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INTÉRPRETE DE LÍNGUA DE SINAIS BRASILEIRA NA SALA DE AULA Autoria: Elis Gorett da Silveira Lemos Indaial - 2022 UNIASSELVI-PÓS 2ª Edição CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 Impresso por: Reitor: Prof. Hermínio Kloch Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Carlos Fabiano Fistarol Ilana Gunilda Gerber Cavichioli Norberto Siegel Julia dos Santos Ariana Monique Dalri Jairo Martins Marcio Kisner Marcelo Bucci Revisão Gramatical: Desenvolvimento de Conteúdos EdTech Diagramação e Capa: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI Copyright © UNIASSELVI 2022 L557i Lemos, Elis Gorett da Silveira Intérprete de língua de sinais brasileira na sala de aula. / Elis Gorett da Silveira Lemos – Indaial: UNIASSELVI, 2022. 111 p.; il. ISBN Digital 978-65-5646-516-6 1. Intérprete de língua de sinais brasileira – Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci. CDD 370 Sumário APRESENTAÇÃO ............................................................................5 CAPÍTULO 1 REFLEXÕES SOBRE A NATUREZA DO PROCESSO TRADUTÓ- RIO E DOS ESTUDOS DA TRADUÇÃO .......................................... 9 CAPÍTULO 2 TRADUZIR E INTERPRETAR: LIMITES E POSSIBILIDADES NO CAMPO DA EDUCAÇÃO ............................................................... 37 CAPÍTULO 3 AS ESCOLAS E OS PROFISSIONAIS INTÉRPRETES DE LIBRAS: A INOVAÇÃO NO ÂMBITO DA INTERPRETAÇÃO ....................... 73 APRESENTAÇÃO As diferentes maneiras que o ser humano possui de se comunicar vai para além da compreensão das línguas orais que fazem uso do canal oral auditivo para estabelecer uma comunicação. Enquanto as línguas de sinais se projetam utilizando o espaço, a visualização as mãos e as expressões para estabelecer uma comunicação com o meio. Contudo, para os surdos usuários da língua de sinais uma ferramenta humana possui um papel fundamental para que a compreensão aconteça entre as partes do discurso: o intérprete de língua de sinais, um profissional que possibilita a transparência e a concreta comunicação entre surdos e não surdos. Este livro tem a importante tarefa de trazer a você acadêmico, alguns conhecimentos acerca desse profissional que deve estar nos mais diversos espaços sociais e que é fundamental para que a comunicação aconteça de maneira efetiva, visto que a necessidade da comunidade surda em contar com um profissional que faça a intermediação no processo comunicativo se tornou cada vez mais fundamental. Inicialmente, a atuação desse profissional acontecia na informalidade, ou seja, pais ou membros da família das pessoas surdas faziam essa função, porém, com a oficialização da língua Brasileira de Sinais esse profissional se tornou ainda mais fundamental trazendo a regulamentação da profissão. Sua função é de interpretar uma determinada língua de sinais para outra língua, ou de uma língua oralizada para uma língua de sinais. O intérprete de Libras é aquele profissional que deve dominar as línguas que envolvem o discurso, dominar de maneira plena e satisfatória, assim como ter conhecimento profundo em estratégias e técnicas de tradução. Falaremos dos objetos de tradução, o papel do ato tradutório e as estratégias que abarcam o ato de interpretar. O universo que envolve o papel do profissional intérprete de Libras é vasto e extremamente importante. Neste livro vamos abraçar a responsabilidade de apresentar o que envolve as práticas profissionais de sua atuação. Portanto, ao realizar um passeio por este livro, você compreenderá que o profissional intérprete de Libras possui um papel fundamental na vida do sujeito com surdez que se comunica através da Libras, empoderado da Lei nº 12.319, de 1º de Setembro de 2010 (BRASIL, 2010) que demarcam suas responsabilidades e direitos, acabam por tomar posse de seus espaços de atuação, seja na área educacional ou social. Desse modo, no Capítulo 1, iremos trazer algumas reflexões sobre a natureza do processo tradutório e dos estudos da tradução, o conceito do que é tradução e conceituar processos tradutórios que envolvem a boa prática de traduzir. Faremos uma discussão acerca dos processos de interpretação e o papel do profissional tradutor. Vamos buscar entender e refletir o sentido do processo de tradução, comentando a trajetória dos estudos da tradução discutindo a tarefa do tradutor e seu ponto de vista enquanto profissional. Por fim, viajaremos através dos princípios tradutórios no campo profissional que envolvem as práticas do intérprete de línguas. Historicamente, o profissional tradutor intérprete de Libras ocupou um espaço de auxiliador e amigo do surdo, visto que sua função estava ligada a relações sentimentais como as familiares e religiosas. Esse fato não exime seu dever de dominar profundamente a língua de sinais e a língua portuguesa, no caso do tradutor intérprete de Libras, também é possível dominar o inglês, espanhol, língua de sinais americana – ASL, entre outras para agregar conhecimento e ampliar se campo de atuação. Em consonância com esse argumento, no Capítulo 2 trataremos dos limites e possibilidades no âmbito de traduzir e interpretar em Libras, discutiremos as diferenças entra a tradução e a interpretação sem deixar de refletir sobre os aspectos linguísticos culturais e situacionais que envolvem o ato de traduzir e de interpretar em Libras. Falaremos também do intérprete de Libras enquanto mediador social e linguístico de uma comunidade minoritária e um breve histórico educacional de sua trajetória, buscaremos entender seu papel com base na trajetória histórica de sua formação profissional. No Capítulo 3, faremos uma breve discussão acerca das escolas e os profissionais intérpretes de Libras, saberemos quem são os profissionais envolvidos na educação dos surdos, as diferentes situações enfrentadas por esses profissionais no âmbito escolar. Vamos apresentar de maneira breve as estratégias de tradução e de interpretação dentro das situações específicas do contexto educacional, embasados na ética, responsabilidade e profissionalismo. Após essa apresentação e sob esse prisma lhe convidamos para iniciar seus estudos sobre a disciplina de Intérprete de língua de sinais brasileira em sala de aula – Libras, iremos viajar por uma estrada repleta de curiosidades e ética. Este livro é um forte aliado na construção de seu conhecimento acerca do profissional intérprete de Libras, aproveite-o e efetive as leituras complementares com atenção e responsabilidade, seja cuidadoso e determinado nas atividades de cada capítulo empodere-se do conteúdo para argumentar com segurança acerca do profissional responsável pela tradução e interpretação de Libras nos espações onde a língua de sinais e a educação de surdos seja principal tema discutido. Vamos começar! CAPÍTULO 1 REFLEXÕES SOBRE A NATUREZA DO PROCESSO TRADUTÓRIO E DOS ESTUDOS DA TRADUÇÃO A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: Entender e refl etir sobre o processo tradutório. Compreender a trajetória dos estudos da tradução. Discutir a tarefa do tradutor do ponto de vista profi ssional. Dialogar com os princípios da tradução. Articular os princípios tradutórios no campo profi ssional. Discutir os processos tradutórios e de interpretação. 10 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA 11 R. SOBRE A N. DO PROCESSO T. E DOS ESTUDOS DA T. Capítulo 1 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Como acontece o desenvolvimento da tradução e da interpretação são assuntos que buscaremos tratar nesse livro, esses dois fatos são importantes para a compreensão do universo que envolve nãoapenas os surdos, mas principalmente o profi ssional que atua diretamente com a língua brasileira de sinais. Entretanto, é fundamental compreender as diferenças entre tradução e interpretação para que os processos que envolvem ambos sejam compreendidos de maneira clara e objetiva. São diversas diferenças entre os processos de tradução e interpretação, e as mais fundamentais são aquelas que compreendem o campo operacional, visto que o tradutor converte um texto escrito em outro texto escrito, e o intérprete estabelece uma comunicação oral/sinalizada para outra comunicação oral/ sinalizada. Outra diferença é que na tradução é possível refl etir sobre o trabalho, interromper, retomar, consultar livros, fontes de informação, pessoas, outras versões realizadas para a mesma obra, fazer todo um julgamento e reparo antes de fi nalizar o trabalho, até conseguir chegar à melhor forma de expressar a ideia do autor na língua de partida. Conhecidas, inicialmente, as particularidades dos campos da tradução e da interpretação, é necessário, agora, aproximar o foco às especifi cidades da tradução. Dois objetivos orientam, especialmente, este capítulo: 1) estudar sobre o que consiste a tradução, seus processos tradutórios e a tarefa do tradutor, e destacar estratégias tradutórias mais frequentes, utilizadas por tradutores para fazer face ao desafi o de traduzir um texto da língua de origem para a língua de chegada. 2) compreender os processos de Interpretação. No próximo tópico será conceituado tradução. 2 CONCEITOS E TIPOLOGIAS DA TRADUÇÃO A tradução não se vê como a obra literária, mergulhada, por assim dizer, dentro da fl oresta da língua, mas fora dela, frente a ela, e sem penetrá-la, ela chama o original neste único lugar onde, a cada vez, o eco de sua própria língua pode reproduzir a ressonância de uma obra da língua estrangeira (Walter Benjamin). 12 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA Diferentes defi nições de tradução são encontradas nos materiais disponíveis, algumas julgam a tradução como atividade entre as línguas, enquanto outras consideram que o aspecto textual assume um papel mais relevante, já outras, observam, muito mais o processo comunicativo da atividade. Essas diferenças entre os conceitos de tradução advêm, de defi nições que derivam de concepções diversas do que realmente se compreende pelo ato de traduzir. Dentre tais defi nições, Albir (2008) destaca que a tradução como uma atividade entre línguas, como atividade textual, como ato de comunicação e como processo. Pensamento que é verdadeiro devido à realidade do fato, porém, autores como Vinay e Darbelnet (1958 apud ALBIR, 2008, p. 37) buscam refl etir que a defi nição de tradução é aquela que considera o “passar de uma língua para outra, de uma língua A para uma língua B, para expressar uma mesma realidade”. As teorias linguísticas são as que se aproximam dessa defi nição, porém, para aprofundar no tema da tradução não são satisfatórias, considerando que privilegiam apenas o elemento linguístico. Para Nida e Taber (1969; p. 29) a tradução consiste em reproduzir, mediante uma equivalência natural e exata, a mensagem de uma língua original para outra língua receptora. É importante destacar que a tradução não deve ser considerada como um processo de comparação entre línguas, mas podemos afi rmar que esse é um processo que se relaciona com os processos de compreensão e de expressão na comunicação monolíngue, visto que “o processo de tradução está mais relacionado com a operação de compreensão e reexpressão do que de comparação de línguas” (SELESKOVITCH; LEDERER, 1984, p. 18). Nesse sentido, Steiner (1975, p. 44) afi rma que é um processo de transformação, interpretativo, hermenêutico: destaca que o modelo esquemático da tradução é o de uma mensagem vinda de uma língua fonte que passa por uma língua receptora, assim que tenha sofrido um processo de transformação. Outros autores também se posicionam próximos a essa defi nição do caráter textual da tradução, Catford (1965, p. 39) afi rma que “la sustituiciòn de material textual em uma lengua (LO) por material textual equivalente em outra lengua (LT)”. Apesar de muito bem descrita percebe- se que a análise de Catford está centrada no plano da língua, e que para House (1977, p. 38) o caráter da tradução quando afi rma que a ela é uma substituição de um texto na língua de partida por um texto semântico e pragmaticamente equivalente na língua meta. O autor direciona-se para os aspectos semânticos e pragmáticos que comportam a tradução. Sob o ponto de vista de Seleskovitch, Lederer (1984, p. 256) “traduzir signifi ca transmitir o sentido das mensagens que contém um texto e não converter para outra língua, a língua em que está formulado”. Reivindicando o caráter textual da tradução, e insistindo que a tradução é o sentido, afi rma ainda que “traduzir é um 13 R. SOBRE A N. DO PROCESSO T. E DOS ESTUDOS DA T. Capítulo 1 ato de comunicação e não de linguística” (SELESKOVITCH; LEDERER, 1984, p. 256). Para tanto é necessário aproximar o entendimento de que nesse processo é a determinação do que intencionava-se dizer o emissor da mensagem ou texto original. FONTE: <https://bit.ly/38HPJWP>. Acesso em: 6 maio 2021. FIGURA 1 – TRADUÇÃO E CULTURA As culturas são diferentes e representam os hábitos de um grupo de pessoas, as línguas orais culturalmente expressam suas experiências por meio da transmissão audiovisual, enquanto em todas nas línguas sinalizadas de qualquer parte do mundo, conforme está ricamente representado na imagem anterior, todos os conceitos, hábitos e experiências são absorvidos pelo canal visual espacial. É pelas mãos e pelos olhos que o mundo surdo apreende, interpreta e alcança o conhecimento necessário para uma vida igualitária no sentido comunicacional em uma sociedade majoritariamente ouvinte. Repetidamente ouvimos expressões que se referem, popularmente, à cultura: “Você tem cultura?”, “Aquela jovem é muito culta!”, “Ele não tem nenhuma cultura”, ou ainda: “Ele respeita a cultura de seus avós”. Todas essas, e muitas outras formas de expressão, referem-se à mesma palavra, porém com signifi cados diferentes. A cultura pode ser associada a uma ideia de erudição, cultura como arte, como conhecimentos gerais, como acesso ao conhecimento. Observando a cultura como acesso, ela se caracteriza como algo que alguns possuem e outros não. Por outro lado, pode 14 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA estar relacionada a uma determinada forma de elaboração simbólica, através da qual os seres humanos são categorizados. Sob esta última ótica, a cultura é defi nida a partir de características étnicas e sociais de determinados grupos que ao viverem e conviverem em coletividade constroem signifi cados específi cos para suas vidas. Mesmo que tais resultados não devam ser usados na homogeneização desse grupo, possibilitam pensar a capacidade que os grupos humanos possuem de se diferenciarem, o que é uma de suas características centrais. Nesse viés, a refl exão sobre cultura conduz a considerações sobre a magnitude da diversidade humana e, portanto, sobre diferentes visões de mundo que são construídas por grupos particulares, assim como a maneira com que tais visões organizam a vida desses grupos. As questões culturais também fazem parte desse universo de compreensão do que é traduzir, Campos (1986, p.27-28) chama a atenção para esse fato quando afi rma que “não se traduz, afi nal, de uma língua para outra, e sim de uma cultura para outra; a tradução requer, assim, [...] um repositório de conhecimentos gerais, de cultura geral, que cada profi ssional irá [...] ampliando e aperfeiçoando”. Partindo dessa análise, podemos dizer que a tradução é um ato que proporciona a comunicação entre as partes e que apresenta um contexto específi co onde a infl uência sociocultural se faz presente, sinalizamosainda que a tradução é vista como transporte cultural, onde a fi delidade e a recepção dela possuem um grau de importância fundamental À luz do pensamento de Hatim y Mason (1990; 1995), que apresentam a tradução é um processo comunicativo que tem lugar em um contexto social, Herman (1991) se posiciona e compreende a tradução como uma prática comunicativa e que, portanto, é um tipo de comportamento social. A tradução tem lugar em uma situação comunicativa e que os problemas de comunicação podem defi nir-se como o que se denomina problemas de “coordenação interpessoais que representam também os problemas de interação social” (HERMAN 1991, p.160). Sabemos que a tradução é sim, um ato entre culturas e que o papel do tradutor é primordial para que a comunicação se torne efetiva e funcional. Toury (1981 p. 81) defi ne a tradução como “um ato intrassistêmico de comunicação”. Para autores como Snell-Hornby (1988) e Hewson e Martin (1991), a tradução é 15 R. SOBRE A N. DO PROCESSO T. E DOS ESTUDOS DA T. Capítulo 1 um ato transcultural, uma relação entre as culturas envolvidas, na qual o tradutor é considerado como um operador cultural. Já, para Nord (1988; 1991) a tradução também é um ato comunicativo, cujo critério fundamental é a funcionalidade. 3 ESTUDOS DA TRADUÇÃO E SEUS PROCESSOS TRADUTÓRIOS Percebemos que são diversas as defi nições acerca da tradução, no âmbito da tradução, autores discutem sua complexidade e funcionalidade, porém, compreendemos que não conseguem atender, de forma plena ou isoladamente, sua multiplicidade, não conseguimos identifi car suas características no texto, no ato comunicacional e na atividade cognitiva, assim, consideramos que a tradução é um processo de comunicação e, também, de reformulação social. Albir (2008) apresenta também esse conceito e busca identifi car três traços fundamentais para defi nir de maneira mais efetiva as características da tradução. Primeiramente, o autor considera que a tradução tem, sim, uma fi nalidade comunicativa, para o destinatário que não tem conhecimento de determinada língua na qual encontra-se um texto, permitindo a compreensão por meio da comunicação ativa. Todavia, nesse caso o tradutor deve considerar as intenções comunicativas presentes e o fato de que cada língua se expressa de maneira diferenciada em cada cultura, assim é necessário observar as necessidades do destinatário. A la hora de reproducir em outra lengua y cultura esse texto, el traductor debe considerar que no se trata de plasmar la cobertura linguística sino las intenciones comunicativas que hay detrás de ella, teniendo em cuenta que cada lengua las expressa de uma manera diferente y considerando las necessidades de los destinatários y las características del cargo (ALBIR, 2008, p. 41). Todos os elementos que integram a tradução devem fazer parte dessa forma de comunicação, visto que a fi nalidade da tradução pode ainda ir ao encontro do público a que se dirige, por meio dos métodos e soluções diferenciados escolhidos pelo tradutor. Em segundo lugar, (Albi, 2008) considera que a tradução não se situa no plano da língua, mas sim no da fala, sendo que não se traduzem as unidades isoladamente, de forma descontextualizada: se traduzem os textos. No momento 16 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA da tradução de um texto, deve-se analisar os mecanismos de funcionamento textual presentes (coerência, coesão e os diferentes tipos de gêneros textuais), percebendo que esses mecanismos diferem de línguas e culturas. Em terceiro lugar, o autor considera que não se pode jamais esquecer que a tradução é a atividade de um sujeito (um tradutor), que necessita de uma competência específi ca para traduzir um texto, a qual é chamada de competência tradutória. A tradução consiste em um complexo processo mental, que se constitui primeiramente em compreender o sentido que esse transmite e, na sequência, reformulá-lo com os meios da outra língua. Percebemos que para essa autora, qualquer defi nição de tradução tem que incluir necessariamente essas três caracterizações: texto, ato de comunicação e a atividade cognitiva de um sujeito. Considera a defi nição da tradução como um processo interpretativo e comunicativo que busca a reformulação de um texto de uma língua para outra, de uma cultura para outra, sempre ligado ao contexto social e com uma fi nalidade determinada. Entendemos que esse pensamento é ação entre textos e não apenas entre línguas, na qual deve-se analisar todos os mecanismos de atualização textual, não apenas as suas relações internas (de texto para texto), mas também a importância de observar as relações externas, com os fatores condicionantes externos: las coordenadas espaciales y temporales, la importância del receptor, del encargo y de la fi nalidade de la traducción, así como las competências y los processos mentales implicados. (ALBIR, 2008, p. 41). A autora defende a importância em integrar esses níveis de análises, assim como a necessidade de um enfoque integrador dos estudos sobre a tradução que analise sob a ótica dessas três perspectivas. Devemos considerar também que a tradução é uma experiência que pode se abrir e se reencontrar na refl exão, que por sua vez não é considerada a descrição impressionista dos processos subjetivos do ato de traduzir, e não consideramos ser uma metodologia, mas uma experiência. “Assim é a tradução: experiência. Experiência das obras e do ser- obra, das línguas e do ser-língua. Experiência, ao mesmo tempo, dela mesma, da sua essência” (BERMAN, 2013, p. 23). Berman (2013) reavalia a tradução a partir de sua visão, após considerar alguns de seus entendimentos históricos. Chama a atenção para o fato de que a tradução não é uma subliteratura (defi nição do século XVI), não é uma subcrítica (proposição do século XIX), nem tampouco uma linguística ou uma poética aplicada (como acredita-se no século XX). Defende, antes, que a tradução é o sujeito e o objeto de um saber próprio: a tradução é tradução-da-letra, do texto enquanto letra. 17 R. SOBRE A N. DO PROCESSO T. E DOS ESTUDOS DA T. Capítulo 1 As duas concepções tradicionais e dominantes na tradução literária são a tradução etnocêntrica e a tradução hipertextual, sendo ambas entendidas como o modo segundo o qual uma porcentagem impressionante de traduções é feita há séculos (BERMAN. 2013, p. 39). Muitos tradutores, autores, críticos e estudiosos da área julgam-nas como conceitos normais de traduzir, consideradas ideais. 3.1 TRADUÇÃO PARA LÍNGUA DE SINAIS Ao analisarmos o ponto de vista de Berman, conseguimos refl etir como a cultura ouvinte percebe as normas que são adotadas na tradução para Libras. O etnocentrismo na tradução de textos do Português para Libras apresenta fortemente essa característica: na grande maioria das vezes esses textos são adaptados para a língua visual sem estabelecer relação com a cultura e identidade surda, ou quando estabelecem o fazem de maneira muito superfi cial. Observa-se que em muitos textos traduzidos para Libras seguem-se as mesmas especifi cidades da língua oral, e apresentam de forma sutil a dominação sob a língua do outro, representada pela imposição da língua oral. Tal observação acontece quando percebemos que um texto traduzido para o Português “escrito sinalizado” (quando a estrutura da Libras não é a base dessa escrita, mas sim o Português de forma mascarada em meio aos sinais). Muitas vezes, esse fato também acontece no momento da tradução por vídeo, na sinalização realizada de forma simultânea com a oralização de cada palavra e cada sinal, surgindo o Português sinalizado. Essa imposição na tradução para Libras revela a dominação e a imposição do Português, oral ou escrito, sendo possível fazer uma relação com a tradução etnocêntrica citada por Berman. A tradução hipertextual é uma concepção dos séculos XVII e XVIII, e que pode parecer ultrapassadapor alguns profi ssionais da tradução. “Remete a qualquer texto gerado por imitação, paródia, pastiche, adaptação, plágio, ou qualquer outra espécie de transformação formal, a partir de um outro texto já existente” (BERMAN, 2013, p. 40). No período em que esse conceito de tradução foi praticado com maior frequência, os textos eram “transformados, pela própria vontade, em uma obra estrangeira”. Permitia-se substituir certas palavras por outras mais convenientes, suprimir uma passagem “por ser obviamente ridícula demais”. 18 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA Na Língua de Sinais, textos de diferentes tipos se entrelaçam para que a tradução aconteça, havendo, ainda, o envolvimento e a interação facial características dessa modalidade de língua. Contudo, como Albres (2015) alerta, mesmo com as interações face a face, conforme acontece na língua de sinais, o tratamento que se dá ao ato de traduzir está relacionado à estrutura linguística escrita. Os movimentos que buscam incentivar uma educação bilíngue para os surdos e as traduções literárias que são realizadas frequentemente, propiciam a tradução de diferentes obras literárias que estão em português para a Libras. Buscamos luz no posicionamento de Albres (2015) e corroboro a ideia de que a tradução está ligada diretamente aos aspectos multifacetados e multimodais da linguagem humana. Arriscamos afi rmar que, em se tratando de língua de sinais, essa ligação é marcada com maior intensidade. Para tanto, a compreensão de como se traduz os materiais multimodais pode ser importante para que, a partir daí, as escolhas se estabeleçam na função tradutória e estratégica do tradutor. Para Albres (2015), em seu artigo “Tradução intersemiótica de literatura infanto-juvenil: vivências em sala de aula”, apresenta uma discussão acerca de quais são as mudanças na construção dos sentidos segundo os textos apresentados em materiais multimodais. Ainda nessa produção a autora revela materiais literários para o público infanto-juvenil, analisando episódios de vídeo- gravação. Os recursos semióticos são utilizados fortemente nas mídias, e […] congregar o verbal e o não-verbal em materiais impressos para crianças e jovens sempre foi algo mais comum que em outros materiais, em que o visual permanecia praticamente invisível até começar a ser amplamente explorado pelas tecnologias computacionais e surgir realçado em diferentes contextos (FERNANDES, 2013 apud ALBRES, 2015, p. 389). 