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Adalyn Grace - Belladonna 01 - Belladonna (rev) RA

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Belladonna 
 
 
Belladonna (#1) 
 
Foxglove (#2) 
Tabela de Conteúdos 
 
Belladonna 
Tabela de Conteúdos 
Aviso — bwc 
Prólogo 
Um 
Dois 
Três 
Quatro 
Cinco 
Seis 
Sete 
Oito 
Nove 
Dez 
Onze 
Doze 
Treze 
Quatorze 
Quinze 
Dezesseis 
Dezessete 
Dezoito 
Dezenove 
Vinte 
Vinte e um 
Vinte e dois 
Vinte e três 
Vinte e quatro 
Vinte e cinco 
Vinte e seis 
Vinte e sete 
Vinte e oito 
Vinte e nove 
Trinta 
Trinta e um 
Trinta e dois 
Trinta e três 
Trinta e quatro 
Trinta e cinco 
Trinta e seis 
Trinta e sete 
Trinta e oito 
Trinta e nove 
Quarenta 
Quarenta e um 
Quarenta e dois 
Quarenta e três 
Quarenta e quatro 
Quarenta e cinco 
Quarenta e seis 
Epílogo 
Agradecimentos 
 
Há uma casa na floresta 
com uma mesa arturiana e uma 
tábua de charcutaria interminável. 
Esta história é para aqueles com quem 
me sentei naquela mesa, 
que fazem a escrita parecer 
mágica. 
 
Aviso — bwc 
 
Essa presente tradução é de autoria pelo grupo Bookworm’s 
Cafe. Nosso grupo não possui fins lucrativos, sendo este um 
trabalho voluntário e não remunerado. Traduzimos livros com 
o objetivo de acessibilizar a leitura para aqueles que não sabem 
ler em inglês. 
Para preservar a nossa identidade e manter o funcionamento 
dos grupos de tradução, pedimos que: 
• Não publique abertamente sobre essa tradução em 
quaisquer redes sociais (por exemplo: não responda a 
um tweet dizendo que tem esse livro traduzido); 
• Não comente com o autor que leu este livro 
traduzido; 
• Não distribua este livro como se fosse autoria sua; 
• Não faça montagens do livro com trechos em 
português; 
• Se necessário, finja que leu em inglês; 
• Não poste – em nenhuma rede social – capturas de 
tela ou trechos dessa tradução. 
Em caso de descumprimento dessas regras, você será banido 
desse grupo. 
Caso esse livro tenha seus direitos adquiridos por uma 
editora brasileira, iremos exclui-lo do nosso acervo. 
Em caso de denúncias, fecharemos o canal 
permanentemente. 
Aceitamos críticas e sugestões, contanto que estas sejam 
feitas de forma construtiva e sem desrespeitar o trabalho da 
nossa equipe. 
Prólogo 
 
Começou com o choro de um bebê. 
Envolta em um vestido carmesim ousado como sangue, 
Signa Farrow era a criança de dois meses mais marcante da festa, 
e sua mãe pretendia provar isso. 
— Olhe para ela — sua mãe cantarolou, levantando o bebê 
agitado para que todos a admirassem. — Ela não é a criatura 
mais perfeita que você já viu? — Rima Farrow reluziu 
enquanto girava seu bebê ao redor da multidão. Cada parte dela 
estava adornada com joias elegantes, cada uma delas um 
presente do seu marido artífice. Seu vestido de seda era do tom 
mais profundo de cobalto, movimentando-se sobre a crinolina 
mais larga do que qualquer outra pessoa ousava usar em sua 
presença. 
Os Farrows eram uma das famílias mais ricas vivas; todos os 
que compareceram a esta festa procuraram se envolver com 
qualquer fração de sua riqueza. E assim eles cobriram seus 
rostos com os sorrisos que eles sabiam que Rima ansiava e 
arrulharam para a criança que ela segurava com tanto carinho. 
 — Ela é linda — disse uma mulher que observava Rima em 
vez do bebê enquanto ela abanava sua pele pegajosa em 
protesto contra o calor do verão. 
— Perfeita — disse outro, olhando propositalmente para o 
narizinho torto e o pescoço enrugado de Signa. 
— Ela vai ser como a mãe, tenho certeza. Banqueteando-se 
com os corações de pretendentes desavisados a qualquer 
momento. — Isso foi dito por um homem que ignorou o quão 
profundamente os olhos de Signa o perturbavam – um azul de 
inverno, o outro era ouro derretido. Ambos muito 
observadores para uma recém-nascida. 
Signa nunca parava de chorar – ela estava corada de tanta 
agitação e sua pele estava pegajosa. Todos os que a viam 
achavam isso típico – os verões em Fiore eram um cobertor 
quente e úmido. Seja dentro ou fora, os corpos brilhavam de 
suor que revestiam a pele como um véu. Por causa disso, 
ninguém esperava o que o bebê já sabia: a morte havia 
encontrado seu caminho para a mansão Foxglove. Signa podia 
senti-lo ao seu redor como se pudesse sentir uma mosca que 
chega perto demais. A morte era um zumbido em sua pele, 
alertando os pelos finos de seu pescoço. Com sua presença, 
Signa se acalmou, embalada pelo frio que floresceu com sua 
proximidade. 
Mas, ninguém mais experimentou o mesmo conforto, pois 
a Morte só vai onde ele é chamado. E naquela noite, ele foi 
chamado para Foxglove, onde o veneno se misturou a cada gota 
de vinho. 
Primeiro veio a tosse. Ataques dela tomaram conta da festa, 
mas os convidados tossiam em suas lindas luvas brancas e se 
perdoavam, pensando que a causa era algo que eles comeram. 
Rima foi uma das primeiras a dar sinais. Suor frio arrepiava suas 
têmporas, e ela passou seu bebê para uma serva próxima 
enquanto sua respiração se enfraquecia. 
— Desculpe-me — disse ela, uma mão na garganta, os dedos 
pressionando o suor que acumulada nas fendas de suas 
clavículas. Ela tossiu de novo e, quando afastou as mãos dos 
lábios, o sangue da cor do vestido de seu bebê manchou suas 
luvas de cetim. 
A morte estava diante dela então, e o bebê observou 
enquanto ele colocava a mão no ombro de Rima. Com uma 
inspiração final, seu cadáver caiu no chão. 
A morte não parou com Rima. Ele varreu a grande 
propriedade, coletando as pobres almas cujos rostos ficaram 
roxos enquanto seus peitos se contraiam com respirações não 
cooperativas. Ele rasgou dançarinos e músicos, roubando sua 
respiração com um único toque gelado. 
Alguns tentaram chegar até a porta, pensando que devia 
haver algo no ar. Que se pudessem entrar nos jardins, seriam 
poupados. Um por um eles caíram como estrelas, apenas os 
poucos sortudos que ainda não tinham provado o vinho 
conseguiram escapar. 
A serva mal conseguiu colocar Signa no berçário antes que 
ela também caísse, os lábios sangrando rubi enquanto a Morte 
desacelerou seu coração e jogou seu corpo no chão. 
Mesmo quando criança, Signa não se incomodava com o 
fedor da morte. Em vez de sentir o pânico ao redor dela, o bebê 
se concentrou no que ninguém mais podia ver – o brilho 
azulado dos espíritos translúcidos que enchiam a propriedade 
enquanto a Morte os arrancava de seus corpos. Alguns foram 
pacificamente, pegando as mãos de um parceiro enquanto 
esperavam uma escolta para a vida após a morte. Outros 
tentaram abrir caminho de volta para seus corpos, ou fugir de 
um ceifador que não os perseguiu. 
No meio de tudo isso, uma Rima morta e brilhante estava 
silenciosamente no quarto de Signa, observando com uma 
carranca profunda e olhos vagos enquanto a Morte cruzava a 
soleira. Seus passos não fizeram nenhum som quando ele se 
aproximou o bebê, sua forma nada mais do que sombras 
sempre em movimento. Mas, a Morte não precisava ser vista; 
ele deveria ser sentido. Ele era um peso no peito, ou um 
colarinho muito apertado. Uma queda em águas frias e letais. 
A morte era sufocante, e ele era gelo. 
E, no entanto, quando ele estendeu a mão para pegar Signa, 
que estava cheia e acomodada com o leite envenenado de sua 
mãe, o bebê bocejou e se enrolou contra o toque das sombras 
da Morte. 
Ele caiu para trás, as sombras se retraindo. Mais uma vez ele 
tentou reivindicá-la, mas seu toque não lhe mostrou flashes da 
vida que esta jovem criança tinha levado. Em vez disso, 
mostrou a ele algo que ele nunca tinha visto antes, vislumbres 
de seu futuro. 
Um futuro brilhante e impossível. 
Seu toque não poderia matar o bebê que ele circulava, tão 
confuso por ela quanto fascinado pelo que tinha visto. 
Embora Rima desejasse ficar – desejava esperar que sua filha 
se juntasse a ela – Morte recuou e ofereceu sua mão. Para 
surpresa de Rima, ela se aproximou e pegou. 
— Não é a hora dela — ele disse —, mas é a sua. Venha 
comigo. — Havia muitas almas precisando de transporte para 
permanecer por mais tempo. Ele estaria de volta, no entanto. 
Ele iria encontraressa criança novamente. 
De mãos dadas com Morte, o espírito de Rima lançou um 
último olhar para o bebê que eles deixaram para trás, sozinha 
em uma casa com nada mais do que cadáveres como 
companhia. Ela rezou para que alguém encontrasse Signa logo 
e que a protegessem. 
Assim como a noite começou com o choro de um bebê, 
terminou com um. Só que desta vez, ninguém estava por perto 
para ouvir. 
Um 
 
Dizem que cinco frutinhas de belladonna são tudo o que 
precisa para matar alguém. 
Apenas cinco frutinhas doces, comidas diretamente da 
folhagem. Ou, como Signa Farrow preferia, amassada e 
mergulhada em uma caneca de chá. 
Suas sobrancelhas escuras estavam escorregadias de suor 
quando ela se inclinou sobre a caneca de cobre fumegante, 
inalando a fumaça. Certamente comer as frutas puras teria sido 
mais fácil, mas ela ainda estava aprendendo o efeito que a 
belladonna tinha em seu corpo, e a última coisa que ela queria 
era que tia Magda a encontrasse desmaiada no jardim com uma 
língua roxa brilhante. 
Não de novo, de qualquer maneira. 
Faziam semanas desde que Signa viu o ceifador pela última 
vez. Apenas um último suspiro o tiraria do esconderijo, e ele 
nunca saia de mãos vazias. Pelo menos, era assim que deveria 
ser. Mas Signa Farrow era uma garota que não podia morrer. 
A primeira vez que Signa se lembrou de ter visto o ceifador, 
tinha cinco anos e tinha caído da escada da casa da avó. Seu 
pescoço tinha quebrado e estava torto enquanto ela o 
observava de lado do chão frio. Logo entendeu, vagamente, que 
seu corpo jovem não foi feito para suportar tais coisas e se 
perguntou se ele havia chegado para levá-la. No entanto, ele 
não disse nada, observando enquanto seus ossos voltavam ao 
lugar e desaparecendo quando ela se recuperava de uma queda 
que deveria tê-la matado. 
Passaram-se mais cinco anos antes que ela visse Morte 
novamente. Signa assistiu do lado da cama de sua avó quando 
Morte pegou a mão da mulher e afrouxou seu espírito do 
corpo. Ela estava doente há meses, sorriu e beijou a testa de 
Signa antes de deixar Morte guiá-la para uma vida após a morte 
pacífica. 
Signa implorou para que a Morte voltasse. Trouxesse a avó 
de volta enquanto Signa segurava a mão do cadáver e chorava 
até não sobrar nada nela. Ninguém mais foi capaz de vê-lo ou 
os espíritos que ele liderava, e ela se perguntou se era culpa dela 
que isso tivesse acontecido. Se ela era a culpada disso, porque 
era a garota que podia ver a Morte. 
Ela não se lembrava de quanto tempo ficou naquela casa 
antes que alguém cheirasse o corpo e viesse encontrar Signa, 
cabelo emaranhado e roupas sujas, enrolada ao lado da cama de 
sua avó. Eles a levaram para longe da casa, conduzindo-a para o 
primeiro de muitos novos guardiões que viriam. 
Ela passou os próximos anos testando suas habilidades 
estranhas. Começou com espetar o dedo em um espinho e 
observar o sangue borbulhar e depois desaparecer, como se a 
pele nunca tivesse sido manchada. A partir daí, as experiências 
mudaram para saltar de pedras altas o suficiente para quebrar 
ossos ao cair. Signa veio para perceber que ela sentiria apenas 
um estalo agudo, então estaria bem para um passeio à beira do 
penhasco minutos depois. 
Mas as frutinhas de belladonna nunca foram destinadas a ser 
um experimento, apenas algo que ela arrancou do jardim 
descuidado de sua tia depois de chegar vários meses atrás, 
pensando que eram mirtilos silvestres. Ela não tinha ideia de 
que eles eram venenosos até que ela caiu sobre as ervas 
daninhas, visão embaçada. Morte apareceu, observando por 
trás da curva de um carvalho. Mesmo que Signa não tivesse se 
recuperado rápido o suficiente para falar com ele, ela estava 
muito distraída com tia Magda, que a encontrou no jardim 
segurando uma belladonna mortal, sua boca manchada de 
roxo. A mulher quase teve um ataque cardíaco quando Signa 
saltou do chão, o veneno fora de seu sistema em poucos 
minutos. 
Signa tinha aprendido algo naquele dia – como tirar Morte 
das sombras. E com esse conhecimento, ela se recusou a deixá-
lo se esconder dela por mais um momento. 
Signa levou o chá aos lábios, embora sua língua apenas 
roçasse o vapor quente antes que a caneca de cobre fosse 
derrubada de suas mãos. Ela tropeçou do frágil banco de 
madeira em que estava sentada quando a caneca caiu no chão e 
o chá violeta se derramou na pedra cinzenta da cozinha. 
Signa virou-se para encontrar a tia Magda carrancuda. Essa 
era uma expressão que ela usava com frequência, embora se 
alguém olhasse mais fundo, eles veriam que seu lábio inferior 
fino e mãos coriáceas tremiam na presença de Signa. Eles 
veriam pupilas dilatadas e um fino brilho de suor em sua testa 
enrugada. 
— Você acha que não sei o que está fazendo, criança-
demônio? — Tia Magda pegou a caneca em suas mãos. Ela 
cheirou e espiou dentro, franzindo o cenho para o mingau de 
frutas. — Garota imunda, fazendo o trabalho do diabo! 
Tia Magda jogou a caneca em Signa, que recuou, mas não 
conseguiu evitar ser atingido no ombro. Sobrou líquido 
suficiente na caneca para queimá-la e para que o suco roxo das 
frutas manche seu casaco cinza favorito. 
— Eu avisei o que aconteceria se você trouxesse aquela 
feitiçaria para minha casa. 
Signa ignorou sua pele queimada e olhou sua tia com força 
nos olhos. 
— Era um chá. — Sua voz era tão firme que qualquer um 
que não conhecesse melhor poderia acreditar que Signa estava 
dizendo a verdade. Mas, infelizmente, a tia Magda a conhecia 
bem. Ela se considerava uma mulher inteligente e piedosa 
demais para ser enganada por uma “bruxa”. 
Não que Signa realmente acreditasse que ela fosse uma 
bruxa, é claro. Embora ela amasse botânica e muitas vezes se 
pegasse desejando conhecer alguns feitiços. Como seria 
maravilhoso ter um feitiço para limpar a poeira desta 
choupana1, ou se alimentar de outra coisa além de pão 
amanhecido e qualquer mistura que ela pudesse pensar para 
preparar com os poucos ingredientes que Magda deixava para 
ela. 
— Arrume suas coisas — tia Magda retrucou quando uma 
corrente de ar de outono assobiou através de uma fresta na 
janela da cozinha. Ela puxou um casaco apertado em torno de 
seu corpo frágil. Sua pele estava ficando grisalha, e de vez em 
quando seu peito chacoalhava com uma tosse úmida e 
cortante. Houve um momento em que Signa olhou além de sua 
tia e nas sombras, esperando para ver se Morte estava vindo para 
reclamar tia Magda como ela temia desde que a tosse começou 
uma semana antes. — Você vai dormir no galpão esta noite. — 
As palavras de Magda foram ditas com tanta frieza que as 
entranhas de Signa murcharam, e ela se pegou desejando nunca 
ter tido a infelicidade de ser acolhida pela mulher horrível. Era 
uma pena que ela tivesse tão poucas alternativas. 
Por causa da herança que ela deveria reivindicar em seu 
vigésimo aniversário, e a mesada que seus cuidadores recebiam 
dela, Signa já havia sido disputada por guardiões em potencial. 
Sua avó havia vencido a primeira guerra, não por ganância, mas 
por amor. Quando ela faleceu, Signa foi enviada para morar 
com o irmão de sua mãe – um banqueiro jovem e saudável com 
uma boa propriedade e uma vida amorosa frutífera. Embora 
 
1 Habitação rústica, geralmente de madeira e coberta de palha. 
muitas vezes ele a deixasse sozinha para cuidar de si mesma, 
Signa não desprezava seus anos com ele. Ela até tinha uma 
amiga para lhe fazer companhia em travessuras na floresta e em 
missões de espionagem pela vizinhança – Charlotte Killinger. 
A vida amorosa de seu tio provou ser muito frutífera no 
final, no entanto, aos trinta anos, ele morreu de uma doença 
que contraiu de uma de suas muitas parceiras. Signa esperava 
ser acolhida pela família de Charlotte depois disso, apenas para 
descobrir que a mãe de sua amiga havia sofrido da mesma 
doença. Esse escândalo foi efetivamente o fim da amizade das 
meninas, e Signa não recebeu nem uma carta de Charlotte 
desde então.Signa tinha doze anos quando os sussurros começaram, 
piorou quando seu terceiro guardião morreu em um trágico 
acidente de carruagem a caminho de buscá-la, então quando 
seu quarto guardião se afogou em sua própria banheira depois 
de um sedativo e muita bebida. A criança é amaldiçoada pela 
Morte, diziam alguns. A mais perversa das bruxas, gerada pelo 
próprio diabo. Onde quer que ela vá, o ceifeiro a seguirá. Signa 
nunca disse uma palavra para dissuadi-los, porque não tinha 
certeza de que estavam errados. 
Ela fingiu que não podia ver os espíritos por quem passou 
pelas ruas ou até mesmo os que ela compartilhava as casas, 
esperando que, se não interagisse, talvez um dia desaparecessem 
por completo. Infelizmente, ignorar os espíritos não era tão 
fácil. Às vezes achava que eles sabiam que ela estava se 
escondendo deles e eram os piores por isso, uivando pela casa 
ou assombrando espelhos, sempre tentando pegar Signa 
desprevenida e assustada com suas travessuras. 
Felizmente, não havia espíritos vivendo na casa de Magda, 
embora isso não melhorasse muito a situação de Signa. Tia 
Magda era do tipo que se perdia em salões de jogo por dias a fio, 
sempre para voltar com os bolsos vazios. Ela não se preocupava 
com coisas bobas como manter a cozinha abastecida ou 
garantir que Signa pudesse respirar adequadamente no casebre 
empoeirado que ela alegava ser um lar, e ela se importava apenas 
com a mesada que a moradia de Signa oferecia. 
Signa compreendia o medo que a tia tinha dela – até mesmo 
esperava –, mas era uma vida miserável. Apenas alguns meses 
depois de completar vinte anos, ela logo poderia reivindicar sua 
herança e finalmente construir uma casa própria. Uma cheia de 
luz e calor e, o mais importante, de pessoas. Ela desfilaria por 
aquela casa em um lindo vestido, atraindo os olhos de uma 
dúzia de belos pretendentes que proclamariam seu amor por 
ela. E Signa nunca mais ficaria sozinha. 
Mas para reivindicar esse futuro, ela precisava enfrentar 
Morte. Naquela mesma noite, de preferência, antes que ele 
reivindicasse outro guardião e a condenasse ainda mais. 
— Faça as malas, garota — tia Magda exigiu novamente, 
suas mãos ossudas tremendo. — Eu não vou deixar você sob o 
meu teto esta noite. 
Parando apenas para pegar sua caneca do chão e examinar o 
mais novo amassado no cobre, Signa saiu correndo da cozinha. 
A escada de madeira frágil gemeu enquanto ela subia, tentando 
pensar apenas em como o piso rangia como se ofendido pelo 
peso de seus passos e a sujeira que cobria a casa do piso das 
tábuas até o telhado escarpado. Ela tentou pensar na aranha 
orbe que vivia em uma teia perfeitamente preservada em um 
canto do teto, fora de alcance, mas sempre à vista. Qualquer 
coisa para tirar os pensamentos sombrios de sua cabeça, que 
havia algo terrivelmente errado com ela. Que ela era um 
monstro. Que todos e tudo seriam melhores se ela fosse normal. 
Magda acreditava que Signa carregava o diabo dentro de sua 
alma, e talvez isso fosse verdade. Talvez o diabo estivesse 
aninhado confortavelmente dentro dela, e por isso era 
impossível para Signa morrer. Independentemente disso, essa 
noção não mudou o que Signa sabia que tinha que fazer. 
A tosse de tia Magda sacudiu a casa e Signa se moveu mais 
rápido. Em seu minúsculo quarto no sótão, ela deslizou seu baú 
em direção à porta do quarto para bloquear qualquer pessoa de 
uma entrada fácil e voltou na ponta dos pés para o centro da 
sala. Levantando as saias, ela se sentou no chão e tirou o casaco, 
tirando as frutinhas de belladonna de um bolso. Ela as colocou 
diante de si, então pegou uma faca de cozinha enferrujada de 
um segundo bolso e enrolou o cabo manchado nas dobras de 
sua saia para facilitar o acesso. Signa pegou cinco frutinhas e, 
embora não pudesse dizer o porquê, alisou suas madeixas 
escuras e ajustou a gola para garantir que estivesse apresentável 
antes de deixar sua doçura explodir em sua língua. 
O veneno começou em seu peito, como se alguém a tivesse 
rasgado com um ferro quente e agarrado seus pulmões. Sua pele 
era uma torneira vazando, gotas gordas de suor rolando de seus 
poros. Signa arfou quando a bile queimou sua garganta, 
fechando os olhos contra as sombras que fervilhavam e 
lançavam estranhas alucinações. 
Apenas momentos depois, os efeitos da belladonna estavam 
desaparecendo - era uma dose que deveria ter matado uma 
pessoa, embora Signa pudesse se recuperar em minutos. Mas ela 
precisava ficar neste momento o maior tempo possível porque 
era isso que ela estava procurando; esta era sua chance de 
perseguir o ceifador e detê-lo de uma vez por todas. 
Finalmente, o gelo se espalhou em suas veias. Era uma 
presença familiar que a queimava por dentro e exigia ser 
reconhecida. Signa abriu os olhos e Morte estava ali diante dela. 
Assistindo. 
Esperando. 
Sua presença era inebriante e familiar, e pegou Signa de 
surpresa como sempre fazia – sombras contorcidas lançadas na 
forma vaga de um humano. Tão escuro e vazio de luz que era 
doloroso olhar para ele. E, no entanto, olhar para ele era tudo o 
que Signa podia fazer. Tudo o que ela poderia fazer. Ela foi 
atraída para ele como uma mariposa para uma chama. E assim, 
como parecia, ele era para ela. 
A morte já não esperava à distância, mas se inclinou sobre 
ela como um abutre diante de sua presa, sombras dançando ao 
redor dele. Signa olhou para o infinito abismo de escuridão e, 
embora seus olhos ardessem, ela se recusou a desviar o olhar. 
— Prefiro que você não me invoque sempre que a vontade 
bater. — A voz não era o que ela esperava. Não era gelo, nem 
cascalho, mas o som da água em um prado, deslizando sobre 
sua pele e convidando-a para um mergulho à meia-noite. — Eu 
sou um homem ocupado, você sabe. 
Signa ficou imóvel, sem fôlego. Ela esperou mais de 
dezenove anos para ouvir a voz da Morte – e essas foram suas 
primeiras palavras? Ela cruzou os dedos ao redor do punho da 
faca e fez uma careta. 
— Se sua intenção é arruinar minha vida, é hora de você me 
dizer o porquê. 
A morte se retraiu e, ao fazê-lo, o calor a invadiu, mordendo 
seus dedos dormentes. Ela nem tinha percebido que estava com 
frio. 
— Você acha que é isso que estou fazendo, Signa? — A 
descrença em sua voz espelhava a dela. — Arruinando sua vida? 
Havia algo de preocupante nessas palavras. Algo 
excessivamente familiar que enviou calafrios em sua pele. 
— Não diga meu nome — Signa disse a ele. — Na língua da 
Morte, soa como uma maldição. 
Ele riu. O som era baixo e melódico, e fez suas sombras se 
contorcerem. 
— Seu nome não é uma maldição, Passarinha. Eu só gosto 
do sabor dele. 
Era estranho, as coisas que sua risada fazia com ela. Embora 
Signa tivesse passado anos construindo seu discurso para este 
momento, ela descobriu que agora não tinha nenhum. E 
mesmo se o fizesse, qual era o ponto? Ela não podia se deixar 
influenciar por palavras curiosas – não quando as ações dele 
tinham arruinado sua vida, tirando-a de todos os amigos, 
guardiões e lares que ela já teve. E assim ela não se deixou pensar 
mais; era hora de aproveitar sua oportunidade e ver se Morte 
tinha uma fraqueza. 
Com as mãos trêmulas, ela agarrou a faca com força, 
lutando contra o peso em seus membros para reunir toda a 
força que pudesse reunir. E então ela o atingiu em cheio no 
peito. 
Dois 
 
A lâmina atravessou pelas sombras, e Signa amaldiçoou. 
Morte olhou para baixo, em seu peito, e as sombras se 
inclinaram como se ele estivesse inclinando a cabeça. 
— Ora, ora, se você não é uma coisa curiosa. Certamente, 
você não acreditava que algo tão trivial funcionaria comigo? 
Seus lábios azedaram com a diversão dele, e ela retirou a faca. 
Ela esperava que a lâmina fizesse alguma coisa. Que iria detê-lo 
ou deixá-lo saber que ela estava falando sério sobre ele ficar 
longe dela. Ela queria que Morte a visse como perigosa. Como 
alguém com quem não se brinca. Em vez disso, ele estava rindo. 
E por causa daquela risada, Signa mal registrou asbatidas 
persistentes na porta de seu quarto. Ela parou apenas com o 
ranger de seu baú deslizando contra o piso de madeira e os 
gritos de tia Magda quando ela invadiu o quarto, lençol branco 
e com o medo do diabo em seus olhos. A mulher não perdeu 
tempo, tremendo enquanto agarrava um punhado do cabelo 
de Signa e a levantava do chão. Seus olhos dispararam em 
direção à janela, como se ela pretendesse jogar Signa para fora. 
Ao lado de tia Magda, Morte se eriçou, sufocando o ar do 
quarto. Gelo mordeu a pele de Signa enquanto ela tentava se 
livrar das garras de sua tia. E embora soubesse que deveria dizer 
a ele para parar, não o fez. Os olhos dela ardiam de ódio e, 
quando a mulher se lançou em seu pescoço, Signa cerrou os 
dentes, pegou a tia pelos ombros e a desequilibrou. 
No momento em que a pele de Signa tocou a de tia Magda, 
foi como se um fogo queimasse em suas veias. Sua tia caiu para 
trás como se estivesse atordoada, respirações finas e esganiçadas. 
A cor sumiu de sua pele, como se o toque de Signa tivesse 
sugado tudo. Tia Magda tropeçou em um canto do baú, caindo 
para trás com um grito silencioso, os pulmões se esvaziando. 
Ela caiu no chão com um tapa, em silêncio, talvez pela 
primeira vez em sua vida. 
Quando Signa entendeu o que havia acontecido, já era tarde 
demais para ajudar tia Magda, cujos olhos brilhantes fitavam o 
teto. Morte pairava sobre ela, inclinado para inspecionar o 
corpo. 
— Bem, essa é uma maneira de calá-la. — Seu tom era leve 
com alegria, como se tudo isso fosse uma piada. 
A respiração de Signa então não veio em goles, mas em 
arfadas de pânico. 
— O que você fez? 
Só então a Morte se endireitou, reconhecendo seu pânico. 
— O que eu fiz? Receio que esteja enganada, Passarinha. — 
Ele falava com a mesma inflexão lenta que se pode usar ao 
instruir uma criança. — Respire e me escute. Nós não temos 
muito tempo… 
 Signa não ouviu nada disso. Quando ela olhou para suas 
mãos, elas eram do azul mais pálido, tão translúcidas quanto as 
de um espírito. Ela os colocou atrás dela com um gemido baixo. 
— Fique longe de mim! — ela implorou. — Por favor, 
apenas fique longe! 
Havia uma pontada na voz de Morte quando ele respondeu. 
Uma sugestão de escuridão aparecendo no prado. 
— Como se eu já não tentasse. — Ele se virou para ela, e 
Signa só pôde observar enquanto a Morte alcançava o cadáver 
de sua tia e arrancava o espírito de seu corpo. 
Aquele espírito deu uma olhada em Signa, depois na Morte, 
e seus olhos se arregalaram de compreensão. 
— Sua bruxa podre. 
Parecia que o chão estava caindo sob os pés de Signa. Sua 
mente já estava rastejando sobre si mesma, sua visão se 
estreitando enquanto ela olhava para suas mãos trêmulas. Mãos 
que a haviam traído. Mãos que roubaram uma vida. 
— O que eu fiz? — ela sussurrou, seu corpo enrolando em 
si mesmo. O que eu fiz, o que eu fiz, o que eu fiz? E então, com 
crescente horror — O que eu faço? 
— Primeiro, você respira profundamente. — Por alguma 
razão, aliviou seus nervos ao ouvir Morte falando e não Magda, 
que estava sentada olhando para seu corpo translúcido em 
estado de choque. — Eu garanto a você, eu não esperava isso… 
— Do que me importa suas garantias? Você é a razão pela 
qual isso aconteceu! — Signa não sabia se ria ou chorava, então 
o som que escapou dela foi uma mistura de ambos. 
As sombras da morte triplicaram de tamanho enquanto a 
escuridão envolvia a sala. 
— Você me convocou. Não fiz nada além de vir onde fui 
chamado. Eu não sou seu inimigo… 
Pelo menos nesse momento ela sabia que deveria rir. 
— Não é meu inimigo? Você é uma nuvem perpétua sobre 
minha existência. Você é a razão de eu ter passado minha vida 
em lugares como este, com pessoas como ela, cercada de 
espíritos! Você é a razão de eu ser infeliz. E veja o que você fez 
agora. — Seus olhos caíram para o cadáver à sua frente, e Signa 
enterrou o rosto nas mãos translúcidas enquanto as lágrimas 
queimavam. — Você me amaldiçoou. Agora ninguém nunca 
mais vai querer se casar comigo! 
— Casar? — Morte olhou para ela incrédula. — É por isso 
que você está chorando? 
Ela soluçou mais forte, as palavras não fazendo nada para 
aliviar sua mente em espiral. 
Se Signa estivesse olhando, ela teria visto que as sombras da 
Morte murcharam. Ela teria visto que ele estendeu a mão para 
ela, apenas para recuar antes que ela pudesse rejeitá-lo. Ela teria 
visto as sombras dele envolverem a boca de Magda, silenciando 
a mulher antes que ela pudesse dizer outra palavra cruel. 
— Eu nunca quis que isso acontecesse. — Sua voz soou 
genuína. — Nosso tempo é limitado, e eu sei que o que quer 
que eu diga agora, você não vai ouvir. Mas não sou seu inimigo. 
Em dois dias, vou provar isso para você. Prometa-me que vai 
esperar aqui até lá. 
Signa não fez tal promessa, embora não fosse como se ela 
tivesse outro lugar para ir. Ainda assim, ela não olhou para cima 
até que Morte se foi e o calor voltou para o quarto, trazendo 
sensação de volta em seus dedos das mãos e pés enquanto a vida 
mais uma vez coloria sua pele. Os efeitos da belladonna haviam 
passado, deixando uma dor de cabeça pulsante e o espírito 
fervilhante de sua tia como os únicos lembretes de que a Morte 
a visitará. 
Signa deu uma olhada nela com os olhos lacrimejantes, e tia 
Magda fez uma careta. 
— Eu sempre soube que você tinha o diabo dentro de você. 
 Sem discutir, Signa caiu no chão para se debater em sua 
miséria. 
 
Signa estava em frente à porta torta da casa de sua falecida tia 
Magda, mais tarde, naquela mesma noite, abraçando-se 
enquanto esperava que o legista terminasse seu trabalho. 
Ele se apressou – não porque estivesse nervoso com o corpo, 
mas porque tinha medo de Signa com seus cabelos negros e 
olhos de cores estranhas, e da multidão de vizinhos que 
observavam à distância com olhares conhecedores. 
— Você nunca pediu para que isso acontecesse — Signa 
sussurrou para si mesma enquanto se preparava contra os 
espectadores ansiosos. — Você pode ter pensado, mas pensar 
não é o mesmo que fazer. Você é boa. As pessoas podem 
aprender a gostar de você. Isso é culpa dele. 
Culpa dele, culpa dele, culpa dele. Era seu novo mantra. 
Signa odiava Morte agora ainda mais do que antes. Odiava 
o que ele de alguma forma fez com que ela se tornasse. 
Embora... ela não podia dizer que estava triste por tia Magda ter 
partido. 
Ou pelo menos quase. 
— Você vai deixar eles me levarem? — O espírito de tia 
Magda resmungou, zangada mesmo na morte. — Você me deve, 
garota! Você vai deixá-los me enfiar em um saco como esse? Faça 
alguma coisa, sua bruxinha, eu sei que você pode me ver! 
— Infelizmente, eu posso ouvir você também — Signa 
resmungou, percebendo que ela falou em voz alta quando ela 
ganhou uma piscadela surpresa do homem levantando o corpo 
ensacado de sua tia na parte de trás de uma carruagem preta. 
Sem saber o que fazer, Signa olhou entre ele e o espírito 
flutuante de sua tia até que o homem ficou desconfortável e se 
desculpou, gaguejando sobre como lamentava a perda dela e 
como entraria em contato. 
O tempo todo, os vizinhos seguravam suas cruzes apertadas 
em volta do pescoço, sussurrando que sempre souberam que 
havia algo de errado com a garota. Dizendo a quem quisesse 
ouvir que Signa era uma semente ruim e que Magda deveria ter 
pensado melhor antes de convidar o diabo para sua casa. Havia 
até um espírito entre eles com uma túnica branca folgada, que 
se benzia várias vezes enquanto olhava para Signa com olhos 
vazios e ocos. 
Ela tentou não fazer uma careta. Não importava que as 
fofocas a incomodassem. Não importava que ela tivesse dado 
qualquer coisa para ter apenas uma pessoa em quem confiar, 
porque eles não estavam errados em temê-la. Signa havia usado 
os poderes do ceifador. 
Ela só precisava descobrir como isso tinha acontecido. 
A pele de Signa se arrepiou quando ela recuou em direção à 
casa de Magda, esperando que nem os vizinhos e nem sua tia 
distraída – que estava ocupada fazendoum estardalhaço sobre 
seu corpo enquanto a carruagem do legista desaparecia na rua 
– a seguissem enquanto ela se esgueirava para o jardim. 
O termo jardim, neste caso, foi usado livremente. Ao longo 
dos anos, a terra havia se decorado com ervas daninhas e flores 
silvestres das quais Magda se queixava com frequência, e Signa 
passava horas cuidando da melhor maneira possível sem uma 
pá ou tesoura. Se havia alguma coisa que ela sentiria falta da casa 
de Magda, era o jardim. 
Ela fez seu caminho sob um salgueiro, derrubando a 
folhagem para fora do caminho para que ela pudesse se apoiar 
no tronco da árvore. Mas ela não estava sozinha. 
Sob as folhas, coberto de terra e trevo, havia um filhote. Era 
tão novo para o mundo que seus olhos estavam bem fechados, 
sua pele rosada e carnuda, sem uma única pena. 
Signa se abaixou para inspecionar a pobre criatura, que 
estava coberta de terra e formigas famintas que tinham toda a 
intenção de devorá-la viva. Os insetos a alcançaram, 
implacáveis em sua perseguição. Signa não pôde deixar de 
simpatizar com a criatura; era como ela – expulsa de seu ninho 
e jogada para se defender sozinha. Só que não era tão capaz 
quanto Signa; pois não poderia enganar a morte. Seria uma 
misericórdia para a criatura morrer rapidamente e ser eliminada 
de sua miséria. 
Mas a morte de Magda fora um acidente. Se Signa tirar outra 
vida, de propósito desta vez, o que isso fazia dela? 
Ela não queria dar nenhuma consideração ao pensamento, 
mas sabia que precisava de uma resposta antes de ficar cara a 
cara com qualquer outra pessoa que corresse o risco de 
machucar. 
Timidamente, ela tirou as luvas e passou a ponta de um 
dedo ao longo da espinha do filhote, varrendo algumas das 
formigas e detritos que haviam se acumulado. Ela prendeu a 
respiração, esperando para ver se sua morte viria. 
Curiosamente, o filhote continuou a se contorcer no chão, seu 
coração pulsando. 
Mais uma vez ela pressionou um dedo descoberto sobre o 
pássaro, desta vez por mais tempo. Quando ela puxou a mão, a 
criatura ainda estava respirando. 
Ela se recostou no tronco do salgueiro com lágrimas de 
alívio pinicando seus olhos. Seu toque não matou o pobre 
pássaro. Seu toque não era letal. A menos... a menos que 
houvesse mais do que isso. 
Ela se lembrou da belladonna no bolso e, com a mão 
trêmula, Signa tirou cinco frutinhas dela. Assegurando-se de 
que a folhagem a esconderia de qualquer um que passasse por 
ali, ela colocou as frutas na boca e as deixou explodir em sua 
língua. Os sintomas vieram rápidos – a náusea, a visão 
embaçada, e ali, em frente a ela, a própria Morte se levantou 
mais uma vez. Embora ela soubesse que ele viria, ela se recusou 
a reconhecê-lo, feliz por ele ter esperado à distância. Ela 
estendeu a mão mais uma vez para acariciar o dedo ao longo da 
espinha do pássaro, e desta vez seu batimento cardíaco cessou e 
ele parou com uma respiração final aliviada. 
Signa puxou a mão para trás e apertou-a contra o peito. Não 
havia como negar – com apenas um toque, ela poderia trazer a 
morte. Mas essa morte viria, ao que parecia, apenas quando o 
ceifador estivesse na presença dela. Só quando Signa estava 
nesse espaço estranho, oscilando entre a vida e a morte. 
Ela tinha tantas perguntas, mas nem uma vez Signa poupou 
um olhar para Morte quando ela se forçou a sair do chão, 
deixando o filhote morto no solo para as formigas reclamarem 
enquanto ela cambaleava em direção à casa. 
Ela estava feliz, pelo menos, que o filhote não sentiria mais 
dor. Ainda bem que se ela fosse um monstro, pelo menos ela 
poderia entregar misericórdia. 
Três 
 
Uma carruagem de marfim polido chegou dois dias depois. 
Os latidos dos cães de um vizinho sinalizaram a sua chegada, 
e o peito de Signa se apertou quando ela olhou pela janela da 
cozinha para ver a comoção. Ela praticamente vivia no jardim 
desde a morte de sua tia, dizendo adeus às plantas e esperando 
os dias passarem enquanto ignorava o espírito que invadia a 
casa. Tia Magda era atroz mesmo na morte, farfalhando as 
cortinas e uivando suas frustrações sempre que não estava 
dizendo a Signa o quanto ela era uma peste ou bisbilhotando os 
vizinhos. 
Signa havia recebido uma carta no dia anterior – uma com 
um selo de cera vermelha e assinada por um certo sr. Elijah 
Hawthorne, estendendo-lhe um convite para sua casa, Thorn 
Grove. Foi com surpresa que Signa reconheceu o nome como 
marido da neta de Magda, Lillian. Ela já tinha ouvido Magda 
reclamar da jovem antes, dizendo histórias da socialite rica que 
cortou a mesada de Magda sem aviso prévio. 
Signa passou o dia todo e até o nascer do sol da manhã 
seguinte olhando para a carta, não convencida de que não era 
uma invenção de sua imaginação. Ela não queria considerar 
como Morte deveria ter conseguido, e embora ela estivesse 
meio que decidida a não aceitar essa oferta, Signa não era tola. 
Partir para Thorn Grove era a melhor opção que ela tinha. 
Havia pouca escolha a não ser deixar de lado o chá, agarrar a 
carta de Elijah com força e sair correndo. 
A carruagem não cedeu enquanto batia sobre as trepadeiras 
grossas e o musgo úmido que irrompiam entre os 
paralelepípedos rachados. Os dois cavalos que o puxavam 
tinham casacos pretos escuros e escorregadios de suor; suas 
narinas pingavam do esforço, mas seus corpos eram saudáveis e 
cheios de músculos. Signa não pôde deixar de pensar em seus 
próprios pulsos ossudos e pernas esqueléticas, e sentir um 
pouco de inveja desses cavalos cuja dieta era certamente 
superior à sua. Os garanhões enormes bufaram quando 
pararam diante dela, e um cocheiro idoso desceu. Ele era um 
homem magro, alto e de pele clara. 
— Bom dia, senhorita. — Inclinando a cartola, ele abriu a 
porta da carruagem. — Eu presumo que você é a moça que fui 
enviado para pegar? 
— Acredito que sim. — Signa tremeu como um beija-flor. 
Alguém realmente tinha chegado para levá-la. Para entrega-lá 
para uma família no topo da hierarquia social, com quem ela 
poderia usar belos vestidos e tomar chá com outras mulheres e 
ter a vida que desejava. Parecia bom demais para ser verdade; ela 
continuou olhando para as sombras, esperando a morte 
aparecer, rindo enquanto ele lhe dizia que era tudo uma 
armação. 
 — Minhas ordens são para levá-la de volta sem demora — 
disse o cocheiro. — Temos uma pequena jornada pela frente. 
Você tem algum pertence? 
— Apenas um baú, senhor. Está lá dentro. Eu posso pegar… 
O motorista dispensou suas palavras com um sorriso tão 
ousado que era alarmante. Signa não conseguia se lembrar da 
última vez que vira um sorriso tão honesto. 
— Bobagem, senhorita. O prazer é meu. — Não 
acostumada com a atitude gentil, ela só pôde assentir enquanto 
ele cambaleava em direção à casa e perguntava a si mesma se 
deveria ficar ali parada ou entrar na carruagem. 
Signa não teve que esperar muito pela resposta; uma tosse 
da carruagem sinalizou que o motorista não viera sozinho. Um 
menino mais jovem do que qualquer um que ela esperava – em 
seus vinte e poucos anos no máximo – emergiu da carruagem. 
O jovem estava vestido elegantemente, com uma túnica de um 
preto profundo e botas de couro combinando. Ele era alto 
como um salgueiro e largo como um carvalho, com uma cabeça 
cheia de cabelos pretos como fuligem que se enrolavam atrás 
das orelhas. Sua pele estava bronzeada pelo sol, e havia um 
sussurro de sardas espalhadas sob os olhos que lembravam a 
Signa fumaça – um cinza pálido e fino, com um halo de carvão 
escuro ao redor de cada íris. Ele tinha uma pequena cicatriz 
cortada diagonalmente no arco da sobrancelha esquerda. 
— Basta olhar para o forro dourado daquela carruagem! 
Claro que minha neta, Lillian, sentiu a necessidade de mostrar 
sua riqueza. Não é como se a pobre garota tivesse pensado em me 
ajudar. Ela é uma coisa boba e horrível, assim como você. — As 
palavras de Magda escorriam com amargura enquanto ela 
circulava o menino, mas pela primeira vez Signa não se 
importou. 
Havia duas regrasque Signa conhecia sobre espíritos – a 
primeira era que Magda só podia assombrar a terra onde ela 
havia morrido, e a segunda era que se seu cadáver fosse 
queimado, seu espírito seria arrancado da terra a contragosto. 
Foi a primeira regra que aliviou Signa, pois significava que 
ela nunca mais teria que ver sua temida tia novamente. 
— É um prazer conhecê-lo, senhor. Espero que sua viagem 
tenha sido confortável. — Signa limpou a garganta e reuniu 
toda a polidez que pôde. Ela até tentou uma reverência em seu 
pesado vestido de bombazine e véu de penas pretas, que coçava 
e era o único traje que ela parecia usar ultimamente. 
O jovem não devolveu a formalidade dela. Ele lançou um 
olhar severo ao redor da varanda murcha e do jardim 
descuidado, muito cheio e lotado para atravessar sem pisar nas 
ervas daninhas. 
— Sou Sylas Thorly, e estou aqui em nome do Sr. Elijah 
Hawthorne para escoltar a Srta. Farrow de volta à sua 
propriedade, Thorn Grove. — Sua voz era o murmúrio baixo 
de uma tempestade que se aproximava. — Eu suponho que 
você é ela? 
Tendo esperado um Hawthorne, Signa anotou seu nome 
com interesse. 
— Sou eu. 
— Maravilhoso — ele falou lentamente, tendo mais 
interesse em alisar as luvas de couro escuro que se encaixavam 
em suas mãos como uma segunda pele do que nela. — Entre na 
carruagem. Como Albert disse, temos uma grande jornada pela 
frente. 
— Se você precisar descansar, eu poderia fazer chá… 
Sylas ajustou sua gravata e prestou atenção. 
— Prefiro que não fiquemos neste casebre por um segundo 
a mais do que o necessário. 
Ela cerrou os dentes, mas continuou. 
— E os cavalos? Eles precisam de água? 
Sylas inclinou a cabeça para o céu e apertou os olhos. 
Quando ele respirou fundo, Signa teve a sensação de que estava 
procurando nas nuvens por sua paciência perdida e estava 
falhando. 
— Você é gentil. Mas os cavalos me informaram que eles 
também prefeririam não se demorar sob o risco de pegar uma 
doença. Venha agora, Srta. Farrow. — Sylas apontou para a 
carruagem, oferecendo uma mão enluvada para ajudar Signa a 
entrar nela. 
A carruagem era pequena, e Signa teve que manter seu 
corpo tenso pressionado contra a lateral para que ela não 
batesse acidentalmente nos joelhos de Sylas, que estavam 
espalhados amplamente e confortavelmente em um espaço tão 
apertado. Um momento depois – quando sua mala de viagem 
foi carregada e Albert voltou para a carruagem – o estalo das 
rédeas soou e os cavalos partiram. 
Os olhos esfumaçados de Sylas encontraram os de Signa 
brevemente antes de ele pegar um jornal e espalhá-lo no colo. 
Incerta do que deveria fazer, ela procurou outra cópia ou 
qualquer outra coisa que pudesse ler, mas não encontrou nada. 
— Você não é um Hawthorne, então? — Signa perguntou, 
sentindo a necessidade de dizer algo antes do seu parceiro. Pelo 
que ela havia aprendido em um livro que sua mãe havia deixado 
para ela, Um guia feminino de beleza e etiqueta, era escandaloso 
para uma mulher solteira ficar sozinha com qualquer homem. 
No entanto, dada a grande carruagem e tudo o que ela ouviu, 
não havia dúvida de que os Hawthornes eram ricos e da alta 
sociedade e, portanto, bastante respeitáveis. Talvez, então, o 
livro de Signa estivesse fora de moda? — O Sr. Hawthorne não 
poderia vir me buscar pessoalmente? Ou Lilian? 
Sylas soltou um suspiro silencioso e esticou as pernas longas 
o melhor que pôde. Ele era muito alto para tal espaço, tendo 
que se sentar curvado como um corvo empoleirado em um 
tronco. 
— Lillian está morta e a filha do Sr. Hawthorne, Blythe, está 
doente. Então não, eles não podiam. 
Signa endureceu. A morte, ao que parecia, a havia vencido 
em Thorn Grove. 
— Sinto muito que ninguém estava lá para vê-la partir — 
Sylas murmurou, aparentemente tão desconfortável em 
conversar como Signa. 
— Não é incômodo, eu estou bastante acostumada a lidar 
comigo mesma. — Além disso, a única pessoa que poderia estar 
lá para ela era tia Magda, a quem Signa preferiria nunca mais 
ver. Todo espírito que andava na terra estava preso ao mundo 
por algum tipo de emoção intensa, como raiva ou tristeza. Ela 
tinha visto mulheres chorando olhando pelas janelas e espíritos 
discutindo de um lado para o outro, presos em um loop 
enfurecido. Signa havia se acostumado com seus padrões e era 
hábil em evitá-los, pois os espíritos frequentavam os mesmos 
lugares até que finalmente decidissem deixar este mundo. 
Em todos os seus anos, Signa conheceu apenas dois espíritos 
que seguiram seu caminho. A maioria, como a furiosa tia 
Magda, que batia na porta da carruagem e gritava: 
— Não se atreva a ir embora, sua bruxa! Não se atreva a me 
deixar aqui! — podem passar anos vagando pela terra, 
alimentando-se de suas emoções mais fortes. 
Mas eles foram embora, pelas ruas de paralelepípedos onde 
o cheiro de canela e maçã se espalhava pela brisa do outono. 
Signa suspirou de contentamento no momento em que 
estavam longe demais para que Magda os seguisse, ouvindo o 
murmúrio ocasional de Sylas virando as páginas de seu jornal. 
— Você parece aliviada por estar indo embora — Sylas 
notou depois de um momento, os olhos em seu jornal. 
 Ela grunhiu sem pensar, por quão verdadeiras eram as 
palavras. 
— Qualquer lugar é melhor do que aqui — disse ela 
enquanto inclinava a cabeça contra uma janela, acomodando-
se. 
Ela não percebeu que os dedos de Sylas pararam nas páginas. 
Não viu o olhar sombrio que cruzou seu rosto quando sua 
mandíbula se apertou e ele se enterrou em sua leitura. 
Se tivesse, talvez tivesse pensado duas vezes sobre Thorn 
Grove e tudo o que a esperava. 
Quatro 
 
