ITGE (1994) .
Corpo
. reduzam sobre a rocha em distintas po-
sições. As hastes podem ter seção redonda
ou hexagonal, com comprimento variável
entre 3 m e 6 m e diâmetro entre 1" e 2".
• s brocas podem ser de pastilhas ou de
:>0tões. Nas brocas de pastilhas, são inseri-
das na cabeça da broca quatro pastilhas de
carboreto de tungstênio, dispostas em cruz
ou em X (Fig. 6.50a). Na broca de botões,
são inseridos cilindros de carboreto de tun-
gstênio em sua cabeça, de forma a ficarem
expostos em forma de botões (Fig. 6.50b).
Os detritos resultantes da trituração
da rocha por meio desse processo são
expelidos do furo pelo efeito do ar ou da
água, embora no Brasil se utilize o ar com
maior frequência .
O equipamento rotopercussor mon-
tado sobre vagão pode ser deslocado por
a
6 - Investigações para obras de barragens 1 173
Haste
/ '
Detritos 1
Movimento
De rotação
rodas ou por esteiras. O deslocamento
por esteiras (Fig. 6.51) é mais utilizado
em razão da maior facilidade de transi-
tar sobre terrenos irregulares. O sistema
jumbo (Fig. 6.52) é semelhante ao anterior,
com a diferença de que possui dois ou mais
braços para executar vários furos simul-
taneamente, na horizontal ou na vertical,
tanto de cima para baixo como de baixo
para cima, no caso de obras subterrâneas.
b) Aplicações da rotopercussão em
barragens
Esse método de investigação tem muita
restrição, pela qualidade da amostragem
obtida. Como o material rochoso é total-
mente triturado, a identificação litológica
somente é possível por meio da identifica-
ção mineralógica dos detritos extraídos,
b
FIG. 6.50 Tipos de broca para a sondagem rotopercussora: (a) pastilhas; (b) botões
Fonte: modificado de ITGE (1994).
174 1 Geologia de Barragens
Centralizador
da haste ___ ,.,...,
Martelo
de fundo
Motor
Translação
FIG. 6.51 Esquema de funcionamento de uma rotoper-
cussora sobre vagão deslocado por esteira
Fonte: modificado de ITGE (1994).
o que impede qualquer avaliação sobre a
textura e estrutura da rocha. Por outro
lado, a profundidade máxima de perfu-
ração não excede os 35 m, o que também
constitui uma restrição na investigação de
uma barragem.
Dessa forma, essa metodologia so-
mente é aplicada em obras de barramento
nas seguintes situações:
• fundações: abertura de drenas;
• contenção de encostas: abertura
de drenas e para chumbamento de
tirantes;
• obras subterrâneas: execução de
furos para introdução de explosivos;
• pedreiras: execução de furos para
introdução de explosivos.
6.4 PROSPECÇÃO DIRETA
Como já citado, esse tipo de prospecção
leva o investigador até o local pesquisado,
independentemente do tipo de material
a investigar. Com tal procedimento, é
possível definir in loco as seguintes carac-
terísticas do subsolo:
• perfil do solo, com as características
pedológicas de cada variação do ma-
terial inconsistente e das formas de
transição entre horizontes diferen-
tes;
• textura e estrutura dos diferentes
materiais;
• presença de blocos e matacões nos
horizontes do solo;
• características do saprólito e suas
formas de transição para o solo que
lhe recobre e para a rocha sotoposta;
• características litológicas e seus es-
tados diferenciais de alteração;
• atitude real das descontinuidade_
do maciço rochoso, como planos de
estratificação, de xistosidade, fratu-
ras, falhas e dobras;
X XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX XXXXXXXXXXXX XX XXXXXXXXXXXX XXXX
FIG. 6.52 Rotopercussora no sistemajumbo perfurando em um túnel na horizontal
Fonte: modificado de ITGE (1994).
• espaçamento, abertura, rugosidade
e preenchimento dos planos de des-
continuidade.
Além da caracterização in situ dos ma-
-eriais investigados em subsuperfície,
esse tipo de prospecção também per-
mite coletar amostras deformadas ou
indeformadas de solos e rochas para a rea-
lização de ensaios laboratoriais e a execução
dos diferentes tipos de ensaios in situ, em
solo ou em rocha. Pode-se fazer a pros-
pecção direta por meio de três métodos:
oços, trincheiras e túneis.
6 .4.1 Poços
a) Abertura do poço
Pode-se abrir o poço em solo ou em
rocha. Em solo, utilizam-se ferramentas
manuais, como pá, enxada, enxadeco, pica-
reta, barra-mina etc. A seção do poço pode
ser quadrada ou circular, e a dimensão
varia em função do material a escavar e das
necessidades de observação e amostragem,
;:>0rém não deverá ter menos de 2 m de
diâmetro ou de lado, dependendo do tipo
de seção. A profundidade varia em função
do objetivo da investigação, porém dificil-
mente ultrapassa os 15 m.
O avanço da escavação deve ser cui-
dadoso a fim de evitar riscos à segurança
dos operários que realizam a escavação e
do técnico que irá analisar e/ou amostrar
o material escavado. Recomendam-se os
seguintes procedimentos nessa escavação:
i) escavar até a profundidade de
1,5m;
ii) analisar detalhadamente as ca-
racterísticas de cada material
6 - Investigações para obras de barragens 1 175
atravessado, amostrando aqueles
que julgar necessários;
iii) escorar todas as paredes com tábuas
de boa qualidade, contraventando-
-as com escoras de madeira ou
metálicas;
iv) prosseguir a escavação adotando a
cada 1,5 m os procedimentos indi-
cados em (ii) e (iii);
v) a escavação deverá ser concluída
nos seguintes casos: atingir a pro-
fundidade que atenda ao objetivo
da escavação; atingir o nível freá-
tico; atingir a rocha.
Para completa segurança da escavação,
devem-se tomar os seguintes cuidados:
• depositar os materiais escavados
a uma distância mínima de 1 m da
borda do poço, para não sobrecarre-
gar o topo do talude;
• caso não seja necessário deixar
o poço aberto para investigações
posteriores, deve-se retirar o seu es-
coramento e preencher o poço com o
material que dele foi retirado;