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Medos Infantis - Thaís Messora

Trecho de conto que narra Sofia, sete anos, acordada na chuva, ajeitando suas bonecas enquanto teme os ruídos da oficina do pai. Surge o boneco Snuf, o primo Carlinhos e uma conversa adulta tensa sobre o futuro da família.

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Copyright
© 2020 by Thaís Messora
Todos os direitos reservados à Editora Corvus
CAPA E DIAGRAMAÇÃO
 
Henrique Morais
LEITURA CRÍTICA
Gabriele Diniz
REVISÃO
 
Bruny Guedes
EDIÇÃO
Henrique Morais
www.editoracorvus.com.br
Sumário
OS BONECOS DO PAPAI
NÃO DEIXE AS CRIANÇAS SOZINHAS
MENINOS SÃO ASSIM MESMO
Agradecimentos
Thaís Messora
A todos que já foram crianças amedrontadas.
E aos que, independente da idade, ainda o são.
OS BONECOS DO PAPAI
O barulho repentino despertou Sofia. Ainda deitada, ela
comprimiu o edredom com estampa de bichinhos entre os dedos.
Olhou para a janela. Chovia lá fora, e gotas explodiam contra o vidro
como os balões de água que ela costumava brincar de jogar com a
mamãe antigamente. Teria sido um trovão o que a acordara? Talvez.
Voltou a fechar os olhos, tentando se convencer de que o barulho
viera do céu e não da oficina do papai no quarto no final do corredor.
Não conseguia dormir quando ele passava as noites lá, serrando,
martelando e polindo a madeira.
Apurou a audição aguardando que o som se repetisse. Nada.
Devia ser mesmo só a chuva. O quarto escuro contava apenas com
a iluminação do abajur em formato de anjo ao lado de sua cama.
Não que Sofia tivesse medo de escuro, de jeito nenhum. Com sete
anos era grandinha demais para isso. Na verdade, gostava de deixar
a lâmpada acesa por causa das bonecas nas prateleiras. Se
despertasse no meio da noite, o que vinha acontecendo com
frequência desde que mamãe tinha ido embora, queria poder ver as
bonecas. Aquelas dezenas de rostinhos estáticos encarando-a de
alguma forma a tranquilizavam, trazendo o sentimento de que tudo
estava em seu devido lugar.
Foi em busca desse alento que ela observou o quarto naquela
noite. Recitou mentalmente os nomes das bonecas: Lili, Amandinha,
Amora, Paçoca. Mas, algo estava errado. Onde estava a Jujuba?
Sentou-se na cama para ver melhor.
A boneca estava caída no chão perto da parede. Sofia inclinou a
cabeça. O que teria acontecido? Teria sido o vento? Não fazia
diferença. Levantou-se da cama. Precisava devolver a boneca para o
lugar. Se papai a visse jogada daquele jeito na manhã seguinte,
Sofia estaria encrencada. Caminhou até a boneca e precisou ficar
nas pontas dos pés para colocá-la na prateleira junto com as demais.
Como já estava ali, aproveitou para ajeitar cada um de seus
brinquedos. Arrumou a cabeça de Lili, a boneca de pano que teimava
em olhar para baixo, alinhou Duda para que ficasse bem de frente,
abaixou o braço de Amora. Deu um passo para trás e observou o
resultado. Ótimo, papai não teria nenhum motivo para ficar irritado ou
gritar com ela. Já podia voltar para a cama.
Foi quando ela o viu. Encostado na porta do quarto estava o
boneco Snuf, a estrela do show de papai.
Sofia estalou a língua no céu da boca, a porcaria do primo
Carlinhos devia ter colocado o boneco em seu quarto para assustá-
la. Droga, que vontade ela tinha de socar aquele moleque mimado.
Sofia nunca foi a maior fã da companhia dele, mas a última visita
naquela tarde tinha sido pior. Enquanto papai e tia Judith
conversavam na cozinha, deixando bem claro que era assunto de
adulto e que não queriam ser interrompidos, sobrara para Sofia a
tarefa de entreter o primo. O problema era que Carlinhos não parava
quieto por um instante. Quando não estava pulando de um sofá para
o outro, estava jogando bola dentro de casa. Ele ignorava os
protestos de Sofia, que olhava para a porta fechada da cozinha a
cada dois segundos, torcendo para que papai não saísse e visse
aquela bagunça. Mas o que deixava Sofia furiosa de verdade era o
barulho que o primo fazia, impedindo-a de escutar com clareza a
conversa dos adultos. Não que ela fizesse isso com frequência,
mamãe jamais permitiria. Porém, aquela não era uma ocasião como
outra qualquer. Sofia tinha escutado papai falando ao telefone mais
cedo que tia Judith viria e que a conversa que teriam seria crucial
para o futuro de sua família. Sofia não fazia ideia do que crucial
significava, mas imaginou que não era coisa boa, talvez estivesse
até relacionado com o retorno da mamãe e isso era razão suficiente
para que a menina desejasse saber o que se passava do outro lado
daquela porta.
Resolveu ligar a televisão, precisava distrair Carlinhos. Uma
imagem coberta de chuviscos surgiu no aparelho quadrado. Sofia
