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Colegao Estado e Constituigao
Orgallizndores
Jose Luis Bolzan de Morais
Lenio Luiz Streck
COllse/ll0 Editorial
J ase Luis Bolzan de Morais
Lenia Luiz Streck
Rogerio Gesta Leal
Leonel Severo Rocha
Ingo Wolfgang Sarlet
Andre Copetti
Consell/O ConsultivD
Andre-Jean Arnaud
Wanda Maria de Lemos Capeller
Jorge Miranda
Michele Carducci
B486d BercQvici, Gilberta
Oilemas do estado federal brasileiro / Gilberta Bercovici.
_ Porto Alegre: Livraria do Advogado Ed., 2004.
104 p.; 13 x 21 em. - (Estado e Constituic;ao; 3)
ISBN 85-7348-331-8
1. Federalismo. 2. Teoria do Estado. 3. Estado federaL
I. Titulo.
CDU - 342.24
fndices para 0 cataloga sistematico:
Federalismo
Teoria do Estado
Estado federal
(Bibliotecaria responsavel: Marta Roberto, CRB-l0/6S2)
Estado e Constitui~ao - 3
GILBERTO BERCOVICI
DILEMAS DO ESTADO
FEDERAL BRASILEIRO
livrar~ia
DO AD OGADO
editora
Porto Alegre, 2004
Nestor Castillo Gomes
OABISC 21 175
© Gilberto Bercovici, 2004
(apa, projeto grrifieo e rliagrallla~iio
Livraria do Advogado Editora
Revisiio
Rosane Marques Borba
Direitos desta edi~iio reservados por
Livraria do Advogado Editora Uda.
Rua Riachuelo, 1338
90010-273 Porto Alegre RS
Fone/fax: 0800-51-7522
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www.doadvogado.com.br
Impresso no Brasil/Printed in Brazil
Nota da organizayao
Chegamos, com a presente trabalho, de autoria do
jovem e reconhecido Gilberta Bercovici, ao terceiro
numero da nossa cole~ao "Estado e Constitui~ao" e,
com isso, cremos, it sua consolida~ao como projeto
aberto it discussao dos temas contemporaneos que en-
volvem as dilemas e perspectivas enfrentadas pel a Esta-
do Constitucional.
Temos, assim, convic~ao de que vimos contribuin-
do para a duvida permanente ace rca do presente e do
futuro do Estado e da Constitui~ao, nao como fen6me-
nos estanques, mas como projetos institucionais da mo-
dernidade.
o texto de Bercovici, com certeza, tranl, como em
outros de seus trabalhos, contribui~oes expressivas para
aqueles que somas co-responsaveis pel a montagem de
uma democracia substancial permanentemente em cons-
tru~ao e intrinsecamente comprometida com a dignida-
de humana, a li cer~ada na incerteza peculiar a todo
projeto democratico.
Continua mas, todavia, abertos a novas projetos e
pro pastas, a novas reflexoes que venham contribuir para
a trato destes temas e, sobretudo, para dar conta da
proposta civilizat6ria presente na f6rmula aberta do
Estado Democratico de Direito.
Neste momento, contudo, devemos nos enfrenta r
com as questoes postas pelo Auto r para, assim, conti-
nuarmos nosso processo de conhecimento, agradecendo
ao mesmo pela acolhida de nossa solicita~ao.
Prof. Dr. Jose Luis Bolzan de Morais
Sumario
Introdu l;ao .. . . 9
Capitu lo 1- Forma~ao do Federalismo no Brasil 11
1.1. As Origens Norte·America nas do Federalismo 11
1.2. 0 Es tado Unitc1 rio Imperial (1822·1889) 23
1.3. A Repub lica, 0 Coronelismo e 0 Poder dos Es tados (1889·1930) 31
1.4. Entre 0 Federalismo Coopera ti v~ e a Centrali za,ao (1930·1945) 38
1.5. Federalismo, Desenvol vimentismo ea Questao Regional (1945-1964) 42
1.6. Nova Centra li za ~ao (1964-1 985) . 49
Capitulo 2 - Federa lismo e Descentraliza~ao na
Constitui~iio d e 1988 . 55
2.1. 0 Federalismo Coopera ti vQ da Cons tituic;ao de 1988 . 55
2.2. A Ques tao da Descentra li zac;ao 64
2.3. A " Descentrali zac;ao por Ausencia" e 0 Ajuste Fisca l . 65
2.4. A Necessidade de Planejamento e Coordena<;ao na
Descent ra li za<;ao de Polfticas Sociais . 69
Capitulo 3 - Representa-;ao Poiftica e Federalis mo: urn debate
inacabado . 73
3.1. A Crise d a Representa<;ao Pollt ica e a Cons li tuinte de 1987-88 73
3.2. A IguaJdade do Vo to 76
3.3. 0 Bicamerali smo no Brasil 79
3.4. A Desproporcionalidade na Camara dos Depulados 88
Considera-;oes Finais . 95
Bibliografia . 100
,
Introdu~ao
Seguindo a tradi~ao republicana, 0 artigo 10 da
Constitui~ao de 1988 declara que a forma do Estado
brasileiro e 0 Estado Federal. Mas, 0 fato de a Constitui-
~ao definir 0 Brasil como urn Estado Federal nao nos
poupa do trabalho de analisar detidamente que fede ra-
lismo e 0 brasileiro. Afinal, nao existe um "modelo" de
federalismo ideal, puro e abstrato, que englobe a varie-
dade de organiza~6es existentes nos Estados denomina-
dos federais. 0 que existe e uma serie de sol1l ~6es
concre tas, historicamente variadas, de organiza~ao do
Estado, dentro de d eterminadas ca racterfsticas comuns
entendidas como necessarias a urn regime fed eral.'
Em nenhuma concep~ao doutrinaria 0 fed eralismo
e entendido como oposto it lInidade do Estado. ~lo
.fontrario, 0 objetivo do federalismo e a unidade, respei-
tando e assimilando a pluralidade.2 Nem poderia ser
110se Juan Gonzalez ENCINAR, EI Es fndo Ullitnrio-Federa{; La Alltollomin como
PriHcipio ESlructural del Estado, Madrid, Tecnos, 1985, p. 86-89 e Dalmo de
Abreu DALLARI, 0 Estndo Federal, Sao Paulo, Atka, 1986, p. 50-51 e 77-78. Em
scntido contnlrio, para tlma lenta liva de justificar uma Teoria Geral do Federa-
lismo, embora reconhe"\a a necessidade de se fa lar em varios Estados federais,
nao em urn Estado federal ideal, vide Jose Alfredo de Oliveira BARACHO, Teorin
Gernl do Federalismo, Rio de Janeiro, Forense, 1986, p. 5-10 e 315-324.
2 Jose Juan Gonzalez ENCINAR, op. ciL, p. 80-81 e Dalmo de Abreu DALLARI,
o Es/ndo Federal ciL, p. 51-52 . .f!'ra Rui de Britto Alvares Affonso, s6 no Brasil
£-federalis!!,o e associado it descentralizac;ao, e nao a unidade. Na sua opiniao,
esta "inversifo conceitual" corresponde, efetivamente, a crise do pacto fede-
rativo brasileiro. Cf. Rui de Britto Alvares AFFONSO," A Federac;ao no Brasil:
Impasses e Perspectivas" ill Rui de Britto Alvares AFFONSO & Pedro Luiz
Barros SILVA (orgs.), A Federap'io em Pt!rspectiva: ElIsaios Seleciollndos, Sao
Paulo, FUNDAP, 1995, p. 57.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 9
diferente, afinal a unidade esta na essencia da organiza-
~ao estatal. Para garantir a unidade (fim), 0 Estado
possui determinada forma de organiza~ao (meio), mais
ou menos centralizada3 Todo Estado, inclusive 0 fede-
ral, neste sentido e unitario, pois t~m como um de seus
objetivos a busca da unidade. A autonomia nao se op6e
it unidade, mas it centraliza~ao em determinados orgaos
ou setores do Estado' Neste. senti do, num Estado fede-
ral a unidade e 0 resuhado de um processo de integra-
~ao, em que a autonomia nao se limita a ser um objeto
passiv~ (garantia), mas e, essencialmente, sujeito ativo
na forma~ao desta unidade estatal (participa~ao)S
Partindo do pressuposto da especificidade do fede-
ralismo brasileiro, 0 objetivo deste livro e, a partir de
uma perspectiva historica da forma~ao do federalismo
no Brasil (capitulo 1), buscar compreender as quest6es
ainda polemicas e nao resolvidas da estrutura federal d a
Constitui~ao de 1988, especialmente no tocante ao fede-
ralismo cooperativ~ e it descentraliza~ao das politicas
sociais (capitulo 2) . Encerramos a analise dos dilemas do
Estado Federal brasileiro com a discussao, ainda inaca-
bada, das complexas rela~6es entre representa~ao politi-
ca e federalismo no Brasil (capitulo 3) . Por uma serie de
raz6es hi~toricas e politicas, a diferencia~ao entre repre-
.§enta~ao dos Estado~e do povo praticamente nao existe
!:Io nosso sistema politico-constitucional. No Brasil,
£omo veremos, tanto 0 Senado como a Camara dos
Oeputados representam os Estados.
3 Para Hermann Heller, 0 Estado e uma unidade de decisao e a<;30. Cf.
Hermann HELLER, Staats/elm!;11 Ges(lmmeite ScI"iftell, 2~ ed, Ttibingen, J.CS.
Mohr (Paul Siebeck), 1992, vol. 3, p. 339-349. Vide tambem Jose Juan Gonzc11ez
ENCINAR, op. (i L, p. 60. De acordo com Gonzalez Encinar,a unidade e um
objetivo, e a autonomia e urn principia estrutural (de organiza<;ao) do Estado.
Ou seja, a autonomia e urn meio, a unidade e urn lim. Vide Jose Juan Gonzalez
ENCINAR, op. cit., p. 93-95 e 161.
4 Jose Juan Gonzalez ENCINAR, op. cit" p. 58-63.
5 Cr. Rudolf SMEND, Ver/assllIIg lind VerfasslIIIgsrecil1 ;1' Staatsreclltliche Abllml-
dflillgell lind alldere AII/salze, 3' ed, Berlin, Duncker & Humblot, 1994, p. 224-227
e 268-273; Konrad HESSE, Oer UIIUarisclle BUlldesstaat, Karlsruhe, Verlag c.P.
MUller, 1962, p. 26-27 e Jose Juan Gonzalez ENCINAR, op. cit., p. 126-130.
10
Eslado e COllslitlli,iio 3
GILBERTO BERCOVICI
•
Cap itul o 1
Forma~ao do Federalismo no Brasil
1.1, As Origens Norte-Americanas do Federalismo
o Estado federal foi criado em 1787, com a sua
ado~ao pelos Estados Unidos, recem-independentes da
Inglaterra , 0 regime ate entao em vigor era 0 confedera-
tivo. Os termos "Confedera~ao" e "Federa~ao" foram
utilizados na epoca indistintamente, de forma a poder
causar alguma confusao, Os proprios Arligos Federalis-
las, de autoria d e Alexander Hamilton, James Madison e
John Jay,6 costumam usar varias vezes os dois termos
sem qualquer diferencia~ao.
Para evitar maiores dllvidas, tra~aremos um esbo~o
de como funcionava a Confedera~ao norte-americana
para a compararmos com 0 novo tipo de Estado que a
sucedeu, A Confedera~ao possuia um orgao politico
central, 0 Congresso, de carater predominantemente
diplomatico, que carecia de autoridade propria, respei-
tando a absoluta independencia dos Estados associ ados,
Os representantes dos Estados se reuniam no Congresso
para del iberar assuntos de interesse comum (na sua
maioria, os ligados as re la~6es e comercio internacio-
nais), 0 Congresso era subordinado ao poder dos Esta-
6 Alexander HAMILTON, James MADISON & John JAY, Tile Fedemlist Papers,
London / New York, Penguin Books, 1987. Devemos dar destaque aos artigos
9 e 10 (sobre as vantagens do novo tipo de governo); 30 a 36 (sobre tributac;ao,
em especial 0 n° 32) e 41 a 46 (sob re a repartic;ao de competencias entre a
Uniao e os Estados, particularmente 0 artigo 45).
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 11
dos, sujei tando-se ao seu poder de veto. Dessa maneira,
as decis6es so poderiam ser tomadas pel a unanimidade
dos treze Estados. As delibera~6es da Confedera~ao
tinham mais 0 carater de recomenda~6es do que pro-
priamente 0 de leis, pois a sua execu~ao era deixada a
cargo dos Estados, que so respeitavam essas delibera,6es
se as consideravam adequadas aos seus interesses parti-
cu lares.~ Confedera,ao, em sum a, nao passava de uma
soma dos componentes politicos das antigas colonias
inglesas, gerando um governo extrem~mente instavel
devido aos constantes impasses politicos
Essa instabilidade fez com que se procurasse dotar
o novo pais de um governo efetivamente nacional.
Representantes de praticamente todos os Estados se
reuniram na Filadelfia, em 178(, para deliberar sobre a
reforma dos Artlgos da Confedera,ao (a primeira Cons-
titui,ao americana). _O resu ltado foi uma outra Consti-
~i,ao, que instituia um novo modelo de Estado, 0
_modelo federa l, visto como capaz de ga rantir a unidade
porte-americana. 0 federalismo reconheceu a iden tida-
de e a autonomia das treze ex-colonias e ofereceu um
esquema de so lu,ao de eventuais conflitos ou con trover-
sias. Escreveu Hamilton sobre a nova organiza,ao criada
em 1787: "The proposed Constitution, so far f rom implying
an abolition of the State governments, makes them consti-
tuent parts of the national sovereignty, by allowing them a
direct representation in the Senate, mId leaves in their posses-
sion certain exclusive and very important portions of sove-
reign power. This fully corresponds, in every rational import
of the terms, with the idea of a federal governmen t".'
A desconcentra,ao do poder politico deu-se com a
existencia de d uas esferas de poder politico: a federal e a
estadual (os Municfpios foram esquecidos nessa divisao
de poderes, sendo deixados no ambito da competencia
estadual). Uma esfera nao e superior a outra. 0 que
7 Alexander HAM ILTON, James MADISON & John JAY, op. cit. , Artigo n° 9.
12 Estndo e COlls tit llifiio 3 GILBERTO BERCOVICI
prevalece sobre am bas e a Constitui,ao. Entretanto, a
inexistencia de hierarquia entre os entes federados nao e
absoluta . Em determinadas circunstancias, 0 poder fede-
ral prevalece. f. interpr~ta,ao hoje dominante e a de que
!la~ hipoteses de competencia concorrente ou em que
@ ha eleme_ntos sufi cientes para uma afirma,ao indu-
bitavel de competencia, a que prevalece e a da Uniao.
Alguns teoricos, como Alexis de Tocqueville, de-
senvolveram a teoria de que 0 Estado federal era dotado
de dupla soberania: a federal e ados Estados-membros.
Tocqueville dizia que os Estados Unidos eram compos-
tos por dois governos separados e quase independen tes.
Um, habitual e indefinido, cuidava das necessidades do
cotidiano. 0 outro, excepcional e circunscrito, cu idava
de certos interesses gerais: " 0 governo federal nao
passa, a lias, como acabo de dizer, de uma exce,ao: e 0
governo dos Estados a regra comum".
Cad a Estado, para ele, era uma pequena na,ao
soberana. Inclusive, por possuirem soberania propria,
Tocqueville achava que os Estados tinham 0 direito a
secessao, contrariando, assim, um dos pilares do sistema
federal (a defesa da uniao indissoluvel dos Estados
levaria, en tre outros motivos, os Estados Unidos it guer-
ra civ il entre 0 Norte e 0 Sui em 1861).8 Os proprios
autores dos Artigos Federalistas constantemente usam a
expressao "soberania dos Estados", mas, cumpre ressal-
tar que essa utiliza,ao da-se no sentido atual de au tono-
mia, nao de soberania . Na realidade, 0 unico en te titular
da soberania e a Uniao. 0 Estado-Membro e dotado
apenas de autonomia, compreendida como governo pro-
R!io dentro do cfrculo de competencias tra,adas pela
Constitui,ao Federal.
,- Na Federac;ao norte-americana, como em tod as as
demais, prevaleceu 0 criterio juridico-formal no estabe-
8 Alexis de TOCQUEVILLE, A Delllocrncin /1(1 America, 3~ ed. Belo Horizon-
Ie / Sao Paulo, ltatiaia / EDU5P, 1987, p. 52-53, 92-94, 111, 115, 119-121,128-130
e 278-284.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 13
lecimento da estrutura federal, delimitando-se as esferas
de atua~ao dos Estados-Membros e da Uniao. Essa
delimita~ao, chamada de lreparti~ao de competencias, e
9 ponto centra l do fecleraiTsmo, f'ressuposto da autono-
mia dos entes federados. As unidades federadas rece-
bem diretamente da Constitui~ao Federal as suas
competencias, is to e, 0 reconhecimento de seus poderes
conjugado com a atribui~ao de encargos. Nao se trata de
mera descentraliza~ao administrativa, mas da existencia
conjunta de multiplos centros de decisao polftica, cada
qual com a exc1usividade em rela~ao a determinados
assuntos. A Uniao trata dos interesses gerais, os Estados
dos seus pr6prios interesses regionais ou locais ou
daqueles que sao melhor tratados se delegados ao poder
local.
Desta forma, nos Estados Unidos de 1787, foram
definidas com cuidado as atribui~oes da Uniao e deixou -
se 0 res to (a competencia residual) para os Estados. Os
principais objetivos a serem defendidos pela Uniao se-
riam a defesa comum dos membros, a preserva~ao da
paz publica (contra convulsoes internas ou ataques ex-
ternos), a regula~ao do comercio com outras na~oes e a
manuten~ao de rela~oes polfticas e comerciais com os
pafses estrangeiros. Aos Estados caberia tudo aquilo de
que nao fossem explicitamente destitufdos pela Consti-
tui ~ao. As duvidas seriam dirimidas pela Suprema Cor-
te. A decorrencia direta da reparti~ao de competencias e
a distribui~ao das fontes de recursos financeiros para
equilibrar os encargos e as rend as das unidades federa-
das.A forma norte-americana de reparti~ao de compe-
tencias, depois imitada pela maioria dos Estados
federais surgidos posteriormente, foi assim resumida
por James Madison, co-autor dos Artigos Federalistas, no
artigo 45: "The powers delegated by the proposed Constitu-
tion to the federal government are few and defined. Those
which are to remain in the State governments are numerous
and indefinite. The former will be exercised principally on
14 c:.srnaQ e L.oIIstitlfifiio 3 GILBERTO BERCOVICI
external objects, as war, peace, negotiation, and foreign
commerce; with which last the power of taxation will, for the
most part, be connected. The powers reserved to the several
States will extend to all the objects which, in the ordinary
course of affairs, concern the lives, liberties, and properties of
the people, and the internal order, improvement, and prospe-
rity of the State. The operations of the federal government will
be most extensive and importan t in times of war and danger;
those of the State governments, in time of peace and security.
As the former periods will probably bear a small proportion to
the latter, the State governments will here enjoy another
advantage over the federal government. The more adequate,
indeed, the federal powers may be rendered to the national
defence, the less frequent will be those scenes of danger which
might favour their ascendancy over the governments of the
particular States"9
Esta separa~ao absoluta de competencias do federa-
lismo c1assico (denominado federalismo dualista) e jus-
tificada no contexte de um Estado liberal, em que a
atua~ao estata l era relativamente reduzida. A separa~ao
total e, assim, possfvel por causa da pouca extensao e
relativa simplicidade da interven~ao do Estado. Para
~parte da doutrina norte-americana, 0 federalismo
~ua lista era um complemento necessario ao Es tado libe-
ral e ao laissez-faire economico, evitando uma maior
regula~ao e interven~ao estatal (especia lmente da parte
da Uniao) na economia. 'O
- A questao da "separa~ao dos Poderes" foi a motiva-
~ao de uma das mais severas crfticas feitas 11 Constitui-
~ao norte-americana no perfodo de sua elabora~ao e
ratifica~ao. 0 tema e tratado nos artigos de numeros 47 a
9 Alexander HAMILTON, James MADISON & John JAY, op. cit., Artigo n° 45.
10 Edward S. CORWIN, Americlln Constitutional History, New York, Harper
Torchbooks, 1964, p. 163-164; Bernard SCHWARTZ, Direito COllstiludollnl
Americallo, Rio de Janeiro, Forense, 1966, p. 63-65, 68-70 e 206-207; Bernard
SCHWARTZ, £1 Federalismo NortellmericfII/O Actulll, Madrid, Civitas, 1993, p.
39-44 e Enoch Alberti ROVIRA, Federnlismo y Cooperncioll ell In Republica Federal
Alemnlln, Madrid, Centro de Estudios Constitucionales, 1986, p. 353-355.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 15
51, todos de autoria de James Madison. Os crfticos da
Constitui~ao de 1787 alegavam que esta nao havia con-
sagrado a "separa~ao de Poderes", estando 0 poder
distribufdo d e maneira desproporcional entre os diver-
sos 6rgaos estatais, 0 que favoreceria 0 acumulo do
poder em uma s6 mao, ou seja, 0 estabelecimento de
uma tirania. 1I
Para Madison, esta crftica s6 poderia ser provenien-
te da ma-interpreta~ao da obra de Montesquieu. Afina l,
o pensador frances nunca disse que os poderes nao
deveriam possuir nenhuma ingerencia parcia l ou ne-
nhum controle uns sobre os outros. Alem disso, a pr6-
pria Constitui~ao da Inglaterra, exemplo utilizado por
Montesquieu, nao consagrava a separa~ao total e absolu-
ta dos Poderes.'2 0 que Montesquieu afirmou reiterada-
mente e a sua opos i~ao it concentra~ao de todo 0 poder
nas maos de uma s6 pessoa, que caracterizaria a tirania.
Destacamos, assim, 0 seguinte trecho do Artigo nO 47, de
autoria de Madison: "From these facts, by which Montes-
quieu lUas guided, it may clearly be inferred that in saying
'There can be no liberty where the legislative and exeClltive
powers are united in the same person, or body of magistrates',
or, 'if the power of judging be not separated from the
legislative and executive powers', he did not mean that these
departments ought to have no partial agency in, or no control
over, the acts of each other. His meaning as his own words
import, and still more concillsively as illustrated by the
example in his eye, can amount to no more than this, that
where the whole power of one department is exercised by the
same hands which possess the whole power of another depart-
ment, the fundamental principles of a free constitution are
subverted" .13
II Neste sentido, vide Pedro Carl os .Bacelar de VASCONCELOS, A Sepnrn(no
dos Poderes nil COllstifuipi0 Americllna: Do Veto Legislativo aD Execlltivo U"ittirio
- A Crise Reglllnt6rin, Coimbra, Coimbra Ed., 1994, p. 24-25.
12 Alexander HAM ILTON, James MADISON & John JAY, op. cit., Artigo n° 47.
13 Ibidem.
16 Estndo e COllstiilli(no 3 GILBERTO BERCQVICI
Para os autores dos Artigos Federalistas, a Constitui-
~ao norte-americana conseguiu evitar a concentra~ao do
poder em uma s6 mao, sem separar de forma total e
absoluta os Poderes do Estado. Nao poderia ser diferen-
te, pois nao ha, para eles, nenhum caso de algum Estado
que tenha conseguido manter os varios Poderes absolu-
tamente distintosl4
A chamada "separa~ao dos poderes" nao exigiria,
assim, que os Poderes Legislativo, Executivo e Judici;irio
fossem inteiramente desvinculad os uns dos outros. Na
realidade, 0 essencial era, inclusive, a sua vincula~ao e
interpenetra~ao, realizadas de maneira que cada urn dos
Poderes obtivesse 0 controle constitucional sobre os
demais. A mera declara<;ao escrita dos limites dos varios
Poderes nao era suficientelS 0 mecanismo encontrado
na Constitui~ao norte-americana foi, ao inves da separa-
<;ao total e absoluta dos Poderes, a introdu~ao do sistema
defreios e contrapesos (checks and balances). 16 Nas palavras
de Madison: "The only answer that can be given is that as all
these exterior provisions are found to be inadequate the defect
must be supplied, by so contriving the interior structure of
the government as that its several constituent parts may, by
their mutual relations, be the means of keeping each other in
their proper places".17
Os autores dos Artigos Federnlistas, particuiarmente
Madison, defendiam uma forma de governo que evitas-
se que as fac<;6es ls se tornassem maioria apta a controlar
14 Alexander HAMILTON, James MADISON & John JAY, op. cit., Artigo nO
47. Vide tambem Bernard SCHWARTZ, Direito Conslill/ciollal AmericllIlo cit.,
p. 28-29.
15 Alexander HAMILTON, James MADISON & John JAY, op. cit., Artigo n° 48.
16 Sobre 0 sistema de freios e contrapesos, vide especialmente Pedro Car los
Bacelar de VASCONCELOS. op. cit., p. 29-33.
17 Alexander HAMILTON, James MADISON & John JAY, op. cit ., Artigo nO 51.
18 "By nfnctioll, Jllllderstnlld n IIlImber of citizens, wltether nmolillting to n majority
or millority of tlte whole, who are Illlited and nctllnted by some commoll impllise of
pnssioll, or of illterest, adverse to tile rights of other citizells, or to the perlllammt
alld nggregate ill terests of lite commllllity". Alexander HAMILTON, James MA.
DISON & John JA Y, op. cit., Artigo n° 10.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 17
...------'1 -
o Estado. 0 objetivo do born governo seria 0 de garantir
os bens pl.blicos e os direitos privados contra as fac~6es,
assegurando ao mesmo tempo 0 espirito e forma do
governo popular. Este governo 56 poderia ser 0 governo
republicano: "The two great points of difference between a
democracy and a republic are: first, the delegation of the
govemment, in the latter, to a small number of citizens
elected by the rest; secondly, the grea ter number of citizens,
and greater sphere of country, over which the latter may be
extended" .'9
o grande desafio do governo republicanoseria 0 de
evi tar que a natural supremacia do Poder Legislativo,
enquanto poder mais pr6ximo do povo, se transformas-
se em uma tirania da maioria ou de uma fac~ao domi-
nante.'o Este pensamento foi muito bern explicitado por
Thomas Jefferson: "AI the powers of government, legislati-
ve, executive, and judiciary, result to the legislative body. The
concentrating these in the same hands a precisely the defini-
tion of despot ic govemment. It will be no alleviation that
these powers will be exercised by a plurality of hands, and not
by a single one. One hundred and seven ty-three despots
would surely be as oppresive as one. Let those who doubt it
tum their eyes on the republic of Venice. As little will it avail
us tha t they are chosen by ourselves. An elective despotism
was not the governmen t we fought for, but one which should
not only be founded on free principles, but in which the
powers of government should be so divided and balanced
among several bodies of magistracy, as that no one could
transcend their legal limits, without being effectually checked
and restrained by the others. For this reason that convention
which passed the ordinance of govemment, laid its foundation
on this basis, that the legislative, executive and judiciary
19 Alexander H AMILTON, James MADISON & John JAY, op. cit., Arligo nO 10.
20-r:h,omas JEFFERSON, "Notes on the State of Virginia" ill TIle Life tIlld Selected
Wntlllgs of Thomas Jeffersoll, New York, Modern Library, 1993, p. 221-223 e
Alexander HAMILTON, James MADISON & John JAY, op. cit., Arligos nO 48
e 51.
18 Estado e C0l15til/li~iio 3 GILBERTO I3ERCOV[CI
departments should be separate and distinct, so that no person
should exercise the powers of more than one of them at the
same time".'!
A democracia pura (para os autores da ep oca, a
democracia direta da Atenas chl.ssica) se caracteriza ria
por urn pequeno numero de cidadaos que se uniriam e
administrariam pessoalmente 0 governo, nao resolven-
do os maleficios advindos do surgimento das fa c~6es. Ja
a republica teria a opiniao do povo, portanto tambem a
das fac~6es, filtrada pelas assembleias. Alem disso, a
grande extensao da republica dividiria a esfera de inte-
resses: os interesses amp los e gerais seri am tratados na
assembleia naciona!, e os interesses loca is e particu lares,
nas assembleias estaduais."
