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Prévia do material em texto

BIBLIOTECA DO EXÉRCITO Publicação 468
COLEÇÃO GENERAL BENlCIO Volume 148
Título do original inglês: The War of Atonement
Copyright © 1975 by Chaim Herzog
Capa
Murillo Machado
Revisão
Alberto de Oliveira
956.94
H582 HERZOG, Chaim
A guerra do Yom Kippur; tradução de Julio Gálvez. Rio de Janeiro,
Biblioteca do Exército, 1977.
ilust., mapas 21cm. (Coleção General Benício,
v. 148. publ. 468).
1. Israel — História — Guerra, 1973. I. Título. II. Série.
Direitos desta tradução reservados à Biblioteca do Exército Editora. Printed
in Brazil — Impresso no Brasil.
GEN DIV CHAIM HERZOG
A Guerra do Yom Kippur
Tradução de Julio Gálvez
BIBLIOTECA DO EXÉRCITO - EDITORA
Rio de Janeiro — RJ 
1977
 
BIBLIOTECA DO EXÉRCITO
FUNDADOR,
em 17 de dezembro de 1881,
Franklin Américo de Menezes Dória, Barão de Loreto
REORGANIZADOR,
em 26 de junho de 1937, e fundador da Seção Editorial 
Gen Valentim Benício da Silva
DIRETOR
Cel Art Fernando Oscar Weibert 
SUBDIRETOR
Ten Cel Art Neomil Portella Ferreira Alves
COMISSÃO DE PUBLICAÇÕES
Militares:
Gen Ex R-l Alfredo Souto Malan nomeado em 14 de maio de 1975 
Gen Div R-l Francisco de Paula e Azevedo Pondé nomeado em 10 de
outubro de 1973 
Gen Div R-l Jonas de Morais Correia Filho nomeado em 10 de outubro de
1973 
Gen Div R-l Adailton Sampaio Pirassinunga nomeado em 8 de maio de
1958 
Ten Cel Inf Carlos de Souza Scheliga nomeado em 25 de abril de 1975 
Ten Cel Art Luiz Paulo Macedo Carvalho (Relator deste livro) nomeado em
23 de maio de 1974
Civis:
Prof Pedro Calmon Moniz de Bittencourt nomeado em 28 de maio de 1975 
Prof Francisco de Souza Brasil nomeado em 10 de outubro de 1973 
Prof Ruy Vieira da Cunha nomeado em 10 de outubro de 1973
Biblioteca do Exército — Palácio Duque de Caxias — Praça Duque de
Caxias — Ala Marcílio Dias — 3.° andar — Centro — RJ — ZC-55 —
Endereço Telegráfico "BIBLIEX”
 
Apresentação
A Guerra de 1973, no Oriente Médio, deixou em sua esteira não apenas
ilusões destroçadas, uma escalada na crise energética e novos desafios para
a região, mas, também, uma avalancha de previsões apressadas sobre seu
impacto na guerra do futuro. Agora, Chaim Herzog, o mais credenciado
comentarista militar de Israel e ex-diretor do Serviço de Informações
Militares daquele país, transportou volumosa massa de material, resultante
de meticulosa pesquisa, abrangendo tanto documentos inéditos ao público
como matéria amplamente divulgada em todo o Oriente Médio, para a
primeira análise, cuidadosamente elaborada, dos aspectos militares da
Guerra do Yom Kippur e de sua influência sobre as atuais tendências e
composições políticas.
Fazendo remontar as origens do conflito de 1973 à Guerra dos Seis Dias,
Herzog revela como os israelenses se viram tomados por um perigoso
estado de excessiva confiança, dada à “rápida e elegante’’ vitória em 1967 e
à experiência adquirida na Guerra de Atrito, e historia a preparação dos
árabes para a guerra desde 1967, pondo à mostra as simulações política e
militar desenvolvidas pelos egípcios, que permitiram que os exércitos
árabes se concentrassem em massa nas linhas do cessar-fogo e, ainda assim,
colhessem de “surpresa” o sistema defensivo israelense. A dramática
descrição do curso da guerra nas duas frentes — baseada em entrevistas
com combatente — caracteriza-se por um aguçado senso de oportunidade e
está pontilhada com cenas cruciais das batalhas e comoventes episódios de
heroísmo. Em seu final, o livro contém uma análise dos ensinamentos
militares e das implicações políticas da guerra, avaliando as deficiências da
estratégia israelense, o papel do armamento sofisticado fornecido pelos
soviéticos e a capacidade de combate das forças armadas sírias e egípcias.
Ao tratar do papel desempenhado pela União Soviética na conspiração para
desencadear um outro round de hostilidades nessa área tão sensível, Herzog
levanta multas Indagações oportunas acerca da política de détente e expõe
amplos ensinamentos da Guerra de 1973 com relação ao futuro de um
Ocidente livre.
Esta é, portanto, uma interessante obra para o leitor civil — utilíssima para
o militar — que a Biblioteca do Exército traz à luz, pioneiramente no
idioma português, graças à sugestão do Chefe do Estado-Maior do Exército
e às gestões de nosso Adido Militar em Washington, Gen Celso Meyer,
junto ao Embaixador de Israel na ONU — o próprio autor de A Guerra do
Yom Kippur.
BIBLIOTECA DO EXERCITO EDITORA
DADOS BIOBIBLIOGRÁFICOS
DO AUTOR
O General-de-Divisão reformado Chaim Herzog nasceu na Irlanda e foi
educado nas Universidades de Cambridge e de Londres. Ainda menino,
emigrou para Israel, quando seu pai, o falecido Dr. Isaac Herzog, foi
designado rabino-chefe da Palestina. Por ocasião da Segunda Grande
Guerra, serviu no Exército britânico, no noroeste da Europa. Um dos
fundadores do Serviço de Informações Militares israelense, foi por duas
vezes seu diretor (1948 a 1950 e 1959 a 1962). Foi adido da Defesa à
Embaixada de Israel em Washington (1950 a 1956) e o primeiro governador
militar da margem ocidental do Jordão, em 1967. Exerceu vários comandos
e funções de estado-maior nas Forças de Defesa de Israel — IDF.
Após deixar o Exército, Herzog dirigiu um grupo industrial em Israel, ao
mesmo tempo que se firmava como o mais destacado comentarista militar e
político israelense. Colabora com regularidade na Administração de
Radiodifusão Israelense, BBC e várias redes americanas e européias,
contribuindo assiduamente para os principais órgãos de imprensa
israelenses, ingleses, alemães e americanos. Autor de lsrael’s Finest Rour
(1967), The Days of Awe (em hebraico, 1974) e Judaism, Law and Ethics
(1974), Herzog exerce a advocacia em Tel Aviv, mostrando-se ativo em
muitos campos da vida pública e política. Em 1970, foi distinguido com o
título de Cavaleiro Honorário do Império Britânico (KBE). Atualmente, é o
Embaixador de Israel na ONU.
Aqueles cujo sacrifício salvaram sua Pátria 
Prefácio
Poucas guerras, se outras houve, foram tão amplamente cobertas pelos
meios de comunicação como o foi a Guerra do Yom Kippur, e, mesmo
assim, bastante paradoxalmente, a história não foi contada com realismo.
Quantos, na verdade, conheceram em detalhes a incrível batalha pelas
Colinas de Golan, que poderia ter selado o destino da região norte de Israel,
ou a arriscada travessia do Canal pelos israelenses? Para os árabes, com sua
peculiar facilidade de criar para si um mundo eufórico de fantasia, a história
militar da guerra termina com a conclusão de suas fases iniciais. Porém,
uma longa sucessão de fatos seguiu-se àqueles primeiros dias em que os
israelenses, tremendamente interiorizados em número, defenderam-se com
bravura e sacrifícios incríveis e partiram, depois, para o contra-ataque.
Quando, duas semanas mais tarde, foram detidos pelo cessar-fogo imposto
pela ONU, já se encontravam com Damasco ao alcance de sua artilharia e,
também, a caminho do Cairo.
Procurei contar a história completa da guerra: seus êxitos, suas falhas e suas
omissões. É a história de um triunfo impressionante de Israel. É uma
história de especial significado no momento em que, pelo Oriente Médio,
ecoam sons renovados do tilintar dos sabres, emprestando uma certa medida
de realidade e equilíbrio à situação. É a história de um novo tipo de guerra.
É uma história que faz lembrar ao mundo livre as ameaças que pesam sobre
a Democracia ocidental.
Obviamente, uma obra desta natureza não pode oferecer uma descrição da
guerra nos seus mínimos detalhes. Algumas forças e unidades tiveram sua
atuação explorada com maiores detalhes, enquanto outras nem sequer foram
citadas. Entretanto, a história não é somente daqueles mencionados nesta
narrativa. É a história de um exército e de todo um povo em seu momento
mais sombrio de contestação. O trabalho de entrevistar os muitos que
honram estas páginas — bem como os que foram omitidos — deixou-me
com uma sensação de confiança no futuro. Isso porque a fortaleza e a
flexibilidade inerentes ao povo de Israel revelaram-se nos dias tensos, durose trágicos do início da guerra, quando, em luta contra desigualdades
esmagadoras, superaram os reveses iniciais e alcançaram sucessos militares.
Cheguei ao final deste livro imbuído de um sentimento de profunda
humildade em face daqueles cuja história coletiva tentei contar. Nenhum
povo no mundo anseia mais pela paz do que o povo de Israel, e, no entanto,
nenhum se mostra mais preparado para o auto-sacrifício, caso haja
necessidade. Se este livro puder fazer surgir na mente do mundo árabe uma
indagação, por mais tênue que seja, acerca do caminho de guerra que
resolveram adotar na sua luta contra Israel, então ele terá atingido seu
propósito.
Em várias etapas desta pesquisa, contei com o auxílio do Sr. Amir Oren e
da Srta. Rivka Yahalomi. Beneficiei-me, grandemente, da orientação
editorial firme que me prestou a Srta. Ina Friedman. Confesso-me grato a
eles e à Srta. Susanne Rose, que datilografou todo o manuscrito, e, acima de
tudo, grato aos muitos que se sentaram ao meu lado para contar-me,
paciente e despretensiosamente, uma história de dimensões históricas.
C. HERZOG 
Zahala Fevereiro de 1975
O Novo Conceito Estratégico
Pelo espaço de três semanas, nos meses de maio e junho de 1967, o povo
israelense viveu um trauma que não esquecerá facilmente. Enquanto os
exércitos árabes concentravam-se ao longo de suas fronteiras, a Força de
Emergência das Nações Unidas — UNEF (que, desde a Campanha do Sinai,
em 1956, interpunha-se entre as forças israelenses e egípcias e guarnecia os
Estreitos de Tirã, que dão acesso ao Golfo de Acaba) era intimada a retirar-
se pelo presidente Nasser. O secretário-geral das Nações Unidas, U Thant,
sem mesmo consultar o Conselho de Segurança ou a Assembléia Geral,
concordou, sem objeções, com a retirada. As forças egípcias espalharam-se
pelo Sinai, enquanto jordanianos e sírios concentravam-se ao longo das
fronteiras com Israel; unidades do Iraque e do Kuwait, bem como de alguns
outros países árabes, deslocaram-se em direção às linhas israelenses. O país
viu-se cercado por um grande exército árabe e interiorizado em homens,
aviões e carros de combate. Cinicamente, como de hábito, a União Soviética
cumpriu sua parte nas Nações Unidas, minimizando essa escalada que, de
acordo com o presidente Nasser, fora instigada, e não pouco, pelos próprios
soviéticos, que haviam informado mentirosamente aos sírios acerca de uma
concentração de forças israelenses nas suas fronteiras.
A medida que aumentava a histeria árabe, e os seus meios de propaganda
prometiam à população israelense — homens, mulheres e crianças —
destruição e extermínio da maneira mais brutal, os horrores do holocausto
nazista voltavam à tona na consciência judaica. O povo judeu sabia que
essas não eram meras palavras, relembrando como tantas nações, nutridas
nos princípios do cristianismo, haviam participado daquele massacre
sangrento, ou feito vistas grossas para ele. E, na verdade, o mundo parecia
estarrecido, incapaz de qualquer ação.
Na manhã de 5 de junho Israel atacou — e, ao cabo de seis dias, destruira
uma grande parte da força que o ameaçava, ocupando a Península do Sinai, a
Faixa de Gaza, a margem ocidental do Jordão e as Colinas de Golan. Essa
transformação, de potencial vítima indefesa em brilhante vitorioso, gerou um
estado de euforia que provocou uma revolucionária mudança de atitude em
Israel. Contra um fundo de sombrias perspectivas de apenas alguns dias
atrás, a vitória incrível despertou por todo o mundo judeu uma reação que o
país jamais conhecera ou experimentara.
As origens da Guerra do Yom Kippur* poderão ser identificadas, em grau
considerável, na Guerra dos Seis Dias, que trouxe profundas repercussões
para as partes em conflito, mudando de maneira- não pouco significativa a
vida política e social de Israel e provocando mudanças fundamentais em seu
pensamento estratégico. No mundo árabe, ela atuou como um catalisador e
provocou uma completa reavaliação da atitude militar dos egípcios, fazendo
com que tirassem conclusões sobre todos os aspectos da derrota e se
pusessem a colocar em ordem sua “casa” militar, com a ativa ajuda dos
soviéticos. Por outro lado, os israelenses “varreram para baixo do tapete”
todas as limitações sentidas por ocasião da guerra e que haviam esquecido
durante a euforia da vitória. Consagrando, mentalmente, os conceitos
militares revelados nos seis dias do conflito, prepararam-se para a próxima
confrontação, como se esta viesse a ocorrer no sétimo dia.
Antes da guerra de 1967, e como consequência da linha de armistício de
1949, Israel vivera uma situação militar precária devida à falta de suficiente
profundidade estratégica para desdobrar suas forças (sua área de
desdobramento, na eventualidade de guerra, teria que ser em território
inimigo), o que, na verdade, era frequentemente mencionado por seus líderes
ao enunciarem a política de defesa do país. Além disso, a própria natureza de
suas fronteiras pressagiava ameaças; a Faixa de Gaza, ocupada pelos
egípcios em 1948, era como um punhal apontado contra os principais centros
populacionais do sul do país e toda a extensão do seu litoral; Jerusalém
achava-se dividida e, em diversas ocasiões, soldados jordanianos ou
habitantes locais haviam aberto fogo no interior da cidade, com todas as
consequências que disso resultavam. Um avanço das forças jordanianas de
apenas 450 metros, a partir das áreas ao longo da rodovia principal para
Jerusalém, poderia cortar a principal ligação com a capital israelense. As
forças jordanianas, estacionadas nas colinas acima de Kalkilyeh, dominavam
Tel Aviv e suas cidades satélites, onde vivia cerca de 40% da população de
Israel; as localizadas em Tulkarm, observavam a cidade costeira de Netanya,
cerca de 16km distante, plenamente conscientes de que uma sua incursão
mecanizada através dessa estreita faixa cortaria em dois, pelo seu ponto mais
estreito, o Estado de Israel. Das Colinas de Golan, as tropas sírias olhavam
do alto os vilarejos israelenses no Vale do Jordão, e por anos a fio os vinham
castigando com seu fogo.
Essa situação levou o Estado-Maior israelense à conclusão de que, uma vez
surgida a ameaça de uma conflagração, Israel não poderia permitir que os
árabes tomassem a iniciativa, pois tal privilégio poderia significar o desastre.
Era claro que o simples momentum de um ataque das forças árabes poderia
seccionar o país, em Netanya, ou a rodovia principal para Jerusalém,
devastando as povoações Israelenses ao longo da Faixa de Gaza ou
colocando sob ameaça a região norte da Galileia Oriental. Assim, qualquer
deterioração importante na situação, que pudesse conduzir a guerra,
automaticamente obrigaria o Estado-Maior israelense a planejar um ataque
antecipado.
Em diversas ocasiões, os terroristas fedayeen haviam incursionado pelo país,
ameaçando mesmo as áreas densamente povoadas, até que, em 1956, seus
ataques, desfechados a partir da Faixa de Gaza, em poder dos egípcios,
haviam se tornado intoleráveis e provocado um processo do escalada ao
longo das linhas fronteiriças. Percebendo que a guerra era uma possibilidade
iminente, e tendo em vista o que julgava serem circunstâncias internacionais
favoráveis, Israel desfechou um ataque contra o Egito, a chamada Campanha
do Sinai. Novamente em 1967, quando se tornara evidente que a guerra se
aproximava, o Comando israelense chegou à conclusão de que não deveria
permitir aos árabes o primeiro movimento, já que, simplesmente pelo
número, estes poderiam obter vantagens iniciais que Israel não lhes podia
conceder. E assim, não obstante considerações políticas internacionais
bastante ponderáveis, a que estavam atentos tanto o Governo israelense
como o presidente Nasser — nenhum desejando ser estigmatizado como
agressor —, a falta de opção estratégica deixou as forças israelenses sem
outra escolha que não a de tomar a iniciativa em 5 de junho.
A profundidade conseguida com os territórios que conquistara com a Guerra
dos Seis Dias deu a Israel, pela primeira vez em sua história, uma opção
estratégica. Todos os seus centros populacionaisestavam agora distanciados
das forças egípcias, e uma barreira desértica de 240km de largura separava
Israel do Canal de Suez, em si próprio um obstáculo natural de proporções
nada desprezáveis. As cidades que agora seriam afetadas por uma guerra não
mais seriam as israelenses, mas as egípcias ao longo do Canal — Port Said,
Ismaília, Suez —, com uma população total acima de 750.000 almas. Um
comandante egípcio que pretendesse atacar Israel, agora, teria de planejar
não só a formidável tarefa de atravessar o Canal sob a resistência inimiga
como, ainda, de desenvolver um pesado ataque através do Deserto do Sinai.
Assim, parecia aos israelenses que considerações deveras ponderáveis
pesariam contra a renovação de hostilidades nessa nova linha.
Uma situação igualmente favorável fora alcançada ao longo da frente com a
Jordânia: a cidade santa de Jerusalém achava-se, agora, unificada e bastante
distanciada da artilharia inimiga, que, por duas vezes em 20 anos, a
bombardeara impiedosamente. Em vez de ter de avançar algumas poucas
centenas de metros sobre Jerusalém ou seus arredores para alcançar
vantagens, ou de progredir apenas 16km para seccionar o país em dois, o
Exército jordaniano, em contra-ataque, teria que montar uma operação de
maior envergadura através do Rio Jordão e combater ao longo dos 65km
através do Deserto da Judéia, num terreno acidentado, facilmente defensável.
Mesmo na frente síria, as forças israelenses dispunham agora de um certo
grau de profundidade, que tornava a vida mais suportável para os habitantes
dos lugarejos da Galileia Setentrional e os aliviava do pesadelo do
bombardeio incessante e da necessidade de criarem seus filhos no interior de
abrigos.
O Estado-Maior israelense podia, assim, optar pelo lançamento de um ataque
antecipado, se a guerra parecesse iminente, ou, alternativamente, permitindo
ao inimigo o primeiro ataque — com todas as desvantagens políticas
internacionais que isso representaria para o agressor — e aproveitar-se,
então, da profundidade proporcionada pelo Deserto do Sinai para manobrar
suas forças, concentrá-las e contra-atacar. Ainda mais, o afastamento dos
aeródromos egípcios dos centros populacionais de Israel aumentara
consideravelmente e o intervalo de alarme eletrônico de que agora
dispunham era de uns 16 minutos, em vez dos quatro de antes da Guerra dos
Seis Dias. Essa situação estratégica constituía-se no principal fator para que
o Governo e os líderes da opinião pública de Israel minimizassem o perigo
de renovação de hostilidades contra o país.
Contudo, enquanto essas vantagens estratégicas eram sopesadas, passava
despercebido o fato de que a Península do Sinai, em mãos egípcias, fora um
valioso elemento de alerta no que interessava às forças israelenses: o
deslocamento de forças egípcias para o Sinai, através do Canal de Suez,
invariavelmente fizera soar o alarme em Israel e permitira que a mobilização
fosse realizada em tempo hábil. Isso ocorrera em diversas ocasiões,
particularmente em 1967. Agora, a disposição frente a frente criada ao longo
do Canal, após a Guerra dos Seis Dias, com o grosso do Exército egípcio
posicionado permanentemente quase que em contato direto com as forças de
Israel, extinguira esse importante elemento de alarme antecipado, permitindo
que as forças árabes, concentradas ao longo do Canal, passassem ao ataque
no menor tempo possível, a partir de seus próprios dispositivos.
Na verdade, a redução do tempo de alerta, como resultado dessas novas
fronteiras, era a razão dos efetivos consideravelmente aumentados que Israel
se via obrigado a manter ao longo das linhas fronteiriças depois da Guerra
dos Seis Dias. A fim de testar os vários aspectos táticos e estratégicos das
novas linhas de defesa, foram realizados numerosos exercícios bélicos, todos
baseados na presunção de um período muito curto de alerta o do exército
permanente contendo o ataque até que as reservas fossem mobilizadas, num
espaço de tempo máximo de setenta e duas horas.
Poucas semanas após o término da Guerra dos Seis Dias, ocorreram os
primeiros incidentes na fronteira do Canal de Suez, quando forças egípcias,
que se reagrupavam ao longo da margem ocidental, começaram a hostilizar
as forças israelenses desenvolvidas na margem oposta. A luta irrompeu em
Ras el-Aish, na extremidade norte do setor, entre Port Said e Kantara, onde
as posições Israelenses eram improvisadas e inadequadas para a defesa. Em
novembro de 1968, um ano e meio após o término da guerra, os egípcios,
cujo exército fora reorganizado e reequipado pela URSS, julgaram-se
suficientemente fortes para se engajarem em uma guerra de desgaste de
maior envergadura, desencadeando, naquele mês, um intenso bombardeio do
artilharia sobre as forças israelenses, pegando-as despreparadas e
relativamente desprotegidas. Num único ataque, foram mortos 18 soldados
israelenses. Israel reagiu montando uma operação de comandos em
profundidade contra Najh Hamadi, no Vale do Nilo, destruindo centrais
elétricas e tornando patente a vulnerabilidade do Egito quanto a ataques por
forças móveis israelenses. O impacto causado por essa incursão convenceu o
presidente Nasser de que ainda não se encontrava suficientemente preparado
para uma guerra de desgaste, adiando-a, em consequência, para março de
1969. Durante a pausa permitida por essa decisão, os israelenses
concentraram todos seus esforços para estabelecer uma linha que
correspondesse às exigências de uma tal guerra.
O Gen Ex Chaim Bar-Lev, Chefe do Estado-Maior, encarregou o Gen Div
Avraham (‘Bren’) Adan de dirigir um grupo interdepartamental encarregado
de apresentar ao Estado-Maior um plano para a criação de um sistema
defensivo no Sinai. Antes que a equipe se deslocasse para a Península, o Gen
Div Yeshayahu Gavish, titular do Comando Sul e que comandara as
vitoriosas forças israelenses no Sinai, por ocasião da Guerra dos Seis Dias,
debateu os problemas que a defesa do Sinai apresentava. Levando em conta
as baixas causadas pelo bombardeio egípcio, era evidente que deveria ser
assegurada às tropas de defesa na linha divisória uma adequada cobertura em
pontos fortificados; entretanto, o problema principal com que se defrontava
era o de conservar as forças ao longo do Canal, ou mantê-las dele
distanciadas em profundidade. Manter em força a linha do Canal criava uma
série de objetivos fixos sob constante observação dos egípcios, mas, ao
mesmo tempo, propiciava às forças de Israel a vantagem da observação e a
capacidade de reação imediata a qualquer tentativa de travessia por forças do
Egito. Assim, Gavish concluiu que seria aconselhável conservar as posições
às margens do Canal, principalmente em todos os prováveis pontos de
travessia, já que sentia que os egípcios não teriam dificuldade em atravessá-
lo ao longo de toda sua extensão e que os israelenses deveriam estar
preparados para enfrentar essa possibilidade.
Em 1968, Gavish comandara as forças de Israel em operações simuladas, nas
quais o Gen Div Mordechai (‘Motta’) Gur — nomeado Chefe do Estado-
Maior das Forças de Defesa de Israel após a Guerra do Yom Kippur —
figurou o comandante das forças egípcias. Nesses exercícios, Gur, em sua
manobra, atravessou o canal ao longo de toda a frente, avançando por todos
os seus eixos principais e lançando tropas, transportadas por helicópteros,
em profundidade, na retaguarda da linha israelense, exatamente como, cinco
anos mais tarde, viriam a fazer as forças do presidente Sadat. Assim, já em
1968, o conceito de um possível ataque egípcio fora admitido pelos
membros do comando de Israel.
Valendo-se de sua experiência de membro do kibutz Nirim, nas
proximidades da Faixa de Gaza, Adan pôs-se a planejar a defesa da linha ao
longo do Canal de Suez. Esboçou os planos originais das fortificações a
serem localizadas em sua margem e construídas de modo a possibilitarem o
máximo de observação — boa vigilância visual durante o dia e eletrônica
durante a noite — e de exporem o mínimo de tropas ao fogo da artilharia
inimiga. Planejou cada fortificação para um efetivode 15 homens,
distanciadas aproximadamente 11km uma da outra, com patrulhas blindadas
móveis entre elas e com a artilharia e as unidades blindadas desenvolvidas à
retaguarda, prontas para avançar e desbaratar qualquer tentativa de travessia.
Essas fortificações foram concebidas como um sistema avançado de alerta;
não eram encaradas como uma linha de defesa, daí seu reduzido efetivo de
15 homens, o espaçamento entre uma e outras e suas limitadas capacidades
defensivas. Gavish aprovou o plano de Adan, com a ressalva de que todos os
possíveis pontos de travessia na extremidade norte do Canal fossem cobertos
por grupos de fortificações. O plano de defesa israelense, desenvolvido com
base nesse sistema de alerta ao longo do Canal, foi apresentado ao Estado-
Maior Geral para aprovação. Os Gen Div Ariel Sharon, diretor de
Treinamento, e Israel Tal, adido ao Ministério da Defesa, manifestaram-se
contrários. Propuseram que se montasse um dispositivo apenas com
unidades blindadas, a uma certa distância do Canal, e que o controle da
frente fosse exercido por meio de atividades de patrulhas blindadas.
Mais tarde, Gavish explicou publicamente sua atitude quanto ao problema.
Via essa linha funcionando, em hipótese de guerra, como uma série de
postos de observação e de fortificações, ao longo de todos os possíveis eixos
de penetração, que retardariam a progressão do inimigo até que ele viesse a
se deparar com uma série de posições defensivas de brigadas de infantaria,
com suas forças de blindados concentradas ao longo dos passos, desde o
Passo de Mitla, no sul, até Baluza, no norte. Numa guerra de desgaste e nos
períodos de armistício, as fortificações serviriam como postos de observação
(proporcionando abrigo contra o fogo de artilharia no primeiro caso), bem
como centros de alerta eletrônico e de controle e bases para as patrulhas
blindadas. Como parte da defesa ao longo do Canal, Gavish deu início à
construção de um sistema de instalações de combustível, que poderia ser
ativado do interior dos fortins a fim de transformar o Canal em chamas.
Gavish sempre fora da opinião de que, se o Canal viesse a ser considerado
uma barreira física, não restaria outra alternativa que não a de estabelecer
uma presença física em toda sua extensão. Em seu modo de ver, um dos
principais riscos que Israel teria de enfrentar seria o de um súbito ataque
egípcio, com propósito de conquistar uma cabeça-de-ponte, por mais
reduzida que fosse, ao longo da margem oriental, seguido da tentativa de
obtenção de um cessar-fogo imediato, por meio de um acordo internacional.
Outrossim, uma vez que a doutrina israelense, invariavelmente, preconizava
a montagem de uma contraofensiva no interior do território inimigo, era
importante para Israel instalar-se em força ao longo do próprio Canal, e não
colocar-se em uma posição que o obrigasse a combater para poder alcançá-
lo.
Nos debates que se seguiram, não surgiu qualquer sugestão para que se
abandonasse o Canal, sendo discutido o desdobramento das forças e tendo o
Gen Sharom permanecido favorável ao sistema de defesa móvel ao longo do
Suez. O Gen Bar-Lev decidiu a favor das fortificações, e o grupo dirigido
pelo Gen Adan pôs-se a supervisionar a construção da linha, que foi
concluída em 15 de maio de 1969. Nesse mês, Nasser proclamou o início da
Guerra de Atrito e todo o sistema foi posto à prova: por dias a fio os egípcios
utilizaram mais de mil peças de artilharia contra as forças israelenses
entocadas ao longo do Canal. Não resta dúvida de que, não fora por essas
fortificações, as baixas israelenses teriam sido muito mais pesadas e
poderiam, mesmo, ter alcançado um número deveras assustador.
Entretanto, esses fortins eram apenas parte dos elementos do que mais tarde
viria a ser chamado de Linha Bar-Lev. Não era uma mera linha marginal de
defesa; cada posto controlava de 800 a 1.700m em cada um dos seus flancos
e o espaço de aproximadamente 8.000 a 9.000m entre elas era coberto por
postos de observação e por patrulhas. Todas as fortificações situadas nos
pontos mais críticos e problemáticos — como as localizadas nas duas
extremidades da linha e em pontos isolados — achavam-se reforçadas por
carros de combate. À retaguarda, estavam concentradas unidades de
blindados, enquanto pelotões de carros estacionavam no interior das próprias
áreas cobertas pelas fortificações, com os espaldões de onde operavam
dispostos de modo a permitir o fogo direto sobre a região ao longo do Canal.
Além desses espaldões, em grande número, outros foram construídos a cerca
de 800 a 1.600m à retaguarda, assegurando a cobertura, pelo fogo, de todas
as fortificações e dos acessos ao Canal. Coroando isso tudo, construiu-se
uma vasta infraestrutura de estradas, PC subterrâneos, sistemas hidráulicos e
de comunicações, oficinas e depósitos.
Quando a linha foi estabelecida, por ocasião da Guerra de Atrito, era
procedimento operacional normal, durante emergências, que forças do
exército permanente ou das reservas de paraquedistas substituíssem os
reservistas nas linhas de frente. Os fortins tiveram sua guarnição aumentada
para um efetivo completo de aproximadamente 30 homens, enquanto os
postos isolados, como o fortim “Quay” em Port Tewfik, podiam dispor de
efetivos entre 80 a 90 homens. Em todas as posições e fortificações isoladas
o comando estava confiado a um oficial no posto de major ou superior,
geralmente da reserva de unidade paraquedista. Bar-Lev fez com que se
tornasse norma manter reservistas em treinamento na região do Sinai durante
os períodos de tensão. Nessas ocasiões, mantinha na frente do Canal um
efetivo de duas brigadas blindadas, com uma terceira em reserva e mesma
uma quarta (geralmente formada com reservistas em treinamento na área).
Não é possível interpretar os conceitos militares israelenses que vigoravam
às vésperas da Guerra do Yom Kippur sem que se tome em consideração os
efeitos da Guerra de Atrito na sua formulação. Essa última — iniciada pelo
Egito em março de 1969 — tem sido considerada como um evento
passageiro, quando, na realidade, se constituiu em uma grande confrontação.
As forças egípcias desencadearam-na com o propósito evidente de criar uma
situação em que o Canal pudesse ser atravessado em massa e o Sinai
reocupado. Israel, por sua vez, mostrava-se determinado a impedir uma ação
desse tipo e a restabelecer o cessar-fogo. Ao optarem por desencadear a
Guerra de Atrito, os egípcios procuravam tirar proveito de uma situação
militar estática, originada pelo fato de estarem ambas as forças em posição
ao longo do Canal. Isso significava que Israel não estaria em condições de
tirar vantagem de sua indiscutível superioridade de manobra ou da grande
mobilidade de seus blindados, já que o Canal de Suez impediria os
movimentos em larga escala e, na realidade, protegeria as forças egípcias das
manobras israelenses. Colocados atrás dessa barreira, os egípcios
procurariam, então, primeiramente, tentar enfraquecer, pelo desgaste, a
disposição de Israel em continuar a luta.
A construção da Linha Bar-Lev em sua forma maciça, imediatamente após
as barragens de artilharia desencadeadas pelos egípcios em outubro de 1968,
constituiu-se num fator importante na decisão egípcia de iniciar a Guerra de
Atrito. E uma análise desses eventos tende apenas a salientar a ironia de uma
circunstância em que a atuação egípcia levou à construção da linha que, por
sua vez, veio a aumentar os temores e preocupações dos egípcios. Viam eles,
na construção dessa linha, o estabelecimento de uma presença israelense
permanente e intransponível, que tenderia a perpetuar o status quo e a
limitar, drasticamente, as perspectivas de uma mudança de situação ao longo
do Canal. Por isso, o plano egípcio inclinou-se para o bombardeio pela
artilharia, com o fim de danificá-la o máximo possível no primeiro estágio
da Guerra de Atrito. Uma vez destruídas em grande parte as fortificações
israelenses, o segundo estágio consistiria de uma série de travessias
limitadas do Canal, por períodos de tempo de curta duração, pelos comandosegípcios; o terceiro, importaria em operações de maior envergadura, em
profundidade, através do Canal, enquanto que o quarto e último estágio
consistiria de uma operação de travessia do Canal em grande escala, com o
objetivo de ocupar setores da margem oriental e, desse modo, pôr fim ao
impasse político existente desde 1967.
No decorrer de março e abril de 1969, foi realizado um intenso bombardeio
das posições israelenses. Em maio, o presidente Nasser anunciou que 60%
da Linha Bar-Lev fora destruída pelo fogo de artilharia e que seu ministro da
guerra, Mahmoud Fawzi, comunicara-lhe que logo trataria dos 40% restantes
(na realidade, a Linha Bar-Lev suportara galhardamente o castigo recebido e
correspondera às esperanças de seus planejadores). Em meados de abril,
comandos egípcios começaram a atravessar com regularidade o Canal e a
atacar as posições fortificadas israelenses. Isso resultou no
contrabombardeio pelas forças de Israel e nas incursões relativas ao longo
das linhas egípcias por suas unidades de paraquedistas e de comandos. A
luta ganhou incremento ao longo do Canal de Suez e, na verdade, em todo o
Golfo de Suez, com as forças israelenses atacando objetivos aí situados e no
interior do Egito. Nesse período, as baixas israelenses elevaram-se
assustadoramente e, em julho, foi decidido empenhar o poder aéreo. A
iniciativa passou para Israel e a Guerra de Atrito tornou-se uma guerra de
contradesgaste.
Nos meses seguintes, os ataques aéreos israelenses destruíram o sistema
egípcio de mísseis terra-ar SAM-2 na frente do Canal e se estenderam ao
Golfo de Suez. Os egípcios viram-se, então, sem qualquer potencial de
defesa antiaérea significativo ao longo da frente de Suez e tiveram que
abandonar a terceira fase do plano original — a invasão do Sinai por
unidades do exército —, obrigados que estavam a concentrar todos seus
esforços para conter o contra-ataque israelense. Em janeiro de 1970,
começaram as incursões em profundidade da Força Aérea israelense sobre o
território egípcio, enquanto que, simultaneamente, as forças israelenses
empenhavam-se em ações de comando, efetuando um desembarque na ilha
de Shadwan, no Golfo de Suez. Sob o ponto-de-vista histórico, ocorreu,
nessa época, uma grande reviravolta no Oriente Médio, com a visita secreta
de Nasser a Moscou e a subsequente chegada de pessoal e material soviético
ao Egito.
A fase final da Guerra de Atrito teve início em abril de 1970, quando a Força
Aérea de Israel cessou suas incursões no interior do Egito. Os soviéticos
haviam tomado o espaço aéreo egípcio sob sua proteção e, assim,
possibilitaram ao Egito concentrar todas suas forças na área de confronto
direto com Israel, ao longo do Canal de Suez. Os ataques aéreos e terrestres
egípcios tornaram-se mais intensos e aumentaram os ataques israelenses ao
longo do Canal. O conflito entrou em uma fase encarniçada.
Era agora evidente para os egípcios que a solução para o seu problema seria
a adoção de um novo dispositivo para o sistema de mísseis terra-ar.
Enquanto a disposição das posições de SAM-2 à retaguarda da zona do
Canal poderia afetar as atividades israelenses sobre o Egito, o seu
desenvolvimento no interior da zona do Canal criaria um problema para os
aviões israelenses em atividade sobre as próprias linhas de frente de Israel, já
que os mesmos, aproximadamente a 20km do interior do Sinai, estariam sob
o alcance dos mísseis egípcios. Tal fato, por sua vez, viria a aumentar a
capacidade egípcia de travessia em massa do Canal. Apesar de os contra-
ataques israelenses para impedir essas tentativas de infiltração do sistema de
mísseis na zona do Canal terem sido coroados de sucesso, as baixas também
aumentaram e cedo começaram a perder aviões para as defesas de mísseis
egípcias.
Ao lado dessa escalada militar, vinham se desenvolvendo as ações
diplomáticas. Em julho de 1970, Nasser anunciou sua aceitação de um
cessar-fogo, que teria início em 7 de agosto. Porém, imediatamente após o
mesmo ter entrado em vigor, egípcios e soviéticos combinaram deslocar, sob
cobertura do acordo, o sistema de mísseis para a frente e montar a base
militar necessária para a travessia definitiva do Canal — o estabelecimento
de uma cortina de mísseis, que cobriria o lado israelense, na margem
oriental, e neutralizaria sua força aérea. Em 24 de julho de 1970, em resposta
a questões levantadas na União Árabe Socialista, Nasser deixou implícito
que concordava com a trégua com o propósito específico de avançar o
“guarda-chuva" de mísseis para a margem do Canal. E, não obstante ter
revelado publicamente a próxima fase e a final — o estabelecimento de uma
cabeça-de-ponte através do Canal, sob cobertura desse “guarda-chuva” —,
poucos deram atenção ao seu pronunciamento.
Para Israel, a guerra findou, deixando um grande número de interrogações
quanto ao problema dos mísseis, pois, embora sua guerra de contradesgaste
com o Egito tivesse alcançado o objetivo, o cessar-fogo fora, na verdade,
bem recebido, confrontados que estavam com a alternativa de continuarem
dissipando seu poderio aéreo por toda a frente do Canal ou de
incrementarem as operações, desafiando a União Soviética. Além disso, a
guerra não fora fácil em termos de vidas humanas, com as tarjas negras
aparecendo todos os dias nos jornais israelenses em volta das fotografias dos
soldados mortos nos dias anteriores. Fora, essencialmente, uma guerra de
nervos, e, para o público israelense, habituado a resultados rápidos em suas
guerras com os árabes, não era uma situação tendente a elevar qualquer
moral.
Parecia, agora, que o objetivo de Nasser era, na verdade, o de tentar a
próxima etapa de seu plano — a tomada de uma porção da margem oriental,
sob cobertura de seus mísseis —, mas, a essa altura, ocorreram diversos
fatos que afetaram a situação militar e tiveram efeito decisivo no
pensamento militar da liderança israelense. Em 28 de setembro de 1970, o
presidente Nasser veio a falecer. Era o líder carismático de maior projeção
do mundo árabe e conseguira unir à sua volta os egípcios e os árabes em sua
luta contra Israel. Sua falta, por isso, significava que o principal fator nesse
confronto — uma liderança efetiva — estava agora ausente. Paralelamente
aos seus esforços para eliminar a presença das potências ocidentais no
Oriente Médio, Nasser dedicara grande esforço em mobilizar o mundo árabe
contra Israel e fora o principal ativador de uma política árabe nesse sentido.
Mais do que qualquer outra pessoa, fora o instrumento da efetivação da
presença soviética no Oriente Médio; agora ele desaparecera, deixando atrás
de si um país com sérios problemas políticos internos e com uma liderança
que parecia totalmente desprovida de carisma e de poder.
A resposta americana, em setembro de 1970, ao pedido israelense de
armamento adicional, foi pela primeira vez pública e inequívoca: perante o
mundo árabe e o bloco oriental, a administração Nixon solicitou ao
Congresso aprovação para a venda a Israel de aproximadamente meio bilhão
de dólares em equipamentos de sofisticação tão avançada até então nunca
fornecido pelos EUA a países estrangeiros. Esse fato não passou
desapercebido aos árabes — como certamente à União Soviética — e aduziu
um outro elemento de confiança ao pensamento israelense. Um outro
acontecimento importante foi a guerra civil na Jordânia, em setembro de
1970, quando o rei Hussein sufocou o levante palestino, criando, assim, uma
situação em que a fronteira Jordânia-Israel tornou-se pacífica. A inequívoca
reação dos EUA à tentativa de invasão da Jordânia pelas tropas sírias, por
ocasião daquele episódio, constituiu-se, também, em um fator de
encorajamento, demonstrando o propósito americano em manter o equilíbrio
na área e bloquear o expansionismo soviético. Todos esses fatores
combinaram-se para criar uma atmosfera que, no devido tempo, contribuiu
para a obstinada relutância das lideranças política e militar israelenses em
acreditar que pudesse, um dia, ocorrer uma situação em que o mundo árabe
viesse a assumir a iniciativa militar e marchar contraIsrael.
Em 7 de agosto de 1970, teve início o cessar-fogo para um período previsto
de 90 dias. O Comando israelense decidiu aproveitá-lo para reconstruir as
porções da Linha Bar- Lev destruídas durante a Guerra de Atrito e reforçá-la.
Nesse ínterim, o General “Arik” Sharon assumira o Comando Sul, sendo
realizado um grande esforço, visando a reforçar todas as posições e pontos
fortificados ao longo do Canal. Em decorrência de uma proposta que
apresentou, foi construída uma segunda linha de defesa, entre 9 a 12km à
retaguarda da existente, pois conforme argumentou, os tanques e a artilharia
não dispunham de uma proteção adequada. Onze dessas fortificações foram
erigidas, além de uma infraestrutura de estradas e barreiras artificiais, tais
como plataformas de areia (em alguns pontos alcançando quase 30m de
altura) concebidas para tornar a barranca oriental do Canal intransponível
aos veículos blindados. Foram instalados extensos campos de minas e cercas
defensivas e construídas estradas, mesmo nos terrenos pantanosos do setor
norte. Os aeroportos foram melhorados, postos de comando subterrâneos
construídos e depósitos de combustível adicionais instalados. Ao todo, foram
despendidos cerca de 2 bilhões de libras israelenses (500 milhões de dólares)
em todo o Sinai, dos quais um total de aproximadamente 150 milhões (40
milhões de dólares) foi gasto com as fortificações.
O Gen Israel Tal não se sentia satisfeito com a escalada nas atividades de
construção e, em outubro de 1970, por ocasião da primeira fase do
armistício, manifestou suas reservas quanto ao sistema de defesa do Sinai
como um todo. Demonstrou que as fortificações tinham provado ser
ineficazes (já que de qualquer modo os egípcios vinham transpondo o Canal)
e acabaram por tornar-se uma série de objetivos fixos, vulneráveis aos tiros
de trajetória tensa e mantidos sob constante observação, com suas linhas de
suprimento descobertas convidando ao ataque. Afirmou que os pontos
fortificados não constituíam uma eficiente unidade de combate; que
poderiam ser neutralizados pelo fogo da artilharia e ultrapassados; que, na
melhor das hipóteses, representavam apenas abrigos e que a artilharia
israelense era, a seu ver, insuficiente para dar-lhes apoio. Constituíam uma
pequena contribuição para a defesa, estavam isolados e não se apoiavam
mutuamente, não podendo impedir uma travessia do Canal, fosse de dia ou
de noite. Ressaltando que das 498 baixas israelenses do Sinai, entre 7 de
janeiro e 28 de julho de 1970, 382 (incluindo 62 mortos) tinham ocorrido no
interior das fortificações, ou em direta relação com elas, propôs um sistema
em que unidades móveis blindadas, com apoio da artilharia e do fogo
antiaéreo, empregando carros de combate, ficariam responsáveis por setores
localizados em pontos de observação ao longo da linha do Canal. Esses
reforçariam as fortificações que, por já existirem, seriam guarnecidas com
efetivos menores.
Seus pontos-de-vista encontraram considerável oposição. Seus opositores,
entre eles o Ministro da Defesa e o Chefe do Estado-Maior, argumentaram
que qualquer tentativa de sustentar a Linha, sem uma presença física no
terreno ao longo do Canal, tenderia a estimular um processo de progressão
das forças egípcias, o que acabaria por colocar os israelenses em uma
situação bastante difícil (uma percentagem muito alta de baixas fora causada
por emboscadas, minas, mísseis e atividades de artilharia contra as patrulhas
blindadas e as unidades de engenharia em atividades fora das fortificações).
Outros argumentaram que seu sistema resultaria na formação de áreas fora
do controle israelense. Na verdade, essas áreas, que não haviam sido
ocupadas pelas forças de Israel desenvolvidas ao longo do Canal durante a
Guerra de Atrito, frequentemente haviam sido ocupadas, durante breves
períodos, pelos egípcios. Em diversas ocasiões, as forças egípcias tinham
ocupado por períodos variáveis, e depois abandonado, fortificações
israelenses na região entre a Ponte Firdan e o norte da ilha El-Balah no canal
de Suez; frequentemente, haviam realizado treinamentos nessas
fortificações, minado as áreas adjacentes e hasteado, muitas vezes, a
bandeira egípcia sobre elas. As atividades de patrulha ao longo do Canal
muitas vezes envolviam a limpeza de campos minados e encontros com
emboscadas, situações que poderiam se tornar muito mais sérias caso as
forças israelenses viessem a abandonar totalmente as fortificações às
margens do Canal. Na verdade, existiam áreas, como as situadas ao sul do
Canal, que, toda vez que eram ocupadas pelos israelenses, exigiam a
remoção de um grande número de minas.
Com a designação do Gen Elazar para a chefia do Estado-Maior, em janeiro
de 1972, o problema foi levantado novamente. Não obstante mostrar-se
favorável ao sistema de fortificações, uma espécie de compromisso foi
surgindo. A medida que o período de cessar-fogo transcorria, esse
compromisso assumia uma forma bastante concreta e a sua implementação
viu-se favorecida, tanto psicologicamente como de fato, por uma completa
falta de atividades do inimigo ao longo do Canal. Essa inatividade tendeu a
aquietar quaisquer temores existentes acerca da redução do número de
fortificações e de forças ao longo do Canal. Harmonizava-se, ainda, com
uma crescente conscientização das autoridades públicas e de segurança
acerca do excessivo ônus representado pelo orçamento da Defesa e com a
necessidade de procurar meios de economizar. Os efetivos de infantaria nas
fortificações foram reduzidos. Onde quer que houvesse um grupo de fortins,
apenas um permanecia ativado, com um mínimo de homens guarnecendo-o
(dois oficiais, 12 praças combatentes e o pessoal administrativo necessário,
elevando seu total para 20 elementos por posto). De 26 fortificações, cerca
de 20 foram fechadas e bloqueadas com areia, de maneira que seriam
necessárias diversas semanas para reativá-las; durante o dia, dois ou três
homens com viaturas meias-lagartas eram enviados para esses postos
abandonados, a fim de dar aos egípcios a impressão de que se encontravam
ainda guarnecidos (frequentemente, soldados egípcios, no outro lado do
Canal, gesticulavam zombeteiramente e apontavam para seus relógios de
pulso, como a avisar que já eram 18 horas, horário que os israelenses deviam
voltar para suas fortificações principais). Assim, devido a um compromisso
que nenhum conceito militar poderia aceitar, a faixa divisória entre a Linha
Bar-Lev, que funcionava como um sistema de alerta ou de defesa concebido
para bloquear gradualmente o inimigo, tornou-se confusa e obnubilada. Essa
falta de definição viria a cobrar seu ônus durante as primeiras horas de luta
ao longo do Canal.
Em Busca de Soluções
A própria magnitude e o caráter definitivo da derrota árabe, em junho de
1967, com tudo o que representava para sua honra, orgulho e amor próprio
(cuja importância e significado nunca foram adequadamente avaliados pela
liderança israelense), criaram a inevitabilidade da guerra que se seguiu.
Além disso, a determinação de Nasser de que “o que fora tomado pela força
deveria ser devolvido pela força” era fortalecida pelos esforços soviéticos
em reorganizar o Exército egípcio e proporcionar todo o apoio necessário
para tanto. Assim, imediatamente após a guerra de 1967, Nasser se pôs a
estudar cuidadosamente as razões do sucesso israelense. Em Israel, durante a
euforia da vitória, todos seus comandantes de divisões haviam divulgado
pelas rádios as histórias de suas façanhas nos combates. Nasser fez com que
fossem gravadas. Encerrou-se em uma sala e pôs-se a ouvi-las por dias a fio,
tentando determinar quais os fatores principais que haviam contribuído para
fazer do Exército israelense uma força de combate tão eficiente. A liderança
militar israelense — exuberante como nunca — poucos detalhes deixou
encobertos, proporcionando, a qualquer pessoa disposta a sentar-se e estudar,
abundante material para análise.
Com o auxílio da União Soviética, Nasser começou a reorganizar o Exército
egípcio. Desta vez, contudo, esse trabalho nãose limitou apenas ao
equipamento: muita consideração foi dispensada, também, à qualidade do
potencial humano e à sua motivação. E, de fato, já em 1973 os israelenses
viriam a perceber a sensível diferença na qualidade dos oficiais egípcios e do
pessoal do exército regular — resultado de um plano bem concebido para
elevar o padrão das forças egípcias e deixar de considerá-las, quando muito,
bucha para canhão. Com esse propósito, universitários diplomados em
diversas áreas, como engenharia, agronomia e ensino, foram mobilizados e
enviados para cursos de formação de oficiais, onde eram arregimentados por
período indeterminado, com o entendimento de que permaneceriam em
serviço “até a guerra”. Muitos dos aprisionados por Israel durante a Guerra
do Yom Kippur eram universitários altamente qualificados, a quem não fora
permitido seguir suas profissões e que tinham sido mobilizados e enviados
para centros de formação de oficiais. Os egípcios assim mobilizados
aceitavam suas sinas, já que a finalidade última de sua mobilização — a
libertação do Sinai — fora-lhes explicada como sendo um ato de
patriotismo, não obstante muitos deles não acreditarem que ocorresse "a
guerra”. Muitos de seus oficiais superiores eram homens jovens, na casa dos
trinta, em postos de coronel. Os oficiais israelenses que entraram em contato
com os prisioneiros egípcios notaram que o padrão intelectual do oficial
profissional, treinado e educado no exército regular, era superior ao dos
universitários que haviam sido mobilizados.
Um programa bastante intenso de educação política foi desenvolvido no
Exército egípcio. Seus oficiais foram incentivados a estudar o hebraico e a
conhecer o adversário; todo ensinamento que pudesse ser auferido da Guerra
dos Seis Dias foi estudado, ocasionando uma mudança radical na
mentalidade das forças egípcias. O Serviço de Informações Militares egípcio
publicou um periódico mensal, em hebraico, onde apresentava um sumário
dos acontecimentos em Israel, dava cursos de hebreu para principiantes,
descrevia, por exemplo, as atividades no continente africano ou a história da
Força Aérea de Israel, e procurava, de uma maneira geral, dar uma idéia do
panorama israelense ao soldado egípcio. O departamento do Exército
encarregado da instrução moral produzia um fluxo contínuo de trabalhos
sobre o conflito árabe-israelense, muitas vezes colorido com tons
antissemitas.