19 R. SOBRE A N. DO PROCESSO T. E DOS ESTUDOS DA T. Capítulo 1 FONTE: http://www.casaguilhermedealmeida.org.br/revista- reproducao/ver-noticia.php?id=111. Acesso em: 7 maio 2021. FIGURA 2 – TRADUÇÃO LITERÁRIA EM LIBRAS A Figura 2 nos remete claramente à construção e fortalecimento da tradução literária em Libras e a sua importância para o desenvolvimento da comunidade surda e sua relação com as mais diversas literaturas. Toda essa conversa, até o momento, em busca de percepções que tragam amparo a defi nição de tradução foram válidas e com contribuições fundamentais para a construção do conceito do que entendemos hoje ser a tradução. Também nos revelaram uma linha de raciocínio notável na área desse campo de pesquisa que são as traduções para o público surdo. Tais materiais estão mais ligados à área da literatura e fortemente ao público infanto juvenil, sabemos de traduções de material didático e adaptações para faixa etária maior, porém ainda com um número não muito expressivo. O conhecimento que temos é de que os materiais literários disponibilizados para o público surdo trazem contribuições extremamente positivas, visto que assumem formas específi cas da cultura visual e que favorecem a interação sujeito-material. A grande maioria das traduções são por meio de vídeos em Libras e representam a tradução do texto escrito em português ou em outro idioma oral, essa prática caracteriza um dos diferentes modos dessa interação. Albres (2015, p. 389) afi rma que “as traduções literárias para o público infanto-juvenil, em línguas de sinais, requerem o uso de interfaces tridimensionais e digitais que contribuam para a leitura da expressão em sinais por meio do vídeo”. Embora as traduções com interfaces tridimensionais e digitais eliminem ou minimizem as barreiras de compreensão literária que se concretizam desde as primeiras fases escolares, grifo ainda, que para o público adolescente surdo, os materiais disponíveis são 20 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA mais reduzidos. Lemos (2017), em sua dissertação, “ Leitura, Surdez e Inclusão: Tradução comentada do conto “Vestida de Preto” do Português para língua brasileira de sinais- Libras”, nos revela diferentes projetos que apresentam materiais bilíngues e traduzidos para línguas de sinais de diferentes países que contribuem de forma positiva não apenas com o aprendizado das pessoas surdas acerca de literatura e suas infi nitas possibilidades de relação com o mundo, mas também nos revela magnitude de traduções para uma língua visual com um público expressivo. A exemplo da Argentina, com o projeto Video libras Virtuales, em LSA (Língua de Sinais Argentina) e dos Estados Unidos (através da Universidade Gallaudet), com o projeto Bilingual Storybook App. Em território nacional contamos com Editora Arara Azul tem trabalhado fortemente com a tradução cultural de literatura, por meio de traduções de clássicos para Libras, em parceria com o Ministério da Educação Brasileiro. Essas ações garantem de maneira importante materiais bilíngues, traduzidos para Libras, sua distribuição contribui tanto para o desenvolvimento da pessoa surda enquanto estudante, mas também na relação do sujeito com o mundo externo revelando fortes percepções internas que moldam o ser humano. As escolas públicas com matrículas de alunos surdos se tornam uma forte aliada na difusão da Libras, assim como para a aprendizagem e a experiência leitora dos surdos brasileiros. É importante ter conhecimento de que a análise e as discussões que envolvem a tradução de literatura para as pessoas com surdez no âmbito nacional, que é o que estamos alinhando nesse material, cabem sim, principalmente aos estudiosos da área, obviamente não queremos aqui eximir aos demais da parcela de responsabilidade. Contudo, é necessário aproximar o olhar com um direcionamento mais refi nado quando falamos de uma investigação do diálogo que, na literatura não visomotora, que se estabelece na interação entre o texto, as ilustrações e o design do material, e que na Libras compõe um produto multimodal (ALBRES, 2015). Aproximo minha análise a da autora, e exponho ainda que esse objeto de estudos é complexo, logo, para adquirir uma visão multidisciplinar da tradução, é fundamental a articulação acentuada com a educação, com a linguística e tecnologia. Para tanto, os profi ssionais da tradução Português-Libras devam sempre estar intimamente apropriados dessas confi gurações. A tradução intersemiótica de literatura para adolescentes requer sensibilidade, interesse e competência por parte dos tradutores Português/Libras. Ainda amparada em Albres (2015), acredita-se que, ao propor a discussão e a refl exão sobre novas 21 R. SOBRE A N. DO PROCESSO T. E DOS ESTUDOS DA T. Capítulo 1 formas de linguagens narrativas, meios eletrônicos, realidade virtual, surgem formas diversas de interação com as obras, sendo elas literárias ou não, proporcionando um diálogo multimodal e multidisciplinar entre as áreas. 3.2 ALGUMAS ESTRATÉGIAS DE TRADUÇÃO PARA LIBRAS O registro escrito sempre foi o meio que acontece a execução da tradução, historicamente a relação do profi ssional se dá por meio de práticas escritas, esse ponto de vista acaba por ignorar outros aspectos que são fundamentais para os sentidos do sujeito quando está em conexão com a leitura. Albres (2014; 2015) revela que é fundamental a tradução do Portuguêspara Libras por meio de vídeo, e que o uso de interfaces tridimensionais e digitais, contribuem signifi cativamente para a leitura da expressão em sinais. O objetivo maior desses materiais traduzidos por vídeo em Libras é de proporcionar o aprendizado e o conhecimento para o sujeito surdo, muitas vezes esses materiais são apresentados juntamente com o material em português, porém, a relação entre a tradução, leitura e literatura é real e efetiva. Albres (2014) sugere a criação de critérios para procedimentos de tradução de literatura infanto-juvenil do Português para a Libras. No trabalho de natureza analítico-descritiva, “Tradução de literatura infanto-juvenil para língua de sinais: dialogia e polifonia em questão”, Albres (2014) sugere a criação de critérios para procedimentos de tradução de literatura infanto-juvenil do português para Libras, argumenta acerca da tradução, realizada por Neiva de Aquino Albres e Sylvia Grespan Neves, da obra Guilherme Augusto Araújo Fernandes, de autoria de Mem Fox. Do ponto de vista da autora o intérprete que, em minha opinião, também é o tradutor, não faz a tradução apenas do texto em si, o profi ssional faz uso das ilustrações do livro, pelo gênero discursivo e pelo público-alvo em potencial. Salienta ainda que: O tradutor/ intérprete, a todo o momento, faz uso de juízo de valor no processo de interpretação, há valorização do conteúdo da obra, da relação desse conteúdo com seus valores pessoais e da sociedade em que vive, como também, há valorização do público a quem se destina a sua tradução (ALBRES, 2014, p. 1156). 22 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA Lemos (2017), em sua dissertação, faz uma breve análise do ponto de vista da autora e constata que ela identifi ca a forma como o tradutor constrói os sentidos sobre o texto-fonte que se apresenta, percebendo também como acontece a materialização em texto de chegada por meio da sinalização gravada por vídeo. Concordamos com as ideias postas em sua pesquisa de dissertação quando ela afi rma que “todas essas particularidades da tradução, como juízo de valor, valorização do conteúdo e do público-alvo necessitam determinados critérios e escolhas pelo tradutor” (LEMOS, 2017, p. 37). O uso do espaço pelo tradutor para o processo de geração de sentidos e os espaços na perspectiva do leitor de texto multimodal são as duas as categorias que Albres (2014) analisa em sua pesquisa, quando na primeira categoria, a autora analisou dois momentos de tradução, esses trechos arbitrários representam a duas páginas do livro, porém, conseguem designar o processo de geração de sentidos partindo do ponto de vista do texto verbo-visual. Ao analisar a segunda categoria, optou por uma página do livro que possibilitasse a discussão da visualização do material digital em língua brasileira de sinais. Em se tratando do uso de espaço para o processo de geração de sentidos, a autora que também é profi ssional-tradutora da área de Libras, optou por exibir os diferentes espaços em uma intensa discursividade verbo-visual como motivadora de sua enunciação. Com base em sua pesquisa buscamos luz e também compreendemos que as tradutoras não leem apenas as palavras do livro, mas também atribuem sentido, considerando a ilustração, a forma gráfi ca, bem como o contexto social em que a leitura se dá (ALBRES, 2014, p. 1160). Durante a escolha tradutória alguns termos que não constam no texto-fonte em português, podem ser incluídos quando estão ilustrados no livro, porém, com a observância de seguir de maneira fi el o contexto, tal alternativa objetiva aproveitar ao máximo o potencial visual para a construção de sentidos, pois algumas palavras não possuem de sinal. Critérios como: o uso do corpo, o local de sinalização no espaço, a apontação e a direção do olhar, são escolhas da tradutora para indicar, por exemplo, os espaços trabalhados no texto, visto que seu corpo tende para o lado direito e/ou esquerdo, sempre na perspectiva do sinalizador. Outro critério observado por Lemos (2017) na pesquisa de Albres (2014), é que a tradutora para apresentar o discurso dos personagens e suas localizações optou pela postura na expressão corporal de narrador da história, direcionando o olhar para o leitor e o uso do espaço mental sub-rogado, o qual acontece quando o sinalizador incorpora o personagem, situação em que pode assumir o papel de qualquer pessoa da situação narrada e sinalizar como se fosse ela (LEMOS 2017). 23 R. SOBRE A N. DO PROCESSO T. E DOS ESTUDOS DA T. Capítulo 1 As orações curtas, simples e diretas também preponderam em Libras, sendo comum o sujeito em terceira pessoa no português (ele) e o tradutor alterar o discurso direto para a primeira pessoa (eu) no processo da tradução, para Albres, essa estrutura é essencial à enunciação e envolve a incorporação de personagem na Libras (ALBRES, 2014, p. 1163). Contribuímos com o pensamento da autora afi rmando que em Libras é comum também os movimentos de corpo em direção para a direita e esquerda, e a direção do olhar para melhor explicitação de qual personagem enuncia. Outro trabalho, intitulado “Tradução intersemiótica de literatura infanto-juvenil: vivências em sala de aula” (2015), de Neiva Albres, discute e analisa episódios de vídeo- gravações que focalizam a mediação da professora – mediadora, em contextos de trabalho de construção dos sentidos em uma atividade de tradução coletiva de um texto multimodal, assim como a conscientização da complexidade e da especifi cidade das escolhas linguísticas e discursivas envolvidas no processo tradutório. FONTE: ALBRES, N. “Tradução intersemiótica de literatura infanto-juvenil: vivências em sala de aula”. Estudos da Tradução e da Interpretação de Línguas de Sinais, Florianópolis, v. 35, n. 2, 2015. 4 O TRADUTOR E INTÉRPRETE DE LIBRAS FONTE: Acervo pessoal da autora FIGURA 3 – TILSP – TRADUTOR INTÉRPRETE DE LIBRAS/PORTUGUÊS 24 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA Algumas pesquisas que abrangem a área da tradução e interpretação de Libras/ Português vêm contribuindo para as refl exões e discussões sobre o tema, estudos como o de Santos (2006), Martins (2009), Russo (2009), Jordão (2013), Santos (2013) e Menezes (2014), apontam a importância e a pertinência do aprofundamento das questões de formação do profi ssional tradutor intérprete de Libras, que é uma profi ssão que tem ganhado novos moldes ao longo da história, inclusive, reconhecimento social e legal que ampliam as representações sobre a atividade e inserção desse profi ssional em diferentes espaços. À luz de Santos (2013), buscamos compreensão no panorama das pesquisas sobre o TILS e em sua análise por categorias que afl oram e emergem de teses e dissertações realizadas desde o fi nal do século XX. Revela que a Educação é a área primordial dessas pesquisas, mas que não podemos negar a existência de uma transição e um empoderamento no campo dos Estudos da Tradução. Na pesquisa, apresenta alguns sinais críticos das pesquisas se tratando de confl ito de identidade, caracterização do papel do intérprete de Libras e trajetórias formativas, além do fato de que a qualifi cação dos intérpretes infl uencia a tradução e interpretação que realizam, levando a crer que o desenvolvimento profi ssional é fundamental (SANTOS, 2013). A prática do profi ssional tradutor e intérprete de Libras e de Português (TILPS) já está legalizada em campo nacional, essa conquista é muito recente, apesar de haver indícios de sua existência há décadas. As discussões acerca da atuação desse profi ssional ganham força intensamente em espaços onde a pessoa com surdez, usuário de Libras, está presente assumindo um papel importante na sociedade. Martins (2009) nos presenteia com sua pesquisa, quando apresenta as trajetórias de formação do intérprete de Libras, revelando a existência de um percurso formativo recente e aindacom algumas fragilidades. Concordamos com a autora quando ela aponta a importância da interação com a comunidade surda para que se defi na a apropriação de saberes científi cos nas relações de trabalho desse profi ssional, que acontece também no campo religioso. A formação do profi ssional tradutor intérprete de Libras, requer que se contemple “a dimensão discursiva da linguagem, isto é, seu uso concreto, dessa maneira possibilita refl exões sobre os processos de construção de sentidos a partir das situações concretas de enunciação’” (ALBRES; NASCIMENTO, 2014, p. 226 apud ALBRES, 2015, p. 392). 25 R. SOBRE A N. DO PROCESSO T. E DOS ESTUDOS DA T. Capítulo 1 Santos (2006), realiza um valoroso estudo sobre as identidades do tradutor-intérprete e em suas análises indica questões como assistencialismo, voluntariado, formação e profi ssionalização permeiam na formação e constituição das identidades desses profi ssionais que são múltiplas e determinadas a partir de diferentes elementos, como marcadores culturais e linguísticos. Outra autora que se debruça sobre o tema e nos traz ricas considerações é Russo (2009), quando afi rma que, enquanto formadora de intérpretes de língua de sinais, busca sentidos dos discursos dos sujeitos de sua pesquisa durante percursos de formação e enquanto profi ssionais atuantes na área. A autora revela ainda os aspectos relacionados à profi ciência da língua em uso, salienta fortemente a necessidade de apropriar-se de um saber fazer a interpretação, e que a singularidade dos profi ssionais e a importância da demonstração de diversos saberes, técnicas específi cas e práticas relacionadas aos contextos distintos, bem como o pertencimento à comunidade surda, são questões que devem acompanhar de maneira muito expressiva o pensar do tradutor intérprete de Libras. Assim, esse profi ssional necessita de constante formação para garantir que seu trabalho aconteça de maneira efi caz, no Decreto 5.626/2005 (BRASIL, 2005), a formação deve seguir por meio de cursos de extensão, graduação Letras-Libras e/ou em cursos de pós-graduação, organizados em instituições educacionais. Percebe-se, no entanto, que existe uma carência considerável de cursos de formação, mesmo com as propostas atuais que estão postas. Albres (2015) aponta que o contorno didático vivenciado em ambientes escolares e educacionais que explore os diferentes gêneros textuais e discuta sobre a multimodalidade envolvida na linguagem contemporânea precisa ser amadurecido entre os formadores. Jordão (2013), faz uma rica pesquisa de análise das características da formação dos intérpretes de Libras do sudeste goiano, evidencia de maneira muito signifi cativa a formação dos tradutores intérpretes de Libras e os limites e as possibilidades na atuação a partir dessa formação. Constata que os relacionados às lacunas na formação, no que se refere à falta de subsídio conceitual acerca da surdez e da interpretação, assim como ao conhecimento inconsistente que se pode ter por meio de cursos de curta duração em perspectiva dicionarizada. Deixa muito claro que o amparo governamental para a formação é essencial, mas também é fundamental a disposição e interesse para realizar sua formação e capacitação a partir não somente de cursos, mas também na participação em eventos e grupos de discussões vistas ao favorecimento e a troca de experiências, conhecimento na área e aprendizado de novos sinais. 26 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA Nesse viés, é importante destacar que no processo de tradução-interpretação encontram-se as inúmeras responsabilidades do tradutor em relação à obra que está trabalhando, ele deve se conscientizar da complexidade do processo tradutório e, também, para fato de que as decisões, escolhas e estratégias de cada uma de suas ações necessitam ser observadas com prudência ao longo de todo o processo e essa consciência também se adquire na trajetória de sua formação. Fica muito nítido que nas pesquisas que optamos em trazer para a discussão, todas revelam a necessidade de aprofundamento acerca do conceito de tradução, e de interpretação, que estão presentes no cotidiano e nas questões culturais, linguísticas e sociais do profi ssional tradutor. Entendemos que a tradução cultural exige maior conhecimento das questões de hábito, da cultura e tradições da língua em uso, respeitando sempre as suas especifi cidades. Nas pesquisas citadas, percebemos que todos os especialistas da área apontam que o profi ssional tradutor deve ser comprometido com o produto de seu trabalho e que “o processo de tradução também requer do profi ssional a compreensão e a produção de um novo texto” (ALBRES, 2015, p. 394). A tradução é uma leitura e uma reescritura, reconhecendo a autoria do texto traduzido (ARROJO, 2004; VENUTI, 2002 apud ALBRES, 2015, p. 394). Partindo desse ponto de vista, podemos entender que as vezes em que a tradução é considerada apenas a cópia ou a reprodução do produto textual é uma inconsequência, um equívoco, pois as marcas desse trabalho são respostas às produções diversas do discurso e as relações de sentido são diferenciadas. Julgamos que sim, a tradução não deve ser percebida como um campo limitado, mas sim de uma maneira mais ampla: considerando sempre que o ato de traduzir alcança de maneira profunda e especial as questões dos sentimentos, culturas e sensações, traduzir para além das palavras contidas no texto. Corroboramos com Albres (2015, p. 395) quando a autora se aproxima e faz referência a Sobral (2008, p. 57) reconhecendo que “traduzimos discursos, no sentido de que as palavras não existem no vazio, elas somente existem e signifi cam dentro de um contexto específi co”. Sob a luz das considerações desses autores, conseguimos também perceber que todos esses discursos possuem contexto e intencionalidades de leituras e interpretações e que as revelações de ordem ideológicas e subjetivas, vem a contribuir para que questões semióticas e pragmáticas da tradução sejam consideradas pelo grande campo dos Estudos da Tradução. 27 R. SOBRE A N. DO PROCESSO T. E DOS ESTUDOS DA T. Capítulo 1 Se pensarmos na tradução para a Libras, atentamos também para Lemos (2017), que considera que o campo de estudos da linguagem alcança esse conceito, pois em suas produções estão associados elementos visuais, ilustrativos e de design, fazendo com que os textos multimodais sejam vivos e efetivos no processo, podemos aqui também perceber a amplitude da responsabilidade do tradutor que necessita corresponder a todas essas situações que se apresentam fortemente no ato de traduzir. A capacidade tradutória do profi ssional vai para além de suas vivências, é importante que não só o profi ssional tradutor de todas as línguas, mas aqueles que trabalham com a Libras devem ser ainda mais cuidadosos na questão da fl uência na leitura das mais diversas linguagens, principalmente no “estudo via gênero com exemplares de textos autênticos, permeados por imagens, amplamente usados em nossa sociedade, em diferentes mídias como, por exemplo: internet, revistas, jornais e televisão; em textos publicitários, informativos e literários” (ALBRES, 2015, p. 395). A língua de sinais possui características e especifi cidades completamente diferentes das línguas orais, e, esse fato não está aqui para discutir ou negar, visto que são diversos estudos, pesquisas e discussões que apontam e comprovam esse fato. Para todas as línguas o visual é importante, porém, para a Libras ele é fundamental, essas especifi cidades se apresentam de maneira mais intensa quando estamos falando da tradução, as imagens possibilitam uma visualização de informações que constroem a signifi cação de sentidos e saberes próprios. Queremos mais uma vez citar Albres, quando ela faz referência em sua pesquisa à análise dos textos para além da escrita, conduzindo a uma proposta de discussão acercados estudos intersemióticos. A autora nos revela que “dentre os tipos de tradução, a tradução intersemiótica ou transmutação consiste na interpretação de signos verbais por meio de sinais de sistemas de signos não-verbais” (JAKOBSON, 1972, p. 65 apud ALBRES, 2015, p. 396). À luz da rica pesquisa da autora, traremos as concepções por ela defendidas de maneira muito assertiva para esse caderno, visto que, corroboramos com seu ponto de vista e que também consideramos na tradução intersemiótica a imagem, que é o sistema de signo não-verbal, enquanto o texto, entendemos que é o sistema de signo verbal, assentimos também que ambos se completam e muitas vezes dependem um do outro. Nesse sentido, cabe ressaltar que existe uma mistura entre diversos tipos de tradução, de múltiplas linguagens, contudo elas se contrapõem à tradução interlingual (entre línguas) e à tradução intralingual (diferentes registros da mesma língua), introduzindo sistemas não-verbais como materializações passíveis de serem traduzidas (ALBRES, 2015, p. 396). 28 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA Os textos que possuem características visuais e textuais são também objeto de estudo e pesquisa na área da tradução de Libras e contemplam uma cadeia de considerações dos textos que possuem características não-verbais. Katharina Reiss (1990) é citada por Albres (2015) quando sugere em sua pesquisa o emprego de termos multimidial, multimodal e multisemiótico para se referir a textos que possuem características visuais e textuais (SNELL-HORNBY, 2006, p. 84-85). Quatro tipos de textos que dependem de elementos não verbais são introduzidos em súmula. A seguir buscamos apresentar a defi nição conceitual desses termos do ponto de vista de Albres (2015), e com base na pesquisa de Reiss (1990). 1. texto multimidial – os textos multimodais envolvem tanto a visão quanto a audição, podemos citar os trabalhos de cinema, televisão, as legendas e sub/ surtilling. Esse termo em Inglês geralmente é referido como audiovisual, os mesmos são transmitidos pelos meios de comunicação técnica e/ou eletrônica. 2. texto multimodal – são bem representados em teatro e ópera onde envolvem os mais diferentes modos de expressão verbal e não-verbal, e compreendem som e a visão. 3. texto multissemiótico – usa diferentes sistemas de signos gráfi cos, verbais e não-verbais, como nos quadrinhos ou anúncios impressos. 4. texto audiomidial: escrito para ser falado, portanto, para atingir o seu destinatário fi nal por meio da voz humana e não a partir da página impressa. Ao aproximarmos nosso olhar a essa classifi cação que é defendida pelas autoras, percebemos que ainda permanece a ambiguidade entre os termos verbal e não-verbal. Lemos (2017) concorda com Albres (2015), quando a autora afi rma que há pouco detalhamento do aspecto não-verbal, assim como o corpo de quem anuncia com gestos e com ambientes e contextos discursivos também é pouco relacionado. Com a intencionalidade do uso de interfaces tridimensionais e digitais, é comum materiais híbridos que congreguem diversas linguagens. (ALBRES, 2015, p. 397). Corroboramos com o pensamento da autora, salientamos ainda que esses tipos de textos possibilitam a comunicação por meio de elementos visuais e textuais e na tradução deles o profi ssional deve considerar não apenas os elementos linguísticos, mas lançar mão também de elementos visuais e elementos gráfi cos. É importante compreender que a autora faz essa descrição baseada em materiais impressos (livros). Contudo, se analisarmos, dentre as escolhas tradutórias para traduzir para Libras, a tradução intersemiotica pode ser considerada a mais adequada, pois esses elementos são amplamente utilizados. A Atualidade é a tecnologia, e isso, não temos como nos desvincular, ela está 29 R. SOBRE A N. DO PROCESSO T. E DOS ESTUDOS DA T. Capítulo 1 por todos os lugares ao nosso redor sempre, esses materiais digitais como E- books, tablets e e-readers, são capazes de favorecer a interação numa linguagem hibrida, e esse fato provoca a ampliação de pesquisas e estudos desse gênero textual. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS No decorrer desse primeiro capítulo, estudamos questões conceituais do que é tradução, refl etimos sobre a natureza do processo da tradução e da interpretação, aproximando dos estudos da tradução, trouxemos para o debate a tarefa do tradutor e algumas de suas escolhas tradutórias que infl uenciam e interferem fortemente a compreensão do seu objeto de produção, seja ele escrito ou por vídeo. Essa infl uência deve ser considerada pelo profi ssional, visto que deve aceitar o objetivo real da tradução, o público receptor do material traduzido, e os efeitos dessa infl uência tradutória na cultura de chegada, o profi ssional tradutor deve sensibilizar-se que as palavras lidas no texto fonte fazem parte de um contexto e de uma situação formativa ou de entretenimento que não podem ser pensadas isoladamente. O tradutor profi ssional é o sujeito que constrói sentido do material que fez a leitura, sem afastar-se de seu capital linguístico e cultural, o material traduzido é o objetivo alcançado da tradução e a compreensão carregada de signifi cado dessa tradução é o intento do profi ssional tradutor que carrega consigo a responsabilidade de transmitir o saber de maneira valorosa e efi caz. Sabemos que existem diferentes defi nições de tradução nos mais diversos materiais, artigos e textos disponíveis, o fato é que dentre essas discussões, algumas julgam a tradução como atividade entre as línguas, enquanto outras consideram que o aspecto textual assume um papel mais relevante, já outras, observam, muito mais o processo comunicativo da atividade. Importante saber que essas diferenças existentes entre os conceitos de tradução advêm, de defi nições que derivam de concepções diversas do que realmente se compreende pelo ato de traduzir. 30 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA No decorrer do texto encontramos alguns autores que discutem sabiamente o assunto, para Albir (2008) a tradução como uma atividade entre línguas, como atividade textual, como ato de comunicação e como processo. 