Este e 0 ponto central da estrutura do Es tado
norte-america no e da sua democracia: a jun~ao do meca-
nismo d e freios e contrapesos (ou seja, repud io it divisao
total e estanque dos Poderes) com 0 federalismo. Em
outras palavras, a separa~ao horizontal de Poderes con-
jugada com a separac;ao vertical, nenhuma de forma
absoluta, mas de uma maneira equilibrada onde um
Poder controla 0 outro, tanto os Poderes Legislativo,
Executivo e Judiciario como a Uniao e os Estados. E
Madison sintetizou esta f6rmula no Artigo nO 51: "In a
single republic, all the power surrendered by the people is
submitted to the administration of a single govemment; and
the usurpations are guarded against by a division of the
government into distinct and separate departments. In the
compound republic of America, the power surrendered by the
people is firs t divided between two distinct governments, and
then the portion allotted to each subdivided among distinct
and separa te departments . Hence a double security arises to
21 Thomas JEFFERSON, op. cit., p. 221-222.
22 Alexander HAMILTON, James MADISON & John JAY, op. cif., Artigos nO
10 e 14.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 19
If"""
the rights of the people. The different governments will con-
trol each other, at the same time that each will be controlled
by itself'B
Desde 0 modelo original norte-america no, as defi-
ni~6es e caracteristicas dos varios tipos de federalismo,
todavia, nunca podem ser consideradas como absolutas.
Afinal, 0 federalismo norte-americano caracteriza-se
pela dec isiva atua~ao da Suprema Corte na sua configu-
ra~ao no decorrer da evolu~ao hist6rica. Assim, nos
prim6rdios da Republica Americana, a Suprema Corte,
liderada por Marshall, buscou consolidar a Uniao, refor-
~ando seus poderes frente as ex-Colonias, agora Esta-
dos-Membros: era 0 national federalism.24 Ap6s a Guerra
Civ il (1861-1865), a interpreta~ao da Suprema Corte
buscou ressa ltar os poderes estaduais frente a Uniao,
enfatizando a separa~ao rigid a de compeb~ncias (dual
federalism) . A tendencia a uma maior coopera~ao entre as
duas esferas e a preponderancia federal vern desde 0
final do seculo XIX, mas a ruptura definitiva com 0
federalismo dualista 56 ocorre com 0 New Deal de Frank-
lin Delano Roosevelt (1932-1945).25
Foi a necessidade de interven~ao do Estado para
solucionar os problemas gerados com a depressao da
decada de 1930 que levou ao abandono do federa lismo
23 Alexander HAM ILTON, James MADISON & John JAY, op. cit., Artigo n° 51.
24 Urn exemplo desta cons tru~ao jurisprudencia\ e a e laborac;ao da "Doutrina
dos Poderes Irnplfci tos", em que se assegurava a UniAo nao apenas as poderes
enumerados expressamente no texto consti tucionaL mas tambem as poderes
necess~ ri os e apropriados ao exercfcio efetivo destes poderes expressos. Vide
especialmente Edward S. CORWIN, op. cit., p. 148-152; !!ernard SC HWARTZ,
Dirdto C01lstitllciollnl Americano cil., p. 51 -55 e Bernard SCHWARTZ, Ef Fede-
ralisti/o NorteallleriCflllO Actllal ciL, p. 21-24.
25 At~ 1937, a Suprema Corte decidia de modo favon1vel ao laissez-faire eco-
nomico. 0 caso rna is famoso, sobre direitos trabalhi stas, fo i 0 LociJller v. New
York, de 1905, que simbolizou 0 periodo de 1905 a 1937, conhecido como
"Loch"er period". Cf. Cass R. SUNSTEIN, Ti,e Partial COllstilllt ioll, reimpr.,
Cambridge (Mass.)/London, Harvard University Press, 1997, p. 42-51 e 62-66.
Vide tambem Edward S. CORWIN, op. ciL, p. 102-103 e Enoeh Albe rti ROVI-
RA, op. cit., p. 347-349.
20 Estado e Coltstitlli(iio 3 GILBERTO I3ERCQVICI
dua lista nos Estados Unidos 2 6 0 que ocorreu com 0
federalismo norte-americano, a partir do New Denl, foi a
transforma~ao das re la~6es Uniao-Es tados, dando ori-
gem as tendencias fundamentai s das polfticas publ icas
desenvolvidas posteriormente. Comparativamente a
Uniao, os Estados perderam grand e parte de sua autori-
dade e nao a recuperaram mais. 0 que tambem nao
gerou nenhuma "ditadura federal ", nem se deve excl u-
sivamente a polftica naciona lista de Roosevelt. Na reali-
dade, os Estados perderam a capacidade de solucionar,
isoladamente, os principais problemas economico-so-
ciais de suas popula~6es, ao mesmo tempo em que a
Uniao construiu e consolidou urn vasto e poderoso apa-
relho ad ministrativo fed eral.27
Com 0 New Deal, inicialmente, houve, de fato, uma
tendencia fortemente centralizadora. No en tanto, a cen-
trali za~ao excessiva foi posta de lado quando 0 Govemo
Federal se deu conta da necessidade da co l abora~ao dos
poderes subnacionais para a rea liza~ao do ambicioso
programa proposto por Roosevelt: passou-se, en tao, a
enfa ti za r nao rna is a competi~ao, mas a coordena~ao e
coopera~ao entre Uniao e Estados, com 0 desenvolvi-
mento do fooperative federalism, 28 tomando 0 federalismo
26 Edward S. CORWIN, op. cit ., p. 145-146; Bernard SCHWA RTZ, Direito
COllstilllciollal Americfl/IO cit., p. 207-209 e 229-232; Bernard SCHWARTZ, El
Federalislllo Nortealllt:ricallo Actllal cit., p. 44-48, 68-69 e 112-119 e Dalmo de
Abreu DALLARI, 0 Estado Federal cit., p. 43-48. De acordo com James Patter-
son, durante a deeada de 20, a esfera estadual era mais importante e inova-
dora do que a esfera fede ral, especial mente no toeante as politicas sociais. No
entanto, boa parte destas inova<;oes estaduais acabaram fracassando, rerua-
nescendo apenas alguns poucos avanc;os pontuais em determinados Estados
norte-americanos. Cf. James T. PAITERSON,Tile New Deaf alld tile States:
Federalism ill Trnllsitioll, Princeton, Princeton University Press, 1969, p. 3-1 6.
27 James T. PATIERSON, op. cit., p. 198 e 202-207. Para a v isao crftica dos /lew
dealers sobre 0 federalismo norte-america no em seus moldes tradicionais, vide
Cass R. SUNSTEIN, "Cons titutionalism after the New Deal", Harvard Law
Review nO 101, dezembro de 1987, p. 425, 442-443 e 504-508.
28 A Suprema Corte 56 come<;ou a abandonar a coneep<;ao dualista do fede~
ra li smo nor te-americano a partir de 1937, quando passou a reinterpretar a loa
Emenda a Const itui<;ao de 1787, que determinava que os poderes remanes-
cen tes, ou seja, os nao explicitados no tex to eons titueional, perteneiam aos
Dilemas do Estado Federa l Brasileiro 21
,
A centraliza~ao fomentada pelo Imperador fez com
que ~ refor~asse 0 senti men to autonomista que vigorava
em varias Provincias, particularmente em Pernambuco:
Em 2 de julho de 1824, foi proclamada a Confedera~ao
do E'll.'ador,. baseada no exemplo norte-americano. Uni-
ram-se para formar uma republica federativa as Provin-
cias de Pernambuco, Para ilia, Rio Grande do Norte e
Ceara. Foi feito um apelo as Provincias de Piau!, Mara-
nhao e Para pa ra que aderissem, alem das demais
Provincias que quisessem ser reg idas pel a fonna de
go verno a ser estabelecida pela futura Assembleia Cons-
tituinte. As for~as imperiais, no en tanto, rapidamente
Q.errotaram a Confedera~ao do Eguador. Os_seus Ifderes
morreram em combate, fug iram do P-ill£...Oll foram pre-
sos, s~ndo alguns condenados, como Frei Caneca, a
..I)1orte 32
As fo[(; as centrifugas, entretanto, iriam se manifes-
tar ate 0 inicio do Segundo Reinado. Curiosa mente, ao
contra rio do que possa parecer, a di visao da republi cana
America espanhola em va rios paises acabou por se
tornar em forte estimulo a unidade, sendo sempre invo-
cada como modelo a ser evitado pelo Brasil a qualquer
pre,o.33 Mas 0 mesmo consenso nao ocorria em rela,ao a
D. Pedro I d esde a cruel repressao it Confedera<;ao do
Equador. Tido como desp6tico e absolutista, 0 Impera-
dor era tratado de forma cada vez mais hostil pelos
liberais brasileiros. As sucessivas crises entre a Camara
dos Deputados e D. Pedro I acaba ram por indispor 0
monarca com a opiniao publica. _0 fra casso dessa pri-
32 Amaro QUINTAS, "A Agita~ao Republi cana no Nordeste" ill Sergio BlIar-
que de HOLANDA (coord .), Historin Geml da Civilizflfiio Bnisileirn, tama II,
vol. 3, 6" ed, Sao Pau lo, Difel, 1985, p. 227-233 e Jose Murilo de CARVALHO,
"Federalismo e Central iza<;ao no Imperio Brasileiro: Hist6ria e Argumento"
ill POll los e Bordndos: Escritos de Hist6rin e Potrticn, reimpr., Bela Horizonte,
EdUFMG, 1999, p. 163-164.
33 Sergio Buarque de HOLANDA, "A Heran<;a Colonial - Sua Desagrega<;ao"
;11 Sergio Buarque de HOLANDA (coord. ), Hisf6rin Gera' rill C;vilizflfiio Brasi-
leirn, toma II, vol. 3, 6a ed, Sao Paulo, Dife!, 1985, p. 15 e Jose Murilo de
CARVALHO.op. , ;/. , p. 161-163.
24 Estado e COllstit1ti~ifo 3 GILBERTO BERCOVICI
meira tentativa de centraliza,ao consubstanciou-se com
.a 7 de abril de 1831, quando D. Pedro I foi for<;ado a
abdicar.
Como D. Pedro II era ainda uma crian~a , instalou-
se uma Regencia ate a sua maioridade. Tentou-se criar
uma especie de "monarquia federativa" jil em outubro
de 1831, quando fo i apresentado it Assembleia Geral 0
"Projeto Substitutivo Miranda Ribeiro", que acabava
com a vitaliciedade do Senado (tornando-o renovavel na
sua ter,a parte a cada legislatura); transformava os
Conselhos Gerais em Assemblt~ias Provincia is com d uas
casas; di vidia os poderes tributarios entre as Assem-
bleias Geral e Provincial, alem de discriminar as rendas
publicas; instituia a autonomia municipal (0 Governo
Geral continuaria a nom ear 0 Presidente da Provincia, e
as Assembleias Provincia is nomeariam os intendentes
de cada Municipio); entre outras modifica,6es. Aprova-
do pela Camara, nao foi sequer discutido no Senad034
As iniciativas da Camara dos Deputados opunha-se
quase sempre 0 Senado vitalicio e, na sua grande maio-
ria , conservador. 0 impasse s6 foi superado com a Lei de
12 d e outubro de 1832, determinando que os eleitores
concederiam poderes especiais aos deputados para alte-
rar os artigos e paragrafos da Constitui~ao expressamen-
te declarados como reformaveis: seria aprovado 0 Ato
Adicional (Lei nO 16, de 12 de agosto de 1834) .
Com 0 Ato Adicional, ocorreu uma certa descentra-
li za~ao. Embora sem autonomia, as Provincias foram
dotadas de Poder Legislativo pr6prio e tutela sobre os
Municipios. Foram criadas, em sub'stitu i<;ao aos Conse-
Ihos Gerais, as Assembleias Legislativas Provinciais,
com prerrogativas de elabora<;ao d e projetos e leis am-
pliadas (artigos 10 e 11 do Ato Adicional). 0 Presidente
.H Paulo Pereira de CASTRO, "A 'Experiencia Republicana', 1831-1840" ill
Serg iO Buarque de HOLANDA (coord .), Hist6ria Geral da Civilizafiio Brasileira,
lomo II, vol. 4, Sa ed, Sao Pau lo, Dife!, 1985, p. 29-31 e Jose Murilo de CAR-
VALHO, op. ,;/., p. 164-165.
Dilemas do Estado Federal Brasilciro 25
I
I ,
da Provincia continuou, entretanto, um delegado da
Corte, a ser nomeado pelo Poder Central. Nem todas as
resolu<;6es das Assembleias Provincia is precisariam
mais ser aprovadas pel a Assembleia Geral. As que eram
especificadas no Ato Adicional poderiam ser enviadas
diretamente ao Presidente da Provincia, que as sancio-
naria ou nao.
o paradoxo do alargamento das franquias prov in-
ciais foi 0 fato de ter sido feito as custas dos Municfpios.
A defesa da ideia de separar do Poder Central tudo
aquilo que poderia ser resolvido em ambito provincial
nao teve a sua contrapartida no tocante aos Municfpios.
As Assembleias Provinciais passaram a poder legislar
sobre impostos, despesas e empregados municipais,
alem de criar ou revogar posturas municipais sem preci-
sar esperar ou depender da iniciativa das Camaras
Municipais (artigos 10, IV a VII e XI, e 11, III, do Ato
Adicional). De 6rgaos politicos, juridicos e administrati-
vos durante a Colonia,3s as Camaras, segundo 0 artigo 24
da Lei de 1 ° de outubro de 1828 (Regimen to das Ciimaras
Municipais do Imperio), passaram a meras "corpora~6es
administrativas". Segundo Victor Nunes Leal, a tutela
das Camaras pelas Assembleias Provinciais era justifica-
da na epoca por dois motivos: 0 de cada Provincia
estabelecer 0 regime municipal que the Fosse mais con-
veniente e 0 do fortalecimento das Provincias em rela~ao
ao Governo Central atraves da unifica~ao de sua politica
interna. Ja historiadores como Sergio Buarque de Holan-
da analisam essa decadencia das institui~6es municipais
como consequencia do quadro mais largo da liquida~ao
da heran~a coloniaL'6
35 Sabre 0 import ante papeJ politico desempenhado peJas Camaras Munici-
pais durante 0 perfodo colonial, vide especial mente Caio PRADO Jr, Evol ll(iio
Palilica do Brasil· ColOnia e Imperio, 19~ ed, Sao Paulo, Brasiliense, 1991, p. 29-32
e 38-44 e Victor Nunes LEAL, Corollelisl1Io, EIlxnrin e Voto: 0 Mllnicipio e 0 Regime
RepresentativD liD Brasil, 6~ ed, Sao Paulo, Alfa-Omega, 1993, p. 60-73.
36 Serg io Buarque de HO LANOA, "A Heran~a Colonial - Sua Oesagrega<;ao"
cit., p. 23-26 e Victor Nunes LEAL, op. cil ., p. 76-78.
26 Estado e Co"stit lli~iio 3 GILBERTO BERCOVICI
A Eegencia nao conseguiu montar llm esquema de
estabilidade com um nucleo hegem6nico de Provincias,
como ocorreria durante a Primeira Republica. As abun-
dantes revoltas do periodo buscavam nao a de sagrega-
~ao, mas uma mefFlOr participa~ao no ' poder. Elas
traduzem 0 anseio de conquistar uma maior integra ~ao
no comando politico para a conquista de mais poder de
decisao e beneficiar a economia local. 0 grupo de Pro-
vincias que deu a principal base para a Independencia,
Sao Paulo, Rio deJaneiro e Minas Gerais, nao se revol-
tou, pois possuia vantagens politicas superiores ao seu
poder economico, numa epoca em que 0 centro dinami-
co da economia concentrava-se em Bahia, Pernambuco e
Maranhao (locais de maior arrecada~ao tributaria do
periodo). As revoltas eclodiram nas areas que se sentiam
espoliadas com a p~rtilha do poder entao vigente (Rio
Grande do Sui e Bahia) ou COiTi' 0 arastamento das
Ifderan~as locais na politica regionaqPanl), al~m das
,9isputas pelo poder provincia1 (~ranhao). A separa~ao
era reclamada ou imposta como tatica de luta, sob a
promessa de retorno it unidade assim que a causa pela
qual os revoltosos lutavam Fosse vitoriosa (exemplos
patentes foram 0 da fSabinada baianal e 0 da_Revolu<;ao
Farroupilha gallcha).37
o inicio de descentraliza~ao promovido pelo Ato
Adicional teve vida curta. As condi~oes politicas gera-
das pela constante instabilidade do periodo regencial
fizeram com que maioria conservadora instalada no
Legislativo, autodenominada "Regresso", aprovasse a
Lei de Interpreta~ao do Ato Adicional (Lei n° 105, de 12
de maio de 1840). Esta lei de interpreta~ao refor~ou 0
centralismo, retirando varias prerrogativas dadas as
Provincias, concentrando mais 0 poder na Corte e nas
37 Caio PRADO Jr, op. cit., p. 71-81 e 86-89; Raymundo FAORO, Os 0 0 11 05 do
Poder: Formn~jjo do Pa/ ronalo Pofft ico Brasileiro, 8" ed, Sao Paulo, Globo, 1989,
p. 315-31 6 e 320-321 ; Paulo Pereira de CASTRO, op. cit. , p. 50-53 e Jose Murilo
de CARVALHO, op. cit., p. 165-1 67.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 27
3 1
maos do Imperador: ampliaram-se as prerrogativas dos
Presidentes de Provincia as custas das Assembleias Pro-
vinciais.
Os liberais reagiram a onda conservadora, estimu-
lando 0 chamado "Golpe da Maioridade". Vitoriosos,
foram convocados pelo novo Imperador, D. Pedro II,
entao com apenas 14 anos de idade, para organizar 0
primeiro gabinete do Segundo Reinado. Logo apeados
do poder, os liberais tentaram mudar a situa~ao, provo-
cando mais duas revo ltas provincia is, a de 1842 (conhe-
cida por Revo lta Liberal, baseada em Sao Paulo e Minas
Gerais) e a de 1848 (nova mente em Pernambuco, conhe-
cida como "Revolu~ao Praieira"). Em ambas, 0 Governo
Central tomou logo controle da situa~ao. Com a derrota
da Revolu~ao Praieira, terminou 0 ciclo de revoltas do
periodo imperial. A pr6xima crise interna do regime,
entre 1870 e 1889, seria tambem a ultima.
Durante 0 Segundo Reinado, os Presidentes das
Provincias ficavam no cargo, na maioria das vezes,
apenas durante 0 tempo necessario para garantir 0
predominio de seu partido (que era 0 do gabinete) na
Provincia. Para obter sucesso nas elei~5es, 0 Presidente
da Provincia escolhia chefes politicos para decidir a
sorte das elei~5es nos colegios eleitorais, manobrava
postos da Guarda Nacional, perseguia e afastava ele-
mentos oposicionistas ou suspeitos II situa~ao, removia
ou nomeava autoridades policiais, etc. Assim que con-
cluisse sua tarefa, deixava 0 cargo para seu substituto
legal. Quando 0 Presidente da Provincia tambem era
deputado II Assembleia Geral, exercia 0 cargo, normal-
mente, apenas durante 0 recesso parlamentar ou quando
nao tivesse nada de mais importante para fazer na Corte.
Frequentemente, 0 mesmo homem ocupava durante a
sua carreira a presidencia de va rias Provincias. A alta
rotatividade de Presidentes era tambem ex trema mente
prejudicial as Provincias, pois atrapalhava toda a sua
administra~ao. Para resolver este problema, foram pro-
28
r_, J _ "'_
L;.;!IW ' IV t: ..... ulIstillli(ifo 3
GILBERTO BERCQVIC!
postos varios projetos que modificavam a nomea~ao do
Presidente da Provincia, alguns prevendo, inclusive, a
elei~ao direta. Em 1860, foi proposta a Reforma Almeida
Pereira, que criava no servi~o publico uma carreira de
"Presidente de Provincia". De acordo com esta proposta,
os gabinetes escolheriam pessoas de sua confian~a em
um quadro de servidores publicos apartidarios e dota-
dos de conhecimentos especializados38 Nenhuma das
reformas apresentadas foi aprovada, perdurando a
questao dos Presidentes das Provincias, particularmente
a da sua eletividade, ate a Republica .
A primeira contesta~ao republicana ao regime mo-
narquico desde 0 fim das revoltas provincia is foi 0
~esto Republicano de 1870, que exigi a, en tre ou tros
temas, a implanta~ao da Federa~ao, nos moldes norte-
american os. A solu~ao para as novas aspira~5es e confli-
tos surgidos com as transforma~5es economicas e socia is
da segunda metade do seculo XIX parecia estar no
federalismo. A centraliza~ao passou a ser vista como um
entrave ao desenvolvimento do pais.
I) unitarismo durou enquanto houve id entifica~ao
do poder economico com 2.....I2 0der politico, alem da
~sencia de grandes conflitos entre as elites dirigentes .
'\(Com 0 deslocamento do centro dinamico da economia
~6s 1850, 0 desequilibrio criado entre 0 poder economi-
So e 0 poder politico deu novo vigor II aspira~ao federa-
listf,r As regi5es fornecedoras da maior parte dos
estadistas do Imperio, 0 Norte a~ucareiro e os nucleos
cafeicultores do Rio de Janeiro, estavam em crise. 0
..!l0vO centro economico era 0 oeste paulista . _Al~ado II
condi~ao de motor do desenvolvimento do pais, Sao
f.aulo se sentia prejudicado e discriminado pel a centrali-
za~ao . Dessa forma, de todas as Provincias, Sao Paulo
38 Raymundo FAORO, op. ciL, p. 377-379; Joao Camilo de Oliveira T6RRES,
A Form(l~iio do Federalismo 110 Brasil, Sao Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1961, p.
112-114 e Simon SCHWARTZMAN, Sao Pallio e 0 Estndo Naciollal, S~o Paulo,
O;[el, 1975, p. 106·1 09.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 29
era aquela em que os republicanos estavam em maior
nLtmero e melhor organizados. No casoEaulista, a defe-
~o~ublicanis_mo com federalismo tinha como _moti-
y'o 0 desejo de aumentaLs.ellSJec~Q?: .Q?El'ublicanos
defendiam uma redistribuic;ao das rend as para que Sao
~ulo puaesse financiar os custos de sua economia em
~ansao, base;!.da no cafe. A primeira vit6ria eleitoral
republicana no pais, inclusive, foi a eleic;ao de tres
deputados republicanos para a Assembleia Provincial
de Sao Paulo, ja em 1877 e, em 1881, foram eleitos seis
deputados republicanos para a mesma Assembleia . Os
EIiIDeiLos, e unicos, deputados republicanos eleitos para
a Assembleia Geral foram Prudente de Moraes eManuel
Ferraz de Caml20s Sal,es, de Sao Paulo (futuros Presiden-
1.~s da Rel'ublica), e Alvaro Andrade Botelho, de. Minas
Gerais, em 1884.39
- Ao contrario do crescimento do sentimento republi-
cano no SuI, reinava a indiferenc;a no Norte. Na Bahia, os
republicanos eram ignorados. Nunca a Bahia conseguiu
formar um partido republicano forte. tQ.s dois principais
politicos baianos da Primeira Republica, Rui Barbosa e
Jose Joaquim Seabra, eram ambos origimirios dos velhos
partidos monarquico]) Pernambuco, por sua tradic;ao
revolucionaria, reunia maiores condic;6es para a propa-
gac;ao dos republicanos. Entretanto, 0 partido republica-
no era fraco, e, talvez para compensar essa fraqueza ,
muito radical, dissociando-se da grande maioria repu-
blicana do resto do pais. Os republicanos hist6ricos de
Pernambuco, devido aos varios choques entre as diver-
sas facc;6es politicas, nao teriam forc;a para assumir 0
go verno com a Proclamac;ao. Ap6s um periodo turbulen-
39 Raymundo FAORO, op. cit., p. 452-466; Simon SCHWARTZMAN, op. cit.,
p. 79·80 e 112-114; Sergio Buarque de HOLANDA, "0 Manifesto de 1870" ill
Sergio Buarque de HOLANDA (coord .), Hist6ria Gem! da Civiliza~iio Brasileira,
toma II, vol. 7, 4a ed, Sao Paulo, Difel, 1985, p. 265·267; Renata LESSA, A
II/vel/{:na RepllbJicalla: Campos Sales, as Bases e n Decndellcia da Primeira Repllblica
Brasileira, Sao Paulo/Rio de Janeiro, Vertice/RT / IUPERJ, 1988, p. 41-42 e Jose
Murilo deCARVALHO, op. cil., p. 170-172.
30 Eslado e COllstitlli{:no 3 GILBERTO BERCOVICI
to, este iria para um antigo membro do Partido Conser-
vad~r, Francisco de Assis Rosa e Silva.~ razao dessa
suposta lealdade do Norte it monarquia pode ser tirada
das pessimas condic;6es economicas vigentes, com 0
prec;o dos principais produtos caindo no mercado inter-
nacional. Ao inves de se revoltarem contra 0 regime,
aquelas Provincias viam no auxilio do Poder Central a
sua Lmica esperanc;a~
1.3. A Republica, 0 Coronelismo e 0
Poder dos Estados 0889-1930)
ProcIamada a RepLlblica, 0 federalismo foi institui-
do pelo Decreto nO 1, de 15 de novembro de 1889. As
antigas Provincias foram transformadas em Estados._O
federalismo da Constituic;ao de 1891, moldado no fede-
~smo dualista classico:1 praticamente ignorou a coo-
Eac;ao entre Uniao e entes federados. 0 artigo 5° desta
Constituic;a042 restringia 0 auxilio federal aos Estados
exclusivamente aos casos de calamidade publica. Em
1897, 0 Governo Federal regulamentaria 0 artigo 5° de
forma minuciosa, especificando os casas em que os
Estados poderiam receber auxilio da Uniao, alem de
determinar que, junto com a solicitac;ao formal do pedi-
do, a ajuda federal dependeria de comprovac;ao docu-
mentada de que os recursos disponiveis do Estado
solicitante foram totalmente exauridos sem exito para
40 Sergio Buarque de HOLANDA, "0 Manifesto de 1870" cii., p. 267·268.
Sabre as rela~oes entre as Provincias do Norte e 0 Governo Imperia l, vide,
especiaimente, a obra de Evaldo Cabral de MELLO, 0 Norte Agrnrio e 0
Imperio, 1871-1889,2" ed, Rio de Janeiro, Topbooks, 1999.
41 Cf. Dalmo de Abreu DALLARI, "Os Estados na Federa~ao Brasilei r3, de
1891 a 1937", Revista de Direito COllst;tllcio1lal e Ciellcia Po/{/ica n° 3, Rio de
Janeiro, Forense, julho de 1984, p. 103-105.
.J2 Artigo 5° da Cons titlli~ao de 1891: "lncumbe a cada Estado prover, a
expensas proprias, as necessidades de sell governo e administra~ao; a Uniao,
porem, prestani SOCCOTTOS ao Estado que, em caso de calamidade publica, os
solicitar".
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 31
1T
debelar a calamidade que 0 atingiu. Para evi tar os
pedidos de auxflio dos Estados, 0 Ministro da Justi<;a de
Prudente de Moraes, Amaro Cavalcanti, declarou, em
Circular aos Governos Estaduais, de 22 de mar<;o de
1897, que 56 seriam atendidos os pedidos de auxflio
financeiro para a tender a situa<;5es de calamidade publi-
ca quando 0 Governo Federal julgasse cabivel 43 Parado-
xalmente, foram as ca lamidades publicas, mais
especificamente as secas no Nordeste, que justificaram
as primeiras medidas de rela<;5es intergovernamentais
tomadas sob 0 federalismo dualista do regime de 1891,
especialmente com as obras contra as secas levadas a
cabo durante 0 Governo de Epitacio Pes so a (1919-1922).
JLr..esultado desse~istema foi a manuten<;ao de
desigualdades gritantes entre os va rios membros da
F_ede@s~~ Os tn~~ Estados economicamente mais fortes
(Sao Paulo, Minas Gerais e, em menor grau, Rio Grande
ao SuI) dominavam a Republica. Nao e coincidencia
terem sido esses Estados os unicos que nao sofreram
interven<;ao federal,44 sob qualquer pretexto, ate 1930.
