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UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
CENTRO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL MESTRADO
PROFISSIONAL EM SUSTENTABILIDADE JUNTO A POVOS
E TERRAS TRADICIONAIS
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO
Transformações do sistema agrícola da Comunidade Quilombola
Kalunga do Mimoso (Tocantins): a agricultura de corte e queima em
questão
LOURIVALDO DOS SANTOS SOUZA
BRASÍLIA / DF - 2018
LOURIVALDO DOS SANTOS SOUZA
Transformações do sistema agrícola da Comunidade Quilombola
Kalunga do Mimoso (Tocantins): a agricultura de corte e queima em
questão
Dissertação submetida como requisito parcial para obtenção do
grau de Mestre no Programa de Pós- Graduação Profissional
em Desenvolvimento Sustentável (PPG-PDS), Área de
Concentração em Sustentabilidade junto a Povos e Terras
Tradicionais. Orientadora: Prof.ª Drª Ludivine Eloy
BRASÍLIA / DF - 2018
É concedida à Universidade de Brasília permissão para reproduzir cópias desta
dissertação e emprestar ou vender tais cópias somente para propósitos acadêmicos
e científicos. O autor reserva outros direitos de publicação e nenhuma parte desta
dissertação de mestrado pode ser reproduzida sem a autorização por escrito do
autor.
Lourivaldo dos Santos Souza
Orientadora: Profª Drª. Ludivine Eloy
Dissertação de Mestrado - Centro de Desenvolvimento Sustentável-CDS.
Universidade de Brasília-UnB.
Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a Povos e Terras Tradicionais -,
MESPT
Comunidade Quilombola Kalunga do mimoso (Tocantins): a agricultura de corte e
queima em questão. Brasília, DF, 2018.
Transformações do sistema agrícola da SOUZA, Lourivaldo dos Santos.
DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho a todas as pessoas que gostam de ler e escutar relatos
populares, científicos e acadêmicos.
AGRADECIMENTOS
A Deus
A toda minha família, amigos e parentes que contribuíram direto ou indiretamente
para a construção deste trabalho.
A Professora e Orientadora Drª Ludivine Eloy
Aos professores do MESP
Aos agricultore(a)s e moradore(a)s quilombolas da comunidade Kalunga do Mimoso
RESUMO
Este trabalho apresenta uma reflexão sobre o sistema agrícola praticado na
Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso, localizada no município de Arraias
(Tocantins), e tem como objetivo descrever a diversidade e a transformação dos
sistemas de cultivos de roça de toco praticados na referida comunidade, com um
recorte na biodiversidade local e nas transformações da agricultura de corte e
queima. Para tanto, a pesquisa de campo envolveu entrevistas, questionários
semiestruturados, percurso comentado aos setores de produção agrícola: roças e
quintais, com 12 produtore(a)s1 de cinco núcleos familiares. Identificamos uma alta
agrobiodiversidade, com 101 espécies e variedades, incluindo 5 variedades de
arroz, 6 de feijão, 4 de milho e outras que demonstraremos no decorrer deste
trabalho. Esta diversidade garantiu o sustento alimentar de muitas famílias kalungas
durante muitos anos, frente ao desafio das invasões das terras por fazendeiros
ocorridas há mais de 90 anos. Hoje, diante ao avanço rápido das monoculturas de
larga escala no Cerrado, a referida comunidade se destaca pela biodiversidade e
pela produção de alimentos em uma lógica de subsistência, com venda dos
excedentes (sobretudo farinha de mandioca). No entanto, nos últimos anos, num
contexto de reconhecimento e reocupação do território Quilombola, combinado a
diversificação das atividades das famílias Kalunga nas cidades e a mudança do
regime de chuva, observamos a perda de biodiversidade vegetal e a adoção
crescente de novas técnicas de cultivo, como a conversão das roças em pastagens,
o uso do trator e agroquímicos, utilizados para aumentar a produtividade do trabalho
agrícola. No intuito de contribuir para a gestão territorial Quilombola, realizamos
levantamento da biodiversidade cultivada, sementes que foram perdidas, e
caracterização dos sistemas agrícolas.
Palavras – chave: Comunidade Kalunga do Mimoso, agricultura de corte e queima
agrobiodiversidade.
1
Produtores na comunidade Kalunga do Mimoso são moradores que cultivam roças, quintais e
alguns também criam gado.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 11
METODOLOGIA ...................................................................................................... 17
1. HISTÓRIA DO TERRITÓRIO
1.1 - A Chegada dos moradore(a)s e seus sistemas produtivos .............................. 19
1.2 - A grilagem de terras pelos fazendeiros ............................................................ 27
1.3 – Consequência da grilagem de terras no sistema agropecuário Kalunga
.................................................................................................................................. 29
1.4 – Reconhecimento do território .......................................................................... 31
1.5 – A organização atual da comunidade ............................................................... 34
2. AS PAISAGENS E SEUS USOS ATUAIS
2.1 - Paisagens Kalunga (Mimoso) .......................................................................... 35
3. OS TIPOS DE ROÇA (SISTEMAS DE CULTIVOS)
3.1 - Roça de toco .................................................................................................... 42
3.2 - Roça de pasto .................................................................................................. 46
3.3 - Roça com trator ............................................................................................... 49
3.4 - Roça com Agroquímicos .................................................................................. 52
3.5 - Quintais ............................................................................................................ 54
4. AS TRANSFORMAÇÕES DO SISTEMA AGRÍCOLA
4.1 - As transformações recentes ..............................................................................55
4.2 – Impactos das transformações das práticas agrícolas sobre a dinâmica das
paisagens kalunga......................................................................................................59
4.3.1 – A rebrota da vegetação ................................................................................ 61
4.4 – Mecanização e uso de agroquímicos .............................................................. 61
4.5 – Da floresta a pastagem ................................................................................... 66
4.6 – O uso de glifosato e suas consequências ....................................................... 68
4.7 – Perda de biodiversidade ................................................................................. 69
4.8 – Impactos da mecanização das roças sobre a paisagem ................................. 75
5. REFLEXÕES PARA A GESTÃO TERRITORIAL KALUNGA ............................. 77
CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................... 81
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................ 86
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Mapa Oficial do Território Quilombola Kalunga do Mimoso (INCRA/TO) ...... 32
Figura 2: Diagrama de perfil (1) e cobertura arbórea (2) de um Cerradão
representando uma faixa de 80 m de comprimento por 10 m de largura. ..................... 37
Figura 3: Mata de Capão Kalunga (Cerradão) ............................................................. 37
Figura 4: Diagrama de perfil (1) e cobertura arbórea (2) de uma Mata Ciliar
representando uma faixa de 80 m de comprimento por4 m de largura nos períodos
seco (maio a setembro) e chuvoso (outubro a abril) ..................................................... 38
Figura 5: Mata Ciliar Kalunga, ao longo do – Rio Paranã ............................................. 39
Foto Figura 6: Vereda Kalunga (Campo Limpo) .......................................................... 40
Figura 7: Cerrado Kalunga (Cerrado). .......................................................................... 40
Figura 8: Roça de toco após queima ............................................................................ 44
Figura 9: Roça de toco – imagem ................................................................................ 45
Figura 10: Roça de pasto (capim braquiária) ............................................................... 46
Figura 11: Roça de milho coexistindo com plantio de alimentos (milho) e capim. A
roça é destinada, desde sua criação, para ser um pasto .............................................. 47
Figura 12: Roça com trator e plantação de arroz, milho com trator .............................. 49
Figura 13: Roça cultivada com uso de agroquímicos ................................................... 53
Figura 14: Roça com o uso de agroquímicos/2018 ...................................................... 58
Figura 15: Morador eliminando ervas da ninha com o Roundup .................................. 59
Figura 16: roça de pasto ............................................................................................... 60
Figura 17: Roça com trator núcleo Arião ...................................................................... 63
Figura 18: Roça de toco Beira do Rio Paranã .............................................................. 63
Figura 19: : Rebrota vegetal num toco, dentro de uma capoeira de 4 anos – Núcleo
Arião .............................................................................................................................. 64
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: Lista dos entrevistados ................................................................................. 17
Tabela 2. Levantamento da diversidade de plantas cultivadas nas roças e quintais
de 12 agricultores do Território Quilombola Kalunga ..................................................... 22
Tabela 3: Etapa de regularização fundiária .................................................................. 32
Tabela 4: Fitofisionomias do Cerrado e categorias Kalunga ......................................... 35
Tabela 5: repartição dos sistemas de cultivo identificados nos diferentes núcleos do
Território Kalunga do Mimoso ....................................................................................... 42
Tabela 6: Calendário agrícola da Roça de toco de 1 ano ............................................. 43
Tabela 7: Itinerário técnico da roça de toco do Produtor(a) B ....................................... 43
Tabela 8: Biodiversidade roças de toco (ano de cultivo 2017 – 2018) (1 tarefa, 1
tarefa, 1/5 tarefa, 3 tarefas) ........................................................................................... 45
Tabela 9: Histórico e rotação numa Roça de pasto de 8 anos ..................................... 48
Tabela 10: Núcleo Arião – Produtor Gabriel ................................................................. 48
Tabela 11: Da Roça de toco e à roça de pasto em 3 anos ........................................... 49
Tabela 12: Atividades agrícolas em uma roça com Trator – extensão 220 m2 50
Tabela 13: Biodiversidade em duas roças com trator (220 e 85m2) cultivo atual .......... 51
Tabela 14: Itinerário técnico numa roça com uso de agroquímicos de 2 anos
(Produtor(a) A) .............................................................................................................. 52
Tabela 15: Rotações interanuais numa roça com uso de agroquímicos / Calendário
agrícola ......................................................................................................................... 52
Tabela 16: Roça com agroquímicos Produtor(a) A (cultivo atual) extensão de quatro
tarefas ........................................................................................................................... 53
Tabela 17: Roça de toco com uso de herbicidas 5 anos .............................................. 53
Tabela 18: Biodiversidade dos Quintas ....................................................................... 54
Tabela 19: Sistemas de cultivo por núcleo Kalunga do Mimoso ................................... 55
Tabela 20: Roça de toco – Produtor(a) F ...................................................................... 58
Tabela 21: Principais espécies de arvores levantadas em capoeiras de diferentes
idades após roça de toco .............................................................................................. 66
Tabela 22: Roça de toco e roça com trator 3 anos (núcleo Mimoso) ............................ 67
Tabela 23: Roça de pasto 15 anos (núcleo Mimoso) .................................................... 67
Tabela 24: Roça de pasto 25 anos (núcleo Mimoso) .................................................... 67
Tabela 25: Roça de pasto 4, 5 e 6 anos. ...................................................................... 67
Tabela 26: Biodiversidade quintal e roça – Produtor(a) C – cultivo atual ...................... 71
Tabela 27: Lista de plantas perdidas ............................................................................ 73
Tabela 28: Produtor(a) A (roça de toco 6 anos de cultivo/cultivo com agroquímicos a
partir do 3º ano de cultivo – Núcleo Forte ..................................................................... 74
Tabela 29: Produtor (a) C - roça de toco e com trator. ................................................. 74
Tabela 30: Produtor(a) J - roça de toco e roça com trator 3 anos................................. 74
Tabela 31: Produtor(a) F - roça de toco – com uso de herbicidas 3 anos .................... 74
Tabela 32: Produtor(a) G - Roça de toco 1 ano ............................................................ 74
11
INTRODUÇÃO
A expansão industrial do agronegócio e as mudanças nos sistemas agrícolas
tradicionais têm causado alterações nas paisagens, destruição de matas, nascentes
de rios e córregos do Bioma Cerrado. Neste sentido qual o futuro das famílias que
dependem destes recursos para sobreviver?
Na Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso o êxodo rural proporcionou
mudanças significativas nos sistemas agrícolas, e causou alterações nas paisagens
do Cerrado.
A destruição do Cerrado pode causar diversos problemas ambientais, como
escassez de água, extinção de espécies animais e vegetais, erosão e
enfraquecimento da fertilidade do solo.
O Cerrado possui a flora mais rica entre as savanas do mundo (> 7000
espécies) e altos níveis de endemismo. A riqueza de espécies de aves,
peixes, répteis, anfíbios e insetos é igualmente alta, enquanto a diversidade
de mamíferos é relativamente baixa. As taxas de desmatamento foram
maiores no Cerrado do que na Amazônia, e os esforços de conservação
foram modestos: apenas 2,2% de sua área está sob proteção legal.
Numerosas espécies animais e vegetais estão ameaçadas de extinção, e
estima-se que 20% das espécies ameaçadas e endêmicas não ocorram em
áreas protegidas. (MACHADO, 2005, p.1)
Segundo Silva (2007), o Cerrado é uma savana composta por formações
florestais, savânicas e campestres. Possui uma vegetação onde predomina espécies
de gramíneas com árvores de pequeno porte e esparsas, arbustos isolados e em
pequenos grupos.
O Cerrado, segundo Walter; Ribeiro (2010) ocupa 22% do território brasileiro.
Apresenta classes de solos que determinam diferentes tipos de vegetação, sendo
este reconhecido como uma savana tropical que revela fitofisionomias como:
campos, cerrados, matase veredas, apresentando duas estações bem definidas:
uma seca e outra chuvosa.
O Bioma Cerrado ocupa 91% do território tocantinense (IBGE, 2007) e a
vegetação deste tipo de bioma pode variar em algumas regiões do estado. As
formações florestais do Cerrado estão tipicamente associadas aos recursos hídricos,
acompanhando cursos de água, mas podem ocorrer desvinculadas dos recursos
12
hídricos em solos mais ricos. Essa categoria possui quatro subdivisões: a mata ciliar,
a mata de galeria, mata seca e cerradão. Já os ecossistemas savânicos e
campestres são tipicamente associados ao cerrado, e espalham-se de acordo com
variáveis climáticas e pedológicas. A classe de solo, a escassez de água em grande
parte do ano, e a passagem do fogo são fatores que delimitam as fitofisionomias
cerratences. (SILVIA, 2014, p.30)
Para Ribeiro (2008) o Cerrado é:
O segundo bioma brasileiro, com uma área em torno de 204 milhões de
hectares, que distribui, sobretudo, pelos estados de Minas Gerais, Goiás,
Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Bahia, Piauí, Maranhão e
Distrito Federal. Localizado numa área central do Brasil, se conecta com
quase todos os outros biomas, constituindo áreas de transição entre eles e
representando um ponto de equilíbrio entre as diversas paisagens
brasileiras. (2008, p.01)
Percebe-se que os avanços tecnológicos, o crescimento populacional, a
expansão industrial, o agronegócio e o consumo de recursos naturais têm causado
mudanças significativas nas paisagens do cerrado tocantinense e nos modos de
vida e práticas agrícolas das famílias que vivem em comunidades rurais.
As políticas de fortalecimento da agricultura familiar, e a preservação do
cerrado dificilmente chegam às comunidades rurais. E quando chegam são
pensadas somente por agentes políticos que não conhecem a realidade social,
cultural daquele povo. Isso inviabiliza a efetivação das políticas.
As famílias que vivem em comunidades rurais no estado do Tocantins
possuem uma forma de organização social de uso da terra baseada na agricultura
familiar. Algumas comunidades como Kalunga de Goiás, Claro, Prato e Ouro Fino e
Kalunga do Mimoso em Tocantins ainda praticam a agricultura de corte e queima.
Este sistema é conhecido na comunidade Kalunga do Mimoso como roça de
toco, roça de palhada, roça de coivara ou, simplesmente, roça.
A agricultura de corte e queima é praticada há milênios em regiões tropicais
do planeta, caracterizando o principal sistema de produção de alimentos de
subsistência das populações rurais (Produtor(a) Aso Jr, et al 2008).
A agricultura de corte e queima, na sua definição mais ampla, é qualquer
13
sistema agrícola contínuo no qual clareiras são abertas para serem
cultivadas por períodos mais curtos de tempo do que aqueles destinados ao
pousio (PRODUTOR(A)ASO Jr. N. N. et al 2008, p.2)
Segundo relato do Produtor(a) J o sistema de cultivo de corte e queima é
praticado na comunidade quilombola Kalunga do Mimoso há mais de 240 anos.
Essas práticas são realizadas a partir de métodos e técnicas herdadas dos
antepassados. Elas permitiram ao longo dos anos a produção de alimento e a
soberania alimentar das famílias que vivem na comunidade. Para desenvolver as
práticas agrícolas de corte e queima, os agricultores utilizam florestas, água da
chuva e solos férteis.
As famílias que vivem em comunidades rurais no estado do Tocantins
geralmente praticam a agricultura familiar e o sistema de cultivo de roça de toco.
Essas práticas são realizadas a partir de métodos e técnicas herdadas dos
antepassados. Essas famílias relacionam e vivem agregadas aos recursos naturais
existentes no seu território, e essa vivência desperta nesses agricultores uma
consciência de preservação, e consumo de subsistência dos recursos naturais
daquela localidade, assim não seja um problema para a existência das novas
gerações.
A expansão do agronegócio ameaça duplamente este sistema de cultivo: de
um lado, a perda de territórios e a degradação ambiental restringem estas práticas, e
de outro lado, a agricultura de corte e queima é “acusada” por pesquisadores e
ambientalistas pelo uso do fogo e por causar a instabilidade de ecossistemas ditos
sensíveis, construindo assim uma imagem "sustentável" do agronegócio (Eloy et al.
2016).
No entanto, sabe-se que o uso do fogo nos sistema de corte e queima é
usado como ferramenta de manejo, e tem mostrado no decorrer de décadas que é
uma atividade de baixo impacto. “O fogo é uma ferramenta de manejo muito antiga e
amplamente utilizada no manejo e conversão das paisagens tropicais. Desempenha
papel preponderante no sustento de milhões de pessoas devido a seu papel central
em várias práticas agrícolas e sociais”. (Mistry & Bizerril, 2011), 2011, p.2)
Segundo a Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Estado
do Tocantins (COEQTO) em 2017, o estado de Tocantins já possuía 47
Comunidades Quilombolas certificadas pela Fundação Cultural Palmares e com
processo de regularização Fundiária de seus territórios noInstituto Nacional de
14
Colonização e Reforma Agrária (INCRA).
A Comunidade do Kalunga do Mimoso/TO está localizada nos municípios de
Paranã e Arraias, a 120 km desta cidade. O território de Kalunga do estado de Goiás
foi decretado Sítio Histórico e Patrimônio Cultural de Goiás em 1991.
Este novo cenário‟ identitário assegurou a inclusão social do grupo Kalunga
não apenas como comunidade quilombola, mas como patrimônio histórico e
cultural de Goiás. Isso significa dizer que este fato contribuiu para a
minimização das tensões e conflitos agrários naquele local. (OLIVEIRA, 2006,
p.13)
O Kalunga de Tocantins ficou de fora desse processo de criação porque
pertencia a outro estado. As comunidades que pertencem ao território Kalunga de
Goiás começaram a ser certificadas e reconhecidas pela Fundação Cultural
Palmares a partir da década de 90. No Tocantins, os Kalungas foram reconhecidos
anos depois. A comunidade teve seu território reconhecido e certificado pela
Fundação Cultural Palmares em 12 de setembro de 2005 e em 16 de dezembro de
2010 o Governo Federal decretou a criação do Território com 57.465 ha.
