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Belladonna Belladonna (#1) Foxglove (#2) Tabela de Conteúdos Belladonna Tabela de Conteúdos Aviso — bwc Prólogo Um Dois Três Quatro Cinco Seis Sete Oito Nove Dez Onze Doze Treze Quatorze Quinze Dezesseis Dezessete Dezoito Dezenove Vinte Vinte e um Vinte e dois Vinte e três Vinte e quatro Vinte e cinco Vinte e seis Vinte e sete Vinte e oito Vinte e nove Trinta Trinta e um Trinta e dois Trinta e três Trinta e quatro Trinta e cinco Trinta e seis Trinta e sete Trinta e oito Trinta e nove Quarenta Quarenta e um Quarenta e dois Quarenta e três Quarenta e quatro Quarenta e cinco Quarenta e seis Epílogo Agradecimentos Há uma casa na floresta com uma mesa arturiana e uma tábua de charcutaria interminável. Esta história é para aqueles com quem me sentei naquela mesa, que fazem a escrita parecer mágica. Aviso — bwc Essa presente tradução é de autoria pelo grupo Bookworm’s Cafe. Nosso grupo não possui fins lucrativos, sendo este um trabalho voluntário e não remunerado. Traduzimos livros com o objetivo de acessibilizar a leitura para aqueles que não sabem ler em inglês. Para preservar a nossa identidade e manter o funcionamento dos grupos de tradução, pedimos que: • Não publique abertamente sobre essa tradução em quaisquer redes sociais (por exemplo: não responda a um tweet dizendo que tem esse livro traduzido); • Não comente com o autor que leu este livro traduzido; • Não distribua este livro como se fosse autoria sua; • Não faça montagens do livro com trechos em português; • Se necessário, finja que leu em inglês; • Não poste – em nenhuma rede social – capturas de tela ou trechos dessa tradução. Em caso de descumprimento dessas regras, você será banido desse grupo. Caso esse livro tenha seus direitos adquiridos por uma editora brasileira, iremos exclui-lo do nosso acervo. Em caso de denúncias, fecharemos o canal permanentemente. Aceitamos críticas e sugestões, contanto que estas sejam feitas de forma construtiva e sem desrespeitar o trabalho da nossa equipe. Prólogo Começou com o choro de um bebê. Envolta em um vestido carmesim ousado como sangue, Signa Farrow era a criança de dois meses mais marcante da festa, e sua mãe pretendia provar isso. — Olhe para ela — sua mãe cantarolou, levantando o bebê agitado para que todos a admirassem. — Ela não é a criatura mais perfeita que você já viu? — Rima Farrow reluziu enquanto girava seu bebê ao redor da multidão. Cada parte dela estava adornada com joias elegantes, cada uma delas um presente do seu marido artífice. Seu vestido de seda era do tom mais profundo de cobalto, movimentando-se sobre a crinolina mais larga do que qualquer outra pessoa ousava usar em sua presença. Os Farrows eram uma das famílias mais ricas vivas; todos os que compareceram a esta festa procuraram se envolver com qualquer fração de sua riqueza. E assim eles cobriram seus rostos com os sorrisos que eles sabiam que Rima ansiava e arrulharam para a criança que ela segurava com tanto carinho. — Ela é linda — disse uma mulher que observava Rima em vez do bebê enquanto ela abanava sua pele pegajosa em protesto contra o calor do verão. — Perfeita — disse outro, olhando propositalmente para o narizinho torto e o pescoço enrugado de Signa. — Ela vai ser como a mãe, tenho certeza. Banqueteando-se com os corações de pretendentes desavisados a qualquer momento. — Isso foi dito por um homem que ignorou o quão profundamente os olhos de Signa o perturbavam – um azul de inverno, o outro era ouro derretido. Ambos muito observadores para uma recém-nascida. Signa nunca parava de chorar – ela estava corada de tanta agitação e sua pele estava pegajosa. Todos os que a viam achavam isso típico – os verões em Fiore eram um cobertor quente e úmido. Seja dentro ou fora, os corpos brilhavam de suor que revestiam a pele como um véu. Por causa disso, ninguém esperava o que o bebê já sabia: a morte havia encontrado seu caminho para a mansão Foxglove. Signa podia senti-lo ao seu redor como se pudesse sentir uma mosca que chega perto demais. A morte era um zumbido em sua pele, alertando os pelos finos de seu pescoço. Com sua presença, Signa se acalmou, embalada pelo frio que floresceu com sua proximidade. Mas, ninguém mais experimentou o mesmo conforto, pois a Morte só vai onde ele é chamado. E naquela noite, ele foi chamado para Foxglove, onde o veneno se misturou a cada gota de vinho. Primeiro veio a tosse. Ataques dela tomaram conta da festa, mas os convidados tossiam em suas lindas luvas brancas e se perdoavam, pensando que a causa era algo que eles comeram. Rima foi uma das primeiras a dar sinais. Suor frio arrepiava suas têmporas, e ela passou seu bebê para uma serva próxima enquanto sua respiração se enfraquecia. — Desculpe-me — disse ela, uma mão na garganta, os dedos pressionando o suor que acumulada nas fendas de suas clavículas. Ela tossiu de novo e, quando afastou as mãos dos lábios, o sangue da cor do vestido de seu bebê manchou suas luvas de cetim. A morte estava diante dela então, e o bebê observou enquanto ele colocava a mão no ombro de Rima. Com uma inspiração final, seu cadáver caiu no chão. A morte não parou com Rima. Ele varreu a grande propriedade, coletando as pobres almas cujos rostos ficaram roxos enquanto seus peitos se contraiam com respirações não cooperativas. Ele rasgou dançarinos e músicos, roubando sua respiração com um único toque gelado. Alguns tentaram chegar até a porta, pensando que devia haver algo no ar. Que se pudessem entrar nos jardins, seriam poupados. Um por um eles caíram como estrelas, apenas os poucos sortudos que ainda não tinham provado o vinho conseguiram escapar. A serva mal conseguiu colocar Signa no berçário antes que ela também caísse, os lábios sangrando rubi enquanto a Morte desacelerou seu coração e jogou seu corpo no chão. Mesmo quando criança, Signa não se incomodava com o fedor da morte. Em vez de sentir o pânico ao redor dela, o bebê se concentrou no que ninguém mais podia ver – o brilho azulado dos espíritos translúcidos que enchiam a propriedade enquanto a Morte os arrancava de seus corpos. Alguns foram pacificamente, pegando as mãos de um parceiro enquanto esperavam uma escolta para a vida após a morte. Outros tentaram abrir caminho de volta para seus corpos, ou fugir de um ceifador que não os perseguiu. No meio de tudo isso, uma Rima morta e brilhante estava silenciosamente no quarto de Signa, observando com uma carranca profunda e olhos vagos enquanto a Morte cruzava a soleira. Seus passos não fizeram nenhum som quando ele se aproximou o bebê, sua forma nada mais do que sombras sempre em movimento. Mas, a Morte não precisava ser vista; ele deveria ser sentido. Ele era um peso no peito, ou um colarinho muito apertado. Uma queda em águas frias e letais. A morte era sufocante, e ele era gelo. E, no entanto, quando ele estendeu a mão para pegar Signa, que estava cheia e acomodada com o leite envenenado de sua mãe, o bebê bocejou e se enrolou contra o toque das sombras da Morte. Ele caiu para trás, as sombras se retraindo. Mais uma vez ele tentou reivindicá-la, mas seu toque não lhe mostrou flashes da vida que esta jovem criança tinha levado. Em vez disso, mostrou a ele algo que ele nunca tinha visto antes, vislumbres de seu futuro. Um futuro brilhante e impossível. Seu toque não poderia matar o bebê que ele circulava, tão confuso por ela quanto fascinado pelo que tinha visto. Embora Rima desejasse ficar – desejava esperar que sua filha se juntasse a ela – Morte recuou e ofereceu sua mão. Para surpresa de Rima, ela se aproximou e pegou. — Não é a hora dela — ele disse —, mas é a sua. Venha comigo. — Havia muitas almas precisando de transporte para permanecer por mais tempo. Ele estaria de volta, no entanto. Ele iria encontraressa criança novamente. De mãos dadas com Morte, o espírito de Rima lançou um último olhar para o bebê que eles deixaram para trás, sozinha em uma casa com nada mais do que cadáveres como companhia. Ela rezou para que alguém encontrasse Signa logo e que a protegessem. Assim como a noite começou com o choro de um bebê, terminou com um. Só que desta vez, ninguém estava por perto para ouvir. Um Dizem que cinco frutinhas de belladonna são tudo o que precisa para matar alguém. Apenas cinco frutinhas doces, comidas diretamente da folhagem. Ou, como Signa Farrow preferia, amassada e mergulhada em uma caneca de chá. Suas sobrancelhas escuras estavam escorregadias de suor quando ela se inclinou sobre a caneca de cobre fumegante, inalando a fumaça. Certamente comer as frutas puras teria sido mais fácil, mas ela ainda estava aprendendo o efeito que a belladonna tinha em seu corpo, e a última coisa que ela queria era que tia Magda a encontrasse desmaiada no jardim com uma língua roxa brilhante. Não de novo, de qualquer maneira. Faziam semanas desde que Signa viu o ceifador pela última vez. Apenas um último suspiro o tiraria do esconderijo, e ele nunca saia de mãos vazias. Pelo menos, era assim que deveria ser. Mas Signa Farrow era uma garota que não podia morrer. A primeira vez que Signa se lembrou de ter visto o ceifador, tinha cinco anos e tinha caído da escada da casa da avó. Seu pescoço tinha quebrado e estava torto enquanto ela o observava de lado do chão frio. Logo entendeu, vagamente, que seu corpo jovem não foi feito para suportar tais coisas e se perguntou se ele havia chegado para levá-la. No entanto, ele não disse nada, observando enquanto seus ossos voltavam ao lugar e desaparecendo quando ela se recuperava de uma queda que deveria tê-la matado. Passaram-se mais cinco anos antes que ela visse Morte novamente. Signa assistiu do lado da cama de sua avó quando Morte pegou a mão da mulher e afrouxou seu espírito do corpo. Ela estava doente há meses, sorriu e beijou a testa de Signa antes de deixar Morte guiá-la para uma vida após a morte pacífica. Signa implorou para que a Morte voltasse. Trouxesse a avó de volta enquanto Signa segurava a mão do cadáver e chorava até não sobrar nada nela. Ninguém mais foi capaz de vê-lo ou os espíritos que ele liderava, e ela se perguntou se era culpa dela que isso tivesse acontecido. Se ela era a culpada disso, porque era a garota que podia ver a Morte. Ela não se lembrava de quanto tempo ficou naquela casa antes que alguém cheirasse o corpo e viesse encontrar Signa, cabelo emaranhado e roupas sujas, enrolada ao lado da cama de sua avó. Eles a levaram para longe da casa, conduzindo-a para o primeiro de muitos novos guardiões que viriam. Ela passou os próximos anos testando suas habilidades estranhas. Começou com espetar o dedo em um espinho e observar o sangue borbulhar e depois desaparecer, como se a pele nunca tivesse sido manchada. A partir daí, as experiências mudaram para saltar de pedras altas o suficiente para quebrar ossos ao cair. Signa veio para perceber que ela sentiria apenas um estalo agudo, então estaria bem para um passeio à beira do penhasco minutos depois. Mas as frutinhas de belladonna nunca foram destinadas a ser um experimento, apenas algo que ela arrancou do jardim descuidado de sua tia depois de chegar vários meses atrás, pensando que eram mirtilos silvestres. Ela não tinha ideia de que eles eram venenosos até que ela caiu sobre as ervas daninhas, visão embaçada. Morte apareceu, observando por trás da curva de um carvalho. Mesmo que Signa não tivesse se recuperado rápido o suficiente para falar com ele, ela estava muito distraída com tia Magda, que a encontrou no jardim segurando uma belladonna mortal, sua boca manchada de roxo. A mulher quase teve um ataque cardíaco quando Signa saltou do chão, o veneno fora de seu sistema em poucos minutos. Signa tinha aprendido algo naquele dia – como tirar Morte das sombras. E com esse conhecimento, ela se recusou a deixá- lo se esconder dela por mais um momento. Signa levou o chá aos lábios, embora sua língua apenas roçasse o vapor quente antes que a caneca de cobre fosse derrubada de suas mãos. Ela tropeçou do frágil banco de madeira em que estava sentada quando a caneca caiu no chão e o chá violeta se derramou na pedra cinzenta da cozinha. Signa virou-se para encontrar a tia Magda carrancuda. Essa era uma expressão que ela usava com frequência, embora se alguém olhasse mais fundo, eles veriam que seu lábio inferior fino e mãos coriáceas tremiam na presença de Signa. Eles veriam pupilas dilatadas e um fino brilho de suor em sua testa enrugada. — Você acha que não sei o que está fazendo, criança- demônio? — Tia Magda pegou a caneca em suas mãos. Ela cheirou e espiou dentro, franzindo o cenho para o mingau de frutas. — Garota imunda, fazendo o trabalho do diabo! Tia Magda jogou a caneca em Signa, que recuou, mas não conseguiu evitar ser atingido no ombro. Sobrou líquido suficiente na caneca para queimá-la e para que o suco roxo das frutas manche seu casaco cinza favorito. — Eu avisei o que aconteceria se você trouxesse aquela feitiçaria para minha casa. Signa ignorou sua pele queimada e olhou sua tia com força nos olhos. — Era um chá. — Sua voz era tão firme que qualquer um que não conhecesse melhor poderia acreditar que Signa estava dizendo a verdade. Mas, infelizmente, a tia Magda a conhecia bem. Ela se considerava uma mulher inteligente e piedosa demais para ser enganada por uma “bruxa”. Não que Signa realmente acreditasse que ela fosse uma bruxa, é claro. Embora ela amasse botânica e muitas vezes se pegasse desejando conhecer alguns feitiços. Como seria maravilhoso ter um feitiço para limpar a poeira desta choupana1, ou se alimentar de outra coisa além de pão amanhecido e qualquer mistura que ela pudesse pensar para preparar com os poucos ingredientes que Magda deixava para ela. — Arrume suas coisas — tia Magda retrucou quando uma corrente de ar de outono assobiou através de uma fresta na janela da cozinha. Ela puxou um casaco apertado em torno de seu corpo frágil. Sua pele estava ficando grisalha, e de vez em quando seu peito chacoalhava com uma tosse úmida e cortante. Houve um momento em que Signa olhou além de sua tia e nas sombras, esperando para ver se Morte estava vindo para reclamar tia Magda como ela temia desde que a tosse começou uma semana antes. — Você vai dormir no galpão esta noite. — As palavras de Magda foram ditas com tanta frieza que as entranhas de Signa murcharam, e ela se pegou desejando nunca ter tido a infelicidade de ser acolhida pela mulher horrível. Era uma pena que ela tivesse tão poucas alternativas. Por causa da herança que ela deveria reivindicar em seu vigésimo aniversário, e a mesada que seus cuidadores recebiam dela, Signa já havia sido disputada por guardiões em potencial. Sua avó havia vencido a primeira guerra, não por ganância, mas por amor. Quando ela faleceu, Signa foi enviada para morar com o irmão de sua mãe – um banqueiro jovem e saudável com uma boa propriedade e uma vida amorosa frutífera. Embora 1 Habitação rústica, geralmente de madeira e coberta de palha. muitas vezes ele a deixasse sozinha para cuidar de si mesma, Signa não desprezava seus anos com ele. Ela até tinha uma amiga para lhe fazer companhia em travessuras na floresta e em missões de espionagem pela vizinhança – Charlotte Killinger. A vida amorosa de seu tio provou ser muito frutífera no final, no entanto, aos trinta anos, ele morreu de uma doença que contraiu de uma de suas muitas parceiras. Signa esperava ser acolhida pela família de Charlotte depois disso, apenas para descobrir que a mãe de sua amiga havia sofrido da mesma doença. Esse escândalo foi efetivamente o fim da amizade das meninas, e Signa não recebeu nem uma carta de Charlotte desde então.Signa tinha doze anos quando os sussurros começaram, piorou quando seu terceiro guardião morreu em um trágico acidente de carruagem a caminho de buscá-la, então quando seu quarto guardião se afogou em sua própria banheira depois de um sedativo e muita bebida. A criança é amaldiçoada pela Morte, diziam alguns. A mais perversa das bruxas, gerada pelo próprio diabo. Onde quer que ela vá, o ceifeiro a seguirá. Signa nunca disse uma palavra para dissuadi-los, porque não tinha certeza de que estavam errados. Ela fingiu que não podia ver os espíritos por quem passou pelas ruas ou até mesmo os que ela compartilhava as casas, esperando que, se não interagisse, talvez um dia desaparecessem por completo. Infelizmente, ignorar os espíritos não era tão fácil. Às vezes achava que eles sabiam que ela estava se escondendo deles e eram os piores por isso, uivando pela casa ou assombrando espelhos, sempre tentando pegar Signa desprevenida e assustada com suas travessuras. Felizmente, não havia espíritos vivendo na casa de Magda, embora isso não melhorasse muito a situação de Signa. Tia Magda era do tipo que se perdia em salões de jogo por dias a fio, sempre para voltar com os bolsos vazios. Ela não se preocupava com coisas bobas como manter a cozinha abastecida ou garantir que Signa pudesse respirar adequadamente no casebre empoeirado que ela alegava ser um lar, e ela se importava apenas com a mesada que a moradia de Signa oferecia. Signa compreendia o medo que a tia tinha dela – até mesmo esperava –, mas era uma vida miserável. Apenas alguns meses depois de completar vinte anos, ela logo poderia reivindicar sua herança e finalmente construir uma casa própria. Uma cheia de luz e calor e, o mais importante, de pessoas. Ela desfilaria por aquela casa em um lindo vestido, atraindo os olhos de uma dúzia de belos pretendentes que proclamariam seu amor por ela. E Signa nunca mais ficaria sozinha. Mas para reivindicar esse futuro, ela precisava enfrentar Morte. Naquela mesma noite, de preferência, antes que ele reivindicasse outro guardião e a condenasse ainda mais. — Faça as malas, garota — tia Magda exigiu novamente, suas mãos ossudas tremendo. — Eu não vou deixar você sob o meu teto esta noite. Parando apenas para pegar sua caneca do chão e examinar o mais novo amassado no cobre, Signa saiu correndo da cozinha. A escada de madeira frágil gemeu enquanto ela subia, tentando pensar apenas em como o piso rangia como se ofendido pelo peso de seus passos e a sujeira que cobria a casa do piso das tábuas até o telhado escarpado. Ela tentou pensar na aranha orbe que vivia em uma teia perfeitamente preservada em um canto do teto, fora de alcance, mas sempre à vista. Qualquer coisa para tirar os pensamentos sombrios de sua cabeça, que havia algo terrivelmente errado com ela. Que ela era um monstro. Que todos e tudo seriam melhores se ela fosse normal. Magda acreditava que Signa carregava o diabo dentro de sua alma, e talvez isso fosse verdade. Talvez o diabo estivesse aninhado confortavelmente dentro dela, e por isso era impossível para Signa morrer. Independentemente disso, essa noção não mudou o que Signa sabia que tinha que fazer. A tosse de tia Magda sacudiu a casa e Signa se moveu mais rápido. Em seu minúsculo quarto no sótão, ela deslizou seu baú em direção à porta do quarto para bloquear qualquer pessoa de uma entrada fácil e voltou na ponta dos pés para o centro da sala. Levantando as saias, ela se sentou no chão e tirou o casaco, tirando as frutinhas de belladonna de um bolso. Ela as colocou diante de si, então pegou uma faca de cozinha enferrujada de um segundo bolso e enrolou o cabo manchado nas dobras de sua saia para facilitar o acesso. Signa pegou cinco frutinhas e, embora não pudesse dizer o porquê, alisou suas madeixas escuras e ajustou a gola para garantir que estivesse apresentável antes de deixar sua doçura explodir em sua língua. O veneno começou em seu peito, como se alguém a tivesse rasgado com um ferro quente e agarrado seus pulmões. Sua pele era uma torneira vazando, gotas gordas de suor rolando de seus poros. Signa arfou quando a bile queimou sua garganta, fechando os olhos contra as sombras que fervilhavam e lançavam estranhas alucinações. Apenas momentos depois, os efeitos da belladonna estavam desaparecendo - era uma dose que deveria ter matado uma pessoa, embora Signa pudesse se recuperar em minutos. Mas ela precisava ficar neste momento o maior tempo possível porque era isso que ela estava procurando; esta era sua chance de perseguir o ceifador e detê-lo de uma vez por todas. Finalmente, o gelo se espalhou em suas veias. Era uma presença familiar que a queimava por dentro e exigia ser reconhecida. Signa abriu os olhos e Morte estava ali diante dela. Assistindo. Esperando. Sua presença era inebriante e familiar, e pegou Signa de surpresa como sempre fazia – sombras contorcidas lançadas na forma vaga de um humano. Tão escuro e vazio de luz que era doloroso olhar para ele. E, no entanto, olhar para ele era tudo o que Signa podia fazer. Tudo o que ela poderia fazer. Ela foi atraída para ele como uma mariposa para uma chama. E assim, como parecia, ele era para ela. A morte já não esperava à distância, mas se inclinou sobre ela como um abutre diante de sua presa, sombras dançando ao redor dele. Signa olhou para o infinito abismo de escuridão e, embora seus olhos ardessem, ela se recusou a desviar o olhar. — Prefiro que você não me invoque sempre que a vontade bater. — A voz não era o que ela esperava. Não era gelo, nem cascalho, mas o som da água em um prado, deslizando sobre sua pele e convidando-a para um mergulho à meia-noite. — Eu sou um homem ocupado, você sabe. Signa ficou imóvel, sem fôlego. Ela esperou mais de dezenove anos para ouvir a voz da Morte – e essas foram suas primeiras palavras? Ela cruzou os dedos ao redor do punho da faca e fez uma careta. — Se sua intenção é arruinar minha vida, é hora de você me dizer o porquê. A morte se retraiu e, ao fazê-lo, o calor a invadiu, mordendo seus dedos dormentes. Ela nem tinha percebido que estava com frio. — Você acha que é isso que estou fazendo, Signa? — A descrença em sua voz espelhava a dela. — Arruinando sua vida? Havia algo de preocupante nessas palavras. Algo excessivamente familiar que enviou calafrios em sua pele. — Não diga meu nome — Signa disse a ele. — Na língua da Morte, soa como uma maldição. Ele riu. O som era baixo e melódico, e fez suas sombras se contorcerem. — Seu nome não é uma maldição, Passarinha. Eu só gosto do sabor dele. Era estranho, as coisas que sua risada fazia com ela. Embora Signa tivesse passado anos construindo seu discurso para este momento, ela descobriu que agora não tinha nenhum. E mesmo se o fizesse, qual era o ponto? Ela não podia se deixar influenciar por palavras curiosas – não quando as ações dele tinham arruinado sua vida, tirando-a de todos os amigos, guardiões e lares que ela já teve. E assim ela não se deixou pensar mais; era hora de aproveitar sua oportunidade e ver se Morte tinha uma fraqueza. Com as mãos trêmulas, ela agarrou a faca com força, lutando contra o peso em seus membros para reunir toda a força que pudesse reunir. E então ela o atingiu em cheio no peito. Dois A lâmina atravessou pelas sombras, e Signa amaldiçoou. Morte olhou para baixo, em seu peito, e as sombras se inclinaram como se ele estivesse inclinando a cabeça. — Ora, ora, se você não é uma coisa curiosa. Certamente, você não acreditava que algo tão trivial funcionaria comigo? Seus lábios azedaram com a diversão dele, e ela retirou a faca. Ela esperava que a lâmina fizesse alguma coisa. Que iria detê-lo ou deixá-lo saber que ela estava falando sério sobre ele ficar longe dela. Ela queria que Morte a visse como perigosa. Como alguém com quem não se brinca. Em vez disso, ele estava rindo. E por causa daquela risada, Signa mal registrou asbatidas persistentes na porta de seu quarto. Ela parou apenas com o ranger de seu baú deslizando contra o piso de madeira e os gritos de tia Magda quando ela invadiu o quarto, lençol branco e com o medo do diabo em seus olhos. A mulher não perdeu tempo, tremendo enquanto agarrava um punhado do cabelo de Signa e a levantava do chão. Seus olhos dispararam em direção à janela, como se ela pretendesse jogar Signa para fora. Ao lado de tia Magda, Morte se eriçou, sufocando o ar do quarto. Gelo mordeu a pele de Signa enquanto ela tentava se livrar das garras de sua tia. E embora soubesse que deveria dizer a ele para parar, não o fez. Os olhos dela ardiam de ódio e, quando a mulher se lançou em seu pescoço, Signa cerrou os dentes, pegou a tia pelos ombros e a desequilibrou. No momento em que a pele de Signa tocou a de tia Magda, foi como se um fogo queimasse em suas veias. Sua tia caiu para trás como se estivesse atordoada, respirações finas e esganiçadas. A cor sumiu de sua pele, como se o toque de Signa tivesse sugado tudo. Tia Magda tropeçou em um canto do baú, caindo para trás com um grito silencioso, os pulmões se esvaziando. Ela caiu no chão com um tapa, em silêncio, talvez pela primeira vez em sua vida. Quando Signa entendeu o que havia acontecido, já era tarde demais para ajudar tia Magda, cujos olhos brilhantes fitavam o teto. Morte pairava sobre ela, inclinado para inspecionar o corpo. — Bem, essa é uma maneira de calá-la. — Seu tom era leve com alegria, como se tudo isso fosse uma piada. A respiração de Signa então não veio em goles, mas em arfadas de pânico. — O que você fez? Só então a Morte se endireitou, reconhecendo seu pânico. — O que eu fiz? Receio que esteja enganada, Passarinha. — Ele falava com a mesma inflexão lenta que se pode usar ao instruir uma criança. — Respire e me escute. Nós não temos muito tempo… Signa não ouviu nada disso. Quando ela olhou para suas mãos, elas eram do azul mais pálido, tão translúcidas quanto as de um espírito. Ela os colocou atrás dela com um gemido baixo. — Fique longe de mim! — ela implorou. — Por favor, apenas fique longe! Havia uma pontada na voz de Morte quando ele respondeu. Uma sugestão de escuridão aparecendo no prado. — Como se eu já não tentasse. — Ele se virou para ela, e Signa só pôde observar enquanto a Morte alcançava o cadáver de sua tia e arrancava o espírito de seu corpo. Aquele espírito deu uma olhada em Signa, depois na Morte, e seus olhos se arregalaram de compreensão. — Sua bruxa podre. Parecia que o chão estava caindo sob os pés de Signa. Sua mente já estava rastejando sobre si mesma, sua visão se estreitando enquanto ela olhava para suas mãos trêmulas. Mãos que a haviam traído. Mãos que roubaram uma vida. — O que eu fiz? — ela sussurrou, seu corpo enrolando em si mesmo. O que eu fiz, o que eu fiz, o que eu fiz? E então, com crescente horror — O que eu faço? — Primeiro, você respira profundamente. — Por alguma razão, aliviou seus nervos ao ouvir Morte falando e não Magda, que estava sentada olhando para seu corpo translúcido em estado de choque. — Eu garanto a você, eu não esperava isso… — Do que me importa suas garantias? Você é a razão pela qual isso aconteceu! — Signa não sabia se ria ou chorava, então o som que escapou dela foi uma mistura de ambos. As sombras da morte triplicaram de tamanho enquanto a escuridão envolvia a sala. — Você me convocou. Não fiz nada além de vir onde fui chamado. Eu não sou seu inimigo… Pelo menos nesse momento ela sabia que deveria rir. — Não é meu inimigo? Você é uma nuvem perpétua sobre minha existência. Você é a razão de eu ter passado minha vida em lugares como este, com pessoas como ela, cercada de espíritos! Você é a razão de eu ser infeliz. E veja o que você fez agora. — Seus olhos caíram para o cadáver à sua frente, e Signa enterrou o rosto nas mãos translúcidas enquanto as lágrimas queimavam. — Você me amaldiçoou. Agora ninguém nunca mais vai querer se casar comigo! — Casar? — Morte olhou para ela incrédula. — É por isso que você está chorando? Ela soluçou mais forte, as palavras não fazendo nada para aliviar sua mente em espiral. Se Signa estivesse olhando, ela teria visto que as sombras da Morte murcharam. Ela teria visto que ele estendeu a mão para ela, apenas para recuar antes que ela pudesse rejeitá-lo. Ela teria visto as sombras dele envolverem a boca de Magda, silenciando a mulher antes que ela pudesse dizer outra palavra cruel. — Eu nunca quis que isso acontecesse. — Sua voz soou genuína. — Nosso tempo é limitado, e eu sei que o que quer que eu diga agora, você não vai ouvir. Mas não sou seu inimigo. Em dois dias, vou provar isso para você. Prometa-me que vai esperar aqui até lá. Signa não fez tal promessa, embora não fosse como se ela tivesse outro lugar para ir. Ainda assim, ela não olhou para cima até que Morte se foi e o calor voltou para o quarto, trazendo sensação de volta em seus dedos das mãos e pés enquanto a vida mais uma vez coloria sua pele. Os efeitos da belladonna haviam passado, deixando uma dor de cabeça pulsante e o espírito fervilhante de sua tia como os únicos lembretes de que a Morte a visitará. Signa deu uma olhada nela com os olhos lacrimejantes, e tia Magda fez uma careta. — Eu sempre soube que você tinha o diabo dentro de você. Sem discutir, Signa caiu no chão para se debater em sua miséria. Signa estava em frente à porta torta da casa de sua falecida tia Magda, mais tarde, naquela mesma noite, abraçando-se enquanto esperava que o legista terminasse seu trabalho. Ele se apressou – não porque estivesse nervoso com o corpo, mas porque tinha medo de Signa com seus cabelos negros e olhos de cores estranhas, e da multidão de vizinhos que observavam à distância com olhares conhecedores. — Você nunca pediu para que isso acontecesse — Signa sussurrou para si mesma enquanto se preparava contra os espectadores ansiosos. — Você pode ter pensado, mas pensar não é o mesmo que fazer. Você é boa. As pessoas podem aprender a gostar de você. Isso é culpa dele. Culpa dele, culpa dele, culpa dele. Era seu novo mantra. Signa odiava Morte agora ainda mais do que antes. Odiava o que ele de alguma forma fez com que ela se tornasse. Embora... ela não podia dizer que estava triste por tia Magda ter partido. Ou pelo menos quase. — Você vai deixar eles me levarem? — O espírito de tia Magda resmungou, zangada mesmo na morte. — Você me deve, garota! Você vai deixá-los me enfiar em um saco como esse? Faça alguma coisa, sua bruxinha, eu sei que você pode me ver! — Infelizmente, eu posso ouvir você também — Signa resmungou, percebendo que ela falou em voz alta quando ela ganhou uma piscadela surpresa do homem levantando o corpo ensacado de sua tia na parte de trás de uma carruagem preta. Sem saber o que fazer, Signa olhou entre ele e o espírito flutuante de sua tia até que o homem ficou desconfortável e se desculpou, gaguejando sobre como lamentava a perda dela e como entraria em contato. O tempo todo, os vizinhos seguravam suas cruzes apertadas em volta do pescoço, sussurrando que sempre souberam que havia algo de errado com a garota. Dizendo a quem quisesse ouvir que Signa era uma semente ruim e que Magda deveria ter pensado melhor antes de convidar o diabo para sua casa. Havia até um espírito entre eles com uma túnica branca folgada, que se benzia várias vezes enquanto olhava para Signa com olhos vazios e ocos. Ela tentou não fazer uma careta. Não importava que as fofocas a incomodassem. Não importava que ela tivesse dado qualquer coisa para ter apenas uma pessoa em quem confiar, porque eles não estavam errados em temê-la. Signa havia usado os poderes do ceifador. Ela só precisava descobrir como isso tinha acontecido. A pele de Signa se arrepiou quando ela recuou em direção à casa de Magda, esperando que nem os vizinhos e nem sua tia distraída – que estava ocupada fazendoum estardalhaço sobre seu corpo enquanto a carruagem do legista desaparecia na rua – a seguissem enquanto ela se esgueirava para o jardim. O termo jardim, neste caso, foi usado livremente. Ao longo dos anos, a terra havia se decorado com ervas daninhas e flores silvestres das quais Magda se queixava com frequência, e Signa passava horas cuidando da melhor maneira possível sem uma pá ou tesoura. Se havia alguma coisa que ela sentiria falta da casa de Magda, era o jardim. Ela fez seu caminho sob um salgueiro, derrubando a folhagem para fora do caminho para que ela pudesse se apoiar no tronco da árvore. Mas ela não estava sozinha. Sob as folhas, coberto de terra e trevo, havia um filhote. Era tão novo para o mundo que seus olhos estavam bem fechados, sua pele rosada e carnuda, sem uma única pena. Signa se abaixou para inspecionar a pobre criatura, que estava coberta de terra e formigas famintas que tinham toda a intenção de devorá-la viva. Os insetos a alcançaram, implacáveis em sua perseguição. Signa não pôde deixar de simpatizar com a criatura; era como ela – expulsa de seu ninho e jogada para se defender sozinha. Só que não era tão capaz quanto Signa; pois não poderia enganar a morte. Seria uma misericórdia para a criatura morrer rapidamente e ser eliminada de sua miséria. Mas a morte de Magda fora um acidente. Se Signa tirar outra vida, de propósito desta vez, o que isso fazia dela? Ela não queria dar nenhuma consideração ao pensamento, mas sabia que precisava de uma resposta antes de ficar cara a cara com qualquer outra pessoa que corresse o risco de machucar. Timidamente, ela tirou as luvas e passou a ponta de um dedo ao longo da espinha do filhote, varrendo algumas das formigas e detritos que haviam se acumulado. Ela prendeu a respiração, esperando para ver se sua morte viria. Curiosamente, o filhote continuou a se contorcer no chão, seu coração pulsando. Mais uma vez ela pressionou um dedo descoberto sobre o pássaro, desta vez por mais tempo. Quando ela puxou a mão, a criatura ainda estava respirando. Ela se recostou no tronco do salgueiro com lágrimas de alívio pinicando seus olhos. Seu toque não matou o pobre pássaro. Seu toque não era letal. A menos... a menos que houvesse mais do que isso. Ela se lembrou da belladonna no bolso e, com a mão trêmula, Signa tirou cinco frutinhas dela. Assegurando-se de que a folhagem a esconderia de qualquer um que passasse por ali, ela colocou as frutas na boca e as deixou explodir em sua língua. Os sintomas vieram rápidos – a náusea, a visão embaçada, e ali, em frente a ela, a própria Morte se levantou mais uma vez. Embora ela soubesse que ele viria, ela se recusou a reconhecê-lo, feliz por ele ter esperado à distância. Ela estendeu a mão mais uma vez para acariciar o dedo ao longo da espinha do pássaro, e desta vez seu batimento cardíaco cessou e ele parou com uma respiração final aliviada. Signa puxou a mão para trás e apertou-a contra o peito. Não havia como negar – com apenas um toque, ela poderia trazer a morte. Mas essa morte viria, ao que parecia, apenas quando o ceifador estivesse na presença dela. Só quando Signa estava nesse espaço estranho, oscilando entre a vida e a morte. Ela tinha tantas perguntas, mas nem uma vez Signa poupou um olhar para Morte quando ela se forçou a sair do chão, deixando o filhote morto no solo para as formigas reclamarem enquanto ela cambaleava em direção à casa. Ela estava feliz, pelo menos, que o filhote não sentiria mais dor. Ainda bem que se ela fosse um monstro, pelo menos ela poderia entregar misericórdia. Três Uma carruagem de marfim polido chegou dois dias depois. Os latidos dos cães de um vizinho sinalizaram a sua chegada, e o peito de Signa se apertou quando ela olhou pela janela da cozinha para ver a comoção. Ela praticamente vivia no jardim desde a morte de sua tia, dizendo adeus às plantas e esperando os dias passarem enquanto ignorava o espírito que invadia a casa. Tia Magda era atroz mesmo na morte, farfalhando as cortinas e uivando suas frustrações sempre que não estava dizendo a Signa o quanto ela era uma peste ou bisbilhotando os vizinhos. Signa havia recebido uma carta no dia anterior – uma com um selo de cera vermelha e assinada por um certo sr. Elijah Hawthorne, estendendo-lhe um convite para sua casa, Thorn Grove. Foi com surpresa que Signa reconheceu o nome como marido da neta de Magda, Lillian. Ela já tinha ouvido Magda reclamar da jovem antes, dizendo histórias da socialite rica que cortou a mesada de Magda sem aviso prévio. Signa passou o dia todo e até o nascer do sol da manhã seguinte olhando para a carta, não convencida de que não era uma invenção de sua imaginação. Ela não queria considerar como Morte deveria ter conseguido, e embora ela estivesse meio que decidida a não aceitar essa oferta, Signa não era tola. Partir para Thorn Grove era a melhor opção que ela tinha. Havia pouca escolha a não ser deixar de lado o chá, agarrar a carta de Elijah com força e sair correndo. A carruagem não cedeu enquanto batia sobre as trepadeiras grossas e o musgo úmido que irrompiam entre os paralelepípedos rachados. Os dois cavalos que o puxavam tinham casacos pretos escuros e escorregadios de suor; suas narinas pingavam do esforço, mas seus corpos eram saudáveis e cheios de músculos. Signa não pôde deixar de pensar em seus próprios pulsos ossudos e pernas esqueléticas, e sentir um pouco de inveja desses cavalos cuja dieta era certamente superior à sua. Os garanhões enormes bufaram quando pararam diante dela, e um cocheiro idoso desceu. Ele era um homem magro, alto e de pele clara. — Bom dia, senhorita. — Inclinando a cartola, ele abriu a porta da carruagem. — Eu presumo que você é a moça que fui enviado para pegar? — Acredito que sim. — Signa tremeu como um beija-flor. Alguém realmente tinha chegado para levá-la. Para entrega-lá para uma família no topo da hierarquia social, com quem ela poderia usar belos vestidos e tomar chá com outras mulheres e ter a vida que desejava. Parecia bom demais para ser verdade; ela continuou olhando para as sombras, esperando a morte aparecer, rindo enquanto ele lhe dizia que era tudo uma armação. — Minhas ordens são para levá-la de volta sem demora — disse o cocheiro. — Temos uma pequena jornada pela frente. Você tem algum pertence? — Apenas um baú, senhor. Está lá dentro. Eu posso pegar… O motorista dispensou suas palavras com um sorriso tão ousado que era alarmante. Signa não conseguia se lembrar da última vez que vira um sorriso tão honesto. — Bobagem, senhorita. O prazer é meu. — Não acostumada com a atitude gentil, ela só pôde assentir enquanto ele cambaleava em direção à casa e perguntava a si mesma se deveria ficar ali parada ou entrar na carruagem. Signa não teve que esperar muito pela resposta; uma tosse da carruagem sinalizou que o motorista não viera sozinho. Um menino mais jovem do que qualquer um que ela esperava – em seus vinte e poucos anos no máximo – emergiu da carruagem. O jovem estava vestido elegantemente, com uma túnica de um preto profundo e botas de couro combinando. Ele era alto como um salgueiro e largo como um carvalho, com uma cabeça cheia de cabelos pretos como fuligem que se enrolavam atrás das orelhas. Sua pele estava bronzeada pelo sol, e havia um sussurro de sardas espalhadas sob os olhos que lembravam a Signa fumaça – um cinza pálido e fino, com um halo de carvão escuro ao redor de cada íris. Ele tinha uma pequena cicatriz cortada diagonalmente no arco da sobrancelha esquerda. — Basta olhar para o forro dourado daquela carruagem! Claro que minha neta, Lillian, sentiu a necessidade de mostrar sua riqueza. Não é como se a pobre garota tivesse pensado em me ajudar. Ela é uma coisa boba e horrível, assim como você. — As palavras de Magda escorriam com amargura enquanto ela circulava o menino, mas pela primeira vez Signa não se importou. Havia duas regrasque Signa conhecia sobre espíritos – a primeira era que Magda só podia assombrar a terra onde ela havia morrido, e a segunda era que se seu cadáver fosse queimado, seu espírito seria arrancado da terra a contragosto. Foi a primeira regra que aliviou Signa, pois significava que ela nunca mais teria que ver sua temida tia novamente. — É um prazer conhecê-lo, senhor. Espero que sua viagem tenha sido confortável. — Signa limpou a garganta e reuniu toda a polidez que pôde. Ela até tentou uma reverência em seu pesado vestido de bombazine e véu de penas pretas, que coçava e era o único traje que ela parecia usar ultimamente. O jovem não devolveu a formalidade dela. Ele lançou um olhar severo ao redor da varanda murcha e do jardim descuidado, muito cheio e lotado para atravessar sem pisar nas ervas daninhas. — Sou Sylas Thorly, e estou aqui em nome do Sr. Elijah Hawthorne para escoltar a Srta. Farrow de volta à sua propriedade, Thorn Grove. — Sua voz era o murmúrio baixo de uma tempestade que se aproximava. — Eu suponho que você é ela? Tendo esperado um Hawthorne, Signa anotou seu nome com interesse. — Sou eu. — Maravilhoso — ele falou lentamente, tendo mais interesse em alisar as luvas de couro escuro que se encaixavam em suas mãos como uma segunda pele do que nela. — Entre na carruagem. Como Albert disse, temos uma grande jornada pela frente. — Se você precisar descansar, eu poderia fazer chá… Sylas ajustou sua gravata e prestou atenção. — Prefiro que não fiquemos neste casebre por um segundo a mais do que o necessário. Ela cerrou os dentes, mas continuou. — E os cavalos? Eles precisam de água? Sylas inclinou a cabeça para o céu e apertou os olhos. Quando ele respirou fundo, Signa teve a sensação de que estava procurando nas nuvens por sua paciência perdida e estava falhando. — Você é gentil. Mas os cavalos me informaram que eles também prefeririam não se demorar sob o risco de pegar uma doença. Venha agora, Srta. Farrow. — Sylas apontou para a carruagem, oferecendo uma mão enluvada para ajudar Signa a entrar nela. A carruagem era pequena, e Signa teve que manter seu corpo tenso pressionado contra a lateral para que ela não batesse acidentalmente nos joelhos de Sylas, que estavam espalhados amplamente e confortavelmente em um espaço tão apertado. Um momento depois – quando sua mala de viagem foi carregada e Albert voltou para a carruagem – o estalo das rédeas soou e os cavalos partiram. Os olhos esfumaçados de Sylas encontraram os de Signa brevemente antes de ele pegar um jornal e espalhá-lo no colo. Incerta do que deveria fazer, ela procurou outra cópia ou qualquer outra coisa que pudesse ler, mas não encontrou nada. — Você não é um Hawthorne, então? — Signa perguntou, sentindo a necessidade de dizer algo antes do seu parceiro. Pelo que ela havia aprendido em um livro que sua mãe havia deixado para ela, Um guia feminino de beleza e etiqueta, era escandaloso para uma mulher solteira ficar sozinha com qualquer homem. No entanto, dada a grande carruagem e tudo o que ela ouviu, não havia dúvida de que os Hawthornes eram ricos e da alta sociedade e, portanto, bastante respeitáveis. Talvez, então, o livro de Signa estivesse fora de moda? — O Sr. Hawthorne não poderia vir me buscar pessoalmente? Ou Lilian? Sylas soltou um suspiro silencioso e esticou as pernas longas o melhor que pôde. Ele era muito alto para tal espaço, tendo que se sentar curvado como um corvo empoleirado em um tronco. — Lillian está morta e a filha do Sr. Hawthorne, Blythe, está doente. Então não, eles não podiam. Signa endureceu. A morte, ao que parecia, a havia vencido em Thorn Grove. — Sinto muito que ninguém estava lá para vê-la partir — Sylas murmurou, aparentemente tão desconfortável em conversar como Signa. — Não é incômodo, eu estou bastante acostumada a lidar comigo mesma. — Além disso, a única pessoa que poderia estar lá para ela era tia Magda, a quem Signa preferiria nunca mais ver. Todo espírito que andava na terra estava preso ao mundo por algum tipo de emoção intensa, como raiva ou tristeza. Ela tinha visto mulheres chorando olhando pelas janelas e espíritos discutindo de um lado para o outro, presos em um loop enfurecido. Signa havia se acostumado com seus padrões e era hábil em evitá-los, pois os espíritos frequentavam os mesmos lugares até que finalmente decidissem deixar este mundo. Em todos os seus anos, Signa conheceu apenas dois espíritos que seguiram seu caminho. A maioria, como a furiosa tia Magda, que batia na porta da carruagem e gritava: — Não se atreva a ir embora, sua bruxa! Não se atreva a me deixar aqui! — podem passar anos vagando pela terra, alimentando-se de suas emoções mais fortes. Mas eles foram embora, pelas ruas de paralelepípedos onde o cheiro de canela e maçã se espalhava pela brisa do outono. Signa suspirou de contentamento no momento em que estavam longe demais para que Magda os seguisse, ouvindo o murmúrio ocasional de Sylas virando as páginas de seu jornal. — Você parece aliviada por estar indo embora — Sylas notou depois de um momento, os olhos em seu jornal. Ela grunhiu sem pensar, por quão verdadeiras eram as palavras. — Qualquer lugar é melhor do que aqui — disse ela enquanto inclinava a cabeça contra uma janela, acomodando- se. Ela não percebeu que os dedos de Sylas pararam nas páginas. Não viu o olhar sombrio que cruzou seu rosto quando sua mandíbula se apertou e ele se enterrou em sua leitura. Se tivesse, talvez tivesse pensado duas vezes sobre Thorn Grove e tudo o que a esperava. Quatro Signa não esperava que precisassem de um trem para chegar em Thorn Grove. Quando ela sentiu o cheiro de fumaça no ar, fechou as janelas da carruagem, pensando que eles passariam direto. Mas quando a carruagem diminuiu a velocidade, Sylas pressionou um fino ticket amarelo em sua mão. Ela nunca tinha andado de trem, embora tivesse lido nos jornais como eles eram rápidos: a nova maneira de viajar; um luxo moderno. Foi preciso que Sylas pigarreasse para que se orientasse e saísse da carruagem. No momento em que os saltos de suas botas atingiram o chão, Signa foi arrastada para outro mundo. A estação era um edifício maciço de ardósia cinza, adornado com o mostrador de um relógio que era tão grande que só poderia ser descrito como imponente. Soou a hora, o som como um gongo reverberando pela estação. No interior, os pisos desgastados estavam amarelados. Moscas enxameavam nas latas de lixo abarrotadas, e o cheiro característico de almíscar de muitos corpos correndo pairava no ar. Um espírito também estava presente. Um homem vestido com casaco preto comprido de segunda mão apresentando buracos gastos estava sentado em um banco e observava solenemente os transeuntes. Signa desviou o olhar, afastando-se dele. Por mais suja que fosse a estação, havia algo de grandioso nela. Havia homens em trajes de negócios que seguravam as bengalas mais luxuosas, mulheres em gorros e vestidos de algodão se movimentavam, todos eles com algum lugar para estar. Alguns se sentavam em bancos montados em cada plataforma, folheando um jornal ou fumando charutos. Outros corriam pela estação, agarrando seus pertences enquanto seus olhos deslizavam até o relógio gigante que os dominava. Um senhor mais velho com um tórax orgulhoso escoltou uma mulher sorridente que não conseguia parar de olhar para o anel em seu dedo. Atraída por um hábito de muitos dias passados sozinhos, Signa preencheu as lacunas em sua cabeça, imaginando que eles eram recém-casados e estavam começando sua lua de mel. Imaginou também todos os lindos vestidos que estavam guardados no baú de viagem da mulher, feitos com os tecidos mais leves para que ela sentisse o ar salgado em sua pele enquanto ela e seu amado viajavam à beira-mar. O desejo se curvou dentro de Signa, tão fervoroso que ela se forçou a se afastar do casal. Como seria ser uma mulher assim? Ser arrastadapelo país por um homem bonito para quem ela não conseguia parar de sorrir, boba de felicidade? Ao lado dela, Sylas murmurou algo baixinho. Signa assentiu e fingiu ouvir, perdida em seu devaneio e em um mar de mais pessoas do que ela já tinha visto. Mal conseguiu contornar todos eles enquanto ela e Sylas atravessavam a estação, liderados por um jovem ajudante prestativo que havia dado uma olhada em sua passagem e se ofereceu para carregar seu baú. Era sólido e pesado, mas Sylas não ofereceu ajuda ao menino. Na verdade, ele se manteve impassível e calado, como se fizesse questão de não olhar para o ajudante. — Você terá a cabine para você, senhorita. — A voz do ajudante estava ofegante de sua luta com o peso da bagagem. — O melhor do trem. Signa nunca havia perambulado por um lugar tão movimentado e onde tudo ao seu redor parecia grandioso e vasto. Onde parecia que ela estaria perdida para sempre se fizesse uma curva errada. Embora Sylas sempre parecesse alguém que engoliu uma torta azeda, ela estava feliz por tê-lo ali com ela no caso de se perder. — Você viajou com frequência? — ela perguntou. A resposta veio do ajudante ao lado dela. — Não frequentemente, senhorita. Eu adoraria, se pudesse fazer isso entre trabalhos, mas eles me mantém ocupado. Signa virou-se para olhar para o local onde vira Sylas pela última vez, apenas para descobrir sua ausência. Respirando fundo, ela esquadrinhou a multidão até que o viu – ali, em frente, entrando no trem. Um momento de pânico a atingiu, e ela se virou para o assistente, colocando as mãos sob o baú de viagem que ele carregava. — Aqui, me dê isso — disse ela. — Vou levar o resto do caminho. O ajudante se encolheu, mas apertou mais. — Realmente não incomoda, senhorita. Isso é muito pesado para uma dama... Temendo que houvesse pouco tempo para discutir, ela arrancou o baú de seus braços. Era, de fato, extraordinariamente pesado, feito de mogno puro e preso com fechaduras de ferro. Certamente não foi planejado para ser carregado