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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE TECNOLOGIA DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA CURSO DE ARQUITETURA E URBANISMO ADRIANO DANTAS DE MEDEIROS JÚNIOR CIDADE EM RIMAS: Um estudo da representação da cidade de Carnaúba Dos Dantas na literatura de cordel de Francisco Rafael Dantas Natal, RN 2018 2 ADRIANO DANTAS DE MEDEIROS JÚNIOR CIDADE EM RIMAS: Um estudo da representação da cidade de Carnaúba Dos Dantas na literatura de cordel de Francisco Rafael Dantas Trabalho Final de Graduação apresentado à banca examinadora do curso de Arquitetura e Urbanismo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sob a orientação do Prof.º Drº George Alexandre Ferreira Dantas, como exigência para obtenção de grau de Arquiteto e Urbanista. Natal,RN 2018 3 Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial Prof. Dr. Marcelo Bezerra de Melo Tinôco - DARQ - CT Júnior, Adriano Dantas de Medeiros. Cidade em rimas: um estudo da representação da cidade de Carnaúba dos Dantas na literatura de cordel de Francisco Rafael Dantas / Adriano Dantas de Medeiros Júnior. - Natal, 2018. 65f.: il. Monografia (Graduação) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Tecnologia. Departamento de Arquitetura e Urbanismo. Orientador: George Alexandre Ferreira Dantas. 1. Literatura de cordel - Monografia. 2. Representação - Monografia. 3. História urbana - Monografia. 4. História cultural - Monografia. I. Dantas, George Alexandre Ferreira. II. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. III. Título. RN/UF/BSE15 CDU 398.51 Elaborado por Ericka Luana Gomes da Costa Cortez - CRB-15/344 4 ADRIANO DANTAS DE MEDEIROS JÚNIOR CIDADE EM RIMAS: Um estudo da representação da cidade de Carnaúba Dos Dantas na literatura de cordel de Francisco Rafael Dantas Trabalho Final de Graduação apresentado à banca examinadora do curso de Arquitetura e Urbanismo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sob a orientação do Prof.º Drº George Alexandre Ferreira Dantas, como exigência para obtenção de grau de Arquiteto e Urbanista. Aprovação em 04 de dezembro de 2018. BANCA EXAMINADORA ________________________________________________ George Alexandre Ferreira Dantas Professor Orientador – UFRN ________________________________________________ Marizo Vitor Professor – UFRN ________________________________________________ Rebeca Grilo de Souza Arquiteto(a) Convidado(a) 5 AGRADECIMENTOS Agradeço à minha mãe, Marluce Margarida Dantas de Medeiros; minhas irmãs, Millena Dantas de Medeiros e Micarlla Dantas de Medeiros; e meus pais de coração, Marinês Dantas e Iremar Dantas, por serem o princípio, meio e fim. Aos meus amigos Alexandre Dantas, Bruna Hávilla e Richard Bivar, parte essencial dessa jornada. Aos meus colegas arquitetos que foram força e apoio nos momentos mais escuros da caminhada, em especial Bárbara Rodrigues, Bruna Mendonça, Evelyne Albuquerque, Joyce Kallyna, Natália Madruga, Rodrigo Silva e Luiz Miguel, responsável pela ilustração na capa deste trabalho. Por fim, à cidade e ao povo de Carnaúba dos Dantas, inspiração e força motriz de todo o processo. A todas as pessoas que contribuíram direta ou indiretamente com este trabalho, meu muito obrigado. 6 RESUMO As discussões e reflexões levantadas durante a graduação em Arquitetura e Urbanismo relacionadas à história urbana e memória despertaram um olhar sobre o espaço de Carnaúba dos Dantas, localizada na região do Seridó do Rio Grande do Norte. Reconhecida enquanto município na década de 1950, a cidade tem uma história ainda recente. Em busca de novas fontes que possam resgatar e contribuir para a história urbana da cidade, o presente trabalho apresenta uma discussão da literatura de cordel produzida pelo carnaubense Francisco Rafael Dantas enquanto representação da cidade pela perspectiva da História Cultural com base, principalmente, nas ideias de Roger Chartier e Sandra Pesavento; é lançado um olhar sobre os cordéis do autor a fim de identificar as características da Carnaúba dos Dantas construída pelo poeta em seus versos e traçar um paralelo com outras representações que registram a cidade com o intuito de provar o cordel como fonte da história urbana da cidade de Carnaúba dos Dantas. Palavras-chave: Literatura de Cordel; Representação; História Urbana; História Cultural; 7 ABSTRACT The discussions and reflections raised during the graduation in Architecture and Urbanism related to the urban history and memory aroused a look on the space of Carnaúba dos Dantas, located in Seridó, region of Rio Grande do Norte. Recognized as a municipality in the 1950s, the city has a recent history. In the search for new sources that can rescue and contribute to the urban history of the city, the present work presents a discussion of cordel literature produced by Francisco Rafael Dantas as a representation of the city from the perspective of the Cultural History, based mainly on the ideas of Roger Chartier and Sandra Pesavento; is a look at the author's cordeis in order to identify the characteristics of the Carnaúba dos Dantas built by the poet in its verses and to draw a parallel with other representations that register the city to prove the cordel literature as source of the urban history of the city of Carnaúba dos Dantas. Keywords: Cordel literature; Representation; Urban History; Cultural History; 8 LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIGURA 1: CARNAÚBA DOS DANTAS, S/D. 1 FIGURA 2: FOTO DO EDIFÍCIO PENTHOUSE, NO BAIRRO DO MORUMBI EM SÃO PAULO, S/D 8 FIGURA 3: OUTRO ÂNGULO DO EDIFÍCIO PENTHOUSE, LOCALIZADO AO LADO DA FAVELA PARAISÓPOLIS, EM SÃO PAULO, S/D. 8 FIGURA 4: NA PRIMEIRA FOTO, DE CIMA PARA BAIXO, VÊ-SE A IGREJA MATRIZ DE SÃO JOSÉ E O MONTE DO GALO AO FUNDO. 28 FIGURA 5: DA ESQUERDA PARA DIREITA E DE CIMA PARA BAIXO: 1- BIBLIOTECA DONATILLA DANTAS; 2 - NÃO IDENTIFICADO; 3 - MONTE DO GALO; 4 - NÃO IDENTIFICADO; 5 - MONTE DO GALO; 6 - IMAGEM DE JESUS CRUCIFICADO, NO CIMO DO MONTE DO GALO. 28 FIGURA 6: NA CAPA: CASAS DO CENTRO HISTÓRICO DA CIDADE NA RUA ANTONIO AZEVÊDO, O CASTELO DI BIVAR E UMA IMAGEM DE JESUS CRUCIFICADO. 28 FIGURA 7: NA CAPA: IMAGEM DO MONTE DO GALO. 28 FIGURA 8: NA CAPA: PREFEITURA MUNICIPAL DA CIDADE E FOTO DE FRANCISCO RAFAEL. 28 FIGURA 9: NA CAPA: FRANCISCO RAFAEL E IMAGEM DE UMA CASA 28 FIGURA 10: MONTE DO GALO, S/D 29 FIGURA 11: INAUGURAÇÃO DO CRUZEIRO DO MONTE DO GALO EM 25 DE OUTUBRO DE 1928 36 FIGURA 12: SANTUÁRIO DE SANTA RITA DE CÁSSIA, 2005. 41 FIGURA 13: SANTUÁRIO DE SANTA RITA DE CÁSSIA, 2005 41 FIGURA 14: SANTUÁRIO DE SANTA RITA DE CÁSSIA, 2018. 42 FIGURA 15: “CASA DOS TIBÉ”, AO LADO DA PEDRA DO GAMBÃO, 2018. 44 FIGURA 16: BIBLIOTECA DONATILLA DANTAS, 2018. 45 FIGURA 17: PRÉDIO DO ANTIGO CINE SÃO PEDRO, 2018. 45 FIGURA 18: GRUPO ESCOLAR JOSÉ AZEVÊDO DANTAS, 2018. 46 FIGURA 19: LOJA DA REDE CASAS POTIGUAR, NA RUA MANOEL LÚCIO, ONDE FICAVA O “FORRÓ DA MÃE NEGRINHA”. 47 FIGURA 20: RUA MANOEL LÚCIO, VÊ-SE A FACHADA DE DO PRÉDIO ONDE ACONTECIAO CHAMADO “FORRÓ DA MÃE NEGRINHA”, S/D. 48 FIGURA 21: MARIA SABRINA DA CONCEIÇÃO, A “MÃE NEGRINHA”. 48 FIGURA 22: FACHADA DA PARTE DO PRÉDIO DO ANTIGO HOTEL ONDE FICAVAM OS QUARTOS, NA RUA CASSIMIRO ALBERTO, 2018 49 FIGURA 23: PRÉDIO ONDE FICAVA A LOJA DE TOINHO LOPES, 1999 50 FIGURA 24: BODEGA DE BOLIM, S/D. 51 FIGURA 25: BODEGA DE BOLIM, S/D. 51 9 LISTA DE CORDÉIS DE FRANCISCO RAFAEL DANTAS 1. 3º ATO: Carnaúba dos Dantas e seus apelidos, s/d 2. A história de dois reis poderosos, 2010 3. A história de Dom José Adelino Dantas, 2010 4. A verdadeira história do Monte do Galo, 2008 5. Carnaúba do passado ao presente, 2009 6. Carnaúba e seus homens sistemáticos, s/d 7. Carnaúba e seus valores do passado, 2009 8. Conheça as regras para fazer Poesia Popular, 2010 9. Conheça os prefeitos e vereadores de Carnaúba dos Dantas de 1954 a 2008, 2010 10. Eu e a reencarnação, s/d 11. Felinto Lúcio: um gênio da música, 2009 12. Histórias do passado, s/d 13. Lembrando as pessoas esquecidas, 2010 14. Me orgulho em ser filho desta terra, s/d 15. Modesto Ernesto Dantas: um herói enaltecido, 2009 16. Não zombe seu semelhante, s/d 17. O caboclo Clementino (Vaqueiro que nunca mentiu), 2009 18. O fim do orgulho, s/d 19. O primeiro milagre no Vale do Carnaúba, 2009 20. O Seridó, co-autor: Hilário Félix Dantas, s/d 21. O sofrimento de Joana Turuba: devota de Santa Rita de Cássia, s/d 22. Orgulhoso de ser nordestino, s/d 23. Pinto do monteiro: o gênio do repente, 2010 24. Poemas inéditos, 2010 25. Recordação sertaneja, 2009 26. Segredos da natureza, 2008 27. Sertão do Seridó, 2009 28. Sertão que a gente mora, s/d 29. Sertão que fui criado, 2008 30. Um sonho no deserto, s/d 31. Voltando ao passado, 2009 32. Zé Limeira: o poeta sem oração, 2010 10 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 1 1. O CORDEL COMO REPRESENTAÇÃO DA CIDADE 5 2. CIDADE EM RIMAS: CARNAÚBA DOS DANTAS NA OBRA DE FRANCISCO RAFAEL DANTAS 10 2.1 HISTÓRIAS DE ORIGEM 12 2.2 A CIDADE E A FÉ 15 2.3 RIQUEZAS DA TERRA 17 2.4 CARNAÚBA: BERÇO DE SEUS PERSONAGENS E CENÁRIO DE SUAS HISTÓRIAS 19 2.5 A VIDA NA ZONA RURAL 22 2.6 CARNAÚBA DO PASSADO E DO PRESENTE 24 2.7 A IMAGEM DE CARNAÚBA 27 3. OS DIFERENTES OLHARES: DO CORDEL À HISTORIOGRAFIA 29 3.1 A VERDADEIRA HISTÓRIA DO MONTE DO GALO 29 3.3 LEMBRANDO AS PESSOAS ESQUECIDAS 42 CONSIDERAÇÕES FINAIS 52 11 INTRODUÇÃO As várias reflexões e discussões levantadas ao longo da graduação em Arquitetura e Urbanismo em relação a patrimônio despertaram-me o interesse em memória e história da cidade, além de alimentar um olhar curioso sobre como e de que diferentes maneiras essa história é contada e registrada, seja através das marcas físicas e espaciais no ambiente urbano ou através das várias e distintas maneiras de se registrar e representar o espaço e guardar sua imagem, utilizando-se de diferentes linguagens, escritas ou não; cada forma apresentando uma diferente visão sobre o mesmo objeto. Dessa forma, o espaço urbano é foco de diferentes olhares sem que sejam uns mais importantes que outros, esses olhares que traduzem-se em discursos divergem, convergem ou justapõem-se de maneira que não há verdades absolutas (PESAVENTO, 1999). Essas reflexões atingiram, aos poucos, meus espaços de vivência, em especial o espaço da cidade de Carnaúba dos Dantas, Seridó potiguar, onde nasci e cresci, fazendo surgir perguntas relacionadas ao que se conhece da história de Carnaúba dos Dantas, ao quanto não se sabe por falta de registros e sobre quanto dessa história e memória residem em lugares pouco explorados. Figura 1: Carnaúba dos Dantas, s/d. Fonte: Horizonte, 2011, p. 1. 12 Dentre as formas de se representar e registrar a cidade e suas peculiaridades, as abordagens artísticas como o cinema, a música e a literatura chamam atenção pelas infindas maneiras e estilos como podem contar suas histórias, capazes de trazer informações e percepções feitas de uma maneira que normalmente não se encaixam em registros e documentos históricos formais, como observa Sandra Pesavento sobre o uso das representações literárias do urbano como fonte: Tal procedimento implica pensar a literatura como uma leitura específica do urbano, capaz de conferir sentidos e resgatar sensibilidades aos espaços citadinos, às ruas e formas arquitetônicas, aos seus personagens e às sociabilidade que nesse espaço têm lugar (PESAVENTO, 2002, p. 10). Motivado pela curiosidade de estudar a literatura como fonte de informações sobre o espaço urbano, a ideia de usar a obra do escritor carnaubense Francisco Rafael Dantas pareceu quase óbvia, o autor é provavelmente o maior expoente da cultura popular da cidade e possui uma vasta produção em poesia publicada em livros e, em sua maior parte, no formato de cordéis; é essa produção em cordel de Francisco Rafael que será usada como base para este trabalho. A literatura de cordel que descende da cultura europeia e encontrou no sertão brasileiro e suas peculiaridades culturais e sociais outros significados e forte relação com seu povo (BATISTA, 1977), tem como forte característica a representação da realidade sertaneja, suas lendas, costumes, culturas e, claro, o espaço em que está inserida, tendo sido, por isso, utilizada em outras pesquisas, por exemplo, nas áreas da saúde, história e antropologia, como é o caso da pesquisa conduzida por Julie Cavignac, onde ela se utiliza da literatura de cordel como foco, e afirma a capacidade dos folhetos de revelar a realidade da cultura e o saber sertanejo, “me servirão de fio condutor para uma viagem na história, na vida quotidiana, nas práticas e representações de uma população esquecida pelos políticos, as mídias e os antropólogos” (CAVIGNAC, 2006, p 27). 