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Autores: Prof. Alexandre Saramelli Profa. Divane Alves da Silva Colaboradores: Profa. Elisabeth Alexandre Garcia Prof. Maurício Felippe Manzalli Tópicos de Atuação Profissional CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Professores conteudistas: Alexandre Saramelli / Divane Alves da Silva Alexandre Saramelli Nascido na cidade de São Paulo, é contador formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo e mestre profissional em Controladoria pela mesma universidade. Atuou em empresas nacionais e internacionais de médio a grande porte como contador em áreas de custos e orçamentos e foi consultor em sistemas de controladoria da desenvolvedora alemã SAP. Atualmente é professor adjunto na Universidade Paulista e consultor empresarial. Entusiasta de tecnologia da informação e ambientes altamente informatizados, é um incentivador da pesquisa, difusão e uso eficiente e intensivo das modernas ferramentas de gestão, “transferência de conhecimento”, ensino a distância e audiovisual. É conteudista de materiais para ensino a distância, redige livros didáticos e atividades de apoio educacional e instrucional, elabora avaliações e grava aulas em estúdio audiovisual, além de ser radialista e apresentador de televisão com DRT. Divane Alves da Silva Nascida na cidade de São Paulo, é mestre em Contabilidade pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (1998), especialista em Controladoria e Contabilidade Gerencial pela Faculdade Santana São Paulo (1992), especialista em Didática do Ensino Superior pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (1996), especialista em Ensino a Distância – EaD (2011), graduada em Ciências Contábeis pela Faculdade de Administração e Ciências Contábeis Tibiriçá (1990) e em Filosofia – Bacharelado e Licenciatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2009). Possui dois livros editados sobre a área contábil, além de participações em congressos tanto na área contábil quanto na educacional, inclusive em EaD. Tem as seguintes funções empresariais na área técnica: controller, contadora, auditora e consultora; na área acadêmica, é atualmente coordenadora de curso de Ciências Contábeis nas modalidades presencial e a distância na Universidade Paulista – UNIP e professora de pós-graduação em nível lato sensu nas Instituições de Ensino Superior – IES Universidade Presbiteriana Mackenzie, Universidade Paulista – UNIP e Faculdades Metropolitanas Unidas – FMU e em diversos cursos e disciplinas correlatas à formação. Também atua ministrando curso in company. Além disso, é conteudista de materiais para o ensino a distância, incluindo gravações de aulas. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) S243t Saramelli, Alexandre. Tópicos de atuação profissional / Alexandre Saramelli, Divane Alves da Silva. - São Paulo: Editora Sol, 2015. 184 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XXI, n. 2-166/15, ISSN 1517-9230. 1. Contabilidade ambiental. 2. Ética empresarial. 3. Ciência atuarial. I.Título. CDU 657 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Unidades Universitárias Prof. Dr. Yugo Okida Vice-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Graduação Unip Interativa – EaD Profa. Elisabete Brihy Prof. Marcelo Souza Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Prof. Ivan Daliberto Frugoli Material Didático – EaD Comissão editorial: Dra. Angélica L. Carlini (UNIP) Dra. Divane Alves da Silva (UNIP) Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR) Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT) Dra. Valéria de Carvalho (UNIP) Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Lucas Ricardi Cristina Fraracio CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Sumário Tópicos de Atuação Profissional APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................8 Unidade I 1 A IMPORTÂNCIA DA CIÊNCIA CONTÁBIL PARA A SOCIEDADE ..................................................... 11 1.1 O surgimento das organizações empresariais, definições e objetivos ............................ 11 2 O PAPEL DO CONTADOR PERANTE A REALIDADE SOCIAL BRASILEIRA E INTERNACIONAL .......... 16 2.1 O novo contador como centro dos interesses divergentes ................................................. 16 2.2 O conceito de empresa para os contadores ............................................................................. 20 3 CONTABILIDADE AMBIENTAL ...................................................................................................................... 30 3.1 Entender o problema em um contexto social e histórico: a detecção da ameaça aos seres humanos .................................................................................................................... 30 3.2 Desenvolvimento sustentável ........................................................................................................ 34 3.3 Desenvolvimento sustentável nas empresas ............................................................................. 37 3.4 A gestão ambiental empresarial ..................................................................................................... 40 3.4.1 O triple bottom line – as pessoas, o planeta, os lucros ........................................................... 43 3.4.2 ISO 14.000: as ACVs – Avaliações do Ciclo de Vida .................................................................. 46 3.5 Contabilidade Ambiental ................................................................................................................... 52 3.5.1 Conceito de Contabilidade Ambiental ........................................................................................... 53 3.5.2 Elementos patrimoniais e de resultado ambientais.................................................................. 60 3.5.3 Escrituração contábil de operações com elementos patrimoniais e de resultado ambientais .................................................................................................................................. 68 3.5.4 Ecobalanço ................................................................................................................................................ 76 3.5.5 Indicadores de desempenho ............................................................................................................... 78 3.5.6 Pobreza e o meio ambiente: ecoimpostos e balanço ambiental público (o balanço patrimonial ambiental das nações)...................................................................................... 82 4 LEGISLAÇÃO .......................................................................................................................................................88 4.1 Primeiras legislações ambientais e a evolução dos movimentos ecológicos .............. 88 4.2 Primeiras legislações ambientais contemporâneas: Alemanha e União Europeia e o surgimento do Direito Ambiental ............................................................................... 91 4.3 Legislação ambiental brasileira ...................................................................................................... 94 Unidade II 5 ÉTICA ..................................................................................................................................................................102 6 A ÉTICA EMPRESARIAL, PROFISSIONAL E DO CONTADOR ............................................................107 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 6.1 A ética empresarial ............................................................................................................................108 6.2 A ética profissional ............................................................................................................................113 6.2.1 Um estudo sobre o código de ética profissional do contador ........................................... 114 7 A CIÊNCIA ATUARIAL ...................................................................................................................................125 7.1 O gerenciamento de riscos e a relação do contador com as ciências atuariais .................125 7.2 As ciências atuariais, o atuário e aspectos históricos ........................................................127 7.3 Esperança Matemática – a diferença entre seguros e jogos ............................................130 7.4 Definições e termos importantes nas ciências atuariais ....................................................132 7.4.1 Seguro, risco e sinistro ....................................................................................................................... 132 7.4.2 Prêmio comercial ................................................................................................................................. 133 7.4.3 Taxa estatística ...................................................................................................................................... 133 7.4.4 Carregamento ou sobrecarga ......................................................................................................... 133 7.4.5 Valor matemático de risco (VMR) ................................................................................................. 133 7.4.6 Custo médio por sinistro (CMS) .................................................................................................... 134 7.4.7 Prêmio estatístico (PE) ...................................................................................................................... 134 7.4.8 Cálculo do prêmio comercial (Pc) ................................................................................................ 135 7.5 Modelos clássicos de seguros: engenharia e aplicações de cálculo nos riscos e legislação ......................................................................................................................................136 7.6 Os pilares dos seguros e previdência: os juros .......................................................................139 7.7 Os pilares dos seguros e previdência: probabilidades – demografia .............................140 7.8 Tábuas de mortalidade ou sobrevivência .................................................................................142 7.8.1 Simbologia e notações ...................................................................................................................... 143 7.8.2 Cultura atuarial – histórica e demografia ................................................................................. 145 7.8.3 As probabilidades ................................................................................................................................. 148 7.8.4 As tábuas de mortalidade nas empresas de previdência brasileiras ............................... 148 8 A PREVIDÊNCIA PRIVADA ..........................................................................................................................155 8.1 Previdência pública x privada (ou complementar) ...............................................................155 8.2 Os produtos oferecidos pelas seguradoras – PGBL e VGBL e suas implicações ..................157 8.3 Seguros por sobrevivência ..............................................................................................................159 8.3.1 Seguro dotal puro a prêmio único ............................................................................................... 159 8.4 Rendas ....................................................................................................................................................161 8.4.1 Rendas certas .........................................................................................................................................161 8.4.2 Rendas aleatórias ................................................................................................................................. 162 8.4.3 Rendas por sobrevivência ................................................................................................................. 162 8.4.4 Descrição e classificação das rendas ............................................................................................ 163 7 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 APRESENTAÇÃO Olá, aluno. Parabéns! Após anos de estudos você está chegando a uma disciplina que não tem mais a preocupação de te ensinar Contabilidade, mas de fazê-lo pensar sobre como agir quando você se deparar com questões complexas em um futuro bem próximo. Pense bem! Talvez ninguém tenha te pedido ou solicitado formalmente um trabalho sobre Contabilidade Ambiental, ética ou ciência atuarial, mas... será que você já não está envolvido(a) com essa problemática? A resposta para essa nossa pergunta é: sim, você já está! A ementa (plano de ensino) da disciplina Tópicos de Atuação Profissional traz os seguintes objetivos: proporcionar os conhecimentos necessários para desenvolver nos alunos as seguintes competências: pensamento sistêmico e estratégico; orientação para as necessidades dos clientes; consciência ética e social; orientação para resultados; comunicação e expressão; senso crítico e capacidade de contextualização; desenvolvimento pessoal; trabalho em equipe; capacidade de identificar, analisar e solucionar problemas e influenciar pessoas. Observe que os objetivos da disciplina Tópicos de Atuação Profissional não são diferentes das anteriores, principalmente de Contabilidade Integrada e Ciências Contábeis Interdisciplinar. No entanto, a diferença é que aqui enfatiza-se o pensamento que você deve ter como contador para atuar em ações reais. Para isso, escolhemos três grandes temas avançados dentro da ciência contábil: • Contabilidade Ambiental; • ética; • ciência atuarial. Com tudo isso, nossa disciplina é uma conversa, uma reflexão sobre alguns temas avançados que já estão presentes no nosso meio e que os autores deste livro-texto, juntamente com o Ministério da Educação e as entidades ligadas à profissão contábil no Brasil, acreditam que precisam ser enfatizados, entre várias demandas. A você, aluno, além de tentar aprender os conceitos, cabe observar principalmente como os conteudistas expõem os temas. Não tente, ao se deparar com os problemas, ir direto para os aspectos contábeis, ou seja, “onde eu tenho que contabilizar o débitoou o crédito”. Tente entender o que está provocando a necessidade e quais são os interesses envolvidos; a partir daí, construa o seu julgamento e decida como você irá lidar com a situação, ou, como é muito comum se estiver trabalhando em médias e grandes empresas, entenda o porquê das escolhas e julgamentos de outros contadores que fazem parte da equipe onde trabalha. 8 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Nesta disciplina, mais do que entender “o que fazer”, a ênfase é entender “o por que fazer”. Porte-se não mais como aluno, mas como alguém com responsabilidade e coragem de um profissional autônomo. Ao final deste livro-texto você certamente terá condições de efetivamente traçar um planejamento para o seu trabalho envolvendo essas questões avançadas da profissão contábil. Bom e entusiasmado estudo! INTRODUÇÃO Discutimos por várias vezes em disciplinas anteriores do curso de Ciências Contábeis da Universidade Paulista que a preparação acadêmica do bacharel em Ciências Contábeis estava muito voltada ao “fazer Contabilidade”, em que os professores enfatizavam atividades como classificação de contas e escrituração mercantil, entre outras – ou seja, o trabalho interno da Contabilidade. Discutimos também que o papel do profissional de Contabilidade foi severamente questionado pela sociedade, pelos profissionais de áreas correlatas, como os administradores e os economistas, pelos profissionais ligados às áreas de tecnologia da informação e pelos próprios contadores. Ao longo dos nossos diálogos com os alunos, enfatizamos à exaustão que atualmente já não há mais espaço para o trabalho de um contador tradicional, levando em conta a palavra tradicional como o profissional que se isola em uma sala e passa apenas a realizar um trabalho que entende ser o mais correto possível, mas sem se preocupar com as complexidades do trabalho das empresas. Nunca é demais lembrar que a profissão foi severamente criticada há poucos anos. Johnson e Kaplan (1987), no livro Relevance Lost: The Rise and Fall of Management Accounting (O Apogeu e Declínio da Contabilidade Gerencial), chegaram ao excesso de declarar que a Contabilidade teria perdido completamente a sua relevância, fato que posteriormente foi desmentido e teve a consequência positiva de suscitar uma série de reflexões sobre o seu papel. Essas reflexões culminaram com as Normas Internacionais de Contabilidade, que efetivamente a tornaram uma linguagem internacional dos negócios, com um maior desenvolvimento da Contabilidade para usuário interno (Contabilidade Gerencial) e com o entendimento de que o contador que se preocupa apenas com sua atuação pessoal, isolada da problemática da empresa e da sociedade... não existe mais. Entende-se que, atualmente, o contador é um consultor, cuja árdua tarefa é orientar os profissionais de outras áreas. A palavra árdua deve ser entendida neste contexto como o difícil trabalho de antecipar o que os gerentes e profissionais das outras áreas vão precisar, e não como o que estão precisando no momento. Nesse sentido, pesquisadores como Miranda e Miranda (2006) enfatizam que o ensino superior necessita acompanhar a evolução do árduo trabalho do “novo contador” e prepará-lo para antecipar as informações que os usuários irão necessitar para a tomada de decisões. O Conselho Nacional de Educação (CNE) considerou em 2004 que uma forma de proporcionar aos contadores conhecimento e habilidades para a análise dos fatos pelo “novo” profissional de Contabilidade seria disponibilizar ao estudante conhecimentos em outras áreas afins. Esses novos conhecimentos podem ser entendidos 9 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 como uma atividade de “interdisciplinaridade”; por isso, contamos no nosso currículo com as disciplinas Contabilidade Interdisciplinar e Contabilidade Integrada, que visam a esse preparo. Nota-se que o Parecer CNE/CES n. 776/97 (BRASIL, 1997a), nas orientações gerais para as diretrizes curriculares dos cursos de graduação, ponto número 4, diz que elas devem: Incentivar uma sólida formação geral, necessária para que o futuro graduado possa vir a superar os desafios de renovadas condições de exercício profissional e de produção do conhecimento, permitindo variados tipos de formação e habilitações diferenciadas em um mesmo programa. No mesmo documento, artigo 4, inciso II, entre as competências e habilidades que devem ser embutidas na formação de bacharéis, está a de “demonstrar visão sistêmica e interdisciplinar da atividade contábil” (BRASIL, 1997a). Nas disciplinas Contabilidade Interdisciplinar e Contabilidade Integrada iniciou-se esse diálogo, finalizado agora com a disciplina Tópicos de Atuação Profissional. O PPC (Plano Pedagógico do Curso) da disciplina apresenta como objetivos discutir a relação teoria-prática diante de casos concretos de atuação profissional do graduado em Ciências Contábeis e verificar como a prática questiona a própria teoria, por meio da escolha de casos atuais que permitam discutir a atuação profissional do contador, inserindo-o no contexto institucional e sociopolítico. Portanto, essa disciplina não tem como objetivo trazer novos conhecimentos ao aluno em um degrau de formação; trata-se de um diálogo com um aluno que já é um profissional, um colega de trabalho, e que já está tão preparado para atuar no mercado como os próprios professores. Por ser um diálogo sobre conhecimentos muito avançados dentro da problemática contábil, tem o objetivo de inseri-lo no mundo em que irá enfrentar ou já está enfrentando. Ao mesmo tempo, este livro-texto não tem o interesse em realizar uma festa. “Olhem, alunos, vocês chegaram até aqui, vamos fazer uma comemoração!” Nada disso! Entendemos que se fizéssemos isso não estaríamos aproveitando esse precioso espaço para preparar ainda melhor nossos alunos para o que vão enfrentar. E, sem querer assustar, mas apenas olhando para a realidade, o que vem por aí não é fácil. Como forma de obter os resultados almejados, os professores conteudistas optaram por discutir o conhecimento de temas muito avançados, enfatizando a chamada Contabilidade Ambiental, a ética empresarial e a ciência atuarial, trazendo uma reflexão não baseada em apenas um caso particular, mas no que está surgindo no ambiente empresarial com esses temas avançados. Não se trata de um trabalho de consultoria, mas de um caminhar junto a um profissional praticamente formado, com temas com os quais ele certamente se envolverá, se já não estiver envolvido. 11 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Unidade I 1 A IMPORTÂNCIA DA CIÊNCIA CONTÁBIL PARA A SOCIEDADE 1.1 O surgimento das organizações empresariais, definições e objetivos A empresa deve gerar lucro, ou morrerá. Mas se tentarmos fazer funcionar uma empresa unicamente para obter lucro, ela também morrerá, pois não terá outra razão de existir. Henry Ford (apud LAVILLE, 2009, p. 21). Neste nosso primeiro esforço de estudo de tópicos de atuação profissional, e considerando que trabalhamos com organizações empresariais, é fundamental entender o que a palavra negócio, tão usada no cotidiano das nossas vidas, tem uma origem etimológica bem interessante! Em latim, negócio significa a negação do ócio! Isso mesmo! Quando estamos fazendo “negócios”, estamos deixando o ócio (ou o fazer nada, a preguiça) de lado e, digamos, tomando uma iniciativa, fazendo algo! De preferência algo bom e útil, que irá ajudar a atender alguma necessidade, e não algo supérfluo. Plantar, colher, trabalhar,cuidar de animais de estimação, cuidar dos filhos, brincar, namorar, fazer arte, viajar, fazer turismo, fazer compras, cortar o cabelo, tudo isso e muitas outras coisas sob essa simples definição latina seriam “negócios”. No entanto, a evolução da sociedade nos últimos séculos atribuiu a essa palavra um significado muito mais forte, remetendo-nos a uma noção de responsabilidade, algo sério, importante. Imaginemos uma cena clássica e comum em qualquer família, e que é muito representada nas artes, ora como um drama, ora como uma situação corriqueira: o pai e a mãe de uma criança de colo, bem pequena e indefesa, que precisa do apoio deles para sobreviver, ao constatarem que não há um estoque de leite e/ou alimentos em casa para alimentar essa criança, tomam uma atitude. Essa atitude poderá ser algo muito simples, como ir a um supermercado ou a uma loja perto de casa e comprar alimentos para repor o estoque. Em algumas situações, se a família não tiver dinheiro para comprar alimentos, essa mesma cena poderá se tornar um drama. Talvez esses pais estejam sem emprego, talvez tenham que ir a um centro de ajuda social para conseguir comida (se houver). Essa mesma situação poderá ter contornos trágicos: se não houver alimentos no país onde essa família mora mas existir disponibilidade em um outro país que por qualquer motivo se nega a distribuí-los, certamente os pais da criança irão guerrear para obter esses alimentos essenciais para suas vidas. Mas não sejamos tão trágicos ou dramáticos. Imaginemos que esses pais tenham dinheiro e que a simples visita a um supermercado ou a um centro distribuidor resolva o problema. Eles certamente 12 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I não conseguirão atender sozinhos a todas as necessidades de seu filho e também às suas próprias necessidades. Em poucos anos, a criança precisará ser matriculada em uma escola e precisará de roupas mais bem elaboradas do que fraldas e roupinhas de bebê. Os pais precisarão matricular seu filho em uma escola credenciada e comprar roupas em lojas especializadas. Mais do que isso, precisarão comprar livros, entretenimento, telefonia, produtos de limpeza e uma enorme lista de produtos e serviços. Sozinhos, em uma perspectiva de vida moderna, não terão jamais como atender a todas as necessidades de que necessitam. Para atender às necessidades dessa família, surgem os negócios empresariais ou o conceito de empresa. No jargão da economia, empresa é definida por autores como Drucker (2001) ou Vasconcellos e Garcia (2008) como um agrupamento de pessoas que reúnem os fatores de produção (Terra ou recursos naturais, recursos humanos ou trabalho, capacidade empresarial, capital e tecnologia) para produzir bens ou serviços para atender as necessidades humanas. Esse trabalho sistemático, sendo bem conduzido socialmente, irá contribuir para o desenvolvimento humano. Isso tudo não é nenhuma novidade. A origem das empresas ou desses agrupamentos de pessoas que têm como objetivo atender às necessidades humanas perde-se com o tempo. Vemos comércio e empresas em todos os períodos da história, desde as sociedades de artes e ofícios das Idades Antiga e Média, passando pela efervescência da industrialização no século XVIII e da sociedade do conhecimento atual. No Brasil, a empresa particular mais antiga é a indústria de bebidas alcóolicas Ypióca, fundada em 1846! Existem empresas tanto nas sociedades capitalistas como nas socialistas ou mistas. Em Cuba, um dos últimos países completamente socialistas do mundo, há uma sorveteria estatal que é muito querida pela população e uma das atrações turísticas da cidade de Havana. A sorveteria é um dos poucos luxos pós-revolução aceitos no país e a qualquer hora do dia registram-se filas intermináveis de moradores locais e turistas com vontade de comprar um sorvete da Coppelia. Nesse esforço de bem atender às necessidades humanas, entende-se nas sociedades capitalistas que as empresas são formadas com o objetivo principal de gerar lucro e que esse lucro deve ser maximizado a qualquer esforço. Há, no entanto, um enorme cuidado ao expor esse assunto. Economistas como Drucker (2001) entendem que existe um grande perigo quanto ao pensamento de que o objetivo principal de uma empresa seria a maximização absoluta dos lucros (entendendo lucros como um conceito de rentabilidade) porque a busca pelo lucro pode ser desvirtuada por conta da ação abusiva de agentes da economia. Por essa razão, Drucker prefere dizer que a preocupação ou o objetivo de uma empresa seria a de criar clientes. Em uma perspectiva mais ligada à religiosidade das pessoas, essa preocupação com a deturpação da ação humana em busca do lucro é exposta por João Paulo II (1987, p. 60) da seguinte forma: Enquanto os indivíduos e as comunidades não virem respeitadas rigorosamente as exigências morais, culturais e espirituais, fundadas na dignidade da pessoa e na identidade própria de cada comunidade, a começar 13 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL pela família e pelas sociedades religiosas, tudo o mais – disponibilidade de bens, abundância de recursos técnicos aplicados à vida quotidiana e um certo nível de bem-estar material – resultará insatisfatório e, com o passar do tempo, desprezível. É o que o Senhor afirma claramente no Evangelho, ao chamar a atenção de todos para a verdadeira hierarquia dos valores: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?” (Mt. 16:26). Por outro lado, podemos ver em Sayed e El Khatib (2013) que, sob a perspectiva do islamismo, os juros ou mesmo o lucro abusivo visto como a geração de dinheiro pelo dinheiro é reprovável. Sayed e El Khatib (2013) citam Hayek (1994), que comenta: O islamismo tem cinco bases fundamentais, componentes da Sharia: a Chahada corresponde ao testemunho de que não há outro Deus que não Alá e que Maomé é seu profeta e mensageiro; o Zakat é a doação de uma quantia em moeda ou em produto que será distribuída aos pobres e necessitados, equivalente a 2,50% do rendimento do indivíduo; o Salat é a obrigação de todo o muçulmano de orar cinco vezes ao dia voltado para Meca; a Haji corresponde a peregrinação à Meca, a cidade santa, por cada muçulmano ao menos uma vez na vida, dadas condições financeiras e de saúde propícias, e a Saun é a abstinência durante o período conhecido como Ramadan de alimento, bebida, fumo e relações sexuais do nascer do sol até o poente. Assim, entende-se no islamismo que o lucro é necessário e bem-vindo, sendo inclusive uma necessidade religiosa das pessoas. Isso porque o muçulmano não deve simplesmente receber os benefícios que Deus disponibilizou a todos, deve trabalhar para alcançar sucesso em sua vida; como parte desse sucesso foi realizado também com a ajuda de toda a sociedade, deve destinar uma parte de seus rendimentos como Zakat. Observação A AAOIFI – Accounting and Auditing Organization for Islamic Financial Institution (Organização Contábil e de Auditoria para Instituições Financeiras Islâmicas), dentro do grande processo de convergência contábil internacional, produziu normas contábeis para empresas que seguem a Sharia. Adicionalmente, para atender às necessidades dos negócios islâmicos, criou-se um conjunto de regras chamadas Finanças Islâmicas; segundo Obaidullah (2005 apud SAYED; EL KHATIB, 2013), elas “são formadas por produtos oferecidos por instituições financeiras que seguem a Sharia, que por sua vez é definida como [...] o conjunto de leis que regem a vida de um muçulmano”. 