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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE 
CENTRO DE TECNOLOGIA 
DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA 
CURSO DE ARQUITETURA E URBANISMO 
 
ADRIANO DANTAS DE MEDEIROS JÚNIOR 
 
 
 
CIDADE EM RIMAS: 
 ​Um estudo da representação da cidade de Carnaúba Dos Dantas 
na literatura de cordel de Francisco Rafael Dantas 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Natal, RN 
2018 
2 
 
 
 
 
ADRIANO DANTAS DE MEDEIROS JÚNIOR 
 
 
 
 
 
 
CIDADE EM RIMAS: 
 ​Um estudo da representação da cidade de Carnaúba Dos Dantas 
na literatura de cordel de Francisco Rafael Dantas 
 
 
 
 
Trabalho Final de Graduação apresentado 
à banca examinadora do curso de 
Arquitetura e Urbanismo, da Universidade 
Federal do Rio Grande do Norte, sob a 
orientação do Prof​.º Drº George Alexandre 
Ferreira Dantas, como exigência para 
obtenção de grau de Arquiteto e Urbanista. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Natal,RN 
2018 
3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN 
Sistema de Bibliotecas - SISBI 
Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial Prof. Dr. Marcelo Bezerra de Melo Tinôco 
- DARQ - ​CT 
 
 
Júnior, Adriano Dantas de Medeiros. 
 Cidade em rimas: um estudo da representação da cidade de 
Carnaúba dos Dantas na literatura de cordel de Francisco Rafael 
Dantas / Adriano Dantas de Medeiros Júnior. - Natal, 2018. 
 65f.: il. 
 
 Monografia (Graduação) - Universidade Federal do Rio Grande do 
Norte. Centro de Tecnologia. Departamento de Arquitetura e 
Urbanismo. 
 Orientador: George Alexandre Ferreira Dantas. 
 
 
 1. Literatura de cordel - Monografia. 2. Representação - 
Monografia. 3. História urbana - Monografia. 4. História cultural 
- Monografia. I. Dantas, George Alexandre Ferreira. II. 
Universidade Federal do Rio Grande do Norte. III. Título. 
 
RN/UF/BSE15 CDU 398.51 
 
 
 
 
 
 
Elaborado por Ericka Luana Gomes da Costa Cortez - CRB-15/344 
 
 
 
4 
 
 
 
 
ADRIANO DANTAS DE MEDEIROS JÚNIOR 
 
 
 
CIDADE EM RIMAS: 
 ​Um estudo da representação da cidade de Carnaúba Dos Dantas 
na literatura de cordel de Francisco Rafael Dantas 
 
 
Trabalho Final de Graduação apresentado 
à banca examinadora do curso de 
Arquitetura e Urbanismo, da Universidade 
Federal do Rio Grande do Norte, sob a 
orientação do Prof​.º Drº George Alexandre 
Ferreira Dantas, como exigência para 
obtenção de grau de Arquiteto e Urbanista. 
 
Aprovação em 04 de dezembro de 2018. 
 
BANCA EXAMINADORA 
 
________________________________________________ 
 
George Alexandre Ferreira Dantas 
Professor Orientador – UFRN 
 
________________________________________________ 
 
Marizo Vitor 
Professor – UFRN 
 
________________________________________________ 
 
Rebeca Grilo de Souza 
Arquiteto(a) Convidado(a) 
 
5 
 
 
 
 
AGRADECIMENTOS 
 
Agradeço à minha mãe, Marluce Margarida Dantas de Medeiros; minhas 
irmãs, Millena Dantas de Medeiros e Micarlla Dantas de Medeiros; e meus pais 
de coração, Marinês Dantas e Iremar Dantas, por serem o princípio, meio e fim. 
Aos meus amigos Alexandre Dantas, Bruna Hávilla e Richard Bivar, parte 
essencial dessa jornada. 
Aos meus colegas arquitetos que foram força e apoio nos momentos 
mais escuros da caminhada, em especial Bárbara Rodrigues, Bruna 
Mendonça, Evelyne Albuquerque, Joyce Kallyna, Natália Madruga, Rodrigo 
Silva e Luiz Miguel, responsável pela ilustração na capa deste trabalho. 
Por fim, à cidade e ao povo de Carnaúba dos Dantas, inspiração e força 
motriz de todo o processo. A todas as pessoas que contribuíram direta ou 
indiretamente com este trabalho, meu muito obrigado. 
6 
 
 
 
 
RESUMO 
As discussões e reflexões levantadas durante a graduação em Arquitetura e 
Urbanismo relacionadas à história urbana e memória despertaram um olhar 
sobre o espaço de Carnaúba dos Dantas, localizada na região do Seridó do Rio 
Grande do Norte. Reconhecida enquanto município na década de 1950, a 
cidade tem uma história ainda recente. Em busca de novas fontes que possam 
resgatar e contribuir para a história urbana da cidade, o presente trabalho 
apresenta uma discussão da literatura de cordel produzida pelo carnaubense 
Francisco Rafael Dantas enquanto representação da cidade pela perspectiva 
da História Cultural com base, principalmente, nas ideias de Roger Chartier e 
Sandra Pesavento; é lançado um olhar sobre os cordéis do autor a fim de 
identificar as características da Carnaúba dos Dantas construída pelo poeta em 
seus versos e traçar um paralelo com outras representações que registram a 
cidade com o intuito de provar o cordel como fonte da história urbana da cidade 
de Carnaúba dos Dantas. 
 
Palavras-chave: Literatura de Cordel; Representação; História Urbana; História 
Cultural; 
 
7 
 
 
 
 
ABSTRACT 
 
The discussions and reflections raised during the graduation in Architecture and 
Urbanism related to the urban history and memory aroused a look on the space 
of Carnaúba dos Dantas, located in Seridó, region of Rio Grande do Norte. 
Recognized as a municipality in the 1950s, the city has a recent history. In the 
search for new sources that can rescue and contribute to the urban history of 
the city, the present work presents a discussion of cordel literature produced by 
Francisco Rafael Dantas as a representation of the city from the perspective of 
the Cultural History, based mainly on the ideas of Roger Chartier and Sandra 
Pesavento; is a look at the author's cordeis in order to identify the 
characteristics of the Carnaúba dos Dantas built by the poet in its verses and to 
draw a parallel with other representations that register the city to prove the 
cordel literature as source of the urban history of the city of Carnaúba dos 
Dantas. 
 
Keywords: Cordel literature; Representation; Urban History; Cultural History; 
 
8 
 
 
 
 
LISTA DE ILUSTRAÇÕES 
 
FIGURA 1: CARNAÚBA DOS DANTAS, S/D. 1 
FIGURA 2: FOTO DO EDIFÍCIO PENTHOUSE, NO BAIRRO DO MORUMBI EM SÃO PAULO, S/D 8 
FIGURA 3: OUTRO ÂNGULO DO EDIFÍCIO PENTHOUSE, LOCALIZADO AO LADO DA FAVELA 
PARAISÓPOLIS, EM SÃO PAULO, S/D. 8 
FIGURA 4: NA PRIMEIRA FOTO, DE CIMA PARA BAIXO, VÊ-SE A IGREJA MATRIZ DE SÃO JOSÉ E 
O MONTE DO GALO AO FUNDO. 28 
FIGURA 5: DA ESQUERDA PARA DIREITA E DE CIMA PARA BAIXO: 1- BIBLIOTECA DONATILLA 
DANTAS; 2 - NÃO IDENTIFICADO; 3 - MONTE DO GALO; 4 - NÃO IDENTIFICADO; 5 - 
MONTE DO GALO; 6 - IMAGEM DE JESUS CRUCIFICADO, NO CIMO DO MONTE DO GALO. 28 
FIGURA 6: NA CAPA: CASAS DO CENTRO HISTÓRICO DA CIDADE NA RUA ANTONIO AZEVÊDO, O 
CASTELO DI BIVAR E UMA IMAGEM DE JESUS CRUCIFICADO. 28 
FIGURA 7: NA CAPA: IMAGEM DO MONTE DO GALO. 28 
FIGURA 8: NA CAPA: PREFEITURA MUNICIPAL DA CIDADE E FOTO​ ​DE FRANCISCO RAFAEL. 28 
FIGURA 9: NA CAPA: FRANCISCO RAFAEL E IMAGEM DE UMA CASA 28 
FIGURA 10: MONTE DO GALO, S/D 29 
FIGURA 11: INAUGURAÇÃO DO CRUZEIRO DO MONTE DO GALO EM 25 DE OUTUBRO DE 1928
36 
FIGURA 12: SANTUÁRIO DE SANTA RITA DE CÁSSIA, 2005. 41 
FIGURA 13: SANTUÁRIO DE SANTA RITA DE CÁSSIA, 2005 41 
FIGURA 14: SANTUÁRIO DE SANTA RITA DE CÁSSIA, 2018. 42 
FIGURA 15: “CASA DOS TIBÉ”, AO LADO DA PEDRA DO GAMBÃO, 2018. 44 
FIGURA 16: BIBLIOTECA DONATILLA DANTAS, 2018. 45 
FIGURA 17: PRÉDIO DO ANTIGO CINE SÃO PEDRO, 2018. 45 
FIGURA 18: GRUPO ESCOLAR JOSÉ AZEVÊDO DANTAS, 2018. 46 
FIGURA 19: LOJA DA REDE CASAS POTIGUAR, NA RUA MANOEL LÚCIO, ONDE FICAVA O 
“FORRÓ DA MÃE NEGRINHA”. 47 
FIGURA 20: RUA MANOEL LÚCIO, VÊ-SE A FACHADA DE DO PRÉDIO ONDE ACONTECIAO 
CHAMADO “FORRÓ DA MÃE NEGRINHA”, S/D. 48 
FIGURA 21: MARIA SABRINA DA CONCEIÇÃO, A “MÃE NEGRINHA”. 48 
FIGURA 22: FACHADA DA PARTE DO PRÉDIO DO ANTIGO HOTEL ONDE FICAVAM OS QUARTOS, NA 
RUA CASSIMIRO ALBERTO, 2018 49 
FIGURA 23: PRÉDIO ONDE FICAVA A LOJA DE TOINHO LOPES, 1999 50 
FIGURA 24: BODEGA DE BOLIM, S/D. 51 
FIGURA 25: BODEGA DE BOLIM, S/D. 51 
 
 
9 
 
 
 
 
LISTA DE CORDÉIS DE FRANCISCO RAFAEL DANTAS 
 
1. 3º ATO: Carnaúba dos Dantas e seus apelidos​, s/d 
2. A história de dois reis poderosos​, 2010 
3. A história de Dom José Adelino Dantas​, 2010 
4. A verdadeira história do Monte do Galo​, 2008 
5. Carnaúba do passado ao presente​, 2009 
6. Carnaúba e seus homens sistemáticos​, s/d 
7. Carnaúba e seus valores do passado​, 2009 
8. Conheça as regras para fazer Poesia Popular​, 2010 
9. Conheça os prefeitos e vereadores de Carnaúba dos Dantas de 1954 a 2008​, 
2010 
10. Eu e a reencarnação​, s/d 
11. Felinto Lúcio: um gênio da música​, 2009 
12. Histórias do passado​, s/d 
13. Lembrando as pessoas esquecidas​, 2010 
14. Me orgulho em ser filho desta terra​, s/d 
15. Modesto Ernesto Dantas: um herói enaltecido​, 2009 
16. Não zombe seu semelhante​, s/d 
17. O caboclo Clementino (Vaqueiro que nunca mentiu)​, 2009 
18. O fim do orgulho​, s/d 
19. O primeiro milagre no Vale do Carnaúba​, 2009 
20. O Seridó​, co-autor: Hilário Félix Dantas, s/d 
21. O sofrimento de Joana Turuba: devota de Santa Rita de Cássia​, s/d 
22. Orgulhoso de ser nordestino​, s/d 
23. Pinto do monteiro: o gênio do repente​, 2010 
24. Poemas inéditos​, 2010 
25. Recordação sertaneja​, 2009 
26. Segredos da natureza​, 2008 
27. Sertão do Seridó​, 2009 
28. Sertão que a gente mora​, s/d 
29. Sertão que fui criado​, 2008 
30. Um sonho no deserto​, s/d 
31. Voltando ao passado​, 2009 
32. Zé Limeira: o poeta sem oração​, 2010 
10 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
INTRODUÇÃO 1 
1. O CORDEL COMO REPRESENTAÇÃO DA CIDADE 5 
2. CIDADE EM RIMAS: CARNAÚBA DOS DANTAS NA OBRA DE 
FRANCISCO RAFAEL DANTAS 10 
2.1 HISTÓRIAS DE ORIGEM 12 
2.2 A CIDADE E A FÉ 15 
2.3 RIQUEZAS DA TERRA 17 
2.4 CARNAÚBA: BERÇO DE SEUS PERSONAGENS E CENÁRIO DE SUAS HISTÓRIAS 19 
2.5 A VIDA NA ZONA RURAL 22 
2.6 CARNAÚBA DO PASSADO E DO PRESENTE 24 
2.7 A IMAGEM DE CARNAÚBA 27 
3. OS DIFERENTES OLHARES: DO CORDEL À HISTORIOGRAFIA 29 
3.1 A VERDADEIRA HISTÓRIA DO MONTE DO GALO 29 
3.3 LEMBRANDO AS PESSOAS ESQUECIDAS 42 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 52 
 
 
 
 
 
 
11 
 
 
 
 
INTRODUÇÃO 
As várias reflexões e discussões levantadas ao longo da graduação em 
Arquitetura e Urbanismo em relação a patrimônio despertaram-me o interesse 
em memória e história da cidade, além de alimentar um olhar curioso sobre 
como e de que diferentes maneiras essa história é contada e registrada, seja 
através das marcas físicas e espaciais no ambiente urbano ou através das 
várias e distintas maneiras de se registrar e representar o espaço e guardar 
sua imagem, utilizando-se de diferentes linguagens, escritas ou não; cada 
forma apresentando uma diferente visão sobre o mesmo objeto. Dessa forma, 
o espaço urbano é foco de diferentes olhares sem que sejam uns mais 
importantes que outros, esses olhares que traduzem-se em discursos 
divergem, convergem ou justapõem-se de maneira que não há verdades 
absolutas (PESAVENTO, 1999). Essas reflexões atingiram, aos poucos, meus 
espaços de vivência, em especial o espaço da cidade de Carnaúba dos 
Dantas, Seridó potiguar, onde nasci e cresci, fazendo surgir perguntas 
relacionadas ao que se conhece da história de Carnaúba dos Dantas, ao 
quanto não se sabe por falta de registros e sobre quanto dessa história e 
memória residem em lugares pouco explorados. 
 
Figura 1: Carnaúba dos Dantas, s/d. 
 
Fonte: Horizonte, 2011, p. 1. 
12 
 
 
 
 
Dentre as formas de se representar e registrar a cidade e suas 
peculiaridades, as abordagens artísticas como o cinema, a música e a literatura 
chamam atenção pelas infindas maneiras e estilos como podem contar suas 
histórias, capazes de trazer informações e percepções feitas de uma maneira 
que normalmente não se encaixam em registros e documentos históricos 
formais, como observa Sandra Pesavento sobre o uso das representações 
literárias do urbano como fonte: 
 
Tal procedimento implica pensar a literatura como uma leitura 
específica do urbano, capaz de conferir sentidos e resgatar 
sensibilidades aos espaços citadinos, às ruas e formas 
arquitetônicas, aos seus personagens e às sociabilidade que 
nesse espaço têm lugar (PESAVENTO, 2002, p. 10). 
 