Imediatamente após a Guerra dos Seis Dias, Nasser anunciou seu plano de
reiniciar a luta a fim de vingar a derrota egípcia e recuperar os territórios
perdidos, uma decisão somente possível graças à União Soviética. Em 11 de
junho de 1967, como Nasser mais tarde revelou, os líderes do Kremlin
enviaram-lhe uma mensagem pressionando-o a não esmorecer e
prometendo-lhe todo o apoio necessário para recuperar o território que Israel
conquistara. A URSS, fator importante na eclosão da guerra de 1967,
mostrava-se agora pronta para intervir, obter o máximo de uma jogada
infeliz e tirar vantagens do colapso árabe. Semanas mais tarde, em fins de
junho, chegou ao Egito uma missão soviética liderada pelo presidente da
URSS, Nikolai Podgorny, e o chefe do Estado-Maior, Marechal Zakharov. O
propósito dessa missão era o de examinar os problemas que a guerra trouxe
ao Egito e o de planejar a reorganização das suas forças armadas. Nesse
encontro, o presidente Nasser solicitou formalmente que a União Soviética
assumisse total responsabilidade pela defesa aérea do país, e que essa defesa
ficasse subordinada a um comandante soviético (como a Força Aérea egípcia
fora destruída durante a guerra, os líderes egípcios consideravam isso o
problema de maior urgência). Apesar de, no momento, ter acedido à
proposta egípcia, à tarde daquele mesmo dia o presidente Podgorny
comunicou a Nasser que a URSS não poderia aceitar a responsabilidade da
defesa aérea do Egito, mesmo sob o comando de um general soviético.
Sadat, a quem Nasser comunicara essa decisão pelo telefone, suspeitou a
princípio que o motivo dessa recusa se devesse ao encontro de cúpula de
Glasboro, realizado naquele mesmo dia entre o premier Kossygin e o
presidente Lyndon Johnson. Mais tarde, Sadat viajou para Moscou a fim de
renovar o pedido, que foi novamente recusado.
Apesar dessa recusa, a URSS concordou em reorganizar e reequipar as
Forças Armadas egípcias, o que realizou em tempo recorde. Em apenas seis
meses, um exército egípcio, de efetivo quase igual ao que se defrontara com
as forças israelenses na manhã de 5 de junho, estava novamente postado
frente a Israel no Canal de Suez. Esse rápido ressurgimento nada mais era
que o desencadear de um processo que visava criar no Egito um exército
com um efetivo pretendido de aproximadamente 800 mil homens. Assim que
receberam o equipamento indispensável, os egípcios deram início, em 1968,
a operações limitadas de fustigamento, que mais tarde culminaram na
declaração da Guerra de Atrito.
Em uma entrevista publicada, em 21 de janeiro de 1969, no jornal Al Ahram,
o presidente Nasser expôs a política militar egípcia. Suas palavras foram
assim registradas:
“A primeira prioridade nessa batalha, a prioridade mais absoluta, é a frente
militar, pois devemos compreender que o inimigo não baterá em retirada, a
menos que o obriguemos a isso pelo combate. Na verdade, não poderá haver
esperança de qualquer solução política, a não ser que o inimigo compreenda
que somos capazes de lutar para forçá-lo a se retirar.”
O pensamento das lideranças militar e política do Egito se tornou ainda mais
claro dois meses mais tarde, em um artigo publicado no Al Ahram, de 7 de
março de 1967, por seu editor Mohammed Hassenein Heikal, que muito
frequentemente refletira em seus trabalhos o pensamento do presidente
Nasser, e mais tarde, por algum tempo, o do presidente Sadat. No seu
trabalho, Heikal deixou claro que, já que uma guerra estilo blitzkrieg
convinha a Israel devido às características de seu território, sua reduzida
população, seu preparo, seu padrão de treinamento e seus limitados recursos,
os árabes deveriam planejar uma guerra prolongada, que tomasse em
consideração a profundidade do seu próprio território, sua preparação
deficiente, sua economia ilimitada e sua ilimitada população, em que a baixa
de 50 mil combatentes seria desprezível, ao passo que uma perda de 10 mil
homens forçaria Israel a implorar por um cessar-fogo. Concluía que a futura
guerra com Israel deveria prolongar-se por sete a oito semanas, visto que,
por maior que fosse o território que Israel ocupasse inicialmente, acabaria
sendo derrotado em uma guerra que durasse tanto tempo. Estendeu-se, ainda,
sobre a importância do estabelecimento da frente oriental, o que forçaria
Israel a combater em duas frentes.
Em dezembro de 1969, o Secretário de Estado americano, William Rogers,
apresentou o chamado Plano Rogers. Pretendia um tratado de paz entre
Israel, Egito e Jordânia, com uma retirada total de Israel dos territórios
ocupados, ficando em aberto as questões referentes à Faixa de Gaza e Sharm
El-Sheikh. Ao mesmo tempo que Israel manifestava o descontentamento
com o plano, o presidente Nasser recusava-o; a atitude soviética, que de
início parecera ser favorável, mostrava-se ambígua. Nesse ínterim, várias
propostas vinham sendo intercambiadas entre israelenses e egípcios. Em
maio de 1970, Golda Meir, premier de Israel, declarou que, com vistas a uma
paz verdadeira, Israel faria concessões que poderiam “surpreender o
mundo”; e, mais, que seu país estava desejoso de negociar, não só
diretamente como através de um intermediário. Em resposta, Nasser
declarou que, se Israel recuasse, o Egito reconheceria o Estado de Israel.
Calcado nesse panorama, surgiu o segundo Plano Rogers propondo um
cessar-fogo que seria seguido pelo restabelecimento das negociações, com o
Egito reconhecendo o Estado de Israel e este se retirando dos territórios
ocupados.
A princípio, a reação de Nasser foi negativa. Ao se considerar, nessa altura,
o desenrolar dos acontecimentos políticos, é muito importante que não se
perca de vista o fatode que estes se desenvolviam contra o fundo da Guerra
de Atrito, em crescente escalada, na qual os dois contendores vinham
sofrendo pesadas baixas. Não resta dúvida que, em última análise, os rigores
da Guerra de Atrito vinha exercendo seus efeitos nas decisões políticas de
ambas as partes. Em 29 de junho de 1970, Nasser viajou para Moscou, onde
permaneceu até 17 de julho. (Já estava muito doente e viajara à URSS não só
para discussões políticas, mas em busca de tratamento médico). Essa visita
teria, mais tarde, um profundo efeito sobre as relações egípcio-soviéticas. De
acordo com o que foi revelado pelo presidente Sadat, em uma entrevista
publicada pelo Al Hawadess de Beirute, em 26 de abril de 1974, Nasser,
envolvido em uma atmosfera de falsidade quando se defrontava na sala de
conferências do Kremlin com os líderes da URSS, em Moscou, em um
acesso de frustração decidiu modificar sua decisão e aceitar o Plano Rogers.
Seis meses antes, em janeiro de 1970, por ocasião de sua visita à URSS e
logo após os bombardeios em profundidade realizados por Israel, os
soviéticos tinham concordado em assumir a responsabilidade pela defesa
aérea do Egito. Tinham, também, acedido aos insistentes pedidos egípcios
para que os equipassem com aviões capazes de realizar missões de
bombardeio em profundidade sobre Israel; tal força, argumentavam, se
constituiria em um fator de dissuasão às incursões dos bombardeiros
israelenses sobre o Egito. Além dos aviões, os egípcios esperavam receber
um sistema de mísseis SAM terra-ar operado por elementos soviéticos; mas,
embora o sistema de proteção lhes tenha sido fornecido, não ocorreu o
mesmo quanto aos aviões. Nasser se tornara bastante impaciente e, seguindo
sua prática costumeira de procurar jogar um lado contra o outro, por ocasião
das comemorações do 1º de maio de 1970, em seu discurso, fez uma abertura
ao presidente Nixon, deixando transparecer sua tendência para a moderação.
Mas, após sua posterior visita a Moscou, em junho seguinte, retornou ao
Egito completamente frustrado. Apesar de, como resultado do tratamento na
URSS, aparentar ter recuperado uns 20 anos, na verdade era ainda um
homem muito doente. Sadat contou que, ao recebê-lo no aeroporto,
perguntou-lhe o que combinara com os soviéticos. Nasser respondera-lhe
laconicamente, com apenas duas palavras em inglês: Hopeless case (caso
perdido). Mais tarde concluiu: “Aceitei as propostas do Rogers”.
Nasser considerara o fato de ter conseguido convencer a URSS, em janeiro
de 1970, a se envolver militarmente na defesa do Egito um estupendo passo
à frente, de importância e significado muito grandes. Entretanto, em junho
daquele ano, no encontro em Moscou, subitamente compreendeu que os
soviéticos, apesar de terem enviado forças para o Oriente Médio em defesa
do Egito, não estavam preparados para obrigar Israel a aceitar uma solução
imposta por meios militares. Decidiu, por essa razão, que o único meio de
alcançar uma solução satisfatória para o Egito seria por intermédio dos
americanos. De fato, quando Joseph Sisco, Secretário-Assistente de Estado
americano, viera ao Cairo, em abril, o primeiro contato de natureza prática
entre eles já fora arranjado. Apesar disso, entretanto, decidira verificar o que
poderia conseguir dos soviéticos. Insatisfeito, porém, com os resultados de
sua visita de junho a Moscou, na viagem de retorno pôs-se a considerar um
plano político de ação que pudesse ser desenvolvido através dos americanos.
E, assim, deu início às tentativas para acertar suas diferenças com eles.
Em 28 de setembro de 1970, o presidente Nasser faleceu. O premier
soviético Kossygin, acompanhado por uma grande comitiva, voou
apressadamente para o Cairo, onde se demorou por quase uma semana na
tentativa de influenciar os rumos do novo governo egípcio e fortalecer a
posição do grupo que cercava o vice-presidente Ali Sabri, de tendência pró-
soviética. Outra presença menos proeminente nos funerais de Nasser foi
Elliot Richardson, Secretário americano da Saúde, Educação e Bem-Estar,
que manteve um encontro sigiloso com o presidente Sadat. Este viria a ser o
primeiro de uma série de contatos americanos com o novo presidente.
Quase em fins de 1970, o Ministro da Defesa de Israel, Gen Dayan,
apresentou uma sugestão com vistas a uma solução provisória do conflito
egípcio-israelense. Israel recuaria por uma distância relativamente curta do
Canal, o que permitiria aos egípcios reabri-lo e instalar na margem oriental o
pessoal civil necessário para operá-lo. Dayan calculava que o fato da
reabertura do Canal despertaria nos egípcios e soviéticos o interesse comum
em assegurar que permanecesse aberto. Julgava, ainda, que a
desmilitarização de uma área na margem oriental do Suez criaria uma zona-
tampão, não só entre as forças israelenses e egípcias, como também — e de
importância muito maior — entre as forças israelenses e soviéticas.
Enquanto ocorriam essas discussões, tinham lugar os encontros entre Sadat e
os americanos. Sadat mantinha-se em comunicação com o presidente Nixon,
e um representante egípcio viajou para Washington a fim de desenvolver a
idéia de um acordo parcial ao longo do Canal.
Em princípio de 1971 Sadat concedeu uma entrevista a Arnaud de
Borchgrave, repórter da Newsweek, que se tornara bastante chegado a ele e
que mais tarde viria a se constituir em uma fonte inestimável para o seu
pensamento. Declarou, pela primeira vez, que estava preparado para
reconhecer o Estado de Israel e para conviver pacificamente com ele. Com
essa entrevista nas mãos, Borchgrave voou para Jerusalém, onde encontrou-
se com diversas pessoas que se mostraram impressionadas com esse novo
desenvolvimento. Foi recebido pela premier Golda Meir, a quem relatou os
detalhes do seu encontro com Sadat. Ela ouviu-o com mal-disfarçada
impaciência e, a certa altura, interrompeu-o, dizendo: “Se não me engano,
você veio para me entrevistar; então, faça suas perguntas”. Ao final da
entrevista Borchgrave disse-lhe: “Madame Primeira-Ministra, receio que os
seus comentários estejam desatualizados quando forem publicados, porque,
nesse ínterim, Sadat se mostrará receptivo a uma abertura pelo embaixador
Jarring e anunciará que está preparado para negociar a paz”. A essa altura,
ela retrucou ironicamente: “Esse será na verdade um grande dia; não creio
que aconteça”. Borchgrave voou de volta para Nova Iorque, via Zurique, em
cujo aeroporto foi localizado e chamado ao telefone: era o correspondente da
Newsweek que lhe encaminhava um pedido de Jerusalém para que o texto da
entrevista com Golda Meir fosse devolvido para correção, pois, realmente,
Sadat tinha feito a declaração que Borchgrave adiantara. O fato de ela não
corrigir a entrevista, mas apenas atualizá-la, confirmou a opinião de
Borchgrave de que ela deixara escapar a maior oportunidade de prevenir
uma nova guerra.
Em 4 de fevereiro de 1971, Sadat tornou pública sua proposta para um
acordo parcial. Tinha muitos pontos em comum com aquela de Dayan,
divergindo, apenas, quanto à natureza das forças egípcias, policiais ou
militares que seriam autorizadas a transpor o Canal. Outra área de
divergência residia no aspecto principal do pronunciamento; se, como os
israelenses pretendiam, o acordo seria, em si mesmo, um arranjo sem
prejuízo de negociações posteriores com vistas a um acordo final, ou, como
defendiam os egípcios, seria parte do acordo final, que previa uma garantia
prévia, por parte de Israel, da retirada total das forças do Sinai. Assim,
nenhum progresso foi obtido nas negociações dada à irredutibilidade dos
egípcios em que Israel se comprometesse, previamente, a uma retirada total
da Península. A tentativa seguinte partiu do Dr. Gunnar Jarring,
representante do Secretário-Geral da ONU, que fora designado para fazer
cumprir a Resolução 242 do Conselho de Segurança. Apresentou uma
proposta própria que muito se aproximava das exigências máximas dos
egípcios, mas totalmente inaceitável por Israel. A partir dessa intervenção a
posição israelense endureceu.
Por muitos meses, em 1971, continuaramas negociações para a conclusão de
um acordo parcial, sem que nada fosse alcançado. No estudo do
comportamento das pessoas que fazem a História, parece ser um julgamento
desapaixonado concluir que um negociador mais hábil e decidido que o Dr.
Jarring poderia muito bem ter conseguido o rompimento do impasse em
1971, já que, em última análise, quando do acordo para o desengajamento de
forças, após a guerra de 1973, o Egito veio a concordar com muito do que
Israel propusera em 1971.
Em 1º de março de 1971, o presidente Sadat efetuou a primeira das muitas
visitas sigilosas que fez a Moscou. Acompanhavam-no o ministro do interior
Sharawi Guma e o Gen Mahmoud Fawzi, ministro da guerra. Sadat era novo
e pouco seguro de si, e os dois ministros que o acompanhavam detinham
muito do poder em suas mãos, principalmente o primeiro, que controlava os
serviços de Segurança. Durante o encontro, Sadat levantou o problema dos
aviões de longo alcance que não haviam sido entregues, fato que levara o
falecido presidente a concordar com o Plano Rogers. A essa questão a
resposta foi: ‘‘Estamos preparados para fornecer esses aviões, sob a
condição de que não sejam utilizados sem prévia autorização de Moscou".
Conforme consta do relatório sobre o encontro, Sadat sentiu-se horrorizado.
Seguiu-se, então, uma acirrada discussão. As verdadeiras implicações do
envolvimento militar soviético começavam agora a se tornar evidentes para
ele; e despontou, então, em sua mente, um processo de raciocínio totalmente
novo que mais tarde, em julho de 1972, o levaria a exigir a retirada do Egito
dos conselheiros e tropas soviéticas. Na sua volta ao Egito, Sadat reuniu o
Supremo Conselho da União Socialista Árabe e relatou-lhes a história das
suas negociações em Moscou, dizendo: “Recusei aceitar os aviões sob essas
condições, pois não poderia admitir uma situação em que viesse a existir em
solo egípcio uma outra vontade que não a minha e a da liderança política do
Egito”.
Em maio de 1971, o secretário de Estado Rogers chegou no Cairo
acompanhado do seu secretário-assistente Sisco, numa tentativa de fazer
progredir as negociações para a efetivação de um acordo parcial. Nessa
ocasião, Rogers anunciou que não vinha com outras exigências dos egípcios
que não as constantes do pronunciamento de Sadat em fevereiro de 1971.
Nesse encontro, Sadat, aparentemente, deixou entrever aos visitantes
americanos que certas modificações poderiam ocorrer no Egito; de fato, uma
semana mais tarde, em 14 de maio, eliminou a oposição formada pelos
elementos do círculo mais íntimo de Nasser, entre eles Ali Sabri, que
chefiava os elementos pró-soviéticos em posições de liderança. Esse grupo
tinha escolhido Sadat para suceder a Nasser, por considerá-lo um medíocre,
um elemento de fachada, facilmente manobrável, que faria apenas o que lhe
fosse mandado. Com o passar dos meses, descobriram que Sadat não era tão
fácil de dirigir e que tinha suas próprias idéias sobre políticas interna e
externa. Consequentemente, prepararam uma trama, tipicamente ao estilo do
Oriente Médio, para derrubá-lo e assumirem o poder. Sadat, que se mantinha
a par das intenções dos conspiradores, atacou primeiro. Foram todos
colocados na prisão e, posteriormente, submetidos a julgamento e
condenados a longas penas de prisão.
Esses fatos foram vistos no Kremlin com considerável apreensão. Pela
primeira vez, em muitos anos, um secretário de Estado americano visitava o
Cairo, e acontecia, agora, esse golpe, envolvendo Ali Sabri, um dos mais
importantes esteios do envolvimento militar soviético no Oriente Médio e no
Egito. O presidente Podgorny foi despachado às pressas para o Cairo e à sua
chegada apresentou o texto do Tratado Egípcio-Soviético de Amizade e
Cooperação previsto para 15 anos. Esse tratado hipotecava o apoio soviético
ao Egito em sua luta para tornar-se uma sociedade socialista; cada uma das
partes comprometia-se a não entrar em aliança ou tomar qualquer iniciativa
contra a outra ou celebrar qualquer outro acordo internacional que
contrariasse os termos do Tratado. Em seu encontro com Sadat, Rogers e
Sisco tinham deixado implícito que os EUA estavam preparados para
realizar um acordo, mesmo contra os interesses de Israel, uma vez que os
egípcios o fizessem às custas dos interesses da União Soviética. Quando
menos se esperava, surgiu, inesperadamente, o Tratado Egípcio- Soviético de
Amizade e Cooperação para arrefecer as esperanças dos americanos. Eles
exigiram uma explicação de Sadat; sua resposta foi que o Egito era livre para
tomar suas próprias decisões.
Em março de 1971, quando terminou a terceira fase do cessar-fogo iniciado
em 7 de agosto de 1971, Sadat não o renovou como fizera anteriormente por
duas vezes, pois, como anunciou, 1971 seria o "Ano da Decisão”.
Em 6 de julho, chegou ao Egito um outro emissário americano, na figura do
chefe da Seção Egípcia da Secretaria de Estado, Michael Sterner. Segundo
uma entrevista que mais tarde concedeu a Arnaud de Borchgrave, da
Newsweek (na qual Sadat descreveu nos seus mínimos detalhes as
negociações mantidas entre os EUA e o Egito no decorrer de 1971), Sterner
informou a Sadat que o presidente Nixon decidira ter, agora, uma
participação ativa na crise do Oriente Médio, mas que primeiramente
desejava saber se o Tratado de Amizade e Cooperação entre o Egito e a
URSS havia, de algum modo, alterado a posição egípcia. Respondendo que o
Tratado nada alterara, pois nada mais era senão uma nova moldura para
relações já existentes, Sadat concordou em restabelecer as relações
diplomáticas com os EUA após a primeira fase de uma retirada israelense
prevista no contexto de um acordo parcial, revelando a Sterner que
tencionava despachar de volta o pessoal soviético ao final daquela fase da
retirada “porque estou tão ansioso por isso como vocês”.
Como nada ocorreu nos meses seguintes, mesmo apesar de uma visita de
Sisco a Israel, Sadat chegou à conclusão de que sua aproximação com os
americanos não estava rendendo frutos e, consequentemente, em 11 de
outubro de 1971, voou para Moscou a fim de conferenciar com os três
líderes soviéticos. Nesse encontro, conseguiu descongestionar o ambiente e
chegaram a um acordo sobre o pedido de armas feito pelo Egito. O material
deveria ser entregue em fins de 1971 para que, conforme argumentou Sadat,
pudesse ser tomada uma “decisão a respeito da guerra”. Os egípcios
esperavam que as entregas fossem iniciadas em outubro, porém, em meados
de dezembro nada fora recebido ainda (a 8 de dezembro irrompera a Guerra
Índia-Paquistão e a URSS vira-se solicitada a satisfazer seus compromissos
com a Índia). Sadat notificou os soviéticos de seu desejo de resolver de vez o
problema através de conversações imediatas em Moscou; para sua decepção,
os soviéticos convidaram-no a ir não em janeiro, mas em fevereiro de 1972.
Sua visita nesse mês resultou improdutiva: dois meses mais tarde, em abril,
foi novamente convidado para conversações, antes da realização da
planejada visita de Nixon para uma reunião de cúpula em Moscou, em maio
de 1972. Para a URSS a situação era delicada: por um lado vinha procurando
desenvolver uma atitude de détente para com os EUA e por outro se via
pressionada pelo Egito para tomar certas atitudes fundamentalmente
inconciliáveis com a primeira. Nesse encontro, Sadat sustentou que não
haveria outra solução para o impasse no Oriente Médio senão através de uma
ação militar, apesar de perceber que a URSS a isso se opunha. Não obstante,
os líderes soviéticos concordaram que era necessário que Israel tomasse
consciência do poderio egípcio e prometeram-lhe o armamento para esse
fim. Asseguraram a Sadat que após o encontro Brezhnev-Nixon, em maio, se
empenhariam em um grande programa de fortalecimento do potencial militar
egípcio. Ambas as partes eram da opinião que, sendo 1972 o ano das
eleições presidenciais nos EUA e não devendo ocorrer qualquer alteração na
política americana até novembro, o Egito deveria estar preparado para entrar
numa guerra logo após o pleito. Segundo Sadat, os soviéticosmostraram-se
de acordo com esse ponto.
O comunicado resultante do encontro de cúpula Nixon-Brezhnev em
Moscou referiu-se a um acordo mútuo para que se alcançasse a '‘distensão
militar” no Oriente Médio, seguida por um esfriamento da situação. Para
Sadat, isso significava que Israel ficaria em uma posição de supremacia
militar. Além disso, a referência a um relaxamento na situação militar, aliada
à omissão soviética em cumprir qualquer um dos pontos combinados na
visita de abril, relativos aos aprontos para a futura guerra, apressou sua
decisão em exigir do Governo soviético, em julho de 1972, que retirasse suas
forças e conselheiros do Egito. Chegara à conclusão de que não poderia se
lançar à guerra enquanto os conselheiros permanecessem no Egito e
enquanto o Governo soviético manobrasse com ele como havia acontecido
no ano anterior.
Essa decisão de Sadat coincidia com a insatisfação sentida a respeito dos
conselheiros soviéticos no seio do Exército egípcio, em cujas fileiras
avolumavam-se as pressões para que fossem dispensados seus serviços. Seu
comportamento, rude e desastrado, gerara fortes antagonismos. Mostravam-
se reservados, olhando com superioridade os oficiais egípcios, a quem
tratavam com mal-disfarçado desprezo. Todo seu modo de vida e atitudes
eram incompatíveis com os de um povo amistoso e indolente, os mercadores
levantinos e os vendedores de souks. E o problema tornava-se mais difícil
pelo fato de que em todo batalhão, brigada ou bateria de mísseis havia um
conselheiro soviético a encaminhar relatórios sobre os comandantes
egípcios. Pode-se até chegar ao extremo de dizer que os oficiais egípcios os
odiavam, pois até a religião era objeto de zombarias. Prisioneiros egípcios
contaram, após a guerra, como em certa ocasião, em uma brigada, no calor
de uma discussão em que diversos oficiais egípcios criticavam o armamento
soviético, um conselheiro perdeu a paciência e exclamou: “Se é assim, que
Alá dê a vocês melhores armas”. Surgiu, então, um tumulto e uma
convocação para um movimento de oposição. O assunto chegou ao
conhecimento do comandante do Exército e o soviético foi substituído. O
ressentimento provocado entre os egípcios pelo comportamento soviético foi
enfatizado em cores vivas por Mohammed Hassenein Heikal, em uma série
de artigos onde descreve os motivos do rompimento com os soviéticos. “Não
compreendiam”, disse ele, “que ao tratar com os egípcios não o estavam
fazendo com qualquer nação de segunda classe, mas com um povo que uma
vez liderara a civilização e o mundo".
A ação de Sadat contra os soviéticos, mesmo despertando as apreensões
daqueles favoráveis à sua permanência, foi recebida com aplausos
incondicionais por parte do exército egípcio. Mesmo em Israel foi encarada
com satisfação, embora o propósito de Sadat tenha sido totalmente mal
interpretado. As diversas manifestações israelenses foram de alivio e de
alegria pela retirada dos russos da frente de Israel. Não alcançando os
verdadeiros motivos da decisão do Sadat, os israelenses apresentavam outras
razões bem diferentes da verdadeira, fato que contribuiu, e não pouco, para o
fortalecimento do “conceito" que desempenhou papel tão importante no
engano de que Israel foi vítima.
A linha central determinante da política de Sadat continuava sendo a do
envolvimento direto dos americanos na disputa no Oriente Médio. Em
nenhum momento se afastou dela, embora, pouco a pouco, estivesse se
convencendo de que, a não ser por meio de uma ação militar, não teria
condições de desenvolver medidas políticas efetivas em cooperação com os
EUA. Porém, não desejava chegar a um rompimento completo com a URSS.
Pretendia livrar-se da influência soviética apenas no que se relacionasse à
tomada de decisões e à crescente tendência soviética de interferir na política
egípcia. Queria liberdade para, no futuro, tomar qualquer iniciativa que
entendesse, inclusive sobre a guerra; e essa liberdade dependia de conseguir
manter um permanente relacionamento proveitoso com a URSS. Sem a
continuidade das entregas maciças de armamento pelos soviéticos, seus
planos não vingariam.
Assim, em outubro de 1972, o presidente Assad, da Síria, viajou para
Moscou e procurou ser o mediador entre o Egito e a URSS; logo após,
seguiu-se-lhe o premier egípcio Aziz Sidki, que aparentemente conseguiu
convencer os líderes soviéticos de que os egípcios não tinham intenção de se
lançarem nos braços dos EUA a fim de prejudicar a posição da URSS.
Concordaram em interromper o processo de deterioração nas relações entre
os dois países e, logo após, retornaram ao Egito os oficiais soviéticos. (Além
dos conselheiros e instrutores que haviam permanecido após julho de 1972).
Os soviéticos haviam montado uma impressionante máquina de guerra no
Egito e, obviamente, não tinham intenção de abandoná-la; pelo contrário,
vinham se adaptando à nova situação de uma maneira fundamentalmente
pragmática.
No decorrer de todo esse período, a posição de Sadat se tornava dia a dia
mais crítica. Ao chegar ao final de 1971 — o “Ano da Decisão” — sem que
qualquer iniciativa fosse tomada, tornara-se objeto de escárnio em seu
próprio país. Suas elaboradas explicações quanto à Guerra Índia-Paquistão,
bem como à sua incapacidade de lançar-se à guerra, eram motivo de gracejos
bastante cáusticos entre os humoristas do Cairo. Sua imagem era a de um
homem tolo que liderava uma indecisa sociedade egípcia, que se achava
desmoralizada em grau bastante alto e onde a confiança no novo governo era
muito pouca. A impressão reinante no exterior era a de um regime
desesperadamente preocupado em sobreviver de um mês para outro. Os
observadores políticos detinham-se a examinar atentamente esses
acontecimentos a fim de avaliar que personalidade poderia emergir como
alternativa para substituir a Sadat — a impressão dominante era a de que
continuava no poder faute de mieux, e o problema era saber até onde a
economia egípcia poderia suportar uma despesa militar tão pesada e as
tensões de “uma situação nem, de paz, nem de guerra”.
Como resultado de um acordo renovável em março de 1973, quando
esgotasse o prazo de cinco anos, a URSS desfrutava de certas concessões em
portos egípcios para sua frota do Mediterrâneo. A importância dessas
instalações, apoiadas em uma superestrutura capaz de atender às belonaves
soviéticas, bem como de repará-las, ressalta no contexto do crescimento da
atividade naval soviética no Mediterrâneo nos últimos dez anos. De acordo
com as disposições do instrumento, em dezembro de 1972, as duas partes
estariam obrigadas a renová-lo. O Gen Ahmed Ismail, novo ministro da
guerra egípcio, entrou em contato com as autoridades militares soviéticas na
embaixada do Cairo e deu-lhes conhecimento de que o Egito pretendia
renovar o acordo. Pouco depois, em princípios de 1973, visitou a URSS,
como o fez, também, Hafez Ismail, assessor de Sadat. Essas visitas
resultaram vantajosas sob o ponto-de-vista egípcio, com os soviéticos
concordando com seus pedidos de fornecimento de armas. Os soviéticos
haviam decidido tirar o melhor proveito da situação e ceder aos egípcios a
tecnologia que procuravam. Imediatamente após a volta de Ismail, o material
começou a fluir para o Egito.
Em princípios de 1973, o Governo dos EUA entrou em negociações com a
Arábia Saudita e o Kuwait para fornecer caças-bombardeiros Phantom às
suas forças aéreas. Foi um evento que passou relativamente desapercebido,
mas que, sem dúvida, deve ser considerado como um dos fatores que
conduziram à escalada na área. O fato de, pela primeira vez, os EUA
demonstrarem certa preocupação em fornecer equipamento
tecnologicamente tão avançado às nações árabes, bem como a Israel, gerou
na URSS a suspeita de que os americanos estavam entrando em uma corrida
exatamente naquele campo em que julgavam ter ganho a maior cartada e
onde haviam atraído para si diversos estados árabes. Na realidade, parece
que as negociações entre os americanos e os árabes exerceram uma certa
dose de influência sobre a presteza da própria URSS em lançar-se à escaladan fornecer equipamentos que até então não fornecera a qualquer país fora da
URSS.
Durante anos, a liderança egípcia vivera obcecada em menção à
superioridade aérea de Israel, que se revelara de maneira tão dramática por
ocasião da guerra de 1967 e que foram enfatizada em grau extremo nas
incursões aéreas em profundidade realizadas pelos israelenses, em janeiro de
1970. Os planejadores militares egípcios, por longos anos, haviam
sustentado que se a Força Aérea egípcia não fosse equipada com caças-
bombardeiros ou bombardeiros de alcance médio avançados, como o MiG
23, Phantom, Jaguar ou o Mirage, capazes de ameaçar os centros
populacionais de Israel e, acima de tudo, atacar seus aeroportos, não seria
possível aventurarem-se numa guerra. Este fato era conhecido em Israel e
serviu de base para uma estimativa, por seus serviços de Informações, de que
os egípcios não alcançariam esse pré-requisito antes de 1975, daí por que
não acreditavam na probabilidade de uma guerra antes dessa data: os
egípcios não se contentariam sem uma força de bombardeiros capaz de
neutralizar, simultaneamente, todos os aeroportos israelenses. Sadat,
entretanto, não se conformava em esperar até 1975 para ver esse objetivo
alcançado: duvidava que, do ponto-de-vista interno, pudesse se manter no
poder por tanto tempo sem tomar qualquer iniciativa. Seus insistentes
pedidos aos soviéticos tinham sido para que lhes fornecessem caças do tipo
do MiG 23, que incluíam tecnologia soviética da mais avançada e que, na
eventualidade de uma guerra, os soviéticos temiam que caíssem nas mãos de
Israel e do Ocidente, ou, alternativamente, mísseis terra-terra de alcance
médio, que pela sua própria existência em solo egípcio viessem a dissuadir
Israel de realizar bombardeios em profundidade. A visita do Gen Ahmed
Ismail a Moscou, em princípios de 1973, foi decisiva.
Em março de 1973, imediatamente após a visita de uma delegação militar
soviética de alto nível ao Cairo, a URSS iniciou os embarques de mísseis
terra-terra de apoio tático Scud para o Exército egípcio. Esse engenho, capaz
de carregar uma ogiva de alto poder explosivo, ou uma ogiva nuclear, possui
um alcance de aproximadamente 290km capaz de atingir, do Egito, os
centros populacionais israelenses: — a principal condição egípcia para se
lançar em uma nova guerra fora finalmente satisfeita pelos soviéticos. Sadat
acreditava que, com esse meio dissuasório nas mãos, poderia substituir o que
viria a ser constituído por uma força de bombardeiros de alcance médio, e
consta haver ele dito que sua decisão final de iniciar as hostilidades fora
tomada em abril de 1973, quando os primeiros mísseis Scud chegaram ao
solo egípcio, mas, na realidade, a decisão final para o início da guerra foi
tomada no Kremlin, por aqueles que decidiram fornecer o Scud para os
egípcios.
Simultaneamente a essas manobras, em março de 1973 (após a posse de
Nixon), Sadat enviou para Washington seu assessor para assuntos de
Segurança, Hafez Ismail. O propósito dessa visita era o de convencer os
americanos a pressionarem os israelenses. Dizem que Nixon, com quem
Ismail se encontrou, afirmou que estava disposto a pressionar Israel em troca
de algumas concessões egípcias, que iam muito além das previstas no Plano
Rogers. Em vista disso, Sadat concluiu que não havia outra alternativa para
romper o impasse senão a guerra. Como viria a explicar Heikal em uma
entrevista à Der Spiegel, após a guerra, ninguém deu a devida importância
ao fracasso de sua missão em Washington: não há dúvida de que ela teria
importante influência nas decisões subsequentes.
Mais tarde, naquele mesmo mês, Sadat anunciou que estava assumindo as
funções de primeiro-ministro, além das de presidente, a fim de preparar o
Egito para um confronto total com Israel. Em 9 de abril, concedeu uma
entrevista a Arnaud de Borchgrave, na qual queixou-se de que, por ocasião
do encontro com Hafez Ismail, Nixon recusara-se a pressionar Israel e
exigira uma declaração sobre a real situação do caso de Israel, bem como a
desmilitarização do Sinai.
“Vocês, americanos, utilizam computadores para solucionar equações
geopolíticas, e eles sempre os enganam. Vocês simplesmente esquecem de
alimentá-los com a psicologia (egípcia). Agora, chegou o momento da
decisão ... chegou a hora do choque. A diplomacia continuará, como antes,
durante e após a batalha ... tudo neste país está sendo mobilizado com ardor
para a retomada da luta — que agora é inevitável ... os russos estão nos
equipando com tudo que é possível nos fornecer e agora estou muito
satisfeito.”
Com essa entrevista na mão, Borchgrave retornou para Washington e, apesar
de ter contado o fato a muitas figuras do Senado, da Câmara dos
Representantes e da Secretaria de Estado, nenhuma delas estava preparada
para acreditar no que dizia: todos eram da opinião que Sadat estava
blefando. Todos, exceto o Dr. Henry Kissinger que, de acordo com
Borchgrave, foi a única pessoa em Washington a acreditar em seu relato e a
reagir com seriedade às intenções de Sadat. Sua reação foi: “Também eu
espero que venha a ocorrer algo de extrema gravidade", e expressou a
opinião de que, na futura guerra do Oriente Médio, o petróleo viria a se
constituir em uma das armas. Após esses encontros com Sadat e Kissinger,
Borchgrave publicou seu artigo, já agora histórico.
Poucas vezes, o líder de um país disposto a se lançar em uma guerra
enunciara tão claramente suas intenções para o mundo e às partes
interessadas. Não obstante suas declarações terem sido anotadas pelos
círculos israelenses de Informações, as avaliações continuaram a ser
desvirtuadas pela presunção de que Sadat não teria condições de efetivar
suas ameaças enquanto os egípcios não solucionassem o problema da força
de bombardeiros de que necessitava. Os serviços de informações israelenses
insistiam em afirmar que isso era típico do jogo político de Sadat: ele não se
arriscaria a transpor o limite.
Talvez o maior sucesso de Sadat tenha sido o que conseguiu alcançar no
mundo árabe. Fora atacado, vilipendiado e escarnecido publicamente; fora
objeto de chacota por motivo do “Ano da Decisão” sem que houvesse, em
qualquer tempo, reagido ou se incompatibilizado com um único líder árabe.
Conseguira não ser embaraçado pelas suspeitas de seus irmãos árabes,
situação em que Nasser se vira envolvido toda sua vida. Estreitara relações
com o rei Faisal, da Arábia Saudita, pondo ênfase nas tradições, na religião e
no islamismo, ao mesmo tempo que se houvera com o Cel Ghadafi, da Líbia,
e suas idiossincrasias. Quando Ghadafi propôs-lhe uma união, Sadat
procurou o rei Faisal e perguntou-lhe o que fazer: deveria lançar-se nos
braços de Ghadafi, um lunático instável, a pregar contra todo regime
tradicional no Oriente Médio? A reação de Faisal foi a de se aproximar mais
do Egito e aumentar a colaboração entre os dois países.
Durante os seis anos em que se tentou mobilizar no mundo árabe a arma do
petróleo, o rei Faisal sempre afirmara que a guerra contra Israel era uma
coisa e o uso do petróleo, como instrumento, era outra. Entretanto,
gradualmente se desenvolvia uma psicose internacional em torno do
problema do petróleo, um fato que se ligava à crescente potencialidade
financeira dos países produtores, que, se necessário, poderiam renunciar a
uma parte das vastas somas recebidas como royalties, especialmente porque
muito mais dinheiro poderia ser obtido por muito menos óleo. A política da
Arábia Saudita foi revista em maio de 1973 e, gradualmente, foi forjada a
coalizão com o Egito, para manipular a arma do petróleo. No decurso dessas
discussões, Sadat convenceu Faisal de que sem a força catalisadora de uma
guerra não seria possível desencadear o uso do petróleo como uma arma; e, a
fim de criar essa arma, com vistas a fortalecer as aspirações árabes, era
necessário que primeiro se recorresse a uma guerra. Faisal conseguiu
envolver nessa manobra o Kuwait e os xecados petrolíferos do Golfo
Pérsico. Os serviços de Informações de Israel notaram essa nova alteração
política, mas falharam em relacioná-lacom o desenrolar dos acontecimentos
militares na área.
Nesse mesmo mês o Ministro do Exterior egípcio visitou Moscou: um
comunicado emitido ao final da visita confirmava o apoio soviético aos
esforços egípcios “para liquidar as consequências da agressão”, não tendo
sido descartada a possibilidade de uma ação militar. Um mês mais tarde,
entretanto, realizou-se a segunda conferência de cúpula entre Nixon e
Brezhnev. Sadat considerou as decisões nela tomadas como a refletirem a
intenção de congelar o problema do Oriente Médio e a se inclinarem para o
relaxamento da situação militar. Não obstante, enquanto se desenvolvia esse
encontro, inteiramente devotado à causa da détente, tinha lugar um maciço
desembarque de mísseis soviéticos e outros tipos de armamento no Egito,
bem como era desenvolvido um programa acelerado para equipar os sírios
com um sistema de mísseis terra-ar, cujo recebimento eles haviam
estabelecido como condição para que se lançassem em uma nova guerra.
Pelo menos em duas ocasiões, antes de atingida essa situação, os planos
egípcios para um ataque às forças israelenses tinham estado bastante
adiantados e em condições do serem executados. Em fins de 1971, fora
planejada a realização de um ataque a Sharm El-Sheikh por uma força de 50
bombardeiros. Mas irrompeu a Guerra Índia-Paquistão e Sadat teve que
cancelar a operação, ciente de que ninguém no mundo daria qualquer
atenção a uma guerra no Oriente Médio, enquanto uma outra mais
importante se desenrolava na Ásia. A segunda operação foi planejada para
outubro de 1972: Sadat ordenou ao seu então ministro da guerra, Gen
Mohammed Sadeq, que lançasse uma brigada de paraquedistas no Sinai e
que lá mantivesse uma cabeça-de-ponte por 7 a 10 dias. Nesse ínterim, o
Conselho de Segurança da ONU seria convocado, a Líbia ameaçaria
suspender os fornecimentos de petróleo e seriam desenvolvidas pressões
para que os EUA, por sua vez, pressionassem Israel a se retirar dos
territórios árabes ocupados. Entretanto, o Gen Sadeq opôs-se à operação,
relutante que estava em sacrificar tropas de elite que correriam o risco de
serem exterminadas pelas Forças de Defesa de Israel. Alegou que a frente
doméstica egípcia não se encontrava preparada e que era necessário que se
desenvolvessem preparativos mais completos para a defesa do país antes que
se lançassem à guerra.
Dois meses mais tarde, Sadat destituiu Sadeq, um general muito popular no
Egito e o principal artífice da expulsão dos conselheiros soviéticos. Segundo
Borchgrave, Sadat tinha consciência de que não sobreviveria a uma nova
derrota face aos israelenses, mas mesmo assim estava convencido de que o
Egito nada teria a perder com a renovação da luta. Raciocinava que, caso o
Egito viesse a sofrer uma derrota, seria um insucesso similar ao sofrido pelos
comunistas do Vietnã durante as ofensivas de 1968 e 1972 — uma derrota
militar, porém uma vitória psicológica.
O Gen Ahmed Ismail foi designado para suceder ao Gen Sadeq, com
instruções de preparar-se para a guerra. Em julho de 1967, após a derrota,
assumira o comando da frente do Suez e se achava, assim, familiarizado com
os problemas militares daquela frente. Era contrário ao reinicio de uma
guerra de desgaste, porque era evidente que Israel não permitiria que os
árabes determinassem o campo de batalha e que sua reação, dessa vez, seria
bem maior do que a anterior. Após considerar uma quantidade de outras
possibilidades, chegou à conclusão de que o ataque inicial egípcio deveria
ser de intensidade maciça — na verdade, deveria se constituir no golpe mais
potente que fossem capazes de montar. Poucos meses depois, foi nomeado
comandante-chefe da Federação Árabe, que nominalmente compreendia o
Egito, a Síria e a Líbia, o que significava, na realidade, que coordenaria as
forças egípcias e sírias.
Ao analisar os problemas com que se defrontava, o General compreendeu
que Israel desfrutava de quatro vantagens: superioridade aérea, capacidade
tecnológica, um alto padrão de treinamento e o que ele considerava serem
fornecimentos garantidos pelos EUA. Como fatores negativos, via Israel
padecendo de uma série de desvantagens essenciais: longas linhas de
comunicações para as diversas frentes, incapacidade de suportar baixas
vultosas, devido à sua pequena população, e de resistir a uma guerra
prolongada, dada a uma debilidade econômica de base. Junto a isso estavam
as desvantagens provenientes de uma exacerbada autoconfiança e de um
complexo de superioridade.
Os árabes tinham estudado nos seus mínimos detalhes as lições advindas de
1967 e analisado cada ponto da superioridade israelense a fim de acharem
uma solução. A primeira a que chegaram foi de que tinha sido um erro
deixar que Israel desfechasse o primeiro golpe em 1967; a iniciativa deveria
caber a eles em 1973. O objetivo e a intensidade do ataque israelense em
1967 os havia surpreendido. Desta vez, empenhariam tudo de que
dispusessem no ataque inicial. Em 1967, haviam falhado em não
desencadear uma guerra simultânea em várias frentes, permitindo, assim,
que Israel se houvesse com os adversários a seu bel-prazer; desta vez,
coordenariam as principais ofensivas egípcias e sírias e utilizariam as demais
forças árabes, inclusive as da Jordânia, como reservas. Obviamente, a
primeira e mais urgente consideração seria o abastecimento de todo
equipamento bélico necessário para a guerra; isso ficara assegurado por
ocasião da visita do Gen Ismail a Moscou e pela vinda de uma delegação
soviética de alto nível ao Cairo, em princípios de 1973.
A coordenação com os sírios teve início em fevereiro de 1973, com a visita
de Ismail. Por três meses, a frente síria estivera em erupção, envolta em uma
série de pesados engajamentos militares em consequência da reação
israelense às atividades dos terroristas palestinos desenvolvidas a partir das
fronteiras sírias e libanesas; a reação israelense fora intensa e maciça.
Subitamente, após uma operação israelense, em janeiro de 1973, a frente
aquietou-se; nem mesmo ocorreu qualquer represália por parte dos
terroristas palestinos. Os israelenses viram essa situação como um fato a
robustecer o sentimento de confiança predominante, pois era-lhes evidente
que, como resultado das suas atividades, os sírios haviam se retirado do
conflito; na realidade, o motivo para a calma ao longo da fronteira devia-se à
preparação síria para a guerra.
Entretanto, o Gen Ismail chegara a uma decisão, calcada na premissa de que
o ataque egípcio, quando desfechado, deveria se desenvolver ao longo de
todo o Canal, por uma frente de aproximadamente 175km. Tal plano não
daria aos israelenses qualquer indicação do local do ataque principal e, em
consequência, impediria que se concentrassem para enfrentá-lo, retardando o
seu contra-ataque enquanto tentavam localizá-lo. Outrossim, resolveria o
problema criado pela superioridade aérea de Israel, obrigando a que diluísse
seu poderio aéreo ao longo de uma frente bastante ampla.
Em janeiro de 1973, o Conselho de Defesa Árabe aprontou um plano geral
conjunto para as ações políticas e militares contra Israel. No mesmo mês,
Sadat visitou o presidente Tito (depois da guerra, os iugoslavos explicariam
que a permissão para os voos sobre seu território, que haviam concedido aos
soviéticos por ocasião da guerra, devera-se aos insistentes pedidos do
presidente Sadat, e não aos da URSS). Em fevereiro, Sadat ordenou que
fosse preparado um relatório indicando os dias mais apropriados para a
travessia do Canal. O diretor de Operações, Gen Gamasy, apresentou-o ainda
em rascunho, onde eram recomendados três grupos de dias: na segunda
quinzena de maio, no decorrer de setembro e no mês de outubro.
Logo após o fracasso da missão de Hafez Ismail em Washington, em março
de 1973, o ministro da guerra Ahmed Ismail visitou Damasco. Sadat chegara
à sua decisão final de lançar-se à guerra planejando-a para maio daquele ano.
(Ainda em janeiro, ordenara a seu chefe do Estado-Maior, Gen Shazli, que
planejasse a passagem do Canal e preparasse outros planos de operações).
Em maio,entretanto, ordenou que o ataque fosse adiado para outubro. Mais
tarde, justificando esse adiamento, disse:
“De fato, planejei desencadear a operação em maio, mas nessa ocasião os
russos marcaram para o mesmo mês a realização da Segunda Conferência de
Cúpula com Nixon, em Washington, e, por razões políticas que não é
necessário revelar agora, decidi, então, adiá-la para o grupo de dias de
setembro, ou para a terceira época, em outubro.”
Nessa altura, em maio, o Exército egípcio tinha completado preparativos
consideráveis para a travessia do Canal. Os serviços israelenses de
Informações tinham notado esses trabalhos, mas asseguraram que Sadat,
como de praxe, iria até o limite e depois recuaria sem dar início ao conflito.
O Gen Elazar, chefe do Estado-Maior de Israel, não aceitou essa avaliação e
ordenou uma mobilização parcial que custou cerca de 11 milhões de dólares.
Entretanto, o ataque egípcio não se materializou e as Informações
israelenses, talvez não textualmente, comentaram: “Nós havíamos avisado!”
Essa confirmação de sua estimativa, por parte do Serviço de Informações,
em maio, viria a se constituir no principal fator da avaliação errônea
realizada em outubro por Israel.
Em 8 de maio, o Ministro da Guerra egípcio visitou novamente Damasco, e
no decorrer daquele verão tiveram lugar diversos encontros entre altos
líderes sírios e egípcios. Em junho, Sadat voou para a capital síria a fim de
manter conversações com Assad; em princípios de setembro, haviam sido
concluídos os detalhes completos da cooperação militar entre os dois países.
Enquanto isso, os egípcios tinham realizado sondagens junto ao rei Hussein,
da Jordânia, manifestando o desejo egípcio de uma reconciliação. Hussein
tinha sido posto praticamente no ostracismo pelo restante do mundo árabe
após a guerra civil na Jordânia, em setembro de 1970, e as lutas de 1971,
quando os últimos bolsões de terroristas palestinos (oram eliminados. A
situação se agravara ainda mais devido ao assassinato, no Cairo, de Wasfi
Tel, Primeiro-Ministro da Jordânia e amigo íntimo de Hussein, por um grupo
de terroristas palestinos. Sadat não tomara providências contra os assassinos,
fato que Hussein não perdoara. Em março de 1972, Hussein apresentou um
plano de uma Jordânia federada, fundindo a atual Jordânia com a margem
ocidental do Jordão, após sua desocupação pelos israelenses. Como esse
plano implicava em uma paz com Israel, o Egito reagiu cortando as relações
diplomáticas com a Jordânia. Por isso, não é de admirar que as sondagens
egípcias em 1973 fossem sofregamente acolhidas pelo rei Hussein (que se
achava por demais ansioso em romper a barreira de seu isolamento no
mundo árabe), resultando que, naquele verão, emissários jordanianos
visitaram o Cairo e Damasco.
Em agosto, o representante pessoal de Sadat, Hassan Sabri Al Khouli,
visitou Amman e, em sua volta, a Rádio Cairo divulgou que seu relatório
afirmava que debatera "a causa pela qual todos nós trabalhamos em todos os
níveis — a da guerra”. O aparecimento em Amman, a 29 de agosto, do
Ministro da Defesa sírio, Mustafa Tias, deveria ter feito soar o alarme em
muitos lugares, principalmente em Israel, já que as relações entre a Síria e a
Jordânia tinham-se tornado praticamente nulas e eram, na melhor das
hipóteses, tensas e nada amistosas.
Em 12 de setembro, realizou-se no Cairo um encontro entre os líderes dos
países fronteiriços com Israel: Egito, Jordânia e Síria, tendo sido publicadas
fotos do rei Hussein e dos presidentes Sadat e Assad empenhados em
amistosas conversações. As relações diplomáticas entre a Jordânia e o Egito
e entre a Jordânia e a Síria foram reatadas e foi debatido o restabelecimento
da assistência financeira à Jordânia pelos países produtores de petróleo.
Nesse encontro, não desvendaram a Hussein o segredo do ataque
(posteriormente, viria a explicar que não fora consultado antes do
rompimento das hostilidades), mas deram-lhe uma vaga indicação de que um
ataque estava sendo planejado e que um entendimento com ele era
indispensável a fim de garantir o flanco sul das forças sírias e, assim,
impedir Israel de atacar a Síria através da região norte da Jordânia. Sua
reação foi de uma prudente cautela, tendo em vista sua infeliz experiência
com os aliados árabes, em 1967, quando o haviam deixado ao desamparo e,
como consequência, perdera metade de seu reino. Tinha consciência do
profundo ódio que lhe dedicavam os palestinos, mas, não obstante, libertara
recentemente alguns que se achavam presos. A luz do que foi publicado a
respeito de sua atitude durante a guerra, parece que condicionara sua efetiva
participação em combates no território de Israel à prévia conquista das
Colinas de Golan pelos sírios. Como uma segunda alternativa, e a fim de
eximir-se das críticas árabes, fez participar das operações, durante a guerra,
duas brigadas de carros de combate dentro da estrutura do Exército sírio.