14 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ristin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Observação Mais adiante, complementando esta discussão, você terá a oportunidade de estudar a ética sob os aspectos moral, filosófico, religioso e científico. Com tudo isso, vemos que para atender às necessidades da família do nosso exemplo ou das famílias em geral as empresas geram interesses, direitos e obrigações. Naturalmente, a ciência do direito estabeleceu que uma empresa ou um negócio é um instrumento de direito à propriedade privada, mas que não se limita a isso. As empresas cumprem ainda uma função social das mais relevantes, sendo também um direito à iniciativa econômica das pessoas no campo dos direitos humanos. Entende-se que ninguém deve ser vedado ao direito à iniciativa econômica, de criar ou juntar-se a uma empresa e fazer “negócios”, sair do ócio, trabalhar. Observação Esse aspecto do direito à iniciativa econômica das pessoas, como uma condição de direitos humanos fundamentais, também é citado por João Paulo II (1987). A ciência do Direito criou uma especialização do Direito Empresarial na qual entende-se empresa como uma atividade econômica exercida de forma profissional por alguém (muitas vezes denominado empresário para a produção ou circulação de bens ou serviços, dentro de uma condição social, produzindo para o bem comum). É o que expõe Coelho (2010, p. 12-13): Se empresário é o exercente profissional de uma atividade econômica organizada, então empresa é uma atividade; a de produção ou circulação de bens ou serviços. É importante destacar a questão. Na linguagem cotidiana, mesmo nos meios jurídicos, usa-se a expressão empresa com diferentes e impróprios significados. Se alguém diz “a empresa faliu” ou “a empresa importou essas mercadorias”, o termo é utilizado de forma errada, não técnica. A empresa, enquanto atividade, não se confunde com o sujeito de direito que a explora, o empresário. É ele que fala ou importa mercadorias. Similarmente, se uma pessoa exclama “a empresa está pegando fogo!” ou constata “a empresa foi reformada, ficou mais bonita”, está empregando o conceito equivocadamente. Não se pode confundir a empresa com o local em que a atividade é desenvolvida. O conceito correto nessas frases é o de estabelecimento empresarial; este sim pode incendiar-se ou ser embelezado, nunca a atividade. Por fim, também é equivocado o uso da expressão como sinônimo de sociedade. Não se diz “separam-se os bens da empresa e os dos sócios em patrimônios distintos”, mas “separam-se os bens 15 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL sociais e os dos sócios”; não se deve dizer “fulano e beltrano abriram uma empresa”, mas “eles contrataram uma sociedade”. Somente se emprega de modo técnico o conceito de empresa quando for sinônimo de empreendimento. Se alguém reputa “muito arriscada a empresa”, está certa a forma de se expressar: o empreendimento em questão enfrenta consideráveis riscos de insucesso, na avaliação desta pessoa. Como ela se está referindo à atividade, é adequado falar em empresa. Outro exemplo: no princípio da preservação da empresa, construído pelo moderno Direito Comercial, o valor básico prestigiado é o da conservação da atividade (e não do empresário, do estabelecimento ou de uma sociedade), em virtude da imensa gama de interesses que transcendem os dos donos do negócio e gravitam em torno da continuidade deste; assim os interesses de empregados quanto aos seus postos de trabalho, de consumidores em relação aos bens ou serviços de que necessitam, do fisco voltado à arrecadação e outros. Observação Mais adiante você irá estudar também a legislação e os aspectos jurídicos que envolvem a área ambiental. Apesar de todos esses importantes aspectos econômicos, sociais, religiosos e jurídicos que estudamos, o entendimento que prevalece (no sentido de que tomam a maior parte do tempo dos profissionais e suas preocupações) se baseia no fato de que nas sociedades capitalistas o lucro é crucial para qualquer negócio individual, sendo então um motor que impele os empresários a agir. Voltando à família que mencionamos em nosso exemplo, dentro do conceito de ciclo econômico essa família (e todas as famílias de uma economia) irá tentar minimizar os seus gastos para atender às suas necessidades enquanto as empresas irão tentar convencê-los a adquirir seus bens e serviços pelo maior preço. Temos então uma lei da procura e oferta, uma espécie de competição a que as empresas estão sujeitas se quiserem atuar no mercado. Por sua vez, para melhor agir no mercado, sabendo também que há ali vários concorrentes, as empresas irão tentar estabelecer estratégias para sobreviverem no mercado. Conforme vemos em Hussein (2002), essas estratégias são, basicamente, gerar lucro, vencer a concorrência e satisfazer os clientes. Nesse sentido, França (2007) traça as atuais condições de mercado para as empresas. Além de seus executivos se preocuparem nas estratégias descritas por Hussein (2002) (recordando: gerar lucro, vencer a concorrência e satisfazer os clientes), cada vez mais se impõe a necessidade de se fazer isso com profundo respeito socioambiental. É o que França (2007, p. 15) nos diz: 16 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Qualquer líder empresarial que esteja no comando de uma organização não tem dúvida dos efeitos da pressão que essa competitividade exerce na rotina dos negócios, tendo uma influência direta nas ações e decisões dos seus dirigentes e indivíduos de uma maneira geral. Entretanto, há outra fonte de pressão sobre as organizações que vem ganhando vulto nos últimos tempos a ponto de hoje ser considerado um dos mais importantes temas presentes na agenda dos executivos de alto e médio escalão, que é a questão do desenvolvimento sustentável, da ética nos negócios e da responsabilidade social e ambiental nas empresas. Essa pressão da sociedade para uma mudança de postura das empresas em relação aos impactos que suas atividades exercem entre o equilíbrio social e ambiental do planeta tem como origem a constatação de que, apesar de todo o progresso tecnológico e econômico que o mundo vem tendo nos últimos anos, a humanidade não conseguiu resolver os problemas mais sérios do ponto de vista ambiental e social. Ou seja, se antes tínhamos um conceito social e religioso que foi ouvido pela ciência jurídica, agora as famílias estão verdadeiramente preocupadas com a questão ambiental e social. Tanto estão preocupadas que somaram essa preocupação na relação custo x benefício e na relação procura x oferta. Como diz França (2007), as famílias não estão dispostas a pagar mais pelos bens e serviços que consomem, elas exigem que esses bens e serviços sejam oferecidos com profundo respeito ao meio ambiente e a questões sociais com o mesmo preço e se possível mais baratos. Mas é possível esse equilíbrio? É com essa dúvida que convido você a prosseguir em nossos estudos, pois iremos estudar onde nós contadores estamos inseridos na resolução desse problema e o que podemos (e devemos) fazer. 2 O PAPEL DO CONTADOR PERANTE A REALIDADE SOCIAL BRASILEIRA E INTERNACIONAL 2.1 O novo contador como centro dos interesses divergentes O novo contador, expressão utilizada neste livro-texto com o objetivo de diferenciar o contador com perfil tradicional, ligado exclusivamente ao próprio trabalho da Contabilidade e a questões tributárias, deve, conforme Nasi (1994, p. 5): [...] estar no centro e na liderança, pois, do contrario, seu lugar vai ser ocupado por outro profissional. O contadordeve saber comunicar-se com as outras áreas da empresa. Para tanto, não pode ficar com os conhecimentos restritos aos temas contábeis e fiscais. O contador deve ter formação cultural acima da média, inteirando-se do que acontece ao seu redor, na sua comunidade, no seu estado, no seu país e no mundo. O contador deve 17 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL ter um comportamento ético-profissional inquestionável, deve participar de eventos destinados a sua permanente atualização profissional, deve estar consciente de sua responsabilidade social e profissional. Analisemos com um olhar cético e crítico essa afirmação. O que faz o ilustre professor Antonio Carlos Nasi, contador e pesquisador de inestimável valor para a Contabilidade brasileira e internacional, produzir um pensamento no qual afirma que contadores devem ter “formação cultural acima da média”, preocupação com o que ocorre ao seu redor e comportamento ético inquestionável? Por quê? Não seria um exagero afirmar isso? Podemos nos dar o direito ou tomar a obrigação de termos um desenvolvimento pessoal acima dos padrões de outros profissionais e das outras pessoas? Para quê? A resposta a essas questões passa por um entendimento do que vem ocorrendo na sociedade atualmente e que confia ao contador uma missão difícil que jamais lhe foi confiada na história. Para ajudar a responder a essas questões, trazemos a interpretação de Iudícibus et al. (2010, p. 8-9) que faz um reconhecimento ao grau de qualidade que já existe entre os atuais contadores de nível universitário no Brasil. Esses contadores precisam ter, “além das capacidades técnicas e profissionais inerentes, alta dose de ética, de prudência, de zelo, de severidade de costumes e de integridade”. Iudícibus et al. (2010) enfatizam o papel da profissional de Contabilidade após as alterações na Lei das Sociedades por Ações e a entrada em vigor da Lei nº 11.941/08, abrindo uma nova era com as Normas Internacionais de Contabilidade. Com a finalidade de conferir às demonstrações contábeis maior transparência, que redunda em menor custo do capital e menores riscos nas decisões, essas normas trazem como um pilar básico a “prevalência da essência sobre a forma” (IUDÍCIBUS et al., 2010, p. 10), o que impele ao contador um comportamento totalmente diferente do que vinha tendo há anos (ou séculos). Se antes o contador se limitava a cumprir as formalidades legais e contratuais, sem analisar ou mesmo criticar o efetivo significado e conteúdo dos documentos, com o comportamento da “essência sobre a forma” o contador passa a ter a obrigação de analisar e interpretar documentos e registrar as operações como de fato elas ocorreram. Observação No universo do futebol, um goleiro ao enfrentar um atacante no momento de um pênalti, não é responsabilizado pela derrota de um time se não conseguir agarrar a bola. Já o contador não! Caso não perceba um contrato ou uma situação que não corresponda com a verdade, ele será responsabilizado. Ainda de acordo com Iudícibus et al. (2010, p. 10), há operações no mercado que são de uma certa forma “encenadas” por interesses diversos e muitas vezes por costumes e orientações legais, mas que não expressam a realidade dos fatos. Essas situações precisam ser interpretadas pelos contadores e exibidas aos usuários na forma real. 18 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Os autores expõem uma típica operação “encenada” e que precisa ser relatada em sua essência pelo contador: Se uma entidade precisa de um financiamento e o consegue, mas desde que transfira, temporariamente, a titularidade jurídica de um imóvel ao financiador, para reavê-lo quando da liquidação da dívida, normalmente produz um contrato de venda, com cláusula de recompra após um certo período, e adiciona um contrato de “aluguel” durante esse período. Os aluguéis e o valor da recompra são nada mais nada menos do que o valor original da dívida e seus encargos financeiros. Ora, o registro desses contratos conforme essa formalização não evidencia o que de fato está ocorrendo: não há aluguel efetivamente nenhum, o financiado não tem nenhum interesse em vender o imóvel e nem o financiador de maior garantia jurídica do financiador. Logo, para representar melhor o balanço e o resultado da entidade, mostrando o que de fato economicamente é a realidade, é necessário que o contador faça com que a essência econômica dos fatos prevaleça sobre essas formas jurídicas quando estas não se casam com aquelas. Assim, o contador precisa registrar, na verdade, uma operação de financiamento tomado, com o devido reconhecimento ao longo do tempo dos juros, e pagamento final da dívida, e não uma venda, um aluguel e uma recompra (IUDÍCIBUS et al., 2010, p. 11-12). Iudícibus et al. (2010, p. 10) relatam ainda que haverá uma participação de toda a entidade no processo de produção e na responsabilidade da informação contábil, o que o torna “o centro do processo, mas não o único a dele participar”. O contador passa, então a participar do processo decisório. Surge aqui um aspecto que exige muita atenção: Iudícibus et al. (2010, p. 13), ao constatar o contador como “o centro do processo, mas não o único a dele participar” e sua atuação no processo decisório, este será também o centro dos interesses divergentes. Contador Usuário Usuário Usuário Usuário Usuário Usuário Usuário Usuário Disputa Disputa Compra! Vende! Aumenta! Diminui! Faz! Não faz! Contrata!Não contrata! Figura 1 – Representação artística do contador como centro de processo e, por isso, centro dos interesses divergentes 19 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Os interesses dos empresários frequentemente são de postergar ou diminuir o pagamento de impostos. O governo, por sua vez, tem uma postura contrária: a de exigir que os impostos sejam pagos em dia e no valor que entende que deva ser. Dentro das organizações, os gestores têm interesse em apresentar um bom resultado, ainda que nem sempre a apuração real indique que o resultado foi bom. Nesse sentido, o contador, ainda conforme Iudícibus et al. (2010, p. 13), estará sob constante pressão, o que exige “muita ética profissional e pessoal e uma capacidade de comunicação, de resistência a pressões e de viver sob pressão”. Observação Estudaremos ética mais adiante. No Pronunciamento Conceitual Básico (BRASIL, [s.d.], a), quanto a características qualitativas nas demonstrações financeiras, há uma orientação a respeito da necessidade do comportamento neutro do contador, para que as informações possam fazer diferenças para as decisões do usuário. Um retrato neutro da realidade econômica é desprovido de viés na seleção ou na apresentação da informação contábil-financeira. Um retrato neutro não deve ser distorcido com contornos que possa receber dando a ele maior ou menor peso, ênfase maior ou menor, ou qualquer outro tipo de manipulação que aumente a probabilidade de a informação contábil-financeira ser recebida pelos seus usuários de modo favorável ou desfavorável. Informação neutra não significa informação sem propósito ou sem influência no comportamento dos usuários. A bem da verdade, informação contábil- financeira relevante, por definição, é aquela capaz de fazer diferença nas decisões tomadas pelos usuários. Simplificando-se e interpretando esses conceitos, neutralidade é a ideia de que o contador deve sempre falar a verdade, não dando ouvidospara interesses transversais que invadem o negócio. Para isso, precisa ter enorme capacidade de comunicação e saber lidar com sentimentos e expectativas. Observação Imagine uma fábrica onde o diretor industrial quase atinge uma meta de produção que se não for alcançada resultará na demissão de dezenas de funcionários. O contador deverá ser neutro e publicar o dado correto, sem alteração. Na área contábil ambiental, como vimos anteriormente, as empresas estão sofrendo uma enorme pressão para melhorarem sua qualidade social e ambiental, mas não podem contar com mais recursos 20 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I para tal; o consumidor, ao contrário, não abre mão também de preço baixo. Sendo assim, a pressão sobre o contador também é muito grande nesse aspecto. Observação Um bom exemplo de situação em que o contador sofre ou pode vir a sofrer pressões em questões ambientais é o relacionamento com a publicidade ligada a interesses sociais e ambientais, o chamado greenwashing, que estudaremos mais adiante. 2.2 O conceito de empresa para os contadores Segundo Crepaldi (2008, p. 34), Uma empresa é uma associação de pessoas para a exploração de negócio que produz e/ou oferece bens e serviços, com vistas, em geral, à obtenção de lucros. Ela pode ser particular, governamental ou de economia mista, além de poder ter diferentes formas jurídicas. Essa definição simples e direta, com suas variações, é o que vemos na maioria dos livros sobre Contabilidade. De certa forma, em quatro dezenas de palavras, substitui ou sintetiza tudo o que estudamos neste livro-texto até aqui. Poderíamos inclusive começar este material deste ponto, caso nossa intenção fosse a de proporcionar uma “explicação rápida”. Curiosamente, os contadores tendem a comentar bastante sobre os problemas e situações que as empresas enfrentam, mas não se dão ao trabalho, não gostam de definir o que seria empresa e muito menos entender o que envolve essa manifestação da cultura e da sociedade humanas. É isso o que vemos em Iudícibus et al. (2010), obra da equipe de professores da USP, os maiores doutrinadores da Contabilidade no país, um trabalho tipicamente brasileiro e que continua sendo o livro de Contabilidade mais vendido nas livrarias, com milhares de exemplares comercializados. A ideia está presente também em Griffin (2012), autor de origem norte-americana. É certo que o pragmatismo da escola contábil norte-americana nos faz ir direto ao que interessa, sem maiores delongas. Assim, não importa muito para os contadores definir o que é empresa, importa partir logo, ansiosamente, para entender como fazer Contabilidade. Esse mesmo pragmatismo é o que vemos no Brasil, porque temos forte influência da escola contábil norte-americana. Nesse ponto, é importante remetermos ao que diz David Ogilvy. O autor, segundo Laville (2009, p. 301): desaconselhava a seus clientes a utilização de cartazes à beira de avenidas e estradas, assinalando o fato de que um motorista passando por ali não teria nunca tempo de ler mais do que seis palavras sem o risco de correr um 21 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL acidente e insistindo sobre o fato de que seis palavras são suficientes para um slogan mas não permitem passar uma informação verdadeiramente interessante. Em analogia, aplicando esse pensamento proposto por Ogilvy, os contadores brasileiros (e norte- americanos) teriam que ser rápidos e práticos porque os empresários estão em carros trafegando em alta velocidade em uma autoestrada em busca de seus interesses e não têm muito tempo para pensar em nada a não ser dirigir seus negócios. No entanto, questiona-se: os motores desses carros estão funcionando bem, a ponto de levar esses empresários aos objetivos que almejam? E afinal de contas, para onde essa autoestrada os está levando? Felizmente, vemos a escola europeia de Contabilidade, principalmente a italiana, a francesa e a alemã, se preocuparam em estudar com mais profundidade a empresa. Temos na Itália a escola contábil aziendalista, que significa uma “fazenda” ou uma empresa, e na Alemanha há a Betriebswirtschaft ou o estudo econômico da empresa, em que o fenômeno desta como manifestação da cultura e da sociedade humanas é estudado com mais cuidado. Alguns dos pesquisadores brasileiros que mais estudaram a Contabilidade europeia foram Francisco D’Auria e, mais recentemente, o Prof. Dr. Antônio Sá. O professor Sá, morto há poucos anos, escreveu um livro sobre Luca Pacioli que nos mostra a verdadeira saga que foi o desenvolvimento da Summa de Arithmetica, Geometria, Proportioni e Proportionalità, obra de 1494 que iniciou uma nova era para o ensino e a difusão da Contabilidade. Segundo Sá (2004), o Frei Luca Bartolomeu Pacioli di Sansepolcro, da Ordem Católica dos Franciscanos, muito cedo foi educado por um emérito pintor e matemático, Piero Della Francesca. Aos 20 anos, foi à efervescente Veneza, onde trabalhou com o comerciante Judeu Antônio Rompiaci e continuou seus estudos na escola de Domenico Bragantino, um especialista em matemática que lhe deu concessão para o magistério. Após receber a batina, por fé em São Francisco, sua inquietude cultural o fez produzir várias obras sobre matemática. Saiba mais Sobre esse assunto, leia a seguinte obra: SÁ, A. de. Luca Pacioli, um mestre do Renascimento. Brasília: Fundação Brasileira de Contabilidade, 2004. Disponível em: <http://www.cfc.org.br/ uparq/Livro_lucapacioli.pdf>. Acesso em: 29 ago. 2013. Sá (2004, p. 54) diz que Luca Pacioli tornou-se amigo pessoal de Leonardo Da Vinci, um dos maiores gênios da humanidade. Muitos pesquisadores dão a essa amizade o fato de a Ceia Sagrada ter proporções inspiradas no pensamento de Luca Pacioli em sua obra Divinas Proporções, na qual 22 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Pacioli conceituava que “numa reta, dividida em dois segmentos desiguais, a parte menor estará sempre para a maior como esta para o todo”. Essas proporções foram inspiradas nas ideias de Platão (na obra O Timeu) e de Euclides. É esse mesmo Frei, tão inquieto pela ciência, que vivia em um ambiente de efervescência científica e cultural que era a Veneza dos séculos XV e XVI, que se interessou em saber como os comerciantes agiam, ganhavam dinheiro, controlavam seus bens, conheciam os seus resultados e desempenho no mercado e faziam novos negócios. Embora a Contabilidade já fosse milenar, coube ao Frei Luca Pacioli montar uma obra que tivesse, assim como o autor, forte conotação de difusão cultural. A súmula de Luca Pacioli não foi um trabalho feito para ficar como referência nas prateleiras de uma biblioteca. Mas o que moveu o Frei Luca Pacioli, ainda de acordo com Sá (2004), a se inteirar a respeito da Contabilidade foram as partidas dobradas, ou os critérios para evidenciar causa e efeito de um ou mais fenômenos empresariais, os registros contábeis e os conceitos de patrimônio (exprimir algo amealhado no intuito de suprir as necessidades humanas), o que por sua vez impõe um processo para impor à razão do homem o controle pela memória dos fatos, criando o conceito de conta contábil (que reúne qualidade e quantidade das coisas). Assim, a evolução do conceito de débito e crédito e a curiosidade sobre os estudos sobre o controle do patrimônio difundiriam, conforme vemos em Sá (2004, p. 30): [...] as obras difundiriam a Partida Dobrada [iniciada com a de Paciolo] e atribuiriam o “caráter pessoal” às contasmateriais, ou seja, evocando uma “personalidade” delas, como é exemplo o texto: “Faça de conta que a caixa é uma pessoa que a ela se debita tudo o que lhe dá por recebimento e que se credita por tudo que dela recebe, por pagamento.“ A partir de tudo o que já estudamos, vemos que o contador, no esforço de estudar as modificações que ocorrem no patrimônio de uma empresa, a considera como uma pessoa de carne e osso, ou, em outras palavras, como um ator considera o seu personagem. Se os administradores e advogados utilizam os conceitos de pessoas físicas e jurídicas de forma técnica, a fim de melhor estudar e trabalhar e separando o que é de uma pessoa física e o que é da conta de sua empresa, o contador estabelece para as empresas uma “personalidade”, em um relacionamento estreito. A empresa, para o contador, é um objeto de estudo dos mais importantes, com o qual acaba por criar um conhecimento, uma relação ou mesmo uma afeição que pode até ser maior do que a relação que possui o próprio empresário ou o criador dessa empresa. Certamente, o contador se coloca no ponto de vista da empresa, interpretando, representando e expressando a situação patrimonial, como se ele fosse, de certa forma, a própria empresa. Então, o que se vê na realidade é que para o contador o conceito de empresa é muito forte, muito estreito, bem mais significativo daquilo que expressa em uma primeira e rápida leitura o conceito de Crepaldi (2008) que apresentamos anteriormente. Se, por exemplo, existem problemas relacionados 23 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL ao meio ambiente, o contador age como um médico que se preocupa em entender qual doença o paciente apresenta e busca um remédio ou tratamento, mesmo que os próprios sócios/acionistas ou administradores não solicitem ou talvez nem saibam o que está ocorrendo. Ao longo do tempo, os governantes e reis logo viram o comprometimento dos contadores com as empresas e os valorizaram, dando títulos importantes. Esse mesmo prestígio continua a ser observado até os dias atuais. Em muitas ocasiões, os agentes públicos confiam mais nos contadores, considerando- os como parceiros. Da mesma forma, muitos investidores e usuários no mercado também têm essa visão. Sentem-se muitas vezes mais confortáveis com uma informação que foi elaborada por um contador do que pelo principal executivo ou empresário. O governo federal sancionou a Lei nº 12.846/13 (BRASIL, 2013), “[...] sobre a responsabilização administrativa e civil de pessoas jurídicas pela prática de atos contra a administração pública, nacional ou estrangeira, e dá outras providências”. Nessa lei, entende-se que “A responsabilização da pessoa jurídica não exclui a responsabilidade individual de seus dirigentes ou administradores ou de qualquer pessoa natural, autora, coautora ou partícipe do ato ilícito”. Ou seja, o contador deve observar se estão ocorrendo atos contra administração pública nacional ou estrangeira e avisar às autoridades competentes. Esses atos são expostos a seguir: Atos lesivos à administração pública, nacional ou estrangeira praticados pelas pessoas jurídicas, que atentem contra o patrimônio público nacional ou estrangeiro, contra princípios da administração pública ou contra os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil I – prometer, oferecer ou dar, direta ou indiretamente, vantagem indevida a agente público, ou a terceira pessoa a ele relacionada;; II – comprovadamente, financiar, custear, patrocinar ou de qualquer modo subvencionar a prática dos atos ilícitos previstos nesta Lei;; III – comprovadamente, utilizar-se de interposta pessoa física ou jurídica para ocultar ou dissimular seus reais interesses ou a identidade dos beneficiários dos atos praticados;; IV – no tocante a licitações e contratos: a) frustrar ou fraudar, mediante ajuste, combinação ou qualquer outro expediente, o caráter competitivo de procedimento licitatório público;; b) impedir, perturbar ou fraudar a realização de qualquer ato de procedimento licitatório público;; 24 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I c) afastar ou procurar afastar licitante, por meio de fraude ou oferecimento de vantagem de qualquer tipo; d) fraudar licitação pública ou contrato dela decorrente; e) criar, de modo fraudulento ou irregular, pessoa jurídica para participar de licitação pública ou celebrar contrato administrativo; f) obter vantagem ou benefício indevido, de modo fraudulento, de modificações ou prorrogações de contratos celebrados com a administração pública, sem autorização em lei, no ato convocatório da licitação pública ou nos respectivos instrumentos contratuais; ou g) manipular ou fraudar o equilíbrio econômico financeiro dos contratos celebrados com a administração pública; V – dificultar atividade de investigação ou fiscalização de órgãos, entidades ou agentes públicos, ou intervir em sua atuação, inclusive no âmbito das agências reguladoras e dos órgãos de fiscalização do sistema financeiro nacional. Fonte: Brasil (2013a). Nesse mesmo sentido, a Resolução nº 1.445/13 do Conselho Federal de Contabilidade (BRASIL, 2013a) “dispõe sobre os procedimentos a serem observados pelos profissionais e Organizações Contábeis, quando no exercício de suas funções, para cumprimento das obrigações previstas na Lei nº 9.613/98 e alterações posteriores”. A Lei nº 9.613/98 (BRASIL, 1998) dispõe sobre os crimes de “lavagem” ou ocultação de bens, direitos e valores e sobre a prevenção da utilização do sistema financeiro para os ilícitos previstos nessa lei, além de criar o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Nessa lei, devidamente regulamentada pelo Conselho Federal de Contabilidade, vemos que o contador tem a obrigação de relatar ao Coaf. Em seu artigo 3º, a Resolução nº 1.445/13 (BRASIL, 2013a) diz que: Os profissionais e organizações contábeis devem avaliar a existência de suspeição nas propostas e/ou operações de seus clientes, dispensando especial atenção àquelas incomuns ou que, por suas características, no que se refere a partes envolvidas, valores, forma de realização, finalidade, complexidade, instrumentos utilizados ou pela falta de fundamento econômico ou legal, possam configurar sérios indícios dos crimes previstos na Lei nº 9.613/98 ou com eles relacionar-se (BRASIL, 2013a). 