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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE ARTES CURSO DE LICENCIATURA EM ARTES VISUAIS KYVIA KELLY DOS SANTOS MONTEIRO ROSANA PAULINO: REPRESENTAÇÃO DA MULHER AFRO-BRASILEIRA NATAL/RN 2018 KYVIA KELLY DOS SANTOS MONTEIRO ROSANA PAULINO: REPRESENTAÇÃO DA MULHER AFRO-BRASILEIRA Pesquisa apresentada à disciplina Trabalho de Conclusão de Curso II, do Curso de Licenciatura em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Orientadora: Prof.ª Dra. Bettina Rupp NATAL/RN 2018 KYVIA KELLY DOS SANTOS MONTEIRO ROSANA PAULINO: Representação da mulher afro-brasileira Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para obtenção do título de Licenciatura em Artes Visuais, pela Universidade do Rio Grande do Norte. Aprovada em: ____/____/_____ BANCA EXAMINADORA ____________________________________________________________ Componente da Banca Examinadora – Profª Drª Bettina Rupp, UFRN (Presidente da Banca) ____________________________________________________ Componente da Banca Examinadora - Profª Drª Sofia Bauchwitz, UFRN (Arguidor) ___________________________________________________ Componente da Banca Examinadora –Prof. Me. Artur Luiz de Souza Maciel UFRN (Arguidor) DEDICATÓRIA A Jackeline Monteiro, minha irmã, por acreditar em mim, por não deixar a memória de a nossa mãe morrer e junto a ela o amor que temos por ser quem somos e de respeitar quem está a nossa volta. Dedico a minha família Mãe, irmã, irmão e pai, pedaços de mim. A Rosana Paulino, artista que me fez questionar sobre minhas origens, sobre o lugar que ocupo no mundo e por me mostrar que é possível ser quem que quiser enquanto mulher e negra. AGRADECIMENTOS Agradeço também a Bettina, professora e orientadora que acreditou no conteúdo sem nem pestanejar e me deu forças nos meus momentos de insegurança e timidez, me mostrou que sou capaz de apresentar e falar em público. Comecei a escrever sobre poder, porque era algo que eu tinha muito pouco. Octavia Butler RESUMO O objetivo desta pesquisa é compreender, através dos trabalhos realizados pela artista contemporânea Rosana Paulino, qual o lugar que a mulher negra ocupa na sociedade brasileira e sua relação com a formação da estrutura social, enraizada no passado extremante escravocrata, racista e machista, que influenciam no desenvolvimento dos negros descendentes. Além disso, é visto como o feminismo interseccional intervém beneficamente pensando a pluralidade das mulheres e fazendo o recorte do feminismo negro a partir de escritoras como Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro, Lélia Gonzales e Angela Davis. Esses aspectos são encontrados notoriamente na arte de Paulino, especificamente nas obras Assentamento(2013) e Bastidores(1997), que são analisadas nesta pesquisa uma vez em que ela altera esses fatos da realidade e transfigura em indagações e denúncias. A forma objetiva em que a artista passa a sua mensagem em suas produções, utilizando-se das mais variadas linguagens, como instalações, gravura, fotografia e colagens, torna o processo conciso e próprio da arte contemporânea. Palavras-chaves: mulher negra, sociedade brasileira, arte contemporânea, feminismo negro, Rosana Paulino. ABSTRACT The inspiration for this research is to understand, through the works produced by the contemporary artist Rosana Paulino, the place that black women occupy in brazilian society and its relationship with the formation of the social structure, rooted in the extreme enslaving, racist and sexist past, that influences the development of black descendants. In additionto this social, racial and gender intent, it is seen how intersectional feminism intervenes usefully by thinking of the plurality of women and making the thematic cutting of black feminism from writers like Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro, Lélia Gonzales and Angela Davis. These aspects are notoriously found in the art of Paulino, specifically in the works Assentamento (2013) e Bastidores (1997), which are analyzed in this research since it changes these facts of reality and transfigures them into inquiries and denunciations. The objective way in which the artist transmits her message in her productions using the most varied languages, such as installations, engraving, photography and collages, makes the process concise and proper of contemporary art. Key words: black woman, brazilian Society, contemporary art, blackf eminism, Rosana Paulino. LISTA DE FIGURAS Figura 1- Lorna Simpson, Guarded Conditions, 1989, Dezoito polaroides coloridas, vinte e uma placas de plástico 231,1x332,7 cm....................................................................................20 Figura 2- Modesto Brocos y Gomes, A Redenção de Cam, 1895, óleo sobre tela, 199x166 cm. ...................................................................................................................................................24 Figura 3 -Édouard Manet , Olympia, 1863, óleo sobre tela, 130,5 x 190 cm...........................25 Figura 4: Pierre François de Wailly, Mulher da Raça Bosuímana, 1815, litogravura...............28 Figura 5- Augusto Stahl. Expedição Thayer, 1865 e 1866. Fotografia.....................................39 Figura 6– Rosana Paulino, Assentamento, 2013.impressão digital sobre tecido, linóleo e costura.......................................................................................................................................40 Figura 7-Rosana Paulino, Assentamento, 2013.impressão digital sobre tecido, linóleo e costura.......................................................................................................................................41 Figura 8-Rosana Paulino, Assentamento, 2013.impressão digital sobre tecido, linóleo e costura.......................................................................................................................................41 Figura 9-Rosana Paulino, Assentamento, 2013........................................................................43 Figura 10-Rosana Paulino, Assentamento, 2013.impressão digital sobre tecido, linóleo e costura.......................................................................................................................................44 Figura 11-Rosana Paulino, Assentamento, São Paulo, 2013, Paper clay, madeira, palha e cordão. Dimensão variável. Vídeo: Mar Distante. Duração do vídeo: 22 minutos..................45 Figura 12-Rosana Paulino, Bastidores, 1997.Imagem transferida sobre tecido, bastidor e linha de costura. 30,0 cm diâmetro....................................................................................................47 Figura 13-Rosana Paulino, Bastidores, 1997. Imagem transferida sobre tecido, bastidor e linha de costura. 30,0 cm diâmetro....................................................................................................48 Figura 14-Rosana Paulino, Bastidores, 1997. Imagem transferida sobre tecido, bastidor e linha de costura. 30,0 cm diâmetro....................................................................................................49 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ..................................................................................................................11 2. FEMINISMO NEGRO ......................................................................................................16 2.1. FEMINISMO E ARTE CONTEMPORÂNEA .................................................................20 2.2. TRÊS EXEMPLOS DE REPRESENTAÇÃO DA MULHER NEGRA NA ARTE .…….24 3.SOBRE IDENTIDADE .......................................................................................................30 4. A RELEVÂNCIA DO PASSADO ESCRAVISTA NA CONSTRUÇÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA ................................................................................................335. ROSANA PAULINO COSTURANDO NOVOS SIGNIFICADOS .......................…....36 5.1.Assentamento(2013)............................................................................................................39 5.2.Bastidores(1997).................................................................................................................47 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................52 7. REFERÊNCIAS .................................................................................................................55 8. APÊNDICES........................................................................................................................58 8.1. Ação pedagógica I ..............................................................................................................59 8.2. Ação pedagógica II ....................…….................................................................................62 9. ANEXOS ..............................................................................................................…....…....68 9.1.Lista de presença para ação pedagógica II………………………………………………...68 11 1. INTRODUÇÃO A arte de Rosana Paulino serve como arcabouço para a busca da representatividade da mulher Afrodescendente brasileira. Assentamento (2013) e Bastidores (1997) são obras que representam o modo que Paulino busca, por meio da arte, questionar padrões estabelecidos como modelos de beleza, gênero e sociedade, que são perpetuados por meio das mídias. Assentamento obra composta por instalações que formam uma obra completa, discutem pautas como a reestruturação após a abolição dos negros que foram escravizados processo feito sem nenhum um tipo de suporte. Sobre os povos vindos do continente Africano que se assentaram no Brasil e formaram a cultura brasileira. Bastidores série de fotografias impressas em tecido e colocadas em cinco bastidores, são fotos 3x4 de mulheres negras, as quais estão com pontos específicos do rosto costurados, pontos de expressão e comunicação que denotam a violência direta ligada as mulheres negras na sociedade brasileira. Ela, enquanto mulher brasileira negra, tem total propriedade para tentar se perceber em nossa sociedade intensamente massificada pelos meios de comunicação, encontrar o “eu identitário” em um meio social, no qual que pessoas afro-brasileiras não possuem reconhecimento. A arte de Rosana Paulino é singular, ao tentar se encontrar enquanto indivíduo na sociedade brasileira ela vai a fundo ao passado cruel do país, e principalmente, quando se trata das mulheres negras. Nesta discussão tradicionalmente entra em pauta a questão do gênero, quando se fala de bordado e costura que se restringem ao universo imposto como feminino. Sobre as mulheres negras e feminismos; modelos de beleza e etnia quando se fala da mulher negra, da qual a estética sempre foi anulada, estigmatizada e estereotipada como a mãe gorda agradável e amável (reflexo da ama de leite) que cozinha ou a mulher “barraqueira” que fala alto, sem educação e ainda sexualizada (“a mulata”) entre outros estereótipos. A citação de Santana, mostra que esses esteriótipos são derivados do processo de escravização que se perpetuam através das artes entre outros meios. Essa política de estereótipos faz parte de um discurso colonial bastante disseminado, o qual, por meio de livros, mapas, desenhos, pinturas, censos, jornais e propagandas vão criando um mundo engessado enquanto representação, feito cartografia com lugar previamente 12 delimitado e definido (SANTANA, 2016, apud SCHWARCZ, 2014, p.13) Os estereótipos relacionados a população negra são processos da herança colonial que estão impregnados e normalizados, na estrutura do Brasil. As mídias e a artes são os maiores influenciadores deste tipo de pensamento racista contribuindo para a normalização desses conceitos. O bordado e a costura, enquanto produção estritamente feminina e atividade doméstica tomam uma nova forma no trabalho de Paulino, porque o modo que ela modifica os valores inferiores atribuídos ao bordado permite um novo olhar que possibilita uma crítica aos moldes hierárquicos artísticos, de gênero e sociedade. Em suas obras como Assentamento, por exemplo, ela atribui sentimentos obriga a sociedade enxergar essa mulher, objetificada como instrumento de estudo em fotografias científicas, visualizando-as aparecem em destaque a cor da pele, textura do cabelo, o corpo como existente real e no mundo, como corpo presente que se estende a alma ao coração, maternidade, feminino, suas raízes e ser humano. Na busca por uma compreensão da imagem das mulheres negras na sociedade atual em que vive e também a procura por uma nova imagem, Paulino pesquisa e traduz as suas investigações na apropriação de fotografias antigas de sua família e muitas vezes de estudo e de registro do passado. Em suas gravuras, ela utiliza costura e o bordado para, misturados em suas funções, transformam-se em objetos de trabalho, que deflagram ao poder e violência. Comunicar-se de maneira impactante com esses materiais mostra ainda mais a multiplicidade da arte e da artista. Sobre a vida doméstica nota-se que a cozinha e a costura, tidos como atividade e lugar restritos somente as mulheres, se expressam quando usados no trabalho de Paulino. Na sua produção, esses componentes não são mais considerados elementos opressores, mas sim elementos de falam e na construção de suas obras expõem preconceitos. Tendo como referência o livro da escritora e autora de Mulheres, raça e classe, Ângela Davis1, comenta sobre a vida doméstica, que tinha uma importância singular para as mulheres negras. Isso porque esses espaços lhe propiciavam a vivência verdadeira como ser humano, pois as mulheres negras não eram diminuídas por sua vivência caseira tanto em ambiente familiar como de trabalho, como eram as mulheres 1Professora e filósofa socialista, integrante do Partido Comunista, dos Panteras Negras, militante pelos direitos das mulheres e contra a discriminação social e racial nos Estados Unidos. 