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1
FACULDADE ÚNICA
DE IPATINGA
2
Sidelmar Alves da Silva Kunz
Doutor em Educação pela Universidade de Brasília (UnB) (2019). Mestre em Geografia pela
mesma instituição (2014). Especialista em Ontologia e Epistemologia pela Faculdade Unyleya
(2016). Especialista em Supervisão Escolar pela Faculdade do Noroeste de Minas Gerais
(2009). Graduado em Geografia (licenciatura) e Pedagogia pela Universidade Estadual de
Goiás (UEG). Professor da UAB/UnB, na modalidade a distância. Possui mais de uma centena
de publicações científicas (artigos em revistas, Anais, livros, capítulos, dentre outros) e de
materiais didáticos. Pesquisador do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
Anísio Teixeira (INEP).
ORGANIZAÇÃO, EPISTEMOLOGIA, TEORIA E
REGIONALIDADE DO ESPAÇO
1ª edição
Ipatinga – MG
2021
3
FACULDADE ÚNICA EDITORIAL
Diretor Geral: Valdir Henrique Valério
Diretor Executivo: William José Ferreira
Ger. do Núcleo de Educação a Distância: Cristiane Lelis dos Santos
Coord. Pedag. da Equipe Multidisciplinar: Gilvânia Barcelos Dias Teixeira
Revisão Gramatical e Ortográfica: Izabel Cristina da Costa
Revisão/Diagramação/Estruturação: Bárbara Carla Amorim O. Silva
Bruna Luiza Mendes Leite
Carla Jordânia G. de Souza
Guilherme Prado Salles
Rubens Henrique L. de Oliveira
Design: Brayan Lazarino Santos
Élen Cristina Teixeira Oliveira
Maria Luiza Filgueiras
Taisser Gustavo de Soares Duarte
© 2021, Faculdade Única.
Este livro ou parte dele não podem ser reproduzidos por qualquer meio sem Autorização
escrita do Editor.
Ficha catalográfica elaborada pela bibliotecária Melina Lacerda Vaz CRB – 6/2921
NEaD – Núcleo de Educação a Distância FACULDADE ÚNICA
Rua Salermo, 299
Anexo 03 – Bairro Bethânia – CEP: 35164-779 – Ipatinga/MG
Tel (31) 2109 -2300 – 0800 724 2300
www.faculdadeunica.com.br
4
Menu de Ícones
Com o intuito de facilitar o seu estudo e uma melhor compreensão do conteúdo
aplicado ao longo do livro didático, você irá encontrar ícones ao lado dos textos.Eles
são para chamar a sua atenção para determinado trecho do conteúdo, cada um
com uma função específica, mostradas a seguir:
São sugestões de links para vídeos, documentos
científico (artigos, monografias, dissertações e teses),
sites ou links das Bibliotecas Virtuais (Minha Biblioteca e
Biblioteca Pearson) relacionados com o conteúdo
abordado.
Trata-se dos conceitos, definições ou afirmações
importantes nas quais você deve ter um maior grau de
atenção!
São exercícios de fixação do conteúdo abordado em
cada unidade do livro.
São para o esclarecimento do significado de
determinados termos/palavras mostradas ao longo do
livro.
Este espaço é destinado para a reflexão sobre
questões citadas em cada unidade, associando-o a
suas ações, seja no ambiente profissional ou em seu
cotidiano.
5
SUMÁRIO
PROJETO COLONIAL DE OCUPAÇÃO TERRITORIAL ................................ 7
1.1 FEITORIAS ................................................................................................................ 7
1.2 CAPITANIAS HEREDITÁRIAS ................................................................................. 17
FIXANDO O CONTEÚDO ...................................................................................... 29
SISTEMAS DE EXPLORAÇÃO TERRITORIAL .............................................. 33
2.1 PLANTATION.......................................................................................................... 33
2.2 ENTRADAS E BANDEIRAS...................................................................................... 40
2.2.1 As bandeiras de apresamento...................................................................43
2.2.2 As bandeiras de prospecção.....................................................................44
2.2.3 Sertanismo de contrato ...............................................................................45
FIXANDO O CONTEÚDO ...................................................................................... 50
ESTRATÉGIAS DE OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO .................. 54
3.1 A PECUÁRIA.......................................................................................................... 54
3.2 A MINERAÇÃO ..................................................................................................... 62
FIXANDO O CONTEÚDO ...................................................................................... 70
CONFIGURAÇÕES TERRITORIAIS DO IMPÉRIO E DA PRIMEIRA REPÚBLICA
................................................................................................................. 74
4.1 AS ILHAS ECONÔMICAS E O COMÉRCIO EXTERIOR ......................................... 74
4.2 CONSOLIDAÇÃO DAS FRONTEIRAS.................................................................... 79
FIXANDO O CONTEÚDO ...................................................................................... 82
POLÍTICAS TERRITORIAIS NO SÉCULO XX ............................................... 87
5.1 INTEGRAÇÃO NACIONAL ................................................................................... 87
5.2 UNIDADE TERRITORIAL .......................................................................................... 94
FIXANDO O CONTEÚDO .................................................................................... 101
TERRITÓRIO BRASILEIRO NO SÉCULO XXI............................................. 105
6.1 DIVERSIDADE SOCIOESPACIAL ......................................................................... 105
6.2 DESIGUALDADE SOCIOESPACIAL ..................................................................... 114
FIXANDO O CONTEÚDO .................................................................................... 126
RESPOSTAS DO FIXANDO O CONTEÚDO ............................................. 130
REFERÊNCIAS......................................................................................... 131
UNIDADE
01
UNIDADE
04
UNIDADE
02
UNIDADE
03
UNIDADE
05
UNIDADE
06
6
CONFIRA NO LIVRO
Tem como enfoque uma breve discussão sobre o contexto sócio-
histórico das feitorias que a compreende sua importância para o
desenvolvimento da vida política local tanto da colônia quanto da
metrópole. E as capitanias hereditárias como a primeira divisão
territorial do Brasil na qual os donatários ficam responsáveis pela
ocupação, colonização e desenvolvimento.
Discorre sobre a plantation como um fundamento econômico-
social da colonização portuguesa que determinava o foco na
produção agrícola e proibia qualquer atividades manufatureiras na
colônia. Enquanto a discussão sobre entradas e bandeiras ressaltam
que as expedições interioranas contribuíram para o poder de
Portugal no continente americano e para a sertanização do Brasil.
O enfoque é a pecuária em vista de lugar secundário na economia
colonial e com o passar do tempo obtém destaque na agenda
econômica do país. E a mineração que se destacou no cenário
internacional e intensificou as iniciativas de adentramento no
interior do Brasil.
É abordado sobre as ilhas econômicas e o comércio exterior que
propiciaram sobretudo o desenvolvimento econômico e a
ocupação territorial do Brasil. E a consolidação das fronteiras a partir
do conceito de identidade e diferença que contribuíram para a
formação de fronteiras geopolíticas.
Destaca-se a questão da integração nacional pelo viés do processo
de urbanização que foram desigualmente alterando de natureza e
composição. Ao passo que é refletido sobre a unidade territorial no
Brasil que nos remete aos aspectos socioculturais, políticos e
econômicos que demarcam esse lugar, assim como seu lugar no
contexto global.
Ressalta a temática diversidade socioespacial a partir do contexto
da globalização que marca a atual expansão do capitalismo. Assim
sendo, é preciso refletir sobre os deslocamentos das populações
através das fronteiras internacionais e seus enfrentamentos diante
das desigualdades sociais ora em busca dos mercados tradicionais
de emprego, ora na inserção ao tecido socialdos países que os
recebem.
7
PROJETO COLONIAL DE
OCUPAÇÃO TERRITORIAL
1.1 FEITORIAS
A partir da visão de Cruz (2015), manifestamos que as feitorias eram
entrepostos comerciais de origem europeia instalados em territórios estrangeiros.
Além disso, pontuamos que a sua origem remonta às instalações ocorridas na Europa
Ocidental durante a Idade Medieval e que o seu uso foi amplo em terras dominadas,
as quais eram consequências de conquistas coloniais.
Ao pensarmos na estrutura e no funcionamento desse modelo de
organização, assinalamos que o seu formato se alterava em função dos objetivos e
das realidades políticas, econômicas e culturais que estavam inseridos. Nesse
tocante, podia ser de uma casa com instalações módicas até propostas
arquitetônicas que comportassem distintos meios de suporte para o atendimento de
demandas militares ou de oficinas para o trabalho com os navios.
Aliás, havia situações em que tais feitorias funcionavam como suporte para a
atividade comercial local, bem como para o desenvolvimento de encontros
espirituais, a atuação judiciária ou a promoção de acordos diplomáticos. Essas
organizações tinham, fundamentalmente, o papel de armazéns para os produtos
(CRUZ, 2015).
À vista disso, notamos que essas feitorias desempenhavam múltiplos papéis na
economia colonial. Podemos destacar a sua atuação como ponto estratégico para
o desenvolvimento da vida política local que via na presença da feitoria o único sinal
claro da existência de uma estrutura administrativa e de representação da figura do
rei.
UNIDADE
01
8
A burocracia corporativa instalada tinha como foco central a proteção e
garantia do cumprimento dos objetivos do rei materializados por intermédio das
intenções dos mercadores e suas propostas de ampliação de lucros a qualquer
preço, independentemente do esfacelamento do tecido social.
Esclarece-se que os feitores supostamente defendiam os interesses da nação,
ou seja, do rei. Portanto, a compreensão de nação na perspectiva portuguesa
consistia na realização da vontade do rei que, em si, bastava como o único desejo
válido na Coroa.
O movimento de conquista e colonização do Brasil exigiu de Portugal projetos,
investimentos coletivos e articulações para dar conta dessa empreitada. O fato é
que a circulação de pessoas de diversas origens pelo Atlântico gerava incertezas
para os planos de Portugal.