13 Carnaúba dos Dantas foi reconhecida como município e teve sua emancipação política da cidade de Acari em 11 de dezembro de 1953, sendo uma cidade de história ainda muito recente aos seus 65 anos. Nos últimos vinte anos, o historiador carnaubense Helder Alexandre Medeiros de Macedo figura como principal nome a debruçar-se sobre a história de Carnaúba dos Dantas; dentre sua rica produção acadêmica, duas obras destacam-se por tratarem de um rico e detalhado levantamento do patrimônio cultural, material e imaterial, da cidade: “Carnaúba dos Dantas: História e Patrimônio” (2012) e “Ritmos, sons, gostos e tons do Patrimônio Imaterial de Carnaúba dos Dantas” (2005), onde atua com organizador dos textos, maior parte de sua autoria. É a produção de Helder Alexandre que abre os caminhos e serve de linha condutora para a obra de outros carnaubenses como Mamede Azevêdo, Donatilla Dantas, José Adelino Dantas e outros. Não há, até o momento, estudos relacionados à história urbana da cidade que explorem a produção artística local como fonte; em uma escala maior, não encontrou-se nenhum estudo que explore a literatura de cordel como fonte de história urbana. Para entender as visões literárias da cidade oferecidas pela literatura de cordel de Francisco Rafael Dantas como parte da história urbana de Carnaúba dos Dantas, foi lançado um olhar sobre os cordéis da perspectiva da História Cultural, vertenteda história que tem como proposta desvendar a realidade do passado através de suas representações . Entende-se nesse contexto os 1 cordéis de Francisco Rafael como representação da cidade, admitindo o sentido de representação enquanto: ...uma reapresentação de algo ou alguém que se coloca no lugar de um outro, distante no tempo e/ou no espaço. Aquilo/aquele que se expõe - o representante - guarda relações de semelhança, significado e atributos que remetem ao oculto - o representado. (Pesavento, 2004, p. 40). É sobre a imagem criada pelo poeta carnaubense em seus cordéis que se debruça esse estudo, buscando suas especificidades em relação às outras representações de Carnaúba dos Dantas, construindo uma discussão que 1 (Pesavento, 2003). 14 objetiva revelar como a literatura de cordel pode conter elementos de importância para o estudo do urbano. Quais as características da Carnaúba dos Dantas descrita na obra do autor? Através de que espaços a cidade é representada? Como ela é retratada e que tipo de relações são estabelecidas entre seus espaços e as narrativas nas quais estão inseridos? Que informações podem ser extraídas dos folhetos a respeito da história urbana de Carnaúba dos Dantas? Perguntas levantadas de maneira a compreender a cidade de uma perspectiva social oferecida pela arte popular do cordel, que com sua informalidade e poesia podem trazer informações importantes para o entendimento desses espaços e possíveis intervenções nos mesmos. O trabalho está estruturado da seguinte maneira: 1. O Cordel Como Representação da cidade, discute literatura de cordel pela perspectiva da História Cultural com base nas ideias de Pesavento (2003) e Chartier (1990) enquanto fonte relevante da história urbana, buscando entender a mesma como uma forma singular de ver e registrar o espaço urbano; 2. Cidade em Rimas: Carnaúba dos Dantas na Obra de Francisco Rafael Dantas, traz uma visão geral da obra de Francisco Rafael Dantas e caracteriza a representação de Carnaúba dos Dantas construída pelo poeta traçando um panorama geral da cidade retratada nos versos do poeta; 3. Os Diferentes Olhares: do Cordel à Historiografia, apresenta uma comparação entre os cordéis “A Verdadeira História do Monte do Galo”, “O Sofrimento de Joana Turuba” e “Lembrando As Pessoas Esquecidas” e os registros existentes dos espaços sobre os quais falam as obras; e 4. Considerações Finais. 15 1. O CORDEL COMO REPRESENTAÇÃO DA CIDADE Mil setecentos anos Depois de Cristo passado O vale do Carnaúba Começou ser povoado Pelos filhos de Caetano Um português respeitado Diz um historiador De grande potencial Que Caetano Dantas Correia Fugiu lá de Portugal Junto com seus dois irmãos Por motivo criminal Nesse tempo no Brasil O governador geral Dava direito a pessoa Com documento legal A demarcar o sertão Distante do litoral Por isso Caetano Dantas Veio parar no sertão Trazendo escravo e dinheiro Com muita disposição Dos picos até Picuí Fez sua demarcação E arranjou casamento Com uma moça solteira Era filha de Tomaz De Araújo Pereira Também grande fazendeiro Que morava na ribeira Deste feliz casamento Grande família gerou Ao passar de muitos anos A morte lhe procurou E uma légua de terra A cada filho deixou Seu filho Simplício Dantas Era seu legítimo herdeiro No vale do Carnaúba Se tornou-se um fazendeiro Lá no sítio Xique-xique Foi um morador primeiro Junto com sua família Construiu sua morada Começou a criar gado Nas terras desabitadas Mais sempre com fé em deus E na virgem imaculada (O Primeiro Milagre no Vale do Carnaúba, 2009) É através destes versos que abrem “O Primeiro Milagre no Vale do Carnaúba” que Francisco Rafael Dantas nos descreve o processo de ocupação portuguesa da região onde atualmente encontra-se Carnaúba dos Dantas. Sabe-se que esse processo conta com muito mais variáveis do que as que figuram no relato do poeta - a presença indígena no local, demarcação de terras, padrão de ocupação exercido na região, dentre outras -, mas é notável a proximidade com a narrativa construída por Macedo (2012) baseada em diversos documentos e registros do período em questão. A História Cultural, vertente da história que ganhou força nos últimos 50 anos, estabelece que a única maneira de acessarmos o passado é através de suas representações, e é sobre elas que se debruçam e procuram construir uma narrativa que se aproxime ao máximo do “real” ocorrido, sem, dessa 16 maneira, estabelecer verdades absolutas, mas sim questionáveis, procurando desvendar o passado pelas imagens construídas (PESAVENTO, 2004). Para entender melhor os registros que nos servem de fontes para a história como representações de uma época produzidas a partir de uma determinada realidade cultural com suas próprias especificidades tomaremos como exemplo o relato de Roger Chartier (1990) sobre a caracterização das leituras camponesas do século XVIII na França. Ao descrever a disponibilidade de informações à respeito das leituras camponesas no período em questão, Chartier chama atenção para a escassez de testemunhos dos próprios camponeses devido à baixa escolaridade dessa população, construindo a imagem das leituras camponesas da França no século XVIII a partir dos textos direcionados ao abade Gregório. Esses textos, por sua vez, partem de contatos do abade, pessoas letradas e, em geral, distantes da realidade camponesa. Levando em consideração a posição social das pessoas que forneceram as informações para a pesquisa e o modo, muitas vezes generalista e sem cuidados relacionados à quantificação dos dados, como responderam as perguntas propostas pelo abade Gregório, o historiador chegou à conclusão que a imagem criada a partir das correspondências recebidas misturam, além do que foi visto e vivido pelos correspondentes, o saber, familiaridade e estereótipos criados acerca da população camponesa. As variadas respostas recebidas pelo abade apresentavam convergências e divergências, tornando possível a construção de questionamentos a respeito das informações fornecidas. É preciso entender as representações como uma construção feita a partir do real, não uma cópia dele: Representar é, pois, fundamentalmente, estar no lugar de, é presentificação de um ausente; é um apresentar de novo, que dá a ver uma ausência. A idéia central é, pois, a da substituição, que recoloca uma ausência e toma sensível uma presença. A representação é conceito ambíguo, pois na relação que se estabelece entre ausência e presença, a correspondência não é da ordem do mimético ou da transparência. A representação não é uma cópia do real, sua 17 imagem perfeita, espécie de reflexo, mas uma construção feita a partir dele (PESAVENTO, 2004, p.40). Para ilustrar como diferentes representações podem ser construídas relacionadas a um mesmo espaço, tomemos como exemplo dois tipos de imagens criadas com base na cidade de São Paulo. Primeiramente, as músicas “Sampa”, de Caetano Veloso, e “Não Existe Amor em SP”, de Criolo: Sampa Caetano Veloso (1978) Não Existe Amor EmSP Criolo (2011) Alguma coisa acontece no meu coração Que só quando cruzo a Ipiranga e Av. São João É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi Da dura poesia concreta de tuas esquinas Da deselegância discreta de tuas meninas Ainda não havia para mim Rita Lee A tua mais completa tradução Alguma coisa acontece no meu coração Que só quando cruza a Ipiranga e avenida São João Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto É que Narciso acha feio o que não é espelho E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho Nada do que não era antes quando não somos mutantes E foste um difícil começo Afasto o que não conheço E quem vende outro sonho feliz de cidade Aprende depressa a chamar-te de realidade Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas Da força da grana que ergue e destrói coisas belas Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba Mas possível novo quilombo de Zumbi E os Novos Baianos passeiam na tua garoa E novos baianos te podem curtir numa boa Não existe amor em SP Um labirinto místico Onde os grafites gritam Não dá pra descrever Numa linda frase De um postal tão doce cuidado com doce São Paulo é um buquê Buquês são flores mortas Num lindo arranjo Arranjo lindo feito pra você Não existe amor em SP. Os bares estão cheios de almas tão vazias A ganância vibra, a vaidade excita Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel Aqui ninguém vai pro céu. Não precisa morrer pra ver Deus Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você Encontro tuas nuvens em cada escombro em cada esquina Me dê um gole de vida Não precisa morrer pra ver Deus A partir da observação das letras das músicas que apresentam um olhar sobre São Paulo, o que é possível concluir a respeito da cidade? Embora tenham como base o mesmo espaço - a cidade de São Paulo -, em que pontos 18 os olhares do cantor baiano (Caetano Veloso) e do rapper crescido no Grajaú (Criolo), periferia de São Paulo, encontram-se e divergem? Que imagem de São Paulo é construída a partir de uma e outra perspectiva? Como segundo exemplo, será utilizado um tipo de registro que tem capacidade de capturar com maior fidelidade o real: a fotografia. Observando as fotografias do Edifício Penthouse, também na cidade de São Paulo, podemos perceber que mesmo a fotografia tem uma visão limitada da realidade baseada nas perspectivas e ângulos escolhidos para a construção da imagem. Figura 2: Foto do Edifício Penthouse, no bairro do Morumbi em São Paulo, s/d Fonte:Conteúdo, 2015, p. 1. 19 Figura 3: Outro ângulo do Edifício Penthouse, localizado ao lado da favela Paraisópolis, em São Paulo, s/d. Fonte: Conteúdo, 2015, p. 1. É esse tipo de reflexão que objetiva-se tecer sobre a literatura de cordel: enxergá-la como uma das infindas maneiras de capturar o espaço citadino através de sua linguagem característica. Tendo como base a obra de forte tom memorialista do carnaubense Francisco Rafael Dantas, é preciso levar em consideração que ao relatar as memórias de sua juventude, é o Francisco Rafael adulto quem as narra , trazendo o peso de sua bagagem carregada de 2 vivências, o que não invalida o uso dessas informações para a ciência como propõe Sandra Pesavento: É a partir da experiência histórica pessoal que se resgatam emoções, sentimentos, idéias, temores ou desejos, o que não implica abandonar a perspectiva de que essa tradução sensível da realidade seja historicizada e socializada para os homens de uma determinada época. Os homens aprendem a sentir e a pensar, ou seja, a traduzir o mundo em razões e sentimentos. As sensibilidades seriam, pois, as formas pelas quais indivíduos e grupos se dão a perceber, comparecendo como um reduto de tradução da realidade por meio das emoções e dos sentidos. Nessa medida, as sensibilidades não só comparecem no cerne do processo de representação do mundo, como cor respondem, para o historiador da cultura, àquele objeto a capturar no passado, à própria energia da vida. (PESAVENTO, 2004, p. 57). 2 (CHARTIER, 1990). 20 A partir do que foi posto, procuraremos entender mais a fundo a representação de Carnaúba dos Dantas construída nas narrativas dos cordéis de Francisco Rafael Dantas, buscando suas principais características e peculiaridades que a divergem de outras representações da cidade a fim de revelar as contribuições que a literatura de cordel do poeta podem oferecer para a história urbana da cidade. 