' Podemos considerar como perifericos, mas sem poder
efetivo, os Estados de Rio de Janeiro, Bahia e Pernambu-
co. Todos os demais d ependiam diretamente da Uniao,
que, por sua vez, era dominada pelos jogos de alian<;as
dos tres grandes Estados.
43 A reprodusao do texto da Circular de 1897 encontra-se em SERVI<;O DE
INFORMA<;AO LEGISLATIVA (SENADO FEDERAL), "0 Auxilid da Uniao
aos Estados nos Casas de Calamidade Publica", Revis/a de /lljormflrao Legis/a-
liva nO 7, Brasflia, Senado Federal, setembro de 1965, p. 252-253. Vide tambem
Raul Machado HORTA, "Problemas do Federalismo" ill Raul Machado HOR·
TA (arg.), Perspect ivas do Federalismo Brnsileiro, Bela Horizonte, Ed. Revista
Brasileira de Estudos Polfticos, 1958, p. 25-27 e A All/onomia do Estado-Membro
110 Direito COllstitllcional Brasileiro, mimeo, Bela Horizonte, Tese de Titularida-
de (F.wldade de Direito do UFMG), 1964, p. 285-287; SERVI<;O DE INFOR-
MA<;AO LEGISLATIVA (SENADO FEDERAL), "0 Auxilio da Uniilo aos
Estados nos Casos de Calamidade Publica" cit., p. 252-258 e Dalmo de Abreu
DA LLARI, "Os Estados na Federa<;ao Brasileira, de 1891 a 1937" cit ., p. 119-121.
44 Sobre 0 regime da interven<;ao federal previsto na Constitui<;ao de 1891 (ate
a Reforma de 1926), vide Enrique Ricardo LEWANDOWSKI, Pressttpostos
Materiais e Formais da llltervell(iio Federal 110 Brasil, Sao Paulo, RT, 1994, p.
59-69.
32 Estado e COllstitlli(iio 3 GILBERTO BERCOVlCi
No sistema politico implantado com a Republica, 0
Poder Executivo sobrepunha-se aos demais. A "Politica
dos Governadores" era a subordina~ao do Congresso
Nacional aos interesses das oligarguias es taduais alia-
das ao Presidente da Republica . A sucessao presidencial
era 0 grande momento do regime, constituindo a origem
de, praticamente, todas as crises que ocorreram durante
a vigencia da Constitui<;ao de 1891.)Como a escolha do
Presidente era decisiva, a grande va'nfagem ficava com
os tres grandes Estados, de maior popula<;ao e melhor
sistema educacional, pois os analfabetos nao vo tava.~
..Minas Gerajs, Sao Paulo e Rio Grande do SuI sobrepuja-
yam os demais Estados em eleitorado, representando
cerca de 50%_ dos votos nas elei<;5es presidenciais. Mas,
mesmo nestes Estados, a frau de eleitoral corria solta. A
estab ilidade da sucessao era garantida pela alian<;a entre
o PRP (Partido Republicano Paulista) e 0 PRM (Partido
Republicano Mineiro), a famosa alian<;a do "Cafe-com-
Leite", que impunha 0 seu candida to ao resto do pais . As
disputas 56 ocorriam quando as duas maquinas partida-
rias es taduais divergiam, abrindo espa<;o para os dois
elementos aut6nomos das decis5es politicas nacionais: 0
PRR (Partido Republicano Riograndense) e 0 Exercito. 0
sistema politico da Republica Velha nao mobilizava 0
eleitorado, gra<;as ao controle politico dos coroneis, no
ambito municipal, e das maquinas partidarias, no ambi-
to estadual. Quando ocorreu a mobiliza<;ao do eleitora-
do (em 1910, 1922 e 1930), 0 sistema chegou ao limiar da
ruptura .
52 Presidente da Republica d is tribufa as verbas
federais entre os seus aliados nos Estados, podendo
'ugfizar 0 Exercito para depor qualquer governo es ta-
<lual que se opusesse a sua politica. As exce<;5es nova-
mente eram Minas, Sao Paulo e Rio Grande do SuI, cujas
for<;as militares estad uais numerosas e bem-armadas
garantiam a autonomia do Estado, juntamente com a
coesao politica em torno de um partido politico estad ual
Dilemas do Estado Federa l Brasileiro 33
r-
f"' ,:
~,' (" ,.
fo r te, que englobava praticamente todos os grupos poli-
ticos do Estado (com a exce<;ao gaucha, onde dois parti -
dos se d iglad iavam com armas na mao, apesa r do
predomfnio indiscutivel do PRR ,45
o fe nomeno do coronel ismo e tfpico do perfodo
repub licano que se imCia em 1889, embora va rios dos
seus elemen tos, dados pela classica defini<;ao de Victor
N unes Lea146 foss em determinaveis durante 0 Imperio e
a Colonia. Isto decorre, basicamente, d a aboli<;ao da
escrava tura, do aumento do contingente eleitoral e da
ado<;ao do federalismo. 0 voto d os trabalhadores rurais,
ap6s a ex tin<;ao da escravidao e a extensao do di reito d e
45 A causa das disputas polfticas no Rio Grande do Sui, que chegaram efeti-
vamente a guerra civil em 1893 e 1923, era a sua Constituh;ao Estadual,
inspirada no positivismo de Augusto Comte, elaborada por JUlio de Castilhos,
a partir do projeto apresentado (e rejeitado) por Teixeira Mendes e Miguel de
Lemos ao Mareehal Deodoro. A Constitui~ao gallCha contrariavl!...Jntlmeros
disEositivos da Constitui~ao Federal de 1891: 0 presidente (gOvernador) doEstado poderia ser reeleito, desde que obtivesse maioria de 2/3; 0 vice-pre-
sidente era escolhido pelo presidente, a nao ser que a maioria das dlmaras
municipais votasse contra a indica<;ao e a assembh~ia legisla ti va possuia com-
petencia apenas em materia on;amentaria e tributaria, a lE~m de reconhecer a
elei<;ao do presidente e de processa-lo nos casos de crime de responsabilidade.
o Poder Legislativo estava !las maos do presidente, que deveria dar ampla
divulga<;ao aos seus projetos de lei. Os projetos poderiam receber sugestoes
durante 0 prazo de 3 meses, cabendo ao presidente aceita-las ou nao, promul-
gando a lei como quisesse . A lei s6 nolo entraria em vigor se a maior ia de 2/3
dos municipios a recusasse.
46 "Como indica<;ao introdut6ria, devemos notar, desde logo, que concebemos
o 'coronelismo' como resultado da superposi<;ao de formas desenvolvidas do
,.. reg ime representativo a uma estrutura economica e social inadequada. Nao
e, pois, mera sobrevivencia do poder privado, cuja hipertrofia constitu i {eno-
menD tlDico de nossa hist6ria colonial. E antes uma forma peculiar de mani·
privado, ou ~eja, uma adapta<;ao em virtud~da qual os
anhgo e exor15itante poder privado tern ~guido~oexjs ·
~ffirodeextensabase representativa. Por isso mesmo,
o 'coronelismo' e so15retudo urn cornpromisso, uma troca de proveitos en tre
o poder publico, progressivamente forta lecido, e a decadente influencia social
dos chefes locais, notadamente dos senhores de terras . Nao e possivel, pois,
compreender 0 fenomeno sem referencia a nossa estrutura agniria, que {or-
nece a base de sustenta<;ao das manifesta<;oes de poder privado ainda tao
visfveis no interior do Brasil. Paradoxalmente, entretanto, esses remanescen-
tes de privatismo sao alimentados pelo poder publico, e isto se explica justa-
mente em fun<;ao do regime representativo, com sufragio amplo, pois 0
governo nao pode prescindir do eleitorado rural, cuja situa<;ao de dependen-
cia ainda e incontestavel." ill Victor Nunes LEAL, op. cit., p. 20.
34 Estndo e C01/stitui(iio 3 GILBERTO BERCOVICI
sufragio, passou a ter importancia fundamental na Pri-
meira Republica. A influencia politica dos donas d e
terras (os "coroneis" ) aumentou gra,as a dependencia
~grande parcela d~eitorado causad!, pela esfi'liti:l-'
' ~I-aria e fundiari<! ,~ ado<;ao de urn regime repre-
,I sentativo mais amplo que 0 do Imperio, juntamen te com
II a existencia desta estrutura social e economica arca ica,
I acabou por vinc.!!,lar os detentores do poder politico aos
! donas de terr~ Qs_ dirigente.s politicos interioranos
deveriam garantir .QS_ votos d~us_dep,endentes ao
~erno nasereT~5es estaduais e federa's consolidando
~m troca, sua omina~ao poljtica loc'a Com 0 federalis-
mo e a existencia, entao, do governo estadual eletivo
(nao mais nomeado pelo Poder Central, como no Impe-
rio), tornou-se necessaria a implanta<;ao de maquinas
eleitorais nos Estados, baseadas no poder dos coroneis.
Essa maquina, alem de garantir 0 compromisso corone-
lista, acabou por determinar"ij. institui<;ao da chamada
"Politica dos Governadores"c1
Os Municipios nao dispunham de grandes recursos
para poder implementar as p oliticas necessarias ao bem-
estar de sua popula<;ao e ao seu desenvolvimento. Pra ti-
camente todos dependiam financeiramente do Governo
Estadual. Desta forma, os Estados 56 liberavam verbas
para os Municipios onde os aliados do Governador
estivessem administrando, Se 0 governo municipal nao
apoiasse 0 estadual, nao receberia 0 v ital auxflio finan-
ceiro e, conseqiientemente, perderia 0 apoio de sua base
eleitoral. 4,ssim explica-se 0 "govemismo" de l'rati~a
mente tod~as situa<;5e§JllunicipJ!is durante a Primeira
~epublica . Apesar da falta de grande autonomia legal,
os chefes municipais, que custeavam tod as as d espesas
do alistamento e das elei<;5es, poderiam ter ampla auto-
nomia "extralegal", isto e, sua opiniao prevaleceria no
Governo em tudo 0 que dissesse respeito ao seu Munici-
47 Vic tor Nunes LE AL, op. cit ., p. 253-254.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 35
pio, mesmo no tocante a assuntos de competencia exclu-
siva da Uniao ou dos Estados, como a nomea~ao de
certos funcionarios considerados "estrategicos" para a
manuten~ao do poder local (delegados, juizes, promo to-
res, professores, etc.) . Alem disto, as autoridades esta-
duais e federais costumavam fechar os olhos para
quaisquer arbitrariedades e violencias cometidas por
seus aliados nos Municipios4 8
A manipula~ao do voto pelos coroneis e a depen-
dencia econ6mica dos Municipios em rela~ao aos Esta-
dos resultou no dominio dos votos pelo Governador,
que decidia a composi~ao da sua bancada estadual no
Congresso Nacional equal candidato a Presidencia da
Republica seria eleito no seu Estado. 0 compromisso
firmado entre 0 Governo Federal e os Governos Esta-
duais deu origem a famosa "Politica dos Governado-
res". Esta politica foi institucionalizada pelo Presidente
Campos Sales (1898-1902), evitando uma serie de inter-
ven~6es federais nos Estados . .tJo Imperio, se houvesse
~onflito entre 0 Presidente da Provincia e 0 Governo
Central ou 0 Imperador, aquele era simplesmente remo-
.!' ido. Jii na Republica, com Governadores eleitos, resol-
via-s~ .Q.. cO!:,flito jltraveLd.a interven~ao federal ou da
revolu~ao.
- Para ~vitar que a situa~ao politica chegasse a um
limiar de ruptura, Campos Sales selou um acordo com
os Governadores dos Estados detentores das maiores
bancadas no Congresso. Modificou-se 0 regimento da
Camara na parte referente a verifica~ao de poderes: seria
a "depura~ao" ou "degola" dos oposicionistas. Ate en-
tao, no inicio da instala~ao da nova Camara, 0 parlamen-
tar mais idoso, entre os supostamente eleitos, ocupava a
Presidencia da Camara dos Deputados e nomeava cinco
outros deputados para formar a Comissao de Veri fica-
48 Victor Nunes LEAL, op. cit ., p. 35·36, 45, 51-52 e 177-180, e Raymundo
FAORO, op. cit. , p. 620·622, 629-639 e 646·654.
36 Estado t! CO IIstitlli(iio 3 GILBERTO BERCOVICI
~ao de Poderes. Feito 0 reconhecimento dos demais,
eram sorteados os encarregados de julgar as reclama~6es
dos nao-eleitos . Com a mudan~a do regimen to, 0 mesmo
Presidente da Camara da legislatura anterior continua-
ria na Presidencia para nomear a Comissao de Verifica-
<;ao de Poderes. Garantia-se, assim, a continuidade na
dire~ao politica da Camara dos Deputados. 0 diploma
eleitoral passava a ser a ata geral de apura~ao da elei~ao,
assinada pela maioria da Camara Municipal do Munici-
pio-sede do distrito eleitora l. Desse modo, as elei<;6es ja
vinham decididas desde a expedi<;ao dos diplomas pelas
juntas apuradoras, controladas pelas situa~6es dos Esta-
dos. A Comissao de Verifica<;ao de Poderes passou a servir
como mais uma garantia para impedir 0 acesso de adver-
sari os e oposicionistas ao Congresso.
o Congresso Nacional tornou-se, assim, a expres-
sao da dire<;ao politica dos Governos Estaduais. Os
diplomas dos amigos, afilhados, aliados e apaniguados
das situa<;6es estaduais seriam reconhecidos pel a situa-
<;ao federal. Em troca, os Governadores exigiriam a
fidelidade dos deputados e senadores de seu Estado a
politica do Presidente da Republica. A rotina da Repu-
Qgca VelI:!..a resumia-se aos acordos firmados pelo Presi-
.£iente com os Governadores e a atua~ao do Poder
Legislativo conforme 0 decidido naquelas alian<;as. Nas
negocia<;6es para a sucessao presidencial, 0 sucessor era
legitimado por consultas do Presidente aos chefes esta-
duais, particularmente do PRP e do PRM. Essa estabili-
dade foi arranhada em 1910 e 1922 e quebrada em 1930,
quando ocorreram as unicas elei~6es competitivas da
Primeira Republica.
..£§ta~m as bases do regime politico implantado
-"p6s a Pros:lama~ao da Republica: coronelismo e "Politi-
_ca dos Governadores". As elei<;6estinham como princi-
pal caracteristica as mesas eleitorais com fun~ao de junta
apuradora. Desta forma, ocorria a chamada fraude do
"bico-de-pena": nomes eram inventados, mortos ressus-
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 37
citados, ausentes votavam. Os mesarios faziam verda-
deiros milagres durante a elabora<;ao das a tas eleitorais.
Caso nao se conseguisse evitar a elei<;ao do adversario
atraves das atas falsas, restava a "degola". 0 Poder
Legislativo cassaria 0 mandato daqueles que nao inte-
ressavam a oligarquia dominante.'9
1.4. Entre 0 Federalismo Cooperativo e a
Centraliza~i'i.o (1930-1945)
Os choques entre as oligarquias estaduaisso e a cisao
nas For<;as Armadas,s1 aliadas a forte crise economica
49 Victor N unes LEAL, op. cit., p. 229·230 e 244-248; Raymundo FAORO, op.
cit. , p. 563-569 e Renato LESSA, op. cit., p. 105-110 e 138.
50 Minas Gerais foi preterida por Sao Paulo oa sucessao do Presidente Washing-
ton Lufs, tambem paulista, que rompeu com 0 pacta do "Cafe com Leite". Os
mineiros se aliaram a Paralba e ao Rio Grande do SuI e ian<;aram a candidatura
do Governador gaucho Getulio Vargas a Presidencia da Republica, em oposi<;ao
ao Govemador paulista Jlilio Prestes, apoiado pelos Qutros Estados e pe\o Pre-
sidente da Republica. Vide Boris FAUSTO, A Revolll{:iio de 1930: Historiogrnfin c
Hist6ria, 14" ed, Sao Paulo, Brasiliense, 1994, p. 92-99 e 102·104.
51 Im:lmeros setores das Forc;as Armadas (intitulados "tenentes") revoltaram-
se contra 0 Governo Federal em 1922 (Rio de Janeiro) e 1924 (Sao Paulo e Rio
Grande do Sui). Nesta ultima revolta, as tenentes, liderados por Luis Carlos
Prestes, forma ram uma col una revolucionaria (a "Coluna Prestes"), que per-
correu 0 interior do Bras il ate 1927, quando se intern au na Bolfvia, sem nunca
ter s ido derrotada pelas forc;as govern istas. 0 tenentismo, enquanto movi·
mento, foi politica e ideo logicamente difuso. As primeiras revoltas tern a
caracterfstica de uma tentativa insurrecional independente de setores civis,
vistos com desconfianc;a. Apesar da indefinic;ao ideol6gica, 0 tenentis mo pos-
suia varios pontos de concordancia entre seus membros. Eles, as "tenentes",
seriam as responsave is unicos pela regenerac;ao nadonal e pela pureza das
institui c;Oes republicanas. A verda de da representac;ao deveria ser assegurada
atraves de eleic;Oes hones tas, com voto secreto, regularizac;ao do alistamento
eleitoral e reconhecimento dos resultados pelo Poder Judiciario. A revoluc; i'l.o
deveria ser feita de forma autOnoma ao povo, que na~ soube romper com sua
passividade para de rrubar as oligarquias, e 0 Exercito seria a protec;ao da
nac;ao contra a eventual indisciplina popular. A grande prevenc;ao dos "te-
nentes", entretanto, se dava com os politicos (e vice-versa). Essa prevenc;ao
na~ impediria a alianc;a do tenentismo com setores oligarquicos dissidentes
para prom over a Revollll;aO de 1930, embora fosse a causa dora de uma serie
de problemas no perfodo p6s-revoluciomirio. A proposta que congregava
todo 0 movimento era a de centrali zac;ao. A crHica ao liberalismo passava pela
excessiva autonomia dos Estados, transformados em "20 feudos", sob a he-
gemonia paulista. Cf. Boris FAUSTO, op. cit., p. 57-58, 61-69 e 75.
38 Estndo e Co"slitlli~ifo 3 GILBERTO BERCQVICI
que se InlClOU com a quebra da Bolsa de Nova Iorque,
em 1929, causaram, atraves da Revo lu<;ao de 3 de outu-
bro de 1930, a queda do regime da Constitui~ao de 1891.
o desmonte da maquina polftica da Primeira Republica
teve infcio com 0 Decreto n° 19.398, de 11 de novembro
de 1930, que instituia e regulamentava as fun<;6es do
Governo Provis6rio formado pel os revoluciomlrios vito-
riosos. Em todos os Estados have ria Interventores no-
mead os por Getulio Vargas, Chefe do Governo
Provis6rio, e estes nomeariam Prefeitos para todos os
Municipios, sempre assistidos por um conselho consul-
tivo. Este sistema era extrema mente hierarquizado, da-
das as suas condi<;6es de governo de exce<;ao transit6rio.
o Governo Provis6rio propos, ainda, a centraliza<;ao da
arrecada<;ao tributaria por parte da Uniao e a proibi<;ao
dos Estados contrairem emprestimos externos sem sua
autoriza<;ao. Como contra partida, todas as dividas esta-
duais passariam a Uniao.
A Assembleia Constituinte foi instalada em 15 de
novembro de 1933.52 Havia na Constituinte um consenso
em torno da manuten~ao (ao menos nominal) do federa-
lismo. Nao foi apresentada nenhuma proposta aberta-
mente unitarista. 0 que se procurou foi uma defini~ao
mais precis a de federalismo, que podemos denominar
cooperativo,S3 de acordo com seu artigo 9°: "E facultado
a Uniao e aos Estados ce lebrar acordos para a melhor
52 Mesmo com as eJeic;oes para a Consti tuinte marcadas, a o ligarquia de Sao
Paulo, sob 0 pretexto de ex igir a imedia ta reconstitucionalizac;ao do pars, se
levantou em armas na auto-denominada "Revoluc;ao Const itucionalista", em
9 de julho de 1932. Aderiram ao movimento a Forc;a Pttblica, alguns batalhoes
do Exercito sediados em Sao Paulo e poucos militares sediados em Mato
Grosso, sob 0 comando do General Bertoldo Klinger, alem dos voluntarios
civis . 0 Governo Provis6rio mobilizou todos os outros Estados e combateu
os revoltosos pelo su i e pela divisa mineira. Ap6s 3 meses de iutas, os rebel des
foram derrotados, rendendo-se em 1° de outubro de 1932. Foi a ultima vez
que urn Estado se levantou em armas contra a Uniao.
53 Raul Machado HORTA, "Problemas do Federal ismo" cit ., p. 21-22 e A
Alltonomia do Estado-Membro 110 Direito COllstitllciollal Brasileiro cit., p. 175-183
e 291-292 e Dalmo de Abreu DALLARI, "as Estados na Federac;ao Brasileira,
de 1891 a 1937" cit., p. 108-110.
Dilemas do Estado Federal Brilsileiro 39
coordena~ao e desenvolvimento dos respectivos servi~os,
e, especialmente, para a uniformiza~ao de leis, regras ou
praticas, arrecada~ao de impostos, preven~ao e rep res-
sao da criminalidade e permuta de informa~6es" .
o artigo 10 da Constitui~ao de 1934 fixou, pela
primeira vez na hist6ria constitucional brasileira, a re-
parti~ao das competencias concorrentes, dando enfase a
solidariedade entre a Uniao e os entes federados . Ia a
coopera~ao propriamente dita foi inaugurada com os
artigos 140 e 177 da Constitui~ao de 1934, que tratavam
do combate as endemias e as secas no Nordeste.54 Curio-
samente, a principal influencia dos constituintes de
1933-34 foi a Constitui~ao alema de 1919, a celebre
Constitui~ao de Weimar, 0 que demonstra, a nosso ver,
urn desenvolvimento em direc;ao ao federalismo coope-
rativo praticamente simultaneo dos federalismos norte-
americano e brasileiro.
o debate e as disputas politicas se desenrolaram
nos anos 30 entre os liberais, "tenentes" e adeptos do
autoritarismo. 0 idea rio liberal de defesa da autonomia
estadual e de independencia dos agrupamentos politi-
cos de "notaveis" foi utilizado como prote~ao contra a
centraliza~ao e devido ao temor da crescente participa-
~ao popular. A timidez cada vez maior do liberalismo da
decada de 1930 fez com que cedesse espac;o ao pensa-
mento autoritario. 1sso ocorrja em urn contexto de passa-
gem da politica de notaveis a de massas, dos partidos
representativos das oligarquias estaduais ou parcelas
das classes dominantes para partidos fundados em inte-
resses socioeconomicos. 0 momenta era de perplexida-
de dos liberais diante da radicaliza~ao ideol6gica e do
ingresso das camadas populares urbanas no sistema
politico. Com a inexistencia de urn partido nacional,
54 Ana Maria BRASILEIRO, "0 Federalismo Cooperativo", Revis/a Brasileirn
de Estlldos Po/{ticos n° 39, Bela Horizonte, UFMG, julho de 1974, p. 95-97 e
Dalmo de Abreu DALLARI, "Os Estados na Federac;ao Brasileira, de 1891 a
1937" cit., p. 121-122.
40 Estndo e COllStitlli(iio 3 GILBERTO BERCOVICI
com exce~ao da fascista A~ao 1ntegralistaBrasileira e do
Partido Comunista do Brasil (na clandestinidade, repre-
sentado pela Alian~a Nacional Libertadora), as for~as
revolucionarias se desestruturaram ap6s a Assembleia
Constituinte. Os conflitos ocorridos entre 1934 e 1937
foram causados pela tentativa de institucionalizar urn
poder p6s-revolucionario sobre a estrutura politica ba-
seada novamente na politica dos Estados. 0 cerne das
discuss6es continuou a ser centraliza~ao contra autono-
mia estadual. A radicalizac;ao da luta entre os integralis-
tas e os comunistas acabou por facilitar a reuniao das
camadas dominantes e dos setores revolucionarios, que
se aliariam no apoio a ditadura do Estado Novo.
Com a instaura~ao do Estado Novo, em 10 de
novembro de 1937, foi decretada a interven~ao federal
em todos os Estados. Cabia aos interventores nomear os
Prefeitos de todos os Municfpios (artigo 27 da nova
Constituic;ao, outorgada em 10 de novembro de 1937).
Os interventores serviriam como interligac;ao entre os
Estados, Ministerios e 0 Presidente da Republica. Para
evitar 0 surgimento de maquinas politicas autonomas
em Estados fortes, como Sao Paulo e Rio Grande do SuI,
foi realizado urn verdadeiro "rodizio" de interventores.
o interventor s6 se mantinha caso dispusesse da con-
fian~a total do Presidente Getulio Vargas.
o novo sistema politico do Estado Novo conjugava
as interventorias e sua assessoria, realizada por 6rgaos
burocraticos subordinados ao DASP (Departamento Ad-
ministrativo do Servi~o Publico), ambos sujeitos ao Pre-
sidente. A centralizac;ao tambem se manifestava com
6rgaos tecnico-administrativos que estudavam materias
especfficas ou setores da atividade economica, como os
inurn eros institutos e autarquias criados nessa epoca.
Alem do controle da economia atraves da intervenc;ao
estatal, havia tambem 0 controle militar, efetivado pelo
crescimento e reestrutura~ao das For~as Armadas.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 41
f?
' AI
o DASP, criado em 1938, controlava todo 0 sistema
administrativo do pais, sendo 0 responsavel pela elabo-
ra~ao anual do or~amento e pelo controle de sua execu-
~ao . Nos aspectos tecnicos, os ministerios deveriam se
sujeitar ao DASP, mas mantinham a hierarquia tradicio-
nal nos demais assuntos. Nos departamentos estaduais
do DASP, 0 seu chefe deveria aprovar previamente os
decretos-leis dos inter vento res e Prefeitos. Em casos de
divergencia, a decisao seria do Presidente da Republica .
o interventor rea lizaria a coordena~ao poiftica dos Esta-
dos, 0 Departamento Administrativo cuidaria dos as-
suntos tecnicos, como se Fosse uma especie de
"legislativo". A rela~ao entre os interventores e os De-
partamentos Administrativos variava em cada Estado,
havendo aqueles interventores que controlavam tudo 0
que Fosse referente a seu Estado (como Benedicto Valla-
dares, em Minas Gerais) e os que nao tinham jurisdi,ao
sobre 0 Departamento Administrativo (como Adhemar
de Barros, em Sao Paulo). Durante todo 0 Estado Novo,
nao sobrou nenhuma esfera legisla tiva para que os
Estados atuassem sem a permissao do Poder Centra!.55
1.5. Federalismo, Desenvolvimentismo e a
Questao Regional (1945-1964)
A Constitui,ao de 1946 consolidou a estrutura coo-
perativa no federalismo brasileiro, prevista ja em 1934,
com grande enfase na redu~ao dos desequilfbrios regio-
nais, favorecendo, apesar do refor,o do poder federal, a
coopera~ao e a integra,ao naciona!. Foi sob a vigencia
desta Constitui,ao, na decada de 1950, que a Questao
Regional ganhou importancia no debate poiftico nacio-
nal, com a concep,ao de que a atua,ao estatal e 0
55 Victor Nunes LEAL, op. cit. , p. 92-94 e Maria do Carma CampeJlo de
SOUZA, Es/ado e Partidos Po/{ticos 110 Brasil (1 930-1964), 3- ed, Sao Paulo,
Alfa-Omega, 1990. p. 86-98.
42 Estndo e C01lstilui(fio 3 GILBERTO BERCOVICI
planejamento eram elementos essenciais para 0 desen-
volvimento, de acordo com as diretrizes elaboradas pela
recem-criada CEPAL (Comissao Economica para Ameri-
ca Latina) . Qesde en tao, todas as constitui,oes brasilei-
ras tern a preocupa,ao de tentar consagrar instrumentos
para a supera,ao das desigualdades regionais.