por uma mulher de salto alto e roupas de luto, mas ela conseguiria. O aperto de seus pulmões – a preocupação de ser separada da única pessoa que sabia para onde ela estava indo e que poderia ajudá-la se ela se perdesse – era muito pior do que o peso extra. — Muito obrigada pelo seu tempo. Eu posso me virar daqui — foi tudo o que Signa disse ao ajudante antes de correr atrás de Sylas, tentando dar longos passos apesar de balançar para trás e balançar os braços. Várias pessoas se ofereceram para ajudar, mas o condutor já estava chamando pelo embarque final, e Signa só conseguia se concentrar em levar a si mesma e seus pertences para onde precisavam estar e não se separar do diabo que era Sylas Thorly. Quando chegou ao trem, sua pele brilhava de suor e sua respiração estava tão pesada que ninguém a olhou nos olhos. Mesmo sobrecarregada com o peso de seus pertences, Signa teve que tirar um momento para admirar a beleza do trem. Era melhor do que ela esperava, com corrimãos de ferro preto e mesas de madeira robustas com bancos de couro vermelho de cada lado. Seu ticket indicava uma sala privada onde Sylas esperava, descansando em um assento de veludo macio com suas botas apoiadas no assento marrom combinando em frente a ele. Ele deu uma olhada para Signa e torceu o nariz. — Meu Deus. Eu não tinha ideia de que uma mulher poderia suar tão profusamente. Se Signa realmente fosse uma bruxa, ela poderia ter fervido Sylas vivo. — Eu não estaria suando se você não tivesse decidido correr sem mim, senhor. Com isso, Sylas zombou. Um som repugnante e repulsivo. — Eu deveria saber que você não estava me ouvindo. Se não tivesse se permitido ser vítima da distração, teria me ouvido dizer que eu estava indo na frente para garantir que nossa cabine estivesse em ordem. Signa mordeu a língua. Agora que ele a havia lembrado, sim, ela se lembrava de que Sylas poderia ter dito algo, e que sim, ela assentiu. Ainda assim, ele deveria ter falado mais alto. Optando por não responder, Signa começou a guardar sua bagagem no compartimento superior. Pesado como era o baú, seus braços tremeram enquanto ela tentava levantá-lo acima de sua cabeça. Ela estava grata por uma desculpa para mantê-la de costas para Sylas, mas ela não conseguia administrar a manobra. Seus músculos queimaram, e depois de vários minutos sólidos empurrando e ignorando a dor, eles finalmente cederam completamente. Signa cambaleou para trás, momentaneamente convencida de que logo faria outra visita à Morte depois de ser esmagada pelo baú de viagem. Mas antes que ela pudesse cair, Sylas estava de pé, segurando-a por trás. Signa corou da cabeça aos pés quando seu peito pressionou contra suas costas. Ela nunca esteve tão perto de um homem. Sylas não pareceu compartilhar sua surpresa. Enquanto ela ainda estava focada na firmeza de seu peito, ele deu um passo para o lado e pegou a bagagem dela, colocando-a no compartimento superior. — Por que você escolheria carregar algo tão pesado? — ele perguntou. — Se eu não estivesse aqui, aquele baú poderia ter caído em seu rosto. O que você teria feito então? — Acho que eu não teria rosto — ela respondeu, indignada. — E novamente, eu não precisaria carregá-lo se não tivesse que correr para acompanhá-lo. Eu temia que você tivesse me deixado. Sylas se jogou em seu assento com uma bufada, as pernas insuportavelmente estendidas. — Você deveria ter me dito que andava tão devagar. Eu poderia ter pensado em carregá-lo, se eu soubesse. Ela se sentou em frente a ele, imaginando se sua personalidade insuportável era algum tipo de teste para sua paciência. Segurando seus joelhos juntos para que não colidissem com os dele, ela deu um sorriso forçado para seu acompanhante e perguntou: — Você se importaria de sentar um pouco mais ereto, Sr. Thorly? Sylas olhou para si mesmo. — Estou sentado de forma estranha? Bom Deus, ela precisaria de força para lidar com este homem. Com a ponta de sua bota cinza, Signa bateu em um de seus joelhos, depois no outro – eles estavam muito distantes. — Você está sentado como se fosse o único nesta cabine. Sua piscada foi lenta e, embora Signa soubesse que ele entendia, ele não se endireitou, nem se desculpou. Sylas apenas riu e fechou os olhos, como se pretendesse tirar uma soneca. — Você é certamente para a frente. Ela tentou ao máximo ter boas maneiras, mas havia algo exasperante sobre este homem. Algo sobre sua indiferença e olhar constante – como se ele já tivesse decidido que Signa era um incômodo – fez com que essas maneiras vacilassem e palavras duras escapassem. Signa mal conseguiu se conter enquanto segurava seu vestido e o subia até os joelhos, liberando espaço suficiente para que eles se separassem como o de Sylas. — Parece que minhas maneiras são tão impecáveis quanto às suas. Eu esperava que alguém na sua posição fosse mais educado. — E que posição seria essa, Srta. Farrow? — A posição de escoltar uma dama. — Uma dama? — Ele abriu os olhos, avaliando sua postura imprópria e o vestido levantado antes de fechá-los novamente. — Deixe-me saber quando encontrarmos uma, e eu a acompanharei com prazer. Ignore-o, ela disse a si mesma, forçando seus lábios em um sorriso que poderia queimar. Você deve ser uma dama. Equilibrada, graciosa e recatada. Ela cruzou as mãos e colocou o vestido de volta no lugar. Fingindo calma, Signa inspecionou sua cabine. Ao lado de Sylas havia um carrinho cheio de guloseimas açucaradas e assadas. Havia caramelo doce com sal marinho, pãezinhos pegajosos que pingavam uma calda grossa e nozes douradas, pastéis minúsculos que escorriam geleia de ameixa e muito mais. Ela estava tão ocupada alimentando os olhos que quase pulou quando Sylas sussurrou: — Posso emprestá-la um lenço, Srta. Farrow? Eu acredito que há baba em seus lábios. Ela fez tudo ao seu alcance para não lançar-lhe um olhar de desprezo,então perguntou: — Isso é para nós? Ele olhou para o carrinho, mas nenhuma luz brilhou em seus olhos. Não havia prazer em seus lábios, nem uma fome rugindo em seu estômago. — Eles devem ter vindo com a cabine — foi tudo o que ele disse. Simples. Irrelevante. Como se não houvesse um banquete de doces diante deles. Signa se perguntou se talvez esse homem fosse desumano. Um guia feminino de beleza e etiqueta afirmava que havia regras importantes quando se tratava de jantar na frente dos outros. Havia certos garfos a serem usados e uma ordem particular para se comer as coisas. No entanto, Signa ansiava tanto pelas guloseimas que seu estômago protestou contra sua resistência. Ruidosamente. Ela congelou, esperando horrorizada para garantir que Sylas não tivesse ouvido. A sorte, no entanto, raramente estava do lado dela. Sylas arqueou uma sobrancelha fina quando se inclinou para frente e pegou a mão de Signa. Embora ambas as mãos estivessem enluvadas, Signa endureceu quando Sylas deslizou um lenço em sua palma. Sua voz era tímida quando ele falou. — Você parece estar com dor. Ela apertou os dedos ao redor do lenço, pensando através de um milhão de coisas que ela gostaria de dizer, nenhuma delas apropriada ou educada. Em vez disso, ela disse: — Tomei um grande café da manhã. Seria rude da minha parte ceder. O sorriso de Sylas era uma foice. Uma coisa surpreendente, curta e cortante. Estava lá um momento e tinha ido no próximo. — Seria ofensivo desperdiçar tanta comida, Srta. Farrow. Especialmente quando foi comprada para você. Mostre algum respeito ao Sr. Hawthorne e coma. Talvez Sylas não fosse a pior pessoa, afinal. Signa não precisou ouvir duas vezes antes de puxar o carrinho em sua direção. Ela estendeu a mão imediatamente para uma torta com creme amarelo brilhante e morangos vitrificados, o topo polvilhado com açúcar de confeiteiro. Como não havia talheres nem pratos, retirou as luvas e as colocou ao lado do corpo, comendo com os dedos. — Então você vai ser rude com o Sr. Hawthorne? — ela desafiou Sylas entre mordidas, fazendo tudo ao seu alcance para não gemer com a deliciosa torta. Fazia séculos desde que Signa comeu algo tão esmagadoramente doce. Ela terminou em um minuto, passando direto para um pão pegajoso. Sylas piscou para os doces, como se a ideia de comer um nunca tivesse lhe ocorrido. Ele olhou para o carrinho, examinando cada item antes de escolher um pequeno bolo de chá regado com geleia de laranja. Enquanto comia, sua postura tornou-se menos severa e sua testa franzida menos sombria. No momento em que ele terminou seu bolo de chá, ele olhou para o carrinho para pegar outro. — Conte-me mais sobre seu trabalho com os Hawthornes — disse Signa enquanto escolhia uma pequena torta de frutas. Parecia um assunto bastante simples, nada muito pessoal ou muito desgastante. Mesmo assim, Sylas hesitou antes de responder. — Eu costumava trabalhar junto com a esposa dele, mas ficaria surpreso se Elijah soubesse que eu existo. — Ele enviou você para me escoltar — Signa pressionou enquanto tentava não lamber os dedos. — Certamente, ele sabe quem você é. Sylas deu talvez a maior mordida que Signa já viu alguém dar, então disse: — Fui enviado por um dos funcionários. A filha do Sr. Hawthorne está morrendo pela mesma doença que levou sua esposa – ele não está no estado de espírito para saber o nome de ninguém agora. Ela estava feliz com a desculpa de caramelo em sua boca enquanto ponderava como seria seu futuro em Thorn Grove. Talvez esta viagem fosse pouco mais que um truque cruel; talvez ela chegasse apenas para descobrir que a Morte já havia reivindicado seu direito sobre todos ali. Talvez este fosse seu próximo movimento em um elaborado jogo de xadrez, e ela estava presa jogando um peão. Ou... talvez ele realmente estivesse tentando se provar para ela. — É a minha vez de fazer uma pergunta — disse Sylas. — Você sabe no que está se metendo ao vir para Thorn Grove? Ela sabia tão pouco sobre o lugar, e embora a pergunta dele fosse enervante, não mudou sua resposta. — Não importa. Não tenho para onde ir. Sylas olhou para a janela ao lado dele, onde ruas pavimentadas distantes deram lugar a um oceano brilhante. Isso a fez pensar: haveria um oceano perto de Thorn Grove? Ou talvez houvesse uma floresta, ou nada além de colinas extensas e ondulantes. — Sua chegada é o que Lillian teria desejado — Sylas disse eventualmente. — Ela não era alguém que pudesse recusar um órfão. Órfão. Signa odiava a palavra – odiava como era algo, para a maioria das pessoas, que definia ela e toda a sua situação. — E quanto à propriedade em si? — ela perguntou, correndo para mudar de assunto. — Está lá há muito tempo? — Thorn Grove é um lugar lindo. Disseram-me que foi passado por muitas gerações. Signa tentou não fazer careta enquanto comia uma torta. Lugares tão antigos provavelmente estavam cheios dos espíritos que ela estava tentando evitar. — E o Sr. Hawthorne é um homem de negócios? — ela perguntou ao invés de deixar seus pensamentos demorarem. — Ele trabalha no banco? Ela ficou surpresa quando os cantos dos lábios de Sylas se curvaram. — Não, não é bancário. Os Hawthornes são donos do clube de cavalheiros mais popular do país. Seus membros são duques e condes. Até mesmo príncipes, pelo que ouvi. Apenas as pessoas mais ricas e abastadas. Isso o mantém um homem ocupado. Com isso, Signa franziu o nariz. A ideia de um clube apenas para cavalheiros ricos parecia ridícula. — Eles têm um clube para mulheres também? Sylas franziu o cenho. — Para as mulheres? Claro que não. — Que tal um para todas as pessoas, então? Ainda mais linhas. — Não existe um desses também. — Isso é uma vergonha. — Signa encostou a cabeça na janela. — Se eles fossem mais inclusivos, os Hawthornes poderiam ser duas vezes mais ricos. — Suas palavras vieram mais fáceis, pois estava confortável nesta cabine, mesmo com Sylas. Ele foi rude, certamente, mas não cruel. E ao longo da última hora, sua postura havia sofrido uma melhora significativa. — Você também toma conta disto, Sr. Thorly? O clube? Seus olhos voltaram para o carrinho, percorrendo os itens restantes. — Não. Eu costumava trabalhar no jardim, mas foi fechado após a morte da Sra. Hawthorne. Desde então, tenho cuidado dos cavalos. Signa olhou para as botas de Sylas – um couro muito agradável e não tão gasto quanto ela esperaria de alguém que passasse seu tempo em um estábulo. O couro de suas luvas também parecia novo, assim como seu casaco, com seus botões de prata polida e pequenas abotoaduras de rubi. Não parecia que ele tivesse motivos para mentir, mas Signa achava difícil acreditar que o sr. Hawthorne enviaria um cavalariço para resgatá-la. Por enquanto, ela não fez nenhum comentário, decidindo que era melhor não azedar o clima. — Por que eles fechariam o jardim? — Signa pegou outro caramelo do carrinho e recostou-se na almofada de veludo do assento. Embora a excitação queimasse em seu sangue, o açúcar a estava deixando cansada, e seus olhos se fechavam sempre que ela olhava para o oceano. — Porque era onde a Sra. Hawthorne costumava passar seus dias. Ela está enterrada lá, sob as flores. — Havia algo calmante na uniformidade de sua voz. Sem inflexões surpreendentes. Nenhuma emoção vazando. Apenas uma calmaria constante na qual ela se encontrou relaxando. — A morte dela foi agradável? — A pergunta ficou estranhamente pendurada em seus lábios, e ela desejou imediatamente poder retirá-la. Agradável era uma palavra que poucos associariam à morte. Mas Sylas, felizmente, entendeu o que ela estava perguntando. — Eu presumo que você tenha visto uma flor murchar, Srta. Farrow? Ver Lillian era assim. Ela era como uma linda flor, querida por todos que a conheciam. Até a doença a amava tanto que lhe deu pouco alívio. Ele a queria para si, e então roubou sua vida de repente. —E qual foi essa doença? Suas sobrancelhas baixaram. — Era um mistério tão grande que os médicos nunca conseguiram dar um nome. Um dia Lillian estava bem, saudável, e no outro vomitava sangue. Alguns dias depois, ela perdeu a capacidade de falar. Sua boca infeccionou com a doença e, eventualmente, ela perdeu a língua por causa disso. Signa voltou-se para a janela novamente, embora pudesse ver Sylas remexendo-se pelos cantos dos olhos. — Desculpe se te ofendi. — Suas palavras soaram genuínas. — Tais conversas não são adequadas. Me desculpe. Ele não podia ver que as mãos de Signa estavam apertadas, enterradas nas dobras de seu vestido. — Não me ofendo, senhor — disse ela. — É só que às vezes me pergunto por que a morte é tão desnecessariamente cruel. Algo se contorceu nas linhas de sua testa. — Acho que, para alguém com tanta dor quanto ela, a morte pode ter parecido um alívio. Signa tentou encontrar alguma verdade nas palavras. Mas tudo o que ela podia ver era o sangue nos lábios de tia Magda e o vazio de seus olhos enquanto ela caía. Tudo o que ela conseguia pensar era como o ódio de sua tia que a impediu de viajar para a vida após a morte e a amarrou à Terra por quem sabe quanto tempo. — Talvez — ela disse, a voz quase um sussurro —, mas eu não acredito que isso torne a morte menos cruel. — E por que você diz isso? Ela cruzou as mãos sobre o colo, tentando não deixar a amargura se infiltrar em sua voz. — Porque a morte é apenas um alívio para os mortos, Sr. Thorly. Pouco se importa com aqueles que deixam para trás. Cinco Há algo estranho nas folhas de bordo. Aquelas que estavam espalhadas pelo gramado de Thorn Grove tinham uma cor mais profunda do que qualquer uma que Signa já tinha visto antes – algumas delas escuras como café, outras um vermelho polido de sangue seco. As estradas esburacadas que sua segunda carruagem havia percorrido desde que chegaram de trem se transformaram em paralelepípedos bem cuidados, tão brancos e imaculados que parecia que alguém havia caído de joelhos e esfregado cada pedra. Sebes altas e bem cuidadas ladeavam o interminável trecho de estrada que levava à propriedade, algumas delas retorcidas em elegantes espirais ou recortadas na forma de cavalos ou cisnes. O exterior de Thorn Grove era grandioso – uma enorme mansão de pedra marrom do tipo que ela imaginava que seus pais tivessem possuído, situada sobre colinas ondulantes que estavam desbotando para o amarelo para dar as boas-vindas à mudança para o outono. Havia janelas pelo menos três vezes o seu tamanho, telhados vermelhos pontiagudos protegidos por bestas aladas esculpidas e finamente carruagens laqueadas puxadas por cavalos musculosos que trotavam por um portão de ferro enfeitado com jasmim e hera. Dezenas de pessoas serpenteavam pelo gramado. Cavalheiros e damas em seus melhores ternos e em seus vestidos mais atraentes entravam e saíam da mansão com taças de champanhe equilibradas cautelosamente entre os dedos e risadas em suas línguas. Certamente estava muito longe da tia Magda; havia riqueza em todos os lugares que Signa olhava. Pilares dignos cercavam o pátio, incrustados com espirais de ouro. No segundo andar da mansão, delicados vitrais de um milhão de cores brilhavam sobre uma varanda. Até o próprio solo parecia rico, e a grama de alguma forma mais selvagem e vibrante do que o que estava além dos portões. Não havia ervas daninhas à vista, e pequenas flores silvestres laranja e amarelas desabrochavam nas colinas, estendendo-se em direção a um espesso bosque de árvores à distância – o início da floresta. Nenhum lugar havia roubado seu fôlego tão completamente; Signa se viu pressionada contra a janela da carruagem, embaçando o vidro enquanto a paisagem se desdobrava diante dela. Ela se sentia como um peixinho em um lago de primavera, pequena e insignificante em meio a tanta beleza. Quando a carruagem parou, precisou de tudo em seu poder para se lembrar de suas maneiras e não abrir a porta para que ela pudesse se apressar e explorar, mas em vez disso esperou que o cocheiro descesse e abrisse a porta para ela. Quando o fez, o ar fresco do outono agarrou Signa pelos ombros, carregando o cheiro de seiva, terra e folhas girando sob os pés. Ele passou por seus cabelos escuros, e ela respirou em sua saudação enquanto subia o caminho em direção à magnífica propriedade. Esperando na enorme varanda, três pessoas observavam Signa a uma distância – um homem mais velho corpulento, uma mulher de aparência gentil e um jovem com a expressão mais severa que ela já tinha visto. O homem mais jovem estava no limiar de Thorn Grove em um terno azul-marinho fino que lhe caía como uma luva, seus ombros retos enquanto observava os convidados entrando. Ele era jovem demais para ser o guardião de Signa, mas o orgulho em seu corpo mostrava o seu conforto na mansão. Não adiantaria ficar ali parada, mas Signa esperou um pouco mais, desejando imediatamente ter um espelho. Mesmo um lago ou uma pedra polida serviria – qualquer coisa em que ela pudesse ver seu reflexo – para que ela pudesse garantir que estivesse apresentável. Ela mexeu no vestido de luto, alisando a bombazina para torná-la mais apresentável. — Esse não poderia ser o Sr. Hawthorne, poderia? Ah, ele parece tão jovem. Diga-me rapidamente, estou apresentável? — Ela olhou para Sylas, cujos olhos cinza-esfumaçados a percorreram apenas uma vez. Com a preocupação em sua voz, ele suavizou um pouco. — Aquele não é Elijah — ele disse. — E você parece bem, Srta. Farrow. Dado o quanto viajamos, tenho certeza de que eles não se importariam se você chegasse abatida. Ela se perguntou se isso era para tranquilizá-la. — Se você pudesse me apresentar, Sr. Thorly, eu apreciaria muito. Mas Sylas recuou com um aceno de cabeça. — Acredite em mim quando digo que seria melhor se não o fizesse. O Sr. Hawthorne não avisou muitas pessoas da equipe de sua chegada, e nem todos vão gostar que alguém do meu status seja enviado para escoltar uma senhora como você. Eu temo que você terá que lidar com as apresentações por conta própria. Não havia tempo para pressionar por mais detalhes, pois Sylas já estava fugindo pela colina atrás dela e em direção aos estábulos. Deixada sozinha entre as folhas de bordo caídas com pânico no peito, Signa engoliu em seco e tentou reprimir sua preocupação relembrando as lições introdutórias do livro de etiqueta da sua mãe. 1. Uma mulher deve sempre usar um sorriso. 2. Uma mulher nunca deve apertar a mão que lhe é oferecida, mas aceitá-la com cordial pressão. 3. Para uma mulher, mansidão e modéstia são consideradas duas das virtudes mais respeitadas. Elas devem ser praticadas em todos os momentos. Signa teve dificuldade em acreditar que a terceira regra era uma que todos deveriam seguir. Embora, pelo bem de seu futuro, ela tentasse. Saias na mão, Signa começou o caminho para a mansão. Olhos curiosos e sussurros pontiagudos a seguiram e, passo a passo, Signa se viu desejando apenas um buraco fundo o suficiente para se esconder. Era indelicado ser vista vestida de luto em uma festa, mas que escolha ela tinha? Parecia um dia ruim para seu novo guardião realizar tal evento, embora ela não estivesse em posição de comentar. Quando ela se aproximou do jovem na porta, Signa pôde ver em seu rosto suave e olhos intensos que ele era ainda mais jovem do que ela supunha, em seus vinte e poucos anos. De perto, ele lembrou Signa de uma raposa, com olhos verdes brilhantes que eram amigáveis, mas um pouco vesgos demais enquanto olhavam para ela. O sol havia tirado a cor de seu cabelo. Não era vermelho, nem loiro, mas em algum lugar estranho e intermediário. Uma rica colheita de laranja, acobreada e brilhante. Houve um aperto em sua mandíbula quando ele a olhou, claramente tentando nivelar sua desaprovação. — Senhorita Farrow? — perguntou o homem mais velho ao seu lado. Ele erarobusto e de pele oliva, vestido com um terno preto elegante. Embora um sorriso permanecesse sob seu bigode preto cheio, seus olhos eram escuros e cansados. — Bem-vinda. Sou Charles Warwick, o mordomo de Thorn Grove. — É uma maravilha que você tenha chegado — disse o mais jovem, seu queixo mergulhando enquanto ele a inspecionava. — Papai nos contou sobre você esta manhã. Bem-vinda, prima. Eu sou Percy Hawthorne. Signa estendeu a mão e, quando seu primo a aceitou após um instante de hesitação, ela apertou com seu melhor esforço para uma pressão cordial. Os lábios de Percy se apertaram em uma linha fina quando ele puxou a mão para trás, colocando-a atrás dele. Talvez isso fosse muita pressão, então. Ou talvez não fosse cordial o suficiente? Ou esta era uma situação que justificava uma reverência e nenhum aperto de mão? Um guia feminino de beleza e etiqueta realmente deveria ter sido mais específico. — Estamos felizes por você ficar conosco, Srta. Farrow. — Signa ficou aliviada ao voltar sua atenção para uma mulher curvilínea que tinha cachos loiro-avermelhados macios e usava um vestido da cor de miosótis azuis. — Você não tem uma escolta? — A mulher olhou para trás de Signa, como se esperasse que outra pessoa aparecesse. Quando ninguém apareceu, ela pegou Signa pelo ombro. — Esqueça isso. Sou Marjorie Hargreaves, governanta da filha do mestre, e agora sua também. Seu quarto já está preparado. — Sua voz era suave como uma canção. — Se você precisar de alguma coisa, eu ficaria feliz em… — Ela pulou quando o vidro se quebrou em algum lugar perto da entrada da propriedade, seguido por uma risada que soou... embriagada, para ser gentil. Os olhos de Percy brilharam, embora isso tenha durado apenas um momento antes ele se corrigiu. — Warwick cuidará para que seus pertences sejam transferidos imediatamente. Você não deve ter problemas para se instalar. Marjorie fez sinal para que ela os seguisse até Thorn Grove e, uma vez lá dentro, Signa soube que seu primo estava certo. A propriedade era maior do que qualquer coisa que ela pudesse imaginar; eles poderiam tê-la colocado em uma baía com os cavalos, e ela teria ficado bem. Qualquer coisa era melhor do que morar na casa de tia Magda, mas Thorn Grove estava em um nível próprio. Ainda assim, certamente havia muitas pessoas. — O Sr. Hawthorne está comemorando alguma coisa? — ela perguntou, esperando por uma indicação de que isso era uma ocorrência rara. Percy fez uma careta, e embora ele tivesse aberto a boca para responder, Warwick interrompeu com uma rápida distração. — Não é nada para prestar atenção agora. Se você quer participar, não se preocupe. Haverá muitos saraus para que participe no futuro quando estiver devidamente vestida e preparada. Signa passou a mão úmida pelo vestido. — Venha — Marjorie disse com um sorriso gentil. — Você deve estar cansada depois de sua viagem. — Ela pulou ao som de outro estrondo, seguido por risadas ainda mais barulhentas no salão de baile à frente, mas ela nunca desviou o olhar de Signa. O foco de Percy, no entanto, estava dividido. — Estou ansioso para conhecê-la melhor, prima. Bem-vinda a Thorn Grove. — Com o chapéu nas mãos, ele curvou-se para ela antes de girar nos calcanhares e seguir em direção ao som do vidro quebrando, Warwick seguindo atrás. E embora a mente curiosa de Signa permanecesse, Marjorie não deu tempo para que seus pensamentos apodrecessem. — Venha — disse Marjorie novamente. — Eu vou te mostrar sua suíte. Marjorie escoltou Signa por uma das duas grandes escadarias de mogno que levavam ao segundo andar da enorme propriedade de três andares. A governanta conversou polidamente, mas continuou olhando para baixo, esticando o pescoço para espiar a festa lá embaixo. Marjorie estava tão distraída que não notou o homem que se apoiava em um corrimão esculpido para parecer com os galhos de uma árvore retorcida e torcia a aparência das duas escadas. Signa notou ele, no entanto. Percebeu que ele tinha o cabelo preto como breu, um nariz comprido e pontudo e olhos sinistros que se importavam apenas com Marjorie. Quando o estranho se inclinou para agarrar sua mão, Marjorie praticamente saltou de sua própria pele. — Como você é uma mulher tão difícil de encontrar, senhorita Hargreaves? — Sua voz era baixa e desagradável, como se estivesse falando em torno de algo alojado no fundo de sua garganta. O homem usava sapatos do melhor couro que Signa já tinha visto, e seu terno preto elegante parecia ter sido feito sob medida, com botões de prata derretidos. Em suas mãos estava uma bengala que ele segurou com força – um impressionante pedaço de pau-rosa, com uma alça de latão que foi esculpida na forma de um crânio de pássaro. — Eu estive procurando por você em todos os lugares. — Coloque a mão em mim de novo e eu vou empurrá-lo sobre este corrimão, Byron. — Marjorie arrancou a mão, colocando-a nas costas de Signa com alguma força. — Venha, Signa. Preste pouca atenção a esses convidados. Eles são proibidos nos níveis superiores. — Eu não sou convidado, senhorita Hargreaves… — o homem tentou novamente, mas Marjorie não o poupou nem um segundo enquanto eles subiam as escadas, para grande decepção de Signa. Ela não gostava de quebra-cabeças, pois tinha uma tendência ruim de precisar resolvê-los. A vida, ela acreditava, seria muito mais simples se tivessem todas as respostas expostas diante deles. Fazia apenas uma hora desde que ela havia chegado, e Thorn Grove já estava cheia de curiosidades. Era estranho que o Sr. Hawthorne realizasse uma festa no mesmo dia de sua chegada, sem falar que ele enviou um cavalariço como sua escolta e a manteve em segredo até o último momento. E o que eles estavam comemorando no andar de baixo mesmo ainda sendo tão cedo, com o eco de risos e copos se estilhaçando? Signa queria perguntar, mas a tensão pulsando no pescoço de Marjorie avisou que não era o momento. Signa era um caso de caridade, não uma escolha, e ela precisava jogar com cuidado as poucas cartas que tinha. Sua pele coçava, e ela se perguntou se tudo isso era algum tipo de armadilha. Algum ardil inteligente da Morte. Ele sabia que Elijah a convidaria para ficar? Fora a Morte quem puxou as cordas, e se sim, como? Demorou o que pareceram séculos andando por longos trechos de corredores mal iluminados antes que elas chegassem ao novo quarto de Signa, um espaço quase do tamanho de toda a casa de tia Magda, com uma sala de estar, quarto e seu próprio banheiro, todos unidos em uma suíte. Na sala de estar, o papel de parede era lindamente treliçado em vários tons de verde, com cortinas douradas de veludo penduradas em portas de vidro que davam para uma varanda. Soalhos de mogno ricos estavam cobertos com um tapete persa enorme decorado em esmeralda e ouro, e Signa não queria nada além de enrolar os dedos dos pés nele. O teto em si era de um branco brilhante, com molduras grossas embelezadas com vinhas e flores habilmente esculpidas. Combinava com a lareira, onde peônias amarelas floresciam de finos vasos de vidro sobre a lareira. Cadeiras de leitura forradas de veludo foram meticulosamente colocadas ao redor, enquanto uma delicada mesa de desenho de madeira estava atrás, perto da janela. A luz brilhou sobre ela como uma auréola da abertura das cortinas, quente e convidativa. O coração de Signa apertou quando ela absorveu tudo. Este era o espaço mais bonito que ela já tinha visto, e de alguma forma era dela. — Serei capaz de encontrar o Sr. Hawthorne esta noite? — ela perguntou — Gostaria de agradecê-lo por me permitir ficar aqui. — O mestre é um homem ocupado — disse Marjorie enquanto ajudava uma Signa distraída a tirar o casaco. A mulher se mexeu para colocá-lo no armário, mas ao ver a mancha de frutas de belladonna após uma inspeção mais completa, ela torceu o nariz e colocou o casaco sobre o braço para lavar. — Mas falarei com ele sobre seus planospara você, e asseguro que será bem cuidada. Estará pronta para vestidos novos pela manhã, depois das lições. O cabelo de Signa bateu em seu rosto enquanto ela se virava para encarar Marjorie. Não havia como filtrar a excitação de sua voz. — Minhas lições? A risada de Marjorie foi suave como seda. — Você é uma jovem, senhorita Farrow, e eu sou a governanta desta propriedade. Não tenho certeza de como foi sua educação antes, mas enquanto estiver aqui, é justo que eu ajude a prepará-la para o casamento e para um dia administrar sua própria casa. Eu suponho que você ainda não debutou? — Você supõe corretamente. — Mais uma vez, havia aquela margem esperançosa. A emoção de ser presenteada com exatamente o que ela ansiava: debutar na sociedade. Ir a festas e ser cortejada por pretendentes bonitos, e depois fofocar sobre eles com as amigas durante o chá. Só a ideia disso ameaçou explodir seu coração. Estava tudo ao seu alcance. — Então eu tenho muito para ensinar a você e pouco tempo para fazer isso. — Marjorie colocou a mão livre no quadril, ainda sorrindo. — Vamos começar amanhã? Energética como estava, Signa começaria agora, se Marjorie permitisse. Uma palpitação em seu coração a deixou impaciente e desejosa. Mas haviam mais seis meses até que ela recebesse sua herança, e se fosse durar nesta propriedade – se ela tivesse a liberdade da vida que queria – então precisava garantir que Morte não pudesse colocar suas mãos em qualquer um de Thorn Grove. Sem mencionar que teria de cuidar das suas próprias mãos também. Embora soubesse que elas não machucariam ninguém agora, ela colocou as mãos atrás das costas e sorriu. — Amanhã é perfeito. — Maravilhoso. — Marjorie reajustou o casaco em seu braço. — Você pode tirar o resto da noite para se acomodar, então. Pode explorar qualquer um dos andares superiores, mas peço que fique longe do primeiro andar enquanto os convidados estiverem aqui. Hoje à noite, o jantar será trazido para a senhorita, então, por favor, relaxe. Tenho certeza que está exausta. Ela estava. Mas quando Marjorie saiu, deixando a porta se fechar silenciosamente atrás dela, Signa sabia que não se relaxaria. No momento em que os passos da mulher desapareceram no corredor, Signa abriu a porta novamente. Marjorie sugeriu que ela explorasse, afinal. Seis Não era estranho para Signa encontrar maneiras de passar o tempo. Esquecida e com pouco a fazer durante seus dias e quase ninguém com quem conversar, ela passava muitas tardes olhando pelas janelas ou vagando lá fora, curiosa para saber mais sobre os vizinhos de qualquer casa em que morasse. Alguns eram mais interessantes que outros, esgueirando-se em companhia estranha quando seu parceiro estava fora, ou compartilhando as últimas fofocas durante o chá com um amigo, que Signa ouvia casualmente enquanto estava caminhando perto de uma janela aberta. Ela nunca passava tempo com essas pessoas e pouco podia fazer com as informações que reunia. Mas para Signa, o objetivo sempre foi preencher as lacunas em suas histórias. Ela estava decidida a resolver os quebra-cabeças que havia formado em sua cabeça, e mentalmente criar histórias para pessoas de quem ela nunca estaria perto. Thorn Grove já era um enigma e tanto para ela não investigar. Signa fez a contagem regressiva de sessenta antes de rastejar pelos corredores escuros, colando-se às paredes e confiando em suas sombras para escondê-la enquanto caminhava na ponta dos pés em direção à escada. Tecnicamente, ela não estaria quebrando nenhuma regra enquanto permanecesse no patamar. Signa se agachou e olhou para baixo do corrimão – através dos galhos trabalhados que o adornavam – para a festa abaixo. Deste ângulo, ela podia ver apenas vislumbres do que estava acontecendo, e teve que se esforçar para ouvir vozes sobre o som de um piano e violino. Os detalhes da reunião chegaram a ela em pedaços – em luzes brilhantes e flashes de paredes douradas e bandejas de prata. Taças de cristal cheias de champanhe borbulhante e bolos dourados em miniatura que eram oferecidos a mulheres em belos vestidos e homens em seus fraques adequados. Os que não comiam, se ocupavam bebendo ou dançando ao som da música que varria o salão. A dança deles, no entanto, não era nada do que ela esperava. A avó de Signa muitas vezes contava histórias sobre o gosto de sua filha por festas. Foi em um baile que Rima conheceu o pai de Signa, e sua avó sempre prometeu que Signa teria o mesmo destino fortuito. Elas nunca discutiram como foi o amor de Rima por festas que roubou sua vida, concentrando- se em romantizar o seu tempo em vida. Durante anos Signa ouviu histórias de sua mãe, contadas a ela com grande suavidade enquanto sua avó escovava seus cabelos ou a colocava na cama, como se contar as histórias em voz alta as mantivessem vivas. Signa adorava ouvir as histórias e imaginar que logo seguiria os passos de Rima. Mas sua jovem vida não foi como ela esperava, e essas histórias agora a enchiam de uma profunda inveja pelas mulheres adornadas em sedas e rendas, com seus delicados cachos e ruge em suas bochechas. Elas a faziam se perguntar onde estava seu lindo estranho, o homem que a levaria para uma valsa (na qual ela seria perfeita, apesar de nunca ter dançado fora de seu quarto). Mas se o livro de etiqueta que Rima deixou para trás era uma indicação de como uma festa deveria ser, a que estava acontecendo em Thorn Grove estava totalmente errada. As festas deveriam ter cartões de dança. Variando a música para cada dança diferente, com uma infinidade de regras para cada uma delas. Nenhuma mulher deveria beber mais do que uma única taça de champanhe, rir tão ruidosamente ou dançar tão livremente. No entanto, em Thorn Grove, ninguém prestava atenção à etiqueta. Coradas estavam as mulheres que saíram do salão de baile para tomar ar fresco, soluçando enquanto se abanavam. Elas usavam esses leques para afastar as mãos ansiosas daqueles que tentaram puxá-las para uma dança e, em vez disso, caçaram os bolos luxuosos com glacê rosa e glitter dourado. Ninguém parecia se importar com as duas mulheres que estavam escondidas no canto mais distante, seus corpos tão apertados que o sangue correu para as bochechas de Signa; ela nunca tinha visto duas pessoas se abraçando tão profundamente. Ou seu livro de etiqueta era mais desatualizado do que ela pensava ou isso estava longe de ser algo da alta sociedade. Levou um momento para Signa perceber que havia um rosto familiar na multidão – Percy, parado do lado de fora do salão de baile com a mão em punho em torno de uma taça de champanhe enquanto aplausos irrompiam de dentro. Com todos distraídos, Signa desceu o primeiro degrau para uma visão melhor. Ela mal conseguia distinguir um homem de pé no ponto mais alto de uma cadeira, fingindo se equilibrar quando a cadeira tombou. O homem bateu palmas, exigindo a atenção de todos. Ele parecia estar se divertindo, assim como os convidados da festa pareciam estar gostando de seu show. Percy, no entanto, estava carrancudo. Assim como o homem mais velho de nariz comprido ao lado dele, aquele que agarrou a mão de Marjorie mais cedo. Byron. — Alguém precisa acabar com isso — Percy exigiu. A expressão dele era tão severa que Signa pensou em voltar para a segurança de seu quarto, sabendo que não deveria se envolver. Mas ainda assim ninguém a havia notado, e a curiosidade a manteve firme, aproximando-se das sombras para observar. — Será pior se qualquer um de nós fizer um espetáculo — disse o homem, seus lábios se estreitando quando Percy saiu de seu alcance. — Quantos meses devemos ficar parados e assistir? Por quanto tempo devemos permitir que ele brinque com essa fantasia? Meu pai não é criança, e esta casa não é um circo! Já faz meio ano, tio. — O punho de Percy estava tão apertado que se ele não tivesse jogado sua taça de cristal no chão naquele momento, ela poderia ter quebrado emsua mão. O homem de cabelos escuros suspirou e recuou vários passos enquanto Percy avançava, exigindo a atenção de todos os olhos que se voltavam curiosamente para ele, incluindo o homem na cadeira – que Signa agora entendia, era Elijah Hawthorne. Ele tinha bochechas rosadas e olhos brilhantes, com uma estrutura alta e esbelta e cabelos em ondas loiras. Havia uma grandeza nele, um ar de exuberância que dizia que ele era alguém que poderia abrir o mundo com seu sorriso. Alguém que fazia companhia a condes e príncipes, e de alguma forma parecia ainda mais grandioso que eles. — Dado o tempo que eles passaram em nossa casa, achei educado dizer algumas palavras aos seus convidados, pai. — O sorriso de Percy era fino quando ele olhou além de Elijah para uma sala cheia de convidados que pareciam totalmente desinteressados em ter que observar algo tão sério. — Eu queria tirar um momento para agradecer a todos por terem vindo para esta celebração contínua da minha mãe morta. Elijah desceu da cadeira quando a música se acalmou, os olhos fixos em seu filho, que não vacilou em meio a suspiros de surpresa. — Vendo como minha mãe não podia comer, dançar, ser feliz, ou sequer respirar em seus últimos dias, tenho certeza que ela teria apreciado como todos vocês fazem isso infinitamente. — Percy endireitou os ombros. — E obrigado ao meu pai, por continuar a fazer essas festas em sua homenagem, para que possamos continuar celebrando sua morte juntos. — Ele ergueu sua taça de champanhe para o brinde. Ninguém se atreveu a se mexer, esperando que o senhor de Thorn Grove falasse. Para punir seu filho por sua explosão, ou de alguma forma consertar essa situação vergonhosa. Mas, em vez disso, Elijah encontrou um prato com um bolo em miniatura e pegou o prato em suas mãos. Removendo uma de suas luvas, ele pegou a sobremesa com os dedos, dando uma mordida enquanto se aproximava de seu filho. Tão rapidamente que qualquer um que piscasse teria perdido, Elijah empurrou o resto na boca de Percy. — Vamos lá, Percy. — Elias riu. — Você é muito tenso. Seria tão ruim relaxar por uma única noite? Uma multidão que Signa não podia ver ofegou quando Percy tropeçou, cuspindo o bolo e limpando a cobertura rosa de seus lábios com um rosnado. Ela não conseguia ouvir o que Percy disse ao pai; podia ver apenas que sua boca se movia para cuspir as palavras antes que ele se afastasse de Elijah. O riso aumentou quando Percy recuou e Elijah estendeu a mão para outra taça de champanhe. — Agora — ele disse enquanto voltava para a cadeira a música aumentando novamente, como se nunca tivesse perdido uma batida —, onde estávamos? Percy saiu da sala, correndo em direção às escadas, mesmo quando Byron o alcançou. Ele foi tão rápido que Signa mal teve tempo de se levantar, incapaz de recuar para as sombras antes que ele a notasse. Os olhos amargos de Percy pousaram nos de Signa. — Prazer em vê-la novamente, prima. — Ele falou com os dentes cerrados, tentando acalmar os punhos trêmulos enquanto olhava para o vestido preto que Signa ainda não havia trocado. — Vai aproveitar a festa? — Eu sinto muito. Eu nunca tinha visto um baile antes, e eu... eu pensei... eu só queria ver como era. — Signa não teve coragem de dizer a ele que o glacê manchava seu queixo. Ela mal tinha voz; parecia que qualquer coisa acima de um sussurro poderia destruí-lo. Percy não compartilhava do mesmo problema. Sua voz era uma pistola carregada, pronta para atingir qualquer um em seu caminho. — Bem, agora você sabe. Minha mãe morreu meses atrás, e ele vem dando essas festas ridículas desde então. Duram dias, às vezes. Ou horas, se ele entrar em um de seus humores e tiver todos escoltados para fora. Eu me pergunto por que as pessoas continuam se incomodando em aparecer, a não ser pelo fato de que esses alpinistas sociais não têm nada melhor para fazer com seu tempo. Signa não sabia dizer se falar o estava ajudando a desabafar ou a aumentar ainda mais a sua raiva. De qualquer forma, ela não achava que seria adequado detê-lo. — Sinto muito — ela começou, mas foi interrompida quando ele levantou a mão. — Não importa, prima. — Limpando o glacê do queixo, ele passou por ela e subiu as escadas. — Pense nisso como um tipo de boas-vindas a Thorn Grove. Sete Foi um alívio que Percy não se demorou. Sem saber como consolá-lo, Signa apenas observou enquanto ele subia as escadas, murmurando que precisava clarear a cabeça. Tendo decidido que era melhor não se demorar – para que ela não fosse pega bisbilhotando por mais ninguém – Signa deixou seu esconderijo nas sombras. Ela tinha toda a intenção de voltar para seu quarto para tentar limpar sua própria cabeça da situação bizarra que testemunhara. Só que, no momento em que ela pisou no patamar, um brilho branco cintilou no canto de seus olhos. Foi com pavor em seu peito que ela se virou, piscando para clarear sua visão. Quando ela olhou novamente, não havia nada lá. Talvez ela estivesse mais exausta do que imaginava. Afinal, fora uma longa jornada. Pelo menos, foi o que ela disse a si mesma enquanto andava pelos corredores, lutando para encontrar seu quarto no que parecia ser um interminável labirinto de corredores. Thorn Grove era mais sinistro do que ela havia previsto. Ela esfregou os braços, forçando os pés à frente um passo de cada vez. Embora a mansão estivesse movimentada no nível mais baixo, quanto mais fundo no segundo andar Signa se aventurava, mais vazia e sombria a propriedade se tornava. Não se viam bolos dourados e nada mais que o zumbido fraco de um violino distante. Foram-se os pilares de mármore branco que haviam assombrado seu reflexo quando ela passou. Em seu lugar havia estranhos candelabros de ferro que lembravam a Signa ninhos de pássaros. Como os galhos ao longo do corrimão, eles eram intrincados, com vários pedaços grossos de ferro semelhantes a galhos esticando-se deles e uma vela fracamente acesa no centro de cada um. Ela olhou para trás, e novamente uma mancha branca cintilou fora de sua vista. Desta vez, Signa poderia jurar que viu um rosto. Ela se virou imediatamente, prendendo a respiração. Se era um espírito, espero que não tenha percebido que ela notou. Continuando em frente, estava determinada a ignorá-lo e encontrar seu quarto novamente. Era difícil, porém, ignorar o zumbido frio em sua pele enquanto passava por intermináveis paredes de pinturas que eram duas vezes seu tamanho, cada uma delas adornada com uma moldura dourada e apresentando uma pessoa que deve ter vivido em Thorn Grove. O grande número deles não era nada reconfortante; esta propriedade estava certamente fervilhando de espíritos. Ela chegou a uma pintura bem decorada de um homem com cabelo quase tão laranja quanto o de Percy. Ele tinha um rifle pendurado em um ombro, enquanto sua outra mão descansava nas costas de um cão de caça whippet. A pintura estava pendurada ao lado de uma grande sala com dois sofás de couro cor de melaço queimado e prateleiras cheias de livros mofados que ocupavam toda a parede esquerda. Signa cruzou o grosso tapete vermelho até as prateleiras e pegou um dos volumes, desapontada ao descobrir que não passava de um livro sobre finanças. Ela não conseguia se lembrar da última vez que esteve cercada de livros – quando ela morava com seu último tio, talvez? Em seguida, examinou uma grande mesa de jacarandá repleta de potes de tinta e folhas de pergaminho. Também havia recortes de jornais. Algumas sobre Grey's Gentleman's Club e um obituário para Lillian Rose Hawthorne. Ela o pegou, mas no momento em que tocou no pergaminho, o musgo brotou do papel e se enrolou nas pontas dos dedos. Ela nunca deixou cair algo tão rápido. Agarrando a mão no peito, Signa silenciosamente se amaldiçoou por ser tão tola. Se o espírito já não tinha percebido que Signa podia vê-lo, certamente sabia agora. Ela tinha que ser mais cuidadosa. Decidindo que asala, com sua mesa e livros, deveria ser onde Elijah trabalhava, Signa saiu do escritório sem tocar em mais nada. No momento em que ela entrou no corredor, a sensação de zumbido e formigamento estava de volta como um mosquito em sua pele, e quando ela passou pelo próximo retrato, ela poderia jurar que seus olhos a seguiram a cada passo. Esse sentimento era algo com o qual ela estava familiarizada, e do qual ela se recusava a fazer parte, especialmente com a possibilidade de normalidade tão próxima ao seu alcance. Determinada a agarrar a normalidade, ela se apressou. No entanto, não importava para que lado ela se virasse, os corredores se estendiam. Quanto mais fundo ela se aventurava, mais arrepios queimavam em sua pele. Ela se virou apenas para descobrir que ninguém estava atrás dela. Sem humanos. Sem espíritos. Nem mesmo o próprio ceifador. Está na sua cabeça, ela disse a si mesma. Você não está acostumada a uma mansão tão grande. Signa tinha visto muitos espíritos em sua vida – até demais, na verdade – e sabia que estar na presença deles deixaria uma pessoa cansada e com frio de uma maneira que nem mesmo o fogo poderia aliviar. Era o mesmo frio que afundou em seus ossos naquele momento. Um frio que vinha do quarto ao lado, esperando por ela. A pintura do lado de fora da porta era de uma mulher com pele pálida e cabelos como um raio de sol. Seu sorriso era caloroso e rico, embora seus olhos fossem o que tornava impossível para Signa desviar o olhar – um azul, outro castanho. Tão parecida com a dela que Signa se pegou respirando fundo. Ela nunca tinha visto alguém com olhos como os dela, nunca tinha imaginado uma coisa dessas. Signa estendeu a mão para a maçaneta, mas no momento em que sua pele tocou o bronze, ela ouviu o som terrível de uma tosse molhada vindo de um quarto atrás dela. Ela se virou para ele, e imediatamente o frio em seu corpo se despedaçou, o feitiço quebrado. O calor se infiltrou de volta em sua pele, e ainda assim ela estremeceu. Quem mais, ela se perguntou, ainda estaria lá em cima, como ela, e não na festa lá embaixo? Com a curiosidade mais forte do que a atração pelos mortos, Signa foi até a porta de onde veio o som e a abriu sem bater. Além das cores, a suíte era uma imagem espelhada da sua – com uma bela sala de leitura em tons de azul claro e prata, com um brilho dourado de um fogo que rugia sob o manto de marfim polido acima da lareira. O espaço era lindo, mas talvez um pouco frio. Dificilmente parecia habitado, também. Não havia livros na mesa de leitura, nem penas ou pergaminhos espalhados sobre a mesa. Ela atravessou o andar lentamente, cuidadosa com seus passos enquanto se aproximava do quarto contíguo. A porta estava aberta, e por mais que tentasse ficar quieta, quem estava lá dentro a ouviu. — Quem está aí? Signa parou no limiar entre os quartos. Havia uma menina abandonada na cama, quase um esqueleto; sua pele era tão translúcida, parecia que ela nunca tinha visto o sol em sua vida. O cabelo da garota era um amarelo pálido de palha seca, a cor se esvaiu. Seus olhos pareciam como se alguém tivesse esculpido a vida deles, esvaziando-os em coisas vazias e insondáveis. Quando a garota franziu as sobrancelhas, o contorno completo de seu crânio era visível. — Quem é você? — A garota franziu a testa, seus lábios do mais pálido tom de rosa, como uma rosa desbotada pelo inverno. — Você deve ser a filha de Elijah. — Signa entrou no quarto e fechou a porta, feliz por ter uma desculpa para deixar para trás o corredor sinistro e o espírito que esperava por ela. — Ouvi dizer que você está doente. — Embora ela não tivesse percebido a gravidade da situação. A risada da garota era frágil. — Eu tenho um nome. É Blythe. — Ela não parecia ter energia para se levantar de seus travesseiros, embora seu olhar nunca se cansasse. — O que você está fazendo no meu quarto? Os servos são proibidos de entrar sem permissão. — Peço desculpas, mas eu não sou nenhum servo. Sou sua prima, Signa Farrow. — Ela sabia que não seria difícil inventar uma desculpa para escapar. Blythe parecia precisar apenas de um pequeno empurrão até que ela estivesse batendo na porta de Morte, e Signa se recusou a desempenhar qualquer papel nisso. No entanto, algo sobre Blythe prendeu os pés de Signa no chão. Talvez fosse porque a última vez que Signa havia falado com uma garota perto de sua idade tinha sido anos atrás, quando ela conheceu Charlotte Killinger. Ou talvez fosse o desespero nos olhos de Blythe, e o fato de que ela parecia tão faminta por companhia quanto Signa. Seja qual for o motivo, Signa permaneceu. — Está muito triste aqui — disse Signa, fazendo uma pausa enquanto percorria as sombras em busca de qualquer sinal de Morte. Quando ela não o viu, ela relaxou, satisfeita. — Devo abrir uma janela? — Você acha que eu não posso abrir uma janela sozinha? — Embora ela não tenha feito nenhum esforço para expulsar Signa, cada uma das palavras de Blythe foi cortante e mortal como veneno. Signa suspeitou que ela poderia pedir a Blythe para cantar uma canção, e a garota de alguma forma o usaria como uma arma. Signa não tinha nada a dizer sobre isso. Qualquer respiração errada e ela poderia ter sua cabeça arrancada do pescoço e jogada pela janela. Em vez de responder, ela se sentou na beirada da cama de dossel. Sua curiosidade parecia com a ansiedade que se sente com o café, fazendo as pontas dos dedos se contorcerem e mexerem na bainha do vestido. Signa olhou para sua prima, avaliando-a. Pele pálida, olhos tristes, corpo frágil... Mas Blythe não cheirava à morte. Ela não cheirava como a doçura estragada da podridão e da doença. Suas unhas estavam rachadas, mas não amarelas ou cinzentas. E seus olhos azuis gigantes, apesar do veneno e das sombras cansadas que os pesavam, estavam limpos de neblina. — Do que você está doente?