Prévia do material em texto
Vertebrados - tegumento @Renata.rufino_ Origem embrionária No final da neurulação no embrião, a maioria dos precursores da pele está delineada. A camada única de ectoderme superficial prolifera, originando a epiderme de múltiplas camadas. A camada profunda da epiderme, o estrato basal (estrato germinativo), fica sobre a membrana basal. Mediante divisão celular ativa, o estrato germinativo substitui a camada única de células denominada periderme . Outras camadas cutâneas são derivadas dessas duas à medida que a diferenciação prossegue. A derme surge de várias fontes, principalmente do dermátomo. Os epímeros segmentares (somitos) se dividem, produzindo o esclerótomo medialmente, fonte embrionária das vértebras, e o dermomiótomo lateralmente. Células internas do dermomiótomo se rearranjam no miótomo, a principal fonte de músculo esquelético. O tecido conjuntivo dentro da pele é difuso e irregular, embora, em algumas espécies, feixes de colágeno estejam dispostos em uma camada ordenada distinta dentro da derme, denominada estrato compacto. As células de origem da crista neural migram para a região entre a derme e a epiderme, contribuindo para a armadura óssea e as células de pigmento da pele denominadas cromatóforos (que significa “cor” e “transporte”). Fundamentalmente, o tegumento é composto por duas camadas, epiderme e derme, separadas pela membrana basal. São acrescentadas vascularização e inervação, além das contribuições da crista neural. A partir de tais ingredientes estruturais simples, surge uma grande variedade de derivados tegumentares. O tegumento abriga órgãos sensoriais que detectam os estímulos provenientes do ambiente externo. A invaginação da epiderme superficial forma glândulas cutâneas exócrinas, se retiverem ductos, e endócrinas, caso fiquem separadas da superfície e liberem produtos diretamente nos vasos sanguíneos. A interação entre epiderme e derme estimula especializações como dentes, penas, pelos e escamas de diversas variedades Vertebrados - tegumento @Renata.rufino_ Derme Características gerais do tegumento A derme de muitos vertebrados produz placas de osso diretamente pela ossificação intramembranosa. Devido à sua origem embrionária e à posição inicial dentro da derme, esses ossos são chamados de ossos dérmicos. Eles são proeminentes nos peixes ostracodermes, porém surgem secundariamente em grupos derivados, como algumas espécies de mamíferos. O componente motor conspícuo da derme é o tecido conjuntivo fibroso, composto principalmente por fibras de colágeno, que podem se entrelaçar em camadas distintas denominadas pregas. A derme do protocordado anfioxo exibe um arranjo especialmente ordenado de colágeno em cada prega. Por sua vez, as pregas são laminadas juntas em uma orientação muito regular, mas alternada. Essas camadas alternadas agem como o trançado das fibras têxteis, dando alguma forma à pele e impedindo que ela fique flácida. Nos vertebrados aquáticos, como tubarões, os feixes de colágeno se posicionam em ângulos entre si, criando vieses na pele, como uma roupa. Ou seja, a pele se estica quando puxada em um ângulo oblíquo na direção das fibras. Por exemplo, se você pegar um lenço e puxá-lo na direção das fibras, ele vai se estender muito pouco sob essa tensão paralela. Especializações do tegumento. Receptores sensoriais residem na pele. Glândulas exócrinas com ductos e endócrinas sem ductos se formam a partir de invaginações da epiderme. Mediante uma interação da derme com a epiderme, surgem estruturas cutâneas especializadas, como pelos, penas e dentes. Derivados cutâneos. (A) Além do arranjo simples de epiderme e derme, com uma membrana basal entre ambas, desenvolve-se uma grande variedade de tegumentos nos vertebrados. A interação da epiderme com a derme origina penas nas aves (B), pelos e glândulas mamárias nos mamíferos (C e D), dentes nos vertebrados (E), escamas placoides nos condrictes (F) e escamas ganoides e cicloides-ctenoides nos peixes ósseos (G–I). Vertebrados - tegumento @Renata.rufino_ Epiderme A epiderme de muitos vertebrados produz muco para umedecer a superfície cutânea. Em peixes, o muco parece dar alguma proteção contra infecção bacteriana e ajuda a assegurar o fluxo laminar de água pela superfície corporal. Nos anfíbios, o muco provavelmente desempenha funções semelhantes e ainda ajuda a proteger a pele contra o ressecamento quando o animal faz suas incursões terrestres. Nos vertebrados