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1©2016 Centro Brasileiro de Estudos e Pesquisas Jurídicas
PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU
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PROBLEMAS CONTEMPORÂNEOS DE
SEGURANÇA
PÚBLICA
2 ©2016 Centro Brasileiro de Estudos e Pesquisas Jurídicas
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Histórico dos Poblemas 
contemporâneos de Segurança 
Pública
14 Particularidades dos problemas 
contemporâneos: Há algo especíi-
co na violência urbana brasileira?
31 Motivação dos Poblemas 
contemporâneos de Segurança 
Pública
37 Manifestações violentas no Brasil: 
Um desaio para a implementação 
de políticas públicas - O crime orga-
nizado (tráico de drogas, milicias e 
jogo do bicho)
42 Referências
3©2016 Centro Brasileiro de Estudos e Pesquisas Jurídicas
MATERIAL DIDÁTICO
MÓDULO PROBLEMAS CONTEMPORÂNEOS DE SEGURANÇA PÚBLICA
Conteúdo Didático
Carlos Alberto Aguiar
Designer Instrucional:
Isis Batista Ferreira
Capa: 
Isis Batista Ferreira
Diagramação: 
Isis Batista Ferreira
Revisão de Originais: 
Claudio Miguel Amin
Eigênia Pereira Martins
Pedro Henrique Fonseca Pereira
Marcia Britto
4 ©2016 Centro Brasileiro de Estudos e Pesquisas Jurídicas
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Histórico dos problemas 
contemporâneos de 
Segurança Pública
 Desde 1889, início da República, a criminalidade nas grandes cidades brasileiras 
tem crescido incessantemente. Isso tudo decorre de nossa estrutura cultural e colonial, de 
modo que a infância e a adolescência vêm sendo tratadas no Brasil de maneira leviana e 
impondo aos jovens uma vida estável na miséria. Há décadas (1984) temos 50 milhões de 
menores de 20 anos e cerca de 25 milhões de menores abandonados - fato apurado por 
uma Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara dos Deputados destinada a investigar 
o problema da criança e do menor carente no Brasil.
 Aspectos Gerais da Crescente Criminalidade no Brasil
 O que faz do Rio de Janeiro ser partícipe de uma enorme patologia social que vem 
assolando a cidade há décadas só pode ser estatisticamente bem apreciado de anos para 
cá. No ano de 1908, por exemplo, 493 menores de 20 anos entraram na prisão e responde-
ram a processo crime. Entre eles, 46 contavam com menos de 15 anos. 
 Em 1909, deram entrada na Casa de Detenção 708 menores de 20 anos (dos dois 
sexos), sendo 66 com menos de 15 anos. Se em 1909 assim era no campo dos menores 
delinquentes, no ano de 1918, a polícia procedeu criminalmente contra 1.876 acusados, 
entre os quais se encontravam 327 menores. Desde 1894 é possível notar o fenômeno 
alarmante da criminalidade infantil, não só em razão do número de delitos, como também 
pela torpeza, infâmia e crueldade por eles reveladas.
 Outro fator a ser considerado na evolução da criminalidade no Brasil, num crescente 
movimento de omissão e irresponsabilidade do Estado, seria o inchaço das grandes cida-
des, em decorrência de seu desenvolvimento desenfreado desde o início do século. A não 
coordenação através de ações do Estado leva à desestruturação de todo o sistema social, 
formando verdadeiros territórios sem lei – anomia social (guetos urbanos, áreas de exclu-
são social grave). Daí inquestionável a atuação da miséria na gênese da criminalidade. 
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 Hoje, a violência no Brasil já se tornou um fato banal. A população se organiza à 
procura de segurança pessoal, seja através de cães ferozes, seja pelos meios mais variados 
de defesa pessoal, já os detentores de poder nunca tiveram a menor preocupação com a 
violência, a miséria, o desemprego, a injustiça social e a corrupção.
O Brasil sequer cogitou ter um Plano de Defesa Social: nunca houve um tra-
balho de prevenção do crime, nunca se preocuparam com os menores aban-
donados, carentes ou que nome se queira dar. O resultado, apresenta-se há 
décadas, desde os anos 80: um Brasil violento, injusto, desigual.
 De 1980 a 2000 foram assassinadas 600.00 pessoas no Brasil. De 1990 a 2000, 
369.101 pessoas, das quais 70% eram jovens entre 15 e 24 anos. Sabe-se que a maioria 
dos que morreram ou vão ser abatidos é de inocentes, civis, desprotegidos. Ainda, não se 
pode deixar de considerar a relação que a violência tem com a pobreza. As populações de 
baixa renda têm taxas signiicativamente mais elevadas que outras, em especial quando 
analisado o local de residência da vítima e os graus de escolaridade de vítimas e agresso-
res, que é muito abaixo da média. 
 Entretanto, a relação com a pobreza não é linear, uma vez que os bairros e cidades 
com maior intensidade de violência não são necessariamente os mais pobres. O contexto 
social em que a vítima está inserida é muito importante. As rixas e as brigas são fator de ris-
co de homicídios para homens, ao passo que a moradia é fator de risco para mulheres. Já 
os antecedentes de violência tendem a estar mais associados em número com os homens 
do que com as mulheres.
 A guerra sempre produzirá muito mais sofrimento do que alívio. A estatística sobre 
as vítimas, citada e analisada neste capítulo, pretende ajudar a inferir até que ponto os re-
sultados poderão ser representativos da população que está por trás de cada amostra.
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 Considerações Gerais sobre a criminalidade tradicional no Brasil e 
 no Rio de Janeiro
 A criminalidade pode ser considerada um fenômeno de massa, constituído pelo con-
junto de infrações que se apresentam em um tempo e um lugar, o que proporciona seu es-
tudo sob quatro perspectivas: características gerais, fatores que inluenciam as variações, 
tipos e aspectos diferenciais.
 O exame da criminalidade apoia-se em estatísticas criminais, em razão de serem es-
senciais não só na pesquisa, como também na elaboração de estratégias para prevenção 
e repressão do crime. Em decorrência da crescente criminalidade, tornam-se evidentes a 
sobrecarga do sistema da justiça penal e o aumento da população carcerária, consequen-
temente. 
Nestes termos, aigura-se possível desenvolver pesquisas para avaliação real 
do funcionamento do sistema de justiça penal. A Criminologia deixa de lado 
a igura isolada do criminoso como causa da criminalidade e procura verii-
car a repercussão do crime na sociedade considerando outros problemas so-
ciais: formas não criminosas de alguns comportamentos anti-sociais, 
pobreza, desemprego, injustiça social, infraestrutura urbana e outros 
fatores criminógenos.
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Outro aspecto a ser avaliado é que a grande maioria dos processados, presos 
e condenados pertence à classe pobre. Cada sociedade se organiza para pro-
teção do grupo dominante e, por isso, mostra-se insensível às necessidades 
das pessoas inferiores socialmente. Daí o delito ser conceitual e não natural. 
A criminalidade, um fenômeno sócio-político, e não meramente de segurança 
e ordem. Isto não signiica volver ao passado ou elaborar uma criminologia 
“dura”, porém uma criminologia em consonância com as exigências do futu-
ro imediato e dentro de uma estrutura sócio-política e econômica em que a 
liberdade, a igualdade e a dignidade humana de indivíduos, grupos, 
povos e nações sejam os elementos básicos.
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 Os modelos de controle social do Estado não acompanham as mudanças sociais e 
éticas da sociedade moderna. Sendo assim, é natural o nascimento de discursos críticos, 
uns considerando-os condescendentes, e outros apontando a necessidade de maior grau 
de repressão. Por não se realizar um exame técnico e/ou cientíico, as mais díspares críti-
cas são aplicadas, enquanto o certo seria examinar outros procedimentos policias e judi-
ciais capazes de substituir métodos anacrônicos. 