Muitas nações estiveram presentes na América em virtude do processo de
colonização, dentre elas, preocupava os Portugueses a circulação de expedições
realizadas na costa brasileira por parte de espanhóis, franceses, ingleses e
holandeses. Como exemplo, podemos citar que o espanhol Vicente Yanez Pinzon
esteve presente na região do atual Amazonas antes da chegada da esquadra de
Pedro Alvarez Cabral no território de Porto Seguro (SANTOS, 2015). Cabe ressaltar que:
[...] a conquista e colonização da América é uma janela do
deslocamento do eixo comercial que ligava o Mediterrâneo ao Mar
do Norte e, ao final do século XV a partir do desenvolvimento da
navegação, se amplia para o Atlântico, circunavegando o Estreito de
Gibraltar, a Península Ibérica e constituindo um novo equilíbrio
comercial na Europa (SANTOS, 2015, p. 35).
Embora se cultue a ideia de que Portugal não deu o devido valor para as terras
conquistadas na América, a realidade apresenta uma outra nuance porque nos
primeiros trinta anos da colonização foram realizadas expedições com navios e
armadas portuguesas que tinham o propósito claro de aprofundar os seus
9
conhecimentos geográficos e assegurar o domínio do território conquistado no litoral
brasileiro (América portuguesa). Essas movimentações representaram importantes
feitos náuticos e cartográficos para o contexto histórico daquela época
(DOMINGUES, 2012).
Figura 1: Perspectiva portuguesa
Fonte: Disponível em https://bit.ly/2RU22qE.
Acesso em: 26 mar. 2021
Entendemos que essa atuação foi crucial para o projeto português de
conquista do território, haja vista que deu a conformação necessária para o seu
posicionamento estratégico na América.
Figura 2: Expedições para exploração (período pré-colonial)
Fonte: Disponível em https://bit.ly/3fZsS8K.
Acesso em: 26 mar. 2021
As habilidades de negociação comercial e de aprendizagem de outras
10
línguas foram nevrálgicas para a manutenção dos negócios portugueses no território
brasileiro, por mais que essa dinâmica não deve ser romantizada de modo que venha
a sufocar ou silenciar a luta dos indígenas em face da incursão portuguesa em seus
territórios. Assinala-se que essas habilidades foram de grande relevância ao longo de
todo o período colonial, entretanto, quando a diplomacia (negociação) e a cruz
(igreja) não funcionavam o recurso mais utilizado foi a espada (guerra).
Devemos lembrar, em primeiro lugar, que o regime do Padroado da
Ordem de Cristo foi passado para a Coroa portuguesa em 1515. Como
as terras brasileiras estavam sob a jurisdição da Ordem de Cristo e
sendo o Rei de Portugal o seu representante, a cobrança de dízimos
ficou sob a administração da Coroa, que ao mesmo tempo era
responsável pela manutenção da Igreja e do clero secular na colônia
(VASCONCELOS, 2016, p. 51).
O pau-brasil foi o primeiro produto de grande valor a ser comercializado pelos
europeus na costa brasileira. A Europa já conhecia esse produto: uma madeira
corante de gênero distinto da asiática. A expedição de Duarte Coelho, em 1501,
reconheceu a madeira e enviou algumas amostras para Portugal.
Figura 3: Pau-brasil
Fonte: Disponível em https://bit.ly/3cbSP3P.
Acesso em: 04 mar. 2021
Essa madeira se concentrava em porções no litoral do Rio de Janeiro, no sul
da Bahia, no Recife, no Rio Grande do Norte, na Baía de Todos os Santos (Recôncavo
Baiano) e no litoral norte da Bahia. Veja o relato de um religioso francês da época
acerca do significado do pau-brasil:
11
[...] tal árvore, tendo sido descoberta em nosso tempo, serviu de
grande alívio aos mercadores, e meio de novas buscas para os que
tinham o costume de navegar, os quais, chegando a este país, e
vendo os selvagens adornados com tão belas plumagens de cores
diversas, e também que esse povo tinha o corpo pintado
diversificadamente, indagaram qual o meio dessa tintura, e alguns lhe
mostraram a árvore que chamamos brasil, e os selvagens,
Orabutan/Araboutã. Essa árvore é muito bela de se olhar e grande,
com uma casca superficialmente de cor acinzentada, e a madeira
vermelha por dentro, principalmente o cerne, que é a parte mais
importante, e que é a carga maior dos mercadores. E direi de
passagem que, de uma árvore tão grossa que só pode ser abraçada
por três homens, tira-se somente do cerne e da medula vermelha uma
porção que corresponde à largura da coxa de um homem (THEVET,
2009, p. 173).
A identificação de selvagens se aproxima da noção cultivada de um
imaginário de “bárbaros” que se edificou na Europa. Nesse sentido, remonta à
perspectiva de costumes e valores que demandam alterações para que se possa
converter essas pessoas ao estágio que se inclui na noção de civilização, a julgar pela
ideia de que os indígenas estavam em uma etapa anterior de desenvolvimento
cultural.
No período pré-colonial, os portugueses não tinham o conhecimento da
geografia local, nem sabiam como retirar o pau-brasil das matas: uma árvore que
chegava a ter 15 metros de altura e seus galhos possuíam espinhos. Diante dessa
situação de dependência da mão de obra e dos conhecimentos dos indígenas no
que se refere à execução do corte, preparação e carregamento. Os portugueses se
viam impulsionados a realizar negociações com os indígenas para viabilizar o
comércio do pau-brasil, também conhecido pelos tupis como ibirapitanga.
12
Em sintonia com o debate que nos propomos a pensar a formação territorial
brasileira e assim lançar luz nas feitorias, ponderamos que, no Brasil, foram construídas
estrategicamente em pontos comerciais ao longo do litoral sobretudo como
estocagem da madeira pau-brasil para que os navios levassemtais produtos à
Europa.
O principal responsável pela feitoria era o feitor: um funcionário designado
como representante do rei. Dentre as suas responsabilidades estavam a de
representar o rei nas relações comerciais, comprar mercadorias, fazer negociações
com os nativos, proteger as mercadorias, cuidar da preservação da qualidade dos
materiais obtidos, garantir o embarque dos produtos para Portugal, dentre outras. Tais
movimentações que ocorriam na feitoria eram registradas pelo escrivão e isso tornou
possível parte considerável do conhecimento que temos na atualidade sobre esses
mecanismos do período inicial da colonização no Brasil (FERNANDES, 2008).
13
No litoral brasileiro as feitorias eram construídas, em geral, em ilhas para
garantir a segurança e tais empreendimentos eram resultantes do conhecimento
acumulado por Portugal em suas empreitadas na construção de feitorias na África.
Figura 4: Feitorias portuguesas na África
Fonte: Disponível em https://bit.ly/3fXIny0.
Acesso em: 26 mar. 2021
Ainda em 1448, foi edificado a primeira feitoria no território africano, no atual
Senegal. E, em 1482, construído o Castelo de São Jorge da Mina, atual Sudão.
A “descoberta” do Brasil em 1500 levou ao debate da
intencionalidade ou não da viagem de Cabral e sua frota, que se
dirigia para as Índias. No ano seguinte, uma expedição exploratória foi
enviada ao litoral brasileiro e o comércio do pau-brasil foi contratado
com Fernão de Loronha, com a obrigação de implantar feitorias no
litoral, ou seja, uma sessão de território a ser administrado por particular
(VASCONCELOS, 2016, p. 40).
As feitorias não eram apenas armazéns de produtos, mas também tinham a
função militar como forte de resistência e de marcação de posição em local
estratégico. Além disso, era a sede da representatividade do rei em uma perspectiva
diplomática e as feitorias apresentavam a conotação de cidade.
O mapeamento levado a cabo por Jacques de Vau de Claye,
durante a expedição francesa capitaneada por Felipe de Strozzi, no
reconhecimento do litoral brasileiro, traçou um interessante esboço do
que chamou le vrai pourtraict de Genèvre et du Cap Frie. Datado por
14
referência a 1576, tem a descritiva enquadrada pela ótica militar de
sua finalidade (FERNANDES, 2008, p. 174).
A primeira feitoria construída pelos portugueses foi a de Cabo Frio. Tal
empreendimento foi fundado por Américo Vespúcio no ano de 1504 e teve como
primeiro feitor o colono João de Braga. Quando Américo Vespúcio retornou a
Portugal manteve na localidade o contingente de 24 homens que guarneciam a
casa construída em barro e telhado de palha.
Muitos embates aconteceram ao longo da história na área de Cabo Frio,
inclusive a invasão francesa e a sua consequente criação do Forte de São Mateus. A
expulsão francesa somente foi efetivada no ano de 1615 por intermédio da ajuda de
Mém de Sá e do indígena Araribóia. Essa ação vitoriosa foi muito significativa
historicamente porque reafirmou a presença e os interesses portugueses na região
(ASSOCIAÇÃO ESTADUAL DE MUNICÍPIOS DO RIO DE JANEIRO , 2017).
Figura 5: Forte de São Mateus, em Cabo Frio-RJ
Fonte: Disponível em https://bit.ly/3ySnooM.
Acesso em: 09 fev. 2021
Também ganharam relevância as feitorias de Santa Cruz, no Rio de Janeiro,
bem como as das ilhas de Igaraçu e de Itamaracá em Pernambuco. As feitorias
brasileiras eram rudes e modestas em função dos valores comerciais dos produtos,
apesar do valor do pau-brasil não se comparar com o valor das especiarias asiáticas.
Dito isso, assinalamos que entre 1502 e 1504 são construídas as primeiras
feitorias no Brasil: no litoral de Pernambuco, em Cabo Frio e no atual Rio de Janeiro.
A feitoria de Cabo Frio foi longeva e ainda em 1526 se noticiava a presença dos
portugueses. É salutar registrar que a feitoria do Rio de Janeiro foi destruída pelos
indígenas. Essa afirmação desmistifica a ideia de passividade dos povos indígenas
em relação ao processo de colonização portuguesa.
