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PANORAMA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NO BRASIL Waldomiro Vergueiro PANORAMA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NO BRASIL Copyright © 2017 Waldomiro Vergueiro Copyright © das imagens da capa: Desenho de J. Carlos (superior); Tira biográfica de Fabio Ciccone (meio), Rê Bordosa, de Angeli (abaixo à esquerda) e Zé Caipora, de Angelo Agostini (direita). As capas de livro e imagens de personagens foram usadas neste livro para ilustrar o texto do autor, e pertencem aos seus respectivos detentores de direitos autorais. EDITORA Renata Farhat Borges EDITORES DO OBSERVATÓRIO DE HISTÓRIAS EM QUADRINHOS Paulo Ramos Nobu Chinen DESIGN GRÁFICO E EDITORAÇÃO ELETRÔNICA Márcio Koprowski REVISÃO TÉCNICA Paulo Ramos Nobu Chinen REVISÃO DE TEXTO Mineo Takatama ASSISTENTES EDITORIAIS Izabel Mohor Fernanda Moraes DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Vagner Rodolfo CRB-8/9410 V493p Vergueiro, Waldomiro Panorama das histórias em quadrinhos no Brasil [recurso eletrônico] / Waldomiro Vergueiro. - São Paulo : Peirópolis, 2017. Inclui bibliografia. ISBN: 978-85-7596-530-6 1. Histórias em quadrinhos. 2. Brasil.. I. Título. CDD 741.5 CDU 741.5 Disponível em ebook nos formatos ePub (ISBN 978-85-7596-530-6) e KF-8 (ISBN 978-85-7596-531-3) Editado conforme o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. 1ª edição, 2017 Editora Peirópolis Ltda. Rua Girassol, 310F – Vila Madalena 05433-000 – São Paulo – SP tel.: (11) 3816-0699 vendas@editorapeiropolis.com.br www.editorapeiropolis.com.br mailto:vendas@editorapeiropolis.com.br http://www.editorapeiropolis.com.br SUMÁRIO Uma única obra, duas funções Introdução O humor gráfico e o início dos quadrinhos no brasil A presença italiana no nascimento dos quadrinhos brasileiros “O tico-tico” a primeira revista brasileira a publicar histórias em quadrinhos O modelo norte-americano no mercado brasileiro As primeiras editoras de quadrinhos no Brasil EBAL (Editora Brasil-América Ltda.) RGE (Rio Gráfica e Editora)/Globo Editora O Cruzeiro Editora Abril Outras editoras Histórias em quadrinhos brasileiras: principais autores e personagens Quadrinhos infantis De quadrinhos infantis para quadrinhos juvenis: Mônica Jovem, Chico Bento Moço e outros Quadrinhos de aventura Quadrinhos de super-heróis brasileiros Quadrinhos de terror Quadrinhos underground e para o público adulto Carlos Zéfiro e os quadrinhos eróticos/pornográficos Quadrinhos para o público adulto Editoras de quadrinhos em atividade no Brasil Editoras de livros que também publicam quadrinhos A atualidade das histórias em quadrinhos no Brasil: a busca de um novo público Prioridade para o público adulto como elemento de renovação O estilo underground e coletâneas de quadrinhos Obras literárias na linguagem dos quadrinhos Perspectivas para as histórias em quadrinhos no Brasil Referências Entrevista a Érico Assis I. Sobre a leitura, os quadrinhos e a coleção II. Sobre escrever e sobre as felicidades e infelicidades acadêmicas III. Os quadrinhos e a pesquisa em quadrinhos hoje Waldomiro Vergueiro – Biografia Crédito das Imagens UMA ÚNICA OBRA, DUAS FUNÇÕES NOBU CHINEN E PAULO RAMOS Este livro cumpre duas funções. Ambas corrigem um vazio, embora por caminhos distintos. A primeira lacuna que esta obra preenche é a de ser impressa em língua portuguesa. Editada originalmente em espanhol, ela integrou a série argentina “La historieta Latinoamericana”, coordenada por Hernán Ostuni, responsável pelo site La Bañadera del Comic. A trajetória dos quadrinhos no Brasil, escrita por Waldomiro Vergueiro, correspondeu ao terceiro tomo da coleção. Os dois anteriores abordaram Uruguai, Cuba, Chile (em um volume), Bolívia, Colômbia, Paraguai, Peru e Venezuela (em outro). O quarto e derradeiro trabalho descreveu as produções mexicanas. Esteticamente, os livros eram bastante modestos. O que trazia o conteúdo brasileiro tinha 112 páginas, em preto-e-branco, cada uma delas com textos divididos em duas colunas. A tiragem foi baixa, 200 exemplares. O conteúdo, no entanto, contrastava com a simplicidade da edição. Vergueiro esmiuçava a história dos quadrinhos no País, indo das primeiras experiências até o momento contemporâneo. Tratava-se de síntese que atraiu, seguramente, o leitor das outras nações latino- americanas, mas que interessava também aos brasileiros, tão carentes de um livro dessa natureza, e que, inexplicavelmente, permaneceu inédito em nosso idioma. Como dito, um vácuo, que a editora Peirópolis ajuda a preencher. E com um tratamento gráfico à altura do conteúdo. Nove anos separaram a edição argentina e este Panorama das histórias em quadrinhos no Brasil, nome adotado para esta versão em português. Versão não é força de expressão. Escrito originalmente em espanhol, teve o conteúdo traduzido pelo autor que, no processo, aproveitou para reescrever algumas partes e atualizar as informações, ampliando o relato até dias mais recentes. A segunda função do livro tem mais a ver com o autor do que com o conteúdo em si. Waldomiro Vergueiro construiu uma trajetória exemplar nos estudos de histórias em quadrinhos no Brasil. Nas pesquisas individuais, nas orientações aos outros, na generosidade no auxílio a tantos, ele se tornou uma referência na mesma área que ajudou a consolidar cientificamente. Seu nome se confunde com as investigações existentes nesse campo. Sua base de atuação sempre foi a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). À frente do Núcleo de Histórias em Quadrinhos, depois rebatizado de Observatório de Histórias em Quadrinhos, ele serviu de ponto focal para quem quisesse enveredar pelos estudos sobre quadrinhos. Tarefa que, sabe-se, nem sempre foi vista com olhos acolhedores nas universidades brasileiras. No livro Os pioneiros no estudo de quadrinhos no Brasil, ele mesmo rememora como via esse papel que, voluntária ou involuntariamente, passou a exercer no meio acadêmico brasileiro. Diante de revezes plurais, vividos no final da década de 1990, pensou em desistir das pesquisas com quadrinhos. Uma mensagem, recebida de um aluno de uma universidade da região Norte, fez com que repensasse a questão. O estudante dizia ter conseguido convencer sua universidade a aceitar uma proposta de mestrado sobre quadrinhos após argumentar que existia na USP “um professor que trabalhava intensivamente com quadrinhos e um núcleo de pesquisas que se dedicava exclusivamente a eles”. Ciente desse papel, Vergueiro passou a exercê-lo como se fosse uma missão. Waldomiro Vergueiro está aposentado. Mantém o vínculo com a pós-graduação da ECA-USP e, com ele, as orientações de mestrado e doutorado, bem como a coordenação do Observatório de Histórias em Quadrinhos. O que nem todos sabem é que preserva também aulas na graduação em disciplina específica sobre quadrinhos. E ele o faz de forma não remunerada, para que a oferta não seja descontinuada, por pura crença de que seu papel faz diferença. E faz. Por isso, nada mais justo do que uma merecida homenagem que, a propósito, casa com o tom de seriedade com que sempre abordou as pesquisas sobre quadrinhos. Em vez de laudatórios, optou-se por valorizar o reconhecimento por meio de seus próprios estudos. No caso, um deles, que tardava em ser repatriado e que, agora, chega às mãos do leitor brasileiro. De modo que o conteúdo não seja ofuscado pela homenagem, e também sem que ela não se fizesse presente, a solução encontrada foi apresentar, ao final, uma entrevista com o autor, realizada pelo jornalista, tradutor e pesquisador Érico Assis. Assis condensou também uma espécie de linha do tempo do professor, tanto profissional quanto pessoal. Ela aparece nas páginas finais, bem acompanhadas por tiras elaboradas por desenhistas que aceitaram o convite de ilustrar, com bom humor, fragmentos de sua vida. Misto de livro teórico e de obra de homenagem, esta publicação ajuda a entender um pouco melhor a importância de Waldomiro Vergueiro, seja por meio de seus escritos, sejapor sua própria voz, vertida na forma de respostas de uma entrevista. São dois lados de uma referência nos estudos de histórias em quadrinhos, que merece ser não só conhecida, como também reconhecida. P.S.: OS BASTIDORES DE UMA TRAMOIA A publicação deste livro implicou uma estratégia sigilosa, uma espécie de “tramoia” cujos perpetradores são os autores deste prefácio. Não contentes, envolveram no processo mais três pessoas-chave, todas unidas pela fraude, agora publicamente exposta. Tal artimanha se justifica porque a ideia era fazer a Waldomiro Vergueiro uma surpresa e que ele só tivesse ciência da obra quando esta já estivesse impressa. No entanto, como fazer com que um autor enviasse seus originais sem que ele soubesse que se tratava de uma homenagem? A solução foi contar com a colaboração, ou melhor, a cumplicidade de generosos e leais parceiros. Waldomiro Vergueiro refez o trabalho a convite de outra pessoa, sem saber exatamente como a obra seria publicada, informado apenas que ela integraria o catálogo de uma editora universitária. Tudo ficção (um eufemismo para substituir o termo “mentira”, que talvez fosse o mais apropriado). A entrevista realizada por Érico Assis, outro de nossos cúmplices, também é outra armação do plano secreto: Vergueiro pensava serem declarações para reportagem de um site. Com o texto em mãos, faltava quem se dispusesse a transformá-lo em livro impresso. E aqui entra a editora e pesquisadora Renata Farhat Borges, que se envolveu de forma intensa em sua viabilização. Acreditando piamente que os fins justificam os meios, a proposta que norteou o grupo, e para a qual esperam ser absolvidos, foi a de fazer uma homenagem ao autor. Uma justíssima homenagem configurada por algo que ele melhor soube produzir e compartilhar: o seu conhecimento. Introdução Em 1990, três pesquisadores de histórias em quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo criaram, no espaço de atuação dessa escola, um ambiente de pesquisa cooperativa que denominaram Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos (NPHQ), um centro de pesquisas dedicado ao aprofundamento de temáticas relacionadas às histórias em quadrinhos. Eu tive a honra e o privilégio de estar entre eles. O tempo passou. Os dois colegas se aposentaram no início dos anos 2000 e um deles, infelizmente, já não está entre nós. Outros pesquisadores se associaram ao Núcleo, que, por sua vez, mudou sua “razão social”, passando a se denominar Observatório de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP. Os objetivos almejados à época de sua criação, no entanto, permaneceram os mesmos: aprofundar os estudos sobre a linguagem gráfica sequencial em todos os seus aspectos. Dentro desses objetivos, não se colocam restrições de localização geográfica, forma de produção, características artísticas, ideológicas etc. Interessa-nos discutir e registrar a evolução das histórias em quadrinhos em geral, ampliando seu papel como objeto de pesquisa científica no ambiente acadêmico. No caso, busca-se a valorização dessa manifestação cultural, tanto em seu aspecto de meio de comunicação de massa como no âmbito da produção artística, surja ela onde surgir, venha de onde vier, defenda o que quiser defender. No entanto, não se pode negar que, como pesquisadores, sempre tivemos um olhar especial para a realidade brasileira nessa área. Entendemos que é importante dar prioridade à análise da produção nacional, não somente por motivos afetivos ou patrióticos, mas, especialmente, devido à diversidade e qualidade da história em quadrinhos brasileira. Ela, sem dúvida, tem muito a nos oferecer e muito ainda há a dizer sobre suas características, sua evolução, e sobre o papel que desempenhou na constituição de nossa sociedade. Com vistas nessa ênfase na produção nacional, em 2004 foi organizado um número especial da Revista Latinoamericana de Estudios sobre la Historieta, publicado em Cuba, exclusivamente dedicado à produção brasileira de histórias em quadrinhos. Eu tive o privilégio de coordenar essa publicação, da qual participaram vários pesquisadores e colaboradores do Observatório de Histórias em Quadrinhos, cada um deles enfocando a realidade quadrinística brasileira a partir de sua especialidade. Foi uma experiência muito bem-sucedida, que gerou frutos no Brasil: ampliado pelo acréscimo de alguns textos, o conteúdo daquele número especial da revista foi posteriormente publicado em português em formato de livro (Vergueiro, Santos, 2009). Assim, além de apresentar a realidade brasileira de produção e comercialização dos produtos da Nona Arte, o presente livro dá continuidade ao trabalho de análises teórica e histórica sobre os quadrinhos brasileiros, ampliando e sistematizando as informações apresentadas no número especial da revista cubana e complementando aspectos desenvolvidos no livro publicado em 2009. É preciso deixar claro que não é objetivo deste livro traçar um panorama completo das histórias em quadrinhos brasileiras. Essa seria possivelmente um tarefa de muito difícil realização por apenas um único autor. Busca-se, aqui, tão somente traçar um panorama histórico do desenvolvimento da arte gráfica sequencial no País, destacando as principais editoras, os artistas mais reconhecidos e as criações mais significativas da área, além de avançar algumas considerações sobre o atual momento dos quadrinhos no País, bem como sobre as perspectivas para o futuro dos produtos da Nona Arte no Brasil. Com certeza, algumas personalidades ficarão sem ser nomeadas, alguns personagens ou séries serão esquecidos e outras coisas do gênero. Quero garantir que tais ocorrências se deram em virtude de dois fatores apenas: a falta de espaço no livro, planejado para um número específico de páginas, e a memória deficiente de seu autor. E nunca, absolutamente, por entender que aqueles que ficaram de fora careciam de importância para nele serem incluídos. Não tenho dúvida de que a história das histórias em quadrinhos no Brasil foi produzida não apenas por aqueles autores e personagens que atingiram fama e reconhecimento, mas, principalmente, por aqueles que acreditaram no potencial do meio e com ele se comprometeram na medida de suas possibilidades, ainda que não tenham atingido o reconhecimento público que porventura mereciam. Personagens da revista Crás, da Editora Abril, de São Paulo Semana Illustrada, do alemão Henrique Fleiuss O HUMOR GRÁFICO E O INÍCIO DOS QUADRINHOS NO BRASIL As histórias em quadrinhos, ou simplesmente quadrinhos, tiveram um desenvolvimento muito peculiar no Brasil, recebendo influências de diferentes partes do mundo. No século XIX, o humor gráfico foi significativamente cultuado em diversos jornais brasileiros, com grandes artistas se destacando no campo da charge e da caricatura. Segundo Lailson de Holanda Cavalcanti (2005, p. 21), “a primeira manifestação de humor gráfico impresso no Brasil é de autor desconhecido, uma vez que a situação política não permitia assumir publicamente a autoria de um desenho crítico em relação às autoridades e ao sistema dominante”. O primeiro desenho humorístico publicado no Brasil Esse desenho foi publicado em 25 de abril de 1831, no jornal O Carcundão, do Estado de Pernambuco, constituindo-se em uma “alegoria só compreensível por seus contemporâneos”, na qual “[…] um ser mescla de homem e burro busca retratar um personagem político específico, bem como uma situação”. (Cavalcanti, 2005, p. 21) Por outro lado, “a primeira revista de caricaturas regular e de grande duração no Brasil” (Cavalcanti, 2005, p. 44) foi a Semana Illustrada, do alemão Henrique Fleiuss (1823-1882), modelo para as publicações humorísticas brasileiras do século XIX. Iniciando em 1860, a revista foi publicada por dezesseis anos, até 1876. Henrique Fleiuss, bem como outros artistas gráficos contemporâneos, deixa evidente a precoce participação do humor gráfico na discussão da realidade política e social brasileira. Autores como Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806- 1879),Candido Aragonés de Faria (1894-1911), Rafael Bordallo Pinheiro (1846- 1905) fizeram o registro da história do País no Segundo Império por meio do humor gráfico. Trata-se, além disso, de uma epopeia de artistas combativos, cujas obras tiveram grande impacto social. Desenhos de Araújo Porto-Alegre e Cândido Aragonez de Faria, respectivamente Desenho de Bordallo Pinheiro Em sua grande maioria, esses artistas concentravam seus esforços em produções chargísticas voltadas para a crítica política ou de costumes. Pode-se dizer que poucos deles tiveram uma produção seriada que poderia ser equiparada àquilo que hoje em dia é genericamente denominado “história em quadrinhos”. O autor a se destacar nesse aspecto foi sem dúvida o ítalo-brasileiro Angelo Agostini (1843-1910), que criou séries em linguagem gráfica sequencial bastante similares às histórias em quadrinhos, o que faz com que seja possível considerá- lo um precursor do meio. Por outro lado, se não considerarmos as atividades ligadas ao humor gráfico, é possível dizer que as histórias em quadrinhos se desenvolveram no Brasil, inicialmente, a partir da influência das revistas humorísticas e infantis europeias e, posteriormente, das revistas em quadrinhos norte-americanas (os comic books). Mais recentemente, os mangás – revistas de histórias em quadrinhos de origem japonesa – passaram a representar uma influência bastante forte entre leitores e artistas. Em paralelo às influências culturais, é também importante ter em mente que variadas limitações econômicas exerceram e continuam a exercer forte pressão sobre os mercados latino-americanos de quadrinhos. O Brasil não foi exceção a essa regra. Além de uma pujante arte gráfica sequencial, os comics também constituem um meio de comunicação e, como tal, fazem parte de um enorme mercado de massas, com ramificações mundiais e uma estreita relação com outros meios (tais como a televisão, o cinema, a animação etc.). De certa maneira, a história dos quadrinhos no Brasil – e talvez isso ocorra também com muitos outros países – representa uma permanente tensão entre a necessidade dos artistas de se expressarem na linguagem dos quadrinhos e as imposições da moderna indústria de entretenimento, cujo principal objetivo é o retorno imediato do capital investido. Desenho satírico (acima) e (abaixo) imagem da série Aventuras de Nhô Quim, de Angelo Agostini A PRESENÇA ITALIANA NO NASCIMENTO DOS QUADRINHOS BRASILEIROS Como mencionado, o nome do italiano Angelo Agostini, depois naturalizado brasileiro, não pode ser jamais esquecido em qualquer tentativa de relatar a evolução dos quadrinhos no Brasil (Gaumer, 2002; Moya, 1970, 1996). Agostini viveu grande parte de sua vida ativa em terras brasileiras, chegando ao País quando contava somente dezesseis anos, em companhia de sua mãe, cantora lírica. Fincando suas raízes por aqui, ele foi um dos grande precursores da Nona Arte no País e pode ser comparado, às vezes com vantagem, a outros artistas que, como ele, viveram no século XIX e se dedicaram às artes gráficas. Entre esses artistas há personalidades como o inglês Thomas Rowlandson (1756- 1827), o suíço Rodolphe Töpffer (1799-1846), o alemão Wilhelm Busch (1832- 1908) ou o francês Georges Colomb (1856-1945), também conhecido como Christophe. Considerado o maior crítico do período do Segundo Império no Brasil, Angelo Agostini tinha um traço bastante pessoal e era dono de um humor ferino e destruidor. Segundo Pedro Corrêa do Lago (2001, p. 26), tanto pela qualidade de sua obra quanto pela excepcional duração de sua carreira artística, Angelo Agostini é sem dúvida o caricaturista mais importante do Brasil no século XIX. Sua atividade foi constante ao longo de 46 anos de participação na imprensa, e sua imensa obra se estendeu pelas numerosas revistas ilustradas que fundou e com as quais colaborou. Durante os primeiros anos de sua longa estadia no Brasil, Agostini viveu na cidade de São Paulo, naquela época uma pequena cidade de somente 20 mil habitantes (Fonseca, 1999, p. 212). Nessa cidade, o artista fundou dois importantes jornais satíricos: o Diabo Coxo e o Cabrião. Diabo Coxo surgiu em 1864 e tinha quatro páginas de texto e quatro de caricaturas feitas por Angelo Agostini. Foi publicado até dezembro de 1865. Em seguida, o artista colaborou na fundação do Cabrião, cujo nome era inspirado em um personagem do romance de folhetim Os mistérios de Paris, do escritor francês Eugène Sue (1804-1857). O Cabrião foi publicado até setembro de 1867. Diabo Coxo, uma das primeiras criações de Agostini para os jornais brasileiros Em 1867, Angelo Agostini mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro, onde permaneceu praticamente até o fim de sua vida e onde fundou publicações humorísticas (Revista Illustrada e Dom Quixote) e colaborou em outras (O Arlequim, Vida Fluminense, Gazeta de Notícias, 1904 e O Malho). Nas narrativas gráficas mais conhecidas de Angelo Agostini – As aventuras de Nhô-Quim – ou Impressões de uma viagem à corte e As aventuras de Zé Caipora, surgiram os primeiros personagens fixos das histórias em quadrinhos brasileiras (Cardoso, 2005). As aventuras de Nhô-Quim foi publicada na revista Vida Fluminense, do Rio de Janeiro. Lançada em 30 de janeiro de 1869, na edição número 57 da revista, traz a história de um caipira em viagem à capital da Corte Brasileira, a cidade do Rio de Janeiro, e as dificuldades que ele enfrenta para se adaptar a esse novo ambiente. Ela é considerada por estudiosos como Antonio Luiz Cagnin (2013) e Moacy Cirne (1990) a primeira história em quadrinhos realizada no Brasil (e talvez em todo o mundo). As aventuras de Zé Caipora, por sua vez, ocorrem em um ambiente mais rural, tendo como foco as peripécias de um habitante do interior brasileiro e sua batalha com animais selvagens e com o clima inóspito da região. Iniciou sua publicação na Revista Illustrada em 1883, quando foram publicados seus onze primeiros capítulos; o décimo segundo sairia no ano seguinte e o décimo terceiro somente em 1886 (Cirne, 1990). Ela pode ser considerada a primeira história em quadrinhos do gênero aventura produzida no Brasil (Cardoso, 2005). O Cabrião, de Angelo Agostini As aventuras de Zé Caipora, de Angelo Agostini Apesar de Agostini não utilizar balões, pois eles não eram comuns em seu tempo, suas histórias em quadrinhos deixam evidente um soberbo domínio da técnica de contar graficamente uma história. Assim, não causa surpresa que vários estudiosos brasileiros considerem sua obra gráfica um marco dos quadrinhos mundiais. Agostini elaborou outras narrativas gráficas durante mais de trinta anos e foi considerado um modelo para todos aqueles que vieram depois dele, marcando definitivamente a história da narrativa gráfica brasileira (Cirne, 1990). Sua importância é reconhecida nacionalmente, tanto que o dia de aniversário do lançamento de As aventuras de Nhô-Quim, 30 de janeiro, foi proclamado pela Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo, em 1984, como o Dia do Quadrinho Nacional. Trata-se de uma justa homenagem a um artista que tanto fez pela linguagem gráfica sequencial no País. Logotipo de O Tico-Tico, concebido por Angelo Agostini Almanaque d´O Tico-Tico; publicado anualmente, era um dos presentes de Natal prediletos das crianças brasileiras na primeira metade do século XX “O TICO-TICO” A PRIMEIRA REVISTA BRASILEIRA A PUBLICAR HISTÓRIAS EM QUADRINHOS O italiano Angelo Agostini também foi responsável pelo logotipo da primeira revista brasileira que publicou regularmente histórias em quadrinhos no Brasil. Era então o início do século XX. Essa revista, a mais conhecida publicação infantil do País na primeira metade daquele século, tinha o título de O Tico-Tico. Existem várias explicações para esse título: tanto podia fazer referência ao pequeno pássaro brasileiro, tão comum nas várias regiões do Brasil, como também podia se referir à denominação dada às pré-escolas ou escolas de jardim de infância daquela época, chamadas deEscolinhas Tico-Tico. A revista foi publicada de 1905 a 1962, permanecendo, durante décadas, como o título de periódico de mais larga duração no País (em 2008, foi suplantada pela revista O Pato Donald, da Editora Abril, de São Paulo, que iniciou sua publicação em 1950 e ainda continua a editá-la). Elaborada em estilo europeu, a revista O Tico-Tico não era composta exclusivamente por quadrinhos, mas trazia também contos infantis, passatempos, poesias, matérias sobre datas comemorativas etc. Desde seu início, entretanto, incluiu histórias em quadrinhos em suas páginas, tornando possível aos leitores brasileiros o contato com vários personagens dos comics norte-americanos do começo do século XX. O primeiro deles foi Chiquinho, sem dúvida o mais famoso personagem da revista. O caso de Chiquinho é sui generis. Apesar de, durante anos, os leitores terem acreditado que se tratava de uma criação genuinamente brasileira, ele foi, na realidade, criado nos Estados Unidos. Durante os primeiros cinquenta anos de vida da revista, poucos leitores souberam que o verdadeiro nome do personagem era Buster Brown, o atrevido garoto criado em 1902 por um dos pioneiros da Nona Arte, o norte-americano Richard Felton Outcault (1863-1928). Outcault havia criado anteriormente uma série com o personagem Yellow Kid, que até hoje muitos norte-americanos insistem em considerar a primeira história em quadrinhos do mundo. Chiquinho, personagem norte-americano desenhado no Brasil por vários artistas Curiosamente, Chiquinho, além de ser uma presença constante na revista brasileira, continuou a ser visto nas páginas de O Tico-Tico várias décadas depois do desaparecimento do personagem dos jornais norte-americanos, em 1921. Na publicação brasileira, Chiquinho foi desenhado por vários artistas locais, que para ele criaram as mais diferentes aventuras e até mesmo, em 1915, presentearam-no com um companheiro de aventuras, o garoto afro-brasileiro Benjamin. Entre os artistas que estiveram à frente do personagem Chiquinho no Brasil devem ser destacados Luís Gomes Loureiro (1889-1981), Augusto Rocha (? -1939), Alfredo Storni (1881-1966), Paulo Affonso, Osvaldo Storni (1909-1972) e Miguel Hochman. A revista O Tico-Tico também tornou possível a disseminação de vários personagens de histórias em quadrinhos no Brasil, muitos deles produzidos por autores da própria terra, que foram publicados durante anos, representando uma plêiade de interessantes criações artísticas. Entre os personagens estrangeiros que chegaram ao Brasil pelas páginas de O Tico-Tico estavam Mickey Mouse, desenhado por Ub Iwerks (1901-1971) e depois por Floyd Gottfredson (1905-1986), inicialmente denominado Ratinho Curioso; Krazy Kat, de George Herriman (1880-1944), aqui recebeu como título As Aventuras do Gato Maluco, numa curiosa inversão (ou não, segundo alguns) do sexo da protagonista; Little Jimmy, de James Swinnerton (1875-1974); Popeye (com o nome de Brocoió), de Elsie C. Segar (1894-1938); Mutt e Jeff, de Bud Fisher (1885-1954); e o Gato Félix, de Pat Sullivan (1887-1933). Chiquinho e Benjamin, personagens criados no Brasil Por sua vez, entre os personagens criados por autores brasileiros, é importante mencionar Reco-Reco, Bolão e Azeitona, três garotos criados por Luiz Sá (1907- 1979) que foram também muito utilizados em publicidade de diversos produtos durante as décadas de 1950 e 1960; Bolinha e Bolonha, por Nino Borges, uma dupla de trapalhões aparentemente moldada nas famosas duplas cinematográficas cômicas de sua época; Zé Macaco e Faustina, por Alfredo Storni, um casal bastante divertido, similar a tantos outros dos quadrinhos; Lamparina, uma menina afro-brasileira surgida da genialidade de J. Carlos (1884-1950), que também criou para a revista os personagens Carrapicho e Jujuba, em série que trazia episódios divertidos vivenciados por pai e filho; Tinoco, o Caçador de Feras, por Théo (pseudônimo de Djalma Pires Ferreira, 1901-1980), Max Muller, por Augusto Rocha, considerado por Athos Eichler Cardoso o primeiro herói de quadrinhos de aventura do século XX (Cardoso, 2003), uma vez que antecedeu em mais de dez anos a Wash Tubbs, do norte- americano Roy Crane (1901-1977); Bolota, por Paulo Affonso; e Kaximbown e o Barão de Rapapé, por Max Yantok (1881-1964), também tiras cômicas. Reco-Reco, Bolão e Azeitona Em mais de meio século de existência, O Tico-Tico abrigou muitos outros autores nacionais, como Fragusto, Cícero Valladares (?-1937), Heitor, Luís Gonzaga, Leopoldo, Therson Santos, Aloysio, Messias de Mello (1904-1994), Justinus, Regina, Darcy, Percy Deane, Joaquim Souza, Daniel, entre outros (Moya, 1970, p. 202). e Zé Macaco e Faustina, séries quadrinísticas veiculadas na revista O Tico-Tico Bolota, de Paulo Affonso, que também desenhou Chiquinho O Tico-Tico não foi a única revista com quadrinhos a ser criada nos primeiros anos do século XX no Brasil, mas sua popularidade e longevidade acabaram por empanar o brilho de suas contemporâneas, como Juquinha, Guri e Cômico. Além da revista regular, que atingiu 2.096 edições, a editora de O Tico-Tico também publicou anualmente, de 1907 a 1958, o Almanaque d´O Tico-Tico, sempre um grande sucesso entre os leitores. E existiram também vários títulos derivados da revista, como Tiquinho e Pinguinho, dirigidos para crianças menores; Cirandinha, voltada para as meninas; e várias edições especiais sobre temas variados. Kaximbown, de Max Yantok, um dos mais profícuos criadores de personagens de quadrinhos da primeira metade do século XX no Brasil Lamparina, de J. Carlos, desenhista que, segundo consta, foi convidado por Walt Disney para trabalhar nos Estados Unidos, mas não aceitou o convite A importância dessa revista para as histórias em quadrinhos no Brasil foi bastante destacada durante o ano de 2005, quando ela completaria seu centenário de publicação. Em edição comemorativa, seus organizadores afirmam que a revista O Tico-Tico é um marco entre os títulos regulares dirigidos à infância no Brasil. Em primeiro lugar, por ter sido a pioneira em trazer regularmente histórias em quadrinhos, em uma época em que a arte gráfica sequencial não tinha absolutamente qualquer reconhecimento por parte dos intelectuais, dos pais ou dos professores. Em segundo lugar, por se constituir, até o momento, na mais longeva revista infantil já publicada no país, atingindo 56 anos de vida. E, por último, mas talvez não menos importante, por ter preenchido o inconsciente coletivo de várias gerações de jovens brasileiros, que por ela guardaram as mais gratas e pungentes recordações (Vergueiro, Santos, 2005, p. 14). Página de humor da O Tico-Tico, feita pelo desenhista Paulo Affonso O Suplemento Juvenil representou a introdução do modelo de produção dos comics norte-americanos no Brasil A Gazetinha, publicação com personagens norte-americanos que precedeu o Suplemento Juvenil O MODELO NORTE-AMERICANO NO MERCADO BRASILEIRO Apesar da popularidade de Chiquinho entre os leitores brasileiros, que, de certa maneira, pode ser vista como a introdução das histórias em quadrinhos norte- americanas no País, ela constituiu um fato isolado. Esse moleque travesso foi acompanhado apenas por alguns poucos personagens estrangeiros, publicados também na revista O Tico-Tico, como o já mencionado Gato Félix, de Pat Sullivan. De fato, no entanto, é possível defender que a real invasão dos Estados Unidos só ocorreria na primeira metade da década de 1930, com duas publicações ligadas a jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Seguindo com a figura estilística da invasão, pode-se dizer que o caso do jornal paulistano A Gazeta constituiu muito mais uma infiltração, um conhecimento de terreno de uma potência estrangeira sobre o ambiente a ser dominado. Isso ocorre quando o jornal começa a publicar um suplemento denominado Gazeta Infantil em setembro de 1929, que logo foi carinhosamente batizado pelos leitores como A Gazetinha. Inicialmente, foi publicado uma vez por semana e depois aumentou para duasou três vezes semanais a frequência de sua presença em bancas. Isso, por si só, já demonstra sua popularidade entre os leitores da época. Em seu primeiro período de publicação, de 1929 a 1930, A Gazetinha trazia poucos quadrinhos norte-americanos: o mais importante era certamente Little Nemo in Slumberland, de Winsor McCay (1869-1934). No entanto, em seu segundo e mais produtivo período, de 1933 a 1940, esse suplemento publicou muitas histórias em quadrinhos estrangeiras, que chegavam ao Brasil logo depois de publicadas em jornais do exterior ou em revistas de histórias em quadrinhos. É importante, por exemplo, mencionar que o personagem Superman passou a ser publicado pela Gazetinha em abril de 1939, somente um ano depois de sua estreia nos Estados Unidos; além desse personagem, outras séries estrangeiras poderiam ser igualmente mencionadas, como Brick Bradford, O Fantasma e Barney Baxter. Além de séries norte-americanas, A Gazetinha também publicou muitos autores brasileiros, como Nino Borges, Zaé Jr., Amleto Sammarco, Messias de Mello (1904-1994), Belmonte (1897-1947) e Jayme Cortez (1926-1987). Este último autor era de origem portuguesa, mas teve grande influência sobre as histórias em quadrinhos brasileiras, como se verá adiante. Depois de breve interrupção durante a Segunda Guerra Mundial, A Gazetinha retornou às bancas de jornal e foi publicada até a década de 1950. Por outro lado, se considerarmos a aclamação popular como o melhor indicador do êxito de uma publicação, seria talvez mais apropriado recordar o ano de 1934 e considerá-lo como o de real expansão dos quadrinhos norte-americanos no Brasil. Nesse ano, uma publicação chamada inicialmente Suplemento Infantil, título posteriormente modificado para Suplemento Juvenil, foi lançada na cidade do Rio de Janeiro, fruto da iniciativa do jornalista Adolfo Aizen (1907-1991), que havia permanecido durante algum tempo nos Estados Unidos, onde entrara em contato com os suplementos impressão colorida dos jornais norte- americanos. Desenho do quadrinista Messias de Mello para o personagem Audaz, o demolidor, originalmente uma produção mexicana Três legionários de sorte, história em quadrinhos de aventura elaborada por Carlos Arthur Thiré Quando retornou ao Brasil, Aizen imaginou que o modelo desses suplementos poderia ser transplantado para a nossa realidade e o propôs ao jornal em que trabalhava, mas não teve sua proposta devidamente apreciada. Buscou então outros jornais, terminando por encontrar guarida no A Nação, no qual conseguiu concretizar a publicação de vários suplementos. Entre eles, o dirigido às crianças foi o de maior aceitação e, em seu décimo quinto número, se converteu em uma publicação independente, saindo às terças, quintas e sábados, em cores e formato tabloide (Moya, 1970: 202-203). Mas não apenas histórias em quadrinhos publicava o Suplemento Juvenil. Ele também trazia matérias com finalidades culturais ou educativas, como a série denominada Aprender a aprender ou Como estuda o Rabedeco, na qual um garoto contava a seus amigos leitores do Suplemento como “descobriu os meios mais práticos de estudar, fazendo ao mesmo tempo revelações muito interessantes sobre o que aprende nas aulas particulares com o professor Rafael Murilo” (Silva, 2003, p. 34). Outro aspecto importante da contribuição do Suplemento Juvenil à popularização dos quadrinhos no Brasil foi a possibilidade oferecida a muitos autores brasileiros para que colaborassem em suas páginas. As aventuras de Roberto Sorocaba, uma história em quadrinhos de aventuras elaborada por Monteiro Filho A participação dos artistas locais começou já no primeiro número do Suplemento, que trazia o início da aventura intitulada Os exploradores da Atlântida ou As aventuras de Roberto Sorocaba. Criada nos moldes das séries de aventuras distribuídas pelos syndicates norte-americanos para jornais do mundo inteiro, a história tinha roteiro e desenhos de Monteiro Filho (1909-1992). Outros autores brasileiros que participaram do Suplemento foram Renato Silva (1904-1981), com Nick Carter versus o Fantasma Negro e A Garra Cinzenta; Carlos Arthur Thiré (1917-1963), com Rafles e Três legionários de sorte; e Fernando Dias da Silva (1920-?), com O enigma das pedras vermelhas, para apenas citar alguns nomes (Moya, 1970, p. 