Em agosto, Sadat se encontrou no Cairo com Yasser Arafat e outros líderes
da Organização para a Libertação da Palestina (PLO). Nessa ocasião,
informou que se decidira pela guerra e perguntou-lhes qual seria sua
participação, sugerindo que fornecessem tropas para servir ao longo do
Canal. A liderança palestina não o levou muito a sério, pois há muitos anos
vinha falando de uma guerra iminente sem que nada acontecesse. Voltaram a
Beirute, onde as informações de Sadat foram discutidas em sessão de
emergência, de 9 horas, do Comitê Executivo do PLO. O Comitê foi
informado que o propósito principal de Sadat era conseguir com que os EUA
pressionassem Israel. Rumores do seu encontro com os líderes palestinos
chegaram à rua e logo tornaram- se objeto de comentários jocosos e céticos
nos bares de Beirute. Em 21 de setembro, foi publicado pelo principal jornal
de Beirute, Al Nahar, um relatório do encontro. Apesar de ter sido divulgado
por todo o mundo pela Associated Press, ninguém lhe dedicou maior
atenção.
Entretanto, no decorrer daquele verão, os dois principais fatores, tidos como
essenciais pelos planejadores árabes e seus conselheiros soviéticos, para que
se desse início à guerra, foram supridos pela URSS. Os Exércitos egípcios e
sírios haviam recebido mísseis terra-terra capazes de atingir objetivos civis
israelenses; achavam-se prontos para a ação, com suas guarnições soviéticas,
os mísseis FROG, da Síria, e Scud, no Egito. Além disso, o sistema de
mísseis terrar-ar, com o qual os soviéticos julgavam poder neutralizar a
superioridade aérea israelense ao longo das linhas de frente — a principal
obsessão árabe —, tinha sido enviado às pressas para a Síria, em um
programa de urgência executado durante os meses de julho e agosto. Ao
longo da linha de frente e dos acessos às capitais, a Força Aérea israelense
seria neutralizada por um sistema de mísseis terra-ar que funcionaria como
um guarda-chuva sobre as forças árabes atacantes, enquanto que os
engenhos terra-terra, dirigidos contra objetivos no interior de Israel,
impediriam seus aviões de executarem bombardeios em profundidade sobre
o território egípcio.
A resposta à ameaça aérea israelense, a coordenação com a Arábia Saudita
para a utilização do petróleo como arma, a coordenação com outros países
árabes a fim de assegurar-se dos reforços necessários, a proteção do setor sul
da Síria pelo flanco jordaniano, o continuado suprimento soviético e os
arranjos para um apoio diplomático tinham sido cuidadosamente planejados.
O esquema de Sadat começara a tomar forma concreta: agora, a guerra era
certa.
A Teia Emaranhada
Tendo tomado a decisão de lançar-se à guerra, o presidente Sadat dedicou-se
a planejá-la com o Gen Ahmed Ismail. Seu detalhamento — confiado ao
Gen Div Abdel Ghani Gamasy, que fora nomeado comandante-chefe do
Comando Militar Conjunto e que, após a guerra, viria a ser o chefe do
Estado-Maior — foi desenvolvido dentro do contexto de uma grande
operação, conhecida como “Granite 2”, para um ataque através do Canal. A
ordem de operações (posteriormente pós-datada em 25 de maio de 1973),
baixada pelo III Exército egípcio,proibia, por razões de segurança, os
oficiais e soldados de visitarem a cidade de Suez ou de se envolverem com
elementos civis em qualquer ponto do Canal. Em setembro, sob o codinome
de "Tahrir 41", foram emitidas ordens para que se realizasse, entre 1º e 7 de
outubro, um exercício avançado de Estado-Maior. Seu propósito seria o de
organizar e conduzir, de um ataque operacional estratégico com o
irrompimento através do Canal, a destruição das reservas inimigas e a
conquista do território até a divisa internacional e a Faixa de Gaza.
Os egípcios basearam seus planos para a futura campanha em numerosos
estudos que haviam procedido sobre o pensamento e doutrina militares
israelenses, que haviam sido tão debatidos pública e frequentemente em
Israel. Notaram, com satisfação, a excessiva autoconfiança dos israelenses,
sua fé na sempre crescente defasagem cultural e tecnológica entre Israel e os
países árabes e sua convicção da incapacidade da liderança árabe em tomar a
decisão de atacar, sem mencionar a falta de unidade do mundo árabe.
Durante os meses de preparação, naquele verão, os árabes fizeram todo o
possível para acentuarem, aos olhos dos israelenses, a veracidade das suas
convicções.
O planejamento das operações vinha sendo realizado deste o início do ano
sob a supervisão do Gen Ismail. Em maio, viajou para a Síria, quando, então,
o planejamento entrou em uma fase de maior detalhamento; a 22 daquele
mês, baixou instruções em que expunha os conceitos gerais da Operação
‘‘Badr", o ataque conjunto sírio-egípcio a Israel, e, em 7 de junho, foram
baixadas instruções complementares. Em agosto, realizou-se, em
Alexandria, uma conferência sobre planejamento e coordenação. Nessa
ocasião, Ismail encontrou-se com os chefes dos estados-maiores do Egito e
da Síria, seus chefes de Operações e outros oficiais do Estado-Maior a fim
de decidir se, finalmente, suas forças se achavam em condições de
desencadear um ataque, fixar o dia "D” para a sua realização — tendo em
vista todos os fatores meteorológicos e outros — e examinar detalhadamente
a situação interna de Israel e a internacional e os seus possíveis reflexos
sobre a futura guerra. Decidiram que o período mais apropriado seria em
setembro ou outubro de 1973.
As propostas apresentadas nesse encontro foram levadas à consideração dos
líderes políticos e um novo encontro dos chefes de Operações decidiu pelo
10º dia de Ramadan, 6 de outubro, para o início da campanha. (O 10º dia de
Ramadan fora a data em que, no ano de 623, o profeta Maomé iniciou os
preparativos para a Batalha de Badr, dez dias mais tarde, proporcionou sua
entrada triunfal em Meca e o início da expansão do Islam). Ao entardecer de
6 de setembro, Ismail ordenou que as forças sírias e egípcias fossem
colocadas em estado de emergência, prontas para iniciar a Operação "Badr’’,
5 dias a contar do alvorecer de 1º de outubro. Nessa ocasião, determinou que
o ataque aéreo conjunto contra Israel tivesse lugar às 14:05 horas do dia 6.
No dia 3, viajou para Damasco com o Gen Baha Al Din Nofal (responsável,
a nível de Estado-Maior, pela coordenação entre os dois exércitos), onde se
encontraram com o Ministro da Defesa Sírio, Gen Tias, e seu Estado-Maior
e elaboraram os detalhes finais do ataque. Ao meio-dia, o presidente Hafez
Assad recebeu Ismail e confirmou a hora “H" da operação, 14:05 horas de 6
de outubro.
A princípio, de acordo com um pedido do Comando egípcio, o ataque fora
planejado para o final da tarde, ocasião em que o sol incidiria contra os olhos
dos israelenses postados ao longo do Canal de Suez e a escuridão
subsequente permitiria aos egípcios instalar seus pontões acobertados pela
noite. Os sírios, por sua vez, pressionavam por um ataque ao romper da
aurora, quando o sol, nascendo a leste na frente, ofuscaria os olhos dos
soldados israelenses. A decisão final para que o ataque fosse iniciado às 14
horas constituiu-se, assim, em uma acomodação conciliatória.
Durante os seis meses anteriores à guerra, houve uma íntima coordenação
entre os Ministérios da Guerra, Relações Exteriores e da Propaganda
egípcios a fim de executar o plano estratégico de dissimulação que fora
elaborado. Foram divulgados pronunciamentos e deixou-se vazar, sub-
repticiamente, estórias para a imprensa estrangeira (como, p. ex., aquela
divulgada pelos jornais britânicos a respeito do relatório soviético sobre o
negligente padrão de conservação do sistema de mísseis egípcio, que tornara
esse ramo das forças armadas quase inoperante). Mais tarde, Sadat viria a
contar, com uma expressão divertida no rosto, que, “concomitantemente,
chegara a Israel um relatório informando que a debandada dos técnicos
soviéticos tornara os mísseis egípcios sem valor ... Possivelmente, eles
acreditaram!’’. Qualquer ponto, como o da desunião árabe, enfatizada pelos
líderes políticos e militares israelenses em seus discursos, ganhava nova
ênfase. O estado de deterioração das relações entre o Egito e a URSS, e
mesmo entre a Síria e os soviéticos, encontravam eco em alguns informes da
imprensa, que fortaleciam a presunção israelense.
Nesse ínterim, o Exército egípcio se preparava para a operação. O Gen
Ismail encetou uma campanha visando convencer as forças armadas de que
não havia outra alternativa senão a guerra. A Administração de Orientação
Moral das Forças Armadas elaborou um programa intensivo, em que
procurava explicar os antecedentes da Guerra que ia acontecer. Nessa
doutrinação, foi introduzido um forte elemento religioso, colorido de
intenção e virulento antissemitismo. Assim, pode-se encontrar nas
Instructions in Moral Guidance for the Training Year in 1969:
“A humanidade jamais conheceu ou conhecerá um inimigo tão brutal como
os judeus. Eles apenas sabem depredar, conspirar, colocar impedimentos à
Justiça e criar confusões. Já no ventre de suas mães, possuem a mais baixa
qualidade de caráter, que transmitem de uma geração para outra...
Espalharam-se por todo o mundo a fim de envenenar a humanidade...
Fizeram parte da conspiração contra Jesus a fim de provocar sua morte" (p.
288).
O plano egípcio, basicamente muito singelo, fora elaborado no decorrer de
vários anos. Durante seis anos, não somente tinham estudado atentamente o
pensamento israelense, como também haviam acompanhado todos os
movimentos ao longo da linha de frente. Mantinham sob atenta observação a
rotina na frente do Canal — as unidades egípcias estavam há anos em
posição nessa frente — e tinham anotado cuidadosamente nos mapas todos
os exercícios realizados no lado israelense. No tempo devido, o Exército
egípcio havia elaborado um quadro consistente do que viria a ser a reação
israelense na eventualidade de qualquer movimento que iniciassem. Um
exemplo dessa meticulosa preparação pode ser verificado com o batalhão
que planejava capturar um ponto fortificado na frente israelense. Seus
soldados, postados do outro lado do Canal, durante três anos observaram-no
para então construírem, no seu lado, fortificações similares e desenvolverem
planos para atacá-la. Confeccionaram maquetes da posição e, concentrando-
se em apenas um aspecto do problema, prepararam uma solução.
O ministro da guerra Ahmed Ismail e o chefe do Estado- Maior, Shasli, em
seus comentários após a guerra, referiram-se aos tremendos avanços no
planejamento científico, uma herança da ênfase dada por seus instrutores
soviéticos sobre o assunto. Os soviéticos haviam treinado o Exército egípcio
para tomar um problema militar, analisá-lo, procurar a solução, transpô-la
para um planejamento militar, detalhar esse plano, desenvolver exercícios
sobre ele e prepará-lo operacionalmente. Os egípcios haviam aprendido a
agir como um exército moderno. Por anos a fio, cada soldado fora treinado
de acordo com seu papel específico na guerra: cada unidade ocupava-se do
seu problema particular e de nada mais. Uma delas nada mais fez, durante
três anos, senão treinar a passagem de um conduto para combustível através
de uma barreira líquida; por sua vez, unidades de pontoneiros, em dias
alternados, durante o mesmoperíodo, praticavam aproximar caminhões de
marcha-à-ré até a margem, freá-los então bruscamente para fazer com que as
secções de uma ponte pesada de pontões articulados PMP deslizassem do
veículo para a água pelo seu próprio impulso; enquanto parafusavam os dois
componentes, retiravam o veículo. Duas vezes por dia, durante quatro anos,
essas unidades montaram e desmontaram essas pontes. Do mesmo modo,
todos os dias, por anos a fio, os operadores dos mísseis Sagger antitanques
alinhavam-se do lado externo de furgões contendo simuladores e
exercitavam-se durante meia hora no rastreamento de carros inimigos com
os seus mísseis. Mesmo mais tarde, quando os Exércitos de Israel e do Egito
encontravam-se postados frente a frente, em uma guerra de desgaste sobre o
território egípcio da margem ocidental do Canal, as forças israelenses
observavam os caminhões-simuladores dirigirem-se todos os dias para a
linha de frente a fim de permitir às suas tropas cumprir seus treinamento
diário anticarro. Esse sistema de treinamento foi repetido pelo exército,
mesmo nas linhas de frente, até que cada um dos seus passos se tornou um
movimento reflexo.
Os egípcios analisaram toda espécie de problema com que poderiam se
defrontar por ocasião de uma transposição do Canal e levaram em conta as
limitações de seus soldados quando decompuseram as diversas funções do
exército em seus elementos respectivos. Poderiam cruzar o Canal com a
infantaria; porém, como esta ficaria vulnerável aos blindados israelenses,
que avançariam na eventualidade de uma emergência na frente do Canal, a
solução foi dar maior ênfase ao armamento anticarro, muito além do
admitido para dotação a unidades de linha de frente. Neles se incluíam
granadas transportadas por foguetes RPG-7, a nível de companhia, canhões-
sem-recuo B10 e B11, a nível de batalhão, e mísseis anticarro Sagger, a nível
de brigada. Em muitas ocasiões, os treinamentos de travessia foram
conduzidos no próprio Canal, na altura em que está dividido em dois braços
pela ilha El-Balah, por uma extensão de 8 km. (Seu braço ocidental estende-
se, em toda sua extensão, por território egípcio, sendo, assim, ideal para esse
propósito).
A barranca do lado israelense ao longo do Canal tornava a margem oriental
da mesma intransponível para qualquer tipo de blindado que tentasse fazê-lo,
e esse era um dos principais problemas com que se defrontavam os egípcios.
Após terem fracassado as tentativas com explosivos, os engenheiros egípcios
chegaram, finalmente, a uma solução, onde jatos de água a alta pressão
fariam com que as barrancas de areia desmoronassem. Os planos
operacionais previam a abertura de 60 entradas em cada lado do canal e,
gradualmente, os engenheiros aperfeiçoaram um equipamento capaz de
realizá-la em 5 a 6 horas. Oitenta desses aparelhos foram construídos a fim
de que se executasse esse projeto de engenharia. Construíram, no Egito,
terraplenos similares de areia e, duas vezes por dia e outras tantas durante a
noite, aqueles engenhos nelas rompiam aberturas, que eram recompostas
após cada exercício; um intenso trabalho de movimentação de terra teve
lugar durante a realização desse treinamento. Ao mesmo tempo, porém, para
ocultar essas atividades e obter uma observação completa do lado israelense,
o terrapleno do lado egípcio foi elevado de maneira a permitir a vigilância
sobre as fortificações israelenses, os pontos fortificados e os espaldões para
carros, e até mesmo sobre a segunda linha de defesa.
No decorrer de um espaço de quatro meses, as forças egípcias progrediram
gradualmente na direção do canal e, mesmo próximo da data do ataque, tudo
fizeram para que os israelenses não percebessem que algo de incomum
estivesse ocorrendo. O equipamento para travessia foi conservado oculto das
vistas até o mais próximo possível da hora da operação. Construíram
engradados especiais para guardá-lo e mantê-lo oculto de olhos inquisidores;
cavaram valas profundas à margem do Canal, por onde transitavam, à noite,
os caminhões que transportavam o equipamento; mesmo o movimento de
tropas foi coordenado de maneira a parecer aos israelenses que, na realidade,
estavam sendo realizados alguns exercícios. Uma brigada, p. ex., se
deslocaria durante o dia para a linha de frente conduzindo seu equipamento
de travessia até à beira da água. À noite, apenas um dos seus batalhões
regressaria, com todas as luzes acesas, para a posição de partida, produzindo
a impressão que ao término do exercício toda a força recuara do Canal.
À medida que surgiam os variados problemas referentes à projetada
travessia, as soluções técnicas eram desenvolvidas. Admitia-se que a
infantaria teria que depender de seus próprios meios de abastecimento no
decorrer das primeiras 20 a 24 horas. Assim, cada infante transportaria cerca
de 23kg e, às vezes, até 35 de armamento e munições. Para auxiliá-los na
escalada da barranca de areia, desenvolveram um reboque leve, portátil,
sobre rodas, que seria puxado pelo soldado. Em complemento, projetaram
escadas especiais para auxiliá-los a transpor aquele obstáculo. Todas as
rotas, acessos e unidades receberam bandeirolas diferentes e lanternas
coloridas a fim de evitar confusões à noite: um motorista, p. ex., sabia que
tudo que teria a fazer para se conservar com sua unidade seria seguir sua cor
respectiva. O planejamento e a concentração das forças prosseguiram; cada
problema que surgia era detalhadamente examinado e sua solução objeto de
repetidos exercícios. Para os oficiais e soldados do Exército egípcio, não
ficou nenhuma dúvida que os preparativos para a guerra estavam em
andamento. Entretanto, como esses exercícios haviam sido tão
frequentemente repetidos, os diversos pronunciamentos prometendo ação
eram vistos com uma certa dose de ceticismo por muitos deles.
A decisão quanto à data do ataque foi influenciada pelo fato do apoio árabe e
do suporte político mundial à causa árabe terem alcançado o ponto máximo.
Havia pouca chance para melhorias e, assim, o próximo movimento deveria
ser de natureza militar. A gradual deterioração da posição israelense na
África, a debilidade de sua liderança na Europa e os problemas surgidos para
a administração americana com o escândalo Watergate combinaram-se para
confirmar a Sadat que esse era o momento mais vantajoso para a ação. Os
egípcios perceberam, também, que os israelenses estavam, no momento,
pesadamente envolvidos em sua campanha eleitoral (as eleições para o
Knesset teriam lugar em fins de outubro), que vinha absorvendo quase toda a
atenção pública em Israel. Ainda mais, os israelenses julgavam que os
soldados árabes não se empenhariam em operações militares durante o mês
de jejum de Ramadan. Mas, 6 de outubro — com uma noite enluarada em
que a maré no Canal seria a mais adequada para a operação — era também o
Yom Kippur judaico, quando o espírito de alerta dos israelenses estaria em
seu mais baixo nível.
O ataque foi planejado e preparado nos mínimos detalhes. O conceito geral
baseava-se em duas fases: a primeira, consistiria na passagem do Canal e na
consolidação para resistir ao contra-ataque israelense; a segunda, importaria
na captura dos passo Mitla e Gidi. Mais tarde, o Exército egípcio foi
duramente censurado por sua incapacidade de completar o segundo
movimento, o que foi objeto de pesadas críticas dirigidas pelo Gen Shazli
contra Sadat e o Ministro da Guerra Ismail. Hoje, não se tem a menor dúvida
sobre o fato de que, enquanto a primeira fase fora planejada nos seus
mínimos detalhes, a segunda o fora apenas em os aspectos gerais, o que
tende a confirmar a crença de que o objetivo dos árabes era o de apenas
conquistar uma cabeça-de-ponte na margem oriental do Canal a fim de
romper o impasse político e permitir que a segunda fase consistisse
meramente de uma operação política.
Em 1º de outubro, o Supremo Comando das Forças Armadas manteve um
encontro com Sadat, ocasião em que o Presidente afirmou, perante os vinte
oficiais superiores presentes: “Assumo a responsabilidade perante a
História”. Após sua assinatura no planoaprovando a data do dia “D” para o
1º dia de Ramadan e, também, o codinome para ele —- “The Spark”. À
medida que esse dia se aproximava, maior se tornava a tensão entre os
líderes militares árabes nas duas frentes. A essa altura, Sadat assumira uma
atitude fatalista: tinha tomado uma decisão e não se afastaria dela. E essa
atitude viria a custar-lhes bastante caro: — estimava que a passagem do
Canal importaria na possível baixa de uns 10.000 soldados e percebia que
todo seu futuro estaria em jogo. Mohammed Hassenein Heikal descreveu um
encontro que teve com Sadat em sua residência em Al Gezira, na quarta-
feira, 3 de outubro, e reproduziu textualmente suas palavras:
“Hoje é 3 de outubro, 16 horas. Creio que, a qualquer momento, a partir de
agora, venham a descobrir nossas intenções, porque então nossos
movimentos não deixarão qualquer dúvida em suas mentes quanto às nossas
intenções. Entretanto, por mais que se esforcem não poderão mais se
adiantar a nós. Mesmo que nesta noite venham a saber, mesmo que se
decidam a mobilizar todas suas reservas e mesmo que resolvam lançar um
ataque antecipado, mesmo assim, terão perdido a oportunidade de superar-
nos.”
Sadat baseava sua estimativa em um detalhado estudo do sistema de
mobilização de Israel no decorrer dos anos, o que o levava a crer que seria
impossível, para Israel, mobilizar suas formações blindadas e as concentrar
na frente do Canal em menos de 72 horas, bem como não considerava
possível que o completo potencial mobilizado fosse desenvolvido em
oposição ao Exército egípcio num prazo inferior a cinco ou seis dias.
Entretanto, ao presumir que seus preparativos, agora evidentes para as forças
contrárias, forçassem-nas a uma mobilização, Sadat superestimava o
adversário.
O plano de dissimulação desenvolvido pelos egípcios para infundir nos
israelenses um falso senso de segurança baseava-se, a princípio e
fundamentalmente, em estimular a “concepção" que Israel havia tão
abertamente adotado. E assim, desde sua criação, esse plano fora elaborado
em seus mínimos detalhes e desenvolvido paralelamente ao verdadeiro,
quando este foi posto em execução.
A partir de janeiro de 1973, as Forças Armadas egípcias mobilizaram os
reservistas para treinamento e licenciaram-nos cerca de 20 vezes. Nesse ano,
foram executados dois exercícios de mobilização em massa de reservistas
licenciados do serviço ativo. Em fins de setembro, foram mobilizadas todas
as três classes de reservistas que haviam sido licenciadas, estabelecendo suas
ordens de mobilização que seriam desmobilizadas em 8 de outubro. Ao
contrário das ocasiões anteriores — circunstância que foi observada por
Israel —, as organizações de defesa civil do Egito e da Síria não foram
ativadas, e também, diferentemente das vezes anteriores, não foi criada uma
atmosfera de guerra iminente. Não houve nenhuma tentativa de preparar o
povo para a guerra; na verdade, em seu discurso por ocasião da
comemoração do 1º aniversário de morte de Nasser, em 28 de setembro,
Sadat deixou completamente de lado a questão com Israel, seu principal
tema em ocasiões anteriores, dizendo:
“Propositadamente, não abordei o problema do conflito, pois já se falou
demais sobre isso. Digo, apenas, que a libertação do território, como já
afirmei, é a tarefa primordial e principal com que nos defrontamos. E, se
Deus assim o quiser, nós a realizaremos.”
O plano de dissimulação, tão bem concebido por Sadat, fora elaborado com
vistas a enganar não só os israelenses como os americanos. Após sua
designação para Secretário de Estado, o Dr. Henry Kissinger, em fins de
setembro e outubro, convocou, para reuniões em Nova Iorque, vários
ministros do exterior do Oriente Médio. Encontrou-se, de início,
coletivamente com a maioria dos ministros árabes e, individualmente, com o
Ministro do Exterior egípcio, Mohammed Zayat, a fim de sondá-los se
acolheriam, ou não, sua intermediação. Após a realização desses encontros,
em 4 de outubro, entrevistou-se com o Ministro do Exterior israelense, Abba
Eban. Os informes que colheu a respeito da situação ao longo das fronteiras
foram os mesmos de que dispunha Israel: que os egípcios estavam
empenhados em manobras e que os sírios haviam tomado medidas
acauteladoras contra possíveis ataques israelenses.
No decorrer da sua conversa com Eban, a questão de uma guerra próxima foi
descartada em cinco minutos, ambos concordando que as informações de
que dispunham eram de caráter tranquilizador. O ponto principal da
discussão consistiu em como dar início ao processo de negociações.
Kissinger informou Eban que a reação de Zayat fora favorável e que se
mostrara disposto a retornar a Washington em novembro. Poderia Eban vir,
também, na mesma ocasião, de modo que se desenvolvessem as
providências necessárias? Discutiram sobre as futuras eleições em Israel, que
poderiam afetar os acontecimentos futuros no Oriente Médio, tendo o
encontro finalizado com a reafirmação de que novembro seria uma ocasião
conveniente para se encontrarem, tendo em vista, como acentuou Kissinger
ao final do encontro, “nada de dramático pode acontecer em outubro”. Até
hoje, não ficou claro se Zayat, deliberadamente ou não, se pusera a
confundir Kissinger por ocasião do encontro que tiveram na primeira semana
de outubro. Ele deveria estar a par da planejada campanha em seus aspectos
gerais ou, talvez, nada sabia. Em 3 de outubro, em seu pronunciamento
perante a Assembléia Geral da ONU, Eban referiu-se à disposição de Israel
em negociar e chegar a um compromisso quanto aos territórios conquistados.
Zayat estava inscrito para dirigir-se à Assembléia no dia seguinte. Por
motivos que nunca foram esclarecidos, cancelou sua presença naquele dia e
transferiu-se para 11 de outubro.
A principal dissimulação, entretanto, teve como alvos não somente Israel e
os EUA como também as Forças Armadas egípcias. Em um inquérito
procedido entre os 8.000 prisioneiros em poder de Israel, verificou-se que
apenas um sabia, em 3 de outubro, que os preparativos eram realmente para
a guerra; 95% tiveram conhecimento, na manhã de 6 de outubro, que os
exercícios em que se achavam empenhados eram, de fato, preparativos para
uma guerra e que estavam na iminência de partirem para ela. O pelotão de
20 barcaças de assalto, da 16ª Brigada da 16ª Divisão de Infantaria egípcia,
sob o comando do Ten Abdul Laviv Ibrahim, apenas minutos antes da hora
“H" percebeu que o que pensavam ser apenas parte do exercício, quando
retiraram os botes de seus engradados e os levaram para a beira do Canal,
era a guerra de verdade. Dos 18 coronéis e tenentes-coronéis em poder dos
israelenses, quatro tinham conhecimento, em 4 de outubro, que haveria
guerra, um fora informado no dia 5 e os 13 restantes somente tiveram
conhecimento na manhã do próprio dia. Um dos coronéis descreveu como,
às 14 horas do dia 6, quando observava os aviões egípcios sobrevoarem o
QG do III Exército, em direção às linhas israelenses, voltara-se para o seu
comandante de brigada e perguntara: “Para que é isso?” Obteve apenas como
resposta: “Pergunte ao General”. Voltou-se, então, para o local em que esse
oficial se encontrava e viu-o de joelhos, orando prostrado em direção a
Meca. Essa foi a primeira indicação que teve da guerra.
Os planejadores egípcios haviam tido sucesso em despistar não só as Forças
da Defesa de Israel e, praticamente, todos os serviços de Informações do
Ocidente, como também o grosso do Exército egípcio!
Olhos Eles Têm, Mas Não Veem
A Estimativa Nacional é apresentada, em Israel, pelo diretor do Serviço de
Informações Militares, visto ser este o único órgão de Informações no país a
contar com os indispensáveis recursos de pesquisa e de avaliação para seu
preparo. No decorrer dos anos, o Serviço cresceu, tanto em vulto como em
atribuições, abafando qualquer esforço da pequena equipe de pesquisas do
Ministério do Exterior e do Mossad (Agência Central de Informações) para
se expandirem ou prepararem avaliações próprias. Formara uma equipe de
especialistas e, cedo, ganhou a reputação de ser, no mundo,o serviço mais
eficiente sobre assuntos do Oriente Médio, uma reputação merecidamente
conquistada, pois tanto o Serviço, como seu próprio pessoal, provaram
repetidas vezes a superioridade de sua compreensão dos acontecimentos
naquela região. Contudo, com o surgimento de uma diversidade de aspectos
de Informações que afetavam Israel em todo o mundo, muito cedo se viu
empenhado em um variado número de objetivos, na verdade muito além dos
relacionados com a simples Informação Militar.
Informação é a busca, a coleta e a interpretação de informes necessários à
elaboração da política e à tomada de decisões, mas, em nenhuma instância,
um órgão dedicado a tal trabalho poderá ou deverá ser responsável pela
elaboração da política. Em Israel, entretanto, fora do sistema militar, não
havia qualquer outro organismo superior ocupado no processo de tomada de
decisões; nada existia no complexo do Gabinete, no Parlamento — ou, na
verdade, em qualquer outro órgão — com capacidade para proceder suas
próprias avaliações ou para analisar as apresentadas pelos militares. Assim, o
Serviço de Informações Militares se constituía em um fator central e vital
para todas as tomadas de decisões, não obstante o fato de a responsabilidade
final da avaliação das intenções dos governos estrangeiros se situar a nível
de Gabinete.
Durante o período em que Ben-Gurion fora primeiro-ministro, por uma
questão de princípio, os militares não compareciam fardados perante o
Gabinete. Nessas reuniões, e nas da Comissão de Assuntos Estrangeiros e de
Segurança do Knesset, invariavelmente sempre fora o próprio Ben-Gurion
quem apresentara o panorama total da defesa, inclusive das Informações.
Apesar de se mostrar bastante cuidadoso no que dizia perante esses órgãos,
ele pensava não necessitar de parceiros, visto que assumia total
responsabilidade.
Quando o Gen Dayan assumiu aquele posto, tornou prática habitual
comparecer perante aqueles órgãos acompanhado pelo chefe do Estado-
Maior e pelo diretor do Serviço de Informações Militares, fato que tendia a
eliminar a linha divisória entre as responsabilidades militares e ministeriais.
Assim, esses dois oficiais, uniformizados, começaram a comparecer à mesa
do Gabinete com a mesma frequência dos próprios ministros. Não somente a
hierarquia do diretor de Informações e o enorme prestígio do Ministro de
Defesa, mas a circunstância de não existir no país outro elemento com os
recursos ou a capacidade para criticar as avaliações do Serviço de
Informações Militares, ou para apresentar qualquer alternativa, fizeram com
que a aceitação de suas várias estimativas se tornasse inevitável.
Imediatamente após o fim da Guerra de Atrito, em outubro de 1970, o início
do cessar-fogo, a morte de Nasser, a guerra civil da Jordânia e, mais
recentemente, a aparente expulsão dos conselheiros soviéticos por Sadat,
desenvolveu-se a idéia, entre os altos responsáveis pela defesa de Israel, que
deveria transcorrer um apreciável espaço de tempo antes que os árabes
estivessem preparados para a guerra, uma impressão que era reforçada pela
descrença na capacidade dos árabes em desenvolver uma guerra moderna
coordenada entre eles e por um generalizado sentimento de satisfação com o
status quo após 1967. Embora este misto de complacência e menosprezo
tendesse a viciar a avaliação dos futuros acontecimentos na região, o
Exército continuava a se preparar para qualquer eventualidade e a adaptar
seu planejamento à estimativa geral de que os árabes, pela aquisição de
bombardeios de médio alcance, ficariam em condições de levar a cabo, em
1975/6, a tão proclamada ameaça de uma nova guerra.
Entretanto, com o passar do tempo e com o aumento das pressões sociais em
Israel, começaram a surgir vozes reclamando por uma redução no orçamento
da defesa, particularmente porque não se acreditava que a guerra estivesse
próxima. Apesar da tenaz resistência de Dayan a essas pressões, em 1972 o
orçamento foi reduzido em cerca de 6 bilhões de libras israelenses, por um
período de 5 anos. Contudo, os líderes do Exército, talvez mais do que
quaisquer outros, estavam conscientes da ameaça que rondava o país. Em
junho de 1972, o Gen Div Israel Tal, subchefe do Estado-Maior
(reconhecido como um dos maiores especialistas em blindados em todo o
mundo), expressou a opinião de que, sem uma abordagem política mais
dinâmica, os árabes tenderiam a optar por soluções militares, pelo fato de
que não lhes seria possível manter por um longo período o status quo. Na
verdade, por diversas vezes, nos meses de julho a setembro de 1972, o Gen
Elazar discutira a possibilidade de um ataque egípcio através do Canal.
Sustentara a opinião de que tal ataque ocorreria em princípios de 1973;
devido, entretanto, à saída dos conselheiros soviéticos do Egito, mudara sua
apreciação, dizendo que, apesar de não acreditar que esse ataque ocorresse
em princípios de 1973, era de opinião de que ocorreria mais tarde, naquele
mesmo ano. Indicou as eleições presidenciais nos EUA, em novembro de
1972, como o momento crucial, crente de que após sua realização (i.é, em
princípios de 1973), o presidente Sadat procuraria jogar o Oriente contra o
Ocidente e que, como resultado da frustração pelo seu provável insucesso
em consegui-lo, poderia decidir lançar-se à guerra em 1973.
Em 16 de abril desse ano, o Gen Div Eli Ziera, diretor do Serviço de
Informações Militares, mais tarde descrito pela Comissão Agranat como
“um homem de excepcionais capacidades intelectuais, que impressionava
vivamente tanto seus superiores como subordinados, e altamente
considerado pelo Governo", apresentou uma Estimativa Nacional. Por essa
ocasião, existiam indícios evidentes de que os egípcios se preparavam para a
guerra em maio; efetivos terrestres estavam sendo movimentados em direção
ao Suez — durante todo o mês de abril e metade de maio, cerca de 65
rampas para blindados haviam sido construídas ao longo do Canal, enquanto
que a barreira principal ao longo da frente fora elevada de modo a permitir a
observação sobre o terrapleno israelense; novas aberturas tinham sido feitas
nessa barreira e haviam sido construídos novos acessos à água. A defesa
civil egípcia fora mobilizada, doadores de sangue foram convocados, fora
decretado o escurecimento total nas principais cidades, as pontes haviam
sido protegidas e haviam sido emitidas declarações sobre a guerra, ao
mesmo tempo que Sadat falava em uma “fase de confronto total”. Apesar
desses preparativos, o Serviço de Informações israelense estimou que a
probabilidade de guerra era remota: os egípcios não tinham como revidar um
ataque aéreo israelense em profundidade; mesmo que a guerra pudesse vir a
acontecer em uma data posterior, desta vez, como era do seu feitio, Sadat iria
até o limite para então recuar. Como vimos atrás, Sadat decidiu adiar o
ataque para o outono, mas esse fato, em vez de ter sido encarado como um
sinal de que o ataque apenas fora adiado, veio somente confirmar a
estimativa do Serviço de Informações de que Sadat iria até determinada
altura e depois recuaria.
Entretanto, o Gen Elazar não aceitou essa estimativa e, conforme já
dissemos, solicitou que se procedesse uma mobilização parcial. Em diversos
pronunciamentos públicos, nessa época, acentuara que, apesar de ser
pequena a possibilidade de uma guerra, Israel devia levar em consideração o
fato de que os egípcios se sentiam frustrados pelos resultados do encontro
Nixon-Brezhnev e pela ausência de quaisquer avanços políticos; no Egito, as
pressões se avolumavam e poderiam vir a se constituir em uma ameaça
definitiva para a paz.
Nessa ocasião, Israel defrontava-se com três possibilidades: a ocorrência
esporádica de hostilidades, uma guerra de atrito ou uma guerra total. Elazar
não acreditava nas duas primeiras possibilidades e considerava a terceira
como a única provável. Em seu entender, os egípcios estariam interessados
em: (1) renovar as hostilidades a fim de romper o status quo e deixar
evidente seu inconformismo em aceitar a situação que fora criada; (2) causar
o máximo de danos materiaise baixas a Israel; (3) empreender a guerra de
maneira tal que, ao final, o Egito tivesse obtido um avanço, por menor que
fosse, sob o ponto-de-vista militar. Sentia que uns poucos hectares ganhos na
margem oriental do Canal, ou que um avanço de poucas centenas de metros
nas Colinas de Golan, poderiam satisfazer os objetivos bélicos dos árabes.
Em mais de uma ocasião estimara a possibilidade de um ataque simultâneo
em massa pelas forças egípcias e da Síria.
Elazar não era o único oficial superior a revelar uma percepção clara da
possível evolução dos acontecimentos na área e a não subestimar as
intenções árabes. Durante esse mesmo período, o Gen Tal procurara,
publicamente, enfatizar a importância da arma-petróleo nas mãos dos árabes
e, devido ao seu modo de pensar, alertar para o fato de que o surgimento do
sistema de mísseis terra-ar significava que a utilização de aviões como um
sistema principal de ataque viria a ter valor muito limitado pelo fim da
década de 1970. Debateu exaustivamente, ainda, o possível efeito de uma
guerra sobre a situação interna de Israel. Em 21 de março de 1973, à luz das
ameaças vindas do Egito e da Síria, o Ministro da Defesa, Moshe Dayan,
baixou diretrizes ao Estado-Maior ordenando que se preparasse para a
guerra. Nelas dizia: "Devemos considerar a possibilidade da recondução da
guerra na segunda metade do verão".
O conceito israelense de defesa se fundamentava sobre três fatores
principais: o alerta antecipado, pelo Serviço de Informações, dos
movimentos inimigos que pudessem indicar planos de operações hostis; o
poderio e a capacidade de um exército regular, aliado a uma força aérea que
era quase uma força permanente, para neutralizar qualquer continuidade de
um ataque importante contra Israel e para deter a progressão das forças
inimigas. Era dada grande importância à Força Aérea nessa operação de
neutralização, ao mesmo tempo que protegeria os céus de Israel e
possibilitaria que fosse estabelecido o terceiro fator, a rápida mobilização
das reservas e seu deslocamento para as linhas de frente, rápido e
eficientemente.
O Serviço de Informações israelense encontrava-se em boa situação para
avaliar o desenvolver dos acontecimentos no mundo árabe, tendo, no
decorrer dos anos, criado um eficiente sistema de busca de informes.
Sucedendo a ascensão de Sadat à presidência do Egito, haviam ocorrido
quatro períodos de escalada, ocasiões em que o Serviço observara uma
mobilização geral egípcia e os preparativos para entrar em guerra.
Sucederam-se diversos estados de emergência ao longo das linhas e, todas as
vezes, as forças israelenses tinham sido reforçadas e progredido para as
linhas de frente, de acordo com os planos de operações existentes na época.
Entretanto, fora menos frequente a ocorrência de mobilização geral que
envolvesse a frente interna egípcia.
A primeira das grandes mobilizações a ocorrer durante o período de Sadat
verificou-se em fins do “Ano da Decisão", em 1971, quando os egípcios
tinham planejado um ataque de surpresa, com 50 bombardeiros, a Sharm El-
Sheik (cancelado por Sadat por motivo do irrompimento da Guerra índia-
Paquistão). Naquela ocasião, realizara-se uma mobilização geral das reservas
e dos veículos particulares, bem como a ativação da defesa civil das cidades.
O QG do Exército e todas as forças terrestres egípcias estavam empenhadas
em manobras. Deslocaram para a linha do Canal unidades inteiras de carros
de combate, bem como equipamentos para travessia e construção de pontes;
desenvolveram atividades de organização do terreno ao longo da margem;
prepararam posições para os carros de combate e para a artilharia e abriram
os acessos ao Canal no setor sul da frente. Os meios de comunicação
egípcios divulgaram pronunciamentos belicosos da liderança, proclamando
que a guerra era inevitável.
Um ano mais tarde, em dezembro de 1972, ocorreu uma segunda grande
mobilização, quando Sadat planejara uma operação em que uma brigada de
paraquedistas deveria conquistar e manter terreno no Sinai até que as Nações
Unidas interviessem. Também, nessa ocasião, foram realizadas manobras
pelas forças terrestres, as tropas tiveram suas licenças interrompidas, foi
acelerado o trabalho nas barreiras e fortificações ao longo do Canal, com a
preparação de áreas para o lançamento de veículos para a travessia e de
equipamentos para a construção de pontes, e uma atmosfera de guerra foi
criada na população. Entretanto, nem as reservas e nem a defesa civil nas
cidades foram mobilizadas, como, também, as unidades terrestres não
progrediram para a frente do Canal com seus equipamentos pontoneiros e de
travessia. Os terceiro e quarto períodos de mobilização e escalada
aconteceram em 1973 — em abril/maio e setembro/outubro.
A possibilidade egípcia de atacar Israel sem que se verificasse um alarme
antecipado existia — e, na verdade, por ocasião das discussões mantidas
com membros do Gabinete nos dias que antecederam a guerra, fora
reconhecida pelo Gen Zeira e por seu diretor de Buscas, Gen Bda Aryeh
Shalev, apesar de eles indicarem uma baixa probabilidade para que pudesse
ocorrer. A presença em massa do Exército egípcio ao longo do Canal não
constituía, em si, uma indicação da iminência da guerra, dado que isso vinha
acontecendo desde 1969, e, tampouco, os indícios de uma escalada
constituíam, como argumentaram, um sinal definitivo, já que três grandes
mobilizações haviam\ocorrido, desde 1971, sem que se verificasse o ataque
subsequente. A única chave que restava para o estabelecimento de um
alarme antecipado residia, agora, na avaliação da intenção dos egípcios, o
que, na verdade, importaria na capacidade de adivinhar o que o chefe de
Estado egípcio, presidente Sadat, viesse a decidir; e tal tarefa dificilmente
poderia ser deixada à exclusiva responsabilidade do diretor de Informações
Militares. O erro de todos os envolvidos, seja do Serviço de Informações,
seja nos níveis decisórios da política, naquelas ocasiões de desusadas
escaladas e maciças concentrações, consistiu em não terem correlacionado
os simultâneos aumentos de capacidade no Norte e no Sul com as intenções
sírias e egípcias.
* * *
A Comunidade de Informações israelense acompanhava com interesse o
desenvolver dos grandes exercícios no Egito, apesar de sentir-se, ao mesmo
tempo, preocupada com a grande concentração de forças na Síria, mesmo
que todas as indicações fossem de que os sírios simplesmente estavam
preocupados com a eventualidade de uma possível reação israelense às suas
operações de represália à derrubada de 13 de seus aviões, em 13 de
setembro. O consenso, contudo, era de que não existia uma real ameaça
naquele setor, pelo fato de se julgar que a Síria nunca atacaria por si própria.
Tudo o que viam, quando se ocupavam do Egito, eram preparativos para
manobras e a tomada de precauções especiais, por receio de que um ataque
israelense estivesse em andamento. Havia numerosos indicadores que
poderiam ter dado margem a preocupações, mas estavam mascarados, talvez
em dobro, por outros, que indicavam não haver motivos para alarme. Em
fins de setembro, entretanto, surgiam informes de várias fontes indicando
que os egípcios estavam se preparando para uma guerra total. Em muitos
casos, o material de Informações recebido descia a detalhes dos
acontecimentos prestes a ocorrer. Contudo, quando esses fatos aconteceram,
foram ignorados.
Com o início das manobras egípcias, as forças israelenses postadas na frente
do Canal notaram um aumento no grau das atividades. Diariamente, chegava
das posições egípcias um crescente fluxo de informes acerca dos
preparativos em toda a frente do Canal. O Ten David Abu Dirham, no
comando de uma das fortificações mais extremas do setor norte — Orkal B
—, cerca de 8km ao sul de Port Fuad, informou que um navio estava
descarregando artilharia, equipamento e munição naquele porto. Chegaram
relatórios acerca da movimentação da artilharia para as posições da frente,
da ocupação de posição até então desocupadas por sistemas de mísseis terra-
ar e terra-terra, da limpezade campos de minas ao longo do Canal e de
soldados egípcios mergulhando em suas águas a fim de fazer explodir minas
submersas. O informe descrevia os trabalhos de melhoramento realizados
nos diversos acessos à margem, as atividades de movimentação de terra, a
preparação de áreas para a travessia e para as pontes e pontões. Entretanto, à
medida que limpavam os campos de minas em 70 diferentes pontos ao longo
do Canal, as recolocavam em outros, abriam alguns acessos à água e
obstruíam outros já existentes. Por outro lado, a rotina diária, tanto de
soldados como de civis, continuava inalterada: os soldados egípcios
continuavam a pescar e a vagar sem seus capacetes ao longo do Canal; os
civis continuavam em seus trabalhos, como se nada de estranho estivesse
ocorrendo.
Quando começaram os exercícios egípcios, a divisão blindada do Gen Div
Avraham (“Albert”) Mandler, que contava com cerca de 280 carros de
combate, foi colocada em estado de alerta na frente do Canal. O QG do
Comando Sul emitiu instruções para assegurar que fossem postas em ação
todas as ordens em vigor para tal emergência: todos os sistemas de
mobilização foram verificados e as licenças foram canceladas. O Gen Div
Shmuel Gonen, comandante do Comando Sul, que assumira o posto há
menos de três meses, visitou o Canal em 2 de outubro e baixou diversas
ordens visando a assegurar um maior estado de alerta. Solicitou permissão
para tomar outras medidas acauteladoras, porém muitos de seus pedidos não
foram atendidos. Foram dadas ordens para que se aumentasse o número de
sentinelas e a segurança em torno de todos os acampamentos no Sinai e para
assegurar que a Operação “Shovach Yonim", que deveria ser acionada na
eventualidade de um avanço inimigo — e que não era testada há algum
tempo —, fosse conhecida por todas as forças. Foram baixadas, também,
ordens para que fosse acelerada a montagem de uma ponte pré-fabricada, a
fim de ser utilizada na eventualidade de uma travessia do Canal pelos
israelenses, e que fossem colocadas armadilhas ao longo das barreiras.
Em 4 de outubro, Gonen compareceu a uma reunião do Estado-Maior
devotada inteiramente ao problema da disciplina nas forças armadas. De Tel
Aviv viajou para Haifa, onde, à 01 hora da madrugada do dia 5, o oficial de
Informações de seu Comando, Tel Cel David Gedaliah, telefonou-lhe
avisando que os egípcios haviam trabalhado nas barreiras até às 22 horas da
noite anterior.
Em 7 de outubro “Albert” Mandler deveria ser substituído pelo Gen Bda
Kalman Magen no comando da Divisão que mantinha a linha ao longo de
Suez e, no decorrer daquela semana, as diversas unidades vinham
apresentando suas despedidas ao General. Na oportunidade, Mandler não se
despediu de suas tropas, tendo preferido, em seu discurso, falar sobre a
importância do estado de apronto e sobre o fato de que julgava ser a guerra
iminente. Na 6ª feira, 5 de outubro, com o Comando Sul e a Divisão de
Mandler atarefados em testar o estado de apronto e em emitir instruções de
última hora, “Albert” manteve um encontro com Magen, oficial com
considerável experiência de combate, que recentemente completara seu
turno como comandante da Escola de Comando e Estado-Maior, e que
poucos dias antes regressara de uma viagem ao exterior. Quando os dois
oficiais combinavam a passagem de comando, a ter lugar no domingo,
tornou-se claro que deveria ser adiada. O Gen Bda Pino, subcomandante de
“Albert”, bastante preocupado com o contínuo fluxo de informes oriundos
da linha de frente, sugeriu que Mandler ordenasse que todas as forças
deixassem seus acampamentos e que as fizesse progredir para ocuparem suas
posições de acordo com os planos de emergência da Operação “Shovach
Yonim”. Contudo, apesar de Magen mostrar-se de acordo, "Albert” não
concordou: disse que todas as instruções que vinham recebendo eram para
que, de nenhum modo, despertassem qualquer suspeita por parte dos
egípcios; que não deveriam realizar quaisquer movimentos que pudessem
conduzir a uma escalada geral ao longo da linha de frente. De fato, desde a
última 4ª feira, dia 3, “Albert” tinha certeza de que a guerra era iminente. A
fim de tornar evidente a situação como a entendia, a Divisão enviou
cabogramas urgentes para o Comando Sul descrevendo todos os indícios dos
preparativos de guerra desenvolvidos pelos egípcios e, toda a noite, enviava
um completo sumário de todas as atividades observadas durante o dia.
De acordo com o relatório da Comissão Agranat, em 1º de outubro, o Ten
Benjamin Siman Tov, oficial de Informações do Comando Sul encarregado
da ordem de batalha, havia apresentado ao Ten Cel David Gedaliah, oficial
de Informações do Comando, um documento em que analisava o
desdobramento de forças no lado egípcio como indícios de preparativos para
a guerra, apesar dos exercícios em desenvolvimento. Novamente, em 3 de
outubro, apresentou um outro relatório em que apontava uma série de fatos
que indicavam que tais exercícios poderiam ser uma cobertura dos
preparativos para a guerra. Gedaliah não difundiu as estimativas do seu
subordinado, como também as omitiu dos relatórios de Informações do
Comando Sul. De fato, o diretor do Serviço de Informações Militares, Gen
Zeira, nada soube da avaliação de Siman Tov a não ser em março de 1974,
por ocasião dos trabalhos da Comissão Agranat (quando, então, chamou a
seu gabinete Siman Tov, que fora transferido da seção de Informações do
Comando Sul, ouviu sua história e promoveu-o ao posto de capitão).
Em 5 de outubro, a Divisão solicitou reforços, que deveriam incluir forças
adicionais para os pontos fortificados ao longo do Canal e efetivos para
serem desdobrados nos passos, a cerca de 32km a leste do Canal. Em
resposta, recebeu uma mensagem do QG do Comando Sul, que transcrevia
outra recebida do QG do Exército, informando que os exercícios egípcios
achavam-se próximos a encerrar e cedo estariam terminados.
Enquanto isso, as emissoras soviéticas acentuavam que as concentrações
israelenses ao longo da fronteira síria tinham como finalidade o ataque ao
país: o Serviço de Informações israelense estimou que, nas últimas 24 horas,
haviam aumentado as preocupações dos sírios quanto à possibilidade de um
ataque por Israel, e que o desdobramento das forças sírias era resultado de
sua crença de que, por razões políticas — devidas ao crescente isolamento
de Israel no mundo e à cada vez maior cooperação entre os países árabes
com que fazia fronteira —, Israel poderia desencadear, por antecipação, um
ataque à Síria. Do mesmo modo, era acentuado o receio dos egípcios quanto
à possibilidade de um ataque por parte de Israel, como também o fato de
que, pela primeira vez, desde a Guerra de Atrito, estava sendo realizado um
grande exercício naval nos mares Mediterrâneo e Vermelho.
Ao alvorecer de 5 de outubro, foi observado que o desdobramento do
Exército egípcio ao longo do Suez atingira um grau de desenvolvimento e
ocupara dispositivos de emergência até então nunca notados pelas Forças de
Defesa de Israel. Observaram um acréscimo de 56 baterias de artilharia, o
que elevava seu total para 194. Os relatórios, além disso, informavam que
todas as cinco divisões de infantaria estavam completamente desdobradas; as
cinco áreas de reunião dos equipamentos de travessia e de pontoneiros
estavam parcialmente cheias; as rampas preparadas nas barreiras de areia,
que permitiriam que os blindados atirassem na direção do Sinai, estavam
ocupadas por pelotões de carros de combate ao longo de toda a frente do
Canal. Foram identificadas unidades ao longo de toda a frente do Canal.
Foram identificadas unidades móveis de pontões GSP e observada a
progressão de efetivos adicionais para as áreas de retaguarda. Ao interpretar
todos esses diferentes indícios, o oficial de Informações de maior patente da
Marinha de Israel manifestara a seu comandante, no início dessa semana, sua
opinião de que a guerra era iminente; sua avaliação, entretanto, não foi
considerada pelo Estado-Maior.
Em 30 de setembro, a situação fora debatida no Estado-Maior. O Gen Tal
manifestou profundasreservas quanto à tranquilizadora estimativa do
Serviço de Informações, enquanto o Gen Zeira persistia na afirmativa de que
a probabilidade de guerra era baixa, explicando que as concentrações sírias
se relacionavam com o incidente de 13 de setembro, quando aviões sírios
haviam sido abatidos por aparelhos israelenses, e que os egípcios estavam
simplesmente se preparando para uma grande manobra. Entretanto, o Gen
Tal continuava preocupado e convidou Zeira e Shalev para uma nova
reunião, quando lhes disse, novamente, que não concordava com suas
avaliações. No entanto, os dois generais não aceitaram suas ponderações.