— Signa perguntou. — Como você é ousada — Blythe zombou. — Se soubéssemos disso, talvez eu não ficasse presa nesta cama o dia todo. — Ela deixou cair a cabeça em um travesseiro e suspirou. — Deus não permita que eles enviem alguém tolerável para me fazer companhia. Signa teve a vaga impressão de que Blythe sabia que ninguém a enviou e só queria dar um soco nela. Ela ignorou e olhou para a porta, pensando na pintura da mulher com olhos bicolores como os seus. — Nunca imaginei que um lugar tão grande pudesse parecer tão vazio, mesmo quando há tantas pessoas visitando — disse Signa distraidamente. — Quem mais mora neste andar? Eu pensei ter ouvido alguém no quarto em frente ao seu. O ar ficou tão gelado que Signa se pegou desejando não ter deixado Marjorie pegar seu casaco. Os olhos de Blythe eram estacas de gelo, prontos para empalar. — Você não poderia ter — ela sussurrou. — Pertence à minha mãe. Ninguém vai lá há séculos. Antes que Signa pudesse pensar no que as palavras poderiam significar para alguém não tão intimamente associado à Morte quanto ela, ela perguntou: — Você quer dizer pertenceu, certo? Sua mãe era Lillian Hawthorne? Essas palavras foram suficientes para derreter o gelo de Blythe e afogá-la. Ela ficou com um tom fantasmagórico de branco; até seus lábios empalideceram. Sua boca se abriu como se fosse falar, mas a surpresa interrompeu suas palavras. Demorou muito para Signa perceber sua grosseria. — Oh, Blythe, eu não quis dizer… — O pedido de desculpas estava a meio caminho de sua boca quando Blythe literalmente a chutou para fora da cama, esmagando seu calcanhar na coxa de Signa. — Saia! — ela cuspiu. — Sua garota terrível, saia do meu quarto! Signa saiu da cama, amaldiçoando-se por sua insensibilidade. — Eu sinto muito! — Ela estendeu a mão para colocar uma mão no ombro de Blythe. — Eu não quis dizer… — Mais uma vez suas palavras foram cortadas, mas desta vez foi com uma inspiração abrupta. No momento em que ela colocou a mão sobre Blythe, tudo o que ela podia ver era Blythe, e tudo o queela podia sentir... Bem, ela não sabe muito bem como descrever aquilo. Era diferente de tudo que ela já experimentou – um tipo de sentimento abrangente que a amarrou ali e fez sua respiração instável. Qualquer que fosse esse sentimento, Blythe não parecia estar sentindo também. — Saia daqui — Blythe rosnou. — Sua garota estúpida, saia… — Seus olhos se arregalaram, e ela se dobrou sem aviso, o peito chacoalhando e o corpo tremendo quando ela foi tomada por um violento acesso de tosse úmida. Blythe cobriu a boca com os lençóis, manchando-os de um vermelho profundo. A cada tosse, os lençóis ficavam mais escuros. Os cabelos da nuca de Signa se arrepiaram quando uma onda de frescor invadiu a sala. Ela sabia muito bem o que aquela frieza trazia – quem aquela frieza trazia – e a raiva queimou dentro dela. — Ah, não, você não — Signa rosnou em advertência. Talvez ela tenha sido uma tola por vir. Talvez a coisa toda fosse realmente um ardil para amaldiçoá-la ainda mais. Independentemente disso, Signa não demorou para confirmar a chegada da Morte. Em vez disso, ela girou nos calcanhares e correu o mais rápido que suas pernas podiam levá-la – pelo corredor, descendo as escadas e até o primeiro servo que encontrou. Até quem poderia ter uma chance de salvar Blythe e deter a Morte. Tudo o que ela precisava era durar seis meses. Seis meses, e ainda assim ela não poderia durar nem um dia sem trazer Morte para Thorn Grove. Oito Felizmente, Signa Farrow não matou ninguém naquela noite.Depois de horas de pessoas flutuando dentro e fora do quarto de Blythe, as coisas estavam começando a se acalmar. Signa observou pela fresta da porta do quarto, surpresa ao descobrir que seu quarto ficava no corredor de Blythe – ou os espíritos ou sua própria paranóia deviam estar brincando com ela antes para fazê-la perder o caminho. Agora, quando Signa olhou para o corredor, apenas um punhado de silhuetas permaneceu à luz das velas do lado de fora da porta de Blythe. Ela apertou os olhos para ver se Morte estava entre eles, aliviada por encontrá-lo ausente. Havia, no entanto, outra pessoa lá que Signa estava cada vez mais curiosa para conhecer – Elijah Hawthorne. Ele estava de costas para Signa, mas ela podia ver mais dele do que antes. Ele era extremamente alto e assustadoramente magro, com cabelos loiros mais brilhantes do que qualquer outro. Mais brilhante do que a luz das estrelas, talvez. Signa deu um longo passo além da porta para dar uma olhada melhor, e no momento em que seu pé pressionou as tábuas do chão, elas rangeram tão alto que Elijah e os servos ficaram em silêncio e se viraram para encontrar a fonte do som. Signa não conseguia se mexer. Mal conseguia respirar quando seus olhos se voltaram para ela. Bastou quatro longos passos de Elijah, e ela finalmente podia ver seu rosto claramente. Era um rosto severo. Um cansado que não tinha nem uma pitada da exuberância que ela testemunhara antes. Era difícil acreditar que este era o mesmo homem. — Quem é? — Sua voz era dura enquanto falava com os servos, apenas uma sugestão de uma calúnia persistente em suas bordas. Então ele se virou para Signa. — Quem é você? Foi Marjorie quem respondeu, saindo de trás do sr. Hawthorne e segurando seu ombro com firmeza. — Esta é Signa Farrow, sua nova protegida. — Havia algo familiar na maneira como Marjorie o tocava. Algo confortável. Algo, Signa notou, que estava totalmente fora de lugar entre uma governanta e seu empregador. — Minha protegida? — Elijah apoiou seu corpo oscilante contra uma parede enquanto Marjorie soltou um suspiro. O olhar que ela lançou para Signa foi puramente apologético. — Sim, senhor. Sua protegida. Ela chegou esta manhã, com a carta que você escreveu para ela? — Ah, aquela protegida. — Afastando-se da parede, Elijah fechou o resto do espaço entre ele e Signa, que estava o mais alto que podia, o peito tão apertado que pensou que poderia explodir. — Olá, senhor. — Sua voz era mais mansa do que ela pretendia que fosse, mais fraca do que até mesmo a etiqueta exigia. Então ela tentou um pouco mais alto. — Eu aprecio sua hospitalidade. Elijah fez uma careta e semicerrou os olhos, pressionando a palma da mão na têmpora. — Calma, garota. Você está tentando acordar os mortos? Ela gaguejou, mal tendo uma resposta para uma pergunta tão ridícula. — P-pelo contrário, senhor, eu prefiro que eles durmam. Elijah deu mais um passo para mais perto para poder espiar Signa. No momento em que o fez, ele caiu para trás com um silvo de respiração. — Meu Deus. Seus olhos. Signa se encolheu e pressionou a mão na bochecha, logo abaixo do olho dourado. Foi uma reação bastante típica – ela estava acostumada com a surpresa. Mas Elijah não pareceu surpreso; ele parecia quase com medo. — Eu posso cobri-los se eles o incomodarem, senhor — ela disse, se preparando para virar e procurar algum tipo de pano. Qualquer coisa para envolver seus olhos. Mas antes que ela pudesse recuar para seu quarto para encontrar um, Elijah agarrou seu pulso. — Você está aqui para me mostrar meus pecados, criança? Você é meu passado, aqui para me assombrar? Um fantasma, para me lembrar do que fiz? — Suas palavras estavam sem fôlego. Imediatamente, Signa lembrou-se do retrato no corredor e entendeu que a mulher retratada nele era Lillian. Mas e o espírito que a estava chamando para aquela sala? Aquele que a tinha seguido. Também tinha sido Lillian? Atrás de Elijah, os ombros de Marjorie afundaram. — Deixe a garota ir, Elijah. Ela não é nenhum fantasma. Ela apenas compartilha o sangue de sua esposa. Seu rosto ficou mais frio então, cada linha afiada como vidro. Lentamente, ele a soltou. Ele levou outro momento para avaliar Signa, observando seu cabelo – muito mais escuro do que os cachos dourados de Lillian – e sua pele, muito mais pálida. — Perdoe-me — disse ele, embora seu tom estava longe de implorar perdão. — É possível que eu tenha bebido demais. Por um momento, pensei que talvez você fosse alguém que eu conhecia. Mas se é verdade que você é minha protegida, então suponho que é meu dever castigá-la por estar acordada em uma hora tão irracional. O nó em sua garganta era impossível de engolir. De alguma forma, Signa falou sobre isso. — Tive alguma dificuldade para dormir. Eu queria ter certeza de que Blythe estava... — Saudável? Viva? — Segura, para a noite. A boca de Elias se apertou. — Você conheceu minha filha?— Isso pareceu surpreender Marjorie também. Os olhos da mulher se enrugaram nos cantos. — Só brevemente, senhor. Ouvi tosse e entrei para ver como ela estava. — Então foi você que conseguiu a ajuda para ela, então. Embora talvez não fosse a coisa mais honesta a fazer, Signa assentiu, deixando de fora a parte que o ataque de tosse de Blythe foi por causa dela. — Então certifique-se de fazer isso de novo, se você ouvir alguma coisa. — Elijah não olhava mais para ela. — Agora vá para a cama, criança. Estamos nos aproximando de uma hora feita apenas para fantasmas. Signa estremeceu. — Sim, senhor. Ele novamente se apoiou ao longo da parede enquanto partia, e o olhar firme que Marjorie lhe lançou disse a Signa que ela deveria fazer o mesmo. Ela girou a maçaneta de sua suíte e desapareceu nela. Curiosamente, não foi a lembrança de Elijah agarrando-a ou sua reação aos olhos dela que os pensamentos de Signa permaneceram enquanto ela cruzava o tapete macio da sala de estar e se movia para o quarto. Foram as palavras que ele disse pela última vez: “uma hora feita apenas para fantasmas”. Ela se sentou na beirada de sua cama de dossel. Seu baú de viagem estava ao lado dela, ainda bem selado. Depois de ter seus pertences trancados por tanto tempo, ela não queria nada mais do que desempacotar o baú. Mas por mais que tentasse, Signa não conseguia se convencer a abri-lo. Depois desta noite, ela não tinha dúvidas de que seu tempo em Thorn Grove seriabreve. Se havia uma constante com a qual Signa podia contar, era que não importava onde ela estivesse, Morte a encontraria. Ela não sabia como ou por que, ou se tudo isso era um jogo elaborado destinado a prolongar sua tortura enquanto ele assistia, ria e apreciava o show. Ela iria descobrir, no entanto. E, mesmo que fosse a última coisa que ela fizesse, ela o impediria. Já era tarde da hora das bruxas quando Signa acordou com o som de choro e o farfalhar de folhas de bordo soprando pela janela. Ela não se lembrava de deixá-la aberta, ainda mais de deixá-la meio aberta, trazendo o cheiro de chuva e solo úmido. Signa ergueu-se do calor da cama para espiar a noite. Quando os minutos se passaram e o choro não voltou, ela fechou a janela e voltou para a cama. No entanto, ela notou pelos cantos dos olhos ao passar pela penteadeira que o reflexo no espelho permanecia imóvel. Com o pescoço formigando, ela parou para examinar o espelho, esperando que a imagem fosse um truque da luz. Mas quando seu reflexo olhou para ela, suas bordas confusas e um sorriso que Signa não estava usando em seus lábios, ela sabia que isso não era nenhum truque. Signa sufocou um grito quando se jogou da penteadeira, onde uma explosão de luz branca escapou e fugiu pela parte inferior da porta. Ela soube imediatamente que era o espírito de antes, e desta vez não havia como negar que ela tinha visto. Signa não se incomodou com um casaco ou botas, não perdendo tempo enquanto abria a porta e perseguia a luz pelo corredor. Agora que o espírito havia confirmado que podia ser visto, Signa não teve escolha a não ser enfrentá-lo. Se não o fizesse, quem sabia se a coisa bestial a deixaria em paz. Thorn Grove nem sequer rangeu com o peso de seus passos enquanto descia correndo a escada, e as dobradiças estavam silenciosas quando ela abriu a porta da frente para a noite fria. Imediatamente ela se abraçou, pois sua camisola branca e fina não fez nada para impedir que o frio penetrante rastejasse em sua pele. — Olá? Tem alguém aqui?— Passo a passo, ela forçou seus pés dormentes em direção aos gritos que comiam sua pele, roendo seus ossos. Quanto mais alto o choro se tornava, mais o mundo abaixo de Signa murchava. O musgo ao longo de uma árvore de bordo secou em um marrom escuro enquanto as folhas caídas murchavam e se espalhavam com um vento repentino. Era como se a própria terra estivesse a avisando do que estava por vir, e que ela deveria voltar. No entanto, Signa não parou de se mover até ver a fonte do som. Uma mulher com pele translúcida e cabelos brancos macios que se arrastavam atrás dela como a personificação do próprio vento estava sentada sob a curva de uma árvore, usando um vestido prateado como a lua baixa. Os gritos do espírito cessaram quando Signa se aproximou, levantando a cabeça para olhar para ela. Os passos de Signa vacilaram ao longo do espinheiro morto enquanto os olhos do espírito rastejavam sobre seu corpo, avaliando. Ela tentou não mostrar que o medo a estava agarrando, incitando-a a correr. O espírito deslizou para frente sem aviso – sem som algum – e quando Signa tentou cair para trás, raízes mortas se romperam do chão e serpentearam em torno de seus tornozelos para segurá-la firme. Ela caiu de costas, tremendo e amaldiçoando sua sorte enquanto o espírito pairava sobre ela. O espírito era lindo, com pele lisa e cabelos claros que caíam em ondas soltas. Mas quanto mais Signa olhava para ela, mais cinza ficava o espírito, com lábios e unhas preto-azulados para combinar. No entanto, era de seus olhos que Signa não conseguia se afastar – um azul e um castanho. Duas cores diferentes, como os dela. Como a mulher do retrato que Signa tinha visto mais cedo naquele dia. Lilian Hawthorne. De tão perto, Signa podia ver que a boca do espírito era algo de um pesadelo, cheia de pus e feridas sangrentas que infeccionaram em suas gengivas. Sua língua era um mingau roxo inútil, como se tivesse queimado. Lillian tentou falar, mas tudo o que conseguiu fazer foi gemer, e quanto mais alto Signa gritava para o monstro se afastar dela, mais alto o monstro gemia de volta. Lillian estendeu a mão como se quisesse agarrar Signa, mas Signa cravou as unhas nas raízes e as arrancou, arrancando-as dos tornozelos. Enfurecida, Lillian gritou quando Signa ficou de pé. — Fique longe de mim! — Signa rosnou para ela. O espírito se encolheu com o aço na voz de Signa. Mas a pausa foi apenas temporária, e com uma carranca profunda Lillian começou a avançar novamente. Signa se inclinou para pegar um punhado de terra e jogou no rosto do espírito. — Eu não me importo com quem você é, apenas me deixe em paz! — De modo a não despertar todo Thorn Grove, ela teve que silvar palavras que queria gritar, e ela odiava o espírito por isso também. — Deixe-me em paz, ou eu vou encontrar seu corpo e queimá-lo até que você não seja nada mais do que uma pilha de cinzas! Enquanto Lillian limpava a sujeira, seus lábios enegrecidos se torceram no que Signa pensou ser um sorriso de escárnio. Mas a ameaça a manteve afastada. — O que você quer? — Signa resmungou. — Por que você me atraiu aqui? — Lillian não era alguém com quem Signa queria se envolver, e ainda assim Lillian morreu de uma forma que, reconhecidamente, deixou Signa mais do que curiosa. E a curiosidade era uma coisa faminta e persistente. O espírito de Lillian hesitou, então apontou para seus lábios negros. — Você não pode falar? — Signa perguntou, e o espírito sacudiu suas ondas pálidas com um grunhido. Não era a primeira vez que Signa via um espírito incapaz de falar. Algumas ruas estavam cheias de soldados ou guerreiros de guerras antigas sobre as quais ela não se importava em saber mais, e muitas vezes os espíritos estavam cheios de buracos em seus peitos ou rostos. — Eu sei quem você é. — Signa recuou vários passos para sua própria segurança. — Eu sei que era você esperando por mim dentro da casa mais cedo. O que você quer de mim? Os espíritos não precisavam respirar, mas parecia que essa mulher estava respirando fundo e tentando reunir paciência. Ela não se moveu em direção a Signa, mas arrancou um galho frágil de uma árvore. Por um momento Signa pensou em correr, mas em vez de espetar a carne de Signa, Lillian se abaixou no chão, chutou um caminho limpo na terra e usou o galho para escrever palavras na terra. Quando ela terminou, Lillian jogou o galho longe e apontou para seu trabalho. Embora Signa soubesse que sua bisbilhotice poderia muito bem ser sua ruína algum dia, ela obedeceu e leu as palavras. Seu estômago se revirou no momento em que ela fez isso, e ela olhou para Lillian em busca de uma explicação. O corpo do espírito tremulava nas extremidades como pequenos fios de fumaça. Se os anos de Signa vendo espíritos a ensinaram alguma coisa, foi que eles não eram livres para vagar. Quanto mais se aventuravam de onde haviam morrido, mais lutavam para permanecer na Terra. Claramente, o espírito de Lillian estava longe de onde ela havia passado, e seu tempo aqui estava se esgotando. Ela recuou em direção à floresta nos arredores da propriedade, até que o único vestígio dela foram as palavras que ela esculpiu na terra: Venha ao meu jardim e salve-a. Signa soube imediatamente que Lillian estava se referindo a Blythe. Blythe, que Morte provou que estava procurando. Blythe, a quem Signa se sentia presa por razões que ela não conseguia explicar. Blythe, cuja morte faria surgir rumores. Cuja morte provavelmente tiraria Signa de mais uma casa que ela não podia perder. A percepção veio: se ela pudesse impedir que Blythe morresse, então ela pararia Morte. Ela iria vencê-lo. E se ela conseguisse isso, talvez ele finalmente a deixasse em paz e lhe permitisse a vida que ela ansiava. Uma vida fora das sombras, onde ela nunca teria que lidar com ele ou esses espíritos horríveis novamente. Uma vida com pessoas e festas e companheirismo,e onde ela poderia simplesmente estar. Por mais tolo que fosse fazer uma barganha com um espírito, se isso significasse vencer Morte, Signa faria o que fosse preciso. Nove Marjorie foi fiel à sua palavra de que o traje de luto de Signa em breve seria coisa do passado. A modista chegou ao amanhecer, arrastando um baú cheio de tecidos para a suíte de Signa. Signa mal tinha conseguido dormir e, juntamente com os últimos dias de viagem e o fato de ter passado a noite anterior sendo assombrada, havia pouco que ela queria mais do que se enroscar na cama pelo resto do dia. Até que ela se lembrou que hoje marcava o início de suas lições. — Venha agora, Signa. Só os mortos dormem a essa hora. — Marjorie suspirou enquanto seguia atrás da modista. — O mestre não vai deixar você andando por aí parecendo o ceifador. É hora de adicionar um pouco de cor a esse seu guarda-roupa e prepará-la para a temporada. Signa despertou como os mortos ressuscitados, membros pesados e seus olhos ardendo contra o sol que despertava. Parecia que apenas alguns minutos haviam se passado desde que ela caiu na cama. Apenas alguns minutos desde que ela teve a infelicidade de conhecer o espírito de Lillian. E, no entanto, ela convocou toda a sua vigília com a promessa de roupas novas e se arrastou para a sala de estar. Uma jovem agradável que Marjorie apresentou como Elaine, a nova dama de companhia de Signa, começou a pentear as ondas escuras de Signa do rosto enquanto a modista mexia em sua cintura com uma fita métrica. A modista era velha, com tantas rugas quanto os anos que ela viveu esculpidas em seu rosto. Olhos castanhos estavam cobertos por óculos redondos, embora parecessem ser de pouca ajuda, dado o quão perto a mulher se inclinou para Signa, abaixando-se para ler os números na fita. — Você é muito magra, garota — a mulher resmungou. — Nada mais do que um galho com seios. Signa virou-se para a janela, determinada a não deixá-los ver a vergonha em seu rosto. Sua camisola transparente fazia pouco para disfarçar a nitidez de suas costelas, e ela passou as mãos ansiosas sobre elas. Marjorie olhou para eles também, aqueles ossos muito afiados saindo de sua pele. Signa tinha feito o que podia, morando com Magda, mas ela era muito jovem para acessar sua herança por conta própria, e a modesta mesada que Magda recebeu foi direto para as casas de jogo. Essa mulher provavelmente teria ficado feliz, se Signa tivesse morrido de fome. Tudo com o que ela se importava – tudo com que a maioria de seus guardiões parecia se importar – era como reivindicar um pedaço da fortuna de Signa. — Deixe espaço nos vestidos — disse Marjorie à costureira, desviando o olhar das costelas de Signa e fingindo estar ocupada ajudando Elaine a arrumar o cabelo. — Ela vai ficar com bochechas de bebê em pouco tempo. A costureira resmungou, satisfeita. Uma vez que ela anotou as medidas de Signa em um caderno de couro, ela segurou amostras de tecidos em uma grande variedade de cores para o rosto de Signa. Eles trabalharam diante de um espelho de prata ornamentado, que Signa usava para dar uma espiada em si mesma, meio que esperando ver seu reflexo começar a se mover sozinho, como na noite anterior. Ainda havia terra debaixo de suas unhas, assim como nas solas de seus pés. Era tudo o que ela podia fazer para fingir ignorância quando a modista os inspecionou com uma carranca. Embora Signa soubesse pouco do custo para fazer um guarda-roupa, ela podia imaginar. E era muito mais do que qualquer guardião gastou com ela. Elijah realmente deve ter querido Signa fora de seu traje de luto. Enquanto Marjorie ofegava com tons suaves como blush, champanhe e pervinca, os olhos de Signa se desviaram para verdes escuros como a floresta e vermelhos profundos e ricos como sangue. No entanto, ela não disse nada sobre suas opiniões, pois o que ela sabia de moda? Se ela queria se encaixar na sociedade, certamente deveria confiar em Marjorie para tomar as decisões e se contentar com os tons sem graça sem reclamar. A modista deixou para trás um vestido em sua partida – um vestido amarelo-claro, com fitas azuis e rendas brancas. Signa queria recusar sua ostentação, mas ergueu os braços enquanto Elaine a ajudava a se vestir. Se este era o estilo, não importava se ela achava que combinava com ela ou quão confortável ela estava. — Isso vai ter que servir por enquanto — Marjorie disse enquanto Elaine amarrava o espartilho. — Pelo menos até que os seus sejam feitos. A palavra mais gentil que Signa conseguiu pensar para o vestido foi horrível. Também era incessantemente alegre, dado o estado de Thorn Grove. Ela pode ter parecido uma banana ambulante, mas ela se importava com sua língua e não reclamou uma vez que foi vestida, perguntando apenas: — E quando esses vestidos estarão prontos? A risada de Marjorie foi educada e recatada, um exemplo clássico de como Um guia feminino de beleza e etiqueta dizia que deveria ser. Signa fez uma nota mental para praticar a imitação, mais tarde. — A modista faz o trabalho rápido. Agora venha, é hora das lições. O mestre arrancaria minha cabeça se nos visse vagando. Pelo que ela tinha visto de Elijah, Signa duvidava muito disso. Independentemente disso, ela seguiu Marjorie para fora da sala e pelo corredor, tentando ignorar o formigamento em sua pele que vinha da sensação de ser seguida pelos olhos de várias dúzias de retratos. O formigamento parou assim que desceram as escadas e Signa ficou aliviada ao descobrir que Thorn Grove parecia um lugar novo naquela manhã. Estavam longe de todas a música e os vestidos de baile que encheram os corredores, e as risadas que vinham logo em seguida. Em seu lugar, ficou o movimento silencioso de uma vassoura sobre o mármore. — Lembre-se, não perca tempo — Marjorie cutucou quando Signa permaneceu por muito tempo na escada, estudando a estranha decoração que prevalecia em toda a propriedade. A escada parecia ter sido esculpida em uma árvore. Arandelas de ferro em forma de ninhos de pássaros. E, enquanto Signa continuava olhando, um em forma de cabeça de raposa e um candelabro com braços que pareciam pregos. Quem projetou este lugar era uma alma estranha. Uma alma, Signa decidiu, que estava implorando para que esta casa fosse assombrada. Eles certamente conseguiram realizar seu desejo. Signa ainda podia sentir a pressão da exaustão em seu corpo pela assombração da noite anterior enquanto seguia Marjorie para a sala de estar – uma sala tão grande quanto qualquer outra na propriedade, mas talvez melhor iluminada com suas duas grandes janelas. As paredes eram de um amarelo amanteigado ainda mais brilhante do que o vestido horrível de Signa, e eram perfeitas para capturar a luz. Toques femininos adornavam a sala, totalmente fora de sincronia com o segundo andar, mais masculino. Havia espirais elegantes esculpidas na moldura, um tapete com padrões brilhantes e delicadas almofadas florais com acabamento em renda. Foi nessas almofadas que Percy e Blythe se sentaram, bebendo xícaras fumegantes de chá. Blythe não parecia melhor do que na noite anterior, com sua pele pálida e sua frágil estatura, mas havia uma nitidez em seus olhos. Uma vontade de se sentar no sofá e beber seu chá e não ficar presa sozinha em seu quarto, mesmo que suas mãos tremessem toda vez que ela levava a xícara aos lábios. — Minha querida irmã disse que acordou se sentindo rejuvenescida — disse Percy no momento em que os olhos surpresos de Marjorie pousaram na garota. — Achei que um pouco de ar fresco e companhia fariam bem a ela. A boca de Marjorie formou uma linha apertada. Em vez de discutir, porém, Marjorie se virou e abriu as janelas, deixando entrar a brisa fresca. — Muito bem, então. Talvez você esteja certo. Signa ficou mais ereta na presença de seus primos. Um dia em Thorn Grove, e ela já se sentia como se tivesse causado uma primeira impressão tão horrívelem ambos. Ela queria se provar para eles, embora estivesse lutando para fazê-lo entre suas pálpebras pesadas e a vontade de bocejar. Velhos espíritos teimosos e terríveis. Não queria pensar em Lillian, nem nos mortos, nem em nada além de suas lições e da nova família com a qual vivia agora. Ela queria estudar, para impressionar eles, e para provar sua prontidão para estrear na próxima fase de sua vida. Uma fase na qual ela esperava ter muito mais conexões com os vivos, e muito menos com os mortos. Batendo o cabelo atrás dos ombros, ela se reorientou e sorriu para seus primos. — Estou feliz em ver que vocês dois estão bem esta manhã. — Digo o mesmo — Percy disse enquanto Blythe colocava sua xícara de chá em seu pires e a equilibrava em seu colo. — Você já teve uma governanta antes, Srta. Farrow? — Marjorie perguntou enquanto se sentava em um pequeno pufe redondo na frente de Signa. — Dadas suas maneiras, eu suponho que não — Blythe murmurou baixinho, tomando outro gole quando Marjorie lhe lançou um olhar. — Você está afirmando que as suas são melhores?— perguntou a governanta. Blythe franziu o rosto quando Signa sentiu uma onda de vergonha, quente e abrasadora. Ela estaria condenada, entretanto, se ela deixasse Blythe ver que suas palavras haviam atingido. — Eu tive uma governanta no passado — Signa disse a eles. — …intermitentemente. O que quer que Marjorie pensasse dessa resposta, ela não a traiu. — E as lições? Em vez de admitir quanto tempo se passou desde que ela teve uma aula adequada, Signa disse: — Eu sei ler e escrever. Aritmética também. — Apenas o básico, já que ninguém nunca tinha ficado tempo suficiente para lhe ensinar mais do que isso. Os lábios de Marjorie se curvaram em um sorriso invejável. — E música? Não querendo dar a seus primos qualquer combustível adicional para provocá-la, admitindo que raramente tocava, Signa disse: — Acho que sou uma ótima ouvinte. Blythe tossiu em sua bebida enquanto Percy a cutucava com o cotovelo, silenciando-a entre suas próprias risadinhas. Marjorie ignorou os dois Hawthornes. — Devidamente anotado. Por que não começamos por aí, então? Com lições de leitura e seguimos com aulas de piano. Por mais frustrante que fosse, Signa havia sido insultada o suficiente ao longo de sua vida para ignorar seus primos. Ela assentiu e, em vez disso, se deixou imaginar sentada na mansão que um dia possuiria, sentada no banco de um piano forte, tocando com uma graça perfeita. Seu devaneio durou pouco, no entanto, quando uma onda de frieza sacudiu a espinha de Signa. — Senhorita Farrow? — A voz de Marjorie estava distante. Signa não podia ver Lillian, mas o som fraco de choro lutou para roubar sua atenção. Nada de espíritos, Signa disse a si mesma, fingindo não ouvir. Pense no seu futuro. Do trabalho que você deve fazer até debutar. Pessoas normais não falam com os mortos, Signa. No entanto, ela não conseguia parar de ouvir. Parecia que os outros também ouviram o som, pois Blythe ficou mortalmente imóvel. A xícara de porcelana escorregou de suas mãos e caiu em seu colo, o chá quente manchando seu vestido. Percy sentou-se com um solavanco, assim como Marjorie. — Céus, senhorita Hawthorne! — A governanta fez sinal para Percy. — Ajude sua irmã a voltar para o quarto dela e vá buscar Elaine. Blythe precisará se trocar para um vestido novo. E enquanto você está nisso, encontre um melhor uso do seu tempo também, Percy. Vocês dois são muito perturbadores. Marjorie esperou que Percy ajudasse sua irmã – cujos olhos ainda estavam atordoados e ansiosos – a sair da sala antes de se virar para Signa. — Agora, não ligue para tudo isso, e não ligue para o som. Isso é apenas o vento. — Ela pegou Signa pela mão e a levou para o banco preto e elegante de um belo piano de cauda que provavelmente custaria tanto quanto a casa inteira de tia Magda, se não mais. Não havia sequer um traço de poeira nele. — É sempre mais alto nesta época do ano. Parece que o próprio diabo está pisando lá fora. Signa sabia muito bem que o som não tinha nada a ver com o vento, embora não tivesse escolha a não ser assentir. Ela se sentou, lutando contra a vontade de se encolher na cadeira enquanto Marjorie endireitava as costas e alongava o pescoço, colocando as mãos de Signa na posição inicial sobre as teclas. — Agora — disse Marjorie —, vamos começar praticando suas escalas. — Os ossos de Signa protestaram mantendo uma postura tão rígida, já doendo. Mas se isso fosse necessário para dar vida à sua visão e garantir seu lugar na sociedade, ela o faria. Signa pressionou a primeira tecla e teve que engolir uma careta quando seu dedo ficou molhado. Cada centímetro dela enrijeceu, os músculos se contraindo, pois não havia nada no piano. No entanto, quando ela levantou o dedo, viu lama endurecida sobre ele e pequenos vermes brotando entre as teclas. — Siga as escalas, Signa — Marjorie insistiu sem qualquer reconhecimento de que ela podia ver o que estava acontecendo sob a ponta dos dedos de sua pupila. Ela não viu que os pés de Signa estavam afundando na terra que não estava lá ou que seus dedos se tornaram um poleiro para os vermes se enrolarem. A mensagem de Lillian foi clara como o dia – Signa precisava se apressar e encontrar o jardim, ou esse espírito nunca descansaria. Mas até então, Signa se preparou e apertou as teclas enlameadas. Ela se recusou a parar de tocar. Dez Passaram horas até que Signa saísse, esticando as costas doloridas enquanto o vento a açoitava. O ar estava fresco, mas não era nada que seu cachecol e uma barriga cheia de chá quente não pudessem afastar. Seu corpo acolheu o frio depois de passar tanto tempo em suas aulas. Em apenas um dia, ela quase esqueceu o forte contraste entre o interior e o exterior da propriedade. Aqui, cercado por intermináveis charnecas de grama amarelada, flores silvestres pontilhando a terra e o manto dourado de folhas espalhadas pelo chão, era um lugar de fantasia. A tarde estava tranquila; nenhum corpo dançava dentro ou fora da casa. Nenhum estranho em sua elegância. Embora Signa não soubesse o que os cozinheiros estavam assando, algo doce e pastoso aqueceu o ar ao seu redor, e seu estômago roncou apesar de Marjorie ter lhe dado mais bolinhos do que ela conseguiu comer. Mas haveria tempo para doces mais tarde, quando suas mãos não estivessem realmente enlameadas com sujeira, vermes e terra. Venha ao meu jardim e salve-a. Signa iria para aquele jardim, mas ela precisava encontrá-lo primeiro. Atrás da propriedade havia pântanos íngremes e intermináveis. Diante dele, sebes bem cuidadas e um bosque de bordos. E muito além de Thorn Grove havia uma linha de árvores que marcava o início da floresta. Nenhum jardim à vista. Signa poderia ter acreditado que poderiam estar brincando com ela se não fosse por sua conversa com Sylas dois dias antes – ele disse a ela que uma vez trabalhou no jardim com Lillian. Embora Signa desprezasse a ideia de pedir ajuda, ele era a opção mais segura. Com a diferença de classe entre eles tão gritante como era, certamente ele não ousaria denunciá-la por enfiar o nariz onde não deveria. E assim Signa ergueu seu vestido amarelo hediondo e atravessou o gramado aparado até os estábulos, apertando as saias com mais força enquanto se aproximava de bestas bufando e cascos batendo. Os cavalos de Thorn Grove eram criaturas enormes, todos com pelagem brilhante em um espectro de cores – preto sólido, branco puro, um rico marrom castanho. Pareciam confortáveis em suas espaçosas baias, mas Signa tinha pouca confiança nas barreiras de madeira que os limitavam. Se essas feras quisessem sair, eram inteligentes o suficiente para se libertar. Signa espiou nas baias enquanto andava na ponta dos pés pelos estábulos, cercada por cavalos que esticavam o pescoço em direção a ela na tentativa de chamar sua atenção. Um deles chegou a beliscar seu ombro,e Signa cambaleou para trás para bater com firmeza no nariz. — Não pense nisso! — ela advertiu, alisando o ombro de seu vestido. — Ser atrevido com uma mulher não é a melhor maneira de chamar sua atenção. O cavalo bufou, indignado. Ele era menor que os outros, embora não parecesse mais jovem. Onde os casacos dos outros brilhavam, o dele era de um marrom opaco, da cor de caramelo queimado. Comparado com os outros, este era esguio e estranho. — Bem, agora — ela disse, com as mãos nos quadris enquanto o encarava —, você não é uma coisa boba? Em resposta, o cavalo esticou o pescoço para beliscar seu ombro mais uma vez. Ela estava no meio do passo, cambaleando para trás para rasgar o tecido da boca do cavalo, quando alguém riu. Era um som rico, que causou pequenos arrepios na espinha de Signa. Ela o reconheceu instantaneamente. Signa se virou, sem ter ouvido Sylas se aproximar. Ele estava tão assustadoramente alto como sempre, e seu cabelo escuro estava penteado para trás agora, mostrando os belos contornos de seu rosto. Apesar do ar frio de outono, Sylas vestia apenas calças e uma túnica de algodão de mangas compridas. Estava aberto no colarinho, as mangas dobradas sobre os braços fortes como se ele estivesse trabalhando, embora suas botas e luvas escuras mal tivessem uma partícula de sujeira. Eram de um couro tão fino — e tão bem conservados para um cavalariço. Sylas apoiou os antebraços contra uma pilha de fardos de feno. Ao seu lado, um grande cão cinza estava alerta, orelhas eretas e cabeça inclinada. — Eu não sabia que os Hawthornes tinham um cachorro — disse Signa por falta de mais alguma coisa, odiando que sua língua parecesse sem esperança e dormente ao redor daquele jovem. Por mais rude que ele pudesse ser, a falta de qualquer companhia masculina disponível em sua faixa etária sempre deixou Signa mais calada do que ela gostaria de admitir. — Ah, sim — disse Sylas. — Ele é uma coisa bestial, também. Treinado para matar qualquer um que invada a propriedade. Signa deu um passo nervoso para trás. Mas no momento em que ela o fez, a língua do cão pendeu para fora, e o cachorro virou alegremente de costas. Signa olhou para Sylas. — Eu disse que ele foi treinado — disse Sylas. —, não que ele tenha prestado atenção. E ele pertence a mim, não aos Hawthornes. O nome dele é Gundry. Signa se abaixou, coçando a barriga oferecida por Gundry. Ela riu enquanto o cão ofegava e se contorcia para lamber sua mão. Signa sempre quis um animal de estimação, qualquer criatura serviria, na verdade. Ela sonhara em ter um gato ou um cão de caça. Até um rato teria bastado, desde que lhe fizesse companhia. Mas considerando a frequência com que ela se mudava, ela estava com muito medo de pedir um e que algo pudesse acontecer com ele – ou que um de seus guardiões se recusasse a deixá-la levar um animal de estimação com ela para uma nova casa. Ela nunca tinha dado muita consideração a um cavalo dado o tamanho do animal, embora ela supôs que um seria um companheiro igualmente maravilhoso. — Você monta, Srta. Farrow? — A voz de Sylas era fria como a brisa ao redor deles, provocando-a enquanto ela afastava o cavalo irritante de seu cabelo. — Você parece natural. — Ah sim, eu quase esqueci como suas maneiras são surpreendentes. — Signa alisou o cabelo com a mão para garantir que estava preso em seus fechos. — Faz muito tempo desde que eu estive em torno de cavalos. Meu falecido tio tinha alguns, mas eles foram vendidos quando ele faleceu, e ele nunca gostou que eu os montasse. Embora os dele não fossem tão grandes. — A equitação era uma paixão que os dois mestres compartilhavam. — Sylas foi até o cavalo que brincava com Signa e pressionou a mão espalmada em seu focinho. Ele acalmou-se imediatamente, exalando uma respiração satisfeita. — Mestre Hawthorne raramente vem vê-los agora, mas ele é o responsável por esses cavalos. Ele sempre amou coisas bonitas. Signa deu uma olhada no pequeno e irritante cavalo, e Sylas riu. — Aquela criatura é Balwin, lindo de nascença. Dizem que ele encantou Lillian no passado – eles o compraram de uma pousada que visitaram durante as férias de verão. Ele é um cavalo divertido o suficiente, mas volúvel. Tem uma mente própria. Sylas Thorly, o homem que a aterrorizou por um dia inteiro com suas esquisitices, gostava de um cavalo estranho e um grande cão cinza que parecia ser parte lobo. Ela nunca teria adivinhado. — Eu vim para cavalgar — disse Signa, determinada. — Eu quero ver o jardim de Lillian. Um lampejo de surpresa cruzou o rosto de Sylas antes que ele assentisse. — Escolha um cavalo, então. Não Balwin, ele está prestes a dar uma volta, mas gosta de testar seus condutores. — E aquele? — Signa apontou para um lindo garanhão preto cuja pelagem era tão brilhante que cintilava como se estivesse molhada. — O que você acha de tentarmos uma das éguas mais velhas? Como a branca ali, à direita? — Sylas gesticulou para um cavalo branco sólido, mas os olhos de Signa vagaram para a magnífica égua dourada ao lado dela. Este cavalo era um pouco mais alto, e seus olhos muito mais vivos. Ela bufou e bateu um casco em uma saudação agradável, como se estivesse convidando Signa para se aproximar e cumprimentá-la. — Então e ela? — ela perguntou, agradando o cavalo, oferecendo a palma da mão para cheirar e beijar. Sylas baixou o queixo. — Ela é... um cavalo amigável, mas ela não sai há algum tempo. Talvez deva escolher outro... Srta. Farrow, o que você está fazendo? — Eu quero este. — Signa já estava desfazendo as fechaduras da baia e entrando para reivindicar seu cavalo, puxado para a égua dourada de uma forma que nenhuma das outras inspirava. A égua piscou os olhos chocolate para Signa e bufou, abaixando a cabeça como se fosse uma oferenda. Signa aceitou a oferta e passou os dedos pelo pescoço aveludado do cavalo, coçando-a atrás das orelhas. — Há algo de errado com esta? — Signa perguntou, e a égua olhou para Sylas, como se exigisse uma resposta educada. — Claro que não. — Sylas suspirou e pegou o equipamento do lado da baia antes de seguir Signa até ela para selar o cavalo. — É só que Mitra era o cavalo de Lillian. Embora já seja hora de você ter uma boa condutora, não é, garota? — Ele acariciou o pescoço da égua com mais delicadeza do que Signa esperava. Ela encontrou-se olhando, a leveza em seu tom aquecendo sua pele. — Espere lá fora. — A voz de Sylas não tinha a mesma gentileza quando ele falou com Signa, que se encolheu. — Eu vou prepará-la. Onze Sylas saiu dos estábulos quinze minutos depois, vestia um grosso manto marinho e conduzia não um cavalo, mas dois e um cão de caça que ofegava ao seu lado. Ao lado de sua beleza dourada estava Balwin, o irritante garanhão castanho que estava obcecado em tentar comer o cabelo de Sylas. — Você me trouxe opções? — foi tudo o que Signa conseguiu pensar em perguntar. Sylas não estava muito ocupado empurrando Balwin para longe para bufar. — Eu vou com você. O jardim de Lillian fica na floresta. Você claramente não monta há algum tempo, e se eu deixasse você ir até lá sem escolta, o Sr. Hawthorne teria minha cabeça. Signa lutou contra sua mandíbula apertada. Como se sentisse seu aborrecimento, Mitra fechou o espaço entre eles e cutucou Signa com o ombro. Signa, por sua vez, enrolou os dedos no pescoço do cavalo, acariciando seus cabelos macios. Ela podia sentir seu pulso feroz de vida sob a ponta de seus dedos. A rapidez do coração da égua e sua respiração impaciente e irregular. Elas eram uma combinação adequada, cada uma tão ansiosa para se libertar e vagar como a outra. Mas quando Signa foi montar o cavalo, ela vacilou. Embora fosse alta, os estribos estavam fora de seu alcance. Ela passou os braços em volta do pescoço de Mitra e tentou se erguer, mas o cavalo relinchou e a afastou. Atrás dela, Sylas perguntou com alegria na voz: — Você precisa de ajuda?Com a cabeça erguida, Signa o ignorou e tentou novamente, agarrando-se ao cavalo como se para salvar sua vida, enquanto tentava colocar um pé no estribo. Mitra arranhou o chão enquanto Signa pendia dela, escorregando, recusando-se a admitir a derrota. — Meu Deus, você é uma teimosa. — Desta vez, Sylas não perguntou antes de colocar as mãos na cintura dela e levantar Signa na égua. Ele fez isso com um único movimento, como se ela fosse leve como uma pena. Embora o coração de Signa estivesse acelerado, Sylas pareceu não pensar que era um toque tão íntimo enquanto acariciava a anca de Mitra, assegurando- se de que os pés de Signa estavam totalmente seguros e subiu em Balwin. Sob Signa, Mitra estremeceu de antecipação. Ela não esperou por um comando antes de partir em um trote tão chocante que Signa começou a escorregar da sela. Ela agarrou as rédeas, curvando-se para frente na cintura para se firmar. Então Sylas estava ao lado dela, batendo com um graveto na garupa de Mitra. Signa queria rosnar para ele enquanto sua pancada fazia o cavalo relinchar e se mover mais rápido, embora o barulho diminuísse em segundos. Signa endireitou-se, lançando um olhar para Sylas, cujos olhos dançavam travessos enquanto ele e Signa corriam pelas charnecas, colinas ondulantes de flores silvestres e pântanos que desaceleravam seus corcéis. Cada vez mais perto da floresta eles viajaram, até que o peito de Signa ardia com o desejo de alcançá-lo. Venha para o meu jardim. O espírito de Lillian a puxou, guiando-a. Venha para o meu jardim. Arrepios subiram ao longo da carne dos braços e pernas de Signa. Ela nunca tinha visto um espírito tão zangado, e a última coisa que ela queria era ser aterrorizada por Lillian Hawthorne. Ainda mais do que isso – embora ela não tivesse vontade de admitir em voz alta – Signa podia sentir a curiosidade afundando suas garras nela. Uma bagunça indistinta de peças de quebra-cabeça que ela desejava completar. Ela tinha que saber o que o espírito queria com ela, e como uma mulher tão jovem, tão bonita, morreu em um jardim secreto escondido na floresta bem atrás de Thorn Grove. Signa deu um leve cutucão na lateral de Mitra, e o cavalo respondeu imediatamente. Afinal, ela tinha sido o cavalo de Lillian; talvez ela também sentisse a atração. Sylas ficou atrás dela em seu ritmo, gritando, tentando impedi-las de correr para dentro da floresta. Embora Mitra lidasse com os pântanos habilmente, nunca vacilando em seu caminho, Sylas lutou para empurrar o rebelde Balwin para a frente. Sua voz soou oca em seus ouvidos, seus protestos desaparecendo com a distância. Signa não esperou – não podia esperar. A floresta a chamou, e ela mergulhou na barriga da fera, deixando suas mandíbulas se fecharem e engoli-la inteira. A floresta a consumiu, abraçando-a tão ferozmente que os gritos frustrados de Sylas e os cascos de Balwin cortaram, o único som um suave farfalhar nas árvores outonais, as folhas uma mistura de laranja da colheita e verde meia-noite. Não demorou muito para que a grama amarelada se enroscasse nas patas brancas de Mitra. A floresta puxava as saias de Signa, a crina de Mitra, arranhando e raspando sua pele, faminta por sangue. Signa tentou cobrir o cavalo o melhor que pôde, mas os galhos eram baixos e selvagens, arranhando o flanco de Mitra. Nos cantos de sua visão veio um flash de branco tão fugaz que ela teria perdido se piscasse. Voltou segundos depois, afastando-se rapidamente para a direita, onde as árvores se partiram ao meio ou foram removidas. Signa seguiu atrás do que ela sabia ser o espírito de Lillian, que a levou a uma clareira e a um portão de ferro colocado em uma parede de pedra desgastada. Ela empurrou o portão para descobrir que havia uma fechadura no centro, coberta por hera e trepadeiras. Ela estava feliz por não haver ninguém por perto para ouvir sua maldição muito pouco feminina enquanto olhava para o muro do jardim, três vezes sua altura e impossível de escalar, mesmo que estivesse nas costas de Mitra. Ela forçou a fechadura, a frustração aumentando quando ela não se mexeu. Como ela pretendia encontrar uma chave para um jardim que estava claramente abandonado há meses? Não era como se ela pudesse pedir isso a Elijah, e Sylas provavelmente já sabia que o lugar estava selado e a levou a essa caçada louca para rir. Com as mãos apertadas nas rédeas, Signa estava prestes a voltar para encontrar Sylas e dar-lhe um pedaço de sua mente quando outro flash branco cintilou nos cantos de sua visão. Lillian estava lá, observando, escondida nas sombras do portão de ferro. Seu cabelo estava pálido como manteiga, e seu rosto estava coberto de musgo, com trepadeiras podres tecidas dentro e fora do buraco onde uma boca deveria estar. Olhos vazios observavam por entre as folhas de hera. Olhos vazios que olhavam não para Signa, mas atrás dela, para o chão. Signa se virou para a visão familiar de pequenas frutas pretas – belladonna – e entendeu tão bem que seu peito parecia estar sendo partido em dois. A noite que ela comeu belladonna pela última vez – à noite que ela falou com a Morte – ela usou os seus poderes. E se ela pudesse fazer isso de novo? Ela o tinha visto atravessar paredes. Vi-o desaparecer nas sombras, e então se reformar à sua vontade. Seria possível que ela também pudesse fazer isso? Signa desmontou, rangendo os dentes ao ver as frutas de belladonna que esperavam em suas botas. Ela não queria se aproximar de Morte novamente até que ela tivesse uma maneira de destruí-lo e acabar com sua maldita maldição. Mas se ela queria que Lillian a deixasse em paz, parecia que não havia escolha. Com medo na barriga, ela se abaixou e colheu as frutas, enchendo os bolsos e as palmas das mãos. A morte pairava no ar como uma tempestade que se aproximava, escura e pesada. Signa sentiu o peso dele