O Kalunga do Goiás em 1991 foi decretado Sítio Histórico e Patrimônio
Cultural de Goiás. O Kalunga de Tocantins ficou de fora desse processo de criação
porque pertencia a outro estado.
As comunidades que pertencem ao território Kalunga de Goiás começam a
ser certificadas e reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares a partir da década
de 90, Kalunga de Tocantins foi anos depois, sendo certificado no ano de 2005.
Hoje, as comunidades quilombolas do estado de Tocantins que já obtiveram o
reconhecimento do Território e que já receberam algumas propriedades de terra
estão precisando ocupar e gerir seus territórios.
Como membro Coordenador Estadual da Coordenação Estadual das
Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO), acompanho a entrega de
Certificações de Reconhecimento Histórico e Cultural assim como entrega de Títulos
de Terras em várias comunidades no estado.
De fato, observa-se que a demarcação tardia propõe novos desafios para os
povos de comunidades rurais quilombolas, uma vez que o êxodo rural ocorrido há
anos, causa um esvaziamento destas comunidades. Além disso, pouco se sabe
sobre a diversidade e as evoluções recentes dos sistemas agrícolas Kalunga, ainda
que existam muitas produções importantes e crescentes sobre a Comunidade
15
Kalunga inclusive de alunos Kalungas. No entanto, poucos se atentam para as
mudanças nas práticas agrícolas e paisagens locais.
A maior parte dos trabalhos escritos sobre a Comunidade Kalunga trata sobre
cultura, educação, plantas medicinais, festejos religiosos etc. Os autores (Oliveira,
2003; Silva, 2016; Cunha, 2010; Rocha, 2009; Caxito, 2009; Costa, 2008; Costa,
2017) desenvolveram pesquisas na comunidade QuilombolaKalunga do Mimoso,
mas nenhum abordou os sistemas agrícolas locais e as mudanças nas práticas
agrícolas.
Assim, escolhi como campo de pesquisa a nossa comunidade denominada
Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso, localizada no sudeste do Tocantins,
considerando a escassez de informações e a falta de pesquisa sobre o tema em
questão.
De fato, apesar dos Kalungas já terem sido alvo de muitos estudos, das mais
diversas áreas do conhecimento (Baiocchi, 1999; Siqueira, 2012; Santos, 2012;
Valente, 2007; Isoldi, 2008; Marinho, 2008; Neiva et al., 2011; Almeida, 2010), os
sistemas agrícolas dessas comunidades só começaram a receber atenção
recentemente, revelando uma rica biodiversidade e cultura alimentar (Ungarelli,
2009; Fernandes, 2014; Pereira, 2011). Essas pesquisas, contudo, abordam a
questão das dinâmicas dos sistemas agrícolas Kalunga de forma fragmentada e
pontual, sem abranger a complexidade do sistema no território como um todo
(incluindo Goiás e Tocantins).
Além disso, nenhuma pesquisa abordou o impacto das práticas produtivas e
de manejo locais nas dinâmicas das paisagens. Essa questão é de suma
importância, visto o desenho de políticas e instrumentos de gestão ambiental e de
manejo integrado do uso do fogo (brigadas comunitárias, queimadas prescritas) nos
Territórios Quilombolas (reconhecidos desde 2007 como áreas protegidas), e frente
a programas de extensão rural que procuram geralmente substituir essas práticas
por sistemas considerados mais eficientes e sustentáveis (Sistemas Agroflorestais,
manejo de pastagens sem fogo, roças com tratores, distribuição de sementes etc.).
Nos últimos anos, presenciamos um envolvimento crescente dos jovens
Kalunga na produção científica acerca das suas comunidades, principalmente nos
cursos de Licenciatura em Educação do Campo (LEdoC - campus Planaltina da
Universidade de Brasília) e de Mestrado em Sustentabilidade junto a Povos e
Territórios Tradicionais (MESPT – Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB).
16
Estudantes Kalunga do MESPT estão realizando suas pesquisas
colaborativas no território, as contribuem para levantamento e coletada de dados em
parceria com a comunidade de forma que essa pesquisa possa ser usada como
ferramenta de luta e gestão diante os desafios sociais e políticos. As pesquisas
colaborativas apontam para um novo paradigma na produção de conhecimento a
partir das interações entre os chamados sistemas tradicionais de conhecimento e a
ciência, a fim de gerar novas sínteses que ampliem a compreensão sobre
fenômenos sociais e naturais diversos e favoreçam relações mais positivas entre a
pesquisa e a intervenção, sobretudo no contexto de comunidades e no campo da
conservação ambiental.
O envolvimento político tanto no movimento Quilombola do Estado do
Tocantins, assim como atuação como membro titular da Associação de Pequenos
Produtore(a)s da Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso, além da elaboração
e aplicação de projetos sociais, culturais e agrícolas e agora como pesquisador da
comunidade, permitiu-me compreender a necessidade e importância de se fazer a
gestão territorial e dos recursos naturais existentes na comunidade.
Neste sentindo, pretende-se refletir sobre a evolução das práticas agrícolas e
apropriação das paisagens vegetais pelos produtore(a)s quilombolas para o
desenvolvimento das roças.
Agregados às inovações, também surgem novos desafios. Quais
especificidades hoje e qual futuro da agricultura Kalunga neste território tendo em
vista os tipos de solo, transformação na mão de obra, e as mudanças nas paisagens
e na saúde?
Para tanto o objetivo geral é descrever a diversidade e a transformação dos
sistemas de cultivo da roça de toco no Território Kalunga do Mimoso/TO, a partir da
visão dos kalungas, assim como avaliar seus impactos nas paisagens.
Os objetivos específicos são: 1) Descrever as técnicas de cultivos e analisar
as transformações destes sistemas no decorrer dos anos, 2) Levantar as diferentes
percepções sobre a função e os impactos da agricultura de corte e queima a partir
dos agricultores locais Kalunga 3) Identificar os impactos causados às paisagens
pela agricultura de corte e queima.
17
METODOLOGIA DA PESQUISA
Pesquisa exploratória para que possamos nos familiarizar com a problemática
desta pesquisa: Quais as especificidades hoje e qual o futuro da agricultura Kalunga
neste território?
Neste sentido, foram identificados os sistemas agrícolas, os diferentes tipos
de roças de toco, as roças (áreas cultivadas) e as práticas de manejo de capoeira
que favorecem a rebrota florestal. Precisou-se quantificar o tempo que as áreas
cultivadas levam para rebrotar, para obter dados que possam subsidiar a gestão dos
sistemas agrícolas e das coberturas vegetais.
Levantamento bibliográfico, sobre as características fitofionômicas do Bioma
Cerrado. Realizei entrevistas com questionário semiestruturado com pessoas chave,
sendo 2 a 3 agricultores dos núcleos: Mimoso, Beira do Rio Paranã, Arião, Forte e
Matas (tabela 1). Os produtore(a)s e moradore(a)s não serão identificados no
decorrer desta pesquisa no sentido de manter preservada a identidade e a
integridade física de cada um. Serão mencionados como produtore(a)s
(A,B,C,D,E,F,G,H,I,J,L,M) e moradore(a)s (1,2,3,4).
Tabela 1: lista dos entrevistados
Agricultor Idade Núcleo Familiar
Produtor(a) A 59 anos
Forte
Produtor(a) B 49 anos
Forte
Produtor(a) C 55 anos
Arião
Produtor(a) D 80 anos Arião
Produtor(a) E 44 anos Arião
Produtor(a) F 48 anos
Mimoso
Produtor(a) G 64 anos Beira do Rio Paranã
Produtor(a) H 42 anos Beira do Rio Paranã
Produtor(a) I 43 anos Mimoso
Produtor(a) J 63 anos Mimoso
Produtor(a) L Matas
Produtor(a) M 50 anos Matas
Fonte: Elaboração própria
Para analisar as transformações históricas dos sistemas de cultivos na
comunidade, foi realizada entrevista com os mais velhos, a fim de entender como
era a agricultura de corte e queima. Procurei, nestas entrevistas, entender a forma
18
como os mais velhos das comunidades diferenciam os tipos de paisagens florestais,
levantando as próprias categorias deles, e entender quais parâmetros eles usam
para diferenciá-las como: solos, relevo, composição e estrutura das matas.
Percursos comentados foram realizados com os agricultores, ação que permitiu
confirmar ou completar esta classificação.
Para caracterizar as práticas agrícolas atuais, a diversidade dos sistemas de
cultivo de roça de toco apresentada nos diferentes núcleos familiares no território
Kalunga do Mimoso, realizei percursos comentados e levantamento da
biodiversidade vegetal. Utilizei um diário de campo construído a partir das visitas às
roças de toco e capoeiras. Os dados levantados foram organizados para reconstituir
os itinerários técnicos de cada sistema de cultivo, pelo qual descreveremos a
sucessão dos processos agrícolas a partir de um calendário agrícola, dos sistemas
de cultivos, preparo da terra e os plantios.
Para entender os impactos dos diferentes sistemas de cultivo de roça de toco
sobre paisagens florestais, visitei as capoeiras de diferentes idades e perguntei para
o agricultor sobre as práticas de manejo desta área; quantas vezes fizeram roça no
local, tipo de solo e de mata, antes de desmatar, ferramentas utilizadas, como
manejou a rebrota. Após a roçada e derruba seletiva, identifiquei que os agricultores
deixam algumas árvores de grande porte nas roças. Estas podem foram utilizadas
para verificar a diversidade vegetal das capoeiras nos diferentes núcleos.
19
1 - HISTÓRIA DO TERRITÓRIO
1.1 - A Chegada dos moradore(a)s e seus sistemas Produtivos
Segundo APA-TO (2012) os africanos (Angola, Congo, Benguela, Cassange,
Mina, Yoruba e Haussa) escravizados nas minas da atual região norte de Goiás e
sudeste do Tocantins, no séculoXVII, fugiram e criaram um grande território
Quilombo de fuga, localizado nos municípios de Monte Alegre, Arraias, Natividade e
Paranã. Este território era inicialmente ocupado por povos indígenas das etnias
Akroá, Chikriabá, Ava-Canoeiro, Xavante, Javaé e Xerente.
Para Apolinário (2007):
Quilombo é um termo bantu que significa acampamento guerreiro na
floresta. Os habitantes dos quilombos eram chamados “quilombolas” ou
“calhambolas”, palavras angolanas derivadas de ngolo- “força; nbula
“golpe”; calhambola seria o destino. (APOLINÁRIO, 2007 p. 104).
Os quilombos são locais geralmente formados distantes dos centros urbanos,
onde os quilombolas desenvolvem sistemas de produção agrícolas e formam suas
comunidades e grupos sociais, desenvolvem suas culturas, religiosidades e
festividades.
Segundo pesquisas divulgadas a partir do ano de 2004, de historiadores e
antropólogos, a origem dos territórios quilombolas baseia-se não somente
na fuga, mas também de doações de terras feitas pela igreja católica, que
naqueles tempos era detentora de grandes extensões de terras; de
heranças deixadas pelos senhores a alguns escravos que mantinham laços
de afinidades; de recompensa por parte do Estado a escravos que
prestaram serviços em guerras; de ocupação pacífica em áreas
abandonadas pelos donos; também, em alguns casos esporádicos, de
compras de terras por escravos alforriados. Hoje, são territórios de
resistência cultural e deles são remanescentes os grupos étnicos raciais que
assim se identificam. Com trajetória própria, dotados de relações territoriais
específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a luta
á opressão histórica sofrida, eles se autodeterminam comunidades negras
de quilombos, dados os costumes, as tradições e as condições sociais,
culturais e econômicas especificas que os distinguem de outros setores da
coletividade nacional. (BRASIL, 2005, p. 06).
Os primeiros moradore(a)s da comunidade quilombola Kalunga do Mimoso
vieram do outro lado do rio Paranã, do município de Cavalcante e Monte Alegre
(Goiás), segundo relato do Produtor(a) J os povos pioneiros desta comunidade
migraram do Kalunga do Goiás para essa região do Tocantins, que foi denominada
Kalunga do Mimoso.
20
Meus avós moravam do lado de lá do rio. Meus pais vieram pra cá, não
tinha ninguém aqui na região, aí vieram outras pessoas do Kalunga do
Monte Alegre. Essas pessoas foram ocupando algumas regiões aqui da
localidade, e construindo suas famílias, plantando suas sementes e
alimentando os filhos. Depois vieram os fazendeiros e tomavam as terras
dos povos, iam cercando empurrando a gente até cercava tudo, e nós ia
para outro lugar. Outros moradore(a)s acabava virando vaqueiros desses
fazendeiros. (Produtor(a) C de 1963 comm, pers., 2017)
Para Oliveira (2006) a mobilidade espacial dos indivíduos do grupo dos
kalungas começa no início do século XX. Com isto possibilita a criação de núcleos
de famílias que foram a base da formação social das comunidades Kalungas.
O início do século XX parece ter sido uma época de intensa mobilidade
espacial dos indivíduos do grupo dos kalungas, frequentemente em
direções mais distantes para o interior de Brasília, dos estados de Goiás e
Tocantins. São, pois, centenas de pequenas “comunidades” kalungas,
espalhadas por uma área de 237.000 hectares situados na microrregião da
chapada dos Veadeiros, ao nordeste do estado de Goiás. (OLIVEIRA, 2006,
p.11)
Graças a esta mobilidade social, formaram-se diversos núcleos familiares,
inicialmente no nordeste do estado de Goiás e a seguir no sudeste do Tocantins. O
povo kalungueiro chegou e começou a ocupar, por volta de 1913, às terras nas
margens do rio Paranã, rio Cana Brava, rio Bezerra, rio Esporcos, rio Extrema e Rio
Pintado. Essa ocupação deu início ao surgimento da comunidade Kalunga do
Mimoso, em 1913 (Morador 2 de 1950, comm.pers., 2016).
Parte das terras do mimoso começam a ser ocupadas pelos mulequeiros
por volta de 1913. Esta fase, citada em uma das entrevistas que realizamos
com os kalungas durante os festejos em comemoração à padroeira da
cidade de Arraias, informa que, até o presente, os estudos sobre as
comunidades negras rurais remanescentes do quilombo dos Kalungas
privilegiam a concepção de comunidade enquanto grupo homogêneo de
família estável. (OLIVEIRA, 2006, p.15)
No início do século XX, as terras da região do Mimoso, e os núcleos familiares
formados no entorno, foram oficialmente reconhecidos e certificados em 2005 pela
Fundação Cultural Palmares como Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso.
Segundo o Morador 2, as primeiras famílias que chegaram à região foram os
de sobrenomes Amados, Santo Rosa e Souza. A formação étnica da população
desta localidade se deu a partir da mistura destas famílias, e mais tarde por volta da
década de 80, as famílias dos kalungueiros misturaram-se com alguns fazendeiros e
grileiros de terra. Moças e rapazes Kalunga casavam com filhos de fazendeiros,
21
ocasionando a mistura entre estes dois grupos. Para Morador 2, essa ocorrência não
era frequente, mas acontecia.
As famílias dos Santos Rosa trouxeram o gado curraleiro e mirandeiro2, além
de animais, como cavalos e burros. Estes animais eram criados à solta em locais
conhecidos como campo4, pois não existiam pastos ou larga5.
O pessoal da família dos Santos Rosa e a família Cunha foram também uns
dos primeiros a vir morar aqui na região. Criavam gado curraleiro,
mirandeiro, um gado mais orelhudo, cresce mais que o curraleiro criado
solto. O arame era algo moderno, fazia era cerca de pedra e madeira, há
uns 70 anos atrás nós aqui não conhecia o arame em cerca aqui na região.
(Produtor(a) A de 1959, comm, pers., 2017)
Segundo os mais velhos da comunidade, os fazendeiros foram os primeiros a
fazer uso do arame farpado na região. Seu uso ocorreu a partir de 1958.
Para o Produtor(a) A, após fuga das minerações dos municípios de Arraias,
Natividade e Paranã, novas famílias quilombolas vieram para esta região e para as
comunidades Kalunga de Goiás por volta de 1913.
Após a ocupação da atual área do Kalunga do Mimoso, os moradore(a)s
começam a plantar suas roças e a criar seu gado curraleiro. Como não existi
demarcação das propriedades, usufruíam coletivamente dos recursos naturais que
existiam naquelas localidades (rios, vazantes, mata bruta, capim agreste, árvores
frutíferas do cerrado: caju, cagaita, mangaba, pequi, baru, jatobá do campo). Mas as
roças eram de domínio privado de cada grupo doméstico. Para cercar as roças,
faziam cercas caiçara, construídas a partir do aproveitamento da madeira resultante
da derruba e da roçada das parcelas.
As roças eram de dois tipos: de vazante e capão. Na vazante era cultivado
arroz, feijão e fumo. Já no capão se cultivava arroz, milho, feijão, mandioca,
abóbora, melancia, maxixo, vitamina, jiló, cabaça, junça e amendoim.
2 Gado Mirandeiro – Raça de gado maior e produz mais leite que o gado curraleiro
4
Campo – local onde se cria o gado a solta, não existe cercas ou limites físicos
5
Larga – espaço formado por mata bruta e capim agreste, cercado de arame ou madeira, utilizado
para pastagem do galdo a solta.
22
TABELA 2. Levantamento da diversidade de plantas cultivadas nas roças e quintais de 12
agricultore(a)s do Território Quilombola Kalunga.
Espécie Variedade
Arroz vermelho
Arroz branco
Arroz três meses
Arroz quatro meses
Arroz agulhinha
Milho bandeirante
Milho hibrido
Milho cunha criolo
Milho transgênico
mandioca gaerinha
mandioca amarelinha
mandioca castelo
mandioca todo tempo
mandioca precoce
mandioca pipiri
mandioca quatro meses
Feijão corda
Feijão arranca
Feijão rudia
Feijão andu
Feijão Fava
feijão arroz
manga espada
manga comum
manga coquinho
laranja Íloa
laranja comumLima comum
Goiba vermelha
goiaba branca
abobora de pescoço
abobora redonda
abobora cabutiá
melão de talhada
melão Liso
melão vitamina
amendoim de arranca criolo
amendoim caroço pequeno
quiabo Liso
Quibo pequeno
Limão curraleiro
Limão galego
23
batata doce branca
batata doce Roxa
maxixo cabeludo
maxixo Liso
Jiló cumprido
Cana cento e vinte
Cana caiana
Cana Roxa
capim junça junça
abacate de pescoço
acerola vermelha
ciriguela ciriguela
Pinha condessa
cenoura de horta
mexerica pequena
tamarindo tamarindo
carambola carambola
jabuticaba jabuticaba
mengericão mengericão
erva cidreira erva cidreira
alfavaca alfavaca
algodão branco
gergelim marrom
mamona deextrair azeite
novagina novagina
Romã romã
vinagreira vinagreira
mutamba mutamba
capim santo capim de cheiro
pimenta
pimenta de cheiro
quento quento
Alface alface
pitomba pitomba
Couve couve flor
batata gengibre
pimenta malagueta
Inhame pé danta
inhame levanca
inhame Roxo
inhame amarelo
açafrão amarelo
inhame Cará
banana prata
banana nanica
24
banana três quina
melância rajada
babosa babosa
pitanga
melão melão de horta
banana maçã
condessa fruta do conde
mamão de
corda
de corda
Caju do cerrado
Palma do cerrado
genipapo genipapo
jiló redondo
morango vermelho
mangaba do cerrado
Vitamina Tipo de melão
Na vazante, o produtor dependia das cheias dos rios para realizar os plantios,
enquanto que no capão as roças eram de sequeiro, ou seja, dependia das chuvas
para plantar.