1 Assinale V para verdadeiro e F para falso de acordo com o pensamento dos autores como Vinay e Darbelnet (1958 apud ALBIR, 2008, p. 37). FONTE: ALBIR, A. H. Traduccíon y Traductología: Introducción a la Traductología. Madri: Ed. Catedra, 2008. ( ) Entendem que a defi nição de tradução é aquela que considera o “passar de uma língua para outra, de uma língua A para uma língua B, para expressar uma mesma realidade”. ( ) Compreendem que a tradução é em um ato que é inverídico devido a realidade do fato de traduzir. ( ) Traduzir é o mesmo que passar de uma língua para outra, de uma língua A para uma língua B, para expressar uma mesma realidade. ( )Traduzir e Interpretar tem a mesma função de conduzir as facilidades em compreender determinada língua. ( ) F – F – F – F. ( ) V – V – V – V. ( ) V – F – V – F. ( ) F – V – F – F. 2 A tradução é um ato que proporciona a comunicação entre as partes e que apresenta um contexto específi co onde a infl uência sociocultural se faz presente. Sinalizamos ainda que a tradução é vista como transporte cultural, onde a sua fi delidade e a recepção possuem um grau de importância fundamental. À Luz do pensamento de Hatim y Mason (1990; 1995), que apresentam que a tradução é um processo comunicativo que tem lugar em um contexto social, Hermans (1991) se posiciona e compreende a tradução como uma prática comunicativa e que, portanto, é um tipo de comportamento social. A tradução tem lugar em uma situação comunicativa e que os problemas de comunicação podem defi nir-se como o que se denomina problemas de “coordenação interpessoais que representam também os problemas de interação social” (HERMAN 1991, p. 160). A 31 R. SOBRE A N. DO PROCESSO T. E DOS ESTUDOS DA T.Capítulo 1 tradução é um ato entre culturas e que o papel do tradutor é primordial para que a comunicação se torne efetiva e funcional. Toury (1981 p. 81) defi ne a tradução de maneira muito específi ca. FONTE: HATIM, B.; MASON, I. (1990/1995) Teoría de la traducción: una aproximación al discurso. Barcelona: Ariel, 1995. HERMAN, M. In contexto. Cambridge: Cambridge University Press, 1991. TOURY, G. Translated Literature: System, Norm, Performance: Toward a TT-Oriented Approach to Literary Translation. Poetics Today, [s.l.], v. 2, n. 4, p. 9–27, 1981. Assinale qual a alternativa que compreende o ponto de vista de Toury (1980): ( ) A tradução é um ato intrassistêmico de comunicação. ( ) A tradução é um ato de culturas mais elevadas. ( ) A tradução é o que conseguimos compreender na leitura de um texto da mesma língua. ( ) A tradução é um ato de inverdade intralingual. 3 Para autores como Snell-Hornby (1988) e Hewson e Martin (1991), a tradução é um ato transcultural, uma relação entre as culturas envolvidas, na qual o tradutor é considerado como um operador cultural. Já, para Nord (1988; 1991) a tradução também é um ato comunicativo, cujo critério fundamental é a funcionalidade. Albir (2008) apresenta também esse conceito e busca identifi car três traços fundamentais para defi nir de maneira mais efetiva as características da tradução. De acordo com o material estudado, assinale a alternativa(s) que apresenta de maneira afi rmativa os três traços fundamentais para defi nir as características da tradução. FONTE: SNELL-HORNBY, M. Translation Studies: An Integrated Approach. John Benjamins Publishing, 1988. 163 p. HEWSON, L.; MARTIN, J. Redefi nindo a tradução. A Abordagem Variacional. Londres: Routledge, 1991. Assinale V para as sentenças verdadeiras e F para as Falsas: ( ) O autor considera que a tradução tem, sim, uma fi nalidade comunicativa, para o destinatário que não tem conhecimento de determinada língua na qual encontra-se um texto, permitindo a compreensão por meio da comunicação ativa. Entretanto, nesse caso o tradutor deve considerar as intenções comunicativas presentes e o fato de que cada língua se expressa de maneira 32 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA diferenciada em cada cultura, assim é necessário observar as necessidades do destinatário. Todos os elementos que integram a tradução e devem fazer parte dessa forma de comunicação, visto que a fi nalidade da tradução pode ainda ir ao encontro do público a que se dirige, por meio dos métodos e soluções diferenciados escolhidos pelo tradutor. ( ) O autor defende que a tradução é uma atividade em que o produto tradutório se faz de acordo apenas com as questões sociais sem prejuízo à compreensão do ledor. ( ) A tradução não se situa no plano da língua, mas sim no da fala, sendo que não se traduzem as unidades isoladamente, de forma descontextualizada: se traduzem os textos. No momento da tradução de um texto, deve-se analisar os mecanismos de funcionamento textual presentes (coerência, coesão e os diferentes tipos de gêneros textuais), percebendo que esses mecanismos diferem de línguas e culturas. ( ) O autor considera que não se pode jamais esquecer que a tradução é a atividade de um sujeito (um tradutor), que necessita de uma competência específi ca para traduzir um texto, chamada de competência tradutória. A tradução consiste em um complexo processo mental, que se constitui primeiramente em compreender o sentido que ele transmite e, na sequência, reformulá-lo com os meios da outra língua. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – V – V – F. b) ( ) F – V – F – V – V. c) ( ) F – F – F – V – F. d) ( ) V – V – V – V – V. REFERÊNCIAS ALBIR, A. H. Traduccíon y Traductología: Introducción a la Traductología. Madri: Ed. Catedra, 2008. ALBRES, N. de A. Tradução de literatura infanto-juvenil para linguagem de sinais: dialogia e polifonía em questao. BLA, Belo Horizonte, v. 14, n. 4, p. 1151-1172, 2014. 33 R. SOBRE A N. DO PROCESSO T. E DOS ESTUDOS DA T. Capítulo 1 ALBRES, N. de A. Tradução Intersemiótica de Literatura infanto- juvenil: vivências em sala de aula. Cadernos de tradução, Florianópolis, v. 35, p. 387-426, jul./dez., 2015. BERMAN, A. A tradução e a letra ou o albergue do longínquo. Florianópolis: Copiart, 2008. BRASIL. Lei nº 12.319 de, 1º de setembro de 2010. Regulamenta a profi ssão de Tradutor e Intérprete da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS. Brasília, DF: Diário Ofi cial [da] República Federativa do Brasil, 1 set. 2010. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ ato2007-2010/2010/lei/l12319.htm. Acesso em: 30 jan. 2022. BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei no 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS, e o Art. 18 da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Diário Ofi cial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 23 dez. 2005. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ ato2004-2006/2005/decreto/d5626.htm. Acesso em: 10 maio 2017. 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Intérprete de Língua Brasileira de Sinais: uma posição discursiva em construção. 2009,130 p. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2009. SANTOS, S. A. Intérpretes de língua brasileira de sinais: um estudo sobre as identidades. 2006. p. 198. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, 2006. SANTOS, S. S. O bilinguismo como proposta inclusiva para surdos no processo inicial da escolarização. Fortaleza. 2013. SÉLESKOVITCH, D. Interpréter pour traduire, (en collaboration avec M. Lederer), Paris, Didier Erudition, 1984. (3ème édition - revue et corrigée, 1993). SNELL-HORNBY, M. Translation Studies: An Integrated Approach. John Benjamins Publishing, 1988. 163 p. SNELL-HORNBY, M. The Turns of Translation Studies: New Paradigm or Shifting Viewpoints. Amsterdã: John Benjamins PublishingCo., 2006. 104 p. SOBRAL, A. Dizer o ‘mesmo’ a outros: ensaios sobre tradução. São Paulo: Special Book Services, 2008. 35 R. SOBRE A N. DO PROCESSO T. E DOS ESTUDOS DA T. Capítulo 1 STEINER, G. After Babel Aspects of Language and Translation. Londres, Oxford e Nova York: Oxford University Press, 1975. TOURY, G. Translated Literature: System, Norm, Performance: Toward a TT-Oriented Approach to Literary Translation. Poetics Today, [s.l.], v. 2, n. 4, p. 9–27, 1981. 36 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA CAPÍTULO 2 TRADUZIR E INTERPRETAR: LIMITES E POSSIBILIDADES NO CAMPO DA EDUCAÇÃO A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: Conhecer os limites que envolvem o ato de traduzir e interpretar. Compreender as diferenças entre traduzir e interpretar. Identifi car os aspectos linguísticos, culturais e situacionais que envolvem a prática de interpretar e traduzir. Entender o papel do intérprete como mediador social e linguístico, com base trajetória histórica da formação profi ssional. Distinguir acerca dos limites e das possibilidades que envolvem a tradução e a interpretação. Aplicar de maneira efi caz a diferença entre o ato de traduzir e interpretar. Acrescentar ao ofício do tradutor intérprete o papel de mediador social e linguístico. 38 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA 39 T. E I.: LIMITES E P. NO CAMPO DA EDUCAÇÃO Capítulo 2 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Entender o ato de traduzir e interpretar de/para/entre língua de sinais para, então, compreender os limites e as possibilidades no campo da educação exige, primeiramente saber que tudo está interligado aos Estudos da Tradução e da Interpretação de Línguas de Sinais (ETILS). Inúmeras pesquisas se debruçam sobre esse tema, sendo um novo campo disciplinar emergente, diretamente vinculado aos Estudos da Tradução (ET), assim como aos Estudos da Interpretação (EI). É necessário saber da interdependência e as diferenças existentes entre os ET e os EI, refl etir acerca do objeto de estudo que os ETILS caracterizam ao envolver uma língua gesto- visual, cabe ressaltar que é um campo extremamente novo e que está em expansão, apesar de que os ETILS são inexistentes quando desvinculados desses dois campos disciplinares, logo, a relação de dependência é de fato inevitável. No que tange a sua manifestação no ambiente escolar, e os limites possíveis no campo educacional, os ETILS apontam a construção de um panorama positivo e específi co com crescimento gradativo em território nacional. Sabemos que muitos são os desafi os, mas, as diferentes pesquisas voltadas para o tema buscam dar suporte e provocar refl exões importantes para o crescimento desse novo campo de saber. Compreendemos que os ET e os EI possuem como diferença básica, que é o seu objeto principal de estudo, que quando o primeiro se detém na tradução e/ou traduzir, o segundo tem como foco interpretar e ou interpretação, ambos se caracterizam pela maneira por meio da qual advém a linguística, cognitiva e operacionalmente, conseguimos compreender, então, que esses campos disciplinares são justapostos e interdependentes, considerando que sua coexistência é inevitável, porém são diferentes e singulares quando se trata das especifi cidades e de seu objeto de estudo. 2 OS LIMITES E POSSIBILIDADES NO ATO DE TRADUZIR E INTERPRETAR EM LÍNGUA DE SINAIS Se pensarmos em comunicação e interação entre duas ou mais pessoas usuárias de línguas diferentes sejam elas faladas ou sinalizadas e que nenhuma 40 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA delas tem conhecimento da estrutura linguística e gramatical da língua da outra, entendemos a necessidade direta da interpretação para que aconteça de fato o objetivo da interação. Quando falamos em língua de sinais, percebemos que em todos os espaços existe a necessidade de um profi ssional que realize essa interação entre as partes envolvidas, pois as limitações e as possibilidades são inúmeras. O espaço escolar se desenha como um lugar que mais exige da demanda apresentada, os profi ssionais intérpretes de Libras são um mecanismo linguístico que garantem essa interação em todos os departamentos, porém, sua maior atuação ainda é no campo educacional devido à implementação da política de Educação Inclusiva brasileira, a qual conduziu as matrículas dos alunos com surdez que, antes frequentavam as escolas especiais de surdos, para escolas regulares de ensino. É importante destacar que a Lei 10.436/02, que reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão dos surdos, e o Decreto 5626/05 (BRASIL, 2005) que institui a língua brasileira de sinais, como paradigma educacional da pessoa surda, reconhecendo a Libras como uma das principais conquistas da evolução integral e da construção sociocultural da comunidade surda. Tanto a Lei 10.436 como o Decreto 5626, trouxeram importantes conquistas para a comunidade surda brasileira, especifi camente, em relação ao reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais, que traz a necessidade de alguém para mediar a comunicação entre as partes do processo, essa interação e troca de informação é amparada e proporcionada pelo profi ssional tradutor intérprete de Libras, quando em território nacional. Apesar da presença desse profi ssional nas relações comunicativas, muitas pessoas confundem ainda os termos e conceitos sobre o que é tradução e o que é interpretação, considerando que se trata de conceitos envolvidos em um mesmo processo, onde o que os diferencia é algo muito sutil, onde podemos considerar que toda a tradução é considerada como uma interpretação, enquanto que toda a interpretação se constituí em uma forma de tradução. Esse fato nos revela a grande complexidade existente na atuação do profi ssional tradutor e intérprete. Essa complexidade já começa na terminologia adotada para fazer a referência aos profi ssionais da área da tradução/interpretação de Libras, os documentos ofi ciais apresentam diferentes possibilidades para nos referirmos ao tradutor-intérprete de Libras, sendo comum nos depararmos com várias dessas possibilidades o ILS – intérprete de Língua de Sinais, e TILSP- Tradutor-intérprete de Língua de Sinais e Língua Portuguesa, esses são os termos mais comuns utilizados no meio. 41 T. E I.: LIMITES E P. NO CAMPO DA EDUCAÇÃO Capítulo 2 2.1 CONHECER OS LIMITES QUE ENVOLVEM O ATO DE TRADUZIR E INTERPRETAR Se pensarmos em tradução e interpretação e no seu grau de importância para a compreensão do conteúdo que está sendo trabalhado, entendemos que, de certa forma, as duas áreas se complementam e que a mesma função é preenchida, considerando a transmissão do conteúdo de uma língua para outra, com os sentidos pretendidos e sem o prejuízo linguístico, fato que inúmeras vezes acontece, devido à distorção da compreensão no decorrer do percurso tradutório. Para Lacerda (2014), o mais importante não é a tão conhecida tradução literal, onde a palavra é o que mais importa, o autor acredita que o sentido que o emissor oferece no momento em que se expressa na língua de origem, alimenta com maior veracidade também os sentidos da língua alvo. Contudo, a tradução e a interpretação também assumem conceitos que expressam atividades completamente distintas, a tradução tem a função de transmitir via textos escritos o discurso entre as línguas, e essa característica proporciona ao tradutor um momento de pesquisa, busca e refl exão dos termos e palavras mais adequadas para encaixar ao contexto que se apresenta e, ainda, se por ventura perceba qualquer equívoco consegue ajustar a escrita, a expressão ou qualquer sentido frasal para melhor compreensão do leitor. Quando se trata da interpretação, a atividade está diretamente ligada à transmissão de saberes do discurso de uma línguapara outra simultaneamente, no curto espaço de processar a informação recebida e transmitir quase momentaneamente para a língua alvo o enunciado, essa agilidade é fundamental para o intérprete, pois seu raciocínio deve ser ágil o sufi ciente para a tomada de decisões rápidas, como transmitir um termo ou sentido sem consulta prévia. Mesmo com essa informação dos conceitos básicos na língua de sinais muitas vezes registramos lapsos em relação ao campo conceitual, mas também na prática dos profi ssionais que por alguma razão ainda não se apropriaram das referências, termos e conceitos da área em que atua. É comum encontrarmos profi ssionais que julgam que a interpretação em Libras é reprodução de uma palavra em português que acontece por meio da busca do “nome” para um sinal desconhecido. Esse ponto de vista é habitual quando o tradutor/intérprete de Libras está no princípio de sua caminhada, se partimos do viés da aprendizagem de uma segunda língua, é possível aceitar essa prática como um método de ensino, porém, não é, da mesma forma, aceitável transferir dessa técnica singular de ensino de segunda língua para o processo específi co da tradução de uma língua como a Libras. 42 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA Os prejuízos na construção do processo de tradução e transferência dos conceitos de maneira satisfatória fi cam deveras prejudicados, visto que a língua de sinais se organiza estruturalmente com uma gramática diferenciada, sua modalidade de percepção se estrutura no espaço e não pela produção linear das línguas orais. Esse é um dos limites e desafi os da tradução da Libras e, também, na interpretação, visto que a incompreensão das sentenças produzidas é comum quando se utiliza de “sinal” X como representação direta da “palavra”, ou seja, fazendo uso da tradução literal. Essas situações prejudicam a compreensão do discurso e todos os envolvidos que constituem na língua de sinais sua base para percepção de mundo, acabam com a interação social afetada negativamente. Muitas situações expressam a exclusão de pessoas surdas e ouvintes, provocadas pela “incompetência” de trazer a informação em tempo real ao acontecido. Um caso de fácil compreensão dessa situação é quando dois ouvintes onde um é fl uente em Libras e o outro, sem conhecimento, encontram por acaso uma pessoa surda usuária de Libras para sua interação social. Se a pessoa que é fl uente travar um momento de diálogo com o surdo, aquele que não possui conhecimento vai estar excluído do contexto caso a interpretação da fala não aconteça em tempo real, simultaneamente. O desafi o é que mesmo as pessoas que são fl uentes, muitas vezes incapazes de estabelecer a de maneira simultânea a conversa e a interpretação em Libras para que uma terceira pessoa seja incluída na conversa. A justifi cativa nesse caso é que não consegue interpretar ao mesmo tempo da sinalização do usuário de Libras. Observamos que a fl uência em Libras não garante o conhecimento de técnicas tradutórias que cumpram de maneira satisfatória o papel de tradutor intérprete de Libras que é de estabelecer a comunicação e compreensão entre as partes de um discurso. O fato mais extremo que encontramos nesse tipo de situação é que ainda prevalece a suposição errônea de que qualquer pessoa com o conhecimento de Libras e portador de um vocabulário expressivo, também é capaz de realizar a interpretação de Libras em qualquer contexto. Inúmeras especifi cidades estão presentes no ato interpretativo, está para muito além do fato de dominar determinada língua. Traduzir e interpretar em Libras, exige o envolvimento com a expressão cultural da comunidade surda, reivindica, inclusive, depreender a importância da contextualização no processo, assim como as nuances das estratégias de tradução que assumem a responsabilidade de levar sentido à fala. 43 T. E I.: LIMITES E P. NO CAMPO DA EDUCAÇÃO Capítulo 2 Muitas situações envolvem a situação interpretativa e/ou tradutória, muito embora podemos assim classifi cá-las, não são raras as vezes em que elas ocorrem de maneira simultânea. Assim, podemos afi rmar que, em algumas situações interpretativas, há também uma questão tradutória, e o inverso também é verdadeiro, cabe ao profi ssional estabelecer a compreensão efetiva. Sabemos que a tradução e a interpretação possuem conceitos muito bem defi nidos que são discutidos há décadas por pesquisadores e estudiosos renomados. Tais conceitos já apresentados anteriormente contêm difi culdades na própria compreensão do que seja uma ou outra situação, o que ocorre devido à complexidade envolvida em ambas e, também, a própria semelhança que existe entre a tradução e a interpretação, assim como pelo fato de uma não ser possível sem a existência da outra, ou seja, a coexistência é de fato visível. O fragmento a seguir, reforça e reporta a um desses conceitos, apresentando um esclarecimento fundamental para a prática do profi ssional. A tradução acontece entre textos escritos, o qual o tempo de execução é maior e as ferramentas envolvidas são de suporte mecânico: papel, tinta, gravações, vídeos etc. Já a interpretação é realizada entre textos falados e sinalizados, de tempo de execução menor e as ferramentas envolvidas são de suporte evanescentes: espaço, acústico e visual (BARRETO; BUSTOS 2012, p. 27). No Português, temos muitas expressões e termos que causam difi culdades no momento da interpretação para muitos intérpretes, casos típicos como: “tire seu cavalinho da chuva”, “seus olhos são espelho da alma”, “quem vê cara não vê coração”, entre outras expressões idiomáticas que muitas vezes não possuem o mesmo sentido na Libras, e cabe ao tradutor a responsabilidade de fazer escolhas tradutórias apropriadas que cumpram com a função da tradução, para que a compreensão aconteça de maneira efetiva. A fl exibilidade gramatical da Libras nos presenteia com uma gama de possibilidades de escolha tradutória que podem favorecer o profi ssional. Contudo, é importante perceber como está a capacidade de levar a compreensão para o público-alvo. Quando elencamos o público-alvo, não devemos nos ater apenas às pessoas surdas, visto que os ouvintes não conhecedores da Libras também fazem parte desse grupo e o conhecimento cultural é fundamental para que a tradução e a interpretação seja completa e compreendida por esse público. Entretanto, como saber se o Surdo realmente está compreendendo o que de fato o profi ssional está sinalizando? Esse questionamento deve fazer parte diariamente da prática do profi ssional, para que busque estratégias com retorno positivo a sua função. 44 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA Por vezes algumas situações ocorrem na interpretação que causa inquietação, como por exemplo, quando apenas é exposto aquilo que foi verbalizado em um curto espaço de tempo e de maneira posterior, sem que análises e pesquisas contribuíssem para produzir algum tipo de registro. Outras vezes o intérprete opta pelo entendimento não apenas da língua, mas observa também o discurso daquele que faz parte do diálogo e que, de certa maneira, já está familiarizado com suas questões e elementos culturais. Nesse caso, também podemos dizer que se trata de uma tradução, visto que ao passar o conteúdo de um discurso de uma língua para outra a tradução se constitui. 1 Os Estudos da Tradução – ET e os Estudos da Interpretação – EI, possuem uma diferença básica quando se trata do objeto principal de estudo, ambos se caracterizam pela maneira por meio da qual advém a linguística, cognitiva e operacionalmente. Esses campos disciplinares são justapostos e interdependentes, porém sua coexistência é inevitável, são ainda diferentes e singulares quando se trata das especificidades e de seu objeto de estudos. De acordo com o conteúdo estudado até o momento, sobre o objeto de estudos da tradução e da interpretação, analise as sentençasa seguir: I- ET se detém à tradução e/ou traduzir, EI tem como foco interpretar e/ ou interpretação. II- Traduzir e Interpretar são objetos de estudo da linguística e ambos possuem basicamente o mesmo papel. III- ET é o mesmo que traduzir e interpretar, assim como EI é considerado o mesmo que interpretar e traduzir. IV- Nenhuma das alternativas anteriores corresponde a verdade. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Apenas a alternativa IV e III são verdadeiras b) ( ) As alternativas II e I correspondem a verdade c) ( ) Todas as alternativas estão corretas d) ( ) Apenas a alternativa I é verdadeira. 2 A Lei 10.436/02 e, o Decreto 5626/05 trouxeram importantes conquistas para a comunidade surda brasileira especifi camente em relação ao reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais, que garante a presença de alguém para 45 T. E I.: LIMITES E P. NO CAMPO DA EDUCAÇÃO Capítulo 2 mediar a comunicação entre as partes do processo. Essa interação e troca de informação é amparada e proporcionada pelo profi ssional tradutor intérprete de Libras, quando em território nacional. As terminologias adotadas para fazer a referência aos profi ssionais da área da tradução interpretação de Libras apresentam diferentes possibilidades. Assinale a alternativa que corresponde as terminologias adotadas para se referir ao profi ssional intérprete de Libras: a) ( ) ILS, TILS, TILSP. b) ( ) TILSP, IT. c) ( ) ET, EI. d) ( ) Apenas ILBS. e) ( ) Nenhuma das alternativas são verdadeiras. 2.2 ATO TRADUTÓRIO E INTERPRETATIVO: FAZER DE FATO OU FAZER DE CONTA? A profi ssão de tradutor-intérprete exige conhecimentos para além das questões de “achismos”. A interpretação e tradução é um produto que requer compreensão não apenas de vocabulário, mas também de linguística e cultura. A área em que o profi ssional atua possui, igualmente, particularidades seja no religioso, educacional, político, de saúde entre outros. É importante perceber que existem vários níveis de interpretação, quando pensamos no nosso público alvo, aquele que consome o serviço de tradução e interpretação possui diferentes níveis de registro, visto que cada pessoa faz uso da língua de determinada maneira, se o contato com a língua acontecer de maneira tardia, supostamente terá maior difi culdade no uso da língua, em contrapartida, se o contato acontecer em tempo adequado o desenvolvimento de linguagem e a aprendizagem do código de comunicação acontece com muito mais rapidez e uma desenvoltura mais efetiva. Ao estabelecer a compreensão dos níveis interpretativos, é importante saber que no Brasil existem surdos que são fi lhos de pais ouvintes e que não têm o contato com a sua língua natural no período e idade adequados para acontecer de maneira satisfatória a aquisição e desenvolvimento linguístico, diferente do 46 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA que acontece com as famílias ouvintes, onde a relação com a língua se dá a todo instante de diferentes maneiras. O fato dos pais serem surdos ou ouvintes refl ete diretamente no desenvolvimento da criança. Para Coll, Marquesi e Palacios (2004, p. 174) a porcentagem de surdezes hereditárias situa-se em torno de 30 a 50%, mas não é fácil determinar isso. A principal razão está em que a maioria das surdezes de origem genética tem caráter recessivo. Isso supõe que, em muitos casos, a perda auditiva das crianças surdas com pais ouvintes é genética. Para Roth e Júnior (2010, p. 17), é fundamental percebermos que apenas 10% das pessoas surdas têm pais surdos. Esse fato infl uencia fortemente na socialização e formação educacional do sujeito surdo. Mais de 90% das crianças surdas que possuem pais ouvintes não conhecem a língua de sinais (ELEWEKE; RODA, 2000 apud SANTOS, 2009, p. 22); essa situação acaba por prejudicar o desenvolvimento linguístico da criança, visto que não há exposição a uma língua de maneira efetiva, resultando na carência de todos os tipos de informação. Dada essa carência, os problemas e limitações socioeducativas e psicocognitiva se apresentam durante sua vida. Tal problemática se agrava quando alguns dos pais não querem que seus fi lhos aprendam uma língua sinalizada, em alguns casos é comum ouvir justifi cativas que afi rmam que a aprendizagem de uma língua de sinais prejudica a capacidade de adquirir a fala (EMMOREY, 2002; GOLDIN-MEADOW, 2006; MAYBERRY; EICHEN, 1991). Essa assimilação de prejuízo de linguagem e de comunicação se comprova diretamente no contexto escolar, no momento da chegada desse aluno ao espaço, muitas vezes seu primeiro contato com a língua de sinais acontece no encontro com o intérprete de Libras, momento em que a defasagem linguística se manifesta de maneira espantosa. O desenvolvimento da linguagem tardia para as crianças surdas em idade escolar, se comprova em diferentes pesquisas em território nacional, a quais apontam que a aquisição de linguagem tardia signifi ca a falta de um código de comunicação provocando a difi culdade na aprendizagem. Entretanto, é importante compreender que a presença de um intérprete de Libras ou mediador linguístico que domina a língua de sinais é um fato que acontece indiferentemente se o surdo tem domínio ou não da Libras, visto que, teoricamente, já está em idade escolar que se dá a partir dos sete anos. Considerando, que cada um desses alunos matriculados na escola sem o domínio de Libras tem uma maneira diferenciada de uso da língua de sinais, uma das primeiras questões que deve ser analisada pelo profi ssional intérprete é se realmente a sua sinalização atinge o objetivo proposto, que é o de estabelecer uma comunicação efetiva e funcional. 