203-204; Silva, 2003, p. 43-44). O Suplemento Juvenil publicava a maioria dos personagens importantes dos quadrinhos da época, como Flash Gordon, Tarzan, Dick Tracy, Príncipe Valente (Prince Valiant), Agente Secreto X-9 (Secret Agent X-9), Jim das Selvas (Jungle Jim), Mickey Mouse e outros, em geral com êxito estrondoso. Assim, devido à sua distribuição nacional – ao contrário do que sucedia com A Gazetinha, que era distribuída principalmente no Estado de São Paulo – o Suplemento conseguiu a familiarização dos leitores brasileiros com as mais populares séries quadrinísticas produzidas nos Estados Unidos, fazendo os produtos da linguagem gráfica sequencial assumirem o primeiro lugar na preferência dos jovens leitores. O Globo Juvenil, a resposta da concorrência ao Suplemento Juvenil Como resultado do sucesso do Suplemento Juvenil, em pouco tempo outras publicações infantis foram lançadas no mercado, colaborando para tornar as histórias em quadrinhos norte-americanas ainda mais conhecidas do público brasileiro. O título que mais se destacou nesse aspecto foi O Globo Juvenil, também do Rio de Janeiro, tabloide publicado pelo jornal O Globo. Em O Globo Juvenil foram publicados personagens como Ferdinando (Li’l Abner), de Al Capp (1909-1979); Brucutu (Alley Oop), de Vincent T. Hamlin (1900-1993); Zé Mulambo (Abbie an’ Slats), de Raeburn Van Buren (1891-1987); Don Dixon, de Carl Pfeufer (1910-1980) etc. A concorrência entre as duas publicações se tornou mais exacerbada. Cada uma delas buscava apresentar aqueles personagens que mais agradavam a seus leitores, criando campanhas de marketing bastante agressivas para a época. O mercado competitivo também deu origem à maior variedade de publicações nas bancas, o que acabou beneficiando bastante os leitores. Em 1937, o Suplemento lançou outra revista, publicada nas quartas, sextas e domingos, em tamanho meio tabloide, Mirim, no que também foi imitado pelo O Globo, editando Gibi, que passou a ser posteriormente Gibi Mensal com historietas completas tipo comic books, com o Capitão Marvel, Príncipe Submarino, Tocha Humana (Moya, 1970, p. 205). Gibi Mensal, título derivado de Gibi Criada em 1939, a revista Gibi se tornou tão popular no Brasil que acabou sendo utilizada para designar qualquer revista de histórias em quadrinhos, prática que permanece até hoje. Nos últimos anos, no entanto, leitores mais seletivos e exaltados passaram a repudiar essa denominação, entendendo que ela tem forte conotação pejorativa, com sua aplicação generalizando o meio com material impresso destinado exclusivamente ao público infantojuvenil. Na sociedade brasileira em geral, por outro lado, o termo continua a ser utilizado de forma carinhosa em referência às revistas em quadrinhos, muitas vezes com o uso do diminutivo, gibizinho. (Vergueiro, Santos, 2010) Com o tempo, a revista Gibi deu origem também a Gibi Mensal, que se manteve nas bancas até o início da década de 1960, com mais de 300 edições publicadas e com a divulgação de dezenas de personagens dos quadrinhos norte-americanos. Em 1939, numa manobra comercial até hoje não muito claramente explicada, a maioria dos personagens publicados no Suplemento passou para O Globo Juvenil. Com isso, o primeiro permaneceu somente com Tarzan, de Burne Hogarth (1911-1986); Terry e os piratas, de Milton Caniff (1907-1988); e Dick Tracy, de Chester Gould (1900-1985), perdendo grande parte do atrativo que tinha para seus leitores (Silva, 2003, p. 29). Nesse sentido, como afirma Gonçalo Júnior (2004, p. 71), a postura do criador do Suplemento Juvenil em relação à perda dos personagens muito populares ajudaria a criar um mito em torno de sua figura. Numa demonstração de respeito aos leitores,publicou, no último capítulo de cada série dos personagens, curiosos avisos. Num deles, escreveu: “O que estarão Flash Gordon e os outros vendo fora da caverna? Quem são esses estranhos personagens da neve? Vejam a continuação no O Globo Juvenil, futuramente”. Infelizmente, a perda de seus personagens mais populares decretou também o início da derrocada do Suplemento Juvenil, que a partir daí entrou em uma crise da qual nunca mais conseguiu se recuperar, tendo finalmente que encerrar suas atividades em 1945. No entanto, o fechamento da publicação não representou o fim do caminho para Adolfo Aizen, nem seu afastamento da publicação de histórias em quadrinhos. Pelo contrário, de forma entusiasmada, ele se lançou por inteiro à carreira de editor, estabelecendo sua própria casa publicadora, a primeira no País a se dedicar quase exclusivamente à publicação de revistas de histórias em quadrinhos. Guri, revista que seguiu o mesmo modelo do Gibi Edição Maravilhosa, popular revista da EBAL, que transpunha para a linguagem dos quadrinhos as obras clássicas da literatura brasileira AS PRIMEIRAS EDITORAS DE QUADRINHOS NO BRASIL Com o encerramento das atividades do Suplemento Juvenil, pode-se dizer que uma nova fase no mercado brasileiro de quadrinhos foi iniciada, marcada pelo surgimento de editoras especializadas na publicação de revistas em quadrinhos. Essas editoras se estabeleceram principalmente na região Sudeste com destaque para os Estados mais desenvolvidos economicamente, São Paulo e Rio de Janeiro. Essa situação permanece quase inalterada no País, mais de oitenta anos depois de a primeira editora abrir as suas portas. Por seu conteúdo e pela distribuição nacional, as revistas em quadrinhos publicadas por essas editoras pioneiras se tornaram muito populares entre as crianças brasileiras, criando um incentivo irresistível para a prática do colecionismo. Surgidas pouco antes da televisão, um eletrodoméstico que em seu início representou um meio de entretenimento restrito às classes mais privilegiadas da população, as revistas em quadrinhos vieram a se constituir então no produto predileto dos jovens leitores brasileiros, que nelas tinham praticamente a única possibilidade de diversão a seu alcance. Muitos dos atuais leitores de quadrinhos no Brasil têm ideia muito vaga a respeito dos primeiros tempos de produção de quadrinhos ou da grande variedade de títulos produzidos pelas editoras de quadrinhos criadas nas décadas de 1940 a 1960, muitas delas hoje desaparecidas. Assim, um panorama das atividades dessas primeiras editoras pode ser visto a seguir, com enfoque naquelas que mais impacto tiveram para a consolidação de um mercado de quadrinhos no País. EBAL (EDITORA BRASIL-AMÉRICA LTDA.) Fundada por Adolfo Aizen em 1945, depois do fechamento do Suplemento Juvenil, essa editora foi, durante mais de trinta anos, uma das maiores produtoras de revistas de histórias em quadrinhos da América do Sul. Seu nome, EBAL, é a sigla formada pelas iniciais da denominação oficial da editora, ou seja, Editora Brasil-América Limitada, evidenciando as relações com o grande vizinho do Norte a que Aizen buscava dar continuidade com a nova empresa editorial. Deve ser, portanto, grafado sempre em maiúscula. Ela começou suas atividades de maneira bastante modesta, com poucos títulos. A primeira revista que publicou se chamou Seleções Coloridas, lançada em julho de 1946, em coedição com a Editora Abril de Buenos Aires. O título representou o início das publicações periódicas com os personagens Disney no Brasil. No ano seguinte, a EBAL, já então caminhando sozinha, colocou nas bancas brasileiras títulos como O Herói e Superman, ampliando seu catálogo de revistas em quadrinhos. Seleções Coloridas, a primera revista da EBAL A EBAL foi responsável pela popularização dos principais super-heróis norte- americanos no Brasil, os mais importantes personagens das editoras National/DC Comics, como Super-Homem (Superman), Batman, Mulher Maravilha (Wonder Woman) etc., e, posteriormente, pela introdução no Brasil dos personagens da Marvel Comics, como Capitão América (Captain America), Homem-Aranha (Spider-Man), Demolidor (Devil) etc. Álbum Gigante, revista que tinha a mesma proposta do título Edição Maravilhosa Adolfo Aizen, o diretor da empresa, era um emprendedor muito ativo e verdadeiro entusiasta dos quadrinhos, sempre preocupado com a aceitação dessa linguagem narrativa pelo povo brasileiro, principalmente pelos pais e professores, que, em sua opinião, representavam o público a ser cortejado e cativado em favor dos quadrinhos. Durante os mais de trinta anos de publicação profissional de sua empresa, ele se notabilizou por várias iniciativas que visavam ampliar a popularização das histórias em quadrinhos no País e, também, granjear apoio para a criação de personagens ou séries de quadrinhos genuinamente brasileiros. A EBAL publicou muitas revistas de histórias em quadrinhos feitas por artistas brasileiros. É importante destacar algumas delas: E DIÇÃO M ARAVILHOSA E Á LBUM G IGANTE : publicados durante os anos 1950 e 1960, esses dois títulos adaptaram à linguagem dos quadrinhos as obras mais importantes da literatura brasileira, como Iracema e O guarani , de José de Alencar (1829-1877); Mar morto , Jubiabá e Gabriela, cravo e canela , de Jorge Amado (1912-2001); Memórias de um sargento de milícias , de Manuel Antônio de Almeida (1830-1861); Menino de engenho e Doidinho , de José Lins do Rego (1901-1957); A muralha , de Dinah Silveira de Queiroz (1911-1982), para citar apenas alguns dos autores mais conhecidos. Grandes Figuras em Quadrinhos, revista que trazia a biografia dos heróis da pátria brasileira A revista Edição Maravilhosa constituiu-se, inicialmente, na tradução para a língua portuguesa da revista em quadrinhos norte-americana Classics Illustrated. No entanto, percebendo o benefício potencial do título como elemento para maior popularização dos quadrinhos no Brasil, Adolfo Aizen foi pouco a pouco abrindo a série para a adaptação de grandes obras da literatura brasileira. Assim, já no início de 1950, com o número 24, quando a revista completava dois anos de publicação, ele apresentava em suas páginas uma história em quadrinhos derivada do título O guarani, de José de Alencar, ilustrado pelo desenhista haitiano radicado no Brasil André Le Blanc (1921-1998). As obras literárias brasileiras publicadas na Edição Maravilhosa e em Álbum Gigante eram realizadas por grandes artistas dos quadrinhos brasileiros, destacando-se, por sua qualidade, autores como Nilo Cardoso, Aylton Thomaz (1934-2009), Gutemberg Monteiro (1916-2012), Ramon Llampayas, José Geraldo Barreto Dias, Nico Rosso (1910-1981), José Antônio Rossin (1934- 1956) e Álvaro de Moya (Cirne, 1990, p. 32-33). Grande parte das capas dessa série era ilustrada à mão pelo artista Antonio Euzebio (1927-?). Durante a década de 1970, a EBAL colocou no mercado outra coleção, voltada à versão de obras clássicas da literatura brasileira em histórias em quadrinhos, dessa vez denominando a revista com o título de Clássicos Ilustrados da Literatura Brasileira. No entanto, a experiência não foi tão bem recebida quanto provavelmente se esperava, chegando a ser publicados somente pouco mais de uma dezena de números, todos constituindo reedições de obras anteriormente publicadas na Edição Maravilhosa ou na Álbum Gigante. G RANDES F IGURAS EM Q UADRINHOS , título que também foi publicado nas décadas de 1950-1960, apresentava na forma de histórias em quadrinhos as biografias de grandes personagens da história brasileira, como o presidente Getúlio Vargas (1882-1954), o poeta Castro Alves (1847-1871), o estadista Rui Barbosa (1849-1923), o empresário Irineu Evangelista de Sousa, o Visconde de Mauá (1813-1889), o imperador dom Pedro II (1825-1891), o conspirador e mártir da Independência brasileira Tiradentes (1746-1792), o escritor Monteiro Lobato (1882-1948) e vários outros. Entre os autores locais que ilustraram essas biografias, é importante destacaro trabalho do italiano Nico Rosso, inigualável na pesquisa de vestuários e ambientação das diferentes épocas, além de possuir um traço excepcional, com características bastante específicas. Rosso foi um trabalhador incansável e iria posteriormente dedicar-se à elaboração de quadrinhos de terror para diversas editoras da cidade de São Paulo, com uma produção variada e de alta qualidade. S ÉRIE S AGRADA . No Brasil, os títulos de revistas em quadrinhos de conteúdo religioso publicados por editoras comerciais parecem ter inicialmente surgido mais como uma forma de granjear respeito e simpatia para os produtos da Nona Arte do que propriamente como uma necessidade específica do mercado. Esse parece ter sido o caso da Série Sagrada, publicada de 1953 a 1959 pela EBAL, com uma segunda edição a partir de 1969, com biografias dos santos da Igreja Católica (Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, 1970). Ela se constituiu na tentativa mais eficiente do editor Adolfo Aizen – que, por sinal, era judeu – de cair nas graças da Santa Madre Igreja. A revista Série Sagrada concentrava-se, principalmente, na vida dos santos da Igreja Católica, mas Aizen também produziu álbuns com a quadrinização da Bíblia A coleção trazia a história de vida dos santos e personalidades de destaque da Igreja, mostrando detalhes de sua criação, as batalhas ou experiências que eles haviam vivenciado no seu caminho para a divulgação da fé e os milagres que haviam protagonizado. Grande parte das histórias foi produzida originalmente na Itália, ocorrendo no Brasil apenas a tradução para o português. Com o tempo, no entanto, os materiais importados começaram a rarear e o editor brasileiro passou a encomendar a elaboração das biografias quadrinizadas a artistas locais, ainda que nem sempre lhes tenha dado crédito na autoria das histórias da revista. Eram meados do século XX, o que hoje se denominaria tempos pré-internet, quando a informação não estava tão facilmente disponível como agora, obrigando os autores dos quadrinhos a buscas em bibliotecas e enciclopédias, que nem sempre lhes eram acessíveis. Dos santos mais conhecidos, pululavam informações; dos “menores”, o que se tinha era muito pouco, no máximo locais e datas de nascimento e morte, além do relato de alguns poucos milagres. Assim, os autores nacionais tiveram muitas vezes que improvisar nas biografias, floreando detalhes da vida dos santos, inventando feitos milagrosos e romantizando sua jornada terrena. É interessante, nesse sentido, salientar que toda essa liberdade criativa recebia uma espécie de aval eclesiástico antes da publicação, pois a coleção era editada sob a orientação de um representante da Igreja, o cônego Antônio de Paula Dutra, como pode ser comprovado na contracapa de vários fascículos. Em algumas revistas, além da assinatura e aprovação do cônego, vinha também o aval do bispo de Niterói, que, dessa forma, dava a aprovação oficial da Igreja ao conteúdo quadrinizado. Além dessa revista periódica, a editora de Aizen também publicou edições especiais de caráter religioso, como as versões em quadrinhos da Bíblia (Antigo e Novo Testamento) e a História de Jesus, todas cortejando a Igreja Católica e muitas delas também trazendo a aprovação eclesiástica quanto a seu conteúdo. A única concessão que o editor parece ter feito à sua origem judaica talvez tenha sido o álbum em quadrinhos com a biografia de Theodor Herzl (1860-1904), fundador do sionismo político. H ISTÓRIA DO B RASIL EM Q UADRINHOS , com arte de Ivan Wasth Rodrigues (1927-2007) e texto de Gustavo Barroso (1888-1959), membro da Academia Brasileira de Letras, e A Independência do Brasil , com desenhos de Eugênio Colonnese, ofereciam aos jovens brasileiros uma versão mais interessante da história do País do que aquela que recebiam em livros de textos escolares, ainda que, substancialmente, não houvesse grande diferença entre elas, pois apresentavam a mesma visão sobre um fato histórico específico, variando apenas o formato utilizado. História do Brasil em Quadrinhos: a linguagem dos quadrinhos a serviço da pátria Tudo leva a crer que, também dessa vez, tratava-se de outra estratégia de convencimento do editor brasileiro. De fato, muitas obras da editora carioca, que também possuíam orientação histórica e didática, foram publicadas ao longo de duas décadas de atuação na edição de revistas e álbuns de quadrinhos, provavelmente com o intuito principal de ajudar a diminuir os preconceitos que pais e professores tinham em relação aos quadrinhos. O quanto eles realmente chegaram a ajudar nesse sentido, todavia, é algo de difícil avaliação. Aliada à publicação das obras, Aizen também promovia visitas de escolas e de autoridades educacionais à sede da editora, as quais ele divulgava com destaque nas contracapas de suas publicações. Entre as obras de caráter histórico e/ou patriótico publicadas pela EBAL podem ser destacados títulos como A libertação dos escravos em quadrinhos (1970), com arte de Eugênio Colonnese; A viagem da família real em quadrinhos (1965), com arte de Ramón Llampayas; Brasília: coração do Brasil, edição especial da revista Epopeia (1959), com texto de Nair da Rocha Miranda e desenhos de Llampayas; Cartilha do petróleo em quadrinhos (1974), com desenhos de Eugênio Colonnese; Dos balões de Santos Dumont à viagem à Lua (1973), de F. Sampaio e Monteiro Filho; e A Independência do Brasil em quadrinhos, este último com texto de Pedro Anísio e desenhos de Colonnese. C ASA-GRANDE & SENZALA EM QUADRINHOS (1981), a obra-prima do sociólogo e antropólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987), que narrava as origens da cultura brasileira, adaptada para a linguagem das histórias em quadrinhos pela pena magistral de Ivan Wasth Rodrigues (1927-2007). A obra foi várias vezes reeditada pela própria EBAL e, no início de 2000, em comemoração ao centenário de nascimento de Gilberto Freyre, foi publicada em cores pela Abegraph/Editora Letras & Expressões, de São Paulo, mais uma evidência de sua atualidade e qualidade artística. A EBAL também tentou desenvolver personagens brasileiros em revistas em quadrinhos e chegou mesmo a apostar forte, no final da década de 1960 e início de 1970, no título O Judoka, que mostrava as aventuras do herói que utilizava seus conhecimentos de artes marciais para combater os delinquentes, em geral meliantes de segunda categoria. O personagem, criado por Pedro Anísio e Eduardo Baron, chegou a atingir um relativo sucesso, sendo publicado até 1973 e tendo até mesmo uma versão cinematográfica nesse mesmo ano, protagonizada pelo ator Pedro Aguinaga. Casa-grande & senzala em quadrinhos, versão quadrinizada do estudo sociológico de Gilberto Freyre Infelizmente, dificuldades econômicas nas décadas de 1970 e 1980 terminaram por levar a EBAL a abandonar o mercado de histórias em quadrinhos depois de mais de quarenta anos de um importante trabalho por esse meio de comunicação de massa no Brasil. A importância dessa contribuição foi expressa com muita propriedade pelo estudioso Ezequiel de Azevedo (2007, p.38), em obra que elaborou para homenagear a editora: Pela Ebal [sic] tivemos, aproximadamente, dez mil revistas em quadrinhos publicadas, além de mil e setecentos livros infantis, o que fez a alegria de gerações e gerações de leitores, juntamente com o desespero de muitos colecionadores. A Ebal [sic] conseguiu ser a maior editora de quadrinhos e também a maior editora de livros infantis. Tal volume de revistas servia para aplacar a insaciável sede de leitura dos milhões de leitores. O quadrinho, que era considerado pernicioso nos anos quarenta e cinquenta, ganhou, graças a Adolfo Aizen, o status de arte. […] A Ebal [sic] fazia quadrinhos para todos os gostos, todas as idades, foram quase trezentas revistas de série publicadas. RGE (RIO GRÁFICA E EDITORA)/GLOBO Essa editora representava, na realidade, o setor de histórias em quadrinhos das organizações O Globo, já à época um conglomerado de meios de comunicação, responsável por jornais, estações derádio, diferentes e variadas publicações de entretenimento e, posteriormente, pela mais potente rede de televisão do País. Ela foi, desde seu começo, um competidor direto da EBAL. Enquanto esta publicava os super-heróis norte-americanos da National/DC Comics e depois os da Marvel Comics, a RGE era praticamente a única editora dos personagens do King Features Syndicate, entre os quais se destacavam o Fantasma (The Phantom), Mandrake, Ferdinando (Li´l Abner), Popeye etc., além de personagens de editoras norte-americanas menores, como a Fawcett, que publicava os quadrinhos do Capitão Marvel. Aparentemente, a RGE jamais teve uma política ostensiva de prioridade para as histórias em quadrinhos produzidas por autores brasileiros, guiando-se muito mais pelas necessidades de mercado e pelas oportunidades que algumas vezes vislumbrava. Ainda assim, não hesitou, em diversas ocasiões, em utilizar autores nacionais para elaborar histórias de personagens norte-americanos, quando aquelas que recebiam do produtor não davam conta de atender às necessidades ou preferências dos leitores brasileiros. Existem várias histórias pitorescas, facilmente comprovadas por publicações disponíveis no mercado, sobre histórias de personagens consagrados como Fantasma, Águia Negra, Rocky Lane, Recruta Zero, entre outros, com roteiros e/ou desenhos elaborados por artistas nacionais, como Walmir Amaral e Primaggio Mantovi. Geralmente, os artistas não eram creditados, uma vez que, presumivelmente, o desenvolvimento dessas histórias não havia sido autorizado pelo detentor dos direitos originais de publicação do personagem norte-americano. Mesmo que não tenha adotado propriamente uma política específica quanto aos autores nacionais, a RGE, em determinados momentos, propiciou o aparecimento de personagens criados localmente, em geral com alguma ligação com o mundo do entretenimento. Foi dessa forma que alguns autores brasileiros conseguiram ter materiais publicados pela RGE. Entre esses autores podem ser destacados os nomes de Edmundo Rodrigues (1935-2012), responsável pela versão quadrinizada das peripécias de Jerônimo, o Herói do Sertão, uma história de aventura ambientada no interior do Brasil, grande sucesso do rádio nos anos 1950, e por 22-2000 Cidade Aberta, série policial originalmente criada, em 1965-1966, para a televisão e Flavio Colin (1930-2002), depois substituído por Getúlio Delphim, com o detetive O Anjo, igualmente criado como produção radiofônica. 22-2000, Cidade Aberta, e Jerônimo, ambos de Edmundo Rodrigues Um fato interessante a se destacar sobre a RGE é que ela pubicou no Brasil uma revista com o super-herói Capitão Marvel (Captain Marvel), durante muitos anos, permanecendo com o personagem nas bancas mesmo depois que a editora original, a Fawcett Comics, firmou um acordo com os editores do Super-Homem (que a acusavam de plágio de seu personagem mais famoso) para deixar de publicar as aventuras do Mortal mais Poderoso da Terra nos Estados Unidos. Aparentemente, a DC Comics não era tão zelosa da publicação do personagem em outros países, pois não há relatos sobre dificuldades da editora carioca com a publicação da revista, que também chegou a incluir as histórias de um herói semelhante produzidas no Reino Unido, posteriormente denominado Miracleman. Durante os anos 1980, a RGE mudou seu nome para Editora Globo, uma denominação que antes lhe estava proibida devido a questões de registro de marcas no País, e passou sua sede para a cidade de São Paulo (antes estava no Rio de Janeiro). A segunda metade dessa década e o começo da de 1990 representaram tempos áureos para a editora, que ampliou seu catálogo de revistas distribuídas em bancas, com o acréscimo dos títulos produzidos pela empresa Mauricio de Sousa Produções Artísticas, em 1987 e a publicação de minisséries e personagens de quadrinhos destinados ao público adulto, como V de Vingança, de Alan Moore e David Lloyd; Sandman, de Neil Gaiman; e Akira, de Katsuhiro Otomo. No entanto, pode-se afirmar que esse período de ousadia da Editora Globo foi bastante breve. Já em meados da década de 1990 ela dava sinais de mudança de rumos. Foi reduzindo de maneira gradual sua participação no mercado de histórias em quadrinhos, mantendo-se durante os anos seguintes apenas com os títulos infantis de Mauricio de Sousa e um ou outro título passageiro, em geral ligado a personagens do mundo da televisão ou dos esportes. Em 2007, com o afastamento de Mauricio da Editora Globo, ela ficou com poucas publicações regulares no mercado, destacando-se O Menino Maluquinho, Julieta e Junim, de Ziraldo Alves Pinto; O Sítio do Pica-Pau Amarelo, Emília e Cuca, inspirados nos livros e personagens criados por Monteiro Lobato; e Cocoricó, revista baseada em um programa infantil da TV Cultura, emissora educativa do governo do Estado de São Paulo. Cocoricó, personagens de um programa de TV que se tornaram revista em quadrinhos O Menino Maluquinho, baseado em um livro infantil, que também se transformou em filmes de longa-metragem, peça de teatro e série de TV No início de 2008, a então Editora Globo resolveu descontinuar seus títulos de revistas de histórias em quadrinhos, optando por produzir materiais em quadrinhos para um público, digamos assim, mais elitizado, ou seja, concentrando sua produção na publicação de álbuns e graphic novels de maior qualidade gráfica, destinados à distribuição exclusiva em livrarias. Continua ainda no mercado, seguindo fielmente essa política de publicação de histórias em quadrinhos, podendo-se dizer que a aplica de forma bastante prudente, para não dizer relativamente tímida. EDITORA O CRUZEIRO Localizada na cidade do Rio de Janeiro, essa editora se tornou famosa pela publicação de O Cruzeiro, a mais importante revista de variedades do Brasil durante a primeira metade do século XX. Na década de 1940, ela começou também a publicar revistas em quadrinhos, principalmente com personagens dirigidos a crianças pequenas, como Luluzinha (Little Lulu), Bolinha (Tubbie), Gasparzinho (Casper), Manda-Chuva (Top Cat), Zé Colmeia (Yogi Bear) e outros. Zé Colmeia,um entre muitos títulos de revistas em quadrinhos publicados pela Editora O Cruzeiro Em 1959, com o objetivo de se preparar para a eventualidade de promulgação de uma lei que obrigaria as editoras brasileiras de quadrinhos a reservar 50% de sua produção para histórias produzidas no Brasil, a Editora O Cruzeiro iniciou a publicação de uma revista chamada Pererê, que trazia histórias de um grupo de personagens organizados ao redor do saci Pererê, um personagem do folclore brasileiro que foi representado nas histórias como um menino. Era de autoria de Ziraldo Alves Pinto, que posteriormente se converteu em um dos mais conhecidos artistas do País, criando o já mencionado personagem Menino Maluquinho e produzindo muitos livros infantis, sátiras, charges, cartuns em jornais etc. Apesar de a revista Pererê ter sido publicada por somente quatro anos, tendo sido descontinuada em março de 1964, não seria um despropósito considerá-la como a mais importante e genuína contribuição brasileira à indústria das histórias em quadrinhos, já que os temas ressaltados nas histórias do Pererê tinham abordagem muito regional e, principalmente, tratavam aspectos bastante peculiares da herança cultural brasileira (Vergueiro, 1990). A revista se transformou em publicação cult nas décadas seguintes, sendo até hoje reconhecida como uma das mais características criações do panorama da história em quadrinhos brasileira. Pererê, o mito transformado em histórias em quadrinhos por meio da genialidade de Ziraldo Alves Pinto Infelizmente, esse título não conseguiu incentivar o aparecimento de outras produções nacionais na Editora O Cruzeiro, que só publicou mais uma revista de um personagem nativo, o Dr. Macarra, criado pelo cartunista Carlos Estêvão (1921-1972), pois a lei anteriormente mencionada jamais chegou a ser colocada em prática devido à interrupção dos governos civis pelo golpe militar de março de 1964e à oposição das grandes editoras de quadrinhos. A Editora O Cruzeiro finalizou suas atividades durante a década de 1970. Já era, então, somente uma sombra do que havia sido anteriormente. EDITORA ABRIL Criada em 1950, na cidade de São Paulo, essa editora foi, desde então, responsável pela publicação das histórias em quadrinhos Disney no Brasil. Seu início, até mesmo, apresenta uma relação umbilical com a publicação de quadrinhos: depois de uma ou outra publicação não muito expressiva na área editorial, ela começou a deslanchar empresarialmente a partir da publicação da revista O Pato Donald (Donald Duck), trazendo basicamente as histórias desse personagem. Com o número 479, no entanto, uma mudança radical ocorreria: na capa da publicação, em vez do logotipo da revista do pato, estava a expressão “O Pato Donald apresenta” e, em tamanho maior, o que se tornaria o logotipo quinzenal da publicação – Zé Carioca. Assim, desde essa edição, a revista passou a ser denominada Zé Carioca nos números ímpares e a concentrar em suas páginas histórias especialmente criadas para o papagaio brasileiro bon vivant, criado pelos Estúdios Disney para o filme Alô, Amigos! (1942), enquanto as edições pares continuavam com o título e o personagem originais (Santos, 2002). Zé Carioca, o papagaio brasileiro criado para a política de boa vizinhança dos Estados Unidos, recebe um título próprio no Brasil Devido à aceitação do público, a revista O Pato Donald foi seguida por outras de quadrinhos Disney, como Mickey, em 1952, e Tio Patinhas (Uncle Scrooge), que continuam a ser publicadas até hoje no Brasil, e muitas outras do universo Disney que deixaram de ser publicadas por um motivo ou outro, como Almanaque Disney, Margarida (Daisy) e Pateta (Goofy). Primeiro número da revista Mônica, início do império do quadrinista Mauricio de Sousa Em 1970, a Editora Abril, buscando aumentar sua participação no mercado de histórias em quadrinhos, iniciou a publicação do título Mônica, que trazia as histórias de um grupo de crianças brasileiras, com situações que giravam em torno dessa personagem, uma menina de força excepcional e grande personalidade, que dominava todos os demais. Criada pelo quadrinista Mauricio de Sousa, a personagem e seus amigos, posteriormente conhecidos nacionalmente como A Turma da Mônica, logo se revelaram ótima iniciativa em prol do quadrinho nacional, caindo no gosto dos leitores brasileiros. Em pouco tempo, a Editora Abril entendeu ser viável publicar mais títulos desse autor. Assim, em 1973, surgiu a revista Cebolinha, seguida, alguns anos depois, em 1982, por Cascão e Chico Bento, este último um personagem do ambiente rural brasileiro, que se afastava do modelo de criança vivendo em um ambiente urbano de características universais, o espaço em que os personagens das outras revistas protagonizavam suas histórias. Todos esses títulos tiveram êxito contínuo nas mãos da Editora Abril, processo que se concluiu ao final de 1986, quando Mauricio de Sousa encerrou seu contrato com a editora e passou a publicar seus personagens pela Editora Globo, onde permaneceu até o final de 2006. Em 1974, a Editora Abril fez outra tentativa no sentido de publicar mais quadrinhos de autores brasileiros. Lançou uma revista com material variado, exclusivamente com autores nacionais, a Crás!. Originalmente criada para abrigar apenas autores externos à editora, de forma a desestimular qualquer comentário sobre privilégio aos autores da casa, a editora, no entanto, teve muita dificuldade para manter a periodicidade da revista. Segundo Primaggio Mantovi, à época trabalhando na editora, isso ocorreu devido, principalmente, a dificuldades para receber os materiais dos autores, que muitas vezes entregavam as histórias com pouco tempo para a preparação da edição, principalmente “por desconhecerem a própria capacidade de produção” e “por nunca terem trabalhado para uma editora de grande porte”. O artista relembra, ainda, que para o nº 1 ir pra gráfica, o Claudio de Souza teve de “quebrar” sua proposta inicial e pedir socorro ao pessoal da casa: criar (a toque de caixa!) as páginas que faltavam pra fechar a edição, caso contrário a revista não estaria “presente” no dia do seu lançamento! Dessa forma, infelizmente, o título durou apenas seis números, ainda que trouxesse trabalhos magistrais de autores como Jayme Cortez (1926-1987), José Lanzellotti (1926-1992), Renato Canini (1936-2013), Ruy Perotti (1936-2005), Ciça, do próprio Primaggio Mantovi e de Waldyr Igayara de Souza (1934-2002), entre outros. De Igayara partiu outra iniciativa da Editora Abril para valorização do artista nacional, o “Projeto Tiras”. Lançado em 1978, tinha a coordenação do jornalista Wagner Augusto e a direção do cartunista Ruy Perotti, contando inicialmente com onze autores nacionais, entre os quais Izomar Camargo, Henrique Farias, Claudino, Paulo Paiva, Renato Canini, Paulo José, os irmãos Airon e Marcelo “Verde” Lacerda, Jorge Kato, Clóvis Vieira, Guy Lebrun, Primaggio Mantovi e Carlos Avalone. Com essa proposta, a editora visava criar um sistema de distribuição de tiras diárias para os jornais brasileiros, semelhante aos que existiam no mercado norte-americano. O projeto durou alguns poucos anos e ajudou a divulgar o trabalho de vários artistas nacionais. Em 1979, a Editora Abril assumiu a publicação das histórias em quadrinhos de super-heróis da Marvel Comics no Brasil e, alguns anos depois, em 1984, também os personagens da outra gigante norte-americana, a DC Comics. Com essa absorção, a empresa ficou responsável pelas duas maiores editoras norte- americanas até o final de 2001, dominando, nesse período, o mercado brasileiro de histórias em quadrinhos. Revista Crás!, tentativa de publicação de variados autores e personagens brasileiros Atualmente, depois de haver desistido de publicar super-heróis, a Editora Abril, além de alguns poucos personagens esparsos, praticamente permanece apenas com as revistas dos personagens Disney, aos quais, a partir de 2003, vem dando atenção especial, incluindo o nome dos autores originais nas histórias – uma prática que até então havia se recusado a adotar –, bem como privilegiando o lançamento de diversas publicações especiais, de alta qualidade. OUTRAS EDITORAS Uma vasta gama de pequenas editoras de revistas de histórias em quadrinhos surgiu e desapareceu no Brasil desde 1934. Muitas delas estiveram em atividade por apenas alguns poucos anos, publicando títulos esparsos e desaparecendo do mercado quando as condições econômicas se tornavam desfavoráveis. A cidade de São Paulo, durante as décadas de 1950 e 1960, foi o lugar onde se estabeleceram várias dessas pequenas editoras, que produziram uma variedade de títulos de quadrinhos, muitos deles escritos e desenhados totalmente no Brasil. Pode-se dizer que, nesse período, guardadas as devidas proporções, viveu-se nessa grande metrópole o mesmo espírito que guiou os pioneiros dos comic books norte-americanos na década de 1940. Revista Capitão Estrela, da Editora Continental, de São Paulo O trabalho de empresas como as editoras Outubro, Continental, Trieste, Edrel, La Selva e outras foi muito importante para o desenvolvimento das histórias em quadrinhos nacionais, uma vez que elas possibilitaram que vários artistas brasileiros pudessem se sustentar e a suas famílias com a produção de histórias em quadrinhos e, ao mesmo tempo, tornaram possível que os leitores brasileiros tivessem acesso a histórias que tratavam de temas mais próximos à nossa cultura e realidade. Nas páginas das revistas produzidas por essas pequenas editoras, as histórias em quadrinhos do gênero terror se disseminaram no País durante algumas décadas, bem como aquelas dirigidas à produção de super-heróis brasileiros, como se verá adiante. Nos anos 1970, no Estado do Rio de Janeiro, a Editora Vecchi, que até então se destacava principalmente pela edição de fotonovelas, passou também a publicar revistas de histórias em quadrinhos. Entre os títulos da editora se destacou aqueleencabeçado por um personagem do velho oeste, Tex, um dos maiores êxitos do escritor e editor italiano Gianluigi Bonelli (1908-2001), que continua até hoje a ser publicado aqui. Essa editora publicou histórias em quadrinhos até sua falência, em meados da década de oitenta. Ken Parker e Mad, o fumetto italiano e a sátira norte-americana publicados pela Editora Vecchi Revista Spektro, da Editora Vecchi, terror norte-americano mesclado com terror brasileiro e Maria Erótica, da Grafipar, heroína de forte apelo sexual, criada