sufocando-a, avisando-a. Até o som do vento era cortante como uma lâmina quando o mundo desacelerou ao seu redor, como se o tempo estivesse parando. Mas Morte não a tocaria. Ele nunca tocou. Signa pressionou cinco frutas em sua língua e esperou enquanto seu sangue queimava e calafrios percorriam sua espinha. Não demorou muito para o veneno apertar suas entranhas. Para que sua visão embaçasse enquanto as ilusões da floresta se abriam em túneis ao redor dela, para que um poder diferente de qualquer outro se formasse dentro dela, chamando-a para vir e prová-lo. A morte havia chegado. Doze A presença da morte era gelo que queimou até os ossos de Signa — um lago gelado no qual ela mergulhou de cabeça. Mas, em vez de permitir que ela subisse para respirar, ele a abraçou naquelas águas geladas sem intenção de soltá-la. — Olá, Passarinha. Veio me esfaquear de novo? A voz dele era um bálsamo para o arrepio ao longo de sua pele, e as entranhas de Signa se contorceram em aborrecimento com a resposta de seu corpo a ele. Não raiva, nem medo, mas uma curiosidade profunda e purulenta que ela não conseguia afastar. — Diga-me se posso usar mais de seus poderes — ela exigiu. Se ele não hesitasse, ela também não iria. Ela ergueu o queixo e se virou para ele. Ou pelo menos ela acreditava que estava de frente para ele. Era difícil saber, dada a sua forma. A morte era pouco mais do que as sombras das árvores. A escuridão persistindo nos cantos onde a luz não conseguia alcançar. Ele não estava em lugar nenhum e estava em todos os lugares, até que lentamente suas sombras começaram a contrair-se ao longo do solo, consumindo o solo da floresta e banhando-o na escuridão até chegar lá. Sem rosto, sem boca, mas a forma de um homem que pairava sobre ela. — Diga-me, Signa — Morte começou, ignorando sua pergunta —, você está com medo de mim? — Suas sombras se aproximaram até que sua forma ficou menor, menos imponente. — A maioria das pessoas teme a morte. Eles temem isso a vida toda, embora nunca me vejam até o último suspiro. Há um punhado de humanospor aí com um olho mais aguçado, é claro. Aqueles que passam a vida tentando preencher a lacuna entre os vivos e os mortos, e que vislumbram por trás do véu. Mas quando estou diante deles, até eles são sábios o suficiente para me temer. No entanto, você me chamou uma e outra vez. Você me questionou. Você chegou a tentar me matar. — Embora fossem palavras sombrias, Signa não perdeu a pitada de humor delas. Acendeu um inferno ardente e raivoso dentro dela. — Sou divertida para você, senhor? — Ela cerrou os dentes enquanto as sombras dançavam entre as árvores. — Às vezes. — A voz dele era pouco mais do que um sussurro no vento rugindo, embora ela a ouvisse tão claramente como se viesse de seus próprios pensamentos. — E outras vezes você é um aborrecimento sem fim. Sempre, porém, você é fascinante. Falar com Morte era como ouvir um enigma. Ela mal pôde resistir a revirar os olhos para o quão prolixo ele era e teve que pressionar mais duas frutas em sua língua. — Diga-me se posso fazer mais coisas com seus poderes — ela disse, mais firme desta vez, mas mantendo a voz baixa no caso de Sylas estar por perto. — Você disse naquela noite que poderia explicar, então faça isso. Rápido. — Se a Morte tinha olhos, ela imaginava que estava olhando diretamente para eles. As árvores ficaram quietas quando ele falou. — Aqui, neste espaço entre os vivos e os mortos, parece que você pode fazer mais do que me incomodar, Passarinha. Não sei a extensão de suas habilidades, mas acredito que você mal arranhou a superfície. Signa engoliu o medo que infestou em sua garganta, suas suspeitas confirmadas. — Como isso é possível? O que você fez comigo? Quando o chão sob seus pés tremeu, Signa entendeu que ela havia feito a pergunta errada. — Porque você é tão rápida em me culpar — disse Morte — , que fique claro que eu não fiz nada. Eu não sou responsável por seus presentes. Não sou responsável pelo que aconteceu com sua tia, embora às vezes desejasse ser. As coisas que ela fez você passar... Se você não a quisesse viva, eu poderia tê-la levado há muito tempo. — Meu querer alguém vivo nunca o impediu antes. — Seu corpo era uma bobina tensa pronta para saltar. — Devo acreditar que você não teve nada a ver com as mortes que me seguem onde quer que eu vá? Que sou a única responsável por elas? A noite se aproximava enquanto a Morte avançava. — Você não tem responsabilidade por essas mortes. Magda foi a primeira vida que você tirou. Nem eu esperava. Se o que ele disse era verdade, e mesmo ele não esperava que isso acontecesse, então… — Como? O próprio vento parecia sussurrar a resposta. — Há uma razão pela qual você pode ver espíritos, Signa. Há uma razão pela qual você é capaz de cruzar o véu entre a vida e a morte. Embora eu não tenha sido capaz de confirmar o motivo, parece que suas suspeitas estão corretas. Quando você está aqui - quando você cruza o véu e é capaz de me ver – parece que você tem acesso a um arsenal de habilidades semelhantes às minhas. Tão estranha foi a mistura de alívio e horror que Signa sentiu. A bile subiu à garganta com a confirmação do que ela tinha feito. Nenhuma das outras mortes foi culpa dela, o que, claro, foi um alívio. No entanto, a morte de Magda foi culpa dela. Sua tia havia morrido pelas mãos de Signa, e só de pensar a fez querer se enroscar na árvore mais próxima e vomitar. — Ouça — Morte sussurrou. — Regras importantes foram quebradas naquela noite. Vida e morte é um jogo de equilíbrio, Signa. Um equilíbrio que deve ser sempre mantido, caso contrário você trará o caos a este mundo. Magda não deveria morrer naquela noite. Quando uma vida é tirada, outra deve ser poupada. Você entende? Suas palavras, sim, mas a realidade delas? Signa mal estava compreendendo nada daquilo. O suspiro da Morte soprou em suas bochechas enquanto as sombras dele se desenhavam ao redor dela. — Quando você matou Magda — ele explicou, a voz cansativa, — eu tive que dar vida a outro que deveria morrer naquela mesma noite. Foi para Blythe quem eu dei. Seus olhos se arregalaram. — Blythe teria morrido? — Embora seus encontros tenham sido curtos, Signa viu quão ferozmente a alma de Blythe ardia. A garota era muito jovem, muito inocente e muito cheia de vontade de morrer antes de ter a chance de realmente viver. Embora Signa soubesse que não deveria, sabia que não era certo, saber que a morte da tia Magda havia salvado Blythe a fazia se sentir... melhor. Como algo que ela estaria disposta a fazer novamente, se tivesse escolha. — Você salvou Blythe? — Você salvou Blythe — Morte a corrigiu. — Embora você tenha matado outro para conseguir isso. Você entende o que estou lhe dizendo, Signa? Tudo tem um custo. Por um longo momento, Signa ficou muito preso em suas palavras para falar. Ela tinha salvado Blythe. Ela não tinha condenado Blythe a uma morte súbita. Ela não a amaldiçoou, a matou ou foi a razão por trás de seu sofrimento. Em vez disso, pela primeira vez, Signa salvou alguém. Com a mente cambaleando, ela pressionou as mãos no peito trovejante como se quisesse acalmar o coração. Nesse espaço entre a vida e a morte, ela tinha os poderes do ceifeiro. Se isso fosse verdade o suficiente para tirar e dar vida, então o que mais ela poderia fazer com tais poderes? No fundo de sua mente, uma ideia estava se formando, embora ela precisasse aprender mais antes de poder agir. — Lillian entrou em contato comigo ontem à noite — Signa admitiu de repente, sussurrando como se seu espírito pudesse ouvir. — Não estou surpreso — disse ele. — Suas ações já salvaram a filha dela uma vez. Você e Blythe estão conectados agora. — Você sabia que isso iria acontecer? — Signa perguntou, mais corajosa do que ela já sentiu enquanto olhava nas profundezas de suas sombras. — Você sabia que eu acabaria aqui em Thorn Grove? — Eu sabia que Blythe morreria naquela noite, assim como sabia que os Hawthornes eram sua última família restante. Eu a poupei para que você fosse bem-vinda aqui, embora eu não possa curar sua doença. Talvez fosse imprudente desafiar a Morte, mas ela não se importou. — Eu sou realmente bem-vinda, ou você é a razão de eu estar aqui? Que feitiçaria você deve ter lançado sobre os Hawthornes para eles me aceitarem? — Não havia feitiçaria — ele disse a ela. — Eu apenas ajudei a acelerar o processo com uma carta. Apesar do que você possa pensar de mim, quero você segura e em um lar estável. Se eu tivesse escolhido alguém além de Blythe, essa oportunidade teria sido perdida. Signa digeriu a informação, sem saber em que acreditar. Ele não parecia estar mentindo, mas, novamente, ele era Morte. Provavelmente foi ele quem inventou a trapaça. — Lillian está esperando por mim. — Ela se virou para os portões do jardim. — Lá, dentro do jardim. — O jardim fechado. — E como você pretende entrar? — Mais uma vez, a diversão mais irritante surgiu em sua voz. — Subir pela hera? Acho que vou gostar de assistir isso. Signa o ignorou. Se o que ele disse fosse verdade e ela realmente pudesse possuir seus poderes, então havia um jeito. Se ele pudesse se tornar incorpóreo – se ela pudesse se tornar as próprias sombras – o que a estava impedindo? Sua única hesitação era que ela não tinha certeza de como usar tais poderes. Na noite em que ela matou tia Magda, ela não pretendia fazer nada com a mulher, mas mantê-la longe. — Você pode atravessar paredes? — Signa perguntou, embora achasse que já sabia a resposta. — Eu posso passar por qualquer coisa — veio a resposta de Morte, a voz se erguendo com intriga. — Então, se eu quisesse atravessar o portão do jardim… — Você simplesmente teria que convocar o poder, deixar clara sua intenção e fazê-lo. — E o meu corpo? — ela perguntou. — Permanecerei inteiro ou me transformarei em espírito? A risada da morte foi um estrondo baixo que sacudiu o chão. — Você permanecerá totalmente a mesma. Você só precisaestar aqui comigo, do outro lado do véu. Por que você não tenta? Não era como se ela tivesse outra escolha. Respirando fundo pelo nariz, Signa tentou reunir seus poderes – o que parecia ridículo, considerando que ela não conseguia sentir nada e ainda meio que acreditava que isso era tudo uma mentira inteligentemente inventada – e correu direto para as grossas barras de ferro da porta do jardim. Para sua surpresa, ela não bateu de cabeça no portão. Mas ela também não passou por elas. Pelo menos não inteiramente. As árvores estremeceram e a terra tremeu quando a risada da Morte estremeceu através dos ossos de Signa. Ela nem tinha certeza se ele poderia fazer tal som, embora ao ouvi-lo, ela sentiu o calor subindo por suas bochechas. Pois ela estava presa no portão do jardim, a metade da frente dentro do jardim e a metade de trás ainda com a Morte. Parecia que havia algo duro dentro dela. Metal frio e cortante que ralou contra suas entranhas. Suas mãos tremiam com o erro de tudo, como se ela tivesse sido serrada em duas partes. — Esqueci de mencionar — Morte acrescentou com sua voz clara de prado, — se seus poderes são os mesmos que os meus, então nossas habilidades estão centradas na intenção. Você pode fazer o que quiser, mas se duvidar de si mesmo por um segundo... Bem. — Ele riu novamente, e Signa não pôde deixar de notar que as estrelas piscavam com o som, como se também a achassem ridícula. Quanto poder, ela se perguntou, Morte tinha? Quanto poder ela tinha? Signa apressou-se a enfiar várias outras frutas na boca, não querendo descobrir o que poderia acontecer se ela voltasse a ser totalmente corpóreo neste estado - ou talvez pior, descoberto por Sylas. — Você vai me ajudar — ela sussurrou —, ou vai simplesmente ficar aí e continuar rindo, seu monte de sombra inútil? Lentamente, o riso da Morte cessou. — Vamos, Passarinha. Você só precisa pedir ajuda, e ela será sua. Aborrecimento ferveu dentro dela, transbordando. — Apenas me tire daqui antes… — Antes que suas frutas diminuam e você seja totalmente mortal novamente? Ou antes que aquele garoto te encontre assim? — Embora Signa não pudesse vê-lo, ela se acalmou com o roçar de sombras que esfriou sua pele. — Ninguém se atreveu a falar comigo da maneira que você fala. Por que você é tão educada com os outros? Tão recatada e suave, e ainda tão otimista quando falamos? Peça-me gentilmente, Signa Farrow. Ela revirou os olhos. — Talvez seja porque sempre que você está por perto, alguém sempre acaba morto. — Mas havia mais do que isso. Talvez fosse porque Morte não pudesse existir, porque ele não deveria existir, e Signa não estava totalmente convencida de que ele não fazia parte de sua própria imaginação. Alguém que ela manifestou em sua solidão, como forma de explicar as coisas estranhas que aconteciam ao seu redor. Ou talvez fosse porque Morte era real, e perto dele Signa ficava muito confortável. Com todas as suas pretensões perdidas, suas palavras se tornaram mais afiadas e venenosas. Possivelmente, era porque não havia necessidade de impressioná-lo. Não há necessidade de graças sociais e duvidar de cada pensamento e ação dela. Com ele, não havia fingimento. Talvez isso fosse simplesmente quem ela era. — Você tem me observado? — ela perguntou. — Acho que você faz o tempo passar mais rápido. Caso contrário, eu fico entediado e cansado, e quem mais pode me insultar? — Sua resposta a surpreendeu – Tão descarada, tão ousada. Ela odiava como isso a deixava nervosa. — Considerando que você me acha tão fascinante, é melhor você me ajudar com isso antes que eu solidifique e sangre internamente pelas barras de ferro que estão perfurando meus órgãos. — A morte esperou, quieta e paciente e significativamente mais divertida do que deveria, até que Signa acrescentou amargamente um — Por favor. — Ah, isso é melhor. Fico feliz em ver que você está aprendendo. — Ele estava diante dela então, sombras chegando até ela. Alcançando... Uma mão? Signa nunca tinha visto nada remotamente humano sobre a Morte, mas era de fato uma mão envolta em sombras. Uma mão que hesitou no ar por um momento antes de seus dedos se enrolarem ao redor dos dela. A vida ao redor deles parou, tomando fôlego. E o mundo exalou novamente quando Morte a puxou para o jardim. Treze O jardim não estava tão morto como Signa esperava. A primeira coisa que ouviu ao entrar foi o barulho silencioso da água, acompanhado por um coro de sapos coaxando. O solo era rico e maduro para o outono, com abundância de acônito, crisântemos alaranjados e vermelhos perfumados, amores- perfeitos com um roxo profundo que sangrava em suas pétalas amarelas, hamamélis florescendo e dezenas de plantas impressionantes que ela nunca tinha visto antes. Em frente a eles havia fileiras de ervas amarronzadas e não colhidas e, mais atrás, arbustos de erva-moura. Embora abandonado, o jardim não parecia descuidado como o de tia Magda. Brilhante ao sol poente, este jardim parecia vivo e selvagem com magia. Signa tentou imaginar como seria durante um dia quente de verão, do jeito que Lillian teria gostado com o canto dos pássaros e o zumbido suave dos insetos enquanto ela se deitava na grama, tomando sol. Ou talvez fazendo um piquenique. Lilian, Lilian, Lilian. O nome zumbiu no ar como se o jardim estivesse abrindo caminho para ela, conduzindo Signa adiante. — Foi uma morte pacífica? — Era semelhante à pergunta que Signa havia feito a Sylas. Desta vez, porém, ela foi direto à fonte. A morte permaneceu ao lado dela, e a tensão formigava o ar. — Apesar do que você parece pensar de mim, eu não sou um monstro. Embora a dor nem sempre possa ser evitada, tento tornar a morte pacífica quando posso. Eu não posso levar todos em seu estado mais feliz, mas eu tento. Para sua surpresa, descobriu que acreditava nele. — Então, e quanto a Lilian? — Não me lembro de todas as vidas, Passarinha, pois há muitas, e não posso lhe dizer muito. O que eu sei é que este era seu lugar favorito no mundo, e que ela está enterrada nos fundos, perto do lago. Devo levá-la até ela? Signa estremeceu. — Por favor, faça. A morte conduziu Signa pelo jardim como se ele tivesse viajado para lá centenas de vezes antes. Enquanto seguia, ela se perguntou há quanto tempo Lillian estava doente. Quantas vezes ela esteve tão perto da porta de Morte que ele se sentou neste jardim com ela, esperando para ver se ela finalmente o chamaria? Embora verde de algas, o lago fervilhava de vida. Era um lugar suave, com folhas de bordo caídas e lírios brotando na margem. Pequenos sapos marrons se enterravam no solo úmido ou se escondiam entre os seixos que o revestiam. Na água havia pequenos peixinhos, e de frente para o lago havia dois bancos de carvalho, ambos cobertos de musgo úmido. Atrás dos bancos, enfiado na parte de trás, estava a sepultura repleta de mais musgo e um buquê podre. — Tenha cuidado ao falar com Lillian. — A voz da Morte havia perdido toda a pitada de diversão. — É preciso muita energia dos espíritos, então eles não costumam se comunicar com os vivos. Se um espírito está com raiva o suficiente, porém, ele pode tentar possuí-la. Nunca antes Signa soube que isso era possível. Então, novamente, ela nunca conheceu um espírito tão malévolo como Lillian. Ela teve que se recompor, levando alguns segundos antes de fechar o espaço entre ela e o túmulo. A caminho dela, ela arrancou um dos lírios do caule e cuidadosamente o colocou ao lado do buquê murcho. — Você me disse para vir — sussurrou Signa, batendo a mão no solo. — Aqui estou, Lilian. Venha e me diga o que você quer. Seu coração acelerou quando o frio inundou sua pele como mil agulhas a esfaqueando. A bile queimou sua garganta. Quando ela olhou para cima, Lillian estava flutuando na beira da água. Sua boca não era mais um buraco negro escancarado; seus lábios estavam cheios agora, e em forma de coração.Estava coberto de bolhas e feridas, e Signa tinha certeza de que a língua da mulher ainda seria uma massa carnuda de carne podre se ela tentasse falar, mas no final das contas, ela parecia mais humana. Supondo que os humanos pudessem brilhar em branco azulado e pairar acima do solo. Morte deu um passo à frente, oferecendo a mão ao espírito, mas ela se afastou de seu toque como se fosse veneno, resistindo ao seu chamado. Sua oferta de vida após a morte. — Você não pode simplesmente levá-la? — Signa perguntou, e Morte endureceu, como se a sugestão por si só fosse vergonhosa. — Eu não farei tal coisa contra a vontade dela. Ela virá quando estiver pronta. — Ele inclinou a cabeça e, com isso, recuou para suas sombras. Quando eram apenas as duas, os lábios de Lillian se curvaram em um sorriso fino. Mas seus lábios estavam muito rachados e em carne viva para lidar com o movimento, e uma das feridas se abriu, escorrendo um rastro de sangue preto pelo queixo. Se o espírito notou, ela não se importou. Signa estava feliz que nenhum dos Hawthornes pudesse ver Lillian assim. Tudo nela era um lembrete de que os mortos não pertenciam ao mundo dos vivos. Lillian aterrorizaria até mesmo aqueles que mais a amavam. — Lillian — Signa sussurrou. Se o espírito não fosse capaz de usar palavras, elas precisariam manter isso simples. — Você percebe que está morta? Pela experiência dela, muitos espíritos nunca reconheceram esse fato e continuaram agindo como se ainda estivessem vivos. No entanto, para sua surpresa, Lillian assentiu. Bom. Este foi um bom começo. — Os médicos disseram que era uma doença. Você ficou doente por muito tempo? O rosto do espírito se contorceu, uma mudança sombria em seu comportamento. Ela flutuou até o túmulo e se abaixou até a hera que cobria o chão, pegando um pedaço dela com as duas mãos. Olhando para Signa sob os cílios iridescentes, Lillian nem piscou enquanto o rasgou em pedaços, até que os músculos da garganta de Signa se contraíram. — Morte — Signa chamou, embora ela nunca tirou os olhos de Lillian. — Você sabe como Lillian morreu? Você viu a doença? Ele tomou forma, encostado em uma árvore, e respondeu com um tom que não dizia nada. — Receio não saber nada mais do que ela. Ele foi de grande ajuda. Ela gemeu, tentando acalmar seu coração acelerado enquanto Lillian continuava rasgando a hera, então olhou um seixo perto de seu túmulo. Lillian agarrou-o e com mãos trêmulas esculpiu uma única palavra na terra, a escrita tão confusa que mal era legível: matar. Tão reconfortante foi a palavra que precisou de cada grama de determinação que Signa tinha para se manter firme mesmo quando sua mente a incitava a correr. — Você... matou alguém? — ela perguntou, ao que Lillian fez uma careta. O espírito apontou para as feridas em seus lábios, depois para si mesma, e Signa engasgou quando percebeu. Se Lillian estava dizendo o que Signa achava que ela era... a situação ia mudar muito e ser muito mais complicada do que Signa queria. Parte dela ansiava por se virar e escapar agora, antes que eles fossem mais longe. Antes que ela aprendesse um segredo que ela não se importava em aprender. Mas Signa não conseguiu se afastar. Não conseguia fazer seus pés se moverem, mesmo que ela quisesse. Então, em vez de fugir, ela se forçou a perguntar: — Lillian, você está tentando me dizer que foi morta? Jogando a pedra, Lillian virou-se para Signa com um aceno fervoroso. Imediatamente, Signa começou a juntar as peças. A morte súbita, as visitas médicas fracassadas, o espírito raivoso e agora… — Blythe. Está acontecendo de novo, não é? O que quer que... quem quer que tenha te matado está de volta para sua filha. Isso está certo? Lillian piscou para longe, então reapareceu ao lado de um pequeno arbusto de frutas no lado oposto do jardim. Signa correu em sua direção e abriu o punho, onde ainda segurava um pequeno punhado de frutas, agora meio esmagadas nas palmas das mãos. Ela os estendeu na direção de Lillian, cujos olhos ficaram pretos quando Signa perguntou: — Veneno? Você acha que foi envenenado? O espírito de Lillian balançou com uma contração violenta. Reprimindo seu tremor, Signa se atreveu a acrescentar: — Foi por alguém em Thorn Grove? Outro estremecimento violento. As feridas nos lábios de Lillian infeccionaram, passando de roxo a um preto vicioso antes de se abrirem com o sangue que escorria de seus lábios, descia pelo queixo e sujava a parte superior de seu vestido. Seu corpo estremeceu, a cabeça balançando em um aceno furioso e aterrorizante. — Quem? — Signa exigiu quando os olhos de Lillian brilharam. — Foi um dos cozinheiros? Uma empregada? O tutor? Era alguém em quem você confiava? — É o suficiente! — A morte estava lá ao lado de Signa, suas sombras a consumindo, puxando-a de volta. — Não pressione os mortos, Signa. Ela não sabe. Seu aviso veio tarde demais. O pescoço do espírito se curvou e estalou enquanto ela o empurrava de uma direção para outra, tremendo, balançando a cabeça, torcendo-se. O sangue jorrou da boca de Lillian, e o luar pegou a polpa de sua língua desfiada quando ela jogou a cabeça para trás e gritou um som tão estridente e áspero que fez Signa cair de joelhos. O vento açoitava a água do lago e jogava os sapos coaxantes nas árvores, manchando os galhos limpos com seu sangue. A morte estava diante dela, suas sombras como armaduras bloqueando-a da carnificina. — O que está acontecendo? — Signa rangeu as mãos, apertando os ouvidos com força enquanto tentava ver ao redor dele. — Você foi longe demais. — A escuridão se expandiu ao redor deles, criando uma barreira. — Espíritos rebeldes não são feitos para relembrar seus momentos finais. Você nunca sabe como eles podem reagir. Signa se inclinou nas sombras para ver Lillian chegar no fundo de sua própria garganta e agarrou o monte horrível que era sua língua. Ela cravou as unhas sujas e manchadas de terra nele, arrancando pedaços de carne. Ela jogou os montes ensanguentados no chão e depois foi para outro, como se tentasse remover sua própria língua em sua totalidade. Mas então o vento acalmou, e o pescoço de Lillian torceu de volta ao seu devido lugar. Seus olhos se voltaram para Signa, para os pedaços de sua língua que já estavam desaparecendo. Para as árvores manchadas de sangue onde vários sapos jaziam empalados. Ela olhou para a Morte então, e lágrimas inundaram seus olhos, negras e sangrentas. E então Lillian se foi, e a estática no ar se seguiu. Morte retraiu suas sombras ao redor dela enquanto Signa se agarrava à árvore mais próxima e vomitava. Havia uma frieza em seu corpo que ela não conseguia reprimir, e suas mãos tremiam enquanto ela as pressionava contra o tronco para se firmar. Fora do jardim, Mitra relinchou ao som de outro par de cascos ao longe. — É hora de ir — foi tudo que a Morte disse enquanto segurava o ombro dela, puxando Signa de pé e de volta pelo jardim. — Você sabe quem fez isso? — As palavras saíram dela, um pouco arrastadas. — Se eu soubesse, diria a você. Não sou onisciente, Signa. Quando toco uma pessoa, vejo vislumbres da vida que ela viveu. Mas eu só sei o que eles sabem e, embora Lillian suspeite de um crime, ela não sabe quem está por trás disso. — Gundry pateou do lado de fora do portão. Ele parou de cheirar imediatamente e olhou para cima, a língua pendendo para fora quando viu Signa tropeçar pelo portão. Ele olhou para a Morte também, e seu rabo começou a abanar. — Ele pode ver você? — Depois de tudo que ela tinha visto naquele dia, ela não tinha certeza por que era tão surpreendente. Ela já tinha visto espíritos interagindo com animais antes, mas Morte sempre pareceu um passo além disso. Como alguém que nem deveria ser real. — Todos os animais podem me ver — disse Morte, dando um tapinha na cabeça do cão. Ela quase pensou que podia ver uma sugestão de sorriso espreitando de suas sombras, masquando Signa piscou novamente, ele se foi. Havia tanto. Tanto que ela não sabia. Tanta coisa acontecendo que ela mal conseguia processar. Ela tinha os poderes de Morte. Lillian foi assassinada. E agora, para salvar Blythe, cabia a Signa descobrir quem tinha feito isso. Quatorze Sylas encontrou Signa encostada em Mitra, segurando as rédeas para se manter de pé. O cabelo de Sylas estava despenteado e salpicado de galhos, como se ele tivesse caído nos arbustos. Abaixo dele, Balwin parecia encantado e nem um pouco sem fôlego. — Senhorita Farrow! — Sylas exalou uma respiração aliviada. — Você não deveria ter saído assim! — Não é minha culpa que você não conseguiu acompanhar — ela conseguiu. Ela enxugou a boca com o antebraço e respirou fundo o ar frio, deixando-o inundar seus pulmões e esfriar sua pele. Ela não tinha percebido antes que interagir com um espírito lhe custava tanto, mas como era, ela mal conseguia levantar as mãos. Ela não podia mais sentir Mitra ali ao lado dela, segurando-a. Ela não podia mais sentir nada. — Signa? — A voz de Sylas estava fraca. — Você está doente? — Sim — ela conseguiu dizer. — Eu acredito... eu acredito que devo ter comido alguma coisa ruim. — Ela não conseguia parar de tremer, não conseguia parar a pressão do frio dentro de seus ossos. Não conseguia pensar em nada além de como eles precisavam se apressar porque o assassino de Blythe estava à solta em algum lugar dentro de Thorn Grove. Signa gemeu quando Sylas a puxou para cima de Balwin. Ela teve vontade de protestar quando os braços dele envolveram sua cintura para prendê-la na frente dele na sela, embora ela mal pudesse ver direito. Ela tentou não vacilar com seu toque. Tentou aceitar a ajuda e se permitiu lembrar que não podia machucar ninguém agora que a belladonna havia desaparecido de seu sangue. — Se você vai por suas tripas para fora — ele a avisou —, certifique-se de que não seja nas minhas botas. Ela não prometeu. Parecia que alguém tinha pegado um taco de críquete e a espancado na têmpora. Seu estômago ameaçou esvaziar-se a qualquer momento, e embora Sylas tivesse tirado sua capa e a colocado sobre ela, ela não conseguia parar de tremer. — O que aconteceu com você? — Por mais gentis que fossem suas ações, a voz de Sylas tinha um tom duro. — Você fica doente assim com frequência, ou apenas quando desaparece para brincar na floresta? — Eu dificilmente chamaria isso de brincadeira — Signa rebateu, enrolando os dedos na capa oferecida. — E não, isso não acontece com frequência. Acho que vi alguma coisa na floresta. — Ela decidiu colocar um pedaço de verdade em sua próxima declaração, apenas o suficiente para soar um pouco confuso. — Parecia que algo na floresta estava me chamando. Com o peito dele contra as costas dela, ela podia sentir o corpo dele ficar tenso contra o dela. Suas bochechas se aqueceram, e ela tentou não pensar na inadequação desta situação ou quão fortes eram suas coxas ao redor dela, e em vez disso pensou em como ele não parecia estar respirando. — Algo está errado? — Não é nada que você deva se preocupar… — Eu posso julgar isso por mim mesma — ela o cortou, sentindo-se corajosa com Sylas de uma forma que ela não costumava ser. — Seja o que for, me diga. Houve um momento em que o único som era o estalar das folhas sob os cascos dos cavalos. Signa se virou para olhar para ele, e quando seus olhos esfumaçados encontraram os dela à luz fraca do luar, sua boca ficou seca. Tudo sobre este homem a deixou nervosa quando eles se conheceram. Agora, no entanto, as coisas eram frustrantemente o oposto. Sua atenção caiu para a túnica que estava enrolada em seus braços, para seus ombros largos, para baixo do decote profundo que revelava um vislumbre de seu peito... E então ela desviou os olhos como a jovem adequada que ela era e fingiu que não deixou sua pele quente ao mesmo tempo que a fez querer esmurrá-lo. Sylas, felizmente, não pareceu notar sua luta. — Há rumores sobre Thorn Grove. — Seu sussurro era tão enervante quanto a floresta escura que os cercava. — Rumores que eu queria te contar no dia em que te peguei, mas não sabia como. Se você tivesse outro lugar para ir, eu poderia ter dito. — Eles tiveram que se abaixar sob os galhos que os arranhavam, e quando um deles ameaçou rasgar a manga de sua capa emprestada, ele parou para ajudá-la a desembaraçá-la com dedos hábeis. No momento em que foi libertada, ela balançou para frente na sela e limpou a garganta. — Você estava dizendo? — Ela só podia rezar para que sua pele não estivesse rosada. Ele franziu a testa um pouco, mas continuou, no entanto. — Eu estava dizendo que, à noite, os criados dizem que podem ouvir uma mulher chorando. Alguns se recusam a vagar pelos corredores depois de escurecer, pois há sussurros de um fantasma. Uma mulher loira de vestido branco, observando-os em um momento e desaparecendo no outro. E Mestre Hawthorne… Ele é o pior. Acho que ele a ouve também. Acho que é por isso que ele não dorme, não come, não faz mais nada. — Além de saraus — acrescentou Signa. Os mais luxuosos e ousados que ela já tinha ouvido falar. — Para abafar o som de seus gritos, eu imagino — Sylas defendeu. — Para mantê-la afastada e esquecer. Conheço os Hawthornes há muito tempo e garanto que ele nem sempre foi assim. Eles sabiam sobre o espírito de Lillian, então. Eles podem não ter sido capazes de vê-la, mas eles sabiam que ela estava lá. O corpo de Signa caiu contra o dele quando ela soltou um suspiro. Ela estava tão aliviada que, se tivesse energia, teria jogado os braços em torno de Balwin e o beijado entre os olhos. A Morte lhe dissera que havia pessoas que podiam ver vislumbres por trás do véu dos vivos. Embora eles provavelmente não pudessem ver Lillian como ela podia, eles sabiam que estavam sendo assombrados. Se alguém suspeitasse de Signa de ver o espírito de Lillian, eles não piscariam. A sorte, ao que parecia, finalmente decidiu fazer algum favor a ela. — E você? — Ela estava se tornando confortável demais contra Sylas, mas não podia fazer nada sobre isso enquanto a exaustão afundava em seus ossos. — Você acredita em fantasmas, Sr. Thorly? — Não me tome por um tolo, Srta. Farrow. Em um lugar como Thorn Grove, como não poderia? As palavras eram como música de fadas; Signa nunca tinha ouvido nada tão doce. — Então você vai entender quando eu disser que fui forçada a sair da propriedade e entrar na floresta esta noite. — Seja qual for o seu motivo, você precisa ser mais cuidadosa. Você não parou de tremer desde que te encontrei. — Ele ajustou a capa que tinha jogado ao redor dela para dar ênfase. — Se for descoberta que isso aconteceu e que eu não denunciei, vou perder meu emprego. Minha lealdade não é com você, mas com meu patrão. Então, se você quer que eu corra esse risco, terá que me dar uma boa razão. Signa desejou que seu cérebro criasse uma história tão crível e tão magistralmente contada que ela seria capaz de escapar da situação, mas suas têmporas doíam e sua boca queimava com o desejo de apenas dizer isso. Para contar a outra pessoa o que estava acontecendo, para que ela não tivesse que fazer isso sozinha. Havia algo em Sylas e na maneira como ele falava – tão factual e direto – que fez Signa sentir como se ele pudesse acreditar nela. Foi pela mesma razão que, ao redor dele, suas pétalas se abriram um pouco. Ela tinha sido capaz de falar o que pensava para ele sem que ele fugisse. Sem mencionar que Sylas já havia admitido acreditar que o espírito de Lillian estava assombrando a propriedade Hawthorne. A respiração que ela deu foi tão forte que Mitra abanou as orelhas. — Se eu contar — sussurrou Signa —, você deve jurar não contar a outra alma. Sylas, ao que parecia, era tão dominado por sua curiosidade quanto Signa. Com um sorriso na voz, ele se inclinou para ela e disse: — Eu prometo. — Para ninguém? Não importa se vocême acha ridícula? — Eu já acho que você é ridícula — ele meditou antes de Signa se virar e encará-lo com um olhar. — Tudo bem, sim, eu concordo em não contar a um única alma nesta terra, seja o que for que você tem a dizer. Agora, você vai continuar com esse suspense? Diga logo. — Eu queria encontrar o túmulo dela. Ele a encarou brandamente. — Você está fascinada com o macabro, Srta. Farrow? Não havia uma maneira simples de dizer isso. Signa fez a única coisa que podia – endireitou os ombros e disse: — Tenho motivos para acreditar que Lillian não morreu de causas naturais. Que ela foi assassinada, e se nós não descobrirmos quem fez isso, Blythe vai morrer também. Por um longo tempo, o pio distante de uma coruja foi sua resposta singular. Signa se encolheu enquanto ouvia, esperando enquanto cruzavam os pântanos que Sylas fugisse para o médico mais próximo e pedisse que ela fosse levada. Para sua surpresa, porém, a primeira coisa que ele perguntou foi: — Nós? Signa passou os dedos pela crina de Balwin. Ela não queria dizer isso, mas agora que ela tinha... Estava ficando claro que esta era uma situação maior do que qualquer coisa que ela pudesse lidar sozinha. Ela precisava de ajuda, e Sylas conhecia Thorn Grove. Ele sabia sobre os Hawthornes e tinha acesso aos funcionários de uma forma que ela nunca teria. Ele poderia ajudar. Ela foi poupada de ter que responder até que eles chegassem aos estábulos. Enquanto ele a ajudava a sair de Balwin, ela pegou Sylas pela mão. Ele estremeceu e, por um momento, Signa temeu que os efeitos da belladonna ainda fossem potentes. Que talvez ela ainda tivesse acesso a seus poderes e tivesse roubado sua vida. Mas ambos usavam suas luvas, e ele estava piscando para ela com olhos escuros e curiosos. — Eu preciso que você me diga tudo o que sabe sobre os Hawthornes — ela insistiu, percebendo que sua excitação ficava cada vez maior quando Sylas se inclinou para pressionar rapidamente um dedo em seus lábios, o toque íntimo o suficiente para que sua boca ficasse seca. — Senhorita Farrow, eu trabalho nos estábulos. — Ele olhou para trás dela, assegurando-se de que ninguém estava olhando enquanto a puxava para dentro. — Não é minha função fofocar sobre aqueles que me pagam… — Eu vi suas botas, Sr. Thorly. Eu vi a maneira como você se veste, e é evidente para qualquer um que olhe para você que você quer ser mais do que um cavalariço. — Algo em seus olhos brilhou. Algo em que Signa se agarrou e empurrou. — Imagine o que poderia acontecer se você salvasse Blythe. Se você acabar com as assombrações de Lillian e der paz de espírito a Elijah. Se você entrar nos estábulos depois disso, será para montar seu próprio cavalo. Você nunca mais terá que trabalhar. Sylas desfez as rédeas e as selas dos cavalos, e sua testa franzida disse a ela o quanto as engrenagens em sua cabeça estavam girando. — Se você for descoberto e demitido por qualquer motivo — ela acrescentou para adoçar o acordo —, eu mesma o empregarei no momento em que reivindicar minha herança. Use sua posição para me ajudar, Sr. Thorly. Seja meu confidente, seja meu ouvido, e seu futuro será muito mais do que trabalhar nos estábulos. — Você tem uma língua esperta — ele respondeu. Com os cavalos presos em suas baias e seus equipamentos guardados, ele se apoiou em cima de um fardo de feno e perguntou: — Você me pagaria do seu próprio bolso para ajudá-la a resolver um assassinato para uma família que você acabou de conhecer? — Os Hawthornes foram gentis comigo — disse ela, apesar de seu escrutínio, olhando para a pequena cicatriz em sua testa. — Além disso, não é como se eu estivesse querendo dinheiro. Sua risada foi pouco mais do que um suspiro confuso. — Suponha que você tem um ponto. Muito bem, então. Você tem um acordo, Srta. Farrow. Ela tentou não deixar sua surpresa aparente. Ela sempre soube que o dinheiro tinha poder. Era tudo neste mundo. No entanto, esta foi a primeira vez que ela experimentou por si mesma o quanto isso valia. Ela se permitiu um pequeno momento para relaxar os ombros e sentir seu alívio pelo fato de que ela não estaria mais sozinha nisso. Ela sabia muito pouco sobre os Hawthornes e tinha muito pouco tempo para lidar com isso sozinha. Ela precisava de alguém como Sylas, e havia muito para ele ganhar também. Dinheiro sempre foi o que as pessoas queriam dela, e se era isso que precisava para conseguir sua ajuda, então que assim fosse. — Diga-me tudo o que você sabe — ela o incitou novamente. — Existe alguém que não gostou de Lillian? — Havia uma sociedade inteira que não gostava de Lillian. — Ele passou a mão pelo cabelo, escuro como a noite. — Você mesmo viu a riqueza da família. E aposto que você já viu o que o ciúme e a ganância podem fazer com um ser humano. As pessoas não precisavam conhecê-la para não gostar dela. Com grande amargura, ela pensou no que havia acontecido com seus pais, depois em todas as maneiras como seus guardiões a trataram ao longo dos anos. Embora sua amiga Charlotte tivesse feito o tempo que ela passou com seu tio cheio de boas lembranças, quanto mais velha ela ficava, mais ela pensava em quantas vezes ele a deixou sozinha. Sobre como ele usaria o dinheiro destinado a cuidar dela em roupas importadas e presentes luxuosos para suas amantes. Ela passou a maioria das noites trancada em seu quarto, tentando abafar os ruídos estranhos dos convidados que ela nunca teve permissão para ver. Só a avó de Signa a amara de verdade, enquanto os outros ansiavam apenas por sua fortuna. Alguns deles tinham sido decentes o suficiente para mantê-la alimentada e aquecida, mas ela nunca se sentiu como uma pessoa para eles. Nunca sentiu nada além de uma garota invisível arrastando uma quantia considerável atrás dela. Vendo a resposta em seu rosto, Sylas assentiu. — Lillian era uma mulher maravilhosa, mas os Hawthornes sempre serão um alvo, não importa quão gentis sejam. Há pessoas que matariam por dinheiro, Signa. Pessoas que vão transformar mentiras em palavras doces e sorrisos ainda mais. Você seria sábia se lembrasse disso. Ela duvidava que isso fosse um problema. Houve momentos em sua vida que estranhos mostraram sua bondade, certamente. Até que a vissem conversando com um espírito ou ouvissem os rumores e fugissem. Mesmo quando ela tinha sua herança, ela não podia imaginar isso mudando a menos que ela conseguisse um marido adequado e fizesse um nome para si mesma na sociedade. Poderia? — Se o que você está dizendo é verdade — disse Signa —, então por que eu deveria confiar em você? Você concordou em receber meu dinheiro rápido o suficiente. Sua resposta foi simples. Inabalável. — Você não deve confiar em ninguém além de si mesma, Srta. Farrow. Mas pelo bem de Blythe, eu vou te ajudar. Antes de mais nada, precisamos levá-la de volta a Thorn Grove sem levantar suspeitas. — Sylas se levantou e ofereceu sua mão enluvada. Com os ombros tensos, Signa aceitou. Ele a levou para uma baia onde seu cão, Gundry, estava enrolado no feno. O cão rosnou quando Sylas o chamou de lado e se inclinou para tirar vários fardos de feno do caminho. Signa não pôde deixar de notar a contração dos músculos das costas enquanto trabalhava, aproveitando sua distração como uma oportunidade para observar o físico masculino. Ela encontrou seu interesse nele despertando cada vez mais — Pressione sua mão contra esse painel. — Havia um muro de pedra escondido atrás de onde o feno estivera. Signa seguiu suas ordens e apertou a pedra. Ele clicou e mudou sob sua mão. — Agora vire — disse ele. Quando ela o fez, a parede se abriu para revelar um caminho banhado em escuridão. Sem luzes, sem som, apenas um rascunho e um labirinto sem fim à frente. Sylas agarrou uma lamparina a óleo em uma das bancadas do estábulo. Gundry levantou-se, espreguiçou-se com um bocejo e caminhou até o lado de seu mestre. — Alguém lhe mostrou os túneis em ThornGrove? Enquanto Sylas ergueu a lâmpada, Signa olhou para o nada diante dela. Os pelos de seus braços se arrepiaram. — Nunca. Para onde eles levam? — Esses? Para a despensa da cozinha — Sylas respondeu. — Embora eu tenha certeza de que há mais uma dúzia de caminhos, conheço apenas alguns. Eu não acredito que eles sejam usados mais, mas este era para ser uma rota de fuga para os servos em caso de incêndio na cozinha. Há outros que os criados costumavam manter fora da vista dos que moravam na mansão. Os túneis são escuros, mas eles vão te levar para dentro da propriedade sem ser detectada. Se alguém a encontrar saindo da cozinha, diga que você estava perambulando pela propriedade e se perdeu, e se viu precisando de um lanche tarde da noite, já que perdeu o jantar. — Agora — ele se abaixou sob a entrada e entrou no túnel, estendendo a mão — você confia em mim para acompanhá-la? As palavras pareciam uma armadilha. Sylas a avisou para não confiar nele. Não confiar em ninguém. E ainda assim ela o alcançou, ansiosa para sentir o roçar de sua mão sobre ela mais uma vez. — Nem um pouco. — Muito bem, Srta. Farrow. Agora vamos indo. — Seus dedos se curvaram ao redor dos dela, e ele a puxou para dentro dos túneis. De acordo com Sylas, as festas em Thorn Grove não eram raras. — Ela adorava poucas coisas mais do que companhia e um motivo para comemorar — disse ele enquanto davam passos lentos e cautelosos pelos túneis. A maneira como ele falou de Lillian fez Signa imaginar alguém muito maior do que o espírito fantasmagórico que ela encontrou. Isso a fez pensar em como ela imaginou sua própria mãe – como alguém feito para os holofotes. O tipo de mulher que ganhava vida sob o brilho das luzes e da música. Alguém cujo corpo foi feito para usar um vestido de baile e cujo sorriso encantou a todos que o viram. Isso tornou mais fácil acreditar em Sylas quando ele disse que todos que conheceram Lillian se apaixonaram, e que Elijah não era diferente. — Há rumores de que ele nem sempre foi conhecido por seu cavalheirismo, ou por ser um homem que pertencia a apenas uma mulher — ele sussurrou. —, isso mudou quando ele conheceu Lillian. — O assassino poderia ser uma de suas ex-amantes desgastadas? — Signa apertou os olhos, usando o brilho fraco da lâmpada que Sylas segurava para ver para onde ela estava indo. — Pode ser. — Ele levantou a lâmpada mais alto, tentando espalhar melhor sua luz. — Ouvi dizer que o irmão de Elijah favoreceu Lillian também, embora era raro encontrar uma alma que não o fizesse. Lillian sempre disse que Thorn Grove era um lugar magnífico demais para se manter só para eles. Os hóspedes entravam e saíam constantemente. Signa assentiu, embora em seu íntimo ela soubesse que havia mais do que isso. Lillian tinha morrido envenenada, sozinha em seu jardim. Se havia uma coisa que Signa sabia sobre a belladonna, era que a morte vinha rapidamente se o suficiente fosse consumido. No entanto, Lillian estava doente há meses, o que significava que alguém estava lhe dando veneno em pequenas doses, hábil o suficiente para tornar sua morte lenta e dolorosa. Eles não estavam procurando um transeunte aleatório com antipatia pelos Hawthornes; eles estavam procurando por alguém com tempo para precisão. Alguém com acesso frequente à propriedade. — Algum funcionário guarda rancor contra Lillian? — ela perguntou, reorganizando as peças do quebra-cabeça em sua cabeça. — Não — Sylas respondeu com confiança. — Todo mundo que trabalhou em Thorn Grove durante seu tempo aqui amava Lillian. Signa não tinha certeza se acreditava que alguém pudesse ser tão amado e admirado. Certamente, a mulher deve ter brigado com alguém. — E Elias? Sylas balançou a cabeça e considerou. — Eles gostaram menos dele. Não que eles não gostassem dele; Elijah sempre foi um homem de negócios em primeiro lugar, e todo o resto em segundo lugar. Ele passava a maior parte do tempo em seu escritório ou no clube de cavalheiros. Signa se lembrou de uma pessoa que claramente não gostava de Elijah. Signa não passou despercebido como Marjorie acariciou seu braço, ou como ela falou com ele com uma familiaridade imprópria para um membro da equipe. Mas isso não provou nada. Se algo estava acontecendo entre Marjorie e Elijah, poderia ser um novo desenvolvimento. Signa apoiou uma mão na parede do túnel para se equilibrar, seus pensamentos correndo rápido demais para prestar atenção em seus passos. — Conte-me mais sobre o trabalho dele. — Grey's é um negócio de família — respondeu ele. — Acho que os Hawthornes estão tão empenhados nisso pelo orgulho, mais do que qualquer coisa. Foi iniciado pelo bisavô de Elijah, Gray Hawthorne, e está na família há gerações, permitindo-lhes acesso a algumas das pessoas mais ricas dentro e fora do país. Como filho mais velho, Elias herdou de seu pai. Ele administra com seu irmão, Byron, e um dia passará para Percy. Levou um momento para Signa lembrar o nome; para ela se lembrar do homem que havia parado ela e Marjorie nas escadas na primeira noite em Thorn Grove. Aquele que tinha tirado a nitidez da língua de Marjorie — Byron. Era o irmão de Elijah com quem Percy estava falando naquela noite. O mesmo irmão que favoreceu Lillian. — Byron não tem filhos? — Mesmo se ele tivesse, Percy é o mais velho de Elijah e tudo vai para ele — disse Sylas. — Mas não. Ele nunca se casou. Mais e mais peças de quebra-cabeça se misturavam em sua cabeça, nem um único par delas se encaixando. Havia mais em tudo isso, algo que Signa não estava vendo. Felizmente, esta foi apenas a segunda noite. Agora que ela aceitou a tarefa de Lillian, talvez ela tivesse uma chance de dormir sem que o espírito a incomodasse. Pensar e checar Blythe para descobrir como o veneno estava sendo administrado. — Eu conheci Byron na minha primeira noite aqui — Signa mencionou. — Ele parecia zangado, embora eu nunca tenha entendido o porquê. Sylas agarrou as costas da capa emprestada de Signa e a guiou para o lado antes que ela pudesse tropeçar em um pequeno buraco. Ele fez isso sem esforço, e Signa ficou feliz por ele não conseguir ver seu constrangimento na escuridão. Ela olhou de lado para o cabelo preto dele espalhado ao redor dele como uma auréola escura, notando novamente o quão grande ele era. Como um tronco de árvore ambulante, na verdade. Um tronco de árvore com músculos. Foi surpreendente. — Elijah não voltou ao clube desde a morte de Lillian — ele disse, o canto de seu lábio se contraindo quando ele pegou Signa olhando. — Houve rumores de que ele não está mais apto a dirigi-lo, mas sua propriedade pertence exclusivamente a ele e se recusa a deixar Byron assumir. Se o que Sylas disse era verdade, então talvez seja por isso que Byron esteve em Thorn Grove, conversando com Percy, na noite em que ela chegou. Seu relacionamento com Percy era uma maneira de assumir o controle do negócio? Ela estava prestes a fazer a pergunta em voz alta quando a ponta de sua bota atingiu a ponta de outro buraco no chão. Ela deveria ter tropeçado – ela sentiu o impulso de si mesma caindo e se preparou para o impacto – mas Sylas estava lá antes dela, usando sua mão livre para apoiá-la pelos ombros enquanto seu rosto batia em seu peito. Por um longo momento ela ficou congelada no lugar, contemplando se esta era uma condição apropriada sob a qual ela poderia fingir sua própria morte para evitar mais mortificação. Eventualmente, ela decidiu que valia a pena o constrangimento de olhar para ele, lentamente, apenas para cada osso de seu corpo se contrair quando ela viu que seus olhos cinza esfumaçados estavam olhando de volta para ela. — Você nunca olha para onde está indo? — Sua voz era baixa e viva. — Você poderia ter se machucado. — Estou muito bem, obrigada. — Tão perto, ela não podia deixar de olhar para o leve punhado de sardas que estavam empoeiradas sob seus olhos. — Então você se importariade me soltar? Chegamos. Não tendo percebido que estava com as mãos em punho na camisa dele, ela o soltou imediatamente. O fato de ela não ter simplesmente derretido no chão de pura vergonha era uma verdadeira prova de sua incapacidade de morrer. — Obrigada por me acompanhar, Sr. Thorly — anunciou Signa enquanto se afastava e alisava o vestido. — Vou tentar visitar Blythe amanhã e ver o que consigo descobrir. — E eu vou revistar a cozinha hoje à noite e falar com os cozinheiros. — Ele inclinou a cabeça para ela, sua bochecha direita exibindo uma covinha que Signa não havia notado antes. — Se eu encontrar alguma coisa, entrarei em contato com você.