Os calendários para os sistemas de cultivos de roças de vazante e capão eram
divididos da seguinte forma:
1- Na vazante (local próximo a rios e córregos, com solo úmido e de cor preta),
a roçada ocorre nos meses de maio e junho, a derruba no final de julho e início de
agosto, a queima é feita no final de agosto, não é necessário esperar as primeiras
chuvas, que geralmente na região ocorre no mês de setembro. Os solos das
vazantes são normalmente úmidos e de cor escura, preta.
2 - No capão (um tipo de mata fechada localizada no cerrado, com solos de
cores variadas, podendo ser avermelhado, preto, ou branco), a roçada e a derruba
são realizadas nos mesmos meses que a roça de vazante, no entanto, a queima só
é realizada após as primeiras chuvas. Assim, havia uma forte complementariedade
sazonal e espacial entre os dois sistemas de cultivo, garantindo alimentos ao longo
do ano, apesar da forte e longa estiagem, característica do Cerrado.
Na vazante, a rebrota vegetal após a colheita é mais lenta que no capão.
Segundo o Produtor(a) G (comm. pers., 2017) o mato da vazante é mais ralo, por
isso demora mais tempo que a mata de capão para recompor a biomassa vegetal.
Para nós era tudo na enxada na vazante planta mais cedo colhe mais cedo
planta em outubro, roça ela em julho e derruba em agosto, queima mais
25
cedo agosto ou começo de setembro, planta em outubro, tem que fazer
acero para o fogo não sair, planta tudo que planta na outra, na outra pode
perder mais do que na outra, na de capão é mais seco, se faltar chuva nois
perde a roça, principalmente o arroz que é mais fácil de perder.
(PRODUTOR(A)G de 1954,comm. Pers., 2017)
O manejo do capim, que alimentava o gado, era feito com o uso do fogo. Duas
técnicas eram utilizadas por esses moradore(a)s. A primeira queima ocorria após o
final das chuvas, geralmente depois do mês de março, chamado “fim d’água”. A
segunda consiste no manejo no decorrer do período de seca, o gado se deslocava
de uma área queimada para outra. Não existia um controle de locais onde o gado e
os demais animais pastavam.
De acordo com relatos dos agricultores e criadores de gado, a queima é feita
para limpar o solo, para facilitar a rebrota e o crescimento do capim. Servia também
para evitar que futuros incêndios invadissem as áreas de cultivos.
Queimava pelo mês de maio abril quando a chuva parasse, o capim ainda
tava meio verde aí o fogo não ia longe. Faz queimada pra limpar, queimar
as folhas secas aí o capim cresce mió. De julho pra frente não queima por
que ta muito seco aí o fogo pode sair pra fora. Já as roças nois queima após
as primeiras chuvas, vai cair no mês de setembro. Hoje o povo ta
queimando logo por que a seca ta muito grande. (PRODUTOR(A)G de
1954, comm, pers., 2017)
Percebe-se que o uso do fogo facilita o manejo do capim, e permite o controle
das queimadas. Quando se realiza a queima no final do período chuvoso, no período
de seca a vegetação se encontra com uma grande quantidade de biomassa verde,
isso mantém sobre controle as queimadas criminosas que ocorrem com frequência
na comunidade.
Por volta de 1960, segundo Morador 3 de 1951, (2017), os criadores de gado
da Comunidade Kalunga do Mimoso começam a plantar capim. As primeiras
sementes cultivadas pelos quilombolas chegaram com os fazendeiros.
Com o cultivo de pastos, ocorre uma mudança significativa no sistema agrícola
de criação de gado e no Cerrado como um todo. As pastagens nativas de capim
agreste vão sendo gradativamente transformadas em roça de pasto.
Com o cultivo de pastagens exóticas (roça de pasto) começou a delimitação
das áreas onde residiam os kalungueiros. O manejo do gado passou a alternar entre
as roças de pasto (preso) e as áreas usadas para as pastagens naturais (à solta).
Assim, quando o capim rebrotava o gado era levado para a nativa, e vice-versa. De
modo que se possa garantir a alimentação do gado tanto no período de chuva
26
quando na época da seca.
A pastagem nativa (o "agreste") perfaz uma área com maior extensão de terra
do que as roças de pasto. O agreste é manejado com o uso do fogo: são queimados
nos finais do período chuvoso, quando o gado é levado para outra área, com a
finalidade de dar tempo ao rebrotamento do capim agreste.
A Roça de pasto é cultivada em um espaço menor. Primeiramente é aberta
uma clareira com a derrubada e roçada, e a seguir realiza-se o plantio e o cultivo em
monocultura do capim.
Então o gado permanece no pasto de novembro a janeiro, depois é retirado e
levado para outras áreas de criação até que o capim cresça e amadureça. Depois da
colheita da semente, o gado retorna para o pasto.
Não existiam limites de terras entre os moradore(a)s. Cada um podia cultivar e
deixar os animais (gados e cavalos) à solta em qualquer área de mata na
comunidade. Os relatos indicam que não existiam conflitos sociais relacionados ao
uso da terra entre estes moradore(a)s. Os conflitos começaram a aparecer com a
ocupação das terras pelos grileiros e fazendeiros a partir da década de 40 e 50
(MORADOR 4, 75 anos, comm. pers., 2016)
27
1.2 - A Grilagem de Terras Pelos Fazendeiros
Os fazendeiros começaram a se apropriar das terras na região a partir dos
anos 1920. O kalungueiro passou a ter um limite territorial, tanto para a criação dos
animais quanto para os cultivos agrícolas. Esta divisão fundiária passou a limitar os
quilombolas tanto na produção de alimentos quanto na criação do gado.
Segundo as narrativas dos indivíduos do grupo, os frequentes episódios por
eles enfrentados eram desde invasões de suas terras por novos
personagens, roças e casas ora queimadas e ou derrubadas por tratores e
visitas constantes de policiais com mandados judiciais expedidos por
delegados e outras autoridades do poder público local. (OLIVEIRA, 2006,
p.12)
Estes enfrentamentos trouxeram inúmeros desafios para a produção de
alimentos, criação de animais e relações sociais. Os levantamentos realizados nos
núcleos familiares com os 12 kalungueiros que fazem as duas atividades, sistemas
de corte e queima e criação de gado na comunidade Kalunga do Mimoso, mostram
os reflexos das lutas e conflitos agrários enfrentados. Com áreas menores para a
produção de alimentos e a criação de gado, o tempo de pousio passou a ser menor
paraas áreas cultivadas, além de resultar na falta de capim para a criação do gado.
Ocasionando, com isso, o uso intensivo das paisagens vegetais e de agroquímicos.
Para compreender como se deu a grilagem3 das terras na comunidade
quilombola Kalunga do Mimoso foi necessário conversar com os mais velhos. Ouvi
diversos relatos que retratam como os fazendeiros se empossavam das terras dos
quilombolas.
A relação de fazendeiros e kalungueiros eram de poder e submissão,
invasões, ameaças e domínio sobre as áreas já ocupadas eram fatos que ocorriam
com frequência na comunidade.
De acordo com o Produtor(a) C, o primeiro contato com os quilombolas era
feito através de uma proposta entre um fazendeiro e um kalungueiro. O acordo
proposto era geralmente a criação de gado na meia. Neste tipo de criação, o dono
do gado (fazendeiro), entrega (doação temporária) os animais para um criador
(kalungueiro – dono da terra), que recebe em troca do seu trabalho (cuidado dos
3 Grilagem de terra – na região do Kalunga a grilagem ficou conhecida como prática de invasão e
apossamento das terras por estranhos.
28
animais, renovação das pastagens, transformação dos produtos animais etc) uma
parte das crias. Após o nascimento das crias, estas devem ser dividas em partes
iguais. Quando os animais são doados ainda pequenos, mesmo que não exista
parição, devem ser divididos em partes iguais.
Com o passar do tempo o fazendeiro trazia mais gado. A seguir, ele propunha
para o kalungueiro construir cercas de arame em favor do aumento do gado, e para
manter o melhor controle sobre os animais. Após construir cercas e expandir a área
do kalungueiro o fazendeiro requeria para si aquelas terras. Dando início a grilagem
de terra6. Depois o fazendeiro pedia para construir uma casa, com pretexto de não
incomodar o morador quando viesse olhar o gado. Essa não era a única técnica
utilizada para tomar terra de kalungueiros. Como os núcleos são distantes uns dos
outros, nem todos os moradore(a)s daquela comunidade eram informados dos fatos.
Assim essas práticas se repetiam em vários núcleos.
A grilagem através da invasão das áreas foi muito frequente. Esse processo
iniciava com a invasão de pequenas porções de terras, depois as cercas eram
construídas gradativamente, aumentando as áreas. Os kalungueiros, encurralados
pelos fazendeiros, viam-se forçados a migrar de um núcleo para outro, ou para as
cidades, quando não resistia a opressão, e assim a situação se repetia.
Os grileiros invasores grilavam a terra, empossados, faziam registros
verdadeiros ou falsos, e por fim expulsam das terras aquele morador ou o mantinha
como empregado, essa era uma técnica usada por estranhos para tomar posse de
uma área de terra que não era sua. Assim, a situação do kalungueiro mudou: de
criador de gado na meia, passou para vaqueiro, para depois se tornar um funcionário
que recebe em natureza ("cria"), conforme depoimento abaixo. Significa que, por
exemplo, que 10 vacas paridas no ano, totalizam 10 bezerros, o vaqueiro ganha
apenas uma.
Eles chegaram falando assim, oh fulano, tinha um morador ali né, esse
morador, era compadre com outro dois morador perto um do outro e ali o
que acontecia oh compadre, oi compadre vamos botar uma roça aculá oh
lugar de mata boa a terra boa vambora compadre ah moço lá botava a roça
ficava tudo bonito, fartura demais e aí o fazendeiro ficava com inveja
daquilo; diz uá trem aqui tá bom demais moço, tá rico; vocês não querem
29
umas quatro vacas pra vocês tomar leite não? Uá moço é bom demais eu
quero, e por ali trazia as quatro vacas e pelejava com essas quatro vacas,
cinco fosse mais; a vaca tava arribando pra qui pra acolá, arriba pra qui pra
acolá, eh vaca veia atentada não quieta; uai você não quer que faz uma
rocinha de pasto não? Uai faz homem bom demais, por ali fazia a rocinha
de pasto e as vacas quietava por ali que era pra produzir ali e agora ficava
fácil pra quietar e ali o que acontecia fazendeiro tá pra lá com pouco vem
fazendeiro de lá pra cá moço aqui agora tá bom tem até leite ué e muito
rapaz vaca boa de leite demais e por ali moço você não quer mais não ah
pode trazer quando tivesse uns dois ou três anos ali o quê que eles fazia
chamava o outro de lá oh rapaz vi falar que meus bezerros tá morrendo, tá
isso tá aquilo vou botar outro vaqueiro cê que sabe uá a fazenda é sua já
vinha com o papel mostrando oh comprei essa terra aqui o papel de
documento dela aqui e aí agora esse ano que vem você se prepare que vou
botar outro vaqueiro o povo tá falando demais que você tá deixando os
bezerros morrer (risos) e aí o que acontecia panhava outro vaqueiro trazia
pra cá e o outro saía e o outro que era dono da terra botava pra fora e por
isso aí aconteceu com vários deles dizia assim e esse território aí tomou de
conta das terras tudinho os fazendeiros tomou de conta; documento nem
um toco, agora que foi descobrir o governo descobriu no projeto Kalunga
que não tinha documento, mas o povo pensava que tinha um papel
mostrando um papelão bonito assim um documento mesmo, mentira que
não era documento era papel falso e por aí tomou de conta das terras tudo
algumas fazendas que teve documento original por os velhos pais que as
vezes guardou, zelou direitinho, ó documento de meu pai mesmo morreu no
fogo, queimou acabou tudo ficou sem documento; saí de lá pra cá corrido
de grileiro por causa disso, ainda bem que terra do Kalunga caí cá dentro
pronto ficou bom pra mim mas saí de lá por grileiro correndo em mim, na
terra de meu pai , meu avô, bisavô (Morador(a)1, comm, pers, 2016)
1.3 - Consequência da Grilagem de Terras no Sistema Agropecuário Kalunga
Limitados em áreas menores pela grilagem de terras, a produção de
alimentos e a criação de gado sofreram diversas consequências.
As áreas eram cultivadas uma ou duas vezes e deixadas para "descanso"
(pousio florestal), para procurar uma nova área para o cultivo.
Com a grilagem e invasão das terras, as áreas de cultivos passam a ser
usadas por muito mais tempo, interferindo na produção local. E o gado criado em
áreas abertas, passou a viver em espaços fechado e largas4 reduzidas, assim o
campo deixaria de existir.
As áreas de domínio dos fazendeiros eram vigiadas e controladas, neste
sentido, os sistemas de cultivos e a produção de alimento diminuíram
gradativamente. As roças de toco passam a ser construídas em áreas menores e
4
Para os Kalungueiros a larga é um espaço destinado à pastagem de animais (gado, cavalos), pode
ser aberto ou cercado de arame.
30
muitas vezes improdutivas.
Quando só tinha nós aqui, eu podia ir ne qualquer ponto ai , escolhia uma
mata boa e plantar a roça, depois que os fazendeiros invadiram, nois não
podia mais plantar roça ne qualquer lugar, foi ruim pra nós, ficamos
encurralados, o trem melhorou mais com a chegada do projeto kalunga, ai
os homem parou de cercar nois, as fazendas foram olhadas para indenizar,
eles os fazendeiros pararam de aumentar a área nois ficamos queto.(
Morador de 1950, comm, pers, 2016)
Depois das invasões, os kalungueiros, além da opressão, enfrentam desafios
para desenvolver seus sistemas agrícolas, como falta de terra e o isolamento em
pequenas áreas. No entanto, nem todos entregaram suas terras, muitos resistiram e
permaneceram em suas propriedades. Os relatos a seguir mostram conflitos,
resistência e lutas ocorridas a fim de manter o domínio e controle sobre a terra.
Eu falei para o fazendeiro que só sairia daqui morto, meus pais nasceram e
criaram aqui, eu nasci e criei aqui não vou sair da terra, essa terra é nossa
por direito, eles chegaram ai começaram cercar e foram tomando tudo, nós
ficando sem nada. (Morador de 1968,comm. pers, 2017)
Destruição de casas e roças eram práticas realizadas para amedrontar e
ameaçar oskalungueiros, a fim de que estes abandonassem suas propriedades.
Tomando o domínio após estarem desocupadas.
Segundo narrativas dos indivíduos do grupo, os frequentes episódios por
eles enfrentados eram desde invasões de suas terras por novos
personagens, roças e casas ora queimadas e ou derrubadas por tratores e
visitas constantes de policiais com mandados judiciais expedidos por
delegados e outras autoridades do poder público local. (OLIVEIRA, 2006,
p.12)
Os enfrentamentos mencionados nos parágrafos anteriores trouxeram
inúmeros desafios para a produção de alimentos, criação de animais e relações
sociais. Os levantamentos que realizamos nos núcleos familiares, com os doze
agricultores e criadores de gado da comunidade Kalunga do Mimoso, mostram os
reflexos das lutas e conflitos agrários enfrentados. Muitas famílias transformaram
suas práticas agropecuárias, de várias formas, como demonstraremos na parte 3.
Outra consequência foi o êxodo rural: muitos kalungueiros saíram da sua
região para as cidades de Arrias/TO, Brasília/DF, Goiânia/GO, Cavalcante /GO,
principalmente a procura de trabalho e melhores condições de vida. Os que ficaram
31
se tornaram vaqueiros nas grandes fazendas.
Esses fatos nos mostram a realidade cultural e conflituosa vivenciada pela
população negra na região sudeste tocantinense. O povo desta região vivenciou
momentos de ameaças, tanto da propriedade quanto da pessoa física. Temos
relatos de ameaças de morte a kalungueiros. Não mencionaremos os nomes aqui
para manter a integridade física destas pessoas.
Para além destas violências, o processo de grilagem fragilizou, ao longo das
várias décadas, os modos de vida e a segurança alimentar do povo Kalunga, que
teve que buscar nas cidades alternativas econômicas, reconfigurando assim
profundamente o seu sistema agrícola. Por outro lado, foi a partir da conexão mais
intensa com as cidades, em torno de 2004, que a comunidade Kalunga do Mimoso
se articulou ao movimento quilombola estadual e iniciou um novo movimento de
resistência e de reinvindicação territorial.
1.4 - Reconhecimento do Território
Os primeiros estudos de identificação e regularização territorial da
Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso foram realizados pela professora e
pesquisadora da Universidade Federal do Tocantins – UFT, Rosy de Oliveira em
2001. Estes processos iniciais, agregados às lutas e a resistência do povo Kalunga,
se somaram para atenuar os conflitos agrários vivenciados pelos kalungueiros.
No dia 21 do mês setembro de 2005, a comunidade Quilombola Kalunga do
Mimoso foi certificada pela Fundação Cultural Palmares, e no dia 16 de dezembro de
2010 foi decretado a criação do Território Kalunga do Mimoso pelo Governo Federal,
totalizando uma área de 57.465 hectares, e lançamento do mapeamento territorial
realizado pelo INCRA/TO (figura XX).
32
Figura 1: Mapa Oficial do Território Quilombola Kalunga do Mimoso (INCRA/TO)
Fonte: INCRA /2017
As etapas da regularização fundiária de Comunidades Quilombolas no Estado
do Tocantins, segundo (INCRA, (2017) foram as seguintes:
Tabela 3: Etapa de regularização fundiária 1º Passo
Autodefinição quilombola
A comunidade quilombola assim como qualquer outro grupo social, tem direito à autodefinição. Para
regularizar seu território, o grupo deve apresentar ao INCRA a Certidão de Autorreconhecimento
emitida pela Fundação Cultural Palmares.
2º Passo Elaboração do RTID
A primeira etapa da regularização fundiário quilombola consiste na elaboração do Relatório Técnico
de Identificação e Delimitação (RTID), visando o levantamento de informações cartográficas,
fundiárias agronômicas fundiárias, agronômicas ecológicas, geográficas, socioeconômicas, históricas,
etnográficas e antropológicas obtidas em campo e junto a instituições publicas e privadas. O RTID
tem como objetivo identificar os limites das terras das comunidades remanescentes de quilombos.
3º Passo Publicação do RTID
Os interessados terão o prazo de 90 dias após a publicação e as notificações para contestarem o
RTID junto à Superintendência Regional do INCRA, juntando as provas pertinentes. Do julgamento
das contestações caberá recurso único ao Conselho Diretor do INCRA Sede, no prazo de 30 dias a
contar da notificação.
33
Fonte: http://www.incra.gov.br/passo_a_passo_quilombolas
Ressalta-se que após a certificação, nossa comunidade passou por estudo
antropológico realizado pelo INCRA/TO. A seguir, no ano de 2005, recebemos o
mapa oficial do Território (conforme figura 1). Após o relatório antropológico e as
vistorias das propriedades a serem indenizadas, iniciou o processo de desintrusão
dos fazendeiros e grileiros, posseiros e outros povos que não têm pertencimento e
identidade kalungueira. A desintrusão consiste em uma etapa de pagamento e
desapropriação de fazendeiros e posseiros.