Tais feitorias eram bases de sustentação do império português que se expandia
15
e em cada porção anexada ao seu domínio demandava delimitação por meio
dessas fortalezas. Tal organização garantia a presença do feitor como representante
do rei, cuja representação exerceu papel relevante nesses anos iniciais da
colonização do Brasil.
Portugal foi o pioneiro da expansão marítima europeia dos séculos XV e XVI e
o que possibilitou isso foi a precoce unificação política, ainda no século XIV, por meio
da Revolução de Avis. A orientação econômica da época era o mercantilismo. O
mercantilismo pregava a acumulação de metais diferente do feudalismo que a
riqueza estava preponderantemente associada à terra (SANTOS; MOURA, 2017).
Cabe ressaltar que a Revolução de Avis se constituiu como fundamental para
a formação do Estado nacional português. Trata-se de uma revolução crucial porque
edificou Portugal como o primeiro Estado nacional da história ocidental. Teve como
antecedente o fato que no século VIII houve a invasão dos muçulmanos na Península
Ibérica que vieram do norte da África e a ocupação forçou os cristãos para o norte
da península ibérica. E os reinos cristãos lutaram pela reconquista até o século XV,
quando os cristãos expulsaram definitivamente os muçulmanos.
O reino de Portugal nasce no âmago das Guerras de Reconquista da Península
Ibérica e aí surge uma burguesia crescente. O Mestre de Avis comandou a Revolução
de Avis que aliado ao povo e a burguesia lutou contra a nobreza do reino de Portugal
e do reino de Castela. A vitória dos burgueses baseada em estratégias defensivas e
usos de emboscadas levaram Dom João, Mestre de Avis, ao posto de rei do reino de
Portugal (SANTOS; MOURA, 2017).
Tal formação do Estado nacional português marcou uma aliança entre o rei e
a burguesia, a qual tinha grande valor para as relações comerciais e econômicas
resultando no financiamento da indústria náutica importante passo para as
empreitadas de navegações portuguesas e, por conseguinte, repercutiu na
colonização do Brasil, de Calicute nas Índias e no domínio da costa africana. Sendo
assim, essa Revolução de Avis foi nevrálgica para o desenho do projeto de
colonização portuguesa na América.
Virgulamos que o capitalismo comercial incorporado por Portugal defendia a
acumulação de metais como forma de expressão da riqueza. Dessa forma, os
portugueses estavam ligados ao comércio de especiarias (pimenta, gengibre,
cardamomo, ervas aromáticas, açafrão, canela, cravo, noz moscada, etc.), cujo
foco era a promoção de rotas comerciais para chegar às Índias a fim de obter as
16
famosas especiarias que encontravam dificuldade para serem cultivadas na Europa
em razão da não adaptação ao clima. Também alimentavam o ideário de conseguir
acumular o máximo de metais preciosos que tivessem acesso como meio de
expressão de riqueza e posicionamento privilegiado no cenário internacional perante
as demais potências europeias.
Na costa brasileira no início da colonização não se obteve as especiarias nem
os metais, então, o pau-brasil dava menos lucro que as especiarias indianas. O pau-
brasil era utilizado para extrair corante vermelho que se utilizava em manufaturas
têxteis na Inglaterra, além de servir como madeira para a produção de móveis.
A mão de obra para a extração do pau-brasil era indígena e o escambo era
a relação principal nos 30 primeiros anos da colonização (1500 a 1530). Os indígenas
retiravam o pau Brasil e levava para as feitorias e depois os portugueses embarcavam
essa madeira em direção à Europa. Em troca, os indígenas recebiam dos portugueses
produtos como machado, espelho, vestimentas, dentre outros objetos.
Figura 6: Costa do pau-brasil
Fonte: Disponível em https://bit.ly/3fV2YTu.
Acesso em: 09 fev. 2021
Nessa época o Brasil tinha entre dois e quatro milhões de indígenas distribuídos
17
em mais de mil nações e que falavam mais de 150 idiomas, os quais podem ser
divididos em dois troncos linguísticos (Tupi no litoral e Macro-Jêno Planalto Central).
Muitas tribos conheciam a agricultura, no entanto, muitas dessas organizações sociais
se baseavam na caça e na pesca.
Essas sociedades não tinham classes, nem se estruturavam na ideia de
propriedade privada. Pondera-se que na atualidade a população indígena é de
aproximadamente 0,5% (aproximadamente 900 mil pessoas) da população brasileira.
Desse modo, as feitorias exerceram um papel fundamental até o ano de 1532, data
da instauração das capitanias hereditárias (CRUZ, 2015).
1.2 CAPITANIAS HEREDITÁRIAS
Em 1530 se inicia efetivamente a colonização portuguesa no Brasil. É o
processo de consolidação da conquista territorial. Além disso, a mudança de visão
acerca do Brasil e, diante das possibilidades de ganhos, Portugal resolve avançar em
relação a sua presença na colônia.
As expedições exploradoras e as expedições guarda-costas nos trinta primeiros
anos, assim como a exploração do pau-brasil e o estabelecimento do regime das
feitorias que faziam frente à presença de piratas e corsários, motivaram a
colonização efetiva por meio do envio do nobre e militar português: Martim Afonso
de Sousa.
Só entre 1530 e 1533 a expedição comandada por Martim de Souza
foi enviada ao litoral brasileiro e a primeira vila, São Vicente, foi
fundada em 1532, quando foram implantados os primeiros engenhos
de açúcar. Em 1534 foram criadas as capitanias hereditárias no Brasil,
seguindo o modelo das ilhas do Atlântico, porém em uma escala
territorial bem mais ampla. A elevação de vice-reinado na Índia e a
implantação no período dos bispados de Funchal, de Goa, de Cabo
Verde e de São Tomé, mostram a pouca importância inicial dada ao
território brasileiro pelos portugueses (VASCONCELOS, 2016, p. 42).
Martim Afonso de Sousa começou a produção de cana-de-açúcar porque
era um produto com grande aceitação no mercado europeu com geração de
grandes oportunidades de ganhos. Esse produto contava com o apoio dos
holandeses, banqueiros e comerciantes. Além disso, fez se relevante as possibilidades
resultantes de condições climáticas (clima tropical) e edáficas (solo de massapê).
O comércio das especiarias das índias (tapetes, perfumes, pimenta do reino,
18
cravo, canela, gengibre, cânfora, noz-moscada...) geraram muitas riquezas para
Portugal, no entanto, a entrada de concorrentes reduziram os lucros. Ademais, os
franceses ameaçavam as ações de Portugal no Brasil. Para fazer frente a isso, o rei
enviou a expedição de Martim Afonso de Sousa e em seguida instituiu o sistema de
Capitanias Hereditárias em que o governo entrava com as terras e a iniciativa
precisava injetar dinheiro no projeto.
A primeira divisão territorial do Brasil foi experimentada pelas
capitanias hereditárias, a partir de uma divisão do litoral em faixas de
cerca de 50 léguas de comprimento que ficaram a cargo dos
donatários, que foram responsáveis pela sua ocupação, colonização
e desenvolvimento (VASCONCELOS, 2016, p. 48).
As capitanias hereditárias eram divisões do território em grandes faixas de terra
em que se nomeavam representantes da nobreza de Portugal. Dom João III
promoveu essa organização político-administrativa do território brasileiro, tomando
como referência o Tratado de Tordesilhas. Em suas posses atlânticas os portugueses
já haviam implantado o sistema de capitanias e lá o projeto se apresentou como
bem sucedido. Contudo essa realidade não se repetiu no caso brasileiro.
Figura 7: Projeto Capitanias Hereditárias
Fonte: Disponível em https://bit.ly/3i8bSzG.
Acesso em: 27 mar. 2021
19
Os donatários enfrentaram dificuldades nesse processo porque tinham que dar
conta de sobreviver diante de ataques dos indígenas e de estrangeiros e com
recursos escassos. Haviam também grandes distâncias entre uma capitania e outra,
faltava uma relação ou intercâmbio de experiências entre as capitanias, não havia
órgãos que coordenasse o trabalho dos donatários, escassez de recursos financeiros
por parte da Coroa (na maioria dos casos), muitos donatários não vieram ao Brasil
(como é o caso do donatário da Capitania de Ilhéus), dentre outros aspectos que se
apresentaram como desafio.
Assim, o conceito-chave para entender a construção do espaço
geográfico das capitanias não foi o de um território, uma região
fechada definida pelas cartas de doação. Foram os acima
apresentados e, mais do que eles, o conceito de termo das vilas. A
capitania se define territorialmente não pela geometria de um
polígono, mas por uma linha na costa onde se criavam vilas, às quais
se associavam os seus fundos e sertões, áreas agregadas que vão ser
definidas e ampliadas pelos termos das novas vilas criadas na
dependência jurisdicional das anteriores, em sucessivas levas (CINTRA,
2017, p. 218-219).
As capitanias hereditárias resultaram de interesses políticos e econômicos que
envolvem estratégias para administrar o território brasileiro colonial para não sair do
controle de Portugal. A falta de recursos suficientes fez com que Portugal se valesse
de investimentos de particulares para dar continuidade em sua empreitada no
território brasileiro. Então, Dom João III, em 1534, realizou a divisão da colônia em 15
lotes que foram passados aos capitães ou donatários. No entanto, eram 14 capitanias
hereditárias repassadas para 12 capitães. Pondera-se que, conforme Mello (1999),
ocorreram muitos embates entre a Coroa e os capitães donatários.
O mapa disponibilizado, a seguir, das capitanias hereditárias é resultado dos
estudos recentes que materializam na representação cartográfica as possibilidades
mais plausíveis em função das fontes históricas disponíveis e trabalhadas na pesquisa
de Cintra (2013) que refaz as principais propostas disseminadas nos livros acerca
desse tema.
20
Figura 8: Capitanias hereditárias
Fonte: Cintra (2013, p. 39)
O desejo do rei D. João III ao financiar expedições como a de Martin Afonso
de Sousa era de encontrar pedras preciosas na colônia Brasil. Além dessa realidade,
cabe ressaltar que
O fato de que os portugueses seguiam encontrando diversos navios
franceses com pau brasil, e até ocupando áreas que de acordo com
o Tratado de Tordesilhas pertenciam a Portugal, ajudou a pressionar D.
