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Salistamba Sutra
Sutra da Haste de Arroz
1. Assim eu ouvi: (Certa vez), estava o Senhor Buda residindo em Rajagriha, na montanha
do Pico dos Abutres, e junto com ele estavam 1.250 monges e uma grande assembleia de
Bodhisattvas Mahasattvas. Então, o Venerável Shariputra aproximou-se do lugar
frequentado pelo Nobre Maitreya, o Bodhisattva-Mahasattva. Ao se aproximar, eles
trocaram várias boas e alegres palavras, e se sentaram juntos em uma pedra plana.
2. (Então) o Venerável Shariputra disse ao Nobre Maitreya, o Bodhisattva-Mahasattva:
"Nobre Maitreya, aqui, hoje, o Senhor Buda, olhando para uma haste de arroz, proferiu
este aforismo aos monges: 'Ó monges, aquele que vê a originação dependente vê o Dharma,
e aquele que vê o Dharma vê o Buda'. Tendo dito isso, o Senhor Buda ficou em silêncio.
Qual, (Nobre Maitreya), é o significado do aforismo proferido pelo Senhor Buda? O que é
a originação dependente? O que é o Dharma? O que é o Buda? Como alguém, vendo a
originação dependente, vê o Dharma? (Como alguém, vendo o Dharma, vê o Buda?)"
3. Quando isso foi dito, o Nobre Maitreya, o Bodhisattva-Mahasattva, disse ao Venerável
Shariputra: "(Ó Shariputra), a respeito do que foi dito pelo Senhor Buda, o mestre do
Dharma, o onisciente ('aquele que vê a originação dependente, vê o Dharma, e aquele que
vê o Dharma, vê o Buda'): neste sentido, o que é originação dependente? (A expressão
'originação dependente' significa este tipo de ocorrência; na dependência disso, aquilo
surge.) Ou seja: na dependência da ignorância, surgem as formações (mentais). Na
dependência das formações mentais, surge a consciência. Na dependência da consciência,
surgem nome-e-forma. Na dependência de nome-e-forma, surgem as seis portas (dos
sentidos). Na dependência das seis portas (dos sentidos) surge o contato. Na dependência
do contato, surgem as sensações. Na dependência das sensações, surge o desejo. Na
dependência do desejo, surge o apego (e a aversão). Na dependência do apego (e da
aversão), surge o vir-a-ser. Na dependência do vir-a-ser, surge o nascimento. Na
dependência do nascimento surgem decrepitude e morte - e, então, dor, lamentação,
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sofrimento, depressão e ansiedade (surgem. Assim, o surgimento de toda essa grande massa
de sofrimento ocorre).
4. "Da mesma forma, a partir da cessação da ignorância há a cessação das formações
(mentais). Com a cessação das formações (mentais) há a cessação da consciência. Com a
cessação da consciência há a cessação de nome-e-forma. Com a cessação de nome-e-forma,
há a cessação das seis portas (dos sentidos). Com a cessação das seis portas (dos sentidos),
há a cessação do contato. Com a cessação do contato há a cessação das sensações. Com a
cessação das sensações há a cessação do desejo. Com a cessação do desejo há a cessação
do apego (e da aversão). Com a cessação do apego (e da aversão) há a cessação do vir-a-
ser. Com a cessação do vir-a-ser há a cessação do nascimento. Com a cessação do
nascimento, decrepitude e morte, tristeza, lamentação, sofrimento, depressão e ansiedade
cessam. Assim é a cessação de toda essa grande massa de sofrimento. Isso é chamado de
'originação dependente' (pelo Senhor Buda).
5. "O que é o Dharma? É o Nobre Caminho Óctuplo, a saber: Visão Correta, Pensamento
Correto, Fala Correta, Ação Correta, Meio de Vida Correto, Esforço Correto, Atenção
Plena Correta e Concentração Correta. Este Nobre Caminho Óctuplo, mais a realização de
(seu)s fruto(s), mais Nirvana como uma só coisa, é chamado de Dharrma (pelo Senhor
Buda.)"