terrestres, a epiderme que cobre o corpo forma uma camada externa queratinizada ou cornificada, o estrato córneo. É uma das inovações dos tetrápodes que os ajuda a viver em um ambiente terrestre seco e abrasivo. Tegumento dos peixes Filogenia Com poucas exceções, a pele da maioria dos peixes viventes não é queratinizada nem coberta por muco. As exceções incluem especializações queratinizadas em alguns grupos. Os “dentes” que revestem o disco oral das lampreias, a cobertura maxilar de alguns peixinhos herbívoros (ciprinídeos) e a superfície de atrito sobre a pele do ventre de alguns peixes semiterrestres são todos derivados queratinizados. Entretanto, na maioria dos peixes viventes, a epiderme é viva e ativa na superfície do corpo e não há camada superficial proeminente de células mortas queratinizadas. As células superficiais em geral são padronizadas com microcristas finas que podem manter a camada superficial de muco formada a partir de várias células individuais na epiderme, com a contribuição de glândulas multinucleadas. A camada de muco, denominada cutícula mucosa, resiste à penetração por bactérias infecciosas, provavelmente contribui para o fluxo laminar de água pela superfície, torna os peixes escorregadios para os predadores e, em geral, inclui substâncias químicas repugnantes, que afugentam os inimigos ou são tóxicas para eles. Vertebrados - tegumento @Renata.rufino_ Ocorrem dois tipos de células dentro da epiderme de peixes: as epidérmicas e as glândulas unicelulares especializadas. Nos peixes viventes, incluindo os ciclóstomos, células epidérmicas prevalentes constituem a epiderme estratificada. As células epidérmicas superficiais estão bem conectadas por junções celulares e contêm numerosas vesículas secretoras que liberam seus produtos na superfície, onde contribuem para a cutícula mucosa. As células epidérmicas da camada basal são cuboides ou colunares. A atividade mitótica está presente, mas não se restringe à camada basal. O colágeno dentro do estrato compacto está organizado de maneira regular, em camadas que se espiralam em torno do corpo do peixe, permitindo o encurvamento da pele sem que ela enrugue. Em alguns peixes, a derme tem propriedades elásticas. Quando um peixe encurva o corpo ao nadar, a pele no lado esticado armazena energia que ajuda a desfazer a curvatura do corpo e bater a cauda na direção oposta. A derme do peixe em geral origina osso dérmico, o qual dá origem a escamas dérmicas. Além disso, a superfície das escamas às vezes é coberta por uma camada de esmalte celular duro, de origem epidérmica, e dentina mais profunda, de origem dérmica. Até recentemente, o esmalte e a dentina eram reconhecidos com base na aparência, não em sua composição química. Como a aparência superficial das escamas mudou entre os grupos de peixes, a terminologia também mudou. Acreditava-se que o esmalte fosse o caminho filogenético para a “ganoína” e a dentina para a “cosmina”. Esses termos foram inspirados pela aparência superficial das escamas, não por sua composição química nem mesmo pela sua organização histológica. Talvez seja melhor pensarmos que a ganoína é uma expressão morfológica diferente do esmalte, a cosmina, uma expressão morfológica diferente da dentina, e estarmos preparados para diferenças sutis ao encontrá-las. Queratinização. Nos locais onde o atrito mecânico aumenta, o tegumento responde aumentando a produção de um calo queratinizado protetor e, em decorrência disso, o estrato córneo se espessa. Vertebrados - tegumento @Renata.rufino_ Tegumento dos tetrápodes Embora ocorraqueratinização em peixes, entre os vertebrados terrestres ela é um aspecto importante do tegumento. A queratinização extensa produz uma camada cornificada externa proeminente, o estrato córneo, que resiste à abrasão mecânica. Em geral, são acrescentados lipídios durante o processo de queratinização ou por disseminação, através da superfície, de glândulas especializadas. A camada cornificada ao longo desses lipídios aumenta a resistência da pele dos tetrápodes ao ressecamento. Glândulas multicelulares são mais comuns na pele de tetrápodes que na de peixes. Nos peixes, a cutícula mucosa e as secreções das glândulas unicelulares na superfície da pele, ou em suas proximidades, cobrem-na. Em contraste, entre tetrápodes, as glândulas multicelulares geralmente ficam na derme e chegam à superfície por ductos comuns que perfuram a camada cornificada. Portanto, o estrato córneo que protege a