25 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Todos os contadores devem suspeitar das transações efetuadas pelos gestores e relatar ao Coaf as seguintes operações: Operações de suspeição, que podem vir a ser relatadas ou relatadas de forma obrigatória Art. 9º. As operações e propostas de operações nas situações listadas a seguir podem configurar sérios indícios da ocorrência dos crimes previstos na Lei nº 9.613/1998 ou com eles relacionar-se, devendo ser analisadas com especial atenção e, se consideradas suspeitas, comunicadas ao Coaf: I – operação que aparente não ser resultante das atividades usuais do cliente ou do seu ramo de negócio; II – operação cuja origem ou fundamentação econômica ou legal não sejam claramente aferíveis; III – operação incompatível com o patrimônio e com a capacidade econômica financeira do cliente; IV – operação com cliente cujo beneficiário final não é possível identificar; V – operação ou proposta envolvendo pessoa jurídica domiciliada em jurisdições consideradas pelo Grupo de Ação contra a Lavagem de Dinheiro e o Financiamento do Terrorismo (Gafi) de altorisco ou com deficiências de prevenção e combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo ou países ou dependências consideradas pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) de tributação favorecida e/ou regime fiscal privilegiado; VI – operação ou proposta envolvendo pessoa jurídica cujos beneficiários finais, sócios, acionistas, procuradores ou representantes legais mantenham domicílio em jurisdições consideradas pelo Gafi de alto risco ou com deficiências estratégicas de prevenção e combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo ou países ou dependências consideradas pela RFB de tributação favorecida e/ou regime fiscal privilegiado; VII – resistência, por parte do cliente ou demais envolvidos, ao fornecimento de informações ou prestação de informação falsa ou de difícil ou onerosa verificação, para a formalização do cadastro ou o registro da operação; VIII – operação injustificadamente complexa ou com custos mais elevados que visem dificultar o rastreamento dos recursos ou a identificação do real objetivo da operação; 26 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I IX – operação aparentemente fictícia ou com indícios de superfaturamento ou subfaturamento; X – operação com cláusulas que estabeleçam condições incompatíveis com as praticadas no mercado; e XI – operação envolvendo Declaração de Comprovação de Rendimentos (Decore), incompatível com a capacidade financeira do cliente, conforme disposto em Resolução específica do CFC; XII – qualquer tentativa de burlar os controles e registros exigidos pela legislação de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo; e XIII – Quaisquer outras operações que, considerando as partes e demais envolvidos, os valores, modo de realização e meio de pagamento, ou a falta de fundamento econômico ou legal, possam configurar sérios indícios da ocorrência dos crimes previstos na Lei n° 9.613/1998 ou com eles relacionar-se. Art.10. As operações e propostas de operações nas situações listadas a seguir devem ser comunicadas ao Coaf, independentemente de análise ou de qualquer outra consideração: I – prestação de serviço realizada pelo profissional ou organização contábil, envolvendo o recebimento, em espécie, de valor igual ou superior a R$ 30.000,00 (trinta mil reais) ou equivalente em outra moeda; II – prestação de serviço realizada pelo profissional ou organização contábil, envolvendo o recebimento, de valor igual ou superior a R$ 30.000,00 (trinta mil reais), por meio de cheque emitido ao portador, inclusive a compra ou venda de bens móveis ou imóveis que integrem o ativo das pessoas jurídicas de que trata o Art.1°; III – constituição de empresa e/ou aumento de capital social com integralização em moeda corrente, em espécie, acima de R$ 100.000,00 (cem mil reais); e IV – aquisição de ativos e pagamentos a terceiros, em espécie, acima de R$ 100.000,00 (cem mil reais). Fonte: Brasil (2013a). Esses são dois exemplos da expectativa que os governos, usuários externos e internos em geral depositam no contador, o que somente é possível porque sabe-se que o este mantém profundo envolvimento com a empresa, sendo seu “porta-voz”. A aplicação da Resolução nº 1.445/13 do CFC suscitou algumas dúvidas que foram esclarecidas pelo CFC. Esse esclarecimento pode ser lido no texto a seguir: 27 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Comissão esclarece dúvidas sobre Resolução CFC nº 1.445/13 Em resposta aos questionamentos que foram feitos ao Conselho Federal de Contabilidade quanto à edição da Resolução CFC nº 1.445/13 – “Dispõe sobre os procedimentos a serem observados pelos profissionais e organizações contábeis, quando no exercício de suas funções, para cumprimento das obrigações previstas na Lei nº 9.613/1998 e alterações posteriores” –, os membros da comissão – criada pelo CFC e constituída por representantes do CFC, Fenacon e Ibracon – elaboraram um documento com os seguintes esclarecimentos: “De início, destacamos a nossa compreensão em relação aos questionamentos, uma vez que, por se tratar de matéria e regulamentação pouco comum para determinados campos de atuação contábil, é preciso esclarecer o contexto e as razões da Resolução do Conselho Federal de Contabilidade e, principalmente, os princípios da Lei nº 9.613/98, alterada pela Lei nº 12.683/12. Analisando a matéria sob a ótica mundial de países e legislações que tratam de lavagem de dinheiro, conclui-se de imediato não se tratar de novidade ou “modismo” criado no Brasil, ou seja, trata-se de tema que há anos está inserida no contexto da realidade e do dia a dia dos profissionais e organizações, inclusive no Brasil. Portanto, repetimos e insistimos não se tratar de uma peculiaridade brasileira. A realidade é muito mais grave e as estatísticas dos órgãos de controle mostra que o Brasil vem se transformando em paraíso para o financiamento ao crime organizado e ao terrorismo. A Lei nº 12.683/12 diminuiu esta defasagem e para os contadores, acabou havendo uma particularidade em relação aos outros países. No mundo todo, as autoridades regulamentaram as normas para a classe contábil. No Brasil, logo após a promulgação da Lei, a comissão formada pelas entidades que representam a classe se mobilizou em busca de resguardar a inaplicabilidade imediata das normas. A Lei nº 12.683/12 modificou de forma relevante a Lei nº 9.613/98, quando inseriu os profissionais e organizações contábeis no rol daqueles que devem prestar informações sobre operações suspeitas de crimes de lavagem de dinheiro e de outros ilícitos previstos na referida lei. A partir daí, visando resguardar as premissas profissionais e o respeito às Leis e tratados internacionais, a referida comissão trabalhou sob a coordenação do CFC, órgão regulador da profissão, visando viabilizar o cumprimento da Lei nº 12.683/12. Durante um ano este grupo recebeu contribuições de inúmeros profissionais, autoridades, entidades representativas, resultando na aprovação pelo Plenário do Conselho Federal de Contabilidade da Resolução CFC nº. 1.445/2013. Com isto, a classe contábil se juntou a outras categorias profissionais, como, por exemplo, os corretores de imóveis e demais entidades como os agentes financeiros e até os próprios bancos. Nota-se que essa nova responsabilidade dos profissionais da área contábil não foi criada pelo Conselho Federal de Contabilidade, mas pelo legislativo, sendo sancionada pela 28 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Presidente da República. Portanto, trata-se de lei federal, cuja sua aplicação e cumprimento não estão à mercê da vontade dos profissionais. A partir da edição da Lei, coube ao CFC, dentro de sua competência legal e após inúmeras e exaustivas reuniões da Comissão, especificamente criada pelo Conselho Federal com a participação do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) de representantes dos CRCs, da Fenacon, do Ibracon e do Banco Central, além de reuniões com o Coaf, regulamentar a matéria por meio de Resolução. Conforme foi dito, coube à Resolução CFC nº 1.445/13, regulamentar a aplicação da lei nos serviços profissionais de Contabilidade quanto aos seus principais aspectos, tornando a sua aplicação factível aos profissionais de Contabilidade. Um dos aspectos mais importantes da Resolução é a proteção aos profissionais e organizações contábeis, no sentido de “conhecerem quem são os seus clientes” e não serem utilizados por criminososem atividades ilícitas. Por outro lado, o profissional que não atendê-la poderá ser equiparado ao criminoso na aplicação das penalidades previstas na própria lei. Portanto, a política de prevenção e o cadastro de clientes visam atingir esse objetivo. No que tange à comunicação ao Coaf, é preciso deixar claro que não cabe ao profissional ou organização contábil investigar as operações realizadas por seus clientes, mas tão somente comunicar ao Coaf as operações que se enquadram nos artigos 9º e 10º da Resolução CFC nº 1.445/13 e que podem configurar sérios indícios de crimes previstos na referida Lei. Nem mesmo ao Coaf cabe tal investigação, uma vez que todas as comunicações acerca do assunto fluirão de diversas fontes, como, por exemplo, Banco Central, Receita Federal, Polícia Federal, Ministério Público, Cartórios etc., cabendo ao Coaf, evidentemente que mantido o necessário sigilo, consolidar e transmitir essa informação ao órgão que tem sob sua competência e responsabilidade a investigação. Embora não seja requerida qualquer investigação para o cumprimento da Lei e da Resolução, obviamente, o profissional ou organização contábil deverá estar atento às possíveis consequências que o indício identificado pode acarretar no seu trabalho. Por exemplo, no caso específico do auditor independente, de forma similar ao que ocorre quando o auditor se depara com uma situação de fraude ou de descumprimento de leis e regulamentos (efetiva ou suspeita) em um cliente onde tem como responsabilidade a auditoria de demonstrações contábeis, o auditor independente deverá considerar o possível impacto no seu trabalho, como requerido pelas normas de auditoria. Outro ponto importante e que deve ser observado é quanto ao sigilo das informações. Conforme estabelece a norma, as comunicações serão efetuadas diretamente no sítio eletrônico do Coaf, conforme instruções ali definidas, comprometendo-se por lei, a manter o sigilo, assumindo, evidentemente, as consequências legais pela sua não observância. 29 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Ressalta-se ainda que, caso o CFC não tivesse exercido sua competência legal e elaborado uma Resolução específica, obviamente a Lei (que já está em vigor há muito tempo)teria sido regulamentada diretamente pelo Coaf ou outra entidade competente, como foram feitos para outras atividades, trazendo responsabilidades não necessariamente condizentes com os serviços profissionais de Contabilidade. Por outro lado, é importante observar que boa parte das solicitações contidas na lei e na Resolução é pouco aplicável à maioria das empresas de Contabilidade, desde que, evidentemente, não pratiquem atividades ilícitas ou contribua para a lavagem de dinheiro de um determinado cliente. O fato é que a adoção de medidas para coibir práticas ilegais é um resguardo para o profissional. Engana-se o profissional que entende que somente a partir da alteração da Lei, em 2012, poderia ser condenado e preso. Uma pesquisa na jurisprudência mostra que a classe contábil está cada vez mais exposta a esse risco e que muitos profissionais já vêm sendo condenados à pena de prisão. A Resolução cria limites e instrui melhor o profissional, ajudando-o a agir para não ser confundido com o seu cliente, que eventualmente esteja cometendo o ilícito. A norma não foi feita num espírito de proteger os profissionais que prestam serviços a criminosos. Fato que por sinal, sempre foi condenado pelo código de ética da profissão. Portanto, aquele que presta serviços, auxiliando o cliente a praticar delitos, inclusive a contabilizar caixa dois ou dar legitimidade a recursos oriundos de sonegação (entre outros), sempre esteve cometendo um crime e sempre esteve sujeito a sanções penais. É preciso ficar claro que a Resolução CFC nº 1.445/2013 conseguiu transformar a Lei nº 12.683/12 num instrumento de valorização profissional, em que a classe se afasta do mau cliente e cria uma nova cultura de valores e conduta profissional pautados na legalidade. Neste momento em que a sociedade vai às ruas para pedir por mais ética e transparência, a Resolução veio ratificar que o profissional da Contabilidade não irá contribuir para a realização de crimes como o de lavagem de dinheiro. A norma não traz qualquer prejuízo ao profissional que possui uma conduta correta e exerce sua profissão com respeito, responsabilidade e ética. Não podemos ter receio de afastar os maus clientes que, na grande maioria das vezes, deposita no profissional da Contabilidade todas as suas falcatruas. Os profissionais da Contabilidade não poderão mais fazer parte da mídia como os grandes responsáveis pelas fraudes, corrupção e lavagem de dinheiro. Cabe aos profissionais da Contabilidade o papel de cumprir a lei em benefício da profissão.” A Comissão Fonte: Conselho Federal de Contabilidade (2013). Encerrado esse tema, convidamos você a estudar a partir de agora a (complexa) questão ambiental aplicada à Contabilidade. 30 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I 3 CONTABILIDADE AMBIENTAL 3.1 Entender o problema em um contexto social e histórico: a detecção da ameaça aos seres humanos Os seres humanos estão no centro das preocupações com o desenvolvimento sustentável. Têm direito a uma vida saudável e produtiva em harmonia com a natureza. Princípio 1 da Declaração do Rio (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1992). Existe no folclore norte-americano a figura de Paulo Bunyan (Paul Bunyan) e seu boi azul. Segundo Nelson (2005), Paulo Bunyan foi um homem que teria existido de verdade e foi transformado em lenda em 1837 após a Rebelião de Papineau. Adonis (2013) resume a complexa e significativa história de Paulo Bunyan de forma bem simplificada, como veremos a seguir: [Paul Bunyan, um lenhador gigante], faz prosperar a região usando a própria força e seu machado. Conta com a ajuda de Babe, o boi azul, também gigantesco, para irrigar cidades, realizar benfeitorias, evitar calamidades. Paul é simpático, humilde, despojado e vive nas montanhas. Encarna o espírito livre. Eis que chega na região a modernidade, na figura de um homenzinho, Joe Muffaw, munido de grande avanço tecnológico: uma serra elétrica. Ele é antipático, arrogante, janota e vive na cidade. Encarna o espírito do progresso. Nasce da descrença o desafio para verificar se aquela invenção é realmente tão poderosa quanto trombeteada pelo arauto da tecnologia. A disputa visa a estabelecer quem é mais produtivo cortando madeira. De um lado, Bunyan e Babe; do outro, Joe com a serra elétrica e a locomotiva. No Brasil, a figura folclórica de Paulo Bunyan ficou conhecida a partir de um desenho dos Estúdios Disney, de livros e de algumas histórias em quadrinhos, especialmente duas que foram produzidas pela Disney, de autoria dos quadrinistas Jack Bradbury e Carl Barks. Nessas histórias em quadrinhos, enquanto Jack Bradbury mostrou a história folclórica com mais fidelidade, Carl Barks criou uma historieta em que o personagem Tio Patinhas escondeu suas moedas em árvores de uma grande floresta, no intuito de evitar o ataque de ladrões “Irmãos Metralha”. No entanto, o governo do Canadá, onde estaria a floresta, resolveu desapropriar a área para a construção de uma barragem. Dessa forma, a região tornou-se de um momento para o outro uma área pública, sendo que qualquer um poderia explorar legalmente a madeira e, claro, o dinheiro que estava escondido. Essa seria uma situação um tanto parecida com a que ocorreu de verdade no Brasil com a elevação das águas do lago de Itaipu. Logo, viram-se duas máquinas gigantescas com grandes machados,uma dos Irmãos Metralha e outra do Tio Patinhas, que em um trabalho épico devastaram a floresta, recuperando o dinheiro. 31 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Nota-se nesse contexto dos filmes e das histórias em quadrinhos que havia nesse período uma preocupação nas pessoas de lidar com a natureza e transformá-la a seu favor. O artista Carl Barks, que mostrou ao longo da sua carreira ser um quadrinista com uma preocupação ambiental acentuada, nessa história mostra a tônica do pensamento do homem médio que viveu no século passado. Observação Homem médio é uma expressão muito usada no meio jurídico que representa a pessoa normal, do povo, que não possui grandes conhecimentos, mas conhece as coisas da vida. O homem médio pensava que a natureza era inesgotável. Havia natureza em todo lugar, em todo canto. Tudo que era natural não era bom e precisava ser devastado, modificado, sofrer a intervenção do homem para se tornar bom. O lenhador, ao usar o seu machado e devastar a floresta, não estaria fazendo um mal; ao contrário, com seu suor e esforço pessoal levava desenvolvimento, uma vida de maior qualidade para as pessoas. O objetivo principal e a ânsia era vencer a natureza e proporcionar bem-estar para as pessoas. A natureza... Não nos preocupemos! Autores de economia como Vasconcellos e Garcia (2008), entre vários outros, reconhecem que houve no século passado uma minimização ou nenhuma preocupação com a conservação do meio ambiente. Os agentes econômicos buscavam desenfreadamente o desenvolvimento e o lucro. No entanto, da década de 1960 até a de 1980, e com a crise do petróleo provocada pela Opep (Organização dos Países Produtores de Petróleo), a questão ambiental começou a surgir como uma preocupação e culminou com a descoberta de dados alarmantes sobre as condições atmosféricas do planeta, que necessitava, de acordo com esses estudos, de atenção imediata. As Nações Unidas, que já vinham realizando um trabalho tímido em prol do meio ambiente (KLABIN, 2011), convocaram em 1972 a Conferência de Estocolmo, uma iniciativa inovadora em questões de meio ambiente. Nessa conferência foi apresentado um estudo, encomendado pelo Clube de Roma e que recebeu o título Os Limites do Crescimento. O Limites do Crescimento foi elaborado por um grupo de pesquisadores do MIT liderado pelo professor Dennis Meadows e demonstrou que o planeta não poderia mais suportar o desenfreado desenvolvimento ambiental. O Relatório Meadows, como ficou conhecido, se tornou posteriormente um livro best seller (com mais de 30 milhões de unidades vendidas) e foi considerado catastrofismo. Entretanto, enquanto despertava o ceticismo de uns, teve o louvor de indicar que as pessoas começavam a entender que a antes imensa e interminável natureza tinha limites e estava muito próximo deles. Jancovici (2011), que é consultor ambiental, analisou o que havia no Relatório Meadows e nos mostra a seguinte figura, que aponta que os pesquisadores estudaram as interações entre a população, capital (dinheiro), serviços e recursos. 32 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Population “Services” capitalNon renewable natural resources Animal births Animal deaths Mortality Healt care, prevention, medicine Services per capta Natality Education, birth controlIndustrial production per capta Industrial production Investiments Investiment rate Depreciation Average lifetime of capital Industrial capital (–) (–) (–) (–) (+) (+) (+)(+) Figura 2 – Descrição qualitativa das interações constantes no modelo entre população, capital, serviços e recursos Nesse estudo, em um esforço de traçar tendências e especular sobre como se daria a evolução das necessidades de energia, os pesquisadores apresentaram a seguinte tabela: Tabela 1 – Média anual de crescimento do consumo de combustíveis fósseis Combustível Média anual de crescimento do consumo entre 1900 e 1970 (dados reais) Valor selecionado no cenário do patamar Valor selecionado no cenário de eficiência Média anual de crescimento do consumo entre 1970 e 2000 (dados reais) Carvão 1,70% 4%±1% 1%±0,25% 1,60% Petróleo 6,90% 4%±1% 1%±0,25% 1,40% Gás 7,50% 4,7%±0,7% 1,2%±0,2% 3% Fonte: Jancovici (2011). Jancovici (2011) comenta então que o Relatório Meadows, que foi o resultado de pesquisas científicas, apresentou dados muito rigorosos, provocando um receio quanto a se o crescimento econômico estaria provocando consequências danosas ao meio ambiente sem necessidade. Os números demonstraram, posteriormente, que a projeção do consumo de combustíveis fósseis foi menor do que a que se esperava. 33 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Independentemente disso, se os pesquisadores teriam sido mais rigorosos ou não, o Relatório Meadows teve o mérito de levar os especialistas e governos a pensar seriamente na questão ambiental. Na década de 1980, a ONU criou a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, presidida pela norueguesa Gro Harlen Brundtland, que foi a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra da Noruega. Essa comissão convocou uma conferência para a discussão do meio ambiente que ocorreu no Rio de Janeiro em 1992, com o papel hercúleo da Sra. Gro Brundtland. Do resultado dessa conferência, entre vários documentos e contribuições ao tema do meio ambiente, surgiram o Relatório Brundtland ou Nosso Futuro Comum e a Agenda 21. Estabeleceu-se nesses documentos um compromisso internacional de garantir à geração atual mais do que o direito à vida. Desse trabalho surgiu o conceito de “desenvolvimento sustentável”, que iremos estudar no próximo capítulo. Saiba mais Você pode encontrar o Relatório Nosso Futuro Comum, a Agenda 21 e vários outros documentos, inclusive de conferências climáticas da ONU que foram realizadas posteriormente, no site a seguir: ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Documentos de referência para a Rio+20. [s.d.]. Disponível em: <http://www.onu.org.br/rio20/documentos/>. Acesso em: 28 ago. 2013. Retornando ao exemplo de Paulo Bunyan, atualmente poderíamos dizer que uma floresta em pé seria muito mais preciosa do que a energia elétrica que o lago poderia gerar. Dependendo do caso, se por um exemplo hipotético essa floresta fosse formada de pau-brasil, uma madeira em processo de extinção e de altíssimo valor comercial no mercado (quem tem uma árvore de pau-brasil atualmente pode considerar que tem uma verdadeira fortuna), jamais alguém teria a ideia de usar as árvores como cofres e devastá-las com máquinas gigantes, como na história de Carl Barks. Saiba mais Veja o desenho a seguir: PAUL Bunyan. Dir. Les Clark. Estados Unidos, 1958. 17 minutos. Como disse Klabin (2011, p. 298-299), uma floresta em pé é importante porque “os ecossistemas mantêm estoques de genes que podem ser potencialmente úteis ao desenvolvimento científico e 34 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I tecnológico (bioteconologia, nanotecnologia, biomimetismo)”. Mais: os ecossistemas, além de serem importantes para regular o clima e para a agricultura (por favorecerem a polinização), produzem “serviços culturais” como “promoção de saúde física e mental; ecoturismo; apreciação estética, artística e até mesmoespiritual” (KLABIN, 2011, p. 298-299). A madeira do pau-brasil (Caesalpinia echinata) que é um dos símbolos naturais da nação brasileira, tanto que dá o nome ao país, está em processo de extinção. O corte da madeira e seu comércio internacional são proibidos desde 1987. Por ter uma madeira de excelente qualidade para várias aplicações, foi explorada à sua exaustão. Mas o que poucas pessoas sabem é que o pau-brasil é a única utilizada na confecção de arcos de instrumentos musicais como o violino, o violoncelo, o contrabaixo e as violas. Apenas essa madeira confere a sonoridade, a elasticidade e a suavidade que se pode esperar para os arcos destes instrumentos. A árvore leva 25 anos para crescer e ter condições de corte, sendo que atualmente já não há pau- brasil disponível em estoque para a fabricação de instrumentos musicais. Utilizam-se alternativas como o uso de pontes, cercas, construções antigas feitas em pau-brasil, no entanto essa fonte [desesperada] também já está esgotando. Artistas em todo o planeta estão preocupados com o problema e criaram a International Pernambuco Conservation Initiative, para fornecer recursos para o plantio da árvore – o objetivo é plantar 2,3 milhões de mudas. 3.2 Desenvolvimento sustentável No Relatório Brundtland ou Nosso Futuro Comum surgiu o conceito de desenvolvimento sustentável, definido da seguinte forma por Klabin (2011, p. 48): “é o desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as futuras gerações terem suas próprias necessidades atendidas”. Saramelli (2006, p. 16-19) explicou esse conceito de uma forma “teatral”, usando uma situação simples do cotidiano de uma pessoa que vive em uma grande cidade brasileira: É uma típica sexta-feira nublada em São Paulo. Regina entra rapidamente no estacionamento de um shopping center, quase atropelando a cancela. São cerca de 3 horas da tarde e ela precisa resolver um problema na agência bancária. Tempo ela tem mais do que suficiente, mas está muito brava, furiosa com seu noivo, que acabara de lhe dar uma notícia no celular. Resolveu a situação com a moça do atendimento da agência, que deu um comprovante em papel reciclado. Ao sair, a moça ainda teve a ousadia de oferecer um financiamento para instalar um aquecedor solar. Regina educadamente falou que ia pensar a respeito, pegou o catálogo, mas mal ouviu. Saiu um pouco mais tranquila da agência, porém, no caminho até o carro, um problemão: tinha que “enfrentar” um tentador corredor de lojas. Havia prometido a si mesma, no domingo, que não iria comprar nada 35 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL naquela semana. Para isso, respirou fundo, e começou a andar com a cabeça sempre para frente, sem olhar à direita ou à esquerda. Por alguns metros, o seu plano foi seguido à risca. Mas um barulho desviou sua atenção para uma loja de roupas, o que foi suficiente para fitar os olhos em uma blusa na vitrine. Dez segundos depois, estava conversando com a vendedora, que logo passou a oferecer outras roupas igualmente lindas! Nem precisa dizer que não foi apenas com aquela blusinha que Regina saiu daquela loja, três horas depois. Após pagar o estacionamento, deu uma passadinha no banheiro. Ao enxugar as mãos, ao invés das tradicionais toalhas de papel, Regina encontrou um secador de mãos elétrico. A administração do shopping colocou um pequeno cartaz, no qual dizia que o secador era uma opção mais ecológica. Finalmente, saiu do shopping center com a certeza de que, ainda naquela noite, encerraria o seu noivado. A tarde que a furiosa personagem Regina passou em um shopping center não teve nada de especial. Milhares de pessoas fazem compras e consomem serviços da mesma forma, porém, para o leitor mais observador, existem na história criada para ilustrar este artigo situações que realmente estão começando a fazer parte do nosso dia a dia e para as quais devemos estar atentos como contabilistas. É interessante enfatizar – de uma forma um tanto catastrófica, mas lúcida – que essa situação corriqueira, ou seja, a facilidade no consumo e no acesso a bens e serviços poderá não ocorrer no futuro. Será que tudo o que a personagem Regina realizou em uma tarde de sua vida será realizado pelo seu filho ou por seus netos no futuro? O conceito de sustentabilidade é um contrato com o tempo, em que o conforto de nossa geração não pode comprometer o conforto das próximas gerações. Essa “tarde de consumo” da Regina não é vista com bons olhos por alguns pesquisadores. De acordo com Trigueiro (2012, p. 12), que sustenta que o mundo atual está em plena crise de sustentabilidade, “Consumimos de forma impulsiva e ‘ser alguém’ passa a ser associado à posse ou uso de determinados produtos e serviços”, em um processo acelerado pelo uso da publicidade. Assim, Trigueiro (2012, p. 40) afirma que: Nossa sociedade é chamada de “sociedade de consumo” porque consumir se tornou uma atividade cotidiana que foi além da ideia inicial de satisfazer necessidades para se tornar até uma doença. Consumimos de forma impulsiva e “ser alguém” passa a estar associado à posse de determinados produtos ou de determinados serviços. No entanto, a questão da sustentabilidade tem contornos ainda mais sofisticados e extensos. Segundo Miller e Spoolman (2012, p. 6), que são autores ligados às áreas de química, física, biologia e jornalismo, “[...] viver de maneira sustentável significa sustentar-se com os rendimentos naturais da Terra sem esgotar ou degradar o capital natural que os fornece”. 36 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I No conceito exposto por Miller e Spoolman (2012, p. 6), os recursos naturais são expostos como uma espécie de estoques, que são utilizados pelas pessoas, e que por isso geram “pegadas ambientais” ou seja, as consequências dessa utilização. Os autores atribuem como causas aos problemas ambientais “[...] o crescimento populacional, o uso insustentável e pouco eficiente dos recursos, a pobreza e a não inclusão dos custos ambientais do uso dos recursos nos preços de mercado de bens e serviços”. Os autores expõem então princípios de sustentabilidade, conforme o quadro a seguir: Quadro 1 – Os princípios da sustentabilidade 1-1 Quais são os três princípios da sustentabilidade? Conceito 1-1 A A natureza tem se sustentado por bilhões de anos por meio da energia solar, da biodiversidade e da ciclagem de nutrientes. Conceito 1-1 B Nossas vidas e economias dependem da energia do sol e dos recursos e serviços naturais (capital natural) fornecidos pela Terra. 