6. "O que, então, é o Buda, o Senhor? Aquele que é chamado de Buda por compreender
todos os dharmas (fenômenos), é dotado com o olho da sabedoria e o Corpo-Dharma
(Dharmakaya). Ele vê os dharmas de ambos, tanto daquele que ensina como daquele que é
ensinado.
7. "Como, então, se vê a originação dependente? A este respeito, é dito pelo Senhor Buda:
'Quem vê esta originação dependente (que é), sempre e continuamente desprovida de alma
(atman), verdadeiramente sem distorções, sem identidade, não nascida, que não é a
transformação de uma coisa em outra, não construída, não composta, não obstruída,
inconcebível, gloriosa1, além do medo, inapreensível, inesgotável e, por natureza,
1 Nada sobrepõe a originação dependente.
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incessante, (vê o Dharma). E quem vê o Dharma (que é) também sempre e continuamente
desprovido de alma (atman)... e, por natureza, incessante, vê o insuperável Corpo-Dharma
(Dharmakaya) - o Buda - pelo esforço baseado na clara compreensão do nobre Dharma.'
8. "Por que é chamada de originação dependente? É causal e condicional, e não não-causal
e não-condicional, (por isso é chamada de originação dependente.)
9. "(A este respeito, as características da originação dependente são resumidas pelo Senhor
Buda): 'Resultados (surgem por) condições específicas.' Surgindo ou não Tathagatas,
constante é esta natureza-Dharma, a constância do Dharma, a lei do Dharma, a talidade, a
verdadeira talidade, a talidade inalterável, a realidade, a verdade, sem distorções e
imutável.
10. "Assim, esta originação dependente está da dependência de dois (princípios). Na
dependência de que dois (princípios ela está)? Na dependência de uma relação causal e de
uma relação condicional. Além disso, ela deve ser vista como a simultaneidade de dois
aspectos: objetivo e subjetivo.
11. "O que, então, é a relação causal no aspecto objetivo da originação dependente? É como
quando um broto surge a partir de uma semente, uma folha a partir do broto, uma haste da
folha, um talo da haste, um receptáculo do talo, um botão (do receptáculo), um cálice do
botão, uma flor (do cálice), e um fruto da flor. Quando não há semente, o broto não ocorre
e assim por diante até: quando não há flor, o fruto não ocorre. Mas quando há uma semente,
o desenvolvimento de um broto ocorre, e assim por diante até: quando há uma flor, o
desenvolvimento de um fruto ocorre. Não ocorre à semente, 'eu causo o desenvolvimento
do broto'. Também não ocorre ao broto, 'meu desenvolvimento é causado pela semente', e
assim por diante até: não ocorre à flor, 'eu causo o desenvolvimento do fruto'. Nem ocorre
ao fruto, 'meu desenvolvimento é causado pela flor'. Mas ainda assim, quando há uma
semente, o desenvolvimento, a manifestação do broto ocorre, e assim por diante até:
quando há uma flor, o desenvolvimento, a manifestação do fruto ocorre. Assim deve ser
vista a relação causal no aspecto objetivo da originação dependente.
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12. "Como deve ser vista a relação condicional no aspecto objetivo da originação
dependente? Como a coemergência de seis fatores. Como a coemergência de que seis
fatores? A saber: como a coemergência dos fatores terra, água, calor, ar, espaço e
características das estações, é que deve ser vista a relação condicional no aspecto objetivo
da originação dependente.
13. "Assim, o fator terra executa a função de sustentar a semente. O fator água rega a
semente. O fator calor amadurece a semente. O fator ar traz a semente. O fator espaço
executa a função de não obstruir a semente. As estações executam a função de transformar
a semente. Sem estas condições, o desenvolvimento do broto a partir da semente não
ocorre. Mas quando o aspecto objetivo do fator terra não é deficiente, nem tampouco a
água, o calor, o ar, o espaço e as características das estações são deficientes, então, a partir
da coemergência de todos esses fatores, quando a semente cessa o desenvolvimento do
broto ocorre.