Motivado pela curiosidade de estudar a literatura como fonte de 
informações sobre o espaço urbano, a ideia de usar a obra do escritor 
carnaubense Francisco Rafael Dantas pareceu quase óbvia, o autor é 
provavelmente o maior expoente da cultura popular da cidade e possui uma 
vasta produção em poesia publicada em livros e, em sua maior parte, no 
formato de cordéis; é essa produção em cordel de Francisco Rafael que será 
usada como base para este trabalho. 
A literatura de cordel que descende da cultura europeia e encontrou no 
sertão brasileiro e suas peculiaridades culturais e sociais outros significados e 
forte relação com seu povo (BATISTA, 1977), tem como forte característica a 
representação da realidade sertaneja, suas lendas, costumes, culturas e, claro, 
o espaço em que está inserida, tendo sido, por isso, utilizada em outras 
pesquisas, por exemplo, nas áreas da saúde, história e antropologia, como é o 
caso da pesquisa conduzida por Julie Cavignac, onde ela se utiliza da literatura 
de cordel como foco, e afirma a capacidade dos folhetos de revelar a realidade 
da cultura e o saber sertanejo, “me servirão de fio condutor para uma viagem 
na história, na vida quotidiana, nas práticas e representações de uma 
população esquecida pelos políticos, as mídias e os antropólogos” 
(CAVIGNAC, 2006, p 27). 
13 
 
 
 
 
Carnaúba dos Dantas foi reconhecida como município e teve sua 
emancipação política da cidade de Acari em 11 de dezembro de 1953, sendo 
uma cidade de história ainda muito recente aos seus 65 anos. Nos últimos vinte 
anos, o historiador carnaubense Helder Alexandre Medeiros de Macedo figura 
como principal nome a debruçar-se sobre a história de Carnaúba dos Dantas; 
dentre sua rica produção acadêmica, duas obras destacam-se por tratarem de 
um rico e detalhado levantamento do patrimônio cultural, material e imaterial, 
da cidade: ​“Carnaúba dos Dantas: História e Patrimônio” (2012) e ​“​Ritmos, 
sons, gostos e tons do Patrimônio Imaterial de Carnaúba dos Dantas” (2005), 
onde atua com organizador dos textos, maior parte de sua autoria. É a 
produção de Helder Alexandre que abre os caminhos e serve de linha 
condutora para a obra de outros carnaubenses como Mamede Azevêdo, 
Donatilla Dantas, José Adelino Dantas e outros. Não há, até o momento, 
estudos relacionados à história urbana da cidade que explorem a produção 
artística local como fonte; em uma escala maior, não encontrou-se nenhum 
estudo que explore a literatura de cordel como fonte de história urbana. 
Para entender as visões literárias da cidade oferecidas pela literatura de 
cordel de Francisco Rafael Dantas como parte da história urbana de Carnaúba 
dos Dantas, foi lançado um olhar sobre os cordéis da perspectiva da História 
Cultural, vertenteda história que tem como proposta desvendar a realidade do 
passado através de suas representações . Entende-se nesse contexto os 1
cordéis de Francisco Rafael como representação da cidade, admitindo o 
sentido de representação enquanto: 
...uma reapresentação de algo ou alguém que se coloca no 
lugar de um outro, distante no tempo e/ou no espaço. 
Aquilo/aquele que se expõe - o representante - guarda relações 
de semelhança, significado e atributos que remetem ao oculto - 
o representado. (Pesavento, 2004, p. 40). 
 
É sobre a imagem criada pelo poeta carnaubense em seus cordéis que 
se debruça esse estudo, buscando suas especificidades em relação às outras 
representações de Carnaúba dos Dantas, construindo uma discussão que 
1 (Pesavento, 2003). 
14 
 
 
 
 
objetiva revelar como a literatura de cordel pode conter elementos de 
importância para o estudo do urbano. ​Quais as características da Carnaúba 
dos Dantas descrita na obra do autor? Através de que espaços a cidade é 
representada? Como ela é retratada e que tipo de relações são estabelecidas 
entre seus espaços e as narrativas nas quais estão inseridos? Que 
informações podem ser extraídas dos folhetos a respeito da história urbana de 
Carnaúba dos Dantas? Perguntas levantadas de maneira a compreender a 
cidade de uma perspectiva social oferecida pela arte popular do cordel, que 
com sua informalidade e poesia podem trazer informações importantes para o 
entendimento desses espaços e possíveis intervenções nos mesmos. 
O trabalho está estruturado da seguinte maneira: ​1. O Cordel Como 
Representação da cidade​, discute literatura de cordel pela perspectiva da 
História Cultural com base nas ideias de Pesavento (2003) e Chartier (1990) 
enquanto fonte relevante da história urbana, buscando entender a mesma 
como uma forma singular de ver e registrar o espaço urbano; ​2. Cidade em 
Rimas: Carnaúba dos Dantas na Obra de Francisco Rafael Dantas​, traz 
uma visão geral da obra de Francisco Rafael Dantas e caracteriza a 
representação de Carnaúba dos Dantas construída pelo poeta traçando um 
panorama geral da cidade retratada nos versos do poeta; ​3. Os Diferentes 
Olhares: do Cordel à Historiografia​, apresenta uma comparação entre os 
cordéis ​“A Verdadeira História do Monte do Galo”, “O Sofrimento de Joana 
Turuba” e “Lembrando As Pessoas Esquecidas” e os registros existentes dos 
espaços sobre os quais falam as obras; e ​4. Considerações Finais​. 
 
 
15 
 
 
 
 
1. O CORDEL COMO REPRESENTAÇÃO DA CIDADE 
Mil setecentos anos 
Depois de Cristo passado 
O vale do Carnaúba 
Começou ser povoado 
Pelos filhos de Caetano 
Um português respeitado 
 
Diz um historiador 
De grande potencial 
Que Caetano Dantas Correia 
Fugiu lá de Portugal 
Junto com seus dois irmãos 
Por motivo criminal 
 
Nesse tempo no Brasil 
O governador geral 
Dava direito a pessoa 
Com documento legal 
A demarcar o sertão 
Distante do litoral 
 
Por isso Caetano Dantas 
Veio parar no sertão 
Trazendo escravo e dinheiro 
Com muita disposição 
Dos picos até Picuí 
Fez sua demarcação 
E arranjou casamento 
Com uma moça solteira 
Era filha de Tomaz 
De Araújo Pereira 
Também grande fazendeiro 
Que morava na ribeira 
 
Deste feliz casamento 
Grande família gerou 
Ao passar de muitos anos 
A morte lhe procurou 
E uma légua de terra 
A cada filho deixou 
 
Seu filho Simplício Dantas 
Era seu legítimo herdeiro 
No vale do Carnaúba 
Se tornou-se um fazendeiro 
Lá no sítio Xique-xique 
Foi um morador primeiro 
 
Junto com sua família 
Construiu sua morada 
Começou a criar gado 
Nas terras desabitadas 
Mais sempre com fé em deus 
E na virgem imaculada 
(O Primeiro Milagre no Vale do Carnaúba, 2009) 
 
É através destes versos que abrem “O Primeiro Milagre no Vale do 
Carnaúba” que Francisco Rafael Dantas nos descreve o processo de ocupação 
portuguesa da região onde atualmente encontra-se Carnaúba dos Dantas. 
Sabe-se que esse processo conta com muito mais variáveis do que as que 
figuram no relato do poeta - a presença indígena no local, demarcação de 
terras, padrão de ocupação exercido na região, dentre outras -, mas é notável a 
proximidade com a narrativa construída por Macedo (2012) ​baseada em 
diversos documentos e registros do período em questão. 
A História Cultural, vertente da história que ganhou força nos últimos 50 
anos, estabelece que a única maneira de acessarmos o passado é através de 
suas representações, e é sobre elas que se debruçam e procuram construir 
uma narrativa que se aproxime ao máximo do “real” ocorrido, sem, dessa 
16 
 
 
 
 
maneira, estabelecer verdades absolutas, mas sim questionáveis, procurando 
desvendar o passado pelas imagens construídas (PESAVENTO, 2004). 
Para entender melhor os registros que nos servem de fontes para a 
história como representações de uma época produzidas a partir de uma 
determinada realidade cultural com suas próprias especificidades tomaremos 
como exemplo o relato de Roger Chartier (1990) sobre a caracterização das 
leituras camponesas do século XVIII na França. 
Ao descrever a disponibilidade de informações à respeito das leituras 
camponesas no período em questão, Chartier chama atenção para a escassez 
de testemunhos dos próprios camponeses devido à baixa escolaridade dessa 
população, construindo a imagem das leituras camponesas da França no 
século XVIII a partir dos textos direcionados ao abade Gregório. Esses textos, 
por sua vez, partem de contatos do abade, pessoas letradas e, em geral, 
distantes da realidade camponesa. 
Levando em consideração a posição social das pessoas que forneceram 
as informações para a pesquisa e o modo, muitas vezes generalista e sem 
cuidados relacionados à quantificação dos dados, como responderam as 
perguntas propostas pelo abade Gregório, o historiador chegou à conclusão 
que a imagem criada a partir das correspondências recebidas misturam, além 
do que foi visto e vivido pelos correspondentes, o saber, familiaridade e 
estereótipos criados acerca da população camponesa. As variadas respostas 
recebidas pelo abade apresentavam convergências e divergências, tornando 
possível a construção de questionamentos a respeito das informações 
fornecidas. 
É preciso entender as representações como uma construção feita a 
partir do real, não uma cópia dele: 
Representar é, pois, fundamentalmente, estar no lugar de, é 
presentificação de um ausente; é um apresentar de novo, que 
dá a ver uma ausência. A idéia central é, pois, a da 
substituição, que recoloca uma ausência e toma sensível uma 
presença. A representação é conceito ambíguo, pois na relação 
que se estabelece entre ausência e presença, a 
correspondência não é da ordem do mimético ou da 
transparência. A representação não é uma cópia do real, sua 
17 
 
 
 
 
imagem perfeita, espécie de reflexo, mas uma construção feita 
a partir dele (PESAVENTO, 2004, p.40). 
 
Para ilustrar como diferentes representações podem ser construídas 
relacionadas a um mesmo espaço, tomemos como exemplo dois tipos de 
imagens criadas com base na cidade de São Paulo. Primeiramente, as músicas 
“Sampa”, de Caetano Veloso, e “Não Existe Amor em SP”, de Criolo: 
 
Sampa 
Caetano Veloso (1978) 
Não Existe Amor EmSP 
Criolo (2011) 
Alguma coisa acontece no meu coração 
Que só quando cruzo a Ipiranga e Av. São João 
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi 
Da dura poesia concreta de tuas esquinas 
Da deselegância discreta de tuas meninas 
Ainda não havia para mim Rita Lee 
A tua mais completa tradução 
Alguma coisa acontece no meu coração 
Que só quando cruza a Ipiranga e avenida São João 
 
Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu 
rosto 
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau 
gosto 
É que Narciso acha feio o que não é espelho 
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho 
Nada do que não era antes quando não somos mutantes 
E foste um difícil começo 
Afasto o que não conheço 
E quem vende outro sonho feliz de cidade 
Aprende depressa a chamar-te de realidade 
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso 
 
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas 
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas 
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas 
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços 
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva 
Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba 
Mas possível novo quilombo de Zumbi 
E os Novos Baianos passeiam na tua garoa 
E novos baianos te podem curtir numa boa 
Não existe amor em SP 
Um labirinto místico 
Onde os grafites gritam 
Não dá pra descrever 
 
Numa linda frase 
De um postal tão doce 
cuidado com doce 
São Paulo é um buquê 
 
Buquês são flores mortas 
Num lindo arranjo 
Arranjo lindo feito pra você 
Não existe amor em SP. 
 
Os bares estão cheios de almas tão vazias 
A ganância vibra, a vaidade excita 
Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio 
mar de fel 
Aqui ninguém vai pro céu. 
 
Não precisa morrer pra ver Deus 
Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você 
 
Encontro tuas nuvens em cada escombro em cada 
esquina 
Me dê um gole de vida 
 
Não precisa morrer pra ver Deus 
 
A partir da observação das letras das músicas que apresentam um olhar 
sobre São Paulo, o que é possível concluir a respeito da cidade? Embora 
tenham como base o mesmo espaço - a cidade de São Paulo -, em que pontos 
18 
 
 
 
 
os olhares do cantor baiano (Caetano Veloso) e do rapper crescido no Grajaú 
(Criolo), periferia de São Paulo, encontram-se e divergem? Que imagem de 
São Paulo é construída a partir de uma e outra perspectiva? 
Como segundo exemplo, será utilizado um tipo de registro que tem 
capacidade de capturar com maior fidelidade o real: a fotografia. Observando 
as fotografias do Edifício Penthouse, também na cidade de São Paulo, 
podemos perceber que mesmo a fotografia tem uma visão limitada da realidade 
baseada nas perspectivas e ângulos escolhidos para a construção da imagem. 
Figura 2: Foto do Edifício Penthouse, no bairro do Morumbi em São Paulo, s/d 
 
Fonte:Conteúdo, 2015, p. 1. 
 
19 
 
 
 
 
Figura 3: Outro ângulo do Edifício Penthouse, localizado ao lado da favela 
Paraisópolis, em São Paulo, s/d. 
 
Fonte: Conteúdo, 2015, p. 1. 
 
É esse tipo de reflexão que objetiva-se tecer sobre a literatura de cordel: 
enxergá-la como uma das infindas maneiras de capturar o espaço citadino 
através de sua linguagem característica. Tendo como base a obra de forte tom 
memorialista do carnaubense Francisco Rafael Dantas, é preciso levar em 
consideração que ao relatar as memórias de sua juventude, é o Francisco 
Rafael adulto quem as narra , trazendo o peso de sua bagagem carregada de 2
vivências, o que não invalida o uso dessas informações para a ciência como 
propõe Sandra Pesavento: 
É a partir da experiência histórica pessoal que se resgatam 
emoções, sentimentos, idéias, temores ou desejos, o que não 
implica abandonar a perspectiva de que essa tradução sensível 
da realidade seja historicizada e socializada para os homens de 
uma determinada época. Os homens aprendem a sentir e a 
pensar, ou seja, a traduzir o mundo em razões e sentimentos. 
As sensibilidades seriam, pois, as formas pelas quais 
indivíduos e grupos se dão a perceber, comparecendo como 
um reduto de tradução da realidade por meio das emoções e 
dos sentidos. Nessa medida, as sensibilidades não só 
comparecem no cerne do processo de representação do 
mundo, como cor respondem, para o historiador da cultura, 
àquele objeto a capturar no passado, à própria energia da vida. 
(PESAVENTO, 2004, p. 57). 
2 (CHARTIER, 1990). 
20 
 
 
 
 
 
A partir do que foi posto, procuraremos entender mais a fundo a 
representação de Carnaúba dos Dantas construída nas narrativas dos cordéis 
de Francisco Rafael Dantas, buscando suas principais características e 
peculiaridades que a divergem de outras representações da cidade a fim de 
revelar as contribuições que a literatura de cordel do poeta podem oferecer 
para a história urbana da cidade. 
2. CIDADE EM RIMAS: CARNAÚBA DOS DANTAS NA OBRA DE 
FRANCISCO RAFAEL DANTAS 
 
Nascido no sítio Volta do Rio, zona rural da cidade de Carnaúba dos 
Dantas, Francisco Rafael Dantas (1935 - 2011) foi um importante carnaubense. 
Conhecido popularmente entre os habitantes da cidade por França - ou Mestre 
França, como costumam chamá-lo seus ex alunos -, alcunha com a qual 
assinou alguns de seus cordéis, o escritor desempenhou papel chave na cena 
cultural da cidade. Francisco Rafael exerceu diversas profissões ao longo de 
sua vida: agricultor, minerador, pedreiro, vereador e até vice prefeito da cidade; 
mas foi na arte que obteve mais forte reconhecimento. Pupilo do compositor 
carnaubense Felinto Lúcio, o talentoso musicista realizou entre a década de 
1990 e 2000 notável trabalho enquanto professor de música, formando várias 
gerações de jovens músicos na Filarmônica 11 de Dezembro de Carnaúba dos 
Dantas, sendo constantemente relembrado por essa contribuição. Aqui, 
entretanto, será explorada sua produção em outra vertente artística dominada 
por França: a poesia. 
Francisco Rafael frequentou a escola na zona rural onde morava e não 
chegou a concluir o ensino fundamental, aos quinze anos começou a escrever 
poesias matutas e descobrir-se poeta; em 1958, iniciou o projeto conhecido 
como “Os Conselhos de Judas” em que, aos sábados de aleluia, recitava um 
poema improvisado com base nos acontecimentos, fofocas, brigas e causos 
envolvendo os carnaubenses ao longo daquele ano, causando grande 
movimentação e alvoroço entre os ouvintes (MACEDO, 2005). Essa tradição 
21 
 
 
 
 
perdurou por muito tempo e foi registrada por Cavignac (2006) durante sua 
passagem pela cidade na década de 90: 
 
De noite, os moradores se reúnem na praça central para 
escutar França (C. dos Dantas, RN) declamar sua sentença, 
retransmitida através de todos os alto-falantes e pela rádio 
local: esses versos tão esperados, preparados pra ocasião, 
contam os escândalos, mexericos, furtos, adultérios, brigas 
familiares e entre vizinhos (CAVIGNAC, 2006, p. 197). 
 