13 brancas, fazer o trabalho doméstico para a mulher negra lhe gerava alicerce para sua autonomia, os homens também se beneficiavam, uma vez que mesmo submetida ao abuso, era elevada ao lugar central na comunidade escrava. Ao recordar o fato da mulher negra ser força de trabalho bruto tanto quanto o homem negro elas não eram diminuídas por suas funções domésticas. Identificando a condição das mulheres brancas que se sentiam limitadas e vazias em suas funções em âmbito doméstico, ao serem consideradas donas de casa. As mulheres negras não obtinham o poder de serem donas de nada, ainda mais donas de casa. O trabalho doméstico justamente por ser depreciado pelas mulheres brancas as quais tinham que seguir a ideologia de feminilidade, “um subproduto da industrialização” (DAVIS 2016, p.24). Ser mulher era sinônimo de mãe e dona de casa, o que era condicionado à inferioridade feminina e, portanto foi ao mesmo tempo a possibilidade da mulher negra conseguir obter seu sustento, inclusive muitas vezes, alicerce da família inteira, mesmo sendo alvo de opressão por ser destinado exclusivamente às mulheres. O princípio da industrialização também colaborou para que as atividades manuais tidas como menores fossem ainda mais rebaixadas, levando as mulheres (brancas) ao consumismo de produtos industrializados e se desfazendo da necessidade de produção e consumo de produtos e atividades manuais. A necessidade de entrar no contexto das atividades domésticas como o bordado e a relação com a casa em geral, é compreender como os materiais usados por Paulino, além da forma em que suas obrassão expostas, não são apenas os materiais que constroem a obra, mas fazem parte do conceito. Analisar a representatividade da mulher negra na arte e sociedade a partir dos trabalhos da artista Assentamento (2013) e Bastidores (1997) é entender, através de uma análise de sua obra no contexto da arte contemporânea, sobre as ondas feministas e sobre a influência do passado escravista no Brasil e como esses processos influenciaram a formação da identidade da comunidade negra e de como foram construídos preconceitos na sociedade até os dias atuais. É por meio das suas obras em questão, que foi investigado o processo de construção de identidade e representatividade das mulheres negras. A vida de Rosana Paulino influência a sua vida artística, desde o contato com materiais manuais que instigaram sua criatividade enquanto artista, quanto sua situação pessoal e familiar enquanto pessoas negras de origem umilde. Isso reflete na sua forma 14 de fazer e arte e como ela utiliza disso como meio de comunicação, como um desabafo, um grito, uma denúncia. Esta pesquisa teórica foi realizada após a constatação de que se faz necessário o estudo de artistas negras e negros contemporâneos que e principalmente não tenham medo de falar sobre ser negro no universo das artes. A artista nos faz refletir sobre a busca da identidade em suas obras, traz para o centro das discussões a procura por uma nova representação e mostra como, na produção de seus trabalhos, propõe através da sua sensibilidade artística como ela pode vir a impactar diretamente a maneira como os indivíduos Afrodescendentes se enxergam na arte brasileira e na sociedade. A consciência histórica formula uma relação mais consistente para cada povo e por isso a busca pelo passado é algo presente na sociedade em que vivemos. Conhecer o passado permite o processo de construção do ser e propicia perpetuar esse conhecimento. A história contada sobre o passado dos afro-brasileiros é de uma perspectiva do “outro” de maneira negativa e pejorativa. Nesse sentido, autodefinição se faz necessária para a procura pelo passado e a revisitação do mesmo. E essa visão do “outro” acaba implicando no modo em que a mulher negra se enxerga. Pensado assim, não existe representatividade das pessoas negras na sociedade como um todo, categoricamente no feminismo também não, isto é, as mulheres negras têm muito espaço para ser conquistado. O ponto forte do trabalho de Rosana Paulino é a busca pela imagem perdida dos afros brasileiros, principalmente das mulheres, pois, é através da cultura e da história que ela reconstrói uma imagem esquecida e até mesmo inexistente. Levar ao público uma artista contemporânea negra que questiona o seu lugar na sociedade. Através da sua estética e questionamentos, Paulino movimenta discussões sobre identidade e representatividade ao público. Expandindo um novo mundo de conhecimento, história, fornecendo voz a esses personagens invisíveis e silenciados, ressignificando a imagem por meio denúncias e possibilidades de uma nova história. Para prosseguir com ênfase o estudo sobre a artista se faz necessário uma pesquisa que tem com fundamento abordagem e caráter exploratório qualitativo, de natureza básica teórica, buscando atingir o melhor resultado pelo método de estudo de caso através de análises de entrevistas e dados coletados das obras de Paulino e pesquisas a partir de artigos, livros e teses de escritoras como Angela Davis, Djamila 15 Ribeiro e Sueli Carneiro. Em paralelo as produções de artistas como a Grada Kilomba e Lorna Simpson auxiliam na análise das obras de Paulino e de movimentos feministas principalmente da segunda para a terceira onda que se desenvolveram em meados dos anos 1960 até os dias atuais. A maioria dos artistas contemporâneos e seu novo modo de pensar e fazer arte que em sua maioria criticam formas de pensamento e atitudes opressoras e abusos de poder, tanto sobre sociedade quanto de gênero e diversidade, como exemplo: Grada Kilomba, Lorna Simpson, Cindy Sherman e Kara Walker. Também serviu de embasamento teórico para a construção deste TCC. Laborar com artistas e escritoras negras é indispensável, justamente pelo fato de tratarem de certos conteúdos, como a questão do feminismo negro e o lugar em que a mulher negra ocupa na sociedade e assim como no campo da arte, com mais importância e propriedade do que outros (as) autores (as) que tratam apenas esses temas como um simples exemplo que na realidade representa algo com maior complexidade e que exige maior atenção. As leituras dos artigos e livros foram feitos simultaneamente com a assimilação das entrevistas com Paulino, na busca de encontrar situações e conteúdos paralelos que se conectassem ao processo de produção até a arte finalizada da artista relacionando com o conteúdo teórico pesquisado. Os artigos, entrevistas e alguns livros, pela facilidade de localização foram encontrados na rede de internet. As análises das obras de Rosana Paulino são feitas todas por meio de imagens disponíveis em de sites incluindo o site da artista, que possui algumas de suas produções e entrevistas dadas pela mesma, todos os títulos e algumas obras são expostos pela galeria que a representa, os cenários e instalações recortes das obras são dispostos individualmente, facilitando assim a observação mais detalhada, como é o caso das fotografias, costuras, visualização do tecido, materiais usados, e o uso mínimo das cores em seu processo de produção. 16 2. FEMINISMO NEGRO Faz-se necessário evidenciar os problemas sociais, históricos e artísticos relacionados diretamente a mulher negra, os quais se diferem das colegas brancas, por isso a importância da interseccionalidade, que faz pensar sobre mulheres e suas diferenças. De acordo com RIBEIRO, 2016 não pode haver prioridade de uma opressão sobre a outra, a opressão que um indivíduo sofre não inibe a do outro. [...] As feministas que aderiram à interseccionalidade diz respeito à tentativa de enfocar em que medida raça, gênero e classe social interagem com a realidade sócio material da vida de mulheres na (re)produção e transformação de relações de poder. (GONZALEZ, apud RIBEIRO, 1995 p. 47.) De acordo com Djamila Ribeiro (RODRIGUES apud RIBEIRO, 2015, p.47.) O feminismo vem pensando a categoria das mulheres de forma universal sem levar em consideração a vivência de outras mulheres, o ponto de vista é sempre o da mulher branca de classe média. Segundo o mapa da violência, as taxas da população branca tendem a cair historicamente, enquanto a população negra é vítima prioritária no Brasil, por isso o índice de mortes da população negra cresceu de forma drástica. O número de homicídios de mulheres brancas cai de 1.747 vítimas, em 2003, para 1.576, em 2013. Isso representa uma queda de 9,8% no total de homicídios do período. Já os homicídios de negras aumentam 54,2% no mesmo período, passando de 1.864 para 2.875 vítimas. (JACOBO, 2015, p.83.) A diferença não existe apenas na questão social, mas também em relação à história, pois a referência de mulheres brancas é escassa e a menção às mulheres negras é menor ainda. Temos como exemplo Dandara que ao lado de seu parceiro Zumbi dos Palmares lutou contra a escravidão e participou fortemente da resistência do quilombo, no entanto, quando escutamos a história, a participação dela é ocultada, assim como a participação de outras mulheres negras no decorrer da história. Mulheres negras produtoras de conteúdo intelectual, pensadoras, são desprezadas pela cultura branca hegemônica. Esse lado da narrativa que foi omitida está sendo descoberta e exibida atualmente. Assim, as mulheres negras estão se descobrindo no mundo e compreendendoque elas podem ocupar espaços que até então eram restritos. A ruptura 17 dessas barreiras se dá a partir do momento em que discussões como essas são levadas a frente, como forma de reconfigurar a sociedade. Na história da arte acontece o mesmo, estudamos homens brancos europeus e mulheres brancas, mas homens e mulheres negras são muito raros na arte, com isso se faz o questionamento se realmente existem esses artistas, e a resposta é sim! Eles existem, mas em sua maioria a arte produzida por artistas negros não é exibida e discutida em sala de aula, ou em qualquer tipo de mídia. Existem negras e negros representados na arte apenas enquanto objeto nas obras, sendo representados como mais uma peça de fundo, ou a visão de um ser exótico, por mais que em alguns casos não fosse essa verdadeira intenção acabam reforçando noções estereotipadas “de inferioridade racial” (DAVIS, 2016 p. 185). Em Feminismo negro para um novo marco civilizatório (2016), Djamila Ribeiro pleiteia os pensamentos de Kilomba2 e Simone de Beauvoir3, quando debate sobre a mulher em relação ao homem branco, quando a mulher sempre é vista pelo homem no lugar da subordinação onde os argumentos feministas são atribuídos ao ser mulher, no caso a mulher branca. Djamila também cita Kilomba que discute a semelhança entre o homem negro e a mulher branca, eles se igualam em seus poderes dentro da sociedade, sendo vistos como sujeitos. Em Feminismo negro para um novo marco civilizatório, Djamila Ribeiro (2016) comenta que pensar sobre o Feminismo Negro serve para analisar não somente as mulheres negras, mas ao modelo de sociedade que queremos. Quando nos questionamos sobre o lugar em que a mulher negra ocupa na sociedade brasileira, estamos destacando mulheres que sofrem desigualdade de gênero, social, econômica e essas temáticas englobam vários problemas na sociedade brasileira, discutir sobre feminismo negro vai além da igualdade de gênero, objetiva atingir mulheres de baixa renda, baixa escolaridade que estejam em desvantagem em relação ao conhecimento só assim será uma luta justa em que todas as mulheres sejam notadas e lutem juntas. Angela Davis em Mulheres, cultura e política, 2017, fala sobre o empoderamento da mulher afro-americana e de como se organizam em grupos na tentativa de obter poder econômico e político, pois as pautas, apesar do esforço das ativistas brancas em trazer mulheres de minoria étnica para dentro do movimento, as 2Grada Kilomba (1968) é uma artista e escritora interdisciplinar portuguesa que vive em Berlim. 3Simone de Beauvoir (1908-1986) foi uma escritora, intelectual, filósofa existencialista, ativista política, feminista e teórica social francesa. 18 preocupações específicas dessas mulheres não eram incluídas nas pautas, sendo assim foi necessária a formação de outros grupos feministas. Davis comenta que a intenção não era causar separação entre as mulheres, mas que se fazia necessário esse espaço para as discussões das mulheres negras. [...] não estabelecemos limites de cor; nós somos mulheres, mulheres estadunidenses, tão intensamente atraídas por tudo o que nos diz respeito quanto todas as outras mulheres estadunidenses; não queremos alienar nem afastar, estamos apenas assumindo a linha de frente, dispostas a nos unir a quaisquer outras pessoas no mesmo trabalho e cordialmente convidando e dando as boas-vindas a todas que se unirem a nós. (DAVIS, 2016 p.16.) “Ergue-nos enquanto subimos” frase adotada pelas mulheres negras pelo movimento associativo, demonstra o poder da união e entrosamento entre todos os tipos de mulheres é essencial para a busca de poder e igualdade de direitos, enfatizando que a homogeneidade do ser mulher, desconsidera a existência das demais etnias. O feminismo de forma geral deseja uma sociedade sem hierarquia de gênero, seu processo de amadurecimento e crescimento se deu a partir de divisões em ondas, sendo que as ondas que tentaram introduzir o conteúdo sobre mulheres negras na pauta e o surgimento de movimentos de mulheres negras é a partir da segunda onda (1960-70) que as desigualdades sociais e políticas entraram no contexto das lutas. Além da luta pelo direito do trabalho, da sexualidade e contra a violência sexual segundo a Filósofa, feminista e acadêmica brasileira Djamila Ribeiro (2014), no Brasil, o feminismo negro começou a ganhar força no fim dessa década, começo da de 80, lutando para que as mulheres negras fossem sujeitos políticos e principalmente a terceira onda, que se inicia nos anos de 1990, o recorte de classe e raça se faz necessário nas discussões feministas. A relação entre política e representação é uma das mais importantes no que diz respeito à garantia de direitos para as mulheres e é justamente por isso que é necessário rever e questionar quem são esses sujeitos que o feminismo estaria representando. Se a universalização da categoria mulheres não for combatida, o feminismo continuará deixando de fora diversas outras mulheres e alimentando assim as estruturas de poder. (RIBEIRO, 2014) Enfatizar a intersecção como prioridade e não como assunto secundário, torna o movimento feminista mais consistente sabendo lidar com as opressões dos outros 19 grupos, como o racismo, lesbofobia, e assim não alimenta estruturas de poder por incluir a diversidade das mulheres. [...] o projeto feminista negro desde sua fundação trabalha o marcador racial para superar estereótipos de gênero, privilégios de classe, cisheteronormatividades articuladas em nível global. (AKOTIRENE, Carla, 2018 p.18.) Um exemplo do feminismo hegemônico é o fato das mulheres brancas reivindicaram direitos por sofrerem discriminação ao ficarem mais velhas em relação ao mercado de trabalho, por serem consideradas velhas para o mercado e perderem o direito a aposentadoria aos familiares, enquanto mulheres negras estão são mantidas longe do trabalho formal, trabalhando além da idade permitida, ou antes, da idade permitida como o trabalho infantil. Neste relato percebe-se a diferença de raça desmedida, segundo Akotirene (2018, p.22.) em O que é interseccionalidade?, “raça impõe a mulher negra a experiência de burro de carga [...] para a mulher negra inexiste o tempo de parar de trabalhar, vide o racismo estrutural.” Um paralelo importante que pode ser feito entre a frase da escritora Simone de Beauvoir, em que ela diz que não se nasce mulher, torna-se mulher, a discussão sobre o feminino como sendo uma imposição social e não biológica, me faz lembrar um discurso feito por Sojourner Truth em 1851, intitulado “E eu não sou uma mulher?” na Convenção dos Direitos das Mulheres em Ohio. Aquele homem ali diz que é preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, é preciso carregar elas quando atravessam um lamaçal e elas devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor lugar! E não sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para meu braço! Eu capinei, eu plantei, juntei palha nos celeiros e homem nenhum conseguiu me superar! E não sou uma mulher? Eu consegui trabalhar e comer tanto quanto um homem - quando tinha o que comer - e também agüentei as chicotadas! E não sou uma mulher? Pari cinco filhos e a maioria deles foi vendida como escravos. Quando manifestei minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus, me ouviu! E não sou uma mulher? (TRUTH, 1851, p. 36.) O depoimento emocionante de Truth (1851) leva a crer que esse modelo do que é ser “mulher” trata-se da mulher branca, e que a situação em que a mulher negra ocupa não é uma condição de ser humano. 