47 T. E I.: LIMITES E P. NO CAMPO DA EDUCAÇÃO Capítulo 2 Para tanto, o profi ssional intérprete de Libras deve observar três aspectos fundamentais para saber se realmente a interpretação atinge seu público-alvo. Primeiramente, é necessário ter o conhecimento do estágio em que está a língua de sinais do surdo que irá receber o serviço, para então, conseguir estabelecer uma relação positiva, o segundo aspecto é desenvolver habilidade para saber agir de acordo com o nível do desenvolvimento linguístico daquele que está recebendo a interpretação. Não é aconselhável sinalizar com um alto nível de formalidade em uma turma de surdos com determinada limitação linguística e de vocabulário. Essa habilidade exige do intérprete de Libras um esforço cognitivo muito expressivo, visto que necessita saber agir de acordo com o nível de conhecimento do público- alvo. Ter a habilidade de perceber em que nível de conhecimento de língua se encontra a pessoa com surdez, para então, habilmente, sinalizar de maneira muito mais segura e compreensível. Entretanto, em nível nacional temos muitos surdos que não acessam a bagagem de conhecimento do nível educacional em que o surdo se encontra. Percebemos que temos surdos no nível superior que está com uma bagagem de conhecimento próximo ao nível médio ou até mesmo fundamental. Nessa situação, o intérprete necessita ter a habilidade de perceber e fazer a leitura assertiva dos sinais de compreensão ou falta dessa no que tange à interpretação. O conhecimento e a habilidade estão juntos com o terceiro aspecto que é a atitude, essas atitudes exigem que o intérprete mude seu comportamento utilizando determinadas estratégias e adequando os níveis de registro da pessoa surda. A postura em relação a própria interpretação faz com que o profi ssional adquira sensibilidade e empatia, que é necessário para perceber se o surdo está de fato compreendendo o que o intérprete está sinalizando. Algumas expressões são sinalizadas pelo surdo quando está recebendo as informações em sua língua de sinais, elas fazem com que o profi ssional perceba se nível de compreensão da língua está de acordo com o esperado, um profi ssional que tenha elementos como conhecimento, habilidade e atitude adquire, supostamente, acapacidade de criar estratégias para perceber se sua interpretação está de fato sendo compreendida e, em consequência, desenvolve uma determinada competência extralinguística que está diretamente ligada a esses três elementos, essa auxilia a traçar caminhos para melhorar sua atuação e perceber se o surdo está ou não compreendendo a interpretação. Todo esse processo, está diretamente ligado à cultura surda e à maneira como o intérprete se relaciona e compreende esse conceito cultural que, atualmente, vem sendo abordado em diversas pesquisas, isso induz sua postura e visão profi ssional. Os estudos culturais das línguas de sinais buscam identifi car crenças, identidades, comportamentos, valores e outros elementos que estão para além do uso da língua. No momento em que o profi ssional adquire 48 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA tais conhecimentos acaba por desenvolver uma competência extralinguística que proporciona a capacidade conhecer, saber lidar e trabalhar com diferentes públicos. Assim, é necessário que antes de começar a interpretar, o profi ssional saiba de fato quem é o público-alvo e em qual nível linguístico ele se encontra no momento. Sabemos que existem elementos culturais que estão presentes em uma língua e não necessariamente estão inseridos em outra. É muitíssimo importante que a maneira de pensar e agir da pessoa surda seja no individual ou no coletivo faça parte íntimo do intérprete de Libras. Da mesma forma, é fundamental ter intimidade com os saberes da língua portuguesa, para que o intérprete ofereça o serviço de sinalização e de oralização com qualidade. O conhecimento da cultura e dos elementos extralinguísticos fornece ao intérprete diferentes escolhas tradutórias que auxiliam na escolha das estratégias linguísticas que proporcionam alcançar diferentes objetivos direcionando o fazer tradutório do profi ssional. Esse direcionamento fornece um determinado resultado, um retorno positivo ou negativo do público-alvo. As questões extralinguísticas auxiliam diretamente o profi ssional a compreender o que está para além da língua e, consequentemente, refl etir acerca do processo de tradução e interpretação. Entendemos assim, que para o surdo compreender o que o intérprete está sinalizando, é fundamental que o profi ssional entenda o processo cultural que a pessoa surda está inserida, se faz parte de associação, se os pais são surdos ou ouvintes, se tem contato direto com a Libras, qual o estágio de sinalização, se o nível de abstração é profundo ou básico. Essas e outras questões atravessam os níveis de registro da linguagem, visto que quanto maior o contato com a cultura surda e suas particularidades e quanto mais intimidade com os elementos extralinguísticos, consequentemente, maior se dará o nível de registro e a prática da linguagem. Dessa maneira, a compreensão e o entendimento do que o intérprete está sinalizando acontece da maneira mais efetiva contribuindo na formação do intérprete de Libras e na constituição do seu fazer profi ssional. 2.3 O INTÉRPRETE DE LIBRAS: FORMAÇÃO E CONSTITUIÇÃO PROFISSIONAL O intérprete de Libras é uma ferramenta essencial na mediação comunicativa do público surdo, mas também para o público ouvinte que não tem conhecimento da língua de sinais. Esse profi ssional é fundamental que o acesso ao conhecimento 49 T. E I.: LIMITES E P. NO CAMPO DA EDUCAÇÃO Capítulo 2 em todas as áreas aconteça de maneira mais efetiva. Cabe destacar que no âmbito escolar a presença do intérprete de Libras tem ocorrido com muita frequência, visto que a demanda de tradução e interpretação cresce proporcionalmente com a quantidade de matrículas de surdos nos bancos escolares. Mesmo com o aumento da necessidade do intérprete de Libras em espaços diversos, é importante lembrar que a constituição desse profi ssional vem acontecendo na informalidade. Isso acontece pelo aumento das demandas dos próprios surdos em suas relações na tentativa de mediar a relação comunicativa entre os surdos e os ouvintes. O mesmo acontece nos espaços onde a doutrina religiosa se mostra necessária, esses e outros espaços favorecem de maneira signifi cativa a aprendizagem e muitas vezes a fl uência em Libras, proporcionando o surgimento de pessoas interessadas em se tornar intérpretes de Libras. Tal observação revela que a formação desse profi ssional se desenha conforme as experiências de interação, assim como nas demandas que surgem em diferentes contextos. É possível destacar a atuação dos intérpretes no âmbito religioso, educacional, familiar entre outros momentos em que a comunicação se faz necessária. As atuações informais daqueles que assumiam o papel de intérprete de Libras, provocou um forte movimento em meados da década de 1990, nesse período houve o disparo das demandas de interpretação em diversas áreas e as tentativas pela formação específi ca para esses profi ssionais começa a fazer parte dos objetivos de associações e federações simpatizantes do tema que envolvem a Libras. A Federação Nacional de Educação e Instrução dos Surdos (FENEIS) é pioneira em propor cursos de formação rápida a esses profi ssionais que apresentam características heterogênicas em sua função e em seu desempenho. O objetivo principal dessas formações era de ampliar os conhecimentos e a fl uência em Libras, porém, outras questões mais específi cas da profi ssão não eram abordadas. Os encontros presenciais por meio de seminários, congressos e cursos com mais de 40 horas, proporcionavam a experiências de dividir vivências em questões mais pontuais à atuação do profi ssional intérprete. Essas trocas começaram a ser desenhadas nos últimos 20 ou 25 anos em encontros regionais e nacionais, mas, foi no ano de 2008 que as associações regionais de intérpretes de Libras foram se constituindo e a FEBRAPILS, que é a Federação Nacional dos Intérpretes de Libras foi criada e com representatividade junto ao World Association of Sign Language Intérpretes – WASLI (órgão internacional que representa TILS do mundo todo). 50 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA No âmbito nacional, a Lei nº 10.098, de 2000, (BRASIL, 2000), na perspectiva da educação inclusiva, orienta claramente a necessidade da presença do intérprete de Libras no ensino superior, porém existe a limitação de como esse profi ssional deveria ser formado. Já no Decreto 5.626 (BRASIL, 2005), surge a obrigatoriedade desse profi ssional nos espaços educacionais que têm matriculado alunos surdos. Toda essa movimentação ocorre com o acolhimento da abordagem bilíngue para educação de surdos no país, assim como todos os esforços político- pedagógicos dos movimentos que visam uma qualidade na vida educacional e social do indivíduo. Podemos afi rmar que a assunção do bilinguismo é um avanço recente na educação brasileira e que os movimentos sociais e pesquisas passam a fazer parte das políticas educacionais brasileiras apenas recentemente, em função da pressão dos movimentos sociais, dos resultados de pesquisas nas áreas da Linguística entre outras questões que favorecem essa positiva manifestação. Com toda demanda advinda das escolas e das universidades, não demorou para que questões judiciais começassem a surgir com objetivo de suprir e atender as necessidades da comunidade surda. Desse modo as Instituições de Ensino Superior (IES) também passaram a contratar pessoas que desejavam atuar como intérprete de Libras, mesmo que sem formação, afi nidade e/ou competência profi ssional para exercer a função. Observa- se, que o que mais importava era a presença em sala de aula e que o sujeito surdo estivesse acolhido em suas necessidades de comunicação, mesmo que de maneira simplifi cada ou assistencialista, esse ponto de vista também estava diretamente ligado aos professores e comunidade escolar. Dessa forma, os intérpretes de Libras no âmbito nacional foram inseridos nos espaçosescolares sem atenção a sua formação ou competência linguística, resultando em profi ssionais sem competência formal e capacidade linguística atuando de maneira descontrolada em todos os níveis educacionais. Outra questão muito importante que acontece na educação de surdos e que interfere na atuação do intérprete de Libras são as limitações linguísticas que o aluno surdo apresenta para compreender a interpretação em língua de sinais, as restrições de léxico da área de conhecimento específi co na qual está estudando também contribuem para que a qualidade na atuação seja comprometida, pois nem tudo que o intérprete traduz em Libras é acessível à pessoa surda, esse fato acaba gerando problemas no ambiente escolar. Diante de todo esse contexto em que está envolvido o intérprete de Libras, é importante conhecer quem é esse profi ssional que faz a mediação comunicativa entra surdos e não surdos. Interessa saber qual perfi l daqueles que se aproximam 51 T. E I.: LIMITES E P. NO CAMPO DA EDUCAÇÃO Capítulo 2 da profi ssão para, então, buscar quais ações formativas podem ser adotadas para qualifi car o profi ssional. É importante destacar que, atualmente, muitos dos intérpretes fazem algum tipo de formação em Libras, porém na maioria das vezes não é com o foco em tradução interpretação. É comum encontrarmos intérpretes de Libras que realizaram sua formação há mais de oito anos, e que não costuma fazer formação continuada na área, seja por falta de tempo, dinheiro ou interesse. O interesse principal das associações de intérpretes e, também, da comunidade surda brasileira é pela certifi cação de profi ciente em Libras, para que a exigência da legalidade e a garantia da qualidade na atuação se tornem efetiva, mesmo sabendo que o perfi l desse profi ssional deve ser defi nido com muito mais clareza visto que a necessidade recente desse profi ssional em diferentes esferas sociais ainda é um processo. É muito importante perceber a importância de se ter uma formação de qualidade para atuar como TILS, além do conhecimento linguístico aprofundado tanto em Libras como em português. É claro que, a aproximação com a comunidade surda é um dos aspectos que mais contribuem para que o ato interpretativo aconteça de maneira mais segura. Entretanto, perceber os diferentes pontos de vista na perspectiva de conhecimento de mundo, a sábia escolha de léxico para formular a sinalização e apresentar os conceitos de maneira satisfatória, são aspectos que garantem ao intérprete postura adequada na sua atuação, favorecendo a compreensão do aluno surdo e proporcionando uma entrega do produto interpretativo de qualidade. Todas essas questões apresentadas e destacadas no decorrer deste capítulo, apontam para diferentes tipos de consciência profi ssional que devem fazer parte do intérprete desde o seu desejo inicial de se inserir na área de tradução e interpretação de línguas de sinais. Um desses exames de consciência deve apontar para o tipo de profi ssional que está se formando e qual a sua postura diante da responsabilidade social, ter consciência de qual tipo de profi ssional intérprete de Libras é, assim como quais características necessitam ser avaliadas reavaliadas para melhorar o desempenho profi ssional é de fundamental importância. 52 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA 3 AS DIFERENTES IDENTIDADES DOS INTÉRPRETES DE LIBRAS Agora, uma palavra sobre que os tipos de intérpretes e os cursos de formação de intérpretes de língua de sinais. As diferenças linguísticas que a comunidade surda usuária de Libras apresenta em relação à comunidade não surda é percebida intensamente em todos os contextos, assim não basta simplesmente aceitar tal diferença, mas respeitar a diversidade linguística que se mostra em todos os aspectos. Dessa maneira, o profi ssional intérprete de Libras tem a obrigação de atentar para as responsabilidades e para o comprometimento no momento que aceita realizar um trabalho seja ele remunerado ou voluntário, sempre observar os seus limites tradutórios antes de assumir qualquer função em relação à tradução e interpretação dos pares linguísticos Libras/ Português. Do ponto de vista analógico, podemos afi rmar que quando o profi ssional da tradução e interpretação realiza sua função, ele cria e recria algo novo, essa criação é oferecida pelas suas mãos, porém é intencionado pelo seu cérebro quando sinaliza, quando explana situações, dialoga com os pares que possuem o conhecimento entre as línguas, também quando explica as mais diversas situações da língua fonte para a língua alvo. Toda essa habilidade é possível quando o intérprete possui características, estratégias e escolhas responsáveis, porém a fi delidade e o comprometimento são especifi cidades indispensáveis em todos os momentos de atuação do intérprete de Libras. Muitas são as demandas que se descortinam diante dos intérpretes, muitas vezes até mesmo diante daqueles que não possuem a formação ou a qualifi cação apropriada, dessa maneira manter a refl exão sobre suas condições de realizar uma autoanálise é fundamental para garantir que o produto de seu trabalho seja de qualidade. Tanto para a tradução quanto para a interpretação é indispensável o profi ssionalismo, a ética e o comprometimento com a atividade que está se propondo realizar. É importante que o intérprete realize refl exões e autoavaliações para perceber que tipo de profi ssional intérprete está enquanto prática profi ssional e a partir dessas discussões chegar a percepções e diagnósticos diferentes que apontem o caminho para um conhecimento e autoconhecimento em relação a sua atuação. 53 T. E I.: LIMITES E P. NO CAMPO DA EDUCAÇÃO Capítulo 2 Os cursos de tradutores intérpretes de Libras trazem muitas questões que trabalham essas discussões acerca das refl exões da prática do profi ssional. Nos projetos desses cursos, técnicas de tradução e interpretação ou técnicas laborais de interpretação de língua de sinais são absolutamente imprescindíveis, mas também devem observar outras áreas de maneira próxima com vistas a contemplar outras áreas de conhecimento. De acordo com Russo e Pereira (2005, p.15): • Linguística, seja ela geral ou específi ca da língua de sinais. • Língua de sinais aplicada à tradução e a interpretação. • Língua portuguesa aplicada à tradução e interpretação. • Teoria da tradução (tradutologia). • Artes dramáticas (expressões corporal, vocal e facial). • Cuidados laborais (prevenção de lesões, manutenção da musculatura e articulações exigidas na interpretação, postura, higiene e estética vocal, relaxamento e alongamento). • Evolução e constituição da comunidade surda e sociologia geral. • Psicologia aplicada à interpretação. • Além de seminários sobre surdocegueira, ética, sinais internacionais (international signs), legislação que embasa o serviço de interpretação de língua de sinais e outros assuntos de interesse. Cabe destacar, que todas essas questões a serem trabalhadas nos cursos para intérprete de Libras, devem caminhar junto com uma formação continuada do profi ssional, por meio de estímulos em palestras, ofi cinas, encontros com seus pares e discussões que abordem temáticas afi ns a áreas de tradução e interpretação, assim a atualização e o aperfeiçoamento dos profi ssionais de interpretação serão permanentes e prósperos. Para Alves (2000, p. 27), a formação do tradutor e sua qualifi cação contínua sejam procedimentos essenciais para o exercício ético e adequado dessa profi ssão. Seguindo toda a discussão proposta até aqui, compreendemos que um intérprete de Libras deve fundamentalmente possuir uma formação de qualidade, visto que é por meio dela que é possível adquirir subsídios para a tomada de decisões seguras e fundamentadas em estudos, assim como em vivências com colegas de profi ssão. Toda as estratégias do fazer tradutório que o profi ssional intérprete assume noato interpretativo está diretamente relacionada com os conhecimentos linguísticos, interpessoais que seguem para além, não apenas do contexto cultural, mas se entrelaçam com os aspectos discursivos que agregam no decorrer da trajetória profi ssional. Oferecer cursos e formação para os tradutores intérpretes de Libras é de extrema importância, esses devem ser oferecidos em todos os aspectos, é 54 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA importante que abranjam todas as questões que objetivem a capacitação de qualidade de todos os profi ssionais. A seriedade dos cursos deve proporcionar a autoavaliação do profi ssional e a eliminação de atitudes e posturas daqueles intérpretes que, sem formação adequada, tomam decisões empiricamente, com atitudes assistencialistas e paternalistas que se distanciam das práticas de um profi ssional crítico e coerente que seja preocupado com o seu aperfeiçoamento e com a qualidade do produto que entrega ao seu cliente. Quando tratamos o surdo como cliente que recebe um serviço específi co, não devemos confundir o profi ssionalismo do intérprete de Libras com omissão ou frieza, mas também é inadmissível que práticas amadoras, no cunho sentimental e com despreparo seja exercida e oferecida ao público surdo como se o interpretar em língua de sinais fosse algo simples. O intérprete de Libras é um profi ssional que necessita de uma formação formal e de qualidade, deve ser dedicado e muito comprometido com a sua escolha profi ssional. Para além de todo o processo formal, a fi m de constituir- se em um intérprete de Libras com certifi cado e horas de capacitação, ser frequentador de cursos devidamente reconhecido pelo Ministério da Educação. Russo e Pereira (2005, p.17) nos presenteiam com três qualidades inerentes de caráter que também devem fazer parte do perfi l desse profi ssional: • Autodisciplina: capacidade de administrar seus compromissos, controlar suas atividades, ser pontual, honrar os trabalhos assumidos, adequar-se às exigências e especifi cidades de cada interpretação (local, vestimenta, postura etc.) sem interferência interna. • Autocontrola: mantém o distanciamento profi ssional, especialmente requerido em situações que existam fortes fatores emocionais que podem pôr a perder a qualidade do ato tradutório. • Humildade: devido à superexposição a que frequentemente os intérpretes de Libras se submetem, é comum que se perca a modéstia. Por estarmos sempre em destaque, condição inerente ao trabalho, o apelo à supervalorização do ego e à vaidade é muito forte. Nesse sentido, cabe a todo intérprete de Libras ter uma atitude em que o que se sobressaia, nos momentos da atuação, seja realmente a interpretação e não o intérprete, ter a consciência das próprias limitações, respeitar os diversos níveis de aprendizagem e atuação dos colegas, tendo consciência que eles não são estáticos. 55 T. E I.: LIMITES E P. NO CAMPO DA EDUCAÇÃO Capítulo 2 Os participantes do ato tradutório são fundamentais para que o produto a ser oferecido ao cliente esteja de acordo com suas necessidades. Assim, podemos afi rmar que existem outros fatores que contribuem positivamente para o desenvolvimento da atividade do profi ssional, esses fatores qualifi cam a performance e asseguram uma tradução e interpretação de qualidade. • Ter acesso antecipado ao conteúdo da interpretação, principalmente em situações educacionais e de conferências. • Respeito ao profi ssional e aos seus limites físicos, psicológicos e emocionais. • Valorização da prestação do serviço com remuneração justa. • Reconhecimento da participação dos intérpretes para o sucesso de interações linguísticas e crédito ao seu nome. • O conhecimento por parte do cliente (pessoas física ou jurídica, surdos ou ouvintes) do real papel do intérprete, seu limite de atuação, condições adequadas para o desenvolvimento do seu trabalho, tais como: intervalos regulares, rodízio entre os intérpretes, espaço físico condizente, iluminação, entre outros. O intérprete deve sempre prezar pelo bom andamento de seu trabalho, reconhecer que tipo de profi ssional se tornou e se está de acordo com as regras inerentes a sua profi ssão, sua atuação deve contemplar as principais habilidades requeridas na interpretação de língua de sinais, do ponto de vista de Russo e Pereira (2005, p. 19), essas habilidades são defi nidas da seguinte maneira: • Posicionamento: postura do corpo assumida no momento da interpretação. • Deslocamento: localização espacial dos interlocutores e objetos em língua de sinais. • Memória de curto prazo (ou memória de trabalho): utilizada para guardar as informações em um pequeno período, sendo processada e utilizada quase que instantaneamente. • Expressão facial e corporal: são os equivalentes à entonação da voz e comunicam emoções, intensidade, foco, além de serem elementos da gramática da língua de sinais. • Raciocínio rápido e agilidade mental: são absolutamente necessários na interpretação simultânea, no momento de procurar sinônimos, equivalentes e variantes de palavras, sinais e estruturas. • Improvisação: capacidade de solucionar possíveis problemas tanto de logística quanto do processo de interpretação, sem preparo prévio. • Trabalho em equipe: trabalhar em harmonia e efi ciência com um ou mais colegas, incluindo o serviço de apoio. 56 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA • Atenção e concentração: são habilidades de fi xar e manter a mente focada em alguma informação. • Percepção visual e auditiva: acuidade na capacidade de recepção das línguas envolvidas como na leitura e soletração manual, bem como na discriminação dos sons relevantes no discurso. • Prosódia e expressividade oral: entonação, ritmo e pausas. • Motricidade fi na e percepção cinestésica: clareza e defi nição na execução de alguns parâmetros gramaticais da língua de sinais, tais como, confi guração de mão, movimentos, locação e espaço; • Além de um ótimo conhecimento linguístico das línguas envolvidas (língua de sinais e língua oral). Todas as habilidades citadas e, igualmente, aquelas que não foram aqui registradas, são empregadas em diferentes dinâmicas nos cursos de formação e de qualifi cação do intérprete de Libras, e visam o desenvolvimento de técnicas que instrumentalizam o profi ssional para exercer sua função adequadamente. Contudo, de nada adianta toda essa formação qualifi cada se o intérprete de Libras não tem o hábito de realizar uma autoanálise de como está se comportando enquanto profi ssional. Como está sua atuação frente às demandas recebidas e aceitas. Para tanto, é fundamental que reconheça qual é o seu tipo de intérprete? Essa discussão é o que propomos a seguir com o objetivo de reconhecermos que existem diferentes tipos de profi ssionais, já considerando que o ponto de partida pode ser diferente, porém, o ponto de chegada é o mesmo, o produto é a comunicação efetiva e de qualidade. 3 Os cursos de tradutores intérpretes de Libras trazem muitas questões que trabalham diferentes discussões acerca das refl exões da prática do profi ssional. Nos projetos desses cursos, técnicas de tradução e interpretação ou técnicas laborais de interpretação de língua de sinais, são absolutamente imprescindíveis, mas também devem observar outras áreas de maneira próxima com vistas a contemplar outras áreas de conhecimento. Russo e Pereira (2005, p. 15), defendem algumas áreas de conhecimento que devem estar presentes nos cursos de formação de tradutor intérprete para valorizar a categoria. Analise as sentenças a seguir: FONTE: RUSSO, A.; PEREIRA, M. C. P. Tradução e Interpretação de Língua de Sinais. Técnicas e Dinâmicas para cursos. Porto Alegre: Editora Centro Educacional Cultura Surda. 2005. 