João na sua decisão por dividir o Brasil em CH’s [Capitanias
Hereditárias] e começar a povoá-lo para acabar com o risco de
perder as terras para a França. Este se tornou, assim, outro objetivo da
expedição (INNOCENTINI, 2009, p. 14).
Cabe ressaltar, de acordo com Moreira (1994) que o Tratado de Tordesilhas foi
21
assinado por Dom João II de Portugal e o seu significado ultrapassa a demarcação
de limites territoriais entre a Espanha e Portugal.
Figura 9: Tratado de Tordesilhas assinado por Portugal e Espanha (1494)
Fonte: Disponível em https://bit.ly/3vIMXqv.
Acesso em: 23 fev. 2021
O debate alcançava questões comerciais que envolviam os mercadores
andaluzes e as suas relações comerciais clandestinas na Guiné. Em 1479, momento
do Tratado de Alcáçovas que teve sua ratificação com o Tratado de Toledo se nota
o reconhecimento das conquistas portuguesas na costa africana e nas ilhas
atlânticas, no entanto, não incluía as ilhas canárias resultantes de embates históricos.
Com a viagem de Colombo o Atlântico Ocidental começa a ganhar a cena
dos debates e exige melhores definições geopolíticas. E, em 1494, o Tratado de
Tordesilhas é assinado com definições das esferas de influência. Dessa forma, o
Tratado de Tordesilhas se tornou um “[...] marco fundamental no desenvolvimento de
várias linhas políticas” (MOREIRA, 1994, p. 12).
22
Figura 10: Delimitação resultante do Tratado de Tordesilhas
Fonte: Disponível em https://bit.ly/3vGisS5.
Acesso em: 23 fev. 2021
Entre 1500 e 1530, no período pré-colonial, Portugal não se preocupava em
defender as terras porque havia acordo com a outra nação que se embrenhava nas
grandes navegações: a Espanha. Com o lançamento da França, Inglaterra e
Holanda ao mar a preocupação dos portugueses se ampliou e Portugal se vê
obrigado a defender para não perder a possedas terras. O custo da colonização de
Portugal foi transferido para a iniciativa privada e se realiza a doação de lotes para
donatários que deveriam empreender a colonização no Brasil. O território brasileiro
foi dividido em 15 lotes denominados capitanias hereditárias que custeariam a
colonização.
Com base nos documentos da Carta de Doação e dos Forais sedimentava-se
que o donatário detinha a posse e não a propriedade, portanto, não se podia vender
uma parte da capitania. Os capitães donatários eram as autoridades máximas na
sua capitania e após a sua morte a capitania era transferida para seus herdeiros. Em
função disso, recebeu o nome de capitanias hereditárias. Nada obstante, poderia
distribuir sesmarias (partes da capitania) para outros colonos. Todos os bens das
matas, do subsolo e dos mares eram de propriedade da Coroa portuguesa. Caberia
ao donatário plantar e colher.
23
Figura 11: Carta de doação à Fernão de Noronha concedendo a capitania e o governo
das Ilhas de São João
Fonte: Disponível em https://bit.ly/34DsBTu.
Acesso em: 26 fev. 2021
Figura 12: Carta de foral doando a Capitania de Pernambuco a Duarte Coelho
1.
Um dos requisitos para obter as capitanias era ser uma pessoa abastada na
sociedade portuguesa. Dois eram os documentos: a carta de doação e o foral que
consistia na declaração dos direitos e dos deveres dos capitães donatários. Além
disso, tinha direito de fazer uso da escravidão indígena. O capitão poderia doar
sesmarias para explorar e povoar as terras. A base econômica era pautada em
latifúndios. As sesmarias eram latifúndios e se davam por meio de
24
[...] doações de sesmarias aos colonos importantes, sobretudo
membros da nobreza com algumas exigências para a implantação
de engenhos de açúcar. Na produção de açúcar, portanto, os
maiores investimentos eram voltados para a construção de engenhos
e a compra de escravos, pois as terras eram recebidas em sesmarias.
Em seguida as sesmarias começaram a ser subdivididas sendo
arrendadas aos pequenos colonos (VASCONCELOS, 2016, p. 49).
Era dever do capitão donatário passar parte do lucro para Portugal, explorar
as terras, combater invasões estrangeiras, povoar as capitanias hereditárias. Os
capitães donatários e os sesmeiros perceberam que a vida no Brasil deveria ser
duradoura porque não vislumbravam nitidamente a volta para Portugal.
Os que vieram solteiros precisavam formar famílias. Entretanto, a relação
formalizada com as nativas não era bem vista. Então, começam a trazer mulheres
solteiras de Portugal para o Brasil: no geral, crianças e adolescentes órfãs de Portugal
que vinham para casar de maneira forçada com os homens que estavam fazendo
as primeiras construções brasileiras.
Portugal também enviava homens pobres e existem relatos de envio de
criminosos como alternativa de vida. Portugal queria diminuir a sua população
carcerária e garantir a mão de obra no Brasil. O fidalgo que nasceu com poder e
dinheiro e o plebeu não tinha nada. Os fidalgos vinham como administradores e os
plebeus como trabalhadores, conquanto essa distância foi reduzindo em função da
noção de que os demais estavam abaixo das suas posições. Uma concepção
cultural de inferiorização que colaborou para tal configuração.
As capitanias não deram conta de defender os territórios em razão das
dificuldades de sua efetivação para obtenção de lucros. A Capitania de São Vicente
foi doada a Martim Afonso de Souza e pode contar com o suporte da Coroa
portuguesa.
Uma expressão do sucesso desse empreendimento foi o surgimento do
povoado de Santos, fundado por Brás Cubas. O desenvolvimento significativo da
25
produção de cana-de-açúcar nessa capitania foi fundamental para seu sucesso. Ao
tempo que a Capitania de Pernambuco doada para Duarte Coelho se tornou o
maior centro de produção de cana-de-açúcar durante o período colonial.
A Capitania hereditária de Pernambuco, também conhecida como Nova
Lusitânia, sob o governo descentralizado da iniciativa privada com o objetivo de
implementar a colonização, ou seja, fazer o Brasil gerar lucro esteve inicialmente sob
a direção de Duarte Coelho. A sua prosperidade se estabeleceu em função do
cultivo da cana-de-açúcar que combinou financiamento e propensão geográfica
para tal empreendimento.
Havia demanda crescente para o consumo de açúcar e as capitanias de
Pernambuco, São Vicente e Bahia foram os principais locais de produção na América
Portuguesa. A produção econômica se sustentou inicialmente na mão de obra
indígena e, posteriormente, foi substituída pela mão de obra escrava africana.
Duarte Coelho recebeu degredados em sua capitania que lhe rendeu muitos
conflitos, também cabe ressaltar os conflitos encampados contra os indígenas. A
cana-de-açúcar se estabeleceu como empresa agrícola açucareira e contou com
a crucial participação holandesa.
Portugal desde o empreendimento náutico contou com capitais de uma
burguesia comercial financeira holandesa. A maioria do capital do empreendimento
náutico português contou com esse capital. A Capitania de Pernambuco ou Nova
Lusitânia teve a sua prosperidade impulsionada em função de recursos holandeses
na produção açucareira que participava do financiamento, transporte, refino e
distribuição do açúcar na Europa.
No caso da empresa agrícola açucareira tornou-se expressivo o
financiamento da implantação da produção, o transporte e o refino que era feito na
Holanda. Além disso, os holandeses distribuíram o açúcar e o lucro ficava de forma
massiva sob o seu poder. Portugal recebia impostos dos navios e da comercialização
em uma estrutura de monopolização dessa atividade. A esperança de Portugal era
conseguir instituir uma empresa mineradora das terras brasileiras, sonho esse que foi
perseguido desde o início da colonização.
Também a Capitania de São Vicente, sob os auspícios de Martim Afonso de
Sousa, conseguiu prosperidade em seu segundo lote em razão da produção de
açúcar. Ressaltamos que no total eram 14 capitanias distribuídas em 15 lotes de terra,
os quais foram doados para 12 donatários portugueses.
26
Conforme dito anteriormente, os capitães donatários eram representantes da
burocracia ou da nobreza de Portugal e eram chamados de fidalgos. Recebiam a
carta de doação que atribuía a concessão para a exploração da capitania. A terra
continuava a pertencer ao Estado português. Em caso de descumprimento de regras
o donatário poderia perder o seu direito à concessão. A concessão era passada de
pai para filho, ou seja, vitalícia. No foral estabeleciam os direitos e os deveres dos
capitães donatários. As sesmarias eram lotes grandes de terras que eram doados a
colonos para a exploração.
Portugal teve que agir em defesa do território e optou em trazer para o Brasil o
Governo Geral com a finalidade de controlar as áreas das capitanias. Os objetivos
eram defender o território, dinamizar a economia e fiscalizar as capitanias. Com as
capitanias pode-se assinalar que trouxeram muitas vantagens para Portugal como a
instalação de uma base territorial que sustentou a colonização portuguesa.
Os povoamentos de destaque podemos citar Santos, Olinda, Ilhéus e São
Vicente. A posse das terras em face dos riscos de invasões estrangeiras também é de
grande significado para a empreitada portuguesa. Outro aspecto notável foi a
27
viabilidade da exploração da cana-de-açúcar.
O sistema de capitanias não funcionou na prática como se previa
inicialmente. Em caso de guerra as capitanias não se ajudavam. Existiam muitos
contrabandos dos franceses e outras nações que dificultavam o crescimento das
capitanias. Os capitães donatários, em muitos casos, abandonaram as suas
capitanias e não foi construída a estrutura necessária para o seu funcionamento.