14. "Não ocorre ao fator terra, 'eu executo a função de sustentação da semente', e assim por
diante até: não ocorre às estações, 'nós executamos a função de transformar a semente'.
Nem ocorre ao broto, 'meu nascimento se dá por meio dessas condições', mas ainda assim,
havendo essas condições, quando a semente cessa o desenvolvimento do broto ocorre. E
este broto não é auto-criado, nem criado por umoutro, nem criado por ambos (si mesmo e
outros), nem criado por Deus, nem transformado pelo tempo, nem derivado de prakrti, nem
é fundamentado por um princípio único, (e ainda: não surge sem causa). A partir da
coemergência dos fatores terra, água, calor, ar, espaço e características das estações,
quando a semente cessa o desenvolvimento do broto ocorre. Assim deve ser vista a relação
condicional no aspecto objetivo da originação dependente.
15. "Assim, o aspecto objetivo da originação dependente deve ser visto de acordo com
cinco princípios: Quais cinco? Não como eternidade, não como inexistência, não como
transmigração (de qualquer essência), tal como o desenvolvimento de um grande fruto a
partir de uma pequena causa, e como (um resultado) destinado a ser semelhante àquilo (sua
causa).
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16. "O que significa (ver isso como) 'não eternidade'? Significa que o broto é uma (coisa)
e a semente, outra. O que é a semente não é o broto. Além disso, a semente cessa e o broto
surge. Portanto a eternidade não é (o caso).
17. "O que significa (ver isso como) 'não inexistência'? O desenvolvimento do broto não
ocorre a partir da prévia cessação da semente, nem tampouco sem que ela cesse. Mas ainda
assim a semente cessa, e exatamente no mesmo instante o broto surge, como um balanço
que vai e vem. Portanto a inexistência não é (o caso).
18. "O que significa (ver isso como) 'não transmigração'? A semente e o broto são
diferentes. Portanto a transmigração não é (o caso).
19. "O que significa (ver isso como) 'o desenvolvimento de um grande fruto a partir de
uma pequena causa'? A pequena semente é semeada, e ela causa o desenvolvimento de um
grande fruto. Por isso (isso deve ser visto como) o desenvolvimento de um grande fruto a
partir de uma pequena causa.
20. "O que significa (ver isso como) '(um resultado) destinado a ser semelhante àquilo (sua
causa)'? 'Qualquer que seja a semente semeada, ela causa o desenvolvimento do fruto
correspondente.' Por isso (isso deve ser visto como) (um resultado) destinado a ser
semelhante àquilo (sua causa). Assim é ver o aspecto objetivo da originação dependente
de acordo com cinco princípios.
21. "Da mesma forma, o aspecto subjetivo da originação dependente está na dependência
de dois princípios. Na dependência de que dois princípios? Na dependência de uma relação
causal e de uma relação condicional.
22. "O que, então, é a relação causal no aspecto subjetivo da originacão dependente? É o
seguinte: as formações (mentais) surgem na dependência da ignorância. A consciência
surge na dependência das formações (mentais). Nome-e-forma surgem na dependência da
consciência. As seis portas (dos sentidos) surgem na dependência de nome-e-forma. O
contato surge na dependência das seis portas (dos sentidos). As sensações surgem na
dependência do contato. O desejo surge na dependência das sensações. O apego (e a
aversão) surge na dependência do desejo. O vir-a-ser surge na dependência do apego (e da
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aversão). O nascimento surge na dependência do vir-a-ser. A decrepitude e a morte surgem
na dependência do nascimento - e tristeza, lamentação, sofrimento, depressão e ansiedade
surgem. Assim, o surgimento de toda essa grande massa de sofrimento ocorre. Se não
houvesse ignorância, formações (mentais) não seriam conhecidas, e assim por diante até:
se não houvesse o nascimento, decrepitude e morte não seriam conhecidas. Mas quando há
ignorância, o desenvolvimento das formações (mentais) ocorre, e assim por diante até:
quando há o nascimento, os desenvolvimentos da decrepitude e da morte ocorrem.