A poiftica estatal desenvolvida em "regioes-proble-
rna", como 0 Nordeste e a Amazonia, voltou-se no
sentido de reduzir os desniveis existentes entre as varias
partes do pais, evitando a acentua,ao dos desequilfbrios
regionais. Buscava-se a harmoniza,ao interna do desen-
volvimento naciona!. Os varios 6rgaos criados (como a
Superintendencia do Desenvolvimento do Nordeste -
SUDENE) tinham por fun,ao dinamizar as for,as produ-
tivas das suas areas de atua,ao e integra-las ao sistema
naciona!. Nos Estados, muitos Governadores criaram
seus pr6prios 6rgaos de planejamento (0 melhor exem-
plo e 0 do Plano de A,ao 1959-1963 do Governador
Carvalho Pinto, de Sao Paulo, criado pela Lei n° 5.444, de
novembro de 1959), visando 0 estfmulo a expansao
industrial, agropecuaria e extrativista nos seus territ6-
rios, tentando obter uma rearticula,ao rna is inde-
pendente em face do Centro-Sui ou do exterior. Em
termos de consolida,ao da unidade economica, neste
periodo, particularmente durante a Presidencia de Jus-
celino Kubitschek, acelerou-se a industria liza,ao do Su-
deste, criaram-se grandes incentivos para investimentos
no Nordeste (com a SUDENE - Superintendencia do
Desenvolvimento do Nordeste), integrou-se mais efeti-
vamente a Amazonia ao sistema nacional (atraves da
Belem-Brasflia) e incorporou-se 0 Centro-Oeste ao cen-
tro dinamico com a instala,ao da capital em Brasflia .
Criada por meio da Lei nO 3.692, de 15 de dezembro
de 1959, a SUDENE tentou unir i' a,ao tecnica com 0
comando poiftico. Partindo do pressuposto de que nao
existe plano de desenvolvimento gem poiftica de desen-
volvimento, a SUDENE buscou apoio do poder polftico
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 43
f?
regional, mediante 0 Conselho Deliberativo, vinculando
o problema do desenvolvimento ao debate politico. Ao
unir os Estados da regiao, a SUDENE passava a ter mais
influencia nos centros nacionais de decisao. 56
Na estrutura administrativa da SUDENE, foi manti-
da a participa~ao dos governos estaduais no seu Conse-
Iho Deliberativo, adotando-se, assim, um criterio que
proporcionava a influencia das unidades federadas nas
decis6es do 6rgao federal de planejamento regional. A
proposta original da SUDENE, com pIanos diretores
elaborados na regiao, discutidos por governadores elei-
tos no Conselho Deliberativo e enviados para discussao
e aprova~ao no Congresso Nacional quebrava a pr<itica
centralizada do planejamento nacional, alem de ter rele-
vancia na tentativa de reestrutura~ao do federalismo
brasileiro, envolvendo, efetivamente, os governos fed e-
ral e estaduais, com a sua participa~ao conjunta em
programas e projetos comuns. 57
o Conselho Deliberativo da SUDENE, segundo 0
artigo 5° da Lei nO 3.692/1959, era composto, originaria-
mente, por vinte e dois membros, sendo nove indicados
pelos Governadores de Estado do Nordeste,58 tres mem-
S6 Celsa FURTADO, A Pre-Revolll{:iio Brasileirn, Rio de Janeiro, Punda de Cul -
tura, 1962, p. 61-63 e Celsa FURTADO, A Falltasia Desjeita, 33 ed, Rio de
Janeiro, Paz e Terra, 1989, p. 50-5l.
57 Raul Machado HORTA, A Alitollomia do Es tado-Membro 110 Oireito COlls t if ll -
ciollnl Brasileiro cit., p. 308-315, 325 e 335; Celsa FURTADO, 0 Bmsil Pos-"Mi-
/agre", 7~ ed, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982, p. 144-145; Washington Peluso
Albino de SOUZA, "0 Planejamento Reg ional no Federa lismo Brasileiro" ill
Estudos de Direito £C01l6I11ico, Belo Horizonle, Movimento Editorial Faculdade
de Direito da UFMG, 1996, vol. 2, p. 171 -172; Tan ia Bacelar de ARAUJO,
"Planejamento Regional e Relac;oes Intergovernamentais" i1/ Rui de Brit to
Alvares AFFONSO & Pedro Luiz Barros S]LVA (orgs .).A Fedcrafiio em Pers-
peetivn cit., p. 476-477; Leonardo GUIMARAES Neto, "A Experiencia Brasilei-
ra de Planejamento Regional da Perspectiva do Nordeste" ;11 A Politien
Regio llnl lin Era da GJobalizafiio, Konrad A~enauer Stiftung, 5erie Deba tes nO
12,1996, p. 167-168 e Leonardo GUIMARAES Neto, "0 Planejamento Regio-
nal no Nordeste: No tas para uma Avaliac;ao" ill Anita KON (org.), P/(lIIcja-
mellto 11 0 Brasil II, SAo Pau lo, Perspectiva, 1999, p. 233-234.
58 Posteriormente, seria inclufdo 0 Governador de Minas Gerais, pelo artigo
20 da Lei n° 3.995, de 14 de dezembro de 1961, que aprovava 0 I Plano Diretor
da SUDENE.
44 Estndo e COlis tit llifao 3 GILBERTO BERCQVrCt
--
bros natos (0 Superintendente da SUDENE, 0 Diretor-
Geral do Departamento Nacional de Obras Contra as
Secas e 0 Superintendente da Comissao do Vale do Sao
Francisco), um representante do Estado Maior das For-
~as Armadas e nove representantes de 6rgaos e entida-
des do Governo Federal (Ministerio da Agricultura,
Ministerio da Educa~ao e Cultura, Ministerio da Fazen-
da, Ministerio da Saude, Ministerio do Trabalho, Indus-
tria e Comercio, Ministerio da Via~ao e Obras Publicas,
Banco do Brasil, Banco Nacional de Desenvolvimento
Econ6mico e Banco do Nordeste do Brasil). A grande
inova~ao trazida pel a composi~ao do Conselho Delibe-
rativo da SUDENE foi 0 fato de, pel a primeira vez, os
Governadores de Estado poderem assumir, se desejas-
sem, a representa~ao de seus Estados (artigo 5°, § 2°, da
Lei nO 3.692/59). Esta participa~ao direta dos Governa-
dores legitimava e dava for~a as decis6es tomadas pelo
Conselho Deliberativo.
o Conselho Deliberativo da SUDENE foi uma ten-
ta tiva de canalizar e expressar a vontade politica regio-
nal do Nordeste. Com 0 Conselho Deliberativo, nao 56
os Governadores da regiao manifestavam a vontade
regional, como ela era exercida dentro do Governo
Federal. 0 objetivo, alem de lidar com as quest6es
regionais especificas, era poder influir nas decis6es de
politica nacional, para que nenhuma medida Fosse toma-
da sem levar em conta seus efeitos no Nordeste, tornan-
do a SUD ENE uma especie de "contra peso" it influencia
do poder econ6mico do se tor industrial do Centro-SuI
no ambito do Poder Executivo.59
Segundo 0 depoimento de Celso Furtado, a propos-
ta original de composi~ao do Conselho Deliberativo da
SUDENE previa que 0 Presidente da Republica fosse
representado por um membro de seu gabinete, um
59 Celso FURTADO, 0 Brasil Pos-"Milngre" eiL, p. 142-144 e Celso FURTADO,
"Nova Concepc;ao do Federa li smo" in 0 Lollgo Amnllheeer: RefIexoes sabre a
FOrma(flO do Brasil, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1999, p. 54-56.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 45
I?"""
I
Ministro dedicado aos problemas regionais . A soluc;ao
adotada foi a de um Superintendente ligado diretamente
it Presidencia da Republica, mas sem 0 status de Ministro
de Estado. Embora a liga~ao direta com a Presidencia
Fosse necessaria, nao era suficiente. A autoridade do
Superintendente decorria muito mais do peso polftico
da SUDENE, fund ado na importfmcia da composi~ao do
Conselho Deliberativo, impedindo que a a~ao da SUDE-
NE Fosse diluida nas estruturas administrativas ministe-
riais.60
A SUDENE foi, para Francisco de Oliveira, uma
saida inovadora e democratizadora da Federa~ao. 0
Conselho Deliberativo concretizava um federalismo re-
gionalizado, tentando soldar os Estados em um novo
pacto federativo, de carater regiona l, para refazer 0
pacto federativo nacional 61 Apesar de sua importancia
(ou melhor, por causa de sua importancia) a experiencia
federativa do Conselho Deliberativo da SUDENE foi
abandonada e esvaziada com 0 golpe militar de 1964 e os
seus Governadores bionicos.
o sucesso dessa interven~ao estatal diferiu nas suas
varias areas de atua~ao, de acordo com a configura~ao
especifica de cada regiao. A SUDENE conseguiu se
inserir dinamicamente no Nordeste, inovando 0 proces-
so de desenvolvimento com sucesso ate a ruptura de
1964. Ja a Superintendencia do Plano de Valoriza~ao
Economica da Amazonia (SPVEA), criada de acordo
com 0 artigo 199 da Constitui~ao, que destinava 3% das
60 Cf. Celsc FURTADO, 0 Brasil P6s-"Mi/agre" cit., p. 144.
61 Francisco de OLIVEIRA, "Viagem ao Olho do Furadio: Celsa Furtado e 0
Desafio do Pensamento Autoritario Brasileiro", Novos Estlldos, n° 48, Sao
Paulo, CEBRAP, julho de 1997, p. 18-19. No mesmo sentido, vide Paulo BO-
NAVIDES, "0 Planejamento e as Organismos Regionais como Prepara~ao a
urn Federalismo das RegiOes" i" A Constitllifiio Aberta: Temns Politicos e COltS-
titllciollais da Atualidade, com enfase no Federalismo das Regioes, 2B ed, Sao Paulo,
Malhe iros, 1996, p. 371-377 e Maria Eugenia GUIMARAES, Celsa Fur/ado: A
Utopia da Raziio - Um Estlldo sobre 0 COllceito de Sllbdesenvolvimell to (1945-1964),
mimeo, Sao Paulo, Tese de Doutoramento (Faculdade de Filosofia, Lelras e
Ciencias Humanas da USP), 1999, p. 208-209 e 212.
46 Estado e C01lstitlli(iio 3 GILBERTO BERCQVICI
receitas federais it execu~ao de um plano de valoriza~ao
economica da Amazonia, foi absorvida pelo sistema
politico local, colaborando para a preserva~ao do status
qllo (nao ocorrendo nenhuma mudan~a desde en tao,
mesmo com a sua transforma~ao em Superintendencia
do Desenvolvimento da Amazonia, realizada pelo regi-
me militar). Talvez 0 motivo tenha side 0 da forma como
a analise dos problemas regionais foi realizada. Durante
o perfodo democratico, a atua~ao da SPVEA foi baseada
em analises desarticuladas, que esfacelaram a realidade
amazonica, impedindo uma atua~ao eficaz. Ja a atua~ao
da SUD ENE ocorreu com base em am\lises regionais
bem estruturadas, colaborando para a efetiva promo~ao
do desenvolvimento regional, interrompida brLlscamen-
te com 0 golpe de 1964.62
A politica durante 0 perfodo democratico da Cons-
titui~ao de 1946 tornou-se mais abrangente do que ate
entao fora . Com a extensao da cidadania e amplia~ao do
voto, embora os analfabetos continuassem a nao votar,
amp los setores inferiores das classes medias e um con-
tingente respeitavel de trabalhadores, pela primeira vez,
participaram do processo politico-eleitoral. A partir de
1930,0 proletariado passou a poder participar das poli-
ticas de massa. Depois de 1945, a sua importancia se
tornou fundamental no jogo de sustenta~ao e modi fica-
~ao do poder polftico consubstanciado no populismo.
Essa amplia~ao da participa~ao popular conjugada com
a urbaniza~ao e ind ustrializa~ao crescentes no perfodo
marcaram a transi~ao para a democracia de massas no
Brasil.
62 Vide especial mente Celso FURTADO, A Operafiio Nordeste, Rio de Janeiro,
ISEB (MEC), 1959 e Celso FURTADO, A Falltasia Des/eita cit., sobre a expe-
riencia brasileira de combate as desigualdades regionais entre 1959 e 1964.
Ainda sobre a Questao Regional, vide Gilbe rto BERCOVICI, "Constituh;ao e
Supera~ao das Desigualdades Regionais" i" Eros Roberto GRAU & Willis
Santiago GUERRA Filho, Direito COIIstitliciollal- Estudos em Homellagem a PallIa
BOllavides, Sao Paulo, Malheiros, 2001, p. 74-107 e, especial mente, Gilberta
BERCOVICI, Oesig/laldades Regiollais, Estado e COIIStitlli(iio, Sao Paulo, Max
Limonad, 2003, p. 83-114.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 47
A dispersao eleitoral se acentuou, e os votos dos
varios Estados ganharam peso numa balan~a de poder
cada vez mais dependente dos mais diversos apoios. Os
candidatos a Presidencia da Republica precisavam de
uma imagem nacional, nao sendo mais suficiente apenas
o apoio do seu Estado de origem. A porcentagem do
eleitorado do Sudeste cresceu, dando a essa regiao, a
que se modernizava mais rapidamente, a preponderan-
cia na elei~ao presidencial, alem de, com 0 passar do
tempo, alterar a for~a relativa dos partidos no Congresso
Nacional. Os partidos tornaram-se efetivamentenacio-
nais, embora fossem mais fortes em algumas regioes,
como 0 PSD (Partido Social Democratico) em Minas
Gerais e 0 PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) no Rio
Grande do SuI. Curiosamente, nenhum dos tres grandes
partidos (PSD, PTB e UDN - Uniao Democratica Nacio-
nal) era forte em Sao Paulo. Neste Estado, 0 sistema
partidario era diverso do resto do pais, disputado pelas
lideran~as populistas de Adhemar de Barros e 0 seu
Partido Social Progressista (PSP) e de Janio Quadros e
sua mistica apartidaria. 0 crescimento do PTB, identifi-
cado com as massas urbanas, foi continuo, chegando a
ultrapassar a UDN ease aproximar do majoritario PSD
em 1962. Esse cresci men to pos em xeque 0 papel do
Congresso como um freio conservador do Executivo
inovador, acabando por se tornar uma das causas que
desaguariam na rea~ao conservadora e no golpe de 1964.
Essa rea~ao esbo~a-se desde 1945, com a amplia~ao
da participa~ao . As pressoes para a efetiva~ao de uma
d emocracia de massas passaram a assustar a cada vez
mais as oligarquias e as classes medias, temerosas de
perder 0 seu poder de barganha polftica com a ascensao
popular. As resistencias a incorpora~ao maior das mas-
sas se refletiram na proibi~ao do voto dos analfabetos
que, se fosse permitido em 1945, alteraria radicalmente 0
sentido e a forma de atua~ao do sistema polftico-eleito-
ral brasileiro. As rea~oes adversas das elites nacionais e
48 ESlado e COllstitll ifiio 3 GILBERTO BERCOVlCi
de boa parte das classes medias (representadas basica-
mente pela UDN), acabaram por provocar 0 ambiente de
instabilidade propicio ao desferimento do golpe mili-
tar.63
1.6. Nova Centraliza~ao (1964-1985)
Com 0 golpe militar, 0 Congresso Nacional, antes
principal ator no cem\rio politico, deixou de ser a base
da legitima~ao dos governos. Estes passaram a ser legiti-
mados pelo poder militar, conforme foi explicitado pelo
Ato Institucional nO 1, de 9 de abril de 1964. 0 aval de
grupos civis desapareceu gradualmente ate 0 Ato Insti-
tucional nO 5, de 13 de dezembro de 1968, quando nao
era mais necessario. A exclusao da participa~ao no
processo eleitoral foi se dando por partes. Em primeiro
lugar, suprimiram-se as elei~oes diretas para a Presiden-
cia da Repttblica (Ato Institucional nO 2, de 1965), insti-
tuindo-se 0 Colegio Eleitoral, que sacramentaria 0
pr6ximo general-presidente. Depois, as elei~oes para 0
Governo dos Estados (Ato Institucional nO 3, de 1966),
deixando-se ao Poder Central a escolha dos Governado-
res, referendada pelas Assembleias Legislativas. Final-
mente, extinguiram-se as elei~oes para Prefeitos das
capitais e cidades de "seguran~a nacional" (Constitui~ao
de 1967). A ultima exclusao ocorreu em 1977, com a
cria~ao do "senador bionico" atraves da Emenda Consti-
tucional nO 8, que determinava que um ter~o do Senado
fosse eleito indiretamente pelas Assembleias Legislati-
vas. 0 voto nao foi totalmente eliminado, continuando a
63 Octavia IANNI, Estndo e Cnpitafismo, r ed, Sao Paulo, Brasiliense, 1989, p.
138, 140 e 148-156; Simon SCHWARTZMAN, op. cit., p. 109 e 136-162 e Aspa-
sia CAMARGO, "La Federaci6n Somet ida. Nacionalismo Desarrollis ta e rnes-
tabilidad Democr~tica " jll Marcello CARMAGNANI, (coord .), Federnlisl1Ios
Lalillo AmericfltlOS: Mb:ico/ Brasil! Argentina, M~xico, Coh~gio de Mexico/ Fi-
deicomisso Historia de Las Americas/Fonda de Cullura Econ6mica, 1993, p.
335-336.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 49
haver elei<;6es para 0 Legislativo. Entretanto, foi desva-
lorizado enquanto moeda de popularidade e fonte de
legitimidade. 0 poder militar terminou por se legitimar,
com os atos institucionais, pela nega<;ao do caos, comu-
nismo, subversao ou corrup<;ao, vistos pelos militares
como caracteristicas da democracia do regime deposto.
A racionalidade e a eficiencia economico-administrativa
tambem se tornaram instrumentos de legitima<;ao do
regime junto as classes medias.
Com os militares, 0 Governo Central passou a
enfeixar uma serie de poderes e atribui<;6es, ocasionan-
do forte centraliza<;ao na esfera da Uniao. 0 federalismo,
praticamente, desapareceu neste periodo, apesar de no-
minalmente estar previsto nas Cartas outorgadas de
1967 e 196964 Como modo de matizar a total falta de
autonomia dos entes federados, cria ram-se eufemismos
como 0 "federalismo de integra<;aO".65
A elabora<;ao te6rica do "federalismo de integra-
<;ao" e de Alfredo Buzaid, entao Ministro da Justi<;a do
General Medici, que considerava 0 desenvolvimento e a
seguran<;a nacional como fundamentos do novo "federa-
64 Com a ditadura militar, atraves dOl Reforma Tributaria de 1965 e as mudan·
c;as posteriores, hOllve forte centralizac;ao de recursos na 6rbita federal, com
diminuic;ao das transferencias para Estados e Municipios, tamanda-os extre-
mamente depenrlentes dOl Uniao. Vide Fabrfcio Augusto de OLIVEIRA, AII-
foritaris1IIo e Crise Fiscal 110 Brnsil (1964-1984), Sao Paulo, Hucitec, 1995, p. 18,
27-30,41-48,61-64, 112-113, 125 e 149-151. Para este autor, apenas com a
Emenda n° 23, de 1° de dezembro de 1983, ja nos estertores do regime,
tento u-se reestabelecer 0 federalismo fiscal no Brasil ill idem, p. 149-151 e
177-179. Vide tamb~m Francisco Luiz C. LOPREATO, "Um Novo Caminho
do Federalismo no Brasil?", Economia e Sociedade n° 9, Campinas, Instituto de
Economia da UNICAMP, dezembro de 1997, p. 95-97.
bS LUIS Roberto BARROSO, Direito COllstitllcional Brnst/eiro: 0 Problema da
Federnfiia, Rio de Janeiro, Forense, 1982, p. 50-55; Jose Afonso da SILVA,
"Federalismo e Autonomias no Estado Brasile iro (Federalismo Nominal e
Federalismo de Regioes)" ill J simposill1ll ll/ternaciollal de Derec110 COllstitllciolla/
Alltal/omico, Valencia, 1985, p. 54-56 e Fernanda Dias Menezes de ALMEIDA,
CompeUhlcias lIa COllstitllifiio de 1988, Sao Paulo, Atlas, 1991, p. 47-48. Vide
tambem Fernando Luiz ABRUCIO, Os Bareies da Federnfiio: Os Govcrnadores e
a Redelllocmlizafiio Bmsi/eim, Sao Paulo, Huci lec/Departamento de Ciencia
Politica da USP, 1998, p. 70-71.
50 Estado e COllstilllipl0 3 GILBERTO BERCQVICI
lismo"66 Sob 0 pretexto da " integra<;ao nacional", todos
os ins trumentos de promo<;ao do desenvolvimento eco-
nomico deveriam ser centralizados na esfera da Unia067
Para Buzaid, 0 "federalismo de integra<;ao" iria alem do
federalismo cooperativo, atribuindo it Uniao os poderes
necessarios para dirigir a politica nacional, evitar confli-
tos com as unidades federadas e promover 0 desenvol-
vimento economico com 0 maximo de "seguran<;a
co letiva"68 Realmente, 0 "federalismo de integra<;ao" foi
tao alem do federal ismo cooperativo que praticamente
extinguiu 0 sistema federativo brasileiro, sempre com a
justificativa da "seguran<;a nacional". Em sintese, sob a
denomina<;ao "federalismo de integra<;ao", procuraram
os juristas ligados it ditadura militar esconder a supres-
sao do federalismo naquele periodo.
Com 0 golpe militar, a SUDENE perdeu, formal-
mente, a sua natureza de institui<;ao administrativamen-
te autonoma, ligada diretamente ao Presidente da
Republica. A partir de 1964, com a Lei nO 4.344, de 21 de
junho de 1964, foi incorporada ao Ministerio Extraordi-
nario para a Coordena<;ao dos Organismos Regionais
(rebatizado em 1967 de Ministerio do Interior), sendo
equiparada, hierarquicamente, aos 6rgaos governamen-
tais que deveria coordenar e que sempre se opuseram it
sua politica, como 0 IAA (Instituto do A<;ucar e do
Alcool) e 0 DNOCS. Este "rebaixamento" foi mantido
pela Reforma Administrativa, com 0 artigo 199, II, do
Decreto-Lei nO 200, de 25 de fevereiro de 196769 Voltou-
66 Alfredo BUZAID, 0 ESlado Federnl Brnsileiro, Brasflia , Minist~rio da Jus ti!;a,
1971, p. 31-34.
67 Idem, p. 34-38.
68 Idem, p. 40-41.
69 Caio K. KOCH-WESER, La SUD ENE, Doce Aiios de Planijicacio/l pam el
Desarrollo ell el NordesteBmsi/ellO: AIllHisis de IlIIa Polftiea de Rejormas Nellimli-
zada, Santiago, ILDIS, 1973, p. 29; Roberto Cavalcanti de ALBUQUERQUE &
CI6vis de Vasconcelos CAVALCANTI, Desetlvolvimellto Regional 110 Bmsil, Bra-
silia, IPEA, 1976, p. 80-81; Inai<i Maria Moreira de CARVALHO, 0 Nordeste e
o Regime AlIloriMrio: Discllrso e PreWen do Plnllejamellto Regional, Sao Paulo,
Hucitec /SU DENE, 1987, p. 90-91 e Adriano Nervo CODATO, Sistema Eslalal
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 51
II
se formalmente a situac;ao pre-1959, com as politicas
federais de desenvolvimento regional executadas por
uma multiplicidade de 6rgaos superpostos, descoorde-
nados e contradit6rios.
A eficacia da SUDENE na promoc;ao do desenvolvi-
mento regional iria depender de reformas que nao eram
defendidas pelos militares, embora 0 discurso pre-1964
contra as desigualdades regionais se mantivesse ate 0
final da decada de 1960. A pnHica, por sua vez, foi
totalmente oposta ao discurs0 70 0 III Plano Diretor da
SUDENE, aprovado pela Lei nO 4.869, de l Ode dezembro
de 1965, adotou estrategias adequadas aos novos tem-
pos. A questao agn'iria foi solenemente ignorada, com a
SUDENE sendo transformada em um 6rgao de coorde-
nac;ao da iniciativa privada, nao mais de planejamento
propriamente dito. A prioridade passa a ser a atrac;ao de
industrias por meio dos incentivos fiscais. No tocante ao
setor agropecuario, a preocupac;ao se desloca para 0
aumento de prod uti vida de, que nao exigia nenhuma
mudanc;a estrutural.71
No periodo p6s-64, 0 planejamento regional carac-
terizou-se pela superposic;ao de areas territoriais e mate-
ria is de ac;ao,72 com inumeros conflitos entre os
e Po/(tien Ecoll6mica 110 Brasil p6s·64, Sao Pauio/Curitiba, Hucitec/ AN·
POCS/ Ed UFPR, 1997, p. 81-83.
70 Inaia Maria Moreira de CARVALHO, op. cit., p. 87-88 e 91-93. Vide tamb~m
R6mulo ALMEIDA, "A Experiencia da SUDENE no Decenio, Problemas
Atuais e Soiu<;oes" ill Nordeste: Desellvolvimellio Social e /II dustrinliwplQ, Rio
de Jane iro/Brasilia, Paz e Terra /CNPq, 1985, p. 61-63; Tania Bacelar de
ARAUJO, "Planejamento Resionai e Reia,Oes Intergovernamentais" cit., p.
476-477; Leonardo GUIMARAES Neto, "0 Planejamento Regional no Nordes-
te: Notas para uma Avalia~ao" cit., p. 235·238 e Tania Bacelar de ARA010,
"0 Setor Publico e 0 Nordeste" i1l E1Isnios sobre ° Desellvoivimellto Brasileiro:
Hernllfas e Urgel/cias, Rio de Janeiro, Revan, 2000, p. 159·163.
71 David Edwin GOODMAN & Roberto Cavalcanti de ALBUQUERQUE, 111·
cel/tivos it Indllslria/izafiio e Desellvolvimellto do Nordeste, Rio de Janeiro,
IPEA/INPES, 1974, p. 172·175; Otamar de CARVALHO, Desellvoivimellto Re·
gionai: Um Problema PoUtico, Rio de Janeiro, Campus, 1979, p. 186·188 e Inai<\
Maria Moreira de CARVALHO, op. cit., p. 93·96 e 127·129.
72 Por exemplo, a area de atua~ao da Superintendencia da Zona Franca de
Manaus· SUFRAMA (Amazonas, Roraima, Acre e Rondonia) era, em parte,
52 Estado e Cotlstitllj~ao 3 GILBERTO BERCQV1CI
organismos regionais e OS entes federados e entre os
pr6prios organismos regionais. Os resultados foram
atuac;oes muitas vezes contradit6rias, contribllindo ape-
nas para aumentar a dependencia dos Estados menos
desenvolvidos da Uniao73
A polftica federal de desenvolvimento da Amazo-
nia tambem foi redefinida pelos militares. Com a Lei nO
5.173, de 27 de outubro de 1966, criou-se a SUDAM
(Superintendencia do Desenvolvimento da Amazonia),
com estru tura administrativa semelhante a da SUDENE.
A transposic;ao do modelo nordestino tambem se deu no
nivel do 6rgao de fomento, com a criac;ao do Banco da
Amazonia S.A. (BASA), pela Lei nO 5.122, de 28 de
setembro de 1966, com estrutura e func;oes semelhantes
as do BNB. Nao houve nenhum estudo previo sobre as
diferenc;as entre as regioes e as falhas do modelo da
SUDENE, com a transferencia pura e simples de uma
estrutura administrativa elaborada para planejar e exe-
cutar uma politica de desenvolvimento regional no Nor-
deste para a Amazonia, onde nao havia infra-estrutllra
nenhuma. 74
o modelo da SUDENE foi expandido tambem para
o Centro-Oeste (SUDECO - Superintendencia do Desen-
a mesma da SUDAM (Superinlendencia do Desenvolvimento da Amazonia).
Por sua vez, Rondonia, Malo Grosso e Goias faziam parte da area de atua~ao
da SUDAM e da SUDECO (Superintendencia do Desenvolvimento da Regiao
Centro·Oesle) e 0 Maranhao pertencia a area de atua~ao da SUDAM e da
SUDENE.
