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Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA DEPARTAMENTO DE MICROBIOLOGIA E PARASITOLOGIA PARASITOSES EMERGENTES E REEMERGENTES Dra. Nathieli Bianchin Bottari Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 2 SUMÁRIO 1. TOXOPLASMOSE ......................................................................................................3 2. DOENÇA DE CHAGAS ............................................................................................18 3. BABESIOSE ..............................................................................................................38 4. FASCIOLOSE ............................................................................................................50 5. COMPLEXO TENÍASE CISTICERCOSE ...............................................................60 6. ANCILOSTOMÍASE .................................................................................................72 7. TRICHOSTRONGILIASE .........................................................................................82 8. DÍPTEROS .................................................................................................................94 9. ACARI ......................................................................................................................106 10. ECTOPARASITOS ................................................................................................117 Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 3 TOXOPLASMOSE Introdução A toxoplasmose é uma doença infecciosa de grande importância médica e veterinária, sendo uma das zoonoses mais difundidas no mundo que tem como agente etiológico um protozoário conhecido como Toxoplasma gondii, pertencente ao Filo Apicomplexa que pode invadir e se replicar intracelularmente em praticamente todos os tipos de células nucleadas de animais de sangue quente. As infecções humanas são adquiridas a partir de alimentos ou água contaminados. Embora normalmente resulte em doença leve em indivíduos saudáveis, a toxoplasmose é uma infecção oportunista comum com alta mortalidade em indivíduos e acometimento do SNC. Na fase aguda da infecção, as respostas imunes dependentes de interferon controlam a rápida expansão do parasita e atenuam os sintomas agudos da doença. No entanto, após a disseminação, o parasita se diferencia em cistos semi-dormentes que se formam dentro das células musculares e neurônios, onde persistem por toda a vida no hospedeiro infectado. As terapias atuais usadas para o tratamento da toxoplasmose aguda são incapazes de eliminar a infecção crônica devido ao crescimento lento e assíncrono dos bradizoítos. Apesar do progresso significativo no tratamento da toxoplasmose, há um forte impulso para desenvolver novas terapêuticas para as formas aguda e latente da infecção. Nas seções subsequentes serão apresentados uma visão geral dos aspectos epidemiológicos, classificação, características gerais, ciclo do parasita e sinais e sintomas do T. gondii. Também serão fornecidos subsídios para o diagnóstico e terapêutica. Por fim, serão abordados novas estratégias de diagnóstico e tratamento da toxoplasmose em humanos e em modelos animais. Histórico O protozoário T. gondii foi reconhecido pela primeira vez no Brasil, pelo Instituto Biológico de São Paulo (1908) ao observarem corpúsculos parasitários em coelhos lesões semelhantes as provocadas pelo conhecido parasito Leishmania, porém com características peculiares que questionaram Splendore (1908) a realizar extensas pesquisas envolvendo este novo protozoário e sua relação com as células intracelulares. No mesmo ano, Nicolle e Manceux (1908) no Instituto Pasteur de Tunis identificaram o parasito em roedores (Gundi - Ctenodactylus gundi) e o nomearam de T. gondii, baseados na morfologia (toxon = arco, plasma = vida) e no hospedeiro (gundi). Em 1923, foi descrito o primeiro caso de toxoplasmose humana em uma criança de 11 anos de idade que apresentava hidrocefalia e microftalmia. Dez anos depois (1937), o T. gondii foi reconhecido como o agente causador de encefalomielite em crianças recém- nascidas, sendo que cinco anos mais tarde comprovou-se a sua transmissão vertical em humanos. Apesar de várias pesquisas envolvendo o T. gondii terem sido realizados desde o início do século XIX, somente na década de 1960 o ciclo biológico do parasito foi elucidado, ao demonstrar estágios infecciosos de T. gondii nas fezes de gatos, e que estes poderiam transmitilos a hospedeiros intermediários. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 4 As linhagens clonais conhecidas como tipos I, II e III são comumente encontradas na América do Norte e Europa, com a maioria das infecções humanas decorrentes de cepas do tipo II. Aspectos epidemiológicos O Toxoplasma gondii é um patógeno intracelular que afeta aproximadamente um terço da população humana. Dados epidemiológicos estimam que 20 a 90% da população mundial já entraram em contato com o parasito; isto é, apresentam anticorpos. Em gestantes, a prevalência de positividade pode ser maior ao redor do mundo, variando entre 51% a 72% na América Latina, 54% a 77% na África Ocidental, 4% a 39% no sudeste asiático, 58% nos países europeus e 15% na América do Norte. Os índices de incidência estão relacionados ao clima quente, baixas latitudes e clima seco, como é o caso do Brasil. No Brasil, a prevalência de toxoplasmose varia de acordo com a região estudada. Dados limitados indicam que em certas regiões do Brasil (especialmente a região Sul) aproximadamente 50% das crianças foram expostos ao parasita. Altas taxas de soroprevalência (36-92%) foram encontradas em mulheres grávidas. Em um estudo envolvendo 20.389 mulheres gestantes da região sul do Brasil, 53,03% das mulheres possuíam anticorpos IgG para T. gondii e 3,26% foram positivas para IgM. Esses dados indicam que a soroprevalência de T. gondii em crianças e em mulheres grávidas no Brasil é uma das maiores em todo o mundo. Pesquisas soroepidemiológicas forneceram evidências de uma distribuição mundial de T. gondii em suínos, com prevalências variando de acordo com a idade, categorias de suínos, geografia e sistema de manejo. Em geral, uma baixa prevalência de infecções por T. gondii (<1%) é observada em suínos criados em confinamento com condições de manejo controladas, impedindo o acesso de roedores e gatos, enquanto valores de prevalência mais elevados (>60%) podem ser encontrados em fazendas com suínos soltos, fazendas sem condições controladas que permitem acesso ao ar livre e em explorações de quintal. Anticorpos para T. gondii foram encontrados em ovinos e caprinos em todo o mundo. Mais de 500 artigos relataram estudos de soroprevalência nessas espécies de ruminantes domésticos em todas regiões do globo. Nas últimas décadas, numerosos artigos foram publicados sobre a soroprevalência de anticorpos específicos para T. gondii em bovinos taurinos. No geral, os resumos de teses mostram uma grande variação nas proporções relatadas de achados positivos e as estimativas resumidas foram de 9,5% para o gado na China, 27,9% no sul da Ásia ou 12 % na África. Classificação taxonômica Taxonomicamente, o T. gondii (NICOLLE e MANCEAUX, 1909) causador da toxoplasmose, é um parasito pertencente ao Filo Apicomplexa (LEVINE 1970), classe Coccidia (LEUCKART, 1879), Ordem Eucoccidiorida (LÉGER e DUBOSCQ, 1910), Subordem Eimeriorina (LÉGER, 1911), Família Sarcocystidae (POCHE, 1913), Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 5 subfamília Toxoplasmatinae (BIOCCA, 1956), GêneroToxoplasma (NICOLLE e MANCEAUX, 1909). Etiologia e transmissão A infecção humana é adquirida pela ingestão de alimentos ou água contaminados com oocistos esporulados ou carne mal cozida infectada com cistos latentes. Ainda, por transmissão transplacentária, ou por meio de um aloenxerto infectado durante o transplante de órgãos. A aquisição via hemoderivados ou por ingestão acidental ou inoculação de Toxoplasma em laboratórios que trabalham com o parasita é rara. Morfologia Até então, três formas evolutivas infecciosas do T. gondii são reconhecidas: os taquizoítos (agrupam-se em clones), bradizoítos (presente em cistos teciduais) e oocistos (forma infectante). A análise da sequência do genoma completo de mais de 60 isolados de animais e humanos de todo o mundo identificou seis clados principais que diferem amplamente em ilhas genômicas de proteínas secretoras polimórficas amplificadas, muitas das quais funcionam como determinantes de virulência. Frenkel (1973) foi o primeiro a descrever a morfologia dos taquizoítos (do Grego tachos = veloz). Os taquizoítos são estruturas celulares arqueadas capazes de invadir todos os tipos de células, sendo considerados os estágios de multiplicação e de disseminação rápida (DUBEY, 1998). Possuem aproximadamente 6 μm de comprimento e 2 μm de largura podendo serem encontrados durante a fase aguda da infecção, também denominada forma proliferativa, forma livre ou trofozóito. Durante a fase aguda, a qual geralmente ocorre dentro de 8 a 12 dias após a infecção, os taquizoítos são capazes de atravessar as barreiras teciduais como a BHE e transplacentária, podendo atingir o SNC e o feto. Nesta fase da infecção, os taquizoítos se multiplicam por endodiogenia, no interior de seus vacúolos parasitóforos. O citoplasma torna-se repleto de taquizoítos a ponto de eclodir e provocar a liberação dos taquizoítos, que invadem as células contíguas ou são fagocitadas. Esta multiplicação proliferativa favorece a infecção em diversos locais do organismo, como o SNC, olhos, musculatura esquelética, musculatura cardíaca e a placenta. Alguns desses taquizoítos iniciam uma segunda fase de desenvolvimento; ou seja, como bradizoítos. Os bradizoítos constituem a forma de resistência do T. gondii nos tecidos (do Grego brady = lento), sendo os principais sítios de infecção o miocárdio, cérebro e musculatura esquelética. Os bradizoítos incidem na fase crônica da infecção e diferem morfologicamente pouco dos taquizoítos. Na fase crônica, a multiplicação do parasito diminui de forma acentuada e a infecção é mantida por um longo período na forma latente através da formação de cistos teciduais repletos de bradizoíto. Os cistos teciduais apresentam parede elástica (<0,5 μm de espessura), com tamanho variando de 5 a 70 μm de diâmetro e podem conter centenas de bradizoítos no seu interior, multiplicando-se lentamente por endodiogenia e pode persistir por toda a vida do hospedeiro. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 6 A última forma de estágio de T. gondii são os oocistos. Oocistos não esporulados; ou seja, não infectantes, possuem aspectos subesféricos a esféricos e medindo de 10 a 12 μm de diâmetro. Enquanto, os oocistos esporulados (forma infectante) apresentam aspectos subesféricos a elípticos e medem 11 a 13 μm de diâmetro. Cada oocisto contém no seu interior dois esporocistos elípticos, medindo de 6 a 8 μm. Os oocistos são resistentes a vários processos de inativação, permanecendo viáveis após contato com agentes químicos como ácido sulfúrico 2% ou em dicromato de potássio a 2,5%. Desta forma, resistem mesmo em temperaturas muito baixas (-20oC) a elevadas (>37oC) por meses, infectando água e alimentos (DUBEY, 2014, p.15). Um complexo de membranas conhecido como película delimita todo o corpo do protozoário. É formado por uma membrana plasmática externa e, abaixo dela, duas membranas intimamente opostas que formam o complexo da membrana interna. Este complexo interno está ausente na região mais apical onde se localiza o conóide e na parte mais posterior da célula. Abaixo do complexo da membrana interna, há uma camada de microtúbulos. Vinte e dois microtúbulos que se originam no anel polar e se projetam em direção à região posterior da célula, atingindo cerca de dois terços do comprimento do corpo celular. Além disso, existe uma rede de estruturas filamentosas com diâmetro médio de 8 a 10 nm, muito lábeis e localizadas imediatamente abaixo do complexo da membrana interna. São compostos por proteínas do grupo das articulinas denominadas alveolinas e se estendem por toda a célula terminando em uma estrutura circular localizada na região posterior, conhecida como complexo basal, onde proteínas como a ocupação da membrana e o nexo de reconhecimento existe (MORN-1). Uma característica do citoesqueleto de T. gondii é o conóide que aparece como um cilindro oco inserido dentro do anel polar do qual emergem os 22 microtúbulos subpeliculares. Tem um diâmetro de 400 nm e um comprimento de 250 nm e aparece em dois estados. Em estado de repouso, aparece sob o anel polar. Quando ativado por um influxo de Ca++, ele extrude em direção à região anterior das células. Este movimento ocorre durante o processo de invasão da célula hospedeira. No estado de repouso, o conóide se posiciona imediatamente abaixo da membrana plasmática, sob o anel posterior, de onde emergem os microtúbulos subpeliculares. Dois microtúbulos estão situados dentro do conóide, e mais dois anéis apicais estão presentes em sua porção mais apical. O anel anterior tem diâmetro de 160 nm e o segundo mede 200 nm. Várias proteínas demonstraram existir nessas estruturas complexas, como as proteínas de ligação ao cálcio Centrina 2, TgCAM1, TgCAM2 e TgMyoH miosina. Taquizoítos, bradizoítos e esporozoítos são semelhantes estruturalmente, possuindo, porém, diferenças nas suas diversas organelas as quais desempenham papéis fundamentais nos processos de interação com a célula hospedeira, movimentação, adesão e invasão. Os três estágios infecciosos apresentam uma especialização explícita da região anterior onde se localiza o complexo apical. É usado para iniciar o processo de infecção das células hospedeiras. Este complexo é formado pelo conóide e dois conjuntos de organelas secretoras: os micronemas e as róptrias. Nesses processos estão envolvidos os antígenos de superfície (SAG), e proteínas presentes em organelas do complexo apical, como as proteínas de micronemas (MIC), proteínas de roptrias (ROP) e proteínas de grânulos densos (GRA). Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 7 As SAGs são proteínas ancoradas na superfície celular do T. gondii por âncora glicosilfosfatidilinositol (GPI) e funcionam como ligantes que facilitam a adesão do parasito à célula hospedeira. SAG1 (30 kDa) é a proteína predominante na superfície de taquizoítos de T. gondii, sendo utilizada em vários testes de diagnósticos e em ensaios vacinais. As proteínas do micronema são também proteínas facilitadoras nos processos de adesão e invasão do T. gondii na célula hospedeira. Das inúmeras proteínas do micronema, a MIC3 (90kDa) é uma potente adesina presente em todos os estágios infecciosos de T. gondii, a qual tem sido utilizada em testes sorológicos e candidata a compor uma vacina contra toxoplasmose. As ROP, por sua vez, são organelas em forma de bastão encontradas na região anterior do T. gondii apresentando proteínas com atividade enzimática (proteíno- quinases, fosfatases e proteases). Seu conteúdo está envolvido na penetração do parasito e na formação do vacúolo parasitóforo (forma encistada) na célula hospedeira. Por fim, as GRA são organelas envolvidas na maturação do vacúolo parasitóforo, caracterizadas por nanotubos membranosos, assim como são as principais porções de antígenos excretórios/secretórios de T. gondii, estando associadasà construção da rede membranosa intravacuolar que permite a interação do parasito com a célula hospedeira. Outra característica dos estágios infecciosos do T. gondii é a presença das organelas secretoras apicais. Os micronemas são os mais abundantes. Eles aparecem como estruturas semelhantes a bastonetes com 250 nm de comprimento e 50 nm de largura. Concentram-se em torno do anel polar abaixo do sistema de membrana e parecem fundir-se com a região onde existe apenas a membrana plasmática. Eles são os primeiros a secretar seu conteúdo proteico, essencial para o movimento do protozoário e sua associação com a membrana da célula hospedeira. As proteínas micronemais são denominadas MICs. Eles incluem proteínas com propriedades semelhantes às perforinas, adesinas e serina proteases (subtilisinas). Algumas das proteínas micronemais estão envolvidas na montagem (juntamente com proteínas rópteras) da junção móvel. A análise morfológica mostrou que o número de micronemas é maior nos esporozoítos, menor nos bradizoítos e intermediário nos taquizoítos. Sua secreção pode ser induzida por tratamentos que aumentam a concentração de cálcio intracelular. As róptrias compreendem o segundo grupo de organelas secretoras apicais. Eles são maiores que os micronemas, são em forma de clube com duas regiões bem definidas. A mais basal é mais larga e de aspecto esponjoso, contendo proteínas envolvidas na subversão das funções da célula hospedeira, conhecidas como ROPs. A porção anterior, ou pescoço, concentra proteínas associadas à invasão da célula hospedeira e são conhecidas como RONs. Apresentam pH ácido. A secreção de róptria desempenha um papel essencial na constituição da junção móvel para a invasão do T. gondii e formação da membrana do vacúolo parasitóforo (PV). O terceiro grupo de organelas secretoras são os grânulos densos. Geralmente são esféricos com diâmetro médio de 0,2 μm e estão distribuídos por todo o corpo do protozoário. Eles também contêm um grande número de proteínas secretadas na porção lateral e posterior do protozoário quando localizado dentro do PV. As proteínas de grânulos densos são conhecidas como GRAs e estão envolvidas na montagem de uma rede de túbulos e estruturas filamentosas com o PV. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 8 O núcleo do protozoário está localizado na porção média do corpo celular. É aproximadamente esférica, com uma discreta concavidade em sua face superior (ou seja, aquela voltada para o complexo apical) onde se acomoda o complexo de Golgi. Durante a divisão, o núcleo assume a forma de ferradura, mantendo a integridade de sua membrana. Acima do núcleo, o apicoplasto está localizado em posição lateral. O apicoplasto é alongado e delimitado por quatro membranas. É uma organela de origem endossimbiótica e está intimamente associada ao complexo de Golgi e ao retículo endoplasmático. O apicoplasto contém um DNA cromossômico extra de 35 kb e toda a maquinaria que permite a síntese de algumas proteínas. Desempenha papéis essenciais em processos bioquímicos como a síntese de ácidos graxos tipo II e a síntese de isoprenóides e grupos heme e é a primeira organela a se dividir durante o ciclo celular do protozoário. Toxoplasma gondii apresenta perfis de retículo endoplasmático rugoso e liso distribuídos por toda a célula. O complexo de Golgi está intimamente oposto à porção côncava (anterior) do núcleo, apresentando 4 a 6 lamelas. Ele se divide em uma fase inicial da endodiogenia, e cada complexo é incorporado em uma das novas células formadas. Toxoplasma gondii apresenta uma única e ramificada mitocôndria que pode atingir cerca de 10 µm de comprimento distribuída por toda a célula. O Toxoplasma gondii também contém cerca de dez acidocalcisomas, que são organelas ácidas que armazenam cálcio e estão envolvidas na homeostase intracelular e na osmorregulação. Os diâmetros dessas organelas variam de 40 a 150 nm e estão dispersos no citoplasma. Outras estruturas citoplasmáticas de T. gondii incluem corpos lipídicos, que parecem ser mais abundantes em esporozoítos, que raramente são vistos em taquizoítos, mas caracteristicamente encontrados em bradizoítos e esporozoítos. Eles aparecem como estruturas esféricas que contêm polissacarídeos de reserva. Morfologicamente, bradizoítos e esporozoítos diferem dos taquizoítos em vários aspectos, como a posição do núcleo, que é mais posterior neles; o número de micronemas, grânulos densos e grânulos de amilopectina, bem como o aspecto das roptrias. Ciclo do parasita O ciclo biológico do T. gondii é do tipo heteroxeno, ocorrendo em duas fases distintas. A fase sexuada é enteroepitelial e ocorre apenas no hospedeiro definitivo (HD), sendo o HD membros da família Felidae (DUBEY, 2014). Enquanto a fase assexuada acontece na face extraintestinal em tecidos do hospedeiro intermediário (HI), esses podem ser qualquer animal de sangue quente incluindo o homem. Os esporozoítos, bradizoítos ou taquizoítos, ao penetrarem no epitélio intestinal dos felídeos, sofrem um processo de multiplicação por endodiogenia e merogonia, dando origem a vários merozoítos. O rompimento da célula parasitada libera os merozoítos que penetram em novas células epiteliais e se transformam nas formas sexuadas, os gametócitos, que, após o processo de maturação, formam os gametas masculinos (microgametas) e/ou os gametas femininos (macrogametas). O macrogameta (imóvel) permanece dentro de uma Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 9 célula epitelial, enquanto os microgametas (móveis e flagelados) saem de sua célula e fecundam o macrogameta, formando o ovo ou zigoto. Este evolui dentro do epitélio formando uma parede externa dupla, dando origem ao oocistos. Os oocistos não esporulados são eliminados junto as fezes, portanto a esporulação ocorre no ambiente, em média até cinco dias após a excreção, dependente da temperatura e umidade. Os HI, como o homem, por exemplo, podem adquirir a infecção pela ingestão de oocistos esporulados presentes em alimentos e água contaminados, caixas de areia, ingestão de cistos contendo bradizoítos em carne crua ou mal-cozida e ingestão de taquizoítos em líquidos biológicos (leite, saliva e esperma). Além disso, as formas acidentais de contaminação por auto- inoculação, transplante de órgãos e transmissão congênita podem ocorrer. Ciclo em animais O processo primário de infecção de um felino é pela ingestão de presas contendo cistos teciduais, ou oocistos contendo esporozoítos excretados por outro felino. Após a ingestão, a parede dos cistos é rompida no estômago, provavelmente devido ao seu baixo pH e à ação de enzimas proteolíticas, liberando bradizoítos ou esporozoítos, respectivamente. Em qualquer uma das situações, as células epiteliais intestinais serão as primeiras células a serem invadidas e se transformarão em esquizontes, estágio de reprodução assexuada que pode ser identificada pela presença de vários núcleos. Durante a esquizogonia, sucessivas divisões nucleares precedem a individualização de cada célula. Após rodadas consecutivas de divisão nuclear, a formação do complexo de membrana interna para a individualização de cada merozoíto pode ser acompanhada em paralelo com a aparência do complexo apical, incluindo micronemas e roptrias, todas estruturas características de um Apicomplexa típico. Essas estruturas citoplasmáticas se organizam em torno de cada núcleo, dando origem às células filhas, chamadas merozoítos, dentro da célula hospedeira. A ruptura desses enterócitos libera muitos merozoítos, que também são capazes de infectar novos enterócitos e se dividir novamente por esquizogonia. Cada ciclo esquizogônico dá origem a vários merozoítos que serão liberados para invadir prontamente novos enterócitos, aumentando exponencialmente o número de parasitas. Cinco tipos diferentes de esquizontesde T. gondii foram descritos em células epiteliais intestinais felinas antes do início da gametogonia. Três a quinze dias após a infecção primária felina, os esquizontes e merozoítos são encontrados principalmente na porção do íleo do intestino, e alguns começam a se diferenciar em gametas. Os macrogametas são gerados a partir de um único merozoíto e apresentam formato oval (8 µm de comprimento e 6 µm de largura), um único núcleo, retículo endoplasmático, mitocôndrias, corpos lipídicos, inclusões de amilopectina e corpos formadores de parede tipo I (diâmetro de 0,35 µm e elétron denso) e II (largura de 11,2 µm, menos denso e em menor número). Os microgametas são formados por uma divisão esquizogônica e são alongados (6 µm de comprimento e 2 µm de largura); apresentam cromatina nuclear condensada, dois corpos basais, respectivos flagelos localizados na região anterior e uma mitocôndria restrita à base dos flagelos. A fusão de um microgameta com um macrogameta produz o oocisto imaturo, que é liberado no lúmen intestinal do hospedeiro definitivo. O oocisto imaturo apresenta Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 10 forma elíptica (13 µm de comprimento x 11 µm de largura) e contém em seu interior um único esporoblasto. Uma vez que os oocistos são liberados com as fezes do gato, o ambiente aerado desencadeia a maturação, ou seja, a esporulação. Após a esporulação, o oocisto se divide em dois esporocistos (6-8 µm cada). Uma camada fina e elétron-densa e uma camada interna elétron-lúcida, bem como duas membranas externas, formam a parede do oocisto. Após a maturação subsequente do oocisto, cada esporocisto contém quatro esporozoítos. Os oocistos esporulados são altamente resistentes às condições ambientais e permanecem viáveis na água ou em condições secas por vários meses. O ciclo de vida de T. gondii no hospedeiro intermediário Hospedeiros intermediários podem ser infectados por várias vias (Fig. 1). Tanto as paredes dos cistos teciduais quanto os oocistos são removidos por enzimas digestivas, liberando, respectivamente, bradizoítos ou esporozoítos que, dentro do novo hospedeiro, se movem por um mecanismo único de deslizamento. As proteínas micronemais são as primeiras a serem secretadas e são essenciais para a motilidade do protozoário por deslizamento e adesão inicial à superfície da célula hospedeira. A motilidade de deslizamento resulta de uma montagem complexa de proteínas ancoradas a um motor de actina miosina localizado entre a membrana plasmática e a película interna. Esse chamado glideossomo envolve proteínas micronemas (AMA1 e MIC2) inseridas na membrana plasmática do taquizoíto que reconhecem e se ligam aos receptores da membrana plasmática da célula hospedeira. O domínio intracelular de AM1 e MIC 2 está ligado a uma aldolase, que está ligada a actina filamentosa que é empurrada por um motor de miosina TgMYO e várias proteínas GAP (GAP40, GAP45, GAP50 e GAPM) que constroem uma conexão entre as três membranas do a película e a rede de alveolina. Esta montagem complexa empurra o taquizoíto para a frente em direção a uma nova célula hospedeira. A interação do T. gondii com uma célula do hospedeiro visa, em última instância, sua internalização. Em T. gondii, esse processo pode ocorrer em qualquer célula nucleada, principalmente macrófagos, células epiteliais, células musculares e neurônios. Inicialmente, o T. gondii se liga à superfície da célula hospedeira potencial e em sequência reorienta o lado apical induzindo, pela secreção de proteínas localizadas nas organelas apicais, ou seja, micronemas e róptrias, o processo de internalização. Para invasão, o taquizoíto monta uma junção móvel com a membrana plasmática da célula hospedeira. Essa junção móvel forma um anel ao redor do taquizoíto no ponto de entrada na célula hospedeira. Isso resulta na ligação da proteína micronemal AMA1 inserida na superfície do taquizoíto à proteína roptria RON 2 que é secretada, inserida e exposta na membrana da célula hospedeira. Patogenia A infecção se inicia no intestino delgado, onde esporozoítos ou bradizoítos liberados de oocistos ou cistos teciduais ingeridos podem infectar enterócitos e se replicar ali ou atravessar a camada epitelial e entrar na lâmina própria. Dentro da lâmina própria, o parasita infecta células pertencentes a várias linhagens hematopoiéticas, incluindo macrófagos, células dendríticas e neutrófilos. As respostas imunes inatas e adaptativas à infecção por T. gondii controlam efetivamente os taquizoítos de replicação rápida. Tipicamente, a infecção por T. gondii, resulta na indução de uma resposta imunológica Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 11 celular e humoral com produção de citocinas pró e antiinflamatórias responsáveis pelo controle da infecção. Receptores de reconhecimento da proteína de ligação à actina (profilina) denominados Toll-Like Receptors (TLR) presentes nas células dendríticas, estão envolvidos no mecanismo de sinalização celular (HOU et al., 2011) (Figura 13). Um estudo, utilizando ratos knockout MYD88 (proteína 88 de diferenciação mielóide a resposta imune primária) em TLR demonstraram ter uma produção defeituosa da IL-12 e menor liberação de IFN-γ após a infecção por T. gondii (YAROVINSKY et al., 2006), concluindo-se que a ativação de MYD88 por TRL em células dendríticas (CDs) conduz a ativação de IL-12. Contudo, a deficiência de TRL4 está envolvida com a produção de IL-6, INF- γ e IL-12, responsáveis por promover o aumento da carga parasitária no SNC. Mecanismos moleculares e de resposta imune inata, revelaram que TRLs tipo 11 e 12 (TRL11 e TRL12), presente em animais e humanos respectivamente, estão envolvidos na resposta imune inata contra T. gondii através do reconhecimento da profilina liberada pelo parasito (YAROVINSK, 2014). A MYD88 na presença de IRF8 induz a transcrição da IL-12 nas CDs (Figura 13). Assim que o T. gondii entra em contato com as células epiteliais do hospedeiro uma proteína (profilina) é liberada pelo parasito. A profilina é reconhecida pelos receptores TLR 11 e/ou TRL 12 das CDs. As CDs ativadas secretam IL-12 (A) a qual, estimula as células NK a apresentar para as células TCD4+ e produzir INF-γ (C) que levará a apoptose do parasito. As CDs infectadas apresentam o antígeno parasitário para as células TCD8+, que irá produzir IL-10 (D). Uma vez infectados pelos taquizoítos o INF- γ ativa os macrófagos (B). Macrófagos ativados, podem responder estimulando as enzimas idoleamina ou iNOS (E) a privação do triptofano essencial ao desenvolvimento do parasito ou a produção de óxido nítrico (ON) levando a destruição do vacúolo parasitóforo (Figura 13) (YAROVINSKY (2014). Já a imunidade adaptativa contra T. gondii é desempenhada através da apresentação de antígenos de superfície pelo complexo de histocompatibilidade de classe II (MHC-II) de CDs e macrófagos e MHC-I de células nucleadas. As duas principais populações de células T ativadas por este mecanismo são os linfócitos TCD4+ e TCD8+. A resposta humoral adaptativa contra T. gondii é desencadeada pelas células B, as quais desempenham um papel importante para o controle de cistos teciduais. Além disso, essas células são essenciais para a geração de respostas imunes mediadas por anticorpos. Sinais e sintomas Mais de 80% dos adultos e crianças infectados pelo T. gondii são assintomáticos. No entanto, no caso de pacientes imunodeficientes, a toxoplasmose é uma doença grave e com risco de vida. Uma pessoa imunocompetente com toxoplasmose aguda pode apresentar os seguintes sintomas: linfadenopatia cervical, retroperitoneal e mesentérica, mal-estar, febre e mialgias, convulsões, cefaleia, déficit de nervos cranianos, déficit neurológico focal, desequilíbrio, encefalite, meningoencefalite. A toxoplasmose ocular se manifesta principalmente como perda da atividadevisual e dor ocular seguida de retinocoroidite. Pneumonite e miocardite também foram relatadas. Nesses casos, a Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 12 infecção pode ser adquirida recentemente ou pode ser uma reativação. No entanto, em caso de reativação da infecção, os sintomas dependem apenas do tecido ou órgão infectado. A encefalite toxoplasmática difusa também pode se desenvolver. Distúrbios motores ou sensoriais de membros únicos ou múltiplos podem ser resultado do envolvimento da medula espinhal. A toxoplasmose congênita pode ser subclínica ou apresentar envolvimento multissistêmico. As manifestações clínicas, se presentes, incluem prematuridade, restrição de crescimento intrauterino, icterícia, hepatoesplenomegalia, miocardite, pneumonite, púrpura, coriorretinite, hidrocefalia, calcificações intracranianas, microcefalia, convulsões, retardo mental, cegueira e epilepsia. Normalmente, os casos sintomáticos apresentam manifestações oculares ou neurológicas. Diagnóstico Os métodos imunológicos foram e continuam sendo os método diagnóstico preferido e mais comum para o diagnóstico da toxoplasmose em laboratórios clínicos no século passado. Esses métodos são baseados no reconhecimento de antígenos de superfície de T. gondii por imunoglobulinas específicas de T. gondii do hospedeiro. Diferentes métodos imunológicos geralmente medem diferentes anticorpos (IgA, IgM, IgG e IgE) que possuem padrões únicos de aumento e diminuição com o tempo após a infecção. Durante os últimos anos, muitos métodos de testes imunológicos, incluindo teste de corante Sabin Feldman (SFDT), teste de anticorpos fluorescentes indiretos (IFAT), teste de aglutinação em látex (LAT), teste de hemaglutinação indireta (IHA), ensaios imunoenzimáticos (ELISA) , teste de aglutinação modificado (MAT), Western blotting (WB) e teste de avidez de IgG foram usados para detecção de infecção por T. gondii em diferentes pacientes. Embora nas últimas duas décadas, outros métodos imunológicos, incluindo ensaios de quimioluminescência (CLIA), ensaio de fluorescência ligada a enzima (ELFA), teste imunocromatográfico (ICT), teste de avidez de IgG sérica e ensaios de aglutinação imunossorvente (ISAGA) tenham sido desenvolvidos para melhorar a capacidade de diagnóstico de infecção por T. gondii. CLIA e ELFA são variações totalmente automatizadas do ELISA padrão que têm várias vantagens, incluindo reprodutibilidade, custo-benefício e medição rápida e precisa dos níveis de anticorpos IgG e IgM. Além disso, o CLIA é útil na medição do índice de avidez de IgG, mesmo em níveis baixos de anticorpos IgG específicos de Toxoplasma. A TIC é um método adequado para aplicação em campo, pois possui baixo custo, procedimento simples e não requer técnicos especializados. Na TIC, uma membrana de celulose é usada como transportador e um antígeno ou anticorpo marcado com ouro coloidal é usado como marcador. Recentemente, Wang et al. desenvolveram uma tira de ICT rápida para detecção de antígenos excretores/secretores (ESA) na infecção aguda de T. gondii tão cedo quanto 2-4 dias após a infecção. No ISAGA, os anticorpos anti-IgM humanos são usados para o diagnóstico de toxoplasmose aguda ou congênita. A desvantagem deste método é a necessidade de um grande número de taquizoítos de T. gondii. No entanto, esse problema foi resolvido substituindo os taquizoítos de T. gondii por esferas de látex revestidas com antígenos solúveis. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 13 Uma abordagem recentemente desenvolvida para melhorar o diagnóstico da infecção por T. gondii e também discriminar entre as diferentes fases da infecção é usar antígenos recombinantes no lugar do TLA. Estudos recentes utilizando o método de antígenos recombinantes ou quiméricos e peptídeos multiepítopos demonstraram resultados bastante promissores para o desenvolvimento de novas estratégias capazes de discriminar infecções recentemente adquiridas de infecções crônicas. Esses antígenos incluem antígenos de superfície SAG1 (P30), SAG2 (P22), SAG3 (P43) e P35; antígenos de grânulos densos GRA1 (P24), GRA2 (P28), GRA4, GRA5, GRA6 (P32) e GRA7 (P29); antígenos de micronema MIC2, MIC3, MIC4 e MIC5; antígenos de matriz MAG1; e antígenos de róptria ROP1 (P66) e ROP2 (P54). A vantagem proeminente desses antígenos recombinantes é a identificação de anticorpos específicos das fases aguda ou crônica e a discriminação entre esses dois estágios da infecção por T. gondii usando uma única amostra de soro. Está demonstrado que a combinação de antígenos recombinantes complementares melhora significativamente a sensibilidade e especificidade dos testes quando comparados com um único antígeno. Outros antígenos recombinantes combinados e suas características diagnósticas são revisados em artigos de revisão publicados recentemente. Além disso, em 2014, Drapała et al. avaliaram a utilidade de duas misturas de antígenos recombinantes (rROP1 + rSAG2 e rROP1 + rGRA6) no teste de avidez de IgG. Seus resultados mostraram que essas duas misturas têm alta sensibilidade (100 e 95,4%, respectivamente) para detecção de toxoplasmose aguda, sugerindo que novo teste de avidez de IgG. Um número crescente de estudos recentemente realizados tem demonstrado as potenciais vantagens dos antígenos peptídicos quiméricos ou sintéticos para o diagnóstico sorológico da infecção por T. gondii, como padronização simples, alta sensibilidade, baixa contaminação com proteínas dos organismos, redução dos custos de produção, e aumentando a probabilidade de discriminar diferentes estágios da toxoplasmose. Estes antigénios peptídicos quiméricos e/ou sintéticos incluem vários epítopos imunorreactivos de diferentes antigénios de T. gondii que foram devidamente seleccionados. Esses epítopos imunorreativos são hidrofóbicos e geralmente estão bem expostos na superfície do antígeno. Durante os últimos anos, uma variedade de ferramentas inovadoras, incluindo análise de microarranjos de peptídeos por métodos bioinformáticos, mapeamento de epítopos, exibição de fagos de bibliotecas de cDNA e reatividade com anticorpos monoclonais, foram desenvolvidos para a previsão de epítopos específicos e sua localização em antígenos de T. gondii. Apesar das melhorias significativas nos métodos sorológicos, ainda existem limitações insolúveis, como a incapacidade desses métodos de confirmar a presença do parasita no feto e no cérebro em transmissão congênita e/ou pacientes imunocomprometidos. O desenvolvimento dos métodos moleculares durante as últimas três décadas induziu uma grande revolução no diagnóstico de doenças infecciosas em geral. Para superar as limitações dos testes sorológicos, diferentes métodos moleculares, incluindo PCR, nested PCR, PCR em tempo real e também técnicas de amplificação isotérmica mediada por loop (LAMP) foram desenvolvidos para detectar DNA de T. gondii em amostras biológicas. Nos métodos baseados em PCR, um fragmento específico do genoma pode ser amplificado resultando em muitos milhões de cópias da molécula de DNA alvo. A primeira técnica de PCR para detecção de T. gondii foi estabelecida por Burg e colegas em que o gene B1 de 35 repetições do genoma de T. gondii foi amplificado [74]. Após isso, vários genes de direcionamento de múltiplas cópias, incluindo 18S rRNA-, P30-, Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 14 B1-genes, fragmento de repetição de 529-bp ou o elemento AF146527 foram usados para a detecção de T. gondii em diferentes amostras biológicas. Foi relatado que a PCR com o gene RE de 529 pb é 10 a 100 vezes mais sensível que o gene B1. Para diagnosticar toxoplasmose congênita e ocular, a PCR tem sido utilizada com sucesso com líquido amniótico, tecidos placentário e cerebral, humor aquoso e líquido vítreo. Além disso, sangue total, urina,líquido cefalorraquidiano (LCR), lavado broncoalveolar, líquidos pleural e peritoneal têm sido usados efetivamente para diagnosticar toxoplasmose em pacientes imunocomprometidos. Nested PCR é usado para aumentar a especificidade da amplificação de DNA, bem como para detectar os patógenos que ocorrem com muito poucas quantidades. Em um estudo relatado por Alonso et al., a nested PCR mostrou-se um método molecular rápido, sensível e eficaz na detecção precoce da toxoplasmose em pacientes com HIV [80]. Em outro estudo, foi demonstrado que a nested PCR tem alta sensibilidade para detecção de oocistos de T. gondii em rios, poços e águas do mar. Multiplex PCR é outro tipo de métodos de PCR para detectar vários patógenos usando vários conjuntos de primers que cada um tem como alvo um patógeno específico. Este método permite a análise simultânea de vários alvos em uma única amostra. Nowakowska et al. utilizaram as amostras de líquido amniótico e cefalorraquidiano de casos de toxoplasmose congênita para determinar o genótipo do parasito por nested multiplex PCR. Eles relataram uma sensibilidade de > 25 parasitas/ml em amostras de líquido cefalorraquidiano e amniótico por PCR multiplex-nested. Rahumatullah et ai. desenvolveram um ensaio de PCR triplex visando o gene B1, região de 529 repetições e região ITS1 de T. gondii. De acordo com seu relatório, este ensaio foi capaz de detectar apenas 10 pg de DNA de T. gondii, 104 taquizoítos em fluidos corporais enriquecidos e DNA de T. gondii nos tecidos de órgãos de camundongos experimentalmente infectados. Os métodos baseados em RT-PCR são ensaios desenvolvidos recentemente que possibilitam a quantificação da carga parasitária e têm um alto grau de precisão diagnóstica específica do complexo para o diagnóstico de patógenos em amostras clínicas. O RT-PCR é o ensaio molecular mais sensível para a detecção de patógenos, especialmente quando o DNA alvo está em baixas concentrações. Além disso, esses ensaios são mais rápidos, sensíveis e reprodutíveis do que a PCR convencional e são úteis em investigações como a cinética de infecções e monitoramento da resposta terapêutica [89]. As principais vantagens da RT-PCR sobre a PCR convencional incluem a não necessidade de abrir os tubos de reação e, portanto, minimizar o risco de contaminação ambiental dos amplicons, redução de resultados falsos positivos, medição de produtos de amplificação durante cada ciclo usando sondas ou corantes intercalados e fornecendo diagnóstico precioso como escolha de tratamentos específicos para pacientes que abrigam vários patógenos. Na última década, vários estudos aplicaram RT-PCR para diagnóstico de toxoplasmose em várias amostras biológicas, ambientais e alimentares. A maioria desses estudos relatou que RT-PCR é um método mais sensível em comparação com outros métodos moleculares e biológicos. Bottari et al., demonstrou que o RT-PCR usando o alvo de 529 pb foi melhor que o gene B1 para o diagnóstico de toxoplasmose congênita em ambos os períodos pré-natal (81,3 versus 64,6%) e nascimento (36,0 versus 20,0%). Amplificação isotérmica mediada por loop (LAMP) é um método de PCR modificado em uma etapa, com alta sensibilidade, especificidade, eficiência e rapidez. Este método amplifica o DNA sob condições isotérmicas (60-65°C) usando uma DNA Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 15 polimerase (Bst) com atividade de assentamento de fita e 4-6 primers específicos, que são capazes de reconhecer um total de 6-8 regiões distintas dentro do DNA alvo. As vantagens técnicas de usar LAMP em vez de PCR e RT-PCR convencionais incluem a não necessidade de equipamentos altamente sofisticados, não é caro e demorado, não há necessidade de extração de DNA e é mais tolerante a inibidores de PCR, como sangue, soro e ingredientes alimentares Por fim, a tomografia computadorizada, a ressonância magnética, a imagem nuclear e a ultrassonografia podem ser úteis, embora seus resultados possam não ser específicos isoladamente. As técnicas de imagem são úteis para o diagnóstico de toxoplasmose cerebral e ocular. Na toxoplasmose cerebral (encefalite), uma variedade de técnicas de imagem, como tomografia computadorizada (TC), ressonância magnética (RM), imagem nuclear e ultrassonografia (US), podem ser úteis, embora seus resultados possam não ser específicos. Uma tomografia computadorizada do cérebro é frequentemente usada como um teste de triagem inicial e pode mostrar lesões nodulares únicas ou múltiplas. A administração de material de contraste intravenoso (IV) com qualquer modalidade melhora o rendimento e a precisão do diagnóstico [118]. Em estudos de tomografia computadorizada, lesões arredondadas isodensas ou hipodensas com parede fina e lisa foram observadas após a administração intravenosa de meio de contraste e lesões calcificadas com parede espessa ou dot-like foram observadas após tratamento médico. Na toxoplasmose do SNC, aproximadamente 75% das lesões são múltiplas e os gânglios da base são o local mais proeminente para induzir nódulos. Na toxoplasmose congênita, as tomografias computadorizadas podem demonstrar hidrocefalia difusa e calcificações cerebrais associadas a calcificações múltiplas, irregulares, nodulares, semelhantes a cistos nas áreas periventriculares e no plexo coroide. A ressonância magnética é mais adequada para a determinação da extensão do dano e melhorou a capacidade de distinguir entre diferentes lesões do SNC. Brightbill et ai. relataram que a hiperintensidade ponderada em T2 pode estar patologicamente relacionada à encefalite necrosante, enquanto a isointensidade ponderada em T2 está associada a abscessos em organização. de imagem nuclear, como tomografia por emissão de pósitrons com fluorodesoxiglicose (FDG-PET), cloreto de tálus (201Tl) e tecnécio-99 m (99mTc) sestamibi (MIBI) mostraram características promissoras para distinguir a toxoplasmose do SNC do linfoma do SNC em pacientes HIV-positivos, embora sejam necessárias mais investigações prospectivas para confirmar a capacidade dessas ferramentas de imagem. A US pré-natal pode ser útil para detectar anormalidades cerebrais devido à toxoplasmose congênita [126]. Em uma revisão abrangente [122], Khan afirma que “os achados ultrassonográficos na toxoplasmose congênita incluíram ventriculomegalia simétrica, densidades periventriculares e hepáticas/esplênicas intracranianas, destruição focal do tecido cerebral relacionada ao aumento da cisterna ou ventrículo vizinho, calcificação ocular, microftalmia , bandas metafisárias, irregularidade da borda metafisária da placa de crescimento, ascite fetal e aumento da espessura placentária”. A US pós-natal pode ser usada para monitorar o tamanho ventricular em bebês de até 18 meses de idade. Em pacientes adultos, a US abdominal pode revelar hepatoesplenomegalia e linfadenopatia abdominal por toxoplasmose. A toxoplasmose ocular pode ser diagnosticada por achados clínicos como acuidade visual, pressão intraocular, biomicroscopia e oftalmoscopia indireta [129]. