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SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva Márcio Mendes da Luz © Copyright 2017 da Dtcom. É permitida a reprodução total ou parcial, desde que sejam respeitados os direitos do Autor, conforme determinam a Lei n.º 9.610/98 (Lei do Direito Autoral) e a Constituição Federal, art. 5º, inc. XXVII e XXVIII, “a” e “b”. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Ficha catalográfica elaborada pela Dtcom. Bibliotecária – Andrea Aguiar Rita CRB) S586s Silva, Adriana Duarte de Souza Carvalho da Sociedade contemporânea / Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva, Márcio Mendes da Luz. – Curitiba: Dtcom, 2017. 152 p. ISBN: 978-859-368-527-9 1. Aspecto organizacional. 2. Contemporâneo. 3. Aspectos humanos. CDD 614.2 Reitor Prof. Celso Niskier Pro-Reitor Acadêmico Maximiliano Pinto Damas Pro-Reitor Administrativo e de Operações Antonio Alberto Bittencourt Coordenação do Núcleo de Educação a Distância Viviana Gondim de Carvalho Redação Dtcom Análise educacional Dtcom Autoria da Disciplina Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva, Márcio Mendes da Luz Validação da Disciplina Veronica Eloi Designer instrucional Milena Rettondini Noboa Banco de Imagens Shutterstock.com Produção do Material Didático-Pedagógico Dtcom Sumário 01 Conceitos teóricos dos séculos XVII e XVIII ....................................................................... 7 02 Revolução industrial e revoluções burguesas ..................................................................15 03 Burgueses e proletários.........................................................................................................22 04 Émile Durkheim .......................................................................................................................30 05 Karl marx ..................................................................................................................................37 06 Max Weber ...............................................................................................................................44 07 Brasil: do engenho ao ouro ...................................................................................................51 08 O europeu e a ocupação territorial ......................................................................................58 09 Colonização: cultura indígena e a luta pela posse da terra ............................................65 10 O negro: cultura e o trabalho escravo .................................................................................73 11 Democracia racial ...................................................................................................................80 12 Cultura.......................................................................................................................................87 13 Desigualdades sociais no Brasil ..........................................................................................93 14 Mudanças na cultura da sociedade contemporânea ................................................... 100 15 Os movimentos sociais ...................................................................................................... 107 16 Constituição de 1988 e a sociedade contemporânea .................................................. 114 17 Globalização: origens e definições ................................................................................... 122 18 Globalização: Impactos Econômicos (1980 – 2010) ................................................... 129 19 Globalização: Impactos Políticos (1980 – 2010) .......................................................... 137 20 Globalização: Impactos Sociais e Culturais (1980 – 2010) ........................................ 145 Conceitos teóricos dos séculos XVII e XVIII Márcio Mendes da Luz Introdução Sabemos que a forma como nossa sociedade atual pensa e age é consequência de anos de mudanças e quebras de paradigmas. Essas modificações são fruto, principalmente, de ideias e conceitos propostos por grandes pensadores em sua época. Nesta aula, vamos refletir sobre os pressupostos teóricos que fundamentaram a sociedade contemporânea. Estudaremos sobre os teóricos dos séculos XVII e XVIII que ajudaram a formar as concep- ções políticas, sociais e econômicas da nossa sociedade atual. Aprenderemos sobre Thomas Hobbes e sua noção de Estado, a desigualdade social em Rousseau, a noção de liberdade de Voltaire, a divisão de poderes de Montesquieu e o liberalismo econômico de Adam Smith. Vamos começar? Então, acompanhe-nos e bons estudos. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • conhecer os pressupostos teóricos que formaram a sociedade contemporânea; • entender sobre o Iluminismo e Liberalismo. 1 Thomas Hobbes: o contrato social inglês Thomas Hobbes (1588 – 1679) nasceu na Inglaterra no final do governo de Elizabeth I (1558 – 1603), da Dinastia Tudor. Esta Dinastia conseguiu consolidar o poder absolutista na Inglaterra ao vencer a Guerra das Duas Rosas (1455 – 1485) e também garantiu independência em relação à igreja católica ao fazer o Ato de Supremacia (1532). O que seria isso? Foi a ruptura com a Igreja Católica e criação da Igreja Anglicana. Mas apesar da consolidação do poder do rei, na história política inglesa, o poder dele nunca foi total devido ao forte poder também do parlamento. SAIBA MAIS! O parlamento inglês surgiu em 1212, quando o rei João, o sem-terra, teve seu poder restrito ao assinar a Magna Carta, forçado pelos nobres após a fracassada tentativa de invasão da França. A partir de então, nenhum rei inglês pôde tomar uma decisão sem a permissão do parlamento. – 7 – TEMA 1 Figura 1 – Parlamento inglês Fonte: Leonid Andronov/Shutterstock.com. Hobbes acompanhou a Guerra Civil Inglesa (1642-1649), que encerrou com a decapitação do Rei Carlos I. Após finalizar o conflito, Hobbes retorna à Inglaterra e publica o Leviatã, em 1651, em que discute sobre a natureza do homem e a função do Estado. A extensão do conflito e seus efei- tos na sociedade, principalmente o elevado número de mortes, causou no autor um pessimismo sobre o ser humano. Para Hobbes, inicialmente, nos primórdios o ser humano vivia em uma condição de anarquia e barbárie conhecida como Estado Natural. Neste estágio, todos são iguais, todos têm os mesmos direitos, há a ausência do soberano e, guiados apenas pelos seus instintos, paixões e desejos, os homens são levados ao constante estado de guerras (RIBEIRO, 1989). Para evitar os conflitos entre as pessoas, Hobbes defende o Estado Soberano, que deverá ser regido por um soberano. Na concepção deste autor, esse Estado que será regido por um corpo de leis dará ao ser humano a tranquilidade e paz de que ele necessita para viver. Se o Estado Natural dá a liberdade sem limites à população, então, leva ao caos e anarquia. Por outro lado, o Estado Soberano restringe a liberdade individual, mas permite a ordem e a tranquilidade de que as pessoas necessitam. Em resumo: o Leviatã seria o “monstro” que resulta do Estado Civil que é a união da vontade de todos na figura do soberano, que representa a lei que dará a tranquilidade necessária. Portanto, Hobbes oferece à nossa sociedade a ideia de um Estado de Direito cujo corpo de regras, chamadas de lei, deve trazer ordem, paz e proteção à população e estar acima dos interes- ses pessoais. Perceba que este conceito permeará grande parte dos Estados ocidentais contem- porâneos (RIBEIRO, 1989). Agora, vejamos o contraponto deste pensamento? Acompanhe-nos para conhecer as ideias de Voltaire. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 8 – 2 Voltaire e o conceito de liberdade Os próximos três autores que vamos estudar (Voltaire, Rousseau e Montesquieu) possuem em comum o fato de serem denominados iluministas. E o que significa isso? O Iluminismo surgiu na Europa no século XVIII como uma oposição a tudo que representasseo Antigo Regime: poder absolutista, a fusão de Estado com a Igreja, interferência do Estado na economia e os privilégios da nobreza. Voltaire, pseudônimo de François Marie-Arouet (1694 – 1778), trabalha com afinco o conceito de liberdade. SAIBA MAIS! O nome Iluminismo vem de luz, pois, segundo os seus teóricos, por meio da razão e da luz do conhecimento, a sociedade humana conseguiria desfazer suas amarras e seguir sua liberdade. Para aprofundar sugerimos a leitura do seguinte texto: <http:// www.scielo.br/pdf/seq/n66/14.pdf>. Diferentemente da concepção grega clássica de liberdade, que era a participação do cidadão nas decisões políticas, no século XVIII, a noção de liberdade é ampliada para a autodeterminação do indivíduo sem que tenha que obedecer passivamente a outros. Para isso, o Estado absolutista e a sua característica intervencionista no cotidiano das pessoas eram opostos aos interesses dos iluministas (COULANGES, 1971). Para os iluministas e, sobretudo Voltaire, a população deveria ter o direito à liberdade de expressar sua opinião, de comercializar e professar a sua fé. FIQUE ATENTO! Assim como outros conceitos, a liberdade não é um bem natural do ser humano, ela é historicamente construída, para depois ser inserida no cotidiano das pessoas. Perceba que a filosofia iluminista influenciará as revoltas e revoluções da segunda metade do século XVIII e início do século XIX na Europa e continente americano, sobretudo na Revolução Francesa e Independência das treze colônias, atualmente os Estados Unidos. Os governos resul- tantes delas que asseguraram a liberdade e autodeterminação de seus indivíduos passaram a ser chamados de governos liberais, os quais serão predominantes nos séculos XIX e XX. Na sequência, continue conosco para conhecer o pensamento de Montesquieu, outro autor que era favorável à formulação de um conceito de liberdade. Vamos lá? 3 Barão de Montesquieu e o poder tripartite Uma das contestações ao Antigo Regime resultava no acúmulo de poder nas mãos de um soberano, no caso do governo francês, a figura do rei. Neste sentido, Charles Louis de Secondat, o barão de Montesquieu (1689 – 1755), em seu livro “O Espírito das Leis” (1748) critica e defende a SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 9 – divisão dos poderes em três: Legislativo (aquele que faz as leis), Executivo (aquele que as põe em prática) e Judiciário (aquele que julga as leis). EXEMPLO A divisão de poderes é a prática política das principais democracias contemporâne- as. No Brasil, em nível federal, o Executivo é exercido pelo Presidente, o Legislativo por deputados e senadores, e o Judiciário pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Para o autor, aquele que detém o controle dos três poderes, isto é o rei, tende a abusar dele na condução do país. Por isso, a divisão e a isonomia (ou seja, a igualdade de todos perante as leis) entre esses poderes é necessária para assegurar uma sociedade mais justa e que garante os direitos de autodeterminação de seus indivíduos ao respeitar as leis. FIQUE ATENTO! No caso brasileiro, a divisão em três poderes é feita tanto no nível federal como no estadual e municipal. Acompanhe na imagem a seguir uma demonstração do que seria a diferença entre o Antigo Regime e os Governos Liberais. Figura 2 – Antigo Regime versus governos liberais Antigo Regime Governos Liberais Rei Executivo (Presidente ou Rei) Legislativo (Parlamento) Judiciário (Juízes) Executivo Legislativo Judiciário Fonte: Elaborada pelo autor, 2017. Vamos conhecer o terceiro autor que expôs seus pensamentos sobre governos e liberdade? Então, acompanhe-nos! SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 10 – 4 Rousseau e a desigualdade entre os homens Jean Jacque Rousseau (1712–1778) foi um dos principais filósofos iluministas do século XVIII e, dentre seus estudos, o destaque é para aquele sobre a desigualdade entre os homens e a crítica sobre a sua existência. Primeiro de tudo, saiba que na sociedade francesa do século XVIII, a desigualdade entre os homens era vista como natural. Seguindo tradições e costumes medievais, a nobreza francesa possuía mais direitos e privilégios que o restante da população, como o acesso à propriedade rural e a isenção de impostos. Contra esta desigualdade e privilégios de uma classe social é que Rous- seau escreve sua crítica na obra “Discurso sobre a origem e a formação da desigualdade entre os homens” (ROUSSEAU, 1989). Para Rousseau, havia dois tipos de diferenças entres os homens: uma natural ou física, que seria a distinção sexual, de altura, racial, etc., e para o autor essa diferença não deveria ser objeto de pesquisa, pois é imutável. A outra diferença é política ou moral, e surgiu a partir do momento em que o homem natural se organizou em comunidades e passou a ter posse da propriedade e da ambição humana em se distinguir de seus pares e o desejo de aumentar o seu poder. Com isso, dividiria a população entre ricos e pobres, governantes e governados e que aí está a origem da opressão e a falta de liberdade. FIQUE ATENTO! A noção de homem natural para Rousseau é diferente da de Hobbes. Para o iluminis- ta, o homem natural é aquele capaz de compaixão, misericórdia e solidariedade para com seus pares e que foi a criação da propriedade privada que corrompeu o homem. A busca de igualdade de direitos e o fim de privilégios é a base jurídica dos principais gover- nos do século XIX e XX, em que a premissa permanece que todos são iguais perante as leis. Figura 3 – A diferença entre os homens trazida pelo poder Fonte: Prazis/Shutterstock.com. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 11 – Agora, vejamos quem é Adam Smith e o que o autor fala a respeito do liberalismo econômico. Vamos lá? Então, acompanhe-nos! 5 Adam Smith e o liberalismo econômico Alguns o consideram como iluminista ou, simplesmente, um herdeiro dos fisiocratas iluminis- tas, que defendiam o fim do mercantilismo e do intervencionismo estatal na economia, sintetizado no termo francês Laissez-Faire que pode ser traduzido como “deixe estar”. Aliás, esta expressão é símbolo do liberalismo econômico, que, em linhas gerais, determina que o mercado funcione livre- mente, sem interferência do Estado, contando apenas com regulamentos que protejam os direitos de propriedade. Esta filosofia foi dominante nos Estados Unidos e nos países da Europa ocidental sobretudo a partir do final do século XIX. O inglês Adam Smith (1723 – 1790) é tido como pai do liberalismo econômico. Em seu livro “A Riqueza das Nações” (1776), o economista inglês defende a necessidade de ter um Estado que não interfira na economia e que deixa que ela se autorregule, segundo a lei do mercado (Lei da oferta e da procura). Este tipo de Estado é conhecido como Estado Mínimo. Figura 4 – Estátua do inglês Adam Smith Fonte: Heartland Arts/Shutterstock.com. Perceba que o Estado Mínimo não interfere no cotidiano das relações comerciais, é função do governo proteger sua população. A cobrança de impostos e a intervenção econômica, segundo Smith, são prejudiciais às empresas e à economia (SMITH, 1985). Até a crise de 1929, quase todos os países europeus e americanos adotavam a prática do liberalismo econômico. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 12 – https://pt.wikipedia.org/wiki/Mercado https://pt.wikipedia.org/wiki/Estados_Unidos https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9culo_XIX https://www.shutterstock.com/pt/g/heartlandarts EXEMPLO Os EUA é o maior exemplo da prática do Estado Mínimo, onde a taxa de juros de cobrança à população é baixa e, para o cidadão americano, a função do governo é a proteção. Por isso, atentados como o 11 de Setembro de 2001 comovem e indig- nam tanto a população. A interpretação e a sensação é de que o governo falhou. Hoje, o liberalismo econômico concebido por Adam Smith é amplamente visto em prática nos grandes blocos econômicos como a União Europeia, Mercosul e Nafta. SAIBA MAIS! A discussão sobre os limites e possibilidades de um Estado mínimo deve ser observada. Para aprofundar,sugerimos a leitura do seguinte texto: <http://www. cartacapital.com.br/economia/o-estado-deve-intervir-no-processo-economico>. Fechamento Chegamos ao fim desta aula que nos possibilitou aprender que, apesar de a sociedade con- temporânea ter surgido em fins do século XVIII, com a Revolução Francesa, seus pressupostos teóricos que fundamentam a sociedade surgiram 150 anos atrás, como a noção de Estado de Direito, liberdade individual, igualdade de direitos e divisão de poderes. Nesta aula, você teve a oportunidade de: • conhecer os pressupostos teóricos que formaram a sociedade contemporânea; • entender sobre o Iluminismo e Liberalismo. Referências COULANGES, Fustel. A Cidade Antiga. Lisboa: Clássica, 1971. FISS, Owen.A ironia da liberdade de expressão: Estado, regulação e diversidade da esfera pública. Rio de Janeiro:Renovar, 2005. FREITAS, Riva Sobrado de; CASTRO, Matheus Felipe de. Liberdade de Expressão e Discurso de Ódio: um exame sobre possíveis limitações à liberdade de expressão. Rev. Seq., Florianópolis, n. 66, p. 327-355, jul. 2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/seq/n66/14.pdf>. Acesso em: 04 fev. 2017. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 13 – MONTESQUIEU, Charles de Secondat.O Espírito das Leis.São Paulo:Saraiva, 2000. DANIEL, Paulo. O Estado deve intervir no processo econômico? Carta Capital [online]. Publicado em: 08 abr. 2011. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/economia/o-estado-deve-inter- vir-no-processo-economico>. Acesso em: 15 fev. 2017. RIBEIRO, Renato Janine. Hobbes: o medo e a esperança. In WEFFORT, Francisco (Org). Os Clássi- cos da política: Maquiavel, Hobbes, Locke, Montesquieu e Rousseau. O Federalista, v.1, São Paulo: Ática, 1989.pp. 51-77. ROUSSEAU, Jean Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo: Ática, 1989. SMITH, Adam. A riqueza das Nações: investigação sobre a sua natureza e suas causas. 2. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1985. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 14 – Revolução industrial e revoluções burguesas Márcio Mendes da Luz Introdução Nesta aula estudaremos as revoluções dos séculos XVII e XVIII que ajudaram na formação da sociedade contemporânea. O termo “Revolução” ganhou espaço na política ao referir-se a uma mudança em um sistema político, cultural, econômico e/ou social. Vamos conhecê-las? Então, Acompanhe-nos! Objetivos de aprendizagem: Ao final desta aula, você será capaz de: • Compreender a importância da Revolução Industrial e os fatores que levaram a este fenômeno histórico; • Entender os diferentes modos de produção: doméstico, artesanal e manufatureiro; • Compreender a importância das revoluções burguesas. 1 Revolução Industrial Se você der uma olhada ao redor, certamente o que irá visualizar é fruto de um longo pro- cesso que foi a Revolução Industrial, a partir do século XVIII na Inglaterra, determinada pela evolu- ção dos meios de produção que vinha ocorrendo desde a Antiguidade. FIQUE ATENTO! Os modos de produção referem-se à maneira de fabricar um produto, que varia conforme os séculos. De forma geral, a produção humana passou por três processos de produção: modo artesanal, manufatureiro e maquinofatura. Mas qual a distinção entre eles? – 15 – TEMA 2 Quadro 1 – Modos de produção e suas características Meio de produção Artesanal Manufatura Maquinofatura Características Um dos meios mais antigos surgiu na An- tiguidade e é quando apenas uma pessoa detém todas etapas de produção. Do latim “feito à mão”, sur- giu no final da Idade Média com o Renascimento Co- mercial. Diferencia-se do artesanal devido à divisão de tarefas. Surgiu no século XVIII, mantém a divisão de tarefas, mas agora temos a introdução das máquinas. É o modo de produção da Revolução Industrial. Fonte: elaborado pelo autor, adaptado de Adam Smith, 1778. Com a mudança nos meios de produção, a Revolução Industrial afetou a vida dos trabalhado- res. Suas condições de moradia, trabalho e saúde degradaram rapidamente, enquanto a burguesia industrial lucrava cada vez mais. O cenário social da época era marcado por baixos salários, con- dições insalubres, exploração do trabalho infantil e nenhum direito trabalhista. Figura 1 – Modo de produção industrial inglês Fonte: Everett Historical/Shutterstock.com. A seguir, vejamos outra importante revolução histórica para a Inglaterra. 2 Revolução Puritana A Guerra Civil Inglesa, conhecida como Revolução Puritana, ocorreu entre 1642 e 1649 como resultado do longo processo de conflito entre o Rei e o Parlamento - a Câmera dos Comuns. O conflito entre as duas instituições (Coroa e Parlamento) tinha características políticas, reli- giosas e sociais. Do ponto de vista político, a condução do Império Inglês iniciava sua expansão com a colonização das Treze Colônias na América; da perspectiva religiosa, era o conflito entre os SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 16 – reis católicos que contavam com apoio da nobreza anglicana e os representantes da câmera dos comuns puritanos e sociais - nobreza e burgueses. FIQUE ATENTO! Hoje, na Inglaterra, há a Câmara dos Comuns e a Câmara dos Lordes, que podem ser comparadas com a de deputados e senadores para a nossa realidade. Por não concordar com a interferência do Parlamento, o Rei Carlos I mandou fechar o Parla- mento (1629) sem previsão de reabertura. Quando chamou o Parlamento novamente para resolver um conflito na Escócia (1641), a Câmara dos Comuns exigiu respeito ao Parlamento, o que foi nega do pelo monarca, iniciando o conflito. Após sete anos de embate, ele chegou ao fim após a prisão e a decapitação do rei. A burguesia chegou ao poder e controlou os destinos políticos e econômicos de uma nação. Ficou no poder entre 1649 e 1659, e Oliver Cromwell era o líder. Após a sua morte e inaptidão do filho Ricardo, o Parlamento aceitou o retorno da monarquia desde que o novo rei, Carlos II, respei- tasse as suas decisões. SAIBA MAIS! O período entre 1649 e 1659, quando Oliver e Richard Cromwell ficaram no poder, foi o único período na história inglesa sem monarquia. Leia mais: <http://ler.letras. up.pt/uploads/ficheiros/1671.pdf>. Não bastando o que representou a Revolução Puritana, a Inglaterra ainda foi palco de mais um conflito: a Revolução Gloriosa. 3 Revolução Gloriosa Também ocorrida no século XVII, podemos afirmar que esta revolução foi a complementação da anterior. Após a morte de Carlos II e sem herdeiros, o seu irmão mais novo, James II, assumiu o trono inglês, o qual contrariou o Parlamento ao não renunciar da fé católica. Em um momento após a Reforma Protestante e a Guerra dos Trinta Anos, a existência de um rei católico em um país protestante poderia ser um risco à soberania. O monarca vinha constantemente desrespeitando o Parlamento e suas decisões. Para evitar outro conflito sangrento em 1688, o Parlamento decidiu depor o rei e chamou para seu lugar o seu sobrinho e genro Guilherme III de Orange, que era anglicano, e exigiu que assinasse a Lei de Direitos (Bill of Rights), a qual retirou totalmente o poder real e o entregou ao Parlamento e seu representante, o primeiro-ministro. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 17 – A Inglaterra foi o primeiro país a adotar a Monarquia parlamentarista e isto serviu de exemplo à burguesia dos demais países, pois agora controlava um país politicamente e, assim, poderia fazer leis que atendessem aos seus interesses econômicos. EXEMPLO Assim como a Inglaterra, Espanha, Bélgica, Holanda, Noruega, Suécia, Dinamarca, Tailândia e Japão são exemplo de Monarquias parlamentaristas na atualidade. O controle burguês na política inglesa permitiu a Revolução Industrial no século XIX e tornou a Inglaterra uma potência econômica, que dominou um terço de todo território mundial no início do século XX, influenciando o mundo inteiro com sua cultura e costumes. 4 Independência das 13 Colônias No final do século XVI, na dinastia Tudor, quando buscavam uma passagempelo Noroeste para chegar às Índias e, assim, fazer o comércio de especiarias, os ingleses descobriram terras na América do Norte. Foram criadas as Treze Colônias, hoje Estados Unidos, divididas de acordo com sua localização geográfica: • norte– New Hampshire, Massachusetts, Rhode Island, Connecticut; • centrais– Nova Iorque, Nova Jersey, Pensilvânia, Delaware; • sul– Maryland, Virgínia, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia. Figura 2 – Mapa das 13 Colônias Fonte: I. Pilon/Shutterstock.com. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 18 – Com exceção das colônias do Sul, as do Norte e Centrais não interessaram à Inglaterra devido ao clima parecido ao da metrópole. Isso significava que teriam produtos parecidos com os que eram obtidos na Inglaterra. As províncias do Sul foram mais exploradas em virtude do algodão, cana-de-açúcar e tabaco. Porém, a situação mudou após a Guerra dos Sete Anos (1756 – 1763), que reuniu duas for- ças antagônicas, lideradas por Inglaterra e França, e resultou na vitória inglesa. Apesar da vitória, devido à extensão do conflito, a Inglaterra teve gastos exorbitantes e precisava repor os custos da guerra. Então, o Parlamento inglês decidiu cobrar taxas dos colonos na América, representadas pela Lei do Selo, Lei do Chá, Lei do Açúcar. Com isso, aumentou a repressão sobre os colonos. As lideranças coloniais, muitos dos quais seguidores da filosofia iluminista, questionaram o domínio inglês na América. Criticando, principalmente, a intervenção inglesa na economia ame- ricana, por meio da repressão (atos intoleráveis), desejam a liberdade política. Por isso, em 4 de julho de 1776, na Filadélfia, as lideranças coloniais declararam a Independência das 13 Colônias. O conflito aconteceu entre 1776 e 1783, terminando com a vitória americana, com ajuda do exército francês e a assinatura do Tratado de Paris, em que a Inglaterra reconheceu a indepen- dência. Em 1787, foi aprovada a Constituição Americana, claramente iluminista, isto é, a divisão tripartite do seu governo, a existência de um Estado Mínimo e o direito inviolável da liberdade de seus cidadãos. FIQUE ATENTO! No Brasil, a constituição de inspiração iluminista só veio após a Proclamação da República, em 1889. Já a nossa Constituição é de 1988. O governo americano dos Estados Unidos é considerado capitalista liberal, de Estado Mínimo, isto é, ele não interfere tanto nas questões econômicas, promovendo relações econômicas mais livres, deixando mais livre a própria iniciativa privada. EXEMPLO No Brasil não há o Estado Mínimo, pois o governo garante serviços para a popula- ção, como saúde e educação pública, por meio dos impostos. Mas, por ser também um país de tendência liberal, as relações comerciais se tornem cada vez mais autô- nomas com relação ao Estado. A importância do processo de independência das 13 Colônias está no fato de ser o primeiro país com uma constituição iluminista, a qual será exemplo a ser seguido por quase todas as ex-co- lônias americanas, repúblicas e monarquias parlamentaristas na Europa. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 19 – 5 Revolução Francesa Nos séculos XVII e XVIII, a França era considerada o país onde o absolutismo foi exercido de forma plena, isto é, onde os reis governavam absolutos. Mas no governo de Luís XVI, a situação econômica na França deteriorou-se muito. Para piorar, a seca de 1787 e 1790 ocasionou fome na população camponesa. Além disso, o sistema tributário francês ainda mantinha as características medievais de pri- vilegiar os nobres com isenção fiscal e com salários pagos pela Coroa e direitos à propriedade, mesmo que improdutivas. Em 1789, a situação da economia francesa beirava o colapso. Para evitar a ruína, o rei francês convocou, após 150 anos, a Assembleia dos Estados Gerais, a qual era composta por três Estados: 1º Estado – Clero; 2º Estado – Nobreza; e 3º Estado – burgueses e trabalhadores. Estes três Estados deveriam auxiliar o rei a superar a crise econômica. O 3º Estado propôs tributar o 1º e o 2º Estado, que detinham grande parte da renda e dos gastos do governo francês. No entanto, estes Estados contestarama ideia e tiveram o apoio do Rei. Devido à impossibilidade de reverter a situação, o 3º Estado, com o apoio da população, iniciou uma revolta contra a Coroa francesa, que resultou na Revolução Francesa, a qual durou, oficial- mente, de 1789 a 1799. Figura 3 – Tomada da Bastilha Fonte: Everett Historical/Shutterstock.com. A Revolução Francesa foi marcante, pois o Iluminismo foi posto em prática sem restrição. Criou-se uma constituição que abolia os privilégios da nobreza, dividia os poderes, separava Estado e Igreja, dava a liberdade econômica, de expressão e política para a população. Nosso destaque é para a Declaração dos Diretos do Homem e do cidadão em 1789, que reconhecia a todos como cidadãos, assim como assegurava seus direitos. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 20 – SAIBA MAIS! Para conhecer mais sobre esta revolução, sugerimos a leitura do artigo “A Revolução Francesa e seu eco”, de Michel Vovelle, disponível em: <http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141989000200003&lng=pt&nrm=iso>. A Revolução Francesa foi importante, pois ao abolir a monarquia no país símbolo do Absolu- tismo, a burguesia demonstrou que poderia subir ao poder e, com isso, garantir aquilo que ela con- sidera seus direitos: liberdade (econômica e de expressão), igualdade (de direitos) e fraternidade (tolerância entre todos os cidadãos), palavras que compunham o lema da revolução. Fechamento Chegamos ao fim desta aula sobre as principais revoluções que ocorreram nos séculos XVII e XVIII. Nesta aula, você teve a oportunidade de: • compreender a importância da Revolução Industrial e os fatores que levaram a este fenômeno; • entender os diferentes modos de produção: doméstico, artesanal e manufatureiro; • compreender a importância das revoluções burguesas. Referências BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo: SéculosXV – XVIII.São Pau- lo:Martins Fontes, 1995. FERREIRA, J.Carlos Viana. Cromwell: Puritanismo, providencialismo e pragmatismo. Disponível em: <http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/1671.pdf>. Acesso em: 12 fev. 2017. KARNAL, Leandro et al. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI.São Paulo:Con- texto, 2007. THOMPSON, Edward Palmer. A Formação da Classe Operária Inglesa. Rio de Janeiro:Paz e Terra, 1987. VOVELLE, Michel. A Revolução Francesa e seu eco. Estud. av., São Paulo, v. 3, n. 6, p. 25-45, ago. 1989. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-401419890 00200003&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 07 fev. 2017. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 21 – Burgueses e proletários Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva Introdução No século XIX, início da sociedade contemporânea, antes restrita à Inglaterra, a industrializa- ção espalhou-se ao restante do continente europeu e, mais tarde, também chegou nos Estados Unidos e Japão. Mas não veremos somente prosperidade nessa relação, há também tensão entre operários e patrões que irá se expressar no campo político e social. Este será o tema desta aula. Vamos começar? Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • compreender a formação social dos séculos XIX e XX; • conhecer as relações sociais que moldaram as revoltas e revoluções sociais no século XIX e início do século XX. 1 Operários e patrões no século XIX No século XIX, a relação entre patrões e empregados ficaram mais tensas devido ao aumento de exploração. Com a industrialização e a demanda por mão de obra que as fábricas exigem, milhões de pessoas deixaram o campo para viver nas cidades. Resumindo: deixam de ser campo- neses e passam a ser operários, também conhecidos como proletários (THOMPSON, 1987). Perceba que as condições de trabalho do campo para a indústria são totalmente diferentes. Como? No campo, o tempo da natureza l dita o ritmo de trabalho, ouseja, trabalha-se enquanto houver sol. Se está chovendo, então, não há trabalho; há folga nos dias santos; e podem produzir o que irão se alimentar. Na cidade, ao trabalhar em uma indústria, é o relógio quem dita o ritmo, não importa se está chovendo ou escuro: o ambiente fechado e a eletricidade permitem que a linha de montagem nunca pare de segunda à sábado. As condições de vida fora das fábricas não eram melhores. O péssimo salário apenas permitia aos operários viverem em moradias em condições insalubres. Enquanto isso, a classe burguesa continuava a prosperar, impondo à sociedade seu modo de vida e hegemonia cultural. No entanto, saiba que nem todos aceitaram essas condições e foi assim que começaram a se organizar para combater esta exploração. – 22 – TEMA 3 2 Revolta de operários: Ludismo Uma das primeiras reações à exploração que os operários viviam foi o Ludismo. O nome deriva do líder do movimento Ned Ludd que, junto de outros operários, era contrário ao intenso processo de industrialização. Segundo eles, as máquinas retiravam o seu trabalho. Figura 1 – Quebra de Máquinas, ação típica do Ludismo Fonte: anthonycz/Shutterstock.com. Com isso, em 1811, os operários passaram a quebrar as máquinas. Em virtude disso, os industriais pressionaram o Parlamento para criar leis mais duras para quem participasse do movi- mento (THOMPSON, 1987). Dezenas de fábricas tiveram máquinas quebradas ou incendiadas. Muitos participantes do movimento foram mortos ou enviados às colônias e o destino de seu líder desconhecido. Mas é fato que o movimento se espalhou a outros países da Europa. 