57 T. E I.: LIMITES E P. NO CAMPO DA EDUCAÇÃO Capítulo 2 I- Linguística, seja ela geral ou específi ca da língua de sinais, Línguade sinais aplicada à tradução e à interpretação, Língua portuguesa aplicada à tradução e à interpretação, Teoria da tradução (tradutologia) não fazem parte das áreas de formação de acordo com a autora. II- Somente a área de Artes dramáticas (expressões corporal, vocal e facial) contemplam a necessidade dos cursos de tradução interpretação. III- Cuidados laborais (prevenção de lesões, manutenção da musculatura e articulações exigidas na interpretação, postura, higiene e estética vocal, relaxamento e alongamento) não faz parte das áreas sinalizadas pela autora. IV- Evolução e constituição da comunidade surda e sociologia geral, Psicologia aplicada à interpretação, seminários sobre surdocegueira, ética, sinais internacionais (international signs), legislação que embasa o serviço de interpretação de língua de sinais e outros assuntos de interesse. Assim como as áreas da Linguística, seja ela geral ou específi ca da língua de sinais, Língua de sinais aplicada à tradução e à interpretação, Língua portuguesa aplicada à tradução e à interpretação, Teoria da tradução (tradutologia), entre outras. Assinale a alternativa que CORRETA: a) ( ) A sentença IV está errada. b) ( ) As sentenças II e IV estão erradas. c) ( ) A sentença I está correta. d) ( ) Todas as sentenças estão erradas. e) ( ) A sentença IV é a mais completa de todas. 4 ALGUMAS REFLEXÕES E AUTOANÁLISES SOBRE O TIPO DE INTÉRPRETE QUE SOU E QUAL TIPO EU QUERO SER Ao realizar uma percepção de seu trabalho, postura e atitude faz com que o intérprete de Libras analise questões que provocam discussões importantíssimas acerca de sua atuação. Ao realizar um diagnóstico pessoal do tipo de intérprete que 58 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA de fato representa o profi ssional se torna capaz de perceber suas características sejam elas positivas ou negativas, dessa forma é possível direcionar sua postura profi ssional para o tipo de intérprete que, de fato, quer se tornar, e com isso garantir a entrega do seu produto com qualidade. O professor Evandro Magalhães Junior em seu livro: “Sua majestade o intérprete: O fascinante mundo da tradução simultânea”, apesar de não ser uma obra que trate diretamente dos intérpretes de línguas de sinais, ele nos presenteia com refl exões e ensinamentos importantes. O livro busca apresentar vários aspectos da profi ssão de intérprete, apresenta histórias e desafi os que, no decorrer de sua trajetória, enfrenta e vivencia no seu processo, também orienta aqueles que pretendem ingressar na profi ssão. Alguns elementos são processos complicadores para que a entrega do produto interpretativo não aconteça de maneira satisfatória. O autor analisa que elementos como a má comunicação, a indiscrição e a falta de tato no lidar com as pessoas, prejudica o ato interpretativo impedindo que o produto tradutório aconteça de maneira satisfatória. No decorrer do livro o autor discorre sobre a postura positiva que o profi ssional deve atender para que tenha sucesso na profi ssão. Orienta acerca da autoanálise e autorreconhecimento. O pesquisador apresenta, ricamente, diferentes tipos de intérpretes fazendo uma comparação com os animais. Em uma Live do canal #TraduzAi no Youtube, há uma discussão muito importante para uma autoanálise dos profi ssionais intérpretes de Libras. A base da discussão que direcionou a Live é o livro do pesquisador Magalhães Júnior que, de maneira extremamente interessante e didática, apresenta os seis tipos de intérpretes nas línguas orais, mas que de maneira muito rica os profi ssionais da Live fazem uma comparação aos intérpretes de língua de sinais. • Intérprete Pavão: o perfi l desse tipo de intérprete se aproxima da necessidade de aparecer mais do que a própria língua, está sempre em busca de atenção para si, não tem compromisso com o processo como um todo. A característica principal desse profi ssional é o ego infl ado. • Intérprete Papagaio: é aquele intérprete que só trabalha se tiver apoio no processo de tradução, na maioria das vezes não se prepara para a atividade, visto que pensa estar garantido pela presença do apoio. Sua característica é a mera repetição dos sinais se, muitas vezes não refl etir acerca do sentido contextual, acaba por fazer a repetição do sinal pela mera repetição sem a análise contextual para realizar escolhas tradutórias dos sentidos interpretados. 59 T. E I.: LIMITES E P. NO CAMPO DA EDUCAÇÃO Capítulo 2 • Intérprete Pirata: esse é aquele profi ssional que assume as demandas e julga saber interpretar qualquer área de conhecimento. Contudo, possui inúmeras limitações e não tem as habilidades necessárias para uma boa atuação. Não basta apenas ter como ferramenta a capacidade de interpretar, mas sim é necessário possuir habilidades inerentes ao tradutor intérprete de Libras, sendo fundamental ter consciência de suas limitações para não prejudicar o processo tradutório. • Intérprete Tubarão: o intérprete Tubarão se caracteriza pela postura de se julgar o melhor dos intérpretes, costumeiramente assume o máximo de demanda sozinho e tem o hábito de julgar a atuação do colega sem estar disponível para auxiliar e ajudar na evolução do outro, mesmo sendo ele um profi ssional com muita experiência. • Intérprete Carpa: é aquele intérprete que atua de maneira mais solitária em uma única direção, do Português para Libras ou de Libras para o Português. Esse profi ssional busca atuar em eventos que tenham maior visibilidade de sua imagem. Costuma ser individualista e tem grande difi culdade em trabalhar em equipe. • Intérprete Golfi nho: intérprete golfi nho é aquele que sempre trabalha em grupo, com coletividade e se entrega na atuação, busca minimizar as difi culdades e limitações dos colegas, visto sua capacidade em perceber as necessidades e difi culdades do outro. Esse profi ssional está sempre disposto a auxiliar e a dividir as tarefas, não assume demandas sozinho, pelo contrário, se caracteriza pela busca de aliados e parceiros nas atividades interpretativas. As características dos diferentes tipos de profi ssionais remetem à compreensão da base que alicerça as práticas do intérprete de Libras. Suas crenças, posturas e atitudes infl uenciam diretamente em seu ponto de vista em relação à maneira de aceitar e lidar com as diferentes opiniões, sustentando um pilar atitudinal em sua prática. Os quatro pilares da educação de Jacques Delors, podem ser didaticamente utilizados nas práticas profi ssionais e de convivência dos intérpretes de Libras, principalmente em sala de aula, quando o profi ssional trabalha sozinho e sua atuação acaba por infl uenciar totalmente a aprendizagem do aluno surdo. É claro que em sala de aula o intérprete assume diferentes papéis e, na maioria das vezes, atua como defensor do direito do surdo em usar sua língua e se comunicar por meio de uma língua visual. Aqui podemos fazer uma aplicação dos quatro pilares da educação para a formação e caminhada do intérprete de Libras. 60 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA FONTE: <https://i.pinimg.com/originals/f8/9d/df/ f89ddfe74f449e12020ea02d23cba9b4.png>. Acesso em: 21 jun. 2021. FIGURA 1 – OS QUATRO PILARES DA EDUCAÇÃO: ALINHADOS A PRÁTICA DO INTÉRPRETE DE LIBRAS • Aprender a conhecer – É necessário tornar verdadeiramente real o ato de compreender, descobrir, construir e reconstruir o conhecimento empírico para que seja duradouro, valorizando a curiosidade e a autonomia. Partindo dessa perspectiva, faz-se necessário pensar o novo sem menosprezar o que está posto, objetivando reconstruir o velho e reinventar o pensar. Estamos em constante aprendizagem e conhecimento de como e qual a melhor maneira de desenvolver sua prática profi ssional e entender sua atuação como uma ponte para o desenvolvimento do sujeito surdo enquanto cidadão. • Aprender a fazer – Não basta um intérprete de Libras preparar-se com cuidados,realizando as formações necessárias para a sua atuação e para se inserir no setor do trabalho. A rápida evolução por que passam a profi ssão do tradutor/intérprete pede que o profi ssional esteja apto a enfrentar novas situações nas áreas em que pretende atuar, sempre observar a evolução do espírito cooperativo do trabalho em equipe, juntamente com a humildade na reelaboração conceitual e nas trocas, 61 T. E I.: LIMITES E P. NO CAMPO DA EDUCAÇÃO Capítulo 2 valores, conhecimentos e vivências necessários ao trabalho com os pares. É importante ter iniciativa e intuição, gostar de uma certa dose de adrenalina, mas é fundamental saber comunicar-se e resolver confl itos, ser fl exível nos momentos em que os ânimos se alteram. Esse pilar envolve uma série de técnicas e sentimentos a serem trabalhados, relacionando com o fazer do intérprete de Libras, o fazer enquanto profi ssional formador de opinião, refl etindo as suas práticas profi ssionais, assumindo uma condição e postura que condizem com sua profi ssão. • Aprender a conviver – Muitas vezes esse é um desafi o gigantesco quando falamos das relações do tradutor intérprete de Libras e seus pares. Atualmente, praticar a boa convivência é um aprendizado importantíssimo, por trabalhar a valorização de quem aprende a se relacionar com os outros, a compreendê-los, a desenvolver a percepção de interdependência, a administrar confl itos, a participar de projetos comuns, a ter prazer no esforço comum visando o desenvolvimento do coletivo. Quanto às atividades do intérprete de Libras devem, sempre que possível, acontecer em conjunto com seu par, esse pilar nos representa a convivência com o outro e a prática da boa relação que devemos ter com o colega que está buscando a entrega de um produto interpretativo ou tradutório para um público específi co. • Aprender a ser – É importante desenvolver a sensibilidade do profi ssional intérprete de Libras, progredir no sentido ético e estético, evoluir positivamente na responsabilidade pessoal, pensamento autônomo e crítico, imaginação, criatividade, iniciativa e crescimento integral da pessoa em relação à inteligência. A aprendizagem em relação ao profi ssional que deseja se tornar precisa ser integral, não descuidar de nenhuma das potencialidades de cada intérprete, esteja ele em formação ou que já tenha experiência. Esse pilar nos remete a uma autorrefl exão que deve acompanhar todo o profi ssional intérprete de Libras, é importante se perguntar: quem eu quero ser enquanto profi ssional intérprete de Libras? Uma refl exão que busca fazer uma autoanalise da atividade que está sendo realizada e aquela que, de fato, gostaria que fosse. Renascer dos erros, aprender a perceber seus erros e com eles buscar sua própria evolução. Com essa perspectiva dos quatro pilares do conhecimento educacional, pode-se prever grandes consequências na atuação e formação do intérprete de Libras. A prática individualizada e com prejuízos ao ensino-aprendizagem do público-alvo tem sido objeto de preocupação constante dos profi ssionais que atuam na área de tradução e interpretação de Libras. 62 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA Essas práticas negativas deverão dar lugar à troca de vivências, às boas relações, à responsabilidade profi ssional, respeito ao trabalho do colega, ao espírito de cooperação e humildade. Todas essas discussões foram também abordadas em uma Live do canal #TraduzAi, de maneira extremamente didática e inteligente, provocando uma necessidade de refl etir as práticas profi ssionais e assumir uma postura ética diante das necessidades e demandas que recebe e venha a aceitar. Que tipo de intérprete eu sou? E que tipo de intérprete eu quero ser? Acesse em: https://www.youtube.com/watch?v=kyLc7LeWqCA. FONTE: <https://www.youtube.com/ watch?v=kyLc7LeWqCA>. Acesso em: 7 jun. 2021. 4 Existem habilidades que o profi ssional intérprete de Libras comprometido, ético e de qualidade deve adotar em sua trajetória formativa. Os cursos de formação de tradutores intérpretes de Libras empregam dinâmicas diversas que qualifi cam o profi ssional com o desenvolvimento de técnicas que visam instrumentalizar sua prática e garantir maior segurança no exercício de sua função. O intérprete deve sempre prezar pelo bom andamento de seu trabalho, reconhecer que tipo de profi ssional se tornou e se está de acordo com as regras inerentes a sua profi ssão, sua atuação 63 T. E I.: LIMITES E P. NO CAMPO DA EDUCAÇÃO Capítulo 2 deve contemplar as principais habilidades requeridas na interpretação de língua de sinais. Russo e Pereira (2005. p,19), discutem com o leitor retratando em sua pesquisa algumas das habilidades que devem ser fornecidas pelos cursos de formação de intérprete de Libras. Diante disso, classifi que V para as sentenças e F para as Falsas: ( ) Posicionamento: postura do corpo assumida no momento da interpretação; deslocamento: localização espacial dos interlocutores e objetos em língua de sinais; memória de curto prazo ( ou memória de trabalho): utilizada para guardar as informações em um pequeno período, sendo processada e utilizada quase que instantaneamente. ( ) Expressão facial e corporal: são equivalentes à entonação da voz e comunicam emoções, intensidade, foco, além de serem elementos da gramática da língua de sinais; raciocínio rápido e agilidade mental: são absolutamente necessários na interpretação simultânea, no momento de procurar sinônimos, equivalentes e variantes de palavras, sinais e estruturas. ( ) Improvisação: capacidade de solucionar possíveis problemas tanto de logística quanto do processo de interpretação, sem preparo prévio; trabalho em equipe: trabalhar em harmonia e efi ciência com um ou mais colegas, incluindo o serviço de apoio; atenção e concentração: são habilidades de fi xar e manter a mente focada em alguma informação. ( ) Percepção visual e auditiva: acuidade na capacidade de recepção das línguas envolvidas como na leitura e soletração manual, bem como na discriminação dos sons relevantes no discurso; prosódia e expressividade oral: entonação, ritmo e pausas. ( ) Motricidade fi na e percepção cinestésica: clareza e defi nição na execução de alguns parâmetros gramaticais da língua de sinais, tais como, confi guração de mão, movimentos, locação e espaço; excelente conhecimento linguístico das línguas envolvidas (língua de sinais e língua oral). Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRRETA: a) ( ) F – F – F – F – V. b) ( ) V – V – V – F – V. c) ( ) V – V – V – V – V. d) ( ) F – F – F – F – F. e) ( ) F – V – F – V – F. 64 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA 5 Realizar um comparativo entre o reino animal e o perfi l do intérprete de Libras pode parecer estranho, porém, o professor e autor Evandro Magalhães Junior em sua obra: “Sua majestade o intérprete: o fascinante mundo da tradução simultânea” nos presenteia com questões que cabem perfeitamente no mundo dos profi ssionais intérpretes de Libras. Discutimos no decorrer do material as características e diferenças desses profi ssionais e, agora, cabe a você, caríssimo estudante, fazer uma relação entra o perfi l do intérprete de Libras e o animal que corresponde. Vamos lá? Assinale a alternativa CORRETA: ( ) Intérprete Golfi nho: é aquele que sempre trabalha em grupo, com coletividade e se entrega na atuação, busca minimizar as difi culdades e limitações dos colegas, visto sua capacidade em perceber as necessidades e difi culdades do outro. Esse profi ssional, está sempre disposto a auxiliar e a dividir as tarefas, não assume demandas sozinho, pelo contrário, se caracteriza pela busca de aliados e parceiros nas atividades interpretativas. ( ) Intérprete Tubarão: é aquele intérprete que atua de maneira mais solitária em uma única direção, do Português para Libras ou de Libras para o Português. Esseprofi ssional busca atuar em eventos que tenham maior visibilidade de sua imagem. Costuma ser individualista e tem grande difi culdade em trabalhar em equipe. ( ) Intérprete Golfi nho: esse é aquele profi ssional que assume as demandas e julga saber interpretar qualquer área de conhecimento. Contudo, possui inúmeras limitações e não tem as habilidades necessárias para uma boa atuação. Não basta apenas ter como ferramenta a capacidade de interpretar, mas sim é necessário possuir habilidades inerentes ao tradutor intérprete de Libras, sendo fundamental ter consciência de suas limitações para não prejudicar o processo tradutório. ( ) Intérprete Carpa: é o tipo de intérprete se aproxima da necessidade de aparecer mais do que a própria língua, está sempre em busca de atenção para si, não tem compromisso com o processo como um todo. A característica principal desse profi ssional é o ego infl ado. ( ) Intérprete Golfi nho: é aquele que sempre trabalha em grupo, com coletividade e se entrega na atuação, busca minimizar as difi culdades e limitações dos colegas, visto sua capacidade em perceber as necessidades e difi culdades do outro. Esse profi ssional, está sempre disposto a auxiliar e a dividir as tarefas, 65 T. E I.: LIMITES E P. NO CAMPO DA EDUCAÇÃO Capítulo 2 não assume demandas sozinho, pelo contrário, se caracteriza pela busca de aliados e parceiros nas atividades interpretativas. ( ) Intérprete Papagaio: se caracteriza pela postura de se julgar o melhor dos intérpretes, costumeiramente, assume o máximo de demanda sozinho e tem o hábito de julgar a atuação do colega sem estar disponível para auxiliar e ajudar na evolução do outro, mesmo sendo ele um profi ssional com muita experiência. Para refl exão: após assistir o vídeo do canal # que discute acerca da postura e perfi l do tradutor intérprete de Libras, sugerimos uma autorrefl exão do tipo de intérprete que você, caro aluno, é nesse momento, qual o perfi l de intérprete está representando quando em atuação? E ainda, qual o perfi l de profi ssional está em busca de se tornar? Essa autorrefl exão serve para que, cotidianamente, estejamos atentos às questões que nos rodeiam e que, por vezes, fi camos alheios ou até mesmo em estado de ignorância para reconhecer os pontos que devemos ajustar em nossa prática enquanto profi ssional. Vamos fazer esse importante exercício de autorrefl exão? LIVRO INTÉRPRETES EDUCACIONAIS FONTE: Acervo pessoal do autor 66 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA 4.1 HABILIDADES E COMPETÊNCIAS TRADUTÓRIAS Todas essas questões tratadas anteriormente são de extrema importância para um trabalho de qualidade do profi ssional tradutor intérprete de Libras. Devemos sempre ter a consciência de que o bom senso, o domínio do assunto a ser interpretado, assim como o extinto de colaboração do trabalho em equipe, permite que a atuação, e a interação aconteça de maneira mais leve, com muito mais qualidade do produto a ser entregue ao público-alvo. As atividades mentais exigidas para a entrega do produto interpretativo de qualidade são complexas, e algumas habilidades são fundamentais para a realização dos diferentes tipos de tradução e interpretação. Habilidade e competência são conceitos inter-relacionados, compreendemos habilidade como sinônimo de aptidão, desenvoltura e destreza onde é extremamente necessário ter a capacidade de saber ou de fazer algo. Já a competência se refere à mobilização de habilidades para empregar na realização de determinada ação, em diferentes graus. Perrenoud (2000, p. 19-31.) defende que competência é a faculdade de mobilizar um conjunto de recursos cognitivos (saberes, capacidades, informações etc.) para solucionar com pertinência e efi cácia uma série de situações. Assim, as habilidades cognitivas, ao serem utilizadas no processo de tradução e interpretação, se manifestam, expressam-se como competências. Tais competências são determinantes na prática do profi ssional intérprete de Libras, para que a entrega do produto aconteça de maneira satisfatória. 4.1.1 Competência linguística Habilidade de compreender diferentes discursos em línguas diferentes com o mesmo signifi cado. Um exemplo esclarecedor dessa competência é a situação do uso das expressões idiomáticas. Essa competência pode se tornar desafi adora em uma situação interpretativa simultânea. Por isso, quanto melhor for a acuidade do tradutor intérprete nas duas línguas, melhor será desempenhada a interpretação. 67 T. E I.: LIMITES E P. NO CAMPO DA EDUCAÇÃO Capítulo 2 4.1.2 Competência para transferência Habilidade em transferir uma linguagem produzida na língua fonte para a linguagem da língua alvo. Do ponto de vista da Libras, que é uma língua visual e motora, é possível inferir o uso do rosto, corpo, braços, troncos e espaço na frente do sinalizador para expressar o discurso. Uma das estratégicas gramaticais da Libras é a estruturação dessas concepções por meio de rotação do tronco na incorporação de algum elemento lexical, como o uso do espaço nessa estruturação. 4.1.3 Competência metodológica Habilidade no uso perspicaz de diferentes estilos de interpretação, tais como o uso dos tipos de tradução (simultâneo, consecutivo etc.). Cabe considerarmos que muitas vezes o profi ssional intérprete de Libras quando está em uma interpretação simultânea, necessita esclarecer conceitos específi cos do discurso a ser interpretado e oferecer exemplos na linguagem produzida, ou realizar diferentes escolhas lexicais para comunicar a mensagem na língua alvo, como também a capacidade de retransmitir algum dado, caso tenha sido perdido pelo receptor da informação. 4.1.4 Competência de área Conhecimento da área em que será realizada a interpretação. Ao aceitar interpretar um evento, congresso. Seminário ou qualquer demanda em qualquer área de conhecimento, o intérprete precisa conhecer não apenas o vocabulário, mas também o que está nas entrelinhas do discurso e a linguagem utilizada nesse espaço. É importante perceber que, se a demanda advém de uma área social desconhecida pelo intérprete (justiça, saúde, educação, esporte etc.), ele não conhecerá os conceitos aferidos na fala do palestrante e resultará na inviabilização da transferência para a língua alvo e no prejuízo na entrega do produto. 4.1.5 Competência bicultural É fundamental o conhecimento das culturas envolvidas e como elas se expressam nas línguas em uso durante o ato tradutório. Tal competência é muito utilizada quando, por exemplo, na interpretação de piadas, gírias ou expressões 68 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA da língua onde a percepção do sujeito (no caso do surdo, a visão) estrutura toda a leitura de mundo e compreensão de sujeito. 4.1.6 Competência técnica São as estratégias tradutórias, ferramentas ou escolhas técnicas tradutórias que são cuidadosamente utilizadas no momento da execução de uma interpretação. Se formos analisar uma interpretação simultânea onde o canal de saída vem de um ouvinte e o de chegada é um surdo, é extremamente fundamental o posicionamento no campo visual de maneira a fi car claro e objetivo para o sujeito surdo todos os elementos de linguagem que estão envolvidos no ato interpretativo, tais como a expressão corporal do palestrante, apontação com os dedos do palestrante nas ilustrações de algum exemplo e o uso de slides na apresentação. Cabe salientar que, quando o locutor for um surdo e a os ouvintes forem a plateia, a estrutura e organização deve seguir outra forma, a apresentação será reformulada e a presença do intérprete de Libras sentado à frente do palestrante é fundamental. Em alguns casos é comum a presença de intérprete de apoio para um melhor desempenho no momento da articulação dos discursos. Esse profi ssional pode estar em ambas as situações tradutórias, seu papel é fornecer vocabulário oralem forma de sussurro no ouvido do intérprete que está oralizando o surdo, assim como fornecer vocabulário linguístico de sinais ao profi ssional que está atuando na sinalização para o sujeito surdo. O uso de auxílio como blocos de anotações, gravações, uso de microfones e fones de ouvido, podem ser utilizados pelo intérprete de apoio quando necessário. Todas essas questões exigem do profi ssional tradutor intérprete de Libras a mobilização de um conjunto de habilidades e competências em forma de conhecimentos, informações e saberes, que amparam para o enfrentamento das especifi cidades tradutórias e interpretativas e promovem segurança em sua atuação, tornando o trabalho mais completo. 69 T. E I.: LIMITES E P. NO CAMPO DA EDUCAÇÃO Capítulo 2 6 Competência é a faculdade de mobilizar um conjunto de recursos cognitivos para solucionar com pertinência e efi cácia uma série de situações. As habilidades cognitivas quando utilizadas no processo de tradução e interpretação, expressam-se como competências e são fundamentais na atuação do profi ssional intérprete de Libras. Habilidade e competência são conceitos inter- relacionados. Compreendemos habilidade como sinônimo de aptidão, desenvoltura e destreza onde é extremamente necessário ter a capacidade de saber ou de fazer algo. Já a competência se refere à mobilização de habilidades para empregar na realização de determinada ação, em diferentes graus. De acordo com o material estudado, seis são as competências linguísticas defi nidas por Perrenoud 2000, p. 19-31.). A seguir, aponte a opção que apresenta essas seis competências linguísticas necessárias para um intérprete de Libras oferecer um produto com qualidade a seu cliente. FONTE: PERRENOUD, P. Construindo competências. [Entrevista concedida a] Paola Gentile e Roberta Bencini. Nova Escola, p. 19-31, set. 2000. a) ( ) Competência linguística, Competência para transferência, Competência metodológica, Competência de área, Competência bicultural, Competência técnica. b) ( ) Competência bicultural, Competência existencial e Competência técnica. c ( ) Competência para transferência, Competência para aceitação e Competência metodológica. d) ( ) Competência de área , Competência linguística e Competência de vida. e) ( ) Nenhuma das alternativas está correta. 