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2018-LourivaldodosSantosSouza

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UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA 
CENTRO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL MESTRADO 
PROFISSIONAL EM SUSTENTABILIDADE JUNTO A POVOS 
E TERRAS TRADICIONAIS 
 
 
 
 
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO 
 
 
 
 
 
Transformações do sistema agrícola da Comunidade Quilombola 
Kalunga do Mimoso (Tocantins): a agricultura de corte e queima em 
questão 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
LOURIVALDO DOS SANTOS SOUZA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
BRASÍLIA / DF - 2018 
LOURIVALDO DOS SANTOS SOUZA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Transformações do sistema agrícola da Comunidade Quilombola 
Kalunga do Mimoso (Tocantins): a agricultura de corte e queima em 
questão 
 
 
 
 
Dissertação submetida como requisito parcial para obtenção do 
grau de Mestre no Programa de Pós- Graduação Profissional 
em Desenvolvimento Sustentável (PPG-PDS), Área de 
Concentração em Sustentabilidade junto a Povos e Terras 
Tradicionais. Orientadora: Prof.ª Drª Ludivine Eloy 
 
 
 
 
 
 
BRASÍLIA / DF - 2018 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
É concedida à Universidade de Brasília permissão para reproduzir cópias desta 
dissertação e emprestar ou vender tais cópias somente para propósitos acadêmicos 
e científicos. O autor reserva outros direitos de publicação e nenhuma parte desta 
dissertação de mestrado pode ser reproduzida sem a autorização por escrito do 
autor. 
 
 
 
 
 
 
Lourivaldo dos Santos Souza 
 
 
Orientadora: Profª Drª. Ludivine Eloy 
Dissertação de Mestrado - Centro de Desenvolvimento Sustentável-CDS. 
Universidade de Brasília-UnB. 
Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a Povos e Terras Tradicionais -, 
MESPT 
Comunidade Quilombola Kalunga do mimoso (Tocantins): a agricultura de corte e 
queima em questão. Brasília, DF, 2018. 
Transformações do sistema agrícola da SOUZA, Lourivaldo dos Santos. 
DEDICATÓRIA 
 
 
 
 
 
 
 
 
Dedico este trabalho a todas as pessoas que gostam de ler e escutar relatos 
populares, científicos e acadêmicos. 
AGRADECIMENTOS 
 
 
 
 
 
A Deus 
 
A toda minha família, amigos e parentes que contribuíram direto ou indiretamente 
para a construção deste trabalho. 
 
A Professora e Orientadora Drª Ludivine Eloy 
 
Aos professores do MESP 
 
Aos agricultore(a)s e moradore(a)s quilombolas da comunidade Kalunga do Mimoso 
 
RESUMO 
 
 
 
Este trabalho apresenta uma reflexão sobre o sistema agrícola praticado na 
Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso, localizada no município de Arraias 
(Tocantins), e tem como objetivo descrever a diversidade e a transformação dos 
sistemas de cultivos de roça de toco praticados na referida comunidade, com um 
recorte na biodiversidade local e nas transformações da agricultura de corte e 
queima. Para tanto, a pesquisa de campo envolveu entrevistas, questionários 
semiestruturados, percurso comentado aos setores de produção agrícola: roças e 
quintais, com 12 produtore(a)s1 de cinco núcleos familiares. Identificamos uma alta 
agrobiodiversidade, com 101 espécies e variedades, incluindo 5 variedades de 
arroz, 6 de feijão, 4 de milho e outras que demonstraremos no decorrer deste 
trabalho. Esta diversidade garantiu o sustento alimentar de muitas famílias kalungas 
durante muitos anos, frente ao desafio das invasões das terras por fazendeiros 
ocorridas há mais de 90 anos. Hoje, diante ao avanço rápido das monoculturas de 
larga escala no Cerrado, a referida comunidade se destaca pela biodiversidade e 
pela produção de alimentos em uma lógica de subsistência, com venda dos 
excedentes (sobretudo farinha de mandioca). No entanto, nos últimos anos, num 
contexto de reconhecimento e reocupação do território Quilombola, combinado a 
diversificação das atividades das famílias Kalunga nas cidades e a mudança do 
regime de chuva, observamos a perda de biodiversidade vegetal e a adoção 
crescente de novas técnicas de cultivo, como a conversão das roças em pastagens, 
o uso do trator e agroquímicos, utilizados para aumentar a produtividade do trabalho 
agrícola. No intuito de contribuir para a gestão territorial Quilombola, realizamos 
levantamento da biodiversidade cultivada, sementes que foram perdidas, e 
caracterização dos sistemas agrícolas. 
 
Palavras – chave: Comunidade Kalunga do Mimoso, agricultura de corte e queima 
agrobiodiversidade. 
 
1
 Produtores na comunidade Kalunga do Mimoso são moradores que cultivam roças, quintais e 
alguns também criam gado. 
 
SUMÁRIO 
INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 11 
METODOLOGIA ...................................................................................................... 17 
1. HISTÓRIA DO TERRITÓRIO 
1.1 - A Chegada dos moradore(a)s e seus sistemas produtivos .............................. 19 
1.2 - A grilagem de terras pelos fazendeiros ............................................................ 27 
1.3 – Consequência da grilagem de terras no sistema agropecuário Kalunga 
.................................................................................................................................. 29 
1.4 – Reconhecimento do território .......................................................................... 31 
1.5 – A organização atual da comunidade ............................................................... 34 
2. AS PAISAGENS E SEUS USOS ATUAIS 
2.1 - Paisagens Kalunga (Mimoso) .......................................................................... 35 
3. OS TIPOS DE ROÇA (SISTEMAS DE CULTIVOS) 
3.1 - Roça de toco .................................................................................................... 42 
3.2 - Roça de pasto .................................................................................................. 46 
3.3 - Roça com trator ............................................................................................... 49 
3.4 - Roça com Agroquímicos .................................................................................. 52 
3.5 - Quintais ............................................................................................................ 54 
4. AS TRANSFORMAÇÕES DO SISTEMA AGRÍCOLA 
4.1 - As transformações recentes ..............................................................................55 
4.2 – Impactos das transformações das práticas agrícolas sobre a dinâmica das 
paisagens kalunga......................................................................................................59 
4.3.1 – A rebrota da vegetação ................................................................................ 61 
4.4 – Mecanização e uso de agroquímicos .............................................................. 61 
4.5 – Da floresta a pastagem ................................................................................... 66 
4.6 – O uso de glifosato e suas consequências ....................................................... 68 
4.7 – Perda de biodiversidade ................................................................................. 69 
4.8 – Impactos da mecanização das roças sobre a paisagem ................................. 75 
5. REFLEXÕES PARA A GESTÃO TERRITORIAL KALUNGA ............................. 77 
CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................... 81 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................ 86 
LISTA DE FIGURAS 
 
 
 
Figura 1: Mapa Oficial do Território Quilombola Kalunga do Mimoso (INCRA/TO) ...... 32 
Figura 2: Diagrama de perfil (1) e cobertura arbórea (2) de um Cerradão 
representando uma faixa de 80 m de comprimento por 10 m de largura. ..................... 37 
Figura 3: Mata de Capão Kalunga (Cerradão) ............................................................. 37 
Figura 4: Diagrama de perfil (1) e cobertura arbórea (2) de uma Mata Ciliar 
representando uma faixa de 80 m de comprimento por4 m de largura nos períodos 
seco (maio a setembro) e chuvoso (outubro a abril) ..................................................... 38 
Figura 5: Mata Ciliar Kalunga, ao longo do – Rio Paranã ............................................. 39 
Foto Figura 6: Vereda Kalunga (Campo Limpo) .......................................................... 40 
Figura 7: Cerrado Kalunga (Cerrado). .......................................................................... 40 
Figura 8: Roça de toco após queima ............................................................................ 44 
Figura 9: Roça de toco – imagem ................................................................................ 45 
Figura 10: Roça de pasto (capim braquiária) ............................................................... 46 
Figura 11: Roça de milho coexistindo com plantio de alimentos (milho) e capim. A 
roça é destinada, desde sua criação, para ser um pasto .............................................. 47 
Figura 12: Roça com trator e plantação de arroz, milho com trator .............................. 49 
Figura 13: Roça cultivada com uso de agroquímicos ................................................... 53 
Figura 14: Roça com o uso de agroquímicos/2018 ...................................................... 58 
Figura 15: Morador eliminando ervas da ninha com o Roundup .................................. 59 
Figura 16: roça de pasto ............................................................................................... 60 
Figura 17: Roça com trator núcleo Arião ...................................................................... 63 
Figura 18: Roça de toco Beira do Rio Paranã .............................................................. 63 
Figura 19: : Rebrota vegetal num toco, dentro de uma capoeira de 4 anos – Núcleo 
Arião .............................................................................................................................. 64 
LISTA DE TABELAS 
 
 
Tabela 1: Lista dos entrevistados ................................................................................. 17 
Tabela 2. Levantamento da diversidade de plantas cultivadas nas roças e quintais 
de 12 agricultores do Território Quilombola Kalunga ..................................................... 22 
Tabela 3: Etapa de regularização fundiária .................................................................. 32 
Tabela 4: Fitofisionomias do Cerrado e categorias Kalunga ......................................... 35 
Tabela 5: repartição dos sistemas de cultivo identificados nos diferentes núcleos do 
Território Kalunga do Mimoso ....................................................................................... 42 
Tabela 6: Calendário agrícola da Roça de toco de 1 ano ............................................. 43 
Tabela 7: Itinerário técnico da roça de toco do Produtor(a) B ....................................... 43 
Tabela 8: Biodiversidade roças de toco (ano de cultivo 2017 – 2018) (1 tarefa, 1 
tarefa, 1/5 tarefa, 3 tarefas) ........................................................................................... 45 
Tabela 9: Histórico e rotação numa Roça de pasto de 8 anos ..................................... 48 
Tabela 10: Núcleo Arião – Produtor Gabriel ................................................................. 48 
Tabela 11: Da Roça de toco e à roça de pasto em 3 anos ........................................... 49 
Tabela 12: Atividades agrícolas em uma roça com Trator – extensão 220 m2 50 
Tabela 13: Biodiversidade em duas roças com trator (220 e 85m2) cultivo atual .......... 51 
Tabela 14: Itinerário técnico numa roça com uso de agroquímicos de 2 anos 
(Produtor(a) A) .............................................................................................................. 52 
Tabela 15: Rotações interanuais numa roça com uso de agroquímicos / Calendário 
agrícola ......................................................................................................................... 52 
Tabela 16: Roça com agroquímicos Produtor(a) A (cultivo atual) extensão de quatro 
tarefas ........................................................................................................................... 53 
Tabela 17: Roça de toco com uso de herbicidas 5 anos .............................................. 53 
Tabela 18: Biodiversidade dos Quintas ....................................................................... 54 
Tabela 19: Sistemas de cultivo por núcleo Kalunga do Mimoso ................................... 55 
Tabela 20: Roça de toco – Produtor(a) F ...................................................................... 58 
Tabela 21: Principais espécies de arvores levantadas em capoeiras de diferentes 
idades após roça de toco .............................................................................................. 66 
Tabela 22: Roça de toco e roça com trator 3 anos (núcleo Mimoso) ............................ 67 
Tabela 23: Roça de pasto 15 anos (núcleo Mimoso) .................................................... 67 
Tabela 24: Roça de pasto 25 anos (núcleo Mimoso) .................................................... 67 
 
Tabela 25: Roça de pasto 4, 5 e 6 anos. ...................................................................... 67 
Tabela 26: Biodiversidade quintal e roça – Produtor(a) C – cultivo atual ...................... 71 
Tabela 27: Lista de plantas perdidas ............................................................................ 73 
Tabela 28: Produtor(a) A (roça de toco 6 anos de cultivo/cultivo com agroquímicos a 
partir do 3º ano de cultivo – Núcleo Forte ..................................................................... 74 
Tabela 29: Produtor (a) C - roça de toco e com trator. ................................................. 74 
Tabela 30: Produtor(a) J - roça de toco e roça com trator 3 anos................................. 74 
Tabela 31: Produtor(a) F - roça de toco – com uso de herbicidas 3 anos .................... 74 
Tabela 32: Produtor(a) G - Roça de toco 1 ano ............................................................ 74 
11 
 
INTRODUÇÃO 
 
 
A expansão industrial do agronegócio e as mudanças nos sistemas agrícolas 
tradicionais têm causado alterações nas paisagens, destruição de matas, nascentes 
de rios e córregos do Bioma Cerrado. Neste sentido qual o futuro das famílias que 
dependem destes recursos para sobreviver? 
Na Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso o êxodo rural proporcionou 
mudanças significativas nos sistemas agrícolas, e causou alterações nas paisagens 
do Cerrado. 
A destruição do Cerrado pode causar diversos problemas ambientais, como 
escassez de água, extinção de espécies animais e vegetais, erosão e 
enfraquecimento da fertilidade do solo. 
 
O Cerrado possui a flora mais rica entre as savanas do mundo (> 7000 
espécies) e altos níveis de endemismo. A riqueza de espécies de aves, 
peixes, répteis, anfíbios e insetos é igualmente alta, enquanto a diversidade 
de mamíferos é relativamente baixa. As taxas de desmatamento foram 
maiores no Cerrado do que na Amazônia, e os esforços de conservação 
foram modestos: apenas 2,2% de sua área está sob proteção legal. 
Numerosas espécies animais e vegetais estão ameaçadas de extinção, e 
estima-se que 20% das espécies ameaçadas e endêmicas não ocorram em 
áreas protegidas. (MACHADO, 2005, p.1) 
 
 
Segundo Silva (2007), o Cerrado é uma savana composta por formações 
florestais, savânicas e campestres. Possui uma vegetação onde predomina espécies 
de gramíneas com árvores de pequeno porte e esparsas, arbustos isolados e em 
pequenos grupos. 
O Cerrado, segundo Walter; Ribeiro (2010) ocupa 22% do território brasileiro. 
Apresenta classes de solos que determinam diferentes tipos de vegetação, sendo 
este reconhecido como uma savana tropical que revela fitofisionomias como: 
campos, cerrados, matase veredas, apresentando duas estações bem definidas: 
uma seca e outra chuvosa. 
O Bioma Cerrado ocupa 91% do território tocantinense (IBGE, 2007) e a 
vegetação deste tipo de bioma pode variar em algumas regiões do estado. As 
formações florestais do Cerrado estão tipicamente associadas aos recursos hídricos, 
acompanhando cursos de água, mas podem ocorrer desvinculadas dos recursos 
12 
 
 
 
 
hídricos em solos mais ricos. Essa categoria possui quatro subdivisões: a mata ciliar, 
a mata de galeria, mata seca e cerradão. Já os ecossistemas savânicos e 
campestres são tipicamente associados ao cerrado, e espalham-se de acordo com 
variáveis climáticas e pedológicas. A classe de solo, a escassez de água em grande 
parte do ano, e a passagem do fogo são fatores que delimitam as fitofisionomias 
cerratences. (SILVIA, 2014, p.30) 
Para Ribeiro (2008) o Cerrado é: 
 
 
O segundo bioma brasileiro, com uma área em torno de 204 milhões de 
hectares, que distribui, sobretudo, pelos estados de Minas Gerais, Goiás, 
Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Bahia, Piauí, Maranhão e 
Distrito Federal. Localizado numa área central do Brasil, se conecta com 
quase todos os outros biomas, constituindo áreas de transição entre eles e 
representando um ponto de equilíbrio entre as diversas paisagens 
brasileiras. (2008, p.01) 
 
Percebe-se que os avanços tecnológicos, o crescimento populacional, a 
expansão industrial, o agronegócio e o consumo de recursos naturais têm causado 
mudanças significativas nas paisagens do cerrado tocantinense e nos modos de 
vida e práticas agrícolas das famílias que vivem em comunidades rurais. 
As políticas de fortalecimento da agricultura familiar, e a preservação do 
cerrado dificilmente chegam às comunidades rurais. E quando chegam são 
pensadas somente por agentes políticos que não conhecem a realidade social, 
cultural daquele povo. Isso inviabiliza a efetivação das políticas. 
As famílias que vivem em comunidades rurais no estado do Tocantins 
possuem uma forma de organização social de uso da terra baseada na agricultura 
familiar. Algumas comunidades como Kalunga de Goiás, Claro, Prato e Ouro Fino e 
Kalunga do Mimoso em Tocantins ainda praticam a agricultura de corte e queima. 
Este sistema é conhecido na comunidade Kalunga do Mimoso como roça de 
toco, roça de palhada, roça de coivara ou, simplesmente, roça. 
A agricultura de corte e queima é praticada há milênios em regiões tropicais 
do planeta, caracterizando o principal sistema de produção de alimentos de 
subsistência das populações rurais (Produtor(a) Aso Jr, et al 2008). 
 
A agricultura de corte e queima, na sua definição mais ampla, é qualquer 
13 
 
sistema agrícola contínuo no qual clareiras são abertas para serem 
cultivadas por períodos mais curtos de tempo do que aqueles destinados ao 
pousio (PRODUTOR(A)ASO Jr. N. N. et al 2008, p.2) 
 
Segundo relato do Produtor(a) J o sistema de cultivo de corte e queima é 
praticado na comunidade quilombola Kalunga do Mimoso há mais de 240 anos. 
Essas práticas são realizadas a partir de métodos e técnicas herdadas dos 
antepassados. Elas permitiram ao longo dos anos a produção de alimento e a 
soberania alimentar das famílias que vivem na comunidade. Para desenvolver as 
práticas agrícolas de corte e queima, os agricultores utilizam florestas, água da 
chuva e solos férteis. 
As famílias que vivem em comunidades rurais no estado do Tocantins 
geralmente praticam a agricultura familiar e o sistema de cultivo de roça de toco. 
Essas práticas são realizadas a partir de métodos e técnicas herdadas dos 
antepassados. Essas famílias relacionam e vivem agregadas aos recursos naturais 
existentes no seu território, e essa vivência desperta nesses agricultores uma 
consciência de preservação, e consumo de subsistência dos recursos naturais 
daquela localidade, assim não seja um problema para a existência das novas 
gerações. 
A expansão do agronegócio ameaça duplamente este sistema de cultivo: de 
um lado, a perda de territórios e a degradação ambiental restringem estas práticas, e 
de outro lado, a agricultura de corte e queima é “acusada” por pesquisadores e 
ambientalistas pelo uso do fogo e por causar a instabilidade de ecossistemas ditos 
sensíveis, construindo assim uma imagem "sustentável" do agronegócio (Eloy et al. 
2016). 
No entanto, sabe-se que o uso do fogo nos sistema de corte e queima é 
usado como ferramenta de manejo, e tem mostrado no decorrer de décadas que é 
uma atividade de baixo impacto. “O fogo é uma ferramenta de manejo muito antiga e 
amplamente utilizada no manejo e conversão das paisagens tropicais. Desempenha 
papel preponderante no sustento de milhões de pessoas devido a seu papel central 
em várias práticas agrícolas e sociais”. (Mistry & Bizerril, 2011), 2011, p.2) 
Segundo a Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Estado 
do Tocantins (COEQTO) em 2017, o estado de Tocantins já possuía 47 
Comunidades Quilombolas certificadas pela Fundação Cultural Palmares e com 
processo de regularização Fundiária de seus territórios noInstituto Nacional de 
14 
 
Colonização e Reforma Agrária (INCRA). 
A Comunidade do Kalunga do Mimoso/TO está localizada nos municípios de 
Paranã e Arraias, a 120 km desta cidade. O território de Kalunga do estado de Goiás 
foi decretado Sítio Histórico e Patrimônio Cultural de Goiás em 1991. 
 