73 Washington Peluso Albino de SOUZA, op. cit., p. 119·120, 126, 167·169,
190-193 e 199. ,
74 Celso Furtado ja havia, ainda em 1959, se manifestado contrariamente ao
transplante da estrutura da SUDENE para ou tras regioes: "Para 0 estudo de
uma conjuga~ao dos dois setores, Nordeste e Amazonas, precisarfamos fazer
todo urn esfOr~o, como este que acabei de expor aos senhores, e que venho
fazendo ha: muilos anos, para atacar 0 problema do Nordeste. Precisarfamos
fazer algo semelhante para 0 problema do Amazonas. Qualquer ideia de
transpor solu~oes de uma area para outra seria total insensatez" ill Celso
FURTADO, A Operafiio Nordeste cit., p. 50. Vide tambem Robe rt o Cavalcanti
de ALBUQUERQUE & C16vis de Vasconcelos CAVALCANTI, op. cit., p. 97·98
e Dennis J. MAHAR, DesellVo/vimellto Ec01ll5111ico da Amnzonia: Uma Ami/ise dns
Politicas Gouemamelltais, Rio de Janeiro, IPEA/INPES, 1978, p. 21-24 e 46.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 53
II
II
volvimento da RegUlo Centro-Oeste) e SuI (SUDESUL -
Superintendencia do Desenvolvimento da Regiao SuI).
o que nao foi levado em conta neste transplante de um
modelo, elaborado para uma regiao especffica, para 0
res to do pais foi a configurac;ao da estrutura econ6mica
e social sobre a qual se pretendia intervir. A adequac;ao
das ins tituic;6es e instrumentos de intervenc;ao e funda-
mental. 0 sucesso ou nao desta intervenc;ao do Estado
depende da inserc;ao dos 6rgaos de desenvolvimento
regional, que pode ser dinamica e gerar inovac;6es ou
simplesmente contribuir para a manutenc;ao do statu
quo, sem qualquer contribui c;ao para a reo ri entac;ao da
regiao para 0 desenvolvimento. E foi 0 que ocorreu no
caso brasileiro, servindo as autarquias de desenvolvi-
mento regional apenas para sinalizar uma presenc;a
formal, e nao efetiva, do Estado. 75
75 Octavio IANNI, op. cit., p. 162-164 e 166-167; Francisco de OLIVE IR A,
"MlIdan~a na Divisao Inter-Regional do Trabalho no Brasil" ill A Ecollomin da
Depenriellc!f11mperjeitfi, 5~ ed, Rio de Janeiro, Graal, 1989, p. 40-41 e Leonardo
GUIMARAES Neto, "A Experiencia Brasileira de Planejamento Regional da
Perspectiva do Nordeste" eiL, p. 166-1 67. Vide, ainda, Gilberta BERCQVICI,
Desigunldades Regiollnis, ESfrldo e COllstitlliriio cit., p. 114-140.
54 Estndo e Cotlstitlli~iio 3 GILBERTO BERCOVICi
Capitulo 2
Federalismo e Descentralizac;:ao na
Constituic;:ao de 198876
2.1. 0 Federalismo Cooperativo da
Constituic;ao de 1988
Com a redemocratizac;ao da decada de 1980, abri-
ram-se novas perspectivas para 0 fed erali smo brasileiro.
A nova Constituic;ao, promulgada em 5 de ou tubro de
1988, restaurou a Federac;ao desde 0 seu artigo 1°: "A
Republica Federativa do Brasil, formada pel a uniao
indissoluvel dos Estados e Municfpios e do Distri to
Federa l, constitui-se em Estado DemocnHico de Direi-
to" .
A grande inovac;ao foi a inclusao dos Municfpios
como componentes da Federac;ao. Ate 1988, todas as
nossas consti tui c;6es outorgavam governo pr6prio e
competencia exclusiva aos Municfpios no tocante it sua
autonomia, remetendo aos Estados 0 poder de criar e
organizar os Municfpios, desde que respeitassem a au to-
nomia assegurada constitucionalmente (por mais que,
como vimos, na pn\tica nao ocorresse bem assim). Agora
as normas instituidoras de autonomia dirigem-se direta-
76 Parte da argumenla<;ao deste capitulo foi desenvolvida na nossa tese de
doutorado; Gilberto BERCOVICI, Deseqllilfbrios Regiollais: Umn Ami/is!! IlIr{di-
co-Jll stitllciollnl, mimeo, Tese de Doutoramento (Faculdade de Direito da Uni-
versidade de sao Paulo), 2000, especia lmente nos capftulos 4 e 5. A tese {oi
publicada sob a seguinte denomina<;ao: Gilberto BERCOVICI, DesigllaJdades
J~t!giollnis, Estndo e COIIslitl/irao cit.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 55
I I
mente aos Municfpios, po is a Constitui~ao de 1988
deu-lhes tambem 0 poder de auto-organiza~ao. A consa-
gra~ao desse poder esta no artigo 29, que determina a
todos os Municfpios que elaborem sua pr6pria Lei Orga-
nica, uma verdadeira Constitui~ao Municipal.77
A Constitui~ao de 1988 institui expressamente, em
seu artigo 23, 0 Federal ismo Cooperativo, elencando
uma serie de materias cuja competencia e comum entre
Uniao, Estados, Distrito Federal e Municfpios. Entretan-
to, prescreve 0 paragrafo (mico desse artigo: "Lei com-
plementar fixara normas para a coopera~ao entre a
Uniao e os Estados, 0 Distrito Federal e os Municfpios,
tendo em vista 0 equilibrio do desenvolvimento e do
bem-estar em ambito nacional". Lei complementar esta
que (como a grande maioria das leis complementares
previstas na Constitui~ao) ate hoje nao foi elaborada. As
materias que competem 11 Uniao, aos Estados e ao
Distrito Federallegislar con corrente mente estao no arti-
go 24, ressalvando-se a limita~ao da Uniao em estabele-
cer apenas normas gerais e dos Estados e Distrito
Federal de, desde que nao contrariem a lei federal,
adapta-las a suas especificidades. Os Municfpios nao
foram situados na area de competencia concorrente do
artigo 24, que lhes outorgou competencia para suple-
men tar as legisla~6es federal e estadual no que lhes
couber. A Constitui~ao seguiu a tecnica tradicional do
direito america no, enumerando as competencias da
Uniao (e, no nosso caso, dos Municipios tambem), e
deixando aos Estados os poderes remanescentes, de acor-
do com 0 artigo 25, § 1°.
o Federalismo Cooperativo se justifica pelo fato de
que, em urn Estado intervencionista e voltado para a
implementa~ao de politicas publicas, como 0 estrutura-
do pela Consti tui~ao de 1988, as esferas subnacionais
77 Paulo BONAVIDES, Curso de Direito Constitlfcional, 7~ ed. Sao Pau lo, Ma-
Iheiros, 1998, p. 311 -322.
56 Estado e COllsfitlli~iio 3 GILBERTO BERCOVICI
nao tem mais como analisar e decidir, originariamente,
sobre inumeros setores da atua~ao estatal, que necessi-
tam de um tratamento uniforme em escala nacional. Isto
ocorre principalmente com os setores econ6mico e so-
cial, que exigem uma unidade de planejamento e dire-
~ao?8 Antes, portanto, de 0 Estado Social estar em
contradi~ao com 0 Estado federal, 0 Estado Social influi
de maneira decisiva no desenvolvimento do federalismo
atual, sendo 0 federalismo cooperativo considerado
como 0 federalismo adequado ao Estado Social,79
Esta unidade de atua~ao nao significa, necessaria-
mente, centraliza~ao. Precisamos, antes de mais nada,
diferenciar centraliza~ao de homogeneiza~ao. Com a
centraliza~ao ha a concentra~ao de poderes na esfera
federal, debilitando os entes federados em favor do
poder central. Ja a homogeneiza~ao (Unitarisierung, uni-
formiza~ao) e baseada na coopera~ao, pois se trata do
processo de redu~ao das desigualdades regionais em
favor de uma progressiva iguala~ao das condi~6es 50-
ciais de vida em todo 0 territ6rio nacional. A homoge-
neiza~ao nao e imposta pela Uniao, mas e resultado da
vontade de todos os membros da Federa~ao.8o
Nos regimes fed era is, tradicionalmente, compete 11
Uniao buscar a redu~ao das desigualdades regionais. No
Brasil, a forte presen~a estatal na economia contribuiu
para que 0 Governo Federal ocupe um papel de funda-
mental importancia nas politicas de desenvolvimento
regional,S1 Desta maneira, os fundos publicos (receitas
78 Konrad HESSE, op. cit., p. 13-14 e Enoch Alberti ROVIRA, op. cit., p. 356-357.
19 Konrad HESSE, op. cit. , p. 32-34; Enoch Alberti ROVIRA, op. cit. , p. 25, 54-55
e 365-366 e Gilberta BERCOVICI, "Constitui.;ao e Superat;ao das Desigualda-
des Regionais" cit., p. 78-79.
80 Cf. Konrad HESSE, op. eit., p. 21 e Enoch Alberti ROVIRA, op. cit., p. 359 e
p. 359, nota 30.
8! Jose Roberto Rodrigues AFONSO, "Questao A Tributa,ria e 0 Financiamento
dos Diferentes Nfveis de Governo" i1l Rui de Britto Alvares AFFONSO &
Pedro Luiz Barros SILVA (orgs.), A FedeTfl(tio em Perspectivn cit., p. 315·316;
Fernando REZENDE, "El Federalismo Fisca l en Brasil" in Alicia Hernandez
CHAVEZ (coord .), Hncin 1111 Nuevo Federnlismo?, M~xico, CoMgio de M~xicol
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 57
I,
tributarias, gastos da UnHio e das estatais federais,
incentivos fiscais e emprestimos publicos), sao funda-
mentais nas rela<;oes federativas, especialmente em pai-
ses com enormes disparidades regionais como 0 nosso.
A estrutura<;ao federal pressupoe transferencia conside-
ravel de recursos publicos entre as regioes, fundamenta-
da no principio da solidariedade.82
As tensoes do federalismo contemporaneo, situadas
basicamente entre a exigencia da atua<;ao uniformizada e
harmonica de todos os entes federados e 0 pluralismo
federal, sao resolvidas em boa parte por meio da colabora-
<;ao e atua<;ao conjunta das di versas instancias federais. A
coopera<;ao se faz necessaria para que as crescentes
necessidades de homogeneiza<;ao nao desemboquem na
centraliza<;ao. A virtude da cooperac;ao e a de buscar
resultados unitarios e uniformizadores sem esvaziar os
poderes e competencias dos entes federados em relac;ao
it Uniao, mas ressaltando a sua complementaridade.83
o grande objetivo do federalismo, na atualidade, e
a busca da cooperac;ao entre Uniao e entes federados,
equilibrando a descentralizac;ao federa l com os impera-
tivos da integra<;ao economica nacional. Assim, 0 funda-
men to do fed eralismo cooperativo, em termos fi sca is, e a
coopera<;ao finance ira, que se desenvolve em virtude da
necessidade de solidariedade federal pOI' meio de politi-
Fideicomisso Historia de Las Americas/Fondo de Cui tur8 Econ6mica, 1996,
p. 227 e 240 e Celina Maria de SOUZA, "Intermedia<;ao de ln teresses Regio-
nais no Brasil: 0 Irnpacto do Federalismo e da Descentraliza<;ao", Dodos -
Revisln de Ciencias Sociais, vol. 41 , nO 3, Rio de Janeiro, IUPERj, 1998.1 p.
575·576.
82 Cf. Rui de Britto Alvares AFFONSO, "A Federa<;ao no Brasil: Impasses e
Perspectivas" cit ., p. 57-58 e Rui de Britto Alvares AFFONSO, "Descentrali-
za<;ao e Reforma do Estado: a Federa<;ao Brasileira na Encruzilhada", £C0110-
min e Sociednde nO 14, Campinas, Instituto de Economia da UNICAMP, junho
de 2000, p. 132·133. Vide tambcm Jose Roberto Rodrigues AFONSO, "Descen·
trali za~ao Fiscal: Revendo Jdcias", E1Isa;os FEE, vol. 15, n° 2, Porto Alegre,
1994, p. 354~355 e Enoch Alberti ROVIRA, op. cit., p. 374.
83 Konrad HESSE, op. ciL, p. 19·21 e 31-32; Jean ANASTOPOULOS, Les Aspects
Financiers dll Fedem!isme, Paris, L.G.D.J. , 1979, p. 409·412 e Enoch Alberti
ROVIRA, op. cil., p. 24·25 e 562·563.
58
Estndo e COlls t i trti~iio 3
GILBERTO BERCOV1Cl
cas publicas conjuntas e de compensa<;6es das disparida-
des regionais. 84
A cooperac;ao financeira tern como caracteristica a
responsabilidade conjunta da Uniao e entes federados
pela realiza<;ao de politicas publicas comuns. 0 seu
objetivo e claro: a execuc;ao uniforme e adequada de
servic;os publicos equivalentes em toda a Federac;ao, de
acordo com os principios da solidariedade e da iguala-
<;ao das condi<;oes sociais de vida.85
Dentre as complexas re l a~oes de interdependencia
entre a Uniao e os entes federados, no federali smo
cooperativo, devemos distinguir a coordenac;ao da coo-
pera<;ao propriamente dita. A coordena<;ao e, na realida-
de, urn modo de atribuic;ao e exercicioconjunto de
competencias no qual os varios integrantes da Federac;ao
possuem certo grau de participa<;ao. A vontade das
partes e livre e igual, com a manutenc;ao integral de suas
competencias: os entes federados sempre podem atuar
de maneira isolada ou autonoma. A coordenac;ao e urn
procedimento que busca urn resultado comum e do
interesse de todos. A decisao comum, tomada em escala
federal , e adaptada e executada autonomamente pOI'
cada en te federado, adaptando-a as suas peculiaridades
e necessidades86
A materializac;ao da coordenac;ao na reparti<;ao de
poderes sao as competencias concorrentes. A Uniao e os
entes federados87 concorrem em uma mesma fun<;ao,
"Cf. lean ANASTOPOULOS, op. cit., p. 8·9, 11·12 e 330·331.
85 lean ANASTOPOULOS, op. cit., p. 114·115, 221·222, 314·315 e 331·332.
86 Enoch Alberti ROVIRA, op. cit., p. 361-365, 367-369 e 463-477.
87 No caso brasile iro, h.1 uma divergencia dOlltrinaria sobre a ques tao dos
Municfpios participarem, ou nao, da reparti~ao das compe tencias concorren-
tes, por nao estarem previs tos expressamente no artigo 24 da Constitui~ao de
1988 como titulares dos poderes e lencados, ao lado da Un iao e Estados. Na
op iniao de Fernanda Menezes de A lmeida, apesar de nao constarem expres-
samente no art igo 24, as MlInicfpi os nao foram excl llidos da reparti~ao de
competencias concorrentes. Para e la, a titlilaridade dos Mllnicfpios esta ga-
rantida pe lo artigo 30, II da Cons tilui~ao, que da competencia aos Municfpios
para legis larem de mane ira suplementar no que Ihes couber. Vide Fernanda
Dilemas do Estado Federal BrasiIeiro 59
I (
II
I!
mas com ambito e intensidade distintos. Cada parte
decide, d entro de sua esfera de po de res, de maneira
separada e independente, com a ressalva d a prevalencia
do direito federal. Este tipo d e reparti~ao e 0 previsto
pelo artigo 24 da Constitui~ao de 1988.
Na coopera~ao, nem a Uniao, nem qualquer ente
federado pode atuar isoladamente, mas todos devem
exercer sua competencia conjuntamente com os de-
mais. 88 Na reparti~ao de competencias, a coopera~ao se
revela nas chamadas competencias comuns, consagra-
das no artigo 23 da Constitui~ao de 1988. Nas competen-
cias comuns, todos os entes da Federa~ao devem
colaborar para a execu~ao das tarefas determinadas pela
Constitui~ao. E mais: nao existindo supremacia de ne-
nhuma das esferas na execu~ao destas tarefas, as respon-
sabilidades tambem sao comuns, nao podendo nenhum
dos entes da Federa~ao se eximir de implementa-Ias,
pois 0 custo politico recai sobre todas as esferas de
governo .s9 A coopera~ao parte do pressuposto da estrei-
ta interdependencia que existe em inumeras materias e
programas de interesse comum, 0 que dificulta (quando
nao impede) a sua atribui~ao exclusiva ou preponderan-
te a um determinado ente, diferenciando, em termos de
reparti~ao de competencias, as competencias comuns
das competencias concorrentes e exclusivas90
o interesse comum viabiliza a existencia de um
mecanismo unitario de decisao, no qual participam todos
os integrantes da Federa~ao. Na realidade, ha dois mo-
mentos de decisao na coopera~ao . 0 primeiro se da em
Dias Menezes de ALMEIDA, op. cit., p. 80, 125, 139 e 167-171. Esta e a posil;ao
que cons ideramos mais adequada, dentro do sistema constitucionai de 1988.
Em sentido contrario, vide especiaimente Tercio Sampaio FERRAZ Jr, "Nor-
mas Gerais e Competencia Concorrente - Uma Exegese do Art. 24 da Cons-
tituic;ao Federal", Revista Trimestral de Direito Niblico nO 7, Sao Paulo,
Malheiros, 1994, p. 19-20.
88 Enoch Alberti ROVIRA, op. cit., p. 369-370 e 487.
89 Vide especial mente Sueh Gandolfi DALLARI. Os Estados Brnsileiros e 0
Direito it Smide, Sao Paulo, Hucitec, 1995, p. 38·42 e 79-80.
90 Enoch Alberti ROVIRA, op. cit., p. 373-374.
60 Estado e COllstitll;~iio 3 GILBERTO BERCOVICI
nfvel federal, quando se determina, conjuntamente, as
medidas a serem adotadas, uniformizando-se a a tua~ao
de todos os poderes estatais competentes ern determina-
da materia. 0 segundo momento ocorre em nfvel estadual
ou municipal, quando cada ente federado adapta a decisao
tomada em conjunto as suas caracterfsticas e necessidades.
Na coopera~ao, ern geral, a decisao e conjunta, mas a
execu~ao se realiza de maneira separada, em bora possa
haver, tambem, uma atua~ao conjunta, especia lmente no
tocante ao financiamento das polfticas publicas,,1
A fonte da coopera~ao federal e a Constitui~ao.
Fora dos casos expressamente previstos no texto consti-
tucional (obrigat6rios ou facultativos9'), predomina 0
principio da separa~ao e independencia no exercicio das
competencias constitucionais.93 No caso brasileiro, as
competencias comuns do artigo 23 da Constitui~ao, ap6s
sua regulamenta~ao pel a lei complementar prevista no
paragrafo tinico do mesmo artigo, serao obrigat6rias para
a Uniao e todos os entes federados. A lei complementar
prevista nao pod era retirar nenhum ente da titularidade
das competencias comuns, nem restringi-Ias.
Ha, dentro das correntes que combatem 0 Estado
Social, alguns autores que consideram a reparti~ao de
91 Enoch Alberti ROVIRA, op. cit. , p. 374-376. Vide tambem Ana Maria BRA-
SILEIRO, op. cit., p. 125-126 e Jean ANASTOPOULOS, op. cit., p. 114-115 e
224-227.
92 A coopera<;:l.o pode ser obrigat6ria ou facultativa. A coopera<;ao obrigat6ria
e exigida diretamente pela Constitui<;ao: determinada competencia 56 pode
ser exercida de forma conjunta (casos previslos no artigo 23 da Constitui<;ao
de 1988). ja na coopera<;ao facultativa, a Constitui<;ao preve uma distribui<;ao
alternativa de competencias entre a Uniao e os entes federados, permitindo
ou estimulando que atuem em conjunto. Neste caso, a Constitui<;ao estabelece
os criterios da coopera<;ao: uma vez que se decide aluar em coopera<;ao. esta
s6 pode ocorrer nos termos previstos no texto constitucional. Hit ainda a
coopera<;ao volunti1ria, Oll li vre. baseada em acordo entre as paries, que po-
dem, inclusive, decidir atuar de forma distinta ao disposto na Constitui<;ao.
Vide Enoch Alberti ROVIRA, op. cit., p. 487·490. 0 Brasil e urn exemplo de
Federa<;ao em que a coopera<;ao e obrigat6ria, conforme 0 artigo 23 da Cons-
titui<;ao. jei na Alemanha, a coopera<;ao pode ser obrigat6ria (artigo 91 'a' da
Lei Fundamental Alema), facultaliva (arliga 91 'b' da Lei Fundamental Ale-
rna), ou liv re.
93 Enoch Alberti ROVIRA, op. cit., p. 370-371.
Dilemas do Estado Federal Brasiieiro 61
I
I
I
competencias prevista na Constitui"ao de 1988, especia l-
mente ados artigos 23 e 24, "irracional". Para eles, a
reparti"ao deveria ser clara!4 com a elimina"ao das
competencias concorrentes (nao distinguem as competen-
cias concorrentes das comuns), por alargarem a "margem
de irracionalidade". As competencias, ainda, deveriam ser
descentralizadas para Estados e Municfpios95
Na realidade, a grande crftica que pode ser feita as
competencias comuns elencadas no artigo 23 da Consti-
tui"ao de 1988 e a nao-inclusao do planejamento entre as
materias previstas. A enfase da Constitui<;ao de 1988, no
tocante ao planejamento, foi dada a Uniao (artigo 21, IX
da Constitui<;ao), ignorando-se 0 papel dos Estados e
Municfpios na elabora<;ao dos pianos. A preponderancia
da Uniao, nesta area, nao exclui a necessidade de partici-
pa<;ao de todos os entes federados na elabora<;ao conjun-
ta do planejamento,96 Afinal, a coopera"ao e uma especie
de planejamento, ao elaborar criterios conjuntos e uni-
formes de atua<;ao da Uniao e entes federados sem violar
a reparti<;ao de competencias. E um planejamento coor-
denado, com a anuencia de todos os titulares de fun,,6es
94 Curiosa mente, nos Estados Unidos, eterno exemplo utilizado pelos crfticos
das co.mpetencias comuns e concorrentes como modelo de "racionalidade", a
poss ivel ambigilidade daseparar;ao constitucional de competencias nao e
vista pe los americanos como urn mal ou equivoco a ser superado, tanto que
eventuais reformas propostas nunca foram aprovadas. Cf. Thomas J. ANTON,
Lns PoJiticas Pllblicas & eI Federnlismo Nortellmericano: Como Fllllciollll eI Sistemll,
Buenos Aires, Heliasta, 1994, p. 23·24, 35 e 264-265.
95 Vide Asp<1sia CAMARGO, "0 Novo Pacta Federativo" , Revista do Servi~o
Pllblico, vol. 118, n° 1, Brasflia , ENAP, janeiro/julho de 1994, p. 84 e Fernando
Luiz ABRUClO, op. cit., p. 103-106 e 169. Devemos, ainda, ressaltar que a
grande tentativa de "racionalizar" a reparti\ao constitucional de competen-
cias nos Estados Unidos QCo rreu na decada de 1980, durante a Presidencia do
conservador Ronald Reagan. Sua proposta, curiosa mente, semelhante it do
Governo Fernando Henrique Cardoso, era a de tornar "clara" e "racional" a
div isao de competencias, descentralizando a responsabilidade por po liticas
pllblicas para Estados e Municfpios, que assumiriam todas as polfticas soc iais,
com exce\ao de parte das politicas de saude. Apesar do empenho do Governo
Federal, a proposta nao foi aprovada. Cf. Thomas J. ANTON, op. cit., p. 26-27
e 276-282.
96 Neste sentido, v ide Fernanda Dias Menezes de ALMEIDA, op. ciL, p. 98-99,
10H04 e 175-176.
62 Estndo Ii' Co"stitui~iio 3 GILBERTO BERCOVICI
estata is, em contraposi<;ao a lim planejamento imposto
de cima para baixo.
E a falta de uma polftica nacional coordenada, e nao a
reparti"ao de competencias concorrentes e comuns, que
faz com que determinados programas e politicas publicas
sejam realizados por mais de lima esfera governamental
e outros por nenhuma 97 Falla de coordena"ao e coopera-
<;ao esta que, emblematicamente, revela-se na a llsencia
da lei complementar prevista no panigrafo unico do artigo
23 da Constitui"ao, que deve regulamentar as normas para
a coopera<;ao entre a Uniao e os entes federados .
Com a restaura<;ao do federalismo pela Constitui-
<;ao de 1988, as politicas de desenvolvimento regional
devem ser elaboradas e implementadas dentro dos mar-
cos do sistema federa l, ou seja, com a coordena<;ao e
coopera<;ao da Uniao e todos os entes federados. Para
tanto, e essencial que evitemos a concep~ao racionalista
e artificia l que ve 0 federalismo apenas como um proble-
ma de organiza<;ao, tendo em vista 0 objetivo da otimi-
za<;ao e da eficiencia maxima da a tua<;ao es tatal.
Concep"ao tecnocratica esta que nao leva em considera-
"ao os process os hist6ricos da evolu<;ao e forma<;ao do
Estado fede ral concreto.
No tocante as desigua ldades regionais, a Constittii-
"ao de 1988, em seus artigos 3°, III, que trata dos
objetivos fundamentais da Republica Federativa do Bra-
sil, e 170, VII, que enumera os princfpios constitucionais
da ordem economica, considera imprescindfvel a redu-
~ao das desigualdades regionais e sociais. Cabe tambem
a Uniao articular 0 desenvolvimento e a redu"ao das
desigualdades regibnais, atraves da cria"ao de regi6es
adminis trativas, incentivos e da a<;ao de organismos
regionais (artigo 43).98
97 Jose Roberto Rodrigues AFONSO, "Descentraliza \ao Fiscal: Revendo
Ideias" cit., p. 362-363.
98 Apesar de sua institui\ao ser de competencia da Uniao, as regioes admi-
nistrativas nunca safram do pape!. Vide Paulo BONA VI DES, Curso de Direilo
C01l5titllcio1lnl cit., p. 323-326. Para uma critica da solw;ao adotada no artigo
Dilemas do Estado Federa l Brasileiro 63
I,
2.2. A Questao da DescentraJiza~ao
o processo de elabora,ao do sistema tributario e
financeiro durante a Assembleia Constituinte de
1987/ 1988 teve como caracterfstica a polariza,ao regio-
nali sta, nao ideol6gica, dos debates99 Deste modo, tor-
nou-se luga r-comum afirmar que a Constitui,ao de 1988
atribui receitas, mas nao encargos, para Estados e Muni-
cfpios. Para solucionar 0 "grave desequilfbrio fiscal"
gerado pela Constitui,ao, seria necessaria uma total
reformula,ao, com base na descentraliza,ao e no princf-
pio da subsidiariedade. As receitas a te p odem ser manti -
das no mesmo nfvel, mas as competencias federais
devem ser descentralizadas para Estados e Municf-
pios. lOO
Em primeiro lugar, precisamos saber de que d es-
centraliza,ao os crfticos da Constitui,ao es tao falando.
A concep,ao de descentraliza,ao e vaga, podendo ser
utilizada em inumeros contex tos diferentes. Na maioria
das vezes, segundo Celina Maria de Souza, 0 sentido de
descentraliza,ao utilizado e 0 anglo-saxonico e norte-
america no, ou seja, como um redirecionamento para os
agentes locais e para 0 mercado, fundamentando as
visoes neoliberais. Sob este enfoque, a descentra liza,ao e
apresentada como um fator de eficiencia e controle da
a tua,ao governamenta l, sugerindo que 0 poder cen tral
43 da Constitui~ao de 1988, vide Gilberta BERCOVICI, "Constitui~ao e Supe-
ra~ao das DesiguaJdades Regionais" cit., p. 87-88 e Gilberta BERCOVICI,
Oesigunldades Regiollais, Estado e COl1sfitlliriio cit., p. 233-236. Cum pre ressa ltar
que hoje estamos revendo es tas criticas, entendendo mais positivamente as
possibilidades do artigo 43 da Consti tui~ao.
99 Vide especiaimente Fabrfcio Augusto de OLIVEIRA, Crise, Reforma e DesoT-
dem do Sistema TribuMrio Nacional, Campinas, EdUNICAMP, 1995, p. 65-89.
Vide tamb~m Rui de Britto Alvares AFFONSQ, "Descentraliza,ao e Reforma
do Estado: a Federac;ao Brasileira na Enc ruzilhada" cit., p. 133-134.
100 Aspasia CAMARGO, " La Federaci6n Sometida. Nacionali smo Desarroll is-
la e Inestabilidad Democratica" cit., p. 347-349 e Manoel Gont;alves FERREI-
RA Filho, Constitlli{:iio e Governnbilidade: Ensaio sobre a (In)governnbifidnde
Brasileira, Sao Paulo, Saraiva, 1995, p. 63-66 e 137.