3 Movimento Sindical O sindicato é uma organização criada para defender os interesses da classe trabalhadora. Apesar de na Idade Média serem criadas as corporações de ofício com a finalidade de defender os interesses de certa classe de artesão, o sindicato, como conhecemos hoje, surgiu com a intensifi- cação da industrialização no século XIX. FIQUE ATENTO! Com a organização dos sindicatos ingleses, surge o esporte preferido da classe operária: o futebol e os primeiros times ingleses. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 23 – Com o fracasso de reações violentas à exploração dos patrões, os trabalhadores europeus, principalmente os ingleses, resolveram organizar associações que os representariam na luta con- tra a opressão. Os primeiros sindicatos modernos surgem na Inglaterra em 1824 e, por volta da década de 1870, ganham o formato que conhecemos hoje. Figura 2 – Trabalhadores unidos Fonte: Andrey_Popov/Shutterstock.com. Os sindicatos lutavam por melhores condições de trabalho, como diminuição da jornada diária, o aumento de salário, e o direito de voto masculino não censitário. Quando o parlamento recusou os pedidos, consequentemente vieram as greves e manifestações por toda a Inglaterra. Os direitos trabalhistas só foram plenamente assegurados graças à atuação dos sindicatos no final do século XIX e início do século XX, quando as instituições estavam melhor organizadas (THOMPSON, 1987). SAIBA MAIS! A atuação do sindicato ainda é importante hoje, pois estes órgãos asseguram os direitos dos trabalhadores. Leia mais sobre o assunto em: <http://www. dominiopublico.gov.br/download/teste/arqs/cp067640.pdf>. Tendo em vista todas essas mudanças na estrutura da sociedade, principalmente no que se refere à classe operária, vejamos o que estes eventos ocasionaram no cenário político. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 24 – 4 Política século XIX: Capitalismo Liberal, Socialismo e Anarquismo A Europa e a América do século XIX viram o surgimento do Capitalismo Liberal e seus anta- gonistas políticos: o Socialismo e o Anarquismo. Mas quais as características de cada um deles afinal? Vejamos a seguir. O Capitalismo Liberal atendia aos interesses da burguesia industrial, pois acabava com a distinção jurídica entre nobreza e os outros súditos comuns. Além disso, não permitia qualquer interferência estatal na economia, possibilitando autonomia às indústrias em suas decisões e o poder pelo Parlamento, controlado por eles. Mas não assegurou a igualdade social, fazendo com que o proletariado ficasse submisso e explorado pela burguesia industrial. (HOBSBAWM, 2009) Por outro lado, a corrente política do Socialismo surgiu na primeira metade do século XIX, como uma reação ao Capitalismo Liberal. Os teóricos desta fase eram chamados de utópicos e propunham a criação de uma sociedade igualitária, sem exploração econômica. Ao final da pri- meira metade do século XIX surgiram os socialistas científicos. Eles propunham analisar a socie- dade em seus aspectos históricos e filosóficos e não apenas por meio dos ideais de justiça social. FIQUE ATENTO! Os países socialistas que surgem no século XX vão se inspirar no Socialismo Cien- tífico de Karl Marx e Friedrich Engels. Por fim, o Anarquismo que ao contrário do Socialismo, enxergava a adoção de um Estado como um dos elementos de dominação e exploração sobre o trabalhador. O Anarquismo é sus- tentado sob três pilares: crítica à dominação, defesa da auto-gestão e coerência na transformação social. Devido à dificuldade em assimilar suas ideias, o Anarquismo teve pouca repercussão entre a classe trabalhadora europeia, já que eram vistos como radicais (BEER, 2006). Agora que tivemos uma ideia geral do que foi a política no século XIX, acompanhe-nos para conhecer as revoluções ocorridas na sequência. 5 Revoluções: 1830, 1848, 1870 e 1917 1830 Após o fim da Era Napoleônica no Congresso de Viena, a família Bourbon retornou ao poder na França com os Reis Luís XVIII e Carlos X, irmãos mais novos de Luís XVI. O primeiro monarca realizou um governo de respeito à burguesia francesa, com medo de reviver as tensões da Revolu- ção de 1789, mas o segundo quis reviver a monarquia absolutista de tempos anteriores. Após as Ordenações de Julho, as quais tinham a intenção de aumentar o poder absolutista do Rei, a burguesia e a população de Paris novamente a se revoltam contra o Rei. Temendo ter o mesmo fim de seu irmão mais velho em 1789, Carlos X renuncia ao poder e parte ao exílio na Ingla- SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 25 – terra. E quem fica em seu lugar? Seu primo distante Luís Felipe de Orleans o qual será conhecido como o “Rei Burguês” por favorecer a política burguesa (HOBSBAWM, 2009). Figura 3 – Liberdade guiando o povo Fonte: Oleg Golovnev/Shutterstok.com 1848 Conhecida como a “Primavera dos Povos”, a classe trabalhadora de Paris revolta-se contra a exploração da burguesia industrial e o amparo que o Estado francês dá a esta exploração sob o governo do Rei Burguês. Centena de milhares de trabalhadores tomam o centro de Paris e exigem a deposição do Rei e políticas públicas de apoio aos trabalhadores. Mesmo com a reação violenta, o apoio popular à causa apenas aumentou, restando ao Rei apenas abdicar ao trono. Com isso, nasce a Segunda República Francesa (1848 – 1852), criada a partir da aliança da grande e pequena burguesia e socialistas. Tensões internas entre os grupos levaram a mais agitações sociais e conflitos abertos nas ruas de Paris. Nas eleições de novembro de 1848, o can- didato dos trabalhadores ganhou: Luís Napoleão Bonaparte, sobrinho de Napoleão I (HOBSBAWM, 2009). Luis Napoleão Bonaparte assumiu a presidência com o apoio dos trabalhadores franceses e depois os traiu ao declarar o 2º Império. FIQUE ATENTO! Marx e Engels participam da “Primavera dos Povos” e, a partir dessa experiência, escrevem o “Manifesto do Partido Comunista”. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 26 – Luís Napoleão deveria entregar o cargo de presidente em 1852, mas, assim como tio, articu- lou um golpe e conseguiu acabar com a Segunda República e proclamar-se imperador dos fran- ceses sob o título de Napoleão III. Este tipo de golpe também repercutiu em outros países, como Prússia, Áustria, Piemonte e Brasil. EXEMPLO No Brasil, a “Primavera dos Povos” vai inspirar a Revolta Praieira no Recife, em que grupos locais lutavam contraa monarquia e o controle político da família Cavalcante. 1871 Com a derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana, houve a queda do imperador Napoleão III e a adoção da Terceira República Francesa. Durante a negociação de termos de rendição, a população de Paris, sob a liderança da Guarda Nacional, queria resistir à invasão prússica. Com isso, declaram independência política do governo francês e criam a Comuna de Paris. SAIBA MAIS! A Primeira República Francesa surgiu durante a Revolução Francesa. Para saber mais sobre este evento, leia o artigo “A Revolução Francesa e seu eco”, de Michel Vovelle, disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ea/v3n6/v3n6a03.pdf>. De inspiração socialista, suas lideranças fazem uma série de reformas com o intuito de melho- rar as condições de vida dos trabalhadores parisienses, como a redução da jornada de trabalho, o aumento dos salários, a igualdade de gênero e a autogestão fabril. Alguns teóricos consideram que a Comuna de Paris foi a primeira experiência socialista conscientemente política na Europa. Após de consolidar a paz com o recém-criado Estado Alemão, herdeiro da Prússia, o governo francês, sob a liderança de Thiers, ataca e massacra a Comuna de Paris, restabelecendo a autori- dade da Terceira República na capital (HOBSBAWM, 2009). 1917 O historiador Eric Hobsbawm, define que o século XIX histórico perdurou até os anos da Pri- meira Guerra Mundial (1914 – 1918), pois a sociedade europeia manteve os mesmos costumes e hábitos até este evento. A Revolução Russa de 1917 é um desses exemplos. Considerada a primeira Revolução Socialista a perdurar na História, contrariando Marx, ocor- reu em um país agrário, com poucos centros urbanos industrializados e uma classe operária pequena, que vivia sob o governo absoluto opressor do Czar (imperador) Nicolau II. Apesar de avanços políticos nas Revoltas de 1905, a opressão do Czar ainda era grande. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 27 – EXEMPLO O governo socialista que se instaura dará origem à União das Repúblicas Socialis- tas Soviéticas (URSS), que durará de 1917 a 1991. Figura 4 – Bandeira Soviética Fonte:patrice6000/Shutterstock.com. Sob a liderança de Vladimir Lênin, operários de Moscou e Petrogrado, com o apoio dos cam- poneses, derrubam o governo liberal, o qual substitui o governo czarista, em fevereiro daquele ano, e deu início ao governo socialista (HOBSBAWM, 2009). Fechamento O século XIX na Europa e na América foi moldado sob tensão entre a classe burguesa indus- trial e os operários. Neste contexto, surgiram teorias políticas, revoltas a resoluções em 1848, 1871 e 1917. Nesta aula, você teve a oportunidade de: • compreender a formação social dos séculos XIX e XX; • conhecer as relações sociais que moldaram as revoltas e revoluções sociais no século XIX e início do século XX. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 28 – Referências BEER, Max. História do Socialismo e das lutas sociais.São Paulo:Expressão Popular, 2006. HOBSBAWM, Eric J. A Era das Revoluções. São Paulo: Paz e Terra, 2009. SANTOS, Daniel Moita, Flexibilização da Norma Trabalhista no Brasil, Universidade de Caxias do Sul, 2005. THOMPSOM, Edward P. A formação da classe operária inglesa: a árvore da liberdade. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1987. VOVELLE, Michel, A Revolução Francesa e seu eco, Estud. av., São Paulo, v. 3, n. 6, p. 25-45, Ago. 1989. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ea/v3n6/v3n6a03.pdf>. Acesso em: 15 fev. 2017. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 29 – Émile Durkheim Márcio Mendes da Luz Introdução Nesta aula, vamos analisar a obra do teórico Émile Durkheim e sua contribuição no surgi- mento da Sociologia, que nasceu da necessidade de o homem compreender as mudanças da sociedade, o conflito entre a modernidade e a tradição. Vamos começar? Então, acompanhe-nos e bonsestudos! Objetivos de aprendizagem: Ao final desta aula, você será capaz de: • Entender a formação da sociologia na sociedade industrial. 1 O surgimento da Sociologia A Sociologia é considerada como a mais nova de todas as Ciências Humanas (ARON,2007), surgindo no século XIX como consequência da industrialização, que transformava a sociedade e afetava as pessoas em seus aspectos econômicos, culturais e sociais. Mas o que é a Sociologia? É a ciência que analisa o ser humano em sua coletividade. Ou seja, neste tipo de estudo, analisamos os fenômenos sociais e a interação dos seres humanos com seu ambiente social. Figura 1 – Sociedade e interação Fonte: tattoostock/Shutterstock.com. Mas não há um consenso sobre a origem da Sociologia. Por quê? Alguns consideram que Montesquieu seja seu criador, enquanto que outros consideram Auguste Comte, por ter sido o pri- meiro a utilizar o termo Sociologie. Para ele, deveria haver uma ciência que conseguisse analisar a – 30 – TEMA 4 interação do ser humano com seus pares (na raiz da palavra: socio – coletividade, logos – ciência). No entanto, a contribuição de Emile Durkheim foi fundamental para a construção da Sociologia. Perceba que a Sociologia surgiu como uma curiosidade de teóricos de entender as mudan- ças que ocorriam na sociedade após a Revolução Francesa e Industrial. Lembre-se de que esses dois eventos permitiram a ascensão política da burguesia e consolidação do controle econômico com o nascimento do capitalismo industrial do século XIX. FIQUE ATENTO! A burguesia saiu da condição de classe subalterna para a condição de classe domi- nante econômica e politicamente após estes dois eventos. Essas mudanças ocorridas nos campos político e econômico afetaram diretamente o campo social. Por qual o motivo? O crescimento da urbanização com o êxodo rural aumentou o número de operários e acentuou a distinção social entre burgueses e operários. Consequentemente, gerou inúmeros conflitos entre as classes sociais. Essas mudanças acarretaram uma transformação brusca de comportamento social e, consequentemente, uma série de contrastes. A partir daquele momento, a sociedade estava em constante conflito entre a tradição e a modernidade. FIQUE ATENTO! Para Durkheim, estes conflitos sociais eram fruto da anomia e precisavam ser estu- dados e combatidos para a manutenção da sociedade em seu ritmo normal. A Sociologia desenvolveu-se na Europa com o intuito de compreender essas mudanças sociais. Como marco inicial, podemos destacar a criação por Durkheim do departamento de Socio- logia da Universidade de Bordeauxe a sua dissociação da Psicologia e Filosofia (ARON, 2007). SAIBA MAIS! Para mais informações sobre Durkheim e sua teoria sobre Sociologia, leia o texto disponível em: <http://wp.ufpel.edu.br/franciscovargas/files/2014/03/A-sociologia- de-%C3%89mile-Durkheim.pdf>. Hoje, a Sociologia é uma das principais ciências humanas, auxiliando no desenvolvimento do raciocínio crítico e na percepção da realidade e da sociedade onde vivemos, para que assim possamos interferir nela de forma consciente e solidária. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 31 – 2 Objeto de Estudo Sociológico – Os Fatos Sociais Para compreender melhor a construção do conhecimento humano, podemos dizer que ele passa por fases. A primeira é conhecida como pensamento mítico e foi dominante no período em que a sociedade humana desconhecia as razões de fenômenos naturais e isto era um mistério, logo, responsabilizava as divindades e seres sobrenaturais por esses acontecimentos (ISRAEL, 2009). Posteriormente, em busca de uma explicação mais lógica, foi desenvolvido o pensamento filosófico. Sobre o que ele trata? Isto ocorreu porque a sociedade humana estava em um desenvol- vimento social e político mais complexo, como a democracia ateniense. Somente no século XVIII, com a descoberta e formulação da teoria da gravidade de Isaac Newton, podemos afirmar que a sociedade ocidental entrou no pensamento científico (KHUN, 2001). O que seria o pensamento científico relacionado às ciências naturais? Podemos defini-lo assim, pois segue o seguinte método de análise: problematização– hipótese – análise – experi- mentação – comprovação – para tornar-se uma lei (KHUN, 2001). Por exemplo: a 1ª Lei de New- ton, a Lei de Lavoisier etc. Portanto, a ciência que surgiu a partir do século XVIII se diferencia das demais, pois há uma metodologia de análise. Figura 2 – Isaac Newton e a macieira: ele formula a teoria da gravidade, após supostamente uma maçã cair em seu colo Fonte: bilhagolan/Shutterstock.com. No século XIX, o que antes era restrito às Ciências da Natureza foi ampliado para Ciências Humanas pela Escola Alemã de Ciências Humanas sob a influência de filósofos e teóricos que, posteriormente, contribuíram para a formação da Escola Metódica Positivista, que também seria referência para Emile Durkheim. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 32 – SAIBA MAIS! A escola alemã (ou prussiana) e seus adeptos irão influenciar todas as ciências sociais no século XIX: além da Sociologia, também inspiram a História, a Geografia, a Filosofia, a Política e a Antropologia. Saiba mais sobre o assunto no artigo disponível em:< https://www.revistas.ufg.br/teoria/article/view/28629>. E o que vem a ser o Fato Social? Para Durkheim (2012), seria o objeto de estudo da Sociologia: as maneiras de agir, de pensar dos indivíduos dentro de uma norma social vigente na sociedade onde habita. Alguns são informalmente definidos pelo senso comum como valores, hábitos e cos- tumes. O método sociológico de Durkheim determina que o objeto de estudo seja tomado como “coisa”, para assegurar a imparcialidade e a objetividade do pesquisador. Podemos dividir as características dos Fatos sociais em três tipos (DURKHEIM, 2012). Acom- panhe quais são eles no quadro a seguir. Quadro 1 – Os Fatos Sociais segundo Durkheim Coercitividade São imposições de uma norma social que obrigam o indivíduo a ter certo padrão de comportamento. Podemos citar como exemplo o ato de vestir-se em nossa sociedade como um comportamento padrão obrigatório. Exterioridade São hábitos exteriores aos indivíduos, que já estão vigentes em nossa sociedade e que são, posteriormente, apropriados pelo indivíduo. Por exemplo, as normas sociais de etiqueta. Generalidade São costumes que estão generalizados nas sociedades, que definem não apenas o comportamento do indivíduo, como também da coletividade onde vive. Por exemplo, os rituais religiosos. Fonte: Elaborado pelo autor, adaptado de Durkheim, 2012. Por isso, perceba que todo o sistema de educação, seja ela formal ou informal, institucional ou familiar, consiste em passar fatos sociais às crianças para adequá-las às normas sociais em que vivemos. 3 A Solidariedade orgânica e mecânica Segundo a Sociologia (DURKHEIM, 2012), a vida em sociedade faz com que os seus indivíduos vivam conectados uns aos outros de forma harmônica. E essa ligação harmônica é denominada solidariedade. Saiba que sua função é manter intacta a coesão do grupo social e seus indivíduos. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 33 – Figura 3 – Coesão e solidariedade Fonte: PHOTOCREO Michal Bednarek/Shutterstock.com. Além disso, Durkheim (2012) definiu o termo solidariedade em dois conceitos distintos: Soli- dariedade Mecânica e Orgânica. Vejamos o que seria cada um deles? A Solidariedade Mecânica é comum em sociedades primitivas pré-industriais. Com pouco espaço para divergências e com um padrão social rígido, nessas sociedades há uma grande homo- geneidade social e cultural pautada pela religião e o senso comum. Este tipo de solidariedade é pautado pela semelhança que há entre os indivíduos. EXEMPLO As sociedades teocráticas da América Pré-colombiana possuíam uma solidarie- dade mecânica quando auxiliavam seus pares, mas atacavam os povos vizinhos diferentes para sacrifícios ritualísticos. Por outro lado, a Solidariedade Orgânica é aquela em que, conforme há a industrialização e a divisão social do trabalho, cria-se uma interdependência entre pessoas e cresce a individualidade de suas consciências. A coercitividade das sociedades primitivas dá lugar ao código legislativo que reforça os conceitos de justiça, liberdade e fraternidade. Então, agora, o que une as pessoas não é mais uma consciência coletiva repressora, mas sim interesses em comum com base em um código de regras e moral próprios. FIQUE ATENTO! O Iluminismo e a Revolução Francesa possibilitaram a consolidação da Solidarieda- de Orgânica em nossa sociedade. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 34 – Segundo Durkheim, a sociedade capitalista e a divisão social de trabalho que dela decorreu permitiu que os indivíduos pudessem viver uma Solidariedade Orgânica devido à criação de uma sociedade com base em direitos e deveres. Os seus componentes aceitam o papel que lhes cabe, desde que sejam atendidos por uma ordem social e justiça. Mas nem sempre a divisão social do trabalho ocorre como deveria, do contrário, pode resultar na desintegração social e enfraquecimento da consciência coletiva, que o autor nomeia de ano- mia. E este assunto será melhor estudado a seguir. 4 A anomia Segundo Durkheim (2012), a anomia é um estágio em que há uma desintegração social, oca- sionando um enfraquecimento da consciência coletiva. A anomia pode atingir um indivíduo ou até mesmo um grupo que passa a ser influenciado negativamente por ela, fazendo com que os integrantes comecem a agir de forma patológica socialmente, ocasionando comportamentos que fogem às normas sociais. O conceito desenvolvido por Durkheim será posteriormente também trabalhado por Robert K. Merton (ARON, 2007), o qual define que a anomia se intensifica a partir do momento em que o indiví- duo abandona as normas sociais estabelecidas para satisfazer seus desejos e impulsos. Isso ocorre porque há uma dissociação entre as expectativas do indivíduo e os seus métodos de realização. O comportamento anômico ocorre quando não há um suporte social ao indivíduo ou ao grupo em que ele pertence, resultando em comportamentos sociais que fogem das normas estabeleci- das. Este comportamento pode manifestar-se por meio de uma situação de coerção ou ausente de qualquer tipo de regulação (DURKHEIM, 2012). EXEMPLO O conceito de anomia pode explicar o que vemos em bairros periféricos, quando os índices de violência são maiores, pois a presença do Estado (saúde, segurança, educação) é menor que nos bairros mais centrais. Este é um conceito importante para pensarmos sobre a ausência de regras sociais e suas conseqüências para a manutenção e o funcionamento dos grupos. O conceito de anomia em Durkheim e Merton será, posteriormente, argumento de explicação do motivo pelo qual determinados grupos são mais expostos a comportamentos não condizentes com as normas sociais que outros. A crítica a estes estudos é que eles ocultam a existência de uma opressão hegemônica de certos grupos sociais, os quais estabelecem certas normas em detrimento dos demais grupos. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 35 – Fechamento Chegamos ao fim desta aula sobre Émile Durkheim. Vimos que seus estudos contribuíram para a Sociologia e aprendemos a sua relevância para compreender a sociedade contemporânea. Nesta aula, você teve a oportunidade de: • entender a formação da Sociologia na sociedade industrial. Referências ARON, Raymond. Etapas do Pensamento Sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2007. BENTIVOGLIO, Júlio. Cultura Política e Historiografia alemã no século XIX: A Escola Histórica Prus- siana e Historische Zeitschrift, Revista Teoria de História, Goiânia, a. 1, v. 3, Jun. 2010, p. 20-58. Disponível em: <https://www.revistas.ufg.br/teoria/article/view/28629/16070>. Acesso em: 15 fev. 2017. DURKHEIM, Émile. A Divisão Social do Trabalho. São Paulo:Martins Fontes, 2012. ISRAEL, Jonathan. Iluminismo radical – A filosofia e a construção da modernidade. São Paulo: Madras, 2009. KHUN, Thomas. Estrutura das revoluções científicas. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2001. VARGAS, Francisco E.B. A Sociologia de Emile Durkheim (1858 -1917). Pelotas, abr. 2015. Dis- ponívelem: <http://wp.ufpel.edu.br/franciscovargas/files/2014/03/A-sociologia-de-%C3%89mile- -Durkheim.pdf>. Acesso em: 09 fev. 2017. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 36 – Karl marx Márcio Mendes da Luz Introdução Neste tema, vamos estudar alguns aspectos sobre a vida e a obra do filósofo socialista do século XIX: Karl Marx (1818 – 1883), considerado um dos maiores filósofos e pensadores do seu tempo. Ao aprofundar seus estudos, Marx criou o Socialismo Científico ou Marxismo, o qual influen- ciaria os regimes socialistas estabelecidos no século XX. Nesta aula, vamos abordar alguns conceitos elaborados por Marx, como luta de classes e materialismo histórico; mais-valia; planificação social e sociedade comunista. Vamos começar? Objetivos de aprendizagem: Ao final desta aula, você será capaz de: • compreender a formação da sociedade industrial. 1 Burgueses e Proletários O século XVIII foi marcado pelo início da industrialização na Inglaterra que se espalhou para o restante da Europa Ocidental, EUA e Japão. Consequentemente, as mudanças econômicas e de técnicas de cultivos no campo, junto com a grande oferta e demanda de mão de obra nas indús- trias urbanas, atraíram um grande contingente de trabalhadores para as cidades, fazendo com os centros urbanos expandissem em um crescimento demográfico vertiginoso. FIQUE ATENTO! A industrialização também ocasionou não só a migração para as cidades, como a imigração intercontinental, deslocando 50 milhões de pessoas da Europa para a América entre 1850 e 1950. Mas a consolidação e a ascensão política e econômica da burguesia com as revoluções do século XVII e XVIII fizeram com que burgueses se distanciassem de seus subalternos, aumen- tando a exploração sobre os operários, deixando-os em péssimas condições de vida e trabalho. Perceba que justamente isso implicará em diversos conflitos entre operários e burgueses a partir do início do século XIX. – 37 – TEMA 5 Figura 1 – Operários, essenciais para a produção Fonte: fuyuliu/Shutterstock.com. De acordo com o conceito materialismo histórico, os processos de mudança social são gerados pela realidade material dos indivíduos (MARX; ENGELS, 1848). A história de toda sociedade até hoje é a história da luta de classes. O mundo sempre foi dividido entre opressores e oprimidos, seja na Roma Antiga, seja no Feudalismo ou no Capitalismo. Neste sentido, a burguesia apenas simplificou, mas não eliminou os antagonismos. Ela simplificou os antagonismos porque dividiu a sociedade em duas classes sociais apenas: a burguesia e o proletariado. A existência de classes sustenta-se na exploração não só econômica, mas social, política, intelectual etc. (QUINTANEIRO, 2000). EXEMPLO Para os teóricos marxistas, atualmente, a luta de classes acontece nos conflitos sociais, tais como a luta por moradia, educação e saúde. Marx percebeu que a luta de classes ocorria entre burgueses e proletariados e que o objetivo seria superar esta luta, o que ocorreria somente com a ascensão do proletariado ao poder, pois, assim, acabaria com a exploração burguesa. SAIBA MAIS! Para conhecer a teoria de Marx e de seu companheiro Engels, leia o Manifesto do Partido Comunista, disponível em: <http://www.histedbr.fe.unicamp.br/acer_ fontes/acer_marx/tme_07.pdf>. Você já deve ter ouvido falar em mais-valia ou de outras ideias marxistas, certo? Vamos conhecer mais uma delas? Continue conosco! SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 38 – 2 A mais-valia Engels, companheiro de Marx, ao analisar a situação penosa com que a classe operária vivia, em seu livro “As condições da classe trabalhadora inglesa”, relatou essas péssimas condições. Portanto, por meio de cartas e conversas, os dois desenvolveram o conceito de mais-valia, que, de certa maneira, já aparece no “Manifesto do Partido Comunista” (MARX; ENGELS,1848) e se conso- lida em “O Capital” (MARX, 2004). E o que seria a mais-valia? Segundo os autores, a mais-valia seria o ganho sobre a exploração do trabalho alheio. Resumindo: é o lucro que um patrão ganha sobre o trabalho de seu empregado. Mas muito além de uma explicação simplista, a crítica é direcionada ao fato de que este lucro é exorbitante comparado aos péssimos salá- rios que são pagos aos trabalhadores, que não lhes permite uma condição digna de vida. EXEMPLO Se um operário ganha mensalmente R$ 2.500,00 em uma fábrica de bicicletas e cada bicicleta sai do local para o lojista a um custo de R$ 250,00, este operário precisa fabricar 10 bicicletas para poder cobrir o seu provimento. Mas vamos supor que este operário fabrique 5 bicicletas por dia, totalizando ao final do mês, após 22 dias úteis de trabalho a fabricação de 110 bicicletas, totalizando um faturamento à empresa de R$ 27.500 e ganho de R$ 25.000, ou seja, 11 vezes mais que o neces- sário para o seu ganho mensal. Mesmo com a incidência desses gastos anterior- mente descritos (18% de imposto, 5% de energia e água, e 23% de matéria-prima), o ganho do patrão ainda seria de R$ 12.350,00. Para alguns, isso pode parecer natural, pois o patrão precisa lucrar. Aos olhos de Marx e Engels tal situação torna-se uma exploração, pois o patrão teve um ganho quase cinco vezes maior que seu empregado sem ao menos se desgastar na linha de montagem. O esforço foi todo do operário, mas, quem ganhou cinco vezes mais foi o burguês. Figura 2 – Karl Marx e o conceito da mais-valia mudaram os panoramas da história Fonte: Everett Historical/Shutterstok.com. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 39 – Perceba que Marx encontra na mais-valia a origem de toda a exploração que a classe burguesa faz ao operariado e para negar a naturalização desta prática, declara na obra “Manuscrito Econô- micos-Filosóficos” (MARX, 2008): “Se o trabalhador tudo produz, a ele tudo pertence”. Para Marx e Engels, a única forma de acabar com a exploração operária que o sistema capitalista burguês impunha seria oferecer o controle do poder para a classe operária, consequentemente, existiria um nivelamento social e, por fim, eliminaria a mais-valia e a luta de classes resultante dela. 3 A ideologia da igualdade De acordo com Quintaneiro (2000, p. 88), A sociedade capitalista baseia-se na ideologia da igualdade, cujo parâmetro é o mercado. Por um lado, o trabalhador que vende sua força de trabalho e por outro, o empregador que a paga com um salário. A idéia [sic] de ‘equivalência’ na troca é fundamental para a estabili- dade da sociedade capitalista. Os homens aparecem como iguais diante da Lei, do Estado, no mercado e assim eles se vêem [sic] a si mesmos. Mas, a mais valia faz com que este processo não seja equivalente, já que é do salário mal pago que o burguês obtém seu lucro. Logo, a ideologia da igualdade serve apenas para falsear a realidade. SAIBA MAIS! Sugerimos a leitura do texto da Andreia Galvão sobre o marxismo e os movimentos sociais para que você possa conhecer mais sobre o assunto. Disponível em: <http:// www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/artigo235artigo5.pdf>. Os autores também propunham que o Socialismo seria possível a partir do momento em que a população percebesse que o sistema capitalista não se sustentaria mais. Mas ao contrário dos utópicos que achavam que isto ocorreria naturalmente, para Marx e Engels esta mudança apenas ocorreria se houvesse uma revolução que colocasse a classe operária no poder. A partir do momento que o operariado estivesse no poder haveria a socialização das riquezas nacionais, por isso o uso do termo socialista, em que as pessoas ainda manteriam seus bens pes- soais e individualidades, mas o lucro das indústrias seria revertido para a sociedade, a educação pública seria universal e de qualidade. Além disso, seria feita a reforma agrária, em que toda a população poderia usufruir das mesmas condições de vida. Por acreditar que o socialismo apenas seria possível pela revolução proletária, Marx também propunha que o socialismo, primeiramente, iria consolidar-se em países que tivessem forte industriali-zação e uma classe operária já estabelecida, ou seja, possivelmente, algum país da Europa Ocidental. Apesar de experiências como a Comuna de Paris, a Revolução Socialista somente foi possível no século XX, após a morte de Marx e Engels e, apesar de inspirada na obra desses dois autores, ocorreram em sua larga maioria em países cuja classe operária era pequena e os camponeses maioria (Rússia, 1917; Mongólia, 1924; China, 1949; Cuba, 1959; Vietnã, 1963). SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 40 – FIQUE ATENTO! Entre os líderes e teóricos socialistas do século XX, de inspiração marxista, pode- mos citar Georg Lukacs, Vladimir Lênin, Leon Trotsky e Antônio Gramsci, todos com obras importantes publicadas. Falamos tanto em socialismo e é comum ouvirmos o termo comunismo também, não é mesmo? Você sabe a distinção entre eles? Então, acompanhe-nos para entender do que se trata. 4 O comunismo O termo comunismo vem de domínio comum. Para Marx, um exemplo disso são as comu- nidades primitivas. Por quê? Pois partilhavam suas ferramentas e esforços, não havia diferenças sociais e nem materiais entre seus habitantes. Para Marx e Engels, a volta ao comunismo seria o último estágio de evolução da sociedade humana, que ocorreria após a Revolução Socialista. Este seria o estágio da sociedade perfeita em que há a ausência de um Estado regulador das relações sociais e as pessoas seriam responsáveis pela sua autogestão. Perceba na figura a seguir a evolu- ção da sociedade humana na visão de Marx e Engels. Figura 3 – Evolução da sociedade humana, segundo Marx e Engels Sociedade Primitiva Sociedade Antiga Sociedade Feudal Sociedade Mercantilista Sociedade Capitalista Industrial Sociedade Socialista Comunismo • REVOLUÇÃO Fonte: Elaborada pelo autor, adaptada de Marx e Engels, 2005. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 41 – O modo de vida comunista seria igual ao das sociedades primitivas quando falamos em parti- lha, mas manteria o desenvolvimento tecnológico e industrial. A diferença em relação às sociedades capitalistas estaria nos meios de produção, os quais pertenceriam não mais ao burguês, mas sim à população, com a divisão igualitária de sua produção e dos rendimentos provenientes dela. FIQUE ATENTO! Mesmo nos países que se dizem socialistas atualmente, apenas a Coreia do Norte mantém o governo e economia socialistas.Os demais são classificados como mis- tos, isto é, politicamente socialistas e economicamente liberais. Mesmo com a intenção das Revoluções Socialistas no século XX (1917, na Rússia; 1949, na China; 1959, em Cuba e outros países), elas não atingiram o sucesso da sociedade comunista, pois nessas sociedades, mesmo ocorrendo a estatização das indústrias, reforma agrária e acessos da população à saúde e educação, que melhorou a qualidade de vida da população nesses países, os conflitos não conseguiram acabar com a distinção social. Figura 4 – Revolução Russa, outubro de 1917. Fonte: Everett Historial/Shutterstock.com. No caso dos países socialistas, sempre havia uma elite que regia o governo nesses países, no caso da União Soviética (que substitui a Rússia Czarista), esse grupo chamava-se Politurbo. Muitos teóricos definiam este socialismo como socialismo real, pois permeou politicamente todo o século XX. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 42 – Fechamento Vimos que a teoria socialista surge como uma reação e alternativa à opressão que a classe burguesa exercia sobre a classe operária social. Marx e Engels apropriaram-se do socialismo utó- pico, criaram o socialismo científico, termos e conceitos como materialismo histórico, mais-valia e comunismo, os quais permearam os estudos socialistas nos séculos XIX e XX. Nesta aula, você teve a oportunidade de: • compreender a formação da sociedade industrial. Referências ENGELS, Friedrich. A Situação da Classe Trabalhadora Inglesa. Tradução de B.A. Schuman. São Paulo: Boitempo Editorial, 2008. GALVÃO, Andreia. Marxismo e movimentos sociais. Campinas: Unicamp, 2011. Disponível em: <http://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/artigo235artigo5.pdf>. Acesso em: 15 fev. 2017. QUINTANEIRO, T. (Org.). Um toque de clássicos: Durkheim, Marx e Weber. 2. ed. Belo Horizonte: UFMG, 2000. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O Manifesto do Partido Comunista. Domínio Público, 1848, tradu- ção livre do espanhol. MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. MARX, Karl. Manuscritos Econômicos-Filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2008. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 43 – Max Weber Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva Introdução Max Weber (1864 -1920) é um dos mais importantes pensadores do século XX, e suas obras permitiram um novo olhar sobre a sociedade contemporânea, especialmente porque ele mostrou que a cultura tem um forte impacto na construção de instituições políticas e econômicas, e é defi- nidora da conduta humana. Max Weber teve uma ampla formação acadêmica, mas é, sobretudo, conhecido como um dos pensadores fundadores da ciência denominada Sociologia. Vamos conhecer mais sobre ele? Então, acompanhe-nos e bons estudos! Objetivo de aprendizagem: Ao final desta aula, você será capaz de: • reconhecer a cultura e a organização do capitalismo. 1 A ação social Para começarmos, o que é ação social? O conceito de ação social é central na obra de Max Weber e foi definido na sua obra magistral chamada “Economia e Sociedade” (1999). Por meio desse conceito, o autor quis entender de que forma o comportamento e ações de cada indivíduo são transformadores da sociedade que o cerca. Primeiro, vamos definir o conceito para, depois, explicá-lo melhor. Segundo Quintaneiro (2000, p. 107): O conceito de ação social é, portanto, um dos mais importantes da Sociologia de Weber. Ele o define como uma conduta humana (ato, omissão, permissão) dotada de um significado subjetivo dado por quem o executa, o qual orienta seu próprio comportamento, tendo em vista a ação – passada, presente ou futura – de outro ou de outros que, por sua vez, podem ser “individualizados e conhecidos ou uma pluralidade de indivíduos indeterminados e com- pletamente desconhecidos”. (WEBER, Economía y Sociedad, 1984, p. 18). FIQUE ATENTO! Ação social, na obra “Economia e Sociedade”, não é sinônimo de caridade. A tradução pode ser confusa do alemão para o português. Entenda melhor o conceito a seguir. – 44 – TEMA 6 Aron (2000, p. 491) define a ação social weberiana, isto é, definida por Weber, da seguinte forma: A ação social é um comportamento humano (...), em outras palavras, uma atividade interior ou exterior voltada para a ação, ou para a abstenção. Esse comportamento é a ação quan- do o autor atribui à sua conduta um certo sentido. A ação é social quando, de acordo com o sentido que lhe atribui o ator, ela se relaciona com o comportamento de outras pessoas. Para compreender esse conceito, observe a imagem. Figura 1 – Trabalho Fonte: Rawpixel.com/Shutterstock.com. Aqui podemos observar indivíduos trabalhando em grupo, ou seja, uma situação cotidiana. Além disso, perceba que se trata de uma ação que o indivíduo atribui um sentido pessoal. Por exemplo, talvez para o homem de óculos na imagem, trabalhar tenha um sentido de realização pessoal, de conquista de objetivos e sonhos. Por outro lado, talvez para a mulher, que aparece de costas, trabalhar seja cansativo e apenas uma obrigação. Note que cada indivíduo atribui um sen- tido para ação, que se relaciona com sua história de vida e personalidade. Figura 2 – Movimento Social Fonte: Peter Scholz/Shutterstock.com. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 45 – Por outro lado, nessa imagem, podemos observar um movimento social e indivíduos cla- mando por justiça social. Novamente, cada indivíduo atribuirá um sentido diferente para a ação social que empreende. Talvez para determinada pessoa se manifestar seja uma forma de mudar sua realidade social e, para outra, apenas uma maneirade aparecerna mídia. Não há, em Weber (1999), a intenção de fazer julgamentos de valores sobre a ação de cada indivíduo, mas apenas de compreender como cada ator social atribui um sentido diferente para suas atitudes. Além disso, o conceito de ação social possibilita-nos compreender como a sociedade é transformada pela ação de cada indivíduo (WEBER, 2000). SAIBA MAIS! Conheça mais sobre a obra “Economia e Sociedade” por meio do artigo “Máquinas petrificadas: Max Weber e a sociologia da técnica”, de Carlos Eduardo Sell. O material está disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678- 31662011000300006&lng=pt&nrm=iso>. Quando nascemos, um conjunto de regras nos é imposto. Aprendemos a diferença entre o certo e o errado. Aprendemos como nos vestir, como comer, como nos portar em diferentes situ- ações sociais. Aprendemos que devemos estudar, trabalhar, constituir uma família. Mas é a ação de cada indivíduo que transforma a sociedade. EXEMPLO O movimento social feminista possibilitou que as mulheres tivessem o direito ao voto. Ainda, as pesquisas realizadas por cientistas desenvolveram tecnologias que tornam a nossa vida mais confortável, por meio de uso de computadores, auto- móveis, smartphones. Sim, nascemos em uma sociedade de regras prontas, mas nossas ações sociais cotidianas têm o potencial de transformá-la. Aron (2000) explica ainda que as ações sociais se apresentam no contexto de relações sociais. Ou seja, transformamos a realidade à medida que interagimos com os outros, que criamos laços – sejam eles afetivos, familiares, profissionais, políticos, entre outros. SAIBA MAIS! No artigo científico “Max Weber e a história cultural da modernidade”, de Gangolf Hübinger, você poderá conhecer um pouco mais sobre Weber e sua obra. Sugerimos a leitura da Introdução (pág. 119 a 121), disponível em: < http://www.scielo.br/ scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-20702012000100007&lng=pt&nrm=iso>. Agora vejamos outras contribuições de Weber para a Sociedade Contemporânea? Acompa- nhe-nos para conhecer sobre a ética protestante e o espírito do capitalismo. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 46 – 2 A ética protestante e o espírito do capitalismo Onde surgiu o capitalismo como assunto na obra de Weber? A obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” (2000) teve como objetivo central explicar as condições culturais do surgi- mento desse sistema econômico, que colocou fim no sistema feudal de produção. Weber (2000) mostra que há duas importantes características nesse sistema econômico que rompem com o modelo anterior: o lucro e o trabalho assalariado. Dessa forma, mais do que meramente romper com o sistema de produção anterior, era preciso que ocorresse uma profunda mudança no plano da cultura, não é mesmo? Para isso, essa ruptura teria que levar a sociedade europeia da época a privilegiar o lucro e o trabalho, em detrimento de outros valores. Um dos métodos de Weber para realizar suas pesquisas em Sociologia da religião é o método estatístico e a construção de tipos ideais, que são instrumentos de abstração que se aproximam da realidade. EXEMPLO Esse “capitalista”, ao qual se refere Weber (2000), é o típico industrial que dedica sua vida à exploração do trabalho assalariado, almejando o crescimento da sua empresa. Primeiro de tudo, lembre-se de que, enquanto no modelo feudal havia o catolicismo, que des- prezava o lucro como algo pecaminoso e uma nobreza que desprezava o trabalho como algo indigno, por outro lado, no modelo do capitalismo, há uma ruptura com tais percepções. Weber (2000) mostra que, para que surgissem as condições que tornassem possível o capitalismo, era fundamental romper com a percepção de que o lucro era diabólico e de que o trabalho era despre- zível. Apenas uma cultura de valorização do lucro, que tornasse o trabalho como algo central na sociedade, poderia justificar a acumulação do capital. Weber (2000) percebeu que tais valores faziam parte do sistema de valores do protestan- tismo calvinista, que crescia na Europa no fim do sistema feudal. No entanto, o calvinismo ascé- tico valoriza o trabalho como algo que é requerido por Deus dos homens e autoriza o lucro, con- trariando justamente os princípios católicos. Riesebrodt (2012), sobre esse assunto, explica que até então não havia qualquer ideologia que defendia, por motivos religiosos, uma vida voltada ao trabalho e à obtenção de lucro. Conforme a análise de Riesebrodt (2012), Weber, ao estudar o protestantismo ascético, per- cebeu que este dava bastante ênfase ao trabalho e ao exercício profissional. Os calvinistas acre- ditavam que, aqueles que haviam sido escolhidos por Deus para serem salvos, poderiam ter a demonstração dessa escolha divina manifesta no sucesso financeiro. Posteriormente, essa con- cepção de vida voltada para o trabalho foi denominada de utilitarismo. Na obra de Weber (2000), o conceito de ascetismo é muito importante. Por quê? Pois o asce- tismo é uma concepção de vida com base na ideia de que a busca de qualquer prazer mundano não é correta e que o prazer deve ser evitado. Resumindo: uma vida ascética é aquela voltada exclusivamente ao trabalho, à família, à igreja. O trabalho é o centro daqueles indivíduos que pre- gam o ascetismo. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 47 – Figura 3 – Indivíduo ascético Fonte: ivector/Shutterstock.com. Não é difícil visualizarmos este tipo de indivíduo em nossa sociedade atual, certo? FIQUE ATENTO! Essa concepção ascética de vida promove um tipo de trabalhador que é compatível com o trabalhador assalariado das indústrias capitalistas. É o indivíduo que vive a sua vida dedicada, exclusivamente, ao trabalho. Façamos agora uma leitura atual do que representa o pensamento de Weber. Vamos pensar, por meio de um exemplo, como as percepções de Weber ainda são atuais. Figura 4 – O trabalho na contemporaneidade Fonte: SasinTipshai/Shutterstock.com. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 48 – Vamos refletir sobre esse soldador. Imagine que ele acorda muito cedo para entrar às 7 horas da manhã na fábrica. Trabalha oito horas diárias e ainda quatro horas no sábado. Trata-se de um trabalho insalubre, pelo qual ele não é bem remunerado. A insalubridade causa danos à sua saúde e ele pode ter problemas como dores nas costas, tendinite e problemas respiratórios causados pela inalação do pó. Esse homem tem uma família e não consegue sustentá-la apenas com o salá- rio de soldados. Ele faz “bicos” aos finais de semana para complementar sua renda. Esse homem vive uma vida ascética. O lazer não faz parte da sua rotina ou faz muito pouco, porque atividades de lazer são caras e ele tem pouco tempo para isso. Perceba que Weber escreveu sua obra há cerca de um século, mas o capitalismo continua exigindo uma vida voltada para o trabalho. O lucro ainda é fundamental para que o proprietário se mantenha no negócio, especialmente, tendo em vista o aumento da competição internacional e, para isso, geralmente paga mal ao trabalhador. Vivemos uma cultura voltada para o trabalho, por- que isso é essencial para a manutenção da vida com dignidade. FIQUE ATENTO! Weber (2000) analisa a famosa expressão “tempo é dinheiro”. Isso mostra o quanto o autor é contemporâneo, porque, atualmente, vivemos essa realidade, e a maior parte da nossa vida é voltada para a busca de renda por meio do trabalho. Hoje há um discurso midiático sobre a busca do prazer. Essa busca relaciona-se, especial- mente, com viagens, frequência a clubes e resorts, visitas a shoppings, bares e restaurantes, den- tre tantas outras atividades. Mas todas elas, de alguma forma, relacionam-se ao consumo e para consumi-las, é necessário trabalhar. Isso mostra como nossa sociedade mudou, mas também indica como o pensamento de Weber continua atual. Fechamento Conhecemos duas das mais importantes obras de Max Weber: “Economia e sociedade” e a “A ética protestante e o espírito do capitalismo”. Você aprendeu que o autor estudou a ação social e avaliouas condições culturais de surgimento do modo de produção capitalista. Nesta aula, você teve a oportunidade de: • conhecer oconceito de ação social e a forma pela qual os indivíduos atribuem sentido à sua conduta; • aprender sobre as condições culturais de origem do capitalismo e a relação entre capi- talismo e trabalho assalariado; • refletir sobre o ascetismo do protestantismo calvinista. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 49 – Referências ARON, Raymond. As Etapas do Pensamento Sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2000. HUBINGER, Gangolf. Max Weber e a história cultural da modernidade. Tempo soc., São Paulo, v. 24, n. 1, p. 119-136,2012. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S0103-20702012000100007&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 06 jan. 2017. QUINTANEIRO, Tania (Org.). Um toque de clássicos: Durkheim, Marx e Weber. 3. ed. Editora UFMG, 2000. RIESEBRODT, M. A ética protestante no contexto contemporâneo.Tempo soc., São Paulo, v. 24, n. 1, p. 159-182, 2012. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S0103-20702012000100010&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 21 dez. 2016. SELL, Carlos Eduardo. Máquinas petrificadas: Max Weber e a sociologia da técnica. Sci. Stud., São Paulo, v. 9, n. 3, p. 563-583, 2011. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_art- text&pid=S1678-31662011000300006&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 12 jan. 2017. WEBER, Max. Economia e Sociedade. Brasília: UNB, 1999. WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 2000. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 50 – Brasil: do engenho ao ouro Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva Introdução Toda ação de colonização implica em uma relação de poder de um povo sobre o outro. Assim, o foco desta aula é compreender de que forma Portugal deu início ao processo colonizador no Bra- sil, dominando os habitantes originais dessa terra conquistada. Os portugueses chegam ao Brasil com o intuito de explorar economicamente o espaço e obter lucro. Era o momento do capitalismo mercantil e a exploração de colônias e da mão de obra escrava, era a estratégia do capital. Por isso, vamos estudar o ciclo do açúcar e o ciclo do ouro. Então, acompanhe-nos e bons estudos! Objetivos de aprendizagem: Ao finalizar o estudo desse tema, você será capaz de: • conhecer o início do processo de colonização do Brasil; • compreender os impactos sociais destes dois ciclos econômicos na nossa sociedade; • entender a formação social da nossa sociedade atual. 1 Brasil e o Império Colonial português Primeiro de tudo, precisamos compreender: qual era a motivação dos povos da Península Ibé- rica, por exemplo, Portugal? A expansão marítima e a conquista de novos territórios no além-mar era o projeto nacional do portugueses (FAUSTO, 2000). Na época das grandes navegações, Por- tugal era um país unificado, já constituído como um Estado-nação e a monarquia estava sedenta por novas fontes de riqueza. Além disso, é importante ressaltarmos que Portugal possuía a tec- nologia necessária para desbravar os mares e encontrar novos territórios. E foi justamente nesse contexto que chegou ao território hoje denominado Brasil. Fausto (2002) enfatiza a importância de entendermos que o Brasil nunca foi descoberto pelos portugueses, já que muitos séculos antes de chegarem aqui já havia presença humana. Dessa forma, vamos nos referir ao evento como a chegada dos portugueses no Brasil, fato que deu início do processo colonizador, iniciado em 1500 e encerrado em 1822. Sabemos que os povos nativos do Brasil foram devastados pelos portugueses. Como o colo- nizador não chegou aqui para povoar o novo território, mas sim para explorar e dele tirar lucro, então a mão de obra indígena foi escravizada com esse propósito. Lembre-se de que colonizar é sempre sinônimo de estabelecer relações de poder e de dominação. O povo mais forte dominando aquele que, belicamente, era mais fraco. – 51 – TEMA 7 Figura 1 – Habitantes nativos do Brasil Fonte: Filipe Frazao/Shutterstock.com. Teixeira (2006) menciona que um dos significados do processo colonizador é a constituição da periferia do capitalismo mundial, por meio do que ele chama de escravismo-mercantil, que é uma forma de acumulação de capital utilizando a mão de obra escrava nas colônias. FIQUE ATENTO! Segundo Fausto (2002), o mercantilismo é uma forma de política econômica com as seguintes características: criação de estoques de ouros; política protecionista aos produtos nacionais; redução da tributação; criação de obstáculos para a entrada de bens estrangeiros, intervenção do Estado na economia e estímulo à exportação. Agora que já vimos como iniciou o processo de chegada dos portugueses ao Brasil, acompa- nhe-nos para conhecer mais sobre a ocupação do nordeste brasileiro e o açúcar como elemento principal dessa parte da história. 2 Brasil -ocupação do nordeste brasileiro (século XVI): o papel do açúcar neste processo Perceba que, no contexto do capital mercantil, predominou no Brasil uma economia agroe- xportadora com base na grande propriedade e na escravidão (FAUSTO, 2002). Nesse contexto, o cultivo e a exportação de cana-de-açúcar foi fundamental para que o empreendimento colonizador português tivesse sucesso. Sobre isso, Forman (2009, p. 32) explica: “A colonização portuguesa no Brasil baseou-se desde os seus primórdios no desenvolvimento de uma agricultura comercial de exportação. A produção de açúcar para o mercado europeu em expansão no século XVI estabele- ceu uma economia de “plantation” [...]”. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 52 – Figura 2 – Plantação de cana-de-açúcar Fonte: Isara Kaenla/Shutterstock.com. Forman (2009) explica que as plantations tinham como bases a monocultura e o trabalho escravo. Para o autor, esse sistema atendia aos interesses de Portugal, de gerenciar o novo terri- tório conquistado e de explorá-lo comercialmente. Fausto (2002) mostra que a plantation de cana- -de-açúcar iniciou na faixa litorânea do Nordeste e, dessa forma, também significou a origem do processo de urbanização na nova colônia. 3 A União Ibérica (1580 -1640) e seus efeitos no Brasil A chamada União Ibérica surgiu de uma sequência de fatos históricos que tiveram início em 1578. Conforme Cardoso (2011), nesse ano morreu o rei de Portugal, Dom Sebastião. A conse- quência disso foi uma crise do processo de sucessão do rei. Perceba que uma nação é sempre enfraquecida quando há crises sucessórias e, com isso, o trono foi reclamado pelo sobrinho de Dom Sebastião, o rei na Espanha, Felipe II. Cardoso (2011) explica que, com o apoio do exército espanhol, Felipe II torna-se rei de Portugal e Espanha, dando início à União Ibérica. Confira no mapa a seguir quais são as nações que compõem a Península Ibérica: Figura 3 – Península Ibérica Fonte: Naruedom Yaempongsa/Shutterstock.com. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 53 – Cardoso (2011, p.318-319) explica os desdobramentos desse processo: Durante 60 anos, Portugal e Espanha deram novo sentido à Monarquia Católica, contro- lando além das possessões europeias, grandes áreas ultramarinas na América, África e Ásia. Assim, nas primeiras duas décadas do século XVII o objetivo central da burocracia hispano-lusa era assegurar a posse das imensas regiões de ultramar, nas quatro partes do mundo conhecido, constantemente ameaçadas pelos concorrentes oceânicos: França, In- glaterra, e principalmente Holanda. No caso do Estado do Brasil essa política iria traduzir-se na criação de novas unidades administrativas que desembocariam na criação do Estado do Maranhão e Grão-Pará em 1621. A mudança da monarquia portuguesa não poderia deixar de ter consequências importantes em suas metrópoles, que acabaram sofrendo dos desdobramentos nefastos desses processos, conforme veremos a seguir. SAIBA MAIS! Conheça a União Ibérica com mais detalhes por meio do artigo “A conquista do Maranhão e as disputas atlânticas na geopolítica da UniãoIbérica”, de Alírio Car- doso (2011), disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S0102-01882011000100016&lng=pt&nrm=iso>. As mudanças profundas na política da metrópole não poderiam deixar de ter efeitos nas colô- nias, não é mesmo? Mas quais as consequências disso em nosso país? Vejamos alguns exemplos da União Ibérica para a colônia brasileira. EXEMPLO • Invasão holandesa no Nordeste. • Criação do Estado do Maranhão. • Fortalecimento das atividades agroexportadoras lucrativas. • Intensificação das bandeiras na conquista do interior do território brasileiro. E o que aconteceu com o interior do Brasil? Quando foi colonizado e por quem? É isso que veremos a seguir. Vamos lá? 4 Ocupação do interior brasileiro Precisamos ressaltar que, quando falamos em ocupação do interior brasileiro, isso não quer dizer que o interior do país estivesse vazio. Existiam sim tribos indígenas por todo o território. A ocupação a que nos referimos aqui é do europeu colonizador, aquele que chegou ao território antes habitado apenas por nativos. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 54 – FIQUE ATENTO! Para os indígenas que ocupavam o interior do Brasil, essa invasão do colonizador costumava ser bastante violenta. Era comum a prática do estupro das índias. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, iniciaram o processo de colonização pela costa do Atlântico, justamente pela possibilidade de exploração comercial dessas terras. Conforme veremos, o ciclo do ouro é que inicia os primeiros deslocamentos para o interior do território. De qualquer forma, por anos, o interior do Brasil permaneceu inexplorado. É importante lembrar que Portugal constituiu no Brasil uma colônia de exploração, não de povoamento. O que significa isso na prática? Quer dizer que a única justificava para a metrópole era explorar determinada região caso houvesse alguma atividade comercial que pudesse desenvolver ali. Mas, com o passar do tempo, não é difícil imaginarmos que cidades foram sendo criadas e atividades como pecuária e agricultura de subsistência passaram a fazer parte da colônia. EXEMPLO Um dos exemplos de povoamento do interior do Brasil foi a ação dos jesuítas. Faus- to (2002) explica que os jesuítas foram importantes na ocupação do interior do Bra- sil, com o objetivo de catequizar indígenas. Sobre isso, Fausto (2002, p. 93) explica: Em 1554, os padres Nóbrega e Anchieta fundaram no planalto a povo- ação de São Paulo, convertida em vila em 1561, aí instalando o colégio dos jesuítas. Separados da costa pela barreira natural, os primeiros colonizadores e os missionários se voltaram cada vez mais para o ser- tão, percorrendo caminhos com a ajuda dos índios e utilizando-se da rede fluvial formada pelo Tietê, o Paranaíba e outros rios. Os jesuítas tinham um propósito educacional e religioso com a ocupação, mas acabavam tirando o índio de sua própria cultura, ao forçá-los a se tornarem cristãos. Os estudos de John Monteiro (1994) sobre a resistência dos povos indígenas chamam a atenção para o fato de que ainda que muitos índios tenham morrido por causa das doenças e pelos assassinatos causados pelos colonizadores ou mesmo estimulados por estes, por meio de conflitos entre tribos indígenas, não podemos esquecer de sua resistência frente aos brancos colonizadores. Agora, continue conosco para compreender um pouco mais sobre o ouro e o seu impacto na trajetória do Brasil. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 55 – 5 Sociedade do Ouro Os interesses de Portugal na colônia brasileira sempre foram econômicos, visando ao enri- quecimento da Corte. Como no século XVI não foram encontrados metais preciosos no Brasil, a metrópole decidiu utilizar a agricultura para enriquecimento. Mas, com a descoberta do ouro, os interesses iniciais da metrópole de achar metais preciosos voltaram a ser prioridade, pois, con- forme Fausto (2002), isso ajudaria a equilibrar a balança comercial entre Portugal e Inglaterra. Para a colônia, a descoberta do ouro significou a ampliação do processo migratório, formada por indivíduos que vinham de Portugal e das ilhas do Atlântico para o Brasil. Furtado (2002), por sua vez, explica que é a pobreza de Portugal, no século XVIII, que pode nos ajudar a entender a rapi- dez com que ocorreu a corrida pelo ouro no interior da colônia. Furtado (2002, p. 78) ainda afirma que “A exportação do ouro cresceu em toda a primeira metade do século e alcançou seu ponto máximo em 1760, quando atingiu cerca de 25 milhões de libras. Entretanto, o declínio do terceiro quartel do século foi rápido e, por volta de 1780, não alcançava um milhão de libras”. Figura 4 – A exploração do ouro no Brasil e os benefícios para Portugal Fonte: Andrey Burmakin/Shutterstock.com. Furtado (2002) explica ainda que a mineração foi fundamental para o desenvolvimento de uma nova forma de ocupação do novo território, agora composta primordialmente por homens livres, especialmente migrantes portugueses que vinham para o Brasil em busca de ouro e de sonhos de grandes riquezas. Com isso, perceba que surge um pequeno mercado interno na região mineira, que possibilitava a sobrevivência desses homens livres. Um exemplo é o surgimento da pecuária, necessária para a alimentação dessa população que chegava a Minas Gerais. FIQUE ATENTO! O ciclo do ouro foi particularmente lucrativo para Portugal porque a metrópole cobra- va impostos do ouro encontrado, o chamado quinto do ouro, equivalente a 20% do valor total. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 56 – Um dos desdobramentos da imigração portuguesa para a região mineradora durante o perí- odo colonial foi o desenvolvimento do mercado interno. As regiões onde foi encontrado ouro localizam-se, especialmente, em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Contudo, ainda no fim do século XVIII, o metal precioso começou a se esgotar. Daí, Portugal voltou a seu projeto de obter lucro por meio da lavoura. Logo após o encerramento do ciclo do ouro, teve início o ciclo do café. É importante ressaltar que o ciclo do ouro incentivou o povoamento do interior do Brasil, sobretudo nas Minas Gerais. Fechamento A história brasileira é usualmente contada a partir da chegada do colonizador europeu às nossas terras, mas é fundamental lembrar que os povos que aqui habitavam têm sua própria his- tória, apesar de não apresentarem registros escritos. A história da chegada do colonizador narra a exploração europeia sobre as terras brasileiras, principalmente a partir da análise dos ciclos econômicos e da escravidão. Nesta aula, você teve a oportunidade de: • conhecer o início do processo de colonização do Brasil; • compreender os impactos sociais destes dois ciclos econômicos na nossa sociedade; • entender a formação social da nossa sociedade colonial. Referências CARDOSO, Alírio. A conquista do Maranhão e as disputas atlânticas na geopolítica da União Ibé- rica (1596-1626). Rev. Bras. Hist. São Paulo, v. 31, n. 61, p. 317-338, 2011. Disponível em: <http:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882011000100016&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 6 jan. 2017. FAUSTO, Bóris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2002. FORMAN, Shepard. Camponeses: sua participação no Brasil [online]. Rio de Janeiro: Centro Edels- tein de Pesquisas Sociais, 2009. Além da casa-grande e da senzala: um campesinato no Brasil. pp. 32-51. Disponível em: <http://books.scielo.org/id/c26m8/pdf/forman-9788579820021-03.pdf>. Acesso em: 6 jan.2017. FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. São Paulo: Cia Editora Nacional, 2001. TEIXEIRA, Rodrigo Alves. Capital e colonização: a constituição da periferia do sistema capitalista mundial. Estud. Econ. São Paulo, v. 36, n. 3, p. 539-591, Set. 2006. Disponível em: <http://www. scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-41612006000300005&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 26 dez. 2016. MONTEIRO, John. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA– 57 – O europeu e a ocupação territorial Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva Introdução A colonização portuguesa no Brasil faz parte do processo de consolidação do capitalismo mercantil e, portanto, a utilização da terra e a exploração de metais preciosos também faziam parte da necessidade de acumulação de capital. Dessa forma, perceba que tudo o que era feito aqui no Brasil tinha como fundamento o enriquecimento da Corte portuguesa. Enquanto na colônia inglesa na América – os Estados Unidos – estabeleceu-se uma colô- nia de povoamento, no Brasil, é estabelecida uma colônia de exploração. Mesmo que tempos depois o Brasil tenha sido povoado, ainda assim o território era para atender os interesses colo- nizadores. Essa é a principal reflexão que propomos realizar nestaaula. Vamos começar? Então, acompanhe-nos! Objetivos de aprendizagem: Ao final desta aula, você será capaz de: • analisar o processo de colonização do Brasil; • compreender a influência portuguesa na nossa formação social e cultural. 1 Aspectos da sociedade colonial açucareira Se compararmos o colonizador português com outros povos colonizadores, é possível per- ceber que eles foram pioneiros em tornar a colônia uma produtora de riquezas (FREYRE, 2002). Enquanto os demais colonizadores se desgastavam em busca de metais precisos, os portugueses iniciaram o cultivo da cana-de-açúcar. Freyre (2002, p. 91) mostra as primeiras características da sociedade colonial açucareira: […] a colônia de plantação, caracterizada pela base agrícola e pela permanência do colono- na terra, em vez do furtuito contato com o meio e com agente nativa […]. A utilização e o desenvolvimento de riqueza vegetal pelo capital e pelo esforço particular; a agricultura; a sesmaria; a grande lavoura escravocrata. – 58 – TEMA 8 Figura 1 – Escravidão Fonte: Everett Historical/Shutterstock.com. O autor explica que foi justamente a união dessas características que possibilitou que Portu- gal tivesse aqui no Brasil uma colônia agrícola e estável, fornecedora de riquezas para a metrópole. Assim, explica Freyre (2002), ao contrário das colônias espanholas, no Brasil formaram-se muitas famílias e, com isso, grande mistura de raças. O autor ainda explica que: […] a formação brasileira tem sido, na verdade [...], um processo de equilíbrio de antagonis- mos. Antagonismos de economia e de cultura. A cultura europeia e a indígena. A Africana e a indígena. A economia agrária e a pastoral. A agrária e a mineira. O católico e o herege. O jesuíta e o fazendeiro. O bandeirante e o senhor de engenho. (FREYRE, 2002, p. 115). FIQUE ATENTO! Gilberto Freyre foi um grande pesquisador sobre a vida colonial brasileira. Sua obra “Casa-grande e Senzala”, que estamos estudando aqui, é uma das mais importan- tes pesquisas sobre o Brasil colônia. Marquese (2006) explica que no período de construção dos engenhos do açúcar, o coloni- zador utilizou a mão de obra indígena de forma mais sistemática. Contudo, depois da metade do século XVI, os primeiros africanos chegaram à colônia e passaram a ser utilizados na lavoura da cana. Com o crescimento do tráfico negreiro, milhares de escravos chegaram ao Brasil e sabemos que os engenhos da cana renderam muito dinheiro para Portugal naquela época. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 59 – SAIBA MAIS! Para conhecer mais sobre a sociedade colonial açucareira, sugerimos a se- guinte leitura do artigo “A dinâmica da escravidão no Brasil: resistência, trá- fico negreiro e alforrias, séculos XVII a XIX”, de Rafael de Bivar Marquese. O material está disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S0101-33002006000100007&lng=en&nrm=iso>. Agora, vejamos como funcionava a relação de dominação que existia entre os europeus e os povos dominados? Continue conosco! 2 Relação de dominação: europeus, indígenas e negros Perceba que o homem europeu que chegou ao Brasil era belicamente mais forte que os povos indígenas que habitavam o território. Evidentemente, não era interessante para Portugal que os povos nativos se considerassem donos da terra, já que, assim, não poderiam explorá-la como dese- jassem, não é mesmo? A solução para isso foi a dominação dos povos indígenas habitantes do ter- ritório por meio do extermínio ou da escravidão. As ações de catequização também tinham como objetivo torná-los mais dóceis aos interesses da metrópole. Sobre isso, Fausto (2002, p. 49) explica Ela consistiu no esforço em transformar o índio, através do ensino, em ‘bons cristãos’, reu- nindo-os em pequenos povoados ou aldeias. Ser ‘bom cristão’ significava também adquirir os hábitos de trabalho dos europeus, com o que se criaria um grupo de cultivadores indíge- nas flexível às necessidades da Colônia. FIQUE ATENTO! Enquanto o homem europeu desenvolvia uma economia de produção de excedente para obtenção de lucros, o índio tinha uma economia de subsistência e de caráter comunitário. Ou seja, produziam aquilo que era necessário para suas necessidades, sem que fosse preciso a exploração comercial. Por outro lado, os negros chegaram da África ao Brasil por meio do tráfico. Como não eram considerados seres humanos, então, eram vendidos como mercadoria e considerados propriedade, assim como gado e terra. A Igreja Católica não impunha obstáculos à escravidão dos negros, por isso, não havia problemas para a utilização dessa mão de obra. Sobre isso Fausto (2002, p. 50) explica que (...) ao percorrer a costa africana no século XV, os portugueses haviam começado o tráfico de africanos, facilitado pelo contato com sociedades que, em sua maioria, já conheciam o valor mercantil do escravo. Nas últimas décadas do século XVI, não só o comércio negreiro estava razoavelmente montado como vinha demonstrando lucratividade. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 60 – O processo colonizador, não apenas o português, mas a colonização de maneira geral, acentuou o chamado etnocentrismo europeu. O que é isso? Etnocentrismo é uma percepção que define que determinada etnia é superior às demais. O etnocentrismo europeu definia o índio e o negro inferiores aos povos europeus e, com isso, justificavam todo tratamento desumano dado àqueles indivíduos. Figura 2 – O etnocentrismo europeu e a dominação dos povos indígenas e africanos Fonte: RomoloTavani/Shutterstock.com. Atualmente, vivemos em uma sociedade de valorização da diversidade e que, consequente- mente, condena a discriminação. Mas o etnocentrismo deixou marcas até hoje na sociedade brasi- leira, que ainda traz o preconceito em sua bagagem e faz a distinção entre pessoas negras e indígenas. 3 Características de ocupação e urbanização dos sé- culos XVI e XVII Primeiramente, saiba que os índios que habitavam o Brasil na época da chegada do europeu eram povos tribais e não viviam em cidades. Eles moravam em meio à selva, de onde tiravam seu alimento. Figura 3 – Florestas eram o território dos indígenas Fonte: GalynaAndrushko/Shutterstock.com. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 61 – Dessa forma, podemos dizer que a urbanização e a criação de cidades são empreendimen- tos típicos do colonizador português.Além disso, a ocupação do Brasil e, posteriormente, o pró- prio processo de urbanização, ocorreram porque era economicamente interessante para a Corte. Assim, Maricato (2000) enfatiza que o Brasil já possui cidades grandes no período colonial, ao contrário de outras colônias americanas. É fundamental compreendermos que o processo de ocupação do Brasil seguiu o da explora- ção comercial do território. Como assim? Significa que iniciou na costa do Atlântico, na região da lavoura da cana e, posteriormente, seguiu para Minas Gerais, na região do ouro. Oliven (2010, p.9) explica a importância da criação de cidades para o desenvolvimento do capitalismo: “Para Weber, a cidade é pré-condição do capitalismo na medida em que é necessária para a existência do mesmo, mas mais tarde o desenvolvimento do capitalismo intensifica o crescimento das cidades”. Porisso, para Portugal acumular capital e, consequentemente, ampliar as receitas da monarquia, per- ceba que foi fundamental ocupar e urbanizar o país. SAIBA MAIS! Conheça mais sobre a formação do povo brasileiro a partir dodocumentário “O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro, com base na obra homônima de um dos mais impor- tantes antropólogos brasileiros. O material está disponível em: <https://www.you- tube.com/watch?v=wfCpd4ibH3c&list=PLyz4LUAInoJJgiAJBM-MqfA69gClLt1uz>. Continue conosco para aprendermos mais sobre a expansão da fé católica e a sua relação direta com o europeu. Vamos lá? 4 O europeu e a expansão da fé católica No período colonial, não havia separação entre Igreja e Estado em Portugal (FAUSTO, 2002). Assim, a Igreja Católica foi uma importante instituição na organização da vida colonial. EXEMPLO O Brasil, atualmente, é um país em que Estado e Igreja estão separados. Nenhu- ma religião pode interferir em assuntos de Estado e o Estado não pode utilizar ar- gumentos religiosos para escrever uma lei. Mas não era assim durante o período colonial. Estado e Igreja católica mantinham profundas relações de interferência. Um dos mais importantes papéis que a Igreja Católica exerceu no Brasil foi de catequização dos povos indígenas, por meio da Companhia de Jesus e de seus padres jesuítas. Shigunov Neto e Maciel (169, p.172) enfatizam que SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 62 – O trabalho de catequização e conversão do gentio ao cristianismo, motivo formal da vinda dos jesuítas para a Colônia brasileira, destinava-se à transformação do indígena em “ho- mem civilizado”, segundo os padrões culturais e sociais dos países europeus do século XVI, e à subsequente formação de uma “nova sociedade”. Essa preocupação com a transforma- ção do indígena em homem civilizado justifica-se pela necessidade em incorporar o índio ao mundo burguês, à “nova relação social” e ao “novo modo de produção”. Desse modo, havia uma preocupação em inculcar no índio o hábito do trabalho [...]. Portanto, perceba que os objetivos da Companhia de Jesus estavam alinhados aos objetivos da metrópole portuguesa, ou seja, utilizar a mãodeobra indígena na lavoura da cana-de-açúcar e, com isso, tornar os empreendimentos portugueses mais lucrativos. Figura 4 – Padre Antônio Vieira, missionário no Brasil no século XVI Fonte: Olga Popova/Shutterstock.com. Perceba que a imagem retrata Padre Antônio Vieira, que esteve no Brasil no século XVII. Ele era um dos jesuítas que se manifestava contra a escravidão, mas era a favor da catequização dos índios. FIQUE ATENTO! Qualquer ação que obrigasse o indígena a abandonar a sua própria cultura para interesses de outros, que não seus próprios, é uma ação de violência, ainda que a violência física propriamente dita não fosse utilizada. Hoje as políticas públicas brasileiras em relação aos índios manifestam-se justamente no oposto daquilo que fez o colonizador. Hoje os índios têm sua cultura valorizada e até ensinada nas escolas. Ninguém pode obrigar um índio a ser cristão. Os índios têm o direito a escolher sua religião. Mas, ainda há muito o que se fazer na direção da construção de um mundo mais respeitoso entre as diferentes culturas que habitam o território brasileiro. E precisamos lidar com as conse- qüências nefastas do massacre imposto aos indígenas pelos colonizadores e aos povos africanos que foram escravizados no Brasil, se quisermos construir uma nova história. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 63 – Fechamento Estudamos mais detalhes da História do Brasil colônia, dando ênfase à sociedade que se estabeleceu no Nordeste, com o cultivo da cana. Nesta aula, você teve a oportunidade de: • analisar o processo de colonização do Brasil; • compreender a influência portuguesa na nossa formação social e cultural. Referências FAUSTO, Bóris. História do Brasil.São Paulo: Edusp, 2002. FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala. São Paulo: Record, 2002. MARICATO, Ermínia. Urbanismo na periferia do mundo globalizado: metrópoles brasileiras. São Paulo Perspec., São Paulo, v. 14, n. 4, p. 21-33, Out. 2000. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?s- cript=sci_arttext&pid=S0102-88392000000400004&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 11 jan. 2017. MARQUESE, Rafael de Bivar. A dinâmica da escravidão no Brasil: resistência, tráfico negreiro e alforrias, séculos XVII a XIX. Novos estud. - CEBRAP, São Paulo, n. 74, p. 107-123, Mar. 2006. Disponível em: <http:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002006000100007&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 11jan. 2017. OLIVEN, Ruben George. Urbanização e mudança social no Brasil [online]. Rio de Janeiro: Centro Edels- tein, 2010. Disponível em: <http://static.scielo.org/scielobooks/z439n/pdf/oliven-9788579820014. pdf>. Acesso em: 11 jan. 2017. SHIGUNOV NETO, Alexandre. MACIEL, Lizete Shizue Bomura. O ensino jesuítico no período colonial brasileiro: algumas discussões. Educ. rev., Curitiba, n. 31, p. 169-189, 2008. Disponível em: <http:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40602008000100011&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 11 jan.2017. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 64 – Colonização: cultura indígena e a luta pela posse da terra Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva Introdução Os europeus chegaram ao continente americano no século XV. Antes disso, porém, considere que foi construído um imaginário sobre o que poderia haver além dos mares que viam em terra firme. Assim, nesta aula, vamos estudar justamente o imaginário europeu sobre o além-mar e o que esse europeu imaginava sobre o homem que encontraram quando finalmente cruzaram os mares, ou seja, o imaginário do europeu sobre o índio. Também vamos entender como o olhar do europeu colonizador sobre o índio foi bastante preconceituoso e justificou o genocídio desses povos e a expropriação de suas terras. Vamos começar? Então, acompanhe-nos e bons estudos! Objetivos de aprendizagem: Ao final desta aula, você será capaz de: • compreendero impacto da presença europeia na sobrevivência indígena; • discutir sobre a influência e presença da cultura indígena na nossa formação. 1 Presença pré-cabralina A historiografia denominou de pré-cabralino o período histórico anterior à chegada dos por- tugueses ao Brasil, período este em que o Brasil era habitado pela sua população nativa. As pesquisas em arqueologia indicam que o Brasil já era habitado há milhares de anos antes da chegada por portugueses. Neves (2015) afirma que os arqueólogos encontraram cerâmicas que foram produzidas há 3.800 anos na América do Sul. FIQUE ATENTO! Neves (2015) aponta que as pesquisas arqueológicas indicam que a América do Sul é habitada há 11 mil anos, no mínimo, e que esta foi a última região a ser ocupada por agrupamentos humanos no planeta. O autor destaca ainda que os grupos humanos dessa região mostravam grande diversidade social, cultural, econômica e política, não sendo, portanto, grupos destituídos de cultura, como pensavamos colonizadores. – 65 – TEMA 9 Figura 1 – Mapa da América do Sul feito no século XIX Fonte: mattalia/Shutterstock.com. Neves (2015) explica que a América do Sul é uma região do planeta que ficou em grande iso- lamento geográfico. Por quê? Pois pesquisas em arqueologia indicam que o subcontinente ficou isolado até a chegada dos colonizadores no século XVI. Assim, muito embora seus grupos formados sejam pequenos, a América do Sul, quando houve a chegada dos europeus, tinha grupos de imensa riqueza cultural e bastante diferentes entre si, inclusive falando idiomas diferentes. A figura a seguir mostra um exemplo da riqueza cultural desses povos, índios do Xingu em um ritual de dança. Figura 2 – Ritual de dança da tribo Xingu Fonte: celio messias silva/Shutterstock.com. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 66 – A riqueza cultural das tribos brasileiras era tão grande que antropólogos estrangeiros vieram estudar essas tribos. Lévi-Strauss, um dos mais importantes antropólogos de todos os tempos,escreveu o livro “Tristes Trópicos”, publicado pela primeira vez em 1955, sobre a cultura indígena brasileira, especialmente das tribos Bororo e Nambiquara. SAIBA MAIS! Conheça mais sobre a cultura das populações nativas do Brasil por meio do artigo “Existe algo que se possa chamar de “arqueologia brasileira?”, de Eduardo Góes Neves. O material está disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S0103-40142015000100007&lng=pt&nrm=iso>. Agora conhecemos estudos científicos que mostram a riqueza da cultura indígena pré-cabra- lina. Vamos conhecer o imaginário bastante etnocêntrico do europeu sobre ela? Acompanhe-nos! 2 Imaginário europeu sobre os indígenas Perceba que o homem europeu, ao olhar para o grande e desconhecido mar, criou um ima- ginário do que poderia haver ali. Souza (1986) explica que nesse imaginário prevalecia a ideia de mares e mundos povoados por seres diabólicos e monstros. Sobre isso, explica Souza (1986, p. 21): “Numa época em que ouvir valia mais do que ver, os olhos enxergavam primeiro o que se ouvia dizer; tudo quanto se via era filtrado pelos relatos de viagens fantásticas, de terras longín- quas, que homens monstruosos que habitavam os confins do mundo conhecido”. Figura 3 – Imaginário europeu sobre os confins do mar Fonte: Melkor3d/Shutterstock.com. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 67 – As desbravar os mares, os europeus perceberam que não havia monstros nem seres diabólicos. Porém, a chegada ao Novo Mundo gerou um novo encontro: com o indígena. Todorov (1999) afirma que a chegada do europeu às Américas gerou o encontro com o “outro”, ou seja, com seres humanos absolutamente diferentesdo homem europeu em termos culturais. E esse encontro gerou conflitos. Todorov (1999, p. 4) explica que “O encontro nunca mais atingirá tal intensidade, se é que esta é a palavra adequada. O século XVI veria perpetrar-se o maior genocídio da história da humanidade”. Veja a seguir alguns exemplos do olhar europeu sobre os indígenas. EXEMPLO O colonizador que chega às Américas é sempre cristão e considera o catolicismoa úni- ca religião legítima. Este é o primeiro estranhamento, que leva o europeu a julgar que, portanto, o índio não tinha religião e, como consequência, não tinha alma. Outro estra- nhamento é a própria nudez, pois, segundo Todorov (1999), uma das principais marcas da cultura europeia é o uso de roupas. Não há a percepção, por parte do europeu, de que a ausência de vestimentas ou vestimentas diferentes também são marcas culturais. Todorov (1999) aponta que há antagonismos no imaginário europeu sobre o índio, ora visto como o “bom selvagem”, como um ser de inocência e incorporado à natureza, ora visto como um povo preguiçoso e avesso ao trabalho. Todorov (1999, p. 45), ao estudar as impressões de Colombo sobre os índios, coloca que: Colombo, nesse momento, esquece sua própria impressão, e declara logo depois que os índios, longe de serem generosos, são todos ladrões (inversão paralela àquela que os tinha transformado de melhores homens do mundo em selvagens violentos). Imediatamente, impõe-lhes castigos cruéis, os mesmos que se costumava então aplicar na Espanha. Todorov (1999) constata, então, que no imaginário do colonizar há duas visões sobre os índios, conforme você poderá verificar no esquema a seguir. Quadro 1 – Duas percepções dos portugueses sobre os índios PRIMEIRA PERCEPÇÃO • Os índios são seres humanos, então, podem assimilar facilmente os valores europeus. SEGUNDA PERCEPÇÃO • Os índios não são seres humanos e a cultura europeia seria superior. Fonte: Adaptada de Todorov, 1999. Depois de compreendermos como era nosso território do ponto de vista de ocupação humana e a percepção do europeu colonizador, agora, vejamos quais os impactos causados pela ocupação europeia entre os séculos XV e XVIII. Acompanhe-nos! SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 68 – Para saber mais sobre a colonização e os indígenas, sugerimos a leitura dos textos do historiador John Monteiro, em especial “Negros da terra” (1994). O autor ajudou a construir uma historiografia que passou a considerar os índios como sujeitos históricos, deixando de serem observados como vítimas passivas e sem resistência ao processo de colonização brasileira. A pesquisa de Monteiro ressalta as rebeliões anticoloniais dos indígenas, ou seja, a capacidade de resistência indígena frente à domi- nação portuguesa nos séculos XVI e XVII, com os assaltos à vila de São Vicente e às fazendas das redondezas. O autor reconhece que as rebeliões não chegaram a alterar significativamente as relações entre senhores e oprimidos, mas serviram para mostrar os limites do sistema escravista, obrigando “[...] os administradores a reconhecer que os índios eram mais que objetos passivos a serem explorados desenfreadamente” (MONTEIRO, 1984, p. 36). Segundo Maria Regina Celestino Almeida (2013), para Monteiro “[...] dar voz e vez aos índios na condição de agentes históricos é tarefa dos historiadores e deverá resultar no enterro definitivo de uma historiografia, muitas vezes, conivente com políticas de apagamento de identidades indígena”. 3 Impactos da ocupação europeia século XV-XVIII O fim da Idade Média e o começo da Idade Moderna marcam o período das grandes navegações, que levaram à chegada dos europeus no continente americano. Fausto (2002) observa que o primeiro impacto do processo colonizador é o desenvolvimento técnico, como podemos ver no exemplo. EXEMPLO Fausto (2002) aponta que tecnologias de navegação foram desenvolvidas pelos europeus, para que pudessem desbravar os mares, dentre elas: o quadrante, o as- trolábio e as caravelas. Fausto (2002) também aponta que o processo colonizador significou uma profunda mudança na mentalidade europeia, que abandona ideias equivocadas do homem medieval e passa a bus- car o conhecimento em sua forma empírica, ou seja, aquele conhecimento obtido por meio da experiência. O monopólio da Igreja sobre a interpretação da realidade é questionado e o antropo- centrismo entra em voga. O que isso quer dizer na prática? Significa que o homem passa a ser o centro da explicação, não mais os conceitos teológicos. FIQUE ATENTO! O Antropocentrismo significou uma profunda modificação no homem europeu, agora não mais submetido aos dogmas católicos e impossibilitado de questioná- -los. O europeu ganha sua autonomia de pensamento e se emancipa da Igreja. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 69 – O processo de ocupação também teve como resultado para o homem europeu grande desenvolvimento econômico e, por parte das monarquias europeias, acumulação de capital. Mas, se para o europeu a colonização foi benéfica, ela foi perversa para os povos nativos, que, conforme já vimos, foram dizimados. 4 Uma população sem direito à terra e à fé Ao analisar a relação entre colonizadores europeus e povos indígenas, Todorov (1999) utiliza de três conceitos para avaliar essa relação: compreender, tomar e destruir. Trata-se, evidente- mente, de uma recusa em compreender, uma recusa em aceitar o outro como diferente, mas igual em valor. Não há sequer tolerância para com o outro indígena. Há espaço para tomar a terra que era dos povos indígenas e de destruir sua cultura. SAIBA MAIS! Conheça a Fundação Nacional do Índio - uma instituição que tutela os direitos dos indígenas – no seguinte endereço eletrônico: <http://www.funai.gov.br/>. No caso brasileiro, o território que era ocupado pelos indígenas, de onde tiravam sua alimen- tação, foi utilizado para fins comerciais, especialmente para agricultura de exportação. Tirando seu território, o europeu tirou as próprias condições de sobrevivência desses povos. Mas não foi só a terra que tiraram, mas também a cultura. Vejamos a seguir um exemplo desse abuso cometido com os povos indígenas quanto à sua cultura: Souza (1986, p.46) aponta que os missionários da Companhia de Jesus pouco compreende- ram sobre a cultura do outro indígena: A preocupação com a especificidade do NovoMundo foi totalmente alheia aos jesuítas que estiveram no Brasil, entre o final do século XVI e o início do século XVII. Entre nós, são os representantes máximos da incompreensão do universo colonial. Mais do que o mundo vegetal e animal, foram os homens o alvo privilegiado da má vontade jesuítica. Muito embora os povos ameríndios tivessem seus próprios sistemas de crenças, não tinham direito a eles, pois o colonizar não os considerava legítimos. Apenas o cristianismo era a religião legítima. Souza (1986) explica que levar o cristianismo ao índio foi a justificativa utilizada para o empreendimento colonial. Ou seja, tiravam os índios de sua cultura e de sua terra, mas davam a eles o cristianismo: essa era a justificativa. Por outro lado, estudos históricos revisionistas levaram a outras concepções sobre o papel dos jesuítas na colonização brasileira. Isto porque eles aprenderam o tupi-guarani e elaboraram uma gramática para entenderem o dialeto dos índios, catequizando-os na sua língua materna, o que sugere certa inculturação nas culturas indígenas. Além disso, ao serem evangelizados, já SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 70 – que seriam considerados humanos, para os jesuítas, os indígenas não deveriam ser tratados com tanta desigualdade. Havia entre os religiosos e os colonos uma tensão constante por conta da questão do trabalho indígena na economia colonial. FIQUE ATENTO! É fundamental que você compreenda que não há culturas mais ou menos evoluí- das. O conceito de evolução é da Biologia e não deve ser de nenhuma forma empre- gado na avaliação das culturas. As culturas são únicas e apenas pela perspectiva da sua singularidadeelas devem ser avaliadas e estudadas. Dessa forma, podemos notar a contradição gerada pelo preconceito e pelo etnocentrismo. De um lado, temos o colonizar europeu, mais forte belicamente que, no ímpeto de dominar, afir- mou que a cultura indígena era irrelevante. Do outro lado, temos os povos indígenas, com uma cultura que poderia ter sido preservada e que tinha muito a ensinar, mas que foi dominada em nome de interesses econômicos. No século XVI, não havia separação entre o Estado e a Igreja. Por isso, a colonização trouxe a evangelização. Para o rei, converter os índios em cristãos era o mesmo que ter vassalos e garantir a fidelidade à coroa e a Igreja. Mas, isso não quer dizer que não havia tensões entre os colonos e os jesuítas. Monteiro afirma: Realmente, ao passo que os colonos não se mostravam unívocos a favor da escravidão como forma singular do trabalho indígena, nem todos os jesuítas se opunham ao cativeiro. Afinal de contas, todos – excluindo os índios, é claro – concordavam que a dominação nua e crua proporcionaria a única maneira de garantir, de uma vez por todas, o controle social e a exploração econômica dos indígenas. (MONTEIRO, 1994, p. 41). Muito embora, atualmente, os índios do inicio da colonização brasileira sejam vistos como povos de resistência e luta, a ênfase recai sobre a destruição dos povos nativos. Fome, doenças, as longas viagens de volta do sertão e os maus-tratos causavam as mortes dos índios (MONTEIRO, 1994, p. 157). Neste sentido, não só as armas, mas as doenças também foram fundamentais para a destruição destes povos indígenas (MONTEIRO, 1984, p. 29). Conforme observa Monteiro: “Sem dúvida, o choque do contato, agravado pelos surtos de doenças infecciosas, enfraqueceu e desar- ticulou as sociedades indígenas” (MONTEIRO, 1994, p. 155). SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 71 – Fechamento A reflexão proposta nesta aula possibilita-nos pensar sobre a grande discriminação à qual foram submetidos os povos indígenas brasileiros e ajuda-nos a entender que o preconceito que ainda per- siste em nossa sociedade é fruto de um processo histórico, que se inicia no próprio imaginário do colo- nizador e materializou-se por meio da escravidão, da violência e das tentativas de aculturação. Hoje, por outro lado, a discriminação manifesta-se em qualquer gesto de exclusão e deve ser combatida. Nesta aula, você teve a oportunidade de: • compreender o impacto da presença europeia na sobrevivência indígena; • discutir sobre a influência e presença da cultura indígena na nossa formação. Referências FAUSTO, Bóris. História do Brasil São Paulo: Edusp, 2002. FUNAI. Narigueira Emplumada Nambiquara.Disponível em: <http://museudoindio.gov.br/nari- gueira-emplumada-nambiquara>. Acesso em: 04 jan. 2017. NEVES, EduardoGóes. Existe algo que se possa chamar de “arqueologia brasileira”?.Estud. av., São Paulo,v. 29,n. 83,p. 07-17, abr. 2015. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?scrip- t=sci_arttext&pid=S0103-40142015000100007&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 16jan. 2017. SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a Terra de Santa Cruz. São Paulo: Cia. Das Letras, 1986. TODOROV, Tzvetan. A conquista da América: a questão do outro. São Paulo: Martins Fontes, 1999. ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. John Manuel Monteiro (1956-2013): um legado inestimável para a Historiografia. Rev. Bras. Hist. [online]. 2013, v. 33, n. 65, p. 399-403. Disponível em: <http:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102=01882013000100017-&lng=en&nrm- iso>. Acesso em: 12 fev. 2017. MONTEIRO, John Manuel. “Vida e morte do índio: São Paulo Colonial”. In: BORELLI, Sílvia (Org.). Os índios do estado de São Paulo: resistência e transfiguração. São Paulo: Yankatu, 1984. ______. Negros da Terra: Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Cia das Letras, 1994. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 72 – O negro: cultura e o trabalho escravo Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva Introdução Para compreender a sociedade contemporânea é importante entender os diferentes proces- sos históricos, como os relacionados aos povos africanos. A partir de agora vamos aprender sobre a chegada dos portugueses à África, a escravidão, a chegada dos negros ao Brasil e a resistência deles a esse regime. Ao estudar todos esses aspectos, vamos conhecer as causas da exclusão do negro na sociedade e da discriminação ainda presentes. Objetivos de Aprendizagem Assim, ao final dos estudos, você será capaz de: • entender o processo de escravidão negra no Brasil; • compreender a influência da cultura negra na sociedade brasileira. 1 Raízes na África Ao começarmos nosso estudo é importante ressaltar que há uma percepção bastante equi- vocada sobre o continente africano à época da exploração do tráfico negreiro (OLIVA, 2003). Criou- -se o imaginário de um povo de cultura limitada, inferior à cultura europeia. Contudo, é fundamental ficar claro que a África era um continente habitado por povos de rica cultura que foram brutal- mente escravizados pelo europeu. Figura 1 – Continente Africano Fonte: Bardocz Peter/Shutterstock.com – 73 – TEMA 10 Segundo Costa e Silva (1994), já no período em que os europeus passaram a invadir a costa africana, esta já possuía milhares de habitantes. O autor menciona que haviam nações organiza- das com comércio, idioma, história, religião e festas próprios. Então, é fundamental romper com o olhar discriminatório sobre a África. SAIBA MAIS! Conheça mais detalhes sobre esse olhar equivocado em relação à África lendo “A História da África nos bancos escolares. Representações e imprecisões na literatura didática”, página 421 a 461. O texto está disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ eaa/v25n3/a03v25n3.pdf.> E como o povo europeu chegou à África e converteu habitantes em escravos? É o que vamos conhecer a seguir, Acompanhem-nos! 2 Século XV: os primeiros contatos com os portugueses Precisamos lembrar que Portugal teve seus primeiros contatos com a costa do continente africano ainda no começo do século XV, no contexto nas Grandes Navegações. Mas, diferente- mente do que aconteceu na América, os europeus já conheciam o continente africano. Portugal estabeleceu algumas colônias de povoamento na África, começando por Ceuta, em 1415, e rapi- damente percebeu que o tráfico de escravos poderiaser lucrativo. Figura 2 – Portugal estabeleceu colônia em Ceuta Fonte: Dmitry Kaminsky/Shutterstock.com SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 74 – http://www.scielo.br/pdf/eaa/v25n3/a03v25n3.pdf http://www.scielo.br/pdf/eaa/v25n3/a03v25n3.pdf Na época havia constantes conflitos entre os povos que habitavam a África. De acordo com Albuquerque e Fraga Filho (2006), existia a prática de os vencedores tornarem escravos os per- dedores. Era a chamada escravidão doméstica. Os portugueses aproveitaram-se dessa prática trocando os escravos domésticos por inúmeros objetos desejados pelos africanos. E assim como o europeu criou um imaginário em relação ao africano, este também criou fanta- sias sobre o europeu. Os autores Albuquerque e Fraga Filho (2006, p.22) descreveram essa relação: Já sabemos que o comércio de escravos na África existia antes da chegada dos euro- peus. Ali mesmo nas proximidades do rio Senegal, os reis jalofos há muito participavam do comércio transaariano [sic] fornecendo escravos, ouro, malagueta, plumas e peles de animais. Mas então as coisas mudaram de rumo. O embarque dos cativos, naquele bar- co assombrosamente grande, trouxe inquietação aos africanos. Havia, por exemplo, uma crença entre os africanos de que os europeus eram ferozes canibais, capazes de devorar a carne negra e guardar o sangue para tingir tecidos ou preparar vinho. 3 Sem direito a alma, a escravidão Assim, os povos africanos foram levados para o regime de escravidão no Brasil. Saiba que a mão de obra escrava foi intensamente utilizada no Brasil durante todo o periodo colonial até as vésperas da República, no século XIX. Costa (1999) explica que essa mão de obra escrava foi usada em todas as colônias cuja exploração estivesse ligada ao comércio internacional e nas quais os indígenas não suprissem todas as necessidades. Tratava-se de um sistema base- ado na propriedade do escravo pelo senhor. EXEMPLO Para você entender melhor, imagine um proprietário de fábrica de automóveis nos dias de hoje. Ele é dono do imóvel onde funciona o negócio, é proprietário das má- quinas e da materia-prima. Tudo isso forma seu capital. Para construir os auto- móveis, contrata trabalhadores assalariados. Costa (1999) mostra, contudo, que o escravo é trabalho e capital ao mesmo tempo, gerando grandes contradições. O trabalho dos escravos era compulsório, sem qualquer salário. E havia punições físicas para garangir a execução do trabalho. A questão racial era um argumento tão forte à época, que se afir- mava que o negro não tinha alma, o que tirava deles a condição de seres humanos. Evidentemente esse argumento era utilizado para justificar a escravidão e a violência, da mesma forma como fora feito com os índios. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 75 – FIQUE ATENTO! O Direito Penal brasileiro reconhece que há, no Brasil, o chamado trabalho análogo ao escravo. Trata-se de um forma ilegal de trabalho que ainda persiste. O critério não é racial, mas da pobreza. Homens, mulheres e crianças pobres são atraídos com promessas de bons salários e levados a fazendas longínguas, onde trabalham em condições desumanas, com poucas possibilidades de fuga. O trabalho escravo logo provocou reação e mobilizações pelo fim deste regime. 