Signa não esperava que precisassem de um trem para chegar em 
Thorn Grove. Quando ela sentiu o cheiro de fumaça no ar, 
fechou as janelas da carruagem, pensando que eles passariam 
direto. Mas quando a carruagem diminuiu a velocidade, Sylas 
pressionou um fino ticket amarelo em sua mão. Ela nunca 
tinha andado de trem, embora tivesse lido nos jornais como eles 
eram rápidos: a nova maneira de viajar; um luxo moderno. Foi 
preciso que Sylas pigarreasse para que se orientasse e saísse da 
carruagem. No momento em que os saltos de suas botas 
atingiram o chão, Signa foi arrastada para outro mundo. 
A estação era um edifício maciço de ardósia cinza, adornado 
com o mostrador de um relógio que era tão grande que só 
poderia ser descrito como imponente. Soou a hora, o som 
como um gongo reverberando pela estação. 
No interior, os pisos desgastados estavam amarelados. 
Moscas enxameavam nas latas de lixo abarrotadas, e o cheiro 
característico de almíscar de muitos corpos correndo pairava 
no ar. Um espírito também estava presente. Um homem 
vestido com casaco preto comprido de segunda mão 
apresentando buracos gastos estava sentado em um banco e 
observava solenemente os transeuntes. Signa desviou o olhar, 
afastando-se dele. 
Por mais suja que fosse a estação, havia algo de grandioso 
nela. Havia homens em trajes de negócios que seguravam as 
bengalas mais luxuosas, mulheres em gorros e vestidos de 
algodão se movimentavam, todos eles com algum lugar para 
estar. Alguns se sentavam em bancos montados em cada 
plataforma, folheando um jornal ou fumando charutos. 
Outros corriam pela estação, agarrando seus pertences 
enquanto seus olhos deslizavam até o relógio gigante que os 
dominava. 
Um senhor mais velho com um tórax orgulhoso escoltou 
uma mulher sorridente que não conseguia parar de olhar para 
o anel em seu dedo. Atraída por um hábito de muitos dias 
passados sozinhos, Signa preencheu as lacunas em sua cabeça, 
imaginando que eles eram recém-casados e estavam começando 
sua lua de mel. Imaginou também todos os lindos vestidos que 
estavam guardados no baú de viagem da mulher, feitos com os 
tecidos mais leves para que ela sentisse o ar salgado em sua pele 
enquanto ela e seu amado viajavam à beira-mar. O desejo se 
curvou dentro de Signa, tão fervoroso que ela se forçou a se 
afastar do casal. Como seria ser uma mulher assim? Ser 
arrastadapelo país por um homem bonito para quem ela não 
conseguia parar de sorrir, boba de felicidade? 
Ao lado dela, Sylas murmurou algo baixinho. Signa assentiu 
e fingiu ouvir, perdida em seu devaneio e em um mar de mais 
pessoas do que ela já tinha visto. Mal conseguiu contornar 
todos eles enquanto ela e Sylas atravessavam a estação, liderados 
por um jovem ajudante prestativo que havia dado uma olhada 
em sua passagem e se ofereceu para carregar seu baú. Era sólido 
e pesado, mas Sylas não ofereceu ajuda ao menino. Na verdade, 
ele se manteve impassível e calado, como se fizesse questão de 
não olhar para o ajudante. 
— Você terá a cabine para você, senhorita. — A voz do 
ajudante estava ofegante de sua luta com o peso da bagagem. — 
O melhor do trem. 
Signa nunca havia perambulado por um lugar tão 
movimentado e onde tudo ao seu redor parecia grandioso e 
vasto. Onde parecia que ela estaria perdida para sempre se 
fizesse uma curva errada. Embora Sylas sempre parecesse 
alguém que engoliu uma torta azeda, ela estava feliz por tê-lo ali 
com ela no caso de se perder. 
— Você viajou com frequência? — ela perguntou. 
A resposta veio do ajudante ao lado dela. 
— Não frequentemente, senhorita. Eu adoraria, se pudesse 
fazer isso entre trabalhos, mas eles me mantém ocupado. 
Signa virou-se para olhar para o local onde vira Sylas pela 
última vez, apenas para descobrir sua ausência. Respirando 
fundo, ela esquadrinhou a multidão até que o viu – ali, em 
frente, entrando no trem. 
Um momento de pânico a atingiu, e ela se virou para o 
assistente, colocando as mãos sob o baú de viagem que ele 
carregava. 
— Aqui, me dê isso — disse ela. — Vou levar o resto do 
caminho. 
O ajudante se encolheu, mas apertou mais. 
— Realmente não incomoda, senhorita. Isso é muito pesado 
para uma dama... 
Temendo que houvesse pouco tempo para discutir, ela 
arrancou o baú de seus braços. Era, de fato, 
extraordinariamente pesado, feito de mogno puro e preso com 
fechaduras de ferro. Certamente não foi planejado para ser 
carregado por uma mulher de salto alto e roupas de luto, mas 
ela conseguiria. O aperto de seus pulmões – a preocupação de 
ser separada da única pessoa que sabia para onde ela estava indo 
e que poderia ajudá-la se ela se perdesse – era muito pior do que 
o peso extra. 
— Muito obrigada pelo seu tempo. Eu posso me virar daqui 
— foi tudo o que Signa disse ao ajudante antes de correr atrás 
de Sylas, tentando dar longos passos apesar de balançar para trás 
e balançar os braços. Várias pessoas se ofereceram para ajudar, 
mas o condutor já estava chamando pelo embarque final, e 
Signa só conseguia se concentrar em levar a si mesma e seus 
pertences para onde precisavam estar e não se separar do diabo 
que era Sylas Thorly. Quando chegou ao trem, sua pele 
brilhava de suor e sua respiração estava tão pesada que ninguém 
a olhou nos olhos. 
Mesmo sobrecarregada com o peso de seus pertences, Signa 
teve que tirar um momento para admirar a beleza do trem. Era 
melhor do que ela esperava, com corrimãos de ferro preto e 
mesas de madeira robustas com bancos de couro vermelho de 
cada lado. Seu ticket indicava uma sala privada onde Sylas 
esperava, descansando em um assento de veludo macio com 
suas botas apoiadas no assento marrom combinando em frente 
a ele. Ele deu uma olhada para Signa e torceu o nariz. 
— Meu Deus. Eu não tinha ideia de que uma mulher 
poderia suar tão profusamente. 
Se Signa realmente fosse uma bruxa, ela poderia ter fervido 
Sylas vivo. 
— Eu não estaria suando se você não tivesse decidido correr 
sem mim, senhor. 
Com isso, Sylas zombou. Um som repugnante e repulsivo. 
— Eu deveria saber que você não estava me ouvindo. Se não 
tivesse se permitido ser vítima da distração, teria me ouvido 
dizer que eu estava indo na frente para garantir que nossa 
cabine estivesse em ordem. 
Signa mordeu a língua. Agora que ele a havia lembrado, sim, 
ela se lembrava de que Sylas poderia ter dito algo, e que sim, ela 
assentiu. Ainda assim, ele deveria ter falado mais alto. 
Optando por não responder, Signa começou a guardar sua 
bagagem no compartimento superior. Pesado como era o baú, 
seus braços tremeram enquanto ela tentava levantá-lo acima de 
sua cabeça. Ela estava grata por uma desculpa para mantê-la de 
costas para Sylas, mas ela não conseguia administrar a manobra. 
Seus músculos queimaram, e depois de vários minutos sólidos 
empurrando e ignorando a dor, eles finalmente cederam 
completamente. 
Signa cambaleou para trás, momentaneamente convencida 
de que logo faria outra visita à Morte depois de ser esmagada 
pelo baú de viagem. Mas antes que ela pudesse cair, Sylas estava 
de pé, segurando-a por trás. Signa corou da cabeça aos pés 
quando seu peito pressionou contra suas costas. Ela nunca 
esteve tão perto de um homem. 
Sylas não pareceu compartilhar sua surpresa. Enquanto ela 
ainda estava focada na firmeza de seu peito, ele deu um passo 
para o lado e pegou a bagagem dela, colocando-a no 
compartimento superior. 
— Por que você escolheria carregar algo tão pesado? — ele 
perguntou. — Se eu não estivesse aqui, aquele baú poderia ter 
caído em seu rosto. O que você teria feito então? 
— Acho que eu não teria rosto — ela respondeu, indignada. 
— E novamente, eu não precisaria carregá-lo se não tivesse que 
correr para acompanhá-lo. Eu temia que você tivesse me 
deixado. 
Sylas se jogou em seu assento com uma bufada, as pernas 
insuportavelmente estendidas. 
— Você deveria ter me dito que andava tão devagar. Eu 
poderia ter pensado em carregá-lo, se eu soubesse. 
Ela se sentou em frente a ele, imaginando se sua 
personalidade insuportável era algum tipo de teste para sua 
paciência. Segurando seus joelhos juntos para que não 
colidissem com os dele, ela deu um sorriso forçado para seu 
acompanhante e perguntou: 
— Você se importaria de sentar um pouco mais ereto, Sr. 
Thorly? 
Sylas olhou para si mesmo. 
— Estou sentado de forma estranha? 
Bom Deus, ela precisaria de força para lidar com este 
homem. Com a ponta de sua bota cinza, Signa bateu em um de 
seus joelhos, depois no outro – eles estavam muito distantes. 
— Você está sentado como se fosse o único nesta cabine. 
Sua piscada foi lenta e, embora Signa soubesse que ele 
entendia, ele não se endireitou, nem se desculpou. Sylas apenas 
riu e fechou os olhos, como se pretendesse tirar uma soneca. 
— Você é certamente para a frente. 
Ela tentou ao máximo ter boas maneiras, mas havia algo 
exasperante sobre este homem. Algo sobre sua indiferença e 
olhar constante – como se ele já tivesse decidido que Signa era 
um incômodo – fez com que essas maneiras vacilassem e 
palavras duras escapassem. Signa mal conseguiu se conter 
enquanto segurava seu vestido e o subia até os joelhos, 
liberando espaço suficiente para que eles se separassem como o 
de Sylas. 
— Parece que minhas maneiras são tão impecáveis quanto 
às suas. Eu esperava que alguém na sua posição fosse mais 
educado. 
— E que posição seria essa, Srta. Farrow? 
— A posição de escoltar uma dama. 
— Uma dama? — Ele abriu os olhos, avaliando sua postura 
imprópria e o vestido levantado antes de fechá-los novamente. 
— Deixe-me saber quando encontrarmos uma, e eu a 
acompanharei com prazer. 
Ignore-o, ela disse a si mesma, forçando seus lábios em um 
sorriso que poderia queimar. Você deve ser uma dama. 
Equilibrada, graciosa e recatada. Ela cruzou as mãos e colocou 
o vestido de volta no lugar. 
Fingindo calma, Signa inspecionou sua cabine. Ao lado de 
Sylas havia um carrinho cheio de guloseimas açucaradas e 
assadas. Havia caramelo doce com sal marinho, pãezinhos 
pegajosos que pingavam uma calda grossa e nozes douradas, 
pastéis minúsculos que escorriam geleia de ameixa e muito 
mais. Ela estava tão ocupada alimentando os olhos que quase 
pulou quando Sylas sussurrou: 
— Posso emprestá-la um lenço, Srta. Farrow? Eu acredito 
que há baba em seus lábios. 
Ela fez tudo ao seu alcance para não lançar-lhe um olhar de 
desprezo,então perguntou: 
— Isso é para nós? 
Ele olhou para o carrinho, mas nenhuma luz brilhou em 
seus olhos. Não havia prazer em seus lábios, nem uma fome 
rugindo em seu estômago. 
— Eles devem ter vindo com a cabine — foi tudo o que ele 
disse. Simples. Irrelevante. Como se não houvesse um 
banquete de doces diante deles. Signa se perguntou se talvez 
esse homem fosse desumano. 
Um guia feminino de beleza e etiqueta afirmava que havia 
regras importantes quando se tratava de jantar na frente dos 
outros. Havia certos garfos a serem usados e uma ordem 
particular para se comer as coisas. No entanto, Signa ansiava 
tanto pelas guloseimas que seu estômago protestou contra sua 
resistência. Ruidosamente. 
Ela congelou, esperando horrorizada para garantir que Sylas 
não tivesse ouvido. A sorte, no entanto, raramente estava do 
lado dela. 
Sylas arqueou uma sobrancelha fina quando se inclinou 
para frente e pegou a mão de Signa. Embora ambas as mãos 
estivessem enluvadas, Signa endureceu quando Sylas deslizou 
um lenço em sua palma. 
Sua voz era tímida quando ele falou. 
— Você parece estar com dor. 
Ela apertou os dedos ao redor do lenço, pensando através de 
um milhão de coisas que ela gostaria de dizer, nenhuma delas 
apropriada ou educada. Em vez disso, ela disse: 
— Tomei um grande café da manhã. Seria rude da minha 
parte ceder. 
O sorriso de Sylas era uma foice. Uma coisa surpreendente, 
curta e cortante. Estava lá um momento e tinha ido no 
próximo. 
— Seria ofensivo desperdiçar tanta comida, Srta. Farrow. 
Especialmente quando foi comprada para você. Mostre algum 
respeito ao Sr. Hawthorne e coma. 
Talvez Sylas não fosse a pior pessoa, afinal. Signa não 
precisou ouvir duas vezes antes de puxar o carrinho em sua 
direção. Ela estendeu a mão imediatamente para uma torta com 
creme amarelo brilhante e morangos vitrificados, o topo 
polvilhado com açúcar de confeiteiro. Como não havia talheres 
nem pratos, retirou as luvas e as colocou ao lado do corpo, 
comendo com os dedos. 
— Então você vai ser rude com o Sr. Hawthorne? — ela 
desafiou Sylas entre mordidas, fazendo tudo ao seu alcance para 
não gemer com a deliciosa torta. Fazia séculos desde que Signa 
comeu algo tão esmagadoramente doce. Ela terminou em um 
minuto, passando direto para um pão pegajoso. 
Sylas piscou para os doces, como se a ideia de comer um 
nunca tivesse lhe ocorrido. Ele olhou para o carrinho, 
examinando cada item antes de escolher um pequeno bolo de 
chá regado com geleia de laranja. Enquanto comia, sua postura 
tornou-se menos severa e sua testa franzida menos sombria. No 
momento em que ele terminou seu bolo de chá, ele olhou para 
o carrinho para pegar outro. 
— Conte-me mais sobre seu trabalho com os Hawthornes 
— disse Signa enquanto escolhia uma pequena torta de frutas. 
Parecia um assunto bastante simples, nada muito pessoal ou 
muito desgastante. Mesmo assim, Sylas hesitou antes de 
responder. 
 — Eu costumava trabalhar junto com a esposa dele, mas 
ficaria surpreso se Elijah soubesse que eu existo. 
— Ele enviou você para me escoltar — Signa pressionou 
enquanto tentava não lamber os dedos. — Certamente, ele sabe 
quem você é. 
Sylas deu talvez a maior mordida que Signa já viu alguém 
dar, então disse: 
— Fui enviado por um dos funcionários. A filha do Sr. 
Hawthorne está morrendo pela mesma doença que levou sua 
esposa – ele não está no estado de espírito para saber o nome de 
ninguém agora. 
Ela estava feliz com a desculpa de caramelo em sua boca 
enquanto ponderava como seria seu futuro em Thorn Grove. 
Talvez esta viagem fosse pouco mais que um truque cruel; 
talvez ela chegasse apenas para descobrir que a Morte já havia 
reivindicado seu direito sobre todos ali. Talvez este fosse seu 
próximo movimento em um elaborado jogo de xadrez, e ela 
estava presa jogando um peão. Ou... talvez ele realmente 
estivesse tentando se provar para ela. 
— É a minha vez de fazer uma pergunta — disse Sylas. — 
Você sabe no que está se metendo ao vir para Thorn Grove? 
Ela sabia tão pouco sobre o lugar, e embora a pergunta dele 
fosse enervante, não mudou sua resposta. 
— Não importa. Não tenho para onde ir. 
Sylas olhou para a janela ao lado dele, onde ruas 
pavimentadas distantes deram lugar a um oceano brilhante. 
Isso a fez pensar: haveria um oceano perto de Thorn Grove? 
Ou talvez houvesse uma floresta, ou nada além de colinas 
extensas e ondulantes. 
— Sua chegada é o que Lillian teria desejado — Sylas disse 
eventualmente. — Ela não era alguém que pudesse recusar um 
órfão. 
Órfão. Signa odiava a palavra – odiava como era algo, para a 
maioria das pessoas, que definia ela e toda a sua situação. 
— E quanto à propriedade em si? — ela perguntou, 
correndo para mudar de assunto. — Está lá há muito tempo? 
— Thorn Grove é um lugar lindo. Disseram-me que foi 
passado por muitas gerações. 
Signa tentou não fazer careta enquanto comia uma torta. 
Lugares tão antigos provavelmente estavam cheios dos espíritos 
que ela estava tentando evitar. 
— E o Sr. Hawthorne é um homem de negócios? — ela 
perguntou ao invés de deixar seus pensamentos demorarem. — 
Ele trabalha no banco? 
Ela ficou surpresa quando os cantos dos lábios de Sylas se 
curvaram. 
— Não, não é bancário. Os Hawthornes são donos do clube 
de cavalheiros mais popular do país. Seus membros são duques 
e condes. Até mesmo príncipes, pelo que ouvi. Apenas as 
pessoas mais ricas e abastadas. Isso o mantém um homem 
ocupado. 
Com isso, Signa franziu o nariz. A ideia de um clube apenas 
para cavalheiros ricos parecia ridícula. 
— Eles têm um clube para mulheres também? 
Sylas franziu o cenho. 
— Para as mulheres? Claro que não. 
— Que tal um para todas as pessoas, então? 
Ainda mais linhas. 
— Não existe um desses também. 
— Isso é uma vergonha. — Signa encostou a cabeça na 
janela. — Se eles fossem mais inclusivos, os Hawthornes 
poderiam ser duas vezes mais ricos. — Suas palavras vieram 
mais fáceis, pois estava confortável nesta cabine, mesmo com 
Sylas. Ele foi rude, certamente, mas não cruel. E ao longo da 
última hora, sua postura havia sofrido uma melhora 
significativa. — Você também toma conta disto, Sr. Thorly? O 
clube? 
 Seus olhos voltaram para o carrinho, percorrendo os itens 
restantes. 
— Não. Eu costumava trabalhar no jardim, mas foi fechado 
após a morte da Sra. Hawthorne. Desde então, tenho cuidado 
dos cavalos. 
Signa olhou para as botas de Sylas – um couro muito 
agradável e não tão gasto quanto ela esperaria de alguém que 
passasse seu tempo em um estábulo. O couro de suas luvas 
também parecia novo, assim como seu casaco, com seus botões 
de prata polida e pequenas abotoaduras de rubi. Não parecia 
que ele tivesse motivos para mentir, mas Signa achava difícil 
acreditar que o sr. Hawthorne enviaria um cavalariço para 
resgatá-la. Por enquanto, ela não fez nenhum comentário, 
decidindo que era melhor não azedar o clima. 
— Por que eles fechariam o jardim? — Signa pegou outro 
caramelo do carrinho e recostou-se na almofada de veludo do 
assento. Embora a excitação queimasse em seu sangue, o açúcar 
a estava deixando cansada, e seus olhos se fechavam sempre que 
ela olhava para o oceano. 
— Porque era onde a Sra. Hawthorne costumava passar seus 
dias. Ela está enterrada lá, sob as flores. — Havia algo calmante 
na uniformidade de sua voz. Sem inflexões surpreendentes. 
Nenhuma emoção vazando. Apenas uma calmaria constante 
na qual ela se encontrou relaxando. 
— A morte dela foi agradável? — A pergunta ficou 
estranhamente pendurada em seus lábios, e ela desejou 
imediatamente poder retirá-la. Agradável era uma palavra que 
poucos associariam à morte. Mas Sylas, felizmente, entendeu o 
que ela estava perguntando. 
— Eu presumo que você tenha visto uma flor murchar, Srta. 
Farrow? Ver Lillian era assim. Ela era como uma linda flor, 
querida por todos que a conheciam. Até a doença a amava 
tanto que lhe deu pouco alívio. Ele a queria para si, e então 
roubou sua vida de repente. 
 —E qual foi essa doença? 
Suas sobrancelhas baixaram. 
— Era um mistério tão grande que os médicos nunca 
conseguiram dar um nome. Um dia Lillian estava bem, 
saudável, e no outro vomitava sangue. Alguns dias depois, ela 
perdeu a capacidade de falar. Sua boca infeccionou com a 
doença e, eventualmente, ela perdeu a língua por causa disso. 
Signa voltou-se para a janela novamente, embora pudesse 
ver Sylas remexendo-se pelos cantos dos olhos. 
— Desculpe se te ofendi. — Suas palavras soaram genuínas. 
— Tais conversas não são adequadas. Me desculpe. 
Ele não podia ver que as mãos de Signa estavam apertadas, 
enterradas nas dobras de seu vestido. 
— Não me ofendo, senhor — disse ela. — É só que às vezes 
me pergunto por que a morte é tão desnecessariamente cruel. 
Algo se contorceu nas linhas de sua testa. 
— Acho que, para alguém com tanta dor quanto ela, a 
morte pode ter parecido um alívio. 
Signa tentou encontrar alguma verdade nas palavras. Mas 
tudo o que ela podia ver era o sangue nos lábios de tia Magda e 
o vazio de seus olhos enquanto ela caía. Tudo o que ela 
conseguia pensar era como o ódio de sua tia que a impediu de 
viajar para a vida após a morte e a amarrou à Terra por quem 
sabe quanto tempo. 
— Talvez — ela disse, a voz quase um sussurro —, mas eu 
não acredito que isso torne a morte menos cruel. 
— E por que você diz isso? 
Ela cruzou as mãos sobre o colo, tentando não deixar a 
amargura se infiltrar em sua voz. 
— Porque a morte é apenas um alívio para os mortos, Sr. 
Thorly. Pouco se importa com aqueles que deixam para trás. 
Cinco 
 
Há algo estranho nas folhas de bordo. 
Aquelas que estavam espalhadas pelo gramado de Thorn 
Grove tinham uma cor mais profunda do que qualquer uma 
que Signa já tinha visto antes – algumas delas escuras como 
café, outras um vermelho polido de sangue seco. 
As estradas esburacadas que sua segunda carruagem havia 
percorrido desde que chegaram de trem se transformaram em 
paralelepípedos bem cuidados, tão brancos e imaculados que 
parecia que alguém havia caído de joelhos e esfregado cada 
pedra. Sebes altas e bem cuidadas ladeavam o interminável 
trecho de estrada que levava à propriedade, algumas delas 
retorcidas em elegantes espirais ou recortadas na forma de 
cavalos ou cisnes. 
O exterior de Thorn Grove era grandioso – uma enorme 
mansão de pedra marrom do tipo que ela imaginava que seus 
pais tivessem possuído, situada sobre colinas ondulantes que 
estavam desbotando para o amarelo para dar as boas-vindas à 
mudança para o outono. Havia janelas pelo menos três vezes o 
seu tamanho, telhados vermelhos pontiagudos protegidos por 
bestas aladas esculpidas e finamente carruagens laqueadas 
puxadas por cavalos musculosos que trotavam por um portão 
de ferro enfeitado com jasmim e hera. 
Dezenas de pessoas serpenteavam pelo gramado. 
Cavalheiros e damas em seus melhores ternos e em seus vestidos 
mais atraentes entravam e saíam da mansão com taças de 
champanhe equilibradas cautelosamente entre os dedos e 
risadas em suas línguas. 
Certamente estava muito longe da tia Magda; havia riqueza 
em todos os lugares que Signa olhava. Pilares dignos cercavam 
o pátio, incrustados com espirais de ouro. No segundo andar 
da mansão, delicados vitrais de um milhão de cores brilhavam 
sobre uma varanda. Até o próprio solo parecia rico, e a grama 
de alguma forma mais selvagem e vibrante do que o que estava 
além dos portões. Não havia ervas daninhas à vista, e pequenas 
flores silvestres laranja e amarelas desabrochavam nas colinas, 
estendendo-se em direção a um espesso bosque de árvores à 
distância – o início da floresta. 
Nenhum lugar havia roubado seu fôlego tão 
completamente; Signa se viu pressionada contra a janela da 
carruagem, embaçando o vidro enquanto a paisagem se 
desdobrava diante dela. Ela se sentia como um peixinho em um 
lago de primavera, pequena e insignificante em meio a tanta 
beleza. 
Quando a carruagem parou, precisou de tudo em seu poder 
para se lembrar de suas maneiras e não abrir a porta para que ela 
pudesse se apressar e explorar, mas em vez disso esperou que o 
cocheiro descesse e abrisse a porta para ela. Quando o fez, o ar 
fresco do outono agarrou Signa pelos ombros, carregando o 
cheiro de seiva, terra e folhas girando sob os pés. Ele passou por 
seus cabelos escuros, e ela respirou em sua saudação enquanto 
subia o caminho em direção à magnífica propriedade. 
Esperando na enorme varanda, três pessoas observavam 
Signa a uma distância – um homem mais velho corpulento, 
uma mulher de aparência gentil e um jovem com a expressão 
mais severa que ela já tinha visto. O homem mais jovem estava 
no limiar de Thorn Grove em um terno azul-marinho fino que 
lhe caía como uma luva, seus ombros retos enquanto observava 
os convidados entrando. Ele era jovem demais para ser o 
guardião de Signa, mas o orgulho em seu corpo mostrava o seu 
conforto na mansão. 
Não adiantaria ficar ali parada, mas Signa esperou um 
pouco mais, desejando imediatamente ter um espelho. Mesmo 
um lago ou uma pedra polida serviria – qualquer coisa em que 
ela pudesse ver seu reflexo – para que ela pudesse garantir que 
estivesse apresentável. Ela mexeu no vestido de luto, alisando a 
bombazina para torná-la mais apresentável. 
— Esse não poderia ser o Sr. Hawthorne, poderia? Ah, ele 
parece tão jovem. Diga-me rapidamente, estou apresentável? — 
Ela olhou para Sylas, cujos olhos cinza-esfumaçados a 
percorreram apenas uma vez. Com a preocupação em sua voz, 
ele suavizou um pouco. 
— Aquele não é Elijah — ele disse. — E você parece bem, 
Srta. Farrow. Dado o quanto viajamos, tenho certeza de que 
eles não se importariam se você chegasse abatida. 
Ela se perguntou se isso era para tranquilizá-la. 
— Se você pudesse me apresentar, Sr. Thorly, eu apreciaria 
muito. 
Mas Sylas recuou com um aceno de cabeça. 
— Acredite em mim quando digo que seria melhor se não o 
fizesse. O Sr. Hawthorne não avisou muitas pessoas da equipe 
de sua chegada, e nem todos vão gostar que alguém do meu 
status seja enviado para escoltar uma senhora como você. Eu 
temo que você terá que lidar com as apresentações por conta 
própria. 
Não havia tempo para pressionar por mais detalhes, pois 
Sylas já estava fugindo pela colina atrás dela e em direção aos 
estábulos. Deixada sozinha entre as folhas de bordo caídas com 
pânico no peito, Signa engoliu em seco e tentou reprimir sua 
preocupação relembrando as lições introdutórias do livro de 
etiqueta da sua mãe. 
1. Uma mulher deve sempre usar um sorriso. 
2. Uma mulher nunca deve apertar a mão que lhe é 
oferecida, mas aceitá-la com cordial pressão. 
3. Para uma mulher, mansidão e modéstia são 
consideradas duas das virtudes mais respeitadas. Elas 
devem ser praticadas em todos os momentos. 
Signa teve dificuldade em acreditar que a terceira regra era 
uma que todos deveriam seguir. Embora, pelo bem de seu 
futuro, ela tentasse. Saias na mão, Signa começou o caminho 
para a mansão. Olhos curiosos e sussurros pontiagudos a 
seguiram e, passo a passo, Signa se viu desejando apenas um 
buraco fundo o suficiente para se esconder. 
Era indelicado ser vista vestida de luto em uma festa, mas 
que escolha ela tinha? Parecia um dia ruim para seu novo 
guardião realizar tal evento, embora ela não estivesse em 
posição de comentar. 
Quando ela se aproximou do jovem na porta, Signa pôde ver 
em seu rosto suave e olhos intensos que ele era ainda mais jovem 
do que ela supunha, em seus vinte e poucos anos. De perto, ele 
lembrou Signa de uma raposa, com olhos verdes brilhantes que 
eram amigáveis, mas um pouco vesgos demais enquanto 
olhavam para ela. O sol havia tirado a cor de seu cabelo. Não 
era vermelho, nem loiro, mas em algum lugar estranho e 
intermediário. Uma rica colheita de laranja, acobreada e 
brilhante. Houve um aperto em sua mandíbula quando ele a 
olhou, claramente tentando nivelar sua desaprovação. 
 — Senhorita Farrow? — perguntou o homem mais velho 
ao seu lado. Ele erarobusto e de pele oliva, vestido com um 
terno preto elegante. Embora um sorriso permanecesse sob seu 
bigode preto cheio, seus olhos eram escuros e cansados. — 
Bem-vinda. Sou Charles Warwick, o mordomo de Thorn 
Grove. 
— É uma maravilha que você tenha chegado — disse o mais 
jovem, seu queixo mergulhando enquanto ele a inspecionava. 
— Papai nos contou sobre você esta manhã. Bem-vinda, prima. 
Eu sou Percy Hawthorne. 
Signa estendeu a mão e, quando seu primo a aceitou após 
um instante de hesitação, ela apertou com seu melhor esforço 
para uma pressão cordial. Os lábios de Percy se apertaram em 
uma linha fina quando ele puxou a mão para trás, colocando-a 
atrás dele. Talvez isso fosse muita pressão, então. Ou talvez não 
fosse cordial o suficiente? Ou esta era uma situação que 
justificava uma reverência e nenhum aperto de mão? Um guia 
feminino de beleza e etiqueta realmente deveria ter sido mais 
específico. 
— Estamos felizes por você ficar conosco, Srta. Farrow. — 
Signa ficou aliviada ao voltar sua atenção para uma mulher 
curvilínea que tinha cachos loiro-avermelhados macios e usava 
um vestido da cor de miosótis azuis. — Você não tem uma 
escolta? — A mulher olhou para trás de Signa, como se 
esperasse que outra pessoa aparecesse. Quando ninguém 
apareceu, ela pegou Signa pelo ombro. — Esqueça isso. Sou 
Marjorie Hargreaves, governanta da filha do mestre, e agora sua 
também. Seu quarto já está preparado. — Sua voz era suave 
como uma canção. — Se você precisar de alguma coisa, eu 
ficaria feliz em… — Ela pulou quando o vidro se quebrou em 
algum lugar perto da entrada da propriedade, seguido por uma 
risada que soou... embriagada, para ser gentil. 
Os olhos de Percy brilharam, embora isso tenha durado 
apenas um momento antes ele se corrigiu. 
— Warwick cuidará para que seus pertences sejam 
transferidos imediatamente. Você não deve ter problemas para 
se instalar. 
Marjorie fez sinal para que ela os seguisse até Thorn Grove 
e, uma vez lá dentro, Signa soube que seu primo estava certo. A 
propriedade era maior do que qualquer coisa que ela pudesse 
imaginar; eles poderiam tê-la colocado em uma baía com os 
cavalos, e ela teria ficado bem. Qualquer coisa era melhor do 
que morar na casa de tia Magda, mas Thorn Grove estava em 
um nível próprio. Ainda assim, certamente havia muitas 
pessoas. 
— O Sr. Hawthorne está comemorando alguma coisa? — 
ela perguntou, esperando por uma indicação de que isso era 
uma ocorrência rara. Percy fez uma careta, e embora ele tivesse 
aberto a boca para responder, Warwick interrompeu com uma 
rápida distração. 
— Não é nada para prestar atenção agora. Se você quer 
participar, não se preocupe. Haverá muitos saraus para que 
participe no futuro quando estiver devidamente vestida e 
preparada. 
Signa passou a mão úmida pelo vestido. 
— Venha — Marjorie disse com um sorriso gentil. — Você 
deve estar cansada depois de sua viagem. — Ela pulou ao som 
de outro estrondo, seguido por risadas ainda mais barulhentas 
no salão de baile à frente, mas ela nunca desviou o olhar de 
Signa. 
O foco de Percy, no entanto, estava dividido. 
— Estou ansioso para conhecê-la melhor, prima. Bem-vinda 
a Thorn Grove. — Com o chapéu nas mãos, ele curvou-se para 
ela antes de girar nos calcanhares e seguir em direção ao som do 
vidro quebrando, Warwick seguindo atrás. E embora a mente 
curiosa de Signa permanecesse, Marjorie não deu tempo para 
que seus pensamentos apodrecessem. 
— Venha — disse Marjorie novamente. — Eu vou te 
mostrar sua suíte. 
 
Marjorie escoltou Signa por uma das duas grandes escadarias de 
mogno que levavam ao segundo andar da enorme propriedade 
de três andares. A governanta conversou polidamente, mas 
continuou olhando para baixo, esticando o pescoço para espiar 
a festa lá embaixo. Marjorie estava tão distraída que não notou 
o homem que se apoiava em um corrimão esculpido para 
parecer com os galhos de uma árvore retorcida e torcia a 
aparência das duas escadas. 
Signa notou ele, no entanto. Percebeu que ele tinha o cabelo 
preto como breu, um nariz comprido e pontudo e olhos 
sinistros que se importavam apenas com Marjorie. Quando o 
estranho se inclinou para agarrar sua mão, Marjorie 
praticamente saltou de sua própria pele. 
— Como você é uma mulher tão difícil de encontrar, 
senhorita Hargreaves? — Sua voz era baixa e desagradável, 
como se estivesse falando em torno de algo alojado no fundo de 
sua garganta. O homem usava sapatos do melhor couro que 
Signa já tinha visto, e seu terno preto elegante parecia ter sido 
feito sob medida, com botões de prata derretidos. Em suas 
mãos estava uma bengala que ele segurou com força – um 
impressionante pedaço de pau-rosa, com uma alça de latão que 
foi esculpida na forma de um crânio de pássaro. — Eu estive 
procurando por você em todos os lugares. 
— Coloque a mão em mim de novo e eu vou empurrá-lo 
sobre este corrimão, Byron. — Marjorie arrancou a mão, 
colocando-a nas costas de Signa com alguma força. — Venha, 
Signa. Preste pouca atenção a esses convidados. Eles são 
proibidos nos níveis superiores. 
— Eu não sou convidado, senhorita Hargreaves… — o 
homem tentou novamente, mas Marjorie não o poupou nem 
um segundo enquanto eles subiam as escadas, para grande 
decepção de Signa. Ela não gostava de quebra-cabeças, pois 
tinha uma tendência ruim de precisar resolvê-los. A vida, ela 
acreditava, seria muito mais simples se tivessem todas as 
respostas expostas diante deles. 
Fazia apenas uma hora desde que ela havia chegado, e Thorn 
Grove já estava cheia de curiosidades. Era estranho que o Sr. 
Hawthorne realizasse uma festa no mesmo dia de sua chegada, 
sem falar que ele enviou um cavalariço como sua escolta e a 
manteve em segredo até o último momento. E o que eles 
estavam comemorando no andar de baixo mesmo ainda sendo 
tão cedo, com o eco de risos e copos se estilhaçando? Signa 
queria perguntar, mas a tensão pulsando no pescoço de 
Marjorie avisou que não era o momento. Signa era um caso de 
caridade, não uma escolha, e ela precisava jogar com cuidado as 
poucas cartas que tinha. 
Sua pele coçava, e ela se perguntou se tudo isso era algum 
tipo de armadilha. Algum ardil inteligente da Morte. Ele sabia 
que Elijah a convidaria para ficar? Fora a Morte quem puxou 
as cordas, e se sim, como? 
Demorou o que pareceram séculos andando por longos 
trechos de corredores mal iluminados antes que elas chegassem 
ao novo quarto de Signa, um espaço quase do tamanho de toda 
a casa de tia Magda, com uma sala de estar, quarto e seu próprio 
banheiro, todos unidos em uma suíte. Na sala de estar, o papel 
de parede era lindamente treliçado em vários tons de verde, 
com cortinas douradas de veludo penduradas em portas de 
vidro que davam para uma varanda. 
Soalhos de mogno ricos estavam cobertos com um tapete 
persa enorme decorado em esmeralda e ouro, e Signa não queria 
nada além de enrolar os dedos dos pés nele. O teto em si era de 
um branco brilhante, com molduras grossas embelezadas com 
vinhas e flores habilmente esculpidas. Combinava com a 
lareira, onde peônias amarelas floresciam de finos vasos de 
vidro sobre a lareira. Cadeiras de leitura forradas de veludo 
foram meticulosamente colocadas ao redor, enquanto uma 
delicada mesa de desenho de madeira estava atrás, perto da 
janela. A luz brilhou sobre ela como uma auréola da abertura 
das cortinas, quente e convidativa. 
O coração de Signa apertou quando ela absorveu tudo. Este 
era o espaço mais bonito que ela já tinha visto, e de alguma 
forma era dela. 
— Serei capaz de encontrar o Sr. Hawthorne esta noite? — 
ela perguntou — Gostaria de agradecê-lo por me permitir ficar 
aqui. 
— O mestre é um homem ocupado — disse Marjorie 
enquanto ajudava uma Signa distraída a tirar o casaco. A 
mulher se mexeu para colocá-lo no armário, mas ao ver a 
mancha de frutas de belladonna após uma inspeção mais 
completa, ela torceu o nariz e colocou o casaco sobre o braço 
para lavar. — Mas falarei com ele sobre seus planospara você, e 
asseguro que será bem cuidada. Estará pronta para vestidos 
novos pela manhã, depois das lições. 
O cabelo de Signa bateu em seu rosto enquanto ela se virava 
para encarar Marjorie. Não havia como filtrar a excitação de sua 
voz. 
— Minhas lições? 
A risada de Marjorie foi suave como seda. 
— Você é uma jovem, senhorita Farrow, e eu sou a 
governanta desta propriedade. Não tenho certeza de como foi 
sua educação antes, mas enquanto estiver aqui, é justo que eu 
ajude a prepará-la para o casamento e para um dia administrar 
sua própria casa. Eu suponho que você ainda não debutou? 
— Você supõe corretamente. — Mais uma vez, havia aquela 
margem esperançosa. A emoção de ser presenteada com 
exatamente o que ela ansiava: debutar na sociedade. Ir a festas e 
ser cortejada por pretendentes bonitos, e depois fofocar sobre 
eles com as amigas durante o chá. Só a ideia disso ameaçou 
explodir seu coração. Estava tudo ao seu alcance. 
— Então eu tenho muito para ensinar a você e pouco tempo 
para fazer isso. — Marjorie colocou a mão livre no quadril, 
ainda sorrindo. — Vamos começar amanhã? 
Energética como estava, Signa começaria agora, se Marjorie 
permitisse. Uma palpitação em seu coração a deixou 
impaciente e desejosa. Mas haviam mais seis meses até que ela 
recebesse sua herança, e se fosse durar nesta propriedade – se ela 
tivesse a liberdade da vida que queria – então precisava garantir 
que Morte não pudesse colocar suas mãos em qualquer um de 
Thorn Grove. Sem mencionar que teria de cuidar das suas 
próprias mãos também. 
Embora soubesse que elas não machucariam ninguém 
agora, ela colocou as mãos atrás das costas e sorriu. 
— Amanhã é perfeito. 
— Maravilhoso. — Marjorie reajustou o casaco em seu 
braço. — Você pode tirar o resto da noite para se acomodar, 
então. Pode explorar qualquer um dos andares superiores, mas 
peço que fique longe do primeiro andar enquanto os 
convidados estiverem aqui. Hoje à noite, o jantar será trazido 
para a senhorita, então, por favor, relaxe. Tenho certeza que 
está exausta. 
Ela estava. Mas quando Marjorie saiu, deixando a porta se 
fechar silenciosamente atrás dela, Signa sabia que não se 
relaxaria. No momento em que os passos da mulher 
desapareceram no corredor, Signa abriu a porta novamente. 
Marjorie sugeriu que ela explorasse, afinal. 
Seis 
 
Não era estranho para Signa encontrar maneiras de passar o 
tempo. Esquecida e com pouco a fazer durante seus dias e quase 
ninguém com quem conversar, ela passava muitas tardes 
olhando pelas janelas ou vagando lá fora, curiosa para saber 
mais sobre os vizinhos de qualquer casa em que morasse. 
Alguns eram mais interessantes que outros, esgueirando-se em 
companhia estranha quando seu parceiro estava fora, ou 
compartilhando as últimas fofocas durante o chá com um 
amigo, que Signa ouvia casualmente enquanto estava 
caminhando perto de uma janela aberta. Ela nunca passava 
tempo com essas pessoas e pouco podia fazer com as 
informações que reunia. Mas para Signa, o objetivo sempre foi 
preencher as lacunas em suas histórias. Ela estava decidida a 
resolver os quebra-cabeças que havia formado em sua cabeça, e 
mentalmente criar histórias para pessoas de quem ela nunca 
estaria perto. 
Thorn Grove já era um enigma e tanto para ela não 
investigar. Signa fez a contagem regressiva de sessenta antes de 
rastejar pelos corredores escuros, colando-se às paredes e 
confiando em suas sombras para escondê-la enquanto 
caminhava na ponta dos pés em direção à escada. 
Tecnicamente, ela não estaria quebrando nenhuma regra 
enquanto permanecesse no patamar. 
Signa se agachou e olhou para baixo do corrimão – através 
dos galhos trabalhados que o adornavam – para a festa abaixo. 
Deste ângulo, ela podia ver apenas vislumbres do que estava 
acontecendo, e teve que se esforçar para ouvir vozes sobre o 
som de um piano e violino. Os detalhes da reunião chegaram a 
ela em pedaços – em luzes brilhantes e flashes de paredes 
douradas e bandejas de prata. Taças de cristal cheias de 
champanhe borbulhante e bolos dourados em miniatura que 
eram oferecidos a mulheres em belos vestidos e homens em seus 
fraques adequados. Os que não comiam, se ocupavam bebendo 
ou dançando ao som da música que varria o salão. A dança 
deles, no entanto, não era nada do que ela esperava. 
A avó de Signa muitas vezes contava histórias sobre o gosto 
de sua filha por festas. Foi em um baile que Rima conheceu o 
pai de Signa, e sua avó sempre prometeu que Signa teria o 
mesmo destino fortuito. Elas nunca discutiram como foi o 
amor de Rima por festas que roubou sua vida, concentrando-
se em romantizar o seu tempo em vida. Durante anos Signa 
ouviu histórias de sua mãe, contadas a ela com grande 
suavidade enquanto sua avó escovava seus cabelos ou a 
colocava na cama, como se contar as histórias em voz alta as 
mantivessem vivas. Signa adorava ouvir as histórias e imaginar 
que logo seguiria os passos de Rima. Mas sua jovem vida não 
foi como ela esperava, e essas histórias agora a enchiam de uma 
profunda inveja pelas mulheres adornadas em sedas e rendas, 
com seus delicados cachos e ruge em suas bochechas. Elas a 
faziam se perguntar onde estava seu lindo estranho, o homem 
que a levaria para uma valsa (na qual ela seria perfeita, apesar de 
nunca ter dançado fora de seu quarto). 
Mas se o livro de etiqueta que Rima deixou para trás era uma 
indicação de como uma festa deveria ser, a que estava 
acontecendo em Thorn Grove estava totalmente errada. As 
festas deveriam ter cartões de dança. Variando a música para 
cada dança diferente, com uma infinidade de regras para cada 
uma delas. Nenhuma mulher deveria beber mais do que uma 
única taça de champanhe, rir tão ruidosamente ou dançar tão 
livremente. No entanto, em Thorn Grove, ninguém prestava 
atenção à etiqueta. 
Coradas estavam as mulheres que saíram do salão de baile 
para tomar ar fresco, soluçando enquanto se abanavam. Elas 
usavam esses leques para afastar as mãos ansiosas daqueles que 
tentaram puxá-las para uma dança e, em vez disso, caçaram os 
bolos luxuosos com glacê rosa e glitter dourado. Ninguém 
parecia se importar com as duas mulheres que estavam 
escondidas no canto mais distante, seus corpos tão apertados 
que o sangue correu para as bochechas de Signa; ela nunca 
tinha visto duas pessoas se abraçando tão profundamente. 
Ou seu livro de etiqueta era mais desatualizado do que ela 
pensava ou isso estava longe de ser algo da alta sociedade. 
Levou um momento para Signa perceber que havia um 
rosto familiar na multidão – Percy, parado do lado de fora do 
salão de baile com a mão em punho em torno de uma taça de 
champanhe enquanto aplausos irrompiam de dentro. Com 
todos distraídos, Signa desceu o primeiro degrau para uma 
visão melhor. Ela mal conseguia distinguir um homem de pé no 
ponto mais alto de uma cadeira, fingindo se equilibrar quando 
a cadeira tombou. O homem bateu palmas, exigindo a atenção 
de todos. Ele parecia estar se divertindo, assim como os 
convidados da festa pareciam estar gostando de seu show. 
Percy, no entanto, estava carrancudo. Assim como o 
homem mais velho de nariz comprido ao lado dele, aquele que 
agarrou a mão de Marjorie mais cedo. Byron. 
— Alguém precisa acabar com isso — Percy exigiu. A 
expressão dele era tão severa que Signa pensou em voltar para a 
segurança de seu quarto, sabendo que não deveria se envolver. 
Mas ainda assim ninguém a havia notado, e a curiosidade a 
manteve firme, aproximando-se das sombras para observar. 
— Será pior se qualquer um de nós fizer um espetáculo — 
disse o homem, seus lábios se estreitando quando Percy saiu de 
seu alcance. 
— Quantos meses devemos ficar parados e assistir? Por 
quanto tempo devemos permitir que ele brinque com essa 
fantasia? Meu pai não é criança, e esta casa não é um circo! Já 
faz meio ano, tio. — O punho de Percy estava tão apertado que 
se ele não tivesse jogado sua taça de cristal no chão naquele 
momento, ela poderia ter quebrado emsua mão. O homem de 
cabelos escuros suspirou e recuou vários passos enquanto Percy 
avançava, exigindo a atenção de todos os olhos que se voltavam 
curiosamente para ele, incluindo o homem na cadeira – que 
Signa agora entendia, era Elijah Hawthorne. 
Ele tinha bochechas rosadas e olhos brilhantes, com uma 
estrutura alta e esbelta e cabelos em ondas loiras. Havia uma 
grandeza nele, um ar de exuberância que dizia que ele era 
alguém que poderia abrir o mundo com seu sorriso. Alguém 
que fazia companhia a condes e príncipes, e de alguma forma 
parecia ainda mais grandioso que eles. 
— Dado o tempo que eles passaram em nossa casa, achei 
educado dizer algumas palavras aos seus convidados, pai. — O 
sorriso de Percy era fino quando ele olhou além de Elijah para 
uma sala cheia de convidados que pareciam totalmente 
desinteressados em ter que observar algo tão sério. — Eu queria 
tirar um momento para agradecer a todos por terem vindo para 
esta celebração contínua da minha mãe morta. 
Elijah desceu da cadeira quando a música se acalmou, os 
olhos fixos em seu filho, que não vacilou em meio a suspiros de 
surpresa. 
— Vendo como minha mãe não podia comer, dançar, ser 
feliz, ou sequer respirar em seus últimos dias, tenho certeza que 
ela teria apreciado como todos vocês fazem isso infinitamente. 
— Percy endireitou os ombros. — E obrigado ao meu pai, por 
continuar a fazer essas festas em sua homenagem, para que 
possamos continuar celebrando sua morte juntos. — Ele 
ergueu sua taça de champanhe para o brinde. 
Ninguém se atreveu a se mexer, esperando que o senhor de 
Thorn Grove falasse. Para punir seu filho por sua explosão, ou 
de alguma forma consertar essa situação vergonhosa. Mas, em 
vez disso, Elijah encontrou um prato com um bolo em 
miniatura e pegou o prato em suas mãos. Removendo uma de 
suas luvas, ele pegou a sobremesa com os dedos, dando uma 
mordida enquanto se aproximava de seu filho. Tão 
rapidamente que qualquer um que piscasse teria perdido, 
Elijah empurrou o resto na boca de Percy. 
— Vamos lá, Percy. — Elias riu. — Você é muito tenso. 
Seria tão ruim relaxar por uma única noite? 
Uma multidão que Signa não podia ver ofegou quando 
Percy tropeçou, cuspindo o bolo e limpando a cobertura rosa 
de seus lábios com um rosnado. Ela não conseguia ouvir o que 
Percy disse ao pai; podia ver apenas que sua boca se movia para 
cuspir as palavras antes que ele se afastasse de Elijah. 
O riso aumentou quando Percy recuou e Elijah estendeu a 
mão para outra taça de champanhe. 
— Agora — ele disse enquanto voltava para a cadeira a 
música aumentando novamente, como se nunca tivesse 
perdido uma batida —, onde estávamos? 
Percy saiu da sala, correndo em direção às escadas, mesmo 
quando Byron o alcançou. Ele foi tão rápido que Signa mal teve 
tempo de se levantar, incapaz de recuar para as sombras antes 
que ele a notasse. Os olhos amargos de Percy pousaram nos de 
Signa. 
— Prazer em vê-la novamente, prima. — Ele falou com os 
dentes cerrados, tentando acalmar os punhos trêmulos 
enquanto olhava para o vestido preto que Signa ainda não havia 
trocado. — Vai aproveitar a festa? 
— Eu sinto muito. Eu nunca tinha visto um baile antes, e 
eu... eu pensei... eu só queria ver como era. — Signa não teve 
coragem de dizer a ele que o glacê manchava seu queixo. Ela mal 
tinha voz; parecia que qualquer coisa acima de um sussurro 
poderia destruí-lo. 
Percy não compartilhava do mesmo problema. Sua voz era 
uma pistola carregada, pronta para atingir qualquer um em seu 
caminho. 
— Bem, agora você sabe. Minha mãe morreu meses atrás, e 
ele vem dando essas festas ridículas desde então. Duram dias, às 
vezes. Ou horas, se ele entrar em um de seus humores e tiver 
todos escoltados para fora. Eu me pergunto por que as pessoas 
continuam se incomodando em aparecer, a não ser pelo fato de 
que esses alpinistas sociais não têm nada melhor para fazer com 
seu tempo. 
Signa não sabia dizer se falar o estava ajudando a desabafar 
ou a aumentar ainda mais a sua raiva. De qualquer forma, ela 
não achava que seria adequado detê-lo. 
— Sinto muito — ela começou, mas foi interrompida 
quando ele levantou a mão. 
— Não importa, prima. — Limpando o glacê do queixo, ele 
passou por ela e subiu as escadas. — Pense nisso como um tipo 
de boas-vindas a Thorn Grove. 
Sete 
 
Foi um alívio que Percy não se demorou. Sem saber como 
consolá-lo, Signa apenas observou enquanto ele subia as 
escadas, murmurando que precisava clarear a cabeça. Tendo 
decidido que era melhor não se demorar – para que ela não 
fosse pega bisbilhotando por mais ninguém – Signa deixou seu 
esconderijo nas sombras. Ela tinha toda a intenção de voltar 
para seu quarto para tentar limpar sua própria cabeça da 
situação bizarra que testemunhara. Só que, no momento em 
que ela pisou no patamar, um brilho branco cintilou no canto 
de seus olhos. 
Foi com pavor em seu peito que ela se virou, piscando para 
clarear sua visão. Quando ela olhou novamente, não havia nada 
lá. 
Talvez ela estivesse mais exausta do que imaginava. Afinal, 
fora uma longa jornada. 
Pelo menos, foi o que ela disse a si mesma enquanto andava 
pelos corredores, lutando para encontrar seu quarto no que 
parecia ser um interminável labirinto de corredores. Thorn 
Grove era mais sinistro do que ela havia previsto. Ela esfregou 
os braços, forçando os pés à frente um passo de cada vez. 
Embora a mansão estivesse movimentada no nível mais 
baixo, quanto mais fundo no segundo andar Signa se 
aventurava, mais vazia e sombria a propriedade se tornava. Não 
se viam bolos dourados e nada mais que o zumbido fraco de um 
violino distante. Foram-se os pilares de mármore branco que 
haviam assombrado seu reflexo quando ela passou. Em seu 
lugar havia estranhos candelabros de ferro que lembravam a 
Signa ninhos de pássaros. Como os galhos ao longo do 
corrimão, eles eram intrincados, com vários pedaços grossos de 
ferro semelhantes a galhos esticando-se deles e uma vela 
fracamente acesa no centro de cada um. 
Ela olhou para trás, e novamente uma mancha branca 
cintilou fora de sua vista. Desta vez, Signa poderia jurar que viu 
um rosto. 
Ela se virou imediatamente, prendendo a respiração. Se era 
um espírito, espero que não tenha percebido que ela notou. 
Continuando em frente, estava determinada a ignorá-lo e 
encontrar seu quarto novamente. Era difícil, porém, ignorar o 
zumbido frio em sua pele enquanto passava por intermináveis 
paredes de pinturas que eram duas vezes seu tamanho, cada 
uma delas adornada com uma moldura dourada e 
apresentando uma pessoa que deve ter vivido em Thorn Grove. 
O grande número deles não era nada reconfortante; esta 
propriedade estava certamente fervilhando de espíritos. 
Ela chegou a uma pintura bem decorada de um homem com 
cabelo quase tão laranja quanto o de Percy. Ele tinha um rifle 
pendurado em um ombro, enquanto sua outra mão descansava 
nas costas de um cão de caça whippet. A pintura estava 
pendurada ao lado de uma grande sala com dois sofás de couro 
cor de melaço queimado e prateleiras cheias de livros mofados 
que ocupavam toda a parede esquerda. 
Signa cruzou o grosso tapete vermelho até as prateleiras e 
pegou um dos volumes, desapontada ao descobrir que não 
passava de um livro sobre finanças. Ela não conseguia se 
lembrar da última vez que esteve cercada de livros – quando ela 
morava com seu último tio, talvez? 
Em seguida, examinou uma grande mesa de jacarandá 
repleta de potes de tinta e folhas de pergaminho. Também 
havia recortes de jornais. Algumas sobre Grey's Gentleman's 
Club e um obituário para Lillian Rose Hawthorne. Ela o 
pegou, mas no momento em que tocou no pergaminho, o 
musgo brotou do papel e se enrolou nas pontas dos dedos. Ela 
nunca deixou cair algo tão rápido. 
Agarrando a mão no peito, Signa silenciosamente se 
amaldiçoou por ser tão tola. Se o espírito já não tinha percebido 
que Signa podia vê-lo, certamente sabia agora. Ela tinha que ser 
mais cuidadosa. 
Decidindo que asala, com sua mesa e livros, deveria ser onde 
Elijah trabalhava, Signa saiu do escritório sem tocar em mais 
nada. No momento em que ela entrou no corredor, a sensação 
de zumbido e formigamento estava de volta como um 
mosquito em sua pele, e quando ela passou pelo próximo 
retrato, ela poderia jurar que seus olhos a seguiram a cada passo. 
Esse sentimento era algo com o qual ela estava familiarizada, e 
do qual ela se recusava a fazer parte, especialmente com a 
possibilidade de normalidade tão próxima ao seu alcance. 
Determinada a agarrar a normalidade, ela se apressou. No 
entanto, não importava para que lado ela se virasse, os 
corredores se estendiam. Quanto mais fundo ela se aventurava, 
mais arrepios queimavam em sua pele. Ela se virou apenas para 
descobrir que ninguém estava atrás dela. Sem humanos. Sem 
espíritos. Nem mesmo o próprio ceifador. 
 Está na sua cabeça, ela disse a si mesma. Você não está 
acostumada a uma mansão tão grande. 
Signa tinha visto muitos espíritos em sua vida – até demais, 
na verdade – e sabia que estar na presença deles deixaria uma 
pessoa cansada e com frio de uma maneira que nem mesmo o 
fogo poderia aliviar. Era o mesmo frio que afundou em seus 
ossos naquele momento. 
Um frio que vinha do quarto ao lado, esperando por ela. 
A pintura do lado de fora da porta era de uma mulher com 
pele pálida e cabelos como um raio de sol. Seu sorriso era 
caloroso e rico, embora seus olhos fossem o que tornava 
impossível para Signa desviar o olhar – um azul, outro 
castanho. Tão parecida com a dela que Signa se pegou 
respirando fundo. Ela nunca tinha visto alguém com olhos 
como os dela, nunca tinha imaginado uma coisa dessas. 
Signa estendeu a mão para a maçaneta, mas no momento em 
que sua pele tocou o bronze, ela ouviu o som terrível de uma 
tosse molhada vindo de um quarto atrás dela. Ela se virou para 
ele, e imediatamente o frio em seu corpo se despedaçou, o 
feitiço quebrado. O calor se infiltrou de volta em sua pele, e 
ainda assim ela estremeceu. Quem mais, ela se perguntou, ainda 
estaria lá em cima, como ela, e não na festa lá embaixo? Com a 
curiosidade mais forte do que a atração pelos mortos, Signa foi 
até a porta de onde veio o som e a abriu sem bater. 
Além das cores, a suíte era uma imagem espelhada da sua – 
com uma bela sala de leitura em tons de azul claro e prata, com 
um brilho dourado de um fogo que rugia sob o manto de 
marfim polido acima da lareira. O espaço era lindo, mas talvez 
um pouco frio. Dificilmente parecia habitado, também. Não 
havia livros na mesa de leitura, nem penas ou pergaminhos 
espalhados sobre a mesa. Ela atravessou o andar lentamente, 
cuidadosa com seus passos enquanto se aproximava do quarto 
contíguo. A porta estava aberta, e por mais que tentasse ficar 
quieta, quem estava lá dentro a ouviu. 
— Quem está aí? 
Signa parou no limiar entre os quartos. Havia uma menina 
abandonada na cama, quase um esqueleto; sua pele era tão 
translúcida, parecia que ela nunca tinha visto o sol em sua vida. 
O cabelo da garota era um amarelo pálido de palha seca, a cor 
se esvaiu. Seus olhos pareciam como se alguém tivesse esculpido 
a vida deles, esvaziando-os em coisas vazias e insondáveis. 
Quando a garota franziu as sobrancelhas, o contorno completo 
de seu crânio era visível. 
— Quem é você? — A garota franziu a testa, seus lábios do 
mais pálido tom de rosa, como uma rosa desbotada pelo 
inverno. 
— Você deve ser a filha de Elijah. — Signa entrou no quarto 
e fechou a porta, feliz por ter uma desculpa para deixar para trás 
o corredor sinistro e o espírito que esperava por ela. — Ouvi 
dizer que você está doente. — Embora ela não tivesse percebido 
a gravidade da situação. 
A risada da garota era frágil. 
— Eu tenho um nome. É Blythe. — Ela não parecia ter 
energia para se levantar de seus travesseiros, embora seu olhar 
nunca se cansasse. — O que você está fazendo no meu quarto? 
Os servos são proibidos de entrar sem permissão. 
— Peço desculpas, mas eu não sou nenhum servo. Sou sua 
prima, Signa Farrow. — Ela sabia que não seria difícil inventar 
uma desculpa para escapar. Blythe parecia precisar apenas de 
um pequeno empurrão até que ela estivesse batendo na porta 
de Morte, e Signa se recusou a desempenhar qualquer papel 
nisso. No entanto, algo sobre Blythe prendeu os pés de Signa 
no chão. Talvez fosse porque a última vez que Signa havia 
falado com uma garota perto de sua idade tinha sido anos atrás, 
quando ela conheceu Charlotte Killinger. Ou talvez fosse o 
desespero nos olhos de Blythe, e o fato de que ela parecia tão 
faminta por companhia quanto Signa. Seja qual for o motivo, 
Signa permaneceu. 
— Está muito triste aqui — disse Signa, fazendo uma pausa 
enquanto percorria as sombras em busca de qualquer sinal de 
Morte. Quando ela não o viu, ela relaxou, satisfeita. — Devo 
abrir uma janela? 
— Você acha que eu não posso abrir uma janela sozinha? — 
Embora ela não tenha feito nenhum esforço para expulsar 
Signa, cada uma das palavras de Blythe foi cortante e mortal 
como veneno. Signa suspeitou que ela poderia pedir a Blythe 
para cantar uma canção, e a garota de alguma forma o usaria 
como uma arma. 
Signa não tinha nada a dizer sobre isso. Qualquer respiração 
errada e ela poderia ter sua cabeça arrancada do pescoço e 
jogada pela janela. Em vez de responder, ela se sentou na beirada 
da cama de dossel. Sua curiosidade parecia com a ansiedade que 
se sente com o café, fazendo as pontas dos dedos se 
contorcerem e mexerem na bainha do vestido. Signa olhou para 
sua prima, avaliando-a. Pele pálida, olhos tristes, corpo frágil... 
Mas Blythe não cheirava à morte. Ela não cheirava como a 
doçura estragada da podridão e da doença. Suas unhas estavam 
rachadas, mas não amarelas ou cinzentas. E seus olhos azuis 
gigantes, apesar do veneno e das sombras cansadas que os 
pesavam, estavam limpos de neblina. 
— Do que você está doente?— Signa perguntou. 
— Como você é ousada — Blythe zombou. — Se 
soubéssemos disso, talvez eu não ficasse presa nesta cama o dia 
todo. — Ela deixou cair a cabeça em um travesseiro e suspirou. 
— Deus não permita que eles enviem alguém tolerável para me 
fazer companhia. 
Signa teve a vaga impressão de que Blythe sabia que 
ninguém a enviou e só queria dar um soco nela. Ela ignorou e 
olhou para a porta, pensando na pintura da mulher com olhos 
bicolores como os seus. 
— Nunca imaginei que um lugar tão grande pudesse 
parecer tão vazio, mesmo quando há tantas pessoas visitando 
— disse Signa distraidamente. — Quem mais mora neste 
andar? Eu pensei ter ouvido alguém no quarto em frente ao seu. 
O ar ficou tão gelado que Signa se pegou desejando não ter 
deixado Marjorie pegar seu casaco. Os olhos de Blythe eram 
estacas de gelo, prontos para empalar. 
— Você não poderia ter — ela sussurrou. — Pertence à 
minha mãe. Ninguém vai lá há séculos. 
Antes que Signa pudesse pensar no que as palavras 
poderiam significar para alguém não tão intimamente 
associado à Morte quanto ela, ela perguntou: 
— Você quer dizer pertenceu, certo? Sua mãe era Lillian 
Hawthorne? 
Essas palavras foram suficientes para derreter o gelo de 
Blythe e afogá-la. Ela ficou com um tom fantasmagórico de 
branco; até seus lábios empalideceram. Sua boca se abriu como 
se fosse falar, mas a surpresa interrompeu suas palavras. 
Demorou muito para Signa perceber sua grosseria. 
— Oh, Blythe, eu não quis dizer… — O pedido de desculpas 
estava a meio caminho de sua boca quando Blythe literalmente 
a chutou para fora da cama, esmagando seu calcanhar na coxa 
de Signa. 
— Saia! — ela cuspiu. — Sua garota terrível, saia do meu 
quarto! 
Signa saiu da cama, amaldiçoando-se por sua 
insensibilidade. 
— Eu sinto muito! — Ela estendeu a mão para colocar uma 
mão no ombro de Blythe. — Eu não quis dizer… — Mais uma 
vez suas palavras foram cortadas, mas desta vez foi com uma 
inspiração abrupta. No momento em que ela colocou a mão 
sobre Blythe, tudo o que ela podia ver era Blythe, e tudo o queela podia sentir... Bem, ela não sabe muito bem como descrever 
aquilo. Era diferente de tudo que ela já experimentou – um tipo 
de sentimento abrangente que a amarrou ali e fez sua respiração 
instável. 
Qualquer que fosse esse sentimento, Blythe não parecia 
estar sentindo também. 
— Saia daqui — Blythe rosnou. — Sua garota estúpida, 
saia… — Seus olhos se arregalaram, e ela se dobrou sem aviso, o 
peito chacoalhando e o corpo tremendo quando ela foi tomada 
por um violento acesso de tosse úmida. Blythe cobriu a boca 
com os lençóis, manchando-os de um vermelho profundo. A 
cada tosse, os lençóis ficavam mais escuros. 
Os cabelos da nuca de Signa se arrepiaram quando uma 
onda de frescor invadiu a sala. Ela sabia muito bem o que 
aquela frieza trazia – quem aquela frieza trazia – e a raiva 
queimou dentro dela. 
— Ah, não, você não — Signa rosnou em advertência. 
Talvez ela tenha sido uma tola por vir. Talvez a coisa toda fosse 
realmente um ardil para amaldiçoá-la ainda mais. 
Independentemente disso, Signa não demorou para confirmar 
a chegada da Morte. Em vez disso, ela girou nos calcanhares e 
correu o mais rápido que suas pernas podiam levá-la – pelo 
corredor, descendo as escadas e até o primeiro servo que 
encontrou. Até quem poderia ter uma chance de salvar Blythe 
e deter a Morte. 
Tudo o que ela precisava era durar seis meses. Seis meses, e 
ainda assim ela não poderia durar nem um dia sem trazer Morte 
para Thorn Grove. 
Oito 
 