20 Mulheres brancas e negras ambas sofrem opressão, mas existe uma diferença explicita entre ambas que deve ser vista e compreendida, para ser aos poucos algo que não tenha maisnecessidade de luta por igualdade e olhar compreensivo em relação ao outro. Sendo assim se faz necessário esse recorte racial no movimento feminista. E a importância da arte uma vez sendo meio principal de disseminação de estereótipos e visões preconceituosas do outro, na arte contemporânea a mulher cria a sua. 2.1 FEMINISMO E ARTE CONTEMPORÂNEA Na arte contemporânea o outro encontra a sua voz, questionando o lugar que cada indivíduo ocupa na arte, buscando mudar a forma em que a sua história foi contada por homens brancos e tentando retirá-los do pedestal o feminismo questiona a deformidade criada pelo modernismo que consideravam apenas metas do individuo masculino europeu. Ser o outro é ser considerado menos que o individuo do sexo masculino e menos do que o branco, de descendência europeia. O outro é visto como marginal, um elemento secundário na grande narrativa da história mundial. (HEARTNEY, 2012, p. 65.) Isso significa que o outro, no caso as mulheres enquanto oprimidas tomam poder do que as constroem enquanto mulheres e mais além, um ser humano, fazem arte criticando padrões machistas. Como Heartney (2012, p. 51) diz “o provedor privilegiado da verdade e realidade” tem sua verdade e realidade indagada pelas mulheres. Levantando questionamentos sobre feminilidade, Linda Nochlin que escreveu o Porquê não existem grandes artistas mulheres? (2016) Ela propõe que artistas, pesquisadoras e escritoras questionem a representação da mulher na arte e na publicidade, recorrendo a estudos da psicologia, sociedade e história. Elas se apropriam daquilo que pertence às suas vidas, enquanto mulheres e criticam os padrões machistas em suas produções artísticas. Lorna Simpson artista negra afro-americana trata sobre estereótipos, mostra como ser mulher negra resulta em invisibilidade dupla na obra Condições guardadas (1989) ela expõe mulheres negras de costas alinhadas em série com os braços cruzados 21 para trás, atestando vulnerabilidade, logo abaixo expõe as frases “sexo agride” e “pele agride”. Figura 1- Lorna Simpson, Guarded Conditions, 1989, Dezoito polaroides coloridas, vinte e uma placas de plástico 231,1x332,7 cm. Fonte: https://www.caoscultural.com.br/single-post/2018/02/28/Lorna-Simpson-a- percep%C3%A7%C3%A3o-das-mulheres-negras Simpson enquanto minoria se apropria da visão estigmatizada da mulher negra e questiona, botando a frente a imagem da mulher negra, ou seja, a mulher negra protagonista não apenas na obra mas enquanto artista, ela se comunica com sua própria angústia. A busca pela identidade passou a ser o foco, até se descobrir que a identidade pode ser vista como prisão ou como liberdade, torna-se prisão quando ela é imposta, ou seja, normas que conservam a ordem cultural e social desigual; a identidade liberal é aquela que desestabiliza a ordem identitária vigente comandada pelas minorias que de acordo com Kepler (2015, p.213.) são “sujeitos sociais oprimidos com uma condição social e cultural inferiorizada, explorada e moralizada”. A identidade vista como algo dado e não construído, é uma identidade fechada “O fechamento da identidade sobre alguém obriga essas pessoas a comportamentos, expectativas e autocobranças específicos” Paula Ávila Kepler (2015, p. 213.) funciona como processo de aprisionamento. A questão sobre a identidade parece ser muito mais complexa, pois sendo assim, ela sempre será vista como opressora e nunca como libertária. Por mais que seja entre https://www.caoscultural.com.br/single-post/2018/02/28/Lorna-Simpson-a-percep%C3%A7%C3%A3o-das-mulheres-negras https://www.caoscultural.com.br/single-post/2018/02/28/Lorna-Simpson-a-percep%C3%A7%C3%A3o-das-mulheres-negras 22 minorias, consistiria em um nível de poder entre as próprias minorias, pois sempre a um padrão a se seguir seria mais parecido como atingir um nível de igualdade sem levar em conta a individualidade. Percebe-se que não se trata sobre identidade, mas possivelmente de representatividade, se refere como essas minorias são vistas e representadas na sociedade, como essas minorias são vistas pelo filtro do homem branco ocidental e de como elas querem ser vistas. Estar em espaços que nunca ocuparam historicamente é essencial, porém a representação de uma figura única retratando um determinado grupo não é o suficiente. Assim, a artista Kilomba em vídeo comenta acerca de identidade, Eu vejo aquilo que eu não sou, vejo-me a mim mesmo ou a minha identidade ser representada de uma forma que eu não sou. Mas sou também forçado a olhar para mim através da perspectiva dominante do sujeito branco. E isto é a base da alienação, trauma e decepção. (KILOMBA, 2016.) Em uma performance da artista interdisciplinar e escritora Grada Kilomba intitulada Alienação e imagem (2016), Kilomba apresenta sua visão sobre a manipulação da imagem que é vista como uma forma de alienação, o que firma a questão da representação da figura do outro, a partir da visão do outro. Alterar essa visão é o papel principal do contemporâneo, a qual rejeita referências que representam a arte moderna. A maioria das artistas contemporâneas são obstinadas a debater suas causas, falam sobre aquilo que ninguém quer falar, dialogam sobre si mesmas e sociedade, falam sobre o que é ser humano em sua época, criticam, instigam o pensamento, e vão além da tinta, pincel e uma tela em branco, elas procuram objetos cotidianos e usam o próprio corpo como forma de expressão. No livro sobre arte e pós-modernismo da autora e editora colaborativa do Art in amercica e artpress, Heartney Movimentos da arte moderna: Pós modernismo, 2012, p. 52.) há uma frase de John Berger, em que ele diz: “homens agem e as mulheres aparecem. Homens olham as mulheres. Mulheres observam a si mesmas sendo olhadas”. Essa frase chama atenção e faz pensar que as mulheres em momento nenhum têm poder sobre si, quando elas presumem tomar posse do que as pertence muitas vezes reproduzem discursos machistas, esse processo de reconhecimento foi o que marcou o feminismo no pós-modernismo, algumas negam a feminilidade, outras abraçam com tom de crítica escolhem as características que as oprimem e transformam em arte, em 23 questionamentos substanciais “partilham seu desconforto com uma estética que liga o prazer visual à objetificação das mulheres”. (HEARTNEY, 2012, p. 54.) Sobre “mulheres observarem a si mesmas sendo olhadas” se refletir melhor na perspectiva da mulher negra, quando ela observa a si própria na mídia sua figura é invisível, sempre passando despercebida, isso envolve também o fator do colorismo, para Tainan Maria Guimarães Silva e Silva é graduada em Direito pela Universidade Federal da Bahia – UFBA. Participação em grupo de pesquisa Direito de povos e comunidades tradicionais. Interesse nas áreas de Direito Civil, Direito Constitucional, Direitos Humanos e Ações afirmativas, para ela colorismo trata-se: O colorismo estaca um tipo de discriminação que enfatizava os traços físicos do indivíduo, questões determinantes para revelar o valor que a ele seria dado em sociedade. Dessa forma, aspectos fenotípicos como um cabelo notadamente crespo, um nariz arredondado ou largo que são associados à descendência africana, também influenciam no processo de discriminação no denominado colorismo. (SILVA, 2016 p. 12.) A partir disso, quanto mais retinta for a pele e mais aproximado aos traços africanos da mulher representada mais invisível ela será, sempre em papéis de subordinação, mas a medida que a pele for clareando, seu papel será restrito a sexualização, a chamada “mulata”. Elas nunca são vistas como de fato são, a maneira de existir dessas mulheres é voltada para o aspecto exagerado e por certas vezes esse modo de agir e de se enxergarsão tão opressivos que chegam a virar realidade na vida dessas mulheres onde elas compreendem que seu lugar é aquele e não há possibilidade de outro. Absorver essas representações, na construção da identidade faz com que essas mulheres se enxerguem assim, não havendo outra opção de como ser, mas não são apenas elas que se enxergam assim, mas a sociedade também. Segundo Silva, “Através do colorismo apenas cria-se a ilusão de que parte da população negra é imersa nos espaços, quando, na verdade, àquela população de pele mais escura é negada qualquer possibilidade de acesso”. (2016, p.13.) A mulher habita a tela, pintura desenho e o lugar de artista. Quando se fala de Rosana Paulino, em suas obras percebe-se o questionamento de forma de denúncia. Mulheres brancas viviam em uma redoma nas representações artísticas pictóricas assim como as mulheres negras, eram aprisionadas a imagem de serviçais, escondidas em uma penumbra ou como objetos de estudo, vistas como exóticas e erotizadas. Apenas como exemplo do estranho, curioso e primitivo, Paulino torna esse lugar da tela, 24 da fotografia e dos desenhos em formas de oposição uma vez em que as mulheres em geral sempre estiveram presas nas representações através dos olhos dos outros: os homens brancos. Uma vez em que elas comandam esses “olhos”, transformam esse lugar muito além de representações vazias, mas sim, de revelar quem elas são. Paulino se apropria do passado agregando memória a uma história mal contada sobre as mulheres negras, ressignifica as imagens dessas mulheres que foram desumanizadas e carregam esse fardo da violência, racismo, desigualdades de gênero, social e econômica, nas duas obras que são alvo nesta pesquisa Assentamento e Bastidores. Paulino também segue sua jornada de artista sem muitas bases de referências de negros nas artes tanto pintores quanto nas representações ao longo da história da arte, restrito aos artistas europeus. 2.2 TRÊS EXEMPLOS DE REPRESENTAÇÃO DA MULHER NEGRA NA ARTE De acordo com os estudos e análises de obras do período de (1850-1940) de Tatiana Lotierzo (2017) fica evidente qual o lugar que a mulher negra ocupa na arte, segue três exemplos. No primeiro exemplo Lotierzo faz uma análise com a obra Redenção de Cam do pintor Modesto Brocos, sobre uma velha senhora que agradece levantando as mãos para o céu enquanto sua filha mestiça segura seu filho (branco) nos braços. Sentado ao seu lado está o pai da criança que sorri satisfeito, esta obra em especifica foi feita no Brasil e representa o reflexo de uma sociedade racista. Usada por médicos pesquisadores da época como representação das pesquisas de embranquecimento da população, A Redenção de Cam evidencia a naturalização de propagação do racismo “a mestiçagem seria apenas transitória e benéfica, uma vez em que não deixaria pistas.” 4 4LOTIERZO, Tatiana. Contornos do (in)visível: Racismo e estética da pintura brasileira (1850-1940)-São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2017. 25 Figura 2- Modesto Brocos y Gomes, A Redenção de Cam, 1895, óleo sobre tela, 199x166 cm. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Reden%C3%A7%C3%A3o_de_Cam No primeiro exemplo Lotierzo comenta a estética da obra A rendenção de Cam traduz (1895) a naturalização da visão da elite e da perspectiva acadêmica de artes da época. Há uma conformação com o preconceito racial, visto como algo natural aos olhos da elite, que visualiza esses corpos através de um filtro delimitador social que se traduz nas vestimentas, cor da pele e características físicas, ou seja, a pobreza tem cor e não é branca. Sobre o título da obra, a redenção está ocorrendo a partir do momento em que a senhora é abençoada com a vinda de seu neto branco, esta situação representa a personificação da negação da negritude, “tratada como condição obrigatória para acessar o paraíso” 5 As pinturas brasileiras dos séc. XIX e XX em sua maioria refletem uma estética uniforme do ser humano como sendo europeus e ocidentais. De acordo com o pensamento de Tatiana Lotierzo, o segundo exemplo refere-se a representação da mulher negra, com a obra Olympia de Édouard Manet (1832-1883), onde em primeiro plano é retratada uma menina de corpo esguio e estreito deitada cobrindo sua genitália com as mãos, logo atrás está uma mulher negra de corpo volumoso e rosto marcante á direita, está a serviço da jovem segurando um buquê de flores. Essa relação segundo Lotierzo, entre as duas mulheres de etnias diferentes, causa 5LOTIERZO, Tatiana (2017) Contornos do (In)visível: racismo e estética na pintura brasileira (1850- 1940) https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Reden%C3%A7%C3%A3o_de_Cam 26 efeito de contratempo uma vez que a existência da mulher negra no quadro pode ser vista como figura que compromete a brancura de sua senhora. Esta pintura de Édouard Manet introduziu uma mulher negra em uma de suas obras, intitulada de Olympia. Mas não foi a imagem da mulher negra que gerou polêmica, mas o fato de exibir uma prostituta conhecida na cidade e atribuindo-lhe o título de Deusa ao chamá-la de Olympia, e ao seu lado incluindo uma criada, mulher negra na obra, havendo uma confusão entre os padrões formais e ideológicos exigidos pela academia de Arte na França, os quais foram violados e desrespeitados. Aparentemente a intenção de Manet não é causar nenhum espanto, ou tão pouco levantar alguma discussão sobre o assunto relacionado a personagem negra mimetizada no fundo escuro, apenas obter um contraste entre claro e escuro na sua obra. Usando o branco e o preto. Figura 3 -Édouard Manet , Olympia, 1863, óleo sobre tela, 130,5 x 190 cm. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Olympia_(Manet) Nota-se nas representações como a pintura Figura 3 Olympia de Manet por exemplo, a mulher negra é vista negativamente e retratada, interpretada de formas limitadoras e preconceituosas, onde seu corpo é amaldiçoado e relacionado ao impuro pelo fato de comprometer a brancura da moça. A figura do negro sempre como plano de fundo e em situação de servidão devido a cor da pele e outras características que a determinam como sendo de mulheres negras. 27 Retornando a Rosana Paulino, em Assentamento o corpo da mulher negra está despido e exposto. Faz pensar sobre a estética e padrões dos corpos nas artes visuais e esse corpo negro que em maior parte é despido, julgado, visto como impróprio, feio, feito de chacota e invadido. Na obra de Paulino esse corpo toma para si a responsabilidade e a beleza de ser negro que carrega cicatrizes e conta uma história, carrega uma memória um corpo político que comunica um passado fictício, mas que possibilita a visão de ser humano a mulher retratada na fotografia. Discutir sobre o que seria belo é relativo e subjetivo, mas ação de compreender as diferenças e diversidades do outro, é essencial. Ser negro é lindo. A estética de quando se é negro é um ato político, onde as características que definem o sujeito enquanto negro são acentuadas e valorizadas como cortes de cabelo até expressões culturais, por exemplo, que não seguem a estética padrão das sociedades dominantes. Para Lotierzo, há também um olhar de curiosidade, certo voyeurismo em relação às mulheres ligado ao cinema e as artes “O lugar do olhar define o cinema [e as artes], possibilidade de mudá-lo, variá-lo e expô-lo. [...] Indo muito além de iluminar uma mulher para ser olhada /confundir-se com o ato de olhar, o cinema constrói uma maneira pela qual ela deve ser olhada como parte do próprio espetáculo”. As mulheres são retratadas e vistas pelo olhar masculino que as restringe a papéis eróticos “cobiçados pelo prazer do homem heterossexual” (LOTIERZO, 2017, p. 202.). Voltando a obra de Paulino, as fotografias de Auguste Stahl (1828-1877) fotografo que contribui paraa pesquisa de Louis Agassiz serviam também como Voyeurismo, com as fotografias o desejo do desconhecido que se tornava real, ao serem despidos consequentemente destituídos de civilização e humanidade para serem fotografadas. Assim como as mulheres brancas que são retratadas despidas a partir do olhar masculino desde sempre das obras de arte até as telas de cinema. Em ambos os trabalhos de Rosana Paulino, ela não é conivente com a exposição de imagens controladoras sobre a condição da mulher negra como um espetáculo, ao contrário ela constrói uma identidade para emponderá-la, a mulher negra não é vista como um ser indefeso, mas como mulheres resistentes, dotada de força. Lembra que todas as mulheres negras conhecedoras do que as oprime, lutaram contra as opressões para ter seu lugar de poder, as mulheres representadas por Paulino denunciam e resistem a partir dessa afronta, ter consciência dos problemas que as atingem e comunicar as 28 opressões é dar voz as mulheres do passado e garantir a luta das mulheres atuais e do futuro. Como as mulheres afro-americanas enquanto grupo conseguiram encontrar a força para se oporem à nossa objetificação como “as mulas do mundo” (“de mule uh de world”)?Como conseguimos justificar as vozes de resistência de Audre Lorde, Ella Surrey, Maria Stewart, Fannie Barrier Williams e Marita Bonner? Que base serviu desustentação para que SojournerTruth pudesse perguntar “Não sou eu uma mulher?” As vozes dessas mulheres afro-americanas não são de vítimas, mas de sobreviventes. Suas ideias e ações não só sugerem que existe um ponto de vista autodefinido e de grupo de mulheres Negras, mas que sua presença foi essencial para a sobrevivência das mulheres Negras norte-americanas. (COLLINS, Patrica Hill, 2018, p. 3.) Ser mulher negra que tem a voz ativa nos movimentos e ser intelectualmente dinâmica torna-se uma ameaça constante onde todos os seus princípios são tachados de limitadores e excludentes, segundo (COLLINS, 2018) sendo que pensar as mulheres negras, alcança mulheres pobres, mulheres trans, lésbicas por exemplo, ela não pensa somente a mulher negra de classe alta, o que seria atingir uma quantidade mínima de mulheres para a luta. As vozes dessas mulheres não podem ser silenciadas e postas em lugar de vítima, mas de autoras de suas próprias vozes que colaboram para a sobrevivência das demais mulheres negras. Estar no grupo categorizado como “mulher negra”, visível aos olhos limitados e distorcidos da classe dominadora, acaba resultando na invisibilidade das mulheres negras, porque desconsidera a individualidade de cada uma. O feminismo negro entra para demolir a barreira dos estereótipos e dar conhecimento e poder as mulheres para construir uma imagem fortalecedora de si mesmas, levando a importância do pessoal e individual para a construção da autodefinição. Figura 4: Pierre François de Wailly, Mulher da Raça Bosuímana, 1815, litogravura. 29 Fonte:https://s-i.huffpost.com/gen/3918046/thumbs/o-VENUS-HOTENTOTE-570.jpg?1 O terceiro exemplo, que Lotierzo apresenta trata sobre Sara Baartman, mulher negra Sul-africana, apelidada de “Vênus Hotentote” exposta pela primeira vez em Londres 1810, onde seguiu para a França como um “animal” de circo, alvo de curiosidade para os olhos Europeus, por causa das suas formas voluptuosas e acúmulo de gordura excessiva na região das nádegas, coxas e quadril. Essas mesmas características fizeram com que Sara fosse alvo de estudos, após sua morte precoce por volta dos 25-26 anos, para os cientistas da época o corpo volumoso da mulher, “seriam sintomas de uma pré disposição inata para sexualidade irrefreada”6 algo anormal para as mulheres da época. Segundo Sander Gilman, (1985, p.191.) “a aparência física da mulher hotentote é, de fato, o principal ícone do século XIX para a diferença sexual entre o europeu e a população negra” (Gilman apud LOTIERZO, 2017, p. 191.) Nota-se que o pensamento científico racista europeu, que é uma das bases para as pesquisas de Paulino, foi disseminado através das artes ao conhecimento público da população como tradição, levando a naturalização desse pensamento. E a hipersexualização, exotização e invisibilidade da mulher negra reforçados até os dias atuais. 6Tatiana Lotierzo, 2017, p. 191. https://s-i.huffpost.com/gen/3918046/thumbs/o-VENUS-HOTENTOTE-570.jpg?1 30 3. SOBRE IDENTIDADE A identidade segundo pensadores como Patricia Hill Collins sobre Pensamento Feminista Negro Conhecimento consciência e a política do empoderamento (2018), pra ela identidade é uma forma política reducionista, uma forma de limitar nossas formas de comportamento e pensamento para o bel prazer de instituições que oprimem e manipulam a sociedade, além de ser peça fundamental para estruturas de opressão e hierarquia de saberes como o racismo e colonialismo. O que Lilia Moritz Schwarcz comenta que identidade também é importante, pois é possível Compreender como se trata sobre identidade de forma genuína, e não como uma consequência como aponta COLLINS (2018). “é uma resposta política a um contexto político” SCHWARCZ, Lilia. Youtube.16 Jan.2018 e que também é uma construção social, compreende-se identidade a ser o processo de como identificamos o outro socialmente, o que parece ser o olhar do outro sobre o outro, não há um protagonista que narre sua própria história, ao tentar desconstruir essa narrativa do outro a identidade é reformulada. Como exemplo o caso da representação dos negros e negras como seres inferiorizados e dignos de pena, esse é um tipo de identidade atribuída aos negros, a qual é rejeitada pelos mesmos. Por meio desta observação sobre a identidade, entende- se que o contexto político em que o Brasil vive, o processo de construção de identidade positivo que favoreça a visão que os negros tenham de si, se faz extremamente necessário, identidades são reconhecidas como processo de exclusão, mas antes de se desfazer das identidades limitadoras, precisa-se modificá-la ao seu favor. Então de acordo com o pensamento sobre identidade de Collins em que o define como opressor, esse tipo de identidade imposta e limitadora tem a incumbência de ser desfeita. Mas quando um grupo é definido identitariamente no lugar de vítima, há a necessidade de reverter essa identidade, o propósito da construção da identidade neste caso, não é de restringir, mas de ascender no meio social como proprietário de si. O reconhecimento da figura do outro como apenas diferente é compreender de fato esta diferença, sem haver subalternização a partir da construção de uma identidade e sem a ideia de que são todos iguais. Criaria uma nova visão positiva, uma maneira de compreender o outro lado sem relativizar a experiências pessoais. 31 Djamila Ribeiro comenta em O que é lugar de fala?, (p.30, 2017.), que a real intenção em relação à identidade é desmanchá-la uma vez em que ela foi construída pelo outro baseado em estereótipos e limitações de pensamento. Na tentativa de desconstruir essa identidade limitadora que é dada, revemos a forma em que somos representados pelos olhos do outro e constrói-se uma nova representação. “A identidade é a imagem que temos de nós mesmos” para filósofa, Marcia Tiburi em Feminismo em comum (p.80. 2018), a afirmação pode parecer contraditória em relação ao conteúdo anterior, uma vez em que afirma que a identidade vem do olhar do outro e não do sujeito em questão, mas trata como este processo identitário quando relacionado a grupos oprimidos e invisibilizados a referência da mudança da autoimagem se faz necessário para desconstruir uma identidade nociva. Já para Moritz (2018), a identidade seria a imagem que o outro faz, entende-se portanto que a partir do olhar do outro, o sujeito se enxerga da mesma forma que é visto pelooutro de forma estereotipada. Ainda há a contribuição da mídia que reforça a imagem de esteriótipos a partir de uma identidade imposta como absoluta, com o auxílio dos meios de comunicação em massa, que transmitem às mulheres negras uma imagem negativa e equivocada, visível através de estereótipos e arquétipos negativos sobre os corpos negros, sendo inferiorizados, fetichizados e invisibilizados não apenas por meios de comunicação, mas por homens brancos, metáfora para o lugar de poder do homem machista e racista. (RIBEIRO, p.70, 2017.) A desconstrução da identidade dada pelo outro, torna a identidade algo próprio do sujeito. Enquanto mulheres, negras e feministas triplamente marcadas por palavras que já foram insultos, são usados como meio de resistência por mulheres em situação de luta pelos seus direitos, tais palavras passam a atingir opressores, como enfrentamento consequentemente, uma afronta ao sistema opressor. Segundo Mácia Tiburi, professora de filosofia, artista plástica e escritora política, em seu livro Feminismo em comum (2018) a autora comenta: “patriarcado que subjuga negros/mulheres/trabalhadores”, (p.11, 2018.) ou seja, todos estão submetidos à opressão do homem branco hétero, a figura do homem superior, configura uma pressão sobre ele mesmo. O feminismo quebra e questiona esse lugar de poder de maneira não opressora, mas fazendo compreender que todos precisão de direitos iguais. A maioria das identidades atribuídas a população negra, principalmente as mulheres são uma herança da “lógica colonial” (RIBEIRO, p.30, 2017), em O que é lugar de fala?, perceber que essa identidade imposta pela figura do homem branco ao 32 sujeito negro como verdade serve para oprimir ou privilegiar indivíduos, homens, mulheres, crianças de diversas raças e nacionalidades, instituições e sociedades. Enquanto privilegiados pessoas brancas, detentoras de poder de fala não reconhecem os processos de entendimento e mudança das identidades reducionistas, que significam um mal que está entranhado na sociedade. Parte da sociedade branca e de classe média se reconhece como hegemônica, consideram que discutem sobre o coletivo acusando pessoas negras de serem separatistas por buscarem seus direitos e a desconstrução da identidade hegemônica e nociva através de novas representações e discussões sobre a história, refazendo assim um caminho de uma nova trajetória e construção de identidade, desta vez desmistificada e positiva aos negros. A autoimagem que temos vem embutida na modernidade, baseada na herança que temos do colonialismo, relação de poder e exploração entre povos onde uma nação se constrói a partir da dominação de terras, trabalho, política e relações racistas sobre outra nação. Essa herança do colonialismo se chama colonialidade onde essas relações de poder ainda perpetuam, por mais que o colonialismo não seja mais uma realidade, Segundo Candau e Oliveira, em Pedagogia decolonial e educação antirracista e intercultural no Brasil (2010) a colonialidade está presente nas relações diárias, nos livros didáticos, no universo acadêmico quando nos limitam aos pensadores europeus, na cultura e na identidade dos povos. Não se trata sobre anular todo o passado construído na presença dos colonos, nessa história não há apenas um narrador vencedor. Perceber que houve uma parcela da população em que viveu na mesma época e que foi silenciada em todo o período histórico, parte dessa população se estende aos negros e indígenas e que parte de suas histórias foram estigmatizadas e reduzidas a lendas. 