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 16 Embora técnicas de imagem como autofluorescência de fundo de olho (FAF), oftalmoscopia confocal de varredura a laser (CSLO), tomografia óptica coerente (OCT), angiografia fluorescente (AF), ultrassonografia e angiografia com verde de indocianina (ICG) possam ser úteis para seu diagnóstico e tratamento de complicações que incluem edema macular, descolamentos de retina, neovascularização da retina, oclusão vascular, atrofia do nervo óptico, lesões vitreorretinianas, glaucoma e catarata. Tratamento O tratamento da toxoplasmose normalmente inclui combinações de dois antimicrobianos, na maioria das vezes inibidores da diidrofolato redutase (DHFR) (pirimetamina e trimetoprima) e diidropteroato sintetase (sulfonamidas, como sulfadiazina, sulfametoxazol e sulfadoxina),que bloqueiam a síntese de ácido fólico. A pirimetamina, um inibidor chave de DHFR, parece ser o fármaco mais eficaz contra o T. gondii e é a base para regimes eficazes. Estes incluem pirimetamina-sulfadiazina (pir- sulf), o padrão-ouro contra o qual outros regimes são medidos, e pirimetamina combinada com clindamicina, atovaquona, claritromicina ou azitromicina. Outros regimes incluem trimetoprima, outro inibidor de DHFR, em combinação com sulfametoxazol (TMP-SMX; também conhecido como cotrimoxazol) e atovaquona isoladamente ou em combinação com sulfadiazina. Infelizmente, todas as drogas utilizadas na prática clínica são apenas ativas contra o estágio de taquizoítos do parasita e não demonstram atividade contra cistos contendo bradizoítos, o estágio latente do parasita. Curiosamente, a resistência às drogas atualmente utilizadas não foi descrita como um problema clínico. Como a espiramicina não é tóxica e não atravessa a placenta, ainda é usada profilaticamente em gestantes para prevenir a transmissão materno-fetal do parasita. Este quimioterápico atua inibindo a síntese proteica do parasito e é ainda, capaz de atravessar a barreira transplacentária atuando na redução da transmissão materno-fetal. Similarmente como a maioria das drogas anti-T. gondii, a espiramicina atua somente nas formas taquizoíto do parasito e apesar de reduzir a frequência da transmissão, esse quimioterápico não altera a patologia da infecção fetal. Assim, as drogas que atuam contra esse estágio terão que direcionar processos metabólicos essenciais que ocorrem dentro desse estado semi-adormecido ou bloquear a emergência e reinvasão de bradizoítos, que dão origem a ondas sequenciais de cistos teciduais. Vários candidatos pré-clínicos promissores foram identificados em estudos recentes. Compostos de quinolonas, que atuam no complexo mitocondrial bc1, reduzem a carga de cistos em camundongos cronicamente infectados. O principal desafio com este andaime químico é a baixa solubilidade, que recentemente foi parcialmente abordada usando pró-drogas esterificadas ou derivados de tetrahidroquinolona. O medicamento guanabenz aprovado pela FDA também reduz a carga de cistos teciduais em camundongos cronicamente infectados. Estudos recentes com inibidores da proteína quinase 1 dependente de cálcio (CDPK1) mostram-se promissores não apenas para reduzir a carga de cistos, mas eliminar completamente a infecção crônica em um modelo de camundongo imunocomprometido, embora com eficácia modesta. Apesar das limitações atuais, existe a promessa de que uma dessas abordagens possa levar a uma terapia para curar infecções crônicas em humanos. Considerações finais Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 17 Avanços marcantes no controle de diversas doenças infecciosas causadas por protozoários parasitas ocorreram nas últimas décadas, principalmente aqueles que passam parte de seu ciclo de vida dentro das células hospedeiras. Apesar disso, o controle epidemiológico e o desenvolvimento de novos quimioterápicos com baixa toxicidade e alta especificidade continuam a constituir grandes desafios. Algumas dessas doenças são restritas a áreas específicas do mundo, como é o caso da doença de Chagas. Outras, como a toxoplasmose, estão amplamente distribuídas pelo mundo. De fato, T. gondii, um membro do filo Apicomplexa, desenvolveu a capacidade de infectar quase qualquer tipo de célula de mamíferos e aves. Nos EUA, estimou-se que 11% da população com seis anos de idade ou mais já foi infectada pelo T. gondii. Em vários países do mundo, foi demonstrado que mais de 60% das pessoas foram infectadas com T. gondii. Em algumas áreas geográficas (por exemplo, Brasil), até 60% da população é soropositiva para antígenos de T. gondii. As condições ambientais e os hábitos alimentares podem afetar as taxas de infecção. Por exemplo, a ingestão de carne crua ou mal cozida está associada à transmissão de T. gondii, e carne de porco e ovelha são mais propensas a conter cistos teciduais do que bovinos. A contaminação por oocistos excretados com fezes de gato não envolve necessariamente o contato com o próprio gato. Gatos de estimação estão menos sujeitos a se contaminar (e produzir oocistos) do que gatos que vivem na rua ou em áreas rurais. O gênero Toxoplasma contém apenas uma espécie, T. gondii, que pode ser agrupada em genótipos (tipos I, II e III, XII e os haplótipos X e A). Alguns são restritos a animais selvagens. Referências Dubey, J. P. Toxoplasmosis of animals and humans (CRC, 2010). Attias, M., Teixeira, D.E., Benchimol, M. et al. The life-cycle of Toxoplasma gondiireviewed using animations. Parasites Vectors 13, 588 (2020). https://doi.org/10.1186/s13071-020-04445-z Rostami, A., Karanis, P. & Fallahi, S. Advances in serological, imaging techniques and molecular diagnosis of Toxoplasma gondii infection. Infection 46, 303–315 (2018). https://doi.org/10.1007/s15010-017-1111-3 Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 18 DOENÇA DE CHAGAS Introdução Os triatomíneos são insetos pertencentes a família Triatominae com uma ampla diversidade intraespecífica contando 157 espécies e 2 subespécies, distribuídas em 18 gêneros, sendo o triatomíneo mais conhecido o barbeiro, vetor de transmissão da Doença de Chagas. A doença de Chagas (DC), ou tripanossomíase americana, é uma doença tropical negligenciada encontrada principalmente em 21 países da América Latina, onde é principalmente transmitida por vetores, mais especificamente por membros da subfamília Triatominae (Hemiptera, Reduviidae). Os triatomíneos ou barbeiros são insetos hematófagos que têm o hábito de defecar durante ou após o repasto sanguíneo – se infectados com T. cruzi, liberam o parasita nas fezes/urina. Estima-se que 8 milhões de pessoas estejam infectadas em todo o mundo, e mais de 65 milhões de pessoas em risco de adquirir a doença, que causa mais de 12.000 mortes por ano, sendo o controle vetorial o método mais útil para prevenir novas infecções. A infecção tem duas fases sucessivas. A fase aguda é caracterizada por alta parasitemia, geralmente assintomática ou oligossintomática com febre, anorexia e taquicardia. Essas manifestações desaparecem espontaneamente em 90% dos casos, e possivelmente 60-70% dos indivíduos infectados nunca desenvolverão sinais ou sintomas relacionados à DC, caracterizando a forma indeterminada. Os demais pacientes podem evoluir para a fase crônica com queixas clínicas neurológicas, cardíacas, digestivas (megacólon ou megaesôfago) ou cardiodigestivas. A cardiomiopatia chagásica crônica (CCC) é a manifestação mais grave da doença, acometendo um terço dos indivíduos com sorologia positiva.A limitação das estratégias terapêuticas tem sido um dos maiores desafios no combate à DC. Nifurtimox e benzonidazol, desenvolvidos na década de 1970, ainda são as únicas opções comerciais com eficácia estabelecida na DC. No entanto, a eficácia dessas drogas tem eficácia comprovada apenas durante a infecção precoce e os benefícios na fase crônica são questionáveis. Consequentemente, há uma necessidade crescente de novas alternativas farmacológicas, seja pela otimização de medicamentos existentes ou pela formulação de novos compostos. Histórico Em 1909 foi descoberta a doença de Chagas pelo médico e cientista brasileiro Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas, o então pesquisador assistente do instituto Oswaldo Cruz, nesse mesmo ano se mudou para a cidade de Lassance, interior de Minas Gerais em busca do combate à malária. Foi então nessa pesquisa que ele acabou encontrando um flagelado de mico o qual denominou Trypanosoma minasense e indo a fundo nessa pesquisa encontrou um Trypanosoma diferente do anterior só que dessa vez em barbeiros e denominou esse protozoário de Trypanosoma cruzi em homenagem a Oswaldo Cruz, e desta forma descobriuuma nova doença humana, a chamada doença de Chagas. O CD recebeu esse nome em homenagem ao seu descobridor, Carlos Ribeiro Justiniano Chagas, que nasceu em uma fazenda de café em Oliveira, Minas Gerais, no Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 19 Brasil, em 9 de julho de 1878. Chagas formou-se em Medicina em 1903 e foi convidado por Oswaldo Cruz para trabalhar como médico no Ministério da Saúde Pública e Higiene do Brasil, onde aplicou pela primeira vez o controle vetorial intradomiciliar contra a malária. Devido ao sucesso em seu trabalho, Chagas tornou-se membro da Academia Nacional de Medicina do Brasil e recebeu diversos prêmios e títulos de instituições de Paris, Bélgica, Lima e Estados Unidos, incluindo Doutor Honoris Causa da Universidade de Harvard. Além de Chagas ter sido indicado duas vezes ao Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia (1913 e 1921), mas por motivos pouco claros, nunca foi premiado. Algumas evidências apontam para uma oposição política a Chagas no Brasil, devido ao caráter socioeconômico da doença. Além disso, pesquisadores da Europa não aceitaram essa descoberta incomum, e a doença de Chagas ainda não era completamente compreendida em 1912. Em 1921, embora Chagas tivesse estabelecido as principais características da nova doença e publicado em um periódico relevante da época, surpreendentemente não havia nenhum relatório escrito sobre a avaliação de Chagas no Comitê Nobel do Instituto Karolinska, e nenhum cientista recebeu o prêmio naquele ano. Dirigiu o Instituto Oswaldo Cruz por 17 anos (de 1917 até sua morte em 1934) e coordenou uma campanha contra a epidemia de gripe espanhola no Brasil (1918). Em 14 de fevereiro de 1909, Chagas consultou um paciente que seria o primeiro caso de DC descrito na literatura: uma criança de 2 anos, Berenice, que apresentava febre alta, hepatoesplenomegalia, edema de face e presença de parasita no sangue. Berenice permaneceu assintomática ao longo de sua vida e morreu aos 73 anos por outras causas. A partir daí, intensificou-se a investigação da DC na América Latina, com os primeiros relatos da doença em 1913 em El Salvador; em 1919 no Peru (19) e na Venezuela; em 1922 na Costa Rica; em 1924 no Paraguai; em 1933 na Guatemala; em 1937 no Chile; em 1938 no México; em 1942 na Bolívia; em 1947 na Colômbia; em 1949 na Nicarágua e na Argentina; e 1960 em Honduras. Mais recentemente, o DNA do T. cruzi foi encontrado em múmias do Chile/Peru e do Brasil, datando de 7.050 anos a.C. e 2.500–5.000 anos a.C., respectivamente, demonstrando que a doença existe na América Latina há mais de 9.000 anos. Apesar de datar do período pré-colombiano, a DC não foi mencionada antes de 1909, o que torna as descobertas de Carlos Chagas uma conquista única na história da parasitologia e da medicina. Só ele descreveu as características mais importantes de uma nova doença tropical: o vetor, o patógeno e seus diferentes estágios de desenvolvimento, os hospedeiros, bem como suas manifestações clínicas, epidemiologia e até a profilaxia da doença. As linhagens ancestrais de Trypanosoma cruzi provavelmente foram introduzidas na América do Sul por meio de morcegos cerca de 7 a 10 milhões de anos atrás. A evidência mais antiga de infecção por T. cruzi veio da detecção de DNA do parasita em uma múmia Chinchorro de 9.000 anos da área costeira do Deserto do Atacama. Foi levantada a hipótese de que os Chinchorros que costumavam ter um estilo de vida nômade participam do ciclo silvestre do T. cruzi. Gradualmente, após sua colonização, surgiu um ciclo doméstico de transmissão do T. cruzi , facilitado pela capacidade dos vetores de se adaptarem facilmente a vegetação mais aberta. Além disso, achados históricos sugerem que muitas culturas pré-hispânicas estavam em contato próximo com insetos vetores triatomíneos em suas residências antes da chegada dos conquistadores europeus à América do Sul, América Central e México. Desde o início do século XVI, há evidências de que a DC estava presente na América Latina, afetando tanto os indígenas quanto os viajantes europeus. Alguns séculos depois, em 1908, durante uma campanha contra a malária em apoio à construção de uma ferrovia no estado de Minas Gerais (Brasil), um Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 20 engenheiro ferroviário alertou Carlos Chagas sobre grandes insetos hematófagos que viviam nas residências locais e mordeu as pessoas adormecidas preferencialmente no rosto. Em seguida, Chagas os dissecou e encontrou numerosos tripanossomas em seu intestino posterior . Naquela época, os ciclos de transmissão do T. cruzi eram restritos ao ambiente silvestre, sendo inicialmente um fenômeno enzoótico, mas devido ao êxodo rural, desmatamento e urbanização, a DC tornou-se uma antropozoonose. Após sua descoberta, a DC permaneceu por muitas décadas como uma doença exclusivamente rural associada a aspectos sociais da pobreza em áreas da América Latina (40). De fato, a DC sempre esteve associada a regiões com graves deformações políticas, instabilidade econômica, analfabetismo e cabanas miseráveis (82). A área endêmica clássica da DC abrange desde a região sul dos EUA até o norte da Argentina e Chile, compreendendo 21 países (Argentina, Belize, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana Francesa, Guatemala , Guiana, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela) (40). Nesta área, cerca de 6 milhões de pessoas são afetadas, ocorrendo aproximadamente 28.000 novos casos de DC e 12.000 óbitos por ano (4). A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) estima que 65 milhões de pessoas vivem em áreas de exposição. A assunção do controle vetorial como o método mais eficaz para prevenir a transmissão do T. cruzi em áreas endêmicas motivou, em 1991, o estabelecimento da “Iniciativa Cone Sul”. Esta iniciativa foi um programa multinacional nos países do Cone Sul (Argentina, Brasil, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai) que visava a eliminação do Triatoma infestans. Nos anos seguintes, programas semelhantes também foram criados em áreas endêmicas como a “Iniciativa dos Países Andinos” (1997), “Iniciativa da América Central e México” (1998) e “Iniciativa dos Países Amazônicos” (2004). Como consequência desses programas, observou-se uma diminuição acentuada no número de casos transmitidos pelo vetor, o que também contribuiu indiretamente para a redução das infecções por hemotransfusão e via materno-fetal. No entanto, devido ao desequilíbrio causado por alterações ambientais e de biodiversidade associadas à presença de atividades humanas próximas ao ciclo silvestre do T. cruzi, a transmissão oral tem surgido em áreas altamente endêmicas como a Bacia Amazônica e também em regiões onde os triatomíneos domésticos e o controle peridoméstico tem sido eficaz. Dois surtos de origem alimentar ocorreram no Brasil, um em 2005 no estado de Santa Catarina (área com controle de vetores), quando 24 pessoas foram infectadas após ingerirem caldo de cana contaminado com T. cruzi; e outro em 2006, no estado do Pará (área de alta endemicidade), com 178 casos de doença aguda após ingestão de açaí contaminado. Epidemiologia A doença de Chagas (DC) é uma antropozoonose causada pelo protozoário parasita Trypanosoma cruzi, que afeta cerca de 6 a 8 milhões de pessoas em todo o mundo e causa aproximadamente 50.000 mortes por ano. Outros 65–100 milhões de pessoas vivem em áreas de risco de infecção em todo o mundo. Embora mais de um século tenha se passado desde sua descoberta, a DC continua sendo um dos principais problemas de saúde pública para a maioria dos países da América Latina. Nas últimas décadas, a DC também tem sido uma preocupação para locais não endêmicos como Canadá, EUA, Europa, Austrália e Japão devido à constante migração de indivíduos de áreas endêmicas Materialpublicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 21 A Doença de Chagas é uma infecção tropical de grande importância no mundo, com alto impacto social e econômico, principalmente nas áreas endêmicas. Estima-se que são gastos US$ 627,5 milhões por ano em custos de saúde. De acordo com estimativas da Organização Mundial da Saúde, o número de pessoas infectadas em escala global ascende de 7 para 8 milhões. No Brasil, a doença de Chagas continua sendo até hoje um grande problema atingindo cerca de 3 milhões de indivíduos em suas diversas classes sociais. A forma indeterminada da doença é encontrada em 60 a 70% dos pacientes com Doença de Chagas. Destes, de 20 a 30% evoluem para a cardiomiopatia chagásica crônica mais frequente entre os pacientes com sinais clínicos e a maior causa de mortalidade, responsável por 10% das mortes em adultos nas regiões endêmicas. Dos pacientes chagásicos, de 5 a 10% desenvolvem síndromes digestivas, sendo no Brasil a prevalência variando de 2 a 8,8%. Nos pacientes imunodeprimidos, em especial aqueles HIV+, de 25 a 44% apresentam algum tipo de comprometimento cardíaco e em 75 a 80% reporta-se o acometimento do sistema nervoso central. A infecção congênita pode ocorrer em 71% dos recém-nascidos de mães em fase aguda. No Brasil, 1,09% das bolsas de sangue são descartadas devido à sorologia positiva para T. cruzi. Classificação taxonômica Os triatomíneos estão taxonomicamente classificados no Reino Animalia, Filo Arthropoda, Classe Insecta, Ordem Hemíptera, Família Reduvinidae, subfamília Triatominae (Jadel 1909). Destas incluem 6 tribos distribuídas em 18 gêneros. As relações taxonômicas do grupo ainda não estão totalmente resolvidas, alguns estudos demonstram que o clado é monofilético, outros, polifilético; ou ainda parafilético. Por sua vez, o agente etiológico da doença de Chagas, o parasito flagelado pertence ao Reino Protista, Filo Apicomplexa, Classe Kinetoplasma, Ordem Trypanosomatida, Família Tryponomatidae, Gênero Trypanossoma, espécie T. cruzi. O T. cruzi é politípico, com duas subespécies reconhecidas: Trypanosoma cruzi cruzi, agente da doença de Chagas, e o Trypanosoma cruzi marinkellei, encontrado apenas em morcegos no Continente americano. Aspectos morfológicos Em uma revisão recente da literatura Vinicius Paiva e colaboradores (2022), reuniram e publicaram no periódico internacional “The lancet” evidências que apoiam a ideia de que os triatomíneos evoluíram e que há pequenas alterações morfológicas entre populações de uma mesma espécie. Atualmente, em vários países das Américas, várias espécies de vetores são encontradas naturalmente infectadas com T. cruzi. Os triatomíneos são vulgarmente chamados de barbeiros devido ao fato de geralmente picarem a face. Outros nomes populares incluem: chupões, bicudos, procotós, vum-vum, chupança. Em geral, têm tamanho entre 2 e 3 cm, mas podem variar de 0,5 a 4,5 cm de comprimento. Os barbeiros têm desenvolvimento hemimetabólico, isto é, as formas jovens são parecidas às adultas. Em geral são insetos lentos, pouco agressivos e de pouca mobilidade espacial. Podem viver tanto em ambiente silvestre como em domicílios e áreas circundantes (pe- ridomicílios), alguns sendo exclusivamente silvestres Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 22 A cabeça dos barbeiros geralmente é longa, os olhos são bem desenvolvidos e um par de ocelos está presente. Na cabeça ainda se insere um par de antenas, com função sensorial (olfato e audição), constituídas por quatro artículos. Na base da antena há uma peça chamada tubérculo antenífero, que é de grande importância na diferenciação dos três gêneros de maior importância para o homem, por incluírem espécies associa- das a domicílios (Panstrongylus (antenas encontram-se inseridas junto à margem anterior dos olhos), Rhodnius(antenas apresentam-se no ápice da cabeça) e Triatoma (antenas inserem-se aproximadamente na metade da distância entre o ápice da cabeça e a margem anterior dos olhos). Outras estruturas na cabeça podem apresentar forma, tamanho e coloração diferentes, constituindo-se de importância na identificação das espécies através das chaves pictóricas. A coloração geral do corpo é negra ou marrom com manchas amarela- das, alaranjadas, amarronzadas ou avermelhadas. O tórax é composto por três segmentos: protórax, mesotórax e metatórax. A parte dorsal de cada segmento é chamada de noto; assim, no primeiro segmento existe o pronoto, muito importante na identificação. Na porção dorsal do tórax é possível observar uma estrutura triangular, denominada escutelo, que se alonga por sobre os primeiros segmentos abdominais. Cada par de pernas se insere em um segmento do tórax. A perna é constituída de coxa, trocânter, fêmur, tíbia e tarso, este dividido em vários artículos, chamados tarsômeros. No tórax também se inserem os dois pares de asas, sendo as anteriores metade coriácea e metade membranosa (hemiélitros) e as posteriores inteiramente membranosas. O abdome dos barbeiros é achatado dorso-ventralmente e, quando as asas estão em repouso, pode-se ver uma borda, chamada conexivo. Em geral, o conexivo apresenta manchas, as quais são muito importantes para a identificação das espécies. Entre as faces dorsal e ventral do conexivo pode existir uma membrana que permite uma maior dilatação do abdômen durante a alimentação A distinção dos sexos é feita observando-se a parte posterior do abdome que, em vista dorsal, é contínua nos machos e chanfrada nas fêmeas, onde está o ovipositor. O dimorfismo sexual está presente, ou seja, as fêmeas são sempre maiores que os machos da mesma espécie, além disso, as fêmeas apresentam o ápice do abdômen pontudo devido à presença do ovipositor, enquanto que nos machos o ápice é arredondado Os barbeiros sofrem cinco mudas, apresentando cinco estádios de ninfa. Os jovens são semelhantes aos adultos, com exceção das asas e genitália, que não se apresentam totalmente desenvolvidas, e da ausência dos ocelos. Os ovos dos triatomíneos apresentam uma variabilidade na forma, desde quase esférica em Panstrongylus geniculatus até cilíndrica em Psammolestes arthuri, e no tamanho com comprimento médio de 0,96mm em Alberprosenia malheroi, a 4,01mm em Dipetalogaster. apresenta uma borda corial, e o opérculo a borda opercular. Entre ambas, está a goteira espermática onde estão localizadas as micrópilas e logo acima as aerópilas, de menor tamanho, porém mais numerosas. Diversos estudos mostram que de acordo com o gênero, os ovos podem apresentar estruturas como colo ou colarinho e achatamento lateral, bem como uma arquitetura exocorial que pode variar desde células hexagonais infundibuliformes a células poligonais, neste caso apresentando uma ornamentação constituída de perfurações. Aspectos morfológicos do T. cruzi Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 23 O T.cruzi possui organelas, que normalmente são encontradas em células eucarióticas, e algumas outras estruturas que lhe são próprias. Quando analisada ao microscópio eletrônico de transmissão a superfície de todas as formas evolutivas do T. cruzi apresenta um discreto glicocálice com aproximadamente 7 nm de espessura. Este glicocálice é na realidade constituído pelos carboidratos que se projetam para o lado externo da célula e que estão associados às proteínas periféricas ou integrais, formando as glicoproteínas e aos lipídios, formando os glicolipídeos. O estudo da superfície usando a técnica do “fracture-flip” mostra que a superfície da forma epimastigota é bastante lisa, exceto na região mais especializada do citóstoma , quando comparada à superfície das formas amastigota e tripomastigotas que apresentam, pela mesma técnica, uma superfície mais rugosa. As diferenças morfológicas entre a superfície das formas epimastigotas e tripomastigotasvista pela técnica do “fracture-flip” possivelmente refletem diferenças na dimensão das mucinas uma vez que as mucinas ancoradas por GPI em tripomastigotas são maiores do que as encontradas em epimastigotas. Como em todas as células, a membrana plasmática do T. cruzi apresenta uma bicamada lipídica à qual, proteínas de diferente natureza encontram-se associadas em diferentes graus. A presença de proteínas na membrana plasmática do T. cruzi tem sido analisada por técnicas estruturais e bioquímicas. Com a utilização de técnicas estruturais como criofratura foi possível mostrar que existem vários domínios na membrana plasmática que envolve o T. cruzi bem como nos outros tripanosomatídeos e que existem significativas diferenças entre as várias formas evolutivas. As imagens obtidas com a técnica da criofratura convencional mostram as proteínas integrais de membrana que aparecem ao microscópio eletrônico de transmissão na forma de pequenas partículas que foram denominadas partículas intramembranosas. Foi possível com esta técnica mostrar que a membrana que reveste as formas epimastigotas é muito mais rica em proteínas integrais do que a que reveste a forma amastigota e esta é maior que a que reveste a forma tripomastigota. Por outro lado, áreas especiais de membrana, que apresentam características diferentes daquela que reveste o corpo celular, foram encontradas (Figura 5). A membrana que reveste o flagelo é muito pobre em partículas intramembranosas, exceto na região da base do flagelo, onde existe uma aglomeração de partículas dando origem a uma estrutura denominada colar ciliar, e nas áreas de adesão do flagelo ao corpo celular, onde partículas assumem uma organização linear configurando uma área de junção do flagelo ao corpo celular. Esta junção envolve a organização de partículas intramembranosas encontradas na membrana flagelar nas formas epimastigotas (Figura 5) e tanto na membrana flagelar como na que reveste o corpo celular no caso da forma tripomastigota sugerindo uma adesão muito mais eficiente nesta última forma evolutiva. Até o momento as proteínas juncionais não foram caracterizadas. No entanto, uma série de proteínas de alto peso molecular e que são altamente antigênicas têm sido identificadas por métodos imunocitoquímicos na região de adesão do flagelo ao corpo celular que recebeu a denominação de zona de adesão flagelar ou FAZ (“flagellar adhesion zone”). Uma outra proteína bem caracterizada e que parece estar envolvida na adesão flagelo- corpo da forma epimastigota é uma glicoproteína de 72 kDa, conhecida como Gp 72. O “knock out” do gene que codifica esta proteína levou ao aparecimento de uma forma onde o flagelo não permanece associado ao corpo celular. Esta situação foi posteriormente revertida pela introdução do gene, via transfecção. Utilizando esta modalidade de microscopia, análises tridimensionais do complexo citóstoma-citofaringe de T. cruzi mostraram pela primeira vez que nas formas Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 24 epimastigotas este complexo é circundado por um conjunto de sete microtúbulos e que se dispõem em formato de “calha” ao redor da citofaringe. Além disso, foi possível observar vesículas alinhadas próximas a região livre da citofaringe, o que é um indicativo de fusão ou brotamento de vesículas nesta invaginação. Os quatro principais componentes do citoesqueleto de células, (i) microtúbulos, (ii) filamentos espessos, (iii) filamentos intermediáriose (iv) microfilamentos, desempenham papel importante na manutenção da forma de células eucarióticas, movimentos da célula, movimentos intracelulares, controle da mobilidade de componentes da membrana, etc. Os estudos relativos ao citoesqueleto do T. cruzi ainda são incipientes. Praticamente nada se conhece sobre filamentos espessos e intermediários. Microfilamentos ainda não foram identificados, apesar de um grande número de estudos estruturais realizados. No entanto actina, o componente principal dos microfilamentos, já foi identificada em T. cruzi tanto por microscopia de imunofluorescência como em estudos bioquímicos. Já os microtúbulos têm sido estudados em mais detalhe e representam o principal componente do citoesqueleto dos tripanosomatídeos. O T. cruzi possui diversas estruturas do citoesqueleto e estruturas relacionadas a ele que são essenciais para a biologia do protozoário, tais como a camada de microtúbulos subpeliculares (SPMT) que são microtúbulos estáveis responsáveis pelo formato celular característico dos tripanosomatídeos, pois formam uma espécie de arcabouço com arranjo helicoidal que fica localizada logo abaixo da membrana plasmática (Figura 6). Os microtúbulos subpeliculares são resistentes a baixas temperaturas e não sofrem despolimerização expressiva quando tratados com potentes desestabilizadores de microtúbulos de mamíferos, apesar de não serem insensíveis a estas drogas.Acredita-se que a membrana plasmática e os microtúbulos subpeliculares formem uma unidade estrutural e funcional, o periplasto, responsável pela manutenção do formato característico da célula e por todas as atividades que competem à interface entre o protozoário e o meio externo. Uma estrutura importante nos tripanosomatídeos é o flagelo, único, que emerge do corpo a partir de uma invaginação da membrana plasmática denominada bolsa flagelar. A extremidade da célula a partir da qual o flagelo torna-se livre do corpo é a extremidade anterior. Na forma amastigota o flagelo é muito curto, muitas vezes permanecendo no interior da bolsa flagelar, razão pelo qual às vezes não é visto no microscópio óptico, o que levou à criação do termo amastigota (sem flagelo) para erroneamente designar a forma intracelular multiplicativa do T. cruzi e de Leishmania. O axonema do flagelo é formado pelo arranjo padrão de nove pares de microtúbulos periféricos e um par central. O flagelo encontra-se intimamente associado a um corpúsculo basal, estrutura firmemente associada ao citoplasma da célula e que se caracteriza por apresentar nove “triplets” periféricos de microtúbulos (Figura 7). Um fato interessante é que o corpúsculo basal dos tripanosomatídeos possui pequenos filamentos que o une ao cinetoplasto (região da mitocôndria onde está confinado o DNA mitocondrial) e mantém o cinetoplasto perpendicular ao eixo do flagelo O flagelo dos tripanosomatídeos é mantido aderido ao corpo celular do protozoário pela FAZ- zona de adesão flagelar (Flagellar Attachment Zone). Alguns estudos utilizaram experimentos que possibilitam deletar genes e assim impedir a tradução de determinadas proteínas de interesse. Ao deletarem as proteínas da FAZ geraram parasitas com defeitos Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 25 na morfogênese do flagelo e com endocitose deficiente. Um fato interessante é que o corpúsculo basal dos tripanosomatídeos possui pequenos filamentos que o une ao cinetoplasto (região da mitocôndria onde está confinado o DNA mitocondrial) e mantém o cinetoplasto perpendicular ao eixo do flagelo O movimento do flagelo se dá graças a um processo de deslizamento entre os microtúbulos do axonema, com participação de uma proteína especial com atividade ATPásica, chamada de cinesina. De modo geral, o início de uma onda que se propaga ao longo do flagelo ocorre em uma das extremidades. Se a onda tem início na ponta do flagelo e se propaga em direção à base, a célula se movimenta para frente e dizemos que o flagelo puxa a célula. Quando a onda se inicia na base do flagelo e se propaga para a sua extremidade o movimento se dá no sentido oposto e dizemos que o flagelo empurra a célula. De modo geral, as células eucarióticas flageladas executam apenas um destes movimentos. Já os tripanosomatídeos, no entanto, apresentam a propriedade de apresentar ambos os movimentos, tornando-os extremamente eficientes no direcionamento do seu movimento.O cinetoplasto que é uma região específica da mitocôndria onde está concentrado o DNA mitocondrial, o kDNA. Este é formado por extensa rede de moléculas circulares que estão interligadas. Tal arranjo representa aproximadamente 30% do DNA total dos tripanosomatídeos. O cinetoplasto tem caráter basófilo, podendo ser facilmente observado ao microscópio óptico em preparações coradas pelo corante de Giemsa. Esta região especial da mitocôndria se encontra localizada próxima ao corpúsculo basal, perpendicularmente ao eixo do flagelo e está fisicamente conectado por filamentos ao corpo basal. O formato do cinetoplasto, assim como a sua posição em relação ao núcleo sãos critérios utilizados para classificar as diferentes formas de desenvolvimento de T. cruzi, são elas: epimastigota, amastigota e tripomastigotas Por muitos anos tem sido descrita a presença em T. cruzi, bem como em outros tripanosomatídeos, de estruturas citoplasmáticas delimitadas por uma unidade de membrana e que contém em seu interior um material eletrondenso que, nas preparações convencionais para microscopia eletrônica, ocupa apenas parte da estrutura. Esta estrutura tem sido chamada de grânulos de volutina, corpos densos. Estudos bioquímicos realizados em T. cruzi e T. brucei apontam no sentido de que existe uma organela citoplasmática que tem um pH ácido, sendo acidificado por ação de uma proton ATPase do tipo vacuolar e que também conta com uma Ca2+-ATPase. Esta estrutura foi chamada de acidocalcissomo. Estudos por microscopia eletrônica mostram que as formas amastigotas do T. cruziapresentam um número bem maior destas estruturas do que epimastigotas e tripomastigotas. Os tripanosomatídeos apresentam um conjunto de túbulos e vesículas localizados próximo à bolsa flagelar e que formam uma estrutura conhecida como vacúolo contrátil. Ela está envolvida em processos de osmorregulação. No caso de epimastigotas de T. cruzi tem sido mostrado uma associação entre o vacúolo contrátil e os acidocalcissomos. Em T. cruzi, o glicosssomo, um tipo especializado de peroxissomo é existente enzimas são cruciais para proliferação, viabilidade e virulência dos parasitos. Por este motivo, diversos inibidores destas enzimas têm sido desenvolvidos e se Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 26 mostraram eficazes em inibir crescimento de T. cruzi. Diversos estudos mostraram que a integridade dos glicossomos e a devida compartimentalização das enzimas que compõem a matriz desta organela são cruciais para a viabilidade do parasito. Perfis do retículo endoplasmático liso e rugoso podem ser encontrados por todo o corpo de todas as formas evolutivas do T. cruzi. O complexo de Golgi está sempre presente, localizado entre o núcleo e o cinetoplasto. De modo geral, é formado por um sistema de 3 a 10 cisternas e vesículas na porção trans. Nas formas que apresentam um citóstoma-citofaringe (Figura 9B), como em epimastigotas e amastigotas, localiza-se próximo a esta estrutura. Estudos citoquímicos têm mostrado que o complexo de Golgi do T. cruzi participa do processo de glicosilação de glicoconjugados. O núcleo do T. cruzi e de outros tripanosomatídeos apresenta uma organização estrutural similar ao de outras células eucarióticas. É relativamente pequeno, medindo cerca de 2,5 mm (Figura 13). Em epimastigotas e amastigotas o núcleo é ligeiramente esférico. Em tripomastigotas ele é alongado e localizado no centro da célula. Em seu ciclo, o T.cruzi apresenta três formas evolutivas, as quais são identificadas morfologicamente pela posição do cinetoplasto com relação ao núcleo da célula e à emergência do flagelo. O T.cruzi não é uma população homogênea e está constituída por diferen- tes cepas que circulam, na natureza, entre o homem, vetores, animais domésticos e reservatórios silvestres. Os tripanossomos sangüíneos, por exemplo, apresentam fenômeno de polimorfismo, caracterizado pela existência de formas delgadas e largas que, respectivamente, predominam em diferentes cepas do T.cruzi. Essas populações possuem comportamento diverso no que se refere a curvas de parasitemia, interação com células hospedeiras e resposta imune do hospedeiro. Estudos experimentais mostraram a existência, na natureza, de cepas resistentes e sensíveis às drogas nitroheterocíclicas, que estão sendo utilizadas no tratamento específico de pacientes chagásicos. Além desses parâmetros biológicos, mais re- centemente foram introduzidos métodos que permitem caracterizar cepas de T.cruzi ao nível molecular. Assim, têm sido empregados, na taxonomia do T.cruzi, métodos baseados em lectinas com diferentes especificidades de carboidratos, carac- terização de isoenzimas (zimodemas), clivagem de mini-círculos de k-DNA por enzimas de restrição (schizodemas). Biologia e ciclo de vida do Trypanosoma cruzi O T. cruzi é um protozoário flagelado pertencente ao Filo Sarcomastigofora, Subfilo Mastigofora, Classe Zoomastigofora, Ordem Kinetoplastida, Família Trypanosomatidae e ao Gênero Trypanosoma. Por presentar variações morfológicas, fisiológicas e biológicas, relacionadas tanto à patogenicidade quanto à infectividade, alguns autores classificam o T. cruzi como um “complexo cruzi”, e não como uma espécie única. T. cruzi, possui organelas normalmente encontradas em células eucarióticas, e bem como outras que lhe são próprias, tais como cinetoplasto. O flagelo dos tripanosomatídeos origina-se a partir do corpúsculo basal, e apresenta um arranjo clássico de microtúbulos tipo 9+2. No T. cruzi, a semelhança de outros tripanosomatídeos, o flagelo se exterioriza através da bolsa flagelar, uma peculiar Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 27 invaginação por meio da qual o parasito ingere nutrientes do meio externo. A sua adesão à membrana celular faz-se mediante justaposição através de agrupamento de partículas intramembranares, em intervalos mais ou menos regulares, presentes na superfície de contato do flagelo com o corpo do parasito. Os tripanosomatídeos de um modo geral apresentam uma mitocôndria única e que se ramifica pelo corpo do parasito. A mitocôndria do T. cruzi apresenta cristas típicas e inúmeras enzimas presentes em eucariotos. Na região da mitocôndria próxima ao corpúsculo basal observa-se uma densa região, caracterizada pela concentração de DNA e denominada de cinetoplasto onde se encontra aproximadamente 20-25% do DNA total da célula. O DNA mitocondrial do cinetoplasto (kDNA) é único em sua estrutura, função e modo de replicação sendo constituído por uma rede composta de milhares de círculos de DNA interligados. Outra importante estrutura é o citóstoma, presente apenas na forma epimastigota, envolvida na coleta de macromoléculas do meio externo por endocitose Os tripanosomas possuem um polimorfismo evolutivo, com alteração de sua forma celular ao longo do seu ciclo evolutivo, sendo morfologicamente identificadas pela presença do flagelo e também pela posição do cinetoplasto. As principais formas são: • Amastigota: forma circular, ovóide ou fusiforme, de aproximadamente 4 μm, com formato achatado, núcleo grande e pouco citoplasma; seu cinetoplasto é bem visível e seu flagelo curto não se exterioriza, permanecendo dentro da bolsa flagelar e limitando seus movimentos. Multiplica no interior de células do hospedeiro vertebrado. • Epimastigota: forma alongada, com cinetoplasto anterior ao núcleo. O flagelo emerge longe da extremidade posterior, porém mantém-se colado à membrana e se torna livre depois de ultrapassar o pólo anterior da célula; presença da membrana ondulante, que acompanha os movimentos flagelares. Presente no interior dos insetos vetores, onde se multiplica na região do trato digestivo • Tripomastigota: forma de corpo longo e achatado, com cinetoplasto posterior ao núcleo. Seu flagelo percorre toda a extensão da célula, aderido à extensa membranaondulante. A tripomastigota metacíclica é infectante aos hospedeiros vertebrados e origina-se no hospedeiro invertebrado; forma que não se multiplica e até infectar alguma célula, permanece livre e circulante na corrente sanguínea. Podem viver em altas temperaturas (cerca de 37 °C), com alta capacidade invasiva para penetrar mucosas e conjuntivas As tripomastigotas possuem variações morfológicas, diretamente relacionadas à fisiologia e ao comportamento do parasito. As formas delgadas, com 20 μm de comprimento por 1 μm de largura, possuem cinetoplasto afastado da região posterior, movimentação rápida e direcionada. São mais infectantes e responsáveis por parasitemias precoces, embora sejam mais sensíveis a ação da resposta imune. Por outro lado, as formas largas possuem 15 μm de comprimento e 2-4 μm de largura, em forma de C ou U, com cinetoplasto próximo a extremidade posterior e com movimentos lentos e não direcionais. São menos infectantes e demoram mais para penetrarem nas células, quando comparadas as formas delgadas, desenvolvendo assim parasitemias mais tardias. São mais resistentes à ação da resposta imunológica e permanecem por mais tempo circulando pela corrente sanguínea. Parasitam preferencialmente células do Sistema Mononuclear Fagocitário (SMF), sendo chamadas de “macrofagotrópicas”, enquanto as formas largas possuem tropismo pelas células musculares, identificadas como “miotrópicas” Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 28 Ciclo Biológico O ciclo do T. cruzi é heteroxênico, em que a multiplicação intracelular acontece no hospedeiro vertebrado (homem e mamíferos de outras sete ordens diferentes) e a multiplicação extracelular no hospedeiro invertebrado, o inseto vetor (hemípteros hematófagos). No hospedeiro vertebrado, o ciclo tem início quando, durante o repasto sanguíneo do inseto infectado (o vetor) elimina fezes e urina com as formas tripomastígotas metacíclicos. Estas, por sua vez, penetram no local da picada e se interiorizam em células SMF através de um processo de fagocitose induzida. Os parasitos permanecem dentro do vacúolo digestivo, onde podem ser mortos; para que isso não aconteça, há a transformação das tripomastígotas em amastigotas, que escapam do vacúolo e invadem o citoplasma, onde se multiplicam intensamente por divisão binária e se transformam novamente em tripomastígotas, até o ponto da célula não conseguir aguentar a alta carga parasitária e romper, liberando essas formas no tecido e na corrente sanguínea, onde permanecem circulantes, sendo então combatidas pela imunidade, desenvolvida pelo organismo do hospedeiro. As tripomastígotas que conseguem sobreviver penetram em outras células, se transformam novamente em amastigotas, e assim cronificam a doença No hospedeiro invertebrado, a infecção acontece durante o repasto sanguíneo, quando o inseto hematófago ingere as formas tripomastígotas presentes na corrente sanguínea. No intestino, há a transformação das tripomastígotas em epimastígotas, que se multiplicam por divisão binária, com possibilidade de formação de rosáceas (agrupamentos de epimastígotas). No reto do inseto as epimastígotas, aderidas à mucosa pela extremidade de seu flagelo, se transformam em tripomastígotas metacíclicas,em um processo denominado metaciclogênese, e são eliminadas nas fezes e urina durante seu repasto sanguíneo, e dessa forma dão continuidade ao ciclo. O T. cruzi mantém, na natureza, ciclos domésticos, peridomésticos e selvagens. No ciclo doméstico, a transmissão aos animais domésticos, como cães, gatos, porcos e cabras, ao homem e entre esses, acontece pela transmissão por triatomíneos domésticos. O ciclo peridoméstico origina-se por mudança do ciclo selvagem, que mantém a infecção em animais domésticos e nas áreas envoltas por habitações humanas pelos tritatomíneos peridomésticos, ocasionado, eventualmente, pela invasão de animais domésticos nestes ciclos e o inverso. O ciclo selvagem, por sua vez, é mantido entre os animais selvagens, como por exemplo tatus e pacas, e originou o ciclo doméstico devido à transmissão acidental do homem. Formas de transmissão Por anos, a principal forma de transmissão do T. cruzi, no Brasil, foi a vetorial. Transmitida por triatomíneos da família Reduviidae. Mais de 130 espécies foram encontradas como sendo potencialmente vetoras, porém no Brasil, das 52 espécies encontradas, 5 possuem maior importância epidemiológica, uma vez que são domésticas: Triatoma infestans, Triatoma brasiliensis, Panstrogylus megistus, Triatoma pseudomaculata e Triatoma sordida, Triatoma rubrovaria no Rio Grande do Sul e Rhodnius neglectus em Goiás. O T cruzi pode ser transmitido por outras vias além da disseminação vetorial. Outra forma de transmissão ocorre por transfusão sanguínea (transfusional). A partir dos anos de 1990, foi implementado o controle nos bancos de sangue, com cobertura atual Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 29 em 98% no país, diminuindo assim a incidência dessa forma de transmissão. A infecção por transplante de órgãos pode acontecer a partir de um doador chagásico e também da reativação da doença, por imunossupressão, no receptor. A transmissão congênita ocorre quando existem ninhos de amastigotas na placenta, que liberam tripomastigotas e estas chegam à circulação fetal. Alguns fatores podem estar relacionados com a infecção: fase da doença, grau de parasitemia, fatores imunológicos e nutricionais maternos, placentários e obstetrícios. Atualmente, essa via é o principal mecanismo de transmissão do T. cruzi no país, especialmente devido aos controles vetorial e transfusional A via oral tem sido uma importante forma de transmissão da doença, responsável por alguns surtos, que possuem como característica a infecção de várias pessoas. A infecção pode ocorrer, embora de forma rara, pela ingesta de leite materno (com a presença do parasito na glândula mamária), de carne crua ou mal cozida de mamífero infectado, especialmente de animais que fazem parte do ciclo selvagem. Ingesta de alimentos ou bebidas contaminadas tanto com fezes ou urina de triatomíneos quanto com urina ou secreção para-anal de marsupiais, ambos infectados com T. cruzi. A região Amazônica é responsável pela maioria dos casos de transmissão oral, através do consumo de produtos naturais tais como, sucos, vitaminas e polpa de açai contaminados tanto com fezes e urina do triatomíneo quanto com o próprio vetor. A transmissão acidental pode acontecer por desconhecimento, desatenção, falha ou mal uso de equipamentos de proteção individual, instalações e equipamentos inadequados. Existem outras formas de se adquirir a doença, sendo essas consideradas como formas excepcionais de infecção, ou formas secundárias, como exemplos existem: transmissão pela picada do vetor, quando há a regurgitação do conteúdo estomacal do inseto ou quando a probóscita se encontra infectada por fezes ou urina contaminadas; contato com fezes de triatomíneos, uma vez que o parasito permanece viável por algum tempo; picada ou contato com outras espécies de insetos hematófagos, entre eles culicíneos, flebotomíneos, cimicídeos, pulgas e piolhos, envolvendo mecanismos de regurgitação após prévia contaminação em indivíduo com alta parasitemia, contaminação da probóscita e até mesmo o esmagamento ou ingestão de algum artrópode contaminado. A contaminação por secreção de glândulas anais de marsupiais acontece especialmente em áreas endêmicas onde o gambá (Didelphis albiventris), infectado, contamina o alimento ou diretamente um mamífero suscetível com o material expelido de suas glândulas anais. A via sexual possui baixa possibilidade de transmissão em humanos. Formas Clínicas e sintomas A Doença de Chagas caracteriza-se por ser uma infecção com fases aguda e crônica e sinais clínicos variados. A fase aguda começa apósum período de incubação de cerca de sete a dez dias, sendo oligossintomática. O início dessa fase é marcado por manifestações locais, como o Sinal de Romaña e o Chagoma de Inoculação nos pacientes que adquiriram a infecção pela via vetorial. O Sinal de Romaña se caracteriza por edema bipalpebral, unilateral, congestão conjuntiva e aumento dos linfonodos, enquanto no Chagoma de Inoculação, há uma inflamação aguda da derme e hipoderme no local de penetração do parasito. Nessa fase, existe uma intensa proliferação intracelular do T. cruzi na forma de amastigota e a liberação de tripomastigotas na circulação sanguínea. As manifestações clínicas gerais dessa fase são febre, edemas localizados e generalizados, poliadenia, hepatoesplenomegalia. Nas formas graves, surgem quadros de cardiomiopatia Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 30 com alterações no ritmo do batimento cardíaco, insuficiência cardíaca e até quadros severos de meningoencefalite aguda. A infecção tem duas fases sucessivas. A fase aguda é caracterizada por alta parasitemia, geralmente assintomática ou oligossintomática com febre, anorexia e taquicardia. Essas manifestações desaparecem espontaneamente em 90% dos casos, e possivelmente 60-70% dos indivíduos infectados nunca desenvolverão sinais ou sintomas relacionados à DC, caracterizando a forma indeterminada. Os demais pacientes (30-40%) podem evoluir para a fase crônica com queixas clínicas neurológicas, cardíacas, digestivas (megacólon ou megaesôfago) ou cardiodigestiva. A cardiomiopatia chagásica crônica (CCC) é a manifestação mais grave da doença, acometendo um terço dos indivíduos com sorologia positiva e, nos casos graves, a única opção de tratamento é o transplante cardíaco. Apesar dos esforços para entender o tropismo parasitário por determinados tecidos, como o coração, os fatores envolvidos na evolução clínica da forma indeterminada para a sintomática ainda são desconhecidos. Na fase crônica, existe uma redução dos parasitos circulantes devido ao aparecimento da resposta imune, humoral e celular, e a sintomatologia pode surgir anos após a transmissão, ou o indivíduo pode permanecer um período assintomático. Na forma crônica assintomática, a forma indeterminada, os indivíduos possuem anticorpos contra o parasito, confirmados pelos testes sorológicos, mas não apresentam sinais clínicos, evidenciados pelos exames radiográficos normais. Na forma cardíaca, observa-se cardiomiopatia, arritmias, aneurisma ventricular apical esquerdo, sinais de insuficiência cardíaca, aumento do coração e progressão para morte súbita, sendo frequentes também a hipóxia, os fenômenos tromboembólicos A patologia, provocada pelo T. cruzi, tem início com a formação de grandes ninhos de amastigotas, que multiplicam no interior das fibras musculares e se apresentam dissociadas pelo edema intersticial. Em volta das fibras que estão sendo destruídas, observa-se um infiltrado inflamatório, enquanto nas lesões, existe a substituição das áreas inflamadas e necrosadas por áreas de fibrose, o que resulta na redução da força de contração do coração. O comprometimento do sistema nervoso autônomo que regula as contrações cardíacas traz perturbações na formação e na propagação dos estímulos cardíacos, resultando nas arritmias, bloqueio atrioventricular, fibrilação atrial entre outros. As principais alterações chagásicas digestivas são: megaesôfago e megacólon. Essas deformações resultam do comprometimento do sistema nervoso entérico, em particular do plexo de Auerbach. As células nervosas desse plexo se degeneram em meio ao processo inflamatório desenvolvido pelas células ao seu redor, reduzindo dessa forma o número de células nervosas. A disfunção do esôfago acontece pela incoordenação motora, que altera a propagação da onda contrátil ao longo do órgão, e também do controle da abertura do esfíncter da cárdia responsável pela alteração na função do cólon, que promove a estagnação do bolo fecal nessa região e uma consequente hipertrofia e dilatação do órgão. A hipertrofia muscular e a dilatação desses órgãos caracteriza-os por megaesôfago e megacólon. Pouco se sabe a respeito da origem das lesões teciduais nos músculos estriados esqueléticos e lisos presentes nos órgãos acometidos pelo T. cruzi, uma vez que os ninhos de amastigotas estão presentes nos tecidos livres de inflamação e os infiltrados inflamatórios das células mononucleares e a lise celular são os principais achados. As amastigotas, presentes no tecido, colonizam as células e dentro delas se tornam inacessíveis por tempo desconhecido. A comprovação da transferência do K-DNA do T. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 31 cruzi para as células do hospedeiro e a mutação resultante desta transferência parece ser o fator que desencadeia o desenvolvimento de células efetoras do sistema imune e um consequente combate destas às células infectadas, explicando desta forma as lesões autoimunes presentes nos pacientes com Doença de Chagas. A Doença de Chagas congênita acontece pela transmissão do T. cruzi ao feto durante a gestação e pode causar abortos, partos prematuros, nascimento de bebês com baixo peso e até mesmo a natimortalidade e má-formação. A maioria dos casos comprovados dessa via de infecção não possui sinais clínicos, porém, naqueles que apresentam, a criança pode apresentar redução no peso, má nutrição, icterícia, petéquias, hemorragias, hepatoesplenomegalia, abdômen distendido, insuficiência cardíaca chagásica, megaesôfago e meningoencefalite. Outro importante aspecto na doença de Chagas é a sua reativação associada a situações de imunossupressão, incluindo transplantes, leucemias, linfomas a doença de Chagas é considerada oportunista e sua reativação comprovada pelo aumento da parasitemia, detectada por técnicas parasitológicas, e os principais sinais clínicos são semelhantes aos desenvolvidos na fase aguda. Porém, muitos destes, devido à imunossupressão, acabam desenvolvendo manifestações mais graves sendo o envolvimento do sistema nervoso central a mais frequente, como a meningoencefalite, seguida de manifestações cardíacas. Diagnóstico O diagnóstico laboratorial para comprovação de casos suspeitos de infecção por T. cruzi pode ser feito através de testes parasitológicos e sorológicos, que possuem diferentes resultados se aplicados na fase aguda ou crônica e auxiliam o diagnóstico clínico a confirmar ou excluir a infecção. Na fase aguda, os exames possuem como objetivo a detecção do parasito, enquanto que na fase crônica, objetiva-se comprovar a infecção pela presença de anticorpos. Na fase aguda, o T. cruzi se torna facilmente identificado, uma vez que ele permanece circulante na corrente sanguínea, em grande quantidade, por um ou dois meses. Os exames parasitológicos utilizados para a detecção consistem nos métodos de exame de sangue a fresco e por gota espessa. endo o exame de gota espessa mais preciso, por concentrar maior quantidade de sangue no mesmo espaço. Esses testes são considerados mais eficazes e econômicos e devem ser o método de primeira alternativa. Quando os exames diretos possuem resultado negativo e existe uma grande suspeita de infecção, utilizam-se os métodos de concentração que possuem alta sensibilidade e nos casos de presença de sintomas por mais de 30 dias. Entre esses exames estão o microhematócrito e o método de Strout, que tem tido os melhores resultados, com a retirada do parasito do coágulo que se forma no sangue, concentrando-se no soro. O método QBC (Quantitative Buffy Coat) é muito utilizado para se confirmar a doença de Chagas congênita, sendo realizado durante o teste do pezinho. Os métodos sorológicos, embora não sejam recomendados nessa fase da doença, são realizados quando a pesquisa direta for negativa e persistirem os sinais clínicos. Os mais utilizados são o WesternBlot, ELISA (Enzime linked immunosorbent assay) para a detecção de anticorpos IgM, característicos da fase aguda. O Imunofluorescência indireta (IFI) também é muito utilizado para a o diagnóstico. Na fase crônica da doença, existe uma redução no número de parasitos circulantes devido ao aparecimento da resposta imune, resultando na baixa sensibilidade dos testes parasitológicos. Dessa forma, o diagnóstico deve ser comprovado utilizando dois tipos diferentes de testes sorológicos distintos ou com preparações antigênicas diferentes. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 32 Dos exames parasitológicos indiretos, o xenodiagnóstico e a hemocultura são muito utilizados, com variáveis níveis de especificidade devido à sua baixa sensibilidade. Sendo assim, esses testes são muito importantes visto que o seu resultado positivo, em qualquer fase, possui um alto valor confirmatório, embora seu resultado negativo não elimine a possibilidade de infecção. Na fase crônica, o diagnóstico deve ser realizado utilizando um teste de elevada sensibilidade como, por exemplo, o ELISA com antígeno total ou IFI, associado a outro teste de alta especificidade. Os mais utilizados são o IFI, que possui grande sensibilidade e precocidade nas respostas positivas, ELISA, método automatizado simples e econômico, além da técnica de hemaglutinação, cujo teste rápido é muito utilizado em bancos de sangue. A técnica de Polymerase Chain Reaction (PCR) consiste em um método parasitológico molecular, uma vez que detecta o material genético do T.cruzi presente em amostras de sangue, soro e até mesmo tecidos do paciente. Essa técnica é utilizada para a comprovação da infecção, tendo o uso restrito aos centros de pesquisa, até o momento. Tratamento As opções atuais de tratamento para a DC estão limitadas a apenas duas drogas nitroheterocíclicas: Benzonidazol (1) (Rochagan/LAFEPE e Abarax/ELEA) e Nifurtimox (2) (LAMPIT/Bayer). O Benzonidazol, único fármaco utilizado no Brasil, sendo recomendado para pacientes com a doença de Chagas nas fases aguda e crônica indeterminada. O tratamento com Benzonidazol tem uma taxa de cura de 70% nos pacientes com a fase aguda da infecção. Entretanto, a taxa de cura em pacientes na fase crônica indeterminada é baixa, variando entre 10–33%. As principais indicações para Nif e Bz são: fase aguda da infecção, forma congênita, reativação associada com imunosupressão, infecções recentes e em situações de transfusões ou transplante de órgãos. Ambos os fármacos podem também ser indicadas para o tratamento de alguns pacientes nas formas indeterminada e crônica com fraco envolvimento cardíaco. A atividade antiparasitária do Nif resulta da redução metabólica do grupo nitro por nitroredutases gerando radicais nitroanions, altamente reativos, que reagem com oxigênio produzindo produtos da redução do oxigênio. O T. cruzi é deficiente em mecanismos de detoxicação para metabólitos de oxigênio e deste modo mais sensível a esses produtos do que a célula hospedeira. A ação do Bz sobre o T. cruzi envolve um efeito direto sobre a síntese de macromoléculas por ligação covalente, ou outras interações dos intermediários de nitroredução com componentes celulares ou uma ação inibitória direta sobre a atividade catenante da DNA topoisomerase do parasito. Diferentes mecanismos de ação têm sido atribuídos ao BNZ. Por exemplo, sugere-se que ele possa atuar por um estresse redutor, envolvendo modificações covalentes no DNA, proteínas e lipídios (Sales Junior et al., 2017). Além disso, o BNZ pode ser reduzido por uma nitrorredutase tipo I (NTR) presente no parasita, seguida de várias reações que causam a liberação de dialdeído glioxal que tem efeito tripanocida formando adutos com bases guanosina no DNA e RNA (Kratz et al., 2018). Além disso, o BNZ pode aumentar a fagocitose e a lise do parasita e inibir seu crescimento pela ação da enzima fumarato redutase-NADH (Dias et al., 2009; Sobrinho et al., 2007). Os esquemas mais utilizados de tratamento são: Nif por 60- 90 dias, 8-10 mg/kg/dia em adultos e menos que 15 mg/kg/dia em crianças; Bz por 60 dias, 5 mg/kg/dia Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 33 em adultos e menos de 10 mg/kg/dia em crianças. Ambas as medicações devem ser divididas em 2-3 frações após as refeições. Os efeitos colaterais desses medicamentos, incluem: dermatite alérgica, prurido, febre, intolerância gastrointestinal, entre outros. Esses efeitos, estão bem documentados e têm limitado uma utilização mais ampla, especialmente em populações adultas. Prevenção Ainda não há vacina contra a doença de Chagas e sua incidência está diretamente relacionada às condições habitacionais (casas de pau-a-pique, sapê, etc). Cuidados com a conservação das casas, aplicação sistemática de inseticidas e utilização de telas em portas e janelas são algumas das medidas preventivas que devem ser adotadas, principalmente em ambientes rurais. A melhor forma de prevenção é o combate ao inseto transmissor. Em relação à prevenção de Chagas transfusional, foi recomendado pela Organização Mundial de Saúde a utilização do corante violeta de genciana depois substituído pelo em serviços hemoterápicos em áreas endêmicas, porém existem algumas restrições ao seu uso devido a relatos sobre alterações em eritrócitos, carcinogenicidade potencial, e não aceitação pelos pacientes devido a sua cor. Novas alternativas terapêuticas Baixo benefício na fase crônica da doença, variações regionais na eficácia e surgimento de cepas resistentes são algumas limitações do uso clínico do BNZ. Além disso, causa uma série de efeitos colaterais como erupção cutânea, dor epigástrica, prurido, náusea, inchaço abdominal e algumas manifestações graves como eosinofilia. Recentemente, o ensaio clínico multicêntrico “Benznidazole Evaluation for Interrupting Trypanosomiasis” (BENEFIT) demonstrou que o uso de BNZ não levou a melhora clínica em pacientes com cardiomiopatia chagásica estabelecida quando comparados ao grupo placebo, mesmo aqueles com New York Heart Association. NYHA) insuficiência cardíaca classe I ou II, apesar de uma redução na carga parasitária. Vários novos candidatos a medicamentos (posaconazol e o pró-fármaco ravuconazol E1224) foram testados em ensaios recentes, mas até agora nenhum demonstrou eficácia aceitável. O critério atual de cura é a reversão a resultados negativos em testes sorológicos convencionais. Em pacientes adultos na fase crônica, isso pode levar de 10 a 20 anos. Vários compostos de diferentes classes farmacológicas já foram testados contra o T. cruzi (Tabela 1). Dentre eles, a benidipina, um bloqueador dos canais de cálcio usualmente administrado para o tratamento de hipertensão e angina, e o antibiótico clofazimina foram usados provisoriamente contra o parasito por atuarem inibindo a cruzipaína, principal cisteína protease lisossomal com importante papel na infectividade do parasito. A inibição da cruzipaína tem sido muito explorada, pois é a protease mais abundante do parasita. A cruzipaína demonstrou ser crucial para todas as fases do ciclo de vida do parasita e está envolvida na nutrição do parasita, invasão de células de mamíferos e evasão da resposta imune do hospedeiro (Dias et al., 2009; Rogers et al., 2012; Salas - Sarduy et al., 2017). Assim, a benidipina e a clofazimina foram consideradas candidatas promissoras para o tratamento da doença, tendo em vista sua capacidade de reduzir a carga parasitária no sangue e nos tecidos esqueléticos de camundongos infectados, reduzindo adicionalmente os efeitos inflamatórios da infecção. O uso desses Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 34 medicamentos em combinação com a terapia atualmente adotada deve ser mais bem avaliado. As enzimas que participam da síntese do ergosterol em T.cruzi são excelentes alvos para a descoberta de drogas. Um conjunto de inibidores que têm como alvo todas as enzimas críticas da via do ergosterol pode ser usado como terapias multidrogas para o tratamento da doença de Chagas. Acreditamos que esta estratégia produzirá resultados reais no tratamento da doença de Chagas. Avanços significativos foram feitos no projeto baseado na estrutura do T. cruzi esterol 14 α-desmetilase de novos inibidores promissores, como VNI e VFV, como potenciais candidatos para ensaios clínicos [20,21]. No entanto, a análise PK/PD rigorosa é essencial para traduzir os resultados de estudos pré-clínicos in vivo, como aqueles com os novos inibidores de 14 α-desmetilase do T. cruzi esterol VNI e VFV. A drogabilidade demonstrada da 14 α-desmetilase de T. cruzi está facilitando o desenho de novos farmacoforos que não afetam a contraparte humana, com alta eficácia na cura de infecções por T. cruzi em modelos experimentais de roedores e apresentando excelentes PKs [45]. No entanto, Tc24SMT é a única enzima na biossíntese de ergosterol em T. cruzi sem contrapartida humana e é o principal alvo de intervenção. Após a cristalização de Tc24SMT e por estudos de design de drogas baseados em estrutura, espera-se que inibidores altamente eficazes para o tratamento da doença de Chagas possam ser projetados. Idealmente, a cristalização de todas as enzimas da via do ergosterol do T. cruzi facilitará o desenho de novos inibidores para o tratamento da doença de Chagas. Notavelmente, a descoberta de medicamentos baseados em fenotípicos tornou-se o principal pilar da P&D da doença de Chagas. A este respeito, bibliotecas químicas apropriadas para triagem, ensaios robustos e cascatas de triagem apropriadas têm sido usadas intensivamente. Um número significativo de novos inibidores promissores que bloqueiam a infecção por T. cruzi em baixas concentrações foi relatado e o alvo para alguns inibidores foi identificado. Esperamos que a triagem com base fenotípica também traga rapidamente novas drogas promissoras para o tratamento da doença de Chagas. Acreditamos que explorar a via do ergosterol e a descoberta de drogas baseadas em fenotípicos em paralelo ou sinergicamente terá um impacto significativo no tratamento da doença de Chagas em um futuro próximo. Existem poucos alvos essenciais para o T. cruzi e uma lista de alvos candidatos precisa ser validada pelo CRISPR/Cas9 [28,138] que agora está em vigor para o T. cruzi. Além disso, a genômica funcional do T. cruzi para o avanço da biologia, infecção, sobrevivência e persistência do T. cruzi ainda está na infância. Mais informações são necessárias sobre os mecanismos moleculares envolvidos no estabelecimento da infecção, e também sobre aqueles envolvidos na sobrevivência e persistência do parasita para descobrir novos alvos para intervenção. Esperamos que o sequenciamento de RNA de todas as cepas de T. cruzi classificadas em sete unidades de tipagem discretas TcI–TcVII com ênfase em tripomastigotas e amastigotas elucide novos alvos e facilite o entendimento da resistência a drogas em T. cruzi. Embora haja forte otimismo e entusiasmo para descobrir novos medicamentos eficazes para o tratamento da doença de Chagas, o empreendimento de descoberta de Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 35 medicamentos para Chagas ainda é desafiador. Um dos principais desafios da descoberta de medicamentos fenotípicos é como abordar questões como potência, toxicidade e problemas farmacocinéticos que surgem durante o processo de otimização de acertos. Outro grande desafio é definir os modelos celulares e animais relevantes que imitem de perto as condições clínicas humanas na doença de Chagas [129] e a falta de um modelo animal que simule a doença humana representa o maior obstáculo. Há uma necessidade de modelos celulares e animais que possam distinguir entre compostos que são ativos em humanos e aqueles que não são. Um grande desafio para a descoberta de drogas é o grupo diversificado de cepas de T. cruzi e sua diversidade genética. O tratamento de Chagas com drogas atuais ou novas que entram ou entrarão em ensaios clínicos não considera o campo da farmacogenômica para identificar genes que influenciam a variação individual na eficácia ou toxicidade. A triagem não é realizada com todas as cepas de T. cruzi das sete unidades de tipagem discretas TcI-TcVII que incluem cepas sensíveis a drogas, resistentes parciais e resistentes. A ausência de testes eficazes para monitorar o curso do tratamento e certificar a cura dos pacientes também é um problema gravíssimo que deve ser enfrentado paralelamente aos esforços para desenvolver novos medicamentos. Finalmente, acreditamos que a IA tem o poder potencial de mudar a descoberta de medicamentos para doenças , incluindo a doença de Chagas. Como os pesquisadores estão empregando a IA para descobrir medicamentos, esperamos que em um futuro próximo essa abordagem acelere drasticamente a descoberta de medicamentos para a doença de Chagas. Curiosamente, a IA identificou que o triclosan afeta o crescimento do parasita da malária ao inibir a enzima DHFR – também o alvo da droga antimalárica pirimetamina e esperamos que seja usado para avançar na descoberta de medicamentos na doença de Chagas. Considerações finais A prevenção de novas infecções e doenças de órgãos-alvo é um grande desafio, que pode ser enfrentado tornando o diagnóstico e o tratamento prontamente disponíveis, especialmente em crianças, adultos jovens e mulheres em idade fértil. Assim, a frequência de transmissão secundária diminuiria e a eficácia dos medicamentos atuais, que estão longe do ideal, seria maximizada. Tais medidas devem ser realizadas dentro de uma estratégia global que inclua a melhoria das condições socioeconômicas das populações menos afortunadas em países endêmicos, manutenção de programas de controle vetorial e aumento da conscientização sobre a doença em países não endêmicos. Essa estratégia deve ser acompanhada de medidas que facilitem o acesso ao sistema de saúde e aos medicamentos para as populações mais vulneráveis, potencializando o nível primário de saúde e favorecendo a participação social. Estudos de coorte prospectivos baseados em métodos padronizados são necessários para estabelecer a epidemiologia da doença de Chagas, tanto em áreas endêmicas quanto não endêmicas, enquanto contabilizam outros fatores de risco concorrentes para doença cardiovascular. Os dados obtidos garantirão um prognóstico mais preciso e identificarão os indivíduos de maior risco e aptos a serem submetidos a medidas mais proativas. Grupos multidisciplinares compostos por profissionais que cuidam de pacientes com doença de Chagas (como infectologistas, cardiologistas, Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 36 gastroenterologistas, cirurgiões, psicólogos e assistentes sociais) são cada vez mais necessários em uma população envelhecida e com comorbidades crescentes. Devem ser implementadas medidas para assegurar o seguimento a longo prazo, muitas vezes interrompido. Esses desafios são especialmente pertinentes para os migrantes que enfrentam muitas barreiras no acesso ao diagnóstico e tratamento (desafios legais e burocráticos, emprego ilegal, falta de conhecimento sobre a doença e os recursos de saúde do país anfitrião). A busca ativa de pacientes geralmente é a única maneira de trazê-los para o sistema de saúde. 142 A investigação de fatores prognósticos confiáveis para envolvimento visceral em pacientes assintomáticos também é uma prioridade. A identificação de pacientes de baixo risco reduziria a necessidade de exames complementares e consultas médicas desnecessárias. Da mesma forma, a falta de marcadores substitutos precoces de cura continua sendo um grande obstáculo ao manejo clínico (acompanhamento muito longo e muitos testesdesnecessários) e aumenta a preocupação durante o acompanhamento (incerteza de cura). Além disso, a falta de marcadores precoces de cura dificulta o desenvolvimento de novos tratamentos devido à necessidade de um período de seguimento inviávelmente longo para determinar a eficácia. Medicamentos eficazes, mais bem tolerados e de baixo custo são necessários e só podem ser desenvolvidos se os dados puderem ser traduzidos rapidamente do laboratório para a prática clínica. Para isso, devemos aprimorar o processo de desenvolvimento de medicamentos para identificar novos alvos para a ação dos medicamentos e a tradução dos dados do laboratório para a pesquisa clínica. São necessários melhores modelos animais que reflitam com mais precisão as condições de infecção crônica em seres humanos. Colaborações internacionais mais estáveis, idealmente parcerias público- privadas, devem ser estabelecidas para enfrentar os grandes desafios para a descoberta de medicamentos e pesquisas clínicas e para garantir que a doença de Chagas não seja mais vista como uma doença tropical negligenciada. Referências de Paiva, V.F., Belintani, T., de Oliveira, J. et al. A review of the taxonomy and biology of Triatominae subspecies (Hemiptera: Reduviidae). Parasitol Res 121, 499–512 (2022). https://doi.org/10.1007/s00436-021-07414-2 Pérez-Molina, J. A., & Molina, I. (2018). Chagas disease. The Lancet, 391(10115), 82– 94. doi:10.1016/s0140-6736(17)31612-4 Bern, C., Messenger, L. A., Whitman, J. D., & Maguire, J. H. (2019). Chagas Disease in the United States: a Public Health Approach. Clinical Microbiology Reviews, 33(1).doi:10.1128/cmr.00023-19 Ribeiro, V., Dias, N., Paiva, T., Hagström-Bex, L., Nitz, N., Pratesi, R., & Hecht, M. (2020). Current trends in the pharmacological management of Chagas disease. International Journal for Parasitology: Drugs and Drug Resistance, 12, 7–17. doi:10.1016/j.ijpddr.2019.11.004 Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 37 Fernando Villalta & Girish Rachakonda (2019) Advances in preclinical approaches to Chagas disease drug discovery, Expert Opinion on Drug Discovery, 14:11, 1161-1174, DOI: 10.1080/17460441.2019.1652593 Scarim, C. B., Jornada, D. H., Chelucci, R. C., de Almeida, L., dos Santos, J. L., & Chung, M. C. (2018). Current advances in drug discovery for Chagas disease. European Journal of Medicinal Chemistry, 155, 824– 838.doi:10.1016/j.ejmech.2018.06.0 Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 38 BABESIOSE Introdução As hemoparasitoses possuem grande importância médica, veterinária e econômica pela possibilidade de causar doença grave e trazer danos irreversíveis, podendo culminar com a morte do hospedeiro. No Brasil, a babesiose, é uma das doenças transmitidas por vetores mais importantes, devido sua distribuição, infectividade e patogenia. O gênero Babesia, inclui protozoários intraeritrócitários transmitidos por carrapatos da família Ixodidae associado a uma enfermidade limitante ao crescimento da bovinocultura mundial e nacionalmente, já que bovinocultura apresenta grande destaque na economia brasileira, de forma que o Brasil possui o segundo maior rebanho bovino do mundo, sendo responsável por 15,4% da produção global de carne bovina e 35 bilhões de litros de leite ao ano (IBGE, 2019). Além disso, várias espécies de Babesia já foram descritas com possibilidades de infectar humanos, sendo a mais importante a Babesia microti. B. microti também pode ser transmitido através de transfusão de sangue, transplante de órgãos e perinatalmente. Sintomas como febre, prostração, falta de apetite, anemia, parada da ruminação e queda da produção de leite podem ser observados em animais doentes. Em seres humanos, a doença pode apresentar se de forma assintomática ou permanecer subclínica ao longo de sua evolução com sintomas inespecíficos, incluindo mal-estar, fadiga, calafrios, febre, cefaleia, mialgia e artralgia. Conhecer aspectos da epidemiologia, sinais clínicos, conduta terapêutica e formas de controle e profilaxia referentes a babesiose é essencial diante da grande importância da babesiose e seus efeitos deletérios à pecuária e a saúde humana. Aseguir serão abordados aspectos sobre epidemiologia, ciclo biológico do protozoário, sinais clínicos, e subsídios ao diagnóstico e terapêutica da enfermidade e ao final serão abordadas novas ferramentas com base no diagnóstico molecular e terapias complementares à babesiose. Histórico A babesiose é uma doença popularmente conhecida como “doença do carrapato” e assim foi nomeada após Victor Babes, um patologista e microbiologista húngaro, ter identificado microrganismos intraeritrocíticos como a causa da hemoglobinúria febril em bovinos em 1888. Cinco anos mais tarde, Smith e Kilborne identificaram um carrapato como vetor para a transmissão de babesia bigemina em bovinos no Texas. Essa observação, estabeleceu pela primeira vez que um artrópode poderia transmitir um agente infeccioso a um hospedeiro vertebrado. Nos meados do século XX foi descrito o primeiro caso de babesiose em humanos, por Skrabalo e Deanovic (1957), sendo conhecidas até hoje, mais de 100 espécies descritas entre mamíferos e aves nas quais a sua identificação e taxonomia se baseiam em suas características morfológicas, aos padrões de agregação de estágios e características do hospedeiro. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 39 Classificação taxonômica e Etiologia Em condições naturais este parasita é transmitido por carrapatos da família Ixodidae, dentre os vetores biológicos hematófagos, podemos citar os ixodídios membros dos gêneros Dermacentor spp., Hyalomma spp., e Rhipicephalus spp. O parasito pertence ao Filo Apicomplexa, Classe: Sarcodina; Ordem Piroplasma, Família Babesidade e Gênero Babesia. Das espécies de Babesia spp. que acometem os cães, duas merecem destaque, B. gibsoni, conhecida como pequena Babesia e B. canis como grande Babesia. A espécie B. gibsoni é mais prevalente na América do Norte, Ásia, norte e leste da África, porém, já foi relatada no Estado do Paraná, Brasil. Com relação a grande Babesia, estudos prévios subdividiam essa espécie em três subespécies B. canis rossi transmitida pelo carrapato Haemaphysalis leachi, considerada a mais patogênica, encontrada no Sul da África e no Sudão, B. canis canis, considerada com o menor grau de patogenicidade, transmitida por Dermacentor reticulatus e encontrada na Europa e B. canis vogeli encontrada no norte e sul da África, América do Norte, Europa, Austrália, Sudão, Turquia e no Brasil, sendo esta, transmitida pelo Rhipicephalus sanguineus. A partir de métodos moleculares, as subespécies B. canis canis, B. canis rossi e B. canis vogeli, foi demonstrado que estas se diferenciam, por meio das apresentações clínicas, seus vetores, suas distribuições geográficas e características da filogenia molecular, sugerindo que devem ser consideradas como espécies verdadeiras e separadas. Sendo assim, atualmente a grande babesia encontrada em cães no Brasil é reconhecida a nível de espécie e chamada de B. vogeli A babesiose equina, também chamada de nutaliose, piraplasmose, ou febre biliar, é produzida por duas espécies diferentes de protozoários intra-etritrocitários patogênicos pertencentes ao gênero Babesia (Babesia caballi) e Theileria (Theileria equi). Essas enfermidades de ampla distribuição mundial são consideradas as únicas protozooses intra-eritrocitárias dos equídeos, onde estes se comportam como o hospedeiro vertebrado do parasita. O termo piroplasmose equina é referente à classificação taxonômica (ordem Piroplasmida) dos agentes etiológicos causadores da doença.Já o termo theileriose equina é mais recente e surgiu devido à reclassificação taxonômica do protozoário Babesia equi, que passou a se chamar Theileria equi devido às diferenças morfológicas e em seu ciclo de vida quando comparado a outros membros da família Babesiidae, encaixando-se melhor dentro da família Theileiriidae. Desta forma, a theilerios e equina se refere à enfermidade cujo agente etiopatogênico é a Theileria equi. E a babesiose equina se refere à enfermidade cujo agente etiopatogênico é a Babesia caballi. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 40 Em suma, do ponto de vista etiopatogênico, adota-se o termo nutaliose equina ou piroplasmose equina quando em referência generalista à afecção produzida por qualquer um desses protozoários ou quando em referência à enfermidade causada por ambos os agentes etiológicos (B. caballi e T. equi). A babesiose bovina, febre da água vermelha é uma enfermidade causada pelos protozoários Babesia bovis e Babesia bigemina. Ambas as espécies são transmitidas pelo carrapato do boi Ripicephalus (Boophilus) microplus e, juntamente com a anaplasmose, determinada por Anaplasma marginale, formam o complexo Tristeza Parasitária Bovina (TPB). A B. divergens, por outro lado, afeta principalmente o gado na Europa – da Escandinávia ao Mediterrâneo – e no norte da África. Ainda que os agentes etiológicos da babesiose tenham ampla distribuição, existem diferentes situações epidemiológicas. Isso ocorre por tratar-se do período de maior infestação de carrapato, responsável pela transmissão dos agentes etiológicos favorecidos pelas condições climáticas sazonais, umidade e temperatura. Quanto a origem dos animais, há uma reconhecida susceptibilidade maior em bovinos Bos taurus taurus do que Bos taurus indicus. A faixa etária de animais acometidos varia de 6 meses e 8 anos de idade. Cabe salientar que antes da primo-infecção os animais são protegidos por anticorpos colostrais, que contra B. bovis permanecem em titulações apreciáveis até no máximo 90 dias e, conta B. bigemina, 60 dias de vida. E os animais que não se infectam até os nove meses de idade não montam respostas imunológicas efetivas, tornando-se mais vulneráveis. Podem ser acometidos bovinos, bubalinos e cervídeos, em todas as idades, entretanto cada um destes agentes possui características epidemiológicas distinta. Ainda que os agentes etiológicos da babesiose tenham ampla distribuição, existem diferentes situações epidemiológicas. Isso ocorre por tratar-se do período de maior infestação de carrapato, responsável pela transmissão dos agentes etiológicos favorecidos pelas condições climáticas sazonais, umidade e temperatura. O primeiro caso de ser humano imunocompetente acometido pela babesia foi identificado na ilha de Nantucket, cujo agente causal era a babesia microti e o vetor identificado foi o carrapato Ioxodes dammini, casos adicionais ocorreram na ilha, e a doença se tornou conhecida como "febre Nantucket". Após ser reconhecida em um paciente na Europa, a maioria dos casos até hoje foram reportados no Nordeste e Oeste dos Estados Unidos da América. Para além dos Estados Unidos, há casos reportados esporadicamente na Ásia, África, Austrália, Europa e América do Sul. Um segundo grupo de babesia é a babesia duncan que causa um pequeno número de casos que foram identificados na costa do Pacífico nos EUA. Um terceiro grupo é o da babesia divergens que causa casos esporádicos nos Estados Unidos da América, mas é a principal causa de babesiose na Europa. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 41 No Brasil, já foram descritos casos de babesiose humana, porém sem diagnóstico específico. A B. microti, parasita de roedores, principal agente de babesiose humana na América do Norte, ainda não foi identificada no Brasil. As espécies mais comuns em nosso país são as que parasitam bovinos, (B. bigemina e B. bovis), equinos (B. caballí) e caninos (B. canis e B. gibsoní). A babesiose humana é uma doença febril aguda, carac terizada por mialgias, fadiga, anemia hemolítica, icterícia e hemoglobinúria, cujo o quadro clínico se confúnde com o da malária. Características morfológicas O grupo formado por Babesia e Theileria foi batizado de “piroplasmídeos” devido à morfologia em forma de pêra do estágio de multiplicação do parasita no sangue do hospedeiro vertebrado. Como hemoparasitas não formadores de pigmento, os piroplasmídeos podem ser diferenciados de outros gêneros infectantes de eritrócitos, como Plasmodium e Haemoproteus, que em contraste formam pigmento (hemozoína) na célula parasitada. Possuem dois estágio de vida, um deles livre, na forma de esporzoítos, que possuem aspecto esférico e dois estágios intraeritrócitários, os trofozoítos que adquirem uma membrana rugosa e se aderem aos eritrócitos e merozoítos que possuem no seu interior 1 ou 4 trofozóidos formando uma cruz chamada de “cruz de malta”. Independentemente de sua classificação, todos os carrapatos apresentam em comum algumas características externas como: presença de 6 pares de patas na fase larval e 8 pares de patas nas demais fases; estrutura corporal achatada quando não alimentados; presença de hipostômio (e não uma mandíbula “mordedora”); corpo não segmentado; e ausência de antenas. Internamente, o carrapato apresenta como principais componentes o trato digestivo (faringe, esôfago, intestino e saco retal), os túbulos de Malpighi, a traqueia, as glândulas salivares, o corpo gorduroso e o ovário. Ciclo de vida parasitológico O ciclo parasitológico de Babesia sp é do tipo heteroxênio; isto é, é necessário dois hospedeiros para que o ciclo se complete. Animais e o ser humano são hospedeiros definitivos, enquanto o vetor biológico (carrapatos da família Ixodidae) são hospedeiros intermediários. O ciclo têm início quando o vetor ao alimertar-se em um HD, ingere gamontes do parasita. No intestino delgado do carrapato, os gamontes diferenciam-se em zigotos (células diplóides). Os zigotos, sofrem reprodução sexuada (esperogonia) e dão origem a cinetos (células haplóides). Os cinetos passam por meiose dando origem aos esporocinetos. Os esporocinetos via hemolinfa alcançam as glândulas salivares e demais tecidos do carrapato. Nas glândulas salivares, os esporocinetos diferenciam em esporozoítos. Os esporocinetos também podem alcançar os ovários dos carrapatos e ser transmitidos via transovariana dando origem a esporozoítos. Através das ecdises ou mudas de ovos para larva, ninfa e adulto, os esporozoítos são transmitidos via transestadial. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 42 Ao fazer repasto sanguíneo, o carrapato transmite junto com saliva esporozoítos a um hospedeiro definitivo. Os eporozoítos se aderem aos eritrócitos e amadurecem em trofozoítos, os quais sofrem reprodução assexuada (merogonia) e diferenciam-se em dando origem ,eventualmente, a 4 merozoítos. Os merozoítos deixam os eritrócitos e fora das hemácoas voltam a ser gamontes reiniciando um novo ciclo. Em seres humanos, a Babesiose pode ainda ser transmitida via transfusão de sangue ou transplante de órgãos. Patogenia A babesia causa doença em hospedeiros através de uma combinação de danos induzidos diretamente pelo parasito ou imunomediados. A patogenia está relacionada a hemólise intra e extravascular cujo impacto no hospedeiro depende idade, estado nutricional, carga parasitológica, respostas imunes, extensões de dano. A principal consequência da babesiose é a hemólise intravascular e extravascular disseminada. A hemólise ocorre em decorrência da multiplacação do parasito no interior dos eritrócitos induzindo a lise celular com consequentediminuição no número de eritrócitos, hemoglobinúria, hematúria. Trombocitopenia também é um achado observado em animais infectados como um mecanismo compensatório da eritropoese. Hipóxia pode ser observada pela falta de transporte de oxigênio pelas hemácias. A resposta imune inata parece não responder definitivamente na babesiose, macrófagos reconhecem antígenos periplasmáticos presentes nos eritrócitos fagocitam e apresentam aos linfócitos T. A resposta celular é mediada por linfócitos T perfil Th1, com produção de citocinas, especialmente IL-12 e Interferon gama. Ambas, estimulam a secreção de óxido nítrico. A resposta imune humoral, mediada por anticorpos parece ser mais eficiente. Isso explica por que animais jovens (<6 meses de idade) são mais resistentes à Babesiose por receberem anticorpos via transplacentária e via colostro. Também respondem de forma eficiente imunologicamente. Sinais e manifestações clínicas As manifestações clínicas da babesiose variam desde infecção subclínica ou assintomática até casos de doença fulminante resultando em morte. O primeiro e principal sinal clínico observado é a anemia hemolítica com anemia severa. Em algumas espécies pode ocorrer hemoglobinémia, hemoglobinúria e febre que influenciam a destruição rápida das células sanguíneas. Em necrópsias são observadas colorações anormais como icterícia e palidez na carcaça com hemorragias presentes. Algumas espécies de Babesia afectam o sistema nervoso central devido à manutenção de eritrócitos infetados nos capilares cerebrais que cria um ambiente anóxico no cérebro, resultando em sinais neurológicos como por exemplo, a ataxia. A infecção por B. bovis pode induzir o sequestro de eritrócitos parasitados nos capilares cerebrais resultando em sinais neurológicos como hiperexcitabilidade, Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 43 incoordenação motora, opistótono, tremores musculares, paralisia dos membros pélvicos, movimentos de pedalagem, andar em círculos, cegueira e agressividade, sendo usualmente fatal. Esse fato faz com que a babesiose cerebral possa ser confundida com outras doenças que afetam o sistema nervoso central de bovinos, inclusive com a raiva. Entre as alterações macroscópicas da babesiose estão a esplenomegalia, hepatomegalia, hemoglobinúria, icterícia, hemorragias cardíacas e bile verde-escura espessa. Como alteração patognomônica em casos de TPB, causados por B. bovis, é contatada uma pronunciada congestão do córtex encefálico, conferindo-lhe um aspecto de coloração “róseo-cereja”. Como achados adicionais em animais com babesiose podem ser descritos a carcaça pálida, pulmões edematosos, saco pericárdico com presença de fluido sorossanguinolento, mucosas do abomaso e intestinal ictéricas com sinais de hemorragias subserosas e bexiga distendida com urina escura castanho- avermelhada. Os achados macroscópicos e os achados histopatológicos são semelhantes aos de doenças que causam hemólise intravascular e anemia, com sinusóides hepáticos distendidos e repletos de sangue, degeneração de hepatócitos, canalículos biliares distendidos contendo bile, linfonodos com maior número de macrófagos e hemácias no seu interior, congestão capilar do cérebro com edema perivascular e pequenas hemorragias, e necrose e congestão vascular nos rins. Na maioria dos casos a infeção em humanos é assintomática. A doença é particularmente preocupante em indivíduos esplenectomizados, com imunodeficiên- cias congénitas ou adquiridas e idosos. A maioria dos pacientes sintomáticos torna-se doente 1-4 semanas após a picada de um carrapato infectado e 1-9 semanas (mas até seis meses em um caso relatado), após transfusão de sangue contaminado. Depois de um início gradual de quadro de mal-estar geral, fadiga e febre, com um pico de temperatura que pode ser tão elevada como 40 °C. Calafrios e sudorese são comuns e podem ser acompanhados de cefaleia, mialgias, anorexia, tosse não produtiva e artralgias. Outros sintomas incluem vômitos ocasionais, náuseas, dor de garganta, dor abdominal, sufusão conjuntival, fotofobia, perda de peso, labilidade emocional, depressão e hiperestesias. Ao exame físico, a febre é o sinal mais comum. Pode ser acompanhada de esplenomegalia ou, ocasionalmente, por eritema da faringe, hepatomegalia, icterícia, ou retinopatia com hemorragias. Diagnóstico e exames complementares O diagnóstico da babesiose, durante a fase aguda, que coincide com o pico da parasitemia, é feito pelo encontro de parasitos em esfregaços de sangue corados pelo método de Giemsa ou de Wright. Durante a avaliação em microscópio e auxílio de óleo de imersão é possível visualizar pequenas corpos arredondados ou corpos pareados em forma de pêra unidos em ângulo obtuso dentro de hemácias, estas estruturas possuem de Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 44 1 – 1,5 μm (arredondados) e 1,5 – 2,4 μm (forma de pêra). Algumas caracteriscas microscópicas ajudam a discriminar entre os generos Plasmodium e Babesia, onde na segunda não há depósitos de pigmento de hemozoína e há presença de formas tetrades ou “cruz de malta” nos eritrócitos. Além disso, os achados laboratoriais são consistentes com uma anemia hemolítica leve a moderada e incluem um hematócrito baixo, baixo nível de hemoglobina, baixo nível de haptoglobina, contagem elevada de reticulócitos e aumento de lactato desidrogenase. A trombocitopenia é comumente observada. A doença geralmente dura 1- 2 semanas, mas a fadiga pode persistir por meses, parasitemia assintomática pode persistir por vários meses após a terapia padrão ser iniciada, ou por mais de um ano, se o paciente não receber tratamento. A doença pode apresentar recidiva em pacientes gravemente imunocomprometidos, apesar de 7-10 dias de terapia antimicrobiana, e podem persistir por mais de um ano se não forem adequadamente tratados. Na fase subaguda ou crônica, quando a parasitemia é baixa, a doença pode ser diagnosticada por meio de pesquisa de anticorpos, utilizando-se provas sorológicas (imunofluorescência indireta, ELISA e outras) e pesquisa do parasito por PCR (reação em cadeia da polimerase) e sequenciamento dos seus produtos. Além de ser um método mais específico na detecção de hemoparasitas, as técnicas de PCR e o sequenciamento também causa menor estresse durante a coleta nos animais quando comparado a coleta sanguínea, tornando-o uma alternativa mais simples para detecção do agente, principalmente a nível de pesquisa e controle endêmico. Entretanto, os métodos citados acima, são de alto custo, demandando grande aparato laboratorial, sendo muitas vezes inviáveis para a realização em pequenas propriedades rurais. Dessa forma, métodos diretos como a observação dos protozoários em esfregaço sanguíneo, capa leucoplaquetária e esfregaço de ponta de orelha, são técnicas de suma importância, pois além de apresentarem baixo custo, podem ser realizados pelo veterinário a campo, otimizando o diagnóstico de hemoparasitoses em bovinos. Além disso, de acordo com Osaki et al. (2002) e Santos (2013) as hemácias parasitadas se tornam pouco flexíveis e são retidas por mais tempo na luz dos vasos de menor calibre, dessa forma, os eritrócitos parasitados são direcionados ao endotélio capilar, tornando o esfregaço de sangue de ponta de orelha o método padrão ouro para o diagnóstico. Quando os exames são inconclusivos e infecção é suspeita, uma amostra de sangue do paciente pode ser injetada num animal de laboratório, tal como um hamster, nesse caso geralmente se identifica a babesia no sangue do animal inoculado dentro de 2- 4 semanas. Em seres humanos, o diagnóstico de babesiose deve ser considerado em qualquer pessoa que resida ou tenha viajado para áreas endêmicas. A gravidade da babesiose Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito45 depende principalmente do estado imune do paciente e de quais espécies de babesia causam a infecção. Cerca de metade das crianças e um quarto dos adultos previamente saudáveis que estão infectadas com babesia microti têm infecções assintomáticas. Os casos assintomáticos, leves e moderados geralmente ocorrem em pessoas imunocompetentes. O nível de parasitemia pode ser baixo quando o paciente é visto pela primeira vez, esfregaços de sangue adicionais podem ser necessárias ao longo de vários dias para detectar o organismo. Os esfregaços são tipicamente repetido a cada 12-24 horas. Quando esfregaços permanecem negativos, mas o diagnóstico é fortemente suspeito, uma PCR deve ser realizada e, se positiva, a terapia antimicrobiana deve ser considerada. A detecção de anticorpos no soro da babesia pode ser útil em fazer o diagnóstico, mas o tratamento que se baseia apenas na análise sorológica positiva deve ser evitado. Entre os testes baseados em anticorpos, o IFA demonstrou ser o mais sensível e detecta 100% dos casos de babesiose aguda com esfregaço de sangue positivo e espera- se que seja altamente sensível na detecção de doadores com infecções assintomáticas por Babesia, enquanto os títulos de anticorpos são mantidos por um baixo grau de infecção. Centros de Controle e Prevenção de Doenças acrescentam que amostras de indivíduos epidemiologicamente ligados à exposição a B. microti precisam apenas exibir reatividade em um título de ≥1:64 para ser considerado um caso de babesiose Abordagem terapêutica e evolução Para o tratamento da doença em animais são indicados basicamente dois fármacos comercialmente disponíveis: Diaceturato de diminazina (3 à 5 mg/kg ; 2 -3 aplicações a cada 24 h), Dipropionato de imidocarb (1 à 3 mg/kg ; 2 -3 aplicações a cada 24 h). O imidocarb é o fármaco considerado de dupla ação, sua utilização deve ser acompanhada por cuidados específicos e uma medicação suporte com hepatoprotetor, soro glicosado, anti-histamínico, sombra, água fresca, alimento a disposição e sem muita movimentação. Em regiões endêmicas é preconizado que animais jovens entrem em contato com carrapatos para criarem imunidade contra os agentes da TPB, caso esta infestação seja muito grande deve ser realizado o controle do ectoparasita. Podem ser realizados banhos estratégicos em áreas epidêmicas e endêmicas como forma de controle do carrapato. Atualmente algumas vacinas tem sido desenvolvidas, a maioria das vacinas contra a TPB consistem em cepas atenuada de B. bovis e B. bigemina somadas a A. centrale (menos patogênico que o A. marginale). Este inócuo é padronizado e o animal apresenta uma infecção subclínica, é uma medida mais segura, pois não apresenta sua forma virulenta normal. O tratamento para humanos é considerado apropriadamente indicado quando pacientes sintomáticos forem detectados com babesiose em esfregaço ou PCR, ou pacientes assintomáticos com persistência de babesia por mais de três meses. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 46 A infecção por babesia micoti grave requer internação hospitalar e é comum entre os pacientes que foram submetidos à esplenectomia e aqueles com neoplasias, infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, hemoglobinopatias, ou doença pulmonar ou cardíaca crônica, além de insuficiência hepática. Outros grupos com maior risco de doença grave incluem pessoas com idade superior a 50 anos, pacientes que recebem tratamento com drogas imunossupressoras para neoplasia ou submetidos a transplantes de órgãos, e aqueles que recebem terapia anticitocinas como etanercept e infliximab, ou medicações que depletam linfócitos maduros como o rituximab. Complicações desenvolvem em aproximadamente metade dos pacientes que são internados com babesiose. A síndrome do desconforto respiratório agudo e CIVD são as complicações mais comuns, mas a insuficiência cardíaca congestiva, coma, insuficiência hepática, insuficiência renal, ou a ruptura do baço também pode ocorrer. As taxas de mortalidade de 6-9% foram relatadas em pacientes hospitalizados e até 21% entre aqueles com casos imunossuprimidos causados por babesia duncani. A maioria dos casos causados pelo babesia divergens é grave e ocorre em pessoas esplenectomizadas. A taxa de mortalidade por babesia divergens diminuiu drasticamente desde a utilização da combinação de agentes antimicrobianos. Uma combinação de atovaquone e azitromicina é o tratamento de escolha para pacientes imunocompetentes com babesiose leve a moderada. Outra combinação possível é a clindamicina e quinino na eliminação da parasitemia e resolução de sintomas. Em um estudo apenas 15% dos pacientes que receberam atovaquone e azitromicina tiveram sintomas consistentes com uma reação adversa à droga, e apenas um paciente (2%) teve que interromper a medicação por causa dos efeitos colaterais. Em contraste, três quartos dos pacientes que receberam clindamicina e quinino tiveram reações adversas, e foi necessária a redução da dose ou a descontinuação do tratamento em um terço desses pacientes. Doses Atovaquone Adulto, 750 mg; crianças 20 mg / kg (no máximo, 750 mg / dose) a cada 12 horas Azitromicina Adulto, 500 mg no dia 1 e 250 mg em dias subsequentes; crianças: 10 mg / kg (máximo, 500 mg / dose) no dia 1 e 5 mg / kg (no máximo, 250 mg / dose) nos dias subsequentes. Clindamicina e quinino Clindamicina Oral Adulto, 600 mg a cada 8 horas; crianças: 7-10 mg / kg (no máximo, 600 mg / dose) a cada 6-8 horas. Intravenoso Adulto 300-600 mg a cada 6 horas; crianças: 7-10 mg / kg (no máximo, 600 mg / dose) a cada 6-8 horas. Quinino Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 47 Adulto, 650 mg a cada 6-8 horas; crianças: 8 mg / kg (no máximo, 650 mg / dose) a cada 8 horas. Todas as doses da terapia antimicrobiana são administradas durante 7-10 dias, exceto em pacientes com recidiva persistente, que recebem tratamento durante pelo menos seis semanas, incluindo duas semanas após a babesia não ser detectada em um esfregaço de sangue periférico. A exosanguinotransfusão completa ou parcial é recomendada para babesiose causada por babesia divergens, mas também deve ser considerada em qualquer caso grave de babesiose causada por outras espécies de babesia microti, incluindo babesia duncani. Todos os agentes antimicrobianos são administrados por via oral, a não ser em casos severos de babesia microti e babesia divergens. Para os pacientes imunocomprometidos com babesiose, bons resultados foram relatados com o uso de atovaquona e azitromicina combinados com doses mais elevadas de azitromicina (600-1000 mg por dia). Os portadores assintomáticos devem ser considerados parasitas se forem detectados por mais do que três meses. A combinação de clindamicina e quinino foi o primeiro regime antimicrobiano bem sucedido para o tratamento de infecção por babesia microti, e clindamicina intravenosa e oral, ainda quinino é recomendado para pacientes com doença grave. Quando necessário, a quinidina intravenosa pode ser utilizada em vez de quinino oral, mas requer monitorização cardíaca para um possível prolongamento do intervalo QT. Transfusão de sangue completo ou de concentrado de hemácias deve ser considerada em pacientes com doença grave, particularmente aqueles infectados com babesia divergens. As indicações para essa terapia incluem um elevado nível de parasitemia (maior ou igual a 10%), anemia clinicamente significativa, ou disfunção renal, hepática, ou pulmonar. Pacientes imunodeprimidos podem ter babesiose persistente e recidivante, apesar de o tratamento com o curso normal de 7-10 dias dos agentes antimicrobianos. Em pacientes com doença recidivante com indicação de terapia de longo prazo (mais do que quatro semanas) pode ocorrer resistência a atovaquona e ocasionalmente a azitromicina. Os pacientes combabesiose devem ser cuidadosamente monitorados durante o tratamento. Na maioria dos casos, sintomas desaparecem em um ou dois dias após a terapia antimicrobiana. A infecção desaparece dentro de três meses. Em pacientes gravemente doentes, a parasitemia deve ser monitorada diariamente até que tenha diminuído para um nível de menos do que 5% e a condição do paciente melhorado. Se os sintomas reaparecerem, o tratamento deve ser retomado imediatamente, com acompanhamento clínico próximo. Medidas Profiláticas e de Controle As medidas preventivas consistem de medidas de proteção pessoal e residencial e abordagens comunitárias, incluindo evitar locais onde carrapatos, ratos e veados prosperam. Para cães e felinos, o melhor método para prevenir a babesiose é o controle dos carrapatos, que pode ser realizado com o uso de carrapaticidas ou coleiras que contenham a substância e higiene do local do animal. A profilaxia em bovinos, equinos, caprinos e suínos se baseia principalmente em quatro estratégias que visam ao combate aos carrapatos. A primeira é através de Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 48 carrapaticidas usados em banhos de imersão levando-se em consideração a dose e concentração corretas, fazendo-se sempre o rodízio do princípio ativo afim de que seja evitada a resistência por parte dos carrapatos; a segunda é a premunição, que é a exposição do animal ao agente, seguidos de correto tratamento para que sejam ativadas as células de defesa; a terceira é a vacinação utilizando-se protozoários vivos, apesar de esta técnica apresentar a desvantagem de muitos animais morrerem devido a infecção causada pela vacina ou pela intoxicação através do babesicida usado para controlar uma possível superinfecção, valendo lembrar que os esquemas de vacinações geralmente são feitos com vacinas atenuadas que contêm parasitas menos virulentos e incapazes de infectar os carrapatos vetores, estas fazem com que os animais fiquem menos expostos a infecção, ou ainda podem ser feitos com vacinas mortas, estas já um pouco desacreditadas em virtude de sua fraca imunogenicidade; e a quarta estratégia é a quimioprofilaxia através de drogas como o imidocarb que possuem um efeito residual que permite ao animal adquirir a infecção de forma mais branda a proporção que a ação da droga vai diminuindo. É especialmente importante para os animais/pessoas com maior risco, como imunocomprometidos, ou que interajam em áreas onde a babesiose é endêmica, evitar florestas e locais onde proliferem carrapatos. Pessoas que não podem evitar essas áreas devem usar roupas de proteção, aplicar repelentes de carrapatos contendo permetrina ou ao vestuário e repelentes e examinar a si mesmos diariamente para retirar carrapatos. Estratégias de manejo do meio ambiente, tais como manter a grama cortada, usando plantações que não atraem veados, e pulverizar áreas de alta densidade com formulações anticarrapato pode ajudar a reduzir o risco de picadas de carrapato. Novas ferramentas e alterantivas terapeuticas Nos últimos anos, o uso de novas ferramentas com base na biologia molecular permitiram uma análise filogênica mais apurada, bem como identificação de novas espécies de babesia e um estudo mais aprofundado da interação parasito-hospedeiro. A diferença de estudos com bases moleculares é que eles permitem amplificar o material genético do parasita diretamente no hospedeiro. Muitos estudos disponíveis na literatura nas últimas décadas tem utilizado carrapatos coletados do ambiente como fontes de investigação. Isso permite um estudo mais específico que reflete a situação epidemiológica real em certos habitats, por exemplo. Alguns estudos utilizando análise de polimorfismos em sequencias únicas de nucleotídeos também permitiram prever a co-interação dentro do mesmo gênero. Por exemplo em um estudo com carrapatados Dermacenter foi possível identificar sequencias de dois parasitas B. microti e B.divergis. Os avanços nas tecnologias de detecção melhoraram a capacidade diagnóstica, principalmente por possibilitar a identificação confiável de infecções precoces de baixo grau para diagnóstico clínico e monitoramento do tratamento. Em um relato de caso, a infecção por B. microti, com base nos resultados da reação em cadeia da polimerase (PCR), pode persistir por até 27 meses sem doença clínica evidente. Para entender melhor a diversidade genética e as relações evolutivas, os pesquisadores começaram a sequenciar o genoma de B. microti de isolados de parasitas coletados em todo o mundo. Em um estudo abrangente, o sequenciamento completo do Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 49 genoma de 42 amostras de B. microti de diferentes partes do mundo mostrou extensa diversidade genética. A sequência do genoma de B. microti foi publicada pela primeira vez em 2012 [42]. As análises revelaram um genoma de aproximadamente 6,5 Mbp que codifica cerca de 500 polipeptídeos, que é o menor de todos os genomas nucleares de Apicomplexa. Uma combinação de descoberta de antígenos baseada em genômica e análises de sequências computacionais permitiram a identificação de novos alvos de detecção conservados com alto número de cópias, que anteriormente não estavam disponíveis [42,43,44]. Por exemplo, o gene de RNA ribossômico 18S é o alvo de amplificação mais comumente usado para Babesia spp. detecção [33,35,41]. Recentemente, genes da família BMN com alto número de cópias foram avaliados quanto à sensibilidade analítica por RT-PCR. A proteína 1 da superfície da célula alfa-helicoidal de B. microti (BmBAHCS1, também conhecida como BmGPI12 [52], BMN1-9 [50] e BmSA1 [53]), um antígeno B. microti secretado, foi identificada por Cornillot et al. como o antígeno mais sensível para a detecção de infecções ativas. hekkiniath et ai. desenvolveram um ensaio de captura de antígeno para a detecção de BmBAHCS1 que tinha um limite de detecção de 20 pg/μL em amostras in vitro Referências Vannier E, Krause PJ. Human babesiosis. N Engl J Med 2012; 366:2397. Neves, D. P., Melo, A.L., Linardi, P.M., Vitor, R.W.A. Parasitologia Humana, 13 ed. Editora Atheneu, 2016.Pág. 505. Monteiro, S.G. Parasitologia na Medicina Veterinária. 2 ed. Editora Roca, 2017. Quevedo, L.S., Quevedo, P.S. Aspectos epidemiológicos, clínicos e patológicos da babesiose bovina. Pubvet. v.14, n.9, a650, p.1-7, 2020. https://doi.org/10.31533/pubvet.v14n9a650.1-7 Batista, G.O. Babesiose equina: uma revisão. Academic monograph. São Paulo: Instituto Butantan; 2022. 44 p. Pereira, B.L.A., Sorte, E. C. S., Borges, J.C. Medonça, A.J. Occurrence of Babesia spp. in dogs using the blood smear technique. Research, Society and Development, [S. l.], v. 10, n. 2, p. e1810211907, 2021. DOI: 10.33448/rsd-v10i2.11907. Meredith, S.; Oakley, M.; Kumar, S. Technologies for Detection of Babesia microti: Advances and Challenges. Pathogens 2021, 10, 1563. https://doi.org/10.3390/pathogens10121563 Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 50 FASCIOLOSE Introdução Fasciolose é uma parasitose causada pelo parasita Fascíola hepática, que pertence a classe Trematoda e apresenta em humanos um risco considerável à saúde, com crescentes números de casos identificados em diversos países nas últimas décadas. O homem é considerado um hospedeiro acidental sendo necessário para ocorrer a transmissão a presença do caramujo do gênero Lymnaea (hospedeiro intermediário), umidade e elevada e precipitação. A infecção ocorre após a ingesta de água ou verduras cotaminas com metacércarias do parasita e pode apresentar-se de forma aguda ou crônica. As manifestações iniciais incluem dor abdominal e hepatomegalia, podendo evoluir para colelitíase, colangite, icterícia obstrutiva ou pancreatite. Por ser uma zoonose, a enfermidadefasciolose possui grande importância veterinária ao ponto que a saúde pública também pode ser afetada. Considerada responsável por causar perdas econômicas significativas em bovinos, devido à diminuição na produção de carne e leite, condenação de fígados parasitados e aumento na mortalidade. Conhecer aspectos da epidemiologia, sinais clínicos, conduta terapêutica e formas de controle e profilaxia referentes a fasciolose é essencial diante da grande importância da babesiose e seus efeitos deletérios à pecuária e a saúde humana. A seguir serão abordados aspectos sobre epidemiologia, ciclo biológico do protozoário, sinais clínicos, e subsídios ao diagnóstico e terapêutica da enfermidade. Histórico Fasciola hepatica Linnaeus, 1758, é um parasito de vias biliares de ovinos, bovinos, caprinos, suínos e vários animais silvestres. A trajetória do F. hepatica no mundo é tão antiga quanto a história da humanidade. Achados paleontológicos na Alemanha, datados de 3.000 a.C., revelam a presença de ovos desse trematódeo em restos humanos e de bovinos, mostrando que já era encontrado no velho mundo. Na história, o primeiro registro de F. hepatica teria se dado no século IX no Tratado de Saúde Animal do Mundo Árabe, quando é citada como “uma doença de fígado” em ovinos, sendo o primeiro trematódeo a ter seu ciclo de vida descrito em 1882 na Alemanha. Epidemiologia A F. hepática alcançou uma distribuição geográfica quase cosmopolita, podendo ser encontrado em áreas de todos os continentes, exceto a Antártida. Este fato é consequência das diferenças de comportamento, hábitos, tradições e alimentação de acordo com as diferentes regiões, características sociais e culturas do mundo. Entre os aspectos subjacentes à heterogeneidade acima mencionada, podem ser destacados: (i) capacidades de adaptação parasitária, (ii) características de transmissão de fasciolidas, (iii) estratégias ecológicas de vetores de limnaeídeos e disseminação, (iv) espécies de animais domésticos e pecuários envolvidos e seu manejo , (v) mudanças climáticas, (vi) Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 51 mudanças globais, (vii) características gerais do comportamento humano e (ix) fontes de infecção humana. De acordo com a literatura científica, a infecção humana varia entre 2,4 milhões de pessoas a 17 milhões em 40 países. Entre os países atingidos pelo trema- tódeo está o Brasil, que acumula uma história recente no contexto mundial desse or- ganismo. A F. hepatica foi assinalada no Brasil, pela primeira vez em 1918 em bovinos e ovinos do Rio Grande do Sul. Atualmente já é encontrada em animais nos seguintes Estados: Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Bahia (ocorreram casos humanos não autóctones). A fasciolose animal está em expansão no Brasil; de um longo período em que ficou restrita aos estados alcançou o Vale do Paraíba em São Paulo, expandiu para o Mato Grosso e está sendo identificada em Minas Gerais e Espírito Santo. É um dos helmintos de animais domésticos e silvestres, incluindo ovinos, bovinos, caprinos, búfalos, camelídeos e cervídeos sendo responsável pela doença denominada fasciolose. Menos comumente, esses parasitas infectam herbívoros não ruminantes (por exemplo, equídeos, lagomorfos, macrópodes e roedores). A infecção causa morbidade e mortalidade significativas e está ligada à redução da produtividade e fertilidade e aumento da suscetibilidade a co-infecções. Juntos, eles contribuem para perdas econômicas anuais da ordem de € 2,5 bilhões em todo o mundo. Um fator importante dos dados coletados no país é que o monitoramento das inspeções (estaduais e federais) no abate não é padronizado. Classificação taxonômica e Etiologia da doença Fasciola hepatica, é um parasito pertencente ao Reino Animalia, Filo Platelmintos, da Classe Trematoda, Subclasse Digenea, Ordem Echinostomatiformes e Família Fasciolidae, Gênero Fasciola. Duas espécies merecem destaque: Fasciola hepática, distribuída globalmente e Fasciola gigantica, restrita à Africana e Ásia. As características principais deste filo são animais triblásticos, simetria bilateral, acelomados, e corpo achatado dorsoventralmente. O intestino termina em fundo cego e a única abertura do trato digestivo é a boca. O sistema excretor é protonefridial, e sua função é principalmente de regulação osmótica sendo que os produtos de excreção são eliminados principalmente pela superfície do corpo. Por fazer parte da classe trematoda apresentam adaptações para a vida parasitária, alguns das quais facilitam a sobrevivência e infestação do hospedeiro, tais como: ventosas, tegumento com cutícula protetora, ausência de órgãos sensoriais e produção de grandes quantidades de ovos. A F. hepatica pertence à subclasse digenea (di: dois, genea: vidas), o nome faz referência a um ciclo de vida heteróxeno com dois hospedeiros: intermediário e definitivo. No hospedeiro intermediário, geralmente um molusco do gênero Lymnaea, habitam os estágios larvais do parasito e no hospedeiro definitivo, geralmente mamíferos, habitam os estágios reprodutores. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 52 O HI representados geralmente por moluscos da ordem Pulmonatado gênero Lymnaea presentes em locais com canais de drenagem ou irrigação, áreas com pastagens alagadas, pantanosas ou inundadas periodicamente que favorecem condições excelentes para a presença e proliferação dos moluscos do gênero Lymnaea. Tais condições disponibiliza fatores ideias para a sobrevivência dos molusco como temperatura e umidade. Aspectos morfológicos Morfologicamente, as características do parasita adulto se apresentam com uma aparência foliácea, possui ventosa oral e localizada na extremidade anterior serve para alimentação e ventosa ventral para adesão, apresenta ramos cecais um de cada lado. Logo abaixo da ventosa oral vê-se a ventosa ventral e junto a esta, uma abertura do poro genital. Por ser hermafrodita, apresenta aparelho genital feminino um ovário, oótipo, útero e glândulas vitelinas e aparelho genital masculino que correspondem a dois testículos, canal eferente, canal deferente e órgão copulador. Ainda apresenta-se coberto por espinhos. Os adultos de F. hepatica têm ~4 cm de comprimento e ~1,5 cm de largura, enquanto F. gigantica têm ~7,5 cm de comprimento e ~1,5 cm de largura. Os vermes podem viver por décadas dentro do hospedeiro e produzir até 25.000 ovos por dia por verme.Os ovos adultos deste parasita possuem o tamanho de 150 µm de comprimento e 100 µm de largura, cor amarelo-marrom, com uma abertura (operáculo)e por onde saem os miracidios, forma larval do parasito, são liberados no intestino e alcançam o ambiente circundante através das fezes. Ciclo parasitológico F. hepatica e F. gigantica têm um ciclo de vida complexo, exigindo um hospedeiro primário vertebrado, no qual os vermes hepáticos se reproduzem sexualmente, e um hospedeiro intermediário (caramujos aquáticos da família Lymnaeidae), no qual ocorre a reprodução assexuada O ciclo de vida de F. hepatica consiste em seis etapas após a eclosão do ovo, passando pelos estágios larvares de miracídio, esporocisto, rédia, cercária e metacercária e finalmente a forma adulta que produz ovos. Esse complexo ciclo só pode ocorrer se houver condições favoráveis tais como temperaturas entre 10°C à 30°C; pH 7 com variações entre 4,2 a 9,0; ambiente aeróbico e presença de água. Nestas condições, ocorre o desenvolvimento embrionário e eclosão do ovo com consequente emissão da larva ciliada denominada miracídio que mede 220-500 μm por 70-80 μm, com vida útil de 8 a 10 horas em um ambiente aquático favorável, onde a mesma nada até encontrar um hospedeiro intermediário.A F. hepatica tem como hospedeiro intermediário caramujos do gênero Lymnaea, sendo o mais comum no Brasil é a espécie Lymnaea columela. Contudo, o miracídio pode penetrar em diversas espécies de moluscos aquáticos, ocasionado a morte imediata da larva se esta penetrar no hospedeiro errado. Após penetração no caramujo, o miracídio perde os cílios, migra através dos vasos sanguíneos ou canais linfáticos até à região periesofágica, transforma-se em esporocisto e depois se desenvolve na via hepatopâncreatica até atingir 600 a 700 μm. A vida útil do miracídio (8 a 24 horas) é muito limitada por seus estoques de glicogênio, que é sua principal fonte de energia. Para aumentar as chances de localizar e invadir um caracol hospedeiro adequado nesse Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 53 período, as larvas desenvolveram mecanismos quimio-sensoriais refinados que envolvem fototropismo positivo e expressão de genes envolvidos na secreção de feromônios e metalopeptidases degradantes de tecidos. O parasito passa, então, por um desenvolvimento assexuado, passando pelo estágio de desenvolvimento dos esporocistos, os quais originam-se as rédias que medem cerca de 1 a 3 mm de comprimento e tem alguma capacidade de movimentação, destas surgem as cercarias, que se assemelham a um girino e podem ter 300 μm de diâmetro e 600 μm de cauda. Notavelmente, durante este processo, conhecido como expansão clonal, um único miracídio pode produzir de 10 a 700 cercárias. Após 7 a 8 semanas da infecção, as cercárias abandonam o caracol devido à elevação da temperatura e luminosidade. As cercarias, então, perdem a cauda e fixam-se por meio da ventosa ventral a plantas, encistando-se e transformando-se em metacercárias. As metacercárias possuem 0.20 a 0.25 mm e são semelhantes a grãos de areia, sendo esta a forma infectante para o hospedeiro definitivo. Elas conseguem sobreviver no ambiente exterior sob certas condições, tolerando melhor o frio (abaixo de -10⁰C), mas são bastante sensíveis ao calor e à dessecação. O parasita completa seu ciclo heteroxênico, no hospedeiro vertebrado que se infecta ao ingerir pasto contaminado com metacercárias, as quais se encistam no intestino delgado, migram através da parede intestinal, caem na cavidade abdominal e penetram no parênquima hepático, atingindo os canais biliares onde se fixam e se tornam adultos. Ovos eliminados através das fezes alcançam o ambiente e encontram temperatura e umidade adequadas reiniciando o ciclo. Patogenia A infecção por F. hepatica em humanos e animais ocorre principalmente através do consumo de alimentos contendo metacercárias encistadas. Após a ingestão, as metacercárias excistam e tornam-se juvenis recém excisados (NEJs) dentro do duodeno, as quais atravessam a parede intestinal e migram para o fígado através da cavidade peritoneal. Esta fase é caracterizada por inflamação e danos até que se atinjam os ductos biliares do fígado, onde amadurecem em adultos produtores de ovos. Diferentes respostas de células T e perfis de citocinas observados em células dos linfonodos mesentéricos (mais IL-5) e hepáticos (mais IL-4) de camundongos infectados com F. hepatica sugerem que NEJ e parasitas em estágio hepático produzem diferentes antígenos que alteram o hospedeiro respostas. Apesar da inflamação inicial, até 50% dos humanos infectados são assintomáticos. Este é um feito extraordinário para qualquer agente infeccioso, pois indica a capacidade de subverter a resposta imune do hospedeiro, que normalmente é armada para expulsar um patógeno. Uma abundância aumentada de anticorpos IgG reativos a antígenos (por exemplo, catepsina L1) sugere que uma resposta dirigida por Th2 está montada. A resposta imune montada durante os estágios iniciais da fasciolíase é geralmente considerada como uma resposta mista Th1/Th2, onde citocinas como IFNγ, IL-4, IL-10 e TGF-β estão elevadas. À medida que a infecção progride, uma resposta Th2 é amplificada em conjunto com a supressão da inflamação Th1, permitindo assim uma infecção prolongada que pode ser dependente de IL-4. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 54 A presença de vermes adultos nos ductos biliares pode levar a anemia, inflamação, obstrução e colangite. Isso é facilitado pela liberação de moléculas excretor- secretoras (ES) do parasita que medeiam mudanças fisiológicas que permitem seu estabelecimento dentro do hospedeiro. O ES contém peptidases de catepsina que auxiliam na invasão do parasita ao degradar o colágeno e a fibronectina. Nos ductos biliares, a catepsina-L é fundamental para a digestão da hemoglobina durante as atividades de alimentação. Outras moléculas (peroxirredoxina, catepsina-L e inibidor do tipo Kunitz) estimulam uma forte resposta imune polarizada em direção a um fenótipo Treg/Th2 que favorece a sobrevivência do verme. Combinando essas estratégias, Fasciola spp. sobrevivem por décadas dentro de seu hospedeiro mamífero, onde se reproduzem e se espalham para se tornar um dos parasitas de vermes zoonóticos mais difundidos do mundo. Sinais e sintomas A patologia da fasciolose em humanos depende de várias variáveis, incluindo espécies e isolados de vermes, carga parasitária e biologia do hospedeiro (por exemplo, estado imunológico, idade, nutrição). As manifestações clínicas da fasciolose causada por F. hepatica e F. gigantica são consideradas as mesmas, embora o tamanho maior desta última possa resultar em maior chance de obstrução biliar. A patologia da doença está principalmente associada ao trauma causado pelos vermes imaturos que se enterram nos intestinos e no parênquima hepático e isso se correlaciona com o nível de infecção. As infecções de baixo nível podem ser assintomáticas ou incluir sintomas leves nos estágios agudos, mas podem progredir para uma situação inflamatória crônica grave em um estágio posterior. No entanto, em geral, a infecção aguda é caracterizada por respostas imunes vigorosas do hospedeiro direcionadas aos parasitas invasivos e seus antígenos, podendo resultar em febre, náusea, dor abdominal, hepatomegalia, perda de peso, anemia, eosinofilia transicional e elevação das enzimas hepáticas. Os sintomas geralmente são de natureza inespecífica e podem ser facilmente confundidos com outras doenças, especialmente as do fígado, e variam de leves a graves. Os pacientes geralmente apresentam uma variedade de indicadores, incluindo febre, dor de cabeça, fadiga, calafrios, suores, dor abdominal, desconforto epigástrico, erupções cutâneas e também podem sofrer de anemia e perda de peso. Os parasitas migratórios danificam os tecidos e os vasos sanguíneos, causando grandes hematomas subcapsulares do fígado que podem ser fatais. Esses sintomas podem durar de 2 a 4 meses. Embora as infecções crônicas sejam frequentemente assintomáticas, elas podem estar associadas a sinais de obstrução biliar, dor abdominal e intolerância alimentar gordurosa. Estes podem levar meses ou até anos para se manifestar. Com o tempo, os parasitas adultos causam danos ao ducto biliar com seus espinhos quando se movem ao longo da árvore biliar. Eles também secretam muitos antígenos e perfuram as paredes do ducto biliar para obter acesso ao sangue, o que leva à hiperplasia do epitélio do ducto biliar e inflamação crônica e, eventualmente, colangite e colecistite. A fasciolose ectópica, pela qual o parasita migra para outros tecidos que não o fígado (por exemplo, pulmões, intestinos, cérebro), já foi descrita em humanos embora seja rara. Em situações de extrema patogenicidade como afecções neurológicas e oftalmológicas dando origem a sequelas permanentes e até casos fatais. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito55 Animais infectados apresentam mucosas e pele pálida, perda de peso, diminuição do apetite, e a persistência do edema submandibular, abdome dilatado, respiração acelerada, diarreia e até mesmo podem evoluir para a morte. Diagnóstico clínico e laboratorial A abordagem diagnóstica para pacientes animais e humanos afetados por fasciolose e fasciolopsiasis é apoiada por métodos semelhantes. O quadro clínico pode auxiliar no diagnóstico dessas doenças, principalmente quando ocorre em áreas endêmicas, embora o diagnóstico baseado em sinais e sintomas seja propenso a erros por falta de especificidade (não patognomônico), gerando a necessidade de ensaios diretos ou indiretos para confirmar a presença do parasita. Os métodos de análise direta, baseados principalmente na identificação de ovos de fasciolida nas fezes por microscopia, continuam sendo uma ferramenta simples e barata para detectar a presença de F. hepatica e F. gigantica em humanos ou animais, e representam a única ferramenta de diagnóstico disponível para os menos espécie estudada F. buski. Esses testes diretos geralmente são a única opção acessível para diagnóstico em áreas rurais ou endêmicas em desenvolvimento e também são usados para estimar a intensidade da infecção. A OMS recomenda a técnica de Kato-Katz como o método de escolha para o diagnóstico da fasciolíase devido à sua facilidade de uso e reprodutibilidade, e sua maior sensibilidade em comparação com a observação de ovos em fezes frescas (OMS, 2007). No entanto, a análise das fezes apresenta sérias desvantagens, como a falta de sensibilidade devido à eliminação irrerregular dos ovos nas fezes, sua aplicabilidade é limitada à fase crônica da doença, quando os ovos do parasita são produzidos, e a dificuldade de distinguir F. hepatica e F. gigantica ovos em áreas onde ambos os parasitas coexistem. Além disso, muitas vezes é difícil estabelecer uma correlação entre a carga parasitária e a contagem de ovos nas fezes. Juntamente com a análise das fezes, outros métodos diretos que dependem da inspeção do líquido duodenal ou da bile, bem como amostras biológicas obtidas de cirurgia ou biópsia hepática, oferecem maior confiabilidade, embora raramente sejam usados devido à à necessidade de pessoal especializado para realizá-los e seu caráter invasivo. Além disso, em animais, parasitas adultos podem ser evidenciados diretamente em exames post-mortem. As técnicas indiretas compreendem vários testes imunológicos, a maioria deles baseados na detecção de anticorpos circulantes e antígenos parasitários (Espino e Finlay, 1994). Essas técnicas visam fornecer maior sensibilidade do que a abordagem de diagnóstico direto e também são úteis durante a fase aguda da infecção, permitindo a detecção precoce, mesmo que em algumas ocasiões possam apresentar baixa especificidade (Munita et al., 2019). As proteases de cisteína provaram ser um biomarcador de infecção sensível e específico, e assim vários testes desenvolvidos até agora focam na detecção de anticorpos específicos em amostras de soro contra esta família de proteínas. O sorodiagnóstico da fasciolíase em espécies humanas e animais tem sido realizado com sucesso empregando várias frações antigênicas de F. hepatica ou F. gigantica (Mezo et al., 2003; Sánchez-Andrade et al., 2008; Demerdash et al., 2011) , antígenos purificados (O'Neill et al., 1998; Rokni et al., 2002), e antígenos recombinantes (O'Neill et al., 1999; Carnevale et al., 2001). Um teste ELISA comercial baseado na detecção de IgG contra antígenos excretores/secretores de vermes adultos contendo principalmente proteases de cisteína (Fasciola IgG ELISA, DRG Instruments GmbH, Alemanha) (Salimi-Bejestani et al., 2005) está disponível e mostrou 95,3% sensibilidade Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 56 e sensibilidade de 95,7% em amostras humanas (Valero et al., 2012). Além disso, testes internos de ELISA baseados na detecção de IgG ou IgG4 circulante contra catepsina L1 recombinante (O'Neill et al., 1999; Valero et al., 2012) também mostraram sensibilidade e especificidade elevadas. A catepsina L1 recombinante também foi utilizada para o desenvolvimento de um imunoensaio de fluxo lateral (SeroFluke™), que apresentou 100% de especificidade e sensibilidade (Martínez-Sernández et al., 2011). A fasciolíase em animais também pode ser avaliada em nível de rebanho, detectando anticorpos específicos por ELISA em amostras de leite de tanque a granel, que são úteis para a tomada de decisões de estratégias de intervenção (Munita et al., 2019). As desvantagens dos testes sorológicos baseados na detecção de anticorpos IgG estão relacionadas à persistência dos anticorpos após a eliminação do parasita. Consequentemente, a detecção de anticorpos não pode diferenciar entre infecções atuais ou passadas, e pode ser usada para acompanhamento após o tratamento, mas com limitações. A detecção de antígenos nas fezes surgiu como uma alternativa à detecção de anticorpos e também se mostrou útil para monitorar a eficácia de tratamentos anti- helmínticos. A detecção de pequenas quantidades de Fasciola L-catepsinas foi desenvolvida com base no uso de anticorpos monoclonais. O anticorpo monoclonal MM3 se liga à Fasciola catepsina L1 e L2 e uma proteína do tipo Kunitz que interage com as catepsinas. O MM3 copro-ELISA apresenta boa sensibilidade e especificidade, foi comercializado como BIO K 201™ e vem sendo progressivamente adotado como e vem sendo progressivamente adotado como método de escolha para diagnóstico e monitoramento pós-tratamento (Mezo et al., 2004; Martínez-Sernández et al., 2016). A sensibilidade de detecção de coproantígenos foi avaliada e mostrou-se útil para detectar bovinos e ovinos infectados com um único verme a partir de 9 semanas após a infecção (Mezo et al., 2004; Martínez-Sernández et al., 2016). Uma sensibilidade mais baixa foi relatada em tempos anteriores após a infecção, por exemplo, coproantígenos podem ser detectados em cordeiros infectados com 10-40 metacercárias entre 3 e 5 semanas após a infecção, enquanto cordeiros infectados com 5 metacercárias começaram a liberar antígenos detectáveis nas fezes a partir de 4 semanas pós-infecção (Mezo et al., 2004). É importante ressaltar que a especificidade dos testes de ELISA de coproantígenos foi avaliada em condições de campo, não encontrando evidências de reatividade cruzada com várias infecções parasitárias concomitantes (Kajugu et al., 2015). Apesar das vantagens inerentes aos ensaios imunológicos, essas técnicas ainda não conseguem diferenciar as infecções causadas por diferentes espécies de fasciolidas, especialmente em áreas sobrepostas onde coexistem F. hepatica e F. gigantica. Nesse sentido, as ferramentas moleculares surgem como uma poderosa alternativa para o diagnóstico diferencial. PCR-Restriction Fragment Length Polymorphism (PCR-RFLP) baseado na amplificação de trechos específicos de sequências do rRNA 28S e da região ITS-1, e PCRs específicos para a amplificação da região ITS-2, permitem que ambas as espécies de parasitas sejam distintos, mas não híbridos (Marcilla et al., 2002; Ai et al., 2010; Rokni et al., 2010). Abordagens semelhantes são usadas para a detecção específica de DNA de F. buski (Prasad et al., 2007). Além disso, a amplificação isotérmica mediada por Loop, recentemente desenvolvida e fácil de usar, mostrou ser uma ferramenta promissora para a detecção precisa de F. hepatica em animais (Martínez-Valladares e Rojo-Vázquez, 2016). Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 57 A detecção precoce do parasita por amplificação de ácidos nucleicos mostrou limitações dependendo da amostra investigada (Calvani et al., 2018). A disponibilidade do genoma de F. hepatica (Cwiklinski et al., 2015) e um transcriptoma recentemente publicado e análise do genoma de F. buski (Biswal et al., 2018)devem fornecer novos loci genômicos que permitirão a especificidade e sensibilidade de que os testes de DNA disponíveis sejam melhorados. Da mesma forma, a caracterização de microRNAs como ferramentas potenciais para sua detecção na circulação de pacientes infectados poderia apoiar uma melhor opção diagnóstica em fasciolíase e fasciolopsíase (Fontenla et al., 2015; Chen et al., 2016; Guo e Guo, 2019; Tran e Pung, 2020). Aspectos terapêuticos Entre as vias de administração consideram-se as mais utilizadas as vias intramuscular (IM) ou subcutânea (SC). A via Intrarumenal (IR) apresenta possibilidade de desenvolvimento de peritonite, embora os ruminantes apresentem elevada capacidade de “restrição” a estas infecções, reduzindo assim o seu risco. A via oral (VO) apresenta limite de emprego, tendo em vista a dificuldade de aplicação para bovinos, sendo indicada para animais de companhia. Já a via transcutânea utiliza formulações do tipo spot-on ou pour- on, permitindo a absorção do vermífugo na pele através de veículo especial ou percutânea e Bolus. Para o tratamento da fascilose bovina há apenas uma droga que remove os estágios iniciais, o triclabendazol, embora o albendazol, em doses maiores, também é eficiente. Para a fasciolose ovina aguda utiliza-se o diclazuri ou toltrazuril sendo administrado em todos os ovinos com a locomoção para pasto livre ou recém cultivado. Entre as vias de administração consideram-se as mais utilizadas as vias intramuscular (IM) ou subcutânea (SC). A via Intrarumenal (IR) apresenta possibilidade de desenvolvimento de peritonite, embora os ruminantes apresentem elevada capacidade de “restrição” a estas infecções, reduzindo assim o seu risco. A via oral (VO) apresenta limite de emprego, tendo em vista a dificuldade de aplicação para bovinos, sendo indicada para animais de companhia. Já a via transcutânea utiliza formulações do tipo spot-on ou pour- on, permitindo a absorção do vermífugo na pele através de veículo especial ou percutânea e Bolus. O tratamento para fasciolose é essencial, a fim de minimizar as perdas associadas com condenações de fígados, mortalidade, redução em produção de carne, lã e leite, às infecções bacterianas secundárias e à interferência com a fertilidade. Assim, o tratamento deve ser realizado sob a forma de controle de vetores e tratamento farmacológico dos doentes, o que, deve ser realizado preferencialmente por antihelmínticos que apresentam fácil aplicação, evitando resíduos na carne e leite, e que sejam altamente eficazes contra formas adultas e imaturas de F. hepatica. Em seres humanos, o tratamento consiste na administração de drágeas de dez miligramas de deidroemetina ou ainda, através do uso de fármacos fasciolicidas, dentre eles: albendazol, closantel, rafoxanida e riclabendazole. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 58 Medidas de prevenção A Organização Mundial da Saúde (OMS) inclui a fasciolíase na lista das DTN (Doenças Tropicais Negligenciadas), entre o grupo das trematodiases transmitidas por alimentos. As medidas de prevenção e controle da fasciolose consistem em impedir a disseminação dos ovos, tratando dos animais parasitados e evitando, na medida do possível, defecarem próximo a água. Fazer drenagem das áreas de pastagens ou usar molusquicidas, como o sulfato de cobre, ajudam a combater a população de caramujo. Para o homem, a profilaxia é feita evitando-se o consumo de agrião cru, principalmente quando são irrigados por água de rio, ou adubados com estrumes. Também deve ser feito um controle da população de caramujos Lymnaea, utilizando-se mulusquicidas, além da drenagem das pastagens alagadas. Estudos futuros e necessidades de pesquisa As principais questões no campo da fasciolíase e fasciolopsiose estão relacionadas à disseminação da doença, ao surgimento de resistência aos medicamentos e à falta de uma vacina eficaz. A propagação destas doenças está intimamente ligada ao molusco IH em dois aspectos: a colonização de novos habitats por moluscos facilitada pelas mudanças climáticas e a versatilidade do parasita, especialmente F. hepatica, para se adaptar a novas espécies de moluscos em diferentes áreas geográficas. Estudos sobre a relação caramujo- parasita e a genética do caramujo são de suma importância para melhorar nossa compreensão da disseminação do parasita de acordo com sua capacidade de infectar e se multiplicar dentro do IH. Nos últimos anos, novas técnicas -ômicas têm propiciado o estudo de eventos moleculares no HI (Beesley et al., 2018) que podem ajudar a abordar o papel desse hospedeiro na disseminação, infectividade e resistência do parasito. Um evento significativo associado à transmissão de doenças infecciosas é a mudança climática e a modificação antropogênica de habitats. Este é também o caso da disseminação da fasciolíase, que tem sido claramente facilitada pelas mudanças climáticas e pela intervenção humana através do estabelecimento acidental de melhores condições de habitat para o parasita e seus hospedeiros, incluindo frequência de inundações, mudanças de temperatura e irrigação artificial ao ar livre. sistemas. Modelagem e vigilância de como essas condições de habitat em mudança influenciam a multiplicação e transmissão de F. hepatica e F. gigantica podem ter um impacto positivo no controle da fasciolíase. O desenvolvimento e aplicação de um sistema de vigilância sustentável está intimamente relacionado ao controle de doenças parasitárias. Isso se baseia no diagnóstico precoce e no monitoramento dos animais infectados. Aqui, antecipamos o desenvolvimento de várias ferramentas de diagnóstico. Os fundamentos para desenvolver dispositivos de ponto de atendimento sensíveis e específicos (por exemplo, tiras imunocromatográficas, ensaios LAMP) para o diagnóstico de fasciolíase em animais de fazenda por pessoal não especializado poderiam permitir uma vigilância mais precisa da doença e melhores práticas de tratamento do gado contra fasciolíase. A facilitação de práticas de manejo para uso racional do triclabendazol é crucial para evitar a Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 59 disseminação de isolados resistentes do parasita (McMahon et al., 2016). Relacionado a isso, estudos visando a elucidação das bases genéticas e moleculares para a resistência a drogas em Fasciola são uma das necessidades futuras de pesquisa em fasciolíase. A entrega de uma vacina com altos níveis de proteção contra Fasciola é outra necessidade no controle da fasciolíase. Conforme mencionado, níveis significativos de proteção foram alcançados por várias vacinas candidatas, mais especificamente quando combinadas, embora os resultados nem sempre tenham sido reprodutíveis (Beesley et al., 2018). Assim, a vacinação contra Fasciola é adequada, mas os níveis de proteção e confiabilidade da vacina devem ser melhorados. Isso está relacionado a dois aspectos principais: a caracterização da resposta imune do DH contra o parasita e a identificação de moléculas do parasita que possam conferir um alto nível de proteção aos animais vacinados. A pedra angular da identificação e implementação de ferramentas de vigilância, prevenção e controle no campo da fasciolíase e fasciolopsíase é o estudo da biologia da relação parasita-hospedeiro, tanto nas infecções por IH quanto por DH. Uma compreensão muito maior dessa relação e dos eventos moleculares e celulares que ocorrem desde os primeiros momentos da infecção até a fase crônica da doença é essencial para o controle dessas doenças. É importante mencionar que um grande progresso tem sido feito nesses estudos nos últimos anos, apoiados pelas novas técnicas de ômicas e o desenvolvimento de novos modelos laboratoriais para a dissecção do cross- talk hospedeiro-parasita em estágios iniciais da infecção. García-Campos et al., 2016; Cwiklinski e Dalton,2018; McVeigh et al., 2018; Zhang et al., 2019; González-Miguel et al., 2020). Esses novos avanços ajudarão a elucidar os principais eventos de interação entre populações específicas de células hospedeiras e estágios definidos do parasita, contribuindo para o progresso do nosso conhecimento sobre fasciolíase e fasciolopsíase e o desenvolvimento de ferramentas para combater efetivamente esses parasitas. Referências Neves, D. P., Melo, A.L., Linardi, P.M., Vitor, R.W.A. Parasitologia Humana, 13 ed. Editora Atheneu, 2016. Pág. 261 Harris NL, Loke, P. Recent advances in type-2-cell-mediated immunity: insights from helminth infection. Immunity. (2017) 47:1024–36. doi: 10.1016/j.immuni.2017.11.015 Monteiro, S.G. Parasitologia na Medicina Veterinária. 