1-2 Como nossas pegadas ecológicas estão influenciando a Terra? Conceito 1-2 Conforme nossas pegadas ecológicas aumentam, estamos destruindo e degradando cada vez mais o capital natural da Terra. 1-3 Por que temos problemas ambientais? Conceito 1-3 As maiores causas dos problemas ambientais são o crescimento populacional, o uso insustentável e pouco eficiente de recursos, a pobreza e a não inclusão dos custos ambientais do uso dos recursos nos preços de mercados de bens e serviços. 1-4 O que é uma sociedade ambientalmente sustentável? Conceito 1-4 Viver de maneira sustentável significa sustentar-se com os rendimentos naturais da Terra sem esgotar ou degradar o capital natural que os fornece. Fonte: Miller; Spoolman (2012, p. 6). Expostos todos esses problemas, pense: o que as pessoas, profissionais, pesquisadores e empresas podem fazer em prol da sustentabilidade? Em 1992, durante a Eco 92, não se sabia! O Relatório Nosso Futuro Comum foi então encerrado como uma espécie de convite para que as pessoas, principalmenteos jovens universitários, pensassem nos problemas e com sua inventividade e criatividade apresentassem soluções. Esse caráter profundamente convidativo da Rio Eco 92, com seu Relatório Brundtland ou Nosso Futuro Comum e a Agenda 21, foi destacado por Klabin (2011, p. 50), ao apontar na Agenda 21 o seguinte trecho: Devem-se aplicar os conhecimentos científicos para articular e apoiar as metas de desenvolvimento sustentável por meio de avaliação científica da situação atual e das perspectivas futuras do sistema Terra. [...] Diante das ameaças e danos ambientais irreversíveis, a falta de conhecimentos científicos não deve ser desculpa para postergar a adoção de medidas que se justifiquem por si mesmas. A abordagem da precaução pode oferecer uma base para políticas relativas aos sistemas complexos que ainda não são plenamente compreendidos. 37 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Nesse sentido, é importante agora estudar como as empresas receberam esse conceito de sustentabilidade. 3.3 Desenvolvimento sustentável nas empresas Como vimos, Miller e Spoolman (2012, p. 6) atribuíram como uma das causas aos problemas ambientais “a não inclusão dos custos ambientais do uso dos recursos nos preços de mercado de bens e serviços”. Ao mesmo tempo, o ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, ao comentar o trabalho do ambientalista Israel Klabin, disse o seguinte, conforme podemos ler no prefácio de Klabin (2011, p. xiii): Israel deixa claro que, do ponto de vista da arquitetura da nova economia, “estamos fazendo a conta errada” por considerar as riquezas que se somam-no PIB, desprezando o esgotamento dos recursos naturais e o aquecimento global. Ora, se as empresas estavam “se esquecendo” de adicionar o aspecto ambiental nos cálculos de custos, bastaria então corrigir essa falha! No entanto, quando essas questões foram expostas da primeira vez, ainda durante e Rio Eco 92, os empresários não receberam bem essa ideia – ao contrário, a resistência a ela foi enorme; houve (e há) uma difícil passagem à ação. Nesse sentido, Laville (2009) listou 11 resistências observadas pelas empresas para uma ação ambiental, conforme pode ser visto no quadro a seguir. Quadro 2 – Resistências a passagem a ação pelas empresas Resistência nº 1 Tudo isso funciona para pequenas e médias empresas atípicas, mas é impossível para um grande grupo industrial como o nosso. Resistência nº 2 Tudo isso funciona em grandes grupos, que têm meios para pagar por essas iniciativas, mas é impossível em uma empresa pequena como a nossa. Resistência nº 3 Salvar o planeta não é papel da empresa. Resistência nº 4 O Estado é pago para resolver os problemas sociais ou ambientais, e não nós! Resistência nº 5 Nossos acionistas nunca nos deixarão fazer isso. Resistência nº 6 Nossos clientes não dão a mínima e nunca estarão dispostos a pagar por tudo isso. Resistência nº 7 Nossa atividade não tem nenhuma relação com isso, não vendemos diretamente ao consumidor final. Nossa atividade não é poluidora. Resistência nº 8 O desenvolvimento sustentável é uma iniciativa de países ricos que não se adapta a países emergentes. Resistência nº 9 É uma questão de ambiente e de ajustes: devemos simplesmente mudar a maneira como os produtos são fabricados tomando cuidado para poluir menos. Resistência nº 10 A responsabilidade da empresa para na porta da fábrica. Resistência nº 11 A empresa deve encontrar sozinha as respostas, ou será acusada de fraqueza. Fonte: Laville (2009, p. 48-69). 38 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I A partir de uma maior divulgação dos problemas ambientais, de uma educação ambiental e de outras ações – algumas influenciadas pelos documentos emitidos pela Rio Eco 92 – essa rejeição das empresas pelo fator ambiental precisou ser mudada. Atualmente, não se admite mais uma empresa que não tenha o meio ambiente como uma das suas preocupações. Ao mesmo tempo, Klabin (2011, p. 277-278), para mostrar a sustentabilidade nas empresas, recorre a uma sugestiva frase de Stanislaw Lec, um poeta polonês. Essa mesma frase foi usada por John Elkington para ilustrar o conceito de sustentabilidade corporativa: É progresso se um canibal usar um garfo? Os autores usaram essa reflexiva pergunta porque entendem que as empresas seriam verdadeiros canibais, que engolem umas as outras em operações e negócios, fusões e reestruturações globais. Esse garfo representaria a tomada de consciência. As empresas precisariam adotar práticas que vão ao encontro de princípios sustentáveis. Tentativas de realizar uma gestão ambiental adequada e de reconhecer essas empresas não faltaram, mas geraram situações as mais desagradáveis. Por exemplo, o índice norte-americano Dow Jones de sustentabilidade era liderado pela empresa British Petroleum, a mesma que se envolveu em um gigantesco desastre ambiental no Golfo do México em 2010. Klabin (2011) comenta que no Brasil a Bovespa teve a iniciativa de lançar um índice específico para empresas com comprometimento ambiental, o ISE – índice de Sustentabilidade Empresarial da BM&FBovespa, mas as empresas listadas nesse índice tem o mesmo rendimento. O autor (2012, p. 282) aponta o mesmo problema sobre “a não inclusão do custos ambientais do uso dos recursos nos preços de mercado de bens e serviços”, da seguinte forma: O problema é a falta de precificação das externalidades ambientais e sociais. As empresas não conseguem mensurar o valor de práticas sustentáveis. Se a economia não mudar, qual o custo concreto num futuro próximo? As empresas que se adequarem agora a algo que só vai regular daqui a dez, vinte anos estariam apostando no futuro, mas a concorrência se estabelece no presente. Os governos poderiam acelerar essa agenda. Se houver regulamentação, as engrenagens podem funcionar. Caso contrário, vira voluntarismo. Observe que Klabin (2011) cita que devido a uma falta de regulamentação governamental as empresas estariam lidando com a questão ambiental – porém, não da forma adequada. O uso da palavra voluntarismo é muito significativo nesse sentido. Vemos que muitas ações são pautadas por inclinações individuais. Laville (2009) expõe o caso de uma empresa de laticínios, a marca americana Stonyfield, que utiliza as tampas de seus iogurtes (orgânicos) para sensibilizar seus clientes sobre causas ambientais. 39 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Em uma dessas sensibilizações, a empresa aborda seus clientes sobre a necessidade da boa calibragem dos pneus do carro para economizar gasolina. Assim, ofereceu ao longo das manhãs um controle gratuito da pressão dos seus pneus, dando um iogurte de presente. Além desse “voluntarismo”, observou um comportamento negativo ou até criminoso nas empresas e que em alguns casos afetou trabalho dos contadores, o greenwashing. Sabendo que os consumidores ansiavam por ações ambientais, muitas vezes as empresas produziam peças publicitárias (comerciais de TV, revistas, jornais etc.) com dados distorcidos ou sobrevalorizados, para levar um (enganoso) conforto para esses consumidores. O greenwashing ou verdejamento da imagem foi exposto por Laville (2009) como sendo o uso abusivo do argumento ambiental em publicidade. Por exemplo, empresas diziam que gastavam x milhões de reais ou dólares com gastos ambientais. Porém, esses mesmos valores não eram expostos nas demonstrações financeiras, de forma clara. Talvez que fosse verdade, mas verificou-seque não eram dados confiáveis. Outro exemplo é o de empresas que faziam comerciais de TV bucólicos, porém, não faziam exatamente o que diziam – ou, como disse Laville (2009, p. 300), o walk yor talk, uma expressão em inglês que significa siga o que prega. Laville (2007) diz ainda que diversas entidades e ONGs se uniram para combater o greenwashing como o grupo L’alliance pour la planète (Aliança para o planeta), que foi a reunião de 70 ONGs, entre as quais a WWF e a Greenpeace. Esta última produziu em 1997 um interessante documento, ou Kit de Detecção de Greenwashing, com quatro critérios. Expõe-se esses critérios a seguir: Os quatro critérios que permitem detectar o greenwashing segundo o Greenpeace (1997) 1. A razão de ser da empresa: se as atividades da empresa contribuem de maneira importante para a poluição ou destruição do meio ambiente (por exemplo, empresa petrolífera ou exploradora de recursos fósseis, a empresa florestal exploradora de florestas naturais etc.), existem todas as chances de que sua comunicação verde seja greenwashing. Ainda que a empresa lance iniciativas mais “limpas” (por exemplo, uma empresa petrolífera se lançando na energia solar), o que é desejável, trata-se também de greenwashing enquanto ela não fizer o reconhecimento público do caráter fundamentalmente incompatível com o desenvolvimento sustentável de sua atividade principal, e enquanto não se comprometer seriamente a abandoná-lo em prol de outra atividade “limpa” – de acordo com um calendário predeterminado. 2. As práticas publicitárias: o termo greenwashing aplica-se a toda empresa que utiliza mídia para vangloriar o caráter ecológico de algum produto sem mudar sua atividade principal, que no entanto é nociva ao meio ambiente – ou, pior, visando legitimar essa atividade. 3. A Pesquisa & Desenvolvimento (P&D): se os orçamentos de P&D são voltados principalmente à manutenção (ou à melhoria relativa) de antigas atividades não sustentáveis, 40 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I em vez de ser dedicados à busca de atividades novas e “limpas”, então podemos pensar que o discurso verde da empresa é apenas greenwashing. 4. O lobby: o duplo discurso, pelo qual uma empresa se apresenta publicamente como comprometida com o meio ambiente, enquanto ao mesmo tempo desenvolve ações de lobby (diretamente ou via organizações profissionais) contra as regulamentações que visam justamente limitar as agressões ao meio ambiente, é igualmente greenwashing. Fonte: Laville (2009, p. 312-313) . Saiba mais No Brasil, o Conar – Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, nos últimos anos, analisou e não recomendou a veiculação de comerciais de televisão por conta de fatores ambientais divergentes. Visite o site do Conar e leia os seus boletins e casos históricos: <http://www.conar.org.br/>. Após estudarmos a sustentabilidade empresarial e verificarmos a tênue atuação das empresas nesse campo que, conforme explicou Klabin (2011), tende a um “voluntarismo”, vamos estudar o conceito de gestão ambiental e depois a Contabilidade Ambiental. Finalizaremos o estudo do tema com o Direito Ambiental. 3.4 A gestão ambiental empresarial Os problemas do mundo não podem ser resolvidos pelos céticos ou pelos cínicos, cujos horizontes se limitam às realidades evidentes. Temos necessidade de homens capazes de imaginar o que nunca existiu. John F. Kennedy (apud LAVILLE, 2009, p. 169). Barbieri (2011, p. 19) conceitua a gestão ambiental como: As diretrizes e as atividades administrativas e operacionais, tais como planejamento, direção, controle, alocação de recursos e outras realizadas com o objetivo de obter efeitos positivos sobre o meio ambiente, tanto reduzindo, eliminando ou compensando os danos ou problemas causados pelas ações humanas quanto evitando que eles surjam. O autor enfatiza nesse conceito que a gestão ambiental é uma iniciativa dentro da ciência da administração para lidar com as questões ambientais. Esse conceito, apesar de ter sido enfatizado, ou melhor, revisitado após a Rio Eco 92, não é novo. Há iniciativas de gestão ambiental desde a Idade Média. 41 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL O termo gestão ambiental teria como origem, ainda de acordo com Barbieri (2011), as ações governamentais para enfrentar a escassez de recursos. No entanto, com o tempo, outras questões ambientais foram sendo consideradas. Dessa forma, obtiveram-se três dimensões da gestão ambiental. Barbieri (2011, p. 21) soma a essas três a dimensão filosófica, que nem sempre é observada pelas pessoas. O autor comenta que “as respostas a essas indagações foram, e continuam sendo, as mais variadas, gerando diferentes posicionamentos e propostas que refletem a diversidade de entendimentos sobre o Universo e o ser humano, os demais seres vivos e os elementos não vivos da natureza”. As Dimensões da gestão ambiental foram representadas pelo autor no seguinte quadro: Quadro 3 – As dimensões da gestão ambiental 1) A dimensão espacial Concerne a área na qual espera-se que as ações de gestão tenham eficácia. 2) A dimensão temática Delimita as questões ambientais às quais as ações se destinam. 3) A dimensão institucional É relativa aos agentes que tomam as iniciativas de gestão. Fonte: Barbieri (2011, p. 21). Barbieri (2011) comentou que os empresários costumam ser influenciados por três grandes conjuntos de forças que interagem entre si: o governo, a sociedade e o mercado, conforme exposto na figura a seguir, com três eixos, cada um representando uma das dimensões: Global Regional Nacional Subnacional Local Setorial Empresarial etc. Instituição multilateral Instituição de ensino e pesquisa Questões ambientais Sindicato ONG Governo Empresa etc. Aquecimento global Recursos minerais Fauna e flora Solo Água Ar Iniciativa. Abrangência espacial Figura 3 – As dimensões da gestão ambiental 42 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Nesse sentido, lembrando o voluntarismo empresarial que foi citado por Klabin (2011), as empresas passaram a realizar acordos voluntários para trato da questão ambiental. Esses acordos são apresentados na figura a seguir: Acordos voluntários Públicos Privados De adesão Negociados Comprometimentos bilaterais Promovidas por grupos de empresas ou entidades empresariais Promovidas por entidades independentes Iniciativas individuais Iniciativas coletivas Iniciativas unilaterais Figura 4 – Acordos voluntários: tipos e exemplos Barbieri (2011) compilou as principais entidades que realizam acordos ambientais e preparou o seguinte quadro: Quadro 4 – Iniciativas voluntárias unilaterais coletivas (exemplos) Entidade Sede Práticas recomendadas Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) São Paulo Programa Atuação Responsável Associação Japonesa da Indústria Química (JCIA) Tóquio Plano de Ação Ambiental Voluntário Câmara de Comércio Internacional (ICC) Paris Carta de Princípios, Auditoria Ambiental e Código de Publicidade Ambiental Ceres Boston Princípios Ceres (ex-Princípios Valdez) Compromisso Empresarial para a Reciclagem (Cempre) São Paulo Apoio a programas de coleta seletiva, reciclagem e valorização de material reciclado e avaliação do ciclo de vida Conselho Europeu da Indústria Química (Cefic) Bruxelas Programa Voluntário de Eficiência Energética GlobalReporting Initiative (GRI) Amsterdã Relatórios de sustentabilidade Greenpeace Amsterdã Produção limpa (clean production) International Organization for Standardization (ISO) Genebra Normas da Série ISO 14.000 e Norma ISO 26.000 Onudi/Unido Viena Produção mais limpa Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) Nairóbi International Hotels Environment Initiative Insurance Industry Initiative for the Environment Princípios para investimentos responsáveis 43 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Society of Environmental Toxicology and Chemistry (Setac) e Pnuma Bruxelas Life Cycle Initiative The Global Environmental Management Initiative (Gemi) Washington Total Quality Environmental Management (TQEM) The Natural Step Foundation Estocolmo Sistemas de condições para sustentabilidade WBCSD Genebra Promoção da ecoeficiência Zero Emissions Research and Initiative (Zeri) Genebra Emissões zero Fonte: Barbieri (2011, p. 88). Existem, como resposta aos documentos da Rio Eco 92 e à preocupação cada vez maior das empresas quanto aos problemas ambientais, dezenas de modelos de gestão aplicados ao meio ambiente. Iremos estudar dois deles: o triple bottom line e as ACVs, que são instrumentos de avaliação da Norma Internacional ISO 14.000. 3.4.1 O triple bottom line – as pessoas, o planeta, os lucros Analisando a complexa temática do meio ambiente nos negócios e a sustentabilidade, segundo Laville (2009), o profissional John Elkington, fundador da consultoria inglesa SustainAbility, entendeu que o desempenho das empresas precisaria ser avaliado de uma forma diferente da que era feita então. Se a ideia fundamental do desenvolvimento sustentável é a de ser possível criar simultaneamente valor nos três polos – que são a sociedade, o meio ambiente e a economia –,seria necessário um triplo balanço econômico, social e ambiental. Surgia então o conceito de triple bottom line , ou tripla base. Esse conceito vem demonstrado na seguinte figura, de fácil entendimento: Os lucros As pessoas O planeta Figura 5 – Triple bottom line Embora a figura seja de fácil entendimento, como diz o ecodesigner Bill Mc Donough (apud LAVILLE, 2009, p. 193) o triple bottom line é um equilíbrio dinâmico difícil de atingir: 44 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I O todo ambientalista não é mais panaceia do que o todo econômico; o objetivo é, portanto, resolver a equação formada pelas três dimensões de maneira equilibrada, sendo 100% econômico, 100% ambientalista e 100% igualitário. Um exemplo dessa dificuldade pode ser entendido no relato da empresária Anita Roddick, conforme Laville (2009, p. 193): [desde que a empresa foi introduzida na bolsa, em 1984] somos mais julgados em função dos lucros que geramos e das quantidades de produtos que vendemos – enquanto sempre quisemos sê-lo em função do impacto de nossas ações no mundo, da mudança positiva que geramos. O fato é que esse modelo para a ação gerencial está sendo usado por algumas empresas com relativo sucesso. Uma das empresas que relatou um excelente sucesso com o triple bottom line foi a sorveteria Ben & Jerry’s. De acordo com Laville (2009), os empresários visionários Jerry Greenfield e Ben Cohen incorporaram o triple bottom line na missão da Ben & Jerry’s, cujo caso é relatado a seguir: O triple bottom line traduzido na declaração de missão da Ben & Jerry’s Figura 6 – A missão produto, a missão social e a missão econômica para a Ben & Jerry’s A Ben & Jerry’s existe para desenvolver e implementar um novo conceito de empresa: o da prosperidade compartilhada. Nossa missão é composta por três partes, ligadas umas às outras: A missão produto Fabricar, distribuir e vender sobremesas e produtos gelados inteiramente naturais, da melhor qualidade, com uma grande variedade de sabores inovadores, utilizando produtos lácteos de Vermont (Estados Unidos). 45 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL A missão social Conduzir nossos negócios de forma a reconhecer ativamente o papel central da empresa na sociedade, ao conceber novos meios de melhorar a vida da comunidade como um todo – local, nacional e internacionalmente. A missão econômica Conduzir a empresa sobre uma base financeira saudável de crescimento rentável, que crie valor para nossos acionistas, oportunidades de carreira e recompensa financeira para nossos funcionários. Para concretizar a missão da Ben & Jerry’s, somos guiados por nossa vontade de encontrar novos e criativos meios de atingir nossos três objetivos, com um profundo respeito pelas pessoas – interna e externamente à nossa empresa – e pelas comunidades das quais fazem parte. Fonte: Laville (2009, p. 192). Combinando uma ação de negócios próspera de um ponto de vista financeiro e ao mesmo tempo com uma importante ação social, que incluía parcerias com outras empresas – preferencialmente as que ajudavam a sociedade, como uma confeitaria que reinseria na sociedade desempregados, ex-delinquentes e outras pessoas marginalizadas –, os dois sócios enfrentaram as dificuldades que envolvem essa tripla visão. Como lembra Ben Cohen (apud LAVILLE, 2009, p. 191-192): A maneira pela qual medimos o sucesso da empresa no final do ano é essencial. Se você pesa regulamente, é o progresso medido que faz com que você continue avançando ou, ao contrário, modifique o seu regime para emagrecer mais e fazer com que este seja um sucesso. Em uma empresa, a única maneira de medir o sucesso é contar o dinheiro que sobra no final do ano. E como é a única coisa que medimos, é o único objetivo pelo qual os membros de uma empresa se mobilizam. [...] É por isso que dissemos, na Ben & Jerry’s: se a fonte do problema encontra- se na maneira pela qual medimos nosso sucesso, é aí que devemos agir. Imaginamos, então, ter um duplo balanço de nossa atividade, integrando ao nosso relatório anual, ao lado do relatório financeiro que mede o valor econômico gerado no final do ano, um relatório social e ambiental que mede o valor que agregamos à comunidade. Ao longo da aplicação desse conceito e notando os bons resultados do triple bottom line, Laville (2009) sentiu a falta de um quarto elemento, representando pelo progresso. Esse progresso permeia o triângulo do triple bottom line conforme podemos ver na figura a seguir: 46 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Os lucros As pessoas O planeta O progresso Figura 7 – Os 4 Ps que guiam os esforços das empresas na via do desenvolvimento sustentável Ou seja, além de uma preocupação com o instante atual, também sentiu-se uma necessidade desse mesmo modelo ser aplicado ao planejamento de futuras ações. Entre tantos modelos de gestão com inclinações ambientais que surgiram com a gestão ambiental – que não temos como estudar em sua totalidade neste livro-texto, até porque são muitos, o triple bottom line, em sua simplicidade, como bem disse Ben Cohen, tem como mérito inserir efetivamente a questão ambiental como meta de desempenho nas empresas. Observação Iremos mais adiante estudar os indicadores contábeis de desempenho ambiental propostos por Paulo Paiva. No entanto, o triple bottom line é uma iniciativa voluntária das empresas. A seguir, iremos estudar a ACV – análise do ciclo de vida, que é requerida nas normasinternacionais ambientais ISO 14.000. 3.4.2 ISO 14.000: as ACVs – Avaliações do Ciclo de Vida De acordo com Saramelli (2006, p. 17): A ISO definiu as normas para efetuar a análise de ciclo de vida, estudo no qual todo o processo de elaboração de um produto desde o seu projeto até o descarte final é considerado (análise do berço ao túmulo). É um processo complexo, que exige muitos dados e que sai fora dos limites da empresa. A ACV é utilizada, por exemplo, para comparar, entre processos diferentes, quais terão o menor impacto ao meio ambiente. Chehebe (1997, p. 10), um dos autores mais lembrados no Brasil no que se refere a questões relacionadas com as ACVs, explica que a ACV, dentro da normas ISO 14.000: É uma técnica para avaliação dos aspectos ambientais e dos impactos potenciais associados a um produto compreendendo etapas que vão 47 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL desde a retirada da natureza das matérias-primas elementares que entram no sistema produtivo (berço) à disposição do produto final (túmulo). Chehebe (1997) cita o exemplo de um dono ou administrador de uma rede de shopping centers que, ao visitar outras lojas, percebe que o volume de toalhas de papel usadas nos banheiros é muito alto. As folhas de papel sanitário normalmente são branqueadas e passam por um processo industrial complexo, que utiliza muitos produtos químicos. Em uma análise mais rápida, seria altamente nociva ao meio ambiente porque utiliza madeira, uma matéria-prima de difícil reposição. Assim, a pessoa do nosso exemplo decide utilizar alternativas para as folhas de papel. Poderia, por exemplo, disponibilizar toalhas de pano, ou ainda secadores elétricos de mão. Pela norma ISO 14.040, quando um profissional se encontra nessa situação, deve recorrer a uma AICV (análise do inventário de ciclo de vida) para escolher qual, dentre as alternativas oferecidas, seria a melhor opção. A seguir, inicia-se um estudo extenso, com informações desde o berço (onde o produto começa a ser transformado) até o seu descarte (ou seu túmulo). Nesse exemplo, o administrador pode verificar que as tolhas de pano talvez não sejam uma boa ideia, porque para o seu uso, conforme as regras sanitárias, é necessário que sejam constantemente lavadas e higienizadas, em um processo que também necessita de produtos químicos como detergentes, gasolina para o transporte a uma lavanderia etc. Se escolher por secadores elétricos de mão, eliminar-se-á o uso de produtos químicos e o transporte de resíduos; no entanto, os aparelhos precisam ser fabricados com metais fortes e alimentados por energia elétrica, o que causa impactos ao meio ambiente. Digamos que a energia elétrica seja produzida em usinas hidrelétricas, que usam a força da água para mover turbinas. Uma usina hidrelétrica, normalmente, necessita de lagos artificiais e uma infraestrutura complexa para poder funcionar. Talvez seja melhor destinar o uso de sua energia para computadores e equipamentos hospitalares, e não para banheiros. Além disso, se a energia elétrica for produzida em usinas atômicas, temos um risco muito alto para a sociedade. Segundo Chehebe (1997, p. 9), entende-se que todo produto, não importa de que material seja feito (madeira, vidro, plástico, metal ou qualquer outro elemento), provoca um impacto no meio ambiente, seja em função do seu processo produtivo, das matérias-primas que consome, ou devido ao seu uso ou disposição final. O gestor, dentro de um trabalho consciente, lúcido e racional, deve escolher, dentre as opções que dispõe, aquela que irá gerar menos impacto ao meio ambiente. O esquema básico de uma ACV leva em conta o ciclo de vida de um produto, que é demonstrado de forma artística na figura a seguir: 48 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Consumidores Reciclagem Varejo Distribuição Produção produto Convertedores Processamento matéria prima Outros materiais Matéria prima CompostagemIncineração Aterro Lixão Figura 8 – Ciclo de vida de um produto – “do berço ao túmulo” Chehebe (2002) e Hauschild et al. (2005 apud RESENDE NETO, 2011, p. 29) nos mostram as seguintes etapas de forma técnica, conforme visto a seguir: Passos para a AICV: • Seleção das categorias de impacto e classificação: nesta etapa, cada uma das emissões do inventário é avaliada em função de sua contribuição para as categorias definidas, como o aquecimento global ou a eutrofização dos corpos d’água. • Caracterização: na sequência, o impacto individual de cada emissão é modelado de acordo com seu mecanismo de ação sobre as áreas de proteção e expresso em uma unidade comum às demais contribuições para que os valores possam ser agregados e totalizados. • Normalização: nesta etapa, as diferentes categorias de impacto para uma mesma emissão são trazidas para uma escala comum para que possam ser confrontadas. A normalização permite que se relacionem os impactos desta emissão em relação à poluição total, por exemplo. • Ponderação: na etapa anterior, a compreensão dos resultados é aprimorada; porém, nenhum julgamento final pode ser feito, uma vez que nem todos os impactos são considerados com a 49 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL mesma importância. Neste último passo, os diferentes impactos são ranqueados de acordo com sua importância relativa. Essas informações são esquematizadas graficamente por Chehebe (2002 apud RESENDE NETO, 2011, p. 29): Análise do ciclo de vida Aplicações Desenvolvimento de produtos e melhorias Planejamento estratégico Marketing rotulagem Outros Políticas públicas e regulamentação Interpretação Objetivo e definição do escopo Análise do inventário Avaliação do impacto Figura 9 – Fases e aplicações de uma ACV Ao contrário do triple bottom line que estudamos no capítulo anterior e que tem uma conotação voluntária, sendo usado por empresários que demonstram real preocupação com seu desempenho ambiental, a origem da ACV é conturbada. Chehebe (1997, p. 3) comenta que houve no passado o que denominou de “guerra das ACVs”, em que as empresas utilizaram nesse modelo de gestão, intencionalmente ou não, estudos tendenciosos, levando a público somente aqueles resultados que lhe interessavam. Governos nacionais passaram a usar ou impor técnicas de ACV, algumas absurdas, como o fato de criar barreiras técnicas ao livre comércio. Houve após a Rio Eco 92 uma corrida à utilização dessa ferramenta de gestão como estratégia de marketing. Conforme concordou Chehebe (1997, p. 7), “tornava-se, portanto, urgente e necessária a harmonização internacional daquelas práticas”. Assim, a ISO (International Standard Office) preparou uma norma internacional de uso único, para evitar que as ACVs fossem utilizadas com intenção tendenciosa ou meramente para servir como argumento de venda. A seguir, demonstramos um desses casos. Segundo Chehebe (1997, p. 4-6), um caso clássico de discrepância de resultados, motivada pelo uso da ACV de forma tendenciosa para servir de ferramenta de marketing, foi o estudo Ekvall. O autor nos diz que: Uma comparação detalhada entre dois estudos de ACV sobre embalagens de papelão foi publicada em 1992 pela Ekvall, contratada pelo Swedish Paper and Packaging Group para descobrir as razões por trás dos resultados conflitantes do estudo suíço Ökobilanz von Packstoffen (HABERSATTER, 1990) e o estudo sueco Packaging and the Environment feitopor Chalmers Industriteknik (TILLMAN et al., 1991). Os dois estudos aparentemente sobre o mesmo tipo de embalagem e utilizando-se dos mesmos dados apresentavam consideráveis diferenças nos resultados. 