Francisco Rafael teve, ainda em vida, dois livros publicados: “Retalhos 
dos Meus Poemas” (1996) e “Carnaúba dos Dantas em Quatro Atos” (2006), 
trazendo poemas que abordam os mais diversos temas, dentre eles a cidade 
de Carnaúba dos Dantas, uma de suas grandes paixões; além dessas 
publicações, o escritor também dedicou-se a escrever cordéis. 
Estima-se entre os familiares que França tenha publicado mais de 50 
folhetos, boa parte de forma independente,vendendo-os pessoalmente na feira 
livre dominical carnaubense. É nessa produção de livretos de cordel que 
mergulharemos. ​Todas as obras utilizadas nesse trabalho foram cedidas por 
Rosângela Dantas, sua filha, entre arquivos físicos e digitais, cópias do material 
comercializado por Francisco Rafael nas feiras, mantidas em acervo pelos 
familiares em sua própria casa. Foram reunidos, ao todo, uma variedade de 32 
livretos. Das obras, 13 foram disponibilizadas em formato físico e 19 em 
formato digital; todos os cordéis são impressos em tamanho A5, cada um 
contendo 7 páginas em média. Em cada livreto foram publicadas de uma a 
cinco poesias. 
Adentrar na obra de Francisco Rafael é descobrir um universo. Em suas 
histórias, o poeta passeia pelos mais diversos temas: a simplicidade da vida na 
zona rural, os saberes do homem do campo, religiosidade, política, críticas 
sociais, lendas e histórias populares, relatos baseados em acontecimentos 
reais e histórias fictícias envolvendo reis e castelos. Dentre todos os 
elementos evocados pela literatura de Francisco Rafael, a cidade de Carnaúba 
dos Dantas recebe destaque e é tema constante em sua escrita. 
22 
 
 
 
 
Orgulhoso e apegado às suas origens, o poeta dedica muitas obras à 
vida na cidade de Carnaúba dos Dantas: seus espaços, costumes e, 
principalmente, seus personagens; traz relatos sobre as personalidades 
carnaubenses com quem conviveu ou de quem ouviu falar, transformando suas 
histórias em narrativas de cordel. Francisco Rafael nos apresenta a Carnaúba 
dos Dantas de sua juventude e de sua velhice, antigas tradições que permeiam 
seus espaços; suas rimas trazem a bagagem da vivência e o olhar do homem 
do campo e da cidade, trabalhador e político, músico e poeta; é esse olhar 
sobre a cidade, norteado por suas relações sociais, que procurou-se explorar 
na leitura de seus cordéis. 
A identificação da cidade de Carnaúba nos cordéis de Francisco Rafael 
foi feita de maneira simples. O escritor, quando não traz o nome da cidade nos 
títulos (“O Primeiro Milagre no Vale do Carnaúba”, “Carnaúba e Seus Valores 
do Passado”, “Carnaúba e Seus Filhos Geniais”), fala diretamente ou faz 
alusão aos seus espaços (Sítio Ermo, Monte do Galo, Serra da Rajada, etc.). 
Considerando o tamanho dos poemas utilizados, foram transcritos, para essa 
parte do estudo, os trechos que melhor representam e ilustram o argumento 
apresentado, que foram reproduzidos como encontram-se nas publicações, e 
torna-se importante destacar que, nos últimos anos de sua vida, em 
decorrência de uma deficiência visual importante, a digitalização dos textos era 
feita num processo em que o poeta ditava os versos para que outra pessoa os 
digitasse, e isso acarretou notáveis erros de digitação. 
As leituras dos textos dos cordéis revelam uma Carnaúba dos Dantas 
construída a partir das memórias e vivências do autor, das quais fazem parte 
fatos reconhecidos e registrados pela historiografia local, narrativas que 
estiveram, ou estão até hoje, presentes na tradição popular e, principalmente, 
as experiências vividas pelo poeta. Levando isso em consideração, foi possível 
montar um panorama geral da cidade retratada por França em seus poemas. 
2.1 HISTÓRIAS DE ORIGEM 
 
23 
 
 
 
 
O processo de surgimento de importantes espaços da cidade é tema de 
alguns cordéis de Francisco Rafael. A própria origem desta é retratada em 
diferentes histórias, sempre relacionadas à figura de Caetano Dantas Corrêa 
(1710-1797), popularmente reconhecido como fundador da cidade, tendo sido 
o primeiro colonizador a habitar as terras onde hoje fica Carnaúba dos Dantas 
(MACEDO, 2005). As narrativas construídas pelo poeta, convergindo com o 
que aponta a historiografia local, atribuem à vinda de Caetano Dantas um 
importante passo para o processo de ocupação colonizadora que culminou na 
criação do município, anos mais tarde; entretanto, as narrativas invisibilizam 
completamente a presença indígena anterior à essa colonização, retratando o 
Vale do Carnaúba como “região desabitada” antes da chegada dos 
portugueses. 
Pelo século dezessete 
Os tropeiros viajavam 
Do sertão até o brejo 
Com quinze dias voltavam 
O caminho era diserto 
Mais havia os cantos certos 
Onde eles se arranchavam 
 
Onde hoje é Carnaúba 
Um grande rancho existia 
Pelo Rancho Pé do Monte 
O matuto conhecia 
Mais, começaram a notar 
Que ali naquele lugar 
Um grande mistério havia 
(...) 
O tempo foi se passando 
Caetano Dantas chegou 
Junto com sua família 
A trabalhar começou 
Cada ano que passava 
Uma família chegada 
E o lugar se povoou 
Mil e setecentos anos 
Depois de Cristo passado 
O vale do Carnaúba 
Começou ser povoado 
Pelos filhos de caetano 
Um português respeitado 
(…) 
Seu filho Simplício Dantas 
Era seu legítimo herdeiro 
No vale do Carnaúba 
Se tornou-se fazendeiro 
Lá no Sítio Xique-Xique 
Foi um morador primeiro 
 
(O Primeiro Milagre no Vale do 
Carnaúba, 2009) 
Pelo século dezessete 
Em época muito 
atrasada 
No Vale do Carnaúba 
Região desabitada 
Chegou um Caetano 
Dantas 
Entre as selvagens e 
plantas 
Construiu sua morada 
 
Daí abriu-se o 
caminho 
Para o progresso 
chegar 
Do Ermo até a Rajada 
Começou se povoar 
Cada ano que passava 
Uma família Chegava 
Unida pra trabalhar 
 
(Carnaúba e Seus 
Apelido, s/d) 
(A Verdadeira História do Monte 
do Galo, 2008) 
 
 
Em “A Verdadeira História do Monte do Galo” e “O Sofrimento de Joana 
Turuba”, ​o escritor dedica-se a contar em detalhes a história de dois 
importantes espaços ligados à romaria e à fé católica: o Monte do Galo, como o 
próprio título aponta, e o santuário de Santa Rita de Cássia. Ambas as histórias 
24 
 
 
 
 
vão além de narrar a sequência de fatos que levaram ao surgimento dos 
santuários, hoje reconhecidos como patrimônio da cidade (MACEDO, 2005), 
trazendo para os relatos as histórias de fé dos personagens envolvidos, contos 
e lendas da tradição oral que fazem parte do imaginário criado acerca desses 
ambientes e ajudam a compreender a relação das pessoas com os mesmos.f 
Um dia de madrugada 
Começaram a escutar 
Em cima daquele monte 
Um triste galo cantar 
Sem ter morada por perto 
Naquele lugar deserto 
Era de admirar 
 
Muitos matutos pensavam 
Que o monte era sagrado 
Outros diziam que não 
Que era um reino encantado 
Sem sentir pequeno abalo 
E pelo Monte do Galo 
Começou a ser chamado 
 
(A Verdadeira História do Monte do Galo, 2008) 
Hoje na cova de Joana 
Muita gente reza nela 
A população devota 
Construiu uma capela 
Pra Santa Rita de Cassia 
Que era a protetora dela 
(...) 
Elas fizeram campanhas 
Com toda população 
Com os donos das cerâmicas 
Também frestinhas e leilão 
Com a ajuda recebida 
Aumentou a construção. 
 
Junto a Maria de Lourdes 
Chefe da Tesouraria 
Fizeram o tumulo de Joana 
Santuario de alvenaria 
Com apoio da população 
Foi feito o que merecia. 
 (O Sofrimento de Joana Turuba, s/d) 
 
Em “A História de Dom José Adelino Dantas”, após contar com detalhes 
a biografia desta importante figura religiosa e política, homem de personalidade 
forte e muito admirado até hoje pelo trabalho desenvolvido na cidade, França 
tece uma relação entre o bairro Dom Adelino - localizado no sopé do Monte do 
Galo - e a pessoa quelhe deu o nome. 
A vinte e quatro de março 
De oitenta e três o ano 
A nossa igreja católica 
Sofreu um golpe tirano 
Faleceu Dom Adelino 
Exemplo de ser humano 
 
Até o Monte do Galo 
Acabrunhado ficava 
Ao saber que lá embaixo 
Aquela voz se calava 
Que muitas vezes arrogante 
Nas suas rochas bradava 
 
25 
 
 
 
 
O Bairro Dom Adelino 
O pé do monte é chamado 
Chegando lá você ver 
Uma igrejinha ao lado 
A direita do altar 
Dom José tá sepultado 
(A História de Dom José Adelino Dantas, 2010) 
 
2.2 A CIDADE E A FÉ 
Carnaúba é uma terra 
De gente religiosa 
Um povo pobre humilde 
E pessoa caridosa 
É a cidade da música 
E da Santa Milagrosa. 
(O Sofrimento de Joana Turuba, s/d) 
A cidade de Carnaúba dos Dantas relaciona-se fortemente com a fé 
católica, penetrando sua história e relações. O próprio surgimento da cidade 
está diretamente ligado à fé: uma promessa feita a São José para que 
mandasse chuvas durante uma seca no final do século XIX resultou na 
construção de uma capela dedicada ao santo, que deu início ao povoamento 
em suas redondezas, onde hoje fica a Igreja Matriz de São José, centro 
histórico da cidade (Macedo, 2005). Francisco Rafael, católico, traz essa 
crença em seus versos e retrata Carnaúba dos Dantas como a “terra de gente 
religiosa”. Assim como no caso da capela de São José, o escritor conta 
histórias de fé de seus personagens reais, que materializaram-se em espaços 
da cidade. Em “A Verdadeira História do Monte do Galo”, a promessa de Pedro 
Alberto Dantas para que Nossa Senhora das Vitórias o ajudasse a voltar para 
sua terra é o que dá início à construção do santuário em cima do monte; em “O 
Sofrimento de Joana Turuba”, a devoção de Joana Turuba pela santa dos 
Impossíveis é o que motiva a construção do Santuário de Santa Rita de Cássia. 
Aí naquele momento 
Pedro Alberto a santa implora 
Pedindo pra ela ajudar 
Pra ele vir embora 
E trazia na bagagem 
Aquela pequena imagem 
Da virgem Nossa Senhora 
Quando ele chegou em casa 
A sua história contou 
E a senhora das vitória 
Para o povo ele mostrou 
E disse, eu cheguei com vida 
Ma minha terra querida 
Porque ela me ajudou 
26 
 
 
 
 
 
E lá no monte do galo 
Colocava aquela imagem 
Logo ele arranjou serviço 
E comprou a sua passagem 
Pelo voto que ele fez 
Viajou no fim do mês 
E trouxe a santa na bagagem 
 
Aí convidou o povo 
Para juntos levantar 
Um cruzeiro lá no monte 
Onde a santa ia ficar 
E o povo com alegria 
Começou no outro dia 
Todos juntos a trabalhar 
(A Verdadeira História do Monte do Galo, 2008) 
 
Severino estava ao seu lado 
De sua avó estimada 
Saiu pra fazer um chá 
Vendo ela agoniada 
Voltando achou a avó morta 
Com Santa Rita abraçada 
(...) 
A jovem Ivaneide Lopes 
Começou com devoção 
Zelando aquele local 
Como peregrinação 
Todos os dia ia lá 
E rezava uma oração 
 
Devota de Santa Rita 
E a fé que tinha nela 
Com ato de penitência 
Comprou a imagem dela 
E com a ajuda do povo 
Construiu uma capela 
(O Sofrimento de Joana Turuba, s/d) 
A relação entre a cidade e a espiritualidade do seu povo também se 
expressa nos cordéis através de lendas e histórias que envolvem o 
sobrenatural. Do aparecimento de Nossa Senhora das Vitórias para salvar uma 
criança aos milagres alcançados no Monte do Galo, o autor apresenta 
Carnaúba dos Dantas como um espaço rodeado pelo místico. Ao estabelecer a 
relação desses espaços com forças sobrenaturais é possível influenciar a 
relação das pessoas com os mesmos. Como nos relacionamos, por exemplo, 
com lugares que são tidos como “assombrados”? Sentimentos de natureza 
semelhante podem ser despertados ao entendermos um local com o espaço de 
milagres. 
27 
 
 
 
 
 
Assim foi o sofrimento 
Até o romper da aurora 
Ao amanhecer do dia 
Viu chegar uma senhora 
Vestida num manto azul 
E mandou a onça embora 
 
E olhando para a criança 
E alegremente sorria 
E disse pode descer 
Que a onça já saiu 
Vou levar você em casa 
Que sua mãe me pediu 
O menino perguntou 
E a senhora quem é 
Eu sou a mãe de Jesus 
Esposa de São José 
Tou lhe dando a Proteção 
Porque sua mãe tem fé 
(...) 
Já faz uns duzentos anos 
Que isso aconteceu 
E foi o primeiro milagre 
Que aqui apareceu 
Depois no Monte do Galo 
Outros milagres se deu 
(O Primeiro Milagre no Vale do Carnaúba, 2009) 
 
 
“Milagre, sempre milagre 
Todo ano ele aparece 
Quando a pessoa tem fé 
Esse fenômeno acontece 
Mais dois acontecimento 
Que eu tive conhecimento 
Que o povo não conhece 
 
No ano cinquenta e oito 
Uma mulher adoeceu 
Só andava de moleta 
Quase suas perna morreu 
E ela sem ter melhora 
Um dia de Nossa Senhora 
Das Vitórias se valeu 
 
A mulher subiu o monte 
No seu marido agarrada 
Nos pés de Nossa Senhora 
Rezou muito ajoelhada 
Implorando a sua bença 
Para que sua doença 
Fosse por ela curada 
 
Quando ela se levantou 
Deu fé que estava curada 
Saiu andando sozinha 
Em em nada ser agarrada 
Sua alegria era tanta 
Que ela gritava pra santa 
Senhora, muito obrigado 
O outro foi uma mulher 
Quando seu filho nasceu 
Com poucos anos de idade 
De repente adoeceu 
E ela na mesma hora 
Também de Nossa Senhora 
Das Vitórias se valeu 
 
Ela fez uma promessa 
Para seu filho pagar 
Se ele ficasse bom 
Ao o monte visitar 
Vestindo um manto azulado 
E subir o monte pelado 
E nos pés da santa deixar 
 
Mais o menino foi crescendo 
E a promessa não pagou 
Ele já um homem feito 
Uma noite ele chegou 
Para a promessa pagar 
Quando a roupa foi tirar 
A luz do monte apagou 
 
E subiu o monte nu 
Pelado como nasceu 
Colocou a roupa lá 
No canto que prometeu 
Foi vistir uma que trazia 
Pois enquanto ele vestia 
De novo a luz acendeu 
(A Verdadeira História do Monte do Galo, 2008) 
28 
 
 
 
 
As relações traçadas pelo escritor entre a cidade e a fé restringem-se 
apenas à fé católica, criando um universo muito particular que desconsidera a 
prática e a marca espacial e cultural deixada por outras religiões na cidade. 
São nesses aspectos que é possível notar os limites traçados pelas vivências e 
intenções particulares de Francisco Rafael na representação da cidade 
construída por ele em seus versos. 
2.3 RIQUEZAS DA TERRA 
O sentimento de orgulho por sua terra natal é constante na obra de 
França. A grande admiração por Carnaúba dos Dantas apresenta-se nos 
cordéis ao dedicar muitos de seus versos à exaltação de seus atributos, 
retratando a cidade como um lugar de riquezas das mais diversas naturezas: 
minerais, arqueológicas e, principalmente, culturais; exaltando a cidade como 
reduto de pessoas talentosas e grandes artistas. Em “Carnaúba e Seus 
Apelidos”, por exemplo, ao fazer um levantamento dos apelidos das pessoas 
da cidade, Francisco Rafael também lista os apelidos de lugares, trazendo à 
luz esses espaços. 
 