— Havia uma porta diante deles, pequena e embutida na parede. — Isso vai levar você para a despensa — disse ele. — Durma bem, Srta. Farrow. Tenha certeza, vamos chegar ao fundo do que está acontecendo em Thorn Grove. Quinze Signa empurrou um saco de batatas quase do mesmo tamanho que ela para se agachar pela pequena abertura da despensa da cozinha. Quando ela o empurrou para o lado, ele tombou e jogou quase uma dúzia de batatas no chão. No silêncio da noite, seu tombo parecia alto o suficiente para abalar todo Thorn Grove. Ela amaldiçoou sua pobre sorte enquanto colocava tudo de volta no lugar, escondendo a porta do túnel da despensa. Arrancando as luvas, ela as enfiou no corpete e tentou parecer pelo menos meio pronta para dormir caso alguém viesse buscá-la. Quando ninguém o fez, Signa juntou as saias e saiu na ponta dos pés pela cozinha e passou pela sala. Ela chegou à beira da escada quando uma voz rouca chamou: — O que diabos você está fazendo a esta hora? Signa se virou para encontrar Elijah Hawthorne olhando para ela pela porta aberta da sala. Ele estava vestido com sua camisola, embora a exaustão em seu rosto deixasse claro que ele não tinha dormido. Talvez não há alguns dias, dadas as sombras sob seus olhos. Ela embrulhou sua capa emprestada mais apertada, grata à escuridão por escondê-la. Um olhar para suas saias enlameadas e Elijah perceberia que Signa ainda não tinha ido para a cama. — Boa noite, senhor. — Sua mente correu através de uma lista de todas as desculpas possíveis, todas pesando em sua língua. — Eu estava tendo problemas para dormir. — Então você começou a vagar? — Seus olhos inteligentes piscaram atrás dela, em direção à cozinha, e o sangue de Signa gelou – ele sabia. Ou pelo menos ele suspeitava. Esta era a sua casa, afinal. Ele provavelmente conhecia cada um dos túneis. No entanto, se Elias percebeu, ele não disse nada sobre isso. Em vez disso, ele acenou para Signa para onde ele estava sentado em uma pequena mesa redonda diante das paredes amarelo- manteiga. Embora Signa detestasse a cor, ela tinha que admitir que o quarto era aconchegante no geral, o que dizia muito, já que ela podia admirá-lo mesmo sob o peso da severidade de Elijah. — Venha se sentar, criança. — Havia um tabuleiro de xadrez diante dele e, quando Signa se juntou a ele, ele ajustou as peças. — Você joga? — Eu jogo — ela respondeu sem especificar que ela só jogou contra si mesma. Ela tinha a sensação de que havia uma resposta correta e não queria arriscar perder a oportunidade de falar com o homem pelo qual ela estava mais curiosa. E então ela pegou as peças pretas, tomando cuidado para manter as saias enfiadas sob o manto. — Eu entendo a incapacidade de dormir. — Elijah a deixou fazer o primeiro movimento, não a olhando enquanto observava o tabuleiro. — Esta não é uma casa acolhedora, eu temo. Embora eu deva adverti-la contra qualquer exploração, especialmente em horas tão tardias. As noites nesta mansão costumam ser difíceis para os fracos de coração. Signa esperou que ele movesse sua peça para o meio do tabuleiro, então moveu a sua antes de responder. — Estou ciente dos rumores, mas tenho certeza de que meu coração não está fraco. Esses fantasmas são a razão de você estar acordado também, senhor? Havia um carranca em sua mandíbula. Um tão rápido que ela teria perdido se não o estivesse observando tão de perto. — Você a ouve também, criança? — Ele pulou uma de suas peças, capturando o meio do tabuleiro. — Você a ouve chorando? Não importa o quanto ela se esforçasse, ela não conseguia ouvir nem mesmo um sussurro de barulho dentro de Thorn Grove. — Não ouço ninguém, senhor. Não no momento. Elijah não se incomodou enquanto ela tentava cercar suas peças. — Então, você vê o problema. Não consigo dormir quando a ouço vagando, assombrando esses corredores, e ainda assim não consigo fechar os olhos em sua ausência, pois me pergunto se algum dia a ouvirei novamente. Ele capturou outra peça de Signa em sua distração, pois na escuridão das sombras ela finalmente viu com quem estava lidando - não um tolo, como ele parecia na primeira vez que o viu, nem um bêbado, mas um homem que estava desfiando nas costuras. Alguém que mal conseguia se manter unido. Elijah passou a mão pelo rosto, sua nuca grisalha muito longa e indomável para os padrões da sociedade. Tarde demais, ela percebeu que, mesmo nesse estado, Elijah era quem conduzia essa conversa. — Se eu sentisse que havia uma escolha, nunca teria escolhido outra protegida. — Ele não olhou para ela, mas para as peças colocadas diante dele, como se estivesse montando seu próprio quebra-cabeça. Signa foi pega de surpresa pela amargura que sentiu com as palavras dele. Fazia sentido que Elijah não a quisesse – ela veio com muita bagagem, e para alguém com tamanha riqueza, não havia nenhum benefício para Thorn Grove acolhê-la. Ainda assim, ouvir isso em voz alta doía mais do que ela gostaria de admitir. — Há uma esperteza em seus olhos, garota — Elijah disse. — Você não é tão estúpida para perceber que eu sou um homem que não se lembraria de colocar meu casaco se eu não tivesse alguém para fazer isso por mim. Um dia aqui é suficiente para você saber, tenho certeza, que minha esposa se foi e minha filha não muito atrás. E meu filho... Deus, meu filho. Eu falhei com o pobre menino de muitas maneiras. No entanto, se minha Lillian soubesse de sua situação quando sua avó faleceu, ela teria exigido que a hospedassemos. Foi uma infelicidade que não tivéssemos conhecimento até recentemente, pois ela teria lhe dado uma vida maravilhosa. Esse era o jeito dela, que Deus tenha sua alma. Ela aceitava quem quer que fosse, e ela os amaria. Em sua memória, não tive escolha a não ser trazê-la aqui. A mandíbula de Elijah se fechou, como se decidisse que ele havia falado demais sobre o assunto. Uma sombra cruzou seu rosto e ele deixou Signa capturar duas de suas peças. — Passei dezenove anos sem um pai, senhor… — ela disse a ele. — Não tenho interesse em obter um agora. Sou grata pelo que você forneceu e, para mim, isso é o suficiente. Estou muito bem adaptada para estar sozinha. Para sua surpresa, Elijah riu. Era um som calmo, pouco mais que um silvo de ar. — Eu costumava acreditar nisso também. Signa não teve chance de dizer mais nada, pois Elijah limpou o tabuleiro com um movimento final. Sua boca se abriu quando ele capturou cada um de suas peças restantes em um jogo fluido. — Aqueles que jogam um jogo defensivo de damas sempre perderão. — Ele não esperou ela ficar de pé. Não ofereceu uma mão para ajudá-la. — Boa noite, Signa. Rezo para que o sono nos encontre e que não nos encontremos aqui novamente amanhã à noite. Parecia que se ela fosse se encontrar com Sylas depois do expediente novamente, ela precisaria encontrar outro túnel. Isso, ou talvez aprender a atravessar as paredes, afinal. Signa esperou, olhando para o quadro e refazendo seus movimentos até o som dos passos de Elijah desaparecer. Quando o fizeram, ela subiu as escadas. Para surpresa de seu pobre coração, ela descobriu que não estava sozinha. Percy sentou-se no degrau mais alto. Se o cabelo dele não estivesse brilhante como uma chama, ela poderia ter tropeçado nele naescuridão. — Percy! — Ela apertou o peito. — O que você está fazendo? — Eu não queria te assustar. — Sua voz era um sussurro baixo. — Eu estava descendo para tomar uma bebida quando ouvi vocês dois, e eu só... Perdoe-me por espionar. Faz tanto tempo desde que meu pai e eu tivemos uma conversa real. Eu quase me esqueci que ele é capaz disso. — Seus ombros caíram para dentro como uma flor murcha. — Esse era o quarto favorito dela, você sabe. Essa é a razão pela qual ele vai lá com tanta frequência. Esta casa sempre foi tão estranha e triste, e ela queria um espaço que parecesse inteiramente seu. O pai lutou com ela por conta da cor por muito tempo – ele odiava o amarelo. Mas minha mãe sempre foi boa em conseguir o que queria. Às vezes eu o vejo lá apenas olhando para as paredes, lembrando. Signa quase podia imaginar Lillian deslizando pelos corredores, tomando chá na sala e refletindo sobre a decoração. Parecia que ela tinha uma vida tão diferente – uma família tão diferente – daquela que Signa estava conhecendo. — Você já falou com ele? — ela perguntou, com o coração pesado. Parecia-lhe que, embora ele pudesse refutar, Elijah precisava muito de companhia. O rosto de Percy azedou. — Meu pai não estava sempre por perto. Marjorie ministrou minhas aulas e tio Byron me ensinou a ser um cavalheiro. Meu pai e eu só falávamos de duas coisas: o negócio que eu um dia administraria e minha obrigação de manter as aparências e manter o status da família. Por vinte e dois anos essa foi a nossa conexão. E agora ele o cortou sem explicação. Então não, não nos falamos mais, pois nem nos conhecemos. Levou um momento antes que Signa pudesse responder. Como alguém com uma experiência diferente e frustrante com a morte, ela teve muito cuidado com suas palavras. — O luto é uma coisa estranha, Percy, pois não há duas pessoas que o experimentam da mesma forma. — Era uma coisa estranha, ter alguém para confortar. Ela não sabia se o que estava fazendo era certo quando estendeu a mão e colocou a mão sobre a dele; ela sabia apenas que isso era o que ela sempre quis para si mesma. Ter alguém para se sentar com ela e pegar sua mão, e saber que eles estavam lá para ela. Percy precisava de alguém – estava claro na maneira como ele olhava para o chão e na queda de seus ombros – e Signa estava feliz por ser essa pessoa para ele. Ela se sentou ao lado dele, acariciando sua mão suavemente enquanto dizia: — Sinto muito pelo que você está passando. Parece que ele amava muito sua mãe. Ele olhou para a mão dela com uma carranca. — Mais do que qualquer coisa ou qualquer um. Mas isso não lhe dá uma desculpa para desaparecer quando o resto de nós ainda precisa dele. Signa entendeu muito bem. Ela passou anos assistindo todos que ela conhecia tornam-se fantasmas, mesmo aqueles que ainda estavam vivos. — Não dá — ela concordou. — Mas ele é um homem inteligente, e acredito que encontrará o caminho de volta para você. Ele pode simplesmente precisar de mais tempo. Percy virou a mão na dela. — Obrigada, prima. Pelo bem desta família, espero que você esteja certa. Colocando-se de pé, ele ofereceu sua mão para ajudá-la a se erguer também. No entanto, ao fazê-lo, seus olhos viram as saias enlameadas de Signa aparecendo sob sua capa. Embora ele não dissesse nada sobre isso, linhas profundas enrugaram a testa de Percy quando ele colocou a mão na parte inferior de suas costas e a guiou para dentro da casa, como se ela pudesse fugir. — Vamos, prima — ele pressionou —, quaisquer problemas que tenhamos de enfrentar, eles ainda estarão aqui depois de uma noite de descanso. Dezesseis Mantiveram Blythe em isolamento por semanas, seus únicos visitantes eram Elijah e o médico que cuidou dela. Todos os dias, Signa tentava entrar despercebida no quarto de sua prima para ver como ela estava, apenas para ser recebida com uma porta trancada, afastada pelas lições ou examinada pelo olhar atento de Elijah quando ele passava as noites ao lado da cama de Blythe, garantindo que nada acontecesse com ela enquanto ela dormia. Nesta manhã em particular, seus planos foram frustrados quando Marjorie irrompeu em sua suíte arrastando uma braçada de vestidos – vestidos de chá e vestidos de viagem para uso diurno e outros com babados extras e tecidos mais ricos feitos para festas. Eles eram muito melhores do que o vestido amarelo de dia que ela foi forçada a usar tantas vezes, embora ela não pudesse deixar de sentir um nó de tristeza em seus tons opacos e suaves. — Você vai querer se preparar rapidamente. — Marjorie entregou a Signa um macio vestido de chá pervinca. — Você tem companhia chegando em breve. Isso despertou Signa imediatamente – como ela poderia ter companhia quando não conhecia ninguém? — Preparei um chá para você, com moças da sua idade — disse Marjorie. — Eu pensei que você gostaria de ter amigos aqui depois de ser forçada a deixar seus outros com tanta pressa. Todas essas garotas são amigas de Blythe e vêm de famílias ricas. Todas são solteiras e são uma companhia perfeitamente adequada. Signa não teve dúvidas de que eram, mas ainda assim ela perguntou: — E elas têm que visitar agora? O rosto de Marjorie era severo. — O que você quer dizer agora? Fiquei com a impressão de que era isso que você queria. — Quero! — Signa disse apressadamente. Claro que era o que ela queria companhia e uma posição na alta sociedade era tudo que ela sempre quis, embora ela tivesse preferido qualquer outro dia. — Eu só quis dizer que eu esperava ver Blythe hoje. Isso pareceu apaziguar Marjorie, cujo sorriso era simpático. — Entendo. Infelizmente, o médico está com a Srta. Hawthorne. Você pode visitá-la no final da tarde, depois de suas aulas. Signa queria exigir que ela pudesse fazer uma visita rápida à prima, mas quando Elaine chegou para ajudar Signa a se apressar e se vestir, percebeu que qualquer esforço era inútil. Blythe teria que esperar um pouco mais. O vestido deslizou sobre sua pele como seda, feito de tecidos importados com pouca economia de gastos. Era uma combinação de cores para complementar a sala em que eles estariam tomando chá e amarrada nos fundos, deixando espaço para Signa crescer com uma dieta mais suficiente. Por enquanto estava um pouco solto, o que o tornava uma das coisas mais confortáveis que ela já usara, já que não se esperava que alguém usasse um espartilho por baixo de um vestido de chá. Quando Signa terminou de se arrumar, ela certamente parecia respeitável, mas estava pensando em todas as maneiras em que poderia levar Um guia feminino de beleza e etiqueta com ela. Ele estava sobre sua escrivaninha, e ela arrastou um dedo delicado por sua lombada imaculada. Será que sua mãe ficaria orgulhosa de vê-la assim? Ela teria vestido Signa da mesma forma? Prenderia seus cabelos escuros da mesma forma que Marjorie fez, para mostrar seu rosto delicado e pescoço esguio? — Elas já devem estar aqui — Marjorie repreendeu. — Venha comigo. Signa retirou a mão do livro. Ela sabia seu conteúdo de cor, tinha estudado suas páginas frente e verso mais vezes do que podia contar. Agora era a hora da execução. Ela seguiu Marjorie escada abaixo, andando entre empregadas inquietas que se esquivavam dela na pressa, preparando Thorn Grove para outra festa. Seu coração batia a cada passo. Ela não se permitiria escorregar como fez com Blythe – não esqueceria sua língua nem por um momento. Três jovens esperavam por ela na sala, sentadas a uma mesa circular que parecia absurdamente pequena e íntima. Marjorie os apresentou como Lady Diana Blackwater, uma garota bastante simples, de pele clara, cabelos castanhos e olhos redondos de rato; Lady Eliza Wakefield, com um longo rosto de alabastro e cachos loiros, e… Signa não confiava em suas próprias pernas para segurá-la quando viu os olhos castanhos que a encaravam. Charlotte Killinger usava um vestido listrado azul e branco,os ombros para trás e o pescoço longo e delicado. Sua velha amiga era ainda mais bonita do que Signa se lembrava – sua rica pele cor de marrom quente e brilhante, bochechas aquecidas com um leve toque de rouge. Ela era mais alta e possuía menos bochechas de bebê, mas ainda assim a garota que Signa conheceu uma vez. A amiga em quem ela ainda pensava até hoje, mas com quem ela não falava desde o escândalo entre o tio de Signa e a mãe de Charlotte todos aqueles anos atrás. A boca de Charlotte estava entreaberta, seus olhos arregalados como os de uma corça antes de ela inclinar a cabeça em um aceno gracioso. — Foi gentil da sua parte nos convidar. — Certamente foi! Todas nós estávamos tão curiosas sobre a nova protegida dos Hawthornes — Diana entrou na conversa depois de um mergulho superficial de sua cabeça. Sua voz era estridente, mas Signa não prestou atenção, pois seu coração estava ocupado batendo a mil por hora. Por tanto tempo ela desejou ver Charlotte novamente. Mas por que tinha que ser agora de todos os tempos? Agora, quando ela finalmente se permitiu acreditar que ela poderia começar de novo e onde os rumores do passado não assombrariam cada movimento dela. Signa tropeçou, com as pernas dormentes, quando Marjorie lhe deu um empurrãozinho na direção da cadeira. Um dos criados serviu chá fumegante em suas xícaras, enquanto outro serviu bolos e doces. Enquanto Charlotte agradecia, as outras duas garotas ignoraram a ajuda. O fascínio delas repousava apenas em Signa, e seus olhos brilharam assim que Marjorie saiu pela porta. Eliza sorriu para ela do outro lado da mesa. — Bem, você não é uma coisinha? — Se era um elogio ou um insulto era impossível dizer. Eliza se inclinou para frente, seus longos cachos roçando a toalha de mesa. — Como você está aproveitando seu tempo com os Hawthornes? Eles realmente são a família mais interessante. — Interessante? — Signa ecoou, sua garganta tão dolorosamente seca. — Como assim? — As festas, por exemplo. — Eliza riu, como se a pergunta fosse ridícula. — Sem mencionar a riqueza, os rumores, o mistério. Eu suponho que você não saiba, considerando que acabou de chegar, mas a família com quem você está hospedada é o assunto da cidade. Signa se atreveu a olhar de soslaio para Charlotte, que estava sentada ereta em sua cadeira, sem dizer nada, bebendo seu chá. Ela não disse uma palavra e se ocupou olhando para uma paisagem de um lindo jardim de primavera. Um guia feminino de beleza e etiqueta foi muito claro sobre fofocas: Não fale à toa. Signa concordou, não se importando em fofocar sobre aqueles que lhe mostraram tanta graça. Mas os olhos de Eliza estavam iluminados de alegria e sua língua estava pronta para vazar veneno, então para obter a informação que ela procurava, Signa mordeu a isca. Ela pegou um bolinho de mirtilo e se inclinou para frente com uma inspiração silenciosa. — Rumores? — ela perguntou em um tom que transmitia que ela nunca imaginou que uma coisa tão hedionda fosse possível. — Certamente, você está enganada? Que tipo de rumores são esses? — De todos os tipos — interveio Diana. — Esses fantasmas assombram Thorn Grove. Que talvez a sra. Hawthorne, pobrezinha, tenha se encarregado de acabar com sua vida depois de descobrir que seu marido tivera uma série de casos tórridos e muitos filhos ilegítimos para cuidar. Eles até dizem que a ajuda está em conluio para se unir contra a família. As alegações pareciam ser apenas boatos, embora Signa tenha guardado as informações como mais peças de quebra- cabeça para serem peneiradas em outro momento. — Os Hawthornes são pessoas curiosas — disse Signa, escolhendo suas palavras com cuidado; ela não tinha certeza de que o que quer que dissesse não sairia desta mesa ou que ela não seria rotulada como fofoqueira. — Mas eles também são muito generosos em me receber em sua casa quando sofreram uma perda tão grande. Diana fez um barulho no fundo da garganta. — Tenho certeza que sua fortuna ajudou com isso. — Ela se recostou na cadeira e examinou suas luvas brancas com babados. — Meu pai diz que o negócio do Sr. Hawthorne está falindo e que você vai herdar uma fortuna maior do que a deles. Signa não se intimidou com a manteiga que passou no bolinho, com o coração batendo tão forte que até seu pescoço estava começando a transpirar. Quando ela imaginou essa conversa, foi muito mais informativa e descontraída. Charlotte olhou para cima então. — Ela acabou de chegar, Diana — ela disse em uma voz suave entre goles de chá. — Duvido que ela saiba muito sobre os Hawthornes. Os lábios de Eliza se apertaram e Signa pegou outro bolinho. Ela imaginou que se ela não soubesse o que dizer, então – contanto que sua boca estivesse cheia – ela poderia esperar seu tempo e deixar os outros falarem. Mas isso foi antes que uma enxurrada de ar frio invadisse a sala. — Existe uma janela aberta? — Eliza estremeceu. — Eu não teria pensado que precisaria de um casaco no chá. Signa sabia muito bem o que aquela bebida significava e engasgou no meio da mordida. Ela tentou ser discreta quando virou a cabeça para ver que Morte estava ali ao lado dela, sentada em uma cadeira de sombras ao lado de Diana. Ele dobrou uma perna sombria sobre a outra, e em sua mão, mais sombras formaram uma xícara de chá imaginária, que ele ergueu para ela em saudação. Desculpe, esqueci de trazer meu vestido e luvas. As palavras não foram ditas em voz alta, mas pareciam reverberar em sua cabeça. Ele estava na cabeça dela. Ela apertou suas saias e compassou suas respirações. Não, não, não, não, não. Nada disso estava indo de acordo com o plano. Primeiro Charlotte, e agora... não. Signa não havia comido belladonna; ela não viajou para o lugar entre os vivos e os mortos para acessá-lo. Durante toda a sua vida, ela foi capaz de ver a Morte apenas quando havia razão para isso – quando alguém próximo a ela estava morrendo. Ela preferiria matar Morte novamente do que deixá-lo levar uma dessas garotas, e ela tentou transmitir cada pedacinho disso no olhar que ela lançou para ele. Ele parecia gostar, uma risada baixa chacoalhando em sua cabeça e enchendo seu peito. Relaxe, Passarinha. Eu só vim para uma fofoca empolgante. Diana deu uma delicada mordida no bolinho, inconsciente do monstro fingindo beber chá fumegante de sombras ao lado dela. Um toque, apenas um arranhão de suas sombras, e essas garotas estariam mortas. A garganta de Signa estava muito apertada para engolir o pedaço de bolinho que se alojou em sua garganta. Ela engasgou, pegando seu chá e chupando metade da xícara de uma só vez. Embora Charlotte fizesse questão de não olhar, Diana riu. — Bom Deus, não me diga que você não é alimentada aqui? Você come como se não tivesse visto comida a semana toda. E essas suas clavículas... Muito afiadas. Os ombros de Signa murcharam. Ela sabia certamente. Sabia levar o tempo dela, dar pequenas mordidas, fingir que não achava a comida deliciosa e que não sentia nenhum apelo desesperado para devorar tudo, e em vez disso fingir que era delicada e mal sabia o significado da comida. Ao lado dela, Morte pousou seu chá. Como você se sente em relação a essa mulher? Eu poderia infectá-la com uma praga leve, talvez. Ou podemos dar-lhe a varíola? A pele manchada pode fazer bem à vaidade dela. Reconhecendo a leveza em sua voz, ela o fitou com um olhar breve e raivoso, ao qual ele suspirou. Tudo bem, arruine minha diversão. Entre Charlotte sentada de um lado dela e Morte do outro, era um esforço inútil tentar se concentrar. Diana e Eliza dominaram a conversa, e quando perceberam que Signa tinha passado algum tempo sem sequer uma resposta murmurada para qualquer fofoca, Eliza virou seus olhos castanhos para ela para bisbilhotar: — Você já tem um pretendente, Srta. Farrow? Morte parou e pairou sobre Eliza, tão perto que a garganta de Signa ficou apertada. Não se importe comigo, disseele. Vá em frente e responda. Tem alguém em quem você está de olho, Passarinha? Seus punhos cerrados. Ela queria com todas as suas forças exigir que ele fosse embora, mas não tinha como transmitir isso com os outros examinando-a. Percebendo sua luta, Morte disse: Você deveria ser capaz de me responder, sabe. Se você me ouve, eu aposto que você pode responder. Ela tentou, ansiosa para dizer a ele para deixá-la sozinha o tempo suficiente para que ela conseguisse informações sobre os Hawthorne, ou pelo menos para encontrar uma maneira de falar com Charlotte em particular. No entanto, por mais que ela se esforçasse para enviar essas palavras para ele, ele não reagiu como se pudesse ouvi-la. — Você pretende fazer sua estreia aqui, Srta. Farrow? — Charlotte perguntou, um tom cauteloso em sua voz. Signa segurou sua xícara de porcelana com as duas mãos enquanto olhava para sua amiga. Apesar dos nervos, apesar do que Charlotte sabia e podia fazer para miná-la... ela ainda estava aliviada por Charlotte estar presente. Que ela finalmente encontrou sua velha amiga novamente e pôde ver em primeira mão que ela estava segura, saudável e bonita. — Estou esperando para participar desta temporada, sim — Signa disse a ela, gostando da sensação do anúncio quando ela falou em voz alta. Eliza bateu palmas. — Oh, você deve ter uma festa para comemorar! Nos convide e garantiremos que você saiba tudo sobre todos os homens da cidade… — Ela apertou a garganta, perdendo o fôlego por um momento quando Morte a rodeou. Serei convidado para sua festa? Eu amo uma boa dança. Ele não seria convidado para nada e, embora Signa desejasse poder contar isso a ele, ela manteve o sorriso e perguntou a Eliza: — Quais homens são pensados para participar nesta temporada? A comoção na mesa foi imediata. Eliza se inclinou, brandindo o garfo enquanto falava. — Eu acredito que você vai querer ficar de olho em meu primo Lorde Everett Wakefield. Charlotte se animou com o nome, seus olhos brilhando. — Ele chegou? — ela perguntou, ao que Eliza assentiu. — Apenas três dias atrás. Ele vai se juntar a nós durante o verão para ver se ele pode encontrar uma esposa adequada. Também me pergunto quem seu primo Percy pode procurar, Srta. Farrow. Ele está prestes a herdar os negócios da família e sua fortuna, você sabe. Eliza estava certa, assumindo que Elijah não arruinou suas perspectivas. Signa se lembrou de duas noites antes, quando viu Elijah enfiar um bolo na boca do filho. Ela não conseguia imaginar o constrangimento de Percy, não conseguia imaginar como deve ser a sensação de um pai se perder tão completamente em seu luto. Os Hawthornes estavam se desgastando nas costuras. Bastava puxar, e eles se dividiriam completamente. Quando Signa pegou outro bolinho, Diana puxou o prato com um sorriso fino que afiou a espinha de Signa. Ela se endireitou, afastando a mão em dúvida. Apenas coma. As palavras de Morte eram frias. Se estiver com fome, coma o scone. Mas a Morte não tinha influência na sociedade, nenhum conhecimento ou participação em sua política. Não beba ou coma muito, ou pouco. Apenas a quantidade certa. Essas foram as lições que seu livro de etiqueta ensinou. Signa simplesmente não sabia o que qualificava como demais. Agora ela sabia que eram três scones. Então, apesar do empurrão de Morte, ela não aceitou outro, mesmo quando Diana começou a se intrometer novamente nos negócios dos Hawthornes, caçando fofocas que ela sem dúvida espalharia. Não havia espaço para relaxar nesta conversa. Ela estava mais atenta do que nunca, julgando cada centímetro de seu corpo – de onde ela descansou o dedo mindinho, até o quão rápido sua respiração estava. Ela bebeu muito rápido? A quantidade de açúcar que ela adicionou ao chá foi adequada? A exaustão pesava em seus ombros; socializar levaria mais tempo para se acostumar do que ela havia previsto. Por muito tempo Signa esperou por este dia; esperou o momento em que ela iria sentar e conversar com seus amigos como parte da alta sociedade. Para o momento em que os outros mostrariam interesse por ela, e ela poderia finalmente ter a companhia pela qual tanto ansiava. No entanto, quando Marjorie voltou ao salão, parecia que uma eternidade havia se passado, e tudo o que Signa queria era liberdade e uma boa soneca. Charlotte foi a última das damas a partir e, para surpresa de Signa, ela se recusou a ficar. Seus olhos percorreram Signa. — Estou feliz em ver que você está bem — passou por seus lábios antes que ela agarrasse suas saias e seguisse Marjorie porta afora. Lágrimas queimaram os olhos de Signa. Charlotte a tinha reconhecido. Ela a reconheceu, e ainda assim... Não significava nada. Talvez todo aquele tempo juntos – toda aquela amizade – tivesse significado mais para Signa do que para Charlotte. Ela tinha esquecido que Morte estava atrás dela até que ele resmungou: — Duas dessas garotas se comportam como se tivessem acabado de ser soltas de suas rédeas2. Movendo os olhos, Signa girou para ele. — O que você ainda está fazendo aqui? Novamente as sombras ao redor dele mudaram, formando uma mesa para ele colocar seus pés. — Bom dia para você também. Vim ver como você estava se adaptando. — Eu preferiria que você não o fizesse. — Signa se virou e caminhou pela sala, não querendo que ele a visse tão abalada. — Como você está aqui? Ele considerou isso, inclinando-se para trás em sua cadeira de sombra. — Você poupou Blythe por enquanto, mas isso não significa que ela está curada. — A cadeira se endireitou, e ele olhou para ela. — Estou aqui porque ela ainda está oscilando na ponte entre os vivos e os mortos. Por causa disso, quando estamos perto o suficiente dela, parece que você pode me ver. Eu não tinha certeza até hoje se esse seria o caso. Acabe com essa conexão infeliz deles. O que ela não daria para cobrir o véu na vida após a morte e nunca mais olhar para ele. — E por que eu posso ouvir sua voz na minha cabeça? 2 Tiras de tecido ou corda costuradas em roupas de crianças para suas empregadas ou pais se segurarem enquanto aprendiam a andar. Basicamente, eram rédeas para impedir que uma criança fugisse. — A mesma razão pela qual você pode ouvir minha voz quando falo em voz alta, suponho. Se ele fosse corpóreo, Signa o teria chacoalhado. Como era, ela girou nos calcanhares e deu um passo em direção a ele com uma ira que alimentou todo o seu corpo. — Você não viu que eu estava ocupada? — ela rosnou. — Isso foi importante para mim. Morte virou-se como se pudesse ver as meninas através das paredes. — Por quê ? Eu acho que essas criaturas só são importantes para suas mães. Você não achou estranho como duas delas perguntaram apenas sobre sua fortuna e sua família? Elas perguntaram pouco sobre você. Era verdade, a última coisa que ela queria era concordar com ele. E então ela disse teimosamente: — Eles serão minhas amigas. — Suas amigas? — Ele se levantou, a mesa e a cadeira que ele formou deslizando de volta para as sombras. — Por que? Nunca te vi tão… — Falando tanto? — Signa seguia pressionando. — Nunca me viu com companhia? Eles estavam quase peito contra peito metafórico agora. Tão perto dele, a pele de Signa tremeu não com medo, mas com poder. Determinação. Ele era Morte, e por causa disso ela não precisava se filtrar. Não há necessidade de impressioná-lo. Morte se inclinou para que seu rosto sombreado pairasse diante dela, apenas uma respiração entre eles. — Eu nunca vi você tão recatada, e tão repugnantemente sufocada. — Um bolinho voou para ela então, pousando com força em seu peito. Ela mal o pegou antes que ele caísse no chão. — Você queria isso, não é? Por que você deixaria a opinião de uma pessoa impedi-lo de tê-la? Ela enrolou os dedos na crosta escamosa do bolinho. — Eu estava sendo educada. Existem regras de etiqueta sobreessas coisas... — Você estava faminta. E se você está com fome, você deve comer. Não dou a mínima para as suas regras. — Havia algo sombrio em seu tom. Uma amarga decepção que, para sua frustração, a atormentava. — E o que isso importa para você? A pergunta acendeu uma raiva ardente em seus olhos. Um inferno que o tinha diante dela novamente, sugando o ar do quarto. — Importa porque você é melhor do que isso. Você não foi feita para ser mansa ou carente. Se você abraçou quem você é, imagine o poder que você pode exercer. Imagine as coisas que você poderia fazer. — Você quer dizer as vidas que eu poderia tirar? — Signa se aproximou. — Imagine os espíritos com quem eu poderia falar? O lance que eu poderia fazer pelos mortos? Não preciso imaginar; Eu vivo isso. Essa vida me consome, e não é o que eu quero. — Como você sabe? — Ele demandou. — Quando tudo que você faz é correr, como você sabe o que você quer? Você preferiria passar a vida fingindo ser o que quer que fosse aquelas garotas? Ela jogou o bolinho de volta para ele e, para sua surpresa, não o atravessou como a faca quando ela o esfaqueou. Ele pegou. — Vá embora — ela disse uma vez que ela conseguiu abafar sua surpresa. — Você não me conhece, e nunca vai conhecer. É como você disse uma vez, nós dois somos pessoas muito ocupadas e você não passa de uma distração. Ele zombou, o som tão humano. Tão masculino. — Vim oferecer minha ajuda. Um assassinato seria significativamente mais simples de resolver, imagino, se você soubesse como usar suas habilidades. — Isso não será necessário — ela disse, não se importando em considerar a oferta. — Eu já posso falar com espíritos… — Então você não vê valor na capacidade de atravessar paredes? — Ele demandou. — Para alterar seu corpo para que outros não possam vê-la? Tornar-se a própria noite e mergulhar nas sombras? Imagine a espionagem que você pode fazer. Esses seriam poderes úteis, sim, mas aceitar isso significava aceitar sua ajuda, e ela não tinha desejo de entreter ele e seu ego por mais tempo do que o necessário. — Toda a minha vida, eu não quis nada mais do que me livrar de você. — Ela endireitou os ombros diante das sombras que pairavam sobre ela. — Eu implorei, noite após noite, morte após morte, para você me deixar em paz. E agora você quer me oferecer ajuda? — Não havia palavras suficientes. Não havia selvageria suficiente dentro dela para dizer a ele a extensão do que ela pensava disso. — Eu odeio você, e eu odeio tudo que você fez comigo. Eu vou resolver isso, e vou fazer isso sem você. Ao redor deles, o dia se esvaiu. A escuridão consumia tudo à medida que Morte crescia, sua raiva tão palpável que sufocou o quarto. Acima deles, o candelabro balançou, suas luzes piscando como uma tempestade se aproximando. A luz do sol que entrava pelas janelas se apagou como uma vela. — Você não tem mais escolha nesse ponto. — A voz da Morte sacudiu as paredes, derrubando duas xícaras de porcelana no chão. — Estou cansado desses jogos. Te conheço melhor do que pensa, tal como sei que nunca vai livrar de mim, Passarinha. Como eu nunca vou me livrar de você. O tremor cessou, e a luz do dia voltou para a sala enquanto Morte se retirava para suas sombras. — Nossas aulas começam à meia-noite. Te vejo em breve Ela estava prestes a gritar que ele não deveria se incomodar. Mas no momento em que ela abriu a boca para falar, um bolinho voou da mesa e entrou em sua boca, sufocando o protesto que Morte se recusou a ouvir. Dezessete O livro que Signa equilibrava sobre a cabeça era tão pesado que lhe dava uma enxaqueca. — Equilíbrio, Signa — Marjorie a instruiu. — Graça. Ande com graça. No canto, descansando confortavelmente em um sofá de veludo verde, Percy riu. Dado que ele não tinha razão para estar ali, Marjorie lançou-lhe um olhar, mas Percy estava longe de estar irritado. Ele fez questão de anunciar que tinha vindo simplesmente para ver sua prima tentar aprender boas maneiras – e que ele estava se divertindo muito nessas tentativas. Havia, no entanto, algo perturbador no sulco de suas sobrancelhas vermelhas, e no modo como seus olhos se voltaram para as empregadas que corriam pelos corredores para preparar a festa que começaria naquela noite. Ele e Marjorie fingiram não notá-los, então Signa seguiu o exemplo, entendendo que a festa poderia ser um ponto sensível para Percy. — Graça, Signa — Percy repetiu, prolongando a palavra com um tom excessivamente superficial. Signa nunca teve um irmão, mas imaginou que se tivesse, ele seria tão irritante quanto Percy. Era quase como se ele soubesse que a polidez dela era uma farsa. Como se ele pudesse ver em seu rosto e estivesse tentando arrancar a verdade dela. Ela fez tudo ao seu alcance para ignorá-lo, esperando manter a ilusão de que era uma jovem respeitável. Embora depois de seu encontro com Elijah na noite anterior, parecia improvável que o mestre de Thorn Grove se importasse com o que ela fazia ou como se comportava. Assumindo que ela não queimasse a mansão até o chão, ela duvidava que ele piscasse um olho em seus comportamentos estranhos. Ela se lembrou de como Percy esperou no topo da escada observando seu pai com tanto desejo. Era uma versão tão diferente dele do que ela via agora – um Percy relaxado que mantinha uma maneira descuidada, um jovem cavalheiro adequado e sem problemas. O que Elijah quis dizer quando disse que falhou com seu filho muitas vezes? Signa estava tão distraída com seu dilúvio de pensamentos que tropeçou no tapete persa e viu a enciclopédia cair de sua cabeça no chão. Em voz baixa, ela amaldiçoou, não percebendo que disse a palavra em voz alta até que Percy se dobrou de tanto rir e Marjorie jogou as mãos para cima em frustração. — Olhe a língua, Signa! Eu juro, vocês dois estão impossíveis hoje! Embora Signa tivesse o bom senso de corar e curvar a cabeça com um pedido de desculpas, Percy sorriu friamente para a governanta, encantador demais para seu próprio bem. Signa lutou contra a vontade de revirar os olhos quando a determinação de Marjorie desmoronou sob o sorriso do menino. A governanta suspirou e pegou o livro do chão. — Eu não sei o que deu em você hoje, Signa, mas você é incapaz. — O comentário era simplesmente um fato, não pretendia ser indelicado. — E você, Percy. Eu pensei que tinha lhe dito ontem para encontrar algo útil para fazer com seu tempo. Ele cruzou as mãos atrás dele, queixo orgulhoso. — Desculpe, senhorita Hargreaves. Eu só queria ter certeza de que minha querida prima se sentia bem-vinda aqui. Quanto mais Marjorie olhava para Percy, mais seus olhos se suavizaram até que, eventualmente, ela cedeu. — Ah, tudo bem. Já que é óbvio que não vamos avançar em nossas aulas, você pode fazer uma visita ao quarto de sua prima, Signa. Percy se animou. —Você vai visitar Blythe? Devo me juntar a você? — Claro que deveria — Marjorie decidiu pelos dois. — Leve alguns doces do café da manhã para ela. Tenho certeza que isso a deixará feliz. Signa rezou para que Marjorie estivesse certa. Ela ia precisar de uma oferta de paz depois de sua primeira visita com Blythe. Percy acompanhou o ritmo de Signa, tão ansioso para ver sua irmã quanto ela. — Se ela está doente com a mesma doença que levou minha mãe, a última coisa que ela precisa é ficar escondida em seu quarto — disse ele enquanto subiam as escadas, dois degraus por vez. — Todo mundo continua dizendo a ela para descansar. Tenho certeza de que ela está entediada. Signa não precisava imaginar o tédio ou a solidão que isso trazia. Se esta visita acabasse bem, talvez Blythe permitisse que ela visitasse com mais frequência. — Ela e sua mãe tiveram os mesmos sintomas? — Signa manteve a voz baixa. — Sim, exatamente os mesmos. Embora a língua de Blythe ainda não tenha começado a apodrecer com feridas, e suas alucinações são mais suaves do que as da minha mãe. — O tomde Percy tinha escorregado para algo mais frio, algo doloroso, e Signa sabia que não deveria pressionar, não importa o quanto ela quisesse. Era uma prova de seu crescimento, ela pensou, que ela era capaz de simpatizar com o fato de que nem todos se sentiam tão à vontade para falar sobre os mortos quanto ela. Ela escutou enquanto Percy mudava de assunto para divagar sobre os retratos que eles passavam, apontando os ancestrais masculinos que estavam no comando de Thorn Grove antes de seu pai. Seu peito estava orgulhoso enquanto falava, ombros retos e confiantes. — Que homens incríveis eles foram, para construir tal império. Signa achou que não valia a pena notar que um clube de cavalheiros não oferecia nada diferente do chá que ela tomou com as senhoras naquela manhã com suas bebidas, comida e fofocas com pessoas de status social semelhante – só que ela não pagou uma taxa de adesão para participar. Independentemente disso, ela entendeu o orgulho nos olhos de Percy. Grey's tinha feito bem aos Hawthornes, e ele deveria continuar esse legado. Depois de passar pelo que deve ter sido uma dúzia de retratos de homens carrancudos em ternos, eles bateram silenciosamente na porta de Blythe e esperaram permissão para entrar. Nada na sala de estar de Blythe se moveu, nem mesmo um fio de cabelo. O ar estava inebriante, pressionando os dois enquanto eles entravam e pisavam no tapete macio. Embora Blythe estivesse viva, seu quarto era o de um fantasma. Uma pressão crescente no peito de Signa aliviou quando ela viu Blythe sentada na cama, encostada na cabeceira da cama. Doente como a garota estava, Blythe não fez uma careta para Signa como ela tinha feito da última vez. Em vez disso, ela olhou para seu irmão e sorriu. — Percy! Onde você esteve? Estou quase começando a contar os fios das cortinas, estou tão entediada. O que é isso que você tem aí? Seu sorriso se esticou quando ele acenou um bolinho para ela, e ela ergueu a mão para pegá-lo. — Deus, eu estava esperando que eles fizessem os de limão novamente. — Ela mordeu e gemeu como se fosse a primeira coisa que ela comeu em toda a semana. Percy colocou os doces restantes para baixo e bagunçou o cabelo loiro palha de Blythe antes de puxar uma pequena cadeira de ferro para sentar ao lado dela. — Vou dizer à cozinha para fazê-los com mais frequência se você gosta tanto deles. Signa esperou no limiar do quarto de Blythe, as mãos cruzadas diante dela. Ela permaneceu lá enquanto Percy se acomodava, observando seu pomo de Adão balançar enquanto ele olhava sua irmã – seu corpo pálido e ossudo. Cabelo morto e seco. As bolsas sob seus olhos e os lábios que eram tão pálidos quanto as migalhas que ela escovou deles. Percy segurou a mão dela, uma coisa tão frágil, e Signa notou pela primeira vez a rigidez entre eles. Onde Percy era sardento, Blythe era porcelana. Onde o cabelo dele queimava como um fogo de verão, o dela estava vazio de cor. O que eles compartilhavam era a severidade da boca de seu pai e a forma sombria como seus olhos apertavam os cantos, como se estivessem sempre contemplando, como no caso de Percy, ou perpetuamente irritados, no caso de Blythe. Por mais diferentes que parecessem, quando lado a lado não havia como negar que eram de sangue compartilhado. — Ela vai entrar — Blythe perguntou —, ou vai continuar ali e deixar entrar a corrente de ar? Percy se inclinou para sua irmã conspiratoriamente, embora suas palavras fossem altas o suficiente para Signa ouvir. — Cuidado, Abelha. Você deve se lembrar de falar baixinho quando houver filhotes nervosos por perto. Não gostaríamos de assustá-los. Endireitando os ombros, Signa entrou na sala com o queixo erguido. — Eu não sou nenhum filhote. A garota se virou para ela com um sorriso que quase cortou a respiração de Signa direto de seus pulmões. O sentimento era semelhante ao que Signa sentiu na primeira vez que viu Blythe – como se ela e Blythe estivessem ligadas por uma corda inquebrável. Esta deve ter sido a conexão que Morte disse que aconteceu quando ela, sem saber, poupou a vida de Blythe. Ela mal conhecia essa coisa doentia que lutava para sair da cama, mas cujo olhar podia empalar uma pessoa. Mesmo assim, Signa sentiu-se compelido em direção a ela. Ela não sabia o que significava, ou por que ela tinha essas habilidades. Mas o que ela sabia era que faria tudo ao seu alcance para salvar a vida de Blythe, e isso começava com a descoberta da fonte do veneno. — Quero me desculpar pela outra noite. Foi... rude da minha parte dizer o que eu disse. Nunca fui eloquente. — Signa se equilibrou no canto mais distante da cama, em frente a Percy. Ela estava pronta para saltar de volta e fugir a qualquer momento. O gelo nos olhos de Blythe derreteu quando ela lambeu o açúcar restante da ponta dos dedos. — Você deveria trabalhar nisso. — Sua língua era o mais leve tom de rosa. Quase branco. Arrepios rastejaram pelos braços de Signa como aranhas, e o estômago caiu antes que ela percebesse que o frio na sala era de uma janela aberta, e não porque Morte estava por perto. Sua ausência poderia ter dado esperança a Signa, se ela não soubesse que a vida de Blythe era incerta com um assassino ainda à caça. — Eu não vou agradecer por me salvar no outro dia, já que foi sua culpa que eu tive um acidente em primeiro lugar. — As palavras de Blythe foram tão cortantes quanto Signa se lembrava delas, cada uma com sua própria faca. — Mas também não recusarei sua companhia, pois nunca tive uma prima antes. Você vai ficar conosco por muito tempo? Foi Percy quem respondeu. — Meu pai mandou a modista preparar um guarda-roupa para a estação. O rosto de Blythe escureceu. — Eu suponho que eu deveria estar feliz por alguém estar chamando sua atenção. Mas se você está precisando de vestidos, você poderia ter pegado os meus. Eu não tenho mais uso para eles, e muitos não serão usados. — Blythe… — Ah, silêncio, Percy. Eu não quero dizer assim. Eles não me servem mais, e duvido que meu corpo volte ao que era antes. — Com cada palavra, a mordida em sua voz diminuiu. — Agora me fale sobre o trabalho. Há alguma atualização? Seu aperto na mão de Blythe aumentou, e Signa teve a impressão de que havia algo mais nessa linguagem de irmãos que ia além de sua compreensão. — O tio está vindo aqui agora para colocar um pouco de bom senso no homem, mas temo que o pai esteja além da reprovação. Blythe estalou sua desaprovação. — Certamente, ele vai ceder um dia desses. Você deve continuar tentando. — Ele não está cedendo desde o dia em que você ficou doente, Blythe… — E quando foi isso, exatamente? — Signa se apressou em perguntar, tentando não encolher sob o peso dos olhos que se voltaram para ela com surpresa. — Eu pergunto apenas por curiosidade. Quando você adoeceu? Blythe fingiu um suspiro. — Estou doente? Céus, estou surpreso que você tenha notado. Ninguém se atreveu a falar sobre isso antes de mim. — Ela fez um zumbido baixo e divertido no fundo da garganta antes de inclinar a cabeça sobre os travesseiros. — Cerca de um mês depois que minha mãe morreu. Quem quer que estivesse por trás disso, não perderam tempo. Signa olhou para uma pequena pilha de chocolates na mesa de cabeceira de Blythe, ao lado de uma xícara de chá. Ela foi até aquela mesa e pegou um dos chocolates, tentando ser discreta enquanto o mordia. Signa não soube dizer se ficou aliviada ou desapontada ao descobrir que não era nada além de chocolate normal, mas deu outra mordida. Seus olhos caíram para o chá em seguida, e Signa o pegou antes que pudesse fingir uma desculpa. Blythe disparou, positivamente letal. — Não se atreva! Esse é o meu remédio. Quando Blythe estendeu a mão para pegar a delicada xícara de porcelana, Signa se afastou de seu alcance e tomou um gole hesitante. Foi quando ela provou – apenas uma pitada da fruta amarga, não o suficiente para ser perceptível para qualquerum que não tivesse uma língua familiarizada com o sabor. Era isso. Era assim que alguém mantinha Blythe doente. A xícara ainda estava quase cheia, o líquido frio. — Há quanto tempo você está tomando este medicamento? — Desde o dia em que adoeci — Blythe respondeu, olhando. — Dói meu estômago se eu beber muito rápido. Deixe isso aí. Ela não deixou. Em vez disso, Signa foi até a janela e jogou o chá fora. — Você está louca? — Percy arrancou a xícara de porcelana da mão de Signa. — Pelo que sabemos, isso pode muito bem ser o que está mantendo minha irmã viva! — Pelo contrário, pode muito bem ser o que a mantém doente. — Signa não queria deixar transparecer que sabia o que estava acontecendo, para que o assassino não descobrisse e tentasse outras táticas. — Quem deu isso para você? Os lábios de Blythe se curvaram e linhas profundas se formaram em sua testa. — Minha empregada traz todas as manhãs. — E qual é o nome dela? — Elaine. Embora eu não veja porque… Signa reconheceu imediatamente o nome da criada que a ajudará a se vestir. — Quem prescreveu isso para você? — Um de seus médicos. — Percy cruzou os braços sobre o peito. — E ouso dizer alguém mais competente que você. Até Signa sabia que nenhum médico prescreveria belladonna em nada. Alguém a estava colocando furtivamente – talvez não em todas as xícaras, mas em muitas. — Eu sei que isso pode soar estranho — ela começou timidamente —, mas Blythe, eu não acredito que você esteja sofrendo de alguma doença. Percy pegou o pulso de Signa em seu aperto, segurando com tanta força que ela se encolheu, certo de que iria se machucar. — Não encha a cabeça da minha irmã com bobagens. É a mesma doença que levou nossa mãe... Signa afastou o braço e o olhou fixamente nos olhos. — Isso não é remédio. Eu sei porque eu já provei antes. É belladonna, das frutas que crescem na floresta aqui perto. Alguém a está envenenando. Blythe não se moveu por um longo