 A dignidade humana, pois, representa realidade a ser perseguida pelo Estado. Dian-
te disso, mostra-se imperiosaa devida conceituação de crime, criminalidade e criminoso 
no Brasil, levando-se em conta as mudanças sociais e a correspondente adaptação do sis-
tema de administração da justiça criminal.
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 O Histórico agravamento do fenômeno da violência urbana no 
 Brasil: A Região Sudeste como foco da problemática
 A violência que se veriica na criminalidade aquisitiva (furto, roubos, assaltos e se-
questros), torna evidente a crise na aplicação do Direito Penal Brasileiro - nitidamente re-
pressivo e contra a classe pobre, caracterizando irreconciliável conlito entre “lei e ordem” 
e o “princípio da reserva legal”.
 Como a criminalidade tradicional cresce há décadas, as autoridades encarregadas 
da segurança pública, pressionadas pela opinião pública, passaram a combater o crime 
dentro do binômio lei e ordem, efetuando permanentes e constantes prisões, tornando o 
cidadão um permanente suspeito, especialmente se ele não tem documento de trabalho 
ou de identidade. Essa atitude repressiva se dá sempre contra a classe menos favorecida, 
alvo constante do Estado, conforme se passa a expor. 
 Em 1977, a Secretaria de Segurança do Estado de São Paulo efetuou 155.483 prisões, 
sendo 146.683 para averiguações, numa média diária de 426 prisões envolvendo alto custo 
operacional, que não fez diminuir a criminalidade, e ao mesmo tempo instaurava 115.225 
inquéritos policiais. Idêntica atitude assumiu a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro 
prendendo 160.000 pessoas em 1977 e 24.373 inquéritos foram distribuídos ao Judiciário 
do Rio de Janeiro, não se diminuindo a criminalidade.
 Outro aspecto da criminalidade tradicional é que as vítimas não procuram a Polícia, 
com a convicção de que esta não resolverá a situação. Indaga-se: Seria a Polícia protetora 
ou opressora? Ainda tenho como ideal a possibilidade de que o policial, no futuro próximo 
ou longínquo, seja o ilósofo, o guia e o amigo.
 
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 Não existe no Brasil uma estratégia de combate ao crime, com uma ação policial 
uniforme. A Revolução de 1964, deliberadamente, promoveu o fortalecimento das Polícias 
Militares, fazendo surgir frequentes conlitos de atribuições e competências entre as Polí-
cias Estaduais - estes sempre negados pelas autoridades de segurança pública.
 É evidente a crise instaurada na Polícia, levando insegurança ao cidadão, em razão 
da ausência de uma política nacional de segurança pública, bem como pela falta de moder-
nização do sistema constitucional de segurança pública, com a deinição de novos papeis 
às instituições policiais e, principalmente, de políticas de prevenção. 
 O que existe hoje no Brasil, mormente no Rio e em São Paulo, é uma dialética da vio-
lência, histórica, que acaba por afastar o conceito do brasileiro cordial. Estamos diante de 
uma violência do cidadão e da polícia, ambas justiicadas pelo argumento de que vivemos 
em uma fase crítica da sociedade moderna. A violência, contudo, não pode ser discutida 
em termos simplórios, destituídos de bagagem cientíica ou cultural, mas sob a ótica da 
desigualdade social, da pobreza e do desemprego.
 
 É a classe pobre que comete a maioria dos atos violentos da criminalidade tradicio-
nal, o que é comprovado pelas estatísticas penitenciárias, levando-nos a concluir que o cri-
me é um fato sócio-político. Vivemos numa sociedade injusta, com enormes desigualdades 
sociais, o que torna a violência o único meio de expressão dos que vivem na marginalidade 
social. 
 Outro aspecto da criminalidade tradicional é o da marginalização do menor de 18 
anos, que atingiu a marca de 25 milhões em 1978. Isso tudo levou a uma implosão e uma 
explosão de violência, nos 10 anos seguintes, dentro da faixa etária dos 16 aos 24 anos, 
tendo sempre em conta que levam uma vida estável na miséria e pautada na falta de opor-
tunidades. 
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 É preciso, portanto, uma adaptação urgente do modelo de controle social em fun-
ção da crescente criminalidade no Brasil, a qual, inclusive, já pode ser veriicada sob novas 
formas e dimensões, como o crime transnacional, o crime inanceiro e o futuro crime orga-
nizado.
 A violência e o medo nas grandes cidades: Clima de Guerra Civil
 O medo de sofrer alguma violência não é recente na história urbana do mundo. Pen-
semos nas mulheres, vivendo constantemente em espécie de “estado de perigo” durante 
a maior parte da história, temendo abusos e estupros. Nem as ruas de Roma, no auge de 
seu brilho imperial e civilizatório, eram seguras para mulheres desacompanhadas. 
 Até que estávamos acostumados a uma relativa paz ao caminhar pelas ruas de uma 
cidade, pois as mudanças nos costumes e nas instituições tornaram as cidades, especial-
mente a partir do século XIX, lugares seguros. Há poucas décadas, um roubo sem agressão 
física, ou mesmo o simples surrupiar de uma carteira, já era motivo de grande indignação. 
Um assassinato, nem se fala: era coisa noticiada pela imprensa com muito barulho e hor-
ror. 
 No Brasil, as cidadezinhas nordestinas eram ameaçadas pelo bando de Lampião e 
por outros cangaceiros, enquanto as maiores cidades eram ambientes muito tranquilos, 
onde era possível viver sem medo, contrastando com as de hoje. Nos dias atuais, a “cidade 
do medo” é, precisamente, a grande cidade. 
 Antes símbolo de civilização, de passeios ao ar livre em praças e parques, as grandes 
cidades vão se tornando lugares em que o mais sensato parece icar em casa ou passar a 
morar em um “condomínio exclusivo” ou ir para o interior, em busca de paz e tranquilida-
de. Isso adianta?
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 Não só Brasil, mas no mundo todo, parece que o medo é um traço cada vez mais 
marcante da vida contemporânea. Há particularidades, é claro. Em alguns lugares o medo 
se associa à criminalidade “ordinária”, enquanto em outros se vincula ao terrorismo ou a 
violência de raiz religiosa ou étnica. Em vez dos problemas típicos de uma era de escassez 
e de exploração de classe, os problemas característicos de uma sociedade altamente tec-
nológica reletem uma “sociedade do risco”.
 Temos que considerar que há países na periferia do mundo capitalista em que o 
risco e o medo têm a ver, ainda, com a fome, com a exploração mais brutal do sistema 
capitalista – desigualdade social em todos os seus níveis, como também, há aqueles países 
que mesclam características econômicas de países centrais (alto grau de industrialização) 
e características sociais de países periféricos (grau socioeconômico ruins ou péssimos, com 
agravamento de desigualdades materiais). Seriam os países semiperiféricos, e o Brasil pro-
vavelmente é o melhor exemplo. 
 No Brasil, o problema de uma sociedade tecnológica combina-se com fome e des-
nutrição, com disparidades sociais aviltantes, onde uma enormidade de imóveis mantidos 
vazios por razões especulativas contrasta com a proliferação de favelas, de loteamentos 
irregulares e de população de rua. É dentro desse modelo que as cidades de um país se ca-
racterizam como “Eu tenho fome!” (fome de comida e também de justiça) e se materializam 
com o “Eu tenho medo!”.
 O presente texto não foi escrito para especialistas. Seu tema é algo com que me 
ocupo há pelo menos quinze anos, tendo já coordenado projetos de pesquisa e publicado 
livros e artigos a respeito. Aprendi a não subestimar a complexidade, quer da dinâmica dos 
problemas, quer da natureza das possíveis soluções, sempre buscando não ceder ao apelo 
de eleger um único fator explicativo, ou seja, “a” causa ou “a” solução.