Carnaúba é uma cidade 
Que tem sítio arqueológico 
Deu homens superdotados 
Deu até um astrológico 
Apelidos tem demais 
Com nome dos animais 
Que dá um jardim zoológico 
(...) 
Apelido de lugar 
Tem o Sítio Pau Caído 
O Riacho dos Cachorro 
Grota do Arrependido 
O Salgadinho e Melado 
Tira Crioula e Pelado 
O Carrasco e Escondido 
Tem a Baixa da Madeira
Carcará e o Fundão
Riacho do Cabeludo
A Garganta e o Cardão
A Baixa da Barriguda
Serra Nova e Serra Aguda
Boa Sorte e Gavião
A Grota do Criminoso
Chapeu de Sol e Picote
A Tábua e o Recanto
Saco do Nego e Garrote
As Pinturas e o Quarenta
O Riacho da Cinzenta
O Xique-xique e o Pote
Mufumbá, Cabeço Liso
João de Fogo e Minador
A Baixa do Amojado
A Espera e Corredor
Maracujá, Gamelinha
Inxetado e Caiçarinha
Os Balançoe Mirador 
 
 (Carnaúba e Seus Apelidos, s/d) 
29 
 
 
 
 
 
 
Carnaúba é rica em minerais 
Temos ouro, urano e tantalita 
Antrimônio, estanho e scheelita 
Feu de espato, granadas e cristais 
Berilo, bismuto e outros mais 
Exportamos até para o estrangeiro 
Em garimpo nós fomos pioneiros 
Principalmente em nossa região 
Explorando minério da nação 
Fomos nós os primeiros garimpeiros 
 
(Sertão Que a Gente Mora, s/d) 
 
 
Em Carnaúba dos Dantas, 
Deus fez tudo o quanto quis: 
Fez músico, pintor e poeta, 
Padre, escritor e juiz; 
De tudo fazendo um pouco, 
Pra o povo ficar feliz 
 
Lembrando as Pessoas Esquecidas, 2010) 
 
 É a história de um seridoense 
De talento de fibra e de respeito 
Homem assim está em extinção 
Pois são poucos que possuem este conceito 
Felinto é conhecido no país 
E Carnaúba dos Dantas está feliz 
Por tem um filho famoso desse jeito 
 
Mil novecentos e oitenta 
Onze de setembro felinto faleceu 
Sua terra natal ficou de luto 
Carnaúba dos Dantas entristeceu 
Pela perca de um gênio musical 
Muitas bandas tocaram o funeral 
Homenageando um gênio que morreu 
 (Felinto Lúcio Um Gênio da Música, 2009) 
 Até os bisnetos de Mamede 
São mecânicos e trabalham consciente 
Também em outras famílias tem mecânico 
Como João Cândido Neto é competente 
É a prova que na arte de mecânico 
Carnaúba tem um povo inteligente 
 (Carnaúba e Seus Valores do Passado, 2009) 
30 
 
 
 
 
 Você vindo a Carnaúba 
Vá fazer uma visita 
Lá na Pedra do Dinheiro 
Pra ver como ela é bonita 
Reze no túmulo de Joana 
E também pra Santa Rita 
 (O Sofrimento de Joana Turuba, s/d) 
 
A diversidade dos atributos da cidade exaltados por Francisco Rafael 
tem a capacidade de proporcionar o descobrimento e redescobrimento deste 
espaço ao revelar características e riquezas pouco conhecidas e exploradas 
por estrangeiros ou até mesmo pela população de Carnaúba dos Dantas, além 
de reforçar a importância das já conhecidas. Não foram encontradas, por 
exemplo, menções a espaços como a Grota do Criminoso e o Riacho da 
Cinzenta em nenhum tipo de registro. 
2.4 CARNAÚBA: BERÇO DE SEUS PERSONAGENS E CENÁRIO DE SUAS 
HISTÓRIAS 
 
De todas as riquezas de Carnaúba dos Dantas sobre as quais o poeta 
escolhe rimar, uma em particular tem grande destaque em seus textos: os 
carnaubenses. Francisco Rafael faz parecer que há algo de diferente e 
inexplicável sobre as pessoas que nascem em Carnaúba dos Dantas, como se 
a terra favorecesse o nascimento, ali, de grandes mentes e personalidades. 
Carnaúba dos Dantas é uma terra 
Dos músicos e dos compositores 
Dos poetas e dos grandes mecânicos 
Dos profetas, artesãos e pintores 
Por isso resolvi escrever 
Carnaúba dos Dantas e seus valores 
 
Me orgulho de ser filho desta terra 
É uma honra falar de nossa gente 
Povo pobre, feliz hospitaleiro 
Corajoso, fiel, inteligente 
Diz até que a divina natureza 
Semeou o saber no ambiente 
(...) 
Esses são os nossos carnaubenses 
Cada um com a arte diferente 
Sem escola, sem mestre e sem estudo 
Todos eles já nasceram inteligente 
31 
 
 
 
 
Parece que a divina natureza 
Semeou sabedoria na gente 
(Carnaúba e Seus Valores do Passado, 2009) 
Para além dos carnaubenses que receberam reconhecimento além dos 
limites da cidade, como Tonheca Dantas (Antônio Pedro Dantas), músico e 
compositor da famosa valsa “Royal Cinema”, tocada pela rádio BBC de 
Londres no século passado para anunciar notícias durante a Segunda Guerra 
Mundial; e Felinto Lúcio, agricultor e musicista que escrevia suas composições 
na areia às margens do Rio Carnaúba e, ao chegar em casa, as transcrevia 
para as partituras específicas para cada instrumento sem antes executar 
nenhum teste (MEMÓRIA, 1982); Francisco Rafael revela os carnaubenses 
“superdotados” e seus grandes feitos, de quem pouco se ouviu falar. São 
pessoas comuns, muitos com baixo grau de escolaridade, que faziam parte de 
seu convívio e chegaram a realizar coisas incríveis, atribuídas ao talento 
natural que acompanha os que nascem em Carnaúba dos Dantas. São artistas 
talentosos, pessoas tão próximas da natureza, que eram capazes de identificar 
o sexo dos animais apenas pelos seus rastros, mecânicos que desvendavam 
problemas pelo ronco do motor e inventores de todos os tipos. 
Mamede fez bomba puxar água 
Sem ter energia e nem motor 
Fez máquina de pé pra costurar 
Pra descaroçar algodão fez um vapor 
Fez um clarinete de pereiro 
Até avião ele inventor 
 
Mamede comprou um carro For 
Ele viu que a roda tinha um defeito 
Toda vez que ele todava se quebrava 
Ele fez uma roda do seu jeito 
Nunca mais se quebrou mandou pra fábrica 
E por Henrique For foi bem aceito 
Geraldo Gama esse é superdotado 
Aprendeu tudo sem ter um professor 
Não sabia ler nem escrever 
Consertava rádio e também televisor 
Motor bomba, elétrica e injetoura 
Motor de carro, máquina e de trator 
 
Geraldo nasceu na Volta do Rio 
Somente o seu nome ele assinava 
Fez uma bicicleta de três rodas 
Que até 200 quilos carregava 
De um guarda sol fez um para quedas 
Que de cima das pedras ele pulava 
(Carnaúba e Seus Valores do Passado, 2009) 
 
Mesmo os que não possuíam nenhum dom especial ou grande talento 
têm espaço nas rimas do escritor. França traz, em cordel, biografias de vários 
carnaubenses, preocupa-se em contar suas histórias, amigos próximos ou 
pessoas com quem conviveu, a quem homenageia com seus versos, onde 
32 
 
 
 
 
ficariam eternizados, como bem observa Humberto Dantas no prefácio de 
Carnaúba dos Dantas em Quatro Atos (2006): “nos sentimos gratificados em 
saber que alguém se interessou em ressuscitar as memórias daquelas 
pessoas, muitas delas, jamais citadas em qualquer escritura” (DANTAS, 2006, 
p. 18). Ainda que não fossem gênios e inventores, em geral são pessoas de 
personalidades excêntricas e interessantes histórias de vida das quais o poeta 
extrai causos e episódios marcantes, histórias que têm como cenário a cidade 
de Carnaúba dos Dantas e que acabam por se tornar parte da memória do 
local. 
O homem mais rico do mundo, um glutão insaciável capaz de comer dez 
pratos de coalhada por cima de quarenta mangas espadas; o matuto bravo que 
sobreviveu e viu seus familiares morrerem após ingerirem veneno de formiga 
misturado à comida; o morador do sítio Ermo que foi à Itália lutar na Segunda 
Guerra Mundial ao lado do ex-presidente Castelo Branco e voltou vivo para 
contar a história e subir o Monte do Galo em agradecimento à Nossa Senhora 
das Vitórias por proteger sua vida; todos eles carnaubenses. 
Zé Elias foi na bodega 
Dez rapadura comprou 
Ali ao escurecer 
Mané Gama chegou 
A mesa estava repleta 
E a disputa começou 
 
Mané Timote, o juiz 
Enchia os pratos e contava 
E Zé Timote, seu filho 
A rapadura rapava 
E assim de noite adentro 
A aposta continuava 
Já ia nos dez pratos 
Que cada um já comia 
Mané Gama levantou-se 
Perguntou com alegria 
Se coalhada em cima de manga 
Alguma coisa ofendia 
 
Mané timote gritou 
É veneno camarada 
Mané Gama respondeu 
Dando mais uma risada 
Pois inda agora eu chupei 
Foi quarenta manga espada 
(Carnaúba e Seus Filhos Geniais, s/d) 
 
No sertão do Seridó 
No Rio Grande do Norte 
No sítio Ermo de Cima 
No Pé da Serra do forte 
Nasceu um menino herói 
Que desafiava a morte 
(...) 
Subiu o Monte do Galo 
Pra rezar uma oração 
Nos pés de nossa senhora 
Falo em José Silvestre 
De Medeiros boa gente 
Sistemático, opinioso 
Cabeça dura e prudente 
Se ele dissesse vou passar 
Podia sairda frente. 
 
Por que sua família 
Morreu toda envenenada 
Com veneno de formiga 
33 
 
 
 
 
Com a fé e devoção 
Pois todo dia na guerra 
Lhe pedia a proteção 
Na comida misturada 
Escapou apenas ele 
Com a vida amargurada 
(Modesto Ernesto Dantas Um Herói Enaltecido, 
2009) 
(Carnaúba e Seus Homens Sistemáticos, 
s/d) 
 
As narrativas criadas pelo poeta envolvendo a cidade e seus 
personagens contribuem para a construção de um imaginário acerca da 
população que habita o local e, dessa maneira, para a formação de uma 
identidade carnaubense. Para entender como isso afeta a relação com o 
espaço, basta refletirmos: que características que nos vêm à cabeça ao 
pensarmos sobre a população da Itália, por exemplo? Ou sobre a população da 
região Norte do país. Ou sul. A ideia que construímos à respeito das pessoas 
que habitam esses locais muda de alguma forma a maneira como interagimos 
e nos relacionamos com esses espaços? Muito provavelmente sim. Nesse 
sentido é que se dá a importância da imagem da população carnaubense 
criada por Francisco Rafael nos cordéis. 
2.5 A VIDA NA ZONA RURAL 
 
Morador da zona rural de Carnaúba dos Dantas durante muitos anos - 
em sua velhice, alternava sua morada entre a cidade e o sítio Volta do Rio -, 
sendo então esperado que a vida nesse espaço seja tema recorrente em sua 
poesia, explorada sob várias perspectivas. Vindo de família humilde de 
agricultores, Francisco Rafael retrata com detalhes a sua visão da morada do 
camponês sertanejo daquela época, desde a espacialização de ambientes e 
caracterização de seus elementos estéticos e construtivos até a relação familiar 
com os animais domésticos. 
 
Uma casa de caboclo 
É emblema no sertão 
Onde o luxo é muito pouco 
Mais tem muito é devoção 
Lá o saber vive ausente 
Pois é tudo diferente 
Dos costumes da cidade 
Do orgulho tem pavor 
O puleiro da galinha 
Do caboclo do sertão 
É sempre atrás da cozinha 
Num grande pé de pião 
Para espantar gavião 
Um pano branco no pau 
Lá na dispensa um giral 
E um fugãozim fumaçando 
34 
 
 
 
 
O que existe é amor 
Respeito e felicidade 
 
Uma casa no sertão 
De caboclo é diferente 
Num tem sote nem batente 
Nem também televisão 
Mais tem um rádio de mão 
Para escutar cantador 
Um papagaio falador 
E um pote na furquia 
E um coração de Maria 
E a imagem do senhor 
 
Lá no terreiro da frente 
Num arvoredo copado 
Tem um jumento amarrado 
Às vezes até indecente 
Uma cadela valente 
E uma latada de palha 
Aonde guarda a cangalha 
Barrio, cassuá, cambitos 
E num chiqueiro de vara 
Um bode cheio de tara 
Uma cabra e dois cabritos 
 
Numa casa de cabolco 
Se escuta de manhãzinha 
Um galo cantando rôco 
Ciscando atrás da galinha 
Um grito dum papagaio 
E um cachorro num burraio 
Latindo fora de moda 
Dorme um gato num fogão 
Um porco fuçando o chão 
E um peru fazendo roda 
Com água no fogo esquentando 
Para fazer café ou mingau 
 
A cozinha do caboclo 
A mubilha é um pilão 
Urupemba, quenga de coco 
Prato de barro e fogão 
A marmita de café 
A cumbuca de cuité 
A panela e o agridá 
Numa mesinha quadrada 
Uma tigela intirnada 
Pra fazer mugunzá 
 
No quarto da camarinha 
A cama e rede mijada 
No lugar da lamparina 
Fica a parede intirnada 
Lá na sala de visita 
Toda enfeitada de fita 
O coração de Jesus 
Num quadro Frei Damião 
E o símbolo da devoção 
Um rosário e uma cruz 
 
Se você for no sertão 
E ver um casebre baixo 
As biqueiras quase o chão 
E encostado a um riacho 
A porta fora de esquadro 
E o capote selado 
E as paredes sem reboco 
Vai lá sem ser conhecido 
Que será bem recebido 
Pois é casa de caboclo 
(Voltando ao Passado, 2009) 
 
A dificuldade de acesso a determinados serviços causada pela distância 
dos centros urbanos também é retratada nos cordéis. Morador do sítio Volta do 
Rio, Francisco Rafael tinha de se locomover a pé até o sítio Xique-Xique, onde 
ficava a escola daquela área, além de relatar as dificuldades causadas pela 
distância dos hospitais. 
 
Comecei a estudar 
Aos dez anos de idade 
Lá no sítio Xique-xique 
Com muita felicidade 
Para conhecer as letras 
No meu tempo de menino 
Quando a gente adoecia 
Numa cama ou numa rede 
Um mês a gente sofria 
E chá de mato e compressa 
35 
 
 
 
 
Era a minha ansiedade 
(...) 
Eu saía pra escola 
Todo dia bem cedinho 
Andando com alegria 
Uma légua de caminho 
Junto com meus irmãos 
E o colega vizinho 
(...) 
Mais ou meno onze horas 
A escola terminada 
Uma légua de caminho 
No sol quente a gente andava 
Às doze horas do dia 
Em casa a gente chegava 
Era o remédio que havia 
 
Mortalidade infantil 
No passado era demais 
Nas cidades do interior 
Não existiam hospitais 
Se a criança adoecia 
Assistência não havia 
Só sofrimento para os pais 
(...) 
Se houvesse um acidente 
Em lugar desabitado 
O socorro era difícil 
Para aquele acidentado 
Vinha com dificuldade 
Numa rede pra cidade 
Pelo povo carregado 
(Carnaúba do Passado ao Presente, 2009) 
 
Em ​“Recordação Sertaneja”, França fala com pesar da migração da 
população do campo para a cidade e como isso se refletia na paisagem 
sertaneja através das casas abandonadas que ficavam para trás, trazendo um 
pouco da relação que foi construída pelas pessoas com essas construções 
desabitadas. 
Aqui ali se encontra 
Um deserto casarão 
Outrora era divertido 
Um forró tero e leilão 
Morreu seu legítimo dono 
Hoje vive o abandono 
Nos braços da solidão 
(...) 
Quem passar pelo sertão 
Só se vê casa fechada 
E as terras boas de plantas 
Vão ficando abandonada 
É o homem se aposentando 
E a lavoura desprezando 
E na cidade faz morada 
No sertão uma casa abandonada 
Que morou muita gente e morreu nela 
Existindo uma cruz ao lado dela 
De pessoa que foi assassinada 
Basta isso pra ser malassombrada 
E hoje quem passar nesse casarão 
Vê pessoas de branco no oitão 
Ouve grito e até luz aparece 
São as coisas incríveis que acontece 
Numa casa deserta no sertão 
 
(Recordação Sertaneja, 2009) 
 
 
 
36 
 
 
 
 
2.6 CARNAÚBA DO PASSADO E DO PRESENTE 
 
Francisco Rafael viveu por 76 anos, todos eles em Carnaúba dos 
Dantas. Durante todo esse tempo trabalhou em diferentes áreas do município e 
pôde testemunhar sua transformação. Essas mudanças na cidade transpassam 
suas narrativas de várias formas, do micro ao macro; fala da transformação da 
paisagem a partir da intervenção do homem e de como o Monte do Galo sofreu 
alterações físicas no seu espaço com o passar dos anos; também da 
precariedade nas construções das casas das pessoas mais humildes em sua 
juventude, fruto de um trabalho comunitário, que provavelmente se refletia na 
estética das construções da época (a falta de reboco, por exemplo), e de como 
esse cenário mudou nos anos 1970 com apoio do Estado. 
 