2. CIDADE EM RIMAS: CARNAÚBA DOS DANTAS NA OBRA DE FRANCISCO RAFAEL DANTAS Nascido no sítio Volta do Rio, zona rural da cidade de Carnaúba dos Dantas, Francisco Rafael Dantas (1935 - 2011) foi um importante carnaubense. Conhecido popularmente entre os habitantes da cidade por França - ou Mestre França, como costumam chamá-lo seus ex alunos -, alcunha com a qual assinou alguns de seus cordéis, o escritor desempenhou papel chave na cena cultural da cidade. Francisco Rafael exerceu diversas profissões ao longo de sua vida: agricultor, minerador, pedreiro, vereador e até vice prefeito da cidade; mas foi na arte que obteve mais forte reconhecimento. Pupilo do compositor carnaubense Felinto Lúcio, o talentoso musicista realizou entre a década de 1990 e 2000 notável trabalho enquanto professor de música, formando várias gerações de jovens músicos na Filarmônica 11 de Dezembro de Carnaúba dos Dantas, sendo constantemente relembrado por essa contribuição. Aqui, entretanto, será explorada sua produção em outra vertente artística dominada por França: a poesia. Francisco Rafael frequentou a escola na zona rural onde morava e não chegou a concluir o ensino fundamental, aos quinze anos começou a escrever poesias matutas e descobrir-se poeta; em 1958, iniciou o projeto conhecido como “Os Conselhos de Judas” em que, aos sábados de aleluia, recitava um poema improvisado com base nos acontecimentos, fofocas, brigas e causos envolvendo os carnaubenses ao longo daquele ano, causando grande movimentação e alvoroço entre os ouvintes (MACEDO, 2005). Essa tradição 21 perdurou por muito tempo e foi registrada por Cavignac (2006) durante sua passagem pela cidade na década de 90: De noite, os moradores se reúnem na praça central para escutar França (C. dos Dantas, RN) declamar sua sentença, retransmitida através de todos os alto-falantes e pela rádio local: esses versos tão esperados, preparados pra ocasião, contam os escândalos, mexericos, furtos, adultérios, brigas familiares e entre vizinhos (CAVIGNAC, 2006, p. 197). Francisco Rafael teve, ainda em vida, dois livros publicados: “Retalhos dos Meus Poemas” (1996) e “Carnaúba dos Dantas em Quatro Atos” (2006), trazendo poemas que abordam os mais diversos temas, dentre eles a cidade de Carnaúba dos Dantas, uma de suas grandes paixões; além dessas publicações, o escritor também dedicou-se a escrever cordéis. Estima-se entre os familiares que França tenha publicado mais de 50 folhetos, boa parte de forma independente,vendendo-os pessoalmente na feira livre dominical carnaubense. É nessa produção de livretos de cordel que mergulharemos. Todas as obras utilizadas nesse trabalho foram cedidas por Rosângela Dantas, sua filha, entre arquivos físicos e digitais, cópias do material comercializado por Francisco Rafael nas feiras, mantidas em acervo pelos familiares em sua própria casa. Foram reunidos, ao todo, uma variedade de 32 livretos. Das obras, 13 foram disponibilizadas em formato físico e 19 em formato digital; todos os cordéis são impressos em tamanho A5, cada um contendo 7 páginas em média. Em cada livreto foram publicadas de uma a cinco poesias. Adentrar na obra de Francisco Rafael é descobrir um universo. Em suas histórias, o poeta passeia pelos mais diversos temas: a simplicidade da vida na zona rural, os saberes do homem do campo, religiosidade, política, críticas sociais, lendas e histórias populares, relatos baseados em acontecimentos reais e histórias fictícias envolvendo reis e castelos. Dentre todos os elementos evocados pela literatura de Francisco Rafael, a cidade de Carnaúba dos Dantas recebe destaque e é tema constante em sua escrita. 22 Orgulhoso e apegado às suas origens, o poeta dedica muitas obras à vida na cidade de Carnaúba dos Dantas: seus espaços, costumes e, principalmente, seus personagens; traz relatos sobre as personalidades carnaubenses com quem conviveu ou de quem ouviu falar, transformando suas histórias em narrativas de cordel. Francisco Rafael nos apresenta a Carnaúba dos Dantas de sua juventude e de sua velhice, antigas tradições que permeiam seus espaços; suas rimas trazem a bagagem da vivência e o olhar do homem do campo e da cidade, trabalhador e político, músico e poeta; é esse olhar sobre a cidade, norteado por suas relações sociais, que procurou-se explorar na leitura de seus cordéis. A identificação da cidade de Carnaúba nos cordéis de Francisco Rafael foi feita de maneira simples. O escritor, quando não traz o nome da cidade nos títulos (“O Primeiro Milagre no Vale do Carnaúba”, “Carnaúba e Seus Valores do Passado”, “Carnaúba e Seus Filhos Geniais”), fala diretamente ou faz alusão aos seus espaços (Sítio Ermo, Monte do Galo, Serra da Rajada, etc.). Considerando o tamanho dos poemas utilizados, foram transcritos, para essa parte do estudo, os trechos que melhor representam e ilustram o argumento apresentado, que foram reproduzidos como encontram-se nas publicações, e torna-se importante destacar que, nos últimos anos de sua vida, em decorrência de uma deficiência visual importante, a digitalização dos textos era feita num processo em que o poeta ditava os versos para que outra pessoa os digitasse, e isso acarretou notáveis erros de digitação. As leituras dos textos dos cordéis revelam uma Carnaúba dos Dantas construída a partir das memórias e vivências do autor, das quais fazem parte fatos reconhecidos e registrados pela historiografia local, narrativas que estiveram, ou estão até hoje, presentes na tradição popular e, principalmente, as experiências vividas pelo poeta. Levando isso em consideração, foi possível montar um panorama geral da cidade retratada por França em seus poemas. 2.1 HISTÓRIAS DE ORIGEM 23 O processo de surgimento de importantes espaços da cidade é tema de alguns cordéis de Francisco Rafael. A própria origem desta é retratada em diferentes histórias, sempre relacionadas à figura de Caetano Dantas Corrêa (1710-1797), popularmente reconhecido como fundador da cidade, tendo sido o primeiro colonizador a habitar as terras onde hoje fica Carnaúba dos Dantas (MACEDO, 2005). As narrativas construídas pelo poeta, convergindo com o que aponta a historiografia local, atribuem à vinda de Caetano Dantas um importante passo para o processo de ocupação colonizadora que culminou na criação do município, anos mais tarde; entretanto, as narrativas invisibilizam completamente a presença indígena anterior à essa colonização, retratando o Vale do Carnaúba como “região desabitada” antes da chegada dos portugueses. Pelo século dezessete Os tropeiros viajavam Do sertão até o brejo Com quinze dias voltavam O caminho era diserto Mais havia os cantos certos Onde eles se arranchavam Onde hoje é Carnaúba Um grande rancho existia Pelo Rancho Pé do Monte O matuto conhecia Mais, começaram a notar Que ali naquele lugar Um grande mistério havia (...) O tempo foi se passando Caetano Dantas chegou Junto com sua família A trabalhar começou Cada ano que passava Uma família chegada E o lugar se povoou Mil e setecentos anos Depois de Cristo passado O vale do Carnaúba Começou ser povoado Pelos filhos de caetano Um português respeitado (…) Seu filho Simplício Dantas Era seu legítimo herdeiro No vale do Carnaúba Se tornou-se fazendeiro Lá no Sítio Xique-Xique Foi um morador primeiro (O Primeiro Milagre no Vale do Carnaúba, 2009) Pelo século dezessete Em época muito atrasada No Vale do Carnaúba Região desabitada Chegou um Caetano Dantas Entre as selvagens e plantas Construiu sua morada Daí abriu-se o caminho Para o progresso chegar Do Ermo até a Rajada Começou se povoar Cada ano que passava Uma família Chegava Unida pra trabalhar (Carnaúba e Seus Apelido, s/d) (A Verdadeira História do Monte do Galo, 2008) Em “A Verdadeira História do Monte do Galo” e “O Sofrimento de Joana Turuba”, o escritor dedica-se a contar em detalhes a história de dois importantes espaços ligados à romaria e à fé católica: o Monte do Galo, como o próprio título aponta, e o santuário de Santa Rita de Cássia. Ambas as histórias 24 vão além de narrar a sequência de fatos que levaram ao surgimento dos santuários, hoje reconhecidos como patrimônio da cidade (MACEDO, 2005), trazendo para os relatos as histórias de fé dos personagens envolvidos, contos e lendas da tradição oral que fazem parte do imaginário criado acerca desses ambientes e ajudam a compreender a relação das pessoas com os mesmos.f Um dia de madrugada Começaram a escutar Em cima daquele monte Um triste galo cantar Sem ter morada por perto Naquele lugar deserto Era de admirar Muitos matutos pensavam Que o monte era sagrado Outros diziam que não Que era um reino encantado Sem sentir pequeno abalo E pelo Monte do Galo Começou a ser chamado (A Verdadeira História do Monte do Galo, 2008) Hoje na cova de Joana Muita gente reza nela A população devota Construiu uma capela Pra Santa Rita de Cassia Que era a protetora dela (...) Elas fizeram campanhas Com toda população Com os donos das cerâmicas Também frestinhas e leilão Com a ajuda recebida Aumentou a construção. Junto a Maria de Lourdes Chefe da Tesouraria Fizeram o tumulo de Joana Santuario de alvenaria Com apoio da população Foi feito o que merecia. (O Sofrimento de Joana Turuba, s/d) Em “A História de Dom José Adelino Dantas”, após contar com detalhes a biografia desta importante figura religiosa e política, homem de personalidade forte e muito admirado até hoje pelo trabalho desenvolvido na cidade, França tece uma relação entre o bairro Dom Adelino - localizado no sopé do Monte do Galo - e a pessoa quelhe deu o nome. A vinte e quatro de março De oitenta e três o ano A nossa igreja católica Sofreu um golpe tirano Faleceu Dom Adelino Exemplo de ser humano Até o Monte do Galo Acabrunhado ficava Ao saber que lá embaixo Aquela voz se calava Que muitas vezes arrogante Nas suas rochas bradava 25 O Bairro Dom Adelino O pé do monte é chamado Chegando lá você ver Uma igrejinha ao lado A direita do altar Dom José tá sepultado (A História de Dom José Adelino Dantas, 2010) 2.2 A CIDADE E A FÉ Carnaúba é uma terra De gente religiosa Um povo pobre humilde E pessoa caridosa É a cidade da música E da Santa Milagrosa. (O Sofrimento de Joana Turuba, s/d) A cidade de Carnaúba dos Dantas relaciona-se fortemente com a fé católica, penetrando sua história e relações. O próprio surgimento da cidade está diretamente ligado à fé: uma promessa feita a São José para que mandasse chuvas durante uma seca no final do século XIX resultou na construção de uma capela dedicada ao santo, que deu início ao povoamento em suas redondezas, onde hoje fica a Igreja Matriz de São José, centro histórico da cidade (Macedo, 2005). Francisco Rafael, católico, traz essa crença em seus versos e retrata Carnaúba dos Dantas como a “terra de gente religiosa”. Assim como no caso da capela de São José, o escritor conta histórias de fé de seus personagens reais, que materializaram-se em espaços da cidade. Em “A Verdadeira História do Monte do Galo”, a promessa de Pedro Alberto Dantas para que Nossa Senhora das Vitórias o ajudasse a voltar para sua terra é o que dá início à construção do santuário em cima do monte; em “O Sofrimento de Joana Turuba”, a devoção de Joana Turuba pela santa dos Impossíveis é o que motiva a construção do Santuário de Santa Rita de Cássia. Aí naquele momento Pedro Alberto a santa implora Pedindo pra ela ajudar Pra ele vir embora E trazia na bagagem Aquela pequena imagem Da virgem Nossa Senhora Quando ele chegou em casa A sua história contou E a senhora das vitória Para o povo ele mostrou E disse, eu cheguei com vida Ma minha terra querida Porque ela me ajudou 26 E lá no monte do galo Colocava aquela imagem Logo ele arranjou serviço E comprou a sua passagem Pelo voto que ele fez Viajou no fim do mês E trouxe a santa na bagagem Aí convidou o povo Para juntos levantar Um cruzeiro lá no monte Onde a santa ia ficar E o povo com alegria Começou no outro dia Todos juntos a trabalhar (A Verdadeira História do Monte do Galo, 2008) Severino estava ao seu lado De sua avó estimada Saiu pra fazer um chá Vendo ela agoniada Voltando achou a avó morta Com Santa Rita abraçada (...) A jovem Ivaneide Lopes Começou com devoção Zelando aquele local Como peregrinação Todos os dia ia lá E rezava uma oração Devota de Santa Rita E a fé que tinha nela Com ato de penitência Comprou a imagem dela E com a ajuda do povo Construiu uma capela (O Sofrimento de Joana Turuba, s/d) A relação entre a cidade e a espiritualidade do seu povo também se expressa nos cordéis através de lendas e histórias que envolvem o sobrenatural. Do aparecimento de Nossa Senhora das Vitórias para salvar uma criança aos milagres alcançados no Monte do Galo, o autor apresenta Carnaúba dos Dantas como um espaço rodeado pelo místico. Ao estabelecer a relação desses espaços com forças sobrenaturais é possível influenciar a relação das pessoas com os mesmos. Como nos relacionamos, por exemplo, com lugares que são tidos como “assombrados”? Sentimentos de natureza semelhante podem ser despertados ao entendermos um local com o espaço de milagres. 27 Assim foi o sofrimento Até o romper da aurora Ao amanhecer do dia Viu chegar uma senhora Vestida num manto azul E mandou a onça embora E olhando para a criança E alegremente sorria E disse pode descer Que a onça já saiu Vou levar você em casa Que sua mãe me pediu O menino perguntou E a senhora quem é Eu sou a mãe de Jesus Esposa de São José Tou lhe dando a Proteção Porque sua mãe tem fé (...) Já faz uns duzentos anos Que isso aconteceu E foi o primeiro milagre Que aqui apareceu Depois no Monte do Galo Outros milagres se deu (O Primeiro Milagre no Vale do Carnaúba, 2009) “Milagre, sempre milagre Todo ano ele aparece Quando a pessoa tem fé Esse fenômeno acontece Mais dois acontecimento Que eu tive conhecimento Que o povo não conhece No ano cinquenta e oito Uma mulher adoeceu Só andava de moleta Quase suas perna morreu E ela sem ter melhora Um dia de Nossa Senhora Das Vitórias se valeu A mulher subiu o monte No seu marido agarrada Nos pés de Nossa Senhora Rezou muito ajoelhada Implorando a sua bença Para que sua doença Fosse por ela curada Quando ela se levantou Deu fé que estava curada Saiu andando sozinha Em em nada ser agarrada Sua alegria era tanta Que ela gritava pra santa Senhora, muito obrigado O outro foi uma mulher Quando seu filho nasceu Com poucos anos de idade De repente adoeceu E ela na mesma hora Também de Nossa Senhora Das Vitórias se valeu Ela fez uma promessa Para seu filho pagar Se ele ficasse bom Ao o monte visitar Vestindo um manto azulado E subir o monte pelado E nos pés da santa deixar Mais o menino foi crescendo E a promessa não pagou Ele já um homem feito Uma noite ele chegou Para a promessa pagar Quando a roupa foi tirar A luz do monte apagou E subiu o monte nu Pelado como nasceu Colocou a roupa lá No canto que prometeu Foi vistir uma que trazia Pois enquanto ele vestia De novo a luz acendeu (A Verdadeira História do Monte do Galo, 2008) 28 As relações traçadas pelo escritor entre a cidade e a fé restringem-se apenas à fé católica, criando um universo muito particular que desconsidera a prática e a marca espacial e cultural deixada por outras religiões na cidade. São nesses aspectos que é possível notar os limites traçados pelas vivências e intenções particulares de Francisco Rafael na representação da cidade construída por ele em seus versos. 