33 4. A RELEVÂNCIA DO PASSADO ESCRAVISTA NA CONSTRUÇÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA Quando se trata sobre a população negra fazendo um recorte no Brasil, sempre que o retorno ao período da escravidão no País é ressaltado, a um incômodo notório, por ser algo referente ao passado, o pensamento que não há motivos para retornar a esse tempo tão hostil e vergonhoso, surge de imediato. Mas porque a necessidade de revisitar esse passado? Durante produção deste TCC também questionou-se, o porquê dessa volta? De uma forma simples de explicar, a população negra brasileira se encontra em situação desfavorável, socialmente, economicamente e intelectualmente, nesse sentido o retorno se faz necessário, com a seguinte pergunta, pôr que os negros ocuparam esse lugar? Um lugar em que o trabalho forçado era extremamente cruel, controlador, manipulador e sádico, o qual os negros escravizados, levados tanto mulheres como homens e muitas vezes crianças a usarem de sua força braçal até os limites extremos de trabalho. Por estarem em condições de moradia e alimentação totalmente deploráveis e em consequência disso estando mais vulneráveis as doenças e entregues ao descaso, pois não eram tratados como humanos, mas como animais que serviam apenas como instrumento, assim como um martelo serve para martelar, um objeto, levando-os a desumanização. Tudo isso foi feito por humanos, homens pais de família, mulheres amáveis, famílias que temiam a Deus. Logo após esse período com Lei Áurea em 1888 assinada pela Princesa Isabel. Os homens, mulheres e crianças que foram tratados das formas mais cruéis possíveis, sem nenhum tipo de estrutura e ajuda para trabalho, moradia e alimentação que foram negados, levando-os a aceitar condições ruins, mas melhores de que foram forçados a aceitar. Construíram casas, ensinaram seus filhos como podiam de acordo com as condições que lhe foram dadas. Com diz Lilia Schwarcz Professora de antropologia da USP e escritora, em Nem preto nem banco, muito pelo contrário, (p. 19, 2012.) “Após a abolição, a liberdade não significou igualdade.” Dessa forma fica nítido como o passado influencia o futuro, hoje é o nosso presente, na busca de se compreender enquanto ser humano revisitar o passado em um ponto de vista que não seja do outro. No presente existe a herança escravocrata em que a população negra brasileira carrega como fardo de uma época passada, para que essa herança seja aos poucos 34 afastada para longe da realidade dos negros da sociedade brasileira, o direito à história e ao passado da escravidão, tona-se necessário, quando deve ser contado pela perspectiva dos negros brasileiros. Ana Mae Barbosa, arte-educadora, comenta em seu livro Historia da arte-educação (1986) que a “história é importante instrumento de autodefinição” assim compreende-se que é a partir da história, do conhecimento do passado que se constrói quem se é, ela colabora na formação do individuo. Vemos que a arte e história se complementam na arte de Paulino, que refaz a estrutura de um pensamento mais concreto da formação de identidade de indivíduos que foram omitidos e reduzidos a recortes históricos sem nenhum tipo de aprofundamento, apenas um passado ruim que devemos esquecer, mas sendo que nele existem recortes de resistência e força de um povo que lutou e não apenas sofreu como desgraçados, que ali constituíram uma nova cultura. Ana Mae também diz que “a ignorância da própria história torna os povos mais facilmente manipuláveis” História da arte-educação (1996, p.9.) isso faz lembrar Djamila Ribeiro filósofa e feminista brasileira que comenta em O que é lugar de fala? (2017, p. 24.) sobre a hierarquia de saberes, de como podem manipular quando se tem conhecimento do passado e que ao se beneficiar da falta de conhecimento do outro, a manipulação desses saberes são realizados e enraizados no entendimento e formação de uma determinada população sem bases de estudos, no caso, a maioria da população negra Brasileira. Falar sobre Paulino significa um ato político no meio das artes uma vez em que quase toda a história da arte estudada no Brasil, se restringe em sua maioria a artistas Europeus, Paulinoé uma artista negra latina, que em seus trabalhos ressalta a imagem de mulheres e homens negros, ter conhecimento sobre seu processo e suas obras é descolonizar o pensamento das artes no Brasil, estudar e pesquisar mais sobre os nossos artistas enriquece mais a cultura brasileira. Falar e discutir sobre arte europeia não é um erro, mas se restringir a ela desfaz nossos processos de construção de identidades, saberes e cultura. A arte dos povos africanos e negros na maioria das pesquisas e obras de arte oitocentista foi considerada algo primitivo e irracional, quando estudamos história das artes, a arte africana com suas máscaras e esculturas, seus corpos na maioria das épocas foram retratados por mãos de artistas europeus, que usurpavam a arte de seus colonizados como inspiração, mas nunca valorizavam as artes produzidas por eles, a 35 inferiorização de suas produções artísticas derivam do fato de serem de outra raça, subjugada inferior. Quijano (2005) vai propor o conceito de colonialidade do poder para referir-se a essa situação. Esta seria uma estrutura de dominação que submeteu a América Latina, a África e a Ásia, a partir da conquista. O termo faz alusão à invasão do imaginário do outro, ou seja, sua ocidentalização. Mais especificamente, diz respeito a um discurso que se insere no mundo do colonizado, porém também se reproduz no lócus do colonizador. Nesse sentido, o colonizador destrói o imaginário do outro, invizibilizando-o e subalternizando-o, enquanto reafirma o próprio imaginário. (CANDAU e OLIVEIRA, p.19, 2010.) Segundo Quijano o conceito de Colonidade está diretamente relacionada com a construção de saber do outro, quando está inserida muito além da ocupação de terras, mas sim do imaginário do outro. Colocando o outro abaixo de si enquanto reafirma sua superioridade diante das influências diárias, Djamila enquanto em O que é lugar de fala? (p. 24, 2017) comunica sobre Lélia Gonzales, revolucionária, feminista negra, antropóloga, filósofa e intelectual, comenta sobre a hierarquização de saberes que estão presentes na construção do país, a subtração da educação, sobre direitos e a questão da identidade e história que foram contados do ponto de vista do outro, o homem branco enquanto produto e reprodutor de atitudes coloniais desempenham esse papel na sociedade brasileira, papel de poder e soberania diante do saber “vê a hierarquização de saberes como produto da classificação racial da população, uma vez que o modelo valorizado e universal é branco.” (RIBEIRO, 2015, p.78.) No dito popular referente ao mito de Narciso: “Narciso acha feio o que não é espelho.” como na música do cantor e compositor brasileiro Caetano Veloso, Sampa (1978) Faz-se uma analogia ao homem branco europeu, que não assente o que é diferente de si e recusa aceitar as diferenças, na sociedade contemporânea a história de narciso faz um paralelo ao racismo institucionalizado baseado na supremacia branca, além de se julgar no direito de dominar, escravizar e explorar, outros povos e raças, KILOMBA (2016). Quando se destaca a raça nas lutas feministas, não se refere à classificação biológica, mas de sociologia e história, a partir do Séc. XVI no período de expansão europeia em que os europeus começam a ter contato frequente e permanente com povos diferentes deles no ponto de vista fenotípico e cultural, pondo a relação de hierarquia onde eles se localizavam no topo dessa pirâmide enquanto os outros povos estavam localizados abaixo. 36 Aos negros foram feitas das mais variadas agressões sobre inteligência degeneração e a culpa por praticamente tudo que é desagradável e violento no ser humano, uma raça considerada inferior para que valorizem a si mesmo, enquanto homens detentores de poder, inteligência máxima e para justificar os abusos, as explorações e a colonização. Paulino contesta todos esses paradigmas através da violência vivida por seus antepassados e semelhantes. Ela denuncia esses abusos e os expõe através da sua arte. Grada Kilomaba artista visual, escritora, produz vídeos e instalações a partir de seus escritos, em sua performance Illusions (2016), explana sobre a ilusão de que na sociedade atual todos vivenciam o mito da democracia racial, onde a excluem e marginalizam outras identidades na preservação de uma sociedade homogênea, que reflete a imagem de si, como um espelho. 6. ROSANA PAULINO COSTURANDO NOVOS SIGNIFICADOS Paulino nasceu no estado de São Paulo (1967), filha de empregada doméstica e carregador de sacos de açúcar, Rosana Paulino e suas irmãs tiveram uma infância sem muitos privilégios, mas com criatividade criava os próprios brinquedos a partir do barro e água do braço Rio Tiête que passava próximo a sua casa, coloria com as sobras de tinta que o pai usava para pintar paredes. Aprendeu com a mãe, segundo ela comenta, por meio de sua educação antiga, a fazer bordado para o seu enxoval. Este aprendizado é uma de suas maiores influências para suas obras. Trabalha com fotografia, gravura e desenho e o foco principal de investigação em suas obras é o lugar em que a mulher negra ocupa na sociedade brasileira, analisando os preconceitos e as marcas que a escravidão deixou. Seu processo criativo começa pelos esboços a partir de desenhos e investigações por meio de livros de história, suas referências em relação a outros artistas é mínima, seu principal foco de referência é a história do Brasil, por meio da leitura e fotografias. Doutora em Artes Visuais pela escola de comunicações e artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP, é especialista em gravura pelo London Print Studio, de Londres e bacharel em gravura pela ECA/USP. Foi bolsista do Programa Bolsas da Fundação Ford nos anos de 2006 a 2008 e Capes de 2008 a 2011. Em 2014 foi 37 agraciada com a bolsa para residência no Bellagio Center, da Fundação Rockefeller, em Bellagio, Itália.7 Paulino conserva sua inquietação diante dos problemas socais, raciais e de gênero dos seus pais, tomando como partido suas experiências pessoais, família e antepassados, ela elabora obras como Assentamento (2013) e Bastidores (1997). Ganhou 1º Prêmio Nacional de Expressões Afro-Brasileiras – CADON, Fundação Palmares e Petrobrás – Modalidade Artes Visuais em 2009. Em 1997 ganhou Prêmio Embratel no Panorama da Arte Brasileira – MAM São Paulo. Prêmio visualidade Nascente III – Museu de Arte Contemporânea – MAC/USP e editora Abril, SP. Prêmio de Aquisição na I Bienal Nacional de Gravura de São José dos Campos. A escolha da artista Paulino e suas obras têm grande significado no que se refere à intenção em suas obras em entender o lugar em que ela mulher negra ocupa na sociedade atual, e como a maioria das mulheres descendentes de negros são invisibilizadas pela sociedade e como isso se perpetuou da época da escravidão até os dias atuais, uma verdadeira investigação sobre o seu passado e da maioria dos brasileiros e brasileiras, o que seria uma busca pessoal se torna a busca coletiva de outras mulheres. Através dessa investigação a artista interfere em outros ambientes, como por exemplo, a forma em que essa mulher negra é retratada e vista pela sociedade. O modo em que suas obras são exibidas apresentam essa mulher além do filtro que a sociedade a enxerga, ela exibe o íntimo dessas mulheres, a vida pessoal delas, infelizmente a realidade da maioria das mulheres retratadas em suas obras que enfrentam ou enfrentaram uma realidade dura e complexa. A obra de Paulino também permite que o expectador receba a mensagem de maneira mais direta, a partir das escolhas dos materiais e técnicas que compõem a obra, pois as obras comunicam além da utilidadede tornar real a arte. As obras de Rosana Paulino têm como alicerce a pesquisa sobre o lugar em que a mulher negra ocupa na sociedade brasileira, uma vez em que ela e sua família descendem de negros. A partir dessa inquietação ela avança em pesquisas sobre história do Brasil e sua estruturação, questionando o processo da construção do esqueleto da sociedade brasileira extremamente racista. Ao não se sentir representada pelas mulheres negras minimamente vistas nas mídias, e quando aparecem sempre ocupam funções 7Rosana Paulino (PAULINO, Rosana, SÃO PAULO, 1967<.2018.http://www.rosanaPaulino.com.br/>Acesso em 31 Out.2018.) 38 consideradas inferiores pela sociedade como, por exemplo, empregadas, escravas e muitas vezes prostitutas, o desconforto de Paulino perante essa condição provoca ainda mais o propósito em sua arte. Em sua bibliografia seu propósito na arte é afirmado, em vídeo Paulino comenta: Seus trabalhos têm como foco principal a posição da mulher negra na sociedade brasileira e os diversos tipos de violência sofridos por esta população decorrente do racismo e das marcas deixadas pela escravidão. (PAULINO, 2016.) O interesse de Paulino pelo lugar em que a mulher negra ocupa na sociedade brasileira, racismo, desigualdades e a história dos pais, atiçou sua produção artística, segundo Pavam (CARTA CAPITAL, 2016) ela comenta: “O artista é um intelectual e tem de se posicionar”, acredita. “Este país ainda não foi pensado devidamente por nós.”. Parede da memória (1994/2015), Série Bastidores (1997), Assentamento (2013), Adão e Eva no paraíso brasileiro (2014) entre outros trabalhos, a artista Paulino torna a imagem do negro protagonista na arte. O trabalho manual acompanha Paulino desde sempre, influenciada pela mãe e irmãs, vai desde modelar brinquedos com barro e fazer desenhos até costura e bordado faz parte do seu processo o fazer manual, que se faz presente em todos os seus trabalhos. Como foi dito ela opera o bordado e costura atribuindo não a uma atividade frágil, mas sim significativa por ser produzida por ela enquanto mulher, sua atuação associa mais a credibilidade do seu trabalho, por mais que seja uma atividade desvalorizada ou pouco valorizada pela sociedade, por ser relacionada a uma atividade feita somente por mulheres, tanto pela execução, quanto aos temas, como por exemplo, flores, folclore, utensílios de cozinha entre outros. Além do bordado e a gravura que são suas principais linguagens de trabalho, fotografias de família e também históricas e científicas, são utilizadas como seu principal eixo de pesquisa. Os trabalhos a serem discutidos neste TCC serão, a princípio, Assentamento (2013) e Bastidores (1997). Em ambos os trabalhos ela deixa claro a sua ancestralidade buscando dar voz a esse passado acobertado, que os brasileiros fazem questão de esquecer. Em Assentamento (2013), Paulino pensa o trauma das pessoas que foram retiradas de seu espaço de origem e forçados a entrar em uma nova cultura como força de trabalho sem levar em consideração seus nomes, história, passado, religião e 39 costumes; e que após o período de escravidão tiveram que se refazer novamente sem nenhuma estrutura, mais uma vez invisíveis para a sociedade. Estou, neste momento, muito interessada no que as africanas trouxeram para cá, o que “assentaram” nesta terra. Além da fixação forçada a um ambiente estranho e, superando isto, nossas ascendentes assentaram por aqui cheiros, sabores, gostos, costumes, religião… e tudo sob o jugo da escravidão! Foram para lá de heroínas! (PAULINO, 2013.) Paulino busca compreender e identificar uma identidade que não subtraia a luta conquistada pelos negros escravizados, ela busca em suas leituras mulheres e histórias que resistiram e que são verdadeiras heroínas. Com finalidade de dar noção de trauma, a artista em seus estudos encontra nas fotografias científicas a figura de uma mulher negra usada para estudos de eugenia representando um modelo original da mulher africana, ela amplia essa fotografia e a reproduz em tecido no tamanho real, esse tecido é recortado em três partes e costurado de modo desigual, além disso, ela costura coração, raízes, um feto, atribuindo a figura sua existência enquanto ser humano, enquanto mulher. A representação dessa arte de forma precisa nos comunica como esse “refazimento” 8 irregular cumina em um trauma que se perpetua até os dias de hoje. Conheceremos mais sobre essas produções artísticas nos tópicos a seguir. 