Pela margem esquerda mais na frente 
O marimbondo lhe pede uma carona 
Seu percurso é curto mais funciona 
No inverno formando grande enchente 
Dali por diante ele segue calmamente 
Rodeado de lindos coqueirais 
Nesse trecho há muitos anos atrás 
Quando ali era mata virgem 
Ele recebeu seu nome de origem 
Pois tinha ali grandes carnaubais 
 
O rio carnaúba cenário diferente 
Cordilheiras e cachoeiras que admiram 
Xique-xique, jurema e macambira 
Do ermo até sua nascente 
Depois ele ruma ao poente 
Recebendo outro tipo de paisagem 
Que o homem plantou em sua margem 
E as nativas baraúnas e caubeiras 
Jaramataias, taquaris e faveleiras 
E mais outras que embelezam sua imagem 
“Quem conheceu nosso monte 
A cinquenta anos atrás 
Chegando lá hoje em dia 
É diferente demais 
A ladeira toda calçada 
Alémdisso iluminada 
E varanda em vários locais 
 
Tem o bairro Dom Adelino 
Com quase mil habitantes 
E tem uma encenação 
Com uns cem participantes 
Mostrando a paixão de Cristo 
Na sexta feira santa é visto 
Por trinta mil visitantes 
 
(Sertão que a gente mora, s/d) (A Verdadeira História do Monte do Galo, 2008) 
 
37 
 
 
 
 
Naquele tempo pra se construir a casa 
Não tinha ajuda de governo, nem prefeito 
Aquelas pessoas que tinham mais recurso 
Fazia um serviço mais bem feito 
E o pobre que não tinha condição 
Levantava a sua construção 
Devagar, mais ou menos desse jeito 
 
O tijolo ele mesmo é quem fazia 
A madeira na serra ele tirava 
E o resto de mais necessidade 
Com o dinheiro que sobrava ele comprava 
Mais ou menos um ano isso rendia 
E no final uma ajuda ele pedia 
E com os amigos a construção começava 
 
Nesse tempo o pedreiro trabalhava 
Da segunda ao sábado ao meio dia 
Se na semana ele tivesse um convite 
Pra se ajudar numa casa a gente ia 
Pedreiro e servente se juntava 
E o domingo inteiro trabalhava 
E a casa do amigo construía 
E assim a casa era construida 
Com alegria e a perfeita união 
Se trabalhava todo domingo do mês 
Para poder terminar a construção 
E o prefeito nem o serviço olhava 
A única coisa que a prefeitura dava 
Era simplesmente o documento do chão 
 
Em mil novecentos e setenta 
Começou o governo federal 
Mandar verbas para todos municípios 
Construir conjunto habitacional 
E aqueles que em rancho residia 
E uma casa de tijolo recebia 
Feita pelo poder municipal 
 
E aqueles que já tinham feito a casa 
Mas não puderam a obra terminar 
A prefeitura mandava uma equipe 
De pedreiro, as paredes rebocar 
Fazia muro, banheiro acimentava 
E a casa pronta ao dono ele entregava 
Sem despesa nenhuma a lhe cobrar 
(Carnaúba do Passado ao Presente, 2009) 
A forma de acesso aos equipamentos de educação e saúde 
mencionadas no tópico anterior também sofre mudanças. 
Eu saia pra escola 
Todo dia bem cedinho 
Andando com alegria 
Uma légua de caminho 
Junto com meus irmãos 
E o colega vizinho 
(…) 
Mais ou menos onze horas 
A escola terminava 
Uma légua de caminho 
No sol a gente andava 
Às doze horas do dia 
Em casa a gente chegava 
(...) 
Na escola tem comida 
Da mais boa qualidade 
Tem carro pra transportar 
Do sítio até a cidade 
Parece que o aluno 
Hoje tem Prioridade 
(...) 
Mortalidade infantil 
No passado era demais 
Nas cidades do interior 
Não existiam hospitais 
Se a criança adoecia 
Assistência não havia 
Só sofrimento para os pais 
(...) 
Se houvesse um acidente 
Em lugar desabitado 
O socorro era difícil 
Para aquele acidentado 
Vinha com dificuldade 
Numa rede pra cidade 
Pelo povo carregado 
(...) 
Hoje se acontecer 
Um acidente fatal 
Logo, logo a assistência 
Se encontra no local 
Com a hora do ocorrido 
Já está sendo atendido 
Num leito do hospital 
 
(Carnaúba do Passado ao Presente, 2009) 
 
38 
 
 
 
 
Em “Lembrando As Pessoas Esquecidas”, que também será discutido 
mais a fundo no próximo capítulo, Francisco Rafael escreve sobre a Carnaúba 
de sua juventude e fala de como a cidade mudou, sequenciando em seus 
versos uma série de lugares, pessoas e costumes que, em sua maioria, já não 
existem mais. 
O forró de Mãe Negrinha, 
O povo lembra demais, 
Lá na rua Manoel Lúcio, 
Com os lampiões de gás; 
Neguinho na sua sanfona. 
E no fole Zé Tomás! 
Da loja de Toinho Lopes, 
Eu guardo recordação; 
Papai comprava tecido, 
No fim do mês de São João, 
Para pagar em outubro, 
Na venda do algodão! 
O campo de futebol, 
Esse aí, me dá saudade; 
Ficava detrás da rua, 
Onde é a maternidade; 
E chico Cunha jogando, 
No seco, era novidade! 
(Lembrando As Pessoas Esquecidas, 2010) 
 
2.7 A IMAGEM DE CARNAÚBA 
A importância das imagens trazidas nas capas dos cordéis vem da 
origem europeia do formato, em que a capa buscava resumir o conteúdo dos 
livretos de cordel, exercendo, dessa maneira, influência sobre a compreensão 
do texto. Os espaços de Carnaúba dos Dantas figuram em várias capas dos 
cordéis de Francisco Rafael, sendo o Monte do Galo o que aparece com mais 
frequência, presente na capa de 6 dos 26 livretos usados para o estudo. Nas 
capas onde o nome da cidade aparece presente no título, torna-se mais forte a 
associação entre Carnaúba e as imagens apresentadas. São ainda variadas,, 
embora o Monte do Galo ainda figure em 3 das 6 capas em questão. 
39 
 
 
 
 
Figura 4: Na primeira foto, de 
cima para baixo, vê-se a 
Igreja Matriz de São José e o 
Monte do Galo ao fundo. 
 
 
 
Fonte: (Carnaúba e Seus 
Homens Sistemáticos, s/d) 
Figura 5: Da esquerda para 
direita e de cima para baixo: 
1- Biblioteca Donatilla 
Dantas; 2 - Não identificado; 
3 - Monte do Galo; 4 - Não 
identificado; 5 - Monte do 
Galo; 6 - Imagem de Jesus 
crucificado, no cimo do Monte 
do Galo. 
 
Fonte: (Carnaúba e Seus 
Apelidos, s/d) 
Figura 6: Na capa: Casas do 
centro histórico da cidade na 
Rua Antonio Azevêdo, o 
Castelo di Bivar e uma 
imagem de Jesus crucificado. 
 
 
 
Fonte: (Carnaúba do 
Passado ao Presente, 2009). 
Figura 7: Na capa: Imagem 
do Monte do Galo. 
 
 
Fonte: (Carnaúba e Seus 
Valores do Passado, 2009) 
Figura 8: Na capa: Prefeitura 
municipal da cidade e foto​ ​de 
Francisco Rafael. 
 
Fonte: (Conheça os Prefeitos 
e Vereadores de Carnaúba 
dos Dantas de 1954 à 2008, 
2010) 
Figura 9: Na capa: Francisco 
Rafael e imagem de uma 
casa 
 
 
Fonte: (O Primeiro Milagre no 
Vale do Carnaúba, 2009) 
40 
 
 
 
 
3. OS DIFERENTES OLHARES: DO CORDEL À HISTORIOGRAFIA 
A fim de verificar como o que é posto à respeito da história urbana de 
Carnaúba dos Dantas por França em seus poemas se relaciona com o que 
registra a historiografia local existente, foram selecionados três cordéis: “A 
Verdadeira História do Monte do Galo”, “O Sofrimento de Joana Turuba” e 
“Lembrando pessoas esquecidas”. Os textos foram escolhidos por 
dedicarem-se de forma mais direta a tratar de espaços de Carnaúba dos 
Dantas, possibilitando traçar um paralelo entre os cordéis e outros possíveis 
registros da cidade relacionado a esses lugares. 
3.1 A “VERDADEIRA” HISTÓRIA DO MONTE DO GALO 
O Monte do Galo é, indiscutivelmente, o principal cartão postal da 
Cidade de Carnaúba dos Dantas. A formação rochosa que abriga o Santuário 
de Nossa Senhora das Vitórias se destaca, imponente, na paisagem; desde 
sua inauguração é destino de romarias, um lugar diretamente ligado à fé. 
Francisco Rafael Dantas narra em “A Verdadeira História do Monte do Galo” a 
história do local desde antes da ocupação portuguesa nas terras onde hoje 
encontram-se a cidade de Carnaúba dos Dantas até os tempos atuais. 
Figura 10: Monte do Galo, s/d 
 
Fonte: Soares, 2014, p. 1. 
41 
 
 
 
 
 
Pelo século dezessete 
Os tropeiros viajavam 
Do sertão até o brejo 
Com quinze dias voltavam 
O caminho era diserto 
Mais havia os cantos certos 
Onde eles se arranchavam 
 
Onde hoje é Carnaúba 
Um grande rancho existia 
Pelo Rancho Pé do Monte 
O matuto conhecia 
Mais, começaram a notar 
Que ali naquele lugar 
Um grande mistério havia 
 
Um dia de madrugada 
Começaram a escutar 
Em cima daquele monte 
Um triste galo cantar 
Sem ter morada por perto 
Naquele lugar deserto 
Era de admirar 
 
Muitos matutos pensavam 
Que o monte era sagrado 
Outros diziam que não 
Que era um reino encantado 
Sem sentir pequeno abalo 
E pelo o Monte do Galo 
Começou a ser chamado 
 
O tempo foi se passando 
Caetano Dantas chegou 
Junto com sua família 
A trabalhar começou 
Cada ano que passava 
Uma família chegava 
E o lugar se povoou 
 
Ai o monte do galo 
Começo ser visitado 
Uns diziam que ali 
Havia um galo encantadoOutros faziam visitas 
Pra ver a vista bonita 
De dia pra todo lado 
 
Por dentro da macambira 
Uma vareda existia 
Por esse caminho estreito 
Todo pessoal subia 
Não havia devoção 
Era só por distração 
Ninguém tinha romaria 
 
Foi em mil e novecentos 
De vinte e cinco pra cá 
Pedro Alberto Dantas tava 
Lá em Belém do Pará 
Vinha doente demais 
Da banda dos seringais 
Do estado do Amapá 
 
Ele andando na cidade 
Leu um anúncio num jornal 
Que no final de semana 
Saia da capital 
Um navio passageiro 
Para o Rio de Janeiro 
E passava por Natal 
 
O seu dinheiro não dava 
Para a passagem comprar 
Ele saiu na cidade 
Meio triste a passear 
Mais sempre com fé em 
Jesus 
Que aparecia uma luz 
Para ele viajar 
 
Ele era um homem devoto 
Pensou em Deus nessa hora 
Numa casa santuária 
Entrou ali sem demora 
Avistou numa vitrina 
Uma imagem pequenina 
Da virgem Nossa Senhora 
 
Ele disse para o homem 
Eu sei de várias histórias 
Sobre a nossa mãe de Deus 
Só uma é cheia de glória 
O homem disse essa imagem 
Está fazendo uma 
homenagem 
A senhora das vitórias 
 
Aí naquele momento 
Pedro Alberto a santa 
implora 
Pedindo pra ela ajudar 
Para ele vir embora 
E trazia na bagagem 
Aquela pequena imagem 
Da virgem Nossa Senhora 
 
E lá no Monte do Galo 
Colocava aquela imagem 
Logo ele arranjou serviço 
E comprou a sua passagem 
Pelo voto que ele fez 
Viajou no fim do mês 
E trouxe a santa na bagagem 
 
Quando ele chegou em casa 
A sua história contou 
E a Senhora das Vitórias 
Para o povo ele mostrou 
E disse, eu cheguei com vida 
Na minha terra querida 
Porque ela me ajudou 
 
Aí convidou o povo 
Para juntos levantar 
Um cruzeiro lá no monte 
Onde a santa ia ficar 
E o povo com alegria 
Começou no outro dia 
Todos juntos a trabalhar 
 
Quando foi no outro dia 
Começou o mutirão 
Abriram logo a estrada 
E outros varrendo o chão 
Uns com tijolo subia 
E na maior alegria 
Começou a construção 
 
Fizeram logo um cruzeiro 
De ferro, pedra e cimento 
Pesando uma tonelada 
Seis metros de comprimento 
Feito estirado no chão 
Pois foi levado a mão 
Com o maior sofrimento 
 
Ocupou mais de cem homens 
Para levar o cruzeiro 
Uns puxavam uma corda 
E trabalharam o dia inteiro 
Mais conseguiram chegar 
Lá no alto e colocar 
No maior despenhadeiro 
 
Ao levantar o cruzeiro 
Um milagre aconteceu 
Para o lado do abismo 
A enorme cruz pendeu 
Quinhentos metro de altura 
Em estado de loucura 
O povo todo correu 
 
Aí Euclides Francisco 
Mais Abilio seu irmão 
Se agarraram na cruz 
Com maior devoção 
Gritando assim, meu Jesus 
42 
 
 
 
 
Que também morreu na cruz 
Quero a sua proteção 
 
Aí naquele momento 
Um forte vento soprou 
A cruz que tava arriando 
Neste momento parou 
E o povo todo gritando 
Nas cordas puxando 
E a cruz pra trás voltou 
 
Pobre, rico, preto e branco 
Trabalharam o ano inteiro 
Uns ajudavam em serviço 
Outros ajudavam em dinheiro 
E na maior devoção 
Terminou a construção 
Da capelinha e cruzeiro 
 
Foi no ano vinte e oito 
Do próximo século passado 
Vinte e cinco de outubro 
Foi o monte inaugurado 
Carna´ba hoje em dia 
Tem a maior romaria 
Que possui o nosso estado 
 
Milagre, sempre milagre 
Todo ano ele aparece 
Quando a pessoa tem fé 
Esse fenômeno acontece 
Mais dois acontecimento 
Que eu tive conhecimento 
Que o povo não conhece 
 
No ano cinquenta e oito 
Uma mulher adoeceu 
Só andava de moleta 
Quase suas perna morreu 
E ela sem ter melhora 
Um dia de Nossa Senhora 
Das Vitórias se valeu 
 
A mulher subiu o monte 
No seu marido agarrada 
Nos pés de Nossa Senhora 
Rezou muito ajoelhada 
Implorando a sua bença 
Para que sua doença 
Fosse por ela curada 
 