Dos 57.465 hectares de terra identificados como de direito dos quilombolas, mais de
40.000 hectares ainda encontram-se em posse de fazendeiros. Em todos os núcleos
visitados nos anos de 2016 a 2017, identificamos propriedades que pertenceram a
fazendeiros, e outras áreas ainda sobre domínio de invasores e grileiros5. Estas
áreas, agora tituladas e documentadas, foram vistoriadas pelo INCRA/TO e estão
em fase indenizatória.
Importante ressaltar aqui que o Relatório de 2016 das Atividades dos imóveis
Vistoriados dentro do Território Kalunga do Mimoso (INCRA/TO) informa que ainda
existem 39 propriedades em situação processual para serem indenizadas e
desapropriadas. Do total das terras mencionadas neste parágrafo apenas 4.051
5 Na comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso considera-se invasor de terra,
estranhos que invadem área já ocupadas por algum morador. Grileiros são nomes usados
para nomear, pessoas que constroem cercas e casas e apropriam de uma área de terra
que ainda não esta ocupada.
4º Passo
Portaria de reconhecimento
A fase de identificação do território encerra-se com a publicação da portaria do Presidente do
INCRA que reconhece os limites do território quilombola no Diário Oficial da União e dos estados
5º Passo
Decreto de desapropriação
Nos casos em que há imóveis privados, títulos ou posses incidentes no território, é necessária a
publicação de Decreto Presidencial de Desapropriação por interesse Social (Presidência da
Republica) os imóveis desapropriados serão vistoriados e avaliados conforme os preços de
mercado, pagando-se sempre previamente e em dinheiro a terra nua, no caso dos títulos válidos e
as benfeitorias.
6º
Passo
Titulaç
ão
O Presidente do INCRA realizará a titulação mediante a outorga de título coletivo, imprescritível e
pró- indiviso à comunidade, em nome de sua associação legalmente constituída, sem nenhum
ônus financeiro. É proibida a venda e penhora do território.
http://www.incra.gov.br/passo_a_passo_quilombolas
34
estão em posse dos kalungueiros. Três novos imóveis iniciaram o ajuizamento para
indenização no final do ano de 2018, após isso, os títulos destas terras serão
entregues ao povo Kalunga.
Depois da demarcação, vistoria e negociações para indenizar as áreas
tituladas e não tituladas dentro da Comunidade Kalunga do Mimoso, muitos
fazendeiros abandonaram as fazendas. Durante nosso trabalho de campo foi
possível identificar mais de 15 propriedades em desuso.
Outras propriedades estão em uso parcial, pois as atividades agrícolas como
pastagem e criação de gado encontram-se paradas. Tivemos relatos também de
alguns moradore(a)s sobre informações de ameaças de retorno de alguns
fazendeiros. Este fato decorre da demora das indenizações das referidas
propriedades. Quando indenizados, o título da propriedade é entregue a Associação.
Depois a área em questão é distribuída em partes iguais para os moradore(a)s, ou
para os descendentesque desejam retornar para a comunidade.
1.5 - A Organização atual da Comunidade
A comunidade possui três associações: a Associação da Comunidade
Quilombola Kalunga do Mimoso, a Associação de Pequenos Produtore(a)s e a
Associação do Kalunga Albino. A primeira Associação é denominada associação
mãe, as demais denominadas associações filhas.
As três entidades apresentadas são responsáveis pela articulação quilombola
e gestão territorial da comunidade em questão. Cada associação está sediada em
locais estratégicos para facilitar a comunicação e o monitoramento do território.
As duas associações estão desenvolvendo projetos de intervenção e de
conscientização do uso do lixo com a temática: “Uma reflexão sobre o destino do lixo
na Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso: colocando lixo no lugar certo”. Com
este trabalho pretende-se desenvolver oficinas, momentos de debate e
conscientização sobre o destino do lixo.
35
Já o projeto de Gestão Territorial e Recursos Naturais, que vem sendo
construído, tem como pauta a temática sobre a agricultura familiar sustentável da
Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso. A Comunidade Kalunga possuía
aproximadamente 270 famílias, segundo levantamento realizado pela Associação
Alternativas para Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO) em 2012. Desde
2015, podemos afirmar que este número aumentou. O Vice-presidente da
Associação da Comunidade Remanescente de Quilombo afirma que novas casas
estão sendo construídas e novas famílias estão chegando e se instalando nas terras
kalungueiras. Somando um total de 30 novas residências, números estes que vêm
aumentando.
Os moradore(a)s da comunidade Kalunga do Mimoso estavam espalhados no
território em vários núcleos familiares: Mimoso, Forte, Arião, Matas, Beira do Rio
Paranã e Albino. Este último núcleo está localizado no munícipio de Paranã e os
demais em Arraias. Possuem relações familiares de pertencimento e identidade
territorial, estabelecendo diversas relações sociais, culturais, econômicas.
2 - AS PAISAGENS E SEUS USOS ATUAIS
2.1 - Paisagens Kalunga (Mimoso)
Nossa comunidade é beneficiada pela diversidade de vida vegetal e animal
presente no bioma do Cerrado, e possui diversas fitofisionomias como cerradão,
campo cerrado, campo limpo, campo sujo, e mata ciliar.
Cada fitofisionomia do bioma Cerrado descrito acima é nomeado pelos
moradore(a)s da comunidade Kalunga por categorias que são conhecidas por todos
os agricultores locais.
Tabela 4: Fitofisionomias do Cerrado e categorias Kalunga
Vegetação Formação Categorias Kalunga
Florestal Cerradão Mata de Capão
Campestre Campo Limpo Veredas
Savânica Cerrado Sentido Restrito Cerrado
Florestal Mata Ciliar Mata
Referência: Ribeiro e Walter (1998)
36
Para o Produtor(a) J (2017) a "vereda" corresponde à fitofisionomia de campo
limpo, com predomínio de vegetação campestre e com presença de gramíneas e
pequenas árvores.
Já o fitofisionomia Cerradão corresponde a "mata capão", onde se observa
vegetação com mais árvores, caracterizando uma área de mata mais fechada. As
matas ciliares, para Produtor(a) C (2018), são as vegetações que estão localizadas
nas margens ou próximas a rios e córregos conhecidas como "vazante".
O Cerradão, para nós, é identificado como um local de mata fechada com a
presença de árvores como pau terra, pequi, sucupira, jacarandá e outros. Podemos
denominá-lo também como mata capão. São áreas utilizadas para fazer cultivos das
roças.
Para Ribeiro (2017) o Cerradão é formado por espécies vegetais que
apresentam características que lhes permitem suportar as secas.
O Cerradão é uma formação florestal do bioma Cerrado com características
esclerofilas (grande ocorrência de órgãos vegetais rijos, principalmente
folhas) e xeromórficas (com características como folhas reduzidas,
suculência, pilosidade densa ou com cutícula grossa que permitem
conservar água e, portanto, suportar condições de seca). Caracteriza-se
pela presença preferencial de espécies que ocorrem no Cerrado sentido
restrito e também por espécies de florestas, particularmente as da Mata
Seca Semidecídua e da Mata de Galeria não-Inundável. Do ponto de vista
fisionômico é uma floresta, mas floristicamente se assemelha mais ao
Cerrado sentido restrito. (RIBEIRO, 2017, p. 1)
A partir das características arbóreas apresentadas por Ribeiro, às matas de
capão apresentadas pelos agricultores kalungas possuem características tanto da
vegetação quanto do solo semelhantes à descrição feita as menções referenciadas
pelos ecólogos (figuras 2 e 3).
37
Figura 2: Diagrama de perfil (1) e cobertura arbórea (2) de um Cerradão representando uma
faixa de 80 m de comprimento por 10 m de largura. Fonte: Cavalcanti (2017)
Ilustração: Wellington Cavalcanti (2017) Agencia de Informação Embrapa
Foto Figura 3: Mata de Capão Kalunga (Cerradão)
Fotografia: Lourivaldo dos Santos Souza
Já a mata ciliar é definida por Ribeiro (2017) da seguinte forma:
Acompanha os rios de médio e grande porte da região do Cerrado, em que
a vegetação arbórea não forma galerias. Em geral essa Mata é
relativamente estreita, dificilmente ultrapassando 100 metros de largura em
cada margem. É comum a largura em cada margem ser proporcional à do
leito do rio, embora em áreas planas a largura possa ser maior. Porém, a
Mata Ciliar ocorre geralmente sobre terrenos acidentados, podendo haver
uma transição nem sempre evidente para outras fisionomias florestais como
a Mata Seca e o Cerradão. (RIBEIRO, 2017, p. 1)
As matas ciliares são encontradas próximas aos rios e, como enfatiza Ribeiro,
elas acompanham os rios de médio e grande porte. Na comunidade Kalunga do
Mimoso, estas matas de margem são cortadas pelos dois maiores rios da região
38
Paranã e rio Bezerra,
Nos locais mais baixos, onde os rios vazam após as enchentes, nomeamos
como vazantes, locais que utilizamos para abrir as roças de vazante.
As árvores, predominantemente eretas, variam em altura de 20 a 25 metros,
com alguns poucos indivíduos emergentes alcançando 30 metros ou mais.
As espécies típicas são predominantemente do tipo que perdem as folhas
(caducifólias), com algumas sempre-verdes, conferindo à Mata Ciliar um
aspecto semidecíduo. Ao longo do ano as árvores fornecem uma cobertura
arbórea variável de 50 a 90%. Na estação chuvosa a cobertura chega a
90%, dificilmente ultrapassando este valor, ao passo que na estação seca
pode até mesmo ser inferior a 50% em alguns trechos. (Walter 2017, p.1)
Figura 4: Diagrama de perfil (1) e cobertura arbórea (2) de uma Mata Ciliar representando uma
faixa de 80 m de comprimento por 4 m de largura nos períodos seco (maio a setembro) e
chuvoso (outubro a abril). Fonte : Cavalcanti (2017)
Ilustração: Wellington Cavalcanti
39
Figura 5: Mata Ciliar Kalunga, ao longo do – Rio Paranã
Fotografia de: Lourivaldo dos Santos Souza
Na nossa região, as "veredas" correspondem ao Campo Limpo úmido, são
locais com pouca presença de árvores, em alguns locais encontramos buritis e
nascentes de água, com a presença de capim agreste.
Vereda é aonde não tem mato grosso para cortar, onde só tem capim
mesmo, mais capim às vezes tem umas moitinhas de mato muito pouca,
sempre tem uma moitinha, mas muito pouco, se enxerga longa é limpo,
limpo da natureza não foi roçado. (PRODUTOR(A) G de 1954,comm.,pers.
2018)
Esta vegetação, com predominância de espécies vegetais herbáceo, com
raros arbustos e ausência completa de árvores, caracteriza a formação Campo
Limpo. Ribeiro (2017).
Pode ser encontrado em diversas posições topográficas, com diferentes
variações no grau de umidade, profundidade e fertilidade do solo.
Entretanto, é encontrado com mais frequência nas encostas, nas chapadas,
nos olhos d’água, circundando as Veredas e na borda das Matas de
Galeria.Pode ocorrer em solos com características variadas de coloração
(desde amarelo claro, avermelhada, ao vermelho-escuro), textura (de
arenosos a argilosa, ou muito argilosa e bem drenados) e graus variados de
permeabilidade (penetração da água). (RIBEIRO, 2017, p.1)
40
Figura 6: Vereda Kalunga (Campo Limpo)
Fotografia de: Lourivaldo dos Santos Souza
Para os kalungueiros, o Cerrado, em sentido estrito, é nomeado como
cerrado, local onde temos a presença de árvores como Mama de Porca, Bacupari,
Cascudinho, Marmelada de Cachorro, Peroba, Jatobá do Campo e outros.
O Cerrado sentido restrito caracteriza-se pela presença de árvores baixas,
inclinadas, tortuosas, com ramificações irregulares e retorcidas, e
geralmente com evidências de queimadas. Os arbustos e subarbustos
encontram-se espalhados, com algumas espécies apresentando órgãos
subterrâneos perenes (xilopódios), que permitem a rebrota após queima ou
corte. Na época chuvosa as camadas subarbustiva e herbácea tornam-se
exuberantes, devido ao seu rápido crescimento. (RIBEIRO, 2017, p. 1)
Figura 7: Foto Cerrado Kalunga (Cerrado Sentido Restrito)
Fotografia: Lourivaldo dos Santos Souza
41
Na comunidade Kalunga do Mimoso, identificamos três tipos de vegetações, a
florestal com a presença da formação Cerradão; vegetação Campestre com a
presença da formação Campo Limpo, e um terceiro tipo, a Savânica, com presença
da formação Cerrado sentido Restrito.
3. OS TIPOS DE ROÇA (SISTEMAS DE CULTIVO)
Foram identificados na comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso cinco
sistemas de cultivos: roça de roça de toco, roça com trator, quintais, roça com uso
de agroquímicos, e roças de pasto.
Nas roças, as técnicas usadas são saberes herdados dos antepassados. Para
a moradora Produtor(a) D (2017) a roçada, a derruba, e a capina foram práticas que
os mais velhos transmitiram aos filhos, e assim sucessivamente. Todos os membros
da família participam das atividades agrícolas, desde os trabalhos mais pesados
(derrubada, roçada, capina) aos mais leves (vigia, colheita). A vigia é uma tarefa que
consiste em ficar de guarda para impedir que pássaros e aves ataquem as
plantações, sobretudo de arroz. Já a coivara é uma técnica que ocorre após a
queima das roças. A sobra dos galhos de árvores que não queimaram são coletados
e amontoados um sobre o outro, e queimados novamente.
O sistema de cultivo de corte e queima é praticado na comunidade quilombola
Kalunga do Mimoso há mais de 250 anos. As práticas agrícolas herdadas permitiram
ao longo dos anos a produção de alimento e a soberania alimentar das famílias que
vivem na referida comunidade. Para desenvolver as práticas agrícolas de corte e
queima, os agricultores utilizam florestas, água da chuva e solos férteis. “Parte das
terras do Mimoso começaram a ser ocupadas pelos mulequeiros por volta de 1913”.
(OLIVEIRA, 2006, p.15) A nomenclatura mulequeiros era para nomear os
kalungueiros que migraram da região Vão do Muleque.
Desde que eu me conheço por gente já fazia roça de toco aqui na
comunidade. Meus avós plantaram roça de toco, meus pais também e eu
desde que conheço por gente faço roça de toco, nos roça, nos derruba, nós
queima nós capina e planta. Assim que fazemos as roças para sustentar a
casa (PRODUTOR(A) D , de 1938, comm, pers., 2017)
42
Durante as visitas às roças de toco e roças com trator, percebemos algumas
profundas mudanças nas técnicas de cultivos agrícolas nesta comunidade. Por
exemplo, rapidez no beneficiamento da terra para os plantios, redução da mão de
obra e uso de agroquímicos.
Tabela 5: repartição dos sistemas de cultivo identificados nos diferentes núcleos do Território
Kalunga do Mimoso
Núcleo familiar Agricultor Sistema de cultivo
Beira do Rio Paranã Produtor(a)H Roça de toco Quintal
Beira do Rio Paranã Produtor(a)G Roça de toco Quintal
Mimoso Produtor(a)J Roça com trator Quintal
Mimoso Produtor(a)I Roça com trator Quintal
Mimoso Produtor(a)F Roça de toco Quintal
Forte Produtor(a)B Roça de toco Quintal
Forte Produtor(a)A Roça de toco Quintal
Arião Produtor(a)C Roça com trator Quintal
Arião Produtor(a)D Roça de toco Quintal
Arião Produtor(a)E Não fez roça Quintal
Matas Produtor(a)L Roça de toco Quintal
Matas Produtores(a)M Roça de toco Quintal
Fonte: Elaboração própria
3.1 - Roça de Toco
Há uns 15 anos começaram a se usar a matraca, anos depois alguns
agricultores começam a utilizar a motosserra. Entre os 12 agricultores identificamos
três agricultores que possuem esta ferramenta. Todos fazem uso da matraca.
O sistema de cultivo de roça de toco segundo o Produtor(a) J, é uma prática
agrícola desenvolvida na comunidade há muitos anos, “desde o início da vida da
gente, fazia roça de toco, desde quando o povo começou ocupar aqui há
aproximadamente uns 250.” (PRODUTOR(A) J de1955, comm, pers.,2018).
Começa roçar em julho termina em agosto que derruba setembro bota fogo,
tem outros que queima atrasado até outubro queima se a chuva atrasar
queima em outubro, a limpa da terra começa em novembro, final de outubro
para início de novembro, novembro é tempo da limpa, plantar é em final de
novembro para início de dezembro. (PRODUTOR(A)J de 1955, comm,
pers., 2017)
Para o desenvolvimento de uma roça de toco, o primeiro passo é escolher
uma área boa para o plantio. São geralmente as áreas próximas aos rios, córregos e
capão. Segundo o Produtor(a) B, a área boa para o plantio é um local de mata
43
fechada e terra escura, vermelha ou preta. Após a escolha do local é feita a roçada,
atividade realizada a partir do mês de julho a agosto, a seguir a derruba das árvores
mais grossas.
Tabela 6: Calendário agrícola da Roça de toco de 1 ano (PRODUTOR(A) B
2017 2018
Ja n fev mar Abr Mai jun ago s Set Nov de z Mar abr mai dez
Mata bruta Roçada, derruba Quei ma Plantio Colheita e abandono da área
para pousio
Calendário agrícola
A seguir apresentamos os trabalhos operacionais em roça de toco com
extensão de 120 m2.
Tabela 7: Itinerário técnico da roça de toco do Produtor(a) B
Operações Data Numero de dias
trabalhados
Numero de
trabalhadores
Total de dias de
trabalho (dias X
trabalhadores)
Broca Agosto/ 2017 15 dias 3 três 45
Derruba Agosto/ 2017 3 dias 3 três 9
Queima Setembro/ 2017 1 dias 2 dois 2
Coivara Setembro / 2017 3 dias 2 dois 6
Plantação Novembro e
dezembro
/2017
3 dias 2 dois 6
Limpa 1 Dezembro/ 2017 1 semana 3 três 21
Limpa 2 Janeiro/2018 4 dias 3 três 12
TOTAL 101
TOTAL (100 m
2
) 84
Fonte: Elaboração própria
As operações são atividades realizadas geralmente pela família, mas também
podem obter apoio dos vizinhos e parentes. Alguns agricultores contratam trabalho
de outros trabalhadores para auxiliarem nas tarefas de roçada, derruba e limpa.
As atividades na roça de toco que demandam maior força braçal, são: roçada,
derruba, coivara e capina. As demais atividades como plantio, vigia e colheita
exigem menor força física, assim mulheres e adolescentes podem auxiliar nas
atividades agrícolas. No entanto, apesar de não exigir muita força física a capina
demanda bastante tempo, conforme indicado na tabela 7.
44
Figura 8: Roça de toco após queima /2017
Imagem: Lourivaldo dos Santos Souza
A primeira atividade (roçada) é realizada com o uso da foice, a segunda é
realizada com o uso do motosserra ou do machado. Com as inovações tecnológicas
nas práticas agrícolas, como uso do trator e grade de arar a terra, os tocos e raízes
são arrancados. Com os agroquímicos (glifosato houndup), os tocos deixados
morrem, outros demoram mais tempo para rebrota.