Contudo, não ocorre à ignorância, 'eu causo o desenvolvimento das formações (mentais)'.
Nem ocorre às formações (mentais), 'nosso desenvolvimento se dá devido à ignorância', e
assim por diante até: não ocorre ao nascimento, 'eu gero os processos da decrepitude e da
morte'. Também não ocorre à decrepitude e à morte: 'nossos processos se desenvolvem a
partir do nascimento'. Mas ainda assim, quando há ignorância, o desenvolvimento, a
manifestação das formações (mentais) ocorre, e assim por diante até: quando há
nascimento, os desenvolvimentos, as manifestações da decrepitude e da morte ocorrem.
Assim deve ser vista a relação causal no aspecto subjetivo da originação dependente.
23. "Como deve ser vista a relação condicional no aspecto subjetivo da originacão
dependente? Como a coemergência de seis fatores. Como a coemergência de quais seis
fatores? A saber: como a coemergência dos fatores terra, água, calor, ar, espaço e
consciência é que deve ser vista a relação condicional no aspecto subjetivo da originacão
dependente.
24. "Sendo assim, o que é o fator terra no aspecto subjetivo da originacão dependente?
Aquilo que, por conglomeração, causa o desenvolvimento da natureza sólida do corpo, é
chamado de fator terra. Aquilo que executa a função de coesão do corpo é chamado de
fator água. Aquilo que digere o que é comido, bebido ou consumido pelo corpo, é chamado
de fator calor. Aquilo que executa a função de inalação e exalação do corpo é chamado de
fator ar. Aquilo que causa o desenvolvimento do vazio no interior do corpo é chamado de
fator espaço. Aquilo que causa o desenvolvimento de nome-e-forma (mutuamente
sustentados) como juncos em um feixe de junco, é chamado de fator consciência, associado
às cinco consciências dos sentidos e à mente-consciência deludida. Sem essas condições,
o surgimento do corpo não ocorre. Mas se o aspecto subjetivo do fator terra não é
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deficiente, e, da mesma forma, os fatores água, calor, ar, espaço e fatores da consciência
não são deficientes, então, por causa da coemergência de todos esses fatores, o surgimento
do corpo ocorre.
25. "Não ocorre ao fator terra, 'eu causo o desenvolvimento da natureza sólida do corpo'.
Não ocorre ao fator água, 'eu executo a função de coesão do corpo'. Não ocorre ao fator
calor, 'eu executo a função de digerir o que é comido, bebido ou consumido pelo corpo'.
Não ocorre ao fator ar, 'eu executo a função de inalação e exalação do corpo'. Não ocorre
ao fator espaço, 'eu causo o desenvolvimento do vazio no interior do corpo'. Não ocorre ao
fator consciência, 'eu causo o desenvolvimento do corpo'. Nem ocorre ao corpo: 'meu
nascimento se dá por meio dessas condições'. Mas ainda assim, quando existem essas
condições, devido à sua coemergência, o surgimento do corpo ocorre.
26. "Neste sentido, o fator terra não é uma entidade, não é um ser, não é uma alma, não é
uma criatura, não é humano, não é uma pessoa, não é do sexo feminino, não é do sexo
masculino, não é neutro, não é 'eu', não é 'meu', e não é de um outro. Da mesma forma o
fatores água, calor, ar, espaço, e consciência não são uma entidade, não são um ser, não
são uma alma, não são uma criatura, não são humanos, não são uma pessoa, não são do
sexo feminino, não são do sexo masculino, não são neutros, não são 'eu', não são 'meu', e
não são de um outro.