Este novo cenário‟ identitário assegurou a inclusão social do grupo Kalunga 
não apenas como comunidade quilombola, mas como patrimônio histórico e 
cultural de Goiás. Isso significa dizer que este fato contribuiu para a 
minimização das tensões e conflitos agrários naquele local. (OLIVEIRA, 2006, 
p.13) 
 
O Kalunga de Tocantins ficou de fora desse processo de criação porque 
pertencia a outro estado. As comunidades que pertencem ao território Kalunga de 
Goiás começaram a ser certificadas e reconhecidas pela Fundação Cultural 
Palmares a partir da década de 90. No Tocantins, os Kalungas foram reconhecidos 
anos depois. A comunidade teve seu território reconhecido e certificado pela 
Fundação Cultural Palmares em 12 de setembro de 2005 e em 16 de dezembro de 
2010 o Governo Federal decretou a criação do Território com 57.465 ha. 
O Kalunga do Goiás em 1991 foi decretado Sítio Histórico e Patrimônio 
Cultural de Goiás. O Kalunga de Tocantins ficou de fora desse processo de criação 
porque pertencia a outro estado. 
As comunidades que pertencem ao território Kalunga de Goiás começam a 
ser certificadas e reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares a partir da década 
de 90, Kalunga de Tocantins foi anos depois, sendo certificado no ano de 2005. 
Hoje, as comunidades quilombolas do estado de Tocantins que já obtiveram o 
reconhecimento do Território e que já receberam algumas propriedades de terra 
estão precisando ocupar e gerir seus territórios. 
Como membro Coordenador Estadual da Coordenação Estadual das 
Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO), acompanho a entrega de 
Certificações de Reconhecimento Histórico e Cultural assim como entrega de Títulos 
de Terras em várias comunidades no estado. 
De fato, observa-se que a demarcação tardia propõe novos desafios para os 
povos de comunidades rurais quilombolas, uma vez que o êxodo rural ocorrido há 
anos, causa um esvaziamento destas comunidades. Além disso, pouco se sabe 
sobre a diversidade e as evoluções recentes dos sistemas agrícolas Kalunga, ainda 
que existam muitas produções importantes e crescentes sobre a Comunidade 
15 
 
Kalunga inclusive de alunos Kalungas. No entanto, poucos se atentam para as 
mudanças nas práticas agrícolas e paisagens locais. 
A maior parte dos trabalhos escritos sobre a Comunidade Kalunga trata sobre 
cultura, educação, plantas medicinais, festejos religiosos etc. Os autores (Oliveira, 
2003; Silva, 2016; Cunha, 2010; Rocha, 2009; Caxito, 2009; Costa, 2008; Costa, 
2017) desenvolveram pesquisas na comunidade QuilombolaKalunga do Mimoso, 
mas nenhum abordou os sistemas agrícolas locais e as mudanças nas práticas 
agrícolas. 
Assim, escolhi como campo de pesquisa a nossa comunidade denominada 
Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso, localizada no sudeste do Tocantins, 
considerando a escassez de informações e a falta de pesquisa sobre o tema em 
questão. 
De fato, apesar dos Kalungas já terem sido alvo de muitos estudos, das mais 
diversas áreas do conhecimento (Baiocchi, 1999; Siqueira, 2012; Santos, 2012; 
Valente, 2007; Isoldi, 2008; Marinho, 2008; Neiva et al., 2011; Almeida, 2010), os 
sistemas agrícolas dessas comunidades só começaram a receber atenção 
recentemente, revelando uma rica biodiversidade e cultura alimentar (Ungarelli, 
2009; Fernandes, 2014; Pereira, 2011). Essas pesquisas, contudo, abordam a 
questão das dinâmicas dos sistemas agrícolas Kalunga de forma fragmentada e 
pontual, sem abranger a complexidade do sistema no território como um todo 
(incluindo Goiás e Tocantins). 
Além disso, nenhuma pesquisa abordou o impacto das práticas produtivas e 
de manejo locais nas dinâmicas das paisagens. Essa questão é de suma 
importância, visto o desenho de políticas e instrumentos de gestão ambiental e de 
manejo integrado do uso do fogo (brigadas comunitárias, queimadas prescritas) nos 
Territórios Quilombolas (reconhecidos desde 2007 como áreas protegidas), e frente 
a programas de extensão rural que procuram geralmente substituir essas práticas 
por sistemas considerados mais eficientes e sustentáveis (Sistemas Agroflorestais, 
manejo de pastagens sem fogo, roças com tratores, distribuição de sementes etc.). 
Nos últimos anos, presenciamos um envolvimento crescente dos jovens 
Kalunga na produção científica acerca das suas comunidades, principalmente nos 
cursos de Licenciatura em Educação do Campo (LEdoC - campus Planaltina da 
Universidade de Brasília) e de Mestrado em Sustentabilidade junto a Povos e 
Territórios Tradicionais (MESPT – Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB). 
16 
 
Estudantes Kalunga do MESPT estão realizando suas pesquisas 
colaborativas no território, as contribuem para levantamento e coletada de dados em 
parceria com a comunidade de forma que essa pesquisa possa ser usada como 
ferramenta de luta e gestão diante os desafios sociais e políticos. As pesquisas 
colaborativas apontam para um novo paradigma na produção de conhecimento a 
partir das interações entre os chamados sistemas tradicionais de conhecimento e a 
ciência, a fim de gerar novas sínteses que ampliem a compreensão sobre 
fenômenos sociais e naturais diversos e favoreçam relações mais positivas entre a 
pesquisa e a intervenção, sobretudo no contexto de comunidades e no campo da 
conservação ambiental. 
O envolvimento político tanto no movimento Quilombola do Estado do 
Tocantins, assim como atuação como membro titular da Associação de Pequenos 
Produtore(a)s da Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso, além da elaboração 
e aplicação de projetos sociais, culturais e agrícolas e agora como pesquisador da 
comunidade, permitiu-me compreender a necessidade e importância de se fazer a 
gestão territorial e dos recursos naturais existentes na comunidade. 
Neste sentindo, pretende-se refletir sobre a evolução das práticas agrícolas e 
apropriação das paisagens vegetais pelos produtore(a)s quilombolas para o 
desenvolvimento das roças. 
Agregados às inovações, também surgem novos desafios. Quais 
especificidades hoje e qual futuro da agricultura Kalunga neste território tendo em 
vista os tipos de solo, transformação na mão de obra, e as mudanças nas paisagens 
e na saúde? 
Para tanto o objetivo geral é descrever a diversidade e a transformação dos 
sistemas de cultivo da roça de toco no Território Kalunga do Mimoso/TO, a partir da 
visão dos kalungas, assim como avaliar seus impactos nas paisagens. 
Os objetivos específicos são: 1) Descrever as técnicas de cultivos e analisar 
as transformações destes sistemas no decorrer dos anos, 2) Levantar as diferentes 
percepções sobre a função e os impactos da agricultura de corte e queima a partir 
dos agricultores locais Kalunga 3) Identificar os impactos causados às paisagens 
pela agricultura de corte e queima. 
 
 
 
17 
 
METODOLOGIA DA PESQUISA 
 
 
Pesquisa exploratória para que possamos nos familiarizar com a problemática 
desta pesquisa: Quais as especificidades hoje e qual o futuro da agricultura Kalunga 
neste território? 
Neste sentido, foram identificados os sistemas agrícolas, os diferentes tipos 
de roças de toco, as roças (áreas cultivadas) e as práticas de manejo de capoeira 
que favorecem a rebrota florestal. Precisou-se quantificar o tempo que as áreas 
cultivadas levam para rebrotar, para obter dados que possam subsidiar a gestão dos 
sistemas agrícolas e das coberturas vegetais. 
Levantamento bibliográfico, sobre as características fitofionômicas do Bioma 
Cerrado. Realizei entrevistas com questionário semiestruturado com pessoas chave, 
sendo 2 a 3 agricultores dos núcleos: Mimoso, Beira do Rio Paranã, Arião, Forte e 
Matas (tabela 1). Os produtore(a)s e moradore(a)s não serão identificados no 
decorrer desta pesquisa no sentido de manter preservada a identidade e a 
integridade física de cada um. Serão mencionados como produtore(a)s 
(A,B,C,D,E,F,G,H,I,J,L,M) e moradore(a)s (1,2,3,4). 
 
Tabela 1: lista dos entrevistados 
Agricultor Idade Núcleo Familiar 
Produtor(a) A 59 anos 
Forte 
Produtor(a) B 49 anos 
Forte 
Produtor(a) C 55 anos 
Arião 
Produtor(a) D 80 anos Arião 
Produtor(a) E 44 anos Arião 
Produtor(a) F 48 anos 
Mimoso 
Produtor(a) G 64 anos Beira do Rio Paranã 
Produtor(a) H 42 anos Beira do Rio Paranã 
Produtor(a) I 43 anos Mimoso 
Produtor(a) J 63 anos Mimoso 
Produtor(a) L Matas 
Produtor(a) M 50 anos Matas 
Fonte: Elaboração própria 
 
Para analisar as transformações históricas dos sistemas de cultivos na 
comunidade, foi realizada entrevista com os mais velhos, a fim de entender como 
era a agricultura de corte e queima. Procurei, nestas entrevistas, entender a forma 
18 
 
como os mais velhos das comunidades diferenciam os tipos de paisagens florestais, 
levantando as próprias categorias deles, e entender quais parâmetros eles usam 
para diferenciá-las como: solos, relevo, composição e estrutura das matas. 
Percursos comentados foram realizados com os agricultores, ação que permitiu 
confirmar ou completar esta classificação. 
Para caracterizar as práticas agrícolas atuais, a diversidade dos sistemas de 
cultivo de roça de toco apresentada nos diferentes núcleos familiares no território 
Kalunga do Mimoso, realizei percursos comentados e levantamento da 
biodiversidade vegetal. Utilizei um diário de campo construído a partir das visitas às 
roças de toco e capoeiras. Os dados levantados foram organizados para reconstituir 
os itinerários técnicos de cada sistema de cultivo, pelo qual descreveremos a 
sucessão dos processos agrícolas a partir de um calendário agrícola, dos sistemas 
de cultivos, preparo da terra e os plantios. 
Para entender os impactos dos diferentes sistemas de cultivo de roça de toco 
sobre paisagens florestais, visitei as capoeiras de diferentes idades e perguntei para 
o agricultor sobre as práticas de manejo desta área; quantas vezes fizeram roça no 
local, tipo de solo e de mata, antes de desmatar, ferramentas utilizadas, como 
manejou a rebrota. Após a roçada e derruba seletiva, identifiquei que os agricultores 
deixam algumas árvores de grande porte nas roças. Estas podem foram utilizadas 
para verificar a diversidade vegetal das capoeiras nos diferentes núcleos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
19 
 
1 - HISTÓRIA DO TERRITÓRIO 
1.1 - A Chegada dos moradore(a)s e seus sistemas Produtivos 
 
Segundo APA-TO (2012) os africanos (Angola, Congo, Benguela, Cassange, 
Mina, Yoruba e Haussa) escravizados nas minas da atual região norte de Goiás e 
sudeste do Tocantins, no séculoXVII, fugiram e criaram um grande território 
Quilombo de fuga, localizado nos municípios de Monte Alegre, Arraias, Natividade e 
Paranã. Este território era inicialmente ocupado por povos indígenas das etnias 
Akroá, Chikriabá, Ava-Canoeiro, Xavante, Javaé e Xerente. 
Para Apolinário (2007): 
 
Quilombo é um termo bantu que significa acampamento guerreiro na 
floresta. Os habitantes dos quilombos eram chamados “quilombolas” ou 
“calhambolas”, palavras angolanas derivadas de ngolo- “força; nbula 
“golpe”; calhambola seria o destino. (APOLINÁRIO, 2007 p. 104). 
 
Os quilombos são locais geralmente formados distantes dos centros urbanos, 
onde os quilombolas desenvolvem sistemas de produção agrícolas e formam suas 
comunidades e grupos sociais, desenvolvem suas culturas, religiosidades e 
festividades. 
 
Segundo pesquisas divulgadas a partir do ano de 2004, de historiadores e 
antropólogos, a origem dos territórios quilombolas baseia-se não somente 
na fuga, mas também de doações de terras feitas pela igreja católica, que 
naqueles tempos era detentora de grandes extensões de terras; de 
heranças deixadas pelos senhores a alguns escravos que mantinham laços 
de afinidades; de recompensa por parte do Estado a escravos que 
prestaram serviços em guerras; de ocupação pacífica em áreas 
abandonadas pelos donos; também, em alguns casos esporádicos, de 
compras de terras por escravos alforriados. Hoje, são territórios de 
resistência cultural e deles são remanescentes os grupos étnicos raciais que 
assim se identificam. Com trajetória própria, dotados de relações territoriais 
específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a luta 
á opressão histórica sofrida, eles se autodeterminam comunidades negras 
de quilombos, dados os costumes, as tradições e as condições sociais, 
culturais e econômicas especificas que os distinguem de outros setores da 
coletividade nacional. (BRASIL, 2005, p. 06). 
 
Os primeiros moradore(a)s da comunidade quilombola Kalunga do Mimoso 
vieram do outro lado do rio Paranã, do município de Cavalcante e Monte Alegre 
(Goiás), segundo relato do Produtor(a) J os povos pioneiros desta comunidade 
migraram do Kalunga do Goiás para essa região do Tocantins, que foi denominada 
Kalunga do Mimoso. 
 
20 
 
Meus avós moravam do lado de lá do rio. Meus pais vieram pra cá, não 
tinha ninguém aqui na região, aí vieram outras pessoas do Kalunga do 
Monte Alegre. Essas pessoas foram ocupando algumas regiões aqui da 
localidade, e construindo suas famílias, plantando suas sementes e 
alimentando os filhos. Depois vieram os fazendeiros e tomavam as terras 
dos povos, iam cercando empurrando a gente até cercava tudo, e nós ia 
para outro lugar. Outros moradore(a)s acabava virando vaqueiros desses 
fazendeiros. (Produtor(a) C de 1963 comm, pers., 2017) 
 
 
Para Oliveira (2006) a mobilidade espacial dos indivíduos do grupo dos 
kalungas começa no início do século XX. Com isto possibilita a criação de núcleos 
de famílias que foram a base da formação social das comunidades Kalungas. 
 
O início do século XX parece ter sido uma época de intensa mobilidade 
espacial dos indivíduos do grupo dos kalungas, frequentemente em 
direções mais distantes para o interior de Brasília, dos estados de Goiás e 
Tocantins. São, pois, centenas de pequenas “comunidades” kalungas, 
espalhadas por uma área de 237.000 hectares situados na microrregião da 
chapada dos Veadeiros, ao nordeste do estado de Goiás. (OLIVEIRA, 2006, 
p.11) 
 
Graças a esta mobilidade social, formaram-se diversos núcleos familiares, 
inicialmente no nordeste do estado de Goiás e a seguir no sudeste do Tocantins. O 
povo kalungueiro chegou e começou a ocupar, por volta de 1913, às terras nas 
margens do rio Paranã, rio Cana Brava, rio Bezerra, rio Esporcos, rio Extrema e Rio 
Pintado. Essa ocupação deu início ao surgimento da comunidade Kalunga do 
Mimoso, em 1913 (Morador 2 de 1950, comm.pers., 2016). 
 
Parte das terras do mimoso começam a ser ocupadas pelos mulequeiros 
por volta de 1913. Esta fase, citada em uma das entrevistas que realizamos 
com os kalungas durante os festejos em comemoração à padroeira da 
cidade de Arraias, informa que, até o presente, os estudos sobre as 
comunidades negras rurais remanescentes do quilombo dos Kalungas 
privilegiam a concepção de comunidade enquanto grupo homogêneo de 
família estável. (OLIVEIRA, 2006, p.15) 
 
No início do século XX, as terras da região do Mimoso, e os núcleos familiares 
formados no entorno, foram oficialmente reconhecidos e certificados em 2005 pela 
Fundação Cultural Palmares como Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso. 
Segundo o Morador 2, as primeiras famílias que chegaram à região foram os 
de sobrenomes Amados, Santo Rosa e Souza. A formação étnica da população 
desta localidade se deu a partir da mistura destas famílias, e mais tarde por volta da 
década de 80, as famílias dos kalungueiros misturaram-se com alguns fazendeiros e 
grileiros de terra. Moças e rapazes Kalunga casavam com filhos de fazendeiros, 
21 
 
ocasionando a mistura entre estes dois grupos. Para Morador 2, essa ocorrência não 
era frequente, mas acontecia. 
As famílias dos Santos Rosa trouxeram o gado curraleiro e mirandeiro2, além 
de animais, como cavalos e burros. Estes animais eram criados à solta em locais 
conhecidos como campo4, pois não existiam pastos ou larga5. 
 
O pessoal da família dos Santos Rosa e a família Cunha foram também uns 
dos primeiros a vir morar aqui na região. Criavam gado curraleiro, 
mirandeiro, um gado mais orelhudo, cresce mais que o curraleiro criado 
solto. O arame era algo moderno, fazia era cerca de pedra e madeira, há 
uns 70 anos atrás nós aqui não conhecia o arame em cerca aqui na região. 
(Produtor(a) A de 1959, comm, pers., 2017) 
 
 
Segundo os mais velhos da comunidade, os fazendeiros foram os primeiros a 
fazer uso do arame farpado na região. Seu uso ocorreu a partir de 1958. 
Para o Produtor(a) A, após fuga das minerações dos municípios de Arraias, 
Natividade e Paranã, novas famílias quilombolas vieram para esta região e para as 
comunidades Kalunga de Goiás por volta de 1913. 
Após a ocupação da atual área do Kalunga do Mimoso, os moradore(a)s 
começam a plantar suas roças e a criar seu gado curraleiro. Como não existi 
demarcação das propriedades, usufruíam coletivamente dos recursos naturais que 
existiam naquelas localidades (rios, vazantes, mata bruta, capim agreste, árvores 
frutíferas do cerrado: caju, cagaita, mangaba, pequi, baru, jatobá do campo). Mas as 
roças eram de domínio privado de cada grupo doméstico. Para cercar as roças, 
faziam cercas caiçara, construídas a partir do aproveitamento da madeira resultante 
da derruba e da roçada das parcelas. 
As roças eram de dois tipos: de vazante e capão. Na vazante era cultivado 
arroz, feijão e fumo. Já no capão se cultivava arroz, milho, feijão, mandioca, 
abóbora, melancia, maxixo, vitamina, jiló, cabaça, junça e amendoim. 
 
 
 
 
 
2 Gado Mirandeiro – Raça de gado maior e produz mais leite que o gado curraleiro 
4 
Campo – local onde se cria o gado a solta, não existe cercas ou limites físicos 
5 
Larga – espaço formado por mata bruta e capim agreste, cercado de arame ou madeira, utilizado 
para pastagem do galdo a solta. 
 
22 
 
TABELA 2. Levantamento da diversidade de plantas cultivadas nas roças e quintais de 12 
agricultore(a)s do Território Quilombola Kalunga. 
 
Espécie Variedade 
Arroz vermelho 
Arroz branco 
Arroz três meses 
Arroz quatro meses 
Arroz agulhinha 
Milho bandeirante 
Milho hibrido 
Milho cunha criolo 
Milho transgênico 
mandioca gaerinha 
mandioca amarelinha 
mandioca castelo 
mandioca todo tempo 
mandioca precoce 
mandioca pipiri 
mandioca quatro meses 
Feijão corda 
Feijão arranca 
Feijão rudia 
Feijão andu 
Feijão Fava 
feijão arroz 
manga espada 
manga comum 
manga coquinho 
laranja Íloa 
laranja comumLima comum 
Goiba vermelha 
goiaba branca 
abobora de pescoço 
abobora redonda 
abobora cabutiá 
melão de talhada 
melão Liso 
melão vitamina 
amendoim de arranca criolo 
amendoim caroço pequeno 
quiabo Liso 
Quibo pequeno 
Limão curraleiro 
Limão galego 
23 
 
batata doce branca 
batata doce Roxa 
maxixo cabeludo 
maxixo Liso 
Jiló cumprido 
Cana cento e vinte 
Cana caiana 
Cana Roxa 
capim junça junça 
abacate de pescoço 
acerola vermelha 
ciriguela ciriguela 
Pinha condessa 
cenoura de horta 
mexerica pequena 
tamarindo tamarindo 
carambola carambola 
jabuticaba jabuticaba 
mengericão mengericão 
erva cidreira erva cidreira 
alfavaca alfavaca 
algodão branco 
gergelim marrom 
mamona deextrair azeite 
novagina novagina 
Romã romã 
vinagreira vinagreira 
mutamba mutamba 
capim santo capim de cheiro 
 
pimenta 
pimenta de cheiro 
quento quento 
Alface alface 
pitomba pitomba 
Couve couve flor 
batata gengibre 
pimenta malagueta 
Inhame pé danta 
inhame levanca 
inhame Roxo 
inhame amarelo 
açafrão amarelo 
inhame Cará 
banana prata 
banana nanica 
24 
 
banana três quina 
melância rajada 
babosa babosa 
pitanga 
melão melão de horta 
banana maçã 
condessa fruta do conde 
mamão de 
corda 
 
de corda 
Caju do cerrado 
Palma do cerrado 
genipapo genipapo 
jiló redondo 
morango vermelho 
mangaba do cerrado 
Vitamina Tipo de melão 
 
Na vazante, o produtor dependia das cheias dos rios para realizar os plantios, 
enquanto que no capão as roças eram de sequeiro, ou seja, dependia das chuvas 
para plantar. 
Os calendários para os sistemas de cultivos de roças de vazante e capão eram 
divididos da seguinte forma: 
1- Na vazante (local próximo a rios e córregos, com solo úmido e de cor preta), 
a roçada ocorre nos meses de maio e junho, a derruba no final de julho e início de 
agosto, a queima é feita no final de agosto, não é necessário esperar as primeiras 
chuvas, que geralmente na região ocorre no mês de setembro. Os solos das 
vazantes são normalmente úmidos e de cor escura, preta. 
2 - No capão (um tipo de mata fechada localizada no cerrado, com solos de 
cores variadas, podendo ser avermelhado, preto, ou branco), a roçada e a derruba 
são realizadas nos mesmos meses que a roça de vazante, no entanto, a queima só 
é realizada após as primeiras chuvas. Assim, havia uma forte complementariedade 
sazonal e espacial entre os dois sistemas de cultivo, garantindo alimentos ao longo 
do ano, apesar da forte e longa estiagem, característica do Cerrado. 
Na vazante, a rebrota vegetal após a colheita é mais lenta que no capão. 
Segundo o Produtor(a) G (comm. pers., 2017) o mato da vazante é mais ralo, por 
isso demora mais tempo que a mata de capão para recompor a biomassa vegetal. 
 