64
Estnrlo e COlIstitlfi{:iio 3
GILBERTO BERCOVICI
e/ou estatal e corrupto e ineficiente,'01 em suma, a utili-
za,ao da descentraliza,ao como panaceia de todos os
problemas relacionados it execu,ao de polfticas pllblicas
virou, assim, urn fim em si mesmo. 102
Este tipo de descentra liza,ao e 0 denominado, por
Pedro Luiz Barros Silva e Vera Costa, "descentraliza~iio
diferencindora, seletiva e fragmentada", ora predominante
na America Latina. Os resultados desta modalidade de
descentraliza,ao sao 0 aumento das d esiguald ades
regionais e socia is, 0 privilegio aos se tores mais liga-
dos it economia internacion al e a possibilidade de
fragmenta,ao nacional, com 0 estfmulo it inser,ao e
articula,ao direta e separada dos entes federados com 0
exterior, sem levar em conta os interesses do todo
nacional. '03
2.3. A "Descentraliza~ao por Ausencia" e 0
Ajuste Fiscal
Na rea lidade, 0 grande problema da reparti,ao de
rendas realizada pela Constitui,ao de 1988 foi ter sido
realizada a descentraliza,ao de receitas e competencias
sem nenhum plano ou programa de atua,ao definido
101 Cf. Celina Maria de SOUZA, COlls/illl/ional Ellgilleerillg ill Brazil: Tile Poli-
tics of Federalism and Decentralizatioll, New York, St. Martin's Press, 1997, p.
11-14 e Marta ARRETCHE, "Mitos da Descenlral izat;ao: Mais Democracia e
Eficiencia nas Polfticas Publicas?", Revistn Brasileira de Ciellcins Socia is nO 31,
Sao Paulo, ANPOCS, junho de 1996, p. 44-45. Vide tambem Rui de Britto
Alva res AFFONSO, "A Federac;lio no Brasil: Impasses e Perspectivas" cit., p.
59; Ped ro Luiz Barros SILVA & Vera Lucia Cabral COSTA, "Descentra lizac;ao
e Crise da Federac;ao" in Rui de Brillo Alvares AFFONSO & Pedro Luiz Barros
SILVA (ergs.), A Federa{:lio em Perspectivn cit., p. 262-263 e 276-278 e Rui de
Britto Alvares AFFONSO, "Descentralizat;ao e Reforma do Estado: a Federa-
C;ao Brasileira na Encruzilhada" ciL, p. 128-129.
102 Jose Rober lo Rodrig\'les AFONSO, "Descentra lizac;ao Fisca l: Revendo
Ideias" cit., p. 369 e Rui de Brillo Alvares AFFONSO, "A Federat;ao no Brasil:
Impasses e Perspec ti vas" cit., p. 68-69.
103 Pedro LuizBarros SILVA & Vera Lucia Cabra l COSTA, op. cit., p. 267 e
278-279. Vide lambem Rui de Britlo Alva res AFFONSO, "Descenlralizac;ao e
Reforma do Estado: a Federat;lio Brasileira na Encruzilhada" cit., p. 149.
Dilemas do Estado Federa l Brasileiro 65
II
I;
entre Uniao e entes federados. 0 interesse do Governo
Federal foi 0 de alegar a ausencia da descentraliza~ao
como parte da justificativa das crises fiscal e economica.
A unica iniciativa mais programada do Poder Executivo
federal consubstanciou-se na fracassada "Opera~ao Oes-
monte"IO' do Governo Jose Sarney. A partir de entao, 0
Governo Federal simplesmente reagiu 11 perda de recur-
sos, reduzindo ao maximo as transferencias nao-obriga-
t6rias (subven~6es), 105 desguarnecendo as politicas
socia is, agora tambem responsab ilidade de Estados e
Municipios.106 A queda do volume de gastos federais foi
tao rapida e acentuada que, para Jose Roberto Rodrigues
Afonso, a crise social s6 nao foi maior gra~as ao aumento
dos gastos subnacionais com polfticas pllblicas107
Nem todos os autores reconhecem a existencia de
um amplo processo de descentraliza~ao de receitas e
encargos. No en tanto, ap6s a Constitui~ao de 1988, de
IU~ A "Operac;:ao Desmonte" consistiu no corte de dotac;oes fed era is, para
programas que a nova Constiluic;ao indicava como pr6prios ou mais adequa-
dos aos entes federados, na proposta on;amentaria de 1989. 0 Congresso
Nacional, todavia, rejeitoll a "Operac;ao Desmonte", ao vola r 0 orc;amento
daqucle ano.
105 Sao transferencias voluntarias de recursos para coheir despesas de deter-
minados 6rgaos ou entidades publicas, devendo estar previstas na lei on;a-
menlaria (artigo 12 da Lei n° 4.320 /1964). Cf. Jose Maurfcio CONTI,
Federnlismo Fiscal e FlllldoS de Participa~iio, Sao Paulo, Editora Juarez de Olivei-
ra, 2001, p. 73. Estas transferencias nao-obrigat6rias chegam a constituir cerca
de 60% do total de repasses federais aos cntes federados. Cf. Jose Roberto
Rodrigues AFONSO, "Descent ra lizac;ao Fisca l: Revendo Ideias" op. cit., p. 356.
106 Jose Roberto Rodrigues AFONSO, "Descentralizac;ao Fisca l: Revendo
Ideias" op. cit ., p. 360-362; Jose Roberto Rodrigues AFONSO, "A Questao
Tributaria e 0 Financiamento dos Diferentes N{veis de Governo" op. ci t., p.
318-321; Pedro Luiz Barros SILVA & Vera Lucia Cabral COSTA, op. cit ., p.
267-268 e 270-271 ; Fabrfcio Augusto de OLIVEIRA, Crise, Reforma e Desordem
do Sistema Triblltnrio Naciollal op. cit., p. 123-125 e Fernando Luiz ABRUCIO,
op. cit., p. 195-197.
107 Cf. Jose Roberto Rodrigues AFONSO, "Descentra li zac;ao Fiscal: Revendo
Ideias" op. ciL, p. 364-365. Alem dis to, foi privilegiada a criaC;ao de fontes de
receitas nao-partilhadas, baseando a arrecadac;aa federal em impostos indire-
tos e contribuic;oes sociais . Vide Fabricio Augusto de OLIVEIRA, Crise, Refor-
ma e Desordem do Sistema Tributtlrio Naeiollnt op. cit., p. 139-140 e 143-144;
Fernando REZENDE, op. eil., p. 231-232 e Celina Maria de SOUZA, " Interme-
diac;ao de Interesses Regionais no Brasil: 0 Impacto do Federalismo e da
Descentralizac;ao", op. cit ., p. 578-579.
66 Estado e CO/lstitlli~fio 3 GILBERTO BERCOVICI
modo lento, inconstante e descoordenado, os Estados e
Municfpios vem substituindo a Uniao em varias areas de
atua~ao (especialmente nas areas da saLlde, I08 educa~ao,
hab ita~ao e saneamento), I09 ao mesmo tempo em que
outras esferas estao sem qualquer atua~ao governamen-
tal gra~as ao abandono promovido pelo Governo Fede-
ral. Politica esta, de abandono de politicas socia is por parte
do Governo Federal, denominada, par Maria Herminia
Tavares de Almeida e Marta Arretche, de " descentra/iza-
~iio pOl' ausi!ncia ". IIO Esta transferencia nao planejada e
descoordenada de encargos contradiz 0 lugar-comum
de que os entes federados receberam apenas verbas, e
nao encargos com a nova ordem constitucional. As
politicas sociais nao sofreram mudan~as qualitativas ou
se deterioraram nao pel a sua concentra~ao na esfera
federal, mas pela total falta de planejamento, coordena~ao
e coopera~ao no processo de descentraliza~aonl
108 Para Jose Roberto Rodrigues Afonso, 0 tmica programa seta ria I de descen-
tralizac;ao que reJa ti vamente erosperou foi 0 da sallde. Mas isto s6 ocarreu
porque a criac;ao do Sistema Unica de Satlde (SUS) era uma antiga reivind i-
cac;:aa do se tor e fai expressamente prevista no texto canstitucional (artigo
198). Cf. Jose Roberto Rodrigues AFONSO, "Descentrali zac;:ao Fiscal: Revendo
Ideias", op. cit ., p. 360-362. Vide tambem Pedro Luiz Barros SILVA & Ve ra
L(lcia Cabral COSTA, op. ciL, p. 276. Sobre a implantac;ao da SUS, vide a inda
Marta ARRETCHE, Es tndo Fedemtivo e Pof{ticas Sociais: Detcrmillnl/tes da Dcs-
eelltrnliznrifo, Rio de Janeiro/Sao Paulo, Revan/FAPESP, 2000, p. 197-239.
109 Sabre 0 aumento do poder decis6rio e dos gas tos com pal(t icas socia is,
cam excec;iio da previdencia socia l, de Estados e Municipios, a partir da
decada de 1980, vide Andr~ Cezar MEDICI, "Polilicas Sociais c Federalismo",
ill Rui de Britto Alvares AFFONSO & Pedro Lu iz Barros SILV A (orgs.), A
Fcdernrifo em Perspectiva, op. cit. , p. 287-290.
110 Maria Herminia Tavares de ALMEIDA, "Federalismo e Politicas Socia is",
Revis tn Brnsileirn de Cii!lIcias Sociais n° 28, Sao Paulo, ANPOCS, junho de 1995,
p. 104-105 e Marta ARRETCHE, "Mitos da Descentra lizac;ao: Mais Democra-
cia e Eficiencia nas Polfticas Ptlblicas?", op. cit., p. 64, nota 17.
III Cf. Jose Roberto Rodrigues AFONSO, "Descentralizac;:ao Fiscal: Revendo
Ideias" op. cit., p. 356-359; Rui de Britto Alvares AFFONSO, "A Federac;ao no
Brasil: Impasses e Perspec tivas", op. cit., p. 62-67; Celina Maria de SOUZA,
Const itut ional Engineering ill Brazil, op. cit., p. 106-107; Celina Maria de SOU-
ZA, "Intermed iac;:ao de Interesses Regionais no Brasil: 0 hnpac to do Fedcra-
!ismo e da Descentralizac;:ao", op. cit., p. 576-577 e 584-585 e Rui de Britto
Alvares AFFONSO, "Descenlralizac;ao e Reforma da Estado: a Federac;:ao Bra-
sileira na Encruzilhada", op. cit., p. 133-134 e 137.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 67
II
II
Quando 0 Governo Federal reconhece 0 aumento
das despesas estaduais e municipais com politicas so-
ciais, identifica este aumento como ma gestao e deficit
nas contas pttblicas. ll2 Dentre as raras medidas tomadas
pelas autoridades federais esta 0 controle e redw,ao do
endividamento publico estadual e municipal para con-
trolar 0 deficit publico e combater a infla~ao113 a resul-
tado destas concep~5es e a tentativa de tutela politica e
financeira por parte da Uniao de certas polfticas 50-
ciais,114 0 desmonte de programas sociais e seus meca-
nismos de atua<;ao ou leis draconianas, como a Lei de
Responsabilidade Fiscal (Lei Complementar nO 101, de 4
de maio de 2000). Sobre a Lei de Responsabilidade
Fiscal, devemos ressaltar que ela limita a atua<;ao de
todas as esferas de governo do pais it busca do equilibrio
nas contas publicas. Este equilibrio fiscal, imposto, nao
negociado, nem sempre esta de acordo com os princf-
pios do Estado Federal previsto na Constitui<;ao de 1988.
Na opiniao de Rui de Britto Alvares Affonso: "Em tese 0
disciplinamento da execu~ao fiscal de forma negociada
entre os diferentes niveis de governo constituiria um
imperativo do ordenamento federativo do pais. Contu-
do, e importante lembrar que uma federa,ao nao visa,
necessaria mente, it auto-sustenta~ao financeira absoluta
112 C f. Jose Roberto Rodrigues AFONSO, "Descen traliza~ao Fiscal: Revendo
Ideias", op. cit., p. 359. Vide tambem Celina Maria de SOUZA, "Intermedia~ao
de Interesses Regionais no Brasil: 0 Impacto do Federalismo e da Descentra-
Ii zac;ao", op. cit., p. 585.
113 Jose Roberto Rodrig ues AFONSO, "Descentralizac;ao Fisca l: Revendo
Ide ias", op. cit., p. 365-369.
114 0 exemplo not6rio e 0 do FUNDEF,insti tu tdo pela Emenda Constitucionai
nO 14, de 12 de se tembro de 1996, que busca rclomar 0 contro le federa l da
descentralizac;ao de politicas publicas, no caso, da educac;ao, por meio da
vi ncl1lac;ao de verbas estadl1ais e municipa is, conjl1gada com a diminl1h;ao
dos gastos e responsabilidades lederais com 0 ensino fundamen tal. Vide
Pedro L~liz Barros SILVA & Vera Lucia Cabral COSTA, op. cit., p. 270·271 e
Gilberto BERCOVICI, "0 Federalismo e 0 Financiamento de Polfticas Socia is
no Brasil - Uma Analise do FUNDEF", Revista Trimestral de Oireito Pliblico nO
29, Sao Paulo, Malheiros, 2000, p. 147·161. 0 mesmo esta ocorrendo com os
serv ic;os publicos de saude, de acordo com a Emenda Constitucional n° 29, de
13 de se tembro de 2000.
68 Estndo e COlIstitlli(iio 3 GILBERTO BERCOVICI
de todos os seus entes federados; as transferencias e trocas
das mais diversas naturezas sao a essencia do Estado
federal. a que se deve procurar minorar sao, decerto, as
heterogeneidades socioecon6micas atraves de um pro-
cesso de desenvolvimento econ6mico e social" 115
2.4. A Necessidade de Planejamento e Coordena~ao
na Descentraliza~ao de Politicas Sociais
A tese usual da descentraliza,ao de receitas, mas
nao de encargos, nao se sustenta. a problema foi a falta
de coordena<;ao e coopera<;ao entre a Uniao e os entes
federados, que gerou 0 caos hoje reinante. a debate nao
deve ser entre descentraliza~ao e centraliza~ao, mas qual
descentraliza<;ao e para que (e para quem) descentrali-
zar. A descentraliza<;ao das politicas publicas deve ser
realizada de forma gradual, apoiada em programas de
assistencia tecnica e financeira, com 0 objetivo de evitar
rupturas e prejuizos para a popula<;ao. au seja, a descen-
traliza<;ao deve ser realizada de maneira articulada, nao
conflitiva, como vem ocorrendo. a desequilibrio gerado
na descentraliza~ao e solucionado com uma politica
planejada de coopera<;ao e coordena<;ao entre Uniao e
entes federados, com os objetivos do desenvolvimento e
da promo<;ao da iguala<;ao das condi<;5es sociais de vida,
nao com 0 desmonte puro e simples ou 0 retrocesso da
recentraliza<;ao de receitas na esfera fede ral." 6
Um processo ordenado de descentraliza~ao de poli-
ticas sociais ex ige, portanto, polfticas definidas nacional-
115 Rui de Britto Alvares AFFONSO, "Descentralizac;ao e Reforma do Estado:
a Federac;i'io Brasileira na Encfllzilhada", op. cit., p. 148, destaql1es do autor.
116 Jose Roberto Rodrigues AFONSO, "Descentra li zac;ao Fiscal: Revendo
Ideias",op. cit., p. 370 e 374; Rui de Britto Alvares AFFONSO, "A Federac;ao
no Brasil: Impasses e Perspectivas", op. cit., p. 67-70; Pedro Luiz Barros SILVA
& Vera Lucia Cabral COSTA, op. cit., p. 274-275 e 279-281; Jose Roberto
Rodrigues AFONSO, "A Questao Tributaria e 0 Financiamento dos Diferentes
Nfveis de Governo", op. cit., p. 321-322 e 324-325; Maria Herminia Tavares de
ALMEIDA, op. cit., p. 94 e Fernando REZENDE, op. cif., p. 241.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 69
mente, com a coopera<;ao de todas as esferas governa-
mentais. Este e, para Marta Arretche, 0 aparente parado-
xo no processo de descentraliza<;ao de politicas socia is
no Brasil: 0 sucesso da descentrali za<;ao esta ligado ao
fortalecimento das capacidades institucionais e adminis-
trati vas do Governo Federal, que e 0 nivel de governo
que dirige e coordena a implementa<;ao das politicas
descen tral izadas pelos entes federados .117
A elabora<;ao de politicas deliberadas de descentra-
li za<;ao, em nivel nacional, e essencial no Brasil, onde a
transferencia das politicas sociais nao e urn processo
espontaneo. 0 Bras il, sob a Constitui<;ao de 1988, e lima
Federa<;ao. Portanto, os entes federados sao dotados de
autonom ia, nao sendo obrigados a aderir a nenhuma
politica federa l de descentraliza<;ao de politicas sociais,
sa lvo determina<;ao constitucional. 11S A descen traliza<;ao
de politicas soc iais, desta maneira, 56 consegue a adesao
dos entes federados por meio de politicas nacionais
deliberadas, com auxilio tecnico, admin istra tivo e fin an-
ceiro por parte da Uniao, que motivem a decisao do ente
federado em assumir aquela politica que se quer descen-
trali za r. Na opiniao de Marta Ar retche, a pouca capaci-
dade administrativa e os problemas fiscais e financeiros
dos entes federados sao levados em conta no processo
da decisao de assumir uma politica social, mas n~o sao
fatores determinantes da decisao, pOis pod em ser com pen-
sados pela Uniao (Oll Estado, dependendo do caso)1I9
Deste modo, 0 fator determinante da descentraliza<;ao
bem-sucedida d e politicas sociais e a decisao politica de
elaborar lima politica nacional deliberada, que deve ser
implementada de modo coordenado e com a adesao dos
117 Marta ARRETCHE, "Mitos da Descentra li z<ll)5.o: Mais Democracia e Eli-
ciencia nas Polfticas Pt'lblicas?", op. cit., p. 51 e 56-57. Vide tambem Maria
Herminia Tavares de ALMEIDA, op. cit., p. 92-93 e 104-105.
118 Marta ARRETCHE, Estado Federntivo e Polfticns Sociais, op. cit., p. 13-14, 17,
33-34,47-48,241-242 e 248.
119 Marta ARRETCHE, Estndo Federntivo e Po/{ticns 50C;(I;5 , op. cit., p. 52-57,
68-74 e 242-245.
70
Estndo e COllstitllifno 3
GILBERTO BERCQVICI
entes federados.1 20 Infelizmente, a politica deliberada do
Governo Federal vern sendo a inclusao de dispositivos
na Constitui<;ao para obriga r os entes federados a assu-
mir certas politicas sociais, sem qualquer contrapartida
fed eral e vinculando receitas, como nos casas do ensino
fundamental (Emend a Constitucional nO 14, de 12 de
se tembro de 1996) e dos se rvi<;os publicos de saude
(Emenda Constitucional nO 29, de 13 de setembro de 2000).
No Brasil, a decisao de descentra lizar esta, irreme-
diavelmente, ligada it questao hist6ri ca das desigualdades
regionais, que nunca foram encaradas como prioridade
nacional maxima. Desta forma, sem uma real preocupa-
<;ao com as desigualdades regionais, os efeitos da pr6-
pria descentraliza<;ao se tornam limitados. E na questao
das disparidades regionais, 0 papel da Uniao e funda-
mental: os entes federados nao podem suprir 0 planeja-
mento e decis6es que exigem vis6es supra-regionais,
nem tern como obter, isoladamente, grandes recursos.
Os efeitos da reparti<;ao de rendas e encargos foram
diferentes nas va rias regi6es, dado totalmente ignorado
pelo Governo Federal, que nao pode ser subsidiario
(como querem alguns), patrocinando 0 desmonte de
politicas pllblicas. E a problematica das desigualdades
regionais que deve determinar os limites da descentra li -
za<;ao no Brasil, questao esta que, no processo descoor-
denado de descentraliza<;ao que vern ocorrendo no
Brasil, foi d eixada de lado. 121
120 Idem, p. 74 e 246-248.
121 Jose Roberto Rodrigues AFONSO, "Desccntra ii za,ao Fiscal: Revendo
Ide ias", op. cit., p. 364·365; Maria Herminia Ta vares de ALMEIDA, op. cit ., p.
105; Marta ARRETC H E, "Mitos da Descentrali za<;ao: Mai s Democracia e Efi ·
ciencia nas PoHticas Pt'l blicas?", op. cil., p. 54 e 56·57; Celina Maria de SOUZA,
COl/stitul/Ollal Ellgilleeri1/g ill Brazil, op. cil. , p. 103-104 e 176 e Celina Maria de
SOUZA, "Intermedia<;ao de Interesses Regionais no Brasil: 0 Impacto do
Federali smo e da Descentraliza<;ao" , op. cii., p. 569·570 e 586-587. Vide tam·
bem Marcelo NEVES, Grem:ell da demokrntisclle1/ Rechlsslautlichkeit II/Id des
FiidernJismus ill Brnsiliell, Basel/Fribourg, Helbing & Lich tenhahn / lnstitut du
Federa lis me, 2000, p. 42-45.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 71
if"
II
E a fal ta de uma politica nacional coordenada, e nao
a reparti~ao de compeh~ncias concorrentes e comuns,
que faz com que determinados programas e politicas
publicas sejam realizados por mais de uma esfera gover-
namental e outros por nenhuma.122 Falta de coordena<;ao
e coopera~ao estaque, emblematicamente, revela-se na
ausencia da lei complementar previs ta no pan\grafo
(mico do artigo 23 da Constitui~ao, que deve regulamen-
tar as normas para a coopera<;ao entre a Uniao e os entes
federados .
A guerra fiscal, a questao do endividamento dos
Estados, a "descentraliza<;ao por ausencia" de polfticas
socia is e a reconcentra<;ao das receitas tribut<\rias na
esfera federal demonstram a existencia de uma crise do
pacto federativo brasileiro. 0 discurso oficial de que a
Constitui<;ao de 1988 descentralizou receitas, mas nao
encargos ou deveres e falso, como pudemos avaliar. A
crise fiscal e, hoje, vista como 0 elemento central dos
problemas do federalismo no pais . Realmente, 0 proble-
ma fiscal e de fundamental importancia, mas ele nao
explica nem resolve, por si so, os impasses do federali s-
mo brasileiro.J23 0 real problema da descentra liza<;ao
ocorrida pos-1988 e a fa lta de p lanejamento, coordena-
~ao e coopera<;ao entre os entes federados e a Uniao,'24
ou seja, a falta de efetividade da propria Constitui<;ao e
do federa lismo cooperativo nela previsto.
122 Jose Roberto Rodrigues AFONSO, "Descentralizac;ao Fiscal: Revendo
Ideias",op. cit., p. 362·363.
123 Vide especialmente Rui de Britto Alvares AFFONSO, "A Federa,ao no
Brasil: Im passes e Perspectivas", op. cit., p. 69-72 e Francisco Luiz C. LOPREA-
TO, op. cit., p. 107-111. Vide tambem Marcelo NEVES, op. cit., p. 72-73.
IN Francisco Luiz C. LOPREATO, op. cit., p. 111-113; Rui de Britto A lvares
AFFONSQ, "Descentraliza,ao e Reforma do Estado: a Federa,ao Brasileira na
Encruzilhada", op. cit ., p. 149 e Marcelo NEVES, op. cit., p. 6-7 e 47.
72 Estndo e COl1stituifiio 3 GILBERTO BERCOVIC[
Capi t u l o 3
Representa(fao Politica e Federalisrno:
urn debate inacabado
3.1. A Crise da Representa~ao Polftica e a
Constituinte de 1987-88
No Brasil, desde a implanta<;ao da Republica, con-
funde-se representa<;ao popular e federaIismo . Em uma
Federa~ao, compreende-se a fixa~ao de urn numero de
representantes por Estado no Senado. Admitindo-se, no
entanto, a igualdade de representa<;ao no Senado, nada
justificaria que considera~6es pecuIiares ao sistema fe-
dera l (como 0 numero de representantes por Estado)
fossem incluidas na problematica da representa~ao po-
pular, influindo na composi~ao da Camara dos Deputa-
dos. 12S En tretanto, is so vern ocorrendo no decorrer da
historia brasi leira com acentuada frequencia e constitu i
urn dos problemas polftico-constitucionais do pais na
atua Iidade.
As distor<;6es na representa<;ao politica foram man-
tidas pelo constituin te de 1988. A distribui<;ao das cadei-
ras na Camara dos Deputados que vigora atualmente e a
mais distorcida de toda a historia da Republ ica. Ela e
uma heran~a do processo de distensao e lenta abertura
politica do final da ditadura miIitar. No tocante a des-
125 Miguel REALE, "0 Sistema de Representa,ao Proporcional e 0 Regime
Presidencial Brasileiro", Revista Brasifeira de Estlldos Po/fticos, n° 7, Belo Hori-
lOnte, Universidade Federal de Minas Gerais, novembro de 1959, p. 26.
Oilemas do Estado Federal Brasileiro 73
propor~ao da representa~ao politica, 0 agravamento das
distor~oes foi inaugurado com a "Pacote de Abril", de
1977, que a General Ernesto Geisel outorgou ao pais com
base nos poderes excepcionais do Ato Institucional n° 5,
de 1968.
Uma das piores modifica~oes introduzidas pelo
"Pacote de Abril", de 1977, de natureza totalmente
casuistica, foi justamente a aumento na despropor~ao da
representa~ao na Camara. A nova reda~ao dada ao caplll
do artigo 39 da Carta de 1969 era a seguinte: "A Camara
dos Deputados compoe-se de ale q1lalroce/llos e vi/l ie
represenlanles do povo, eleitos, dentre cidadaos maiores
de vinte e um anos e no exercfcio dos direitos politicos,
par voto direto e secreta, em cad a Estado e Territ6rio" .
Pela primeira vez impunha-se um numero maximo do
total de deputados que deveria haver na Camara . 0
artigo 39 teve ainda modificado a seu § 2°: "Obedecido 0
limite maximo previsto neste artigo, a nltmero de depu-
tados, par Estado, sera estabelecido pela Justi~a Eleitoral,
para cada legislatura, proporcionalmente it popula~ao,
com 0 reajuste necessa rio para que nenhum Eslado lenha
mais de ci /lqiienla e cinco au menos de seis depu tados" . Foi
fixado, a lem do nltmero minima, a numero maximo de
deputados par Estado, tambem pela primeira vez deter-
minado em uma Constitui~ao . Aiem disso, cada Territ6-
rio, com exce~ao de Fernando de Noronha, teria direito a
dais deputados, nao mais apenas um (artigo 39, § 3°).
Essa mudan~a na proporcionalid ade deveu-se simples-
mente ao fato de 0 MOB ser mais forte no Centro-SuI, e a
ARENA, no Norte-Nordeste. Ainda em 1982, dentro das
manobras casu isticas para conseguir fazer com que 0
PDS (herdeiro e substituto da ARENA) obtivesse a
maioria no Legislativo, a govern a conseguiu modificar
novamente a propor~ao do numero de deputados par
Estado na Camara. A Emenda Constitucional n° 22, d e 5
de julho de 1982, entre outras mudan~as, alterou a artigo
39, capuI, e seus §§ 2° e 3°. A nova reda~ao do capul
74
Estado e COllstitlli(iio 3
GILBERTO BERCOVICI
aumentava a nltmero total de membros da Camara de
420 para 479 deputados. A mudan~a no artigo 39, § 2°,
era a seguinte: "Obedecido a limite maximo previsto
neste artigo, a nltmero de deputados, par Estado, sera
estabelecido pela Justi~a Eleitorai, para cada iegisiatura,
proporcionalmente it popula~ao, com a reajuste necessa-
ria para que nenhum Estado tenha mais de sessen ta all
menos de oilo deputados". Os Territ6rios passaram a ter
direito ao nltmero minima de 4 deputados, com exce~ao
de Fernando de Noronha (artigo 39, § 3°). A Emenda
Constitucional n° 25, de 16 de maio de 1985 tentou
remover a chamado "entulho autoritario" . Entre avan-
~os e concessoes, modificou-se nova mente a artigo 39 da
Carta de 1969, com a aumento do numero maximo de
deputados para 487. Entretanto, manteve-se a nltmero
maximo de 60 e minima de 8 deputados par Estado.