momento, sua boca meio aberta. — Percy — ela começou, e seu irmão apenas balançou a cabeça. — Um dos médicos já teria percebido se fosse veneno. — Ele era inflexível nessa crença, cada palavra enfatizada. — Signa está apenas supondo. — Eu não estou supondo nada — ela disse com toda convicção que ela podia reunir. — Reconheço o sabor. E se você não acredita em mim, veja por si mesmo. Blythe, da próxima vez que o seu remédio lhe for trazido, não o beba. Mas também não recuse, pois você pode alertar alguém de suas suspeitas. Espere até que não haja ninguém por perto e encontre um local seguro para descartá-lo. Percy, você deveria ter cuidado também. Quem pode dizer que você não é o próximo? Seu ceticismo permaneceu evidente nas rugas entre as sobrancelhas. — Devo perguntar ao médico? — Havia uma fragilidade na voz de Blythe, mas fora isso ela estava lidando com isso melhor do que Signa esperava. — E o pai? Ele merece saber, não é? Se há uma chance de que o que aconteceu com mamãe não tenha sido um acidente? Signa se lembrou de como Elijah havia enfiado bolo no rosto de seu filho, e as bolsas sob seus olhos, e como ele estava assombrado e incapaz de dormir. Seu comportamento era muito errático, muito imprevisível. Não seria seguro confiar nele, nem ela achava sábio para qualquer outra pessoa – incluindo o médico atual de Blythe – saber que eles entenderam. Sem mencionar o quão suspeito era que nenhum dos médicos de Blythe tivesse percebido o que estava acontecendo. — A melhor coisa que podemos fazer para ajudar seu pai é proteger vocês dois — disse Signa. — O que significa que, por enquanto, esse segredo fica entre nós. Tenha cuidado com suas refeições. Sem geléia. Sem reduções de frutas em seus assados. Beba seu chá, mas jogue-o fora se houver algo estranho no sabor. Vocês devem comer, os dois, e não devem levantar suspeitas. Mas tomem precauções extras. — Ela não se atreveu a mencionar que Sylas também conhecia seu segredo. Não parecia sábio mencioná-lo, e Signa ainda poderia usar sua ajuda e sua conexão com os servos de Thorn Grove, especialmente agora que havia uma pista. Elaine. Blythe suspirou e deixou sua cabeça cair profundamente nos travesseiros, enrolando-se nos lençóis como se fosse ficar menor. — Nós vamos descobrir isso — Signa prometeu a ela, colocando o máximo de entusiasmo possível nas palavras, tentando se convencer também. — Nós vamos acabar com isso, e você vai ficar bem. Eu não vou deixar você morrer, Blythe. Ela quis dizer isso. Blythe recebeu uma segunda chance por um motivo. Signa se ligou ao destino de Blythe, e ela faria tudo em seu poder para derrotar Morte de uma vez por todas. Dezoito Com a cabeça latejando pelos eventos do dia, Signa ficou aliviada ao encontrar Elaine esperando na sala de estar para ajudá-la a se preparar para dormir. — Boa noite, Elaine — disse ela à jovem, que talvez pudesse ser apenas alguns anos mais velha que ela. A empregada manteve os olhos baixos e o queixo baixo, oferecendo o menor aceno de cabeça. — Boa noite, senhorita. — Ela tinha uma camisa de algodão preparada para Signa, que estendeu as mãos para que Elaine tirasse as luvas brancas de pelica e a ajudasse a vestir a roupa de dormir, como fazia todas as noites. A língua de Signa queimava com mil perguntas, mas ela precisava seguir com calma para obter as informações que procurava. Um guia feminino de beleza e etiqueta fez pouco para instruí-la sobre que tipo de interação com a equipe era considerada aceitável, provavelmente porque qualquer pessoa na posição de ler o livro já deveria saber. Seu tio tinha um punhado de empregados na equipe e falava muito pouco com eles, mas Signa não confiava em sua tática de puxar os ombros para trás e segurar o nariz no ar, pois de que adiantaria isso quando ela queria que Elaine relaxasse e fosse aberta com ela? — Você está com os Hawthornes há muito tempo? — Signa perguntou enquanto se movia para a penteadeira, oferecendo um sorriso amigável quando Elaine pegou uma escova de marfim e começou a pentear as cerdas de javali no cabelo de Signa. — Não muito tempo, senhorita. — A tensão nos ombros de Elaine indicava que a empregada estava tão hesitante em dizer a coisa errada quanto Signa. Levou Signa limpando a garganta e esperando em um silêncio desconfortável antes de Elaine acrescentar — A senhora Lillian contratou-me há pouco mais de um ano, que Deus a tenha. — Ela pausou sua escovação para se benzer. — Como empregada dela? — Signa esperava que houvesse curiosidade genuína suficiente em sua voz para acalmar os nervos da mulher. Se a dor de obter informações de Elaine era um indicador, os criados e os ocupantes de Thorn Grove não conversavam com frequência. — Não dela — Elaine esclareceu —, mas para a jovem senhorita, Blythe. A empregada da senhora partiu para se retirar à beira-mar. — Thorn Grove é um lugar bastante sombrio, não é? — Signa meditou. — Posso entender por que o mar seria atraente. — Sim, senhorita. — A voz de Elaine ficou baixa e grave. — Dizem que este lugar é assombrado. Ah, agora eles estavam chegando a algum lugar. — A casa da minha família era à beira-mar — Signa disse a ela, não precisando fingir o desejo em sua voz. — Chama-se Foxglove. Lembro-me muito pouco disso, pois eu era criança quando o visitei. Estou ansioso para herdá-lo, embora deva admitir que a ideia de manter uma casa tão grande parece bastante assustadora. Imagino que levará séculos para contratar uma equipe completa. A mão de Elaine hesitou por um momento antes de ela retomar a escovação, e Signa sabia que suas palavras haviam funcionado. Pois quem escolheria o sombrio Thorn Grove em vez da Foxglove à beira-mar? Se houvesse uma chance para ela ganhar um lugar lá, Elaine iria querer. O que significava que Signa agora tinha outra pessoa ao seu lado, quer Elaine percebesse ou não. — Você é bastante habilidosa — acrescentou Signa. — É uma maravilha que tenha tempo paramim e para a Srta. Hawthorne. Tenho certeza que não é uma tarefa fácil. Desta vez Elaine não hesitou. — Obrigada senhorita. Embora eu admita que a jovem senhorita Hawthorne não exige muito de minha pessoa hoje em dia. Signa examinou o rosto da empregada no espelho da penteadeira. Uma pequena ruga de preocupação se formou entre suas sobrancelhas. Sua tristeza parecia genuína, e Signa percebeu que, durante todo o tempo em que Elaine a atendeu, ela nem uma vez acreditou estar falando com um assassino em potencial. — Não — disse Signa com um suspiro, já sentindo como se sua liderança estivesse escorregando por entre os dedos. — Suponho que não. Apenas a ajuda a se vestir, e o remédio dela, presumo? Elaine assentiu. — É bastante fácil prepará-la. Seu chá e refeições são feitas na cozinha. Eu apenas os levo para ela. Então não se preocupe, senhorita. Seus desejos nunca serão ignorados. Embora isso pouco a confortasse, Signa sorriu e perguntou: — Conheço os rumores da falecida Senhora Hawthorne. Mas diga-me, Elaine, há rumores de outros fantasmas em Thorn Grove? — Era um pensamento passageiro, mas que crescia com severidade quanto mais tempo ela pensava. Por que não haveria mais espíritos em Thorn Grove quando os Hawthornes o possuíam há gerações? Quando Elaine se encolheu e pousou a escova sobre a penteadeira, Signa sentiu suas suspeitas confirmadas. — Os criados falam sobre ver um homem na biblioteca — disse ela. — Dizem que os livros caem sozinhos das prateleiras, mas eu nunca entrei para ver pessoalmente. Signa nem sabia que Thorn Grove tinha uma biblioteca. Mas se houvesse outro espírito em Thorn Grove – talvez alguém que pudesse falar – então poderia valer a pena visitá-lo. Assim que Signa foi considerada pronta para dormir, Elaine foi até a sala de estar para pegar uma bandeja com um bule de chá bem quente, um pequeno pote de mel e um biscoito. Assim que Signa estava pegando seu chá, um quadrado escuro deslizou sob sua porta. A testa de Elaine se contraiu quando ela se abaixou para pegá-lo, brandindo um envelope preto com um lindo selo de cera dourada. — Talvez seja de um de seus primos? — Elaine adivinhou. Signa o pegou, passando o dedo sobre o pergaminho delicado. Ela de alguma forma já sabia que estava errado. — Ou talvez seja da Srta. Hargreaves, detalhando meus planos de aula para amanhã. — Isso também não parecia certo, mas foi o suficiente para Elaine assentir, satisfeita. Embora Signa quisesse mais do que tudo abrir a carta, ela colocou o envelope no colo e casualmente pegou o mel. — Obrigada, Elaine. — Ela manteve seu tom casual e educado, mas cheio do que ela esperava ser uma óbvia rejeição. — Tenha uma boa noite, senhorita Farrow. — Com uma última olhada no envelope, Elaine inclinou a cabeça e saiu. No momento em que a porta se fechou, Signa rasgou a carta. Escrito sobre um pergaminho grosso na mais bela caligrafia que ela já tinha visto, havia três linhas: Encontre-me nos estábulos à décima primeira hora esta noite, e vista-se bem. Nós iremos ao Grey's. —S Dezenove A festa estava a toda aquela noite. Música fluía do salão de baile, com o trinado de um piano de cauda reverberando contra as paredes. Estava tão movimentado quanto quando Signa chegou a Thorn Grove, os vestidos tão cheios e deslumbrantes como naquela noite, e os doces distribuídos em bandejas de prata igualmente luxuosas. Signa teve apenas vislumbres das festividades. O pesado vestido de lã que ela vestiu – com exceção de um espartilho, que ela mesma não conseguiu fechar – estava longe dos veludos e sedas importados que os outros ao seu redor usavam. Ela se esgueirou entre as empregadas, manobrando fora da visão daqueles que poderiam questioná-la. Morte estava certa – isso teria sido muito mais fácil se ela pudesse invocar aqueles poderes malditos dela. Mas colocar-se nesse estado o convocaria, e depois do que ela disse a ele naquela tarde, ele era a última pessoa que ela desejava ver. Ela tinha todos os motivos para odiar Morte. Todos os motivos para estar com raiva, e dizer isso a ele. Então, por que ela se sentia tão culpada? Signa manteve a cabeça baixa enquanto descia as escadas, quase saindo da casa quando seu rosto colidiu com o peito de alguém. Ela cambaleou para trás, notando primeiro a bengala de jacarandá que o homem segurava com força, depois encolhendo sob o peso do escrutínio de Byron Hawthorne. Um canto de seu lábio se curvou quando ele a olhou, parando em seus olhos. A respiração o deixou em uma corrida, uma palidez ultrapassando sua pele. — Lilian? — As palavras pareceram escapar dele antes que ele pudesse se conter, e ele balançou a cabeça. — Não. Você é aquela garota que estava com Marjorie, não é? A nova ala do meu irmão. Para onde você pensa que está indo, vestida assim? Uma palavra errada, Signa sabia, e ele a faria subir as escadas de volta. Ela considerou sua mentira cuidadosamente e decidiu que era melhor desempenhar o papel que este homem esperava dela – uma jovem tola. — Eu... eu só queria ver a festa, senhor. Ela engoliu em seco, pois embora estivesse atuando, seu desconforto com este homem era muito real. Ele fez um grunhido de desprezo e pegou-a pelo pulso como se pretendesse arrastá-la de volta escada acima. Eles deram apenas um passo quando algo no corredor chamou sua atenção. Signa seguiu seu olhar para ver que era o cabelo louro-avermelhado de Marjorie que ele observava enquanto ela escapava da festa, indo em direção à cozinha. Byron soltou a mão de Signa. — Volte para o seu quarto, garota, — Byron exigiu, embora ele não olhasse mais para ela. — Aqui não é lugar para crianças. — Claro, senhor. — Ela assentiu com a cabeça, mas no momento em que ele se virou para seguir Marjorie, Signa aproveitou a oportunidade para escapar na noite, não ousando olhar para trás para ver se havia sido vista. Qualquer um que a visse se escondendo para encontrar um rapaz a essa hora pensaria uma coisa, e se seu livro de etiqueta estivesse correto, isso significaria ruína social. Sylas esperou nos estábulos com os cavalos prontos – Mitra novamente para Signa, e um garanhão escuro como o céu acima para ele, um que a lembrou das belas feras que a pegaram da tia Magda. Gundry estava sentado nos calcanhares de Sylas, os olhos do cão de um rico âmbar. Seu nariz estava erguido e seus olhos alertas, garantindo que nenhuma companhia se atrevesse a se aventurar muito perto. — Demorou bastante. — Sylas olhou uma vez para seu vestido de lã e prontamente desabotoou sua capa preta, envolvendo-a sem esperar permissão. — Decidir parar para comer biscoitos no caminho para cá? — Se eu tivesse tanta sorte. — Signa cerrou o manto, envergonhada demais para agradecê-lo quando ele apertou as rédeas de Mitra em sua palma. Deslizando o pé em um estribo, Signa tentou se levantar e montar na égua. Sem vontade de perder tempo, Sylas alcançou sua cintura e a ergueu, verificando se ela estava segura na sela. Desta vez, ela fez o possível para não vacilar com seu toque. — É meia hora de viagem. — Ele se levantou em seu próprio garanhão com graça admirável. — Mantenha-se perto de Mitra para se aquecer – não vamos parar. — E posso perguntar por que estamos indo ao Grey's em primeiro lugar? — Havia apenas uma hora até que ela devesse se encontrar com a Morte. Embora ela não se importasse particularmente em vê-lo, ela não tinha nenhum desejo de descobrir o que ele faria se ela se atrasasse para qualquer “lição” ridícula que ele havia planejado. — Estava com os cavalos esta tarde quando ouvi sua governanta falando com Byron Hawthorne — Sylas disse a ela, enérgico. — Grey's estará fechado para reparos esta noite, e ela deve se juntar a ele lá. Há algo que ele quer mostrar a ela, algo que ele disse que vai “persuadi-la”. Se pudermos chegar lá primeiro, poderemos descobrir o que é. Isso explicaria a fome nos olhos de Byronquando viu Marjorie. — Eu os vi lá dentro, indo para a cozinha — disse Signa. Sylas apertou a mandíbula. — Eles provavelmente vão usar a distração da festa para levar sua carruagem. Nós deveríamos nos apressar. Gundry caminhou ao redor dos pés do garanhão, olhos âmbar brilhando e corpo tenso com antecipação. Signa se perguntou se ele era mais cachorro ou lobo. Ela estava começando a suspeitar do último. — O cão vem conosco? — É claro. Se encontrarmos companhia, ele nos alertará antes que possam nos ver. Agora vamos indo. Embora Signa tivesse mais perguntas – principalmente em quantos problemas eles teriam se fossem encontrados – ela não teve chance de perguntar quando Sylas deu um chute suave em seu cavalo e partiu. Mitra não esperou permissão para seguir. O vento picou as bochechas de Signa e ela puxou o capuz de sua capa emprestada. Ao envolvê-la, ela ficou surpresa ao descobrir que não cheirava a feno e estrume, mas a florestas de inverno, frescas e ricas em pinheiros. Ela puxou a capa para mais perto enquanto seguia atrás de Sylas, que parecia à vontade sob a noite estrelada. Ele não estremeceu como ela, mas inclinou a cabeça para trás para encarar o céu. Seu cabelo preto esvoaçava selvagem, tão indomável e livre como a forma como ele cavalgava. Ao lado dele, Gundry corria a toda velocidade, bufando de esforço e com a língua de fora, adorando cada momento da jornada. Sylas chamou a atenção do cão, o que lhe provocou um sorriso malicioso. Ele inclinou a cabeça para trás e uivou na noite. Gundry se juntou a ele, o som tão bonito quanto assombroso enquanto ecoava pelos pântanos. Observando Sylas, Signa amoleceu. Todos os dias, parecia, havia um outro lado dele para descobrir. Até agora, este era o seu favorito. Eles cavalgaram em silêncio por um longo tempo depois disso, os únicos sons eram os das feras ao redor deles. O resfolegar dos cavalos e o pesado bater de cascos enquanto eles corriam uns contra os outros pelos pântanos. Ofegante de Gundry, que nunca desacelerou mesmo quando o terreno mudou sob suas patas, a grama se transformando em escombros e, em seguida, paralelepípedos. Sylas parou seu cavalo e Signa fez o mesmo. Quando eles desmontaram, Sylas amarrou as rédeas dos cavalos frouxamente em torno de um tronco de árvore. — Vamos a pé daqui. Mantenha seu capuz. — Enterrada no cheiro amadeirado, ela não discutiu. Gundry aventurou-se à frente para farejar as ruas. Eles estavam cheios de lojas de chapéus e costureiras e até mesmo um pequeno boticário, todos os prédios bem fechados. No entanto, as luzes de um pub mais adiante na rua brilhavam, e era melhor não arriscar. — Byron e Marjorie. Você acha que um deles pode estar por trás do assassinato? — Seu sussurro ecoou pela rua vazia de paralelepípedos. Parecia estranho estar fora a uma hora daquelas – certo, era estranho estar na cidade, mas Signa não sentiu medo. Ela passou muito tempo com a noite para ter medo. E ao que parecia, Sylas também. No entanto, dado seu enorme tamanho, parecia mais provável que a noite tivesse medo dele. A caminhada de Sylas era confiante, seu corpo longo e queixo erguido. — Não tenho certeza. Mas se alguém tem como alvo os Hawthornes, deve haver um motivo. Byron certamente tem um – Grey's é a fonte de renda dos Hawthornes. É o legado deles. Quanto a Marjorie... — Há algo acontecendo entre ela e Elijah — disse Signa, ganhando um piscar de olhos surpreso de Sylas. Ao vê-lo, ela arqueou uma sobrancelha. — Você acha que é o único que pode fazer uma investigação? Sylas colocou a mão em seu ombro, guiando Signa para o lado da rua para que eles abraçassem os prédios. — Mantenha-se nas sombras, detetive. Se alguém vir você a esta hora, eles vão pensar que você tem algo para vender. — Mas eu não tenho nada no meu… oh. — Suas bochechas aqueceram. — E eles não pensariam o mesmo de você? — Eles achariam escandaloso, mas você suportaria o pior dessa marca social. Se eu tivesse um status mais alto, seria esperado que eu me casasse com você. Mas você tem sorte neste mundo, Srta. Farrow, pois tem os recursos para cuidar de si mesma, independentemente do que a sociedade considere para você. A maioria das pessoas não têm tanta sorte. — Ele passou o braço pelo de Signa e a puxou em direção a um prédio de pedra cinza – o mais alto da rua, um com uma enorme janela em arco perto da entrada da frente. Signa não conseguiu dar uma olhada mais completa no prédio, pois todo o seu rosto estava em chamas. Tal toque não era socialmente aceitável. Da diferença de status ao fato de não terem relação familiar, esse vínculo íntimo era quase tão escandaloso quanto se vender nas ruas. Não importava que ela tivesse dinheiro; ela não queria comprar o afeto das pessoas. Ela queria que eles realmente gostassem dela e a respeitassem. E ainda... ela nunca soube que o braço de um homem poderia ser tão firme. Que os ombros pudessem parecer tão sólidos, e as mãos tão fortes. Sylas era talvez uma das criaturas mais irritantes desta terra, e ainda assim ela não conseguia desviar o olhar dele. Quaisquer que fossem as fechaduras de Grey's, Sylas não perdeu tempo agachando-se diante deles, abrindo-os com uma facilidade enervante. Ele caminhou para dentro, as mãos enluvadas deslizando em seus bolsos. — Eu tive prática — disse ele quando percebeu que ela se afastou dele, olhando incrédula. — Os cadeados nas baias emperram o tempo todo e não podemos manter os cavalos presos lá dentro. Signa assentiu ao cruzar a soleira, embora parecesse que seus ossos estavam presos no lugar. Como ela tinha sido tola por vir. Concordar em viajar por meia hora de sua casa na calada da noite com um homem que era praticamente um estranho. Um homem que havia desmontado uma fechadura como se fosse uma mera insinuação. Onde, ela se perguntou, ele aprendeu tal habilidade? E em quanto perigo ela estava? Talvez ela tivesse sido uma tola por confiar em Sylas, embora ela achasse que não deveria se preocupar muito. Se Sylas tentasse alguma coisa, Signa precisava apenas convocar seus poderes. Para convocar Morte e acabar com a vida de Sylas. Sua mão foi instintivamente para os bolsos, mas eles estavam vazios. Ela deixou suas bagas de belladonna nos bolsos de seu vestido de dia. O suor se formou em sua testa, e sua respiração ficou inquieta quando o gemido repentino de Gundry perfurou a noite, acompanhado pelo barulho de cascos e rodas de carruagens em paralelepípedos. Sem perder o fôlego, Sylas fechou a porta e segurou a mão de Signa. Não havia tempo para perguntar o que ele estava fazendo – não havia tempo para olhar ao redor – antes que ela fosse enfiada em um armário de casacos. Sylas tropeçou atrás dela, sibilando quando bateu a cabeça em algo que ela não podia ver na escuridão. — Abra espaço! Signa puxou as saias para mais perto, embora houvesse pouco espaço a ser poupado. Eles estavam meio um em cima do outro quando ele pressionou. Ele tentou se apoiar contra uma parede, apenas para o couro de suas luvas roçar na cintura de Signa. Ela engasgou e chutou uma de suas botas. Sylas sibilou: — Dê-me algum crédito, Srta. Farrow. Se eu estivesse tentando seduzi-la, meus métodos seriam muito mais aguçados. Suas palavras foram interrompidas quando uma porta oposta à que eles entraram sacudiu. Atirando Signa um olhar que sinalizava silenciosamente para ela se comportar, Sylas fechou a porta do armário. Signa estava convencida de que não havia nenhuma parte de seu corpo que Sylas não estivesse tocando, e não havia nenhuma parte dele que ela não estivesse tentando muito não pensar. O fato de ela ter se aventurado sem um espartilho amplificava a situação, pois cada roçar contra ela parecia muito mais chocante, e a pressão de seu corpo ainda mais perigosa. Foi um momento inoportuno para que um sentimento tão fervoroso despertasse nela, e ainda assim despertou, acelerando seu pulso e fazendo suamente vagar. Ela se perguntou como seria passar os dedos pelos cabelos cor de fuligem dele, ou como os lábios dele seriam contra os dela. O que seu corpo pode sentir por baixo de todas as camadas. — Alguém chegou — Sylas sussurrou, e Signa quase o chutou novamente. — Obviamente. — Tirada de seu estupor, ela tentou espiar pelas finas ripas de madeira da porta. Embora estivesse escuro demais para ver seus olhos, ela poderia jurar que Sylas a estava observando antes de se inclinar e fazer o mesmo, olhando através das ripas acima dela. Quando a maçaneta da porta da frente chacoalhou, Signa respirou fundo e prendeu a respiração, com medo de que se ela fizesse algum som, eles seriam descobertos. Oh, que tola ela foi ao deixar Sylas arrastá-la aqui, escondida em um armário de casacos de todos os lugares. As duas sombras entraram sem fazer barulho, a maior delas se curvando para acender uma das lamparinas a óleo, banhando seu rosto com um brilho tênue de brasa. Através de pequenas lascas, ela podia ver que o piso de Grey's era feito de obsidiana, assim como o tampo do bar que se estendia ao longo de uma parede inteira. Havia mesas de vidro espalhadas por toda parte, com cadeiras de couro de pelúcia ao redor de cada uma. No lado oposto da sala, sofás de couro cercavam a maior lareira que Signa já tinha visto. — Teremos que ser rápidos — resmungou Byron, a voz áspera como uma carruagem caindo por uma estrada de cascalho. — Se alguém descobrir que uma mulher foi autorizada a entrar, teremos uma dor de cabeça maior do que temos agora. — Você me implora para vir, mas me condena no momento em que entro? — Marjorie parecia mais altiva do que Signa jamais a ouvira. — Estou perfeitamente contente de ficar do lado de fora e compartilhar nossa discussão com o mundo se minhas artimanhas femininas te ofenderem. Ou talvez possamos levá-lo de volta à carruagem, para que eu possa voltar para casa? Signa não conseguiu entender sua resposta, embora achasse que tinha algo a ver com o fato de Marjorie precisar ver este lugar por si mesma, para entender o que ele estava tentando salvar. Sentando-se em uma das mesas, Byron deslizou algo para ela – papéis. — Olhe para isso e você verá que o licor não é pedido há semanas. E nessas, que mostram que não teríamos comida para os hóspedes se eu não tivesse percebido que nosso embarque estava atrasado. Elijah não reservou nenhum entretenimento, nossos charutos não estão mais sendo importados e, no entanto, é ele quem detém os livros. É ele quem se recusa a oferecer qualquer moeda a esta empresa. Aquele que se recusa a passar seu trabalho para mim e, pior ainda, para Percy! Aquele menino esteve aqui todos os dias esta semana implorando para trabalhar, Marjorie, e estou ficando sem desculpas para dar a ele. Signa desejou poder ver o rosto de Marjorie. Desejou poder ver alguma coisa quando Marjorie respondeu: — Fiz tudo ao meu alcance, Byron. No entanto, mesmo em sua morte, Lillian ainda mantém sua alma. Não consigo falar com ele. — Então, mude isso. — Havia tanto ressentimento em seu tom que Signa se encolheu, feliz pela primeira vez que o corpo de Sylas estava ali para acalmá-la. Uma de suas mãos encontrou apoio em sua cintura quando ele se inclinou sobre ela para assistir a cena se desenrolar. Agora que ela percebeu isso, ela lutou para não se concentrar em cada contração de seus dedos e mudança em seu corpo e, em vez disso, prestar atenção ao que estava acontecendo fora do armário. — Você perdeu todo o seu charme, mulher? — Byron colocou as palmas das mãos sobre a mesa e se inclinou. — Se ele deixar esse negócio fracassar, Percy ficará sem nada. Ele será feito motivo de chacota e deixado sem perspectivas. Não posso ver isso acontecer com ele, e sei que você sente o mesmo. Elijah tem filhos – dois, ainda assim, não importa o que ele possa pensar. Devemos fazê-lo perceber isso, antes que eu não possa mais consertar sua bagunça. — Você esqueceu Lillian tão facilmente? — Havia um calafrio na voz de Marjorie que roubou o calor da sala e deixou Byron em silêncio. — Eu sei que não - a cidade inteira sabia seus sentimentos por ela. — Lilian é inesquecível. — A voz de Byron ficou tão baixa que Signa teve que encostar o ouvido na porta para ouvir. — Mesmo assim, não podemos permitir que meu irmão jogue tudo fora e vá atrás dela. — Ele deve chorar por ela… — Ele lamentou! É hora dele tirar a poeira antes que amaldiçoe essa família. Há pouco que posso fazer quando ele se recusa a oferecer sua assinatura. Se ele não entregar o negócio para Percy, convença-o a me dar. Eu cuidaria melhor disso de qualquer maneira, assim como teria cuidado melhor dela. Cada músculo do corpo de Signa começou a tremer com o pesado silêncio no ar. Havia suor na nuca e nas costas, mas ela não prestou atenção. — O que — Marjorie perguntou por fim —, você está me pedindo? Não houve hesitação na resposta de Byron. — Meu irmão é um homem solitário, Marjorie. E homens solitários são... suscetíveis. Especialmente para as artimanhas de uma mulher. — O que você está sugerindo? — Seus dedos se curvaram contra a mesa. — Fale sem rodeios comigo, Byron. Byron passou o polegar e o indicador pelo bigode escuro, aproveitando o tempo para se recompor. — Você e meu irmão tiveram relações no passado. Eu pensei que você aproveitaria a oportunidade de estar com ele, ele poderia fazer uma vida para você. A cadeira rangeu contra o piso de obsidiana quando Marjorie se levantou. — Como você ousa? Você pode ter passado a vida sofrendo com um amor perdido, Byron, mas não vou me rebaixar a tanta vergonha. — Desculpe se ofendi você... — Me ofendeu? — A risada de Marjorie foi como o tiro de uma pistola, afiada e hesitante. — Você colocou em questão minhas próprias virtudes. Você insinuou que sou pouco mais que uma prostituta, e Elijah uma marionete para brincar. Você mais do que me ofendeu, senhor. Pelo bem das crianças, continuarei tentando falar com Elijah, mas não para ajudá-lo. Eu quero que você fique longe de Percy. Byron também se levantou. — Não farei tal coisa. Se você se importa com aquele garoto, então fará o que eu pedir. Há mais de uma maneira de arruiná- lo, senhorita Hargreaves. Houve uma batida antes que ela respondesse, suas palavras mais trêmulas agora. — Percy não fez nada de errado. Byron virou os ombros para trás, envaidecendo-se em sua vitória. — Não vou ver o legado da minha família cair com a morte de uma mulher. Elijah deve parar de negligenciar seus deveres. — Como você se tornou insensível, Byron. Deus, como eu gostaria que ela pudesse vê-lo agora. O tapa foi tão alto que Sylas cobriu a boca de Signa e a puxou contra seu peito enquanto ela ofegava de surpresa. Signa só podia imaginar o quanto deve ter queimado, e cada parte dela ansiava por abrir a porta do armário e ir atrás de Byron. Para machucá-lo por machucar Marjorie. Com os pés trêmulos, Marjorie agarrou o rosto com uma mão. Com a outra, ela pegou o casaco. — É hora de você crescer e parar de competir com seu irmão. Por mais perdido que esteja agora, ele sempre será o melhor homem. — Ela cuspiu no chão e saiu. Signa esperava desesperadamente que ela pegasse a carruagem e deixasse Byron encalhado, mas Byron amaldiçoou e a seguiu, fechando a porta atrás dele. Signa estava muito entorpecida pela surpresa para se mover enquanto o silêncio se instalava em seus ossos. Marjorie e Elijah estiveram juntos antes? Isso explicaria sua familiaridade. Se aconteceu antes de Elijah se casar ou depois, foi um escândalo, no entanto. Mesmo assim, Signa estava começando a entender o apelo da atração ilícita. Depois de um momento, seus pensamentos voltaram para a firmeza do corpo de Sylas contra o dela, e para imaginar coisas que ela não tinha que imaginar, especialmente quando já estava tão infernalmente quente no armário minúsculo. Felizmente, assim que ouviram o barulhode uma carruagem descendo a rua, Sylas abriu a porta do armário de casacos e Signa explodiu em uma necessidade desesperada de ar fresco. Ela não queria nada mais do que tirar a roupa, o suor escorregadio e abafado, mas se contentou em remover a capa e jogá-la nele. Signa nunca esteve mais grata pela escuridão enquanto se perguntava se ele estava pensando em seu corpo tanto quanto ela no dele. — Sinto que realmente nos ligamos lá. — Seu tom era provocador, confirmando suas suspeitas. — Ouso dizer que agora conheço você melhor do que já conheci alguém. — E então ele se acalmou, como se percebesse que tinha dado uma informação que não pretendia, e se virou enquanto limpava a garganta. — Ele bateu nela — sussurrou Signa, atordoada e ansiosa por uma mudança de assunto. Sylas assentiu, ajustando suas luvas. — Ele bateu. — Você acha que ela vai ficar bem? — Para ser franco, acho prudente temer mais pelo bem-estar de Byron do que pela senhorita Hargreaves. Acho que nada é tão aterrorizante quanto uma mulher desprezada. E você viu o rosto dela? Positivamente assassino. Agora — ele estendeu a mão —, chega disso. Enquanto estamos aqui, vamos descobrir que outros segredos este lugar está escondendo. Vinte Apesar de sua situação – ou talvez por causa dela – Signa não conseguiu parar a emoção que a percorreu quando Sylas pegou sua mão e a puxou mais para dentro do Grey’s. Naquela manhã ela estava tomando chá, vivendo seu sonho de participar da alta sociedade. Ela esperava que aquela reunião preenchesse o vazio solitário dentro dela, mas tudo o que fez foi fazê-la perceber o quanto ela tinha que trabalhar, e quanto mais ela tinha que aprender e se moldar para ser aceitável. No entanto, com Sylas, seus ombros finalmente relaxaram e seu corpo vibrava com a vida. Com ele, não havia nenhuma preocupação de que alguém examinasse cada movimento dela. Ela só poderia ser. A noite deles juntos parecia um recomeço. Como encher seus pulmões com uma respiração profunda. Ela deixou Sylas liderar, tentando acalmar as batidas de seu coração enquanto ele pegava uma lamparina a óleo e a levava para o escritório. Ela precisava se controlar — além de seus diferentes status, ela mal conhecia Sylas. Em vez de deixar sua mente agitar-se com pensamentos de jovens bonitos, ela precisava se concentrar na tarefa em mãos. O escritório de Elijah em Grey's era semelhante ao que ele havia montado em Thorn Grove. Uma grande escrivaninha de mogno e uma cadeira felpuda estavam no centro, em cima de um tapete vermelho polido. Alguém havia projetado a sala para ter um ar de masculinidade, com um sofá de couro que ficava na frente de estantes que ocupavam uma parede inteira. Embora Elijah supostamente não estivesse no escritório há algum tempo, não havia sequer um grão de poeira nas prateleiras, e os livros de couro preto estavam organizados ordenadamente em sua mesa. À primeira vista, pode-se pensar tudo sobre o padrão do escritório. Mas algo incitou Signa a olhar mais fundo, assim como Sylas parecia inclinado a fazer quando se jogou no assento atrás da mesa e tentou a gaveta de cima. Não se mexeu. — Acha que consegue abri-lo? — Signa perguntou, lembrando com que facilidade ele destrancou a porta do Grey's. — Eu posso tentar. Essas são coisas mais inconstantes, no entanto. É mais difícil mascarar que você está brincando com isso. É por isso que... — Ele se levantou e foi até a estante, inspecionando as lombadas de velhos livros de couro e várias bugigangas. Ele até mexeu nos móveis até que, escondido sob uma lâmpada, descobriu uma chave de prata ornamentada. — Eu preferiria encontrar uma dessas. — Se a cabeça dele já não estivesse tão inflada, Signa poderia ter admitido que estava impressionada. Ele certamente esperou pelo elogio e zombou quando ela apenas acenou para ele abrir a gaveta. O conteúdo era muito menos excitante do que ela esperava. Contas antigas de álcool e charutos importados estavam espalhadas pela gaveta, assim como cartas deixadas por clientes. Ao inefável Sr. Elijah Hawthorne, um escritor começou, cuspindo bobagens por duas páginas sobre como estava satisfeito por ter a oportunidade de se tornar membro da Grey's, e o quanto ele valorizava as qualidades de um cavalheiro. Elijah deve ter guardado a carta para seu próprio divertimento. Havia mais iguais, talvez uma dúzia ou mais, cada um deles tão indulgente quanto o outro, escritos na esperança de obter as boas graças de Elijah e reivindicar uma adesão. Ela colocou as cartas de lado e começou a vasculhar a gaveta mais uma vez, até que tirou um punhado de fotografias. Sylas deu um silvo de protesto. — Cuidado. Somos apenas fantasmas de passagem. Não devemos deixar marcas. Signa o ignorou. Elijah era agora uma casca do homem que tinha sido nas fotografias dele e de sua família. Embora apenas um momento capturado no tempo, sua risada na primeira foto da pilha foi contagiante. Ele sorriu brilhante como uma estrela, o braço enrolado na cintura de uma linda mulher. Ela era a encarnação da luz do sol, radiante, com ondas loiras que desciam até a cintura. Lilian. Ela parecia longe do espírito assombrado que Signa conhecia – ainda não uma mulher atormentada por sua morte e impotente para mudar o destino de sua filha. Diante deles estavam duas crianças: Percy, talvez dez anos na foto, e uma jovem Blythe diante dele. Blythe parecia muito com sua mãe, embora sua expressão fosse mais astuta. No retrato em miniatura, Lillian estava com a mão no ombro de Percy enquanto o menino olhava para a câmera. A expressão de Percy era severa, mãos pequenas nas lapelas de seu paletó, como se para garantir que ele parecesse adequado. Parecia que não havia mudado muito ao longo dos anos. Signa teria gostado de roubar a fotografia para provocá-lo, mas não ousava correr o risco de ser descoberta. Ela começou a colocar a foto de volta para a gaveta quando seu polegar roçou em uma borda fina na parte de trás da foto, havia algo preso a ela. Com a ponta da unha, ela tirou um pedaço de pergaminho do verso da fotografia. Estava amarelado com manchas de café e sua tinta escura borrada por um derramamento de líquido. — É uma carta — ela disse a Sylas, que pairava sobre ela. Eu imploro a você, Elijah, que pense em nosso filho. Não importa o que você possa sentir por Grey's, é tudo o que ele sabe. Entendo que sua relação com aquele lugar seja tensa, mas devemos lembrar que nosso filho não é você. Qualquer escrúpulo que você tenha não deve ser descontado no garoto. Percy nasceu para herdar o legado de Hawthorne. É tudo o que ele quer, Elijah. Por favor, não deixe sua dor – não deixe seu egoísmo – fique no caminho dele. Havia mais palavras borradas e manchadas além da legibilidade, mas não havia como negar que vieram de Lillian, antes de sua morte. O tempo todo, Signa tinha a impressão de que Elijah havia tirado Grey's de Percy após a morte de sua esposa. Mas de acordo com esta carta, Elijah estava tendo dúvidas em deixar Percy herdar Grey's há muito mais tempo. Outra peça do quebra-cabeça. Outra informação para guardar em segurança. Sylas se inclinou sobre o ombro de Signa para ler a carta, perto demais para ser confortável. — Pobre coitado. Parece que Elijah está falando sério sobre jogar este lugar no fundo do poço. Signa enfiou a carta no verso da foto mais uma vez e a devolveu à gaveta antes de dar voz a um pensamento passageiro. — O que poderia tê-lo feito mudar de ideia tão de repente? O que poderia fazê-lo querer desistir do legado de sua família? Achei que era sua maneira de lamentar. — Isso é o que todo mundo parece acreditar. — Sylas olhou pela janela para o céu escuro. Já devia ter passado da meia-noite agora. — Acho que não encontraremos mais nada esta noite, Srta. Farrow. Devemos nos apressar de volta, antes que alguém perceba sua ausência. Dada a festa, ela duvidava que alguém notaria. Ainda assim, não erasensato arriscar ser encontrada se esgueirando pela segunda noite consecutiva. Ela cedeu, fazendo uma varredura para garantir que tudo estava no lugar antes de se afastar da mesa. — Meros fantasmas passando — disse Signa, não mais tímida enquanto enlaçava o braço no que Sylas oferecia. Seu toque tinha despertado algo dentro dela que ela não tinha interesse em reprimir. Uma curiosidade persistente para experimentar o toque de um homem sob seus dedos. Era, como ela estava descobrindo, um sentimento que ela gostava bastante. Vinte e um Uma hora depois que Sylas a deixou nos túneis, com instruções para pegar a primeira à direita, a segunda à esquerda e seguir em frente até chegar à dispensa, Signa ainda estava vagando sozinha, a mão direita pressionada contra a parede para guiá-la. Curva após curva, ela se deparou com a escuridão e um labirinto que parecia mudar e diminuir abaixo dela. A música da festa de Elijah era um tamborilar distante contra as paredes do túnel. Signa o perseguiu mesmo assim, agarrando-se ao barulho na escuridão. Mas não importa o quão longe ela perseguisse, não havia fim à vista. Curva após curva, túnel após túnel, a pressão em seu peito aumentava. Foi como no dia em que ela chegou a Thorn Grove, quando ela perambulou por corredores que pareciam intermináveis, insultada por retratos de todos que viveram lá antes de seu tempo. Alguém ou alguma coisa estava brincando com ela, mas saber disso não fez nada para aliviar sua respiração superficial. Cada um de seus passos ficou mais desesperado, cada respiração mais apertada, até que ela tropeçou em outro beco sem saída. Ela bateu na parede em frustração. — Quem está aí? Não tenho tempo para jogos. Uma voz veio da escuridão, baixa e zombeteira. — Pelo contrário, Passarinha, acho que você poderia usar mais jogos em sua vida. Signa nunca ficou tão aliviada ao ouvir aquela voz. Ela se virou para ele, capaz de ver Morte mesmo nos túneis, pois suas sombras eram mais escuras que a própria noite. Ele parecia maior do que o normal. — Você — ele disse sem suavidade —, está atrasada. Eu esperava que você tentasse atravessar as paredes em vez de seguir as regras deste túnel, mas você é mais teimosa do que eu imaginava. — E você é um tolo arrogante. — Ela não havia esquecido sua promessa de aulas à meia-noite, embora nunca tivesse imaginado que ele se rebaixaria a jogos mesquinhos como punição. — Eu não tenho nenhuma fruta comigo, seu monte de sombras ridículas. A escuridão se reuniu ao redor dela. — Um monte ridículo de sombras, não é? Bem, Srta. Farrow, temo que este monte de sombras seja sua única ajuda no momento, e você faria bem em se lembrar disso. Especialmente se pretende salvar sua prima. Apesar do medo, dos nervos e da raiva fervendo dentro dela, Signa inclinou a cabeça para trás e riu. Era um som amargo e antinatural. — E eu devo confiar em você? O suspiro que ele soltou entre os lábios se tornou o vento em seu cabelo. — O que será necessário para você aceitar que eu não sou seu inimigo? — Não matar todos ao meu redor seria um bom começo. — Ela endireitou os ombros. — E você poderia responder minhas perguntas também, sem os enigmas. Embora ainda sem rosto e nada mais do que faixas de sombra e o sangramento da noite, a escuridão encolheu até que Morte se tornou uma sombra em forma de homem que se curvou para ela. — Pergunte-me, então, e eu responderei. Ela achatou sua expressão, tomando cuidado para não mostrar sua surpresa. Embora ele não tenha feito nenhum comentário sobre as vidas que ele tirou, ela sabia que não deveria perder esta oportunidade. — Se eu tenho os poderes que você reivindica, por que eles falharam comigo quando eu fiquei presa na cerca? Suas sombras roçaram perto de sua pele quando ele respondeu sem hesitação. — Porque você os teme. Porque você tem medo de mim e do meu mundo, e que de alguma forma você pode estar se tornando parte dele. Ela mordeu o interior de sua bochecha, não deixando nada vazar em sua expressão. — Eu não pertenço a esse mundo. — Não? Então por que nunca conheci outra alma que compartilhasse meu poder? — As sombras a rodearam. — Desde a criação da própria vida, houve Morte para equilibrá-la. E em todo esse tempo, nunca consegui me comunicar tão claramente com outra alma viva. Ela não se atreveu a desviar o olhar do ceifador, mas tentou espiar através das sombras que o protegiam. Como ele pode parecer com suas sombras despidas? Ele teria um rosto? Um corpo? Oh, o que ela não daria para pegar Morte corando. Para pegá-lo se sentindo tão pequeno e vulnerável quanto ela. — Como você se sentiu — ele perguntou de repente —, quando usou meus poderes na noite passada? Você gostou de sentir o formigamento contra sua pele? Você encontrou conforto na escuridão e nas sombras? Ela tinha, embora fosse uma verdade que ela tentou não admitir nem para si mesma. Durante toda a sua vida, ela odiou Morte. E ainda assim ela passou seus anos perseguindo-o como uma mariposa para uma chama. Por mais difícil que sua vida tenha sido por causa dele, ela deveria tê-lo desprezado. Por que, então, sempre que ela estava com ele, algo dentro dela queimava quente e fervoroso? Diante de Morte, ela deveria tremer. Ela deveria temer. E, no entanto, quanto mais tempo ela passava com ele, mais esse medo estava começando a se esvair à medida que a curiosidade apodrecia em sua ausência. Ela não odiava Morte, não de verdade. E Deus, que tola isso a tornava. As sombras de Morte se inclinaram, circulando-a. Ao fazê- lo, o ar nos túneis ficou mais apertado e mais pesado, e Signa deixou que seus dedos e seus pulmões congelassem. Havia um limite, porém, para essa frieza. Um pouco mais, e ela queimaria. No entanto, não importa o quanto ela fingisse o contrário, Signa ansiava por aquela sensação. — Ah, sim. — A voz de Morte era um ronronar na noite. — Foi o que eu pensei. Eu tenho o poder de ajudá-la, mas não vou me forçar a você. Você deve vir por conta própria. Meu toque é fatal, Passarinha. Apenas um toque na minha pele, e você estará atrás do véu novamente, capaz de acessar seus poderes até que seu corpo se curar.. — Ele estendeu a mão. — Chega de fingimentos… quero mostrar nosso mundo a você. Diga a palavra, e esta noite eu vou ensiná-la a acessar seu poder sem a belladonna. A memória de seu tempo no jardim de Lillian surgiu, e Signa se lembrou do corte do portão de metal frio através de seu corpo. A pressão em seus pulmões imóveis enquanto eles estavam congelados no tempo. Havia outra coisa de que ela se lembrava também — a liberdade. O poder. O que significaria, porém, se ela agisse com a ira de Morte? Se ela permitisse seu poder, o que isso fazia dela? Havia uma escuridão esperando para abraçá-la, esperando para afogá-la. Era o lado de si mesma contra o qual ela lutou com unhas e dentes, pois se ela cedesse a tais desejos e abraçasse os poderes dentro dela, o que ela poderia se tornar? — Você sabe qual túnel leva de volta a Thorn Grove? — ela perguntou. Morte respondeu friamente: — Eu sim. — E você pode me levar até lá? — Eu não vou. — Signa notou sua escolha de palavras com aborrecimento. — Você tem habilidades que são inéditas, Signa Farrow. Você não é uma humana comum, e é hora de parar de agir como uma. Se você abraçasse o poder que vejo em você... — Não importa o que você vê!— Suas palavras soaram muito alto, penetrando em seus próprios ouvidos. — E se eu quiser ser uma humana comum? Estou cansada de você me seguir aonde quer que eu vá. Estou cansada de pessoas morrendo! Embora ela não visse nariz, Morte parecia estar apertando a ponte de um. — Se você me deixar mostrar o que você pode ser – o poder que você pode exercer – você pode mudar de ideia. Talvez você ache que uma vida comum lhe convém agora, mas o que acontece quando isso não for mais suficiente? Quando houver um vazio em você que não pode serpreenchido com chá e fofocas? “Tentei deixar você em paz”, continuou ele “Eu tentei não me importar. Não me envolver. Mas estamos conectados, você e eu. Nossos destinos… “ — O destino pode me deixar em paz — Suas têmporas pulsavam com uma dor de cabeça crescente. — Posso determinar meu próprio destino sem sua ajuda. Havia um sorriso em sua voz. — Se eu ver o Destino novamente, vou deixá-lo saber que você se sente assim. Signa se acalmou, embora isso não devesse tê-la surpreendido. Se Morte era real, então por que o Destino não deveria ser? Morte notou sua curiosidade. — Diga-me, você realmente deseja que eu vá? Porque eu tentei deixar você. No entanto, toda vez que faço isso, parece que você encontra uma razão para me puxar de volta. Diga a palavra e eu tentarei novamente se é isso que você quer. Quando ele deu um passo para longe, Signa estendeu a mão instintivamente para detê-lo. — Espere! — Ele acalmou sem hesitar, e a tensão no peito de Signa diminuiu um pouco, e ela disse a ele: — Sim, eu preferiria que todos ao meu redor não morressem. Mas... eu não quero ficar presa aqui sozinha. Mais uma vez, Morte estendeu a mão. — Minha oferta ainda está de pé, mas você precisa tomar uma decisão. Sou um homem ocupado, lembra? — Sim, tenho certeza de que estou poupando você de uma dúzia de mortes enquanto falamos. Ele zombou. — As almas não são criaturas pacientes. Quer eu vá até eles ou não, eles me encontrarão em breve. Ela revirou os olhos, mas sabia que não havia como mudar sua mente. — Tudo bem.