27. "Sendo assim, o que é a ignorância? Aquilo que percebe esses mesmos seis fatores
como uma unidade, como uma massa informe, como permanente, como constante, como
eterno, como agradável, como uma entidade, um ser, uma alma, uma pessoa, um ser
humano, um homem, como produzindo 'eu' ou produzindo 'meu', e assim por diante, através
dos mais variados tipos de identificação, é chamado de ignorância. Quando há essa
ignorância, a ganância, o ódio e a delusão se desenvolvem nas (em relação as) esferas (dos
sentidos). A ganância, o ódio e a delusão nas (em relação as) esferas (dos sentidos) são
chamados formações (mentais). A discreta aparência de objetos é a consciência. Os quatro
agregados aflitos imateriais que surgem junto com consciência são nome. (Nome),
juntamente com os quatro grandes elementos e a matéria derivada é nome-e-forma. As
faculdades (dos sentidos) relacionadas com nome-e-forma são as seis portas (dos sentidos).
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A conjunçãodessas três coisas (consciência, nome-e-forma e as seis portas dos sentidos) é
o contato. A experiência do contato é a sensação. Conectar-se à sensação é o desejo. A
expansão do desejo é o apego (e a aversão). A ação nascida do apego (e da aversão) e dando
origem ao renascimento, é o vir-a-ser. A manifestação dos agregados causada pelo vir-a-
ser é o nascimento. O amadurecimento dos agregados nascidos é decrepitude. O
perecimento dos agregados desgastados é a morte. A queima interna da (pessoa) deludida,
apegada, morrendo, é a dor. Dar vazão a dor é lamentação. A experiência de desprazer
associada às cinco consciências dos sentidos é sofrimento. Sofrimento mental associado à
Mente é depressão. E quaisquer outras contaminações sutis deste tipo que houver são
ansiedade.
28. "(Isso é chamado) ignorância, no sentido de criar uma grande cegueira, formações
(mentais), no sentido de formação, consciência no sentido de causar o saber, nome-e-forma
no sentido de apoio mútuo, seis portas (dos sentidos), no sentido de portas de entrada,
contato (sensorial) no sentido de entrar em contato, sentimentos no sentido de
experimentar, desejo no sentido de estar sedento, apego (e aversão) no sentido de apego (e
aversão), vir-a-ser no sentido de dar nascimento a repetidos vir-a-ser, nascimento no
sentido de manifestação dos agregados, decrepitude no sentido de amadurecimento dos
agregados, morte no sentido de perecer, dor no sentido de luto, lamentação no sentido de
lamentação verbal, sofrimento no sentido de grande tormento, depressão no sentido de
tormento mental, ansiedade no sentido de contaminação sutil.
29. "Em outras palavras, por conduzir ao engano e não conduzir à realidade, a compreensão
equivocada é chamada de ignorância. Assim, quando há ignorância, desenvolvem-se os
três tipos de formações (mentais): a que conduz a estados positivos, a que conduz a estados
negativos e a que conduz à estabilidade. (Como resultado) das formações (mentais) que
conduzem a estados positivos, ocorre a consciência vaidosa. (Como resultado) das
formações (mentais) que conduzem a estados negativos, ocorre a consciência auto-
depreciativa. (Como resultado) das formações (mentais) que conduzem à estabilidade, a
consciência estável ocorre. Isto é chamado de consciência condicionada por formações
(mentais). Assim como a consciência-condicionada nome-e-forma, os quatro agregados
imateriais, sensações etc, causam a inclinação para a existência aqui e ali, e por isso são
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chamados de nome. (Este) nome, que acompanha a forma, mais a forma (em si), é chamado
de nome-e-forma. Pela ampliação deste nome-e-forma, através das seis portas (dos
sentidos), desenvolvem-se atividades. Isto é chamado de seis portas (dos sentidos)
condicionadas por nome-e-forma. Devido às seis portas (dos sentidos), os seis tipos de
contato sensorial se desenvolvem. Isto é chamado de contato condicionado pelas seis portas
(dos sentidos). Para cada tipo de contato que ocorre, se desenvolve o tipo de sensação
correspondente. Isso é chamado de sensação condicionada pelo contato. Aquilo que, ao