4 Movimentos de resistência A escravidão desencadeou vários movimentos de resistência por parte dos negros, insatis- feitos com o cativeiro, com a violência, com o trabalho forçado e desumano. Muitos escravos conseguiam fugir e formavam quilombos. O mais importante deles foi o Quilombo dos Palmares, por agregar o maior número de negros fugidos. EXEMPLO Além do Quilombo de Palmares, o Quilombo de Ambrósio também ficou bastante conhecido. Localizou-se em Minas Gerais, sendo ocupado por cerca de 15 mil es- cravos fugidos. Figura 3 – Estátua do líder Zumbi, do Quilombo dos Palmares Fonte: Cassiohabib/Shutterstock.com SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 76 – Leite (1999, p. 127) define quilombo da seguinte forma: “(…) reação guerreira a uma situação opressiva.” A autora explica que é uma palavra do povo banto, da África, que significa acampa- mento guerreiro. Segundo ela, os quilombos foram espaços organizados que possibilitavam aos negros fugidos viverem e foram mantidos por meio de lutas por gerações. FIQUE ATENTO! Os quilombos possibilitaram a formação de famílias, de espaços produtivos de agri- cultura e pecuária, de relações de poder e de espaços de lazer. Devido às invasões externas houve a necessidade de criação, também, de estratégias de defesa. O trabalho escravo se perpetuou no Brasil até o fim do século XIX, ou seja, toda a nossa histó- ria colonial e imperial é marcada pelo trabalho escravo. A abolição da escravidão ocorreu um ano antes da Proclamação da República, justamente porque a escravidão era a última instituição que sustentava a monarquia portuguesa. Os sinais da resistência contra o racismo ainda hoje estão bastante presentes. 5 Vozes da África no Brasil As vozes da África permanecem no Brasil sob diversas formas. Uma delas são os grupos remanescentes de quilombos que têm inclusive proteção constitucional. Sobre isso, Villas (2005, p. 187) explica: A figura “remanescente de quilombo” significa uma nova dimensão de quilombo no Brasil, para além da concepção arqueológica, inaugurada desde a promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 que reconhece, no artigo 68, a posse definitiva da terra e a obrigatoriedade do Estado na emissão dos títulos correspondentes a toda co- munidade remanescente de quilombo. Conforme o Ministério da Justiça e da Cidadania (2017), o Programa Brasil Quilombola asse- gura aos remanescentes de quilombos os seguintes direitos: acesso à terra; acesso a serviços públicos; apoio ao desenvolvimento econômico local e garantia da partipação social dos quilom- bolas nas discussões políticas que envolvam essas populações. FIQUE ATENTO! O processo que levou ao reconhecimento do direito à terra aos quilombolas foi de muita pressão sobre os poderes públicos, mas hoje esses povos têm o direito re- conhecido. Além da proteção constitucional sobre as populações descendentes de quilombolas, tam- bém está obrigatório por lei federal o ensino da cultura africana nas escolas. Essa temática neces- SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 77 – sariamente deve estar presente nos currículos escolares, pois se tata de uma política pública fun- damental para manter as vozes do continente africano. Figura 4 – Algemas de ferro que eram usadas em escravos Fonte: Diego Grandi/Shutterstock.com SAIBA MAIS! Conheça mais sobre a lei da obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro- brasileira no Brasil, acessando <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/ L10.639.htm>. Ensinar a cultura africana nas escolas tem como objetivo enfrentar nosso histórico racista, de exclusão do negro, e resgatar a contribuição do negro nas áreas social, econômica e politica na História do Brasil. É o que esperamos que ocorra. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 78 – https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.639.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.639.htm Fechamento A escravidão foi nefasta para o africano, que foi roubado de seu território e sua cultura, para viver em trabalho forçado. Vivemos ainda nos dias de hoje as consequências desse regime preda- tório de trabalho com a discriminação contra o negro. Nesta aula você teve a oportunidade de: • como viviam os africanos antes do processo colonizatório. • o início do tráfico negreiro. • os movimentos de resistência contra a escravidão. • o movimento quilombola. Referências ALBUQUERQUE, Wlamyra, R.; FRAGA FILHO, Walter. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006. BRASIL. Lei no 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/cci- vil_03/leis/2003/L10.639.htm. Acesso em: 5 jan. 2017. COSTA, Emília Viottida.Monarquia à República: momento decisivos.São Paulo: Unesp, 1999. LEITE, Ilka Boaventura. Quilombos e Quilombolas: cidadania ou folclorização? Horizontes Antro- pológicos, Porto Alegre, ano 5, n. 10, p. 123-149, maio 1999. Disponível em: <http://www.scielo.br/ pdf/ha/v5n10/0104-7183-ha-5-10-0123.pdf>. Acesso em: 07 jan.2017. VILAS, Paula Cristina. A voz dos quilombos: na senda das vocalidades afro-brasileiras. Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, v. 11, n. 24, p. 185-197, dez. 2005. Disponível em <http://www.scielo. br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832005000200009&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 05 jan. 2017. COSTA eSILVA, Alberto da. O Brasil, a África e o Atlântico no século XIX. Estudos. Avançados. São Paulo, v. 8, n. 21, p.21-42, 1994. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttex- t&pid=S0103-40141994000200003&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 06 jan. 2017. OLIVA, Anderson Ribeiro. A História da África nos bancos escolares. Representações e impreci- sões na literatura didática. Estudos Afro-Asiáticos, ano 25, no 3, 2003, pp. 421-461. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/eaa/v25n3/a03v25n3.pdf>. Acesso em: 06 jan.2017. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 79 – http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/lei 10.639-2003?OpenDocument https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.639.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.639.htm http://www.scielo.br/pdf/ha/v5n10/0104-7183-ha-5-10-0123.pdf http://www.scielo.br/pdf/ha/v5n10/0104-7183-ha-5-10-0123.pdf http://www.scielo.br/pdf/eaa/v25n3/a03v25n3.pdf Democracia racial Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva Introdução Vamos conhecer o pensamento de importantes sociólogos e antropólogos que fundaram um olhar sobre a sociedade brasileira, entendendo-a a partir da mistura de raças e culturas. Também estudaremos a releitura de autores contemporâneos que mostram como a sociedade brasileira é ainda discriminatória. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • compreender o debate sobre a formação social brasileira; • conhecer as obras de pensadores sobre a formação social brasileira, como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro. 1 Conceito de democracia racial Para compreender melhor, primeiro precisamos conhecer o que significa democracia racial. Segundo essa interpretação, todas as raças e etnias de uma determinada nação poderiam viver em harmonia, sem qualquer forma de exclusão e sem negação de direitos a indivíduos de determi- nadas raças (GUIMARÃES, 2006). A democracia racial pode ser entendida como um mito, que nunca existiu em sociedade alguma. Guimarães (2006) explica que se trata de uma ideologia construída culturalmente, para servir a determinados interesses políticos que desejam estimular a ideia de que não havia precon- ceito racial no Brasil. E o que é preconceito racial? Nogueira (2006, p. 292) afirma que Considera-se como preconceito racial uma disposição (ou atitude) desfavorável, cultural- mente condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido a toda ou parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou reconhece. Vamos conhecer como foi criado o conceito de democracia racial e depois desconstruído por diferentes autores? – 80 – TEMA 11 2 Gilberto Freyre Na obra de Gilberto Freyre “Casa-Grande & Sensala”, de 1933, podemos encontrar não o con- ceito de democracia racial, mas a ideia que viria a caracterizar esse conceito, de que no Brasil euro- peus, negros e índios viveriam em harmonia. O autor narra a vida privada de escravos e senhores e, estudando a vida sexual de senhores, escravas e índias, e apresenta a tese da miscigenação na formação da sociedade brasileira. Leia a afirmação de Freyre (2002, p. 364): “Os homens não ‘gos- tavam de casar para toda a vida’, mas de unir-se ou de amasiar-se; as leis portuguesas e brasileira, facilitando o perfilamento dos filhos ilegítimos, só favoreciam essa tendência para o concubinato e para as ligações efêmeras.” SAIBA MAIS! Para uma leitura atualizada a respeito das relações raciais no Brasil, leia “Depois da democracia racial”. O texto está disponível em <http://www.scielo.br/pdf/ts/v18n2/ a14v18n2.pdf>. A percepção de Freyre (2002) sobre as relações entre senhores e escravos recebeu críticas, porque o autor as considerava como harmoniosas e quase isentas de conflitos. A obra “Casa- -Grande & Senzala” ameniza a violência da escravidão. Um outro viés sobre essas relações está na obra de Sérgio Buarque de Holanda. 3 Sérgio Buarque de Holanda e o homem cordial Buarque de Holanda escreveu a obra “Raízes do Brasil”, na qual ele apresenta o conceito de homem cordial. No senso comum um homem cordial é aquele que é educado, gentil e tem boas maneiras. Mas para Holanda (1995) o significado é outro: é aquele que se utiliza do que é público (de toda a sociedade) ao ocupar um cargo público para realizar seus próprios interesses privados. Essa ausência de distinção entre o público e o privado é chamada de patrimonialismo. EXEMPLO Imagine o vereador de determinado município que tem o direito a utilizar um veículo da administração pública para viagens oficiais. Contudo, em um feriado prolonga- do, esse representante decide usá-lo para viajar à praia com a família. Perceba que essa não é uma prática incomum no Brasil, como é noticiado diariamente na mídia. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 81 – http://www.scielo.br/pdf/ts/v18n2/a14v18n2.pdf http://www.scielo.br/pdf/ts/v18n2/a14v18n2.pdf Figura 1 – Corrupção é exemplo de patrimonialismo Fonte: shutterlk/Shutterstock.com. A corrupção é um exemplo atual do patrimonialismo a que se refere Holanda (1995). Quando um político desvia dinheiro de uma obra pública para sua própria conta bancária, ele está sendo o homem cordial, confundindo o público com o privado. 4 Darcy Ribeiro e a miscigenação A realidade do país foi também estudada pelo antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro. Ele dedi- cou-se a compreender o impacto da mistura de raças que fundou a sociedade brasileira, ou seja, o europeu branco, o negro africano e o indígena. Esse foi o objetivo da sua obra “O Povo Brasileiro” (1995), ou seja, analisar as consequências da miscigenação e da construção da cultura brasileira como conjunto da cultura de todas essas raças. Figura 2 – Povo multiétnico Daniel M Ernst/Shutterstock.com. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 82 – Ribeiro (1995) defende que todas essas tradições culturais diferentes ao se unirem formam a gênese de um novo povo, que é o brasileiro. Para o autor, temos uma sociedade multiétnica, que surge a partir de uma história de trabalho escravo, de violência, de repressão e do que o autor chama de etnocídio, que é o assassinato de culturas inteiras. A crítica feita à obra de Darcy Ribeiro é que, ao estudar a mestiçagem e supor a construção de uma cultura quase homogênea, que é a cultura do povo brasileiro, o autor tenha tido um olhar ingênuo para a complexidade das relações raciais no Brasil. Depois de conhecer a síntese do pensamento desses importantes estudiosos, voltamos à questão inicial, sobre a democracia racial. 5 Há mesmo uma democracia racial? Não há democracia racial no Brasil, já que a violência racial se manifesta de várias maneiras. Por exemplo, há violência quando um empregador remunera seu empregado negro com salário menor do que o pago ao empregado branco. Guimarães (2006) enfatiza que o movimento negro, que luta pelos direitos dos negros e pelo fim da violência, denuncia o conceito da suposta democracia racial brasileira como racista, porque essa concepção nega que existam ainda atos discriminatórios. FIQUE ATENTO! É evidente que seria muito bom se o Brasil fosse, de fato, uma democracia racial. O problema é a forma como essa interpretação foi criada no início do século XX. Ela veio para mascarar relações de poder entre brancos, negros e índios. 6 As desigualdades raciais: preconceitode marca e preconceito de origem em Oracy Nogueira Para compreender o pensamento de Nogueira (2006) é fundamental compreender as diferen- ças históricas entre a manifestação do preconceito racial no Brasil e nos Estados Unidos. FIQUE ATENTO! O racismo acompanha a história da humanidade em todo o globo. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 83 – Nogueira (2006, p. 291-2) define a seguinte classificação: “Na falta de expressões mais adequa- das, o preconceito, tal como se apresenta no Brasil, foi designado por preconceito de marca, reservan- do-se para a modalidade em que aparece nos Estados Unidos a designação de preconceito de origem”. EXEMPLO Nos EUA, o preconceito racial já foi muito direto. Os negros eram proibidos, por exemplo, de entrar em restaurantes frequentados por brancos. No Brasil, o precon- ceito não ocorria dessa maneira, mas de forma tácita, em atos de exclusão, como quando o empresário que promove somente pessoas brancas. Para ficar mais claro, acompanhe no quadro a seguir as diferenças entre os dois conceitos, relembrando que o preconceito de marca ocorre sobretudo no Brasil, e o preconceito de origem nos Estados Unidos. Quadro 1 – Preconceito de marca e de origem Preconceito de marca exercido em relação à aparência, incluindo fisionomia, biotipo, movimentos corporais e formas de falar. Preconceito de origem exercido em relação a todo grupo étnico, independentemente de qualquer outra variável. Fonte: adaptado de NOGUEIRA, 2006. De acordo com Nogueira (2006), no Brasil, o preconceito de marca elege o fenótipo (a aparên- cia racial) como critério para a discriminação. Diversas gradações classificatórias consideram não só as nuances da cor – “preto”, “mulato”, “mulato claro”, “escuro”, “pardo”, “branco” – como aspectos fisionômicos como lábios, nariz, cor dos olhos, tipo de cabelo, dentre outros. Já nos Estados Uni- dos, o preconceito de origem elege como critério de discriminação a ascendência: qualquer que seja a presença de ancestrais do grupo discriminador ou discriminado na ascendência de uma “pessoa mestiça”, ela é classificada junto ao grupo discriminado. Nogueira (2006) criou essa classificação para melhor compreender as manifestações do pre- conceito. Mas, qualquer que seja ela, precisa ser combatida com políticas públicas e com a puni- ção de quem comete qualquer forma de discriminação racial. 7 Kabengele Munanga e a educação Para o antropólogo e professor Munanga, estudioso do racismo, a escola é um espaço de construção da cidadania, e a temática do multiculturalismo faz parte do preparo para a cidadania. O multiculturalismo é o respeito à diversidade cultural. O autor propõe uma educação que faça SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 84 – a defesa da diversidade e, ao mesmo tempo, promova a defesa daquilo que assemelha todo ser humano. Leia a crítica que Munanga (2015, p.22) faz às obras de Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro: O Brasil, um país que nasceu justamente do encontro de culturas e civilizações, não pode se ausentar desse debate. O melhor caminho, a meu ver, é aquele que acompanha a dinâmica da sociedade através das reivindicações de suas comunidades e não aquele que se refugia numa abordagem superada da mistura racial que, por dezenas de anos, congelou o debate sobre a diversidade cultural e racial no Brasil (...). SAIBA MAIS! Para conhecer melhor as ideias do professor Munanga, assista à videoaula “Relações Étnico-Raciais”, que está disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=7Fx- JOLf6HCA>. Munanga (2015) defende para o combate ao preconceito uma educação que ensine a impor- tância da convivência igualitária e o respeito às diferenças, que nunca devem ser negadas. 8 Críticas às cotas raciais As cotas raciais, que fazem parte das chamadas políticas de ações afirmativas, garantem reservas de vagas para negros e índios em universidades públicas e concursos públicos. Esse é um tema polêmico, que divide a sociedade brasileira. No esquema abaixo, apresentaremos o posi- cionamento crítico às cotas e o pensamento que é a favor delas. Acompanhe! Quadro 2 – Cotas raciais Pensamento crítico Afirma que as cotas raciais favorecem a desigualdade, ao promorcionar um tratamento mais benéfico a determinadas raças, criando um sistema de privilégio. Os críticos destacam que as cotas rompem com a meritocracia e que são injustas. Defedem que o critério para entrar em universidades e concursos públicos deve ser meritocrático. Pensamento apologético Defende que as cotas são uma questão de justiça social, já que negros e índios têm uma história de exclusão da esfera de direitos, desde o período colonial. Os apologetas defendem que as injustiças cometidas precisam ser corrigidas e que, enquanto houver discriminação, são necessárias as políticas afirmativas. Dizem, ainda, que enquanto houver desigualdade no tratamento de negros e índios, devem haver políticas públicas - como as cotas - que promovam seus direitos. Fonte: elaborada pela autora, 2017. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 85 – https://www.youtube.com/watch?v=7FxJOLf6HCA https://www.youtube.com/watch?v=7FxJOLf6HCA FIQUE ATENTO! No Brasil temos também políticas afirmativas para pessoas com deficiência. Por exemplo, há uma lei que obriga empresas com determinado número de emprega- dos a contratar pessoas com deficiência. Mas tradicionalmente não há oposição no Brasil a essas políticas afirmativas. Como você pode perceber, a discussão das cotas envolve questões políticas e ideológicas complexas e não há consenso na sociedade brasileira sobre elas. Você também pôde entender como se formaram os diferentes pensamentos a respeito da questão racial no país. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • entender a construção do conceito de democracia racial no início do século XX no Brasil; • compreender a desconstrução dessa ideologia pela antropologia atual; • conhecer o papel da educação no combate ao racismo; • saber quais são os dois lados da discussão sobre as cotas raciais. Referências FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Rio de Janeiro: Record, 2002. GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo. Depois da democracia racial. Tempo Social, revista de socio- logia da USP. v. 18, n. 2, nov. 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ts/v18n2/a14v18n2. pdf>. Acesso em: 09 jan. 2017. HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1995. MUNANGA, Kabengele. Por que ensinar a história da África e do negro no Brasil de hoje? Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, n. 62, p. 20-31, dez. 2015. Disponível em: <http:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0020-38742015000300020&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 10 jan. 2017. NOGUEIRA, Oracy. Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem: sugestão de um quadro de referência para a interpretação do material sobre relações raciais no Brasil. Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 19, n. 1, p. 287-308, nov. 2006. RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 86 – http://www.scielo.br/pdf/ts/v18n2/a14v18n2.pdf http://www.scielo.br/pdf/ts/v18n2/a14v18n2.pdf Cultura Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva Introdução O conceito de cultura é muito amplo nas Ciências Humanas. Nesse tema, vamos estudá-lo a partir de autores da Sociologia e da Antropologia que avaliam a questão cultural a partir do chamado relativismo cultural. Discutiremos ainda a homofobia, a transfobia e a xenofobia de uma perspectiva crítica. Você entenderá a cultura a partir de suas diversas formas de expressão. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • entender a cultura a partir de suas diversas formas de expressão. 1 O que é cultura? Você saberia dizer o que é cultura? Aqui vamos conhecer o que é cultura não a partir do sig- nificado que usamos no dia a dia, mas a partir do conceito sociológico, antropológico. No senso comumutilizamos a palavra cultura para qualificar uma pessoa. EXEMPLO É comum ouvirmos de uma pessoa o seguinte: “Maria é uma pessoa de muita cul- tura. Ela estudou muito e é culta.” Podemos também fazer a seguinte afirmação: “Para ter cultura, é preciso frequentar a escola.”Ambos são exemplos do conceito de cultura que a relaciona com a aquisição de conhecimento. Do ponto de vista da Antropologia, a cultura é o âmbito do simbólico. Para Mintz (2010, p. 223) Define-se cultura como uma propriedade humana ímpar, baseada em uma forma simbóli- ca, ‘relacionada ao tempo’, de comunicação, vida social, e a qualidade cumulativa de inte- ração humana, permitindo que as ideias, a tecnologia e a cultura material se “empilhem” no interior dos grupos humanos. Para o autor a cultura é uma característica ímpar dos seres humanos porque nenhum outro ser vivo possui cultura. A cultura está também relacionada ao tempo, porque não há cultura está- tica, ela está sempre em movimento, transformando a sociedade e os indivíduos. Além disso, a cultura é criada no contexto das relações sociais e, ao ser acumulada, passa de geração para geração, que pode transformá-la. – 87 – TEMA 12 SAIBA MAIS! Para conhecer mais sobre a obra de Sidney Mintz, não deixe de ler o artigo “Cultura: uma visão antropológica”. O texto está disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ tem/v14n28/a10v1428.pdf>. Figura 1 – Casamento Fonte: Halfpoint/Shutterstock.com A celebração de casamento também é a manifestação simbólica de instiuições sociais, como a família e a monogamia. Segundo Mintz (2010), o comportamento das pessoas não está dado pelo seu código genético, mas sim por códigos que foram socialmente formados ao longo das gerações. Dentro desse código, as pessoas têm alternativas: podem escolher entre casar-se ou não casar. De qualquer forma, independentemente dessa escolha a instituição do casamento continuará a existir. Depois de conhecermos o que é cultura, ficará mais fácil entender subculturas. 2 Subculturas Tenha em mente que o conceito de cultura é utilizado no contexto do Estado-nação. Fala- mos em cultura brasileira ou ainda cultura japonesa. Se comemos sushi, dizemos que comemos comida japonesa, ou seja, da cultura que existe dentro do Estado-nação chamado Japão. Dentro de um país não há uma única cultura, mas sim um conjunto de culturas e subculturas, que se mani- festam no comportamento de grupos sociais específicos. Um exemplo é o movimento hippie, que foi bastante popular nos anos 60. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 88 – http://www.scielo.br/pdf/tem/v14n28/a10v1428.pdf http://www.scielo.br/pdf/tem/v14n28/a10v1428.pdf Figura 2 – Movimento hippie Fonte: Radharani/Shutterstocks.com As subculturas mantêm a autenticidade de determinados grupos. Portanto, lembre-se de que não é possível haver uma sociedade de cultura homogêna, em que valores e padrões de com- portamento sejam igualmente compartilhados por todos. A cultura além de não ser singular está sempre em transformação. É o que veremos a seguir. Acompanhe-nos! 3 Relativismo cultural Na Biologia costumamos utilizar o conceito de evolução ao contar a História Natural do pla- neta. De forma bem simples, evoluir é passar de um estágio para outro, ou seja, de um estágio menos evoluído para um mais evoluído. Dessa forma, podemos concluir que, quando algo evolui, ele também melhora. Esse conceito começou a ser utilizado por alguns pensadores sociais, ainda nos séculos XVIII e XIX. Esses pensadores afirmavam que as sociedades também evoluem e, que, portanto, há culturas mais avançadas e outras menos. No entanto, essa percepção além de equivocada, gera muito preconceito. É fundamental compreender, portanto, que não existe evolução cultural. As sociedades apenas são diferentes e mudam. Figura 3 – Mudanças na sociedade Fonte: katatonia82/Shutterstock.com SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 89 – EXEMPLO Atualmente, vivemos em uma época em que se comunicar é muito fácil. Temos smatphones, e-mails, redes sociais. Talvez você se pergunte: não é melhor viver em uma sociedade na qual é mais fácil se comunicar? A sociedade não evoluiu ao criar a internet? Não, a sociedade apenas mudou. A comunicação trouxe várias facilida- des, mas ao mesmo tempo problemas foram criados, como o descarte cada vez maior de equipamentos eletrônicos. Bastian (1971) explica que o relativismo cultural combate a ideia de que haveria valores cultu- rais absolutos e que cada valor cultural só pode ser avaliado no contexto histórico-social em que foi Depois de conhecer o que significa relativismo cultural, vamos a outro importante conceito, o de diversidade cultural. Continue conosco! 4 A diversidade cultural Diversidade cultural não é apenas reconhecer que a sociedade brasileira é composta por várias culturas, mas também reconhecer que essa diversidade é fundamental a essa sociedade e a enriquece. Canen e Xavier (2011, p. 641) afirmam que As questões que envolvem a diversidade cultural brasileira têm sido alvo de inúmeros estu- dos na última década no cenário educacional. Cada vez mais conceitos como diversidade, diferença, igualdade e justiça social têm se configurado como uma preocupação por parte daqueles que lutam por uma educação verdadeiramente cidadã. Canen e Xavier (2011) defendem a necessidade do multiculturalismo e da superação da ideia de homogeneização cultural. E o que acontece quando ocorre o contrário, ou seja, estabelecem-se barreiras? É o que vamos ver a seguir. FIQUE ATENTO! A cidadania plena só será efetivamente consolidada no Brasil quando houver o re- conhecimento de que a diferença faz parte da construção de qualquer sociedade e que todos os indivíduos, independente da cultura, devem ser incluídos e protegidos pelo Estado. 5 Etnocentrismo e xenofobia Quando há uma exacerbação do etnocentrismo, de considerar-se como parte de uma cultura superior, temos a xenofobia. O tema é bastante debatido pelas organizações internacionais dentro da lógica dos direitos humanos. Atualmente, há milhões de refugiados de países em guerra ou vítimas de desastres naturais que migram para a Europa ou para a América, em busca de uma vida melhor. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 90 – Figura 4 – Refugiados Fonte: Fishman64/Shutterstock.com FIQUE ATENTO! O que acirra o debate sobre os imigrantes no Brasil é a hipótese de que poderiam tirar o emprego dos brasileiros. Contudo, como deixar seres humanos morrerem de fome em países em guerra? Esse é o argumento das organizações internacionais. Costa (2012) menciona que o preconceito contra imigrantes tem aumentado em países desenvolvidos, polarizando as sociedades. Veremos, a seguir, outras formas de expressão de preconceito. 6 Homofobia e transfobia Há uma corrente filosófica chamada de dogmática que defende haver apenas valores abso- lutos, que o certo e o errado são inquestionáveis (BASTIAN, 1971). Esta é a concepção presente no pensamento homofóbico e transfóbico. O pensamento homofóbico considera que a única forma de viver a sexualidade seja a hete- rossexual, o que leva à ampla intolerância, porque é incapaz de olhar o outro e entender a dife- rença e respeitá-la. SAIBA MAIS! Para conhecer mais a respeito do pensamento dogmático, sugerimos a leitura “O relativismo cultural é válido nas ciências da saúde? Exame de suas bases filosó- ficas”. Acesse: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89 101971000100010&lng=pt&nrm=iso>. Há amplo preconceito contra toda forma de sexualidade diferente daquela do padrão hete- rossexual. Mott (2006, p. 509) afirma: “Nestes últimos quatro mil anos da história humana, o Oci- SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 91 – dente repetiu, ad nauseam, que o amor e o erotismo entre pessoas do mesmo sexo eram ‘o mais torpe, sujo e desonesto pecado’, e que por causa dele Deus castigava a humanidade com pestes, inundações, terremotos etc.” Atualmente, entidades e organizações lutam para que homossexuais e transexuais tenham os mesmosdireitos de heterossexuais. FIQUE ATENTO! A legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adoção são exemplos de direitos que entidades e organizações buscaram no Brasil e agora alcançaram. A temática da cultura torna-se uma discussão complexa quando nos negamos a tratar a todos com dignidade. Por isso os Direitos Humanos têm imposto essa necessidade. Fechamento Você conheceu o conceito de cultura e outros importantes aspectos a ela relacionados, e aprendeu que não há uma cultura única, absoluta. Nesta aula, você teve a oportunidade de: • compreender que cada cultura tem seu valor; • avaliar que o relativismo cultural é fundamental para acabar com o preconceito; • analisar criticamente a homofobia e xenofobia; • discutir que as culturas mudam, mas que não há evolução cultural. Referências BASTIAN, Erna. O relativismo cultural é válido nas ciências da saúde? Exame de suas bases filosó- ficas. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 5, n. 1, p. 83-88, 1971. Disponível em: <http://www.scielo. br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89101971000100010&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 11 jan. 2017. CANEN, Ana; XAVIER, Giseli Pereli de Moura. Formação continuada de professores para a diversi- dade cultural: ênfases, silêncios e perspectivas. Rev. Bras. Educ., dez 2011, v. 16, n. 48, p.641-661. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v16n48/v16n48a07.pdf>. Acesso em: 11 jan.2017. MINTZ, Sidney W. Cultura: uma visão antropológica. Tempo, Jun. 2010, v. 14, n. 28, p.223-237. Dis- ponível em: <http://www.scielo.br/pdf/tem/v14n28/a10v1428.pdf>. Acesso em: 11 jan.2017. MOTT, Luis. Homo-afetividade e direitos humanos. Rev. Estud. Fem., Florianópolis, v. 14, n. 2, p. 509-521, set. 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S0104-026X2006000200011&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 11 jan. 2017. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 92 – http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v16n48/v16n48a07.pdf http://www.scielo.br/pdf/tem/v14n28/a10v1428.pdf Desigualdades sociais no Brasil Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva Introdução Neste tema vamos estudar um problema social que tem se intensificado na sociedade bra- sileira: a desigualdade social. Refletir sobre a desigualdade social provoca a necessidade de com- preender o funcionamento do sistema capitalista, a questão do desemprego e da vulnerabilidade a que estão submetidas as famílias que estão sem emprego. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • entender a realidade brasileira a partir das suas desigualdades sociais. 