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 Como a violência afeta todaa cidade
 A violência afeta a mente e a vida de todos nós. Um dos efeitos mais cruéis da onda 
de crimes é, com certeza, o medo que se espalha entre as pessoas, onde Rio e São Paulo 
estão entre as capitais mais violentas do mundo. Daí estudos apontam que 50% do total 
dos homicídios do país se concentram em cerca de apenas 27 municípios – a maioria capi-
tal e os restantes 50 % em cerca de 5.480 municípios.
 E essas 27 cidades concentram apenas 25 % da população, estando as 75 % concen-
tradas nos 5.480 municípios. O que signiica que o clima de guerra está tão localizável e 
totalmente identiicável que 25 % da população – 45 milhões sofrem a mesma massa de 
violência que 75 % - cerca de 140 milhões de habitantes (tendo como base a população de 
2004).
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Particularidades dos 
problemas contemporâneos:
Há algo especíico na 
violência urbana brasileira?
 Seria a violência somente produzida por causas sociais gerais? Pode a violência ser 
ao mesmo tempo geral e especíica. É bem verdade que problemas como pobreza e de-
semprego, bem como a inadequação, falência ou corrupção das instituições de repressão 
e punição (polícias, instituições prisionais, sistema judiciário), a “crise de valores” do mundo 
contemporâneo e a crise de instituições sociais como a família representam fatores críticos 
na construção da violência urbana. 
 Sem contar com a abrangência da dinâmica do sistema mundial capitalista até políti-
cas macroeconômicas nacionais. Signiica que, dentre os muitos crimes especíicos, vários 
têm estreita relação com o espaço urbano, principalmente com o ambiente da grande ci-
dade contemporânea.
 Não é o fato de um crime violento ter como palco uma cidade que o tornará “tipica-
mente urbano”. A violência no trânsito ou as “guerras” entre traicantes de drogas de varejo 
baseados em espaços segregados (como favelas) têm, sim, muito a ver com o ambiente – a 
organização espacial, os modos de vida, as particularidades da pobreza urbana, etc. – da 
cidade e, sobretudo, com a grande cidade. Fala-se em “violência urbana” com o objetivo de 
chamar atenção para essas particularidades, desde que não se caracterize que é a cidade 
em si que produz a violência. 
 As causas dos vários tipos de crime violento são, em última instância, muitas e nos 
remetem a fenômenos que ocorrem em várias escalas. Daí a necessidade de conhecer e 
examinar as eventuais peculiaridades brasileiras em matéria de violência urbana.
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 Em uma escala global, comparando-se grandes conjuntos (blocos geográico-cultu-
rais), há tanto semelhanças quanto diferenças entre as cidades brasileiras e as de outros 
países, como as grandes cidades da Índia (Nova Déli, Calcutá e outras). A pobreza urbana 
nessas cidades indianas, principalmente a pobreza absoluta (o pobre, em sentido absoluto, 
é o indivíduo que não consegue sequer· satisfazer as suas necessidades materiais básicas, 
como alimentar-se, vestir-se e morar apropriadamente), é maior que nas cidades brasilei-
ras. Muitas favelas antigas e consolidadas das metrópoles brasileiras parecem privilegia-
das se comparadas com os espaços de miséria de Calcutá. 
 No entanto, crimes violentos como roubos e assaltos são uma raridade, diferente-
mente do que ocorre em nosso país. Esse aparente paradoxo não pode ser explicado sem 
que se leve em conta as diferenças culturais e as particularidades, especialmente de fundo 
religioso. A vitalidade e a permanência da doutrina do “carma”, que induz a aceitar as pro-
vações desta vida como um relexo de pecados cometidos em vidas passadas, tem como 
resultado uma tendência ao fatalismo diante da privação material, que usualmente é vista 
como injustiça social. No Brasil este tipo de freio costuma não estar presente, embora não 
se possa dizer que não existam visões fatalistas. 
 Nos Estados Unidos, a violência é algo tão americano quanto a torta de maçã. Na 
Europa, a criminalidade violenta é um problema menos grave que nos Estados Unidos. Por 
sinal, o número de homicídios na cidade de São Paulo passou de 1.727 em 1980 para 6.943 
em 2000. E este nem foi o ano de pico durante o período, pois em 1996 a capital paulista 
registrou a impressionante cifra de 12.581 mortes por homicídio. Alguém poderia dizer: 
“Bem, mas a população da cidade também cresceu. Assim, é natural que o número de ho-
micídios também tenha aumentado!”. 
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 Porém, as taxas de homicídios (calculadas pelo Crisp com base em dados do Data-
sus do IBGE) também cresceu bastante durante o período. Em 1980 a taxa era de 20,32 
homicídios por 100 mil habitantes e vinte anos depois já era de 66,54. Mais que triplicou, 
portanto. Na verdade, as taxas de homicídios referentes às capitais estaduais cresceram de 
maneira alarmante nas duas últimas décadas. 
 No Rio de Janeiro a taxa era de 36,14 em 1980 e pulou para 62,96 em 2000 (ou seja, 
quase dobrou). Em São Paulo, já foi visto o quadro de agravamento ainda pior, uma vez 
que a taxa mais que triplicou. É bem verdade que houve oscilações ao longo desse período. 
No Rio de Janeiro, por exemplo, o pico não foi em 2000, mas, como em São Paulo, também 
em 1996, quando a taxa chegou a 69,20 homicídios por 100 mil habitantes. De toda manei-
ra, a tendência tem sido de um crescimento signiicativo.
 Curioso é que, ao contrário do que sugere o senso comum, os dados mais impressio-
nantes, se deixarmos de lado o número absoluto de homicídios, nem sequer são os do Rio 
ou de São Paulo. A taxa mais alta registrada em 2000 foi a do Recife, com 97,79. E a capital 
pernambucana já tinha apresentado em 1980 a alta taxa de 37,45, maior do que as taxas 
cariocas e paulistanas no mesmo ano. Ao longo desses vinte anos, o pico no Recife foi em 
1998, com a elevadíssima taxa de 115, 18. 
 Também em matéria de ritmo de crescimento da taxa de homicídio há situações 
mais impressionantes que as de Rio e São Paulo. Curitiba passou de uma taxa de “apenas” 
8,60 em 1980 para 29,17 em 2000. Porto Alegre, por sua vez, passou de uma taxa de ape-
nas 7,79 para 39,79 em 2000 (ou seja, a taxa mais que quintuplicou!).
 Os dados indicam de modo claro que a situação no Rio ou em São Paulo não é tão 
ruim assim. Apontam que a problemática da violência urbana, principalmente desde os 
anos 1980, vem se tornando um desaio nacional. Assim, a gravidade dita muito maior do 
problema nas duas grandes cidades, como Rio e São Paulo, merece ser relativizada.
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 Cumpre ressaltar que, no Rio de Janeiro, o tráico de drogas, que cada 
vez mais está vinculado direta ou indiretamente a muitos assassinatos (e ou-
tros crimes), apresenta-se de modo mais “organizado”, ostensivo e com con-
sequências sociais.
 
 Por im, várias perguntas podem ser formuladas. O que ocasiona tan-
ta violência? Quais são as perspectivas? O que pode ser feito para debe-
lar o problema? 
 A miséria, pobreza, exclusão e a desigualdade social no Rio de Janei-
ro: Relexo obscuro da predação social
A Miséria
 É o tema central. Daí começar envolvendo o leitor com as seguintes perguntas: o 
que signiica a expressão miséria? Ela realmente guarda relação de causa e efeito com a 
criminalidade? A miséria seria, por si só, um fator incrementador da violência? E a indigên-
cia, qual seria o seu signiicado e a sua repercussão no contexto social? São estes e outros 
pontos que, no desenvolvimento do tema, pretende-se abordar, visando mostrar ao leitor 
a complexidade social que hoje se vive no Estado do Rio de Janeiro e qual seu prognóstico 
- se nada for feito ou algo for mal implementado. 