pele e impede o ressecamento também controla a liberação de secreções diretamente na superfície. Apenas os primatas têm unhas. Nos outros vertebrados, o sistema de queratinização no término de cada dedo produz garras ou cascos As garras, ou talões, são projeções queratinizadas encurvadas, comprimidas lateralmente a partir da ponta dos dedos. Elas são vistas em alguns anfíbios e na maioria das aves, répteis e mamíferos. Cascos são placas queratinizadas aumentadas nas pontas dos dedos dos ungulados. Cornos e galhadas Lagartos “com chifres” têm processos que se estendem da parte posterior da cabeça e parecem cornos, mas são escamas epidérmicas pontiagudas especializadas. Mamíferos, dinossauros e tartarugas extintos são os únicos vertebrados com cornos ou galhadas verdadeiros. A pele, junto com o osso subjacente, contribui para os cornos e galhadas verdadeiros. À medida que essas estruturas adquirem forma, o osso subjacente se eleva, levando com ele o tegumento sobrejacente. Nos cornos, o tegumento associado produz uma bainha cornificada consistente que se adapta sobre o núcleo ósseo nunca ramificado. Nas galhadas, a pele viva sobrejacente (denominada “veludo”) aparentemente adquire forma e fornece o suprimento vascular do osso em crescimento. Por fim, o veludo cai, deixando o osso sem essa bainha constituir o material real das galhadas terminadas e que é ramificado Unhas, garras, cascos Especializações do tegumento Unhas são placas de células epiteliais cornificadas bem compactadas na superfície de dedos e artelhos; portanto, são produtos do sistema de queratinização da pele. A matriz ungueal forma nova unha na base da unha existente, empurrando-a para frente, para substituir a que esteja gasta ou quebrada na margem livre. As unhas protegem as pontas dos dedos de lesão mecânica inadvertida. Elas também ajudam a estabilizar a pele na ponta dos dedos e artelhos, de modo que no lado oposto a pele pode estabelecer um atrito seguro para agarrar objetos. Vertebrados - tegumento @Renata.rufino_ Barbatanas Escamas O tegumento dentro da boca de baleias (Mysticeti) sem dentes forma placas conhecidas como barbatanas, que agem como filtros para extrair o krill da água absorvida pela boca distendida. Embora às vezes citadas como “osso de baleia”, essas barbatanas não contêm osso, sendo uma série de placas queratinizadas que surgem do tegumento. Durante sua formação, grupos de papilas dérmicas se estendem e alongam para fora, curvando a epiderme sobrejacente que forma uma camada cornificada sobre a superfície dessas papilas. As escamas têm muitas funções. Tanto as escamas epidérmicas quanto as dérmicas são rígidas, de modo que absorvem a agressão mecânica e a abrasão da superfície, prevenindo o dano aos tecidos moles abaixo delas. A densidade das escamas também as torna uma barreira contra a invasão de patógenos estranhos e retarda a perda de água pelo corpo. Nos tubarões e outros peixes, elas amortecem a turbulência da camada limítrofe, aumentando a eficiência da natação. Alguns répteis regulam a quantidade de calor superficial que absorvem expondo alternadamente os lados do corpo ao sol ou protegendo-os dele. Isso determina se os raios solares serão defletidos de toda a face da escama ou ela vai ficar na sombra com a borda posterior erguida para que alcancem a epiderme fina abaixo dela. Armadura dérmica O osso dérmico forma a armadura dos peixes ostracodermes e placodermes. Sendo um produto da derme, o osso dérmico encontra seu caminho se associando com uma grande variedade de estruturas. O osso dérmico sustenta as escamas de peixes ósseos, mas tende a ser perdido nos tetrápodes e não está presente na pele de aves e da maioria dos mamíferos. Foram notadas exceções prévias, como no mamífero fóssil Glyptodon e na pele do tatu vivente. No entanto, ossos dérmicos selecionados permanecem no crânio e na cintura peitoral de peixes, tendo persistido nos grupos recentes de vertebrados. A maioria dos ossos dérmicos do crânio e da cintura escapular tem sua origem filogenética na pele e depois se volta para dentro, tornando-se partes do esqueleto. Esse compartilhamento de partes disponíveis entre sistemas revela mais uma vez o caráter remodelador da evolução. Vertebrados - tegumento @Renata.rufino_ Muco O muco produzido pela pele desempenha várias funções. Nos vertebrados aquáticos, ele inibe a entrada de patógenos e pode até ter uma leve ação antibacteriana. Nos anfíbios terrestres, o muco mantém