1 A realidade brasileira e a questão da cidadania Para começarmos nosso estudo, entenda que a experiência da vida em sociedade é distinta para indivíduos de diferentes classes sociais. Pensar a realidade brasileira da população que vive abaixo da linha da pobreza é refletir sobre famílias que vivem diariamente situações de extrema vulnerabilidade, insegurança e instabilidade. O governo federal considera extremamente pobre as famílias que vivem com menos de 77 reais mensais (PORTAL BRASIL, 2017). Figura 1 – Pobreza Fonte: Roman Bodnarchuk/Shutterstock.com Quando direitos como alimentação e trabalho são negados aos indivíduos, então geralmente outros direitos sociais, como saúde, educação e lazer, também o são. Será que há cidadania quando os direitos mais básicos de um indivíduo são negados? O conceito de vulnerabilidade social tem sido muito utilizado por autores para explicar a con- dição em que vivem as pessoas a quem são negados os direitos de cidadania. – 93 – TEMA 13 https://www.shutterstock.com/pt/g/roman+bodnarchuk Benevides (1994, p.7) traz uma definição de cidadania: Na teoria constitucional moderna, cidadão é o indivíduo que tem um vínculo jurídico com o Estado. É o portador de direitos e deveres fixados por uma determinada estrutura legal (Constituição, leis) que lhe confere, ainda, a nacionalidade. Cidadãos são, em tese, livres e iguais perante a lei, porém súditos do Estado. Todo cidadão tem um conjunto de direitos individuais, que, em nossa Constituição Federal, está apresentado no Artigo 5º. São inúmeros direitos que protegem a nossa liberdade. Veja alguns exemplos a seguir: II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei; III - ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante [...] Perceba como os incisos mencionados determinam a proteção das liberdades individuais. A cidadania não é apenas ter liberdade, mas também poder usufruir de alguns bens coletivos, que foram definidos no artigo 6º. da Constituição Federal. Uma família que esteja abaixo da linha da pobreza tem sua liberdade garantida pelo artigo 5º., mas não tem o acesso aos direitos mencionados no artigo 6º. Veja, por exemplo, que o artigo 6º. determina que haja o direito ao trabalho. Mas se não há emprego para todos, então como esse direito será garantido? EXEMPLO O Programa Bolsa Família é uma política social que tem como finalidade garantir o di- reito humano à alimentação. É uma estratégia, utilizada pelos governos, de garantir o direito à alimentação previsto em nosso texto constitucional (ZIMMERMANN, 2006). É justamente essa inacessibilidade aos direitos mencionados no artigo 6º. que deixa tantos brasileiros na situação de vulnerabilidade social que mencionamos anteriormente. 2 Desigualdade social, educação e violência urbana E qual é a origem das desigualdades sociais? A explicação precisa ser buscada no sistema econômico, ou seja, no capitalismo. SAIBA MAIS! Conheça alguns programas sociais lendo o artigo “Pobreza, desigualdade e polí- ticas públicas: caracterizando e problematizando a realidade brasileira”, que pode ser acessado em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414- 49802010000200002&lng=en&nrm=iso>. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 94 – Em nossa sociedade há basicamente duas formas de os indivíduos obterem renda: por meio do trabalho ou por meio de bens. Evidentemente, são poucos aqueles que têm bens suficientes a ponto de não precisarem trabalhar, então, para a maioria da população, o trabalho é fundamental à obtenção de renda. Figura 2 – Diminuição dos postos de trabalho Fonte: Lightspring/Shutterstock.com É importante que você entenda que a falta de trabalho é parte fundamental do sistema capi- talista. É justamente porque há um excedente de mão de obra, que as pessoas aceitam trabalhar por tão pouco. Sobre isso, explica Silva (2010, p. 156): “(...) o pleno emprego é incompatível com o processo de acumulação gerado nas formações sociais capitalistas”. FIQUE ATENTO! A forma como se organiza o sistema capitalista, gerando cada vez mais pobreza, é uma fonte de violência. A falta de renda pode ser associada à violência, mas não é de forma alguma sua única motivação. A educação aumenta as chances de obtenção de uma colocação no mercado de trabalho, e pode gerar mobilidade social ascendente. A educação pode ser transformadora para o indivíduo, mas é importante entender que a abertura de vagas em escolas, cursos profissionalizantes e uni- versidades não implica, necessariamente, em crescimento do número de postos de trabalho, já que o uso da tecnologia tem excluído mais postos de trabalho do que gerado emprego na socie- dade capitalista. FIQUE ATENTO! Existe uma ideologia que afirma que a qualificação gera trabalho. Contudo, se não há vagas para pessoal qualificado, então a qualificação não implica em empregabilidade. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 95 – https://www.shutterstock.com/pt/g/lightspring Silva (2010) menciona que, há, no Brasil, uma massa de indivíduos que nunca conseguiu obter um emprego formal. Isso tem consequência: esse indivíduo vive de “bicos”, o que o impedirá de ter uma aposentadoria formal, ou ele vive de caridade, o que também o exclui da proteção da previdência social. O fenômeno da desigualdade social pode estar relacionado, no Brasil, à violência urbana. Uma sociedade excludentecomo a nossa, que gera pouco emprego e muita desigualdade social, também é uma sociedade produtora de violência. Segundo Silva (2010), segregamos territorial- mente os mais pobres para as chamadas favelas e, ao mesmo tempo, as tememos. SAIBA MAIS! Para conhecer mais sobre a exclusão territorial da pobreza, sugerimos a leitura de “Violência urbana, segurança pública e favelas - o caso do Rio de Janeiro atu- al”, disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103 -49792010000200006&lng=pt&nrm=iso>. Veja que é preciso haver políticas de segurança urbana, mas também são necessárias políti- cas de inclusão e de trabalho para reduzir a violência no país e as formas de exclusão e segregação. 3 Desigualdades sociais no Brasil: avanços e continuidades O capitalismo funciona a partir de uma lógica própria que, se rompida de alguma forma, que- bra todo o sistema. Por isso o sistema capitalista tem crises constantes. Na figura você poderá observar o funcionamento padrão do sistema capitalista. Figura 3 – Capitalismo produção trabalho consumo Fonte: elaborada pela autora, 2017. O capitalismo é baseado em um sistema de produção em massa.O trabalho é necessário para que a produção se mantenha e precisa haver mais trabalhadores do que postos de trabalho, para que estes aceitem trabalhar por baixos salários. Por sua vez, o trabalho gera remuneração, que gera consumo. Um dos fatores que leva à crise do capitalismo é a superprodução, gerando, como conse- quência, o desemprego, que ocorre também devido ao uso da tecnologia, que destrói postos de trabalho, e consequentemente leva à queda do consumo. O desemprego revela a crise no capita- lismo, mas, por sua vez também é fruto dele. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 96 – FIQUE ATENTO! É importante lembrar que parte da população brasileira se encontra abaixo da linha da miséria, o que a exclui do consumo. Contudo, vivemos um momento histórico em que a mão de obra está sendo substituída por máquinas, especialmente com o desenvolvimento da engenharia robótica. Sobre isso, Antunes (2010, p. 633) menciona: Estamos presenciando, no meio do furacão da crise global do sistema capitalista - que vem atingindo o coração do sistema capitalista, ou seja, o conjunto dos países centrais do Norte do mundo -, a erosão do trabalho contratado e regulamentado, herdeiro das eras taylorista e fordista, que foi dominante no século XX e que está sendo substituído pelas diversas formas de “empreendedorismo”, “cooperativismo”, “trabalho voluntário”, “trabalho atípico”, formas que mascaram frequentemente a autoexploração do trabalho. Antunes (2010) explica que vivemos um momento de ampla redução dos postos de trabalho e, dessa forma, podemos estruturar o esquema acima de uma forma diferente: Figura 4 – Desemprego pouco trabalho e muitas máquinasdiminuição do consumo baixa na produção crise do capitalismo Fonte: elaborada pela autora, 2017. O desemprego, explica Antunes (2010), leva a um fenômeno conhecido como precarização das relações de trabalho, que se manifesta de diversas formas. Vamos conhecê-las. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 97 – • Trabalho terceirizado. • Trabalho por tempo determinado. • Trabalho informal • Trabalho parcial. • Empreendedores que não conseguem nem mesmo arcar com o pagamento de impos- tos para manter uma empresa aberta. EXEMPLO Um exemplo de empreendedorismo informal está, por exemplo, naquela senhora que faz um conjunto de atividades, em seu próprio lar, que proporciona alguma renda, como fazer bolos, doces para festas, enfeites para casamentos, entre outros. O pro- blema é que a informalidade retira a trabalhadora da tutela dos direitos trabalhistas. A desigualdade social é um desdobramento histórico do desemprego estrutural que faz parte da sociedade capitalista. Uma economia mais sólida, que atraia investidores e políticas de incen- tivo à abertura de vagas de trabalho são algumas das possíveis alternativas para esse problema. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • entender a origem das desigualdades sociais; • saber qual o papel do Estado frente às desigualdades; • compreender a crise do emprego no Brasil. • As crises cíclicas do capitalismo. Referências ANTUNES, Ricardo. A crise, o desemprego e alguns desafios atuais. Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 104, p. 632-636, dez. 2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S0101-66282010000400003&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 16 jan. 2017. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 11 abr. 2017 BENEVIDES, Maria Victoria de Mesquita. Cidadania e democracia. Lua Nova, São Paulo, n. 33, p. 5-16. 1994 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010 2-64451994000200002&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 1. jan. 2017. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 98 – http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm PORTAL BRASIL. Um país menos desigual: pobreza extrema cai 2,8% da população. Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2015/11/um-pais-menos-desigual-pobreza-extre- ma-cai-a-2-8-da-populacao>. Acesso em: 14 jan.2017. SILVA, Maria Ozanirada Silva. Pobreza, desigualdade e políticas públicas: caracterizando e pro- blematizando a realidade brasileira. Revistakatálysis, Florianópolis, v. 13, n. 2, p. 155-163, 2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-4980 2010000200002&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16 jan. 2017. SILVA, Luiz Antonio Machado da. “Violência urbana”, segurança pública e favelas: o caso do Rio de Janeiro atual. CadernoCRH, Salvador, v. 23, n. 59, p. 283-300, ago. 2010. Disponível em: <http:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-49792010000200006&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 16 abr. 2017. ZIMMERMANN, Clóvis Roberto. Os programas sociais sob a ótica dos direitos humanos: o caso do Bolsa Família do governo Lula no Brasil. Sur, RevistaInternacional de Direitos humanos, São Paulo, v. 3, n. 4, p. 144-159, jun. 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttex- t&pid=S1806-64452006000100009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 16 jan. 2017. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 99 – http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2015/11/um-pais-menos-desigual-pobreza-extrema-cai-a-2-8-da-populacao http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2015/11/um-pais-menos-desigual-pobreza-extrema-cai-a-2-8-da-populacao Mudanças na cultura da sociedade contemporânea Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva Introdução Nesta aula veremos que a sociedade contemporânea ocidental tem características que a distinguem, além de se tratar de uma sociedade predominantemente cristã, ainda que haja outras religiões ganhando mais espaço. Além disso, em relação às configurações familiares, percebemos que há outras configura- ções, além das formações tradicionais. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • entender as mudanças nos padrões morais na contemporaneidade: família, religião, consumo e estilos de vida. 1 Os padrões morais na contemporaneidade: família, religião, consumo e estilos de vida Saiba que a forma como se estabelecem as relações sociais faz parte da cultura de cada sociedade. Isso significa que cada sociedade, em cada momento histórico, é única em determinar seus padrões morais e suas instituições sociais. Figura 1 – Família nuclear Fonte: Monkey Business Images/Shutterstock.com – 100 – TEMA 14 https://www.shutterstock.com/pt/g/monkey+business+images No contexto da cultura ocidental, a família nuclear é formada por pai, mãe e filhos. Mas será que esse é o único padrão familiar ou forma de organizar as relações de parentesco? EXEMPLO Daniel, Cravo e Posse (1995) mostram que no povo trobriandes, que vive na Ocea- nia, é o tiomaterno quem realiza as funções que nós, ocidentais, tradicionalmente, atribuímos ao pai. Nessa sociedade não há relação de parentesco entre o genitor biológico e seus filhos. O Cristianismo naturalizou e legitimou a ideia da família nuclear. Contudo, não existe forma certa ou errada de criar as relações de parentesco, e cada sociedade as constrói baseadas em sua história. Nas sociedades ocidentais, conforme explica Oliveira (2009, p.67), vemos a “nova família” que se caracteriza pelas diferentes formas de organização, relação e em um cotidiano mar- cado pela busca do novo. Os arranjos diferenciados podem ser propostos de diversas for- mas, renovando conceitos preestabelecidos [sic], redefinindo os papéis de cada membro do grupo familiar. Figura 2 – Família homoafetiva Fonte: Monkey Business Images/ Shutterstock.com As famílias homoafetivas são um exemplo da nova construção de relações de parentesco e da própria família, que dissolve a fórmula de vida familiar a partir de um casal heterossexual. Outra forma que tem se tornado bastante comum de constituição familiar é a família monoparental, na qual há apenas a figura da mãe (muito comum no Brasil) ou apenas a figura do pai. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 101 – https://www.shutterstock.com/pt/g/monkey+business+images Figura 3 – Família monoparental Fonte: Sylvie Bouchard/Shutterstock.com FIQUE ATENTO! Oliveira (2009) explica que anteriormente os papéis dentro das famílias eram rigida- mente definidos. Atualmente, as relações são mais fluidas, tendo como um dos fatores a ascensão da mulher no mercado de trabalho. Isso faz com que os filhos sejam cria- dos por indivíduos que não são suas mães, como acontecia até meados do século XX. As famílias nucleares e as novas configurações familiares mostram que as sociedades estão em constante transformação. Oliveira (2009, p.70) explica que Essas novas famílias estão cada vez mais presentes e começam a ter visibilidade, pois fazem parte do cotidiano das pessoas e não podemos negá-las. Apesar de fazer parte do cotidiano das pessoas, não podemos afirmar que são socialmente aceitas, pois o embate entre a reali- dade e a ideologia existente não permitiu ainda sua superação por toda a população. EXEMPLO Entrevistas para vaga de trabalho são consideradas situações formais. Logo, é adequado usar linguagem leve, polida, clara e objetiva, permitindo ao interlocutor conhecer a personalidade do falante e, assim, entender que ele sabe adequar a sua linguagem ao contexto situacional. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 102 – https://www.shutterstock.com/pt/g/sylvie+bouchard EXEMPLO Os cristãos acreditam na existência de um céu e de um inferno, e estabelecem critérios para pensar sobre a vida após a morte, sobre o sofrimento, a superação e o sentido da vida.adequado usar linguagem leve, polida, clara e objetiva, permitindo ao interlocutor conhecer a personalidade do falante e, assim, entender que ele sabe adequar a sua linguagem ao contexto situacional. Durkheim (2008) afirma que as religiões não precisam ser definidas necessariamente pela exis- tência de um deus. Há, segundo o autor, religiões sem deus, como é o caso do budismo. O que define a religiãoé a separação entre o sagrado e o profano e a existência de rituais que façam a mediação entre esses planos, como na eucaristia católica e na meditação em algumas religiões orientais. Para Durkheim (2008) a religião traz coesão social. De fato, não há consenso na literatura, mas sabemos que a religião forma diferentes sentidos para a vida social, uma vez que é um sis- tema de crenças baseado na dicotomia ente o sagrado e o profano e um conjunto de rituais que faz mediação entre eles. Na sociedade contemporânea as características dos estilos de vida também se transforma- ram, como podemos ver a seguir: • Hedonismo: estilo de vida voltado para a busca do prazer; • Narcisismo: culto ao “eu” e a consequente negação do “outro”; • Consumismo: a finalidade última da vida é o consumo; • Relações sociais líquidas: as relações são constituídas de forma fluida e são tem- porárias (BAUMAN, 2001). FIQUE ATENTO! Freire Filho (2003, p.72) resume o estilo de vida da pós-modernidade: (...) estamos todos envolvidos no projeto de construção e manuten- ção de uma aparência, de uma imagem, de um estilo, ao mesmo tempo particular e socialmente desejável. Numa conjuntura histórica habitualmente conceituada como tardo moderna, neo-moderna ou pós-moderna, temos consciência de que nossas disposições corpo- rais, a maneira como articulamos nosso discurso, nossas opções de férias e lazer, nossas preferências em termos de música, cinema, TV, roupa, comida, qualquer objeto ou expressão cultural submetido a julgamento de gosto, serão avaliados como principais indicadores de nossa personalidade, de nossa individualidade. Assim, vivemos em uma sociedade da exibição, pois nosso perfil nas redes sociais parece tão essencial e tão definidor do “eu”. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 103 – 2 O consumo na sociedade contemporânea Para Retondar (2008), a sociedade contemporânea é uma sociedade de consumo, tendo-o como um mediador das relações sociais, das relações de poder e status social. O autor baseia o consumo contemporâneo em três características. Acompanhe! • Consumo do supérfluo. • Consumo do excedente. • Consumo do luxo. Figura 4 – Consumo Fonte: oneinchpunch/Shutterstock.com Atualmente, os padrões de consumo definem as identidades individuais, conforme explica Retondar (2008, p.138): “(...)o universo do consumo passou a ganhar centralidade tanto como motor do desenvolvimento econômico quanto através da expansão do consumismo como ele- mento de mediação de novas relações e processos que se estabelecem no plano cultural das sociedades modernas.” SAIBA MAIS! Para conhecer mais sobre a sociedade do consumo, leia “A (re)construção do indivíduo: a sociedade de consumo como ‘contexto social’ de produção de subjetividades”, de Anderson Retondar. O texto está disponível em: <http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S0102-69922008000100006&lng=pt&nrm=iso>. Retondar (2008) explica ainda que na sociedade contemporânea o indivíduo está sendo mini- mizado. O consumo passa a ser definidor do indivíduo, separando aqueles indivíduos que são consumidores daqueles que não são. Para o autor, as marcas ganham significados sociais e o indivíduo que consome determinada marca em detrimento de outra é julgado socialmente pelo seu padrão de consumo. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 104 – https://www.shutterstock.com/pt/g/oneinchpunch FIQUE ATENTO! É comum identificar o status que o indivíduo mantém em sociedade com a marca que utiliza.Dessa forma, os indivíduos que participam pouco ou não participam do mercado consumidor são excluídos de determinadas relações sociais. Caniato e Nascimento (2010) mencionam que essa sociedade do consumo é uma sociedade de excessos, mas é também uma sociedade da privação, já que o consumo é limitado pela renda de cada indivíduo. Sobre isso, Caniato e Nascimento (2010, p. 28) afirmam: “O exagero produz a escassez: é porque poucos têm demais que muitos sofrem com a falta; em outras palavras, é o mesmo processo a produzir o excesso que gera a privação”. SAIBA MAIS! Aprenda mais sobre a sociedade do consumo e da privação por meio do texto“A subjetividade na sociedade de consumo: do sofrimento narcísico em tempos de excesso e privação”, de Caniato e Nascimento. Acesse: <http://pepsic.bvsalud.org/ scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672010000200004&lng=pt&nrm=iso>. Contudo, se o consumo é critério de distinção social, cada vez mais são marginalizados e excluídos aqueles que não consomem, aumentando, assim, a desigualdade. A sociedade do con- sumo é, portanto, também a sociedade da exclusão. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • entender que família é um conceito naturalizado e que há sociedades com diferentes configurações familiares, diferentes da sociedadeocidental. • compreender que religião é um sistema de crenças que separa o sagrado do profano. • perceber que estilos de vida da sociedade contemporânea são baseados no consumo. • saber que o consumo cria uma sociedade da exclusão. Referências BAUMAN, Zygmunt. A modernidade líquida. São Paulo: Jorge Zahar, 2001. CANIATO, Ângela Maria Pires; NASCIMENTO, Merly Luane Vargas.A subjetividade na sociedade de consumo: do sofrimento narcísico em tempos de excesso e privação. Arq. bras. psicol., Rio de Janeiro, v. 62, n. 2, p. 25-37, 2010. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?scrip- t=sci_arttext&pid=S1809-52672010000200004&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 19 jan. 2017. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 105 – http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672010000200004&lng=pt&nrm=iso http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672010000200004&lng=pt&nrm=iso DANIEL, Jungla Maria Pimentel; CRAVO, VeraluzZicarelli; POSSE, Zulmara C. Sauner. A diversidade cultural e a reprodução humana. Educ. rev., Curitiba, n. 11, p. 63-74, dez. 1995. Disponível em: <http:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40601995000100008&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 18 jan. 2017. DURKHEIM, Émile. As formas elementares de vida religiosa. São Paulo: Paulus, 2008. FREIRE FILHO, João. Mídia, consumo cultural e estilo de vida na pós-modernidade. ECO-Pós. v.6, n.1. 2003. FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. São Paulo: LM Pocket, 2012. OLIVEIRA, Nayara Hakime Dutra. Recomeçar: família, filhos e desafios [online]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009. Disponível em: <http://books.scielo.org/id/965tk/ pdf/oliveira-9788579830365-03.pdf>. Acesso em: 18 jan. 2017 RETONDAR, Anderson Moebus (re)construção do indivíduo: a sociedade de consumo como “contexto social” de produção de subjetividades. Soc. estado. Brasília, v. 23, n. 1, p. 137-160, abr. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S0102-69922008000100006&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 19 jan. 2017. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 106 – http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40601995000100008&lng=pt&nrm=iso http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40601995000100008&lng=pt&nrm=iso http://books.scielo.org/id/965tk/pdf/oliveira-9788579830365-03.pdf http://books.scielo.org/id/965tk/pdf/oliveira-9788579830365-03.pdf http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69922008000100006&lng=pt&nrm=iso http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69922008000100006&lng=pt&nrm=iso Os movimentos sociais Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva Introdução Os movimentos sociais estão em crescimento no Brasil, mostrando como nossa sociedade está engajada em sua luta por direitos. Desde 2013 os movimentos sociais se fortalecem em nosso país, exigindo, por exemplo, melhorias nos serviços públicos e fim da corrupção política. Objetivos de Aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • identificar o surgimento dos movimentos sociais e das questões impactantes na cul- tura que propõem atualmente. 1 Os movimentos sociais Os movimentos sociais são manifestações da sociedade civil. Mas, afinal, o que é a sociedade civil? Dentro da perspectiva teórica da Sociologia política, Scherer-Warren (2006, p.110) diz que Nesta perspectiva teórica, a sociedade civil, embora configure um campo composto por for- ças sociais heterogêneas, representando a multiplicidade e diversidade de segmentos sociais que compõem a sociedade, está preferencialmente relacionada à esfera da defesa da cidada- nia e suas respectivas formas de organização em torno de interesses públicos e valores (...). Nessa definição, a autora indica que a sociedade civil é marcada por interesses múltiplos, contudo, de maneira geral, trata-se de uma esfera preocupada com a questão da conquista de direitos. Do ponto de vista didático, podemos afirmar que os movimentos sociais são divididos em dois, que posteriormente se ramificam. Vamos entendê-los. Acompanhe! Temos os movimentos contra o Estado, que se configuram a partir da insatisfação com res- postas dadas por governos às necessidades da sociedade civil e movimentos contra a própria sociedade civil e suas ações predatórias ou de exclusão. EXEMPLO Um movimento social que pede melhoria do atendimento médico no Sistema Único de Saúde, no Brasil, é um movimento contra o Estado, porque critica políticas so- ciais de saúde. – 107 – TEMA 15 Scherer-Warren (2006) indica que os movimentos sociais colocam nos mesmos espaços de luta atores sociais distintos, mas que possuem interesses comuns. Para a autora, os movimentos sociais podem ser “[...] de gênero, étnica, de classe, regional, mas também dimensões de afinida- des ou de opções políticas e de valores [...]” (SCHERER-WARREN, 2006, p. 115). EXEMPLO Um movimento social que exige de empresários a diminuição da emissão de gás carbônico na atmosfera é um movimento contra um grupo específico da sociedade civil, que são os donos de empresas poluidoras. SAIBA MAIS! Para você conhecer mais a respeito dos movimentos sociais, não deixe de ler “Das mobi- lizações às redes de movimentos sociais”. No texto a autora, Ilse Scherer-Warren, explica aspectos relacionados a como se organiza a sociedade civil. Acesse: <http://www.scielo. br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69922006000100007&lng=pt&nrm=iso> Perceba que os movimentos sociais têm um importante significado no sentido da transfor- mação da sociedade civil, em dois aspectos: • sua emancipação; • sua capacidade de organização. Mas o que significa emancipar? É ganhar consciência de si, tornar-se independente e autônomo. Uma das formas mais importantes para ganhar autonomia é a busca do conhecimento. A sociedade que se educa reconhece que pode lutar por aquilo que a deixa insatisfeita (AVRITZER, 2012). Figura 1 – Sociedade do conhecimento Fonte: Matej Kastelic/Shutterstock.com SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 108 – https://www.shutterstock.com/pt/g/matej+kastelic A sociedade brasileira tem passado por um processo de emancipação, e os brasileiros têm ganhado autonomia para lutar por seus interesses. FIQUE ATENTO! Avritzer (2012) menciona a importância de a sociedade civil ganhar autonomia fren- te ao Estado. Isto é, que a sociedade civil reconheça que, nas democracias, ela deve exigir a efetivação de seus direitos. De qualquer forma, não basta que a sociedade ganhe autonomia, pois os movimentos sociais necessitam que ela também se organize. De acordo com Bem (2006, p.1138) Os movimentos sociais realizam, de fato, um papel histórico maior do que simplesmente revelar as tensões e contradições sociais de cada momento histórico.Eles são acima de tudo uma bússola para a ação social, impulsionando o campo social para formas superio- res de organização e buscando a institucionalização jurídico-legal das conquistas. Para o autor, o processo de modernização praticado adulterou a introdução de um modelo de democracia com pequena participação popular, e desenhou “novas facetas nos modos de estru- turação da tensa e contraditória relação entre Estado e sociedade, forçando-o a uma permanente negociação e integração das demandas sociais” (BEM, 2006, p. 1154). 2 Os novos movimentos sociais Há muitos movimentos sociais que marcam o século XX e XXI. Você saberia citar alguns? Os primeiros movimentos sociais, especialmente os de maior destaque, tiveram cunho trabalhista, operário e sindical. Atualmente, há novas demandas dos movimentos sociais, em torno de lutas que extrapolam a questão dos direitos trabalhistas. De acordo com Rohden (1996), a partir dos anos 60, os movimentos sociais adquiriram novas características, pois se articularam em torno de interesses que não se resumiam à classe social. Como os movimentos feministas, ecológicos, ambientalista, de consumidores e de defesa de minorias. Figura 2 – Movimento ambientalistaFonte: Chinnapong/Shutterstock.com SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 109 – https://www.shutterstock.com/pt/g/noipornpan Como todo movimento social, o movimento ambientalista também se diversifica. Há desde pessoas que se declaram veganas até grupos que se organizam e lutam contra testes clínicos de medicamentos e de cosméticos em animais. De maneira geral, esses grupos mobilizam-se por justiça ambiental, que tem, inclusive, base constitucional. FIQUE ATENTO! A Constituição Federal (CF/88), no artigo. 225, prevê que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.” A CF/88 atribui ao Estado e à sociedade a obrigação de proteger o meio ambiente. Essa é, portanto, a ideia central dos movimentos por justiça ambiental. Acselrad (2010, p.111) que Na experiência recente, essa noção de justiça surgiu da criatividade estratégica dos movi- mentos sociais que alteraram a configuração de forças sociais envolvidas nas lutas am- bientais e, em determinadas circunstâncias, produziram mudanças no aparelho estatal e regulatório responsável pela proteção ambiental. O movimento ambientalista cresce em todo o mundo, especialmente a partir da percepção de que o capitalismo é um grande consumidor de recursos ambientais não renováveis e de que a vida na terra depende da natureza para continuar existindo. Outro movimento que tem ganhado espaço e conquistado direitos é o chamado movimento LGBT, que é o acrônimo para Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros. Figura 3 – Movimento LGBT Fonte: Rawpixel.com/Shutterstock.com SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 110 – https://www.shutterstock.com/pt/g/rawpixel.com Vianna (2015) explica que o contexto do surgimento do movimento LGBT tem origem na ausên- cia de reconhecimento da identidade coletiva de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros pela sociedade brasileira e pela negação de seus direitos. Vianna (2015, p.7) explica: O movimento homossexual entrou em cena no final de 1960 e início da década de 1970, na luta contra a ditadura militar (GREEN, 2000), e, mais tarde, em diálogo com os movimentos sociais nascidos durante o processo de transição para a democracia, na década de 1980. Vianna (2015) insiste na importância de se pensar as questões de gênero e de diversidade sexual como um processo de luta pela aquisição de direitos igualitários. Para Rohden (1996) os novos movimentos sociais têm um eixo plural de atuação, valorizam a diversidade de grupos, defendem a convivência em igualdade de condições no mesmo espaço social, econômico e político, e questionam valores e instituições da sociedade Há, também, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), um movimento social típico brasileiro. O MST questiona a existência da grande propriedade de terra não utilizada e defende a necessidade da reforma agrária. Figura 4 – Movimento dos sem terra Fonte: Konstanttin/Shutterstock.com O MST tem como característica suscitar o debate sobre a desigualdade social no Brasil e sobre a necessidade de luta contra a concentração de renda. Caldart (2001, p. 207) explica que “O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, também conhecido como Movimento dos Sem Terra ou MST, é fruto de uma questão agrária que é estrutural e histórica no Brasil”. SAIBA MAIS! Para conhecer mais sobre o MST, sugerimos a leitura “O MST e a formação dos sem terra: o movimento social como princípio educativo”, que está disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ea/v15n43/v15n43a16.pdf>. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 111 – https://www.shutterstock.com/pt/g/konstanttin http://www.scielo.br/pdf/ea/v15n43/v15n43a16.pdf FIQUE ATENTO! A Constituição Federal, em seu artigo 5º., inciso XXIII, garante a função social da propriedade, argumento muito usado pelo MST para justificar seu movimento. Como vimos, há muitos movimentos no Brasil que têm buscado maior justiça social e condi- ções de igualdade. Fechamento Nesta aula, você teve oportunidade de: • entender o que é a sociedade civil; • saber o que é um movimento social; • compreender o que é a sociedade civil emancipada e organizada; • identificar movimentos sociais específicos: ambientalistas, LGBT e MST. Referências ACSELRAD, Henri. Ambientalização das lutas sociais - o caso do movimento por justiça ambiental. Estud. av., São Paulo, v. 24, n. 68, p. 103-119,2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?s- cript=sci_arttext&pid=S0103-40142010000100010&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 24 jan. 2017. AVRITZER, Leonardo. Sociedade civil e Estado no Brasil: da autonomia à interdependência política. Opinião Pública, Campinas. v. 18, n. 2, p. 383-398, nov. 2012. Disponível em: <http://www.scielo. br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-62762012000200006&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 24 jan. 2017. BEM, Arim Soares do. A centralidade dos movimentos sociais na articulação entre o Estado e a socie- dade brasileira nos séculos XIX e XX. Educ. Soc., 2006, v. 27, n.97, p.1137-1157. Disponível em: <http:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101=73302006000400004-&lng=en&nrm- iso>. Acesso em: 19 abr.2017. BRASIL. Constituição Federal de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constitui- cao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 24 jan.2017.CALDART, Roseli Salete. O MST e a forma- ção dos sem terra: o movimento social como princípio educativo. Estudos Avançados, v. 15, n. 43, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ea/v15n43/v15n43a16.pdf>. Acesso em: 24 jan. 2017. ROHDEN, Fabíola. Filantropia empresarial: a emergência de novos conceitos e práticas. Anais do Seminário Empresa Social. São Paulo, set. 1996. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 112 – http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302006000400004&lng=en&nrm=iso http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302006000400004&lng=en&nrm=iso http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302006000400004&lng=en&nrm=iso http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm http://www.scielo.br/pdf/ea/v15n43/v15n43a16.pdf SCHERER-WARREN, Ilse. Das mobilizações às redes de movimentos sociais. Soc. estado. Brasília, v. 21, n. 1, p. 109-130, abr. 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttex- t&pid=S0102-69922006000100007&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 23 jan. 2017. VIANNA, Claudia Pereira. O movimento LGBT e as políticas de educação de gênero e diversi- dade sexual: perdas, ganhos e desafios. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 41, n. 3, p. 791-806, set. 2015. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-970220 15000300791&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 24 jan. 2017. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 113 – Constituição de 1988 e a sociedade contemporânea Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva Introdução Vamos conhecer a Constituição de 1988, que se destaca entre as Constituições brasileiras por não ser apenas um conjunto de leis que definem a organização política e legal do país. Ela apresenta leis que garantem a cidadania e determina que o Estado implemente políticas públicas de forma que a cidadania seja plena para todos. Objetivos de Aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • entender as influências da Constituição de 1988 na nossa sociedade; • conhecer os movimentos sociais atuais; • identificar as ações afirmativas e os seus impactos sociais. 1 Contexto Histórico e Social da Constituição de 1988 Ao começarmos, é importante identificar o contexto histórico que levou à elaboração da Constituição de 1988. Segundo Fausto (2002), o período foi marcado pelo fim da ditadura militar e o restabelecimento das instituições democráticas no Brasil.Para garantir a estabilidade da demo- cracia, a Constituição de 1988 (BRASIL, 1988) passou a considerar: • a soberania popular; • a separação dos poderes; • o voto universal e secreto; • o pluripartidarismo; • os direitos individuais; • os direitos sociais; • a proteção às minorias. – 114 – TEMA 16 Figura 1 – Democracia Fonte: Filipe Frazao/Shutterstock.com Segundo Fausto (2002), efetivamente a Constituição foi um grande avanço na ampliação dos direitos sociais, na busca de garantir a cidadania plena a todos. É por isso mesmo, que, em seu artigo 3º, o texto constitucional determina a erradicação da pobreza e a redução das desigualdades sociais. FIQUE ATENTO! Fausto (2002) menciona que a Constituição de 1988 apresenta uma grande lacuna entre o que está nela determinado e a prática. Erradicar a pobreza não é algo que se faz por decreto, por mera determinação legal. São necessários amplos investimen- tos públicos para que isso ocorra. O direito a ser candidato para um cargo público é um direito político. O direito ao trabalho, e a proteção à maternidade são direitos sociais. Os direitos à livre manifestação do pensamento e à vida privada são direitos civis. Ao criar artigos que garantam direitos universais, a Constituição promove também a garantia de direitos humanos, igualmente previstos em legislação internacional. A seguir, vamos conhecer mais sobre os avanços trazidos pela Constituição de 1988 na esfera dos direitos sociais. 2 Ecos da Constituição de 1988: ECA, LDB e outros Um dos mais importantes desdobramentos da Constituição de 1988 foi a posterior elabora- ção de uma legislação protetiva a grupos sociais vítimas de algum tipo de vulnerabilidade, como os listados a seguir. • Estatuto da Criança e do Adolescente, promulgado em 1990. • Estatuto do Idoso, promulgado em 2003. • Estatuto da Igualdade Racial, promulgado em 2010. • Estatuto da Pessoa com Deficiência, promulgado em 2015. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 115 – https://www.shutterstock.com/pt/g/filipefrazao FIQUE ATENTO! No Brasil, as mulheres também são consideras minorias e, devido ao machismo e o paternalismo da nossa sociedade, são frequentemente vítimas de violência. A Lei n. 11340, de 7 de agosto de 2006, intitulada Maria da Penha, é também um exemplo de legislação protetiva. O Brasil é um país marcado por enormes vulnerabilidades sociais, e a Constituição de 1988 estabelece um projeto para combatê-la. Mas, efetivamente, o que é vulnerabilidade social? Con- forme Palma e Mattus (2001, p.575-6): “(...) todo e qualquer processo de exclusão, discriminação ou enfraquecimento de grupos sociais”. As legislações que foram mencionadas acima, criadas a partir da Constituição de 1988, têm como objetivo obrigar o Estado a garantir os direitos dos indivíduos em vulnerabilidade e, além disso, obrigar a sociedade a tratá-los com dignidade. Figura 2 – Vulnerabilidade Social Fonte: Ocskay Bence/Shutterstock.com Entenda que a vulnerabilidade não é apenas uma questão econômica, conforme explicam Palma e Mattus (2001). Um idoso, por exemplo, cujas habilidades motoras e cognitivas estejam prejudicadas, será considerado vulnerável, independente da renda. A seguir, vamos compreender a atuação dos movimentos sociais na nossa sociedade. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 116 – https://www.shutterstock.com/pt/g/ocskay+bence 3 Atuação dos movimentos sociais recentemente Os movimentos sociais são fundamentais para as democracias e nossa Constituição de 1998 garante esse direito no artigo 5º., justamente o artigo sobre direitos e liberdades individuais: Art.5. XVI - todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competen- te (BRASIL, 1988). Veja, portanto, que a possibilidade de se reunir, desde que sem violência, é um direito. Dessa forma, contanto que a mobilização social seja realizada nas condições em que prevê o artigo, ela poderá acontecer. Figura 3 – Movimento Social Fonte: a katz/Shutterstock.com Rosa e Mendonça (2011, p.664) afirmam sobre os movimentos sociais: “As últimas déca- das foram marcadas pela mobilização política em diversas localidades do mundo. Movimentos feministas, ambientalistas, antiglobalização, antirracistas e de trabalhadores rurais são exemplos contemporâneos de ações organizadas por minorias.” SAIBA MAIS! Conheça mais sobre o conceito de minoria lendo o artigo Movimentos sociais e análise organizacional: explorando possibilidades a partir da teoria de frames e a de oportunidades políticas. Acesse:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttex- t&pid=S1984-92302011000400005>. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 117 – https://www.shutterstock.com/pt/g/a+katz Considerando que a Constituição de 1988 determina várias obrigações ao Estado no sen- tido de proteção das minorias, então, ela abre espaço para que os movimentos sociais venham solicitar seus direitos. FIQUE ATENTO! Os movimentos sociais são uma forma de as minorais buscarem o reconhecimento estatal de suas demandas e lembrar aos poderes públicos de seus direitos e da necessidade de efetivá-los. A Constituição de 1988 cumpriu um papel importantíssimo ao estabelecer a dignidade da pessoa humana em seu artigo 1º. Os movimentos sociais têm a missão de pressionar o Estado para criar formas de garanti-la. A seguir, você estudará como algumas minorias têm sido alvo das chamadas políticas afirmativas. 4 Anos 2000 e as ações afirmativas As ações afirmativas indicam que, em determinada sociedade, há grupos sociais em situa- ção de vulnerabilidade e de exclusão. Mas, afinal, o que é uma ação afirmativa? Moehlecke (2002, p.203) as descreve da seguinte forma: (...) podemos falar em ação afirmativa como uma ação reparatória/compensatória e/ou preventiva, que busca corrigir uma situação de discriminação e desigualdade infringida a certos grupos no passado, presente ou futuro, através da valorização social, econômica, política e/ou cultural desses grupos, durante um período limitado. A sociedade brasileira está repleta de grupos sociais que foram vítimas de discriminação e desigualdade social. Negros, mulheres, índios, pessoas com deficiência, homossexuais, idosos, entre outros foram e são vítimas de exclusão. As ações afirmativas têm como função reparar essa injustiça e desigualdade históricas. EXEMPLO Sabe-se que as mulheres, historicamente, sempre ganharam menos que os ho- mens, além de dificilmente ocuparem cargos de chefia. Para corrigir essa situação, a Constituição, em seu artigo 7º., determina: XX - proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei. Assim, diante de desigualdades, cabem ações específicas do Estado para corrigi-las. Hoje, as cotas para negros e indígenas nas universidades não são aceitas por toda a população e nem por todos os partidos políticos, mas, ainda assim, têm sido implementadas, com o intuito de repara- rem a desigualdade racial, a qual estes grupos foram submetidos ao longo da história. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 118 – Figura 4 – Política de Cotas Fonte: ESB Professional/Shutterstock.com De qualquer forma, temos um texto constitucional que protege a cidadania e as minorias, por isso, mesmo não havendo um consenso social, as políticas afirmativas são importantes e devem ser discutidas em sociedade. Agora que você entendeu sobre as políticas afirmativas, vamos estudar outras formas de garantia da cidadania. 5 Exercício da cidadania no século XXI A cidadania é plena quando os governos possibilitam que todos tenham acesso aos mesmos direitos e bens sociais. Segundo Carvalho (2016), a cidadania é o acesso de toda a sociedade aos direitos civis, políticos e sociais. EXEMPLO Não há cidadania plena se apenas os filhos de pessoas de alta renda frequentam a escola, porque podem pagar por ela.É preciso que todos frequentem a escola, com os governos garantindo a educação pública de qualidade. Mas a cidadania não envolve apenas aquilo que o governo garante como direito. A cidadania exige que a sociedade também se envolva com as questões públicas. Veja como Assis, Kantorski e Tavares (1995, p. 330) definem participação social: (...) entendendo ser um espaço social, onde se articulam diferentes sujeitos e uma popula- ção com suas necessidades e interesses individuais e/ou grupais. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 119 – https://www.shutterstock.com/pt/g/esb+professional Assis, Kantorski e Tavares (1995) apresentam a saúde como exemplo de direitos ou bens de consumo coletivo, mas há outros, como alimentação, moradia, educação, cultura e transporte. Todos eles estão assegurados na Constituição de 1988. SAIBA MAIS! Para aprender mais sobre o conceito de participação social, não deixe de ler “Par- ticipação social: um espaço em construção para a conquista da cidadania”, dos autores Assis, Kantorski e Tavares.Acesse em:<http://www.scielo.br/scielo.php?s- cript=sci_arttext&pid=S0034-71671995000400003&lng=pt&nrm=iso>. Dessa forma, com a participação social, cada vez mais a sociedade civil pressiona os gover- nos para efetivarem seus direitos. Fechamento Nesta aula, você teve oportunidade de: • entender o impacto da Constituição de 1988 no âmbito da sociedade brasileira contemporânea; • identificar a proteção constitucional às minorias; • compreender a participação social e a proteção estatal aos direitos. Referências ASSIS, Marluce Maria Araújo; KANTORSKI, Luciane; TAVARES, José Lucimar. Participação social: um espaço em construção para a conquista da cidadania. Rev. bras. enferm., Brasília, v. 48, n. 4, p. 329-340, dez. 1995. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S0034-71671995000400003&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 27 jan. 2017. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: <http://www.pla- nalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 28 jan.2017. _______. Lei n. 11340, de 7 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência domés- tica e familiar contra a mulher. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004- 2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 06. Maio. 2017. CARVALHO, José Murilo. A Cidadania no Brasil: o longo caminho. São Paulo: Civilização Brasileira, 2016. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2002. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 120 – http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm MOEHLECKE, Sabrina. Ação Afirmativa: História e Debates no Brasil. Cadernos de Pesquisa, n. 117, p. 197-217, novembro/ 2002. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/cp/n117/15559.pdf>. Acesso em: 26 jan.2017. PALMA, Alexandre; MATTOS, Ubirajara. A. O. Contribuições da ciência pós-normal à saúde pública e a questão da vulnerabilidade social. Hist. Cienc. Saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 8, n. 3, p. 567-590, dez. 2001. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S0104-59702001000400004&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 26 jan. 2017. ROSA, Alexandre Reis; MENDONCA, Patrícia. Movimentos sociais e análise organizacional: explo- rando possibilidades a partir da teoria de frames e a de oportunidades políticas. Organ. Soc. Salva- dor, v. 18, n. 59, p. 643-660, dez.2011. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S1984-92302011000400005&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 29 jan. 2017. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 121 – http://www.scielo.br/pdf/cp/n117/15559.pdf Globalização: origens e definições Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva Introdução O conceito de globalização está em evidência na sociedade contemporânea, e muitos proble- mas sociais têm causas atribuídas a este fenômeno. É isso que iremos estudar a seguir. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • compreender as origens do movimento de globalização; • conhecer as definições teóricas de globalização; • identificar os exemplos atuais de globalização. 1 O que é globalização? Segundo Buss (2007), a globalização tem como referência histórica a internacionalização da economia e a diminuição da soberania estatal. Vamos começar, também, rompendo com algumas ideias sobre a globalização que são construídas a partir do senso comum e não do conhecimento científico. Por exemplo, a de que a comunicação via internet poderia explicar sua origem, quando é apenas uma das consequências da globalização. Vamos entender melhor. Acompanhe! Para compreender a globalização, pense em uma pequena fábrica de chapéus, aberta no início do século XX no Brasil, na grande cidade de São Paulo, com 200 operários e 20 técnicos administrativos. A fábrica certamente buscará mão de obra na própria cidade, de preferência em bairros próximos a suas instalações. Moradores desses bairros preencherão as 220 vagas, e o mercado consumidor possivelmente será o mercado interno do Estado de São Paulo e, se houver boas estratégias comerciais, o proprietário poderá expandir seu negócio a outros Estados. SAIBA MAIS! Conheça mais sobre globalização lendo o seguinte artigo: “A centralidade das aglomerações metropolitanas na economia globalizada: fundamentos econômicos e possibilidades políticas”. O texto está disponível em: <http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S2236-99962016000300623&lng=en&nrm=iso>. – 122 – TEMA 17 Figura 1 – Tecnologia na produção industrial Fonte: Zapp2Photo/Shutterstock.com. Vamos prosseguir no exemplo da fábrica de chapéus. Certamente ela não será especializada em produzir um único item e expandirá a variedade de produtos. Além de chapéus, talvez faça sapatos e bolsas. E, veja, ela não precisará produzir no mesmo país onde foi criada. Poderá instalar sua produção em países onde a mão de obra tenha menor custo, em países asiáticos, por exem- plo. Evidentemente, essa situação é prejudicial, pois nada justifica a exploração de trabalhadores, pagando baixos salários e negando a eles condições dignas de vida. Porém, muitas vezes essa é a lógica da globalização. Tornou-se comum que empresas centralizem sua parte estratégica no país de origem e trans- firam a produção. Além disso, as empresas também podem transferir sua produção em busca de incentivos fiscais, leis de proteção ambiental mais brandas e de insumos mais baratos. EXEMPLO Segundo Ferreira (2000), a Tailândia é um país procurado por investidores japoneses devido à mão de obra barata. Isso a torna atraente para empresas transnacionais. As empresas também podem comprar matéria-prima e insumos para produção em países onde estes forem mais baratos. Com a transnacionalização da produção, o comércio exterior ganha maior fôlego, e as mercadorias são vendidas em diversos países. Com o crescimento das vendas é comum que elas passem a vender ações em Bolsa de Valores, e o capital financeiro toma proporções nunca antes vistas. Observe nesse contexto que o comércio deixa de ter uma dimen- são territorial e nacional e ocorre no plano do capital financeiro, na compra e venda de papéis nas Bolsas. Mas, por outro lado, Sanfelici (2016, p. 625-6) afirma: SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 123 – (...) se, por um lado, a globalização favoreceu efetivamente o comércio de longa distância e viabilizou, através das tecnologias da informação, práticas mais sofisticadas de coordena- ção global das estratégias empresariais, por outro, não eliminou a necessidade de proximi- dade territorial na organização das atividades econômicas. Perceba que para Sanfelici (2016), a globalização não nega a necessidade de uma base terri- torial para que a empresa se organize, para que planeje e crie estratégias de negócios. FIQUE ATENTO! É dessa forma que surge o complexo processo chamado globalização: com a in- ternacionalizaçãoda economia. Isso implica que barreiras impostas pelos Estados nacionais sejam rompidas, ampliando a lógica da economia transnacional. A seguir, vamos conhecer mais sobre o processo histórico que levou ao surgimento da globalização. 2 Origens da globalização A globalização é reflexo de um processo histórico, que determinou condições específicas para seu surgimento. Rattner (2005, p.68) resume o processo que deu origem à globalização: Em retrospectiva histórica, a globalização iniciou-se no pós-guerra, com a expansão ace- lerada e ininterrupta da internacionalização da economia, configurada pelo crescimento do comércio e dos investimentos externos, a taxas bem mais altas do que o aumento da produção mundial (PMB - Produto Mundial Bruto). Figura 2 – Internacionalização do capital Fonte: muratart/Shutterstock.com. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 124 – Quando o autor menciona o pós-Guerra, refere-se à II Guerra Mundial. Esse período, até hoje, apresenta algumas características específicas, como define Rattner (2005): • Economia organizada internacionalmente, não mais localmente. • Consumo voltado ao mercado internacional. • Novo estilo de vida, agora voltado ao consumo, conforme interesse do mercado. • Consumo de bens estéticos e culturais também dentro do padrão internacional, espe- cialmente norte-americano. • Fortalecimento dos meios de comunicação pela internet. FIQUE ATENTO! Alguns autores afirmam que a globalização começou ainda no período das Grandes Navegações. Contudo, aqui vamos estudar a globalização do período contemporâ- neo. Os historiadores consideram que o evento que inaugura a contemporaneidade é a Revolução Francesa, no final do século XVIII. Conforme Silva e Lopes Junior (2008), outro fato histórico que é uma das causas explicativas do processo de globalização é o fim do chamado Estado de bem-estar social e o acirramento do chamado neoliberalismo. Em outras palavras, encerra-se o momento em que os Estados inter- vinham mais fortemente na economia e tinham maior investimento orçamentário em políticas sociais, para um momento em que o Estado se afasta da economia e da sociedade, deixando o mercado se autonomizar. Sobre isso Silva e Lopes Junior (2008, p.11) afirmam: Dessa forma, ao tentar enxergar a globalização com o olhar do cidadão comum, podemos perceber a mutilação gradativa das sociedades contemporâneas, mesmo a proposta de universalização dos movimentos sociais como forma de se contrapor ao avanço neoliberal parece não ter fôlego para suportar a avalanche neoliberal, que de forma mordaz corrói as estruturas da luta em prol do bem-estar social, do resgate da cidadania, do direito à vida. A imagem a seguir é um exemplo dessa situação. Figura 3 – fila em hospital público Fonte: Doucefleur/Shutterstock.com. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 125 – Com o fim do Estado de bem-estar social, cada vez menos pessoas têm acesso aos serviços públicos de qualidade e são deixadas dependentes do mercado, que privilegia os mais ricos. Com isso, quem não pode pagar por um plano de saúde fica em situação de vulnerabilidade social. SAIBA MAIS! Para conhecer mais a respeito do neoliberalismo, não deixe de ler “Globalização – de sua gênese mercantilista ao neoliberalismo burguês”, que pode ser acessado em <http://cchla.ufrn.br/interlegere/revista/pdf/3/es01.pdf>. Vamos agora conhecer os modelos de globalização e como ela afeta os países de forma diferente. 3 Modelos de globalização O impacto da globalização é absolutamente diferente para países desenvolvidos e para os países periféricos. Nestes, a globalização amplia problemas nacionais já históricos, como fome, desemprego, falta de acesso a serviços públicos e muitas outras situações geradoras de desigual- dade social. Assim, países ricos ficam ainda mais ricos às custas das nações mais pobres. EXEMPLO Os países localizados ao norte, incluindo a América do Norte e a Europa, são os que se aproveitam das consequências mais benéficas da globalização. Por outro lado, países da América Latina, África e alguns países asiáticos ampliam suas desigual- dades sociais. Neste sentido, a imagem a seguir mostra o resultado da globalização: a desigualdade social e a falta de acesso aos direitos sociais, como alimentação e moradia. Figura 4 – Resultado da globalização Fonte: A_Lesik / Shutterstock.com. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 126 – A divisão estimulada pela globalização, entre Sul pobre e Norte rico, efetivamente cria dois modelos do fenômeno: enquanto os países do Norte enriquecem, os países do Sul ampliam suas desigualdades sociais. Giraud (2007, p. 396) nos fornece um exemplo desse fenômeno: Os países africanos – inclusive da África do Norte –, mas também a maioria dos países da América Latina, permanecem posicionados em mercados de produtos com baixo valor agregado ou cujos circuitos internacionais são intensamente controlados por multinacio- nais do Norte, para que consigam realizar um verdadeiro ciclo de desenvolvimento, ou seja, de autonomização. As produções agrícolas, a energia, a matéria-prima ou as indústrias de transformação de baixo nível tecnológico, que constituem as principais especializações dessas economias – com a notável exceção do Brasil –, não permitem que esses dois continentes modifiquem radicalmente as hierarquias econômicas. Como vimos anteriormente, a dinâmica econômica produzida pela globalização amplia o desemprego e o trabalho precário em países com mão de obra barata, intensificando assim ainda mais a distância entre os países do Norte e os do Sul. FIQUE ATENTO! Não existe mais a distinção, anteriormente bastante mencionada, entre país de Pri- meiro, Segundo e Terceiro Mundo. Com o fim da União Soviética, essa classificação perdeu o sentido. Uma vez que um dos desdobramentos da globalização é o acirramento do neoliberalismo e o fim do Estado interventor, podemos verificar a diminuição de políticas sociais. Fechamento Nesta aula, você teve oportunidade de: • conhecer o que é globalização; • entender a origem da globalização; • compreender modelos de globalização. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 127 – Referências BUSS, Paulo Marchiori. Globalização, pobreza e saúde. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro, v. 12, n. 6, p. 1575-1589, dez. 2007. Disponível em: <http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_art- text&pid=S1413-81232007000600019&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 26 abr. 2017. FERREIRA, João Sette Whitaker. Globalização e urbanização subdesenvolvida. São Paulo Pers- pec., São Paulo, v. 14, n. 4, p. 10-20, out. 2000. 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Acesso em: 30 jan. 2017. SILVA, Lemuel Rodrigues e LOPES JUNIOR, Orivaldo Pimentel. Globalização – de sua gênese mer- cantilista ao neoliberalismo burguês. Revista Eletrônica Inter-Legere, n. 3, jul/dez 2008. Disponível em: http://cchla.ufrn.br/interlegere/revista/pdf/3/es01.pdf. Acesso em: 31 jan. 2016. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 128 – Globalização: Impactos Econômicos (1980 – 2010) Adriana Duarte de SouzaCarvalho da Silva Introdução A globalização impacta na sociedade contemporânea nos âmbitos social, cultural, político, demográfico, jurídico e econômico. Nesta aula vamos aprofundar nosso estudo a respeito de como a globalização afeta as economias e abre mercados. E, ainda, conhecer como o Brasil se insere nessa lógica do comércio mundial. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • compreender os impactos da globalização na economia brasileira e ocidental; • entender os fenômenos econômicos que dela são consequências. 1 Mercado global Inicialmente, é preciso entender que o mercado global formou-se nas duas últimas décadas, fruto do fenômeno da globalização (ORTIGOZA; CORTEZ, 2009). Neste contexto, os mercados glo- bais não estão sob o controle dos Estados-nação ou países e possuem algumas características, conforme Ortigoza e Cortez (2009, p.12): Ser global quer dizer que as principais atividades produtivas estão organizadas em escala global. Ser global significa estar diretamente ligada a uma rede planetária de conexões que liga diversos agentes econômicos. Nessa dinâmica, a própria produtividade e também a concorrência respeitam a lógica de interação de uma rede geográfica global. Compreenda, então, que o mercado global ultrapassa os limites dos Estados nacionais e se internacionaliza. Com isso há um grande aumento da concorrência, pois os mercados passam a disputar espaço e consumidores em nível transnacional. – 129 – TEMA 18 Figura 1 – Mercado global Fonte: Atiketta Sangasaeng/Shutterstock.com. Em sua lógica, o mercado global possibilita que os países mais ricos produzam grandes riquezas, especialmente por meio do capital financeiro. Dupas (1998) explica ainda que o mercado global é impulsionado pelo fim das barreiras protecionistas, isto é, pela retirada de medidas adota- das pelos países para resguardar seus mercados internos. Um exemplo de barreira protecionista são os altos impostos cobrados sobre produtos importados. Outro importante impacto econômico da globalização é o neoliberalismo, que estudaremos a seguir. 2 Avanços do neoliberalismo Muitos países têm adotado o neoliberalismo como forma de governar, especialmente a partir da década de 80 do século passado. Vamos conhecer algumas características desses governos? Acompanhe! • Os governos neoliberais evitam interferir na atividade econômica. • Deixam de promover ou promovem poucas políticas sociais. • Pouco controlam as relações entre empregados e empregadores e legislam minima- mente sobre isso. • Entendem que os indivíduos devem buscar no mercado o atendimento de suas neces- sidades sociais. • Acreditam que a economia pode se autorregular. Devido a essas características, os governos neoliberais geralmente promovem o Estado Mínimo. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 130 – FIQUE ATENTO! Saiba que a denominação Estado Mínimo refere-se a uma pouca aproximação do Estado em relação à sociedade e ao mercado, promovendo uma maior vulnerabili- dade social dos indivíduos. Esse sistema tem sido criticado por autores atualmente, como Ibarra (2011, p. 239): O neoliberalismo propugna a redução do intervencionismo estatal e do raio de ação da po- lítica, ao criar interferências contrárias à liberdade individual e ser uma fonte de corrupção. Na ordem nacional, o desideratum se finca em conseguir o funcionamento automático da economia e dos mercados, livres de toda distorção governamental ou de cidadãos organi- zados coletivamente. De acordo com o autor, o neoliberalismo propõe um conjunto de medidas apresentadas como solução à ordem mundial, de forma utópica. Sabe-se que o capitalismo não consegue se autorregular sem ocasionar crises, e, portanto, a ação estatal é fundamental para manter o mínimo dos níveis de emprego e proteção social. Com a globalização, o neoliberalismo avança. No Brasil ele também está presente e pode ser percebido na redução de investimentos em políticas sociais. EXEMPLO Podemos citar a Emenda Constitucional 95, de 2016, que limita por vinte anos os gastos públicos no Brasil, como um exemplo de política neoliberal. A seguir, vamos aprender mais sobre globalização, identificando como se organizam interna- cionalmente os países, em blocos econômicos. 3 Nafta, União Europeia e Mercosul No mercado global há três grandes blocos econômicos, o Nafta, a União Europeia e o Merco- sul. Vamos conhecê-los! O Nafta, cuja sigla significa North American Free Trade Agreement ou Tratado Norte-Ame- ricano de Livre Comércio, na tradução ao português, é formado por Canadá, Estados Unidos e México. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 131 – Figura 2 – EUA, Canadá e México integram o Nafta Fonte: Lightspring/Shutterstock.com. O Nafta foi criado em 1994, para estabelecer um comércio livre entre os países envolvidos. Reis, Azevedo e Lélis (2014, p.371 e 376) realizaram análises quantitativas sobre os efeitos deste bloco para os três países participantes. Eles afirmam: (...) o Nafta apresentou coeficientes positivos e significativos a 99% para suas importações intra e extrazona. No Nafta, que foi formado em 1994, percebe-se a presença do efeito antecipação sobre os fluxos de comércio dois anos antes de o bloco ter sido formado. Dessa forma, mesmo antes do bloco ter sido constituído formalmente, Estados Unidos, Canadá e México comer- cializaram, entre 1992 e 1993, respectivamente, 29% e 36% a mais que o modelo previa. Outro bloco econômico existente é o Mercosul, formado por países da América Latina e, por- tanto, com força comercial reduzida. Figura 3 – Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai constituem o Mercosul Fonte: Mar Photography/Shutterstock,com. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 132 – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai fazem parte do Mercosul (2017), que surgiu como em 1991, por meio do Tratado de Assunção. SAIBA MAIS! Para conhecer em mais detalhes a história do Mercosul, sugerimos a seguinte leitura: “MERCOSUL”, que está disponível em: <http://www.mercosul.gov.br/saiba-mais- sobre-o-mercosul>. Já a União Europeia (EU) é um bloco econômico formado por 28 países europeus e foi criado em 1992. Figura 4 – Na União Europeia são 28 países-membros Fonte: ilolab/Shutterstock.com. Sobre a UE, Silva e Amaral (2013, p. 236) explicam: A União Europeia (UE) é o mais bem-sucedido projeto de regionalismo político no mundo, o foi no século passado e continua sendo no presente. [...] foram muitos os avanços no processo de integração: traçou-se a união aduaneira, de- senvolveram-se instituições políticas próprias, estabeleceu-se a moeda única, adotou-se um modelo de cidadania, desenvolveu-se uma política exterior e de segurança comum. Veja, portanto, que em relação ao Nafta e ao Mercosul, a EU avançou muito mais, especial- mente com a criação de uma moeda comum, o euro. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 133 – FIQUE ATENTO! A posição do Reino Unido na União Europeia está indefinida, depois de plebiscito realizado em 2016, quando o país decidiu sair do bloco. Para continuar entendendo a economia global, vamos agora compreender o que são merca- dos abertos. 