2 ed. Editora Roca, 2017. Lalor, R., Cwiklinski, K., Calvani, N.E.D. Dorey, A., Hamon, S., Corráles, J.P, Dalton, J.P., Verissimo, C.M. Pathogenicity and virulence of the liver flukes Fasciola hepatica and Fasciola Gigantica that cause the zoonosis Fasciolosis. Virulence, v. 12, 1, 2839- 2867, 2021. doi: 10.1080/21505594.2021.1996520 Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 60 COMPLEXO TENÍASE -CISTICERCOSE Introdução A teníase, é uma doença parasitaria negligenciada que acomete animais e o ser humano. Apresenta ampla distribuição mundial e grande potencial antropozoonótico sendo um desafio significativo para à saúde pública e vigilância epidemiológica. A doença constitui-se de duas entidades mórbidas distintas, causadas pela mesma espécie de cestódeo, em fases diferentes do seu ciclo de vida formando o complexo teníase- cisticercose. A teníase é uma doença infecciosa de sintomatologia mais simples causada pela ingestão da forma adulta (estágio larval) de T. saginata presentes na carne bovina ou T. solium na carne suína, os quais se aderem a parede intestinal de humanos e animais. Enquanto a cisticercose, é transmitida através da ingestão de ovos, os quais alcançam a corrente sanguínea e se alojam na musculatura do porco (T. solium), mas não do boi, ou invadem para outros tecidos como musculatura esquelética, cardíaca e Sistema Nervoso Central de seres humanos, e ali transformam-se em larvas causando a cisticercose. Atualmente o complexo teníase-cisticercose ocorre principalmente em países em desenvolvimento, como regiões da Ásia, África e América Latina, onde a doença permanece endêmica. Nesta revisão, a teníase e a cisticercose serão apresentadas com especial ênfase em alguns aspectos desta doença: as principais manifestações clínicas, fatores de risco e epidemiologia, aspectos morfológicos, ciclo de vida. Além disso, são discutidos quaisquer avanços recentes nas abordagens de diagnóstico e tratamento. Por fim, destacam-se as complexidades envolvidas no controle da doença e a necessidade de rever as atuais estratégias de gestão. Histórico A cisticercose é conhecida desde os tempos pré- históricos. Já Aristóteles (384 - 322 a.c.), em sua obra "História Animalium" faz referência a uma doença, em suínos, caracterizada por formações císticas comparáveis a pedras de granizo. Em 1697, Malpighi verificou que o agente da canjiquinha, ladraria ou pedra era um verme. Em 1758, Linnaeus descreveu T. solium e T. saginata. Em 1800, Zeder criou o gênero Cysticercus para o agente da canjiquinha e, final mente, Küchenmeister, em 1885, fazendo infecções em seres humanos e em suínos, demonstrou que o cisticerco dos suínos originava o verme adulto nos humanos. A associação desta patologia com agravos à saúde humana evidenciou-se através de registros esparsos como: a descoberta do Cysticercus racemosus na base do cérebro humano (Wirchow, 1860); a presença de sintomas psiquiátricos (Berlin, 1862); a ocorrência de epilepsia (Labrose, 1867) e dé meningite crônica (Heller, 1874), em pacientes afetados por tais estruturas. Todos esses fatos contribuíram para o estabelecimento de uma nova doença conhecida como neurocisticercose e sua correspondente morbidade no homem. Embora, a biologia e distribuição da Taenia sp tenha sido documentada ao longo dos últimos 150 anos. Em 1903, surgiu a descoberta da T. asiática, uma espécie de Taenia Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 61 que tem como hospedeiro intermediário suínos e distribuída em diferentes países da Ásia, como Taiwan, Indonésia e Coréia. Aspectos epidemiológicos Estima-se que, anualmente, 50 milhões de pessoas possam ser infectadas pela teníase ou cisticercose com 5.000 mortes. A enfermidade é uma doença cosmopolita e sua ocorrência varia de um lugar para outro em razão de numerosos fatores entre os quais figuram, com destaque, o sócio-econômico e a natureza das relações promíscuas ou higiênicas estabelecidas entre o ser humano e os demais hospedeiros. As espécies T. solium e T. saginata já foram encontradas em 17 países Latino Americanos, incluindo o Brasil, Chile, Peru, México, Guatemala, tendo maior frequência em áreas rurais. Países Europeus tentaram erradicar a doença, embora atualmente há uma reemergência de novos casos, principalmente relacionados a importação de carne e migração de pessoas. O parasita ainda é disseminado em países com baixas condições sócio-econômicas e de saúde, tais como África, América e Ásia, onde a falta de saneamento básico, higiene, educação sanitária são fatores que contribuem para a disseminação da doença. No Brasil, a cisticercose parece ser mais prevalente e têm sido associada ao diagnóstico da neurocisticercose, quando larvas invadem e alojam-se no SNC. A soroprevalência da cisticercose no Brasil, parece estar distribuída por regiões geográficos com maior incidência nas regiões sudeste, nordeste e sul do país respectivamente. Diversos estudos disponíveis da literatura científica e realizados no Brasil apontam uma relação dos casos de teníase-cisticercose associados à fatores sócio- econômicos, hábitos de consumo e higiene e fator idade (mais prevalente em crianças e idosos). Classificação taxônomica e etiologia A Taenia solium e a Taenia saginata pertencem ao Reino Animalia, Filo Platelmintos à classe Cestoidea, ordem Cyclophillidea, família Taenidae e gênero Taenia. Na forma larvária (Cysticercus cellulosae da Taenia solium e Cysticercus bovis da Taenia saginata) causam a teníase. Na forma de ovo a Taenia saginata desenvolve a cisticercose no bovino e a Taenia solium, no suíno ou no homem. Cabe ainda mencionar que outras espécies do gênero Taenia podem acarretar, ocasionalmente, agravos à saúde humana. É o caso da cenurose (Coenurus cerebralis), forma larvar da Taenia multiceps, do cão, que usualmente provoca cenurose cerebral, em ovinos, mas pode também afetar o cérebro humano; o cisticerco da Taenia ovis, que pode alojar-se na medula espinhal humana, registrada na Rússia, e os cisticercos da Taenia hydatigena e da Taenia taeniformis, encontrados parasitando o tecido hepático humano Morfologia Morfologicamente, T. saginata e T. solium apresentam corpo achatado dorsoventralmente em forma de fita, dividido em escólex ou cabeça, colo ou pescoço e Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 62 estróbilo ou corpo. São de cor branca leitosa com a extremidade anterior bastante afilada de difícil visualização. O escólex é pequena dilatação, medindo em T. solium 0,6 à 1 mm e em T. saginata 1à 2 mm de diâmetro situada na extremidade anterior, funcionando como um órgão de fixação do cestoide à mucosa do intestino delgado humano. Apresenta quatro ventosas formadas de tecido muscular, arredondadas e proeminentes que facilitam a fixação à mucosa do intestino delgado. T. solium possui o escólex globuloso com um rostro situado em posição central, entre as ventosas armado com dupla fileira de acúleos ou ganches 25 à 50, em formato de foice. A T. saginata tem oescólex, sem rostelo e ganchos. O colo é porção mais delgada do corpo na qual as células do parênquima estão em intensa atividade de multiplicação, é a zona de crescimento do parasito onde formam se as proglotes. O restante do corpo do parasito é o estróbilo, onde cada segmento formado denominado de proglote ou anel, pode atingir em número até 1.000, e alcançar 3 metros de comprimento na T. solium, ou mais de 1.000, chegando a até 8 metros na T. saginata. As proglotes são subdivididas em jovens, maduras e grávidas, as últimas apresentam individualidade reprodutiva e alimentar. As jovens são mais curtas do que largas e já apresentam o início do desenvolvimento dos órgãos genitais masculinos que se formam mais rapidamente que os femininos. Este fenômeno é denominado protandria. A proglote madura possui os órgãos reprodutores completos e aptos para a fecundação. As situadas mais distantes do escólex, as proglotes grávidas, são mais compridas do que largas e internamente os órgãos reprodutores vão sofrendo involução enquanto o útero se ramifica cada vez mais, ficando repleto de ovos. A proglote grávida de T. solium é quadrangular, e o útero formado por 12 pares de ramificações do tipo dendrítico, contendo até 80 mil ovos, enquanto a de T. saginata é retangular, apresentando no máximo 26 ramificações uterinas do tipo dicotômico, contendo até 160 mil ovos. Entretanto, apenas 50% dos ovos são maduros e férteis. Essas proglotes sofrem apólise, ou seja, desprendem-se espontaneamente do estróbilo. Em T. solium, são eliminadas passivamente com as fezes de três a seis anéis unidos, enquanto em T. saginata as proglotes se destacam e são eliminadas separadamente entre as evacuações, contaminando a roupa íntima do hospedeiro. Ao microscópio eletrônico de varredura, observam-se no tegumento microvilosidades especializadas, microtríquias, que aumentam a área de contato do parasito como meio exterior. São revestidas externamente por uma camada de glicocálice (constituído de mucopolis- sacarídeos e glicoproteína). O glicocálice, juntamente com outras moléculas, tem papel importante na absorção de nutrientes, na proteção contra enzimas digestivas do hospedeiro e na manutenção da integridade da superfície da membrana do parasito. Essas vilosidades oferecem resistência contra a corrente intestinal e ainda agitam o micro-hábitat vizinho, onde o verme se movimenta remexendo os fluidos intestinais, evitando perda de material nutritivo. Os ovos eliminados são esféricos, morfologicamente indistinguíveis, medindo cerca de 30 mm de diâmetro. São constituídos por uma casca protetora, embrióforo, que é formado por blocos piramidais de quitina unidos entre si por uma substância Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 63 (provavelmente proteica) cementante que lhe confere resistência no ambiente. Internamente, encontra- se o embrião hexacanto ou oncosfera, provido de três pares de ganchos e dupla membrana. O cisticerco da T. solium é constituído de uma vesícula translúcida com líquido claro, contendo invaginado no seu interior um escólex com quatro ventosas, rostelo e colo. O cisticerco da T. saginata apresenta a mesma morfologia, diferindo apenas pela ausência do rostelo. A parede da vesícula dos cisticercos é composta por três membranas: cuticular ou extema, uma celular ou intermediária e uma reticular ou interna. Essas larvas podem chegar a até 12 mm de comprimento após quatro meses de infecção. No sistema nervoso central humano, o cisticerco pode se manter viável por vários anos. Tanto a T. solium como a T. saginata, na fase adulta neprodutiva, vivem no intestino delgado humano; já o cisticerco da T. solium é encontrado nos tecidos subcutâneo, muscular, cardíaco, cerebral e no olho de suínos, e acidentalmente em humanos e cães. O cisticerco da T. saginata é encontrado nos tecidos dos bovinos. Ciclo Biológico O ciclo biológico das tênias implica dois hospedeiros. Os humanos são os hospedeiros definitivos e ambas as espécies de Taenia sp. se alojam no intestino delgado causando a teníase. Os bovinos e suínos, são os hospedeiros intermediários e albergam o estádio larvário desse cestoide. No ciclo natural de T. solium e T. saginata, suínos e bovinos, respectivamente se infectam por meio da ingestão de ovos do parasito. Esses ovos, sofrem ação da enzima pepsina no estomâgo e perdem o embrióforo. No intestino, por ação dos sais biliares, ocorre a ativação do embrião hexacanto ou oncosfera, que uma vez liberado, movimenta- se ativamente em direção às vilosidades intestinais, onde penetra no epitélio, encaminhando-se posteriormente para as vênulas, atingindo as veias e os vasos linfáticos mesentéricos, sendo transportado até outros órgãos e tecidos. A oncosfera evolui para formas metacestódeas pequenas e translúcidas (cisticercos) 24 a 72 horas. O homem, HD, ao ingerir carne crua ou mal cozida de suínos e bovinos infectados com formas metacestodeas viáveis desenvolve a teníase. No estomago essas formas metacestodeas sofrem ação do suco gástrico, evaginando-se e fixando-se pelo rostelo à parede do intestino delgado. Após 5 a 12 semenas, desenvolvem-se em parasitos adultos. As proglotes grávidas são eliminadas íntegras pelas fezes, ou rompem-se no interior do cólon, liberando ovos para exterior. Cisticercose em hospedeiros não humanos Quando os bovinos ou os suínos ingerem os ovos das tênias junto com o pasto ou a água, desenvolvem cisticercos em seus tecidos. Os bovinos normalmente evitam pastar Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 64 ao redor de fezes, mas podem, sob condições adversas, por falta de alimentos ingerirem fezes. Já os suínos, por possuírem hábitos coprofágicos, teriam mais facilidade de adquirir a doença. Nos bovinos, o cisticerco se desenvolve em 60 a 75 dias. Em algumas semanas, ou até 9 meses, os cistos começam a degenerar, morrem e calcificam. Nos suínos, o desenvolvimento completo dos cisticercos se dá em 60 dias após a infecção, permanecendo a larva infectante para o homem durante vários anos. Há fatores que auxiliam a dispersão dos ovos tais como: a contaminação fecal do solo, o transporte através do vento, aves, anelídeos e artrópodes (moscas, besouros, traças, formigas, pulgas e ácaros oribatídeos). Os ovos de todas as tênias são sensíveis à dessecação e à temperatura elevada, podendo permanecer viáveis na pastagem por períodos de, aproximadamente, 4 até 12 meses. Os ovos são resistentes ao tratamento convencional de esgotos, porém o tratamento convencional da água como floculação, sedimentação e filtração é suficiente para eliminar os ovos. Na utilização de fezes como fertilizantes, a maneira mais prática de inviabilizar os ovos de tênia seria pela elevação da temperatura através da compostação aeróbica, que pode atingir temperaturas de pelo menos 65º C por mais de 7 dias. O calor mata os cisticercos, sendo que o C. cellulosae morre a temperaturas de 55ºC, enquanto que o C. bovis morre a 50ºC. Porém, é muito difícil atingir temperaturas muito elevadas no interior de pedaços grossos de carne. A carne submetida a temperaturas um pouco acima de 0ºC não afeta a sobrevivência dos cistos de C. cellulosae. Mas, o congelamento por 4 dias a -5ºC ou 3 dias a -15ºC, ou ainda um dia a -24ºC mata os cisticercos de suínos. O congelamento da carne de suíno ou bovino por mais de 4 dias a temperaturas de -5ºC destrói eficazmente os cisticercos. A salga também torna os cisticercos inviáveis. No destino de carcaças de bovinos abatidos com cisticercose com número pequeno de cistos, recomenda-se que a carne seja tratada por 21 dias com salmoura, que pode ser reduzida para 10 dias quando for mantida temperatura igual ou inferior a 1ºC. A salga destrói os cisticercos contidos na carne de porco em 14 dias quando a mesma é cortada e submersa em salmoura a 25%. Cisticercose humanaNa cisticercose humana, o homem (HI) acidental de T. solium se infecta pela ingestão de ovos viáveis do parasito. Este fato pode ocorrer de três maneiras: (1) por meio da heteroinfecção que consiste na manipulação direta de água ou alimentos contaminados com fezes humanos, ou manipulação indireta através da irrigação /ou fertilização com água e/ou esterco contaminados; (2) por meio da auto-infecção externa que consiste na ingestão de ovos de T. solium pelo próprio portador da teníase, resultado de maus hábitos de higiene; (3) por meio da auto-infecção interna resultante de movimentos antiperistálticos ou de vômitos que permitem o retorno de proglotes ao estômago e ai sofrer ação do suco digestivo, o que permitirá a eclosão dos embriões infectantes. As larvas alcançam a circulação sangüínea e se fixam nos diversos tecidos. Dependendo da invasão tecidual, a cisticercose poderá ser categorizada: disseminada (com localização nas vísceras, pele e músculos), a oftalmocisticercose (nos olhos e órbita), a Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 65 neurocisticercose (no sistema nervoso central) e, finalmente, a forma mista com mais de uma das localizações acima citadas. A neurocisticercose ainda pode ser classificada topograficamente em espinhal e cerebral. Os cistos se localizam mais freqüentemente no sistema nervoso central (60 a 90% dos casos) e o parasita vive entre 18 meses e 2 anos, ou até um período maior. Em 78,6% dos casos de cisticercose, o parasita se encontra no encéfalo (cisticercose cerebral) Sinais e sintomas A teníase é uma infecção menos grave e muitas vezes subclínica. Na maior parte dos casos, o indivíduo somente toma ciência da infecção quando observa a liberação das proglotes, fato este que só é notado muito tempo após a infecção, já que o parasita pode persistir por até 25 anos no intestino delagado. Dentre os sinais e sintomas da teníase, mais frequente são dores abdominais, náuseas, debilidade, perda de peso, flatulência, diarreia frequente e constipação em adultos. A cisticercose humana é uma doença mais grave caracterizada pelo pleomorfismo, sendo que o cisticerco pode se alojar em diversas partes do organismo tais como: sistema nervoso central(neurocisticercose), ocular, na pele, no tecido celular subcutâneo, no fígado dentre outras localizações. A sintomatologia da neurocisticercose é muito variada apresentando crises epilépticas (62%), síndrome de hipertensão intracraniana (38%), meningitecisticercótica(35%), distúrbios psíquicos (11%), forma apoplética ouendarterítica (2,8%) e síndrome medular (0,5%). Os sintomas mais comuns são as convulsões, a cefaléia, os distúrbios psíquicos, a hipertensão intracraniana, entre outros. No sistema ventricular, os cisticercos podem acarretar hipertensão intracraniana secundária à hidrocefalia. Cisticercos no espaço subaracnóideo podem invadir o sulco lateral do hemisfério cerebral e aumentar de volume (cisticercos gigantes), causando hipertensão intracraniana com hemiparesia, crises parciais ou outros sinais neurológicos localizatórios. A cisticercose racemosa nas cisternas basais pode causar intensa reação inflamatória e fibrose e espessamento progressivo das leptomeninges na base do crânio. A cisticercose muscular ou subcutânea em geral é uma forma assintomática. Os cisticercos aí instalados desenvolvem reação local, formando uma membrana adventícia fibrosa. Com a morte do parasito há tendência à calcificação esquelética, podendo provocar dor, fadiga e cãibras (quer estejam calcificados ou não), especialmente quando loca lizados nas pernas, na região lombar e na nuca. A cisticercose cardíaca pode resultar em palpitações e ruídos anormais ou dispneia quando os cisticercos se instalam nas válvulas. A cisticercose das glândulas mamárias é uma forma rara. Clinicamente, pode apresentar-se sob a forma de um nódulo indolor com limites precisos, móvel, ou ainda, como uma tumoração associada a processos inflamatórios prova velmente graças ao estágio degenerativo da larva. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 66 Na cisticercose ocular sabe-se que o cisticerco alcança o bulbo ocular através dos vasos da coroide, instalando-se na retina. A larva se desenvolve aí, provocando o descola mento ou perfuração e alcançando o humor vítreo. As consequências da cisticercose ocular são: reações inflamatórias exsudativas que promoverão opacificação do humor vítreo, sinéquias posteriores da íris, uveítes ou até pantoftalmias. Essas alterações, dependendo da extensão, promovem a perda parcial ou total da visão e, às vezes, até desorganização intraocular e perda do olho. Diagnóstico O diagnóstico da teníase -cisticercose humana tem como base aspectos clínicos, epidemiológicos e laboratoriais. Assim, são de grande importância relatos como procedência do paciente, criação inadequada de suínos, hábitos higiênicos, serviço de saneamento básico, qualidade da água utilizada para beber e irrigar hortaliças, ingestão de crane de porco ou boi mal cozida. Embora o diagnóstico clínico da teniose seja difícil, uma vez que a maioria dos portadores é assintomática, e, mesmo quando os sintomas existem, são semelhantes a outras parasitoses intestinais. O diagnóstico laboratorial é feito pela pesquisa de proglotes e, mais raramente, de ovos de tênia nas fezes pelos métodos rotineiros ou pelo método da fita adesiva. Para o diagnóstico específico, há necessidade de se fazer a tamisação (lavagem em peneira fina) de todo o bolo fecal, recolher as proglotes existentes e identifi- cá-las pela morfologia da ramificação uterina. Os ovos de Taenia spp são esféricos, possuem uma casca espessa, marrom e com estrias radiais. No interior dos ovos encontra-se a oncosfera (embrião hexacanto) com três pares de acúleos ou ganchos. Às vezes os ovos podem estar envoltos por uma membrana fina e hialina. Ao microscópio os ovos das duas tênias são morfologicamente idênticos, portanto, o encontro deles é diagnosticado como ovos de Taenia spp. Para o diagnóstico das espécies de T. solium e T. saginata, as proglotes devem ser comprimidas entre duas lâminas de vidro grosso, após adicionar ácido acético e, examinar com auxílio de lupa para ver as estruturas uterinas. e com 15 a 30 ramos uterinos em cada lado da haste e aspecto dicotômico, é T. saginata. A proglote é mais retangular. Se com 7 a 16 ramificações de cada lado e aspecto dendrítico, é T. solium. A proglote é mais quadrada. Além disso, T. saginata apresenta ventosas como estruturas de fixação, enquanto a T. solium apresenta uma coroa de ganchos, denominada de rostro. Antígenos podem ser detectados na ausência de ovos na matéria fecal. Possui a vantagem de ser identificados independente do seu número embora após o tratamento eficaz, desaparecem em poucos dias. Os coproantígenos são testes com base em ELISA de captura com antissoro policlonais formados tanto contra a larva como contra os produtos excretados- secretados considerado um método simples e sensível. Estudos recentes demonstraram que a reação em cadeia da polimerase (PCR) é o método mais sensível e possibilita o diagnóstico específico das tênias, o que toma sua aplicação promissora. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 67 No diagnóstico laboratorial pesquisa-se o parasito por meio de observações anatomopatológicas de biópsias e excisões cirurgias. O cisticerco pode ser identificado, por exemplo, em exame oftalmoscópico de fundo de olho. O diagnóstico de neurocisticercose é fundamentado em exames de liquor, neuroimagem e detecção de anticorpos no soro. Atualmente, a tomografia computadorizada e o exame do liquor são considerados os melhores para a determinação diagnostica da doença. Na análise do líquidocefalorraquidiano, é possível observar pleocitose. O desenvolvimento de técnicas imunológicas alternativas como imunoenzimáticas (ELISA) e blotting com - coproteínas purificadas (EITB - enzyme- linked immuno- transfer blot) propiciou maior precisão do liquor no estabeleecimento do diagnóstico. Esses testes são considerados de maiores sensibilidade e especificidade. A técnica de ELISA pode ser utilizada em estudos epidemiológicos; individuais e apresenta como vantagens simplicidade, rapidez no diagnóstico, praticidade e baixo custo. O EITB, desenvolvido para detecção de anticorpos séricos específicos para T. solium, emprega extratos antigênicos parcialmente purificados de cisticercos. Exames de imagem sugestivos de neurocisticercose revelam achados lesãoes hipodensas, de contornos bem delimitados com reforço homogêneo e deposição progressiva de sais de cálcio. As vantagens da tomografia e da ressonância magnética são revelar através da imagem os diferentes estágios evolutivos da neurocisticercose, isto é, cisticercos íntegros, em degeneração e mortos. Para o diagnóstico da cisticercose suína utiliza-se o exame de língua in vivo e o exame natomopatológico post-mortem. A palpação da língua, não é muito sensível e pode subestimar a prevalência da cisticercose suína em regiões endêmicas, mas é muito utilizado na prática já que não requer conhecimentos técnicos. A inspeção post mortem das carcaças em abatedouros, consiste da observação do cisticerco nos músculos, a língua, o masseter, os membros posteriores, paleta, intercostais e cérebro, como também em outros órgãos, in- cluindo o coração, o baço e os rins. A incisão nesses locais durante a inspeção da carne permite identificar as formas larvais da Taenia solium, caracterizadas por formações vesiculosas, ovóides e de cor branco-amarelada. Outros testes podem ser utilizados para a detecção desta contaminação como os testes sorológicos para Taenia solium. Tais métodos podem ser altamente específicos e sensíveis podendo auxiliar no diagnóstico de suínos com baixa carga de cisticercos, os quais podem escapar à inspeção da carne. Aspectos terapêuticos Antes do advento dos medicamentos antiparasitários, a cirurgia era o principal recurso terapêutico para neurocisticercose, principalmente a excisão de cisticercos gigantes ou de cistos intraventriculares. O papel do tratamento cirúrgico tem declinado de forma consistente com o passar do tempo, estando, atualmente, restrito à interposição de derivação do liquor na hidrocefalia secundária à neurocisticercose e aos casos isolados de remoção de cistos em topografia intra- ventricular ou no espaço subaracnóideo, quando Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 68 exequível. Cistos gigantes que causam significativo efeito de massa e a cisticercose no canal medular devem ser também tratados preferencialmente mediante remoção cirúrgica. Os fármacos mais recomendados para o tratamento da teniose por T. solium ou T. saginata são a niclosamida e o praziquantel. A niclosamida promove imobilização da taenia, facilitando a sua eliminação com as fezes. Já, o praziquantel e albendazol têm sido considerados eficazes na terapêutica etiológica da neurocisticercose. A maioria dos estudos comparativos tem mostrado que albendazol é mais eficaz que praziquantel na redução do número de neurocisiticercos, com menor frequência de reações adversas, além propiciar melhor evolução clínica. A maioria dos pacientes com neurocisticercose apresenta crises epilépticas, e a administraçãoo de medicamentos antipilépticos de primeira linha como fenitoína e carbamazepina resulta, habitualmente, em controle adequado dessas crises. A duração total desse tratamento, contudo, não está estabelecida, devendo ser analisada individual mente, mas tem sido sugerido que deva ser prolongada até o desaparecimento das lesões ativas nos exames de neuroimagem. Como a inflamação é uma manifestação comum nas várias formas clínicas da neurocisticercose, os corticosteroides têm papel fundamental no tratamento sintomático na meningite, na encefalite cisticercótica e na angiíte. Atualmente, pesquisas tem explorado a calreticulina de T. solium, uma proteína ligadora de cálcio que se localiza preferencialmente no rostelo e nas ventosas, como uma potencial vacina oral para aumentar a resposta da mucosa intestinal local a chegada de uma tênia. Em suínos, o tratamento dá-se com Oxfendazol (OFZ) administrado em dose única a 30 mg/k. Este medicamento tem ação direta sobre os cistos presentes nos músculos do porco. Embora, alguns cistos podem sobreviver no cérebro do animal. A principal desvantagem do uso da OFZ como medida de controle é o atraso entre a terapia medicamentosa e o desaparecimento completo dos remanescentes do cisto (leva 3 meses para a carne de porco parecer completamente limpa). No dia 18 de outubro de 2021 a OPAS disponibilizou novas diretrizes relacionadas ao tratamento da Teniase (T. solium) e da neurocisticercose, as quais estão disponíveis online. Três medicamentos em potencial — niclosamida, praziquantel e albendazol — foram considerados para uso na quimioterapia preventiva em programas de controle da teníase por Taenia solium por meio da administração em massa de medicamentos ou quimioterapia direcionada. pTsol-9 y pTsag-16, As técnicas de imunodiagnóstico incluem a detecção de antígenos circulantes do parásito e de anti-cisticerco tanto em suero como líquido cefalo-céfalo (LCR) que resulta em grande utilidade para a identificação de cisticercose. m 1989, Harrison et al., deseñaron um sistema de imunodiagnóstico por captura de uso de anticuerpo monoclonal (HP10), que reconhece não glucídico Repetidor, Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 69 presente em proteínas secretadas por los cisticercos de T. saginata y otros ténidos. A prueba tem sido utilizada tanto em sucesso como em LCR com bons resultados No mismo año Brandt et al., desarrollan um método de captura de antígenos com dos anticuerpos monoclonales 12G5 e 2H8, este ensayo mais boa correlação com TAC y biopsias (Erhart et al., 2002), permitindo fazer o diagnóstico de cisticercose ativa y a avaliação do tratamento (Nguekam et al., 2003). Nas últimas décadas, foram realizados experimentos para caracterizar antígenos que podem melhorar a especificidade dos ensaios e usar estes métodos purificados no imunodiagnóstico da doença. Uno de los antigénios melhores caracterizados del T. solium es el antigénio B (AgB). Estudios moleculares demostraron que AgB corresponde a uma miosina, uma proteína para músculo do ténido. Las glicoproteínas señaladas como antígenos são específicos, a respeito de Tsang et al. (1989) lograron purificador por cromatografia de afinidad com lectina de lenteja, siete glicoproteínas (GP13, GP14, GP18, GP21, GP24, GP39-42, GP50) de metacestodes de T. solium, que exibem um 98% de sensibilidade e 100% de especificidade no diagnóstico de cisticercose, empleándolas na técnica de EITB. O resultado foi reconhecido pela Organização Panamericana da Saúde (OPS) como o método imunológico de seleção para o imunodiagnóstico de neurocisticercose (Greene et al., 2000). Aunque se han realizado múltiples estudios sobre antígenos específicos para diagnóstico da doença enferma que a purificação de material parasitário requer, además de equipamentos e técnicas laboriosas de equipamentos, por isso tem recurrido para a tecnologia recombinante para a clonagem de ADN de las diferenças de interés diagnósticos. A utilização de antígenos recombinantes, ou péptidos, resultados de suscetibilidades, obtidos a partir de genes de outras doenças, podem dissolver as limitações atuais, diagnóstico sorológico da enfermedad (Greene et al., 2000). Assim, a clonagem e a expressão da paramiosina, e os fragmentos truncados de esta, permitiram estudar o valor diagnósticoda falha e da região cual da proteína que dirige a resposta imune do hospedador. Varios estudios demuestran que los anticuerpos reacionan principalmente con el extremo carboxilo-terminal de la molécula (Vazquez-Talavera et al., 2001; Ferrer et al., 2003b) Chung et al., em 1999, caracterizando uma genoteca de expressão de metacestódeos de T. solium, um gene que expressa um antígeno de 10 kDa (CyDA). O antígeno recombinante mostrou uma sensibilidade de 97% e especificidade de 98% no imunodiagnóstico da neurocisticercose ativa, afetando os pacientes crónicos à sensibilidade descendente de 14%. Outros autores (Hubert et al., 1999) aíslaron dos clones, NC-3 e NC-9, de uma genoteca de expressão de metacestódeos de T. solium mediante cribado com mezcla de sueros de pacientes com cisticercose. NC-3 e NC9 codificam proteínas de 8 e 13 kDa respectivamente. Estas proteínas expressas são usadas em ELISA para o diagnóstico de pacientes com cisticercose, NC-3 apresentou uma sensibilidade de 96,3% e 91,5% de especificidade, enquanto NC-9 apresentou uma Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 70 sensibilidade de apenas 33,3%. Posteriormente, Greene et al. (2000) clonaron, enuna genoteca de expresión de genotodes de T. so, dos genes que expresan las glicoproteinas de 14 k (TS14) e 18 k da proteina (TS18), meta anteriormente por Tsang et al. (1989). Ao longo da avaliação sorológica de dicos antígenos, observa-se que eran reconhecimentos dos pacientes com cistos relacionados. Em outro trabalho, Sako et al. (2000) aislaron de una genoteca de expresión de metacestodes de T. solium, mediante imunocriação, quatro genes muito semelhantes entre si, Ag1, Ag1V1, Ag2 e Ag2V1. Os genes Di, expressando a proibição de 17 peso molecular de baixo peso molecular, entre os quais foram testados e avaliados foram mais reativos, eran Ag1V1y e a construção de uma una quimera de sensibilidade para encontrar a ISA, apreciou o uso 89,7% e uma especificidade de 100%. Recentemente, em outro trabalho, foi clonado um gen de metacestodes de T. solium, F18, cuyo produto expresso tem mostrado grande utilidade no diagnóstico da enfermedad (Montero et al., 2003b). Em 2004 se clonou o gene correspondente à glicoproteína de 50 kDa (descrita por Tsang em 1989) no sistema Baculovirus. A proteína expressa é mais eficaz no diagnóstico de cisticercose (Hanckok et al., 2004). Recentemente clonado um gen de choque térmico de baixo peso molecular, cuyo antígeno foi ativado no recombinante expresso em 83,9% de sensibilidade diagnóstica de NCC e 71% em NCC inativado, exibindo uma dicho antígeno com uma especificidade de 88,5% (Ferrer et al., 2005a). Péptidos sintéticos A utilização de sintéticos sintéticos obtém os anticorpos seguros previamente formulados para purificação dos reagentes recombinantes e a capacidade de garantir a reprodutibilidade dos ensaios. Por ello, últimamente se han realizado diversos trabalhos neste sentido. Gevorkian et ai. (1996) descreveu a utilização de três péptidos sintéticos, GK1, GK2 e GK3, resultados da secuencia do clone KETc7, gen obtido do cribado de uma genoteca de expressão de metacestodes de T. crassiceps (Manoutcharian et al., 1996); dichos péptidos fueron avaliados com sueros de pacientes com cisticercose, y unque la sensibilidad no fue muy alta, si se apreció cierta respuesta humoral frente a los péptidos. Posteriormente, reportou-se a utilização de outros anteriormente péptidos sintéticos (KETc1, KETc12, KETc410 e KETc413) projetados a partir das sequências de ADNc de los clones KETc1, KETc4 e KETc12 também incluídos no cribado da genoteca mencionada (Manoutcharian et al., 1996) e se propõe a um sistema de diagnóstico baseado na utilização combinada dos péptidos citados (Hernández et al., 2000). Em um estudo sobre glicoproteínas através de metacestodes de T. solium, se prepara os péptidos sintéticos com a secuência aminoacídica completa das glicoproteínas TS14 (sTS14) e TS18 (sTS18) e é avaliada no diagnóstico de cisticercose, FASTELISA, reconhecendo sTS14 por el 53 % de los sueros de pacientes com cisticercose, Prevenção Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 71 A aplicação de medidas para o controle da teníase/cisticercose depende das características epidemiológicas da enfermidade na região, incluindo condições econômicas, sociais e culturais. A estraté- gia fundamental consiste em interromper o ciclo evolutivo do parasita, a fim de evitar a infecção nos animais e na população humana As estratégias consistem, fundamentalmente, em: melhoramento das condições de saneamento do meio ambiente; tratamento de toda a população; melhoramento da criação de animais (evitar o acesso de animais a fezes humanas); evitar consumo de carnes cruas ou mal cozidas; incrementar a inspeção veterinária de produtos cárneos; evitar o abate e comércio de produtos clandestinos; educação em saúde enfatizando a adoção de hábitos de higiene, garantir a esterilização parasitária das águas residuais na saída dos efluentes nas áreas urbanas e o uso de fossas nas áreas rurais. Além desses, orienta-se uma atenção redobrada aos pecuaristas na utilização de fezes como fertilizantes. A maneira mais prática de inviabilizar os ovos de tênia seria pela elevação da temperatura através da compostação aeróbica, que pode atingir temperaturas de pelo menos 65° C por mais de 7 dias. Pessoas que gostam de consumir carnes mal cozidas, orienta-se o congelamento da carne de suína ou bovina por mais de 4 dias a temperaturas de -5°C destrói eficazmente os cisticercos. A salga também torna os cisticercos inviáveis. No destino de carcaças de bovinos abatidos com cisticercose com número pequeno de cistos, recomenda-se que a carne seja tratada por 21 dias com salmoura à 25%. Referências Neves, D. P., Melo, A.L., Linardi, P.M., Vitor, R.W.A. Parasitologia Humana, 13 ed. Editora Atheneu, 2016. Pág. 265 Monteiro, S.G. Parasitologia na Medicina Veterinária. 2 ed. Editora Roca, 2017. Garcia, H. H., Rodriguez, S., Friedland, J. S.Immunology of Taenia solium taeniasis and human cysticercosis. Parasite Immunology, 36(8), 388–396, 2014. doi:10.1111/pim.12126 García, H. H., González, A. E., Del Brutto, O. H., Tsang, V. C. W., Llanos-Zavalaga, F., Gonzalvez, G., … Gilman, R. H. Strategies for the elimination of taeniasis/cysticercosis. Journal of the Neurological Sciences, 262(1-2), 153–157, 2007. doi:10.1016/j.jns.2007.06.039 Aguia, F.O., Leite C.M., Dias L.A., D’Avila, V. Agra, P.C., Costa, L., Mascarenhas, M. Aspectos laboratoriais ao diagnóstico da neurocisticercose: uma revisão bibliográfica. Ciência em Movimento - Reabilitação e Saúde, n. 43, v. 22, 2020. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 72 ANCILOSTOMOSE Introdução Os ancilostomídeos são parasitas intestinais que causam as doenças ancilostomíase e necatoriase em animais e seres humanos. A ancilostomíase é ocasionada pela espécie Ancylostoma duodenale, enquanto a necatoríase, é causada pela espécie Necator americanus. Acredita-se que cerca de 700 mil pessoas foram infectadas ao redor do mundo por ancilostomídeos e existam mais de 100 espécies descritas, embora três são agentes etiológicos das ancilostomoses humanas: Ancylostoma duodenale, Necator americanus e Ancylostoma ceylanicum, sendo este último menos comum em humanos. Os ancilostomídeos possuem duas fases de desenvolvimento: a de vida livre (meio exterior) e a de vida parasitária (hospedeiro definitivo). Essas doenças são transmitidas através da penetração ativa de larvas de ancilostomídeos através da pele. Ao chegar no intestino delgado a larva começa a exercer parasitismo hematófago, fixando a cápsula bucal na mucosa do duodeno, o que leva ao aparecimento de alguns sinais e sintomas, como irritação na pele, diarreia e dor abdominal,além anemia. Conhecer aspectos da epidemiologia, sinais clínicos, conduta terapêutica e formas de controle e profilaxia referentes a ancilostomíase é essencial diante dos seus efeitos deletérios à saúde humana e animal. A seguir serão abordados aspectos sobre epidemiologia, ciclo biológico do protozoário, sinais clínicos, e subsídios ao diagnóstico e terapêutica da enfermidade. Histórico Evidências paleoparasitológicas sugerem que a ancilostomose humana já esteja presente no continente americano há 7.200 anos. A primeira descoberta sobre o ancilóstomo é atri- buída a Goeze, que em 1783, estudou um nemátodo parasita do texugo a quem deu o nome de Ascaris criniformis. Em seguida Fraelicht, em 1789, estudou uma espécie parasitando uma raposa, que chamou Uncinaria vulpis. Depois, em 1843 veio o trabalho de Agelo Dubini, que 5 anos antes havia descoberto um verme nemátodo, no intestino duma mulher falecida no Hospital de Milão, que chamou Aglcilostoma duodenale. Até 1846 esta descoberta não despertou atenção, senão quando Pruner, Siebold, Bilharz e Griessinger descobriram relações entre o verme de Dubini e a anemia ou clorose do Egipto. Até estes últimos anos pensava-se que todos os ancilóstomos pertenciam a única espécie — Ancilostomum duodenale. Em 1902, Stilles revolucionou a questão dos para- sitas humanos com sua descoberta que denominou— Uncinaria americana — e que mais tarde foi reconhecida como novo género. Entretanto é necessário registar que Lutz nos seus notáveis estudos feitos em S. Paulo, sobre a ancilostomíase, havia assinalado que os vermes eliminados pelo timol eram desprovidos de dentes, mas foi Stilles que estabeleceu os caracteres diferenciais entre a nova espécie e a do Antigo Continente. Loos, em 1905, estudando os vermes intestinais nos habitantes da África Central, recolheu espécimens de Necator americanus. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 73 Até então centenas de espécies de ancilostomídeos já foram descobertas e relatadas. Estudos apontam que a dispersão em escala global deveu-se muito a migração de pessoas e as estreitas interações antropozononoticas. No Brasil, nos anos 1600 após a descoberta pelos portugueses, as condições sanitárias eram precárias. Em uma das suas obras o escritor Monteiro Lobato relatou que um dos seus personagens , o Jeca Tatu, apresentava os sintomas da ancilostomíase referida tipicamente pelo cansaço extremo e pelo “amarelão”. Desde então todos os países tem considerado estratégias a fim de erradicar ou pelo menos diminuir o número de casos. Classificação Taxonômica A família Ancylostomatidae apresenta diversas espécies de nematódeos hematófagos de grande importância médica cujo parasitismo pelo verme adulto causa a ancilostomose. Os ancilostomídeos pertencem ao Reino Metazoa, Filo Nematoda, Classe Secernentea, Ordem Strongylidea, Família Ancylostomatidae. Esta se divide em duas subfamílias: Bunostominae, cujas espécies apresentam placas cortantes na cápsula bucal, e Ancylostomatinae, que apresentam dentes na cápsula bucal. Das centenas de espécies pertencentes à esta família, arenas três são agentes etiológicos da ancilostomose humana: Ancylostoma duodenale (Dubini, 1843), Necator ameericanus (Stiles, 1902) (originalmente descrito como Uncinaria americana) e A. ceylanicum (Loss, 1911). Epidemiologia e transmissão A ancilostomíase é considerada uma das infecções parasitárias crônicas de maior prevalência no mundo. O número mundial de casos foi recentemente estimado em 740 milhões de pessoas infectadas, principalmente residentes em regiões rurais tropicais e subtropicais principalmente nas regiões da África Sub- Saariana, Sudeste da Ásia, China, Brasil e América Central. No Brasil, mais de 80% das infecções ocorrem pelo N. americanus. A prevalência e intensidade de infecção por A. lumbricoides comumente atinge crianças de 5 a 14 anos, enquanto o nível máximo da infecção por ancilostomídeos ocorre em adultos com mais de 20 anos. A prevalência dessas parasitoses está associada também ao crescimento acelerado dos centros urbanos, levando ao estabelecimento de comunidades marginais em grandes aglomerados humanos em áreas periféricas, geralmente desprovidas de infraestrutura sanitária mínima, criando condições para transmissão destas. Morfologia Os ancilostomídeos (do grego ankylos = curvo e tomma = boca) são caracterizados por apresentarem cápsula bucal bem desenvolvido. São distinguidos pela extremidade cefálica curvada dorsalmente e presença de cápsula bucal quitinizada, providas de dentes ou lâminas cortantes que são utilizadas para fixação na mucosa intestinal do hospedeiro. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 74 Além disso, possuem dimorfismo sexual evidente sendo a fêmea maior do que o macho e pela presença de bolsa copuladora (projeção da cutícula na região posterior) bem desenvolvida nos machos. Na espécie Necator americanus, os vermes adultos apresentam forma cilíndrica e cápsula bucal contendo duas lâminas ou placas cortantes semilunares subventrais e duas lâminas cortantes subdorsais. Os machos, medem de 5 a 9 mm de comprimento por 300 um de largura e possuem bolsa copuladora bem desenvolvida com dois espículos longos mas sem gubemáculo (presentes nas espécies de Ancylostomatinae). Já as fêmeas, medem de 9 à 11 mm de comprimento por 350 um de largura e apresentam a extremidade anterior afilada, sem a presença de processo espiniforme (presente em Ancylostomatinae). A espécie Ancylostoma duodenale, os vermes adultos apresentam dois pares de dentes centrais na margem interna da boca e duas lancetas subcentrais no fundo da boca. Os machos medem 8 à 11 mm de comprimento por 400 um de largura, com bolsa copuladora bem desenvolvida apresentando dois espículos longos e gobemáculo bem evidente. As fêmeas, por sua vez, medem 10 à 18 mm de comprimento por 600 um de largura, vulva no terço posterior do corpo, cauda afilada com pequeno processo espiniforme terminal. Enquanto o Ancylostoma ceylanicum possui morfologia e tamanho semelhantes ao A. duodenale mas com presença de dois pares de dentes na cápsula bucal. Cada par é formado por um dente grande e um dentículo. As demais espécies que parasitam animais são muito semelhantes morfologicamente, necessitando grande perícia na identificação, que é feita principalmente pelo tamanho, disposição e quantidade de dentes presentes na cápsula bucal. As larvas possuem quatro estágios até atingir a fase adulta. As larvas de primeiro estágio, tem aproximadamente 250–300 μm de comprimento com cauda delgada, possui cavidade bucal alongada e esôfago com bulbo. A larva rabditóide se alimenta de bactérias e após dois dias sofre muda transformando-se em larva de segundo estádio, que possui 400–430 μm de comprimento, mas com morfologia similar a larva de primeiro estádio. A larva de segundo estádio se torna letárgica e o desenvolvimento prossegue para o terceiro e infectivo estádio. No esôfago,a larva de terceiro estágio perde o bulbo com válvula e a cauda se torna relativamente curta e romba. Esta retém a cutícula do segundo estádio, e é conhecida como larva filarióide. Diferentemente dos dois primeiros estádios, a larva de terceiro estádio não se alimenta e sua sobrevivência depende dos nutrientes estocados em seus tecidos. As larvas são ativas, com 500–700 μm de comprimento, e resistentes às condições adversas ambientais. No pulmão, as larvas de terceiro estádio penetram nos alvéolos e se desenvolvem em larvas de quarto estádio. O desenvolvimento continua e a larva é carreada, por movimentos ciliares e por muco, para a traquéia; as larvas eventualmente deglutidas alcançam, posteriormente, o intestino. As larvas de quarto estádio, ao chegar no intestino, adquirem uma cápsula bucal provisória que permitem se fixar em sua parede. Durante o desenvolvimentodo quarto estádio, a cápsula bucal do adulto se forma posterior e Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 75 lateralmente a cápsula bucal provisória, enquanto a cutícula é liberada na muda final. Os vermes alcançam o estádio adulto entre duas a sete semanas, dependendo da espécie. Os ovos são elipsóide de casca fina e transparente, de forma ovóide com massa embrionária no interior que se fragmenta formando uma mórula e posteriormente uma larva, ocorrendo redução do espaço claro entre a casca e a massa a medida que a larva se desenvolve. Os ovos podem ser encontrados em diferentes fases de desenvolvimento e medem 50–80 μm. Ciclo Biológico O ciclo de vida do ancilóstomo tem início com a passagem dos ovos de um hospedeiro adulto para as fezes. Ovos de ancilóstomos, em condições adequadas de umidade e temperatura (23–33C), eclodem no solo e liberam as larvas rabditiformes (larvas de primeiro estágio, L1) que evoluem para larvas filariformes (larvas de segundo estágio, L2) infecciosas. A infecção é transmitida pela penetração da larva na pele humana; apenas três larvas são suficientes para produzir infecção. Em poucas horas as larvas (larvas de terceiro estágio, L3) entram no tecido subcutâneo, invadem os capilares linfáticos e são carreadas para a região dos nódulos linfáticos, o canal principal do ducto torácico, na circulação geral, e então seguem para o coração e pulmão. Aproximadamente 8 a 21 dias após a infecção, as larvas penetram nos alvéolos pulmonares, sobem à árvore brônquica até a faringe e são engolidas. Além da penetração larval percutânea (o principal modo de transmissão), a infecção por A. duodenale também pode ser transmitida por via oral. No intestino delgado, as larvas (larvas de quarto estágio, L4) se tornam vermes adultos e fixam-se à parede intestinal com a consequente perda de sangue. As larvas podem persistir dentro dos tecidos antes de retornar ao intestino, com uma demora maior na postura dos ovos. Após a fertilização por vermes machos adultos, as fêmeas grávidas põem ovos dentro do intestino. Os ovos podem ser detectáveis nas fezes aproximadamente de seis a oito semanas após a infecção por N. americanus. A maioria dos vermes adultos são eliminados entre um a dois anos, embora a infecção possa persistir por vários anos. Patogenia A morbidade da infecção está diretamente associada à perda de sangue no trato gastrointestinal do hospedeiro, resultante da espoliação sanguínea por vermes adultos e larvas de quarto estádio. Assim, a doença decorrente da infecção é atribuída à perda crônica de sangue, o que leva à anemia ferropriva e hipoproteinemia. As pesquisas sobre mecanismos patogênicos, utilizando rádio-isótopos para marcar as hemácias, permitiram seguir o destino destas no organismo. Assim, foi possível medir precisamente as perdas sangüíneas causadas pelos vermes, segundo a espécie e o número de helmintos albergados. Tornou-se mais clara a relação entre a espoliação sangüínea e a absorção de ferro, na produção da anemia, com o que pôde-se compreender Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 76 a razão de existirem na mesma área endêmica casos de parasitismo sem anemia e casos de anemia sem parasitismo; ou porque a anemia pode ser desencadeada por cargas parasitárias tão diferentes. A hipoproteinemia é outro sinal clínico da doença, causando edemas e, em alguns casos, atrofia da mucosa intestinal, com redução e achatamento das vilosidades e diminuição da capacidade de absorção intestinal. Essa hipoproteinemia parece resultar das perdas intestinais, da ingestão insuficiente de proteínas na dieta (a anorexia podendo contribuir para isso), e da capacidade reduzida de síntese protéica pelo fígado, afetado pela anóxia resultante da anemia. As maiores lacunas no conhecimento sobre a ancilostomíase humana estão no setor imunológico. Não se tem, sequer, provas de que a infecção seja capaz de induzir o hospedeiro a produzir anticorpos protetores. Suspeita-se que deva existir alguma proteção, ainda que fraca. Estudos demonstraram alterações significativas na reatividade celular e secreção de citocinas e quimiocinas durante o período pré-patente e migração larval, possivelmente para permitir a sobrevivência no trato intestinal, minimizando o processo inflamatório. Durante a migração das larvas, há queda dos níveis de TNF-α e IFN-γ acompanhados por decréscimo de IL-10 e aumento de CCL17 e IL-13 ao chegar ao intestino. As concentrações de TNF-α e IFN-γ diminuem ocorrendo aumento de IL-10, juntamente com a diminuição da reatividade celular ocorre quando o parasito chega ao intestino, demonstrando claramente a importância de se minimizar a inflamação e a resposta do tipo Th2. Durante o estabelecimento do parasitismo, diversas moléculas liberadas pelo parasito são responsáveis pela modulação da resposta imune, culminando na apoptose de linfócitos T e B, proliferação e atividade específica de células T reguladoras, anergia de linfócitos T e redução da apresentação de antígenos por células dendríticas. Além disso, algumas proteases produzidas pelo parasito atuam na clivagem de quimiocinas e anticorpos, reduzindo a proteção mesmo diante de uma resposta imunológica previamente formada. De forma geral, a infecção por ancilostomatídeos reduz a capacidade do hospedeiro em montar uma resposta imune eficiente para eliminar o parasito. Existem vários relatos na literatura que o parasito sobrevive nos hospedeiros por vários anos mesmo frente a uma resposta imune protetora sugerindo a ocorrência de evasão da resposta imune. As primeiras evidências que demonstraram a evasão da resposta imune pelo parasito vieram da observação de que indivíduos infectados por ancilostomídeos apresentam uma redução da resposta proliferativa de linfócitos frente a antígenos do parasito. Finalmente, a modulação da resposta imune do hospedeiro pelo parasito poderia também ser mediada por outros mecanismos recentemente demonstrados para outras infecções helmínticas, como, por exemplo, pelo mecanismo de macrófagos ativados alternativamente pela regulação por histamina, regulação de receptores do tipo Toll, e por células T reguladoras. Sinais e sintomas Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 77 As manifestações clínicas mais importante implicam e estão correlacionadas com as quatro fases da infecção por ancilóstomo: Penetração dérmica pela larva, passagem transpulmonar, sistomas gatrointestinais agudos e disfunção nutricional crônica. A penetração na pele geralmente produz uma erupção maculopapular focal e pruriginosa no local da penetração larval (denominada popularmente de "coceira no solo"). De maneira menos frequentemente, podem ser vistos rastros serpiginosos de migração larval intracutânea; isto é semelhante à larva migrans cutânea, que é tipicamente causada pelas larvas infectantes dos ancilóstomos animais. A coceira no solo geralmente ocorre entre os dedos e podem desaparece em poucos dias. A passagem transpulmonar é geralmente assintomática. Uma leve tosse e irritação faríngea podem ocorrer durante a migração larval nas vias aéreas, embora sejam raros infiltrados pulmonares eosinofílicos (como aqueles observados no contexto de envolvimento pulmonar de Ascaris). Sintomas pulmonares atribuíveis à ancilostomose não foram observados em indivíduos voluntários experimentalmente infectados. Além disso, o lavado broncoalveolar nesses indivíduos demonstrou apenas eritema da mucosa brônquica sem proeminência de eosinofilia nos líquidos de lavagem. Os pacientes podem apresentar sintomas gastrointestinais no momento de migração larval para o intestino delgado. Náuseas, vômitos, diarréia, dor epigástrica e flatulência aumentada foram sintomas observados em indivíduos com infecções naturalmente adquiridas. Infecções iniciaispodem estar associadas com sintomas gastrointestinais com maior frequência do que infecções subsequentes. Em indivíduos com infecções em regiões endêmicas, infecções por ancilóstomos podem causar sangramento gastrointestinal evidente. Os sintomas gastrointestinais melhoram após o tratamento da infecção por ancilóstomo. O principal impacto da infecção por ancilóstomo está no estado nutricional. Isto é particularmente importante em áreas endêmicas onde crianças e mulheres grávidas podem ter acesso limitado à nutrição adequada. Estudos mostram que a infecção por ancilostomídeos maternos está associada ao baixo peso ao nascer. Ancilostomídeos causam perda de sangue durante sua fixação na mucosa intestinal, lacerando os capilares e ingerindo sangue extravasado. Este processo é facilitado pela produção de peptídeos anticoagulantes que inibem o fator X ativado e o complexo fatorVIIa / fator tecidual e inibem a ativação plaquetária. Um verme de N. americanus e A. duodenale consomem cerca de 0,3 mL e 0,5 mL de sangue por dia, respectivamente. As perdas diárias de sangue, ferro e albumina podem levar a anemia ferropriva, hipoalbuminemia e contribuir para uma nutrição prejudicada, especialmente em pacientes com infecção grave. Diagnóstico Dentro da avaliação clínica existem algumas pistas para a presença de infecção por ancilóstomo, essas incluem as manifestações clínicas descritas acima, juntamente com uma anamnese com relato de exposição da pele ao solo contaminado e/ou eosinofilia sanguínea inexplicada. O diagnóstico diferencial para determinar a infecção por N. americanus ou Ancylostoma sp. pode ser realizado pela coprocultura (método de Harada e Mori). Algumas características morfológicas permitem também a diferenciação entre larvas de Ancylostomatidae e de Strongyloides stercoralis. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 78 O exame de fezes para os ovos de N. americanus, A. duodenale ou A. ceylanicum é útil para a detecção de infecção clinicamente significativa por ancilóstomo. A excreção fecal de ovos torna-se detectável aproximadamente em oito semanas após a penetração dérmica da infecção por N. americanus e até 38 semanas após a penetração dérmica de A. duodenale. O exame de fezes não é útil antes do acometimento estabelecido da doença no trato intestinal, inclusive durante os estágios iniciais do envolvimento dérmico, pulmonar ou intestinal. O método padrão-ouro de diagnóstico é a técnica de Kato Katz, possui alta sensibilidade e permite resultados qualitativos e quantitativos. Outras técnicas utilizadas incluem a técnica simples de flotação com nitrato de sódio (FNS), FLOTAC, Mini- FLOTAC. Métodos microscópicos de exame de fezes para detecção de infecção por ancilóstomo são relativamente pouco sensíveis, portanto exames seriados podem ser necessários A reação em cadeia da polimerase (PCR) (incluindo ensaios de multiplex PCR, que podem simultaneamente detectar ancilóstomo, Ascaris lumbricoides e Trichuris trichiura). tem sensibilidade superior em comparação com a microscopia, mas tem uma acessibilidade comercial limitada e não diferencia infecção presente de uma passada. Além disso, um ensaio PCR de fezes humanas pode detectar especificamente A. ceylanicum, mas não é capaz de distinguir os ovos de N. americanus e A. duodenale do ponto de vista morfologico. Por fim, métodos imunológicos (ELISA, hemaglutinação, rea ção de fixação de complemento etc.) apresentam eficácia diagnostica limitada uma vez que não diferenciam infecção presente de passada. O diagnóstico diferencial da ancilostomíase depende do estágio da infecção. No estágio de penetração dérmica as manifestações cutâneas da infecção por ancilóstomo podem assemelhar-se a larva migrans cutânea (Ancylostoma braziliense ou Ancylostoma caninum). O ancilóstomo causa lesões cutâneas focais no local da penetração dérmica larval. Em casos raros, pode haver a migração de larvas que induz uma trilha migratória serpiginosa. Entretanto, as larvas que causam larva migrans cutânea provocam lesões serpiginosas migratórias mais extensas, que duram mais do que alguns dias e podem aparecer de semanas a meses após a exposição. No estágio de passagem transpulmonar, manifestações pulmonares devido à infecção por ancilóstomo podem assemelhar-se à infecção pulmonar causada por A. lumbricoides ou Strongyloides. Coprocultura (método de Harada e Mori) pode diferenciar o tipo de infecção entre larvas de Ancylostoma e Strongyloides Stercorallis. Em alguns casos, o exame do escarro pode demonstrar larvas e detectar presença de eosinófilos e cristais de Charcot- Leyden além de infiltrados inflamatórios ou caso contrário, a microscopia das fezes pode ser realizada, embora os ovos fecais de Ascaris não possam ser detectados até três a quatro semanas após a infecção. A fase de sintomas gastrointestinais agudos, pelo fato das infecções por ancilóstomo serem inespecíficas, pode ser difícil de se diferenciar de outras causas de dor abdominal e de flatulência. Em geral, a anemia por deficiência de ferro está mais fortemente associada à infecção por ancilóstomo. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 79 Aspectos terapêuticos O tratamento anti-helmíntico para infecção por ancilóstomo consiste em albendazol (400 mg dose única com o estômago vazio). Mebendazol é uma terapia alternativa aceitável; 100 mg duas vezes ao dia por três dias é mais eficaz que uma dose única de 500 mg. Além disso, a suplementação de ferro pode levar à restauração de um nível normal de hemoglobina em indivíduos com infecção por ancilóstomo. O Disofenol é um fármaco utilizado na medicina veterinária para o tratamento de ancilostomídeos e pode ser administrado de forma oral ou parenteral e é utilizado principalmente para o controle de nematódeos como o Ancylostoma spp. Logo após sua aplicação, o medicamento é absorvido rapidamente no intestino delgado e a sua meia vida plasmática dura de 7 a 14 dias nos cães. Atualmente, a preocupação de possível resistência a fármacos anti-helmínticos, observado para infecções em ruminantes por nematódeos e a falta (ou disponibilidade limitada) de novos agentes anti-helmínticos resulta na busca de novas ferramentas complementares para o controle da infecção, como o desenvolvimento de vacinas. A viabilidade da vacinal contra ancilostomose foi demonstrada nos anos 1940 a partir da proteção parcial após a administração de antígenos brutos do parasito e, nos anos 1970, com a utilização de uma vacina de L3 irradiada, que chegou ao mercado voltada par; o controle da ancilostomose canina. Apesar dos altos níveis de proteção contra a doença, a vacina foi descontinuada pelo alto custo de proteção, complexa estocagem e distribuição. Proteínas recombinantes de L3 (com o intuito de reduzir a infecção humana) e de vermes adultos (reduzindo o processo de hematofagia e consequente eliminação do parasito e morbidade associada à infecção) têm sido estudados. No entanto, o estudo de um dos principais candidatos à vacina, um antígeno de L3 de N. americanus denominado Na-ASP-2, apesar de apresentar alta eficácia em modelos experimentais, foi paralisado devido aos resultados obtidos em ensaios clínicos no Brasil, onde indivíduos negativos mas previamente infectados (com altos títulos de IgE antes da vacinação) apresentaram reações adversas observadas por urticária generalizada imediata mente após a vacinação. Prevenção As medidas preventivas são importantes na saúde do indivíduo e consistem em cuidados de higiene, incluindo beber água potável, limpar e cozinhar adequadamente os alimentos, lavar as mãos e usar sapatos, evitar contato direto da pele com areia de praia potencialmente infestada ou outro tipo de solo onde cachorros ou gatos defecaram e tratar cães e gatos contra ancilostomídeos. Programas de vermifugação escolares podemser particularmente eficientes para reduzir a transmissão de ancilostomatídeos pela alta intensidade de infecção em indivíduos adultos. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 80 Uma das alternativas para o controle de ancilostomídeos é o controle biológico, o qual pode ser realizado através da administração de fungos nematófagos, os quais competem com o ancilostomídeos e são predadores de nemaelmintos, crescendo no seu interior e destruindo suas estruturas internas. O estudo de extratos de plantas com atividade parasiticida também é uma das opções de perspectivas terapêuticas antiparasitárias emergentes. De forma semelhante, são as preparações probióticas, que quando ingeridas em concentraces adequadas, modulam a imunidade das mucosas ou do trato gastrointestinal. Vários estudos tem demonstrado que os probióticos não apenas reestruturam a flora, mas também amenizam os sintomas como diarréia, indigestibilidade e melhoram a absorção de nutrientes no intestino, amenizam os efeitos tóxicos dos antiparasitários. (TESE USP, MATHEUS COELHO) Considerações finais Cinco conclusões principais podem ser enfatizadas de uma perspectiva geral: • As fontes de infecção da fasciolíase humana incluem alimentos, água e a combinação de ambos; • As diversas fontes de infecção humana desenham um quadro complexo que fala sobre a grande capacidade de Fasciola para tirar proveito de diferentes formas de transmissão e mostra um campo de prevenção pronunciadamente mais complicado do que o considerado há tempos; • A heterogeneidade das fontes de infecção humana parece ser o resultado das altas capacidades dos vermes do fígado para colonizar e se adaptar a novos ambientes naturais marcadamente diferentes e características comportamentais, alimentares e sociais adaptativas correspondentes das respectivas comunidades humanas, graças à seguintes características principais: ◦ estágio adulto hermafrodita e capaz de se reproduzir tanto por autofecundação quanto por cruzamento; ◦ transmissão vetorial por caramujos de água doce distribuídos em todo o mundo (linneídeos adequados estão em quase toda parte), incluindo inúmeras espécies com capacidade de autofecundação, capacidade de multiplicação muito alta, ecologia diferente, etologia diferente e grande capacidade de colonização; ◦ zoonótico, com baixa especificidade permitindo o uso de muitas espécies de animais domésticos herbívoros e onívoros e também espécies de mamíferos silvestres como reservatórios; ◦ estágio infeccioso constituído por metacercárias encistadas com alta resistência, longa sobrevivência, capacidade de se fixar em diferentes objetos (na natureza, principalmente vegetais cultivados em águas habitadas por limnaídeos) ou flutuar na água e, portanto, contaminar muitos alimentos e bebidas; ◦ capacidade de evitar o surgimento de imunidade estéril refratária efetiva e pré- munição em nível de hospedeiro definitivo, incluindo humanos; Referências Neves, D. P., Melo, A.L., Linardi, P.M., Vitor, R.W.A. Parasitologia Humana, 13 ed. Editora Atheneu, 2016. Pág. 303 Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 81 Guimarães, B.C.S et al. Infecções por parasitas: ancilostomíase. Brazilian Journal of Surgery and Clinical Research – BJSCR. Vol.26,n.3,pp.84-88, 2019. Loukas, A., Hotez, P., Diemert, D. et al. Hookworm infection. Nat Rev Dis Primers 2, 16088 (2016). https://doi.org/10.1038/nrdp.2016.88 Mas-Coma S, Bargues M D, Valero M A (2018). Human fascioliasis infection sources, their diversity, incidence factors, analytical methods and prevention measures. Parasitology 145, 1665–1699. https://doi.org/ 10.1017/S0031182018000914 Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 82 TRICHOSTRONGILIASE 1. Introdução As enfermidades parasitárias acompanham a história da humanidade, afinal o parasitismo é indiscutivelmente o modo de vida animal mais rico em espécies na Terra e provavelmente albergam muitas espécies não descritas ou não descobertas deixadas para a ciência moderna. Achados paleoparasitários recentes reúnem contribuições filogências importantes que comprovam que a disseminação de muitas doenças parasitárias foi catalisadora de transformações significativas na sociedade e incentivou o desenvolvimento científico com o objetivo de combatê-las e garantir a sobrevivência dos seres humanos e animais. Nos últimos anos, a diversidade e distribuição global da riqueza parasitária tornou-se um tópico de particular preocupação tanto à luz acelerada taxa de emergência de doenças, como no crescente reconhecimento ecológico, epidemiológico e na disseminação entre ampla gama de hospedeiros vertebrados, invertebrados e plantas. Entre os nematódeos de relevância econômica, médica e veterinária está a superfamília dos Trichostrongylus, os quais representam um importante grupo de parasitas de pequenos ruminantes. Os parasitas da família Trichostrongylus disseminam- se no intestino delgado e/ou abomaso de animais herbívoros e exercem seus efeitos patogênicos devido à presença e persistência de formas larvárias adultas ocasionando danos extensos a mucosa gástrica e sinais que incluem: enterite generalizada, prostação, dificuldade de absorção de nutrientes, diarreia, fraqueza, queda na produção de leite e carne e até mesmo a morte. A superfamília Trichostrongylus, como o próprio nome já diz, alberga mais de 10 espécies zoonóticas principais, que afetam animais como caprinos, ovinos e bovinos, outros herbívoros como equinos e coelhos e ocasionalmente os seres humanos. Na próxima seção, serão descritos sequencialmente os aspectos epidemiológicos, classificação taxonômica e etiológica, características gerais dos diferentes gêneros, ciclo parasitológico, patogenia, sinais e sintomas clínicos, além de fornecer subsídios para o diagnóstico, terapêutica e profilaxia. Por fim, será relatado como a resistência aos tratamentos disponíveis afeta a interação hospedeiro-parasita abordando algumas estratégias cientificamente estudadas. 2. Aspectos históricos e epidemiológicos Acredita-se que este gênero tenha surgido durante o período Paleoceno, cerca de 65 milhões de anos atrás, em aves aquáticas, adaptando- se aos mamíferos lagomorfos durante o período Eoceno, cerca de 55 milhões de anos atrás (Durette-Desset et al., 1999). Existem evidências, através de estudos morfológicos (Durette-Desset, 1985) e de cinética Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 83 de desenvolvimento do gênero (Audebert et al., 2003), que ao final do período Eoceno, cerca de 33 milhões de anos atrás, as espécies adaptadas aos lagomorfos tenham se tornado cosmopolitas e evoluído para as espécies parasitas de ruminantes, atualmente as mais abundantes no mundo (Audebert et al., 2002). Dentre as espécies encontradas nos ruminantes, T. colubriformis é a espécie mais aparentada com os membros do mesmo gênero parasitas de lagomorfos (Audebert et al., 2003). Membros da família Trichostrongylus possuem ampla distribuição mundial. Em uma revisão sistemática e meta-análise publicado pela EMBRAPA (2018) sobre a prevalência e fatores de risco de nematódeos do trato gastrointestinal de pequenos ruminantes, foi relatado que a família já foi isolada em diversos ambientes geográficos, incluindo Sudeste Asiático, Oriente Médio, África, Europa e continente australiano. Da mesma forma, a infecção humana foi relatada na Itália, França, Marrocos e Egito, Brasil, Caribe e Austrália. Sendo o Irã, um dos principais focos de infecções em gado e humanos. Um compilado de estudos presentes em periódicos internacionais apontam que a ampla distribuição de Trichostrongylus pode estar relacionada à sua capacidade de resistir auma gama de condições ambientais como variações de umidade e dessecamento, temperaturas variadas (27 à 30º), aporte oxigênio e nutrientes. Além disso, a frequência de infecções está intimamente associada ao estado nutricional do animal, idade, manejo, aspectos imunológicos, carga parasitária e a regiões com épocas de altos índices pluviométricos, particularmente em regiões tropicais e subtropicais. A verminose gastrintestinal é a endoparasitose que representa maior importância econômica na exploração de pequenos ruminantes, especialmente nas regiões tropicais, onde os prejuízos econômicos aliados ao parasito Trichostrongilus são mais acentuados. Os efeitos do parasitismo no rebanho se manifestam de várias formas, conforme as espécies presentes e a intensidade de infecção. O impacto global sobre a produção é conseqüência do atraso no crescimento e da mortalidade que ocorre nas categorias mais susceptíveis. Estima-se que infecções parasíticas intestinais afetem mais que um terço da população humana global e dentre essas estão inclusas as infecções por Trichostrongylus spp. As práticas e condições sanitárias deficientes são os principais riscos na distribuição e prevalência de infecções parasitárias por helmintos. Pois, nestas condições a contaminação fecal oriunda da água ou solo são propagadas para os vegetais durante a produção, coleta, transporte, processamento ou preparação destes alimento. Aliado a isso, o hábito de comer vegetais crus, sem higienização, ou está feita com água contaminada,implica um risco de adquirir infecções parasíticas por Trichostrongylus sp. 3. Classificação Taxonômica As diferentes espécies de Trichostrongylus estão taxonomicamente agrupadas no Reino Animalia, Filo Nematodea, Classe Chromadorea, Ordem Rhabditida, Família Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 84 Trichostrongylidae e nos gêneros Trichostrongylinae, Haemonchinae, Cooperiinae e Ostertagiinae. Cada gênero, reúne características morfológicas específicas que os diferencia dentro da superfamília. No Brasil, segundo Neves (2014, p. 15), as espécies de nematódeos gastrintestinais mais importantes para os bovinos são Haemonchus placei, Haemonchus similis, Ostertagia ostertagi e Trichostrongylus axei, que se alojam no abomaso. No intestino delgado, observa-se Cooperia pectinata, Cooperia punctata. A professora Isabela Vilhene Martins da UFES, em seu livro “Parasitologia veterinária” (2019, pág 151) compara breve e claramente os principais gêneros da Família Trichostrongylinae, os quais serão abordados nas subseções seguintes. 3.1 Gênero Trichostrongylus São parasitos pequenos e delgados (menos que sete milímetros), com presença de poro excretor, situado normalmente em uma fenda visível na extremidade anterior. T. axei tem dois espículos desiguais, com forma e tamanhos diferentes. Instala-se no abomaso de ruminantes e estômago de equídeos. T. colubriformis tem dois espículos com forma e tamanhos iguais. Instala-se no intestino delgado de ovinos e caprinos. 3.2 Gênero Haemonchus São parasitos maiores que os outros da família Trichostrongylidae (dois a três centímetros). Apresentam cápsula bucal pequena com um fino dente ou lanceta e duas papilas cervicais. Os machos têm lobo dorsal pequeno e assimétrico. As fêmeas possuem apêndice vulvar em forma de língua ou de botão. Instalam-se no abomaso de ruminantes. H. contortus instala-se no abomaso de ovinos e caprinos. H. placei apresenta raio dorsal em posição assimétrica e em forma de forquilha (Y). Instala-se no abomaso de bovinos. H. similis apresenta raio dorsal em posição assimétrica e de forma de arco. Instala-se no abomaso de ruminantes. 3.3 Gênero Cooperia São parasitos pequenos (até um centímetro) com dilatações cuticulares cefálicas e ausência de gubernáculo. C. punctata não possui dentes na asa do espículo. C. pectinata apresenta dentes na asa do espículo. Ambos se instalam no intestino delgado de ruminantes. 3.4 Gênero Ostertagia São parasitos que se instalam no abomaso de ruminantes. 3.5 Gênero Hyostrongylus H. rubidus são parasitos do estômago de suínos. 4. Aspectos morfológicos Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 85 Embora as características morfológicas dentre as espécies possam conter variações, duas formas parasitárias de Trichostrongylus podem ser encontradas: ovos e larvas. Os ovos, possuem dupla membrana cuticular com o espaço intracelular coberto por uma massa celular, denominada de mórula, a qual após o contato com o meio ambiente eclode dando origem as formas larvais sequencialmente denominadas L1, L2, L3, L4 e L5 até atingir a forma adulta. Os ovos são relativamente difíceis de serem diferenciados entre os gêneros e as espécies, sendo necessária a realização de coprocultura. As larvas infectantes apresentam peculiaridades morfológicas que permitem a identificação em gênero. Entretanto, genericamente, as larvas adultas, são cilíndricas, possuem extremidade posterior (cauda) afilada que lembra a “ponte de um lápis” e extremidade anterior protuberante (cabeça) com presença ou ausência de corpos refratários (semelhantes a olhos, dependendo da espécies). Medem 500-900um de comprimento, podendo ou não (de acordo com espécies) apresentar estrias transversais. Além disso, as larvas são dimórficas; isto é, machos e fêmeas possuem características fenotípicas diferentes. Os machos podem chegar a 4,78 mm e as fêmeas até 5,75 mm de comprimento . O macho possui como aparelho genital masculino uma bolsa copuladora com dois espículos de quitina que serão introduzidos no canal genital da fêmea através do auxílio de um gobernáculo em forma de ärpão”. As fêmeas, possuem extremidade posterior afilada com uma abertura vaginal que permite a copulação e postura dos ovos. Embora a ovipostura possua variações dentre as espécies acima descritas, acredita-se que uma fêmea seja capaz de liberar cerca de 2000 ovos/dia. 5. Ciclo biológico 5.1 Ciclo biológico em ruminantes O ciclo biológico de nematoides tricostrongilídeos é monoxênio, ou direto (o parasita completa seu ciclo em apenas um hospedeiro), com uma fase de vida livre dentro do bolo fecal localizado no ambiente e, outra fase parasitando o hospedeiro. A fase de vida livre começa com a contaminação do pasto através dos ovos presentes nas fezes do hospedeiro. Nas primeiras 24 horas, a larva se desenvolve dentro do ovo evoluindo para L1, larva de primeiro estágio. A L1 eclode do ovo e é liberada no bolo fecal onde se alimenta de organismos em decomposição. Posteriormente, a L1 muda para larva de segundo estágio (L2), realizando uma mudança da cutícula protetora que a envolve. As L2 continuam se alimentando e se desenvolvendo até mudarem para larva infectante de terceiro estágio (L3), onde retém a cutícula da fase anterior, apresentando dupla cutícula As larvas infectantes saem do interior bolo fecal e migram para a pastagem, que será ingerida pelo hospedeiro. O desenvolvimento dos ovos até o terceiro estágio dura em torno sete a dez dias, desde que as fezes se encontrem em condições adequadas de temperatura (26°C), teor de oxigênio e umidade (80%), sendo estes os principais fatores que afetam o desenvolvimento de ovos e larvas. A umidade do orvalho e a ocorrência de chuvas influenciam tanto na dispersão horizontal, bem como na migração vertical das larvas na vegetação, pois amolecem as fezes e facilitam a locomoção das larvas proporcionando seu acúmulo na pastagem. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 86 As L3 não se alimentam no ambiente, sobrevivem com reservas que acumularam nas células intestinais durante seus primeiros estágios. Por este motivo, após migrarem para o pasto, as larvas tendem a permanecer imóveis no ápicede forrageiras economizando energia. Ao contrário das larvas de primeiro e segundo estágio, as larvas infectantes podem passar por processos frequentes de anidrobiose, permitindo que sofram dessecação pelo sol e reidratação pelas chuvas. Este processo só é possível porque a atividade metabólica das larvas diminui para que a sobrevivência seja prolongada. Caso não haja condições favoráveis ao seu desenvolvimento, as larvas infectantes podem permanecer viáveis nos cíbalos fecais por até quatro meses de acordo com a particularidade de espécie. Carneiro e Amarante (2008) avaliaram a influência de diferentes gramíneas (Brachiaria decumbens cv. Aus- traliana, Cynodon dactylon cv. Coast-cross e Panicum maximum cv. Aruana) no desenvolvimento e sobrevivência de larvas de H. con- tortus. Canteiros com essas variedades de gramíneas foram planta- dos, e sobre eles foram depositadas amostras de fezes de ovinos que continham ovos de H. contortus, em quatro épocas do ano (agosto, novembro, fevereiro e maio). Observou-se que o período de recu- peração de larvas foi mais curto após a deposição de novembro e fevereiro (estação das águas). Por outro lado, temperaturas amenas (em torno de 17 oC), associadas com precipitações reduzidas, favo- receram a recuperação de larvas do ambiente. No início de setem- bro, dezesseis semanas após a deposição realizada em maio, larvas ainda foram recuperadas da pastagem. A fase parasitária tem início assim que as larvas infectantes de terceiro estágio são ingeridas e perdem a bainha após penetrarem no trato gastro intestinal do hospedeiro. As espécies T. colubriformis e T. vitrinus alojam-se na porção anterior do intestino delgado e duodeno, já a espécie T. axei aloja-se no abomaso. As espécies do gênero Cooperia e Haemonchus migram para as criptas intestinais, e se desenvolvem na mucosa e superfície epitelial do intestino delgado. Após alojarem-se nos devidos órgãos, as larvas infectantes sofrem mais duas ecdises: evoluem para parasito imaturo (L4) onde há diferenciação dos órgãos reprodutores, e posteriormente para parasito adulto (L5), maduro sexualmente. No abomaso as L3 perdem a cápsula devido à ação do suco gástrico e ocorre a muda para L4, dando início à fase parasitária. As L4 provocando alterações patológicas traumáticas e mecânicas nos tecidos, devido a sua fixação na mucosa gástrica ou passagem para o intestino. As L4 após a fixação nos epitélios digestivos, formam galerias onde permanecem até a muda para L5 ou adultos jovens. Nesta fase há lesões teciduais ao longo do trato gastrintestinal caracterizadas, inicialmente, por uma hiperemia seguida de processo inflamatório catarral necrótico com erosão e/ou ulceração epitelial, acompanhadas de atrofia, edema, aumento de secreção de muco, infiltrados celulares (eosinófilos) e vasculite na submucosa. A ruptura das galerias epiteliais para liberação das L5 para o lúmen dos órgãos digestivos é acompanhada de hemorragias, perdas protéicas. Os vermes maduros copulam e a fêmea inicia o processo de ovipostura, após atingirem este estágio, não há mais migração através do trato gastrintestinal. Os ovos são eliminados através do bolo fecal dando inicio a um novo ciclo. 5.2 Ciclo biológico em humanos Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 87 Trichostrongylus spp. são geralmente parasitas de animais herbívoros, mas os humanos podem ser infectados como hospedeiros ocasionais. A tricostrongilíase humana, também conhecida como infecção por pseudo-ancilóstomo, tem sido relatada esporadicamente (Markell, 1968). No Brasil, relatos apontam uma prevalência maior em áreas rurais e aliadas a áreas sócio-econômicas prejudicadas e hábitos de higiene precários. Atualmente, a disponibilidade de novos métodos moleculares de identificação de parasitas parece revelar a presença de Trichsotrongylus sp em amostras obtidas de seres humanos. Essas além de mais sensíveis são mais específicas e podem revelar a espécie que está parasitando. Nesse sentido, novos estudos devem ser apontados em um futuro próximo, alguns deles já descritos na literatura como o de Arbabi e colaboradores (2020), publicado no periódico internacional “Molecular and Biochemical Parasitology” que investigou pela primeira vez um ensaio de PCR seguida de alta fusão (PCR-HRM) para a detecção de Trichostrongylus sp em humanos. Poucos detalhes foram publicados sobre as características clínicas da doença, embora os principais sinais clínicos sejam náuseas, vômitos, dores abdominais, diarréia e falha na absorção de nutrientes, anorexia e fraqueza. A transmissão ao homem se dá através do consumo de água ou vegetais contaminados com larvas infectantes (L3) provenientes das fezes de animais contaminados. As espécies T. axei, T. colubriformis e T. orientalis são mais comumente relacionadas às infecções em humanos. 6. Patogenia Os principais efeitos patogênicos são causados pelas larvas L3 embainhadas de Trichostrongylus spp, que se enterram entre as vilosidades intestinais e levam à formação de túneis subepiteliais. T. axei altera a mucosa gástrica, enquanto T. colubriformis, causam atrofia das vilosidades no intestino delgado. As altas cargas parasitárias causam severas enterites com atrofia generalizada de vilosidades, hipertrofia de criptas intestinais, erosão de epitélio intestinal, espessamento de mucosa, atrofia das microvilosidades dos enterócitos, além da formação de infiltrados inflamatórios leucocitários, aumento da permeabilidade vascular com conseqüente prejuízo à motilidade, fluxo, digestão e absorção de nutrientes. Devido à grande exsudação de proteínas séricas totais para a luz intestinal, decorrente das lesões epiteliais, podem ocorrer significativas diminuições na concentração de albuminas, causa de graves quadros de hipoalbuminemia nos animais. Com os danos gerados no intestino delgado, podem também ocorrer anormalidades na absorção e metabolismo de minerais essenciais ao desenvolvimento ósseo de cordeiros em fase de crescimento, especialmente cálcio e fósforo em alguns casos provocando anormalidades ósseas nos animais como osteoporose e osteomalácia. Alguns estudos ainda apontam a espécie T. colubriformis como causadora de importantes distúrbios endócrinos em cordeiros. Redução nas concentrações séricas dos hormônios tiroxina e insulina (diminuição), além do aumento de corticosteróides foram observadas por Prichard et al. (1974), estas disfunções prejudicam a síntese protéica, principalmente o anabolismo muscular, reduzem o catabolismo hepático, interferindo no metabolismo de carboidratos e lipídios, causando diminuição no ganho de peso e ingestão alimentar, além de imunossupressão. Symons e Hennessy (1981) observaram também aumento do hormônio colocistoquinina (CCK), alterações nos níveis deste hormônio Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 88 interferem no esvaziamento gástrico, na secreção de enzimas pancreáticas e hepáticas, na motilidade intestinal e no controle do apetite pelo sistema nervoso central. RESPOSTA IMUNE Estudos apontam que a imunidade dos ruminantes diante das infecções por T. colubriformis podem causar prejuízos aos animais, uma vez que certos indivíduos desenvolvem reações de hipersensibilidade exacerbadas, principalmente do tipo I, contra as larvas infectantes destes parasitas. Reações deste tipo podem causar contração da musculatura lisa, vasodilatação, aumento da secreção de muco, e até lesões vasculares e epiteliais 7. Sinais e sintomas Os principais sinais clínicos das infecções por Trichostrongylus sp são: perda de peso, inapetência, redução da conversão alimentar e da produção de produtos derivados de animais como lã, couro e leite, amolecimento das fezes, diarréia e, em alguns casos, morte. A diarréia provocada pela infecção é caracterizada pela presença de fezes de coloraçãoescura, as quais se aderem à região posterior dos animais, daí um dos nomes comuns, “verme da diarreia negra”. Quando a infecção é alta, o pH do abomaso e/ou intestino delgado é alterado, promovendo o crescimento bacteriano. Consequentemente, sintomas como diarreia negra e fétida podem aparecer, levando à desidratação, processo inflamatório e hemorrágico, o que ocasiona rápido emagrecimento, anemia e até ao óbito. Aliado a isso, a presença e persistência de larvas adultas (L5) está associada a danos extensos à mucosa duodenal e a sinais de enterite generalizada, incluindo hemorragia, edema e perda de proteínas plasmáticas no lúmen intestinal, e subsequente hipoalbuminemia e hipoproteinemia. A consequente perda de proteína e falha na absorção de nutrientes podem levar a alterações musculoesqueléticas, levando a uma perda de massa corporal e possivelmente raquitismo em cordeiros. 8. Diagnóstico A confirmação da infecção parasitária dos animais deve ser baseada em avaliações clínicas, resultados parasitológicos e diagnóstico diferencial de outras enfermidades que possam ocorrer concomitantemente. O exame microscópico de amostras de fezes para ovos de parasitas é atualmente um método laboratorial de rotina para a detecção de Trichostrongylus. Entre as diferentes técnicas, podemos citar: a contagem de ovos por grama de fezes (OPG). O exame de fezes pelo método de OPG visa uma quantificação de ovos de vermes intestinais, muito indicada e utilizada na clínica de grandes animais e animais de produção. Apresenta como principais vantagens a rapidez do diagnóstico frente à infecção parasitária e o baixo custo para a realização do exame, o qual pode ser feito individual ou por amostragem do rebanho. Conforme manual técnico da EMBRAPA, o exame de OPG requer dois gramas Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 89 de fezes ovinas e quatro de fezes bovinas. No entanto, o exame microscópico enfrenta uma variedade de desafios críticos, incluindo a dificuldade de identificar diferentes espécies devido à semelhança entre as espécies de nematóides, sendo demorado, insensível e inespecífico, além de exigir algum conhecimento e experiência. Outra técnica conhecida como FLOTAC, também é empregada em amostras fecais de ruminantes, para a pesquisa de ovos e/ou larvas e tem apresentado resultados precisos na enumeração destes estágios, inclusive na contagem de larvas em ovinos. Estudos indicam que técnica FLOTAC é sensível para identificação de geohelmintos, como é o caso de Trichostrongylus. A realização da coprocultura pela técnica de Robert’s e O’Sullivan (1950) também conhecida como cultura microbiológica das fezes isola após sete dias de incubação, os gêneros de L3 de tricostrongilídeos a partir de amostras fecais individuais ou do rebanho e pode-se identificar morfologicamente as larvas, por meio da morfologia da extremidade posterior e anterior. Em virtude da disseminação de populações de endoparasitos resistentes aos anti- helmíntico), surgiu um novo enfoque de controle da verminose, através do método famacha, que consiste em vermifugar o menor número de animais possível e com menor freqüência. Este método apresenta-se como uma opção de controle de verminose economicamente viável, uma vez que recomenda vermifugar apenas os animais que apresentam anemia clínica. O método famacha, que tem as iniciais de seu descobridores seguido da palavra inglesa Chart que significa tabela, tem como objetivo identificar clinicamente animais resistentes, resilientes e sensíveis às infecções parasitárias, otimizando o tratamento de forma seletiva. Este método, foi desenvolvido na África do Sul na década de 90. O princípio é baseado no volume globular que indica se o animal está saudável ou anêmico. De acordo com Van Wyk et al., (1997), existe uma correlação significativa entre a coloração das mucosas aparentes e o volume globular, permitindo identificar aqueles animais capazes de suportar uma infecção por H. contortus. Os animais incapazes de enfrentar um desafio parasitário serão alvos de atenção especial, devendo ser retirados do rebanho, quando identificados ou tratados repetidas vezes. Em adição, o método famacha, proporciona uma economia média de 58,4% nos custos com a aquisição de anti-helmínticos e reduz a contaminação por resíduos químicos no leite, na carne e no meio ambiente, motivo de preocupação mundial. Outra vantagem do método é permitir a seleção de animais geneticamente resistentes a verminose, além de ser simples, pouco oneroso e fácil de ser repassado. Atualmente, técnicas moleculares para detectar e discriminar várias espécies de parasitas têm sido extensivamente utilizadas e possuem como vantagem fornecem uma ferramenta altamente sensível para diagnosticar e quantificar infecções parasitárias. A grande maioria das técnicas possibilitam a análise de quantidades muito pequenas de material genético (DNA ou RNA)para fisn diversos, como sequenciamento de genes, Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 90 caracterização genéticade cepas, estudos de filogenia e taxonomia, genética de populações e epidemiologia. Além de permitirem indiretamente o efeito droga-parasito e mecanismos de alvos farmacológicos. Dentre as técnicas moleculares, aquelas baseadas na amplicação do DNA por meio da reação em cadeia da polimerase (PCR) e suas variações, são as que mais causam impacto nos estudos das doenças, incluindo Trichostrongylus. A PCR seguida de sequenciamento pode ser um método molecular alternativo para detectar o gênero Trichostrongylus que é cada vez mais utilizado para confirmação de espécies. O sequenciamento por PCR, quando comparado com o método microscópico convencional, é mais sensível e está se tornando cada vez mais disponível. No entanto, o sequenciamento direto de DNA é demorado e caro para o uso generalizado desta tecnologia . O segundo espaçador interno transcrito (ITS-2) do DNA ribossomal nuclear (rDNA) demonstrou ser um marcador genético confiável para a detecção de uma ampla gama de nematóides, incluindo Trichostrongylus sp. As regiões conservadas são frequentemente utilizadas para análise filogenética de ordens taxonômicas superiores (por exemplo: filo, família e gênero), enquanto as regiões de diversidade de sequências são de grande importância para a caracterização de isolados em nível de gênero ou espécie A reação em cadeia da polimerase seguida de análise de fusão de alta resolução (PCR- HRM) é uma técnica molecular alternativa desenvolvida para rastrear variações nas sequências de DNA. Nesse método, um corante fluorescente capaz de se ligar ao DNA de fita dupla é adicionado aos amplicons resultantes da reação de PCR. Quando a temperatura aumenta, o DNA de fita dupla é dissociado em fitas simples, levando a uma diminuição na intensidade de fluorescência que é medida por um detector. Variações nas sequências de DNA produzem alterações nas características de fusão dos amplicons de DNA, levando a diferenças nas formas das curvas de fusão de diferentes sequências de DNA. A aplicação desta técnica é menos demorada, mais simples e mais sensível do que as técnicas anteriores. O uso da técnica de PCR já é uma realidade para identificar e quantificar larvas de T.colubriformis (L3)/vermes em fazenda de ovelhas e também em amostras fecais de seres humanos (Milhes M, et al., 2017. A real-time PCR approach to identify anthelmintic-resistant nematodes in sheep farms. Parasitol Res 116: 909–920. Perandin F, Pomari E, Bonizzi C, Mistretta M, Formenti F, Bisoffi Z. Assessment of Real-Time Polymerase Chain Reaction for the Detection of Trichostrongylus spp. DNA from Human Fecal Samples. Am J Trop Med Hyg. 2018 Mar;98(3):768-771. doi: 10.4269/ajtmh.17-0733. Epub 2018 Jan 4. PMID: 29313482; PMCID: PMC5930910.) O método baseou-se na amplificação e análise de fragmentosseguida de minisequenciamento da região ITS-2 (interno transcrito espaçador 2) do DNA ribossômico de ovos ou larvas do parasita Trichostrongylus diponíeis para consulta no banco online de genes Genbank. Tratamento A classe antiparasitária mais utilizada para os tratamentos são as Avermectinas, sendo as Ivermectinas as mais utilizadas dessa classe, que em altas concentrações apresentam alta eficácia e amplo espectro contra as verminoses. As Ivermectinas apresentam baixa Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 91 hidrossolubilidade e elevada lipossolubilidade, o que prolonga o tempo de ação do medicamento, amplia sua distribuição, principalmente nas mucosas abomasal/intestinal e tecido pulmonar, locais de predileção das verminoses. Embora, recentemente, observou-se, em muitos rebanhos, nas principais regiões produtoras brasileiras, uma grande diminuição da eficácia de produtos anti- helmínticos, com a identificação de cepas resistentes a vários grupos disponíveis no mercado. Além disso, s problemas relacionados à resistência e ecotoxicidade enfatizam a necessidade de novas alternativas terapêuticas e formas de prevenção. Atualmente, são implantados programas integrados de controle parasitário, por meio de tratamentos baseados na epidemiologia, adoção de vermifugação estratégica, utilização de pastoreio alternado e higienização de pastagens, a fim de que assegurem a saúde dos animais. A fitoterapia e a homeopatia surgem como novos alvos emergentes no controle de verminoses que poderá reduzir o uso de anti-helmínticos e prolongar a vida útil dos produtos químicos disponíveis. Entretanto, na medicina veterinária, ao contrário do que ocorre na medicina humana, estudos envolvendo produtos fitoterápicos para o controle de doenças ainda são escassos. 9. Medidas de profilaxia Atualmente, as medidas de controle estratégico e integrado aplicados à veterinária, é a principal alternativa recomendada para o controle de verminoses gastrintestinais nas explorações bovinas, caprina e ovinas. A primeira, consiste em medicar o rebanho quando as condições climáticas da região são favoráveis ao desenvolvimento e sobrevivência dos estágios de vida livre no ambiente. A aplicação de vermífugos deve ser feita quatro vezes por ano, distribuída da seguinte forma: no início, no meio e no final da época seca. Uma quarta medicação deve ser realizada em meados do período chuvoso. Este procedimento reduz gradualmente a contaminação das pastagens pelas larvas infectantes (L3) e, consequentemente, diminui a transmissão dos nematódeos gastrintestinais no período chuvoso seguinte. As medidas de controle integrado de parasitos (CIP) é a combinação e a utilização de métodos químicos e não químicos de controle parasitário disponíveis, com a finalidade de manter níveis aceitáveis de produção sem a eliminação total do agente causal. No que tange à resistência anti-helmíntica, o objetivo do CIP é retardar o aumento das populações parasitárias com maior proporção de indivíduos geneticamente resistentes a um ou mais anti-helmínticos. Por exemplo, a limpeza e desinfecção das instalações; manutenção das fezes em locais distantes dos animais e, se possível, a construção de esterqueiras na propriedade, evitar a superlotação das pastagens; separar os animais por faixa etária; não introduzir no rebanho animais provenientes de outras propriedades, antes de serem vermifugados (isto evita a introdução na propriedade de estirpes resistentes) e manter os animais no aprisco, no mínimo até 12 horas após a vermifugação, são medidas de manejo que devem ser implementadas na propriedade, visando obter melhores resultados quando da utilização de controle químico. Além da aplicação de anti-helmínticos, o controle dos nematódeos gastrintestinais poderá também ser realizado através de práticas de manejo Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 92 que visem a descontaminação das pastagens. Algumas dessas práticas poderão ser adotadas conforme o tipo de exploração, tais como: o pastejo alternado ou misto com diferentes espécies animais e rotação de área de pastejo com restolhos de culturas. 10. Considerações finais A resistência anti-helmíntica é considerada um dos principais entraves para o sucesso dos programas de controle da verminose dos caprinos e ovinos e, consequentemente, interfere diretamente na produção animal. É importante considerar que em rebanhos onde há problemas de resistência anti-helmíntica, o prejuízo econômico ocasionado pela verminose é mais acentuado, uma vez que, além da queda na produtividade do rebanho, os produtores ainda desembolsam recursos financeiros para a aquisição de anti- helmínticos cuja eficácia é comprometida em função da resistência parasitária. Além disso, os resíduos de compostos químicos eliminados com as excreções dos animais têm sérios efeitos no meio ambiente, podendo ser incorporados na cadeia alimentar humana. Considerando a importância da verminose gastrintestinal na produção de caprinos e ovinos, bem como os problemas acima apontados, torna-se necessário investir em pesquisas que visem a busca de outras alternativas de controle, que sejam de baixo custo e menos nocivas à saúde humana e ao meio ambiente. Dentre essas alternativas, considera-se como mais promissoras, merecendo, portanto, maior atenção no que se refere ao investimento em pesquisa, a identificação de fitoterápicos com ação anti-helmíntica, avaliação de medicamentos homeopáticos, controle biológico com avaliação de fungos nematófagos, identificação de marcadores moleculares que possam está associados com resistência a verminose, seleção de animais resistentes e validação do método famacha em diferentes condições climáticas do País. A necessidade de entender a diversidade global de parasitas reflete um conjunto mais básico de questões sobre o mundo em que vivemos e a amplitude da vida dentro dele. Embora, está atualmente presa entre limitações de dados aparentemente intransponíveis e a necessidade urgente de entender como os parasitas responderão às mudanças globais e implementação de estratégias sustentáveis Referências AMARANTE, AFT. Os parasitas de ovinos [online]. São Paulo: Editora UNESP, 2014, 263 p. ISBN 978-85-68334-42-3. Disonível em http://books.scielo.org. NEVES MAIA, D. MATTOS, M.J. Nematodeoses gastrintestinais em bovinos no Brasil: revisão de artigos publicados no período de 2012 a 2020. Rev. Agr. Acad., v.3, n.3, Mai/Jun (2020) Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 93 Mederos AE, Carracelas B, Minho AP, Fernández S, Sánchez J (2018) Prevalence and Factors Associated with Anthelmintic Resistance in Gastrointestinal Nematodes of Cattle: A Systematic Review and Meta-analysis. J Vet Med Health 2: 111. Watthanakulpanich D, Pongvongsa T, Sanguankiat S, Nuamtanong S, Maipanich W, Yoonuan T, Phuphisut O, Boupha B, Moji K, Sato M, Waikagul J. Prevalence and clinical aspects of human Trichostrongylus colubriformis infection in Lao PDR. Acta Trop. 2013 Apr;126(1):37-42. doi: 10.1016/j.actatropica.2013.01.002. Epub 2013 Jan 11. PMID: 23318934. Vieira, L.S. Endoparasitoses Gastrintestrinais de Caprinos e Ovinos: Aternativas de Controle. Vilhena, I. Parasitologia Veterinária. 2ed. Vitória- ES. EDUFES, 2019. Recurso eletrônico. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 94 DÍPTEROS Introdução Os insetos correspondem ao grupo de seres vivos mais diversificado e numeroso do planeta. São cerca de um milhão de espécies já descritas e acredita-se que para cada espécie descrita, outras cinco ainda sejam desconhecidas. Na Ordem Diptera (do grego di = duas e pteron = asas, devido às asasposteriores serem modificadas em forma de halteres e funcionarem apenas como estabilizadores de voo, estão incluídas as moscas, mosquitos, varejeiras, pernilongos, borrachudos e mutucas. São conhecidas aproximadamente 153 mil espécies distribuídas em 160 famílias em todo o mundo. No Brasil, ocorrem cerca de 8,7 mil espécies, com estimativas de 60 mil. É um grupo que está presente na maioria dos habitats. São holometábolos, ocupam diversos nichos alimentares, podendo ser parasitas, hematófagos, predadores, além de se alimentarem de folhas, frutos, flores, néctar e outras substâncias açucaradas. Muitos dípteros desempenham importante papel ecológico, especialmente como inimigos naturais de vários organismos. Certas espécies têm grande importância econômica, forense, médica e veterinária. Histórico Os ataques de larvas de dípteros ao homem e aos animais despertaram a atenção de vários escritores e missionários na América Latina, desde a época da colonização. Autores relataram a presença de larvas de dípteros encontradas em feridas. A introdução espécies no Brasil data de 1975, coincidindo com a chegada de refugiados africanos oriundos de Angola e Moçambique. O termo miíase foi descrito pela primeira vez por Hope em 1840. Em seu trabalho de síntese, o reverendo Hope definiu miíase como sendo a infestação de vertebrados vivos por larvas de dípteros que, pelo menos durante certo período, se alimentam dos tecidos vivos ou mortos do hospedeiro, de suas substâncias corporais líquidas, ou do alimento por ele ingerido. Desde então, este termo vem sendo usado nas mais variadas acepções, existindo, entretanto, uma tendência para restringi-lo à síndrome geral caracterizada pelo ataque de larvas de dípteros a vertebrados vivos. Classificação e taxonomia A ordem Diptera está inserida no filo Artropoda, no qual pertencem mais de 80% de todas as espécies de animais invertebrados composta por aproximadamente 153 mil espécies descritas, sendo estimado 60 mil encontradas no Brasil, embora acredita-se que o número de espécies ainda desconhecidas é muito grande. Classicamente, os dípteros são divididos em Nematocera e Brachycera. Os nematóceros compreendem aqueles dípteros que possuem o flagelo antenal fino e com numerosos segmentos. Fazem parte da subordem Nematocera, os insetos das famílias Culicidae, Simuliidae e Psycodidae encontrado, por exemplo, nos mosquitos, pernilongos, mosquito-pólvora. Os dípteros braquíceros apresentam flagelo antenal curto e robusto, com a porção final atrofiada formando um estilo ou uma arista, como encontrada nas Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 95 moscas varejeiras e moscas domésticas. Dentro desta última, estão incluídas as mutucas, pertencentes à família Tabanidae e todas as famílias Subordem Stratiomyomorpha, Xylophagomorpha e Muscomorpha. Este último também dividido em Asiloidea e Eremoneura (subdividido em Empidoidea e Cyclorrhapha). O grupo dos Cyclorrhapha é considerado monofilético por, tendo como características principais a metamorfose do inseto dentro do pupário formado pela quitinização da pele do último instar larval e pela presença de um balão que se enche de hemolinfa e permite que o adulto livre-se do pupário (Schyzophora). SUBORDEM NEMATOCERA Família Cullicidae Integram esta família insetos sem ocelos, com antenas 15 a 16 segmetnos, pernas longas, conhecidos como mosquitos. Há quatro estádios larvais e um estádio pupal, ambos aquáticos, com características físicas e bioecológicas diferentes dos adultos, o que classifica os membros dessa família como insetos holometábolos, assim como os demais dípteros. Culex Introdução O gênero Culex engloba mais de 300 espécies, sendo que a maioria habita as regiões tropicais e subtropicais do mundo. No Brasil, é conhecido popularmente como “pernilongo” ou “muriçoca”. Biologia do parasito A ovipostura é realizada em recipientes que contenham água limpa ou poluída, dentro ou fora das casas. Os ovos são depositados sobre a água de maneira aglutinada, de modo a formar uma minúscula jangada. De dois a quatro dias após a ovipostura, há a eclosão. A larva apresenta sifão respiratório e se mantém oblíqua à superfície da água. O desenvolvimento larval pode durar de dez a 20 dias. Após esse período surge a pupa, que dentro de um a três dias dá origem ao inseto adulto. O Culex é um mosquito pequeno que tem cor de palha. Suas asas não têm manchas e o seu dorso é pardo-escuro com escamas amarelas. As fêmeas são hematófagas e há muitas espécies antropofílicas. Elas permanecem em repouso durante o dia e começam sua atividade ao crepúsculo. Durante o pouso, o inseto mantém o corpo paralelo à superfície, e a cabeça em ângulo reto. Apresenta várias espécies que buscam casas como local de abrigo habitual, como o Culex quinquefasciatus. Ele possui grande capacidade de vôo, podendo percorrer vários quilômetros de distância. Importância e prevenção Durante a hematofagia o inseto causa desconforto, insônia e até irritabilidade, principalmente quando o número de insetos é grande. A picada também pode provocar reações alérgicas oriundas de proteínas e peptídeos presentes na saliva do inseto. Os mosquitos deste gênero podem inocular agentes de importantes doenças infecto- parasitárias como Wuchereria bancrofi, que causa a filaríase linfática, também conhecida como elefantíase. Também estão envolvidas na transmissão de arboviroses como as encefalites virais e a Febre do Oeste do Nilo. Logo, a prevenção ou a eliminação dessa doença está relacionada ao controle do vetor e ao tratamento dos doentes. Assim, é necessário controlar o mosquito com o uso de telas nas Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 96 portas e janelas, mosquiteiros, inseticidas e repelentes. Qualquer dessas medidas de controle deve ser realizada criteriosamente, para evitar intoxicação humana pelos inseticidas. Outras medidas importantes e de impacto coletivo são o saneamento urbano e a drenagem de banhados. Essas medidas contribuem diretamente no controle do inseto e nas doenças vetoria das pelos mesmos em áreas de maior concentração humana. Aedes aegypti Introdução O gênero Aedes engloba centenas de espécies, as quais apresentam distribuição mundial. Uma das espécies de maior importância médica é o Aedes aegypti, que é um culicídeo de origem africana, que foi trazido para o continente americano logo após a chegada dos europeus ao continente americano. Apresenta como característica ecológica uma boa adaptação ao ambiente urbano e doméstico. Biologia do parasito O Aedes aegypti realiza a sua ovipostura em recipientes ou em qualquer outro lugar que contenha água limpa e os seus ovos são depositados acima do nível da água. O embrionamento dura em torno de dois a quatro dias, quando ocorre a eclosão. O desenvolvimento larval é beneficiado por temperaturas elevadas (acima de 25ºC), mas cada espécie possui uma temperatura ideal para se desenvolver. A larva do Aedes aegypti apresenta no fim do abdome um sifão que o inseto utiliza para respirar. Após um período de dez a 20 dias, a larva dá origem à pupa. A pupa, permanece nesta fase de um a três dias, e então, completada a metamorfose, ocorre a emergência do inseto adulto. Os mosquitos desse gênero possuem cor escura, pernas longas e escamas brancas por todo o corpo. Durante o pouso, eles mantêm o corpo paralelo à superfície e a cabeça em ângulo reto. Os insetos adultos se alimentam de água e seivas vegetais. Entretanto, após o acasalamento, as fêmeas necessitam de um maior aporte protéico, tornando-se hematófagas, e facilitando a transmissão de doenças. Após a maturação ovariana as fêmeas procuram os locais para ovipostura. O Aedes aegypti tem hábito matutino e diurno. Importância e prevenção Do gênero Aedes, a espécie Aedes aegypti é a que tem maior importância médica, porque transmite osvírus da dengue e da febre amarela urbana, sendo que ambas podem levar à morte. As viroses podem ser transmitidas verticalmente ou horizontalmente pela fêmea. Durante a hematofagia o inseto causa desconforto, insônia e até irritabilidade, principalmente quando o número de insetos é grande. A picada também pode provocar reações alérgicas oriundas de proteínas e peptídeos presentes na saliva do inseto. Assim, é necessário controlar o mosquito com o uso de telas nas portas e janelas, mosquiteiros, inseticidas e repelentes. Qualquer dessas medidas de controle deve ser realizada criteriosamente, para evitar intoxicação humana pelos inseticidas. Outras medidas importantes e de impacto coletivo são o saneamento urbano e a eliminação de locais de acúmulo de água parada. Essas medidas contribuem diretamente no controle do inseto e nas doenças vetoriadas pelos mesmos. Anopheles Introdução O gênero Anopheles compreende insetos pertencentes à família Culicidae, apresentando a denominação geral de pernilongos. Os insetos adultos medem entre 6 e 15 mm. São os transmissores da malária. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 97 • Primeiro tergito abdominal sem escamas • Coxa posterior mais curta do que a largura do mesoepímero • Fêmeas com palpos delgados e do mesmo comprimento da probóscida (Figura 12.1) • Machos com os últimos segmentos do palpo dilatados e pilosos, dando aspecto de clava • Escama com franja completa • Ovos providos de flutuadores e postos isoladamente • Larvas sem sifão respiratório (Figura 12.2) • Larvas horizontais na superfície da água • Pupas com trompa respiratória de forma cônica curta e de abertura larga. Biologia do parasito A postura dos ovos é realizada em locais de água pouco agitada. Os ovos possuem flutuadores, sendo ovipostos separadamente uns dos outros. De dois a quatro dias após a ovipostura, o ovo se transforma em larva. As larvas das diferentes espécies apresentam preferências variadas quanto ao grau de salinidade e concentração de matéria orgânica. Larvas e pupas se desenvolvem em meio aquático necessitando subir á superfície para respirar. Em 10 a 20 dias as larvas evoluem à pupa. A pupa dá origem ao inseto adulto após um a três dias. O mosquito apresenta coloração escura com manchas brancas asas longas, com escamas formando áreas com manchas claras e escuras. Durante o pouso, o Anopheles fica oblíquo à superfície. Os insetos adultos se alimentam de água e seivas vegetais. Entretanto, após o acasalamento, as fêmeas necessitam de um maior aporte protéico, tornando-se hematófagas, e facilitando a transmissão de doenças. Após a maturação ovariana as fêmeas procuram os locais para ovipostura. Os anofelinos têm comportamento crepuscular. Importância e prevenção Os mosquitos deste gênero têm grande importância médica por serem os principais vetores de Plasmodium, protozoário causador da malária, e da filaríase linfática por Wuchereria bancrofti. Durante a hematofagia o inseto causa desconforto, insônia e até irritabilidade, principalmente quando o número de insetos é grande. A picada também pode provocar reações alérgicas oriundas de proteínas e peptídeos presentes na saliva do inseto. Assim, é necessário controlar o mosquito com o uso de telas nas portas e janelas, mosquiteiros, inseticidas e repelentes. Qualquer dessas medidas de controle deve ser realizada criteriosamente, para evitar intoxicação humana pelos inseticidas. Outras medidas importantes e de impacto coletivo são o saneamento urbano e a eliminação de locais de acúmulo de água parada. Essas medidas contribuem diretamente no controle do inseto e das doenças vetoriadas pelos mesmos. Também é essencial a realização de um monitoramento periódico do ambiente, a fim de identificar os locais onde este mosquito possa estarproliferando e realizar o controle adequado. Família Calliphoridae Esta família é representada por aproximadamente 108 gêneros com total de 1.526 espécies no mundo. No Novo Mundo, são cerca de 20 espécies endêmicas e 4 introduzidas, distribuídas em 7 gêneros: Chloroprocta van der Wulp, Cochliomyia Townsend, Compsomyops Townsend, Chrysomya, Hemilucilia Brauer, Lucilia Robineau- Desvoidy e Paralucilia Brauer & Bergenstamm (THOMPSON, 2008). Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 98 O gênero Cochliomyia, são causadoras de miíases primárias, uma vez que são parasitas obrigatórias de animais pecilotérmicos. Os adultos são conhecidos por moscas das bicheiras, pois causam feridas consideráveis em animais domésticos, selvagens e até mesmo em humanos. Cochliomyia macellaria é conhecida como causadora de miíase secundária, uma vez que se alimenta de tecido necrosado, contribuindo assim para o agravamento de uma infecção já estabelecida, bem como aumentando o número de infecções secundárias Moscas do gênero Lucilia desta família são conhecidas popularmente como moscas varejeiras e apresentam características biológicas e comportamentais bastante diversificadas. Apresentam larvas vorazes e extremamente competitivas pelos recursos alimentares. No entanto, não são restritas a necrofagia, algumas espécies podem se alimentar de tecido vivo, bem como de matéria orgânica vegetal e lixo orgânico. As espécies do gênero Chrysomya apresentam preferência alimentar bastante ampla, variando de fezes de animais e humanos a frutas e carcaças. São consideradas também espécies endófilas, pois frequentemente invadem casas em busca de locais para postura As duas espécies representantes do gênero Hemilucilia são espécies necrófagas e as larvas geralmente se alimentam de matéria orgânica em decomposição e fezes Família Sarcophagidae Esta família é composta por 3.073 espécies distribuídas em 355 gêneros no mundo. São reconhecidas três subfamílias: Miltogramminae, Paramacronychiinae e Sarcophaginae. Se alimentam de excrementos e matéria orgânica em decomposição, desempenhando papel importante para a entomologia forense. Os sarcofagídeos apresentam alta diversidade em coletas utilizando-se carcaças de animais. As fêmeas desta família são larvíparas, em contraste com as fêmeas pertencentes ao grupo dos califorídeos que são ovíparas, isso configura uma vantagem para este grupo, pois permite que as larvas atinjam a carcaça, mesmo no caso onde barreiras físicas que impeçam a chegada do adulto. Devido a atratividade por matéria orgânica em decomposição, além de substâncias fermentadas, sangues e feridas, alguns representantes desta família apresentam destacada importância como transmissores de patógenos. Família Calliphoridae São dípteros de médio a grande porte, de modo geral azulados, violáceos, esverdeados ou cúpreos, com reflexos metálicos. Conhecidas popularmente como “moscas varejeiras”, as moscas da família Calliphoridae têm importante papel na natureza, participando da cadeia alimentar e da reciclagem da biomassa, podendo ainda veicular diversos agentes patogênicos que causam enfermidades parasitárias ao homem e aos animais domésticos. Atuam como agentes mecânicos e/ou biológicos, causadores de miíases Os califorídeos podem ser atraídos por substâncias em processo de fermentação, decomposição, sangue e feridas. Dessa forma, são encontrados em abatedouros, frigoríficos, curtumes, estábulos de gado leiteiro, aviários, feiras livres, frutos caídos, plantas em decomposição, lixo doméstico, aterros sanitários e em lixões a céu aberto. Vários gêneros são de importância na medicina e medicina veterinária por serem Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 99 produtores de miíases, entre eles os gêneros Cochliomyia, Lucilia, Chrysomya e Calliphora. Cochliomyia hominivorax é uma das mais importantes espécies causadoras de miíases em animais e humanos. As larvas de C. hominivorax parasitam obrigatoriamente tecidosvivos do homem e outros mamíferos, são biontófagas, ou seja, se desenvolvem exclusivamente em tecidos vivos. Ataca feridas recentes e é uma séria praga de animais domésticos, especialmente ovinos, caprinos e bovinos, ocasionando graves prejuízos econômicos. Entre os animais selvagens parasitados por este inseto, observados em reservas ecológicas, parques florestais ou zoológicos, se encontram os veados, tatus, tamanduás, pacas, elefantes, lobos marinhos, avestruzes e varias espécies de felinos Cochliomyia macellaria, também tem importância como produtora de miíases, pois suas larvas são invasoras secundárias de ferimentos (necrobiontófagas). Os ovos são depositados em massas, em número que varia de 40 a 250 ovos no lixo, tecidos necrosados de ferimentos de animais, carcaças em putrefação, Chrysomya bezziana, conhecida também como “bicheira do velho mundo”, esta espécie é classificada por causar miíase ulcerativa/traumática, de caráter obrigatório. Está distribuída pela Índia, Península Arábica, Indonésia, Filipinas e Nova Guiné. Tem como hospedeiros os ovinos e humanos. O mecanismo de infestação é semelhante ao de outros dípteros que causam miíases ulcerativas ou traumáticas, ou seja, a mosca deposita cerca de 150 ovos na ferida ou em suas proximidades Chrysomya megacephala, sua distribuição estende-se por todo o mundo, tendo maior prevalência nas regiões orientais. Ocorre no Brasil. Espécie classificada por causar miíase ulcerativa de caráter facultativo. Geralmente é encontrada junto com outras espécies em uma mesma ferida, por ser causadora de miíase secundária, tendo preferência pelas bordas de ferimentos, pelo fato de estas já estarem necrosadas. Alimenta-se de carne em decomposição e fezes. Casos de miíases em humanos são relatados na literatura, tanto por causar miíase ulcerativa (FERNANDES et al., 2009), otomiíase (LEE & YONG, 1991) e por ser de importância na medicina forense (CHEN et al., 2004). Auchmeromyia senegalensis, as larvas dessa espécie são sanguinívoras, e tem mamíferos como hospedeiros. É distribuída nas regiões da África Sub-Saariana e Ilhas de Cabo Verde. O mecanismo de infestação se dá por meio dos ovos que são colocados nos pisos de cabanas tradicionais, no solo ou areia. As larvas eclodem em 1 a 3 dias, e ficam enterradas durante o dia, e no período noturno, essas se alimentam de seus hospedeiros até atingirem seu pleno desenvolvimento. Todos os três estágios larvais são sugadores de sangue. Gênero Lucilia Lucilia cuprina é classificada por produzir miíase de caráter facultativo. Tem sua distribuição mais concentrada na África do Sul e Austrália, mas pode ser encontrada em outras partes do mundo, inclusive no Brasil. Moscas desse gênero preferem se alimentar de tecido morto, mas podem invadir tecidos vivos quando existem poucas opções. O mecanismo de infestação se dá por meio da deposição de ovos em cadáveres, em feridas negligenciadas e supuradas, ou ainda, em particular, sobre a lã de ovelhas que possam estar sujas com urina, fezes ou sangue. Pode causar miíase secundária em humanos L. sericata, como produtora de miíases em seres humanos, é usualmente de caráter benigno, isto é, as larvas alimentam-se de tecidos necrosados. Culturas de larvas, Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 100 bacteriologicamente esterilizadas foram utilizadas no tratamento da osteomielite, onde elas removiam os tecidos necróticos e, através dos produtos da excreção (alantoína), promoviam a cicatrização dos tecidos doentes da ferida. Entretanto, os tecidos sadios também podem ser invadidos, o que aumenta sua importância como produtora de miíases no homem e animais domésticos Gênero Calliphora Este gênero, de distribuição predominantemente paleártica, ocorre na região neotropical com representação de cinco espécies. A única espécie incriminada como causadora de miíase tegumentar ou cutânea é a Calliphora vicina, que tem sua origem nos continentes boreais da Terra, e se distribui também pelo México, Uruguai, Argentina, Chile e Terra do Fogo. Não ocorre no Brasil. C. vicina pode produzir miíases tegumentárias traumáticas no homem e animais domésticos, porém em caráter facultativo, pois seu hábito alimentar está mais relacionado com tecido em decomposição. Em humanos, o gênero pode causar otomiíase, miíase intestinal, oral, ulcerativa e urogenital. A espécie C. hilli já foi relatada por causar miíase ocular em humanos. Cordylobia anthropophaga Distribuída na região da África Sub-Saariana, já tendo sido descrita em Portugal). Não ocorre no Brasil. É um parasita obrigatório que causa miíase cutânea e tem como principais hospedeiros os ratos e outros mamíferos silvestres, incluindo macacos, esquilos, antílopes, javalis e leopardos. Entre os animais domésticos infestados estão cães, gatos, coelhos, porquinhos da índia, cabras e galinhas. Humanos também podem ser infestados. Muitas dessas miíases podem ser do tipo furunculares. As moscas depositam ovos de preferência em locais contaminados com urina ou fezes, ou locais com higiene precária. A penetração de Cordylobia anthropophaga na pele é normalmente assintomática, embora na área de penetração possa haver ligeiro prurido por até dois dias após a infestação. Em poucos dias, uma pápula avermelhada se desenvolve e quando a larva está totalmente desenvolvida, há uma sensação de calor no local. Uma reação inflamatória intensa no tecido circundante da lesão se desenvolve ao longo de um período de seis dias. Algumas lesões podem desenvolver uma pústula central, semelhante à da pioderma Cordylobia rodhaini, espécie classificada como causadora de miíase furuncular cutânea, de caráter obrigatório. Tem sua distribuição no território africano, mais especificamente em áreas de florestas tropicais úmidas. Os hospedeiros dessa espécie constituem vários mamíferos florestais de pele fina (particularmente roedores) e ocasionalmente causa miíase em humanos Phormia regina e Protophormia terraenovae Protophormia terraenovae tem uma distribuição Holartica, ou seja, a espécie é encontrada em todo o hemisfério norte. Esta mosca é comum em regiões mais frias e, por ser a mais tolerante ao frio de todas as espécies de califorídeos pode suportar temperaturas extremas. Causam causar miíase ulcerativa de caráter facultativa. Tem o hábito de se alimentar em de carne em decomposição. Protophormia terraenovae em particular pode ser uma séria praga de bovinos, ovinos e renas. Família Oestridae A família tem cerca de 160 espécies em todo o mundo. Existem espécies que apresentam alguma semelhança com as abelhas. Larvas maduras apresentam espinhos Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 101 longos e robustos, como na espécie Dermatobia hominis, ou pequenos ossos em forma de floco como no gênero Cuterebra. Todas as larvas são parasitas de mamíferos. Dermatobia hominis É classificada por causar miíase de caráter obrigatório. Em humanos, a forma furuncular é a mais comum. Entre os hospedeiros estão humanos, bovinos, suínos, cães, gatos, cavalos, ovelhas, outros mamíferos e algumas aves. Epidemiologia Os prejuízos gerados pelo parasitismo por larvas por dípteros nos rebanhos bovinos brasileiros foram estimados em cerca de 150 milhões de dólares. As perdas geradas pelas bicheiras incluem a perda de peso, queda na produção de leite, danos ao couro e mortalidade de animais. Os danos provocados ao couro, dependem fundamentalmente da região do corpo afetada pelas larvas. Morfologia A monofilia da ordem Diptera é baseada em um número grande e válido de modificações morfológicas ou sinapomorfias, como por exemplo, o desenvolvimento do aparelho bucal adaptado para perfurar e sugar e a transformação do par de asas posterior (metatorácicas) em órgãos de equilíbrio para o voo (halteres ou balancins). Esta última característica,inclusive, auxilia a nomear a ordem, pois com tal alteração, apenas o par de asas anterior é funcional. Como os dípteros possuem uma diversidade gigantesca em número de espécies, habitats e, consequentemente, uma diversidade estrutural e morfológica extensa, é difícil fazer uma generalização a respeito da morfologia desses organismos. Entretanto, há características bem notáveis, que são compartilhadas pela grande maioria desses insetos. Uma dessas notáveis características é o par de grandes olhos compostos em cada lado da cabeça, que podem se apresentar muito juntos, praticamente unidos, ou podem estar dispostos na cabeça de forma bem separada. Além disso, eles podem se dividir em uma seção ventral e uma seção dorsal e, na maioria das espécies, são acompanhados por ocelos, situados no topo da cabeça. A cabeça é móvel e sua morfologia é bem variada entre as diferentes espécies. Outra estrutura típica deste grupo é o terceiro par de peças bucais, o lábio, modificado em um aparelho comumente chamado de probóscide, que pode exercer a função sugadora, lambedora ou ambas. A característica que dá nome ao grupo é a presença de um único par de asas membranosas, as quais promovem ativamente o voo, localizadas no mesotórax desses insetos. No metatórax, há estruturas modificadas a partir do que seria o segundo par de asas em outros insetos, que auxiliam e contribuem para a estabilidade do voo. Estas estruturas são denominadas halteres, que possuem em sua base mecanorreceptores, auxiliando no equilíbrio e na percepção da gravidade. Estes halteres, portanto, são responsáveis por informar o inseto acerca da velocidade e do sentido do voo, presença de correntes de ar e sua posição, sendo assim imprescindíveis para esta ação.[2]. Etiologia Alguns dípteros muscoides picadores, como a mosca dos estábulos Stomoxys calcitrans (Linnaeus, 1758) são muito estudados como transmissores de vírus entre os animais e destes ao homem como, por exemplo, o vírus do Oeste do Nilo. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 102 As moscas se destacam também entre o grupo dos decompositores, pois algumas espécies são capazes de colonizar rapidamente diversos habitats devido a sua atração pelo odor exalado durante o processo de decomposição e ao fato de serem ágeis e boas voadoras. A Entomologia Forense é o estudo dos insetos e outros artrópodes associados a eventos criminais, com o objetivo de fornecer informações úteis à investigação. Segundo diversos autores, os dípteros muscoides são os primeiros insetos a chegar aos cadáveres e possuem a habilidade de ovipor logo após encontrá-lo. Além disso, as larvas são responsáveis por cerca de 90% da degradação da massa corpórea, desempenhando importante função ecológica como decompositoras. A aplicação mais comum dos insetos na entomologia forense é a estimativa do intervalo pós-morte (IPM), que é o intervalo de tempo entre a morte e quando o corpo é encontrado. Isso pode ser determinado através do período mínimo de atividade do inseto no corpo em decomposição. Acredita-se que o importante papel das moscas como transmissoras de patógenos está relacionado com a sua habilidade de voar grandes distâncias, algumas espécies podem voar até 3km ao dia. Mas, além disso, a sua elevada atração tanto por matéria orgânica em decomposição, assim como por locais onde o alimento é processado e estocado. As larvas de dípteros muscoides podem se desenvolver em tecidos do homem e de outros animais, onde elas evoluem como parasitos. Algumas espécies são parasitas obrigatórias e as larvas são denominadas biontófagas, pois se alimentam em tecido vivo, por exemplo: Dermatobia hominis (Diptera: Oestridae) e Cochliomyia hominivorax (Diptera: Calliphoridae). Outras espécies são consideradas parasitas facultativas e suas larvas são denominadas necrobiontófagas ou necrófagas, pois têm a capacidade de se alimentar de tecido necrosado que pode estar em um organismo vivo ou não. Como exemplo desse último tipo, podemos citar: Cochliomyia macellaria, (Diptera: Calliphoridae) e representantes dos gêneros Chrysomya, Lucilia, Fannia e Muscina (Diptera: Calliphoridae), além de alguns membros da família Sarcophagidae A infestação por estas larvas causa um prejuízo grande para a criação de animais em larga e pequena escala. As perdas econômicas podem chegar até US$ 150 milhões por ano, no Brasil. Os danos ao animal vão desde ao aumento da irritabilidade, diminuição do apetite, anemia, levando a perda de peso, diminuição na produção de leite, até mesmo a mastites e infecções graves em umbigos de recém-nascidos, que podem levar ao desmame prematuro e a morte. Durante muitos anos, a enfermidade era considerada mais comum em ambientes rurais, acometendo em maior número crianças, idosos, debilitados ou qualquer pessoa incapaz de garantir a higiene básica e uma ferida limpa. O cenário está mudando. Não só pessoas que vivem nas proximidades de zona rural estão em risco, casos de miíase têm sido frequentemente relatados na zona urbana, o que mostra a capacidade de adaptação de diferentes dípteros a ambientes urbanizados. A Miíase é definida como a infestação por larvas histiófagas de dípteros (moscas) em hospedeiros vertebrados, que encontram em tecidos vitalizados (biontófagas) ou necróticos (necrobiontófagas) fonte nutricional para seu desenvolvimento e reserva energética para a fase de pupa. Atualmente, as miíases podem ser vistas sob dois aspectos: clínico ou parasitológico. Na primeira, a classificação está fundamentada nos locais do corpo do hospedeiro onde as larvas se instalam ou são encontradas, assim sendo designadas como cutâneas, cavitárias (nasofaringeal, ocular e urogenital) ou intestinais. Quanto ao aspecto Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 103 parasitário, a infestação pode ser classificada como do tipo obrigatória, facultativa e acidental (quando leva em conta a biologia do inseto) ou primária e secundária (tendo em vista o seu caráter invasivo). No caso das miíases obrigatórias, os imaturos se desenvolvem exclusivamente em tecidos vivos de animais, não possuindo outra fonte de recurso alimentar, ou seja, não sobreviveriam se não acometessem um hospedeiro. Quanto às miíases facultativas, como as larvas consomem exclusivamente tecidos mortos ou necróticos de animais, nunca tecidos vivos, estas podem ter uma maior multiplicidade de hábitos alimentares, assim também são encontradas criando-se em matéria orgânica em decomposição tais como carcaças e fezes. Em miíases acidentais ou pseudomiíases, a ingestão de líquidos ou alimentos contendo larvas de dípteros pode levar ao desenvolvimento no trato digestório de quadros patológicos, com menor ou maior gravidade, tais como danos na mucosa intestinal, infiltrações hemorrágicas ou simplesmente distúrbios gastrointestinais. Finalizando, quando os imaturos são capazes de iniciar a invasão nos tecidos de um hospedeiro são chamadas de miíases primárias, enquanto que nas secundárias a colonização ocorre somente a partir de lesões já existentes Ciclo e patogenia O mecanismo de infestação da C. hominivorax está relacionado à deposição de ovos em feridas, em bordos de lesões ou em cavidades do corpo. Dentro de 12 – 24 horas as larvas emergem e imediatamente começam a se alimentar de fluidos e tecidos subjacentes da ferida, escavando de cabeça para baixo, formando a famosa “bicheira”. Como elas se alimentam do tecido por meio de seus ganchos orais, a ferida é ampliada e aprofundada, resultando numa destruição tecidual extensa. Feridas infestadas, frequentemente liberam um odor característico, que pode ser a primeira indicação de que um animal está parasitado. Embora o odor nem sempre seja evidente para os seres humanos, ele é, obviamente, muito atrativo para fêmeas grávidas que estabelecem outros lotes de ovos, de modo a aumentar a extensãoda infestação. A infestação grave, que não é tratada, poderá resultar na morte do hospedeiro. O ciclo de vida de Cordylobia rodhaini ocorre ao longo de 55 a 67 dias. A fêmea da espécie deposita seus ovos (cerca de 500 ovos) na areia ou solo contendo fezes, urina ou em roupa exposta ao sol. Em cerca de três dias, ao entrar em contato com o hospedeiro, a larva é ativada pelo corpo quente do hospedeiro e invade a pele. Quando esta amadurece, alcançando estágios mais avançados, há um inchaço furuncular. Em 12 a 15 dias, a larva atinge um comprimento de cerca de 23 milímetros, sai da pele e cai no terreno para pupar. Sinais e sintomas de miíases Os pacientes com Miíase, em geral apresentam alguns fatores que levam à predisposição para o seu desenvolvimento, tais como retardo mental, distúrbios psiquiátricos, senilidade, doenças vasculares, neoplasias, diabetes e imunodepressão e etilismo crônico, e ocorre preferencialmente em idosos. Porém, os fatores de maior relevância para o surgimento da Miíase ainda é a ocorrência de lesões expostas com exsudações e higiene corporal e oral deficientes. A Miíase pode se apresentar como laceração da cavidade cutânea ou cavitária, inchaço, inflamação, sensação de ferroada na pele, coceira, vermelhidão na área afetada, sensação de movimento sob a pele. As miíases podem ser divididas em três grupos: Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 104 • Miíase furuncular: parecida com uma espinha, conhecida por berne • Miíase migratória: semelhante ao bicho geográfico • Miíase cavitária: aparece em feridas abertas e quadros de câncer de pele. Também é popularmente conhecida como calcanhar de maracujá. Diagnóstico das miíases O diagnóstico de miíase é clínico, fortalecido pela história de viagens, local de moradia, presença de fatores de risco como feridas de pele ou limitação de mobilidade, exame físico e confirmado pela identificação das larvas.Pode ser classificada em duas categorias, de acordo como tipo de larva que infesta e os tecidos que acometem: cutânea ou cavitária Tratamento O tratamento para miíase consiste basicamente na remoção manual das larvas, com o auxílio da cureta e pinça clínica, geralmente sob anestesia ou analgesia, dependendo do estado clínico do paciente, a remoção das larvas te que ser feita de modo cuidadoso, para que as larvas não sejam fragmentadas, e os seus restos permaneçam no local, gerando um processo infeccioso. Na miíase cutânea ou furuncular, popularmente conhecida como berne, sugere- se antes da remoção da larva, utilizar vaselina, parafina líquida, esmalte de unha ou fita adesiva para oclusão do orifício da pele por 24 horas, assim a larva tende a aproximar-se da superfície para respirar, facilitando a sua remoção. Após a oclusão por esse período, deve-se aplicar compressão da pele adjacente até que seja possível visualizar a larva. Para finalizar a extração pode ser necessário o auxílio de pinça, com movimentos de tração suave para que a larva seja extraída intacta, diminuindo reações de hipersensibilidade A utilização sistêmica de uma dose de ivermectina, um antibiótico macrolídeo semissintético para o tratamento de casos mais severos envolvendo a existência de Miíase oral, demonstrando ser um método seguro nas dosagens recomendadas de 200 µg/kg. Medidas de prevenção A principal medida de prevenção da miíase cavitária é o manejo de lesões de pele ou feridas abertas com curativos oclusivos. Para prevenção de miíase cutânea, cuidados com as roupas, como passá-las a ferro e não secá-las ao solo e o controle das moscas parecem auxiliar na redução da sua incidência. As medidas de prevenção contra a miíase consistem em sua maioria na manutenção da higiene pessoal, como lavar as mãos, tomar banho diariamente e tratar as lesões de pele, especialmente aquelas provenientes de câncer e demais feridas crônicas. A principal medida de prevenção da miíase cavitária é o manejo de lesões de pele ou feridas abertas com curativos oclusivos. Para prevenção de miíase cutânea, cuidados com as roupas, como passá-las a ferro e não secá-las ao solo e o controle das moscas parecem auxiliar na redução da sua incidência. Medidas como manter lixos fechados e ter janelas com telas são importantes em locais com muitas pessoas acamadas.Além disso, evitar que moscas se proliferem também é uma recomendação, sendo indicado o uso de inseticidas ou mesmo Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 105 mosquiteiros, como forma de combater qualquer possibilidade de sobrevivência das larvas no local. Novas ferramentas de estudo Vários dispositivos de captura de insetos estão disponíveis comercialmente, os quais são usados para redução de incômodos, monitoramento ou vigilância de Diptera. As armadilhas luminosas são um dos dispositivos mais utilizados, principalmente para atrair insetos com fototaxia. Entre os invertebrados, insetos e principalmente membros da ordem Diptera têm sido amplamente explorados em estudos toxicológicos genéticos. Algumas características vantajosas encontradas nos dípteros como o curto tempo de geração, a produção de grande número de descendentes em uma única geração, o tempo de vida pequeno e a ocorrência de tecidos com populações celulares adequadas têm sido ideais em tais estudos, tendo em vista a replicação estatística e experimental. As moscas dípteras também têm cariótipos bem definidos com um baixo número de complemento cromossômico diplóide distinguível possuindo centrômero localizado e mostrando emparelhamento somático característico. Além disso, essas moscas são dotadas de cromossomos politênicos gigantes que ajudam a ilustrar pequenas mudanças genéticas Referências Solomon M, Lachish T, Schwartz E. Cutaneous myiasis. Curr Infect Dis Rep. 2016 Sep;18(9):28. Doi 10.1007/s11908-016-0537-6. Singh A, Singh Z. Incidence of myiasis among humans: a review. Parasitol Res. 2015 Sep;114(9):3183-99. Doi 10.1007/s00436-015-4620-y. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 106 ACAROS Introdução Ácaro é um animal invertebrado pertencente ao filo Arthropoda, subfilo Chelicerata, classe Arachnida, ordem Acarina. A subclasse Acari compreende quatro ordens de interesses médico e veterinário: Mesostigmata, Trombidiformes, Ixodida e Sarcoptiformes. A palavra acari deriva do grego akares, 'pequeno'. A maioria dos adultos mede entre 0,25 e 0,75 mm de comprimento, embora existam espécies ainda menores. Este grupo, apresentam quelíceras como peças bucais, não possuem antenas e contam com quatro pares de patas. Além disso, possuem um corpo indiviso, porém, para facilitar o estudo, pode ser dividido em dois tagmas (grupos de segmentos especializados) exclusivos: gnatossoma e idiossoma. O gnatossoma é a parte mais anterior do corpo do animal e corresponde apenas ao ápice da cabeça, onde estão localizadas as peças bucais e a abertura bucal, enquanto o idiossoma é a região posterior e corresponde à maior parte do corpo do ácaro. Os carrapatos são os que alcançam maior tamanho, chegando a até 3 cm, após ingerirem sangue, como por exemplo, o carrapato-estrela, vetor da bactéria causadora da febre maculosa. O grupo apresenta aproximadamente 55 mil espécies descritas, compondo aproximadamente 5.500 gêneros e 1.200 subgêneros, representados em 540 famílias. Entretanto, estimativas do real número de espécies de ácaros vão de 500 mil a 1 milhão, pois novas espécies são encontradas rotineiramente, até mesmo em substratos que já foram bem estudados. A grande capacidade de adaptação, relacionada com a plasticidade evolutiva e o pequeno tamanho relativo, possibilitou a conquista de diversos ambientes aquáticos e terrestres, de forma que os ácaros ocupam uma variedade maior de habitats do que qualqueroutro grupo de artrópodes. No Brasil os ácaros compõem o principal grupo de ectoparasitos presentes na pelagem de pequenos mamíferos, provavelmente devido às diversas estratégias de sobrevivência assumidas por esses organismos e também aos seus ciclos de vida complexos que, em alguns casos exigem várias ocasiões de hematofagia para o completo desenvolvimento em adulto. Muitas espécies de ácaros apresentam importância médica e veterinária, sendo responsáveis por provocar doenças em seres humanos e perdas econômicas na agricultura e pecuária. Classificação A subclasse Acari compreende quatro ordens de interesses médico e veterinário: Mesostigmata, Trombidiformes, Ixodida e Sarcoptiformes. Ordem Mesostigmata Acari com um par de estigmas laterais às coxas do terceiro par de patas, escudo dorsal e placas ventrais. Nessa ordem interessam em parasitologia as famílias Macronys sidae e Dermanyssidae, cujos representantes são conhecidos como “piolhinhos” de ninhos de galinhas Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 107 São ácaros cujos adultos apresentam o corpo ovalado com aproximadamente 1 mm de comprimento com quelíceras alongadas. As principais espécies de importância em parasitologia são: família Macronyssidae - Ornithonyssus bursa e Ornithonyssus silviarum\ família Dermanyssidae - Dermanyssus gallinae. São parasitos de aves doméssticas e silvestres, dentre elas galinhas, pombos e canários. São encontrados sobre as aves, nos ninhos ou em esconderijos próximos a estes. Podem parasitar os humanos, sugando sangue e provocando dermatite, muitas vezes com prurido intenso. Seu controle tem sido feito atualmente com inseticidas piretroides aplicados nos hospedeiros ou locais onde são encontrados. Ordem Trombidtformes (— Prostigmata) Acari com escudo esternal sempre ausente e estigmas respiratórios, quando presentes, situados na região anterior do corpo. Nessa ordem, as espécies de interesse em medicina estão incluídas nas famílias Demodecidae e Trombiculidae. Família Demodecidae Corpo vermiforme, anelado, medindo 0,1 a 0,4 mm de comprimento, patas curtas, localizadas na região anterior do corpo. São parasitas dos folículos pilosos e das glândulas sudoríparas de mamíferos. Existem várias espécies adaptadas a diferentes hospedeiros como Demodex canis (cães), Demodex bovis (bovinos), Demodex cati (gatos) etc. Eventualmente, a espécie D. canis pode infectar os humanos, causando doença benigna e de curta duração. Nos humanos ocorrem duas espécies de Demodex. o D. folliculorum, de maior prevalência e que habita os folículos pilosos, e o D. brevis, de baixa prevalência, que habita as glândulas sebáceas. São encontrados principalmente no rosto, no dorso e no tórax dos humanos. No passado, essas espécies foram responsabilizadas como causadoras da acne e do cravo cutâneo. Altas densi dades dos ácaros também foram associadas à patogenia de casos de blefarite, foliculite e dermatites periorais. Família Trombiculidae Adultos medem 1 mm de comprimento e apresentam o corpo densamente piloso. Adultos e ninfas são de vida livre e encontrados em matéria orgânica no solo, onde as fêmeas depositam seus ovos. As larvas são atraídas pelo CO, eliminado de algum vertebrado ao qual se aderem, pois não têm especificidade parasitária, e se alimentam de linfa. Após alimentarem-se, caem no solo, onde realizam mudas para ninfas e adultos. Algumas espécies dessa família podem parasitar o homem causando dermatite pru- riginosa: Leptotrombidium spp., Trombicula autumnalis, Schoengastia sp. e Euchoengastia sp. No Brasil, parece que as espécies mais frequentes são: Eutrombicola alfredugesi, Eutrombicula batatas e Apolonia tigipioensis. No Nordeste, os trombiculídeos são conhecidos por “micuins”; causam um prurido intenso que pode desenvolver dermatites e podem transmitir Rickettsia. Ordem Ixodida Os membros da ordem Ixodida, conhecidos como carrapatos, são ácaros de porte relativamente grande, comuns na maior parte das regiões tropicais e temperadas do planeta. Têm importância médica e veterinária por serem ectoparasitos sugadores de sangue de vertebrados e por transmitir os agentes etiológicos de uma série de doenças para o homem e os animais. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 108 A picada dos carrapatos pode levar a respostas alérgicas, reações toxicológicas e, em algumas situações, paralisia (Tick paralysis). Infestações graves são comuns em animais de produção e de companhia, levando a problemas de pele e feridas que podem desenvolver infecções secundárias, além de provocar perda de peso, redução na produção de leite e abortos nos hospedeiros. Na maioria das regiões tropicais, a pecuária seria impossível sem o investimento em medidas de controle de carrapatos. Altas infestações em ambientes naturais podem impactar a recreação em parques, áreas de acampamento e até mesmo quintais de propriedades particulares. Além da espoliação sanguínea, os carrapatos superam todos os outros artrópodes em número e variedade de patógenos que podem ser transmitidos aos animais e são, depois dos mosquitos, os mais importantes vetores de doenças humanas. Dentre os agentes infecciosos veiculados por carrapatos, estão protozoários, bactérias, espiroquetas, riquétsias, vírus e filárias. Alguns destes patógenos podem ser transmitidos transovarianamente à sua progénie, fazendo com que os carrapatos funcionem simultaneamente como vetores e reservatórios. Apesar dos enormes avanços obtidos no controle de populações e transmissão de patógenos por carrapatos, estes parasitos ainda são uma ameaça para a saúde humana e animal em todo o mundo. A ordem Ixodida tem duas famílias de interesse médico, veterinário: Família Ixodidae: são chamados de “carrapatos duros” por possuírem uma placa esclerotizada na região dorsal (chamada de escudo) que proporciona um; consistência mais rígida ao corpo. Os carrapatos ixodídeos têm como principais características o gnatossoma ancorado na região anterior do corpo, peritrema localizado após o quarto par de patas e a presença de escudo dorsal. Apresentam dimorfismo sexual acentuado: os machos, menores em tamanho, possuem escudo recobrindo quase toda a área dorsal; nas fêmeas, o escudo é limitado ao terço anterior do dorso. Essa é a família com a maior quantidade de carrapatos de impor tância médica e veterinária no Brasil, principalmente por apresentar espécies de alta prevalência, ampla distribuição geográfica e por serem vetores de doenças graves para os seres humanos e animais. A Família Argasidae, são conhecidos popularmente como“carrapatos moles”, uma vez que não apresentam escudo na região dorsal. Os argasídeos têm aspecto coriáceo, praticamente sem dimorfismo sexual. Diferem-se dos ixodídeos pela ausência de escudo dorsal, pela localização do peritrema (entre o ter ceiro e o quarto par de patas) e por apresentarem o gnatos- soma ancorado na região ventral do idiossoma permanecem em esconderijos no solo, construções ou vegetação e entram em contato com o hos pedeiro somente durante a sucção sanguínea que dura de 5 a 60 minutos e normalmente acontece durante a noite. Cada fêmea pode pôr mais de 800 ovos durante sua vida. Dos ovos eclodem as larvas cujo hábito alimentar é divi dido em três grupos de acordo com a espécie: larvas que se alimentam lentamente (períodos que variam de 2 a 7 dias); larvas que se alimentam rapidamente (períodos que variam de 5 a 50 minutos); e larvas que mudam para ninfas sem se alimentarem. As larvas dão origem às ninfas que. após um novo repasto sanguíneo, mudam para o segundo estádio ninfal. O segundo estádio ninfal pode dar origem a outro estádio ninfal ou a adultos, e as mudas são sem pre precedidas de repastos sanguíneos. Algumas espécies podem passar por mais de seis estádios ninfais antes de se tomarem adultos. No Brasil,os principais gêneros de importância parasitológica são Argas e Ornithodoros. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 109 Gênero Argas Os espécimes desse gênero se diferenciam de outros acarisídeos por possuírem uma borda lateral nítida delinenando as regiões ventral e dorsal do corpo. A principal especie encontrada no Brasil, Argas miniatus, é conhecida como“carrapato dos galinheiros. É muito comum em meio rural e suga sangue de galinhas e de outras aves. Não ataca seres humanos. Gênero Omithodo Caracterizam-se possuir hipóstomo bem desenvolvido e corpo sem delimitação entre as porções dorsal e ventral. No Brasil, foram encontradas as seguintes espécies: O. rostratus, O. braziliensis, O. turicata, O. talaje, O. hasei, O shulze, O. marinkellei, O. mimom, O. nattereri e O. stageri. As espécies O. rostratus, O. braziliensis são conhecidas como “carrapatos do chão” por causa de seu hábito de viverem escondidos em buracos no chão em casas, ranchos e abrigos de animais. À noite saem dos esconderijos para sugar o sangue de diversos hospedeiros, incluindo o homem e animais domésticos. As picadas dessas especies podem provocar no homem forte prurido, eritema, ferimentos de cura demorada e, às vezes, febre. Carrapatos desse gênero são muito resistentes ao jejum prolongado, e podem chegar a mais de 5 anos para algumas espécies. Ordem Sarcoptiformes Caracterizam-se por apresentar cutícula delgada, sem estigmas respiratórios; quelíceras em geral em forma de tesoura; palpos simples; macho normalmente com ventosas copuladoras. As famílias mais importantes são: • Sarcoptidae, com a espécie Sarcoptes scabiei, agente da sarna sarcóptica ou escabiose. • Pyroglyphidae, principalmente com as espécies Dermatophagoides farinae e Dermatophagoides pteronyssinus, responsáveis por manifestações alérgicas do aparelho respiratório. A principal forma de transmissão é por contato direto. Caracteriza-se, portanto, por ser uma enfermidade de aglo merações. Também ocorre transmissão por meio de fômi- tes, principalmente mediante compartilhamento de objetos de uso pessoal (roupas, chapéus, pentes etc.) ou contato com locais de uso comum (maçanetas de portas, cadeiras. corrimões etc.). A patogenia da doença está relacionada principalmente com a escavação das galerias na epiderme. Durante a perfuração, as fêmeas provocam um dano mecânico nos tecidos e liberam sua saliva com proteases e outros compostos que vão auxiliar na escavação dos túneis e contrapor reações reparatórias do hospedeiro. Além disso, as galerias da epi derme também receberão produtos de excreção do parasito e os ovos. A presença dos ácaros e de todo o material libe rado por eles, somada ao dano tecidual causado, vão gerar uma resposta inflamatória que resulta na descamaçâo da pele e exsudação de linfa. Existem diversas variedades de S. scabiei, conforme o hospedeiro a que cada variedade se adaptou durante sua evolução. Assim, há S. scabiei variedade hominis (parasito do homem); S. scabiei variedade canis (parasito do cão); 5. scabiei variedade suis (parasito dos suínos); S. scabiei variedade bovis (parasito dos bovinos) etc. Dentre os animais, cães e suínos são os mais frequentemente acometidos e podem apresentar casos mais graves de sarna sarcóptica, com lesões acometendo grandes extensões do corpo. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 110 Morfologia Os carrapatos possuem corpo fundido, de aspecto glo boso, sendo a porção anterior chamada de gnatossoma e a nosterior de idiossoma. Caracterizam-se pela presença de um par de estigmas respiratórios, abrindo-se em peritremas, entre o terceiro e o quarto par de patas nos argasídeos e após o quarto par de patas nos ixodídeos gnatossoma, também chamado de capítulo, é com posto por: base, peças bucais (duas quelíceras e hipóstomo) e dois palpos. As quelíceras são estruturas cortantes móveis que abrem uma incisão na pele do hospedeiro para permitir a entrada do rostro, conjunto das quelíceras e hipóstomo. O canal alimentar é constituído pelo hipóstomo (na parte ventral) e as quelíceras (na parte dorsal) e serve para ingestão de sangue e fluidos tissulares do hospedeiro e para a secreção de saliva. A superfície externa do hipóstomo é recoberta por dentes recurrentes que auxiliam na fixação à pele do hospedeiro. Os palpos são estruturas ancoradouras enquanto o carrapato está fixado ao hospedeiro e possuem quatro artículos com receptores gustativos, olfativos e neurônios mecanorreceptivos. O idiossoma é achatado dorsoventralmente e de contorno oval ou elíptico. Na face dorsal dos ixodídeos encontra-se o escudo que nos machos cobre quase todo o idiossoma e nas larvas, ninfas e fêmeas cobre aproximada mente um terço da região anterior. O escudo pode apresentar-se ornamentado por manchas, faixas etc. Os argasídeos não possuem escudo. Os olhos simples, quando presentes, encontram-se situados nas margens laterais anteriores dos escudos. Na margem posterior do dorso encontram-se, em algumas espécies, áreas retangulares denominadas festões. Na face ventral do idiossoma implantam-se as patas, sendo que ninfas e adultos possuem quatro pares, enquanto as larvas apenas três pares. No primeiro par de patas localiza-se o órgão de Haller, que apresenta células olfatórias receptoras que detectam umidade, odores estimulantes, CO, e feromônios. Posteriormente, apresenta-se os orifícios genital (ou abertura genital) e anal (ânus). Larvas e ninfas, que ainda não possuem o sistema reprodutor desenvolvido, não apresentam o orifício genital. Os ovos são pequenos, esféricos, de coloração castanha e são postos isoladamente (argasídeos) ou unidos por uma substância colante (ixodídeos). Sarcoptes scabiei apresenta corpo globoso, os adultos medem cerca de 400 pm de comprimento por 300 pm de largura; gnatossoma (formado por base, um par de palpos e um par de quelíceras) curto e largo; pemas curtas e gros sas, sem garras e agrupadas em dois pares anteriores e dois pares posteriores. A cutícula é marcada por estrias finas, frequentemente interrompidas por áreas com cerdas finas e flexíveis e escamas de forma triangular. Os machos possuem ventosas nas patas I, II e IV, enquanto as fêmeas nas patas I e II. Fêmeas também têm longas cerdas nas patas III e IV. Possuem pedicelos longos e não segmentados. Morfologia Interna Os órgãos internos estão localizados, em sua maioria, no idiossoma. O sistema circulatório é composto por um coração que bombeia a hemolinfa, um fluido complexo com células e outros compostos, para a cavidade geral. No sistema digestivo, o canal alimentar é seguido de uma faringe muscular que funciona como órgão de sucção, um esôfago em S e glândulas salivares com importantes funções. O intestino médio é provido de inúmeros divertículos, que vão aumentando de Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 111 volume durante a sucção sanguínea. O intestino posterior é formado pelo reto e pela vesícula retal. O sistema excretor é constituído de um par de tubos de Malpighi que terminam na junção dos intestinos médio e posterior. Os argasídeos possuem glândulas coxais, que eliminam excessos de líquidos ingeridos durante a alimen tação, enquanto nos ixodídeos essa função é desempenhada pelas glândulas salivares. O sistema reprodutor masculino é constituído de dois testículos que partem de canais deferentes que se unem para originar a vesícula seminal. Não há órgão copulador. O macho, com auxílio do rostro, introduz o espermatóforo, contendo os espermatozóides, no orifício genital da fêmea. O sistema reprodutor feminino é constituído de um ovário com um par de ovidutos que se unem formando um útero. Este se comunica com o receptáculo seminal através da vagina e esta com o orifício genital feminino. Ciclo biológicoO ciclo biológico dos ixodídeos apresenta uma fase parasitária, quando os carrapatos estão em contato com o hospedeiro, e uma não parasitária, quando estão no ambiente realizando a muda ou a postura. Durante o seu desenvolvimento, os ixodídeos passam pelos estádios de ovo, larva, ninfa e adulto. As mudas de estádio são precedidas de repastos sanguíneos que duram de 5 a 14 dias e podem ser realizadas no solo ou sobre o hospedeiro. Durante o ciclo biológico, a cópula ocorre na abertura dos folículos pilosos. As fêmeas grávidas migram para as glândulas sebáceas, onde depositam os ovos. As fêmeas, depois de fecundadas e repletas de sangue, desprendem dos hospedeiros e caem no solo, onde procuram um abrigo para fazer a postura de milhares de ovos. A ovipostura dura vários dias e, quando terminada, as fêmeas morrem, cerca de 60 horas após, há eclosão de larvas que, em seis dias, transformam-se em ninfas e depois em adultos. O desenvolvimento durante a fase não parasitária (de ovo até larva e mudas no solo) depende muito das condições ambientais e pode prolongar-se consi deravelmente em baixas temperaturas. Os adultos migram pela pele, principalmente durante a noite, quando os machos fecundam as fêmeas. E nessa fase (antes da cópula) que ocorre a transmissão para os novos hospedeiros por meios do contato direto. Patogenia Para se alimentar, os carrapatos penetram as peças bucais (hipóstomo e quelíceras) na pele do hospedeiro e, epiderme, em seguida, dilaceram os tecidos a fim de formar um poço alimentar, contendo sangue e células teciduais, que serão ingeridos. Durante a alimentação, os palpos ficam dispostos lateralmente, paralelos à superfície da pele. A glândula salivar é um dos principais órgãos envolvidos na hematofagia e desempenha diversas funções durante o período alimentar. Após a penetração das peças bucais na pele, as glândulas salivares secretam uma substância leitosa (chamada de cemento) que endurece em volta do hipóstomo facilitando a fixação do carrapato. Além do cemento, as glândulas salivares secretam vários compostos farmacológicos (anti- hemostáticos, anti-inflamatórios e imunossupressores) durante a alimentação e tem como objetivo inibir as respostas desencadeadas no hospedeiro e garantir o extravasamento de sangue dos tecidos para o poço alimentar. O volume de sangue ingerido pelos carrapatos ixodideos varia de acordo com o estádio de desenvolvimento e a espécie. Estima-se que adultos de algumas espécies cheguem a ingerir mais de 5 mL durante um único repasto sanguíneo, uma vez que a Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 112 fase sólida do sangue é concentrada no intestino médio e o excesso de líquidos é secre- tado pela saliva. Entretanto, a perda de sangue somente será problemática para o hospedeiro em infestações muito altas. Em criações de bovinos e em cães, é comum observar infestações de milhares de carrapatos em um mesmo animal. Esse quadro pode causar perda significativa de sangue com debilidade geral do organismo e predisposição a outras doenças. Em humanos, esse tipo de situação naão é observada e a perda de sangue causada pela hematofagia não gera maiores problemas. Os principais inconvenientes causados pelo parasitismo são as reações cutâneas resultantes do dano mecânico causado pelas peças bucais em conjunto com a inflamação induzida pelos componentes salivares. Em con sequência, ocorrem prurido, formação de eritema, edema e vesículas cuja gravidade e extensão variam de acordo com as características individuais do hospedeiro e constituição salivar do carrapato. Algumas espécies de carrapatos, como Ixodes holocyclus, Dermacentor andersoni e Dermacentor variabilis, também possuem em sua saliva toxinas debilitantes e paralisantes que causam um quadro conhecido como tick paralisis, às vezes fatal ao hospedeiro, inclusive o homem. Entretanto, essas espécies ainda não foram descritas no Brasil. Transmissão de doenças e animais e seres humanos No Brasil, as principais doenças que têm carrapatos como vetores são a febre maculosa e as borrelioses em humanos e as babesioses e anaplasmoses causadoras do complexo da “tristeza parasitária animal”. Febre maculosa A febre maculosa brasileira foi inicialmente identificada no Brasil em 1929, porém tornou- -se doença de notificação compulsória somente em 2001, e desde 2007 integra o Sistema de Informações de Agravos de Notificação Compulsória. Segundo dados do Ministério da Saúde, foram con- firmados 1.688 casos entre 2000 a 2016 em todo o Brasil, sendo o maior número de casos (1.239 - 73%) registrados na região Sudeste, com extensão a alguns estados das regiões Sul, Nordeste e Distrito Federal, com aumento da taxa média de letalidade de 25,7% para 35% nos períodos de 2000 - 2008 e 2009 - 2016, respectivamente4. A maior proporção de óbitos (528/1239 - 42,6%)4 também se encontra na região Sudeste. Apresenta maior número de casos entre os meses de junho e outubro, provavelmente relacionado ao ciclo reprodutivo do vetor ocorre em períodos menos chuvosos. No Brasil, os dois principais vetores da doença pertencem ao gênero Amblyoma, sendo o A. cajennense, conhecido popularmente como carrapato estrela, o de maior importância epidemiológica6. Os principais hospedeiros do carrapato são roedores, como a capivara, gambás equinos, mas podem encontrar-se também em cães, gatos e pássaros. R. rickettsii são espiroquetas gram negativo intracelular obrigatório transmitida aos seres humanos principalmente por carrapatos, especialmente os do gênero Amblyomma, que atuam como reservatórios naturais da doença pelo fato de permitirem a transmissão vertical da bactéria pelas vias transovariana, transestadial e interestadial Sinais e sintomas É uma condição clínica de difícil diagnóstico, com necessidade de alto grau de suspeição, principalmente nas fases iniciais da doença, que apresenta sinais e sintomas inespecíficos (febre, cefaleia, mialgia, mal-estar e vômitos). Com o tropismo por células endoteliais de capilares e vênulas e a resposta inflamatória reacional, resultam em Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 113 vasculite generalizada, le- vando a trombose e hemorragias. Além do comprometimento digestório inicial e do exantema maculopapular e petequial, pode evoluir com comprometimento renal (necrose tubular aguda), pulmonar (edema pulmonar, pneumonite e derrame pleural) e neurológico (déficit neurológico com encefalite e meningite). As manifestações clínicas mais comuns incluem febre, cefaleia, calafrios, dor lombar, vômitos, dor abdominal, mialgia, artralgia e exantema. O exantema surge entre o 3° e 5° dia da doença, está presente em cerca de 80 a 90% dos casos, e sua ausência parece estar associada à gravidade. É tipicamente maculopapular não pruriginoso, surgindo, inicialmente, nos punhos e nos tornozelos, com posterior generalização, sendo característico o envolvimento das palmas das mãos e plantas dos pés. Nos casos mais graves pode ocorrer até necrose de extremidades Diagnóstico O diagnóstico da doença é essencialmente clínico e epidemiológico. Os casos podem se apresentar como oligos- sintomáticos ou se desenvolver de forma grave e fulminante. O período de incubação pode variar de 2 a 14 dias após a picada do carrapato, com média de 7 dias. O método diagnóstico padrão ouro atualmente é a reação de imunofluo- rescência indireta (RIFI), sendo possível detectar os anticorpos a partir do 7° ao 10° dia de doença9. A reação em cadeia de polimerase/PCR deve ser realizada preferencialmente nos pri- meiros 5 dias de doença e antes da instituição do tratamento. A cultura de tecidos para o isolamento do agente exige normas rigorosas de biossegurança e inviabiliza seu uso rotineiro. Tratamento A doxiciclina é a única droga comprovadamente eficaz para tratamento de todas as rickettsioses, emtodas as faixas etárias. Nos casos mais graves com necessidade de internação. O cloranfenicol é o medicamento de escolha no Brasil pela indisponibilidade. de doxiciclina endovenosa. O tratamento deve ser iniciado imediatamente em pessoas com sinais e sintomas sugestivos de rickettsiose. Borreliose A doença de Lyme foi descrita em 1975, na cidade de Old Lyme, EUA, quando houve relatos de uma grande quantidade de casos de artrite reumatóide em crianças, após serem picadas por carrapatos e pela formação do eritema migratório (EM), caracterizado por lesões de pele únicas ou múltiplas, de crescimento centrífugo. Atualmente a doença de Lyme esta disseminada mundialmente, principalmente na Europa e Ásia e America do norte. No Brasil, foi diagnosticada pela primeira vez em 1992, sendo identificada no país a Borrelia burgdorferi, uma bactéria que pode apresentar variações genéticas conforme a região em que se encontra. A bactéria é transmitida por carrapatos do gênero Ixodes e, no Brasil especialmente, pela espécie Amblyomma cajennense a mesma que transmite a febre maculosa. A Borrelia normalmente habita o terço médio do intestino do carrapato, principalmente do gênero Ixodes, (Ixodes scapularis, I. ricinus, I. pacificus). As espiroquetas são inoculadas juntamente com a saliva durante o parasitismo dos carrapatos em mamíferos, no homem e nas aves. No Brasil, o principal vetor é o carrapato Amblyomma cajennense (também conhecido como “carrapato estrela”). Sinais e sintomas Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 114 Em humanos, em média o período de incubação varia de 7 a 14 dias, mas pode variar de 3 a 32 dias, com o aparecimento do eritema crônico migratório (EM) ou a exposição do vetor (carrapato). Mesmo se a lesão cutânea não aparecer na fase inicial, à doença pode se manifestar anos depois, uma vez que as Borrélias podem permanecer na pele durante grandes períodos de tempo, sem causar doença sistêmica até que se produza uma quebra das defesas do hospedeiro, o que dificulta o diagnóstico correto e rápido da doença. A infecção causada pela bactéria pode ser subclínica (assintomática) ou apresentar um grande número de sinais clínicos, dependendo dos tecidos afetados, duração da infecção, vulnerabilidade do sistema imunitário do hospedeiro, e fatores imunogenéticos, que podem predispor o desenvolvimento de complicações. A fase precoce inicia-se entre 3 e 60 dias após a picada do carrapato. A primeira manifestação clínica da doença na pele, no local onde ocorreu a picada do carrapato, com o aparecimento do Eritema migratório (EM). Esta lesão cutânea identificada por apresentar um formato anelar, extensiva, avermelhada, quente, de diâmetro superior a 5 cm (com limites de 68 a 75 cm de diâmetro), habitualmente com um centro claro e limitado por um círculo eritematoso brilhante em alguns casos doloroso. Com menos freqüência pode aparecer tosse não produtiva. Rigidez na nuca, mal- estar, cefaléia e linfadenopatias, ás vezes podem estar presentes. Podem surgir manifestações oftalmológicas, especialmente conjuntivite e irite. Pode ainda ocorrer comprometimento hepático, sistema neurológico, cardíaco e articular. Animais domésticos como cães e gatos são susceptíveis ao Lyme, contudo poucos casos têm sido relatados. Nos cães observa-se com maior freqüência edema nas articulações, podendo levar a claudicação aguda ou intermitente, normalmente acompanhada de febre e anorexia. A claudicação pode desaparecer espontaneamente em 4 dias, mas em um terço dos animais reaparece em outra articulação. O tarso e o carpo são as articulações mais afetadas, podendo também ser acometidas simultaneamente. Os bovinos apresentaram sintomas de claudicação, edema nos membros, perda de peso crônica, hipogalactia, febre transitória, aborto e dificuldade de se levantar. Em eqüinos os sinais clínicos mais comuns são febre, artrite, miosite, laminite, perda de peso e melingoencefalite. Tratamento O tratamento recomendado para animais é feito por meio de antibióticos. As tetraciclinas, penicilina, ampicilina e amoxicilina são as mais efetivas por possuírem melhor absorção, mas a doxicilina é a mais indicada devido à maior penetração no tecido, pois apresenta característica lipoproteica. Diagnóstico O diagnóstico da doença de Lyme é baseado na identificação dos aspectos clínicos apresentados pela doença, associado a testes laboratoriais. A detecção de anticorpos específicos, neste caso da Borrelia burgdorferi, é a aproximação mais utilizada (ELISA). O Western Blotting (presença de duas bandas de IgM ou quatro bandas para IgG ou a concomitância de uma banda de IgM com duas de IgG) é importante quando se suspeita de ELISA falso- positivo, uma vez que é mais sensível e específico para diagnóstico. Contudo apresenta desvantagens como à migração de múltiplas proteínas para a mesma área, inconsistência de resultados entre laboratórios devido a diferenças na qualidade, variedade de concentração dos reagentes e o alto custo. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 115 A reação em cadeia da polimerase (PCR) é empregada para detecção do DNA da espiroqueta em material do hospedeiro. Métodos diretos como a cultura por isolamento do agente ou a detecção dos ácidos nucléicos foi recém introduzida no diagnóstico de rotina, mas raramente é apresenta sucesso a partir do sangue do paciente, em 50% dos casos o material é coletado por biopsia da lesão (EM). Até o momento não existe uma padronização técnica satisfatória dos resultados por isso deve-se ter cautela na interpretação dos testes, uma vez que pacientes que recebem tratamento precoce podem apresentar sorologia negativa Babesiose e anaplasma A Tristeza Parasitária Bovina é um complexo de doenças causadas por infecções com Babesia e Anaplasma, transmitidas por carrapatos (Boophilus microplus) e moscas hematófagas (Stomoxys calcitrans, tabanídeos, culicídeos), respectivamente, constituindo-se fator limitante ao desenvolvimento da pecuária nos países tropicais e subtropicais. A anaplasmose é uma patogenia vinculada principalmente ao Riphicephalus sanguineus que acomete os cães no qual afeta a série branca do sangue, causando o que chamamos de Trombocitopenia Cíclica Canina. Já a babesiose é uma patogenia também vinculada aos carrapatos no qual atingem a série vermelha do sangue, causando vários sintomas nos grandes e pequenos animais, inclusive no ser humano. Diversos fatores influenciam a susceptibilidade dos animais às hemoparasitoses, destacando-se: resistência intrínseca, imunossupressão, fatores climáticos, animais em estábulos e práticas de manejos. A sua transmissão dá-se por meio de ixodídeos (carrapatos) infetados com agentes patogénicos, que recebem a designação de piroplasmas. Algumas das espécies existentes de parasitas que provocam a babesiose, tendo em conta a espécie animal que afeta, são: Babesia canis (canídeos), B. bigemina (bovinos), B. bovis (bovinos), B. ovis (ovinos), B. equi (equídeos), B. trautmanni (suínos) e B. microti (humanos). O agente etiológico causador da anaplasmose em bovino é o Anaplasma marginale, nos pequenos ruminantes Anaplasma ovis, a terceira espécie, a Anaplasma centrale, é capaz de causar uma forma mais branda da anaplasmose nos bovinos. Os cães são infectados pelo Anaplasma platys, o Anaplasma phagocytophilum afeta os equinos, sendo que ainda não há relatos de anaplasmose equina no Brasil. Consideradas como bactérias intraeritrocitárias obrigatórias, elas infectam os glóbulos vermelhos por meio de um processo denominado endocitose. Uma vez dentro da célula, o anaplasma se multiplica, sai da célula por meio da exocitose e infectam outras células para assim continuar seu ciclo. As formas de transmissão são: iatrogênica, na qual ocorre contaminação por transfusão de sangue, cirúrgicas e vacinaçõesquando realizadas sem a devida higiene e a transmissão transplacentária, quando o animal é infectado durante a gestação, ocorrendo também o acometimento do feto. Sinais e sintomas O primeiro e principal sinal clínico observado em ambas as doenças é a anemia hemolítica com anemia severa. Em algumas espécies pode ocorrer hemoglobinúria e febre que influenciam a destruição rápida das células sanguíneas. Em necrópsias são observadas colorações anormais como icterícia e palidez na carcaça com hemorragias Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 116 presentes. Algumas espécies de Babesia afectam o sistema nervoso central devido à manutenção de eritrócitos infetados nos capilares cerebrais que cria um ambiente anóxico no cérebro, resultando em sinais neurológicos como por exemplo, a ataxia. Outro fator marcante desta doença se deve ao fato dela ser subaguda, especialmente em animais jovens, levando o animal a ter um estado febril ultrapassando os 40,5oC com períodos irregulares. A anorexia pode ocorrer levando o animal à morte, porém muitos animais ainda sobrevivem mesmo em estado de caquexia. Tratamento O controle de carrapato constitui-se em uma medida de controle da TPB e pode ser implementado em dois níveis: erradicação, controle estratégico como a premunição, vacinação. A quimioprofilaxia baseia-se no uso de drogas específicas em doses subterapêuticas. Na anaplasmose, consiste em 2-4 aplicações de subdoses de tetraciclina (2-4mg/kg/PV), pela via IM, intervaladas de 21 em 21 dias. Para a babesiose, tem-se empregado o imidocarb na dosagem de 1-2mg/kg/PV, com resultados satisfatórios Diagnóstico Na fase aguda da doença, quando a parasitemia é alta, Anaplasma spp é facilmente detectados nos eritrócitos de bovinos, através de esfregaços sangüíneos delgados corados pelo Método Giemsa. Entretanto, quando os animais se recuperam, tornando-se portadores, com baixa parasitemia, a visualização do parasito, por esse método, torna-se extremamente difícil e falha. Nesse sentido, técnicas como, sondas de DNA, PCR e outros métodos para detecção direta de antígenos, com altas sensibilidade e especificidade, têm sido desenvolvidos O diagnóstico indireto utilizado para pesquisa de anticorpos contra A. marginale é empregado em levantamentos epidemiológicos, possibilitando conhecer a porcentagem de animais portadores, o grau de proteção do rebanho, a faixa etária mais afetada, dados esses necessários para estabeleci- mento de programas de controle dessa rickettsiose. Além disso, as provas de aglutinação apresentam como princípio básico a reação de anticorpos bivalentes e antígenos polivalentes, com formação de compostos macromoleculares visíveis. Escabiose A escabiose é causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei, uma doença contagiosa transmitida pelo contato direto interpessoal ou através do uso de roupas contaminadas. O parasita escava túneis sob a pele onde a fêmea deposita seus ovos que eclodirão em cerca de 7 a 10 dias dando origem a novos parasitas.A escabiose pode acometer qualquer pessoa, independente da idade, raça ou classe social. Entretanto, é mais comum na parcela da população com baixa renda e baixos níveis nutricional e higiênico. Sinais e sintomas A doença tem como característica principal a coceira intensa que, geralmente, piora durante a noite. A lesão típica da sarna é um pequeno trajeto linear pouco elevado, da cor da pele ou ligeiramente avermelhado e que corresponde aos túneis sob a pele. Esta lesão dificilmente é encontrada, pois a escoriação causada pelo ato de coçar a torna irreconhecível. O que se encontra na maioria dos casos são pequenos pontos escoriados ou recobertos por crostas em consequência da coçadura. É possível a infecção secundária Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 117 destas lesões com surgimento de pústulas e crostas amareladas. As lesões atingem principalmente os seguintes locais: abdome, flancos, baixo ventre, umbigo, pregas das axilas, cotovelos, punhos, espaços entres os dedos das mãos e sulco entre as nádegas. Nos homens, localização característica são os genitais, onde formam-se lesões endurecidas e elevadas no pênis e na bolsa escrotal, que coçam muito. Nas mulheres, é comum os mamilos serem afetados pela doença. Nos bebês, o acometimento das plantas dos pés e palmas das mãos é frequente. A escabiose raramente atinge a pele do pescoço e da face, exceto nas crianças, em quem estas regiões podem também ser afetadas. Diagnóstico O diagnóstico clínico tem como base a anamnese e o exame clínico. Durante a anamnese, as principais infor mações sugestivas de escabiose são as queixas de prurido. Os dois principais exames indicados para o diagnóstico parasitológico da escabiose são: o exame da fita gomada e exame de respado de pele. No exame da fita gomada, aplica-se u uma fita gomada sobre as crostas; as formas aí presentes ficarão presas na fita; esta é colocada depois sobre uma lâmina (como se fosse uma lamínula) e examinada em microscópio com aumento de 10 a 40 vezes. No exame do raspado de pele, raspa-se profundamente a epiderme no limite das lesões e pele sã; coletar o ras pado em lâmina; colocar algumas gotas de NaOH ou lactofenol (para clarificar); deixar em repouso por 5 a 10 minutos e examinar em microscópio com aumento de 10 a 40 vezes. Tratamento Atualmente existem no mercado diversos medicamen tos acaricidas que podem ser utilizados no tratamento da escabiose. Esses acaricidas estão em formulações a serem aplicadas de forma sistêmica (por via oral) ou tópica (como pomadas, sabonetes, loções etc.). Nos casos de tratamento com medicação tópica, reco- menda-se submeter o paciente a um banho momo, demo rado, para amolecer e retirar as crostas e facilitar o contato do medicamento com os ácaros na pele. Em seguida, aplicar localmente algum dos medicamentos indicados: benzoato de benzila (Acarsan, Escabiol), deltametrina (Deltacid, loção), tiabendazol (Foldan), monossulfeto de tetratiltiuram (Tetmosol) etc. durante pelo menos três dias. Para o tratamento utilizando medicação sistêmica, os mais utilizados são os comprimidos à base de ivermectina. Controle Algumas medidas de controle podem ser adotadas a fim de proteger a população da infecção. Ações de educação em saúde sobre o ciclo de transmissão, orientação para que as pessoas que circulam na área infectada adotem medidas de proteção como uso de roupas claras de mangas compridas e repelentes nas partes do corpo que ficam expostas e nas bordas das roupas. Deve-se verificar a pele com freqüência em busca de carrapatos que devem ser retirados com as mãos protegidas por luvas ou sacos plásticos, o uso de pinças deve ser feito de modo que o corpo do carrapato não seja macerado ou seu aparelho bucal não permaneça na pele. Alertar a sociedade sobre os riscos da doença e suas Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 118 complicações. Evitar plantio e conservação vegetações que sirvam de abrigo aos carrapatos. Medidas de redução da população de carrapatos nos animais devem ser adotadas. Um método bastante utilizado hoje em dia, serve para controle tanto nos hospedeiros quanto no ambiente. Há diversas bases e formulações acaricidas no mercado com diferentes formas de aplicação (imersão, aspersão, ingestão, injeção, talcos, sabo netes etc.). O efeito residual desses produtos também varia muito. Para uso no ambiente, os mais comuns são as formulação a serem diluídas em soluções aquosas e aplicadas por aspersão em pequenas áreas como pisos cimentados, quintais, canis etc. Deve-se ter extrema cautela com seu uso no ambiente, pois os acaricidas podem atuar também em outros organismos, causando problemas ambientais indesejáveis. Atualmente existem vacinas comerciais apenas para o controle do R. (B.)micropíus. Os antígenos disponíveis ainda apresentam eficácia variada de acordo com a população de carrapatos de cada região. Estudos vêm sendo conduzidos para identificar novos antígenos que possam ser utilizados como vacinas para o controle do R. (B.) micropíus e de outras espécies como o R. sanguineus e o A. cajennense s.l. Referências Neves, D. P., Melo, A.L., Linardi, P.M., Vitor, R.W.A. Parasitologia Humana, 13 ed. Editora Atheneu, 2016. Pág. 303 Veloso, Y.F.V.D. Febre maculosa brasileira: Importância do diagnóstico e tratamento precoces. Residência Pediatrica. V.9.n.2-14, 2019. Doi:10.25060/residpediatr- 2019.v9n2-14 Soares, C. O., Ishikawa, M. M., Fonseca, A. H., & Yoshinari, N. H. (2000). Borrelioses, agentes e vetores. Pesquisa Veterinária Brasileira, 20(1), 01–19.doi:10.1590/s0100- 736x2000000100001 Gonçalves, P. M. Epidemiologia e controle da tristeza parasitária bovina na região sudeste do Brasil. Ciência Rural, 30(1), 187–194, 2000. doi:10.1590/s0103- 84782000000100030 Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 119 ECTOPARASITOS Introdução Os ectoparasitos, em sua maioria, são seres macroscópicos, pertencentes ao filo Artrophoda, que hospedam a superfície extracorpórea de outro ser vivo, promovendo quadros clínicos de infestação com potencial patogênico. Alguns destes parasitos afetam unicamente a espécie humana, enquanto outros caracterizam infestação de cunho zooantropofílico. A pediculose, tungíase, escabiose e as miíases se enquadram dentre as principais ectoparasitoses de acometimento humano. Estima-se que os países subdesenvolvidos sejam afetados negativamente por ao menos uma espécie de ectoparasito, incluso o Brasil, onde estas patologias são consideradas um problema de saúde pública, pois são diretamente relacionadas aos aspectos socioeconômicos do país e são classificadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como sendo doenças mais que negligenciadas e subnotificadas. As ectoparasitoses humanas mais comuns (pediculoses e sarnas) acompanham nossa espécie desde épocas ime moriais e sempre apresentam surtos epidêmicos, seguidos por períodos de menor prevalência. Epidemiologia Estima-se que até dois terços da populacão de grandes cidades e de comunidades carentes rurais são afetados por pelo menos uma ectoparasitose, mais comumente pelo piolho, pelo ácaro Sarcoptes scabiei (“sarna”) e/ou pela pulga Tunga penetrans (“bicho de pé”). Estudos apontam que no Brasil, essas doenças são diretamente relacionadas com questões sociais e com a Saúde Pública porque são comumente relatadas em populações pobres, as quais não possuem condições adequadas de saneamento básico e acesso a postos de saúde, apresentam níveis baixos de escolaridade e, sobretudo, precariedade dos cuidados primários de higiene pessoal. Partindo de uma visão mundial, pode-se afirmar que a qualidade de vida dos indivíduos de muitos países subdesenvolvidos é impactada negativamente pela prevalência de ao menos uma ectoparasitose, especialmente nas regiões da Ásia, África subsaariana e América Latina. Condições climáticas observadas em países tropicais são ideais para a proliferação de alguns parasitos, assim como habitações rurais próximas a reservas contendo animais silvestres. A pediculose é um exemplo de parasitose frequentemente relatada no mundo, ocasionando cerca de 0,09 a 0,18% de casos por ano. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 120 Escabiose Aspectos gerais A Escabiose é uma parasitose dermatológica cujo agente etiológico é o Sarcoptes Scabie, um ácaro que penetra no estrato córneo da pele. O Sarcoptes scabiei é uma espécie de ácaro microscópico parasita obrigatório que, apresenta aspecto corporal ovalar globoso com cerca de 230 a 500 μm, contendo quatro pares de patas curtas (anteriores maiores e posteriores menores) com ventosas, além de um aparelho sugador, o qual permite a obtenção de alimento disposto nas camadas superficiais do hospedeiro. A cutícula é marcada por estrias finas, frequentemente interrompidas por áreas com cerdas finas e flexíveis e escamas de forma triangular. Existem diversas variedades de S. scabiei, conforme o hospedeiro a que cada variedade se adaptou durante sua evolução. Assim, há S. scabiei variedade hominis (parasito do homem); S. scabiei variedade canis (parasito do cão); S. scabiei variedade suis (parasito dos suínos); S. scabiei variedade bovis (parasito dos bovinos) etc. Dentre os animais, cães e suínos são os mais frequentemente acometidos e podem apresentar casos mais graves de sarna sarcóptica, com lesões acometendo grandes extensões do corpo. Aspectos epidemiológicos A escabiose é popularmente conhecida como “sarna” e é considerada um problema de saúde pública nos países em desenvolvimento com capacidade de afetar indivíduos de todas as raças, faixas etárias, gêneros e classes sociais expondo todos esses grupos a riscos de mortalidade e morbidade tanto através de efeitos diretos quanto por permitir infecções secundárias. Sua prevalência no Brasil é de 10%. A faixa etária mais afetada pela doença corresponde a crianças pré-escolares e adolescentes de regiões tropicais com media de 5-10%. Normalmente, na fase adulta há uma diminuição expressiva da prevalência, porém, a partir dos 60 anos, ela volta a assumir valores ascendentes. A incidência geral é de 25% em países tropicais, sendo maior em regiões com baixo nível socioeconômico e também naquelas com altos índices de superlotação que é um importante fator de risco como em campos de refugiados, entre comunidades indígenas e em ambientes institucionalizados. A escabiose é comum na estação de inverno (aglomerado populacional e melhor sobrevida do ácaro) e os casos mais graves são altos em comunidades carentes, em instituições para idosos e nos indivíduos que possuem baixa imunidade, sendo que, estes últimos citados, estão predispostos a desenvolver maiores complicações devido às formas complexas da doença, como a escabiose crostosa/norueguesa. No ano de 2013, essa parasitose foi considerada pela Organização Mundial de Saúde como uma das doenças tropicais negligenciadas visto que apesar de ser uma doença com estimativa epidemiológica e de afetar cerca de 300 milhões de pessoas por ano no Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 121 mundo, medidas para seu controle e erradicação são precárias e ela ainda não faz parte da agenda global de saúde. Ciclo biológico Durante seu desenvolvimento, S. scabiei passa pelos estádios de ovo, larva, ninfa e adulto. O ciclo vital desse ectoparasita é curto, se completa em aproximadamente três semanas no organismo do hospedeiro e a temperatura corporal de animais e humanos é responsável por atrair estes ácaros. A fêmea e macho copulam nos poros da pele e, logo em seguida, o macho morre e a fêmea fecundada se adere ao hospedeiro por meio das ventosas, efetuando diariamente um processo de escavação local, percorrendo de 0,5 à 5 mm de profundidade para se alimentar de queratina ou linfa e realizar a oviposição. Em um dia, cada fêmea deposita cerca de 2 ovos, os quais passam por período de incubação e eclodem mediante à elevação da temperatura corporal do hospedeiro, liberando larvas com seis patas (hexápodes). Estas saem para a superfície da pele ou permanecem nas regiões mais superficiais das galerias, onde se alimentam, sofrem mudas para ninfas (que são octópodas) as quais, oito a 10 dias após, mudam para adultos machos ou fêmeas. Tais larvas permanecem cavando “túneis” na derme do hóspede até que evoluem para os estágios de ninfas, assumindo formato de protoninfa, tritoninfa e, por último, ninfa octópode, que se transforma em ácaro adulto após 2 dias. Patogenia A transmissão da escabiose ocorre através do contato diretocom os indivíduos infectados sendo necessários apenas alguns minutos para que essa seja concluída o que explica as altas taxas de infecção intrafamiliar e em ambientes com aglomeração de pessoas. A transmissão através de objetos de uso pessoal e roupas do doente varia conforme o clima local, pois esse altera a sobrevivência do ácaro fora do hospedeiro, não sendo considerada por alguns autores como uma forma importante de transmissão para a sarna comum, porém, esses autores reforçam sua importância na sarna crostosa. Após atingir o organismo do hospedeiro, o ácaro deposita seus ovos na camada da pele permitindo, assim, que se inicie um novo ciclo de vida a partir desse estágio, processo que dura cerca de 6 semanas e garante a infestação do indivíduo por tais parasitas. Sinais e sintomas O principal sintoma referido pelo paciente é um prurido intenso, principalmente durante a noite, que é devido ao contato com substancia alergênicas próprias do ácaro.As lesões típicas incluem pápulas, que podem apresentar pequenas crostas hemáticas, nódulos, vesículas e sulcos, caracterizados por pequena saliência linear, de aproximadamente 1cm. Em adultos as regiões corporais mais afetadas são: pescoço, axilas, virilha, abdome, glúteos, dorso, palmas e plantas das mãos e dos pés, sendo comum nas mulheres o acometimento das aréolas mamárias e nos homens, a infestação genital; nas crianças a infestação pode ser generalizada e, em todos os casos, os sintomas observados são Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 122 inúmeros, tais como: escoriações, prurido, pápulas, nódulos, impetigo, processos alérgicos, irritabilidade e hipersensibilidade Diversos estudos através de propostas de acompanhamento e tratamento de pacientes com sarna indicam a sua frequente associação com pioderma, causado principalmente pela invasão secundária do S. pyogenes que pode levar a celulite, furúnculos ou linfangite. Diagnóstico O diagnóstico da escabiose é preferencialmente clinico. Durante a anamnese, as principais informações sugestivas de escabiose são as queixas de prurido (mais intenso no período noturno), o caráter evolutivo das lesões (eritema na fase inicial com subsequente espessa- mento da pele e desenvolvimento de crostas) e o histórico de contágio de pessoas próximas. Se houver dúvida por parte do médico, o exame complementar de escolha é a análise microscópica pelo raspado ou biopsia da pele com visualização direta do ácaro. Os dois principais exames indicados para o diagnóstico parasitológico da escabiose são: • Exame da fita gomada: aderindo-se uma fita gomada sobre as crostas; as formas aí presentes ficarão pre sas na fita; esta é colocada depois sobre uma lâmina (como se fosse uma lamínula) e examinada em microscópio com aumento de 10 a 40 vezes. • Exame do raspado de pele: raspar profundamente a epiderme no limite das lesões e pele sã; coletar o ras pado em lâmina; colocar algumas gotas de NaOH ou lactofenol (para clarificar); deixar em repouso por 5 a 10 minutos e examinar em microscópio com aumento de 10 a 40 vezes. Tratamento O tratamento para escabiose pode ser realizado tanto por medicações tópicas quanto sistêmicas, sendo importante também orientações com relação aos cuidados com roupas de cama e vestimentas. É importante o tratamento do paciente infectado e dos que possuem convívio próximo dele. Nos casos de tratamento com medicação tópica, recomenda-se submeter o paciente a um banho morno, demorado, para amolecer e retirar as crostas e facilitar o contato do medicamento com os ácaros na pele. Em seguida, aplicar localmente algum dos medicamentos indicados: benzoato de benzila (Acarsan, Escabiol), deltametrina (Deltacid, loção), tiabendazol (Foldan), monossulfeto de tetratiltiuram (Tetmosol) etc. durante pelo menos três dias. Uma das medicações sistêmicas para o tratamento é a Ivermectina, dose única, via oral conforme peso e a medicação tópica usual é a Permetrina a 5% em creme por seis noites respeitando sempre as contraindicações. Profilaxia Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 123 Além do tratamento de todos os doentes, medidas pro filáticas devem ser aplicadas para evitar novos contágios. Os procedimentos vão depender de cada situação específica. Alguns exemplos de medidas que se aplicam a várias situações são: • Evitar contato íntimo com pessoas doentes ou com seus pertences e utensílios. • Boa higiene pessoal (lavar as mãos com frequência, trocar roupas pessoais e de cama com frequência). • Tratar fomites, isto é, quaisquer objetos ou superfícies que possam estar contaminados devem ser submetidos a tratamento por calor, frio ou produtos acaricidas. Pediculose Aspectos gerais A pediculose é uma parasitose causada pelo Pediculus humanus corporis (piolho do corpo) ou pelo Pediculus humanus capitis (piolho do couro cabeludo). A pediculose do couro cabeludo é uma das principais parasitoses infantis, sendo a mais frequente entre as ectoparasitoses. O piolho é um inseto artrópode macroscópico, da ordem Phthiraptera, de corpo achatado, que contém pares de patas e garras capazes de viabilizar a fixação nos fios de cabelo e couro cabeludo humano e não possuem asas. São insetos pequenos, sem asas, achatados dorso-ventralmente e com o aparelho bucal picador-sugador. A cabeça é mais estreita que o tórax, diferenciando-os dos outros piolhos mastigadores incluídos na ordem Phthiraptera. As pernas são fortes e no tarso nota-se uma forte garra que se opõe a um processo na tíbia; esse conjunto (garra e processo tibial) forma uma pinça, com a qual o inseto fica agarrado ao pelo. Em Pediculus, o corpo é aproximadamente 2-3 vezes mais longo do que largo e os três pares de pernas si possuem o mesmo comprimento e largura, em contraposição em que o corpo é pouco mais longo do que largo, assemelhando-se a um caranguejo e o primeiro par de pernas é mais curto e mais estreito com relação aos posteriores, de mesmas dimensões. Nos dois gêneros, machos e fêmeas podem ser diferenciados pela extremidade abdominal que é arredondada nos machos e provida de uma reentrância nas fêmeas. Não raro, a genitália do macho evidencia-se pela face ventral. Uma outra característica diferencial bem marcante é que em Pediculus os espiráculos abdominais situam-se lateralmente, um em cada segmento, enquanto em Pthirus os três primeiros espiráculos abdominais ocorrem em linha transversa. Os ovos são colocados aderidos aos pelos ou às fibra e são conhecidos por lêndeas. Eles são ovais e operculados na parte mais larga, de coloração branco-amarelada, medindo, aproximadamente 1 mm de comprimento em Pediculus e 0,5 mm em Pthrn. Patogenia A pediculose é transmitida através do contato físico direto e prolongado ou por meio do compartilhamento de utensílios pessoais infestados (pentes, toucas capilares, bonés, travesseiros, presilhas, roupas de cama e de banho), sendo que, em locais com aglomerado de pessoas as infestações podem ser classificadas como endêmicas. Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 124 A incidência da pediculose apresenta maiores índices de acometimento no sexo feminino, com idade entre 5 a 12 anos, que habitam o meio de agregados familiares. Ciclo Biológico A reprodução dos piolhos é sexuada; dias pós-cópula, a fêmea deposita de 7 a 10 ovos, produzindo até 200 ovos durante a vida, estes ovos são denominados como lêndeas, as quais se aderem fortemente aos fios de cabelo e apresentam tamanho aproximado de 0,8 a 0,3mm com coloração branco-amarelada; ao término do período de incubação de oito dias, as lêndeas eclodem, liberando a forma de ninfa (primeiro, segundo e terceiro estágio de evolução) e, em quinze dias, já apresenta a forma adulta do parasito capacitado a iniciar novo ciclo de reprodução.Sinais e sintomas O prurido é o sintoma clínico mais comum na pediculose, com durabilidade variável que pode ultrapassar até duas semanas e, em consequência de casos de infestação adiantada, pode desencadear imenso desconforto e lesões no couro cabeludo, nuca e orelhas. Durante a alimentação, o inseto deposita saliva no ato e localização da picada, ocasionado alergia seguida de muito prurido, assim, o hospedeiro tende a coçar incansavelmente a região occipital, ocasionando o surgimento de feridas, estas deixam o couro cabeludo vulnerável e podem dar acesso para outros agentes patogênicos, viabilizando infecções cutâneas bacterianas, virais e ou fúngicas. Outro agravo da pediculose comumente citado é o impetigo, que se constitui de dermatose cutânea contagiosa, ocasionada pelas bactérias Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes. Infestações severas podem ser observadas em crianças desnutridas, idosos, deficientes físicos e imunocomprometidos, sendo a anemia, um agravante desencadeado por causa da hematofagia dos piolhos, que estarão presentes em quantidade exacerbada no hospedeiro. A pediculose do corpo são encontradas escoriações, pápulas (“bolinhas”), pequenas manchas hemorrágicas e pigmentação, principalmente no tronco, na região glútea e abdome. Na pediculose pubiana (chamada de chato, pois o parasita responsável tem forma achatada) há prurido e são encontradas manchas violáceas, escoriações e crostas hemorrágicas na região. Pode ocorrer também infecção secundária em qualquer região. Diagnóstico O diagnóstico baseia-se no exame físico do paciente durante consulta com médico. Deve-se iniciar o exame pela nuca, abrindo o cabelo com as mãos e identificando regiões vermelhas e escoriadas. No corpo, as lesões são pápulas (“bolinhas”) escoriadas pelo ato de coçar e às vezes, até com sangue, em volta dos pêlos. Se for crônico os locais de infestação podem ter a pele mais espessa e até mais escura. O fundamental para o diagnóstico é a presença de lêndeas, ovos brancos acastanhados, que ficam presos aos fios de cabelo. Tratamento Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 125 Uma vez que os piolhos são ectoparasitos específicos, infestando diferentes sítios no corpo humano, as medidas ie controle requerem diferentes estratégias. Para a pediculose do corpo, recomenda-se retirar a roupa parasitada e mergulhá-la por 2 horas em água fria contendo formol ou Lysoform. Esta operação deve ser repetida a cada 4 dias e em toda a família. O aquecimento das roupas de corpo e de cama a 70°C, durante uma hora, mata todos os piolhos encontra dos. Para P. humanus, o inseticida de escolha é ainda o DDT a 10% polvilhado nas vestes, sendo eficaz naquelas populações de insetos ainda suscetíveis ao inseticida. O malathion e o lindane podem também ser utilizados como alternativos. Para P. capitis, há sérias controvérsias sobre o uso de medicamentos no seu controle, porque as drogas utilizadas, sendo quase todas elas tóxicas, terão que ser direcionadas a uma área do corpo altamente vascularizada que é a cabeça. O tratamento da pediculose do couro cabeludo deve se iniciar por métodos naturais de controle e, mesmo fazendo-se uso de piolhicidas. Entre os métodos de controle natural poderiam ser citados: 1. Catação manual: com a destruição do inseto em se guida (preferencialmente ao fogo ou em imersão em frascos com álcool). Não é recomendável matá-los entre os dedos, pelos motivos anteriormente expostos com relação à transmissão de doenças. Esta atividade, quando realizada em mutirão, em escolas ou comuni dades, apresenta-se altamente eficiente. 2.Penteação ou escovação frequentes: com o objetivo de se retirar principalmente adultos e ninfas. Este método torna-se mais eficaz quando utilizado um pente especial, o pente- fino, que não apenas retira adultos e jovens, mas também mutila grande parte desses ectoparasitos. Quando utilizado para a retirada das lêndeas, deve ser movimentado no sentido da extremidade para a base dos cabelos. Age também injuriando as lêndeas, impedindo-as de desenvolvi mento. 3.Ar quente: proveniente de secador de cabelo e apli cado por alguns minutos, diariamente. Seu efeito é maior contra as lêndeas que quanto aos adultos e jovens, já que aquelas são estacionárias nos cabelos. 4. Raspagens de cabeça: embora atuando eficazmente e causando sentimento de vergonha e hostilidade aos parasitados, é um método ainda empregado em certas comunidade e de alto valor. 5. Corte curto dos cabelos: só apresentando valor se cortado até 8 mm a partir do couro cabeludo, conside rando a média de crescimento dos cabelos e o período de incubação dos ovos. 6. Óleos, cremes, vaselina: quando usados nos cabelos, dificultam a sobrevivência do inseto, porque os fios de cabelo tornam-se escorregadios, agindo como obstáculo à aderência por parte das garras de adultos e ninfas ou dos cementos dos ovos. Quando o pente- fino for utilizado em cabelos previamente massagea dos em óleos e azeites, a eficácia será aumentada, porque tais substâncias imobilizam os insetos. 7. Solução salina: a aplicação de água + sal nos cabelos de indivíduos infestados, favorece a ocorrência de exosmose nas lêndeas e, consequentemente, sua morte. Atual mente, as seguintes drogas disponíveis para tratamento: 1. Benzoato de benzila (acarsan, escabiol, miticoçan. pruridol): desaconselhado em caso de infecções secundárias no couro cabeludo, seu mecanismo de ação é desconhecido. 2. Organoclorados (lindane, hexaclorocicloexano): é o isômero gama do BHC, cuja maior restrição é acumular-se nos tecidos adiposos e circular pelos diversos componentes das cadeias alimentares. Para alguns autores, pode causar ainda irritabilidade, inquieta ção, Material publicado e disponível em:https://www.passeidireto.com/arquivo/114317012/parasito 126 nervosismo, insônia, convulsões e apoplexia em crianças. Grande parte dos piolhicidas encontrados no mercado brasileiro apresenta o lindane como princípio ativo. 3. Compostos sulfurados: monossulfiram ou monossul- feto de tetraetiltiuram (tetmosol). 4. Produtos de ervas medicinas (piolendes): ainda que sem estudos científicos detalhados sobre o efeito de seu uso. 5. Piretroides sintéticos: produtos mais recentes aná logos ao piretro da flor do crisântemo e com pouca absorção pela pele: a) deltametrina (deltacid); bi permetrina (kwell); c) bioaletrina (vapio). 6. Produtos usados em tratamentos sistêmicos: a) sulfa- metoxazol-trimetropina, atuando apenas sobre ninfas e adultos, não sendo, todavia, aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) para tratamento em humanos; b) ivermectina, altamente efetiva contra os adultos e ninfas, não sendo eficaz contra as lêndeas. Prevenção Para prevenir a pediculose, o ideal é evitar o compartilhamento de roupas, toalhas, acessórios de cabelo e outros objetos de uso pessoal, bem como evitar o contato direto com pessoas infectadas pelo parasita. As crianças são com frequência as mais infectadas principalmente na escola. Recomenda-se que sejam sempre examinadas e que passem o pente fino para evitar que a infestação se propague; as que usam cabelos compridos devem prendê-los para ir à escola. É fundamental que a escola seja comunicada sempre que alguma criança apresentar o problema. Dessa forma, todos podem ser tratados ao mesmo tempo e o ciclo de recontaminação será interrompido. Tungíase Aspectos gerais A ordem Siphonaptera (siphon = tubo; áptera = sem asas), compreende insetos hematófagos espoliadores de ambos os sexos, vulgarmente conhecidos como pulgas e bichos-de-pé. Esses insetos são encontrados em todo o mundo, com aproximadamente 3.000 espécies conhecidas, incluídas em quase 240 gêneros e 15 famílias. Dessas, pouco mais de 250 ocorrem na América do Sul, e no Brasil já foram assinaladas pouco mais de 60 espécies e/ou subespécies. Das oito famílias de pulgas existentes no