Com essa emenda, a Distrito Federal passou a poder
eleger 8 deputados e 3 sen adores. A super-representa~ao
dos Estados do Norte e Centro-Oeste favoreceu uma
politica de cria~ao ind isc ri minada de Estados, que se
tornou um instrumento importante do controie politico
do Legislativo pelo regime militar, prosseguindo pel a
regime democratico adentro . Dependentes de verbas
federai s, grande parcela desses Estados enviou um re-
for~o da re presenta~ao governista para a Congresso
Nacionai, neutralizando parte do avan~o da oposi~ao .
Os Estados criados foram Mato Grosso do SuI (1977),
Rondonia (1983), Amapa, Roraima e Tocantins, as tres
liltimos peia Constitui ~ao de 19881 26
126 Vide Thomas SKIDMORE, Brasil: De Castelo a TnJlcredo (1964·1985), 4~ ed,
Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1991, p. 335-339 e 370-374; Maria 0 ' Alva Gil
KINZO, Oposi{:iio e All toritarismo - Gellese e Trnjef6rin do MDB (1966-1979), Sao
Paulo, Vertice/RT, 1988, p. 134-135, 162-163 e 171-183 e Aspasia CAMARGO,
"La Federaci6n Some tida. Naciona lismo Desarroll ista e Inestab ilidad Demo-
crMica", op. cit., p. 315 e 349-352. Sabre a comprova,ao empirica do predomi'-
nio do MOB no Centro-Su i e da ARENA no Norte-Nordeste, vide Maria
D'Alva Gil KINZO, Oposi~iio e Alltoriiar islIIo, op. cit., p. 71-80.
Dilemas do Estado Federal Brasi leiro 75
A maior parte dos deputados constituintes, eleitos
de acordo com as regras estipuladas na Carta Outorgada
de 1967/ 69, modificadas pelo tristemente celebre "Paco-
te de Abril", de 1977, e pelasJmendas ~2, de 1982, e n~
_2S,_ d_eJ980_ nao modificaria os dispositivos que os
favoreceram. Para muitos deles, 0 minima de 8 deputa-
dos deveria ser considerado como "direito adquirido"
dos pequenos Estados e a determina<;ao do numero
maximode deputados por Estado como a garantia do
afastamento definitivo da predominancia numerica dos
Estados rna is populosos e desenvolvidos do Centro-Sui.
Pelo dispositivo aprovado na Constituinte, 0 nume-
ro total de deputados deve ser estabelecido por lei
complementar, proporcionalmente it popula<;ao, desde
que nenhuma unidade tenha menos de 8 ou mais de 70
deputados. Esta determina<;ao do artigo 45, § 1°, acabou
por destruir a propor<;ao. A timidez (proposital ou nao)
dos constituintes em erradicar essa heran<;a do perfodo
ditatorial (embora a despropor<;ao venha desde, pelo
menos,o final da Republica Velha) acabou gerando uma
crise representa tiva de graves propor<;6es.127
Analisaremos neste artigo, em primeiro lugar, 0
principio da igualdade do voto e a sua compatibilidade
(ou nao) com a despropor<;ao na representa<;ao popular.
Oepois nos deteremos sobre as vicissitudes do bicamera-
lismo no Brasil e a dicotomia representa<;ao dos Esta-
dos / representa<;ao do povo.
3.2. A Igualdade do Voto
A Constitui<;ao de 1988, em seu artigo 14, consoli-
dou 0 sufragio universal , 0 voto direto e secreto, com
127 Jose Afonso da SILVA, Curso de Direito COllstitllciollal Positivo, 9a ed, Sao
Paulo, Malheiros, 1993, p. 446-447 e Aspasia CAMARGO, "La Federaci6n
Sometida. Nacionalismo Desarrollista e Inestabil idad DemocnHica", op. cit. ,
p.349-352.
76 Estndo e COllstituiriio 3 GILBERTO BERCOVICI
valor igual para todos, sem quaisquer condi<;6es ou restri-
<;5es derivadas de cond i<;5es de nascimento, fortuna ou
capacidades especiais. Para ser eleitor no Brasil se esta
sujeito apenas a urn condicionamento de fundo (requisi-
tos de nacionalidade, idade e capacidade) e de forma (e
necessario se alistar como eleitor) . Sao condi<;5es tecni-
cas, nao discriminat6rias. Os analfabetos tiveram seu
direito ao voto garantido, mantendo-se 0 prescrito com a
Emenda nO 25, de 1985, it Constitui<;ao anterior. 0 artigo
45 man tern 0 sistema proporcional, consagrado desde 0
C6digo Eleitoral de 1932 e mantido pelo atual C6digo
Eleitoral (Lei nO 4.737/65)128
Alem da igualdade perante a lei, a Constitui<;ao
veda distin<;5es de qualquer natureza. A Constitui<;ao e
veemente e abrangente na condena<;ao das desequipara-
<;5es entre as pessoas. A lei nao deve ser fonte de
privilegios ou persegui<;5es, mas instrumento regulador
da vida social que necessita tratar com equidade a todos
os cidadaos. Urn dos aspectos fundamentais da garantia
de igualdade e'o da igualdade polftica. Alem da proibi<;ao
de discrimina<;ao por convic<;5es filos6ficas ou polfticas,
esse principio e consubstanciado no reconhecimento e
na exigencia da igualdade do voto (artigo 14: "A sobera-
nia popular sera exercida pelo sufnlgio universal e pelo
voto direto e secreto, com valor igual para todOS").129
o sufnlgio, para Carlos Fayt, e "In base de la orgnni-
zaci6n del poder en el Estado". E urn direito publico
subjetivo de natureza polftica que tern 0 cidadao de
eleger, ser eleito e de participar da organiza<;ao e da
atividade do poder es tatai. E urn direito que decorre
diretamente do principio de que todo poder emana do
povo (artigo 1°, paragrafo unico: "Todo 0 poder emana
do povo, que 0 exerce por meio de representantes eleitos
ou diretamente, nos termos desta Constitui<;ao"). No
128 Jose Afonso da SILVA, CJlrsQ, op. cit., p. 309-311 e 327-331.
129 Idem, p. 203-204 e 206-207.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 77
Ii
sufragio consubstancia-se 0 consentimento popular, que
legitima 0 exercicio do poder. Enquanto expressao do
poder eleitoral, 0 sufragio tem por fun , ao a sele,ao das
pessoas que exercerao 0 poder no Estado. 0 sufragio
contem um poder de assentimento (eleitoral) e um
poder de decisao (participa,ao). 0 direito de sufragio,
em sua fun,ao eleitoral, e exercido atraves do voto. 0
sufragio e 0 direito politico fundamental nas democra-
cias politicas. 0 voto emana desse direito, sendo sua
manifesta,ao no plano pratico130
A universalidade do direito de sufn'igio e principio
essencial da democracia politica, que se ap6ia na legiti-
midade dos governantes pelos governados. Essa legiti-
midade sera maior quanta mais for ampliado 0 direito
de sufragio aos habitantes de um pais. 0 sufragio uni-
versal e acolhido no artigo 14 da Constitui,ao. A coinci-
dencia entre eleitor e nacional do pais nao e, entretanto,
absolu ta . Para alguem ser eleitor no Brasil e necessario
que haja um duplo condicionamento, sem que isso afete
a universalidade do sufragio. 0 condicionamento de
fundo (requisitos de nacionalidade, idade e capacidade)
eo de forma (alistamento eleitoral, conforme 0 artigo 14,
§ 1°). Assim, segundo Jose Afonso da Silva, "considera-
se, pois, universa l 0 sufragio quando se outorga 0 direito
de votar a todos os nacionais de um pais, sem restri,6es
derivadas de condi,6es de nascimento, de fortuna ou de
capacidade especial" .131
Numa democracia, 0 sufragio deve ser igual. Nao
basta que se reconhe,a a todos 0 direito de votar. Faz-se
necessario tambem que cada eleitor seja igual ao ou tro
no ato de votar. E a aplica,ao, no campo do direito
politico, do principio de igualdade de todos perante a
130 Carlos S. FAYT, SlIfmgio y Represelltacioll Pofificn (Sistemas ElectornJes),
Buenos Aires, Bibliografica Omeba, 1963, p. 7-20 e Jose Afonso da SILVA,
Cursa cit. , p. 309 e 314-321-
131 Carlos S. FA Yr, op. cit., p. 30-31 e Jose Afonso da SILVA, Cllr50, op. cit ., p.
310·311.
78 Esfado e Coltstilll i,iio 3 GILBERTO BERCO V ICI
lei. A igualdade do direi to de votar se manifesta, em seu
sentido mais rigoroso, no reconhecer a cada eleitor um
unico vo to, demonstrando que cada cidadao tem 0
mesmo peso politico e a mesma influencia, qualquer que
seja a sua localidade ou condi,ao social. No sufragio
desigual, tambem denominado sufragio refor,ado, nao
se trata "de restringir 0 de privar a determinados ciuda-
danos del ejercicio del derecho de sufragio, sino de
reconocerlo a todos, reforzando el que tienen determina-
dos ciudadanos, con el fin de asegurarles por este
medio, su influencia sobre el poder politico"132 0 sufra-
gio igual parte do principio de que um homem vale um
voto, isto e, que todos os elei tores se en con tram nas
mesmas cond i,6es. A democracia se sustenta no sufn'i-
gio universal e igual. 0 voto desigual se nutre em
principios oligarquicos. 133
A regra constante do artigo 45, § 1°, da Constitui,ao
e Fonte das graves distor,6es do sistema representativo
brasileiro. Com a fixa,ao do numero minima e maximo
de deputados por Estado, nao se encontra nenhum meio
em que a propon;ao atenda ao principio do voto com
va lor igual para todos, expresso no artigo 14, que e
particular ao principio democratico fundamental da
igualdade em direitos de todos perante a lei.
3.3. 0 Bicameralismo no Brasil
Analisada a questao da igualdade do voto, deve-
mos passar ao estudo da estrutura bicameral do Poder
Legislativo no Brasil, cuja caracteristica primordial e a
do predominio da representa,ao dos Estados em detri-
mento da representa,ao popular. A origem da ideia
bicameral e seu fundamento nos f9ram dados por Mon-
tesquieu: "II y a toujours dans un Etat des gens distingzllis
132 Carlos S. FA YT, op. cit ., p. 31.
133 Idem, p. 31-33 e 40-41 e Jose Afonso da SILVA, Cll rso, op. cit. , p. 31 2.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 79
par la naissance, les richesses au les honneurs; mais s'ils
etaient confondus parmi Ie peuple, et s'i/s n'y avaient qu 'une
voix comme les autres, la tiberte commune serait leur esclava-
ge, et ils n'a uraient aucun interet 11 la defendre, parce que la
plupart des resolutions semient contre eux. La part qu'ils ant
11 la legislation doit donc €Ire proportionnee aux autres
avantages qu'i/s ant dans I'Etat; ce qui arrivera s'ils forment
un corps quiait droit d'arreter les enterprises du peuple,
comme Ie peuple a droit d'arreter les leurs. Ainsi, la puissance
legislative sera confiee, et au corps des nobles, et au corps qui
sera choisi pour representer Ie peuple, qui auront chacun leurs
assemblees et leurs deliberations 11 part, et des vues et des
i nterets separes" 1 3.
E uma origem, portanto, oligarquica, como pode-
mos perceber no exemplo originario ingles, de House of
Lords e House of Commons. Desde a ado,ao da Consti tui-
,ao dos Estados Unidos, em 1787,0 bicameralismo e um
elemento tipico e tradicionalmente considerado como
essencial nos Estados federais, apesar de nao ser exc1usi-
vo destes (possuem legislativos bicamerais sem serem
federa,5es, por exemplo, a Fran,a e 0 Reino Unido e foi
bicameral 0 unitario Imperio do Brasil). Pode-se questio-
nar 0 carater essencial da presen,a de uma segunda Casa
legislativa no federalismo, no entanto, todos os Estados
federais con tam com essa estrutura legislativa na atuali-
dade. A grande questao nao e a existencia ou nao dessa
segunda Camara, mas 0 principio de os Estados-mem-
bros poderem exercer sua influencia nos assuntos fede-
rais e participarem da forma,ao da vontade federal.
Historicamente isso se deu atraves da cria,ao de uma
segunda Camara, onde sao representados os Estados-
Membros, comumente conhecida por Camara Alta ou
Senado'35
134 MONTESQUIEU, De L'Esprit des Lois, Paris, Editions Garnier Preres, 1956,
Livro XI, Cap. VI.
135 Rosah RUSSOMANO, 0 Princfpio do Fedemlismo 1//J COllstitlti(iio Brosiieim,
Rio de Janeiro, Livraria Freitas Bastcs, 1965, p. 114 e Jose Afonso da SILVA,
Cllrso, op. cit. , p. 445-446.
80 Estado e COllstitui(iio 3 GILBERTO BERCOVICI
Durante a Conven,ao Constitucional da Filadelfia,
em 1787, ja estava decidido que aquela seria uma con-
ven,ao nacional. 0 Congresso estabelecido pelos Artigos
da Confedera,ao (a primeira Constitui,ao norte-ameri-
cana) nao contentava aos americanos1 36 Nesse contexto,
foram comparadas as experiencias legislativas da Ingla-
terra e das Treze ex-CoI5nias. Os britanicos utilizavam 0
bicameralismo desde 0 "Model Parliament" de 1295, onde
os nobres (lordes) se encontravam separadamente em
uma Camara, e os plebeus (comuns), em outra. Nas
col5nias britanicas na America, 0 bicameralismo havia
sido utilizado pela Pensilvania e pel a Georgia. Apesar
disso, 0 Primeiro e 0 Segundo Congresso Continental
foram unicamerais, assim como 0 Congresso estabeleci-
do pelos Artigos da Confedera,ao. Durante a Conven-
,ao da Filadelfia, foram apresentadas, como "Plano da
Virginia", varias resolu,5es elaboradas para corrig ir e
ampliar os Artigos da Confedera,ao. Esse plano pedia
um governo nacional com um Legislativo bicameral,
compos to por delega,5es estaduais em cada Casa que
variavam de tamanho segundo a popula,ao de cada
Estado. A resposta dos Estados pequenos veio com 0
"Plano de New Jersey", que defendia um Legislativo
unicameral com cada Estado tendo direito a um unico
voto. A concilia,ao foi obtida com a implanta,ao do
sistema bicameral, atraves do Connecticut Compromise,
que estabeleceu a representa,ao proporcional na Cama-
ra dos Representantes e a representa,ao igual por Esta-
do no Senado: "The House of Representatives will derive its
powers from the people of America; and the people will be
represented in the same proportiol1, and on the same principle,
as they are in the legislature of a partiClilar State. So far the
government is national, not federal. The Senate, on other
hand, will derive its powers from the States, as political and
136 Sobre as crfticas feilas a ConfederaC;30, particula rmente no tocante it for-
mac;ao e execUI;ao das leis, vide Alexander HAMILTON, James MADISON &
Jo hn JAY, op. cit., Artigos n° 14 a 16 e 21 e 22.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 81
] . _.
coequal societies; and these will be represen ted on the princi-
ple of equality in the Senate, as they now are in the existing
Congress. So far the government is federal, not national ".137
Nessa liltima Casa leg islativa, a heterogeneidade dos
Estados nao importa, mantendo-se invariavelmente 0
numero igual de representantes por Estado. 10 0 chama-
do federalismo autentico, ou de equilibrio. 13B
A Camara dos Representantes norte-americana e a
de maior numero de integrantes, proporcionais a popu-
la<;ao de seus Estados,139 eleitos diretamente para um
mandato de 2 anos. 0 mandato de 2 anos se justifi ca
para, com as elei<;oes freqiientes, manter 0 governo na
dependencia do povo e em harmonia com ele. 14o 0
aumento da representa<;ao ocorre ap6s a realiza<;ao de
um censo populacional a cada 10 anos . 0 reajuste deve
respeitar a propor<;ao estipulada e cad a Estado deve
sempre possuir pelo menos 1 representante141
Ja 0 Senado representa os Estados (cada um tem
direito a 2 senadores), e seus membros eram escolhidos
para mandatos de 6 anos pelos Legislativos de seus
respectivos Estados. 0 mandato maior para os senado-
res foi justificado para dar uma continuidade as politicas
Pllblicas, fornecendo maior estabilidade para 0 governo.
A segunda Camara seria, ainda, um controlador a mais
da polftica governamenta l142
o papel fundam ental do Senado, entretanto, seria 0
d e modera r as delibera<;oes da Camara dos Repre-
sentantes, como podemos observar dos seguintes tre-
chos dos Artigos Federalistas nO, 62 e 63 (ambos escritos
137 Alexander HAMILTON, James MADISON & John JAY, op. cit ., Artigo nO 39.
138 Rosah RUSSOMANO, op. cit ., p. 114-116 e John H. FERGUSON & Dean E.
MCHENRY, TIle Americall Federal Government, 12a ed, New York, McGraw-
Hill Book Company, 1973, p. 312-313.
139 Idem, Art igo nO 54.
140 Idem, Artigos nO 52 e 53.
HI Idem, Art igos nO 56 a 58.
142 Sobre composic;ao e ntribuic;Oes do Senado, vide Alexander HAMILTON,
James MADISON & John JAY, op. cit. , Artigos n° 62 a 66.
82 Estndo e COllst itllip10 3 GILBERTO BERCOVICI
por James Madison): "The necessity of a senate is not less
indicated by the propensity of all single and numerous
assemblies to yeld to the impulse of sudden and violent
passions, and to be seduced by factious leaders into intempe-
rate and pernicious resolutions." e "(. . .) I shaw not scruple to
add tha t such an institution may be sometimes necessary as a
defence to the people against their own temporary errors and
delusions. As the cool and deliberate sense of the community
ought, in all governments, and actually will, in all free
governments, ultimately prevail over the views of its rulers;
so there are partiCltlar moments in public affairs when the
people, stimulated by some irregular passion, or some ilicit
advantage, or misled by the artful misrepresentation s of
interested men, may call for measures which they themselves
will afterwards be the most ready to lament and cO l7demn . [n
these critical moments, how salutary will be the intelference
of some temperate and respectable body of citizens in order to
check the misguided career, and to sllspend the blow medita-
ted by the people against themselves, until reason, justice, and
truth can rega in their authority over the public mind?".
Ao contrabalan<;ar grande e pequeno corpo legisla-
tivo, mandato curto e longo e elei<;oes diretas e indiretas,
os constituintes americanos pensaram em criar um siste-
ma de decisoes legislativas equilibrado. A lmica mudan-
<;a fundamental nesse sistema ocorreu em 1913, com a
17" Emenda, que substituiu a escolha dos senadores
pelos Legis lativos es taduais pela elei<;ao atraves do vo to
popularH 3
No tocante ao nllmero de representantes po r Estado
no Senado, a igualdade prevalece. Entretanto, alguns
Estados federais nao adotaram a igualdade na repre-
senta<;a o p or Estado-Membro na Camara Alta. Este e 0
chamado fed eralismo hegemonico, onde a proporciona-
lidade (ao menosrelativa) da representa<;ao no Senado e
uma das principais caracterfsticas. A Constitui~ao alema
143 John H. FERGUSON & Dean E. MCHENRY, op. cit., p. 319.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 83
"
de Weimar, de 1919, previa em seu artigo 61 que, no
Senado, cada representante corresponderia a 700 mil
habitantes, com a garantia de que haveria pelo menos
urn representante por Estado e que nenhum Estado
poderia ter rna is do que 2/5 da representa,ao total do
Senado. A Lei Fundamental de Bonn, de 1949, manteve
esse principio. Cad a Lal1d possui, no minimo, 3 repre-
sentantes no Blll1desrnt (Senado alemao), podendo esse
numero ser aumentado para 4 ou 5, de acordo com a
popula,ao. A Austria, atraves da Constitui,ao de 1920,
determinou a representa,ao proporcional it popula,ao
dos Lander no Senado, garantindo-se, no entanto, 0
numero minima de 3 representantes por LandI44
Atualmente, nos Estados Unidos, existem inumeros
argumentos contn\rios ao fato de os Estados possuirem
representa,ao igual no Senado. A Calif6rnia, Estado
hoje mais populoso dos EUA, tern uma popula,ao pelo
menos 8 vezes superior a do Alasca, 0 Estado menos
populoso. Cerca de 10 dos Estados mais populosos
concentram meta de do eleitorado norte-americano. No
entanto, eles detem menos de 20% do Senado. Os gran-
des Estados se veem particularmente prejudicados nas
decis6es que exigem 2/3 dos votos da Casa, como a
aprova,ao de tratados e as propostas de emendas consti-
tucionais. Apesar da rea,ao dos grandes Estados contra-
ria it manuten,ao do Senado com essa estrutura de
representa,ao igual, a Constitui,ao norte-americana de-
term ina que nenhum Estado sera desprovido sem 0 seu
consentimento da igualdade de representa,ao no Senado,
mesmo que esta se de atraves de emenda constitucional.145
Esta, alias, e uma das un icas disposi,6es consideradas
nao passiveis de modifica,ao por emenda constitucional
da Constitui,ao norte-americana de 1787.146
144 Rosah RUSSOMANO, op. cit., p. 116-118.
145 Artigo 5° da Constitlli~ao de 1787, que prescreve, entre outras disposi«;oes,
que: "tllnt 110 State, witl/ollt its consel/t, slwll be deprived of its eqllol slIffrage itl
Ihe Sellnte",
1<. John H. FERGUSON & Dean E. MCHENRY, op. cit., p. 321-322.
84 Estndo e COllStitlliriio 3 GILBERTO BERCOVICI
o cerne da discussao sobre a conveniencia ou nao
da existencia de urn Senado ou Camara Alta nos Estados
federais passa pelo grau real de influencia dos Estados-
Membros no ambito federal, isto e, como estao repre-
sentados os interesses dos Estados no Senado equal 0
peso especifico desta Casa legislativa na forma,ao da
vontade federal, particularmente suas rela,6es com a
Camara Baixa (dos Deputados ou dos Representantes).
o bicameralismo e uma tradi,ao constitucional bra-
si leira. 0 periodo em que se esteve mais pr6ximo do
unicameralismo foi durante a vigencia da Constitui,ao
de 1934, quando tentou-se dar ao Senado urn aspecto de
6rgao de equillbrio do regime federativo, de coordena-
,ao dos poderes. 147 Para Jose Afonso da Silva, 0 bicame-
ralismo reflete "um eiemel1to al1ti-democrtitico" no Estado
brasileiro atual. tfd bicameralismo passou a ser visto
como institui,ao destinada a refrear os anseios popula-
res, de conten,ao das iniciativas da Camara baixa. A
d upla discussao defendida pelos adeptos do bicamera-
lismo contribui, na verdade, apenas para a morosidade
do processo legislativo, pois nao ha dupla discussao,
mas quatro discuss6es sobre a mesma materia (duas em
cada Casa legislativa~
No tocante it estrutura federal, 0 Senado nao repre-
sen ta idealmente os Estados-Membros, pois os senado-
res sao eleitos atraves de partidos politicos (ao contn\rio
da Alemanha, onde sao indicados pelos pr6prios Esta-
dos). No Brasil, 0 bicameralismo nao difere do bicamera-
lismo adotado em paises unitarios, como a Fran,a~
s:.om12e tencias e atribu~.Q.es do S~p..o.d.em lhe
conferir a fun,ao de uma Camara re resentativa dos
Estados. Ul1Ica iferen,a entre 0 Senado e a Camara e
que 0 Estado se torna urn distrito com direito de eleger
tres representantes no sistema majoritario, enquanto
147 Jose Afonso da SILVA, Prille/pios do ProcessD de Forma(iio dns Leis 110 Direito
COllstitllciollaf, Sao Paulo, RT, 1964, p. 61.
148 Idem, p. 68-70.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 85
u _
para a Camara sao eleitos rna is representantes por Esta-
do, atraves do sistema proporcional..h diferen,a te6rica e
a de que os deputados, apesar de eleitos em urn Estado~
:representam 0 povo de toda a na,ao, e os senadores
representam apenas 0 povo dos seus Estados. Na prati-
ca, a ex istencia ou nao do Senado em nada afetaria 11
Federa,ao brasileira. Particularmente, no tocante 11 repre-
senta,ao, 05 deputados federais tambem sao, pela ma-
neira como sao eleitos no Brasil, representantes dos
Estados, embora sejam, teoricamente, representantes de
toda a na,ao. 0 Senado foi criado no Brasil como 6rgao de
modera,ao, 0 que ficou bern claro durante 0 Imperio,149
nao cumprindo com 0 seu papel originario de "Camara
dos Estados" para garantir 0 equilibrio da Federa,ao.
No Brasil, as atribui,6es do Senado nao sao fun,6es
verdadeiras de ingerencia e equilibrio federa tivos,IS0..Jl..
pao ser pelas comJ2etencias de autotizar-epera·,6es-e·x-tel:::...-
nas de natureza financeira, de interesse da Uniao, dos.
Estados, do Distrito Federal, dos Territ6rios e dos Muni-
ppiGs (artigo 52, V, da Constitui,ao de 1988); fixar, por
proposta do Presidente da Repllblica, limites globais
para 0 montante da dfvida consolidada da Uniao, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municipios (artigo 52,
VI); dispor sobre Ii mites globais e condi,6es para as
opera,6es de credito externo e interno da Uniao, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municipios, de suas
autarquias e demais entidades controladas pelo Poder
Pllblico federal (artigo 52, VII); dispor sobre limites e
condi,6es para a concessao de garantia da Uniao em
opera,6es de credito externo e interno (artigo 52, VIII) e
estabelecer limites globais e condi,6es para 0 montante
da divida mobiliaria dos Estados, do Distrito Federal e
dos Municipios. Todas as suas demais atribui,6es sao
149 Jose Afonso da SILVA, Prillc{pios, op. cit., p. 70·76.
150 Sobre 0 Senado e suas a lribui~oes, vide Jose Afonso da SILVA, Curso, op.
eit., p. 447 e 456·457. Sabre a Camara dos Oeplltados e suas atribll ic;oes, v ide
p. 455-456. Vide tamb~m Rosah RUSSOMANO, op. cit. , p. 121.
86 Estndo e COllstitlli(flO 3 GILBERTO BERCOVICI
comuns 11 Camara dos Deputados ou podem perfeita-
mente passar para a competencia desta (com exce,ao da
competencia de processar e julgar 0 Presidente e outras
autoridades nos crimes de responsabilidade, segundo 0
artigo 52, I e II). 15t A decreta,ao da interven,ao federal
nos Estados, por exemplo, deve ser submetida 11 aprecia-
,ao do Congresso Nacional (artigos 36 e 49, IV),1 52 bern
como a delibera,ao sobre a incorpora,ao, subdivisao ou
desmembramento de areas de Territ6rios ou de Estados
(artigos 18, § 3°, e 48, VI), atribui,6es que deveriam
pertencer exclusivamente ao Senado por versa rem sobre
o equilibrio federativo. 0 Senado brasileiro cumpre
apenas parcial mente a fun,ao de zelar pelos interesses
da preserva,ao e equilibrio da Federa,ao.
Jose Afonso da Silva, considerando as duas Casas
legislativas como possuidoras da mesma origem e da
mesma autoridade, defende 0 fim do bicameralismo. Em
seu lugar surgiria uma Camara Federal, dividida em
Plem\rio, que teria a competencia para decidir 05 proble-
mas de ordem politica, fiscalizadora e de controle dos
outros poderes e quatro Comiss6es (Economia e Finan-
,as, Justi,a e Legisla,ao Social, Servi,o e Obras Pllblicas
e Neg6cios Exteriores), que se encarregariam essencial-
mente da fun,ao legislativa. 05 problemas referentes aFedera,ao seriam deliberados pelo Congresso da Fede-
ra,ao, composto de representantes das Assembleias Le-
gislativas e das Camaras Municipais. Esse Congresso se
reuniria uma vez por mes no Distrito Federal, e sua
sessao ordinaria teria a dura,ao de urn meso Nao possui-
ria fun,ao legislativa, mas poder de iniciativa mediante
a apresenta,ao de projetos de leis regulando materias de
interesse exclusivo da Federa,aol53
151 Vide Alexander HAMILTON, James MADISON & John JAY, op. cit ., Arti·
gas n° 65 e 66.