Para nós era tudo na enxada na vazante planta mais cedo colhe mais cedo 
planta em outubro, roça ela em julho e derruba em agosto, queima mais 
25 
 
cedo agosto ou começo de setembro, planta em outubro, tem que fazer 
acero para o fogo não sair, planta tudo que planta na outra, na outra pode 
perder mais do que na outra, na de capão é mais seco, se faltar chuva nois 
perde a roça, principalmente o arroz que é mais fácil de perder. 
(PRODUTOR(A)G de 1954,comm. Pers., 2017) 
 
O manejo do capim, que alimentava o gado, era feito com o uso do fogo. Duas 
técnicas eram utilizadas por esses moradore(a)s. A primeira queima ocorria após o 
final das chuvas, geralmente depois do mês de março, chamado “fim d’água”. A 
segunda consiste no manejo no decorrer do período de seca, o gado se deslocava 
de uma área queimada para outra. Não existia um controle de locais onde o gado e 
os demais animais pastavam. 
De acordo com relatos dos agricultores e criadores de gado, a queima é feita 
para limpar o solo, para facilitar a rebrota e o crescimento do capim. Servia também 
para evitar que futuros incêndios invadissem as áreas de cultivos. 
 
Queimava pelo mês de maio abril quando a chuva parasse, o capim ainda 
tava meio verde aí o fogo não ia longe. Faz queimada pra limpar, queimar 
as folhas secas aí o capim cresce mió. De julho pra frente não queima por 
que ta muito seco aí o fogo pode sair pra fora. Já as roças nois queima após 
as primeiras chuvas, vai cair no mês de setembro. Hoje o povo ta 
queimando logo por que a seca ta muito grande. (PRODUTOR(A)G de 
1954, comm, pers., 2017) 
 
Percebe-se que o uso do fogo facilita o manejo do capim, e permite o controle 
das queimadas. Quando se realiza a queima no final do período chuvoso, no período 
de seca a vegetação se encontra com uma grande quantidade de biomassa verde, 
isso mantém sobre controle as queimadas criminosas que ocorrem com frequência 
na comunidade. 
Por volta de 1960, segundo Morador 3 de 1951, (2017), os criadores de gado 
da Comunidade Kalunga do Mimoso começam a plantar capim. As primeiras 
sementes cultivadas pelos quilombolas chegaram com os fazendeiros. 
Com o cultivo de pastos, ocorre uma mudança significativa no sistema agrícola 
de criação de gado e no Cerrado como um todo. As pastagens nativas de capim 
agreste vão sendo gradativamente transformadas em roça de pasto. 
Com o cultivo de pastagens exóticas (roça de pasto) começou a delimitação 
das áreas onde residiam os kalungueiros. O manejo do gado passou a alternar entre 
as roças de pasto (preso) e as áreas usadas para as pastagens naturais (à solta). 
Assim, quando o capim rebrotava o gado era levado para a nativa, e vice-versa. De 
modo que se possa garantir a alimentação do gado tanto no período de chuva 
26 
 
quando na época da seca. 
A pastagem nativa (o "agreste") perfaz uma área com maior extensão de terra 
do que as roças de pasto. O agreste é manejado com o uso do fogo: são queimados 
nos finais do período chuvoso, quando o gado é levado para outra área, com a 
finalidade de dar tempo ao rebrotamento do capim agreste. 
A Roça de pasto é cultivada em um espaço menor. Primeiramente é aberta 
uma clareira com a derrubada e roçada, e a seguir realiza-se o plantio e o cultivo em 
monocultura do capim. 
Então o gado permanece no pasto de novembro a janeiro, depois é retirado e 
levado para outras áreas de criação até que o capim cresça e amadureça. Depois da 
colheita da semente, o gado retorna para o pasto. 
Não existiam limites de terras entre os moradore(a)s. Cada um podia cultivar e 
deixar os animais (gados e cavalos) à solta em qualquer área de mata na 
comunidade. Os relatos indicam que não existiam conflitos sociais relacionados ao 
uso da terra entre estes moradore(a)s. Os conflitos começaram a aparecer com a 
ocupação das terras pelos grileiros e fazendeiros a partir da década de 40 e 50 
(MORADOR 4, 75 anos, comm. pers., 2016) 
27 
 
 
1.2 - A Grilagem de Terras Pelos Fazendeiros 
 
Os fazendeiros começaram a se apropriar das terras na região a partir dos 
anos 1920. O kalungueiro passou a ter um limite territorial, tanto para a criação dos 
animais quanto para os cultivos agrícolas. Esta divisão fundiária passou a limitar os 
quilombolas tanto na produção de alimentos quanto na criação do gado. 
 
Segundo as narrativas dos indivíduos do grupo, os frequentes episódios por 
eles enfrentados eram desde invasões de suas terras por novos 
personagens, roças e casas ora queimadas e ou derrubadas por tratores e 
visitas constantes de policiais com mandados judiciais expedidos por 
delegados e outras autoridades do poder público local. (OLIVEIRA, 2006, 
p.12) 
 
 
Estes enfrentamentos trouxeram inúmeros desafios para a produção de 
alimentos, criação de animais e relações sociais. Os levantamentos realizados nos 
núcleos familiares com os 12 kalungueiros que fazem as duas atividades, sistemas 
de corte e queima e criação de gado na comunidade Kalunga do Mimoso, mostram 
os reflexos das lutas e conflitos agrários enfrentados. Com áreas menores para a 
produção de alimentos e a criação de gado, o tempo de pousio passou a ser menor 
paraas áreas cultivadas, além de resultar na falta de capim para a criação do gado. 
Ocasionando, com isso, o uso intensivo das paisagens vegetais e de agroquímicos. 
Para compreender como se deu a grilagem3 das terras na comunidade 
quilombola Kalunga do Mimoso foi necessário conversar com os mais velhos. Ouvi 
diversos relatos que retratam como os fazendeiros se empossavam das terras dos 
quilombolas. 
A relação de fazendeiros e kalungueiros eram de poder e submissão, 
invasões, ameaças e domínio sobre as áreas já ocupadas eram fatos que ocorriam 
com frequência na comunidade. 
De acordo com o Produtor(a) C, o primeiro contato com os quilombolas era 
feito através de uma proposta entre um fazendeiro e um kalungueiro. O acordo 
proposto era geralmente a criação de gado na meia. Neste tipo de criação, o dono 
do gado (fazendeiro), entrega (doação temporária) os animais para um criador 
(kalungueiro – dono da terra), que recebe em troca do seu trabalho (cuidado dos 
 
3 Grilagem de terra – na região do Kalunga a grilagem ficou conhecida como prática de invasão e 
apossamento das terras por estranhos. 
 
28 
 
animais, renovação das pastagens, transformação dos produtos animais etc) uma 
parte das crias. Após o nascimento das crias, estas devem ser dividas em partes 
iguais. Quando os animais são doados ainda pequenos, mesmo que não exista 
parição, devem ser divididos em partes iguais. 
Com o passar do tempo o fazendeiro trazia mais gado. A seguir, ele propunha 
para o kalungueiro construir cercas de arame em favor do aumento do gado, e para 
manter o melhor controle sobre os animais. Após construir cercas e expandir a área 
do kalungueiro o fazendeiro requeria para si aquelas terras. Dando início a grilagem 
de terra6. Depois o fazendeiro pedia para construir uma casa, com pretexto de não 
incomodar o morador quando viesse olhar o gado. Essa não era a única técnica 
utilizada para tomar terra de kalungueiros. Como os núcleos são distantes uns dos 
outros, nem todos os moradore(a)s daquela comunidade eram informados dos fatos. 
Assim essas práticas se repetiam em vários núcleos. 
A grilagem através da invasão das áreas foi muito frequente. Esse processo 
iniciava com a invasão de pequenas porções de terras, depois as cercas eram 
construídas gradativamente, aumentando as áreas. Os kalungueiros, encurralados 
pelos fazendeiros, viam-se forçados a migrar de um núcleo para outro, ou para as 
cidades, quando não resistia a opressão, e assim a situação se repetia. 
Os grileiros invasores grilavam a terra, empossados, faziam registros 
verdadeiros ou falsos, e por fim expulsam das terras aquele morador ou o mantinha 
como empregado, essa era uma técnica usada por estranhos para tomar posse de 
uma área de terra que não era sua. Assim, a situação do kalungueiro mudou: de 
criador de gado na meia, passou para vaqueiro, para depois se tornar um funcionário 
que recebe em natureza ("cria"), conforme depoimento abaixo. Significa que, por 
exemplo, que 10 vacas paridas no ano, totalizam 10 bezerros, o vaqueiro ganha 
apenas uma. 
 
Eles chegaram falando assim, oh fulano, tinha um morador ali né, esse 
morador, era compadre com outro dois morador perto um do outro e ali o 
que acontecia oh compadre, oi compadre vamos botar uma roça aculá oh 
lugar de mata boa a terra boa vambora compadre ah moço lá botava a roça 
ficava tudo bonito, fartura demais e aí o fazendeiro ficava com inveja 
daquilo; diz uá trem aqui tá bom demais moço, tá rico; vocês não querem 
 
29 
 
 
 
 
umas quatro vacas pra vocês tomar leite não? Uá moço é bom demais eu 
quero, e por ali trazia as quatro vacas e pelejava com essas quatro vacas, 
cinco fosse mais; a vaca tava arribando pra qui pra acolá, arriba pra qui pra 
acolá, eh vaca veia atentada não quieta; uai você não quer que faz uma 
rocinha de pasto não? Uai faz homem bom demais, por ali fazia a rocinha 
de pasto e as vacas quietava por ali que era pra produzir ali e agora ficava 
fácil pra quietar e ali o que acontecia fazendeiro tá pra lá com pouco vem 
fazendeiro de lá pra cá moço aqui agora tá bom tem até leite ué e muito 
rapaz vaca boa de leite demais e por ali moço você não quer mais não ah 
pode trazer quando tivesse uns dois ou três anos ali o quê que eles fazia 
chamava o outro de lá oh rapaz vi falar que meus bezerros tá morrendo, tá 
isso tá aquilo vou botar outro vaqueiro cê que sabe uá a fazenda é sua já 
vinha com o papel mostrando oh comprei essa terra aqui o papel de 
documento dela aqui e aí agora esse ano que vem você se prepare que vou 
botar outro vaqueiro o povo tá falando demais que você tá deixando os 
bezerros morrer (risos) e aí o que acontecia panhava outro vaqueiro trazia 
pra cá e o outro saía e o outro que era dono da terra botava pra fora e por 
isso aí aconteceu com vários deles dizia assim e esse território aí tomou de 
conta das terras tudinho os fazendeiros tomou de conta; documento nem 
um toco, agora que foi descobrir o governo descobriu no projeto Kalunga 
que não tinha documento, mas o povo pensava que tinha um papel 
mostrando um papelão bonito assim um documento mesmo, mentira que 
não era documento era papel falso e por aí tomou de conta das terras tudo 
algumas fazendas que teve documento original por os velhos pais que as 
vezes guardou, zelou direitinho, ó documento de meu pai mesmo morreu no 
fogo, queimou acabou tudo ficou sem documento; saí de lá pra cá corrido 
de grileiro por causa disso, ainda bem que terra do Kalunga caí cá dentro 
pronto ficou bom pra mim mas saí de lá por grileiro correndo em mim, na 
terra de meu pai , meu avô, bisavô (Morador(a)1, comm, pers, 2016) 
 
 
1.3 - Consequência da Grilagem de Terras no Sistema Agropecuário Kalunga 
Limitados em áreas menores pela grilagem de terras, a produção de 
alimentos e a criação de gado sofreram diversas consequências. 
As áreas eram cultivadas uma ou duas vezes e deixadas para "descanso" 
(pousio florestal), para procurar uma nova área para o cultivo. 
Com a grilagem e invasão das terras, as áreas de cultivos passam a ser 
usadas por muito mais tempo, interferindo na produção local. E o gado criado em 
áreas abertas, passou a viver em espaços fechado e largas4 reduzidas, assim o 
campo deixaria de existir. 
As áreas de domínio dos fazendeiros eram vigiadas e controladas, neste 
sentido, os sistemas de cultivos e a produção de alimento diminuíram 
gradativamente. As roças de toco passam a ser construídas em áreas menores e 
 
4
 Para os Kalungueiros a larga é um espaço destinado à pastagem de animais (gado, cavalos), pode 
ser aberto ou cercado de arame. 
30 
 
muitas vezes improdutivas. 
 
Quando só tinha nós aqui, eu podia ir ne qualquer ponto ai , escolhia uma 
mata boa e plantar a roça, depois que os fazendeiros invadiram, nois não 
podia mais plantar roça ne qualquer lugar, foi ruim pra nós, ficamos 
encurralados, o trem melhorou mais com a chegada do projeto kalunga, ai 
os homem parou de cercar nois, as fazendas foram olhadas para indenizar, 
eles os fazendeiros pararam de aumentar a área nois ficamos queto.( 
Morador de 1950, comm, pers, 2016) 
 
 
Depois das invasões, os kalungueiros, além da opressão, enfrentam desafios 
para desenvolver seus sistemas agrícolas, como falta de terra e o isolamento em 
pequenas áreas. No entanto, nem todos entregaram suas terras, muitos resistiram e 
permaneceram em suas propriedades. Os relatos a seguir mostram conflitos, 
resistência e lutas ocorridas a fim de manter o domínio e controle sobre a terra. 
Eu falei para o fazendeiro que só sairia daqui morto, meus pais nasceram e 
criaram aqui, eu nasci e criei aqui não vou sair da terra, essa terra é nossa 
por direito, eles chegaram ai começaram cercar e foram tomando tudo, nós 
ficando sem nada. (Morador de 1968,comm. pers, 2017) 
 
Destruição de casas e roças eram práticas realizadas para amedrontar e 
ameaçar oskalungueiros, a fim de que estes abandonassem suas propriedades. 
Tomando o domínio após estarem desocupadas. 
 
Segundo narrativas dos indivíduos do grupo, os frequentes episódios por 
eles enfrentados eram desde invasões de suas terras por novos 
personagens, roças e casas ora queimadas e ou derrubadas por tratores e 
visitas constantes de policiais com mandados judiciais expedidos por 
delegados e outras autoridades do poder público local. (OLIVEIRA, 2006, 
p.12) 
 
 
Os enfrentamentos mencionados nos parágrafos anteriores trouxeram 
inúmeros desafios para a produção de alimentos, criação de animais e relações 
sociais. Os levantamentos que realizamos nos núcleos familiares, com os doze 
agricultores e criadores de gado da comunidade Kalunga do Mimoso, mostram os 
reflexos das lutas e conflitos agrários enfrentados. Muitas famílias transformaram 
suas práticas agropecuárias, de várias formas, como demonstraremos na parte 3. 
Outra consequência foi o êxodo rural: muitos kalungueiros saíram da sua 
região para as cidades de Arrias/TO, Brasília/DF, Goiânia/GO, Cavalcante /GO, 
principalmente a procura de trabalho e melhores condições de vida. Os que ficaram 
31 
 
se tornaram vaqueiros nas grandes fazendas. 
Esses fatos nos mostram a realidade cultural e conflituosa vivenciada pela 
população negra na região sudeste tocantinense. O povo desta região vivenciou 
momentos de ameaças, tanto da propriedade quanto da pessoa física. Temos 
relatos de ameaças de morte a kalungueiros. Não mencionaremos os nomes aqui 
para manter a integridade física destas pessoas. 
Para além destas violências, o processo de grilagem fragilizou, ao longo das 
várias décadas, os modos de vida e a segurança alimentar do povo Kalunga, que 
teve que buscar nas cidades alternativas econômicas, reconfigurando assim 
profundamente o seu sistema agrícola. Por outro lado, foi a partir da conexão mais 
intensa com as cidades, em torno de 2004, que a comunidade Kalunga do Mimoso 
se articulou ao movimento quilombola estadual e iniciou um novo movimento de 
resistência e de reinvindicação territorial. 
 
1.4 - Reconhecimento do Território 
 
Os primeiros estudos de identificação e regularização territorial da 
Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso foram realizados pela professora e 
pesquisadora da Universidade Federal do Tocantins – UFT, Rosy de Oliveira em 
2001. Estes processos iniciais, agregados às lutas e a resistência do povo Kalunga, 
se somaram para atenuar os conflitos agrários vivenciados pelos kalungueiros. 
No dia 21 do mês setembro de 2005, a comunidade Quilombola Kalunga do 
Mimoso foi certificada pela Fundação Cultural Palmares, e no dia 16 de dezembro de 
2010 foi decretado a criação do Território Kalunga do Mimoso pelo Governo Federal, 
totalizando uma área de 57.465 hectares, e lançamento do mapeamento territorial 
realizado pelo INCRA/TO (figura XX). 
 
 
 
 
 
 
 
32 
 
Figura 1: Mapa Oficial do Território Quilombola Kalunga do Mimoso (INCRA/TO) 
 
 
 
 
Fonte: INCRA /2017 
 
As etapas da regularização fundiária de Comunidades Quilombolas no Estado 
do Tocantins, segundo (INCRA, (2017) foram as seguintes: 
Tabela 3: Etapa de regularização fundiária 1º Passo 
Autodefinição quilombola 
A comunidade quilombola assim como qualquer outro grupo social, tem direito à autodefinição. Para 
regularizar seu território, o grupo deve apresentar ao INCRA a Certidão de Autorreconhecimento 
emitida pela Fundação Cultural Palmares. 
 
2º Passo Elaboração do RTID 
A primeira etapa da regularização fundiário quilombola consiste na elaboração do Relatório Técnico 
de Identificação e Delimitação (RTID), visando o levantamento de informações cartográficas, 
fundiárias agronômicas fundiárias, agronômicas ecológicas, geográficas, socioeconômicas, históricas, 
etnográficas e antropológicas obtidas em campo e junto a instituições publicas e privadas. O RTID 
tem como objetivo identificar os limites das terras das comunidades remanescentes de quilombos. 
 
3º Passo Publicação do RTID 
Os interessados terão o prazo de 90 dias após a publicação e as notificações para contestarem o 
RTID junto à Superintendência Regional do INCRA, juntando as provas pertinentes. Do julgamento 
das contestações caberá recurso único ao Conselho Diretor do INCRA Sede, no prazo de 30 dias a 
contar da notificação. 
33 
 
 
 
 
 
Fonte: http://www.incra.gov.br/passo_a_passo_quilombolas 
 
Ressalta-se que após a certificação, nossa comunidade passou por estudo 
antropológico realizado pelo INCRA/TO. A seguir, no ano de 2005, recebemos o 
mapa oficial do Território (conforme figura 1). Após o relatório antropológico e as 
vistorias das propriedades a serem indenizadas, iniciou o processo de desintrusão 
dos fazendeiros e grileiros, posseiros e outros povos que não têm pertencimento e 
identidade kalungueira. A desintrusão consiste em uma etapa de pagamento e 
desapropriação de fazendeiros e posseiros. 
Dos 57.465 hectares de terra identificados como de direito dos quilombolas, mais de 
40.000 hectares ainda encontram-se em posse de fazendeiros. Em todos os núcleos 
visitados nos anos de 2016 a 2017, identificamos propriedades que pertenceram a 
fazendeiros, e outras áreas ainda sobre domínio de invasores e grileiros5. Estas 
áreas, agora tituladas e documentadas, foram vistoriadas pelo INCRA/TO e estão 
em fase indenizatória. 
Importante ressaltar aqui que o Relatório de 2016 das Atividades dos imóveis 
Vistoriados dentro do Território Kalunga do Mimoso (INCRA/TO) informa que ainda 
existem 39 propriedades em situação processual para serem indenizadas e 
desapropriadas. Do total das terras mencionadas neste parágrafo apenas 4.051 
 
5 Na comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso considera-se invasor de terra, 
estranhos que invadem área já ocupadas por algum morador. Grileiros são nomes usados 
para nomear, pessoas que constroem cercas e casas e apropriam de uma área de terra 
que ainda não esta ocupada. 
 