— A palavra veio com os dentes cerrados. — Faça-me uma promessa, e eu jogarei seu jogo. Sua mão vazia e na espera se apertou com força. — Não faço promessas que não posso cumprir. — Bom. Então me prometa que deixará todos em Thorn Grove em paz. Estou cansada de fazer laços, só para você tirá- los de mim. O ar ficou ainda mais denso, seus pulmões mais frios. Quando Morte falou novamente, toda a diversão, toda a sua curiosidade, havia evaporado. — Você tinha um tio que ignorava você. Que roubou de sua fortuna e manteve você trancada em um quarto para que ele pudesse trazer a cidade inteira para sua cama. Você tinha uma tia que abusou de você e outro guardião que você nunca teve que conhecer porque ele era alguém que não era adequado para ficar sozinho com garotas, Signa. E quanto ao que morreu na banheira? Ela tinha um plano para casá-la com o filho de seu amigo para que ele pudesse ficar com sua fortuna e ajudá-los a obter riqueza. — Fiquei esperando que o próximo fosse melhor que o anterior — continuou ele —, mas a ganância transforma as pessoas em monstros. Foi realmente tão terrível se livrar deles? Ela nunca tinha considerado sua vida e toda a sua reviravolta sob tal luz. Ela tinha sido tão jovem, e estado em muitas situações estranhas para saber o que era normal e o que não era. Ele estava certo que seus guardiões tinham sido cruéis com ela. Todos menos um. — Eu tinha uma avó que não fazia nenhuma dessas coisas — argumentou Signa —, o que ela fez? As sombras ao redor dele estremeceram, iradas. — Todos aqueles que vivem devem morrer, Passarinha. Você sabe tão bem quanto eu que era a hora dela. Eu vim para ela enquanto ela ainda mantinha sua dignidade. Signa rangeu os dentes, querendo tanto que sua frustração só aumentasse, nunca diminuísse. — Por sua causa, tive uma vida de isolamento. Foi uma dificuldade atrás da outra porque todos ao meu redor acreditavam que eu estava amaldiçoada. Morte bufou. — Não é minha culpa você estar cercado por abutres piedosos… — Abutres ou não, eu teria pelo menos uma companhia de vez em quando! Você mesmo disse que a vida e a morte devem manter o equilíbrio, mas parece estar fazendo um péssimo trabalho ao seguir essa regra. Estou enganada, ou você não me disse o quanto é importante que eu reconheça meus poderes e não saia por aí matando pessoas acidentalmente, para que possamos manter um equilíbrio frágil entre a vida e a morte? Suas sombras pararam, e Signa se viu olhando para aquele homem estranho – a morte encarnada, o sangramento da noite – com o coração na garganta. Quando ele falou, sua voz era o som de cascos sobre paralelepípedos, baixo e entrecortado. — Talvez tenha sido mais egoísta da minha parte do que eu percebi, mas eu não podia ficar parado e ver como eles tratavam você. Ele efetivamente roubou a aspereza de Signa. Não era certo, o que ele fez. Todas aquelas pessoas, por mais terríveis que fossem, não mereciam morrer. No entanto, Signa não pôde evitar a forma como seu estômago se agitou com sua admissão. — Você... Você os levou para tentar me ajudar? — Ela não queria acreditar que tal coisa pudesse ser verdade. Ninguém nunca a defendeu. Ninguém jamais tentou protegê-la. Então, por que ele tinha? — Claro que sim, sua garota ridícula. — Ele cerrou as mãos e respirou fundo, como se tentasse reunir paciência. — Isso te satisfaz? Ela levou um momento para se endireitar, mal entendendo o que ele queria dizer. Porque não. Ela nunca tinha percebido que poderia estar tão insatisfeita. Não tinha percebido que seus lábios podiam formigar ou seu estômago doer com um desejo que ela sabia que não deveria existir. Ela deveria odiá-lo. Mas saber que havia alguém olhando para ela, alguém protegendo-a e cuidando dela, era tudo o que ela sempre quis. E mesmo que não tenha sido do jeito que ela esperava, até mesmo ouvir aquelas palavras parecia muito melhor do que deveria. — Aceito sua oferta. — Ela forçou as palavras antes que pudesse mudar de ideia. — Mostre-me como acessar meus poderes sem a belladonna e me tire daqui. As palavras o desamarraram. Quando as sombras de Morte envolveram Signa, ela não vacilou. Embora uma pequena parte dela avisasse que isso era errado, que ela deveria ter medo, ela se inclinou em sua carícia. Ela podia sentir suas sombras agora. Podia senti-los ao longo de sua pele, roçando seu pescoço e lábios. Acendendo partes dela que ela nunca soube que poderiam ser despertadas. Seus dedos apertaram os dela, e era uma mão de verdade, suave contra a dela e pálida como a lua. Ele a puxou para perto. Signa respirou fundo – ele realmente era mais do que a escuridão e as sombras em que espreitava, então. Ele tinha forma. — Todos aqueles que eu toco — Morte sussurrou —, morrem. — Sua outra mão pressionou sua bochecha de repente, e ele soltou um suspiro maravilhoso tão pesado que todo o corpo de Signa aqueceu. — Exceto você, Signa Farrow. Quando eu te toco, eu te sinto. Em você, minha influência é temporária. Signa ansiava por se inclinar para aquele toque. Ele não soava como ele mesmo, a voz obscura agora, ofegante e maravilhosa. Lentamente, ele deixou sua mão cair de sua bochecha, embora os dedos de sua outra mão permanecessem apertados ao redor dela. — Se quebrar nossa conexão, você será corpórea mais uma vez — ele a avisou. Signa assentiu e apertou os dedos nos dele, nunca querendo experimentar ficar presa dentro de algo novamente. A morte fez um som baixo na parte de trás de sua garganta enquanto ela se aproximava. Quanto mais eles se tocavam, mais ela podia sentir sua temperatura despencando. O peso de seu corpo ficou leve enquanto a gravidade se esvaía. Gelo a atravessou, e seus pensamentos escureceram quando esse poder escorregou, assegurando-lhe que ela poderia fazer qualquer coisa. Que ela era invencível. Ela inclinou a cabeça para trás, saboreando a sensação. Este mundo era dela para tomar. — Como você está se sentindo? — Morte perguntou com uma cadência de conhecimento. — Como se o mundo que conheci de repente fosse insuficiente. — Ela não percebeu isso até que ela falou a verdade em voz alta. Algo sobre Morte – algo sobre quando ela estava assim – a fez corajosa. A fez confiante de uma maneira que ela não ousaria ser. — Para você, este mundo é insuficiente. — A morte a conduziu pelos túneis. Não havia paredes para bloqueá-losnem portas para mudar seu caminho. O mundo estava aberto para seus lances. — Para você — continuou Morte —, o mundo pode ser infinito. — Eles passaram de um túnel para o outro, o mundo se curvando aos seus caprichos. — Se você acolhe esse poder ou não é sua escolha, mas esse sentimento – este mundo – pode pertencer a você. Você só precisa tomá-lo. Ela fechou os olhos. Havia uma pressão na parte de trás de seu crânio que ela logo percebeu que vinha das almas solitárias que a chamavam, desejando passar. Então veio outra pressão sobre ela que ela reconheceu como uma morte próxima – alguém pronto para ser colhido desta terra chamando por ela. Quando Signa abriu os olhos novamente, eles estavam úmidos. — É triste? — ela perguntou. — O que você faz? Os músculos em suas mãos flexionaram em surpresa. — Há momentos em que eu gostaria que as coisas pudessem ser diferentes. — Não foi uma resposta direta, mas Signa achou que era a melhor que ela conseguiria. — Há momentos em que gostaria de poder alertar as pessoas sobre suas escolhas. Vidas que devo tirar em uma idade muito jovem ou quando eles estão cercados por pessoas que não estão prontas para que eles partam. Sou odiado e temido mais do que qualquer coisa ou qualquer pessoa neste mundo. Então, às vezes, sim, pode ser triste. Mas é quem eu sou. “Tem algo bom nisso também, eu sou a primeira pessoa que as pessoas veem quando dão seu último suspiro. Eu sou o mensageiro que pode entregá-los àqueles que eles perderam. Eu sou aquele que garante que não se preocupem, ou que entrega uma morte rápida para aqueles que não são bem-vindos na vida após a morte. Sou muitas coisas, mas o que não sou é inferior.” — Você deve estar sozinho, no entanto. — ela disse, seu peito doendo um pouco com o pensamento. Na familiaridade. — Sim — ele admitiu. — Por muitos anos fiquei sozinho, forçado a passar meus dias observando a vida dos humanos, nunca conseguindo interagir. — Mas você pode interagir comigo. — Ah — ele disse —, então você vê porque eu gosto de te provocar tanto. Já não estou tão sozinho, Passarinha. Não tão solitário assim. Ela queria mais informações, saber o que essa conexão entre eles significava e por que ela foi capaz de vê-lo. Mas quando ela se virou para perguntar, ele estava cercado por orbes azuis translúcidos que dançavam ao seu redor, iluminando seu caminho. — Apesar do que você possa pensar, meu mundo não é tão escuro assim. — A morte inspecionou as orbes – almas, Signa percebeu. Almas impacientes; os que ele prometeu que podem encontrá-lo. Eles clareiam a escuridão sob seu capuz, e Signa teve o menor vislumbre de um rosto sob seu capuz de sombras. Apenas um traço de cabelo prateado como as estrelas, e um lampejo de um sorriso quando ele estendeu a mão para as almas que se juntassem nele. Algumas também se reuniram em Signa, girando em torno de seu vestido e através de suas tranças, embora voltassem como um enxame para Morte quando ele pigarreou. — Eles estão precisando de transporte — a Morte disse a ela. — É como eu sempre disse, sou um homem ocupado. — Ele a puxou pelos túneis com pressa até chegarem a Thorn Grove. A cada parede que passavam, Signa parava de se preocupar um pouco, relaxando nesse poder com o qual ela poderia muito bem se acostumar. Eles estavam subindo as escadas e indo para seu quarto rapidamente. Muito cedo, na verdade. Devo seguir meu caminho, mas estarei de volta amanhã à noite, pois há mais para lhe ensinar. Ele levou seu tempo afastando sua mão. A gravidade caiu sobre ela. Seus pulmões queimaram, dedos vazios queimando, enquanto a vida afundava em seus ossos. Ela apertou a garganta, a sensação pior do que ela se lembrava. — Fique fora da minha cabeça — Signa resmungou, embora houvesse um toque sarcástico por trás do comando. Não até você aprender a falar comigo. A morte riu, embora tenha durado pouco, pois as almas se aproximaram, duplicando, triplicando, mais exigentes do que nunca. Ele os golpeou com um silvo. — Boa noite, Morte. — Signa o viu escapar pela janela, as almas o empurrando para fora mais rápido do que ela gostaria. Boa noite, Passarinha. Ela se inclinou contra a janela e olhou para sua figura recuando até que ele desapareceu com a noite. Só então, enrolada em sua cama e ruminando sobre os acontecimentos da noite, ela percebeu que não conseguia se lembrar de ter se sentido menos sozinha. Vinte e dois Signa acordou antes do amanhecer — a uma hora, quando o céu ainda estava escuro e os empregados eram sua única companhia — e foi até a cozinha para uma inspeção. Ela se debruçou sobre as despensas e o suprimento de chá, através do mel, das geleias e da farinha com fervor, tudo isso enquanto a cozinheira-chefe a observava com uma carranca sombria. — Você não vai encontrar nenhum rato na minha cozinha. — latiu a cozinheira-chefe. Ela era uma mulher velha, seu rosto bem enrugado e de aparência suave, embora seus olhos fossem severos. Signa disse à mulher que tinha certeza de que não encontraria, acrescentando que nunca se pode ser muito cuidadosa nos dias de hoje. Então ela inventou alguma desculpa sobre como ela queria praticar para o dia em que ela administraria sua própria propriedade. A cozinheira resmungou, claramente desanimada por ter Signa bisbilhotando toda a cozinha com tanto escrutínio, mas aprovando sua intenção. E assim Signa procurou, testando e provando e vasculhando tudo. Ela encontrou os recipientes para o chá e um pequeno copo do que ela presumiu ser o verdadeiro remédio de Blythe, e não havia uma pitada de belladonna em nada disso. Signa estava carrancuda quando o café da manhã chegou quase duas horas depois, e Marjorie disse isso a ela. Não querendo que ninguém fizesse perguntas, Signa guardou sua frustração para depois das aulas, quando haveria mais tempo para pensar em seus próximos passos. Talvez Sylas tivesse uma ideia, ou talvez tivesse encontrado uma pista. Ela comeu sob o escrutínio de Marjorie, tomando cuidado para dar pequenas mordidas quando a governanta estava olhando. E quando ela terminou de comer, Signa seguiu Marjorie até a sala para começar a segunda metade de sua manhã – a metade que ainda se preocupava com os vivos, e com a vida que ela teria uma vez que seu tempo em Thorn Grove chegasse ao fim.. E nessa nova vida, se Signa alguma vez deveria ocupar seu lugar na sociedade, ela precisaria aprender a dançar. — Eu entendo por que esta lição é necessária para você — disse Percy, que se levantou para cumprimentá-la, endireitando a gola da camisa para que nenhuma ruga estragasse o tecido. — , mas por que eu estou aqui? Marjorie sentou-se no banco do piano no canto da sala. Seu cabelo estava puxado para trás em uma bela espiral de cachos, e ela parecia tão elegante e adequada quanto Signa já a vira em um invólucro de algodão marfim. — Se ela quiser aprender direito, Signa vai precisar tanto de música quanto de um parceiro. E se eu devo fornecer a música, preciso que você seja o parceiro. Signa teria apostado que sua diretriz também tinha a ver com a forma como Percy passou a vagar por Thorn Grove, suspirando e patético em suas tentativas de encontrar algo para fazer. Ela o ouviu do lado de fora mais cedo naquela manhã, solicitando que uma carruagem fosse preparada para levá-lo para Grey's, apenas para um cavalariço informá-lo de que Elijah o proibiu de viajar para lá e que eles estavam sob ordens estritas de cumprir. Ela não tinha visto a reação de Percy, embora tivesse ouvido a porta que ele bateu atrás de si. Signa sentiu pena do primo. Ela o conhecia há quase um mês, tempo suficiente para perceber que ele era um Hawthorne em sua essência. Um orgulhoso e cavalheiresco Hawthorne que teve seu legado arrancado de suas mãos. Percy olhou para ela com seus olhos de raposa. Tão perto, ela notou que suas sobrancelhas eram bastante espessas, embora fossem de um vermelho tão pálido que pareciade longe como se ele tivesse muito pouco. Seus cílios também estavam pálidos como a neve. — Você é boa em dançar? — Percy perguntou, ao que Signa respondeu com um indignada: — Você é? — baixinho demais para Marjorie ouvir. Sua risada foi pouco mais que um sopro de ar. Não que Signa fosse uma dançarina ruim, mas era uma sem prática – a menos que as noites que ela passou sozinha em seu quarto contassem, quando ela fingiu dançar com um belo príncipe que a levou para longe de sua choupana. Signa não conhecia nenhum passo de verdade. Ela os aprendera na semana anterior, quando Marjorie passou horas batendo na que a mulher tão gentilmente chamava de “cabeça grossa e teimosa” de Signa. Esta seria sua primeira vez praticando com um verdadeiro parceiro, e ela não podia negar que Percy era a escolha perfeita. Ele foi feito para a sociedade, um aristocrata nascido e criado. Ele provavelmente seria capaz de dançar qualquer coisa, caso alguém pedisse para ele fazê-lo. Percy estendeu a mão sardenta e, quando Signa a pegou, o piano ganhou vida com uma valsa. O olhar de Signa mergulhou imediatamente em seus pés, contando seus passos. Ela podia dizê-los silenciosamente em sua cabeça, mas achou melhor sussurrá-los enquanto dançava, para garantir que não perderia nenhuma. A concentração empolou seus passos de modo que eram quase mecânicos. — Oh, querida prima. — Percy bufou. — Você dança como se fosse feita de fios e engrenagens. Ela o silenciou tão bruscamente que seu pescoço se retraiu como o de uma tartaruga. Ele tropeçou no tapete e estremeceu quando Signa tropeçou, pisando na ponta de seus pés com o salto da bota. Ela não se desculpou quando ele puxou o pé para trás com um suspiro – afinal, foi culpa dele por interrompê-la – e continuou a contar. — Se você vai tentar cortejar os homens com esses movimentos, o mínimo que você pode aprender a fazer é olhar para cima para não pisoteá-los — Percy sibilou. — Quem quer que você dance estará esperando uma dama, não um matemático. Olhe para cima. Signa perdeu a conta. Ela ergueu os olhos para ele, um sorriso de escárnio pronto quando percebeu que seu corpo ainda estava seguindo os passos. O rosto de Percy se abriu em um sorriso vitorioso. — Ah, vamos lá! — Ele apertou com uma mão e segurou as costas dela com a outra enquanto acelerava o passo para girá-la pelo chão da sala. — Percy… — Marjorie o advertiu, acelerando o ritmo enquanto ele o superava, puxando Signa junto em suas travessuras. A risada dele era tão leve e contagiante que Signa se viu juntando-se a ela, dissolvendo-se em um ataque quando ele chutou uma otomana para fora do caminho e a girou sobre o tapete. Eles tropeçaram um no outro, quase caindo no chão várias vezes, mas sempre se endireitando no final com algum floreio dramático. — Ainda cheia de engrenagens e fios? — ela o insultou. — Ah, com certeza — ele atirou de volta. — Se não fosse por mim, tenho certeza que você ainda estaria rastejando pela pista de dança, contando de um a três. Signa pisou propositalmente na ponta dos pés. Eles estavam tão perdidos em sua diversão, delirando com suas piadas e risadas, que nenhum deles percebeu que Elijah Hawthorne havia entrado na sala até que Marjorie se levantou e a música parou de repente. Os olhos de Elijah eram diferentes dos de Percy. Eram o azul dos miosótis, sua faísca oca e escondida sob as sombras. No entanto, quando ele olhou para o filho e ouviu a risada do jovem, uma luz brilhou por trás daquela mortalha escura. Uma pausa na tempestade. Elijah abriu a boca para falar, mas foi interrompido por seu mordomo, Warwick, que entrou correndo na sala. Passos ecoaram atrás dele, assim como o baque-tum-tum de algo pesado contra o chão de mogno da sala. Byron Hawthorne entrou atrás de Warwick, ombros caídos e uma carranca nos lábios. Signa se atreveu a olhar para Marjorie, que apertou a mandíbula e agarrou a borda do piano com força. — Minhas desculpas, Mestre Hawthorne — Warwick começou. —, ele insistiu... — Onde estão nossos carregamentos, Elijah? — Byron exigiu, tirando as luvas e entregando-as a Warwick. Em suas mãos estava a mesma bengala que Signa o viu usar quando o conheceu: jacarandá, com cabo de latão esculpido em forma de caveira de pássaro. Byron passou o polegar sobre ela enquanto se dirigia a Elijah, cravando uma unha na madeira. — Grey's ficará sem comida antes do final da semana. Se você não quer assinar os cheques, então assine a escritura e termine com este jogo. Elijah ergueu a mão. Ele acenou para Percy e sussurrou: — Vamos. Continue. Percy se afastou de Signa. Havia uma fome em seus olhos. Determinação na nitidez de sua mandíbula. — Deixe-me preencher um pedido. — Sua voz não vacilou. — Tenho contatos que podem agilizar. Teremos tudo o mais tardar na quarta-feira. Elijah o ignorou. — Eu quero que você continue. — Seus olhos pousaram em Signa com tanta severidade que ela se sentiu compelida a obedecer. Ela estendeu a mão para Percy para pegá-lo pelo braço, na esperança de aliviar a situação. A última coisa que ela queria era outro incidente com bolo. Mas o foco de seu primo estava travado em seu objetivo. Percy cerrou os punhos e deu três passos em direção ao pai. — Eu prometo que posso cuidar disso. Eu sei o que pedir, e eu sei onde conseguir. Eu mesmo cuidarei da entrega e garantirei sua qualidade na chegada. Se você apenas me deixasse tentar, você veria… — Eu disse para continuar, garoto! — A voz de Elijah cortou o ar como uma lâmina. — Ou sua cabeça está tão cheia de ar que você não pode me ouvir? Você esqueceu que está dançando com sua prima agora? Você tem uma obrigação com ela, não com alguns recibos de pedidos. Não a ignore para falar de trabalho. Eles já tinham um pouco de prática, e o que Signa queria mais do que tudo era que Percy fosse feliz. Vendo quanto Grey’s significado para ele a fez querer isso para ele; sua dança podia esperar. Mas antes que Signa pudesse falar, Marjorie interveio. — Senhor, estávamos quase terminando — disse ela. —, deixe Percy cuidar desse assunto. Comparado a uma dança, é muito mais urgente… Se Signa não soubesse ela pensaria que o frio que invadiu a sala que o próprio Elijah era Morte. O olhar que ele lançou para Marjorie deixou a sala inteira em silêncio. Signa não se atreveu a respirar até que Elijah se sentou em uma cadeira esmeralda de pelúcia e cruzou uma perna sobre a outra. Ele não olhou para o irmão novamente, e Byron, em vez disso, deu a Marjorie um olhar de advertência que a fez roçar a mão com ternura em sua bochecha, como se ela estivesse se lembrando de onde ele a esbofeteou. — Você vai se arrepender dessas suas escolhas, irmão.— A hostilidade de Byron atravessou a sala. — Eu pensei que quando Lillian morresse, que você iria focar. No entanto, veja como ela puxa você para baixo junto com ela, morto e enterrado. Essa mulher será sua morte, marque minhas palavras. Ela não vale isso. — Se ela tivesse concordado em ser sua, você teria pensado o contrário. Agora — — Elijah virou-se para Percy e Signa —, continuem. Derrotada, Marjorie afundou em seu assento enquanto Warwick colocava uma mão nas costas de Byron. Byron deu de ombros, amaldiçoando seu irmão, mas ele não lutou quando foi conduzido para fora de Thorn Grove. Sem espaço para discutir, um Percy carrancudo pegou Signa por um braço. Ela estremeceu quando ele a puxou de volta para a posição, os dedos cavando em sua pele. Novamente a música ao redor deles aumentou, e eles dançaram. Desta vez, nenhum dos dois perdeu um passo. Vinte e três Signa escapou no final da tarde. Marjorie estava tão tensa que, depois de perder inúmeras notas no piano, terminou a aula de dança mais cedo. Elijah não tinha ficado até o final; ele desapareceu sem dizer uma palavra no meio de uma das danças, com Warwick seguindo atrás dele. Deve ser difícil, pensou Signa, servir a alguém tão volátil quantoElijah. Embora ela tentasse falar com Percy depois da aula, ele pegou as luvas da mesa e a cartola do cabide, então desapareceu pela porta sem parar para reconhecê-la. Signa não podia culpá- lo, não realmente. Ela era uma criança quando perdeu os pais, e não tinha uma única lembrança deles a perder. Percy estava crescido e cheio de lembranças quando perdeu a dele. E o pior de tudo era que um de seus pais ainda estava vivo. Signa não se intrometeu nem o perseguiu, mas deu a Percy seu espaço enquanto subia as escadas, arrastando as pernas exaustas para o segundo andar e descendo o corredor sombrio. Passado o retrato emoldurado dourado do homem ruivo com suas rédeas e o de uma Lillian radiante estava pendurada em frente ao quarto de Blythe. Quando Signa enfiou a cabeça para dentro, Blythe arqueou uma bela sobrancelha loira, mas não disse nada. Ela se acostumou com as visitas frequentes de Signa nas últimas semanas. — Boa noite — disse Signa, mantendo-se estóica para não revelar suas preocupações sobre o corpo frágil de Blythe. Sua prima não deveria estar ingerindo veneno – ela deveria estar melhorando. E ainda assim Blythe parecia uma folha de bordo seca, pronta para desmoronar na primeira rajada de vento. O jantar de Blythe de frango assado e batatas com manteiga estava na mesa ao lado de sua cama. Embora ela não pudesse inspecionar todas as refeições de Blythe, Signa verificou o máximo que pôde. Ela mordeu o frango com muito cuidado, depois as batatas, e suspirou de alívio. Não havia belladonna na comida, nem no oolong3. — O que acontece se a comida estiver envenenada? — Blythe perguntou com uma carranca. — Você não vai ficar tão doente quanto eu? — Não exatamente. — Signa pousou o chá e entregou o prato para Blythe. — Reconheço o sabor. Vou cuspir antes que isso possa me afetar. Blythe se inclinou para trás, aceitando aquela resposta. Signa, no entanto, era tudo menos como ela observava sua prima, tão magra e frágil. Agora que Blythe sabia ser cautelosa, Signa esperava que a garota se recuperasse rapidamente. Signa estava tão acostumada com sua própria recuperação rápida que 3 Chá chinês bastante tradicional. ela não tinha noção de quão longa ou dolorosa era uma recuperação de processo para os outros. Talvez fosse normal que a melhora viesse a passo de caracol. — Ouvi música. — Blythe mergulhou a cabeça para trás contra os travesseiros. Seus lábios estavam tão brancos quanto sua pele – pior do que nunca. — Está acontecendo outra festa? Signa se sentou na beirada da cama e agarrou a mão de Blythe. A garota não protestou quando Signa enrolou os dedos nos dela, sentindo os batimentos em seu pulso. Lento. Estava tão, tão lento. — Eu estava aprendendo a dançar — Signa ofereceu, mantendo seu rosto livre de preocupação. Se Blythe fosse melhorar, então ela precisava acreditar que podia. — Espero estrear em breve se conseguir convencer a Srta. Hargreaves de que estou pronta. Você vai se juntar à temporada também, não vai? — Era uma bola brilhante que ela balançava na ponta de uma vara, esperando dar a Blythe algo pelo que ansiar. Não havia sequer um brilho nos olhos de sua prima. — Eu deveria estrear este ano. — Blythe admitiu. — Passei anos atrasando, mas no momento em que completei dezenove anos, Marjorie foi insistente. Não ter mais que participar da temporada talvez seja o lado bom da minha doença. Signa recusou as palavras de sua prima. — Você não deseja se juntar à sociedade? — Ela nunca tinha ouvido tal declaração. Nunca pensei que alguém pudesse querer algo diferente. A estreia era esperada, era o que os livros de etiqueta instruíam e para o que a sociedade treinava as jovens. Blythe se inclinou para a perplexidade de Signa. — Diga-me que você considerou o que significa ter um marido. — Ela pegou Signa pelo pulso, suas sobrancelhas se unindo. — Você tem a fortuna de sua família, Signa. Mas se você se casar, não será mais só seu. Você estará dando tudo – sua riqueza, seus desejos, seu poder – a um homem que terá mais influência e respeito do que você, como mulher, jamais será capaz de conquistar neste mundo. — Os lábios de Blythe eram linhas finas e duras. Seu aperto afrouxou depois de um momento, e embora sua energia estivesse esgotada o suficiente para que ela tivesse que se apoiar em seus travesseiros, havia uma dureza em seu olhar. Signa não foi tão ingênua a ponto de descartar tais pensamentos, mas eles nunca pareceram tão importantes quanto Blythe os fez soar. Que utilidade ela tinha para o dinheiro quando passava os dias sozinha? Até agora em sua vida, que benefícios ela obteve com a fortuna de sua família? Que motivo ela tinha para guardá-lo? — Eu não vou me casar — Blythe anunciou eventualmente, sua voz um pouco mais fraca. — Tenho dinheiro e status suficientes para fazer o que quiser sem me comprometer com um homem. — Seu queixo estava afiado como uma faca e, embora Signa nunca tivesse ouvido tal afirmação antes, ela acreditou em sua prima. Puxando as pernas para baixo dela, Signa se acomodou na cama e perguntou: — O que você vai fazer então, com todo o seu tempo? — O que eu quiser. — Uma luz brilhou nos olhos cintilantes de Blythe. — Vou pintar, viajar e vagar pelos corredores à noite para que eu possa dormir até a tarde, se desejar. Terei um cão de caça, ou três, e passarei minhas manhãs cavalgando sem ninguém para cuidar além de mim. Não há limites para o que posso fazer, pois estarei totalmente no comando. Signa supôs que seria ótimo fazer o que quisesse, sem nenhuma responsabilidade. Era uma liberdade maravilhosa, e ainda assim ela se perguntava... — E você vai fazer todas essas coisas sozinha? — A ideia a fez murchar um pouco. Blythe pareceu ofendida. — Claro que não. Eu tenho amigos, você sabe. Vou visitá- los quando ficar entediada, e Percy, e... você, eu suponho. — As últimas palavras foram ditas suavemente, como se tivessem surpreendido até ela. Ela desviou o olhar antes que pudesse ver que Signa se recostou, atingida pelo peso daquelas palavras. Desde o dia em que Signa salvou sua prima sem saber, ela foi capaz de sentir o vínculo que as prendia. Todos os dias crescia além desses limites, em algo mais tangível. Uma chama frágil que Signa queria nada mais do que nutrir. Para proteger e alimentar, para se aquecer enquanto o observava queimar. — Fico feliz em ouvir isso — sussurrou Signa, ainda segurando a mão da prima no colo. — Embora eu deva admitir que conheci algumas amigas suas – e para ser franca, a ideia de que você iria procurar algumas delas para companhia é surpreendente. Foi nesse momento que Signa ouviu a risada de Blythe pela primeira vez. Era quente e rica, tão diferente do frio e severidade que ela retratava. O badalar dos sinos de casamento, ou o primeiro trinado de um piano. Blythe era difícil de desviar o olhar, bonita e fascinante, alguém que provavelmente atrairia todos os olhos em uma sala. Signa se perguntou como era sua prima antes da doença; como ela era quando sua família estava inteira e ela estava saudável. Se aquela risada fosse um indicador, Signa queria muito conhecer aquela garota algum dia. — Poucos são amigos verdadeiros — Blythe disse com alegria. — A maioria são conhecidos infelizes. — E Eliza e Diana? Você não é próxima delas? — Quando gosto de uma fofoca, são as primeiras que procuro. Não somos próximas, no entanto. Essa é a coisa sobre a sociedade, prima – há abutres que vão esperar o momento em que você tropeçar. E quando você fizer isso, eles vão tirar a pele de seus ossos para servir a si mesmos, em vez de ajudá-la a se levantar. É muito fácil se tornar uma presa. Signa desviou sua atenção, concentrando-se em seu colo e nas linhas profundas na palma da mão de Blythe. Ela tinha ouvido falar que havia pessoas que podiam dizer sua sorte por essas linhas, e ela se perguntou o que eles poderiamver nas de Blythe. Poderia ver uma vida como a que ela falou – livre, mas sozinha – realmente ser tão gratificante? — E a senhorita Killinger? — Signa perguntou eventualmente. — Eu a conheci uma vez, você sabe. Há muito tempo, ela e eu éramos amigas íntimas. Ela é um abutre também? O sorriso de Blythe era pequeno, mas brilhante. — Charlotte é maravilhosa. Ela é a única que se deu ao trabalho de me visitar desde que fiquei doente e quando minha mãe faleceu. Somos próximas há anos, desde que ela e o pai se estabeleceram em alguma terra do outro lado da floresta para que ela tivesse uma oportunidade melhor de encontrar um marido. Ela é gentil e inteligente, e uma cozinheira fantástica. Ela faz todo tipo de geleias, marmeladas e xaropes com as coisas que cultiva em seu jardim, e nos traz como presentes algumas vezes por ano. Essa gentileza realmente soava como a Charlotte que ela conhecia, e Signa ficou feliz com isso. Ainda bem que se a sociedade realmente era mais parecida com o que Blythe advertiu do que o que ela imaginou todo esse tempo, ainda havia algo de bom para ser encontrado nela. Signa não percebeu que ficou em silêncio por algum tempo até que Blythe lhe deu um tapinha na coxa. — E você, prima? — ela perguntou. — Eu não quis roubar sua excitação. Diga-me, há alguém em quem você está de olho? Signa procurou na memória o nome do solteiro elegível que Eliza lhe dera durante o chá. — Parece que Lorde Wakefield é uma escolha popular. A resposta ganhou lábios franzidos de Blythe. — Ele é bonito o suficiente, eu suponho. Honrado e tem um título, o que faz dele um bom par. Embora eu nunca teria imaginado que ele seria o seu tipo. Ele é muito... correto. — Você acha que eu não posso ser adequada? — Signa riu, deixando-se imaginar por um momento como seria Lorde Wakefield. Ele teria ombros largos, ela pensou, e pareceria bastante digno. Mas quanto mais ela criava uma imagem dele em sua mente, mais a imagem começava a mudar, até que ela viu olhos esfumaçados e um homem tão alto quanto um salgueiro. Até que ela viu Sylas. Seus pensamentos se desviaram para a sensação de seu corpo contra o dele quando estavam escondidos no armário de Grey's. No entanto, quanto mais ela pensava nisso, mais ela pensava na noite que passou de mãos dadas com Morte – e em como parecia natural. Ela se lembrou da emoção que queimou suas veias quando eles se tocaram, e da curiosidade que manteve seus pensamentos vagando de volta para ele. Esses homens encheram seus pensamentos tão completamente que Signa foi até a janela aberta para esfriar o calor da sua pele. O que havia de errado com ela? Era em Lorde Wakefield que ela deveria estar pensando. Pois se um cavalheiro como ele fosse visitá-la, Signa poderia garantir seu lugar na sociedade e uma vida cheia de boas companhias e grandes e alegres bailes. Sim, isso era o que ela deveria pensar, de fato – segurança. Não em encontros noturnos com Sylas ou brincadeiras à meia-noite com Morte. Ela precisava se controlar. Signa preferiu se concentrar no que ela precisava, bisbilhotar a represa dos Hawthornes e ver quais informações ela poderia conseguir dela. Para aprender algo que poderia ajudar a salvar Blythe. — É de Percy que as senhoras estão realmente atrás. Ele estava me ajudando a aprender a dançar hoje quando seu pai entrou. Perdoe-me se este não é o meu lugar, mas estou aqui há algumas semanas e está ficando cada vez mais claro que os dois não se dão bem. Blythe enrolou os dedos nos lençóis, e Signa prendeu a respiração, imaginando se ela já tinha empurrado longe demais. Ela se lembrou de como se sentiu ao ter Eliza e Diana bisbilhotando ela, procurando por fofocas que pudessem levar e espalhar para quem quisesse ouvir. Blythe seria uma tola em acreditar que Signa – uma garota que ela mal conhecia – não faria o mesmo. Mas Signa não gostava de fofocas. Ela só queria salvar Blythe, e que as peças do quebra-cabeça em sua cabeça começassem a montagem. Blythe, ao que parecia, reconheceu isso. — Durante vinte anos, meu pai e meu tio criaram Percy para assumir os negócios da família — ela começou. — Quando minha mãe morreu, meu pai se tornou uma pessoa diferente. Ele proibiu Percy de trabalhar no Grey's novamente. Meu pai não passa mais os dias lá, mas se esconde em seu escritório, como se estivesse tentando deixar o negócio apodrecer. Se Grey's pegar fogo, eu não acho que ele piscaria um olho. É mais do que nosso sustento – é como nossa família mantém seu status. E quanto ao meu irmão, sempre foi o futuro dele. As bolsas sob os olhos fechados de Blythe eram como dois hematomas roxos enquanto a conversa cobrava seu preço. Ela teve que forçar as próximas palavras, falando suavemente. — Meu pai não vai nos dizer porque ele afastou o negócio de Percy, mas acho que está claro que a morte de minha mãe apodreceu sua mente. Ele não está mais pensando logicamente. Se Blythe estava dizendo que seu pai não afastou o negócio até depois da morte de Lillian, isso não combinava com o que Signa havia encontrado na carta em Grey's. Havia uma peça no quebra-cabeça que estava faltando. Ela queria bisbilhotar, mas o peito de Blythe estava subindo e descendo em um ritmo constante. A garota cochilou e Signa não teve escolha a não ser segurar suas perguntas. Ela ajustou os cobertores ao redor de Blythe, protegendo sua prima do frio que cortava o ar e afundava em seus ossos. Um resfriado, ela percebeu tarde demais, que era totalmente antinatural. Signa se virou para ver que Morte estava atrás dela, suas sombras se estendendo para cobrir sua boca antes que ela pudesse fazer barulho. O toque roubou seu fôlego e acalmou seu coração, colocando-a naquela estranha zona entre a terra dos vivos e dos mortos. Durou meros segundos antes que ele se afastasse, e seu corpo doeu quando seu coração começou a bater mais uma vez. Shhhh... ele sussurrou dentro de sua mente. Você vai acordá- la. Signa queria morder, afundar seus dentes em Morte e deixar o veneno se espalhar. Mas para deixar Blythe descansar, ela empurrou a mão em direção à sala de estar de Blythe e fez sinal para que ele a seguisse. Seus passos eram lentos, cuidadosos para evitar quaisquer tábuas rangendo. — Saia agora — disse ela no momento em que eles passaram do limiar. —, Deus te ajude, eu não vou deixar você tê-la. Relaxe, Passarinha, a Morte disse suavemente. Eu não estou aqui para ela. Embora eu tema que não demore muito até que eu venha reivindicar a alma daquela pobre garota. Eu vim para alertar você. Se aquela garota não livrar o veneno de seu corpo, voltarei para buscá-la antes do final da semana. E a morte dela não será gentil. Signa estava quase pensando em bater os punhos no peito dele e exigir que Morte deixasse Blythe em paz para sempre. Mas Morte não a dominava nem a ameaçava com o frio de suas sombras. O ar não saiu de seus pulmões com a proximidade dele. Quase parecia... como se Morte estivesse tentando ajudá- la. Signa olhou profundamente para aquelas sombras insondáveis, inclinando-se para a frente na tentativa de encontrar um rosto. Para encontrar os olhos que ele deve ter tido. Mas ela não viu nada. — Por que você está me ajudando? — ela perguntou, abraçando seus braços apertados ao redor de si mesma. — Não é este o seu trabalho, colher os mortos desta terra? Entendo que não fui gentil com você. A Morte hesitou, as sombras se movendo ao redor de seus pés. Por minha causa, sua vida tem sido mais difícil do que eu pretendia que fosse. Não pensei no seu futuro, Signa. Não pensei em nada além de como você estava sendo tratada no momento por aqueles que deveriam cuidar de você. E por isso eu... sinto muito. A última palavra soou estranha em sua língua, como se ele não se importasse com o sabor dela. Não posso poupá-la para sempre, mas se nós pudermos ajudá- la, talvez ela não precise morrer tão cedo. Não há nada que eu possa fazer para me provarpara você. Mas se minha palavra conta para alguma coisa, então você deve confiar em mim. — Nós? — Ela nunca pensou que este homem, a Morte encarnada, pudesse parecer tão inseguro. — Vou procurar também e avisarei se encontrar algo para ajudá-la. — A Morte falou em voz alta agora, com uma voz profunda que causou arrepios na espinha de Signa. Ela tinha esquecido o quanto ela gostava daquele som. — Thorn Grove tem uma biblioteca — ela disse de repente, puxando seus pensamentos do espaço que muitas vezes gostavam de se aventurar quando ele estava por perto. — Talvez eu possa encontrar algo lá sobre um antídoto. Ele assentiu. — Veja o que você pode encontrar lá esta noite. E enquanto isso, vou fazer algumas investigações por conta própria. — Obrigada — sussurrou Signa, estremecendo quando suas sombras ficaram imóveis e o ar ao redor deles despencou pelo menos vinte graus. — Por sua ajuda e por me contar. — De nada. — Mais uma vez, as palavras soaram estranhas, como se ele lutasse para formá-las. — Nossas lições continuarão assim que você encontrar algo para expelir esse veneno. Ela assentiu enquanto Morte desaparecia nas sombras que se estendiam para reclamá-lo. Só quando ela teve certeza de que ele tinha ido embora, Signa espiou pela porta atrás de Blythe, observando o lento subir e descer de seu peito. Então ela agarrou o seu próprio peito, seu batimento cardíaco como uma fera enjaulada. Ela verificou suas bochechas também, colocando uma palma sobre cada uma delas apenas para descobrir que ambas estavam quentes ao toque. Tudo isso, por causa de Morte. Por alguém que ela passou a vida odiando. O que em nome de Deus estava errado com ela? Vinte e quatro Thorn Grove estava dormindo quando Signa percebeu que não tinha a menor ideia de onde ficava a biblioteca. Ela andou pelo chão de sua sala de estar, camisola arrastando atrás dela e enrolando em seus tornozelos enquanto ela andava de um lado para o outro pela sala. Consultar a biblioteca era a maneira mais simples que ela podia pensar para encontrar um antídoto para Blythe, e enquanto Signa preferia conduzir sua busca longe de olhares indiscretos, não seria bom ser encontrada vagando pelos corredores depois de ser pega por Elijah uma vez. Ela tinha investigado a totalidade do segundo andar e a maior parte do primeiro por este ponto, o que deixou apenas o terceiro andar. Signa estava formulando seu plano – e uma desculpa, no caso de ser pega – quando ouviu as portas de vidro que levavam a sua varanda chacoalhar. Embora seu peito ficasse frio, ela logo percebeu que um espírito não teria necessidade de bater, e que Morte não tinha boas maneiras para sequer pensar em fazer isso. Então, quando o som veio novamente vários momentos depois e soou como alguém batendo contra o vidro, ela imaginou que poderia ser apenas uma pessoa. Ela puxou o roupão ao redor de si enquanto abria uma das portas para Sylas. Ele parecia ter escalado os galhos de um salgueiro para chegar lá, as folhas ainda em seus cabelos escuros. — Noite. — Seu sorriso brilhava ao luar. — Você também não conseguiu dormir, hein? Ela estava quase pensando em fechar a porta e mandar ele descer. — O que diabos você está pensando? Você não pode estar aqui! Apesar de seu tamanho, ele era gracioso como um felino, não fazendo nenhum barulho ao passar por ela e entrar no quarto. — Eu vi lá de baixo que você tinha uma vela acesa e sua sombra continuava andando pela janela. Eu queria verificar se você estava bem. Esse garoto seria sua ruína se eles não fossem cuidadosos, embora Signa tivesse que admitir que seu sangue corria um pouco mais rápido com a emoção de uma visita tarde da noite. Ela nem necessariamente se importava de usar apenas um roupão sobre a camisola, mais curiosa sobre o que ele poderia pensar e qual reação ela poderia ter do que envergonhada. Com certeza, os olhos de Sylas se demoraram em seu corpo por muito tempo quando ele pensou que ela não estava olhando, e ele rapidamente limpou a garganta e voltou sua atenção para o teto quando ela se virou. Signa tentou não sorrir, quente de satisfação. — Estou tão bem quanto se pode estar, sabendo que minha prima ainda está tão doente quanto no dia em que a conheci. — Ela cruzou os braços sobre o peito e retomou seu ritmo. — Se você vai estar aqui, fale baixo e me diga se você encontrou alguma coisa útil. — Dificilmente. — Ele se sentou no chão dela, recostando- se na parede. — Procurei na cozinha e nos aposentos dos empregados, mas não encontrei nada incriminador. Ela receou tanto, mas ouvir isso em voz alta tornava tudo ainda mais agravante. Ela passou as mãos pelos cabelos, puxando as pontas. — Precisamos encontrar algo para ajudá-la. Ouvi dizer que há uma biblioteca em Thorn Grove, e gostaria de dar uma olhada para ver se encontro um antídoto. Algo à base de plantas, para afastar o veneno. — Veneno? — ele ecoou, erguendo as sobrancelhas. — Essa é uma nova revelação. Suponho que se houver uma chance de encontrar algo sobre isso, sua melhor aposta seria realmente a biblioteca. É enorme. — Você sabe onde fica, então? — Signa agarrou Sylas pelo braço e o colocou de pé. — Você poderia me levar até lá? — Agora mesmo? No meio da noite? Vestida assim? — Quando Signa não o soltou, ele sorriu e disse: — Como você é escandalosa, Srta. Farrow. Se você insiste, então me siga imediatamente. Ele liderou o caminho para o corredor. A caminhada até o terceiro andar foi dolorosamente lenta. Signa dava cada passo com a maior cautela, apertando a camisola no punho para não tropeçar na longa bainha. Ela o seguiu, achando estranho que um cavalariço conhecesse a casa tão bem. Por outro lado, Sylas nem sempre foi um cavalariço. Talvez o trabalho que ele tivesse enquanto Lillian ainda estava viva lhe permitisse um tempo ocasional na enorme propriedade. Ela fez uma nota para perguntar a ele sobre isso, mais tarde, no entanto. Uma vez que eles encontraram algo para ajudar Blythe. Por enquanto, ela perguntou: — Você vem aqui com frequência? — sua curiosidade superando ela. — Só tive a oportunidade de visitar a casa algumas vezes. — Ele andava com uma tranquilidade confiante, parecendo muito menos preocupado com eles serem descobertos do que ela. — A equipe já falou sobre isso o suficiente, no entanto. Eles não vêm muito até aqui se puderem evitá-lo, e mesmo assim eles vêm apenas durante o dia. Elaine havia dito que a biblioteca era considerada mal- assombrada e, se os funcionários se esforçam tanto para evitá- la, Signa odiava imaginar o espírito que os esperava lá dentro. Durante anos ela evitou espíritos, embora se fosse possível que este soubesse alguma coisa sobre Thorn Grove ou o assassinato de Lillian, era uma pista demais para deixar passar. Mas com Sylas aqui, ela não tinha ideia de como isso era viável. — Você deveria sair assim que eu estiver lá. — ela disse a ele. — Nada de bom virá de nós sermos vistos juntos. Ele lançou-lhe um olhar irritado por cima do ombro. — Dois pares de olhos são melhores do que um, e além disso, mesmo se eu for demitido, você mesma disse que cuidaria de mim. Ela tentou não revirar os olhos, pois embora ele pudesse estar seguro, ela certamente não estava. E a última coisa que ela queria era ter que contratar Sylas se ele acabasse sendo responsável por quaisquer rumores ou alegações sobre ela. Ainda assim, ele tinha um ponto. O aviso de Morte não era nada para zombar, e se ela quisesse salvar Blythe, ter a ajuda de Sylas valia o risco. A biblioteca foi mais fácil de encontrar do que ela esperava. Duas portas de carvalho com pesadas maçanetas de latão levavam a uma sala enorme com prateleiras altas de mogno cheias de livros. Havia fileiras e mais fileiras deles, e no centro do espaço haviam escrivaninhas e cadeiras de leitura de couro macio que pareciam confortáveis o suficiente para passar um dia dentro. O quarto era iluminado por janelasque banhavam o quarto com a pálida luz das estrelas. Brilhante o suficiente para ver as formas e a vastidão da biblioteca, mas escuro demais para ler os títulos dos livros. Signa respirou o cheiro de mofo de pergaminho velho e tinta. — Precisamos encontrar uma luz. — Assim que as palavras saíram de sua boca, uma vela sobre uma das mesas se acendeu. Ela não fez nenhum movimento para pegá-la imediatamente e, em vez disso, olhou para Sylas, nervosa, esperando que ele corresse. Ele abriu a boca apenas para fechá- la novamente. Não havia uma única desculpa para explicar uma chama se acendendo por conta própria, e nenhum deles tentou oferecer uma. — Bem. — Signa limpou a garganta. — Pelo menos sabemos que toda aquela conversa sobre um espírito não era apenas um boato. As sobrancelhas de Sylas estavam na linha do cabelo, mas considerando todas as coisas, ele estava lidando com isso notavelmente bem. Provavelmente, ela imaginou, por causa dela. — Pelo menos o que está aqui não parece ser malicioso? Pelo menos ainda não, Signa pensou enquanto olhava através das sombras, imaginando onde o espírito poderia estar escondido. Era enervante que ela não tivesse visto o espírito até agora. Ela passou anos ignorando-os, escondendo-se e fingindo não ver, e ela certamente não gostava de virar a mesa. Sylas pegou a vela. — Então, estamos procurando livros sobre... botânica? — Sim. De preferência algo que discuta os usos medicinais das plantas. Do outro lado da biblioteca, uma sombra passou pela escuridão, e Signa percebeu que era um livro somente depois que ela esbarrou em Sylas, segurando um grito. Veio de muitas fileiras à frente deles, e quando os dois simplesmente ficaram parados ali, outro livro voou da mesma prateleira. Colocando uma mão em sua cintura para firmá-la, Sylas segurou a vela à frente deles. Signa apertou os olhos através do brilho da chama. — Você acha que… — Eu acho. — disse Sylas, a voz monótona. Ele foi em direção à estante de onde os livros haviam voado, parando para pairar a luz da vela sobre uma que havia sido lançada. Era um grosso livro encadernado em couro sobre botânica. Eles viraram a esquina para outra fileira de estantes, e Signa agarrou Sylas pelo braço, o medo prendendo sua respiração ao ver quem os estava ajudando. O espírito era um homem mais velho com pele azul translúcida, uma barba branca cheia e óculos que ficavam baixos em seu nariz largo. Vendo que Signa o havia notado, ele se endireitou um pouco. — Você está bem? — Sylas perguntou a ela, firmando a vela. O espírito o observou com profunda preocupação e, quando parecia que ia cair de seu suporte, ele se apressou a pressionar um dedo brilhante contra sua lateral para estabilizá-lo. — Cuidado — advertiu o espírito. — Livros são coisas frágeis. — Muito bem. — Signa encostou-se na beirada de uma prateleira, esperando que suas palavras fossem suficientes para satisfazer tanto Sylas quanto o espírito. Somente quando ficou claro que esse espírito não era volátil como Lillian, seus ombros afrouxaram. Não era malévolo, nem sua morte tão horrível a ponto de alterar sua aparência. — Você sabe alguma coisa sobre o espírito que há rumores de assombrar a biblioteca? — ela perguntou a Sylas. — Não muito. Ouvi dizer que ele era um estudioso que se casou com alguém da família e morreu em uma daquelas cadeiras. Ele adormeceu lendo e passou para o outro lado pacificamente. Alguns dizem que ele estava tentando ler todos os livros da biblioteca. — As cadeiras já foram trocadas, na verdade — observou o espírito. —, e meu nome é Thaddeus. Thaddeus Kipling. Eu já teria lido todos os livros aqui, exceto que eles continuam trazendo mais. Um espírito amarrado à vida pelo desejo de ler! Tão novo que Signa quase riu. — Ele parece útil o suficiente. Não tão malicioso quanto eu temia — ela notou. Thaddeus suspirou e agradeceu, resmungando sobre como todo mundo estava com muito medo de visitar, embora tudo o que ele fez foi tentar ajudar. — Embora eu suponha que menos interrupções proporcionam mais tempo de leitura. Mais uma vez, ela teve que segurar o riso. Por dezenove anos ela evitou espíritos, culpando-os por ela ser diferente e culpando essa diferença por manter os outros afastados. Mas ela gostava bastante de Thaddeus e, pela primeira vez, não sentiu nem um pouco de medo na presença de um espírito. Se ela tivesse dado uma chance a mais deles, ela teria gostado dos outros também? — Você realmente acha que algum desses livros nos falará sobre veneno? — Sylas segurou a vela em um livro para inspecionar a lombada, efetivamente desviando a conversa do espírito que ela não podia culpá-lo por não querer discutir. Cada vez que Sylas aproximava muito a vela do livro, Thaddeus sugava uma respiração nervosa e a segurava até que Sylas afastasse a chama novamente. — Não é sobre o veneno que precisamos ler mais. — Os olhos de Signa deslizaram para o espírito, garantindo que ele estava ouvindo. — É o antídoto. Tenho certeza de que algo aqui deve ter alguma menção a isso. — Arsênico? — adivinhou Thaddeus, seus olhos brilhando de interesse. Signa verificou se Sylas estava ocupado lendo, então rapidamente balançou a cabeça. Thaddeus assoviou baixinho. — Cianeto? Tálio? Estricnina? Atropina? — Ele parou quando ela rapidamente assentiu. — Ah, atropina! Alguém está sendo envenenado por belladonna, não é? Bem, isso é fácil, o antídoto – ah. Não adiantaria nada se eu lhe contasse, não é? Suponho que você gostaria de ver as informações por si mesma. Aqui. — Thaddeus flutuou até a próxima estante, então se abaixou para apontar para um livro da prateleira de baixo. Era uma coisa despretensiosa; algum tipo de jornal acadêmico que Signa provavelmente nunca teria selecionado. — Já faz um tempo — disse Thaddeus quando Signa se abaixou para pegá-lo —, mas acredito que você encontrará o que está procurando