50 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I As principais diferenças: • 30% nas necessidades de energia térmica; • 60% nas necessidades de energia elétrica; • 30% nas emissões de uma forma geral, sendo que algumas chegavam a variar 100%; • 80% nos resíduos sólidos. As principais razões dessas discrepâncias foram identificadas nas formas distintas como foram tratadas as seguintes informações nos modelos: • Diferentes consumos específicos de algumas matérias-primas e de fibras recicladas – o tratamento correto dessas informações levou a correções de 5 a 10% no consumo de energia e nas emissões. • Diferentes participações entre a quantidade de resíduos destinados à incineração e disposição, diferentes alocações da energia recuperada da incineração e a secagem das polpas compradas – o tratamento correto dessas informações levou a correções para a energia de 20 a 30% e para as emissões e geração de resíduos de 30 a 100%. Os estudos consideraram de formas diferentes as fontes de energia. O estudo sueco considerou a produção externa de energia baseada em hidroelétricas e usinas nucleares, mas considerava o dado de energia elétrica apenas de um país. O estudo suíço considerava a energia hidroelétrica como uma média de uma “mistura continental”, também considerava a energia nuclear e ainda uma mistura de combustíveis fósseis. Ambos os estudos consideravam a geração de energia, mas utilizavam dados diferentes. O estudo sueco considerava, ainda, as “emissões evitadas” pela incineração dos resíduos de papel em substituição aos combustíveis fósseis, o que não foi computado no estudo suíço. Estes fatos originaram alterações que variaram de 10 a 50% para a energia e de 20 a 100% para as emissões. Os estudos apresentavam outras diferenças devido aos dados de entrada das unidades de processo. Segundo Chehebe (1997, p. 5-6), “Esse caso ilustra a importância dos dados que entram no modelo e o reflexo da matriz energética considerada no resultado final do estudo. Mostra também a fragilidade do método com referência a possíveis manipulações e torna mais compreensível a razão pela qual as Normas 14.040 e 14.041 preocupam-se tanto com a questão da transparência e dos aspectos éticos do método”. Os engenheiros responsáveis por elaborar ACVs costumam enfrentar sérias dificuldades para a elaboração desses estudos porque não dispõem de dados. Montar uma ACV exige um árduo trabalho de 51 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL pesquisa de dados fora da empresa, junto ao mercado. Para facilitar esse trabalho, utilizam “bancos de dados de ACV” como o Ecoinvent da Suíça (The Centre for Life Cycle Inventories), vinculado a entidades como Competence Centre of the Swiss Federal Institute of Technology Zürich (ETH Zurich) e Lausanne (EPF Lausanne), Paul Scherrer Institute (PSI), Swiss Federal Laboratories for Materials Testing and Research (Empa) e a Swiss Federal Research Station Agroscope Reckenholz-Tänikon (ART). Saiba mais Conheça o site do Ecoinvent: <http://www.ecoinvent.org/>. Esse banco de dados, que pode ser acessado pela internet (requer pagamento de direitos de uso), é um dos mais completos. No Brasil ainda não há um Banco de Dados de Inventários de Ciclo de Vida, mas já forram feitas iniciativas nesse sentido, como o PBACV, o Programa Brasileiro de Avaliação de Ciclo de Vida. Saiba mais Leia sobre o PBACV no trabalho a seguir: CAVALCANTI, E. Programa Brasileiro de Avaliação de Ciclo de Vida – PBACV. [s.d.]. Disponível em: <http://www.mdic.gov.br/arquivos/ dwnl_1283451608.pdf>. Por causa da dificuldade técnica, não é possível realizar atualmente um acompanhamento permanente do inventário do ciclo de vida. Há uma oportunidade formidável para colaboração dos contadores nesse sentido: seriam utilizados dados extraídos das contabilidades das empresas, e não aqueles retirados de bancos de dados. Cada empresa disponibilizaria um conjunto de dados preparados (também) pelo contador, que seguiria junto com a mercadoria no que poderíamos chamar de invoice ou nota fiscal ambiental. Observação Embora atualmente isso seja muito difícil, é possível aos contadores participar do processo de formação das ACVs, fornecendo dados reais emanados dos sistemas contábeis, seja para elaboração de novas ACVs, seja para um acompanhamento gerencial e de desempenho. 52 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I 3.5 Contabilidade Ambiental Expostos esses diversos aspectos da questão ambiental, vamos estudar suas consequências para a Contabilidade. Até este momento você certamente deve ter observado que a questão ambiental empresarial é bastante complexa e envolve muitos interesses que nem sempre vão ao encontro de uma justiça ou do bem comum. Vemos também que há profissionais de outras áreas que mostram claramente a necessidade de haver informações contábeis para a tomada de decisão e principalmente a alocação de custos ambientais aos produtos. Klabin (2011, p. 279) afirma que “o desenvolvimento sustentável está voltado para o futuro. O mercado financeiro tem uma preocupação imediatista. Sistema contábil e relatórios financeiros não levam em conta os riscos ambientais, a depleção dos recursos e as oportunidades que podem ser geradas pelo capital ambiental. O mercado de investimentos toma decisões baseado em informações incompletas”. Observação Entende-se que o capital ambiental são os recursos provindos do meio ambiente. Klabin (2011), ao afirmar que os relatórios contábeis ou financeiros não levam em conta os riscos ambientais e os custos ambientais – o que é afirmado também por outros autores –, estaria correto? Lembre-se que França (2007) diz que as empresas enfrentam pressões para atender às questões ambientais e mesmo assim continuar com preços baixos. Assim, pergunta-se: os contadores precisam mesmo atender a essa necessidade que se impõe? É de fato esse o nosso papel? Isso é o que poderíamos chamar de uma “provocação à classe contábil”. Como avaliar custos ambientais, o entorno de uma empresa e atender aos aspectos sociais a que uma empresa é impelida a agir na sociedade? É possível vencer esse desafio? Profissionais de outras áreas são unânimes em dizer que o assunto é difícil (ou impossível em alguns pontos) de se lidar, e é difícil até para nós, contadores. Ao mesmo tempo, não devemos jamais deixar de estudar soluções e ajudar a implementá-las. Assim, convido você a estudar o trabalho que os contadores vêm realizando na área ambiental, não como algo já consolidado e acabado e nem como uma espécie de cardápio de técnicas que você pode vir a utilizar no futuro, e sim no espírito de Gro Harlem Brudtland, como um apelo a sua imaginação, ao seu talento e a sua capacidade inventiva, de querer ajudar e fazer diferença para a sua profissão e para a sociedade. Vamos começar o nosso estudo revisitando o próprio conceito de Contabilidade: 53 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL 3.5.1 Conceito de Contabilidade Ambiental O trabalho da Contabilidade é manter o capitalismo honesto. Hans Hoogervorst (Presidente da IASB) , IAAER Conference2012, Amsterdã – Holanda (SAYED; SAMEER, 2013). Iudícibus et al. (2010, p. 1) traz a seguinte definição para Contabilidade: A Contabilidade, na qualidade de ciência social aplicada, com metodologia especialmente concebida para captar, registrar, acumular, resumir e interpretar os fenômenos que afetam as situações patrimoniais, financeiras e econômicas de qualquer ente, seja pessoa física, entidade de finalidades não lucrativas, empresa, seja mesmo pessoa de Direito Público, tais como Estado, Município, União, Autarquia etc., tem um campo de atuação muito amplo. Outro autor brasileiro, Franco (1996, p. 21), já traz a seguinte definição: A ciência que estuda os fenômenos ocorridos no patrimônio das entidades, mediante o registro, a classificação, a demonstração expositiva, a análise e a interpretação desses fatos, com o fim de oferecer informações e orientação – necessárias à tomada de decisão – sobre a composição do patrimônio, suas variações e o resultado econômico decorrente da gestão da riqueza patrimonial [...]. A Contabilidade estuda e controla o patrimônio dessas entidades, registrando todos os fatos nele ocorridos, para demonstrar e interpretar, a qualquer momento, seu estado e suas variações. Vamos analisar agora a definição de um autor norte-americano. Para Griffin (2012, p. 3-4), Contabilidade é o registro sistemático, o relato e a análise das transações financeiras de uma empresa. No entanto, além do papel crítico que desempenha como um sistema de informação financeira, ela fornece muito do vocabulário usado nos mercados financeiros. A Contabilidade também oferece os dados necessários para executar uma variedade de aplicações financeiras críticas, incluindo o planejamento financeiro, a análise de demonstrações financeiras e a análise de investimento em ativos financeiros. Portanto, há uma ligação muito forte entre a Contabilidade e finanças. A Contabilidade nos permite acompanhar o que acontece nas empresas (e em organizações sem fins lucrativas e no governo). Comparando-se essas três definições de Contabilidade, vemos que Griffin ressalta o relacionamento financeiro da Contabilidade. Todos os autores trazem um conceito que nos deixa 54 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I claro que a Contabilidade possui uma metodologia e que seu objetivo é o de informar aos usuários; no entanto, seria possível dizer que a Contabilidade não teria um relacionamento apenas com dados financeiros, mas também com dados físicos? Quantidade de matéria-prima, por exemplo? Podemos destacar o seguinte trecho da definição de Iudícibus (2010, p.1): “para captar, registrar, acumular, resumir e interpretar os fenômenos que afetam as situações patrimoniais, financeiras e econômicas de qualquer ente”. Vemos aqui que a Contabilidade também tem um vínculo com as situações econômicas de um ente e que ela visa à interpretação e ao uso por usuários. É o que nos diz Iudícibus (apud MARION, 2009, p. 61): O objetivo principal da Contabilidade é prover seus usuários de informações úteis para a tomada de decisões. Em outras palavras, a função principal da Contabilidade reside em ser instrumento útil para a tomada de decisões pelo usuário, tendo em vista a entidade. Indo ao encontro dessa definição que coloca a Contabilidade como um auxiliar a usuários, a IFAC (2004, p. 14)1, oferece a seguinte abordagem de Contabilidade Gerencial: Não há uma definição universalmente aceita do que é EMA – Environmental Management Accountig ou Contabilidade Gerencial Ambiental. De acordo com o pronunciamento da IFAC Conceitos de Contabilidade Gerencial, publicado em 1998, parágrafo 1, EMA é “a gestão do desempenho ambiental e econômico por meio do desenvolvimento e da implementação de sistemas e práticas contábeis apropriados para o meio ambiente. Enquanto essa matéria inclui demonstrações e auditoria, em algumas empresas, Contabilidade Gerencial Ambiental envolve custeio do ciclo de vida, Contabilidade do custo pleno, medição de benefícios e planejamento estratégico para a Administração Gerencial Ambiental. Dentro dessa definição, a IFAC (2004, p. 7) nos esclarece algo que pode ser um tanto esquisito ou até inquietante: a Contabilidade também deve lidar com dados físicos. Conforme vemos a seguir: EMA é amplamente definida como a identificação, coleta, análise e o uso de dois tipos de informação para a tomada de decisões internas: • informação física sobre o uso, fluxos e destinações da energia, água e materiais (incluindo resíduos) e • informação monetária sobre os custos relacionados ao meio ambiente, receitas e economias. 1 Os textos originais da IFAC estão em inglês e foram traduzidos livremente pelos autores deste livro-texto. 55 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Quanto a esse ponto, a IFAC (2004, p. 7) enfatiza que: Para estimar e medir os custos corretamente, uma organização precisa coletar não apenas dados monetários, mas também dados não monetários sobre o uso dos materiais, horas de trabalho e outros direcionadores de custos. EMA dá uma ênfase particular nos custos relacionados com os materiais porque: (1) os custos das compras de materiais são os maiores direcionadores de custos na maioria das organizações e (2) o uso de energia, água e materiais, bem como a geração de água e emissões, são relatados como os maiores impactos que as organizações geram aos seus ambientes. Observação Aprendemos que na Contabilidade ambiental não devemos estranhar a preparação, divulgação e uso de demonstrativos de natureza contábil com dados físicos. Alguns poderão dizer até que “não se trata de Contabilidade”. Não dê ouvidos a isso. Sob esse aspecto, o que seria então a Contabilidade Ambiental? Vamos estudar esse conceito, sempre lembrando que conforme o ilustre contador Prof. Dr. Antônio Sá, em sua aula magna proferida no Congresso Brasileiro de Contabilidade em Santos-SP em 2004, não existem contabilidades particulares, o que existem são contabilidades aplicadas a algum assunto. A Contabilidade em si é sempre a mesma. O que seria então a Contabilidade aplicada ao meio ambiente? Ribeiro (2005, p. 45) nos esclarece que: Esta não é uma nova ciência, mas sim uma segmentação da tradicional já amplamente conhecida. Adaptando o objetivo da última, pode-se definir como objetivo da Contabilidade ambiental: identificar, mensurar e esclarecer os eventos e transações econômico-financeiros que estejam relacionadas com a proteção, preservação e recuperação ambiental, ocorridos em um determinado período, visando à evidenciação da situação patrimonial de uma entidade. Observe nessa definição de Ribeiro (2005, p. 45) que o autor tem a preocupação de não definir Contabilidade Ambiental como uma nova ciência que realiza o mesmo que a Contabilidade faz para a empresa, porém, aplicada ao meio ambiente. Gehm Da Costa (2012) comenta que a Contabilidade Ambiental surgiu no ano de 1970, como uma preocupação às questões ambientais e cita Maior (2001, p. 1) que traz como fomentadoras da Contabilidade Ambiental a crise do petróleo de 1974 e a divulgação do relatório Limites de Crescimento. 56 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Observação Já estudamos o surgimento do relatório Limites de Crescimento anteriormente. Paiva (2003, p. 17) conceituou Contabilidade Ambiental como “a atividade de identificação de dados e registro de eventos ambientais, processamento e geração de informações que subsidiem ousuário servindo como parâmetro em suas tomadas de decisões”. Esse conceito está muito próximo daquele apresentado por Christophe (apud Paiva, 2003, p. 17), que comenta que Contabilidade Ambiental é “um sistema destinado a dar informações sobre a rarefação dos elementos naturais, engedrado pelas atividades das empresas e sobre as medidas tomadas para evitar esta rarefação”. Gehm Da Costa (2012, p. 6) conceitua Contabilidade Ambiental como “o estudo do patrimônio ambiental, bens, direitos e obrigações ambientais das entidades”. Sobre os objetivos da Contabilidade Ambiental, Antunes (2000, p. 6) afirma que ela: [...] tem por objetivo registrar e controlar toda e qualquer atividade desenvolvida ou em desenvolvimento, ocorrida ou a incorrer, não importando se em maior ou menor relevância, desde que mensurável em moeda, que cause ou possa vir a causar qualquer ação destinada a amenizar e/ou extinguir tais danos, devendo ser registrada contabilmente em contas contábeis específicas, na data de sua ocorrência, em consonância com o disposto nos Princípios Fundamentais de Contabilidade – Resolução 759/93 do Conselho Federal de Contabilidade. Observe que há algumas variações de entendimento sobre Contabilidade Ambiental entre os autores. Nesse sentido, a EPA – Environmental Protection Agency (2002 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 44), conforme o quadro a seguir, ressalta três diferentes tipos de Contabilidade Ambiental. Quadro 5 – Tipos de Contabilidade Ambiental Tipo de Contabilidade Ambiental Enfoque Dirigido a usuários Contabilidade nacional Macroeconomia Externos Contabilidade financeira A empresa Externos Contabilidade Gerencial ou de custos A empresa, departamentos, linha de produção etc. Internos Fonte: Gehm da Costa (2012, p. 44). 57 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Observação A Contabilidade Ambiental não está relacionada com usuários internos ou externos, mas a todos. No entanto, logo surge uma dúvida: por que uma empresa precisaria de Contabilidade Ambiental? Em resposta a essa pergunta, Kraemer (2004, p. 3) cita três motivos: • Razão de gestão interna: está relacionada com uma ativa gestão ambiental e seu controle. • Exigências legais: a crescente exigência legal e normativa pode obrigar os diretores a controlar mais seus riscos ambientais, sob pena de multas. • Demanda de partícipes: a empresa está submetida cada vez mais a pressões internas e externas. Essas demandas podem ser dos empregados, acionistas, administração pública, clientes, bancos, investidores, organizações ecológicas, seguradoras e comunidade local. Conforme comentado anteriormente, os contadores costumam ter uma abordagem mais pragmática da Contabilidade, trabalhando com mais efetividade nos aspectos que são de fato utilizados pelos usuários para suas decisões. É muito comum alguns de nossos colegas advogados se apresentarem como “advogados ambientais”. Embora não seja nenhuma novidade, ver um “contador ambiental” é bem raro. Talvez, em futuro bem próximo, veremos contadores ambientais com a mesma naturalidade com que vemos contadores de custos, gerenciais ou controllers. No entanto, que tipo de trabalho seria desenvolvido pela Contabilidade Ambiental? Lembrando novamente da Contabilidade europeia, em particular da alemã, o “pai” da contabilidade de custos alemã Eugen Schmalenbach, em seu famoso livro O Balanço Dinâmico, de 19552, assim falou sobre o processo de apuração do resultado: A nossa ideia de resultados precisa começar pela natureza de um negócio. O negócio é uma parte da totalidade da vida econômica a que é chamado a atuar para fazer parte de uma divisão de tarefas da economia como um todo, como uma parte da economia que recebe matérias primas e serviços de vários tipos e retorna para a economia mercadorias ou serviços. Nesse 2 Na realidade, 1955 é a última atualização desse livro, cuja primeira edição data de 1918. A tradução foi realizada de forma livre do inglês pelo autores deste livro-texto. 58 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I processo, deve produzir um valor adicionado, senão o negocio não estará contribuindo para a economia como um todo – estará, ao contrario, consumindo-a. Aquilo que é pego da economia geral é a despesa do negócio; aquilo que contribui para a economia geral em mercadorias, serviços ou outros atos é a receita do negócio. O resultado é a diferença entre receitas e despesas; sua determinação é a tarefa da Contabilidade de negócios (SCHMALENBACH, 1955, p. 39). Analisando o pensamento de Schmalenbach (1955, p. 39), vemos a seguinte frase: “Aquilo que é pego da economia geral é a despesa do negócio”. Para esse autor, despesas seriam aquilo que a empresa irá buscar no mercado para que suas atividades possam se tornar uma realidade. Continuando o seu pensamento, Schmalenbach (1955, p. 39) diz que “Aquilo que contribui para a economia geral em mercadorias, serviços ou outros atos é a receita do negócio”. Schmalenbach mostra aqui uma preocupação com a função social da empresa. Receitas não seriam o que a empresa vende ou fatura no mercado, obtendo remuneração pelos seus serviços prestados, mas aquilo com que ela contribuiu para com a sociedade que lhe deu os recursos de que necessitava. O autor (1955, p. 39) nos reforça esse entendimento dizendo que “O resultado é a diferença entre receitas e despesas” e apresenta o papel específico do contador ao afirmar que “sua determinação [do resultado empresarial] é a tarefa da Contabilidade de negócios” (SCHMALENBACH, 1955, p. 39). Sá (2004) comentou que devido ao fato de ter formação em Economia, Eugen Schmalenbach não foi muito considerado por muitos contadores. Mas a contribuição desse autor para a Contabilidade é inegável. Se Schmalenbach era economista, tornou-se um contador. Observação Muitos dos conceitos de Contabilidade de Eugen Schmalenbach, incluindo o de “centro de lucro” são usados atualmente pelos modernos sistemas de gestão empresarial e sistemas informatizados tipo ERP. Considerando os conceitos de sustentabilidade empresarial estudados até agora, essa definição de Eugen Schmalenbach nos dá a certeza de que a própria Contabilidade, sem nenhuma alteração ou adaptação, já é um poderoso instrumento de ação gerencial ambiental. Uma simples e tradicional demonstração dos resultados do exercício, desde que formada sob o rigor das normas e princípios contábeis geralmente aceitos, nos dá a possibilidade de entender a eficiência da empresa, inclusive a ambiental. Se uma empresa, em um período específico, gastar mais energia e recursos naturais do que é necessário ou útil para atender a sua função na sociedade e acaba obtendo um prejuízo, é correto dizer que algo precisa ser feito para que ela alcance o lucro. 59 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Para alcançar o lucro (ou um bom resultado), a empresa terá que gastar apenas os recursos necessários para prestar os serviços de que o cliente está disposto a pagar. Quanto mais conseguir economizar, melhor. A própria Contabilidade é, portanto, um instrumento de gestão ambiental. Lembrete Lembrando da definição de França (2007) e Hussein (2002) – gerar lucro, vencer a concorrência e satisfazer os clientes –, se impõe cada vez mais uma necessidade de que isso seja feito com profundo respeito socioambiental. É interessante notar como já na metade do século passado, sem a conotação atual que temos sobre a sustentabilidadeempresarial, Eugen Schmalenbach tinha uma visão do resultado empresarial sob um ponto de vista social. No entanto, essas definições simples podem não satisfazer e geralmente não satisfazem a algumas necessidades específicas dos usuários. Quando um usuário necessita conhecer o desempenho ambiental de uma empresa, acaba por não encontrar essa informação e poderá deixar de tomar uma decisão importante. Surge então uma necessidade de “evidenciação contábil ambiental”. Conforme nos ensina Braga e Rodrigues Pinho (2010, p. 67), a “evidenciação” é o instrumento por meio do qual se torna possível realizar análises quanto aos resultados obtidos pela entidade. Os autores citam Hendriksen e Breda (1999, p. 512), que dizem que: A divulgação representa a “veiculação de informação financeira a respeito de uma empresa dentro de um relatório financeiro, geralmente o relatório anual”. Essa visão, atualmente, é restrita porque a divulgação de informação contábil torna-se cada dia mais abrangente nos relatórios. Atualmente, os usuários desejam obter informações qualitativas e quantitativas, e estas podem ser do tipo: monetárias e não monetárias. Assim, Braga e Rodrigues Pinho (2010, p. 67-69) nos lembram que o contador deve realizar a seguinte pergunta: “quem serão os interessados nas informações a serem divulgadas?”. Ao responder a essa pergunta, o contador deve atender ao disposto no pronunciamento conceitual básico e montar demonstrações com algumas características qualitativas que lhe deixem relevantes a esses interessados. Essas características são as seguintes: • compreensibilidade; • benefícios e custos; • relevância; • confiabilidade; • comparabilidade; • materialidade. 60 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Nesse esforço, quanto a informações de cunho ambiental cada vez mais requeridas pelos usuários, inclusive quanto aos efeitos ambientais, Braga e Rodrigues Pinho (2010, p. 67-69) dizem que é cada vez maior a procura por balanços sociais. Para atender a essa expectativa, é necessário uma reflexão sobre: 1) o que; 2) como; 3) quando; 4) onde evidenciar. Assim, realiza-se outra pergunta, de acordo com Hendriksen e Breda (1999, p. 524): como evidenciar as informações ambientais? Cada contador deverá realizar o trabalho de verificar o que seria o mais relevante para informar aos usuários. Por exemplo, Braga e Rodrigues Pinho (2010, p. 70) sugerem que sejam demonstradas as seguintes informações nas notas explicativas: • medidas preventivas utilizadas para redução ou eliminação de impactos ambientais; • capacitação e orientação profissional interna visando à qualidade da gestão ambiental da empresa; • certificação de normas ambientais; • obtenção de selos específicos de qualidade ambiental; • informações qualitativas e quantitativas não monetárias sobre impactos ambientais causas pela entidade; • investimento em P&D; • passivos ambientais etc. Assim, faz-se necessário em alguns momentos evidenciar aspectos exclusivos ligados à gestão ambiental da empresa. Iremos estudar na sequência os elementos patrimoniais e de resultado ambientais que auxiliam a deixar as demonstrações financeiras mais relevantes. 3.5.2 Elementos patrimoniais e de resultado ambientais — Como fazer o controle empresarial, Maria Pia? (pergunta de Ronaldo Costa Couto à filha de Francisco Matarazzo). — Controle exige olho! Por exemplo: meu pai dizia que nas unidades se controlava o gasto por intermédio do vapor. Excesso de vapor no ar, perda 61 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL de dinheiro. A caldeira era a base do controle econômico da unidade. Se tinha vapor demais, era porque as máquinas não estavam reguladas ou então desreguladas de propósito. Controle pelo consumo de energia e de água. Uma torneirinha pingando? Encrenca certa com o meu pai. Significava desleixo e desperdício (COSTA COUTO, 2004, p. 240-241). Os contadores que começaram a lidar com os aspectos ambientais logo se viram em uma grande dificuldade. O que é algo ambiental? Mais do que isso, quais elementos do patrimônio seriam ambientais? E quais elementos ambientais teríamos no resultado das empresas? Silva et al. (2010) ressaltam que a classificação dos elementos contábeis do meio ambiente deve levar em conta os fundamentos científicos da Teoria Contábil, separando-os em contas patrimoniais e de resultado. É o que faremos a partir de agora. 