2.3 RIQUEZAS DA TERRA O sentimento de orgulho por sua terra natal é constante na obra de França. A grande admiração por Carnaúba dos Dantas apresenta-se nos cordéis ao dedicar muitos de seus versos à exaltação de seus atributos, retratando a cidade como um lugar de riquezas das mais diversas naturezas: minerais, arqueológicas e, principalmente, culturais; exaltando a cidade como reduto de pessoas talentosas e grandes artistas. Em “Carnaúba e Seus Apelidos”, por exemplo, ao fazer um levantamento dos apelidos das pessoas da cidade, Francisco Rafael também lista os apelidos de lugares, trazendo à luz esses espaços. Carnaúba é uma cidade Que tem sítio arqueológico Deu homens superdotados Deu até um astrológico Apelidos tem demais Com nome dos animais Que dá um jardim zoológico (...) Apelido de lugar Tem o Sítio Pau Caído O Riacho dos Cachorro Grota do Arrependido O Salgadinho e Melado Tira Crioula e Pelado O Carrasco e Escondido Tem a Baixa da Madeira Carcará e o Fundão Riacho do Cabeludo A Garganta e o Cardão A Baixa da Barriguda Serra Nova e Serra Aguda Boa Sorte e Gavião A Grota do Criminoso Chapeu de Sol e Picote A Tábua e o Recanto Saco do Nego e Garrote As Pinturas e o Quarenta O Riacho da Cinzenta O Xique-xique e o Pote Mufumbá, Cabeço Liso João de Fogo e Minador A Baixa do Amojado A Espera e Corredor Maracujá, Gamelinha Inxetado e Caiçarinha Os Balançoe Mirador (Carnaúba e Seus Apelidos, s/d) 29 Carnaúba é rica em minerais Temos ouro, urano e tantalita Antrimônio, estanho e scheelita Feu de espato, granadas e cristais Berilo, bismuto e outros mais Exportamos até para o estrangeiro Em garimpo nós fomos pioneiros Principalmente em nossa região Explorando minério da nação Fomos nós os primeiros garimpeiros (Sertão Que a Gente Mora, s/d) Em Carnaúba dos Dantas, Deus fez tudo o quanto quis: Fez músico, pintor e poeta, Padre, escritor e juiz; De tudo fazendo um pouco, Pra o povo ficar feliz Lembrando as Pessoas Esquecidas, 2010) É a história de um seridoense De talento de fibra e de respeito Homem assim está em extinção Pois são poucos que possuem este conceito Felinto é conhecido no país E Carnaúba dos Dantas está feliz Por tem um filho famoso desse jeito Mil novecentos e oitenta Onze de setembro felinto faleceu Sua terra natal ficou de luto Carnaúba dos Dantas entristeceu Pela perca de um gênio musical Muitas bandas tocaram o funeral Homenageando um gênio que morreu (Felinto Lúcio Um Gênio da Música, 2009) Até os bisnetos de Mamede São mecânicos e trabalham consciente Também em outras famílias tem mecânico Como João Cândido Neto é competente É a prova que na arte de mecânico Carnaúba tem um povo inteligente (Carnaúba e Seus Valores do Passado, 2009) 30 Você vindo a Carnaúba Vá fazer uma visita Lá na Pedra do Dinheiro Pra ver como ela é bonita Reze no túmulo de Joana E também pra Santa Rita (O Sofrimento de Joana Turuba, s/d) A diversidade dos atributos da cidade exaltados por Francisco Rafael tem a capacidade de proporcionar o descobrimento e redescobrimento deste espaço ao revelar características e riquezas pouco conhecidas e exploradas por estrangeiros ou até mesmo pela população de Carnaúba dos Dantas, além de reforçar a importância das já conhecidas. Não foram encontradas, por exemplo, menções a espaços como a Grota do Criminoso e o Riacho da Cinzenta em nenhum tipo de registro. 2.4 CARNAÚBA: BERÇO DE SEUS PERSONAGENS E CENÁRIO DE SUAS HISTÓRIAS De todas as riquezas de Carnaúba dos Dantas sobre as quais o poeta escolhe rimar, uma em particular tem grande destaque em seus textos: os carnaubenses. Francisco Rafael faz parecer que há algo de diferente e inexplicável sobre as pessoas que nascem em Carnaúba dos Dantas, como se a terra favorecesse o nascimento, ali, de grandes mentes e personalidades. Carnaúba dos Dantas é uma terra Dos músicos e dos compositores Dos poetas e dos grandes mecânicos Dos profetas, artesãos e pintores Por isso resolvi escrever Carnaúba dos Dantas e seus valores Me orgulho de ser filho desta terra É uma honra falar de nossa gente Povo pobre, feliz hospitaleiro Corajoso, fiel, inteligente Diz até que a divina natureza Semeou o saber no ambiente (...) Esses são os nossos carnaubenses Cada um com a arte diferente Sem escola, sem mestre e sem estudo Todos eles já nasceram inteligente 31 Parece que a divina natureza Semeou sabedoria na gente (Carnaúba e Seus Valores do Passado, 2009) Para além dos carnaubenses que receberam reconhecimento além dos limites da cidade, como Tonheca Dantas (Antônio Pedro Dantas), músico e compositor da famosa valsa “Royal Cinema”, tocada pela rádio BBC de Londres no século passado para anunciar notícias durante a Segunda Guerra Mundial; e Felinto Lúcio, agricultor e musicista que escrevia suas composições na areia às margens do Rio Carnaúba e, ao chegar em casa, as transcrevia para as partituras específicas para cada instrumento sem antes executar nenhum teste (MEMÓRIA, 1982); Francisco Rafael revela os carnaubenses “superdotados” e seus grandes feitos, de quem pouco se ouviu falar. São pessoas comuns, muitos com baixo grau de escolaridade, que faziam parte de seu convívio e chegaram a realizar coisas incríveis, atribuídas ao talento natural que acompanha os que nascem em Carnaúba dos Dantas. São artistas talentosos, pessoas tão próximas da natureza, que eram capazes de identificar o sexo dos animais apenas pelos seus rastros, mecânicos que desvendavam problemas pelo ronco do motor e inventores de todos os tipos. Mamede fez bomba puxar água Sem ter energia e nem motor Fez máquina de pé pra costurar Pra descaroçar algodão fez um vapor Fez um clarinete de pereiro Até avião ele inventor Mamede comprou um carro For Ele viu que a roda tinha um defeito Toda vez que ele todava se quebrava Ele fez uma roda do seu jeito Nunca mais se quebrou mandou pra fábrica E por Henrique For foi bem aceito Geraldo Gama esse é superdotado Aprendeu tudo sem ter um professor Não sabia ler nem escrever Consertava rádio e também televisor Motor bomba, elétrica e injetoura Motor de carro, máquina e de trator Geraldo nasceu na Volta do Rio Somente o seu nome ele assinava Fez uma bicicleta de três rodas Que até 200 quilos carregava De um guarda sol fez um para quedas Que de cima das pedras ele pulava (Carnaúba e Seus Valores do Passado, 2009) Mesmo os que não possuíam nenhum dom especial ou grande talento têm espaço nas rimas do escritor. França traz, em cordel, biografias de vários carnaubenses, preocupa-se em contar suas histórias, amigos próximos ou pessoas com quem conviveu, a quem homenageia com seus versos, onde 32 ficariam eternizados, como bem observa Humberto Dantas no prefácio de Carnaúba dos Dantas em Quatro Atos (2006): “nos sentimos gratificados em saber que alguém se interessou em ressuscitar as memórias daquelas pessoas, muitas delas, jamais citadas em qualquer escritura” (DANTAS, 2006, p. 18). Ainda que não fossem gênios e inventores, em geral são pessoas de personalidades excêntricas e interessantes histórias de vida das quais o poeta extrai causos e episódios marcantes, histórias que têm como cenário a cidade de Carnaúba dos Dantas e que acabam por se tornar parte da memória do local. O homem mais rico do mundo, um glutão insaciável capaz de comer dez pratos de coalhada por cima de quarenta mangas espadas; o matuto bravo que sobreviveu e viu seus familiares morrerem após ingerirem veneno de formiga misturado à comida; o morador do sítio Ermo que foi à Itália lutar na Segunda Guerra Mundial ao lado do ex-presidente Castelo Branco e voltou vivo para contar a história e subir o Monte do Galo em agradecimento à Nossa Senhora das Vitórias por proteger sua vida; todos eles carnaubenses. Zé Elias foi na bodega Dez rapadura comprou Ali ao escurecer Mané Gama chegou A mesa estava repleta E a disputa começou Mané Timote, o juiz Enchia os pratos e contava E Zé Timote, seu filho A rapadura rapava E assim de noite adentro A aposta continuava Já ia nos dez pratos Que cada um já comia Mané Gama levantou-se Perguntou com alegria Se coalhada em cima de manga Alguma coisa ofendia Mané timote gritou É veneno camarada Mané Gama respondeu Dando mais uma risada Pois inda agora eu chupei Foi quarenta manga espada (Carnaúba e Seus Filhos Geniais, s/d) No sertão do Seridó No Rio Grande do Norte No sítio Ermo de Cima No Pé da Serra do forte Nasceu um menino herói Que desafiava a morte (...) Subiu o Monte do Galo Pra rezar uma oração Nos pés de nossa senhora Falo em José Silvestre De Medeiros boa gente Sistemático, opinioso Cabeça dura e prudente Se ele dissesse vou passar Podia sairda frente. Por que sua família Morreu toda envenenada Com veneno de formiga 33 Com a fé e devoção Pois todo dia na guerra Lhe pedia a proteção Na comida misturada Escapou apenas ele Com a vida amargurada (Modesto Ernesto Dantas Um Herói Enaltecido, 2009) (Carnaúba e Seus Homens Sistemáticos, s/d) As narrativas criadas pelo poeta envolvendo a cidade e seus personagens contribuem para a construção de um imaginário acerca da população que habita o local e, dessa maneira, para a formação de uma identidade carnaubense. Para entender como isso afeta a relação com o espaço, basta refletirmos: que características que nos vêm à cabeça ao pensarmos sobre a população da Itália, por exemplo? Ou sobre a população da região Norte do país. Ou sul. A ideia que construímos à respeito das pessoas que habitam esses locais muda de alguma forma a maneira como interagimos e nos relacionamos com esses espaços? Muito provavelmente sim. Nesse sentido é que se dá a importância da imagem da população carnaubense criada por Francisco Rafael nos cordéis. 2.5 A VIDA NA ZONA RURAL Morador da zona rural de Carnaúba dos Dantas durante muitos anos - em sua velhice, alternava sua morada entre a cidade e o sítio Volta do Rio -, sendo então esperado que a vida nesse espaço seja tema recorrente em sua poesia, explorada sob várias perspectivas. Vindo de família humilde de agricultores, Francisco Rafael retrata com detalhes a sua visão da morada do camponês sertanejo daquela época, desde a espacialização de ambientes e caracterização de seus elementos estéticos e construtivos até a relação familiar com os animais domésticos. Uma casa de caboclo É emblema no sertão Onde o luxo é muito pouco Mais tem muito é devoção Lá o saber vive ausente Pois é tudo diferente Dos costumes da cidade Do orgulho tem pavor O puleiro da galinha Do caboclo do sertão É sempre atrás da cozinha Num grande pé de pião Para espantar gavião Um pano branco no pau Lá na dispensa um giral E um fugãozim fumaçando 34 O que existe é amor Respeito e felicidade Uma casa no sertão De caboclo é diferente Num tem sote nem batente Nem também televisão Mais tem um rádio de mão Para escutar cantador Um papagaio falador E um pote na furquia E um coração de Maria E a imagem do senhor Lá no terreiro da frente Num arvoredo copado Tem um jumento amarrado Às vezes até indecente Uma cadela valente E uma latada de palha Aonde guarda a cangalha Barrio, cassuá, cambitos E num chiqueiro de vara Um bode cheio de tara Uma cabra e dois cabritos Numa casa de cabolco Se escuta de manhãzinha Um galo cantando rôco Ciscando atrás da galinha Um grito dum papagaio E um cachorro num burraio Latindo fora de moda Dorme um gato num fogão Um porco fuçando o chão E um peru fazendo roda Com água no fogo esquentando Para fazer café ou mingau A cozinha do caboclo A mubilha é um pilão Urupemba, quenga de coco Prato de barro e fogão A marmita de café A cumbuca de cuité A panela e o agridá Numa mesinha quadrada Uma tigela intirnada Pra fazer mugunzá No quarto da camarinha A cama e rede mijada No lugar da lamparina Fica a parede intirnada Lá na sala de visita Toda enfeitada de fita O coração de Jesus Num quadro Frei Damião E o símbolo da devoção Um rosário e uma cruz Se você for no sertão E ver um casebre baixo As biqueiras quase o chão E encostado a um riacho A porta fora de esquadro E o capote selado E as paredes sem reboco Vai lá sem ser conhecido Que será bem recebido Pois é casa de caboclo (Voltando ao Passado, 2009) A dificuldade de acesso a determinados serviços causada pela distância dos centros urbanos também é retratada