pelo artista Claudio Seto Durante esse período, a Editora Vecchi se responsabilizou pela introdução de diferentes personagens dos fumetti italianos no País, entre os quais se destacaram Zagor, de Guido Nolitta, pseudônimo do escritor e editor Sergio Bonelli (1932-2011), e o trapper Ken Parker, de Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo, bem como a versão brasileira da revista norte-americana Mad, que ainda continua muito popular no País. A publicação mais famosa da Editora Vecchi, no entanto, talvez tenha sido a revista Spektro, que teve 27 edições entre 1977 e 1982, trazendo ao País personagens de terror originalmente publicados pelas editoras norte-americanas Gold Key, Fawcett e Charlton, além de apresentar histórias em quadrinhos elaboradas por autores nacionais, entre os quais se destacam Watson Portela, Mano, Flavio Colin, Julio Shimamoto, Manoel Ferreira, Itamar, Lobo e Eugênio Colonnese. Depois da falência da Vecchi, os principais personagens por ela publicados passaram para outras editoras, com maior ou menor sorte. Também no final dos anos 1970 uma pequena editora, a Grafipar, despontou rapidamente na cidade de Curitiba, no sul do País, com uma proposta diferente para a produção de histórias em quadrinhos. Basicamente, ela se concentrou em personagens de terror e em histórias para o público adulto. A editora priorizava a produção de autores brasileiros, com um importante trabalho de incentivo a histórias nacionais, até mesmo com a organização de oficinas, exposições de originais e cursos sobre arte gráfica sequencial, concentrados em torno da então recém-fundada Gibiteca de Curitiba, a primeira biblioteca especializada em histórias em quadrinhos no Brasil. Entre as revistas publicadas pela Editora Grafipar podem ser citados os títulos Maria Erótica e Katy Apache, de Claudio Seto (1944-2008), bem como As Fêmeas, Sexo em Quadrinhos, Especial de Quadrinhos e Quadrinhos Eróticos, produzidas por vários autores. Infelizmente, por motivos econômicos, a Grafipar foi obrigada a abandonar o mercado de histórias em quadrinhos em meados da década de 1980, deixando um espaço que até hoje ainda não foi preenchido. HISTÓRIAS EM QUADRINHOS BRASILEIRAS: PRINCIPAIS AUTORES E PERSONAGENS É evidente, pela leitura das páginas anteriores, que o Brasil conta com grande tradição de publicação e leitura de histórias em quadrinhos. A Primeira Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, realizada em nosso País, mostrou a arte original dos autores mais importantes de seu tempo. Ela foi organizada na cidade de São Paulo, em 1951, por um grupo de idealistas e jovens autores (Moya, 1970, 2001), representando um destaque inédito no mundo para os produtos da Nona Arte, que à época eram considerados de forma negativa por camadas significativas da sociedade. Aline, de Adão Iturrusgarai No entanto, apesar da popularidade das histórias em quadrinhos no País, é importante ressaltar que o predomínio de produtos oriundos da indústria de quadrinhos norte-americana acabou se constituindo, de várias formas, em grande obstáculo para a subsistência tanto da arte como dos próprios autores de quadrinhos no Brasil. Isso ocorreu, fundamentalmente, porque as histórias em quadrinhos norte-americanas, ao tratar de temas globalizados, encontram muito pouca resistência para sua aceitação em outros países, devido ao esquema de comunicação e divulgação que as envolve. No Brasil não foi diferente. Além disso, os fatores econômicos também favoreceram a preponderância dos comics norte-americanos, uma vez que eles aqui chegaram com seus custos já parcialmente pagos em seu país de origem e, com frequência, beneficiados com esquemas de promoção e divulgação que incluíam filmes, desenhos animados para a televisão, camisetas, brinquedos de todos os tipos e uma boa variedade de artefatos criados e distribuídos com o intuito de que seus personagens já fossem familiares ao público brasileiro, em muitos casos bem antes que a revista em quadrinhos propriamente dita chegasse às bancas de jornal (Vergueiro, 1999). Ainda assim, a fascinação da linguagem das histórias em quadrinhos sempre foi muito forte entre os artistas gráficos brasileiros. De certa forma, isso é facilmente compreensível: tendo contato direto com os quadrinhos desde a infância, muitos leitores ficam fascinados por esse meio e cultivam o sonho de um dia, quando adultos, se dedicar à produção de quadrinhos. Por outro lado, deve-se reconhecer que o predomínio de produtos estrangeiros no mercado dificultou e continua a dificultar a realização desses sonhos, e muitos jovens artistas buscam outras artes, dirigindo-se para carreiras em publicidade, na televisão, no teatro ou no cinema. Assim, a história dos artistas brasileiros que se dedicaram aos quadrinhos é muitas vezes a descrição de quixotescas batalhas contra moinhos de vento, com muitas derrotas e relativamente poucas vitórias. Felizmente, apesar das condições pouco promissoras, as histórias em quadrinhos no Brasil contam com muitos artistas que persistiram em seu empenho de se dedicar profissionalmente à Nona Arte e que conseguiram ser reconhecidos por seus pares e por seu público leitor, realizando uma forma específica de arte gráfica sequencial que, por méritos próprios, recebeu o respeito dos críticos e aclamação dos entusiastas dos quadrinhos. Podem ser encontrados em todos os gêneros, do terror ao underground, daquele dirigido ao público infantil ao criado para um grupo de leitores mais adulto. Com o objetivo de atingir uma compreensão geral desse aspecto das histórias em quadrinhos brasileiras, apresenta-se em seguida um breve panorama de suas principais características em cada gênero, buscando-se ressaltar os personagens mais importantes e seus autores que se destacaram em cada um deles. Combo Rangers, de Fábio Yabu, uma história em quadrinhos que iniciou sua publicação na rede internet Revista Mazzaropi, em quadrinhos, reproduzindo o personagem criado para o cinema pelo comediante Amácio Mazzaropi QUADRINHOS INFANTIS Essa é provavelmente a área em que as histórias em quadrinhos apresentaram maior desenvolvimento no Brasil. Desde seu início, no começo do século XX, quando eram publicadas na revista O Tico-Tico, as séries de histórias em quadrinhos já estavam entre as mais populares atrações da revista. Nessa época, era quase consenso no entendimento geral sobre os produtos da Nona Arte que esses eram elaborados estritamente para o público infantil e muitos personagens foram criados pensando exatamente nesse tipo de leitor. Além dos personagens já relacionados no início deste livro e publicados na revista O Tico-Tico, é importante também recordar muitos daqueles personagens relacionados com o mundo do entretenimento e criados por artistas brasileiros na década de 1950, como a dupla de palhaços Arrelia e Pimentinha, artistas muito populares na televisão, que então se iniciava no País. Eram desenhadas por artistas brasileiros. Utilizar artistas das várias artes populares como personagens de histórias em quadrinhos ocorria com muita frequência nas décadas de 1950 e 1960, não apenas no Brasil. Aqui, essa prática contribuiu para o surgimento de diversas revistas em quadrinhos, como Oscarito e Grande Otelo e Mazzaropi, baseadas em comediantes muito populares do cinema brasileiro que estrelaram dezenas de filmes. E, a partir da década de 1970, esse papel preponderante foi assumido pelo grupo de comediantes conhecido como Os Trapalhões, que teve uma longa vida nas páginasdas revistas em quadrinhos, resultado direto de seu êxito televisivo. Todas essas iniciativas estiveram sempre relacionadas com a popularidade das personalidades do show business. Assim, seu sucesso nas revistas em quadrinhos decaía na mesma medida em que decrescia na vida real. Nesse sentido, sabe-se, por exemplo, que várias revistas foram produzidas no Brasil durante os anos 1990 tendo por inspiração pessoas de destaque no mundo da música, do cinema, da televisão ou dos esportes, mas que permaneceram em bancas somente por alguns anos, como Aninha (baseada em Ana Maria Braga, popular apresentadora de programa de variedades da Rede Globo de Televisão); Castelo Rá-Tim-Bum (grupo de meninos que estrearam um programa infantil da TV Cultura); Senninha (versão infantil do piloto de fórmula 1 e Oscarzinho (jogador da equipe brasileira de basquete), entre outras. A revista Senninha, baseada no piloto de fórmula 1 Ayrton Senna, falecido em 1994, foi uma notável exceção a essa regra: lançada logo após o falecimento do autor, permaneceu em circulação por mais de cinco anos (Vergueiro, 1999). Senninha, uma aposta na popularidade do piloto automotivo que se prolongou até depois de sua morte Essa fórmula, tradicionalmente utilizada nas histórias em quadrinhos infantis brasileiras, parece estar passando por mau momento. Nos últimos anos, tivemos poucos títulos de revistas infantis nessa linha, todos com limitada resposta dos leitores. A revista Aventuras de Betinho Carrero foi uma delas, inspirada em um empresário do mundo do entretenimento, dono de um parque temático no Sul do País, falecido no início de 2008. O título, apesar de enfocar uma personalidade de bastante destaque na mídia, não chegou a atingir sequer dez números. Outra iniciativa na mesma linha, vinculada aos estúdios Mauricio de Sousa, que trazia uma versão infantil das peripéciasdo jogador de futebol Ronaldinho Gaúcho, teve bem melhor sorte, atingindo o surpreendente dígito de 100 números lançados e permanecendo em bancas por quase dez anos. Encerrou sua trajetória editorial em maio de 2015 e foi a última publicação em quadrinhos do País, ao que se saiba, a ter como protagonista um personagem desenvolvido a partir de uma personalidade midiática ou esportiva. Mônica e Cascão, dois personagens consagrados de Mauricio de Sousa Infelizmente, com o cancelamento das revistas em quadrinhos da Editora Globo, no início de 2008, as histórias em quadrinhos infantis brasileiras nas bancas de jornal ficaram limitadas somente às publicações dos personagens do artista Mauricio de Sousa. As poucas e esparsas tentativas de lançar outros personagens infantis produzidos no Brasil tiveram pouca receptividade e breve duração. É preciso reconhecer que, no que diz respeito às histórias em quadrinhos infantis, Mauricio de Sousa é, sem dúvida, o maior sucesso brasileiro. Ao redor de seu personagem Mônica, o hoje veterano autor organizou um grupo de crianças com características universais, a já mencionada Turma da Mônica, sendo extremamente bem-sucedido em atrair e manter o interesse das crianças brasileiras durante várias décadas. Para isso, ele montou uma bem-sucedida empresa, com mais de 300 funcionários, envolvendo seus personagens em projetos que vão muito além das páginas das revistas em quadrinhos, sendo utilizados na comercialização dos mais diversos produtos, desde brinquedos até produtos alimentícios, como também em desenhos animados, filmes, peças teatrais e parques temáticos. Chico Bento e sua “namorada” Rosinha: preocupações ecológicas no meio ambiente rural Poucos anos depois do lançamento de sua primeira revista em quadrinhos pela Editora Abril, os personagens de Mauricio de Sousa já ultrapassavam em vendas as revistas da Disney, publicadas pela mesma editora. Convertia-se Mauricio, então, no mais bem-sucedido e conhecido quadrinista brasileiro em todo o mundo. As razões para o sucesso desse autor estão muito provavelmente relacionadas com as características de sua produção, em que os pontos fundamentais de identificação com a cultura brasileira foram sutilmente omitidos de forma a favorecer que os atributos e preocupacões de caráter mais universal se tornassem predominantes nas histórias, tornando possível que esses personagens pudessem ser comparados a qualquer criança do mundo. Assim, a seu talento artístico Mauricio conseguiu aliar uma aguda visão do mercado e uma atitude empresarial, pouco comuns nos que se dedicam à Nona Arte no Brasil, o que talvez esteja na raiz de seu contínuo sucesso perante o público leitor. De maneira geral, como estratégia artística e empresarial do autor, suas histórias tratam de temas universais e deixam de estabelecer qualquer tipo de relação direta entre os fatos que apresentam e o país/lugar onde vive o leitor, ainda que mantendo a presunção de que ocorrem no Brasil. Por outro lado, Mauricio não pode ser acusado de deixar de lado a cultura brasileira, excluindo-a de sua produção artística. Um de seus personagens mais populares, o caipira Chico Bento, pode ser considerado um digno representante do ambiente rural brasileiro, com o qual busca valorizar nossos costumes e tradições mais populares. No centro das histórias do personagem encontra-se a luta entre os valores da vida urbana e os da vida rural, com preocupacões ecológicas aparecendo como preponderantes (preservação do meio ambiente, cuidados com a natureza, proteção aos animais domésticos etc.), os quais, sem perder o contato estreito com a cultura brasileira, podem ser facilmente levados para a realidade de qualquer país em desenvolvimento do mundo. As histórias do Chico Bento, nesse sentido, são muito diferentes daquelas criadas pelo quadrinista Ziraldo Alves Pinto para seu personagem Pererê durante a década de 1960. Enquanto as histórias de Chico Bento passaram, pouco a pouco, a se fixar nas oposições entre a vida rural e a urbana, nas características da pós-modernidade, na proteção ao meio ambiente natural, e a desenvolver um elogio à simplicidade e inocência da infância do homem rural, as narrativas gráficas sequenciais da Turma do Pererê sempre mantiveram uma estreita relação com a herança cultural brasileira, reproduzindo narrativas ou personagens folclóricos e valorizando as idiossincrasias do povo brasileiro de uma forma que poucos autores conseguiram fazer (Vergueiro, 1990). Por outro lado, não se pode esquecer que as mesmas qualidades que tornaram a obra de Ziraldo antológica e com características cult também fizeram com que ela se transformasse em uma produção fechada, paralisada no tempo e, muitas vezes, compreensível apenas para aqueles que lhes foram contemporâneos em sua primeira publicação, durante a década de 1960. Mesmo iniciativas para dar continuidade à série, empreendidas por Ziraldo nas décadas seguintes, contando com uma equipe de auxiliares, optaram por manter o mesmo espírito ufanista que a caracterizou em seu início, uma provável explicação para seu magro sucesso perante o público. O autor teve muito mais êxito com o já mencionado desenvolvimento em quadrinhos de seu sucesso no campo da literatura infantil, O Menino Maluquinho, com o qual conseguiu desenvolver um produto quadrinístico mais sólido e de maior receptividade por parte do consumidor brasileiro. A revista do personagem foi publicada durante mais de quatro anos pela Editora Abril, de São Paulo, de final de 1989 a 1993, continuando sua carreira em álbuns distribuídos em livrarias pela Editora Globo. A Turma do Pererê, buscando valorizar a tradição popular e os costumes do povo brasileiro Outros autores tentaram seguir os passos de Mauricio de Sousa, mas não seria temeridade afirmar que ninguém realmente conseguiu chegar muito perto dele. Somente alguns poucos conseguiram obter algum êxito e permanecer na preferência das crianças brasileiras durante alguns anos. Até mesmo aqueles que buscaram seguir o modelo de personagens com características universais, tal como se identificou na produção de Mauricio, não obtiveram a mesma receptividade e aclamaçãodo público. Foram praticamente forçados a desistir de seus propósitos depois de alguns anos. A Turma do Lambe-Lambe, do artista multimídia Daniel Azulay, e palhaço Sacarrolha, criação de Primaggio Mantovi que explorava o mundo do circo A Turma da Fofura, de Ely Barbosa, tentativa de seguir os passos de Mauricio de Sousa, incentivada pela própria Editora Abril É o que sucedeu, por exemplo, com Daniel Azulay e a sua Turma do Lambe- Lambe; Primaggio Mantovi e seu palhaço Sacarrolha; e Ely Barbosa (1939- 2007), já nos anos 1980, com A Turma da Fofura, Cacá e sua Turma e Os Tutti- Fruttis, publicados pela Editora Abril quando Mauricio deixou a editora com seus personagens, passando a ser editado pela Editora Globo. Todos esses personagens tiveram revistas de histórias em quadrinhos durante as décadas de 1970 e 1980 publicadas por grandes editoras, mas não foram bem-sucedidos em suas vendas. Um caso diferenciado de produção de quadrinhos infantis brasileiros diz respeito ao trabalho do artista baiano Antonio Cedraz (1945-2014), que desenvolveu um grupo de personagens de características regionais, a Turma do Xaxado, que vivia suas aventuras no Nordeste brasileiro, experimentando as dificuldades características da população dessa região do País e explorando temáticas semelhantes às desenvolvidas nas histórias do personagem Chico Bento. Ainda que mostrando rara sensibilidade no tratamento de temáticas importantes para a realidade brasileira, encontrando boa receptividade nos Estados nordestinos e sendo publicado em álbuns e revistas, o trabalho do autor não conseguiu sair das fronteiras de sua região geográfica, não atingindo a projeção nacional que certamente merecia. Turma do Xaxado, produção infantil de Antonio Cedraz que se restringiu ao mercado local As duas décadas do século XXI viram relativamente poucas iniciativas de publicação de novos títulos de revistas de histórias em quadrinhos infantis. Revistas com os personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, explorados nos livros de Monteiro Lobato e lançados em quadrinhos pela Editora Globo, duraram poucos anos, de 2006 a 2008, ainda que continuem eventualmente a aparecer em formato de álbuns, distribuídos em livrarias do País. Em 2012, a Editora Abril tentou retomar uma linha de revistas em quadrinhos infantis a partir do concurso Prêmio Abril de Personagens, publicando títulos nacionais com os personagens ganhadores, como Uffo – Uma Família fora de Órbita, de Lucas Lima, e Garoto Vivo, de Fabricio Pretti, além de Gemini 8, baseada em série de desenhos animados da produtora TV PinGuim. Todas elas soçobraram no quarto número. Garoto Vivo e Uffo – Uma família fora de órbita, duas tentativas fracassadas de retomada de títulos infantis da Editora Abril Mangá Tropical, álbum que copia o estilo e a estética dos quadrinhos japoneses Turma da Mônica Jovem, resposta de Mauricio de Sousa ao avanço dos mangás no país DE QUADRINHOS INFANTIS PARA QUADRINHOS JUVENIS: MÔNICA JOVEM, CHICO BENTO MOÇO E OUTROS Com a chegada definitiva dos mangás ao País, a partir do início dos anos 2000, ocorreu no Brasil um fenômeno semelhante ao que havia sucedido em outros países: muitos jovens, que anteriormente não se identificavam com a disponibilidade de histórias em quadrinhos para sua faixa etária nas bancas de jornal, ao entrar na adolescência passaram a se interessar pelos quadrinhos japoneses. E logo esse interesse cresceu substancialmente, a ponto de as editoras sentirem que havia espaço para mais títulos no mercado e começarem a aumentar a oferta em bancas. Inicialmente restritas a editoras menores – como a Animangá, JBC (Japan Brazil Corporation) e a Conrad, ambas de São Paulo –, o campo se ampliou substancialmente com a entrada no circuito da Editora Panini, em 2002, que trouxe e continua a trazer muitos títulos para o País. Já nesse mesmo ano, o impacto da presença dos mangás se fazia sentir na produção brasileira. Assim, não é de surpreender que um grupo de autores brasileiros lance a coletânea Mangá Tropical pela Editora Via Lettera, de São Paulo, na qual buscam emular a estética e o estilo do quadrinho japonês. A publicação permanece uma iniciativa praticamente isolada, até que entra em cena o maior produtor de quadrinhos do País, Mauricio de Sousa. Este, sentindo que o interesse de seus leitores mais velhos começava a se desviar de seus produtos tradicionais, resolve diversificar a produção, elaborando um produto que tenha condições de prender seus leitores durante mais alguns anos. Assim, em 2008, o autor lança, com grande campanha de marketing, o primeiro número de uma nova revista, denominada Turma da Mônica Jovem. Nessa revista, seus tradicionais personagens infantis cresceram e estão agora na transição entre a adolescência e a idade adulta, vivendo todas as experiências dos jovens nessa idade. A novidade é que a revista, contrariamente às demais que seus estúdios tradicionalmente colocam no mercado, tem um tamanho maior (semelhante ao dos mangás) e são em preto e branco (como, igualmente, ocorre com a maioria dos mangás). O sucesso foi estrondoso. Segundo dados da época do lançamento, a revista chegou a vender um milhão de exemplares, índice que havia décadas uma revista em quadrinhos não atingia no País. E a continuidade da publicação apenas confirmou o acerto da iniciativa do criador do Cebolinha, pois as vendas persistiram em altos níveis, garantindo a continuidade da revista, que hoje se encontra em sua segunda série, depois de ter colocado no mercado 100 números de sua primeira série, publicada de agosto de 2008 a novembro de 2016. Luluzinha Teen, a resposta da concorrência Chico Bento Moço, continuidade de uma estratégia de sucesso Além da adoção do chamado “estilo” mangá nessa produção, outra justificativa para o sucesso continuado desse grupo de personagens pode estar na incorporação de elementos do mundo digital e midiático na concepção e ambientação dos personagens, desenvolvendo, concomitantemente à da produção impressa, uma página na internet, blog, páginas nas redes sociais etc., incorporando à produção quadrinística a realidade vivida pelo adolescente. Ao mesmo tempo, as temáticas da revista, mais próximas das preocupações do mundo teen, passaram a tratar de questões de seu dia a dia, como namoros, relacionamentos, ciúme, amizade, festas, relacionamento entre gerações, escola, e coisas do gênero, criando um universo muito mais atrativo para o leitor dessa faixa etária. O sucesso da Turma da Mônica Jovem acirrou a concorrência. Menos de um ano após o aparecimento do grupo de jovens criado por Mauricio de Sousa, a Editora Pixel lançou a revista Luluzinha Teen e sua Turma, na qual, tal como fizera o autor paulista, “envelhecia” um grupo de crianças e os levava para a época da adolescência. No caso, tratava-se das crianças originalmente criadas em 1935 pela norte-americana Marjorie Henderson Buell (1904-1993), conhecida como Marge. Tendo suas histórias sido extensamente publicadas no Brasil durante as décadas de 1960 e 1970, tratava-se de uma personagem bastante conhecida dos leitores, uma vez que seus desenhos animados continuavam a ser exibidos na televisão brasileira. Considerada por muitos como mera cópia da Turma da Mônica Jovem, criada apenas com a finalidade de se beneficiar do espaço aberto por esta última – o que é bastante irônico, uma vez que a própria personagem Mônica original, com seu vestido vermelho, é claramente inspirada na personagem Luluzinha e foi criada com o claro objetivo de se beneficiar dessa semelhança –, a revista, ainda assim, teve uma vida editorial razoável, atingindo mais de cinquenta números regularmente publicados e várias edições especiais. No âmbito dos estúdios de Mauricio de Sousa, o sucesso da Turma da Mônica Jovem propiciou o lançamento de uma segunda revista dirigida ao público teen e nos mesmos moldes da anterior, dessa vez tendo como protagonista o caipira Chico Bento e seus amigos de Vila Abobrinha, lugarejo onde todos habitam. A mesma premissaé utilizada para a produção de Chico Bento Moço, que estreia em agosto de 2013. Também dessa vez a fórmula se mostrou bem-sucedida, criando uma ambientação que agradou aos jovens e sem perder muito do elã característico do personagem, a sua ligação com o mundo rural. Nas histórias de Chico Bento Moço, ele é aluno de um curso de agronomia e luta para preservar os valores do interior, ao mesmo tempo em que experimenta as incertezas características dessa fase da vida. Nesse segundo título, tal como ocorre na revista do personagem infantil, questões ligadas ao folclore, à preservação do meio ambiente, à proteção dos animais afloram com muito mais frequência. Independentemente de restrições estéticas e estilísticas que se possa ver como atentado à cultura brasileira ou a imposição de um modelo estético alienígena na produção nacional, é possível defender que a criação da Turma da Mônica Jovem e outras iniciativas na mesma linha representam estratégias para fazer frente a novos modelos de produção, que aparentemente encontram maior ressonância em determinadas faixas etárias. Nesse sentido, pode-se afirmar que a razão para o sucesso do mangá no Brasil, e as intenções dos artistas brasileiros de emulá-lo, pode, em nosso ponto de vista, ser encontrada nas características do meio em si. Mais que outras indústrias de quadrinhos, o mangá japonês tem sido capaz de, com sucesso, gerar e sustentar histórias direcionadas a segmentos específicos do público, especialmente adolescentes e jovens adultos. Gêneros que atraem essas faixas etárias são algo que os leitores brasileiros conseguem encontrar em seu mercado doméstico de quadrinhos. Desta forma, muitos leitores migraram do quadrinho norte-americano para o mangá, sentindo que o último poderia lhes trazer uma melhor reflexão sobre as preocupações das pessoas de sua idade e partilhando o seu modo de vida. Os artistas brasileiros de quadrinhos, por sua vez, reconheceram essa migração e estão agora utilizando estratégias específicas do mangá para maximizar seu potencial comercial. Ainda assim, é possível que a criação de quadrinhos brasileiros em estilo mangá seja somente uma forma de enfrentar uma invasão de quadrinhos “alienígenas” a fim de garantir a sobrevivência da indústria “nativa” de quadrinhos. (Santos, Vergueiro, Correa, 2015, p. 53) Dick Peter, detetive desenhado pelo português Jayme Cortez QUADRINHOS DE AVENTURA À medida que as histórias em quadrinhos se tornavam populares no Brasil e os leitores conheciam as aventuras de heróis como Flash Gordon, Terry, Dick Tracy, Príncipe Valente, Tarzan e outros, era natural que os editores buscassem personagens que pudessem fazer lembrar mais de perto o povo e a cultura brasileira, ou que pudessem ser familiares para os leitores do país. Entre os primeiros quadrinhos de aventura produzidos por autores brasileiros, além das já mencionadas As Aventuras de Zé Caipora, de Angelo Agostini, considerada a primeira história em quadrinhos brasileira de aventura, e de Max Muller, de Augusto Rocha, o nosso primeiro herói de quadrinhos de aventura do século XX, é importante recordar o personagem Garra Cinzenta, criado por Francisco Armond, que muitos dizem ser o pseudônimo da escritora Helena Ferraz, com desenhos de Renato Silva para o suplemento A Gazeta Juvenil, de São Paulo. O personagem foi depois publicado em outros países, como México, Bélgica e França, nem sempre tendo sua procedência brasileira informada aos leitores. A história, que veio a público de 1937 a 1939, era uma mescla de história policial e de terror, na linha da série noir de novelas policiais, onde foi introduzido um protagonista do mal, de certa forma antecipando futuros personagens dos quadrinhos, como o italiano Diabolik, das irmãs Angela (1922- 1987) e Luciana Giussani (1928-2001), ou como o mexicano Fantomas, de Ruben Lara Romero (1934-2013), originalmente criado a partir de um personagem da literatura policial francesa. Garra Cinzenta era um criminoso que anunciava a morte de seus inimigos enviando-lhes um cartão com o desenho de uma mão dissecada. Sua identidade permaneceu desconhecida dos leitores durante toda a história, seguindo a tradição da literatura noir (A Garra Cinzenta, 2003). Garra Cinzenta, personagem noir de Francisco Armond e Renato Silva Audaz, o Demolidor, robô gigante desenhado por Messias de Mello, precursor dos robôs gigantes dos seriados japoneses Para a mesma publicação, A Gazeta Juvenil, o quadrinista Messias de Mello ilustrou Audaz, o Demolidor, com roteiro de Armando Brussolo, história baseada em um robô gigante, personagem originalmente criado no exterior (Guedes, 2005). Outro precursor das narrativas de aventura criadas para as histórias em quadrinhos brasileiras é Dick Peter, detetive particular idealizado pelo escritor Jeronimo Monteiro (1908-1970) para as novelas radiofônicas e adaptado à linguagem dos quadrinhos por Abílio Corrêa – em tiras diárias para os jornais –, e por Syllas Roberg (?-1971) e Jayme Cortez para histórias em quadrinhos. Também O Anjo veio das novelas radiofônicas para as histórias em quadrinhos. O personagem, criado pelo ator Álvaro Aguiar (1926-1988), foi desenhado primeiramente por Flavio Colin e depois por Getúlio Delphim. Era visivelmente inspirado em Dick Tracy, de Chester Gould, e em Nick Holmes (Rip Kirby), de Alex Raymond. O Anjo, de Flavio Colin, sucesso radiofônico transplantado para as histórias em quadrinhos Estes dois últimos autores brasileiros foram também responsáveis por outras histórias de aventura publicadas nas revistas em quadrinhos do país. Colin era a mão por trás da versão em quadrinhos de O Vigilante Rodoviário, a popular série de televisão da década de 1960, que também foi desenhada por Osvaldo Talo. Delphim, por sua vez, trabalhou em Aba Larga, uma revista de histórias em quadrinhos protagonizada por um grupo de policiais da fronteira do Rio Grande do Sul, surgida no âmbito de produção da Cooperativa e Editora de Trabalho de Porto Alegre (Cetpa), criada para valorizar e nacionalizar os quadrinhos no país. Além dos personagens citados, Delphim ilustrou vários outros personagens de aventura brasileiros. Muitas histórias de aventura realizadas no Brasil tentaram localizar os heróis e suas peripécias em um ambiente rural e reproduziram as características de algumas regiões menos desenvolvidas do país, que poderiam ser vistas, pelos leitores dos Estados mais desenvolvidos, como pitorescas. Nesse sentido, muitos autores buscaram aproximar histórias e personagens do ambiente explorado pelas produções cinematográficas, novelas e histórias em quadrinhos sobre o velho oeste norte-americano, na época bastante populares. Isso fazia com que as séries brasileiras tivessem um viés regional e rural, povoadas por cavaleiros, carroças e pistoleiros semelhantes àqueles encontrados nos faroestes B. O Vigilante Rodoviário, de Flavio Colin, da TV para os quadrinhos, e Aba Larga, de Getúlio Delphim, herói da fronteira gaúcha, espécie de polícia montada brasileira Jerônimo, o Herói do Sertão, nos traços de Juarez Odilon Nesse âmbito das histórias de aventuras de caráter regional podem ser colocadas as seguintes séries quadrinísticas: As aventuras de Sérgio Amazonas, de Jayme Cortez; Jerônimo, o Herói do Sertão, criado graficamente por Edmundo Rodrigues para o roteiro de Moisés Weltman, também desenhado por Juarez Odilon; e Raimundo, o Cangaceiro, de José Lanzellotti, entre outras. Eram, respectivamente, localizadas nas regiões rurais dos Estados do Amazonas e de Minas Gerais, bem como no Nordeste do Brasil. Juvêncio, o Justiceiro, espécie de Cavaleiro Solitário do sertão brasileiro, criado por Gedeone Malagola para os desenhos de Sérgio Lima Em geral, as histórias brasileiras de aventuras eram muito simplistas, quase se poderia dizer que ingênuas em suas proposições temáticas e ao mesmo tempo que muito parecidas com suas similares de outros países. A maior parte delas tentava competir com as histórias em quadrinhos estrangeiras ao reproduzirseus estilos e raison d’être, de maneira a levar aos leitores um tipo de narrativa quadrinizada ao qual eles já estavam acostumados. Infelizmente, o Brasil não conseguiu gerar roteiristas de histórias em quadrinhos do porte de um Héctor Oesterheld (1919-1977) ou de um Carlos Trillo (1943- 2011), como sucedeu na vizinha Argentina. Talvez isso tenha ocorrido porque, contrariamente aos nossos irmãos portenhos, não tivemos um número grande de revistas em quadrinhos dedicadas ao gênero de histórias de aventura, com as poucas revistas que aqui foram publicadas sendo em geral obliteradas visualmente pela grande quantidade de títulos de procedência estrangeira expostos nas bancas de jornal. No entanto, isso não impediu que alguns roteiristas de histórias em quadrinhos de aventura possam ser destacados, embora não tenham trabalhado exclusivamente com esse gênero. Especial destaque nesse sentido merece a contribuição de Gedeone Malagola (1924-2008) às histórias em quadrinhos, tanto pela diversidade de temas que abordou em sua longa e frutífera carreira, como pela criação de tipos memoráveis para o gênero da aventura. Entre esses, destacam-se Tambu, um pastiche de Tarzan; Jane West; Professor Pinguim; Capitão Wings; Capitão Astral; Milton Ribeiro, O Cangaceiro; Hur, este com desenhos de Wilson Fernandes; Kabot Jim, um western com desenhos de Nico Rosso; e Juvêncio, o Justiceiro, com desenhos de Sérgio Lima (1925-1988), depois substituído por Rodolfo Zalla (1931-2016), personagem originário de um programa radiofônico, entre outros. Vinhetas de Ignácio Justo para histórias de guerra Além de histórias para personagens próprios, Gedeone também elaborou roteiros para histórias de personagens norte-americanos, como Nick Fury, X-Men e Thor, da Marvel Comics; o Homem-Mosca (Fly Man), de Jack Kirby (1917-1994), aqui desenhado por Luiz Rodrigues; Lili (Millie, the model), de Stan Lee; e Juju Faísca, na realidade, Cutie Pie, personagem originalmente criado por Gene Fawcette (1920?