discriminar essas sensações, faz com que alguém saboreie (ou repila), aquilo que se delicia
(ou experimenta), e as conexões subjacentes, é chamado de desejo condicionado por
sensações. (Assim) saboreando, deleitando-se e se conectando, há não-renúncia, ou seja, o
desejo reiterado: 'possam essas queridas formas, deliciosas formas, jamais se separarem de
mim'. Isso é chamado de apego condicionado pelo desejo. (Assim, repelindo,
experimentando e se desconectando, há renúncia, ou seja, o desejo reiterado: 'possam essas
aversivas formas, repulsivas formas, jamais se unirem a mim'. Isso é chamado de aversão
condicionada pelo desejo). Este desejo reiterado causa renascimento produzindo karma
que pode surgir por meio de corpo, fala e mente. Isso é chamado de vir-a-ser condicionado
pelo apego (e pela aversão). O desenvolvimento dos agregados nascidos (como resultado)
deste karma é chamado de nascimento condicionado pelo vir-a-ser. Devido ao seu
crescimento e amadurecimento, o perecimento dos agregados desenvolvidos pelo
nascimento ocorre. Isso é chamado de decrepitude e morte condicionadas pelo nascimento.
30. "Assim, estes doze elos da originação dependente com interdependência de causas e
interdependência de condições, não impermanentes, não permanentes, não compostos, não
indivisíveis, não sem causa, não sem condições, que não são um experienciador, que não
são uma coisa destrutível, que não são uma coisa que cessa, que não são uma coisa
perecível, não oriundos de um tempo primordial, não extintos, fluem como um rio.
31. "Como esta originação dependente, não extinta, flui como um rio, quatro ramos destes
doze elos da originação dependente se desenvolvem através (do processo da) causalidade
para (executar) a ação de conglomeração. Quais quatro? A saber: a ignorância, o desejo, o
karma e a consciência.
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32. "Neste sentido, a consciência é uma causa, por ser da natureza de uma semente. O
karma é uma causa, por ser da natureza de um campo. A ignorância e o desejo são uma
causa por serem da natureza da contaminação. Contaminações/karma causam o
nascimento da semente/consciência. Assim, o karma executa a função de ser o campo da
semente/consciência. O desejo rega a semente/consciência. A ignorância semeia a
semente/consciência. Sem essas condições, o desenvolvimento da semente/consciência não
ocorre.
33. "Entretanto, não ocorre ao karma, 'eu executo a função de ser o campo da
semente/consciência'. Não ocorre ao desejo, 'eu rego a semente/consciência'. Não ocorre à
ignorância, 'eu semeio a semente/consciência'. Nem ocorre a semente/consciência: 'meu
nascimento se dá devido (a essas condições)'.
34. "E assim, a semente/consciência cresce, firmando-se no campo do karma, regada pela
umidade do desejo, semeada pela ignorância. Aqui e ali, pelas portas do surgimento, ela
causa o desenvolvimento do broto de nome-e-forma através do renascimento no ventre de
uma mãe. E esse broto de nome-e-forma não é auto-criado, não é criado um por outro, não
é criado por ambos (si mesmo e um outro), não é criado por Deus, não é transformado pelo
tempo, não é derivado de prakrti, não é fundamentado em um princípio único, e ainda: não
surge sem causa. E então, a partir da união da mãe e do pai no período (fértil), e pela
conjunção de outras condições, a semente/consciência, permeada pelo apetite, causa o
desenvolvimento do broto de nome-e-forma no ventre de uma mãe, (inter-relacionado com)
coisas (que são) não regidas, não 'meu', não possuídas, (sem oposição) como o espaço, da
natureza das marcas da ilusão, devido à não-deficiência de causas e condições.
35. "Além disso, a consciência da visão surge através de cinco princípios. Quais cinco? A
saber: condicionada por olhos, forma, luz, espaço e atenção apropriada, assim a consciência
da visão surge. Neste sentido, o olho tem a função de ser a base da consciência da visão. A
forma executa a função de ser o objeto. A luz executa a função de iluminar. O espaço
executa a função de não-obstrução. A atenção apropriada executa a função de reflexão.