Depois das primeiras chuvas do mês de setembro realiza-se a queima. Os
troncos e galhos resultantes da queima são amontoados uns sobre os outros e
novamente queimados para finalizar a limpa da terra. Esse processo de amontoargalhos e troncos é conhecido na região como coivara. A plantação é realizada após
as chuvas que ocorrem no final do mês de novembro para dezembro.
Depois da queima é realizado o plantio. Esta atividade ocorre no final do mês
de novembro e início do mês de dezembro. O trabalho na roça é dividido entre os
familiares. Homens, mulheres, adolescentes e jovens desempenham coletivamente
as atividades agrícolas como: roçada, derruba, coivara, capina, plantio, vigia e
colheita.
Na referida comunidade, identificamos roças de toco com extensão de duas a
três tarefas, o que corresponde a 60 e 90 m2. A extensão da roça esta relacionada
com a quantidade de mão de obra que se tem em casa.
Nas roças de toco, os principais cultivos são arroz, feijão, mandioca, milho,
abobora. A seguir apresentamos uma lista (tabela 8), mostrando a biodiversidade
45
cultivada em roças de toco identificadas na comunidade Kalunga do Mimoso.
Figura 9: Roça de toco / 2018
Imagem: Lourivaldo dos Santos Souza
Tabela 8: Agrobiodiversidade roças de toco (ano de cultivo 2017 – 2018) (1 tarefa, 1 tarefa, 1/5
tarefa, 3 tarefas)
Produtor(a) G
(roça nova) 1 tarefa
Produtor(a) D
(roça nova) 1 tarefa
Produtor(a) H
(roça nova) 0,5 tarefa
Produtor(a) B
(capoeira 2 anos) 3
tarefas
Espécie e Variedade Espécie Variedade Espécie e Variedade Espécie e variedade
Milho bandeirante Arroz três meses Arroz três meses Arroz quatro
meses
Milho Híbrido Milho criolo
(cunha)
Arroz agulhinha Arroz três meses
Milho criolo (cunha) Abóbora muringa Mandioca gaerinha Milho bandeirante
Mandioca todo tempo Abóbora de horta Mandioca Pipiri Mandioca pipiri
Mandioca Amarelinha Mandioca amarelinha Milho cunha Mandioca castelo
Mandioca Pipiri Mandioca pipiri Milho bandeirante Mandioca todo tempo
Mandioca Gaerinha Melão de horta Abobora redonda
Mandioca quatro
meses
Feijão catador Abobora de pescoço
Cana cento e
vinte
Cana cento e
vinte
Cana cento e
vinte
Cana Roxa Manga comum Capim junça
Cana Caiana Manga espada Maxixe liso
Mamona de tirar
azeite
Fonte: elaboração própria
46
3.2 - Roça de Pasto
Há cerca de vinte anos iniciaram-se os sistemas de cultivos de capim. “Os
primeiros que fez pasto lá, eu conheço, primeiro os moradore(a)s começou fazer,
depois os fazendeiros também fizeram, fez pasto, fez larga, assim que foi
acontecido”. (Produtor(a) J, de1855, comm, pers., 2018).
Figura 10: Roça de pasto (capim braquiária)
Foto: Lourivaldo dos Santos Souza
Primeiro abre-se uma roça de toco em uma área, e após a colheita planta-se
o capim e começa iniciando o cultivo da roça de pasto. Estas experiências de cultivo
de capim podem variar. Identificamos experiências em que na mesma área foi
cultivada uma roça de toco por até quatro anos seguidos, e só depois o plantio do
capim.
No núcleo Forte identificamos experiências em que o capim era plantado
juntamente com o milho e outras plantas. Após a colheita a área seria destinada a
pastagem.
47
Figura 11: Roça de milho coexistindo com plantio de alimentos (milho e capim). A roça é
destinada, desde sua criação, para ser um pasto
Fotografia de Ludivine Eloy (2018)
Por exemplo, o Produtor(a) B planta roça de toco durante dois anos, no
terceiro faz plantio de alimentos junto com o capim, e transforma gradativamente as
capoeiras em roças de pasto. Assim faz a substituição do plantio temporário, cultivos
de alimentos como mandioca, milho, arroz e etc, por cultivos definitivos de capins do
tipo agropolo e braquiária.
Nas áreas de pastagem anualmente é feito a roçada, assim mantem-se o
controle das espécies vegetais que crescem, a fim de manter a homogeneidade do
capim. Os agricultores fazem o desmate seletivo deixando algumas árvores. Estas
permitem que o local tenha sombra e permaneça mais úmido por mais tempo,
preservando e mantendo o capim verde.
Segundo o Produtor(a) A, após plantar o capim, o controle das espécies que
nascem ou brotam se dá a partir da roçada, atividade realizada com o uso da foice.
Quando você faz a roçada, o capim cresce e ganha volume. As áreas de plantio de
capim são exclusivamente para pastagem de animais bovinos e equinos.
A partir dos esquemas de rotação das roças e pastos (figura 9) percebe-se
que está ocorrendo a modernização das práticas agrícolas. A seguir apresentamos
os modelos e as datas das roças para o sistema agrícola de produção de alimento
da comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso.
48
Tabela 9: Histórico e rotação numa roça de pasto de 8 anos
2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018
Mata bruta Roça de pasto – capim braquiária
Fonte: Elaboração própria
No esquema (tabela 14), apresentamos modelo de rotação de roça de toco
com uso de glifosato roundup dois anos seguidos. Na (tabela 9), é o caso de uma
roça de pasto de 8 anos, com cultivo inicial de capim braquiária que é cultivado
atualmente. Identificamos dois casos, um em que o capim é cultivado inicialmente, e
um segundo caso em que o capim é cultivado após as atividades agrícolas de
produção de alimento que duram de 3 a 5 anos. Cultivando, depois, o capim para
construção de pastagem para alimentar o gado.
Na propriedade do Produtor(a) E (núcleo Arião) identificamos algumas
capoeiras, e nenhuma roça de pasto (tabela 10). Na propriedade do Produtor(a) B
(núcleo Forte) foi identificado menos capoeiras e um número maior de roças de
pasto. Assim, esta opção responde a uma especialização do sistema produtivo em
torno da pecuária que, gradativamente, toda (ou grande parte) da propriedade
familiar é transformada em pastagem.
Tabela 10: Núcleo Arião – Produtor(a) E Capoeira 2 anos
2014 2015 2016 2017 2018
Mata
bruta
Roça de toco Abandono da área e pousio Espécies identificadas
Ipê Roxo, Jatobá de Anta, Jatobá do
Campo, Vaqueta, Mutamba, Aroeira
Capoeira 3 anos
2014 2015 2016 2017 2018
Mata
bruta
Roça de toco Abandono da área e pousio Espécies identificadas
Ipê Roxo, Jatobá de Anta, Jatobá do
Campo, Vaqueta, Mutamba, Aroeira
Capoeira 4 anos
2015 2014 2015 2016 2017 2018
Mata
bruta
Roça de toco Abandono da área e pousio Espécies identificadas
Ipê Roxo, Jatobá de Anta, Jatobá
do Campo, Vaqueta, Mutamba,
Aroeira, Negramina
Fonte: Elaboração própria
O Produtor(a) B planta roça de toco durante dois anos, no terceiro faz plantio
de alimentos junto com o capim, e transforma paulatinamente as capoeiras em roças
49
de pasto. Assim faz a substituição do plantio temporário de cultivos de alimentos
como mandioca, milho, arroz e etc, por cultivos definitivos de capins do tipo agropolo
e braquiária.
Tabela 11: Da Roça de toco à roça de pasto em 3 anos (Produtor(a) B)
2017 2018
2014 2015 2016 No v de z Mar abr mai de z
Mata bruta Arroz, milho, mandioca,
abobora, melancia,
maxixo
Arroz milho Cultivo
milho e
capim
Colheita do milho Área
destinada a pastagem
Fonte: Elaboração própria
3.3 Roça com Trator
A Roça com trator é uma atividade agrícola recente na comunidade Kalunga
do Mimoso. Segundo o Produtor(a) I, desde o ano de 2016 que o pessoal da
comunidade começou a usar o trator para arrancar os tocos e arar a terra.
Figura 12: Roça com trator e plantação de arroz, milho com trator / 2018
Imagens: Lourivaldo dos Santos Souza
Segundo o Produtor(a) I, primeiramente remove-se as árvores com o trator,
depois a terra é gradeada, e então se realiza o plantio. Na localidade visitada,
primeiro ele plantou uma roça de toco, e no terceiro ano ele arrancou os tocos com o
trator e gradeou a terra. Nesta área, é o segundo ano que ele planta utilizando a
técnica de gradear a terra.
As áreas escolhidas para o cultivo com trator são áreas de mata fechada
(capão), e áreas próximas aos rios e córregos. Após a escolha do local, é feita a
limpeza da área com o trator, e umavez removida toda a cobertura vegetal, a terra é
50
gradeada e realiza-se os plantios.
Na propriedade do senhor Produtor(a) I identificamos uma área de cultivo com
trator de 1 alqueire o que na região corresponde a ( 220 m2), e uma outra com 4
tarefas correspondente a (120 m2). Segundo o produtor é possível plantar em maior
quantidade e aproveitar melhor a área neste tipo de sistema. “Aproveita melhor a
terra, limpa tudo e planta mais, a limpa é menos, só limpa uma vez, mas dá mais
mundiça”. (PRODUTOR(A) I, comm, pers., 2017).
Na roça com trator nasce erva daninha, o que os kalungueiros nomeiam como
mundiça. Nos cultivos com trator as atividades agrícolas são realizadas em menos
tempo e emprega menos mão de obra. A força humana é substituída pela força do
trator, o preparo da terra é mais rápido.
Tabela 12: Atividades agrícolas em uma roça com Trator – extensão 220 m
2
(Produtor(a) I)
Operações Data Numero de dias
de trabalho
Numero de
trabalhadores
Total de dias de
trabalho
(dias X trabalhadores)
Derruba Final de agosto
até início de
setembro/ 2017
4 horas 1 1
Arar Setembro/
novembro 2017
3 horas 1 1
Plantação Dezembro/ 2017 2 dias 2 2
Capina Janeiro /
Fevereiro
3 dias 4 3
Fonte: Elaboração própria
Se compararmos roça de toco e roça com trator em áreas de mesmo
tamanho, percebe que tempo de trabalho e número de trabalhadores são menores
em roças com o uso das máquinas.
A tabela 13 mostra a biodiversidade cultivada em roças com trator de
quilombolas dos núcleos Mimoso e Arião. Assim como nas roças de toco este tipo de
sistema apresenta variedades de plantas que são utilizadas na alimentação familiar.
No núcleo mimoso as atividades agrícolas na localidade em questão estão
sendo desenvolvidas há três anos, no Arião em 2018 foi o primeiro ano de cultivo
com máquinas de plantação. Os dois produtore(a)s irão plantar novamente na
referida área. Após mais um ano de plantio, o produtor do núcleo Mimoso irá cultivar
capim, transformando a área em roça de pasto. Produtor do Arião pretende
abandonar a área para descanso (pousio).
51
Tabela 13: Biodiversidade em duas roça com trator (220 e 85m
2
) cultivo atual /2018 (núcleos
Mimoso e Arião)
Produtor(a) I – Mimoso Produtor(a) C – Arião
Espécie e Variedade Espécie e Variedade
Feijão de corda Arroz de três meses
Feijão de arranca Arroz de quatro meses
Abóbora de pescoço Mandioca amerelinha
Abobora redonda Mandioca pipiri
Mandioca amarelinha Milho hibrido
Mandioca gaierinha Fava
Mandioca pipiri Maxixe
Milho hibrido Cana 120
Milho transgênico Feijão de arranca
Fonte: Elaboração própria
O uso do trator e da grade demanda um gasto financeiro: uma hora de
trabalho com trator gera um gasto de R$ 130,00. Obviamente que a aquisição do
trator poderia compensar a mão de obra de vários trabalhadores ou de muitos dias
trabalhos. No entanto muitos agricultores não possuem condições financeiras para
contratar este tipo de serviço.
Nos municípios mais próximos Arraias e Paranã existem máquinas públicas,
trator e grades tanto para o desmate quando para beneficiamento da terra para
plantio. No entanto, a falta de mobilização e articulação políticas das Associações
dificulta o acesso das famílias rurais quilombolas a estas máquinas.
Com isso, o aluguel é o único mecanismo utilizado para aquisição de tratores
e máquinas de beneficiamento da terra. Assim as famílias que não possuem
recursos para custear estes gastos, utilizam as técnicas agrícolas de cultivos que
demandam menos gasto financeiro.
52
3.4 Roça com Agroquímico
Segundo Produtor(a) A do núcleo Forte o uso de "veneno" iniciou-se há uns 4
anos. Os produtore(a)s começaram a utilizar o Glifosato Roundup para eliminar as
espécies vegetais e fazer a limpeza da terra para a realização dos plantios. Sendo
também utilizado após os plantios para fazer o controle do mato que cresce entre
alguns plantios de cana, milho e mandioca.
A (tabela 15) apresenta rotação do uso de agroquímicos (Glifosato Roundup)
é utilizado na mesma área de cultivo por vários anos seguidos. No terceiro ano
(cultivo atual) foi necessário a utilização de adubo para melhorar a qualidade do
milho e do Arroz. Nos sistemas agrícolas com agroquímicos, as etapas de
construção cultivo das roças são realizadas obedecendo ao seguinte calendário
agrícola (tabela 14).
Tabela 14: Itinerário técnico numa roça com uso de agroquímicos de 2 anos (Produtor(a)A)
Torres) – núcleo Forte
2017 2018
Jan fev mar Mai jun agos set Nov dez Mar dez
Mata bruta Roçada, derruba Queima Uso
roundup
Plantio e
uso de
adubo
Colheit a
e
abandono da
área para pousio
Fonte: Elaboração própria
Tabela 15: Rotações interanuais numa roça com uso de agroquímicos calendário agrícola
2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018
Mata bruta Roça de toco Roça de toco uso
de
glifosato roundup
Roça de toco uso de
glifosato roundup
Plantar roça
novamente
Fonte: Elaboração própria
Assim como na roça de toco, na roça com uso de agroquímicos são
realizadas atividades agrícolas como abertura de clareira e queimada. Após estas
etapas antes do plantio, o glifosato ("roundup") é utilizado para matar o mato e fazer
a limpeza do solo. É também utilizado segundo o agricultor Produtor(a) A o uso de
adubo químico (NPK) para fortalecer o solo
A extensão das roças com trator pode variar de três a quatro tarefas. São
maiores que as roças de toco, demanda menos mão de obra durante a limpa do
solo.
53
Figura 13: Roça cultivada com uso de agroquímicos
Foto: Lourivaldo dos Santos Souza
As imagens (figura 13) apresentam variedades cultivadas em roças com
agroquímicos (Glifosato Roundup e Adubo NPK). Conforme (tabela 8 e 16) somente
algumas espécies são comuns aos dois sistemas roça de toco e roça com
agroquímicos.
Tabela 16: Roça com agroquímicos Produtor(a) A (cultivo atual) extensão 4 tarefas
Roça com agroquímicos produtor(a) A (cultivo atual) extensão 4 tarefas
Espécie Variedade
Banana Prata Mandioca Amarelinha
Banana Maçã Mandioca Gaheirinha
Banana Nanica Mandioca Pipiri
Banana Três Quina Mandioca Precoçe
Amendoin Caroço pequeno
Cana Cento e vinte
Cana Caiana
Batata Branca
Milho Bandeirante
Milho Cunha Criolo
Arroz Três meses Agulhinha
Arroz Quatro meses
Fonte: Elaboração própria
Os agroquímicos (Glifosato Roundup e Adubo NPK) utilizados nos cultivos
são comprados nas cidades de Arraias/Tocantins e Campos Belos / Goiás. O uso
destes produtos ocorre sem preparo ou treinamento.
54
Tabela 17: Roça de toco com uso de herbicidas 5 anos
2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018
Mata bruta Roça de toco Roça de toco Roça de toco Uso de
glifosato roundup
Roça com Uso de
glifosato roundup
Fonte: Elaboração própria
3.5 Quintais
Nos quintais próximos as residências são cultivados: hortaliças, limão, laranja,
lima, mandioca e outros produtos alimentícios. A biodiversidade dos quintais
complementa as produções das roças. O manejo das plantas cultivadas é de
responsabilidade de todos os membros da família.
Os cultivos nos quintais são realizados em todas as datas do ano, geralmente
as hortas ganham potencial em períodos de seca, época em que encontramos maior
diversidade das espécies cultivadas nestes locais.
A seguir apresentamos espécies cultivadas em quintas conforme (tabela 18).
No período das secas (maio até agosto) plantamos hortaliças, no decorrer do ano
cultivamos espécies como manga, limão, laranja, coco da Bahia, mexerica,
tamarindo, abacate e outras. Nos quintais também é possível encontrar cultivos de
mandioca e milho.
Tabela 18: Espécies cultivadas nos Quintas
Produtor(a)
A
Produtor(a) C Produtor(a)
B
Produtor(a) F Produtor(a) E Produtor(a) D
Limão Manga
Alface Quiabo
Quento Coco
da Bahia
Mandioca
Laranja Pinha
Banana
MandiocaCana
Laranja
Mexerica
Goiaba Caju
Pitomba
Pimenta de
cheiro e
malagueta
Morango
Mangaba Jiló
Quanto Alface
Quiabo
Laranja
Pitanga
Abacate
Pinha Goiaba
Acerola
Ciriguela
Cenoura
Condessa
Limão Lima
Mexerica
Manga
Tomarim
Carambola
Mamão
Jabuticaba
Batata doce Jiló
Condessa Inhame
Manga
Jiló Maxixe
Seriguela Palma
Limão Laranja
Manga Algodão
Inhame Feijão de
corda Gergelim
Mamona Andu
Caju Novagina
Mandioca Romã
Banana
Vinagreira
Quiabo
Laranja Lima
Inhame Jenipapo
Goiaba Mandioca
Cana
Capim de Cheiro
Gergelim
Milho Andu
Mamona
55
Produtor(a)
G
Produtor(a)
H
Produtor(a)
I
Produtor(a)
J
Produtor(a)
L
Produtor(a)
M
Banana
Abacate
Maxixe
Abóbora
Melancia
Junça
Laranja
Limão
Manga
Mandioca
Milho
Batata doce
Pimenta
Jabuticaba
Mandioca
Capim santo
Pimenta
Limão
Laranja
Abacate
Pimenta
Quiabo
Goiaba
Pinha
Acerola
Açafrão
Gergelim
Mamão Caju
Mandioca
Pimentão
Araruta
Açafrão
Acerola
Mandioca
Limão
Manjericão
Vento livre
Alfavaca
Erva cidreira
Babosa
Pinha
Caju
Matruz
Batata rocha
Banana
Manga
Mandioca
Limão
Laranja
Pequi
Manga
Jatobá
Fonte: Elaboração própria
4 - TRANSFORMAÇÕES DO SISTEMA AGRÍCOLA
4.1 - As Transformações Recentes
Na atividade de cultivo de roças a tarefa que demanda mais tempo é a
capina. Para diminuir este tempo de trabalho, os agricultores buscaram e continuam
buscando alternativas para diminuir este tempo de trabalho, pois a maioria não pode
mais contar com a ajuda dos filhos. De fato, muitos filhos6 se deslocaram para as
cidades para continuarem os estudos escolares.