-1988), nos Estados Unidos. Segundo testemunho do autor, as editoras originais teriam conhecimento dessas histórias e as haviam autorizado, mas isso é um pouco discutível, pois, em contato posterior com a Marvel Comics, por exemplo, quando elaborava um artigo sobre as histórias dos personagens X-Men produzidas no Brasil, os responsáveis pela editora se mostraram muito surpresos ao saber das histórias brasileiras (Vilela, Vergueiro, 2004). Tudo indica, portanto, que os roteiros de Gedeone foram desenvolvidos e publicados à revelia dos detentores originais dos direitos sobre os personagens. Na década de 1960, Gedeone se destacou na criação de personagens de super- heróis brasileiros, como será visto no próximo capítulo. Um dos subgêneros das histórias em quadrinhos de aventura que teve um pequeno, mas significativo impacto nos quadrinhos brasileiros foi o de histórias de guerra, bastante populares nas décadas de 1950 e 1960. Nesse tipo de narrativas, brilharam, por seu talento, inventividade e conhecimento de máquinas de guerra e aviões, as estrelas de desenhistas como Ignácio Justo, Eugênio Colonnese e Edmundo Rodrigues. Targo, em desenho de Rodolfo Zalla para roteiro de Gedeone Malagola A ficção científica em A Espiã de Vênus, de Fernando Ikoma; o regionalismo em Crônicas da Província, de Wander Antunes e Mozart Couto; e o gênero espada e bruxaria em Brakan, de Mozart Couto. Ao lado, Raio Negro, de Gedeone Malagola Ignácio Justo, especialmente, tem uma atuação digna de destaque na área de histórias de guerra, principalmente devido à sua proximidade com a aviação. Tendo concluído o Curso de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR) em sua juventude, apaixonou-se pela aviação e se tornou aviador, ainda que não seguindo a carreira militar. Seus conhecimentos na área o ajudaram bastante na confecção de suas histórias em quadrinhos, para as quais tinha sempre uma cuidadosa preocupação quanto à fidedignidade dos detalhes, desde os armamentos até os modernos aviões de bombardeio, de uma forma que poucos artistas brasileiros puderam igualar. No entanto, ao que se saiba, Justo – fora um período em que ilustrou as histórias do personagem Múmia, no gênero terror –, jamais desenvolveu um personagem fixo, preferindo trabalhar em histórias isoladas, em que a ação narrativa tinha um começo, um meio e um fim. O Brasil tampouco teve uma grande tradição no gênero de histórias de aventuras em ambientes selvagens ou inóspitos. Vistas de uma forma bem ampla, entre as poucas produções nessa área se destacam apenas as diversas cópias do personagem Tarzan, do norte-americano Edgar Rice Burroughs (1875-1950), que foram realizadas no país ao longo dos anos. Entre elas, não se pode deixar de mencionar Targo. Segundo Ionaldo Cavalcanti (1977, p. 211), esse personagem foi criado em 1969 por Moacir Rodrigues para a Editora Taika, de São Paulo, mas outros autores dão uma versão diferente para a gênese do personagem, afirmando que ele foi uma criação coletiva da Editora Outubro, da qual participaram Gedeone Malagola e outros autores. Independentemente disso, pode-se salientar que por esse personagem, que teve uma vida editorial razoável, atingindo mais de 40 números em revista própria, passaram vários roteiristas, como Helena Fonseca, Francisco de Assis e Gedeone Malagola, e desenhistas, como Rodolfo Zalla e Jayme Cortez, entre outros. Defensor das florestas brasileiras, as aventuras do herói se passavam em locais não muito bem especificados do Brasil, às vezes no Planalto Central, outras vezes na floresta amazônica, tendo a participação de animais pré-históricos, homens das cavernas e até elefantes africanos. Outros subgêneros das histórias de aventura em quadrinhos podem ser mencionados. Na década de 1980 o artista Mozart Couto produziu uma história de “espada e bruxaria” com um herói chamado Brakan, cópia descarada de Conan, o Cimério, de Robert E. Howard (1906-1936), que não teve continuidade. Outros autores que se dedicaram a histórias em quadrinhos de aventura no Brasil foram Watson Portela e Fernando Ikoma (ficção científica), Wander Antunes (policial e narrativas regionais) e Claudio Seto (artes marciais). Capa da primeira revista de super-heróis Marvel, publicada pela EBAL em 1967. Era distribuída em postos de gasolina. QUADRINHOS DE SUPER-HERÓIS BRASILEIROS A mesma motivação que gerou e disseminou as histórias em quadrinhos de aventuras – o interesse em replicar temáticas muito abordadas nos quadrinhos importados de outros países, principalmente dos Estados Unidos – foi aplicada na construção dos super-heróis produzidos no Brasil. Pode-se até dizer, além do mais, que, no caso dos super-heróis, talvez a preocupação tenha sido levada às últimas consequências: para os editores brasileiros que encomendavam os personagens aos artistas da terra os super-heróis norte-americanos eram muito mais que uma inspiração – eles eram, de fato, a principal, para não dizer a única, fonte de ideias e projetos. Não se tratava somente de se inspirar nas histórias que vinham do exterior, mas sim da malfadada e condenável prática de simplesmente copiar os super-heróis existentes, incorporando-lhes somente uma nova roupagem e motivações um pouco diferentes das originais, como se verá adiante. Os super-heróis chegaram ao país pouco depois da introdução do modelo norte- americano de produção de quadrinhos, o que ocorreu, como já visto, durante a década de 1930, quando Adolfo Aizen iniciou a publicação do Suplemento Juvenil, que rapidamente caiu no gosto do público leitor. Trazia, então, os consagrados personagens dos suplementos dominicais de quadrinhos dos jornais norte-americanos, muitos deles hoje considerados clássicos do gênero (Silva, 2003). Os passos do Suplemento, como já visto, foram logo seguidos por outras publicações, entre as quais se destacaram O Globo Juvenil e A Gazeta Juvenil, em sua segunda temporada. Neste último título foi publicado o personagem Super-Homem. No entanto, pode-se dizer que o desembarque massivo dos super-heróispropriamente ditos em solo brasileiro só ocorreria, mais propriamente, por meio da Editora Brasil-América Ltda. (EBAL), a partir de 1945. Como mencionado, essa editora, que durante várias décadas foi a maior empresa editora a publicar quadrinhos na América do Sul, baseou seu sucesso principalmente nos super- heróis norte-americanos. Desde seu início, a EBAL deteve os direitos de publicação dos principais personagens da National, depois DC Comics, e foi também responsável, durante a década de 1960, pela introdução em massa dos personagens da Marvel Comics no Brasil. Isso ocorreu mais precisamente em 1967, acompanhando o lançamento dos desenhos animados dos personagens Marvel e em parceria com uma distribuidora de combustível. Capitão 7, em desenho de Osvaldo Talo O sucesso dos super-heróis norte-americanos rapidamente levou os editores nacionais a imaginar que poderiam desenvolver personagens similares, elaborados por autores brasileiros. A motivação era sobretudo econômica e os editores buscavam alternativas para fazer frente a uma máquina de produção bastante avançada, que chegava ao país com parte de seus custos já pagos em sua origen e com apoio tanto de campanhas publicitárias como de presença em outras mídias populares. Vários dos personagens que podemos considerar como super-heróis brasileiros foram transpostos de outros meios de comunicação de massa. Em 1943, o Capitão Atlas, personagem de um programa radiofônico de mesmo nome, foi transformado em uma revista de histórias em quadrinhos, elaborada por Fernando Dias da Silva. No entanto, o Capitão Atlas não era propriamente um super-herói, mas muito mais um caçador que vivia suas aventuras na floresta amazônica; estava, nesse sentido, muito mais próximo de Jim das Selvas. Super- herói mesmo, e de grande sucesso entre os jovens leitores da década de 1960, foi a criação de Ayres Campos, o Capitão 7, também inicialmente divulgado em ondas televisivas – o “7” dizia respeito ao número da emissora de TV que transmitia o programa do personagem, o Canal 7/TV Record, de São Paulo –, depois transposto para as revistas em quadrinhos. Nos gibis, ele foi realizado inicialmente pela mãos talentosas de Getúlio Delphim e mais tarde pelas de Osvaldo Talo, ambos autores com grande domínio da linguagem dos quadrinhos. Tratava-se de uma cópia do Super-Homem, é claro. Ainda assim, o Capitão 7 foi um dos mais populares personagens da televisão e das histórias em quadrinhos na década de 1960, logo transformado em objeto de merchandising. Existiam diversos tipos de boneco com sua imagem, camisetas, jogos e outros tipos de produto. Era muito comum, por essa época, ver as crianças do País usando roupas com o símbolo do herói, o número 7, em amarelo gritante, cortado por um relâmpago vermelho. Outro personagem a fazer o caminho da tela da televisão para as histórias em quadrinhos foi o Capitão Estrela, um super-herói criado para ser garoto propaganda de uma fábrica de brinquedos. Era desenhado pela artista Juarez Odilon. Apesar de alguns dos autoproclamados super-heróis brasileiros terem sido originalmente adaptados de séries televisivas e peças publicitárias, pode-se dizer que a maioria deles tem sua origem diretamente relacionada com a produção desse gênero de quadrinhos nos Estados Unidos. Muitos editores de revista em quadrinhos brasileiros costumavam obter publicações importadas desse país e rapidamente solicitar aos artistas locais que as adaptassem para o ambiente brasileiro, para isso modificando apenas alguns detalhes menores. De certa forma, os editores e autores brasileiros buscavam produzir histórias em quadrinhos que fossem agradáveis aos leitores e trabalhavam uma fórmula então vitoriosa no país. Assim, os personagens brasileiros tinham poderes semelhantes aos de seus equivalentes nos Estados Unidos, mas viviam em algum lugar do Brasil; tentava-se, dessa forma, reproduzir um meio ambiente mais familiar aos leitores de língua portuguesa. Ainda que em geral tenham apresentado uma vida relativamente curta e tenham sido produzidos por pequenas editoras, eles tornaram possível que vários artistas brasileiros continuassem a criar histórias em quadrinhos por um período mais longo do que as condições normais de mercado então lhes permitiriam. Somente por esse motivo já merecem ser destacados. Mylar, de Eugênio Colonnese, e Fantastik, de Osvaldo Talo Provavelmente, a década de 1960 representou o período mais produtivo dos super-heróis brasileiros. Vivia-se a ditadura militar e pode-se até imaginar que os super-heróis, nesse contexto, preenchiam tanto um anseio de autoafirmação do leitor como respondiam aos interesses dos governantes de enfatizar um país que caminhava celeremente para o desenvolvimento tecnológico. As histórias dos super-heróis brasileiros frequentemente mostravam uma realidade científica que não encontrava similar na realidade nacional, mas que funcionava como um elemento catártico para o leitor que então sofria os desmandos da ditadura. Vários personagens desse tipo foram criados e disseminados no período. Infelizmente, apesar de alguns eventualmente apresentarem relativa qualidade artística, a grande maioria deles se converteu apenas em “tristes pastiches de produções estrangeiras, copiando enredos, poderes, temáticas, roupas, motivações etc.” (Vergueiro, 2011, p. 98). Em geral, nas aventuras dos super-heróis brasileiros não existia qualquer preocupação mais acentuada com os valores nativos. Tanto os editores como os autores pareciam pensar que, por situar as aventuras de seus personagens em solo brasileiro e por dar a eles nomes em português, a apropriação cultural do gênero iria ocorrer naturalmente. Hoje, essa parece ser uma forma um pouco ingênua de entender os mecanismos ideológicos do moderno mundo da comunicação de massa, mas na década de 1960 essa percepção ainda não estava muito bem disseminada entre os produtores de histórias em quadrinhos. Homem Lua, de Gedeone Malagola Pode-se dizer que os super-heróis brasileiros formaram uma verdadeira legião, de tão numerosos. A simples tarefa de fazer uma lista deles seria uma empreitada difícil. Os leitores mais antigos certamente recordam os nomes de heróis como Escorpião, Hur, Fikom, Super-Heros, Homem Lua, Pabeyma, Golden Guitar, Mylar etc., que algumas vezes tinham poderes bastante estranhos para dar conta de vilões frequentemente com muito pouca imaginação. A maioria desses super-heróis, como mencionado, constituía cópia mal feita de personagens norte-americanos, mas alguns tinham características distintivas que os haviam tornado especiais. Era o caso, por exemplo, do personagem Raio Negro, publicado durante a década de 1960, que merece uma análise mais atenta. Sua gênese recebeu a seguinte descrição: O tenente da FAB Roberto Sales é lançado ao espaço de Barreira do Inferno. Em pleno espaço, um jato de luz negra atinge a cápsula do astronauta brasileiro, arrastando-o para um disco voador, que colidira com um meteoro. No disco, um homem de Saturno – Lid – agonizava. Obedecendo às suas ordens, o Tenente Roberto Sales liga os controles da nave extraterrestre em direção a Saturno, para uma longa viagem de volta. “Você arriscou a vida para me socorrer – afirma Lid –, vou lhe dar o meu anel de luz negra… O anel o transformará em um super- homem… É um anel feito com a energia magnética de Saturno… Quero que jure que só o usará para o bem…”. De volta à Terra, o Tenente Roberto Sales resolve criar uma identidade secreta para combater o crime, e assim nasce o Raio Negro. (Pequeno Dicionário, 1971, p. 267). A descrição corresponde ao resumo da primeira aparição do super-herói Raio Negro. Nela, podemos encontrar muitos pontos em comum com a origem do conhecido super-herói norte-americano produzido pela DC Comics, o Lanterna Verde (Green Lantern). De fato, o personagem nada mais era que uma cópia descarada da história norte- americana. O autor brasileiro, Gedeone Malagola, colocou uma máscara no herói, vestiu-o com uma roupa preta e modificou um pouco a história desua origem, mas, em essência, o argumento permanece o mesmo. Somente o local da história – ele parte de uma base militar de lançamento de foguetes em Natal, no Estado do Rio Grande do Norte, em vez de partir de um centro de treinamento de pilotos nos Estados Unidos – e a nacionalidade do herói foram modificados. Enquanto Hal Jordan, a identidade secreta do Lanterna Verde que inspirou a criação brasileira, é um piloto civil, o personagem de Gedeone é oficial da Força Aérea Brasileira (FAB), participando de uma missão oficial do governo brasileiro e tendo sido escolhido por um cérebro eletrônico, entre muitos candidatos. Mais ufanismo não seria possível. Raio Negro, de Gedeone Malagola Raio Negro recoloca no lugar a estátua do Cristo Redentor, no então Estado da Guanabara No segundo quadrinho da primeira história do Raio Negro há uma imagem do edifício do Congresso Nacional, de forma a identificar para o leitor a cidade de Brasília, capital federal. Na terceira página, um avião voa sobre a enorme estátua do Cristo Redentor, na cidade do Rio de Janeiro, uma imagem que recorrentemente vai aparecer durante a publicação da revista e constitui um dos cartões-postais mais conhecidos da Cidade Maravilhosa. Em uma das histórias, esse famoso monumento nacional será até mesmo destruído por um robô parecido com o herói; posteriormente, no mesmo episódio, o próprio Raio Negro se encarregará de reconstruí-lo. Aparentemente, pelo fato de retratar com frequência os ícones do turismo brasileiro, o autor das histórias pretendia fazer com que os leitores se identificassem com o seu próprio meio ambiente, e consequentemente com os personagens. Essa presunção é confirmada em vários números da revista. Raio Negro aprisionado na sala Op-Art por seu grande inimigo Uma das características mais interessantes da revista de histórias em quadrinhos do Raio Negro é a variedade de vilões concebidos por Gedeone Malagola. Nesse sentido, o mais frequente – e também o mais criativo de todos eles – foi o Capitão Op-Art, um cientista que se volta para o mal e busca se enriquecer com suas invenções. Ele é retratado segundo a imagem do autor. Sua primeira aparição ocorre na história “Raio Negro e os homens-voadores”, publicada no terceiro número da revista, quando ele utiliza robôs voadores semelhantes a seres humanos para roubar bancos e joalherias. Raio Negro enfrenta robôs miniaturizados criados pelo Capitão Op-Art Raio Negro contra o Homem Invisível, uma cópia da arte de Steve Ditko Do ponto de vista estético, essa é uma das melhores histórias do super-herói brasileiro. Apesar de não ser um desenhista de recursos extraordinários, Malagola consegue desenhar algumas páginas memoráveis, em que Raio Negro é aprisionado em uma sala Op-Art, com as paredes forradas por esse tipo de representação artística. A decoração em Op-Art faz com que o herói se sinta muito confuso e com vertigens, ficando, dessa forma, impedido de identificar o vilão dentro da sala. Não seria despropósito afirmar que as culturas alta e popular se encontram no Capitão Op-Art. Isso fica evidente a partir do próprio nome utilizado para batizar o vilão, que imediatamente traz à mente esse movimento artístico, a Optical Art, fundada no início dos anos 1960. É difícil afirmar que essa relação direta com a alta cultura foi conscientemente buscada por Gedeone Malagola, ainda que o uso do preto e branco tenha ressonância com as características da Op Art na época em que a história foi criada; talvez o autor simplemente tenha pensado em introduzir efeitos ilusórios decorativos, e a Op-Art lhe pareceu um recurso apropriado para isso. A conjunção de quadrados, triângulos, polígonos, retângulos e diamantes utilizados para construir uma armadilha para o herói é muito bem-sucedida no objetivo de passar ao leitor o mesmo sentimento de confusão visual experimentado por Raio Negro. Infelizmente, a utilização de ilusões visuais como arma desse inimigo do herói não volta a ocorrer nas vezes seguintes em que ambos se confrontam, ou aparece apenas de maneira bastante marginal, sem exercer grandes influências na trama. Malagola prefere, então, dar mais ênfase ao conhecimento tecnológico do Capitão Op-Art, destacando o uso de robôs miniaturizados para enfrentar o herói, no número 12, ou um robô gigante, no número 15. A arte e os roteiros de Malagola para as histórias do Raio Negro não eram muito consistentes e tampouco pareciam seguir padrões muito estritos: em alguns momentos, talvez por estar sobrecarregado com outros trabalhos ou simplesmente devido à lei do menor esforço, ele utilizou o trabalho de outros artistas como modelo, reproduzindo suas histórias ou simplesmente copiando os desenhos que eles haviam elaborado. O exemplo mais evidente dessa opção artística discutível ocorre no número 6 da revista, no qual o desenhista brasileiro literalmente chupa uma história desenhada pelo norte-americano Steve Ditko, sem nenhuma preocupação em disfarçar o fato, retratando casas com sótãos e um ladrão vestido de chapéu e pesado casaco de frio, fatos absolutamente discordantes do clima tropical brasileiro. Como também ocorreu com muitas outras histórias em quadrinhos de super- heróis brasileiros, a idealização dos ambientes e outros aspectos da vida brasileira nas histórias do Raio Negro são, para dizer o mínimo, anacrônicos. Não se vê nenhum afro-brasileiro em suas histórias, por exemplo, ainda que os negros constituam uma alta percentagem da população; da mesma forma, representantes do sexo feminino aparecem somente como vilãs ou, seguindo a velha tradição das histórias clássicas de super-heróis, como a noiva do herói, mas raramente como trabalhadoras ou membros ativos da sociedade. Raio Negro parece viver em um mundo dominado por homens, reproduzindo, em seu aspecto mais negativo, a imagem do machismo brasileiro cultivada além das fronteiras. Ademais, ao retratar o Brasil como um país em condições de compartilhar com as nações mais desenvolvidas do planeta os conhecimentos necessários para o lançamento de foguetes espaciais, as histórias adotavam, por um lado, uma atitude extremamente ufanista e, por outro, assumiam uma atitude ingênua em nível despropositado até mesmo para aquela época, ignorando a enorme distância econômica entre o Brasil e os países mais industrializados. Escorpião, de Rodolfo Zalla, replicava na floresta amazônica a dominação branca do Fantasma na África O Judoka, herói brasileiro que dominava as artes marciais Outros personagens do gênero de quadrinhos de super-heróis criados no Brasil pouco diferem, em termos gerais, de Raio Negro. Escorpião, por exemplo, herói desenhado por Rodolfo Zalla, era baseado no Fantasma (The Phantom), de Lee Falk (1911-1999) e reinava sobre os selvagens brasileiros da mesma forma como o Espírito que Anda sempre reinou sobre as tribos africanas da floresta de Bengala. Uma das últimas tentativas na linha de super-heróis brasileiros na década de 1970 – e talvez também a mais bem-sucedida – parece ter sido a já mencionada revista O Judoka, publicada pela EBAL de 1969 a 1973. Tratava-se de um jovem inicialmente um pouco debilitado, que, depois de receber treinamento e orientação de um mestre judoca, transforma-se em um herói mascarado que utiliza seus conhecimentos de artes marciais para combater os malfeitores e defender os mais fracos. Além de seu idealizador gráfico, Eduardo Baron, o herói teve histórias desenhadas por muitos artistas, com destaque para Floriano Hermeto de Almeida Filho, Mário José de Lima, Juarez Odilon, Francisco Ferreira Sampaio, Fernando Ikoma e Alberto Silva. No entanto, apesar de se manter nas bancas de jornal durante alguns anos, a revista acabou sendo descontinuada. Durante os anos 1980 e 1990, quando alguns artistas brasileiros começaram a trabalhar para o mercado norte-americano, desenhando principalmente seus super-heróis, apareceram no mercado nacional novos personagens desse gênero, desenhados por alguns desses artistas ou por outros que buscavam segui-los. No entanto,nenhum desses personagens manteve o interesse do público por mais que um curto espaço de tempo, desaparecendo logo em seguida. Primeiro número da revista O Terror Negro QUADRINHOS DE TEROR De certa forma, seria possível afirmar que o primeiro personagem genuinamente de terror do quadrinho brasileiro já foi mencionado em capítulo anterior, quando se fez referência ao Garra Cinzenta, publicado na Gazeta Juvenil durante a década de 1930. No entanto, deve-se considerar que as revistas em quadrinhos de terror, que realmente popularizaram o gênero no país, só começaram a surgir duas décadas depois, nos anos 1950. Eram publicadas por pequenas editoras da cidade de São Paulo. A maioria das histórias era inicialmente proveniente dos Estados Unidos, onde as histórias em quadrinhos de terror se encontravam então em franca prosperidade. A primeira revista de quadrinhos de terror produzida no Brasil chamou-se O Terror Negro e era publicada pela Editora La Selva, de São Paulo. Ela surgiu em 1949, como revista de super-heróis, trazendo as aventuras do personagem norte- americano originalmente batizado como Black Terror, criado por Jerry Robinson (1922-2011) e Mort Meskin (1916-1995), estrelando no número 9 da revista Exciting Comics. No entanto, o herói fracassou em sua terra de origem e a Editora La Selva aproveitou que o título já estava registrado comercialmente para transformá-lo em uma revista de histórias de terror, que ela também importava dos Estados Unidos. O sucesso do título levou ao aparecimento de vários outros, que passaram a atuar na mesma linha da Terror Negro e publicavam material traduzido dos comic books norte-americanos. Em 1954, no entanto, a criação do Comics Code Authority por parte dos editores daquele país, que regulava as características das revistas em quadrinhos, teve um impacto negativo no mercado local, fazendo praticamente desaparecer as revistas desse gênero das bancas de jornal. A diminuição dos títulos de terror nos Estados Unidos fez com que a quantidade de histórias em quadrinhos que chegava ao Brasil para tradução também sofresse grande redução. Várias editoras brasileiras, sentindo o grande interesse do público por esse gênero, decidiram dar continuidade aos títulos que possuíam, contando para isso com a colaboração dos autores nacionais. Como afirma Roberto Elísio dos Santos (2004, p. 218-219), ao longo das décadas de cinquenta e sessenta outras editoras (como por exemplo a Outubro, Edrel, Taika, GEP, Grafipar, D-Arte, etc.) lançaram revistas de terror que continham material produzido (roteiro e desenhos) pelos artistas brasileiros Gedeone Malagola, Julio Shimamoto, Flavio Colin, Edmundo Rodrigues, Rubens Cordeiro, Mozart Couto, Rubens Francisco Lucchetti, entre outros, e por quadrinistas estrangeiros que passaram a residir no Brasil, criando e publicando suas histórias em revistas nacionais, como é o caso do português Jayme Cortez (autor da premiada “Saga de Terror”), dos italianos Eugênio Colonnese e Nico Rosso e do argentino Rodolfo Zalla. Inicialmente, muitas histórias criadas por esses autores beberam da fonte da literatura universal, transcrevendo para a linguagem dos quadrinhos as obras de autores consagrados do gênero, como Edgar Allan Poe (1809-1849), Oscar Wilde (1854-1900), Franz Kafka (1883-1924), Conan Doyle (1859-1930), W. W. Jacobs (1863-1943), Bram Stoker (1847-1912), Mary Shelley (1797-1851), entre outros, muitos deles pertencentes à corrente literária conhecida como literatura gótica. Posteriormente, passaram também a verter para os quadrinhos as narrativas populares brasileiras, que representaram um rico manancial para o gênero. Entre os autores citados por Roberto Elísio dos Santos, o português Jayme Cortez deve ser destacado. Diretor artístico de várias editoras, ele sempre deu ênfase à produção nacional de histórias em quadrinhos. Foi responsável pela arte de centenas de revistas de terror, bem como autor de histórias antológicas, como O retrato do mal, na qual um pintor faz o retrato do próprio Diabo. O retrato do mal, obra-prima de Jayme Cortez Uma história de Zé do Caixão, com roteiro de Rubens Francisco Lucchetti e desenhos do italiano Nico Rosso O italiano Nico Rosso é outro autor que não pode deixar de ser mencionado quando se fala sobre a produção de histórias em quadrinhos de terror no Brasil. Ele foi, provavelmente, o mais produtivo dos autores nacionais a se dedicar a esse gênero de quadrinhos. Sua colaboração com o roteirista Rubens Francisco Lucchetti foi uma das mais proveitosas da Nona Arte brasileira, originando centenas de histórias que marcaram indelevelmente essa produção cultural. Entre as muitas histórias de terror fruto dessa colaboração, um destaque especial deve ser dado às histórias realizadas com o personagem Zé do Caixão, criação artística do diretor cinematográfico José Mojica Marins. Com uma atmosfera horripilante, essas histórias reproduziam as histórias no mesmo ambiente fantasmagórico que o famoso diretor infundia em seus filmes, em um nível de harmonia criativa que poucas vezes foi atingido na relação entre cinema e quadrinhos. Dono de um traço perfeito, de estilo barroco, Nico Rosso era exímio na elaboração de quadros em que o ambiente de mistério e sobrenatural se mantinha sempre em um crescendo, amplificando cada vez mais o sentimento de angústia do leitor em relação aos fatos narrados. Suas páginas eram elaboradas com maestria e cuidado nos detalhes, com extremo rigor na retratação de ambientes específicos, roupas, meios de transporte, armamentos etc. Destacava-se especialmente na ilustração de narrativas clássicas da literatura mundial, especialmente os contos de Edgar Allan Poe, que ele transformou em verdadeiras obras de arte da linguagem gráfica sequencial. As mulheres que desenhava eram sensuais e misteriosas, seus monstros, mais horripilantes do que o normal (se é que monstro horripilante é normal…), os vilões que colocava no papel transbordavam maldades e ameaças em cada um de seus detalhes. Seu desenho era inconfundível. Nico Rosso explorou com habilidade o contraste entre o branco e o preto, jogando com massas e espaços em branco, e tinha domínio perfeito das técnicas de elaboração de histórias em quadrinhos. É autor de algumas das melhores páginas já elaboradas nas histórias em quadrinhos brasileiras, poucos artistas lhe chegaram à altura em termos de técnica e perfeição do desenho. Considerado um de nossos “monstros sagrados” (Cirne, 1990, p. 39), o carioca Flavio Colin é outro autor que não pode deixar de ser destacado em qualquer análise da produção de histórias em quadrinhos no Brasil, especialmente no que diz respeito ao gênero terror. Dono de um traço estilizado, com influência de autores como Chester Gould e Milton Caniff, ele se tornou um marco dos quadrinhos brasileiros, com seu desenho sendo rapidamente identificado por milhares de fãs. O contraste entre o belo e o horripilante na arte de Nico Rosso Flavio Colin e o sentimento nacionalista Flavio Colin incutia um forte sentimento nacionalista em sua produção. Ele se esmerou na adaptação de lendas e narrativas populares à linguagem dos quadrinhos, criando histórias em que a realidade brasileira, o cotidiano do homem do interior do país, com suas crenças e superstições, transbordavam em cada vinheta. Por outro lado, Colin tampouco deixou de incursionar por personagens clássicos do gênero terror, ilustrando muitas histórias do personagem Lobisomem, que desenhou durante vários meses para a Editora Bloch, do Rio de Janeiro. Um último artista que deve obrigatoriamente ser lembrado no que diz respeito à produção de quadrinhos de terror no Brasil é Julio Shimamoto. Descendente de japoneses, esse autor se destacou, em sua produção mais recente, na elaboração de histórias com forte influência da cultura oriental. No entanto, seu trabalho mais significativo na área compreende sem dúvida a extensa contribuição que deu às revistas de terror durante as décadas de 1950 e 1960, colaborando em muitas editoras dacidade de São Paulo. Além disso, Shimamoto desenhou histórias em quadrinhos do personagem clássico Múmia para a Editora Bloch em roteiros de Rubens Francisco Lucchetti, para quem também ilustrou muitas outras histórias de terror. O Lobisomem, por Flavio Colin, e uma página de Múmia, com desenhos de Julio Shimamoto Infelizmente, a década de 1970 viu o declínio do gênero terror nas histórias em quadrinhos brasileiras. Nesse sentido, foi bastante meritória a presença das revistas Spektro, da Editora Vecchi, e Kripta, da Rio Gráfica e Editora, ambas do Rio de Janeiro, que reproduziam material de editoras norte-americanas (Warren, Gold Key, Fawcett e Charlton). A Spektro, especialmente, sob a direção de Otacílio Costa D’Assunção Barros, conhecido como Ota, abriu a possibilidade de colaboração na revista de quadrinistas nativos, tornando-se espaço privilegiado para a divulgação do trabalho de artistas como Mano, Watson Portela, Olendino Mendes, Julio Shimamoto e Flavio Colin. Entretanto, mesmo com a atuação dessas revistas, o gênero foi pouco a pouco se enfraquecendo no Brasil. Pode-se assinalar que o canto do cisne dos quadrinhos de terror no Brasil ocorreu no início dos anos 1990, com a suspensão das duas últimas revistas regulares dedicadas ao gênero, a Calafrio e a Mestres do Terror, ambas produzidas pelos Estúdios D-Arte, do desenhista Rodolfo Zalla, um mestre dessa área. Permanecendo nas bancas de jornal durante vários anos, ainda que muitas vezes tenham sido publicadas em intervalos irregulares de um número para outro, os dois títulos se esmeraram na produção de histórias com qualidade, sendo a válvula de escape para o trabalho de grandes artistas nacionais, como Mozart Couto, Rubens Cordeiro, Wilson Vieira, Julio Shimamoto, Herrero, Jayme Cortez, entre outros, e para a popularização de personagens memoráveis do terror brasileiro, como as vampiras Mirza (de Eugênio Colonnese), Nádia, a filha de Drácula (de Antônio Rodrigues, em desenhos de Rodolfo Zalla e de Rubens Cordeiro) e Satânia, de Mozart Couto. Poucos títulos de terror apareceram no País depois que essas revistas deixaram de ser publicadas. Mirza, a vampira criada por Eugênio Colonnese Capas dos álbuns do detetive Diomedes, de Lourenço Mutarelli QUADRINHOS UNDERGROUND E PARA O PÚBLICO ADULTO Como já mencionado, o Brasil sempre teve uma grande produção de quadrinhos independentes, que, na maioria dos casos, foram produzidos de forma artesanal e distribuídos de mão em mão. Diante da impossibilidade de publicar no chamado mercado mainstream de histórias em quadrinhos, muitos quadrinistas não profissionais produziam revistas alternativas e fanzines de historietas em pequenas quantidades, distribuindo-as para seus familiares, amigos, colegas de trabalho e pessoas mais próximas, dessa forma estabelecendo um sistema informal de produção e distribuição de quadrinhos que lhes possibilitava manter- se ativos na área, embora, na maioria das vezes, c onseguissem obter muito pouco ou quase nenhum lucro com essa atividade. É importante assinalar, nesse sentido, que, no Brasil, a distinção entre fanzines e revistas alternativas não parece ser muito clara. Ainda assim, Henrique Magalhães (1993, p. 15) defende que existem diferenças entre eles, afirmando que o fanzine apresenta-se como um boletim, veículo essencialmente informativo, órgão de fãs-clubes ou de aficionados. Ou seja, a matéria-prima do fanzine é a informação, como artigo, entrevista, matéria jornalística. Na revista alternativa encontra-se a produção artística propriamente dita: contos, poesias, ilustrações, quadrinhos etc. A partir dessa concepção a revista alternativa é o veículo/porta- fólio que abre espaço para novos artistas e novas propostas de linguagem que não encontram guarida nos veículos comerciais. Andraus (2004, p.259) complementa essa explicação, esclarecendo que, em sua opinião, ainda que exista essa distinção formal entre fanzine e revista, no Brasil estabeleceu-se a convenção de denominar como fanzine qualquer publicação independente, contenha esta histórias em quadrinhos, poesias, textos referentes a determinados assuntos ou, inclusive, que estejam todos mesclados. No entanto, é importante reconhecer que o conceito básico de um fanzine se refere ao fato de não se dirigir ao comércio ou lucro, e sim à manutenção comunicacional de informações relacionadas unicamente à liberdade de expressão e à vontade de seus idealizadores. As faculdades e os campi universitários sempre foram espaço fértil e privilegiado para a disseminação desse tipo de histórias em quadrinhos, pois os estudantes universitários em geral se interessam muito pela linguagem gráfica sequencial e têm, em função de sua idade e do ambiente em que vivem, uma forma muito crítica de encarar a produção mainstream. Sabe-se que o primeiro fanzine de quadrinhos feito no Brasil recebeu o nome de Ficção, tendo sido produzido em 1965 por Edson Rontani (1933-1997), um entusiasta da linguagem dos quadrinhos que buscava, dessa forma, contatar outros aficionados do gênero. Já no início de sua publicação, ele se preocupou em divulgar textos informativos sobre histórias em quadrinhos, até mesmo uma lista das revistas em quadrinhos publicadas no Brasil desde 1905 (Magalhães, 2003, 2004). Outros colecionadores de revistas de histórias em quadrinhos e artistas amadores logo seguiram o exemplo de Rontani e em pouco tempo uma grande variedade de publicações sobre e com quadrinhos estava circulando no Brasil. Essa prática continua até hoje, agora incorporando as facilidades proporcionadas pela comunicação eletrônica, e representa uma alternativa viável e pouco custosa para todos aqueles que desejam produzir quadrinhos de maneira independente. Ficção, de Edson Rontani, o primeiro fanzine brasileiro de histórias em quadrinhos Top! Top!, fanzine de Henrique Magalhães, um dos artistas mais ativos na área A variedade de títulos de fanzines no Brasil é imensa, talvez até mesmo incomensurável. Muitos títulos aparecem e desaparecem antes que possam chamar a atenção, mesmo dentro do meio onde atuam, enquanto isso, outros títulos se mantêm durante anos em publicação, graças à abnegação e desprendimento de seus autores. Entre os muitos títulos de fanzines publicados ou em publicação no Brasil estão: O Boletim do Herói (1968), de Agenor Ferreira; O Boletim do Clube do Gibi: Vivendo os Quadrinhos, Fanzine, também de Edson Rontani; Na Era dos Quadrinhos e O Clube da Editora Juvenil, de Gutemberg Cruz Andrade; Maturi (1975); Maria, Marca de Fantasia, Nhô-Quim e Top! Top!, de Henrique Magalhães; Historieta, de Oscar Kern (1935-2008); Grupo Juvenil e Fanzim, de José Carlos Ribeiro; Quadrix, de Worney; Barata, de Flávio Calazans; Nostalgia dos Quadrinhos, Boletim dos Quadrinhos, Singular/Plural, Psiu e Quadrinhos Independentes, de Edgard Guimarães; Panacea; Garagem Hermética; O Contínuo e Many comics, de Élbio Porcellis; entre outros (Andraus, 2004; Magalhães, 2003, 2004). Infelizmente, a grande maioria das publicações produzidas fora do mercado regular de quadrinhos só consegue dar vazão a uns poucos números antes de ser descontinuadas por aqueles que as idealizaram, que em geral se voltam para outros interesses. Ainda assim, alguns daqueles que se envolvem em publicações alternativas de quadrinhos persistem em sua busca de aceitação pelo mercado regular e conseguem colocação em editoras comerciais ou em revistas. Vários artistas brasileiros seguiram esse caminho, e se tornaram autores respeitados no meio. O mais famoso artista brasileiro a se enquadrar na categoria acima mencionada é sem dúvida Henrique de Souza Filho, popularmente conhecido por seu pseudônimo, Henfil. Esse autor teve trabalhos publicados em muitas revistas durante os anos de 1960 e 1970 e se tornou um baluarte para todos os quadrinistas brasileiros por sua luta contra o governo militar e sua intransigente defesa dos quadrinhos nacionais contra a invasão dos comics norte-americanos. Os personagens criados por Henfil eram extremamentepopulares entre os jovens, reproduzindo uma ácida crítica contra o statu quo e a situação do País. Isso acontecia porque a maioria de suas criações – como a Graúna, uma ave nativa; o bode Orelana e Zeferino, este último um típico habitante do nordeste brasileiro, eram reconhecidas pelos leitores como os mais representativos da insatisfação do povo brasileiro com a realidade política e cultural. Desenhados em estilo underground, as mensagens apresentadas nas histórias em quadrinhos e tiras diárias produzidas por Henfil eram extremamente cáusticas ao panorama social predominante, proporcionando aos leitores uma forma de compensação catártica em relação àquilo que eles viviam cotidianamente (Seixas, 1996). A Graúna, de Henfil Fradim, de Henfil Pode-se afirmar que os personagens mais populares criados por esse desenhista foram provavelmente a dupla de monges desmiolados, os Fradins, que exploravam situações maliciosas e sádicas, mas que, de fato, sempre mostravam, no fundo, uma mensagem de solidariedade