Felizmente, Signa Farrow não matou ninguém naquela 
noite.Depois de horas de pessoas flutuando dentro e fora do 
quarto de Blythe, as coisas estavam começando a se acalmar. 
Signa observou pela fresta da porta do quarto, surpresa ao 
descobrir que seu quarto ficava no corredor de Blythe – ou os 
espíritos ou sua própria paranóia deviam estar brincando com 
ela antes para fazê-la perder o caminho. 
Agora, quando Signa olhou para o corredor, apenas um 
punhado de silhuetas permaneceu à luz das velas do lado de fora 
da porta de Blythe. Ela apertou os olhos para ver se Morte 
estava entre eles, aliviada por encontrá-lo ausente. Havia, no 
entanto, outra pessoa lá que Signa estava cada vez mais curiosa 
para conhecer – Elijah Hawthorne. Ele estava de costas para 
Signa, mas ela podia ver mais dele do que antes. Ele era 
extremamente alto e assustadoramente magro, com cabelos 
loiros mais brilhantes do que qualquer outro. Mais brilhante 
do que a luz das estrelas, talvez. 
Signa deu um longo passo além da porta para dar uma 
olhada melhor, e no momento em que seu pé pressionou as 
tábuas do chão, elas rangeram tão alto que Elijah e os servos 
ficaram em silêncio e se viraram para encontrar a fonte do som. 
Signa não conseguia se mexer. Mal conseguia respirar quando 
seus olhos se voltaram para ela. Bastou quatro longos passos de 
Elijah, e ela finalmente podia ver seu rosto claramente. 
Era um rosto severo. Um cansado que não tinha nem uma 
pitada da exuberância que ela testemunhara antes. Era difícil 
acreditar que este era o mesmo homem. 
— Quem é? — Sua voz era dura enquanto falava com os 
servos, apenas uma sugestão de uma calúnia persistente em suas 
bordas. Então ele se virou para Signa. — Quem é você? 
Foi Marjorie quem respondeu, saindo de trás do sr. 
Hawthorne e segurando seu ombro com firmeza. 
— Esta é Signa Farrow, sua nova protegida. — Havia algo 
familiar na maneira como Marjorie o tocava. Algo confortável. 
Algo, Signa notou, que estava totalmente fora de lugar entre 
uma governanta e seu empregador. 
— Minha protegida? — Elijah apoiou seu corpo oscilante 
contra uma parede enquanto Marjorie soltou um suspiro. O 
olhar que ela lançou para Signa foi puramente apologético. 
— Sim, senhor. Sua protegida. Ela chegou esta manhã, com 
a carta que você escreveu para ela? 
— Ah, aquela protegida. — Afastando-se da parede, Elijah 
fechou o resto do espaço entre ele e Signa, que estava o mais alto 
que podia, o peito tão apertado que pensou que poderia 
explodir. 
— Olá, senhor. — Sua voz era mais mansa do que ela 
pretendia que fosse, mais fraca do que até mesmo a etiqueta 
exigia. Então ela tentou um pouco mais alto. — Eu aprecio sua 
hospitalidade. 
 Elijah fez uma careta e semicerrou os olhos, pressionando a 
palma da mão na têmpora. 
— Calma, garota. Você está tentando acordar os mortos? 
Ela gaguejou, mal tendo uma resposta para uma pergunta 
tão ridícula. 
— P-pelo contrário, senhor, eu prefiro que eles durmam. 
Elijah deu mais um passo para mais perto para poder espiar 
Signa. No momento em que o fez, ele caiu para trás com um 
silvo de respiração. 
— Meu Deus. Seus olhos. 
Signa se encolheu e pressionou a mão na bochecha, logo 
abaixo do olho dourado. Foi uma reação bastante típica – ela 
estava acostumada com a surpresa. Mas Elijah não pareceu 
surpreso; ele parecia quase com medo. 
— Eu posso cobri-los se eles o incomodarem, senhor — ela 
disse, se preparando para virar e procurar algum tipo de pano. 
Qualquer coisa para envolver seus olhos. Mas antes que ela 
pudesse recuar para seu quarto para encontrar um, Elijah 
agarrou seu pulso. 
— Você está aqui para me mostrar meus pecados, criança? 
Você é meu passado, aqui para me assombrar? Um fantasma, 
para me lembrar do que fiz? — Suas palavras estavam sem 
fôlego. Imediatamente, Signa lembrou-se do retrato no 
corredor e entendeu que a mulher retratada nele era Lillian. 
Mas e o espírito que a estava chamando para aquela sala? 
Aquele que a tinha seguido. Também tinha sido Lillian? 
Atrás de Elijah, os ombros de Marjorie afundaram. 
— Deixe a garota ir, Elijah. Ela não é nenhum fantasma. Ela 
apenas compartilha o sangue de sua esposa. 
Seu rosto ficou mais frio então, cada linha afiada como 
vidro. Lentamente, ele a soltou. Ele levou outro momento para 
avaliar Signa, observando seu cabelo – muito mais escuro do 
que os cachos dourados de Lillian – e sua pele, muito mais 
pálida. 
— Perdoe-me — disse ele, embora seu tom estava longe de 
implorar perdão. — É possível que eu tenha bebido demais. 
Por um momento, pensei que talvez você fosse alguém que eu 
conhecia. Mas se é verdade que você é minha protegida, então 
suponho que é meu dever castigá-la por estar acordada em uma 
hora tão irracional. 
O nó em sua garganta era impossível de engolir. De alguma 
forma, Signa falou sobre isso. 
— Tive alguma dificuldade para dormir. Eu queria ter 
certeza de que Blythe estava... — Saudável? Viva? — Segura, 
para a noite. 
A boca de Elias se apertou. 
— Você conheceu minha filha?— Isso pareceu surpreender 
Marjorie também. Os olhos da mulher se enrugaram nos 
cantos. 
— Só brevemente, senhor. Ouvi tosse e entrei para ver como 
ela estava. 
— Então foi você que conseguiu a ajuda para ela, então. 
Embora talvez não fosse a coisa mais honesta a fazer, Signa 
assentiu, deixando de fora a parte que o ataque de tosse de 
Blythe foi por causa dela. 
— Então certifique-se de fazer isso de novo, se você ouvir 
alguma coisa. — Elijah não olhava mais para ela. — Agora vá 
para a cama, criança. Estamos nos aproximando de uma hora 
feita apenas para fantasmas. 
Signa estremeceu. 
— Sim, senhor. 
Ele novamente se apoiou ao longo da parede enquanto 
partia, e o olhar firme que Marjorie lhe lançou disse a Signa que 
ela deveria fazer o mesmo. Ela girou a maçaneta de sua suíte e 
desapareceu nela. Curiosamente, não foi a lembrança de Elijah 
agarrando-a ou sua reação aos olhos dela que os pensamentos 
de Signa permaneceram enquanto ela cruzava o tapete macio 
da sala de estar e se movia para o quarto. Foram as palavras que 
ele disse pela última vez: “uma hora feita apenas para 
fantasmas”. 
Ela se sentou na beirada de sua cama de dossel. Seu baú de 
viagem estava ao lado dela, ainda bem selado. Depois de ter seus 
pertences trancados por tanto tempo, ela não queria nada mais 
do que desempacotar o baú. Mas por mais que tentasse, Signa 
não conseguia se convencer a abri-lo. Depois desta noite, ela 
não tinha dúvidas de que seu tempo em Thorn Grove seriabreve. Se havia uma constante com a qual Signa podia contar, 
era que não importava onde ela estivesse, Morte a encontraria. 
Ela não sabia como ou por que, ou se tudo isso era um jogo 
elaborado destinado a prolongar sua tortura enquanto ele 
assistia, ria e apreciava o show. 
Ela iria descobrir, no entanto. E, mesmo que fosse a última 
coisa que ela fizesse, ela o impediria. 
 
Já era tarde da hora das bruxas quando Signa acordou com o 
som de choro e o farfalhar de folhas de bordo soprando pela 
janela. Ela não se lembrava de deixá-la aberta, ainda mais de 
deixá-la meio aberta, trazendo o cheiro de chuva e solo úmido. 
Signa ergueu-se do calor da cama para espiar a noite. 
Quando os minutos se passaram e o choro não voltou, ela 
fechou a janela e voltou para a cama. No entanto, ela notou 
pelos cantos dos olhos ao passar pela penteadeira que o reflexo 
no espelho permanecia imóvel. Com o pescoço formigando, ela 
parou para examinar o espelho, esperando que a imagem fosse 
um truque da luz. Mas quando seu reflexo olhou para ela, suas 
bordas confusas e um sorriso que Signa não estava usando em 
seus lábios, ela sabia que isso não era nenhum truque. 
Signa sufocou um grito quando se jogou da penteadeira, 
onde uma explosão de luz branca escapou e fugiu pela parte 
inferior da porta. Ela soube imediatamente que era o espírito 
de antes, e desta vez não havia como negar que ela tinha visto. 
Signa não se incomodou com um casaco ou botas, não 
perdendo tempo enquanto abria a porta e perseguia a luz pelo 
corredor. Agora que o espírito havia confirmado que podia ser 
visto, Signa não teve escolha a não ser enfrentá-lo. Se não o 
fizesse, quem sabia se a coisa bestial a deixaria em paz. 
Thorn Grove nem sequer rangeu com o peso de seus passos 
enquanto descia correndo a escada, e as dobradiças estavam 
silenciosas quando ela abriu a porta da frente para a noite fria. 
Imediatamente ela se abraçou, pois sua camisola branca e fina 
não fez nada para impedir que o frio penetrante rastejasse em 
sua pele. 
— Olá? Tem alguém aqui?— Passo a passo, ela forçou seus 
pés dormentes em direção aos gritos que comiam sua pele, 
roendo seus ossos. Quanto mais alto o choro se tornava, mais o 
mundo abaixo de Signa murchava. O musgo ao longo de uma 
árvore de bordo secou em um marrom escuro enquanto as 
folhas caídas murchavam e se espalhavam com um vento 
repentino. Era como se a própria terra estivesse a avisando do 
que estava por vir, e que ela deveria voltar. No entanto, Signa 
não parou de se mover até ver a fonte do som. 
Uma mulher com pele translúcida e cabelos brancos macios 
que se arrastavam atrás dela como a personificação do próprio 
vento estava sentada sob a curva de uma árvore, usando um 
vestido prateado como a lua baixa. Os gritos do espírito 
cessaram quando Signa se aproximou, levantando a cabeça para 
olhar para ela. Os passos de Signa vacilaram ao longo do 
espinheiro morto enquanto os olhos do espírito rastejavam 
sobre seu corpo, avaliando. Ela tentou não mostrar que o medo 
a estava agarrando, incitando-a a correr. 
O espírito deslizou para frente sem aviso – sem som algum 
– e quando Signa tentou cair para trás, raízes mortas se 
romperam do chão e serpentearam em torno de seus tornozelos 
para segurá-la firme. Ela caiu de costas, tremendo e 
amaldiçoando sua sorte enquanto o espírito pairava sobre ela. 
O espírito era lindo, com pele lisa e cabelos claros que caíam 
em ondas soltas. Mas quanto mais Signa olhava para ela, mais 
cinza ficava o espírito, com lábios e unhas preto-azulados para 
combinar. No entanto, era de seus olhos que Signa não 
conseguia se afastar – um azul e um castanho. Duas cores 
diferentes, como os dela. Como a mulher do retrato que Signa 
tinha visto mais cedo naquele dia. 
Lilian Hawthorne. 
De tão perto, Signa podia ver que a boca do espírito era algo 
de um pesadelo, cheia de pus e feridas sangrentas que 
infeccionaram em suas gengivas. Sua língua era um mingau 
roxo inútil, como se tivesse queimado. Lillian tentou falar, mas 
tudo o que conseguiu fazer foi gemer, e quanto mais alto Signa 
gritava para o monstro se afastar dela, mais alto o monstro 
gemia de volta. 
Lillian estendeu a mão como se quisesse agarrar Signa, mas 
Signa cravou as unhas nas raízes e as arrancou, arrancando-as 
dos tornozelos. Enfurecida, Lillian gritou quando Signa ficou 
de pé. 
— Fique longe de mim! — Signa rosnou para ela. O espírito 
se encolheu com o aço na voz de Signa. Mas a pausa foi apenas 
temporária, e com uma carranca profunda Lillian começou a 
avançar novamente. 
Signa se inclinou para pegar um punhado de terra e jogou 
no rosto do espírito. 
— Eu não me importo com quem você é, apenas me deixe 
em paz! — De modo a não despertar todo Thorn Grove, ela 
teve que silvar palavras que queria gritar, e ela odiava o espírito 
por isso também. — Deixe-me em paz, ou eu vou encontrar seu 
corpo e queimá-lo até que você não seja nada mais do que uma 
pilha de cinzas! 
Enquanto Lillian limpava a sujeira, seus lábios enegrecidos 
se torceram no que Signa pensou ser um sorriso de escárnio. 
Mas a ameaça a manteve afastada. 
— O que você quer? — Signa resmungou. — Por que você 
me atraiu aqui? — Lillian não era alguém com quem Signa 
queria se envolver, e ainda assim Lillian morreu de uma forma 
que, reconhecidamente, deixou Signa mais do que curiosa. E a 
curiosidade era uma coisa faminta e persistente. 
O espírito de Lillian hesitou, então apontou para seus lábios 
negros. 
— Você não pode falar? — Signa perguntou, e o espírito 
sacudiu suas ondas pálidas com um grunhido. Não era a 
primeira vez que Signa via um espírito incapaz de falar. 
Algumas ruas estavam cheias de soldados ou guerreiros de 
guerras antigas sobre as quais ela não se importava em saber 
mais, e muitas vezes os espíritos estavam cheios de buracos em 
seus peitos ou rostos. 
— Eu sei quem você é. — Signa recuou vários passos para 
sua própria segurança. — Eu sei que era você esperando por 
mim dentro da casa mais cedo. O que você quer de mim? 
Os espíritos não precisavam respirar, mas parecia que essa 
mulher estava respirando fundo e tentando reunir paciência. 
Ela não se moveu em direção a Signa, mas arrancou um galho 
frágil de uma árvore. Por um momento Signa pensou em 
correr, mas em vez de espetar a carne de Signa, Lillian se abaixou 
no chão, chutou um caminho limpo na terra e usou o galho 
para escrever palavras na terra. Quando ela terminou, Lillian 
jogou o galho longe e apontou para seu trabalho. 
Embora Signa soubesse que sua bisbilhotice poderia muito 
bem ser sua ruína algum dia, ela obedeceu e leu as palavras. Seu 
estômago se revirou no momento em que ela fez isso, e ela 
olhou para Lillian em busca de uma explicação. O corpo do 
espírito tremulava nas extremidades como pequenos fios de 
fumaça. Se os anos de Signa vendo espíritos a ensinaram alguma 
coisa, foi que eles não eram livres para vagar. Quanto mais se 
aventuravam de onde haviam morrido, mais lutavam para 
permanecer na Terra. 
Claramente, o espírito de Lillian estava longe de onde ela 
havia passado, e seu tempo aqui estava se esgotando. Ela recuou 
em direção à floresta nos arredores da propriedade, até que o 
único vestígio dela foram as palavras que ela esculpiu na terra: 
Venha ao meu jardim e salve-a. 
Signa soube imediatamente que Lillian estava se referindo a 
Blythe. 
Blythe, que Morte provou que estava procurando. 
Blythe, a quem Signa se sentia presa por razões que ela não 
conseguia explicar. 
Blythe, cuja morte faria surgir rumores. Cuja morte 
provavelmente tiraria Signa de mais uma casa que ela não podia 
perder. 
A percepção veio: se ela pudesse impedir que Blythe 
morresse, então ela pararia Morte. Ela iria vencê-lo. E se ela 
conseguisse isso, talvez ele finalmente a deixasse em paz e lhe 
permitisse a vida que ela ansiava. Uma vida fora das sombras, 
onde ela nunca teria que lidar com ele ou esses espíritos 
horríveis novamente. Uma vida com pessoas e festas e 
companheirismo,e onde ela poderia simplesmente estar. 
Por mais tolo que fosse fazer uma barganha com um 
espírito, se isso significasse vencer Morte, Signa faria o que fosse 
preciso. 
Nove 
 
Marjorie foi fiel à sua palavra de que o traje de luto de Signa em 
breve seria coisa do passado. 
A modista chegou ao amanhecer, arrastando um baú cheio 
de tecidos para a suíte de Signa. 
Signa mal tinha conseguido dormir e, juntamente com os 
últimos dias de viagem e o fato de ter passado a noite anterior 
sendo assombrada, havia pouco que ela queria mais do que se 
enroscar na cama pelo resto do dia. 
Até que ela se lembrou que hoje marcava o início de suas 
lições. 
— Venha agora, Signa. Só os mortos dormem a essa hora. — 
Marjorie suspirou enquanto seguia atrás da modista. — O 
mestre não vai deixar você andando por aí parecendo o 
ceifador. É hora de adicionar um pouco de cor a esse seu 
guarda-roupa e prepará-la para a temporada. 
Signa despertou como os mortos ressuscitados, membros 
pesados e seus olhos ardendo contra o sol que despertava. 
Parecia que apenas alguns minutos haviam se passado desde 
que ela caiu na cama. Apenas alguns minutos desde que ela teve 
a infelicidade de conhecer o espírito de Lillian. E, no entanto, 
ela convocou toda a sua vigília com a promessa de roupas novas 
e se arrastou para a sala de estar. Uma jovem agradável que 
Marjorie apresentou como Elaine, a nova dama de companhia 
de Signa, começou a pentear as ondas escuras de Signa do rosto 
enquanto a modista mexia em sua cintura com uma fita 
métrica. 
A modista era velha, com tantas rugas quanto os anos que 
ela viveu esculpidas em seu rosto. Olhos castanhos estavam 
cobertos por óculos redondos, embora parecessem ser de pouca 
ajuda, dado o quão perto a mulher se inclinou para Signa, 
abaixando-se para ler os números na fita. 
— Você é muito magra, garota — a mulher resmungou. — 
Nada mais do que um galho com seios. 
Signa virou-se para a janela, determinada a não deixá-los ver 
a vergonha em seu rosto. Sua camisola transparente fazia pouco 
para disfarçar a nitidez de suas costelas, e ela passou as mãos 
ansiosas sobre elas. Marjorie olhou para eles também, aqueles 
ossos muito afiados saindo de sua pele. Signa tinha feito o que 
podia, morando com Magda, mas ela era muito jovem para 
acessar sua herança por conta própria, e a modesta mesada que 
Magda recebeu foi direto para as casas de jogo. Essa mulher 
provavelmente teria ficado feliz, se Signa tivesse morrido de 
fome. Tudo com o que ela se importava – tudo com que a 
maioria de seus guardiões parecia se importar – era como 
reivindicar um pedaço da fortuna de Signa. 
— Deixe espaço nos vestidos — disse Marjorie à costureira, 
desviando o olhar das costelas de Signa e fingindo estar ocupada 
ajudando Elaine a arrumar o cabelo. — Ela vai ficar com 
bochechas de bebê em pouco tempo. 
A costureira resmungou, satisfeita. Uma vez que ela anotou 
as medidas de Signa em um caderno de couro, ela segurou 
amostras de tecidos em uma grande variedade de cores para o 
rosto de Signa. Eles trabalharam diante de um espelho de prata 
ornamentado, que Signa usava para dar uma espiada em si 
mesma, meio que esperando ver seu reflexo começar a se mover 
sozinho, como na noite anterior. Ainda havia terra debaixo de 
suas unhas, assim como nas solas de seus pés. Era tudo o que ela 
podia fazer para fingir ignorância quando a modista os 
inspecionou com uma carranca. 
Embora Signa soubesse pouco do custo para fazer um 
guarda-roupa, ela podia imaginar. E era muito mais do que 
qualquer guardião gastou com ela. Elijah realmente deve ter 
querido Signa fora de seu traje de luto. Enquanto Marjorie 
ofegava com tons suaves como blush, champanhe e pervinca, 
os olhos de Signa se desviaram para verdes escuros como a 
floresta e vermelhos profundos e ricos como sangue. No 
entanto, ela não disse nada sobre suas opiniões, pois o que ela 
sabia de moda? Se ela queria se encaixar na sociedade, 
certamente deveria confiar em Marjorie para tomar as decisões 
e se contentar com os tons sem graça sem reclamar. 
A modista deixou para trás um vestido em sua partida – um 
vestido amarelo-claro, com fitas azuis e rendas brancas. Signa 
queria recusar sua ostentação, mas ergueu os braços enquanto 
Elaine a ajudava a se vestir. Se este era o estilo, não importava se 
ela achava que combinava com ela ou quão confortável ela 
estava. 
— Isso vai ter que servir por enquanto — Marjorie disse 
enquanto Elaine amarrava o espartilho. — Pelo menos até que 
os seus sejam feitos. 
A palavra mais gentil que Signa conseguiu pensar para o 
vestido foi horrível. Também era incessantemente alegre, dado 
o estado de Thorn Grove. Ela pode ter parecido uma banana 
ambulante, mas ela se importava com sua língua e não 
reclamou uma vez que foi vestida, perguntando apenas: 
— E quando esses vestidos estarão prontos? 
A risada de Marjorie foi educada e recatada, um exemplo 
clássico de como Um guia feminino de beleza e etiqueta dizia 
que deveria ser. Signa fez uma nota mental para praticar a 
imitação, mais tarde. 
— A modista faz o trabalho rápido. Agora venha, é hora das 
lições. O mestre arrancaria minha cabeça se nos visse vagando. 
Pelo que ela tinha visto de Elijah, Signa duvidava muito 
disso. Independentemente disso, ela seguiu Marjorie para fora 
da sala e pelo corredor, tentando ignorar o formigamento em 
sua pele que vinha da sensação de ser seguida pelos olhos de 
várias dúzias de retratos. 
O formigamento parou assim que desceram as escadas e 
Signa ficou aliviada ao descobrir que Thorn Grove parecia um 
lugar novo naquela manhã. Estavam longe de todas a música e 
os vestidos de baile que encheram os corredores, e as risadas que 
vinham logo em seguida. Em seu lugar, ficou o movimento 
silencioso de uma vassoura sobre o mármore. 
— Lembre-se, não perca tempo — Marjorie cutucou 
quando Signa permaneceu por muito tempo na escada, 
estudando a estranha decoração que prevalecia em toda a 
propriedade. A escada parecia ter sido esculpida em uma 
árvore. Arandelas de ferro em forma de ninhos de pássaros. E, 
enquanto Signa continuava olhando, um em forma de cabeça 
de raposa e um candelabro com braços que pareciam pregos. 
Quem projetou este lugar era uma alma estranha. Uma 
alma, Signa decidiu, que estava implorando para que esta casa 
fosse assombrada. 
Eles certamente conseguiram realizar seu desejo. 
Signa ainda podia sentir a pressão da exaustão em seu corpo 
pela assombração da noite anterior enquanto seguia Marjorie 
para a sala de estar – uma sala tão grande quanto qualquer outra 
na propriedade, mas talvez melhor iluminada com suas duas 
grandes janelas. As paredes eram de um amarelo amanteigado 
ainda mais brilhante do que o vestido horrível de Signa, e eram 
perfeitas para capturar a luz. Toques femininos adornavam a 
sala, totalmente fora de sincronia com o segundo andar, mais 
masculino. Havia espirais elegantes esculpidas na moldura, um 
tapete com padrões brilhantes e delicadas almofadas florais 
com acabamento em renda. Foi nessas almofadas que Percy e 
Blythe se sentaram, bebendo xícaras fumegantes de chá. 
Blythe não parecia melhor do que na noite anterior, com sua 
pele pálida e sua frágil estatura, mas havia uma nitidez em seus 
olhos. Uma vontade de se sentar no sofá e beber seu chá e não 
ficar presa sozinha em seu quarto, mesmo que suas mãos 
tremessem toda vez que ela levava a xícara aos lábios. 
— Minha querida irmã disse que acordou se sentindo 
rejuvenescida — disse Percy no momento em que os olhos 
surpresos de Marjorie pousaram na garota. — Achei que um 
pouco de ar fresco e companhia fariam bem a ela. 
A boca de Marjorie formou uma linha apertada. Em vez de 
discutir, porém, Marjorie se virou e abriu as janelas, deixando 
entrar a brisa fresca. 
— Muito bem, então. Talvez você esteja certo. 
Signa ficou mais ereta na presença de seus primos. Um dia 
em Thorn Grove, e ela já se sentia como se tivesse causado uma 
primeira impressão tão horrívelem ambos. Ela queria se provar 
para eles, embora estivesse lutando para fazê-lo entre suas 
pálpebras pesadas e a vontade de bocejar. 
Velhos espíritos teimosos e terríveis. Não queria pensar em 
Lillian, nem nos mortos, nem em nada além de suas lições e da 
nova família com a qual vivia agora. Ela queria estudar, para 
impressionar eles, e para provar sua prontidão para estrear na 
próxima fase de sua vida. Uma fase na qual ela esperava ter 
muito mais conexões com os vivos, e muito menos com os 
mortos. 
Batendo o cabelo atrás dos ombros, ela se reorientou e sorriu 
para seus primos. 
— Estou feliz em ver que vocês dois estão bem esta manhã. 
— Digo o mesmo — Percy disse enquanto Blythe colocava 
sua xícara de chá em seu pires e a equilibrava em seu colo. 
— Você já teve uma governanta antes, Srta. Farrow? — 
Marjorie perguntou enquanto se sentava em um pequeno pufe 
redondo na frente de Signa. 
— Dadas suas maneiras, eu suponho que não — Blythe 
murmurou baixinho, tomando outro gole quando Marjorie 
lhe lançou um olhar. 
— Você está afirmando que as suas são melhores?— 
perguntou a governanta. 
Blythe franziu o rosto quando Signa sentiu uma onda de 
vergonha, quente e abrasadora. Ela estaria condenada, 
entretanto, se ela deixasse Blythe ver que suas palavras haviam 
atingido. 
— Eu tive uma governanta no passado — Signa disse a eles. 
— …intermitentemente. 
O que quer que Marjorie pensasse dessa resposta, ela não a 
traiu. 
— E as lições? 
Em vez de admitir quanto tempo se passou desde que ela 
teve uma aula adequada, Signa disse: 
— Eu sei ler e escrever. Aritmética também. — Apenas o 
básico, já que ninguém nunca tinha ficado tempo suficiente 
para lhe ensinar mais do que isso. 
Os lábios de Marjorie se curvaram em um sorriso invejável. 
— E música? 
Não querendo dar a seus primos qualquer combustível 
adicional para provocá-la, admitindo que raramente tocava, 
Signa disse: 
— Acho que sou uma ótima ouvinte. 
Blythe tossiu em sua bebida enquanto Percy a cutucava com 
o cotovelo, silenciando-a entre suas próprias risadinhas. 
Marjorie ignorou os dois Hawthornes. 
— Devidamente anotado. Por que não começamos por aí, 
então? Com lições de leitura e seguimos com aulas de piano. 
Por mais frustrante que fosse, Signa havia sido insultada o 
suficiente ao longo de sua vida para ignorar seus primos. Ela 
assentiu e, em vez disso, se deixou imaginar sentada na mansão 
que um dia possuiria, sentada no banco de um piano forte, 
tocando com uma graça perfeita. Seu devaneio durou pouco, 
no entanto, quando uma onda de frieza sacudiu a espinha de 
Signa. 
— Senhorita Farrow? — A voz de Marjorie estava distante. 
Signa não podia ver Lillian, mas o som fraco de choro lutou 
para roubar sua atenção. 
Nada de espíritos, Signa disse a si mesma, fingindo não 
ouvir. Pense no seu futuro. Do trabalho que você deve fazer até 
debutar. Pessoas normais não falam com os mortos, Signa. 
No entanto, ela não conseguia parar de ouvir. Parecia que 
os outros também ouviram o som, pois Blythe ficou 
mortalmente imóvel. A xícara de porcelana escorregou de suas 
mãos e caiu em seu colo, o chá quente manchando seu vestido. 
Percy sentou-se com um solavanco, assim como Marjorie. 
— Céus, senhorita Hawthorne! — A governanta fez sinal 
para Percy. — Ajude sua irmã a voltar para o quarto dela e vá 
buscar Elaine. Blythe precisará se trocar para um vestido novo. 
E enquanto você está nisso, encontre um melhor uso do seu 
tempo também, Percy. Vocês dois são muito perturbadores. 
Marjorie esperou que Percy ajudasse sua irmã – cujos olhos 
ainda estavam atordoados e ansiosos – a sair da sala antes de se 
virar para Signa. 
— Agora, não ligue para tudo isso, e não ligue para o som. 
Isso é apenas o vento. — Ela pegou Signa pela mão e a levou 
para o banco preto e elegante de um belo piano de cauda que 
provavelmente custaria tanto quanto a casa inteira de tia 
Magda, se não mais. Não havia sequer um traço de poeira nele. 
— É sempre mais alto nesta época do ano. Parece que o próprio 
diabo está pisando lá fora. 
Signa sabia muito bem que o som não tinha nada a ver com 
o vento, embora não tivesse escolha a não ser assentir. Ela se 
sentou, lutando contra a vontade de se encolher na cadeira 
enquanto Marjorie endireitava as costas e alongava o pescoço, 
colocando as mãos de Signa na posição inicial sobre as teclas. 
— Agora — disse Marjorie —, vamos começar praticando 
suas escalas. — Os ossos de Signa protestaram mantendo uma 
postura tão rígida, já doendo. Mas se isso fosse necessário para 
dar vida à sua visão e garantir seu lugar na sociedade, ela o faria. 
Signa pressionou a primeira tecla e teve que engolir uma careta 
quando seu dedo ficou molhado. Cada centímetro dela 
enrijeceu, os músculos se contraindo, pois não havia nada no 
piano. No entanto, quando ela levantou o dedo, viu lama 
endurecida sobre ele e pequenos vermes brotando entre as 
teclas. 
— Siga as escalas, Signa — Marjorie insistiu sem qualquer 
reconhecimento de que ela podia ver o que estava acontecendo 
sob a ponta dos dedos de sua pupila. Ela não viu que os pés de 
Signa estavam afundando na terra que não estava lá ou que seus 
dedos se tornaram um poleiro para os vermes se enrolarem. 
A mensagem de Lillian foi clara como o dia – Signa 
precisava se apressar e encontrar o jardim, ou esse espírito 
nunca descansaria. 
Mas até então, Signa se preparou e apertou as teclas 
enlameadas. Ela se recusou a parar de tocar. 
Dez 
 
Passaram horas até que Signa saísse, esticando as costas 
doloridas enquanto o vento a açoitava. O ar estava fresco, mas 
não era nada que seu cachecol e uma barriga cheia de chá 
quente não pudessem afastar. Seu corpo acolheu o frio depois 
de passar tanto tempo em suas aulas. 
Em apenas um dia, ela quase esqueceu o forte contraste 
entre o interior e o exterior da propriedade. Aqui, cercado por 
intermináveis charnecas de grama amarelada, flores silvestres 
pontilhando a terra e o manto dourado de folhas espalhadas 
pelo chão, era um lugar de fantasia. A tarde estava tranquila; 
nenhum corpo dançava dentro ou fora da casa. Nenhum 
estranho em sua elegância. Embora Signa não soubesse o que 
os cozinheiros estavam assando, algo doce e pastoso aqueceu o 
ar ao seu redor, e seu estômago roncou apesar de Marjorie ter 
lhe dado mais bolinhos do que ela conseguiu comer. 
Mas haveria tempo para doces mais tarde, quando suas mãos 
não estivessem realmente enlameadas com sujeira, vermes e 
terra. 
Venha ao meu jardim e salve-a. 
 Signa iria para aquele jardim, mas ela precisava encontrá-lo 
primeiro. 
Atrás da propriedade havia pântanos íngremes e 
intermináveis. Diante dele, sebes bem cuidadas e um bosque de 
bordos. E muito além de Thorn Grove havia uma linha de 
árvores que marcava o início da floresta. Nenhum jardim à 
vista. 
Signa poderia ter acreditado que poderiam estar brincando 
com ela se não fosse por sua conversa com Sylas dois dias antes 
– ele disse a ela que uma vez trabalhou no jardim com Lillian. 
Embora Signa desprezasse a ideia de pedir ajuda, ele era a opção 
mais segura. Com a diferença de classe entre eles tão gritante 
como era, certamente ele não ousaria denunciá-la por enfiar o 
nariz onde não deveria. 
E assim Signa ergueu seu vestido amarelo hediondo e 
atravessou o gramado aparado até os estábulos, apertando as 
saias com mais força enquanto se aproximava de bestas 
bufando e cascos batendo. Os cavalos de Thorn Grove eram 
criaturas enormes, todos com pelagem brilhante em um 
espectro de cores – preto sólido, branco puro, um rico marrom 
castanho. Pareciam confortáveis em suas espaçosas baias, mas 
Signa tinha pouca confiança nas barreiras de madeira que os 
limitavam. Se essas feras quisessem sair, eram inteligentes o 
suficiente para se libertar. 
Signa espiou nas baias enquanto andava na ponta dos pés 
pelos estábulos, cercada por cavalos que esticavam o pescoço 
em direção a ela na tentativa de chamar sua atenção. Um deles 
chegou a beliscar seu ombro,e Signa cambaleou para trás para 
bater com firmeza no nariz. 
— Não pense nisso! — ela advertiu, alisando o ombro de seu 
vestido. — Ser atrevido com uma mulher não é a melhor 
maneira de chamar sua atenção. 
O cavalo bufou, indignado. Ele era menor que os outros, 
embora não parecesse mais jovem. Onde os casacos dos outros 
brilhavam, o dele era de um marrom opaco, da cor de caramelo 
queimado. Comparado com os outros, este era esguio e 
estranho. 
— Bem, agora — ela disse, com as mãos nos quadris 
enquanto o encarava —, você não é uma coisa boba? 
Em resposta, o cavalo esticou o pescoço para beliscar seu 
ombro mais uma vez. Ela estava no meio do passo, 
cambaleando para trás para rasgar o tecido da boca do cavalo, 
quando alguém riu. Era um som rico, que causou pequenos 
arrepios na espinha de Signa. Ela o reconheceu 
instantaneamente. 
Signa se virou, sem ter ouvido Sylas se aproximar. Ele estava 
tão assustadoramente alto como sempre, e seu cabelo escuro 
estava penteado para trás agora, mostrando os belos contornos 
de seu rosto. Apesar do ar frio de outono, Sylas vestia apenas 
calças e uma túnica de algodão de mangas compridas. Estava 
aberto no colarinho, as mangas dobradas sobre os braços fortes 
como se ele estivesse trabalhando, embora suas botas e luvas 
escuras mal tivessem uma partícula de sujeira. Eram de um 
couro tão fino — e tão bem conservados para um cavalariço. 
Sylas apoiou os antebraços contra uma pilha de fardos de 
feno. Ao seu lado, um grande cão cinza estava alerta, orelhas 
eretas e cabeça inclinada. 
— Eu não sabia que os Hawthornes tinham um cachorro — 
disse Signa por falta de mais alguma coisa, odiando que sua 
língua parecesse sem esperança e dormente ao redor daquele 
jovem. Por mais rude que ele pudesse ser, a falta de qualquer 
companhia masculina disponível em sua faixa etária sempre 
deixou Signa mais calada do que ela gostaria de admitir. 
— Ah, sim — disse Sylas. — Ele é uma coisa bestial, 
também. Treinado para matar qualquer um que invada a 
propriedade. 
Signa deu um passo nervoso para trás. Mas no momento em 
que ela o fez, a língua do cão pendeu para fora, e o cachorro 
virou alegremente de costas. Signa olhou para Sylas. 
— Eu disse que ele foi treinado — disse Sylas. —, não que 
ele tenha prestado atenção. E ele pertence a mim, não aos 
Hawthornes. O nome dele é Gundry. 
Signa se abaixou, coçando a barriga oferecida por Gundry. 
Ela riu enquanto o cão ofegava e se contorcia para lamber sua 
mão. Signa sempre quis um animal de estimação, qualquer 
criatura serviria, na verdade. Ela sonhara em ter um gato ou um 
cão de caça. Até um rato teria bastado, desde que lhe fizesse 
companhia. Mas considerando a frequência com que ela se 
mudava, ela estava com muito medo de pedir um e que algo 
pudesse acontecer com ele – ou que um de seus guardiões se 
recusasse a deixá-la levar um animal de estimação com ela para 
uma nova casa. Ela nunca tinha dado muita consideração a um 
cavalo dado o tamanho do animal, embora ela supôs que um 
seria um companheiro igualmente maravilhoso. 
— Você monta, Srta. Farrow? — A voz de Sylas era fria 
como a brisa ao redor deles, provocando-a enquanto ela 
afastava o cavalo irritante de seu cabelo. — Você parece natural. 
— Ah sim, eu quase esqueci como suas maneiras são 
surpreendentes. — Signa alisou o cabelo com a mão para 
garantir que estava preso em seus fechos. — Faz muito tempo 
desde que eu estive em torno de cavalos. Meu falecido tio tinha 
alguns, mas eles foram vendidos quando ele faleceu, e ele nunca 
gostou que eu os montasse. Embora os dele não fossem tão 
grandes. 
— A equitação era uma paixão que os dois mestres 
compartilhavam. — Sylas foi até o cavalo que brincava com 
Signa e pressionou a mão espalmada em seu focinho. Ele 
acalmou-se imediatamente, exalando uma respiração satisfeita. 
— Mestre Hawthorne raramente vem vê-los agora, mas ele é o 
responsável por esses cavalos. Ele sempre amou coisas bonitas. 
Signa deu uma olhada no pequeno e irritante cavalo, e Sylas 
riu. 
— Aquela criatura é Balwin, lindo de nascença. Dizem que 
ele encantou Lillian no passado – eles o compraram de uma 
pousada que visitaram durante as férias de verão. Ele é um 
cavalo divertido o suficiente, mas volúvel. Tem uma mente 
própria. 
Sylas Thorly, o homem que a aterrorizou por um dia inteiro 
com suas esquisitices, gostava de um cavalo estranho e um 
grande cão cinza que parecia ser parte lobo. Ela nunca teria 
adivinhado. 
— Eu vim para cavalgar — disse Signa, determinada. — Eu 
quero ver o jardim de Lillian. 
Um lampejo de surpresa cruzou o rosto de Sylas antes que 
ele assentisse. 
— Escolha um cavalo, então. Não Balwin, ele está prestes a 
dar uma volta, mas gosta de testar seus condutores. 
— E aquele? — Signa apontou para um lindo garanhão 
preto cuja pelagem era tão brilhante que cintilava como se 
estivesse molhada. 
— O que você acha de tentarmos uma das éguas mais 
velhas? Como a branca ali, à direita? — Sylas gesticulou para 
um cavalo branco sólido, mas os olhos de Signa vagaram para a 
magnífica égua dourada ao lado dela. Este cavalo era um pouco 
mais alto, e seus olhos muito mais vivos. Ela bufou e bateu um 
casco em uma saudação agradável, como se estivesse 
convidando Signa para se aproximar e cumprimentá-la. 
— Então e ela? — ela perguntou, agradando o cavalo, 
oferecendo a palma da mão para cheirar e beijar. 
Sylas baixou o queixo. 
— Ela é... um cavalo amigável, mas ela não sai há algum 
tempo. Talvez deva escolher outro... Srta. Farrow, o que você 
está fazendo? 
— Eu quero este. — Signa já estava desfazendo as fechaduras 
da baia e entrando para reivindicar seu cavalo, puxado para a 
égua dourada de uma forma que nenhuma das outras inspirava. 
A égua piscou os olhos chocolate para Signa e bufou, 
abaixando a cabeça como se fosse uma oferenda. Signa aceitou 
a oferta e passou os dedos pelo pescoço aveludado do cavalo, 
coçando-a atrás das orelhas. 
— Há algo de errado com esta? — Signa perguntou, e a égua 
olhou para Sylas, como se exigisse uma resposta educada. 
— Claro que não. — Sylas suspirou e pegou o equipamento 
do lado da baia antes de seguir Signa até ela para selar o cavalo. 
— É só que Mitra era o cavalo de Lillian. Embora já seja hora 
de você ter uma boa condutora, não é, garota? — Ele acariciou 
o pescoço da égua com mais delicadeza do que Signa esperava. 
Ela encontrou-se olhando, a leveza em seu tom aquecendo sua 
pele. 
— Espere lá fora. — A voz de Sylas não tinha a mesma 
gentileza quando ele falou com Signa, que se encolheu. — Eu 
vou prepará-la. 
Onze 
 
Sylas saiu dos estábulos quinze minutos depois, vestia um 
grosso manto marinho e conduzia não um cavalo, mas dois e 
um cão de caça que ofegava ao seu lado. Ao lado de sua beleza 
dourada estava Balwin, o irritante garanhão castanho que 
estava obcecado em tentar comer o cabelo de Sylas. 
— Você me trouxe opções? — foi tudo o que Signa 
conseguiu pensar em perguntar. 
Sylas não estava muito ocupado empurrando Balwin para 
longe para bufar. 
— Eu vou com você. O jardim de Lillian fica na floresta. 
Você claramente não monta há algum tempo, e se eu deixasse 
você ir até lá sem escolta, o Sr. Hawthorne teria minha cabeça. 
Signa lutou contra sua mandíbula apertada. Como se 
sentisse seu aborrecimento, Mitra fechou o espaço entre eles e 
cutucou Signa com o ombro. Signa, por sua vez, enrolou os 
dedos no pescoço do cavalo, acariciando seus cabelos macios. 
Ela podia sentir seu pulso feroz de vida sob a ponta de seus 
dedos. A rapidez do coração da égua e sua respiração 
impaciente e irregular. 
 Elas eram uma combinação adequada, cada uma tão ansiosa 
para se libertar e vagar como a outra. Mas quando Signa foi 
montar o cavalo, ela vacilou. Embora fosse alta, os estribos 
estavam fora de seu alcance. Ela passou os braços em volta do 
pescoço de Mitra e tentou se erguer, mas o cavalo relinchou e a 
afastou. 
Atrás dela, Sylas perguntou com alegria na voz: 
— Você precisa de ajuda?Com a cabeça erguida, Signa o ignorou e tentou novamente, 
agarrando-se ao cavalo como se para salvar sua vida, enquanto 
tentava colocar um pé no estribo. Mitra arranhou o chão 
enquanto Signa pendia dela, escorregando, recusando-se a 
admitir a derrota. 
— Meu Deus, você é uma teimosa. — Desta vez, Sylas não 
perguntou antes de colocar as mãos na cintura dela e levantar 
Signa na égua. Ele fez isso com um único movimento, como se 
ela fosse leve como uma pena. Embora o coração de Signa 
estivesse acelerado, Sylas pareceu não pensar que era um toque 
tão íntimo enquanto acariciava a anca de Mitra, assegurando-
se de que os pés de Signa estavam totalmente seguros e subiu 
em Balwin. 
Sob Signa, Mitra estremeceu de antecipação. Ela não 
esperou por um comando antes de partir em um trote tão 
chocante que Signa começou a escorregar da sela. Ela agarrou 
as rédeas, curvando-se para frente na cintura para se firmar. 
Então Sylas estava ao lado dela, batendo com um graveto na 
garupa de Mitra. Signa queria rosnar para ele enquanto sua 
pancada fazia o cavalo relinchar e se mover mais rápido, embora 
o barulho diminuísse em segundos. 
Signa endireitou-se, lançando um olhar para Sylas, cujos 
olhos dançavam travessos enquanto ele e Signa corriam pelas 
charnecas, colinas ondulantes de flores silvestres e pântanos 
que desaceleravam seus corcéis. Cada vez mais perto da floresta 
eles viajaram, até que o peito de Signa ardia com o desejo de 
alcançá-lo. 
Venha para o meu jardim. O espírito de Lillian a puxou, 
guiando-a. 
Venha para o meu jardim. 
Arrepios subiram ao longo da carne dos braços e pernas de 
Signa. Ela nunca tinha visto um espírito tão zangado, e a última 
coisa que ela queria era ser aterrorizada por Lillian Hawthorne. 
Ainda mais do que isso – embora ela não tivesse vontade de 
admitir em voz alta – Signa podia sentir a curiosidade 
afundando suas garras nela. Uma bagunça indistinta de peças 
de quebra-cabeça que ela desejava completar. 
Ela tinha que saber o que o espírito queria com ela, e como 
uma mulher tão jovem, tão bonita, morreu em um jardim 
secreto escondido na floresta bem atrás de Thorn Grove. 
Signa deu um leve cutucão na lateral de Mitra, e o cavalo 
respondeu imediatamente. Afinal, ela tinha sido o cavalo de 
Lillian; talvez ela também sentisse a atração. 
Sylas ficou atrás dela em seu ritmo, gritando, tentando 
impedi-las de correr para dentro da floresta. Embora Mitra 
lidasse com os pântanos habilmente, nunca vacilando em seu 
caminho, Sylas lutou para empurrar o rebelde Balwin para a 
frente. Sua voz soou oca em seus ouvidos, seus protestos 
desaparecendo com a distância. Signa não esperou – não podia 
esperar. A floresta a chamou, e ela mergulhou na barriga da 
fera, deixando suas mandíbulas se fecharem e engoli-la inteira. 
A floresta a consumiu, abraçando-a tão ferozmente que os 
gritos frustrados de Sylas e os cascos de Balwin cortaram, o 
único som um suave farfalhar nas árvores outonais, as folhas 
uma mistura de laranja da colheita e verde meia-noite. 
Não demorou muito para que a grama amarelada se 
enroscasse nas patas brancas de Mitra. A floresta puxava as saias 
de Signa, a crina de Mitra, arranhando e raspando sua pele, 
faminta por sangue. Signa tentou cobrir o cavalo o melhor que 
pôde, mas os galhos eram baixos e selvagens, arranhando o 
flanco de Mitra. 
Nos cantos de sua visão veio um flash de branco tão fugaz 
que ela teria perdido se piscasse. Voltou segundos depois, 
afastando-se rapidamente para a direita, onde as árvores se 
partiram ao meio ou foram removidas. Signa seguiu atrás do 
que ela sabia ser o espírito de Lillian, que a levou a uma clareira 
e a um portão de ferro colocado em uma parede de pedra 
desgastada. Ela empurrou o portão para descobrir que havia 
uma fechadura no centro, coberta por hera e trepadeiras. 
Ela estava feliz por não haver ninguém por perto para ouvir 
sua maldição muito pouco feminina enquanto olhava para o 
muro do jardim, três vezes sua altura e impossível de escalar, 
mesmo que estivesse nas costas de Mitra. Ela forçou a 
fechadura, a frustração aumentando quando ela não se mexeu. 
Como ela pretendia encontrar uma chave para um jardim 
que estava claramente abandonado há meses? Não era como se 
ela pudesse pedir isso a Elijah, e Sylas provavelmente já sabia 
que o lugar estava selado e a levou a essa caçada louca para rir. 
Com as mãos apertadas nas rédeas, Signa estava prestes a voltar 
para encontrar Sylas e dar-lhe um pedaço de sua mente quando 
outro flash branco cintilou nos cantos de sua visão. 
Lillian estava lá, observando, escondida nas sombras do 
portão de ferro. Seu cabelo estava pálido como manteiga, e seu 
rosto estava coberto de musgo, com trepadeiras podres tecidas 
dentro e fora do buraco onde uma boca deveria estar. Olhos 
vazios observavam por entre as folhas de hera. Olhos vazios que 
olhavam não para Signa, mas atrás dela, para o chão. 
Signa se virou para a visão familiar de pequenas frutas pretas 
– belladonna – e entendeu tão bem que seu peito parecia estar 
sendo partido em dois. 
A noite que ela comeu belladonna pela última vez – à noite 
que ela falou com a Morte – ela usou os seus poderes. E se ela 
pudesse fazer isso de novo? Ela o tinha visto atravessar paredes. 
Vi-o desaparecer nas sombras, e então se reformar à sua 
vontade. Seria possível que ela também pudesse fazer isso? 
Signa desmontou, rangendo os dentes ao ver as frutas de 
belladonna que esperavam em suas botas. Ela não queria se 
aproximar de Morte novamente até que ela tivesse uma 
maneira de destruí-lo e acabar com sua maldita maldição. Mas 
se ela queria que Lillian a deixasse em paz, parecia que não havia 
escolha. 
Com medo na barriga, ela se abaixou e colheu as frutas, 
enchendo os bolsos e as palmas das mãos. 
A morte pairava no ar como uma tempestade que se 
aproximava, escura e pesada. Signa sentiu o peso dele 
sufocando-a, avisando-a. Até o som do vento era cortante como 
uma lâmina quando o mundo desacelerou ao seu redor, como 
se o tempo estivesse parando. 
Mas Morte não a tocaria. Ele nunca tocou. 
Signa pressionou cinco frutas em sua língua e esperou 
enquanto seu sangue queimava e calafrios percorriam sua 
espinha. Não demorou muito para o veneno apertar suas 
entranhas. Para que sua visão embaçasse enquanto as ilusões da 
floresta se abriam em túneis ao redor dela, para que um poder 
diferente de qualquer outro se formasse dentro dela, 
chamando-a para vir e prová-lo. 
A morte havia chegado. 
Doze 
 