4º Passo 
Portaria de reconhecimento 
A fase de identificação do território encerra-se com a publicação da portaria do Presidente do 
INCRA que reconhece os limites do território quilombola no Diário Oficial da União e dos estados 
 
5º Passo 
Decreto de desapropriação 
Nos casos em que há imóveis privados, títulos ou posses incidentes no território, é necessária a 
publicação de Decreto Presidencial de Desapropriação por interesse Social (Presidência da 
Republica) os imóveis desapropriados serão vistoriados e avaliados conforme os preços de 
mercado, pagando-se sempre previamente e em dinheiro a terra nua, no caso dos títulos válidos e 
as benfeitorias. 
 
6º 
Passo 
Titulaç
ão 
O Presidente do INCRA realizará a titulação mediante a outorga de título coletivo, imprescritível e 
pró- indiviso à comunidade, em nome de sua associação legalmente constituída, sem nenhum 
ônus financeiro. É proibida a venda e penhora do território. 
http://www.incra.gov.br/passo_a_passo_quilombolas
34 
 
estão em posse dos kalungueiros. Três novos imóveis iniciaram o ajuizamento para 
indenização no final do ano de 2018, após isso, os títulos destas terras serão 
entregues ao povo Kalunga. 
Depois da demarcação, vistoria e negociações para indenizar as áreas 
tituladas e não tituladas dentro da Comunidade Kalunga do Mimoso, muitos 
fazendeiros abandonaram as fazendas. Durante nosso trabalho de campo foi 
possível identificar mais de 15 propriedades em desuso. 
Outras propriedades estão em uso parcial, pois as atividades agrícolas como 
pastagem e criação de gado encontram-se paradas. Tivemos relatos também de 
alguns moradore(a)s sobre informações de ameaças de retorno de alguns 
fazendeiros. Este fato decorre da demora das indenizações das referidas 
propriedades. Quando indenizados, o título da propriedade é entregue a Associação. 
Depois a área em questão é distribuída em partes iguais para os moradore(a)s, ou 
para os descendentesque desejam retornar para a comunidade. 
 
1.5 - A Organização atual da Comunidade 
 
A comunidade possui três associações: a Associação da Comunidade 
Quilombola Kalunga do Mimoso, a Associação de Pequenos Produtore(a)s e a 
Associação do Kalunga Albino. A primeira Associação é denominada associação 
mãe, as demais denominadas associações filhas. 
As três entidades apresentadas são responsáveis pela articulação quilombola 
e gestão territorial da comunidade em questão. Cada associação está sediada em 
locais estratégicos para facilitar a comunicação e o monitoramento do território. 
As duas associações estão desenvolvendo projetos de intervenção e de 
conscientização do uso do lixo com a temática: “Uma reflexão sobre o destino do lixo 
na Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso: colocando lixo no lugar certo”. Com 
este trabalho pretende-se desenvolver oficinas, momentos de debate e 
conscientização sobre o destino do lixo. 
35 
 
Já o projeto de Gestão Territorial e Recursos Naturais, que vem sendo 
construído, tem como pauta a temática sobre a agricultura familiar sustentável da 
Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso. A Comunidade Kalunga possuía 
aproximadamente 270 famílias, segundo levantamento realizado pela Associação 
Alternativas para Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO) em 2012. Desde 
2015, podemos afirmar que este número aumentou. O Vice-presidente da 
Associação da Comunidade Remanescente de Quilombo afirma que novas casas 
estão sendo construídas e novas famílias estão chegando e se instalando nas terras 
kalungueiras. Somando um total de 30 novas residências, números estes que vêm 
aumentando. 
Os moradore(a)s da comunidade Kalunga do Mimoso estavam espalhados no 
território em vários núcleos familiares: Mimoso, Forte, Arião, Matas, Beira do Rio 
Paranã e Albino. Este último núcleo está localizado no munícipio de Paranã e os 
demais em Arraias. Possuem relações familiares de pertencimento e identidade 
territorial, estabelecendo diversas relações sociais, culturais, econômicas. 
 
2 - AS PAISAGENS E SEUS USOS ATUAIS 
 
2.1 - Paisagens Kalunga (Mimoso) 
 
Nossa comunidade é beneficiada pela diversidade de vida vegetal e animal 
presente no bioma do Cerrado, e possui diversas fitofisionomias como cerradão, 
campo cerrado, campo limpo, campo sujo, e mata ciliar. 
Cada fitofisionomia do bioma Cerrado descrito acima é nomeado pelos 
moradore(a)s da comunidade Kalunga por categorias que são conhecidas por todos 
os agricultores locais. 
 
Tabela 4: Fitofisionomias do Cerrado e categorias Kalunga 
Vegetação Formação Categorias Kalunga 
Florestal Cerradão Mata de Capão 
Campestre Campo Limpo Veredas 
Savânica Cerrado Sentido Restrito Cerrado 
Florestal Mata Ciliar Mata 
Referência: Ribeiro e Walter (1998) 
36 
 
 
Para o Produtor(a) J (2017) a "vereda" corresponde à fitofisionomia de campo 
limpo, com predomínio de vegetação campestre e com presença de gramíneas e 
pequenas árvores. 
Já o fitofisionomia Cerradão corresponde a "mata capão", onde se observa 
vegetação com mais árvores, caracterizando uma área de mata mais fechada. As 
matas ciliares, para Produtor(a) C (2018), são as vegetações que estão localizadas 
nas margens ou próximas a rios e córregos conhecidas como "vazante". 
O Cerradão, para nós, é identificado como um local de mata fechada com a 
presença de árvores como pau terra, pequi, sucupira, jacarandá e outros. Podemos 
denominá-lo também como mata capão. São áreas utilizadas para fazer cultivos das 
roças. 
Para Ribeiro (2017) o Cerradão é formado por espécies vegetais que 
apresentam características que lhes permitem suportar as secas. 
O Cerradão é uma formação florestal do bioma Cerrado com características 
esclerofilas (grande ocorrência de órgãos vegetais rijos, principalmente 
folhas) e xeromórficas (com características como folhas reduzidas, 
suculência, pilosidade densa ou com cutícula grossa que permitem 
conservar água e, portanto, suportar condições de seca). Caracteriza-se 
pela presença preferencial de espécies que ocorrem no Cerrado sentido 
restrito e também por espécies de florestas, particularmente as da Mata 
Seca Semidecídua e da Mata de Galeria não-Inundável. Do ponto de vista 
fisionômico é uma floresta, mas floristicamente se assemelha mais ao 
Cerrado sentido restrito. (RIBEIRO, 2017, p. 1) 
 
A partir das características arbóreas apresentadas por Ribeiro, às matas de 
capão apresentadas pelos agricultores kalungas possuem características tanto da 
vegetação quanto do solo semelhantes à descrição feita as menções referenciadas 
pelos ecólogos (figuras 2 e 3). 
 
 
 
 
 
 
37 
 
Figura 2: Diagrama de perfil (1) e cobertura arbórea (2) de um Cerradão representando uma 
faixa de 80 m de comprimento por 10 m de largura. Fonte: Cavalcanti (2017) 
 
Ilustração: Wellington Cavalcanti (2017) Agencia de Informação Embrapa 
 
 
Foto Figura 3: Mata de Capão Kalunga (Cerradão) 
 
Fotografia: Lourivaldo dos Santos Souza 
 
Já a mata ciliar é definida por Ribeiro (2017) da seguinte forma: 
 
Acompanha os rios de médio e grande porte da região do Cerrado, em que 
a vegetação arbórea não forma galerias. Em geral essa Mata é 
relativamente estreita, dificilmente ultrapassando 100 metros de largura em 
cada margem. É comum a largura em cada margem ser proporcional à do 
leito do rio, embora em áreas planas a largura possa ser maior. Porém, a 
Mata Ciliar ocorre geralmente sobre terrenos acidentados, podendo haver 
uma transição nem sempre evidente para outras fisionomias florestais como 
a Mata Seca e o Cerradão. (RIBEIRO, 2017, p. 1) 
 
 
As matas ciliares são encontradas próximas aos rios e, como enfatiza Ribeiro, 
elas acompanham os rios de médio e grande porte. Na comunidade Kalunga do 
Mimoso, estas matas de margem são cortadas pelos dois maiores rios da região 
38 
 
Paranã e rio Bezerra, 
Nos locais mais baixos, onde os rios vazam após as enchentes, nomeamos 
como vazantes, locais que utilizamos para abrir as roças de vazante. 
 
As árvores, predominantemente eretas, variam em altura de 20 a 25 metros, 
com alguns poucos indivíduos emergentes alcançando 30 metros ou mais. 
As espécies típicas são predominantemente do tipo que perdem as folhas 
(caducifólias), com algumas sempre-verdes, conferindo à Mata Ciliar um 
aspecto semidecíduo. Ao longo do ano as árvores fornecem uma cobertura 
arbórea variável de 50 a 90%. Na estação chuvosa a cobertura chega a 
90%, dificilmente ultrapassando este valor, ao passo que na estação seca 
pode até mesmo ser inferior a 50% em alguns trechos. (Walter 2017, p.1) 
 
 
Figura 4: Diagrama de perfil (1) e cobertura arbórea (2) de uma Mata Ciliar representando uma 
faixa de 80 m de comprimento por 4 m de largura nos períodos seco (maio a setembro) e 
chuvoso (outubro a abril). Fonte : Cavalcanti (2017) 
 
Ilustração: Wellington Cavalcanti 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
39 
 
 
Figura 5: Mata Ciliar Kalunga, ao longo do – Rio Paranã 
 
Fotografia de: Lourivaldo dos Santos Souza 
 
Na nossa região, as "veredas" correspondem ao Campo Limpo úmido, são 
locais com pouca presença de árvores, em alguns locais encontramos buritis e 
nascentes de água, com a presença de capim agreste. 
 
Vereda é aonde não tem mato grosso para cortar, onde só tem capim 
mesmo, mais capim às vezes tem umas moitinhas de mato muito pouca, 
sempre tem uma moitinha, mas muito pouco, se enxerga longa é limpo, 
limpo da natureza não foi roçado. (PRODUTOR(A) G de 1954,comm.,pers. 
2018) 
 
Esta vegetação, com predominância de espécies vegetais herbáceo, com 
raros arbustos e ausência completa de árvores, caracteriza a formação Campo 
Limpo. Ribeiro (2017). 
 
Pode ser encontrado em diversas posições topográficas, com diferentes 
variações no grau de umidade, profundidade e fertilidade do solo. 
Entretanto, é encontrado com mais frequência nas encostas, nas chapadas, 
nos olhos d’água, circundando as Veredas e na borda das Matas de 
Galeria.Pode ocorrer em solos com características variadas de coloração 
(desde amarelo claro, avermelhada, ao vermelho-escuro), textura (de 
arenosos a argilosa, ou muito argilosa e bem drenados) e graus variados de 
permeabilidade (penetração da água). (RIBEIRO, 2017, p.1) 
 
 
 
 
 
 
 
40 
 
 
Figura 6: Vereda Kalunga (Campo Limpo) 
 
Fotografia de: Lourivaldo dos Santos Souza 
 
Para os kalungueiros, o Cerrado, em sentido estrito, é nomeado como 
cerrado, local onde temos a presença de árvores como Mama de Porca, Bacupari, 
Cascudinho, Marmelada de Cachorro, Peroba, Jatobá do Campo e outros. 
 
O Cerrado sentido restrito caracteriza-se pela presença de árvores baixas, 
inclinadas, tortuosas, com ramificações irregulares e retorcidas, e 
geralmente com evidências de queimadas. Os arbustos e subarbustos 
encontram-se espalhados, com algumas espécies apresentando órgãos 
subterrâneos perenes (xilopódios), que permitem a rebrota após queima ou 
corte. Na época chuvosa as camadas subarbustiva e herbácea tornam-se 
exuberantes, devido ao seu rápido crescimento. (RIBEIRO, 2017, p. 1) 
 
Figura 7: Foto Cerrado Kalunga (Cerrado Sentido Restrito) 
 
Fotografia: Lourivaldo dos Santos Souza 
41 
 
 
Na comunidade Kalunga do Mimoso, identificamos três tipos de vegetações, a 
florestal com a presença da formação Cerradão; vegetação Campestre com a 
presença da formação Campo Limpo, e um terceiro tipo, a Savânica, com presença 
da formação Cerrado sentido Restrito. 
 
3. OS TIPOS DE ROÇA (SISTEMAS DE CULTIVO) 
 
Foram identificados na comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso cinco 
sistemas de cultivos: roça de roça de toco, roça com trator, quintais, roça com uso 
de agroquímicos, e roças de pasto. 
Nas roças, as técnicas usadas são saberes herdados dos antepassados. Para 
a moradora Produtor(a) D (2017) a roçada, a derruba, e a capina foram práticas que 
os mais velhos transmitiram aos filhos, e assim sucessivamente. Todos os membros 
da família participam das atividades agrícolas, desde os trabalhos mais pesados 
(derrubada, roçada, capina) aos mais leves (vigia, colheita). A vigia é uma tarefa que 
consiste em ficar de guarda para impedir que pássaros e aves ataquem as 
plantações, sobretudo de arroz. Já a coivara é uma técnica que ocorre após a 
queima das roças. A sobra dos galhos de árvores que não queimaram são coletados 
e amontoados um sobre o outro, e queimados novamente. 
O sistema de cultivo de corte e queima é praticado na comunidade quilombola 
Kalunga do Mimoso há mais de 250 anos. As práticas agrícolas herdadas permitiram 
ao longo dos anos a produção de alimento e a soberania alimentar das famílias que 
vivem na referida comunidade. Para desenvolver as práticas agrícolas de corte e 
queima, os agricultores utilizam florestas, água da chuva e solos férteis. “Parte das 
terras do Mimoso começaram a ser ocupadas pelos mulequeiros por volta de 1913”. 
(OLIVEIRA, 2006, p.15) A nomenclatura mulequeiros era para nomear os 
kalungueiros que migraram da região Vão do Muleque. 
 
Desde que eu me conheço por gente já fazia roça de toco aqui na 
comunidade. Meus avós plantaram roça de toco, meus pais também e eu 
desde que conheço por gente faço roça de toco, nos roça, nos derruba, nós 
queima nós capina e planta. Assim que fazemos as roças para sustentar a 
casa (PRODUTOR(A) D , de 1938, comm, pers., 2017) 
 
 
 
42 
 
Durante as visitas às roças de toco e roças com trator, percebemos algumas 
profundas mudanças nas técnicas de cultivos agrícolas nesta comunidade. Por 
exemplo, rapidez no beneficiamento da terra para os plantios, redução da mão de 
obra e uso de agroquímicos. 
Tabela 5: repartição dos sistemas de cultivo identificados nos diferentes núcleos do Território 
Kalunga do Mimoso 
Núcleo familiar Agricultor Sistema de cultivo 
Beira do Rio Paranã Produtor(a)H Roça de toco Quintal 
Beira do Rio Paranã Produtor(a)G Roça de toco Quintal 
Mimoso Produtor(a)J Roça com trator Quintal 
Mimoso Produtor(a)I Roça com trator Quintal 
Mimoso Produtor(a)F Roça de toco Quintal 
Forte Produtor(a)B Roça de toco Quintal 
Forte Produtor(a)A Roça de toco Quintal 
Arião Produtor(a)C Roça com trator Quintal 
Arião Produtor(a)D Roça de toco Quintal 
Arião Produtor(a)E Não fez roça Quintal 
Matas Produtor(a)L Roça de toco Quintal 
Matas Produtores(a)M Roça de toco Quintal 
Fonte: Elaboração própria 
 
 
 
 
3.1 - Roça de Toco 
 
Há uns 15 anos começaram a se usar a matraca, anos depois alguns 
agricultores começam a utilizar a motosserra. Entre os 12 agricultores identificamos 
três agricultores que possuem esta ferramenta. Todos fazem uso da matraca. 
O sistema de cultivo de roça de toco segundo o Produtor(a) J, é uma prática 
agrícola desenvolvida na comunidade há muitos anos, “desde o início da vida da 
gente, fazia roça de toco, desde quando o povo começou ocupar aqui há 
aproximadamente uns 250.” (PRODUTOR(A) J de1955, comm, pers.,2018). 
 
Começa roçar em julho termina em agosto que derruba setembro bota fogo, 
tem outros que queima atrasado até outubro queima se a chuva atrasar 
queima em outubro, a limpa da terra começa em novembro, final de outubro 
para início de novembro, novembro é tempo da limpa, plantar é em final de 
novembro para início de dezembro. (PRODUTOR(A)J de 1955, comm, 
pers., 2017) 
 
Para o desenvolvimento de uma roça de toco, o primeiro passo é escolher 
uma área boa para o plantio. São geralmente as áreas próximas aos rios, córregos e 
capão. Segundo o Produtor(a) B, a área boa para o plantio é um local de mata 
43 
 
fechada e terra escura, vermelha ou preta. Após a escolha do local é feita a roçada, 
atividade realizada a partir do mês de julho a agosto, a seguir a derruba das árvores 
mais grossas. 
Tabela 6: Calendário agrícola da Roça de toco de 1 ano (PRODUTOR(A) B 
2017 2018 
Ja n fev mar Abr Mai jun ago s Set Nov de z Mar abr mai dez 
Mata bruta Roçada, derruba Quei ma Plantio Colheita e abandono da área 
para pousio 
Calendário agrícola 
 
A seguir apresentamos os trabalhos operacionais em roça de toco com 
extensão de 120 m2. 
 
Tabela 7: Itinerário técnico da roça de toco do Produtor(a) B 
Operações Data Numero de dias 
trabalhados 
Numero de 
trabalhadores 
Total de dias de 
trabalho (dias X 
trabalhadores) 
 
Broca Agosto/ 2017 15 dias 3 três 45 
Derruba Agosto/ 2017 3 dias 3 três 9 
Queima Setembro/ 2017 1 dias 2 dois 2 
Coivara Setembro / 2017 3 dias 2 dois 6 
Plantação Novembro e 
dezembro 
/2017 
3 dias 2 dois 6 
Limpa 1 Dezembro/ 2017 1 semana 3 três 21 
Limpa 2 Janeiro/2018 4 dias 3 três 12 
TOTAL 101 
TOTAL (100 m
2
) 84 
Fonte: Elaboração própria 
 
As operações são atividades realizadas geralmente pela família, mas também 
podem obter apoio dos vizinhos e parentes. Alguns agricultores contratam trabalho 
de outros trabalhadores para auxiliarem nas tarefas de roçada, derruba e limpa. 
As atividades na roça de toco que demandam maior força braçal, são: roçada, 
derruba, coivara e capina. As demais atividades como plantio, vigia e colheita 
exigem menor força física, assim mulheres e adolescentes podem auxiliar nas 
atividades agrícolas. No entanto, apesar de não exigir muita força física a capina 
demanda bastante tempo, conforme indicado na tabela 7. 
 