152 Vide Enrique Ricardo LEWANDOWSKI, op. cit. , p. 84·86 e 127·134.
153 Jos~ Afonso da SILVA, Prillc{pios, op. cit. , p. 291·295.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 87
Na nossa opiniao, a solu~ao para resolver alguns
dos impasses do bicameralismo no Brasil e reduzir as
a tribui~6es do Senado para delibera~6es apenas sobre
assuntos relativos ao equ ilibrio da Federa~ao, transferin-
do-se suas outras a tribui~6es exclusivas (com a exce~ao
feita ao disposto no artigo 52, incisos I e II) para a
Camara d os Deputados. Com essa modifica~ao nas atri-
bui~6es das duas Casas legislativas, teriamos urn Senado
efetivamente cumpridor de seu papel de "Casa dos
Estados", nao sendo mais necessario que alguns autores,
como Jose Afonso da Silva, preguem a sua extin~ao
devido 11 sua absoluta ineficiencia na preserva~ao do
equilibrio federativo. Caso isso nao ocorra, 0 Senado
brasileiro continuara sendo urn 6rgao de origem e fun~ao
oligarquicas, cuja inutilidade enquan to ramo autonomo
do Poder Legislativo torna-se cada vez rna is patente.
3.4. A DesproporcionaJidade na Camara dos
Deputados
o Poder Legislativo brasi leiro e considerado sem-
pre como inteiramente dependente do Poder Executivo
e, consequentemente, submisso aos seus desmandos. A
debilidade economica da maior parte dos Estados pe-
rante a Uniao faz com que se deduza a submissao do
Congresso Nacional (formado por bancadas estaduais) 11
Presidencia da Republica. Para Wanderley Gui lherme
dos Santos, ao contrario de boa parte dos ana ii stas, e na
medida em que os Es tados se veem indefesos diante do
poder economico da Uniao que ganham maior relevan-
cia e efetividade os controies do Legislativo em rela ~ao
ao Executivo. Com limitada autonomia e com capacida-
de tributaria reduzida, os Estados 56 teriam em su a
defesa a representa~ao polftica no Congresso Nacional,
utilizada como barganha para obter seus pleitos junto 11
Presidencia da Reptlblica. Dessa maneira, os con troles
88 C.5U/{/O e LOlIstitlli(:iio 3 GILBERTO IJERCOVICi
que 0 Poder Legislativo exerce sobre 0 Executivo servem
como forma de manter 0 equi librio dos Estados perante
a Uniao. A vulnerabilidade economica dos Estados (com
exce~ao de alguns Estados do Centro-SuI) fez com que as
bancadas estaduais na Camara dos Deputados obtives-
sem grande importancia para a libera~ao de recursos e
participa~ao efetiva destes Estados na forma~ao da von-
tade nacional. Assim, nao e de se estranhar que os
deputados tenham se tornado porta-vozes de interesses
locais ou regionais, esquecendo-se de seu papel origina-
rio de representantes da na~aol54
Nao e por outro motivo que a Camara dos Deputa-
dos, destinada a representar 0 povo, acabou por se
tornar tambem uma "Camara de Estados". A defesa da
Camara dos Deputados como "Camara dos Estados"
(fun~ao que deveria ser exclusivamente do Senado) foi
feita, ainda na Republica Velha, por Epitacio Pessoa,
sendo retomada atualmente por Paulo Bonavides como
argumento contra rio a mod i fica~ao do artigo 45, § 1°, da
Constitui~ao.155 Paulo Bonavides defende a intangibi li-
dade do artigo 45, § 1°, considerando-o como garantia
do principio federativo, estando, conseqiientemente,
resguardado pelo artigo 60, § 4° ("Niio sera objeto de
delibera,iio a proposta de emenda tende11te a abolir: I - a forma
federativa de Estado").'S6
Wanderley Guilherme dos Santos defende para os
sistemas representativos a "regra de ouro" de Jose de
15-4 Wanderley Guilherme dos SANTOS, Crise e CasHgo . Pnrtidos e Generais /In
PoWien Brasi/drn, $."10 Paulo/Rio de Janeiro, Vertice/Ed. RT /IUPER], 1987, p. 31-35.
155 Paulo BONAVIDES, "0 Art. 45 da Constitlli~ao Federal e as Inconstitucio-
nalidades de Normas Constitucionais" ill A COIIstitlli(iio Abertn, op. eiL, p.
235-239. Apesar de concordarmos com 0 iiustre Professor Paulo Bonavides
sabre a impossihilidade de existencia de normas constitucionais incons titucio-
nais, discordando, assim, da forma utilizada pelo entao Governador Alceu Col-
lares, do Rio Grande do Sui (a<;50 direta de inconstitucionalidade) para contestar
a despropor<;ao estabeJecida no artigo 45, § 1° dOl Constituir;ao, nao temos a
mesma opiniao, com a devida venia do Professor Bonavides, sobre a impossibi-
lidade daqueJe dispositivo ser modificado atraves de emenda constitucional.
156 Paulo BONAVIDES, "0 Art. 45 da Constitui<;ao Federal e as Inconstitucio-
nalidades de Normas Constitucionais", op. cit., p. 231-233 e 239·242.
Dilemas do Estado Federa l Brasileiro 89
I !
Alencar. Segundo sua interpreta<;ao, a "regra de ouro"
de Jose de Alencar consistiria no fato de as minorias
representadas no Parlamento nao serem esmagadas pela
maioria, nem, por outro lado, terem condi<;oes de impe-
dir a maioria de governar. A regra e a do equilibrio entre
o direito da minoria a representa<;ao e 0 direito da
maioria ao go verno nao-desp6tico de uma minoria. Os
problemas advindos do respeito a essa regra sao nota-
dos com muito mais intensidade em um Estado federal
representativo como 0 Brasil, onde as disparidades re-
gionais sao a regra. Acaba sendo no Congresso Nacional
que os Estados minoritarios, economica, populacional e
eleitoralmente, procuram defender seus interesses e
compensar inferioridades. 157
Assim, autores como Wanderley Guilherme dos
Santos e Paulo Bonavides defend em a manuten<;ao dos
privilegios na representa<;ao para os Estados menores,
em detrimento dos grandes Estados, pOis veem nessa
distor<;ao a garantia do equi librio federativo. 0 funcio-
namento do Parlamento depende de coalizoes partida-
rias, respeito as minorias de opiniao e negocia<;oes entre
bancadas estaduais, 0 que significa, para eles, justi<;a
federativa 1 58 A desproporcionalidade (particularmente
na imposi<;ao do numero minima de 8 deputados por
Estado) seria uma maneira de garantir 0 direito das
minorias que, de outra forma, nunca tomariam parte das
decisoes nacionais, pOis seriam dominadas pela maioria
esmagadora das bancadas dos grandes Estados. Ja a
fixa<;ao do limite maximo de deputados por Estado seria
a maneira correta de conter a "asfixiante expansiio repre-
sentativa" dos grandes Estados, impedindo 0 surgimento
de um "federalismo imperial"l 59
Foi exatamente para evitar essa hegemonia que criou-
se 0 Senado, onde todas as bancadas estaduais tem 0
157 Wanderley CtJilherme dos SANTOS, op. cit., p. 77-78.
158 Idem, p. 82.
159 Paulo BONAVIDES, "0 Art. 45 da Conslilu i ~ao Federal e as inconstiitlc io-
nalidades de Normas Constitucionais", op. riL, p. 241-242.
90 ESlado e Co"stitlli~iio 3 GILBERTO BERCOVICI
mesmo nllmero de representantes, sem quaisquer distin-
<;oes de tamanho ou popula<;ao. 0 Senado representa os
Estados; a Camara dos Oeputados representa (ou deve-
ria representar, ao men os) 0 povo. 0 equilibrio federati-
vo e alcan<;ado atraves da representa<;ao dos Estados no
Senado, nao atraves da representa<;ao do povo na Camara.
Se 0 Sen ado nao cum pre suas fun<;oes federativas, como
vimos anteriormente, entao e total mente desnecessario.
A evidencia da injus ti<;a federativa com a maior
parte da popula<;ao brasileira, concentrada nos grandes
Estados, esta, ao contra rio do que dizem Wanderley Gui-
lherme dos Santos e Paulo Bonavides, no fato de que os
Estados com popula<;oes minoritarias no conjunto nacio-nal (que sao coincidentemente os mais atrasados economi-
camente) possuem uma representa<;ao desproporcional
comparativamente aos Estados mais populosos. 0 vo to de
um eleitor em Sao Paulo, por exemplo, acaba tendo valor
muito menor do que 0 voto de um eleitor de Roraima.
Os defensores da desproporcionalidade, por sua
vez, consideram nao haver nada de criticavel nesta
situa<;ao, pois a representa<;ao dos Estados minoritarios
seria compensada com a densidade da representa<;ao
(decorrente da magnitude eleitora l, como veremos
adiante). A rela<;ao entre quociente eleitoral e eleitorado
e bem mais adversa nos Estados menos populosos do
que nos mais populosos. Quanto maiores 0 eleitorado e
a popula<;ao, menor a dificuldade de obten<;ao de uma
cadeira parlamentar, isto e, menor a densidade da repre-
senta<;ao. Portanto, 0 "custo" da representa<;ao seria bem
mais elevado nos Estados menores do que nos maiores,
exigindo um acumulo de votos e, portanto, de densida-
de bastante superior a cad a unidade da representa<;ao
dos Estados maiores, fazendo com que a desproporcio-
nalidade populacional da representa<;ao seja compensa-
da por desproporcionalidade inversa na densidade
eleitoral dos mandatos. l60
160 Wanderley Guilherme dos SANTOS, op. ciL, p. 86-87 e 93.
Djlemas do Estado Federal Brasileiro 91
A vari<\vel causadora dessa desproporcionalidade
"benefica" para 0 equilibrio do sistema representativo
brasileiro e a magnitude do distrito eleitoral. Distrito
eleitoral e "a circunscri~ao onde os votos e cadeiras sao
concentrados para determinar quais candidatos obtive-
ram cadeiras parlamentares".1 61 No Brasil, 0 distrito
eleitoral para as elei~6es federais e estaduais correspon-
de as unidades da Federa~ao . Assim, no interior de cada
Estado, os votos dados nas diversas zonas elei torais sao
concentrados para a distribui~ao de cadeiras. Portanto, a
Camara dos Deputados e composta por parlamentares
eleitos em 27 distritos elei torais. A magnitude do distri-
to e 0 numero de cadeiras de cada distrito eleitoral. 162 A
importancia da magnitude do distrito eleitoral para a des-
proporcionalidade advem do fato de quanta maior for a
magnitude, mais proporcional tendera a ser a rela~ao entre
o numero de votos e 0 numero de cadeiras disputadas.163
Isso se depreende da observa~ao do patamar mini-
mo do percentual de votos necessario para que urn
partido consiga eleger urn parlamentar em urn distrito
eleitora l. Esse numero e obtido dividindo-se a vota~ao
(100%) pela magnitude de cada distrito. No Brasil, essa
porcentagem varia enormemente de Estado para Estado.
Nos Estados com menos representantes, os partidos corn
menores vota~6es tern os seus votos desperdi~ados, pois
dificilmente alcan~arao 0 minimo necessario para a ob-
ten~ao de uma cadeira parlamentar164 Essa varia~ao
interna muito grande na magnitude do distrito eleitora l
atribui custos diferenciados de Estado a Estado para os
161 Douglas W. RAE, Tltl! Political COl/sequences of Electoml Lmus, New Ha·
yen/London, Yale University Press, 1971 , p. 19 e Jairo Cesar Marconi NICO-
LAU, "0 Sistema Eleitoral Brasileiro: A QuesUio da Proporcionalidade da
Representa~ao Pol(tica e seus Determinantes" i/1 Olava Bras il de LIMA Jr.
(org.), Sistema Eleitornl Brnsileiro: Teorin e Prnticn, Rio de Janeiro, Rio Fun-
do/lUPERj, 1991, p. 119-120.
162 Douglas W. RAE, op. cit., p. 19.
163 Douglas W. RAE, op. cit., p. 114-115 e Jairo Cesar Marconi NICOLAU, op.
cit., p. 120.
164 Jairo Cesar Marconi NICOLAU, op. cit., p. 124-126.
92 Estndo e COIIstitlli(iio 3 GILBERTO BERCOV[CI
partidos politicos. Em pequenos Estados, partidos com
razoaveis vota~6es podem ser facilmente exduidos da
representa~ao politica devido a pequena magnitude des-
ses distritos eleitorais165
A origem da atua l desproporcionalidade (despro-
porcionalidades sempre existiram, mas nunca antes fo-
ram tao exacerbadas), como vimos foi uma a~ao
de liberada da ditadura mili tar visando a subrepresenta-
~ao dos Estados mais populosos e sobre-representa~ao
dos menos populosos.166 Atualmente, a distribui~ao das
cadeiras entre os Estados e a rna is desproporcional da
nossa hist6ria republicana. Isso se deve a cria~ao dos
Estados de Roraima, Amapa e Tocantins, cada urn com
uma bancada de 8 deputados. Alem disso, outros Esta-
dos de diminuta popula~ao mantiveram 8 d~putados
(particularmente Acre, Rondonia e Sergipe, onde as
desproporcionalidades sao maiores). A bancada do Esta-
do de Goias, de 17 representantes, nao foi diminuida,
apesar da cria~ao do Estado de Tocantins na metade
norte de seu territ6rio . Foi imposto, a lem disso, 0 teto
maximo de 70 deputados por Estado, 0 que atinge
primordialmente Sao Paulo. 167
Como afirmamos no tocante ao Senado, uma solu-
~ao para os problemas representativos brasileiros no
tocante ao seu aspecto federal ocorreria com a modi fica-
~ao das atribui~6es e competencias da Camara dos
Deputados. Todas as materias referentes aos Estados e
Municipios e ao equilibrio federativo devem ser de com-
petencia do Senado. Os peqllenos Estados devem damar
pel a eq(iidade federativa no Senado, nao distorcendo a
representa~ao popular na Camara dos Deplltados.
165 Douglas W. RAE, op. cit., p. 118·120 e 123·125 e lairo Cesar Marconi
NICOLAU, op. cit., p. 130.
166 A legisla~ao a partir de 1964 tratou de prejudicar especiaimente Sao Paulo
e, em menor grau, Minas Gerais, d. Maria Df Alva Gil KlNZO, Rcprcselltn(iio
Polfticn e Sistemn Eleifornl 110 Brnsil, Sao Paulo, Sfmbolo, 1980, p. 106·107 e la iro
Cesar Marconi N ICOLAU, op. cit., p. 126-129.
167 lairo Cesar Marconi NICOLAU, op. cit., p. 126·129.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 93
Na realidade, a desproporcionalidade da repre-
senta<;ao popular na Camara e reflexo tambem dos desequi-
librios regionais. A dependencia dos Estados em rela<;ao
a Uniao se manifesta nas reparti<;6es de receita e transfe-
rencias de renda, que contribuem muitas vezes (como
acontecia durante a ditadura militar) para que os Esta-
dos se tornem submissos a vontade do governo federal.
Embora concorde com 0 que acabamos de expor,
para Wanderley Guilherme dos Santos, a adequada
representa<;ao dos Estados nao se trata "de fazer corres-
ponder na Camara 0 peso especffico de cada Estado.
Essa proporcionalidade s6 e requerida em rela<;ao a
distribui<;ao de preferencias do eleitorado e, exatamente
por isso, a representa<;ao proporcional e mais recomen-
davel do que a representa<;ao majoritaria. Em rela<;ao aos
Estados trata -se justamente de compensar desequilibrios
de poder economico ou populacional via redistribui<;ao
de poder parlamentar. 0 criterio fundamenta l aqui e que
nao se criem as condi<;6es para a viola<;ao da regra de
ouro alencariana: nao tirania da maioria, nao poder de
veto da minoria"1 68
o desequilibrio federativo brasileiro nao deve ser
compensado com distor<;6es na representa<;ao polftica.
As disparidades regionais devem ser diminufdas, mas
atraves de polfticas publicas levadas a cabo especial-
mente para esse fim, como foi a atua<;ao da SUDENE
antes do regime militar. Somente com a efetiva implan-
ta<;ao do Federalismo Cooperativo poderemos criar me-
canismos de coordena<;ao entre a Uniao, Estados e
Municfpios para concretizar 0 disposto no artigo 3° da
Constitui<;ao de 1988, que declara constitufrem objetivos
fundamentais da Repliblica Federativa do Brasil, entre
outros, a erradica<;ao da pobreza e da marginaliza<;ao e a
redu<;ao das desigualdades sociais e regionais para a
constru<;ao de uma sociedade livre, justa e solidaria.
168 Wanderley Guilherme dos SANTOS, op. cit., p. 186-190.
94 Estndo e COll5titlli~iio 3 GILBERTO BERCOVICI
Considera~6es Finais
Apesar de sua origem e fundamento oliga rquicos,
como vimos, com a Constitui<;ao de 1988, existe a possi-
bilidade de renova<;aodas estruturas federais no Brasil,
com sua enfase na coopera<;ao federativa e na supera<;ao
das desigualdades regionais . A restaura<;ao da Federa-
<;ao foi v ista por alguns autores, no entanto, como urn
ressurgimento do "federalismo estadualista", sem, no
en tanto, a forma<;ao de urn nucleo hegemonico de Esta
dos como na Primeira Republica. Este "federalismo
estadualista" se caracterizaria pelo controle das banca-
das de deputados federais pelos Governadores e pela
competi<;ao predat6ria entre os Estados por mais recur-
sos, por meio da guerra fiscal. 169 Discordamos desta
avalia<;ao, que acaba venda na restaura<;ao de urn siste-
ma federa l em que os Estados e Municfpios tern poder
politico efetivo (nao apenas nominal) urn ressurgimento
da "Polftica dos Governadores". Ha inllmeras falhas no
modelo federal implantado com a Constitui<;ao de 1988,
mas denominar 0 seu sistema federativo de "federalis
mo estadualista" e, certamente, urn exagero.
No entanto, a pratica do federalismo sob a Consti-
tui<;ao de 1988 tern sido bern diversa do previsto no texto
constitucional. Urn exemplo, conseqliencia direta da
169 Cf. Fernando Luiz ABRUCIO, op. cit., p. 22-24, 106-108, 170-188 e 226-227.
Ha: Qutros autares, no entanto, que defendem a tese diametralmente oposta,
afirmando que nao houve revigora~ao do federalismo com a Constituic;ao de
1988, mas continuidade da concentrac;ao da maior parte das competencias na
esfera da Uni50. Cf. Manoel Gonc;alves FERREIRA Filho, op. di., p. 61-63.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 95
falta de uma politica nacional de desenvolvimento, e a
"guerra fiscal", travada entre os Estados para a atra~ao
de novas industrias. a Lmico resultado da "guerra fis-
cal" e 0 comprometimento ainda maior das ja combali-
das finan~as estaduais. Com a desculpa da gera~ao de
empregos, os Governos Estaduais fazem uma serie de
concessoes, reduzindo ainda mais as receitas antes desti-
nadas 11 realiza~ao de politicas publicas. Ao inves de
investirem na sua popula~ao, os Estados passaram a
subsidiar empresas (a maioria multinacionais), sob 0
beneplacito, quando nao a cumplicidade (como no caso
da transferencia de uma fabrica da Ford do Rio Grande
do Sui para a Bahia) do Governo Federal1 70
A crise do endividamento dos Estados, culminada
com a decreta~ao;em 1999, da "moratoria" do Estado de
Minas Gerais, apenas tornou publica a propria crise da
Federa~ao no Brasil. De nada adiantam as politicas
agressivas de obten~ao de mais recursos ou indLIstrias
para as areas menos desenvolvidas (a "guerra fiscal"),
sem que haja uma poiftica de desenvolvimento e reo-
rienta~ao do gas to pLlb lico em todos os niveis, voltada
para a melhoria das condi~oes de vida da popula~ao. A
so lu~ao dos problemas do federalismo brasileiro e poli-
tica, nao meramente tecnica.l7J As constantemente pro-
paladas reformas fiscal e tributaria nao resolvem 0
170 Vide, especiaimente, Andres RODRIGUEZ-POSE & Glauco ARBIX, " Es-
trategias do Desperdfcio: A Guerra Fi scal c as Incertezil s do Desenvolvimen-
to", Novas Estlfrios n° 54, Sao Paulo, CEBRAP, julho de 1999, p. 55-71 e Gilberto
BERCOVICI, Dcsigllaldndes I~egiollllis, Estndo e CO llst itllirflo cit., p. 183-189.
171 Urna das proposlas mais inovadoras de soitl(;ao institucionai dos proble-
mas do federalismo brasileiro, notadamente a quesUio das desiguaJdades
regionais, e a defendida por Paulo Bonavides: a transformac;ao da Regiao em
cnte federa tivo, consubstanciando lima quarta esfera de governo e de com-
petencias. Com a implanta,ao do Federalismo Regional, os Estados e Muni-
dpios poderiam se articular de forma a nao se manterem tao dependentes da
Uniao, interrompendo as tendencias centralizadoras dos ultimos anos. Vide,
especialmente, os artigos rellnidos em Paulo BONA VI DES, A COlIstitllifiio
Aber/n, op. cit., p. 337-506. Vide tambem Gilberto BERCOVICI, "Constitlli<;ao
e Sllpera<;ao das Desigllaldades Regionais" cit., p. 89-93 e Gilberto BERCOVI-
CI, Desigllnldndes Regiollnis, Estndo e COl/stitllifiiO, op. cit., p. 244-251.
96 Eslnrio e COllstilllif/10 3 G1U3ERTO BERCOVICI
problema fundamental : 0 modelo de desenvolvimento
desejado, sob pena de corrermos 0 risco real de fragmen-
ta~ao nacional. 172 A Federa~ao atllalmente existente no
Brasil esta, na realidade, amea~ada, assim como a pro-
pria Constitui~ao de 1988. a desafio que se nos apresen-
ta e 0 de coordenar a coopera~ao entre a Uniao e os entes
federados, como maneira de combater a centraliza~ao
excessiva e 0 desmonte do Estado, requisitos essenciais
para a manuten~ao do federalismo e da ordem constitu-
cional democratica entre nos.
a modelo de desenvolvimento implantado no Bra-
sil a partir da Revolll~ao de 1930, centrado na interven-
~ao do Estado e no mercado interno como centro
dinamico da economia, vern sendo desmontado nos
ultimos tempos com base no discurso neoliberal de
n desreglliamenta~ao", "desconsti tucionaliza~ao", "Esta-
do-minimo" e " livre mercado". Nao nos cabe nesse
esbo~o rebater de forma suficientemente esclarecedora
esses argumentos que parecem reger a nglobaliza~ao" . A
nossa inten~ao foi a de mostrar, sob a perspectiva his to-
rica, 0 sucesso desse modelo na llnifica~ao economica do
pais, ainda nao completada, conjuntamente com a pers-
pectiva de implanta~ao definitiva do Federalismo Coo-
perativo, garantidor das alltonomias regionais e locais
frente ao maior poder da Uniao, tornando todas as
llnidades federadas interdependentes. A sllpera~ao des-
se modelo deve ser feita tomando-se por base 0 que ja se
conseguiu. a que esta se promovendo e 0 desmonte
puro e simples, sem qualquer alternativa de forma~ao de
172 Tania Bacelar de ARAUJO, "Planejamen to Regional e Reia,oes Intergover-
namentais", op. cit., p. 479-480, 482, 487-488 e 490-491); Wilson CANO, Dese-
qllilibrios Regiollnis e COllcel/1mfiio II/rillstrinl 110 Bmsil, 1930-1995, 2" ed,
Campinas, UNICAMP- IE (Instituto de Economia), 1998, p. 41-42, 300-301 e
309-310; Celso FURTADO, Bmsil: A COlIst rll fiio Illterrompida, 2~ ed, Rio de
Janeiro, Paz e Terra, 1992, p. 12-13 e Gilberto BERCOVICI, Desigllnldades
Regiollais, Estndo e COlIslitllifiio, op. cit., p. 258-267. A necessidade de uma
articula,ao entre as va rias esferas de governo e, ainda, destacada par Rlli
Britto Alvares AFFONSO, "A Federa<;ao no Brasil: Impasses e Perspectivas",
op. cit., p. 67-69.
Dilemas do Estado Federal Brasileiro 97
urn sistema economico nacional. J73 A diminui~ao do
controle da polftica economica, assim como a diminui-
~ao das interdependencias regionais (que vo ltam a se
direcionar ao mercado extern 0) causados pelo recente
processo de "globaliza~ao" servem apenas aqueles que
cumprem a papel de liquidatiirios do nosso desenvolvi-
mento, quando nao da nos sa unidade. A grande questao
equal caminho escolher diante desta encruzilhada hist6-
rica. E, enquanto perdurar a descaso com a elabora~ao e
implementa~ao de uma polftica nacional de desenvolvi-
menta regional, inserida dentro de urn projeto nacional
de desenvolvimento, nada mais nos restarii a fazer
senao, nas palavras de Francisco de Oliveira, em pales-
tra proferida em seminiirio de homenagem a Celso
Furtado e aos 40 anos de cria~ao da SUDENE, "celebrar
a derrota" : "Este seminiirio e de choro, falsamente enga-
lanado com as numeros dos projetos aprovados, das
iniciativas tomadas, dos investimentos implantados.
Mas e da nosta lg ia benjaminiana que se trata: 0 das
oportunidades perdidas, do que poderia ter sid a e que
nao foi, a da chance da hist6ria que passou e que nao
volta mais. E como se a Anjo da Hist6ria contemplasse
esses 40 anos e s6 visse as destro~os acu mulados das
possibilidades perdidas metamorfoseados nos proje tos
aprovados, nos investimentos aplicados. Porque esses
projetos aprovados e esses investimentos aplicados es-
tao no lugar doque deveria ter sido: da reforma agriiria
que nao se fez, dos trabalhadores que perderam a
emprego, dos talentos que feneceram, da liberdade que
nao se conseguiu. ( ... ) Juntam-se as novas gera~c5es, que
jii cansaram de ver as rostos amargurados da antiga
gera~a o, no lugar onde s6 h ii choro e ranger de dentes.
Pedem-lhe, doutor Celso Furtado, que as lidere nova-
173 "Urn sistema economico nadonal nao l! Dutra coisa senao a prevalencia de
criterios politicos que permitem superar a rigidez da 16gica econ6mica na
busca do bem-eslar coletivo" ill Celse FURTADO, Brasil: A COIlstTH(:tiO III fer-
rompida, op. cit. , p. 30.
98 Estado e COIIstitll ic:ifo 3 GILBERTO BERCOV ICI
•
mente, qual urn novo Dam Sebastiao. E the dizem que
nunca houve a batalha fatal, que foi apenas urn pesade-
la, que a hist6ria e fei ta de derrotas e que a derrota das
derrotas e essa celebra~ao. Porque a celebra~ao dos
derrotados e a derrota dos vencedores. Porque a celebra-
~ao dos derrotados vergasta a vit6ria dos vencedores
com a amargor d a incompletude, da falsi fi ca~ao, da
desola~ao" .'74
174 Francisco de OLIVEIRA, "Celebra<;ao da Derrota e Saudade do Futuro" ill
Marcos FORMICA & Ignacy SACHS (coords.), Cdso Furtado, a SUDENE e 0
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104 ESlndo e COllSlilu i{iio 3 GILBERTO BERCOVICI
Gilberto Bercovici e advogado e
Professor Associado da Faculdade de
Direito da Universidade de Sao Paulo,
onde leciona nos cursos de gradua~ao e
p6s-gradua9ao. Doutor em Direito do
Estado e Livre Docente em Direito
Econ6mico pela Faculdade de Direilo
da Universidade de Sao Paulo.
Publicou v:irios artigos em peri6dicos
cientificos e obras coletivas, no Brasil e
no exterior. E co-autor do livro Teoria
da ConstituiryGo: ESludos sobre 0 Lugar
da Po/itica no Direito Conslitucional
(2003) e aulor do livro Desigua/dades
Regionais, Estado e Conslitu;ryGo
(2003).
ESTAdo E CONSTiTUi<SAO - ~