para com as minorias e para com os menos favorecidos. De 1973 a 1975, Henfil viveu nos Estados Unidos, onde conseguiu que seus Fradins – ali denominados Mad Monks – fossem aceitos para distribuição pelo Universal Press Syndicate. A experiência, no entanto, não durou muito tempo, pois os dois monges foram considerados por demais doentes (ou pervertidos) para o leitor médio norte-americano (Izidoro, 1999). Além deles, Henfil criou vários outros personagens, como Ubaldo, o Paranoico, Orelhão e Cabôco Mamadô. A importância de Henfil para as histórias em quadrinhos brasileiras e para a própria história recente do País é amplamente reconhecida no meio quadrinístico. Isso pode ser avaliado pelas palavras de Julia Peregrino e Paulo Sérgio Duarte, curadores da exposição “Henfil do Brasil, realizada em 2005: Em 25 anos de carreira – desde a publicação do primeiro cartum na revista Alterosa, em 1962, até 1987, quando enviou seu último desenho para O Globo, meses antes de sua morte, em janeiro de 1988 – Henfil produziu por várias vidas. Trabalhou para muitos dos jornais importantes de seu tempo (Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, O Dia, O Sol, A Notícia, IstoÉ, O Globo, Última Hora, Diário de Minas, O Estado de S. Paulo) e foi um dos fundadores do Pasquim, semanário que marcou época nos anos 70 pelo jornalismo irreverente, o humor ferino e a oposição ao regime militar. Além disso, atuou também como apresentador de TV e diretor de cinema. […] Durante toda a sua carreira, o desenhista mineiro fez das suas colunas espaços de crítica social e de resistência ao autoritarismo. Foi um incansável defensor da democracia e da liberdade de expressão. Nacionalista, valorizava a cultura popular e gozava os que se deslumbravam com modas importadas. Henrique de Souza Filho foi mesmo o Henfil do Brasil. (Henfil do Brasil, 2005, p. 9) Os catecismos de Carlos Zéfiro foram relançados durante a década de 1990, em diferente formato CARLOS ZÉFIRO E OS QUADRINHOS ERÓTICOS/PORNOGRÁFICOS As décadas de 1960 e 1970 constituíram uma época bastante conturbada para a sociedade brasileira, submergida em uma ditadura militar que via qualquer tentativa de liberação dos costumes como uma ameaça à ordem constituída. Nesse período, as manifestações artísticas e culturais foram submetidas a rígida censura, impedindo a livre manifestação das ideias. Já na segunda metade da década de 1950 um tipo de quadrinhos havia começado a se destacar no País, ainda que vendido de maneira subterrânea, devido ao forte conservadorismo então dominante: as histórias pornográficas. Genericamente conhecidas como catecismos, eram constituídas por livros de pequeno formato, entre 24 e 32 páginas. Na maioria deles, cada uma das páginas continha uma única vinheta. Esses pequenos folhetos em geral contavam histórias em que um homem tinha relações com diversas mulheres, sempre com riqueza de detalhes e extensa exibição dos órgãos sexuais. O golpe de Estado dos militares brasileiros, em 1964, tornou essas publicações ainda mais perigosas para seus produtores e autores, que corriam o risco de ser presos por divulgação e apologia de material pornográfico e/ou por atentado aos bons costumes. Mesmo assim, a popularidade dos catecismos apenas aumentou durante o período de repressão, sendo produzidas várias centenas de títulos em editoras clandestinas. Os autores dessas histórias atuavam no anonimato, utilizando pseudônimos e produziam em grande quantidade. O mais famoso deles, Carlos Zéfiro, chegou a criar mais de quinhentas histórias. Dono de um traço bastante singular – ainda que com pouca sofisticação -, ele foi autor de histórias que atiçavam a imaginação de seus leitores. Sua obras eram em geral escritas em primeira pessoa, de forma a fazer com que o leitor – presumivelmente, alguém do sexo masculino – se identificasse com o protagonista. Mas ele também elaborou várias histórias em que o papel principal era reservado a uma mulher, que relatava aos leitores as suas aventuras, desventuras ou peripécias sexuais. Apesar de não ser um artista de grandes qualidades, Carlos Zéfiro – que anos mais tarde revelou chamar-se Alcides Aguiar Caminha (1921-1992) e ser um funcionário aposentado da Secretaria de Justiça do Estado do Rio de Janeiro –, tinha um excelente domínio da psique do homem brasileiro médio, elaborando narrativas que falavam de perto às suas ansiedades mais profundas, Assim, em suas histórias, com o objetivo de fazer as histórias em quadrinhos mais interessantes para os leitores, o herói enfrentará normalmente alguns obstáculos antes de ter a mulher em sua cama, mas ele os enfrentará com imaginação e com uma boa conversa. Sua aproximação deve ser a mais apropriada ao tipo de mulher que ele está tentando cativar. Primeiro um beijo ardente, depois as mãos em partes internas do corpo dela, carícias mais impetuosas, e logo ele terá a mulher correspondendo a seus desejos e ansiosa por atingir o final com ele. Este era o tipo de situação em que qualquer um dos leitores de Zéfiro poderiam presumivelmente ver-se envolvidos. Assim, a identificação resultava quase imediata. (Vergueiro, 2001, p. 144). Apesar de avançada em termos de figuração narrativa, a obra de Carlos Zéfiro pode ser considerada bastante conservadora em relação à mentalidade predominante em sua época. No trabalho quadrinístico de Zéfiro, os valores mais sagrados da sociedade patriarcal são sempre preservados. É o que ocorre, por exemplo, com a figura da mãe, jamais maculada, pois, afinal, o leitor deveria se identificar com o protagonista e era impensável naquela época que este se imaginasse tendo relações sexuais com a própria mãe. O incesto, a relação sexual entre irmãos legítimos e entre pais e filhas legítimas também era um assunto proibido. No entanto, era possível encontrar narrativas envolvendo um rapaz e sua madrasta, ou um padrasto e sua enteada, ou entre irmãos/irmãs de casamentos diferentes. O papel do homem como provedor da família era igualmente intocável. Garantia-se, dessa forma, a manutenção do sistema vigente. Uma imagem pornográfica elaborada por Carlos Zéfiro focando dois irmãos não naturais Quadrinho erótico pós-ditadura, de Roberto Kussumoto A fase de maior produção dos catecismos de Carlos Zéfiro, assim como de seus contemporâneos, terminou durante a década de 1970, com o início da distensão do regime militar e sua caminhada em direção ao retorno da democracia no Brasil. As décadas seguintes trariam algumas tentativas de recuperação desse tipo de história em quadrinhos, com alguns poucos autores de destaque – como Sebastião Zéfiro (uma apropriação do pseudônimo do autor mais conhecido, certamente com a finalidade de se beneficiar de sua fama…), Ivan Nascimento, Emir Ribeiro e Adrovando Claro, entre outros –, mas sem a mesma magia da época proibida. Eram outros tempos. QUADRINHOS PARA O PÚBLICO ADULTO As histórias em quadrinhos para adultos no Brasil sempre tiveram uma ligação muito estreita com o mercado alternativo, uma vez que, na maioriadas narrativas produzidas para leitores mais velhos, o modelo dos comics underground era predominante. Isso ocorreu, por exemplo, com o já mencionado semanário O Pasquim (1969- 1991), que reunia os maiores humoristas gráficos e quadrinistas do Brasil, além de escritores e intelectuais como Chico Buarque de Hollanda, Antonio Callado (1917-1997), Rubem Fonseca, Glauber Rocha (1939-1981) e outros que se reuniram contra os desmandos da ditadura militar. Foi um sucesso tremendo. O jornal se transformou no porta-voz da indignação da sociedade brasileira, então submetida a forte repressão. Ele enfrentou a prisão de seus editores, a censura dos meios de comunicação de massa, campanhas de descrédito e difamação, contestando com ironia e criatividade todos os ataques que sofria. Como poucas publicações do período, fez a radiografia da sociedade brasileira: O Pasquim, semanário que combatía a ditadura militar com humor e quadrinhos Um jornal de crítica de costumes, onde em cada edição havia espaço para se discutir temas diversos, mesmo os mais inquietantes para a sociedade da época: droga, feminismo, sexo ou divórcio. Em um período de intensa repressão intelectual, seu público principal estava entre os jovens universitários e os intelectuais que buscavam alternativas para se manter informados. (Arbach, 2007, p. 224) Explorando mais o humor gráfico do que propriamente as histórias em quadrinhos, O Pasquim tinha o seu forte na caricatura, por meio da qual despejava toda a sua verve feroz. Entre os personagens do jornal podem ser citados o rato Sig e a série Chopnics, desenhados por Jaguar, pseudônimo de Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe; Jeremias, o Bom, de Ziraldo Alves Pinto e Rango, de Edgar Vasques; entre outros. Pode-se dizer que a versão brasileira da revista norte-americana Mad atuou na mesma linha do jornal O Pasquim, ainda que não tenha explorado o panorama político brasileiro da mesma forma que este último. A Mad vem sendo publicada no Brasil desde a década de 1970, tornando-se o modelo artístico para a produção de histórias em quadrinhos independentes e ajudando a definir o enfoque temático de grande parte dos quadrinhos para adultos. Nesse modelo, cartuns de um humor cáustico tornaram-se o padrão predominante e muitos autores o têm utilizado para produzir quadrinhos que visam criticar as tendências sociais aqui predominantes. Rango, de Edgar Vasques, um dos muitos personagens consagrados por O Pasquim Desenho de Flávio para a revista Mad brasileira Colaboração de Lailson de Holanda Cavalcanti na revista Mad brasileira Sob a direção de Otacílio D’Assunção Barros (Ota), a revista Mad brasileira, publicada quase de maneira ininterrupta por diversas editoras nos últimos 43 anos, trouxe, além das produções estrangeiras já tradicionais no título, também a contribuição de autores nacionais, como Lailson de Holanda Cavalcanti, Cláudio Paiva, Tibúrcio, Xalberto, Vilmar Rodrigues, Carlos Eduardo Novaes, Jaguar, Caulos, Nani, Luscar, Flávio, Carlos Chagas, Tako e muitos outros, sem contar o próprio Ota, que, além de assumir a direção, também foi um constante colaborador da revista como desenhista e/ou roteirista (D’Assunção, 2000; Santos, 2015). Ota deixou a direção da revista em 2008, quando ela já estava sob a égide da Editora Panini, de São Paulo, sendo substituído por Raphael Fernandes, que antes já cuidava do material estrangeiro da revista. Rê Bordosa e Wood & Stock, personagens de Angeli Alguns dos autores mais importantes que se dedicaram à produção de histórias em quadrinhos para adultos no Brasil têm seguido exatamente o modelo acima mencionado. Publicados e disseminados em jornais e revistas produzidos na maior metrópole do País, a cidade de São Paulo, eles se firmaram a partir da segunda metade de década de 1980. Diversas publicações proporcionaram espaço para as extravagâncias desses autores, destacando-se no panorama das histórias em quadrinhos no Brasil. Três títulos são especialmente importantes nesse sentido: Chiclete com Banana, Piratas do Tietê e Circo, todos publicados pela Editora Circo, de Toninho Mendes (1954-2017). Chiclete com Banana recebeu o título da mais conhecida série em quadrinhos do autor paulista Arnaldo Angeli Filho, conhecido profissionalmente apenas como Angeli. A denominação da série, de fato, abriga uma interessante galeria de personagens representativos do movimento de contestação dos valores estabelecidos na sociedade contemporânea. Entre eles podem ser encontrados revolucionários de esquerda em busca de uma causa pela qual lutar – Meiaoito e Nanico, este último com tendências homossexuais –, uma mulher liberada e alcóolatra – Rê Bordosa –, dois hippies deslocados no tempo – Wood & Stock –, uma pesquisadora com fixação sexual – Mara Tara –, um punk que se diverte escarrando sobre tudo aquilo que abomina – Bob Cuspe –, e vários outros. Os personagens de Angeli foram lançados originalmente em tiras diárias no jornal Folha de S. Paulo, a partir de 1982. Eles tiveram sucesso quase instantâneo, acertando o imaginário dos leitores do jornal (Silva, 2002). A ideia de publicar uma revista com os mesmos personagens foi uma consequência desse sucesso. Ela foi publicada em formato magazine, de 1985 a 1990, totalizando 24 edições normais, de periodicidade bimestral. Em seus momentos de maior popularidade, chegou a vender 110 mil exemplares, um índice inédito para uma revista de histórias em quadrinhos dirigida ao público adulto no Brasil. A revista “apresentou personagens típicamente urbanos, integrantes das tribos urbanas como os darks, os góticos, os punks, moradores das modernas megalópolis que se formaram no final do século passado, sobretudo em São Paulo” (Coimbra, 2008, p. 152). Os Piratas do Tietê, a criação mais conhecida de Laerte Coutinho, continua a ser recompilada em antologias “O poeta”, uma das melhores histórias de Os Piratas do Tietê, com a participação especial do poeta Fernando Pessoa Além das criações de Angeli, a revista Chiclete com Banana também trazia personagens de outros autores de quadrinhos, em geral amigos do autor, como Glauco Villas Boas (1957-2010), que assinava apenas Glauco; Laerte Coutinho; Luiz Gê (Luiz Geraldo Ferrari Martins), Adão Iturrusgarai e Fabio Zimbres. Desses, Laerte Coutinho merece um parágrafo à parte, tendo-se destacado muito na produção de histórias em quadrinhos direcionadas para o público mais adulto. É criador de séries e personagens de grande sucesso, como O Condomínio; Fagundes, o Puxa-Saco; Os Palhaços Mudos; Overman; Suriá; e, principalmente, Os Piratas do Tietê, sua obra mais conhecida. “A insustentável leveza do ser”, momento de extrema criatividade artística de Laerte Coutinho Os Piratas do Tietê, série surgida na revista Chiclete com Banana em 1983, também se transformou em uma revista periódica da mesma Editora Circo, com um total de 14 edições. Retrata as peripécias de um grupo de piratas saqueadores que assola o Tietê, principal rio a banhar a cidade de São Paulo, sendo um de seus maiores símbolos. Apesar da temática às vezes horripilante, a série alcança momentos de grande profundidade artística em histórias como “O poeta”, na qual os piratas compartilham o protagonismo da narrativa com o grande poeta português Fernando Pessoa. Número especial da revista Circo, com Os Piratas do Tietê Autor prolífico, Laerte continua produzindo tiras de seus vários personagens, que são publicadas em muitos jornais brasileiros. Entre suas histórias isoladas, uma menção especial merece aquela intitulada “A insustentável leveza do ser”, certamente um dos pontos altos da produção quadrinística brasileira. Nela, em uma narrativa antológica, o autor paulista disserta sobre a falsidade do mundo e a duplicidade das coisas, de uma maneira como poucas vezes foi realizada na produção da Nona Arte. De certa forma, a história assume tonalidades autobiográficas, uma vez que anos depois o autor iria assumir sua transexualidade. Vários outros títulos de revistas em quadrinhos destinadasao público adulto tiveram bastante aceitação durante as décadas de 1980 e 1990 no Brasil. O título Circo, por exemplo, publicado pela editora de mesmo nome entre 1986 e 1988, trazia os principais autores da casa, além de personagens de autores internacionais, como Enrique Sánchez Abulí e Jordi Bernet, da Espanha; Moebius (1938-2012) e Frank Margerin, da França; Robert Crumb, dos Estados Unidos; Antonio Segura (1947-2012) e José Ortiz (1932-2013), também da Espanha, entre outros (Naranjo, 2000). A revista Animal, organizada por Rogério de Campos, Newton Foot e Priscila Farias, era publicada pela Editora VHD, de São Paulo. Ela se voltava para o melhor do quadrinho internacional para adultos, divulgando autores como os italianos Stefano Tamburini (1955-1986) e Tanino Liberatore, criadores de Ranxerox; Andrea Pazienza (1956-1988), autor de A história de Astarte; e Massimo Mattioli, a mão por trás de Squeak the Mouse e Superwest; o espanhol Jordi Bernet, em colaborações com seus compatriotas Antonio Segura (Kraken), Enrique Sánchez Abulí (Torpedo) e José Ortiz (Burton & Cyb); o norte- americano Jaime Hernandez (Locas) e vários outros (André, 2004). Níquel Náusea foi outro título de bastante sucesso que esteve nas bancas de jornal entre 1986 e 1996 por diversas editoras. Na realidade, a revista compilava as tiras do personagem de mesmo nome criado pelo quadrinista Fernando Gonsales, povoadas por animais (o autor, além de cartunista, é também veterinário e biólogo). As tiras do personagem são publicadas no jornal Folha de S. Paulo desde 1985, bem como em jornais de Porto Alegre, Brasília, Belo Horizonte, entre outras cidades brasileiras. Primeiro número da revista Animal O panorama das histórias em quadrinhos brasileiras destinadas ao público adulto não estaria completo se não se fizesse referência a uma das maiores revelações da área ocorrida durante a década de 1990, o paulista Lourenço Mutarelli. Atuando inicialmente na área de fanzines e quadrinhos alternativos, esse autor despontou para o estrelato ao ganhar o primeiro prêmio da 1ª Bienal Internacional de Histórias em Quadrinhos do Rio de Janeiro, em 1991, com o álbum Transubstanciação, da Editora Dealer, de São Paulo. Dessa época em diante, o trabalho do autor foi sempre crescendo em termos de qualidade e aclamação da crítica, recebendo os maiores prêmios de quadrinhos do País. Nesse sentido, os reconhecimentos e elogios por parte da crítica e de seus colegas no gênero tornaram possível que Mutarelli encontrasse o espaço que necessitava para continuar avançando com suas histórias, abriram-se para ele as portas de publicações reconhecidas, principalmente as da revista Mil Perigos, também publicada pela Editora Dealer. No entanto, a forma escolhida pelo autor para escrever acerca de seus personagens, de uma maneira subjetiva, o manteve como um criador solitário, sui generis no ambiente brasileiro de quadrinhos. Suas tramas se diferenciavam das tendências dominantes no mercado do Brasil. (Vergueiro, Mutarelli, 2002, p. 111) A consagração veio para Mutarelli a partir da criação de álbuns de histórias em quadrinhos do gênero policial, para o qual o artista concebeu o detetive Diomedes, seu personagem mais conhecido. Em um total de quatro, os álbuns elaborados para as aventuras desse personagem – O dobro de cinco, O rei do ponto, A soma de tudo, partes 1 e 2 – transformaram Mutarelli em um dos mais consagrados narradores gráficos do País, abrindo-lhe as portas para outras mídias e até mesmo para a publicação no exterior, com seus álbuns tendo sido lançados na Espanha a partir de 2005. Desde 2006, graças à ampliação de seus horizontes artísticos, Lourenço Mutarelli vem se dedicando mais à produção teatral e à concepção de obras literárias, conseguindo um bom sucesso de público e crítica. Tem se afastado um pouco da produção de histórias em quadrinhos. Um de seus livros de ficção, O cheiro do ralo, foi vertido para a linguagem cinematográfica sob a direção de Heitor Dhalia, recebendo vários prêmios na 30ª Mostra de Cinema de São Paulo, em 2006. Atualmente, divide-se entre a dedicação à literatura, ao teatro e ao cinema, além de eventualmente continuar a produzir histórias em quadrinhos. Algumas revistas recentes da Editora Panini no Brasil EDITORAS DE QUADRINHOS EM ATIVIDADE NO BRASIL Considerando o atual mercado brasileiro de quadrinhos, é importante assinalar que ele tem sido objeto de transformações. Essas mudanças começaram já no início do novo século, em 2001, quando a Editora Abril desistiu de publicar as histórias em quadrinhos de super-heróis da Marvel, os quais foram assumidos pela editora Panini Comics, que era e continua sendo a representante da Marvel Comics no Brasil. Alguns meses depois, também os super-heróis da DC Comics foram abandonados pela mesma editora e igualmente foram parar nas mãos da Panini. Dessa forma, essa última tornou-se a principal publicadora de revistas em quadrinhos no país, iniciando suas atividades com uma média de 20 títulos regulares de super-heróis publicados mensalmente, contando as edições especiais e minisséries. A expansão da Panini Comics no Brasil, no entanto, não se limitaria apenas aos títulos super-heroísticos. A absorção pela editora dos títulos produzidos pela Mauricio de Sousa Produções Artísticas não se fez esperar, ocorrendo em 2007, quando o autor encerrou seu contrato com a Editora Globo. Restou, então, apenas o espaço de publicação dos mangás, ambiente em que a Panini Comics foi ampliando sua participação de maneira mais lenta, a partir da constituição da linha editorial denominada Planet Mangá, em 2002. No início, lançando apenas um título, a linha ampliou aos poucos o seu leque de publicações, em 2006 já disponibilizando oito títulos e fechando o ano de 2016 com mais de vinte títulos encerrados no ano e/ou correntes. Todos esses dados parecem assinalar uma estratégia de monopolização do mercado brasileiro de quadrinhos por parte da editora italiana, ocupando todo o espaço que lhe seja possível nas bancas de jornal. Atualmente, é fácil verificar que o total de títulos da Panini disponível nas bancas brasileiras chega facilmente à cifra de várias dezenas por mês, proporcionando uma variedade de personagens e séries que fazia muito tempo não se via no país. Como exemplo disso, basta assinalar que, apenas entre os meses de dezembro de 2016 e fevereiro de 2017, a editora colocou no mercado, respectivamente, um total de 65, 54 e 39 títulos a cada mês, entre super-heróis, mangás e personagens de Mauricio de Sousa, evidenciando que a estratégia adotada pela empresa continua a ser mantida, uma vez que esse número, por si só, já é suficiente para abarrotar o espaço disponível para revistas em quadrinhos nas bancas de todo o País (Panini Comics, 2017). Há motivos para acreditar na efetividade da estratégia utilizada pela Panini para dominar o mercado de bancas. Nos últimos anos, pôde-se presenciar o afastamento de algumas editoras desse circuito de comercialização de quadrinhos, optando pela venda em comic shops e livrarias. Foi o caso, entre outras, da Editora Conrad, que no início dos anos 2000 chegou a disponibilizar um razoável número de títulos nesse circuito, mas nos últimos anos deles se afastou totalmente, devendo-se salientar, também, que alguns de seus títulos foram assumidos ou relançados pela Panini. Das editoras mais antigas, apenas a Abril continua a frequentar esse ambiente, mantendo em circulação as revistas do universo Disney, que publica há décadas. Por sua vez, empresas como a Via Lettera Editora, de São Paulo, reduziram substancialmente seu catálogo de publicações, atendo-se apenas às livrarias. Além dessas, estão em atividade, com razoável presença na área, apenas as editoras Mythos e Devir, ambas da cidade de São Paulo. Tex, sucesso italiano nas bancas brasileiras, publicado atualmente pela Mythos Editora Níquel Náusea, de Fernando Gonsales, um autor brasileiro publicado pela Editora Devir, de São Paulo A Mythos Editora especializou-se na publicaçãode histórias em quadrinhos italianas, conhecidas como fumetti, produzidas pela editora Bonelli Comics. De seu catálogo de publicações destaca-se o personagem de western Tex, a grande vedete da editora, que protagoniza vários títulos, Julia (no Brasil publicada sob o título Aventuras de uma Criminóloga) e Zagor. O catálogo de publicações da Mythos Editora é completado pelo frequente lançamento de minisséries e edições especiais da DC Comics ou de outras editoras norte-americanas e europeias, normalmente em formato de luxo e com preço bastante elevado. No caso das obras da DC Comics, a publicação pela Mythos só ocorre quando não há interesse da Panini por ele. A Editora Devir concentra sua linha de atuação em quadrinhos na área de álbuns ou graphic novels para o circuito das livrarias, tornando disponíveis títulos como A Liga Extraordinária, do inglês Alan Moore; Sin City, do norte-americano Frank Miller; e The Boys, do irlandês Garth Ennis. Além disso, a editora também publica álbuns de autores brasileiros, como Fernando Gonsales, Laerte Coutinho e Laudo Ferreira. Com menor nível de atuação, ou seja, com um catálogo de publicações ainda bastante reduzido, podem ser citadas as editoras Zarabatana, Balão Editorial e Veneta. Localizadas no Estado de São Paulo – a Zarabatana tem sua sede na cidade de Campinas, enquanto as demais se estabeleceram na capital do Estado –, todas optaram pela produção e comercialização de quadrinhos em formato livro, com maior ou menor nível de qualidade. Criada no início do presente século, a Editora Zarabatana foi responsável pela publicação de diversas obras consagradas do quadrinho mundial, com especial ênfase na produção latino-americana. E, em seus três lustros de atividade, ela publicou obras como Crônicas de Jerusalém, Shenzen e Crônicas Birmanesas e Pyongyang, do canadense Guy Delisle; Bonjour e Macanudo, do argentino Liniers; e Brumas sobre a Ponte de Tolbiac, quadrinização do romance policial do escritor francês Léo Malet (1909-1996) por seu conterrâneo Jacques Tardi, entre outras. Além de autores estrangeiros selecionados, a Zarabatana tem dado também atenção à produção nacional, com destaque para a coleção Cidades Ilustradas, em que os artistas brasileiros elaboram verdadeiros ensaios ilustrados sobre cidades selecionadas; até o momento, já foram publicados nessa coleção os álbuns enfocando as cidades de Manaus (por Lourenço Mutarelli), Niterói (por Joaquim da Fonseca) e Florianópolis (por Eloar Guazzelli), para citar apenas três deles. Crônicas de Jerusalém, aclamada obra de Guy Delisle, ganhadora do prêmio Fauve d’Or no Festival de Quadrinhos de Angoulême, na França, publicada pela Editora Zarabatana Os passarinhos e Matadouro de unicórnios, obras de autores brasileiros publicadas pelas editoras Balão Editorial e Veneta As editoras Balão Editorial e Veneta são mais recentes no panorama de quadrinhos brasileiros. Fundada em 2010, a Balão Editorial enfatiza a publicação nacional, com obras de autores iniciantes, abrindo-se mais recentemente também para quadrinhos do exterior. Com poucos títulos em catálogo, isso não impediu que, em 2013, um de seus lançamentos – o livro Hector & Afonso: os Passarinhos, de Estevão Ribeiro – fosse um dos escolhidos pelo Programa Biblioteca na Escola, do governo federal, que distribui livros para as escolas do país. Por seu lado, a Editora Veneta, do experiente editor Rogério de Campos, teve seu primeiro lançamento realizado em 2012, desde então compondo um invejável conjunto de obras especialmente selecionadas, de forma a “desafiar as convenções, os consensos manufaturados, as autoridades em geral e, se necessário, seus leitores”, conforme consta na apresentação de sua homepage. Atualmente, já colocou no mercado obras de autores como o britânico Alan Moore (Do inferno, A voz do fogo), os italianos Milo Manara (Caravaggio, Quimeras) e Giovanna Casotto (Giovanníssima) e os brasileiros Marcello Quintanilha (Talco de vidro, Hinário nacional) e Juscelino Neco (Matadouro de unicórnios), entre outros. Dois títulos em quadrinhos publicados pelas editoras Nemo e HQM Outras editoras de histórias em quadrinhos no Brasil são Nemo e HQM Editora. A primeira é pertencente ao Grupo Autêntica e iniciou seus trabalhos em 2011, sob a coordenação do quadrinista Wellington Srbek. Especializou-se na publicação de álbuns de histórias em quadrinhos, principalmente de procedência europeia. Fundada em 2006, a segunda iniciou seu trabalho com a exploração de publicações para bancas de jornal, como os títulos Dark Horse Apresenta e The Walking Dead, mas posteriormente passou a investir também na publicação de álbuns e graphic novels. EDITORAS DE LIVROS QUE TAMBÉM PUBLICAM QUADRINHOS Além dessas já bem estabelecidas e com uma produção regular de quadrinhos, existem também algumas empresas que eventualmente lançam produtos da Nona Arte no mercado, ainda que não concentrem sua produção nesse tipo de material. Algumas dessas empresas são editoras bem conceituadas na área editorial que aos poucos começam a se aventurar na publicação de histórias em quadrinhos, muitas vezes testando um novo segmento de mercado no qual eventualmente poderiam ingressar. Entre essas se destacam, nos últimos anos, as seguintes editoras: Companhia das Letras (álbuns do personagem Tintin de Hergé [1907- 1983]; Maus, de Art Spiegelman; a trilogia Diomedes, de Lourenço Mutarelli); Companhia Editora Nacional (Lusíadas 2500, de Lailson de Holanda Cavalcanti); Editora Agir (O alienista, de Fábio Moon e Gabriel Bá) etc. Por outro lado, é importante considerar que o panorama das histórias em quadrinhos no Brasil não se limita apenas ao material publicado pelas editoras comerciais; na realidade, o mercado brasileiro dispõe ainda de ampla e pujante rede de fanzines e revistas alternativas publicadas de forma artesanal e atualmente com o suporte dos recursos eletrônicos (principalmente a internet). Esse mercado informal possibilita a permanência em atividade de centenas de autores de quadrinhos, bem como fornece novos talentos para o mercado editorial, o que garante, em última instância, o aprimoramento da linguagem gráfica sequencial no País. Lusíadas 2500, obra em quadrinhos publicada pela Companhia Editora Nacional, tradicional editora de livros didáticos e científicos A relíquia, de Eça de Queiroz, ilustrada por Marcatti A ATUALIDADE DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NO BRASIL: A BUSCA DE UM NOVO PÚBLICO É indiscutível que, nos últimos anos, as histórias em quadrinhos passaram por diversas transformações no mundo ocidental, visando sua adaptação a uma nova realidade. O motor de muitas dessas transformações esteve relacionado, em grande parte dos casos, a um novo entendimento sobre o papel dos quadrinhos na sociedade e à derrubada de antigos preconceitos que preconizavam os produtos da linguagem gráfica sequencial como prioritariamente direcionados ao público infantojuvenil. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação eletrônicas representou o ápice de um processo de concorrência entre os diversos meios de comunicação de massa que se iniciou com o advento da televisão, em meados do século XX, fazendo com que as histórias em quadrinhos passassem a enfrentar uma diversidade de meios de entretenimento como nunca antes haviam enfrentado, frequentemente saindo perdedoras no objetivo de prender a atenção de seu público. Assim, a indústria produtora de histórias em quadrinhos teve de buscar alternativas para responder de forma eficiente à concorrência desses meios de comunicação e informação, diversificando as características dos produtos que disponibilizava e redirecionando seus esforços de disseminação para públicos que pudessem se mostrar mais receptivos a eles. Esse movimento de adaptação dos produtos quadrinísticos pôde ser observado em várias partes do mundo, iniciando-se nas economias mais avançadas da Europa e da América do Norte, onde a indústria de quadrinhos apresentava maiores proporções. No entanto, não tardou muitopara que igual necessidade ficasse patente para as indústrias de países em desenvolvimento, especialmente na América Latina, onde às condições de concorrência desfavoráveis vieram se juntar contextos econômicos ainda mais adversos, que muitas vezes levaram ao fechamento de empresas editoriais estabelecidas no mercado aparentemente sólidas e com longa trajetória de atuação na área. O Melhor da Disney, com as obras completas de Carl Barks, ícone da histórias em quadrinhos Disney No Brasil, como já mencionado, a Editora Abril, de São Paulo, devido a condições adversas do mercado, abandonou a publicação de quadrinhos produzidos pelas editoras norte-americanas DC e Marvel Comics e passou a concentrar seu trabalho editorial somente nas histórias em quadrinhos dos personagens Disney, produtos tradicionais da editora, até mesmo com a publicação de séries de álbuns como O Melhor da Disney, que colecionou as histórias elaboradas pelo quadrinista norte-americano Carl Barks (1901-2000), um dos mais admirados artistas a desenhar esses personagens. A par do impacto da inovação tecnológica no mundo do entretenimento, a indústria produtora de quadrinhos brasileira passou a conviver nas últimas duas décadas com os materiais provenientes da indústria oriental, os mangás, que “invadiram” o país com quadrinhos de diferentes proposições temáticas e produtos direcionados para públicos segmentados, além de contar com uma ousada estratégia de marketing e um esquema coordenado de lançamentos de novos produtos que inter-relacionava produções de desenho animado para a televisão, produções cinematográficas, jogos eletrônicos, bonecos e produtos assemelhados, granjeando cada vez mais o interesse dos leitores de histórias em quadrinhos. Por exemplo, na década de 1990 a revista em quadrinhos dos Cavaleiros do Zodíaco foi precedida pelo desenho animado e por outros produtos que colaboraram para que esses personagens já fossem do conhecimento dos leitores quando da presença de sua revista nas bancas brasileiras. Isso acorreu também com outros personagens japoneses. Além disso, a popularidade da produção japonesa em histórias em quadrinhos, no caso específico do Brasil, também pode ser explicada pelo grande número de descendentes de imigrantes japoneses que aqui vivem, muitos deles ansiosos para ter contato e ficar mais familiarizados com os produtos culturais da terra de seus antepassados. Isso representou, de fato, o embate de duas estratégias industriais de dominação do mercado de entretenimento em quadrinhos – a do colosso norte-americano, por um lado, e a do produtor nipônico, por outro –, em que as vitórias iniciais foram predominantemente da indústria invasora de raízes orientais, que ano a ano ampliou sua participação no mercado de quadrinhos brasileiro, da mesma forma como ocorreu em diversos países do mundo. Grande número de obras no estilo mangá foi produzido nas últimas décadas nos países ocidentais, até mesmo incorporando a reversão do mecanismo de leitura tradicional e a adoção do modelo oriental de leitura, em que a história passa a ser lida da direita para a esquerda. Essa alternativa de publicação dos quadrinhos oriundos de países orientais, além de buscar sua justificação com o argumento de que tal medida concorre para a preservação da obra original, também possibilitou o barateamento dos produtos e maior rapidez de publicação, o que apenas colaborou para o aumento da eficiência da indústria japonesa de quadrinhos em sua atuação no Ocidente. Dragon Ball, caso emblemático da produção de massa japonesa, cercada por uma estratégia eficiente de dominação do mercado consumidor As tendências acima mencionadas tiveram impacto significativo na realidade brasileira, implicando o redirecionamento de setores da indústria produtora e a emergência de produtos diferenciados de história em quadrinhos, que buscaram ir além dos públicos tradicionais da indústria quadrinhística, o que também implicou a diversificação dos pontos de venda. Assim, às tradicionais bancas de jornal vieram se juntar as gibiterias – adaptação, em língua portuguesa, da denominação dada às lojas especializadas norte-americanas, as comic stores ou comic shops – e as grandes livrarias, que se transformaram em espaços privilegiados para alcançar um consumidor de maior idade e maior nível de exigência. Essa transformação de mercado representou, até o momento, uma alternativa viável para a permanência dos produtos da linguagem gráfica sequencial no país, ampliando sua visibilidade e colaborando para o aumento de sua aceitação pela sociedade brasileira. PRIORIDADE PARA O PÚBLICO ADULTO COMO ELEMENTO DE RENOVAÇÃO Considerando essas questões, pode-se dizer que a expansão maior do mercado de quadrinhos no Brasil ocorreu no segmento destinado ao público adulto. Vários autores que produziam regularmente para esse mercado e que apenas trafegavam pelos caminhos da produção alternativa conseguiram ter seus trabalhos publicados por empresas comerciais, o que representou grande passo para a área. As últimas duas décadas apenas intensificaram a tendência de lançamentos de quadrinhos para públicos diferenciados, acompanhando um processo de segmentação de mercados também ocorrido em outros países. Por outro lado, é