A presença da morte era gelo que queimou até os ossos de Signa 
— um lago gelado no qual ela mergulhou de cabeça. Mas, em 
vez de permitir que ela subisse para respirar, ele a abraçou 
naquelas águas geladas sem intenção de soltá-la. 
— Olá, Passarinha. Veio me esfaquear de novo? 
A voz dele era um bálsamo para o arrepio ao longo de sua 
pele, e as entranhas de Signa se contorceram em aborrecimento 
com a resposta de seu corpo a ele. Não raiva, nem medo, mas 
uma curiosidade profunda e purulenta que ela não conseguia 
afastar. 
— Diga-me se posso usar mais de seus poderes — ela exigiu. 
Se ele não hesitasse, ela também não iria. 
Ela ergueu o queixo e se virou para ele. Ou pelo menos ela 
acreditava que estava de frente para ele. Era difícil saber, dada a 
sua forma. A morte era pouco mais do que as sombras das 
árvores. A escuridão persistindo nos cantos onde a luz não 
conseguia alcançar. Ele não estava em lugar nenhum e estava 
em todos os lugares, até que lentamente suas sombras 
começaram a contrair-se ao longo do solo, consumindo o solo 
da floresta e banhando-o na escuridão até chegar lá. Sem rosto, 
sem boca, mas a forma de um homem que pairava sobre ela. 
— Diga-me, Signa — Morte começou, ignorando sua 
pergunta —, você está com medo de mim? — Suas sombras se 
aproximaram até que sua forma ficou menor, menos 
imponente. — A maioria das pessoas teme a morte. Eles temem 
isso a vida toda, embora nunca me vejam até o último suspiro. 
Há um punhado de humanospor aí com um olho mais 
aguçado, é claro. Aqueles que passam a vida tentando 
preencher a lacuna entre os vivos e os mortos, e que 
vislumbram por trás do véu. Mas quando estou diante deles, 
até eles são sábios o suficiente para me temer. No entanto, você 
me chamou uma e outra vez. Você me questionou. Você 
chegou a tentar me matar. — Embora fossem palavras 
sombrias, Signa não perdeu a pitada de humor delas. Acendeu 
um inferno ardente e raivoso dentro dela. 
— Sou divertida para você, senhor? — Ela cerrou os dentes 
enquanto as sombras dançavam entre as árvores. 
— Às vezes. — A voz dele era pouco mais do que um 
sussurro no vento rugindo, embora ela a ouvisse tão claramente 
como se viesse de seus próprios pensamentos. — E outras vezes 
você é um aborrecimento sem fim. Sempre, porém, você é 
fascinante. 
Falar com Morte era como ouvir um enigma. Ela mal pôde 
resistir a revirar os olhos para o quão prolixo ele era e teve que 
pressionar mais duas frutas em sua língua. 
— Diga-me se posso fazer mais coisas com seus poderes — 
ela disse, mais firme desta vez, mas mantendo a voz baixa no 
caso de Sylas estar por perto. — Você disse naquela noite que 
poderia explicar, então faça isso. Rápido. — Se a Morte tinha 
olhos, ela imaginava que estava olhando diretamente para eles. 
As árvores ficaram quietas quando ele falou. 
— Aqui, neste espaço entre os vivos e os mortos, parece que 
você pode fazer mais do que me incomodar, Passarinha. Não 
sei a extensão de suas habilidades, mas acredito que você mal 
arranhou a superfície. 
Signa engoliu o medo que infestou em sua garganta, suas 
suspeitas confirmadas. 
— Como isso é possível? O que você fez comigo? 
Quando o chão sob seus pés tremeu, Signa entendeu que ela 
havia feito a pergunta errada. 
— Porque você é tão rápida em me culpar — disse Morte —
, que fique claro que eu não fiz nada. Eu não sou responsável 
por seus presentes. Não sou responsável pelo que aconteceu 
com sua tia, embora às vezes desejasse ser. As coisas que ela fez 
você passar... Se você não a quisesse viva, eu poderia tê-la levado 
há muito tempo. 
— Meu querer alguém vivo nunca o impediu antes. — Seu 
corpo era uma bobina tensa pronta para saltar. — Devo 
acreditar que você não teve nada a ver com as mortes que me 
seguem onde quer que eu vá? Que sou a única responsável por 
elas? 
A noite se aproximava enquanto a Morte avançava. 
— Você não tem responsabilidade por essas mortes. Magda 
foi a primeira vida que você tirou. Nem eu esperava. 
Se o que ele disse era verdade, e mesmo ele não esperava que 
isso acontecesse, então… 
— Como? 
O próprio vento parecia sussurrar a resposta. 
— Há uma razão pela qual você pode ver espíritos, Signa. 
Há uma razão pela qual você é capaz de cruzar o véu entre a vida 
e a morte. Embora eu não tenha sido capaz de confirmar o 
motivo, parece que suas suspeitas estão corretas. Quando você 
está aqui - quando você cruza o véu e é capaz de me ver – parece 
que você tem acesso a um arsenal de habilidades semelhantes às 
minhas. 
Tão estranha foi a mistura de alívio e horror que Signa 
sentiu. A bile subiu à garganta com a confirmação do que ela 
tinha feito. Nenhuma das outras mortes foi culpa dela, o que, 
claro, foi um alívio. No entanto, a morte de Magda foi culpa 
dela. Sua tia havia morrido pelas mãos de Signa, e só de pensar 
a fez querer se enroscar na árvore mais próxima e vomitar. 
— Ouça — Morte sussurrou. — Regras importantes foram 
quebradas naquela noite. Vida e morte é um jogo de equilíbrio, 
Signa. Um equilíbrio que deve ser sempre mantido, caso 
contrário você trará o caos a este mundo. Magda não deveria 
morrer naquela noite. Quando uma vida é tirada, outra deve ser 
poupada. Você entende? 
Suas palavras, sim, mas a realidade delas? Signa mal estava 
compreendendo nada daquilo. O suspiro da Morte soprou em 
suas bochechas enquanto as sombras dele se desenhavam ao 
redor dela. 
— Quando você matou Magda — ele explicou, a voz 
cansativa, — eu tive que dar vida a outro que deveria morrer 
naquela mesma noite. Foi para Blythe quem eu dei. 
Seus olhos se arregalaram. 
— Blythe teria morrido? — Embora seus encontros tenham 
sido curtos, Signa viu quão ferozmente a alma de Blythe ardia. 
A garota era muito jovem, muito inocente e muito cheia de 
vontade de morrer antes de ter a chance de realmente viver. 
Embora Signa soubesse que não deveria, sabia que não era 
certo, saber que a morte da tia Magda havia salvado Blythe a 
fazia se sentir... melhor. 
Como algo que ela estaria disposta a fazer novamente, se 
tivesse escolha. 
— Você salvou Blythe? 
— Você salvou Blythe — Morte a corrigiu. — Embora você 
tenha matado outro para conseguir isso. Você entende o que 
estou lhe dizendo, Signa? Tudo tem um custo. 
Por um longo momento, Signa ficou muito preso em suas 
palavras para falar. 
Ela tinha salvado Blythe. 
Ela não tinha condenado Blythe a uma morte súbita. Ela 
não a amaldiçoou, a matou ou foi a razão por trás de seu 
sofrimento. Em vez disso, pela primeira vez, Signa salvou 
alguém. 
Com a mente cambaleando, ela pressionou as mãos no peito 
trovejante como se quisesse acalmar o coração. Nesse espaço 
entre a vida e a morte, ela tinha os poderes do ceifeiro. Se isso 
fosse verdade o suficiente para tirar e dar vida, então o que mais 
ela poderia fazer com tais poderes? No fundo de sua mente, 
uma ideia estava se formando, embora ela precisasse aprender 
mais antes de poder agir. 
— Lillian entrou em contato comigo ontem à noite — Signa 
admitiu de repente, sussurrando como se seu espírito pudesse 
ouvir. 
— Não estou surpreso — disse ele. — Suas ações já salvaram 
a filha dela uma vez. Você e Blythe estão conectados agora. 
— Você sabia que isso iria acontecer? — Signa perguntou, 
mais corajosa do que ela já sentiu enquanto olhava nas 
profundezas de suas sombras. — Você sabia que eu acabaria 
aqui em Thorn Grove? 
— Eu sabia que Blythe morreria naquela noite, assim como 
sabia que os Hawthornes eram sua última família restante. Eu 
a poupei para que você fosse bem-vinda aqui, embora eu não 
possa curar sua doença. 
Talvez fosse imprudente desafiar a Morte, mas ela não se 
importou. 
— Eu sou realmente bem-vinda, ou você é a razão de eu estar 
aqui? Que feitiçaria você deve ter lançado sobre os Hawthornes 
para eles me aceitarem? 
— Não havia feitiçaria — ele disse a ela. — Eu apenas ajudei 
a acelerar o processo com uma carta. Apesar do que você possa 
pensar de mim, quero você segura e em um lar estável. Se eu 
tivesse escolhido alguém além de Blythe, essa oportunidade 
teria sido perdida. 
Signa digeriu a informação, sem saber em que acreditar. Ele 
não parecia estar mentindo, mas, novamente, ele era Morte. 
Provavelmente foi ele quem inventou a trapaça. 
— Lillian está esperando por mim. — Ela se virou para os 
portões do jardim. — Lá, dentro do jardim. — O jardim 
fechado. 
— E como você pretende entrar? — Mais uma vez, a 
diversão mais irritante surgiu em sua voz. — Subir pela hera? 
Acho que vou gostar de assistir isso. 
Signa o ignorou. Se o que ele disse fosse verdade e ela 
realmente pudesse possuir seus poderes, então havia um jeito. 
Se ele pudesse se tornar incorpóreo – se ela pudesse se tornar as 
próprias sombras – o que a estava impedindo? Sua única 
hesitação era que ela não tinha certeza de como usar tais 
poderes. Na noite em que ela matou tia Magda, ela não 
pretendia fazer nada com a mulher, mas mantê-la longe. 
— Você pode atravessar paredes? — Signa perguntou, 
embora achasse que já sabia a resposta. 
— Eu posso passar por qualquer coisa — veio a resposta de 
Morte, a voz se erguendo com intriga. 
— Então, se eu quisesse atravessar o portão do jardim… 
— Você simplesmente teria que convocar o poder, deixar 
clara sua intenção e fazê-lo. 
— E o meu corpo? — ela perguntou. — Permanecerei 
inteiro ou me transformarei em espírito? 
A risada da morte foi um estrondo baixo que sacudiu o 
chão. 
— Você permanecerá totalmente a mesma. Você só precisaestar aqui comigo, do outro lado do véu. Por que você não 
tenta? 
Não era como se ela tivesse outra escolha. 
Respirando fundo pelo nariz, Signa tentou reunir seus 
poderes – o que parecia ridículo, considerando que ela não 
conseguia sentir nada e ainda meio que acreditava que isso era 
tudo uma mentira inteligentemente inventada – e correu direto 
para as grossas barras de ferro da porta do jardim. 
Para sua surpresa, ela não bateu de cabeça no portão. Mas 
ela também não passou por elas. Pelo menos não inteiramente. 
As árvores estremeceram e a terra tremeu quando a risada da 
Morte estremeceu através dos ossos de Signa. Ela nem tinha 
certeza se ele poderia fazer tal som, embora ao ouvi-lo, ela sentiu 
o calor subindo por suas bochechas. Pois ela estava presa no 
portão do jardim, a metade da frente dentro do jardim e a 
metade de trás ainda com a Morte. 
Parecia que havia algo duro dentro dela. Metal frio e 
cortante que ralou contra suas entranhas. Suas mãos tremiam 
com o erro de tudo, como se ela tivesse sido serrada em duas 
partes. 
— Esqueci de mencionar — Morte acrescentou com sua voz 
clara de prado, — se seus poderes são os mesmos que os meus, 
então nossas habilidades estão centradas na intenção. Você 
pode fazer o que quiser, mas se duvidar de si mesmo por um 
segundo... Bem. — Ele riu novamente, e Signa não pôde deixar 
de notar que as estrelas piscavam com o som, como se também 
a achassem ridícula. 
Quanto poder, ela se perguntou, Morte tinha? Quanto 
poder ela tinha? 
Signa apressou-se a enfiar várias outras frutas na boca, não 
querendo descobrir o que poderia acontecer se ela voltasse a ser 
totalmente corpóreo neste estado - ou talvez pior, descoberto 
por Sylas. 
— Você vai me ajudar — ela sussurrou —, ou vai 
simplesmente ficar aí e continuar rindo, seu monte de sombra 
inútil? 
Lentamente, o riso da Morte cessou. 
— Vamos, Passarinha. Você só precisa pedir ajuda, e ela será 
sua. 
Aborrecimento ferveu dentro dela, transbordando. 
— Apenas me tire daqui antes… 
— Antes que suas frutas diminuam e você seja totalmente 
mortal novamente? Ou antes que aquele garoto te encontre 
assim? — Embora Signa não pudesse vê-lo, ela se acalmou com 
o roçar de sombras que esfriou sua pele. — Ninguém se atreveu 
a falar comigo da maneira que você fala. Por que você é tão 
educada com os outros? Tão recatada e suave, e ainda tão 
otimista quando falamos? Peça-me gentilmente, Signa Farrow. 
Ela revirou os olhos. 
— Talvez seja porque sempre que você está por perto, 
alguém sempre acaba morto. — Mas havia mais do que isso. 
Talvez fosse porque Morte não pudesse existir, porque ele não 
deveria existir, e Signa não estava totalmente convencida de que 
ele não fazia parte de sua própria imaginação. Alguém que ela 
manifestou em sua solidão, como forma de explicar as coisas 
estranhas que aconteciam ao seu redor. 
Ou talvez fosse porque Morte era real, e perto dele Signa 
ficava muito confortável. Com todas as suas pretensões 
perdidas, suas palavras se tornaram mais afiadas e venenosas. 
Possivelmente, era porque não havia necessidade de 
impressioná-lo. Não há necessidade de graças sociais e duvidar 
de cada pensamento e ação dela. Com ele, não havia 
fingimento. Talvez isso fosse simplesmente quem ela era. 
— Você tem me observado? — ela perguntou. 
— Acho que você faz o tempo passar mais rápido. Caso 
contrário, eu fico entediado e cansado, e quem mais pode me 
insultar? — Sua resposta a surpreendeu – Tão descarada, tão 
ousada. 
Ela odiava como isso a deixava nervosa. 
— Considerando que você me acha tão fascinante, é melhor 
você me ajudar com isso antes que eu solidifique e sangre 
internamente pelas barras de ferro que estão perfurando meus 
órgãos. — A morte esperou, quieta e paciente e 
significativamente mais divertida do que deveria, até que Signa 
acrescentou amargamente um — Por favor. 
— Ah, isso é melhor. Fico feliz em ver que você está 
aprendendo. — Ele estava diante dela então, sombras chegando 
até ela. Alcançando... Uma mão? Signa nunca tinha visto nada 
remotamente humano sobre a Morte, mas era de fato uma mão 
envolta em sombras. Uma mão que hesitou no ar por um 
momento antes de seus dedos se enrolarem ao redor dos dela. 
A vida ao redor deles parou, tomando fôlego. 
E o mundo exalou novamente quando Morte a puxou para 
o jardim. 
Treze 
 
O jardim não estava tão morto como Signa esperava. 
A primeira coisa que ouviu ao entrar foi o barulho silencioso 
da água, acompanhado por um coro de sapos coaxando. O solo 
era rico e maduro para o outono, com abundância de acônito, 
crisântemos alaranjados e vermelhos perfumados, amores-
perfeitos com um roxo profundo que sangrava em suas pétalas 
amarelas, hamamélis florescendo e dezenas de plantas 
impressionantes que ela nunca tinha visto antes. Em frente a 
eles havia fileiras de ervas amarronzadas e não colhidas e, mais 
atrás, arbustos de erva-moura. Embora abandonado, o jardim 
não parecia descuidado como o de tia Magda. Brilhante ao sol 
poente, este jardim parecia vivo e selvagem com magia. 
Signa tentou imaginar como seria durante um dia quente de 
verão, do jeito que Lillian teria gostado com o canto dos 
pássaros e o zumbido suave dos insetos enquanto ela se deitava 
na grama, tomando sol. Ou talvez fazendo um piquenique. 
Lilian, Lilian, Lilian. O nome zumbiu no ar como se o 
jardim estivesse abrindo caminho para ela, conduzindo Signa 
adiante. 
 — Foi uma morte pacífica? — Era semelhante à pergunta 
que Signa havia feito a Sylas. Desta vez, porém, ela foi direto à 
fonte. 
A morte permaneceu ao lado dela, e a tensão formigava o ar. 
— Apesar do que você parece pensar de mim, eu não sou 
um monstro. Embora a dor nem sempre possa ser evitada, tento 
tornar a morte pacífica quando posso. Eu não posso levar todos 
em seu estado mais feliz, mas eu tento. 
Para sua surpresa, descobriu que acreditava nele. 
— Então, e quanto a Lilian? 
— Não me lembro de todas as vidas, Passarinha, pois há 
muitas, e não posso lhe dizer muito. O que eu sei é que este era 
seu lugar favorito no mundo, e que ela está enterrada nos 
fundos, perto do lago. Devo levá-la até ela? 
Signa estremeceu. 
— Por favor, faça. 
A morte conduziu Signa pelo jardim como se ele tivesse 
viajado para lá centenas de vezes antes. Enquanto seguia, ela se 
perguntou há quanto tempo Lillian estava doente. Quantas 
vezes ela esteve tão perto da porta de Morte que ele se sentou 
neste jardim com ela, esperando para ver se ela finalmente o 
chamaria? 
Embora verde de algas, o lago fervilhava de vida. Era um 
lugar suave, com folhas de bordo caídas e lírios brotando na 
margem. Pequenos sapos marrons se enterravam no solo 
úmido ou se escondiam entre os seixos que o revestiam. Na 
água havia pequenos peixinhos, e de frente para o lago havia 
dois bancos de carvalho, ambos cobertos de musgo úmido. 
Atrás dos bancos, enfiado na parte de trás, estava a sepultura 
repleta de mais musgo e um buquê podre. 
— Tenha cuidado ao falar com Lillian. — A voz da Morte 
havia perdido toda a pitada de diversão. — É preciso muita 
energia dos espíritos, então eles não costumam se comunicar 
com os vivos. Se um espírito está com raiva o suficiente, porém, 
ele pode tentar possuí-la. 
Nunca antes Signa soube que isso era possível. Então, 
novamente, ela nunca conheceu um espírito tão malévolo 
como Lillian. Ela teve que se recompor, levando alguns 
segundos antes de fechar o espaço entre ela e o túmulo. A 
caminho dela, ela arrancou um dos lírios do caule e 
cuidadosamente o colocou ao lado do buquê murcho. 
— Você me disse para vir — sussurrou Signa, batendo a mão 
no solo. — Aqui estou, Lilian. Venha e me diga o que você 
quer. 
Seu coração acelerou quando o frio inundou sua pele como 
mil agulhas a esfaqueando. A bile queimou sua garganta. 
Quando ela olhou para cima, Lillian estava flutuando na 
beira da água. 
Sua boca não era mais um buraco negro escancarado; seus 
lábios estavam cheios agora, e em forma de coração.Estava 
coberto de bolhas e feridas, e Signa tinha certeza de que a língua 
da mulher ainda seria uma massa carnuda de carne podre se ela 
tentasse falar, mas no final das contas, ela parecia mais humana. 
Supondo que os humanos pudessem brilhar em branco 
azulado e pairar acima do solo. 
Morte deu um passo à frente, oferecendo a mão ao espírito, 
mas ela se afastou de seu toque como se fosse veneno, resistindo 
ao seu chamado. Sua oferta de vida após a morte. 
— Você não pode simplesmente levá-la? — Signa 
perguntou, e Morte endureceu, como se a sugestão por si só 
fosse vergonhosa. 
— Eu não farei tal coisa contra a vontade dela. Ela virá 
quando estiver pronta. — Ele inclinou a cabeça e, com isso, 
recuou para suas sombras. 
Quando eram apenas as duas, os lábios de Lillian se 
curvaram em um sorriso fino. Mas seus lábios estavam muito 
rachados e em carne viva para lidar com o movimento, e uma 
das feridas se abriu, escorrendo um rastro de sangue preto pelo 
queixo. Se o espírito notou, ela não se importou. 
Signa estava feliz que nenhum dos Hawthornes pudesse ver 
Lillian assim. Tudo nela era um lembrete de que os mortos não 
pertenciam ao mundo dos vivos. Lillian aterrorizaria até 
mesmo aqueles que mais a amavam. 
— Lillian — Signa sussurrou. Se o espírito não fosse capaz 
de usar palavras, elas precisariam manter isso simples. — Você 
percebe que está morta? 
Pela experiência dela, muitos espíritos nunca reconheceram 
esse fato e continuaram agindo como se ainda estivessem vivos. 
No entanto, para sua surpresa, Lillian assentiu. 
Bom. Este foi um bom começo. 
— Os médicos disseram que era uma doença. Você ficou 
doente por muito tempo? 
O rosto do espírito se contorceu, uma mudança sombria em 
seu comportamento. Ela flutuou até o túmulo e se abaixou até 
a hera que cobria o chão, pegando um pedaço dela com as duas 
mãos. Olhando para Signa sob os cílios iridescentes, Lillian 
nem piscou enquanto o rasgou em pedaços, até que os 
músculos da garganta de Signa se contraíram. 
— Morte — Signa chamou, embora ela nunca tirou os olhos 
de Lillian. — Você sabe como Lillian morreu? Você viu a 
doença? 
Ele tomou forma, encostado em uma árvore, e respondeu 
com um tom que não dizia nada. 
— Receio não saber nada mais do que ela. 
Ele foi de grande ajuda. Ela gemeu, tentando acalmar seu 
coração acelerado enquanto Lillian continuava rasgando a 
hera, então olhou um seixo perto de seu túmulo. Lillian 
agarrou-o e com mãos trêmulas esculpiu uma única palavra na 
terra, a escrita tão confusa que mal era legível: matar. 
Tão reconfortante foi a palavra que precisou de cada grama 
de determinação que Signa tinha para se manter firme mesmo 
quando sua mente a incitava a correr. 
— Você... matou alguém? — ela perguntou, ao que Lillian 
fez uma careta. O espírito apontou para as feridas em seus 
lábios, depois para si mesma, e Signa engasgou quando 
percebeu. 
Se Lillian estava dizendo o que Signa achava que ela era... a 
situação ia mudar muito e ser muito mais complicada do que 
Signa queria. Parte dela ansiava por se virar e escapar agora, 
antes que eles fossem mais longe. Antes que ela aprendesse um 
segredo que ela não se importava em aprender. 
Mas Signa não conseguiu se afastar. Não conseguia fazer 
seus pés se moverem, mesmo que ela quisesse. Então, em vez de 
fugir, ela se forçou a perguntar: 
— Lillian, você está tentando me dizer que foi morta? 
Jogando a pedra, Lillian virou-se para Signa com um aceno 
fervoroso. Imediatamente, Signa começou a juntar as peças. A 
morte súbita, as visitas médicas fracassadas, o espírito raivoso e 
agora… 
— Blythe. Está acontecendo de novo, não é? O que quer 
que... quem quer que tenha te matado está de volta para sua 
filha. Isso está certo? 
Lillian piscou para longe, então reapareceu ao lado de um 
pequeno arbusto de frutas no lado oposto do jardim. 
Signa correu em sua direção e abriu o punho, onde ainda 
segurava um pequeno punhado de frutas, agora meio 
esmagadas nas palmas das mãos. Ela os estendeu na direção de 
Lillian, cujos olhos ficaram pretos quando Signa perguntou: 
— Veneno? Você acha que foi envenenado? 
O espírito de Lillian balançou com uma contração violenta. 
Reprimindo seu tremor, Signa se atreveu a acrescentar: 
— Foi por alguém em Thorn Grove? 
Outro estremecimento violento. As feridas nos lábios de 
Lillian infeccionaram, passando de roxo a um preto vicioso 
antes de se abrirem com o sangue que escorria de seus lábios, 
descia pelo queixo e sujava a parte superior de seu vestido. Seu 
corpo estremeceu, a cabeça balançando em um aceno furioso e 
aterrorizante. 
— Quem? — Signa exigiu quando os olhos de Lillian 
brilharam. — Foi um dos cozinheiros? Uma empregada? O 
tutor? Era alguém em quem você confiava? 
— É o suficiente! — A morte estava lá ao lado de Signa, suas 
sombras a consumindo, puxando-a de volta. — Não pressione 
os mortos, Signa. Ela não sabe. 
Seu aviso veio tarde demais. O pescoço do espírito se curvou 
e estalou enquanto ela o empurrava de uma direção para outra, 
tremendo, balançando a cabeça, torcendo-se. O sangue jorrou 
da boca de Lillian, e o luar pegou a polpa de sua língua desfiada 
quando ela jogou a cabeça para trás e gritou um som tão 
estridente e áspero que fez Signa cair de joelhos. O vento 
açoitava a água do lago e jogava os sapos coaxantes nas árvores, 
manchando os galhos limpos com seu sangue. 
A morte estava diante dela, suas sombras como armaduras 
bloqueando-a da carnificina. 
— O que está acontecendo? — Signa rangeu as mãos, 
apertando os ouvidos com força enquanto tentava ver ao redor 
dele. 
— Você foi longe demais. — A escuridão se expandiu ao 
redor deles, criando uma barreira. — Espíritos rebeldes não são 
feitos para relembrar seus momentos finais. Você nunca sabe 
como eles podem reagir. 
Signa se inclinou nas sombras para ver Lillian chegar no 
fundo de sua própria garganta e agarrou o monte horrível que 
era sua língua. Ela cravou as unhas sujas e manchadas de terra 
nele, arrancando pedaços de carne. Ela jogou os montes 
ensanguentados no chão e depois foi para outro, como se 
tentasse remover sua própria língua em sua totalidade. 
Mas então o vento acalmou, e o pescoço de Lillian torceu de 
volta ao seu devido lugar. Seus olhos se voltaram para Signa, 
para os pedaços de sua língua que já estavam desaparecendo. 
Para as árvores manchadas de sangue onde vários sapos jaziam 
empalados. 
Ela olhou para a Morte então, e lágrimas inundaram seus 
olhos, negras e sangrentas. 
E então Lillian se foi, e a estática no ar se seguiu. 
Morte retraiu suas sombras ao redor dela enquanto Signa se 
agarrava à árvore mais próxima e vomitava. Havia uma frieza 
em seu corpo que ela não conseguia reprimir, e suas mãos 
tremiam enquanto ela as pressionava contra o tronco para se 
firmar. Fora do jardim, Mitra relinchou ao som de outro par de 
cascos ao longe. 
— É hora de ir — foi tudo que a Morte disse enquanto 
segurava o ombro dela, puxando Signa de pé e de volta pelo 
jardim. 
— Você sabe quem fez isso? — As palavras saíram dela, um 
pouco arrastadas. 
— Se eu soubesse, diria a você. Não sou onisciente, Signa. 
Quando toco uma pessoa, vejo vislumbres da vida que ela 
viveu. Mas eu só sei o que eles sabem e, embora Lillian suspeite 
de um crime, ela não sabe quem está por trás disso. — Gundry 
pateou do lado de fora do portão. Ele parou de cheirar 
imediatamente e olhou para cima, a língua pendendo para fora 
quando viu Signa tropeçar pelo portão. Ele olhou para a Morte 
também, e seu rabo começou a abanar. 
— Ele pode ver você? — Depois de tudo que ela tinha visto 
naquele dia, ela não tinha certeza por que era tão 
surpreendente. Ela já tinha visto espíritos interagindo com 
animais antes, mas Morte sempre pareceu um passo além disso. 
Como alguém que nem deveria ser real. 
— Todos os animais podem me ver — disse Morte, dando 
um tapinha na cabeça do cão. Ela quase pensou que podia ver 
uma sugestão de sorriso espreitando de suas sombras, masquando Signa piscou novamente, ele se foi. 
Havia tanto. Tanto que ela não sabia. Tanta coisa 
acontecendo que ela mal conseguia processar. 
Ela tinha os poderes de Morte. 
Lillian foi assassinada. 
E agora, para salvar Blythe, cabia a Signa descobrir quem 
tinha feito isso. 
Quatorze 
 
Sylas encontrou Signa encostada em Mitra, segurando as rédeas 
para se manter de pé. O cabelo de Sylas estava despenteado e 
salpicado de galhos, como se ele tivesse caído nos arbustos. 
Abaixo dele, Balwin parecia encantado e nem um pouco sem 
fôlego. 
— Senhorita Farrow! — Sylas exalou uma respiração 
aliviada. — Você não deveria ter saído assim! 
— Não é minha culpa que você não conseguiu acompanhar 
— ela conseguiu. Ela enxugou a boca com o antebraço e 
respirou fundo o ar frio, deixando-o inundar seus pulmões e 
esfriar sua pele. Ela não tinha percebido antes que interagir com 
um espírito lhe custava tanto, mas como era, ela mal conseguia 
levantar as mãos. Ela não podia mais sentir Mitra ali ao lado 
dela, segurando-a. Ela não podia mais sentir nada. 
— Signa? — A voz de Sylas estava fraca. — Você está 
doente? 
— Sim — ela conseguiu dizer. — Eu acredito... eu acredito 
que devo ter comido alguma coisa ruim. — Ela não conseguia 
parar de tremer, não conseguia parar a pressão do frio dentro 
de seus ossos. Não conseguia pensar em nada além de como eles 
precisavam se apressar porque o assassino de Blythe estava à 
solta em algum lugar dentro de Thorn Grove. 
Signa gemeu quando Sylas a puxou para cima de Balwin. Ela 
teve vontade de protestar quando os braços dele envolveram 
sua cintura para prendê-la na frente dele na sela, embora ela mal 
pudesse ver direito. Ela tentou não vacilar com seu toque. 
Tentou aceitar a ajuda e se permitiu lembrar que não podia 
machucar ninguém agora que a belladonna havia desaparecido 
de seu sangue. 
— Se você vai por suas tripas para fora — ele a avisou —, 
certifique-se de que não seja nas minhas botas. 
Ela não prometeu. Parecia que alguém tinha pegado um 
taco de críquete e a espancado na têmpora. Seu estômago 
ameaçou esvaziar-se a qualquer momento, e embora Sylas 
tivesse tirado sua capa e a colocado sobre ela, ela não conseguia 
parar de tremer. 
— O que aconteceu com você? — Por mais gentis que 
fossem suas ações, a voz de Sylas tinha um tom duro. — Você 
fica doente assim com frequência, ou apenas quando 
desaparece para brincar na floresta? 
— Eu dificilmente chamaria isso de brincadeira — Signa 
rebateu, enrolando os dedos na capa oferecida. — E não, isso 
não acontece com frequência. Acho que vi alguma coisa na 
floresta. — Ela decidiu colocar um pedaço de verdade em sua 
próxima declaração, apenas o suficiente para soar um pouco 
confuso. — Parecia que algo na floresta estava me chamando. 
Com o peito dele contra as costas dela, ela podia sentir o 
corpo dele ficar tenso contra o dela. Suas bochechas se 
aqueceram, e ela tentou não pensar na inadequação desta 
situação ou quão fortes eram suas coxas ao redor dela, e em vez 
disso pensou em como ele não parecia estar respirando. 
— Algo está errado? 
— Não é nada que você deva se preocupar… 
— Eu posso julgar isso por mim mesma — ela o cortou, 
sentindo-se corajosa com Sylas de uma forma que ela não 
costumava ser. — Seja o que for, me diga. 
Houve um momento em que o único som era o estalar das 
folhas sob os cascos dos cavalos. Signa se virou para olhar para 
ele, e quando seus olhos esfumaçados encontraram os dela à luz 
fraca do luar, sua boca ficou seca. 
Tudo sobre este homem a deixou nervosa quando eles se 
conheceram. Agora, no entanto, as coisas eram 
frustrantemente o oposto. Sua atenção caiu para a túnica que 
estava enrolada em seus braços, para seus ombros largos, para 
baixo do decote profundo que revelava um vislumbre de seu 
peito... E então ela desviou os olhos como a jovem adequada 
que ela era e fingiu que não deixou sua pele quente ao mesmo 
tempo que a fez querer esmurrá-lo. 
Sylas, felizmente, não pareceu notar sua luta. 
— Há rumores sobre Thorn Grove. — Seu sussurro era tão 
enervante quanto a floresta escura que os cercava. — Rumores 
que eu queria te contar no dia em que te peguei, mas não sabia 
como. Se você tivesse outro lugar para ir, eu poderia ter dito. — 
Eles tiveram que se abaixar sob os galhos que os arranhavam, e 
quando um deles ameaçou rasgar a manga de sua capa 
emprestada, ele parou para ajudá-la a desembaraçá-la com 
dedos hábeis. No momento em que foi libertada, ela balançou 
para frente na sela e limpou a garganta. 
— Você estava dizendo? — Ela só podia rezar para que sua 
pele não estivesse rosada. 
Ele franziu a testa um pouco, mas continuou, no entanto. 
— Eu estava dizendo que, à noite, os criados dizem que 
podem ouvir uma mulher chorando. Alguns se recusam a vagar 
pelos corredores depois de escurecer, pois há sussurros de um 
fantasma. Uma mulher loira de vestido branco, observando-os 
em um momento e desaparecendo no outro. E Mestre 
Hawthorne… Ele é o pior. Acho que ele a ouve também. Acho 
que é por isso que ele não dorme, não come, não faz mais nada. 
— Além de saraus — acrescentou Signa. Os mais luxuosos e 
ousados que ela já tinha ouvido falar. 
— Para abafar o som de seus gritos, eu imagino — Sylas 
defendeu. — Para mantê-la afastada e esquecer. Conheço os 
Hawthornes há muito tempo e garanto que ele nem sempre foi 
assim. 
Eles sabiam sobre o espírito de Lillian, então. Eles podem 
não ter sido capazes de vê-la, mas eles sabiam que ela estava lá. 
O corpo de Signa caiu contra o dele quando ela soltou um 
suspiro. Ela estava tão aliviada que, se tivesse energia, teria 
jogado os braços em torno de Balwin e o beijado entre os olhos. 
A Morte lhe dissera que havia pessoas que podiam ver 
vislumbres por trás do véu dos vivos. Embora eles 
provavelmente não pudessem ver Lillian como ela podia, eles 
sabiam que estavam sendo assombrados. Se alguém suspeitasse 
de Signa de ver o espírito de Lillian, eles não piscariam. A sorte, 
ao que parecia, finalmente decidiu fazer algum favor a ela. 
— E você? — Ela estava se tornando confortável demais 
contra Sylas, mas não podia fazer nada sobre isso enquanto a 
exaustão afundava em seus ossos. — Você acredita em 
fantasmas, Sr. Thorly? 
— Não me tome por um tolo, Srta. Farrow. Em um lugar 
como Thorn Grove, como não poderia? 
As palavras eram como música de fadas; Signa nunca tinha 
ouvido nada tão doce. 
— Então você vai entender quando eu disser que fui forçada 
a sair da propriedade e entrar na floresta esta noite. 
— Seja qual for o seu motivo, você precisa ser mais 
cuidadosa. Você não parou de tremer desde que te encontrei. 
— Ele ajustou a capa que tinha jogado ao redor dela para dar 
ênfase. — Se for descoberta que isso aconteceu e que eu não 
denunciei, vou perder meu emprego. Minha lealdade não é 
com você, mas com meu patrão. Então, se você quer que eu 
corra esse risco, terá que me dar uma boa razão. 
Signa desejou que seu cérebro criasse uma história tão crível 
e tão magistralmente contada que ela seria capaz de escapar da 
situação, mas suas têmporas doíam e sua boca queimava com o 
desejo de apenas dizer isso. Para contar a outra pessoa o que 
estava acontecendo, para que ela não tivesse que fazer isso 
sozinha. Havia algo em Sylas e na maneira como ele falava – tão 
factual e direto – que fez Signa sentir como se ele pudesse 
acreditar nela. Foi pela mesma razão que, ao redor dele, suas 
pétalas se abriram um pouco. Ela tinha sido capaz de falar o que 
pensava para ele sem que ele fugisse. Sem mencionar que Sylas 
já havia admitido acreditar que o espírito de Lillian estava 
assombrando a propriedade Hawthorne. 
A respiração que ela deu foi tão forte que Mitra abanou as 
orelhas. 
— Se eu contar — sussurrou Signa —, você deve jurar não 
contar a outra alma. 
Sylas, ao que parecia, era tão dominado por sua curiosidade 
quanto Signa. Com um sorriso na voz, ele se inclinou para ela e 
disse: 
— Eu prometo. 
— Para ninguém? Não importa se vocême acha ridícula? 
— Eu já acho que você é ridícula — ele meditou antes de 
Signa se virar e encará-lo com um olhar. — Tudo bem, sim, eu 
concordo em não contar a um única alma nesta terra, seja o que 
for que você tem a dizer. Agora, você vai continuar com esse 
suspense? Diga logo. 
— Eu queria encontrar o túmulo dela. 
Ele a encarou brandamente. 
— Você está fascinada com o macabro, Srta. Farrow? 
Não havia uma maneira simples de dizer isso. Signa fez a 
única coisa que podia – endireitou os ombros e disse: 
— Tenho motivos para acreditar que Lillian não morreu de 
causas naturais. Que ela foi assassinada, e se nós não 
descobrirmos quem fez isso, Blythe vai morrer também. 
Por um longo tempo, o pio distante de uma coruja foi sua 
resposta singular. Signa se encolheu enquanto ouvia, esperando 
enquanto cruzavam os pântanos que Sylas fugisse para o 
médico mais próximo e pedisse que ela fosse levada. Para sua 
surpresa, porém, a primeira coisa que ele perguntou foi: 
— Nós? 
Signa passou os dedos pela crina de Balwin. Ela não queria 
dizer isso, mas agora que ela tinha... Estava ficando claro que 
esta era uma situação maior do que qualquer coisa que ela 
pudesse lidar sozinha. Ela precisava de ajuda, e Sylas conhecia 
Thorn Grove. Ele sabia sobre os Hawthornes e tinha acesso aos 
funcionários de uma forma que ela nunca teria. Ele poderia 
ajudar. 
Ela foi poupada de ter que responder até que eles chegassem 
aos estábulos. Enquanto ele a ajudava a sair de Balwin, ela 
pegou Sylas pela mão. Ele estremeceu e, por um momento, 
Signa temeu que os efeitos da belladonna ainda fossem 
potentes. Que talvez ela ainda tivesse acesso a seus poderes e 
tivesse roubado sua vida. Mas ambos usavam suas luvas, e ele 
estava piscando para ela com olhos escuros e curiosos. 
— Eu preciso que você me diga tudo o que sabe sobre os 
Hawthornes — ela insistiu, percebendo que sua excitação 
ficava cada vez maior quando Sylas se inclinou para pressionar 
rapidamente um dedo em seus lábios, o toque íntimo o 
suficiente para que sua boca ficasse seca. 
— Senhorita Farrow, eu trabalho nos estábulos. — Ele 
olhou para trás dela, assegurando-se de que ninguém estava 
olhando enquanto a puxava para dentro. — Não é minha 
função fofocar sobre aqueles que me pagam… 
— Eu vi suas botas, Sr. Thorly. Eu vi a maneira como você 
se veste, e é evidente para qualquer um que olhe para você que 
você quer ser mais do que um cavalariço. — Algo em seus olhos 
brilhou. Algo em que Signa se agarrou e empurrou. — Imagine 
o que poderia acontecer se você salvasse Blythe. Se você acabar 
com as assombrações de Lillian e der paz de espírito a Elijah. Se 
você entrar nos estábulos depois disso, será para montar seu 
próprio cavalo. Você nunca mais terá que trabalhar. 
Sylas desfez as rédeas e as selas dos cavalos, e sua testa 
franzida disse a ela o quanto as engrenagens em sua cabeça 
estavam girando. 
— Se você for descoberto e demitido por qualquer motivo 
— ela acrescentou para adoçar o acordo —, eu mesma o 
empregarei no momento em que reivindicar minha herança. 
Use sua posição para me ajudar, Sr. Thorly. Seja meu 
confidente, seja meu ouvido, e seu futuro será muito mais do 
que trabalhar nos estábulos. 
— Você tem uma língua esperta — ele respondeu. Com os 
cavalos presos em suas baias e seus equipamentos guardados, 
ele se apoiou em cima de um fardo de feno e perguntou: — 
Você me pagaria do seu próprio bolso para ajudá-la a resolver 
um assassinato para uma família que você acabou de conhecer? 
— Os Hawthornes foram gentis comigo — disse ela, apesar 
de seu escrutínio, olhando para a pequena cicatriz em sua testa. 
— Além disso, não é como se eu estivesse querendo dinheiro. 
Sua risada foi pouco mais do que um suspiro confuso. 
— Suponha que você tem um ponto. Muito bem, então. 
Você tem um acordo, Srta. Farrow. 
Ela tentou não deixar sua surpresa aparente. Ela sempre 
soube que o dinheiro tinha poder. Era tudo neste mundo. No 
entanto, esta foi a primeira vez que ela experimentou por si 
mesma o quanto isso valia. Ela se permitiu um pequeno 
momento para relaxar os ombros e sentir seu alívio pelo fato de 
que ela não estaria mais sozinha nisso. Ela sabia muito pouco 
sobre os Hawthornes e tinha muito pouco tempo para lidar 
com isso sozinha. Ela precisava de alguém como Sylas, e havia 
muito para ele ganhar também. Dinheiro sempre foi o que as 
pessoas queriam dela, e se era isso que precisava para conseguir 
sua ajuda, então que assim fosse. 
— Diga-me tudo o que você sabe — ela o incitou 
novamente. — Existe alguém que não gostou de Lillian? 
— Havia uma sociedade inteira que não gostava de Lillian. 
— Ele passou a mão pelo cabelo, escuro como a noite. — Você 
mesmo viu a riqueza da família. E aposto que você já viu o que 
o ciúme e a ganância podem fazer com um ser humano. As 
pessoas não precisavam conhecê-la para não gostar dela. 
Com grande amargura, ela pensou no que havia acontecido 
com seus pais, depois em todas as maneiras como seus 
guardiões a trataram ao longo dos anos. Embora sua amiga 
Charlotte tivesse feito o tempo que ela passou com seu tio cheio 
de boas lembranças, quanto mais velha ela ficava, mais ela 
pensava em quantas vezes ele a deixou sozinha. Sobre como ele 
usaria o dinheiro destinado a cuidar dela em roupas importadas 
e presentes luxuosos para suas amantes. Ela passou a maioria 
das noites trancada em seu quarto, tentando abafar os ruídos 
estranhos dos convidados que ela nunca teve permissão para 
ver. 
Só a avó de Signa a amara de verdade, enquanto os outros 
ansiavam apenas por sua fortuna. Alguns deles tinham sido 
decentes o suficiente para mantê-la alimentada e aquecida, mas 
ela nunca se sentiu como uma pessoa para eles. Nunca sentiu 
nada além de uma garota invisível arrastando uma quantia 
considerável atrás dela. 
Vendo a resposta em seu rosto, Sylas assentiu. 
— Lillian era uma mulher maravilhosa, mas os Hawthornes 
sempre serão um alvo, não importa quão gentis sejam. Há 
pessoas que matariam por dinheiro, Signa. Pessoas que vão 
transformar mentiras em palavras doces e sorrisos ainda mais. 
Você seria sábia se lembrasse disso. 
Ela duvidava que isso fosse um problema. Houve 
momentos em sua vida que estranhos mostraram sua bondade, 
certamente. Até que a vissem conversando com um espírito ou 
ouvissem os rumores e fugissem. Mesmo quando ela tinha sua 
herança, ela não podia imaginar isso mudando a menos que ela 
conseguisse um marido adequado e fizesse um nome para si 
mesma na sociedade. 
Poderia? 
— Se o que você está dizendo é verdade — disse Signa —, 
então por que eu deveria confiar em você? Você concordou em 
receber meu dinheiro rápido o suficiente. 
Sua resposta foi simples. Inabalável. 
— Você não deve confiar em ninguém além de si mesma, 
Srta. Farrow. Mas pelo bem de Blythe, eu vou te ajudar. Antes 
de mais nada, precisamos levá-la de volta a Thorn Grove sem 
levantar suspeitas. — Sylas se levantou e ofereceu sua mão 
enluvada. 
Com os ombros tensos, Signa aceitou. Ele a levou para uma 
baia onde seu cão, Gundry, estava enrolado no feno. O cão 
rosnou quando Sylas o chamou de lado e se inclinou para tirar 
vários fardos de feno do caminho. Signa não pôde deixar de 
notar a contração dos músculos das costas enquanto 
trabalhava, aproveitando sua distração como uma 
oportunidade para observar o físico masculino. Ela encontrou 
seu interesse nele despertando cada vez mais 
— Pressione sua mão contra esse painel. — Havia um muro 
de pedra escondido atrás de onde o feno estivera. Signa seguiu 
suas ordens e apertou a pedra. Ele clicou e mudou sob sua mão. 
— Agora vire — disse ele. 
Quando ela o fez, a parede se abriu para revelar um caminho 
banhado em escuridão. Sem luzes, sem som, apenas um 
rascunho e um labirinto sem fim à frente. 
Sylas agarrou uma lamparina a óleo em uma das bancadas 
do estábulo. Gundry levantou-se, espreguiçou-se com um 
bocejo e caminhou até o lado de seu mestre. 
— Alguém lhe mostrou os túneis em ThornGrove? 
Enquanto Sylas ergueu a lâmpada, Signa olhou para o nada 
diante dela. Os pelos de seus braços se arrepiaram. 
— Nunca. Para onde eles levam? 
— Esses? Para a despensa da cozinha — Sylas respondeu. — 
Embora eu tenha certeza de que há mais uma dúzia de 
caminhos, conheço apenas alguns. Eu não acredito que eles 
sejam usados mais, mas este era para ser uma rota de fuga para 
os servos em caso de incêndio na cozinha. Há outros que os 
criados costumavam manter fora da vista dos que moravam na 
mansão. Os túneis são escuros, mas eles vão te levar para dentro 
da propriedade sem ser detectada. Se alguém a encontrar saindo 
da cozinha, diga que você estava perambulando pela 
propriedade e se perdeu, e se viu precisando de um lanche tarde 
da noite, já que perdeu o jantar. 
— Agora — ele se abaixou sob a entrada e entrou no túnel, 
estendendo a mão — você confia em mim para acompanhá-la? 
As palavras pareciam uma armadilha. Sylas a avisou para não 
confiar nele. Não confiar em ninguém. E ainda assim ela o 
alcançou, ansiosa para sentir o roçar de sua mão sobre ela mais 
uma vez. 
— Nem um pouco. 
— Muito bem, Srta. Farrow. Agora vamos indo. — Seus 
dedos se curvaram ao redor dos dela, e ele a puxou para dentro 
dos túneis. 
 