Quando ela se levantou 
Deu fé que estava curada 
Saiu andando sozinha 
Em em nada ser agarrada 
Sua alegria era tanta 
Que ela gritava pra santa 
Senhora, muito obrigado 
 
O outro foi uma mulher 
Quando seu filho nasceu 
Com poucos anos de idade 
De repente adoeceu 
E ela na mesma hora 
Também de Nossa Senhora 
Das Vitórias se valeu 
 
Ela fez uma promessa 
Para seu filho pagar 
Se ele ficasse bom 
Ao o monte visitar 
Vestindo um manto azulado 
E subir o monte pelado 
E nos pés da santa deixar 
 
Mais o menino foi crescendo 
E a promessa não pagou 
Ele já um homem feito 
Uma noite ele chegou 
Para a promessa pagar 
Quando a roupa foi tirar 
A luz do monte apagou 
 
E subiu o monte nu 
Pelado como nasceu 
Colocou a roupa lá 
No canto que prometeu 
Foi vistir uma que trazia 
Pois enquanto ele vestia 
De novo a luz acendeu 
 
Foi esses e outros milagres 
Que não posso lhe narrar 
Sei que até hoje os romeiros 
Vem a promessa pagar 
Sei que na casa do milagre 
Tem litro até de vinagre 
E tudo que procurar 
 
Quem conheceu nosso monte 
A cinquenta anos atrás 
Chegando lá hoje me dia 
É diferente demais 
A ladeira toda calçada 
Além disso iluminada 
E varanda em vários locais 
 
Tem o bairro Dom Adelino 
Com quase mil habitantes 
E tem uma encenação 
Com uns cem participantes 
Mostrando a paixão de Cristo 
Na sexta feira santa é visto 
Por trinta mil visitantes 
 
Tem as quatorze estações 
Na subida do cruzeiro 
Gruta senhora de lourdes 
A pousada dos romeiros 
Nossa senhora do socorro 
Numa igreja ao pé do morro 
É aberta o ano inteiro 
 
Festa de Santa Luzia 
Em dezembro é devoção 
Gente de todo nordeste 
Vem pedir uma benção 
Em um museu instalado 
Mostra as coisas do passado 
De toda essa região 
 
O Monte do Galo deve 
A um grande pioneiro 
Antônio Felinto Dantas 
Homem honesto e verdadeiro 
Um exemplo dos humanos 
Que há mais de cinquenta 
anos 
É do monte tesoureiro 
 
Essa é a verdadeira história 
Que o Monte do Galo tem 
Todo dia tem visita 
Que de todo Brasil vem 
E se você não conhece 
Venha fazer sua prece 
E nos visitar também 
 
Esse é o Monte do Galo 
Que o seridó contém 
Contei dele o que sabia 
Não perguntei a ninguém 
Quem pensar que foi assim 
Bata palma pra mim 
Que eu bato pra você 
também 
(A Verdadeira História do Monte do Galo, 2008) 
 
43 
 
 
 
 
A poetisa carnaubense Auta Rodrigues de Carvalho também registrou 
em detalhes a história do Monte do Galo no seu cordel “Histórico do Monte do 
Galo”, que apresenta uma estrutura semelhante a da narrativa escrita por 
Francisco Rafael, traçando um histórico do local desde o século XVIII até a 
contemporaneidade; os versos foram transcritos abaixo. A terceira fonte a ser 
usada é a documentação organizada por Donatilla Dantas em seu livro 
“Carnaúba dos Dantas - Terra da Música” (DANTAS, 2989), que constrói sua 
narrativa a partir de documentos históricos , entrevistas que resgatam a história 3
na tradição oral e memórias da própria autora. 
 
3 Cópias dos discursos realizados pelos irmãos Antônio Alberto Dantas e José Alberto Dantas 
na inauguração do cruzeiro do Monte do Galo e recortes de jornal, por exemplo. 
44 
 
 
 
 
Carnaúba a minha terra 
Num vale localizada, 
Lindas montanhas lhe 
cercam, 
Uma delas bem destacada 
Entre vegetação majestoso, 
Serrote do Galo denominado 
Em tempos passado pelo 
povo. 
 
A uns dois quilometros da 
cidade 
É que está localizado 
O Monte do Galo que por 
uma lenda 
Ficou assim denominado, 
Vou tentar descrever tudo 
Com muito esforço e carinho 
O que contaram os 
antepassados. 
 
A primeira versão que 
sabemos 
É que os tropeiros alí 
passando 
Ou pernoitando em barracas 
próximas ao Monte 
Ouviram um galo cantando, 
Lá no pico do Serrote, 
E isto lhes causava espanto, 
Pois alí não tinha casa, não 
havia habitantes 
 
A segunda versão vem do 
casarão 
Da Fazenda Monte Alegre 
De Antônio Dantas Correia 
em 1800 ou antes 
Vejamos o que aqui segue 
Seus vaqueiros arrebanhando 
o gado 
Também ouviram vindo lá do 
cimo 
O cantar vibrante de um galo. 
 
Por tais razões se 
perguntavam 
Com espanto ou com 
surpresa 
Porque cantava o galo acolá! 
Um mistério da Natureza? 
E a estóriacomeçou a se 
espalhar, 
Foi assim que de Monte do 
Galo começaram a chamar. 
 
Decorridos muitos anos 
Ninguém nunca imaginou, 
Surgiu uma bela idéia 
Até que a data chegou, 
Subir o Serrote do Galo 
Roçando e fazendo atalho, 
Nada ali dificultou. 
 
Pique-nique era novidade 
Alí na povoação 
A caravana partiu 
Com cuidado e animação 
Reinava muita alegria, 
Festejava-se naquele dia 
Uma véspera de São João. 
 
Entre outros lá no pé do 
serrote 
Pedro Alberto e Jacó 
chamava atenção, 
Dr. Maroja, Zé Vitor e João 
Arapucão 
Cesario, Zé Domingos e 
Chico Marinho 
João Cabrinha, Zé Amaro e 
Zé Paizinho 
Todos foram da povoação. 
 
João Cândido Filho na época 
Nosso chefe municipal, 
Católico paciente e moderado 
Dava seu apoio total, 
Quase me esquecia de Zé 
Leite e Saló 
João Luiz, Tavares e Joaquim 
Majó, 
Dentro da farra geral. 
 
Zé Dantas abria caminhos 
O sol começou a esquentar, 
Na folia ouvia-se estouros 
Com pedras a rebolar, 
Na montanha misteriosa 
A comunidade religiosa, 
Desejava um marco plantar. 
 
No pico do monte unidos 
Fizeram uma queimagem 
Quanta coisa aparecia 
Despontando a paisagem 
Rios, riachos, corregos 
Pássaros voando, que 
aragem! 
Tudo isto descoberto com 
muita força e coragem. 
 
Era gratificante o momento 
E também a atração, 
Panorama deslumbrante 
Alegrava o coração, 
O sinal seria plantado, 
Um galo planejado gravava 
O cantar e a tradição. 
 
Em vez de colocar o galo 
Resolveram fazer um 
cruzeiro, 
Lutou nossa gente da terra 
Com coragem e amor 
verdadeiro, 
Toda a população do lugar 
A verdade querendo falar 
Pedro Alberto é o pioneiro. 
 
Na união religiosa de todos 
Veio a força do querer, 
Não existia dinheiro 
Precisava a entrada fazer, 
Assim foi iniciada 
Na pá, carroça, picareta, 
enxada 
Numa quarta-feira ao 
amanhecer. 
 
Aberta a vereda ingreme 
Subiam para trabalhar 
Construindo no cimo do 
monte 
O pedestal para colocar 
O cruzeiro idealizado 
Que acabavam de ajeitar 
Sonhando chegar a hora 
Da grande cruz elevar 
 
Difícil foi colocar nas pedras 
Os andaimes para levar 
O cruzeiro até o cimo do 
Monte 
Foi mesmo de admirar, 
Nos andaimes inseguros 
viam-se 
Homens subindo com a cruz 
devagar 
Arriscando até a vida outros 
de cima a puxar. 
 
 
No mutirão ali 
acompanhando 
O cruzeiro vagarosamente se 
elevar, 
As mulheres choravam, 
rezavam 
Quando os andaimes 
envergavam, 
45 
 
 
 
 
O mais belo observado em 
tudo isto 
É que os homens diziam não 
chores, 
Pois, se morrermos será 
abraçados com a cruz de 
Cristo. 
 
Chegou afinal o cruzeiro 
Ao pedestal destinado 
Já estava escurecendo 
E a cruz mal colocada 
Foi esbirrada, por segurança 
E disse o Padre Bianor para 
todos 
Voltem amanhã com 
confiança. 
 
No outro dia volta a multidão 
curiosa 
Que vê o esforço dos homens 
lutando 
E não conseguindo o cruzeiro 
deixar firma 
Foi então que Manoel Torres 
brincando 
Levemente pôs a alavanca 
em movimento 
Grande espanto, desmaiou, 
pois deu-se o primeiro 
milagre 
A cruz foi no encaixe de 
repente se adaptando. 
 
No topo do Monte estava a 
cruz fixada, 
O povo de fé chorava e ria 
Dava vivas, batia palmas 
Os foguetões no ar subiam 
Cantava oferecendo louvores 
A Deus que tudo aquilo 
permitia 
Se transformando em júbilo 
toda aquela agonia. 
 
Vou falar agora da Santa 
Imagem que aqui chegou, 
No dito ano de 1909 
Trazida por Pedro Alberto 
Dantas 
Do Pará e aqui colocou, 
Na capelinha de São José 
Com toda veneração e amor . 
 
Ele era pobre e na época 
Resolveu sua terra deixar 
E partiu para os Amazonas 
Nos seringais foi trabalhar, 
No pensamento de um dia 
Voltar em melhor situação 
E com o seu povo aqui ficar. 
 
Pouco tempo trabalhou 
E sentiu-se atacado 
De Beriberi sofrendo 
gravemente, 
Só lhe restando a saudade 
De sua terra natal, 
E pouca ou nenhuma 
esperança 
Ele tinha de poder aqui 
voltar. 
 
Nessa tristeza, em febre alta 
Conseguiu dormir e sonhou 
Vendo uma imagem de santa 
E ao mesmo tempo uma voz 
lhe falou 
Ele escutou o que dizia: 
“Se queres viver mais, 
quanto antes 
Deve a sua terra voltar”. 
 
E continuou falando para ele: 
“Deixe Amazonas e vá ao 
Pará; 
É lá que conseguirá o 
dinheiro para voltar 
Procure e Belém uma 
imagem 
Igual a que vês, para ser 
levada 
A sua terra, e lá disse a voz, 
Pelo povo ser venerada”. 
 
Obedeceu tudo como ela 
disse 
Foi embora chegou no Pará, 
Em Belém achou emprego 
Foi condutor do bonde até 
somar 
A quantia necessária para 
poder viajar 
Veio embora e de outra vez 
A imagem foi comprar. 
 
Uma e outras lojas ele viu 
De artigos religiosos por lá, 
Mas revendo os seus 
estoques 
Não conseguiu encontrar. 
Foi quando um dos 
vendedores 
Indicou-lhe outra loja, 
Mais uma vez foi tentar. 
 
Lá chegando descreveu o 
sonho 
E o vendedor a escutar, 
`Procurou atento e lhe disse: 
“Não temos, mas pode 
entrar! 
Esta é a nova remessa que de 
Lisboa chegou”. 
Foi aí que Pedro Alberto com 
surpresa 
A linda imagem encontrou. 
 
O mais interessante é o fato 
De nas relações não está 
O nome da Santa que 
escolhia, 
E sem conhecê-la, o 
vendedor exclamou: 
“É Nossa Senhora das 
Vitórias, 
Pois o que aconteceu agora 
É para você, uma grande 
vitória!” 
 
Levantado o Cruzeiro do 
Monte 
Chega afinal o grande dia 
25 de outubro de 1928, festa 
de grande alegria 
Em procissão deslumbrante 
Levam a Virgem das Vitórias 
Até o monte do Galo 
Sua nova moradia. 
 
Na inauguração muito 
alarido, 
Ai meu Deus a cruz vai 
tombar! 
Ao som de cinco bandas de 
música 
Os foguetes a estourar, 
Arrepios, palmas, canto e 
moções 
Tomavam conta de todos os 
corações 
Abraçados a soluçar. 
 
Neste dia o Serrote do Galo 
ou Cruzeiro 
Teve seu nome mudado 
Pois o intendente do Acari 
Eneas Pires chamou de 
Monte do Galo 
Fugindo da tradição, mas 
Deus 
46 
 
 
 
 
Pela Virgem vem curando e a 
igreja alí orando 
Dando glória, agradecendo, 
pedindo graças e perdão 
 
No pé da ladeira havia 
Uma fonte de água límpida 
Que curava doenças, mas 
secou. 
Talvez porque vendiam água 
O povo idoso assim falou 
Isto é contrário a religião 
E por isto penalizada a 
população ficou. 
 
Uma árvore umburana 
Alí existia e se deu por ela 
A cura de João de Tibé, 
E por isto acreditavam, 
Milagrosa a árvore é, 
E de tanto tirarem as cascas, 
Morreu da umburana o pé. 
 
Zé Dantas contava este fato 
De um homem que 
arrebanhando as cabras, 
Viu uma lançar-se do cimo 
abaixo 
E lá caindo sã e salva 
Admirado, ficou e muito 
sério 
Falou em alta voz que 
ressoava 
“Neste monte existe um 
mistério”! 
 
Crescia de modo espantoso 
Vindos de toda parte, 
O número de romeiros 
devotos 
A pé, a cavalo e de outros 
transportes 
Gente simples de todo sertão 
Que vinha agradecer à 
virgem 
Suas graças, sua proteção. 
 
Muitos milagres aconteceram 
O da cruz que se firmou, o 
primeiro 
Lá no depósito vê-se 
arrumados, 
Pés, cabeças, braços, pernas 
talhados 
Em madeira e outras provas 
Dos pedidos à Virgem feitos 
Pelas pessoas curadas. 
 
Na Revolução Comunista de 
1935 
Nos conflitos, nos tiroteios, 
Vendo tanta coisa 
metralhada, 
Nossa Senhora das vitórias 
do Monte 
Foi com confiança lembrada 
Fez Monsenhor Walfredo 
após a vitória 
Vir ao Monte agradecer, uma 
missa foi celebrada. 
 
Numa manhã bem serena 
O sol começava a raiar 
A população carnaubense 
Surpresa estava com os 
carros a buzinar 
Transportando católicos do 
Seridó 
Do município de Caicó 
Para a promessa pagar. 
 
A mais linda das romarias 
Frei Casanova realizou, 
Juntando todas as cidades 
Do querido Seridó. 
Lá no topo do Monte 
rendendo 
A Nossa Senhora o louvor. 
Cerimônia encantadora, em 
nossa mente ficou. 
 
Vários costumes observam 
Pagando suas promessas 
Romeiros de pés descalços 
Fazendo alí penitência 
Xique-xique espinhoso 
E pedra sobre a cabeça 
Parece ser brincadeira, mas a 
verdade é esta. 
 
Trajados de túnicas 
compridas 
Que deixam lá no altar, 
Cumprindosuas promessas 
Cantam versos a rimar, 
Louvando a Virgem das 
Vitórias, 
De joelhos sobem o monte 
Ou o degraus a cantar. 
 
Todo ano se repete 
A festa de Nossa Senhora das 
Vitórias, 
De 15 a 25 de outubro 
É tradicional na história. 
Cresce o número de romeiros 
Vindos do Brasil inteiro 
Cantar de Deus e da Virgem 
toda glória. 
 
O primeiro Tesoureiro do 
Monte Foi Pedro Alberto o 
idealizador 
Do cruzeiro e da primeira 
imagem doador, 
Vindo após João Cândido 
Filho, Luiz Bernardo 
Joel Baltazar de Macedo e o 
dedicado 
Antonio Felinto, o grande 
lutador. 
 
Aos três anteriores a Antonio 
Póstuma homenagem 
merecida, 
Agradecendo seus trabalhos 
Que gozem feliz a eterna 
vida, 
Recebendo de Deus o prêmio 
Pela fé e pelo exemplo de 
devoção 
A Nossa Senhora das 
Vitórias, nossa mãe do céu 
tão querida. 
 