Sem essas condições, a consciência da visão não surge. Mas se a porta subjetiva do sentido
da visão não é deficiente, e, do mesmo modo, forma, luz, espaço e atenção apropriada não
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são deficientes, então, através da coemergência de todos estes fatores, a consciência da
visão surge. Entretanto, não ocorre ao olho, 'eu executo a função de ser a base da
consciência da visão'. Também não ocorre à forma, 'eu executo a função de ser o objeto da
consciência da visão'. Não ocorrer à luz, 'eu executo a função de iluminação da consciência
da visão'. Não ocorre ao espaço, 'eu executo a função de não-obstrução da consciência da
visão'. Não ocorre a atenção apropriada, 'eu executo a função de reflexão da consciência
da visão'. Nem ocorrea consciência da visão, 'meu nascimento se dá por meio destas
condições'. Mas ainda assim, havendo essas condições, o surgimento da consciência da
visão ocorre devido à sua coemergência. Assim, uma (análise) correspondente dos demais
(sentidos) pode ser feita.
36. "Sendo assim, não há absolutamente nada que transmigre deste mundo para um outro
mundo. Há (apenas) a aparência do fruto do karma devido a não-deficiência de causas e
condições. Ó monges, isso é como o reflexo de um rosto visto em um espelho bem polido.
Nenhum rosto transmigra para o espelho, mas há a aparência de um rosto devido à não-
deficiência de causas e condições. Assim, não há nada que tenha partido deste mundo, nem
surgido em qualquer outro lugar. Há (apenas) a aparência do fruto do karma, devido a não
deficiência de causas e condições.
37. "Ó monges, isso é como a lua que flutua a 4.000 léguas de altitude, e, mais uma vez,
seu reflexo é visto em uma pequena poça d’água. Ela não sai da sua posição longínqua (no
céu) e transmigra para a pequena poça d’água, mas há a aparência da lua, devido a não
deficiência de causas e a condições. Assim, não há nada que tenha partido deste mundo,
nem surgido em qualquer outro lugar. Há (apenas) a aparência do fruto do karma, devido
a não deficiência de causas e condições.
38. "Da mesma maneira que, quando há combustível como condição, o fogo arde, (e), se o
combustível é deficiente, ele não arde, assim a semente/consciência, nascida de
contaminações/karma, causa o desenvolvimento do broto de nome-e-forma aqui e ali, pelas
portas do surgimento, através do renascimento no ventre de uma mãe, (inter-relacionado
com) coisas (que são) não regidas, não "meu", não possuídas, (sem oposição) como o
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espaço, da natureza das marcas da ilusão, devido à não-deficiência de causas e condições.
Assim deve ser vista a relação condicional no aspecto subjetivo da originação dependente.
39. "Além disso, o aspecto subjetivo da originação dependente deve ser visto de acordo
com cinco princípios. Quais cinco? Não como eternidade, não como inexistência, não como
transmigração (de qualquer essência), tal como o desenvolvimento de um grande fruto a
partir de uma pequena causa, e como (um resultado) destinado a ser semelhante àquilo (sua
causa).
40. "O que significa (ver isso como) 'não eternidade'? Significa que os agregados à beira
da morte são uma coisa, e os agregados que coemergem são outra. Os agregados à beira da
morte não são (idênticos a) aqueles que coemergem. Além disso, os agregados à beira da
morte cessam, (e) os agregados que coemergem se manifestam. Portanto, a eternidade não
é (o caso).
41. O que significa (ver isso como) 'não inexistência'? Os agregados que coemergem não
se manifestam a partir da prévia cessação dos agregados à beira da morte, nem tampouco
sem que eles cessem. Mas, ainda assim, os agregados à beira da morte cessam, e
exatamente no mesmo instante os agregados que coemergem se manifestam, como um
balanço que vai e vem. Portanto, a inexistência não é (o caso).