70 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, buscamos trazer a você, acadêmico, conhecimento acerca dos limites e possibilidades da tradução e interpretação, percebendo as diferenças entre as duas áreas, porém sempre refl etindo sobre os aspectos linguísticos culturais e situacionais. As particularidades apresentadas no decorrer do capítulo, buscaram discutir como se dá o papel do intérprete mediador social e linguístico, objetivando compreender qual o seu papel enquanto profi ssional da área da língua de sinais. Ainda consideramos nesse capítulo, refl exões profundas das responsabilidades que envolvem sua prática, acrescentando ao seu ofício a busca constante por formação e valorização profi ssional. As investigações sobre os assuntos relacionados ao tema apresentado neste capítulo são necessárias para a formação do intérprete de Libras, sendo assim buscamos contribuir com uma discussão que pudesse auxiliar tanto os profi ssionais como aqueles que estão em busca dessa profi ssão a compreender as estratégias linguístico-discursivas utilizadas pelo intérprete de Libras em sua atuação. Compreendemos que constantemente as sensações de insegurança, incertezas e medos assolam o cotidiano desse profi ssional de Libras, mas a persistência e o foco devem afastar o ímpeto de abandonar aquilo que nos propusemos a fazer, mesmo com a certeza de que a atividade do intérprete de Libras não representa uma atividade simples e de fácil atuação. Em todas as áreas em que atua o profi ssional deve-se ter clara certeza de que os conhecimentos específi cos são fundamentais para que a sua interpretação seja apropriada às possibilidades do aluno surdo. A Língua de Sinais representa a liberdade de expressão e comunicação, visto que é por meio dela que acontece a organização do pensamento. O constante movimento linguístico constrói novos sentidos, a partir da interação entre os sujeitos, auxiliando a construção de maneiras diferenciadas de aprendizagem capaz de atender às necessidades enunciativas do locutor. REFERÊNCIAS ALVES, F.; M., C.; PAGANO, A. Traduzir com Autonomia: estratégias para o tradutor em formação. São Paulo: Ed. Contexto, 2000. BARRETO, A.; BUSTOS, O. Teorias de la Traducción/interpretación en plastilina. Bogotá, Colombia: ANISCOL, 2012. 71 T. E I.: LIMITES E P. NO CAMPO DA EDUCAÇÃO Capítulo 2 BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras, e o art. 18 da Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Brasília, DF: Diário Ofi cial [da] República Federativa do Brasil, 22 dez. 2005. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ ato2004-2006/2005/decreto/d5626.htm. Acesso em: 30 jan. 2021. BRASIL. Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de defi ciência. Brasília, DF: Diário Ofi cial [da] República Federativa do Brasil, 19 dez. 2000. Disponível em: http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/LEIS/2002/L10436.htm. Acesso em: 4 junho 2021. BRASIL. Lei 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) e dá outras providências. Brasília, DF: Diário Ofi cial [da] República Federativa do Brasil, 24 abr. 2002. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/2002/L10436.htm. Acesso em: 4 jun. 2021. COLL, C.; MARCHESI, A.; PALACIOS, J. Desenvolvimento psicológico e educação: transtornos de desenvolvimento e necessidades educativas especiais. Porto Alegre: Artmed, 2004. EMMOREY, K. Language, cognition, and the brain: insights from signs language research. London: Lawrence Erlbaum Associates, 2002. MAGALHÃES JUNIOR, E. Sua majestade o intérprete: O fascinante mundo da tradução simultânea. [S.l.]: Parábola, 2007. GOLDIN-MEADOW, S. Talking and thinking with our hands. Psychological Science, [s.l.], v. 15, n. 1, p. 34-39, 2006. LACERDA, C. B. F. de. Intérprete de Libras: em atuação na educação infantil e no ensino fundamental. 6. ed. Porto Alegre. Mediação, 2014. MAYBERRY, R. I.; EICHEN, E. B. The long-lasting advantage of learning sign language in childhood: another look at the critical period for language acquisition. Journal of Memory and Language, [s.l.], v. 30, n. 4, 486-512, aug. 1991. PERRENOUD, P. Construindo competências. [Entrevista concedida a] Paola Gentile e Roberta Bencini. Nova Escola, p. 19-31, set. 2000. 72 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA ROTH, M.; JÚNIOR, A. A. P. A prática pedagógica de professores de uma escola pública para educação de um aluno surdo. Revista Polidisciplinar Eletrônica da Faculdade Guariça, Guariça, v. 2, n. 1, jul. 2010. RUSSO, A.; PEREIRA, M. C. P. Tradução e Interpretação de Língua de Sinais. Técnicas e Dinâmicas para cursos. Porto Alegre: Editora Centro Educacional Cultura Surda. 2005. SANTOS, V. L. C. A opinião de pais ouvintes e fi lhos surdos sobre Língua de Sinais. 2009, 122 p. Monografi a (Especialização em Educação Especial) – Faculdade de Santa Helena, Recife, 2009. CAPÍTULO 3 AS ESCOLAS E OS PROFISSIONAIS INTÉRPRETES DE LIBRAS: A INOVAÇÃO NO ÂMBITO DA INTERPRETAÇÃO A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: Apresentar quem são os profi ssionais envolvidos na educação de Surdos. Compreender as diferentes situações que envolvem o cotidiano dos intérpretes em sala de aula. Conhecer escolhas tradutórias que acontecem no âmbito escolar. Saber quem é o profi ssional intérprete de Libras que estamos dialogando. Construir um saber acerca do profi ssional envolvido na formação do Surdo, discursando com a realidade escolar. Saber lidar com as mais diversas situações que se desenham na escola. Aprender a aceitar as diferentes escolhas tradutórias necessárias para a construção do saber. Discutir a ética e responsabilidade do tradutor intérprete na vida social do surdo e de seus pares. 74 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA 75 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Abordar os conhecimentos, a atuação e a importância do Intérprete da Língua Brasileira de Sinais (Libras) na sala de aula, compreender as diferentes situações que envolvem o seu cotidiano, os desafi os enfrentados nas escolhas tradutórias que lançam mão de construir um saber efetivo na formação do seu público-alvo, discursando com a realidade no âmbito escolar é o conteúdo que embasa este último capítulo. É importante estabelecer como objetivo principal a investigação da atuação do Intérprete de Libras e considerar seus direitos profi ssionais, postura e limites com o aluno surdo. Cada sujeito possui as suas especifi cidades e a inclusão escolar deve atender de maneira igualitária os educandos para que alcancem os conhecimentos necessários para uma vida social plena e participativa. De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), n. 9.394/96 especialmente o Capítulo III, Art. 205 (BRASIL, 1996), podemos perceber que “a educação, direito de todos e dever do estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualifi cação para o trabalho”. Por esse viés, nos últimos anos a Federação brasileira busca implementar leis, decretos e regulamentos que favoreçam a educação para os cidadãos, tornando- a um direito de todos, sem esquecer da formação dos profi ssionais envolvidos. A trajetória educacional do sujeito surdo é acompanhada por três vertentes metodológicas que embasam e norteiam toda a constituição do surdo enquanto ator de sua própria história. Nascimento (2018) defende que Oralismo, Comunicação Total e o Bilinguismo são vertentes que marcam a caminhada da comunidade surda, corroborando com essa ideia entendemos que tais vertentes registram um importante papel para o progresso social dos surdos nacionais. Das três correntes o Bilinguismo é a que ganha destaque e força nas discussões que envolvem a educação do surdo e, consequentemente, é considerada como a escolha mais assertiva para o ensino do surdo desde a década de 1980 e reconhecida legalmente por meio da Lei nº 10.436/2002 (BRASIL, 2002). O Bilinguismo proporciona um aprendizado pelo Português (escrito) e a Língua brasileira de sinais (Libras) (natural). Em todo esse contexto educacional temos alguns profi ssionais que se destacam de maneira extremamente importante, os professores de Libras, professores de disciplinas fl uentes em Libras, professor bilíngue, intérpretes de Libras são alguns citados que atuam no âmbito da educação. De todos esses, o Intérprete de Libras é o profi ssional que vamos nos debruçar nesse capítulo, porém 76 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA salientamos a importância de o acadêmico buscar o papel que desempenha cada um desses profi ssionais que estão diretamente envolvidos no processo escolar do sujeito surdo. 2 O INTÉRPRETE DE LIBRAS EDUCACIONAL E A LEGALIDADE QUE O AMPARA A interpretação educacional possibilita que a maioria dos tradutores intérprete de Libras acessem a prática profi ssional a partir de um contexto real de atuação, visto a necessidade extrema desse profi ssional para garantir que o processo educacional das crianças surdas ocorra de maneira efetiva. Em meados de 1980 os intérpretes estão presentes no contexto religioso e migram gradativamente para o âmbito educacional. A partir da declaração de Salamanca em 1994 a língua de sinais retorna à sala de aula mista (bilíngue), possibilitando que as crianças surdas acessem o conhecimento formal com a mediação do intérprete de Libras que possibilita a apropriação de saberes e experiências de maneira coletiva, respeitando seu papel mediador no trabalho educativo, sem deixar de observar as condições em que desempenha sua atividade profi ssional. Diversas leis, decretos e documentos possibilitam a consolidação e especifi cação da atividade do Tradutor Intérprete de Libras – TILSP, de maneira breve destacaremos algumas para instigar a curiosidade do acadêmico. Primeiramente, destacamos a Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000 (BRASILl, 2000, p. 2), que estabelece normas e critérios para a promoção da acessibilidade das pessoas com defi ciência ou com mobilidade reduzida. Cabe ressaltar que a referida lei aponta, pela primeira vez, a formação de intérpretes de Libras e proporciona uma realidade profi ssional de um grupo de pessoas que, em sua maioria, até o presente momento atuavam no contexto religioso e familiar de maneira informal. Importante destaque também merece a Resolução CNE/CEB nº 2, de 11 de setembro de 2001, que apesar de não tratar especifi camente do intérprete de Libras, institui Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica, a referida resolução orienta em seu Art. 8º, a postura e organização das escolas para incluir pessoas com necessidades educacionais diversas. Para que suas orientações sejam alinhadas, essa Resolução, determina normas referentes à “[...] atuação de professores-intérpretes das linguagens e códigos aplicáveis” (BRASIL, 2001, p. 2). A Lei nº 10.436 de Abril de 2002, reconhece a Libras como língua e meio legal de comunicação dos surdos no Brasil, quando sancionada 77 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 representou um papel fundamental para que o reconhecimento do profi ssional intérprete de Libras acontecesse naturalmente. Alinhado a toda discussão que está no entorno da língua de sinais e da educação de surdos, o Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005, surge para regulamentar a Lei nº 10.436/2002, discutindo diretamente quanto ao intérprete de Libras e de sua formação, dedicando um capítulo inteiro a questões desse profi ssional. A profi ssão de Intérprete de Libras foi verdadeiramente regulamentada, apenas quando a Lei nº 12.319, de 1º de setembro de 2010, foi sancionada, muito embora o Código Brasileiro de Ocupações (CBO) já previsse, no item “Filólogos, tradutores, intérpretes e afi ns”, sob o Código nº 2.614-25 (BRASIL, 2010, p. 385), os ofícios do intérprete de língua de sinais – guia-intérprete; intérprete de Libras; tradutor de Libras e tradutor-intérprete de Libras. Com esse amparo a atuação de TILSP ganhou um conceito legal a efetivação de concursos e processos seletivos para o cargo específi co de intérprete em território nacional, especialmente para a área educacional, nas diferentes modalidades de ensino, favorecendo a perspectiva da Educação Especial na perspectiva da Inclusão, e fortalecendo a Educação Bilíngue para os alunos Surdos. 1 Todas as pessoas têm direito à educação, e o Estado tem o dever de oferecer, respeitando as suas especifi cidades e a inclusão escolar, o atendimento de maneira igualitária a todos os educandos para que alcancem os conhecimentos necessários para uma vida social plena e participativa. Sobre o que defende a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), 9.394/96 especialmente o capítulo III, Art. 205, assinale a alternativa CORRETA: FONTE: BRASIL. Ministério da Educação. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF: Senado Federal, 20 dez. 1996. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm.Acesso em: 5 fev. 2022. ( ) A compreensão das diferentes situações que envolvem o seu cotidiano escolar em relação à inclusão e os desafi os enfrentados pela equipe gestora, devem se manter apenas no ambiente de sala de aula para dar autonomia ao professor. ( ) As escolhas tradutórias dos intérpretes de Libras devem estar sempre de acordo, unicamente, com a opinião do professor de sala, pois ele é quem sabe do conteúdo e o intérprete precisa estudar o conteúdo para ajudar na realização das aulas. 78 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA ( ) “A educação, direito de todos e dever do estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualifi cação para o trabalho”. ( ) A inclusão dos alunos é responsabilidade da escola e da família, única e exclusivamente, pois o Estado precisa cuidar do outras questões que envolvem a administração particular. 2 No decorrer do capítulo estudamos algumas Leis, Decretos e documentos que envolvem a atividade do intérprete de Libras e possibilitam a consolidação e especifi cação da profi ssão. Assinale V para verdadeiro e F para Falso: ( ) Lei nº 10.098/2000. ( ) Decreto 580001/91. ( ) Decreto 5626/2005. ( ) Lei nº 12.319/ 2015. ( ) Lei nº 12.319/ 2010. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: ( ) V– V– V– V– V. ( ) F – F – F – F – F. ( ) V– V– V– V– F. ( ) V– F – F – F – F. ( ) V– F– V– F– V. 2.2 O COTIDIANO DOS INTÉRPRETES EM SALA DE AULA, COMPREENDENDO AS DIFERENTES SITUAÇÕES QUE ENVOLVEM A SUA VIVÊNCIA O domínio da língua de sinais é de extrema importância para a atuação do intérprete, porém, as peculiaridades e especifi cidades que envolvem o âmbito escolar orientam que outras habilidades devem compor o profi ssional intérprete, a competência linguística é talvez a que mais fornece ao profi ssional a capacidade de desempenhar suas funções de maneira mais efi caz. Lacerda e Góes (2000), 79 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 nos conduzem a compreender que as funções a serem desempenhadas pelo tradutor intérprete de Libras vêm sendo ressignifi cadas, uma vez que seu saber e seu fazer são perpassados por certas peculiaridades existentes no âmbito da área educacional e não somente pelo domínio e pela fl uência de Libras. Quando buscamos de fato estabelecer uma compreensão acerca da atuação desse profi ssional, desejamos estar à luz de Lacerda e Góes (2002), Quadros (2003), Tuxi (2009), Martins (2008) e Albres (2015) e somos orientados a perceber que a função primordial do intérprete de libras educacional é intermediar as relações estabelecidas entre o sujeito surdo e o não surdo que dividem a mesma sala de aula ou que estão presentes nesse contexto. Estabelecer um entendimento real do que um profi ssional da tradução e interpretação de Libras realiza em sala muitas vezes é frustrante e cansativo, visto que inúmeras vezes o papel principal do intérprete de Libras se confunde com o do professor ou com o de auxiliar de sala (ALBRES 2015, p. 38). Orientados pelo ponto de vista de Lacerda e Góes (2002), Martins (2008) e Albres (2015), quando descortinam a verdade e abordam, entre outros aspectos, a deturpação das relações didático-pedagógicas entre os sujeitos intérprete de Libras x aluno surdo e, também, intérprete de Libras x professor regente. De acordo com a linha de raciocínio das autoras, em muitos casos, ocorre uma transferência da responsabilidade do ensino ao aluno surdo para o intérprete de Libras. Essa função é do professor regente da turma, porém costumamos vivenciar tais situações nas escolas. Por outro lado, o intérprete de Libras muitas vezes deseja apresentar resultados positivos do seu trabalho e acaba assumindo determinada função junto ao aluno surdo. Essa postura impacta de maneira negativa a luta da categoria favorecendo para a confusão que se estabelece entre os atores intérprete de Libras x professor x comunidade surda e ouvinte. Tal desacordo referente à função do intérprete educacional provoca difi culdades para o profi ssional que muitas vezes perde o foco de seu papel principal, prejudicando sua atuação no desenvolvimento das competências necessárias para o desempenho efi caz da interpretação. Quadros (2003) e Tuxi (2009) sugerem a necessidade da valorização do profi ssional, em editais de contratação, destacam a importância da formação na área de interpretação da língua de sinais e discutem a questão da competência linguística, problematizando ricamente o assunto por um viés comunicativo uma vez que, para ocorrer intermediação dos conhecimentos no ambiente da escola, é de suma importância que os intérpretes de Libras possuam competência linguística dos pares linguísticos Libras/Português e não apenas do ponto de vista da língua de sinais. 80 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA O intérprete de Libras que atua em ambiente escolar tem um compromisso direto com a construção individual e social do sujeito surdo considerando que é o mediador de conhecimento, esse compromisso apresenta novos desdobramentos na atuação do profi ssional que é um ator muito importante na organização escolar, visto que participa dos processos de ensino-aprendizagem de alunos surdos e, consequentemente, da constituição do sujeito surdo como parte de uma coletividade e ator de sua própria história. Sob essa ótica, a tradução e interpretação está articulada de maneira positiva ao professor regente da turma. Cabe ressaltar, que o intérprete de Libras é o mediador de conhecimento infl uenciando a formação do sujeito surdo. Vygotsky (1983) argumenta que o desenvolvimento humano acontece no âmbito social, nas relações e situações práticas do cotidiano do sujeito. Defende que é por meio da mediação social que os indivíduos apreendem o mundo e se constituem intimamente enquanto parte do coletivo. No processo de mediação social, tem um papel de destaque, a linguagem, que possui tanto uma função comunicativa como de constituição das funções psicológicas superiores. Colocando-se entre a criança e a realidade objetiva, a linguagem possibilita-lhe interagir com essa realidade no plano simbólico. Esse simbolismo ganha destaque no âmbito educacional onde o intérprete de Libras está inserido e contribui para a singularidade do sujeito. Saviani (2003) destaca que, “[...] o trabalho educativo é o ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens” (SAVIANI, 2003, p. 13). Vygotsky compreendeu outro conceito extremamente importante para analisar a apropriação de conhecimentos no espaço escolar: a mediação pedagógica, que remete ao trabalho educativo intencional e planejado, realizado pela escola de maneira a propiciar a transição do “[...] pensamento aderido a níveis sensíveis, empíricos, concretos, particularizados da realidade, para níveis cada vez mais generalizados, abstratos, de abrangência cada vez maior, inseridos em sistemas de complexidade crescente” (ROCHA, 2000, p. 44). À luz das ideias de Lev Semiónovich Vygotsky, quando discute acerca da constituição social e histórica do psiquismo humano, o estudo desenvolvido por Côrtes (2012) indica o papel crucial da mediação pedagógica no processo de apropriação de conhecimento pelos estudantes. Na sala de aula, por meio de determinadas práticas sociais, tanto o professor como os alunos participam ativamente do aprendizado da turma como um todo. No caso de estudantes surdos que demandam a atuação do intérprete, esse processo adquire certas peculiaridades, como aponta o estudo de Lacerda (2000). 81 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 Corroboramos com o argumento dos pensadores, que nos conduzem a compreenderque a escola deve organizar-se como um espaço que possibilita mediações “qualitativamente diferentes” entre aqueles que nela se inserem. Cada profi ssional que está no espaço escolar possui sua função, mas a interação e troca de conhecimento entre eles é fundamental. Entendemos que o professor, em seu papel de mediador, deve se interpor entre o aluno e o conhecimento, desenvolvendo estratégias de ensino-aprendizagem que permitam produzir transformações psicológicas e a apropriação de conhecimentos por parte do aluno. Ao falarmos dos atores inseridos na escola, é fundamental problematizar a atuação do intérprete de Libras, que julgamos ser um profi ssional que se interpõe entre o professor, o aluno surdo e o conhecimento, que materializa na interface entre o Português e a Libras. É fundamental compreender que a interpretação não é uma mera codifi cação que se interpõe em uma combinação de confi gurações de mão, movimentos e expressões, a dimensão do conceito de interpretação é para além dessas limitações que envolvem a codifi cação e decodifi cação de informações, perpassa pelo contexto histórico e social em que os sujeitos estão envoltos, contribuindo para a sua formação enquanto ser social. Na tentativa de buscarmos um entendimento do profi ssional intérprete de Libras em sala de aula, buscamos elementos para compreender como se dá o ato interpretativo responsável por garantir o exercício da interrelação social. Embasados no ponto de vista de Tuxi (2009, p. 13), que nos orienta que a interpretação se subdivide em consecutiva e simultânea, entendemos que essa defi nição amplia as possibilidades de envolvimento na interpretação. A interpretação simultânea é quando a mensagem fonte está em andamento e o intérprete acompanha essa fala (ou sinalização), ou seja, enquanto o interlocutor está falando, o intérprete interpreta simultaneamente, sem cortes. Na interpretação consecutiva o intérprete escuta (ou vê) a mensagem e assim que fecha uma sentença há uma pausa (TUXI, 2009. p. 13). As duas linhas de interpretação são utilizadas pelo intérprete educacional, consideramos que ambas são importantes e valiosas, porém a que mais é utilizada em sala de aula é a interpretação simultânea, para tanto o intérprete de Libras deve possuir uma bagagem de léxico afi m de garantir a entrega do produto com qualidade. O profi ssional intérprete de Libras que se propõe a realizar uma interpretação simultânea, que é a mais utilizada em sala de aula, deve ter ciência que esse ato exige habilidades que vão para além do conhecimento linguístico, considerando 82 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA que ele está relacionado com a destreza de versar as informações da estrutura linguística de uma língua para outra e ainda ater-se ao fl uxo das informações que continuam a ser transmitidas no decorrer de sua interpretação. A destreza e aptidão interpretativa caminham ao lado das especifi cidades existentes na prática educativa de interpretação do intérprete de Libras. 3 Para atuar como intérprete Libras é necessário ter fl uência em Libras, esse é um ponto fundamental, porém, as peculiaridades e especifi cidades que envolvem o âmbito escolar orientam que outras habilidades devem compor o profi ssional intérprete, a competência linguística é talvez a que mais fornece ao profi ssional capacidade de desempenhar sua função de maneira mais efi caz. Lacerda e Góes (2000), nos conduzem a compreender que as funções a serem desempenhadas pelo tradutor intérprete de Libras vêm sendo ressignifi cadas, uma vez que seu saber e seu fazer são perpassados por certas peculiaridades existentes no âmbito área educacional e não somente pelo domínio e pela fl uência de Libras. Quando buscamos de fato estabelecer uma compreensão acerca da atuação desse profi ssional, desejamos estar à luz de Lacerda e Góes (2002), Quadros (2003), Tuxi (2009), Martins (2008) e Albres (2015) e somos orientados a perceber que a função do intérprete de Libras tem suas particularidades. Após leitura do texto, assinale a alternativa que indica qual é a função primordial do profi ssional intérprete de Libras: FONTE: LACERDA, C. B. F.; GÓES, M. C. R. Surdez: processos educativos e subjetividade. São Paulo: Editora Lovise, 2000. ( ) Intermediar as relações estabelecidas entre o sujeito surdo e o não surdo que dividem a mesma sala de aula ou que estão presentes nesse contexto. ( ) Auxiliar o professor com as atividades de sala de aula para que o aluno surdo seja incluído. ( ) Copiar as atividades para o aluno surdo, assim ele consegue acompanhar melhor as aulas. ( ) Manter a ordem e disciplina em sala de aula quando o professor regente não estiver. 83 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 4 Na tentativa de buscarmos um entendimento do profi ssional intérprete de Libras em sala de aula, buscamos elementos para compreender como se dá o ato interpretativo responsável por garantir o exercício da interrelação social. Embasados no ponto de vista de Tuxi (2009, p. 13), que nos orienta que o ato interpretativo tem uma subdivisão, entendemos que essa defi nição amplia as possibilidades de envolvimento da prática. As duas linhas de interpretação são utilizadas pelo intérprete educacional, consideramos que ambas são importantes e valiosas, porém a que mais é utilizada em sala de aula é a interpretação simultânea, para tanto o intérprete de Libras deve possuir uma bagagem de léxico afi m de garantir a entrega do produto com qualidade. Sobre quais são as subdivisões da interpretação empenhada pelo tradutor intérprete de Libras em sala de aula, de acordo com o material estudado, assinale a alternativa CORRETA: ( ) A interpretação não têm subdivisões ( ) Interpretação consecutiva e correspondente. ( ) Interpretação intermediária e consecutiva. ( ) Interpretação consecutiva e simultânea. ( ) interpretação simultânea e real. 3 SABER LIDAR COM AS MAIS DIVERSAS SITUAÇÕES QUE SE DESENHAM NA ESCOLA A atuação em sala de aula requer prática e conhecimento, e a formação do intérprete nesse caso infl uencia bastante nas escolhas tradutórias que serão transmitidas no momento interpretativo. Muitos profi ssionais que trabalham nas escolas possuem formação para atuar como tradutor intérprete de Libras. Contudo, percebemos que o número de atuantes na interpretação dentro das escolas sem a qualifi cação fundamental e a experiência cultural/linguística necessária entre as línguas envolvidas, ainda somam consideravelmente e agravam muitas vezes a relação entre a escola e o intérprete de Libras. Cabe ressaltar também que pela sua pouca experiência, o profi ssional tem difi culdades em lidar com as diferentes situações e vivências que são comuns no espaço escolar, limitando muitas vezes, por parte da escola, a aceitação desse profi ssional técnico que possui suas próprias funções. 