Eles retornam nas férias para visitar os pais, época em que as atividades com
as roças estão paradas. Neste sentido, as alternativas para compensar a mão de
obra são uso de agroquímicos, o trator. Pode ser de fácil aquisição para alguns, mas
nem todos usufruem destas alternativas, devido a falta de recursos para arcar com
as despesas de máquinas.
A tabela 19 apresenta os sistemas de cultivo por núcleo familiar na
comunidade Kalunga do Mimoso.
Tabela 19: Sistemas de cultivo por núcleo Kalunga do Mimoso
Núcleo Roça de Toco Quintal Roça de Pasto Roça com Trator Roça com
Agroquímicos
Mimoso Sim Sim Sim Sim Sim
Matas Sim Sim Sim Não Não
6 Levantamento com 12 famílias mostrou que: 3 famílias cada uma com dois filhos, 2 famílias cada
uma com 1 filho, 7 famílias com filhos morando na cidade, estes retornam para a comunidade nas
férias ou em períodos de festejos.
56
Arião Sim Sim Sim Sim Não
Forte Sim Sim Sim Não Sim
Beira do Rio Sim Sim Sim Não Não
Fonte: Elaboração própria
Conforme a tabela 19 percebe-se que alguns núcleos apresentam
transformações nos sistemas agrícolas, outros permaneceram com suas práticas. As
roças de toco e as roças com agroquímicos são práticas desenvolvidas em apenas
dois núcleos familiares.
A modernização das práticas agrícolas na Comunidade Quilombola Kalunga
do Mimoso, proporcionou mudanças nos sistemas de produção de alimento, no
entanto algumas atividades agrícolas se mantiveram: a roça de toco, os quintais;
outras atividades foram parcialmente abandonadas como, por exemplo, a roça de
vazante, onde hoje se cultiva apenas o tabaco (conhecido na comunidade como
“fumo”).
Com a modernização do sistema de roça de toco, foi possível identificar três
novos modelos: roça de pasto, roça com trator e roça com glifosato.
Após o cultivo de roça de toco quem não constrói as roças de pasto, abandona o
local cultivado e passa a plantar em outra localidade. Há muitos anos o gado era
criado à solta e pastava livremente no território. Com a invasão, grilagem de terra,
ocorreu a delimitação e mapeamento do território. Cada morador passou a possuir
uma propriedade, com isso, ocorreu a redução do espaço de criação do gado, sendo
necessário construir roças de pasto para alimentar o gado.
O uso de agroquímicos nas roças de toco é outo processo de modernização
nas atividades agrícolas na comunidade Kalunga do Mimoso. Há mais de três anos
que alguns agricultores empregaram nos seus sistemas de cultivo o uso do Glifosato
Roundup e adubos químicos.
As atividades descritas podem ser interpretadas como alternativas para
responder a falta de mão de obra. Assim, em vez de "lutar" contra o capim (ervas
daninhas) com glisfosato e trator, a opção de transformar as roças de toco em roça
de pasto consiste em plantar o capim desde o primeiro ou segundo ano de cultivo.
Adolescentes e jovens migram da comunidade para as cidades para estudar
ou à procura de trabalho. Em 12 famílias identificamos 38 filhos na zona urbana,
dispersos nas cidades de Arraias/TO, Goiânia/GO e Brasília/DF. Com menos
pessoas as famílias constroem roças menores e procuram alternativas como
57
mecanização das roças e uso de agroquímicos para compensar a falta de mão de
obra.
Nos últimos anos as roças de toco desenvolvidas na nossa comunidade estão
menores. Este fator é atribuído à saída de pessoas da comunidade. Com menos
filhos, o produtor cultiva roças menores, pois lhe falta mão de obra. Os filhos
auxiliam os pais, na capina, colheita, vigia da roça, enfim em todas as atividades que
exigem menos força e tamanho. Porém, esse quadro tende a mudar com a
desintrusão de fazendeiros, posseiros e grileiros de terra, algumas famílias estão
retornando para o território.
As experiências das roças com trator foram identificas nos núcleos do Arião e
Mimoso. Percebe-se que as áreas cultivadas com trator, segundo o Produtor(a) I,
demoram mais tempo para virar mata e ser cultivada novamente do que nas áreas
de roça de toco. As práticas de cultivo evidenciaram que a sucessão vegetal é
influenciada pelo tempo de cultivo e pousio, mas, sobretudo pelo preparo da terra.
Nas roças de toco, os agricultores praticam o desmate seletivo. Ou seja, eles deixam
de derrubar várias espécies como: pequi, mangaba, aroeira, oiti. Além disso, para
abrir a clareira, eles roçam as árvores mais finas e derrubam árvores mais grossas,
mas deixam seus tocos na terra. Ao contrário, nas roças com trator, todas as árvores
são derrubadas e os tocos são arrancados, e assim a diversidade a sucessão
vegetal ou rebrota demora mais tempo.
Identificamos, na roça com trator do Produtor(a) J duas espécies arbóreas
(aroeira e jacaré), enquanto que na roça de toco do Produtor(a)F núcleo Mimoso
identificamos dez espécies arbóreas, veja (tabela 19) que foram deixadas durante a
roçada, e protegidas do fogo durante a queima. Essa diferença ocorre porque é feito
o desmate seletivo e várias espécies são preservadas nas roças de toco. Segundo o
Produtor(a) F quando se preserva as árvores, o solo se conserva mais úmido,
evitando a perda dos plantios.
58
Tabela 20: Roça de toco – produtor Produtor(a) F
Roça de « mata
De capoeira
bruta »
Tamanho
Tempo
desde
queima
Cultivo atual
Idade da
capoeira
Tempo desde
queima
Cultivo
atual
Espécie
deixadas
durante a
roçada e
derruba
1/5 tarefas
3 anos
3 anos
Arroz
Mandioc a
Milho Fava
Maxixe
Abóbora
Melão
Vitamina
Inhame
cedro, aroeira,
jatobá, pitomba,
mamoninha, pau
de óleo, caibra,
mirindiba,
baquari,
cajá
Fonte: Elaboração própria
Para limpar a terra o uso do Glifosato Roundup substitui o uso da enxada.
Conhecido na região como mata mato, o Roundup é utilizado para eliminar espécies
vegetais. Já o plantio é feito com o uso de adubos químicos.
Figura 14: Roça com o uso de agroquímicos/2018
Foto: Ludivine Eloy
59
Figura15: Morador eliminando ervas da ninha com o Roundup
Foto: Ludivine Eloy
Para o Produtor(a) A, "o mato vem muito, ai tem que bater o veneno". De fato,o uso de agroquímicos permite compensar a falta de mão de obra, pois ele trabalha
sozinho, já que os filhos estão morando na cidade: “dos cinco filhos apenas um
deles me ajuda às vezes no final de semana[...] Quando a gente bate o veneno, o
mato morre logo e não precisa capinar, nem pagar trabalhador” (PRODUTOR(A)A
de 1959, comm, pers., 2017).
Em resposta a falta de mão de obra os kalungueiros buscam alternativas que
viabilizam e facilitem o trabalho agrícola. Assim novos métodos e técnicas são
agregados pelos agricultores em diferentes núcleos familiares.
4.2 - Impacto das transformações das práticas agrícolas sobre as áreas
Kalunga
As transformações ocorridas no sistema agropecuário proporcionaram
mudanças nas paisagens da Comunidade Quilombola Kalunga. Com as roças de
pasto ocorreu a redução das espécies vegetais. Quando cultivamos uma roça de
pasto fazemos a remoção parcial da cobertura vegetal, deixando poucas árvores.
60
Com isso, temos a monocultura do capim, e as espécies que crescem entre o
capim são anualmente manejadas com a roçada. Isso caracteriza um novo modelo
de paisagens conforme (figura 16).
Figura 16: roça de pasto / capim braquiária
Foto: Ludivine Eloy
Neste sentido, as matas são removidas e com as roças de pasto as clareiras
entre as florestas são visualmente identificadas.
Os locais onde são construídas as roças de pasto são destinados unicamente
para a pastagem de bovinos e equinos. Quando se pretende fazer uma nova roça
de pasto abre-se nova clareira e assim sucessivamente.
As consequências para este tipo de cultivo são escassez de matas para
cultivos de outros tipos roça (produção de alimento), escassez de madeira. Já as
roças com trator apresentam os seguintes impactos para as paisagens: ocorre a
remoção total das espécies vegetais presentes no local de cultivo, então estas áreas
demoram muito tempo de pousio para a realização de novos cultivos, pois ocorre a
remoção das sementes do solo, tocos e raízes são arrancados.
O uso de agroquímicos como o Glifosato handup (“mata mato”) utilizado como
61
herbicida para eliminar espécies vegetais, como consequência para as paisagens
caracteriza-se pelo fato de que pode retardar o tempo de pousio das áreas
cultivadas. Assim, retarda a realização de novos plantios, o que leva os
produtore(a)s quilombolas a abrirem novas clareiras em menos tempo, causando
sérios impactos, como escassez de matas para novos plantios, extinção de espécies
animais que depende destas florestas para sobrevir, poluição dos córregos,
contaminação dos alimentos naquela localidade, intoxicação dos produtore(a)s por
utilização de produtos sem roupas e mascaras de proteção, veja (figura 15)
4.2.1 - A rebrota da vegetação
Nas roças visitadas foi possível identificar diferentes características na rebrota
da vegetação. Enquanto que nas roças com trator não ocorre rebrota, devido a
remoção total de raízes e tocos, nas roças de toco a rebrota é algo que ocorre com
muita rapidez. Em minhas experiências com roça de toco identifiquei que a rebrota
ocorre logo após a queima, daí realizamos o controle através da capina e do corte
das espécies que rebrotam dos tocos.
As espécies que rebrotam dos tocos e raízes vão dar origem as capoeiras,
que podem ou não ser cultivadas no ano seguinte. Em alguns núcleos é possível
cultivar de 2 a 3 anos na mesma localidade, em outros é possível o cultivo de até 6
anos, após nestes períodos as áreas são abandonadas para pousio. Podemos
perceber esta diferença nas (tabelas 10 e 15).
A rebrota é de suma importância para a rápida recomposição vegetal das
áreas cultivadas, com isso é possível cultivar mais tempo em uma mesma
localidade, evitando a abertura de novas clareiras. E caso ocorra é possível voltar a
cultivar a capoeira em menos tempo.
4.4 - Mecanização e Uso de Agroquímicos
As mudanças nas práticas agrícolas trazem novos desafios. O estudo das
roças evidenciaram as novas práticas adotadas nos sistemas de cultivo de roças de
toco. Há anos os cultivos eram realizados aplicando as técnicas de corte e queima.
62
“A agricultura de corte e queima, na sua definição mais ampla, é qualquer
sistema agrícola contínuo no qual clareiras são abertas para serem
cultivadas por períodos mais curtos de tempo do que aqueles destinados ao
pousio” (PRODUTOR(A)ASO Jr. N. N. et al 2008, p.2)
Os estudos das roças evidenciaram as novas práticas adotadas nos sistemas
de cultivo de roças de toco. A modernização do sistema de corte e queima permitiu
aos kalungueiros produzirem em áreas maiores. O uso do trator, por exemplo,
proporciona ao agricultor empregar menos mão de obra e menos tempo de trabalho
nas atividades agrícolas. Com o uso do trator é possível produzir mais em menos
tempo.
No entanto nas áreas cultivadas a partir da mecanização, a mata se recupera
mais lentamente, necessitando um tempo de pousio mais longo. Neste tipo de cultivo
todos os tocos são arrancados, e as raízes são cortadas ou arrancadas (figura 12 e
17). Ao contrário do que ocorre com as roças de toco.
Nas roças de tocos é feito o desmate seletivo, são deixadas várias espécies
vegetais, e os tocos não são arrancado (veja figura 18). Essa técnica favorece a
rebrota vegetal. Os tocos deixados começam a brotar e o nível de biomassa verde
gradativamente vai se recompondo.
A figura 19 apresenta imagens de capoeiras de roças de toco, na qual os
tocos deixados vão-se rebrotando, o que após alguns anos permite que a área
possa ser novamente cultivada.
63
Figura 17: Roça com trator núcleo Arião – Produtor(a) C
Imagem: Lourivaldo dos Santos Souza
Figura 18: Roça de toco Beira do Rio Paranã – Produtor(a) H
Imagem: Lourivaldo dos Santos Souza
64
Figuras 19 : Rebrota vegetal num toco, dentro de uma capoeira de 4 anos – Núcleo Arião
Imagens: Lourivaldo dos Santos Souza
Observa-se que os tocos e raízes deixados favorecem a rebrota vegetal,
reduzindo o tempo de pousio destas áreas para a realização de novos cultivos.
65
No núcleo Mimoso identificamos roças com a mecanização (uso do trator) e
roça de toco. Para o senhor Produtor(a) F agricultor do sistema de corte e queima,
uma roça de toco naquela região leva de 4 a 6 anos para estar apta a um novo
cultivo. Já para o Produtor(a) I, a roça com trator levaria de 8 a 16 anos para que
aquele local tivesse a aparência vegetal de quando se fez o primeiro cultivo. Ou
seja, o tempo de pousio necessário numa roça com trator é o dobro da roça de toco.
O Produtor(a) I relatou que a vantagem da roça com trator é que você pode
plantar uma área maior e colher mais, além de aplicar menos mão de obra, sendo
possível plantar roças extensas de 1 a 3 alqueires, obviamente se tiver dinheiro para
pagar o maquinário.
Uma roça de toco de 1 a 2 tarefas demanda bastante mão de obra desde a
roçada à limpa da terra. Conforme cálculos apresentado na tabela 7. É necessária a
participação de toda a família. A quantidade de pessoas em casa impacta na
extensão das roças construídas. Quanto mais pessoas maiores serão as roças.
O estudo das capoeiras evidenciou que as roças de toco causam baixo
impacto na paisagem. Porque o desmate seletivo garante a preservação de várias
espécies conforme apresenta a (tabela 20), isso permite a dispersão de sementes no
local, rebrota de raízes, umidade do local, e os tocos deixados durante derruba e
roçada rebrotam e permite aumentar o volume de biomassa vegetal em pouco tempo
(de um a dois anos), permitindo fazer cultivos anuais.
A tabela 21 mostra que a maioria das capoeiras deixadas após a roça de toco
apresenta uma grande diversidade de espécies florestais. O que ocorre é o desmate
seletivo, processo pelo qual vamos poupando algumas espécies da derruba e da
roçada.
66
Tabela 21: Principaisespécies de arvores levantadas em capoeiras de diferentes idades após
roça de toco
Produtor(a)
H cap 1
ano
Produtor(a)
D
cap 2 anos
Produtor(a)
E cap 3
anos
Produtor(a) F
cap 4 anos
Produtor(a) C
cap 8 anos
Produtor(a) J
cap 9 anos
Produtor(a) C
cap 10 anos
Ipe roxo
Jatobá de
anta
Jatobá do
campo
Vaqueta
Mutamba
Aroeira
Mamelada
Quina
Jenipapo
Mangaba
Miroro Paut
terra
Jatobá Caju
Folha liza
Timbó
Cagaita
Sambaiba
Tucum
Pequi
Giricum
Coqueiro
Cedro Aroeira
Jatobá
Pitomba
Mamoninha
Mirindiba Cajá
Baquari Pau
de óleo Caibra
Timbó
Marmelada
Jatobá
Mirindiba
Manga Pequi
Baru Pimenta
de macaco
Cagaita Oiti
Murici Miroro
Catinga de
porco Sambaiba
Oiti Mutamba
Coco de palha
Cagaita Murta
Pata de vaca
Caju
Cipó mole
Quinha branca
Timbó
Marmelada
Jatobá
Mirindiba
Manga Pequi
Baru Pimenta
de macaco
Cagaita Oiti
Fonte: Elaboração própria
Nas roças com trator, nascem outras espécies vegetais diferentes das que
existiam anteriormente naquela região. Enquanto que na roça de toco ocorre a
rebrota das espécies que existiam antes da derrubada7, na roça com trator, surgem
as ervas daninha como catinga de porco e outras espécies não identificadas pelos
produtore(a)s.
4.5 - Da floresta à pastagem
O estudo das capoeiras mostra que nem todos os agricultores fizeram
pastagens. O Produtor(a) J e o Produtor(a) B foram os que apresentaram um maior
número de roças de pasto em suas propriedades.
As roças de pasto são construídas após os cultivos de alimentos. Planta-se o
capim, e este é cultivado por longas datas. Sendo feito o manejo das espécies
vegetais que crescem entre o capim, mantendo a monocultura do capim. A produção
de roça de pasto esta associada à criação do gado, quando mais criação leiteira
possui maior será a produção do capim. Além disso, os produtore(a)s procuram
"limpar" sempre os pastos, para que justamente, a capoeira não retorne a crescer,
7
Para os kalungas a derrubata é uma etapa de desmatamento realizada com o machado e foice
(corte das árvores para abertura de clareiras).
67
levando a uma transformação a longo prazo da paisagem. E o uso crescente do
trator vem se juntar à tendência em transformar as florestas em pastagens. Percebe-
se que, a partir das experiências apresentadas pelo Produtor(a) J e o Produtor(a) I
, que adotaram a mecanização das suas roças (uso do trator para limpa da terra e
a grade de arar para o plantio) que o destino das áreas cultivadas com trator é a
formação de pastos.
Tabela 22: Roça de toco e roça com trator 3 anos (núcleo Mimoso: Produtor(a)J)
2013 2014 2015 2016 2017 2018 2018
Mata bruta Roça de
toco
Roça de
toco
Roça com
trator
Roça com
trator
Abandonar a área para
descanso
Tabela 23: Roça de pasto 15 anos (núcleo Mimoso)
2000 a 2001 200
1
2002 2003 2003 a 20018
Mata bruta Roça de toco Roça de pasto capim agropolo
Tabela 24: Roça de pasto 25 anos (núcleo Mimoso)
1991 a 1993 1993 a 1994 1994 a 2018
Mata bruta Roça de toco Roça de pasto capim agropolo
Fonte: Elaboração própria
Hoje a situação das pastagens (tabela 22 e 23) é o cultivo do capim agropolo,
o manejo destas áreas é realizado a partir da poda de outras espécies, com a
finalidade de manter a monocultura do capim.
As tabelas 24 apresentam sucessão de cultivos de roça de toco e roça de
pastos, cultivos do Produtor(a) B- núcleo Forte.
Tabela 25: Roça de pasto 4 ano
2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018
Mata bruta Roça de toco Roça de pasto (capim braquiária)
Roça de pasto 5 ano
2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018
Mata bruta Roça de toco Roça de pasto (capim agropolo)
Roça de pasto 6 anos
2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018
Mata bruta Roça de toco Roça de pasto capim braquiária e agropolo
Fonte: Elaboração Própria
Quem não constrói as roças de pasto abandona o local cultivado e passa a
plantar em outra localidade. Há muitos anos o gado era criado à solta e pastava
livremente no território. Com invasão, grilagem de terra, delimitação e mapeamento
68
do território, cada morador passa a possuir uma propriedade, provocando redução
do espaço de criação do gado, e para o senhor Produtor(a) J, é necessário construir
roças de pasto para alimentar o gado.