3.5.2.1 Ativos ambientais Silva et al. (2010, p. 37) citam Hendriksen e Breda (1999), que identificam três características essenciais dos ativos: “um benefício futuro provável, posse, propriedade e/ou controle e fator de exclusão”. Assim, o conceito de ativo meio ambiente será, segundo esses autores, “benefícios econômicos, de natureza ambiental, futuros e prováveis, obtidos ou controlados por uma dada entidade em consequência de prevenção, recuperação, monitoramento e reciclagem”. A grande dificuldade para o contador é definir se de fato um ativo teria características nitidamente ambientais ou se seria um ativo regular, destinado às operações de rotina da empresa. E quando um mesmo ativo também tem características ambientais? Por exemplo, uma máquina pode ser substituída por outra com características ambientalmente mais saudáveis. Edwards (2005) nos mostra que na arquitetura também há uma forte preocupação com o meio ambiente e com a proposição de projetos arquitetônicos – seja para uso residencial, comercial ou industrial – concebidos inteiramente para serem ambientalmente sustentáveis. De fato, estima-se que no futuro muitos edifícios exportarão energia ao invés de importar como costumava ocorrer no passado. Os avanços nas tecnologias de geração de eletricidade a partir de painéis fotovoltaicos e de microgeradores eólicos indicam que as edificações contribuirão de forma significativa para suprir as necessidades nacionais de energia durante o próximo século (EDWARDS, 2005, p. 89). Partindo de modelos de gestão ambiental como o Triple Bottom Line e a ACV, da ISO 14.000, que estudamos anteriormente, e as orientações emanadas pelos clamores dos ambientalistas e das conferências da ONU, principalmente a Cúpula da Terra, organizada em 1992 no Rio de Janeiro, os arquitetos desenvolveram o modelo de 3 Es e 3 Rs mostrado nas figuras a seguir (que muito se assemelha ao modelo de Triple Bottom Line): 62 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Energia Ecologia Entorno Reduzir Respeitar Reparar Figura 10 – Os 3 Es e os 3 Rs Energia • Energia incorporada • Combustíveis fósseis • Renovável: — eólica — solar — geotérmica Entorno • Terra • Água • Produção de alimentos • Qualidade do ar • Saúde global • Saúde individual Ecologia • Análise do ciclo de vida • Biodiversidade • Florestas tropicais • Reciclagem • Outras espécies • Criação de habitats Figura 11 – Três perspectivas do projeto ecológico: energia, entorno e ecologia Esses modelos das três perspectivas, como aponta Edwards (2005, p. 163), muito se assemelha ao Triângulo de Vitrúvio, um triângulo descrito pelo arquiteto e engenheiro Marcos Vitrúvio Polião, que viveu no século I a.C. e descrevia que uma obra arquitetônica deveria ter três princípios arquiteturais, utilitas, venustas e firmitas (utilidade, beleza e solidez) – o que inaugurou a base da Arquitetura Clássica, sendo que esses conceitos são utilizados até hoje. Foi utilizado também por Leonardo da Vinci na famosa ilustração do HomemVitruviano. Firmitas (solidez) Utilitas (utilidade) Vetustas (beleza) Econômico Desenvolvimento sustentável Social Ambiental Figura 12 – Semelhanças entre o triângulo de Vitrúvio e o do desenvolvimento sustentável 63 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL A recomendação é de que os engenheiros e arquitetos, com o fim de construir edificações que sejam belas, úteis e sólidas e ao mesmo tempo econômicas, sociais e ambientalmente saudáveis, como vemos em Edwards (2005, p. 166-167), “[...] evitem especificidades funcionais, priorizem iluminação e ventilação naturais, visem à simplicidade operacional e à durabilidade, maximizem o uso de energia renovável e possibilitem a substituição de partes”. Devem ser realizados projetos como o do supermercado Sainsbury, em Greenwich, no Reino Unido, que conforme Edwards (2005, p. 74) “É um exemplo de projeto ecológico. Os aspectos ecológicos foram abordados desde a primeira fase do projeto, possibilitando sua integração prematuramente”. A seguir, uma foto do supermercado e uma ilustração com seu projeto, que foi realizado pelo escritório arquitetônico Chetwood Architects: Figura 13 – Foto do supermercado Sainsbury, em Greenwich, no Reino Unido Cobertura ondulada com shelds impede a incidência direta da luz solar Fachada frontal sul com brise-soleil para evitar o superaquecimento Acesso ao supermercado A luz do norte, que incide sobre a área de vendas, é controlada por venezianas automáticas Ventilação do mezanino Entrada de luz do norte Pátio de serviço Exaustão por meio de reguladores controlados por computador A cobertura lisa reduz a perda de calor causada pela turbulência A intensidade da iluminação artificial muda conforme a iluminação natual disponível Sistema de aquecimento e refrigeração sob o piso Tomada de ar externo por dutos subterrâneos de grande diâmetro escavados no talude Fachadas laterais semienterradas Figura 14 – Projeto do supermercado Sainsbury, em Greenwich, no Reino Unido, de autoria do escritório arquitetônico Chetwood Architects 64 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Esse é um exemplo de ativo que talvez, de acordo com o julgamento do contador, não venha a ser considerado um “ativo ambiental”, uma vez que não se restringe à operacionalização com o meio ambiente, indo ao encontro das necessidades ambientais. Nesse sentido, Silva et al. (2010, p. 37) orientam que “deve-se buscar o objetivo principal quanto da aquisição da máquina, o que se torna subjetivo e incompatível com a Contabilidade tradicional, que tem como elemento basilar a objetividade. Na concepção dessa pesquisa, considera-se como ativo meio ambiente quando a sua utilidade restringir-se à operacionalização do meio ambiente”. A seguir, reproduz-se um quadro com uma análise comparativa conceitual sobre essas atividades dos ativos quanto ao meio ambiente: Quadro 6 – Atividades meio ambiente, conceitos, análise comparativa Atividade Ferreira (2003) Ribeiro (2004) Monitoramento (p. 50) São as ações específicas com o objetivo de evitar ou proteger o meio ambiente de qualquer agressão causada pelo homem ou, até mesmo, causada pela própria natureza. (p. 778) São as medidas que podem ser aplicadas aos princípios da concepção, de construção e de controle, de modo a prevenir, reduzir ou eliminar os eventuais efeitos negativos do empreendimento e, se possível, melhorar a qualidade do meio ambiente. Recuperação (p. 50) Refere-se às ações de controle e acompanhamento dos níveis de poluição e dos programas de prevenção e, em alguns casos, também dos programas de recuperação ambiental. (p. 780) Está previsto no EIA e consiste na coleta de dados e na sua avaliação, tendo como objetivos: determinar a eficácia das medidas de proteção; desenvolver a capacidade de melhor prever impactos ambientais, por meio da verificação da relação entre os impactos previstos e os reais, para subsidiar futuros projetos semelhantes; e melhorar a gestão do projeto e de seus programas conexos, a fim de proteger o meio ambiente. Reciclagem (p. 49) São as ações que pretendam sanear os danos pela poluição que, muitas vezes, deixam o meio ambiente em condições melhores do que ele se encontrava antes da ação poluidora. Nos casos em que isso não é possível, a recuperação busca, pelo menos, melhorar as condições ambientais atuais. (p. 779) Quando, após esgotadas as medidas preventivas e mitigadoras, ainda restem impactos ambientais negativos em decorrências do projetos. Prevenção (p. 48) Todas as ações cujo objetivo seja o de permitir a reutilização de materiais e/ou produtos, de modo a estender seu ciclo de vida e diminuir os problemas com o depósito de dejetos ou de emissão de poluentes. Não apresenta conceituação. Fonte: Silva et al. (2010, p. 39). 65 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL 3.5.2.2 Passivos ambientais Silva et al. (2010, p. 43) nos trazem a definição de passivos, conforme a FASB (Financial Accounting Standard Boards), como vemos em Hendriksen (1999, p. 283): Sacrifícios futuros prováveis de benefícios econômicos decorrentes de obrigações presentes de uma dada entidade quanto à transferência de ativos ou prestação de serviços a outras entidades no futuro, em consequência de transações ou eventos passados. Em comparação, Silva et al. (2010, p. 43) nos trazem a definição de passivos ambientais, conforme Ribeiro e Lisboa (2000, p. 9): Passivos ambientais são obrigações que exigirão a entrega de ativos ou a prestação de serviços em um momento futuro, em decorrência das transações passadas ou presentes e que envolveram a empresa e o meio ambiente. Com essas definições, Silva et al. (2010, p. 44) alcançaram a seguinte definição de passivos ambientais: Exigibilidades originadas por um fato gerador passado ou presente, decorrente de uma dívida efetiva ou de um ato futuro relacionado ao meio ambiente, que exigirá em um prazo determinado ou determinável a entrega de ativos ou a prestação de serviços em um determinado momento futuro. Junto a essa discussão sobre o passivo ambiental, como é sabido para os ativos ambientais, é difícil de avaliar danos ambientais eventualmente cometidos pela empresa. Para isso, Silva et al. (2010, p. 44) reforçam que a Contabilidade, sozinha, não tem condições de dar todas as respostas, sendo necessário o envolvimento de várias ciências como a Economia, a Ciência do Direito e a Gestão Ambiental. Nesse sentido, as autoras trazem a definição de Mota (2003, p. 91) para a proposição de valorar ativos naturais que atinge três enfoques normalmente usados nos argumentos de formulação de políticas públicas ambientais: • Valores referentes aos sítios culturais, de significação histórica ou religiosa, cujas características estéticas naturais formam um cenário valioso para a sociedade. • Valores intrínsecos dos ecossistemas, cuja finalidade é regular os estoques de recursos da natureza, tais como água, pescado e animais, de modo a resguardá-los para uso futuro. • Valores direcionados para a conservação e preservação das características da diversidade biológica. Sempre que o contador tiver dúvidas quanto ao valor de um passivo ambiental, deve realizar estimativas, como faz em outras ocasiões, sempre respeitando os princípios geralmente aceitosde Contabilidade. 66 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I 3.5.2.3 Patrimônio líquido ambiental Para o patrimônio líquido ambiental, Silva et al. (2010, p. 52) citam que: [...] a empresa pode destinar uma parte do seu capital social para aplicação em meio ambiente nas atividades de prevenção, recuperação, monitoramento e reciclagem. Além disso, podem-se constituir reservas para contingências ambientais e doações e subvenções. Por exemplo, se houver previsão de excesso de chuvas ou uma cheia em um rio e houver o risco de que equipamentos ou outros ativos venham a poluir ou causar consequências danosas ao meio ambiente, será possível contabilizar provisões, de acordo com os princípios contábeis geralmente aceitos. Silva et al. (2010, p. 53) citam ainda que o contador pode realizar uma apuração exclusiva para as contas de resultado ambientais, apontando na conta lucros meio ambiente ou prejuízos acumulados meio ambiente o resultado das operações com despesas e receitas, ganhos e perdas para o meio ambiente, o que já nos dá ensejo para discutir esses conceitos a seguir. 3.5.2.4 Receitas, custos e despesas ambientais Iudícibus (2004, p. 176 apud SILVA et al., 2010, p. 54) considera que “a classificação de receitas, despesas, ganhos e perdas é muito complexa” porque trazem uma necessidade de distinção entre o que é atividade operacional principal de uma empresa e sua atividade secundária. Para melhor demonstrar esse aspecto, as autoras apresentam o seguinte quadro: Quadro 7 – Caráter de terminologias referentes a receitas, despesas, ganhos e perdas Caráter Usualidade (corrente): o evento ocorre com frequência na entidade. Não usualidade (não corrente): o evento ocorre com pouca frequência na entidade. Recorrência: o evento ocorre e poderá ocorrer novamente na entidade. Não recorrência: o evento ocorre e passará a não mais ocorrer na entidade. Operacionalidade: o evento está vinculado à atividade operacional da entidade. Não operacionalidade: o evento não está vinculado à atividade operacional. Fonte: Silva et al. (2010, p. 54). Silva et al. (2010, p. 55) consideram que receitas operacionais ambientais são “provenientes dos eventos ou transações econômicas, financeiras e ambientais relativas às atividades ambientais”, o mesmo ocorrendo com os custos com o meio ambiente, de acordo com o conceito da contabilidade de custos. 67 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Para despesas ambientais, Silva et al. (2010, p. 62) citam Ribeiro (1997, p. 17), que considera despesas ambientais “todos os gastos envolvidos com o gerenciamento ambiental, consumidos no período e incorridos na área administrativa”. Dizem também que [...] assim como os custos, as despesas ambientais não ocorrem em um único departamento da empresa, mas em vários departamentos, como departamento de compras e departamento financeiro, entre outros, necessários para a execução dos eventos ou transações relativas às atividades necessárias à gestão ambiental da entidade. Tratando- se de reconhecimento de despesas, estas acontecem no momento da ocorrência do fato gerador das atividades de recuperação, prevenção, monitoramento e reciclagem. Em complemento, Paiva (2003, p. 27) apresenta um interessante esquema, com sugestões de como os gastos ambientais podem ser identificados e classificados: Gastos ambientais Formas de dedução/recuperação Irremediáveis Prevenção Remediação Investimentos de curto prazo: Materiais diretos e outros insumos Despesas treinamento, depreciação, manutenção, outros Gastos obrigatórios com recuperação do meio ambiente Investtimentos e despesas Perda por assuntos de passivos Pagamentos de multas e/outras penalidades Perda por desvalorização de ativos Gastos de períodos anteriores Investimentos permanentes: imobilizado e diferido Custos diretos e indiretos de fabricação => Custos dos produtos acabados Resultado do exercício Resultado do exercício Resultado do exercício Redução do patrimônio: irrecuperáveis Redução do patrimônio: irrecuperáveis R E P U T A Ç Ã O D A E M P R E S A Figura 15 – Esquema dos gastos ambientais 68 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Com essas definições, o contador irá realizar um trabalho de classificação dos elementos patrimoniais e de resultado. A seguir, vamos estudar alguns exemplos de lançamentos contábeis nos livros contábeis das empresas. 3.5.3 Escrituração contábil de operações com elementos patrimoniais e de resultado ambientais Com base na interessante pesquisa de Gehm da Costa (2012), vamos analisar alguns lançamentos contábeis tipicamente relacionados com elementos patrimoniais e de resultado ambientais. A seguir, vemos um lançamento contábil envolvendo ativo ambiental, sendo o fato contábil ambiental a aquisição de material reciclado: Quadro 8 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Estoque de matéria-prima reciclada C Caixa/banco ou obrigações Histórico Aquisição de matéria-prima reciclada, conforme NF 1634 400,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 59). Vemos agora um lançamento contábil envolvendo investimento ambiental, no ativo permanente, sendo o fato contábil ambiental os gastos realizados com o objetivo de florestamento de áreas degradadas: Quadro 9 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Investimento ambiental/florestamento e reflorestamento C Caixa/banco ou obrigações Histórico Valor referente a gastos com aquisição de mudas de caneleiro para serem utilizadas no reflorestamento de 1.000 ha conforme NF 65 3.000,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 59). A seguir, dois lançamentos contábeis envolvendo ativo imobilizado ambiental: 69 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL • Fato contábil ambiental: aquisição de filtros antipoluentes por quaisquer outros equipamentos, com o objetivo de reduzir as emissões de gases tóxicos ou outra poluição ambiental pela empresa. Quadro 10 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Imobilizado ambiental/equipamentos e filtros ambientais C Caixa/banco ou obrigações Histórico Aquisição de equipamentos ambientais a serem utilizados na recuperação/preservação ambiental, conforme NF 87 14.000,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 61). • Fato contábil ambiental: plantações realizadas com o objetivo de florestamento para ser utilizado como matéria-prima no processo produtivo, como a plantação de eucalipto para ser utilizado como matéria-prima de celulose. Quadro 11 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Imobilizado ambiental/florestamento e reflorestamento C Caixa/banco ou obrigações Histórico Gastos com a aquisição de mudas para florestamento de eucalipto a ser utilizado no processo produtivo, conforme NF 634 180,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 61). Vejamos agora um lançamento contábil envolvendo depreciação acumulada ambiental. Fato contábil ambiental: valor da depreciação de bens ambientais, sendo que a empresa utiliza para o cálculo da depreciação o método de cotas constantes. Quadro 12 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C ContaValor D Despesa com depreciação ambiental C Depreciação acumulada ambiental Histórico Valor referente à depreciação acumulada pelo método das cotas constantes 1.400,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 63). 70 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I A seguir, um lançamento contábil envolvendo exaustão acumulada ambiental. Fato contábil ambiental: valor da exaustão do florestamento ou reflorestamento decorrente de exploração, sendo que a empresa utiliza o método de unidades extraídas. Quadro 13 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Despesa com exaustão ambiental C Exaustão acumulada ambiental Histórico Valor referente à depreciação acumulada pelo método de unidades extraídas 1.800,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 64). Vejamos agora um lançamento contábil envolvendo passivo ambiental. Fato contábil ambiental: notificação para que a empresa recupere o solo degradado. O valor de R$ 21.000,00 foi estabelecido por meio de critérios de valoração ambientais aceitos. A empresa fará, em primeiro lugar, a reversão da provisão anteriormente constituída. Quadro 14 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Passivo ambiental/provisão para danos ambientais C Passivo ambiental/degradação ambiental Histórico Valor referente à reversão da provisão para danos ambientais constituída em virtude da definição do valor correto da degradação, conforme valoração calculada pelo método X 6.000,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 74). A seguir, dois lançamentos contábeis envolvendo degradações ambientais (passivo ambiental). Segundo Gehm da Costa (2012, p. 75), degradações ambientais são “passivos em decorrência da atividade da empresa, que causam impactos negativos ao meio ambiente”. O autor comenta que as degradações ambientais são talvez o aspecto mais visível dos impactos que uma empresa provoca no meio ambiente, sendo por isso um dos tipos de passivos mais divulgados pela mídia, muitas vezes de forma espetaculosa, às vezes sem um embasamento científico para tal. Uma degradação ambiental, segundo ele, “decorre do impacto que a atividade da entidade causa para o solo, ar ou água. Por isso, é visível, sendo possível muitas vezes gravar vídeos e/ou fotos” (GEHM DA COSTA, 2012, p. 75). 71 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Importante comentar ainda que esse tipo de passivo não é exigível (não até, por exemplo, uma autoridade multar a empresa e/ou exigir que se repare o meio ambiente); assim como a depreciação, é uma despesa que não tem correspondente de caixa. Ao constatar que houve uma degradação ambiental, o contador tem o dever, de acordo com os princípios geralmente aceitos de Contabilidade, de reconhecer essa despesa e passivo, mesmo que a empresa não venha a ser formalmente notificada pelas autoridades públicas. O critério de valoração deverá ser justo, de acordo com um conservadorismo e julgamento profissional do contador. • Fato contábil ambiental: contaminação do lençol freático com mercúrio decorrente do processo produtivo da empresa. Quadro 15 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Despesa ambiental/despesa com poluição das águas C Passivo ambiental/poluição das águas Histórico Valor referente à contaminação do lençol freático, conforme valoração calculada pelo método X 82.000,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 75). • Fato contábil ambiental: emissão de ruídos e vibrações. Quadro 16 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Despesa ambiental/despesa com poluição sonora C Passivo ambiental/poluição sonora Histórico Valor referente á emissão de ruídos e vibrações em decorrência da atividade empresarial, conforme valoração calculada pelo método X 82.000,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 77). Agora, um lançamento contábil envolvendo obrigações fiscais ambientais a pagar. Fato contábil ambiental: obrigações tributárias decorrentes da degradação ambiental da empresa estar acima dos limites estabelecidos em legislação estadual. 72 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Observação A intenção, segundo Gehm da Costa (2012, p. 70), é a de registrar os chamados impostos verdes. O autor cita o exemplo da proposta de uma carga mais onerosa de produtos como gasolina e álcool defendida por Ronaldo Serôa Morta e Francisco Eduardo Mendes desde 1977. No entanto, esses impostos ainda estão em discussão. Quadro 17 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Despesa tributária ambiental C Obrigações fiscais a pagar/tributação verde Histórico Valor referente à sobrecarga de tributação decorrente da atividade desenvolvida pela empresa conformte lei xxxxx 1.200,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 79). Vejamos um lançamento contábil envolvendo indenizações ambientais a pagar. Fato contábil ambiental: pagamento da pensão mensal devida a pessoa física em decorrência de doença contraída durante o período que trabalhou na entidade. Valor referente ao pagamento da 1ª parcela. Quadro 18 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Passivo circulante/indenizações ambientais a pagar C Caixa/banco c/movimento Histórico Valor referente ao pagamento da 1ª parcela da pensão mensal devido ao Sr. ................ CPF ............... Conforme cheque 7654 500,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 81). Agora, um lançamento contábil envolvendo contingências ambientais. Gehm da Costa (2012, p. 81-82) citam a definição que o Instituto Brasileiro de Contadores dão para contingências, que são “certas condições ou situações de solução indefinida à data do encerramento do exercício social ou período a que se referem as demonstrações contábeis de uma entidade e, como tal, dependente de eventos futuros que poderão ou não ocorrer”. Fato contábil ambiental: a empresa foi autuada pelo órgão ambiental e, embora tenha recorrido, apresenta grandes chances de a atuação ser julgada procedente. 73 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Quadro 19 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Despesa ambiental/despesa com degradação ambiental C Passivo circulante/contingência ambiental Histórico Valor referente à autuação por danos causados ao meio ambiente conforme auto de infração 776 120.000,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 83). Na sequência, veremos cinco lançamentos contábeis envolvendo despesas ambientais. • Fato contábil ambiental: gastos com a educação ambiental na empresa. Quadro 20 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Despesas ambientais/despesa com programa de educação ambiental C Caixa/banco ou obrigações Histórico Valor referente aos gastos com material a ser aplicado no programa de educação ambiental, conforme NF 76 120.000,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 86). • Fato contábil ambiental: provisionamento da obrigação referente à compensação ambiental estabelecida no termo de ajustamento de conduta. Quadro 21 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Despesas ambientais/despesa com compensação ambiental C Passivocirculante ambiental/compensação ambiental a pagar Histórico Valor referente do provisionamento da compensação ambiental referente à construção de uma escola-modelo em educação ambiental para a comunidade onde a empresa está instalada, conforme o termo de ajustamento de conduta 30.000,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 86). 74 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I • Fato contábil ambiental: gastos com aquisição de equipamentos de proteção individual. Quadro 22 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Despesa com a prevenção de acidentes ambientais C Caixa/banco c/movimento ou obrigações Histórico Valor referente aos gastos realizados para aquisição de equipamentos de proteção individual dos operários, conforme NF 867 800,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 87). • Fato contábil ambiental: gastos realizados para a obtenção da licença ambiental. Quadro 23 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Despesa ambiental/despesa com licença ambiental C Caixa/banco c/movimento Histórico Valor referente ao pagamento das despesas com o licenciamento ambiental conforme guia 98 200,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 88). • Fato contábil ambiental: recolhimento e destinação adequada do lixo. Quadro 24 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Despesa ambiental/despesa com coleta e destinação do lixo C Caixa/banco c/movimento Histórico Valor referente aos gastos decorrentes de umedecimento da área de trabalho, proteção de veículos em lona, manutenção de equipamentos conforme comprovante 610 220,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 89). 75 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Vejamos agora um lançamento contábil envolvendo receitas ambientais. Fato contábil ambiental: valor referente a recursos auferidos pela empresa decorrentes da venda de produtos reciclados. Quadro 25 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Caixa/banco c/movimento/contas a receber C Receitas ambientais/venda de produtos reciclados Histórico Valor referente à receita ambiental decorrente da venda de produtos reciclados conforme NF 2325 1.200,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 90). Agora, dois lançamentos contábeis envolvendo custos ambientais. • Fato contábil ambiental: gastos com manutenção ou recuperação de ativos ambientais. Quadro 26 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Custos ambientais/manutenção de ativos ambientais C Caixa/banco ou obrigações Histórico Valor referente ao pagamento com manutenção do ativo ambiental conforme NF 76 300,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 101). • Fato contábil ambiental: salários e encargos do pessoal empregado diretamente na área ambiental da empresa. Quadro 27 Passo Fundo, 5 de junho de 2020 D/C Conta Valor D Custos ambientais/salários ambientais C Caixa/banco ou obrigações Histórico Valor referente ao pagamento de salários do pessoal empregado na área ambiental conforme folha de pagamento 11.000,00 Fonte: Carvalho (2008 apud GEHM DA COSTA, 2012, p. 101). 76 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Após estudarmos essa valorosa coleção de exemplos de lançamentos contábeis no livro diário de fatos contábeis ambientais envolvendo contas patrimoniais e de resultado envolvendo o meio ambiente – o que nos ajuda ainda mais a entender como pode ser realizada a evidenciação contábil –, veremos a seguir o quanto a evidenciação pode ser importante para a elaboração de demonstrações financeiras específicas para o meio ambiente e principalmente para a apuração de ecoindicadores contábeis. 3.5.4 Ecobalanço Conforme estudamos, a Contabilidade Ambiental não apresenta apenas dados financeiros/ econômicos. Embora esses dados sejam imprescindíveis, muitos usuários da Contabilidade necessitam também de dados físicos para suas análises e decisões. Embora essa ideia possa ser um tanto estranha para muitos contadores, a ponto de nem consideraram Contabilidade um demonstrativo com dados físicos, é totalmente possível e esperado que ele seja uma realidade. Nesse sentido, Paiva (2003, p. 27) nos traz um modelo de Ecobalanço conforme proposto por Hopfenbeck (1993, p. 275): Quadro 28 – Ecobalanço Entradas Saídas I. Materiais I. Produtos 1. Matérias-primas 1. Produtos primários 2. Materiais suplementares 2. Produtos combinados 3. Combustíveis 4.Outros materiais II. Emissão de materiais 1. Resíduos sólidos II. Energia 2. Resíduos líquidos Gasosa 3. Resíduos atmosféricos Fluida Sólida III. Emissão de energia 1. Calor residual 2. Ruídos Fonte: Hopfenbeck (1993, p. 275 apud PAIVA, 2003, p. 27). Paiva (2003, p. 64) explica que o ecobalanço: [...] retrata as entradas e saídas de materiais, produtos e energia, restringindo- se às quantificações físicas. Cada elemento é representado por uma unidade de medida, sem denominador comum monetário. No entanto, o termo ecobalanço assemelha-se com o balanço contábil, que é o de levantamento de informações no final de determinados períodos. As finalidades de ambos, porém, não são as mesmas, pois o ecobalanço destina-se a comparar a poluição gerada pela empresa durante determinado exercício fiscal. 