nos cordéis. Morador do sítio Volta do Rio, Francisco Rafael tinha de se locomover a pé até o sítio Xique-Xique, onde ficava a escola daquela área, além de relatar as dificuldades causadas pela distância dos hospitais. Comecei a estudar Aos dez anos de idade Lá no sítio Xique-xique Com muita felicidade Para conhecer as letras No meu tempo de menino Quando a gente adoecia Numa cama ou numa rede Um mês a gente sofria E chá de mato e compressa 35 Era a minha ansiedade (...) Eu saía pra escola Todo dia bem cedinho Andando com alegria Uma légua de caminho Junto com meus irmãos E o colega vizinho (...) Mais ou meno onze horas A escola terminada Uma légua de caminho No sol quente a gente andava Às doze horas do dia Em casa a gente chegava Era o remédio que havia Mortalidade infantil No passado era demais Nas cidades do interior Não existiam hospitais Se a criança adoecia Assistência não havia Só sofrimento para os pais (...) Se houvesse um acidente Em lugar desabitado O socorro era difícil Para aquele acidentado Vinha com dificuldade Numa rede pra cidade Pelo povo carregado (Carnaúba do Passado ao Presente, 2009) Em “Recordação Sertaneja”, França fala com pesar da migração da população do campo para a cidade e como isso se refletia na paisagem sertaneja através das casas abandonadas que ficavam para trás, trazendo um pouco da relação que foi construída pelas pessoas com essas construções desabitadas. Aqui ali se encontra Um deserto casarão Outrora era divertido Um forró tero e leilão Morreu seu legítimo dono Hoje vive o abandono Nos braços da solidão (...) Quem passar pelo sertão Só se vê casa fechada E as terras boas de plantas Vão ficando abandonada É o homem se aposentando E a lavoura desprezando E na cidade faz morada No sertão uma casa abandonada Que morou muita gente e morreu nela Existindo uma cruz ao lado dela De pessoa que foi assassinada Basta isso pra ser malassombrada E hoje quem passar nesse casarão Vê pessoas de branco no oitão Ouve grito e até luz aparece São as coisas incríveis que acontece Numa casa deserta no sertão (Recordação Sertaneja, 2009) 36 2.6 CARNAÚBA DO PASSADO E DO PRESENTE Francisco Rafael viveu por 76 anos, todos eles em Carnaúba dos Dantas. Durante todo esse tempo trabalhou em diferentes áreas do município e pôde testemunhar sua transformação. Essas mudanças na cidade transpassam suas narrativas de várias formas, do micro ao macro; fala da transformação da paisagem a partir da intervenção do homem e de como o Monte do Galo sofreu alterações físicas no seu espaço com o passar dos anos; também da precariedade nas construções das casas das pessoas mais humildes em sua juventude, fruto de um trabalho comunitário, que provavelmente se refletia na estética das construções da época (a falta de reboco, por exemplo), e de como esse cenário mudou nos anos 1970 com apoio do Estado. Pela margem esquerda mais na frente O marimbondo lhe pede uma carona Seu percurso é curto mais funciona No inverno formando grande enchente Dali por diante ele segue calmamente Rodeado de lindos coqueirais Nesse trecho há muitos anos atrás Quando ali era mata virgem Ele recebeu seu nome de origem Pois tinha ali grandes carnaubais O rio carnaúba cenário diferente Cordilheiras e cachoeiras que admiram Xique-xique, jurema e macambira Do ermo até sua nascente Depois ele ruma ao poente Recebendo outro tipo de paisagem Que o homem plantou em sua margem E as nativas baraúnas e caubeiras Jaramataias, taquaris e faveleiras E mais outras que embelezam sua imagem “Quem conheceu nosso monte A cinquenta anos atrás Chegando lá hoje em dia É diferente demais A ladeira toda calçada Alémdisso iluminada E varanda em vários locais Tem o bairro Dom Adelino Com quase mil habitantes E tem uma encenação Com uns cem participantes Mostrando a paixão de Cristo Na sexta feira santa é visto Por trinta mil visitantes (Sertão que a gente mora, s/d) (A Verdadeira História do Monte do Galo, 2008) 37 Naquele tempo pra se construir a casa Não tinha ajuda de governo, nem prefeito Aquelas pessoas que tinham mais recurso Fazia um serviço mais bem feito E o pobre que não tinha condição Levantava a sua construção Devagar, mais ou menos desse jeito O tijolo ele mesmo é quem fazia A madeira na serra ele tirava E o resto de mais necessidade Com o dinheiro que sobrava ele comprava Mais ou menos um ano isso rendia E no final uma ajuda ele pedia E com os amigos a construção começava Nesse tempo o pedreiro trabalhava Da segunda ao sábado ao meio dia Se na semana ele tivesse um convite Pra se ajudar numa casa a gente ia Pedreiro e servente se juntava E o domingo inteiro trabalhava E a casa do amigo construía E assim a casa era construida Com alegria e a perfeita união Se trabalhava todo domingo do mês Para poder terminar a construção E o prefeito nem o serviço olhava A única coisa que a prefeitura dava Era simplesmente o documento do chão Em mil novecentos e setenta Começou o governo federal Mandar verbas para todos municípios Construir conjunto habitacional E aqueles que em rancho residia E uma casa de tijolo recebia Feita pelo poder municipal E aqueles que já tinham feito a casa Mas não puderam a obra terminar A prefeitura mandava uma equipe De pedreiro, as paredes rebocar Fazia muro, banheiro acimentava E a casa pronta ao dono ele entregava Sem despesa nenhuma a lhe cobrar (Carnaúba do Passado ao Presente, 2009) A forma de acesso aos equipamentos de educação e saúde mencionadas no tópico anterior também sofre mudanças. Eu saia pra escola Todo dia bem cedinho Andando com alegria Uma légua de caminho Junto com meus irmãos E o colega vizinho (…) Mais ou menos onze horas A escola terminava Uma légua de caminho No sol a gente andava Às doze horas do dia Em casa a gente chegava (...) Na escola tem comida Da mais boa qualidade Tem carro pra transportar Do sítio até a cidade Parece que o aluno Hoje tem Prioridade (...) Mortalidade infantil No passado era demais Nas cidades do interior Não existiam hospitais Se a criança adoecia Assistência não havia Só sofrimento para os pais (...) Se houvesse um acidente Em lugar desabitado O socorro era difícil Para aquele acidentado Vinha com dificuldade Numa rede pra cidade Pelo povo carregado (...) Hoje se acontecer Um acidente fatal Logo, logo a assistência Se encontra no local Com a hora do ocorrido Já está sendo atendido Num leito do hospital (Carnaúba do Passado ao Presente, 2009) 38 Em “Lembrando As Pessoas Esquecidas”, que também será discutido mais a fundo no próximo capítulo, Francisco Rafael escreve sobre a Carnaúba de sua juventude e fala de como a cidade mudou, sequenciando em seus versos uma série de lugares, pessoas e costumes que, em sua maioria, já não existem mais. O forró de Mãe Negrinha, O povo lembra demais, Lá na rua Manoel Lúcio, Com os lampiões de gás; Neguinho na sua sanfona. E no fole Zé Tomás! Da loja de Toinho Lopes, Eu guardo recordação; Papai comprava tecido, No fim do mês de São João, Para pagar em outubro, Na venda do algodão! O campo de futebol, Esse aí, me dá saudade; Ficava detrás da rua, Onde é a maternidade; E chico Cunha jogando, No seco, era novidade! (Lembrando As Pessoas Esquecidas, 2010) 2.7 A IMAGEM DE CARNAÚBA A importância das imagens trazidas nas capas dos cordéis vem da origem europeia do formato, em que a capa buscava resumir o conteúdo dos livretos de cordel, exercendo, dessa maneira, influência sobre a compreensão do texto. Os espaços de Carnaúba dos Dantas figuram em várias capas dos cordéis de Francisco Rafael, sendo o Monte do Galo o que aparece com mais frequência, presente na capa de 6 dos 26 livretos usados para o estudo. Nas capas onde o nome da cidade aparece presente no título, torna-se mais forte a associação entre Carnaúba e as imagens apresentadas. São ainda variadas,, embora o Monte do Galo ainda figure em 3 das 6 capas em questão. 39 Figura 4: Na primeira foto, de cima para baixo, vê-se a Igreja Matriz de São José e o Monte do Galo ao fundo. Fonte: (Carnaúba e Seus Homens Sistemáticos, s/d) Figura 5: Da esquerda para direita e de cima para baixo: 1- Biblioteca Donatilla Dantas; 2 - Não identificado; 3 - Monte do Galo; 4 - Não identificado; 5 - Monte do Galo; 6 - Imagem de Jesus crucificado, no cimo do Monte do Galo. Fonte: (Carnaúba e Seus Apelidos, s/d) Figura 6: Na capa: Casas do centro histórico da cidade na Rua Antonio Azevêdo, o Castelo di Bivar e uma imagem de Jesus crucificado. Fonte: (Carnaúba do Passado ao Presente, 2009). Figura 7: Na capa: Imagem do Monte do Galo. Fonte: (Carnaúba e Seus Valores do Passado, 2009) Figura 8: Na capa: Prefeitura municipal da cidade e foto de Francisco Rafael. Fonte: (Conheça os Prefeitos e Vereadores de Carnaúba dos Dantas de 1954 à 2008, 2010) Figura 9: Na capa: Francisco Rafael e imagem de uma casa Fonte: (O Primeiro Milagre no Vale do Carnaúba, 2009) 40 3. OS DIFERENTES OLHARES: DO CORDEL À HISTORIOGRAFIA A fim de verificar como o que é posto à respeito da história urbana de Carnaúba dos Dantas por França em seus poemas se relaciona com o que registra a historiografia local existente, foram selecionados três cordéis: “A Verdadeira História do Monte do Galo”, “O Sofrimento de Joana Turuba” e “Lembrando pessoas esquecidas”. Os textos foram escolhidos por dedicarem-se de forma mais direta a tratar de espaços de Carnaúba dos Dantas, possibilitando traçar um paralelo entre os cordéis e outros possíveis registros da cidade relacionado a esses lugares. 3.1 A “VERDADEIRA” HISTÓRIA DO MONTE DO GALO O Monte do Galo é, indiscutivelmente, o principal cartão postal da Cidade de Carnaúba dos Dantas. A formação rochosa que abriga o Santuário de Nossa Senhora das Vitórias se destaca, imponente, na paisagem; desde sua inauguração é destino de romarias, um lugar diretamente ligado à fé. Francisco Rafael Dantas narra em “A Verdadeira História do Monte do Galo” a história do local desde antes da ocupação portuguesa nas terras onde hoje encontram-se a cidade de Carnaúba dos Dantas até os tempos atuais. Figura 10: Monte do Galo, s/d Fonte: Soares, 2014, p. 1. 41 Pelo século dezessete Os tropeiros viajavam Do sertão até o brejo Com quinze dias voltavam O caminho era diserto Mais havia os cantos certos Onde eles se arranchavam Onde hoje é Carnaúba Um grande rancho existia Pelo Rancho Pé do Monte O matuto conhecia Mais, começaram a notar Que ali naquele lugar Um grande mistério havia Um dia de madrugada Começaram a escutar Em cima daquele monte Um triste galo cantar Sem ter morada por perto Naquele lugar deserto Era de admirar Muitos matutos pensavam Que o monte era sagrado Outros diziam que não Que era um reino encantado Sem sentir pequeno abalo E pelo o Monte do Galo Começou a ser chamado O tempo foi se passando Caetano Dantas chegou Junto com sua família A trabalhar começou Cada ano que passava Uma família chegava E o lugar se povoou Ai o monte do galo Começo ser visitado Uns diziam que ali Havia um galo encantadoOutros faziam visitas Pra ver a vista bonita De dia pra todo lado Por dentro da macambira Uma vareda existia Por esse caminho estreito Todo pessoal subia Não havia devoção Era só por distração Ninguém tinha romaria Foi em mil e novecentos De vinte e cinco pra cá Pedro Alberto Dantas tava Lá em Belém do Pará Vinha doente demais Da banda dos seringais Do estado do Amapá Ele andando na cidade Leu um anúncio num jornal Que no final de semana Saia da capital Um navio passageiro Para o Rio de Janeiro E passava por Natal O seu dinheiro não dava Para a passagem comprar Ele saiu na cidade Meio triste a passear Mais sempre com fé em Jesus Que aparecia uma luz Para ele viajar Ele era um homem devoto Pensou em Deus nessa hora Numa casa santuária Entrou ali sem demora Avistou numa vitrina Uma imagem pequenina Da virgem Nossa Senhora Ele disse para o homem Eu sei de várias histórias Sobre a nossa mãe de Deus Só uma é cheia de glória O homem disse essa imagem Está fazendo uma homenagem A senhora das vitórias Aí naquele momento Pedro Alberto a santa implora Pedindo pra ela ajudar Para ele vir embora E trazia na bagagem Aquela pequena imagem Da virgem Nossa Senhora E lá no Monte do Galo Colocava aquela imagem Logo ele arranjou serviço E comprou a sua passagem Pelo voto que ele fez Viajou no fim do mês E trouxe a santa na bagagem Quando ele chegou em casa A sua história contou E a Senhora das Vitórias Para o povo ele mostrou E disse, eu cheguei com vida Na minha terra querida Porque ela me ajudou Aí convidou o povo Para juntos levantar Um cruzeiro lá no monte Onde a santa ia ficar E o povo com alegria Começou no outro dia Todos juntos a trabalhar Quando foi no outro dia Começou o mutirão Abriram logo a estrada E outros varrendo o chão Uns com tijolo subia E na maior alegria Começou a construção Fizeram logo um cruzeiro De ferro, pedra e cimento Pesando uma tonelada Seis metros de comprimento Feito estirado no chão Pois foi levado a mão Com o maior sofrimento Ocupou mais de cem homens Para levar o cruzeiro Uns puxavam uma corda E trabalharam o dia inteiro Mais conseguiram chegar Lá no alto e colocar No maior despenhadeiro Ao levantar o cruzeiro Um milagre aconteceu Para o lado do abismo A enorme cruz pendeu Quinhentos metro de altura Em estado de loucura O povo todo correu Aí Euclides Francisco Mais Abilio seu irmão Se agarraram na