 A palavra miséria signiica: situação ou estado de grande sofrimentopor falta total 
dos meios de subsistência. Neste sentido, a fome na Etiópia pode representar bem este 
conceito e, ainda neste século, poderá sofrer uma das maiores catástrofes já vistas no 
mundo. A razão do alarme internacional é a forte seca que vem assolando o país. Prevê-se 
que a fome deverá atingir aproximadamente 15 milhões de pessoas. É um número quinze 
vezes maior se comparado à grande crise vivenciada na década de 80, quando a fome atin-
giu 1 milhão de pessoas que se viram à mercê da indigência, da penúria. 
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O Brasil de Hoje – SÉCULO XXI
 O retrato da miséria tem nome e endereço no Brasil. Esse lugar se chama Guaribas, 
município do Piauí, localizado a 533 km da capital, Teresina. Guaribas é uma cidade de ruas 
áridas e de barro amarelado, com uma pequena atividade comercial. A população é esti-
mada em 4.800 habitantes, dos quais 1.700 estão desempregados. Cerca de 60% das casas 
não têm condições de habitação razoáveis. Dos 942 municípios, apenas 88 têm banheiros 
e seus moradores caminham cerca de 6 km para buscar água de um poço. 
 A mortalidade infantil em Guaribas, que representa quase o dobro da média apre-
sentada no país, é de 59,9 por mil nascidos vivos. Por isso, Guaribas é conhecida por ter 
péssimos indicadores sociais, não só pela ONU, que a considera como o pior índice de 
desenvolvimento humano do país, como também pelo IBGE, em razão do pior índice de 
vulnerabilidade. Guaribas é uma das cidades mais pobres do Brasil. Pode-se dizer, sem 
medo de errar, que ela é extremamente pobre. Precisa, com a devida urgência, da aplica-
ção efetiva de políticas públicas que possam minimizar os efeitos da miséria. 
 O Brasil é um país que, apesar de ter diminuído o número de pessoas pobres, ainda 
conta, segundo o IBGE, com 54 milhões de miseráveis. É um número muito elevado, levan-
do-se em consideração que a vizinha Colômbia tem 40 milhões de habitantes. Segundo a 
ONU, estamos em terceiro lugar no ranking mundial, com 58 milhões de habitantes que 
estão abaixo da linha da pobreza, contando com um dólar diário per capita – somente a 
Índia e a Indonésia ganham do Brasil.
 
 Além disso, 20% de nossos pobres detêm apenas 2,5% da renda nacional, enquanto 
os 20% mais ricos abiscoitam 64,2%. Embora a distribuição ideal de renda exista apenas 
em tribos indígenas como a dos ianomâmis - onde todos sofrem com igual miséria, a reali-
dade brasileira é singular.
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 O mapa da miséria, segundo o IBGE, mostra que os pobres se distribuem de forma 
desigual pelas regiões do país. No Nordeste, 50,9% das pessoas vivem com até meio salário 
mínimo mensal. No Sudeste, esse percentual é de 17,8%. 
 O retrato socioeconômico do Brasil no novo século foi recentemente publicado pelo 
IBGE, através da PNAD[5], revelando que, apesar dos avanços nos indicadores educacio-
nais e no acesso a bens duráveis, a renda média dos trabalhadores vem caindo desde 
1996. Os rendimentos já acumulam queda de 10,3% acima da inlação. 
 Os estudos mostram que o fosso entre trabalhadores ricos e pobres aumentou. A 
renda média dos 10% mais pobres encolheu na proporção de 3,17%, passando de R$ 63,00 
para R$ 61,00. Na outra extremidade, a camada da população que forma o 1% mais rico 
teve seu rendimento aumentado na proporção de 5,19%, no biênio de 99/01. Disso extrai-
-se que o Brasil é o país com maior concentração de renda da América Latina. Estimativa 
esta que representa a péssima distribuição de renda no país, que possui uma das maiores 
cargas tributárias do planeta, em torno de 38,6 % do PIB, enquanto os serviços prestados 
à população não estão em igualdade de condições com as nações do primeiro mundo.
 O BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) revela que o Brasil é campeão 
de desigualdade, sendo superado apenas por Serra Leoa, na África. Eles chegaram a essa 
conclusão em razão da pior distribuição de renda do planeta, uma vez que aqui se permite 
que os 10% mais ricos controlem 50% da renda nacional, enquanto que os 50% mais po-
bres participam com menos de 10%, aproximadamente. Segundo o BID, nos EEUU, os 10% 
mais ricos têm renda média de 60% maior que o segmento de população imediatamente 
abaixo. Na América Latina, continua o BID, essa diferença é de 160%. Portanto, um quarto 
da renda está nas mãos de apenas 5% da população, representando uma concentração de 
renda maior que na África. 
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 A desigualdade se relete em setores sensíveis da sociedade brasileira como edu-
cação, família, justiça social e trabalho. Essa última atividade foi motivo de pesquisa da 
Secretaria de Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade do município de São Paulo. Em 
1980, no Brasil, havia aproximadamente 964 mil pessoas sem emprego. Em 2000, esse nú-
mero saltou para 12 milhões, aproximadamente. Em 20 anos, o Brasil foi de 9º no ranking 
mundial para 2º lugar, só perdendo para a Índia, no primeiro lugar com 41 milhões de de-
sempregados, aproximadamente. 
 O Brasil, embora responsável por pelo menos 3% da população do planeta, tem 7% 
dos desempregados do mundo, superando países como EEUU, Rússia, Alemanha e até a 
Indonésia. Apesar da pobreza e da grande desigualdade, a ONU considera o Brasil como 
um país de democracia razoável. Recebeu, de zero a dez, a nota quatro, em razão da cor-
rupção, que ainda é alta. Eles entendem que a corrupção está ligada, proporcionalmente, 
à qualidade de vida da população.
 
 Mas o Brasil tem avançado. E foi principalmente a educação que permitiu ao país al-
cançar o 65º lugar em IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do mundo, passando a ser 
considerado, pela ONU, como de médio desenvolvimento humano. Ficou atrás de países 
como México, Chile, Argentina, Uruguai e até a Malásia, que são considerados países com 
alto desenvolvimento humano. A Noruega é o país de maior IDH do planeta.
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O retrato do Rio de Janeiro – Relexo da Desigualdade no Brasil
 A pobreza aumentou no Rio de Janeiro, entre 99/01, passando de 2,781 milhões para 
3,345 milhões de pessoas, segundo o Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade, embo-
ra nesse período a população pobre do país tenha se mantido estabilizada. Este número 
representa, segundo o Instituto, a quantidade de habitantes com renda menor do que R$ 
125,00, considerado insuiciente para suprir as necessidades básicas de subsistência. 
 Assim como a penúria, a indigência também cresceu no Estado, no mesmo período, 
de 5,7% para 7,7%, representando, aproximadamente, 1.124.000 de pessoas sobrevivendo 
com menos de R$ 62,00. Daí o Rio de janeiro representar a 17ª capital com um dos maiores 
índices de exclusão social do país. Isso equivale a airmar que o Rio de Janeiro faz parte dos 
42% dos 5507 municípios do país que apresenta alto índice de exclusão social. 
 Isso permite concluir que uma criança que nasce em São Caetano do Sul (ABC paulis-
ta - menor índice de exclusão social) tem perspectivas bem diferente de outra que nasceu 
no Rio de Janeiro. O índice de pobreza na Zona Oeste do Rio, por exemplo, pode ser com-
parado a alguns municípios pobres do Nordeste. O bairro de Santa Cruz tem mais de 15% 
de pobres, que é o dobro da média do município (7,17%). 
 
 O caso da baixada luminense é emblemático. Destacada a área mais pobre e uni-
forme do município de Caxias, veriica-se um aumento do índice de pobreza de 14% para 
21%. O mesmo acontece em Nova Iguaçu, dividido em 10 subáreas. Com exceção de duas 
destas, mais próximas aos centros, oito mostraram índices de pobreza maiores que a mé-
dia. 