 
44 
 
 
Figura 8: Roça de toco após queima /2017 
 
Imagem: Lourivaldo dos Santos Souza 
 
A primeira atividade (roçada) é realizada com o uso da foice, a segunda é 
realizada com o uso do motosserra ou do machado. Com as inovações tecnológicas 
nas práticas agrícolas, como uso do trator e grade de arar a terra, os tocos e raízes 
são arrancados. Com os agroquímicos (glifosato houndup), os tocos deixados 
morrem, outros demoram mais tempo para rebrota. 
Depois das primeiras chuvas do mês de setembro realiza-se a queima. Os 
troncos e galhos resultantes da queima são amontoados uns sobre os outros e 
novamente queimados para finalizar a limpa da terra. Esse processo de amontoargalhos e troncos é conhecido na região como coivara. A plantação é realizada após 
as chuvas que ocorrem no final do mês de novembro para dezembro. 
Depois da queima é realizado o plantio. Esta atividade ocorre no final do mês 
de novembro e início do mês de dezembro. O trabalho na roça é dividido entre os 
familiares. Homens, mulheres, adolescentes e jovens desempenham coletivamente 
as atividades agrícolas como: roçada, derruba, coivara, capina, plantio, vigia e 
colheita. 
Na referida comunidade, identificamos roças de toco com extensão de duas a 
três tarefas, o que corresponde a 60 e 90 m2. A extensão da roça esta relacionada 
com a quantidade de mão de obra que se tem em casa. 
Nas roças de toco, os principais cultivos são arroz, feijão, mandioca, milho, 
abobora. A seguir apresentamos uma lista (tabela 8), mostrando a biodiversidade 
45 
 
cultivada em roças de toco identificadas na comunidade Kalunga do Mimoso. 
Figura 9: Roça de toco / 2018 
 
Imagem: Lourivaldo dos Santos Souza 
 
Tabela 8: Agrobiodiversidade roças de toco (ano de cultivo 2017 – 2018) (1 tarefa, 1 tarefa, 1/5 
tarefa, 3 tarefas) 
Produtor(a) G 
(roça nova) 1 tarefa 
Produtor(a) D 
(roça nova) 1 tarefa 
Produtor(a) H 
(roça nova) 0,5 tarefa 
Produtor(a) B 
(capoeira 2 anos) 3 
tarefas 
Espécie e Variedade Espécie Variedade Espécie e Variedade Espécie e variedade 
Milho bandeirante Arroz três meses Arroz três meses Arroz quatro 
meses 
Milho Híbrido Milho criolo 
(cunha) 
Arroz agulhinha Arroz três meses 
Milho criolo (cunha) Abóbora muringa Mandioca gaerinha Milho bandeirante 
Mandioca todo tempo Abóbora de horta Mandioca Pipiri Mandioca pipiri 
Mandioca Amarelinha Mandioca amarelinha Milho cunha Mandioca castelo 
Mandioca Pipiri Mandioca pipiri Milho bandeirante Mandioca todo tempo 
Mandioca Gaerinha Melão de horta Abobora redonda 
Mandioca quatro 
meses 
Feijão catador Abobora de pescoço 
Cana cento e 
vinte 
Cana cento e 
vinte 
 Cana cento e 
vinte 
 
Cana Roxa Manga comum Capim junça 
Cana Caiana Manga espada Maxixe liso 
 Mamona de tirar 
azeite 
 
Fonte: elaboração própria 
46 
 
3.2 - Roça de Pasto 
 
Há cerca de vinte anos iniciaram-se os sistemas de cultivos de capim. “Os 
primeiros que fez pasto lá, eu conheço, primeiro os moradore(a)s começou fazer, 
depois os fazendeiros também fizeram, fez pasto, fez larga, assim que foi 
acontecido”. (Produtor(a) J, de1855, comm, pers., 2018). 
 
Figura 10: Roça de pasto (capim braquiária) 
 
Foto: Lourivaldo dos Santos Souza 
 
Primeiro abre-se uma roça de toco em uma área, e após a colheita planta-se 
o capim e começa iniciando o cultivo da roça de pasto. Estas experiências de cultivo 
de capim podem variar. Identificamos experiências em que na mesma área foi 
cultivada uma roça de toco por até quatro anos seguidos, e só depois o plantio do 
capim. 
No núcleo Forte identificamos experiências em que o capim era plantado 
juntamente com o milho e outras plantas. Após a colheita a área seria destinada a 
pastagem. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
47 
 
Figura 11: Roça de milho coexistindo com plantio de alimentos (milho e capim). A roça é 
destinada, desde sua criação, para ser um pasto 
 
Fotografia de Ludivine Eloy (2018) 
 
Por exemplo, o Produtor(a) B planta roça de toco durante dois anos, no 
terceiro faz plantio de alimentos junto com o capim, e transforma gradativamente as 
capoeiras em roças de pasto. Assim faz a substituição do plantio temporário, cultivos 
de alimentos como mandioca, milho, arroz e etc, por cultivos definitivos de capins do 
tipo agropolo e braquiária. 
Nas áreas de pastagem anualmente é feito a roçada, assim mantem-se o 
controle das espécies vegetais que crescem, a fim de manter a homogeneidade do 
capim. Os agricultores fazem o desmate seletivo deixando algumas árvores. Estas 
permitem que o local tenha sombra e permaneça mais úmido por mais tempo, 
preservando e mantendo o capim verde. 
Segundo o Produtor(a) A, após plantar o capim, o controle das espécies que 
nascem ou brotam se dá a partir da roçada, atividade realizada com o uso da foice. 
Quando você faz a roçada, o capim cresce e ganha volume. As áreas de plantio de 
capim são exclusivamente para pastagem de animais bovinos e equinos. 
A partir dos esquemas de rotação das roças e pastos (figura 9) percebe-se 
que está ocorrendo a modernização das práticas agrícolas. A seguir apresentamos 
os modelos e as datas das roças para o sistema agrícola de produção de alimento 
da comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso. 
 
48 
 
Tabela 9: Histórico e rotação numa roça de pasto de 8 anos 
2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 
Mata bruta Roça de pasto – capim braquiária 
Fonte: Elaboração própria 
 
No esquema (tabela 14), apresentamos modelo de rotação de roça de toco 
com uso de glifosato roundup dois anos seguidos. Na (tabela 9), é o caso de uma 
roça de pasto de 8 anos, com cultivo inicial de capim braquiária que é cultivado 
atualmente. Identificamos dois casos, um em que o capim é cultivado inicialmente, e 
um segundo caso em que o capim é cultivado após as atividades agrícolas de 
produção de alimento que duram de 3 a 5 anos. Cultivando, depois, o capim para 
construção de pastagem para alimentar o gado. 
Na propriedade do Produtor(a) E (núcleo Arião) identificamos algumas 
capoeiras, e nenhuma roça de pasto (tabela 10). Na propriedade do Produtor(a) B 
(núcleo Forte) foi identificado menos capoeiras e um número maior de roças de 
pasto. Assim, esta opção responde a uma especialização do sistema produtivo em 
torno da pecuária que, gradativamente, toda (ou grande parte) da propriedade 
familiar é transformada em pastagem. 
 
Tabela 10: Núcleo Arião – Produtor(a) E Capoeira 2 anos 
2014 2015 2016 2017 2018 
Mata 
bruta 
Roça de toco Abandono da área e pousio Espécies identificadas 
Ipê Roxo, Jatobá de Anta, Jatobá do 
Campo, Vaqueta, Mutamba, Aroeira 
 
Capoeira 3 anos 
2014 2015 2016 2017 2018 
Mata 
bruta 
Roça de toco Abandono da área e pousio Espécies identificadas 
Ipê Roxo, Jatobá de Anta, Jatobá do 
Campo, Vaqueta, Mutamba, Aroeira 
 
Capoeira 4 anos 
2015 2014 2015 2016 2017 2018 
Mata 
bruta 
Roça de toco Abandono da área e pousio Espécies identificadas 
Ipê Roxo, Jatobá de Anta, Jatobá 
do Campo, Vaqueta, Mutamba, 
Aroeira, Negramina 
Fonte: Elaboração própria 
 
O Produtor(a) B planta roça de toco durante dois anos, no terceiro faz plantio 
de alimentos junto com o capim, e transforma paulatinamente as capoeiras em roças 
 
49 
 
 
 
de pasto. Assim faz a substituição do plantio temporário de cultivos de alimentos 
como mandioca, milho, arroz e etc, por cultivos definitivos de capins do tipo agropolo 
e braquiária. 
 
Tabela 11: Da Roça de toco à roça de pasto em 3 anos (Produtor(a) B) 
 2017 2018 
2014 2015 2016 No v de z Mar abr mai de z 
Mata bruta Arroz, milho, mandioca, 
abobora, melancia, 
maxixo 
Arroz milho Cultivo 
milho e 
capim 
Colheita do milho Área 
destinada a pastagem 
Fonte: Elaboração própria 
 
 
3.3 Roça com Trator 
 
A Roça com trator é uma atividade agrícola recente na comunidade Kalunga 
do Mimoso. Segundo o Produtor(a) I, desde o ano de 2016 que o pessoal da 
comunidade começou a usar o trator para arrancar os tocos e arar a terra. 
Figura 12: Roça com trator e plantação de arroz, milho com trator / 2018 
 
Imagens: Lourivaldo dos Santos Souza 
 
Segundo o Produtor(a) I, primeiramente remove-se as árvores com o trator, 
depois a terra é gradeada, e então se realiza o plantio. Na localidade visitada, 
primeiro ele plantou uma roça de toco, e no terceiro ano ele arrancou os tocos com o 
trator e gradeou a terra. Nesta área, é o segundo ano que ele planta utilizando a 
técnica de gradear a terra. 
As áreas escolhidas para o cultivo com trator são áreas de mata fechada 
(capão), e áreas próximas aos rios e córregos. Após a escolha do local, é feita a 
limpeza da área com o trator, e umavez removida toda a cobertura vegetal, a terra é 
50 
 
gradeada e realiza-se os plantios. 
Na propriedade do senhor Produtor(a) I identificamos uma área de cultivo com 
trator de 1 alqueire o que na região corresponde a ( 220 m2), e uma outra com 4 
tarefas correspondente a (120 m2). Segundo o produtor é possível plantar em maior 
quantidade e aproveitar melhor a área neste tipo de sistema. “Aproveita melhor a 
terra, limpa tudo e planta mais, a limpa é menos, só limpa uma vez, mas dá mais 
mundiça”. (PRODUTOR(A) I, comm, pers., 2017). 
Na roça com trator nasce erva daninha, o que os kalungueiros nomeiam como 
mundiça. Nos cultivos com trator as atividades agrícolas são realizadas em menos 
tempo e emprega menos mão de obra. A força humana é substituída pela força do 
trator, o preparo da terra é mais rápido. 
 
Tabela 12: Atividades agrícolas em uma roça com Trator – extensão 220 m
2
 (Produtor(a) I) 
 
Operações Data Numero de dias 
de trabalho 
Numero de 
trabalhadores 
Total de dias de 
trabalho 
(dias X trabalhadores) 
Derruba Final de agosto 
até início de 
setembro/ 2017 
4 horas 1 1 
Arar Setembro/ 
novembro 2017 
3 horas 1 1 
Plantação Dezembro/ 2017 2 dias 2 2 
Capina Janeiro / 
Fevereiro 
3 dias 4 3 
Fonte: Elaboração própria 
 
Se compararmos roça de toco e roça com trator em áreas de mesmo 
tamanho, percebe que tempo de trabalho e número de trabalhadores são menores 
em roças com o uso das máquinas. 
A tabela 13 mostra a biodiversidade cultivada em roças com trator de 
quilombolas dos núcleos Mimoso e Arião. Assim como nas roças de toco este tipo de 
sistema apresenta variedades de plantas que são utilizadas na alimentação familiar. 
No núcleo mimoso as atividades agrícolas na localidade em questão estão 
sendo desenvolvidas há três anos, no Arião em 2018 foi o primeiro ano de cultivo 
com máquinas de plantação. Os dois produtore(a)s irão plantar novamente na 
referida área. Após mais um ano de plantio, o produtor do núcleo Mimoso irá cultivar 
capim, transformando a área em roça de pasto. Produtor do Arião pretende 
abandonar a área para descanso (pousio). 
51 
 
Tabela 13: Biodiversidade em duas roça com trator (220 e 85m
2
) cultivo atual /2018 (núcleos 
Mimoso e Arião) 
Produtor(a) I – Mimoso Produtor(a) C – Arião 
Espécie e Variedade Espécie e Variedade 
Feijão de corda Arroz de três meses 
Feijão de arranca Arroz de quatro meses 
Abóbora de pescoço Mandioca amerelinha 
Abobora redonda Mandioca pipiri 
Mandioca amarelinha Milho hibrido 
Mandioca gaierinha Fava 
Mandioca pipiri Maxixe 
Milho hibrido Cana 120 
Milho transgênico Feijão de arranca 
Fonte: Elaboração própria 
 
O uso do trator e da grade demanda um gasto financeiro: uma hora de 
trabalho com trator gera um gasto de R$ 130,00. Obviamente que a aquisição do 
trator poderia compensar a mão de obra de vários trabalhadores ou de muitos dias 
trabalhos. No entanto muitos agricultores não possuem condições financeiras para 
contratar este tipo de serviço. 
Nos municípios mais próximos Arraias e Paranã existem máquinas públicas, 
trator e grades tanto para o desmate quando para beneficiamento da terra para 
plantio. No entanto, a falta de mobilização e articulação políticas das Associações 
dificulta o acesso das famílias rurais quilombolas a estas máquinas. 
Com isso, o aluguel é o único mecanismo utilizado para aquisição de tratores 
e máquinas de beneficiamento da terra. Assim as famílias que não possuem 
recursos para custear estes gastos, utilizam as técnicas agrícolas de cultivos que 
demandam menos gasto financeiro. 
52 
 
3.4 Roça com Agroquímico 
 
Segundo Produtor(a) A do núcleo Forte o uso de "veneno" iniciou-se há uns 4 
anos. Os produtore(a)s começaram a utilizar o Glifosato Roundup para eliminar as 
espécies vegetais e fazer a limpeza da terra para a realização dos plantios. Sendo 
também utilizado após os plantios para fazer o controle do mato que cresce entre 
alguns plantios de cana, milho e mandioca. 
A (tabela 15) apresenta rotação do uso de agroquímicos (Glifosato Roundup) 
é utilizado na mesma área de cultivo por vários anos seguidos. No terceiro ano 
(cultivo atual) foi necessário a utilização de adubo para melhorar a qualidade do 
milho e do Arroz. Nos sistemas agrícolas com agroquímicos, as etapas de 
construção cultivo das roças são realizadas obedecendo ao seguinte calendário 
agrícola (tabela 14). 
Tabela 14: Itinerário técnico numa roça com uso de agroquímicos de 2 anos (Produtor(a)A) 
Torres) – núcleo Forte 
2017 2018 
Jan fev mar Mai jun agos set Nov dez Mar dez 
Mata bruta Roçada, derruba Queima Uso 
roundup 
Plantio e 
uso de 
adubo 
Colheit a 
e 
abandono da 
área para pousio 
Fonte: Elaboração própria 
 
Tabela 15: Rotações interanuais numa roça com uso de agroquímicos calendário agrícola 
2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 
Mata bruta Roça de toco Roça de toco uso 
de 
glifosato roundup 
Roça de toco uso de 
glifosato roundup 
Plantar roça 
novamente 
Fonte: Elaboração própria 
 
Assim como na roça de toco, na roça com uso de agroquímicos são 
realizadas atividades agrícolas como abertura de clareira e queimada. Após estas 
etapas antes do plantio, o glifosato ("roundup") é utilizado para matar o mato e fazer 
a limpeza do solo. É também utilizado segundo o agricultor Produtor(a) A o uso de 
adubo químico (NPK) para fortalecer o solo 
A extensão das roças com trator pode variar de três a quatro tarefas. São 
maiores que as roças de toco, demanda menos mão de obra durante a limpa do 
solo. 
 
53 
 
 
 
Figura 13: Roça cultivada com uso de agroquímicos 
 
Foto: Lourivaldo dos Santos Souza 
 
As imagens (figura 13) apresentam variedades cultivadas em roças com 
agroquímicos (Glifosato Roundup e Adubo NPK). Conforme (tabela 8 e 16) somente 
algumas espécies são comuns aos dois sistemas roça de toco e roça com 
agroquímicos. 
Tabela 16: Roça com agroquímicos Produtor(a) A (cultivo atual) extensão 4 tarefas 
Roça com agroquímicos produtor(a) A (cultivo atual) extensão 4 tarefas 
Espécie Variedade 
Banana Prata Mandioca Amarelinha 
Banana Maçã Mandioca Gaheirinha 
Banana Nanica Mandioca Pipiri 
Banana Três Quina Mandioca Precoçe 
Amendoin Caroço pequeno 
Cana Cento e vinte 
Cana Caiana 
Batata Branca 
Milho Bandeirante 
Milho Cunha Criolo 
Arroz Três meses Agulhinha 
Arroz Quatro meses 
Fonte: Elaboração própria 
 
Os agroquímicos (Glifosato Roundup e Adubo NPK) utilizados nos cultivos 
são comprados nas cidades de Arraias/Tocantins e Campos Belos / Goiás. O uso 
destes produtos ocorre sem preparo ou treinamento. 
 
 
54 
 
Tabela 17: Roça de toco com uso de herbicidas 5 anos 
2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 
Mata bruta Roça de toco Roça de toco Roça de toco Uso de 
glifosato roundup 
Roça com Uso de 
glifosato roundup 
Fonte: Elaboração própria 
 
3.5 Quintais 
 
Nos quintais próximos as residências são cultivados: hortaliças, limão, laranja, 
lima, mandioca e outros produtos alimentícios. A biodiversidade dos quintais 
complementa as produções das roças. O manejo das plantas cultivadas é de 
responsabilidade de todos os membros da família. 
Os cultivos nos quintais são realizados em todas as datas do ano, geralmente 
as hortas ganham potencial em períodos de seca, época em que encontramos maior 
diversidade das espécies cultivadas nestes locais. 
A seguir apresentamos espécies cultivadas em quintas conforme (tabela 18). 
No período das secas (maio até agosto) plantamos hortaliças, no decorrer do ano 
cultivamos espécies como manga, limão, laranja, coco da Bahia, mexerica, 
tamarindo, abacate e outras. Nos quintais também é possível encontrar cultivos de 
mandioca e milho. 
Tabela 18: Espécies cultivadas nos Quintas 
Produtor(a) 
A 
Produtor(a) C Produtor(a)
B 
Produtor(a) F Produtor(a) E Produtor(a) D 
Limão Manga 
Alface Quiabo 
Quento Coco 
da Bahia 
Mandioca 
Laranja Pinha 
Banana 
MandiocaCana 
Laranja 
Mexerica 
Goiaba Caju 
Pitomba 
Pimenta de 
cheiro e 
malagueta 
Morango 
Mangaba Jiló 
Quanto Alface 
Quiabo 
Laranja 
Pitanga 
Abacate 
Pinha Goiaba 
Acerola 
Ciriguela 
Cenoura 
Condessa 
Limão Lima 
Mexerica 
Manga 
Tomarim 
Carambola 
Mamão 
Jabuticaba 
Batata doce Jiló 
Condessa Inhame 
Manga 
Jiló Maxixe 
Seriguela Palma 
Limão Laranja 
Manga Algodão 
Inhame Feijão de 
corda Gergelim 
Mamona Andu 
Caju Novagina 
Mandioca Romã 
Banana 
Vinagreira 
Quiabo 
Laranja Lima 
Inhame Jenipapo 
Goiaba Mandioca 
Cana 
Capim de Cheiro 
Gergelim 
Milho Andu 
Mamona 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
55 
 
Produtor(a) 
G 
Produtor(a) 
H 
Produtor(a) 
I 
Produtor(a) 
J 
Produtor(a) 
L 
Produtor(a) 
M 
Banana 
Abacate 
Maxixe 
Abóbora 
Melancia 
Junça 
Laranja 
Limão 
Manga 
Mandioca 
Milho 
Batata doce 
Pimenta 
Jabuticaba 
Mandioca 
Capim santo 
Pimenta 
 
Limão 
Laranja 
Abacate 
Pimenta 
Quiabo 
Goiaba 
Pinha 
Acerola 
Açafrão 
Gergelim 
Mamão Caju 
Mandioca 
Pimentão 
 
Araruta 
Açafrão 
Acerola 
Mandioca 
Limão 
Manjericão 
Vento livre 
Alfavaca 
Erva cidreira 
Babosa 
Pinha 
Caju 
Matruz 
Batata rocha 
Banana 
Manga 
Mandioca 
Limão 
Laranja 
Pequi 
Manga 
Jatobá 
Fonte: Elaboração própria 
 
 
4 - TRANSFORMAÇÕES DO SISTEMA AGRÍCOLA 
 
4.1 - As Transformações Recentes 
 
Na atividade de cultivo de roças a tarefa que demanda mais tempo é a 
capina. Para diminuir este tempo de trabalho, os agricultores buscaram e continuam 
buscando alternativas para diminuir este tempo de trabalho, pois a maioria não pode 
mais contar com a ajuda dos filhos. De fato, muitos filhos6 se deslocaram para as 
cidades para continuarem os estudos escolares. 
Eles retornam nas férias para visitar os pais, época em que as atividades com 
as roças estão paradas. Neste sentido, as alternativas para compensar a mão de 
obra são uso de agroquímicos, o trator. Pode ser de fácil aquisição para alguns, mas 
nem todos usufruem destas alternativas, devido a falta de recursos para arcar com 
as despesas de máquinas. 
A tabela 19 apresenta os sistemas de cultivo por núcleo familiar na 
comunidade Kalunga do Mimoso. 
Tabela 19: Sistemas de cultivo por núcleo Kalunga do Mimoso 
Núcleo Roça de Toco Quintal Roça de Pasto Roça com Trator Roça com 
Agroquímicos 
Mimoso Sim Sim Sim Sim Sim 
Matas Sim Sim Sim Não Não 
 
6 Levantamento com 12 famílias mostrou que: 3 famílias cada uma com dois filhos, 2 famílias cada 
uma com 1 filho, 7 famílias com filhos morando na cidade, estes retornam para a comunidade nas 
férias ou em períodos de festejos. 
 