No núcleo Matas o tempo de pousio segundo o Produtor(a) L varia de 6 a 9
anos, após 1 a 3 anos de cultivo. No núcleo Arião é necessário de 8 a 9 anos para
cultivar novamente em uma área, sendo cultivável de 2 a 3 anos na mesma
localidade.
O Núcleo Forte, localizado nas encostas da serra do Bom Despacho conforme
apresenta o Mapa Oficial da Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso, conforme
apresenta a figura 1, é uma região de mata fechada, mais densa, conhecida como
Mata de Capão, típica vegetação do Cerradão. O tempo de pousio nesta localidade
pode variar de 4 a 6 anos, após 3 ou 4 anos consecutivos de cultivos.
4.6 - O Uso do Glifosato nos Sistemas Agrícolas
A modernização das práticas agrícolas na referida comunidade evidencia
benefícios para os agricultores, mas também apresenta desafios. Como a
manutenção da saúde e da qualidade de vida do povo kalungueiro, a gestão e a
sustentabilidades dos recursos vegetais e hídricos da comunidade.
Existem roças com agroquímicos localizadas próximas as nascentes de rios
que abastecem a comunidade, após as chuvas certamente serão levados resíduos
de toxinas para as água dos rios. Os moradore(a)s que fazem uso desta água
obviamente serão contaminados.
O processo de intoxicação com resíduos de produtos químicos podem ocorrer
imediatamente ou em longo prazo dependendo da quantidade que foi ingerido.
Segundo parecer técnico N. 01/2015, produzido por pesquisadores da Universidade
Federal de Santa Catarina (UFSC). Existem vários riscos tanto para a saúde
humana quanto para a natureza associados ao uso de herbicida como Glifosato.
A análise técnica de este parecer foi realizada por Sonia Corina Hess,
professora de Engenharia Florestal e Agronomia do campus Curitibano, e Rubens
Onofre Nodari, professor de Agronomia e Coordenador do Programa de Pós-
Graduação em Recursos Genéticos Vegetais da UFSC, em Florianópolis.
Segundo Parecer a quantidade necessária para causar problemas à saúde é
69
baixa, assim o uso do herbicida é grave, pois pode causar problemas como câncer,
infertilidade, depressão, mal de Alzheimer, má formação em crianças, e ainda mata
as bactérias que ajudam o corpo humano em algumas atividades metabólicas. Pode
ainda causar danos ao solo e à água, afeta os ecossistemas em muitos casos até
irreversível, como o solo é um material que contém muitos organismos vivos, o
glifosato mata todos os microrganismos que vivem no solo e que são de fundamental
importância para a formação do mesmo.
Uma das roças com glifosato visitadas na Comunidade Kalunga do Mimoso
está localizada as margens de um córrego que abastece mais de 20 famílias. É
inevitável a contaminação de córregos e rios, pois as chuvas trazem os resíduos até
ele, contaminando os seres vivos que fazem uso daquela água. Podemos associar
essas técnicas à falta de treinamento e preparo para uso de agroquímicos. A figura
15 mostra um kalungueiro sem preparo ou proteção física fazendo uso do veneno
mata mato próximo ao córrego.
As experiências do Produtor(a) A com uso de agroquímicos (glifosato
houndup), mostra que é uma das alternativas utilizadas para compensar o trabalho
que antes era realizado pelos filhos, que atualmente moram na cidade.
Já o Produtor(a) F relata que usa mata mato por que é menos trabalhoso do
que fazer a limpa da terra com o uso da inchada.
Eu uso o veneno pra matar mato, tem é que saber usar, se não se fica
doente, tem que bater contra o vento, pra nãovim na cara. Depois que bater
o mato morrer ai se pode plantar, ou então você plantar depois bate o
veneno antes da semente nascer. Foi uma hora eu bati nessa roça toda, se
fosse capinar ia demorar uns 5 dias eu sozinho e a mulher. (PRODUTOR(A)
F, 1964, comm, pers., 2017).
Assim como roça com trator, a roça com agroquímico são atividades de
modernização que estão associadas para compensar a falta de mão de obra
minimizando o esforço físico nos trabalhos agrícolas.
4.7 - Perda de Agrobiodiversidade
A principal função da diversidade agrícola nas roças de toco é suprir a
necessidade alimentares das famílias locais. Para os agricultores visitados os
sistemas de cultivos de roças de toco causam baixo impacto as paisagens vegetais
e ao solo. “Não por que todo mundo plantava de toco e as matas tão do mesmo jeito
70
uai”. (PRODUTOR(A) D, comm, pers.,1943). As sementes são guardas e
replantadas, assim a preservação de semente vai ocorrendo de geração a geração,
e se um produtor perde a semente, pode encontrá-la com os agricultores dos demais
núcleos familiares. Percebe-se que a grande maioria das sementes de milho é
comprada nas cidades. Identificamos a aquisição de sementes de milho
comercializadas em centro urbano pelos agricultores que residem às margens do rio
Paranã.
O Produtor(a) J relatou que seus pais plantavam sempre na região onde ele
tem sua casa (Barra do Bezerra). Toda aquela área era "capoeira deles". Ele
descreve que as espécies vegetais ali presentes, estão ainda hoje preservadas8. O
que ocorre é que a maioria das espécies vegetais derrubada rebrota, restabelecendo
a mata anterior. Pois as áreas que eram cultivadas eram deixadas ao descanso,
tinha espaço para plantar, cultivar, o gado era criado à solta, não existiam
pastagens, existiam mais áreas para se cultivar.
Os quintais e as roças apresentavam diferenças na biodiversidade cultivada.
Quem cultiva roças maiores são os agricultores que utilizam o trator com a grade e
agroquímicos. No entanto, estas práticas não estão associadas à perda de
biodiversidade vegetal. Atualmente contabilizamos com os 12 produtore(a)s 101
espécies e variedades cultivadas, conforme (tabela 2). A tabela 26 apresenta 24
espécies e variedades perdidas, levantadas com os produtore(a)s dos núcleos
mencionados nos parágrafos anteriores.
Na roça com agroquímicos, extensão de (3 tarefas) do Produtor(a) A
identificamos 16 variedades de plantas, já na roça com trator, extensão de ( 1 um
alqueires) do Produtor(a) I contabilizamos 9 variedades de plantas.
No entanto, percebe-se diferença de cultivos entre quintais e roças. Enquanto
que nos quintais são cultivadas espécies frutíferas e hortaliças, nas roças são
cultivadas espécies anuais como arroz, feijão, milho e outras. Apresentamos a seguir
duas tabelas que demonstram a biodiversidades cultivadas em quintais e roças.
Tabela 26: Biodiversidade quintal e roça (Produtor(a) C) – cultivo atual em 2018
Espécie Variedade Espécie Variedade
laranja comum arroz vermelho
mexerica comum arroz branco
8 Espécies preservadas. Preservar para os kalungueiros significar cuidar, não roçar, não derrubar,
deixa a área descansar por vários anos.
71
goiaba vermelha mandioca pipiri
cajú do cerrado mandioca gaheirinha
pitomba do cerrado cana cento e vinte
pimenta de cheiro maxixo liso
morango vermelho fava fava comum
mangaba do cerrado milho criolo (cunha)
jiló redondo
quento cheiro verde
alface comum
quiabo pequeno
goiaba branca
Fonte: Elaboração própria
Os quilombolas cultivam diversas espécies e variedades de planta, no entanto
vale lembrar que há alguns anos ocorreu gradativamente a perda de biodiversidade
cultivadas pelos antepassados. Na tabela 26, apresentamos plantas que foram
deixadas de cultivar na comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso.
A perda de biodiversidade vegetal não está ligada aos sistemas de cultivos
atuais. O arroz beira campo, por exemplo, foi deixado de plantar porque era difícil
fazer o seu beneficiamento. Segundo a Produtor(a) G, este tipo de arroz era difícil
para soltar a casca, era preciso socar várias horas no pilão, enquanto que o arroz
vermelho e outros soltavam a casca com mais facilidade.
Identificamos com os agricultores e com os mais velhos, algumas perdas de
sementes de plantas cultivadas que hoje não se cultivam mais.
Para o senhor Nicanor muitas plantas cultivadas hoje não se cultiva mais.
Plantava roça, cercada de madeira, cerca caiçara, aquela de madeira
montoada era o costume do povo. Primeiro arroz o de 5 meses para
madurecer, o milharim arroz vermelho, arroz trigo um miudinho, tinha um
arroz de três meses também. Mandioca doidona, mata formiga, o babu que
pouca gente conhece ela é boa para dar raiz, mas muito margosa o beiju
dela para comer era com dois dias, mata rato pouca gente conheceu era
margosa. As doces a laranjeira, castelo preto e castelo branco, casco de
burro foram desaparecendo. Uai a maioria das mandiocas é ne poucos
lugares pra você ver, a mandioca doidona preta essa aí nos inda ve ne
muitos lugares, casco de burro ta acabando, mata rato não tem a rochinha
doce também não tem. (MORADOR 1, 2017)
Para os agricultores a mandioca, quando cultivada anos seguidos na mesma
terra, na mesma região, vai perdendo a qualidade e com o tempo perde-se a muda.
“a terra não obedece, a mandioca não dá boa quando planta muito tempo no lugar,
um ano, dois três, já começa arruinar, a banana só ela pode plantar e replantar que
ela dá bom, agora as outras com muitas planta passa o ano elas vai arruinando ‟‟.
(PRODUTOR(A) G de 1954, comm, pers., 2018). Nota-se a necessidade de adaptar
72
os sistemas de cultivos para não perder a diversidade, por exemplo, fazer roças
diferentes e trocar variedades entre os núcleos, outra alternativa seria feiras de troca
de sementes na comunidade.
Para o cultivo da mandioca, quanto mais se utiliza o solo, perde a qualidade
da muda da mandioca. Por isso os agricultores procuram novas mudas de espécies
diferentes, com o passar do tempo eles vão trocando suas variedades.
Algumas espécies apresentam hoje uma diversidade vegetal muito menor do
que era "antigamente": é o caso principalmente do arroz, do milho, do feijão e da
mandioca, que são as plantas que estão na base da alimentação regional.
Tivemos perda de algumas variedades de arroz, mandioca, milho, gergelim,
batata doce, abobora, feijão e jiló. Estas variedades foram substituídas por outras
variedades que se adaptaram aos sistemas de cultivos locais e ao solo e clima da
região.
O arroz usava cabava e não guardava a semente, ai a semente cabava o
milharim tinha o caroço muito pequeno dificil para bater e para limpar, era
mole pra encergar tirar do caixa, colocava no pilao batia batia e não limpava
direito, o arroz beira campo era duro para bater tirar do caixar e duro pra
socar todos dois era duro dava muito trabalho para deixar no ponto de
comer. Eu acho que era isso que a semente foi sumindo hoje nínguem mais
que conheço tem ele. (PRODUTOR(A)G de 1954, comm, pers., 2018)
As novas sementes são adquiridas nos mercados das cidades e em outras
regiões, as quais vão se espalhando pelo território através da troca e de doações
entre os agricultores.
A nova geração não passou a gostar do arroz e começou a procurar outras
sementes nas redondezas, a mandioca foi acabando a muda. Ja alguns
arroz perdeu a semente por que a chuva quando é pouca. O arroz não
grana, não cria caroço, o arroz em fevereiro embucha, se plantar em
dezembro ele vai embuchar em março, se faltar chuva o caroço não encge
se não encher o cacho de arroz fica seco não enche ai perde a roça.
(PRODUTOR(A) L, comm, pers., 2016)
Com a falta de chuva, os agricultores começam a cultivar o arroz de três e
quatro meses, quando percebem que vai chover pouco,o cultivo é do arroz de três
Meses, pois a colheita é mais rápida. Fazem o rodízio do plantio de arroz de três e
quatro meses.
Os agricultores relataram que hoje planta menos em favor do clima. Justificam
que atualmente chove pouco, e às vezes "planta e perde tudo", nesse sentido planta
73
menos principalmente arroz, caso haja perda será menor.
Desde que eu me conheço por gente, que eu vejo o povo fazendo roças,
para plantar e produzir o que comer, junta a família e vai trabalhar para o
sustento de casa, meu avó plantava, meu pai plantou hoje está velhinho não
aguenta mais a labuta, eu desde muito pequeno ia para a roça e trabalhava
aprendi plantar para comer e não morrer de fome, produzia pra comer e
trocar com parentes algum alimento, antigamente nós plantava muito,
chovia muito, hoje ainda planta mais pouco, por que esta muito seco.
(PRODUTOR(A) L, comm, pers.,2016)
O arroz de cinco meses já foi cultivado na região, no entanto nas roças
visitadas nos anos de 2017 e 2018 não foram encontrados cultivos de arroz de cinco
meses.
Além do arroz e da mandioca, outras espécies foram perdidas ou deixadas de
cultivar. Identifiquei mais de 20 espécies que atualmente não são cultivadas na
comunidade kalunga do Mimoso. Conforme apresenta a tabela 27.
Tabela 27: Lista de plantas perdidas
Lista de plantas perdidas
Arroz bico ganga Gergelim preto
Arroz pratinha Inhame cará
Arroz milharin Batata da pele vermelha que a massa é
Arroz pra tudo branca
Arroz beira campo Batata da pele vermelha que a massa é
Milho de pipoca branca e vermelha
Milho branco Btata branca parecida com batatinha
Mandioca casca de burro Batata pele vermelha massa roxa
Mandioca mata formiga Abobora muranga
Mandioca babu Fava pequena
Mandioca mata rato Feijao de arranca rochinho
Mandioca laranjeira Feijão de arranca preto
Mandioca roxhinha Jiló saco de bóde
Fonte: Elaboração própria
A seguir apresentamos os esquemas de rotação de biodiversidade vegetal
cultivadas em roças. (Tabelas 28,29,30,31 e 32).
74
Tabela 28: Produtor(a) A /Roça de toco 6 anos de cultivo / cultivo com agroquímicos a partir do
3° ano de cultivo - núcleo Forte
20
11
2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018
Mata bruta Arroz Arroz Arroz Arroz Milho Arroz
Milho Milho Milho Milho Abobora Milho
Mandioca Abobora Abobora Abobora Maxixo Mandioca
Abobora Maxixo Maxixo Maxixo Amendoin Abobora
Maxixe Mandioca Amendoin Batata doce Maxixo
cana Amendoin
Fonte: Elaboração própria
Tabela 29: Produtor(a) C / Roça de toco e com trator / Arião
2017 2018
Ja n fev mar abr Mai jun ag Set Nov dez Mar abr mai No v dz dez
Mata bruta Roçada, derruba e
queima
Mecanização
com trator e
plantio Arrosz
Mandioca
Milho
Fava Maxixe
Cana
Colheita Plantar novamente
Fonte: Elaboração própria
Tabela 30: Produtor(a) J / Roça de toco e roça com trator 3 anos /Mimoso
2013 2014 2015 2016 2017 2018 2018
Mata bruta Arroz Milho Inhame Inhame Abandonar
Milho Mandioca Feijão de corda Feijão de corda a área para
Mandioca Abobora Abobora abobora descanso
Abobora Junça Milho Milho
Melancia amendoin Mandioca Mandioca
Amendoin Melancia Melancia
Feijão Abobora Abobora
andu Feijão andu Feijão andu
Amendoin Amendoin
Junça junça
Fonte: Elaboração própria
Tabela 31: Produtor(a) F / Roça de toco – com uso de herbicidas 3 anos / Mimoso
2011 2012 2013 2014 2015 2016 2018 2018
Mata bruta Arroz Arroz Arroz Plantar roça
Mandioca Milho Mandioca novamente
Milho Fava Milho
Fava Maxixe Fava
Maxixe Abóbora Maxixe
Abóbora Melão Abóbora
Melão Vitamina Melão
Vitamina Inhame Vitamina
Inhame Inhame
Fonte: Elaboração própria
75
Tabela 32: Produtor(a) G / Roça de toco 1 ano – Núcleo Beira do rio
2017 2018
Ja n fe v ma r ab Mai ju agt set Nov dez Mar ab r ma i de z Nov dez
Mata bruta Roçada, derruba e
queima
Milho Mandioca
Quiabo Jiló
Melão Abobora
Vitamina Cana
Maxixo
Batata doce
Colheita Plantar roça
novamente
Fonte: Elaboração própria
A rotação dos cultivos apresentados nas tabelas anteriores mostra a
semelhança dos cultivos em cada núcleo, no entanto a roça mecanizada (tabela 28)
e a roça com agroquímicos (tabela 27) são as que apresentam menos variedades
cultivadas. Cada produtor planta de acordo com a necessidade alimentar de seu
grupo família.
4.8 - Impacto da Mecanização das Roças sobre a Paisagem
Percebe-se que, a partir das experiências apresentadas pelo Produtor(a) J e o
Produtor(a)I , que adotaram a mecanização das suas roças (uso do trator para limpa
da terra e a grade de arar para o plantio) que o destino das áreas cultivadas com
trator é a formação de pastos. Por outro lado, a maioria das roças de tocos após os
cultivos são deixadas ao descanso.
Para o Produtor(a) J, o qual tem experiências com cultivos em roças de tocos
e roças com uso de trator, o tempo de pousio da segunda roça demora mais que na
segunda roça. Durante as visitas realizadas as roças dos senhores Produtor(a)J e
Produtor(a)I, os dois agricultores identificados no Núcleo Mimoso e Barra do
Bezerra, nota-se que as roças mecanizadas são destocadas, enquanto que as roças
de toco visitadas nos núcleos Arião, Forte, e Beira do Rio Paranã, não são destocas
e a rebrota vegetal é mais rápida assim como o tempo de pousio.
Segundo o produtor Produtor(a) B, no Núcleo Forte, depois da colheita, no
ano seguinte a área é replantada por mais uns 2 ou 3 anos, e quando a área não é
transformada em pastagem, e deixada descansar, assim abre uma nova clareira
(nova roça) em outra área. A formação de pastagens pode causar a redução de
76
áreas de mata bruta e capoeira, e assim restringir o desenvolvimento de atividades
agrícolas, como roça de toco e até mesmo roça com trator.
Percebe-se após os cultivos de roça de toco e roça com trator que a rebrota e
o crescimento das árvores é diferente. Nas roças de toco, ocorre a rebrota dos tocos
deixados durante derruba e a roçada. Nas roças com trator, não ocorre rebrota, pois
tocos são arrancados, raízes são cortadas e sementes são removidas, retardando
assim o tempo de pousio.
Identificamos o retorno de descendentes de kalungueiros para a comunidade,
assim como a saída de jovens e adolescentes. Com isso, surgem novos desafios na
lida com os trabalhos e atividades agrícolas, as roças estão sendo construídas
menores, pois sem a ajuda dos filhos, alguns agricultores não conseguem preparar
grandes áreas para o cultivo agrícola. Outros utilizam máquinas agrícolas e insumos
químicos para compensar a falta de mão de obra antes compensadas pelos filhos.
Os cultivos de roças de toco são realizados por anos seguidos em uma
mesma localidade. Para alguns agricultores como o Produtor(a) L este fator está
ligado ao atraso das indenizações das propriedades dos fazendeiros. Sem áreas
diferentes para plantar, as áreas cultivadas não têm tempo de pousio (descanso)
suficiente para rebrota dos tocos e recomposição de biomassa vegetal.