cruz Com maior devoção Gritando assim, meu Jesus 42 Que também morreu na cruz Quero a sua proteção Aí naquele momento Um forte vento soprou A cruz que tava arriando Neste momento parou E o povo todo gritando Nas cordas puxando E a cruz pra trás voltou Pobre, rico, preto e branco Trabalharam o ano inteiro Uns ajudavam em serviço Outros ajudavam em dinheiro E na maior devoção Terminou a construção Da capelinha e cruzeiro Foi no ano vinte e oito Do próximo século passado Vinte e cinco de outubro Foi o monte inaugurado Carna´ba hoje em dia Tem a maior romaria Que possui o nosso estado Milagre, sempre milagre Todo ano ele aparece Quando a pessoa tem fé Esse fenômeno acontece Mais dois acontecimento Que eu tive conhecimento Que o povo não conhece No ano cinquenta e oito Uma mulher adoeceu Só andava de moleta Quase suas perna morreu E ela sem ter melhora Um dia de Nossa Senhora Das Vitórias se valeu A mulher subiu o monte No seu marido agarrada Nos pés de Nossa Senhora Rezou muito ajoelhada Implorando a sua bença Para que sua doença Fosse por ela curada Quando ela se levantou Deu fé que estava curada Saiu andando sozinha Em em nada ser agarrada Sua alegria era tanta Que ela gritava pra santa Senhora, muito obrigado O outro foi uma mulher Quando seu filho nasceu Com poucos anos de idade De repente adoeceu E ela na mesma hora Também de Nossa Senhora Das Vitórias se valeu Ela fez uma promessa Para seu filho pagar Se ele ficasse bom Ao o monte visitar Vestindo um manto azulado E subir o monte pelado E nos pés da santa deixar Mais o menino foi crescendo E a promessa não pagou Ele já um homem feito Uma noite ele chegou Para a promessa pagar Quando a roupa foi tirar A luz do monte apagou E subiu o monte nu Pelado como nasceu Colocou a roupa lá No canto que prometeu Foi vistir uma que trazia Pois enquanto ele vestia De novo a luz acendeu Foi esses e outros milagres Que não posso lhe narrar Sei que até hoje os romeiros Vem a promessa pagar Sei que na casa do milagre Tem litro até de vinagre E tudo que procurar Quem conheceu nosso monte A cinquenta anos atrás Chegando lá hoje me dia É diferente demais A ladeira toda calçada Além disso iluminada E varanda em vários locais Tem o bairro Dom Adelino Com quase mil habitantes E tem uma encenação Com uns cem participantes Mostrando a paixão de Cristo Na sexta feira santa é visto Por trinta mil visitantes Tem as quatorze estações Na subida do cruzeiro Gruta senhora de lourdes A pousada dos romeiros Nossa senhora do socorro Numa igreja ao pé do morro É aberta o ano inteiro Festa de Santa Luzia Em dezembro é devoção Gente de todo nordeste Vem pedir uma benção Em um museu instalado Mostra as coisas do passado De toda essa região O Monte do Galo deve A um grande pioneiro Antônio Felinto Dantas Homem honesto e verdadeiro Um exemplo dos humanos Que há mais de cinquenta anos É do monte tesoureiro Essa é a verdadeira história Que o Monte do Galo tem Todo dia tem visita Que de todo Brasil vem E se você não conhece Venha fazer sua prece E nos visitar também Esse é o Monte do Galo Que o seridó contém Contei dele o que sabia Não perguntei a ninguém Quem pensar que foi assim Bata palma pra mim Que eu bato pra você também (A Verdadeira História do Monte do Galo, 2008) 43 A poetisa carnaubense Auta Rodrigues de Carvalho também registrou em detalhes a história do Monte do Galo no seu cordel “Histórico do Monte do Galo”, que apresenta uma estrutura semelhante a da narrativa escrita por Francisco Rafael, traçando um histórico do local desde o século XVIII até a contemporaneidade; os versos foram transcritos abaixo. A terceira fonte a ser usada é a documentação organizada por Donatilla Dantas em seu livro “Carnaúba dos Dantas - Terra da Música” (DANTAS, 2989), que constrói sua narrativa a partir de documentos históricos , entrevistas que resgatam a história 3 na tradição oral e memórias da própria autora. 3 Cópias dos discursos realizados pelos irmãos Antônio Alberto Dantas e José Alberto Dantas na inauguração do cruzeiro do Monte do Galo e recortes de jornal, por exemplo. 44 Carnaúba a minha terra Num vale localizada, Lindas montanhas lhe cercam, Uma delas bem destacada Entre vegetação majestoso, Serrote do Galo denominado Em tempos passado pelo povo. A uns dois quilometros da cidade É que está localizado O Monte do Galo que por uma lenda Ficou assim denominado, Vou tentar descrever tudo Com muito esforço e carinho O que contaram os antepassados. A primeira versão que sabemos É que os tropeiros alí passando Ou pernoitando em barracas próximas ao Monte Ouviram um galo cantando, Lá no pico do Serrote, E isto lhes causava espanto, Pois alí não tinha casa, não havia habitantes A segunda versão vem do casarão Da Fazenda Monte Alegre De Antônio Dantas Correia em 1800 ou antes Vejamos o que aqui segue Seus vaqueiros arrebanhando o gado Também ouviram vindo lá do cimo O cantar vibrante de um galo. Por tais razões se perguntavam Com espanto ou com surpresa Porque cantava o galo acolá! Um mistério da Natureza? E a estóriacomeçou a se espalhar, Foi assim que de Monte do Galo começaram a chamar. Decorridos muitos anos Ninguém nunca imaginou, Surgiu uma bela idéia Até que a data chegou, Subir o Serrote do Galo Roçando e fazendo atalho, Nada ali dificultou. Pique-nique era novidade Alí na povoação A caravana partiu Com cuidado e animação Reinava muita alegria, Festejava-se naquele dia Uma véspera de São João. Entre outros lá no pé do serrote Pedro Alberto e Jacó chamava atenção, Dr. Maroja, Zé Vitor e João Arapucão Cesario, Zé Domingos e Chico Marinho João Cabrinha, Zé Amaro e Zé Paizinho Todos foram da povoação. João Cândido Filho na época Nosso chefe municipal, Católico paciente e moderado Dava seu apoio total, Quase me esquecia de Zé Leite e Saló João Luiz, Tavares e Joaquim Majó, Dentro da farra geral. Zé Dantas abria caminhos O sol começou a esquentar, Na folia ouvia-se estouros Com pedras a rebolar, Na montanha misteriosa A comunidade religiosa, Desejava um marco plantar. No pico do monte unidos Fizeram uma queimagem Quanta coisa aparecia Despontando a paisagem Rios, riachos, corregos Pássaros voando, que aragem! Tudo isto descoberto com muita força e coragem. Era gratificante o momento E também a atração, Panorama deslumbrante Alegrava o coração, O sinal seria plantado, Um galo planejado gravava O cantar e a tradição. Em vez de colocar o galo Resolveram fazer um cruzeiro, Lutou nossa gente da terra Com coragem e amor verdadeiro, Toda a população do lugar A verdade querendo falar Pedro Alberto é o pioneiro. Na união religiosa de todos Veio a força do querer, Não existia dinheiro Precisava a entrada fazer, Assim foi iniciada Na pá, carroça, picareta, enxada Numa quarta-feira ao amanhecer. Aberta a vereda ingreme Subiam para trabalhar Construindo no cimo do monte O pedestal para colocar O cruzeiro idealizado Que acabavam de ajeitar Sonhando chegar a hora Da grande cruz elevar Difícil foi colocar nas pedras Os andaimes para levar O cruzeiro até o cimo do Monte Foi mesmo de admirar, Nos andaimes inseguros viam-se Homens subindo com a cruz devagar Arriscando até a vida outros de cima a puxar. No mutirão ali acompanhando O cruzeiro vagarosamente se elevar, As mulheres choravam, rezavam Quando os andaimes envergavam, 45 O mais belo observado em tudo isto É que os homens diziam não chores, Pois, se morrermos será abraçados com a cruz de Cristo. Chegou afinal o cruzeiro Ao pedestal destinado Já estava escurecendo E a cruz mal colocada Foi esbirrada, por segurança E disse o Padre Bianor para todos Voltem amanhã com confiança. No outro dia volta a multidão curiosa Que vê o esforço dos homens lutando E não conseguindo o cruzeiro deixar firma Foi então que Manoel Torres brincando Levemente pôs a alavanca em movimento Grande espanto, desmaiou, pois deu-se o primeiro milagre A cruz foi no encaixe de repente se adaptando. No topo do Monte estava a cruz fixada, O povo de fé chorava e ria Dava vivas, batia palmas Os foguetões no ar subiam Cantava oferecendo louvores A Deus que tudo aquilo permitia Se transformando em júbilo toda aquela agonia. Vou falar agora da Santa Imagem que aqui chegou, No dito ano de 1909 Trazida por Pedro Alberto Dantas Do Pará e aqui colocou, Na capelinha de São José Com toda veneração e amor . Ele era pobre e na época Resolveu sua terra deixar E partiu para os Amazonas Nos seringais foi trabalhar, No pensamento de um dia Voltar em melhor situação E com o seu povo aqui ficar. Pouco tempo trabalhou E sentiu-se atacado De Beriberi sofrendo gravemente, Só lhe restando a saudade De sua terra natal, E pouca ou nenhuma esperança Ele tinha de poder aqui voltar. Nessa tristeza, em febre alta Conseguiu dormir e sonhou Vendo uma imagem de santa E ao mesmo tempo uma voz lhe falou Ele escutou o que dizia: “Se queres viver mais, quanto antes Deve a sua terra voltar”. E continuou falando para ele: “Deixe Amazonas e vá ao Pará; É lá que conseguirá o dinheiro para voltar Procure e Belém uma imagem Igual a que vês, para ser levada A sua terra, e lá disse a voz, Pelo povo ser venerada”. Obedeceu tudo como ela disse Foi embora chegou no Pará, Em Belém achou emprego Foi condutor do bonde até somar A quantia necessária para poder viajar Veio embora e de outra vez A imagem foi comprar. Uma e outras lojas ele viu De artigos religiosos por lá, Mas revendo os seus estoques Não conseguiu encontrar. Foi quando um dos vendedores Indicou-lhe outra loja, Mais uma vez foi tentar. Lá chegando descreveu o sonho E o vendedor a escutar, `Procurou atento e lhe disse: “Não temos, mas pode entrar! Esta é a nova remessa que de Lisboa chegou”. Foi aí que Pedro Alberto com surpresa A linda imagem encontrou. O mais interessante é o fato De nas relações não está O nome da Santa que escolhia, E sem conhecê-la, o vendedor exclamou: “É Nossa Senhora das Vitórias, Pois o que aconteceu agora É para você, uma grande vitória!” Levantado o Cruzeiro do Monte Chega afinal o grande dia 25 de outubro de 1928, festa de grande alegria Em procissão deslumbrante Levam a Virgem das Vitórias Até o monte do Galo Sua nova moradia. Na inauguração muito alarido, Ai meu Deus a cruz vai tombar! Ao som de cinco bandas de música Os foguetes a estourar, Arrepios, palmas, canto e moções Tomavam conta de todos os corações Abraçados a soluçar. Neste dia o Serrote do Galo ou Cruzeiro Teve seu nome mudado Pois o intendente do Acari Eneas Pires chamou de Monte do Galo Fugindo da tradição, mas Deus 46 Pela Virgem vem curando e a igreja alí orando Dando glória, agradecendo, pedindo graças e perdão No pé da ladeira havia Uma fonte de água límpida Que curava doenças, mas secou. Talvez porque vendiam água O povo idoso assim falou Isto é contrário a religião E por isto penalizada a população ficou. Uma árvore umburana Alí existia e se deu por ela A cura de João de Tibé, E por isto acreditavam, Milagrosa a árvore é, E de tanto tirarem as cascas, Morreu da umburana o pé. Zé Dantas contava este fato De um homem que arrebanhando as cabras, Viu uma lançar-se do cimo abaixo E lá caindo sã e salva Admirado, ficou e muito sério Falou em alta voz que ressoava “Neste monte existe um mistério”! Crescia de modo espantoso Vindos de toda parte, O número de romeiros devotos A pé, a cavalo e de outros transportes Gente simples de todo sertão Que vinha agradecer à virgem Suas graças, sua proteção. Muitos milagres aconteceram O da cruz que se firmou, o primeiro Lá no depósito vê-se arrumados, Pés, cabeças, braços, pernas talhados Em madeira e outras provas Dos pedidos à Virgem feitos Pelas pessoas curadas. Na Revolução Comunista de 1935 Nos conflitos, nos tiroteios, Vendo tanta coisa metralhada, Nossa Senhora das vitórias do Monte Foi com confiança lembrada Fez Monsenhor Walfredo após a vitória Vir ao Monte agradecer, uma missa foi celebrada. Numa manhã bem serena O sol começava a raiar A população carnaubense Surpresa estava com os carros a buzinar Transportando católicos do Seridó Do município de Caicó Para a promessa pagar. A mais linda das romarias Frei Casanova realizou, Juntando todas as cidades Do querido Seridó. Lá no topo do Monte rendendo A Nossa Senhora o louvor. Cerimônia encantadora, em nossa mente ficou. Vários costumes observam Pagando suas promessas Romeiros de pés descalços Fazendo alí penitência Xique-xique espinhoso E pedra sobre a cabeça Parece ser brincadeira, mas a verdade é esta. Trajados de túnicas compridas Que deixam lá no altar, Cumprindosuas promessas Cantam versos a rimar, Louvando a Virgem das Vitórias, De joelhos sobem o monte Ou o degraus a cantar. Todo ano se repete A festa de Nossa Senhora das Vitórias, De 15 a 25 de outubro É tradicional na história. Cresce o número de romeiros Vindos do Brasil inteiro Cantar de Deus e da Virgem toda glória. O primeiro Tesoureiro do Monte Foi Pedro Alberto o idealizador Do cruzeiro e da primeira imagem doador, Vindo após João Cândido Filho, Luiz Bernardo Joel Baltazar de Macedo e o dedicado Antonio Felinto, o grande lutador. Aos três anteriores a Antonio Póstuma homenagem merecida, Agradecendo seus trabalhos Que gozem feliz a eterna vida, Recebendo de Deus o prêmio Pela fé e pelo exemplo de devoção A Nossa Senhora das Vitórias, nossa mãe do céu tão querida. O trabalho de Antonio Felinto É importante salientar Fez o que os outros não puderam,o Cristo Crucificado. Estrada especial, balustrada e altar. Por Frei Casanova idealizada, ele fez a Via Sacra Construiu degraus, museu e banheiros, De Dom Adelino a idéia, ele construiu a Praça. Assim o Monte do Galo Se tornou uma grande atração Para romeiros e turistas Para quem tem devoção É local convidativo à reza, à reflexão E a Virgem das Vitórias nos acolhendo No seu manto, no seu 47 coração. Para finalizar apresento O Hino de Nossa Senhora Letra de Abel Rodrigues de Carvalho Música de Felinto Lúcio Dantas Ambos de saudosa memória O primeiro meu irmão O segundo compositor musical, regente do coral, Nas festa de Nossa Senhora das vitórias. (CARVALHO, Histórico do Monte do Galo, 1990) As três fontes concordam em vários pontos. Além da inauguração do Monte do Galo na data de 25/10/1928 e da origem do seu nome relacionada à lenda vinda do século XVIII onde ouviu-se um galo cantar no cimo do monte, todos os registros apontam Pedro Alberto Dantas como principal figura responsável pelo início da movimentação popular para a construção do cruzeiro; entretanto, apenas Francisco Rafael e Auta Rodrigues abordam as motivações do carnaubense em suas narrativas; no relato do primeiro, Pedro Alberto Dantas, em 1925, faz uma promessa a Nossa Senhora das Vitórias de pôr sua imagem no cimo do Monte do Galo para que consiga voltar à sua terra natal, enquanto Auta Rodrigues registra que, na verdade, Pedro Alberto teria tido um sonho em que a própria Nossa Senhora das Vitórias o pedia para colocar sua imagem na cidade de Carnaúba para ser adorada, prometendo ajudá-lo a voltar pra casa; a imagem comprada por Pedro Alberto teria chegado em Carnaúba no ano de 1909, não em 1925 como propõe Francisco Rafael. 