De acordo com Sylas, as festas em Thorn Grove não eram raras. 
— Ela adorava poucas coisas mais do que companhia e um 
motivo para comemorar — disse ele enquanto davam passos 
lentos e cautelosos pelos túneis. A maneira como ele falou de 
Lillian fez Signa imaginar alguém muito maior do que o 
espírito fantasmagórico que ela encontrou. Isso a fez pensar em 
como ela imaginou sua própria mãe – como alguém feito para 
os holofotes. O tipo de mulher que ganhava vida sob o brilho 
das luzes e da música. Alguém cujo corpo foi feito para usar um 
vestido de baile e cujo sorriso encantou a todos que o viram. 
Isso tornou mais fácil acreditar em Sylas quando ele disse 
que todos que conheceram Lillian se apaixonaram, e que Elijah 
não era diferente. 
— Há rumores de que ele nem sempre foi conhecido por 
seu cavalheirismo, ou por ser um homem que pertencia a 
apenas uma mulher — ele sussurrou. —, isso mudou quando 
ele conheceu Lillian. 
— O assassino poderia ser uma de suas ex-amantes 
desgastadas? — Signa apertou os olhos, usando o brilho fraco 
da lâmpada que Sylas segurava para ver para onde ela estava 
indo. 
— Pode ser. — Ele levantou a lâmpada mais alto, tentando 
espalhar melhor sua luz. — Ouvi dizer que o irmão de Elijah 
favoreceu Lillian também, embora era raro encontrar uma 
alma que não o fizesse. Lillian sempre disse que Thorn Grove 
era um lugar magnífico demais para se manter só para eles. Os 
hóspedes entravam e saíam constantemente. 
Signa assentiu, embora em seu íntimo ela soubesse que havia 
mais do que isso. Lillian tinha morrido envenenada, sozinha em 
seu jardim. Se havia uma coisa que Signa sabia sobre a 
belladonna, era que a morte vinha rapidamente se o suficiente 
fosse consumido. No entanto, Lillian estava doente há meses, 
o que significava que alguém estava lhe dando veneno em 
pequenas doses, hábil o suficiente para tornar sua morte lenta 
e dolorosa. Eles não estavam procurando um transeunte 
aleatório com antipatia pelos Hawthornes; eles estavam 
procurando por alguém com tempo para precisão. Alguém 
com acesso frequente à propriedade. 
— Algum funcionário guarda rancor contra Lillian? — ela 
perguntou, reorganizando as peças do quebra-cabeça em sua 
cabeça. 
— Não — Sylas respondeu com confiança. — Todo mundo 
que trabalhou em Thorn Grove durante seu tempo aqui amava 
Lillian. 
Signa não tinha certeza se acreditava que alguém pudesse ser 
tão amado e admirado. Certamente, a mulher deve ter brigado 
com alguém. 
— E Elias? 
Sylas balançou a cabeça e considerou. 
— Eles gostaram menos dele. Não que eles não gostassem 
dele; Elijah sempre foi um homem de negócios em primeiro 
lugar, e todo o resto em segundo lugar. Ele passava a maior 
parte do tempo em seu escritório ou no clube de cavalheiros. 
Signa se lembrou de uma pessoa que claramente não gostava 
de Elijah. Signa não passou despercebido como Marjorie 
acariciou seu braço, ou como ela falou com ele com uma 
familiaridade imprópria para um membro da equipe. Mas isso 
não provou nada. Se algo estava acontecendo entre Marjorie e 
Elijah, poderia ser um novo desenvolvimento. 
Signa apoiou uma mão na parede do túnel para se equilibrar, 
seus pensamentos correndo rápido demais para prestar atenção 
em seus passos. 
— Conte-me mais sobre o trabalho dele. 
— Grey's é um negócio de família — respondeu ele. — 
Acho que os Hawthornes estão tão empenhados nisso pelo 
orgulho, mais do que qualquer coisa. Foi iniciado pelo bisavô 
de Elijah, Gray Hawthorne, e está na família há gerações, 
permitindo-lhes acesso a algumas das pessoas mais ricas dentro 
e fora do país. Como filho mais velho, Elias herdou de seu pai. 
Ele administra com seu irmão, Byron, e um dia passará para 
Percy. 
Levou um momento para Signa lembrar o nome; para ela se 
lembrar do homem que havia parado ela e Marjorie nas escadas 
na primeira noite em Thorn Grove. Aquele que tinha tirado a 
nitidez da língua de Marjorie — Byron. Era o irmão de Elijah 
com quem Percy estava falando naquela noite. O mesmo irmão 
que favoreceu Lillian. 
— Byron não tem filhos? 
— Mesmo se ele tivesse, Percy é o mais velho de Elijah e tudo 
vai para ele — disse Sylas. — Mas não. Ele nunca se casou. 
Mais e mais peças de quebra-cabeça se misturavam em sua 
cabeça, nem um único par delas se encaixando. Havia mais em 
tudo isso, algo que Signa não estava vendo. Felizmente, esta foi 
apenas a segunda noite. Agora que ela aceitou a tarefa de 
Lillian, talvez ela tivesse uma chance de dormir sem que o 
espírito a incomodasse. Pensar e checar Blythe para descobrir 
como o veneno estava sendo administrado. 
 — Eu conheci Byron na minha primeira noite aqui — Signa 
mencionou. — Ele parecia zangado, embora eu nunca tenha 
entendido o porquê. 
Sylas agarrou as costas da capa emprestada de Signa e a guiou 
para o lado antes que ela pudesse tropeçar em um pequeno 
buraco. Ele fez isso sem esforço, e Signa ficou feliz por ele não 
conseguir ver seu constrangimento na escuridão. Ela olhou de 
lado para o cabelo preto dele espalhado ao redor dele como uma 
auréola escura, notando novamente o quão grande ele era. 
Como um tronco de árvore ambulante, na verdade. Um tronco 
de árvore com músculos. Foi surpreendente. 
— Elijah não voltou ao clube desde a morte de Lillian — ele 
disse, o canto de seu lábio se contraindo quando ele pegou 
Signa olhando. — Houve rumores de que ele não está mais apto 
a dirigi-lo, mas sua propriedade pertence exclusivamente a ele e 
se recusa a deixar Byron assumir. 
Se o que Sylas disse era verdade, então talvez seja por isso que 
Byron esteve em Thorn Grove, conversando com Percy, na 
noite em que ela chegou. Seu relacionamento com Percy era 
uma maneira de assumir o controle do negócio? Ela estava 
prestes a fazer a pergunta em voz alta quando a ponta de sua 
bota atingiu a ponta de outro buraco no chão. Ela deveria ter 
tropeçado – ela sentiu o impulso de si mesma caindo e se 
preparou para o impacto – mas Sylas estava lá antes dela, 
usando sua mão livre para apoiá-la pelos ombros enquanto seu 
rosto batia em seu peito. 
Por um longo momento ela ficou congelada no lugar, 
contemplando se esta era uma condição apropriada sob a qual 
ela poderia fingir sua própria morte para evitar mais 
mortificação. Eventualmente, ela decidiu que valia a pena o 
constrangimento de olhar para ele, lentamente, apenas para 
cada osso de seu corpo se contrair quando ela viu que seus olhos 
cinza esfumaçados estavam olhando de volta para ela. 
— Você nunca olha para onde está indo? — Sua voz era 
baixa e viva. — Você poderia ter se machucado. 
— Estou muito bem, obrigada. — Tão perto, ela não podia 
deixar de olhar para o leve punhado de sardas que estavam 
empoeiradas sob seus olhos. 
— Então você se importariade me soltar? Chegamos. 
Não tendo percebido que estava com as mãos em punho na 
camisa dele, ela o soltou imediatamente. O fato de ela não ter 
simplesmente derretido no chão de pura vergonha era uma 
verdadeira prova de sua incapacidade de morrer. 
— Obrigada por me acompanhar, Sr. Thorly — anunciou 
Signa enquanto se afastava e alisava o vestido. — Vou tentar 
visitar Blythe amanhã e ver o que consigo descobrir. 
— E eu vou revistar a cozinha hoje à noite e falar com os 
cozinheiros. — Ele inclinou a cabeça para ela, sua bochecha 
direita exibindo uma covinha que Signa não havia notado 
antes. — Se eu encontrar alguma coisa, entrarei em contato 
com você.— Havia uma porta diante deles, pequena e 
embutida na parede. — Isso vai levar você para a despensa — 
disse ele. — Durma bem, Srta. Farrow. Tenha certeza, vamos 
chegar ao fundo do que está acontecendo em Thorn Grove. 
Quinze 
 
Signa empurrou um saco de batatas quase do mesmo tamanho 
que ela para se agachar pela pequena abertura da despensa da 
cozinha. Quando ela o empurrou para o lado, ele tombou e 
jogou quase uma dúzia de batatas no chão. No silêncio da 
noite, seu tombo parecia alto o suficiente para abalar todo 
Thorn Grove. Ela amaldiçoou sua pobre sorte enquanto 
colocava tudo de volta no lugar, escondendo a porta do túnel 
da despensa. Arrancando as luvas, ela as enfiou no corpete e 
tentou parecer pelo menos meio pronta para dormir caso 
alguém viesse buscá-la. Quando ninguém o fez, Signa juntou as 
saias e saiu na ponta dos pés pela cozinha e passou pela sala. Ela 
chegou à beira da escada quando uma voz rouca chamou: 
— O que diabos você está fazendo a esta hora? 
Signa se virou para encontrar Elijah Hawthorne olhando 
para ela pela porta aberta da sala. Ele estava vestido com sua 
camisola, embora a exaustão em seu rosto deixasse claro que ele 
não tinha dormido. Talvez não há alguns dias, dadas as sombras 
sob seus olhos. 
Ela embrulhou sua capa emprestada mais apertada, grata à 
escuridão por escondê-la. Um olhar para suas saias enlameadas 
e Elijah perceberia que Signa ainda não tinha ido para a cama. 
— Boa noite, senhor. — Sua mente correu através de uma 
lista de todas as desculpas possíveis, todas pesando em sua 
língua. — Eu estava tendo problemas para dormir. 
— Então você começou a vagar? — Seus olhos inteligentes 
piscaram atrás dela, em direção à cozinha, e o sangue de Signa 
gelou – ele sabia. Ou pelo menos ele suspeitava. Esta era a sua 
casa, afinal. Ele provavelmente conhecia cada um dos túneis. 
No entanto, se Elias percebeu, ele não disse nada sobre isso. Em 
vez disso, ele acenou para Signa para onde ele estava sentado em 
uma pequena mesa redonda diante das paredes amarelo-
manteiga. Embora Signa detestasse a cor, ela tinha que admitir 
que o quarto era aconchegante no geral, o que dizia muito, já 
que ela podia admirá-lo mesmo sob o peso da severidade de 
Elijah. 
— Venha se sentar, criança. — Havia um tabuleiro de 
xadrez diante dele e, quando Signa se juntou a ele, ele ajustou as 
peças. — Você joga? 
— Eu jogo — ela respondeu sem especificar que ela só jogou 
contra si mesma. Ela tinha a sensação de que havia uma resposta 
correta e não queria arriscar perder a oportunidade de falar com 
o homem pelo qual ela estava mais curiosa. E então ela pegou 
as peças pretas, tomando cuidado para manter as saias enfiadas 
sob o manto. 
— Eu entendo a incapacidade de dormir. — Elijah a deixou 
fazer o primeiro movimento, não a olhando enquanto 
observava o tabuleiro. — Esta não é uma casa acolhedora, eu 
temo. Embora eu deva adverti-la contra qualquer exploração, 
especialmente em horas tão tardias. As noites nesta mansão 
costumam ser difíceis para os fracos de coração. 
Signa esperou que ele movesse sua peça para o meio do 
tabuleiro, então moveu a sua antes de responder. 
— Estou ciente dos rumores, mas tenho certeza de que meu 
coração não está fraco. Esses fantasmas são a razão de você estar 
acordado também, senhor? 
Havia um carranca em sua mandíbula. Um tão rápido que 
ela teria perdido se não o estivesse observando tão de perto. 
— Você a ouve também, criança? — Ele pulou uma de suas 
peças, capturando o meio do tabuleiro. — Você a ouve 
chorando? 
Não importa o quanto ela se esforçasse, ela não conseguia 
ouvir nem mesmo um sussurro de barulho dentro de Thorn 
Grove. 
— Não ouço ninguém, senhor. Não no momento. 
Elijah não se incomodou enquanto ela tentava cercar suas 
peças. 
— Então, você vê o problema. Não consigo dormir quando 
a ouço vagando, assombrando esses corredores, e ainda assim 
não consigo fechar os olhos em sua ausência, pois me pergunto 
se algum dia a ouvirei novamente. 
Ele capturou outra peça de Signa em sua distração, pois na 
escuridão das sombras ela finalmente viu com quem estava 
lidando - não um tolo, como ele parecia na primeira vez que o 
viu, nem um bêbado, mas um homem que estava desfiando nas 
costuras. Alguém que mal conseguia se manter unido. Elijah 
passou a mão pelo rosto, sua nuca grisalha muito longa e 
indomável para os padrões da sociedade. 
Tarde demais, ela percebeu que, mesmo nesse estado, Elijah 
era quem conduzia essa conversa. 
— Se eu sentisse que havia uma escolha, nunca teria 
escolhido outra protegida. — Ele não olhou para ela, mas para 
as peças colocadas diante dele, como se estivesse montando seu 
próprio quebra-cabeça. 
Signa foi pega de surpresa pela amargura que sentiu com as 
palavras dele. Fazia sentido que Elijah não a quisesse – ela veio 
com muita bagagem, e para alguém com tamanha riqueza, não 
havia nenhum benefício para Thorn Grove acolhê-la. Ainda 
assim, ouvir isso em voz alta doía mais do que ela gostaria de 
admitir. 
— Há uma esperteza em seus olhos, garota — Elijah disse. 
— Você não é tão estúpida para perceber que eu sou um 
homem que não se lembraria de colocar meu casaco se eu não 
tivesse alguém para fazer isso por mim. Um dia aqui é suficiente 
para você saber, tenho certeza, que minha esposa se foi e minha 
filha não muito atrás. E meu filho... Deus, meu filho. Eu falhei 
com o pobre menino de muitas maneiras. No entanto, se 
minha Lillian soubesse de sua situação quando sua avó faleceu, 
ela teria exigido que a hospedassemos. Foi uma infelicidade que 
não tivéssemos conhecimento até recentemente, pois ela teria 
lhe dado uma vida maravilhosa. Esse era o jeito dela, que Deus 
tenha sua alma. Ela aceitava quem quer que fosse, e ela os 
amaria. Em sua memória, não tive escolha a não ser trazê-la 
aqui. 
A mandíbula de Elijah se fechou, como se decidisse que ele 
havia falado demais sobre o assunto. Uma sombra cruzou seu 
rosto e ele deixou Signa capturar duas de suas peças. 
— Passei dezenove anos sem um pai, senhor… — ela disse a 
ele. — Não tenho interesse em obter um agora. Sou grata pelo 
que você forneceu e, para mim, isso é o suficiente. Estou muito 
bem adaptada para estar sozinha. 
Para sua surpresa, Elijah riu. Era um som calmo, pouco mais 
que um silvo de ar. 
— Eu costumava acreditar nisso também. 
Signa não teve chance de dizer mais nada, pois Elijah limpou 
o tabuleiro com um movimento final. Sua boca se abriu 
quando ele capturou cada um de suas peças restantes em um 
jogo fluido. 
— Aqueles que jogam um jogo defensivo de damas sempre 
perderão. — Ele não esperou ela ficar de pé. Não ofereceu uma 
mão para ajudá-la. — Boa noite, Signa. Rezo para que o sono 
nos encontre e que não nos encontremos aqui novamente 
amanhã à noite. 
Parecia que se ela fosse se encontrar com Sylas depois do 
expediente novamente, ela precisaria encontrar outro túnel. 
Isso, ou talvez aprender a atravessar as paredes, afinal. Signa 
esperou, olhando para o quadro e refazendo seus movimentos 
até o som dos passos de Elijah desaparecer. Quando o fizeram, 
ela subiu as escadas. 
Para surpresa de seu pobre coração, ela descobriu que não 
estava sozinha. Percy sentou-se no degrau mais alto. Se o cabelo 
dele não estivesse brilhante como uma chama, ela poderia ter 
tropeçado nele naescuridão. 
— Percy! — Ela apertou o peito. — O que você está 
fazendo? 
— Eu não queria te assustar. — Sua voz era um sussurro 
baixo. — Eu estava descendo para tomar uma bebida quando 
ouvi vocês dois, e eu só... Perdoe-me por espionar. Faz tanto 
tempo desde que meu pai e eu tivemos uma conversa real. Eu 
quase me esqueci que ele é capaz disso. — Seus ombros caíram 
para dentro como uma flor murcha. — Esse era o quarto 
favorito dela, você sabe. Essa é a razão pela qual ele vai lá com 
tanta frequência. Esta casa sempre foi tão estranha e triste, e ela 
queria um espaço que parecesse inteiramente seu. O pai lutou 
com ela por conta da cor por muito tempo – ele odiava o 
amarelo. Mas minha mãe sempre foi boa em conseguir o que 
queria. Às vezes eu o vejo lá apenas olhando para as paredes, 
lembrando. 
Signa quase podia imaginar Lillian deslizando pelos 
corredores, tomando chá na sala e refletindo sobre a decoração. 
Parecia que ela tinha uma vida tão diferente – uma família tão 
diferente – daquela que Signa estava conhecendo. 
— Você já falou com ele? — ela perguntou, com o coração 
pesado. Parecia-lhe que, embora ele pudesse refutar, Elijah 
precisava muito de companhia. 
O rosto de Percy azedou. 
— Meu pai não estava sempre por perto. Marjorie 
ministrou minhas aulas e tio Byron me ensinou a ser um 
cavalheiro. Meu pai e eu só falávamos de duas coisas: o negócio 
que eu um dia administraria e minha obrigação de manter as 
aparências e manter o status da família. Por vinte e dois anos 
essa foi a nossa conexão. E agora ele o cortou sem explicação. 
Então não, não nos falamos mais, pois nem nos conhecemos. 
Levou um momento antes que Signa pudesse responder. 
Como alguém com uma experiência diferente e frustrante com 
a morte, ela teve muito cuidado com suas palavras. 
— O luto é uma coisa estranha, Percy, pois não há duas 
pessoas que o experimentam da mesma forma. — Era uma 
coisa estranha, ter alguém para confortar. Ela não sabia se o que 
estava fazendo era certo quando estendeu a mão e colocou a 
mão sobre a dele; ela sabia apenas que isso era o que ela sempre 
quis para si mesma. Ter alguém para se sentar com ela e pegar 
sua mão, e saber que eles estavam lá para ela. 
Percy precisava de alguém – estava claro na maneira como 
ele olhava para o chão e na queda de seus ombros – e Signa 
estava feliz por ser essa pessoa para ele. Ela se sentou ao lado 
dele, acariciando sua mão suavemente enquanto dizia: 
— Sinto muito pelo que você está passando. Parece que ele 
amava muito sua mãe. 
Ele olhou para a mão dela com uma carranca. 
— Mais do que qualquer coisa ou qualquer um. Mas isso 
não lhe dá uma desculpa para desaparecer quando o resto de 
nós ainda precisa dele. 
Signa entendeu muito bem. Ela passou anos assistindo 
todos que ela conhecia tornam-se fantasmas, mesmo aqueles 
que ainda estavam vivos. 
— Não dá — ela concordou. — Mas ele é um homem 
inteligente, e acredito que encontrará o caminho de volta para 
você. Ele pode simplesmente precisar de mais tempo. 
Percy virou a mão na dela. 
— Obrigada, prima. Pelo bem desta família, espero que você 
esteja certa. 
Colocando-se de pé, ele ofereceu sua mão para ajudá-la a se 
erguer também. No entanto, ao fazê-lo, seus olhos viram as 
saias enlameadas de Signa aparecendo sob sua capa. Embora ele 
não dissesse nada sobre isso, linhas profundas enrugaram a testa 
de Percy quando ele colocou a mão na parte inferior de suas 
costas e a guiou para dentro da casa, como se ela pudesse fugir. 
— Vamos, prima — ele pressionou —, quaisquer problemas 
que tenhamos de enfrentar, eles ainda estarão aqui depois de 
uma noite de descanso. 
Dezesseis 
 
Mantiveram Blythe em isolamento por semanas, seus únicos 
visitantes eram Elijah e o médico que cuidou dela. Todos os 
dias, Signa tentava entrar despercebida no quarto de sua prima 
para ver como ela estava, apenas para ser recebida com uma 
porta trancada, afastada pelas lições ou examinada pelo olhar 
atento de Elijah quando ele passava as noites ao lado da cama 
de Blythe, garantindo que nada acontecesse com ela enquanto 
ela dormia. 
Nesta manhã em particular, seus planos foram frustrados 
quando Marjorie irrompeu em sua suíte arrastando uma 
braçada de vestidos – vestidos de chá e vestidos de viagem para 
uso diurno e outros com babados extras e tecidos mais ricos 
feitos para festas. Eles eram muito melhores do que o vestido 
amarelo de dia que ela foi forçada a usar tantas vezes, embora 
ela não pudesse deixar de sentir um nó de tristeza em seus tons 
opacos e suaves. 
— Você vai querer se preparar rapidamente. — Marjorie 
entregou a Signa um macio vestido de chá pervinca. — Você 
tem companhia chegando em breve. 
Isso despertou Signa imediatamente – como ela poderia ter 
companhia quando não conhecia ninguém? 
 — Preparei um chá para você, com moças da sua idade — 
disse Marjorie. — Eu pensei que você gostaria de ter amigos 
aqui depois de ser forçada a deixar seus outros com tanta pressa. 
Todas essas garotas são amigas de Blythe e vêm de famílias ricas. 
Todas são solteiras e são uma companhia perfeitamente 
adequada. 
Signa não teve dúvidas de que eram, mas ainda assim ela 
perguntou: 
— E elas têm que visitar agora? 
O rosto de Marjorie era severo. 
— O que você quer dizer agora? Fiquei com a impressão de 
que era isso que você queria. 
— Quero! — Signa disse apressadamente. Claro que era o 
que ela queria companhia e uma posição na alta sociedade era 
tudo que ela sempre quis, embora ela tivesse preferido qualquer 
outro dia. — Eu só quis dizer que eu esperava ver Blythe hoje. 
Isso pareceu apaziguar Marjorie, cujo sorriso era simpático. 
— Entendo. Infelizmente, o médico está com a Srta. 
Hawthorne. Você pode visitá-la no final da tarde, depois de 
suas aulas. 
Signa queria exigir que ela pudesse fazer uma visita rápida à 
prima, mas quando Elaine chegou para ajudar Signa a se 
apressar e se vestir, percebeu que qualquer esforço era inútil. 
Blythe teria que esperar um pouco mais. 
O vestido deslizou sobre sua pele como seda, feito de tecidos 
importados com pouca economia de gastos. Era uma 
combinação de cores para complementar a sala em que eles 
estariam tomando chá e amarrada nos fundos, deixando espaço 
para Signa crescer com uma dieta mais suficiente. Por 
enquanto estava um pouco solto, o que o tornava uma das 
coisas mais confortáveis que ela já usara, já que não se esperava 
que alguém usasse um espartilho por baixo de um vestido de 
chá. 
Quando Signa terminou de se arrumar, ela certamente 
parecia respeitável, mas estava pensando em todas as maneiras 
em que poderia levar Um guia feminino de beleza e etiqueta 
com ela. Ele estava sobre sua escrivaninha, e ela arrastou um 
dedo delicado por sua lombada imaculada. Será que sua mãe 
ficaria orgulhosa de vê-la assim? Ela teria vestido Signa da 
mesma forma? Prenderia seus cabelos escuros da mesma forma 
que Marjorie fez, para mostrar seu rosto delicado e pescoço 
esguio? 
— Elas já devem estar aqui — Marjorie repreendeu. — 
Venha comigo. 
Signa retirou a mão do livro. Ela sabia seu conteúdo de cor, 
tinha estudado suas páginas frente e verso mais vezes do que 
podia contar. Agora era a hora da execução. 
Ela seguiu Marjorie escada abaixo, andando entre 
empregadas inquietas que se esquivavam dela na pressa, 
preparando Thorn Grove para outra festa. Seu coração batia a 
cada passo. Ela não se permitiria escorregar como fez com 
Blythe – não esqueceria sua língua nem por um momento. 
Três jovens esperavam por ela na sala, sentadas a uma mesa 
circular que parecia absurdamente pequena e íntima. Marjorie 
os apresentou como Lady Diana Blackwater, uma garota 
bastante simples, de pele clara, cabelos castanhos e olhos 
redondos de rato; Lady Eliza Wakefield, com um longo rosto 
de alabastro e cachos loiros, e… 
Signa não confiava em suas próprias pernas para segurá-la 
quando viu os olhos castanhos que a encaravam. Charlotte 
Killinger usava um vestido listrado azul e branco,os ombros 
para trás e o pescoço longo e delicado. Sua velha amiga era ainda 
mais bonita do que Signa se lembrava – sua rica pele cor de 
marrom quente e brilhante, bochechas aquecidas com um leve 
toque de rouge. Ela era mais alta e possuía menos bochechas de 
bebê, mas ainda assim a garota que Signa conheceu uma vez. A 
amiga em quem ela ainda pensava até hoje, mas com quem ela 
não falava desde o escândalo entre o tio de Signa e a mãe de 
Charlotte todos aqueles anos atrás. 
A boca de Charlotte estava entreaberta, seus olhos 
arregalados como os de uma corça antes de ela inclinar a cabeça 
em um aceno gracioso. 
— Foi gentil da sua parte nos convidar. 
— Certamente foi! Todas nós estávamos tão curiosas sobre 
a nova protegida dos Hawthornes — Diana entrou na conversa 
depois de um mergulho superficial de sua cabeça. Sua voz era 
estridente, mas Signa não prestou atenção, pois seu coração 
estava ocupado batendo a mil por hora. Por tanto tempo ela 
desejou ver Charlotte novamente. Mas por que tinha que ser 
agora de todos os tempos? Agora, quando ela finalmente se 
permitiu acreditar que ela poderia começar de novo e onde os 
rumores do passado não assombrariam cada movimento dela. 
Signa tropeçou, com as pernas dormentes, quando Marjorie 
lhe deu um empurrãozinho na direção da cadeira. Um dos 
criados serviu chá fumegante em suas xícaras, enquanto outro 
serviu bolos e doces. Enquanto Charlotte agradecia, as outras 
duas garotas ignoraram a ajuda. O fascínio delas repousava 
apenas em Signa, e seus olhos brilharam assim que Marjorie 
saiu pela porta. 
Eliza sorriu para ela do outro lado da mesa. 
— Bem, você não é uma coisinha? — Se era um elogio ou 
um insulto era impossível dizer. Eliza se inclinou para frente, 
seus longos cachos roçando a toalha de mesa. — Como você 
está aproveitando seu tempo com os Hawthornes? Eles 
realmente são a família mais interessante. 
— Interessante? — Signa ecoou, sua garganta tão 
dolorosamente seca. — Como assim? 
— As festas, por exemplo. — Eliza riu, como se a pergunta 
fosse ridícula. — Sem mencionar a riqueza, os rumores, o 
mistério. Eu suponho que você não saiba, considerando que 
acabou de chegar, mas a família com quem você está hospedada 
é o assunto da cidade. 
Signa se atreveu a olhar de soslaio para Charlotte, que estava 
sentada ereta em sua cadeira, sem dizer nada, bebendo seu chá. 
Ela não disse uma palavra e se ocupou olhando para uma 
paisagem de um lindo jardim de primavera. 
Um guia feminino de beleza e etiqueta foi muito claro sobre 
fofocas: Não fale à toa. Signa concordou, não se importando 
em fofocar sobre aqueles que lhe mostraram tanta graça. Mas 
os olhos de Eliza estavam iluminados de alegria e sua língua 
estava pronta para vazar veneno, então para obter a informação 
que ela procurava, Signa mordeu a isca. Ela pegou um bolinho 
de mirtilo e se inclinou para frente com uma inspiração 
silenciosa. 
— Rumores? — ela perguntou em um tom que transmitia 
que ela nunca imaginou que uma coisa tão hedionda fosse 
possível. — Certamente, você está enganada? Que tipo de 
rumores são esses? 
— De todos os tipos — interveio Diana. — Esses fantasmas 
assombram Thorn Grove. Que talvez a sra. Hawthorne, 
pobrezinha, tenha se encarregado de acabar com sua vida 
depois de descobrir que seu marido tivera uma série de casos 
tórridos e muitos filhos ilegítimos para cuidar. Eles até dizem 
que a ajuda está em conluio para se unir contra a família. 
As alegações pareciam ser apenas boatos, embora Signa 
tenha guardado as informações como mais peças de quebra-
cabeça para serem peneiradas em outro momento. 
— Os Hawthornes são pessoas curiosas — disse Signa, 
escolhendo suas palavras com cuidado; ela não tinha certeza de 
que o que quer que dissesse não sairia desta mesa ou que ela não 
seria rotulada como fofoqueira. — Mas eles também são muito 
generosos em me receber em sua casa quando sofreram uma 
perda tão grande. 
Diana fez um barulho no fundo da garganta. 
— Tenho certeza que sua fortuna ajudou com isso. — Ela 
se recostou na cadeira e examinou suas luvas brancas com 
babados. — Meu pai diz que o negócio do Sr. Hawthorne está 
falindo e que você vai herdar uma fortuna maior do que a deles. 
Signa não se intimidou com a manteiga que passou no 
bolinho, com o coração batendo tão forte que até seu pescoço 
estava começando a transpirar. Quando ela imaginou essa 
conversa, foi muito mais informativa e descontraída. 
Charlotte olhou para cima então. 
— Ela acabou de chegar, Diana — ela disse em uma voz 
suave entre goles de chá. — Duvido que ela saiba muito sobre 
os Hawthornes. 
Os lábios de Eliza se apertaram e Signa pegou outro bolinho. 
Ela imaginou que se ela não soubesse o que dizer, então – 
contanto que sua boca estivesse cheia – ela poderia esperar seu 
tempo e deixar os outros falarem. 
Mas isso foi antes que uma enxurrada de ar frio invadisse a 
sala. 
— Existe uma janela aberta? — Eliza estremeceu. — Eu não 
teria pensado que precisaria de um casaco no chá. 
Signa sabia muito bem o que aquela bebida significava e 
engasgou no meio da mordida. Ela tentou ser discreta quando 
virou a cabeça para ver que Morte estava ali ao lado dela, 
sentada em uma cadeira de sombras ao lado de Diana. Ele 
dobrou uma perna sombria sobre a outra, e em sua mão, mais 
sombras formaram uma xícara de chá imaginária, que ele 
ergueu para ela em saudação. Desculpe, esqueci de trazer meu 
vestido e luvas. 
As palavras não foram ditas em voz alta, mas pareciam 
reverberar em sua cabeça. 
Ele estava na cabeça dela. 
Ela apertou suas saias e compassou suas respirações. Não, 
não, não, não, não. Nada disso estava indo de acordo com o 
plano. 
Primeiro Charlotte, e agora... não. Signa não havia comido 
belladonna; ela não viajou para o lugar entre os vivos e os 
mortos para acessá-lo. Durante toda a sua vida, ela foi capaz de 
ver a Morte apenas quando havia razão para isso – quando 
alguém próximo a ela estava morrendo. Ela preferiria matar 
Morte novamente do que deixá-lo levar uma dessas garotas, e 
ela tentou transmitir cada pedacinho disso no olhar que ela 
lançou para ele. Ele parecia gostar, uma risada baixa 
chacoalhando em sua cabeça e enchendo seu peito. 
Relaxe, Passarinha. Eu só vim para uma fofoca empolgante. 
Diana deu uma delicada mordida no bolinho, inconsciente 
do monstro fingindo beber chá fumegante de sombras ao lado 
dela. Um toque, apenas um arranhão de suas sombras, e essas 
garotas estariam mortas. A garganta de Signa estava muito 
apertada para engolir o pedaço de bolinho que se alojou em sua 
garganta. Ela engasgou, pegando seu chá e chupando metade 
da xícara de uma só vez. 
Embora Charlotte fizesse questão de não olhar, Diana riu. 
— Bom Deus, não me diga que você não é alimentada aqui? 
Você come como se não tivesse visto comida a semana toda. E 
essas suas clavículas... Muito afiadas. 
Os ombros de Signa murcharam. Ela sabia certamente. 
Sabia levar o tempo dela, dar pequenas mordidas, fingir que 
não achava a comida deliciosa e que não sentia nenhum apelo 
desesperado para devorar tudo, e em vez disso fingir que era 
delicada e mal sabia o significado da comida. 
Ao lado dela, Morte pousou seu chá. 
Como você se sente em relação a essa mulher? Eu poderia 
infectá-la com uma praga leve, talvez. Ou podemos dar-lhe a 
varíola? A pele manchada pode fazer bem à vaidade dela. 
 Reconhecendo a leveza em sua voz, ela o fitou com um 
olhar breve e raivoso, ao qual ele suspirou. 
Tudo bem, arruine minha diversão. 
Entre Charlotte sentada de um lado dela e Morte do outro, 
era um esforço inútil tentar se concentrar. Diana e Eliza 
dominaram a conversa, e quando perceberam que Signa tinha 
passado algum tempo sem sequer uma resposta murmurada 
para qualquer fofoca, Eliza virou seus olhos castanhos para ela 
para bisbilhotar: 
— Você já tem um pretendente, Srta. Farrow? 
Morte parou e pairou sobre Eliza, tão perto que a garganta 
de Signa ficou apertada. 
Não se importe comigo, disseele. Vá em frente e responda. 
Tem alguém em quem você está de olho, Passarinha? 
Seus punhos cerrados. Ela queria com todas as suas forças 
exigir que ele fosse embora, mas não tinha como transmitir isso 
com os outros examinando-a. Percebendo sua luta, Morte 
disse: 
Você deveria ser capaz de me responder, sabe. Se você me ouve, 
eu aposto que você pode responder. 
Ela tentou, ansiosa para dizer a ele para deixá-la sozinha o 
tempo suficiente para que ela conseguisse informações sobre os 
Hawthorne, ou pelo menos para encontrar uma maneira de 
falar com Charlotte em particular. No entanto, por mais que 
ela se esforçasse para enviar essas palavras para ele, ele não reagiu 
como se pudesse ouvi-la. 
— Você pretende fazer sua estreia aqui, Srta. Farrow? — 
Charlotte perguntou, um tom cauteloso em sua voz. 
Signa segurou sua xícara de porcelana com as duas mãos 
enquanto olhava para sua amiga. Apesar dos nervos, apesar do 
que Charlotte sabia e podia fazer para miná-la... ela ainda estava 
aliviada por Charlotte estar presente. Que ela finalmente 
encontrou sua velha amiga novamente e pôde ver em primeira 
mão que ela estava segura, saudável e bonita. 
— Estou esperando para participar desta temporada, sim — 
Signa disse a ela, gostando da sensação do anúncio quando ela 
falou em voz alta. 
Eliza bateu palmas. 
— Oh, você deve ter uma festa para comemorar! Nos 
convide e garantiremos que você saiba tudo sobre todos os 
homens da cidade… — Ela apertou a garganta, perdendo o 
fôlego por um momento quando Morte a rodeou. 
Serei convidado para sua festa? Eu amo uma boa dança. 
Ele não seria convidado para nada e, embora Signa desejasse 
poder contar isso a ele, ela manteve o sorriso e perguntou a 
Eliza: 
— Quais homens são pensados para participar nesta 
temporada? 
A comoção na mesa foi imediata. Eliza se inclinou, 
brandindo o garfo enquanto falava. 
— Eu acredito que você vai querer ficar de olho em meu 
primo Lorde Everett Wakefield. 
Charlotte se animou com o nome, seus olhos brilhando. 
— Ele chegou? — ela perguntou, ao que Eliza assentiu. 
— Apenas três dias atrás. Ele vai se juntar a nós durante o 
verão para ver se ele pode encontrar uma esposa adequada. 
Também me pergunto quem seu primo Percy pode procurar, 
Srta. Farrow. Ele está prestes a herdar os negócios da família e 
sua fortuna, você sabe. 
Eliza estava certa, assumindo que Elijah não arruinou suas 
perspectivas. Signa se lembrou de duas noites antes, quando viu 
Elijah enfiar um bolo na boca do filho. Ela não conseguia 
imaginar o constrangimento de Percy, não conseguia imaginar 
como deve ser a sensação de um pai se perder tão 
completamente em seu luto. 
Os Hawthornes estavam se desgastando nas costuras. 
Bastava puxar, e eles se dividiriam completamente. 
Quando Signa pegou outro bolinho, Diana puxou o prato 
com um sorriso fino que afiou a espinha de Signa. Ela se 
endireitou, afastando a mão em dúvida. 
Apenas coma. As palavras de Morte eram frias. Se estiver com 
fome, coma o scone. 
Mas a Morte não tinha influência na sociedade, nenhum 
conhecimento ou participação em sua política. 
Não beba ou coma muito, ou pouco. Apenas a quantidade 
certa. Essas foram as lições que seu livro de etiqueta ensinou. 
Signa simplesmente não sabia o que qualificava como demais. 
Agora ela sabia que eram três scones. Então, apesar do 
empurrão de Morte, ela não aceitou outro, mesmo quando 
Diana começou a se intrometer novamente nos negócios dos 
Hawthornes, caçando fofocas que ela sem dúvida espalharia. 
Não havia espaço para relaxar nesta conversa. Ela estava mais 
atenta do que nunca, julgando cada centímetro de seu corpo – 
de onde ela descansou o dedo mindinho, até o quão rápido sua 
respiração estava. Ela bebeu muito rápido? A quantidade de 
açúcar que ela adicionou ao chá foi adequada? 
A exaustão pesava em seus ombros; socializar levaria mais 
tempo para se acostumar do que ela havia previsto. 
Por muito tempo Signa esperou por este dia; esperou o 
momento em que ela iria sentar e conversar com seus amigos 
como parte da alta sociedade. Para o momento em que os 
outros mostrariam interesse por ela, e ela poderia finalmente ter 
a companhia pela qual tanto ansiava. No entanto, quando 
Marjorie voltou ao salão, parecia que uma eternidade havia se 
passado, e tudo o que Signa queria era liberdade e uma boa 
soneca. 
Charlotte foi a última das damas a partir e, para surpresa de 
Signa, ela se recusou a ficar. Seus olhos percorreram Signa. 
— Estou feliz em ver que você está bem — passou por seus 
lábios antes que ela agarrasse suas saias e seguisse Marjorie porta 
afora. 
Lágrimas queimaram os olhos de Signa. Charlotte a tinha 
reconhecido. Ela a reconheceu, e ainda assim... Não significava 
nada. Talvez todo aquele tempo juntos – toda aquela amizade 
– tivesse significado mais para Signa do que para Charlotte. 
Ela tinha esquecido que Morte estava atrás dela até que ele 
resmungou: 
— Duas dessas garotas se comportam como se tivessem 
acabado de ser soltas de suas rédeas2. 
Movendo os olhos, Signa girou para ele. 
— O que você ainda está fazendo aqui? 
Novamente as sombras ao redor dele mudaram, formando 
uma mesa para ele colocar seus pés. 
— Bom dia para você também. Vim ver como você estava se 
adaptando. 
— Eu preferiria que você não o fizesse. — Signa se virou e 
caminhou pela sala, não querendo que ele a visse tão abalada. 
— Como você está aqui? 
Ele considerou isso, inclinando-se para trás em sua cadeira 
de sombra. 
— Você poupou Blythe por enquanto, mas isso não 
significa que ela está curada. — A cadeira se endireitou, e ele 
olhou para ela. — Estou aqui porque ela ainda está oscilando 
na ponte entre os vivos e os mortos. Por causa disso, quando 
estamos perto o suficiente dela, parece que você pode me ver. 
Eu não tinha certeza até hoje se esse seria o caso. 
Acabe com essa conexão infeliz deles. O que ela não daria 
para cobrir o véu na vida após a morte e nunca mais olhar para 
ele. 
— E por que eu posso ouvir sua voz na minha cabeça? 
 
2 Tiras de tecido ou corda costuradas em roupas de crianças para suas 
empregadas ou pais se segurarem enquanto aprendiam a andar. Basicamente, 
eram rédeas para impedir que uma criança fugisse. 
— A mesma razão pela qual você pode ouvir minha voz 
quando falo em voz alta, suponho. 
Se ele fosse corpóreo, Signa o teria chacoalhado. Como era, 
ela girou nos calcanhares e deu um passo em direção a ele com 
uma ira que alimentou todo o seu corpo. 
— Você não viu que eu estava ocupada? — ela rosnou. — 
Isso foi importante para mim. 
Morte virou-se como se pudesse ver as meninas através das 
paredes. 
— Por quê ? Eu acho que essas criaturas só são importantes 
para suas mães. Você não achou estranho como duas delas 
perguntaram apenas sobre sua fortuna e sua família? Elas 
perguntaram pouco sobre você. 
Era verdade, a última coisa que ela queria era concordar com 
ele. E então ela disse teimosamente: 
— Eles serão minhas amigas. 
— Suas amigas? — Ele se levantou, a mesa e a cadeira que ele 
formou deslizando de volta para as sombras. — Por que? 
Nunca te vi tão… 
— Falando tanto? — Signa seguia pressionando. — Nunca 
me viu com companhia? 
Eles estavam quase peito contra peito metafórico agora. Tão 
perto dele, a pele de Signa tremeu não com medo, mas com 
poder. Determinação. Ele era Morte, e por causa disso ela não 
precisava se filtrar. Não há necessidade de impressioná-lo. 
Morte se inclinou para que seu rosto sombreado pairasse 
diante dela, apenas uma respiração entre eles. 
— Eu nunca vi você tão recatada, e tão repugnantemente 
sufocada. — Um bolinho voou para ela então, pousando com 
força em seu peito. Ela mal o pegou antes que ele caísse no chão. 
— Você queria isso, não é? Por que você deixaria a opinião de 
uma pessoa impedi-lo de tê-la? 
Ela enrolou os dedos na crosta escamosa do bolinho. 
— Eu estava sendo educada. Existem regras de etiqueta 
sobreessas coisas... 
— Você estava faminta. E se você está com fome, você deve 
comer. Não dou a mínima para as suas regras. — Havia algo 
sombrio em seu tom. Uma amarga decepção que, para sua 
frustração, a atormentava. 
 — E o que isso importa para você? 
A pergunta acendeu uma raiva ardente em seus olhos. Um 
inferno que o tinha diante dela novamente, sugando o ar do 
quarto. 
— Importa porque você é melhor do que isso. Você não foi 
feita para ser mansa ou carente. Se você abraçou quem você é, 
imagine o poder que você pode exercer. Imagine as coisas que 
você poderia fazer. 
— Você quer dizer as vidas que eu poderia tirar? — Signa se 
aproximou. — Imagine os espíritos com quem eu poderia 
falar? O lance que eu poderia fazer pelos mortos? Não preciso 
imaginar; Eu vivo isso. Essa vida me consome, e não é o que eu 
quero. 
— Como você sabe? — Ele demandou. — Quando tudo 
que você faz é correr, como você sabe o que você quer? Você 
preferiria passar a vida fingindo ser o que quer que fosse aquelas 
garotas? 
Ela jogou o bolinho de volta para ele e, para sua surpresa, 
não o atravessou como a faca quando ela o esfaqueou. Ele 
pegou. 
— Vá embora — ela disse uma vez que ela conseguiu abafar 
sua surpresa. — Você não me conhece, e nunca vai conhecer. É 
como você disse uma vez, nós dois somos pessoas muito 
ocupadas e você não passa de uma distração. 
Ele zombou, o som tão humano. Tão masculino. 
— Vim oferecer minha ajuda. Um assassinato seria 
significativamente mais simples de resolver, imagino, se você 
soubesse como usar suas habilidades. 
— Isso não será necessário — ela disse, não se importando 
em considerar a oferta. — Eu já posso falar com espíritos… 
— Então você não vê valor na capacidade de atravessar 
paredes? — Ele demandou. — Para alterar seu corpo para que 
outros não possam vê-la? Tornar-se a própria noite e mergulhar 
nas sombras? Imagine a espionagem que você pode fazer. 
 Esses seriam poderes úteis, sim, mas aceitar isso significava 
aceitar sua ajuda, e ela não tinha desejo de entreter ele e seu ego 
por mais tempo do que o necessário. 
— Toda a minha vida, eu não quis nada mais do que me 
livrar de você. — Ela endireitou os ombros diante das sombras 
que pairavam sobre ela. — Eu implorei, noite após noite, morte 
após morte, para você me deixar em paz. E agora você quer me 
oferecer ajuda? — Não havia palavras suficientes. Não havia 
selvageria suficiente dentro dela para dizer a ele a extensão do 
que ela pensava disso. — Eu odeio você, e eu odeio tudo que 
você fez comigo. Eu vou resolver isso, e vou fazer isso sem você. 
Ao redor deles, o dia se esvaiu. A escuridão consumia tudo 
à medida que Morte crescia, sua raiva tão palpável que sufocou 
o quarto. Acima deles, o candelabro balançou, suas luzes 
piscando como uma tempestade se aproximando. A luz do sol 
que entrava pelas janelas se apagou como uma vela. 
— Você não tem mais escolha nesse ponto. — A voz da 
Morte sacudiu as paredes, derrubando duas xícaras de 
porcelana no chão. — Estou cansado desses jogos. Te conheço 
melhor do que pensa, tal como sei que nunca vai livrar de mim, 
Passarinha. Como eu nunca vou me livrar de você. 
O tremor cessou, e a luz do dia voltou para a sala enquanto 
Morte se retirava para suas sombras. 
— Nossas aulas começam à meia-noite. Te vejo em breve 
Ela estava prestes a gritar que ele não deveria se incomodar. 
Mas no momento em que ela abriu a boca para falar, um 
bolinho voou da mesa e entrou em sua boca, sufocando o 
protesto que Morte se recusou a ouvir. 
Dezessete 
 
O livro que Signa equilibrava sobre a cabeça era tão pesado que 
lhe dava uma enxaqueca. 
— Equilíbrio, Signa — Marjorie a instruiu. — Graça. Ande 
com graça. 
No canto, descansando confortavelmente em um sofá de 
veludo verde, Percy riu. Dado que ele não tinha razão para estar 
ali, Marjorie lançou-lhe um olhar, mas Percy estava longe de 
estar irritado. Ele fez questão de anunciar que tinha vindo 
simplesmente para ver sua prima tentar aprender boas maneiras 
– e que ele estava se divertindo muito nessas tentativas. Havia, 
no entanto, algo perturbador no sulco de suas sobrancelhas 
vermelhas, e no modo como seus olhos se voltaram para as 
empregadas que corriam pelos corredores para preparar a festa 
que começaria naquela noite. 
Ele e Marjorie fingiram não notá-los, então Signa seguiu o 
exemplo, entendendo que a festa poderia ser um ponto sensível 
para Percy. 
— Graça, Signa — Percy repetiu, prolongando a palavra 
com um tom excessivamente superficial. Signa nunca teve um 
irmão, mas imaginou que se tivesse, ele seria tão irritante 
quanto Percy. Era quase como se ele soubesse que a polidez dela 
era uma farsa. Como se ele pudesse ver em seu rosto e estivesse 
tentando arrancar a verdade dela. Ela fez tudo ao seu alcance 
para ignorá-lo, esperando manter a ilusão de que era uma jovem 
respeitável. 
Embora depois de seu encontro com Elijah na noite 
anterior, parecia improvável que o mestre de Thorn Grove se 
importasse com o que ela fazia ou como se comportava. 
Assumindo que ela não queimasse a mansão até o chão, ela 
duvidava que ele piscasse um olho em seus comportamentos 
estranhos. 
Ela se lembrou de como Percy esperou no topo da escada 
observando seu pai com tanto desejo. Era uma versão tão 
diferente dele do que ela via agora – um Percy relaxado que 
mantinha uma maneira descuidada, um jovem cavalheiro 
adequado e sem problemas. 
O que Elijah quis dizer quando disse que falhou com seu 
filho muitas vezes? Signa estava tão distraída com seu dilúvio 
de pensamentos que tropeçou no tapete persa e viu a 
enciclopédia cair de sua cabeça no chão. Em voz baixa, ela 
amaldiçoou, não percebendo que disse a palavra em voz alta até 
que Percy se dobrou de tanto rir e Marjorie jogou as mãos para 
cima em frustração. 
— Olhe a língua, Signa! Eu juro, vocês dois estão 
impossíveis hoje! 
Embora Signa tivesse o bom senso de corar e curvar a cabeça 
com um pedido de desculpas, Percy sorriu friamente para a 
governanta, encantador demais para seu próprio bem. Signa 
lutou contra a vontade de revirar os olhos quando a 
determinação de Marjorie desmoronou sob o sorriso do 
menino. A governanta suspirou e pegou o livro do chão. 
— Eu não sei o que deu em você hoje, Signa, mas você é 
incapaz. — O comentário era simplesmente um fato, não 
pretendia ser indelicado. — E você, Percy. Eu pensei que tinha 
lhe dito ontem para encontrar algo útil para fazer com seu 
tempo. 
Ele cruzou as mãos atrás dele, queixo orgulhoso. 
— Desculpe, senhorita Hargreaves. Eu só queria ter certeza 
de que minha querida prima se sentia bem-vinda aqui. 
Quanto mais Marjorie olhava para Percy, mais seus olhos se 
suavizaram até que, eventualmente, ela cedeu. 
— Ah, tudo bem. Já que é óbvio que não vamos avançar em 
nossas aulas, você pode fazer uma visita ao quarto de sua prima, 
Signa. 
Percy se animou. 
—Você vai visitar Blythe? Devo me juntar a você? 
— Claro que deveria — Marjorie decidiu pelos dois. — Leve 
alguns doces do café da manhã para ela. Tenho certeza que isso 
a deixará feliz. 
Signa rezou para que Marjorie estivesse certa. Ela ia precisar 
de uma oferta de paz depois de sua primeira visita com Blythe. 
 
Percy acompanhou o ritmo de Signa, tão ansioso para ver sua 
irmã quanto ela. 
— Se ela está doente com a mesma doença que levou minha 
mãe, a última coisa que ela precisa é ficar escondida em seu 
quarto — disse ele enquanto subiam as escadas, dois degraus 
por vez. — Todo mundo continua dizendo a ela para 
descansar. Tenho certeza de que ela está entediada. 
Signa não precisava imaginar o tédio ou a solidão que isso 
trazia. Se esta visita acabasse bem, talvez Blythe permitisse que 
ela visitasse com mais frequência. 
 — Ela e sua mãe tiveram os mesmos sintomas? — Signa 
manteve a voz baixa. 
— Sim, exatamente os mesmos. Embora a língua de Blythe 
ainda não tenha começado a apodrecer com feridas, e suas 
alucinações são mais suaves do que as da minha mãe. — O tomde Percy tinha escorregado para algo mais frio, algo doloroso, e 
Signa sabia que não deveria pressionar, não importa o quanto 
ela quisesse. Era uma prova de seu crescimento, ela pensou, que 
ela era capaz de simpatizar com o fato de que nem todos se 
sentiam tão à vontade para falar sobre os mortos quanto ela. 
Ela escutou enquanto Percy mudava de assunto para 
divagar sobre os retratos que eles passavam, apontando os 
ancestrais masculinos que estavam no comando de Thorn 
Grove antes de seu pai. Seu peito estava orgulhoso enquanto 
falava, ombros retos e confiantes. 
— Que homens incríveis eles foram, para construir tal 
império. 
Signa achou que não valia a pena notar que um clube de 
cavalheiros não oferecia nada diferente do chá que ela tomou 
com as senhoras naquela manhã com suas bebidas, comida e 
fofocas com pessoas de status social semelhante – só que ela não 
pagou uma taxa de adesão para participar. Independentemente 
disso, ela entendeu o orgulho nos olhos de Percy. Grey's tinha 
feito bem aos Hawthornes, e ele deveria continuar esse legado. 
Depois de passar pelo que deve ter sido uma dúzia de 
retratos de homens carrancudos em ternos, eles bateram 
silenciosamente na porta de Blythe e esperaram permissão para 
entrar. Nada na sala de estar de Blythe se moveu, nem mesmo 
um fio de cabelo. O ar estava inebriante, pressionando os dois 
enquanto eles entravam e pisavam no tapete macio. Embora 
Blythe estivesse viva, seu quarto era o de um fantasma. 
Uma pressão crescente no peito de Signa aliviou quando ela 
viu Blythe sentada na cama, encostada na cabeceira da cama. 
Doente como a garota estava, Blythe não fez uma careta para 
Signa como ela tinha feito da última vez. Em vez disso, ela 
olhou para seu irmão e sorriu. 
— Percy! Onde você esteve? Estou quase começando a 
contar os fios das cortinas, estou tão entediada. O que é isso que 
você tem aí? 
Seu sorriso se esticou quando ele acenou um bolinho para 
ela, e ela ergueu a mão para pegá-lo. 
— Deus, eu estava esperando que eles fizessem os de limão 
novamente. — Ela mordeu e gemeu como se fosse a primeira 
coisa que ela comeu em toda a semana. 
Percy colocou os doces restantes para baixo e bagunçou o 
cabelo loiro palha de Blythe antes de puxar uma pequena 
cadeira de ferro para sentar ao lado dela. 
— Vou dizer à cozinha para fazê-los com mais frequência se 
você gosta tanto deles. 
Signa esperou no limiar do quarto de Blythe, as mãos 
cruzadas diante dela. Ela permaneceu lá enquanto Percy se 
acomodava, observando seu pomo de Adão balançar enquanto 
ele olhava sua irmã – seu corpo pálido e ossudo. Cabelo morto 
e seco. As bolsas sob seus olhos e os lábios que eram tão pálidos 
quanto as migalhas que ela escovou deles. Percy segurou a mão 
dela, uma coisa tão frágil, e Signa notou pela primeira vez a 
rigidez entre eles. Onde Percy era sardento, Blythe era 
porcelana. Onde o cabelo dele queimava como um fogo de 
verão, o dela estava vazio de cor. O que eles compartilhavam era 
a severidade da boca de seu pai e a forma sombria como seus 
olhos apertavam os cantos, como se estivessem sempre 
contemplando, como no caso de Percy, ou perpetuamente 
irritados, no caso de Blythe. Por mais diferentes que 
parecessem, quando lado a lado não havia como negar que 
eram de sangue compartilhado. 
 — Ela vai entrar — Blythe perguntou —, ou vai continuar 
ali e deixar entrar a corrente de ar? 
Percy se inclinou para sua irmã conspiratoriamente, embora 
suas palavras fossem altas o suficiente para Signa ouvir. 
— Cuidado, Abelha. Você deve se lembrar de falar baixinho 
quando houver filhotes nervosos por perto. Não gostaríamos 
de assustá-los. 
Endireitando os ombros, Signa entrou na sala com o queixo 
erguido. 
— Eu não sou nenhum filhote. 
A garota se virou para ela com um sorriso que quase cortou 
a respiração de Signa direto de seus pulmões. O sentimento era 
semelhante ao que Signa sentiu na primeira vez que viu Blythe 
– como se ela e Blythe estivessem ligadas por uma corda 
inquebrável. Esta deve ter sido a conexão que Morte disse que 
aconteceu quando ela, sem saber, poupou a vida de Blythe. 
Ela mal conhecia essa coisa doentia que lutava para sair da 
cama, mas cujo olhar podia empalar uma pessoa. Mesmo assim, 
Signa sentiu-se compelido em direção a ela. Ela não sabia o que 
significava, ou por que ela tinha essas habilidades. Mas o que 
ela sabia era que faria tudo ao seu alcance para salvar a vida de 
Blythe, e isso começava com a descoberta da fonte do veneno. 
— Quero me desculpar pela outra noite. Foi... rude da 
minha parte dizer o que eu disse. Nunca fui eloquente. — Signa 
se equilibrou no canto mais distante da cama, em frente a 
Percy. Ela estava pronta para saltar de volta e fugir a qualquer 
momento. 
O gelo nos olhos de Blythe derreteu quando ela lambeu o 
açúcar restante da ponta dos dedos. 
— Você deveria trabalhar nisso. — Sua língua era o mais leve 
tom de rosa. Quase branco. 
Arrepios rastejaram pelos braços de Signa como aranhas, e o 
estômago caiu antes que ela percebesse que o frio na sala era de 
uma janela aberta, e não porque Morte estava por perto. Sua 
ausência poderia ter dado esperança a Signa, se ela não soubesse 
que a vida de Blythe era incerta com um assassino ainda à caça. 
— Eu não vou agradecer por me salvar no outro dia, já que 
foi sua culpa que eu tive um acidente em primeiro lugar. — As 
palavras de Blythe foram tão cortantes quanto Signa se 
lembrava delas, cada uma com sua própria faca. — Mas 
também não recusarei sua companhia, pois nunca tive uma 
prima antes. Você vai ficar conosco por muito tempo? 
Foi Percy quem respondeu. 
— Meu pai mandou a modista preparar um guarda-roupa 
para a estação. 
O rosto de Blythe escureceu. 
— Eu suponho que eu deveria estar feliz por alguém estar 
chamando sua atenção. Mas se você está precisando de vestidos, 
você poderia ter pegado os meus. Eu não tenho mais uso para 
eles, e muitos não serão usados. 
— Blythe… 
— Ah, silêncio, Percy. Eu não quero dizer assim. Eles não 
me servem mais, e duvido que meu corpo volte ao que era antes. 
— Com cada palavra, a mordida em sua voz diminuiu. — 
Agora me fale sobre o trabalho. Há alguma atualização? 
Seu aperto na mão de Blythe aumentou, e Signa teve a 
impressão de que havia algo mais nessa linguagem de irmãos 
que ia além de sua compreensão. 
— O tio está vindo aqui agora para colocar um pouco de 
bom senso no homem, mas temo que o pai esteja além da 
reprovação. 
Blythe estalou sua desaprovação. 
— Certamente, ele vai ceder um dia desses. Você deve 
continuar tentando. 
— Ele não está cedendo desde o dia em que você ficou 
doente, Blythe… 
— E quando foi isso, exatamente? — Signa se apressou em 
perguntar, tentando não encolher sob o peso dos olhos que se 
voltaram para ela com surpresa. — Eu pergunto apenas por 
curiosidade. Quando você adoeceu? 
Blythe fingiu um suspiro. 
— Estou doente? Céus, estou surpreso que você tenha 
notado. Ninguém se atreveu a falar sobre isso antes de mim. — 
Ela fez um zumbido baixo e divertido no fundo da garganta 
antes de inclinar a cabeça sobre os travesseiros. — Cerca de um 
mês depois que minha mãe morreu. 
Quem quer que estivesse por trás disso, não perderam 
tempo. Signa olhou para uma pequena pilha de chocolates na 
mesa de cabeceira de Blythe, ao lado de uma xícara de chá. Ela 
foi até aquela mesa e pegou um dos chocolates, tentando ser 
discreta enquanto o mordia. Signa não soube dizer se ficou 
aliviada ou desapontada ao descobrir que não era nada além de 
chocolate normal, mas deu outra mordida. Seus olhos caíram 
para o chá em seguida, e Signa o pegou antes que pudesse fingir 
uma desculpa. 
Blythe disparou, positivamente letal. 
— Não se atreva! Esse é o meu remédio. 
Quando Blythe estendeu a mão para pegar a delicada xícara 
de porcelana, Signa se afastou de seu alcance e tomou um gole 
hesitante. Foi quando ela provou – apenas uma pitada da fruta 
amarga, não o suficiente para ser perceptível para qualquerum 
que não tivesse uma língua familiarizada com o sabor. 
Era isso. Era assim que alguém mantinha Blythe doente. 
A xícara ainda estava quase cheia, o líquido frio. 
— Há quanto tempo você está tomando este medicamento? 
— Desde o dia em que adoeci — Blythe respondeu, 
olhando. — Dói meu estômago se eu beber muito rápido. 
Deixe isso aí. 
 Ela não deixou. Em vez disso, Signa foi até a janela e jogou 
o chá fora. 
— Você está louca? — Percy arrancou a xícara de porcelana 
da mão de Signa. — Pelo que sabemos, isso pode muito bem 
ser o que está mantendo minha irmã viva! 
— Pelo contrário, pode muito bem ser o que a mantém 
doente. — Signa não queria deixar transparecer que sabia o que 
estava acontecendo, para que o assassino não descobrisse e 
tentasse outras táticas. — Quem deu isso para você? 
Os lábios de Blythe se curvaram e linhas profundas se 
formaram em sua testa. 
— Minha empregada traz todas as manhãs. 
— E qual é o nome dela? 
— Elaine. Embora eu não veja porque… 
Signa reconheceu imediatamente o nome da criada que a 
ajudará a se vestir. 
— Quem prescreveu isso para você? 
— Um de seus médicos. — Percy cruzou os braços sobre o 
peito. — E ouso dizer alguém mais competente que você. 
Até Signa sabia que nenhum médico prescreveria 
belladonna em nada. Alguém a estava colocando furtivamente 
– talvez não em todas as xícaras, mas em muitas. 
— Eu sei que isso pode soar estranho — ela começou 
timidamente —, mas Blythe, eu não acredito que você esteja 
sofrendo de alguma doença. 
Percy pegou o pulso de Signa em seu aperto, segurando com 
tanta força que ela se encolheu, certo de que iria se machucar. 
— Não encha a cabeça da minha irmã com bobagens. É a 
mesma doença que levou nossa mãe... 
Signa afastou o braço e o olhou fixamente nos olhos. 
— Isso não é remédio. Eu sei porque eu já provei antes. É 
belladonna, das frutas que crescem na floresta aqui perto. 
Alguém a está envenenando. 
 Blythe não se moveu por um longo momento, sua boca 
meio aberta. 
— Percy — ela começou, e seu irmão apenas balançou a 
cabeça. 
— Um dos médicos já teria percebido se fosse veneno. — 
Ele era inflexível nessa crença, cada palavra enfatizada. — Signa 
está apenas supondo. 
— Eu não estou supondo nada — ela disse com toda 
convicção que ela podia reunir. — Reconheço o sabor. E se 
você não acredita em mim, veja por si mesmo. Blythe, da 
próxima vez que o seu remédio lhe for trazido, não o beba. Mas 
também não recuse, pois você pode alertar alguém de suas 
suspeitas. Espere até que não haja ninguém por perto e 
encontre um local seguro para descartá-lo. Percy, você deveria 
ter cuidado também. Quem pode dizer que você não é o 
próximo? 
Seu ceticismo permaneceu evidente nas rugas entre as 
sobrancelhas. 
— Devo perguntar ao médico? — Havia uma fragilidade na 
voz de Blythe, mas fora isso ela estava lidando com isso melhor 
do que Signa esperava. — E o pai? Ele merece saber, não é? Se 
há uma chance de que o que aconteceu com mamãe não tenha 
sido um acidente? 
Signa se lembrou de como Elijah havia enfiado bolo no rosto 
de seu filho, e as bolsas sob seus olhos, e como ele estava 
assombrado e incapaz de dormir. Seu comportamento era 
muito errático, muito imprevisível. Não seria seguro confiar 
nele, nem ela achava sábio para qualquer outra pessoa – 
incluindo o médico atual de Blythe – saber que eles 
entenderam. Sem mencionar o quão suspeito era que nenhum 
dos médicos de Blythe tivesse percebido o que estava 
acontecendo. 
— A melhor coisa que podemos fazer para ajudar seu pai é 
proteger vocês dois — disse Signa. — O que significa que, por 
enquanto, esse segredo fica entre nós. Tenha cuidado com suas 
refeições. Sem geléia. Sem reduções de frutas em seus assados. 
Beba seu chá, mas jogue-o fora se houver algo estranho no 
sabor. Vocês devem comer, os dois, e não devem levantar 
suspeitas. Mas tomem precauções extras. — Ela não se atreveu 
a mencionar que Sylas também conhecia seu segredo. Não 
parecia sábio mencioná-lo, e Signa ainda poderia usar sua ajuda 
e sua conexão com os servos de Thorn Grove, especialmente 
agora que havia uma pista. 
Elaine. 
Blythe suspirou e deixou sua cabeça cair profundamente 
nos travesseiros, enrolando-se nos lençóis como se fosse ficar 
menor. 
— Nós vamos descobrir isso — Signa prometeu a ela, 
colocando o máximo de entusiasmo possível nas palavras, 
tentando se convencer também. — Nós vamos acabar com isso, 
e você vai ficar bem. Eu não vou deixar você morrer, Blythe. 
Ela quis dizer isso. Blythe recebeu uma segunda chance por 
um motivo. Signa se ligou ao destino de Blythe, e ela faria tudo 
em seu poder para derrotar Morte de uma vez por todas. 
Dezoito 
 