preciso considerar também que a entrada no mercado de quadrinhos de massa vem ocorrendo por meio do formato de álbuns ou graphic novels. Isso apresenta tanto um aspecto positivo quanto um negativo. No primeiro caso, sendo publicados dessa forma, esses autores têm a possibilidade de conceber edições em papel de maior qualidade, melhor diagramação de páginas e quadrinhos, e em produtos com mais atrativos para o público adulto, que, em geral, é mais exigente em relação a esses fatores que o público infantojuvenil. No segundo, essa opção mercadológica limita o círculo de venda desses trabalhos, que são vendidos principalmente – e, algumas vezes, quase com exclusividade –, em livrarias, a um preço muito superior à média de qualquer revista de histórias em quadrinhos e em pequenas tiragens (em geral, por volta de mil a dois mil exemplares por edição). Na prática, ainda é bastante limitado o número de pessoas que adquirem esses álbuns, ainda que eles em geral recebam fartos elogios de seus compradores, que provavelmente os dispõem de forma ostensiva nas estantes de suas casas, como um sinal de cultura e gosto refinado, ao contrário do que normalmente acontece com as revistas em quadrinhos. Nos últimos anos, até mesmo, a opção pela publicação de álbuns e graphic novels para um público com maiores condições financeiras se tornou mais comum entre alguns editores brasileiros, acompanhando a tendência mundial. Alguns deles produzem apenas para esse segmento, deixando o mercado de revistas em quadrinhos direcionado para as grandes massas, para aquelas editoras mais tradicionais na área. Entretanto, mesmo entre estas últimas, pode- se ver o abandono do mercado de massa em prol do espaço mais sofisticado das livrarias, como ocorreu com a Editora Globo. Muitos autores brasileiros também optaram pelo álbum ou pela graphic novel como o formato preferencial para seu trabalho artístico, com exclusão de outras possibilidades. O número desses autores aumentou significativamente nessas quase duas décadas do século XXI. O já mencionado autor Lourenço Mutarelli, um dos mais aclamados artistas de quadrinhos do país, era um exemplo dessa opção, antes de preferir seguir outras veredas artísticas: nos primeiros anos do século, ele produzia um álbum ou graphic novel por ano, recebendo muitos prêmios por seu trabalho (Vergueiro, Mutarelli, 2002). De certa forma, pode-se dizer que a busca de novos públicos e a maior diversidade temática para os quadrinhos vêm ocorrendo de forma relativamente tranquila no Brasil. Já ao final da década de 1980 a criação da já mencionada Editora Devir, na cidade de São Paulo, pôde ser vista como primeira iniciativa no sentido de influenciar o mercado consumidor, na medida em que tentava atender ao crescente número de leitores de quadrinhosque queriam discutir e acompanhar tudo sobre seus personagens e revistas preferidas. Fetichast, de Márcio Nicolosi, veterano autor que também faz histórias em quadrinhos infantis para os estúdios de Mauricio de Sousa Tratava-se, então, de uma tentativa de adequação do mercado consumidor brasileiro às características do mercado norte-americano, pleiteando a instalação de comic stores e a instauração do modelo de aquisição antecipada pelos revendedores, abolindo-se a prática da consignação, comum nas bancas de jornal, em que os revendedores permanecem com os produtos por um tempo e devolvem aqueles que não foram vendidos ao produtor. Assim, ainda que provavelmente equivocada em suas premissas, a editora ajudou a estabelecer as diretrizes para publicação e disseminação de materiais voltados para um público diverso daquele composto por crianças e adolescentes, tradicionais consumidores de revistas de super-heróis e de histórias em quadrinhos infantis de autores brasileiros como Mauricio de Sousa e Ziraldo Alves Pinto. Seguindo os passos dessa editora, outros empreendedores do ramo editorial brasileiro também começaram a se voltar para novos segmentos do mercado, inicialmente tendo por base o trabalho de profissionais estrangeiros da linguagem gráfica sequencial e mais tarde buscando valorizar o artista nacional. Isso possibilitou o redirecionamento de parte significativa daquilo que correntemente está disponível para o público leitor do Brasil. Uma análise da disponibilidade de obras desse segmento de mercado evidencia a presença de editoras com no máximo vinte anos de atuação na área de quadrinhos e a produção de artigos de maior qualidade gráfica. No entanto, em consequência dessa busca de maior qualidade editorial, esses produtos também são comercializados com maior custo para o consumidor, o que, por muitos aspectos, restringe seu potencial de vendas. Trata-se ainda, em grande parte, de títulos com tiragens relativamente modestas, cujas características os fazem ficar mais próximos do mercado livreiro tradicional do que do de histórias em quadrinhos propriamente dito. Grande parte dessa produção destinada ao público adulto é veiculada em espaços diferentes das tradicionais bancas de jornal, o que pode muitas vezes dar a impressão de ser iminente o abandono das bancas como espaço privilegiado para comercialização de histórias em quadrinhos no Brasil. No entanto, embora a participação das livrarias seja essencial para a veiculação desses materiais, é viável defender que a ampliação do público de quadrinhos não deve prescindir, ou absolutamente descartar, a priori, a comercialização nesse popular espaço de vendas, uma vez que os contextos para veiculação de histórias em quadrinhos devem ser vistos de forma complementar, e não como ambientes de concorrência. Nesse sentido têm atuado as gibitecas brasileiras, bibliotecas com acervo especializado em histórias em quadrinhos, que proporcionam locais privilegiados para acesso e leitura de todos os tipos de publicação a todos os tipos de público. A primeira gibiteca brasileira foi criada na cidade de Curitiba, em 1982, seguida, em 1991, pela Gibiteca Henfil, na cidade de São Paulo, as duas maiores do País. Hoje, existem gibitecas em cidades como Santos, Santo André, São Carlos, no Estado de São Paulo; Natal, no Rio Grande do Norte; e Londrina, no Paraná, entre outras. Uma análise do mercado brasileiro de quadrinhos nas últimas duas décadas permite constatar que o número de publicações direcionadas para segmentos de público adulto aumentou substancialmente, embora a publicação de títulos para o público infantil e adolescente seja ainda bastante substancial. Isso é muito significativo em relação ao futuro da linguagem gráfica sequencial no Brasil, pois sinaliza para o atendimento a uma demanda que até recentemente se encontrava órfã, representada por aqueles leitores de histórias em quadrinhos que, tendo passado o período da adolescência, não mais se satisfazem com as temáticas aventureiras e humorísticas dos quadrinhos direcionados para essa faixa de público e buscam produtos com maior profundidade narrativa, que tratem de temas mais ousados e incluam aspectos eróticos e realistas da vida social contemporânea. A análise possibilita também identificar a presença de grande número de obras estrangeiras no mercado, composto majoritariamente por graphic novels e mangás para adultos; no primeiro caso, encontram-se os trabalhos de artistas como Neil Gaiman (Sandman), Joe Sacco (Palestina, Gorazde), Will Eisner (Ao coração da tempestade, Avenida Dropsie), Frank Miller (Sin City, Trezentos de Esparta) e Alan Moore (Watchmen, Do Inferno), enquanto que no segundo despontam os trabalhos de Keiji Nakazawa (Gen), Osamu Tezuka (Adolf, Buda) e Hayao Miyazaki (Nausicaä) Identifica-se também, nos últimos tempos, o crescimento regular da publicação de álbuns oriundos da indústria europeia, ampliando consideravelmente o leque de disponibilidade para o público interessado nessa produção quadrinística, que anteriormente se restringia apenas ao trabalho de autores mais conhecidos, como Hugo Pratt (A balada do mar salgado), Milo Manara (Clic), Moebius (Incal) e Guido Crepax (Valentina). E mesmo os autores latino-americanos de histórias em quadrinhos têm encontrado maior espaço no mercado brasileiro; nos últimos anos, os leitores brasileiros foram literalmente presenteados com edições de obras capitais dos quadrinhos latino-americanos, com especial destaque para O eternauta, obra magistral dos argentinos Héctor Oesterheld e Francisco Solano Lopez (1918-2011). Outros autores latino-americanos de quadrinhos publicados no País nos últimos anos foram Alberto Breccia, Carlos Trillo, José Muñoz, Carlos Sampayo e Maitena, entre outros. No que diz respeito à produção brasileira propriamente dita, pode-se identificar a paulatina ampliação do número de artistas no mercado, com maior variedade de enfoques e estilos narrativos. De maneira geral, o emergente mercado para adultos se divide em obras ligadas ao estilo underground e coletâneas com materiais de novos artistas; nos últimos tempos, até mesmo, nota-se também o incremento de obras de caráter educacional, com o lançamento de quadrinizações de obras literárias, que recupera uma linha de publicações bastante popular nas décadas de 1950 e 1960, representada por títulos como Edição Maravilhosa e Álbum Gigante, da EBAL. O ESTILO UNDERGROUND E COLETÂNEAS DE QUADRINHOS De certa forma, além de seguidores diretos do trabalho dos artistas do quadrinho underground norte-americano, como Robert Crumb e Gilbert Shelton, em que prevalece a crítica de costumes, o humor irreverente, a crônica de experiências pessoais e a exploração de temáticas sexuais, autores como Angeli, Laerte, Adão Iturrusgarai, Fernando Gonsales dão continuidade à obra do já mencionado artista Henfil, enveredando para a crítica social e de costumes. Autores consagrados, Angeli e Laerte são presença constante nos jornais brasileiros e grande parte de sua produção mais representativa foi realizada nas décadas de 1980 e 1990; atualmente, o trabalho deles é principalmente objeto de coletâneas e reedições; que mantêm satisfeito um público bastante fiel. Em certo sentido, apesar de ter surgido depois desses artistas, também Fernando Gonsales pode ser considerado um veterano dos quadrinhos, com seu personagem Níquel Náusea sendo publicado no jornal Folha de S. Paulo há mais de trinta anos. Seu trabalho de quadrinhos já ganhou vários prêmios e é regularmente publicado na forma de álbuns, sempre com ótima receptividade. Oriundo do Sul do país, Adão Iturrusgarai ganhou notoriedade com a publicação da revista Dundum (lançada em 1990), que teve o apoio de órgãos governamentais e foi contestada judicialmente, devido a suas características de irreverência e ao teor erótico de seu conteúdo. Posteriormente, mudando-se para o Sudeste, Adão desenvolveu personagens próprios, como a jovem Aline e a dupla homossexual Rocky e Hudson, que caíram no gosto do público. Caco Galhardotambém pode ser considerado como pertencente ao estilo underground, tanto devido às características autobiográficas de seu trabalho em quadrinhos como ao aspecto humorístico de sua obra, ainda que não atue exclusivamente nesse segmento artístico. Além desse tipo de obras, o autor também enveredou pelo trabalho de adaptação de obras literárias para a linguagem dos quadrinhos, realizando a adaptação do clássico Dom Quixote, de Cervantes (1547-1616), afastando-se um pouco do estilo predominante em outros trabalhos seus, como em sua tira Os Pescoçudos. Rocky e Hudson, os dois cowboys gays de Adão Iturrusgarai Os Pescoçudos, de Caco Galhardo Outros artistas que têm proximidade com esse estilo de quadrinhos mas que não poderiam ser rigorosamente nele enquadrados, são os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, que ganharam destaque com os álbuns da série 10 Pãezinhos e também diversificam bastante sua produção. Nos últimos anos, esses autores mergulharam no universo dos quadrinhos norte-americanos, buscando parcerias com editores e autores desses países. O resultado tem sido muito positivo, com a publicação de obras como Daytripper, abrigada no selo Vertigo, da DC Comics, em 2010. A obra foi muito bem recebida por leitores e crítica norte-americana, sendo agraciada, em 2011, com os prêmios Eisner de “Melhor Série Limitada ou Arco de Histórias” e Harvey de “Melhor Número Único ou História”, nos Estados Unidos, além de receber o prêmio Eagle de “Nova Revista em Quadrinhos Favorita”, no Reino Unido. Premiada também foi a adaptação para a linguagem dos quadrinhos do romance Dois irmãos, de Milton Hatoum, que recebeu o prêmio Eisner de “Melhor Adaptação de uma outra Mídia”. Ambas obras magistrais da dupla. Deve-se registrar, no entanto, uma diferença básica na concepção das obras: enquanto a segunda foi primeiro publicada no Brasil, para daí receber uma tradução para o inglês e ser publicada nos Estados Unidos, com a primeira ocorreu exatamente o oposto. No Brasil, a publicação de coletâneas com histórias em quadrinhos de diversos artistas e diferentes estilos narrativos não obteve o sucesso que atingiu em outros países latino-americanos, como é o caso da Argentina, em que revistas desse tipo dominaram o mercado durante boa parte da segunda metade do século XX. Dez pãezinhos, Daytripper e Dois irmãos, três fases do trabalho criativo dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá Na década de 1990, no entanto, o número de publicações desse tipo experimentou evidente incremento no mercado brasileiro de quadrinhos, representando a oportunidade de disseminação do trabalho de autores que antes restringiam sua produção a fanzines e revistas alternativas, em sua maioria autoeditadas. A mais importante publicação desse tipo foi a “revista” Front, publicada com periodicidade irregular pela Editora Via Lettera, de São Paulo, que deu espaço para quadrinhos de caráter humorístico, dramático, sarcástico ou irônico; embora publicada por uma editora comercial, ela foi organizada na forma de uma cooperativa de autores, concentrando cada edição em uma linha temática específica e possibilitando, dessa forma, um caleidoscópio de histórias que consegue atender a diferentes gostos. Contrariamente aos quadrinhos produzidos no estilo underground acima mencionado, esse tipo de publicações não se restringe a uma única linha de quadrinhos, podendo abranger autores com as mais diferentes tendências e influências, desde aficionados de super-heróis até adeptos de uma linha mais introspectiva. Na mesma linha da Front estava outra obra publicada no início dos anos 2000, a Fábrica de Quadrinhos, que contava com a a participação de 38 artistas convidados para transmutar em imagens os roteiros de personagens de quadrinhos desenvolvidos pela Fábrica de Quadrinhos, escola de artes gráficas localizada na cidade de São Paulo. Organizada por Octavio Cariello e Hermes Tadeu (1978-2003), a compilação apresentou 16 histórias, incluindo uma jam session de 21 páginas e ilustrações. No que diz respeito a iniciativas cooperativadas na área de concepção e produção de histórias em quadrinhos, a primeira década deste século terminou de forma bastante promissora, com a atuação do movimento ou coletivo denominado Quarto Mundo, composto por um grupo de autores de quadrinhos independentes que decidiu unir forças para encontrar melhores possibilidades de distribuir ou comercializar sua produção. Criado em 2007, o grupo encerrou suas atividades em 2012, período em que deu origem a dezenas de obras, distribuídas em eventos de quadrinhos do país. Dele fizeram parte artistas como Daniel Esteves, Edu Mendes, Marcos Wenceslau, Will e Leonardo Melo, entre outros, muitos dos quais permanecem em plena atividade, continuando a publicar quadrinhos tanto de forma independente como por meio de editoras convencionais. Capas da revista Front e da coletânea Fábrica de Quadrinhos, publicações que congregavam diversos autores do meio Obras de Will e Daniel Esteves, dois artistas pertencentes ao coletivo Quarto Mundo OBRAS LITERÁRIAS NA LINGUAGEM DOS QUADRINHOS Um gênero bastante comum no país durante os anos 1950 e 1960, as adaptações literárias para quadrinhos foram aos poucos perdendo seu atrativo entre o público e acabaram quase completamente abandonadas. Os últimos anos do século XX viram ainda uma tentativa de relançamento do gênero pelas mãos da Editora Abril, que lançou o título Classics Illustrated (1990-1992). Tratava-se, na realidade, apenas da tradução da nova série desse título clássico pela editora First Comics, dos Estados Unidos, com obras clássicas quadrinizadas por autores famosos dos quadrinhos de então, como Bill Sienkiewicz, Tom Mandrake, P. Craig Russell, Rick Geary, Jill Thompson, entre outros. A experiência norte- americana, no entanto, não foi muito longe, totalizando somente 27 edições; a brasileira, por seu lado, teve sorte ainda pior, não passando de 12 edições. O pouco tempo de permanência em bancas no país não deu a oportunidade de inclusão de obras de autores brasileiros, mesmo se essa intenção – uma hipótese bastante implausível – estivesse nos planos da editora brasileira. As adaptações continuaram a ser produzidas esporadicamente no início dos anos 2000. Entre as poucas iniciativas ocorridas a partir dessa data destaca-se o livro Contos em quadros, de 2002, adaptação em quadrinhos de três contos de escritores brasileiros: “Pai contra mãe”, de Machado de Assis (1839-1908), “O bebê de Tarlatana Rosa”, de João do Rio (1881-1921) e “Apólogo brasileiro sem véu de alegoria”, de Alcântara Machado (1901-1935), realizada por Célia Lima e J. Rodrigues para a Editora da Universidade Federal de Juiz de Fora. Além de trazer a transposição para a linguagem dos quadrinhos, o livro também apresenta o conto original, permitindo ao leitor realizar comparações entre as duas linguagens. Contos em Quadros, contos de grandes escritores na linguagem dos quadrinhos, acompanhados pelo texto original Galvez, o Imperador do Acre e Morte e Vida Severina, trabalhos primorosos de adaptação aos quadrinhos de obras literárias, realizada com apoio de instituições culturais Outro trabalho digno de destaque é a edição de Galvez, o imperador do Acre, adaptação da obra de Márcio Souza, com roteiro de Domingos Demasi e desenhos de Miguel Imbiriba, patrocinado pela Secretaria Executiva de Cultura do governo do Pará, um álbum esplendoroso, publicado em 2004. No entanto, por serem publicadas fora do circuito Rio-São Paulo, tais obras não obtiveram grande divulgação, ficando, infelizmente, restritas a um pequeno número de admiradores. A mesma sorte teve a transposição para quadrinhos de um dos maiores poemas brasileiros, o “auto de Natal” Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), obra realizada pelo artista Miguel Falcão – que poeticamente assina o trabalho em palíndromo, Leugim… – e publicada no final de 2005 pela Editora Massangana, braço editorial da Fundação Joaquim Nabuco, de Recife. Também de 2005 é a já mencionada bem-sucedidaadaptação em quadrinhos de Dom Quixote, de Caco Galhardo. O autor mostrou estar à altura da tarefa de trazer ao público brasileiro a quadrinização da obra do mais consagrado autor espanhol. Em traços caricaturais, seu trabalho se destacou por uma abordagem fidedigna, que buscou manter a atmosfera um pouco dantesca que predomina nas andanças do Cavaleiro da Triste Figura. A decisão editorial de utilizar o próprio texto original na quadrinização, transcrevendo, praticamente de forma literal, a tradução para a língua portuguesa feita por Sérgio Molina, também se revelou muito feliz. Felizmente, as mudanças na educação brasileira no final do século XX, principalmente a inclusão das histórias em quadrinhos nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) como uma das alternativas de complementação didática no ensino formal (Rama, Vergueiro, 2007), também parecem ter colaborado para que a quadrinização de obras literárias encontrasse novo fôlego no país. Essa foi a linha seguida pela Editora Escala Educacional, de São Paulo, com a publicação da série Literatura Brasileira em Quadrinhos, iniciada em 2005, voltada para a aplicação em sala de aula. A coleção busca transpor para a linguagem das histórias em quadrinhos obras consagradas de grandes autores brasileiros, colocando-as ao alcance dos estudantes do país, tendo até o momento publicado as edições de O homem que sabia javanês, Miss Edith e seu tio, A nova Califórnia e Um músico extraordinário, de Lima Barreto (1881-1922); Uns braços, A casa secreta, O alienista, A cartomante, Memórias póstumas de Brás Cubas e O enfermeiro, de Machado de Assis; Brás, Bexiga e Barra Funda, de Antônio de Alcântara Machado; O cortiço, de Aluísio Azevedo (1857-1913); e Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Dom Quixote, a história do Cavaleiro da Triste Figura, em quadrinhos, por Caco Galhardo Alguns álbuns de quadrinhos baseados em obras da literatura brasileira, publicados na coleção Literatura Brasileira em Quadrinhos Outros álbuns de quadrinhos voltados para a transposição de obras literárias à linguagem dos quadrinhos foram publicados no início do século. Entre eles podem ser destacados Os lusíadas, nas adaptações realizadas tanto por Lailson de Holanda Cavalcanti como por Fido Nesti; A relíquia, de Eça de Queiroz (1845-1900), com quadrinização do artista underground Marcatti; e O alienista, de Machado de Assis, com desenhos de Gabriel Bá e Fábio Moon, que ganhou o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, na categoria “didático, paradidático e ensino fundamental ou médio”. Publicada pela Editora Agir, essa obra representou apenas a primeira de várias adaptações do mesmo conto machadiano à linguagem dos quadrinhos, surgidas em comemoração ao centenário de falecimento do autor; as outras foram realizadas por Lailson de Holanda Cavalcanti (Editora Ibep), Francisco S. Vilachã (Editora Escala Educacional) e Cesar Lobo/Luiz Antonio Aguiar (Editora Ática). Os Lusíadas e O Alienista em quadrinhos, início de uma nova leva de adaptações de obras literárias no país De 2006 datam os dois volumes de Domínio público: literatura em quadrinhos, obra publicada com o apoio institucional do governo de Pernambuco. Com diversos artistas, o primeiro volume traz apenas narrativas de autores estrangeiros, enquanto o segundo apresenta contos dos escritores brasileiros Olavo Bilac (1865-1918), Antônio de Alcântara Machado, Lima Barreto, Augusto dos Anjos (1884-1914), Machado de Assis e Medeiros de Albuquerque (1987-1934). As coletâneas despertam interesse por apresentar estilos narrativos e temáticas bastante distintos entre si. Os anos seguintes coincidiram com a aposta de várias editoras no mercado de álbuns, para venda preferencialmente em livrarias, o que, além de atingir o leitor mais adulto e de poder de compra mais elevado, permitiria também a prática de preços mais altos em comparação com aquele definido para as revistas destinadas a bancas de jornal. Dentro do segmento dos álbuns pode-se notar uma tendência clara na direção de adaptações de obras literárias para os quadrinhos, muitas vezes por razões meramente comerciais. Dessa forma, não seria exagero afirmar que, a partir de 2006, ocorre no país o que se poderia denominar uma verdadeira explosão das adaptações literárias em quadrinhos. Como já mencionado, nesse ano o PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), que institui quais livros o governo federal deve comprar para compor acervos de bibliotecas escolares – incluiu títulos de obras em quadrinhos. Era a primeira vez, em quase dez anos de existência, que tal fato ocorria (Vergueiro, Ramos, 2009). Esse fato teve grande repercussão no mercado de quadrinhos durante a década seguinte. Nesse sentido, O PNBE passou a servir de incentivo para a edição de obras em quadrinhos, notadamente aquelas que têm um forte potencial para serem adotadas pelo programa. Nesse aspecto, a decisão de se publicar uma adaptação parece obedecer à lógica de mercado: produz-se aquilo que tem chance de ser vendido para um grande comprador, no caso o governo. Muitas obras, inclusive, são planejadas para acrescentar informações ao currículo escolar. Por essa razão, as biografias de personalidades históricas ou as adaptações literárias ganharam espaço nos últimos tempos dentro de várias editoras. (Chinen, Vergueiro, Ramos, 2014, p. 29) A partir desse entendimento, ocorreu um verdadeiro frenesi de adaptações literárias para quadrinhos no país. Segundo os autores acima citados, os casos esporádicos que ocorriam no início do século subiram para mais de trinta produções do gênero no final da década, abrangendo não apenas editoras tradicionais de quadrinhos, mas também aquelas sem nenhuma tradição na área. Estava aberto o período de caça ao tesouro – este, no caso, sendo a seleção do título pelo PNBE. Logicamente, a qualidade variou bastante, com adaptações bem elaboradas convivendo com outras simplesmente passáveis. Além disso, ocorreu a concentração de adaptações de autores e obras, com Machado de Assis, que até então havia sido objeto de pouquíssimas adaptações, em pouco menos de uma década recebendo cerca de quinze versões em quadrinhos. Algumas obras de Machado de Assis vertidas para as histórias em quadrinhos neste século PERSPECTIVAS PARA AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NO BRASIL Talvez seja prematuro pretender visualizar, em curto espaço de tempo, qualquer tipo de reversão significativa do mercado de produção e consumo de histórias em quadrinhos no Brasil. O panorama traçado nas páginas precedentes parece assinalar a existência de uma forte tendência para a diversificação de público e produtos. Essa é uma novidade auspiciosa, que aponta para caminhos de superação da crise trazida pelo impacto das novas tecnologias de informação e comunicação, da invasão das histórias em quadrinhos em estilo mangá e da perda de leitores ocorrida nos últimos anos. Os efeitos favoráveis da inclusão, a partir de 2006, de vários títulos de histórias em quadrinhos no Programa Nacional Biblioteca da Escola parecem ter se esvaído. Infelizmente, o país mergulhou em uma crise econômica a partir de 2014, fazendo com que este fosse, até o momento de redação destas linhas, o último ano em que as compras para esse programa foram realizadas. As perspectivas de compras públicas de quadrinhos por parte do governo federal perderam o seu maior atrativo para as editoras, praticamente paralisando os novos projetos de adaptações literárias por parte da maioria delas. Por outro lado, outras possibilidades de financiamento por parte de governos estaduais – diretamente para os autores, e não para as editoras, embora essas delas se beneficiem, em última instância –, como o Programa de Ação Cultural (Proac) do Estado de São Paulo, continuam existindo e com potencial para incentivar a produção de novas obras por autores nacionais. A utilização de histórias em quadrinhos em ambiente didático, uma porta aberta pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), por sua vez, representa uma apostaa longo prazo na ampliação do número de leitores. Nesse sentido, a familiarização dos professores com o meio, o aumento do número de aplicações e a melhor utilização dos quadrinhos em sala de aula podem trazer benefícios inestimáveis para a ampliação do mercado de trabalho nessa área no País. Tudo indica que o ingresso das histórias em quadrinhos nas escolas brasileiras é um caminho sem volta. E isso só pode ser visto com bons olhos. Ao mesmo tempo, dois fenômenos, que ocorrem em campos opostos e aparentemente contraditórios entre si, parecem, mesmo assim, concorrer para aproximar ainda mais as histórias em quadrinhos da sociedade brasileira, ajudando a quebrar barreiras de preconceitos e a criar um novo espectro de entendimento social sobre os produtos da Nona Arte. Eles são, por um lado, a emergência de eventos de massa de grandes proporções, que situam as histórias em quadrinhos no espectro de maior dinamicidade da chamada cultura pop, e, por outro, a ampliação dos estudos acadêmicos e de pesquisas científicas sobre histórias em quadrinhos no Brasil. A década de 1990 viu, no país, o início, ainda um pouco inseguro, dos grandes eventos de massa em torno das histórias em quadrinhos. No primeiro ano dessa década, em 1991, o Rio de Janeiro abrigou a I Bienal Internacional de Quadrinhos, que recebeu 400 mil visitantes; espalhada em vários locais da cidade, teve a participação de convidados estrangeiros ilustres, entre eles o norte-americano Will Eisner. A segunda edição do evento foi realizada dois anos depois, com ainda maior afluxo de público e também com muitos convidados internacionais. A terceira e última Bienal Internacional encontrou dificuldades de financiamento para sua concretização e foi realizada somente em 1997, mas não mais na capital fluminense, e sim na capital de Minas Gerais, Belo Horizonte. Em 1999, teve início o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em substituição à Bienal Internacional. Guardando a mesma periodicidade do anterior, esse evento passou a ocorrer na cidade de Belo Horizonte, sempre com a sistemática de contar com a presença de convidados de relevância nacional e internacional, exposições, lançamentos, feira de publicações, sessões de vídeo, oficinas, palestras, mesas-redondas e outras atividades. O evento cresceu, atingindo cada vez mais público e mobilizando profissionais, chegando mesmo a ser considerado a maior convenção de quadrinhos da América. Em 2011 tem início, na cidade de Curitiba, ainda de forma experiencial, o evento denominado Gibicon Zero, prelúdio para o que se realizaria no ano seguinte e que daria início a eventos também bienais, com praticamente os mesmos objetivos do Festival Internacional de Quadrinhos. Em 2016, o evento passou a chamar-se Bienal Internacional de Quadrinhos de Curitiba, mantendo a mesma sistemática de funcionamento. Em 2014 ocorre uma ampliação significativa das convenções de quadrinhos no país. Nesse ano realizam-se dois eventos quase simultâneos, com o nome Comic Con: o Brasil Comic Con e a Comic Con Experience. Ambos tiveram uma edição inicial bastante alardeada e com grande cobertura de mídia, mas apenas a segunda manteve o mesmo vigor nas edições seguintes, ampliando consideravelmente a sua importância no meio. Atualmente, a Comic Con Experience, realizada na cidade de São Paulo, pode ser considerada como a mais influente em termos de mídia e frequência de público, atraindo quase 200 mil visitantes em sua última edição. Com dezenas de convidados nacionais e internacionais, mesas de autógrafos, eventos paralelos, oficinas e palestras, lançamento de livros, apresentação de filmes, concursos de fantasias, exposições, ela se autodenomina “o maior evento da cultura pop da América Latina.” Com a Comic Con Experience, o fenômeno das convenções de cultura pop passa a seguir integralmente, no Brasil, o modelo norte-americano de convenções desse tipo, com ênfase no aspecto econômico, na divulgação massiva e na convergência cultural das diversas mídias. Pode-se criticar a instauração do modelo de eventos de massa que se estabeleceu no Brasil com as diversas convenções de quadrinhos aqui estabelecidas e em funcionamento. Sem dúvida, existem bases para desconfiar do excessivo mercantilismo, da dominação dos grandes produtores, da utilização das mídias nacionais como instrumentos para divulgação do rebotalho da cultura pop transnacional. No entanto, ainda assim, esse novo momento representa a inserção total do país no movimento internacional da cultura pop, valorizando os diversos produtos que dela fazem parte, entre eles as histórias em quadrinhos. Ao incorporar os autores nacionais nesse circuito – tratando-os, com maior ou menor dignidade, dependendo do evento – como agentes importantes do processo de produção cultural, essas convenções concorrem para o desenvolvimento de um sentimento de valor próprio e para a aproximação maior do autor nacional do seu público. Qualquer um que visite um desses eventos pode perceber que o interesse dos visitantes já não se prende apenas aos convidados internacionais, mas se estende também aos autores brasileiros, que comparecem com novas obras, lançamentos e produtos, estreitando relações desenvolvidas tanto por produções impressas como também por atividade de promoção pessoal realizada via redes sociais. Assim, desenvolve-se, aos poucos, por parte dos autores, uma mentalidade de planejamento criativo, em que cada evento concorre para alicerçar novas produções, para aproximar propostas de publicações, para sentir o impacto de produções passadas ao lado do público leitor, para alinhavar novos projetos que serão lançados em eventos futuros. Esse comprometimento se desenvolve além das datas dos eventos, prolongando-se em relacionamentos pelas redes sociais, que ao mesmo tempo alimentam e definem novos rumos para as convenções e fornecem os meios para que os projetos pessoais possam ser realizados (como, por exemplo, por meio de propostas formais de cooperação via crowdfunding, modelo de financiamento cooperativo que se utiliza das ferramentas tecnológicas para viabilização de projetos específicos). Logotipo da Comic Con Experience, a maior convenção de quadrinhos realizada no país O outro fenômeno mencionado diz respeito à valorização dos estudos sobre quadrinhos no ambiente acadêmico brasileiro. Nesse caso, mais uma vez, o País acompanha as tendências internacionais, com as pesquisas sobre quadrinhos se ampliando em todas as áreas do conhecimento e a Nona Arte atraindo cada vez mais interessados na realização de pesquisas sobre aspectos específicos de sua produção, desenvolvimento, linguagem ou processos de consumo. Dados sobre esse crescimento já podem ser encontrados de maneira mais formalizada, considerando-se o crescimento das teses e dissertações sobre quadrinhos apresentadas nas universidades brasileiras nos últimos anos (Santos, Vergueiro, 2015), bem como o crescimento dos eventos acadêmicos, com destaque para as Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos, realizadas na Universidade de São Paulo desde 2011. Trata-se de uma nova etapa do processo de legitimação cultural do meio, que passa a ser visto de forma mais positiva por parte de parcelas significativas e influentes da sociedade. Isso permite acreditar que a presença de quadrinhos em livrarias tende a aumentar, com mais pessoas se interessando por produções de qualidade e novos segmentos de interesse se estabelecendo no público consumidor. Neste último aspecto, do ponto de vista tanto do consumidor como do produtor, é importante assinalar o processo de segmentação que ocorre a partir das redes sociais, com a constituição de coletivos de autores com determinadas preferências temáticas ou de gênero. Assim, amplia-se a produção de quadrinhos realizada e destinada a mulheres, com o aparecimento de produtoras que refletem sobre sua realidade e produzem quadrinhos com características próprias, evidenciando as possibilidades de a Nona Arte atingir os mais distintos públicos. Nesse sentido, é importante salientaro trabalho de autoras como Adriana Melo, Lu Cafaggi, Bianca Pinheiro, Fefê Torquato, Priscilla, Chiquinha (Fabiane Langona), Pryscila Vieira, Germana Viana, entre outras, que têm um trabalho consistente na área de quadrinhos, refletindo as preocupações femininas e ajudando a criar um segmento de consumo extremamente necessário para o desenvolvimento do meio. O trabalho dessas e de outras autoras ajuda a ampliar o alcance dos produtos da Nona Arte na sociedade brasileira. Isso também pode ser dito de outros grupos de interesse ou temáticas específicas no meio quadrinístico, que apostam na diversidade como uma possibilidade de avanço na área. Mesmo que não se possa afirmar com certeza que essas iniciativas sejam suficientes para garantir a existência de uma indústria autóctone forte na provisão de quadrinhos para o território brasileiro, é possível acreditar que a diversidade representa uma vantagem considerável nessa batalha e por isso deve ter sua importância devidamente equacionada, tomando-se o cuidado de não minimizar seus efeitos – o que ocorreria se a ela dedicássemos o descaso quanto a seu potencial de transformação do mercado –, ou, no outro extremo, não supervalorizar suas consequências – o que se daria pela eleição desta como a única alternativa viável para a sobrevivência dos quadrinhos no país. É inquestionável que existem razões para otimismo. As primeiras duas décadas deste século, que se encerram daqui a três anos, acabam por praticamente demonstrar que os quadrinhos brasileiros devem ainda responder às mesmas perguntas que são lançadas aos quadrinhos do mundo inteiro: como irão eles sobreviver no novo ambiente virtual que passa a predominar na sociedade globalizada? Como irão lidar com o impacto da internet, do celular, do tablet e de outras tecnologias eletrônicas que estão invadindo a vida das pessoas? E, mais que isso, como irão as histórias em quadrinhos manter sua popularidade em um mundo dominado por tão diversas ofertas de entretenimento? Como irão os artistas se relacionar com o novo tipo de consumidor que as redes sociais estão criando? Como irão os produtores nativos, locais, garantir sua permanência no mercado – e, em última instância, sua própria sobrevivência como criadores culturais –, frente às indústrias estrangeiras que assolam o país, especialmente a japonesa e a norte-americana? Respostas para essas e outras perguntas são difíceis de ser dadas. No entanto, os quadrinistas do passado, por sua nem sempre bem recompensada luta e persistência em relação ao progresso da Nona Arte no Brasil, nos possibilitam cultivar a expectativa de que muito pode ser feito. É preciso acreditar. E trabalhar para que isso aconteça. REFERÊNCIAS ANDRAUS, Gazy. Los fanzines de historietas en Brasil y su situación histórico-social de la génesis a la actualidad. Revista Latinoamericana de Estudios sobre la Historieta, v. 4, n. 16, p. 257-268, 2004. ANDRÉ, Luciano Guerson. Feia, forte e formal: a história da Animal. Universo HQ [site] Disponível em: www.universohq.com/Quadrinhos/2004/animal01.cfm. Publicado em: 12 jul. 2004. 