6.1 Assentamento (2013) Em sua obra Assentamento, Paulino pensa o trauma dos homens, mulheres e crianças que foram retirados de seu espaço de origem e forçados a entrar em uma nova cultura (novo grupo com hábitos diferentes) como força de trabalho sem levar em consideração seus nomes, história, passado, religião e costumes, necessitando se reestruturar em uma cultura completamente diferente e não como humanos, mas unicamente como forças de trabalho. Após a lei da absolvição da escravatura (1888), eles tiveram que se refazer sem nenhuma estrutura, mais uma vez invisíveis para a sociedade. Com finalidade de dar noção de trauma, a artista em seus estudos encontra nas fotografias feitas originalmente por Augusto Stahl fotógrafo teuto-brasiliero do séc. XIX 8“Refazimento” Termo usado por Paulino. Disponível em: <file:///C:/Users/kyvia/OneDrive/Documentos/UFRN%202018.1/TCC/imagens%20Paulino/costura %20desencontrada.jpg> Acesso em: 10 Abril 2018. 40 encomendado a figura de uma mulher negra nua usada para estudos de eugenia, mais estritamente feitos pelo zoólogo suíço Louis Agassiz que em sua concepção a miscigenação era o principal fator da degeneração da raça humana. São de Agassiz as seguintes palavras, no livro A JourneytoBrazil (1867): “Aqueles que põem em dúvida os efeitos perniciosos da mistura de raça e são levados por falsa filantropia a romper todas as barreiras colocadas entre elas deveriam vir ao Brasil”. (PAULINO, 2013.) Agassiz tentar dar continuidade a sua pesquisa racista sobre a degeneração, causada pela missigenação vindo ao Brasil com a nomeada Expedição Thayer entre os anos de 1865 e 1866, mais especificadamente no Rio de Janeiro comprovar sua teoria racista. As fotografias dos africanos e africanos tidos como “puros” são daguerreótipos de Augusto Stahl encomendados por Agassiz, para comprovar sua teoria. Cabia aos homens entender e respeitar isso. Os negros, que teriam sido criados por Deus expressamente para habitar os cinturões tropicais, provinham de uma espécie humana inferior, cuja virtude seria a força física e a capacidade de servir. (HAAG, 2010) Mais uma vez reforçam a inferioridade dos negros e a objetificação de seus corpos, dando funções de acordo com suas características e impondo-lhes atributos. Figura 5- Augusto Stahl. Expedição Thayer, 1865 e 1866. Fotografia. Fonte: http://omenelick2ato.com/artes-plasticas/rosana-Paulino-assentamento/ http://omenelick2ato.com/artes-plasticas/rosana-paulino-assentamento/ 41 A fotografia da mulher representava o modelo de raça “pura” para Thayer, Paulino amplia essa fotografia e a reproduz através de impressão digital em tecido que é recortado em três partes e costurado de modo desigual. Figura 6– Rosana Paulino, Assentamento, 2013.impressão digital sobre tecido, linóleo e costura Fonte:http://rosanaPaulino.blogspot.com/ Observa-se na Figura 6 a imagem de um corpo feminino remontado. E com uma linha que perpassa-o. Essa é uma costura aparente, uma sutura grosseira, uma sutura pesada que é feita e que é muito da sociedade brasileira, essa sutura nunca foi bem feita no Brasil, esses indivíduos homens e mulheres nunca foram incorporados pela sociedade brasileira como deveriam ter sido incorporados.(PAULINO, 2014) Paulino comenta que essa costura funciona como uma sutura, o que faz lembrar um procedimento cirúrgico, provavelmente feito sem anestesia e de forma grotesca, essa forma de pensar brutaliza ainda mais o significado desse processo de se refazer. Observe a Figura 7 a seguir: 42 Figura 7-Rosana Paulino, Assentamento, 2013.impressão digital sobre tecido, linóleo e costura Fonte: http://rosanaPaulino.blogspot.com/ Segundo a Figura 7 acima, Paulino modifica a estrutura inicial da fotografia e costura coração, raízes, um feto, atribuindo a figura sua existência enquanto ser humano, enquanto mulher, lembrando que ela teve vida, uma história, memórias e afetos. A representação dessa arte de forma precisa nos comunica como esse “refazimento” irregular comina em um trauma que se perpetua aos dias de hoje. Figura 8-Rosana Paulino, Assentamento, 2013.impressão digital sobre tecido, linóleo e costura Fonte:https://www.pinterest.com.mx/pin/325666616784605398/ 43 Na Figura 7 Observa-se um coração com uma costura sobreposta a ele impressão em linóleo, em preto e branco com destaque da linha em cor vermelha. Paulino (2018) lembra que “A ideia por trás de Assentamento é mostrar o lado humano desses indivíduos.” A imagem da mulher desconhecida segundo Paulino (2018) “irá enfocar questões como dignidade, diversidade e reconhecimento do capital cultural, artístico e religioso trazido pelas populações de origem africana.”. Não se trata apenas de uma representação vazia, mas que carrega uma carga cultural vasta de origem africana, que vai totalmente contra as teorias de Louis Agassiz, era um suíço biólogo, médico, geólogo e professor. Em oposição ao que tentava provar o que Agassiz conseguiu foi, de fato, documentar aqueles que ajudaram a fundamentar a cultura brasileira. Estes escravos e escravas, colocados ali sem a dignidade das roupas que sublinhavam a condição humana, foram, na realidade, peças fundamentais no assentamento de nossas bases culturais. (PAULINO, 2013) Contudo Agassiz não conseguiu dar continuidade a sua pesquisa, mas deixou registros que por mais que carreguem um passado e objetivos obscuros, serviram como registro de pessoas negras, que sobreviveu ao tempo. Servindo de base para as artes de Paulino. O uso da fotografia reforça ainda mais a realidade sobre o tema abordado, porque não é uma pintura que deriva do imaginário do artista por mais que seja baseado na realidade, mas é uma constatação real das condições do mundo. O tamanho da imagem interfere a relação entre espectador e obra, as imagens dessa mulher anônima estão em tamanho real, existe uma imposição e dominação por parte imagem, ou até mesmo relação de igualdade com a figura representada, por estar equiparado com o espectador. Na tradição europeia, da qual Agassiz fazia parte, estar vestido era sinal de civilização e as roupas eram um símbolo de status e gênero. Deixar pessoas nuas roubava delas a dignidade e a humanidade. Para ele, isso era possível porque muitas eram escravas, observa Nancy (HAAG, 2010) O fato de a mulher estar nua acentua ainda mais a sua vulnerabilidade, ela está exposta, indefesa e com sua dignidade desvalorizada, além de seu corpo e suas cicatrizes, essa catarse diante da arte em que Paulino faz o expectador passar é impactante. Isso também mostra outro estereótipo da mulher negra, o de que ela é 44 sempre forte e que aguenta tudo estando relacionado tanto a força física quanto sentimentalmente, anulando suas emoções e fraquezas. Figura 9-Rosana Paulino, Assentamento, 2013. Fonte:http://omenelick2ato.com/artes-plasticas/rosana-Paulino-assentamento/ Na Figura 9 Observa-se um braço feito em gesso patinado, com uma mão humana ao lado segurando-o. Em sua exposição Paulino apresenta uma instalação no Museu de Arte Contemporânea de Americana, localizado em São Paulo (2013), intitulada Fardos de mãos que são braços feitos de gesso, acumulados junto à palha, madeira e amarrados com cordão trazendo a alusão de fogueiras, e realmente é essa intenção os braços representam a força de trabalho escrava, ela comenta que no período da escravidão em um vídeo em seu site “os escravos eram madeira para ser queimada”, Paulino (2018) ainda cita no vídeo a frase do antropólogo e escritor político Darcy Ribeiro que apresenta “a escravidão no Brasil, era um moinho de moer gente” esses braços representam o descaso em que essa população negra escravizada vivenciava não ter seu reconhecimento enquanto ser humano, mas sim, como uma máquina que poderia ser trocada, jogada fora ou vista como combustível da economia de uma época. Paulino também explica que a palavra assentamento tem dois significados, que pode ser a base de uma construção, de uma casa, por exemplo, ou no sentido espiritual, que se refere a “força de um templo, de uma casa, o axé da casa” Vímeo. (14 de novembro de 2014). Ela não nega a sua herança cultural e apresenta essa espirituosidade http://omenelick2ato.com/artes-plasticas/rosana-paulino-assentamento/ 45 em uma perspectiva afro-brasileira como um apanhado de memórias salientando os valores sociais e culturais dos afrodescendentes. Ambas as séries estudadas nessa pesquisa tem o uso limitado de cores, o preto ganha destaque tanto na fotografia quanto na cor das linhas, tons terrosos como o marrom da instalação, marfim da cor do tecido, mas o vermelho se destaca quando é costurado ao coração, as raízes e ao feto, mas costuradas até um certo ponto, as linhas ficam soltas e continuam além dos símbolos como exemplo o coração, é uma linha que não tem a função apenas de costurar as figuras na fotografia/tecido, mas que representa algo, pressupõe que seja a representação do sangue que escorre e relata a dor e a vida dessa mulher, esse sangue também pode possuir relação com a parte sensível, o que se opõe a força em que essas mulheres foram forçadas a ter. A intenção desta interpretação não é enfatizar a fraqueza dessa mulher, mas mostrar que a força possui limite e é necessário que isso seja notado, dando voz e liberdade de expressão dessas mulheres. Se as mulheres negras sustentavam o terrível fardo da igualdade em meio á opressão, se gozavam de igualdade com seus companheiros no ambiente doméstico, por outro lado elas também afirmavam sua igualdade de modo combativo, desafiando a desumana instituição da escravidão. (DAVIS, 2016, p. 31.) Existe uma relação entre as duas obras analisadas neste trabalho, Assentamento e bastidores ligam estereótipos como à força e o trabalho doméstico como fardos que as mulheres negras carregam com elas aos dias atuais, em um trecho de Mulheres, raça e classe (2016), Angela Davis escritora e filósofa política, comenta que a mulher negra suportava o angustiante trabalho braçal que se igualava aos seus companheiros, homens negros, no entanto no âmbito doméstico, também havia igualdade entre eles, ou seja, essa ideologia dominante de separação e hierarquia entre gêneros era muito mais entre homens e mulheres brancos, na estrutura familiar negra não havia separação entre papéis. Para Davis, As mulheres negras eram mulheres de fato, mas suas vivências durante a escravidão – trabalho pesado ao lado de seus companheiros, igualdade no interior da família, resistência, açoitamento e estupros – as encorajavam a desenvolver certos traços de personalidade que as diferenciavam da maioria das mulheres brancas. (DAVIS, 2016 p. 39.) 46 Figura 10-Rosana Paulino, Assentamento, 2013.impressão digital sobre tecido, linóleo e costura Fonte:https://www.pinterest.com.mx/pin/433119689145995479/ Na Figura 8 observa-se uma linoleogravura em formato de um coração, com uma linha de cor vermelha representando uma veia sanguínea em destaque, pois a figura está em pretoe branco e a linha em vermelho. As imagens costuradas ao corpo da mulher são linoleogravuras, o que levam a obra, novos significados, no processo da linoleogravura é necessário as goivas, material afiado de metal que talha o linóleo, esse ato de talhar ressignifica o valor do feto, uma vez em que a gravação do mesmo envolve marcas feitas manualmente, o que significa uma entrega no fazer com as próprias mãos. A própria artista executa essa atividade, pois a clareza de algumas imagens levam Paulino a desenvolver suas próprias imagens, o processo da história dos negros é algo que não tem nitidez, algo sem foma definida na forma em que é contada, suprimindo momentos e detalhes e através da sua arte a artista encontra na litogravura uma forma de fazer essas imagens sem a nitidez de uma história contada pelo outro. Por exemplo, na figura 10, os traços que marcam a matriz são transferidos para o tecido, deixando marcas que formam feto, assim como no coração, são marcas que possuem uma intenção além de alcançar uma imagem desejada, mas também uma ideia de uma formação com dificuldades e sem nitidez. 47 Figura 11-Rosana Paulino, Assentamento, São Paulo, 2013, Paper clay, madeira, palha e cordão. Dimensão variável. Vídeo: Mar Distante. Duração do vídeo: 22 minutos. Fonte: http://www.rosanaPaulino.com.br/ Na Figura 11 observa-se a instalação feita em gesso patinado, Paper clay, madeira, palha e cordão A instalação no Museu de Arte Contemporânea de Americana (2013) também conta com pequenos tablets que ficam localizados próximos aos Fardos no chão, esses aparelhos passam imagens e o som do mar que se reverbera pelo ambiente, cada detalhe dessa exposição tem um significado, a sensação de estar imersa pela experiência de mar, pode ser uma situação agradável, mas pela presença das obras ao redor esses significados é revertido em uma lembrança em memória daqueles que não sobreviveram que foram jogados ou se jogaram, uma reminiscência intensa. A narrativa que a artista constrói na série Assentamento se mostra importante porque ela rompe com a narrativa dominante, construindo uma nova forma de pensamento diante da questão da herança histórica sobre a época da escravidão. No próximo tópico teremos a análise da obra artística Bastidores (1997). 