48 Figura 11: Inauguração do cruzeiro do Monte do Galo em 25 de outubro de 1928 Fonte: Foto de Thomaz Alberto Dantas. Além da sua importância como marco religioso, a construção do cruzeiro do Monte do Galo é apontada pela documentação organizada por Donatilla Dantas como marco político na história da cidade, comemorando a fundação de Carnaúba. A ocasião de comemoração da fundação é explícita nos discursos de Antônio Alberto Dantas e José Alberto Dantas na data da inauguração (DANTAS, 1989). Donatilla Dantas, entretanto, não registra a maior parte da história contada nos cordéis. O relato das visitas ao monte por lazer, sem nenhum cunho religioso; a mobilização popular dos habitantes para a construção da capela e do cruzeiro e as lendas relacionadas a milagres ocorridos no Monte do Galo figuram apenas nas narrativas dos cordéis. Em relação ao misticismo ligado ao espaço, as histórias se complementam: enquanto Francisco Rafael relata dois milagres ocorridos no local, a mulher que voltou a andar e as luzes que apagaram-se para que um homem pudesse cumprir sua promessa; Auta Rodrigues traz as histórias da fonte de água e da árvores com propriedades de cura que existiam no Monte do Galo; ambos concordam ao retratar o episódio de erguimento do cruzeiro de concreto que firmou-se sozinho como o primeiro milagre de que se tem registro no local. Ao registrar as mudanças ocorridas no espaço, “O 49 Histórico do Monte do Galo” atribui à gestão do tesoureiro Antônio Felinto Dantas a construção de várias estruturas que hoje fazem parte do santuário: o calçamento do percurso, estabelecimento da via sacra, construção de banheiros e “balustrada”, dentre outros, como é possível verificar no poema. 3.2 O SOFRIMENTO DE JOANA TURUBA Assim como em “A Verdadeira História do Monte do Galo”, em “O Sofrimento de Joana Turuba” o surgimento da Capela de Santa Rita de Cássia, importante espaço religioso carnaubense, é contado com detalhes por França, desde a biografia de Joana Faustino da Silva, conhecida como Joana Turuba, que tornou-se uma espécie de mártir no imaginário popular devido ao sofrimento pelo qual passou em vida, até as motivações de cidadãos carnaubenses que levaram à construção da capela. O texto foi transcrito na íntegra por considerarmos toda a construção de um contexto importante para o entendimento da significância e memória que guarda este espaço. A pessoa quando nasce O seu destino é traçado Pela mão da natureza O supremo advogado Que ordena um viver sofrendo Outro é menos castigado. Quem sofre com paciência Sem blasfêmia e sem clamores Deus está sempre ao seu lado E alivia suas dores No fim de sua existência É coroada de flores. Vou falar de uma mulher Uma amável genitora Seu nome Joana Türuba Mulher pobre e sofredora Devota de Santa Rita Como a sua protetora. Há muitos anos atrás Joana Turuba viveu Lá na serra de Cuité Junto com o povo seu Cinco filhos e o marido Que de desgraça morreu. Aconteceu numa feira No Povoado Melão Que mataram meu marido Por vingança ou discussão Com cinco peixeiradas Em cima do coração Joana ficando viúva Sem ter pra quem apelar Com cinco filhos pequenos Sem ninguém pra lhe ajudar Resolveu sair da serra Em Picuí veio morar. Na cidade de Picuí Não encontrou remissão Saiu de lá sem destino Em triste situação Veio ficar em Parelhas Lá no sítio do Boqueirão. Ficou trabalhando ali Naquela comunidade Para sustentar seus filhos Passando necessidade Trabalhava dia e noite Com muita dificuldade Mas uma vez o destino De Joana lhe castigou Quando apanhava feijão Uma fumaça avistou Quando ele chegou em casa Tudo queimado encontrou. Outra vez a pobre Joana Se sentia angustiada Vendo todos os seus pertences Sendo em cinzas transformada Novamente o sofrimento Estava em sua morada. Seu filho Cícero Turuba Resolveu a se mudar Pra Carnaúba dos Dantas Onde vieram morar Sem saber que o triste fim De Joana ia chegar. 50 Joana Turuba era baixa Morena clara era cor Conversava muito pouco Sinal de um sofredor No seu ambiente se via Amargura e muita dor. Uma forte epidemia Em Carnaúba chegava De bexiga verdadeira A todo mundo assombrava De Ermo até a Rajada A doença se alastrava. Joana Turuba, coitada De repente adoeceu A bexiga era tão forte Que a todos comoveu Como a época era atrasada Nenhum médico apareceu. O medo ficou rodando Em toda a população Com medo de não haver Uma contaminação Deixaram ela no mato Na mais triste solidão Prra Serra do Marimbondo Levaram a pobre coitada Na sombra de uma pedra Construíram uma latada Em uma cama de varas Deixaram eladeitada. Joana Turuba ficou Exposta à chuva e ao vento Na mais triste solidão Entre gemidos e lamentos Mais uma vez se encontrava Nos braços do sofrimento. A imagem de Santa Rita Ao seu lado ficava Para aliviar suas dores Com a Santa abraçava Era seu único conforto Que talvez lhe consolava. Ninguém tinha coragem De ir lá lhe visitar Pra não ver seu sofrimento Ou ela se lastimar Outros não iam com medo De não se contaminar. Cada dia que passava Aumentava sua dor Seu corpo todo chagado A pele mudando de cor Cristão nenhum resistia De ouvir o seu clamor. Passava as noites sozinha Naquela serra esquisita Só tinha ela ao seu lado A imagem de Santa Rita Ou os animais noturnos Que lhe faziam visita. Vejam bem caros leitores Como essa mulher sofria Com bexiga e febre forte E o lugar que ela vivia Numa serra e no relento Enfrentando a noite fria. Eu acho que muitas vezes Na madrugada gelada Ela pensando consigo Por que sou tão castigada? Tanto bem que eu já fiz E hoje vivo abandonada. Mas Santa Rita de Cássia Permanecia ao seu lado Talvez dizia pra ela No momento angustiado Quem sofre com paciência Entra no Reino Sagrado Um dos netos de Joana Que sempre lhe visitava Era Severino Turuba Que todos os dias levava Algum alimento e chá Pra ver se ela tomava. Passaram-se duas semanas Ela já toda chagada Em folhas de bananeira Estava sendo enrolada Só mesmo esperando a hora De Deus fazer-lhe a chamada. Severino estava ao seu lado De sua avó estimada Saiu pra fazer um chá Vendo ela agoniada Voltando achou a avó morta Com Santa Rita abraçada. Voltou chorando à cidade Aos seus parentes avisar Saiu convidando o povo Pra seu corpo ir buscar Ninguém ia lá com medo Da doença não pegar Os únicos que foram lá Sem medo da catapora Foi Antônio de Tibé E Branco de Tia Dora Também Chico Frutuoso Com fé em Nossa Senhora. Também Chico Murumbeca Muito triste e abalado Por ser parente da vítima Junto com Antonio de Torado Foi lá João de Teodora E também Chico Bernardo Antonio Bico, o coveiro Foi lá pela obrigação Chegaram encontraram o corpo Em completa putrefação Se diluindo e com mau-cheiro Em triste situação. Os presentes se vexaram Para uma cova cavar No lugar que ela morreu Ali mesmo a sepultar Mas o chão era só pedra Procuraram outro lugar. Saíram levando o corpo Sem suportar o mau-cheiro Só conseguiram chegar Lá na Pedra do Dinheiro Cavaram outra sepultura Com clamor e desespero. Só dois palmos de fundura Foi o que eles cavaram Também é pedra ela rasa Mesmo assim a sepultaram Cobrindo a cova com pedras Nem a cruz colocaram. Assim terminou de Joana Seu doloroso sofrer Nem um enterro católico Ela não pôde obter Mas sei que Deus lhe deu tudo 51 Que ela tinha a merecer. Toda pessoa na terra Que sofre com paciência Reconhecendo o sofrer Como uma penitência Estará Deus ao seu lado No fim da sua existência. Joana era sofredora Desde sua mocidade Com tragédia e amargura Passando necessidades Mas agora está feliz Na Santa eternidade. A Senhora Joana Major Morando perto do lugar Que Joana foi sepultada Começou logo a sonhar Ela pedindo no sonho Pra sua cova aguar. Assim ela começou Com amor e devoção A aguar a cova dela Também fazendo oração Mostrando para os presentes Que tinha bom coração Depois Josefa Leandro Com sacrifício levava Uma lata d’água cheia Na cabeça carregava Aguando a cova dela Todo dia que Deus dava. Carnaúba é uma terra De gente religiosa Um povo pobre e humilde E pessoa caridosa É a cidade da música E da Santa Milagrosa Hoje na cova de Joana Muita gente reza nela A população devota Construiu uma capela Pra Santa Rita de Cássia Que era protetora dela. A jovem Ivaneide Lopes Começou com devoção Zelando aquele local Como peregrinação Todos os dias ia lá E rezava uma oração. Devota de Santa Rita E a fé que tinha nela Com ato de penitência Comprou a imagem dela E com a ajuda do povo Construiu uma capela. Ivaneide batalhou Com o povo da Região Mais Felinto Dantas Neto O mestre da construção Assim foi feita a capela Um horto de oração. Desde outubro de noventa Duas mulheres se emanam Pra zelar o santuário Também da cova de Joana Elas vão lá bem cedinho Todos os dias da semana. É Tereza de Jesus Com Zé Firmino casada E Inácia Maria Dantas Outra mulher dedicada Por Inácia de Felinto É conhecida e chamada. Elas fizeram campanhas Com toda população Com os donos das cerâmicas Também festinhas e leilão Com a ajuda recebida Aumentou a construção. Junto a Maria de Lourdes Chefe da tesouraria Fizeram o túmulo de Joana Santuário de alvenaria Com apoio da população Foi feito o que merecia. Na festa de Santa Rita Ela vem em procissão Da Matriz de São José Há novenas e oração Depois volta ao santuário Com a maior devoção. Você vindo a Carnaúba Vá fazer uma visita Lá na Pedra do Dinheiro Pra ver como ela é bonita Reze no túmulo de Joana E também pra Santa Rita. Faço aqui ponto final Revendo um triste passado Ao sofrimento de Joana Naquele tempo atrasado Contei o que achei escrito Há todos muito obrigado. (O Sofrimento de Joana Turuba, s/d, grifo nosso). Foram encontrados apenas dois registros que contam a história do surgimento desse espaço: a dissertação de mestrado de Maria Isabel Dantas - que trata das festividades religiosas carnaubenses -, e o texto transcrito acima, ambos utilizados como fontes para Macedo (2005). A narrativa construída por Maria Isabel Dantas a partir do resgate da tradição oral popular entra em concordância com a construída por Francisco Rafael: a história da mulher devota de Santa Rita de Cássia, vítima da chamada Bexiga Verdadeira que, 52 devido à doença, foi isolada próximo à Serra do Marimbondo e no local de seu sepultamento construiu-se a capela em homenagem a Santa Rita. Há, entretanto, uma pequena divergência. Enquanto na narrativa de Francisco Rafael o início das visitas ao lugar de sepultamento de Joana Turuba se dá a partir do sonho que a senhora Severina Major teve, onde a falecida devota de Santa Rita de Cássia pediu para que ela cuidasse de sua cova; Dantas (2002) traz um fato diferente, não citado pelo poeta: Logo após a sua morte, três moças pastoreando seu gado, nas encostas da Serra do Marimbondo, começaram a sentir um cheiro de rosas. Como no local não existiam roseiras, associaram o fenômeno à alma da mulher enterrada naquelas proximidades. Conforme as narrativas orais, alguns agricultores acostumados a caminhar até suas roças no sítio Marimbondo, sabendo do fenômeno, começaram a pedir intercessão daquela mulher/alma na resolução de seus problemas, entre eles, a falta de chuvas. A partir daí, o local passou a receber a visita de muitos moradores. (DANTAS, 2002, p. 90). Apesar disso, é notável a discrepância na riqueza de detalhes entre uma narrativa e outra. Enquanto a história do santuário resume-se no trabalho de Maria Isabel Dantas a um relato de aproximadamente uma página, onde a construção da capela é descrita apenas em “Posteriormente, onde foi sepultado o corpo de Joana Turuba, foi construído o santuário de Santa Rita de Cássia.” (DANTAS, 2002, p. 90), o cordel de Francisco Rafael traz uma narração em detalhes dos atores responsáveis pela transformação da cova em túmulo, posteriormente em capela, e sua transformação ao longo do tempo, com aumento da construção, muito embora apenas Maria IsabelDantas aponte aproximadamente a data do surgimento do santuário, em meados dos anos 1970. É importante também destacar o relato da sofrida vida de Joana Turuba nos versos do poeta, parte essencial para o entendimento do espaço dedicado à sua fé na “Santa das Causas Impossíveis”. Não foram encontrados registros fotográficos do espaço quando ainda era apenas o túmulo de Joana Turuba, nem mesmo com as famílias de Inácia 53 Maria Dantas e Maria de Lourdes Dantas. Algumas outras informações à respeito do santuário podem ser encontradas em Macedo (2005). Figura 12: Santuário de Santa Rita de Cássia, 2005. Fonte: Acervo pessoal de Maria de Lourdes Dantas. Figura 13: Santuário de Santa Rita de Cássia, 2005 Fonte: Acervo pessoal de Maria de Lourdes Dantas. 