Com a cabeça latejando pelos eventos do dia, Signa ficou 
aliviada ao encontrar Elaine esperando na sala de estar para 
ajudá-la a se preparar para dormir. 
— Boa noite, Elaine — disse ela à jovem, que talvez pudesse 
ser apenas alguns anos mais velha que ela. 
A empregada manteve os olhos baixos e o queixo baixo, 
oferecendo o menor aceno de cabeça. 
— Boa noite, senhorita. — Ela tinha uma camisa de algodão 
preparada para Signa, que estendeu as mãos para que Elaine 
tirasse as luvas brancas de pelica e a ajudasse a vestir a roupa de 
dormir, como fazia todas as noites. 
A língua de Signa queimava com mil perguntas, mas ela 
precisava seguir com calma para obter as informações que 
procurava. Um guia feminino de beleza e etiqueta fez pouco 
para instruí-la sobre que tipo de interação com a equipe era 
considerada aceitável, provavelmente porque qualquer pessoa 
na posição de ler o livro já deveria saber. Seu tio tinha um 
punhado de empregados na equipe e falava muito pouco com 
eles, mas Signa não confiava em sua tática de puxar os ombros 
para trás e segurar o nariz no ar, pois de que adiantaria isso 
quando ela queria que Elaine relaxasse e fosse aberta com ela? 
— Você está com os Hawthornes há muito tempo? — Signa 
perguntou enquanto se movia para a penteadeira, oferecendo 
um sorriso amigável quando Elaine pegou uma escova de 
marfim e começou a pentear as cerdas de javali no cabelo de 
Signa. 
— Não muito tempo, senhorita. — A tensão nos ombros de 
Elaine indicava que a empregada estava tão hesitante em dizer a 
coisa errada quanto Signa. Levou Signa limpando a garganta e 
esperando em um silêncio desconfortável antes de Elaine 
acrescentar — A senhora Lillian contratou-me há pouco mais 
de um ano, que Deus a tenha. — Ela pausou sua escovação para 
se benzer. 
— Como empregada dela? — Signa esperava que houvesse 
curiosidade genuína suficiente em sua voz para acalmar os 
nervos da mulher. Se a dor de obter informações de Elaine era 
um indicador, os criados e os ocupantes de Thorn Grove não 
conversavam com frequência. 
— Não dela — Elaine esclareceu —, mas para a jovem 
senhorita, Blythe. A empregada da senhora partiu para se retirar 
à beira-mar. 
— Thorn Grove é um lugar bastante sombrio, não é? — 
Signa meditou. — Posso entender por que o mar seria atraente. 
— Sim, senhorita. — A voz de Elaine ficou baixa e grave. — 
Dizem que este lugar é assombrado. 
Ah, agora eles estavam chegando a algum lugar. 
— A casa da minha família era à beira-mar — Signa disse a 
ela, não precisando fingir o desejo em sua voz. — Chama-se 
Foxglove. Lembro-me muito pouco disso, pois eu era criança 
quando o visitei. Estou ansioso para herdá-lo, embora deva 
admitir que a ideia de manter uma casa tão grande parece 
bastante assustadora. Imagino que levará séculos para contratar 
uma equipe completa. 
A mão de Elaine hesitou por um momento antes de ela 
retomar a escovação, e Signa sabia que suas palavras haviam 
funcionado. Pois quem escolheria o sombrio Thorn Grove em 
vez da Foxglove à beira-mar? Se houvesse uma chance para ela 
ganhar um lugar lá, Elaine iria querer. O que significava que 
Signa agora tinha outra pessoa ao seu lado, quer Elaine 
percebesse ou não. 
— Você é bastante habilidosa — acrescentou Signa. — É 
uma maravilha que tenha tempo paramim e para a Srta. 
Hawthorne. Tenho certeza que não é uma tarefa fácil. 
Desta vez Elaine não hesitou. 
— Obrigada senhorita. Embora eu admita que a jovem 
senhorita Hawthorne não exige muito de minha pessoa hoje 
em dia. 
Signa examinou o rosto da empregada no espelho da 
penteadeira. Uma pequena ruga de preocupação se formou 
entre suas sobrancelhas. Sua tristeza parecia genuína, e Signa 
percebeu que, durante todo o tempo em que Elaine a atendeu, 
ela nem uma vez acreditou estar falando com um assassino em 
potencial. 
— Não — disse Signa com um suspiro, já sentindo como se 
sua liderança estivesse escorregando por entre os dedos. — 
Suponho que não. Apenas a ajuda a se vestir, e o remédio dela, 
presumo? 
Elaine assentiu. 
— É bastante fácil prepará-la. Seu chá e refeições são feitas 
na cozinha. Eu apenas os levo para ela. Então não se preocupe, 
senhorita. Seus desejos nunca serão ignorados. 
Embora isso pouco a confortasse, Signa sorriu e perguntou: 
— Conheço os rumores da falecida Senhora Hawthorne. 
Mas diga-me, Elaine, há rumores de outros fantasmas em 
Thorn Grove? — Era um pensamento passageiro, mas que 
crescia com severidade quanto mais tempo ela pensava. Por que 
não haveria mais espíritos em Thorn Grove quando os 
Hawthornes o possuíam há gerações? 
Quando Elaine se encolheu e pousou a escova sobre a 
penteadeira, Signa sentiu suas suspeitas confirmadas. 
— Os criados falam sobre ver um homem na biblioteca — 
disse ela. — Dizem que os livros caem sozinhos das prateleiras, 
mas eu nunca entrei para ver pessoalmente. 
Signa nem sabia que Thorn Grove tinha uma biblioteca. 
Mas se houvesse outro espírito em Thorn Grove – talvez 
alguém que pudesse falar – então poderia valer a pena visitá-lo. 
Assim que Signa foi considerada pronta para dormir, Elaine 
foi até a sala de estar para pegar uma bandeja com um bule de 
chá bem quente, um pequeno pote de mel e um biscoito. Assim 
que Signa estava pegando seu chá, um quadrado escuro 
deslizou sob sua porta. 
A testa de Elaine se contraiu quando ela se abaixou para 
pegá-lo, brandindo um envelope preto com um lindo selo de 
cera dourada. 
— Talvez seja de um de seus primos? — Elaine adivinhou. 
Signa o pegou, passando o dedo sobre o pergaminho 
delicado. Ela de alguma forma já sabia que estava errado. 
— Ou talvez seja da Srta. Hargreaves, detalhando meus 
planos de aula para amanhã. — Isso também não parecia certo, 
mas foi o suficiente para Elaine assentir, satisfeita. 
Embora Signa quisesse mais do que tudo abrir a carta, ela 
colocou o envelope no colo e casualmente pegou o mel. 
— Obrigada, Elaine. — Ela manteve seu tom casual e 
educado, mas cheio do que ela esperava ser uma óbvia rejeição. 
— Tenha uma boa noite, senhorita Farrow. — Com uma 
última olhada no envelope, Elaine inclinou a cabeça e saiu. 
No momento em que a porta se fechou, Signa rasgou a 
carta. Escrito sobre um pergaminho grosso na mais bela 
caligrafia que ela já tinha visto, havia três linhas: 
 
Encontre-me nos estábulos à décima primeira hora esta 
noite, e vista-se bem. 
Nós iremos ao Grey's. 
—S 
Dezenove 
 
A festa estava a toda aquela noite. 
Música fluía do salão de baile, com o trinado de um piano 
de cauda reverberando contra as paredes. Estava tão 
movimentado quanto quando Signa chegou a Thorn Grove, os 
vestidos tão cheios e deslumbrantes como naquela noite, e os 
doces distribuídos em bandejas de prata igualmente luxuosas. 
Signa teve apenas vislumbres das festividades. O pesado 
vestido de lã que ela vestiu – com exceção de um espartilho, que 
ela mesma não conseguiu fechar – estava longe dos veludos e 
sedas importados que os outros ao seu redor usavam. Ela se 
esgueirou entre as empregadas, manobrando fora da visão 
daqueles que poderiam questioná-la. Morte estava certa – isso 
teria sido muito mais fácil se ela pudesse invocar aqueles 
poderes malditos dela. 
Mas colocar-se nesse estado o convocaria, e depois do que 
ela disse a ele naquela tarde, ele era a última pessoa que ela 
desejava ver. 
 Ela tinha todos os motivos para odiar Morte. Todos os 
motivos para estar com raiva, e dizer isso a ele. 
Então, por que ela se sentia tão culpada? 
Signa manteve a cabeça baixa enquanto descia as escadas, 
quase saindo da casa quando seu rosto colidiu com o peito de 
alguém. Ela cambaleou para trás, notando primeiro a bengala 
de jacarandá que o homem segurava com força, depois 
encolhendo sob o peso do escrutínio de Byron Hawthorne. 
Um canto de seu lábio se curvou quando ele a olhou, 
parando em seus olhos. A respiração o deixou em uma corrida, 
uma palidez ultrapassando sua pele. 
— Lilian? — As palavras pareceram escapar dele antes que 
ele pudesse se conter, e ele balançou a cabeça. — Não. Você é 
aquela garota que estava com Marjorie, não é? A nova ala do 
meu irmão. Para onde você pensa que está indo, vestida assim? 
Uma palavra errada, Signa sabia, e ele a faria subir as escadas 
de volta. Ela considerou sua mentira cuidadosamente e decidiu 
que era melhor desempenhar o papel que este homem esperava 
dela – uma jovem tola. 
— Eu... eu só queria ver a festa, senhor. 
Ela engoliu em seco, pois embora estivesse atuando, seu 
desconforto com este homem era muito real. Ele fez um 
grunhido de desprezo e pegou-a pelo pulso como se 
pretendesse arrastá-la de volta escada acima. Eles deram apenas 
um passo quando algo no corredor chamou sua atenção. Signa 
seguiu seu olhar para ver que era o cabelo louro-avermelhado 
de Marjorie que ele observava enquanto ela escapava da festa, 
indo em direção à cozinha. 
Byron soltou a mão de Signa. 
— Volte para o seu quarto, garota, — Byron exigiu, embora 
ele não olhasse mais para ela. — Aqui não é lugar para crianças. 
— Claro, senhor. — Ela assentiu com a cabeça, mas no 
momento em que ele se virou para seguir Marjorie, Signa 
aproveitou a oportunidade para escapar na noite, não ousando 
olhar para trás para ver se havia sido vista. Qualquer um que a 
visse se escondendo para encontrar um rapaz a essa hora 
pensaria uma coisa, e se seu livro de etiqueta estivesse correto, 
isso significaria ruína social. 
Sylas esperou nos estábulos com os cavalos prontos – Mitra 
novamente para Signa, e um garanhão escuro como o céu acima 
para ele, um que a lembrou das belas feras que a pegaram da tia 
Magda. Gundry estava sentado nos calcanhares de Sylas, os 
olhos do cão de um rico âmbar. Seu nariz estava erguido e seus 
olhos alertas, garantindo que nenhuma companhia se atrevesse 
a se aventurar muito perto. 
— Demorou bastante. — Sylas olhou uma vez para seu 
vestido de lã e prontamente desabotoou sua capa preta, 
envolvendo-a sem esperar permissão. — Decidir parar para 
comer biscoitos no caminho para cá? 
— Se eu tivesse tanta sorte. — Signa cerrou o manto, 
envergonhada demais para agradecê-lo quando ele apertou as 
rédeas de Mitra em sua palma. Deslizando o pé em um estribo, 
Signa tentou se levantar e montar na égua. 
Sem vontade de perder tempo, Sylas alcançou sua cintura e 
a ergueu, verificando se ela estava segura na sela. Desta vez, ela 
fez o possível para não vacilar com seu toque. 
— É meia hora de viagem. — Ele se levantou em seu próprio 
garanhão com graça admirável. — Mantenha-se perto de Mitra 
para se aquecer – não vamos parar. 
 — E posso perguntar por que estamos indo ao Grey's em 
primeiro lugar? — Havia apenas uma hora até que ela devesse 
se encontrar com a Morte. Embora ela não se importasse 
particularmente em vê-lo, ela não tinha nenhum desejo de 
descobrir o que ele faria se ela se atrasasse para qualquer “lição” 
ridícula que ele havia planejado. 
— Estava com os cavalos esta tarde quando ouvi sua 
governanta falando com Byron Hawthorne — Sylas disse a ela, 
enérgico. — Grey's estará fechado para reparos esta noite, e ela 
deve se juntar a ele lá. Há algo que ele quer mostrar a ela, algo 
que ele disse que vai “persuadi-la”. Se pudermos chegar lá 
primeiro, poderemos descobrir o que é. 
Isso explicaria a fome nos olhos de Byronquando viu 
Marjorie. 
— Eu os vi lá dentro, indo para a cozinha — disse Signa. 
Sylas apertou a mandíbula. 
— Eles provavelmente vão usar a distração da festa para 
levar sua carruagem. Nós deveríamos nos apressar. 
Gundry caminhou ao redor dos pés do garanhão, olhos 
âmbar brilhando e corpo tenso com antecipação. Signa se 
perguntou se ele era mais cachorro ou lobo. Ela estava 
começando a suspeitar do último. 
— O cão vem conosco? 
— É claro. Se encontrarmos companhia, ele nos alertará 
antes que possam nos ver. Agora vamos indo. 
Embora Signa tivesse mais perguntas – principalmente em 
quantos problemas eles teriam se fossem encontrados – ela não 
teve chance de perguntar quando Sylas deu um chute suave em 
seu cavalo e partiu. Mitra não esperou permissão para seguir. O 
vento picou as bochechas de Signa e ela puxou o capuz de sua 
capa emprestada. Ao envolvê-la, ela ficou surpresa ao descobrir 
que não cheirava a feno e estrume, mas a florestas de inverno, 
frescas e ricas em pinheiros. 
Ela puxou a capa para mais perto enquanto seguia atrás de 
Sylas, que parecia à vontade sob a noite estrelada. Ele não 
estremeceu como ela, mas inclinou a cabeça para trás para 
encarar o céu. Seu cabelo preto esvoaçava selvagem, tão 
indomável e livre como a forma como ele cavalgava. Ao lado 
dele, Gundry corria a toda velocidade, bufando de esforço e 
com a língua de fora, adorando cada momento da jornada. 
Sylas chamou a atenção do cão, o que lhe provocou um sorriso 
malicioso. Ele inclinou a cabeça para trás e uivou na noite. 
Gundry se juntou a ele, o som tão bonito quanto assombroso 
enquanto ecoava pelos pântanos. 
Observando Sylas, Signa amoleceu. Todos os dias, parecia, 
havia um outro lado dele para descobrir. Até agora, este era o 
seu favorito. 
Eles cavalgaram em silêncio por um longo tempo depois 
disso, os únicos sons eram os das feras ao redor deles. O 
resfolegar dos cavalos e o pesado bater de cascos enquanto eles 
corriam uns contra os outros pelos pântanos. Ofegante de 
Gundry, que nunca desacelerou mesmo quando o terreno 
mudou sob suas patas, a grama se transformando em 
escombros e, em seguida, paralelepípedos. 
Sylas parou seu cavalo e Signa fez o mesmo. Quando eles 
desmontaram, Sylas amarrou as rédeas dos cavalos 
frouxamente em torno de um tronco de árvore. 
— Vamos a pé daqui. Mantenha seu capuz. — Enterrada no 
cheiro amadeirado, ela não discutiu. 
Gundry aventurou-se à frente para farejar as ruas. Eles 
estavam cheios de lojas de chapéus e costureiras e até mesmo 
um pequeno boticário, todos os prédios bem fechados. No 
entanto, as luzes de um pub mais adiante na rua brilhavam, e 
era melhor não arriscar. 
— Byron e Marjorie. Você acha que um deles pode estar por 
trás do assassinato? — Seu sussurro ecoou pela rua vazia de 
paralelepípedos. Parecia estranho estar fora a uma hora 
daquelas – certo, era estranho estar na cidade, mas Signa não 
sentiu medo. Ela passou muito tempo com a noite para ter 
medo. 
E ao que parecia, Sylas também. No entanto, dado seu 
enorme tamanho, parecia mais provável que a noite tivesse 
medo dele. A caminhada de Sylas era confiante, seu corpo 
longo e queixo erguido. 
— Não tenho certeza. Mas se alguém tem como alvo os 
Hawthornes, deve haver um motivo. Byron certamente tem 
um – Grey's é a fonte de renda dos Hawthornes. É o legado 
deles. Quanto a Marjorie... 
— Há algo acontecendo entre ela e Elijah — disse Signa, 
ganhando um piscar de olhos surpreso de Sylas. Ao vê-lo, ela 
arqueou uma sobrancelha. — Você acha que é o único que 
pode fazer uma investigação? 
Sylas colocou a mão em seu ombro, guiando Signa para o 
lado da rua para que eles abraçassem os prédios. 
— Mantenha-se nas sombras, detetive. Se alguém vir você a 
esta hora, eles vão pensar que você tem algo para vender. 
— Mas eu não tenho nada no meu… oh. — Suas bochechas 
aqueceram. — E eles não pensariam o mesmo de você? 
— Eles achariam escandaloso, mas você suportaria o pior 
dessa marca social. Se eu tivesse um status mais alto, seria 
esperado que eu me casasse com você. Mas você tem sorte neste 
mundo, Srta. Farrow, pois tem os recursos para cuidar de si 
mesma, independentemente do que a sociedade considere para 
você. A maioria das pessoas não têm tanta sorte. — Ele passou 
o braço pelo de Signa e a puxou em direção a um prédio de 
pedra cinza – o mais alto da rua, um com uma enorme janela 
em arco perto da entrada da frente. 
Signa não conseguiu dar uma olhada mais completa no 
prédio, pois todo o seu rosto estava em chamas. Tal toque não 
era socialmente aceitável. Da diferença de status ao fato de não 
terem relação familiar, esse vínculo íntimo era quase tão 
escandaloso quanto se vender nas ruas. Não importava que ela 
tivesse dinheiro; ela não queria comprar o afeto das pessoas. Ela 
queria que eles realmente gostassem dela e a respeitassem. E 
ainda... ela nunca soube que o braço de um homem poderia ser 
tão firme. Que os ombros pudessem parecer tão sólidos, e as 
mãos tão fortes. 
Sylas era talvez uma das criaturas mais irritantes desta terra, 
e ainda assim ela não conseguia desviar o olhar dele. 
Quaisquer que fossem as fechaduras de Grey's, Sylas não 
perdeu tempo agachando-se diante deles, abrindo-os com uma 
facilidade enervante. Ele caminhou para dentro, as mãos 
enluvadas deslizando em seus bolsos. 
— Eu tive prática — disse ele quando percebeu que ela se 
afastou dele, olhando incrédula. — Os cadeados nas baias 
emperram o tempo todo e não podemos manter os cavalos 
presos lá dentro. 
Signa assentiu ao cruzar a soleira, embora parecesse que seus 
ossos estavam presos no lugar. Como ela tinha sido tola por vir. 
Concordar em viajar por meia hora de sua casa na calada da 
noite com um homem que era praticamente um estranho. Um 
homem que havia desmontado uma fechadura como se fosse 
uma mera insinuação. 
Onde, ela se perguntou, ele aprendeu tal habilidade? E em 
quanto perigo ela estava? Talvez ela tivesse sido uma tola por 
confiar em Sylas, embora ela achasse que não deveria se 
preocupar muito. Se Sylas tentasse alguma coisa, Signa 
precisava apenas convocar seus poderes. Para convocar Morte 
e acabar com a vida de Sylas. Sua mão foi instintivamente para 
os bolsos, mas eles estavam vazios. 
 Ela deixou suas bagas de belladonna nos bolsos de seu 
vestido de dia. 
O suor se formou em sua testa, e sua respiração ficou 
inquieta quando o gemido repentino de Gundry perfurou a 
noite, acompanhado pelo barulho de cascos e rodas de 
carruagens em paralelepípedos. Sem perder o fôlego, Sylas 
fechou a porta e segurou a mão de Signa. Não havia tempo para 
perguntar o que ele estava fazendo – não havia tempo para 
olhar ao redor – antes que ela fosse enfiada em um armário de 
casacos. Sylas tropeçou atrás dela, sibilando quando bateu a 
cabeça em algo que ela não podia ver na escuridão. 
— Abra espaço! 
Signa puxou as saias para mais perto, embora houvesse 
pouco espaço a ser poupado. Eles estavam meio um em cima 
do outro quando ele pressionou. Ele tentou se apoiar contra 
uma parede, apenas para o couro de suas luvas roçar na cintura 
de Signa. Ela engasgou e chutou uma de suas botas. 
Sylas sibilou: 
— Dê-me algum crédito, Srta. Farrow. Se eu estivesse 
tentando seduzi-la, meus métodos seriam muito mais 
aguçados. 
Suas palavras foram interrompidas quando uma porta 
oposta à que eles entraram sacudiu. Atirando Signa um olhar 
que sinalizava silenciosamente para ela se comportar, Sylas 
fechou a porta do armário. 
Signa estava convencida de que não havia nenhuma parte de 
seu corpo que Sylas não estivesse tocando, e não havia 
nenhuma parte dele que ela não estivesse tentando muito não 
pensar. O fato de ela ter se aventurado sem um espartilho 
amplificava a situação, pois cada roçar contra ela parecia muito 
mais chocante, e a pressão de seu corpo ainda mais perigosa. Foi 
um momento inoportuno para que um sentimento tão 
fervoroso despertasse nela, e ainda assim despertou, acelerando 
seu pulso e fazendo suamente vagar. Ela se perguntou como 
seria passar os dedos pelos cabelos cor de fuligem dele, ou como 
os lábios dele seriam contra os dela. O que seu corpo pode 
sentir por baixo de todas as camadas. 
 — Alguém chegou — Sylas sussurrou, e Signa quase o 
chutou novamente. 
— Obviamente. — Tirada de seu estupor, ela tentou espiar 
pelas finas ripas de madeira da porta. Embora estivesse escuro 
demais para ver seus olhos, ela poderia jurar que Sylas a estava 
observando antes de se inclinar e fazer o mesmo, olhando 
através das ripas acima dela. 
Quando a maçaneta da porta da frente chacoalhou, Signa 
respirou fundo e prendeu a respiração, com medo de que se ela 
fizesse algum som, eles seriam descobertos. Oh, que tola ela foi 
ao deixar Sylas arrastá-la aqui, escondida em um armário de 
casacos de todos os lugares. 
As duas sombras entraram sem fazer barulho, a maior delas 
se curvando para acender uma das lamparinas a óleo, banhando 
seu rosto com um brilho tênue de brasa. Através de pequenas 
lascas, ela podia ver que o piso de Grey's era feito de obsidiana, 
assim como o tampo do bar que se estendia ao longo de uma 
parede inteira. Havia mesas de vidro espalhadas por toda parte, 
com cadeiras de couro de pelúcia ao redor de cada uma. No 
lado oposto da sala, sofás de couro cercavam a maior lareira que 
Signa já tinha visto. 
— Teremos que ser rápidos — resmungou Byron, a voz 
áspera como uma carruagem caindo por uma estrada de 
cascalho. — Se alguém descobrir que uma mulher foi 
autorizada a entrar, teremos uma dor de cabeça maior do que 
temos agora. 
— Você me implora para vir, mas me condena no momento 
em que entro? — Marjorie parecia mais altiva do que Signa 
jamais a ouvira. — Estou perfeitamente contente de ficar do 
lado de fora e compartilhar nossa discussão com o mundo se 
minhas artimanhas femininas te ofenderem. Ou talvez 
possamos levá-lo de volta à carruagem, para que eu possa voltar 
para casa? 
Signa não conseguiu entender sua resposta, embora achasse 
que tinha algo a ver com o fato de Marjorie precisar ver este 
lugar por si mesma, para entender o que ele estava tentando 
salvar. Sentando-se em uma das mesas, Byron deslizou algo para 
ela – papéis. 
— Olhe para isso e você verá que o licor não é pedido há 
semanas. E nessas, que mostram que não teríamos comida para 
os hóspedes se eu não tivesse percebido que nosso embarque 
estava atrasado. Elijah não reservou nenhum entretenimento, 
nossos charutos não estão mais sendo importados e, no 
entanto, é ele quem detém os livros. É ele quem se recusa a 
oferecer qualquer moeda a esta empresa. Aquele que se recusa 
a passar seu trabalho para mim e, pior ainda, para Percy! Aquele 
menino esteve aqui todos os dias esta semana implorando para 
trabalhar, Marjorie, e estou ficando sem desculpas para dar a 
ele. 
Signa desejou poder ver o rosto de Marjorie. Desejou poder 
ver alguma coisa quando Marjorie respondeu: 
— Fiz tudo ao meu alcance, Byron. No entanto, mesmo em 
sua morte, Lillian ainda mantém sua alma. Não consigo falar 
com ele. 
— Então, mude isso. — Havia tanto ressentimento em seu 
tom que Signa se encolheu, feliz pela primeira vez que o corpo 
de Sylas estava ali para acalmá-la. Uma de suas mãos encontrou 
apoio em sua cintura quando ele se inclinou sobre ela para 
assistir a cena se desenrolar. Agora que ela percebeu isso, ela 
lutou para não se concentrar em cada contração de seus dedos 
e mudança em seu corpo e, em vez disso, prestar atenção ao que 
estava acontecendo fora do armário. 
— Você perdeu todo o seu charme, mulher? — Byron 
colocou as palmas das mãos sobre a mesa e se inclinou. — Se ele 
deixar esse negócio fracassar, Percy ficará sem nada. Ele será 
feito motivo de chacota e deixado sem perspectivas. Não posso 
ver isso acontecer com ele, e sei que você sente o mesmo. Elijah 
tem filhos – dois, ainda assim, não importa o que ele possa 
pensar. Devemos fazê-lo perceber isso, antes que eu não possa 
mais consertar sua bagunça. 
— Você esqueceu Lillian tão facilmente? — Havia um 
calafrio na voz de Marjorie que roubou o calor da sala e deixou 
Byron em silêncio. — Eu sei que não - a cidade inteira sabia seus 
sentimentos por ela. 
— Lilian é inesquecível. — A voz de Byron ficou tão baixa 
que Signa teve que encostar o ouvido na porta para ouvir. — 
Mesmo assim, não podemos permitir que meu irmão jogue 
tudo fora e vá atrás dela. 
— Ele deve chorar por ela… 
— Ele lamentou! É hora dele tirar a poeira antes que 
amaldiçoe essa família. Há pouco que posso fazer quando ele se 
recusa a oferecer sua assinatura. Se ele não entregar o negócio 
para Percy, convença-o a me dar. Eu cuidaria melhor disso de 
qualquer maneira, assim como teria cuidado melhor dela. 
Cada músculo do corpo de Signa começou a tremer com o 
pesado silêncio no ar. Havia suor na nuca e nas costas, mas ela 
não prestou atenção. 
— O que — Marjorie perguntou por fim —, você está me 
pedindo? 
Não houve hesitação na resposta de Byron. 
— Meu irmão é um homem solitário, Marjorie. E homens 
solitários são... suscetíveis. Especialmente para as artimanhas de 
uma mulher. 
— O que você está sugerindo? — Seus dedos se curvaram 
contra a mesa. — Fale sem rodeios comigo, Byron. 
Byron passou o polegar e o indicador pelo bigode escuro, 
aproveitando o tempo para se recompor. 
— Você e meu irmão tiveram relações no passado. Eu pensei 
que você aproveitaria a oportunidade de estar com ele, ele 
poderia fazer uma vida para você. 
A cadeira rangeu contra o piso de obsidiana quando 
Marjorie se levantou. 
— Como você ousa? Você pode ter passado a vida sofrendo 
com um amor perdido, Byron, mas não vou me rebaixar a tanta 
vergonha. 
— Desculpe se ofendi você... 
— Me ofendeu? — A risada de Marjorie foi como o tiro de 
uma pistola, afiada e hesitante. — Você colocou em questão 
minhas próprias virtudes. Você insinuou que sou pouco mais 
que uma prostituta, e Elijah uma marionete para brincar. Você 
mais do que me ofendeu, senhor. Pelo bem das crianças, 
continuarei tentando falar com Elijah, mas não para ajudá-lo. 
Eu quero que você fique longe de Percy. 
Byron também se levantou. 
— Não farei tal coisa. Se você se importa com aquele garoto, 
então fará o que eu pedir. Há mais de uma maneira de arruiná-
lo, senhorita Hargreaves. 
Houve uma batida antes que ela respondesse, suas palavras 
mais trêmulas agora. 
— Percy não fez nada de errado. 
Byron virou os ombros para trás, envaidecendo-se em sua 
vitória. 
— Não vou ver o legado da minha família cair com a morte 
de uma mulher. Elijah deve parar de negligenciar seus deveres. 
— Como você se tornou insensível, Byron. Deus, como eu 
gostaria que ela pudesse vê-lo agora. 
O tapa foi tão alto que Sylas cobriu a boca de Signa e a 
puxou contra seu peito enquanto ela ofegava de surpresa. Signa 
só podia imaginar o quanto deve ter queimado, e cada parte 
dela ansiava por abrir a porta do armário e ir atrás de Byron. 
Para machucá-lo por machucar Marjorie. 
Com os pés trêmulos, Marjorie agarrou o rosto com uma 
mão. Com a outra, ela pegou o casaco. 
— É hora de você crescer e parar de competir com seu irmão. 
Por mais perdido que esteja agora, ele sempre será o melhor 
homem. — Ela cuspiu no chão e saiu. Signa esperava 
desesperadamente que ela pegasse a carruagem e deixasse Byron 
encalhado, mas Byron amaldiçoou e a seguiu, fechando a porta 
atrás dele. 
Signa estava muito entorpecida pela surpresa para se mover 
enquanto o silêncio se instalava em seus ossos. Marjorie e Elijah 
estiveram juntos antes? Isso explicaria sua familiaridade. Se 
aconteceu antes de Elijah se casar ou depois, foi um escândalo, 
no entanto. Mesmo assim, Signa estava começando a entender 
o apelo da atração ilícita. Depois de um momento, seus 
pensamentos voltaram para a firmeza do corpo de Sylas contra 
o dela, e para imaginar coisas que ela não tinha que imaginar, 
especialmente quando já estava tão infernalmente quente no 
armário minúsculo. 
Felizmente, assim que ouviram o barulhode uma 
carruagem descendo a rua, Sylas abriu a porta do armário de 
casacos e Signa explodiu em uma necessidade desesperada de ar 
fresco. Ela não queria nada mais do que tirar a roupa, o suor 
escorregadio e abafado, mas se contentou em remover a capa e 
jogá-la nele. Signa nunca esteve mais grata pela escuridão 
enquanto se perguntava se ele estava pensando em seu corpo 
tanto quanto ela no dele. 
— Sinto que realmente nos ligamos lá. — Seu tom era 
provocador, confirmando suas suspeitas. — Ouso dizer que 
agora conheço você melhor do que já conheci alguém. — E 
então ele se acalmou, como se percebesse que tinha dado uma 
informação que não pretendia, e se virou enquanto limpava a 
garganta. 
 — Ele bateu nela — sussurrou Signa, atordoada e ansiosa 
por uma mudança de assunto. 
Sylas assentiu, ajustando suas luvas. 
— Ele bateu. 
— Você acha que ela vai ficar bem? 
— Para ser franco, acho prudente temer mais pelo bem-estar 
de Byron do que pela senhorita Hargreaves. Acho que nada é 
tão aterrorizante quanto uma mulher desprezada. E você viu o 
rosto dela? Positivamente assassino. Agora — ele estendeu a 
mão —, chega disso. Enquanto estamos aqui, vamos descobrir 
que outros segredos este lugar está escondendo. 
Vinte 
 
Apesar de sua situação – ou talvez por causa dela – Signa não 
conseguiu parar a emoção que a percorreu quando Sylas pegou 
sua mão e a puxou mais para dentro do Grey’s. Naquela manhã 
ela estava tomando chá, vivendo seu sonho de participar da alta 
sociedade. Ela esperava que aquela reunião preenchesse o vazio 
solitário dentro dela, mas tudo o que fez foi fazê-la perceber o 
quanto ela tinha que trabalhar, e quanto mais ela tinha que 
aprender e se moldar para ser aceitável. No entanto, com Sylas, 
seus ombros finalmente relaxaram e seu corpo vibrava com a 
vida. 
Com ele, não havia nenhuma preocupação de que alguém 
examinasse cada movimento dela. Ela só poderia ser. 
A noite deles juntos parecia um recomeço. Como encher 
seus pulmões com uma respiração profunda. Ela deixou Sylas 
liderar, tentando acalmar as batidas de seu coração enquanto 
ele pegava uma lamparina a óleo e a levava para o escritório. Ela 
precisava se controlar — além de seus diferentes status, ela mal 
conhecia Sylas. Em vez de deixar sua mente agitar-se com 
pensamentos de jovens bonitos, ela precisava se concentrar na 
tarefa em mãos. 
 O escritório de Elijah em Grey's era semelhante ao que ele 
havia montado em Thorn Grove. Uma grande escrivaninha de 
mogno e uma cadeira felpuda estavam no centro, em cima de 
um tapete vermelho polido. Alguém havia projetado a sala para 
ter um ar de masculinidade, com um sofá de couro que ficava 
na frente de estantes que ocupavam uma parede inteira. 
Embora Elijah supostamente não estivesse no escritório há 
algum tempo, não havia sequer um grão de poeira nas 
prateleiras, e os livros de couro preto estavam organizados 
ordenadamente em sua mesa. 
À primeira vista, pode-se pensar tudo sobre o padrão do 
escritório. Mas algo incitou Signa a olhar mais fundo, assim 
como Sylas parecia inclinado a fazer quando se jogou no 
assento atrás da mesa e tentou a gaveta de cima. Não se mexeu. 
— Acha que consegue abri-lo? — Signa perguntou, 
lembrando com que facilidade ele destrancou a porta do 
Grey's. 
— Eu posso tentar. Essas são coisas mais inconstantes, no 
entanto. É mais difícil mascarar que você está brincando com 
isso. É por isso que... — Ele se levantou e foi até a estante, 
inspecionando as lombadas de velhos livros de couro e várias 
bugigangas. Ele até mexeu nos móveis até que, escondido sob 
uma lâmpada, descobriu uma chave de prata ornamentada. — 
Eu preferiria encontrar uma dessas. — Se a cabeça dele já não 
estivesse tão inflada, Signa poderia ter admitido que estava 
impressionada. Ele certamente esperou pelo elogio e zombou 
quando ela apenas acenou para ele abrir a gaveta. 
O conteúdo era muito menos excitante do que ela esperava. 
Contas antigas de álcool e charutos importados estavam 
espalhadas pela gaveta, assim como cartas deixadas por clientes. 
Ao inefável Sr. Elijah Hawthorne, um escritor começou, 
cuspindo bobagens por duas páginas sobre como estava 
satisfeito por ter a oportunidade de se tornar membro da 
Grey's, e o quanto ele valorizava as qualidades de um 
cavalheiro. Elijah deve ter guardado a carta para seu próprio 
divertimento. Havia mais iguais, talvez uma dúzia ou mais, cada 
um deles tão indulgente quanto o outro, escritos na esperança 
de obter as boas graças de Elijah e reivindicar uma adesão. 
Ela colocou as cartas de lado e começou a vasculhar a gaveta 
mais uma vez, até que tirou um punhado de fotografias. 
Sylas deu um silvo de protesto. 
— Cuidado. Somos apenas fantasmas de passagem. Não 
devemos deixar marcas. 
Signa o ignorou. Elijah era agora uma casca do homem que 
tinha sido nas fotografias dele e de sua família. Embora apenas 
um momento capturado no tempo, sua risada na primeira foto 
da pilha foi contagiante. Ele sorriu brilhante como uma estrela, 
o braço enrolado na cintura de uma linda mulher. Ela era a 
encarnação da luz do sol, radiante, com ondas loiras que 
desciam até a cintura. 
Lilian. Ela parecia longe do espírito assombrado que Signa 
conhecia – ainda não uma mulher atormentada por sua morte 
e impotente para mudar o destino de sua filha. 
Diante deles estavam duas crianças: Percy, talvez dez anos na 
foto, e uma jovem Blythe diante dele. Blythe parecia muito com 
sua mãe, embora sua expressão fosse mais astuta. No retrato em 
miniatura, Lillian estava com a mão no ombro de Percy 
enquanto o menino olhava para a câmera. A expressão de Percy 
era severa, mãos pequenas nas lapelas de seu paletó, como se 
para garantir que ele parecesse adequado. Parecia que não havia 
mudado muito ao longo dos anos. 
Signa teria gostado de roubar a fotografia para provocá-lo, 
mas não ousava correr o risco de ser descoberta. Ela começou a 
colocar a foto de volta para a gaveta quando seu polegar roçou 
em uma borda fina na parte de trás da foto, havia algo preso a 
ela. Com a ponta da unha, ela tirou um pedaço de pergaminho 
do verso da fotografia. Estava amarelado com manchas de café 
e sua tinta escura borrada por um derramamento de líquido. 
— É uma carta — ela disse a Sylas, que pairava sobre ela. 
Eu imploro a você, Elijah, que pense em nosso filho. 
Não importa o que você possa sentir por Grey's, é tudo o 
que ele sabe. 
Entendo que sua relação com aquele lugar seja tensa, 
mas devemos lembrar que nosso filho não é você. Qualquer 
escrúpulo que você tenha não deve ser descontado no garoto. 
Percy nasceu para herdar o legado de Hawthorne. É tudo 
o que ele quer, Elijah. Por favor, não deixe sua dor – não 
deixe seu egoísmo – fique no caminho dele. 
Havia mais palavras borradas e manchadas além da 
legibilidade, mas não havia como negar que vieram de Lillian, 
antes de sua morte. O tempo todo, Signa tinha a impressão de 
que Elijah havia tirado Grey's de Percy após a morte de sua 
esposa. Mas de acordo com esta carta, Elijah estava tendo 
dúvidas em deixar Percy herdar Grey's há muito mais tempo. 
Outra peça do quebra-cabeça. Outra informação para 
guardar em segurança. 
Sylas se inclinou sobre o ombro de Signa para ler a carta, 
perto demais para ser confortável. 
— Pobre coitado. Parece que Elijah está falando sério sobre 
jogar este lugar no fundo do poço. 
 Signa enfiou a carta no verso da foto mais uma vez e a 
devolveu à gaveta antes de dar voz a um pensamento passageiro. 
— O que poderia tê-lo feito mudar de ideia tão de repente? 
O que poderia fazê-lo querer desistir do legado de sua família? 
Achei que era sua maneira de lamentar. 
— Isso é o que todo mundo parece acreditar. — Sylas olhou 
pela janela para o céu escuro. Já devia ter passado da meia-noite 
agora. — Acho que não encontraremos mais nada esta noite, 
Srta. Farrow. Devemos nos apressar de volta, antes que alguém 
perceba sua ausência. 
Dada a festa, ela duvidava que alguém notaria. Ainda assim, 
não erasensato arriscar ser encontrada se esgueirando pela 
segunda noite consecutiva. Ela cedeu, fazendo uma varredura 
para garantir que tudo estava no lugar antes de se afastar da 
mesa. 
— Meros fantasmas passando — disse Signa, não mais 
tímida enquanto enlaçava o braço no que Sylas oferecia. Seu 
toque tinha despertado algo dentro dela que ela não tinha 
interesse em reprimir. Uma curiosidade persistente para 
experimentar o toque de um homem sob seus dedos. 
Era, como ela estava descobrindo, um sentimento que ela 
gostava bastante. 
Vinte e um 
 
Uma hora depois que Sylas a deixou nos túneis, com instruções 
para pegar a primeira à direita, a segunda à esquerda e seguir em 
frente até chegar à dispensa, Signa ainda estava vagando 
sozinha, a mão direita pressionada contra a parede para guiá-la. 
Curva após curva, ela se deparou com a escuridão e um 
labirinto que parecia mudar e diminuir abaixo dela. 
A música da festa de Elijah era um tamborilar distante 
contra as paredes do túnel. Signa o perseguiu mesmo assim, 
agarrando-se ao barulho na escuridão. Mas não importa o quão 
longe ela perseguisse, não havia fim à vista. Curva após curva, 
túnel após túnel, a pressão em seu peito aumentava. Foi como 
no dia em que ela chegou a Thorn Grove, quando ela 
perambulou por corredores que pareciam intermináveis, 
insultada por retratos de todos que viveram lá antes de seu 
tempo. 
Alguém ou alguma coisa estava brincando com ela, mas 
saber disso não fez nada para aliviar sua respiração superficial. 
Cada um de seus passos ficou mais desesperado, cada respiração 
mais apertada, até que ela tropeçou em outro beco sem saída. 
 Ela bateu na parede em frustração. 
— Quem está aí? Não tenho tempo para jogos. 
Uma voz veio da escuridão, baixa e zombeteira. 
— Pelo contrário, Passarinha, acho que você poderia usar 
mais jogos em sua vida. 
Signa nunca ficou tão aliviada ao ouvir aquela voz. Ela se 
virou para ele, capaz de ver Morte mesmo nos túneis, pois suas 
sombras eram mais escuras que a própria noite. Ele parecia 
maior do que o normal. 
— Você — ele disse sem suavidade —, está atrasada. Eu 
esperava que você tentasse atravessar as paredes em vez de 
seguir as regras deste túnel, mas você é mais teimosa do que eu 
imaginava. 
— E você é um tolo arrogante. — Ela não havia esquecido 
sua promessa de aulas à meia-noite, embora nunca tivesse 
imaginado que ele se rebaixaria a jogos mesquinhos como 
punição. — Eu não tenho nenhuma fruta comigo, seu monte 
de sombras ridículas. 
A escuridão se reuniu ao redor dela. 
— Um monte ridículo de sombras, não é? Bem, Srta. 
Farrow, temo que este monte de sombras seja sua única ajuda 
no momento, e você faria bem em se lembrar disso. 
Especialmente se pretende salvar sua prima. 
Apesar do medo, dos nervos e da raiva fervendo dentro dela, 
Signa inclinou a cabeça para trás e riu. Era um som amargo e 
antinatural. 
— E eu devo confiar em você? 
O suspiro que ele soltou entre os lábios se tornou o vento 
em seu cabelo. 
— O que será necessário para você aceitar que eu não sou 
seu inimigo? 
— Não matar todos ao meu redor seria um bom começo. — 
Ela endireitou os ombros. — E você poderia responder minhas 
perguntas também, sem os enigmas. 
Embora ainda sem rosto e nada mais do que faixas de 
sombra e o sangramento da noite, a escuridão encolheu até que 
Morte se tornou uma sombra em forma de homem que se 
curvou para ela. 
— Pergunte-me, então, e eu responderei. 
Ela achatou sua expressão, tomando cuidado para não 
mostrar sua surpresa. Embora ele não tenha feito nenhum 
comentário sobre as vidas que ele tirou, ela sabia que não 
deveria perder esta oportunidade. 
— Se eu tenho os poderes que você reivindica, por que eles 
falharam comigo quando eu fiquei presa na cerca? 
Suas sombras roçaram perto de sua pele quando ele 
respondeu sem hesitação. 
— Porque você os teme. Porque você tem medo de mim e 
do meu mundo, e que de alguma forma você pode estar se 
tornando parte dele. 
Ela mordeu o interior de sua bochecha, não deixando nada 
vazar em sua expressão. 
— Eu não pertenço a esse mundo. 
— Não? Então por que nunca conheci outra alma que 
compartilhasse meu poder? — As sombras a rodearam. — 
Desde a criação da própria vida, houve Morte para equilibrá-la. 
E em todo esse tempo, nunca consegui me comunicar tão 
claramente com outra alma viva. 
Ela não se atreveu a desviar o olhar do ceifador, mas tentou 
espiar através das sombras que o protegiam. Como ele pode 
parecer com suas sombras despidas? Ele teria um rosto? Um 
corpo? Oh, o que ela não daria para pegar Morte corando. Para 
pegá-lo se sentindo tão pequeno e vulnerável quanto ela. 
— Como você se sentiu — ele perguntou de repente —, 
quando usou meus poderes na noite passada? Você gostou de 
sentir o formigamento contra sua pele? Você encontrou 
conforto na escuridão e nas sombras? 
Ela tinha, embora fosse uma verdade que ela tentou não 
admitir nem para si mesma. Durante toda a sua vida, ela odiou 
Morte. E ainda assim ela passou seus anos perseguindo-o como 
uma mariposa para uma chama. Por mais difícil que sua vida 
tenha sido por causa dele, ela deveria tê-lo desprezado. Por que, 
então, sempre que ela estava com ele, algo dentro dela queimava 
quente e fervoroso? 
Diante de Morte, ela deveria tremer. Ela deveria temer. E, no 
entanto, quanto mais tempo ela passava com ele, mais esse 
medo estava começando a se esvair à medida que a curiosidade 
apodrecia em sua ausência. 
Ela não odiava Morte, não de verdade. E Deus, que tola isso 
a tornava. 
As sombras de Morte se inclinaram, circulando-a. Ao fazê-
lo, o ar nos túneis ficou mais apertado e mais pesado, e Signa 
deixou que seus dedos e seus pulmões congelassem. Havia um 
limite, porém, para essa frieza. Um pouco mais, e ela queimaria. 
No entanto, não importa o quanto ela fingisse o contrário, 
Signa ansiava por aquela sensação. 
— Ah, sim. — A voz de Morte era um ronronar na noite. — 
Foi o que eu pensei. Eu tenho o poder de ajudá-la, mas não vou 
me forçar a você. Você deve vir por conta própria. Meu toque 
é fatal, Passarinha. Apenas um toque na minha pele, e você 
estará atrás do véu novamente, capaz de acessar seus poderes até 
que seu corpo se curar.. — Ele estendeu a mão. — Chega de 
fingimentos… quero mostrar nosso mundo a você. Diga a 
palavra, e esta noite eu vou ensiná-la a acessar seu poder sem a 
belladonna. 
A memória de seu tempo no jardim de Lillian surgiu, e Signa 
se lembrou do corte do portão de metal frio através de seu 
corpo. A pressão em seus pulmões imóveis enquanto eles 
estavam congelados no tempo. Havia outra coisa de que ela se 
lembrava também — a liberdade. O poder. 
O que significaria, porém, se ela agisse com a ira de Morte? 
Se ela permitisse seu poder, o que isso fazia dela? Havia uma 
escuridão esperando para abraçá-la, esperando para afogá-la. 
Era o lado de si mesma contra o qual ela lutou com unhas e 
dentes, pois se ela cedesse a tais desejos e abraçasse os poderes 
dentro dela, o que ela poderia se tornar? 
— Você sabe qual túnel leva de volta a Thorn Grove? — ela 
perguntou. 
Morte respondeu friamente: 
— Eu sim. 
— E você pode me levar até lá? 
— Eu não vou. — Signa notou sua escolha de palavras com 
aborrecimento. — Você tem habilidades que são inéditas, 
Signa Farrow. Você não é uma humana comum, e é hora de 
parar de agir como uma. Se você abraçasse o poder que vejo em 
você... 
— Não importa o que você vê!— Suas palavras soaram 
muito alto, penetrando em seus próprios ouvidos. — E se eu 
quiser ser uma humana comum? Estou cansada de você me 
seguir aonde quer que eu vá. Estou cansada de pessoas 
morrendo! 
Embora ela não visse nariz, Morte parecia estar apertando a 
ponte de um. 
— Se você me deixar mostrar o que você pode ser – o poder 
que você pode exercer – você pode mudar de ideia. Talvez você 
ache que uma vida comum lhe convém agora, mas o que 
acontece quando isso não for mais suficiente? Quando houver 
um vazio em você que não pode serpreenchido com chá e 
fofocas? 
“Tentei deixar você em paz”, continuou ele “Eu tentei não 
me importar. Não me envolver. Mas estamos conectados, você 
e eu. Nossos destinos… “ 
— O destino pode me deixar em paz — Suas têmporas 
pulsavam com uma dor de cabeça crescente. — Posso 
determinar meu próprio destino sem sua ajuda. 
Havia um sorriso em sua voz. 
— Se eu ver o Destino novamente, vou deixá-lo saber que 
você se sente assim. 
 Signa se acalmou, embora isso não devesse tê-la 
surpreendido. Se Morte era real, então por que o Destino não 
deveria ser? 
Morte notou sua curiosidade. 
— Diga-me, você realmente deseja que eu vá? Porque eu 
tentei deixar você. No entanto, toda vez que faço isso, parece 
que você encontra uma razão para me puxar de volta. Diga a 
palavra e eu tentarei novamente se é isso que você quer. 
Quando ele deu um passo para longe, Signa estendeu a mão 
instintivamente para detê-lo. 
— Espere! — Ele acalmou sem hesitar, e a tensão no peito 
de Signa diminuiu um pouco, e ela disse a ele: — Sim, eu 
preferiria que todos ao meu redor não morressem. Mas... eu 
não quero ficar presa aqui sozinha. 
Mais uma vez, Morte estendeu a mão. 
— Minha oferta ainda está de pé, mas você precisa tomar 
uma decisão. Sou um homem ocupado, lembra? 
— Sim, tenho certeza de que estou poupando você de uma 
dúzia de mortes enquanto falamos. 
Ele zombou. 
— As almas não são criaturas pacientes. Quer eu vá até eles 
ou não, eles me encontrarão em breve. 
Ela revirou os olhos, mas sabia que não havia como mudar 
sua mente. 
— Tudo bem.— A palavra veio com os dentes cerrados. — 
Faça-me uma promessa, e eu jogarei seu jogo. 
Sua mão vazia e na espera se apertou com força. 
— Não faço promessas que não posso cumprir. 
— Bom. Então me prometa que deixará todos em Thorn 
Grove em paz. Estou cansada de fazer laços, só para você tirá-
los de mim. 
O ar ficou ainda mais denso, seus pulmões mais frios. 
Quando Morte falou novamente, toda a diversão, toda a sua 
curiosidade, havia evaporado. 
— Você tinha um tio que ignorava você. Que roubou de sua 
fortuna e manteve você trancada em um quarto para que ele 
pudesse trazer a cidade inteira para sua cama. Você tinha uma 
tia que abusou de você e outro guardião que você nunca teve 
que conhecer porque ele era alguém que não era adequado para 
ficar sozinho com garotas, Signa. E quanto ao que morreu na 
banheira? Ela tinha um plano para casá-la com o filho de seu 
amigo para que ele pudesse ficar com sua fortuna e ajudá-los a 
obter riqueza. 
— Fiquei esperando que o próximo fosse melhor que o 
anterior — continuou ele —, mas a ganância transforma as 
pessoas em monstros. Foi realmente tão terrível se livrar deles? 
Ela nunca tinha considerado sua vida e toda a sua reviravolta 
sob tal luz. Ela tinha sido tão jovem, e estado em muitas 
situações estranhas para saber o que era normal e o que não era. 
Ele estava certo que seus guardiões tinham sido cruéis com ela. 
Todos menos um. 
— Eu tinha uma avó que não fazia nenhuma dessas coisas 
— argumentou Signa —, o que ela fez? 
As sombras ao redor dele estremeceram, iradas. 
— Todos aqueles que vivem devem morrer, Passarinha. 
Você sabe tão bem quanto eu que era a hora dela. Eu vim para 
ela enquanto ela ainda mantinha sua dignidade. 
Signa rangeu os dentes, querendo tanto que sua frustração 
só aumentasse, nunca diminuísse. 
— Por sua causa, tive uma vida de isolamento. Foi uma 
dificuldade atrás da outra porque todos ao meu redor 
acreditavam que eu estava amaldiçoada. 
Morte bufou. — Não é minha culpa você estar cercado por 
abutres piedosos… 
— Abutres ou não, eu teria pelo menos uma companhia de 
vez em quando! Você mesmo disse que a vida e a morte devem 
manter o equilíbrio, mas parece estar fazendo um péssimo 
trabalho ao seguir essa regra. Estou enganada, ou você não me 
disse o quanto é importante que eu reconheça meus poderes e 
não saia por aí matando pessoas acidentalmente, para que 
possamos manter um equilíbrio frágil entre a vida e a morte? 
Suas sombras pararam, e Signa se viu olhando para aquele 
homem estranho – a morte encarnada, o sangramento da noite 
– com o coração na garganta. Quando ele falou, sua voz era o 
som de cascos sobre paralelepípedos, baixo e entrecortado. 
— Talvez tenha sido mais egoísta da minha parte do que eu 
percebi, mas eu não podia ficar parado e ver como eles tratavam 
você. 
Ele efetivamente roubou a aspereza de Signa. Não era certo, 
o que ele fez. Todas aquelas pessoas, por mais terríveis que 
fossem, não mereciam morrer. No entanto, Signa não pôde 
evitar a forma como seu estômago se agitou com sua admissão. 
— Você... Você os levou para tentar me ajudar? — Ela não 
queria acreditar que tal coisa pudesse ser verdade. Ninguém 
nunca a defendeu. Ninguém jamais tentou protegê-la. Então, 
por que ele tinha? 
— Claro que sim, sua garota ridícula. — Ele cerrou as mãos 
e respirou fundo, como se tentasse reunir paciência. — Isso te 
satisfaz? 
Ela levou um momento para se endireitar, mal entendendo 
o que ele queria dizer. Porque não. Ela nunca tinha percebido 
que poderia estar tão insatisfeita. Não tinha percebido que seus 
lábios podiam formigar ou seu estômago doer com um desejo 
que ela sabia que não deveria existir. 
Ela deveria odiá-lo. Mas saber que havia alguém olhando 
para ela, alguém protegendo-a e cuidando dela, era tudo o que 
ela sempre quis. E mesmo que não tenha sido do jeito que ela 
esperava, até mesmo ouvir aquelas palavras parecia muito 
melhor do que deveria. 
 — Aceito sua oferta. — Ela forçou as palavras antes que 
pudesse mudar de ideia. — Mostre-me como acessar meus 
poderes sem a belladonna e me tire daqui. 
As palavras o desamarraram. Quando as sombras de Morte 
envolveram Signa, ela não vacilou. Embora uma pequena parte 
dela avisasse que isso era errado, que ela deveria ter medo, ela se 
inclinou em sua carícia. Ela podia sentir suas sombras agora. 
Podia senti-los ao longo de sua pele, roçando seu pescoço e 
lábios. Acendendo partes dela que ela nunca soube que 
poderiam ser despertadas. 
Seus dedos apertaram os dela, e era uma mão de verdade, 
suave contra a dela e pálida como a lua. Ele a puxou para perto. 
Signa respirou fundo – ele realmente era mais do que a 
escuridão e as sombras em que espreitava, então. Ele tinha 
forma. 
— Todos aqueles que eu toco — Morte sussurrou —, 
morrem. — Sua outra mão pressionou sua bochecha de 
repente, e ele soltou um suspiro maravilhoso tão pesado que 
todo o corpo de Signa aqueceu. — Exceto você, Signa Farrow. 
Quando eu te toco, eu te sinto. Em você, minha influência é 
temporária. 
Signa ansiava por se inclinar para aquele toque. Ele não 
soava como ele mesmo, a voz obscura agora, ofegante e 
maravilhosa. Lentamente, ele deixou sua mão cair de sua 
bochecha, embora os dedos de sua outra mão permanecessem 
apertados ao redor dela. 
— Se quebrar nossa conexão, você será corpórea mais uma 
vez — ele a avisou. Signa assentiu e apertou os dedos nos dele, 
nunca querendo experimentar ficar presa dentro de algo 
novamente. A morte fez um som baixo na parte de trás de sua 
garganta enquanto ela se aproximava. 
Quanto mais eles se tocavam, mais ela podia sentir sua 
temperatura despencando. O peso de seu corpo ficou leve 
enquanto a gravidade se esvaía. Gelo a atravessou, e seus 
pensamentos escureceram quando esse poder escorregou, 
assegurando-lhe que ela poderia fazer qualquer coisa. Que ela 
era invencível. 
Ela inclinou a cabeça para trás, saboreando a sensação. Este 
mundo era dela para tomar. 
— Como você está se sentindo? — Morte perguntou com 
uma cadência de conhecimento. 
— Como se o mundo que conheci de repente fosse 
insuficiente. — Ela não percebeu isso até que ela falou a 
verdade em voz alta. Algo sobre Morte – algo sobre quando ela 
estava assim – a fez corajosa. A fez confiante de uma maneira 
que ela não ousaria ser. 
— Para você, este mundo é insuficiente. — A morte a 
conduziu pelos túneis. Não havia paredes para bloqueá-losnem portas para mudar seu caminho. O mundo estava aberto 
para seus lances. — Para você — continuou Morte —, o 
mundo pode ser infinito. — Eles passaram de um túnel para o 
outro, o mundo se curvando aos seus caprichos. — Se você 
acolhe esse poder ou não é sua escolha, mas esse sentimento – 
este mundo – pode pertencer a você. Você só precisa tomá-lo. 
Ela fechou os olhos. Havia uma pressão na parte de trás de 
seu crânio que ela logo percebeu que vinha das almas solitárias 
que a chamavam, desejando passar. Então veio outra pressão 
sobre ela que ela reconheceu como uma morte próxima – 
alguém pronto para ser colhido desta terra chamando por ela. 
Quando Signa abriu os olhos novamente, eles estavam 
úmidos. 
— É triste? — ela perguntou. — O que você faz? 
Os músculos em suas mãos flexionaram em surpresa. 
— Há momentos em que eu gostaria que as coisas pudessem 
ser diferentes. — Não foi uma resposta direta, mas Signa achou 
que era a melhor que ela conseguiria. — Há momentos em que 
gostaria de poder alertar as pessoas sobre suas escolhas. Vidas 
que devo tirar em uma idade muito jovem ou quando eles estão 
cercados por pessoas que não estão prontas para que eles 
partam. Sou odiado e temido mais do que qualquer coisa ou 
qualquer pessoa neste mundo. Então, às vezes, sim, pode ser 
triste. Mas é quem eu sou. 
“Tem algo bom nisso também, eu sou a primeira pessoa que 
as pessoas veem quando dão seu último suspiro. Eu sou o 
mensageiro que pode entregá-los àqueles que eles perderam. Eu 
sou aquele que garante que não se preocupem, ou que entrega 
uma morte rápida para aqueles que não são bem-vindos na vida 
após a morte. Sou muitas coisas, mas o que não sou é inferior.” 
— Você deve estar sozinho, no entanto. — ela disse, seu 
peito doendo um pouco com o pensamento. Na familiaridade. 
— Sim — ele admitiu. — Por muitos anos fiquei sozinho, 
forçado a passar meus dias observando a vida dos humanos, 
nunca conseguindo interagir. 
— Mas você pode interagir comigo. 
— Ah — ele disse —, então você vê porque eu gosto de te 
provocar tanto. Já não estou tão sozinho, Passarinha. Não tão 
solitário assim. 
Ela queria mais informações, saber o que essa conexão entre 
eles significava e por que ela foi capaz de vê-lo. Mas quando ela 
se virou para perguntar, ele estava cercado por orbes azuis 
translúcidos que dançavam ao seu redor, iluminando seu 
caminho. 
— Apesar do que você possa pensar, meu mundo não é tão 
escuro assim. — A morte inspecionou as orbes – almas, Signa 
percebeu. Almas impacientes; os que ele prometeu que podem 
encontrá-lo. Eles clareiam a escuridão sob seu capuz, e Signa 
teve o menor vislumbre de um rosto sob seu capuz de sombras. 
Apenas um traço de cabelo prateado como as estrelas, e um 
lampejo de um sorriso quando ele estendeu a mão para as almas 
que se juntassem nele. Algumas também se reuniram em Signa, 
girando em torno de seu vestido e através de suas tranças, 
embora voltassem como um enxame para Morte quando ele 
pigarreou. 
— Eles estão precisando de transporte — a Morte disse a ela. 
— É como eu sempre disse, sou um homem ocupado. — Ele a 
puxou pelos túneis com pressa até chegarem a Thorn Grove. A 
cada parede que passavam, Signa parava de se preocupar um 
pouco, relaxando nesse poder com o qual ela poderia muito 
bem se acostumar. Eles estavam subindo as escadas e indo para 
seu quarto rapidamente. 
Muito cedo, na verdade. 
Devo seguir meu caminho, mas estarei de volta amanhã à 
noite, pois há mais para lhe ensinar. Ele levou seu tempo 
afastando sua mão. 
A gravidade caiu sobre ela. Seus pulmões queimaram, dedos 
vazios queimando, enquanto a vida afundava em seus ossos. Ela 
apertou a garganta, a sensação pior do que ela se lembrava. 
— Fique fora da minha cabeça — Signa resmungou, embora 
houvesse um toque sarcástico por trás do comando. 
Não até você aprender a falar comigo. A morte riu, embora 
tenha durado pouco, pois as almas se aproximaram, 
duplicando, triplicando, mais exigentes do que nunca. Ele os 
golpeou com um silvo. 
— Boa noite, Morte. — Signa o viu escapar pela janela, as 
almas o empurrando para fora mais rápido do que ela gostaria. 
Boa noite, Passarinha. 
Ela se inclinou contra a janela e olhou para sua figura 
recuando até que ele desapareceu com a noite. Só então, 
enrolada em sua cama e ruminando sobre os acontecimentos da 
noite, ela percebeu que não conseguia se lembrar de ter se 
sentido menos sozinha. 
Vinte e dois 
 