Existia, no Oriente Médio, um outro elemento que fornecia indicações da
iminência de uma guerra — a União Soviética, envolvida como estava nos
acontecimentos militares na área. Três dias antes do início das hostilidades,
um satélite de observação soviético fora lançado e começara a realizar voos
sobre a área do Sinai, Canal de Suez e a área fronteiriça Israel-Síria, bem
como a região da Galileia. Diariamente seu percurso era alterado, a fim de
que pudesse realizar o levantamento dos diferentes setores das duas linhas de
frente de Israel.
Na manhã da 4ª feira, 3 de outubro, o presidente Sadat convocou o
Embaixador soviético Vinogradoff. Aproximadamente na mesma ocasião, o
presidente Assad chamou para um encontro o Embaixador soviético em
Damasco. Os dois presidentes, sem entrar em detalhes, manifestaram aos
diplomatas que a guerra era iminente.
Em 4 de outubro, as unidades da frota soviética fundeadas em Alexandria e
Port Said começaram a abandonar suas bases. Esse êxodo em massa
fortaleceu as suspeitas do serviço de Informações da Marinha israelense.
Nesse ínterim, haviam sido recebidos informes da chegada de gigantescos
aviões soviéticos Antonov 22 ao Cairo e a Damasco e da evacuação, pelo ar,
das famílias soviéticas lá residentes. A explicação dada a esses movimentos
dos soviéticos pelo Serviço de Informações de Israel foi que: ou indicavam o
conhecimento por parte dos russos de que a guerra estava por irromper (e a
evacuação das famílias soviéticas e a retirada de suas forças navais era um
movimento visando dissuadir os egípcios de tal ação, já que em fins do “Ano
da Decisão”, em 1971, por ocasião de uma anterior mobilização geral no
Egito, os navios soviéticos haviam evacuado o porto de Port Said), ou os
egípcios, juntamente com os sírios, teriam, finalmente, se decidido a
terminar com a presença soviética no Egito, o que não parecia muito
provável.
No sábado, 29 de setembro, dois pistoleiros palestinos detiveram na fronteira
tcheco-austríaca um trem que conduzia judeus russos de Moscou para Viena.
Tomaram como reféns cinco judeus e um funcionário da aduana austríaca e
exigiram transporte aéreo, com seus reféns, para um país árabe. No decorrer
das conversações, o Chanceler austríaco, Bruno Kreisky, também judeu,
propôs, de início, que fosse fechado o centro de trânsito no Castelo Schonau
(situado nos arredores de Viena) para imigrantes judeus; os reféns foram
soltos e os pistoleiros postos em liberdade. Israel mostrou-se horrorizado e
ultrajado e os acontecimentos dominaram todos os meios de comunicação. O
Governo israelense viu-se completamente absorvido pelo problema. Como já
estava programado, Golda Meir voou para Estrasburgo a fim de falar perante
o Conselho da Europa e após, apesar da descrença de alguns membros do
Gabinete, dirigiu-se para Viena, em uma inútil tentativa de persuadir Kreisky
a reconsiderar sua decisão. Retomou para Israel na 4ª feira, 3 de outubro,
quando, imediatamente, convocou uma reunião do Gabinete.
Até hoje não ficou claro se essa operação fazia ou não parte do plano geral
de despistamento, que visava desviar a atenção israelense dos
acontecimentos ao longo da frente. A operação foi executada por uma
organização terrorista palestina pouco conhecida, mas o fato de que se
achava ligada à Saika, organização de guerrilheiros palestinos controlada
pelo Exército sírio, contribuiu para robustecer a crença de que a operação
fazia parte daquele plano. Contudo, fizesse parte ou não, a operação não
alcançou o objetivo de desviar a atenção pública e governamental dos
agourentos acontecimentos que se desenvolviam ao longo das fronteiras
norte e sul de Israel.
A situação síria foi exposta ao Ministro das Habitações israelense, Zeev
Sharef, por ocasião da sua visita às Colinas de Golan, na 4ª feira, 3 de
outubro, para a inauguração de diversos projetos habitacionais construídos
por seu ministério. Durante as cerimônias, conversou com o Gen Hofi,
comandante do Comando Norte, e notou sua preocupação com a desusada
escalada militar síria ao longo da linha de frente. No meio da visita, Sharef
foi chamado de volta a Tel Aviv para uma reunião do Gabinete, logo após o
retorno de Golda Meir de Viena, a fim de ouvirem um relatório completo de
suas discussões com o chanceler Kreisky. Na ocasião, contudo, nada foi
mencionado acerca da situação militar ao longo das duas fronteiras.
Antes dessa reunião, porém, o “Kitchen Cabinet” da Sra. Meir manteve um
encontro, que se prolongou por duas horas, para discutir o desenrolar, pouco
tranquilizador, dos acontecimentos ao longo das divisas. Estiveram presentes
a primeira-ministra Golda Meir, o vice-primeiro-ministro Yigael Allon, o
ministro da Defesa Moshe Dayan, o ministro sem pasta Yisrael Galili, o
chefe do Estado-Maior Elazar e o chefe de Operações de Informações
Shalev (o diretor do Serviço de Informações Zeira achava-se em casa,
adoentado). O Gen Bda Shalev apresentou um quadro retalhado dos
acontecimentos ao longo das fronteiras, enunciando a capacidade das forças
inimigas. Por diversas vezes, Golda Meir perguntou-lhe se os exércitos
árabes seriam capazes de desferir um ataque a partir de suas presentes
posições; a resposta foi afirmativa. Por cerca de duas horas, o “Kitchen
Cabinet" concentrou suas discussões, à luz dessas notícias, sobre as
possíveis intenções da liderança árabe. Recordaram que, em maio, os
serviços de Informações haviam afirmado que a possibilidade de os árabes
lançarem-se à guerra não era muito provável. Naquela ocasião, o Chefe do
Estado-Maior opinara diferentemente, não obstante o fato de que a avaliação
do Serviço de Informações provara ter sido correta; desta vez, concordou
com a avaliação de que um ataque era improvável. O encontro foi encerrado
com a conclusão de que as concentrações militares descritas não indicavam
uma guerra iminente. Concordaram os participantes em apresentar um
relatório da situação na próxima reunião do Gabinete, no domingo, 7 de
outubro.
Ao anoitecer da 5ª feira, o Gen Zeira levou ao Chefe do Estado-Maior as
notícias da evacuação das famílias soviéticas do Egito e da Síria; Zeira
estivera ausente por dois dias, adoentado, e esses novos informes lhe haviam
causado uma impressão desagradável.
Na 6ª feira pela manhã, os correspondentes militares da imprensa israelense
receberam instruções para não exagerar os relatórios oriundos do exterior
acerca das grandes concentrações árabes ao longo das fronteiras e que
mencionassem que as Forças de Defesa de Israel estavam tomando todas as
providências necessárias em face das ocorrências. Porém, naquela mesma
manhã, o Gen Elazar decidiu-se por um estado de alerta “C”, o alerta de
maior grau no exército permanente; era a primeira vez que esse tipo de alerta
era declarado desde que assumira a chefia do Estado-Maior.
Na mesma ocasião, realizava-se uma conferência com o Ministro da Defesa.
O Gen Zeira descreveu a operação aérea soviética, ponderando que poderia
indicar um rompimento final entre os árabes e a União Soviética, apesar de
não considerar tal fato como muito provável. Continuou dizendo que,
evidentemente, os soviéticos estavam cientes da possibilidade de uma
conflagração; poderia ser que tivessem aceito a afirmativa dos árabes de que
Israel estava prestes a lançar um ataque, o que, por coincidência, fora
propalado pelas emissoras soviéticas. Entretanto, esse fato parecia-lhe
improvável, porque, nesse caso, os soviéticossem dúvida teriam procurado
os americanos que, por sua vez, teriam entrado em contato com os
israelenses para aconselhar-lhes moderação. Como não houvera nenhuma
tentativa neste sentido por parte dos EUA, concluiu o Gen Zeira, era de crer
que os soviéticos estavam conscientes da possibilidade de um ataque árabe e
receavam por suas famílias no caso de ocorrer um contra-ataque israelense.
Apesar de tudo, a opinião dos serviços de Informações era de ser muito
baixa a possibilidade da ocorrência de um ataque árabe.
A reunião foi encerrada e dirigiram-se para o gabinete da Primeira-Ministra,
onde a situação foi explanada a ela com a ajuda de fotos aéreas, que
mostravam as fortes concentrações ao longo das linhas de frente. O estado
de prontidão, que fora anunciado nas Forças Armadas, foi confirmado;
decidiram colocar em alerta os centros de mobilização das reservas e Dayan
manifestou sua satisfação com as medidas de preparação tomadas pelo Gen
Elazar. Em face da situação, Golda Meir decidiu convocar o Gabinete para
uma reunião — era véspera do Yom Kippur. A maioria dos ministros já
havia se retirado para suas casas no interior do país (sete deles residiam em
Jerusalém, um em Haifa e outros haviam retornado para seu kibutzim). Para
não incomodar aqueles que já haviam partido, ficou decidido que
convocariam os residentes em Tel Aviv. A omissão de convocar os que
residiam em Jerusalém, a apenas uma hora de Tel Aviv, por rodovia, mais
tarde veio a ser objeto de muitos comentários cínicos por parte dos que não
foram convocados.
Nessa reunião, os ministros foram postos a par de toda a situação. Por duas
vezes, no decorrer de sua explanação, o Chefe de Estado-Maior acentuou
que o desdobramento árabe poderia significar ataque ou defesa; o Gen Zeira,
durante sua fala, enfatizou por três vezes esse mesmo ponto. O estudo de
situação indicava ser reduzida a probabilidade de guerra. Sabia-se que,
apesar de dez dias antes os americanos serem de opinião de que a guerra era
inevitável, hoje sua avaliação coincidia com a do Serviço de Informações
israelense. Os ministros foram cientificados de que o Exército fora colocado
sob completo estado de alerta “C”. Durante a reunião, o Gen Bar-Lev enviou
uma nota ao Chefe do Estado-Maior perguntando-lhe quantos carros de
combate haviam tomado dispositivo, tendo obtido a seguinte resposta: 300
no sul e 200 no norte. Depois de respondidas detalhadamente pelo diretor do
Serviço de Informações Militares as perguntas formuladas pelos membros
do Gabinete, foi solicitado aos ministros que indicassem onde poderiam ser
encontrados no decorrer do Yom Kippur. À saída, Galili perguntou a Shimon
Peres, ministro dos Transportes e das Comunicações: “O que você acha?”
Peres respondeu-lhe: ‘‘Parece que vai haver uma guerra”.
Todo esse tempo, o Gen Elazar estivera convencido de que poderia contar
com um alerta antecipado do Serviço de Informações Militares para
providenciar a mobilização, e uma avaliação dos informes chegados durante
aqueles dias fatídicos da primeira semana de outubro justificava sua
suposição. Após a Guerra, entretanto, viria a afirmar que uma grande
quantidade de dados indicativos da probabilidade da guerra não havia
chegado às suas mãos. De acordo com seu depoimento perante a Comissão
Agranat, na manhã de 6ª feira, havia itens de informes que indicavam a
iminência da guerra e que, não obstante, somente chegaram às suas mãos na
manhã de sábado. Caso os houvesse recebido, afirmou, teria ordenado a
mobilização na manhã da 6ª feira. Mesmo nesse dia, acreditava que, em caso
de conflagração, receberia um aviso antecipado preciso, apesar de, dois dias
antes, a 3 de outubro, ao se dirigir aos editores da imprensa israelense, que
lhe indagaram se as Forças Armadas estariam capacitadas a responder a um
ataque, caso a guerra irrompesse, sua resposta fora pela negativa; na melhor
das hipótese poderiam, juntamente com a Força Aérea, prevenir um colapso
total, na eventualidade de um ataque total de surpresa, mas era crença
generalizada que Israel poderia contar com um adequado alarme antecipado
que lhe capacitaria mobilizar suas reservas.
A partir do anoitecer da 5ª feira, o Gen Zeira começou a ser torturado pelas
dúvidas, mas, invariavelmente, se tranquilizava por saber que o exército
permanente se achava em estado de alerta e que o seu poderio era
considerado suficiente pelo Estado-Maior para resistir a um ataque inicial.
Nisso, via uma política adicional de segurança no que dizia respeito a um
alerta pelo Serviço de Informações. Na 6ª feira, 5 de outubro, teve lugar uma
reunião do Estado-Maior Geral e o quadro das Informações foi novamente
apresentado; a probabilidade do irrompimento da guerra, porém, foi
considerada mínima. Uma conferência no Estado-Maior do Comando Sul,
realizada às 15:30 horas, reviu todos os preparativos que haviam sido feitos
e debateu todos os planos operacionais importantes. Ficou decidido que, no
dia imediato, metade do Estado-Maior visitaria a frente do Suez, enquanto o
restante inspecionaria outros setores daquele Comando.
Naquela noite, os líderes políticos e militares de Israel recolheram-se para
dormir dominados por uma sensação de intranquilidade, mas poucos
sonharam que o país se achava lace a um ataque iminente; tivessem sido
capazes de sufocar, em tempo, suas idéias preconcebidas, toda a história dos
próximos dias teria sido muito diferente.
* * *
As 4 horas da manhã de 6 de outubro, o toque estridente do telefone ao lado
da cama despertou o Gen Zeira. Ouviu a voz na outra ponta da linha e
imediatamente discou, um após outro, três números, acordando o Ministro
da Defesa, o Chefe e o Subchefe (Gen Tal) do Estado-Maior. Transmitiu-lhes
o informe que recebera: — a guerra irromperia em ambas as frentes ao pôr-
do-sol daquele mesmo dia. No espaço de meia hora, todos se encontraram no
EM Geral. Em algum ponto ao longo do Canal de informações, os informes
de que o ataque teria lugar ao anoitecer deram lugar à previsão de que estaria
marcado por volta das 18 horas. Em breve, esse horário foi considerado
como definitivo.
O Gen Elazar pegou o telefone e imediatamente ligou para o Gen Benjamin
Peled, comandante da Força Aérea, e perguntou-lhe qual o mínimo de tempo
necessário para que fosse desencadeado um ataque antecipado. A resposta de
Peled foi: “Se você me disser para ir em frente agora, nós estaremos prontos
às 11 horas”. Elazar decidiu desferir um ataque contra o sistema de mísseis e
aeroportos sírios, crente de que, assim agindo, os colheria de surpresa,
desmontaria seu ataque e asseguraria, ainda, um estreito apoio às forças
terrestres israelenses. Às 5 horas da manhã, manteve o primeiro encontro
com os generais Tal e Peled e baixou instruções para que fossem preparados
a mobilização e o desdobramento das reservas ao longo da frente e em
profundidade, a ativação da defesa civil, a evacuação dos vilarejos no Golan
e a preparação de um ataque antecipado. As 5:30 horas, baixou ordens aos
chefes dos Estados-Maiores e aos comandantes da Força Aérea e da
Marinha.
Às 5:50 horas, teve lugar a primeira reunião no gabinete de Dayan. Elazar
propôs que fosse decretada a mobilização geral e realizado um ataque aéreo
antecipado à Síria. Dayan opôs-se a esse ataque e debateram acerca da
mobilização das reservas. De início, Dayan estava inclinado a autorizar a
mobilização de apenas uma brigada para o Comando Norte; depois,
concordou com a mobilização de outra, também, para o Comando Sul, para,
afinal, concordar que fossem mobilizadas uma divisão para cada Comando.
Mas, apesar de Elazar ter pressionado por uma mobilização geral das forças
de combate, insistindo que era essencial mobilizar os efetivos capazes de
empreender um contra-ataque imediato, Dayan insistia em uma mobilização
somente com finalidades defensivas. Elazar assegurava que era impossível
diferençar entre defesa e contra-ataque, afirmando que o momento de
escalonamento do contra-ataque era uma função integral da defesa. Por fim,
Dayan decidiu levar o problema para ser decidido pela Primeira-Ministra,dizendo: “Vou sugerir a ela que sejam mobilizados 50 mil homens”, com o
que não concordou Elazar, que exigiu que sua proposta de uma mobilização
geral também fosse apresentada. Dayan concordou em apresentar as duas
proposições. Apesar de sua diferença de opinião com o Ministro da Defesa,
Elazar baixou ordens para a convocação de diversos milhares de reservistas
para as forças terrestre e aérea, mobilização essa que fora julgada
absolutamente essencial.
Nesse ínterim, haviam sido transmitidas instruções aos comandantes dos
Comandos Norte e Sul para que voassem imediatamente para Tel Aviv. Às
7:15 horas, o Gen Elazar realizou uma conferência com os chefes dos
Estados-Maio- res, a que estiveram presentes os dois comandantes. Na
ocasião, baixou instruções gerais sobre a guerra, ressaltando que a primeira
fase representaria a operação defensiva e que todas as forças deveriam estar
prontas para partir para um contra-ataque tão cedo quanto possível.
Recapitulou os diversos planos de operação para a defesa e o ataque e
ressaltou que o conceito militar básico das IDF (Forças de Defesa de Israel)
era o de partir para o contra-ataque num espaço de 48 horas. Ordenou que os
comandantes dos Comandos Sul e Norte retornassem para seus postos,
baixassem as necessárias instruções e voltassem ao meio-dia a fim de que
pudesse rever os preparativos para a guerra. Informou aos presentes que
havia pedido a mobilização Reral das reservas, mas que, dada a discordância
do Ministro da Defesa, a proposta deveria ser decidida pela Primeira-
Ministra.
De Tel Aviv, Gonen telefonou para “Albert" e para seu chefe de Operações
no Comando Sul, dando-lhes rápidas instruções: não deveriam executar
qualquer movimento que pudesse despertar as suspeitas dos egípcios e que
pudesse resultar em uma escalada. A guerra era esperada para as 18 horas e
sugeriu que as forças de “Albert” fossem movimentadas de maneira que, às
17 horas, estivessem em suas posições, conforme previsto no plano de
defesa "Shovach Yonim". Quando “Albert” ponderou que o tempo urgia,
concordaram em que as forças estivessem em suas posições as 16 horas.
"Albert" voltou ao grupo de Estado-Maior, onde estivera em conferência
com os seus comandantes de brigada, e repetiu-lhes as ordens que recebera.
A reunião no gabinete da Primeira-Ministra teve lugar às 8 horas da manhã,
estando presentes Golda Meir, Dayan, Galili, Elazar, Zeira, Gen Zvi Zur
(assistente do Ministro da Defesa) e os vários chefs de bureaux (o vice-
primeiro-ministro Allon chegou na metade da conferência), Elazar e Dayan
expuseram suas respectivas posições, o último persistindo na sua oposição a
uma mobilização geral: “Se você quiser escolher a proposta dele ‘eu não irei
me prostrar na estrada’ e nem pedirei demissão; mas é bom que você
compreenda que ela é exagerada”. A reunião concluiu por uma fórmula
conciliatória, pela qual Elazar ficava autorizado a mobilizar 100 mil homens.
(Ele se aproveitou da autorização para ordenar que fosse mobilizado um
efetivo muito maior). A Primeira-Ministra aceitou a opinião de Dayan a
respeito de um ataque por antecipação e rejeitou o pedido de Elazar.
Após ter sido concedida permissão para a mobilização, o Gen Tal baixou
ordens especiais, sentindo que os presentes não estavam levando a sério a
ameaça de uma guerra, nem conscientes da urgência da situação. Frisou que
Israel se defrontava com um ataque de surpresa, que as tropas nas linhas
avançadas estariam expostas a um maciço bombardeio de artilharia e a
pesados ataques de infantaria e de carros de combate; viriam a solicitar
auxílio e o potencial principal das Forças de Defesa de Israel ainda não
estaria em condições. Por isso, no seu entender, era essencial que o Exército
revolucionasse seu pensamento imediatamente: não seria possível realizar
uma mobilização convencional por divisões e brigadas; o problema, agora,
consistia em enviar pelotões e companhias isoladas de carros de combate e
outras unidades, o mais rápido possível, para as duas frentes, diretamente
para as linhas de fogo. Era essencial a improvisação, a fim de fazer face às
conflagrações locais.
Ao meio-dia, os membros do Gabinete foram chamados, das sinagogas ou de
seus lares. Na sala do Gabinete, assistida pelo Chefe do Estado-Maior e pelo
diretor de Informações, Golda Meir detalhou os informes recebidos acerca
da probabilidade de a guerra irromper naquela tarde. Informou de sua
afirmação ao Embaixador americano Kenneth Keating naquela manhã — de
que não haveria ataques antecipados por parte de Israel — e cientificou o
Gabinete que a mobilização das reservas fora iniciada às 10 horas daquele
dia. Segundo uma informação, o Ministro da Justiça, J. Shapira, indagara:
“Que acontecerá se o inimigo atacar antes das 18 horas?” Afirma-se que a
isso o Ministro da Defesa Dayan teria respondido: “Essa é a questão mais
importante a ser levantada nesta reunião”. Para o Ministro do Comércio e
Indústria, Chaim Bar-Lev, a hora “H” às 18 horas não tinha sentido; poderia
ser um engano, porque, ademais, o informe referia-se também a um ataque
aéreo. Porém, recebeu como resposta: “Não, será definitivamente às 18
horas”.
Desenvolveu-se uma discussão durante a qual foi assegurado ao Gabinete
que as medidas tomadas para fazer face ao ataque seriam adequadas para
bloqueá-lo, até que fosse desfechado um contra-ataque. Às 13:55 horas, no
meio da discussão, o Gen Bda Israel Leor, secretário-militar de Golda Meir,
abriu subitamente a porta e anunciou: “As notícias são de que a guerra
começou". O gemido das sirenes antiaéreas repentinamente trouxe à
consciência de todos que Israel estava mais um vez lutando por sua
existência.
Naquela noite, Golda Meir dirigiu-se à Nação: “Por diversos dias os nossos
serviços de Informações tinham conhecimento de que os exércitos do Egito e
da Síria se achavam desdobrados para um ataque coordenado a Israel ... As
nossas forças foram dispostas de acordo com um plano para fazer face ao
perigo iminente ...”.
Como Um Lobo Encurralado
As Colinas de Golan foram ocupadas pelas forças israelenses nos últimos
dois dias da Guerra dos Seis Dias, em 9 e 10 de junho de 1967, quando, em
uma campanha que logo viria a ser reconhecida como clássica, as Forças de
Defesa de Israel desfecharam um ataque frontal às posições sírias nas alturas
de onde ameaçavam as comunidades israelenses no vale situado logo abaixo.
Nas décadas de 1950 e 1960, toda a área do Golan fora convertida pelos
sírios em uma ampla rede de posições militares, de cujas fortificações,
aparentemente inexpugnáveis, haviam desfechado, no decorrer dos anos,
inúmeras operações de fustigamento contra as povoações judias do norte de
Israel, Na década de 1960, valendo-se da topografia da região de Golan, os
sírios haviam tentado desviar de Israel as nascentes do rio Jordão e, assim,
privar a agricultura do país de sua fonte principal de água. Durante a luta que
se seguiu, quase toda a população local pôs-se em fuga (junto com o
Exército sírio, após a derrota de suas fileiras e a consequente retirada em
face das pesadas baixas que lhe haviam imposto os israelenses), com
exceção de uns 7.000 drusos que permaneceram e continuaram a viver na
região sob administração israelense.
As Colinas de Golan limitam-se, a oeste, pela porção superior da fenda do
Vale do Jordão, correspondente ao Mar da Galileia, ao sul, pelo Vale do
Yarmouk, a leste, pelo córrego Ruggad e, ao norte, pelo Maciço de Hermon,
tendo uma superfície de aproximadamente 1.416km2. O planalto eleva-se
suavemente do sul para o norte, de uma altitude de 180 a 915m
aproximadamente, suas abruptas escarpas dominando o vale da Grande
Fenda, a oeste e ao sul. Os traços principais da sua topografia foram
formados por atividades vulcânicas, com as torrentes de lava que irrompiam
pelas fissuras e crateras inundando o planalto com uma camada contínua de
basalto. Cones vulcânicos, ou tels, que sobressaem como gigantescos
formigueiros, dominam o planalto coberto de lava.
Um reduzido número de estradas conduzem do Vale do Jordão, em Israel, àsencostas das Colinas de Golan. A via de acesso principal sobe de Zemach
para El Al por meio de duas estradas, uma que passa por El Hamma e a
segunda via Ein Gev-Givat Yoav, conhecida como “Aclive Gamla",
continuando na direção NE através de Ramat Magshimim e Juhader, até o
entroncamento de Rafid, e após, no rumo norte, para Kuneitra, onde
encontra a estrada Kuneitra-Damasco. Uma outra tem início na chamada
Ponte Arik, que cruza o rio Jordão próximo à sua confluência com o Mar da
Galileia no vale de Buteiha. Esta estrada sobe através de Yehudia e Kuzabia,
onde se bifurca, dirigindo-se rumo norte para as encruzilhadas de Nafekh, na
rodovia principal Kuneitra-Damasco, ou, por uma estrada de segunda classe,
para a área de Hushniyah. A rota principal histórica, que liga o norte da
Galileia com Damasco, atravessa o rio Jordão pela Ponte Bnot Ya’akov, de
onde sobe a encosta íngreme até o posto aduaneiro sírio, de onde se dirige,
com passagem pelo entroncamento Nafekh, para Kuneitra, na estrada
principal para Damasco. Ao norte, uma estrada com origem no kibutz Gonen
sobe a encosta até a encruzilhada Wasset, passa em Kuneitra pelo norte e
prossegue, paralelamente à rodovia principal, até Damasco, ou, virando à
esquerda, ao norte de Kuneitra, conduz até a vila drusa de Masadah, na
rodovia para o Monte Hermon. A rota mais setentrional sobe pelos
contrafortes do Hermon, a partir das nascentes do rio Dan, um tributário do
Jordão, até Masadah e daí, na direção norte, para as alturas de Hermon ou,
no rumo sul, para Kuneitra.
Duas importantes estradas, que se desenvolvem na direção norte-sul, no
rumo de NO, entrecruzam-se com todas as vias que se orientam no sentido
leste-oeste. A situada mais ao leste tem início nas encruzilhadas Rafid, ao
Sul, e segue na direção norte, por Kuneitra, até Masadah e as elevações do
Hermon. A oeste dessa estrada, paralela ao TAP, o oleoduto mais extenso do
mundo (com início em Bahrein, no Golfo Pérsico, e que se estende, através
da Síria e do Líbano, por um percurso de aproximadamente 1.930km, desde
a Arábia Saudita até o Líbano), corre por cerca de 32km através das Colinas
de Golan a rodovia "Tapline”, com início na área de Juhad, acima da
encruzilhada Nafekh, e que segue no rumo norte até a fronteira libanesa.
A linha de frente israelense estava separada das linhas sírias por uma faixa
de “terra-de-ninguém” (com uma largura variável de 800 a 1.600m ao longo
da maior parte do seu traçado) e onde os observadores da ONU ocupavam
pontos de observação à margem das principais rodovias. A “Linha Púrpura”
— a linha de cessar-fogo estabelecida entre a Síria e Israel em 10 de junho
de 1967 —, ocupada pelos israelenses, é uma boa posição militar, situada
como está por apreciável distância ao longo de um curso d’água. No rumo
leste, o terreno desce na direção do Vale da Síria, permitindo boa situação
dominante para observação e bombardeio sobre ele, enquanto que, no sul, é
margeado pela Escarpa de Ruqqad, que desce até o vale do rio Yarmouk.
Muitos dos cones vulcânicos que salpicam o planalto preto-basáltico, como
o Monte Avital (1.210m), Hermonit (1.218m) ou Tel Faris (1.217m), são
parte do sistema de defesa de Israel ao longo da “Linha Púrpura”. A posição
do Monte Hermon, ao norte, faculta uma observação muito boa, mas, acima
de tudo, é de particular importância como posto de vigilância eletrônica.
Realmente, após a conquista por Israel, em 1967, da chamada “posição
israelense” do Hermon, os sírios instalaram uma nova posição em um pico
sobranceiro àquele tomado pelos israelenses.
Em 1972 o Gen Div Yitzhak Hofi foi designado comandante do Comando
Norte em substituição ao Gen Div Mordechai Gur, que fora nomeado Adido
da Defesa à Embaixada em Washington. Hofi, um homem baixo e
atarracado, obstinado e de fala mansa e dotado de uma tranquila autoridade
nascida de anos de liderança pelo exemplo, não era pessoa dada a muitas
palavras. Conquistara seus lauréis combatendo durante anos nas fronteiras e
estava entre o grupo de líderes cujos nomes haviam se tornado lugares
comuns para gerações de jovens israelenses, sendo conhecido
carinhosamente pelo apelido de “Hacka”. Ao analisar o problema militar que
lhe oferecia seu novo comando, compreendeu que o problema principal,
inexistente em qualquer outra frente israelense, era que as forças israelenses
e sírias encontravam-se postadas frente a frente em uma planície aberta, sem
qualquer obstáculo físico entre elas que dificultasse a progressão de um
exército invasor. Este era o tipo de situação reputada como desejável à luz da
doutrina soviética, que o Exército sírio adotara, quando um exército está
cogitando de montar um ataque.
No transcorrer de quase todo esse ano, os sírios haviam mantido em estado
de emergência um exército em total mobilização — alerta, pronto para entrar
em guerra e concentrado na área entre a linha de cessar-fogo e Damasco. O
grosso principal das tropas era mantido constantemente em posição de alerta
e a redução dos efetivos ou o enfraquecimento da linha se constituíam em
exceções à regra, apesar de os sírios assim procederem durante os meses de
inverno, quando as fortes nevascas e as chuvas transformavam o solo em um
pântano lodacento, tornando-o às vezes intransponível mesmo pelos veículos
blindados. Nessas ocasiões, parte das forças sírias era deslocada para
treinamento na área a leste de Damasco.
Ao contrário da sua coirmã egípcia, a Força Aérea síria não se vira forçada a
modificar nenhuma de sua bases após a Guerra dos Seis Dias. Assim, o
período de alerta de que dispunha Israel na eventualidade de um ataque
continuava inalterado, como, também, a ameaça potencial à sua população
civil. Ainda mais, os mísseis de apoio tático Frog (com um alcance de até
88km), que haviam sido fornecidos pelos russos, achavam-se em posições
bastante próximas, podendo engajar os centros populacionais de Israel.
Outro ponto a considerar era o fato de que as Colinas de Golan haviam sido
colonizadas por cerca de 50 projetos civis israelenses; e, mais, que os
núcleos coloniais no Vale da Huleh, em Israel, continuavam sob o alcance da
artilharia síria, uma situação que fora eliminada na maioria das zonas
fronteiriças de Israel pela Guerra dos Seis Dias. E, acima de tudo, o sistema
defensivo sírio estava desdobrado de tal modo que podia, a qualquer
momento, ser desenvolvido para o ataque sem a necessidade de importantes
deslocamentos de forças e, na verdade, sem muito alarme.
O conceito básico israelense importava na manutenção das linhas com o
efetivo relativamente reduzido do exército permanente e em basear suas
operações defensivas no apoio maciço da Força Aérea, enquanto era
assegurado o tempo necessário para a mobilização das reservas. O sistema
de fortificações construído ao longo da linha de frente era apoiado por uma
força móvel de blindados. Essas posições haviam sido solidamente
construídas, de modo a que pudessem resistir a um pesado castigo. Havia
cerca de 17 delas ao sul do Hermon, com uma guarnição média de 15
homens em cada. Achavam-se protegidas por campos de minas e por cercas
de arame e estavam organizadas como “ouriços” combatentes, com seu
próprio armamento de apoio da infantaria; à retaguarda de cada uma, estava
localizado um pelotão de carros de combate. Todo o sistema estava
concebido para suportar grandes impactos de artilharia e fogo de blindados,
e para funcionar como uma força retardadora e de alerta na eventualidade de
um ataque inimigo. A linha fazia parte da área de responsabilidade de uma
brigada e, no início das hostilidades, o Gen Bda "Raful” Eytan fora
designado para o comando das forças no Golan. Como foi mencionado
antes, todo o sistema de defesa de Israel repousava na premissa da
ocorrência de um alerta antecipado pelo Serviço de Informações, o que
possibilitaria a mobilização oportuna das reservas e capacitaria as forças
destacadas no Golan a tomarem posição para fazer frente a qualquer ataque.
Essa filosofia viria a dar causa, no decorrer dos anos, à tradicional relação de
forças árabes-israelenses,de aproximadamente 2,5 a 3 por 1 a favor dos
árabes, uma proporção com a qual o Comando israelense julgava poder
sobreviver.
No inverno de 1972-3, imediatamente após as atividades dos terroristas
palestinos em Israel e na Europa, seus acampamentos foram atacados pelas
Forças de Defesa de Israel e, particularmente, pela Força Aérea, que tinha
estado constantemente em ação por ocasião dos mais importantes
engajamentos naquele inverno. Esses ataques infligiram tão pesadas baixas e
tais prejuízos, que cedo os sírios deram início à instalação de um sistema de
mísseis de defesa terra-ar. Era, na verdade, apenas um começo, mas a
constatação de que um tal sistema poderia significar a limitação da eficiência
da Força Aérea, sobre a qual se apoiava o conceito de defesa de Israel,
começou a preocupar o Gen Hofi. As tropas no Golan se achavam
empenhadas em uma série de encarniçadas escaramuças — aqueles “dias de
luta”, que se prolongaram de outubro de 1972 até janeiro de 1973 —,
quando, abruptamente, os combatentes foram interrompidos. O Comando
israelense acreditou, piamente, que o castigo imposto aos sírios alcançara
seu propósito, quando, de fato, o verdadeiro motivo do posterior
esmorecimento das atividades sírias ao longo da fronteira era devido à visita
do Ministro da Guerra egípcio, Gen Ismail, a Damasco e à decisão tomada
nas conversações em favor da guerra como um princípio comum.
No decorrer dos anos de 1972 e 1973, o Comando Norte sofreu uma
importante reformulação de sua infraestrutura: foram construídas novas
estradas, milhares de trilhas não-pavimentadas foram abertas a fim de
facilitar o desenvolvimento da artilharia e a movimentação dos carros de
combate. Por sugestão do Gen “Raful” Eytan, os centros de mobilização das
brigadas de carros, destinadas à defesa do Golan, foram deslocadas de suas
áreas remotas para posições próximas às Colinas (os exercícios revelaram
que o período necessário para a mobilização fora reduzido à metade em
razão dessa medida). Hofi pôs todas as brigadas do seu Comando sob
intensos exercícios a fim de medir, com precisão, os períodos de tempo
necessários para os deslocamentos ao longo dos diversos eixos que haviam
sido construídos em direção à linha de frente. Os melhoramentos
empreendidos pelo Comando, particularmente aqueles imediatamente após
os importantes incidentes do inverno de 1972/3, incluíam a melhoria e o
prolongamento dos fossos anticarros ao longo da “Linha Púrpura”,
concebido para retardar qualquer avanço inimigo e canalizá-lo, o quanto
possível, para pontos de destruição por blindados, previamente planejados.
Várias séries de posições e espaldões para carros de combate — que vieram
a provar sua eficiência durante a luta — foram construídos a fim de
possibilitar aos blindados cobrirem com seu fogo os fossos anticarros.
A luta ao longo da frente, durante o inverno, deu oportunidade ao Comando
Norte de colher certos ensinamentos e de chegar a algumas conclusões. Em
todos os combates de blindados que tiveram lugar, praticamente todos os
carros sírios engajados foram atingidos pelos tanques israelenses. No
segundo maior confronto que se verificou, os sírios introduziram o uso de
mísseis anticarros Sagger e conseguiram pôr fora de combate grande número
de carros israelenses. Essas lições foram rapidamente absorvidas: as forças
blindadas foram dotadas de morteiros, para fazer frente às tropas da
infantaria síria que operavam aqueles mísseis. Essas e outras medidas
provaram ser eficazes; de fato, praticamente não houve qualquer impacto por
mísseis por ocasião do terceiro e último round naquele inverno, apesar de
uma grande quantidade deles ter sido lançada (densas meadas de cabos-guias
de mísseis foram encontradas em torno das posições israelenses).
Assim, com a linha de frente aquietada após as lutas do inverno, o Golan se
achava ocupado pela Brigada do Distrito, com dois batalhões de infantaria
em linha, apoiados por quatro baterias de artilharia e pela Brigada de Carros
Barak, que tinha um batalhão desenvolvido em linhas e o outro em exercício
na retaguarda.
Após a Guerra de 1967, o Exército sírio, igualmente, tirara suas conclusões e
começara a pôr em prática as lições aprendidas, desenvolvendo um sistema
altamente concentrado de defesa anticarros, que se estendia desde a "Linha
Púrpura”, até Damasco. Fizeram realizar uma série de exercícios em alta
escala, culminando com uma grande manobra que vinha a ser uma amostra
exata do ataque desfechado por ocasião da Guerra do Yom Kippur. Os
observadores israelenses constataram que o treinamento sírio se concentrava
nos aspectos de construção de pontes sobre os fossos anticarros, no
rompimento de obstáculos e campos de minas e na abertura de uma brecha
principal. Tornava-se bastante claro que a totalidade da infantaria do
Exército sírio constituía-se, de fato, em um grande obstáculo anti-carro.
Dispunha-se de abundantes informes sobre o sistema de mísseis, e as
posições sírias, que se destinavam a bloquear a penetração israelense,
estavam articuladas em toda a linha de frente com carros de combate T-34
plantados em posições fixas. Além disso tudo, havia ainda uma intensa
concentração de canhões anticarros de 57 e 85mm, canhões de duplo efeito
de 100mm, desenvolvidos ao longo da linha em maciças fortificações, e
armamento anticarro distribuído a todas as unidades, desde o rojão anticarro
RPG, tipo bazuca, a nível de pelotão, aos mísseis anticarro, a nível de
brigada.
No princípio do verão de 1973, os sírios começaram a reduzir seus efetivos
na linha — uma inversão da prática até então observada, que exigia o
fortalecimento daquela linha durante os meses de verão. Os 800 blindados
sírios, que se defrontavam na linha com cerca de 60 carros israelenses, foram
reduzidos para 400, e as 80 baterias de artilharia, que se opunham às quatro
israelenses, foram diminuídas para 40. Em 11 de setembro, porém, as fotos
aéreas revelaram um novo fortalecimento da linha, elevando o efetivo de
carros para 550 (150 adicionais) e o de artilharia para 69 baterias.
No dia 13 de setembro, uma patrulha aérea israelense, que sobrevoava o
Mediterrâneo Oriental, na área do porto sírio de Latakia, entrou em combate
com caças sírios que tentavam emboscá-la. Nas lutas individuais que se
seguiram, 13 caças MiG foram abatidos pelos israelenses, que perderam
apenas um avião e cujo piloto foi recuperado. Conscientes de que tal ação
não ficaria sem uma resposta síria, dada sua longa experiência, o Comando
Norte adotou medidas de emergência como precaução.
Em 24 de setembro, o Gen Hofi compareceu a uma reunião no Estado-
Maior, quando foi apresentada uma avaliação da situação ao longo das
fronteiras pelo diretor de Informações e seus assessores. Quando partira de
seu Comando, levara consigo os resultados do reconhecimento aéreo daquela
manhã. Dessa vez, as fotografias revelavam que os sírios já se encontravam
desdobrados em dispositivos de emergência, com três divisões de infantaria
na linha de frente, cada uma com duas brigadas de infantaria em primeiro
escalão, juntamente com as brigadas de carros e a brigada mecanizada
divisionária. O efetivo havia sido elevado para 670 tanques e 100 baterias de
artilharia — aproximadamente o valor máximo que os sírios haviam
empenhado em emergências anteriores. Na conferência, o Gen Hofi levantou
a questão da situação ao longo da fronteira norte e fez ver que tudo indicava
não haver possibilidade de que recebesse um alarme antecipado na
eventualidade de um ataque. O Ministro da Defesa Dayan, presente à
reunião, mostrou-se visivelmente abalado pelas observações de Hofi e
solicitou explicações do Chefe do Estado-Maior acerca do que estava sendo
providenciado a respeito. Falou acerca da importância da construção de um
obstáculo artificial e foi informado a respeito dos campos de minas que
estavam sendo instalados ao longo dos fossos anticarros.
Às vésperas do Rosh Hashanah, o ano novo judaico, a 26 de setembro,
Dayan e Elazar visitaram as linhas de frente no setor das Colinas de Golan.
Os oficiaisque os acompanharam, inclusive Hofi, observaram que na área de
Kudne, apenas a 3km da fronteira e ao alcance dos morteiros israelenses de
81mm, havia uma concentração de artilharia média — uma clara indicação,
para qualquer observador militar, de uma intenção de atacar. O fato deu
origem a graves preocupações e o Estado-Maior ordenou que elementos da
7ª Brigada Blindada progredissem para as Colinas de Golan, onde foram
postos em reserva. Dayan, que estava acompanhado por representantes da
imprensa escrita e da televisão, concedeu uma entrevista em que deu um
aviso aos sírios. Naquele mesmo dia, foi declarada prontidão de emergência
na área do Distrito da Brigada, foram canceladas as licenças e, por sua
própria iniciativa, o QG da Brigada fez ativar os centros de mobilização, não
obstante o fato de que os ordens para fazê-lo viessem a ser recebidas
somente às vésperas do Yom Kippur, cerca de 10 dias mais tarde. O sistema
de mobilização foi testado, foram acelerados os trabalhos para a conclusão
dos fossos anticarros ainda em construção e foram instaladas milhares de
minas. Todo o sistema, que no passado tinha provado ser tão eficiente por
ocasião das conflagrações ao longo da fronteira, entrou suavemente em
funcionamento.
Na 3ª feira, 2 de outubro, um reconhecimento aéreo revelou que o efetivo
sírio havia subido para 800 blindados e 108 baterias de artilharia. Outro
reconhecimento, na 6ª feira, mostrou um aumento para além de 900 carros e
140 baterias de artilharia, e que os grupos de artilharia, com canhões de 130
e 152mm, se encontravam bastante avançados na linha de frente. Uma
brigada blindada adicional foi identificada no setor sul. Eram indícios
ameaçadores. Em todas as fases dessa escalada, o Serviço de Informações do
Comando Norte tinha observado que o segunda linha de defesa síria não
estava ocupada; tal fato conduzia a apenas uma conclusão: a intenção de
atacar. As duas divisões blindadas sírias estavam estacionadas em seus
acampamentos permanentes, em Katana e Kiswe. Em 2 de outubro, todas as
brigadas sírias de infantaria ao longo da linha, pela primeira vez, se
encontravam desdobradas, por completo, em suas posições de emergência.
Todo o sistema de mísseis terra-ar se encontrava com efetivos completos e
desenvolvido quase que paralelamente à rodovia Damasco-Sheikh Meskin.
Na 6ª feira, o Estado-Maior ordenou que o Exército permanente de Israel
fosse colocado sob o mais alto grau de alerta: o efetivo israelense em Golan
alcançava, agora, um total de 177 carros e 11 baterias de artilharia; o PC
avançado do Comando Norte foi deslocado para as Colinas de Golan; todas
as unidades de reserva receberam aviso para ficarem preparadas para
mobilização e as equipes de mobilização foram confinadas em seus
acampamentos, prontas para dar início aos trabalhos; o pessoal-chave foi
convocado de suas licenças. Todas as mulheres e civis mobilizados no
Exército foram retirados de Golan pelo Comando Distrital da Brigada, como
invariavelmente acontecia quando estavam por acontecer intensos duelos de
artilharia. A equipe do governo militar em Kuneitra foi reduzida, sendo
movimentado para a área um reforço de médicos e pessoal auxiliar. Foram
ultimados os planos para evacuação dos núcleos coloniais, apesar de
somente terem sido postos em execução no Yom Kíppur. Às vésperas desse
dia, 5 de outubro, o Distrito da Brigada informou sobre a progressão de
gigantescos comboios na direção da fronteira, mas não recebeu do Serviço
de Informações qualquer explicação precisa a respeito.
Ao alvorecer de 6 de outubro, o Gen Hofi foi chamado ao Estado-Maior, em
Tel Aviv, ocasião em que os oficiais-generais em comando foram informados
de que a guerra começaria naquele dia e que as ordens para mobilização
dependiam, apenas, de um entendimento com a Primeira-Ministra. Enquanto
isso, deveriam ser tomadas todas as medidas para assegurar o máximo grau
de afronto e de alerta para fazer frente à ameaça. A Força Aérea se
encontrava nos estágios finais de preparo e o Chefe do Estado-Maior
solicitara autorização para desfechar um ataque por antecipação contra a
Síria. Após o encontro, todos os generais comandantes entraram rapidamente
em contato com os seus PC, emitindo ordens preliminares. Hofi dirigiu-se
apressadamente, de carro, para o aeroporto, pelas quietas ruas de Tel Aviv,
onde tomou um avião para o Comando Norte.
Toda a frente do Golan foi colocada sob a máxima condição de alerta: as
fortificações tiveram seus efetivos aumentados para uma média de 20
homens em cada posição. A 7ª Brigada, que avançara para as Colinas de
Golan, estava concentrada na região de Nafekh. Foram dadas ordens para a
evacuação dos habitantes dos vilarejos, muitos dos quais se recusaram a ser
removidos. E assim, com o Exército sírio pronto para o ataque, o general
comandante do Comando Norte se via envolvido em acaloradas discussões
com os representantes dos vilarejos, que se recusavam a ser evacuados; por
volta do meio-dia começaram a se retirar e, ao anoitecer, todas as mulheres e
crianças já haviam abandonado a área.
Ao meio-dia, o Gen Hofi foi novamente chamado ao Estado-Maior, onde
chegou no momento em que o Gen Gonen, Comandante do Comando Sul, se
retirava de seu encontro com o Chefe do Estado-Maior. Apresentou um
relatório sobre os preparativos tomados por seu Comando e sobre o estágio
de execução da mobilização e submeteu seus planos para conter o ataque
sírio. Quando se despedia, a fim de coordenar diversos pontos com
elementos do Estado-Maior, chegou a notícia de que a guerra começara. Em
sua volta apressada para o Comando, soavam aos seus ouvidos os votos de
boa sorte de seus colegas. Levou consigo, como conselheiro aeronáutico, o
Gen Mordechai Hod, ex-comandante da Força Aérea, tendo deixado
instruções para que avisassem ao Gen Raful Eytan para vir reunir-se a ele.
Mal fizera um ano que Eytan assumira o comando da divisão nas Colinas de
Golan. Ele e Hofi haviam participado juntos de muitos combates, integrando
as forças de paraquedistas, e seu nome já era legendário em Israel. Pequeno,
nervoso, determinado, com feições rudemente talhadas, era um soldado em
cada centímetro de seu corpo. Por ocasião da campanha de 1956, saltara de
paraquedas à testa do seu batalhão sobre o Passo Mitla, no meio do Sinai, e
na guerra de 1967 conduzira sua brigada, do Grupo Divisionário Norte, do
Sinai até o Suez. Não conhecia o medo e inspirava confiança aos homens
que comandava. Muito apropriadamente, esse intrépido lutador treinara com
o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA em Quantico, Virgínia.
* * *
A 6 de outubro, o Exército sírio se achava desdobrado com três divisões de
infantaria nas linhas de frente. Cada uma estava composta por duas brigadas
de infantaria, uma de carros de combate e outra mecanizada. A 7ª Divisão,
com as 68ª e 85ª Brigadas de Infantaria, mantinha o setor setentrional, de
Kuneitra para o norte; a 9ª Divisão, com as 52ª e 33ª Brigadas de Infantaria,
sustentava o setor central, de Tel Hara até Kuneitra; e a 5ª Divisão, que
compreendia as 112ª e 61ª Brigadas de Infantaria, estava em posição na linha
de frente, de Rafid até Yarmouk. Em cada brigada de infantaria, havia um
batalhão com cerca de 30 carros de combate, enquanto que a brigada
mecanizada dispunha de um batalhão de carros e dois batalhões de infantaria
blindada. Essas três divisões totalizavam, na linha de frente, 540 carros de
combate; as duas divisões blindadas, à sua retaguarda, dispunham de 460
carros. A Guarda Republicana, com efetivo igual ao de uma Brigada,
destinava-se à proteção do regime, em Damasco, e estava equipada com os
mais modernos tanques soviéticos T-62. Em posição na linha havia, ainda,
duas brigadas de carros de combate e cerca de outros 200 fixos, o que
elevava o total dos carros diretamente empenhados para aproximadamente
1.500.
O Exército israelense sempre acreditara que o principal esforço dos sírios
seria dirigido contra Kuneitra, dado que sua conquista daria grande prestígio
a eles e abriria, além disso, a rota principal para a Ponte BnotYa’akov e para
Israel. A passagem Rafid, a oeste do entroncamento com o mesmo nome,
com suas vastas e desimpedidas planuras, se constituía num acesso natural
para os blindados e era considerada como o segundo objetivo do
planejamento sírio. Esse ponto-de-vista era fortalecido pelo fato de que as
concentrações da artilharia média e pesada sírias estavam dirigidas,
primordialmente, para a área da ponte principal em Bnot Ya’akov; 60% das
baterias sírias, que haviam sido identificadas, estavam concentradas defronte
do setor Norte das Colinas. Essas eram as razões principais da estimativa de
Hofi, pela qual o ponto de ruptura mais provável viria a ocorrer na área de
Kuneitra, daí decidir desdobrar a 7ª Brigada no setor setentrional, para o
norte de Kuneitra, deixando o setor sul a cargo da Brigada Barak.
Numa reunião ocorrida na 4ª feira, 3 de outubro, haviam sido discutidos os
vários acessos abertos ao inimigo. Raful Eytan indagou o que sucederia se o
inimigo atacasse com um efetivo de duas divisões através da Passagem
Rafid. Não obteve qualquer resposta. Ao deixar a sala, no final do encontro,
um comandante de brigada sorriu complacentemente em sua direção e
comentou com um colega que Raful, na verdade, nunca conseguira passar de
um simples comandante de batalhão. A história viria a dar razão a Eytan.
* * *
O 4º Batalhão, um dos batalhões regulares da Brigada Barak, estava na linha
de frente havia meses, quando a guerra começou. Seus carros se achavam
desdobrados por pelotões de três carros cada, ao longo do setor e
escalonados em íntimo apoio às fortificações, de modo a poderem fazer
frente a qualquer irrupção inimiga entre elas.
Em 13 de setembro, após o incidente da derrubada dos 13 aviões sírios, o
batalhão foi colocado em estado de alerta. Suas unidades avançadas e as
fortificações que apoiavam informavam diariamente acerca do
fortalecimento da linha avançada síria e das crescentes concentrações de
artilharia. Observavam o avanço progressivo do sistema sírio de mísseis
antiaéreos destinado a cobrir, gradualmente, toda a área entre Damasco e o
sul de Golan. Com base em suas experiências, previram o perigo:
aumentaram a frequência dos reconhecimentos e prepararam os planos para
os costumeiros duelos de artilharia e escaramuças de carros de combate. Ao
se aproximarem os Grandes Dias Santificados, tornou-se claro que deveriam
passá-los sob um alto estado de alerta. Por ocasião do Rosh Hashanah, 27 de
setembro — quando as Colinas de Golan pululavam com o tráfego dos
turistas e milhares de excursionistas, em centenas de veículos,
congestionavam as estradas —, passaram o dia colocando minas. Durante os
dez dias entre Rosh Hashanah e Yom Kippur, o batalhão e outros efetivos
situados na linha melhoraram suas posições, colocaram minas, prolongaram
o fosso anticarros e observaram e informaram sobre a concentração das
forças sírias.