42. O que significa (ver isso como) 'não transmigração'? Diferentes espécies causam o
desenvolvimento do nascimento de modo comum. Portanto, transmigração não é (o caso).2
43. O que significa (ver isso como) 'o desenvolvimento de um grande fruto a partir de uma
pequena causa'? Uma pequena ação (karma) é realizada, e um grande fruto resultante é
experienciado. Portanto, 'o desenvolvimento de um grande fruto a partir de uma pequena
causa' é (o caso).3
44. "O que significa (ver isso como) '(um resultado) destinado a ser semelhante àquilo (sua
causa)? Qualquer que seja o tipo de ação (karma) realizada, o (mesmo) tipo de resultado é
2 A semente não vai para o broto, tampouco o broto vem da semente. Existe apenas uma continuidade. Qual
é o exato momento em que a semente se torna broto?
3 Uma semente de arroz pode dar origem a um campo de arroz.
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experienciado. Assim, (o resultado) é destinado a ser semelhante àquilo (sua causa). (Assim
é ver o aspecto subjetivo da originação dependentede acordo com cinco princípios.)
45. "Venerável Shariputra, aquele que, com perfeita sabedoria, vê esta originação
dependente, perfeitamente estabelecida pelo Senhor Buda, como ela realmente é: sempre e
continuamente desprovida de alma, verdadeiramente sem distorções, sem identidade, não
nascida, que não é a transformação de uma coisa em outra, não construída, não composta,
não obstruída, inconcebível, gloriosa, além do medo, inapreensível, inesgotável e, por
natureza, incessante, (aquele que) a vê claramente como irreal, como vaidade, vazia, sem
substância, como uma doença, uma bolha, um ferrão, como perigosa, impertinente, como
sofrimento, como vazia e sem identidade, tal pessoa não reflete sobre o passado
(pensando): 'eu existia no passado, ou não? O que eu era no passado? Como eu era no
passado?' Nem reflete sobre o futuro (pensando): 'Vou existir no futuro, ou não? O que
serei no futuro? Como serei no futuro?' Nem reflete sobre o presente (pensando): 'O que é
isso? Como é isso? Sendo o que, nos tornaremos o que? De onde vem este ser? Para onde
irá quando tiver partido daqui?'
46. "Todos os dogmas que haviam sido sustentados pelos ascetas e sacerdotes comuns do
mundo até então, ou seja, (dogmas) referentes a: crença em uma identidade, (crença em um
'ser') crença na alma, (a crença em uma 'pessoa'), ritos e rituais , estes (dogmas) foram
abandonados, nesta ocasião, plenamente reconhecidos (como falsos), cortados pela raiz,
secos como a pluma de uma palmeira Taliput, dharmas para nunca mais surgirem ou
cessarem (novamente) no futuro.
47. "Venerável Shariputra, todo aquele que, assim dotado de paciência no Dharma, entende
perfeitamente a originação dependente, para ele, o Tathagata, o Honrado pelo Mundo, o
perfeita e completamente iluminado, dotado de (perfeita) sabedoria e conduta, o
insuperável, conhecedor de (todos) os mundos, cocheiro insuperável de pessoas que
necessitam ser domadas, professor de deuses e seres humanos, o Buda, o Senhor, prevê
iluminação perfeita, completa e insuperável (dizendo): 'ele se tornará um Buda perfeito e
completo!'"
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48a. (De acordo com Mp. 594): (Então, o Venerável Shariputra, feliz e alegre com as
palavras do Nobre Maitreya, o Bodhisattva-Mahasattva, levantou-se de seu assento, e os
outros monges também partiram.)
48b. (De acordo com T): (Assim falou Maitreya, o Bodhisattva-Mahasattva, e o Venerável
Shariputra, juntamente com todo o mundo, com seus deuses, humanos, asuras e gandarvas,
encantado, regozijou-se com as palavras dele).
# FIM