54 Figura 14: Santuário de Santa Rita de Cássia, 2018. Fonte: Acervo pessoal. 3.3 LEMBRANDO AS PESSOAS ESQUECIDAS Francisco Rafael, em “Lembrando as pessoas esquecidas”, convida o leitor a uma viagem pela Carnaúba dos Dantas de sua juventude. São pessoas, lugares e costumes da Carnaúba dos Dantas de meados do século passado que o poeta traz à tona para que não caiam, como o próprio título diz, no esquecimento. Os versos não foram transcritos em sua totalidade, embora reconheçamos a importância de manter registrada a memória das pessoas 55 presentes no poema para que sejam sempre lembradas, foram mantidos, pelo teor do trabalho, apenas os trechos referentes aos espaços de Carnaúba dos Dantas, seus usos e histórias. Nasci na Volta do Rio, Longe de luxo e nobreza… Mas alegre por viver, Num cenário de beleza, Assistindo os espetáculos, Que fazia a natureza! Fui criado trabalhando, Ganhei o nome de França; Ao conhecer Carnaúba, Ainda era criança; Tem coisa do seu passado, Que não me sai da lembrança. Eu lembro, muito pequeno, Do vapor de algodão, Construído por Mamede, O mestre da invenção; E quem puxava o engenho, Era João Arapucão. Lembro a casa dos Tibé, Com a frente para o Norte; O hotel de tia Rita, Onde o café era forte; E a banca de Quinca Moura, Onde se tentava a sorte. Lembro dos ranchos de palha, Da velha rua do Pelo: Do velho Chico Tavares, Barbeiro que tinha zelo… Passava mais de uma hora, Para cortar o meu cabelo! Ai que saudade me dá! Da difusora tocando; Os casais de namorados, Pela praça passeando; E os amigos reunidos, Lá nas calçadas, escutando. O bazar de Pedro Alberto, Que ainda hoje é lembrado; Martins Cruz moendo cana, Com um bisaco do lado; Pedro Alberto despachando, Carrancudo e engraçado. O forró de Mãe Negrinha, O povo lembra demais, Lá na rua Manoel Lúcio, Com os lampiões de gás; Neguinho na sua sanfona. E no fole Zé Tomás! Da loja de Toinho Lopes, Eu guardo recordação; Papai comprava tecido, No fim do mês de São João, Para pagar em outubro, Na venda do algodão! O campo de futebol, Esse aí, me dá saudade; Ficava detrás da rua, Onde é a maternidade; E chico Cunha jogando, No seco, era novidade! (...) Me lembro daqueles filmes, Que todo sábado passava, Ali na biblioteca, Que nem rebocada estava; Duranquirque e Rock Lane, A casa superlotava! Da minha primeira escola Essa me doi na lembrança Lá no sítio Xique-xique, Eu era muito criança, Dona Amélia, a professora Alma cheia de bonança. (...) Do velho Cine São Pedro, Vou lembrar a vida inteira Dos filmes de Teixeirinha, Django e Toni Vieira; E a difusora tocando, As músicas de roedeira! (...) Da saudade do hotel, De Paulinha e Zé Romão; Da sinuca de Lalau; Do fusquinha de Dandão; Bolim na sua bodega, Cochilando no balcão. (...) Eu me lembro do forró, Lá na casa de Judi; Ela com seu cafezin, Vendendo bolo e siqui; Dos fregueses só não dançava Zélhia, Goga e Vivi. (...) Lembro a venda de lavoura; Na esquina do mercado A bodega de Bolim, E Zé Marreca encostado; E a venda de João Cabrinha, Ficava do outro lado. (...) Essas são minhas lembranças, Desses meus entes queridos… Que habitaram Carnaúba, Em tempos bons ou sofridos; Construíram nossa história, E jamais serão esquecidos! (Lembrando as Pessoas Esquecidas, 2010, grifo nosso). Dos espaços citados por Francisco Rafael em seus versos nostálgicos, alguns ainda existem fisicamente na malha urbana, como a “Casa dos Tibé”. A 56 praça mencionada pelo poeta onde os casais de namorados passeavam, acredita-se que seja a Praça Caetano Dantas, a mais antiga da cidade (Macedo, 2005), que ainda se mantém como importante espaço de sociabilidade. A Biblioteca Donatilla Dantas também ainda existe e mantém-se em funcionamento, com poucas alterações em sua estrutura física. A equipe da biblioteca guarda diversos registros das atividades culturais realizadas em seu espaço, sobretudo a partir dos anos 1980, através, principalmente, de fotos; entretanto, não encontrou-se nenhum à respeito das exibições de filmes citadas pelo escritor. Hoje, do antigo Cine São Pedro, do qual Francisco Rafael foi o proprietário, restam apenas as ruínas após a ocorrência de um incêndio. Não foi possível encontrar nenhum tipo de registro relacionado ao cinema, embora esteja fortemente vivo na memória da população que viveu a época; a família do poeta não dispõe de nenhuma foto do prédio durante o funcionamento do cinema, tampouco registro de alguma sessão, apesar de acreditar-se que haja alguma fotografia em acervos pessoais pela cidade. Figura 15: “Casa dos Tibé”, ao lado da Pedra do Gambão, 2018. Fonte: Acervo pessoal. 57 Figura 16: Biblioteca Donatilla Dantas, 2018. Fonte: Acervo pessoal. Figura 17: Prédio do antigo Cine São Pedro, 2018. Fonte: Acervo pessoal. O prédio da primeira escola onde Francisco Rafael estudou, o Grupo Escolar José Azevêdo Dantas, no sítio Xique-Xique, ainda existe, mas devido à falta de uso encontra-se abandonado. No poema “A Educação de Ontem e a 4 de Hoje” o poeta lembra a vivência nesse espaço durante sua infância, por 4 Alunos que residem na zona rural passaram a transportar-se até as escolas da cidade. 58 volta dos anos 1940, levando em consideração o ano de seu nascimento (1935). Comecei a estudar Aos dez anos de idade Lá no sítio Xique-xique Com muita felicidade Para conhecer as letras Era a minha ansiedade Meu pai comprou pra mim Uma carta de ABC Um lápis e apaga borrão E um caderno de escrever E disse pra mim assim: O restante é com você! Eu saía pra escola Todo dia bem cedinho Andando com alegria Uma légua de caminho Junto com meus irmãos E o colega vizinho E levava uma sacola Com batata cozinhada Uma manga, uma goiaba E rapadura quebrada E na hora do recreio Se fazia a misturada. A primeira professora Que começou me ensinar Era Amélia Eulália Dantas Mulher espetacular Emsomava com carinho A quem queria estudar Era muito carinhosa Todo mundo lhe adorava Porém, se algum aluno Com respeito faltava Ia logo pra o castigo E na palmatória pagava Eu só errei uma vez Também tive de pagar Mas eu era obediente Pois queria estudar Por isso que todas provas Era o primeiro lugar Oito horas era o recreio Quando a sirete batia Nu juazeiro frondoso Que no terreiro existia Todo mundo ia lanchar Da comida que trazia Mais ou menos onze horas A escola terminava Uma légua de caminho No sol quente a gente andava Às doze horas do dia Em casa a gente chegava Aluno era obedientePrestava bem atenção Na hora que a professora Ia passar a lição Ali só faltava luxo Mas sobrava educação Às vezes lá no terreiro Algum aluno arengava Mas a professora vinha E só uma vez reclamava E os meninos obedeciam E a discursão terminava As lá dentro da escola Era silêncio e respeito O que a professora ensinava Se escutava direito Será que isso hoje em dia Ainda está do mesmo jeito? (Carnaúba do passado ao presente, 2009) 59 Figura 18: Grupo Escolar José Azevêdo Dantas, 2018. Fonte: Acervo pessoal. O “Forró de Mãe Negrinha” que acontecia na Rua Manoel Lucio, como descrito por Francisco Rafael, tinha espaço em um prédio de propriedade de Maria Sabrina da Conceição, conhecida como Mãe Negrinha. O prédio já não existe e atualmente é onde encontra-se uma das lojas da rede Casas Potiguar. A neta de Maria Sabrina, Eliete Silva pôde confirmar o local da casa e falou sobre ouvir, durante a infância, sobre das festas promovidas por sua avó, mas não guarda nenhum registro do espaço; é possível, entretanto, ver a fachada da edificação em fotos da rua antes da construção da atual loja. 60 Figura 19: Loja da rede Casas Potiguar, na Rua manoel Lúcio, onde ficava o “Forró da Mãe Negrinha”. FONTE: Acervo pessoal. Figura 20: Rua Manoel Lúcio, vê-se no lado esquerdo da foto, em frente ao segundo poste, a fachada de do prédio onde acontecia o chamado “Forró da Mãe Negrinha” s/d. FONTE: Acervo pessoal de Maria de Lourdes Dantas, editada pelo autor 61 Figura 21: Maria Sabrina da Conceição, a “Mãe Negrinha”. Fonte: Acervo pessoal de Eliete Silva. Do espaço onde funcionava o “Hotel de Paulina e Zé Romão, também lembrado como “Hotel de Tia Rita”, apenas parte ainda existe. A área da edificação onde ficavam os quartos do hotel, na Rua Cassimiro Alberto, hoje de uso residencial, mantém a fachada original; já a entrada do antigo hotel, localizada na Rua José Azevêdo, onde também ficava o café, segundo o proprietário, foi reformada e hoje é a Churrascaria Central. <Netinho>, parente dos proprietários do hotel, não guarda nenhuma foto da antiga fachada do prédio. Levando em consideração a proximidade com a Biblioteca Donatilla Dantas, buscou-se uma foto do prédio da biblioteca em que fosse possível ver a entrada do hotel, mas sem sucesso. 62 Figura 22: Fachada da parte do prédio do antigo hotel onde ficavam os quartos, na Rua Cassimiro Alberto, 2018 Fonte: Acervo pessoal. O levantamento fotográfico dos centros históricos da região do Seridó do Rio Grande do Norte realizado pelo MuSA-UFRN registrou o prédio onde 5 funcionava a “Loja de Toinho Lopes” do poema; a edificação que estava localizada na Rua João Cândido Medeiros deu lugar ao prédio onde hoje é o Comercial Manoel Sabino. Em conversa com Hilário Félix Dantas, amigo de Francisco Rafael com quem dividia a escrita dos Conselhos de Judas, o carnaubense lembrou a loja de Toinho Lopes: “Foi onde tive o meu primeiro emprego”; também falou sobre a localização do campo de futebol onde costumava jogar que, segundo ele, ficava exatamente onde, hoje, fica a maternidade, na Rua Treze de Maio, e não “detrás da rua onde é a maternidade”, como escreveu o poeta. Hilário Félix também disse não guardar nenhum tipo de registro do campo de futebol nem indicar alguém que o pudesse ter feito. 5 <http://musaufrn.wixsite.com/serido>. 63 Figura 23: Prédio onde ficava a loja de Toinho Lopes, 1999 FONTE: Fotógrafo: Paulo Heider, <acervo musa> A “Bodega de Bolim” e a “Banca de Quinca Moura” foram as últimas das quais encontrou-se algum registro. Dos demais lugares lembrados por Francisco Rafael no poema não foi possível resgatar nada além de memórias das pessoas procuradas em busca de possíveis registros, as quais não é o objetivo deste trabalho guardar. Foram procurados familiares e pessoas que pudessem estar relacionadas a estes espaços, mas vale fixar que, embora não tenham sido encontrados durante esta pesquisa, esses registros podem existir, mas provavelmente fazem parte de acervos de memórias particulares. 64 Figura 24: Bodega de Bolim, s/d. Fonte: Acervo pessoal de Valéria Maria de Medeiros Santos. Figura 25: Bodega de Bolim, s/d. Fonte: Acervo pessoal de Amarilis Gomes da Silva. 65 CONSIDERAÇÕES FINAIS Após a discussão realizada nessa pesquisa, é possível estabelecer a obra em cordel do poeta Francisco Rafael como fonte importante da história e memória urbana de Carnaúba dos Dantas onde residem, possivelmente, os únicos registros existentes relacionados a determinados espaços e tempos. Os cordéis do carnaubense resgatam suas lembranças e vivências que estão ligadas diretamente aos espaços da cidade e suas configurações, tornando possível entender e conhecer, para além da história da cidade, a maneira como as pessoas relacionam-se com ela, tudo isso através de uma linguagem simples e acessível. Levando em consideração estudos que apontam um caminho de preocupação em relação à preservação do patrimônio cultural edificado na região do Seridó potiguar (OLIVEIRA, 2015), da qual faz parte a cidade de Carnaúba dos Dantas, e unindo a qualidade didática da linguagem utilizada no cordel explorada em outros trabalhos (BARBOSA, 2011; SILVA, 2009) à sua capacidade de informar sobre a história urbana, revelam-se várias possibilidades para a continuação do presente estudo, dentre elas o uso da literatura de cordel em ações de educação patrimonial, estratégia pela qual o IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional tem buscado aproximar a população de seu patrimônio cultural (GRUNBERG, 2007). Assim, fica clara a necessidade de buscar cada vez mais as diferentes maneiras de enxergar-se o espaço urbano de forma a entender sua complexidade nas mais variadas dimensões. 66 REFERÊNCIAS BARBOSA, A. S. M.; PASSOS, C. M. B.; COELHO, A. A. 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