Em 5 de outubro, às vésperas do Yom Kippur, o comandante do batalhão,
Ten Cel Yair, recebeu ordem para cancelar todas as licenças; chegaram
reforços que elevavam a presença da artilharia israelense nas Colinas de
Golan para um total de 11 baterias. O setor norte, até Tel Hazeika, cerca de 6
a 7km ao sul de Kuneitra, na rodovia fronteiriça, estava ocupado pelo 4º
Batalhão e por uma companhia do 5º Batalhão, alcançando um total de 32
carros de combate; o setor meridional, de Tel Hazeika para o sul, estava
sustentado por duas companhias do Batalhão de Yair e por uma companhia
do 5º Batalhão, totalizando outros 40 carros. O PC do Batalhão de Yair fora
instalado em Kuneitra, enquanto que o do 5º Batalhão estava em Juhader,
cerca de 6,5km a SO da Passagem de Rafid; o PC da Brigada Barak estava
localizado em Nafekh. Durante o dia, voluntários do movimento Habad, uma
seita ortodoxa hassídica, conhecida pela sua alegre visão otimista e religiosa
da vida e dedicada a uma zelosa atividade missionária entre seus camaradas
judeus, invadiram todas as fortificações a fim de organizar as preces e o
jejum no dia mais santificado do ano judaico — o Dia do Perdão.
Sentindo que "algo de importante estava por acontecer”, Yair, um oficial de
blindados, alto, afeiçoado e dedicado a seus homens, visitou, nas primeiras
horas do Yom Kippur, as fortificações e unidades a elas ligadas, preocupado
com os problemas que a proporção de forças poderia ocasionar, caso
irrompessem as hostilidades. Os missionários do Habad haviam alcançado
sucesso em seus esforços e, para sua surpresa, Yair encontrou todas suas
tropas, inclusive os elementos não-religiosos, absorvidos em jejum e
orações: “No Rosh Hashanah está escrito, e no Dia do Jejum do Perdão está
determinado quantos morrerão e quantos nascerão; quem deverá viver e
quem deverá morrer; aqueles cujo tempo estipulado está findo e aqueles cujo
tempo não findou " Escutou e pôs-se, também, a meditar. Reuniu-os, então,
para explicar-lhes os acontecimentos e pedir-lhes que interrompessem o
jejum, recordando-lhes que os sírios invariavelmente iniciavam um dia de
combate às 14 horas, o que lhes dava tempo suficiente para desfechar o
ataque inicial, ao mesmo tempo que reduzia as possibilidades de um forte
contra-ataque israelense. Caso as hostilidades fossem iniciadas àquela hora,
teriam, de fato, chegado quase ao fim do período de jejum e, caso insistissem
em continuá-lo, viriam, em última instância, a pôr em risco seus camaradas.
Tornando claro que não poderia dizer-lhes quando teriam a próxima refeição,
aconselhou-os a comer e ordenou-lhes que aprontassem seus equipamentos
para o combate.
Quando chegou em Kuneitra, recebeu um telefonema do comandante da
brigada ordenando que se preparasse para suportar pesado fogo de artilharia
— os sírios estavam removendo as redes de camuflagem de suas peças. Yair
ordenou que os carros de combate estacionados em Kuneitra se
dispersassem; era evidente que o dia inevitável da luta começara. A julgar
pelos preparativos no lado inimigo, teriam que enfrentar alguns dias de
bombardeios pela artilharia e de lutas de blindados. Transmitiu a palavra de
código a todas unidades e ordenou que avançassem para as posições já
preparadas e abrissem fogo contra o inimigo em avanço. Em seguida, rumou
com o seu carro para o local conhecido como “Booster”, ao norte de
Kuneitra e ao sul do pico dominante de Hermon. Quando galgava a
elevação, pareceu-lhe que “o mundo vinha abaixo”: enquanto aviões
mergulhavam sobre suas forças, bombardeando e metraIhando, e a frente, até
onde a vista podia alcançar, tornava-se uma só linha de fogo, com nuvens de
fumaça e de poeira se elevando, o mais intenso fogo de artilharia, que jamais
vira, desabava sobre as posições israelenses ao longo de toda frente. Aviões
em voo picado, a baixa altura, despejavam uma chuva de metralha e
deixavam cair suas bombas ao saírem dos mergulhos. Através da planície
aberta, podia ver, a distância, uma vaga de blindados sírios que avançavam
como uma horda de formigas. Apressadamente, gritou ordens à sua artilharia
de apoio para que entrasse em posição e abrisse fogo contra as concentrações
sírias. Na sua habitual maneira rápida de falar, mas tentando dominar a voz,
ordenou que seus carros abrissem fogo e desejou boa sorte aos rapazes.
Granadas começaram a explodir em torno do seu carro; ocorreu-lhe, então,
que iriam ter um dia de luta extremamente pesada.
A 7ª Brigada é uma das unidades mais renomadas das Forças de Defesa de
Israel. Nascida em 1948, no campo de batalha de Latrun durante a luta
contra a Legião Árabe, quando os israelenses lutavam desesperadamente
para abrir caminho até a sitiada Jerusalém, participara mais tarde dos
vitoriosos combates com que o Exército israelense, em embrião, limpara a
Galileia dos exércitos regulares e irregulares árabes. Durante a Campanha do
Sinai, em 1956, a 7ª Brigada, sob o comando do Cel Uri Ben-Ari, irrompera
através das linhas árabes no setor central fronteiro a Abu Agheila e, lutando,
abrira o seu caminho através do Sinai até o Canal de Suez; na Guerra de
1967, sob o comando do Cel Shmuel Gonen, tomara de assalto as linhas
egípciasem Rafiah, participara do embate principal em Jiradi, na
aproximação de El Arish e rompera, novamente, seu caminho através do
Sinai até o Canal. Era a unidade de elite das forças blindadas.
Cinco semanas antes da guerra, por motivo do 25º aniversário de Israel e da
brigada, todas as gerações de seus integrantes haviam se reunido em Latrun
para rememorar sua história. Mal poderia prever seu comandante, o Cel
Avigdor, um oficial alto, magro, de aparência aristocrática, ao encontrar-se
naquela noite com a Primeira-Ministra e os milhares de seus antigos
componentes, no anfiteatro em Latrun, que dentro de poucas semanas a
unidade estaria engajada em uma luta de vida ou morte, a fim de defender o
país cujo aniversário estava sendo comemorado.
A brigada estivera envolvida em muitos dos incidentes ocorridos nas Colinas
de Golan e na fronteira libanesa, e a maioria dos seus oficiais estava bastante
familiarizada com o terreno. Às vésperas do Rosh Hashanah, quando a
tensão se avolumou, a brigada recebeu ordens para deslocar um batalhão
para as Colinas, a fim de reforçar a Brigada Barak. Baseado no que conhecia
dos acontecimentos, Avigdor fez o seu próprio estudo de situação e,
evocando o acontecido em períodos semelhantes nos anos anteriores, chegou
à conclusão de que algo deveria acontecer por ocasião do Yom Kippur. Sua
experiência dizia-lhe que, toda vez que nos anos anteriores havia ocorrido
atividades inimigas que exigiram uma reação imediata, sempre dispuseram
de um pequeno espaço de tempo para os preparativos. Resolveu, então, que a
sua brigada não seria colhida de surpresa.
Ordenou a seus artilheiros que reconhecessem as Colinas de Golan para
estudarem o terreno e que preparassem seus objetivos e tabelas de tiro;
convocou os comandantes de batalhões e com eles recapitulou todo o
planejamento operacional que, por diversas vezes, haviam desenvolvido nas
reuniões do Comando Norte. Por sua própria iniciativa e sem notificar seus
superiores, realizou, durante todo um dia, o reconhecimento da linha de
frente com seus comandantes de batalhões e membros do Estado-Maior:
realizaram observações, estudaram o terreno e reformularam os planos. Dez
dias mais tarde, um dos planos operacionais que haviam debatido naquela
ocasião viria a ser executado, quando a brigada liderou o contra-ataque na
Síria.
Ao meio-dia da 6ª feira, 5 de outubro, receberam ordens para que entrassem
no máximo estado de prontidão para avançar. Avigdor sentiu-se aliviado,
uma vez que, em inteligente antecipação, havia feito deslocar parte do seu
PC avançado para Golan. Via, agora, justificada sua previsão: algo de muito
grave estava por acontecer, e sentia que a brigada se achava empenhada
numa corrida contra o relógio. Um tráfego de tremenda intensidade
começava a congestionas as estradas, à medida que tropas, veículos e
munição começavam a ser encaminhados para os centros de mobilização.
Durante toda aquela noite, os batalhões que haviam se deslocado para o
norte prepararam os carros de combate que haviam recebido das forças de
reserva, armando-os e equipando-os; naquela noite, o 2º Batalhão progrediu
até Sidiana, nas Colinas de Golan, cerca de 1,5km a leste do entroncamento
de Nafekh-Tapline, enquanto que o 7º tomava posição na rodovia Nafekh-
Wasset. Na manhã de sábado, o 1º Batalhão avançou e por volta das 12 horas
estava em posição na encruzilhada de Wasset. A 7ª Brigada estava, agora,
concentrada na área de Nafekh.
Às 10 horas da manhã do sábado, Avigdor reuniu-se aos comandantes de
brigada numa conferência realizada com o Gen Hofi, quando foram
informados de que os sírios, conforme informações recebidas, tencionavam
desfechar o ataque naquele mesmo dia; julgava-se que o ataque teria início
por volta das 18 horas. À brigada foi atribuída a função de força de reserva
nas Colinas, na área de Nafekh; deveria estar preparada para partir para o
contra-ataque, seja no setor norte, seja no sul, ou para dividir-se em dois
corpos e dar apoio a ambos os setores. Avigdor dirigiu-se por terra para o 2º
Batalhão, em Sindiana, e lá convocou os oficiais da brigada, de comandantes
de companhia para cima. Informou-os que a guerra era iminente e desceu a
detalhes a respeito das atribuições de cada força. Afortunadamente, já há dez
dias, desde Rosh Hashanah, vinham preparando os planos para esse
momento. A brigada se encontrava pronta para a guerra.
Convocou uma reunião do Estado-Maior para as 14 horas, crendo que isso
daria tempo para que o 1º Batalhão, que acabara de chegar, se organizasse.
No momento em que se reuniam à espera de Avigdor, fez-se ouvir o
agourento zumbir dos aviões. Antes que compreendessem o que acontecia,
uma explosão ensurdecedora sacudiu o acampamento; aviões em mergulho
metralhavam e bombardeavam e um intenso fogo de artilharia era despejado
sobre a posição. Não se realizou a reunião do grupo de operações: os
comandantes de batalhões correram para suas unidades e Avigdor retirou seu
PC avançado da região sob o fogo dos aviões e das granadas de artilharia,
esperando concluir sobre o rumo do combate antes de emitir suas ordens.
Uma hora mais tarde, recebeu ordem para se deslocar para o setor norte, na
área de Kuneitra, e para transferir o 2º Batalhão para o setor sul sob o
comando da Brigada Barak. A 7ª Brigada, com dois batalhões de carros, era
agora responsável pelo setor setentrional da área geral de Kuneitra para o
norte.
Avigdor vivera sob a obsessão de manter uma reserva, por menor que fosse,
e, assim, se pôs a formar um terceiro batalhão de carros de combate.
Transferiu uma companhia de um dos batalhões e colocou-a sob o comando
do seu batalhão de infantaria blindada, criando, assim, com os carros, o
arcabouço de um terceiro batalhão. À medida que mais carros lhe eram
enviados, o novo batalhão, aos poucos, se tornava uma verdadeira unidade
de carros de combate: para manobras, dispunha, agora, de três peões.
Recebeu, sob o comando do Cel Yair, o 4º Batalhão, que se encontrava na
linha junto às fortificações do setor norte das Colinas de Golan. Incluindo os
carros de combate do batalhão de Yair, a brigada entrou na guerra com cerca
de 100 carros, que Avigdor desenvolveu da seguinte forma: o 1º Batalhão
ocupou posição desde a fortificação A-l, na “Linha Púrpura”, a leste de
Masadah, nos contrafortes do Monte Hermon, cerca de 6,5km ao sul do
Monte Hermonit; a área entre essa elevação, na direção sul, até a crista
"Booster”, que dominava Kuneitra pelo norte, foi confiada ao 5º Batalhão.
* * *
A Brigada Barak era uma unidade regular, blindada, do Comando Norte.
Fora aperfeiçoada como eficiente instrumento de guerra, como resultado de
anos de operações de segurança ao longo da fronteira e de outras importantes
atividades, entre as quais a invasão do Líbano até o rio Litani, em setembro
de 1972, em retaliação às atividades terroristas, um feito que trouxera um
período relativo de paz naquela fronteira. A brigada também participara
ativamente das escaramuças que convulsionaram a frente síria em dezembro
de 1972 e janeiro de 1973. Na realidade, tinha estado constantemente em
ação desde a Guerra dos Seis Dias, inclusive em uma operação de
envergadura montada contra os sírios em junho de 1970. Era uma força
eficiente, altamente profissionalizada e perfeitamente familiarizada com o
terreno sobre o qual se encontrava às vésperas de combater. Seus efetivos
sustentavam a linha no setor norte, juntamente com o 4º Batalhão
comandado pelo Ten Cel Yair e o 3º, pelo Ten Cel Oded, no setor sul. No dia
do Rosh Hashanah, quando a tensão aumentou, o 7º Batalhão da 7ª Brigada
foi deslocado para as Colinas de Golan, como reserva da Brigada Barak.
O Maj Dov, Oficial de Informações da brigada, durante o período de tensão
subsequente aos reconhecimentos do dia Rosh Hashanah, se ocupava
observando e informando sobre o aumento dos efetivos sírios e as crescentes
concentrações e efetuando frequentes reconhecimentos na linha de frente.
Ao anoitecer da 6ª feira, o Estado-Maior da Brigada Barak reuniu-se com o
seu comandante, Cel YitzhakBen Shoham. Receberiam um aviso antecipado
de um ataque sírio iminente, ou seriam colhidos de surpresa? Dov mantinha
a opinião de que os sírios poderiam movimentar-se e colher toda a unidade
de surpresa. O subcomandante da brigada, Ten Cel David Yisraeli, não
concordou, crente de que poderiam contar com algum alerta antecipado.
Na manhã do dia 6, o Estado-Maior da brigada visitou a linha de frente e, às
13 horas, se reuniu com o comandante em Nafekh. Foram dadas ordens para
a mobilização das reservas, já que entenderam que naquele entardecer “algo
poderia acontecer”. Apesar de ainda não pensarem em termos de uma guerra
total, foram dadas ordens para que fossem postos em execução os
procedimentos operacionais da brigada para guerra. O Gen Hofi foi
convocado pelo Chefe do Estado-Maior, ficando, então, no comando da área
o Cel Ben Shoham, oficial mais antigo da unidade.
Às 13:50 horas foi desencadeado, sobre o QG da brigada, um ataque aéreo e
de artilharia. O comandante deu ordens para que todas as forças ocupassem
as posições de tiro, mas que contivessem seu fogo. Às 14 horas foram
avisados que 12 carros sírios estavam atravessando a linha, em direção à
Masadah, entre as fortificações Al e A2, as duas posições israelenses mais
setentrionais. Um pelotão de carros de combate do 4º Batalhão, de Yair,
interceptou-os quando tentavam transpor o fosso anticarro.
Simultaneamente, carros de combate e infantaria atacavam a fortificação A3,
na rodovia principal para Damasco, enquanto que da área de Kudne chegava
a informação de que estavam sendo atacados por um batalhão com cerca de
40 carros. Ben Shoham acionou as reservas do 4º Batalhão, que destruíram
as forças sírias no setor norte, entre as posições Al e A2. Ordenou, então,
que essa mesma companhia progredisse na direção sul e atacasse uma força
de 20 carros que engajava a fortificação A3. A progressão dos 40 blindados
na área de Kudne estava sendo detida.
* * *
As 14:45 horas, a posição israelense no Monte Hermon informou que se
encontrava sob pesado bombardeio. Haviam sofrido diversos impactos e
tinham avistado um helicóptero inimigo en ronte para o local.
Quando, em junho de 1967, as forças de Israel se haviam estabelecido pela
primeira vez em um dos picos do Monte Hermon, a uma altitude de
aproximadamente 2.010m, tornou-se evidente a importância dessa posição,
de onde eram visíveis os territórios adjacentes da Síria, Israel e Líbano. Os
aficionados israelenses de excursões puseram-se a desenvolver condições
para a prática de esqui no local, tornando possível o acesso por carro entre
dois pontos em apenas uma hora: o de esquiagem na neve no Monte
Hermon, e o da prática de esqui-aquático, no Mar da Galileia, abaixo do
nível do mar. Foi construída uma estrada de acesso, bem como um teleférico,
para satisfazer aos milhares de entusiastas por patinação que acorriam a esse
novo local. Mas não era isso que interessava às Forças de Defesa de Israel
(IDF). Daquela posição, num dia límpido, era possível avistar Haifa, a oeste,
e Damasco, a capital síria, a leste. Não só proporcionava um excelente ponto
de observação como, também, eram bastante evidentes as óbvias vantagens
que apresentava como posto para radar e local para a instalação de um
sensível equipamento eletrônico.
Assim, foi construída uma posição importante, um verdadeiro acampamento,
para abrigar alguns dos equipamentos mais secretos e sensíveis das IDF.
Toda a planície síria ao longo da “Linha Púrpura’’ estava sob a visão total
das tropas que guarneciam a elevação. Havia postos de observação na
própria fortificação e no patamar superior do teleférico. Diariamente, o
oficial observador avançado de artilharia informava sobre o aumento do
número das baterias de artilharia e sobre os outros objetivos que
pontilhavam a planura abaixo — toda a concentração das forças sírias estava
ali para ser vista pelos observadores israelenses do Monte Hermon. A
fortificação destacava-se como uma torre atarracada sobre o pico. Fora bem
construída, mas o sistema superior de fortificações, sobre a construção
inferior, não estava ainda concluído. Eram visíveis os sinais de negligência:
o portão principal da posição fora avariado e pendia frouxamente, sem
reparos, das duas dobradiças; não haviam sido abertas trincheiras de
comunicação em volta da fortificação principal. Uma guarnição composta
por um oficial e 13 homens fora destacada para sua defesa.
No Yom Kippur, encontrava-se na posição um efetivo de 55 homens, entre
os quais a seção de defesa da Brigada Golani. Incluía pessoal da Força Aérea
e de Informações para operar o equipamento eletrônico, além do efetivo
regular, necessário para a manutenção da posição. O Comando Norte nunca
considerara a possibilidade da posição vir a constituir alvo de um forte
ataque sírio, visto não estar sobre um eixo principal de progressão; poderia
apenas ser alvo de incursões aéreas rotineiras. As fortificações haviam sido
construídas de modo a poderem suportar o fogo de artilharia e os
bombardeios da Força Aérea, mas o sistema de trincheiras, que permitiria à
infantaria combater eficientemente, não fora concluído.
Na manhã da 6ª feira, 5 de outubro, as tropas na posição viram, ao despertar,
desenvolvido na planura abaixo, um vasto efetivo de blindados e de
artilharia sírias. Informaram sobre a ocorrência e continuaram suas tarefas
rotineiras. Tendo recebido instruções para que se mantivessem em alerta, ao
anoitecer, após as preces na pequena sinagoga, entraram na casamata
principal e fecharam as pesadas portas de aço. Na manhã do Yom Kippur os
postos de observação foram guarnecidos como habitualmente: os
reconhecimentos de rotina ao longo das vias de acesso foram realizados;
contudo, muitos soldados permaneceram orando na sinagoga.
À tarde, às 13:45 horas, diversos oficiais, inclusive o oficial comandante e
outro, de artilharia, conhecido por “Bambi”, avistaram o grosso das forças
sírias na planície embaixo. “Veja!” Gritou Bambi. “Estão retirando as redes
de camuflagem dos canhões!” Nesse preciso momento, os primeiros
impactos atingiram a posição e o grupo que guarnecia o posto de observação
desapareceu com a explosão. Todos os soldados concentravam-se no saguão
central da casamata, escutando as centenas de bombas que explodiam em
torno. O comandante do pelotão e o sargento encarregado dos morteiros
subiram ao posto de observação, mas os estilhaços das granadas tornavam
impossível continuar ali, sem abrigo, e viram-se obrigados a retornar.
As 14:55 horas, receberam um aviso de que quatro helicópteros carregados
com elementos de um batalhão de comandos sírios se aproximavam do
patamar superior do teleférico, aproximadamente a 1.660m da posição; um
deles explodiu no ar, mas os três outros pousaram, descarregaram os
soldados e trocaram tiros com os elementos dos postos de observação no
patamar (que conseguiram escapar para o nível inferior pela pista de
patinação). Inesperadamente, o sentinela da posição de Hermon avisou que
as forças sírias, em duas colunas, invadiam o recinto da fortificação
israelense. Duas metralhadoras haviam sido atingidas quando do bombardeio
e se achavam fora de ação; restava uma outra e um fuzil automático, mas
toda a guarnição dispunha de submetralhadoras Uzi. Os israelenses
começaram a atirar e alguns atacantes sírios foram atingidos. Alguns dos
elementos pertencentes aos serviços, que se viam pela primeira vez sob o
fogo, aterrorizados procuraram abrigo no interior da casamata, e os pedidos
dos que lutavam para que viessem em seu auxílio ficaram sem resposta
Um após outro, mortos ou feridos, começaram a cair os defensores: em certo
momento, seis soldados israelenses engajavam pelo menos cem comandos
sírios. Quem quer que levantasse a cabeça, por poucos segundos, era
atingido pelos franco-atiradores. A luta prolongou-se por 45 minutos e, sob o
fogo mortífero, os seis defensores recuaram para o vestíbulo da casamata.
Bloquearam todas as entradas e reuniram-se na sala dos filtros de ar; estava
tomada pela poeira, e era quase impossível verem-seuns aos outros. A única
maneira com que conseguiam respirar era cobrindo seus narizes com panos
embebidos em urina. Ouviam as explosões das granadas lançadas pelos
sírios à medida que estes conquistavam posição por posição. A fumaça das
granadas fumígenas ondulava pela sala e os israelenses começaram a não
poder respirar. Davi Nachliel recorda que decidiram rastejar até uma das
trincheiras internas de ligação da casamata, na esperança de poderem
escapar (naquele momento 20 dos 55 homens da guarnição já se
encontravam lá). O comandante da posição, o oficial de artilharia, Bambi e
Nachliel esperavam tensos os atacantes: três sírios se aproximaram; os
israelenses, à espera, lançaram uma granada, fazendo com que recuassem
apressadamente. Nesse instante, compreenderam que a situação parecia sem
esperanças: alguns dos defensores dispunham apenas de uma carga para sua
Uzi. O gerador fora atingido e eles sentaram-se no escuro, sem qualquer
possibilidade de comunicação com o exterior e isolados dos seus camaradas
da posição, à espera de que chegassem reforços.
As horas escoavam e o grupo, sentado no escuro e no mais completo
silêncio, aguçava os ouvidos à escuta dos sons do outro lado da porta. Já
eram 21:00 horas e era evidente para os oficiais que o único modo de salvar
a tropa seria abandonando a trincheira de ligação e irrompendo para fora da
posição, nessa altura já cercada pelos comandos sírios. Lentamente,
dirigiram-se pela trincheira até o equipamento de radar destroçado, à frente
da posição, e desceram, então, um a um, para fora da fortificação.
Procurando não respirar, esgueiraram-se, sob a escuridão, ao longo das
posições sírias. Nachliel lembrou-se de uma falha na cerca que envolvia a
fortificação e conduziu os demais naquela direção. Cerca de 20m à frente
avistaram três soldados sírios que, felizmente, não perceberam quando se
esgueiravam. Transpuseram a cerca e avançaram rapidamente na direção da
área ocupada pelos atacantes. Por cerca de uma hora e meia deslocaram-se
em silêncio, espreitando para trás, onde explosões de granadas demoliam o
local que haviam abandonado. Quando, encobertos pela escuridão, passavam
pelo patamar superior do teleférico, foram surpreendidos por um mortífero
fogo de metralha que lhes era dirigido de uma distância aproximada de
230m. (Os sírios haviam instalado três emboscadas ao longo do caminho que
levava ao teleférico, a fim de surpreender qualquer viatura que acorresse
com reforços). O grupo israelense achatou-se contra o terreno, pois, para
enfrentar esse ataque, cada um deles dispunha de uma submetralhadora Uzi
com um único carregador.
Nachliel compreendeu que as perspectivas se tornariam bastante delicadas,
caso continuassem no local. Acionando sua metralhadora da altura da
cintura, correu como um desatinado diretamente ao encontro da emboscada;
continuou correndo e, cerca de 120m à frente, encontrou-se com dois outros
elementos do grupo. Subsequentemente, reuniu-se a eles o comandante;
continuaram na corrida e foram de encontro à nova emboscada, onde foram
atacados com granadas. Esgueiraram-se velozmente e desceram a encosta até
atingirem um ângulo morto. Ao descerem correndo a estrada, identificaram
três carros de combate israelenses que se movimentavam na sua direção, um
dos quais rompeu fogo contra eles antes que pudessem se identificar. Ao
amanhecer, chegaram outros membros do grupo, alguns gravemente feridos.
Dos 55 que guarneciam a posição de Hermon no Yom Kippur, apenas 11
conseguiram escapar; os restantes, ou foram mortos (entre os quais Bambi,
abatido em uma das emboscadas) ou aprisionados pelos sírios.
No dia seguinte, o Gen Hofi ordenou que fosse montado um contra-ataque,
mas, devido à intensa luta em toda a frente, resolveu que fosse adiado. No
domingo, um dos que haviam escapado informou que existiam, ainda,
companheiros vivos na posição do Hermon e que a luta continuava. Hofi
determinou, então, que algumas unidades da Brigada Galani
reconquistassem a fortificação, porém os sírios estavam à espera ao longo da
estrada que levava à posição: os israelenses atacaram e foram repelidos com
uma baixa de 22 mortos e 50 feridos.
Os sírios iniciaram a desmontagem do equipamento e, poucos dias depois,
chegaram de helicóptero ao local alguns conselheiros soviéticos.
Examinaram minuciosamente o material e, quando verificaram o valor da
presa que haviam conquistado, abraçaram alegremente os soldados sírios.
* * *
Durante anos, os sírios tinham se preparado para esse momento. Haviam se
exercitado meticulosamente sobre terreno similar ao que deveriam transpor,
desenvolvendo, repetidamente, exercícios que eram, total ou parcialmente,
réplicas dos diversos componentes do ataque desfechado no Yom Kippur.
Treinaram a construção de pontões a fim de transporem os fossos anticarros;
repetidas vezes, em seus exercícios, capturaram elevações vulcânicas.
Abriram caminho através de campos minados e transpuseram obstáculos,
consumindo parte da grande quantidade de equipamento soviético que
continuava afluindo da URSS. Observaram as esparsas posições israelenses
que sustentavam a linha e se aproveitaram das lições adquiridas durante as
escaramuças, que no decorrer dos anos haviam sustentado ao longo da
frente. Não lhes passara desapercebido o fato de que os dispositivos
israelenses estavam concebidos para fazer frente aos irrompimentos
esporádicos de escaramuças, que por vários anos tinha caracterizado a
situação ao longo da fronteira. Unidades de reconhecimento transpunham a
linha com regularidade e anotavam os preparativos israelenses: as posições
dos PC eram anotados nos mapas; foram cuidadosamente registrados os
procedimentos israelenses que eram repetidos nos momentos de tensão.
Assim como os egípcios, os sírios tinham consciência da qualidade das
forças combatentes de Israel e muito rapidamente chegaram à conclusão de
que essa vantagem somente poderia ser sobrepujada pelo peso do número.
Assim, nos seis anos transcorridos desde a Guerra de Seis Dias, as forças
blindadas do Exército sírio foram aumentadas cerca de cinco vezes, tendo o
número de carros de combate fornecidos pela URSS alcançado a quase dois
mil. Esse potencial estava apoiado por uma Força Aérea, com cerca de 350
aviões de primeira linha, e por um sistema de mísseis soviéticos
(apressadamente fornecido nos meses anteriores ao Yom Kippur), sendo
concebido para neutralizar os efeitos do poderio aéreo israelense. Foram
introduzidos os mísseis Frog, com um alcance em volta de 88km, que davam
aos sírios possibilidade de engajar objetivos civis em profundidade, através
das linhas, sem empenhar sua Força Aérea. Todas essas medidas se achavam
rematadas pelo ódio cruel e extremo fanatismo que caracterizavam as forças
sírias e que tinham gerado um clima de intransigência que superava todos os
extremismos encontrados nas demais frentes árabes.
Enquanto a força invasora se concentrava na planície síria, eram feitos todos
os esforços para ocultar o verdadeiro propósito da operação. De fato,
somente na manhã de 6 de outubro foram baixadas ordens aos comandantes
de batalhões avisando que a hora “H” para o ataque seria às 15 horas daquele
dia (14 horas pelo horário israelense). Os comandantes de companhia seriam
avisados às 13 horas, enquanto os comandantes de pelotão somente às 14
horas — uma hora antes do momento em que deveriam entrar em ação.
Bastante significativo era o fato de que as ordens interceptadas mais tarde
pelos israelenses incluíam instruções para que fossem apreendidos todos os
receptores em poder dos soldados. O plano sírio era relativamente muito
simples. Enquanto suas forças se concentravam nas áreas avançadas de
Golan, foram transmitidas instruções avisando que as forças israelenses se
achavam desdobradas para atacar o Exército sírio. As ordens especificavam
o desenvolvimento defensivo das forças sírias e planos detalhados para o
desfecho de uma contraofensiva, caso se verificasse um ataque israelense.
As forças sírias movimentaram-se para a ação de acordo com a doutrina
soviética,que lhes fora instilada no decorrer dos anos. As brigadas de
infantaria, apoiadas pelos seus batalhões orgânicos de carros de combate e
pela infantaria blindada, irromperam pela linha de frente visando conquistar
o primeiro bolsão e assim permitir que as brigadas blindadas das divisões de
infantaria ultrapassassem as forças de infantaria. O ataque foi desenvolvido
ao longo de toda a frente e, contrariamente às previsões israelenses, mas
como Eytan sugerira, o ponto principal do irrompimento verificou-se na
Passagem Rafid, com a 5ª Divisão síria na vanguarda. A Passagem de
Kuneitra foi atacada pela 7ª Divisão síria, que penetrou pelo norte da
posição, e pela 9ª, que atacou pelo sul.
Um plano detalhado e minucioso fora elaborado pelos comandantes das
várias formações e unidades para a organização dos postos de observação ao
longo da linha, a fim de que não despertasse a mínima suspeita: ordenaram a
todos os oficiais superiores que retirassem as insígnias de seus postos
quando nas proximidades da linha de frente; todos os documentos relativos
ao ataque deveriam ser redigidos a mão pelos próprios comandantes (de
brigadas, chefes de Estados-Maiores das brigadas, da artilharia de apoio e de
batalhões). Toda a área foi interditada para pessoal não autorizado. As
instruções referentes à camuflagem tornaram-se mais severas e qualquer
movimentação deveria ser realizada somente à noite, sem luzes e com o
mínimo de ruídos. Durante o dia, todas as unidades deveriam se esconder
nos abrigos e se ocultarem das vistas do inimigo israelense; deveriam ser
estocados, de antemão, todos os alimentos de reserva quando atingissem a
área da linha de partida, a fim de eliminar as desnecessárias atividades de
suprimento. A rotina normal da linha de frente deveria ser mantida, de modo
a infundir nos israelenses um falso sentimento de segurança.
Ostensivamente, toda essa atividade destinava-se a enfrentar um esperado
ataque israelense, mas os planos das rotinas (que tornavam claro estar sendo
preparado o desfecho de um contra-ataque) constituíam, na realidade, o
plano de ataque sírio. A 1º de outubro, a seção de orientação política do
Exército baixou uma circular avisando que Israel espalhava rumores acerca
da intenção síria de atacá-lo. Os oficiais de orientação foram instruídos para
ficarem preparados para lhes dar o devido desconto e ressaltar que tais
boatos precediam, invariavelmente, as intenções israelenses de desfechar
uma ofensiva contra o país. Caso tal ataque se materializasse, o Exército
sírio estaria preparado para contra-atacar com todas as suas forças — essa
era a razão da crescente preparação do seu Exército.
É razoável supor-se que os sírios não mantinham qualquer ilusão a respeito
do real poderio das forças israelenses que se lhes opunham, e vale notar que
tinham consciência do fato de que, a oeste do fosso anticarro, de 5,5m de
largura, não havia outra linha de defesa israelense na margem oriental do
Jordão e que as povoações estabelecidas nas Colinas de Golan não haviam
sido organizadas para a defesa e eram, assim, destituídas de qualquer
significado militar. Obviamente, compreendiam que a próxima linha de
defesa seria a das velhas instalações israelenses na margem ocidental do
Jordão.
Como de fato mais tarde veio a acontecer, o fogo de artilharia contra a linha
de frente israelense deveria ter a duração de 55 minutos, começando
exatamente uma hora antes da hora “H" e cessando a 5 do seu início. Todos
os relógios deveriam ser zerados às 14:15 horas segundo a Rádio Damasco:
a hora “H” teria lugar às 15 horas e a preparação de artilharia seria iniciada
às 14 horas. O ataque divisionário norte deveria ser desenvolvido em duas
fases, avançando na direção geral através de Masadah até a área de Tel
Azaziat, na fronteira israelense. Os sírios imaginavam conseguir a destruição
total das forças israelenses nas Colinas de Golan na manhã da segunda-feira,
8 de outubro.
A Força Expedicionária Marroquina recebera ordens semelhantes.
Igualmente a estória-cobertura fora a de que ocorreria um ataque israelense,
que no entanto seria contido pelas defesas sírias, quando, então, o Exército
passaria à contraofensiva. Todo um parágrafo da ordem estava dedicado à
transposição do fosso anticarros, planejada em seus mínimos detalhes. Uma
unidade de comandos fora destacada para as fraldas do Monte Hermon, de
onde deveria lançar um ataque, da direção norte, a fim de levar de roldão as
forças israelenses posicionadas na área de Masadah. Uma força de
vanguarda, composta de uma companhia de carros de combate e outra,
reforçada, de infantaria blindada, deveria irromper da área de Masadah para
Banias e atingir Tel El-Kadi, ou Tel Dan, em Israel, nas nascentes do rio
Dan, tributário do Jordão, a montante do kibutz Dan. Essa missão deveria
estar concluída por volta da meia-noite do sábado, 6 de outubro.
As forças sírias receberam instruções para que assegurassem que o ímpeto
do ataque fosse mantido, tanto de noite como durante o dia, tendo sido feitos
detalhados arranjos para assegurar a identificação e o controle. Deveriam ser
acesas três fogueiras em Hermonit e Tel Ahmar a fim de auxiliar as unidades
na identificação de suas localizações bem como para servir de pontos de
referência para a artilharia. Na manhã de domingo, as forças deveriam estar
preparadas para engajar o kibutz Dan e estabelecer uma posição defensiva
em condições de receber os contra-ataques israelenses na área kibutz
Hagoshrim — kibutz Dan — Banias. As forças deveriam estar
desenvolvidas de modo a ficarem prontas para desfechar o ataque contra
Israel, tão logo lhes fosse ordenado. Esse ataque deveria se desenvolver em
duas etapas: o objetivo da principal seria alcançar, no primeiro dia, a linha
onde colhiam os informes diários, com os elementos da vanguarda atingindo
a fronteira israelense pela meia-noite do dia 6; a conclusão da tomada das
Colinas de Golan fora planejada para se verificar na noite de domingo, 7 de
outubro. A essa altura, os efetivos deveriam estar reorganizados, fortes
posições defensivas anticarros deveriam ter sido criadas e o Exército sírio
deveria estar posicionado para desfechar o ataque a Israel.
* * *
Após a guerra, o Presidente Sadat disse, em uma entrevista para a imprensa,
que no primeiro dia das hostilidades o Embaixador soviético viera até ele,
ostensivamente, com uma mensagem do Presidente Assad de que ele, Assad,
estava preparado para um cessar-fogo. Porém, ao ser interpelado por Sadat,
Assad negou ter encetado qualquer aproximação nesse sentido. Os
soviéticos, por sua vez, mantiveram a veracidade de sua versão e, mesmo,
rebateram publicamente a estória de Assad. Uma análise das ordens de
operações sírias e o seu quadro cronológico tendem a confirmar a versão
soviética; não há dúvidas de que os sírios, ao verem, quando desfecharam
seu ataque, que seu plano de reconquistar as Colinas de Golan num prazo de
dois dias estava por se materializar, decidiram consolidar de imediato suas
conquistas e lançaram suas sondagens quanto a um cessar-fogo. Essa trégua
viria a assegurar seus objetivos imediatos, militares e políticos, sem que se
expusessem aos azares de um contra-ataque israelense que, sem dúvida, seria
montado tão logo fossem mobilizadas suas reservas. A essa altura, Assad
estava raciocinando unicamente à base dos interesses sírios; um retrospecto,
porém, faz supor que o cessar-fogo, encorajado pelos soviéticos logo ao
início das hostilidades, teria melhor servido aos interesses árabes, tanto na
Síria como no Suez, do que o acontecido com a continuação da guerra.
O Assalto (Norte)
As fortificações israelenses na linha de frente informaram que formações de
carros, acompanhadas pela infantaria blindada e lideradas por “tank dozers”
e carros lançadores de pontes, avançavam sobre todas as posições. Nas
primeiras horas, pareceu ao Gen Hofi que o ataque principal era dirigido
contra o setor norte da chamada passagem de Kuneitra, entre as fortificações
A-2 e A-3 ao sul da Jubat el-Hashab e, também, contra a estrada quevinha
de Kudne, na área da posição A-6, com um ataque secundário
desenvolvendo-se ao longo da estrada do “Tapline", na área da posição A-11.
A Brigada Barak informara que repelira o ataque e que pusera fora de
combate um grande número de carros inimigos. No transcorrer da primeira
hora, a situação aparentava ser boa, porém, por volta das 16:30 horas, o
quadro se tornara suficientemente claro para convencer o Gen Hofi de que
uma situação muito séria estava se formando e que o efetivo inimigo
empenhado ultrapassava a tudo que os israelenses haviam visto até então.
Ordenou que a 7ª Brigada avançasse para a linha de frente e encarregou-a de
todo o setor norte das Colinas, desde a posição A-5 até Tel Hazeika, ao
norte; ao sul dessa área, a responsabilidade ficaria confiada à Brigada Barak.
De todos os setores, choviam informes sobre os sucessos alcançados pelos
carros israelenses posicionados nos espaldões preparados com antecedência.
Os tanques inimigos estavam sendo destruídos, mas informes alarmantes
descreviam o crescente fluxo de blindados sírios que continuavam a chegar.
A vantagem inicial obtida pelos sírios na área de Tel Aksha, entre as
fortificações A-5 e A-6, na estrada de Kudne na direção de Hushniyah, sobre
a pequena força que a sustentava (nesse estágio, ainda não se havia
percebido que cerca de 60 carros da Brigada Barak se defrontavam com uma
maciça força de aproximadamente 600 blindados), reforçou sua decisão de
montar na área um ataque adicional com a 9ª Divisão, transformando este
sucesso numa penetração principal.
* * *
Na posição dominante da crista “Booster”, o Cel Yair colocou-se em pé
sobre seu carro e pôs-se a observar as colunas blindadas sírias que
avançavam: uma chuva infernal de artilharia caía sobre as posições da sua
força. Através da poeira, vislumbrava os vultos dos "tank dozers” e dos
carros lançadores de pontes que avançavam na vanguarda das colunas sírias.
Ordenou que seus carros se concentrassem na destruição dos lançadores de
pontes e, naquela tarde, todos os que foram avistados, à distância de até
1.800m, foram postos fora de ação, excetuados dois que conseguiram atingir
o fosso anticarro ao norte da fortificação A-3, oposta ao Monte Hermonit.
Nesse ponto, os sírios lançaram duas pontes, e uma companhia de 10 carros
transpôs a barreira.
O Batalhão de Yair continuava lutando, alvejando todo carro inimigo a seu
alcance. O excelente treinamento que seus homens haviam recebido
começava a pesar, à medida que, um após outro, os blindados sírios
irrompiam em chamas e a planície abaixo do “Booster” ia ficando pontilhada
com carros e transportes blindados de infantaria em chamas. Yair viu os
aviões israelenses que acorriam para deter as forças atacantes, mas, um após
outro, eram derrubados bem à frente de seus olhos.
Quando caiu a escuridão, ordenou que um comandante de Companhia,
Avner, avançasse com sua companhia até os pontos em que os sírios haviam
lançado pontes sobre o fosso anticarro e que as destruísse, bem como aos
blindados que haviam transposto a barreira; pouco depois, Avner informou
que a missão fora cumprida.
Ao anoitecer Yair foi posto sob o comando da 7ª Brigada. Os sírios
continuavam a avançar em colunas através da planície, valendo-se de luzes e
bandeirolas coloridas a fim de diferençar suas diversas unidades. Os
israelenses observavam o inimigo que se movimentava ao abrigo da
escuridão para transpor o fosso anticarro, enquanto os milhares de “olhos-
de-gato”, criados pelas luzes infravermelhas, nas laterais de seus carros,
formavam um espetáculo fantasmagórico. Vários deles explodiam ao
atravessar os campos minados, mas as colunas continuavam avançando.
As forças israelenses não dispunham do benefício de equipamentos óticos
apropriados para o combate noturno e, assim, avaliavam a posição dos
atacantes pelo barulho dos carros e pelos artifícios de iluminação lançados
pela artilharia, que clareavam a cena e possibilitavam que os israelenses os
engajassem. Unidades do batalhão de Yair sustentavam desesperadamente a
linha, deslocando-se de posição em posição para evitar as unidades especiais
anticarro de infantaria equipadas com armas RPG anticarro. Todas as
fortificações estavam sendo submetidas a fortes ataques pela infantaria e
pelos blindados e clamavam por auxílio. Yair ordenou que suas guarnições
se abrigassem e cobriu-as com fogo de sua artilharia, enquanto os pelotões
de carro, que as suportavam, engajavam os blindados sírios que apoiavam a
infantaria atacante.
* * *
Da área de Kudne, onde se desenvolvia o principal ataque sírio, a
fortificação A-6 informou que fora isolada. O Comando Norte autorizou que
a abandonasse ao anoitecer do sábado. No meio de todo aquele pandemônio,
um pelotão de carros israelense irrompeu através das fortes concentrações
sírias e conseguiu evacuar sua guarnição com toda segurança em direção a
Tel Zohar.
Naquela noite, também, as forças que guarneciam as fortificações A-8, A-9 e
A-10 foram autorizadas a retrair. Na manhã de domingo os homens das
posições A-8 e A-9 foram evacuados para a área de Rafid, onde se viram
completamente cercadas, mas forças que acorreram em socorro da
fortificação A-10 não conseguiram romper o cerco. A posição continuou
sitiada, com o seu comandante, um jovem tenente, jazendo ferido sobre uma
padiola. Durante quatro dias o sargento do pelotão, agindo sob as ordens do
seu comandante ferido, comandou a defesa da posição, cercada como se
encontrava, por esmagadora superioridade inimiga. Não dispunham de
médico, mas o enfermeiro conseguiu manter com vida um dos feridos
aplicando-lhe uma transfusão. O único apoio externo com que contavam
contra o constante bombardeio da artilharia inimiga era o que lhes prestava
uma bateria israelense de 175mm. Quando, quatro dias mais tarde, a posição
foi finalmente liberada, as forças que acorreram em seu socorro verificaram
que toda a área à sua volta estava juncada de cadáveres de soldados sírios,
alguns mesmo sobre as cercas de defesa. Sete carros jaziam destruídos,
como mudas testemunhas da incrível bravura e determinação de um punhado
de meninos. Um dos tanques destruídos, na verdade, bloqueava a estrada
principal da fortificação, com seu canhão apontado para a porta.
* * *
O Cel Avigdor estava satisfeito com o fato de a 7ª Brigada encontrar-se
firme na posição. Recebera sob seu comando o 4º Batalhão de Yair e
acompanhava a luta bem sucedida que este vinha travando contra os
atacantes sírios — cerca de 60 carros inimigos em chamas na planície, no
primeiro dia de combate, podia, sob qualquer critério, ser considerado um
resultado muito satisfatório para uma força como a sua. Constatou, com
satisfação, que recebera um bom batalhão.
Às 22 horas do sábado, a brigada estabelecera o primeiro contato com o
inimigo, que desenvolvia, então, a primeira das muitas tentativas para
irromper através do setor central da brigada, entre as elevações “Booster” e
Hermonit, defendido pelo 5º Batalhão. A brigada desdobrou suas forças e as
guarnições dos carros observavam incrédulos os milhares de "olhos-de-
gato", correspondentes a milhares de faróis infravermelhos, que se
movimentavam lentamente sob o claro luar. Uma forte barragem de
artilharia precedia o avanço dos blindados sírios. Avigdor ordenou que suas
tropas sustassem o fogo até que o inimigo se aproximasse, reduzindo assim a
vantagem que lhe proporcionava seu equipamento infravermelho.
A 78ª Brigada de Carros de Combate, da 7ª Divisão síria, atacou em massa,
enquanto a infantaria síria lançava pontes sobre o fosso anticarro. Os
blindados transpuseram o obstáculo e, movimentando-se vagarosamente, se
desenvolveram em uma larga frente na direção dos carros da 7ª Brigada, que
os esperavam. Avigdor ordenou às suas forças que abrissem fogo tão logo o
inimigo estivesse a uma distância de 730m. Os sírios atacaram em vagas e a
noite se iluminava quando, um após outro, carros e transportes blindados de
infantaria inimigos eram envoltos pelas chamas e explodiam. Durante cinco
horas, o combate se desenvolveuao longo de toda a frente, sempre com a
artilharia síria batendo com fortes concentrações de fogo a área defendida
pelos israelenses. Às três horas da manhã de 7 de outubro, os sírios bateram
em retirada.
Na área ao sul da fortificação A-1, foram contados mais de 40 blindados
sírios destruídos, enquanto que entre Kuneitra e A-4 mais de 30 jaziam
espalhados nos pontos por onde haviam tentado irromper.
* * *
Às duas horas da manhã de domingo, foi observada uma coluna síria que se
deslocava, na direção norte, pela estrada Rafid-Kuneitra, não escapando à
percepção de Avigdor o significado dessa progressão: caso o avanço inimigo
se consumasse, seria desbordado pelos flancos e estaria com suas linhas de
suprimento ameaçadas. Decidiu, então, pôr em ação uma unidade sob o
comando do Cap Meir, um comandante de companhia conhecido
popularmente pelo apelido de “Tigre". Com 26 anos, Tigre era conhecido
por sua natureza alegre e sua inclinação por brincadeiras, o que desagradava
ao comandante de seu batalhão. Ao ver se esvaírem as perspectivas de
receber o comando de uma companhia, decidira retornar à vida civil, tão
logo completasse seu tempo de serviço. A guerra, porém, interveio.
Tigre movimentou sua companhia na direção da fortificação ao sul de
Kuneitra. Ordenou que dois dos blindados que o apoiavam recuassem até a
estrada e ficassem à espera de uma possível força síria que se deslocava na
direção norte. Deslocou sua força na direção sul, colocou seus carros a
intervalos regulares ao longo da rodovia principal e ordenou que o seu
subcomandante, Mayer, continuasse para a frente, por mais 1.600m,
paralelamente à coluna inimiga, para preparar uma emboscada quando os
sírios, finalmente, recuassem. ‘‘Eles vêm vindo do sul", informou Mayer.
“São cerca de 40”. A essa altura, já haviam ultrapassado e deixado para trás
a força de Mayer e avançavam em perfeita formação por coluna.
Quando a força inimiga se encontrava a 1.200m dele, ordenou: "Todas as
posições Tigre, fogo!" Um projetor iluminou toda a coluna síria e os carros
de Mayer, atirando da retaguarda, puseram em chamas cinco blindados
inimigos. Toda a coluna síria foi tomada pelo pânico: os tanques colidiam
uns com os outros e criava-se um pandemônio à medida que carro após carro
era posto em chamas pelas unidades de Tigre que, calma e metodicamente,
escolhiam, um após outro, seus alvos. Os sírios haviam sido surpreendidos.
Tentaram se reorganizar, mas não conseguiam localizar a origem dos
disparos. Após 45 minutos de luta, Tigre contou 20 carros sírios que haviam
sido abandonados.
Quando a madrugada se aproximou, Tigre se deslocou na direção do Tel el-
Hariyen, onde procurou abrigo entre o arvoredo e a vegetação baixa a
montante da estrada. Durante a madrugada os remanescentes da coluna síria
haviam se reagrupado e saído à sua procura. Crendo, finalmente, que sua
presa havia se afastado, seguiram pela estrada principal, diretamente para a
emboscada que Tigre lhes preparara. A primeira descarga, cinco carros sírios
foram destruídos. Tigre movimentou, então, sua coluna pela estrada e tomou
a direção de Kuneitra, à caça do remanescente da força inimiga. Outros 10
blindados T 55, que haviam procurado refúgio em posições abandonadas de
artilharia, foram destruídos, e um comboio sírio de suprimentos, que se
aproximava sem nada suspeitar, foi atacado. Ao informar ao comandante da
brigada que destruíra 40 carros, Tigre pediu permissão para seguir em
perseguição à coluna. “Tigre”, disse Avigdor, “eu te adoro!"; e veio a
resposta: "Eu também quero bem ao senhor!".
* * *
No PC da Brigada Barak, o quadro da situação nas primeiras horas se
apresentava encorajador com os informes que chegavam de que os blindados
sírios estavam sendo alvejados “exatamente como se num estande de tiro”.
Entretanto, por volta das 16 horas as coisas começaram a se tornar mais
sérias, quando, na área de Kudne, uma coluna síria de cem carros, vinda do
sul, conseguiu ultrapassar a posição A-6. A brigada não dispunha de
reservas: todo seu efetivo havia sido engajado e, então, Ben Shohan solicitou
que lhe enviassem em reforço o 2º Batalhão da 7ª Brigada. A pressão crescia
em todos os pontos e a munição começava a escassear, dado que no calor
dos primeiros combates algumas guarnições haviam sido muito pródigas em
utilizá-la.
O 2º Batalhão alcançou a fortificação A-7, onde destruiu 20 carros e a
infantaria que os acompanhava. Às 17 horas, Oded, comandante do 3º
Batalhão, informou que um forte efetivo sírio havia desbordado a
fortificação A-9 e se dirigia, ao longo da rodovia do Tapline, na direção de
Juhader. Outro informe dizia ter o inimigo irrompido na área da fortificação
A-10, e o subcomandante do 2º Batalhão dirigiu-se com uma companhia de
carros para o sul, na direção de Tel Saki, a fim de ajudar a aliviar a pressão.