Muitos capitães não acreditaram que o projeto das capitanias hereditárias
daria certo. A figura do capitão donatário assumiu outra noção a partir de 1549 até
1572, período a partir do qual Portugal adota outro esquema: o Governo Geral. O
Brasil passa ater um governador geral que o administra. Portanto, se trata da
centralização administrativa do território. A falta de condições de administração fez
com que o Governador Geral nomeasse o Ouvidor Mor (justiça), o Provedor Mor
(finanças) e Capitão Mor (defesa territorial).
Figura 13: Projeto Governador Geral
Fonte: Disponível em https://bit.ly/2S0qKFH.
Acesso em: 27 mar. 2021
Veio para o Brasil o Governador Geral, Tomé de Souza, com sede em Salvador,
que estava no centro da produção açucareira. Salvador era a capital do Brasil e teve
o início de sua construção em 1º de maio de 1549 em uma área elevada de frente
para o mar e com arquitetura que viabilizava a defesa militar.
Portugal teve gastos e se sentia obrigado a transformar a colônia em um
empreendimento lucrativo. A lógica do Governo Geral era promover a centralização
da administração da colônia. Esse sistema não significou o fim das capitanias
28
hereditárias, dessa forma, coexistiram até o ano de 1759.
O que podemos destacar depois da complexidade de eventos em
diferentes contextos históricos e geográficos, é a transformação de um
império mercantil implantado por uma série de feitorias, fortes e
cidades portuárias, em um império cuja base principal é o imenso
território brasileiro, que só foi possível consolidá-lo com a implantação
da produção de açúcar voltada para a exportação, em grandes
propriedades, baseada no trabalho escravo, cujas repercussões sobre
a sociedade e economia brasileiras foram fundamentais até o
momento presente (VASCONCELOS, 2016, p. 47).
O regimento do Governo Geral tinha como propósito fazer a defesa das terras
contra os ataques estrangeiros, promover ações em busca de metais preciosos,
apoiar a disseminação da igreja católica e fazer frente à resistência indígena. O
regime teve que enfrentar problemas como a dificuldade de comunicação e a
oposição com os interesses locais.
Os jesuítas surgiram no Concílio de Trento, o concílio da contrarreforma. A
Companhia de Jesus tinha a missão de catequizar povos recém descobertos - a
cristianização dos povos. São os responsáveis pela educação dos índios e dos
colonos em uma forma mais ampla. Esse grupo de religiosos chegaram juntamente
com o Governador Geral representados por seis jesuítas sob a chefia do padre
português Manuel da Nóbrega e tinham a incumbência de catequizar os indígenas.
29
FIXANDO O CONTEÚDO
1. (Cesgranrio) O início da colonização portuguesa no Brasil, no chamado período
“pré-colonial” (1500-1530), foi marcado pelo(a)
a) envio de expedições exploratórias do litoral e pelo escambo do pau-brasil.
b) plantio e exploração do pau-brasil, associado ao tráfico africano.
c) deslocamento, para a américa, da estrutura administrativa e militar já
experimentada no oriente.
d) fixação de grupos missionários de várias ordens religiosas para catequizar os
indígenas.
e) implantação da lavoura canavieira, apoiada em capitais holandeses.
2. (USS) Assinale a alternativa correta a respeito do período pré-colonial brasileiro.
a) Os franceses não reconheciam o domínio português, tanto que chegaram a se
estabelecer no Rio de Janeiro e no Maranhão.
b) O trabalho intenso de Anchieta e Nóbrega na catequese dos índios tinha o
objetivo de impedir a escravização do gentio.
c) A ocupação temporária europeia, por meio de feitorias, deveu-se à inexistência
de organização social produtora de excedentes negociáveis.
d) A cordialidade dos indígenas contrastava com a hostilidade europeia dos
portugueses, cujo objetivo metalista conduzia sempre à prática da violência.
e) A cordialidade inicial entre europeus e índios deveu-se ao fato de que o objetivo
catequético superava os fins materiais da expansão marítima.
3. (Fuvest) No Brasil colonial, a escravidão caracterizou-se essencialmente
a) por sua vinculação exclusiva ao sistema agrário exportador.
b) pelo incentivo da igreja e da coroa à escravidão de índios e negros.
c) por estar amplamente distribuída entre a população livre, constituindo a base
econômica da sociedade.
d) por destinar os trabalhos mais penosos aos negros e mais leves aos índios.
e) por impedir a emigração em massa de trabalhadores livres para o brasil.
30
4. (UEL) No Brasil colônia, a pecuária teve um papel decisivo na
a) ocupação das áreas litorâneas.
b) expulsão do assalariado do campo.
c) formação e exploração dos minifúndios.
d) fixação do escravo na agricultura.
e) expansão para o interior.
5. (Unesp-2015) A constatação de que “Essa aliança refletiu-se numa política de
terras que incorporou concepções rurais tanto feudais como mercantis” justifica-
se, pois a política de terras desenvolvida por Portugal durante a colonização
brasileira
a) permitiu tanto o surgimento de uma ampla camada de pequenos proprietários,
cuja produção se voltava para o mercado interno, quanto a implementação de
sólidas parcerias comerciais com o restante da América.
b) determinou tanto uma rigorosa hierarquia nobiliárquica nas terras coloniais, quanto
o confisco total e imediato das terras comunais cultivadas por grupos indígenas ao
longo do litoral brasileiro.
c) envolveu tanto a cessão vitalícia do usufruto de terras que continuavam a ser
propriedades da Coroa, quanto a orientação principal do uso da terra para a
monocultura exportadora.
d) garantiu tanto a prevalência da agricultura de subsistência, quanto a difusão, na
região amazônica e nas áreas centrais da colônia, das práticas da pecuária e da
agricultura de exportação.
e) assegurou tanto o predomínio do minifúndio no Nordeste brasileiro, quanto uma
regular distribuição de terras entre camponeses no Centro-Sul, com o objetivo de
estimular a agricultura de exportação.
6. (UNIP) Após a restauração Portuguesa, ocorrida em 1640
a) as relações entre Portugal e o Brasil tornaram-se mais liberais.
b) a autonomia administrativa do Brasil foi ampliada.
31
c) o Pacto Colonial luso enrijeceu-se.
d) os capitães-donatários forma substituídos pelos vice-reis.
e) a justiça colonial passou a ser exercida pelos “homens novos”.
7. (PUC-RIO) "Isto é claro - diziam os mareantes - que depois deste Cabo não há aí
gente nem povoação alguma (...) e as correntes são tamanhas, que navio que lá
passe, jamais nunca poderá tornar."
Gomes Eanes de Zurara, ca. 1430
A despeito de todos os temores e incertezas que marcaram a aventura da
expansão marítima portuguesa, os aventureiros que nela se lançaram
conseguiram desbravar a costa oeste africana, até o seu extremo sul, durante o
século XV. Com relação a esses acontecimentos, podemos afirmar que:
I. A ultrapassagem do Cabo Bojador, em 1434, pela expedição comandada por Gil
Eanes, concretizou uma das primeiras das intenções do infante D. Henrique: a de
firmar controle sobre o litoral da África subsaariana.
II. A expansão portuguesa no litoral ocidental africano levou ao estabelecimento de
feitorias e ao início, em pequena escala, do tráfico de escravos africanos.
III. A crença na existência do reino cristão de Preste João, situado em algum lugar
para além dos domínios muçulmanos, foi um dos elementos do imaginário coletivo
da época que estimulou a participação de muitos nas expedições direcionadas
para o litoral africano.
Assinale a alternativa correta
a) se somente a afirmativa II estiver correta.
b) se somente as afirmativa I e II estiverem corretas.
c) se somente as afirmativas II e III estiverem corretas.
d) se somente as afirmativas I e III estiverem corretas.
e) se todas as afirmativas estiverem corretas.
8. (FGV) Sobre a conquista holandesa do Nordeste brasileiro, no período colonial, é
correto afirmar:
32
a) Os conflitos entre portugueses e holandeses devem ser compreendidos no
contexto da União Ibérica (1580-1640) e da separação das Províncias Unidas do
Império Habsburgo.
b) A ocupação das áreas de plantio de cana obrigou os holandeses a intensificarem
a escravização dos indígenas, uma vez que não possuíam bases no continente
africano.
c) Estabelecidos em Pernambuco, os holandeses empreenderamuma forte
perseguição aos judeus e católicos ali residentes e fortaleceram a difusão do
protestantismo no Brasil colonial.
d) A administração de Maurício de Nassau foi caracterizada pelo pragmatismo e
pela desmontagem do grande centro de artistas e letrados organizado pelas
autoridades portuguesas em Olinda.
e) Os holandeses implementaram uma nova e eficiente estrutura produtiva baseada
em pequenas e médias propriedades familiares, que se diferenciava das antigas
plantations escravistas.
33
SISTEMAS DE EXPLORAÇÃO
TERRITORIAL
2.1 PLANTATION
O Brasil tendia a ser uma colônia britânica “oculta”, pois, em consonância com
Velho (2009), uma grande parte do que era extraído enviava-se para a Grã-Bretanha,
com quem Portugal, sobretudo após 1703, possuía uma relação de dependência
semicolonial. Ressalta-se que “[...] no Brasil, com um imenso território, com fronteiras
imprecisas, e com o estabelecimento do sistema escravista, além da gestão das
outras partes do Império, era necessário controlar e colonizar a colônia”
(VASCONCELOS, 2016, p. 48). Ainda, Velho (2009, p. 103) destaca que
Exatamente por ser uma colônia “oculta”, os cientistas sociais
britânicos em geral não dão muita atenção ao papel do Brasil para a
acumulação primitiva através da economia de plantation e o
comércio de escravos. No caso das exportações de ouro, no entanto,
as coisas foram mais maciças e óbvias (VELHO, 2009, p. 103).
Tinha-se o exclusivismo colonial ou o pacto colonial. Na verdade, não houve
pacto e sim a imposição das regras para a colônia, uma imposição colonial. Nessa
perspectiva o Brasil tinha o papel de fornecedor de matérias primas e gêneros
tropicais para a metrópole, então havia a transformação na metrópole que revendia
para a colônia. Lembrando que o Brasil só poderia estabelecer relação econômica
com Portugal. A compra exclusiva de produtos manufaturados gerava uma
desvantagem comercial avassaladora para o território brasileiro.