Signa acordou antes do amanhecer — a uma hora, quando o 
céu ainda estava escuro e os empregados eram sua única 
companhia — e foi até a cozinha para uma inspeção. Ela se 
debruçou sobre as despensas e o suprimento de chá, através do 
mel, das geleias e da farinha com fervor, tudo isso enquanto a 
cozinheira-chefe a observava com uma carranca sombria. 
— Você não vai encontrar nenhum rato na minha cozinha. 
— latiu a cozinheira-chefe. Ela era uma mulher velha, seu rosto 
bem enrugado e de aparência suave, embora seus olhos fossem 
severos. Signa disse à mulher que tinha certeza de que não 
encontraria, acrescentando que nunca se pode ser muito 
cuidadosa nos dias de hoje. Então ela inventou alguma desculpa 
sobre como ela queria praticar para o dia em que ela 
administraria sua própria propriedade. 
A cozinheira resmungou, claramente desanimada por ter 
Signa bisbilhotando toda a cozinha com tanto escrutínio, mas 
aprovando sua intenção. E assim Signa procurou, testando e 
provando e vasculhando tudo. Ela encontrou os recipientes 
para o chá e um pequeno copo do que ela presumiu ser o 
verdadeiro remédio de Blythe, e não havia uma pitada de 
belladonna em nada disso. 
Signa estava carrancuda quando o café da manhã chegou 
quase duas horas depois, e Marjorie disse isso a ela. Não 
querendo que ninguém fizesse perguntas, Signa guardou sua 
frustração para depois das aulas, quando haveria mais tempo 
para pensar em seus próximos passos. Talvez Sylas tivesse uma 
ideia, ou talvez tivesse encontrado uma pista. 
Ela comeu sob o escrutínio de Marjorie, tomando cuidado 
para dar pequenas mordidas quando a governanta estava 
olhando. E quando ela terminou de comer, Signa seguiu 
Marjorie até a sala para começar a segunda metade de sua 
manhã – a metade que ainda se preocupava com os vivos, e com 
a vida que ela teria uma vez que seu tempo em Thorn Grove 
chegasse ao fim.. 
E nessa nova vida, se Signa alguma vez deveria ocupar seu 
lugar na sociedade, ela precisaria aprender a dançar. 
— Eu entendo por que esta lição é necessária para você — 
disse Percy, que se levantou para cumprimentá-la, endireitando 
a gola da camisa para que nenhuma ruga estragasse o tecido. —
, mas por que eu estou aqui? 
Marjorie sentou-se no banco do piano no canto da sala. Seu 
cabelo estava puxado para trás em uma bela espiral de cachos, e 
ela parecia tão elegante e adequada quanto Signa já a vira em 
um invólucro de algodão marfim. 
— Se ela quiser aprender direito, Signa vai precisar tanto de 
música quanto de um parceiro. E se eu devo fornecer a música, 
preciso que você seja o parceiro. 
Signa teria apostado que sua diretriz também tinha a ver 
com a forma como Percy passou a vagar por Thorn Grove, 
suspirando e patético em suas tentativas de encontrar algo para 
fazer. Ela o ouviu do lado de fora mais cedo naquela manhã, 
solicitando que uma carruagem fosse preparada para levá-lo 
para Grey's, apenas para um cavalariço informá-lo de que Elijah 
o proibiu de viajar para lá e que eles estavam sob ordens estritas 
de cumprir. Ela não tinha visto a reação de Percy, embora 
tivesse ouvido a porta que ele bateu atrás de si. 
Signa sentiu pena do primo. Ela o conhecia há quase um 
mês, tempo suficiente para perceber que ele era um Hawthorne 
em sua essência. Um orgulhoso e cavalheiresco Hawthorne que 
teve seu legado arrancado de suas mãos. 
Percy olhou para ela com seus olhos de raposa. Tão perto, 
ela notou que suas sobrancelhas eram bastante espessas, 
embora fossem de um vermelho tão pálido que pareciade longe 
como se ele tivesse muito pouco. Seus cílios também estavam 
pálidos como a neve. 
— Você é boa em dançar? — Percy perguntou, ao que Signa 
respondeu com um indignada: 
— Você é? — baixinho demais para Marjorie ouvir. Sua 
risada foi pouco mais que um sopro de ar. 
Não que Signa fosse uma dançarina ruim, mas era uma sem 
prática – a menos que as noites que ela passou sozinha em seu 
quarto contassem, quando ela fingiu dançar com um belo 
príncipe que a levou para longe de sua choupana. Signa não 
conhecia nenhum passo de verdade. Ela os aprendera na 
semana anterior, quando Marjorie passou horas batendo na 
que a mulher tão gentilmente chamava de “cabeça grossa e 
teimosa” de Signa. Esta seria sua primeira vez praticando com 
um verdadeiro parceiro, e ela não podia negar que Percy era a 
escolha perfeita. Ele foi feito para a sociedade, um aristocrata 
nascido e criado. Ele provavelmente seria capaz de dançar 
qualquer coisa, caso alguém pedisse para ele fazê-lo. 
Percy estendeu a mão sardenta e, quando Signa a pegou, o 
piano ganhou vida com uma valsa. 
O olhar de Signa mergulhou imediatamente em seus pés, 
contando seus passos. Ela podia dizê-los silenciosamente em 
sua cabeça, mas achou melhor sussurrá-los enquanto dançava, 
para garantir que não perderia nenhuma. A concentração 
empolou seus passos de modo que eram quase mecânicos. 
— Oh, querida prima. — Percy bufou. — Você dança como 
se fosse feita de fios e engrenagens. 
Ela o silenciou tão bruscamente que seu pescoço se retraiu 
como o de uma tartaruga. Ele tropeçou no tapete e estremeceu 
quando Signa tropeçou, pisando na ponta de seus pés com o 
salto da bota. Ela não se desculpou quando ele puxou o pé para 
trás com um suspiro – afinal, foi culpa dele por interrompê-la 
– e continuou a contar. 
— Se você vai tentar cortejar os homens com esses 
movimentos, o mínimo que você pode aprender a fazer é olhar 
para cima para não pisoteá-los — Percy sibilou. — Quem quer 
que você dance estará esperando uma dama, não um 
matemático. Olhe para cima. 
Signa perdeu a conta. Ela ergueu os olhos para ele, um 
sorriso de escárnio pronto quando percebeu que seu corpo 
ainda estava seguindo os passos. 
O rosto de Percy se abriu em um sorriso vitorioso. 
— Ah, vamos lá! — Ele apertou com uma mão e segurou as 
costas dela com a outra enquanto acelerava o passo para girá-la 
pelo chão da sala. 
— Percy… — Marjorie o advertiu, acelerando o ritmo 
enquanto ele o superava, puxando Signa junto em suas 
travessuras. A risada dele era tão leve e contagiante que Signa se 
viu juntando-se a ela, dissolvendo-se em um ataque quando ele 
chutou uma otomana para fora do caminho e a girou sobre o 
tapete. Eles tropeçaram um no outro, quase caindo no chão 
várias vezes, mas sempre se endireitando no final com algum 
floreio dramático. 
— Ainda cheia de engrenagens e fios? — ela o insultou. 
— Ah, com certeza — ele atirou de volta. — Se não fosse 
por mim, tenho certeza que você ainda estaria rastejando pela 
pista de dança, contando de um a três. 
Signa pisou propositalmente na ponta dos pés. 
Eles estavam tão perdidos em sua diversão, delirando com 
suas piadas e risadas, que nenhum deles percebeu que Elijah 
Hawthorne havia entrado na sala até que Marjorie se levantou 
e a música parou de repente. 
Os olhos de Elijah eram diferentes dos de Percy. Eram o azul 
dos miosótis, sua faísca oca e escondida sob as sombras. No 
entanto, quando ele olhou para o filho e ouviu a risada do 
jovem, uma luz brilhou por trás daquela mortalha escura. Uma 
pausa na tempestade. 
Elijah abriu a boca para falar, mas foi interrompido por seu 
mordomo, Warwick, que entrou correndo na sala. Passos 
ecoaram atrás dele, assim como o baque-tum-tum de algo 
pesado contra o chão de mogno da sala. Byron Hawthorne 
entrou atrás de Warwick, ombros caídos e uma carranca nos 
lábios. Signa se atreveu a olhar para Marjorie, que apertou a 
mandíbula e agarrou a borda do piano com força. 
— Minhas desculpas, Mestre Hawthorne — Warwick 
começou. —, ele insistiu... 
— Onde estão nossos carregamentos, Elijah? — Byron 
exigiu, tirando as luvas e entregando-as a Warwick. Em suas 
mãos estava a mesma bengala que Signa o viu usar quando o 
conheceu: jacarandá, com cabo de latão esculpido em forma de 
caveira de pássaro. Byron passou o polegar sobre ela enquanto 
se dirigia a Elijah, cravando uma unha na madeira. — Grey's 
ficará sem comida antes do final da semana. Se você não quer 
assinar os cheques, então assine a escritura e termine com este 
jogo. 
Elijah ergueu a mão. Ele acenou para Percy e sussurrou: 
— Vamos. Continue. 
Percy se afastou de Signa. Havia uma fome em seus olhos. 
Determinação na nitidez de sua mandíbula. 
— Deixe-me preencher um pedido. — Sua voz não vacilou. 
— Tenho contatos que podem agilizar. Teremos tudo o mais 
tardar na quarta-feira. 
Elijah o ignorou. 
— Eu quero que você continue. — Seus olhos pousaram em 
Signa com tanta severidade que ela se sentiu compelida a 
obedecer. Ela estendeu a mão para Percy para pegá-lo pelo 
braço, na esperança de aliviar a situação. A última coisa que ela 
queria era outro incidente com bolo. 
Mas o foco de seu primo estava travado em seu objetivo. 
Percy cerrou os punhos e deu três passos em direção ao pai. 
— Eu prometo que posso cuidar disso. Eu sei o que pedir, e 
eu sei onde conseguir. Eu mesmo cuidarei da entrega e 
garantirei sua qualidade na chegada. Se você apenas me deixasse 
tentar, você veria… 
— Eu disse para continuar, garoto! — A voz de Elijah 
cortou o ar como uma lâmina. — Ou sua cabeça está tão cheia 
de ar que você não pode me ouvir? Você esqueceu que está 
dançando com sua prima agora? Você tem uma obrigação com 
ela, não com alguns recibos de pedidos. Não a ignore para falar 
de trabalho. 
Eles já tinham um pouco de prática, e o que Signa queria 
mais do que tudo era que Percy fosse feliz. Vendo quanto 
Grey’s significado para ele a fez querer isso para ele; sua dança 
podia esperar. Mas antes que Signa pudesse falar, Marjorie 
interveio. 
— Senhor, estávamos quase terminando — disse ela. —, 
deixe Percy cuidar desse assunto. Comparado a uma dança, é 
muito mais urgente… 
Se Signa não soubesse ela pensaria que o frio que invadiu a 
sala que o próprio Elijah era Morte. O olhar que ele lançou para 
Marjorie deixou a sala inteira em silêncio. Signa não se atreveu 
a respirar até que Elijah se sentou em uma cadeira esmeralda de 
pelúcia e cruzou uma perna sobre a outra. 
Ele não olhou para o irmão novamente, e Byron, em vez 
disso, deu a Marjorie um olhar de advertência que a fez roçar a 
mão com ternura em sua bochecha, como se ela estivesse se 
lembrando de onde ele a esbofeteou. 
— Você vai se arrepender dessas suas escolhas, irmão.— A 
hostilidade de Byron atravessou a sala. — Eu pensei que 
quando Lillian morresse, que você iria focar. No entanto, veja 
como ela puxa você para baixo junto com ela, morto e 
enterrado. Essa mulher será sua morte, marque minhas 
palavras. Ela não vale isso. 
— Se ela tivesse concordado em ser sua, você teria pensado 
o contrário. Agora — — Elijah virou-se para Percy e Signa —, 
continuem. 
Derrotada, Marjorie afundou em seu assento enquanto 
Warwick colocava uma mão nas costas de Byron. Byron deu de 
ombros, amaldiçoando seu irmão, mas ele não lutou quando 
foi conduzido para fora de Thorn Grove. Sem espaço para 
discutir, um Percy carrancudo pegou Signa por um braço. Ela 
estremeceu quando ele a puxou de volta para a posição, os 
dedos cavando em sua pele. 
Novamente a música ao redor deles aumentou, e eles 
dançaram. Desta vez, nenhum dos dois perdeu um passo. 
Vinte e três 
 
Signa escapou no final da tarde. 
Marjorie estava tão tensa que, depois de perder inúmeras 
notas no piano, terminou a aula de dança mais cedo. Elijah não 
tinha ficado até o final; ele desapareceu sem dizer uma palavra 
no meio de uma das danças, com Warwick seguindo atrás dele. 
Deve ser difícil, pensou Signa, servir a alguém tão volátil 
quantoElijah. 
Embora ela tentasse falar com Percy depois da aula, ele 
pegou as luvas da mesa e a cartola do cabide, então desapareceu 
pela porta sem parar para reconhecê-la. Signa não podia culpá-
lo, não realmente. Ela era uma criança quando perdeu os pais, 
e não tinha uma única lembrança deles a perder. Percy estava 
crescido e cheio de lembranças quando perdeu a dele. E o pior 
de tudo era que um de seus pais ainda estava vivo. 
Signa não se intrometeu nem o perseguiu, mas deu a Percy 
seu espaço enquanto subia as escadas, arrastando as pernas 
exaustas para o segundo andar e descendo o corredor sombrio. 
Passado o retrato emoldurado dourado do homem ruivo com 
suas rédeas e o de uma Lillian radiante estava pendurada em 
frente ao quarto de Blythe. Quando Signa enfiou a cabeça para 
dentro, Blythe arqueou uma bela sobrancelha loira, mas não 
disse nada. Ela se acostumou com as visitas frequentes de Signa 
nas últimas semanas. 
— Boa noite — disse Signa, mantendo-se estóica para não 
revelar suas preocupações sobre o corpo frágil de Blythe. Sua 
prima não deveria estar ingerindo veneno – ela deveria estar 
melhorando. E ainda assim Blythe parecia uma folha de bordo 
seca, pronta para desmoronar na primeira rajada de vento. 
O jantar de Blythe de frango assado e batatas com manteiga 
estava na mesa ao lado de sua cama. Embora ela não pudesse 
inspecionar todas as refeições de Blythe, Signa verificou o 
máximo que pôde. Ela mordeu o frango com muito cuidado, 
depois as batatas, e suspirou de alívio. Não havia belladonna na 
comida, nem no oolong3. 
— O que acontece se a comida estiver envenenada? — 
Blythe perguntou com uma carranca. — Você não vai ficar tão 
doente quanto eu? 
— Não exatamente. — Signa pousou o chá e entregou o 
prato para Blythe. — Reconheço o sabor. Vou cuspir antes que 
isso possa me afetar. 
Blythe se inclinou para trás, aceitando aquela resposta. 
Signa, no entanto, era tudo menos como ela observava sua 
prima, tão magra e frágil. Agora que Blythe sabia ser cautelosa, 
Signa esperava que a garota se recuperasse rapidamente. Signa 
estava tão acostumada com sua própria recuperação rápida que 
 
3 Chá chinês bastante tradicional. 
ela não tinha noção de quão longa ou dolorosa era uma 
recuperação de processo para os outros. Talvez fosse normal 
que a melhora viesse a passo de caracol. 
— Ouvi música. — Blythe mergulhou a cabeça para trás 
contra os travesseiros. Seus lábios estavam tão brancos quanto 
sua pele – pior do que nunca. — Está acontecendo outra festa? 
Signa se sentou na beirada da cama e agarrou a mão de 
Blythe. A garota não protestou quando Signa enrolou os dedos 
nos dela, sentindo os batimentos em seu pulso. 
Lento. Estava tão, tão lento. 
— Eu estava aprendendo a dançar — Signa ofereceu, 
mantendo seu rosto livre de preocupação. Se Blythe fosse 
melhorar, então ela precisava acreditar que podia. — Espero 
estrear em breve se conseguir convencer a Srta. Hargreaves de 
que estou pronta. Você vai se juntar à temporada também, não 
vai? — Era uma bola brilhante que ela balançava na ponta de 
uma vara, esperando dar a Blythe algo pelo que ansiar. 
Não havia sequer um brilho nos olhos de sua prima. 
— Eu deveria estrear este ano. — Blythe admitiu. — Passei 
anos atrasando, mas no momento em que completei dezenove 
anos, Marjorie foi insistente. Não ter mais que participar da 
temporada talvez seja o lado bom da minha doença. 
Signa recusou as palavras de sua prima. 
— Você não deseja se juntar à sociedade? — Ela nunca tinha 
ouvido tal declaração. Nunca pensei que alguém pudesse 
querer algo diferente. A estreia era esperada, era o que os livros 
de etiqueta instruíam e para o que a sociedade treinava as 
jovens. 
Blythe se inclinou para a perplexidade de Signa. 
— Diga-me que você considerou o que significa ter um 
marido. — Ela pegou Signa pelo pulso, suas sobrancelhas se 
unindo. — Você tem a fortuna de sua família, Signa. Mas se 
você se casar, não será mais só seu. Você estará dando tudo – 
sua riqueza, seus desejos, seu poder – a um homem que terá 
mais influência e respeito do que você, como mulher, jamais 
será capaz de conquistar neste mundo. — Os lábios de Blythe 
eram linhas finas e duras. Seu aperto afrouxou depois de um 
momento, e embora sua energia estivesse esgotada o suficiente 
para que ela tivesse que se apoiar em seus travesseiros, havia 
uma dureza em seu olhar. 
Signa não foi tão ingênua a ponto de descartar tais 
pensamentos, mas eles nunca pareceram tão importantes 
quanto Blythe os fez soar. Que utilidade ela tinha para o 
dinheiro quando passava os dias sozinha? Até agora em sua 
vida, que benefícios ela obteve com a fortuna de sua família? 
Que motivo ela tinha para guardá-lo? 
— Eu não vou me casar — Blythe anunciou eventualmente, 
sua voz um pouco mais fraca. — Tenho dinheiro e status 
suficientes para fazer o que quiser sem me comprometer com 
um homem. — Seu queixo estava afiado como uma faca e, 
embora Signa nunca tivesse ouvido tal afirmação antes, ela 
acreditou em sua prima. 
Puxando as pernas para baixo dela, Signa se acomodou na 
cama e perguntou: 
— O que você vai fazer então, com todo o seu tempo? 
— O que eu quiser. — Uma luz brilhou nos olhos 
cintilantes de Blythe. — Vou pintar, viajar e vagar pelos 
corredores à noite para que eu possa dormir até a tarde, se 
desejar. Terei um cão de caça, ou três, e passarei minhas manhãs 
cavalgando sem ninguém para cuidar além de mim. Não há 
limites para o que posso fazer, pois estarei totalmente no 
comando. 
Signa supôs que seria ótimo fazer o que quisesse, sem 
nenhuma responsabilidade. Era uma liberdade maravilhosa, e 
ainda assim ela se perguntava... 
— E você vai fazer todas essas coisas sozinha? — A ideia a 
fez murchar um pouco. 
Blythe pareceu ofendida. 
— Claro que não. Eu tenho amigos, você sabe. Vou visitá-
los quando ficar entediada, e Percy, e... você, eu suponho. — 
As últimas palavras foram ditas suavemente, como se tivessem 
surpreendido até ela. Ela desviou o olhar antes que pudesse ver 
que Signa se recostou, atingida pelo peso daquelas palavras. 
Desde o dia em que Signa salvou sua prima sem saber, ela foi 
capaz de sentir o vínculo que as prendia. Todos os dias crescia 
além desses limites, em algo mais tangível. Uma chama frágil 
que Signa queria nada mais do que nutrir. Para proteger e 
alimentar, para se aquecer enquanto o observava queimar. 
— Fico feliz em ouvir isso — sussurrou Signa, ainda 
segurando a mão da prima no colo. — Embora eu deva admitir 
que conheci algumas amigas suas – e para ser franca, a ideia de 
que você iria procurar algumas delas para companhia é 
surpreendente. 
Foi nesse momento que Signa ouviu a risada de Blythe pela 
primeira vez. Era quente e rica, tão diferente do frio e 
severidade que ela retratava. O badalar dos sinos de casamento, 
ou o primeiro trinado de um piano. Blythe era difícil de desviar 
o olhar, bonita e fascinante, alguém que provavelmente atrairia 
todos os olhos em uma sala. Signa se perguntou como era sua 
prima antes da doença; como ela era quando sua família estava 
inteira e ela estava saudável. Se aquela risada fosse um 
indicador, Signa queria muito conhecer aquela garota algum 
dia. 
— Poucos são amigos verdadeiros — Blythe disse com 
alegria. — A maioria são conhecidos infelizes. 
— E Eliza e Diana? Você não é próxima delas? 
— Quando gosto de uma fofoca, são as primeiras que 
procuro. Não somos próximas, no entanto. Essa é a coisa sobre 
a sociedade, prima – há abutres que vão esperar o momento em 
que você tropeçar. E quando você fizer isso, eles vão tirar a pele 
de seus ossos para servir a si mesmos, em vez de ajudá-la a se 
levantar. É muito fácil se tornar uma presa. 
Signa desviou sua atenção, concentrando-se em seu colo e 
nas linhas profundas na palma da mão de Blythe. Ela tinha 
ouvido falar que havia pessoas que podiam dizer sua sorte por 
essas linhas, e ela se perguntou o que eles poderiamver nas de 
Blythe. Poderia ver uma vida como a que ela falou – livre, mas 
sozinha – realmente ser tão gratificante? 
— E a senhorita Killinger? — Signa perguntou 
eventualmente. — Eu a conheci uma vez, você sabe. Há muito 
tempo, ela e eu éramos amigas íntimas. Ela é um abutre 
também? 
O sorriso de Blythe era pequeno, mas brilhante. 
— Charlotte é maravilhosa. Ela é a única que se deu ao 
trabalho de me visitar desde que fiquei doente e quando minha 
mãe faleceu. Somos próximas há anos, desde que ela e o pai se 
estabeleceram em alguma terra do outro lado da floresta para 
que ela tivesse uma oportunidade melhor de encontrar um 
marido. Ela é gentil e inteligente, e uma cozinheira fantástica. 
Ela faz todo tipo de geleias, marmeladas e xaropes com as coisas 
que cultiva em seu jardim, e nos traz como presentes algumas 
vezes por ano. 
Essa gentileza realmente soava como a Charlotte que ela 
conhecia, e Signa ficou feliz com isso. Ainda bem que se a 
sociedade realmente era mais parecida com o que Blythe 
advertiu do que o que ela imaginou todo esse tempo, ainda 
havia algo de bom para ser encontrado nela. 
Signa não percebeu que ficou em silêncio por algum tempo 
até que Blythe lhe deu um tapinha na coxa. 
— E você, prima? — ela perguntou. — Eu não quis roubar 
sua excitação. Diga-me, há alguém em quem você está de olho? 
Signa procurou na memória o nome do solteiro elegível que 
Eliza lhe dera durante o chá. 
— Parece que Lorde Wakefield é uma escolha popular. 
A resposta ganhou lábios franzidos de Blythe. 
— Ele é bonito o suficiente, eu suponho. Honrado e tem 
um título, o que faz dele um bom par. Embora eu nunca teria 
imaginado que ele seria o seu tipo. Ele é muito... correto. 
— Você acha que eu não posso ser adequada? — Signa riu, 
deixando-se imaginar por um momento como seria Lorde 
Wakefield. Ele teria ombros largos, ela pensou, e pareceria 
bastante digno. Mas quanto mais ela criava uma imagem dele 
em sua mente, mais a imagem começava a mudar, até que ela 
viu olhos esfumaçados e um homem tão alto quanto um 
salgueiro. Até que ela viu Sylas. Seus pensamentos se desviaram 
para a sensação de seu corpo contra o dele quando estavam 
escondidos no armário de Grey's. No entanto, quanto mais ela 
pensava nisso, mais ela pensava na noite que passou de mãos 
dadas com Morte – e em como parecia natural. Ela se lembrou 
da emoção que queimou suas veias quando eles se tocaram, e 
da curiosidade que manteve seus pensamentos vagando de 
volta para ele. 
Esses homens encheram seus pensamentos tão 
completamente que Signa foi até a janela aberta para esfriar o 
calor da sua pele. O que havia de errado com ela? Era em Lorde 
Wakefield que ela deveria estar pensando. Pois se um cavalheiro 
como ele fosse visitá-la, Signa poderia garantir seu lugar na 
sociedade e uma vida cheia de boas companhias e grandes e 
alegres bailes. Sim, isso era o que ela deveria pensar, de fato – 
segurança. Não em encontros noturnos com Sylas ou 
brincadeiras à meia-noite com Morte. Ela precisava se 
controlar. 
 Signa preferiu se concentrar no que ela precisava, 
bisbilhotar a represa dos Hawthornes e ver quais informações 
ela poderia conseguir dela. Para aprender algo que poderia 
ajudar a salvar Blythe. 
— É de Percy que as senhoras estão realmente atrás. Ele 
estava me ajudando a aprender a dançar hoje quando seu pai 
entrou. Perdoe-me se este não é o meu lugar, mas estou aqui há 
algumas semanas e está ficando cada vez mais claro que os dois 
não se dão bem. 
Blythe enrolou os dedos nos lençóis, e Signa prendeu a 
respiração, imaginando se ela já tinha empurrado longe demais. 
Ela se lembrou de como se sentiu ao ter Eliza e Diana 
bisbilhotando ela, procurando por fofocas que pudessem levar 
e espalhar para quem quisesse ouvir. Blythe seria uma tola em 
acreditar que Signa – uma garota que ela mal conhecia – não 
faria o mesmo. Mas Signa não gostava de fofocas. Ela só queria 
salvar Blythe, e que as peças do quebra-cabeça em sua cabeça 
começassem a montagem. 
Blythe, ao que parecia, reconheceu isso. 
— Durante vinte anos, meu pai e meu tio criaram Percy para 
assumir os negócios da família — ela começou. — Quando 
minha mãe morreu, meu pai se tornou uma pessoa diferente. 
Ele proibiu Percy de trabalhar no Grey's novamente. Meu pai 
não passa mais os dias lá, mas se esconde em seu escritório, 
como se estivesse tentando deixar o negócio apodrecer. Se 
Grey's pegar fogo, eu não acho que ele piscaria um olho. É mais 
do que nosso sustento – é como nossa família mantém seu 
status. E quanto ao meu irmão, sempre foi o futuro dele. 
As bolsas sob os olhos fechados de Blythe eram como dois 
hematomas roxos enquanto a conversa cobrava seu preço. Ela 
teve que forçar as próximas palavras, falando suavemente. 
— Meu pai não vai nos dizer porque ele afastou o negócio 
de Percy, mas acho que está claro que a morte de minha mãe 
apodreceu sua mente. Ele não está mais pensando logicamente. 
Se Blythe estava dizendo que seu pai não afastou o negócio 
até depois da morte de Lillian, isso não combinava com o que 
Signa havia encontrado na carta em Grey's. Havia uma peça no 
quebra-cabeça que estava faltando. Ela queria bisbilhotar, mas 
o peito de Blythe estava subindo e descendo em um ritmo 
constante. A garota cochilou e Signa não teve escolha a não ser 
segurar suas perguntas. Ela ajustou os cobertores ao redor de 
Blythe, protegendo sua prima do frio que cortava o ar e 
afundava em seus ossos. Um resfriado, ela percebeu tarde 
demais, que era totalmente antinatural. 
Signa se virou para ver que Morte estava atrás dela, suas 
sombras se estendendo para cobrir sua boca antes que ela 
pudesse fazer barulho. O toque roubou seu fôlego e acalmou 
seu coração, colocando-a naquela estranha zona entre a terra 
dos vivos e dos mortos. Durou meros segundos antes que ele se 
afastasse, e seu corpo doeu quando seu coração começou a 
bater mais uma vez. 
Shhhh... ele sussurrou dentro de sua mente. Você vai acordá-
la. 
Signa queria morder, afundar seus dentes em Morte e deixar 
o veneno se espalhar. Mas para deixar Blythe descansar, ela 
empurrou a mão em direção à sala de estar de Blythe e fez sinal 
para que ele a seguisse. Seus passos eram lentos, cuidadosos para 
evitar quaisquer tábuas rangendo. 
— Saia agora — disse ela no momento em que eles passaram 
do limiar. —, Deus te ajude, eu não vou deixar você tê-la. 
Relaxe, Passarinha, a Morte disse suavemente. Eu não estou 
aqui para ela. Embora eu tema que não demore muito até que 
eu venha reivindicar a alma daquela pobre garota. Eu vim para 
alertar você. Se aquela garota não livrar o veneno de seu corpo, 
voltarei para buscá-la antes do final da semana. E a morte dela 
não será gentil. 
Signa estava quase pensando em bater os punhos no peito 
dele e exigir que Morte deixasse Blythe em paz para sempre. 
Mas Morte não a dominava nem a ameaçava com o frio de suas 
sombras. O ar não saiu de seus pulmões com a proximidade 
dele. Quase parecia... como se Morte estivesse tentando ajudá-
la. 
Signa olhou profundamente para aquelas sombras 
insondáveis, inclinando-se para a frente na tentativa de 
encontrar um rosto. Para encontrar os olhos que ele deve ter 
tido. Mas ela não viu nada. 
— Por que você está me ajudando? — ela perguntou, 
abraçando seus braços apertados ao redor de si mesma. — Não 
é este o seu trabalho, colher os mortos desta terra? 
Entendo que não fui gentil com você. A Morte hesitou, as 
sombras se movendo ao redor de seus pés. Por minha causa, sua 
vida tem sido mais difícil do que eu pretendia que fosse. Não 
pensei no seu futuro, Signa. Não pensei em nada além de como 
você estava sendo tratada no momento por aqueles que deveriam 
cuidar de você. E por isso eu... sinto muito. A última palavra soou 
estranha em sua língua, como se ele não se importasse com o 
sabor dela. 
Não posso poupá-la para sempre, mas se nós pudermos ajudá-
la, talvez ela não precise morrer tão cedo. Não há nada que eu 
possa fazer para me provarpara você. Mas se minha palavra 
conta para alguma coisa, então você deve confiar em mim. 
— Nós? — Ela nunca pensou que este homem, a Morte 
encarnada, pudesse parecer tão inseguro. 
— Vou procurar também e avisarei se encontrar algo para 
ajudá-la. — A Morte falou em voz alta agora, com uma voz 
profunda que causou arrepios na espinha de Signa. Ela tinha 
esquecido o quanto ela gostava daquele som. 
 — Thorn Grove tem uma biblioteca — ela disse de repente, 
puxando seus pensamentos do espaço que muitas vezes 
gostavam de se aventurar quando ele estava por perto. — 
Talvez eu possa encontrar algo lá sobre um antídoto. 
Ele assentiu. 
— Veja o que você pode encontrar lá esta noite. E enquanto 
isso, vou fazer algumas investigações por conta própria. 
— Obrigada — sussurrou Signa, estremecendo quando suas 
sombras ficaram imóveis e o ar ao redor deles despencou pelo 
menos vinte graus. — Por sua ajuda e por me contar. 
— De nada. — Mais uma vez, as palavras soaram estranhas, 
como se ele lutasse para formá-las. — Nossas lições continuarão 
assim que você encontrar algo para expelir esse veneno. 
Ela assentiu enquanto Morte desaparecia nas sombras que 
se estendiam para reclamá-lo. Só quando ela teve certeza de que 
ele tinha ido embora, Signa espiou pela porta atrás de Blythe, 
observando o lento subir e descer de seu peito. Então ela 
agarrou o seu próprio peito, seu batimento cardíaco como uma 
fera enjaulada. Ela verificou suas bochechas também, 
colocando uma palma sobre cada uma delas apenas para 
descobrir que ambas estavam quentes ao toque. 
Tudo isso, por causa de Morte. Por alguém que ela passou a 
vida odiando. 
O que em nome de Deus estava errado com ela? 
Vinte e quatro 
 
Thorn Grove estava dormindo quando Signa percebeu que 
não tinha a menor ideia de onde ficava a biblioteca. 
Ela andou pelo chão de sua sala de estar, camisola arrastando 
atrás dela e enrolando em seus tornozelos enquanto ela andava 
de um lado para o outro pela sala. Consultar a biblioteca era a 
maneira mais simples que ela podia pensar para encontrar um 
antídoto para Blythe, e enquanto Signa preferia conduzir sua 
busca longe de olhares indiscretos, não seria bom ser 
encontrada vagando pelos corredores depois de ser pega por 
Elijah uma vez. Ela tinha investigado a totalidade do segundo 
andar e a maior parte do primeiro por este ponto, o que deixou 
apenas o terceiro andar. 
Signa estava formulando seu plano – e uma desculpa, no 
caso de ser pega – quando ouviu as portas de vidro que levavam 
a sua varanda chacoalhar. Embora seu peito ficasse frio, ela logo 
percebeu que um espírito não teria necessidade de bater, e que 
Morte não tinha boas maneiras para sequer pensar em fazer 
isso. Então, quando o som veio novamente vários momentos 
depois e soou como alguém batendo contra o vidro, ela 
imaginou que poderia ser apenas uma pessoa. 
Ela puxou o roupão ao redor de si enquanto abria uma das 
portas para Sylas. Ele parecia ter escalado os galhos de um 
salgueiro para chegar lá, as folhas ainda em seus cabelos escuros. 
— Noite. — Seu sorriso brilhava ao luar. — Você também 
não conseguiu dormir, hein? 
Ela estava quase pensando em fechar a porta e mandar ele 
descer. 
— O que diabos você está pensando? Você não pode estar 
aqui! 
Apesar de seu tamanho, ele era gracioso como um felino, 
não fazendo nenhum barulho ao passar por ela e entrar no 
quarto. 
— Eu vi lá de baixo que você tinha uma vela acesa e sua 
sombra continuava andando pela janela. Eu queria verificar se 
você estava bem. 
Esse garoto seria sua ruína se eles não fossem cuidadosos, 
embora Signa tivesse que admitir que seu sangue corria um 
pouco mais rápido com a emoção de uma visita tarde da noite. 
Ela nem necessariamente se importava de usar apenas um 
roupão sobre a camisola, mais curiosa sobre o que ele poderia 
pensar e qual reação ela poderia ter do que envergonhada. Com 
certeza, os olhos de Sylas se demoraram em seu corpo por 
muito tempo quando ele pensou que ela não estava olhando, e 
ele rapidamente limpou a garganta e voltou sua atenção para o 
teto quando ela se virou. Signa tentou não sorrir, quente de 
satisfação. 
— Estou tão bem quanto se pode estar, sabendo que minha 
prima ainda está tão doente quanto no dia em que a conheci. 
— Ela cruzou os braços sobre o peito e retomou seu ritmo. — 
Se você vai estar aqui, fale baixo e me diga se você encontrou 
alguma coisa útil. 
— Dificilmente. — Ele se sentou no chão dela, recostando-
se na parede. — Procurei na cozinha e nos aposentos dos 
empregados, mas não encontrei nada incriminador. 
Ela receou tanto, mas ouvir isso em voz alta tornava tudo 
ainda mais agravante. Ela passou as mãos pelos cabelos, 
puxando as pontas. 
— Precisamos encontrar algo para ajudá-la. Ouvi dizer que 
há uma biblioteca em Thorn Grove, e gostaria de dar uma 
olhada para ver se encontro um antídoto. Algo à base de 
plantas, para afastar o veneno. 
— Veneno? — ele ecoou, erguendo as sobrancelhas. — Essa 
é uma nova revelação. Suponho que se houver uma chance de 
encontrar algo sobre isso, sua melhor aposta seria realmente a 
biblioteca. É enorme. 
— Você sabe onde fica, então? — Signa agarrou Sylas pelo 
braço e o colocou de pé. — Você poderia me levar até lá? 
— Agora mesmo? No meio da noite? Vestida assim? — 
Quando Signa não o soltou, ele sorriu e disse: — Como você é 
escandalosa, Srta. Farrow. Se você insiste, então me siga 
imediatamente. 
Ele liderou o caminho para o corredor. A caminhada até o 
terceiro andar foi dolorosamente lenta. Signa dava cada passo 
com a maior cautela, apertando a camisola no punho para não 
tropeçar na longa bainha. Ela o seguiu, achando estranho que 
um cavalariço conhecesse a casa tão bem. Por outro lado, Sylas 
nem sempre foi um cavalariço. Talvez o trabalho que ele tivesse 
enquanto Lillian ainda estava viva lhe permitisse um tempo 
ocasional na enorme propriedade. Ela fez uma nota para 
perguntar a ele sobre isso, mais tarde, no entanto. Uma vez que 
eles encontraram algo para ajudar Blythe. 
Por enquanto, ela perguntou: 
— Você vem aqui com frequência? — sua curiosidade 
superando ela. 
— Só tive a oportunidade de visitar a casa algumas vezes. — 
Ele andava com uma tranquilidade confiante, parecendo 
muito menos preocupado com eles serem descobertos do que 
ela. — A equipe já falou sobre isso o suficiente, no entanto. Eles 
não vêm muito até aqui se puderem evitá-lo, e mesmo assim eles 
vêm apenas durante o dia. 
Elaine havia dito que a biblioteca era considerada mal-
assombrada e, se os funcionários se esforçam tanto para evitá-
la, Signa odiava imaginar o espírito que os esperava lá dentro. 
Durante anos ela evitou espíritos, embora se fosse possível que 
este soubesse alguma coisa sobre Thorn Grove ou o assassinato 
de Lillian, era uma pista demais para deixar passar. Mas com 
Sylas aqui, ela não tinha ideia de como isso era viável. 
— Você deveria sair assim que eu estiver lá. — ela disse a ele. 
— Nada de bom virá de nós sermos vistos juntos. 
Ele lançou-lhe um olhar irritado por cima do ombro. 
— Dois pares de olhos são melhores do que um, e além 
disso, mesmo se eu for demitido, você mesma disse que cuidaria 
de mim. 
Ela tentou não revirar os olhos, pois embora ele pudesse 
estar seguro, ela certamente não estava. E a última coisa que ela 
queria era ter que contratar Sylas se ele acabasse sendo 
responsável por quaisquer rumores ou alegações sobre ela. 
Ainda assim, ele tinha um ponto. O aviso de Morte não era 
nada para zombar, e se ela quisesse salvar Blythe, ter a ajuda de 
Sylas valia o risco. 
A biblioteca foi mais fácil de encontrar do que ela esperava. 
Duas portas de carvalho com pesadas maçanetas de latão 
levavam a uma sala enorme com prateleiras altas de mogno 
cheias de livros. Havia fileiras e mais fileiras deles, e no centro 
do espaço haviam escrivaninhas e cadeiras de leitura de couro 
macio que pareciam confortáveis o suficiente para passar um 
dia dentro. O quarto era iluminado por janelasque banhavam 
o quarto com a pálida luz das estrelas. Brilhante o suficiente 
para ver as formas e a vastidão da biblioteca, mas escuro demais 
para ler os títulos dos livros. 
Signa respirou o cheiro de mofo de pergaminho velho e 
tinta. 
— Precisamos encontrar uma luz. — Assim que as palavras 
saíram de sua boca, uma vela sobre uma das mesas se acendeu. 
Ela não fez nenhum movimento para pegá-la 
imediatamente e, em vez disso, olhou para Sylas, nervosa, 
esperando que ele corresse. Ele abriu a boca apenas para fechá-
la novamente. Não havia uma única desculpa para explicar uma 
chama se acendendo por conta própria, e nenhum deles tentou 
oferecer uma. 
— Bem. — Signa limpou a garganta. — Pelo menos 
sabemos que toda aquela conversa sobre um espírito não era 
apenas um boato. 
As sobrancelhas de Sylas estavam na linha do cabelo, mas 
considerando todas as coisas, ele estava lidando com isso 
notavelmente bem. Provavelmente, ela imaginou, por causa 
dela. 
— Pelo menos o que está aqui não parece ser malicioso? 
Pelo menos ainda não, Signa pensou enquanto olhava 
através das sombras, imaginando onde o espírito poderia estar 
escondido. Era enervante que ela não tivesse visto o espírito até 
agora. Ela passou anos ignorando-os, escondendo-se e fingindo 
não ver, e ela certamente não gostava de virar a mesa. 
Sylas pegou a vela. 
— Então, estamos procurando livros sobre... botânica? 
— Sim. De preferência algo que discuta os usos medicinais 
das plantas. 
Do outro lado da biblioteca, uma sombra passou pela 
escuridão, e Signa percebeu que era um livro somente depois 
que ela esbarrou em Sylas, segurando um grito. Veio de muitas 
fileiras à frente deles, e quando os dois simplesmente ficaram 
parados ali, outro livro voou da mesma prateleira. 
Colocando uma mão em sua cintura para firmá-la, Sylas 
segurou a vela à frente deles. 
Signa apertou os olhos através do brilho da chama. 
— Você acha que… 
— Eu acho. — disse Sylas, a voz monótona. Ele foi em 
direção à estante de onde os livros haviam voado, parando para 
pairar a luz da vela sobre uma que havia sido lançada. Era um 
grosso livro encadernado em couro sobre botânica. 
Eles viraram a esquina para outra fileira de estantes, e Signa 
agarrou Sylas pelo braço, o medo prendendo sua respiração ao 
ver quem os estava ajudando. O espírito era um homem mais 
velho com pele azul translúcida, uma barba branca cheia e 
óculos que ficavam baixos em seu nariz largo. Vendo que Signa 
o havia notado, ele se endireitou um pouco. 
— Você está bem? — Sylas perguntou a ela, firmando a vela. 
O espírito o observou com profunda preocupação e, quando 
parecia que ia cair de seu suporte, ele se apressou a pressionar 
um dedo brilhante contra sua lateral para estabilizá-lo. 
— Cuidado — advertiu o espírito. — Livros são coisas 
frágeis. 
— Muito bem. — Signa encostou-se na beirada de uma 
prateleira, esperando que suas palavras fossem suficientes para 
satisfazer tanto Sylas quanto o espírito. Somente quando ficou 
claro que esse espírito não era volátil como Lillian, seus ombros 
afrouxaram. Não era malévolo, nem sua morte tão horrível a 
ponto de alterar sua aparência. — Você sabe alguma coisa sobre 
o espírito que há rumores de assombrar a biblioteca? — ela 
perguntou a Sylas. 
— Não muito. Ouvi dizer que ele era um estudioso que se 
casou com alguém da família e morreu em uma daquelas 
cadeiras. Ele adormeceu lendo e passou para o outro lado 
pacificamente. Alguns dizem que ele estava tentando ler todos 
os livros da biblioteca. 
— As cadeiras já foram trocadas, na verdade — observou o 
espírito. —, e meu nome é Thaddeus. Thaddeus Kipling. Eu já 
teria lido todos os livros aqui, exceto que eles continuam trazendo 
mais. 
Um espírito amarrado à vida pelo desejo de ler! Tão novo 
que Signa quase riu. 
— Ele parece útil o suficiente. Não tão malicioso quanto eu 
temia — ela notou. 
Thaddeus suspirou e agradeceu, resmungando sobre como 
todo mundo estava com muito medo de visitar, embora tudo o 
que ele fez foi tentar ajudar. 
— Embora eu suponha que menos interrupções proporcionam 
mais tempo de leitura. 
Mais uma vez, ela teve que segurar o riso. Por dezenove anos 
ela evitou espíritos, culpando-os por ela ser diferente e 
culpando essa diferença por manter os outros afastados. Mas 
ela gostava bastante de Thaddeus e, pela primeira vez, não 
sentiu nem um pouco de medo na presença de um espírito. Se 
ela tivesse dado uma chance a mais deles, ela teria gostado dos 
outros também? 
— Você realmente acha que algum desses livros nos falará 
sobre veneno? — Sylas segurou a vela em um livro para 
inspecionar a lombada, efetivamente desviando a conversa do 
espírito que ela não podia culpá-lo por não querer discutir. 
Cada vez que Sylas aproximava muito a vela do livro, Thaddeus 
sugava uma respiração nervosa e a segurava até que Sylas 
afastasse a chama novamente. 
— Não é sobre o veneno que precisamos ler mais. — Os 
olhos de Signa deslizaram para o espírito, garantindo que ele 
estava ouvindo. — É o antídoto. Tenho certeza de que algo 
aqui deve ter alguma menção a isso. 
 — Arsênico? — adivinhou Thaddeus, seus olhos brilhando 
de interesse. 
Signa verificou se Sylas estava ocupado lendo, então 
rapidamente balançou a cabeça. 
Thaddeus assoviou baixinho. 
— Cianeto? Tálio? Estricnina? Atropina? — Ele parou 
quando ela rapidamente assentiu. — Ah, atropina! Alguém está 
sendo envenenado por belladonna, não é? Bem, isso é fácil, o 
antídoto – ah. Não adiantaria nada se eu lhe contasse, não é? 
Suponho que você gostaria de ver as informações por si mesma. 
Aqui. — Thaddeus flutuou até a próxima estante, então se 
abaixou para apontar para um livro da prateleira de baixo. Era 
uma coisa despretensiosa; algum tipo de jornal acadêmico que 
Signa provavelmente nunca teria selecionado. 
— Já faz um tempo — disse Thaddeus quando Signa se 
abaixou para pegá-lo —, mas acredito que você encontrará o que 
está procurando por volta da centésima página. Leitura 
interessante, essa. Sucinto, mas informativo. Você irá cuidar 
bem disso, correto? 
Signa folheou até a centésima página, depois passou por 
mais algumas até ver a palavra que procurava, Atropa. Atropa 
belladonna. Ela apertou o livro contra o peito com tanta força 
que pensou que fosse chorar. 
— Obrigada, obrigada, obrigada — ela disse tão alto que 
Sylas quase deixou cair o livro que ele estava folheando. 
— Você já encontrou alguma coisa? — Ele coçou a nuca, 
perplexo. — Que sorte. Eu esperava que ficaríamos aqui a noite 
toda. 
Signa sorriu para Thaddeus, cujo peito estufou um pouco. 
— Acredito que sim, embora tivemos alguma ajuda. Venha. 
— Ela arrastou Sylas para uma das mesas e abriu o livro diante 
deles. Mesmo com a luz das velas, eles tiveram que apertar os 
olhos para ver as letras pequenas. Eles leem várias páginas de 
jargão que Signa não entendeu antes de encontrar menção a 
tratamentos usados em pacientes. 
— Aqui está! — Ela pressionou um dedo na página e se 
inclinou para frente. Sylas seguiu o exemplo, tentando espiar 
por cima do ombro dela. 
— “Embora a planta em si seja tóxica” — ela leu em voz alta, 
as palavras como seda em sua boca —, “o conteúdo alcalóide 
do feijão Calabar provou ser um remédio eficaz para Atropa 
belladonna.” 
Ela ficou mais tonta com cada palavra. Ela puxou o braço de 
Sylas, sacudindo-o enquanto sua excitação florescia. Eles 
tinham uma solução. Embora Signa não tivesse a menor ideia 
de onde poderia encontrar a planta não nativa, havia pelo 
menos uma possibilidade agora, que era muito mais do que 
tinham antes. 
— Muito disso, e Blythe poderia morrer — Sylas a advertiu 
enquanto lia mais. — Você deve moer uma pequena dose dele 
e administrá-lo em um líquido. 
O único problema era como consegui-lo. Eles certamente 
não encontrariam tal planta no jardim de Lillian, embora Signa 
se lembrasse de outra possibilidade. 
— Há um boticário na cidade! Eu vi na noite em que você 
me levou ao Grey's... Acha que eles podemter? 
Um sorriso se espalhou pelo rosto de Sylas. 
— Como você é brilhante. Um boticário é provavelmente 
nossa melhor chance. 
Era tudo o que Signa precisava ouvir para fechar o livro e 
abraçá-lo contra o peito novamente. Ela se sentiu leve o 
suficiente para dançar sobre uma nuvem. Ela iria salvá-la. 
Realmente, realmente desta vez, Signa iria salvar Blythe. 
 — Obrigada — ela sussurrou, agarrando o ombro de Sylas 
e apertando com força. — Obrigada, obrigada, obrigada. E 
obrigada, Thaddeus! 
Ela não olhou para trás, para o espírito, nem para Sylas 
enquanto ele soprava a vela e sussurrava: 
— Thaddeus? — Em vez disso, ela agarrou o livro com força 
e saiu correndo pela porta. 
— Eu irei logo pela manhã, — ela disse para ninguém em 
particular enquanto Sylas assentiu e a silenciou gentilmente. 
Ela aceitou pelo bem dele, mas Signa não se importava mais 
com quem a ouvia agora porque tudo ia ficar bem. Não, seria 
melhor do que bom. Seria maravilhoso, porque a primeira coisa 
da manhã seria reunir o antídoto, e Blythe finalmente teria sua 
vida de volta. 
Em breve, tudo estaria bem novamente. 
Vinte e cinco 
 