Defrontou-se com uma emboscada síria, conseguiu superá-la e prosseguiu
rumo ao sul até Ramat Magshimim, numa tentativa de bloquear o avanço
sírio sobre a área de Tel Saki. Por volta das 18 horas, tornaram-se evidentes
os três principais objetivos do inimigo: no setor sul, mais de cem carros
haviam transposto a linha de frente e na rodovia de Kudne mais outros cem
haviam penetrado ao longo da via Tapline (o que significava que, em cada
caso, aproximadamente o efetivo de uma brigada conseguira irromper). Na
área da fortificação A-10, um efetivo indeterminado de carros e de infantaria
estava penetrando.
Ao anoitecer, o PC avançado da Brigada Barak, sob as ordens de seu
comandante, Cel Ben Shoham, abandonou Nafekh utilizando-se de um
veículo meia-lagarta, pois Ben Shoham resolvera que deveria se instalar em
Juhader, de onde poderia controlar a batalha; acompanhavam-no os majores
Hanan, Oficial de Comunicações, e Dov, Oficial de Informações,
permanecendo em Hafekh o subcomandante da brigada, Ten Cel Yisraeli, e o
Maj Katzin, Oficial de Operações.
Ben Shoham, com 38 anos e nascido na Turquia, era dotado de uma
personalidade agradável que atraía seus comandados. Líder nato e bom
administrador, de uma firmeza tranquila e particularmente bravo, era, na
realidade, um homem que se fizera por si. Sempre conseguira criar uma
atmosfera agradável em seu redor. Quando se reuniu à Brigada Barak,
convocou a oficialidade e disse-lhes que, se em alguma vez queria ter êxito,
esta seria fazê-los sorrir em quaisquer circunstâncias.
Lentamente, na escuridão, o PC avançado de Shoham deslocou-se para o sul
ao longo da rodovia do Tapline. Alcançaram Juhader onde procuraram pelo
PC do 3º Batalhão de Oded sob uma intensa barragem de artilharia que os
acompanhara constantemente. Para onde quer que se deslocassem e
ativassem seus aparelhos de transmissão, viam-se submetidos a pesado fogo
de artilharia; tentaram interpretar um quadro de situação do combate, mas
estava difícil. As forças que encontraram durante o deslocamento já
começavam a se ressentir da falta de munição, enquanto os sírios
continuavam a transpor a linha de frente. Ben Shoham solicitou várias vezes
que a artilharia lançasse artifícios de iluminação a fim de possibilitar seus
carros identificarem o inimigo, mas cada vez menos artifícios eram lançados.
Tentou melhorar sua situação e sugeriu a Oded que juntassem suas forças,
mas o comandante do 3º Batalhão informou-o, de suas posições nas
proximidades de Juhader, que estava cercado e não poderia reunir-se a ele.
Verificando a gravidade da situação, Ben Shoham ordenou que seu carro,
estacionado em Hushniyah, viesse buscá-lo. O Distrito da Brigada estava
tentando trazer munições e suprimentos para a linha de frente e o Cap Giora,
Oficial de Operações do Distrito, chegara, naquele momento, à rodovia do
Tapline, à frente de um comboio de munições. Ben Shoham fê-lo parar e
aconselhou-o a não prosseguir. Radiografou, então, para Oded e sugeriu-lhe
que blindados do 3º Batalhão se infiltrassem, individualmente, até a via do
Tapline, recolhessem munição e se reunissem novamente a ele. Oded
respondeu que iria ver se isso era possível. Subitamente, emergiu da
escuridão um carro quese deslocava ao longo da estrada do Tapline.
Ficaram surpresos e julgaram tratar-se, talvez, de um carro em retirada.
Oded, porém, informou que nenhum de seus blindados se afastara da área.
Shoham mandou que o Cap Giora avançasse, identificasse o carro e
ordenasse a seu comandante que retornasse imediatamente para a linha de
frente. O oficial correu na direção do blindado, nessa altura a cerca de 10m
do meia-lagarta de Shoham, e gritou-lhes as ordens. A guarnição do tanque
foi tomada pelo pânico e, fechando as escotilhas, pôs-se em fuga. Giora
voltou correndo e, com o terror estampado nas faces, gritou-lhes: “É um
carro sírio!”. Fora uma passagem bastante delicada, já que o PC avançado da
brigada e um comboio de munições, sem adequada proteção, tinham estado à
mercê daquele tanque. Ben Shoham ordenou, então, que Giora retornasse
imediatamente com o comboio para Nafekh.
Pouco depois, Giora comunicou pelo rádio que, ao passar pela estrada do
Tapline, na encruzilhada de Hushniyah, avistara na área cerca de 50 carros e
diversos outros veículos. Conseguira ultrapassá-los na escuridão e acreditava
que não fossem israelenses. Na realidade, a força que o Cap Giora avistara
em Hushniyah era uma brigada síria que se desviara do rumo e se dirigia
para a área ao sul da fortificação A-6 para desbordar um pelotão de três
blindados que aí lutavam desesperadamente em defesa da posição. Como o
subcomandante do 3º Batalhão fora evacuado ferido para a retaguarda e o
seu comandante fora morto, tudo o que restava da companhia era esse
pelotão. Sua guarnição recolhera a munição de outros tanques atingidos e
continuara lutando.
A Brigada Barak, que devido aos devastadores combates ao longo da frente,
se vira forçada a continuar lutando por pelotões, contava então, por volta das
últimas horas de sábado, com 15 carros. Com eles, engajava cerca de 450
blindados.
* * *
Pouco antes que Shoham se afastasse de Hafekh, surgiu um rapazote louro,
de ar imprudente e sardento: era o Ten Zvi (“Zwicka”) Greengold, do kibutz
Lochamei Hagetaot. Fora designado para um curso de comandante de
companhia, para cuja preparação lhe fora concedida uma dispensa de duas
semanas. Ao ouvir, porém, as notícias do início da guerra, envergara seu
uniforme e alcançara Nafekh de carona. Ao perceber, ao chegar no PC, que a
situação era grave, perguntou ao Oficial de Operações se havia alguma
possibilidade de lhe ser confiado um comando. Enquanto ajudava na
assistência aos feridos recolhidos ao acampamento, foi informado de que
estavam por chegar quatro carros, três dos quais danificados em combate.
Após reparados, seriam postos sob seu comando. Em poucas palavras, o
subcomandante da Brigada Barak, Ten Cel Yisraeli, lhe disse: “Pegue-os.
Você será conhecido como a Força Zwicka. Ponha-se em ação ao longo da
rodovia do Tapline”.
Zwicka ajudou a retirar dois cadáveres de um dos carros e aprontou seus
tanques para a ação. Tendo recebido ordens do comandante da brigada para
que rumasse a seu encontro pela rodovia do Tapline, Zwicka entrou em
contato com uma força síria quando se deslocava ao longo dessa rota.
Avisou seu comandante de brigada que iria abrir fogo e entrou no combate.
Quando Shoham ouviu de Zwicka que estava sendo atacado por forças a
oeste do Tapline, compreendeu que se achava cercado. Dov, seu oficial de
Informações, ponderou que agora era impossível retornar a Nafekh pela
estrada do Tapline. Assim, Ben Shoham cortou através da planície no rumo
oeste, atingindo o sopé das Colinas de Golan na área de Ramat Magshimim.
Seu tanque e o carro meia-lagarta tomaram posição na área do Monte
Gamla, na estrada que subia de Ein Gev. Não muito longe, mas já a plena
vista do Mar da Galileia, identificaram blindados sírios. Esgueirando- se
entre os grandes afloramentos rochosos da encosta, a fim de se protegerem,
tentaram levantar um quadro coerente da situação: era, então, uma hora da
manhã do dia 7. Conforme haviam conseguido concluir, na fortificação A-6
se encontrava um pelotão de carros sem munição; as forças sírias
continuavam a surgir e ultrapassavam a posição sem qualquer impedimento.
Oded, comandante do 3º Batalhão, com uma força de dois pelotões de
blindados (seis unidades) estava na área, entre a rodovia do Tapline e a
fortificação A-9, bloqueando um forte avanço sírio. Aqui e ali carros
isolados, ou em pequenos grupos, se apresentavam. A companhia de
tanques, que estivera patrulhando a área ao norte da fortificação A-6 até
Hushniyah, esgotara sua munição e estava tentando impedir que qualquer
força síria progredisse na direção norte para Kuneitra.
Desgarrado e separado de suas tropas, Shoham entrou em comunicação com
todas suas unidades e, de maneira calma e encorajadora, pediu-lhes que se
conservassem em suas posições, prometendo-lhes que logo chegariam
reforços. A situação, porém, era clara para os remanescentes da brigada.
Uma hora mais tarde, chegavam informes de Zwicka de que se encontrava
lutando ao longo da rodovia do Tapline, que sustentava sua posição e que
sua situação era boa. Contudo, nas entrelinhas, era fácil perceber que perdera
os carros que o acompanhavam e que lutava sozinho.
A essa altura, Zwicka já estivera em ação durante a maior parte da noite. Ao
ouvir as comunicações pelo rádio, todo o Comando tomara ciência da
existência da Força Zwicka. Mas pouco poderiam imaginar que esse jovem
estava travando um incrível combate singular contra um dos mais fortes
ataques do Exército sírio às Colinas de Golan, numa proporção de um por
50. Iniciara sua luta histórica às 21 horas e se deslocava para o sul ao longo
da rodovia do Tapline, uma estrada estreita em cuja margem oeste se estende
o oleoduto flanqueado por duas altas cercas de arame. Em vez de avançar,
como lhe fora ordenado, preferia estacionar seus carros em elevações
favoráveis e esperar o inimigo.
Como foi visto atrás, o comboio de munição sob comando de Giora, Oficial
de Operações do Distrito da Brigada, se dirigia para Nafekh quando Shoham
ordenou que voltasse. Nesse momento, Zwicka fora avisado pelos carros que
o acompanhavam que se aproximava uma coluna de blindados sírios
equipada com pequenas luzes laterais. Às 21:20 horas, avistou na estrada o
primeiro carro sírio. O primeiro tiro, a curta distância, pôs em chamas o
inimigo, mas o choque fez com que seu sistema de comunicações entrasse
em pane. Zwicka sinalizou para que o carro mais próximo se aproximasse;
trocou de lugar com o oficial que o comandava e ordenou-lhe que o seguisse
e que o imitasse em tudo que fizesse. Após percorrer poucas centenas de
metros, verificou que perdera seu acompanhante; ao galgar uma elevação,
avistou na estrada três carros sírios com pequenas luzes laterais acesas. Três
tiros rápidos e os três carros irromperam em chamas, que arderam por toda a
noite. Agora se encontrava sozinho. Escolheu uma posição e aguardou. Meia
hora mais tarde, observou uma coluna síria de 30 blindados, acompanhada
por diversos veículos, que se deslocava em perfeita formação “como em um
campo de paradas”. Permitiu que se aproximasse e abriu fogo, atingindo o
primeiro quando este se achava a cerca de 20 metros do seu carro. Pôs-se,
então, a brincar de esconder com o inimigo ao longo da estrada, ora surgindo
no topo de uma das elevações, atirando e marcando um ponto, ora
desaparecendo. Assim lutou, iludindo os carros inimigos — que imaginavam
tratar-se de uma força considerável — e conseguindo abater 10 deles. Então,
o comboio sírio bateu em retirada.
Nesse ínterim, o subcomandante da Brigada Barak fora autorizado pelo
comandante do Comando Norte a deixar Nafekh e a assumir o comando das
forças que detinham o avanço sírio ao longo da rodovia do Tapline, efetivo
que agora consistia de Zwicka e sete carros da 17ª Brigada de Reserva de
Ran, recentemente chegados. Essa força, sob o comando do Ten Cel Uzi, um
comandante de batalhão, foi a primeira unidade de reserva a engajar o
inimigo. O fato de às 22 horas de sábado já se encontrar em ação comprova a
incrível rapidez com que fora realizada a mobilização.Ben Shoham ordenou a Uzi, que havia tomado Zwicka sob seu comando,
que procurasse fazer recuar os sírios. Baseando-se nos informes que Zwicka
lhe transmitira, Uzi avançou na direção sul ao longo da via do Tapline,
enquanto Zwicka — com um pelotão de três carros — deslocava-se pelo
interior do aramado, paralelo ao seu curso. Quando sua pequena força se viu
submetida a fogo vindo de duas direções, ocorreu subitamente a Uzi que
Zwicka não se dera perfeita conta da situação no que se referia às forças
inimigas e que se encaminhava para uma emboscada. Por cerca de três horas,
o pequeno efetivo de Uzi travou uma luta desesperada, em duas frentes,
contra forças inimigas numericamente superiores. Por volta da uma hora da
manhã do dia 7, após haver prestado uma grande contribuição no sentido de
bloquear o ataque inimigo no decorrer daquelas horas críticas da noite de
sábado, sua pequena força fora destroçada. O carro de Uzi fora atingido por
um disparo (aparentemente por um rojão de bazuca de infantaria) e
irrompera em chamas; ele fora expelido do tanque pela explosão, perdendo
totalmente a visão e o braço esquerdo.
Nesse ínterim, Zwicka fizera recuar seu pelotão. Dois de seus carros se
deslocavam lentamente ao longo da rodovia do Tapline, enquanto ele se
colocava junto à cerca, na esperança de emboscar a força atacante. Antes que
percebessem o que acontecera, todos seus três carros foram tomados pelas
chamas. Rápido, Zwicka e a guarnição de seu tanque saltaram para fora.
Suas roupas estavam em chamas e ele rolou até a vala que marginava a
estrada. Temeroso de que o carro explodisse, correu até o aramado, galgou-o
e lançou-se para o lado de dentro. Gritando algumas ordens desconexas,
correu em direção de um tanque israelense e, antes que o chefe do carro
compreendesse o que acontecia, impeliu-o para fora e ordenou-lhe que se
juntasse à guarnição de um outro carro próximo, ocupado em recolher os
feridos. Colocou um capacete à cabeça e chamou o comandante da Brigada
para apresentar-lhe a “Força Zwicka”. A exclamação de alívio de seu
superior fez-lhe sentir que todo o seu esforço não fora em vão.
Repentinamente, percebeu que fora ferido e começou a sentir as
queimaduras nas mãos e nas faces. Sentiu-se desfalecer e pensou que era o
fim da sua guerra; sonhava que estava deitado entre lençóis novos e limpos.
Sentia-se como em uma nuvem quando, de repente, a voz de Ben Shoham
nos fones de ouvido fê-lo voltar à realidade. À sua frente estavam dois carros
sírios. Atirou. E, ordenando ao motorista que desse marcha-à-ré, continuou
atirando.
* * *
Ben Shoham decidira esperar pelas primeiras luzes da manhã para tentar se
juntar à sua brigada. Solicitou permissão ao Gen Hofi para assumir o
comando de todas as forças ao sul do Golan; tornava-se-lhe claro, então, que
os sírios espalhavam-se, agora, como enxames sobre a área sul das Colinas e
que remanescentes das forças israelenses se encontravam isolados. Foi-lhe
concedida a permissão.
Na área de Juhader, Oded, comandante do 3º Batalhão, solicitou que ao
alvorecer lhe fosse prestado apoio aéreo. Quando o sol irrompeu, quatro
Skyhawks israelenses arremeteram para bombardear as forças sírias. Porém,
quando se aproximavam dos seus objetivos, tornaram-se visíveis os
inconfundíveis sinais dos mísseis terra-ar e os quatro aparelhos explodiram
no ar, à plena vista das acuadas tropas do Batalhão. Sem se atemorizar, uma
nova vaga de quatro aviões se aproximou: dois deles explodiram. Ben
Shoham ordenou que as tropas se concentrassem à sua volta, mas às 8 horas
da manhã uma segunda investida síria, desenvolvida na direção norte, ao
longo da estrada do Tapline, isolou finalmente suas forças do PC. Oded
colocou-o a par da situação e foi autorizado a se retirar de Juhader,
concentrar suas forças — 12 blindados ao todo (tudo o que restava da
Brigada Barak), e se dirigiu para Tel Faris.
Naquela noite, a 46ª Brigada de Carros de Combate da 5ª Divisão de
Infantaria síria havia irrompido na área de Rafid. A 132ª Brigada da Divisão
explorou a brecha e desenvolveu-se ao longo da estrada Rafid-EI Al,
paralela à costa de Ruqqad. Ao alvorecer do domingo, 7 de outubro,
elementos da 5ª Divisão atingiram Ramat Magshimim e estabeleceram
contato com a 132ª Brigada Mecanizada. No momento em que a vitória se
afigurava cada vez mais palpável ao Comando sírio, a 47ª Brigada de Carros
avançava paralelamente e pelo norte da estrada Rafid-EI Al. À luz da
alvorada que surgia, os sírios viram maravilhados, lá em baixo, o panorama
deslumbrante do Mar da Galileia. Lá, além do resplendor da massa d’água,
aparecia a primeira grande cidade israelense que viam: Tiberias. O
entusiasmo cresceu. Ali se encontravam, avançando contra um inimigo
derrotado. A vitória estava quase a seu alcance.
Compreendendo que se defrontavam com uma formidável resistência no
setor norte e que, naquela noite, tinham conseguido a ruptura completa da
linha no setor sul, o Comando sírio decidiu explorar o êxito e, além da 1ª
Divisão Blindada, que fora instruída para penetrar pela passagem de Rafid,
foi dada ordem para que, também, a Brigada Mecanizada da 3ª Divisão
Blindada transpusesse a passagem Kudne-Rafid. Um efetivo de 600
blindados se achava, agora, empenhado na área sul de Golan. Contra ele,
opunham-se os 12 carros que Oded concentrara na área de Tel Faris,
unidades isoladas que haviam sido separadas de seus comandos, junto às
várias fortificações ao longo da linha, e o primeiro punhado de reservistas
que chegava.
O reforçamento da brecha síria na direção norte, ao longo da rota do Tapline
e no rumo oeste, no sentido de Ramat Magshimim, fora informado pelas
forças sitiadas na fortificação A-10. E, envolvido pelas grossas nuvens de
poeira que se aproximavam, Ben Shoham logo começou a vislumbrar os
blindados sírios que avançavam. Não havia por que ficar a esperá-los.
Encontrava-se isolado dos remanescentes das forças ao sul de Golan e não
via razão nenhuma para engajar esse concentrado avanço sírio com apenas
um carro e um meia-lagarta. Abandonando, então, os amontoados de rochas
onde haviam passado a noite, dirigiram-se rapidamente para o Monte Gamla,
correndo em busca da única via livre que lhes restava para descer das
Colinas de Golan. Os sírios abriram fogo. O carro de Shoham respondeu aos
disparos numa tentativa de deter o avanço. Desceram, então, a encosta
levando com eles colonos desgarrados, que se encaminhavam para o Vale de
Buteiha. Na marcha através do vale, Ben Shoham encontrou em um blindado
avariado o subcomandante do 2º Batalhão, que fora posto sob seu comando
pela 7ª Brigada. Levando consigo esse oficial (único sobrevivente de toda a
força que participara da luta na área de El Al), prosseguiu no rumo norte
através da Ponte Arik, subindo por uma estrada secundária, na margem
oriental do Jordão, até a Alfândega superior e daí para Nafekh, onde chegou
às 9 horas da manhã.
Ben Shoham pôs-se a fazer um balanço da situação: o grosso da sua brigada
havia sido destroçado; tudo que lhe restava era a pequena força que lutava na
estrada do Tapline (bloqueando o que sem dúvida se constituía no ataque
principal por parte dos sírios) e as forças de Oded, isoladas em Tel Faris.
Achou que não era momento para permanecer sentado no seu PC. Nada mais
lhe restava, senão sair e lutar na rodovia do Tapline. Disse a Dov que se
reunisse a ele no seu carro. Dov subiu para o tanque, mas exatamente nesse
momento um jipe empoeirado se aproximou: era o Maj Benny Katzin,
Oficial de Operações da brigada, informando que não restava mais ninguém
em Nafekh. “Para onde você vai?”, perguntou. “Vou para o tanque do
comandante da brigada”, respondeu Dov. “Que diabo!, você não é oficial de
blindados! E, de qualquer modo, é minha a vez de ficar com o comandante”.
“Está bem, não vou discutir com você!”, respondeu Dov.
O comandante da brigada, com seu oficial de Operações a bordo, dirigiu-se
para a estrada do Tapline a fim de juntar-se à força comandada pelo Cel
Yisraeli, subcomandante da brigada que, juntamente com Zwicka, se
encontravalutando ao longo daquela rodovia. Nesse momento, começavam
a chegar os primeiros elementos da 79ª Brigada de Reserva, de Ori. Haviam
sido enviados apressadamente, aos grupos, para as Colinas de Golan, e Dov
e o oficial de Comunicações começaram a organizar uma força para apoiar o
comandante da brigada no setor do Tapline. Colocaram seu meia-lagarta
bloqueando a estrada para Nafekh, e cada três blindados que chegavam eram
organizados em pelotões, integrados em uma linha de comunicações e
encaminhados nas pegadas do comandante da brigada. Ao mesmo tempo,
uma outra força sob o comando do subcomandante do 2º Batalhão (que fora
recolhido naquela mesma manhã no vale por Ben Shoham) recebeu ordens
para avançar por uma rota paralela à estrada do Tapline em direção a
Hushniyah. Os dois oficiais conseguiram organizar duas companhias de
carros, que destinaram a cada uma das duas estradas, e restabelecer o PC da
Brigada Barak em Nafekh. Cedo, começaram a chegar informes de Shoham
de que a situação começava a melhorar: “Até agora, devo ter destruído cerca
de oito carros. Parece que está bom!”, anunciou ele. Dov encontrou o Gen
Raful Eytan no PC em Nafekh. Esse homem, usualmente tranquilo e
desprovido de emoções, recebeu calorosamente os dois oficiais
relativamente mais jovens. Expuseram-lhe toda a história das suas odisseias
e o que haviam feito com o propósito de enviar reforços para o comandante
da brigada. Raful aprovou o que haviam feito.
O Maj Dov sentia-se satisfeito consigo mesmo. Após o inacreditável
pesadelo da noite que havia passado com o Cel Ben Shoham, seu
comandante de brigada, ali estava novamente, no PC da Brigada. Assistindo-
o na direção do PC, achava-se o Oficial de Comunicações, Hanan, cuja
dedicação era somente igualada pela maneira incrível com que conseguia
manejar os sistemas de comunicações e improvisar. Na verdade, pouco
restava da brigada, mas suas forças, pequenas como eram, se encontravam
com seu comandante de brigada e seu subcomandante, lutando contra o que,
evidentemente, era o principal ataque sírio contra o Tapline e defendendo
essa rota vital. A situação era muito grave, mas pelo menos havia alguma
esperança, agora que os reservistas começavam a chegar.
Cerca de meio-dia, o subcomandante do 2º Batalhão, que fora encaminhado
pela rota paralela à do Tapline, informou que estavam sendo atacados por
uma força de aproximadamente 80 carros inimigos (era a vanguarda da 1ª
Divisão Blindada síria, que irrompera entre Rafid e Hushniyah), o que era
mais do que seus seis blindados podiam enfrentar para deter o ataque. Ben
Shoham entrou no ar e ordenou-lhe que resistisse a todo custo, porque de
outro modo o inimigo ultrapassaria as forças israelenses do setor do Tapline
e atingiria o PC em Nafekh. Fez-se um silêncio odiento, e nem mais um
informe se ouviu. Às 12:30 horas, chegaram notícias de que haviam sido
avistados carros sírios na área do Tel Abu Hanzir, o que significava que o
inimigo irrompera através das forças do 2º Batalhão, que se lhe opunham na
estrada paralela ao Tapline, e se achava, agora, à retaguarda de Nafekh.
Nesse momento, Raful entrou no ar e ordenou que Shoham recuasse para
Nafekh pela estrada do Tapline e organizasse a defesa da área. Ben Shoham
ordenou a Davi Yisraeli, seu subcomandante, que desse cobertura à sua
pequena força durante o retraimento para Nafekh.
Deslocando-se na vanguarda da coluna e seguido por Yisraeli e três outros
carros, que cobriam sua retirada, o blindado de Ben Shoham destruiu mais
de cinco carros inimigos, além de diversos caminhões e transportes
blindados de tropas. Mantendo-se em contato com a brigada e a divisão, Ben
Shoham enviara pelo rádio instruções para Yisraeli, que as retransmitia aos
demais carros. Enquanto continuava combatendo e bloqueando a
aproximação dos carros sírios, Yisraeli ouviu o grito desesperado do seu
municiador: “Terminou a munição, senhor!” Os blindados sírios se
aproximaram, com os canhões apontados para seu carro; encontrava-se
indefeso. Instintivamente, ordenou ao motorista que carregasse e, com suas
metralhadoras coaxiais crepitando, atirou desesperadamente seu carro contra
os sírios que avançavam. Estupefatos, os sírios estancaram e o carro mais à
frente atirou: fumaças significativas se ergueram da torre do carro de
Yisraeli. Encontrara a morte tentando salvar a vida de seu comandante de
brigada.
Sem se aperceber do que acontecera a Yisraeli, Ben Shoham continuava a
transmitir ordens para o seu fiel subcomandante; seu carro prosseguia em
direção a Nafekh, sem que os demais carros se dessem conta do que estava
acontecendo. Os blindados sírios começaram a recuar e Ben Shoham
solicitou que fosse montado um ataque aéreo contra eles. Em pé, na torre,
acionava sua metralhadora contra os sírios, que abandonavam os carros.
Continuando seu avanço, cerca de 280m antes de alcançar Nafekh, Shoham
encontrou, dentro de um fosso, um blindado sírio avariado, de cuja torre
levantava-se uma nuvem de fumaça. Ele e Katzin apenas passaram os olhos
naquele espetáculo tão familiar, enquanto examinavam as colinas à procura
de outros carros inimigos. Subitamente, a metralhadora do blindado abatido
ganhou vida. Uma curta rajada e Shoham e Katzin deslizaram mansamente
para o fundo do carro.
Em questão de minutos, os três oficiais mais graduados do PC da Brigada
Barak haviam encontrado o mesmo destino de tantos companheiros de
armas. Por toda a noite de domingo, jazeram no campo de batalha enquanto
a luta continuava. No dia seguinte, Dov organizou um destacamento da
brigada para recolher os corpos do bravo comandante e de seus dois
auxiliares.
* * *
O Ten Cel Pinie, subcomandante do Distrito da Brigada, sentia-se um tanto
aliviado. Naquela manhã de domingo, conseguira evacuar todos os
habitantes dos núcleos coloniais. Crentes de que suas forças estavam mais
avançadas do que na realidade se achavam, os sírios tinham avançado seu
fogo de artilharia. Por isso, desde cerca das 11 horas, Nafekh se encontrava
relativamente tranquila. Pinie se encontrava atarefado em supervisionar a
retirada dos feridos, quando recebeu ordens de Raful para que preparasse a
defesa anticarro da posição. Ao meio-dia, estava percorrendo o
acampamento, recolhendo as bazucas e organizando as forças do PC para a
defesa.
De físico atarracado, robusto, com um modo áspero e objetivo de falar, rude
e sincero, Pinie havia feito sua carreira na infantaria, tendo passado grande
pare de sua vida militar na célebre Brigada Golani, onde ultimamente
comandava um batalhão. Quando atingiu a cerca sul do perímetro da posição
e instalou o armamento, Pinie parou estarrecido: lá, a pouco mais de 1.500m
ao sul, manobrando através do terreno acidentado e virtualmente ao alcance
do armamento leve do PC Divisionário avançado, progrediam os carros
sírios. Correu até Raful e avisou-o. Calmo e controlado como sempre, o
comandante escrutinou a cena com o seu binóculo. Às 13:15 horas, ordenou
que o grupo do PC avançado abandonasse a posição. As granadas explodiam
à sua volta, enquanto os tiros dos carros inimigos punham em chamas os
objetivos em todo o acampamento. Os primeiros carros sírios já arrastavam a
cerca sul da posição, onde apenas minutos antes Pinie instalara o
armamento, quando o carro meia-lagarta de Raful esgueirou-se pelo portão
norte, passando ao lado de outro meia-lagarta, em chamas, à entrada.
Deslocou seu PC para o norte, ao longo da via do Tapline, e estacionou na
planura, cerca de 5km ao norte de Nafekh. Após a guerra, o Gen Elazar
perguntou a Raful: “Raful, quando você decidiu abandonar Nafekh?”
"Quando já não era mais desonroso abandoná-la; quando os carros sírios
haviam desbordado o acampamento por ambos os flancos”.
Pinie raciocinava celeremente enquanto analisava a cena fantasmagórica que
se desenrolava no interior da posição, procurando escapar ao fogo da
metralha com que os sírios varriam o acampamento. Os soldados que
colocara em posição haviam desaparecido quando os carros sírios avançaram
derrubando as cercas da defesa. Chamou dois soldadosde infantaria que se
encontravam no portão do acampamento com uma bazuca e seis rojões e
ordenou-lhes que o acompanhassem, ao mesmo tempo que gritava, acima do
fragor dos estampidos, para que o mesmo fizessem o Oficial de Operações e
o assistente do Oficial de Informações do Distrito (que se achava armado
com uma metralhadora). Abrigaram-se atrás de um monte junto à cerca, e o
oficial de operações — que se via sob fogo pela primeira vez em sua vida —
assestou a bazuca. Pinie atuou como seu municiador. Os carros sírios
disparavam, sistematicamente, à queima-roupa, contra uma construção após
outra: o carro sírio mais próximo se encontrava, agora, a cerca de 180m
deles. O oficial disparou a bazuca e errou. Quando errou, também, o segundo
disparo, Pinie gritou-lhe: “Se você não acertar o bastardo no próximo tiro,
perderá a posição de número um da bazuca!” Contiveram a respiração; o
oficial mirou e acionou o gatilho. O terceiro disparo penetrou pela escotilha
do motorista. Ouviu-se uma forte explosão e toda a guarnição abandonou o
blindado e correu para salvar suas vidas, com Pinie e seus companheiros
atirando sobre eles. Durante dois dias, aquele carro permaneceu com seu
motor funcionando, em cima da cerca que derrubara.
Dois outros carros avançaram. Exclamando, “é agora”, ocorreu a Pinie que
finalmente se defrontava com seu destino. Ouviu um estrondo ensurdecedor
e os dois carros explodiram. À retaguarda deles, da estrada à beira da
posição, os blindados da 79ª Brigada de Reserva de Ori, que chegavam ao
local, haviam disparado. Pinie e seus homens correram, então, para o canto
sudeste do perímetro, onde na área das oficinas viram carros sírios em luta
com carros israelenses. Tomaram posição e, dessa vez, o assistente do
Oficial de Informações atirou, acertando num deles. Surgiu um segundo: era
o último rojão; atiraram e erraram. Quando, horrorizados, assistiam ao
blindado sírio girar sua torre contra eles, viram-no subitamente irromper em
chamas ao ser atingido pelo projétil de um carro. Vindo das oficinas, um
solitário blindado israelense se aproximou. Era Zwicka!
Ao alvorecer daquela manhã de domingo, Zwicka, lutando ao longo da
rodovia do Tapline, juntou-se às forças do Cel Yisraeli. Liderando um
poderoso ataque sírio, a 51ª Brigada de Carros de Combate estava sendo
bloqueada por uma companhia de tanques israelenses. Dez dos carros e
transportes blindados de infantaria sírios haviam sido atingidos e as forças
de Yisraeli avançaram cerca de 100m. “Finalmente” pensou Zwicka, “depois
de 10 horas de luta chegou a nossa vez. Estamos avançando!”.
A força inimiga se deteve a fim de se reorganizar, o que deu tempo a Zwicka
e seus companheiros para reabastecer e remuniciar. Agora, estavam se
saindo bem, melhorando suas posições à medida que combatiam e
aparentemente ganhando as melhores jogadas. Subitamente, Yisraeli gritou
para Zwicka que deveriam recuar à toda pressa: o inimigo os desbordara e já
se encontrava em Nafekh, a cerca de 4km às suas costas. Como foi dito
antes, durante a retirada o carro de Yisraeli fora atingido e o pequeno grupo,
com Ben Shoham à frente, prosseguiu lutando em sua retirada, destruindo
em sua marcha os carros e transportes blindados que assomavam nas cristas
em seus flancos. Ao se deslocarem, Zwicka descobriu que o carro do
comandante da brigada avançara sozinho e que Shoham fora morto pelo
fogo de armas leves.
Instintivamente, Zwicka resolveu não continuar ao longo da estrada e, assim,
livrou-se de uma emboscada síria. Cortou pelo descampado em direção às
oficinas, em Nafekh, onde encontrou um outro carro sob o comando de um
tenente da reserva. Começaram a operar juntos. Zwicka alvejava
desesperadamente tudo o que via — colinas, cercas e os blindados sírios que,
a essa hora, já haviam derrubado a cerca do perímetro. A essa altura, seu
motorista se achava sob total estado de choque e incapaz de reagir a
qualquer ordem. No meio de todo aquele pandemônio, um novo motorista se
materializou e Zwicka pôde, na sua volta para a estrada do Tapline,
acompanhar as forças de reserva da 79ª Brigada do Cel Ori que lutavam,
agora, em volta de Nafekh.
Vinte horas após ter tomado posição ao longo da rodovia do Tapline, a Força
Zwicka dirigiu-se de volta, transpondo as cercas derrubadas de Nafekh. Em
toda sua volta — no aramado, no acampamento e nas colinas —, jaziam
enegrecidos, em chamas e fumegantes carros e veículos blindados sírios.
Lentamente, todo dolorido, ferido, sangrando, com suas roupas queimadas e
o louro cabelo escurecido, Zwicka desceu de seu carro. Como pedindo
desculpas, olhou para Dov e murmurou: “Não posso mais!’’ Dov não
pronunciou uma só palavra. Tomou Zwicka nos braços e afagou-o, após o
que encaminhou-o às pressas para o centro médico de evacuação dos feridos.
* * *
Como todos os comandantes da reserva das IDF, no Yom Kippur, o Cel Ori
conduziu desesperadamente seus homens para fazê-los chegar o mais rápido
possível à linha de frente. Tratava-se de uma nova brigada equipada com
carros Centurion, cujos motores a gasolina ainda não haviam sido
convertidos para diesel. Ori tinha plena consciência de que esses motores
dariam motivo a muitos incômodos. À uma hora da madrugada de domingo,
ordenou que quatro deles se deslocassem ao longo da estrada para Yehudia,
sob o comando do subcomandante da brigada: por volta das duas horas, seus
reservistas já estavam em ação contra as forças sírias.
Cedo, na manhã do dia 7, movimentou-se com 20 carros e desdobrou sua
força na área geral de Kuneitra, no flanco direito da 7ª Brigada. Ordenou que
todos os carros avançassem e se reunissem a ele, mas quando um dos seus
batalhões chegou a Nafekh foi detido por Raful, que transmitiu um “SOS”
ordenando que toda a brigada se concentrasse em torno de Nafekh. Ori
recuou da área de Kuneitra tomando a direção de Nafekh, tendo deixado
uma força de cobertura perto de Kuneitra. Ao fazê-lo, avistou um batalhão
de carros T-62 que chegava à estrada Sindiana-Hushniyah, paralela à posição
norte da rodovia do Tapline. Era a força que destruíra os carros israelenses
que davam cobertura à desesperada tentativa de Ben Shoham para sustentar
a rota do Tapline.
Hofi comunicou-se com Ori e fez-lhe ver que em suas mãos repousava a
sorte de toda a área de Nafekh. Quando suas forças se deslocavam do leste
na direção de Nafekh, seus homens informaram que os carros sírios haviam
destruído as cercas da posição. Aparentemente, seus defensores haviam sido
desbaratados e parecia haver uma total falta de controle da situação. Ori
defrontava-se, agora, com um sério problema psicológico. Tratava-se, no
momento, de realizar um esforço supremo de liderança, contra-atacar o
estado de choque em que se achavam os reservistas que, horas antes,
estavam em seus lares, empenhados nos afazeres rotineiros da vida diária.
De repente, ali estavam lutando para salvar Golan e Israel, combatendo os
sírios no centro nervoso da área, deparando-se com mortos e feridos por
todos os lados e observando a terrível evidência dos combates cruéis e
ferozes que tinham sido travados, as dezenas de destroços fumegantes,
carros incendiados, munição que continuava explodindo e veículos que
cobriam o cenário em todas as direções.
Apesar de uma ininterrupta barragem de artilharia tornar impossível levantar
um quadro preciso do combate, os carros de Ori abriram fogo direto contra
os blindados inimigos que se encontravam em Nafekh e, gradualmente,
pressionaram para a frente. Travando um combate de blindados da mais
difícil natureza, exerceram incessante pressão sobre os sírios até que, ao
anoitecer, haviam conseguido limpar a área em torno da posição e da própria
Nafekh. Enquanto isso, o único carro que restara da força de cobertura da
rota de Kuneitra comunicava que se encontrava sob forte pressão. Ori
destacou, então, uma força para atacar os blindados sírios. Foram destruídos
oito carros inimigos e aliviada a pressão sobre a estrada a oeste de Kuneitra.
* * *
Imediatamente após a recuperação da posição de Nafekh, na tarde de
domingo, aluta continuou encarniçada na área geral dos entroncamentos
rodoviários, à medida que a brigada de Ori aumentava a pressão contra as
forças sírias em avanço. Pinie veio juntar-se a seu comandante de distrito,
que se empenhava em preparar as pontes sobre o Jordão, tanto para a defesa
como para destruí-las. A caminho, viu cenas que o horrorizaram e fizeram-
lhe evocar memórias terríveis de sua infância na Europa devastada. Seria
isso as Forças de Defesa de Israel? Diante de seus olhos vagavam sem
destino unidades de um exército derrotado. Colocando-se no meio da
estrada, fez parar uma força que fugira e, cruamente, fez ver ao oficial que a
comandava qual a penalidade que vigorava nas IDF para os casos de
covardia perante o inimigo. Era evidente para ele que o Exército israelense
estava totalmente desorientado em sua retirada.
Dov e Hannan, os dois únicos sobreviventes do PC avançado de Shoham,
movimentaram seu meia-lagarta e dirigiram-se para Aleika, pela rota
Nafekh-Ponte Bnot Ya’akov. A cena com que se depararam deixou-os
estarrecidos. Todos os sinais revelavam uma retirada causada pelo pânico;
misturados com os veículos administrativos em fuga, havia blindados e
peças de artilharia. Dov começou a ver "tudo vermelho" ao assistir,
incrédulo, desenvolver-se perante seus olhos uma cena como essa,
experiência pela qual as IDF nunca passaram. Consciente de que era, agora,
o oficial de maior posto da Brigada Barak, atravessou seu carro na estrada e
bloqueou-a: “Bem”, exclamou, "é aqui que paramos de fugir. Deste ponto
ninguém mais nos passará!” À medida que cada unidade ou grupo se
aproximava pela estrada, fazia-os parar e mandava que seu oficial
comandante, ou sargento, desse meia-volta. Autoritariamente, e sem deixar
qualquer dúvida, deu ordens para que fosse organizada uma posição
defensiva na rodovia. Muitas dessas unidades sentiam-se agora felizes por
novamente receberem ordens, já que se achavam desligadas de suas cadeias
de comando, unicamente devido à luta em que se tinham empenhado.
Do seu PC no Vale do Jordão, o Cel Men, subcomandante de Raful, se
empenhava em organizar a divisão. Ao tomar conhecimento pela rede de
comunicações que Raful se achava sitiado no perímetro de Nafekh,
abandonou o que fazia e decidiu partir em socorro do seu comandante.
Reuniu cinco carros que se achavam em reparos e se pôs a caminho. Ao
passar pela posição defensiva organizada por Dov, juntou à dele sua
autoridade a fim de que fosse consolidado o trabalho iniciado por esse
oficial.
Dov fortaleceu a linha de defesa que estabelecera e fez colocar 20 blindados
avariados (que reunira quando batiam em retirada) em posições em ambas as
margens da estrada, nas proximidades do perímetro de Aleika. Dirigindo-se
aos oficiais de sua força improvisada, pintou-lhes um quadro vivido da
situação desesperadora. Fez-lhes ver que não mais restava qualquer unidade
blindada entre eles e o Jordão: se os sírios conseguissem passar a barreira
que haviam organizado na estrada, nada mais restaria para impedir que
penetrassem na Galileia.
Ordenando pelo rádio que unidades de apoio da Brigada Barak, no Vale do
Jordão, viessem se juntar a ele e que trouxessem munição, combustível e
equipes técnicas para o reparo de blindados no local, Dov formou
companhias e pelotões ad hoc, aos quais Hannan ia dando as necessárias
instruções de comunicações e as integrava na estrutura geral da força.
Dirigiram-se para o campo de Aleika, onde descobriram um telefone intato.
Ao levantarem o receptor, ouviram um "clic”: Dov chamou o oficial de
Operações do PC do Comando e transmitiu-lhe detalhes completos da real
composição das suas forças e do que havia feito. A segunda chamada foi
para anunciar a uma esposa grata e descrente que ainda estava vivo.
Ao anoitecer de domingo, a 79ª Brigada de Ori, agora na área de Nafekh,
assumiu o comando das forças de Dov. Somente então Dov e Hannan, ainda
deslocando-se sobre o meia-lagarta, que constituíra o PC da Brigada Barak,
dirigiram-se para o PC recuado no Vale do Jordão.
A Ação de Bloqueio
Na noite de 6 de outubro, o Gen Hofi voltou ao seu PC avançado e transferiu
para Raful Eytan a responsabilidade da frente de Golan. O quadro era
desesperador: o setor sul estava inteiramente aberto; pelotões eram lançados
contra batalhões completos e mesmo contra brigadas, e as forças sírias
irrompiam através das brechas na linha de frente apenas pelo simples peso
de sua superioridade numérica. Apesar de submetidas a intensos ataques, as
fortificações na linha continuavam a enviar seus relatórios, que
proporcionavam um quadro acurado da situação. O Gen Hofi ordenou que as
guarnições de algumas recuassem; as demais permaneceram em suas
posições e combateram com tenacidade e bravura incríveis, sem que uma só
fosse conquistada pelos sírios durante a luta. Hofi passou toda aquela noite
apressando a vinda dos reservistas. O imprevisto da mobilização afetara o
bom funcionamento de seu mecanismo. Ocorriam demoras desanimadoras:
os carros se achavam prontos, mas a munição não chegava. Ordenando que
não se preocupassem com minúcias organizacionais, Hofi urgiu os
comandantes das reservas para que, tão logo estivessem preparadas,
encaminhassem suas unidades, por pelotões e companhias, o mais rápido
possível para a frente.
Quando, finalmente, acabou o pesadelo dessa noite, o quadro que se
apresentava era desencorajador. O combate principal parecia se desenvolver
na área de Nafekh, com os sírios desfechando uma grande pressão, com seus
novos blindados T-62, no sentido desse entroncamento vital. Na rota sul, o
inimigo conquistara Ramat Magshimim e se encontrava a cerca de 700m de
El Al. No Monte Gamla, atingira as antigas obras sírias, que marcavam suas
tentativas, antes da Guerra de 1967, para desviar o curso do rio Jordão. Na
estrada de Yehudia, que levava à Ponte Arik e à confluência do rio Jordão
com o Mar da Galiléia, seus elementos de vanguarda se encontravam a
menos de 10km desse rio. No setor central, estavam operando na área geral
da posição de Nafekh.
O Ministro da Defesa Dayan visitou o Comando e compreendeu que estava
sendo travada ali uma batalha vital para a própria existência de Israel.
Chamou o Gen Peled, Comandante da Força Aérea, e disse-lhe que a
situação nas Colinas de Golan era séria e que estava em jogo a sorte do
“Terceiro Templo”. Urgiu-o para que, de madrugada, concentrasse todo o
apoio aéreo a fim de bloquear o avanço sírio. Voltando a Tel Aviv, em seu
relatório, sugeriu a Golda Meir que o exército poupasse suas forças nas
Colinas de Golan e que estabelecesse uma nova linha logo à frente da borda
superior da escarpa, a cavaleiro do Vale do Jordão, enquanto se preparavam
para uma derradeira resistência, se necessário, ao longo das pontes que
transpunham o Jordão e que deveriam ser preparadas para demolição. Golda
Meir baixou os olhos, tragou profundamente seu cigarro, apertou os lábios e
conservou-se calada. Mais tarde, viria a descrever essas horas como as mais
sombrias de toda sua vida.
* * *
O Gen Bda Moshe (Musa) Peled, um oficial de blindados, ríspido e sincero,
agricultor de nascimento, da vila de Nahalal, no Vale de Jezreel, despediu-se
da 14ª Divisão, cujo comando assumira ao deixar o da Escola de Comando e
Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel. Comandara essa divisão da
reserva por todo o ciclo de treinamento e a unidade era agora uma força
altamente treinada e eficiente. Passou o comando, tomado de sentimentos
contraditórios, pois bem no fundo não lhe fugia o pressentimento de que
nem tudo estava bem e que seu afastamento, por um ano, a fim de cursar a
universidade (conforme as normas vigentes para todo oficial superior do
Exército) lhe parecia fora de qualquer propósito. Poucas semanas antes, por
ocasião de uma palestra para os oficiais da divisão, um oficial superior do
Estado-Maior Geral dirigira-lhes a palavra e explicara porque o Serviço de
Informações daquele EM era de opinião de que eram muito remotas as
perspectivas de uma guerra. O Gen Peled, sincero, como era de seu feitio,
nãose deixara impressionar e lembrara à assistência, inclusive ao
conferencista, que uma avaliação semelhante fora difundida pelo mesmo
Serviço na primavera de 1967, alguns meses antes da guerra estalar, em
junho.
Não obstante, não alterou seus planos. Recebeu um subcomandante que se
encarregaria da divisão durante sua ausência e, em 3 de outubro, despediu-se
da Unidade, rumou para sua casa em Nahalal e começou a fazer os
indispensáveis preparativos para seu ano de estudos. Na manhã do sábado,
dia 6 de outubro, o Chefe do Estado-Maior da sua divisão chamou-o ao
telefone e disse-lhe: “Estamos todos aqui; por que você não vem se juntar a
nós?” O tom de sua voz não deixava qualquer dúvida. Vestiu o uniforme,
emalou suas coisas e dirigiu-se velozmente, em seu carro, para o QG.
Quando passava pela encruzilhada de Netanya, crianças do rito ortodoxo à
beira da estrada lançaram pedras contra seu carro ao presenciarem a visão
incomum de um veículo em movimento em pleno Yom Kippur. Parou,
desceu, dirigiu-se até elas e explicou-lhes que o momento era de tensão e
que todos os militares deveriam se apresentar para o serviço. As crianças
afastaram-se silenciosamente. Continuou na corrida para seu QG, onde
chegou às 9 horas da manhã e começou a dar ordens para que se
preparassem para a mobilização. A autorização para mobilizar chegou pouco
depois.
A mobilização desenvolveu-se rapidamente e sem percalços: na verdade,
com maior eficiência fora desenvolvida em exercícios anteriores. Existiam,
porém, problemas para equipar os efetivos. O equipamento de sua divisão
era obsoleto e grande parte fora distribuída a unidades ocupadas em tarefas
rotineiras de segurança ou em treinamento. Toda a engenhosidade e
improvisação que caracterizam as Forças de Reserva de Israel foram postas
em jogo para recuperar os carros da divisão, os equipamentos óticos e os
veículos dos vários acampamentos por onde se encontravam dispersos. A
guerra colheu a 14ª Divisão no meio de toda essa atividade.
O Estado-Maior planejava deslocar, à noite, a unidade de Peled (que não
concluíra ainda sua mobilização) para a frente do Suez, mas, ao verificar que
a Divisão não estaria tão cedo em condições de se movimentar, adiou a
execução para a manhã seguinte. Com a chegada dos informes da frente do
Golan, o desdobramento da divisão de Peled foi discutido na manhã do
domingo. Os membros do Estado-Maior recomendavam que a decisão fosse
adiada até que a situação se tornasse mais definida. Elazar não aceitou a
sugestão e ordenou que a divisão se deslocasse para as Colinas de Golan.
* * *
Na 6.a feira, 5 de outubro, o Gen Div Dan Laner, um oficial da reserva,
estava no seu kibutz em Neot Mordechai, próximo às Colinas de Golan, em
preparativos para o dia santificado, quando o telefone soou. Era o Gen Hofi,
que lhe informou que se encontrava em Nafekh e que tudo indicava que algo
estava em ebulição. Laner agradeceu a Hofi pelo aviso e disse-lhe que
permaneceria por todo o dia no kibutz. Descansou o fone no gancho e pôs-se
a imaginar o que o general estaria fazendo em Nafekh. Levantou o fone,
discou o número de Hofi e, ponderando-lhe que ele certamente não poderia
ir até em casa, perguntou-lhe se gostaria de vir até o kibutz para almoçar.
Quando Hofi agradeceu o convite, Laner compreendeu que algo de incomum
estava acontecendo. Levantou novamente o fone e ligou para o Oficial de
Operações da sua divisão e disse-lhe para que se apresentasse na manhã
seguinte.
Dan Laner é um dos antigos veteranos das IDF e começou suas atividades
combatendo na Segunda Grande Guerra. Na Guerra dos Seis Dias, foi Chefe
do Estado-Maior do Comando Norte e por diversos anos comandou as forças
blindadas no Sinai, tendo sido o responsável pela frente de Suez. Em março
de 1973, foi licenciado do serviço ativo, mas, em maio, foi convocado para
que se apresentasse com toda a urgência ao Gen Elazar, ocasião em que o
general lhe disse que, apesar do Serviço de Informações estimar o contrário,
acreditava que a guerra irromperia ainda naquele ano. Assim, decidira
designar Laner para organizar e comandar uma nova divisão e que a ativasse
o mais rapidamente possível.
Laner estava de serviço junto à piscina do kibutz na manhã do sábado
quando o fone soou às 9:30 horas. Era novamente o Gen Hofi que lhe disse
que a situação parecia séria e que Laner deveria se dirigir imediatamente
para o QG de sua Divisão. Laner tomou seu carro e foi procurar o Gen Hofi
em Nafekh, onde, pela primeira vez, ficou a par da concentração das forças
sírias em frente à linha israelense. Hofi julgava haver uma possibilidade de
que a Força Aérea de Israel fosse autorizada a desfechar um ataque
antecipado. Tiveram a conversa interrompida por uma mensagem que
convocava Hofi para uma reunião do Estado-Maior às 13 horas daquele dia.
Naquela manhã, Laner já havia ativado o sistema de mobilização de sua
divisão e, na volta ao seu QG, ocorreu- lhe que essa bem que poderia ser
igual a outras mobilizações de que participara anteriormente. Quando
exercera o comando no Sinai, suas forças haviam sido postas em alerta pelo
menos umas trinta vezes. Com toda a pressão do momento, parou em seu
kibutz, para pegar um calção de banho — havia uma grande possibilidade de
que tivesse pouco o que fazer durante o período de mobilização e por que
não aproveitar a piscina da base militar das forças regulares vizinha a seu
QG?
Estava inspecionando o andamento da mobilização quando um oficial correu
até ele e avisou-o que as hostilidades haviam irrompido em todas as frentes
— contudo, ainda não se dispunham de detalhes. Raciocinou rapidamente:
ali se achava com o seu QG divisionário ainda com falta da maioria dos
elementos logísticos básicos e, acima de tudo, sem os meios de comunicação
necessários para o controle das unidades que logo seriam postas sob seu
comando. Sua primeira providência foi deitar mãos, “ilegalmente”, em sete
carros meias-lagartas, que rapidamente enviou para um acampamento
próximo a fim de estabelecerem a coordenação das comunicações e
integrarem a divisão nos diversos canais operacionais.