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 O grande paradoxo vivenciado pelo Rio de Janeiro é poder contar com alguns bair-
ros da Zona Sul, segundo estudos ainda inacabados da Prefeitura, com o maior índice de 
desenvolvimento humano do planeta, isto é, maior que aquele que a ONU considera para 
a Noruega. Isso faz dos bairros de Ipanema, Leblon, Lagoa, Jardim Botânico, Gávea e São 
Conrado uma espécie de país independente, com o maior IDH do planeta dentro de um 
perímetro de 20,92 km² e uma população aproximada de 174.062 mil habitantes. 
 Na outra ponta, a realidade pobre da cidade mostra o Rio de Janeiro com 752 co-
munidades carentes - recentemente cadastradas pela Prefeitura, 32 bairros dominados 
pelo tráico de drogas e o bairro de Acari, considerado pela ONU como o de pior índice de 
desenvolvimento humano. 
 Não se pode ter realidade mais difícil e paradoxal a ser vivenciada pela sociedade 
(carioca, em especial) diante do grande abismo existente entre as favelas e o asfalto. Essa 
distância social, segundo o IBGE - censo 2000, pode chegar a representar 5 vezes em ter-
mos salariais, que diminui à medida que os bairros se aproximam da periferia. 
 É uma realidade que, para o antropólogo, professor e escritor, saudoso Gilberto Ve-
lho, deine o cerne da questão da violência. Para ele, esta não reside apenas na pobreza, 
e sim na desigualdade social, que no Brasil é terrível. A disparidade entre os altos padrões 
de vida e a indigência social é bastante expressiva no Brasil, o que gera, por conseguinte, 
grande abismo social. Essa desigualdade tem provocado, segundo ele, crise de valores, le-
vando o indivíduo a buscar soluções com a justiicativa de não aceitar viver das sobras dos 
ricos. Resume ele que a desigualdade social é o banquete da violência. 
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Rio de Janeiro - Uma cidade violenta
 Recentemente, foi publicada no jornal “O Globo” uma matéria intitulada “A década 
da violência”, fruto da pesquisa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Uni-
versidade Cândido Mandes (CESEC - UCAM), que analisa os dados da criminalidade nos 
últimos doze anos. Segundo ele, seria o período de quatro mandatos governamentais. De 
todos os números apresentados, cabe ressaltar os dados relativos aos homicídios ocorri-
dos. 
 Segundo a pesquisa, aproximadamente 84 mil pessoas foram vítimas de violência 
letal. Fazendo uma comparação com o menor município do Rio de Janeiro, Macuco, com 
cerca de 4 mil habitantes, pode-se airmar que 20 municípios foram, ao longo desse perío-
do, dizimados pela violência. Isso impressiona porque se deu durante a vigência da Lei de 
Crimes Hediondos, de 1990, editada com o escopo de inibir a conduta dos assassinos.
 
 É bem verdade que hoje, em pleno século XXI, mais precisamente em maio, ainda 
são vitimadas pelo mesmo crime cerca de 590 pessoas por mês. Se multiplicar por doze, 
levando-se em consideração os números constantes, obter-se-á um resultado anual de 
aproximadamente sete mil homicídios. Se forem computados dez anos, o resultado será 
de 70.000 pessoas vítimas de homicídios. 
 Quanto custa cada vida perdida? E a família dessas vítimas? Mesmo assim, o Rio 
de Janeiro não é considerado a capital mais violenta do país. Ainda disputam os primeiros 
lugares, as cidades de Vitória, Recife e São Paulo. Estas apresentam, proporcionalmente, 
uma realidade bem mais dramática.
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 O envolvimento de crianças com o tráico é incontestável, o que tem gerado perdas 
signiicativas desses jovens no dia a dia dessa guerra injusta e indecente. Levando-se em 
consideração os dados de 2000 (Unesco), 2.816 adolescentes foram assassinados, repre-
sentando 107,6 por cem mil habitantes, ou seja, mais que o dobro da média brasileira. 
 O crescimento da violência no Brasil tem se acelerado desde os anos 1970. O assas-
sinato é a maior causa de mortalidade e são os homens com idade entre 15 e 24 anos os 
mais atingidos. A UNESCO mostra que o Brasil está em terceiro lugar no mundo quanto 
aos índices de homicídios de pessoas na faixa etária citada, icando apenas abaixo da Co-
lômbia e da Venezuela.
 
 Isso se relete diretamente na expectativa de vida do carioca. Segundo análise publi-
cada recentemente no jornal “O Globo” pela Fundação Nacional de Saúde, o crescimento 
dos homicídios no Estado é suiciente para superar os ganhos em qualidade de vida do 
cidadão carioca nestes últimos anos. Isso, segundo eles, aproxima o Rio de Estados bem 
mais pobres. 
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O custo da Insegurança Pública
 Pode-se airmar, sem sombra de dúvidas, que esse custo se apresenta em três ní-
veis: econômico, social e político. Segundo os empresários cariocas, a insegurança trava 
a economia luminense. Do ponto de vista econômico, a atividade empresarial tem que 
gastar mais para se proteger. Isso pode chegar, conforme dados extraídos da Fecomércio, 
a R$ 3,8 bilhões ao ano, com a redução da atividade turística e o êxodo da atividade indus-
trial do Rio de Janeiro para outras regiões do Brasil. Quanto ao Estado, todos sabem que 
o custo orçamentário é bastante signiicativo, aproximadamente R$ 3,2 bilhões no ano de 
2004. Isso equivale, aproximadamente, a 10% do Orçamento Anual do Estado no período 
de 2004. Do ponto de vista social, o que se pode declarar é a situação de completo terror 
vivido por toda a sociedade. Isso tem gerado a migração de moradores da Zona Sul para 
outras regiões situadas longe do conlito. Quanto ao político, é fácil airmar que a violência 
é um obstáculo à democracia e que, por consequência, diminui a qualidade de vida da so-
ciedade em todos os sentidos. 
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 O processo de desorganização social como possível fator 
 crimonógeno
 É possível observar que o normal funcionamento de um grupo social está atrelado 
ao equilíbrio interno, por parte de cada integrante e diante de suas tarefas legítimas. Elas 
representam o papel do conjunto grupal. Os papéis não sendo cumpridos e/ou bem de-
sempenhados importam em processo de desorganização social.
 A busca de razões que explicitam o fenômeno da criminalidade tem construído cam-
po para várias correntes. Não se pode perder de vista que cada fato social deve resultar 
de uma série de variáveis, consideradas como elementos causadores e atuantes dentro de 
um contexto em permanente modiicação.
 Pode-se considerar que a delinquência se prende muito mais à inadequada atenção 
às insuiciências do que à própria predisposição para tanto. Não enfrentar o problema ou 
sequer compensar essas insuiciências é possibilitar a manipulação por elementos antis-
sociais. Airma-se que o crime é um produto sociocultural. Isso porque os elementos con-
dicionantes do seu surgimento são eminentemente sociais, decorrem da realidade que se 
apresenta. 
 A criminalidade vai variar de acordo com o grau de integração social. Nas sociedades 
em que o processo de desorganização social não possui índices de grande amplitude, a 
incidência criminal é reduzida. Ao contrário, nas sociedades com grandes níveis de desor-
ganização social, os índices são alarmantes. Costuma-se ter como parâmetro os grandes 
centros urbanos, por serem sociedades dinâmicas, com elevados desajustes sociais e eco-
nômicos. Nessas sociedades, observa-se a criminalidade nas suas mais variadas formas.
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 O Rio de Janeiro, representante legítimo dessa sociedade em pleno século XXI, não é 
diferente de outras cidades do Brasil, que convivem com grandes problemas de desorga-
nização social. A delinquência juvenil, por exemplo, está ligada aos mesmos fundamentossociais. Invisíveis ao Estado, tentam ser reconhecidos como cidadãos ao serem recebidos 
como integrantes das gangues. É uma maneira de se tornar visível, só que há um proble-
ma: ele tem uma arma na mão.