 
56 
 
Arião Sim Sim Sim Sim Não 
Forte Sim Sim Sim Não Sim 
Beira do Rio Sim Sim Sim Não Não 
Fonte: Elaboração própria 
 
 
Conforme a tabela 19 percebe-se que alguns núcleos apresentam 
transformações nos sistemas agrícolas, outros permaneceram com suas práticas. As 
roças de toco e as roças com agroquímicos são práticas desenvolvidas em apenas 
dois núcleos familiares. 
A modernização das práticas agrícolas na Comunidade Quilombola Kalunga 
do Mimoso, proporcionou mudanças nos sistemas de produção de alimento, no 
entanto algumas atividades agrícolas se mantiveram: a roça de toco, os quintais; 
outras atividades foram parcialmente abandonadas como, por exemplo, a roça de 
vazante, onde hoje se cultiva apenas o tabaco (conhecido na comunidade como 
“fumo”). 
Com a modernização do sistema de roça de toco, foi possível identificar três 
novos modelos: roça de pasto, roça com trator e roça com glifosato. 
Após o cultivo de roça de toco quem não constrói as roças de pasto, abandona o 
local cultivado e passa a plantar em outra localidade. Há muitos anos o gado era 
criado à solta e pastava livremente no território. Com a invasão, grilagem de terra, 
ocorreu a delimitação e mapeamento do território. Cada morador passou a possuir 
uma propriedade, com isso, ocorreu a redução do espaço de criação do gado, sendo 
necessário construir roças de pasto para alimentar o gado. 
O uso de agroquímicos nas roças de toco é outo processo de modernização 
nas atividades agrícolas na comunidade Kalunga do Mimoso. Há mais de três anos 
que alguns agricultores empregaram nos seus sistemas de cultivo o uso do Glifosato 
Roundup e adubos químicos. 
As atividades descritas podem ser interpretadas como alternativas para 
responder a falta de mão de obra. Assim, em vez de "lutar" contra o capim (ervas 
daninhas) com glisfosato e trator, a opção de transformar as roças de toco em roça 
de pasto consiste em plantar o capim desde o primeiro ou segundo ano de cultivo. 
Adolescentes e jovens migram da comunidade para as cidades para estudar 
ou à procura de trabalho. Em 12 famílias identificamos 38 filhos na zona urbana, 
dispersos nas cidades de Arraias/TO, Goiânia/GO e Brasília/DF. Com menos 
pessoas as famílias constroem roças menores e procuram alternativas como 
57 
 
 
 
mecanização das roças e uso de agroquímicos para compensar a falta de mão de 
obra. 
Nos últimos anos as roças de toco desenvolvidas na nossa comunidade estão 
menores. Este fator é atribuído à saída de pessoas da comunidade. Com menos 
filhos, o produtor cultiva roças menores, pois lhe falta mão de obra. Os filhos 
auxiliam os pais, na capina, colheita, vigia da roça, enfim em todas as atividades que 
exigem menos força e tamanho. Porém, esse quadro tende a mudar com a 
desintrusão de fazendeiros, posseiros e grileiros de terra, algumas famílias estão 
retornando para o território. 
As experiências das roças com trator foram identificas nos núcleos do Arião e 
Mimoso. Percebe-se que as áreas cultivadas com trator, segundo o Produtor(a) I, 
demoram mais tempo para virar mata e ser cultivada novamente do que nas áreas 
de roça de toco. As práticas de cultivo evidenciaram que a sucessão vegetal é 
influenciada pelo tempo de cultivo e pousio, mas, sobretudo pelo preparo da terra. 
Nas roças de toco, os agricultores praticam o desmate seletivo. Ou seja, eles deixam 
de derrubar várias espécies como: pequi, mangaba, aroeira, oiti. Além disso, para 
abrir a clareira, eles roçam as árvores mais finas e derrubam árvores mais grossas, 
mas deixam seus tocos na terra. Ao contrário, nas roças com trator, todas as árvores 
são derrubadas e os tocos são arrancados, e assim a diversidade a sucessão 
vegetal ou rebrota demora mais tempo. 
Identificamos, na roça com trator do Produtor(a) J duas espécies arbóreas 
(aroeira e jacaré), enquanto que na roça de toco do Produtor(a)F núcleo Mimoso 
identificamos dez espécies arbóreas, veja (tabela 19) que foram deixadas durante a 
roçada, e protegidas do fogo durante a queima. Essa diferença ocorre porque é feito 
o desmate seletivo e várias espécies são preservadas nas roças de toco. Segundo o 
Produtor(a) F quando se preserva as árvores, o solo se conserva mais úmido, 
evitando a perda dos plantios. 
 
 
 
 
 
58 
 
Tabela 20: Roça de toco – produtor Produtor(a) F 
 Roça de « mata 
De capoeira 
 bruta » 
Tamanho 
 
Tempo 
desde 
queima 
 
Cultivo atual 
 
Idade da 
capoeira 
 
Tempo desde 
queima 
 
Cultivo 
atual 
Espécie 
deixadas 
durante a 
roçada e 
 derruba 
 
 
 
1/5 tarefas 
 
 
 
 
3 anos 
 
 
 
 
3 anos 
Arroz 
Mandioc a 
Milho Fava 
Maxixe 
Abóbora 
Melão 
Vitamina 
Inhame 
cedro, aroeira, 
jatobá, pitomba, 
mamoninha, pau 
de óleo, caibra, 
mirindiba, 
baquari, 
cajá 
Fonte: Elaboração própria 
 
Para limpar a terra o uso do Glifosato Roundup substitui o uso da enxada. 
Conhecido na região como mata mato, o Roundup é utilizado para eliminar espécies 
vegetais. Já o plantio é feito com o uso de adubos químicos. 
 
Figura 14: Roça com o uso de agroquímicos/2018 
 
Foto: Ludivine Eloy 
 
 
 
 
 
 
59 
 
Figura15: Morador eliminando ervas da ninha com o Roundup 
 
Foto: Ludivine Eloy 
 
Para o Produtor(a) A, "o mato vem muito, ai tem que bater o veneno". De fato,o uso de agroquímicos permite compensar a falta de mão de obra, pois ele trabalha 
sozinho, já que os filhos estão morando na cidade: “dos cinco filhos apenas um 
deles me ajuda às vezes no final de semana[...] Quando a gente bate o veneno, o 
mato morre logo e não precisa capinar, nem pagar trabalhador” (PRODUTOR(A)A 
de 1959, comm, pers., 2017). 
Em resposta a falta de mão de obra os kalungueiros buscam alternativas que 
viabilizam e facilitem o trabalho agrícola. Assim novos métodos e técnicas são 
agregados pelos agricultores em diferentes núcleos familiares. 
 
4.2 - Impacto das transformações das práticas agrícolas sobre as áreas 
Kalunga 
 
 
As transformações ocorridas no sistema agropecuário proporcionaram 
mudanças nas paisagens da Comunidade Quilombola Kalunga. Com as roças de 
pasto ocorreu a redução das espécies vegetais. Quando cultivamos uma roça de 
pasto fazemos a remoção parcial da cobertura vegetal, deixando poucas árvores. 
 
60 
 
Com isso, temos a monocultura do capim, e as espécies que crescem entre o 
capim são anualmente manejadas com a roçada. Isso caracteriza um novo modelo 
de paisagens conforme (figura 16). 
 
Figura 16: roça de pasto / capim braquiária 
 
Foto: Ludivine Eloy 
 
 
Neste sentido, as matas são removidas e com as roças de pasto as clareiras 
entre as florestas são visualmente identificadas. 
Os locais onde são construídas as roças de pasto são destinados unicamente 
para a pastagem de bovinos e equinos. Quando se pretende fazer uma nova roça 
de pasto abre-se nova clareira e assim sucessivamente. 
As consequências para este tipo de cultivo são escassez de matas para 
cultivos de outros tipos roça (produção de alimento), escassez de madeira. Já as 
roças com trator apresentam os seguintes impactos para as paisagens: ocorre a 
remoção total das espécies vegetais presentes no local de cultivo, então estas áreas 
demoram muito tempo de pousio para a realização de novos cultivos, pois ocorre a 
remoção das sementes do solo, tocos e raízes são arrancados. 
O uso de agroquímicos como o Glifosato handup (“mata mato”) utilizado como 
61 
 
herbicida para eliminar espécies vegetais, como consequência para as paisagens 
caracteriza-se pelo fato de que pode retardar o tempo de pousio das áreas 
cultivadas. Assim, retarda a realização de novos plantios, o que leva os 
produtore(a)s quilombolas a abrirem novas clareiras em menos tempo, causando 
sérios impactos, como escassez de matas para novos plantios, extinção de espécies 
animais que depende destas florestas para sobrevir, poluição dos córregos, 
contaminação dos alimentos naquela localidade, intoxicação dos produtore(a)s por 
utilização de produtos sem roupas e mascaras de proteção, veja (figura 15) 
 
4.2.1 - A rebrota da vegetação 
 
Nas roças visitadas foi possível identificar diferentes características na rebrota 
da vegetação. Enquanto que nas roças com trator não ocorre rebrota, devido a 
remoção total de raízes e tocos, nas roças de toco a rebrota é algo que ocorre com 
muita rapidez. Em minhas experiências com roça de toco identifiquei que a rebrota 
ocorre logo após a queima, daí realizamos o controle através da capina e do corte 
das espécies que rebrotam dos tocos. 
As espécies que rebrotam dos tocos e raízes vão dar origem as capoeiras, 
que podem ou não ser cultivadas no ano seguinte. Em alguns núcleos é possível 
cultivar de 2 a 3 anos na mesma localidade, em outros é possível o cultivo de até 6 
anos, após nestes períodos as áreas são abandonadas para pousio. Podemos 
perceber esta diferença nas (tabelas 10 e 15). 
A rebrota é de suma importância para a rápida recomposição vegetal das 
áreas cultivadas, com isso é possível cultivar mais tempo em uma mesma 
localidade, evitando a abertura de novas clareiras. E caso ocorra é possível voltar a 
cultivar a capoeira em menos tempo. 
4.4 - Mecanização e Uso de Agroquímicos 
 
As mudanças nas práticas agrícolas trazem novos desafios. O estudo das 
roças evidenciaram as novas práticas adotadas nos sistemas de cultivo de roças de 
toco. Há anos os cultivos eram realizados aplicando as técnicas de corte e queima. 
 
 
 
62 
 
“A agricultura de corte e queima, na sua definição mais ampla, é qualquer 
sistema agrícola contínuo no qual clareiras são abertas para serem 
cultivadas por períodos mais curtos de tempo do que aqueles destinados ao 
pousio” (PRODUTOR(A)ASO Jr. N. N. et al 2008, p.2) 
 
Os estudos das roças evidenciaram as novas práticas adotadas nos sistemas 
de cultivo de roças de toco. A modernização do sistema de corte e queima permitiu 
aos kalungueiros produzirem em áreas maiores. O uso do trator, por exemplo, 
proporciona ao agricultor empregar menos mão de obra e menos tempo de trabalho 
nas atividades agrícolas. Com o uso do trator é possível produzir mais em menos 
tempo. 
No entanto nas áreas cultivadas a partir da mecanização, a mata se recupera 
mais lentamente, necessitando um tempo de pousio mais longo. Neste tipo de cultivo 
todos os tocos são arrancados, e as raízes são cortadas ou arrancadas (figura 12 e 
17). Ao contrário do que ocorre com as roças de toco. 
Nas roças de tocos é feito o desmate seletivo, são deixadas várias espécies 
vegetais, e os tocos não são arrancado (veja figura 18). Essa técnica favorece a 
rebrota vegetal. Os tocos deixados começam a brotar e o nível de biomassa verde 
gradativamente vai se recompondo. 
 A figura 19 apresenta imagens de capoeiras de roças de toco, na qual os 
tocos deixados vão-se rebrotando, o que após alguns anos permite que a área 
possa ser novamente cultivada. 
63 
 
 
Figura 17: Roça com trator núcleo Arião – Produtor(a) C 
Imagem: Lourivaldo dos Santos Souza 
 
Figura 18: Roça de toco Beira do Rio Paranã – Produtor(a) H 
Imagem: Lourivaldo dos Santos Souza 
64 
 
 
Figuras 19 : Rebrota vegetal num toco, dentro de uma capoeira de 4 anos – Núcleo Arião 
 
Imagens: Lourivaldo dos Santos Souza 
 
Observa-se que os tocos e raízes deixados favorecem a rebrota vegetal, 
reduzindo o tempo de pousio destas áreas para a realização de novos cultivos. 
 
 
 
65 
 
No núcleo Mimoso identificamos roças com a mecanização (uso do trator) e 
roça de toco. Para o senhor Produtor(a) F agricultor do sistema de corte e queima, 
uma roça de toco naquela região leva de 4 a 6 anos para estar apta a um novo 
cultivo. Já para o Produtor(a) I, a roça com trator levaria de 8 a 16 anos para que 
aquele local tivesse a aparência vegetal de quando se fez o primeiro cultivo. Ou 
seja, o tempo de pousio necessário numa roça com trator é o dobro da roça de toco. 
O Produtor(a) I relatou que a vantagem da roça com trator é que você pode 
plantar uma área maior e colher mais, além de aplicar menos mão de obra, sendo 
possível plantar roças extensas de 1 a 3 alqueires, obviamente se tiver dinheiro para 
pagar o maquinário. 
Uma roça de toco de 1 a 2 tarefas demanda bastante mão de obra desde a 
roçada à limpa da terra. Conforme cálculos apresentado na tabela 7. É necessária a 
participação de toda a família. A quantidade de pessoas em casa impacta na 
extensão das roças construídas. Quanto mais pessoas maiores serão as roças. 
O estudo das capoeiras evidenciou que as roças de toco causam baixo 
impacto na paisagem. Porque o desmate seletivo garante a preservação de várias 
espécies conforme apresenta a (tabela 20), isso permite a dispersão de sementes no 
local, rebrota de raízes, umidade do local, e os tocos deixados durante derruba e 
roçada rebrotam e permite aumentar o volume de biomassa vegetal em pouco tempo 
(de um a dois anos), permitindo fazer cultivos anuais. 
A tabela 21 mostra que a maioria das capoeiras deixadas após a roça de toco 
apresenta uma grande diversidade de espécies florestais. O que ocorre é o desmate 
seletivo, processo pelo qual vamos poupando algumas espécies da derruba e da 
roçada. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
66 
 
 
 
 
Tabela 21: Principaisespécies de arvores levantadas em capoeiras de diferentes idades após 
roça de toco 
Produtor(a)
H cap 1 
ano 
Produtor(a) 
D 
cap 2 anos 
Produtor(a) 
E cap 3 
anos 
Produtor(a) F 
cap 4 anos 
Produtor(a) C 
cap 8 anos 
Produtor(a) J 
cap 9 anos 
Produtor(a) C 
cap 10 anos 
Ipe roxo 
Jatobá de 
anta 
Jatobá do 
campo 
Vaqueta 
Mutamba 
Aroeira 
Mamelada 
Quina 
Jenipapo 
Mangaba 
Miroro Paut 
terra 
Jatobá Caju 
Folha liza 
Timbó 
Cagaita 
Sambaiba 
Tucum 
Pequi 
Giricum 
Coqueiro 
Cedro Aroeira 
Jatobá 
Pitomba 
Mamoninha 
Mirindiba Cajá 
Baquari Pau 
de óleo Caibra 
Timbó 
Marmelada 
Jatobá 
Mirindiba 
Manga Pequi 
Baru Pimenta 
de macaco 
Cagaita Oiti 
Murici Miroro 
Catinga de 
porco Sambaiba 
Oiti Mutamba 
Coco de palha 
Cagaita Murta 
Pata de vaca 
Caju 
Cipó mole 
Quinha branca 
Timbó 
Marmelada 
Jatobá 
Mirindiba 
Manga Pequi 
Baru Pimenta 
de macaco 
Cagaita Oiti 
Fonte: Elaboração própria 
 
Nas roças com trator, nascem outras espécies vegetais diferentes das que 
existiam anteriormente naquela região. Enquanto que na roça de toco ocorre a 
rebrota das espécies que existiam antes da derrubada7, na roça com trator, surgem 
as ervas daninha como catinga de porco e outras espécies não identificadas pelos 
produtore(a)s. 
 
4.5 - Da floresta à pastagem 
 
O estudo das capoeiras mostra que nem todos os agricultores fizeram 
pastagens. O Produtor(a) J e o Produtor(a) B foram os que apresentaram um maior 
número de roças de pasto em suas propriedades. 
As roças de pasto são construídas após os cultivos de alimentos. Planta-se o 
capim, e este é cultivado por longas datas. Sendo feito o manejo das espécies 
vegetais que crescem entre o capim, mantendo a monocultura do capim. A produção 
de roça de pasto esta associada à criação do gado, quando mais criação leiteira 
possui maior será a produção do capim. Além disso, os produtore(a)s procuram 
"limpar" sempre os pastos, para que justamente, a capoeira não retorne a crescer, 
 
7
 Para os kalungas a derrubata é uma etapa de desmatamento realizada com o machado e foice 
(corte das árvores para abertura de clareiras). 
67 
 
levando a uma transformação a longo prazo da paisagem. E o uso crescente do 
trator vem se juntar à tendência em transformar as florestas em pastagens. Percebe- 
se que, a partir das experiências apresentadas pelo Produtor(a) J e o Produtor(a) I 
, que adotaram a mecanização das suas roças (uso do trator para limpa da terra e 
a grade de arar para o plantio) que o destino das áreas cultivadas com trator é a 
formação de pastos. 
Tabela 22: Roça de toco e roça com trator 3 anos (núcleo Mimoso: Produtor(a)J) 
2013 2014 2015 2016 2017 2018 2018 
Mata bruta Roça de 
toco 
Roça de 
toco 
Roça com 
trator 
Roça com 
trator 
Abandonar a área para 
descanso 
 
Tabela 23: Roça de pasto 15 anos (núcleo Mimoso) 
2000 a 2001 200 
1 
2002 2003 2003 a 20018 
Mata bruta Roça de toco Roça de pasto capim agropolo 
 
Tabela 24: Roça de pasto 25 anos (núcleo Mimoso) 
1991 a 1993 1993 a 1994 1994 a 2018 
Mata bruta Roça de toco Roça de pasto capim agropolo 
Fonte: Elaboração própria 
 
Hoje a situação das pastagens (tabela 22 e 23) é o cultivo do capim agropolo, 
o manejo destas áreas é realizado a partir da poda de outras espécies, com a 
finalidade de manter a monocultura do capim. 
As tabelas 24 apresentam sucessão de cultivos de roça de toco e roça de 
pastos, cultivos do Produtor(a) B- núcleo Forte. 
Tabela 25: Roça de pasto 4 ano 
2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 
Mata bruta Roça de toco Roça de pasto (capim braquiária) 
 
Roça de pasto 5 ano 
2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 
Mata bruta Roça de toco Roça de pasto (capim agropolo) 
 
Roça de pasto 6 anos 
2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 
Mata bruta Roça de toco Roça de pasto capim braquiária e agropolo 
Fonte: Elaboração Própria 
 
Quem não constrói as roças de pasto abandona o local cultivado e passa a 
plantar em outra localidade. Há muitos anos o gado era criado à solta e pastava 
livremente no território. Com invasão, grilagem de terra, delimitação e mapeamento 
68 
 
do território, cada morador passa a possuir uma propriedade, provocando redução 
do espaço de criação do gado, e para o senhor Produtor(a) J, é necessário construir 
roças de pasto para alimentar o gado. 
 No núcleo Matas o tempo de pousio segundo o Produtor(a) L varia de 6 a 9 
anos, após 1 a 3 anos de cultivo. No núcleo Arião é necessário de 8 a 9 anos para 
cultivar novamente em uma área, sendo cultivável de 2 a 3 anos na mesma 
localidade. 
O Núcleo Forte, localizado nas encostas da serra do Bom Despacho conforme 
apresenta o Mapa Oficial da Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso, conforme 
apresenta a figura 1, é uma região de mata fechada, mais densa, conhecida como 
Mata de Capão, típica vegetação do Cerradão. O tempo de pousio nesta localidade 
pode variar de 4 a 6 anos, após 3 ou 4 anos consecutivos de cultivos. 
 