77 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Paiva (2003, p. 64) nos mostra ainda que o ecobalanço pode ser associado com o conceito de ecoeficiência, que é mais um modelo para gestão ambiental. Esse conceito de ecoeficiência é definido pelo CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável) da seguinte forma: [...] é o estilo gerencial que busca produzir mais com menos insumos e menos poluição, [...] melhorando a qualidade de vida da sociedade, e progressivamente levando os impactos ambientais e o uso de recursos a situar-se dentro dos limites da capacidade de sustentação ambiental do planeta. Em sua simplicidade, como requer qualquer balanço patrimonial, mas ao mesmo tempo com forte significado e podendo conduzir a administração a um estilo gerencial que leve a uma ecoeficiência e a uma verdadeira sustentabilidade empresarial, o ecobalanço surge como uma excelente opção de Contabilidade Ambiental. Algumas das medidas utilizadas no ecobalanço, como as emissões de calor residual e ruídos, precisam ser medidas por meios de engenharia e não virão do sistema contábil. Ao mesmo tempo, informações como a quantidade de energia gasosa, fluída e sólida, de materiais primas, combustíveis, materiais suplementares e outros materiais usados nas entradas, ou mesmo a quantidade de produtos primários e combinados e emissões de materiais nas saídas, podem ser facilmente obtidas na contabilidade de custos. É certo que esses dados são registrados na contabilidade de custos, seja nos livros contábeis durante a escrituração contábil, seja em relatórios e documentos extracontábeis, como fichas de estoque, fichas de consumo, requisições etc., mas tais dados são até hoje abandonados pelo contador, que acaba por utilizar somente o seu aspecto financeiro. Esses dados estão armazenados nos bancos de dados no ambiente do sistema de informações gerenciaisde uma empresa. É possível, inclusive, transformar esse mesmo balanço de quantidades físicas em um balanço com um denominador comum, representado pelo uso e emissões de CO2 (carbono) – desde que haja uma metodologia possível de ser utilizada nos programas e sistemas computacionais. É nesse sentido que se o ecobalanço causa estranheza. Sua prática requer não apenas o esforço do contador, ela demanda também um esforço interdisciplinar da engenharia e dos profissionais de tecnologia da informação. O ideal não é que o ecobalanço seja algo difícil de obter e que venha a ser apurado apenas em algumas ocasiões. Assim como as demonstrações financeiras já são dinâmicas e apuráveis a qualquer momento on-line (em linha, instantaneamente), é importante que o ecobalanço também o seja. O contador, em vez de ver um modelo desse tipo com receio ou como algo muito trabalhoso, deve, ao contrário, chamar os outros profissionais para ajudar no seu desenvolvimento e manutenção. Assim, entende-se que o contador deve ter uma postura de um inovador, que busca soluções com profissionais de outras áreas e não que cria problemas para que artefatos de alta tecnologia sejam implantados nas empresas. O desafio do ecobalanço pode ser uma excelente oportunidade nesse sentido. 78 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I 3.5.5 Indicadores de desempenho Paiva (2003, p. 16), em alusão a Segnestam (1999), comenta que indicadores de desempenho são importantes para a gestão ambiental por permitirem um acompanhamento e simplificação das informações, possibilitando a tomada de decisões. Indicadores são amplamente usados no universo dos negócios, como os índices de liquidez, endividamento e atividade, mas também são usados em diversas outras áreas, incluindo a ambiental, em que recebem a denominação de ecoindicadores ou indicadores de ecoeficiência. Saiba mais Lembre-se da análise de balanços/demonstrações financeiras, na qual índices são formados por meio de comparações entre empresas. Nesse sentido, leia o mais conhecido trabalho brasileiro: REVISTA EXAME. Maiores e melhores. São Paulo: Abril, 2012. Edição especial anual. Paiva (2003, p. 133) descreve as indicações do New Jersey Center for Environmental Indicators, nas quais afirma-se que: [...] os EPI são mensurações diretas ou indiretas da qualidade ambiental e usados na avaliação da situação e tendência das condições ambientais. Essas tendências podem referir-se a: causas pressões ou estressores resultantes de processos humanos ou naturais que afetam o meio ambiente, o estado ou condição de recursos, e a resposta ou esforços sociais para atenuar o estresse ambiental. Veja a compreensão literal do New Jersey Center for Environmental Indicators para indicadores de desempenho: Instrumentos que resumem grandes quantidades de informações complexas em um formato conciso e facilmente compreensível provendo ferramentas que mensurem o progresso no atingimento de metas ou marcos. As mensurações usadas são parte de um sistema de gerenciamento integrado baseado em resultados de metas, marcos, indicadores e estratégias em assuntos-chave da área ambiental (PAIVA, 2003, p. 133). De acordo com cada necessidade, propõem-se indicadores para gerenciar uma situação. Paiva (2003, p. 134) comenta, por exemplo, aqueles que foram adotados pela Federação de Fabricantes de Papel e Celulose da Austrália. Essa federação atua justamente em um tipo de indústria (papel e celulose) que 79 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL tem potencial altamente poluidor. Ao adotar índices (relativamente simples) como emissão de dióxido de carbono (CO2) e uso da água, conseguiram resultados formidáveis de redução desses problemas no processo produtivo, conforme podemos ver no quadro a seguir: Quadro 29 – Indicadores de desempenho ambientais: emissão de resíduos Emissão de dióxido de carbono (CO2) Os dados de 1990 são de apenas três companhias: 1990 1995 1997 Toneladas por tonelada líquida produzida 1,73 1,56 1,52 Entre 1990 e 1997, houve redução na emissão de CO2 de 12% por tonelada produzida. Uso da Água Os dados de 1990 são de apenas quatro companhias: 1990 1995 1997 Quilolitros por tonelada líquida de produção 75,7 61,7 54,5 Representando uma redução de 28% no uso da água entre 1990 e 1997 por tonelada produzida. Fonte: Paiva (2003, p. 134). A esse respeito, Edwards (2005, p. 94), comenta que os indicadores são uma ferramenta muito útil de análise, podendo ajudar a compreender de forma mais ampla todo o panorama. Ele classifica os indicadores em dois tipos: • os que classificam o grau de obtenção de um objetivo; • os que apontam as flutuações do sistema. A respeito do uso prático dos indicadores nesses dois aspectos de classificar o grau de obtenção para um objetivo e depois apontar as flutuações do sistema, o autor nos diz o seguinte: Um bom indicador de eficiência energética para a fase de projeto arquitetônico é a quantificação da energia consumida por metro quadrado, que costuma ser expressa por KWh/m2. Esse mesmo dado pode ser utilizado posteriormente para dimensionar o desempenho e alterar o sistema de gestão de instalações da edificação, após sua construção. No entanto, esse indicador não avalia a fonte de energia, sendo necessário, portanto, outro indicador, como o percentual de energia gerada a partir de fontes renováveis (EDWARDS, 2005, p. 94). Edwards (2005, p. 94), oferece um exemplo prático sobre o quão importante é o uso dos indicadores. Ele lembra que no Marrocos há um mosaico romano que representa a diversidade de espécies, com o homem no centro. Se o homem está ao centro nessa representação, significa que 80 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I (ou podemos interpretar assim) também tem responsabilidade de manter essa diversidade em seu meio ambiente. Figura 16 – Mosaico de Orfeu, um mosaico romano raro localizado nas ruínas de Volubilis, na “Casa de Orfeu”, no Marrocos Uma das formas de se fazer isso é contar a quantidade de espécies nativas e indivíduos. Se em um ambiente os biólogos observarem que há, por exemplo, uma população de peixes menor do que a que seria comum, indicarão um sinal de que algo está errado e precisa de uma ação no sentido de reestabelecer a população ideal. Sem os indicadores, seria impossível de realizar esse trabalho. Lembrete A proibição de comercialização do pau-brasil, conforme já estudamos, é um exemplo dessa ação. No entanto, conforme pondera Paiva (2003, p. 135), o uso de indicadores na área financeira e das Ciências Sociais aplicadas precisa ser realizado em comparação com intervalos de tempo distintos, comparando-se também empresas de uma mesma área de atuação, mesmo que de portes diferenciados. Esse autor nos traz a interpretação de Martins e Assaf Neto (1993, p. 255): Para um estudo racional sobre o desempenho de uma empresa, é importante que os indicadores sejam comparados historicamente (com os obtidos na mesma empresa, em períodos anteriores) com os padrões estabelecidos [...] e com índices de empresas do mesmo ramo e padrões do setor de atividade e economia em geral. Devido a essa e outras razões, não existe ainda o uso de indicadores ambientais de origem contábil, que poderiam ser usados como forma de avaliação do desempenho ambiental de uma empresa, assim como hoje os indicadores financeiros são amplamente utilizados. No entanto, isso é perfeitamente possível. Paiva (2003, p. 136)propôs alguns índices ecoindicadores de natureza contábil, descritos no quadro a seguir: 81 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Quadro 30 – Proposição de ecoindicadores contábeis Índice Formulação Relação causal Reflexo Investimentos ambientais gerais Investimentos em prevenção _______________ Ativos totais Indica a proporção entre ativos ambientais adquiridos no período e os ativos totais da empresa Reflete o posicionamento da empresa frente à questão ambiental, de forma ampla Investimentos ambientais operacionais Investimentos em prevenção _______________ Ativos totais Revela a evolução dos investimentos em prevenção em relação a seu parque fabril Demonstra a preocupação com a qualidade de seu parque fabril Diminuição do patrimônio dos acionistas em decorrência de fatores ambientais Perdas ambientais _______________ Patrimônio líquido Mostra o percentual de seu patrimônio que está sendo diminuído em função de perdas ambientais Reflete o grau de cuidado com as operações, assim como o reflexo direto na alteração do patrimônio Perdas ambientais da empresa Perdas ambientais _______________ Ativo total Relaciona o quanto, em termos percentuais, as perdas significaram sobre os bens e direitos que a empresa dispunha no período Reflete o grau de conscientização mediante desastres ambientais Custos ambientais operacionais Custos ambientais _______________ Receitas operacionais Indica o quanto os custos ambientais apropriados no período representam das receitas operacionais Demonstra os investimentos da empresa na qualidade ambiental de seus produtos e como essa relação pode afetar seu resultado Despesas ambientais e as operações Despesas ambientais _______________ Receitas operacionais Demonstra o quanto foi consumido de despesas, favorecendo o meio ambiente na geração de receitas operacionais Revela a relação entre a conscientização ambiental da empreza e suas atividades de comercialização Prevenção e valor adicional gerado Gastos totais com prevenção _______________ Valor adicionado total Relaciona os gastos em prevenção com o valor adicionado total Reflete como a empresa está administrando seus gastos na prevenção de problemas ambientais face ao valor adicionado por suas operações Remediação e prevenção Gastos com remediação _______________ Gastos com prevenção Indica a relação entre remediação e prevenção Revela a postura da empresa em sua relação com o meio ambiente Fonte: Paiva (2003, p. 136). Ao propor esses índices e sua relevância, Ribeiro (1992, p. 131 apud PAIVA, 2003, p. 136), lembra que: O fornecimento destas informações teria o poder de desencadear uma maior alavancagem no processo de controle da qualidade ambiental, pois 82 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I as empresas teriam suas congêneres como parâmetros de comportamento na área ambiental, considerando-se os diferentes portes econômicos, como também a reação do público interessado; atuaria, também, como estímulo à sociedade, de forma geral, na preservação do meio ambiente. Ou seja, a elaboração, divulgação e uso intenso dos ecoindicadores, assim como já é feito com os indicadores financeiros tradicionais como a liquidez e/ou endividamento contribuiria de forma significativa para a evolução da gestão ambiental, indo ao encontro do pensamento do triple bottom line, conforme estudamos anteriormente. Para isso, é imprescindível que os contadores (não apenas um ou outro, mas em conjunto) comecem a praticar a evidenciação ambiental na Contabilidade. Dessa forma, é importante que os contadores sejam inovadores na busca pela evidenciação dos fatores ambientais e na elaboração e divulgação dos ecoindicadores. Se há dificuldades para isso, é necessário que os contadores busquem ajuda de outros profissionais. 3.5.6 Pobreza e o meio ambiente: ecoimpostos e balanço ambiental público (o balanço patrimonial ambiental das nações) Uma parte dos problemas ambientais que assolam o planeta é provocada pela escalada de consumo desenfreado e fútil, motivado apenas pelo gosto de consumir e pela satisfação pelo ter – ou, como diz Trigueiro (2012), quando o consumismo é doença. Porém, em outra ponta, o planeta enfrenta o gravíssimo problema da pobreza, que também é altamente nocivo para o meio ambiente. Miller e Spoolman (2012) citam o crescimento populacional (de forma exponencial e a uma taxa rápida) e a pobreza como algumas causas dos problemas ambientais. Segundo Miller e Spoolman (2012, p. 22), “a pobreza ocorre quando as pessoas são incapazes de satisfazer suas necessidades básicas de alimentação, água, saúde e educação adequadas”. A seguir, vemos uma figura que mostra o crescimento populacional no planeta: 1400ac 930ac 1 300 1950 2000500 1960 20151000 1975 20251802 1990 2045 9.0 8.0 7.3 6.1 5.3 4.1 3.0 2.5 1.0 0.30.1950.190.170.070.028 Figura 17 – Evolução da população mundial (em bilhões de habitantes) De acordo com Miller e Spoolman (2012, p. 22), “a pobreza provoca uma série de efeitos nocivos para o meio ambiente e à saúde”, sendo que um contingente muito grande de pessoas dedicam sua vida 83 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL inteira à busca de alimentos e combustíveis para se aquecer e sobreviver. É o que se pode ver na figura a seguir, que apresenta dados da organização das Nações Unidas: Instalações sanitárias adequadas 2,6 bilhões (38%) 2 bilhões (29%) 2 bilhões (29%) 1,1 bilhões (16%) 1,1 bilhões (16%) 1 bilhão (15%) 1 bilhão (15%) Falta de acesso a Número de pessoas (% da população mundial) Combustível suficiente para se aquecer e cozinhar Eletricidade Água potável Serviços de saúde adequado Habitação condigna Comida suficiente para uma boa saúde Comida suficiente para uma boa saúde Figura 18 – Alguns dos efeitos nocivos da pobreza Na busca desenfreada pela sobrevivência em curto prazo em um ambiente onde não existe colaboração, o conhecimento não se difunde e há descaso com o ser humano. “Alguns indivíduos degradam, em um ritmo crescente, florestas, solos, pastagens, pesqueiros e a vida silvestre” (MILLER; SPOOLMAN, 2012, p. 22). Não pensam em renovação do capital natural ou em sustentabilidade, estão buscando apenas a própria sobrevivência. Se as pessoas em situação de pobreza degradam o meio ambiente, também sofrem os efeitos danosos dos estragos cometidos pelos outros. A pobreza, aliada a um crescimento populacional exponencial a taxas elevadíssimas, faz com que pereçam muitos indivíduos de doenças normalmente não fatais, como a diarreia e o sarampo. Miller e Spoolman (2012, p. 23) argumentam que, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde de 2008, 6 milhões de crianças morrem todos os anos por condições adversas. Isso é uma tragédia humana de grandes proporções e não pode ser desconsiderada. Boa parte da população não tem condições sanitárias mínimas em suas casas, buscando água de fontes poluídas para beber e cozinhar, além de sofrer doenças respiratórias devido a fogareiros ou fogões pouco ventilados utilizados para se aquecer e cozinhar. Para Klabin (2011), existe uma necessidade de que os estados combatam a pobreza e suas consequências; entretanto, existe umaenorme dificuldade em avaliar essas ações. Sabe-se que um investimento público em saneamento básico tem efeitos altamente positivos para a vida e a saúde das populações, mas é muito difícil avaliar o desempenho dessas ações. 84 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Ao comentar que vivemos atualmente em uma economia baseada no carbono, Klabin (2011) afirma que os impostos cobrados pelos estados (normalmente tributando o consumo) deveriam ser deslocados para outros baseados na produção. Quem gerasse mais carbono em suas atividades deveria ser mais taxado e quem sequestrasse carbono da atmosfera teria benefícios fiscais. Atento a esses graves problemas, Kassai et al. (2008), liderando um grupo de pesquisadores da FEA- USP, desenvolveram o balanço das nações, um artefato contábil cujo objetivo é: [...] elaborar o balanço patrimonial das nações, isto é, dos principais países e do planeta consolidado e, reunindo informações de natureza multidisciplinar, propor a classificação do que seriam os ativos, os passivos e o patrimônio líquido, de acordo com os seus recursos naturais e respectivas capacidades de carbon sequestration. Nesse ambicioso projeto, que muitos profissionais (inclusive da área contábil) não entenderam a priori que seria um artefato de Contabilidade, o professor Kassai liderou uma equipe para pensar como seria um Balanço Patrimonial de um país e consolidado para o planeta. Para tal, fizeram as seguintes perguntas: • Qual a classificação do país que mais emite CO2 na atualidade? • Como ficaria a situação per capita de cada cidadão? Para tal, Kassai et al. (2008) utilizaram a técnica do balanço perguntado ou inquired balance, desenvolvida por Kassai (2004), agora liderando uma equipe. Nessa pesquisa, percebeu que muitas empresas, sobretudo as micro e pequenas, não dispunham de registros diários de suas operações, impossibilitando a formação de um Balanço Patrimonial. No entanto, é possível nessas situações produzir um Balanço Patrimonial por meio de perguntas e observação, respeitando-se a equação básica da Contabilidade (ativo menos passivo é igual ao patrimônio líquido) que, como vemos em Kassai et al. (2008, p. 4) “orienta a mensuração das variáveis envolvidas, pois traduz a lei de equilíbrio entre os débitos e créditos, entre as origens e aplicações, entre as causas e os efeitos”. Após muita discussão interdisciplinar, foi possível, de acordo com Kassai et al. (2008), desenvolver uma técnica capaz de formar um Balanço Patrimonial de uma nação. O constructo do Balanço Patrimonial ambiental das nações é assim descrito pelos autores: O processamento desta pesquisa consiste nos seguintes passos: (1) apuração dos saldos residuais de carbono de cada país em MtonC e em dólares americanos nos cenários previstos; (2) conversão do produto interno bruto (paridade de poder de compra – ppc7) de cada país em unidades equivalentes per capita de número de habitantes e de consumo médio de energia em tonelada equivalente de petróleo – TEP; e (3) fechamento dos balanços contábeis dos países pela técnica inquired balance sheet ou balanço perguntado. 85 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Os saldos residuais de carbono são apurados em função do estoque de carbono florestal e do solo de cada país, da parcela evitada menos as emissões estimadas nos cenários 2020 e 2050, medidas em MtonC e convertidas para dólares em função do valor sugerido pelo IPCC. O PIB per capita de cada país, paridade do poder de compra, é convertido por uma unidade equivalente relativa ao consumo médio de energia de cada nação, medido em tonelada equivalente de petróleo (TEP), para equalizar as diferenças regionais relacionadas às características geográficas e do nível de conforto de cada país e que, num cenário de mudanças climáticas, supõe- se que possam se alterar. Para o fechamento dos relatórios contábeis, será utilizada uma técnica contábil que simplifica o processo de escrituração, dado o grau de imprecisão e dificuldade no tratamento das informações, e que se baseia no princípio básico contábil e de equilíbrio entre causas e efeito: ativo menos passivo é igual ao patrimônio líquido. Para fins deste estudo, o ativo será avaliado pelo PIB “equivalente” em dólares americanos per capita; o passivo corresponderá a obrigação ambiental de cada cidadão na meta de redução de carbono; e o patrimônio líquido estará correlacionado com o saldo residual superavitário (ou deficitária) de cada cidadão ou país, diante de todas as nações. Os autores sintetizaram os constructos do modelo balanço patrimonial ambiental das nações conforme a figura a seguir: Ativo Ativo Ambiental avaliado pelo PIB PPP per capita ajustado pelo consumo médio de energia per capita em tonelada equivalente de petróleo (TEP) Passivo Passivo Ambiental apurado por “accountant equivalency” Patrimônio líquido Patrimônio líquido ambiental MiltonC de carbono convertidos em US$ pelo custo de captura de carbono Balanço Patrimonial Ambiental - per capita Figura 19 – Constructos do modelo balanço patrimonial ambiental das nações Kassai et al. (2008, p. 10) explicam que o PIB PPC é a forma mais adequada para comparações internacionais, já que todos os países têm a mesma base de referência: os preços das mesmas mercadorias e serviços nos Estados Unidos, multiplicados pelas quantidades de bens e serviços produzidas em cada país. Como são os mesmos preços para todos os países, o PIB PPP representa então a variação real da atividade econômica dos países, independentemente de variações de sua política cambial. 86 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Para o cálculo dos saldos residuais de carbono em cada país em MtonC e sua conversão em dólares americanos, Kassai et al. (2008) estudaram a literatura especializada, cruzaram informações e geraram dados compostos específicos, que distribuíram em tabelas, obtendo assim mega toneladas de carbono (MtonC). Essas tabelas, por sua vez, foram replicadas e valorizadas a US$ 45,00/tonC conforme sugestão do IPCC3 Saiba mais Para uma descrição analítica dos critérios que Kassai et al. (2008) utilizaram, consulte o artigo a seguir: KASSAI, J. R. et al. Balanço das nações: uma reflexão sob o cenário das mudanças climáticas. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CUSTOS, 15. 2008, Curitiba. Anais... Disponível em: <http://www.negociosustentavel.com/ imagens/editor/negocio_140605.pdf>. Acesso em: 3 set. 2013. Com essa metodologia, os autores afirmam que é possível obter um Balanço Patrimonial ambiental para um país e/ou um estado ou mesmo uma cidade, apresentando Balanços Patrimoniais ambientais para alguns países de relevância, incluindo Alemanha, Brasil, China, EUA, Índia, Japão e Rússia. Com base nos dados de que dispunham, projetaram cenários para 2020 e 2050, conforme vemos a seguir: Alemanha 8,4 8,9 5,5 9,0 6,9 6,28,6 (2,1) (0,9) (3,6) (0,2) (0,8) (0,6)(2,0) 9,4 4,6 10,5 9,8 9,1 9,2 7,7 6,810,6 8,2 3,9 1,2 0,7 Brasil EUA Índia Japão Russia Total Mundo China Balanço das Nações - Cenário “provável” 2020 (Milhares de US$ - per capita) Ativo Passivo PL Figura 20 – Balanço das Nações – cenário provável para 2020 (milhares de US$ per capita) 3 Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas (IPCC) a partir da Organização Internacional de Meteorologia e Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. É constituído de trêsgrupos que tratam: (I) dos aspectos científicos das mudanças climáticas, (II) dos sistemas socioeconômicos e dos sistemas naturais, e (III) das limitações de GHG e outras ações necessárias. Kassai et al (2008), 87 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Alemanha 8,4 8,9 5,5 9,0 6,9 6,28,6 (4,5) (0,9) (0,4) (2,0) (2,3)(4,6) 9,4 4,612,5 11,4 14,4 9,2 8,9 8,513,2 6,6 3,5 1,2 1,1 Brasil EUA Índia Japão Russia Total Mundo China Balanço das Nações - Cenário “provável” 2050 (Milhares de US$ - per capita) Ativo Passivo PL (2,5) Figura 21 – Balanço das Nações – cenário provável para 2050 (milhares de US$ per capita) Após a apuração desses Balanços Patrimoniais projetados, Kassai et al. (2008) realizaram várias análises. Uma delas é o patrimônio líquido ambiental, que mostra que países como Brasil e Rússia têm um patrimônio líquido ambiental favorável, mas todos os outros países tem patrimônio líquido negativo. Ao analisar esses dados, os autores, levando em conta o patrimônio líquido ambiental, concluíram que os cenários indicam que o Brasil e a Rússia tem um PLA positivo, mas todos os outros países tem PLA negativo, conforme podemos ver na figura a seguir: Alemanha 128 % -114 % -132 % -133 % -145 % -160 % -177 % -290 % 62% Brasil EUAÍndiaJapão Russia Total MundoChina Evolução do PLA (%) entre os cenário 2020 e 2050 Figura 22 – Evolução do PLA (%) entre os cenários 2020 e 2050 Enfim, se a economia mundial é atualmente baseada no Carbono, como diz Klabin (2011), e tanto o consumo desenfreado como a pobreza são fatores que afetam o meio ambiente, como afirmam Miller e Spoolman (2012), propostas de soluções e ações reais dos Estados se fazem urgentes para que haja sustentabilidade. Tudo isso, como disse Klabin (2011), é de difícil quantificação. Com o Balanço Patrimonial ambiental das nações é possível ter um meio de avaliação da qualidade da ação dos Estados nacionais. Um usuário da Contabilidade, um investidor ou um empresário que precisa tomar uma decisão poderá ter o Balanço Patrimonial ambiental das nações como uma fonte valorosa de informações. Pode até ser que seja uma técnica difícil, estranha, exótica, diferente, como muitas vezes as inovações nos aparentam ser, mas é inegável que é mais uma importante contribuição dos profissionais da Contabilidade para ajudar a agir sobre o problema. 