Para pensarmos a economia do Brasil colonial faz-se relevante que algumas
características gerais sejam compreendidas porque se alteram os produtos gerados,
mas as bases econômicas são as mesmas. A economia açucareira entra nos
aspectos do sistema colonial que tem início com a lógica das monarquias europeias
sustentadas na exploração mercantilista que visava acumular riquezas nas colônias.
O sistema administrativo de controle do Estado português permitia vinculações
locais, mas a dependência externa era extrema. A cana de açúcar era uma
especiaria de grande valor na Europa e os portugueses já tinham experiência nesse
comércio em suas ilhas no Atlântico. Então, tendo como alvo o comércio exterior, a
UNIDADE
02
34
cana-de-açúcar foi escolhida para levantar lucros na colônia e a economia
açucareira teve seu apogeu nos séculos XVI e XVII.
O seu cultivo predominou na zona da mata nordestina que tinha como
vantagem a qualidade do solo e condições favoráveis para o cultivo. Os maiores
produtores de cana-de-açúcar eram a Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro e São
Vicente e se tinha um projeto de colonização alicerçada na plantation. Segundo
Tanezini (1994, p. 117-118):
A faixa litorânea de Pernambuco e capitanias anexas e o recôncavo
da Bahia tornaram-se regiões por excelência para o desenvolvimento
da "plantation" canavieira, colocando o Brasil-Colônia na posição de
maior produtor mundial de açúcar nos séculos XVI e XVII.
Havia financiamento holandês para a produção e essa colaboração gerava
lucros exorbitantes porque faziam empréstimos a juros e com o refino tornando-o mais
valioso, e se distribuía na Europa.
A produção do açúcar ganhou tanto destaque que os portugueses tiveram
que criar uma nova organização social e territorial, como mostra Vasconcelos (2016,
p. 47):
Os portugueses deram origem a uma nova forma de organização
social e territorial: uma colônia voltada para produzir e exportar
mercadorias de interesse dos mercados europeus, como o açúcar.
Essa orientação foi agravada pela concentração da propriedade
fundiária e, sobretudo, pela utilização sistemática, em todo o território,
do trabalho escravo (VASCONCELOS, 2016, p. 47).
O Brasil era uma grande fazenda para Portugal. Predominava-se o modelo
monocultor da grande produção agrícola nos latifúndios, as plantations. Tinham
como objetivo explorar a colônia, haja vista que a “instalação de grandes unidades
produtivas na maioria das vezes já era prevista no momento de doação das
35
sesmarias, e mais que isso, justificavam a própria requisição da concessão de terras”
(TANEZINI 1994, p. 50).
Onde as plantations eram implementadas se proibia o fomento de atividades
manufatureiras, a colônia era proibida de competir com a metrópole. Além disso, o
Brasil era obrigado a consumir os produtos manufaturados da Europa e isso teve
como implicação a industrialização tardia, bem como reforçou as mentalidades
colonizadas, monopolizadoras e conservadoras que pouco se preocupavam com a
necessidade de industrialização do Brasil.
Para pensar o sistema da plantation, também chamado de plantação ou
plantagem, é necessário ter a clareza de que se trata de um termo datado e que
reporta a concepções polissêmicas. Ele pode ser pensado na dimensão física do
espaço, assim como é razoável expor que uma fazenda se distingue de uma
plantation. A dimensão cultural deve ser considerada, bem como a compreensão
de que há um recorte da burocracia que está envolvida nessas dinâmicas.
Precisamos olhar para a plantation e entender as relações culturais envolvidas,
as quais não podem ser desconectadas da territorialidade. A terra, o capital e o
trabalho devem ser vistos em suas interações. A respeito do seu conceito:
O conceito de "plantation" foi sendo construído a partir da
abordagem dos clássicos das diversas ciências sociais. Na Economia
Política essa forma econômica foi mencionada por mercantilistas,
fisiocratas e economistas clássicos, como Adam Smith no século XVlll,
por seus críticos, Karl Marx e Friedrich Engels no século XIX e Vladimir I.
Lênin e Karl Kautsky no início do século XX. Na Geografia Humana e
Agrária foi analisada por Ritz e Edward Hahn (que a definiu conceitual
mente como "plantation" em ISSO) e em especial por Leo Waibel em
I932. Dentre as escolas sociológicas, foi objeto de estudo de Max
Weber, além do próprio Marx . Na Ciência Histórica esse tema foi
abordado particularmente pela História Económica da qual
destacamos a análise de Maurice Dobb na década de quarenta.
Finalmente constituiu-se numa problemática para a Antropologia nos
anos cinquenta e sessenta, quando os estudiosos procuraram
distinguir, nem sempre claramente, "haciendas" e "plantations" no
Novo Mundo, estabelecendo situações-tipo que as exemplificasse
(TANEZINI, 1994, p. 46)
Na realidade a plantation é todo um processo em interligação que remonta a
um sistema de sistemas espaciais que demanda a decomposição do território e das
paisagens, de modo a considerar as formas, as estruturas, as funções e os processos.
Como pontua Tanezini (1994, p.112),
36
A "plantation" se constituiu como o fundamento econômico-social da
colonização portuguesa, depois adotada por outras nações
europeias nas Antilhas. Como processo produtivo agroindustrial
instalado nas colônias, representava uma contra tendência à divisão
internacional do trabalho (TANEZINI, 1994, p. 112).
A ideia de espaço e território é um elemento central para o entendimento da
plantation, haja vista que o espaço se apresenta como essencial para o
aprofundamento da dinâmica das relações sociais. Tais relações se desenrolam no
plano espacial, ou seja, no corpo territorial. Isso é nítido em razão de que as relações
humanas não acontecem sem uma base territorial. Cada lugar ou configuração
espacial reporta a uma multiplicidade de tempos que consolidam mosaicos de uma
realidade concreta.
[...] existência da "plantation" açucareira como um empreendimento
agroindustrial capitalista no século XVI, como parte da nova
tendência de apropriação da esfera produtivapelo capital,
permitindo a reprodução e acumulação do capital industrial
propriamente dito, no bojo da chamada acumulação primitiva, como
duas "faces da mesma moeda", como duas fases do mesmo
movimento contraditório da evolução histórica (TANEZINI, 1994, p. 83).
Não se pode desconsiderar o papel da plantation para a formação do
território e da sociedade brasileira. Território é tradução de tempos diversos que
fazem alusão às dimensões que atribuem a densidade das funções assumidas pelas
formas espaciais que ocorrem em consonância a uma estrutura específica, a qual
determina articulações que podem ou não se perenizar ao longo da história.
O monopólio comercial e as plantations atuavam de modo articulado para a
promoção de altos lucros para as coroas europeias. De acordo com Tanezini (1994,
p.112):
37
Não faltou a mão-de-obra, porque desde o século XV portugueses e
espanhóis e depois ingleses, franceses, holandeses, dinamarqueses
organizaram o lucrativo tráfico de escravos. Com a "Plantation"
americana generalizou-se a escravidão sistemática moderna em
função do suprimento da força de trabalho para a atividade
produtiva, como instituição para garantir a compulsão ao trabalho (e
não por guerras etc), para uma indústria que demandava enorme
dispêndio de energia física e que operava em regiões tórridas e
úmidas, em clima exaustivo (TANEZINI, 1994, p. 112).
Tais características de produção se inserem em uma sociedade peculiar
colonial com características marcadas pela economia do açúcar, tipicamente
patriarcal (centrada no homem e a mulher sufocada em sua condição de sujeito e
tinham o papel engessado que se baseava em se casar e ter filhos), escravista
(adotou a mão de obra escravizada como elemento de lucro), estamental (a
posição social do indivíduo está de acordo com o seu nascimento, sem mobilidade
social), rural (desenvolvida no campo) e da relação entre senhores e escravos
(conflitos como a gênese dessa sociedade). Muitos dos desafios contemporâneos
estão assentados nesse quadro cultural.
A unidade econômica que se produzia a cana de açúcar era denominada
engenho que no plano local era vista como autossuficiente, entretanto, havia uma
profunda dependência das tecnologias oriundas da Europa. No engenho se tinha a
senzala, a casa grande, a utilização da força motriz da água ou de animais.
Conforme Tanezini (1994, p. 212)
O engenho colonial era compreendido de modo geral em dois
sentidos: a propriedade rural canavieira, sede da unidade de
transformação da cana em açúcar e a fábrica propriamente dita. O
engenho no seu sentido restrito constituía o coração da propriedade
rural à qual dava o nome e esta, por sua vez o coração da "plantation"
canavieira (TANEZINI, 1994, p. 212).
Nesse contexto, a produção ocorria no engenho constituído por casa grande,
senzala, capela e casa de engenho. Tal estrutura básica em que a casa grande era
a moradia do senhor de engenho e lugar de administração do engenho; a senzala
era o local de alojamento, uma espécie de prisão extremamente insalubre e precária
destinada aos escravos; a capela católica refletia a riqueza do engenho; a casa de
engenho onde se produzia o açúcar e era formada pela moenda (existiam as
movidas por força d´água e os que usavam força humana ou animal), caldeira (o
caldo de cana sob o processo de fervura), casa de purgar (retirar as impurezas) e
galpões (armazenagem em formato de pães/formas de açúcar).
38
A arquitetura materializava a lógica de discriminação social. Nas capelas, no
geral, se tinham os alpendres na frente onde muitos assistiam à missa fora da igreja
porque não eram batizados (catecúmenos, às vezes escravos). Assistir à missa dentro
da igreja era um privilégio de poucos.
Os senhores de engenho eram os pais absolutos, um administrador dos seus
bens, de sua mulher, dos seus filhos e dos escravos. A lógica dessas leis instituídas sob
seus auspícios se estruturava, basicamente, o primeiro filho ficava no engenho, o
segundo iria se formar em direito, o terceiro padre, o quarto médico e assim
sucessivamente.