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Depois, ao aprender a ler, fui decifrando as histórias e me encantando cada vez mais. Tinha os meus preferidos, mas praticamente gostava de toda e qualquer revista. Eu acredito que, desde criança, me apaixonei pelo ritmo narrativo dos quadrinhos, a forma como eles elaboram uma narrativa e nos envolvem na leitura. Assim, não sei se aprendi a ler com os quadrinhos ou não, mas sei que eles estiveram presentes desde a primeira leitura que fiz na vida e ajudaram a ampliar meu interesse pela leitura em geral. Eu sempre achava muito engraçado quando alguém falava que ler quadrinhos afastava da leitura de livros, porque comigo isso nunca aconteceu. Eu sempre li as duas coisas. Sempre li de tudo, qualquer coisa que caísse em minhas mãos. Meu pior pesadelo, ainda hoje, é ficar sem alguma coisa para ler. Não saio de casa sem um livro ou revista em quadrinhos. Ouvi de duas pessoas que o senhor, quando criança, lia de pé e caminhando. Se confirma essa história, como se criou esse hábito? E ele continua? Eu sempre gostei muito de ler. Desde criança, fui assíduo frequentador da biblioteca pública da minha cidade, Guaratinguetá. Não era uma cidade muito grande, tinha pouco trânsito e pouca gente na rua. Eu morava cerca de quase meia hora de caminhada de lá. Assim, voltava lendo os livros que pegava. Foi um hábito que mantive durante muito tempo, repetindo-o todas as vezes que fazia longas caminhadas. Eu tinha pouco mais de oito anos quando terminei de ler toda a seção infantojuvenil da biblioteca de minha cidade. O acervo não era grande, quatro estantes no máximo. Para alguém que lia dois ou até três livros por dia – livros infantis, normalmente pouco volumosos –, não foi difícil atingir essa proeza em menos de dois anos. Lembro que na adolescência, já vivendo em outra cidade do interior, Fartura, atravessava a cidade lendo livros ou gibis. Em São Paulo isso é um pouco mais difícil, devido à quantidade de pessoas nas ruas, mas lembro que há alguns anos, quando, por orientação médica, fazia caminhadas diárias na USP, eu retomei o hábito. Até marcava as caminhadas pelo número de páginas ou de revistas que lia. O senhor já mencionou muitas vezes, e parece marcante na sua infância, nos anos 1960, o repúdio à leitura de quadrinhos. Tem alguma memória específica sobre essa rejeição, algum momento com familiares, professores ou outros? Foi algo que não senti tanto à época, mas sobre o qual vim a refletir depois. Talvez porque sempre fui um bom aluno na escola, tinha boas notas, comportava-me bem, por isso a pressão não era tanta. Mas estava lá. Eu me lembro de meus pais me proibindo de ler quadrinhos uma ou outra vez, quando meu rendimento escolar ficava um pouco abaixo do esperado. Lembro de uma ocasião – eu devia ter uns 7 ou 8 anos – em que minha mãe, uma pessoa geralmente bastante tranquila, ficou muito brava comigo porque havia comprado alguns gibis no mercado e pago, segundo ela, um valor exorbitante. Ela me arrastou de volta ao mercado, à banca de revistas usadas que me havia vendido as revistas, deu o maior esporro no pobre do vendedor e fez o homem me devolver o dinheiro que eu havia pago. Segundo ela, eu havia sido explorado. Tenho certeza de que ela não teria agido dessa forma se eu tivesse comprado um livro, pois era professora primária e uma entusiasta da leitura de obras literárias. O senhor comentou que, por mais que lesse de tudo, teria alguns preferidos entre as leituras de infância. Pode comentar quais seriam? Algum autor ou algum personagem de quadrinhos? Percebe o que identifica neles que chama sua atenção? Eu tenho vários autores e personagens preferidos, tanto no campo da literatura como no das histórias em quadrinhos. Sou um apaixonado pela literatura policial, que leio todo o tempo. Nessa área, tenho uma predileção especial por Sherlock Holmes, cujas histórias já li várias vezes e hoje acompanho pelos diversos pastiches que são publicados com ele. Também gosto muito de histórias da época da Távola Redonda, as diversas versões da lenda do rei Arthur e seus cavaleiros. Na literatura brasileira, apaixonei-me desde jovem pelos livros de Erico Verissimo, que li todos. É por causa dele que minha filha mais velha se chama Clarissa, um nome que escolhi mais de uma década antes de ela nascer. Nas histórias em quadrinhos, sempre tive uma predileção especial pelo Batman. Talvez o que me atraia nele seja o seu caráter sombrio, o fato de não ter poderes, de ser essencialmente um detetive, dependendo muito de sua argúcia, conhecimento do adversário e raciocínio lógico. Também o fato de ele ter uma galeria de vilões inigualável pode ser responsável pela atração que ele exerce sobre mim e tantos outros leitores. É um personagem complexo, com muitos aspectos a serem explorados, com muitos pontos nebulosos. E ele foi ficando cada vez mais complexo com o tempo, evoluiu. Eu acompanhei praticamente todas as fases do personagem desde que começou a ser publicado no Brasil e ele continua a ser um dos meus prediletos. Também gosto muito de Corto Maltese, criação do italiano Hugo Pratt. Acho A balada do mar salgado uma obra-prima. Eu costumo até dizer que ninguém precisa ler todos os quadrinhosdo mundo para entender o potencial dessa linguagem. Basta ler A balada do mar salgado. Seria o álbum que eu levaria para uma ilha deserta. E tenho muitos outros preferidos. Calvin, de Bill Watterson, é genial. Adoro a Mafalda, de Quino. Já decidi que nunca lerei Toda Mafalda, um livro que possuo há anos, pois não sei o que faria no resto da minha vida sem a perspectiva de uma tira ainda não lida da Mafalda para ler. Spirit, de Eisner, sempre foi um dos meus ídolos. Dos quadrinhos italianos, sempre gostei muito de Dylan Dog e de Martin Mystère, que não são mais publicados no Brasil. Ken Parker continua a me fascinar, assim como outra produção de Berardi, Julia. Aprecio as histórias de Mauricio de Sousa, dos quais prefiro Chico Bento, talvez por minhas raízes caipiras. Sempre li muito Disney, mas andei afastado desses personagens, dos quais me reaproximei nos últimos tempos. As histórias de Mickey são as que eu mais gosto. Ultimamente tenho lido muito os quadrinhos argentinos, especialmente os de aventura publicados pela Editora Columba. Embora a qualidade nem sempre seja a mais destacada, eles têm um ritmo narrativo e uma qualidade de enredo que me agrada muito. Não é à toa que nesse país se produziu O Eternauta. Li muitos mangás, mas atualmente quase não os leio mais. Não consigo dar conta da grande variedade de títulos. Apreciei muito Akira, Lobo Solitário e Samurai X. Como é a sua vida de leitor, comprador e colecionador de quadrinhos? O senhor criou hábitos desde cedo, tal como ir à banca em determinado dia da semana? Como esses hábitos evoluíram ao longo dos anos e como são atualmente? Hoje eu não diria que sou um colecionador. Já fui muito mais organizado nesse quesito, com preocupação de ter tudo o que pudesse pôr as mãos, angustiando- me quando não conseguia comprar determinado título, buscando todas as novidades sobre o meio, tentando achar raridades. Mas essa fase passou. Atualmente, acho que me classifico mais como alguém que adquire histórias em quadrinhos regularmente e as guarda. Não sou fanático como colecionador. Não tenho preocupação com a preservação, como tantos que zelam para que o material permaneça perfeito, sequer retirando do plástico ou colocando em sacos especiais. Não faço nada disso. Tenho um grande acervo, que coloco em estantes de madeira que eu mesmo fiz, num espaço de 50 metros quadrados que construí no meu sítio, onde também conservo meus livros. Antigamente eu mandava encadernar os volumes. Atualmente, não faço mais isso, pois a encadernadora com que eu trabalhava fechou e ficou muito caro. Eu comecei a ler quadrinhos quando criança e também comecei a colecioná-los. Na minha época, era comum a troca de gibis na escola ou depois do cinema. Fazíamos até banquinhas na porta de casa, para vender os gibis que não queríamos mais. Lembro-me de que, aos 11 anos, eu tinha cerca de 600 revistas em casa. Daí, o meu primo, que me havia atraído à leitura de quadrinhos, resolveu se desfazer das dele e me vendeu os 800 gibis que tinha por uma ninharia (depois, ele me disse que me teria dado as revistas, se eu tivesse esperado mais um pouco…). Lembro muito bem de minha alegria ao carregar para casa, numa sacola de feira, levas e levas de revistas em quadrinhos, que eu então acomodava em caixas na garagem. Foram viagens e viagens de um prazer incomparável. Depois continuei a comprar, praticamente não parando nunca, fora alguns anos no final da adolescência, quando tentei me afastar dos quadrinhos. Foi uma decisão que não durou muito tempo. Sempre frequentei as bancas de jornais. Quando era adolescente, eu ia a pé de Guaratinguetá a Aparecida do Norte só para comprar gibis, que chegavam primeiro nesta cidade. Continuo a ir semanalmente à banca perto da minha casa, onde já sou bem conhecido e consigo até que o dono guarde alguma revista. Às vezes, até me dá algumas revistas que esqueceu de devolver na época do recolhimento. Penso que as bancas têm uma função muito importante, pois podem ser o ponto de encontro com as histórias em quadrinhos. Inclusive, cheguei a defender em um artigo, há muitos anos, que não devíamos abandonar as bancas de revistas, como fizeram países como os Estados Unidos e a Argentina, pois isso poderia ser um tiro no pé para a indústria de quadrinhos. Felizmente, não substituímos as bancas pelas comic stores, aonde só vão aqueles que já têm o hábito de comprar quadrinhos e que, por suas características, afastam os novos leitores, os neófitos no meio. A banca ainda é a minha fornecedora preferencial de quadrinhos. Frequento livrarias, é claro, onde também compro quadrinhos, mas normalmente aqueles que me escaparam anteriormente ou aqueles que não são vendidos em bancas. Compro poucos quadrinhos pela internet e tampouco tenho o hábito de ler as produções na web. Sob certos aspectos, sou um leitor tradicionalista, que gosta de ter o produto em mãos, de cheirar o papel, de ler no banheiro. Sou um homem do século passado, reconheço. Você faz contabilidade da sua coleção? E tem algum sistema de organização digno de um bibliotecário? Eu faço, sim, a contabilidade da minha coleção. Mas estou sempre muito atrasado e no máximo consegui contabilizar cerca de 70% dela. Eu imagino que deva ter, hoje, perto de 40 mil exemplares, entre revistas e álbuns. Meu processo de organização é bem rudimentar e eu diria que absolutamente indigno de um bibliotecário. Na minha carreira, eu nunca me interessei por esse aspecto da profissão, os chamados serviços técnicos. Dediquei-me mais à questão da organização e administração de bibliotecas e ao planejamento e desenvolvimento de acervos, área que eu ajudei a criar no Brasil e denominei “Desenvolvimento de Coleções”. Assim, a organização de meu acervo é por áreas temáticas e por editoras originais. Começo pelas publicações da Bonelli, depois as da Marvel, em seguida as da DC Comics, seguidas dos quadrinhos Disney, dos de Mauricio de Sousa. A partir daí, vêm as revistas das várias outras editoras, divididas por gêneros – humor, aventura, policiais, terror, ficção científica, mangás etc. Como só eu mesmo mexo na coleção e não deixo ninguém chegar perto, sei praticamente de cor o lugar de cada título. E como recomenda que o colecionador de quadrinhos organize a coleção? Eu não me aventuro a recomendar muita coisa para o colecionador de quadrinhos. Como disse antes, não sou modelo para ninguém, pois meu tratamento da minha coleção é bastante rudimentar. Apenas coloco os quadrinhos na estante e os organizo de forma a poder encontrar aqueles de que necessito no momento em que preciso deles por algum motivo. Eu apenas salientaria aos colecionadores que o acervo existe para nos dar prazer, para atender à nossa necessidade de estar perto de algo que apreciamos. Nesse sentido, fico em dúvida até se concordo com aqueles que constituem coleções pensando nelas como um investimento para o futuro, pois para mim os quadrinhos jamais foram um negócio ou uma possível fonte de lucro. Jamais vendi uma revista; no máximo, troquei por outra que me interessava. Houve ocasiões até em que presenteei colegas com revistas que desejavam, pois senti que para eles aquele exemplar específico era muito mais importante do que era para mim. Eu acho que o importante é podermos tocar, mexer, trocar de lugar, reler, sentir a coleção o máximo possível. Cada um deve encontrar, dentro de suas possibilidades, a melhor maneira de garantir isso. Eu, particularmente, não gosto da ideia de trancafiar meus quadrinhos em armários, envoltos em sacos plásticos rigidamente lacrados, que jamais podem ser abertos, deixando-os protegidos das mazelas do mundo, para que possam durar indefinidamente. As preocupações com a preservação são importantes, mas elas não podem se sobrepor ao prazer do contato com os quadrinhos. Afinal, elas visam apenas garantir que os materiais permaneçam à nossa disposição o maior tempo possível. Não penso muito sobre o que vai acontecer com meus quadrinhos depois que eu morrer. Talvez até devesse fazer isso – afinal, já estou na casados 60 anos –, mas reluto em pensar muito a respeito. Confesso que, nesse sentido, sou egoísta: desenvolvi e continuo a desenvolver minha coleção de quadrinhos para meu deleite próprio e quero que ela dure apenas até o momento em que eu possa fazer isso. Fazendo uma comparação entre o modo como o senhor foi criado pelos seus pais e como criou seus filhos, como buscou estimular a leitura em geral, e dos quadrinhos em específico? Eu sempre incentivei meus filhos a ler. Jamais fiz qualquer restrição. Procurei deixar que lessem aquilo que lhes desse prazer, algo que meus pais não me deram, pois achavam que a leitura tinha que ter um objetivo educacional formal, utilitário ou para ampliar conhecimentos. Sempre dei livros de presente para eles, li muitas histórias à noite, jamais me neguei a comprar um livro que me pedissem. Da mesma forma, sempre tive livros e revistas em casa, eles cresceram no meio de livros e me acompanhando em minhas visitas a livrarias, sempre que viajávamos. Sempre fui mais ciumento das minhas revistas, que eu deixava que lessem, mas que fazia questão que não tirassem do lugar depois que eu as colocasse na estante (é claro que eles nunca deram muita bola para mim, sempre pegavam as revistas para ler e bagunçavam a minha organização). Acho que ler é bom para todo mundo, mas cada um deve encontrar o tipo de leitura com o qual se identifica mais. Alguns nunca encontram ou preferem outro tipo de leitura, não o da palavra escrita. Preferem ler o mundo, ler as artes visuais, ler a linguagem cinematográfica, ler a linguagem teatral, ler o que encontra no computador. Sob certos aspectos, nunca se leu tanto como agora, mas a leitura ocorre por flashes, por cortes, não é mais apenas a leitura de obras completas, de romances enormes. A comunicação eletrônica mudou hábitos e instituiu a leitura de várias coisas ao mesmo tempo, sempre privilegiando as leituras rápidas. II. SOBRE ESCREVER E SOBRE AS FELICIDADES E INFELICIDADES ACADÊMICAS Escrever parece ser uma coisa que lhe ocorre fácil. É isso mesmo? Como é o seu processo para escrever um texto? Eles saem prontos na primeira versão ou o senhor tende a fazer revisões? Eu sempre gostei muito de escrever. É algo que faço com muito prazer. Penso que minha relativa facilidade para escrever vem muito do prazer que sinto ao fazê-lo. Não vejo o ato da escrita como uma tarefa ou um sacrifício. Isso não quer dizer, no entanto, que os textos saiam prontos ou que eu escreva muito rapidamente. Eu consigo compor uma ideia com rapidez, mas muitas vezes paro um texto pela metade e continuo a pensar sobre o tema durante algum tempo. Daí, quando retorno a ele, consigo terminá-lo. Também tenho o costume, não muito recomendável, penso eu, de escrever várias coisas ao mesmo tempo. Assim, antes de terminar um artigo, por exemplo, envolvo-me na elaboração de outro, começo a escrever um projeto ou inicio um livro. Tenho vários livros pela metade e pelo menos dois quase terminados, assim como tenho muitos artigos que comecei e nunca terminei. Confesso que nunca fui muito organizado em termos de redação científica. Não tenho a prática de fazer fichamentos de livros para utilizá-los futuramente, como fazem alguns colegas. Quando escrevo, normalmente elaboro o meu pensamento e apenas depois, numa segunda leitura, é que verifico os pontos que preciso reforçar o raciocínio com o apoio da literatura, identifico alguma ideia que sei não ser originalmente minha, mas tê-la recebido de alguém, tê-la lido em algum lugar, ou confiro dados que preciso confirmar, como o título de um livro, um autor específico, o criador de um personagem etc. Daí, vou procurar o apoio bibliográfico específico. Essa prática, eu a adquiri com a experiência. No início, não tinha essa preocupação e cheguei a cometer barbaridades, citando obras como sendo de um autor (quando eram de outro), citando um personagem de memória (quando queria me referir a outro personagem), e assim por diante. Hoje, confiro qualquer afirmação que faço e aconselho o mesmo aos meus alunos. Percebo nos seus escritos uma forte admiração pela Universidade de São Paulo. Parece que essa admiração vem de antes de o senhor ingressar na universidade e se mantém mesmo com certas críticas que faz ao cotidiano burocrático que a instituição exige dos docentes. Como via a USP antes de ser professor e como essa percepção mudou ao longo da sua carreira? Dediquei 31 anos da minha vida à USP, do momento em que ingressei no Departamento de Biblioteconomia e Documentação até o dia em que me aposentei. Continuo ainda a me dedicar a ela, mesmo aposentado. E eu o fiz sempre com muito prazer. É uma grande universidade, um ambiente permanente de pesquisa, de aprofundamento, de questionamento sobre a realidade. Com todos os seus defeitos – e ela tem muitos –, ainda é, em minha opinião, a melhor universidade deste país. Um espaço privilegiado para pensar o mundo e a realidade brasileira. Eu ingressei na USP como aluno de pós-graduação em 1979, quando meu orientador me indicou algumas disciplinas de graduação que me ajudariam a completar minha formação, antes de propriamente iniciar a pós. Depois, entrei no mestrado e gostei muito do ambiente. Foi o espaço no qual eu pude desenvolver meu pensamento e onde tive liberdade para me dedicar àquilo de que gosto, encontrando minha realização profissional no contato com os alunos, no desenvolvimento de pesquisas, na elaboração de textos científicos. Trilhei toda a carreira acadêmica, tendo que me submeter ao julgamento dos pares, sendo cobrado em termos de avanço do meu conhecimento, de produção, mas sempre sentindo que as cobranças da universidade tinham um objetivo nobre, o de garantir a excelência do pensamento científico. A USP me impôs algumas exigências, é claro, mas jamais me proibiu coisa alguma. Tive a liberdade para pensar e dirigir minhas inquietações intelectuais para onde quisesse. Basicamente, fui pago para pensar. Por isso, para mim, foi sempre um grande privilégio fazer parte da USP. Acredito, inclusive, que foi muito mais o fato de estar ligado a ela, de ter comigo a “aura” que essa universidade concede a seus professores, que me permitiu influenciar de alguma maneira as áreas de pesquisa em que atuei, do que propriamente os meus méritos pessoais. Sempre me compenetrei de que tinha uma responsabilidade muito grande por causa disso, e sabia que, especialmente em relação às histórias em quadrinhos, eu poderia servir como uma espécie de diretriz, uma vitrine para outras universidades brasileiras. Ter alguém na USP estudando quadrinhos de maneira séria, acreditando no potencial do meio, defendendo sua aplicação nas diversas áreas, pode ter uma influência muito grande em outros professores, que talvez fiquem receosos de se dedicar ao estudo de quadrinhos. Eu tenho bastante consciência da importância da USP no cenário brasileiro e sinto muito quando vejo que, às vezes, os alunos, os funcionários ou mesmo os professores não têm muita clareza quanto a isso, encarando a atuação na USP apenas como um emprego ou uma ocupação igual a qualquer outra. Para mim, nunca foi. Sua produção na área de biblioteconomia é vasta: livros, artigos, congressos, orientações e, é claro, três décadas de docência. Há muitas pessoas nessa área que talvez nem conheçam sua atuação paralela com os quadrinhos. Existe uma relação Bruce Wayne/Batman entre essas duas linhas da sua carreira ou o senhor nunca as separou? É interessante essa comparação. Nos meus primeiros anos na USP, muitas vezes fiz essa mesma relação quando falava das minhas duas áreas de atuação. Como eu estava começando na docência, tinha de priorizar a atuação na biblioteconomia, torná-la visível. Aos poucos, no entanto, fui conseguindo aproximar as duas coisas e fazendo com que a biblioteconomia ficasse mais próxima das histórias em quadrinhos. Comecei a desenvolver alguns trabalhos sobre os quadrinhos como fonte de informação, depois passei a enfocar a questão das histórias em quadrinhos na educação, e daí as coisas se juntaram.Já na década de 1980, comecei a escrever sobre gibitecas e defender, no âmbito da Ciência da Informação, um espaço privilegiado para as histórias em quadrinhos, que deveriam ser vistas como um material especial, para um grupo de interesse específico, atendendo a determinadas necessidades de informação. Colaborei para a organização da Gibiteca Henfil, em São Paulo, inaugurada no final da década. Em 1999, assumi a disciplina de Editoração de Histórias em Quadrinhos no Departamento de Editoração da ECA. Era uma disciplina optativa e muitos alunos de biblioteconomia passaram a cursá-la. Daí, vários deles decidiram desenvolver trabalhos finais de curso sobre quadrinhos, que eu orientei. E desde então meu interesse por quadrinhos passou a ser conhecido também na biblioteconomia e outros colegas professores também assumiram que gostavam de quadrinhos, passando a orientar trabalhos nos diferentes níveis. Considero essa aproximação uma realização pessoal gratificante. Comecei trabalhando em duas áreas que não dialogavam e consegui fazer com que elas passassem a dialogar. E também consegui colaborar para que a biblioteconomia passasse a ver as histórias em quadrinhos com outros olhos. Nos últimos anos da carreira, quando minha ênfase passou a ser muito mais nas histórias em quadrinhos do que na biblioteconomia propriamente dita, alguns colegas chegaram a afirmar que eu havia me arrependido de ter dedicado tantos anos à área, que gostaria de ter me dedicado aos quadrinhos desde o início. Isso não é verdade. Acho que minha atuação na biblioteconomia foi importante para eu compreender melhor o papel das histórias em quadrinhos sob o ponto de vista informacional e educacional e me ajudou a ocupar um espaço que provavelmente não seria ocupado por mais ninguém. Nesse sentido, acredito que posso me considerar realizado profissionalmente. O senhor trabalhou com o professor José Marques de Melo, sumidade da ciência da comunicação no Brasil que, entre vários interesses, também prestava atenção nas histórias em quadrinhos. A professora Sonia Maria Bibe Luyten e os professores Antonio Luiz Cagnin e Álvaro de Moya trabalhavam na USP com quadrinhos desde os anos 1970. Como foi o diálogo sobre HQs com esses pares após sua entrada na ECA? Conheci o professor José Marques de Melo quando fazia o meu mestrado. Cursei a disciplina que ele oferecia no programa e desenvolvi um trabalho final sobre quadrinhos. Isso foi em 1980 ou 1981. Em 1983, ingressei na ECA como professor e, alguns anos depois, o professor José Marques se candidatou a diretor da escola [Marques de Melo foi diretor da ECA de 1989 a 1993]. Ele sabia que eu gostava de quadrinhos e me deu todo o apoio para aprofundar o meu trabalho. Não cheguei a trabalhar com a professora Sonia na ECA, pois ela se afastou em 1984 para ir fazer o doutorado no Japão e depois não retornou mais para trabalhar na escola. Moya, eu conheci pouco antes de defender a minha dissertação e ele fez parte da minha banca de defesa. Cagnin chegou à ECA em 1987 ou 1988, depois de se aposentar do ensino público. Comecei a trabalhar com os dois em 1989, por incentivo do professor José Marques de Melo. Como foi o caminho para a criação da Comissão de Eventos sobre Histórias em Quadrinhos, em 1989, e, no ano seguinte, do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos? Logo que assumiu a diretoria da ECA, o professor José Marques nos chamou – a mim, Moya e Cagnin – e convidou-nos para compor a Comissão de Eventos sobre Histórias em Quadrinhos. Sabendo de nosso interesse comum, ele quis nos unir em um trabalho conjunto em prol dos quadrinhos, que ele queria priorizar em sua gestão. Indicou-me como coordenador da comissão, pois eu era o único em tempo integral – o professor Cagnin ainda estava em turno completo e o Moya sempre foi professor colaborador em tempo parcial. No começo, eu até me senti um pouco constrangido, pois, dos três, eu era o que tinha menor história na pesquisa em quadrinhos. Mas a relação entre nós sempre foi muito boa e tínhamos um verdadeiro entusiasmo pelo que estávamos construindo juntos. Propusemos duas atividades: uma atingiu muito sucesso e a outra, um pouco menos. Essa experiência nos levou a pensar em tornar a parceria permanente e daí propusemos a criação de um núcleo de pesquisa sobre histórias em quadrinhos. A proposta agradou muito ao professor José Marques, que nos deu todo o apoio. Nesse mesmo período, fins dos anos 1980, o senhor começou a colaborar em revistas de grande circulação – IstoÉ Senhor, Veja, Visão, alguns jornais – escrevendo sobre quadrinhos. Foi algo que buscou ou os veículos o procuraram? E como o senhor encarou essa prática de escrever sobre HQs para o grande público – que, a partir daí, virou quase uma constante na sua carreira? Eu não planejei atuar em revistas de circulação geral. Nunca havia pensado nisso. Mas a repercussão de minhas atividades com quadrinhos chamou a atenção de diversos veículos e eu era sempre procurado quando havia algum fato sobre quadrinhos a ser noticiado ou comentado. Durante algum tempo, produzi para esses veículos, mas com o tempo tive que reduzir um pouco minha produção, pois não conseguia realizar um trabalho regular. Ainda continuo a ser procurado por veículos de divulgação e esporadicamente produzo alguma coisa para eles, mas é algo muito mais eventual. Felizmente, outros colegas começaram a se projetar nessa área e ocuparam o meu lugar. A revista Agaquê, lançada em 1998, tinha a intenção de fomentar esses debates sobre quadrinhos fora do âmbito universitário? É importante assinalar que houve uma primeira revista Agaquê, lançada em 1992, por iniciativa dos alunos do Curso de Especialização. Ela foi substituída, posteriormente, pelo Boletim do Núcleo de Histórias em Quadrinhos, que tinha mais as características de um fanzine e durou dois ou três anos. Com ele, chegamos até a ganhar o troféu HQ Mix. Desde o início, já existia no núcleo a intenção de fomentar o debate sobre os quadrinhos não só no âmbito universitário. A revista Agaquê surgiu em 1998 como uma revista eletrônica e conseguimos mantê-la no ar durante uns quatro anos. Era uma proposta mais organizada, visando divulgar artigos reflexivos sobre quadrinhos, principalmente aqueles surgidos como resultado de pesquisas de mestrado ou doutorado. Mais uma vez tive dificuldade de infraestrutura. Trabalhei sempre com alunos, estagiários, bolsistas de iniciação científica que iam e vinham. Eu tinha dois ou três, outras vezes não tinha nenhum. Isso criava uma inconstância muito grande na produção das revistas, que às vezes eu não conseguia colocar no ar com a periodicidade pretendida. A revista acabou tendo que ser interrompida por esse motivo. Posteriormente, com a revitalização do núcleo nos anos 2000, consegui colocar no ar outra revista eletrônica, a Nona Arte, que já está em seu quinto número. E suas colaborações em veículos como a revista HQ Express, o website Omelete e o jornal Graphiq, como surgiram? Nos anos 1990, fui convidado pelo João Paulo Martins, o Jotapê, para colaborar no Omelete. Propus uma coluna chamada “Era uma vez nos quadrinhos”, na qual enfocava autores e obras que eu considerava importantes e que eu admirava, escrevendo sobre autores como Winsor McCay, George Herriman, Hugo Pratt, Quino, Al Capp e muitos outros. Além disso, também escrevia artigos quando ocorriam datas especiais, efemérides dignas de destaque ou visitas de autores estrangeiros. Escrevi durante vários anos para o Omelete, tentando manter uma certa regularidade e sendo muito bem aceito pelos leitores. Costumava receber muitos e-mails de elogio ou pedindo que falasse de determinados autores. Até hoje ainda recebo algum eventualmente, de leitores que encontram minhas colaborações no site. Eu me afastei do site, mas ainda tenho bons amigos lá e meus artigos continuam sendo utilizados quando precisam destacar um autor ou personagem específicos. Minha colaboração no Omelete foi, em minha opinião, um fator muito importante para que outras revistas me convidassempara colaborar nelas. Fiz o que pude, escrevi bastante, mas minhas atividades na USP não permitiram que eu mantivesse a regularidade de produção que eu gostaria de ter mantido. Nos anos 1990, o senhor participou de muitos eventos sobre quadrinhos no exterior. No início da década, foi ao Primer Encuentro Iberoamericano de Historietistas e a partir daí teve grande envolvimento com Cuba. Eu fui a Cuba em 1990 meio que por acaso. Descobri que haveria o Primer Encuentro e me aventurei a ir. Nunca havia ido ao exterior. Não conhecia ninguém fora do Brasil e só sabia do que acontecia por meio de minhas pesquisas. Naquela época ainda não tínhamos a internet e as notícias chegavam bem mais lentamente. Eu pensei que era um evento de estudo de quadrinhos, mas era muito mais um evento de produtores, embora isso não tenha representado problema para mim. Cuba passava por um bom momento na produção de quadrinhos, com duas revistas sendo publicadas pela Editorial Pablo de La Torriente, um grande número de cartunistas atuantes e com muita vontade de fazer algo em torno das histórias em quadrinhos. Nesse primeiro Encontro, além dos cubanos, estava também o uruguaio Alberto Breccia, que eu conhecia apenas de nome. Consegui me entender muito bem com os cubanos e com os visitantes estrangeiros, fazendo muitos amigos. Nesse Primer Encuentro, foi proposta a criação da Asociación Latinoamericana de Historietistas, e eu entrei como representante do Brasil, passando a divulgá-la por aqui. Vários brasileiros participaram e tiveram quadrinhos publicados em revistas cubanas. Em 1991, consegui organizar uma exposição de quadrinhos cubanos no Sesc-SP e que um artista de lá participasse. Em 1993, consegui levar essa exposição para a 2ª Bienal Internacional de Quadrinhos do Rio de Janeiro, trazendo dois artistas cubanos para o Rio. Com isso, meus laços com os cubanos se estreitaram mais ainda. Participei de quatro ou cinco Encuentros durante a década de 1990 e início dos anos 2000 e ajudei também na criação e divulgação da Revista Latinoamericana de Estudios sobre la Historieta, órgão da Asociación Latinoamericana de Historietistas, publicando diversos artigos. Infelizmente, a partir de 1993 Cuba entrou no chamado “período especial”, quando a União Soviética deixou de fornecer produtos subsidiados e tudo deu para trás. A produção de quadrinhos cubanos caiu praticamente a zero. Eles não tinham mais dinheiro para bancar a revista. A comunicação ficou complicada. Aos poucos, as coisas foram ficando mais difíceis e a Asociación Latinoamericana praticamente caiu no ostracismo. Não houve um momento de fechamento, ou algo assim. Ela simplesmente foi diminuindo suas atividades e em meados da primeira década de 2000 a única coisa que persistia era a revista, devido aos esforços de um colaborador italiano, o Dario Mogno, que praticamente fazia tudo sozinho. Mas até ele acabou desistindo, pois os cubanos encontravam muita dificuldade para imprimir e distribuir a revista. No fim da mesma década, o senhor participou da fundação do International Journal of Comic Art, que é uma revista científica independente. Como via o avanço dos estudos dos quadrinhos lá fora, em relação ao Brasil? Nos anos 1990 e início dos 2000, participei de muitos eventos no exterior, buscando sempre divulgar os quadrinhos brasileiros. Foram os anos em que ampliei minha atividade na pesquisa em quadrinhos e me engajei na promoção da nossa produção no exterior. Fiz contato com o pesquisador norte-americano John Lent na primeira metade dos anos 1990, encontrando-o em eventos nos Estados Unidos e em Cuba, e ele me convidou para fazer parte do Conselho Consultivo Internacional da revista que estava criando, a International Journal of Comic Art. A revista foi lançada em 1999 e já no primeiro número tinha um artigo meu falando sobre quadrinhos brasileiros. Em meus artigos para o exterior, eu escrevo exclusivamente sobre quadrinhos brasileiros, pois acho que é meu dever divulgar a produção nacional, mostrando que não ficamos atrás de outros países e que nosso quadrinho tem características muito especiais. Já publiquei muitos artigos na IJOCA e incentivei muitos colegas e alunos a publicar na revista. O curso de Especialização em História em Quadrinhos funcionou na USP de 1991 a 1993. Quais o senhor diria que foram os erros e acertos do curso, nesse período tão curto? O curso de especialização fazia parte das propostas que Álvaro de Moya, Antonio Luiz Cagnin e eu encaminhamos ao diretor da ECA, o professor José Marques de Melo, logo ao final de 1989, depois de termos atuado na Comissão de Eventos sobre Histórias em Quadrinhos. O professor nos apoiou totalmente. Tratava-se do curso mais ambicioso sobre quadrinhos já proposto em uma universidade brasileira. Tinha 360 horas e diversas disciplinas, ministradas por nós e por alguns colegas que conseguimos que se juntassem a nós. Tivemos, inclusive, a adesão de colegas de outras universidades paulistas, como a Universidade Mackenzie e a Universidade Santa Marcelina, que passaram a colaborar conosco. O curso atraiu muita atenção e teve inicialmente muitos inscritos. Entretanto, ele tinha de se autossustentar, ou seja, precisava ser financiado pelas inscrições dos