Ao colocar creme em sua xícara de chá no café da manhã 
seguinte, Signa ouviu Warwick dizendo a Elijah que a língua de 
Blythe estava começando a apodrecer com as mesmas feridas 
que Lillian tinha nos estágios finais de sua “doença”. Blythe 
esteve doente durante toda a noite, incapaz de manter qualquer 
comida ou bebida no estômago. 
Signa agarrou a faca com força, tentando não deixar que sua 
frustração chamasse a atenção para si mesma, com medo de que 
Elijah pudesse de repente cair em si e não permitir tal conversa 
na mesa do café da manhã. 
O aviso de Morte tinha sido fortuitamente cronometrado, e 
agora que a cura era conhecida, Signa tinha apenas que colocar 
as mãos nela. Mas ela não podia deixar de se perguntar por que 
Blythe ainda estava tão doente. Signa a instruiu a não beber 
nada além de água. Tinha dito a ela para largar o remédio 
quando ninguém estava olhando. Signa tinha checado o quarto 
de Blythe naquela mesma manhã enquanto sua prima dormia; 
ela inspecionou o chá frio e os doces deixados ao lado da cama, 
ambos bons. Mas porque sua língua estava começando a 
mostrar sinais de veneno, Signa sabia que, de alguma forma, ela 
ainda estava consumindo belladonna. 
— O médico não acha sensato ela receber visitas hoje — 
disse Warwick a Elijah, que estava passando manteiga em um 
muffin de uma maneira raivosa que Signa não sabia que alguém 
segurando um muffin seria capaz de fazer. — Ele e Percy 
conseguiram diminuir a febre esta manhã, embora ela tenha 
tido um episódio de delírio. — Signa estava feliz que pelo 
menos Percy estava lá para supervisionar o médico quando ela 
não podia. Ela tentou roubar sua atenção do outro lado da 
mesa para dizer isso a ele, mas Percy manteve seus olhos 
cansados abaixados enquanto mexia seu mingau intocado. 
— O que ela viu dessa vez? — Elijah era tão impetuoso 
quanto desgrenhado, cabelos grisalhos brotando de sua cabeça 
em todos os sentidos. Ele usava óculos no nariz e ainda usava 
um roupão esmeralda com chinelos combinando, enquanto 
Signa já usava seu espartilho e um roupão de risca de giz, com o 
cabelo preso em um elegante nó no pescoço. Ela teria que vestir 
um vestido de visita de lã antes de sair de casa, caso contrário 
seria recebida com fofocas e ridicularização imediata. 
Enquanto Signa passou tantos anos desejando um lugar na 
sociedade, ela se viu ficando um pouco... cansada. E 
imensamente ciumenta da falta de cuidado e decoro de Elijah. 
— Foi com a mãe. — Percy foi quem respondeu, ainda sem 
olhar para cima. — Blythe alegou que ela estava no jardim com 
nossa mãe. 
Não fazia sentido que depois de meses com Blythe e Lillian 
doentes, ninguém suspeitasse de veneno. O médico era 
realmente tão incompetente? 
— Talvez a companhia seja exatamente o que ela precisa — 
disse Signa em sua raiva. Os sinais estavam lá – o delírio, as 
feridas, o amargo estômago, tossindo sangue. Estava tudo lá. 
Era verdade que ela sabia um pouco mais sobre veneno do que 
a média das pessoas, mas ainda assim. 
— Senhorita Farrow… — Marjorie, que usava mais ruge do 
que o habitual nas bochechas para esconder que um lado do 
rosto ainda estava inchado, parecia pronta para repreender 
Signa antes que Elijah a acenasse com a mão da faca. 
— Deixe-a falar livremente. Quaisquer regras que 
mantivemos nesta casa acabaram há muito tempo. — Ele 
comeu quase metade do bolinho em uma mordida. — Dê sua 
opinião, garota. — Apesar de seu comportamento errático, 
Signa descobriu que gostava de Elijah e de sua franqueza. Em 
um mundo girando em torno de sutilezas forçadas e se 
curvando aos caprichos dos outros, era revigorante. Ainda 
assim, ela não podia simplesmente dizer a ele que ela sabia de 
um antídoto para a doença de Blythe – ela tinha que pisar 
nessas águas com leveza. 
— Neste estado, seria um fardo para sua mente ficar sozinha 
com esses pensamentos — disse Signa. — Se você não se 
importa, senhor, eu gostaria de ir até a cidade para ver se eu 
posso encontrar algo que possa levantar o ânimo dela. Apenas 
um pequeno presente, se você me permitir algum dinheiro e 
sua permissão. 
Percy, que estava olhando para seu mingau como se fosse a 
fonte de todos os seus problemas, finalmente olhou para Signa 
com interesse. Marjorie, no entanto, não queria nada disso. 
— Se o médico não recomendar que ela tenha companhia 
— disse Marjorie, segurando um garfo com firmeza em uma 
das mãos —, devemos seguir sua sugestão. — Como 
governanta, ela era bem-vinda para sentar e jantar com a 
família, mas ela falava muito abertamente para qualquer casa 
que não tivesse abandonado as restrições impostas pela 
sociedade. Muito livremente, e sem que ninguém a 
repreendesse. 
 — Como fizemos com Lillian? — Elijah perguntou 
friamente o suficiente para que vários na mesa estremecessem. 
— Fez muito bem a minha esposa. 
Signa coletou as palavras de Elijah e guardou a memória para 
adicionar à sua coleção. Algum dia, ela juntaria todas as peças e 
colocaria o quebra-cabeça inteiro diante dela. 
— Percy! — A voz de Elijah ressoou com autoridade. — 
Você irá com seu primo. Veja se ela está segura e tem o que ela 
precisa. 
Percy sentou-se mais reto. 
— Se vamos para a cidade, com sua permissão, eu gostaria 
de passar no Grey's e verificar os pedidos. — Sua voz era 
monótona e factual, faltando até mesmo uma pitada de emoção 
para trair seu desespero anterior para visitar o clube. 
Os cantos da boca de Elijah se contraíram. 
— Você acompanhará sua prima em sua missão, e então 
retornará.— Ele falou com determinação. 
Percy parecia sentir isso também, pois enquanto estava claro 
que ele queria discutir, ele se acomodou em sua cadeira e 
agarrou sua xícara de chá, os dedos brancos. 
— Sim, pai. — Quando ele afundou na cadeira, Signa não 
se atreveu a olhar para ele, a culpa pesando no peito. — É claro. 
 
Percy estava longe de ser uma companhia divertida. 
Como ele preferia não andar a cavalo, uma carruagem foi 
preparada para a viagem até a cidade. Não foi uma viagem 
muito longa, mas Signa nunca esteve tão desconfortável. Até 
mesmo viajar com Sylas, um estranho sem parentesco, foi mais 
fácil de percorrer. 
Signa sentia falta do jeito que Percy tinha sido ontem, antes 
de Byron apareceu com a notícia sobre Grey's para estragar o 
clima. Ela sentia falta de suas risadas e brincadeiras, e da 
sensação de seu espírito vibrante de vida. O Percy com quem 
ela estava agora não era o homem astuto e provocador que ela 
estava conhecendo, mas um que era rígido, correto e afiado. 
Seu polegar traçou círculos sobre uma bolsa de moedas de 
couro enquanto ele olhava pela janela da carruagem, o queixo 
projetando-se com grande severidade enquanto observava a 
paisagem que passava. Signa mordeu a língua. Era cruel, ela 
pensou, que Elijah não lhe desse uma chance. Que ele escolheu 
ignorar o sofrimento de seu filho, não importaquão profundo 
fosse. 
— Encontrei algo, primo — disse ela, esperando levantar o 
ânimo dele. — Nós não estamos aqui para encontrar luvas 
bonitas de Blythe ou artigos de papelaria. Estamos indo para a 
cidade porque encontrei uma cura para ela. 
Só então ele despertou. 
— O que você quer dizer com você encontrou uma cura? — 
Seus olhos se estreitaram. — Não houve um único médico que 
tenha sido capaz de ajudar minha irmã. 
— Nenhum deles sabia que ela estava sendo envenenada. 
Mas sabemos, e encontrei um antídoto. Há um boticário na 
cidade e... 
— Um boticário?— Suas sobrancelhas se ergueram em 
direção ao teto. — Signa, não podemos confiar a vida da minha 
irmã a um amador. Tem que haver um remédio que a ajude. 
Podemos falar com mais médicos... 
— Se os médicos não entenderam agora, ou são todos tolos 
ou alguém os está pagando. 
Quaisquer réplicas morreram em sua língua. 
— Você acha que isso é possível? — O pomo de Adão dele 
balançou. — Mesmo se for esse o caso, a cura de algum 
boticário não é algo com o qual devemos brincar. Existem 
maneiras mais seguras de lidar com esses assuntos. 
— Eu entendo sua frustração, mas nada mais está 
funcionando, Percy. — Ela pegou a mão dele, apertando com 
força. — Mas isso vai, eu prometo. Eu preciso que você confie 
em mim. 
Ele olhou para o teto da carruagem como se ele guardasse as 
respostas e suspirou quando não as compartilhou. 
— Muito bem. Se houver uma possibilidade, então é claro 
que devemos tentar. Embora não possamos nos permitir ser 
vistos lá, a cidade inteira vai falar. 
— É claro. 
O sorriso de Signa não foi correspondido quando Percy 
voltou sua atenção para as ruas de paralelepípedos que eram 
muito mais claras e abertas à luz do dia do que quando ela esteve 
aqui com Sylas várias noites antes. Agora as lojas que ladeavam 
a rua estavam totalmente despertas. Através das janelas 
imaculadas, Signa avistou mulheres de luvas e gorros, envoltas 
em vestidos de caxemira enquanto tomavam o chá ou entravam 
em uma loja para encomendar roupas quentes e decorações 
para o inverno que se aproximava. 
Quando eles passaram por Grey's, Percy se inclinou sobre 
Signa e fechou as cortinas. Ela recuou. Não havia humor no 
rosto de Percy. Nenhum indício de nada além de severidade. 
Signa não ousou falar outra palavra. 
Percy foi o primeiro a sair da carruagem quando ela parou 
em frente a uma pequena loja verde. Hera se esticava para cima 
sobre as paredes, e uma vitrine exibia uma variedade de plantas 
vibrantes penduradas em dosséis de tecidos. Signa estava tão 
ocupada olhando que foi preciso Percy pigarrear para ela 
perceber que ele estava estendendo o braço. Os transeuntes os 
observavam com curiosidade, virando-se para fofocar uns com 
os outros e provavelmente teorizando sobre a presença de 
Signa. Percy ajustou o pequeno botão dourado em uma de suas 
luvas de couro marrom e não prestou atenção neles. 
Provavelmente não havia nada que alguém pudesse fazer ou 
dizer que faria Percy parecer qualquer coisa além de um 
cavalheiro aos olhos do público. 
Dentro da loja, eles foram recebidos por uma idosa frágil de 
cabelos brancos. Um olhar para ela e o nariz de Percy virou para 
cima. 
— Não demore — ele sussurrou. — Nós pegamos o que 
você precisa, e então nós saímos. 
Por um momento fugaz, Signa desejou ter pisado em seus 
pés com mais força no dia anterior, embora ela se recusasse a 
deixar sua negatividade ficar com ela quando eles entraram em 
tal país das maravilhas. Frascos de tônicos e garrafas de ervas 
estavam em prateleiras cheias de pequenas bolas de madeira. 
Havia pequenos recipientes de musgo vivo e cestas delicadas de 
ervas secas que cheiravam tão perfumadas que Signa queria se 
banhar neles. 
O meio da loja estava cheio de vasos de plantas vivas. A 
maioria deles eram tipos que Signa nunca tinha visto antes, com 
trepadeiras ou grandes flores bulbosas. Ela resistiu ao desejo de 
acariciar suas pétalas com o dedo, impressionada que um lugar 
tão maravilhoso pudesse existir. Se ela tivesse dinheiro 
suficiente, Signa ficaria tentada a comprar toda a loja. 
— Posso ajudá-la a encontrar algo, senhorita? — perguntou 
a lojista. Signa ficou feliz em ver que ela não ligava para o 
esnobismo de Percy. 
Seus olhos dispararam para Signa, um aviso sombrio se 
formando dentro deles que sinalizou para ela tomar cuidado 
com suas palavras. No momento em que saíssem do boticário, 
a fofoca começaria. Embora fosse possível que quem estava 
prejudicando Blythe já estivesse ciente de que eles haviam sido 
descobertos, Signa e Percy não precisavam arriscar adicionar 
combustível ao fogo, ou dizer a Elijah que a morte de sua esposa 
poderia ter sido evitada se alguém prestando mais atenção aos 
seus estranhos sintomas. 
 — Tenho um amigo que comeu algo azedo — Signa 
ofereceu ao lojista. — Estou procurando um feijão Calabar 
para ajudar a livrar seu corpo de algumas toxinas. E talvez algo 
para acalmar seu estômago depois também. 
A mulher apertou os olhos pequenos em avaliação, então fez 
um barulho no fundo da garganta enquanto mancava com 
Signa em direção a uma prateleira cheia de pequenas plantas e 
frascos de vidro. Percy seguiu atrás delas, fazendo questão de 
parecer desinteressado enquanto a mulher inspecionava as 
prateleiras. 
A lojista murmurou baixinho enquanto procurava, ficando 
mais frustrada com suas descobertas fileira após fileira até 
encontrar o que estava procurando e proferir um baixinho 
“Aha!” Ela produziu um pequeno frasco com uma estranha 
noz marrom dentro. O feijão calabar. 
Signa estendeu a mão para pegá-lo, mas a mulher puxou o 
frasco para fora do alcance. Ela se inclinou para Signa e 
sussurrou: 
— Tem certeza de que é o que está procurando? É altamente 
venenoso e não vai ajudar um estômago azedo. 
Signa sabia que o feijão Calabar era um risco, mas se Signa 
não fizesse nada – se ela não corresse nenhum risco – então 
Blythe morreria, e Signa passaria o resto de sua vida se 
perguntando se ela poderia tê-la salvado. 
Signa assentiu e colocou sua fé em Morte. 
— Sim, senhora. É exatamente o que eu preciso. 
A mulher ousou um rápido olhar para Percy e disse, muito 
suavemente: 
— Você está segura, garota? Se é algo para ele que você 
precisa, eu tenho algumas coisas um pouco mais... discretas. 
Signa empalideceu e colocou as mãos sobre as da mulher 
imediatamente, esperando que sua seriedade fosse suficiente 
para confirmar sua sinceridade. 
— Não é nada disso, senhora, eu lhe asseguro. Isso vai dar 
certo. 
Com reservas, a lojista cantarolou e entregou o frasco. 
— Esmague-o em um pó. Em seguida, coloque cerca de 
metade em um copo com água para induzir o vômito. — 
Vômitos, Signa esperava, isso ajudaria a livrar Blythe do 
veneno. 
A mulher se arrastou até os fundos da loja, as saias roçando 
o chão de carvalho empoeirado. Por um longo momento ela 
procurou, eventualmente produzindo um pequeno pote cheio 
de pequenas sementes marrons que ela levou de volta para 
Signa. 
— Sementes de cominho — ela disse a ela, colocando o pote 
nas palmas das mãos de Signa. — Para ajudar a acalmar o 
estômago do seu amigo. 
A agitação de Percy crescia com cada pessoa que vagava 
pelas janelas enevoadas e sujas da loja e notava sua presença 
dentro dela. Seus longos dedos se recusaram a parar de bater em 
sua coxa. Ele observou a mulher entregar as sementes de 
cominho, afiado como um falcão. 
— Você tem mais feijão Calabar? 
— Não é uma planta fácil de encontrar — disse a lojista —, 
isso é tudo que terei por algum tempo. 
Ele grunhiu, insatisfeito, e pegou sua bolsa de moedas. 
— Muito bem. Quanto devemos a você? 
A mulher se encolheu de surpresa com a severidade dele, 
mas disse com firmeza suficiente: 
— Uma thruppence4 basta. 
Percy pressionou a moeda na palma da mão dela. 
— Por sua discrição. 
A lojista agarrou a moeda com uma bufada, então a jogou 
no bolso de sua saia. 
— Saia daqui, garoto, antes que eu lhe dê algo para ser 
discreto. 
Não havia necessidadede lhe dizer duas vezes. Signa 
guardou o frasco no bolso enquanto Percy a puxava para fora 
da loja em que ela poderia facilmente ter passado um dia inteiro 
conversando com a lojista sobre cada coisa bonita dentro dela. 
Seus dedos se curvaram com ternura ao redor do pote de 
sementes de cominho. Signa teve a vaga impressão de que Percy 
acreditava que o boticário poderia infectá-lo de repente com a 
peste. 
Ele lançou um olhar ao redor para garantir que ninguém 
estava olhando enquanto ele abria a porta. 
— Há uma loucura dentro daquela mulher — disse ele. — 
Eu não confio nela. 
Signa se eriçou. 
— Ela é uma curandeira. 
 
4 Era uma denominação de moeda esterlina no valor de 1⁄80 de uma libra ou 1⁄4 
de um xelim. Foi usado no Reino Unido, e mais cedo na Grã-Bretanha e 
Inglaterra. 
— Ela é uma bruxa — ele zombou. — Ainda não vejo como 
alguma semente ajudará minha irmã quando nada mais pode. 
Bruxa. A palavra fez a mente de Signa cambalear de volta à 
noite da morte de Magda. 
— Não a chame assim. Se uma fruta é poderosa o suficiente 
para machucar sua irmã e matar sua mãe, então quem é você 
para dizer que uma planta não pode curar com o mesmo poder? 
Ele não teve resposta para isso. Ela podia sentir o medo 
emanando dele em ondas. Ela sabia que se ela fosse ele, ela não 
iria querer se permitir esperar que essa pequena semente de 
alguma forma consertasse tudo também. Porque se não… 
— Vamos nos apressar — Percy murmurou. — Nós 
precisaremos voltar para a carruagem antes… 
— Senhorita Farrow? — chamou uma voz da rua. — 
Senhorita Farrow, é você? 
O pavor afundou suas garras em Signa quando ela viu que 
Eliza Wakefield e Charlotte Killinger se aproximavam, 
acompanhadas por um belo cavalheiro de pele oliva e cachos 
marrom-trigo. Usava um elegante sobretudo verde-oliva e um 
chapéu que inclinou para eles com um sorriso tão encantador 
que o coração de Signa palpitou. 
O suor escorria na testa de Signa quando Charlotte notou a 
loja de onde eles saíram. Foi uma sorte que ela fosse educada 
demais para falar sobre isso, embora o mesmo não pudesse ser 
dito de Eliza. 
— Ah, é você. — disse Eliza enquanto se abaixava para uma 
reverência diante de Percy. — Achei que poderia ser. Você veio 
do boticário? 
Percy assumiu um ar totalmente novo antes que Signa 
pudesse piscar. 
— E nós fomos amaldiçoados por uma bruxa? Nunca. — 
Ele falou de uma maneira leve e jovial que fez a mandíbula de 
Signa ficar tensa. 
Eliza combinava com seu sorriso áspero, rindo como se ele 
fosse o mais bem-humorado. Ela esperou que Charlotte e o 
homem que os acompanhava ecoassem a risada, mas ambos 
mantiveram seus rostos suaves. Eliza – finalmente capaz de tirar 
os olhos de Percy por tempo suficiente para se lembrar de si 
mesma – inclinou a cabeça e pegou Signa pela mão. 
— Minhas desculpas — disse ela. — Este é meu primo 
Lorde Everett Wakefield, filho do Duque de Berness. — Eliza 
segurou seu braço com um sorriso nos lábios. 
Signa não se lembrava de ter conhecido um lorde antes. Ele 
se manteve orgulhoso o suficiente para que ela se perguntasse 
se ele era o primeiro na linha de herança ou o último. Ela se 
lembrou da conversa em seu chá de boas-vindas que ele era o 
solteiro mais cobiçado da cidade ao lado de Percy, e que ele era 
o pretendente em potencial que ela havia falado com Blythe no 
dia anterior. 
Mesmo sem dinheiro ou título, Everett era um homem que 
chamaria a atenção por sua aparência e pela maneira régia com 
que se portava. Seus ombros estavam virados para trás, peito 
orgulhoso e seu rosto estava cheio de espírito jovem. Havia 
riqueza em suas roupas importadas e um brilho em seus olhos 
ao observar Signa. Everett Wakefield era um dos homens mais 
bonitos que ela já tinha visto, e sua mente perdeu todo 
pensamento coerente quando ele sorriu para ela. 
— Primo — Eliza trinou —, esta é Signa Farrow, aquela de 
quem eu tenho falado para você. 
Charlotte observou com um olhar vazio quando Everett 
baixou a cabeça, as manchas de ouro em seus olhos castanhos 
deslumbrantes quando eles se ergueram para observá-la sob 
cílios impressionantemente longos. 
— Estou bem ciente de quem eram os Farrows, conheci sua 
mãe uma vez, há muito tempo. 
A espinha de Signa formigava com pequenos choques de 
eletricidade quando ele deu um beijo na parte de trás de sua 
luva. 
— Minha mãe? 
O sorriso de Everett brilhou. 
— Nossos pais já se conheceram, embora eu tenha medo de 
não me lembrar de seu pai. Minha memória está um pouco 
nebulosa, pois eu era um menino, embora eu me lembre de 
como a casa inteira ria quando sua mãe chegava. Ela era uma 
pessoa muito energética, e minha família a adorava. Sinto 
muito por sua perda, senhorita Farrow. 
Signa teve que se lembrar de inclinar a cabeça, muito 
perdida em seus pensamentos e um milhão de perguntas que 
ela queria fazer ao homem. Ela nunca esperou que sua mãe 
fosse chamada de energética. Se o livro de etiqueta que ela 
deixou para trás e as histórias que a avó de Signa tinha 
compartilhado estivessem certas, certamente Lorde Wakefield 
estava pensando na mulher errada. 
— É um prazer vê-la novamente, Srta. Farrow — interveio 
Charlotte, embora, para surpresa de Signa, ela parecesse mais 
doente do que entusiasmada, com as mãos cruzadas à sua 
frente. — E você também, Sr. Hawthorne. Receio que não 
tenhamos muito tempo para conversar, pois temos um 
compromisso em um salão de chá... 
 — Oh querida, Charlotte, obrigada por me lembrar! — 
Eliza bateu palmas. — Perdoe-me por ser ousada, mas 
ficaríamos muito felizes se vocês pudessem se juntar a nós. 
Signa não perdeu como os olhos de Charlotte escureceram 
quando ela disse: 
— Absurdo. Ninguém negaria dois dos cavalheiros mais 
proeminentes da cidade. — Eliza apontou sua esperança para 
Percy. — Tenho certeza de que eles farão uma exceção se você 
fizer a gentileza de nos acompanhar? 
Os dedos de Percy bateram ao seu lado, e ele lançou um 
olhar de soslaio para Signa. 
Chá, como Signa estava aprendendo, nunca foi realmente 
apenas chá, e aceitar um convite significava tanto quanto 
convidar. Não era formal para Eliza fazer o pedido sozinha, mas 
ter seu primo em seu braço a tornou ousada. Não se podia 
exatamente recusar o chá com um lorde, e embora Signa 
soubesse o que significaria recusar, tudo em que conseguia 
pensar era no aviso de Morte soando em seus ouvidos e que ela 
precisava desesperadamente levar o antídoto para Blythe. 
— É uma oferta gentil, mas talvez possamos nos juntar a 
você outro dia? Não gostaríamos de impor. 
Eliza nem mesmo reconheceu que Signa havia falado. 
— Todo mundo tem elogiado este lugar. Confie em mim, 
Sr. Hawthorne, será impossível entrar quando o resto da cidade 
ficar sabendo. Everett e eu absolutamente insistimos que você 
se junte a nós hoje, não é, Everett? 
Ele sorriu para Signa. 
— Ficaríamos ofendidos se você não aceitasse. — E embora 
seu tom fosse provocador, ela sabia que a batalha estava 
perdida. 
Blythe teria que aguentar um pouco mais. 
Vinte e seis 
 
Se o feijão de Calabar e tudo que ele simboliza não estivesse 
pesando em seus bolsos, o dia teria sido lindo para um passeio. 
Eliza passou um braço pelo de Signa e o outro pelo de 
Charlotte, as três andando bem à frente dos homens. 
— Que coincidência te encontrar aqui. Eu esperava tanto 
que você tivesse a chance de conhecer Everett antes da 
primavera. Você ainda está planejando se juntar à temporada, 
não é? 
Ela ainda precisava falar com Marjorie, é claro, mas fazia 
sentido estrear na primavera que Signa assentiu. 
— É o que esperamos. 
O sorriso de Charlotte era educado, mas fino. 
— Parece que todas elas e suas mães vão participar nesta 
temporada. 
— Você tem razão. — Eliza riu. — Que desafio será 
encontrar um marido, especialmente agora que estaremos 
competindo com a senhorita Farrow. — Ela disse a última parte 
em um sussurro conspiratório. — Você será o pônei premiado 
em que todosos homens darão lances. É uma sorte para nós que 
apenas um de vocês de Thorn Grove estará fora nesta 
temporada, pois será o mesmo quando Blythe fizer sua estreia. 
E é uma sorte para mim que aquele em que estou de olho seja 
seu parente. 
Embora as fofocas incessantes de Eliza fossem cansativas, ela 
era muito bonita, e sua família era rica o suficiente para que 
Signa soubesse sem perguntar a ela que Percy estaria igualmente 
interessado nela. Mas o interesse de Eliza continuaria se Percy 
não herdasse Grey's? 
— Se você me der licença — Eliza se afastou das mulheres 
—, acredito que vou ter uma vantagem nisso. — Ela recuou em 
um passo rápido, tomando seu lugar ao lado de Percy e 
inclinando a cabeça para trás, rindo do que quer que ele 
dissesse. 
Deixada com Charlotte, Signa perguntou: 
— O que a Srta. Wakefield disse, é verdade? Eu nunca pensei 
que minha estreia seria um problema para alguém. — 
Certamente, isso não poderia ter sido o que azedou o humor de 
Charlotte na última vez que eles falaram. Sim, Signa tinha 
dinheiro, mas haveria outras muito mais adequadas para 
manter uma casa. Ela não queria filhos tão cedo, e seu piano e 
habilidade com uma agulha eram abismais. Sem mencionar que 
haveria mais mulheres bonitas para a temporada, como 
Charlotte, que qualquer um teria a sorte de ter como esposa. 
— Não é que seja um problema. — Charlotte manteve a voz 
baixa o suficiente para que Signa se esforçasse para ouvi-la. — 
Mas torna as coisas mais difíceis para aquelas de nós que devem 
garantir uma partida forte. Se Blythe não estivesse doente, teria 
sido a mesma situação. Os homens se reunirão primeiro com 
aquelas com as maiores perspectivas, e o resto de nós receberá 
suas sobras e esperamos que fiquemos felizes por isso. 
— Que tal um encontro de amor? — Signa perguntou, não 
gostando de uma postura tão insensível. — Certamente, não 
importaria quantas mulheres debutassem a cada temporada se 
alguém conseguisse um desses? 
 Charlotte baixou o queixo e olhou para Signa como se a 
visse pela primeira vez. 
— Desde que minha mãe morreu e fomos forçados a nos 
mudar após o escândalo, meu pai tem lutado para nos manter 
à tona. Ele nunca teve um filho, então é meu dever encontrar 
alguém que possa sustentar nossa família. Não tenho o luxo de 
um casamento por amor, Srta. Farrow. Na verdade, você 
descobrirá que a maioria de nós não pode. Se é isso que você 
está procurando, então desejo-lhe sorte, mas só me importo em 
garantir meu futuro. Então me perdoe se não estou 
entusiasmada por você estar se juntando à briga no meu 
primeiro ano. 
As palavras de Charlotte doeram como uma ferida. Signa 
sabia que poderia construir seu próprio futuro, mas ela nunca 
considerou que algumas mulheres teriam que estar com um 
homem que não fosse de sua própria escolha, simplesmente 
para existir. Era a última coisa que ela queria para sua amiga, 
especialmente. 
Signa queria um casamento por amor. Ela queria alguém 
para dançar e rir até tarde da noite. Alguém de cuja companhia 
ela não se cansaria daqui a alguns anos. Ela queria o mesmo para 
sua amiga, também. 
Signa queria perguntar a Charlotte se havia alguém de quem 
ela gostasse, mas ficou em silêncio quando chegaram a um 
pequeno salão de chá. Outra hora, então. Elas teriam a 
discussão da próxima vez. 
Everett segurou a porta aberta, e um por um eles entraram. 
O salão de chá era limpo e pitoresco, com uma grande mesa 
circular de mogno já preparada para eles. Estava decorado com 
um lindo arranjo de petits fours dourados, scones de pêssego e 
chocolate, bolinhos dourados, tortas de frutas vitrificadas em 
miniatura e delicados sanduíches de pepino. O estômago de 
Signa a traiu rosnando, querendo provar tudo. Era lamentável, 
a forma como as regras sociais podiam atrapalhar uma pessoa. 
Quão mais simples seria a vida sem ter que pensar no que ela 
deveria comer, e em que ordem. Ela preferia fortemente a 
filosofia de Morte de simplesmente querer algo e tomá-lo. 
Everett puxou cadeiras para Signa e Charlotte, a última das 
quais se sentou com mais graça do que Signa pensava ser capaz 
de fazer. Percy seguiu o exemplo de Eliza, que abriu um leque 
preto que ela agitou para esconder um rubor que Signa tinha 
certeza de que não estava lá. Parecia que havia uma linguagem 
com esses leques – uma que Signa não entendeu, mas deixou 
Percy em transe enquanto Eliza se abanava com movimentos 
lentos e deliberados de seu pulso. Quanto mais ela abanava, 
mais Signa queria estender a mão por cima da mesa para jogar a 
coisa besta pela janela, pois ainda não estava quente e o vento 
do leque continuava soprando os pequenos fios de cabelo em 
seu rosto. 
Everett deve ter compartilhado sentimentos semelhantes; 
ele torceu o rosto e tentou não rir ao ver sua prima. Quando ele 
pegou Signa olhando, ele sorriu. Charlotte desviou o olhar em 
silêncio, colocando açúcar em seu chá. 
— Você está em Thorn Grove há muito tempo, Srta. 
Farrow? — Everett perguntou enquanto se sentava, esperando 
que as mulheres pegassem seus salgados do arranjo antes de 
servir o dele em um pequeno prato de porcelana. 
Percy colocou o guardanapo no colo, em seguida, colocou 
um bolinho nos pratos de Signa e Eliza. Quem era Signa para 
recusar um bolinho perfeitamente bom? Ela espalhou coalhada 
de limão e creme coagulado sobre ele da maneira mais graciosa 
que ela sabia, escondendo seus olhos ansiosos com uma 
máscara de calma recatada. 
— Há cerca de um mês, agora — ela disse, esperando que ele 
fizesse uma pausa nas perguntas tempo suficiente para ela dar 
uma mordida. — Thorn Grove é um lugar lindo. Os 
Hawthornes me fizeram uma grande gentileza ao permitir que 
eu ficasse com eles. 
 — Bobagem — Percy a repreendeu. — Você é família. Ter 
você conosco tem sido nosso prazer. 
Signa mordeu seu bolinho para poupá-lo de sua réplica. 
Onde estava essa gentileza mais cedo, quando ele a apressou 
para fora do boticário, ou quando ele a criticou dançando? 
— O aniversário de Signa é na primavera, você sabe — disse 
Eliza. — Ela fará sua estreia nesta temporada. 
— Suponho que isso significa que vamos nos ver com 
bastante frequência, já que pretendo permanecer na cidade 
durante a próxima temporada também. — O sorriso de Everett 
era muito mais encantador do que tinha o direito de ser. O 
bolinho que Signa estava mastigando se alojou em sua garganta. 
Ela engoliu um gole de chá fumegante para ajudar a passar. A 
bebida queimou sua língua, e ela se lembrou de uma das regras 
do Um guia feminino de beleza e etiqueta: Deve-se tomar o chá 
no menor dos goles, e nunca se deve soprar uma bebida, não 
importa o quão quente. 
— Uma coincidência, de fato. — Signa não sabia dizer se era 
seu coração palpitando ou os nervos tomando conta de seu 
estômago. Everett era, no papel, tudo o que Signa sempre quis 
– bonito, charmoso, gentil e um socialite evidente. Ela não se 
importava muito com o status dele, mas supôs que só poderia 
ser benéfico se a atenção daqueles que lançavam olhares 
maliciosos e interessados para eles fosse algum indicador. Mas 
meu Deus, se apenas tomar chá fosse uma tarefa tão cansativa 
toda vez que ela tivesse que fazer isso, Signa não tinha ideia de 
como ela conseguiria se tornar a socialite que ela sempre 
sonhou em ser. Ela desejou, vagamente, poder perguntar à mãe 
como ela tinha feito isso. 
Signa tomou outro gole muito quente e provou um 
sanduíche de pepino antes de espalhar manteiga em um 
bolinho, deixando Percy fazer o falando enquanto ela cuidava 
da comida — quanto mais cedo acabasse, mais cedo eles 
poderiam voltar para Thorn Grove e Blythe, e mais cedo ela 
poderia sair de sua própria cabeça. 
Percy exibiu um comportamento cavalheiresco, lisonjeando 
Eliza e cortejando-a de uma forma que encantou a jovem. Ele 
parecia o homem que seu pai supostamente tinha sido, 
perguntando a Charlotte e Eliza sobre seus hobbies e se elas 
tinham visto alguma apresentação na ópera recentemente. Ele 
voltou a encher a xícara de Elizacom a máxima atenção, 
jogando com mais charme do que Signa achava que ele era 
capaz. Charlotte, enquanto isso, falou com Everett de suas 
muitas viagens. 
Signa ouviu com grande fascínio enquanto eles discutiam 
sobre festas e eventos esportivos dos quais ela não estava a par, 
e se juntou à conversa quando Everett pressionou por 
informações sobre seus interesses e o que ela e Percy estavam 
fazendo na cidade. Percy, é claro, inventou uma mentira antes 
que ela pudesse responder. Todo o tempo, Signa estava muito 
consciente da rigidez de sua coluna e de como seu pescoço doía 
de tentar mantê-la tão reta. Ela tinha certeza de que havia 
quebrado várias regras de etiqueta de jantar – como quais 
alimentos comer em que ordem, quando colocar o açúcar no 
chá, quantos dedos usar enquanto levava a xícara aos lábios – 
mas, felizmente, ninguém esboçou qualquer reclamação, 
embora ela tenha pego Eliza boquiaberta para ela algumas 
vezes. Embora as regras estivessem embutidas em algum lugar 
no cérebro de Signa, a prática delas parecia antinatural. 
Eventualmente, ela parou de comer e beber completamente, 
para não ofender todos na sala que a observavam ao lado de 
Lorde Wakefield. 
O resto da tarde passou como um borrão. Signa fez algumas 
perguntas, incapaz de relaxar completamente por medo de 
fazer ou dizer algo errado. Talvez fosse tolice se preocupar 
assim, já que Eliza estava completamente apaixonada por Percy 
e seu próprio leque acenando para se importar com o número 
de scones consumidos por Signa, e que Everett e Charlotte não 
eram nada além de cordiais. Ainda assim, o estresse estava 
causando urticária em sua pele, e seu estômago estava enjoado. 
Finalmente, quando o chá esfriou e a comida desapareceu, 
Percy colocou o guardanapo dobrado sobre a mesa e se 
levantou. Everett seguiu o exemplo, ajudando Signa e 
Charlotte a saírem de suas cadeiras. Quando todos estavam de 
pé, ele ofereceu a mão a Signa. 
Um momento de pânico a percorreu antes que ela o pegasse 
e permitisse que ele a acompanhasse para fora. 
— Foi um prazer conhecê-la — disse ele, seu sorriso 
brilhando com os dentes mais retos e brancos que Signa já tinha 
visto. — Estou ansioso para conhecê-la melhor, senhorita 
Farrow, ao longo da próxima temporada. 
Durante anos Signa imaginou um momento como este. 
Nele, no entanto, ela nunca imaginou que teria suor nas costas 
ou que sua prima moribunda estaria esperando que ela viesse e 
lhe entregasse uma cura. Era demais para Signa sequer pensar, e 
foi por isso que ela se separou de Everett e agarrou Percy, 
esperando que seu sorriso parecesse convincente. 
— Estou ansiosa por isso também — disse ela a Everett, 
discretamente enfiando os dedos no braço de Percy até que ele 
apertou a mão sobre a dela e sorriu. 
O sorriso de Everett era tão genuíno que o estômago de 
Signa se revirou de culpa. No entanto, ela sabia que não havia 
tempo para isso, pois havia assuntos muito mais urgentes. Com 
um adeus final, ela se virou e arrastou Percy para a carruagem 
que esperava para levá-los para casa e para Blythe. 
Vinte e sete 
 
Percy fechou as cortinas no momento em que estavam na 
carruagem, exalando enquanto se afundava no assento. 
— Eu não posso acreditar que quase fomos vistos naquele 
boticário. — Seus lábios se apertaram, ele parecia muito mais 
severo do que minutos antes. A gravidade da rápida mudança 
em seu comportamento deu uma chicotada em Signa. — 
Especialmente na frente do filho do duque. 
Signa desejou que a carruagem fosse mais rápida. 
— Isso realmente importa se eles nos viram? — ela 
perguntou. — Eu esperaria que qualquer um com meio 
coração pudesse entender nosso desespero e estar aberto a 
considerar remédios alternativos para Blythe. 
— Eu espero que isso também — disse ele. — Mas também 
pode nos tornar suspeitos. 
Suas defesas estavam subindo. 
— O que você quer dizer, suspeito? 
— Quero dizer que quanto mais penso nisso, mais estranho 
acho a conveniência de você saber o que está afligindo minha 
irmã, quanto mais encontrar um suposto antídoto. — Seus 
olhos verdes se estreitaram. — Eu quero confiar em você, 
prima, mas devo admitir que acho muito estranho seu súbito 
interesse em Blythe. Ela está pior desde que você chegou, e 
estou achando difícil negar que você pode ser o motivo. 
Foi o pavor que Signa sentiu então. Medo frio e gelado 
vazando em seu estômago. O olhar nos olhos de Percy não era 
o que ela tinha visto antes; era distante, venenoso. Mas ela 
entendeu, pois Blythe era sua irmã, e Signa não tinha dúvidas 
de que ela estaria disposta a fazer o que fosse preciso para 
proteger sua própria irmã também, se ela tivesse uma. 
Mas ela não sabia como convencê-lo disso. O próprio feijão 
Calabar era, tecnicamente, veneno. Não faria nenhum favor a 
ela se ele descobrisse. 
— Eu mesma vou provar o antídoto, se você precisar de 
provas — ela disse finalmente. — Isso satisfaria suas 
preocupações? 
Percy parou com a declaração de Signa, recostando-se no 
assento de couro enquanto a considerava. Quando ele reuniu 
suas considerações o suficiente para considerar sua proposta, 
ele assentiu, pois até onde ele sabia, talvez não houvesse melhor 
prova neste mundo. 
— Muito bem. 
— Então considere isso feito. — Signa colocou as mãos no 
colo e contou os minutos que passavam. Ela não queria se 
importar com a hesitação dele; Thorn Grove, por mais 
estranho que fosse, era o melhor lugar que ela já havia vivido, e 
seus habitantes estavam crescendo sobre ela. Ela também não 
queria que ele visse o quanto sua negatividade sobre o boticário 
a havia afetado, pois Percy era o símbolo da alta sociedade por 
completo. A reação dele, assim como seu próprio desconforto 
no chá, foi um claro reconhecimento de quão mal Signa se 
encaixava naquele ambiente. 
Ela poderia se tornar como barro e se moldar. Ela poderia 
usar os vestidos e prender o cabelo e passar ruge nas bochechas 
– ela poderia até fingir interesse se fosse necessário. Desde 
menina, este sempre foi o caminho que ela deveria tomar. Sua 
avó havia lhe dito isso. Disse para ela se casar e das festas que ela 
iria. Disse a ela que seria como sua mãe, e Signa acreditou nela 
porque era tudo o que ela sabia querer. Mas havia algo mais 
agora. Uma curiosidade. Uma escuridão que estava se 
formando dentro dela todos esses anos que talvez não fosse tão 
escura quanto ela uma vez acreditou. Ela sentiu poder. Ela 
sentiu o calor de sua pele sob o toque de um homem. Ela sentiu 
como era sair de fininho e cavalgar sob a lua. 
E ela gostava daquela escuridão mais do que gostaria de 
admitir. 
Ela ficou no silêncio de seus pensamentos durante todo o 
passeio, enquanto estava na cozinha enquanto moía o feijão 
Calabar, e então em sua jornada subindo as escadas, pelo 
corredor, e entrando no quarto de Blythe com Percy ao seu 
lado. 
No momento em que a porta se abriu, foi como se alguém 
tivesse lhe dado um soco no peito. A morte pairava como 
fumaça no ar, sufocante. 
O único alívio foi que ele ainda não estava presente. Ele não 
perseguia as sombras, esperando por ela, e Signa entendeu que 
a sensação de sua presença prolongada nesta sala era um aviso. 
Se ela fosse salvar Blythe, ela precisava se mover rápido. Percy 
deve ter sentido a urgência também, pois ele mal olhou para sua 
irmã antes de seus passos vacilarem. 
Blythe estava deitada na cama, tão sem vida quanto Signa já 
a vira. Sua respiração escorregou de seus lábios em pequenos 
suspiros. Quando Blythe os ouviu entrar, suas pálpebras se 
abriram, embora ela fosse incapaz de mantê-las assim por muito 
tempo. 
Signa sentou-se ao lado dela sem esperar permissão. Ela 
pegou um copo de água da mesa de cabeceira e mexeu no grão 
de Calabar até que o líquido ficou branco leitoso. 
Antes que ela pudesse fazer outro movimento, Percy 
segurou seu braço. Havia fogo em seus olhos. 
— Você primeiro — disse ele. 
Com o olhar fixo no dele, Signa levou o copo aos lábios e 
tomou um gole. 
Não demoraria muito até que seuestômago protestasse 
contra a bebida, então ela se preparou e não perdeu outro 
momento com Percy. 
Ela deslizou o braço sob o pescoço de Blythe para ajudá-la a 
se sentar. Só quando a bebida chegou aos lábios Signa hesitou. 
Blythe estava leve como uma pena, a cabeça pendurada no 
braço de Signa. Se ela seria capaz de lidar com a substância era 
um mistério. A vida estava se esvaindo rapidamente, e o feijão 
Calabar era outro veneno; isso a faria vomitar, embora também 
se destinasse a combater os efeitos da belladonna. 
— Isso vai ser difícil — Signa avisou —, mas você deve lutar. 
Se você se sentir prestes a vomitar, deixe acontecer. Vai ajudar. 
Blythe não disse nada, mas o tremor de suas pálpebras levou 
Signa a acreditar que ela entendia. 
Percy estava ao lado deles, olhos ansiosos. 
— Ela vai ficar bem? 
Signa poderia tê-lo matado por essa pergunta, e ela lançou 
um olhar que advertia isso. Blythe estava doente, mas ela ainda 
podia ouvi-los. 
— Isso deve ajudá-la muito — disse Signa sem acrescentar: 
O sistema dela deve tolerar isso. 
Ela incitou Blythe a beber metade do copo, então pegou 
uma bacia do chão para quando chegasse o momento que eles 
precisassem. 
— Sinto muito — ela sussurrou, sentando perto, alisando as 
mechas úmidas e pegajosas do cabelo loiro claro de Blythe de 
sua testa. — Eu devo ter perdido algo. Achei que só o remédio 
estava envenenado, mas não tenho mais tanta certeza. 
 — Ou talvez um de nós tenha cometido um deslize e 
passado informações demais para a pessoa errada. — Uma 
sugestão de acusação permaneceu no sussurro de Percy. 
Signa havia contado a alguém, reconhecidamente com 
muito mais facilidade do que deveria. Mas Sylas a ajudou; ele 
lhe mostrou a biblioteca e a levou para Grey's. Se ele quisesse 
Blythe morta, certamente ele não teria sido tão útil. 
— Ninguém cometeu um deslize. — Ela falou com 
confiança. — Devo ter cometido um erro de cálculo. Teremos 
que monitorar o que ela consome com mais cuidado. 
— E o seu remédio? — Ele acenou para os restos da bebida 
leitosa. — Você terá o suficiente, se isso acontecer de novo? 
Signa assentiu. 
— Para mais uma dose, sim. Embora esperemos que ela não 
precise. 
— Vamos rezar para que você esteja certa. — As 
sobrancelhas de Percy estavam severas enquanto observava 
Signa trabalhar com o cominho, preparando-a para depois que 
Blythe vomitasse, o que não demorou muito. 
— Eu vou ficar com ela — Signa disse, agradecida pelos 
reflexos rápidos enquanto ela levava a bacia para Blythe bem a 
tempo, ajudando novamente a tirar o cabelo da garota de seu 
rosto. Seu próprio estômago estava com cólicas, a náusea 
rolando sobre ela enquanto o suor frio pinicava sua pele. Ela se 
recusou a deixar transparecer na frente de Percy; a náusea 
passaria logo. — Nós vamos precisar de água — ela disse a ele 
com autoridade severa. — Vá pedir ao pessoal da cozinha um 
pouco de pão. Ela precisa comer algo fácil para seu estômago, 
uma vez que passamos pelo pior disso. E por favor, seja 
discreto. 
Percy assentiu e lançou um último olhar para sua irmã. Ela 
nunca tinha visto suas bochechas tão encovadas, ou seus olhos 
tão vazios. Ele virou em seus calcanhares sem dizer mais nada, o 
som de suas botas estalando enquanto ele desaparecia no 
corredor. 
 
Era tarde da noite quando Blythe começou a se acalmar. Signa 
não tinha certeza de que sua prima sobreviveria quando a 
respiração difícil de Blythe apertou e sua pele ficou febril. Mas 
em algum lugar durante aquelas longas horas, houve um ponto 
de virada. As bochechas coradas de Blythe esfriaram, e seu 
estômago não estava mais tão ansioso para se esvaziar. Ela se 
deitou na cama, seu cabelo preso em uma trança frouxa que 
Signa havia feito entre esvaziar a bacia e pegar mais água para 
Blythe. 
A respiração de Blythe estava profunda agora, e seus olhos 
finalmente conseguiam ficar abertos. 
— Você está comigo? — Signa perguntou, aliviando seus 
ombros quando Blythe assentiu. Pegando um pedaço de massa 
fermentada da bandeja que Percy havia trazido para eles, Signa 
rasgou um pequeno pedaço e entregou a Blythe. — Tente 
comer isso. Você vai se sentir fraca por um tempo, mas eu acho 
que vai ficar bem. Nós vamos ter que ter cuidado com o que 
quer que você coma. 
O pão escorregou dos dedos de Blythe; ela estava muito 
fraca para segurá-la. Ela vacilou ao perceber, lágrimas brotando, 
mas Signa não aceitaria nada disso. Ela pegou o pão, quebrou 
em pedaços ainda menores, então colocou um pequeno pedaço 
na boca de Blythe. Pedaço após pedaço Signa a alimentou, 
deixando a cabeça de Blythe cair em seu ombro, deixando as 
lágrimas fluírem livremente até que ela ficou exausta demais 
para comer outra mordida ou derramar outra lágrima, e ela 
adormeceu. 
Enquanto Blythe dormia, Signa passou a mão sobre o cabelo 
de sua prima, desejando força para ela. 
— Não se preocupe — Signa sussurrou. — Eu vou 
encontrar quem fez isso com você. Eu prometo. 
Do limiar, uma voz calma disse: 
— Como você conseguiu ajudá-la? — Marjorie os observava 
com olhos brilhantes. 
Ela olhou para o copo na mesa de cabeceira, a evidência 
ainda lá. 
— Apenas um remédio antigo que encontrei na biblioteca 
— sussurrou Signa, sem saber mais o que dizer. 
Signa entendeu que Marjorie provavelmente poderia bani-
la se ela quisesse. Ela poderia considerar Signa uma bruxa e 
expulsá-la de Thorn Grove. Mas em vez disso, seus olhos se 
suavizaram. 
— Você deveria descansar um pouco também. 
A pele de Signa se arrepiou com a mera sugestão de deixar 
Blythe sozinha, ou nas mãos de outro. Mas, por enquanto, a 
presença de Morte se dissipou da sala, seu aviso retraído. 
Novamente, Blythe foi poupada. 
Se Signa conseguiu salvá-la uma última vez, eles só podiam 
aguardar agora. 
Signa colocou a cabeça de Blythe sobre os travesseiros antes 
de escorregar da cama. Na mesinha de cabeceira ela havia 
deixado pedacinhos de pão e dois copos de água. Em um dos 
copos ela adicionou sementes de cominho moídas para ajudar 
a acalmar o estômago de Blythe. Por enquanto, era tudo o que 
ela podia fazer. 
— A melhor coisa que podemos fazer por ela é deixá-la 
dormir — Marjorie disse a ela, e Signa sabia que não era sua 
função discutir. Mesmo se ela tivesse ajudado Blythe, Signa 
ainda era pouco mais que uma estranha para os Hawthornes. 
Ela também era uma mulher, e ainda jovem. Não importa o 
quanto ela quisesse se esconder no quarto de Blythe para vigiá-
la em todas as horas, tal coisa nunca seria permitida quando a 
família tinha médicos adequados e empregados. 
Então, por enquanto, ela pegou suas saias e seguiu Marjorie 
porta afora, deixando a mulher conduzi-la pelo corredor à luz 
de velas e de volta ao seu próprio quarto. 
Marjorie diminuiu a velocidade, forçando-as a permanecer 
no corredor. 
— Você está se encaixando em Thorn Grove melhor do que 
eu esperava — disse ela. A escuridão da noite cobriu bem a 
memória do ferimento de Marjorie. No brilho fraco das 
arandelas de ferro, tudo o que Signa conseguiu distinguir foi 
um hematoma desbotado em seu lábio inferior. 
— Obrigada — disse Signa antes de se permitir reviver a 
memória de ver aquele machucado infligido. Suas mãos se 
apertaram em seus lados. 
— Foi um prazer ver você se dando bem com outras 
mulheres da sua idade. — Os saltos das botas de Marjorie 
batiam ruidosamente no piso de madeira. — Você deseja 
estrear nesta temporada, não é? 
Talvez fosse um momento estranho para falar sobre uma 
coisa dessas, mas a presença de Morte em Thorn Grove tinha 
sido longa e tediosa, e Signa tinha aprendido que quando 
Morte reclamava cada momento de sua vigília, as conversas 
mundanas pareciam um alívio. Talvez Marjorie sentisse o 
mesmo. 
— Não quero incomodar ninguém com isso — disse Signa. 
— Eu estarei deixando Thorn Grove para uma casa minha mais 
ou menos na mesma época. Eu posso estrear quando eu me 
for… 
 — Não há necessidade de se desculpar, Signa. Você tem 
feito um trabalho maravilhoso com suas aulas, e acho

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