O envio dos filhos para a Europa gerava incontáveis desconfortos porque
desconectava as nossas elites da realidade do país. As meninas eram preparadas
para casar por isso não aprendiam a ler e nem a escrever para não escrever carta
para namorado, além disso, viviam submissas aos maridos e aos filhos. Os casamentos
eram, no geral, com os parentes como uma forma de proteção do patrimônio das
terras e dos engenhos.
A aristocracia do açúcar tinha um horror ao trabalho braçal e, em muitos
casos, se emitia cédulas com valores variados que tinham caracterizava como uma
economia fechada e que gerava dependência à mercearia do senhor de engenho
que recebia tais cédulas.
Nos engenhos além dos escravos, indígenas no começo e africanos depois, os
escravos viviam nas senzalas sob o controle dos feitores. Além dos escravos haviam
os técnicos formados por mestre de açúcar, fazedor de aguardente, geralmente
portugueses e mestiços contratados na fazenda.
O trabalho nas regiões dos engenhos foi marcado pela herança da
escravidão que se manifesta na reprodução material e nunca no valor do ser
humano que trabalha. E o trabalhador descendente dos escravos se transformou em
morador dos engenhos em função da dependência do proprietário das terras que
39
era dono de tudo e a sua dominação do tempo de trabalho do morador fez com
que a lógica escravocrata se ampliasse ou se renovasse em novos formatos.
A mulher não tinha direito de ter a fazenda em seu nome e em boa parte dos
casos as escravas eram abusadas pelos senhores e as esposas socialmente não
podiam se levantar contra a dominação masculina na época.
Acentua-se que a rede comercial relacionada à colônia compusera camadas
sociais que não se reduziam a senhores e escravos, mas também uma rede média
que integravam roceiros, caixeiros, produtores de alimentos, dentre outros, que
abasteciam as plantations.
Até hoje esse modelo de plantation nos permeia e nos fazem ter um legado
que colabora para sermos considerados grandes produtores de laranja, café, soja,
frango, linguiça, carne, dentre outros. E, conforme pontua Tanezini (1994, p.179):
A "plantation" causou a destruição da Mata Atlântica original, não por
causa do atraso do seu processo de produção agrícola, ao contrário,
pelo seu caráter moderno de possuir uma fábrica instalada no meio
rural. O período manufatureiro na Europa caracterizou-se justamente
pela instalação das indústrias no campo, junto às fontes de matéria
prima e de energia, tendo como consequência a destruição florestal.
Acrescenta-se que a produção de pecuária extensiva em que o gado é
criado solto no pasto, um gado leiteiro de mistura de raças, com localização principal
no sertão nordestino era utilizada no mercado interno para auxiliar na produção
canavieira. O gado brasileiro inicial servia para transporte, abastecimento de carne,
couro e leite nas fazendas de cana-de- açúcar. É uma pequena economia em face
da grande economia açucareira e não se estruturou com mão de obra escrava e o
pasto era socializado por criadores de gado e aqui está a origem do sertanejo ou
vaqueiro nordestino.
No que tange a mão de obra escrava utilizada nas plantations, registramos
que a escravidão africana, a partir de 1550 começam a chegar os primeiros navios
40
negreiros que eram vistos como tumbas navegantes, eram priorizadas porque
espécies parecidas com a cana que era produzida no Brasil já eram conhecidas por
eles. Os africanos por terem um maior conhecimento eram mais lucrativos e geravam
dinheiro para a Coroa com o tráfico negreiro.
Colocamos em relevo o fato de que não houve a passividade, nem pactos de
conciliação de classes, o que tivemos foi uma atuação abominável por parte dos
portugueses que trouxeram africanos de línguas e dialetos distintos com formações
mais plural possível nas fazendas.
A busca dos fazendeiros também passava pela tentativa de colocarem numa
mesma fazenda negros oriundosde etnias rivais. Essas estratégias buscavam evitar
revoltas, fugas resultantes de diálogos e uniões entre os negros.
2.2 ENTRADAS E BANDEIRAS
Como se percebe, no Brasil colonial a atuação de Portugal se deu inicialmente
de modo periférico e litorâneo, haja vista que a colonização visava levantar riquezas
para Portugal em uma política claramente voltada para o mercantilismo (COSTA;
FARIAS, 2009).
Assim, o litoral apresentava certas vantagens, estava mais próximo da
Europa, era, portanto, o acesso mais fácil à metrópole e ao comércio
europeu. O fator geográfico da proximidade era de extrema
importância em um período no qual a navegação era o único meio
usado para deslocar, a longa distância, pessoas e mercadorias entre
os espaços na escala do mundo. A proximidade relativa entre o litoral
da colônia com a metrópole portuguesa e com a Europa em geral,
evitava grandes dispêndios financeiros com os transportes das
mercadorias. É importante também lembrar para você que, além da
localização, o litoral apresentava outras vantagens geográficas, nele
se encontravam as condições edafoclimáticas (solos aluviais férteis e
clima quente e úmido) essenciais para a opção econômica que
Portugal escolheu para ocupar produtivamente o seu espaço colonial
no Novo Mundo – a cana-de-açúcar (COSTA; FARIAS, 2009, p. 01).
As expedições interioranas contribuíram para a expansão portuguesa na
América e para a sertanização do Brasil. É salutar ressaltar as contribuições da União
Ibérica que colaborou para a noção de litoraneidade e interiorização. Avançar para
o interior do Brasil era algo muito complicado em função do desconhecimento da
geografia brasileira e a presença de serras ao longo do litoral contribuiu para ampliar
os desafios dos portugueses nos séculos XVI e XVII.
41
Contudo, esse caráter litorâneo e periférico da territorialidade
portuguesa no Brasil colonial não deve ser considerado em absoluto.
Mesmo no século XVI e, fundamentalmente, nos séculos subseqüentes,
a ocupação colonial portuguesa, embora de forma rarefeita e
dispersa, estendeu-se para o interior, movida pelos deslocamentos das
entradas, das bandeiras e das missões. Esses deslocamentos para o
interior do espaço colonial tinham como objetivos: aprisionar os
indígenas para vendê-los como escravos, procurar os metais preciosos
e as drogas do sertão, estabelecer currais, para a prática da pecuária,
e roçados, para a agricultura acessória, fundar aldeias para
evangelizar os índios etc. (COSTA; FARIAS, 2009, p. 01).
O ponto mais ao interior durante o século XVI foi a Vila de São Paulo que se
localizava 65 quilômetros de São Vicente. No caso dos espanhóis, conseguiram
explorar o interior bem antes dos portugueses e isso viabilizou a exploração mais
precoce de metais preciosos.
Ressalta-se que por decreto do rei Dom João III a pecuária extensiva foi levada
para o interior e a sua execução era realizada por mão de obra livre. No sul do país,
as missões jesuíticas encamparam produções relevantes no que se refere a dimensão
agropastoril e o gado da região passou a ser chamado de missioneiro.
O Brasil na virada do século XVI para o XVII estava com suas atividades
econômicas concentradas na região nordeste em razão da pujança da produção
açucareira. A busca por outras atividades lucrativas foi materializada por meio da
atuação de expedições denominadas de entradas e bandeiras.
Nessa epopéia, entradistas, bandeirantes e missionários transpuseram
os limites territoriais portugueses na América e foram muito além dos
marcos definidos para eles pelo Tratado de Tordesilhas. Essa expansão
para além desse tratado obrigou a Portugal e a Espanha
renegociarem os limites das suas possessões coloniais na América do
Sul. Isso foi concretizado através da assinatura de novos tratados, a
exemplo do Tratado de Madri (1750) e do Tratado de Santo Ildefonso
(1777), que expandiram os domínios portugueses em detrimento dos
espanhóis no subcontinente sul-americano (COSTA; FARIAS, 2009, p.
01).
A palavra sertão tinha a conotação de região selvagem, distante das cidades
e também do litoral. Nesse sentido, o termo sertão é “[...] utilizado para designar as
regiões distantes da costa, é o Brasil interiorano. Não tem o mesmo significado que se
emprega no Nordeste do Brasil onde o termo Sertão refere-se a uma região natural
específica, o semi-árido nordestino” (COSTA; FARIAS, 2009, p. 4). Em linhas gerais,
compreendida como interior do país.
Com o propósito de explorar o interior do país foram promovidas expedições
pela administração portuguesa ou por iniciativas particulares. Oliveira (1998, p. 8) nos
42
esclarece que “Um dos desdobramentos do mito do sertão é o do bandeirante,
responsável pelo aumento do espaço territorial da colônia portuguesa nos séculos
XVII e XVIII”. Tendo em vista as entradas:
[...] Hélio Viana considera como entradas as que partiram das várias
capitanias do Brasil [colônia], com exceção de São Vicente, e, como
bandeiras, as que partiram desta capitania. Assim, poderíamos dizer
que as bandeiras foram paulistas, enquanto as entradas foram
maranhenses, pernambucanas, baianas, espírito-santenses e
fluminenses. Outros autores distinguem os dois movimentos,
considerando como entradas as expedições organizadas e dirigidas
pelo poder público, enquanto as bandeiras seriam as expedições
particulares (ANDRADE, 2003, p. 61).
Nesse sentido, é possível entender que as entradas eram originadas de
qualquer localidade no território pertencente ao rei de Portugal, enquanto as
bandeiras são designadas como as originárias da região da Vila de São Paulo de
Piratininga: exclusivamente paulistas.
Algumas expedições pernambucanas também devassaram o interior
do atual Nordeste visando aprisionar índios para escravizar. Entre essas
expedições consta a organizada no governo Duarte Coelho de
Albuquerque. Esse donatário, com o auxílio do padre do Ouro, reduziu
muitos indígenas à escravidão. Contudo, essas expedições
pernambucanas não obtiveram muito sucesso. As mais famosas
entradas tiveram como ponto de partida a Bahia, entre elas podemos
destacar: a de Antônio Dias Adorno, que explorou o norte de Minas; a
de Gabriel de Sousa, que explorou a Chapada Diamantina; e a de
Belchior Dias, que percorreu o sertão do São Francisco. Todas elas
buscavam encontrar os metais e as pedras preciosos. Outras entradas
partiram de Porto Seguro, promovidas pelos donatários do Espírito
Santos e do Rio de Janeiro. Essas não foram bem-sucedidas, ou seja,
não encontraram os metais e as pedras preciosos, limitando-se a trazer
alguns escravos índios para os entornos das suas capitanias (COSTA;
FARIAS, 2009, p. 04).