Um após outro, espantados e curiosos, começaram a chegar os oficiais
reservistas. Laner mandou que seu Estado-Maior se concentrasse às 22 horas
junto ao PC avançado do Comando Norte. Passou toda aquela noite à escuta
dos informes que chegavam e quando Hofi voltou de Nafekh para o PC do
Comando o quadro da situação era sombrio e desesperador. Pela primeira
vez, Laner percebeu o que estava acontecendo. Dayan, que estava presente à
reunião, ordenou que fossem empregados todos os recursos para bloquear as
vias que levavam ao rio Jordão. Aceitaram uma sugestão de Laner para que
fosse dividida a responsabilidade da área de Golan e, assim, a frente foi
dividida entre ele e Raful Eytan, segundo uma linha divisória cerca de 800m
ao sul da estrada Bnot Ya’akov-Kuneitra: Raful ficaria encarregado de todo
o setor ao norte da linha, inclusive a estrada, e Laner assumiria a porção sul.
Laner não tinha a menor idéia do que estava acontecendo no campo de
batalha.
Sob seu comando foram colocadas quatro brigadas: a Brigada Barak de Ben
Shoham, a 17ª Brigada de Carros de Combate da Reserva, comandada pelo
Ten Cel Ran, e as 14ª e 19ª Brigadas da Reserva. Naquele domingo de
manhã, dirigiu-se até Almagor, próximo à Ponte Arik, e considerou a
situação de sua divisão ainda em embrião. Ran, comandante da 17ª Brigada,
pouco antes fora ferido no combate junto à estrada de Yehudia, e seu
imediato assumira o comando da Unidade. Já se encontravam com falta de
munição. Ben Shoham, comandante da Brigada Barak, informava que lhe
restava apenas um carro e um meia-lagarta e obteve permissão para recuar
até o Monte Gamla, voltar até Nafekh e organizar algumas forças. O
Comandante da 14ª Brigada da Reserva informou que estava atravessando a
Galileia sobre lagartas, com duas companhias de carros à vanguarda, mas
que alguns carros vinham falhando, devido a problemas mecânicos, e
estavam sendo abandonados às margens da estrada. O comandante da 19ª
avisou que sedeslocava com aproximadamente um batalhão de carros de
combate em direção à extremidade sul do Mar da Galileia. Quando Laner se
encontrava sobre a ponte, chegou um comandante de Batalhão da Brigada
Barak trazendo consigo duas companhias de carros da reserva. Laner
encaminhou-o para o Monte Gamla e ordenou que o comandante da 14ª
Brigada deslocasse suas forças para o mesmo local, tão logo os blindados
tivessem chegado lá. O comandante da 19ª Brigada notificou sua posição e
Laner mandou que dirigisse para El Al todas as forças disponíveis e que
tomasse posição junto à estreita passagem da estrada El Al. Uma terceira
companhia da reserva, da Brigada Barak, chegou e foi por ele encaminhada
na direção de El Al.
E assim eles chegavam. Unidades de diversas formações dirigiam-se
apressadamente para as linhas de frente sem qualquer organização. Quando
chegaram os primeiros carros da unidade de reconhecimento da divisão de
Raful, o subcomandante da 17ª Brigada, que bloqueava os atacantes sírios,
na encruzilhada de Kuzabia, na estrada de Yehudia, informou que a situação
se tornava desesperadora e que as forças sírias já o haviam desbordado e já
se encontravam à cerca de 10km do rio Jordão. Laner simplesmente se
apossou da unidade de reconhecimento do seu vizinho da área norte e
mandou-a reforçar os elementos da 17ª Brigada.
Mantendo-se sobre a ponte sob o pesado fogo de artilharia, com todas as
rotas de acesso sob intenso bombardeio, Laner fez avançar seus carros, por
pelotões e companhias isoladas, sem considerar suas formações orgânicas,
pelas duas rotas da área de sua divisão. Em ambas, o ataque sírio se
encontrava a cerca de dez minutos do rio Jordão e do Mar da Galileia. As
forças de reserva da Brigada Barak haviam avançado cerca de 4km na
direção do Monte Gamla, quando o oficial no comando do batalhão
informou que estava sendo atacado pela infantaria. Por algum instinto
inexplicável, Laner ordenou-lhe que suspendesse o fogo. De fato, as forças
que avançavam eram unidades de infantaria da Brigada Golani, em retirada
diante de um maciço ataque blindado sírio. A força avançou outros 3km e foi
engajada pela 1ª Divisão Blindada síria. Onze carros sírios foram
incendiados e Laner ordenou que suas tropas mantivessem suas posições.
Ao anoitecer de domingo, quatro brigadas sírias ameaçavam as rotas que
Laner desesperadamente tentava defender. As 48ª e 51ª Brigadas de Carros
sírias haviam transposto a rodovia do Tapline na área de Hushniyah e
avançavam ao longo e paralelamente à estrada de Yehudia a fim de alcançar
o Monte Gamla e a área da Ponte Arik no rio Jordão. Haviam penetrado
cerca de 19km e já se encontravam a cerca de 9.500m da Ponte quando
foram engajadas pelos elementos avançados da 17ª Brigada de Reserva, que
para lá se deslocara sob o comando do Cel Ran. Caso a brigada houvesse
demorado mais uns 30 minutos, os sírios teriam alcançado o Jordão!
Enquanto as brigadas sírias se aproximavam, o Cel Ran desdobrou suas
forças e, no combate que se seguiu, cerca de 15 carros sírios foram
destruídos. A 132ª Brigada Mecanizada síria se detivera antes de El Al e a
42ª Brigada se desenvolvera em leque no sentido norte. A 47ª Brigada de
Carros síria dividiu-se em duas partes, uma sob o comando do comandante
da brigada, tomando o rumo norte de Ramat Magshimim, na direção da
estrada de Yehudia; a outra permaneceu junto à 132ª Brigada, na rota de El
Al. Assim, metade da 47ª Brigada marchou contra metade da 17ª Brigada
israelense na estrada de Yehudia, enquanto sua outra parte enfrentava o
restante da 17ª Brigada na rota de El Al.
Tendo engajado a força inimiga na encruzilhada, o Cel Ran, com um
batalhão de carros e uma companhia de reconhecimento, avistou a outra
metade da 47ª Brigada síria, que se dirigia no rumo norte contra seu flanco.
Tomou posição, abriu fogo e engajou o inimigo. Travou-se, então, um duro
combate de blindados. No decorrer da luta, em que os israelenses perderam
três carros e os sírios cerca de 35, Ran foi ferido e levado para a retaguarda,
como também o comandante do único batalhão de blindados que estivera
sob seu comando durante o combate. O comandante de companhia mais
antigo assumiu o comando da brigada e, a partir daquele momento, sustentou
um combate continuado ao longo da via Yehudia-Hushniyah, a oeste do
Tapline.
Vendo que a situação na estrada de Yehudia era desesperadora, o
subcomandante de Laner, Gen Bda Hoshe, progrediu com o PC avançado da
divisão e assumiu o comando do setor em que operava a brigada de Ran.
Permanecendo bem à frente com as forças avançadas, dirigiu com
tenacidade e bravura o combate com um mínimo de forças. Na manhã de 2ª
feira, avançou diretamente para a linha de frente, onde se deparou com uma
situação deveras difícil: a maioria das unidades perdera seus oficiais e havia
sinais de desmoralização entre os soldados. Sua aparição no local e as
palavras que lhes dirigiu alteraram dramaticamente o quadro. Avistou um
jovem oficial do material bélico, o único oficial que pôde encontrar, e o
colocou no comando da força que detinha os sírios, após instruí-lo
exatamente sobre como deveria proceder. Auxiliou-o a organizar os
remanescentes avançados numa posição defensiva em 360 graus; recolheu os
feridos e colocou-os nos carros danificados para que protegessem, à
retaguarda, a progressão da 17ª Brigada contra as forças da 47ª Brigada de
Carros síria, que avançava da estrada de El Al para o norte através do
campo. A maneira com que o Gen Moshe resolveu a situação deveras
delicada na rota de Yehudia e o seu exemplo pessoal vieram a se constituir
em fator importante na estabilização da situação nessa frente.
Na estrada de El Al, o Ten Cel Mir, que se dirigia rapidamente para o ponto
de estrangulamento entre a garganta de Ruqqad e a área de El Al, recebeu
ordens para se manter em posição defensiva e não avançar para Ramat
Magshimim, a cuja volta podia ver os carros sírios se movimentando. O
contato foi estabelecido por volta das 11:45 horas e durante todo aquele dia
sustentou, com apenas oito carros, um combate contra a 132ª Brigada
Mecanizada e metade de 47ª Brigada de Carros síria. Na luta, foi feito
prisioneiro do Maj Kultum, subcomandante da 47ª. Ele avançara suas forças
na presunção de que o ponto de estrangulamento em El Al estava bloqueado
e que não havia forças inimigas em seus flancos. Aparentemente, os sírios
foram incapazes de imaginar, mesmo em seus sonhos mais fantasiosos, que
essa rota vital fosse deixada aberta.
Sem nenhum motivo aparente, as 47ª e 132ª Brigadas da 5ª Divisão síria se
detiveram em seu avanço. Pode ser que as previsões do Maj Kultum, de que
viesse a se defrontar com uma posição defensiva bem preparada, no local
mais óbvio ditado pela lógica militar e pelo planejamento avançado, fossem
a razão para essa surpreendente falta de iniciativa de sua parte. Pode ser que
estivessem combatendo “de acordo com a cartilha", isto é, que ao terem
atingido uma determinada linha, como ordenado, e apesar da ausência de
forças israelenses à frente, esperassem, de acordo com os planos, que a nova
vaga de ataque as ultrapassasse. Talvez o comando sírio, ao perceber seu
insucesso no setor norte e a relativa facilidade com que suas forças haviam
penetrado no setor sul, suspeitassem de alguma armadilha e temessem pelos
flancos da 5ª Divisão de Infantaria e da 1ª Divisão Blindada nessa área.
Nesse ínterim, a 1ª Divisão penetrara nas Colinas de Golan pelas estradas de
Kudne e de Rafid e se detivera na área de Hushniyah, a fim de se
reorganizar, antes de iniciar um vigoroso ataque ao rumo norte, ao longo da
estrada do Tapline, visando irromper através de Nafekh e flanquear a divisão
de Raful Eytan, que até então bloqueara todos os avanços sírios.
As 2:30 horas da manhã do dia 7, a 19ª Brigada israelense chegou a El Al
com seu batalhão vanguarda de carros Sherman adaptados. Os sírios
atacaram e o combate desenvolveu-se por todo aquele dia. No domingo à
noite, 25 blindados sírios incendiados pontilhavam os descampados de
Ramat Magshimim e El Al. Dois carrosisraelenses tinham sido postos fora
de ação.
Os reservistas, que ainda na manhã anterior se encontravam em seus lares
com suas famílias, ou em preces solenes nas sinagogas, menos de 24 horas
após viam-se no inferno dos combates, lutando sob condições de
inferioridade que nunca haviam imaginado. A arma secreta de Israel — o
gênio pela improvisação — começava a produzir efeito. O avanço sírio
estava sendo detido.
A Epopeia da 7ª Brigada
Quando a aurora do domingo, 7 de outubro, raiou na área da 7ª Brigada, um
espetáculo de guerra e devastação apareceu aos olhos cansados de seus
homens. Um exército de carros em chamas e de veículos destruídos jazia
espalhado por todo o vale entre Hermonit e o “Booster", o local de imolação
escolhido por Avigdor, e que viria a ser conhecido pela brigada e pelas IDF
como o "Vale das Lágrimas". Guarnições dos carros corriam entre as
chamas; torres desmembradas das carcaças jaziam perto dos carros
decapitados; chamas vermelhas e púrpuras lambiam os caminhões de
munição e os transportes blindados de pessoal e, uns após outros, os veículos
explodiam e se desintegravam. Como imensos cogumelos, as nuvens de
fumaça se aglomeravam sobre os blindados. "Exatamente como no campo de
batalha de E o vento levou”, foi o que ocorreu a um jovem comandante de
companhia do 5º Batalhão, "mas desta vez numa moderna versão
eletrônica”. O fogo certeiro da artilharia síria havia forçado os comandantes
de carros a procurar abrigo e baixarem as tampas das escotilhas das torres.
Assim que voltaram às torres e se puseram a examinar o cenário, viram uma
nova coluna síria avançando sob cobertura de intensa barragem de artilharia,
pronta para desencadear, pela segunda vez, o combate pelo Vale das
Lágrimas.
A 78ª Brigada de Carros da 7ª Divisão síria desfechou um segundo ataque às
8 horas daquela manhã. Avançou ao longo de uma frente de
aproximadamente 4km, entre as elevações "Booster” e Hermonit, tentando
infiltrar uma força pela wadi**, que se estendia por todo o sopé de Hermonit
na direção de Wasset. O combate desenvolveu-se sem cessar, com o 5º
Batalhão enfrentando toda uma brigada síria. Calmamente, Avigdor dirigia a
luta, poupando suas forças, sempre mantendo à mão uma reserva, quaisquer
que fossem as circunstâncias, e tentando pensar dois lances à frente do
inimigo e sempre preparando soluções para os imprevistos. A brigada
combatia a alcances que variavam de 9 a 2.000m, e Avigdor mantinha-se em
estreito contato com Raful, seu comandante de divisão. Nesse momento, no
setor norte, o 1º Batalhão estava sendo atacado por dois batalhões de carros
sírios apoiados por uma força de infantaria blindada. Nesse ataque, a maioria
dos transportes blindados foi destruída. As 13 horas, a batalha estava
terminada e a força síria recuou deixando dezenas de carros e veículos em
chamas ao longo de toda a frente da 7ª Brigada.
O 7º Batalhão, sob o comando do Ten Cel Avi, que estivera em posição ao
sul de Kuneitra, deslocou-se, então, para Hermonit, no setor central, a
cavaleiro do Vale das Lágrimas. Avi recebeu ordens para deixar um pequeno
efetivo no sul, como proteção ao flanco da brigada. O 1º Batalhão, que
perdera cerca de 10 carros, permaneceu no setor central, a cuidar de suas
feridas. Naquela tarde, os sírios montaram, na área sul de Kuneitra, um
ataque contra a companhia que Avi deixara para trás, quando se deslocara
para Hermonit. Todos os vinte blindados da força atacante foram destruídos.
As 22 horas, mais uma vez, os sírios voltaram a martelar o setor central com
o costumeiro bombardeio concentrado de artilharia. Mas, desta vez, a 7ª
Divisão síria se achava reforçada pela 3ª Divisão Blindada e com elementos
da 81ª Brigada equipados com modernos carros soviéticos T-62 à frente. A
brigada de Avigdor, que em nenhum momento, desde o primeiro dia de
combate, dispusera de mais de 40 blindados, bloqueava uma força total de
aproximadamente 500 carros sírios. Uma vez que os israelenses não
dispunham de equipamento ótico para combate noturno, a força síria
conseguiu chegar a curta distância dos carros israelenses, tendo o combate se
desenrolado a distâncias de 27 a 50m, sob intenso fogo da artilharia síria. Os
blindados sírios, acompanhados por elementos de infantaria equipados com
bazucas anticarro RPG, desbordaram os israelenses, que tiveram muitos
carros destruídos por esse armamento. A batalha tornou-se desesperada e
atingiu seu auge a uma hora da madrugada da segunda-feira, 8 de outubro,
quando cessou tão repentinamente como começara. Os sírios haviam sofrido
baixas bastante pesadas e puseram-se a tentar evacuar, na escuridão, os
carros danificados e os feridos. Avigdor mandou cobrir todo o campo de
batalha com um intenso fogo de artilharia, enquanto aproveitava a pausa
para remuniciar e reabastecer seus blindados.
As 4 horas, os sírios recomeçaram a hostilizar a brigada, que se empenhava
num esforço concentrado para reparar carros avariados. Quando a aurora se
aproximou, seus primeiros clarões revelaram uma visão terrificante para as
guarnições exaustas dos blindados israelenses: 130 carros sírios inutilizados,
abandonados e fumegantes, e um grande número de transportes blindados
jaziam espalhados por todo o Vale das Lágrimas. Muitos deles haviam
ultrapassado as posições israelenses e outros se encontravam no meio delas.
Pela primeira vez, os homens da 7ª Brigada compreenderam contra o que
haviam se batido: tinham bloqueado o avanço de mais de cem carros
inimigos. Avigdor ordenou que a brigada atirasse sobre qualquer objetivo
que se movimentasse no alcance de até 2.700m. Naquela noite, os sírios
haviam lançado dois batalhões de infantaria contra as posições de Hermonit.
Uma pequena força da Brigada Golani, com menos de 20 homens, repelira o
ataque e ao quadro de desolação e de blindados fumegantes nesse sangrento
campo de batalha se ajuntavam os cadáveres de dezenas de infantes sírios.
Durante toda a 2ª feira, a 7ª Brigada de Avigdor enfrentou os ataques
concentrados de elementos da 7ª Divisão de Infantaria, da 3ª Divisão
Blindada e de unidades independentes como a Guarda Republicana de
Assad, equipada com carros T-62. No flanco sul da brigada, ao sul de
Kuneitra, a companhia de Tigre foi engajada por uma unidade blindada, que
penetrara na área ao abrigo da escuridão. Com uma força de sete blindados,
Tigre bloqueou o ataque durante todo aquele dia, neutralizando todas as
tentativas inimigas para ultrapassá-lo — cerca de 30 carros, duas
companhias de transportes blindados e 20 outros veículos jaziam em chamas
a fumegar na planície dominada pelos seus carros. À tarde, três colunas
isoladas de batalhões de carros sírios, acompanhadas por blindados de
infantaria, atacaram tentando penetrar na área de Hermonit. As baixas
cresciam à medida que a artilharia síria identificava as posições israelenses;
na realidade, deveu-se a ela a maior parte das perdas sofridas pela brigada.
A essa altura, Avigdor e suas forças se achavam completamente exaustos:
vinham combatendo sem parar há três dias e duas noites e o desgaste físico
se fazia sentir. Não havia folga para dormir, não havia folga para comer, não
havia folga para outra coisa que não fosse tentar escapar aos projéteis de
artilharia e lutar. Seus sentidos estavam amortecidos pelo constante martelar
dos estampidos de artilharia e dos foguetes Katyusha. Avigdor compreendeu
que a eficiência dos seus carros decrescia e que a cada dia que passava seu
número era cada vez menor. Suas baixas já alcançavam cerca de 50 mortos e
um grande número de feridos, e não dispusera, em qualquer momento, de
mais de 40 a 45 blindados em condições de combate — e isso graças,
apenas, à incrível bravura e inventividade de sua unidade de manutenção.
Apesar das pesadas baixas que vinham infligindo ao inimigo, pairava um
sentimento de desespero, quando cada ataque sírio ultrapassava a intensidade
e o alcance do anterior. Mais cedo ou mais tarde, um ponto fraco de suas
defesas cederia. Assim, Avigdor formou uma unidade de reserva com cinco
carros comandados por seu oficialde Operações, a quem ordenou que
retraísse cerca de 800m e a mantivesse pronta para bloquear uma possível
penetração síria. Atrás de si, calmamente controlando o combate na sua
maneira firme e tranquila, estava Raful, que nessas horas de provação vinha
fazendo jus à sua reputação.
Aproveitando-se do equipamento para combate noturno altamente
sofisticado, os sírios haviam conseguido transformar a noite em dia para suas
forças blindadas e tinham consciência da vantagem que isso lhes assegurava
sobre os israelenses. Na noite de 2ª feira, atacaram o setor central, na direção
do “Booster”, numa ação que se prolongou por três horas. Avigdor ordenou
que sua companhia mais do sul (comandada por Tigre) contra-atacasse,
naquela noite, o flanco e a retaguarda do inimigo. Quando Tigre avançou
com seus sete carros, deparou-se com uma companhia de carros e blindados
de infantaria sírios a caminho do topo do "Booster”. Engajaram-se em
combate e o ataque sírio foi desbaratado.
A 3ª feira amanheceu com a força de carros da brigada pesadamente
reduzida. Quando as brumas da manhã se dissiparam, uma barragem maciça
de artilharia, que ultrapassava todas as que haviam sido submetidas até
então, caiu sobre a brigada. Foguetes Katyusha silvavam, batendo nas rochas
e no solo, cobrindo com seus estilhaços de chumbo toda a área. Aviões MiG
17 rugiam a baixa altura descarregando suas bombas sobre o campo de
batalha. Sete helicópteros sírios voaram para Bukata por sobre as posições
israelenses, onde quatro deles descarregaram suas unidades de comando. Por
volta das 8 horas da manhã, a barragem síria atingia uma intensidade
ensurdecedora, com milhares de granadas e centenas de foguetes Katyusha
incidindo sobre as posições e forçando os chefes dos carros a baixarem as
escotilhas e a procurarem abrigo em seu interior. A persistente intensidade
do ataque, obviamente, constituía a fase preliminar, era o levantar de
cortinas de um concentrado e determinado esforço sírio visando a quebrar a
teimosa resistência que os impedira de romper a linha israelense nesse setor.
Ao observar a enorme força que avançava e ver toda a frente coberta por um
cerrado fogo das explosões de bombas e de granadas, Avigdor sentiu latente
a determinação síria de penetrar, dessa vez, a qualquer custo. Surgindo entre
uma nuvem de pó e fumaça, sobre uma estreita faixa do setor central, uma
força síria, liderada por cerca de cem carros e acompanhada por elementos
de infantaria blindada conduzidos por um grande número de transportes de
tropas, avançava lentamente em direção às exaustas forças de Avigdor,
desgastadas pelos combates.
A 7ª Brigada abriu fogo no seu alcance máximo, mas tão logo os carros
sírios eram atingidos, outros ocupavam seus lugares prosseguindo em seu
avanço implacável sobre as posições israelenses. Progrediram e encurtaram
o alcance de tiro. Os chefes dos carros israelenses achavam-se expostos em
suas torres e, quando a concentração de artilharia desceu sobre a pequena
tropa israelense, o número de baixas entre os chefes de blindados atingiu
proporções alarmantes. Avigdor compreendeu que, para conseguir uma
maior eficiência, deveria retirar sua força do inferno criado pelo incessante
fogo da artilharia síria. Ordenou, então, que seus homens — agora sob uma
pressão muito forte dos elementos avançados inimigos — abandonassem as
rampas elevadas de onde vinham lutando e recuassem cerca de 360m, de
modo a escaparem às concentrações da artilharia.
Quando, de sua posição, que cobria a fortificação A-3 na rodovia principal
para Damasco, observava as contínuas vagas de reforços sírios que
avançavam, Yair recebeu ordens de Avigdor para concentrar suas forças na
área e juntar-se ao combate no setor da 7ª Brigada. Recuou de sua posição
com seis carros e engajou o inimigo. Quando lutava na contra-encosta de
uma colina, seu carro foi atingido e ele ferido. Abandonou-o e subiu para um
novo carro, o terceiro. Afastando-se da fortificação A-3, ordenou que toda a
guarnição procurasse abrigo e pediu que a artilharia israelense a cobrisse
com seu fogo para defendê-la. Do terreno elevado, de onde viam de cima o
Vale das Lágrimas, seus carros atingiam os blindados sírios um após outro.
Mais tarde, naquele dia, enquanto os combates se desenrolavam ao longo de
toda a frente, Yair organizou, com cinco carros e transportes blindados, um
comboio para levar suprimentos para a posição A-3. Nos arredores de
Kuneitra seu carro foi atingido pelo impacto de uma bazuca, disparada por
comandos inimigos, e o carro à sua retaguarda informou que ele fora morto.
Mas Yair estava vivo e avançando com três transportes de tropas,
ultrapassou a posição "Booster” e, com o combate rugindo à sua volta,
empreendeu uma corrida para a fortificação A-3. Quando lá entrou com os
suprimentos, foi abraçado pela guarnição que poucos momentos antes ouvira
notícias de sua morte.
Inesperadamente, quando a 7ª Brigada se retirava da elevação que ocupava
— uma espécie de rampa com cerca de 1.600m de comprimento —, a
artilharia suspendeu seu fogo e, da colina, os carros sírios começaram a
atirar sobre ela. Avigdor avaliou a desesperadora situação: restavam apenas
seis carros para seu 7º Batalhão, que agora funcionava como reserva da
brigada; Yair tinha recuado da fortificação e concentrara seis blindados; seu
oficial de Operações se encontrava em atividade de patrulha na área de
Bukata, à procura dos comandos sírios que lá haviam descido de helicóptero
naquela manhã; Tigre, que lutava no Tel Git, na principal rota para Damasco
ao norte do “Booster”, e se achava com pouca munição, solicitara permissão
para recuar a fim de remuniciar. Avigdor negou-lhe a licença e ordenou que,
se necessário, fizesse uso do armamento leve, dizendo-lhe: "Pode ser que a
visão dos tanques judeus os assustem”. Entretanto, pouco depois, Avigdor
voltou atrás ao ouvir que eles dispunham de apenas um projétil em cada
carro. A situação se apresentava, então, desesperadora e, após uma consulta
a Raful, Avigdor agrupou suas forças e a 7ª Brigada contra-atacou.
Avi chegara com seu 7º Batalhão; o campo de batalha estava coberto por
nuvens de pó e de fumaça, que dificultavam o deslocamento. Ao galgar a
colina, deparou-se com carros sírios sobre as posições israelenses. O
primeiro carro não o percebeu entre a fumaceira: uma rápida ordem para seu
artilheiro e o tanque inimigo foi tomado pelas chamas. No momento em que
ia transmitir informes para o comando da brigada, três outros carros
avançaram na direção do veículo incendiado. "Fogo rápido”, ordenou. O
primeiro blindado lentamente girou seu canhão na direção do seu carro:
“Fogo, fogo”, gritou para o artilheiro, que não conseguia vislumbrar o
inimigo oculto pela poeira. Ao sair da nuvem que o envolvia, o artilheiro
atirou e instintivamente fez girar o canhão. No espaço de um minuto e meio,
quatro carros sírios haviam sido destruídos por impactos à queima-roupa.
Parte da força síria recuou e a brigada retomou a colina. Porém, os sírios
ainda avançavam, deixando em seu rastro carros em chamas e conquistando
o terreno palmo a palmo; à sua retaguarda, longos comboios aguardavam
para participar do combate, enquanto dezenas de elementos das guarnições
de blindados corriam por todo o campo de batalha à procura de novos carros,
a fim de continuarem lutando, ou tentavam escapar descendo para o vale.
No setor norte, o 1º Batalhão, sob o comando de Bats, continuava a luta
reduzido a menos da metade dos seus carros. Avigdor começou a sentir que
não conseguiria bloquear a penetração síria e, assim, ordenou a Bats que
deixasse três blindados defendendo seu setor e que avançasse para o flanco
norte do combate a fim de fazer frente à ameaça representada pelos carros T-
62 da Guarda Republicana de Assad, que, aproveitando-se do ângulo morto,
procuravam deslocar-se wadi acima na direção de El Rom. Ao engajá-los,
Bats foi morto. Avigdor ordenou que Avi, comandante do 7º Batalhão,
tomasse sob seu comando tudo o que restara das forças de Bats. Juntamente
com eles, Avi engajou dois batalhõesde carros T-62 que haviam
ultrapassado, então, a 7ª Brigada e se encontravam na wadi, cerca de 450m à
sua retaguarda. Manobrando sobre as elevações em torno do vale, o batalhão
de Avi destruiu a força da Guarda de Assad, que no campo de batalha
mostrou-se bastante medíocre. Avigdor colocou, então, sob comando de Avi
todas as forças que lutavam no setor central. “Não se preocupe, senhor”,
disse-lhe Avi, orgulhosamente, fazendo-o lembrar-se de sua origem
yemenita, "Sou um ‘Pantera Negra’; por mim não passarão!”. Os sírios
continuavam a pressionar desesperadamente e com enorme determinação,
lutando contra, aproximadamente, 15 carros israelenses que,
obstinadamente, se conservavam à distância entre 220 a 450m, mas agora do
alto de suas posições originais, nas rampas, o que lhes proporcionava uma
considerável vantagem tática. Os sírios os desbordaram e passaram a atirar
sobre eles da retaguarda. O calor das chamas dos carros que se incendiavam
podia ser sentido por todos os lados: o cheiro da pólvora e da cordite
permeava a atmosfera.
A 7ª Brigada, atacada por todos os lados, estava agora lutando num círculo
de 360°. A essa altura do combate, o controle e a identificação tornavam-se
impossíveis. Cada carro e cada pequena unidade lutava sua guerra particular;
os blindados israelenses se confundiam e iam parar no meio dos carros
inimigos e os carros sírios perdiam seu rumo no meio das posições
israelenses. A artilharia, de ambos os lados, continuava a martelar esse
campo de batalha fantasmagórico, enquanto os sírios combatiam
desesperadamente tentando conseguir a ruptura da linha. Os israelenses
continuavam lutando por instinto e pouco conscientes, percebendo apenas no
subconsciente o significado do que faziam.
Avigdor não conseguia se livrar da impressão de que esse era o último
combate. Por qualquer razão, que mesmo mais tarde não conseguiu atinar,
não lhe ocorria a idéia de refluir para a retaguarda, não obstante o fato de
que a brigada chegara ao limite das suas possibilidades, tanto no que se
referia à resistência física, como à capacidade mental de seus homens. Sua
capacidade logística e poder de controle eram quase inexistentes. Já há
quatro dias e três noites vinham lutando, sem um momento sequer de
descanso ou de pausa, sempre sob um fogo incessante. Restavam agora, para
cada carro, três ou quatro projéteis, em média. No mais aceso do combate,
Avigdor voltou-se e falou para seu oficial de Operações. Esse oficial
começou a responder e, então, no meio de suas palavras, escorregou
adormecido para o fundo do transporte. Avigdor comunicou-se com Raful e
disse-lhe que não sabia se poderia continuar. Já como num sonho, descreveu
as condições de sua brigada. Raful, calmo e animador, como de seu feitio,
rogou: “Pelo amor de Deus, Avigdor, aguente! Dê-me mais meia hora. Cedo
você estará recebendo reforços. Tente, por favor, aguente!”.
Nesse instante crítico, o Ten Cel Yossi, à frente dos remanescentes 11 carros
da Brigada Barak, penetrou na área da divisão e foi enviado por Raful em
socorro de Avigdor. No dia 4 de setembro, Yossi passara o comando de seu
batalhão na Brigada Barak e resolvera que sua lua-de-mel fugiria às
convenções. Assim, voou com a esposa, Naty, para o Himalaia. Às vésperas
do Yom Kippur, foram de moto para a fronteira chinesa. De volta a
Katmandu, para as cerimônias do dia santificado, o recepcionista do hotel
perguntou-lhe: "Você é de Israel, não? Algo está acontecendo em sua terra.
Você precisa ouvir o noticiário”. Correndo contra o relógio e valendo-se de
todos os tipos de expedientes, Yossi e Naty conseguiram voar para Israel, via
Irã e Atenas. Dessa cidade, Yossi telefonou para a família e pediu que o
esperassem no aeroporto com seu uniforme. Ao rumar, apressadamente, para
o norte, não poderia imaginar que iria assumir o comando dos remanescentes
de sua velha brigada. Correu até o PC avançado de Hofi e ouviu dele o que
acontecera à Brigada Barak. Era 3ª feira de manhã.
Quando Dov alcançou o setor central da brigada, começavam a chegar, aos
poucos, os remanescentes da Unidade. Nesse ínterim, Oded retraíra da área
de Tel Faris, levando consigo cerca de 140 homens de infantaria que tinham
vindo a pé dos altos do Monte Gamla. Dov e outros oficiais organizaram
equipes técnicas e se puseram a recuperar os carros abandonados no terreno,
enquanto as equipes de manutenção começavam a repará-los. Ao meio-dia
de 3ª feira, chegou do centro médico de Tel Hashomer um psiquiatra, a fim
de dar assistência aos homens da Brigada Barak. Olhou para os homens
desgrenhados, barbudos, com olhares esgazeados, alguns com queimaduras
e, em sua maioria, enegrecidos pelas chamas e pela fumaça, que
silenciosamente trabalhavam para pôr os carros de combate em condições.
Era um quadro comovente e tranquilizador. Perguntou-lhes o que faziam e
responderam-lhe que preparavam os carros para que retornassem para o
campo de batalha. “Se estão voltando novamente para combater, é melhor
que eu esqueça tudo que aprendi até agora”, comentou.
Dov informou ao PC do Comando que dispunha agora de 13 carros prontos
para combate. Organizou suas guarnições, trouxe munição e tomou
emprestado alguns morteiros. Ouviu então do PC do Comando que Vossi
estava chegando a fim de assumir o comando. A notícia de sua chegada se
propagou e Shmulick, que tinha sido seu subcomandante e que fora ferido no
primeiro dia dos combates, fugiu do hospital em Safed, onde se encontrava,
para juntar-se a ele e retornar à luta. Consciente do fato de que deveria
vingar seus companheiros da brigada, Dov, com seu jipe na vanguarda,
conduziu as forças de Yossi para a frente. Quando se aproximavam e
receberam ordens para se unirem à 7ª Brigada, Yossi ouviu pelo rádio que,
no setor sul da brigada, Tigre estava sem munição e sem condições de se
sustentar nas encostas do “Booster” diante do avanço sírio.
A pequena força de Tigre dispunha agora de somente dois projéteis por
carro. "Senhor”, disse pelo rádio ao comandante de brigada, em tom de
desespero, “não posso me sustentar”. “Pelos céus, aguente apenas por 10
minutos”, implorou-lhe Avigdor, “os reforços estão a caminho!”. Quando
esgotou completamente a munição dos carros, Tigre encheu os bolsos com
granadas de mão e começou a recuar. Nesse momento, Yossi colocou-se
sobre o "Booster”, e abriu fogo, destruindo, no embate inicial, cerca de 30
blindados sírios. Chegara no instante preciso em que a 7ª Brigada, reduzida a
apenas sete carros, dos quase cem com que iniciara a luta, estava à beira do
colapso. Ambos os lados tinham chegado a um impasse. Avigdor informara
a Raful que não poderia deter o ataque sírio, mas inesperadamente a
fortificação A-3 (sitiada pelos sírios e bastante atrás das unidades avançadas
inimigas) informou que os comboios de suprimentos sírios estavam dando
meia-volta e recuando. O ataque sírio tinha sido detido: suas forças
abandonavam o dispositivo e começavam a retrair tomadas pelo pânico.
Os remanescentes da 7ª Brigada, juntamente com os reforços de Yossi,
totalizavam cerca de 20 carros. Exaustos, reduzidos a um mínimo, muitos
deles feridos e com os carros exibindo as marcas dos combates, puseram-se
então a perseguir o inimigo, abatendo na fuga seus carros e transportes
blindados. À beira do fosso anticarros se detiveram: a brigada tinha atingido
o limite do desgaste humano.
Como em um sonho, Avigdor via lá embaixo o Vale das Lágrimas: quase
260 carros e centenas de transportes blindados e outros veículos sírios
jaziam espalhados e abandonados por todo aquele estreito campo de batalha
entre as colinas Hermonit e o "Booster”. Podia ver à distância, envoltos em
uma nuvem de fumaça e de poeira, as forças sírias que se retiravam,
castigadas pelo fogo da artilharia israelense. A voz serena de Raful soou nos
seus fones de ouvido ao se dirigir a eles pela rede de comunicações da 7ª
Brigada: "Vocês salvaram o povo de Israel!".
* * *
O Exército israelense pode se sentir orgulhoso pelas suas muitas batalhas,
mas poucas foram tão importantes e decisivas como aquela em que seempenhou a 7ª Brigada. Apoiado e fortalecido pela inflexível determinação
de Raful, Avigdor sustentara uma batalha defensiva e de bloqueio, clássica
em si mesma. Um dos principais elementos de seu sucesso fora a sua íntima
familiaridade com o terreno em que teve que lutar e o fato de que seus
comandantes subordinados também se sentiram em casa na região. As
vantagens e desvantagens de cada trato das elevações eram conhecidas,
instintivamente, por vários deles. A área fora preparada para a luta: todas as
tabelas de tiro necessárias, bem como as várias rampas e posições
alternativas em todas as colinas haviam sido preparadas de modo a poderem
assegurar o máximo de vantagem a uma força numericamente interiorizada,
para que lutasse uma batalha defensiva. A brigada de Avigdor, altamente
treinada, aproveitou-se ao máximo dos preparativos que haviam sido feitos.
Ele tinha se defrontado com muitos problemas. Acima de tudo, ninguém
imaginara, de antemão, a intensidade da luta que viria a ser travada, dia e
noite, sem uma pausa sequer, forçando, assim, os israelenses a lutar sem
descanso por dias a fio e suportarem ao máximo o limite da determinação e
resistência humanas. Os sírios se aproveitaram da vantagem que lhes
proporcionava a superioridade de seu equipamento para combate noturno e
todas as noites desfechavam seus ataques. Tendo no passado dominado à
noite os campos de batalha, os israelenses viam-se agora em desvantagem. A
desproporção entre as forças era muito maior do que fora estimada; a
extensão e a potência dos ataques sírios, que se sucediam um após outro,
eram de uma natureza e volume para os quais não estavam mentalmente
preparados. A brigada de Avigdor sofreu devido às limitações geradas pela
natureza estática dos combates, o que resultava que o fogo intenso e
concentrado da artilharia síria cobrava sua quota nas baixas, e que essas
baixas provaram ser demasiado pesadas, principalmente entre os
comandantes israelenses. Em muitas ocasiões, quando dirigiam os combates
com as tampas das escotilha abertas, sob o intenso fogo dos obuses, suas
vulnerabilidades afetavam a capacidade de controlar a batalha.
Desde o início, Avigdor compreendera que deveria impedir, a todo o custo,
que os sírios atingissem a estrada lateral Kuneitra-Masadah. A fim de
alcançar esse objetivo, empenhou-se numa batalha defensiva, estática e de
bloqueio, utilizando a todo momento suas reservas móveis para proteger
seus flancos e bloquear qualquer possível penetração na linha da brigada. O
batalhão de Yair mostrou-se altamente eficiente no apoio às fortificações da
linha, bastante importantes, tanto pela diversão a que forçaram o ataque
sírio, como por terem sido esplêndidos os informes que enviaram quando à
retaguarda das linhas inimigas. Avigdor manteve constantemente três
batalhões em posição nas alturas dominantes do terreno e desenvolvidos para
a retaguarda. Dada essa tática, invariavelmente, manteve a supremacia sobre
as áreas de destruição. Para neutralizar as vantagens de que dispunham os
sírios à noite, contou com o apoio dos artefatos de iluminação lançados por
sua artilharia. A brigada combateu sobre uma área com cerca de 18km de
largura por 1.600 a 3.200m de profundidade, enquanto que o grosso das
forças sírias que a atacaram se concentrou em uma área de aproximadamente
9.600m de frente. Poucos comandantes conseguiram crer na magnitude da
vitória israelense até que verificaram com seus próprios olhos a incrível cena
de destruição e de devastação formada por mais de 500 veículos blindados
de todos os tipos que jaziam espalhados por todo o vale.
Mais do que qualquer coisa, a experiência por que passou a 7ª Brigada
comprovou que um erro fatal tinha sido cometido pelo Comando e pelo
Governo israelense: não terem mobilizado em tempo. No início das
hostilidades, a 7ª Brigada tinha sido a única brigada blindada israelense
concentrada que o Exército sírio teve que enfrentar. Tivessem os sírios sido
obrigados a atacar de início todas as brigadas que afinal vieram a ser
empenhadas nas Colinas de Golan, a história teria sido diferente. Ao invés,
foram lançadas à luta desordenada e parceladamente, às vezes
deficientemente equipadas, não porque o equipamento não estivesse
disponível, mas porque não houvera tempo para reuni-lo ou instalá-lo.
Tivesse o Exército sírio vindo de encontro ao completo potencial israelense,
não há a menor dúvida de que toda a “Linha Púrpura” teria sido uma série de
Vales de Lágrimas. Após dois dias de combates, depois de terem se
esfacelado de encontro às forças blindadas israelenses, os remanescentes do
Exército sírio se encontrariam lutando desesperadamente para deter uma
força israelense que avançava sobre seu território, com as unidades de apoio
iraquianas e jordanianas ainda muitos dias distantes. Tivesse Israel se
mobilizado e se posto pronto para combate apenas 24 horas mais cedo, como
aconteceu com a 7ª Brigada, a hora final do Exército sírio teria soado.
O Contra-Ataque
De volta a Tel Aviv, o ex-chefe do Estado-Maior, Chaim Bar-Lev, grisalho,
tranquilo, de voz calma e pausada, visitava os supermercados e lojas em sua
condição de Ministro do Comércio e da Indústria. Apenas chegara aos
escritórios de um órgão de emergência encarregado da coordenação da vida
civil no país, recebeu uma mensagem urgente dizendo que procurasse a
Primeira-Ministra. Eram 17 horas do domingo quando foi introduzido em
seu gabinete; estava sentada, com a cabeça entre as mãos e com uma
expressão de abatimento no rosto. Contou-lhe como o Ministro da Defesa,
após ter visitado as frentes norte e sul, viera até ela, naquele dia, e lhe
dissera: “Golda, eu estava errado em tudo; estamos nos encaminhando para
uma catástrofe. Devemos recuar: nas Colinas de Golan, para a aba da
escarpa que domina o vale; na frente sul, no Sinai, para os passos; e lá nos
sustentaremos até o último cartucho”. Pediu que Bar-Lev deixasse tudo o
que estava fazendo e fosse até o norte para orientá-la no que fazer. Ele
aquiesceu de bom grado, mas ponderou que, por uma questão de ética,
Dayan e Elazar deveriam ser previamente consultados. A Primeira-Ministra
entrou em contato com ambos, que prontamente aquiesceram, autorizando-o
a dar ordens no local, caso julgasse necessário. Dayan pediu-lhe que fosse
vê-lo antes de partir e deu-lhe para vestir uma camisa de uniforme.
Bar-Lev chegou ao PC do Comando Norte às 20 horas daquele dia e viu nos
mapas da sala de operações como os sírios haviam penetrado profundamente
nas Colinas de Golan. Compreendeu que a situação era, na verdade, muito
séria. O ambiente era de depressão: Bar-Lev começou a falar da maneira
serena, pausada e monótona que o haviam tornado lendário no seio das
forças Armadas.
Parecendo cansado e insone, Hofi colocou-o a par das ordens que dera
naquela manhã para a organização da defesa de todas as rotas de acesso que
desciam do Golan, inclusive para o estabelecimento de uma série de
fortificações anticarro. Essas ordens, inclusive os detalhes sobre a
organização da defesa da área ao longo do rio Jordão, já tinham sido
aprovadas naquela manhã pelo Ministro da Defesa quando de sua visita ao
Comando (Laner fora designado responsável pelas posições de defesa à
frente das pontes sobre o Jordão). Bar-Lev releu o relatório que recebera e
ressaltou a importância de que fossem reforçados, ao máximo possível, os
obstáculos anticarro ao longo das rotas principais.
No encontro, debateu com Hofi e os membros do seu QG o desdobramento
da divisão do Gen Musa Peled, que no momento se deslocava para a área.
Foi proposto que a divisão fosse concentrada na área da Ponte Bnot Ya'akov
ou que montasse um ataque ao longo da estrada de El Al, a rota mais ao sul
da região das Colinas. Peled se manifestou contrário ao deslocamento de sua
divisão para a área da Ponte: ela se deslocara sobre lagartas por muitos
quilômetros no rumo norte e, para alcançar a Ponte, deveria continuar ainda
por uma distância considerável. Insistiu para que permitissem montar um
ataque à primeira rota que pudesse alcançar,isto é, a rodovia de El Al. De
fato, Hofi já dera ordens para que o ataque de Peled se realizasse ao longo
das rotas do sul, o que foi aprovado por Bar-Lev.
A presença tranquilizadora de Bar-Lev — chegado, como acontecera, nos
momentos difíceis que se seguiram ao recebimento das notícias da
destruição da Brigada Barak e da morte de Ben Shoham e seus oficiais —
contribuiu para melhorar a atmosfera que dominava o Comando. Apenas 36
horas após terem os sírios desencadeado o ataque, pulverizado as forças
israelenses no setor sul e avançado até por volta de 10 minutos do Mar da
Galileia, aqui no Comando Norte estavam sendo dadas ordens para que fosse
montado um grande contra-ataque na manhã seguinte.
A seguir, Bar-Lev dirigiu-se de carro para o PC avançado de Dan Laner,
através da Ponte Arik, subindo a estrada de Yehudia. Ao ouvir o relatório
cauteloso e confiante de Laner e examinar os incríveis resultados que
aquelas forças mobilizadas às pressas haviam alcançado nas rotas de
Yehudia e El Al, compreendeu que a situação, apesar de bastante séria,
achava-se agora sob controle. A proporção entre as forças era perigosa, mas
não desanimadora. Explicou aos oficiais que se encontravam no PC de Laner
a natureza crítica da batalha nas Colinas de Golan e, expondo-lhes as
condições da 7ª Brigada e da Brigada Barak, disse-lhes que era agora dever
das IDF frustrar os planos do Comando sírio. Mais tarde, ao descrever essa
visita de Bar-Lev, Peled comentou: “Naquela noite Bar-Lev tornou-se um
dos verdadeiros heróis da Guerra".
Voltando a Tel Aviv, Bar-Lev chegou ao gabinete de Golda Meir pelas ruas
obscurecidas da cidade. Informou-a que o contra-ataque começaria na manhã
seguinte com uma divisão descansada. Acreditava que, com um pouco de
sorte, mudariam o curso dos acontecimentos; e que a situação, apesar de
séria, não era desesperadora. Ela agradeceu-lhe e uma expressão de alívio
tomou conta do seu rosto. Balançando o braço direito sobre o cotovelo,
inclinava-o significativamente de um lado para outro, dizendo: “O grande
Moshe Dayan!; um dia assim, outro dia assado!”.
* * *
Na manhã de domingo, Musa Peled recebeu ordens de Hofi para que, no dia
seguinte, lançasse um contra-ataque no setor sul. Além de sua divisão, teria
sob seu comando todas as forças que combatiam na rota El Al-Rafid. O
Chefe do Estado-Maior decidira que deveriam se sustentar e se consolidar no
sul e lançar um contra-ataque no norte. A situação nas Colinas de Golan era
séria: não dispunham de profundidade estratégica e contavam com pouco
terreno para manobrar. Os sírios deviam ser varridos da área. Era missão das
forças de Peled progredir até a encruzilhada de Refid, mas ele estava
preocupado: seus blindados chegavam muito lentamente — vinham se
deslocando sobre lagartas — e estavam ocorrendo muitas panes durante o
deslocamento.
Às 22 horas daquela noite, Peled levou um grupo de operações para
Tzemach, na extremidade sul do Mar da Galileia. Seu plano era atacar ao
longo de duas rotas: o ataque principal seria desenvolvido ao longo da
estrada El Al-Rafid, com a 19ª Brigada da Reserva (que vinha combatendo
desde a tarde de domingo e sofrera algumas baixas) na vanguarda e a 20ª
Brigada pronta para seguir na sua esteira. Após, avançaria a 70ª Brigada da
Reserva, limpando o terreno e protegendo o flanco direito, acima da escarpa
de Ruqqad. A esquerda do ataque principal, deveria avançar a 14ª Brigada da
Reserva ao longo de uma linha que se estendia do Monte Gamla, em Givat
Yoav, através de Mazrat Kuneitra, via Nahal Geshur, até Hushniyah.
O contra-ataque foi iniciado às 8:30 horas da manhã de 2ª feira. Na área de
El Al, a 19ª Brigada esbarrou contra forte oposição e no ataque inicial sete
de seus blindados foram incendiados. Peled compreendeu que o terreno,
plano e desimpedido, permitia a utilização de mais forças e imediatamente
lançou a 20ª Brigada no combate. Essa unidade proporcionou uma base de
fogos, enquanto um dos seus batalhões tentava desbordar o inimigo pela
direita. O curso do combate desenvolvia-se lento e exasperante, com as
forças de Peled engajando o inimigo pelos dois flancos. Os sírios
respondiam com fortes concentrações de artilharia, mas as forças israelenses
persistiram e, cedo, Peled percebeu que estava levando a melhor. O ataque
da 4ª Brigada fora bem sucedido — mais de 15 carros sírios tinham sido
destruídos — e a brigada alcançou a primeira estrada lateral em frente à
Ramat Magshimim. Ordenou, então, que fosse enviado um batalhão contra o
flanco direito do inimigo, porém seu comandante cometeu um erro de
orientação e a unidade deslocou-se na direção errada. Quando Peled
percebeu o que acontecia, mandou que as 19ª e 20ª Brigadas atacassem para
a frente. Com uma força que incluía velhos carros Sherman modificados, do
tempo da Segunda Grande Guerra e equipados com canhões de 105mm,
irromperam através de uma força síria que dispunha dos mais modernos
blindados soviéticos. A maior parte da força inimiga foi destroçada (entre
Ramat Magshimim e El Al, foram contados sessenta veículos abandonados).
A 20ª Brigada avançou, então, no rumo norte, enquanto a 19ª se reabastecia
e protegia seu flanco esquerdo. Peled ordenou que a 19ª se utilizasse da
estrada lateral de Ramat Magshimim e que avançasse para o norte e
ampliasse a frente da divisão, deslocando-se pelo flanco esquerdo da 14ª
Brigada. Travando um combate móvel, às 13 horas a Brigada alcançou a
encruzilhada do Tapline, em Juhader. Ao chegar à vila israelense de Nahal
Geshur, o escalão avançado da 19ª Brigada aproximou-se cautelosamente,
receando lá encontrar os sírios. Para sua surpresa, surgiu, carregando seu
rifle e uma granada, um soldado israelense pertencente a uma unidade que
estivera estacionada no local. No sábado, recebera ordens para defender a
vila, mas como perdera o contato com seus companheiros e não recebera
qualquer ordem em contrário, esse jovem permanecera sozinho a fim de
defendê-la (no Yom Kippur, o Exército sírio desbordara a povoação).
Enquanto a divisão avançava, chegaram notícias de que uma companhia de
carros inimiga se deslocava à retaguarda da 20ª Brigada, ameaçando os
comboios de suprimento. O subcomandante de um dos batalhões da brigada,
que se deslocava com dois meias-lagartas do PC do batalhão, ao galgar uma
dobra do terreno, deu subitamente com seis carros sírios agrupados. Ao vê-
los, o oficial — que se não fosse a guerra estaria nessa manhã de 2ª feira em
seu gabinete como o Sr. Caspi, diretor de uma escola —, instintivamente,
ordenou que os dois veículos avançassem atirando com todo o armamento a
bordo, metralhadoras e submetralhadoras. Espavoridos e surpresos, os sírios
saltaram de seus carros e puseram-se a defender-se com granadas e
metralhadoras leves, tendo sido exterminados. Nesse ínterim, Peled ordenara
que a 19ª Brigada enviasse um batalhão à procura dessa força, mas, ao
chegar, viram que sua missão fora cumprida pelo intrépido mestre-escola de
Ramla.
Entrementes, o batalhão avançado da 20ª Brigada tinha atingido a área de
Tel Saki, uma colina cerca de 100m a leste da estrada principal. Lá, deparou-
se com uma posição de defesa anticarro (com base em ambos os lados da
estrada Tel Saki-Juhader), sendo recebido por forte fogo de mísseis e
canhões anticarro, que causaram algumas baixas. Ficaram imobilizados no
terreno e a brigada precisou realizar um grande ataque para liberá-los.