6.2. Bastidores (1997) Na série Bastidores Paulino trabalha com um assunto delicado, mais uma vez se tratando da vulnerabilidade e sobre a sua invisibilidade enquanto mulher negra, mas dessa vez em ambientes domésticos. No capítulo sobre Feminismo foram comentados http://www.rosanapaulino.com.br/ 48 os índices de violência contra as mulheres negras brasileiras, como se pode perceber o aumento dos índices de violência de morte das mulheres negras é alarmante. A artista de forma objetiva protesta em sua arte essa invisibilidade e silenciamento dessas mulheres, não só dentro de casa, mas por toda a sociedade. Paulino pega referências das coisas e pessoas que a cerca, desde pesquisas até a sua família, dessa vez ela encontra como referência sua irmã especialista em relações familiares, trabalhando principalmente com violência sexual contra crianças e de acordo com seus relatos sobre violência doméstica Paulino instantaneamente fixa o assunto em sua mente e distraidamente enquanto andava pela Rua 25 de Março, ela se depara com os bastidores de bordar e então ela remete a lembrança dos relatos do que sua irmã descrevia, em que a violência doméstica pode ser perversamente praticada de diversas formas, por objetos do dia a dia que se transformam em objeto de coerção como agulhas, garfos, linhas, cigarros, etc. Tendo isso em mente Paulino faz um compilado de todas essas informações e constrói a série Bastidores, uma série em que fotografias de mulheres negras, das quais muitas dessas fotografias foram retiradas de fotos 3x4 em preto e branco, manipuladas digitalmente e transferida quimicamente para o tecido. Esse tecido é esticado em um bastidor para bordado e então ela costura com uma linha preta a boca, olhos e gargantas de maneira “mal feita” e descuidada que passa uma sensação de violência. Todas as partes que foram costuradas são consideradas como partes de expressão e comunicação, que violentamente foram costurados, não deixando alternativa para essas mulheres que foram silenciadas de forma bruta. Ainda sobre as costuras que representam, além da violência física, fala sobre o silêncio dessas mulheres, o medo que as cerca e que traz o nó na garganta, o silêncio, os olhos fechados que não querem presenciar essas violências, os olhos fechados tanto de quem vê como de quem sofre a violência. Paulino afirma em entrevista à Pimentel (2016) como afirma Paulino: No meu caso, tocaram-me sempre as questões referentes à minha condição de mulher e negra. Olhar no espelho e me localizar em um mundo que muitas vezes se mostra preconceituoso e hostil é um desafio diário. Aceitar as regras impostas por um padrão de beleza ou de comportamento que traz muito de preconceito, velado ou não, ou discutir esses padrões, eis a questão. Dentro desse pensar, faz parte do meu fazer artístico apropriar-me de objetos do cotidiano ou elementos pouco valorizados para produzir meus trabalhos. Objetos banais, sem importância. Utilizar-me de objetos do domínio quase exclusivo das mulheres. Utilizar-me de tecidos e linhas. Linhas que modificam o sentido, costurando novos significados, transformando um objeto 49 banal, ridículo, alterando-o, tornando-o um elemento de violência, de repressão. O fio que torce, puxa, modifica o formato do rosto, produzindo bocas que não gritam, dando nós na garganta. Olhos costurados, fechados para o mundo e, principalmente, para sua condição no mundo. (PIMENTEL, 2016) Figura 12-Rosana Paulino, Bastidores, 1997.Imagem transferida sobre tecido, bastidor e linha de costura. 30,0 cm diâmetro. Fonte:http://www.galeriasuperficie.com.br/artistas/rosana-Paulino/ Os materiais usados por Paulino na composição da sua série são materiais usados para o bordado, atividade vista estritamente como feminina, e que remete a um lugar protegido e tranquilo. O interessante é como ela consegue reverter essa atividade inocente e que possui relação com o doméstico em uma carga densa de violência, esta série compreende em uma conexão entre bordado, doméstico e a violência. Bastidores é uma série que possui várias camadas de leitura ao mesmo tempo em que visualizamos o doméstico enquanto mulheres “donas de casa”, também existem as empregadas domésticas, das quais em sua maioria são mulheres negras. O próprio nome da série remete também aos bastidores de filme, por exemplo, ou seja, tudo aquilo que está por trás de tudo o que acontece, o que é invisível aos olhos do espectador. Figura 13-Rosana Paulino, Bastidores, 1997. Imagem transferida sobre tecido, bastidor e linha de costura. 30,0 cm diâmetro 50 Fonte: http://www.rosanaPaulino.com.br/ Na Figura 13 acima, observa-se uma mulher negra com a boca costurada, e que segundo a artista representa a silenciação. Outra camada interessante que pode ser levada em conta é o ponto de vista sobre a boca costurada, possui relação com um texto de Kilomba, que chama atenção sobre a relação com silenciamento representado na série, substituindo a palavra racismo, pela ação da violência doméstica o texto toma uma precisão sobre a relação da obra com o texto, para Kilomba, A boca é um órgão muito especial, ela simboliza a fala e a enunciação. No âmbito do racismo a boca torna-se o órgão da opressão por excelência, ela representa o órgão que os (as) brancos (as) querem – e precisam – controlar e, consequentemente o órgão que, historicamente, tem sido severamente repreendido. (KILOMBA, 2016, p. 172.) Ainda sobre as formas de violência costuradas em pontos específicos nos rostos dessas mulheres evidenciamações cotidianas de racismos velados, de direitos essenciais negados como educação, alimentação, emprego os quais limitam essas mulheres a que estão à margem da sociedade, silenciadas, invisibilizadas e ceifadas de sua história e memória por instituições e estruturas racistas que regem o Brasil. Observe o trabalho de Paulino na Figura 14 a seguir: Figura 14-Rosana Paulino, Bastidores, 1997. Imagem transferida sobre tecido, bastidor e linha de costura. 30,0 cm diâmetro 51 Fonte:http://www.rosanaPaulino.com.br/ Na Figura 14 há a imagem de uma mulher negra que tem seus olhos costurados e como uma venda para não enxergar. Os olhos vendados da moça sugerem que por não se enxergar e se ver representada nos mais diversos tipos de mídia e nas artes, essas mulheres ao se verem no espelho, por exemplo, não se reconhecem, seus olhos foram costurados pela sociedade para que elas não se enxerguem e odeiem seus corpos e características que as definem como negras, levando a supressão dessas características no modo de comportamento, de se vestir, tornando cada vez mais latente a raiva do corpo negro e o esforço de se encaixar como branco. Mais uma vez a fotografia tem seu destaque na arte de Paulino, ela comenta em uma de suas entrevistas no canal O beijo que “a fotografia já feita tem um afeto, uma carga muito grande” a artista inclui uma citação de André Bazin crítico de cinema e teórico de cinema “as fotos são pequenas múmias de papel” (PAULINO, apud 2017) segundo o autor, a quem é uma das inspirações de Paulino, uma vez em que essas fotografias carregam um peso de uma história e ao serem expostas com bocas garganta e olhos costurados trazem um peso sobre ainda maior aos bastidores. A linguagem de Paulino é usada como meio de poder, ela articula o tema com os materiais de um modo acessível, unindo a prática tida como intelectual – a arte – com a prática política. Algumas das representações em que as mulheres negras em sua maioria ocupam e que fazem parte da realidade de muitas, ainda é uma herança da época da escravidão, assinada a lei áurea em 1888, com a falta de oportunidades de emprego, o trabalho como servil parece ser sua única opção de sobrevivência do sujeito negro. A 52 marginalização da população negra desencadeou em violência causada pela desigualdade social, racial e de gênero, quando relacionado à mulher negra. Tal abandono fez com a que a procura pela sobrevivência levasse a casos extremos como pedir comida nas ruas até a aceitação de trabalhos subumanos. Nota-se nas duas obras explanadas neste trabalho que se trata de uma linha do tempo, onde em Assentamento (2013), gira em torno do processo de (re)construção tanto durante quanto pós escravidão. E em Bastidores (1997) ela trabalha com a consequência desse período fazendo o recorte nas mulheres negras, demonstrado através das costuras as opressões que derivam do processo de escravidão o Brasil. 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS O trabalho de Paulino se entrelaça entre memória e história, as memórias são experiências pessoais que são vivas e vividas em eterna evolução, não se fixa em detalhes para precisar de comprovação, apenas duram dependendo da sua existência “ela se alimenta de lembranças vagas, telescópicas, globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, sensível a todas as transferências, cenas, censura ou projeções.” (NORA, 1993, Entre memória e história: a problemática dos lugares.) essa memória citada por Pierre Nora, historiador francês, de certa forma é dada a personagem da sua instalação Assentamento (Fig. 3) pois não sabemos as memórias da mulher representada e sua história real, além dos registros, pois ela não está viva para sabermos, mas ao atribuirmos memória a ela sua existência torna-se significante principalmente quando ela está sendo lembrada apenas como objeto de estudo racista, destituindo-lhe de humanidade. A forma em que sua imagem se perpetuou como modelo de estudo fixada na história legitimada por detalhes, imagens e relatos, que em uma das definições de Pierre Nora, historiador francês, 1993 “é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais” do passado que não existe mais, ou seja, a mulher representada na fotografia está presa à história como um objeto, pois há a comprovação de sua existência por meios físicos. A história dela enquanto sujeito não há registros, não a provas de quem realmente ela foi, sem dignidade e visão humana a memória que lhe foi empregada por Paulino lhe garante um olhar humano. Pensar sobre memória e história quando nos referimos aos afro-brasileiros, é pensar essa mutilação histórica e a necessidade de revisitá-la e recontá-la na perspectivas dos negros brasileiros o período da escravidão no Brasil. 53 Pode-se dizer que a arte de Rosana Paulino incomoda, é “forte” e provocativa. Se a obra incomoda deve haver algum motivo, a realidade de uma história e a passada ruim constrange o espectador. Rosana Paulino vai além da apreciação de uma “boa arte” ela envolve o contexto sociocultural em seus trabalhos, através de uma simples pergunta “qual lugar a mulher negra ocupa na sociedade atual?”, ela vai afundo em um universo denso e mal explorado, tentando achar essa resposta, ela atinge quem olha a sua arte e através do incômodo, do choque e do porque, ficamos com a “pulga atrás da orelha”. A obra de Rosana Paulino é um verdadeiro enfrentamento e um ato de coragem. Há um trecho do livro Mulheres, cultura e política (2016) em que professora e filósofa socialista estado-unidense Angela Davis, menciona uma poetisa Frances E. W. Harper do séc. XIX que mesmo tendo nascido livre seus poemas abordam as lutas dos povos escravizados e que em vez de reforçar conceitos estereotipados sobre os negros ela celebra a luta justa se seus antepassados. “Qualquer que tenha sido o modo subjetivo escolhido por essas pessoas para abordar – ou ignorar – a política racial de sua época, elas dificilmente poderiam ter evitado receber alguma influência das condições históricas objetivas.” (2016, p. 183.) Quando Davis comenta isso em seu livro, observa- se que esse recorte pode se relacionado aos dias de hoje, quando falamos de arte, principalmente contemporânea, mesmo que o tema trabalhado da obra não seja diretamente relacionado ao pessoal, mas trata sobre inquietações, boas ou ruins, sendo assim sempre há algo íntimo envolvido na arte de quem produz, sobre pessoas negras que falam sobre o que é ser negro e reagem contra as ações preconceituosas através da sua arte, recebem críticas por abordarem a mesma temática, mas uma marca que mudou para sempre a história dessas pessoas não deve ficar esquecida ou simplesmente fingir que nada aconteceu, até porque carregamos uma herança forte até os dias atuais, o que reflete o lugar em que os negros ocupam hoje. A invisibilidade ainda rodeia a arte de quem e a representação do negro. O fato da artista também ser negra é de extrema importância uma vez ao tomar posse de lugares onde os negros nunca estiveram usufruir dessa representatividade importa, além do que não costumamos ver mulheres negras como produtoras de conteúdo e ativas intelectualmente, como diz Djamila Ribeiro, em O que é lugar de fala?, “Também divulgar a produção intelectual de mulheres negras, colocando-as na condição de sujeitos e seres ativos que, historicamente, vêm pensando em resistências e reexistências.” a visão que se tem dessa mulher é 54 condicionada para atividades práticas ou na maioria das vezes sendo retratada em imagens estereotipadas evidenciando a invisibilidade dessa mulher. A voz da arte de Paulino funciona como estímulo para futuros artistas negros que não se sentem representados no mundo das artes, a um silêncio que reverbera. 55 REFERÊNCIAS ALMEIDA, Silvio Luiz de. Oque é racismo estrutural?. Belo Horizonte (MG). Letramento, 2018. ARTE Moderna. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo355/arte-moderna>. Acesso em: 15 de Mai. 2018. Verbete da Enciclopédia. ______ Contemporânea. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo354/arte-contemporanea>. Acesso em: 15 de Mai. 2018. Verbete da Enciclopédia. AKOTIRENE, Carla. O que é interseccionalidade?. Belo Horizonte -MG: Letramento: Justificando, 2018. ARCHER, Michael. Arte contemporânea: uma história concisa.2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2012. 263 p. (Coleção Mundo da arte). BUTLER, Octavia Estelle. Kindred: Laços de Sangue/Octavia E. Butler; Tradução: Carolina Caires Coelho.-São Paulo: Editora Morro Branco, 2017. p.432. CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: A situação da mulher negra na America Latina a partir de uma perspectiva de gênero. Geledés, 2011. 