O trabalho de Antonio 
Felinto 
É importante salientar 
Fez o que os outros não 
puderam,o Cristo 
Crucificado. 
Estrada especial, balustrada e 
altar. 
Por Frei Casanova 
idealizada, ele fez a Via 
Sacra 
Construiu degraus, museu e 
banheiros, 
De Dom Adelino a idéia, ele 
construiu a Praça. 
 
Assim o Monte do Galo 
Se tornou uma grande 
atração 
Para romeiros e turistas 
Para quem tem devoção 
É local convidativo à reza, à 
reflexão 
E a Virgem das Vitórias nos 
acolhendo 
No seu manto, no seu 
47 
 
 
 
 
coração. 
 
Para finalizar apresento 
O Hino de Nossa Senhora 
Letra de Abel Rodrigues de 
Carvalho 
Música de Felinto Lúcio 
Dantas 
Ambos de saudosa memória 
O primeiro meu irmão 
O segundo compositor 
musical, regente do coral, 
Nas festa de Nossa Senhora 
das vitórias. 
 
(CARVALHO, Histórico do Monte do Galo, 1990) 
 
As três fontes concordam em vários pontos. Além da inauguração do 
Monte do Galo na data de 25/10/1928 e da origem do seu nome relacionada à 
lenda vinda do século XVIII onde ouviu-se um galo cantar no cimo do monte, 
todos os registros apontam Pedro Alberto Dantas como principal figura 
responsável pelo início da movimentação popular para a construção do 
cruzeiro; entretanto, apenas Francisco Rafael e Auta Rodrigues abordam as 
motivações do carnaubense em suas narrativas; no relato do primeiro, Pedro 
Alberto Dantas, em 1925, faz uma promessa a Nossa Senhora das Vitórias de 
pôr sua imagem no cimo do Monte do Galo para que consiga voltar à sua terra 
natal, enquanto Auta Rodrigues registra que, na verdade, Pedro Alberto teria 
tido um sonho em que a própria Nossa Senhora das Vitórias o pedia para 
colocar sua imagem na cidade de Carnaúba para ser adorada, prometendo 
ajudá-lo a voltar pra casa; a imagem comprada por Pedro Alberto teria chegado 
em Carnaúba no ano de 1909, não em 1925 como propõe Francisco Rafael. 
48 
 
 
 
 
Figura 11: Inauguração do cruzeiro do Monte do Galo em 25 de outubro de 1928 
 
Fonte: Foto de Thomaz Alberto Dantas. 
Além da sua importância como marco religioso, a construção do cruzeiro 
do Monte do Galo é apontada pela documentação organizada por Donatilla 
Dantas como marco político na história da cidade, comemorando a fundação 
de Carnaúba. A ocasião de comemoração da fundação é explícita nos 
discursos de Antônio Alberto Dantas e José Alberto Dantas na data da 
inauguração (DANTAS, 1989). Donatilla Dantas, entretanto, não registra a 
maior parte da história contada nos cordéis. 
O relato das visitas ao monte por lazer, sem nenhum cunho religioso; a 
mobilização popular dos habitantes para a construção da capela e do cruzeiro 
e as lendas relacionadas a milagres ocorridos no Monte do Galo figuram 
apenas nas narrativas dos cordéis. Em relação ao misticismo ligado ao espaço, 
as histórias se complementam: enquanto Francisco Rafael relata dois milagres 
ocorridos no local, a mulher que voltou a andar e as luzes que apagaram-se 
para que um homem pudesse cumprir sua promessa; Auta Rodrigues traz as 
histórias da fonte de água e da árvores com propriedades de cura que existiam 
no Monte do Galo; ambos concordam ao retratar o episódio de erguimento do 
cruzeiro de concreto que firmou-se sozinho como o primeiro milagre de que se 
tem registro no local. Ao registrar as mudanças ocorridas no espaço, “O 
49 
 
 
 
 
Histórico do Monte do Galo” atribui à gestão do tesoureiro Antônio Felinto 
Dantas a construção de várias estruturas que hoje fazem parte do santuário: o 
calçamento do percurso, estabelecimento da via sacra, construção de 
banheiros e “balustrada”, dentre outros, como é possível verificar no poema. 
 
3.2 O SOFRIMENTO DE JOANA TURUBA 
Assim como em “A Verdadeira História do Monte do Galo”, em “O 
Sofrimento de Joana Turuba” o surgimento da Capela de Santa Rita de Cássia, 
importante espaço religioso carnaubense, é contado com detalhes por França, 
desde a biografia de Joana Faustino da Silva, conhecida como Joana Turuba, 
que tornou-se uma espécie de mártir no imaginário popular devido ao 
sofrimento pelo qual passou em vida, até as motivações de cidadãos 
carnaubenses que levaram à construção da capela. O texto foi transcrito na 
íntegra por considerarmos toda a construção de um contexto importante para o 
entendimento da significância e memória que guarda este espaço. 
 
A pessoa quando nasce 
O seu destino é traçado 
Pela mão da natureza 
O supremo advogado 
Que ordena um viver 
sofrendo 
Outro é menos castigado. 
 
Quem sofre com paciência 
Sem blasfêmia e sem 
clamores 
Deus está sempre ao seu lado 
E alivia suas dores 
No fim de sua existência 
É coroada de flores. 
 
Vou falar de uma mulher 
Uma amável genitora 
Seu nome Joana Türuba 
Mulher pobre e sofredora 
Devota de Santa Rita 
Como a sua protetora. 
 
Há muitos anos atrás 
Joana Turuba viveu 
Lá na serra de Cuité 
Junto com o povo seu 
Cinco filhos e o marido 
Que de desgraça morreu. 
 
Aconteceu numa feira 
No Povoado Melão 
Que mataram meu marido 
Por vingança ou discussão 
Com cinco peixeiradas 
Em cima do coração 
 
Joana ficando viúva 
Sem ter pra quem apelar 
Com cinco filhos pequenos 
Sem ninguém pra lhe ajudar 
Resolveu sair da serra 
Em Picuí veio morar. 
 
Na cidade de Picuí 
Não encontrou remissão 
Saiu de lá sem destino 
Em triste situação 
Veio ficar em Parelhas 
Lá no sítio do Boqueirão. 
 
Ficou trabalhando ali 
Naquela comunidade 
Para sustentar seus filhos 
Passando necessidade 
Trabalhava dia e noite 
Com muita dificuldade 
 
Mas uma vez o destino 
De Joana lhe castigou 
Quando apanhava feijão 
Uma fumaça avistou 
Quando ele chegou em casa 
Tudo queimado encontrou. 
 
Outra vez a pobre Joana 
Se sentia angustiada 
Vendo todos os seus 
pertences 
Sendo em cinzas 
transformada 
Novamente o sofrimento 
Estava em sua morada. 
 
Seu filho Cícero Turuba 
Resolveu a se mudar 
Pra Carnaúba dos Dantas 
Onde vieram morar 
Sem saber que o triste fim 
De Joana ia chegar. 
 
50 
 
 
 
 
Joana Turuba era baixa 
Morena clara era cor 
Conversava muito pouco 
Sinal de um sofredor 
No seu ambiente se via 
Amargura e muita dor. 
 
Uma forte epidemia 
Em Carnaúba chegava 
De bexiga verdadeira 
A todo mundo assombrava 
De Ermo até a Rajada 
A doença se alastrava. 
 
Joana Turuba, coitada 
De repente adoeceu 
A bexiga era tão forte 
Que a todos comoveu 
Como a época era atrasada 
Nenhum médico apareceu. 
 
O medo ficou rodando 
Em toda a população 
Com medo de não haver 
Uma contaminação 
Deixaram ela no mato 
Na mais triste solidão 
 
Prra Serra do Marimbondo 
Levaram a pobre coitada 
Na sombra de uma pedra 
Construíram uma latada 
Em uma cama de varas 
Deixaram eladeitada. 
 
Joana Turuba ficou 
Exposta à chuva e ao vento 
Na mais triste solidão 
Entre gemidos e lamentos 
Mais uma vez se encontrava 
Nos braços do sofrimento. 
 
A imagem de Santa Rita 
Ao seu lado ficava 
Para aliviar suas dores 
Com a Santa abraçava 
Era seu único conforto 
Que talvez lhe consolava. 
 
Ninguém tinha coragem 
De ir lá lhe visitar 
Pra não ver seu sofrimento 
Ou ela se lastimar 
Outros não iam com medo 
De não se contaminar. 
 
Cada dia que passava 
Aumentava sua dor 
Seu corpo todo chagado 
A pele mudando de cor 
Cristão nenhum resistia 
De ouvir o seu clamor. 
 
Passava as noites sozinha 
Naquela serra esquisita 
Só tinha ela ao seu lado 
A imagem de Santa Rita 
Ou os animais noturnos 
Que lhe faziam visita. 
 
Vejam bem caros leitores 
Como essa mulher sofria 
Com bexiga e febre forte 
E o lugar que ela vivia 
Numa serra e no relento 
Enfrentando a noite fria. 
 
Eu acho que muitas vezes 
Na madrugada gelada 
Ela pensando consigo 
Por que sou tão castigada? 
Tanto bem que eu já fiz 
E hoje vivo abandonada. 
 
Mas Santa Rita de Cássia 
Permanecia ao seu lado 
Talvez dizia pra ela 
No momento angustiado 
Quem sofre com paciência 
Entra no Reino Sagrado 
 
Um dos netos de Joana 
Que sempre lhe visitava 
Era Severino Turuba 
Que todos os dias levava 
Algum alimento e chá 
Pra ver se ela tomava. 
 
Passaram-se duas semanas 
Ela já toda chagada 
Em folhas de bananeira 
Estava sendo enrolada 
Só mesmo esperando a hora 
De Deus fazer-lhe a 
chamada. 
 
Severino estava ao seu lado 
De sua avó estimada 
Saiu pra fazer um chá 
Vendo ela agoniada 
Voltando achou a avó morta 
Com Santa Rita abraçada. 
 
Voltou chorando à cidade 
Aos seus parentes avisar 
Saiu convidando o povo 
Pra seu corpo ir buscar 
Ninguém ia lá com medo 
Da doença não pegar 
 
Os únicos que foram lá 
Sem medo da catapora 
Foi Antônio de Tibé 
E Branco de Tia Dora 
Também Chico Frutuoso 
Com fé em Nossa Senhora. 
 
Também Chico Murumbeca 
Muito triste e abalado 
Por ser parente da vítima 
Junto com Antonio de 
Torado 
Foi lá João de Teodora 
E também Chico Bernardo 
 
Antonio Bico, o coveiro 
Foi lá pela obrigação 
Chegaram encontraram o 
corpo 
Em completa putrefação 
Se diluindo e com 
mau-cheiro 
Em triste situação. 
 
Os presentes se vexaram 
Para uma cova cavar 
No lugar que ela morreu 
Ali mesmo a sepultar 
Mas o chão era só pedra 
Procuraram outro lugar. 
 
Saíram levando o corpo 
Sem suportar o mau-cheiro 
Só conseguiram chegar 
Lá na Pedra do Dinheiro 
Cavaram outra sepultura 
Com clamor e desespero. 
 
Só dois palmos de fundura 
Foi o que eles cavaram 
Também é pedra ela rasa 
Mesmo assim a sepultaram 
Cobrindo a cova com pedras 
Nem a cruz colocaram. 
 
Assim terminou de Joana 
Seu doloroso sofrer 
Nem um enterro católico 
Ela não pôde obter 
Mas sei que Deus lhe deu 
tudo 
51 
 
 
 
 
Que ela tinha a merecer. 
 
Toda pessoa na terra 
Que sofre com paciência 
Reconhecendo o sofrer 
Como uma penitência 
Estará Deus ao seu lado 
No fim da sua existência. 
 
Joana era sofredora 
Desde sua mocidade 
Com tragédia e amargura 
Passando necessidades 
Mas agora está feliz 
Na Santa eternidade. 
 
A Senhora Joana Major 
Morando perto do lugar 
Que Joana foi sepultada 
Começou logo a sonhar 
Ela pedindo no sonho 
Pra sua cova aguar. 
 
Assim ela começou 
Com amor e devoção 
A aguar a cova dela 
Também fazendo oração 
Mostrando para os presentes 
Que tinha bom coração 
 
Depois Josefa Leandro 
Com sacrifício levava 
Uma lata d’água cheia 
Na cabeça carregava 
Aguando a cova dela 
Todo dia que Deus dava. 
 
Carnaúba é uma terra 
De gente religiosa 
Um povo pobre e humilde 
E pessoa caridosa 
É a cidade da música 
E da Santa Milagrosa 
 
Hoje na cova de Joana 
Muita gente reza nela 
A população devota 
Construiu uma capela 
Pra Santa Rita de Cássia 
Que era protetora dela. 
 
A jovem Ivaneide Lopes 
Começou com devoção 
Zelando aquele local 
Como peregrinação 
Todos os dias ia lá 
E rezava uma oração. 
 
Devota de Santa Rita 
E a fé que tinha nela 
Com ato de penitência 
Comprou a imagem dela 
E com a ajuda do povo 
Construiu uma capela. 
 
Ivaneide batalhou 
Com o povo da Região 
Mais Felinto Dantas Neto 
O mestre da construção 
Assim foi feita a capela 
Um horto de oração. 
 
Desde outubro de noventa 
Duas mulheres se emanam 
Pra zelar o santuário 
Também da cova de Joana 
Elas vão lá bem cedinho 
Todos os dias da semana. 
 
É Tereza de Jesus 
Com Zé Firmino casada 
E Inácia Maria Dantas 
Outra mulher dedicada 
Por Inácia de Felinto 
É conhecida e chamada. 
 
Elas fizeram campanhas 
Com toda população 
Com os donos das cerâmicas 
Também festinhas e leilão 
Com a ajuda recebida 
Aumentou a construção. 
 
Junto a Maria de Lourdes 
Chefe da tesouraria 
Fizeram o túmulo de Joana 
Santuário de alvenaria 
Com apoio da população 
Foi feito o que merecia. 
 
Na festa de Santa Rita 
Ela vem em procissão 
Da Matriz de São José 
Há novenas e oração 
Depois volta ao santuário 
Com a maior devoção. 
 
Você vindo a Carnaúba 
Vá fazer uma visita 
Lá na Pedra do Dinheiro 
Pra ver como ela é bonita 
Reze no túmulo de Joana 
E também pra Santa Rita. 
 
Faço aqui ponto final 
Revendo um triste passado 
Ao sofrimento de Joana 
Naquele tempo atrasado 
Contei o que achei escrito 
Há todos muito obrigado. 
 
(O Sofrimento de Joana Turuba, s/d, grifo nosso). 
 
Foram encontrados apenas dois registros que contam a história do 
surgimento desse espaço: a dissertação de mestrado de Maria Isabel Dantas - 
que trata das festividades religiosas carnaubenses -, e o texto transcrito acima, 
ambos utilizados como fontes para Macedo (2005). A narrativa construída por 
Maria Isabel Dantas a partir do resgate da tradição oral popular entra em 
concordância com a construída por Francisco Rafael: a história da mulher 
devota de Santa Rita de Cássia, vítima da chamada Bexiga Verdadeira que, 
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devido à doença, foi isolada próximo à Serra do Marimbondo e no local de seu 
sepultamento construiu-se a capela em homenagem a Santa Rita. 
Há, entretanto, uma pequena divergência. Enquanto na narrativa de 
Francisco Rafael o início das visitas ao lugar de sepultamento de Joana Turuba 
se dá a partir do sonho que a senhora Severina Major teve, onde a falecida 
devota de Santa Rita de Cássia pediu para que ela cuidasse de sua cova; 
Dantas (2002) traz um fato diferente, não citado pelo poeta: 
Logo após a sua morte, três moças pastoreando seu gado, nas 
encostas da Serra do Marimbondo, começaram a sentir um 
cheiro de rosas. Como no local não existiam roseiras, 
associaram o fenômeno à alma da mulher enterrada naquelas 
proximidades. Conforme as narrativas orais, alguns agricultores 
acostumados a caminhar até suas roças no sítio Marimbondo, 
sabendo do fenômeno, começaram a pedir intercessão daquela 
mulher/alma na resolução de seus problemas, entre eles, a 
falta de chuvas. A partir daí, o local passou a receber a visita 
de muitos moradores. (DANTAS, 2002, p. 90). 
 