 
 
4.6 - O Uso do Glifosato nos Sistemas Agrícolas 
 
A modernização das práticas agrícolas na referida comunidade evidencia 
benefícios para os agricultores, mas também apresenta desafios. Como a 
manutenção da saúde e da qualidade de vida do povo kalungueiro, a gestão e a 
sustentabilidades dos recursos vegetais e hídricos da comunidade. 
Existem roças com agroquímicos localizadas próximas as nascentes de rios 
que abastecem a comunidade, após as chuvas certamente serão levados resíduos 
de toxinas para as água dos rios. Os moradore(a)s que fazem uso desta água 
obviamente serão contaminados. 
O processo de intoxicação com resíduos de produtos químicos podem ocorrer 
imediatamente ou em longo prazo dependendo da quantidade que foi ingerido. 
Segundo parecer técnico N. 01/2015, produzido por pesquisadores da Universidade 
Federal de Santa Catarina (UFSC). Existem vários riscos tanto para a saúde 
humana quanto para a natureza associados ao uso de herbicida como Glifosato. 
A análise técnica de este parecer foi realizada por Sonia Corina Hess, 
professora de Engenharia Florestal e Agronomia do campus Curitibano, e Rubens 
Onofre Nodari, professor de Agronomia e Coordenador do Programa de Pós- 
Graduação em Recursos Genéticos Vegetais da UFSC, em Florianópolis. 
Segundo Parecer a quantidade necessária para causar problemas à saúde é 
69 
 
baixa, assim o uso do herbicida é grave, pois pode causar problemas como câncer, 
infertilidade, depressão, mal de Alzheimer, má formação em crianças, e ainda mata 
as bactérias que ajudam o corpo humano em algumas atividades metabólicas. Pode 
ainda causar danos ao solo e à água, afeta os ecossistemas em muitos casos até 
irreversível, como o solo é um material que contém muitos organismos vivos, o 
glifosato mata todos os microrganismos que vivem no solo e que são de fundamental 
importância para a formação do mesmo. 
Uma das roças com glifosato visitadas na Comunidade Kalunga do Mimoso 
está localizada as margens de um córrego que abastece mais de 20 famílias. É 
inevitável a contaminação de córregos e rios, pois as chuvas trazem os resíduos até 
ele, contaminando os seres vivos que fazem uso daquela água. Podemos associar 
essas técnicas à falta de treinamento e preparo para uso de agroquímicos. A figura 
15 mostra um kalungueiro sem preparo ou proteção física fazendo uso do veneno 
mata mato próximo ao córrego. 
As experiências do Produtor(a) A com uso de agroquímicos (glifosato 
houndup), mostra que é uma das alternativas utilizadas para compensar o trabalho 
que antes era realizado pelos filhos, que atualmente moram na cidade. 
Já o Produtor(a) F relata que usa mata mato por que é menos trabalhoso do 
que fazer a limpa da terra com o uso da inchada. 
 
Eu uso o veneno pra matar mato, tem é que saber usar, se não se fica 
doente, tem que bater contra o vento, pra nãovim na cara. Depois que bater 
o mato morrer ai se pode plantar, ou então você plantar depois bate o 
veneno antes da semente nascer. Foi uma hora eu bati nessa roça toda, se 
fosse capinar ia demorar uns 5 dias eu sozinho e a mulher. (PRODUTOR(A) 
F, 1964, comm, pers., 2017). 
 
Assim como roça com trator, a roça com agroquímico são atividades de 
modernização que estão associadas para compensar a falta de mão de obra 
minimizando o esforço físico nos trabalhos agrícolas. 
 
4.7 - Perda de Agrobiodiversidade 
 
A principal função da diversidade agrícola nas roças de toco é suprir a 
necessidade alimentares das famílias locais. Para os agricultores visitados os 
sistemas de cultivos de roças de toco causam baixo impacto as paisagens vegetais 
e ao solo. “Não por que todo mundo plantava de toco e as matas tão do mesmo jeito 
70 
 
uai”. (PRODUTOR(A) D, comm, pers.,1943). As sementes são guardas e 
replantadas, assim a preservação de semente vai ocorrendo de geração a geração, 
e se um produtor perde a semente, pode encontrá-la com os agricultores dos demais 
núcleos familiares. Percebe-se que a grande maioria das sementes de milho é 
comprada nas cidades. Identificamos a aquisição de sementes de milho 
comercializadas em centro urbano pelos agricultores que residem às margens do rio 
Paranã. 
O Produtor(a) J relatou que seus pais plantavam sempre na região onde ele 
tem sua casa (Barra do Bezerra). Toda aquela área era "capoeira deles". Ele 
descreve que as espécies vegetais ali presentes, estão ainda hoje preservadas8. O 
que ocorre é que a maioria das espécies vegetais derrubada rebrota, restabelecendo 
a mata anterior. Pois as áreas que eram cultivadas eram deixadas ao descanso, 
tinha espaço para plantar, cultivar, o gado era criado à solta, não existiam 
pastagens, existiam mais áreas para se cultivar. 
Os quintais e as roças apresentavam diferenças na biodiversidade cultivada. 
Quem cultiva roças maiores são os agricultores que utilizam o trator com a grade e 
agroquímicos. No entanto, estas práticas não estão associadas à perda de 
biodiversidade vegetal. Atualmente contabilizamos com os 12 produtore(a)s 101 
espécies e variedades cultivadas, conforme (tabela 2). A tabela 26 apresenta 24 
espécies e variedades perdidas, levantadas com os produtore(a)s dos núcleos 
mencionados nos parágrafos anteriores. 
Na roça com agroquímicos, extensão de (3 tarefas) do Produtor(a) A 
identificamos 16 variedades de plantas, já na roça com trator, extensão de ( 1 um 
alqueires) do Produtor(a) I contabilizamos 9 variedades de plantas. 
No entanto, percebe-se diferença de cultivos entre quintais e roças. Enquanto 
que nos quintais são cultivadas espécies frutíferas e hortaliças, nas roças são 
cultivadas espécies anuais como arroz, feijão, milho e outras. Apresentamos a seguir 
duas tabelas que demonstram a biodiversidades cultivadas em quintais e roças. 
 
Tabela 26: Biodiversidade quintal e roça (Produtor(a) C) – cultivo atual em 2018 
Espécie Variedade Espécie Variedade 
laranja comum arroz vermelho 
mexerica comum arroz branco 
 
8 Espécies preservadas. Preservar para os kalungueiros significar cuidar, não roçar, não derrubar, 
deixa a área descansar por vários anos. 
 
71 
 
goiaba vermelha mandioca pipiri 
cajú do cerrado mandioca gaheirinha 
pitomba do cerrado cana cento e vinte 
pimenta de cheiro maxixo liso 
morango vermelho fava fava comum 
mangaba do cerrado milho criolo (cunha) 
jiló redondo 
quento cheiro verde 
alface comum 
quiabo pequeno 
goiaba branca 
Fonte: Elaboração própria 
 
Os quilombolas cultivam diversas espécies e variedades de planta, no entanto 
vale lembrar que há alguns anos ocorreu gradativamente a perda de biodiversidade 
cultivadas pelos antepassados. Na tabela 26, apresentamos plantas que foram 
deixadas de cultivar na comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso. 
A perda de biodiversidade vegetal não está ligada aos sistemas de cultivos 
atuais. O arroz beira campo, por exemplo, foi deixado de plantar porque era difícil 
fazer o seu beneficiamento. Segundo a Produtor(a) G, este tipo de arroz era difícil 
para soltar a casca, era preciso socar várias horas no pilão, enquanto que o arroz 
vermelho e outros soltavam a casca com mais facilidade. 
Identificamos com os agricultores e com os mais velhos, algumas perdas de 
sementes de plantas cultivadas que hoje não se cultivam mais. 
Para o senhor Nicanor muitas plantas cultivadas hoje não se cultiva mais. 
 
 
Plantava roça, cercada de madeira, cerca caiçara, aquela de madeira 
montoada era o costume do povo. Primeiro arroz o de 5 meses para 
madurecer, o milharim arroz vermelho, arroz trigo um miudinho, tinha um 
arroz de três meses também. Mandioca doidona, mata formiga, o babu que 
pouca gente conhece ela é boa para dar raiz, mas muito margosa o beiju 
dela para comer era com dois dias, mata rato pouca gente conheceu era 
margosa. As doces a laranjeira, castelo preto e castelo branco, casco de 
burro foram desaparecendo. Uai a maioria das mandiocas é ne poucos 
lugares pra você ver, a mandioca doidona preta essa aí nos inda ve ne 
muitos lugares, casco de burro ta acabando, mata rato não tem a rochinha 
doce também não tem. (MORADOR 1, 2017) 
 
Para os agricultores a mandioca, quando cultivada anos seguidos na mesma 
terra, na mesma região, vai perdendo a qualidade e com o tempo perde-se a muda. 
“a terra não obedece, a mandioca não dá boa quando planta muito tempo no lugar, 
um ano, dois três, já começa arruinar, a banana só ela pode plantar e replantar que 
ela dá bom, agora as outras com muitas planta passa o ano elas vai arruinando ‟‟. 
(PRODUTOR(A) G de 1954, comm, pers., 2018). Nota-se a necessidade de adaptar 
72 
 
os sistemas de cultivos para não perder a diversidade, por exemplo, fazer roças 
diferentes e trocar variedades entre os núcleos, outra alternativa seria feiras de troca 
de sementes na comunidade. 
Para o cultivo da mandioca, quanto mais se utiliza o solo, perde a qualidade 
da muda da mandioca. Por isso os agricultores procuram novas mudas de espécies 
diferentes, com o passar do tempo eles vão trocando suas variedades. 
Algumas espécies apresentam hoje uma diversidade vegetal muito menor do 
que era "antigamente": é o caso principalmente do arroz, do milho, do feijão e da 
mandioca, que são as plantas que estão na base da alimentação regional. 
Tivemos perda de algumas variedades de arroz, mandioca, milho, gergelim, 
batata doce, abobora, feijão e jiló. Estas variedades foram substituídas por outras 
variedades que se adaptaram aos sistemas de cultivos locais e ao solo e clima da 
região. 
 
O arroz usava cabava e não guardava a semente, ai a semente cabava o 
milharim tinha o caroço muito pequeno dificil para bater e para limpar, era 
mole pra encergar tirar do caixa, colocava no pilao batia batia e não limpava 
direito, o arroz beira campo era duro para bater tirar do caixar e duro pra 
socar todos dois era duro dava muito trabalho para deixar no ponto de 
comer. Eu acho que era isso que a semente foi sumindo hoje nínguem mais 
que conheço tem ele. (PRODUTOR(A)G de 1954, comm, pers., 2018) 
 
As novas sementes são adquiridas nos mercados das cidades e em outras 
regiões, as quais vão se espalhando pelo território através da troca e de doações 
entre os agricultores. 
 
A nova geração não passou a gostar do arroz e começou a procurar outras 
sementes nas redondezas, a mandioca foi acabando a muda. Ja alguns 
arroz perdeu a semente por que a chuva quando é pouca. O arroz não 
grana, não cria caroço, o arroz em fevereiro embucha, se plantar em 
dezembro ele vai embuchar em março, se faltar chuva o caroço não encge 
se não encher o cacho de arroz fica seco não enche ai perde a roça. 
(PRODUTOR(A) L, comm, pers., 2016) 
 
Com a falta de chuva, os agricultores começam a cultivar o arroz de três e 
quatro meses, quando percebem que vai chover pouco,o cultivo é do arroz de três 
Meses, pois a colheita é mais rápida. Fazem o rodízio do plantio de arroz de três e 
quatro meses. 
Os agricultores relataram que hoje planta menos em favor do clima. Justificam 
que atualmente chove pouco, e às vezes "planta e perde tudo", nesse sentido planta 
73 
 
menos principalmente arroz, caso haja perda será menor. 
 
Desde que eu me conheço por gente, que eu vejo o povo fazendo roças, 
para plantar e produzir o que comer, junta a família e vai trabalhar para o 
sustento de casa, meu avó plantava, meu pai plantou hoje está velhinho não 
aguenta mais a labuta, eu desde muito pequeno ia para a roça e trabalhava 
aprendi plantar para comer e não morrer de fome, produzia pra comer e 
trocar com parentes algum alimento, antigamente nós plantava muito, 
chovia muito, hoje ainda planta mais pouco, por que esta muito seco. 
(PRODUTOR(A) L, comm, pers.,2016) 
 
O arroz de cinco meses já foi cultivado na região, no entanto nas roças 
visitadas nos anos de 2017 e 2018 não foram encontrados cultivos de arroz de cinco 
meses. 
Além do arroz e da mandioca, outras espécies foram perdidas ou deixadas de 
cultivar. Identifiquei mais de 20 espécies que atualmente não são cultivadas na 
comunidade kalunga do Mimoso. Conforme apresenta a tabela 27. 
 
Tabela 27: Lista de plantas perdidas 
Lista de plantas perdidas 
Arroz bico ganga Gergelim preto 
Arroz pratinha Inhame cará 
Arroz milharin Batata da pele vermelha que a massa é 
Arroz pra tudo branca 
Arroz beira campo Batata da pele vermelha que a massa é 
Milho de pipoca branca e vermelha 
Milho branco Btata branca parecida com batatinha 
Mandioca casca de burro Batata pele vermelha massa roxa 
Mandioca mata formiga Abobora muranga 
Mandioca babu Fava pequena 
Mandioca mata rato Feijao de arranca rochinho 
Mandioca laranjeira Feijão de arranca preto 
Mandioca roxhinha Jiló saco de bóde 
Fonte: Elaboração própria 
 
 
A seguir apresentamos os esquemas de rotação de biodiversidade vegetal 
cultivadas em roças. (Tabelas 28,29,30,31 e 32). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
74 
 
Tabela 28: Produtor(a) A /Roça de toco 6 anos de cultivo / cultivo com agroquímicos a partir do 
3° ano de cultivo - núcleo Forte 
20 
11 
2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 
Mata bruta Arroz Arroz Arroz Arroz Milho Arroz 
 Milho Milho Milho Milho Abobora Milho 
 Mandioca Abobora Abobora Abobora Maxixo Mandioca 
 Abobora Maxixo Maxixo Maxixo Amendoin Abobora 
 Maxixe Mandioca Amendoin Batata doce Maxixo 
 cana Amendoin 
Fonte: Elaboração própria 
 
Tabela 29: Produtor(a) C / Roça de toco e com trator / Arião 
2017 2018 
Ja n fev mar abr Mai jun ag Set Nov dez Mar abr mai No v dz dez 
Mata bruta Roçada, derruba e 
queima 
Mecanização 
com trator e 
plantio Arrosz 
Mandioca 
Milho 
Fava Maxixe 
Cana 
Colheita Plantar novamente 
Fonte: Elaboração própria 
 
Tabela 30: Produtor(a) J / Roça de toco e roça com trator 3 anos /Mimoso 
2013 2014 2015 2016 2017 2018 2018 
Mata bruta Arroz Milho Inhame Inhame Abandonar 
 Milho Mandioca Feijão de corda Feijão de corda a área para 
 Mandioca Abobora Abobora abobora descanso 
 Abobora Junça Milho Milho 
 Melancia amendoin Mandioca Mandioca 
 Amendoin Melancia Melancia 
 Feijão Abobora Abobora 
 andu Feijão andu Feijão andu 
 Amendoin Amendoin 
 Junça junça 
Fonte: Elaboração própria 
 
 
Tabela 31: Produtor(a) F / Roça de toco – com uso de herbicidas 3 anos / Mimoso 
2011 2012 2013 2014 2015 2016 2018 2018 
Mata bruta Arroz Arroz Arroz Plantar roça 
 Mandioca Milho Mandioca novamente 
 Milho Fava Milho 
 Fava Maxixe Fava 
 Maxixe Abóbora Maxixe 
 Abóbora Melão Abóbora 
 Melão Vitamina Melão 
 Vitamina Inhame Vitamina 
 Inhame Inhame 
Fonte: Elaboração própria 
 
 
 
 
75 
 
Tabela 32: Produtor(a) G / Roça de toco 1 ano – Núcleo Beira do rio 
2017 2018 
Ja n fe v ma r ab Mai ju agt set Nov dez Mar ab r ma i de z Nov dez 
Mata bruta Roçada, derruba e 
queima 
Milho Mandioca 
Quiabo Jiló 
Melão Abobora 
Vitamina Cana 
Maxixo 
Batata doce 
Colheita Plantar roça 
novamente 
Fonte: Elaboração própria 
 
A rotação dos cultivos apresentados nas tabelas anteriores mostra a 
semelhança dos cultivos em cada núcleo, no entanto a roça mecanizada (tabela 28) 
e a roça com agroquímicos (tabela 27) são as que apresentam menos variedades 
cultivadas. Cada produtor planta de acordo com a necessidade alimentar de seu 
grupo família. 
 
4.8 - Impacto da Mecanização das Roças sobre a Paisagem 
 
 
Percebe-se que, a partir das experiências apresentadas pelo Produtor(a) J e o 
Produtor(a)I , que adotaram a mecanização das suas roças (uso do trator para limpa 
da terra e a grade de arar para o plantio) que o destino das áreas cultivadas com 
trator é a formação de pastos. Por outro lado, a maioria das roças de tocos após os 
cultivos são deixadas ao descanso. 
Para o Produtor(a) J, o qual tem experiências com cultivos em roças de tocos 
e roças com uso de trator, o tempo de pousio da segunda roça demora mais que na 
segunda roça. Durante as visitas realizadas as roças dos senhores Produtor(a)J e 
Produtor(a)I, os dois agricultores identificados no Núcleo Mimoso e Barra do 
Bezerra, nota-se que as roças mecanizadas são destocadas, enquanto que as roças 
de toco visitadas nos núcleos Arião, Forte, e Beira do Rio Paranã, não são destocas 
e a rebrota vegetal é mais rápida assim como o tempo de pousio. 
Segundo o produtor Produtor(a) B, no Núcleo Forte, depois da colheita, no 
ano seguinte a área é replantada por mais uns 2 ou 3 anos, e quando a área não é 
transformada em pastagem, e deixada descansar, assim abre uma nova clareira 
(nova roça) em outra área. A formação de pastagens pode causar a redução de 
76 
 
áreas de mata bruta e capoeira, e assim restringir o desenvolvimento de atividades 
agrícolas, como roça de toco e até mesmo roça com trator. 
Percebe-se após os cultivos de roça de toco e roça com trator que a rebrota e 
o crescimento das árvores é diferente. Nas roças de toco, ocorre a rebrota dos tocos 
deixados durante derruba e a roçada. Nas roças com trator, não ocorre rebrota, pois 
tocos são arrancados, raízes são cortadas e sementes são removidas, retardando 
assim o tempo de pousio. 
Identificamos o retorno de descendentes de kalungueiros para a comunidade, 
assim como a saída de jovens e adolescentes. Com isso, surgem novos desafios na 
lida com os trabalhos e atividades agrícolas, as roças estão sendo construídas 
menores, pois sem a ajuda dos filhos, alguns agricultores não conseguem preparar 
grandes áreas para o cultivo agrícola. Outros utilizam máquinas agrícolas e insumos 
químicos para compensar a falta de mão de obra antes compensadas pelos filhos. 
Os cultivos de roças de toco são realizados por anos seguidos em uma 
mesma localidade. Para alguns agricultores como o Produtor(a) L este fator está 
ligado ao atraso das indenizações das propriedades dos fazendeiros. Sem áreas 
diferentes para plantar, as áreas cultivadas não têm tempo de pousio (descanso) 
suficiente para rebrota dos tocos e recomposição de biomassa vegetal. 
No entanto diante dessas mudanças e desafios (clima, povoamento, técnicas 
de mecanização com trator), é possível identificar a biodiversidade cultivada nas 
roças. Identificamos durante as visitas às roças de toco, e roça com trator, o arroz de 
três e quatro meses, o melão de talhada, a melancia, o melão de horta, a mandioca 
brava e a mandioca mansa, feijão de arranca, e feijão de corda, amendoim, milho, a 
banana, feijão andu, gergelim, cana, gengibre, abobora. Foi possível identificar uma 
diversidade de plantas nos quintais das casas visitadas. Como abacate, manga, 
goiaba, pimenta malagueta e de cheiro, pinha, capim santo, erva cidreira, banana 
prata, maçã e três quina, mandioca, quiabo, jiló. 
As sementes são guardadas e replantadas, assim a preservação de semente 
vai ocorrendo de geração a geração, e se um produtor perde a semente,pode 
encontrá-la com os agricultores dos demais núcleos familiares. Percebe-se que a 
grande maioria das sementes de milho é comprada nas cidades. Identificamos a 
aquisição de sementes de milho comercializadas em centro 
urbano pelos agricultores que residem às margens do rio Paranã. 
A principal função dos cultivos agrícolas desenvolvidos nas roças de toco é 
77 
 
suprir a necessidade alimentares das famílias locais. Para os agricultores visitados 
os sistemas de cultivos de roças de toco causam baixo impacto às paisagens 
vegetais e ao solo. As roças que vocês constroem não destroem as florestas? “Não 
por que todo mundo plantava de toco e as matas tão do mesmo jeito uai”. 
(PRODUTOR(A)D, comm, pers.,1943) 
O senhor Produtore(a)s J relatou que seus pais plantaram sempre na região 
onde ele tem sua casa (Barra do Bezerra). Toda aquela área era "capoeira deles". 
Ele descreve que as espécies vegetais ali presentes, estão ainda hoje preservadas9. 
O que ocorre é que a maioria das espécies vegetais que foi derrubada rebrota, 
restabelecendo a mata anterior. Pois as áreas que eram cultivadas eram deixadas 
ao descanso, tinha espaço para plantar, cultivar, o gado era criado à solta, não 
existiam pastagens, existiam mais áreas para se cultivar. 
 