 O comportamento humano como fonte de base fundamental para 
 a criminologia
 Como podemos perceber, a questão da Justiça Criminal e da Segurança Pública no 
Brasil tem ocupado cada vez mais espaço na mídia. Ainda, seminários começam a agregar 
informações obtidas em pesquisas empíricas realizadas sobre questões que legitimam o 
estudo. Representam, nesse momento, o pontapé para discussões que permitem a rele-
xão crítica de maneira a formular políticas públicas para o setor, com o objetivo de extirpar 
a gênese criminógena.
 Esses estudos são considerados em países de tradição anglo-americana, germânica 
e latina, como a França, que reconhecem este campo do conhecimento como legítimo e ca-
paz de subsidiar de forma eicaz a formulação de políticas públicas. Daí o comportamento 
do homem, enquanto pessoa humana, servir de base para acompanhamento e estudo da 
Criminologia, capaz de nos levar à realidade fática, sem ideologias e teorias.
 A conduta humana sempre foi objeto de atenção dos observadores, já que o crime 
se revela um fato tão antigo quanto o homem. A Criminologia não representa, pois, um co-
nhecimento recente. Daí concluímos que os fenômenos humano e social que constituem 
seu objeto independem de fronteiras. Assim, para seu estudo, todas as teorias deverão 
ser consideradas. Compreender o presente e prever o futuro sem reletir sobre o passado 
seria um grande absurdo.
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 A Criminologia da Reação Social: Uma perspectiva de avaliação e 
 exame
 A criminalidade é um fenômeno crescente, que se traduz na sobrecarga do sistema 
da justiça penal e no consequente aumento da população carcerária. A grande questão se-
ria: como conciliar no Brasil, particularmente no Rio de Janeiro, o Direito Penal repressivo 
e a criminalidade, tendo em vista que os três elementos do sistema de Justiça Criminal (po-
lítica, justiça e sistemas penitenciários) não acompanharam as mudanças sociais e muitas 
vezes não preservam e respeitam os direitos humanos?
 O que se observa no Rio de Janeiro e em São Paulo é que nas décadas anteriores 
sempre se cuidou da Segurança Nacional, deixando em segundo plano a Segurança Públi-
ca. E isso é uma representação histórica e cultural para todos os cidadãos brasileiros. O 
autoritarismo estatal sempre resistiu às inovações, objetivando manter o status quo ante. 
Daí não se ter feito um estudo histórico da criminalidade para apuração das razões e das 
falhas de nossas estruturas sociais e administrativas, tomando-se como ponto de partida 
o Direito Penal brasileiro.
 Estudar a criminalidade no Brasil é ter consciência da crise no nosso tempo, seja 
pela necessidade de adoção de novos modelos, seja para se ter ideias claras acerca da 
nossa realidade atual. Daí a dimensão social da conduta humana ser de grande valia para 
avaliação dos fatos sociais. O trabalho objetiva permitir a relexão acerca dos direitos hu-
manos e da ordem social sob o ponto de vista do preso (condenado).
 É no campo da crescente violência aquisitiva que ica nítida a crise da aplicação do 
Direito Penal brasileiro. Adota-se a forma repressiva em face da classe pobre, caracterizan-
do um verdadeiro paradoxo entre o binômio lei-ordem e o princípio de reserva legal. Mas a 
violência não pode ser debatida de forma improvisada, destituída de panorama cientíico e 
até mesmo cultural. Vivemos em uma sociedade injusta, marcada por profundas desigual-
dades, onde a indigência, como foi visto, castiga hoje 53 milhões de brasileiros.
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É preciso urgentemente mobilizar estudos no sentido de demonstrar que o modelo ado-
tado não tem sido capaz de atender à demanda. Precisamos, pois, repensar que o Brasil, 
como Estado Democrático de Direito, não passa de verdadeira contradição. Entre a teoria e 
a prática, a realidade tem se mostrado bastante perversa. A vida no cárcere representa um 
sinal claro de descumprimento dos preceitos básicos dos direitos humanos não só por ferir 
a dignidade humana, como também por não propiciar a reintegração social - o que se evi-
dencia pelas altas taxas de reincidência, que podem chegar a 80%, dependendo da região.
 Os Jovens no Processo
 A institucionalização da democracia tem sido acompanhada por uma lenta e gradual 
melhora nos indicadores sociais. Pode-se perceber no item 2 que é uma realidade, inclu-
sive. Apesar da progressão, o mesmo não se caracteriza no âmbito da ordem pública. Há 
duas décadas o Estado se mostra incapaz de controlar a criminalidade e a violência. 
 A taxa de homicídios passou de 12 para 27 por grupo de 100 mil habitantes de 1980 
a 2004. O peril etário das vítimas e agressores apontam jovens de 15 a 24 anos e do sexo 
masculino. Estes índices se mostram evidentes nas áreas mais pobres dos grandes centros 
urbanos, onde os mais pobres e os menos educados matam e morrem mais.
 Os pobres e negros são os principais autores e vítimas nesse processo de deterio-
ração da sociabilidade urbana, apesar da melhoria nas condições dos indicadores sociais. 
O que se pode airmar de forma muito particularizada é que os jovens fazem parte desse 
contexto de violência, igurando a maioria como presos no Sistema Carcerário Brasileiro - 
inclusive, em bom percentual no Sistema Carcerário do Rio de Janeiro.
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 O Brasil é considerado como o segundo país em desemprego do mundo, só icando 
atrás da Índia, que tem 41 milhões de desempregados, enquanto o Brasil luta para reduzir 
seus 11 milhões. Não bastasse o nível de desemprego para demonstrar a realidade cruel 
do Brasil, há outro fato desalentador: segundo o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica 
Aplicada/08), 46,6% do total de desempregados são jovens de 15 a 24 anos.
 É de observar que o pano de fundo deste processo é realmente uma estrutura social 
bastante desigual. E esta desigualdade pode se apresentar tanto social quanto economi-
camente, seja no âmbito de questões relativas ao exercício da cidadania, seja pela falta de 
oportunidades.
 A outra face deste processo crescente de disseminação da violência é a fragilidade 
do Sistema de Justiça Criminal. Prende-se aos montes, porém não há iscalização e con-
troles adequados sobre a massa carcerária, seja na efetivação dos direitos desta, seja no 
cumprimento de deveres por parte da mesma. 
 Ouso airmar, aliás, que as unidades prisionais de todo o país descumprem a Lei 
de Execuções Penais: superlotação, condições de higiene insalubres, trabalho e educação 
raramente oferecidos e o egresso que diicilmente alcança a ressocialização, por exemplo. 
Diante disso, tem-se o pior cenário possível: nem direitos assegurados, nem deveres im-
postos.
 O quadro que se apresenta é, portanto, alarmante, quando vemos aqueles que são 
frutos de um sistema desigual engrossando os números das cadeias do país. Além do en-
carceramento cada vez maior, o atual modelo está longe de levar à verdadeira ressocializa-
ção, dando lugar ao aperfeiçoamento das ações criminosas dentro das próprias unidades 
prisionais.
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Motivação dos problemas 
contemporâneos de 
Segurança Pública
 A violência multifacetada
 Este é o cenário do Rio de Janeiro. Ele não é diferente de outras grandes cidades 
do país e do mundo, mas guarda peculiaridades que devem ser levadas em consideração, 
principalmente com relação à exclusão social. Segundo Roberto Kant de Lima, trata-se de 
uma sociedade marcada pelos contrastes quando comparada ao modeloigualitário de 
países desenvolvidos. Isso porque o Brasil se caracteriza como um modelo de sociedade 
hierárquica excludente, com a forma de pirâmide, tendo uma estrutura desigual e com-
plementar, que resolve seus conlitos apenas pela conciliação. Difere, pois, da sociedade 
igualitária, que constitui uma sociedade includente, onde a igualdade formal é a garantia 
do mérito. 