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Tema: O tema em questão foi feminismo negro relacionado a apresentação de três artistas Rosana Paulino com as instalações Assentamento e Bastidores que compõem o eixo principal da pesquisa e procuram através do olhar da artista Paulino questionar o lugar em que a mulher negra ocupa na sociedade brasileira através do estudo do passado, relacionando a pesquisas científicas e vivências pessoas e das mulheres de sua família, Grada Kilomba outra artista apresentada discutesobre a descolonização de pensamento e das artes, discute a visão do negro na sociedade exemplificando através de textos e videoarte o racismo velado que acomete aos negros todos os dias e são negados pela sociedade. Harmonia Rosales busca em suas artes representar negros em uma perspectiva de poder, os quais em sua maioria no ocidente nunca foram vistos por esse ponto de vista, ela se apropria de obras majoritariamente brancas e feitas por homens e substitui por mulheres negras um exemplo é o homem Vitruviano de Leonardo Da Vinci. Objetivo geral: O principal objetivo é apresentar as artistas Rosana Paulino, Grada Kilomba e Harmonia Rosales e a diversidade de suas artes e a relação que possuem com o feminismo negro. Objetivos específicos: Ampliar o conhecimento e facilitar o entendimento sobre o feminismo negro. Relacionar o trabalho das artistas apresentadas ao feminismo negro. Apresentar artistas negras de várias nacionalidade e a diversidade da temática de seus trabalhos. 60 Como o feminismo negro pode unir e não separar as mulheres do movimento feminista. Conteúdo: O assunto abordado trata sobre como as mulheres negras foram invisibilizadas durante muito tempo e por conta dos movimentos feministas principalmente a partir da segunda onda feminista em meados dos anos 60 e 80 nos Estados Unidos e Brasil, elas estão em ascensão. Enaltecer a importância que as artistas possuem nas artes contemporâneas enquanto mulheres negras e feministas. Desenvolvimento do tema: Aula expositiva por meio da apresentação de slides e logo após uma roda de conversa sobre o tema explanado. Avaliação: Após a apresentação seguida da roda de conversa com os alunos pude observar como o conteúdo foi absorvido de acordo com o conhecimento de cada individuo e de como as discussões que foram levantadas serviram de grande suporte para a minha pesquisa uma vez em que pude absorver conhecimento a partir do diálogo com mulheres e homens de diversas realidades. Relatório: Introdução O tema trabalhado na ação pedagógica discute questões de gênero, raça e classe social, a partir das obras da artista Rosana Paulino, que tem como principal questionamento em suas obras, o lugar em que a mulher negra ocupa na sociedade brasileira, mas também são exemplificadas artistas de variadas nacionalidades, mas que se consideram negras e trabalham com esse tema em suas obras, como Grada Kilomba e Harmonia Rosales. 61 Objetivos: Os principais objetivos são levar ao conhecimento público a existência de artistas negras. Realçar como várias artistas que em suas obras discutem quase o mesmo conteúdo sobre mulheres negras, mas de formas completamente diferentes, expondo a pluralidades das artistas e suas diversas formas de fazer arte. Resultados e discussão: Após a apresentação, todos os alunos se mostraram interessados sobre o tema, através da mediação da professora Bettina Rupp, os alunos expressaram suas opiniões sobre interseccionalidade, sobre alguns que não se identificam com o termo feminismo, mas sim Mulherismo, pois o termo foi criado por mulheres não brancas. Alunos se sentiram confortáveis para indicarem suas leituras e houve perguntas sobre dificuldades em encontrar artistas negros para a pesquisa. Conclusão: Conclui-se que existem muitas dificuldades e uma naturalização da ausência de pessoas negras no meio artístico e assim os alunos ainda possuem muito desconhecimento sobre tais temáticas. E de como é importante levar esse conhecimento que por mais que esteja em pauta nas mídias atualmente, permanece um assunto incompreendido e desconhecido por grande parte das pessoas, levar essa temática de feminismo negro para a sala de aula dentro das universidades abre a mente dos alunos que futuramente estarão em espaços de poder e que a partir do momento em que compreendem esses processos podem informar mais pessoas. 62 8.2. AÇÃO PEDAGÓGICA II Plano de aula: A segunda ação com duração de quatro horas, realizada no Ateliê Jackie Monteiro, para o público seis pessoas, no horário das 14:00 ás 18:00h. Tema: O tema em questão, foi uma conversa sobre o feminismo negro, identidade e empoderamento estético dos negros e como esses processos influenciam no dia a dia dos negros. Os componentes da conversa explanaram sobre suas experiências e anseios de se conectarem mais com a estética negra, sobre preconceitos e curiosidade sobre artistas negras. Objetivo geral: O principal objetivo é apresentar as artistas Rosana Paulino, Grada Kilomba e Harmonia Rosales e a diversidade de suas artes. A relação que possuem com o feminismo negro e através de suas obras observar e refletir como as figuras negras são e foram retratadas ao longo da história. Objetivos específicos: Ampliar o conhecimento e facilitar o entendimento sobre o feminismo negro. Relacionar o trabalho das artistas apresentadas ao feminismo negro. Apresentar artistas negras de várias nacionalidade e a diversidade da temática de seus trabalhos. Como o feminismo negro pode unir e não separar as mulheres do movimento feminista. 63 Separar imagens estereotipadas dos negros e apresentar negros em espaços de poder, como por exemplo, escritores, artistas visuais e cantores. Conteúdo: O assunto abordado trata sobre como as mulheres negras foram invisibilizadas durante muito tempo e por conta dos movimentos feministas principalmente a partir da segunda onda feminista em meados dos anos 60 e 80 nos Estados Unidos e Brasil, elas estão em ascensão e a importância que elas possuem nas artes contemporâneas enquanto mulheres negras e feministas. Abordar identidades que reforcem a imagem positiva dos negros a partir de referências musicais, literatura e arte Desenvolvimento do tema: Uma breve apresentação expositiva por meio de slides e uma roda de conversa sobre o tema explanado. Avaliação: Após a apresentação seguida da roda de conversa com os participantes pude observar como o conteúdo foi absorvido de acordo com o conhecimento de cada indivíduo e de como as discussões que foram levantadas serviram de grande suporte para a minha pesquisa uma vez em que pude absorver conhecimento a partir do diálogo com mulheres e homens de diversas realidades. Relatório: Introdução: Neste relatório pretende-se explanar sobre lugares de poder que devem ser ocupados por negros e de como a exposição de artistas em geral como Rosana Paulino, Harmonia Rosales e Grada Kilomba, discutem questões de decoloniedade, lugares de poder, feminismo negro e ressignificação de identidades. E como essas artistas realçam as possibilidades tanto como artista, como as obras, que mulheres e homens negros são capazes. Objetivos: 64 Esperasse que os participantes identifiquem a variedade de artistas negros que existem e a partir disso, conversar sobre ocupação de espaços de poder, estética dos negros que foi apagada durante séculos, que envolvem expressões culturais até cortes de cabelo, que valorizem o sujeito negro enquanto detentor de identidade própria. Resultados e discussão: Após a apresentação os participantes se mostraram presentes nas discussões, propondo mais questionamentos e expondo situações em que foram expostos. Todos puderam trocar ideias e conversar entre si. Conclusão: Conclui-se com essa exposição de ideias que levar essas discussões a espaços além da universidade, permitem alcançar uma pequena parcela de pessoas que precisam desses conhecimento para entender a situação do outro e de si mesmo, socialmente e historicamente. 65 REFERÊNCIAS: ROSALES, Harmonia.: Harmonia Rosales. 2017. Disponivel em: <https://www.harmoniarosales.com/>. Acesso em: 10 de Setembro 2018. RONCOLATO, Murilo. A pintora que recria obras Clássicas trocando pessoas brancas por pessoas negras. Nexo Jornal,2018. Disponivel em:<https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/08/08/A-pintora-que-recria-obras-cl %C3%A1ssicas-trocando-pessoas-brancas-por-negras>. Acesso em: 10 Setembro de 2018. KILOMBA, Grada. Grada Kilomba:InterdisciplinaryArtistand Writer. 2018. Disponivel em:<http://gradakilomba.com/>Acessoem:12 Setembro de 2018. KILOMBA, Grada. Tradução: Quem pode falar? (Grada kilomba). 2016. Tradução: Anne Caroline Quiangala. Disponível em:<http://www.pretaenerd.com.br/2016/01/traducao-quem-pode-falar-grada- kilomba.html> Acesso em: 12 Setembro de 2018. KILOMBA, Grada. "Plantation Memories" by GradaKilomba, Part I (Engl./Port.).2016. (5m40s) Diponível em<https://www.youtube.com/watch? v=ftRjL7E5Y94> Acesso em: 12 de Setembro de 2018. KILOMBA, Grada. "Plantation Memories" by GradaKilomba, Part II (Engl./Port.).2016. (4m11s) Disponivel em:<https://www.youtube.com/watch? v=SzU0TQxLnZs&t=3s> Acesso em: 12 de Setembro de 2018. KILOMBA, Grada. Descolonizando o pensamento: Uma palestra performance de Grada Kilomba.Geledés, 2016. Disponível em:<https://www.geledés.org.br/descolonizando-o-conhecimento-uma-palestra/> Acesso em: 12 Setembro de 2018. Arte!Brasileiros. Performance "Illusions" de Grada Kilomba. 2016. (5m13s). Disponivel em<https://www.youtube.com/watch?v=1bm8hI9xtf0&t=13s>Acesso em: 12 de Setembro de 2018. PAULINO, Rosana. Rosana Paulino: Artista visual e pesquisadora. São Paulo.2018. Díponivel em:<http://www.rosanaPaulino.com.br/>. Acesso em: 11Setembro 2018. http://www.rosanapaulino.com.br/ https://www.youtube.com/watch?v=1bm8hI9xtf0&t=13s https://www.geledes.org.br/descolonizando-o-conhecimento-uma-palestra/ https://www.youtube.com/watch?v=SzU0TQxLnZs&t=3s https://www.youtube.com/watch?v=SzU0TQxLnZs&t=3s https://www.youtube.com/watch?v=ftRjL7E5Y94 https://www.youtube.com/watch?v=ftRjL7E5Y94 http://www.pretaenerd.com.br/2016/01/traducao-quem-pode-falar-grada-kilomba.html http://www.pretaenerd.com.br/2016/01/traducao-quem-pode-falar-grada-kilomba.html https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/08/08/A-pintora-que-recria-obras-cl%C3%A1ssicas-trocando-pessoas-brancas-por-negras https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/08/08/A-pintora-que-recria-obras-cl%C3%A1ssicas-trocando-pessoas-brancas-por-negras https://www.harmoniarosales.com/ 66 PAVAM, Rosane. Rosana Paulino expõe o racismo enraizado no Brasil. 2016. Disponivel em<https://www.cartacapital.com.br/revista/922/rosana-Paulino-expoe-o- racismo-enraizado-no-brasil> Acesso em: 10 de Setembro de 2018. Revista Bravo!.Ateliê da artista: Rosana Paulino. 2018. (5m7s) Disponível em:<https://www.youtube.com/watch?v=lTdnSyqWv1A> Acesso em: 10 de Setembro de 2018. Itaú Cultural. Rosana Paulino – Diálogos Ausentes (2016). 2016. (9m24s) Disponível em:<https://www.youtube.com/watch?v=7awdUzh9UVg> Acesso em: 10 Setembro 2018. O Beijo.O corpo negro nas obras de Rosana Paulino. 2017. (3m37s) Disponível em:<https://www.youtube.com/watch?v=Y8NMJLyKiXw> Acesso em: 11 de Setembro de 2018. https://www.youtube.com/watch?v=Y8NMJLyKiXw https://www.youtube.com/watch?v=7awdUzh9UVg https://www.youtube.com/watch?v=lTdnSyqWv1A https://www.cartacapital.com.br/revista/922/rosana-paulino-expoe-o-racismo-enraizado-no-brasil https://www.cartacapital.com.br/revista/922/rosana-paulino-expoe-o-racismo-enraizado-no-brasil 67 ANEXO 68 9.ANEXO A 9.91. LISTA DE PRESENÇA PARA AÇÃO PEDAGÓGICA II KYVIA KELLY DOS SANTOS MONTEIRO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para obtenção do título de Licenciatura em Artes Visuais, pela Universidade do Rio Grande do Norte. Aprovada em: ____/____/_____ ____________________________________________________________ Componente da Banca Examinadora – Profª Drª Bettina Rupp, UFRN ____________________________________________________ Componente da Banca Examinadora - Profª Drª Sofia Bauchwitz, UFRN ___________________________________________________ Componente da Banca Examinadora –Prof. Me. Artur Luiz de Souza Maciel UFRN DEDICATÓRIA A Jackeline Monteiro, minha irmã, por acreditar em mim, por não deixar a memória de a nossa mãe morrer e junto a ela o amor que temos por ser quem somos e de respeitar quem está a nossa volta. Dedico a minha família Mãe, irmã, irmão e pai, pedaços de mim. AGRADECIMENTOS Comecei a escrever sobre poder, porque era algo que eu tinha muito pouco. RESUMO LISTA DE FIGURAS 1. INTRODUÇÃO 2. FEMINISMO NEGRO 2.1 FEMINISMO E ARTE CONTEMPORÂNEA 3. SOBRE IDENTIDADE A identidade segundo pensadores como Patricia Hill Collins sobre Pensamento Feminista Negro Conhecimento consciência e a política do empoderamento (2018), pra ela identidade é uma forma política reducionista, uma forma de limitar nossas formas de comportamento e pensamento para o bel prazer de instituições que oprimem e manipulam a sociedade, além de ser peça fundamental para estruturas de opressão e hierarquia de saberes como o racismo e colonialismo. O que Lilia Moritz Schwarcz comenta que identidade também é importante, pois é possível Compreender como se trata sobre identidade de forma genuína, e não como uma consequência como aponta COLLINS (2018). “é uma resposta política a um contexto político” SCHWARCZ, Lilia. Youtube.16 Jan.2018 e que também é uma construção social, compreende-se identidade a ser o processo de como identificamos o outro socialmente, o que parece ser o olhar do outro sobre o outro, não há um protagonista que narre sua própria história, ao tentar desconstruir essa narrativa do outro a identidade é reformulada. Como exemplo o caso da representação dos negros e negras como seres inferiorizados e dignos de pena, esse é um tipo de identidade atribuída aos negros, a qual é rejeitada pelos mesmos. Por meio desta observação sobre a identidade, entende-se que o contexto político em que o Brasil vive, o processo de construção de identidade positivo que favoreça a visão que os negros tenham de si, se faz extremamente necessário, identidades são reconhecidas como processo de exclusão, mas antes de se desfazer das identidades limitadoras, precisa-se modificá-la ao seu favor. Então de acordo com o pensamento sobre identidade de Collins em que o define como opressor, esse tipo de identidade imposta e limitadora tem a incumbência de ser desfeita. Mas quando um grupo é definido identitariamente no lugar de vítima, há a necessidade de reverter essa identidade, o propósito da construção da identidade neste caso, não é de restringir, mas de ascender no meio social como proprietário de si. O reconhecimento da figura do outro como apenas diferente é compreender de fato esta diferença, sem haver subalternização a partir da construção de uma identidade e sem a ideia de que são todos iguais. Criaria uma nova visão positiva, uma maneira de compreender o outro lado sem relativizar a experiências pessoais. 6. ROSANA PAULINO COSTURANDO NOVOS SIGNIFICADOS 6.1 Assentamento (2013) 6.2. Bastidores (1997) 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS APÊNDICE