Apesar disso, é notável a discrepância na riqueza de detalhes entre uma 
narrativa e outra. Enquanto a história do santuário resume-se no trabalho de 
Maria Isabel Dantas a um relato de aproximadamente uma página, onde a 
construção da capela é descrita apenas em “Posteriormente, onde foi 
sepultado o corpo de Joana Turuba, foi construído o santuário de Santa Rita de 
Cássia.” (DANTAS, 2002, p. 90), o cordel de Francisco Rafael traz uma 
narração em detalhes dos atores responsáveis pela transformação da cova em 
túmulo, posteriormente em capela, e sua transformação ao longo do tempo, 
com aumento da construção, muito embora apenas Maria IsabelDantas aponte 
aproximadamente a data do surgimento do santuário, em meados dos anos 
1970. É importante também destacar o relato da sofrida vida de Joana Turuba 
nos versos do poeta, parte essencial para o entendimento do espaço dedicado 
à sua fé na “Santa das Causas Impossíveis”. 
Não foram encontrados registros fotográficos do espaço quando ainda 
era apenas o túmulo de Joana Turuba, nem mesmo com as famílias de Inácia 
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Maria Dantas e Maria de Lourdes Dantas. Algumas outras informações à 
respeito do santuário podem ser encontradas em Macedo (2005). 
Figura 12: Santuário de Santa Rita de Cássia, 2005. 
 
Fonte: Acervo pessoal de Maria de Lourdes Dantas​. 
 
Figura 13: Santuário de Santa Rita de Cássia, 2005 
 
Fonte: Acervo pessoal de Maria de Lourdes Dantas. 
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Figura 14: Santuário de Santa Rita de Cássia, 2018. 
 
Fonte: Acervo pessoal. 
3.3 LEMBRANDO AS PESSOAS ESQUECIDAS 
Francisco Rafael, em “Lembrando as pessoas esquecidas”, convida o 
leitor a uma viagem pela Carnaúba dos Dantas de sua juventude. São pessoas, 
lugares e costumes da Carnaúba dos Dantas de meados do século passado 
que o poeta traz à tona para que não caiam, como o próprio título diz, no 
esquecimento. Os versos não foram transcritos em sua totalidade, embora 
reconheçamos a importância de manter registrada a memória das pessoas 
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presentes no poema para que sejam sempre lembradas, foram mantidos, pelo 
teor do trabalho, apenas os trechos referentes aos espaços de Carnaúba dos 
Dantas, seus usos e histórias. 
 
Nasci na Volta do Rio, 
Longe de luxo e nobreza… 
Mas alegre por viver, 
Num cenário de beleza, 
Assistindo os espetáculos, 
Que fazia a natureza! 
 
Fui criado trabalhando, 
Ganhei o nome de França; 
Ao conhecer Carnaúba, 
Ainda era criança; 
Tem coisa do seu passado, 
Que não me sai da 
lembrança. 
 
Eu lembro, muito pequeno, 
Do vapor de algodão, 
Construído por Mamede, 
O mestre da invenção; 
E quem puxava o engenho, 
Era João Arapucão. 
 
Lembro a casa dos Tibé, 
Com a frente para o Norte; 
O hotel de tia Rita, 
Onde o café era forte; 
E a banca de Quinca Moura, 
Onde se tentava a sorte. 
 
Lembro dos ranchos de 
palha, 
Da velha rua do Pelo: 
Do velho Chico Tavares, 
Barbeiro que tinha zelo… 
Passava mais de uma hora, 
Para cortar o meu cabelo! 
 
Ai que saudade me dá! 
Da difusora tocando; 
Os casais de namorados, 
Pela praça passeando; 
E os amigos reunidos, 
Lá nas calçadas, escutando. 
 
O bazar de Pedro Alberto, 
Que ainda hoje é lembrado; 
Martins Cruz moendo cana, 
Com um bisaco do lado; 
Pedro Alberto despachando, 
Carrancudo e engraçado. 
 
O forró de Mãe Negrinha, 
O povo lembra demais, 
Lá na rua Manoel Lúcio, 
Com os lampiões de gás; 
Neguinho na sua sanfona. 
E no fole Zé Tomás! 
 
Da loja de Toinho Lopes, 
Eu guardo recordação; 
Papai comprava tecido, 
No fim do mês de São João, 
Para pagar em outubro, 
Na venda do algodão! 
 
O campo de futebol, 
Esse aí, me dá saudade; 
Ficava detrás da rua, 
Onde é a maternidade; 
E chico Cunha jogando, 
No seco, era novidade! 
(...) 
Me lembro daqueles filmes, 
Que todo sábado passava, 
Ali na biblioteca, 
Que nem rebocada estava; 
Duranquirque e Rock 
Lane, 
A casa superlotava! 
 
Da minha primeira escola 
Essa me doi na lembrança 
Lá no sítio Xique-xique, 
Eu era muito criança, 
Dona Amélia, a professora 
Alma cheia de bonança. 
(...) 
Do velho Cine São Pedro, 
Vou lembrar a vida inteira 
Dos filmes de Teixeirinha, 
Django e Toni Vieira; 
E a difusora tocando, 
As músicas de roedeira! 
(...) 
Da saudade do hotel, 
De Paulinha e Zé Romão; 
Da sinuca de Lalau; 
Do fusquinha de Dandão; 
Bolim na sua bodega, 
Cochilando no balcão. 
(...) 
Eu me lembro do forró, 
Lá na casa de Judi; 
Ela com seu cafezin, 
Vendendo bolo e siqui; 
Dos fregueses só não 
dançava 
Zélhia, Goga e Vivi. 
(...) 
Lembro a venda de lavoura; 
Na esquina do mercado 
A bodega de Bolim, 
E Zé Marreca encostado; 
E a venda de João Cabrinha, 
Ficava do outro lado. 
(...) 
Essas são minhas 
lembranças, 
Desses meus entes 
queridos… 
Que habitaram Carnaúba, 
Em tempos bons ou sofridos; 
Construíram nossa história, 
E jamais serão esquecidos! 
 
(Lembrando as Pessoas Esquecidas, 2010, grifo nosso). 
 
Dos espaços citados por Francisco Rafael em seus versos nostálgicos, 
alguns ainda existem fisicamente na malha urbana, como a “Casa dos Tibé”. A 
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praça mencionada pelo poeta onde os casais de namorados passeavam, 
acredita-se que seja a Praça Caetano Dantas, a mais antiga da cidade 
(Macedo, 2005), que ainda se mantém como importante espaço de 
sociabilidade. A Biblioteca Donatilla Dantas também ainda existe e mantém-se 
em funcionamento, com poucas alterações em sua estrutura física. A equipe da 
biblioteca guarda diversos registros das atividades culturais realizadas em seu 
espaço, sobretudo a partir dos anos 1980, através, principalmente, de fotos; 
entretanto, não encontrou-se nenhum à respeito das exibições de filmes 
citadas pelo escritor. Hoje, do antigo Cine São Pedro, do qual Francisco Rafael 
foi o proprietário, restam apenas as ruínas após a ocorrência de um incêndio. 
Não foi possível encontrar nenhum tipo de registro relacionado ao cinema, 
embora esteja fortemente vivo na memória da população que viveu a época; a 
família do poeta não dispõe de nenhuma foto do prédio durante o 
funcionamento do cinema, tampouco registro de alguma sessão, apesar de 
acreditar-se que haja alguma fotografia em acervos pessoais pela cidade. 
Figura 15: “Casa dos Tibé”, ao lado da Pedra do Gambão, 2018. 
 
Fonte: Acervo pessoal. 
 
 
57 
 
 
 
 
Figura 16: Biblioteca Donatilla Dantas, 2018. 
 
Fonte: Acervo pessoal. 
 
Figura 17: Prédio do antigo Cine São Pedro, 2018. 
 
Fonte: Acervo pessoal. 
 
O prédio da primeira escola onde Francisco Rafael estudou, o Grupo 
Escolar José Azevêdo Dantas, no sítio Xique-Xique, ainda existe, mas devido à 
falta de uso encontra-se abandonado. No poema “A Educação de Ontem e a 4
de Hoje” ​o poeta lembra a vivência nesse espaço durante sua infância, por 
4 Alunos que residem na zona rural passaram a transportar-se até as escolas da cidade. 
58 
 
 
 
 
volta dos anos 1940, levando em consideração o ano de seu nascimento 
(1935). 
 
Comecei a estudar 
Aos dez anos de idade 
Lá no sítio Xique-xique 
Com muita felicidade 
Para conhecer as letras 
Era a minha ansiedade 
 
Meu pai comprou pra mim 
Uma carta de ABC 
Um lápis e apaga borrão 
E um caderno de escrever 
E disse pra mim assim: 
O restante é com você! 
 
Eu saía pra escola 
Todo dia bem cedinho 
Andando com alegria 
Uma légua de caminho 
Junto com meus irmãos 
E o colega vizinho 
 
E levava uma sacola 
Com batata cozinhada 
Uma manga, uma goiaba 
E rapadura quebrada 
E na hora do recreio 
Se fazia a misturada. 
A primeira professora 
Que começou me ensinar 
Era Amélia Eulália Dantas 
Mulher espetacular 
Emsomava com carinho 
A quem queria estudar 
 
Era muito carinhosa 
Todo mundo lhe adorava 
Porém, se algum aluno 
Com respeito faltava 
Ia logo pra o castigo 
E na palmatória pagava 
 
Eu só errei uma vez 
Também tive de pagar 
Mas eu era obediente 
Pois queria estudar 
Por isso que todas provas 
Era o primeiro lugar 
 
Oito horas era o recreio 
Quando a sirete batia 
Nu juazeiro frondoso 
Que no terreiro existia 
Todo mundo ia lanchar 
Da comida que trazia 
Mais ou menos onze 
horas 
A escola terminava 
Uma légua de caminho 
No sol quente a gente 
andava 
Às doze horas do dia 
Em casa a gente 
chegava 
 
Aluno era obedientePrestava bem atenção 
Na hora que a 
professora 
Ia passar a lição 
Ali só faltava luxo 
Mas sobrava educação 
 
Às vezes lá no terreiro 
Algum aluno arengava 
Mas a professora vinha 
E só uma vez 
reclamava 
E os meninos 
obedeciam 
E a discursão terminava 
 
As lá dentro da escola 
Era silêncio e respeito 
O que a professora 
ensinava 
Se escutava direito 
Será que isso hoje em 
dia 
Ainda está do mesmo 
jeito? 
(Carnaúba do passado ao presente, 2009) 
 
 
59 
 
 
 
 
Figura 18: Grupo Escolar José Azevêdo Dantas, 2018. 
 
Fonte: Acervo pessoal​. 
 
O “Forró de Mãe Negrinha” que acontecia na Rua Manoel Lucio, como 
descrito por Francisco Rafael, tinha espaço em um prédio de propriedade de 
Maria Sabrina da Conceição, conhecida como Mãe Negrinha. O prédio já não 
existe e atualmente é onde encontra-se uma das lojas da rede Casas Potiguar. 
A neta de Maria Sabrina, Eliete Silva pôde confirmar o local da casa e falou 
sobre ouvir, durante a infância, sobre das festas promovidas por sua avó, mas 
não guarda nenhum registro do espaço; é possível, entretanto, ver a fachada 
da edificação em fotos da rua antes da construção da atual loja. 
60 
 
 
 
 
Figura 19: Loja da rede Casas Potiguar, na Rua manoel Lúcio, onde ficava o “Forró da 
Mãe Negrinha”. 
 
FONTE: Acervo pessoal. 
 
Figura 20: Rua Manoel Lúcio, vê-se no lado esquerdo da foto, em frente ao segundo 
poste, a fachada de do prédio onde acontecia o chamado “Forró da Mãe Negrinha” 
s/d. 
 
FONTE: Acervo pessoal de Maria de Lourdes Dantas, editada pelo autor 
 
61 
 
 
 
 
Figura 21: Maria Sabrina da Conceição, a “Mãe Negrinha”. 
 
Fonte: Acervo pessoal de Eliete Silva. 
 
Do espaço onde funcionava o “Hotel de Paulina e Zé Romão, também 
lembrado como “Hotel de Tia Rita”, apenas parte ainda existe. A área da 
edificação onde ficavam os quartos do hotel, na Rua Cassimiro Alberto, hoje de 
uso residencial, mantém a fachada original; já a entrada do antigo hotel, 
localizada na Rua José Azevêdo, onde também ficava o café, segundo o 
proprietário, foi reformada e hoje é a Churrascaria Central. <Netinho>, parente 
dos proprietários do hotel, não guarda nenhuma foto da antiga fachada do 
prédio. Levando em consideração a proximidade com a Biblioteca Donatilla 
Dantas, buscou-se uma foto do prédio da biblioteca em que fosse possível ver 
a entrada do hotel, mas sem sucesso. 
62 
 
 
 
 
Figura 22: Fachada da parte do prédio do antigo hotel onde ficavam os quartos, na 
Rua Cassimiro Alberto, 2018 
 
Fonte: Acervo pessoal​. 
O levantamento fotográfico dos centros históricos da região do Seridó do 
Rio Grande do Norte realizado pelo MuSA-UFRN registrou o prédio onde 5
funcionava a “Loja de Toinho Lopes” do poema; a edificação que estava 
localizada na Rua João Cândido Medeiros deu lugar ao prédio onde hoje é o 
Comercial Manoel Sabino. Em conversa com Hilário Félix Dantas, amigo de 
Francisco Rafael com quem dividia a escrita dos Conselhos de Judas, o 
carnaubense lembrou a loja de Toinho Lopes: “Foi onde tive o meu primeiro 
emprego”; também falou sobre a localização do campo de futebol onde 
costumava jogar que, segundo ele, ficava exatamente onde, hoje, fica a 
maternidade, na Rua Treze de Maio, e não “detrás da rua onde é a 
maternidade”, como escreveu o poeta. Hilário Félix também disse não guardar 
nenhum tipo de registro do campo de futebol nem indicar alguém que o 
pudesse ter feito. 
5 <http://musaufrn.wixsite.com/serido>. 
63 
 
 
 
 
Figura 23: Prédio onde ficava a loja de Toinho Lopes, 1999 
 
FONTE: Fotógrafo: Paulo Heider, <acervo musa> 
 
A “Bodega de Bolim” e a “Banca de Quinca Moura” foram as últimas das 
quais encontrou-se algum registro. Dos demais lugares lembrados por 
Francisco Rafael no poema não foi possível resgatar nada além de memórias 
das pessoas procuradas em busca de possíveis registros, as quais não é o 
objetivo deste trabalho guardar. Foram procurados familiares e pessoas que 
pudessem estar relacionadas a estes espaços, mas vale fixar que, embora não 
tenham sido encontrados durante esta pesquisa, esses registros podem existir, 
mas provavelmente fazem parte de acervos de memórias particulares. 
 
64 
 
 
 
 
Figura 24: Bodega de Bolim, s/d. 
 
Fonte: Acervo pessoal de Valéria Maria de Medeiros Santos​. 
Figura 25: Bodega de Bolim, s/d. 
 
Fonte: Acervo pessoal de Amarilis Gomes da Silva​. 
 
65 
 
 
 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
Após a discussão realizada nessa pesquisa, é possível estabelecer a 
obra em cordel do poeta Francisco Rafael como fonte importante da história e 
memória urbana de Carnaúba dos Dantas onde residem, possivelmente, os 
únicos registros existentes relacionados a determinados espaços e tempos. Os 
cordéis do carnaubense resgatam suas lembranças e vivências que estão 
ligadas diretamente aos espaços da cidade e suas configurações, tornando 
possível entender e conhecer, para além da história da cidade, a maneira como 
as pessoas relacionam-se com ela, tudo isso através de uma linguagem 
simples e acessível. 
Levando em consideração estudos que apontam um caminho de 
preocupação em relação à preservação do patrimônio cultural edificado na 
região do Seridó potiguar (OLIVEIRA, 2015), da qual faz parte a cidade de 
Carnaúba dos Dantas, e unindo a qualidade didática da linguagem utilizada no 
cordel explorada em outros trabalhos (BARBOSA, 2011; SILVA, 2009) à sua 
capacidade de informar sobre a história urbana, revelam-se várias 
possibilidades para a continuação do presente estudo, dentre elas o uso da 
literatura de cordel em ações de educação patrimonial, estratégia pela qual o 
IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional tem buscado 
aproximar a população de seu patrimônio cultural (GRUNBERG, 2007). 
Assim, fica clara a necessidade de buscar cada vez mais as diferentes 
maneiras de enxergar-se o espaço urbano de forma a entender sua 
complexidade nas mais variadas dimensões. 
66 
 
 
 
 
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