 Como sinaliza Roberto da Matta, na sociedade desigual, o papel do indivíduo não 
é sua identidade social, como papel nivelador igualitário. Ao contrário, opera-se através 
de relações pessoais, que é o que deine a sociedade brasileira como uma sociedade ex-
cludente, onde ser cidadão é ser ninguém. É um problema histórico, todos sabem, mas 
acredita-se ser um fator determinante, aliado a outros fatores como miséria, indigência, 
desemprego, falta de oportunidades, família e educação, fortes incrementadores da cri-
minalidade, que, segundo Orlando Soares, no livro Curso de Criminologia, se denomina 
estimulantes do crime.
 Acredita-se que todos tenham as melhores intenções para a resolução do problema 
e não caberia, no momento, fechar a questão, pois o enfoque desta humilde contribuição, 
longe de ter valor absoluto, apenas é de causar impacto para que se possa reletir sobre 
questões tão relevantes, já que, de certa forma, todos somos partícipes. 
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 A raiz do problema está na desigualdade social e em suas causas: 
distribuição de renda e concentração de renda. O grande desaio é saber 
como o Estado pode efetivamente equacionar a questão da criminalidade. 
São possíveis alternativas a redeinição do modelo de polícia no Brasil - as-
sunto bastante discutido na atualidade, o anacronismo do sistema criminal, a 
falência do sistema penitenciário, a corrupção e a impunidade. 
 Uma alternativa que não poderia faltar e que, inclusive, vem sendo defendida pelo 
IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), seria o equacionamento da criminali-
dade sob o viés de uma ação mais intensa do Estado na redução da enorme exclusão social 
e econômica – trata-se de questão abordada por WANDERLEY GUILHERME SANTOS. 
 Os pesquisadores do IPEA concluíram que não há como resolver a questão, senão 
superando os grandes problemas socioeconômicos do país e investindo efetiva e concre-
tamente em políticas públicas de segurança. Se em um futuro próximo nada for feito ou se 
os recursos forem mal aplicados, seremos todos possíveis mensageiros do mal.
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 A Nova Criminalidade
 A nova criminalidade tem por fundamento as transformações tecnológicas e econô-
micas que a humanidade vem experimentando nas últimas décadas, especialmente após 
a segunda Grande Guerra, além do excepcional desenvolvimento do comércio entre os 
países.
 De tal sorte, torna-se difícil estabelecer se tais transformações se devem ao pro-
gresso tecnológico ou se são os avanços cientíicos que produzem o progresso econômico, 
mas é incontestável que tais são os casos da revolução informática e da globalização da 
economia. Assim, tem-se a nova criminalidade como um subproduto gerado tanto pela 
sociedade de massa quanto pelos avanços tecnológicos.
 Sendo assim, outro aspecto que deve ser levado em consideração na presente análi-
se é que o avanço tecnológico e o progresso econômico transformaram a sociedade numa 
sociedade de massa. Com ela surgiu a necessidade do reconhecimento dos interesses co-
letivos e metaindividuais que, uma vez positivados, transformaram-se nos denominados 
direitos coletivos e difusos.
 Daí o estudo das características desse novo fenômeno criminógeno nos levará a 
distingui-lo, com facilidade, da chamada criminalidade tradicional. Isso porque uma das 
características da nova criminalidade é a produção de uma vitimização difusa, em função 
de suas ações atacarem interesses difusos. 
 Os interesses difusos representam os interesses de várias pessoas, são intitulados 
metaindividuais e neles estão compreendidos interesses coletivos e difusos. Neste sentido, 
para deinição de interesses difusos deve-se ter em conta duas notas essenciais: a primei-
ra, relativa aos sujeitos; a segunda, aos objetos.
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 Não pertencem a uma pessoa isolada, nem a um grupo nitidamente delimitado de 
pessoas - ao contrário do que se dá em situações clássicas como a do condomínio ou a da 
pluralidade de credores numa única obrigação, mas a pessoas indeterminadas. Ao me-
nos para efeitos práticos, seriam pessoas de difícil ou impossível determinação, que não 
se ligam necessariamente por vínculo jurídico deinido. Pode tratar-se, por exemplo, dos 
habitantes de determinada região, dos consumidores de certo produto, das pessoas que 
vivem sob tais ou quais condições socioeconômicas ou que se sujeitem às consequências 
deste ou daquele empreendimento público ou privado, e assim por diante.
 Referem-se a um bem indivisível, no sentido de insuscetível de divisão em quotas 
atribuíveis individualmente a cada qual dos interessados. Estes se põem numa espécie de 
comunhão caracterizada pelo fato de que a satisfação de um só implica a satisfação de 
todos, assim como a lesão de um constitui lesão da inteira coletividade.
 Pode-se airmar, pois, que o homem, considerado como integrante da moderna so-
ciedade, tanto é titular de interesses individuais quanto de interesses coletivos e difusos. 
Os últimos, por sua vez, é que se encontram no alvo da moderna criminalidade que, atra-
vés de práticas ilícitas, atingem interesses de uma massa de indivíduos e, por isso, inomi-
náveis.
 
 O surgimento das metrópoles, a explosão demográica, o desmesurado desenvol-
vimento das relações econômicas, a produção e o consumo de massa, o nascimento dos 
cartéis, holdings, multinacionais e atividades monopolísticas, a hipertroia da intervenção 
do Estado na esfera social e econômica, o aparecimento dos meios de comunicação de 
massa e, com eles, o fenômeno da propaganda maciça, por terem escapado ao controle do 
homem, voltaram-se contra ele próprio, repercutindo de forma negativa sobre a qualidade 
de vida e atingindo inevitavelmente os interesses difusos.
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 Não é por outra razão que o Código de Defesa do Consumidor, em seu artigo 81, de-
ine os interesses difusos como aqueles transindividuais, de natureza indivisível, que têm 
como titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstância de fato. Consumidor é 
“toda a pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatá-
rio inal” (artigo 2º da Lei 8.078/90). Também pode ser assim considerada “a coletividade de 
pessoas, ainda que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo” (pará-
grafo único).
 A engrenagem emprerrada
 Signiica a demonstração de um sistema que acelera a criminalidade, quando o apa-
relho repressor é anacrônico e desarticulado, diante de gestores que se culpam entre si na 
construção do que se pode denominar de construção da impunidade:
 Há corrupção na política e na justiça. Há integrantes dos dois sistemas que recebem 
propina dos criminosos. Essa relação acoberta os bandidos;
 A polícia é inoperante. De cada 100 ocorrências de delitos graves apenas 24 suspei-
tos são detidos;
 A investigação é falha. Em apenas 2,5% dos casos de homicídios de autoria desco-
nhecida são descobertos os culpados;
 A justiça é lenta. Os processos passam 90% do tempo no cartório e 10% com os juí-
zes. Julgar um homicídio leva até 10 anos;
 A legislação é tolerante. O código de processo penal permite recursos demais, o que 
atrasa a prisão dos bandidos; 
 A cadeia não prende. Apenas 1% dos condenados cumpre a pena até o im. Osou-
tros conseguem benefícios legais ou escapam;
 O que caracteriza verdadeiro “jogo de empurra” entre os gestores:
 O congresso diz que os governadores precisam exercer sua autoridade para fazer a 
polícia militar e a civil trabalhar em parceria;
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 Governadores dizem que a criminalidade cairá se os grandes bandidos fossem iso-
lados em prisões mantidas pelo governo federal;
 O governo federal diz que não pode administrar prisões porque o Congresso não 
aprova lei nesse sentido;
 O congresso diz que o governo federal não mobiliza sua bancada para tratar do as-
sunto;
 O governo federal diz que a responsabilidade maios é dos governadores, pois são 
eles que têm a polícia;
 Os governadores dizem que a polícia deles prende, mas a justiça solta;
 A justiça diz que cumpre a lei e alega que, se a sociedade está descontente com ela, 
cabe ao congresso mudá-la;
 O congresso diz que as leis não atrapalham tanto. O que faz a justiça lenta são a má 
administração e a improdutividade;
 A justiça diz que o problema não é de gerenciamento. O que falta é dinheiro do go-
verno federal para contratar mais juízes;
 O governo federal diz que a justiça tem funcionários demais e gasta recursos em 
prédios suntuosos;
 A justiça diz que boa parte de seu tempo é gasta refazendo o trabalho que a polícia 
comandada pelos governadores não fez;
 Governadores dizem que para a repressão funcionar melhor é preciso uniicar a po-
lícia militar e a civil e que o congresso não cuida do assunto.