5 - REFLEXÕES PARA A GESTÃO TERRITORIAL KALUNGA 
 
 
Hoje a comunidade enfrenta novos desafios, pois se encontra diante a um 
contexto de reocupação e apropriação da terra, enquanto aguardam o lento 
processo de indenizações e liberação de novas áreas. Os quilombolas da 
comunidade kalunga do Mimoso estão se organizando e ocupando as áreas já 
desapropriadas. 
Nota-se no decorrer desta pesquisa que os sistemas agrícolas estão se 
modernizando, alguns agricultores estão buscando novas alternativas para 
desenvolver seus sistemas agrícolas. Em contrapartida a cultura local e as relações 
sociais entre os grupos locais vão gradativamente se modificando. As relações de 
troca de trabalho nas lavouras estão sendo substituídas pelo uso de máquinas de 
beneficiamento da terra, uso de agroquímicos, estes fatores são limitantes para o 
fortalecimento da cultura e da convivência humana entre os quilombolas. 
 
 
9
 Espécies preservadas. Preservar para os kalungueiros significar cuidar, não roçar, derrubar, uma 
fazer uso daquela vegetação, deixa a área descansar por vários anos 
78 
 
Percebe-se que a redução das extensões das roças ou a busca de novas 
alternativas como a mecanização na comunidade não estão associadas à falta de 
terra, mas à falta de mão de obra. A saída de adolescentes e jovens da comunidade 
impactou diretamente na construção das roças no Kalunga do Mimoso, os filhos que 
antes auxiliavam os pais nas atividades agrícolas em roças e quintais, se 
deslocaram para as cidades. Com menos mão de obra, menores são construídas as 
roças, ou novas alternativas de cultivos são adotadas. De certa forma a 
modernização dos sistemas agrícolas podem trazer novas possibilidades de 
produção de alimentos, no entanto agregado a estas mudanças surgem outros 
desafios e preocupações. Por exemplo, o uso de agroquímicos e venenos pode 
comprometer a qualidade de vidas das famílias locais, o uso de máquinas de forma 
não planejadas podem trazer inúmeras consequências como infertilidade do solo e 
demora no tempo de pousio. 
Neste sentido, a Associação da Comunidade Kalunga do Mimoso e 
Associação de Pequenos Produtore(a)s da mesma comunidade, estão organizando 
estratégias e mecanismos de gestão territorial para gerir juntamente com a 
Comunidade os Recursos Naturais disponíveis para uso coletivo, a fim que possam 
identificar áreas de preservação, áreas que podem ser cultivadas, córregos, rios que 
necessitam ser preservados ou recuperados. 
Com o Plano de Gestão Territorial, será possível realizar levantamentos das 
técnicas e ferramentas utilizadas nas atividades agrícolas, áreas degradadas. E 
ainda elaborar estratégias de intervenção para fortalecer o uso consciente das 
paisagens vegetais e apontar as possíveis consequências que podem surgir quando 
não se adota uma conduta consciente sobre o uso da terra. 
Deste modo, refletir sobre a qualidade de vida e o futuro da agricultura a partir 
das técnicas de modernização que vão sendo implantadas é também pensar nas 
consequências das transformações ocorridas nos sistemas agrícolas e na 
sustentabilidade destes sistemas. 
É necessário refletir sobre a apropriação das paisagens e as práticas da 
agricultura de corte e queima desenvolvida na localidade para que não tenha 
problemas como escassez de recursos vegetais, falta de água, a fim de garantir a 
sustentabilidade do sistema e da vegetação. 
79 
 
 
 
 
Argumentos para a sustentabilidade do sistema de corte e queima considera 
que esse sistema de cultivo promove a rotação de terras, além de implicar 
baixa incidência de pragas, doenças, e plantas invasoras. Por outro lado, 
demanda intensiva mão-de-obra e caracteriza-se pelo baixo uso de 
insumos. Do ponto de vista ecológico, essa agricultura está baseada na 
ciclagem de nutrientes presentes na biomassa e, por isso mesmo, o estado 
da vegetação a ser derrubada é fundamental para o sucesso do sistema. A 
eficiência da vegetação secundária em restaurar os nutrientes é levada em 
conta pelos agricultores no momento de determinar o tempo de pousio, o 
que sugere que o relativo curto espaço de tempo de colonização foi 
suficiente para os agricultores adquirirem o necessário conhecimento local 
do meio que usam. (SIMINSKI; FANTINII, 2007, p. 3) 
 
 
As comunidades rurais carecem de intervenções reflexivas de conscientização 
socioambiental e preservação do meio ambiente, assim como de alternativas que 
possam contribuir para a manutenção e preservação de recursos naturais. Nesse 
sentido, pensar o sistema de produção agrícola a partir da lógica da sustentabilidade 
é pensar também no uso consciente de modo que não comprometa o equilíbrio e a 
dinâmica natural das vegetações. 
 
A essência do conceito da sustentabilidade está contido em apenas quatro 
palavras “enough for everyone forever” (O suficiente para todos e para 
sempre). Estas palavras encerram as ideias de recursos limitados, consumo 
responsável, igualdade e equidade e perspectiva de longo prazo, todas elas 
correspondentes a conceitos importantes do domínio do desenvolvimento 
sustentável (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2006, p. 18). 
 
A ideia de preservação e conservação do meio ambiente a partir da prática da 
agricultura familiar nos mostra que o consumo dos recursos naturais de modo 
subsistente, o que seria suficiente para todos e para sempre. No entanto é um 
desafio para nós, pois sabemos que a agricultura de corte e queima de subsistência 
se depara com algumas realidades não tão promissoras em sentido a economia, 
uma vez que ela é interpretada como economicamente declinante para muitos, 
assim sendo pouco importante para políticas de desenvolvimento econômico. 
Para tanto é necessário conhecer e identificar as potencialidades hídricas, 
vegetais e as limitações territoriais para pensar o uso e agregar técnicas de cultivos 
capazes de garantir o uso atual e não comprometer a sobrevivências das gerações 
que futuramente dependem destes recursos. 
80 
 
Assim, a formação de pastagens pode causar a redução de áreas de mata 
bruta e capoeira, e ainda restringir o desenvolvimento de atividades agrícolas, como 
roça de toco e até mesmo roça com trator. 
Identificamos o retorno de descendentes de kalungueiros para a comunidade, 
assim como a saída de jovens e adolescentes. Com isso, surgem novos desafios na 
lida com os trabalhos e atividades agrícolas, as roças estão sendo construídas 
menores, pois sem a ajuda dos filhos, alguns agricultores não conseguem preparar 
grandes áreas para o cultivo agrícola. Outros utilizam máquinas agrícolas e insumos 
químicos para compensar a falta de mão de obra antescompensadas pelos filhos. 
Os cultivos de roças de toco são realizados por anos seguidos em uma 
mesma localidade, para alguns agricultores como o Produtor(a) L este fator está 
ligado ao atraso das indenizações das propriedades dos fazendeiros. Sem áreas 
diferentes para plantar, as áreas cultivadas não tem tempo de pousio (descanso) 
suficiente para rebrota dos tocos e recomposição de biomassa vegetal. 
Hoje a comunidade enfrenta novos desafios, pois se encontra diante de um 
contexto de reocupação e apropriação da terra, enquanto aguardam o lento 
processo de indenizações e liberação de novas áreas. Os quilombolas da 
comunidade kalunga do Mimoso estão se organizando e ocupando as áreas já 
desapropriadas. 
Percebe-se no decorrer desta pesquisa que os sistemas agrícolas estão se 
modernizando, alguns agricultores estão buscando novas alternativas para 
desenvolver seus sistemas agrícolas. Em contrapartida a cultura local e as relações 
sociais entre os grupos locais vão gradativamente se modificando. As relações de 
troca de trabalho nas lavouras estão sendo substituídas pelo uso de máquinas de 
beneficiamento da terra, uso de agroquímicos, estes fatores são limitantes para o 
fortalecimento da cultura e da convivência humana entre os quilombolas. 
Nota-se que a redução das extensões das roças na referida comunidade não 
está associada à falta de terra para o desenvolvimento das atividades agrícolas. 
A saída de adolescentes e jovens da comunidade impactou diretamente na 
construção das roças no Kalunga do Mimoso, os filhos que antes auxiliavam os pais 
nas atividades agrícolas em roças e quintais, se deslocaram para as cidades. Com 
menos mão de obra, menores são construídas as roças, ou novas alternativas de 
81 
 
cultivos são adotadas. De certa forma a modernização dos sistemas agrícolas 
podem trazer novas possibilidades de produção de alimentos, no entanto agregado 
a estas mudanças surgem outros desafios e preocupações. 
Por exemplo, o uso de agroquímicos e venenos pode comprometer a 
qualidade de vidas das famílias locais, o uso de máquinas de forma não planejadas 
podem trazer inúmeras consequências como infertilidade do solo, demora no tempo 
de pousio. 
 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
Em um ambiente que preservamos quem ganha não é somente a natureza, 
mas todas as espécies inclusive o homem responsável pelo consumo, degradação e 
destruição de recursos naturais. A sustentabilidade pode ser entendida como termo 
que é usado para definir ações e atividades desenvolvidas pelos seres humanos 
para suprir necessidades atuais sem colocar em risco a sobrevivência das gerações 
futuras. 
O Brasil carece de intervenções reflexivas de conscientização socioambiental e 
preservação dos recursos naturais, assim como de alternativas que possam 
contribuir para uma sociedade mais equilibrada; nesse sentido, esta pesquisa 
contribuiu para oportunizar reflexões sobre os tipos de práticas aplicadas pelos 
produtore(a)s quilombolas na produção agrícola em Kalunga do Mimoso. 
Após identificar as práticas agrícolas desenvolvidas na Comunidade em 
questão, nota-se a modernização das práticas em roças de toco. Alguns 
produtore(a)s em diferentes núcleos buscam novas alternativas de produção 
agrícola. Com isto, ocorrem mudanças significativas nas atividades rurais, que 
refletem não somente na organização social, cultural e política, como no sistema 
agropecuário. 
Um dos principais fatores que ocasionou a modernização nos sistemas 
agrícolas na Comunidade Kalunga como uso de trator, agroquímicos é a falta de 
mão de obra, a qual era compensada com o apoio dos filhos. Como relatado no 
decorrer desta pesquisa, adolescentes e jovens que auxiliavam nas atividades 
agrícolas se deslocaram para as cidades em busca de trabalho e dar continuidade 
aos estudos. 
82 
 
Com isso, os produtore(a)s quilombolas para compensar a falta dos filhos nas 
atividades agrícolas buscam alternativas como uso de agroquímicos, máquinas 
como grade de arar e trator para viabilizar os trabalhos nas roças. 
No entanto muitos produtore(a)s ainda fazem roça de toco, obviamente que 
são menores, pois com menos pessoas em casa, menos mão de obra, em uma roça 
de toco todos os membros contribuem: crianças, adolescentes e jovens participam 
da roçada, derruba, limpa, vigia e colheita 
Identifiquei que as roças de toco são atualmente menores, e as roças maiores 
são feitas com agroquímicos ou trator. O trator utilizado para fazer a limpa da terra é 
alugado em outra localidade, assim somente algun(a)s produtore(a)s com maior 
poder aquisitivo fazem uso deste tipo de máquina. Os agroquímicos são adquiridos 
através da compra em cidades vizinhas, são utilizados pelos produtore(a)s sem 
proteção ou uso de roupas adequadas. 
A modernização das práticas é um processo gradativo e inevitável na 
comunidade, no entanto propõe um novo desafio que é o de pensar até quando 
estes modelos de produção podem garantir a sustentabilidade ambiental e alimentar 
da comunidade Kalunga do Mimoso. 
Outro fator que causou a reconfiguração dos sistemas agrícolas da 
comunidade em questão foi o processo de grilagem, que fragilizou ao longo de 
várias décadas os modos de vida e a segurança alimentar do povo Kalunga. 
Com as invasões das terras e a grilagem muitos kalungueiros foram expulsos 
das suas terras, outros se descolaram para as cidades para buscar alternativas de 
sobrevivência. Os kalungas que permaneceram e resistiram enfrentaram também o 
desafio da falta de terra. As terras foram cercadas, isolados e limitados os 
produtore(a)s quilombolas tiveram que buscar novas alternativas tanto de produção 
de alimento quanto para criação do gado. 
A roça antes das grilagens era construída livremente em locais onde se 
encontrava terra boa para plantar. O gado pastava à solta, não existia cerca nem 
limites com arames. Depois esse modelo de organização social e econômica é 
reconfigurado, modificando a organização social e agrícola, reduzindo o número de 
kalungueiros na região, e incentivando a construção de pastagens, as roças, com 
isso, passam a ser cultivadas mais tempo em uma mesma localidade. Conclui-se 
que as roças de toco são menores em função da falta de mão de obra e as roças 
maiores são realizadas com trator ou agroquímicos. 
83 
 
Esta pesquisa trouxe elementos que vão favorecer os debates e as 
discussões sobre as novas práticas agrícolas e o futuro da agricultura na 
comunidade kalunga, assim como os possíveis impactos que podem ser 
ocasionados tanto à saúde humana quando ao meio ambiente. 
Hoje sabemos quais os núcleos que estão modernizando suas práticas, os 
locais em que o tempo de pousio é menor, onde são construídos as roças maiores, 
regiões onde existem maior biodiversidade cultivadas em roças e quintais, sabemos 
quais os perfis dos produtore(a)s que criam maior quantidade de gado e que 
possuem mais roças de pasto. 
Todo material, informações coletadas serão utilizados tanto pela Associação 
de `Pequenos Produtore(a)s da Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso quanto 
por todos os produtore(a)s Kalunga para subsidiar as ferramentas de gestão 
ambiental e territorial nos viés econômico, cultural e social desta comunidade. 
A fim de que os kalungueiros possam continuar desenvolvendo seus sistemas 
agrícolas sem comprometer a sobrevivência das espécies vegetais e animais 
considerando os impactos que estas práticas têm ocasionando nos núcleos. 
A preocupação é manter a sustentabilidade, para tanto as informações 
coletadas no decorrer deste trabalho é de suma importância para os debates e 
discursões que irão emergir nas trocas de conversas e reuniões realizadas 
mensalmente para discutir a organização social, cultural, os problemas ambientais e 
a economia local. 
Este trabalho trouxe novas informações sobre o modelo de agricultura e 
agropecuária desenvolvidos dentro da comunidade, e as práticas que demonstraramcausar menos impactos, sendo assim capaz de garantir a sustentabilidade do povo 
kalunga. Assim as práticas locais irão ser discutidas coletivamente a nível territorial, 
importante também será levarmos estas experiências para outras comunidades, 
podendo fomentar outras discussões, quem sabe a nível municipal, estadual e 
nacional. 
É necessário discutir com a comunidade sobre a importância de práticas 
sustentáveis tanto para a saúde quando para a natureza, pois com um território 
limitado e demarcado, a falta de gestão territorial com modos de produções 
exploratórios ou expansionistas, colocaria em risco de escassez os recursos naturais 
daquela região e o desequilíbrio ambiental de outras áreas e comprometeria a 
84 
 
manutenção da vida de todas as espécies. 
 
A essência do conceito está contido em apenas quatro palavras “enough 
for everyone forever” (O suficiente para todos e para sempre). Estas 
palavras encerram as ideias de recursos limitados, consumo responsável, 
igualdade e equidade e perspectiva de longo prazo, todas elas 
correspondentes a conceitos importantes do domínio do desenvolvimento 
sustentável (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2006, p. 18). 
 
 
Mas é um desafio para nós, pois sabemos que a agricultura de povos 
tradicionais se depara com algumas realidades não tão promissoras no sentido do 
mercado, uma vez que ela é interpretada como economicamente declinante para 
muitos; assim sendo pouco importante para políticas de desenvolvimento 
econômico, mas a certeza que temos é que ela é de suma importância para a 
manutenção da vida humana 
Assim, esse será um possível desafio para os produtore(a)s do Kalunga, de 
pensar como produzir a partir da lógica do agronegócio sem comprometer a 
estabilidade da natureza e a existência das novas gerações. Essa ideia de produzir 
usando cada vez menos a força humana, que é substituída por máquinas, ou o 
melhoramento de solos a partir do uso de adubos químicos, o que permitiria que um 
produtor não precisasse se deslocar à procura de um solo mais produtivo. No 
entanto, o desafio é se pensar até que ponto essas estratégias podem ser 
uma alternativa e quais os impactos que o seu uso pode causar a natureza. Tem um 
sistema de cultivo de roça de toco que se mostrou eficaz até o presente momento, 
assim levando em consideração o número populacional e a biodiversidade animal e 
vegetal do território, percebe-se que essas práticas causam pouco impacto a 
natureza, pois as práticas de consumo dos recursos naturais são desenvolvidas 
numa dinâmica que permite que a natureza se recupere e seja capaz de 
restabelecer sua biodiversidade de espécies animais e vegetais. 
A partir desta pesquisa nota-se o quanto a modernização das práticas 
agrícolas tem avançado na Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso. Por fazer 
parte e estar envolvido socialmente em núcleos distantes uns dos outros. Muitos 
moradore(a)s desconhecem o uso, por exemplo, de agroquímicos. Em Núcleos 
familiares onde eu acreditava não existir a utilização de agroquímicos, identifiquei 
experiência de 1 a 3 anos de utilização de glifosato houndup (mata mato). 
Enquanto em alguns núcleos familiares uns utilizam agroquímicos nas roças, 
85 
 
em outras localidades ocorre a utilização de máquinas como trator e grade de arar. 
No entanto, não podemos esquecer de enfatizar a existência de práticas agrícolas 
como roça de toco, cuja construção se dá com o uso de ferramentas como machado, 
foice, inchada. 
Aos produtore(a)s quilombolas e demais moradore(a)s é importante refletir 
como continuar cultivando as roças sem comprometer a sobrevivência das espécies 
vegetais e animais, considerando os impactos mencionados no decorrer destas 
pesquisas que estas práticas vêm gradativamente ocasionando. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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