A 20ª Brigada tinha sido rudemente castigada pelos primeiros impactos. À
sua esquerda, a 14ª hostilizava as defesas sírias, cuja extensão e
profundidade não tinham sido devidamente avaliadas por Peled e seus
comandantes de brigada. Ao anoitecer, a 19ª, avançando pelo flanco
esquerdo da 14ª, esbarrou de encontro àquela posição defensiva anticarro.
Essa defesa ainda estava sendo organizada e guarnecida pelo Exército sírio.
O comandante da 19ª Brigada não hesitou: disparando com todo o
armamento de que dispunha, a unidade carregou sobre a posição (parte da
qual ainda não fora guarnecida), conseguindo capturar uma parte.
A divisão encontrava-se,agora, hostilizando esse perímetro defensivo em
seus três eixos de progressão. Perceberam, então, como era poderosa.
Tinham ido de encontro, na realidade, a uma grande posição defensiva
anticarro, equipada com uma imponente mistura de blindados, tropas de
infantaria, mísseis e canhões anticarro, tudo sob a cobertura de pesadas
concentrações de artilharia. A 132ª Brigada Mecanizada síria tinha batido
em retirada diante do poder destruidor do ataque de Peled nessa área, mas,
na manhã de 8 de outubro, um batalhão misto anticarro sírio, formado por
três companhias de viaturas blindadas equipadas com mísseis anticarro
Sagger-BMD-2 e por duas companhias de canhões sem-recuo de 106mm,
recebeu ordens para se juntar à 132ª Brigada. Um oficial sírio, que fora
prisioneiro, descreveu como tinha esperado o contra-ataque israelense às 10
horas daquela manhã: observando os blindados israelenses avançarem do
sul, cada companhia na linha de defesa disparara cerca de 30 mísseis contra
seus carros.
* * *
Durante toda a 2ª feira, a Divisão de Dan Laner empenhou-se em acirrada
luta contra as forças sírias na estrada de Yehudia. A 17ª Brigada de Ran via-
se submetida a forte pressão e se achava reduzida à metade de seu efetivo. O
novo subcomandante da unidade, que assumira após o Cel Tan ter sido
ferido e evacuado no dia anterior, foi morto naquela tarde (Laner mandou
seu subcomandante de divisão ocupar o lugar). Ao avançar, a brigada caiu
em uma emboscada. Duas de suas companhias (sob o comando do Oficial de
Operações da brigada) recuaram, efetuaram um amplo desbordamento e,
surgindo à retaguarda da força síria que engajava a força principal da
brigada, destruíram todos os 13 carros que participavam da emboscada. A
brigada estava composta, agora, por um batalhão de carros e uma unidade de
reconhecimento que fora colocada sob seu comando.
No decorrer de todo aquele dia, a 79ª Brigada de Ori também estivera
combatendo as forças sírias que pressionavam ao longo da rota do Tapline,
num esforço para alcançar Nafekh e desbordá-la. A brigada estava
subordinada à 21ª Divisão de Laner, e a principal pressão síria se
concentrava na direção de Sindiana, no rumo de Nafekh, na rota do Tapline.
Coordenando o avanço da 17ª Brigada, que se deslocava de oeste, pela
estrada de Yehudia e na direção do Tapline e de Hushniyah, com o da 79ª,
que progredia do norte na direção geral de Sindiana-Hushniyah, Laner
aumentou a pressão sobre a 1ª Divisão Blindada síria, que progredia no rumo
norte, ao longo da estrada do Tapline, e no rumo oeste, em direção ao
Jordão. Essa divisão, comandada pelo Cel Tewfiq Jehani, vinha provando ser
um oponente bastante respeitável, com o comandante incessantemente
impulsionando suas tropas para a frente, procurando manter constante a
pressão e sempre tentando ultrapassar os israelenses. O alto gabarito dessa
unidade se refletia, também, no comportamento do comandante de sua 91ª
Brigada, Cel Shafiq Riyad, cujas tropas avançavam à testa da divisão.
Quando se tornou evidente que Nafekh estava sendo obstinadamente
defendida, essa unidade deixou para trás a encruzilhada e deslocou-se
velozmente para o oeste através da planície. Seus elementos avançados
atingiram a área da principal concentração de suprimentos israelenses em
Snobar, cerca de 19km no interior da região das Colinas de Golan (um
avanço que veio a ser a penetração mais profunda alcançada pelos sírios
durante a guerra), quase chegando à Alfândega superior, a cerca de 7.200m,
do rio Jordão. Seus carros se encontravam apenas a 10 minutos de marcha da
Ponte Bnot Ya’akov no rio Jordão.
Ori, que comandava a 79ª Brigada, convocou sua força de reserva (que
estava na área de Ein Zivan, ao sul de Kuneitra) e mandou que se deslocasse
da retaguarda, num amplo movimento de flanco, e que avançasse no rumo
sul no sentido de Sindiana, assim ameaçando o flanco das forças sírias que
avançavam. Com suas forças desenvolvidas ao máximo, comunicou-se com
Raful Eytan e solicitou-lhe uma companhia da 7ª Brigada que se encontrava
ao norte. Tendo sido atendido, encaminhou, então, os seis carros que
recebera na direção sul, ao longo da rota do Tapline. Quando a situação se
acalmou, Ori concentrou suas forças num avanço no rumo sul. Ao anoitecer,
conduziu-as para um ataque sobre Sindiana, onde infligiu baixas bastante
pesadas. Já à noite, suas forças detinham total controle da via do Tapline, na
área de Nafekh, e se achavam desenvolvidas ao longo da estrada Sindiana-
Ramtania-Hushniyah e na rota leste-oeste, imediatamente ao norte de
Sindiana. Apoiada nessa posição, sua brigada se achava voltada para o sul,
pronta para continuar o avanço.
Foi nesse momento, porém, que o choque da batalha, a violenta transição da
atmosfera de antes do Yom Kippur para o horror desses dias, repentinamente
atingiu Ori. Seus oficiais estavam sendo mortos um após outro — acabava
de perder mais dois de seus comandantes de companhia — e os seus
soldados, reservistas, se achavam desorientados e tomados pelo choque. A
experiência pela qual haviam passado fora traumatizante, e compreendeu
que teria de fazer um esforço sobre-humano para reunir todas suas reservas
físicas e poder exercer a liderança, que era absolutamente vital nessa batalha,
amarga, impiedosa e cruel. Punha-se a imaginar o que teria acontecido à
brigada, não fora a vitória alcançada em Sindiana; o fato de terem superado a
tremenda força em posição na área insuflara um novo sentimento de
confiança em seus homens. Falou com eles e viu que Sindiana convencera-
os de que, uma vez que conseguissem uma razoável proporção de forças no
campo de batalha, poderiam continuar a sair-se tão bem como vinham
fazendo. Tanto do ponto-de-vista militar como do ponto-de-vista do efeito
sobre o moral da tropa, Sindiana tinha sido o ponto de transição.
Na manhã da 3ª feira, os sírios contra-atacaram Sindiana e as forças de Ori
se viram submetidas a um fogo de artilharia e de foguetes Katyusha bastante
intenso. Esperou pelo ataque sírio e destruiu seus carros nos alcances
máximos. À tarde, quando a 7ª Brigada se aproximava da rota do Tapline
pelo oeste, Ori conduziu sua brigada contra Ramtania e Tel Hamtania, a
montante de Hushniyah. (Esta última tornara-se o centro diretor
administrativo e de radiocomunicações das forças sírias no setor sul das
Colinas de Golan. A área era defendida pela Divisão Blindada e tinha sido
convertida em uma posição de defesa anticarro de grandes proporções pelas
unidades da 5ª Divisão, que haviam conseguido a primeira penetração nesse
setor).
Ramtania era uma posição solidamente fortificada e um prolongamento da
principal posição defensiva anticarro baseada em Hushniyah. Os terraplenos
na linha das colinas, paralelos à rota do Tapline, enxameavam com
blindados, canhões anticarro e posições de mísseis Sagger e de rojões RPG.
Representava, potencialmente, uma posição extremamente ameaçadora, e o
flanco de qualquer força que se deslocasse ao longo da estrada ficaria
exposto a uma mortífera concentração de fogo anticarro.
Ori colocou 10 carros para engajar a posição e neutralizar seu flanco leste.
Deslocou o restante da força ao longo das rotas Sindiana-Ramtania e
Sindiana-Tapline. O comandante da força dirigida para esta última foi ferido
e sua unidade juntou-se a Ori. Fortes concentrações de fogo eram agora
despejadas incessantemente sobre a brigada. Contudo, meia hora antes de
cair a escuridão, com o PC avançado de Ori no centro, a brigada atacou
Ramtania. O combate travou-se literalmente metro por metro, até que a
posição foi finalmente tomada.
Naquela noite, Ori inspecionou novamente a brigada: suas baixas tinham
sido bastante pesadas. Durante todo o dia, haviam combatido sem cessar um
instante que fosse, seja para descansar ou mesmo para se alimentar. Mas,
quando a brigada se deslocou para o estacionamento noturno, na área de
Ramtania, Ori percebeu que estava mais integrada e que a principal de todas
as condições para o combate — um esprit de corps nascido da camaradagem
na luta e do perigo comum — estava surgindo.A brigada se reorganizou,
com seu efetivo alcançando pouco mais que o de um batalhão.
Ao anoitecer da 3ª feira, Laner tinha cerrado as pinças norte e oeste sobre a
principal concentração síria em Hushniyah; a 79ª Brigada de Ori se
encontrava em Tel Ramtania, a cavaleiro de Hushniyah, e a 17ª
desenvolvera-se na rota do Tapline, com frente para o leste, e se reabastecia.
Pelo sudeste, a divisão de Peled vinha fechando o cerco.
* * *
Às 3 horas da manhã da 4ª feira, dia 9, Peled deu instruções a seu grupo de
operações a respeito da linha geral de avanço que a divisão deveria manter.
A 20ª Brigada deveria progredir na direção da linha fronteiriça, conservando
à esquerda a estrada Rafid-Tel Faris; a 14ª continuaria pela esquerda da rota
principal El Al-Rafid, enquanto que a 19ª deveria manter sua pressão sobre
Hushniyah. Pretendia, assim, que o momentum do ataque da divisão levasse-
a além da “Linha Púrpura” e que Tel Kudne, que na área era a posição
dominante em poder do inimigo, viesse a ser capturada pela divisão.
A maneira desorganizada e desordenada com que, de início, as unidades
haviam sido lançadas em combate tornava-se, então, evidente, pois essa era a
primeira vez que Peled, desde que a divisão se engajara no combate, se via
em companhia de todos seus comandantes subordinados. Haviam passado
pelo pesadelo da mobilização e haviam efetuado uma corrida sobre lagartas,
através de Israel, para poderem atingir a frente de batalha. Inferiorizados em
número e, em muitos casos, supridos com equipamento inferior, tinha
alcançado a frente, escassamente a tempo de deter o avanço sírio sobre o
Mar da Galileia. Sua divisão tinha desfechado o primeiro contra-ataque das
IDF contra as forças árabes atacantes. Combatendo em cada palmo de
terreno, gradualmente haviam-nas empurrado de volta. Ao contemplar seus
reservistas, com os olhos congestionados, exaustos, enegrecidos pela fumaça
e cobertos de poeira, Peled lembrou-se do que haviam passado nos últimos
dois dias e sentiu que se encontrava na presença de um grupo
verdadeiramente heróico. Havia muito, tinham ultrapassado a barreira do
medo.
O ataque iniciou-se às primeiras luzes do dia. Em vez da posição defensiva
anticarro com que se haviam defrontado no dia anterior, deram de encontro
com massas de blindados. A 132ª Brigada síria recuara, enquanto que a 46ª
Brigada de Carros cobria o flanco sul da 1ª divisão, que desesperadamente
lutava na área de Hushniyah.
Nesse ínterim, as forças do flanco direito de Peled tinham estabelecido
contato com as fortificações israelenses até então isoladas pelos sírios. Para
Peled e seus comandantes, o encontro com esses jovens despretensiosos, que
haviam se sustentado contra os sírios sob as mais severas condições, foi uma
experiência que nunca viriam a esquecer. A segurança e o tranquilo
heroísmo desses moços — ensanguentados, cobertos de pó, feridos,
atordoados — fez com que se sentissem humildes e fizeram desses encontros
momentos que nunca poderiam esquecer.
Com ordens para que a 19ª Brigada atacasse Hushniyah, o combate
continuou incessante. Fora estabelecida a coordenação com a divisão de
Laner, que avançava pelo oeste e leste da localidade e, por volta das 11 horas
daquela manhã, a 19ª alcançou o terreno elevado a SE de Hushniyah. Peled
ordenou que a brigada tomasse de assalto uma colina, visto que as forças ali
posicionadas vinham infligindo pesadas baixas ao flanco esquerdo da 14ª
Brigada.
O Cel Mir, comandante da 19ª Brigada, deslocou-se, às 11 horas da manhã, a
fim de coordenar seu ataque com o de um batalhão da 17ª, que deveria atacar
ao longo da estrada de Yehudia. Quando se aproximaram, Mir avistou
massas de sírios na posição, dispostas em uma frente de aproximadamente
3.200 por 1.600m de profundidade. Cerca de 50 blindados e um grande
número de armamento anticarro, mísseis e canhões estavam ali
concentrados. A força sob o comando de Mir compunha-se de menos de
meio batalhão de carros. Num espaço de 10 minutos, a maioria deles foi
atingida, um comandante de batalhão caiu ferido e o ataque desorganizou-se
e fracassou.
Enquanto isso, no flanco direito do ataque, a 20ª Brigada vinha destruindo a
46ª Brigada de Carros síria e, por volta do meio-dia, chegou às proximidades
de Tel Faris. A resistência inimiga foi encarniçada e forças blindadas
continuavam a acorrer da Síria através da “Linha Púrpura” (na realidade, a
divisão de Peled estava bloqueando dois dos três eixos de avanço da 1ª
Divisão síria, e a 20ª Brigada se tornava agora uma cunha que penetrava a
massa dos blindados inimigos). Ao meio-dia de 3ª feira, sua situação se
tornava deveras precária.
O Cel Jehani, comandante da 1ª Divisão síria, defrontava-se com um sério
dilema: os repetidos ataques de Ori tinham dizimado a 91ª Brigada síria
comandada pelo Cel Fiyad; as forças israelenses de Raful, ao norte de
Kuneitra, sustentavam a linha que seus vizinhos do norte tinham falhado em
romper. Antes de empreender o ataque a Israel, concentrara o sistema de
suprimentos da divisão na área de Hushniyah e, agora, essa área estava
sendo ameaçada pelo norte e oeste, pelas forças de Laner, e pelo sul, pelas de
Peled. Se as unidades blindadas, que estavam se lançando desesperadamente
contra o envolvimento de Peled pela direita, não os detivessem, estaria
selada a sorte de toda a divisão. E, além do mais, a Força Aérea israelense
participava agora do combate, tendo liquidado parte das ameaçadoras
posições de mísseis terra-ar e submetendo a bombardeio intenso e eficiente
os acampamentos na área de Hushniyah. Apesar de sua determinação,
parecia ao Cel Jehani que a situação começava a se tornar bastante séria.
Ordenou que as forças que operavam no bolsão de Hushniyah pressionassem
na direção leste contra a força envolvente de Peled, o que resultou no fato de
que parte da divisão de Peled ficou sob pressão desenvolvida de duas
direções opostas.
Desapercebido das dificuldades que afligiam Jehani, Peled ordenou que a
14ª Brigada, que ocupava o centro, atacasse com toda sua força e penetrasse
em profundidade o máximo possível. O ataque alcançou êxito em conquistar
o controle da rodovia Hushniyah-Rafid, aliviando, assim, o flanco esquerdo
da 20ª Brigada e reduzindo a pressão sobre ela. A 20ª mandou uma força de
reconhecimento para capturar Tel Faris, mas ao galgar a colina o
destacamento foi destroçado em parte pelos carros sírios. Um grupo de
voluntários israelenses escalou, então, a elevação pela retaguarda. Ao fazê-
lo, porém, um carro anfíbio PT. 76 abriu fogo sobre eles. Um sargento correu
até o carro, escalou-o e lançou diversas granadas no seu interior. Estava
agora em poder dos israelenses o excelente posto de observação
proporcionado por essa colina. Contudo, ignorada pelos israelenses, uma
pequena unidade inimiga se ocultara nas encostas da elevação, de onde
continuou castigando-os com seu fogo até a 5ª feira, 11 de outubro, quando
foi localizada. Mais uma vez, a 19ª Brigada recebeu ordens para atacar a
área de Hushniyah com o apoio de artilharia e, pela primeira vez, com íntima
cobertura aérea. Dessa vez, a brigada desbordou as posições inimigas e
surgiu pela retaguarda. O ataque começou às 4 horas da manhã com dois
batalhões na vanguarda engajando a 40ª Brigada Mecanizada da 1ª Divisão
Blindada síria. Com todo o apoio de artilharia disponível e com o da
aviação, a 19ª capturou a elevação e avançou ao longo da posição defensiva
de Hushniyah, passando através da vila e tomando posição no seu flanco
norte. Quando atacou Tel Faris, a brigada estava reduzida a 2/3 do efetivo de
carros.
Depois que os blindados da 19ª irromperam através das posições inimigas, as
forças sírias voltaram sobre eles, ao abrigo da escuridão, e a unidade
israelense viu-se novamente envolvida por forças inimigas. Durante toda a
noite, a 15ª Brigada Mecanizada da 3ª Divisão Blindada síria (que fora
lançada no ataque principal sírio) tentou penetrar através das linhas a fim de
reforçar a 1ª Divisão Blindada em Hushniyah, mas foi detida antes de Tel
Faris por unidades da 20ª Brigada.Às 3 horas da manhã de 4ª feira Peled reuniu um grupo de operações e
ressaltou-lhes a intenção de conquistar Tel Kudne. A essa altura, a 28ª
Brigada mantinha a encruzilhada de Rafid e Tel Faris e as forças de Peled
tinham se concentrado na "Linha Púrpura" e, também, na área de Hushniyah,
onde a 19ª Brigada — com um efetivo total de metade de um batalhão de
carros — se achava ainda combatendo as forças inimigas. Fora ordenado que
a 70ª, que atuava no flanco direito e que estivera protegendo o flanco direito
da divisão ao longo da escarpa de Ruqqad, transpusesse a “Linha Púrpura” e
destruísse as posições sírias ao longo de Ruqqad até Buka'a; a 20ª deveria
avançar ao longo da rota do Tapline e capturar as posições sírias na barranca
ocidental do Ruqqad; a 14ª deveria progredir até a fortificação israelense A-
6, na estrada de Kudne, enquanto que a 19ª deveria passar pela 14ª Brigada,
ao longo da rodovia Tel Fazra-Kudne.
Atacando individualmente, todas vieram a se defrontar com defesas anticarro
sírias bem estabelecidas e suas baixas em viaturas foram pesadas. A 19ª
Brigada passou por Tel Fazra e subiu pelo terreno movimentado que levava
até Tel Kudne. A força já havia transposto a “Linha Púrpura" quando seu
comandante informou Peled que, se persistisse no ataque contra a posição
solidamente fortificada de Tel Kudne, nada sobraria de suas forças. Apenas
terminara e dois de seus carros explodiram sobre um campo minado sírio.
Compreendendo que dispersara demasiadamente suas tropas, Peled concluiu
que a única solução seria concentrar a divisão para um ataque contra Tel
Kudne, e foi o que propôs ao Gen Hofi. Conscientes do que acontecera à
divisão de Peled, devido a esses ataques isolados, e prestes a ordenar a Raful
Eytan que avançasse sobre o território sírio, Hofi mandou que Peled
conservasse suas posições. Cerca das 15 horas da 4ª feira, os remanescentes
da divisão de Peled achavam-se concentrados ao longo da “Linha Púrpura”.
Quando fora desfechado o ataque contra Tel Kudne, o Cel Jehani avançou
seu PC para leste da elevação. Na manhã da 4ª feira, enquanto a divisão de
Peled se deslocava para a “Linha Púrpura”, Laner avançava suas forças em
coordenação com ela. Da área de Ramtania, ao norte, a 17ª Brigada de Ran
atacou Hushniyah. A área entre a encruzilhada de Hushniyah e o Tel Fazra
era a zona de destruição. As forças de Peled tinham avançado com seus
blindados sobre Tel Fazra. De Ramtania, a 17ª Brigada se movimentava para
o sul, enquanto a 79ª Brigada de Ori recebera ordens para atacar a borda do
terrapleno na margem sul da estrada de Kuneitra e apoiar a 17ª Brigada.
Crentes de que os sírios tinham recuado, as forças de Ori avançaram e se
viram, repentinamente, submetidas a uma saraivada de projéteis anticarro
RPG e Sagger. Ao perceber o que acontecera, Ori atacou os terraplenos com
a reserva de carros sob seu comando, perdendo cinco na primeira investida.
Uma força de cobertura informou que os sírios batiam em retirada no rumo
leste. Por volta das 10 horas da manhã, a missão da 79ª Brigada tinha sido
cumprida e a 17ª estava tendo cobertura.
Pelo meio-dia da 4ª feira, quase precisamente quatro dias após cerca de
1.400 carros sírios terem rompido de assalto a "Linha Púrpura”, em um
ataque maciço contra Israel, nem um só deles, em condições de combate,
permanecia no interior daquela linha. O bolsão de Hushniyah, onde duas
brigadas sírias tinham sido destruídas, era como um grande cemitério de
veículos e equipamentos sírios: centenas de canhões, viaturas de suprimento,
transportes blindados de tropas, caminhões-tanques, transportes blindados de
mísseis Sagger BRD, carros de combate e toneladas de munição
espalhavam-se pelas colinas e encostas à volta de Hushniyah.
Ao longo de todas as rotas do avanço sírio, jazia fumegante e incendiado o
orgulho de seu Exército. Cada unidade israelense, individualmente,
alcançara uma grande vitória. Cerca de 200 carros sírios tinham sido
destruídos ao longo da estrada de Yehudia pelos 40 a 50 que compunham a
17ª Brigada de Ran.
Os sírios tinham deixado para trás, nas Colinas de Golan, 867 blindados,
alguns dos quais do mais avançado modelo T-62, além de milhares de
veículos, canhões e equipamentos diversos. O armamento e o equipamento
mais modernos que a URSS fornecera, até então, a países estrangeiros
salpicavam as colinas onduladas do Golan, testemunhos de uma das maiores
vitórias de blindados da história e do espírito indomável das forças
israelenses que, apenas quatro dias antes, tinham sofrido uma contundente
derrota, haviam se recuperado e, numa das batalhas mais heróicas da
moderna História militar, invertido a situação, repelindo o invasor de volta
para sua linha de partida.
A Invasão
A opção estratégica do Estado-Maior israelense tinha sido em favor da
prioridade pelas Colinas de Golan. Nessa área, não se dispunha de
profundidade, como no Sinai, e qualquer penetração local pelos sírios viria a
ameaçar os centros populacionais israelenses do norte da Galileia. Por isso, o
inimigo deveria ser afastado dali o mais rapidamente possível, após o que
seu Exército deveria ser destruído, assim eliminando a ameaça militar
dirigida contra a fronteira norte do país. Somente então o poderio das forças
militares de Israel poderia ser dirigido contra os egípcios.
Uma consideração adicional era o fato de estar a caminho da frente síria o
auxílio árabe, sob a forma de reforços — principalmente do Iraque, da
Arábia Saudita e do Kuwait. Era evidente, para o Estado-Maior de Israel,
que o rei Hussein da Jordânia, até então postado sobre a linha de não-
intervenção, viria a ser influenciado em suas futuras decisões pela sorte do
Exército sírio. A medida que chegavam informes sobre o movimento de
forças iraquianas em direção à Síria, o fator tempo tornava-se cada vez mais
importante. Além do mais, não poderia ser dada ao Exército sírio, em
retirada, qualquer oportunidade para se recuperar e reabsorver o
equipamento que começava a afluir da URSS.
As 22 horas da 4ª feira, 10 de outubro, o Estado-Maior realizou uma reunião
para decidir se deveriam consolidar as posições ao longo da “Linha Púrpura"
ou se deveriam continuar o ataque sobre a Síria. O ministro da Defesa Dayan
chegou quando a discussão estava em andamento e Elazar fez-lhe um
resumo dos prós e contras do problema. Dayan mostrara-se indeciso quanto
a um avanço sobre a Síria, consciente que estava do problema que essa
operação poderia criar com os soviéticos. Contudo, Elazar era da opinião de
que os israelenses deveriam efetuar uma penetração de aproximadamente
19km em profundidade; isso, acreditava, neutralizaria a Síria como um
elemento na guerra e contribuiria para exercer pressão sobre o Egito.
Dayan levou Elazar e alguns oficiais à presença de Golda Meir. Lá,
desenvolveu-se uma discussão em que Dayan decidiu-se a favor do ataque.
Finalmente, a Primeira-Ministra decidiu que se continuasse o avanço sobre a
Síria. Em consequência, o Gen Elazar transmitiu as ordens correspondentes
para o Comando Norte. A contraofensiva deveria ser iniciada na 5ª feira, 11
de outubro.
Hofi decidiu montar o ataque no setor mais setentrional de Golan,
escolhendo essa área porque o flanco esquerdo das forças atacantes se
apoiaria sobre as encostas do Monte Hermon, intransponíveis pelas forças
blindadas sírias. O eixo do avanço seria constituído pela rota mais curta para
Damasco e a ameaça resultante àquela capital poderia influenciar o
desdobramento sírio. O terreno era levemente acidentado e permitia boa
observação sobre a rodovia Kuneitra-Damasco, ao longo da qual as forças de
Laner deveriam avançar.
Raful Eytan, com a 7ª Brigada na vanguarda, comandaria a invasão. A 21ª
Divisão, de Laner, com as 79ª Brigada de Ori e a 17ª de Ran sob seu
comando, deveria atacar ao longo da rota principal de Damasco,
pesadamente fortificada, duas horas após o avanço de Raful. Entretanto, se a
divisão de Laner viesse a ser detida, deveria prosseguir na esteira da de
Raful. Se, ao contrário, Laner conseguisse progredir ao longo da estrada deDamasco, Raful deveria dar-lhe cobertura e apoiá-lo,- a partir das elevações
ao norte, enquanto avançava. A hora “H” foi fixada para as 11 da manhã de
5ª feira (era difícil para os israelenses atacarem mais cedo, pois teriam o sol
contra os olhos). Laner deveria iniciar seu avanço às 13 horas.
Dois dias antes, quando os sírios bateram em retirada, tinham reduzido
Avigdor a cerca de 20 carros, 11 dos quais representados pelo reforço de
última hora do Ten Cel Yossi. Noite e dia, sua equipe de manutenção
empenhara-se, até a exaustão, para reparar os carros da brigada. O Maj Sam,
oficial de manutenção de Avigdor, realizara milagres. Nesse ínterim, o Ten
Cel Amos, que se encontrava no estrangeiro e abandonara tudo em sua
desesperada tentativa de voar de volta a Israel, juntara-se à brigada com um
batalhão de 20 carros novos. Dois dias após ter chegado ao fim de suas
últimas reservas, Avigdor se achava em condições, com os reforços
recentemente recebidos, de entrar em combate.
Era missão da brigada capturar Ten Shams e Mazrat Beit Jan. Seu limite sul
seria a rota principal Kuneitra-Damasco, que passava por Khan Arnaba, Ten
Shams e Sassa. O ponto de penetração fora escolhido de acordo com a
estimativa, que provou ser correta, de que a área se encontraria mais
fracamente defendida na região norte. Segundo pensava Avigdor, um de seus
principais problemas seria a transposição dos campos de minas sírios, pois o
sucesso, ou fracasso, poderia ser determinado pela rapidez com que
conseguisse desenvolver suas forças por ocasião do combate. A área de
penetração era pedregosa, acidentada e bastante arborizada.
Avigdor dividiu sua brigada em duas forças. A força norte estava formada
pelo 7º Batalhão de Avi e pelo batalhão da reserva, de Amos, recentemente
chegado, e tinha por missão capturar Hader e Mazrat Beit Jan. A força sul,
com os remanescentes da Brigada Barak, comandada pelo Ten Cel Yossi, à
frente, estava composta por dois batalhões de carros reforçados: o 5º
Batalhão, sob o comando do Ten Cel Josh, um batalhão comandado por
Yossi e Yair com os remanescentes de seu 4º Batalhão. Tinha por missão
capturar Jubata, a região alta ao norte de Khan Arnaba, os acampamentos de
Hales e Tel Shams.
Ao anoitecer da 4ª feira, após a reunião do grupo de operações do comando,
Avigdor convocou todos seus comandantes. Ao olhá-los e evocar o que
tinham passado nos últimos quatro dias, muitos deles mantendo com
dificuldade os olhos abertos, homens que sabiam o quanto a Nação lhes
devia, foi tomado de uma estranha emoção. Dirigiu- lhes um apelo
comovente. Em seu desenrolar lógico, o árido recitar dos elementos
operacionais de uma ordem (de conhecimento instintivo de todo oficial em
qualquer exército) tornou-se um pronunciamento tocante. Sentia-se inspirado
ao ver-se frente àqueles oficiais esgotados, com olhos congestionados, que
tão valentemente tinham conduzido seus homens durante uma batalha tão
decisiva. Descreveu-lhes o plano para a invasão da Síria e para a exploração
do êxito. Ao liderarem seus homens para a vitória, estariam vingando os
companheiros tombados a seu lado.
Dov juntou-se ao PC avançado de Avigdor e, às 11 horas do dia 11, as
unidades do que fora a Brigada Barak transpuseram a “Linha Púrpura” e
lideraram as forças da 7ª Brigada contra a Síria. Os remanescentes de uma
brigada que, literalmente, havia combatido até o último homem tinham se
levantado novamente e formavam a vanguarda do Exército israelense. Ao
observar o batalhão de Yossi atacar sob cobertura dos blindados de Yair, Dov
foi tomado pelo pranto. A Barak era uma brigada em que 90% dos
comandantes tinham sido mortos ou feridos: de seu quadro original, tinham
restado apenas um subcomandante de companhia e dois comandantes de
pelotão; nem um só comandante de companhia sobrevivera aos primeiros
combates. E, entretanto, aí estava novamente em ação.
Opondo-se às forças de Avigdor, estava a Força Expedicionária Marroquina,
com o efetivo de uma brigada, apoiada por cerca de 40 carros e que defendia
os acessos para Mazrat Beit Jan. Fazendo frente ao flanco sul de Yossi,
achava-se uma brigada de infantaria síria, reforçada com armamento
anticarro e cerca de 35 blindados. As forças da vanguarda localizaram as
passagens entre os campos minados sírios e, com o apoio de artilharia e da
Força Aérea, conseguiram transpô-los. A luta desenvolveu-se a alcances
curtos, entre áreas densamente arborizadas e entremeadas por cerrada
vegetação rasteira.
O ataque pelo norte, conduzido por Avi, irrompeu por entre os bosques e
lutando encarniçadamente ganhou, gradualmente, o controle do terreno
elevado e capturou a encruzilhada de Hader, forçando a 68ª Brigada da 7ª
Divisão Blindada síria a bater em retirada. Dias mais tarde, seu comandante,
o Ten Cel druso Rafiq Hilawi, perfilava-se no interior de um acampamento
nos arredores de Damasco. Tinha perdido as insígnias de seu posto e, com os
olhos vendados, enfrentava um pelotão de fuzilamento. Fora submetido a
uma corte marcial e condenado à morte por ter recuado; sua culpa fora
agravada pela forte desconfiança com que o regime sírio tende a encarar o
povo druso.
As forças de Avi e de Amos avançaram sobre Mazrat Beit Jan, mas viram-se
detidas face a um contra-ataque desfechado por cerca de 40 carros sírios
apoiados pela Força Aérea. Na 6ª feira, irromperam na vila e o intenso
combate prosseguiu por cerca de seis horas, com a batalha travando- se a
curtas distâncias e as forças sírias contra-atacando ao longo das estradas do
norte e do leste. A Força Aérea e a artilharia sírias atacavam
indiscriminadamente. Avigdor fez avançar, do sul, uma força de cobertura a
fim de neutralizar os contra-ataques sírios e, por volta das 17 horas, Mazrat
Beit Jan e as colinas que a circundavam tinham caído em poder dos
israelenses. A infantaria da Brigada Golani, com apoio de unidades
blindadas, avançou, então, a fim de sustentá-las.
* * *
No setor sul da brigada, o primeiro grande combate sustentado por Yossi
desenvolveu-se nas elevações de Tel Ahmar, que dominavam Khan Arnaba
pelo norte. Os sírios resistiram obstinadamente com seus mísseis, até que
foram dominados pelas forças israelenses. Essa vitória colocou o flanco
direito da divisão de Raful à vista do flanco esquerdo da comandada por
Laner. Ao anoitecer da 5ª feira, o 5º Batalhão capturou a povoação drusa de
Horfa e, na manhã da sexta-feira, o batalhão de Yossi ocupou a encruzilhada
de Maatz, onde se viram submetidos a um forte ataque aéreo sírio. Apesar de
ter sido ferido, Yossi continuou à testa de sua unidade. Recebeu, então,
ordens para atacar as alturas dominantes de Tel Shams, ao longo da estrada
principal de Damasco. Por três vezes, seu batalhão tentou avançar e em todas
foi detido pelo forte fogo dos mísseis das unidades anticarro Sagger ocultas
em ambos os lados da estrada, entre a vegetação e as formações rochosas da
planície vulcânica de “Leja”, o que tornava a área quase intransponível para
os blindados. Avigdor tentou montar um ataque com os 4º e 5º Batalhões,
efetuando uma ampla operação de desbordamento através de “Leja".
Avançaram como que saltitando por entre esse difícil terreno e destruíram
cerca de 20 carros sírios a alcances de até 3.000m; porém, o terreno provou
ser intransponível e o ataque foi detido pelos sírios.
Avigdor adiantou seu PC avançado para Hales e decidiu tentar capturar
novamente Tel Shams por meio de um profundo movimento de
envolvimento pela esquerda da estrada principal, valendo-se de uma trilha
praticável que seria coberta pelo fogo dos 4º e 5º Batalhões, em posição na
rodovia principal. A Força Aérea síria vinha montando desesperados ataques
e fortes concentrações de artilharia castigavam as forças israelenses que
avançavam. Avigdor ordenou que Yossi se reunisse a ele em Hales e, dali,
sentados no terraço de uma casa árabe, examinaram o terreno e planejaram a
via de aproximação das forças de Yossi, esperando assim capturar Tel Shams
de surpresa, pela retaguarda. Enquanto observavam a cena através de seus
binóculos e se debruçavamsobre as fotografias aéreas, incongruentemente
eram alimentados por um dos moradores drusos da pequena povoação, que
os obsequiou repetidas vezes com um esplêndido café turco. Ao verificar a
complexidade do terreno e da dominante posição de Tel Shams, Avigdor
compreendeu que havia 50% de probabilidade de sucesso. Decidiu, assim,
não ordenar o ataque, mas Yossi se ofereceu para realizá-lo à testa de seu
batalhão.
A essa altura, Yossi contava em seu batalhão com duas companhias
totalizando 20 carros. Uma delas achava-se pronta para se deslocar,
enquanto a outra estava sendo reabastecida. Avigdor decidiu não esperar por
ela, considerando que tão logo estivesse pronta seguiria na esteira de Yossi,
possivelmente cerca de meia hora mais tarde. Da situação vantajosa que lhe
proporcionava o terraço da casa árabe em Hales, Avigdor observava a cena à
medida que as forças de Yossi, cautelosamente, procuravam caminho entre
os matacões e as rochas da planície de “Leja", ao longo da trilha que tinham
descoberto. Cedo, Yossi informou que oito carros tinham alcançado as
encostas de Tel Shams pela retaguarda — a aproximadamente 450m da
posição —, surpreendendo, por trás, 10 blindados sírios e destruindo-os com
impactos a curta distância. Informou a Avigdor que estava deixando dois
carros em cobertura e que se preparava para assaltar a posição pela
retaguarda. A artilharia israelense abriu fogo de cobertura e o ataque foi
desencadeado às 16:30 horas. Os carros começaram a subida até Tel Shams,
mas no último minuto, quando tudo fazia crer que a operação fora coroada
de êxito, quatro dos seis com que atacavam foram atingidos por mísseis
anticarro, entre os quais o do próprio Yossi, cuja longa odisseia, desde o
Himalaia, veio a terminar no Hospital Rambam em Haifa. Valendo-se da
força que deixara ao longo da estrada principal de Damasco, Avigdor tentou
socorrê-los, mas essa também foi detida pelos mísseis anticarro sírios. Para
evacuar os feridos, foi preciso que enviasse uma patrulha especial a pé.
Mais tarde, Avigdor admitiu que esse ataque fora um erro. Somente após
Yossi ter iniciado seu avanço é que se lembrou de solicitar e obter a tardia
permissão de Raful, que ficara sem qualquer outra opção, já que os carros de
Yossi se encontravam a caminho. O fato de essa operação ter sido um
exemplo do uso inadequado de blindados viria a ser ressaltado quando Raful,
na noite do sábado, dia 13, ordenou que a 31ª Brigada de paraquedistas
capturasse Tel Shams. Irrompendo em um assalto noturno sobre essa
elevação dominante, essas unidades de elite do Exército israelense, mais
uma vez em seu elemento, capturaram a posição com uma baixa total de
apenas quatro feridos.
Duas horas após as forças de Raful terem conseguido penetrar pelo norte, a
divisão de Laner irrompia através da posição síria ao longo da estrada
principal de Damasco. Um batalhão da 79ª Brigada de Ori desdobrou-se a
fim de assegurar fogo de cobertura, enquanto a 17ª de Ran atacava ao longo
da estrada. O Cel Ran, que tinha sido ferido por ocasião do primeiro embate
que sua brigada sustentara com os sírios, no domingo, na estrada de Yehudia,
tinha retornado todo enfaixado, a fim de reassumir o comando de sua
Unidade.
Ran era um exemplar típico da juventude israelense que crescera nos
kibutzim. Por ocasião da Guerra da Independência, seu pai comandara uma
das famosas unidades da Palmach. Pouco antes da guerra, um seu irmão
mais moço, que cumpria seu tempo no Exército, fora gravemente ferido em
um acidente rodoviário e jazia inconsciente no hospital, quando Ran veio a
ser ferido em combate. Não muito distante, nas Colinas de Golan, seu outro
irmão, oficial da Brigada Barak, encontrara a morte quando tentavam deter o
avanço sírio. Sua morte tinha privado Israel de um dos seus mais
promissores compositores musicais jovens.
Ciente do que acontecera à sua família, ao ser informado de que Ran fora
ferido, o Chefe do Estado-Maior ordenou que fosse dispensado de seu
comando. A última notícia que Elazar teve de Ran foi que se recusara a
obedecer a ordem e que retornara ao combate. Ao ouvir a ordem, Ran
reagira violentamente: “Eu não sou criança; esta é uma guerra do povo de
Israel e ninguém vai tomar qualquer decisão por mim!”.
Com sua unidade de reconhecimento à frente, Ran avançou sob uma
mortífera barragem de artilharia. Dezessete carros foram destruídos e tornou-
se evidente que a brigada se encontrava em situação muito séria, pois viera
de encontro a uma forte posição de defesa síria anticarro. Percebendo a
gravidade da situação de Ran, Laner decidiu retirar sua unidade do combate.
Ordenou que o 2º Batalhão da 79ª Brigada de Ori avançasse e ajudasse a
aliviar a brigada. Quando a situação parecia mais desesperadora, o último
batalhão que restara a Ran montou uma segunda carga e dois carros do
pelotão de vanguarda alcançaram a encruzilhada de Khan Arnaba. Ao ouvir
a notícia por seu rádio, Laner ordenou que a 19ª Brigada suspendesse seu
plano de substituir a 17ª e que explorasse o rompimento obtido. A 79ª
Brigada de Ori desbordou Khan Arnaba, sendo seguida pela 19ª, que fora
transferida para Laner da divisão de Peled. A 19ª desbordou a posição pela
direita e avançou atacando no rumo sul para Jaba. Por ocasião do assalto o
meia-lagarta de Ori foi atingido e tomado pelas chamas, passando, então, Ori
para um carro. Os sírios lutavam desesperadamente e tentavam contra-atacar
pelo leste, tendo sido repelidos. Restavam agora a Ran, em toda sua brigada,
apenas cinco carros em condições de operar. A força síria, que fora
desbordada por ocasião do ataque, cerrou sobre a estrada principal e isolou-a
na região de Khan Arnaba. Parte das forças de Laner achava-se agora isolada
e impossibilitada de evacuar seus feridos e de receber suprimentos. Por toda
a noite, a área tornou-se uma verdadeira armadilha, mortífera, para os
blindados israelenses, infestada como estava por elementos de infantaria
síria equipados com bazucas. As forças que Ori tinha deixado à retaguarda
para cobrir seu avanço começaram, então, a progredir; o comandante do
primeiro grupo foi morto e o do segundo, ferido.
A divisão enviou, então, um batalhão de paraquedistas, que por toda a noite
se dedicou a varrer as forças sírias e evacuar os feridos israelenses. Ao
depararem com as condições das guarnições dos blindados, os paraquedistas
ficaram horrorizados. Pediram-lhes que fossem descansar e, sem nada dizer,
puseram-se a reabastecer e a remuniciar os carros, a preparar-lhes chá e
alimentos e a fazerem tudo o que podiam para aliviá-los.
* * *
O Comando sírio aparentava, agora, sinais de desespero: um tom de histeria
substituía aquele de confiante vitória que, durante os últimos cinco dias,
caracterizara as irradiações sírias. As forças israelenses avançavam agora
sobre a Síria, contra um exército seriamente desmantelado. A Força Aérea
atingira a plenitude de sua eficiência, tendo destruído parte do sistema de
mísseis terra-ar sírio; seus aviões estavam incursionando mais ampla e
profundamente sobre a Síria a fim de bombardear objetivos estratégicos
como depósitos de combustível e centrais elétricas inimigas. Em certo
estágio dessas operações, os aviões sírios que regressavam de missões não
conseguiam encontrar aeródromos intactos onde pousar (alguns, entretanto,
conseguiram descer sobre rodovias especialmente preparadas para esse fim).
Enquanto a Força Aérea israelense continuava a tornar inoperantes os
aeroportos sírios, obstruindo, assim, a maciça ponte aérea soviética de
dezenas de grandes transportes que, diariamente, chegavam ao país, os
ataques navais de Israel aos portos sírios colocavam sob ameaça a linha
marítima de suprimentos enviados pela URSS. O grosso do Exército sírio
estava sendo concentrado ao longo das rotas de acesso a Damasco, e a
Legião Estrangeira Árabe, que compreendia forças de Marrocos, Arábia
Saudita, Iraque e, mais tarde, da Jordânia, recebeu a incumbência de retardar
o avanço israelense. Foram irradiadas proclamações dizendo que, mesmo
que Damasco viesse a cair, a Síria continuariaa luta.
O Governo sírio lançou desesperados pedidos de socorro. O presidente
Assad, que poucos dias antes, quando parecia que Golan estava por cair
frente ao ataque sírio, procurava os bons ofícios dos soviéticos junto a Sadat
para que concordasse com um cessar-fogo, percebia a gravidade do seu erro
em não ter pressionado pela trégua desde o começo. E enquanto a Síria
sangrava e lutava nas vias de acesso à sua capital, seu aliado, o Exército
egípcio, se encontrava placidamente acomodado na margem oriental do
Canal, contente em consolidar as vantagens obtidas, temeroso de pôr em
risco o êxito obtido, caso avançasse. Assad implorou que o Egito
pressionasse as forças israelenses e assim aliviasse sua frente. O Gen Ismail,
Ministro da Guerra egípcio, prometeu ação. E, de fato, mais tarde explicaria
que a batalha de blindados de 14 de outubro tivera por objetivo aliviar a
pressão sobre a Síria.
Os sírios voltaram-se, então, para seus aliados soviéticos, que ativaram ainda
mais a ponte aérea e aumentaram a remessa de suprimentos para o exército,
tão fortemente pressionado. Consciente do fato de que a frente síria achava-
se sob risco de cair, Moscou lançou ameaças veladas, com uma declaração,
divulgada pelos seus meios de divulgação, de que “a União Soviética não
poderia permanecer indiferente às atividades criminosas do Exército
israelense". Seu embaixador junto aos EUA, Anatoly Dobrynin, apresentou a
ameaça soviética a Kissinger, comunicando-lhe que unidades
aerotransportadas russas achavam-se sob estado de emergência a fim de
acorrerem em defesa de Damasco.
Unidades suplementares da Marinha dos EUA foram enviadas para reforçar
a Sexta Frota no Mediterrâneo, enquanto a frota soviética dirigia-se para a
defesa dos portos de Latakia e Tartus, na Síria. A URSS pôs-se a pressionar
os países árabes para que se unissem aos camaradas árabes nos combates.
Leonid Brezhnev enviou uma mensagem urgente a Houari Boumedienne, o
ditador argelino, pressionando-o para que cumprisse seu dever como árabe,
enviando blindados soviéticos, via Iugoslávia, para as unidades argelinas
destacadas no fronte egípcio.
Independentemente desses acontecimentos, em Israel fora tomada a decisão
de não se envolverem na tomada de Damasco. O efeito de tal operação sobre
o mundo árabe poderia ser muito sério, o seu valor do ponto-de-vista militar,
na melhor das hipóteses, seria bastante duvidoso. Além disso, os problemas
resultantes da conquista de uma capital, com milhões de habitantes hostis,
poderia na verdade resultar numa tarefa bastante custosa. O Comando
israelense tinha consciência do risco de se empenhar com suas reduzidas
forças nos amplos espaços da Síria. Quando a essas considerações juntaram-
se o interesse soviético pela segurança de Damasco e as ameaças posteriores,
ficou mais do que evidente a falta de Israel em avançar além de um ponto, de
onde a capital síria pudesse ser ameaçada por sua artilharia.
Consequentemente, apenas alguns ataques aéreos de precisão contra
objetivos militares específicos foram aprovados pelo Governo israelense,
dentre os quais um realizado com pleno êxito contra instalações do Estado-
Maior sírio. Na realidade, essas operações somente foram aprovadas após os
sírios terem lançado diversos mísseis FROG terra-terra contra objetivos civis
na Galileia. A cidade de Migdal Haemek, centro de triagem de imigrantes
próximo a Nazareth, e o kibutz Geva estavam entre as áreas civis que foram
atacadas por esses mísseis. Pouco dano foi infligido, mas o significado de
tais ataques indiscriminados contra objetivos civis não passou desapercebido
ao Governo. Apesar de tudo, em momento algum Israel se prevaleceu de sua
capacidade de bombardear Damasco. A ameaça, simplesmente, persistia.
* * *
Na manhã da 6ª feira, 12 de outubro, Laner fez avançar sua divisão. A 19ª
Brigada progrediu para o sul e capturou a vila de Nasej. A 17ª de Ran
avançou sob o fogo de Tel Maschara, flanqueou-a e também alcançou Nasej.
A 79ª Brigada de Ori seguiu na esteira das duas unidades de vanguarda e
deteve-se na área de Nasej a fim de reabastecer.
Tendo ordenado que as 17ª e 19ª Brigadas avançassem para Knaker, uma
operação concebida para desbordar Sassa e colocar tanto sua divisão como a
de Raful bem avançadas na estrada principal de Damasco, Laner estabeleceu
seu PC avançado em Tel Shaar. Um batalhão da 19ª alcançou Tel El-Mahl,
reforçando assim o flanco sul de Laner enquanto suas forças deslocavam-se
no rumo NE, numa operação de limpeza na direção de Knaker. Não obstante
as pesadas baixas sofridas, as 17ª e 19ª Brigadas tinham continuado seu
avanço de Nasej para o norte, no sentido de Knaker, e já tinham chegado à
Colina 127, cerca de 4km ao sul desta última, onde já se notavam sinais de
que as forças sírias estavam se desagregando. Pela primeira vez, o inimigo
estava em debandada e as forças de Laner continuaram a pressioná-las com
renovado vigor.
Colocado sobre a posição dominante de Tel Shaar, Laner seguia com seu
binóculo o avanço visível de suas tropas ao longo da rota Nasej-Knaker.
Durante uma pausa nessa progressão, pôs-se a examinar toda a ampliação da
planície síria. Repentinamente, ao virar sua vista para o sul, quedou
estarrecido. A cerca de 9.660m ao longe, uma força síria de
aproximadamente 100 a 150 carros, dividida em duas colunas, estava se
desdobrando e avançava da direção norte contra o seu flanco desprotegido.
Por um momento, pensou que fosse a divisão de Peled que avançava, após
ter invadido a Síria, mas o Comando Norte assegurou-lhe que essa unidade
se encontrava bloqueada em Rafid e que não se tratava de forças israelenses.
Compreendendo que estava por ser atacado em seu flanco totalmente
desguarnecido, enquanto suas forças perseguiam os sírios que batiam em
rápida retirada, imediatamente ordenou que a 79ª Brigada suspendesse seu
reabastecimento e que se deslocasse para o sul de Nasej o mais rapidamente
possível. Ordenou que as tropas de Ran e a 19ª Brigada interrompessem sua
progressão sobre a estrada para Knaker e que voltassem para cobrir o flanco
sul. A ordem deixou-os perplexos e os dois comandantes argumentaram que,
após tudo o que haviam passado, tinham os sírios em debandada e eis que os
frutos da vitória estavam sendo arrebatados das suas mãos. Laner recusou-se
a atender suas súplicas e ordenou-lhes que voltassem imediatamente para o
sul.
Enquanto isso, sem saber o que acontecia no flanco sul de Laner, Hofi tinha
decidido reforçar seu ataque e ordenara que Peled lhe transferisse a 20ª
Brigada. Assim, momentos após Laner ter avistado o inimigo que avançava
pela planície contra seu flanco meridional, o comandante da 20ª apresentou-
se em seu PC avançado, onde recebeu ordens para desenvolver sua brigada
na área de Tel Maschara e Tel el-Mal. De acordo com o prometido ao
Ministro da Guerra egípcio, Gen Ismail, logo ao início da guerra, o Governo
iraquiano tinha enviado sua 3ª Divisão Blindada para a Síria. Duas de suas
brigadas chegaram na primeira semana, finda em 11 de outubro — uma
brigada blindada com 130 carros e uma brigada mecanizada com 50, às
quais viria juntar-se, dias mais tarde, uma terceira brigada blindada com 130
carros. Ao atingirem o Grande Leja, no amanhecer da 6ª feira, dia 12, os
blindados iraquianos foram retirados de seus transportes e avançaram através
da planície em direção ao flanco sul das forças israelenses, que avançavam
no sentido de Knaker e colocavam sob ameaça os acampamentos militares
de Kiswe, a oeste de Damasco. Uma brigada avançou no rumo norte,
enquanto uma outra mecanizada deslocou-se no sentido NO, na direção de
Tel Maschara. Os primeiros carros iraquianos vieram de encontro à brigada
de Ori, que os engajou a um alcance de 270m aproximadamente; destruiu 17
deles e a força iraquiana deteve-se.
Ao anoitecer, tornou-se evidente para Laner que a força, que agora sabia ser
iraquiana, lançaria um ataque concentrado. O comandante da 20ª Brigada
mostrava-se preocupado, já que um dos seus batalhões tardava em se
apresentar. Ordenou, então, que um oficial do