88 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I 4 LEGISLAÇÃO 4.1 Primeiras legislações ambientais e a evolução dos movimentos ecológicos Ferry (2009) conta que em 1587 os habitantes do vilarejo de Saint-Julien, famosa (inclusive nos dias atuais) por seus vinhedos, estavam incomodados com uma colônia de gorgulhos que invadiram seus vinhedos, causando estragos consideráveis. No ímpeto de resolver a grave ameaça que se instalava à vida de todos, os camponeses intentaram junto ao juizado episcopal de Saint-Jean-de Maurienne um processo no qual pediam que seus representantes redigissem em seu nome uma petição ao “Reverendo Senhor Vigário Geral e Oficial do Bispado de Maurienne”, a quem suplicavam que “se digne a prescrever as medidas convenientes para aplacar a cólera divina e a proceder dentro das regras, por intermédio da excomunhão ou qualquer outra censura apropriada, à expulsão definitiva dos insetos” (FERRY, 2009, p. 11). Não era a primeira vez que os habitantes do vilarejo de Saint-Julien, recorriam ao juizado episcopal; Ferry (2009, p. 14) comenta que haviam feito o mesmo cerca de quarenta anos antes. Nessa ocasião, como em todo juizado, um advogado foi escolhido para defender os insetos. O caso foi resolvido com a vitória dos insetos: [...] [devido ao] fato de os animais, criados por Deus, possuírem o mesmo direito que os homens de se alimentarem de vegetais, [o juiz episcopal] recusara-se a excomungar os besouros, limitando-se, através de uma disposição datada de 8 de maio de 1546, a prescrever rezas públicas aos infelizes habitantes, intimados a arrependerem-se sinceramente de seus pecados e a invocar a misericórdia divina. Paralelamente, ele os convidava a pagar o dízimo sem mais tardar – era a ocasião sonhada – bem como a fazer durante três dias consecutivos três procissões em volta dos vinhedos invadidos. Seguiam-se ainda outras devoções ou penitências da mesma natureza. Os habitantes devem provavelmente ter cumprido essas determinações. O fato é que os colépteros foram embora e as coisas voltaram ao normal e à sua rotina. No entanto, quarenta anos depois, eis que os colépteros lá voltaram, fazendo com que novamente os habitantes de Saint-Julien tornassem a apelar ao juizado. Nessa nova ocasião, conforme Ferry (2009, p. 17) comenta, o advogado de defesa foi tão hábil e tão atento aos mínimos vícios de forma jurídica que, enfim, os representantes de Saint-Julien foram mais precavidos e optaram por uma outra solução. Observação Vício de forma, dentro do jargão jurídico, é qualquer inobservância de formalidades obrigatórias a um ato jurídico. Se houver vício de forma, esse ato jurídico torna-se nulo. 89 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Foi então convocada uma assembleia geral dos habitantes e comunicado à população para “atribuir aos ditos animais espaço e lugar com suficiente alimento fora dos vinhedos do dito lugar de Saint- Julien e que possam viver e evitar comer e estragar a ditas vinhas” (FERRY, 2009, p. 18). E isto é o que foi feito: os habitantes decidiram oferecer aos colépteros a praça e o local denominado Grand-Feisse, onde poderiam se fartar à vontade – desde, é claro, que deixassem suas preciosas parreiras em paz. Esse episódio – que hoje pode ser considerado absolutamente estranho e inusitado pelo fato de um advogado de defesa ser designado para defender insetos como se fossem seres humanos sendo julgados pela justiça em um processo penal – é descrito como a primeira ocorrência de um “contrato natural”, como nos diz Ferry (2009, p. 19), realizando-se assim um pacto com seres da natureza. Segundo Ferry (2009, p. 22), esse era o procedimento geralmente visto, conforme descreveu Gaspard Bally, “advogado que exercia a profissão em Chambéry durante a segunda metade do século XVII”: Primeiramente, com base na petição apresentada pelos habitantes que sofrem os danos, averigua- se o prejuízo que tais animais causaram e estão em vias de causar, e, com a informação obtida, o juiz eclesiástico nomeia um curador para os animais, que se apresentará em juízo, por procuração, e deduzirá todas as suas razões, e os defenderá contra os habitantes que queriam fazê-los deixar o lugar onde estão, e, consideradas e vistas as razões de uma parte e de outra, o juiz lavra a sentença. Esse comportamento é perfeitamente entendível porque, como é possível ver no Mosaico de Orfeu, nas ruínas de Volubilis, no Marrocos (que apresentamos anteriormente), o pensamento dominante era o antropocentrismo, que consiste na ideia de que o homem é o centro do universo. Com a evolução da humanidade, passou-se a notar uma hierarquia entre os seres; o homem seria o ser mais importante, estando no topo dessa hierarquia. Posteriormente, de ser mais importante da natureza, o homem passou a ser considerado um ser não integrante dela – ou, como disse Ferry (2009, p. 23), o “homem antinatureza”, em alusão a Kant. Como vimos anteriormente no folclore norte-americano, Paul Bunyan não se considera um serintegrante da natureza, pois esta seria algo a ser combatido, já que o ambiente natural não seria o ideal. O melhor seria que a natureza, algo brutal e selvagem, fosse dominada, vencida. O ambiente ideal para o homem seria o ambiente que ele criou para habitar ou ajeitou para suas conveniências. Vemos essa manifestação também nas touradas. Um dos maiores toureiros da história, Francisco Rivera Pérez, o “Paquirri”, assim comentou: O que me agrada verdadeiramente é educar os bichos. Eles só sabem atacar. Ás vezes, lentamente, às vezes rudemente. São como meninos que vão à escola pela primeira vez. É preciso ensinar-lhes tudo, desde o bê-á-bá até o alfabeto completo, descobrir suas possibilidades [...] (FERRY, 2009, p. 110). Vemos em Ferry (2009) que os homens, na relação com os animais (dentro desse conceito de que ele não pertenceria a natureza), passou inclusive por uma completa desconsideração da vida, criando até mesmo experimentos como o Pato de Vaucanson, do inventor Jacques de Vaucanson. Essa invenção 90 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I apresentou um autômato na Exposição de Paris em 1738, em que uma máquina em forma de pato seria capaz de se alimentar, digerir o alimento e defecar. Muitos tratavam os animais com absoluto desdém e crueldade, o que levou em 1850 à criação da Lei Grammont. Esta, segundo Ferry (2009 p. 73), “proíbe pela primeira vez na França os maus-tratos infligidos em público aos animais domésticos”. Esses foram os primeiros passos para uma legislação ambiental. Barbieri (2011, p. 19-20) cita ainda que, de acordo com Acot (1990, p. 132-133), atividades que visavam proteger o meio ambiente das consequências das próprias ações humanas podem ser observadas desde tempos remotos. O autor cita “medidas que proibiam serras hidráulicas na Inglaterra no século XIV e as leis para proteger as florestas e as águas em meados do século XVII na França, a fim de resolver as questões de escassez de madeira” (ACOT, 1990, p. 132-133). Ao longo do tempo, apesar de seu antropocentrismo e de considerar que não faria parte da natureza, o homem sente-se responsável por ela. Com essas primeiras manifestações de preocupação com a questão ambiental começou a surgir um movimento de pessoas que se sentem na obrigação de defender a natureza. Esse pensamento está levando o homem a repensar o seu papel na sociedade e frente à natureza, fazendo com que se sinta novamente parte desta e com plenas responsabilidades em relação a ela. Barbieri (2011, p. 20) cita que a preocupação ambiental, antes restrita a grupos pequenos de artistas, cientistas e alguns políticos, com a observação de tragédias de grandes proporções como “as de Seveso, Minamata, Three Miles Island, Bhopal, Exxon Valez, Cubatão, Chernobyl, Baía de Guanabara, entre outras, fez com que uma diversidade de pessoas se preocupassem com a questão ambiental”. Rocha Sampaio (2011) acrescenta a essa lista o clássico Caso Trail Smelter Consolidated Mining and Smelting Company (Cominco), o Caso Lanoux (Espanha v. França), o Caso Gabcíkovo-Nagymaros e o Caso Amoca Cadiz. Rocha Sampaio (2011) comenta que a preocupação ambiental no Brasil foi alavancada pela obra da bióloga norte-americana Rachel Carson, que trabalhava no Departamento Norte-Americano de Peixes e Vida Selvagem. Ela relatou o efeito danoso ao meio ambiente do uso do DDT (Dicloro- Difenil-Tricloroetano), um agente químico danoso que era comercializado nos EUA e em outros países livremente. Sua obra, traduzida no Brasil por Wellington Pacheco Barros, teve enorme repercussão e comoção ao redor do planeta. Ela é considerada o embrião do que posteriormente ficaria conhecido como o Movimento Ambientalista da década de 1970. Ferry (2009) mostrou-se um autor rigoroso com os movimentos ecológicos. Entretanto, se por um lado é importante a preocupação ambiental, por outro o exagero nessa preocupação acaba por criar entraves ao desenvolvimento. Ferry (2009) especulou que estaríamos vivendo em um mundo onde existe uma nova ordem ecológica e classificou os indivíduos em dois grupos básicos: • indivíduos totalmente alheios que se omitem das discussões ou se resignam; • indivíduos que exageram (febre ecológica). 91 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Segundo Ferry (2009), há dois movimentos ecológicos, liderados por dois grandes expoentes para cada um deles, Bill Devall e Arne Ness. Veja: • Bill Devall: — Corrente Reformista; — Corrente Reformista e Revolucionária. • Arne Ness: — Deep Ecology ou Ecologia Profunda. Ferry (2009, p. 222) comenta que os dois principais movimentos ambientais se criticam, conforme podemos ver no pensamento de Philip Elder, defensor de uma ecologia superficial: Os adversários [os ambientalistas profundos] supõem sempre que os interesses dos objetos (montanhas, lagos e outras coisas naturais) sejam contrários ao desenvolvimento. Mas o que eles sabem sobre isso? O autor analisa no fundamentalismo ambiental a contradição performativa, onde a natureza não é “boa em si” porque “contém o melhor e o pior”: Não se trata de negar que a natureza possa ser em si mesma bela, útil ou mesmo “generosa”, mas apenas de sublinhar que ela não o é de maneira voluntária e constante, como seria a divindade na qual querem nos fazer acreditar, e que devemos em última instância decidir (FERRY, 2009, p. 226). Conforme Ferry (2009, p. 227), “O Homem pode e deve modificar a natureza, Assim como pode e deve protegê-la.” Isso significa que há necessidade de desenvolvimento humano, bem-estar e aumento da qualidade de vida. A preocupação ambiental é legítima, mas não pode intimidar as pessoas a ponto de interferir nas necessidades também legítimas de trabalhar e produzir. Algumas pessoas influentes, como a francesa Brigitte Bardot, uma incansável ativista pelos direitos dos animais e movimentos ambientais, ajudou a gerar uma crescente preocupação e educação ambiental. O mesmo aconteceu após alguns casos específicos que chamaram a atenção das pessoas e as comoveram por conta das tragédias que provocaram. Isso motivou a elaboração de leis específicas para o meio ambiente e até mesmo de uma vertente do Direito, o Direito Ambiental, conforme estudaremos a seguir. 4.2 Primeiras legislações ambientais contemporâneas: Alemanha e União Europeia e o surgimento do Direito Ambiental A primeira legislação ambiental moderna, por incrível que pareça, foi instituída na Alemanha ainda sob influência nazista, em 1934. 92 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Conforme comentou Ferry (2009, p. 189-190), a lei de caça alemã inovou por ter considerado o caçador como o responsável por manter o meio ambiente íntegro. Este era o texto da lei: [...] assim que a nobre arte alemã da caça com matilha se desenvolveu no decorrer dos séculos ligada a uma tradição germânica imemorial. É preciso preservar para o povo alemão, definitivamente, a arte da caça e a própria caça, bens preciosos do povo. É preciso aprofundar o amor do alemão pelo território nacional, reforçar sua força vital e trazer-lhe o repouso após o trabalho do dia. O dever de um caçador digno deste nome não é somente caçar, mas também manter o objeto da caça e cuidar dele para que se nasça e se preserve uma caça mais sadia, mais forte e mais diversificada quanto às espécies. Posteriormente, segundo Thorstensen (1992, p. 92), a União Europeia instituiu a sua lei ambiental por meio do Tratado de Roma de 1986: Tratado de Roma, Ato Único(art. 130-R TR) 1986 Preservar, proteger e melhorar a qualidade do ambiente; contribuir para a proteção da saúde das pessoas; assegurar uma utilização prudente e racional dos recursos naturais. A lei da União Europeia, segundo Thorstensen (1992), inovou por ter ido ao encontro de princípios de ação preventiva e de reparação. Além disso, ela instituiu a figura do “poluidor-pagador”. Como estudamos anteriormente, todos esses aspectos levaram a ciência do direito também a se adequar às demandas da sociedade. Rocha Sampaio (2011) comenta os movimentos ecológicos da década de 1970 e casos complexos que surgiram, como o clássico Caso Trail Smelter Consolidated Mining and Smelting Company (Cominco), que envolvia o ambiente e a legislação dos EUA e do Canadá e teve fortes reflexos internacionais. Rocha Sampaio (2011), apesar de comentar que ao longo da história do Brasil sempre houve um certo nível de preocupação ambiental na legislação, considera que é a partir da Declaração de Estocolmo de 1972 que nota-se um relevante movimento que culminaria na criação do Direito Ambiental Brasileiro. Para a Ciência do Direito, de acordo com Rocha Sampaio (2011, p. 247-248), o reconhecimento de um Direito Ambiental foi difícil devido ao fato de o purismo aplicado ao Direito, que tem uma influência germânica, afastar “todo e qualquer outro fenômeno não jurídico do processo de elaboração das teorias legais e da explicação de acontecimentos fáticos que, porventura, não se enquadrassem à da Teoria Geral do Direito”. Rocha Sampaio (2011, p. 249) analisa essa dificuldade dizendo que, para a Ciência do Direito, a questão ambiental estaria ligada aos “novos direitos”. Diz ele que 93 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL [...] no estrito campo da ciência jurídica, esses “novos direitos” desafiam os juristas clássicos através de correntes doutrinárias que os definem como direitos de terceira geração. Estariam enquadrados ou como um sub-ramo do Direito Civil e, portanto, privado, ou como um sub-ramo dos direitos Constitucional e Administrativo e, portanto, público. Para alguns, o Direito Ambiental não seria um ramo autônomo, mas, sim, decorrência do próprio Direito Administrativo. No entanto, [...] a peculiaridade das coisas objeto da tutela e da finalidade do Direito Ambiental acabou por criar novas técnicas legislativas e normativas, de interpretação jurisprudencial e produção do conhecimento jurídico alinhadas com a natureza vital dos bens, recursos e serviços ambientais (ROCHA SAMPAIO, 2011, p. 252). Essas características acabaram por abrir as portas para um novo ramo do direito, o Direito Ambiental. De especial importância para este livro-texto destinado a contadores é como o Direito Ambiental trata da valoração dos bens, recursos e serviços ambientais. Rocha Sampaio (2011, p. 288) pergunta: quanto valeria uma espécie que ficará ameaçada de extinção como consequência da construção de uma grande obra de infraestrutura? Em relação a isso, imagine, por exemplo, o caso real da inundação de diversos quilômetros de floresta para dar lugar ao lago de Itaipu. Rocha Sampaio (2011, p. 288) também questiona como seria comparar os benefícios socioeconômicos do projeto, que são mensuráveis, com o benefício de se preservar a espécie ameaçada de extinção. Ele diz que essa questão passa pelas abordagens técnicas do Direito Ambiental (ecocêntrica, antropocêntrica ou policêntrica) e, para efeito de política pública, também passa pela compatibilização dos diversos direitos fundamentais consagrados pela Constituição Federal de 1988 – dentre eles, os econômicos e sociais, igualmente importantes. O autor assinala também que “para compreender a questão da valoração dos bens, recursos e serviços ambientais, faz-se necessário classificar os distintos objetivos desse tipo de política” (ROCHA SAMPAIO, 2011, p. 288). Vislumbram-se pelo menos três objetivos claros e distintos, que são: • internalização da externalidade negativa; • minimização do custo regulatório; • métrica comum de comparação entre benefícios e prejuízos econômicos, sociais e ambientais. 94 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I O Direito Ambiental cuidou de acostumar-se a decisões sobre incertezas aplicadas a situações de risco (ou, como poderíamos dizer no universo contábil, como lidar com “contingências” ou “provisões”). Conforme comenta Rocha Sampaio (2011, p. 292), [...] situações de risco seriam aquelas em que o resultado preciso não pode ser estimado, mas é possível atribuição de probabilidades aos resultados de uma determinada ação ou omissão. A esses conhecimentos, aplicam-se também a denominação de incerteza leve (soft) ou incerteza dura (hard) para fazer referência ao risco e à ignorância respectiva. Rocha Sampaio (2011, p. 293), para facilitar o entendimento desses pensamentos, explica que compete aos responsáveis pelas políticas públicas identificar as seguintes situações: • “Sei o que não sei” (incerteza leve). • “Não sei o que não sei” (incerteza dura). Lembrete Estudamos anteriormente a responsabilidade empresarial, na qual entende-se que o objetivo de uma empresa é o de apresentar não apenas bons resultados, mas uma autêntica preocupação social. O direito é uma das áreas que mais ressaltam esse aspecto da administração empresarial. Para aplicação e resolução dessas perguntas, aplicam-se estudos de análises de custo-benefício, com a aplicação do princípio da precaução que pode ser dosado de acordo com o grau juridicamente permitido e socialmente desejado. Observe que, nesse aspecto, é totalmente possível uma intensa sinergia dos contadores com os operadores do direito. Os contadores também estão acostumados a trabalhar sobre incertezas e atualmente aplicam o conceito de valor justo, podendo trazer ainda mais qualidade à valoração dos bens, recursos e serviços ambientais. 4.3 Legislação ambiental brasileira De acordo com Rocha Sampaio (2011, p. 134), a “Constituição Federal de 1988, além de revolucionar a matéria ambiental no país, potencializou o regime que começara a ser implantado pela Política Nacional do Meio Ambiente, em 1981”. Observação A Lei nº 6.938, de 1981, instituiu a política do poluidor-pagador, a Política Nacional Ambiental e normas tributárias indutoras. Observe que a 95 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL União Europeia, uma legislação tida como avançada, faria o mesmo, mas cinco anos mais tarde. Quanto a isso, o artigo 225, constante do capítulo VI do título VIII da Constituição Federal, consagrou, segundo a análise de Rocha Sampaio (2011), diversos princípios que começaram a tomar forma a partir da Declaração de Estocolmo. Veja: É direito fundamental de todos ao meio ambiente saudável e equilibrado e o dever do Estado e da coletividade em criar condições ao desenvolvimento econômico sustentável (ROCHA SAMPAIO, 2011, p. 135). Dentre esses princípios da Declaração de Estocolmo estava: Princípios da sadia qualidade de vida, da equidade no acesso aos bens e recursos ambientais, intra e entre gerações, da precaução e da prevenção, além de diversos outros comandos normativos em matéria de proteção do meio ambiente (ROCHA SAMPAIO, 2011, p. 135). Na Constituição Federal também há matéria ambiental no título VII, capítulo I, art. 170 e 186. Rocha Sampaio (2011, p. 129), como já dissemos, cita o período pós-Estocolmo (Declaração de Estocolmo de 1972) como o iníciode um processo que levou à evolução e à consolidação de um Direito Ambiental brasileiro. Saiba mais É de fundamental importância acompanhar as resoluções do Conama, órgão do Ministério do Meio Ambiente. Entre elas, leia a famosa Resolução 237, que regulamenta os aspectos de licenciamento ambiental estabelecidos na Política Nacional do Meio Ambiente – Lei 6.938/1981: BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Resolução 237, de 19 de dezembro de 1997. 1997b. Disponível em: <http://www.mma.gov.br/port/conama/res/ res97/res23797.html>. Acesso em: 4 set. 2013. Nesse sentido, Barbieri (2011) apresenta uma cronologia das principais leis e normas brasileiras, conforme pode ser visto a seguir. • Decreto nº 24.643 de 10/07/1934 - Código das Águas. • Decreto-Lei nº 25 de 30/11/1937 - Organiza a proteção do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. • Lei nº 4.771 de 15/09/1965 - Institui o novo Código Florestal. 96 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I • Lei nº 4.717 de 29/07/1965 - Regula a ação popular. • Lei nº 5.197 de 03/01/1967 - Dispõe sobre a proteção da fauna e dá outras providências. • Decreto-Lei nº 221 de 28/02/1967 - Dispõe sobre a proteção e estímulo à pesca e dá outras providências. • Decreto-Lei nº 227 de 28/02/1967 - Código de Minas. • Decreto-Lei nº 1.413 de 14/08/1975 - Dispõe sobre controle da poluição do meio ambiente provocada por atividades industriais. • Lei nº 6.453 de 17/10/1977 - Dispõe sobre a responsabilidade civil por danos nucleares e responsabilidade criminal por atos relacionados com atividades nucleares. • Lei nº 6.567 de 24/09/1978 - Dispõe sobre regime especial para a exploração e o aproveitamento das substâncias minerais que especifica (areias, cascalhos, saibros, argilas para cerâmica vermelha, rochas para uso imediato na construção civil etc.). • Lei nº 6.766 de 19/12/1979 - Dispõe sobre o parcelamento do solo urbano. • Lei nº 6.803 de 02/06/1980 - Dispõe sobre diretrizes básicas para o zoneamento industrial nas áreas críticas de poluição. • Lei nº 6.938 de 31/08/1981 - Dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação (Regulamentado pelo Decreto 99.274 de 06/06/1990). • Lei nº 7.347 de 24/07/1985 - Disciplina a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artísticos, estéticos, históricos, paisagísticos (Lei dos Direitos Difusos). • Lei nº 7.661 de 16/05/1988 - Institui o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro. • Lei nº 7.754 de 14/04/1989 - Estabelece medidas para proteção das florestas existentes nas nascentes de rios. • Lei nº 7.797 de 10/07/1989 - Cria o Fundo Nacional de Meio Ambiente. • Lei nº 7.805 de 18/07/1989 - Altera o Decreto-Lei nº 277 de 28/02/1967, cria o regime de permissão de lavra garimpeira, extingue o regime de matricula. • Lei nº 7.802 de 11/07/1989 - Dispõe sobre a pesquisa, a experimentação, a produção, a embalagem e rotulagem, o transporte e o armazenamento, a comercialização, a 97 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL propaganda comercial, a importação, a exportação, o destino final dos resíduos e embalagens, o registro, a classificação, o controle, a inspeção e a fiscalização de agrotóxicos, seus componentes e fins (conhecida como Lei dos agrotóxicos). • Lei nº 8.171 de 17/01/1991 - Dispõe sobre a política agrícola. • Lei nº 8.723 de 28/10/1993 - Dispõe sobre a redução de emissões de poluentes por veículos automotores. • Lei nº 9.433 de 08/01/1997 - Institui a Política Nacional de Recursos Hídricos, cria o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, regulamenta o inciso XIX do Art. 21 da Constituição Federal. • Lei nº 9.605 de 12/02/1998 - Dispõe sobre sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente (Lei dos Crimes Ambientais). • Lei nº 9.795 de 27/04/1999 - Dispõe sobre a Educação Ambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental. • Lei nº 9.960 de 28/01/2000 - Institui a Taxa de Serviços Administrativos - TSA, em favor da Superintendência da Zona Franca de Manaus - Suframa, estabelece preços a serem cobrados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - Ibama, cria a Taxa de Fiscalização Ambiental - TFA. • Lei nº 9.966 de 28/04/2000 - Dispõe sobre a preservação, o controle e a fiscalização da poluição causada por lançamento de óleo e outras substâncias nocivas ou perigosas em água sobre jurisdição nacional. • Lei nº 9.984 de 17/07/2000 - Dispõe sobre a criação da Agência Nacional da Água (ANA), entidade federal de implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e Coordenação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos. • Lei nº 9.985 de 18/07/2000 - Regulamenta os incisos 1,11, III e IV do § 12 do Art. 225 da Constituição Federal, institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) e dá outras providências. • Lei nº 10.165 de 27/12/2000 - Taxa de Controle e Fiscalização Ambiental- Altera a Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação. • Lei nº 10.257 de 10/07/2001 - Regulamenta os artigos 182 e 183 da Constituição Federal, estabelece diretrizes gerais de política urbana (Estatuto das Cidades). • Lei nº 10.308 de 20/11/2001 - Estabelece normas para o destino final de rejeitos radiativos. • Lei nº 10.410 de 11/01/2002 - Cria a disciplina e carreira de Especialista em Meio Ambiente. 98 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I • Lei nº 10.650, de 16 de abril de 2003 - Dispõe sobre o acesso público aos dados e informações existentes nos órgãos e entidades integrantes do Sisnama. • Lei nº 11.105 de 24/03/2005 - Regulamenta os incisos 11, IV e V do § 10 do art. 225 da Constituição Federal, estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização de atividades que envolvam organismos geneticamente modificados - OGM. • Lei nº 11.284 de 02/03/2006 - Dispõe sobre a gestão de florestas públicas para a produção sustentável; institui, na estrutura do Ministério do Meio Ambiente, o Serviço Florestal Brasileiro - SFB; cria o Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal - FNDF. • Lei nº 11.428 de 22/12/2006 - Dispõe sobre a utilização e proteção da vegetação nativa do bioma Mata Atlântica. • Lei nº 11.445 de 05/01/2007 - Estabelece diretrizes para o saneamento básico. • Lei nº 11.460 de 21/03/2007 - Dispõe sobre o plantio de organismos geneticamente modificados em unidades de conservação. • Lei nº 11.515 de 28/08/2007 - Dispõe sobre a criação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. • Lei nº 11. 762 de 01/08/2008 - Fixa limites máximos de chumbo permitido na fabricação de tintas imobiliárias e de uso infantil e escolar, vernizes e materiais similares. • Lei nº 11.936 de 14/05/2009 - Proíbe a fabricação, importação, exportação e manutenção em estoque, comercialização e uso do diclorodifeniltricloretano (DDT). • Lei nº 11.959 de 29/06/2009 - Dispõe sobre a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável da Aquacultura e Pesca. • Lei nº 12.114 de 09/12/2009 - Cria o Fundo Nacional sobre Mudanças Climáticas. • Lei nº 12.187 de 29/12/2009 - Institui a Política Nacional sobre Mudanças Climáticas. • Lei nº 12.305 de 02/08/2010 - Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos.Fonte: Barbieri (2011, p. 104-106). Para finalizar, é importante mencionar que a IFAC (International Federation of Accountants) está produzindo, dentro do esforço de convergência contábil internacional, estudos e orientações muito úteis para a área ambiental. Em uma recente publicação, a IFAC diz: Dando importância para a biodiversidade e os ecosistemas para os negócios e a sociedade, a profissão contábil tem um papel importante para tornar mais claro esse assunto na gestão empresarial e desenvolver novas 99 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL formas de avaliação e demonstrações (INTERNATIONAL FEDERATION OF ACCOUNTANTS, s.d.). Saiba mais Acompanhe os materiais e orientações que a IFAC está continuamente divulgando. Dentre esses materiais, destacamos o seguinte: INTERNATIONAL FEDERATION OF ACCOUNTANTS – IFAC. Competent and versatile: how professional accountants in business drive sustainable organizational success. [s.d.]. Disponível em: <http://viewer.zmags.com/ publication/b908956a#/b908956a/26>. Acesso em: 4 set. 2013. Esse material, que tem acesso gratuito, foi redigido em inglês. Resumo Nesta unidade, refletimos sobre o papel das empresas no mercado e na vida das pessoas. Entende-se que, acima de qualquer interesse, as empresas têm um papel e um dever social. Estudamos o nosso papel de contadores dentro do fenômeno empresa. Vimos também que o conceito de sustentabilidade empresarial, embora todos esperem que seja uma realidade completamente integrada ao contexto empresarial, ainda traz dúvidas e discordâncias sobre qual seria o patamar de dever social que as empresas devem exercer na sociedade. Conhecemos duas ferramentas básicas de gestão ambiental, o triple bottom line e as análises de ciclo de vida, dentro das normas internacionais ambientais ISO 14.000. São dois modelos administrativos que nos ajudam a entender vários outros modelos que surgem de acordo com as necessidades e os acordos voluntários (ou não) que as empresas celebram com a sociedade. Mais adiante, vimos o conceito de Contabilidade Ambiental, elementos patrimoniais e de resultado ligados ao meio ambiente e alguns exemplos de lançamentos contábeis envolvendo transações ambientais dentro de um esforço de evidenciação contábil ambiental. Com essa evidenciação contábil é possível preparar e divulgar alguns artefatos contábeis muito úteis e relevantes para os usuários da Contabilidade, como o ecobalanço e os ecoindicadores. Temos, também na esfera da Contabilidade nacional pública, a possibilidade de usar o Balanço Patrimonial ambiental das nações. 100 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 Unidade I Conhecemos também a legislação ambiental e o Direito Ambiental, que se desenvolveu em paralelo, em que nossos colegas operadores de Direito também se viram na necessidade de um ramo do Direito especializado em questões ambientais. Sob todos esses os aspectos, observamos que para os contadores a questão ambiental, muito longe de ser um tema leve ou exótico, traz dificuldades extremas não apenas por conta da dificuldade técnica inerente, mas pela necessidade de se saber lidar com os interesses divergentes que atraem. Se nossos colegas contadores alguns anos atrás enfrentaram desafios de tornar a pratica contábil viável em meios informatizados, de provar a relevância da Contabilidade e, mais recentemente, de tornar a Contabilidade convergente internacionalmente, (movimento ainda em andamento com o processo de convergência às Normas Internacionais de Contabilidade), temos agora o desafio de atender às expectativas nada fáceis de atender ao triple bottom line: equilibrar o desempenho econômico, social e ambiental. Concluímos que se faz imprescindível, para poder bem atuar como centro dos interesses divergentes, ter um excelente preparo ético. E é salutar, como outro importante tópico de atuação profissional, conhecer fundamentos da ciência atuarial. Exercícios Questão 1. Indicadores são amplamente usados no universo dos negócios, a exemplo dos índices de liquidez, endividamento e atividade, mas também são usados em diversas outras áreas, incluindo a ambiental, em que recebem a denominação de ecoindicadores ou indicadores de ecoeficiência. Considerando o assunto, assinale a alternativa que corresponde ao índice cujo reflexo seja o de revelar a relação entre a conscientização ambiental da empresa e suas atividades de comercialização: A) Investimentos ambientais gerais. B) Perdas ambientais da empresa. C) Despesas ambientais e as operações. D) Prevenção e valor adicional gerado. E) Remediação e prevenção. Resposta correta: alternativa C. 101 CC TB - R ev isã o: L uc as /C ris tin a- D ia gr am aç ão : F ab io - 0 9/ 09 /2 01 3 TÓPICOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL Análise das alternativas A) Alternativa incorreta. Justificativa: reflete o posicionamento da empresa frente à questão ambiental, de forma ampla. B) Alternativa incorreta. Justificativa: reflete o grau de conscientização mediante desastres ambientais. C) Alternativa correta. Justificativa: o enunciado reflete exatamente o reflexo do indicador. D) Alternativa incorreta. Justificativa: reflete como a empresa está administrando seus gastos na prevenção de problemas ambientais face ao valor adicionado por suas operações. E) Alternativa incorreta. Justificativa: revela a postura da empresa em sua relação com o meio ambiente. Questão 2. Sobre o assunto gestão sócio ambiental empresarial, assinale a alternativa correta: A) Entende-se por gestão ambiental empresarial as diferentes atividades que ocorrem somente no ambiente operacional das empresas que abordem problemas ambientais decorrentes da sua atuação ou para evitar que eles ocorram no futuro. B) A realização de ações ambientais episódicas ou isoladas são bastante fortes para configurar um sistema de gestão ambiental. C) Todas as políticas ambientais escritas por parte das organizações se transformam em orientações efetivas para as decisões de gestão ambiental. D) A política ambiental empresarial deve ser explicitada em documentos e referir-se a propostas positivas que orientem as decisões sempre no sentido de melhorar o desempenho ambiental da empresa e de acatar todas as disposições legais a que estiver sujeita. E) Um sistema de gestão ambiental é um componente do sistema global de gestão da organização, que contempla apenas as tarefas de uso de materiais para que não haja desperdícios. Resolução desta questão na plataforma.