alunos. Nós não recebíamos pelas aulas, pois já trabalhávamos para a USP, mas os professores convidados tinham de ser remunerados. Aos poucos fomos descobrindo que o curso representava uma carga de trabalho muito grande para nós, pois tínhamos de fazer tudo, desde contatar os professores, organizar o calendário, conseguir salas, controlar o orçamento, realizar os pagamentos e, enfim, arcar com toda a infraestrutura, pois não tínhamos funcionários para nos ajudar na parte administrativa. Dos três, apenas eu trabalhava em tempo integral; Cagnin e Moya tinham outras atividades. Não consegui dar conta de todos os aspectos de organização de um curso como esse e tivemos de desistir depois de dois anos. Nosso sonho era, a partir do curso de especialização, propor um mestrado em histórias em quadrinhos, mas não conseguimos avançar nessa proposta, infelizmente. Você diria que há espaço para uma especialização em quadrinhos na USP hoje? E para um mestrado em quadrinhos? O mestrado em quadrinhos é um sonho meu. Mas, sendo realista, não sei se teríamos fôlego para um mestrado específico. E confesso que a ideia de um mestrado profissional não me atrai muito, pois ainda tenho uma visão mais acadêmica do mestrado. Creio que teríamos que pensar em um mestrado que trabalhasse as narrativas sequenciais em geral, englobando não apenas quadrinhos. Mas talvez eu esteja sendo pessimista. O professor Henrique Magalhães [da Universidade Federal da Paraíba] quer realizar uma discussão sobre esse assunto nas próximas Jornadas Internacionais dos Quadrinhos [de 2017] e estou ansioso para aprofundar a questão. A tentativa anterior, encaminhada por ele, não foi bem-sucedida na Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior]. Precisamos ir com cuidado para não queimar a ideia. No fim dos anos 1990, o senhor passou por um período de quase desistência dos quadrinhos. Mas foi justamente o período em que conseguiu criar uma disciplina de quadrinhos na Pós-Gradução em Ciências da Comunicação da ECA e assumiu a disciplina Editoração de Histórias em Quadrinhos. Pode contar como foi essa época? Tive sérios entreveros com a administração da ECA no final dos anos 1990. Senti que os quadrinhos estavam sendo desvalorizados e me perguntei se valia a pena continuar me esforçando tanto, gastando minha energia e esforço em algo que, na realidade, não fazia parte de minhas obrigações institucionais. Pensei seriamente em desistir. Mas felizmente não fiz isso. Refletindo melhor, decidi que deveria deixar de lado o apoio institucional e me dedicar apenas à valorização dos quadrinhos, criando um ambiente propício a que outras pessoas se juntassem a mim e instituindo uma regularidade nas atividades do Núcleo de Pesquisa em Histórias em Quadrinhos. Daí, propus a realização de umencontro mensal para discussão de quadrinhos, que posteriormente denominamos de Colóquios Científicos. Eles passaram a ser realizados todas as primeiras sextas-feiras de cada mês e aos poucos foram criando uma dinâmica de participação, com pesquisadores, alunos, ou pessoas interessadas em quadrinhos se juntando a nós e participando das discussões, que sempre ocorreram em um clima muito informal, mas, ao mesmo tempo, sem perder o caráter acadêmico. Fomos aperfeiçoando a dinâmica aos poucos, acrescentando à discussão de textos científicos de quadrinhos também a apresentação de pesquisas recém-concluídas, a participação de convidados especiais, a coordenação da discussão de forma rotativa, a cada encontro um dos membros assumindo a coordenação, a proposição de pesquisas e artigos científicos para eventos. Muitos dos que conheceram o Núcleo – que na primeira década dos anos 2000 passou a se chamar Observatório de Histórias em Quadrinhos – vieram a se inscrever na pós-graduação e desenvolver pesquisas sobre quadrinhos. Alguns são hoje professores em universidades brasileiras. Em paralelo aos colóquios, assumi a disciplina de graduação Editoração de Histórias em Quadrinhos – que me foi passada pelo professor Cagnin porque ele estava para se aposentar – e intensifiquei minha atividade em torno dos quadrinhos na pós-graduação, propondo a minha primeira disciplina de mestrado sobre quadrinhos, no programa de Ciência da Informação. Essa disciplina, Histórias em Quadrinhos, Informação e Educação” acabou direcionando grande parte de minha atividade nos quadrinhos nos anos seguintes. Já na primeira vez que ministrei a disciplina organizei um livro sobre quadrinhos na educação, que foi publicado em 2004 pela Editora Contexto, de São Paulo –, Como usar HQs na sala de aula – que foi muito bem aceito e está já em sua quarta edição. Posteriormente, passei também a orientar pesquisas no Programa de Pós- Graduação em Ciências da Comunicação, podendo ali me dedicar exclusivamente à orientação de pesquisas sobre quadrinhos. Outros livros e outras disciplinas vieram, e também, a partir de 2011, a realização das Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos e das Jornadas Temáticas de Histórias em Quadrinhos, mostrando que a melhor coisa que fiz na vida foi, naquele momento de crise, no início dos anos 2000, acreditar na vitalidade dos quadrinhos e não desistir deles. III. OS QUADRINHOS E A PESQUISA EM QUADRINHOS HOJE Como o senhor avalia o cenário atual dos quadrinhos no Brasil? Acho que vivemos um grande momento dos quadrinhos. Temos uma verdadeira avalanche de quadrinhos sendo publicados, tanto em bancas (super-heróis, mangás, infantis etc.) como em outros pontos de venda, como livrarias e gibiterias. As livrarias concentram as vendas de graphic novels e álbuns e vejo que têm uma frequência crescente de interessados, especialmente aqueles leitores mais exigentes. Estamos tendo uma mudança no público, com vários perfis aparecendo: aquele que coleciona, aquele que lê obras e autores selecionados, aquele que compra eventualmente o que atrai sua atenção, aquele que busca materiais de vanguarda. Isso é muito bom. Confesso que hoje já não me preocupo mais com a invasão dos quadrinhos norte-americanos e japoneses, pois sei que ela é inevitável. Está ligada à predominância desses países em outros meios, como a televisão, o cinema, os jogos de computador etc. Creio que o mercado está equacionando bem a convivência entre quadrinhos nacionais e estrangeiros. Em paralelo, a produção nacional está em expansão. Nunca tivemos, que eu me lembre, tantos quadrinhos sendo publicados por autores nacionais. E com uma qualidade excepcional, muitas vezes. Eu não consigo acompanhar tudo o que é publicado, mas o que eu vejo me agrada muito. O autor nacional já não tem vergonha de se colocar frente ao público. Nossos autores não ficam mais batendo nas costas uns dos outros, mas vão à luta, colocam sua produção para julgamento dos leitores, utilizam mecanismos de captação de recursos de forma a viabilizar a publicação de seus trabalhos, candidatam-se a programas governamentais de incentivo à produção, acreditam naquilo que estão fazendo. E sinto que estão sendo aprovados, pois vejo, muitas vezes, a badalação que os cerca. Nossos autores encontraram uma ótima saída nos quadrinhos autorais, uma alternativa que eu defendi nos anos 1990 e início dos 2000 e que tive o prazer de ver que está dando bons resultados. Isso para não falar dos quadrinhos na internet, que é um espaço privilegiado e que eu confesso que não acompanho tanto, por absoluta falta de tempo. Estou muito feliz com o momento atual dos quadrinhos no Brasil. As editoras de livros se interessaram momentaneamente por ingressar na área da publicação de quadrinhos, mas acho que esse momento passou. Foi um interesse muito localizado, voltado para a possibilidade de participação no programa governamental de distribuição de livros para as escolas, o PNBE. Acho que a maioria delas desistiu, agora que o governo não tem mais dinheiro para aplicar nesse programa. Algumas continuarão na área, eu espero, aquelas que se convenceram de que os quadrinhos são um bom investimento, e ampliam seu catálogo. Aquelas que estavam apenas em busca do pote de ouro no fim do arco- íris irão embora. Não vão fazer falta, em minha opinião. Precisamos de editores que acreditem no potencial dos quadrinhos como forma narrativa, não como fonte de lucros, apenas. Vejo também com muito otimismo o aumento dos eventos nacionais sobre quadrinhos. Isso evidencia a emergência dessa temática nas áreas de formação de opinião, especialmente a acadêmica. E é também muito entusiasmador o aumento de eventos de caráter popular, voltados para os leitores, colecionadores, e para o mundo nerd em geral. Não vejo de maneira negativa essa valorização do leitor entusiasta, às vezes até exagerado. Eu me sinto pessoalmente realizado quando vejo multidões de jovens se aglomerando num evento como a Comic Con Experience de São Paulo, vestidos de super-heróis, de heróis japoneses, agindo de forma extravagante e se divertindo de maneira aberta, sem constrangimentos. Foi para isso que eu lutei a minha vida inteira, ou seja, para que as pessoas pudessem gostar de histórias em quadrinhos em todos os seus aspectos e acepções e não tendo vergonha de mostrar a todos as suas preferências. Isso é muito bom e só tende a fortalecer o meio, que fica cada vez mais entranhado em um ambiente transdisciplinar, mergulhando na convergência das mídias, como diria [Henry] Jenkins. Isso é maravilhoso. Se eu tivesse 18 anos hoje, eu gostaria de estar no meio desses jovens, embora tenha sempre sido muito tímido e envergonhado para me vestir de super-herói… E quanto à penetração do tema quadrinhos nas universidades? Vejo também com muito otimismo o crescimento do interesse na pesquisa em quadrinhos. Isso é um sinal de que as barreiras contra eles já não são tão fortes quanto antes. Conseguimos abrir as portas da universidade aos quadrinhos. Agora, precisamos ser cada vez mais exigentes quanto às pesquisas que são produzidas. Nada de contemplações. Nada de facilidades. Nada de magnanimidade. Temos que ser tão exigentes em relação às pesquisas de quadrinhos quanto qualquer outra área é exigente em relação ao seu objeto de pesquisa. Trata-se, agora, de mostrar que a universidade tem muito a ganhar com a pesquisa sobre histórias em quadrinhos. Essa responsabilidade está agora nas mãos dos novos pesquisadores, pessoas como você, que estão realizando estudos no tema e futuramente irão coordenar grupos de pesquisa. Eu acredito muito nas novas gerações de pesquisadores que estão surgindo e vejo com muita alegria o entusiasmo que demonstram. Essa paixão é cada vez mais importante e ela não entra em contradição com o senso crítico, com a objetividade em relação ao objeto de pesquisa. Gostaria que você resumisse, em poucas palavras, o que pensa de outros nomes de referência na pesquisa em quadrinhos no Brasil: Sonia Maria Bibe Luyten, Álvaro de Moya,Antonio Cagnin, Moacy Cirne, Roberto Elísio dos Santos, Paulo Ramos, Nobu Chinen e, para ficar em pelo menos um nome de fora da academia, Rogério de Campos. Todos esses nomes são pesquisadores por quem tenho profunda admiração. Moya, Sonia, Cagnin e Cirne foram meus modelos de vida e de dedicação acadêmica. São colegas que eu tive como guias e com os quais tive o privilégio de conviver e aprender muito. E com quem continuo a aprender. Eles praticamente pavimentaram o caminho por onde eu pude seguir. São pessoas que acreditaram nos quadrinhos quando ninguém acreditava, que enfrentaram o pior da oposição ao meio, que receberam uma ojeriza quase geral. Quando eu me juntei a eles, o pior eles já haviam sofrido. Eu lhes serei eternamente grato por tudo o que fizeram pelos quadrinhos e acredito que todos os que apreciam o meio também deveriam ser. Pensei especialmente sobre isso na última Comic Con de São Paulo, quando acompanhei o professor Álvaro de Moya por um longo caminho, da entrada do evento até o local em que iríamos autografar nossos livros. Moya ia em cadeira de rodas (ou eu deveria dizer, aquele carrinho motorizado para pessoas com dificuldade de mobilidade), pois já tem mais de 80 anos. E eu, enquanto o acompanhava, pensava comigo que aqueles milhares de jovens lá reunidos não tinham ideia de que, ao darem espaço para o senhor idoso, estavam abrindo passagem para aquele que havia sido o pivô para que hoje todos eles estivessem ali reunidos, festejando a cultura pop e, especialmente, os quadrinhos. Roberto Elísio dos Santos, Paulo Ramos e Nobu Chinen estão entre os pesqui - sadores mais sérios que conheço, além de colegas por quem tenho um especial apreço. São amigos, companheiros e parceiros em todas as ocasiões, que têm uma dedicação exemplar aos quadrinhos. Sem o apoio deles, o Observatório de Histórias em Quadrinhos teria soçobrado há muitos anos. São colegas de caráter exemplar, com uma visão muito correta do potencial das histórias em quadrinhos na academia e com uma postura científica irrepreensível. Fui um privilegiado por ter colegas com essa qualidade ao meu lado. Muito do que as histórias em quadrinhos puderam avançar no mundo acadêmico nesses últimos anos se deve a eles. Espero que ainda possam se dedicar aos quadrinhos durante muitos anos. Todos nós ganhamos com isso. Rogério de Campos é um estudioso dedicado do meio, que à sua curiosidade intelectual alia um trabalho exemplar como editor. Tem um passado de relacionamento com o meio, uma visão crítica que desenvolveu por meio de sua familiaridade com autores e obras, que faz dele um pesquisador de mão cheia, ainda que fora do ambiente universitário. Ele tem realizado um trabalho maravilhoso em favor dos quadrinhos e do aprofundamento da área, escrevendo para jornais, apresentando palestra, divulgando os quadrinhos em todos os ambientes. Admiro muito o trabalho dele e gostaria que tivéssemos mais estudiosos sérios do porte dele fora da universidade. Acho importante salientar o trabalho de outros estudiosos fora da universidade que ajudaram a divulgar os quadrinhos e quebrar as barreiras contra eles. Devemos muito a esses admiradores do meio, como Diamantino da Silva, Reinaldo de Oliveira [1928-1999], Ionaldo Cavalcanti [1933-2002], Goida [Hiron Goidanich] e tantos outros que escreveram livros sobre quadrinhos. Não me importa que não sejam acadêmicos ou que suas obras às vezes tenham uma visão ingênua e romântica do meio. Importante, para mim, é que a contribuição que nos trouxeram ajudou a convencer muitos de que os quadrinhos podiam ser vistos de forma séria e se transformar em objeto de estudo acadêmico. Temos uma dívida de gratidão muito grande com esses colegas, muitos dos quais já não estão mais entre nós. Você acabou de ler a seção infantojuvenil da biblioteca de Guaratinguetá aos oito anos. Faltou leitura. De um leitor compulsivo para outro: ainda falta? Sempre falta. Eu agora fico pensando nos livros que gostaria de reler. Mas, ao mesmo tempo, preocupado com o que deixaria de ler se voltasse a eles. Estou neste momento lhe respondendo de Londres, tendo passado o dia visitando algumas livrarias. Foram mais de dez livros sobre quadrinhos que comprei. E outro tanto de livros de entretenimento, a maioria autores policiais. E ainda não acabei. Provavelmente sairei daqui com umas três dezenas de livros e irei comprar mais algumas dezenas em Nova York, para onde vou em seguida. Não tenho a mínima ideia se vou conseguir ler todos eles. Dificilmente. Tenho 60 anos. Os anos que me sobram são bem menos do que os que eu gostaria de ter, os que eu precisaria para ler tudo o que gostaria. Mas acho que essa ansiedade é que me anima. É que me faz sentir mais vivo. WALDOMIRO VERGUEIRO BIOGRAFIA POR ÉRICO ASSIS As informações e declarações do professor Vergueiro abaixo foram colhidas de seu Memorial de Carreira, apresentado em 2005 como um dos requisitos do concurso de Professor Titular da Universidade de SãPaulo e de entrevista. 25/9/1956 Nasce em Guaratinguetá (SP). Filho de Nicolau Pereira de Campos Vergueiro Netto e Geny de Castro Santos Vergueiro. Meu pai era militar da Aeronáutica, que tinha uma base em Guaratinguetá. Foi transferido para lá logo que a base foi criada, pois antes atuava em São Paulo. Lá eles se conheceram e se casaram. Minha mãe era natural da cidade e, em sua vida inteira, praticamente nunca se afastou mais de 300 quilômetros de lá. Ela faleceu em 1968. 1971 Mudança para a cidade de Fartura (SP), com a família. Em 1971 meu pai entrou para a reserva e nós nos mudamos para a terra natal dele, uma cidade pequena na fronteira com o Estado do Paraná. 1972-1974 Segundo grau na Escola Estadual Monsenhor José Trombi, em Fartura. 1975-1977 Muda-se para São Paulo, capital, e cursa a graduação em Biblioteconomia e Documentação na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. [No início do curso] consegui um emprego como auxiliar de bibliotecário na Faculdade São Judas Tadeu. Em 1976, prestei concurso para técnico de documentação no Instituto de Botânica da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo. Fui aprovado em primeiro lugar e comecei a trabalhar lá em final de junho daquele ano. 1976-1985 Bibliotecário do Instituto Biológico da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo. Foi o único local em que desempenhei formalmente o cargo de bibliotecário. 1979 Casa-se com Maria Teresa de Andrade Vergueiro. Minha esposa era professora de matemática no ensino público. Já está aposentada há vários anos. Nós nos damos muito bem e estamos há quase 38 anos juntos, mas nunca consegui convencê-la a ler uma revista em quadrinhos sequer. 1979 Cursa disciplinas da graduação em biblioteconomia da USP, em preparação para o mestrado. 1980-1985 Mestrado em Ciências da Comunicação na Escola de Comunicações e Artes da USP. Dissertação: “Histórias em quadrinhos: seu papel na indústria de comunicação de massa”, sob orientação de José Augusto Vaz Valente. 1980 Nascimento do filho João Paulo Vergueiro. Ele mora em São Paulo, cursou direito na USP e administração pública na fundação Getulio Vargas. Atua como administrador, trabalhando em captação de recursos para organizações do terceiro setor. 1981 Nascimento do filho João Carlos Vergueiro. Ele mora em Londres e atua na área de hotelaria, trabalhando no Hotel Savoy. 1983 Nascimento da filha Clarissa Vergueiro. Mora em uma chácara que possuo em Santa Branca (SP). Cursou Ciências Sociais na Unesp de Araraquara e também viveu vários anos na Inglaterra. Atualmente é professora de inglês em escola de idiomas e em uma escola particular na cidade de Guararema (SP). 1983 Início da carreira de docente na USP. O professor [orientador] Valente me telefonou e me informou que havia surgido uma vaga para professor temporário e ele pretendia apresentar meu currículo, se eu ainda estivesse interessado. Eu estava. Assim, naquela mesma tarde, em uma reunião do Conselho Departamental, meu nome concorreu com o docandidato de outra professora e eu fui selecionado. Fui aceito como auxiliar de ensino para trabalhar em regime de tempo parcial, por um período inicial de três anos, no Departamento de Biblioteconomia e Documentação da Escola de Comunicações e Artes 1985 Nascimento da filha Tatiana Vergueiro. Mora em São Paulo. Ela cursou Pedagogia na Unesp de Araraquara e Direito na Universidade Mackenzie, de São Paulo. Atualmente, trabalha no Ministério Público de São Paulo. Gostaria de salientar que, dos meus filhos, apenas Clarissa se interessa mais por histórias em quadrinhos, sendo uma leitora mais assídua e acompanhando principalmente as produções cinematográficas do gênero. Não chega perto do meu interesse pelo tema, no entanto. João Paulo se interessa apenas pontualmente por quadrinhos, enquanto aos outros dois os quadrinhos pouco interesse despertam. 1986-1990 Doutorado em Ciências da Comunicação (ECA/USP). Tese: “Bibliotecas públicas e transformação social: a contribuição do desenvolvimento de coleções”, sob orientação do professor José Augusto Vaz Valente. 1987 Publica os primeiros artigos na área de biblioteconomia. 1989 Publica o primeiro livro: Desenvolvimento de coleções (Associação Paulista de Bibliotecários). Coordena a recém-criada Comissão de Eventos sobre Histórias em Quadrinhos, na qual organiza a Semana Batman e a Semana do Quadrinho Brasileiro. Primeiras colaborações na imprensa escrevendo sobre quadrinhos: revistas IstoÉ Senhor, Veja, Visão, jornais A Tribuna, A Tarde. 1990 Coordena o recém-criado Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos. Participa do primeiro evento internacional: o Primer Encuentro Iberoamericano de Historietistas, em Cuba. Participa da primeira banca de mestrado com dissertação sobre quadrinhos do trabalho “Os fanzines brasileiros de histórias em quadrinhos: o espaço crítico das histórias em quadrinhos brasileiras”, de Henrique Magalhães. 1991-1993 Coordena o Curso de Especialização de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP nos seus três anos de existência. 1991 Participa da I Bienal Internacional de História em Quadrinhos, no Rio de Janeiro, ao lado de Will Eisner, Moebius e Sergio Bonelli, entre outros. 1992 Participa da 19ª International Exhibition of Comics Films and Ilustrations, em Lucca, Itália, e apresenta o trabalho “I disegnatori di fumetti brasiliani negli Stati Uniti” [“Os desenhistas de quadrinhos brasileiros nos Estados Unidos”]. 1994-1995 Pós-doutorado na Loughborough University of Technology, Inglaterra. 1994 Publica o primeiro artigo no exterior: “Comic book collections in Brazilian public libraries: the ‘gibitecas’” [As coleções de revistas em quadrinhos nas bibliotecas públicas brasileiras: as “gibitecas”]. 1995 Lança o segundo livro: Seleção de materiais de informação: princípios e técnicas (Briquet de Lemos). É jurado do Primeiro Concurso Nacional de Monografias sobre Humor e Quadrinhos do 4º Salão Universitário de Humor de Piracicaba. 1996 Lança o terceiro livro: Aquisição de materiais de informação, em coautoria com Diva Andrade. 1997 Contribui no livro International Encyclopedia of Information and Library Science [Enciclopédia Internacional de Biblioteconomia e Informação] (Londres: Routledge), com capítulo sobre a América do Sul. 1998 Funda, junto com alunos, e edita a revista Agaquê. Participa da primeira banca de doutorado com tese sobre quadrinhos: “Para reler os quadrinhos Disney: linguagem, técnica, evolução e análise de HQs”, de Roberto Elísio dos Santos. Ele foi orientado pela professora Mary Enice Ramalho de Mendonça, que antes de aceitá-lo veio falar comigo e me perguntou se eu poderia ajudá-la na orientação. Eu me prontifiquei a ajudar, mas acabei deixando a colega na mão, pois em 1994 fui fazer meu pós-doutorado na Inglaterra e só vi a tese quando ela já estava pronta. 1999 Cria e assume a disciplina Histórias em Quadrinhos, Informação e Educação no Programa de Pós-Graduação de Ciências da Comunicação da ECA-USP. Assume a disciplina Editoração de Histórias em Quadrinhos, criada em 1972 e ministrada anteriormente pelos professores Sonia Luyten e Antonio Luiz Cagnin. Participa da fundação e torna-se membro do corpo editorial da revista International Journal of Comic Art. É premiado no 2º Prêmio Biblioteconomia Paulista Laura Russo, do qual receberá outros dois prêmios nos anos seguintes. 2000 Recebe o título de livre-docente da ECA-USP. Inicia colaborações em Omelete e outros websites, escrevendo sobre quadrinhos. 2001-2003 Orienta primeiro projeto de mestrado sobre quadrinhos: “Histórias em quadrinhos: um potencial de informação inexplorado”, de Maria Alice Romano Caputo. Só consegui orientar na área de quadrinhos quando mudei de linha de pesquisa na Ciência da Informação, passando para uma linha que incluía também o aspecto educativo da área. 2002-2004 Lança e coordena o projeto de pesquisa Diretório geral de histórias em quadrinhos no Brasil. 2002-2006 Orienta primeiro projeto de doutorado sobre quadrinhos: “As histórias em quadrinhos como informação imagética integrada ao ensino universitário”, de Gazy Andraus. 2003-2009 É nomeado chefe do Departamento de Biblioteconomia e Documentação e, nos anos seguintes, alterna-se entre vice-chefe e chefe. 2004 Segundo pós-doutorado, na Universidad Carlos III, de Madri, Espanha. Organiza, com Angela Rama, o livro Como usar as histórias em quadrinhos em sala de aula (Contexto), reeditado três vezes desde então. 2005 Publica o livro Meu Brasil Mio (Pablo de La Torriente) em Cuba. Publica, com Roberto Elísio dos Santos, o livro O Tico-Tico: 100 anos da primeira revista de quadrinhos brasileira (Opera Graphica). Participa em capítulos do livro norte-americano Cartooning in Latin America (organização de John A. Lent, Hampton Press). 2006 Progride a professor titular na ECA-USP. 2007 Participa da organização do II Seminário de Pesquisa de História em Quadrinhos. 2008 O Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos torna-se Observatório de Histórias em Quadrinhos. Lança o projeto de pesquisa Histórias em quadrinhos no Brasil: história, evolução e mercado. 2009 Lança, com Paulo Ramos, os livros Quadrinhos na educação: da rejeição à prática (Contexto) e Muito além dos quadrinhos: análises e reflexões sobre a Nona Arte (Devir). Publica o capítulo “Brazilian comics: origin, development and future trends” [Quadrinhos brasileiros: origem, desenvolvimento e tendências] no livro Redrawing the nation: national identity in Latin American comics (organização de Juan Poblete, Palgrave MacMillan). 2011 Participa da organização das Primeiras Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos. Lança, com Roberto Elísio dos Santos, o livro A história em quadrinhos no Brasil: análise, evolução e mercado (Laços). 2013 Participa da organização das Segundas Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos. Lança, com Paulo Ramos e Nobu Chinen, o livro Os pioneiros no estudo de quadrinhos no Brasil (Criativo). 2014 Aposenta-se da USP e assume o cargo de professor sênior. Participa da organização da Jornada Temática de Histórias em Quadrinhos: Adaptações Literárias. 2015 Participa da organização das Terceiras Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos. 2016 Participa da organização da Segunda Jornada Temática de Histórias em Quadrinhos. 2017 Atualmente é orientador de dois mestrandos, dois doutorandos e acompanha dois pós-doutorandos na ECA-USP. CRÉDITO DAS IMAGENS Personagens da revista Crás: © Editora Abril, 1975 Semana Illustrada n° 104: © Henrique Fleiuss, 1862 Primeiro desenho humorístico publicado no Brasil, autor desconhecido. © Araújo Porto-Alegre; © Cândido Aragonez de Faria ©Bordallo Pinheiro ©Angelo Agostini Diabo Coxo: ©Angelo Agostini Cabrião: © Angelo Agostini, 1866 As aventuras de Zé Caipora: © Angelo Agostini Logotipo de O Tico-Tico: ©Angelo Agostini Almanaque d´O Tico-Tico: © Angelo Agostini. Editora O Malho, 1954 Chiquinho: © vários artistas/ revista O Tico-TicoChiquinho e Benjamin: © vários artistas/revista O Tico-Tico; © Luis Loureiro, 1915 Reco-Reco, Bolão e Azeitona: © Luis Sá/revista O Tico-Tico, 1931 Zé Macaco e Faustina: © Alfredo Storni/revista O Tico-Tico, 1908 Bolota: © Paulo Affonso Kaximbown: © Max Yantok/revista O Tico-Tico (O Malho) Lamparina: © J. Carlos/revista O Tico-Tico, 1928 Página de humor na revista O Tico-Tico: © Paulo Affonso/revista O Tico-Tico, 1944 Suplemento Juvenil n° 31: ©Hal Foster/GCSN, 1934 A Gazetinha n° 513: © vários artistas/A Gazeta, 1939 Audaz: © Messias de Mello Três legionários de sorte: © Carlos Arthur Thiré As aventuras de Roberto Sorocaba: © Monteiro Filho O Globo Juvenil: © Editora Globo. s/d Gibi Mensal n° 143: © O Globo, 1953 O Guri n° 22: O Cruzeiro, 1956 Edição Maravilhosa (1ª série) n° 92: © EBAL, 1954 Seleções Coloridas n° 1: © Walt Disney/EBAL, 1946 Álbum Gigante (2ª série) n° 1: © EBAL, 1955 Grandes Figuras em Quadrinhos n° 1: © EBAL, 1957 Série Sagrada n° 27: © EBAL, 1955 A Bíblia em Quadrinhos n° 2: © EBAL, 1965 História do Brasil em Quadrinhos: © EBAL, s/d Casa-Grande & Senzala: © Ian Wasth Rodrigues/Gilberto Freyre/EBAL, 1981 22-2000, Cidade Aberta n° 1: © Edmundo Rodrigues/RGE, 1966 Jerônimo, o herói do sertão n° 6: © Edmundo Rodrigues/RGE, 1958 Cocoricó n° 7: © Editora Globo, 2007 O Menino Maluquinho n° 1: © Ziraldo/Editora Globo, 2004 Zé Colmeia n° 11: © Hanna-Barbera/O Cruzeiro, 1970 Pererê n° 4: © Ziraldo/O Cruzeiro, 1964 Zé Carioca n° 487: © Walt Disney/Editora Abril, 1961 Mônica e a sua turma n° 1: © Mauricio de Sousa/Editora Globo, 2002 Crás! n° 1: © Editora Abril, 1974 Capitão Estrela n° 3: @Editora Continental, 1960 Ken Parker n° 1: © Berardi & Milazzo/Editora Vecchi, 1978 Mad n° 62: © Mad – E.C.Publications/Editora Vecchi, 1979 Spektro n° 13: © Western Publishing Co./Editora Vecchi, 1979 Maria Erótica nº 7: © Claudio Seto/Editora Grafipar, 1980 Aline n° 5: © Adão Iturrusgarai/Editora L&PM, 2011 Combo Rangers: © Fábio Yabu Seleções Juvenis Mazzaropi n° 4: © Editora La Selva, 1954 Senninha e sua turma n° 1: © Ayrton Senna Promoções. Rogério Martins & Ridault Dias Jr./Editora Abril, 1994 Mônica e Cascão: © Mauricio de Sousa Chico Bento e Rosinha: © Mauricio de Sousa Turma do Pererê: © Ziraldo Turma do Lambe-Lambe: © Daniel Azulay Palhaço Sacarrolha: @ Primaggio Mantovi Turma da Fofura: © Ely Barbosa/Editora Abril Turma do Xaxado: © Antônio Cedraz Garoto Vivo n° 3: © Estúdio Triboulet/Editora Abril, 2012 Uffo – uma família fora de órbita n° 1: © Editora Abril, 2012 Mangá tropical: © diversos autores/Editora Via Lettera, 2003 Turma da Mônica Jovem n° 0: © Mauricio de Sousa/Editora Panini, 2008 Luluzinha Teen n° 21: © Classic Media/Ediouro, 2011 Chico Bento Moço: © Mauricio de Sousa Dick Peter: ©Jeronimo Monteiro/Jayme Cortez /La Selva, 1952 Garra cinzenta: © Francisco Armond e Renato Silva Audaz, o demolidor: © Messias de Mello O Anjo: © Flavio Colin O Vigilante Rodoviário: © Flavio Colin Aba Larga: © Getúlio Delphim Jerônimo, o herói do sertão: © Juarez Odilon Juvêncio, o justiceiro: © Sérgio Lima /Gedeone Malagola © Ignácio Justo Targo: © Rodolfo Zalla/Gedeone Malagola A espiã de Vênus: © Fernando Ikoma Crônicas da Província: © Mozart Couto e Wander Antunes/Via Lettera, 1999 Brakan, o bárbaro vingador n° 1: © Mozart Couto/Editora Opera Graphica, 2002 Raio Negro: © Gedeone Malagola Homem de Ferro e Capitão América (Capitão Z) n°0: ©Marvel Comics/EBAL, 1967 Capitão 7 n° 40: © Osvaldo Talo/Herdeiros de Ayres de Campos/Editora Outubro, 1965 Mylar: © Eugênio Colonnese Fantastic: © Osvaldo Talo Homem Lua: © Gedeone Malagola Raio Negro: © Gedeone Malagola Raio Negro: © Gedeone Malagola Raio Negro: © Gedeone Malagola Raio Negro: © Gedeone Malagola Raio Negro contra o Homem Invisível : © Gedeone Malagola/Editora GEP, 1967 Escorpião n°1: ©Rodolfo Zalla/Editora Taika, 1966 O Judoka n° 15: ©Pedro Anísio/Eduardo Baron/Mário José de Lima/EBAL, 1970 O Terror Negro n° 1 – suplemento do Cômico Colegial: © José Lanzellotti/Editora La Selva, 1950 O retrato do mal: © Jayme Cortez Uma história de Zé do Caixão: ©Nico Rosso e R. F. Lucchetti ©Nico Rosso O Curupira: ©Flavio Colin/Pixel, 2006 O Lobisomem: © Flavio Colin Múmia: © Julio Shimamoto Mirza: © Eugênio Colonnese/Editora Catânia, 1989 O dobro de cinco: © Lourenço Mutarelli/ Editora Devir, 1999 O rei do ponto: © Lourenço Mutarelli/ Editora Devir, 2000 Ficção n° 1: © Edson Rontani, 1965 Top! Top! N° 16: © Henrique Magalhães/Marca de Fantasia, 2003 Graúna: © Henfil Fradim © Henfil Sacanagens Carlos Zéfiro n° 1: © Carlos Zéfiro/Editora Press, 1987 © Carlos Zéfiro © Roberto Kussumoto O Pasquim n° 6: © vários autores, 1969 Rango: © Edgar Vasques, © Flavio/Lailson de Holanda Cavalcanti/revista Mad brasileira Rê Bordosa e Wood & Stock: © Angeli Os piratas do Tietê: © Laerte Coutinho Os Piratas do Tietê n° 12 – O poeta, p.34: © Laerte Coutinho/Circo Editorial, 1992 Circo n° 3 - A insustentável leveza do ser, p.6: © Laerte Coutinho/Circo Editorial, 1987 Circo Especial n° 1: © Laerte Coutinho/Circo Editorial, 1988 Animal n° 1: ©vários/Editora VHD Diffusion, 1988 Wolverine (1ª série) n° 31: © Marvel Comics/Editora Panini, 2007 Batman Extra n° 12: © DC Comics/Editora Panin,. 2008 Chico Bento (1ª série) n° 9: © Mauricio de Sousa/Editora Panini, 2007 Lobo Solitário (1ª série) n° 26: © Dark Horse Comics/ Editora Panini, 2007 Tex Edição de ouro n° 58: © Sergio Bonelli Editore/ Mythos Editora, 2012 Níquel Náusea n° 5: © Fernando Gonsales/ Editora Devir, 2005 Crônicas de Jerusalém: © Guy Delisle/Zarabatana Books, 2013 Os Passarinhos e outros bichos: © Estêvão Ribeiro/Balão Editorial, 2011 Matadouro de Unicórnios: © Juscelino Neco/Editora Veneta, 2016 Pílulas azuis: © Atrabile/Editora Nemo, 2015 Dark Horse apresenta n° 1: © Dark Horse Comics/ Editora HQM, 2014 Lusíadas 2500 volume 1: © Lailson Arte & Comunicação/ LHC Associados/Companhia Editora Nacional, 2006 A Relíquia: © Marcatti/Editora Conrad, 2007 O Melhor da Disney – As obras completas de Carl Barks volume 2: © Walt Disney/ Editora Abril, 2004 Dragon Ball n° 1: © Shueisha /Editora Conrad, 2000 Fetichast – Províncias dos Cruzados: © J. Márcio Nicolosi/Editora Devir, 2007 Rocky e Hudson - Os caubóis gays : © Adão Iturrusgarai/Zarabatana Books, 2015 Os Pescoçudos: © Caco Galhardo 10 Pãezinhos – Meu coração, não sei por que : © Fábio Moon e Gabriel Bá/Editora Via Lettera, 2001 Daytripper: © DC (Vertigo)/Editora Panini, 2011 Dois Irmãos: © Fábio Moon e Gabriel Bá/Cia. das Letras, 2015 Front n° 7: © Editora Via Lettera, 2001 Fábrica de Quadrinhos: © Fábrica de Quadrinhos/Editora Devir, 2001 Por mais um dia com Zapata : © Daniel Esteves/Zapata Edições, 2015 Os arquivos dos casos de Demetrius Dante: © Will, 2015 Contos em Quadros: ©Editora Musa, 2002 Galvez, o imperador do Acre: © Domingos Demasi e Miguel Imbiriba/Secretaria de Cultura do Pará, 2004 Morte e vida Severina: © Miguel Falcão/Editora Massangana (Fundaj), 2006 Dom Quixote em quadrinhos: © Caco Galhardo/Editora Peirópolis, 2005 O cortiço (Literatura Brasileira em Quadrinhos n° 11): © Escala Educacional, 2006 A cartomante (Literatura Brasileira em Quadrinhos n° 4): © Escala Educacional, 2004 Miss Edith e seu tio (Literatura Brasileira em Quadrinhos n° 9): © Escala Educacional, 2005 Os Lusíadas em quadrinhos: © Fido Nesti/ Editora Peirópolis, 2006 O Alienista (Grandes Clássicos em Graphic Novel n° 1): © Fábio Moon e Gabriel Bá/Editora Agir, 2007 Um esqueleto: © Diego A. Molina e Márcio Koprowski/Pulo do Gato, 2015 Conto de escola em quadrinhos: © Laerte Silvino/Editora Peirópolis, 2011 Dom Casmurro (Clássicos Brasileiros em HQ n° 8): ©Rodrigo Rosa/Editora Ática, 2012 logo Comic Con Experience TIRAS DO WALDOMIRO © Fabio Ciccone © José Aguiar © Wesley Samp © Laudo Ferreira Jr. © Will © Will Leite © Eloar Guazzelli © Omar Viñole © Walmir Orlandeli © Flavio Soares © Fabio Coala ESTELIVRO FOI COMPOSTO EM MINION PRO E THE SANS E IMPRESSO EM PAPEL OFF-SET SUZANO 90G/M2 NAS OFICINAS DA ASSAHI NO INVERNO DE 2017, EM SÃO PAULO, BRASIL. Cover Page Capa Folha de rosto Créditos Sumário Uma única obra, duas funções Introdução O humor gráfico e o início dos quadrinhos no brasil A presença italiana no nascimento dos quadrinhos brasileiros “O tico-tico” a primeira revista brasileira a publicar histórias em quadrinhos O modelo norte-americano no mercado brasileiro As primeiras editoras de quadrinhos no Brasil Ebal (Editora Brasil-América Ltda.) Rge (Rio Gráfica e Editora)/Globo Editora O Cruzeiro Editora Abril Outras editoras Histórias em quadrinhos brasileiras: principais autores e personagens Quadrinhos infantis De quadrinhos infantis para quadrinhos juvenis: Mônica Jovem, Chico Bento Moço e outros Quadrinhos de aventura Quadrinhos de super-heróis brasileiros Quadrinhos de terror Quadrinhos underground e para o público adulto Carlos Zéfiro e os quadrinhos eróticos/pornográficos Quadrinhos para o público adulto Editoras de quadrinhos em atividade no Brasil Editoras de livros que também publicam quadrinhos A atualidade das histórias em quadrinhos no Brasil: a busca de um novo público Prioridade para o público adulto como elemento de renovação O estilo underground e coletâneas de quadrinhos Obras literárias na linguagem dos quadrinhos Perspectivas para as histórias em quadrinhos no Brasil Referências Entrevista a Érico Assis I. Sobre a leitura, os quadrinhos e a coleção II. Sobre escrever e sobre as felicidades e infelicidades acadêmicas III. Os quadrinhos e a pesquisa em quadrinhos hoje Waldomiro Vergueiro – Biografia Crédito das Imagens