84 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA Mesmo após toda essa discussão acerca da importância do profi ssional intérprete de Libras em sala de aula, ainda percebemos que algumas escolas têm difi culdade em aceitar um profi ssional que não tem uma função pedagógica. Atualmente o intérprete de Libras que atua em escolas deixa de ser mencionado como um professor, ele agora recebe o titulo que designa sua real função “intérprete educacional”, situando de maneira positiva o espaço de atuação do profi ssional, que pode ser também chamado de intérprete medicinal, jurídico entre outros, mas sem perder sua função de intérprete. O intérprete de Libras não possui função pedagógica, não prepara aula, não fornecem notas aos alunos, não é responsável por lançar registro de avaliação no diário de classe, ele não é responsável por nenhuma atividade que está relacionada ao professor regente de turma. Pelo menos quando está no papel de tradutor intérprete. O que é fundamental esclarecer é que mesmo se umprofi ssional intérprete de Libras tenha em sua formação uma licenciatura, mesmo que em alguns casos na rede de ensino sua forma de contratação se dá pelo cargo de professor na maioria dos estados brasileiros, pois não há outra forma de contratação, porém, as atribuições são completamente diferentes. Existe a necessidade urgente das escolas compreenderem que a função do intérprete é técnica e não pedagógica, logo, devemos fi car atentos às formações desse cunho no ambiente escolar, pois a ele não se aplica. Quando nesse momento existir a presença de professores surdos, cabe a uma dupla ou mais intérpretes de Libras realizarem a interpretação da formação, reunião ou capacitação. Esse é um momento extremamente importante para o desenvolvimento das atividades escolares e não cabe ao profi ssional intérprete de Libras se eximir de sua responsabilidade. Outra situação complicada na escola é quando há a ausência de algum professor, é comum a equipe gestora solicitar ao intérprete de Libras que substitua o docente. Essa postura é extremamente prejudicial para todos os envolvidos. O intérprete não pode se responsabilizar por uma turma, e se isso acontecer é importante ressaltarmos que o aluno surdo que está incluído na turma é prejudicado diretamente visto que o intérprete está assumindo a função do docente e ninguém está assumindo a sua na interpretação. Cabe à escola buscar outra estratégia para suprir a falta do professor. O tempo em que não há atuação de interpretação deve ser usado para estudo de vocabulário, e conteúdos que condizem com seus momentos de atuação. A responsabilidade em buscar uma solução para a falta do professor é unicamente da escola, e ou intérprete de Libras não deve ser uma escolha. 85 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 Pensando em todas estas questões que discutimos anteriormente, buscamos orientações para o relacionamento saudável e profi ssional entre o intérprete e a escola no livro da Fundação Catarinense de Educação Especial – FCEE, intitulado: Intérpretes Educacionais de Libras: orientações para prática profi ssional (SANTA CATARINA, 2013). 3.1 A ESCOLA OBSERVE QUE • O intérprete de Libras deverá cumprir a carga horária para a qual foi contratado, integralmente, na unidade escolar, sendo assim ele não poderá ser “emprestado” para eventos fora da escola em horário de trabalho, em nenhuma hipótese. Não tendo aula, o intérprete terá muitas coisas a estudar referentes aos conteúdos escolares. • Para melhor andamento da interpretação, quando a escola organizar eventos a serem realizados em seu espaço, ela deverá se responsabilizar em fornecer ao intérprete acesso aos materiais, aos textos, as apresentações, bem como uma conversa com o palestrante ou ministrante antes da atuação, para que o intérprete de Libras consiga apropriação do conteúdo de maneira satisfatória (SANTA CATARINA, 2013, p, 27). • Concordamos que o intérprete é o profi ssional que muitas vezes fi ca mais tempo junto ao aluno surdo, em comparação aos outros profi ssionais que atuam na escola. Isso acontece pela especifi cidade do trabalho e, por muitas vezes, ser o único que tem fl uência na língua de sinais. Entretato, é importante ressaltar que ao se tratar do rendimento ou aprendizagem do aluno em reuniões de conselhos ou de professores o intérprete seja questionado como está acontecendo a aprendizagem e o rendimento do aluno surdo em sala de aula. Esse tipo de questionamento deve sempre ser direcionado aos professores de área, da mesma maneira como acontece com os alunos não surdos. • São validos os questionamentos dirigidos ao intérprete de Libras referente ao andamento da interpretação, que podem estar em torno do conteúdo e temas da disciplina, questionar se o aluno é fl uente da língua de sinais, quais capacitações são necessárias e fundamentais para que o interprete de Libras qualifi que sua atuação, outro discurso que pode ser direcionado ao intérprete é sobre a viabilidade da Libras e quais as maneiras mais efetivas para tornar a aula mais condizente com as especifi cidades da cultura surda (SANTA CATARINA, 2013, p. 27). • Sabemos que a escola é um espaço que ocorre reuniões e conselhos de classe e pedagógicos para o corpo docente, assim, sugerimos que a equipe gestora reserve um tempo para discutir com o quadro 86 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA de intérpretes uma melhor maneira de viabilizar sua atuação. Essa estratégia aproxima o quadro de profi ssionais intérpretes da escola e do grupo pedagógico e, também, proporciona momentos importantes de interação entre o grupo. (SANTA CATARINA, 2013, p. 27). • Outra questão que é muito positiva é quando no início do ano letivo, a escola organize um momento de conhecimento e relação entre todos os profi ssionais que atuaram com o aluno surdo. Essa estratégia é importante para que o intérprete consiga expor sua função no ensino dos alunos surdos e, também, discutir sobre questões linguísticas na estrutura da língua de sinais (SANTA CATARINA, 2013, p. 27). Essas orientações são apenas uma maneira de situar as escolas sobre qual o papel principal do intérprete de Libras, entendemos que cada escola possui sua própria organização e que muitas vezes no decorrer do ano letivo as situações acontecem e somos atropelados com casos que nos conduzem a posturas errôneas e que acabam por distorcer a compreensão real do trabalho do intérprete de Libras. A relação com o professor regular deve ser saudável para que o andamento das aulas aconteça de maneira muito tranquila e com qualidade para todas as partes. O professor regente da sala e o intérprete de Libras devem ser aliados para que as questões relacionadas ao aluno surdo sejam compreendidas, assim como as particularidades da estrutura linguística da língua de sinais. Já dialogamos que o intérprete não é responsável pelo aluno e mesmo estando no quadro de funcionários da escola sua função é técnica de intermediação das duas línguas envolvidas (três caso tenha a disciplina de língua estrangeira). A preparação de aulas, organização de notas e o cuidado com a turma é função do professor regente. Sabemos que muitos intérpretes de Libras têm exercido funções que não são de sua responsabilidade, como por exemplo: copiar a matéria para o aluno surdo, cuidar da turma na ausência do professor regente, auxiliar na limpeza e organização da escola, fazer uma lista dos alunos que são desordeiros quando o professor regente se ausenta da sala para depois repassar a ele, e outras tantas funções. Não estamos aqui julgando se essas e outras atividades têm maior ou menor valor do que a função do intérprete de Libras o que estamos problematizando é que essa não é a função para a qual o intérprete foi contratado. Conseguir dividir as funções é fundamental para uma relação salutar, é importante que recorra ao professor regente quando o aluno surdo surge com alguma dúvida, porém, por minha experiência percebo que, muitos professores não demonstram preocupação com as especifi cidades dos alunos surdos, e quais as estratégias para que ocorra a aprendizagem igualitária em sala de aula. 87 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 Entendemos que é função e dever do professor regente descobrir o caminho para a aprendizagem efetiva do aluno surdo. Alguns professores ignoram a presença do aluno surdo, talvez por desconhecer como trabalhar com esse público-alvo, ou por acreditarem na incapacidade do surdo em compreender os conteúdos ministrados. Contudo, discordamos dessa postura, considerando que, nas relações interpessoais, a surdez é um fator que muitas vezes limita o sujeito, porém, não o impede a capacidade de compreensão de mundo. 3.2 AOS PROFESSORES CABE TER CONHECIMENTO DE QUE o Os intérpretes sabem que para a grande maioria de vocês é novidade ter um aluno surdo em sala de aula,porém é importante lhes dizer que o conteúdo de sua disciplina quando intermediado por um intérprete de Libras se torna acessível (SANTA CATARINA, 2013, p. 33). • Os intérpretes de Libras fazem a interpretação do que você diz, assim como interpreta para o professor o que o aluno surdo está dizendo; • O intérprete de Libras não possui formação em todas as áreas de conhecimento, sendo assim é imprescindível que você, enquanto professor de sala, antecipe o material, o planejamento e organize horários para que possam sanar as dúvidas que possam surgir em relação ao conteúdo (SANTA CATARINA, 2013, p. 27). • O intérprete de Libras é seu aliado em sala de aula e não uma pessoa que está vigiando seu trabalho. • Aconselhamos que, caso tenha alguma dúvida se o aluno surdo compreendeu ou não o que foi ministrado, você pode se dirigir diretamente ao aluno, o intérprete fará a interpretação e o aluno responderá. Essas orientações e aconselhamentos que buscamos à luz da pesquisa da Fundação Catarinense de Educação Especial – FCEE, no livro intitulado: intérpretes educacionais de Libras: orientações para prática profi ssional, são apenas uma maneira de auxiliar tanto o professor a compreender o papel do intérprete de Libras, quanto ao próprio intérprete que muitas vezes realiza funções que não lhe cabem, e acaba por prejudicar seu trabalho e o direito do surdo de receber as informações de maneira mais efi caz. O bom andamento em sala de aula acontece com a comunicação, muitas vezes o professor não tem conhecimento do papel do intérprete de Libras, logo, o diálogo pode sanar essas dúvidas e a relação com o aluno surdo se torna muito mais tranquila e verdadeira. 88 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA O professor por muitas vezes pode sentir-se desconfortável com a presença do intérprete em sala de aula, admitem uma postura de indiferença, julgam o intérprete como um intruso, essa situação só agrava a relação entre as partes. Segundo Lacerda (2006), o professor regente não pode ignorar a presença do intérprete em sala de aula, pois o seu trabalho vai além de uma simples tradução, é através dele que ocorre o elo de comunicação entre professor e aluno surdo e, desse modo, o processo de ensino-aprendizagem. O profi ssional intérprete de Libras possui um papel fundamental na escola, sua atuação possibilita a obtenção do conhecimento e compreensão dos conteúdos ministrados pelo professor regente. É necessário que haja uma mudança de postura por parte do professor, que também tem o dever, como educador, de auxiliar o intérprete da Língua de Sinais em suas práticas. Se o professor não assumir práticas que favoreçam a atuação do intérprete da Língua de Sinais, consequentemente, a compreensão do aluno surdo fi cará comprometida (LACERDA, 2011, p. 18). Cabe salientar, que as discussões acerca da relação entre professor e intérprete de Libras não se esgotam aqui, de fato, é preciso dialogar ainda mais sobre a compreensão dos conceitos em questão, o que na verdade requer mais aprofundamento. A saber, que a função do professor é para além do ensino, em contrapartida o papel do intérprete é fazer a mediação comunicativa no discurso e interpretar em sala de aula. Sendo assim, é fundamental sempre que o aluno surdo se reporte ao professor no momento que surgir alguma dúvida que ela relacionada à aula. E por falar em aluno surdo, julgamos importante trazer discussões que alimentem a prática profi ssional e a postura positiva do intérprete de Libras quando se trata da relação estabelecida com o aluno surdo que está sendo atendido. 3.3 O INTÉRPRETE E O ALUNO SURDO NO AMBIENTE ESCOLAR Para essa discussão começaremos com a palavra “transparência”, que é o que o profi ssional intérprete deve estabelecer na relação com o aluno. Compreendemos que é um grande desafi o permanecer ético na relação entre surdo e intérprete, é indiscutível que todo e qualquer assunto tratado entre essas partes deve fi car entre elas. Contudo, até então, não é possível fi scalizar como se dá essa relação em sala de aula, visto que a Libras é uma língua que 89 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 poucas pessoas conhecem e na maioria das vezes os professores, diretores e funcionários da escola são alheios ao que está sendo transmitido ao aluno surdo, assim cabe a você, intérprete, ser o próprio fi scal e saber qual a postura mais adequada para o bom andamento do seu trabalho e saudável relação com o aluno surdo. 3.4 INTÉRPRETE DE LIBRAS EM SUA RELAÇÃO COM O ALUNO SURDO OBSERVE QUE • Intérprete de Libras o aluno surdo não é seu aluno. • Converse com o aluno sobre seu trabalho e suas funções, visto que muitas vezes ele não tem conhecimento de qual a diferença entre você e o professor da turma. • Caso o aluno venha de um sistema em que sempre recebeu um atendimento de assistencialismo, cabe a você esclarecer como será o atendimento a partir de agora. • Você não deve cuidar do caderno do aluno, não deve copiar para ele, não deve fazer nenhuma atividade para o aluno surdo. • Você não deve responder as dúvidas do aluno sem repassar ao professor, mesmo que saiba a resposta. • Nas provas, a postura deve ser ainda mais vigiada, cuidado para não infl uenciar a resposta, e fi que atento para interpretar fi elmente a pergunta que está descrita na avaliação. • Sua opinião não deve ser considerada em momento nenhum quando em sala de aula, guarde sua opinião para você. • Esteja em sala de aula no horário determinado mesmo que o aluno ainda não esteja presente, • Não cabe a você controlar a entrada ou saída do aluno em sala de aula. • Não é seu papel liberar sua ida ao banheiro ou a qualquer outro espaço dentro ou fora da escola. • Não compense a falta de competência interpretativa com o assistencialismo (SANTA CATARINA, 2013, p. 42). É importante ressaltar que a ignorância ou o desconhecimento quanto ao seu papel deixa o intérprete de Libras vulnerável e termina por receber as imposições da escola prejudicando a todos os envolvidos, sabemos que muitas vezes a escola também não conhece o papel do intérprete de Libras. Sendo assim, caso vislumbre seguir essa profi ssão, primeiramente, tenha muito claro qual é o seu papel e como deve estabelecer as relações no ambiente de trabalho, tenha 90 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA clareza de qual a postura adequada para exercer sua função no espaço escolar para, então, futuramente, conseguir atuar em qualquer outro espaço sem prejuízo ou dano. Estamos cientes de que, em muitos casos, os alunos chegam à escola com um vocabulário muito básico ou sem nenhum vocabulário de Libras e isso acarreta a difi culdade do intérprete em realizar a interpretação, pois dependendo do nível de seu conhecimento em Libras, o aluno poderá não compreender o que está sendo sinalizado, pelo atraso na aquisição língua e da linguagem. Contudo, destacamos e orientamos que isso não justifi ca que o intérprete assuma o papel do professor e lecione a disciplina da maneira que julga correto para esse aluno, ou que assuma o papel de professor de Libras para toda turma. Essa é uma ampla discussão e que não cabe ao intérprete resolver, sua postura deve ser de informar ao professor que esse aluno não tem conhecimento da Libras e, assim, o pedagógico e a direção escolar tomarão as providencias necessárias. Você pode perguntar como, então, fará a interpretação a esse aluno que tem o vocabulário limitado. Muitas vezes precisamos usar estratégias interpretativas para sinalizar algum conteúdo que não temos conhecimento específi co ou quando não há sinal para determinada palavra. É comum usarmos recursos visuais descritivos, classifi cadores e ou expressões faciais e corporais que nos ajudam a descrever a situação para o surdo para que ele indique uma forma visual de criar um sinal para determinada palavra e/ou conceito. Éimportante evitar as relações de dependências que existe entre surdos e intérpretes. Muitas vezes o intérprete depende do surdo, sente-se incomodado quando o surdo deseja trocar de profi ssional ou quando são corrigidos em relação a determinado sinal. Sejamos profi ssionais! Se realizar seu trabalho com competência e qualidade certamente você será reconhecido, e o temor de fi car sem aluno surdo para atender será superado com muitos outros atendimentos. O importante é deixar muito claro ao aluno surdo que o intérprete não é responsável pelo seu ensino, ele não vai facilitar suas respostas nas provas ou atividades que são exigidas pelo professor. Todavia, o bom senso é fundamental, falamos anteriormente que o intérprete não ensina Libras mesmo quando o aluno surdo tem limitações de vocabulário, mas, nos casos em que o aluno possui apenas sinais caseiros, combinados com os familiares, é aceitável que o intérprete introduza gradualmente os sinais de Libras, substituindo pelos sinais básicos durante a sua interpretação. essa atitude é diferente de ensinar Libras como se fosse uma aula paralela a do professor regente, a introdução dos sinais de Libras pode acontecer quando escolhemos a estratégia de recursos visuais, quando apontamos e ou classifi camos um conceito ou palavra. 91 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 Essas estratégias podem inclusive ser discutidas com os colegas intérpretes da escola, caso tenha, do contrário, os grupos de estudos de intérpretes podem auxiliar com essas questões, pois a troca de experiências e o diálogo com seus pares enriquece e qualifi ca o trabalho, favorecendo a segurança e a efi cácia da sinalização. A relação positiva com seus pares é muito importante para o fortalecimento da categoria, porém temos consciência de que muitas vezes as disputas e concorrências acontecem nesse meio, e é sobre isso que precisamos conversar, sem mágoas, sejamos profi ssionais! Vamos falar dos intérpretes e seus pares. Vamos discutir a nossa relação abertamente e de maneira madura? 3.5 O INTÉRPRETE DE LIBRAS E SEUS PARES NO AMBIENTE ESCOLAR Receber apoio de outro colega durante a interpretação é um exercício de humildade e confi ança, bem como uma técnica de atenção e concentração que se aprende só com a prática (SANTA CATARINA, 2013, p. 45). O conhecimento é algo maravilhoso e que deve ser dividido para ser multiplicado, ter fl uência em Libras é o mínimo que se espera daquele que é intérprete de Libras. Não se admite um profi ssional com carência de vocabulário, limitação nas competências e sem nenhuma estratégia linguística para atuar como tal. A fl uência em Libras é a chave principal para a formação de um profi ssional capacitado e competente, aliado a outras questões que já discutimos no decorrer desse caderno. Quem nunca fi cou com dúvida durante uma interpretação? quem nunca precisou reorganizar a sentença para compreender melhor e interpretar com mais segurança? Cotidianamente, somos confrontados em nosso trabalho com situações de desconhecimento ou falta de vocabulário para concluir uma ideia. Contudo, é importante lembrar que em língua de sinais é possível fazer uso de descrições imagéticas que são os classifi cadores para sanar as difi culdades, assim como recorrer aos sinais icônicos que são aqueles que seu sinal representa o conceito real. Claro que um conhecimento profundo na língua materna possibilita fazer uso de sinônimos sem com isso prejudicar a entrega do produto interpretativo (SANTA CATARINA, 2013, p. 46). No ambiente escolar são muitas particularidades que exigem que o intérprete de Libras tenha uma postura adequada para com seu trabalho, mas também com seu colega de profi ssão. Vamos passar as discussões que abrangem esse tema. 92 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA • Cumpra seu papel, intérprete em sala de aula e nos eventos da escola. • Faça o apoio ao seu colega no momento em ele estiver atuando. • Seja ético e profi ssional. • Não apresente expressões de discordância das escolhas tradutórias que ele lançou mão para interpretar. • Não fi que de conversa ou cochichos no momento que seu colega estiver atuando, ao invés disso, fi que atento para o caso de ele precisar de apoio. • Seja humilde, você não é o melhor e único intérprete do mundo, pode até ser que na escola tenha destaque, mas com certeza vai encontrar alguém que lhe supere. • Vai acontecer um evento, você se comprometeu a trabalhar, então vá e trabalhe. Não desista quase no horário marcado para início. • Caso não possa comparecer, busque avisar a equipe com antecedência e busque alguém para lhe substituir. • Sabemos que é difícil resistir aos holofotes que fi cam sobre a cadeira do intérprete e sua imagem, porém, lembre- se seja discreto sempre. • Não seja fofoqueiro, não se envolva em intrigas e conversinhas, intérprete a aula, isso. • Não faça leituras particulares para fazer em sala quando o aluno surdo estiver fazendo atividades, ele pode precisar da interpretação de algum conceito, esteja atento. • Não tente diminuir o trabalho do colega. • Respeite o tempo de troca quando está em evento e trabalhando em duplas, não faça de conta que se esqueceu de trocar ou se perdeu no horário. É importante ressaltar que você não é um intérprete de pessoas, mas sim de línguas, assim, cabe a você interpretar tudo que está sendo dito para que o aluno surdo consiga acompanhar. A escola é um lugar de conhecimento e aprendizagem seja um profi ssional exemplar dentro do seu papel. Entretanto, devemos sempre lembrar que cada profi ssional dentro da escola possui sua própria função e o intérprete é um desses profi ssionais que está ali, presente para desempenhar sua função de maneira séria, efi caz e comprometida. Dessa maneira é importante sabermos quem é o profi ssional intérprete de Libras que está na escola e como sua atuação infl uencia não apenas na vida do aluno surdo, mas também em toda a estrutura da escola. Discutimos até aqui especifi cidades e relacionamentos do intérprete de Libras e os atores que estão inseridos na escola, falamos do intérprete e o aluno, e o professor, e a escola e seus pares, porém, não dialogamos o intérprete e a relação que estabelece 93 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 com ele mesmo enquanto profi ssional. Vamos falar de nós, de nossas escolhas, nossas frustrações e inquietações. É hora que fazer o exercício do espelho, “eu comigo mesmo”, vamos falar da gente? Antes, gostaria de deixar uma indicação de excelente leitura, com ricas pesquisas para aumentar seu conhecimento. Boa leitura LIBRAS E SUA TRADUÇÃO EM PESQUISA FONTE: <https://bit.ly/39R0fez>. Acesso em: 8 fev. 2022. 94 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA 5 Orientados pelo ponto de vista de Lacerda e Góes (2002), Martins (2008) e Albres (2015), quando descortinam a verdade e abordam, entre outros aspectos, a deturpação das relações didático-pedagógicas entre os sujeitos intérprete de Libras x aluno surdo e, também, intérprete de Libras x professor regente. De acordo com a linha de raciocínio das autoras, em muitos casos, ocorre uma transferência da responsabilidade do ensino ao aluno surdo para o intérprete de Libras. Essa função é do professor regente da turma, porém costumamos vivenciar tais situações nas escolas. Por outro lado, o intérprete de Libras muitas vezes deseja apresentar resultados positivos do seu trabalho e acaba assumindo determinada função junto ao aluno surdo. Essa postura impacta de maneira negativa a luta da categoria, favorecendo a confusão que se estabelece entre os atores intérprete de Libras x professor x comunidade surda e ouvinte. Tal desacordo referente à função do intérprete educacional provoca difi culdades no profi ssional que muitas vezes perde o foco de seu papel principal, prejudicandosua atuação no desenvolvimento das competências necessárias para o desempenho efi caz da interpretação. Quadros (2003) e Tuxi (2009) sugerem a necessidade da valorização do profi ssional, em editais de contratação, destacam a importância da formação na área de interpretação da língua de sinais e discutem a questão da competência linguística, problematizando ricamente o assunto por um viés comunicativo uma vez que, para ocorrer intermediação dos conhecimentos no ambiente da escola, é de suma importância que os intérpretes de Libras possuam competência linguística dos pares linguísticos Libras/ Português e não apenas do ponto de vista da língua de sinais. De acordo com o material estudado, leia as questões a seguir e assinale V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) A interpretação simultânea é quando a mensagem fonte está em andamento e o intérprete acompanha essa fala (ou sinalização), ou seja, enquanto o interlocutor está falando, o intérprete interpreta simultaneamente, sem cortes. Enquanto na 95 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 interpretação consecutiva o intérprete escuta (ou vê) a mensagem e assim que fecha uma sentença há uma pausa (TUXI, 2009, p. 13). ( ) O profi ssional intérprete de Libras que se propõe a realizar uma interpretação simultânea, que é a mais utilizada em sala de aula, deve ter ciência que esse ato exige habilidades que vão para além do conhecimento linguístico, considerando que ele está relacionado com a destreza de versar as informações da estrutura linguística de uma língua para outra e ainda ater-se ao fl uxo das informações que continuam a ser transmitidas no decorrer de sua interpretação, a destreza e aptidão interpretativa caminham ao lado das especifi cidades existentes na prática educativa de interpretação do interprete de Libras. ( ) É fundamental compreender que a interpretação não é uma mera codifi cação que se interpõe em uma combinação de confi gurações de mão, movimentos e expressões, a dimensão do conceito de interpretação é para além dessas limitações que envolvem a codifi cação e decodifi cação de informações, perpassa pelo contexto histórico e social em que os sujeitos estão envoltos, contribuindo para a sua formação enquanto ser social. ( ) O intérprete de Libras que atua em ambiente escolar tem um compromisso direto com a construção individual e social do sujeito surdo considerando que é o mediador de conhecimento, esse compromisso apresenta novos desdobramentos na atuação do profi ssional que é um ator muito importante na organização escolar, visto que participa dos processos de ensino- aprendizagem de alunos surdos e, consequentemente, da constituição do sujeito surdo como parte de uma coletividade e ator de sua própria história. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) F – F – F – F. b) ( ) V– F – F – F. c) ( ) V– V– V– F. d) ( ) V– V– V– V. e) ( ) F – F – F – V. 96 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA 4 QUEM É O PROFISSIONAL INTÉRPRETE DE LIBRAS QUE ESTAMOS PROBLEMATIZANDO NO AMBIENTE ESCOLAR? QUAL O SEU PAPEL DENTRO DA SALA DE AULA? Estamos falando de um profi ssional responsável, compromissado com a entrega do produto ao qual se dispôs a realizar. Estamos falando de um profi ssional que infl uencia no desenvolvimento individual e social de um sujeito que tem o direito de receber o melhor serviço, problematizamos igualmente a atuação e atitude do profi ssional intérprete de Libras que a muito tempo está em atuação em diversos ambientes sociais e, para tanto, entendemos que o profi ssional deve, obrigatoriamente, dominar a língua falada do país e possuir a qualifi cação necessária para desempenhar a função de Intérprete de maneira satisfatória (BRASIL, 2004), interpretando, então, da língua de sinais para a língua falada ou vice-versa. Quando nos referimos à qualidade da entrega do produto interpretativo, é importante perceber que a formação do Tradutor intérprete de Libras é destacada no Decreto 5.626 de 22 de dezembro de 2005, dispondo claramente a necessidade da formação profi ssional para atuar na área da tradução e interpretação da língua brasileira de sinais no Brasil. Capítulo V Art. 17. A formação do tradutor e intérprete de Libras –Língua Portuguesa deve efetivar-se por meio de curso superior de Tradução e Interpretação, com habilitação em Libras – Língua Portuguesa. Art. 18. (...) a formação de tradutor e intérprete de Libras – Língua Portuguesa, em nível médio, deve ser realizada por meio de: · I – cursos de educação profi ssional; · II – cursos de extensão universitária; e · III – cursos de formação continuada promovidos por instituições de ensino superior e instituições credenciadas por secretarias de educação. Parágrafo único. A formação de tradutor e intérprete de Libras pode ser realizada por organizações da sociedade civil representativas da comunidade surda, desde que o certifi cado seja convalidado (...) (BRASIL, 2005). As orientações ditadas pelo decreto devem ser cumpridas por aqueles que pretendem tornar-se um profi ssional intérprete, porém, a prática, a postura, a imparcialidade entre outras questões são fundamentais que o intérprete de Libras observe e siga fi elmente para que seu trabalho se torne efi caz e o aluno surdo não seja prejudicado. Assim, cabe também ao profi ssional intérprete realizar a 97 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 interpretação da língua falada para a língua sinalizada e vice-versa observando os seguintes preceitos éticos: • confi abilidade (sigilo profi ssional); • imparcialidade (o intérprete deve ser neutro e não interferir como opiniões próprias); • discrição (o intérprete deve estabelecer limites no seu envolvimento durante a atuação); • distância profi ssional (o profi ssional intérprete e sua vida pessoal são separados); fi delidade (a interpretação deve ser fi el, o intérprete não pode alterar a informação por querer ajudar ou ter opiniões a respeito de algum assunto, o objetivo da interpretação é passar o que realmente foi dito)” (BRASIL, 2004, p. 28). Mesmo com essas orientações, algumas difi culdades surgem no ambiente da escola. Sabemos que muitos intérpretes possuem vínculos com alunos surdos ou com as famílias fora do horário escolar e, por esse motivo, é importante fi carmos atentos para que a relação não seja prejudicada, para que não haja a interferência tanto de um lado quanto de outro lado, tanto dentro como fora dos espaços escolares. As interferências podem enfraquecer a luta pelo reconhecimento e respeito profi ssional, desse modo, acreditamos que algumas ponderações por parte do intérprete de Libras são fundamentais para que as relações sejam saudáveis. 4.1 COLEGA INTÉRPRETE DE LIBRAS OBSERVE QUE Neste tópico, queremos trazer refl exões que, enquanto profi ssionais de tradução e interpretação de Libras nos provocam a pensar nas relações construídas entre os espaços educacionais família e o intérprete. • É possível que você tenha uma relação saudável com os surdos e seus familiares, nada impede que sejas solidário ou voluntário, quando assim julgar necessário. Muitas vezes a família solicita ao intérprete que converse sobre determinado assunto com o surdo por ser a única pessoa que tem fl uência em Libras. Em outra ocasião, o intérprete é solicitado a acompanhar ao médico entre outras situações muito comuns no cotidiano do intérprete de Libras. Contudo, é importante estabelecer um limite de profi ssionalismo adequado para que não venha a ser confundido com um amigo em todas as ocasiões. Nesses casos, é importante uma conversa 98 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA com o surdo e com a família, momento em que deve se esclarecer a diferença entre o atendimento voluntario e o atendimento profi ssional. Estabelecer o bom senso e o equilíbrioentre as situações é fundamental para todos os que desejam realizar as duas maneiras de trabalho. O respeito pela escolha do colega deve se manter, teremos os que querem fazer um trabalho mais voluntário, e aqueles que desejam e têm o direito de receber valores pela sua atuação, porém o equilíbrio é fundamental. Caro colega intérprete, você consegue estabelecer esse equilíbrio saudável? Se a resposta for sim, então siga sua escola, porém, se não está seguro quanto a isso, lembre- se que um coletivo de intérpretes pode ser prejudicado caso sua postura não seja adequada. Pense nisso! • As demandas externas a escola, podem ser atendidas, desde que não seja em horário de trabalho e sempre em duplas. • Em qualquer sala de aula, o professor é a fi gura que tem autoridade absoluta. • Lembre-se de solicitar auxílio ao professor (é um direito e dever seu), para o esclarecimento de conceitos da disciplina, isso irá garantir a qualidade da sua atuação durante as aulas. • Quando fi zer a oralização do Português para Libras, jamais antecipe o pensamento do surdo, mesmo que você saiba o que ele irá falar, jamais se coloque na posição de professor e nunca tente explicar de maneira mais fácil o conteúdo. Esse papel não é seu. • A confi dencialidade é uma marca extremamente fundamental nessa profi ssão, ser ético é indiscutível, o intérprete deve manter-se neutro em qualquer situação de interpretação, jamais comente absolutamente nada a respeito do que foi interpretado, em qualquer situação, a menos que os envolvidos autorizem. • Colega intérprete, você não é o professor da disciplina se mantenha na condição a qual foi contratado. • Garanta a qualidade da interpretação, não aceite fazer longos períodos de sinalização sem pausas e sem o apoio de uma dupla, caso não observe essas questões sua performance será prejudicada e a qualidade do produto de entrega que é a interpretação será inefi caz, sem contar os problemas de saúde que poderás adquirir. • Não faça fofocas e não se envolva em nenhuma intriga, não fale mal dos colegas tão pouco dos professores que interpretares as aulas, seja extremamente discreto. • Não se exponha negativamente para não expor toda a categoria. Caro colega intérprete, não vá para além de sua função, interprete com responsabilidade e competência, busque se qualifi car e se manter informado da sintaxe e semântica da língua de sinais. Participe de seminários e congressos, faça cursos, se atualize sempre, isso vai lhe proporcionar mais segurança e 99 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 qualidade na atuação. Todas essas considerações que pontuamos anteriormente não se esgotam, sempre terá algo a ser acrescentado, então fi que atento a sua postura e busque a autocritica e autoavaliação todos os dias. Essa é uma profi ssão que apesar de estar presente na comunidade surda desde sempre, está também em diferentes contextos, e visto de diversas maneiras. A regulamentação aconteceu a menos de duas décadas e essa conquista forneceu aos intérpretes de Libras a possibilidade de legalizar sua atuação e ser reconhecido pelo seu belíssimo e fundamental trabalho. Vamos garantir essa conquista em nossas mãos de maneira responsável e compromissada, com ética e profi ssionalismo? Vamos começar conhecendo na íntegra a Lei que regulamenta a profi ssão de intérprete de Libras, a nossa profi ssão! LEI Nº 12.319, DE 1º DE SETEMBRO DE 2010. Regulamenta a profi ssão de Tradutor e Intérprete da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art. 1º Esta Lei regulamenta o exercício da profi ssão de Tradutor e Intérprete da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS. Art. 2º O tradutor e intérprete terá competência para realizar interpretação das 2 (duas) línguas de maneira simultânea ou consecutiva e profi ciência em tradução e interpretação da Libras e da Língua Portuguesa. Art. 3º (VETADO) Art. 4º A formação profi ssional do tradutor e intérprete de Libras – Língua Portuguesa, em nível médio, deve ser realizada por meio de: I- cursos de educação profi ssional reconhecidos pelo Sistema que os credenciou; II- cursos de extensão universitária; e 100 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA III- cursos de formação continuada promovidos por instituições de ensino superior e instituições credenciadas por Secretarias de Educação. Parágrafo único. A formação de tradutor e intérprete de Libras pode ser realizada por organizações da sociedade civil representativas da comunidade surda, desde que o certifi cado seja convalidado por uma das instituições referidas no inciso III. Art. 5º Até o dia 22 de dezembro de 2015, a União, diretamente ou por intermédio de credenciadas, promoverá, anualmente, exame nacional de profi ciência em Tradução e Interpretação de Libras – Língua Portuguesa. Parágrafo único. O exame de profi ciência em Tradução e Interpretação de Libras – Língua Portuguesa deve ser realizado por banca examinadora de amplo conhecimento dessa função, constituída por docentes surdos, linguistas e tradutores e intérpretes de Libras de instituições de educação superior. Art. 6º São atribuições do tradutor e intérprete, no exercício de suas competências: I- efetuar comunicação entre surdos e ouvintes, surdos e surdos, surdos e surdos-cegos, surdos-cegos e ouvintes, por meio da Libras para a língua oral e vice-versa; II- interpretar, em Língua Brasileira de Sinais – Língua Portuguesa, as atividades didático-pedagógicas e culturais desenvolvidas nas instituições de ensino nos níveis fundamental, médio e superior, de forma a viabilizar o acesso aos conteúdos curriculares; III- atuar nos processos seletivos para cursos na instituição de ensino e nos concursos públicos; IV- atuar no apoio à acessibilidade aos serviços e às atividades-fi m das instituições de ensino e repartições públicas; e V- prestar seus serviços em depoimentos em juízo, em órgãos administrativos ou policiais. 101 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 Art. 7º O intérprete deve exercer sua profi ssão com rigor técnico, zelando pelos valores éticos a ela inerentes, pelo respeito à pessoa humana e à cultura do surdo e, em especial: I- pela honestidade e discrição, protegendo o direito de sigilo da informação recebida; II- pela atuação livre de preconceito de origem, raça, credo religioso, idade, sexo ou orientação sexual ou gênero; III- pela imparcialidade e fi delidade aos conteúdos que lhe couber traduzir; IV- pela postura e conduta adequadas aos ambientes que frequentar por causa do exercício profi ssional; V- pela solidariedade e consciência de que o direito de expressão é um direito social, independentemente da condição social e econômica daqueles que dele necessitem; VI- pelo conhecimento das especifi cidades da comunidade surda. Art. 8º (VETADO) Art. 9º (VETADO) Art. 10. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. Brasília, 1º de setembro de 2010; 189º da Independência e 122º da República. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA Luiz Paulo Teles Ferreira Barreto Fernando Haddad Carlos Lupi Paulo de Tarso Vanucchi FONTE: BRASIL. Lei Nº 12.319, de 1º de setembro de 2010. Regulamenta a profi ssão de Tradutor e Intérprete da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS. Brasília, DF: Diário Ofi cial [da] República Federativa do Brasil, 2 set. 2010. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/L12319.htm. Acesso em: 27 out. 2021. 102 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA 5 ÉTICA: DOCUMENTOS QUE ORIENTAM A POSTURA E RESPONSABILIDADE DO TRADUTOR INTÉRPRETE DE LÍNGUA DE SINAIS A ética é [uma] daquelas coisas que todo mundo sabe o que são, mas que não são fáceis de explicar, quando alguém pergunta. Tradicionalmente ela é entendida como umestudo ou uma refl exão, científi ca ou fi losófi ca, e eventualmente até teológica, sobre os costumes ou sobre as ações humanas (VALLS, 1994. p. 7). No decorrer de todo esse capítulo buscamos apresentar questões de postura e responsabilidades que cabem ao profi ssional intérprete de Libras. Esse livro como um todo tem o objetivo de fornecer algumas orientações para nortear os profi ssionais que estão envolvidos na educação de surdos, aos intérpretes, pretende ser um apoio um rumo a ser considerado. Sabemos que as discussões aqui apresentadas partem da concepção da autora e que possivelmente receberam releituras por parte dos leitores acadêmicos, e isso deve acontecer naturalmente. Lembrem- se, sejamos autoavaliadores de nosso desempenho e maduros com as críticas que recebemos. Algumas difi culdades surgem diariamente no trabalho do intérprete, e essas inquietações, inclusive no ambiente escolar, suscitaram a criação de manuais e documentos que orientam a conduta desse profi ssional, o Código de Ética é um desses documentos que é importante conhecer e saber do que se trata. Por esse motivo optamos por trazer com brevidade essa discussão, porém, cabe informar que a leitura e refl exão desses documentos tem muita importância para adquirir conduta adequada frente às situações de trabalho do intérprete. Na Live Transmitida em 22 de junho de 2021, o canal do TraduzAi discutiu questões importantes sobre a ética do intérprete de Libras. Deixamos a seguir o link de acesso para que acesse e se curta todas as informações e discussões que são apresentadas. 103 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 LIVE TRADUZAI FONTE: <https://www.youtube.com/watch?v=7Bzb3UDqDZY>. Acesso em: 8 fev. 2022. A profi ssão de intérprete de línguas de sinais, infelizmente, ainda é vista em uma práxis baseada no empirismo, seu reconhecimento aconteceu a pouco tempo e o saber fazer foi acontecendo no cotidiano, assim o Código de Ética vem a ser um documento convencionado entre os seus pares, observando os princípios, e normas de condutas para assegurar a realização de seu trabalho e lutar por reconhecimento de direitos. No livro “Libras e sua tradução em pesquisa” que foi organizado cuidadosamente por Albres (2017), somos presenteados com diversas pesquisas que enriquece nosso conhecimento. Dentre elas destacamos as discussões que o autor Wharlley dos Santos apresenta com riqueza de informações diversas entidades no âmbito nacional que com o passar do tempo buscaram colaborar com o trabalho do intérprete de Libras e nortear suas práticas. Santos (2017) evidencia que na esfera federal: temos a FEBRAPILS (Federação Brasileira das Associações dos Profi ssionais Tradutores e Intérpretes e Guia-Intérpretes de Língua de Sinais), na esfera estadual, das diversas que foram criadas, podemos citar APILSEMG (Associação dos Profi ssionais Intérpretes de Língua de Sinais do Estado de Minas Gerais), APILSBESP (Associação dos Profi ssionais Intérpretes e Guias Intérpretes da Língua de Sinais Brasileira do Estado de São Paulo) e tantas outras que seguem o mesmo 104 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA padrão de formatação e ideias de luta, vinculadas e fi liadas à FEBRAPILS construindo uma rede de articulação nacional dos TILS (SANTOS, 2017 apud ALBRES, 2017, p. 93). Não apenas essas instituições marcaram a luta no apoio à profi ssionalização do intérprete, normalizar a conduta ética em tempos em que as associações ainda não exerciam suas atividades no formato que estão atualmente, coube a FENEIS (Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos) exerceu um papel normatizando as regras e condutas dos intérpretes de língua de sinais em território nacional. Ao total, no Brasil, temos nove associações que representam a categoria profi ssional dos Tradutores Intérpretes de Libras: • ACATILS – Associação Catarinense de Tradutores e Intérpretes de Língua de Sinais; • AGILS – Associação Gaúcha de Intérprete de Língua de Sinais; • APILCE – Associação dos Profi ssionais Intérpretes e Tradutores de Libras; • APILDF – Associação dos Profi ssionais Tradutores/Intérpretes de Língua Brasileira de Sinais do Distrito Federal e Entorno. • APILES – Associação dos Profi ssionais Intérpretes de LIBRAS do Espírito Santo; • APILRJ – Associação dos Profi ssionais Tradutores/Intérpretes de Língua Brasileira de Sinais do Rio de Janeiro; • APILSBESP – Associação dos Profi ssionais Intérpretes e Guias Intérpretes da Língua de Sinais Brasileira do Estado de São Paulo; • APILSEMG – Associação dos Profi ssionais Intérpretes da Língua de Sinais do Estado de Minas Gerais; • APTILS – Associação dos Paranaenses de Tradutores Intérpretes e Guia Intérpretes de Língua de Sinais. Santos (2017) apud ALBRES, 2017) afi rma que das várias associações criadas na esfera estadual, a APILSEMG tem por desafi o buscar a união, valorização e reconhecimento dessa categoria, conforme palavras do site da referida associação. Em âmbito federal, temos a FEBRAPILS (Federação Brasileira das Associações dos Profi ssionais Tradutores e Intérpretes e Guia-Intérpretes de Língua de Sinais) que é a somatória de todas as associações estaduais que representam essa categoria. Algumas delas elaboraram Códigos de Conduta Ética para nortear as ações profi ssionais de seus associados. 105 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 Acesse o Código de Ética do Intérprete de Libras em: http:// portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/tradutorlibras.pdf. FONTE: Acervo pessoal da autora Em meados de 1992 o primeiro “Código de Conduta Ética dos TILS” brasileiros foi apresentado norteando a prática de um profi ssional que já estava há muito no mercado. Apenas no ano de 2004, esse mesmo Código foi publicado em larga escala pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura) intitulado como: “O tradutor e intérprete de língua brasileira de sinais e língua portuguesa” (QUADROS, 2004), o objetivo maior foi de orientar, nortear e disseminar melhores formas de atuação para os intérpretes brasileiros. a fi m de difundir melhores práticas para os TILS na atuação em âmbito nacional. A partir da prática local, as associações de cada estado acabaram por perceber a necessidade de também criar Códigos de Conduta Ética para embasar a atuação de seus associados em âmbito estadual, de igual forma a FEBRAPILS, entidade máxima de representação desses profi ssionais, também pautou e normatizou a atuação em âmbito nacional com a publicação do seu Código de Conduta Ética (SANTOS 2017 p.94). Esse documento é extremamente importante para o profi ssional intérprete de Libras para embasar sua atuação enquanto profi ssional intérprete. Concordamos com Santos, quando ele afi rma que: 106 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA a análise do código se faz necessária ao que tange verifi car congruências e discrepâncias na redação desses e a quais visões sobre a Tradução/Interpretação estão por detrás dessas palavras que subjazem os documentos (SANTOS, 2017 apud ALBRES p. 94). Muitos intérpretes ansiavam por um documento para nortear sua atuação profi ssional, porém, não tem regras, mas sim conduz a maneira ideal e adequada para a profi ssão. Cabe ressaltar que não temos o que é estatizado como Código de Ética, pois não temos conselhos Regionais, ou Federais, não há uma instituição que fi scalize o trabalho desse profi ssional, visto que o Artigo 8º da Lei 12.319, vetou a possibilidade de fi scalização. Temos, então, entidades representativas que apresentam documentos que norteiam e não fi scalizam a conduta com base em valores que são considerados ideais para o profi ssional intérprete de Libras, mas não indica o que está certo ou errado. Contudo, todos esses Códigos de Conduta Ética são documentos que tratam de confi dencialidade, fi delidade e neutralidadeque consideramos ser conceitos fundamentais para a atuação do intérprete de Libras. Toda essa discussão tem por fi nalidade levar uma refl exão a respeito não apenas da postura do profi ssional, mas também da atuação do Intérprete de Libras na sala de aula e em outros espaços que atua, apresentando a importância desse ofício. Objetiva também estimular diversas pessoas para despertar o interesse de buscar conhecimento sobre esta área, sem descuidar da fundamental necessidade da formação qualifi cada. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Muitos questionamentos e inquietações permanecem na conclusão desse livro, inúmeros assuntos que gostaríamos de tratar e trazer à luz para discussão, porém, é impossível abranger todos os títulos desse universo do profi ssional intérprete de Libras. É importante ressaltar que no ambiente escolar, a tradução e a interpretação se entrelaçam com os processos de ensino-aprendizagem, comuns a esse universo, tal situação confere à ação do intérprete de Libras especifi cidades que necessitam de enfoque mais aguçado com vistas à maior discussão e atenção por parte dos sistemas de ensino, pesquisadores e, também, o próprio profi ssional, de maneira a possibilitar a realização de novos estudos que viabilizem um olhar diferenciado de sua atuação. Ressignifi car e repensar a formação do profi ssional intérprete de Libras e sua função na escola junto a todos os atores que circulam nesse espaço, é fundamental para que as relações sejam de troca e crescimento das partes. 107 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 Compreendemos, no decorrer desse capítulo, que o Intérprete de Libras atua como mediador entre o aluno surdo e o professor, que sua função em sala de aula é traduzir da Língua Portuguesa para a Língua de Sinais, ou vice e versa. Estar sempre atento no momento de transferir o conteúdo sem descuidar a atenção das possíveis dúvidas e questionamentos do aluno surdo ao professor, visando sempre a participação do aluno em todos os contextos. Quanto a sua postura e comportamento, o intérprete de Libras deve ter em mente que ele não é o professor da turma a qual está interpretando, e jamais deve interpor nas situações pedagógicas. Após a leitura e a investigação que buscamos no decorrer destas linhas, constatamos que a presença do profi ssional Intérprete de Libras na área da Educação, mais especifi camente em sala de aula, é fundamental e indispensável, para a participação do aluno surdo no processo de ensino- aprendizagem, tendo em vista que a sua inclusão será efetiva se conseguir se comunicar e expressar suas ideias e ponto de vista. No entanto, cabe ressaltar que, apenas a presença do intérprete não é o sufi ciente para uma total transformação. Faz se necessário o envolvimento da comunidade escolar no processo, garantindo a efetividade do ato inclusivo. Outro aspecto importante é um ambiente salutar e favorável para efetivar a aprendizagem, assim o aluno surdo poderá desenvolver suas potencialidades, habilidades, competências e sua criatividade, assim como acontece com todos os alunos da escola. Fomentar debates e discussões acerca da formação continuada para os profi ssionais da educação na perspectiva da inclusão, bem como, erguer a bandeira da importância da capacitação do intérprete de Libras, são fundamentais para a efetiva relação com as especifi cidades da pessoa com surdez. Objetivamos no decorrer dessas linhas apresentar uma obra de orientação aos acadêmicos desta disciplina e que, certamente, possuem curiosidades a respeito da profi ssão de intérprete de Libras em sala de aula. Entretanto, afi rma-se também que este material objetiva contribuir para a difusão de nossas atribuições enquanto profi ssionais, buscando esclarecer as reais funções a nós intérpretes dispendidas. Digo nós, pois sou Tradutora e Intérprete de Libras e, assim como para você caro acadêmico, esse livro provocou em mim refl exões acerca de minha atuação. 108 INTÉrPrETE DE LÍNGuA DE SiNAiS BrASiLEirA NA SALA DE AuLA Diferentes concepções e experiências envolvem a profi ssão do intérprete de Libras, temos ciência de que os Códigos de Conduta Ética e os documentos que orientam a postura desse profi ssional, possivelmente, não são contemplados inteiramente em sua multiplicidade e demandas, porém, os valores neles expostos podem e devem ser discutidos e considerados. Certamente, a luta pelo reconhecimento profi ssional faz parte de todas essas questões principalmente pelo refl exo que tem não apenas no ambiente escolar, mas também na vida dos alunos surdos que recebem uma interpretação de qualidade por meio de um profi ssional satisfeito e seguro de sua atuação. Muitas ações têm ocorrido em território nacional no que tange conquistas de cunho legal, assim como pesquisas que valorizam o trabalho dos tradutores intérpretes de Libras não apenas nas escolas, mas em todos os ambientes em que trabalha e em todas as áreas em que atua. Acreditamos que a busca por excelência na prática aliada ao empoderamento teórico favorece o conhecimento acerca do papel do intérprete e, em consequência, esclarece a todos os atores envolvidos na educação de surdos, quem somos e qual a nossa verdadeira função. Dessa maneira, encerramos este trabalho com muitas inquietações, com o desejo de realizar novas pesquisas com propostas intencionadas pelos ansiosos e pela luta dos intérpretes de Libras que seguem estudando e atentos as especifi cidades de nossa profi ssão, para então garantir respeito e condições de trabalho dignas, sem deixar de lado a seriedade, qualidade e profi ssionalismo e a postura ética que a profi ssão exige. 109 AS ESCOLAS E OS P. I. DE LIBRAS: A I. NO ÂMBITO DA I. Capítulo 3 REFERÊNCIAS ALBRES, N de A. Intérprete Educacional: políticas e práticas em sala de aula inclusiva. São Paulo: Harmonia, 2015. ALBRES Neiva de Aquino (organizadora). Libras e sua tradução em pesquisa: interfaces, refl exões e metodologias /– Florianópolis: Biblioteca Universitária UFSC, 2017. BRASIL. Ministério da Educação. Declaração de Salamanca: Sobre princípios, políticas e práticas na área das necessidades educativas especiais. Salamanca – Espanha, 1994. Disponível em: http://portal.mec. gov.br/seesp/arquivos/pdf/salamanca.pdf. Acesso em: 8 fev. 2022. BRASIL. Ministério da Educação. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF: Senado Federal, 20 dez. 1996. Disponível em: http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 5 fev. 2022. BRASIL. Conselho Nacional de Educaç ã o. 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