De acordo com Costa e Farias (2009), a atuação das entradas teve a sua
relevância garantida na consolidação do território brasileiro, haja vista que instituiu
propostas de ocupação territorial e fixação cada vez maior para o interior do Brasil.
Além disso, foi fundamental para a sustentação econômica do modelo de
exploração adotado por Portugal para sua colônia Brasil. As atividades ligadas à
atuação da plantation foram cruciais e as entradas tornaram viáveis essas atuações
de suporte produtivo. Também é pertinente assinalar que as entradas tiveram uma
importância geopolítica ímpar porque colaboraram para o domínio português em
face das constantes ameaças estrangeiras. No entanto, resultou ainda no quadro de
avanço para além dos limites impostos pelo Tratado de Tordesilhas.
43
Os corpos de ordenanças, existentes em Portugal já no século XVI,
representaram um desdobramento da organização militar portuguesa
mais antiga, na qual existiam as bandeiras. Essas bandeiras medievais
constituíam-se como organizações militares espontâneas e
tumultuárias a que o Regimento das Ordenanças procurou disciplinar
ainda naquele século. No Brasil, foi através desse regimento que se
vulgarizou a definição de bandeira. As adaptações do instituto das
bandeiras por aqui não se fizeram esperar. Primeiramente, de
emprego defensivo e estático na metrópole, a bandeira passoua
exercer diversas outras funções. Seus comandantes eram, em geral,
também comandantes das milícias e ordenanças nomeados pelas
autoridades coloniais ou reinóis (FONSECA, 2017, p. 41).
As bandeiras ficaram conhecidas também como aquelas feitas pelos
bandeirantes paulistas. São expedições organizadas e financiadas por particulares
que adentravam o interior da colônia e buscavam lucros eram compostos por
brancos, mestiços e índios. Sendo que o líder da expedição era denominado
armador. Cabe ressaltar que o:
[...] caráter expansionista atribuído às bandeiras foi mais praticado nas
áreas periféricas aos centros políticos e econômicos coloniais. São
Paulo e Belém do Pará foram os núcleos irradiadores das ações que
vieram a romper com os limites de Tordesilhas. É por essa via de
entendimento que podemos considerar que a ação de indivíduos
como Raposo Tavares e Francisco de Melo Palheta,
assim como de Ricardo Franco de Almeida Serra, revestiam-
se do caráter militar, embora os dois primeiros não integrassem
o exército regular da época, como foi o caso do último
(FONSECA, 2017, p. 41)
Não respeitar o Tratado de Tordesilhas foi uma marca forte e importante para
a configuração do território brasileiro, pois “Sem a constituição de núcleos de
colonização portuguesa a oeste de Tordesilhas, não haveria consolidação da
expansão da fronteira que seria legitimada pelos tratados de limites” (FONSECA, 2017,
p. 47). Podemos fazer o registro de tipos distintos de bandeirismo. A seguir é
apresentado um breve panorama de cada um dos três tipos.
2.2.1 As bandeiras de apresamento
Captura de índios para vendê-los como escravos, com destaque para as
atuações de Manuel Preto e Raposo Tavares. Os indígenas eram comprados por um
valor inferior ao escravo africano. A rigor, a escravidão indígena não era legalizada
pela Coroa portuguesa, pois não se tratava da configuração de guerra justa que a
lei prescrevia, ou seja, quando o índio ataca primeiro.
44
Figura 14: Bandeiras de preação
Fonte: Disponível em https://bit.ly/2RcCXqt.
Acesso em: 26 mar. 2021
2.2.2 As bandeiras de prospecção
Atividade importante devido à procura de metais preciosos, com destaque
para Fernão Dias e Antônio Rodrigo de Arzão.
45
Figura 15: Bandeiras de prospecção
Fonte: Disponível em https://bit.ly/3pcf2nB.
Acesso em: 26 mar. 2021
A busca de ouro e diamante deu origem a atividade lucrativa em Minas
Gerais.
2.2.3 Sertanismo de contrato
A serviço dos grandes latifundiários para combater índios e para capturar
escravos fugitivos, assim como para a destruição de quilombos, nesse sentido,
Domingos Jorge Velho (que não falava português, apenas tupi guarani) foi o mais
significativo com a destruição de Palmares. Os quilombos eram lugares de refúgio dos
fugitivos e a destruição desses espaços eram financiados pelos fazendeiros para
desestimular as fugas dos escravos. Em muitos casos contavam com o apoio do
governo. Eram, de fato, um bando armado que cometiam crimes no território
brasileiro.
46
Figura 16: A Guerra dos Palmares, Óleo de Manuel Vítor de 1955
Fonte: Disponível em https://bit.ly/3i5Y7BH.
Acesso em: 26 mar. 2021
As monções são expedições fluviais paulistas sobretudo no rio Tietê que se
encontra no interior com o Rio Paraná. Era uma viagem que ligava São Paulo a
Cuiabá. Em razão das dificuldades de abastecimento na exploração de ouro, as
monções realizavam o transporte do comércio nas áreas de São Paulo, Mato Grosso
e Goiás. São expedições de comércio que estabeleciam a comunicação na região.
Figura 17: Principais bandeiras - séculos XVII e XVIII
Fonte: Disponível em https://bit.ly/3yXQDqu.
Acesso em: 26 mar. 2021
O bandeirantismo trouxe consequências para a nossa história como o
47
alargamento da fronteira colonial, a descoberta do ouro, o desenvolvimento da
pecuária do sul, dentre outros aspectos. O propósito dessas expedições era
proporcionar a exploração das terras do interior do Brasil e assumiu a importância de
expandir o território e dominar novas áreas, inclusive serviram de pressão em face da
pressão que Portugal vinha sofrendo em razão da presença de espanhóis. Assevera-
se que:
[...] as fronteiras portuguesas na América do Sul foram expandidas a
partir de duas frentes de colonização: pioneiramente, a frente
amazônica e, após o início do Ciclo do Ouro, a frente paulista. Essas
frentes se encontraram no rio Madeira, fechando o périplo da
ocupação da fronteira oeste e ligaram uma região à outra com o
estabelecimento da rota das monções do Norte. Essas monções eram
expedições comerciais que, a partir da metade do século XVIII,
abasteciam exclusivamente o norte do Mato Grosso através de Belém.
O atribuir ao elemento paulista mérito de ter expandido nossa fronteira
oeste é fruto de verdade apenas parcial (FONSECA, 2017, p. 44).
Nesse sentido, as expedições sertanistas naturalistas consolidavam
informações sobre as terras do interior do país que em sua maioria, os relatos dessas
experiências vividas são marcados por visões eurocêntricas que buscavam civilizar
todos e tudo que viam pela ‘frente’
A Capitania de São Vicente era uma das mais pobres da colônia. No início da
colonização conseguiu prosperar, mas, de fato, as capitanias da Bahia e de
Pernambuco conseguiram prosperar. Com a União Ibérica se diminuiu a mão de obra
escrava e, dessa forma, se impulsiona ainda mais a captura de indígenas para viver
como escravos. Na época o poder e a população estavam concentrados no
Nordeste e a população do contexto colonial eram vistos como rebeldes e se
camuflavam em um pragmatismo e sonho exacerbado em que se buscava a mão
de obra, mas ao mesmo tempo tinham a perspectiva de encontrar a fonte de
minérios que funcionaria como a atividade redentora ou salvadora da condição de
capitania de segunda categoria na colônia.
As grandes bandeiras traziam os índios para São Paulo e ali ficavam, então, é
48
um mito a ideia de que os bandeirantes capturavam índios para abastecer
atividades no nordeste brasileiro como forma de compensar as dificuldades
momentâneas da escravidão negra. O universo cultural dos portugueses se
intercalou com os conhecimentos indígenas porque sem eles a dificuldade de
movimentação seria enorme. É um grande engano achar que a conquista no Brasil
se deu em função da superioridade europeia, haja vista que a dominação
portuguesa aconteceu sobretudo em razão de uma ocupação constituída por meio
de alianças que viabilizavam o entendimento das trilhas, das técnicas, dos animais e
dos locais de defesa mais estratégicos. Sendo assim, os indígenas e, de modo mais
expressivo, os protagonistas foram os mestiços ou mamelucos que foram os líderes
das expedições ou integraram como capitães juntamente com os índios.
Praticamente não haviam capitães portugueses.
A procura de riquezas pelos bandeirantes era o objetivo de fato, tanto é que
esses homens rudes não construíram livros de memórias que sinalizassem um sinal de
grandeza ou de curiosidade intelectual. A ideia era somente garantir a subsistência
e a grandiosidade estava distante da perspectiva daquele tempo. O tratamento
com os índios era de modo violento, escravizar o máximo possível, amarrar em fila
indiana, dizimar os que resistissem.
A destruição dos indígenas foi uma marca do período colonial que se
reconhece o papel devastador do bandeirismo, no entanto, em todo o país essa
dinâmica de domínio e dizimação dos indígenas se materializou em todo o território
brasileiro, independente da presença dos bandeirantes.
Reconhece-se que as caminhadas dos bandeirantes levaram a descoberta
de ouro e sustentaram o avanço territorial do Brasil para além da linha do Tratado de
Tordesilhas.
É bom lembrar que relatos contemporâneos ao movimento de
ocupação do território são muito poucos. Os séculos XVI e XVII são
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marcados pelo tráfico de escravos, conquista de terras e apropriação
de seus produtos, havendo questionamento acerca da humanidade
ou não dos índios. Este período é marcado pela disputa entre

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