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Manifestações violentas no 
Brasil: Um desaio para a 
implementação de políticas públicas 
O crime organizado (tráico de drogas, 
milicias e jogo do bicho)
 Milícias
 Aparentemente a denominação foi cunhada com a inalidade de nomear um novo 
fenômeno, que surgia a partir de 2006, no Rio de Janeiro, com a formação de grupos arma-
dos de agentes do estado. 
 As denominadas milícias se manifestaram entre os anos de 2006 e 2008 com uma 
forte tendência a expansão territorial e um discurso de legitimação perante as comunida-
des a serem submetidas ao poder paralelo dos milicianos, embora a adesão do processo 
pela comunidade local a ser dominada encontrasse divergências.
 A evolução desses grupos no Rio de Janeiro pode ser caracterizada, de uma maneira 
geral, em cinco formas: domínio armado territorial e da população; coação dos moradores; 
busca de lucros como elemento central da dominação; o discurso legitimador da luta do 
bem contra o mal; e a participação pública dos agentes do estado, que de maneira irregu-
lar exercem a gestão privada do interesse público.
 Sendo assim, a formação e aplicação dos grupos milicianos nas periferias pobres 
da cidade do Rio de Janeiro, representa a conduta de ruptura da ordem pública e da paz 
social, no que tange ao equilíbrio da convivência social entre as pessoas e a sociedade 
como um todo, em direta competição com outros grupos, que mantinham suas domina-
ções territoriais, dentre elas: tráico de drogas, grupos de extermínio, polícia mineira, etc., 
embora a milícia se estabeleça de duas formas diferentes, como por exemplo: a tentativa 
de ocupação diante da legitimidade do discurso, e o controle direto dos agentes do estado 
na atividade.
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 As milícias podem ser consideradas como uma forma de crime organizado, que vem 
perdendo a força territorial e econômica, desde 2008, em função das investidas do poder 
do estado, através de ações conjuntas de investigação de vários órgãos do sistema de jus-
tiça criminal, principalmente, pela perda da inluência dentro do poder legislativo.
 O enfraquecimento das milícias atualmente não representa o recuo expressivo de 
suas atividades, que ainda mantém inluências em várias comunidades do Rio de Janeiro, 
como também em outros estados.
 Daí o grande desaio do Estado na aplicação de medidas de polícia no campo de po-
líticas públicas de prevenção e repressão a esta nova forma de crime organizado.
 O Crime Organizado
 O crime organizado no Brasil: qual seria a melhor deinição? A lei nº 12.850 de 2013 
contextualiza:
Considera-se organização criminosa a asso-
ciação de 4 (quatro) ou mais pessoas estru-
turalmente ordenada e caracterizada pela 
divisão de tarefas, ainda que informalmente, 
com objetivo de obter, direta ou indiretamen-
te, vantagem de qualquer natureza, mediante 
a prática de infrações penais cujas penas má-
ximas sejam superiores a 4 (quatro) anos, ou 
que sejam de caráter transnacional.
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 Independente da deinição legal estabelecida pela atual legislação brasileira, que 
adota o modelo oicial da Convenção das Nações Unidas contra o crime organizado trans-
nacional, citado na Convenção de Palermo, deve considerar o que o torna diferente de 
qualquer outro crime, seria: hierarquia de fato – cadeia de comando; vínculo com o estado 
para afeito de colaboração; divisão de trabalho; planejamento e previsão de lucros; poder 
de intimidação e a lei do silêncio. 
 Daí, pode-se caracterizar o crime organizado, regra geral, em três espécies: o tradi-
cional, onde o jogo do bicho seria o melhor exemplo no Rio de Janeiro e no Brasil; Empre-
sarial – como sendo uma forma moderna e empresarial de desenvolver a atividade crimi-
nosa, como – lavagem de dinheiro, roubo de veículos e receptação, o que normalmente se 
caracteriza em determinados tipos de incidência criminosa; e endógeno – que se forma no 
interior de algo, como por exemplo, dentro do próprio estado, através de seus agentes em 
conluio com outros grupos de criminosos – crime de oportunidade, por exemplo: iscais e 
lava-jato (recente caso da Petrobrás) na articulação de ações de extorsão. Essas organiza-
ções não existem apenas dentro do governo, mas, também, na atividade privada.
 Neste sentido, uma forma atual, que tem conotações graves no sistema de justiça 
criminal seria o crime organizado na cadeia, como os que acorreram na Itália, na década 
de 70, com a denominada CAMORRA.
 No Brasil, muito embora não seja semelhante, é preciso icar atento, em função da 
repercussão diante de um sistema fragilizado e anacrônico como o brasileiro, pois o PCC, 
em São Paulo, desaiou a força pública com vários ataques orquestradas de dentro da ca-
deia. Sem deixar de considerar que o Rio de Janeiro possui suas facções criminosas, como: 
comando vermelho, terceiro comando, ADA etc. Todos com forte inluência dentro do sis-
tema carcerário, que se estrutura dividido por facções.
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 O Tráico de Drogas
 Outro problema grave que vem sendo motivo de aplicação efetiva de políticas públi-
cas de segurança no estado do Rio de Janeiro é o tráfego de drogas, que tem como pano 
de fundo, a grande periferia da cidade, onde se notabilizou historicamente junto à comuni-
dade local como poder legitimo e paralelo em razão a ausência do estado.
 
 Diante da verdadeira ANOMIA, causada pela omissão do poder do estado, o tráico 
de drogas, se armou e arregimentou jovens na sua estrutura econômica para fazer frente 
ao comércio varejo de drogas, em troca de benefícios sociais a comunidade, como forma 
de legitimação de poder, embora a conduta de coação e do terror armado fossem seus 
instrumentos de legitimação junto a essas comunidades.
 Assim, a estrutura de crime organizado se aplica na comunidade e desenvolve suas 
atividades estabelecendo sua dinâmica de forma orgânica no campo: político, policial e da 
justiça, o que sem dúvidas as fortaleceu perversamente, por exemplo: provocam o aumen-
to do número de homicídios, desorganizam a vida associativadas comunidades, impõe 
regime despótico nas comunidades dominadas, recrutam trabalho infantil e de adoles-
centes, incentivam valores belicistas, destroem valores familiares e culturais, degradam a 
lealdade comunitária, fortalecem a estigmatização da pobreza, induzimento a atividade de 
corrupção de agentes públicos, etc.
 Por im, o tráico de drogas representa atualmente o maior desaio para a segurança 
pública, pois sua repercussão e dinâmica social atingem expressivamente a todos, não só 
a comunidade local envolvida, bem como a toda a sociedade, pois todos estão à mercê das 
gangues urbanas e os conlitos inevitáveis de suas investidas, sem contar com a atividade 
repressiva do estado no enfrentamento diuturno dessas gangues, bem armadas, confron-
tam com poder do estado sempre ostentando igualdade de poder bélico, onde as conse-
quências sempre são inevitáveis para ambos os lados, principalmente para os civis, que se 
veem na linha de tiro.
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Diagnósticos: mapas ilustrativos sobre a incidência criminal e revistas
Oicinas e estudo de casos:
A – Redução da maioridade penal;
B – A corrupção como instrumento sistêmico utilizado no Brasil;
C – Relativização da cidadania: quebra da igualdade perante a lei; 
D – Cinco teses equivocadas sobre a criminalidade urbana no Brasil;
E – Filme: Sinais de uma guerra particular.
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