4 Mercados abertos Durante séculos, a economia foi compreendida por meio do conceito de Estado-nação, espe- cialmente porque as atividades econômicas eram realizadas prioritariamente dentro dos países onde as empresas tinham sede. Os estudos de Economia levavam em conta os limites territoriais, porque mesmo as importações e exportações estavam sob o controle dos Estados. Essa reali- dade mudou com a globalização. O comércio internacional se abriu, primeiro por meio dos blocos econômicos e, depois, da internacionalização da economia e do capital financeiro. Um dos problemas dessa realidade é que as crises do capitalismo – cíclicas – afetam o planeta. EXEMPLO A crise americana de 2007 é um exemplo. Ela começou no mercado imobiliário norte-americano e se expandiu para outros países. Ao analisar a crise americana e os mercado abertos, Dulci (2009) alerta quenenhum país está a salvo das turbulências que um Estado-nação pode desencadear. E como se situa o Brasil nesse contexto? Acompanhe! 5 Brasil no mercado internacional O Brasil na atualidade é um país em forte recessão econômica, amplo desemprego e crise política estrutural, por isso dificilmente poderíamos afirmar que se destaca no mercado interna- cional. Para agravar, o país exporta bens primários, não tecnologia, o que deixa a nossa balança comercial bastante desfavorável. FIQUE ATENTO! O Brasil é considerado um grande exportador de commodities, que são bens de origem agropecuária e, portanto, de baixo valor agregado, comparando-se a bens que envolvem tecnologia, como máquinas industriais. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 134 – Moreira (1989, p.10) explica o problema de integração do Brasil no mercado internacional: Dirigido à substituição de importações, sobretudo industriais, propulsionado pela ação do Estado e financiado pelo endividamento externo, tem de ser substituído por modelo de integração mais competitivo, que corresponda à nova concepção de desenvolvimento e de inserção no mundo, que procure responder tanto às novas realidades e aspirações internas quanto às transformações da economia mundial. Há outros problemas que complicam a inserção do Brasil no mercado internacional. São eles: • alta carga tributária. • alta taxas de juros. • alta inflação. • baixa qualificação profissional. • legislação trabalhista não atraente a investidores estrangeiros, mas cuja flexibilização é predatória ao trabalhador. • governos com alta taxa de endividamento. • gastos públicos desmedidos. • sistema previdenciário inconsistente com a realidade. SAIBA MAIS! Para conhecer de forma mais aprofundada os problemas brasileiros, leia “O Brasil no contexto internacional do final do século 20”. A obra está disponível em: http://www. scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64451989000300002&lng=en&nr m=iso. Saiba que a inserção do Brasil no mercado internacional é fundamental, e o país precisa atrair investidores. Desta forma, haverá geração de empregos, aumento do consumo e de arrecadação. Fechamento Nesta aula, você teve oportunidade de: • conhecer como a globalização e a abertura de mercados impacta as economias nacionais;. • entender que a economia global favorece o surgimento de blocos econômicos; • compreender quais os desafios do Brasil no mercado global. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 135 – Referências BRASIL. EMENDA CONSTITUCIONAL N. 95, DE 15 DE DEZEMBRO DE 2016. Disponível em: <http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/emendas/emc/emc95.htm>. Acesso em: 28 maio 2017. DUPAS, G. A lógica da economia global e a exclusão social. Estudos Avançados. São Paulo , v. 12, n. 34, p. 121-159, Dec. 1998. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttex- t&pid=S0103-40141998000300019&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 02 fev. 2017. DULCI, Otávio Soares. S. Economia e política na crise global. Estudos Avançados. São Paulo, v. 23, n. 65, p. 105-119, 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S0103-40142009000100008&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 03 fev. 2017. IBARRA, David. O neoliberalismo na América Latina. Revista de Economia Política. São Paulo, v. 31, n. 2, p. 238-248, 2011. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S0101-31572011000200004&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 02 fev. 2017. MERCOSUL. Saiba mais sobre o Mercosul. Disponível em: http://www.mercosul.gov.br/saiba-mais- -sobre-o-mercosul. Acesso em: 03 fev. 2017. MOREIRA, Marcílio Marques. O Brasil no contexto internacional do final do século XX. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, São Paulo, n. 18, p. 05-23, 1989. Disponível em: <http://www.scielo.br/ scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64451989000300002&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 04 fev. 2017. ORTIGOZA, Sílvia Aparecida; CORTEZ, Ana Tereza. Da produção ao consumo: impactos socioam- bientais no espaço urbano [online]. São Paulo: Editora Unesp; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009, 146 p. REIS, Magnus dos; AZEVEDO, André Filipe Zago de; LÉLIS, Marcos Tadeu Caputi. Os efei- tos do novo regionalismo sobre o comércio. Estudos Econômicos, São Paulo, v. 44, n. 2, p. 351-381, 2014. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S0101-41612014000200005&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 03 fev. 2017. SILVA, Wanise Cabral. AMARAL, Nemo do Andrade. A imigração na Europa: a ação política da União Europeia para as migrações extracomunitárias. Sequência (Florianópolis), Florianópolis, n. 66, p. 235-259, julho 2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S2177-70552013000100010&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 03 fev. 2017. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 136 – Globalização: Impactos Políticos (1980 – 2010) Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva Introdução Nesta aula você conhecerá os aspectos políticos da globalização e saberá que esse é um processo que se fortalece desde o fim da Guerra Fria, constrói muros e aprofunda fronteiras. Você também compreenderá porque a globalização amplia a exclusão e as diferenças entre países ricos e pobres. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • compreender os impactos da globalização na política brasileira e ocidental; • entender os fenômenos políticos que dela são consequências. 1 Final da Guerra Fria: o muro caiu? Ao começar seus estudos sobre os aspectos políticos da globalização é importante identificar que ela surgiu no contexto da Guerra Fria, em que duas concepções de economia e política, o socia- lismo e o capitalismo, polarizaram o mundo. Esses conflitos ideológicos se fortaleceram depois da Segunda Guerra Mundial, especialmente entre os Estados Unidos, país capitalista, e a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Sato (2000) apresenta alguns fatores que levaram ao fim da Guerra Fria. São eles: • queda do muro de Berlim, que separava a Alemanha capitalista da socialista. • fim da União Soviética; • crise nos fundamentos políticos e econômicos que mantinham os países socialistas; • mudanças de valores nas agendas internacionais. – 137 – TEMA 19 Figura 1 – O Muro de Berlim separava Alemanha capitalista da socialista Fonte: Style-photography/Shutterstock.com. Você deve ter em mente que a queda do muro de Berlim vem sendo utilizada como metáfora para se afirmar que o mundo não está mais polarizado. No entanto, estudaremos que essa reali- dade é bem mais complexa do que parece. SAIBA MAIS! Para conhecer melhor os aspectos que envolveram o fim dessa divisão política mundial, você pode ler o artigo “A agenda internacional depois da Guerra Fria: novos temas e novas percepções”. O texto mostra que vários fatores levaram a essa mudança. Acesse em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034- 73292000000100007&lng=pt&nrm=iso>. Para Sato (2000), mudanças profundas nas relações internacionais e na própria agenda inter- nacional levaram ao fim da Guerra Fria. Segundo ele, a polarização entre capitalismo e socialismo passou a não fazer mais sentido, já que o capitalismo tornou-se o vencedor desse embate de for- ças e porque novas questões começaram a preocupar os governos. Sato (2000, p.139) apresenta exemplos: “(...) meio ambiente, narcotráfico, as novas bases da competitividade internacional, direitos humanos, conflitos étnico-religiosos, entre outros.” SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 138 – EXEMPLO Para você entender esse processo de mudança, enquanto no século passado a ameaça comunista assustava os EUA, atualmente um dos principais motivos de preocupação é o terrorismo de grupos islâmicos extremistas. A seguir, você conhecerá quais novas e múltiplas questões passaram a fazer parte da agenda dos países. 2 Do mundo bipolar ao multipolar Um dos grandes dilemas da atualidade, que marcam as questões de política externa, é o dos refugiados.Cada vez mais, países atingidos por calamidades naturais, como é o caso do Haiti, ou em guerra civil, situação da Síria, promovem a saída de seus cidadãos, que partem em busca de uma vida melhor. Essa situação tornou-se um problema internacional de direitos humanos. O mundo ficou dividido de forma multipolar. Figura 2 – A situação dos refugiados Fonte: Sinan Niyazi KUTSAL/Shutterstock.com Entenda que essa questão das migrações é bastante antiga, mas os refugiados formam um novo tipo de imigração. Rocha e Moreira (2010, p. 17) definem da seguinte forma o surgimento desse fenômeno. As migrações não constituem um fenômeno recente [...]. O que é, de fato, novo é que, a partir de meados do século XX, diversos Estados participantes do sistema internacional passaram a reconhecer a fuga, por medo de perseguição em função de raça, religião, na- cionalidade, convicções políticas ou filiação social, como um direito do indivíduo, protegido por uma legislação internacional. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 139 – É claro que nem sempre os países estão receptivos ao recebimento de refugiados. Os autores afirmam que organizações envolvidas com a causa humanitária muitas vezes frustram-se diante das dificuldades de aceitação desses grupos e da necessidade da instituição do refúgio. SAIBA MAIS! No artigo intitulado “Regime internacional para refugiados: mudanças e desafios”, de Rossana Reis Rocha e Julia Bertino Moreira, você poderá saber mais a respeito das dificuldades e dos dilemas relacionados à questão dos refugiados. O texto está disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104- 44782010000300003&lng=en&nrm=iso>. Outra questão que divide o mundo é a temática do terrorismo internacional, especialmente de alguns grupos da religião islâmica. Um dos problemas é que parte do Ocidente tem generalizado o terrorismo, atribuindo-o a todo o mundo islâmico e não a grupos específicos dentro do islã. Essa generalização provoca grande preconceito. Para Procópio (2001), a forma como o terrorismo é combatido está equivocada, devendo ser substituída por práticas de construção de redes de solidariedade entre as nações. Ainda segundo o autor, precisamos de human intelligence. Ele se refere à necessidade de um olhar mais humano aos povos que são diferentes da cultura ocidental. É preciso que as nações ocidentais tenham mais respeito e humanidade em relação às demais culturas. 3 Um mundo sem fronteiras? Você percebeu até aqui que vivemos em um mundo globalizado, mas cheio de fronteiras. As fronteiras estão abertas ao comércio internacional entre países desenvolvidos, mas nem sempre para permitir a inclusão de populações mais pobres e de cultura não ocidental. Assim, podemos afirmar que a globalização tem um caráter excludente, especialmente em relação às nações mais pobres. Santos (2001, p. 184) explica: O que significa a globalização para as classes subalternas, em especial para os margi- nados do sistema dominante? Sua crescente exclusão da riqueza social por ela gerada e seu afastamento dos centros de decisão política. Implica também a deterioração das suas condições de vida em termos de alimentação, saúde, habitação, saneamento e educação, entre outros aspectos. FIQUE ATENTO! Veja que na realidade, a fronteira remete a como nosso mundo se fecha para a tutela dos direitos das populações que sofrem da insegurança e instabilidade pro- vocadas pela desigualdade social. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 140 – Para Santos (2001), a exclusão é o desdobramento mais marcante da globalização. Ela inclui, além dos mais pobres, novas categorias de excluídos, aqueles que fogem de seus países, devido à guerra civil, à perseguição religiosa e intolerância, entre outros problemas. EXEMPLO O Haiti sofreu um grande desastre natural em 2010 e ficou ainda mais sob péssi- mas condições econômicas e sociais. Haitianos têm saído em massa de seu país, em busca de uma vida melhor em países que possam dar-lhes trabalho e melhores condições de vida. O Brasil é um exemplo de país que recebe haitianos, embora nem sempre consiga empregá-los dignamente. Agora você compreenderá mais sobre essa temática, estudando outro aspecto político da globalização: o neoliberalismo 4 Avanço neoliberal Um dos impactos da globalização no campo político é o crescimento no número de países que aderiram ao neoliberalismo. No campo político o neoliberalismo modifica as relações entre sociedade, mercado e Estado. De que forma isso ocorre? Veja a seguir alguns exemplos. O Estado vende ativos públicos para empresas privadas. • Os governos terceirizam a gestão dos serviços públicos. • Os governos fazem parcerias com ONGs para promover serviços sociais. • O Estado diminui o orçamento para programas sociais. De acordo com Ibarra (2011, p. 239-40): “Em síntese, a utopia neoliberal exalta as virtudes abstratas dos mercados, dos prêmios aos mais aptos, da competitividade, da eficiência, das ganâncias, dos direitos de proprie- dade, e da liberdade de contratação. Critica, em contrapartida, a intervenção estatal e a própria política, taxando-as de perniciosas e ineficientes. Assim se articulam as teses e se prepara o salto à ideia de que os mercados constituem o miolo de um sistema social ideal, automático, o qual garante o bem-estar e a prosperidade.” FIQUE ATENTO! Conforme Beck (1999), a globalização rompe com a ideia de um Estado capaz de controlar a economia. Em função disso, podemos dizer que a globalização amplia a exclusão social. Essa política é um desdobramento das relações comerciais promovidas pela economia global. No neolibera- SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 141 – lismo, o Estado se omite de interferir para amenizar a exclusão e a desigualdade social por meio de programas sociais e por políticas de geração de empregos. Todos esses fatores ampliam a desigualdade social, conforme você pode visualizar no esquema a seguir. Figura 3 – Globalização e neoliberalismo Globalização Neoliberalismo Exclusão social Desemprego Fonte: elaborada pela autora, 2017. A globalização é, também, um processo que incentiva o desenvolvimento tecnológico. Cada vez mais, a mão de obra humana é substituída por tecnologias robóticas, agravando a situação em países como o Brasil e outros da América Latina, no que diz respeito ao desemprego. Acompanhe! 5 Nova esquerda latino-americana Em reação ao neoliberalismo surgiu uma nova esquerda nos países da América Latina que vem ganhando forças internacionalmente. O pensamento de esquerda inclui ideias bem específi- cas, que questionam alguns posicionamentos neoliberais. São elas: • apoio aos direitos trabalhistas e a políticas de emprego. • defesa dos direitos humanos. • apoio às minorias (exemplo: defesa do casamento homoafetivo). • apologia às políticas ambientas e de reforma agrária. • estímulo aos programas sociais. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 142 – Conforme Pereira (1990), essa nova esquerda defende a democracia e a distribuição de renda, e acredita parcialmente que o mercado pode coordenar a economia. Portanto, não rompe completamente com a crença no poder do mercado, mas também defende que a desigualdade seja amenizada pelo Estado. FIQUE ATENTO! Saiba que esquerda não é sinônimo de socialismo ou comunismo. Embora haja partidos de esquerda que defendam o socialismo, nem todo partido de esquerda é socialista. O neoliberalismo, que estamos estudando, é uma prática defendida em geral por partidos de direita. Na figura você pode compreender algumas distinções entre direita e esquerda. Acompanhe! Figura 4 – As diferenças Apoio aos investimentos públicos em programas sociais Confiança na capacidade do mercado em empregar e se autorregular Defesa da intervenção estatal na economia Defesa do Estado Mínimo Esquerda Direita Fonte: elaborado pela autora, 2017. Assim, contra os governos neoliberais, essa nova esquerda latino-americana defende a reto- mada de um modelo de Estado que tenha como finalidadea proteção social. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • entender o contexto da globalização e o fim da Guerra Fria; • identificar que o mundo passou a ter uma divisão multipolar; • saber que a globalização e o neoliberalismo ajudaram a criar mais muros e fronteiras; entre os povos e maior exclusão social; • aprender que em contraposição surgiu uma nova esquerda. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 143 – Referências BECK, Ulrich. O que é globalização? Equívocos do Globalismo e respostas à globalização. São Paulo: Paz e Terra, 1999. BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. Crise e renovação da esquerda na América Latina. Lua Nova, São Paulo, n. 21, p. 41-54, 1990. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S0102-64451990000100003&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 08 fev. 2017. HELD, David; MCGREW, Anthony. Prós e Contras da Globalização. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. IBARRA, David. O neoliberalismo na América Latina. Rev. Econ. Polit., São Paulo, v. 31, n. 2, p. 238-248, 2011. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S0101-31572011000200004&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 08 fev. 2017. PROCÓPIO, Argemiro. Terrorismo e relações internacionais. Rev. bras. polít. int., Brasília , v. 44, n. 2, p. 62-81, Dec. 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S0034-73292001000200004&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 07 fev. 2017. ROCHA, Rossana Reis; MOREIRA, Júlia Bertino. Regime internacional para refugiados: mudanças e desafios. Rev. Sociol. Polit., Curitiba , v. 18, n. 37, p. 17-30, 2010. Disponível em: <http://www.scielo. br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-44782010000300003&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 06 fev. 2017. SANTOS, Tania Steren. Globalização e exclusão: a dialética da mundialização do capital. Sociolo- gias, Porto Alegre, ano 3, n. 6, jul/dez 2001, p. 170-198. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ soc/n6/a08n6.pdf>. Acesso em: 07 fev.2017. SATO, Eiiti. A agenda internacional depois da Guerra Fria: novos temas e novas percepções. Rev. bras. polít. int., Brasília, v. 43, n. 1, p. 138-169, jun. 2000. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?s- cript=sci_arttext&pid=S0034-73292000000100007&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 06 fev. 2017. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 144 – Globalização: Impactos Sociais e Culturais (1980 – 2010) Adriana Duarte de Souza Carvalho da Silva Introdução Neste encontro, vamos nos debruçar sobre a globalização do ponto de vista cultural. A sociedade contemporânea é fortemente marcada pela globalização, que define novos padrões culturais, como a cultura ocidental de consumo e, certamente, é um fenômeno que tem provocado muitas mudanças. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • compreender os impactos da globalização na cultura e sociedade brasileira e ocidental; • entender os fenômenos culturais que dela são consequências. 1 Sociedade globalizada? Ao iniciarmos, é importante destacar que do ponto de vista cultural, a sociedade globalizada também é uma sociedade imperialista. Isso significa que a cultura dos países ricos ocidentais é apresentada como a única legítima e tem sido imposta, especialmente pela mídia, aos países da periferia. Perceba que a globalização estabelece uma hierarquia entre as culturas e, a partir dos meios de comunicação, inclusive a internet, cria relações de poder hierárquicas e desiguais, em um processo no qual algumas culturas são legitimadas e outras, negadas. É uma nova forma de colo- nização: imperialismo cultural, sem uso de armas e cujo principal instrumento é a mídia. Casanova (2005, p.74) define imperialismo da seguinte forma: A verdade é que hoje, mais do que nunca, o conceito do imperialismo como uma etapa do capitalismo e da História da humanidade continua sendo um conceito fundamental. Ao articular a História dos impérios com a História das empresas, o conceito de “imperialismo” pôs a descoberto o poder crescente das empresas monopolistas e do capital financeiro. Também reformulou a luta anti-imperialista [sic] combinando a luta das nações oprimidas com a luta das classes exploradas. EXEMPLO O cinema é um importante veículo de propagação dos modos de vida ocidental, principalmente as produções de Hollywood. Nossos cinemas e redes de televisão a cabo privilegiam esses filmes em detrimento dos demais. – 145 – TEMA 20 Figura 1 – Filmes Fonte: Xavier GallegoMorell/Shutterstock.com. Ortiz (2000, p.73) estudou a comunicação no processo de globalização e mostrou outro exemplo desse colonialismo, contudo, apontando que dificilmente essa hegemonia (supremacia) cultural consegue destruir por completo as demais culturas: Existe uma hegemonia do inglês, mas essa hegemonia não implica o desaparecimento das línguas nacionais e nem implicará nisso. O inglês vem sendo utilizado por grupos especiali- zados, por exemplo, nas grandes empresas. Mas não vamos ver jornais brasileiros escritos em inglês. Nós vamos continuar a usar o português no rádio, na TV. Nós vamos continuar a usá-lo na linguagem diária. (ORTIZ, 2000, p.73). Comparando a globalização ao processo de colonização no século XVII, Ortiz (2000) men- ciona que atualmente as culturas não desaparecem, mas se encontram inseridas em um processo de lutas simbólicas, do hegemônico contra o periférico, para que nada seja extinto. Dessa forma, as marcas da cultura brasileira permanecem, mas em luta simbólica contra a hegemonia dos países centrais. FIQUE ATENTO! O conceito de colonialismo da forma como empregamos aqui refere-se a um pro- cesso em que países desenvolvidos impõem sua cultura aos países mais pobres, apresentando-a como livre de conflitos. Agora que falamos sobre imperialismo cultural, vamos refletir sobre os padrões dissemina- dos pela globalização. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 146 – 2 Novos padrões disseminados Entenda que a sociedade contemporânea é certamente uma sociedade em que determina- dos temas e comportamentos deixaram de ser tratados como tabu. Um exemplo é a questão do casamento homoafetivo, que tem sido cada vez mais debatido e aceito, sendo reconhecido como direito civil. Figura 2 – Casamento homoafetivo Fonte: Dubova/Shutterstock.com No âmbito dos Direitos Humanos, a globalização e o fortalecimento de instituições interna- cionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), foram muito positivas. Essas organiza- ções têm a missão de defender as minorias e promover a luta pelo direito daqueles que estão à margem do capitalismo e se encontram em vulnerabilidade social. EXEMPLO Além da ONU, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) atua para assegurar condições justas de trabalho e manifesta-se contra o trabalho análogo ao escravo e contra o trabalho infantil. A organização mantém vários projetos de combate a essas práticas no Brasil, como o Projeto de Estruturação da Agenda Regional de Trabalho Decente de Carajás (OIT, 2017), que envolve 39 cidades da região e rela- ciona-se ao trabalho e desenvolvimento sustentável. Veja que a ONU tem uma atuação importante no Brasil em parceria com as agendas dos governos locais. No País, as agências da ONU desenvolvem projetos de forma coordenada em diferentes regiões, em conjunto com governos, com instituições de ensino, ONGs, sociedade civil e instituições privadas (ONU BRASIL, 2017). A atuação é no sentido de assegurar o desenvolvimento humano equitativo, isto é, contra as desigualdades sociais, e os direitos das minorias. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 147 – SAIBA MAIS! Para conhecermais a respeito da atuação do trabalho realizado pela ONU no Brasil, você pode acessar o seguinte endereço eletrônico: <https://nacoesunidas.org/onu- no-brasil/>. Há, ainda, outros temas que a globalização traz ao debate internacional: • aborto; • refugiados; • terrorismo; • meio ambiente; • petróleo; • acesso à água potável; • paz no oriente. FIQUE ATENTO! Você deve lembrar-se de que nenhumdesses temas é consenso no âmbito inter- nacional, pois nem sempre é do interesse do Estados-nação defender alguns deles. Por exemplo, ser ambientalmente correto é bastante caro e desinteressante para algumas empresas. Agora que você entendeu como a globalização propaga novos padrões de cultura, vamos conhecer o impacto dessa globalização cultural. 3 Efeitos de uma cultura globalizada Como vimos, embora a cultura ocidental se apresente hegemônica, ainda não destruiu outras culturas. Para você entender melhor, a cultura ocidental avançou, mas não se internacionalizou como a economia. Vamos a um exemplo. A cultura ocidental é marcadamente cristã e, mesmo sendo a cultura hegemônica, não conseguiu conter o crescimento da religião mulçumana, nem minimizar o juda- ísmo. É fundamental que cada povo mantenha sua cultura e suas tradições. E como podemos, então, perceber essa cultura hegemônica? Ortiz (1993) menciona que no mundo globalizado vamos entendê-la a partir da lógica do mercado, ou seja, do consumo. E a cul- tura do consumo tem se expandido mundo afora por meio da publicidade global. O autor explica: “ [...] O que essa publicidade global faz é capitalizar determinados símbolos e referências culturais reconhecidos internacionalmente”. (ORTIZ, 1993, p. 290). Para ele, pensar uma cultura popular diferente da cultura do consumo é um desafio. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 148 – Figura 3 – O mundo de todas as culturas Fonte: Maxstockphoto/Shutterstock.com. SAIBA MAIS! A leitura do artigo “Os Direitos Humanos como produto: reflexões sobre a in- formação e a cultura da mídia, de Fábio Souza da Cruz e Marcelo Oliveira de Moura, ajuda a compreender melhor o papel da mídia em nossa sociedade. O texto está disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S2177-70552012000200005&lng=pt&nrm=iso>. Do ponto de vista cultural, é fundamental que seja internacionalizada uma cultura de valoriza- ção dos Direitos Humanos e não uma cultura de consumo de mercadorias ocidentais. Tendo isso em mente, vamos entender um pouco melhor as implicações da globalização sobre a comunicação. 4 Comunicação em um mundo globalizado O desenvolvimento das tecnologias da comunicação foi fundamental para o processo de acirramento do consumo de bens ocidentais, segundo Ortiz (1993). Os meios de comunicação criam a necessidade de consumir e constroem identidades a par- tir daquilo que o indivíduo pode consumir. Dessa forma, eles o convencem da importância do consumo para que o status quo seja alcançado. Sobre isso, Ortiz afirma: SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 149 – O conjunto do aparato tecnológico, sobretudo na área das comunicações, constitui hoje a infraestrutura material de uma cultura que se mundializa. O planeta pode então ser pensa- do como um sistema, uma rede informacional, cujas partes encontram-se interligadas. As chamadas novas tecnologias abrem de fato a perspectiva para uma cultura mundializada. Os satélites de comunicação possibilitam o desenvolvimento de cadeias televisivas pla- netárias, da mesma forma que a informatização incentiva o surgimento dos jornais e das firmas globais. (ORTIZ, 1993, p. 295) Figura 4 – Cultura do consumo Fonte: carlodapino/Shutterstock.com. Auxiliada pelas tecnologias, como menciona o autor, a publicidade é capaz de incentivar a criação da mentalidade coletiva internacional, pautada na legitimidade única da cultura ocidental. Assim, o pensamento lógico que se cria é o de que, se apenas a cultura ocidental é legítima, então é necessário consumi-la. FIQUE ATENTO! Conectar as pessoas de forma mais fácil e mais rápida torna também mais simples a internacionalização da identidade e estilo de vida do homem ocidental. Contudo, é fundamental entender que o consumo é ainda restrito. Parte da humanidade ainda se encontra abaixo da linha da pobreza, o que torna o consumo inacessível. Portanto, conforme observa o autor, se a globalização cria uma mentalidade coletiva internacio- nal de consumo de bens ocidentais, ela exclui de forma violenta aqueles que não podem consumir. No Brasil, apopulação que vive de programas sociais de transferência de renda do governo federal certamente está afastada do estilo de vida baseado no consumo. Segundo informações da Caixa Federal (2017), atualmente 13,9 milhões de famílias são atendidas pelo Programa Bolsa Família, ou seja, são milhões de famílias que dependem do governo para consumir e que, portanto, não estão inclusas nessa lógica do consumo globalizado. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 150 – Compreenda que a globalização é um processo contraditório. Se, por um lado, segundo Ortiz (1993), cria um imaginário coletivo internacional, conectando as pessoas via redes sociais em segundos e rompendo limites territoriais, por outro lado exclui bilhões de pessoas que não têm acesso nem mesmo à alimentação e água potável. Permanecemos, portanto, em um mundo excludente, embora mais unido do que nunca, pelo menos do ponto de vista da comunicação. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • entender que algumas culturas se impõem de forma imperialista sobre outras; • aprender que a cultura de consumo ocidental ainda não conseguiu destruir as culturas; • entender que esse estilo de vida ocidental é bastante excludente, porque parte do mundo vive na extrema miséria. Referências CAIXA. Bolsa Família. Disponível em: <http://www.caixa.gov.br/programas-sociais/bolsa-familia/ Paginas/default.aspx>. Acesso em: 10 fev. 2017. CASANOVA, Pablo González. O imperialismo, hoje. Tempo, Niterói, v. 9, n. 18, p. 65-75, jun. 2005 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413=77042005000100004-&lng=en&nrm- iso>. Acesso em: 29 jun. 2017. CRUZ, Fábio Souza da; MOURA, Marcelo Oliveira de. Os Direitos Humanos como produto: refle- xões sobre a informação e a cultura da mídia. Sequência (Florianópolis), Florianópolis, n. 65, p. 79-102, dez. 2012 . Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S2177-70552012000200005&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 29 jun. 2017. OIT. Organização Internacional do Trabalho. Projeto de Reestruturação da Agenda Regional de Tra- balho Decente de Carajás, ago. 2017. Disponível em: <http://www.ilo.org/brasilia/programas-proje- tos/WCMS_543719/lang--pt/index.htm>. Acesso em: 02 jun 2017. ONU. ONU no Brasil. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/onu-no-brasil/>. Acesso em: 09 fev. 2017. ORTIZ, R. Cultura e mega-sociedade mundial. Lua Nova, São Paulo, n. 28-29, p. 283-296, abr. 1993. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-644519930 00100014&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 09 fev. 2017. ORTIZ, R. Identidades culturais no contexto da globalização. Comunicação & Educação, São Paulo, n 18, p. 68-80, 2000. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/comueduc/article/view/36922/ 39644>. Acesso em: 09 fev. 2017. SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – 151 – Conceitos teóricos dos séculos XVII e XVIII Revolução industrial e revoluções burguesas Burgueses e proletários Émile Durkheim Karl marx Max Weber Brasil: do engenho ao ouro O europeu e a ocupação territorial Colonização: cultura indígena e a luta pela posse da terra O negro: cultura e o trabalho escravo Democracia racial Cultura Desigualdades sociais no Brasil Mudanças na cultura da sociedade contemporânea Os movimentos sociais Constituição de 1988 e a sociedade contemporânea Globalização: origens e definições Globalização: Impactos Econômicos (1980 – 2010) Globalização: Impactos Políticos (1980 – 2010) Globalização: Impactos Sociais e Culturais (1980 – 2010) _GoBack _GoBack _GoBack _GoBack _GoBack _GoBack _GoBack _GoBack _GoBack _GoBack