No entanto diante dessas mudanças e desafios (clima, povoamento, técnicas
de mecanização com trator), é possível identificar a biodiversidade cultivada nas
roças. Identificamos durante as visitas às roças de toco, e roça com trator, o arroz de
três e quatro meses, o melão de talhada, a melancia, o melão de horta, a mandioca
brava e a mandioca mansa, feijão de arranca, e feijão de corda, amendoim, milho, a
banana, feijão andu, gergelim, cana, gengibre, abobora. Foi possível identificar uma
diversidade de plantas nos quintais das casas visitadas. Como abacate, manga,
goiaba, pimenta malagueta e de cheiro, pinha, capim santo, erva cidreira, banana
prata, maçã e três quina, mandioca, quiabo, jiló.
As sementes são guardadas e replantadas, assim a preservação de semente
vai ocorrendo de geração a geração, e se um produtor perde a semente,pode
encontrá-la com os agricultores dos demais núcleos familiares. Percebe-se que a
grande maioria das sementes de milho é comprada nas cidades. Identificamos a
aquisição de sementes de milho comercializadas em centro
urbano pelos agricultores que residem às margens do rio Paranã.
A principal função dos cultivos agrícolas desenvolvidos nas roças de toco é
77
suprir a necessidade alimentares das famílias locais. Para os agricultores visitados
os sistemas de cultivos de roças de toco causam baixo impacto às paisagens
vegetais e ao solo. As roças que vocês constroem não destroem as florestas? “Não
por que todo mundo plantava de toco e as matas tão do mesmo jeito uai”.
(PRODUTOR(A)D, comm, pers.,1943)
O senhor Produtore(a)s J relatou que seus pais plantaram sempre na região
onde ele tem sua casa (Barra do Bezerra). Toda aquela área era "capoeira deles".
Ele descreve que as espécies vegetais ali presentes, estão ainda hoje preservadas9.
O que ocorre é que a maioria das espécies vegetais que foi derrubada rebrota,
restabelecendo a mata anterior. Pois as áreas que eram cultivadas eram deixadas
ao descanso, tinha espaço para plantar, cultivar, o gado era criado à solta, não
existiam pastagens, existiam mais áreas para se cultivar.
5 - REFLEXÕES PARA A GESTÃO TERRITORIAL KALUNGA
Hoje a comunidade enfrenta novos desafios, pois se encontra diante a um
contexto de reocupação e apropriação da terra, enquanto aguardam o lento
processo de indenizações e liberação de novas áreas. Os quilombolas da
comunidade kalunga do Mimoso estão se organizando e ocupando as áreas já
desapropriadas.
Nota-se no decorrer desta pesquisa que os sistemas agrícolas estão se
modernizando, alguns agricultores estão buscando novas alternativas para
desenvolver seus sistemas agrícolas. Em contrapartida a cultura local e as relações
sociais entre os grupos locais vão gradativamente se modificando. As relações de
troca de trabalho nas lavouras estão sendo substituídas pelo uso de máquinas de
beneficiamento da terra, uso de agroquímicos, estes fatores são limitantes para o
fortalecimento da cultura e da convivência humana entre os quilombolas.
9
Espécies preservadas. Preservar para os kalungueiros significar cuidar, não roçar, derrubar, uma
fazer uso daquela vegetação, deixa a área descansar por vários anos
78
Percebe-se que a redução das extensões das roças ou a busca de novas
alternativas como a mecanização na comunidade não estão associadas à falta de
terra, mas à falta de mão de obra. A saída de adolescentes e jovens da comunidade
impactou diretamente na construção das roças no Kalunga do Mimoso, os filhos que
antes auxiliavam os pais nas atividades agrícolas em roças e quintais, se
deslocaram para as cidades. Com menos mão de obra, menores são construídas as
roças, ou novas alternativas de cultivos são adotadas. De certa forma a
modernização dos sistemas agrícolas podem trazer novas possibilidades de
produção de alimentos, no entanto agregado a estas mudanças surgem outros
desafios e preocupações. Por exemplo, o uso de agroquímicos e venenos pode
comprometer a qualidade de vidas das famílias locais, o uso de máquinas de forma
não planejadas podem trazer inúmeras consequências como infertilidade do solo e
demora no tempo de pousio.
Neste sentido, a Associação da Comunidade Kalunga do Mimoso e
Associação de Pequenos Produtore(a)s da mesma comunidade, estão organizando
estratégias e mecanismos de gestão territorial para gerir juntamente com a
Comunidade os Recursos Naturais disponíveis para uso coletivo, a fim que possam
identificar áreas de preservação, áreas que podem ser cultivadas, córregos, rios que
necessitam ser preservados ou recuperados.
Com o Plano de Gestão Territorial, será possível realizar levantamentos das
técnicas e ferramentas utilizadas nas atividades agrícolas, áreas degradadas. E
ainda elaborar estratégias de intervenção para fortalecer o uso consciente das
paisagens vegetais e apontar as possíveis consequências que podem surgir quando
não se adota uma conduta consciente sobre o uso da terra.
Deste modo, refletir sobre a qualidade de vida e o futuro da agricultura a partir
das técnicas de modernização que vão sendo implantadas é também pensar nas
consequências das transformações ocorridas nos sistemas agrícolas e na
sustentabilidade destes sistemas.
É necessário refletir sobre a apropriação das paisagens e as práticas da
agricultura de corte e queima desenvolvida na localidade para que não tenha
problemas como escassez de recursos vegetais, falta de água, a fim de garantir a
sustentabilidade do sistema e da vegetação.
79
Argumentos para a sustentabilidade do sistema de corte e queima considera
que esse sistema de cultivo promove a rotação de terras, além de implicar
baixa incidência de pragas, doenças, e plantas invasoras. Por outro lado,
demanda intensiva mão-de-obra e caracteriza-se pelo baixo uso de
insumos. Do ponto de vista ecológico, essa agricultura está baseada na
ciclagem de nutrientes presentes na biomassa e, por isso mesmo, o estado
da vegetação a ser derrubada é fundamental para o sucesso do sistema. A
eficiência da vegetação secundária em restaurar os nutrientes é levada em
conta pelos agricultores no momento de determinar o tempo de pousio, o
que sugere que o relativo curto espaço de tempo de colonização foi
suficiente para os agricultores adquirirem o necessário conhecimento local
do meio que usam. (SIMINSKI; FANTINII, 2007, p. 3)
As comunidades rurais carecem de intervenções reflexivas de conscientização
socioambiental e preservação do meio ambiente, assim como de alternativas que
possam contribuir para a manutenção e preservação de recursos naturais. Nesse
sentido, pensar o sistema de produção agrícola a partir da lógica da sustentabilidade
é pensar também no uso consciente de modo que não comprometa o equilíbrio e a
dinâmica natural das vegetações.
A essência do conceito da sustentabilidade está contido em apenas quatro
palavras “enough for everyone forever” (O suficiente para todos e para
sempre). Estas palavras encerram as ideias de recursos limitados, consumo
responsável, igualdade e equidade e perspectiva de longo prazo, todas elas
correspondentes a conceitos importantes do domínio do desenvolvimento
sustentável (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2006, p. 18).
A ideia de preservação e conservação do meio ambiente a partir da prática da
agricultura familiar nos mostra que o consumo dos recursos naturais de modo
subsistente, o que seria suficiente para todos e para sempre. No entanto é um
desafio para nós, pois sabemos que a agricultura de corte e queima de subsistência
se depara com algumas realidades não tão promissoras em sentido a economia,
uma vez que ela é interpretada como economicamente declinante para muitos,
assim sendo pouco importante para políticas de desenvolvimento econômico.
Para tanto é necessário conhecer e identificar as potencialidades hídricas,
vegetais e as limitações territoriais para pensar o uso e agregar técnicas de cultivos
capazes de garantir o uso atual e não comprometer a sobrevivências das gerações
que futuramente dependem destes recursos.
80
Assim, a formação de pastagens pode causar a redução de áreas de mata
bruta e capoeira, e ainda restringir o desenvolvimento de atividades agrícolas, como
roça de toco e até mesmo roça com trator.
Identificamos o retorno de descendentes de kalungueiros para a comunidade,
assim como a saída de jovens e adolescentes. Com isso, surgem novos desafios na
lida com os trabalhos e atividades agrícolas, as roças estão sendo construídas
menores, pois sem a ajuda dos filhos, alguns agricultores não conseguem preparar
grandes áreas para o cultivo agrícola. Outros utilizam máquinas agrícolas e insumos
químicos para compensar a falta de mão de obra antescompensadas pelos filhos.
Os cultivos de roças de toco são realizados por anos seguidos em uma
mesma localidade, para alguns agricultores como o Produtor(a) L este fator está
ligado ao atraso das indenizações das propriedades dos fazendeiros. Sem áreas
diferentes para plantar, as áreas cultivadas não tem tempo de pousio (descanso)
suficiente para rebrota dos tocos e recomposição de biomassa vegetal.
Hoje a comunidade enfrenta novos desafios, pois se encontra diante de um
contexto de reocupação e apropriação da terra, enquanto aguardam o lento
processo de indenizações e liberação de novas áreas. Os quilombolas da
comunidade kalunga do Mimoso estão se organizando e ocupando as áreas já
desapropriadas.
Percebe-se no decorrer desta pesquisa que os sistemas agrícolas estão se
modernizando, alguns agricultores estão buscando novas alternativas para
desenvolver seus sistemas agrícolas. Em contrapartida a cultura local e as relações
sociais entre os grupos locais vão gradativamente se modificando. As relações de
troca de trabalho nas lavouras estão sendo substituídas pelo uso de máquinas de
beneficiamento da terra, uso de agroquímicos, estes fatores são limitantes para o
fortalecimento da cultura e da convivência humana entre os quilombolas.
Nota-se que a redução das extensões das roças na referida comunidade não
está associada à falta de terra para o desenvolvimento das atividades agrícolas.
A saída de adolescentes e jovens da comunidade impactou diretamente na
construção das roças no Kalunga do Mimoso, os filhos que antes auxiliavam os pais
nas atividades agrícolas em roças e quintais, se deslocaram para as cidades. Com
menos mão de obra, menores são construídas as roças, ou novas alternativas de
81
cultivos são adotadas. De certa forma a modernização dos sistemas agrícolas
podem trazer novas possibilidades de produção de alimentos, no entanto agregado
a estas mudanças surgem outros desafios e preocupações.
Por exemplo, o uso de agroquímicos e venenos pode comprometer a
qualidade de vidas das famílias locais, o uso de máquinas de forma não planejadas
podem trazer inúmeras consequências como infertilidade do solo, demora no tempo
de pousio.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em um ambiente que preservamos quem ganha não é somente a natureza,
mas todas as espécies inclusive o homem responsável pelo consumo, degradação e
destruição de recursos naturais. A sustentabilidade pode ser entendida como termo
que é usado para definir ações e atividades desenvolvidas pelos seres humanos
para suprir necessidades atuais sem colocar em risco a sobrevivência das gerações
futuras.
O Brasil carece de intervenções reflexivas de conscientização socioambiental e
preservação dos recursos naturais, assim como de alternativas que possam
contribuir para uma sociedade mais equilibrada; nesse sentido, esta pesquisa
contribuiu para oportunizar reflexões sobre os tipos de práticas aplicadas pelos
produtore(a)s quilombolas na produção agrícola em Kalunga do Mimoso.
Após identificar as práticas agrícolas desenvolvidas na Comunidade em
questão, nota-se a modernização das práticas em roças de toco. Alguns
produtore(a)s em diferentes núcleos buscam novas alternativas de produção
agrícola. Com isto, ocorrem mudanças significativas nas atividades rurais, que
refletem não somente na organização social, cultural e política, como no sistema
agropecuário.
Um dos principais fatores que ocasionou a modernização nos sistemas
agrícolas na Comunidade Kalunga como uso de trator, agroquímicos é a falta de
mão de obra, a qual era compensada com o apoio dos filhos. Como relatado no
decorrer desta pesquisa, adolescentes e jovens que auxiliavam nas atividades
agrícolas se deslocaram para as cidades em busca de trabalho e dar continuidade
aos estudos.
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Com isso, os produtore(a)s quilombolas para compensar a falta dos filhos nas
atividades agrícolas buscam alternativas como uso de agroquímicos, máquinas
como grade de arar e trator para viabilizar os trabalhos nas roças.
No entanto muitos produtore(a)s ainda fazem roça de toco, obviamente que
são menores, pois com menos pessoas em casa, menos mão de obra, em uma roça
de toco todos os membros contribuem: crianças, adolescentes e jovens participam
da roçada, derruba, limpa, vigia e colheita
Identifiquei que as roças de toco são atualmente menores, e as roças maiores
são feitas com agroquímicos ou trator. O trator utilizado para fazer a limpa da terra é
alugado em outra localidade, assim somente algun(a)s produtore(a)s com maior
poder aquisitivo fazem uso deste tipo de máquina. Os agroquímicos são adquiridos
através da compra em cidades vizinhas, são utilizados pelos produtore(a)s sem
proteção ou uso de roupas adequadas.
A modernização das práticas é um processo gradativo e inevitável na
comunidade, no entanto propõe um novo desafio que é o de pensar até quando
estes modelos de produção podem garantir a sustentabilidade ambiental e alimentar
da comunidade Kalunga do Mimoso.
Outro fator que causou a reconfiguração dos sistemas agrícolas da
comunidade em questão foi o processo de grilagem, que fragilizou ao longo de
várias décadas os modos de vida e a segurança alimentar do povo Kalunga.
Com as invasões das terras e a grilagem muitos kalungueiros foram expulsos
das suas terras, outros se descolaram para as cidades para buscar alternativas de
sobrevivência. Os kalungas que permaneceram e resistiram enfrentaram também o
desafio da falta de terra. As terras foram cercadas, isolados e limitados os
produtore(a)s quilombolas tiveram que buscar novas alternativas tanto de produção
de alimento quanto para criação do gado.
A roça antes das grilagens era construída livremente em locais onde se
encontrava terra boa para plantar. O gado pastava à solta, não existia cerca nem
limites com arames. Depois esse modelo de organização social e econômica é
reconfigurado, modificando a organização social e agrícola, reduzindo o número de
kalungueiros na região, e incentivando a construção de pastagens, as roças, com
isso, passam a ser cultivadas mais tempo em uma mesma localidade. Conclui-se
que as roças de toco são menores em função da falta de mão de obra e as roças
maiores são realizadas com trator ou agroquímicos.
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Esta pesquisa trouxe elementos que vão favorecer os debates e as
discussões sobre as novas práticas agrícolas e o futuro da agricultura na
comunidade kalunga, assim como os possíveis impactos que podem ser
ocasionados tanto à saúde humana quando ao meio ambiente.
Hoje sabemos quais os núcleos que estão modernizando suas práticas, os
locais em que o tempo de pousio é menor, onde são construídos as roças maiores,
regiões onde existem maior biodiversidade cultivadas em roças e quintais, sabemos
quais os perfis dos produtore(a)s que criam maior quantidade de gado e que
possuem mais roças de pasto.
Todo material, informações coletadas serão utilizados tanto pela Associação
de `Pequenos Produtore(a)s da Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso quanto
por todos os produtore(a)s Kalunga para subsidiar as ferramentas de gestão
ambiental e territorial nos viés econômico, cultural e social desta comunidade.
A fim de que os kalungueiros possam continuar desenvolvendo seus sistemas
agrícolas sem comprometer a sobrevivência das espécies vegetais e animais
considerando os impactos que estas práticas têm ocasionando nos núcleos.
A preocupação é manter a sustentabilidade, para tanto as informações
coletadas no decorrer deste trabalho é de suma importância para os debates e
discursões que irão emergir nas trocas de conversas e reuniões realizadas
mensalmente para discutir a organização social, cultural, os problemas ambientais e
a economia local.
Este trabalho trouxe novas informações sobre o modelo de agricultura e
agropecuária desenvolvidos dentro da comunidade, e as práticas que demonstraramcausar menos impactos, sendo assim capaz de garantir a sustentabilidade do povo
kalunga. Assim as práticas locais irão ser discutidas coletivamente a nível territorial,
importante também será levarmos estas experiências para outras comunidades,
podendo fomentar outras discussões, quem sabe a nível municipal, estadual e
nacional.
É necessário discutir com a comunidade sobre a importância de práticas
sustentáveis tanto para a saúde quando para a natureza, pois com um território
limitado e demarcado, a falta de gestão territorial com modos de produções
exploratórios ou expansionistas, colocaria em risco de escassez os recursos naturais
daquela região e o desequilíbrio ambiental de outras áreas e comprometeria a
84
manutenção da vida de todas as espécies.
A essência do conceito está contido em apenas quatro palavras “enough
for everyone forever” (O suficiente para todos e para sempre). Estas
palavras encerram as ideias de recursos limitados, consumo responsável,
igualdade e equidade e perspectiva de longo prazo, todas elas
correspondentes a conceitos importantes do domínio do desenvolvimento
sustentável (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2006, p. 18).
Mas é um desafio para nós, pois sabemos que a agricultura de povos
tradicionais se depara com algumas realidades não tão promissoras no sentido do
mercado, uma vez que ela é interpretada como economicamente declinante para
muitos; assim sendo pouco importante para políticas de desenvolvimento
econômico, mas a certeza que temos é que ela é de suma importância para a
manutenção da vida humana
Assim, esse será um possível desafio para os produtore(a)s do Kalunga, de
pensar como produzir a partir da lógica do agronegócio sem comprometer a
estabilidade da natureza e a existência das novas gerações. Essa ideia de produzir
usando cada vez menos a força humana, que é substituída por máquinas, ou o
melhoramento de solos a partir do uso de adubos químicos, o que permitiria que um
produtor não precisasse se deslocar à procura de um solo mais produtivo. No
entanto, o desafio é se pensar até que ponto essas estratégias podem ser
uma alternativa e quais os impactos que o seu uso pode causar a natureza. Tem um
sistema de cultivo de roça de toco que se mostrou eficaz até o presente momento,
assim levando em consideração o número populacional e a biodiversidade animal e
vegetal do território, percebe-se que essas práticas causam pouco impacto a
natureza, pois as práticas de consumo dos recursos naturais são desenvolvidas
numa dinâmica que permite que a natureza se recupere e seja capaz de
restabelecer sua biodiversidade de espécies animais e vegetais.
A partir desta pesquisa nota-se o quanto a modernização das práticas
agrícolas tem avançado na Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso. Por fazer
parte e estar envolvido socialmente em núcleos distantes uns dos outros. Muitos
moradore(a)s desconhecem o uso, por exemplo, de agroquímicos. Em Núcleos
familiares onde eu acreditava não existir a utilização de agroquímicos, identifiquei
experiência de 1 a 3 anos de utilização de glifosato houndup (mata mato).
Enquanto em alguns núcleos familiares uns utilizam agroquímicos nas roças,
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em outras localidades ocorre a utilização de máquinas como trator e grade de arar.
No entanto, não podemos esquecer de enfatizar a existência de práticas agrícolas
como roça de toco, cuja construção se dá com o uso de ferramentas como machado,
foice, inchada.
Aos produtore(a)s quilombolas e demais moradore(a)s é importante refletir
como continuar cultivando as roças sem comprometer a sobrevivência das espécies
vegetais e animais, considerando os impactos mencionados no decorrer destas
pesquisas que estas práticas vêm gradativamente ocasionando.
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