por volta da centésima página. Leitura interessante, essa. Sucinto, mas informativo. Você irá cuidar bem disso, correto? Signa folheou até a centésima página, depois passou por mais algumas até ver a palavra que procurava, Atropa. Atropa belladonna. Ela apertou o livro contra o peito com tanta força que pensou que fosse chorar. — Obrigada, obrigada, obrigada — ela disse tão alto que Sylas quase deixou cair o livro que ele estava folheando. — Você já encontrou alguma coisa? — Ele coçou a nuca, perplexo. — Que sorte. Eu esperava que ficaríamos aqui a noite toda. Signa sorriu para Thaddeus, cujo peito estufou um pouco. — Acredito que sim, embora tivemos alguma ajuda. Venha. — Ela arrastou Sylas para uma das mesas e abriu o livro diante deles. Mesmo com a luz das velas, eles tiveram que apertar os olhos para ver as letras pequenas. Eles leem várias páginas de jargão que Signa não entendeu antes de encontrar menção a tratamentos usados em pacientes. — Aqui está! — Ela pressionou um dedo na página e se inclinou para frente. Sylas seguiu o exemplo, tentando espiar por cima do ombro dela. — “Embora a planta em si seja tóxica” — ela leu em voz alta, as palavras como seda em sua boca —, “o conteúdo alcalóide do feijão Calabar provou ser um remédio eficaz para Atropa belladonna.” Ela ficou mais tonta com cada palavra. Ela puxou o braço de Sylas, sacudindo-o enquanto sua excitação florescia. Eles tinham uma solução. Embora Signa não tivesse a menor ideia de onde poderia encontrar a planta não nativa, havia pelo menos uma possibilidade agora, que era muito mais do que tinham antes. — Muito disso, e Blythe poderia morrer — Sylas a advertiu enquanto lia mais. — Você deve moer uma pequena dose dele e administrá-lo em um líquido. O único problema era como consegui-lo. Eles certamente não encontrariam tal planta no jardim de Lillian, embora Signa se lembrasse de outra possibilidade. — Há um boticário na cidade! Eu vi na noite em que você me levou ao Grey's... Acha que eles podemter? Um sorriso se espalhou pelo rosto de Sylas. — Como você é brilhante. Um boticário é provavelmente nossa melhor chance. Era tudo o que Signa precisava ouvir para fechar o livro e abraçá-lo contra o peito novamente. Ela se sentiu leve o suficiente para dançar sobre uma nuvem. Ela iria salvá-la. Realmente, realmente desta vez, Signa iria salvar Blythe. — Obrigada — ela sussurrou, agarrando o ombro de Sylas e apertando com força. — Obrigada, obrigada, obrigada. E obrigada, Thaddeus! Ela não olhou para trás, para o espírito, nem para Sylas enquanto ele soprava a vela e sussurrava: — Thaddeus? — Em vez disso, ela agarrou o livro com força e saiu correndo pela porta. — Eu irei logo pela manhã, — ela disse para ninguém em particular enquanto Sylas assentiu e a silenciou gentilmente. Ela aceitou pelo bem dele, mas Signa não se importava mais com quem a ouvia agora porque tudo ia ficar bem. Não, seria melhor do que bom. Seria maravilhoso, porque a primeira coisa da manhã seria reunir o antídoto, e Blythe finalmente teria sua vida de volta. Em breve, tudo estaria bem novamente. Vinte e cinco Ao colocar creme em sua xícara de chá no café da manhã seguinte, Signa ouviu Warwick dizendo a Elijah que a língua de Blythe estava começando a apodrecer com as mesmas feridas que Lillian tinha nos estágios finais de sua “doença”. Blythe esteve doente durante toda a noite, incapaz de manter qualquer comida ou bebida no estômago. Signa agarrou a faca com força, tentando não deixar que sua frustração chamasse a atenção para si mesma, com medo de que Elijah pudesse de repente cair em si e não permitir tal conversa na mesa do café da manhã. O aviso de Morte tinha sido fortuitamente cronometrado, e agora que a cura era conhecida, Signa tinha apenas que colocar as mãos nela. Mas ela não podia deixar de se perguntar por que Blythe ainda estava tão doente. Signa a instruiu a não beber nada além de água. Tinha dito a ela para largar o remédio quando ninguém estava olhando. Signa tinha checado o quarto de Blythe naquela mesma manhã enquanto sua prima dormia; ela inspecionou o chá frio e os doces deixados ao lado da cama, ambos bons. Mas porque sua língua estava começando a mostrar sinais de veneno, Signa sabia que, de alguma forma, ela ainda estava consumindo belladonna. — O médico não acha sensato ela receber visitas hoje — disse Warwick a Elijah, que estava passando manteiga em um muffin de uma maneira raivosa que Signa não sabia que alguém segurando um muffin seria capaz de fazer. — Ele e Percy conseguiram diminuir a febre esta manhã, embora ela tenha tido um episódio de delírio. — Signa estava feliz que pelo menos Percy estava lá para supervisionar o médico quando ela não podia. Ela tentou roubar sua atenção do outro lado da mesa para dizer isso a ele, mas Percy manteve seus olhos cansados abaixados enquanto mexia seu mingau intocado. — O que ela viu dessa vez? — Elijah era tão impetuoso quanto desgrenhado, cabelos grisalhos brotando de sua cabeça em todos os sentidos. Ele usava óculos no nariz e ainda usava um roupão esmeralda com chinelos combinando, enquanto Signa já usava seu espartilho e um roupão de risca de giz, com o cabelo preso em um elegante nó no pescoço. Ela teria que vestir um vestido de visita de lã antes de sair de casa, caso contrário seria recebida com fofocas e ridicularização imediata. Enquanto Signa passou tantos anos desejando um lugar na sociedade, ela se viu ficando um pouco... cansada. E imensamente ciumenta da falta de cuidado e decoro de Elijah. — Foi com a mãe. — Percy foi quem respondeu, ainda sem olhar para cima. — Blythe alegou que ela estava no jardim com nossa mãe. Não fazia sentido que depois de meses com Blythe e Lillian doentes, ninguém suspeitasse de veneno. O médico era realmente tão incompetente? — Talvez a companhia seja exatamente o que ela precisa — disse Signa em sua raiva. Os sinais estavam lá – o delírio, as feridas, o amargo estômago, tossindo sangue. Estava tudo lá. Era verdade que ela sabia um pouco mais sobre veneno do que a média das pessoas, mas ainda assim. — Senhorita Farrow… — Marjorie, que usava mais ruge do que o habitual nas bochechas para esconder que um lado do rosto ainda estava inchado, parecia pronta para repreender Signa antes que Elijah a acenasse com a mão da faca. — Deixe-a falar livremente. Quaisquer regras que mantivemos nesta casa acabaram há muito tempo. — Ele comeu quase metade do bolinho em uma mordida. — Dê sua opinião, garota. — Apesar de seu comportamento errático, Signa descobriu que gostava de Elijah e de sua franqueza. Em um mundo girando em torno de sutilezas forçadas e se curvando aos caprichos dos outros, era revigorante. Ainda assim, ela não podia simplesmente dizer a ele que ela sabia de um antídoto para a doença de Blythe – ela tinha que pisar nessas águas com leveza. — Neste estado, seria um fardo para sua mente ficar sozinha com esses pensamentos — disse Signa. — Se você não se importa, senhor, eu gostaria de ir até a cidade para ver se eu posso encontrar algo que possa levantar o ânimo dela. Apenas um pequeno presente, se você me permitir algum dinheiro e sua permissão. Percy, que estava olhando para seu mingau como se fosse a fonte de todos os seus problemas, finalmente olhou para Signa com interesse. Marjorie, no entanto, não queria nada disso. — Se o médico não recomendar que ela tenha companhia — disse Marjorie, segurando um garfo com firmeza em uma das mãos —, devemos seguir sua sugestão. — Como governanta, ela era bem-vinda para sentar e jantar com a família, mas ela falava muito abertamente para qualquer casa que não tivesse abandonado as restrições impostas pela sociedade. Muito livremente, e sem que ninguém a repreendesse. — Como fizemos com Lillian? — Elijah perguntou friamente o suficiente para que vários na mesa estremecessem. — Fez muito bem a minha esposa. Signa coletou as palavras de Elijah e guardou a memória para adicionar à sua coleção. Algum dia, ela juntaria todas as peças e colocaria o quebra-cabeça inteiro diante dela. — Percy! — A voz de Elijah ressoou com autoridade. — Você irá com seu primo. Veja se ela está segura e tem o que ela precisa. Percy sentou-se mais reto. — Se vamos para a cidade, com sua permissão, eu gostaria de passar no Grey's e verificar os pedidos. — Sua voz era monótona e factual, faltando até mesmo uma pitada de emoção para trair seu desespero anterior para visitar o clube. Os cantos da boca de Elijah se contraíram. — Você acompanhará sua prima em sua missão, e então retornará.— Ele falou com determinação. Percy parecia sentir isso também, pois enquanto estava claro que ele queria discutir, ele se acomodou em sua cadeira e agarrou sua xícara de chá, os dedos brancos. — Sim, pai. — Quando ele afundou na cadeira, Signa não se atreveu a olhar para ele, a culpa pesando no peito. — É claro. Percy estava longe de ser uma companhia divertida. Como ele preferia não andar a cavalo, uma carruagem foi preparada para a viagem até a cidade. Não foi uma viagem muito longa, mas Signa nunca esteve tão desconfortável. Até mesmo viajar com Sylas, um estranho sem parentesco, foi mais fácil de percorrer. Signa sentia falta do jeito que Percy tinha sido ontem, antes de Byron apareceu com a notícia sobre Grey's para estragar o clima. Ela sentia falta de suas risadas e brincadeiras, e da sensação de seu espírito vibrante de vida. O Percy com quem ela estava agora não era o homem astuto e provocador que ela estava conhecendo, mas um que era rígido, correto e afiado. Seu polegar traçou círculos sobre uma bolsa de moedas de couro enquanto ele olhava pela janela da carruagem, o queixo projetando-se com grande severidade enquanto observava a paisagem que passava. Signa mordeu a língua. Era cruel, ela pensou, que Elijah não lhe desse uma chance. Que ele escolheu ignorar o sofrimento de seu filho, não importaquão profundo fosse. — Encontrei algo, primo — disse ela, esperando levantar o ânimo dele. — Nós não estamos aqui para encontrar luvas bonitas de Blythe ou artigos de papelaria. Estamos indo para a cidade porque encontrei uma cura para ela. Só então ele despertou. — O que você quer dizer com você encontrou uma cura? — Seus olhos se estreitaram. — Não houve um único médico que tenha sido capaz de ajudar minha irmã. — Nenhum deles sabia que ela estava sendo envenenada. Mas sabemos, e encontrei um antídoto. Há um boticário na cidade e... — Um boticário?— Suas sobrancelhas se ergueram em direção ao teto. — Signa, não podemos confiar a vida da minha irmã a um amador. Tem que haver um remédio que a ajude. Podemos falar com mais médicos... — Se os médicos não entenderam agora, ou são todos tolos ou alguém os está pagando. Quaisquer réplicas morreram em sua língua. — Você acha que isso é possível? — O pomo de Adão dele balançou. — Mesmo se for esse o caso, a cura de algum boticário não é algo com o qual devemos brincar. Existem maneiras mais seguras de lidar com esses assuntos. — Eu entendo sua frustração, mas nada mais está funcionando, Percy. — Ela pegou a mão dele, apertando com força. — Mas isso vai, eu prometo. Eu preciso que você confie em mim. Ele olhou para o teto da carruagem como se ele guardasse as respostas e suspirou quando não as compartilhou. — Muito bem. Se houver uma possibilidade, então é claro que devemos tentar. Embora não possamos nos permitir ser vistos lá, a cidade inteira vai falar. — É claro. O sorriso de Signa não foi correspondido quando Percy voltou sua atenção para as ruas de paralelepípedos que eram muito mais claras e abertas à luz do dia do que quando ela esteve aqui com Sylas várias noites antes. Agora as lojas que ladeavam a rua estavam totalmente despertas. Através das janelas imaculadas, Signa avistou mulheres de luvas e gorros, envoltas em vestidos de caxemira enquanto tomavam o chá ou entravam em uma loja para encomendar roupas quentes e decorações para o inverno que se aproximava. Quando eles passaram por Grey's, Percy se inclinou sobre Signa e fechou as cortinas. Ela recuou. Não havia humor no rosto de Percy. Nenhum indício de nada além de severidade. Signa não ousou falar outra palavra. Percy foi o primeiro a sair da carruagem quando ela parou em frente a uma pequena loja verde. Hera se esticava para cima sobre as paredes, e uma vitrine exibia uma variedade de plantas vibrantes penduradas em dosséis de tecidos. Signa estava tão ocupada olhando que foi preciso Percy pigarrear para ela perceber que ele estava estendendo o braço. Os transeuntes os observavam com curiosidade, virando-se para fofocar uns com os outros e provavelmente teorizando sobre a presença de Signa. Percy ajustou o pequeno botão dourado em uma de suas luvas de couro marrom e não prestou atenção neles. Provavelmente não havia nada que alguém pudesse fazer ou dizer que faria Percy parecer qualquer coisa além de um cavalheiro aos olhos do público. Dentro da loja, eles foram recebidos por uma idosa frágil de cabelos brancos. Um olhar para ela e o nariz de Percy virou para cima. — Não demore — ele sussurrou. — Nós pegamos o que você precisa, e então nós saímos. Por um momento fugaz, Signa desejou ter pisado em seus pés com mais força no dia anterior, embora ela se recusasse a deixar sua negatividade ficar com ela quando eles entraram em tal país das maravilhas. Frascos de tônicos e garrafas de ervas estavam em prateleiras cheias de pequenas bolas de madeira. Havia pequenos recipientes de musgo vivo e cestas delicadas de ervas secas que cheiravam tão perfumadas que Signa queria se banhar neles. O meio da loja estava cheio de vasos de plantas vivas. A maioria deles eram tipos que Signa nunca tinha visto antes, com trepadeiras ou grandes flores bulbosas. Ela resistiu ao desejo de acariciar suas pétalas com o dedo, impressionada que um lugar tão maravilhoso pudesse existir. Se ela tivesse dinheiro suficiente, Signa ficaria tentada a comprar toda a loja. — Posso ajudá-la a encontrar algo, senhorita? — perguntou a lojista. Signa ficou feliz em ver que ela não ligava para o esnobismo de Percy. Seus olhos dispararam para Signa, um aviso sombrio se formando dentro deles que sinalizou para ela tomar cuidado com suas palavras. No momento em que saíssem do boticário, a fofoca começaria. Embora fosse possível que quem estava prejudicando Blythe já estivesse ciente de que eles haviam sido descobertos, Signa e Percy não precisavam arriscar adicionar combustível ao fogo, ou dizer a Elijah que a morte de sua esposa poderia ter sido evitada se alguém prestando mais atenção aos seus estranhos sintomas. — Tenho um amigo que comeu algo azedo — Signa ofereceu ao lojista. — Estou procurando um feijão Calabar para ajudar a livrar seu corpo de algumas toxinas. E talvez algo para acalmar seu estômago depois também. A mulher apertou os olhos pequenos em avaliação, então fez um barulho no fundo da garganta enquanto mancava com Signa em direção a uma prateleira cheia de pequenas plantas e frascos de vidro. Percy seguiu atrás delas, fazendo questão de parecer desinteressado enquanto a mulher inspecionava as prateleiras. A lojista murmurou baixinho enquanto procurava, ficando mais frustrada com suas descobertas fileira após fileira até encontrar o que estava procurando e proferir um baixinho “Aha!” Ela produziu um pequeno frasco com uma estranha noz marrom dentro. O feijão calabar. Signa estendeu a mão para pegá-lo, mas a mulher puxou o frasco para fora do alcance. Ela se inclinou para Signa e sussurrou: — Tem certeza de que é o que está procurando? É altamente venenoso e não vai ajudar um estômago azedo. Signa sabia que o feijão Calabar era um risco, mas se Signa não fizesse nada – se ela não corresse nenhum risco – então Blythe morreria, e Signa passaria o resto de sua vida se perguntando se ela poderia tê-la salvado. Signa assentiu e colocou sua fé em Morte. — Sim, senhora. É exatamente o que eu preciso. A mulher ousou um rápido olhar para Percy e disse, muito suavemente: — Você está segura, garota? Se é algo para ele que você precisa, eu tenho algumas coisas um pouco mais... discretas. Signa empalideceu e colocou as mãos sobre as da mulher imediatamente, esperando que sua seriedade fosse suficiente para confirmar sua sinceridade. — Não é nada disso, senhora, eu lhe asseguro. Isso vai dar certo. Com reservas, a lojista cantarolou e entregou o frasco. — Esmague-o em um pó. Em seguida, coloque cerca de metade em um copo com água para induzir o vômito. — Vômitos, Signa esperava, isso ajudaria a livrar Blythe do veneno. A mulher se arrastou até os fundos da loja, as saias roçando o chão de carvalho empoeirado. Por um longo momento ela procurou, eventualmente produzindo um pequeno pote cheio de pequenas sementes marrons que ela levou de volta para Signa. — Sementes de cominho — ela disse a ela, colocando o pote nas palmas das mãos de Signa. — Para ajudar a acalmar o estômago do seu amigo. A agitação de Percy crescia com cada pessoa que vagava pelas janelas enevoadas e sujas da loja e notava sua presença dentro dela. Seus longos dedos se recusaram a parar de bater em sua coxa. Ele observou a mulher entregar as sementes de cominho, afiado como um falcão. — Você tem mais feijão Calabar? — Não é uma planta fácil de encontrar — disse a lojista —, isso é tudo que terei por algum tempo. Ele grunhiu, insatisfeito, e pegou sua bolsa de moedas. — Muito bem. Quanto devemos a você? A mulher se encolheu de surpresa com a severidade dele, mas disse com firmeza suficiente: — Uma thruppence4 basta. Percy pressionou a moeda na palma da mão dela. — Por sua discrição. A lojista agarrou a moeda com uma bufada, então a jogou no bolso de sua saia. — Saia daqui, garoto, antes que eu lhe dê algo para ser discreto. Não havia necessidadede lhe dizer duas vezes. Signa guardou o frasco no bolso enquanto Percy a puxava para fora da loja em que ela poderia facilmente ter passado um dia inteiro conversando com a lojista sobre cada coisa bonita dentro dela. Seus dedos se curvaram com ternura ao redor do pote de sementes de cominho. Signa teve a vaga impressão de que Percy acreditava que o boticário poderia infectá-lo de repente com a peste. Ele lançou um olhar ao redor para garantir que ninguém estava olhando enquanto ele abria a porta. — Há uma loucura dentro daquela mulher — disse ele. — Eu não confio nela. Signa se eriçou. — Ela é uma curandeira. 4 Era uma denominação de moeda esterlina no valor de 1⁄80 de uma libra ou 1⁄4 de um xelim. Foi usado no Reino Unido, e mais cedo na Grã-Bretanha e Inglaterra. — Ela é uma bruxa — ele zombou. — Ainda não vejo como alguma semente ajudará minha irmã quando nada mais pode. Bruxa. A palavra fez a mente de Signa cambalear de volta à noite da morte de Magda. — Não a chame assim. Se uma fruta é poderosa o suficiente para machucar sua irmã e matar sua mãe, então quem é você para dizer que uma planta não pode curar com o mesmo poder? Ele não teve resposta para isso. Ela podia sentir o medo emanando dele em ondas. Ela sabia que se ela fosse ele, ela não iria querer se permitir esperar que essa pequena semente de alguma forma consertasse tudo também. Porque se não… — Vamos nos apressar — Percy murmurou. — Nós precisaremos voltar para a carruagem antes… — Senhorita Farrow? — chamou uma voz da rua. — Senhorita Farrow, é você? O pavor afundou suas garras em Signa quando ela viu que Eliza Wakefield e Charlotte Killinger se aproximavam, acompanhadas por um belo cavalheiro de pele oliva e cachos marrom-trigo. Usava um elegante sobretudo verde-oliva e um chapéu que inclinou para eles com um sorriso tão encantador que o coração de Signa palpitou. O suor escorria na testa de Signa quando Charlotte notou a loja de onde eles saíram. Foi uma sorte que ela fosse educada demais para falar sobre isso, embora o mesmo não pudesse ser dito de Eliza. — Ah, é você. — disse Eliza enquanto se abaixava para uma reverência diante de Percy. — Achei que poderia ser. Você veio do boticário? Percy assumiu um ar totalmente novo antes que Signa pudesse piscar. — E nós fomos amaldiçoados por uma bruxa? Nunca. — Ele falou de uma maneira leve e jovial que fez a mandíbula de Signa ficar tensa. Eliza combinava com seu sorriso áspero, rindo como se ele fosse o mais bem-humorado. Ela esperou que Charlotte e o homem que os acompanhava ecoassem a risada, mas ambos mantiveram seus rostos suaves. Eliza – finalmente capaz de tirar os olhos de Percy por tempo suficiente para se lembrar de si mesma – inclinou a cabeça e pegou Signa pela mão. — Minhas desculpas — disse ela. — Este é meu primo Lorde Everett Wakefield, filho do Duque de Berness. — Eliza segurou seu braço com um sorriso nos lábios. Signa não se lembrava de ter conhecido um lorde antes. Ele se manteve orgulhoso o suficiente para que ela se perguntasse se ele era o primeiro na linha de herança ou o último. Ela se lembrou da conversa em seu chá de boas-vindas que ele era o solteiro mais cobiçado da cidade ao lado de Percy, e que ele era o pretendente em potencial que ela havia falado com Blythe no dia anterior. Mesmo sem dinheiro ou título, Everett era um homem que chamaria a atenção por sua aparência e pela maneira régia com que se portava. Seus ombros estavam virados para trás, peito orgulhoso e seu rosto estava cheio de espírito jovem. Havia riqueza em suas roupas importadas e um brilho em seus olhos ao observar Signa. Everett Wakefield era um dos homens mais bonitos que ela já tinha visto, e sua mente perdeu todo pensamento coerente quando ele sorriu para ela. — Primo — Eliza trinou —, esta é Signa Farrow, aquela de quem eu tenho falado para você. Charlotte observou com um olhar vazio quando Everett baixou a cabeça, as manchas de ouro em seus olhos castanhos deslumbrantes quando eles se ergueram para observá-la sob cílios impressionantemente longos. — Estou bem ciente de quem eram os Farrows, conheci sua mãe uma vez, há muito tempo. A espinha de Signa formigava com pequenos choques de eletricidade quando ele deu um beijo na parte de trás de sua luva. — Minha mãe? O sorriso de Everett brilhou. — Nossos pais já se conheceram, embora eu tenha medo de não me lembrar de seu pai. Minha memória está um pouco nebulosa, pois eu era um menino, embora eu me lembre de como a casa inteira ria quando sua mãe chegava. Ela era uma pessoa muito energética, e minha família a adorava. Sinto muito por sua perda, senhorita Farrow. Signa teve que se lembrar de inclinar a cabeça, muito perdida em seus pensamentos e um milhão de perguntas que ela queria fazer ao homem. Ela nunca esperou que sua mãe fosse chamada de energética. Se o livro de etiqueta que ela deixou para trás e as histórias que a avó de Signa tinha compartilhado estivessem certas, certamente Lorde Wakefield estava pensando na mulher errada. — É um prazer vê-la novamente, Srta. Farrow — interveio Charlotte, embora, para surpresa de Signa, ela parecesse mais doente do que entusiasmada, com as mãos cruzadas à sua frente. — E você também, Sr. Hawthorne. Receio que não tenhamos muito tempo para conversar, pois temos um compromisso em um salão de chá... — Oh querida, Charlotte, obrigada por me lembrar! — Eliza bateu palmas. — Perdoe-me por ser ousada, mas ficaríamos muito felizes se vocês pudessem se juntar a nós. Signa não perdeu como os olhos de Charlotte escureceram quando ela disse: — Absurdo. Ninguém negaria dois dos cavalheiros mais proeminentes da cidade. — Eliza apontou sua esperança para Percy. — Tenho certeza de que eles farão uma exceção se você fizer a gentileza de nos acompanhar? Os dedos de Percy bateram ao seu lado, e ele lançou um olhar de soslaio para Signa. Chá, como Signa estava aprendendo, nunca foi realmente apenas chá, e aceitar um convite significava tanto quanto convidar. Não era formal para Eliza fazer o pedido sozinha, mas ter seu primo em seu braço a tornou ousada. Não se podia exatamente recusar o chá com um lorde, e embora Signa soubesse o que significaria recusar, tudo em que conseguia pensar era no aviso de Morte soando em seus ouvidos e que ela precisava desesperadamente levar o antídoto para Blythe. — É uma oferta gentil, mas talvez possamos nos juntar a você outro dia? Não gostaríamos de impor. Eliza nem mesmo reconheceu que Signa havia falado. — Todo mundo tem elogiado este lugar. Confie em mim, Sr. Hawthorne, será impossível entrar quando o resto da cidade ficar sabendo. Everett e eu absolutamente insistimos que você se junte a nós hoje, não é, Everett? Ele sorriu para Signa. — Ficaríamos ofendidos se você não aceitasse. — E embora seu tom fosse provocador, ela sabia que a batalha estava perdida. Blythe teria que aguentar um pouco mais. Vinte e seis Se o feijão de Calabar e tudo que ele simboliza não estivesse pesando em seus bolsos, o dia teria sido lindo para um passeio. Eliza passou um braço pelo de Signa e o outro pelo de Charlotte, as três andando bem à frente dos homens. — Que coincidência te encontrar aqui. Eu esperava tanto que você tivesse a chance de conhecer Everett antes da primavera. Você ainda está planejando se juntar à temporada, não é? Ela ainda precisava falar com Marjorie, é claro, mas fazia sentido estrear na primavera que Signa assentiu. — É o que esperamos. O sorriso de Charlotte era educado, mas fino. — Parece que todas elas e suas mães vão participar nesta temporada. — Você tem razão. — Eliza riu. — Que desafio será encontrar um marido, especialmente agora que estaremos competindo com a senhorita Farrow. — Ela disse a última parte em um sussurro conspiratório. — Você será o pônei premiado em que todosos homens darão lances. É uma sorte para nós que apenas um de vocês de Thorn Grove estará fora nesta temporada, pois será o mesmo quando Blythe fizer sua estreia. E é uma sorte para mim que aquele em que estou de olho seja seu parente. Embora as fofocas incessantes de Eliza fossem cansativas, ela era muito bonita, e sua família era rica o suficiente para que Signa soubesse sem perguntar a ela que Percy estaria igualmente interessado nela. Mas o interesse de Eliza continuaria se Percy não herdasse Grey's? — Se você me der licença — Eliza se afastou das mulheres —, acredito que vou ter uma vantagem nisso. — Ela recuou em um passo rápido, tomando seu lugar ao lado de Percy e inclinando a cabeça para trás, rindo do que quer que ele dissesse. Deixada com Charlotte, Signa perguntou: — O que a Srta. Wakefield disse, é verdade? Eu nunca pensei que minha estreia seria um problema para alguém. — Certamente, isso não poderia ter sido o que azedou o humor de Charlotte na última vez que eles falaram. Sim, Signa tinha dinheiro, mas haveria outras muito mais adequadas para manter uma casa. Ela não queria filhos tão cedo, e seu piano e habilidade com uma agulha eram abismais. Sem mencionar que haveria mais mulheres bonitas para a temporada, como Charlotte, que qualquer um teria a sorte de ter como esposa. — Não é que seja um problema. — Charlotte manteve a voz baixa o suficiente para que Signa se esforçasse para ouvi-la. — Mas torna as coisas mais difíceis para aquelas de nós que devem garantir uma partida forte. Se Blythe não estivesse doente, teria sido a mesma situação. Os homens se reunirão primeiro com aquelas com as maiores perspectivas, e o resto de nós receberá suas sobras e esperamos que fiquemos felizes por isso. — Que tal um encontro de amor? — Signa perguntou, não gostando de uma postura tão insensível. — Certamente, não importaria quantas mulheres debutassem a cada temporada se alguém conseguisse um desses? Charlotte baixou o queixo e olhou para Signa como se a visse pela primeira vez. — Desde que minha mãe morreu e fomos forçados a nos mudar após o escândalo, meu pai tem lutado para nos manter à tona. Ele nunca teve um filho, então é meu dever encontrar alguém que possa sustentar nossa família. Não tenho o luxo de um casamento por amor, Srta. Farrow. Na verdade, você descobrirá que a maioria de nós não pode. Se é isso que você está procurando, então desejo-lhe sorte, mas só me importo em garantir meu futuro. Então me perdoe se não estou entusiasmada por você estar se juntando à briga no meu primeiro ano. As palavras de Charlotte doeram como uma ferida. Signa sabia que poderia construir seu próprio futuro, mas ela nunca considerou que algumas mulheres teriam que estar com um homem que não fosse de sua própria escolha, simplesmente para existir. Era a última coisa que ela queria para sua amiga, especialmente. Signa queria um casamento por amor. Ela queria alguém para dançar e rir até tarde da noite. Alguém de cuja companhia ela não se cansaria daqui a alguns anos. Ela queria o mesmo para sua amiga, também. Signa queria perguntar a Charlotte se havia alguém de quem ela gostasse, mas ficou em silêncio quando chegaram a um pequeno salão de chá. Outra hora, então. Elas teriam a discussão da próxima vez. Everett segurou a porta aberta, e um por um eles entraram. O salão de chá era limpo e pitoresco, com uma grande mesa circular de mogno já preparada para eles. Estava decorado com um lindo arranjo de petits fours dourados, scones de pêssego e chocolate, bolinhos dourados, tortas de frutas vitrificadas em miniatura e delicados sanduíches de pepino. O estômago de Signa a traiu rosnando, querendo provar tudo. Era lamentável, a forma como as regras sociais podiam atrapalhar uma pessoa. Quão mais simples seria a vida sem ter que pensar no que ela deveria comer, e em que ordem. Ela preferia fortemente a filosofia de Morte de simplesmente querer algo e tomá-lo. Everett puxou cadeiras para Signa e Charlotte, a última das quais se sentou com mais graça do que Signa pensava ser capaz de fazer. Percy seguiu o exemplo de Eliza, que abriu um leque preto que ela agitou para esconder um rubor que Signa tinha certeza de que não estava lá. Parecia que havia uma linguagem com esses leques – uma que Signa não entendeu, mas deixou Percy em transe enquanto Eliza se abanava com movimentos lentos e deliberados de seu pulso. Quanto mais ela abanava, mais Signa queria estender a mão por cima da mesa para jogar a coisa besta pela janela, pois ainda não estava quente e o vento do leque continuava soprando os pequenos fios de cabelo em seu rosto. Everett deve ter compartilhado sentimentos semelhantes; ele torceu o rosto e tentou não rir ao ver sua prima. Quando ele pegou Signa olhando, ele sorriu. Charlotte desviou o olhar em silêncio, colocando açúcar em seu chá. — Você está em Thorn Grove há muito tempo, Srta. Farrow? — Everett perguntou enquanto se sentava, esperando que as mulheres pegassem seus salgados do arranjo antes de servir o dele em um pequeno prato de porcelana. Percy colocou o guardanapo no colo, em seguida, colocou um bolinho nos pratos de Signa e Eliza. Quem era Signa para recusar um bolinho perfeitamente bom? Ela espalhou coalhada de limão e creme coagulado sobre ele da maneira mais graciosa que ela sabia, escondendo seus olhos ansiosos com uma máscara de calma recatada. — Há cerca de um mês, agora — ela disse, esperando que ele fizesse uma pausa nas perguntas tempo suficiente para ela dar uma mordida. — Thorn Grove é um lugar lindo. Os Hawthornes me fizeram uma grande gentileza ao permitir que eu ficasse com eles. — Bobagem — Percy a repreendeu. — Você é família. Ter você conosco tem sido nosso prazer. Signa mordeu seu bolinho para poupá-lo de sua réplica. Onde estava essa gentileza mais cedo, quando ele a apressou para fora do boticário, ou quando ele a criticou dançando? — O aniversário de Signa é na primavera, você sabe — disse Eliza. — Ela fará sua estreia nesta temporada. — Suponho que isso significa que vamos nos ver com bastante frequência, já que pretendo permanecer na cidade durante a próxima temporada também. — O sorriso de Everett era muito mais encantador do que tinha o direito de ser. O bolinho que Signa estava mastigando se alojou em sua garganta. Ela engoliu um gole de chá fumegante para ajudar a passar. A bebida queimou sua língua, e ela se lembrou de uma das regras do Um guia feminino de beleza e etiqueta: Deve-se tomar o chá no menor dos goles, e nunca se deve soprar uma bebida, não importa o quão quente. — Uma coincidência, de fato. — Signa não sabia dizer se era seu coração palpitando ou os nervos tomando conta de seu estômago. Everett era, no papel, tudo o que Signa sempre quis – bonito, charmoso, gentil e um socialite evidente. Ela não se importava muito com o status dele, mas supôs que só poderia ser benéfico se a atenção daqueles que lançavam olhares maliciosos e interessados para eles fosse algum indicador. Mas meu Deus, se apenas tomar chá fosse uma tarefa tão cansativa toda vez que ela tivesse que fazer isso, Signa não tinha ideia de como ela conseguiria se tornar a socialite que ela sempre sonhou em ser. Ela desejou, vagamente, poder perguntar à mãe como ela tinha feito isso. Signa tomou outro gole muito quente e provou um sanduíche de pepino antes de espalhar manteiga em um bolinho, deixando Percy fazer o falando enquanto ela cuidava da comida — quanto mais cedo acabasse, mais cedo eles poderiam voltar para Thorn Grove e Blythe, e mais cedo ela poderia sair de sua própria cabeça. Percy exibiu um comportamento cavalheiresco, lisonjeando Eliza e cortejando-a de uma forma que encantou a jovem. Ele parecia o homem que seu pai supostamente tinha sido, perguntando a Charlotte e Eliza sobre seus hobbies e se elas tinham visto alguma apresentação na ópera recentemente. Ele voltou a encher a xícara de Elizacom a máxima atenção, jogando com mais charme do que Signa achava que ele era capaz. Charlotte, enquanto isso, falou com Everett de suas muitas viagens. Signa ouviu com grande fascínio enquanto eles discutiam sobre festas e eventos esportivos dos quais ela não estava a par, e se juntou à conversa quando Everett pressionou por informações sobre seus interesses e o que ela e Percy estavam fazendo na cidade. Percy, é claro, inventou uma mentira antes que ela pudesse responder. Todo o tempo, Signa estava muito consciente da rigidez de sua coluna e de como seu pescoço doía de tentar mantê-la tão reta. Ela tinha certeza de que havia quebrado várias regras de etiqueta de jantar – como quais alimentos comer em que ordem, quando colocar o açúcar no chá, quantos dedos usar enquanto levava a xícara aos lábios – mas, felizmente, ninguém esboçou qualquer reclamação, embora ela tenha pego Eliza boquiaberta para ela algumas vezes. Embora as regras estivessem embutidas em algum lugar no cérebro de Signa, a prática delas parecia antinatural. Eventualmente, ela parou de comer e beber completamente, para não ofender todos na sala que a observavam ao lado de Lorde Wakefield. O resto da tarde passou como um borrão. Signa fez algumas perguntas, incapaz de relaxar completamente por medo de fazer ou dizer algo errado. Talvez fosse tolice se preocupar assim, já que Eliza estava completamente apaixonada por Percy e seu próprio leque acenando para se importar com o número de scones consumidos por Signa, e que Everett e Charlotte não eram nada além de cordiais. Ainda assim, o estresse estava causando urticária em sua pele, e seu estômago estava enjoado. Finalmente, quando o chá esfriou e a comida desapareceu, Percy colocou o guardanapo dobrado sobre a mesa e se levantou. Everett seguiu o exemplo, ajudando Signa e Charlotte a saírem de suas cadeiras. Quando todos estavam de pé, ele ofereceu a mão a Signa. Um momento de pânico a percorreu antes que ela o pegasse e permitisse que ele a acompanhasse para fora. — Foi um prazer conhecê-la — disse ele, seu sorriso brilhando com os dentes mais retos e brancos que Signa já tinha visto. — Estou ansioso para conhecê-la melhor, senhorita Farrow, ao longo da próxima temporada. Durante anos Signa imaginou um momento como este. Nele, no entanto, ela nunca imaginou que teria suor nas costas ou que sua prima moribunda estaria esperando que ela viesse e lhe entregasse uma cura. Era demais para Signa sequer pensar, e foi por isso que ela se separou de Everett e agarrou Percy, esperando que seu sorriso parecesse convincente. — Estou ansiosa por isso também — disse ela a Everett, discretamente enfiando os dedos no braço de Percy até que ele apertou a mão sobre a dela e sorriu. O sorriso de Everett era tão genuíno que o estômago de Signa se revirou de culpa. No entanto, ela sabia que não havia tempo para isso, pois havia assuntos muito mais urgentes. Com um adeus final, ela se virou e arrastou Percy para a carruagem que esperava para levá-los para casa e para Blythe. Vinte e sete Percy fechou as cortinas no momento em que estavam na carruagem, exalando enquanto se afundava no assento. — Eu não posso acreditar que quase fomos vistos naquele boticário. — Seus lábios se apertaram, ele parecia muito mais severo do que minutos antes. A gravidade da rápida mudança em seu comportamento deu uma chicotada em Signa. — Especialmente na frente do filho do duque. Signa desejou que a carruagem fosse mais rápida. — Isso realmente importa se eles nos viram? — ela perguntou. — Eu esperaria que qualquer um com meio coração pudesse entender nosso desespero e estar aberto a considerar remédios alternativos para Blythe. — Eu espero que isso também — disse ele. — Mas também pode nos tornar suspeitos. Suas defesas estavam subindo. — O que você quer dizer, suspeito? — Quero dizer que quanto mais penso nisso, mais estranho acho a conveniência de você saber o que está afligindo minha irmã, quanto mais encontrar um suposto antídoto. — Seus olhos verdes se estreitaram. — Eu quero confiar em você, prima, mas devo admitir que acho muito estranho seu súbito interesse em Blythe. Ela está pior desde que você chegou, e estou achando difícil negar que você pode ser o motivo. Foi o pavor que Signa sentiu então. Medo frio e gelado vazando em seu estômago. O olhar nos olhos de Percy não era o que ela tinha visto antes; era distante, venenoso. Mas ela entendeu, pois Blythe era sua irmã, e Signa não tinha dúvidas de que ela estaria disposta a fazer o que fosse preciso para proteger sua própria irmã também, se ela tivesse uma. Mas ela não sabia como convencê-lo disso. O próprio feijão Calabar era, tecnicamente, veneno. Não faria nenhum favor a ela se ele descobrisse. — Eu mesma vou provar o antídoto, se você precisar de provas — ela disse finalmente. — Isso satisfaria suas preocupações? Percy parou com a declaração de Signa, recostando-se no assento de couro enquanto a considerava. Quando ele reuniu suas considerações o suficiente para considerar sua proposta, ele assentiu, pois até onde ele sabia, talvez não houvesse melhor prova neste mundo. — Muito bem. — Então considere isso feito. — Signa colocou as mãos no colo e contou os minutos que passavam. Ela não queria se importar com a hesitação dele; Thorn Grove, por mais estranho que fosse, era o melhor lugar que ela já havia vivido, e seus habitantes estavam crescendo sobre ela. Ela também não queria que ele visse o quanto sua negatividade sobre o boticário a havia afetado, pois Percy era o símbolo da alta sociedade por completo. A reação dele, assim como seu próprio desconforto no chá, foi um claro reconhecimento de quão mal Signa se encaixava naquele ambiente. Ela poderia se tornar como barro e se moldar. Ela poderia usar os vestidos e prender o cabelo e passar ruge nas bochechas – ela poderia até fingir interesse se fosse necessário. Desde menina, este sempre foi o caminho que ela deveria tomar. Sua avó havia lhe dito isso. Disse para ela se casar e das festas que ela iria. Disse a ela que seria como sua mãe, e Signa acreditou nela porque era tudo o que ela sabia querer. Mas havia algo mais agora. Uma curiosidade. Uma escuridão que estava se formando dentro dela todos esses anos que talvez não fosse tão escura quanto ela uma vez acreditou. Ela sentiu poder. Ela sentiu o calor de sua pele sob o toque de um homem. Ela sentiu como era sair de fininho e cavalgar sob a lua. E ela gostava daquela escuridão mais do que gostaria de admitir. Ela ficou no silêncio de seus pensamentos durante todo o passeio, enquanto estava na cozinha enquanto moía o feijão Calabar, e então em sua jornada subindo as escadas, pelo corredor, e entrando no quarto de Blythe com Percy ao seu lado. No momento em que a porta se abriu, foi como se alguém tivesse lhe dado um soco no peito. A morte pairava como fumaça no ar, sufocante. O único alívio foi que ele ainda não estava presente. Ele não perseguia as sombras, esperando por ela, e Signa entendeu que a sensação de sua presença prolongada nesta sala era um aviso. Se ela fosse salvar Blythe, ela precisava se mover rápido. Percy deve ter sentido a urgência também, pois ele mal olhou para sua irmã antes de seus passos vacilarem. Blythe estava deitada na cama, tão sem vida quanto Signa já a vira. Sua respiração escorregou de seus lábios em pequenos suspiros. Quando Blythe os ouviu entrar, suas pálpebras se abriram, embora ela fosse incapaz de mantê-las assim por muito tempo. Signa sentou-se ao lado dela sem esperar permissão. Ela pegou um copo de água da mesa de cabeceira e mexeu no grão de Calabar até que o líquido ficou branco leitoso. Antes que ela pudesse fazer outro movimento, Percy segurou seu braço. Havia fogo em seus olhos. — Você primeiro — disse ele. Com o olhar fixo no dele, Signa levou o copo aos lábios e tomou um gole. Não demoraria muito até que seuestômago protestasse contra a bebida, então ela se preparou e não perdeu outro momento com Percy. Ela deslizou o braço sob o pescoço de Blythe para ajudá-la a se sentar. Só quando a bebida chegou aos lábios Signa hesitou. Blythe estava leve como uma pena, a cabeça pendurada no braço de Signa. Se ela seria capaz de lidar com a substância era um mistério. A vida estava se esvaindo rapidamente, e o feijão Calabar era outro veneno; isso a faria vomitar, embora também se destinasse a combater os efeitos da belladonna. — Isso vai ser difícil — Signa avisou —, mas você deve lutar. Se você se sentir prestes a vomitar, deixe acontecer. Vai ajudar. Blythe não disse nada, mas o tremor de suas pálpebras levou Signa a acreditar que ela entendia. Percy estava ao lado deles, olhos ansiosos. — Ela vai ficar bem? Signa poderia tê-lo matado por essa pergunta, e ela lançou um olhar que advertia isso. Blythe estava doente, mas ela ainda podia ouvi-los. — Isso deve ajudá-la muito — disse Signa sem acrescentar: O sistema dela deve tolerar isso. Ela incitou Blythe a beber metade do copo, então pegou uma bacia do chão para quando chegasse o momento que eles precisassem. — Sinto muito — ela sussurrou, sentando perto, alisando as mechas úmidas e pegajosas do cabelo loiro claro de Blythe de sua testa. — Eu devo ter perdido algo. Achei que só o remédio estava envenenado, mas não tenho mais tanta certeza. — Ou talvez um de nós tenha cometido um deslize e passado informações demais para a pessoa errada. — Uma sugestão de acusação permaneceu no sussurro de Percy. Signa havia contado a alguém, reconhecidamente com muito mais facilidade do que deveria. Mas Sylas a ajudou; ele lhe mostrou a biblioteca e a levou para Grey's. Se ele quisesse Blythe morta, certamente ele não teria sido tão útil. — Ninguém cometeu um deslize. — Ela falou com confiança. — Devo ter cometido um erro de cálculo. Teremos que monitorar o que ela consome com mais cuidado. — E o seu remédio? — Ele acenou para os restos da bebida leitosa. — Você terá o suficiente, se isso acontecer de novo? Signa assentiu. — Para mais uma dose, sim. Embora esperemos que ela não precise. — Vamos rezar para que você esteja certa. — As sobrancelhas de Percy estavam severas enquanto observava Signa trabalhar com o cominho, preparando-a para depois que Blythe vomitasse, o que não demorou muito. — Eu vou ficar com ela — Signa disse, agradecida pelos reflexos rápidos enquanto ela levava a bacia para Blythe bem a tempo, ajudando novamente a tirar o cabelo da garota de seu rosto. Seu próprio estômago estava com cólicas, a náusea rolando sobre ela enquanto o suor frio pinicava sua pele. Ela se recusou a deixar transparecer na frente de Percy; a náusea passaria logo. — Nós vamos precisar de água — ela disse a ele com autoridade severa. — Vá pedir ao pessoal da cozinha um pouco de pão. Ela precisa comer algo fácil para seu estômago, uma vez que passamos pelo pior disso. E por favor, seja discreto. Percy assentiu e lançou um último olhar para sua irmã. Ela nunca tinha visto suas bochechas tão encovadas, ou seus olhos tão vazios. Ele virou em seus calcanhares sem dizer mais nada, o som de suas botas estalando enquanto ele desaparecia no corredor. Era tarde da noite quando Blythe começou a se acalmar. Signa não tinha certeza de que sua prima sobreviveria quando a respiração difícil de Blythe apertou e sua pele ficou febril. Mas em algum lugar durante aquelas longas horas, houve um ponto de virada. As bochechas coradas de Blythe esfriaram, e seu estômago não estava mais tão ansioso para se esvaziar. Ela se deitou na cama, seu cabelo preso em uma trança frouxa que Signa havia feito entre esvaziar a bacia e pegar mais água para Blythe. A respiração de Blythe estava profunda agora, e seus olhos finalmente conseguiam ficar abertos. — Você está comigo? — Signa perguntou, aliviando seus ombros quando Blythe assentiu. Pegando um pedaço de massa fermentada da bandeja que Percy havia trazido para eles, Signa rasgou um pequeno pedaço e entregou a Blythe. — Tente comer isso. Você vai se sentir fraca por um tempo, mas eu acho que vai ficar bem. Nós vamos ter que ter cuidado com o que quer que você coma. O pão escorregou dos dedos de Blythe; ela estava muito fraca para segurá-la. Ela vacilou ao perceber, lágrimas brotando, mas Signa não aceitaria nada disso. Ela pegou o pão, quebrou em pedaços ainda menores, então colocou um pequeno pedaço na boca de Blythe. Pedaço após pedaço Signa a alimentou, deixando a cabeça de Blythe cair em seu ombro, deixando as lágrimas fluírem livremente até que ela ficou exausta demais para comer outra mordida ou derramar outra lágrima, e ela adormeceu. Enquanto Blythe dormia, Signa passou a mão sobre o cabelo de sua prima, desejando força para ela. — Não se preocupe — Signa sussurrou. — Eu vou encontrar quem fez isso com você. Eu prometo. Do limiar, uma voz calma disse: — Como você conseguiu ajudá-la? — Marjorie os observava com olhos brilhantes. Ela olhou para o copo na mesa de cabeceira, a evidência ainda lá. — Apenas um remédio antigo que encontrei na biblioteca — sussurrou Signa, sem saber mais o que dizer. Signa entendeu que Marjorie provavelmente poderia bani- la se ela quisesse. Ela poderia considerar Signa uma bruxa e expulsá-la de Thorn Grove. Mas em vez disso, seus olhos se suavizaram. — Você deveria descansar um pouco também. A pele de Signa se arrepiou com a mera sugestão de deixar Blythe sozinha, ou nas mãos de outro. Mas, por enquanto, a presença de Morte se dissipou da sala, seu aviso retraído. Novamente, Blythe foi poupada. Se Signa conseguiu salvá-la uma última vez, eles só podiam aguardar agora. Signa colocou a cabeça de Blythe sobre os travesseiros antes de escorregar da cama. Na mesinha de cabeceira ela havia deixado pedacinhos de pão e dois copos de água. Em um dos copos ela adicionou sementes de cominho moídas para ajudar a acalmar o estômago de Blythe. Por enquanto, era tudo o que ela podia fazer. — A melhor coisa que podemos fazer por ela é deixá-la dormir — Marjorie disse a ela, e Signa sabia que não era sua função discutir. Mesmo se ela tivesse ajudado Blythe, Signa ainda era pouco mais que uma estranha para os Hawthornes. Ela também era uma mulher, e ainda jovem. Não importa o quanto ela quisesse se esconder no quarto de Blythe para vigiá- la em todas as horas, tal coisa nunca seria permitida quando a família tinha médicos adequados e empregados. Então, por enquanto, ela pegou suas saias e seguiu Marjorie porta afora, deixando a mulher conduzi-la pelo corredor à luz de velas e de volta ao seu próprio quarto. Marjorie diminuiu a velocidade, forçando-as a permanecer no corredor. — Você está se encaixando em Thorn Grove melhor do que eu esperava — disse ela. A escuridão da noite cobriu bem a memória do ferimento de Marjorie. No brilho fraco das arandelas de ferro, tudo o que Signa conseguiu distinguir foi um hematoma desbotado em seu lábio inferior. — Obrigada — disse Signa antes de se permitir reviver a memória de ver aquele machucado infligido. Suas mãos se apertaram em seus lados. — Foi um prazer ver você se dando bem com outras mulheres da sua idade. — Os saltos das botas de Marjorie batiam ruidosamente no piso de madeira. — Você deseja estrear nesta temporada, não é? Talvez fosse um momento estranho para falar sobre uma coisa dessas, mas a presença de Morte em Thorn Grove tinha sido longa e tediosa, e Signa tinha aprendido que quando Morte reclamava cada momento de sua vigília, as conversas mundanas pareciam um alívio. Talvez Marjorie sentisse o mesmo. — Não quero incomodar ninguém com isso — disse Signa. — Eu estarei deixando Thorn Grove para uma casa minha mais ou menos na mesma época. Eu posso estrear quando eu me for… — Não há necessidade de se desculpar, Signa. Você tem feito um trabalho maravilhoso com suas aulas, e acho