o tegumento úmido, permitindo que funcione na troca de gás. Embora a respiração cutânea seja proeminente em anfíbios, ela também ocorre em outros vertebrados. Por exemplo, muitas tartarugas dependem da troca cutânea gasosa à medida que hibernam submersas em águas cobertas por gelo durante o inverno. Suas carapaças são muito espessas, obviamente, para permitir a troca significativa de gases, mas áreas expostas de pele em torno da cloaca oferecem uma oportunidade viável. As serpentes marinhas podem depender da respiração cutânea para até 30% de sua captação de oxigênio. Similarmente, peixes como o linguado, a enguia europeia e o mudskipper podem depender de alguma troca cutânea de gás para satisfazer suas necessidades metabólicas. O muco também está envolvido na locomoção aquática. Como uma cobertura superficial, ele alisa as irregularidades e características ásperas da superfície na epiderme para diminuir o atrito que um vertebrado encontra ao nadar por águas relativamente viscosas. Cor A cor da pele resulta de interações complexas entre propriedades físicas, químicas e estruturais do tegumento. Alterações no suprimento sanguíneo podem deixar a pele avermelhada, como quando fica ruborizada. A dispersão diferencial da luz, conhecida como dispersão de Tyndall, é a base para grande parte da cor na natureza. É esse fenômeno que faz o céu parecer azul em dias claros. Nas aves, cavidades cheias de ar dentro das barbas das penas tiram vantagem desse fenômeno de dispersão para produzir as penas azuis do martim- pescador, do gaio-azul, do azulão e do trigueirão índigo. Grande parte das cores preta, marrom, vermelha, laranja e amarela resulta de pigmentos que produzem cor pela reflexão seletiva da luz. Fenômenos de interferência são responsáveis pelas cores iridescentes. Conforme a luz é refletida de materiais com índices diferentes de refração, a interferência entre comprimentos de onda diferentes de luz produz cores iridescentes. Em muitas aves, essas cores resultam da interferência da luz refletida das delgadas barbas e bárbulas das penas. Vertebrados - tegumento @Renata.rufino_ Resumo Nossa pele é um órgão dinâmico. A cada 2 semanas, aproximadamente, nós a eliminamos – melhor dizendo, nós a substituímos. Nossa epiderme se renova rapidamente. Células basais substituem as células em transformação. A pele dos vertebrados também é a fonte filogenética de especializações na superfície. De maneira geral, é fácil ver a homologia das estruturas tegumentares. Pelos, penas e as escamas dos répteis são todos produtos da epiderme, daí serem bastante homólogos. No entanto, vistos em separado, persistem controvérsias em termos de homologia.Por exemplo, alguns alegam que o pelo é uma escama de réptil transformada, com função originalmente protetora. Outros argumentam que o pelo é um derivado de cerdas epidérmicas, com função originalmente sensorial. Alguns autores apontam a similaridade estrutural entre as escamas placoides e os dentes do tubarão para corroborar a hipótese de que os dentes dos vertebrados surgiram das escamas do tubarão. Outros discordam, dizendo que os dentes estavam presentes nos primeiros peixes, antes da evolução dos tubarões, de modo que as escamas do tubarão não poderiam ser precursoras dos dentes dos vertebrados. Ao abordarmos as controvérsias acerca da evolução cutânea, temos de nos lembrar de que a pele consiste em duas camadas, epiderme e derme, não sendo uma estrutura evolutiva única. As interações entre essas duas camadas tiveram participação em sua evolução. A derme ajuda a manter, regular e especificar os tipos e a proliferação de células epidérmicas. Isso foi bem explorado na embriologia experimental. Por exemplo, a epiderme da pele de um embrião de pintainho, destinada a formar as escamas da perna, pode ser destacada de sua derme subjacente e mantida viva em isolamento com nutrientes suficientes. As células de tal epiderme viva, mas isolada, param de proliferar. Se recombinadas in vitro com a derme embrionária, as células epidérmicas voltam a proliferar e se formam escamas. Sabemos que o estímulo está dentro da derme porque se qualquer tecido, como cartilagem ou músculo, é substituído, a epiderme não responde. Referências KARDONG, Kenneth V.Vertebrados - Anatomia Comparada, função e evolução. [Digite o Local da Editora]: Grupo GEN, 2016. E-book. ISBN 9788527729697. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/ books/9788527729697/. Acesso em: 14 nov. 2022