bateu duas vezes na lateral da TV e mexeu na antena até a
recepção melhorar. Carlinhos sentou-se no sofá com as pernas
cruzadas. O plano de Sofia tinha funcionado. Observou o primo
quieto assistindo Scooby-Doo e sorriu. Ela mesma se sentaria ao seu
lado se não tivesse uma missão mais importante. Afinal, Scooby-Doo
era um de seus desenhos favoritos, principalmente porque no fim de
cada episódio eles sempre descobriam que os monstros não
passavam de pessoas normais fantasiadas e que não havia razão
para ter medo.
Deu um passo na direção da porta da cozinha e conseguiu captar
algumas frases.
— Porra, Judith. Como é que você pode ser tão egoísta? Não está
vendo a minha situação?
— Não me venha falar de egoísmo — tia Judith respondeu. —
Você não muda. Por isso que a Paula te deixou. Não consegue ver o
absurdo do que está me pedindo? Eu não tenho mais como te
ajudar, o que você precisa é…
A fala de tia Judith foi interrompida pela voz anasalada de
Carlinhos que se prostrou ao lado da prima pedindo para que ela
voltasse a brincar com ele e dizendo que o desenho estava chato.
Sofia bufou e mandou o menino tentar outro canal. Ao contrário do
esperado, ele obedeceu, deixando Sofia livre para voltar a escutar.
— Insustentável, isso mesmo. É um absurdo, Edu. Você parece
que está enfeitiçado por esses bonecos, perdeu o controle da sua
vida. — Tia Judith fez uma pausa e Sofia podia imaginar o papai
andando de um lado para o outro abrindo e fechando as mãos, como
costumava fazer quando ficava irritado.
Sofia juntou em sua cabeça as informações que havia pescado,
como se montasse uma casa de Lego. Tinha entendido sobre o que
os adultos falavam. Papai estava tentando convencer tia Judith a
participar da edição especial de aniversário do show dele e parecia
que ela não estava muito disposta a aceitar. Sofia queria ser grande
igual à tia para poder dizer ao papai que também não queria estar no
show. Mas ela não tinha muita escolha. Além do mais, o papai
prometera que mamãe viria para o grande show e isso a fazia sentir
um quentinho na barriga que quase chegava a esconder sua vontade
de manter distância dos bonecos.
Papai soltou um grunhido na cozinha e Sofia se encolheu
imediatamente, a situação não estava nada boa. Talvez fosse isso o
que crucial significasse afinal: uma conversa que acabava virando
uma briga.
— Você não entende. Esse vai ser o grande show, uma
apresentação que vai entrar para a história, vai sair nos jornais e
mudar para semp…
— Não me venha com seus delírios de grandeza — tia Judith
interrompeu e Sofia fechou os olhos pensando como o papai reagiria,
mas não houve um estrondo como às vezes acontecia quando a
mamãe o interrompia. — O que eu posso fazer para te ajudar é levar
a Sofia para passar uns dias lá em casa enquanto você tenta se
acertar com a tua mulher.
Houve um instante de silêncio e Sofia imaginou que a conversa
havia terminado, mas logo a voz de tia Judith voltou:
— Por falar na Paula, onde ela está, afinal? Isso não é direito.
Onde já se viu uma mãe abandonar a filha desse jeito?
— Ela precisava de um tempo, só isso. Ela vai voltar para o show,
já te falei — papai respondeu.
Sofia cruzou os dedos, era isso o que precisava ouvir, mamãe
voltaria para casa em breve e tudo ficaria bem.
— Ah, vai voltar, claro que vai. Mas você não me disse onde a sua
mulher está. O celular dela só dá caixa de mensagem, faz dias que
estou tentando falar com ela.
— A Paula teve um problema na operadora e mudou de número.
— E você bem que podia ter me avisado, não é? Passa o número
novo para cá que eu vou ter uma conversinha com ela sobre as
responsabilidades de uma mãe.
— Não tem necessidade, eu sei resolver os meus problemas
sozinho. — A voz depapai soou irritada.
— Óbvio que você sabe resolver seus problemas. O estado em
que sua vida está, inclusive, é a prova disso. Anda, me dá o número
novo da Paula.
— Eu já falei que não — papai gritou e Sofia se encolheu do outro
lado da porta.
Mais um instante de silêncio. Sofia podia imaginar os dois se
encarando, separados pelo balcão da cozinha, como adversários que
aguardavam que o outro cedesse.
— Está bem, faz do seu jeito então — tia Judith disse. — Você
conversa com ela. Mas vou logo avisando: ela não vai voltar para
casa se você continuar com essa loucura de fantoches.
— São ventríloquos e você sabe bem disso.
— Ah, Edu, faça-me um favor. Que diferença faz? Já passou da
hora de você crescer, parar de torrar dinheiro com bobagens e
arrumar um emprego de verdade. Está decidido, eu levo a Sofia e
você resolve os seus problemas.
Sofia nem teve tempo de pensar em como seria ruim a estadia na
casa da tia com a companhia do primo. Carlinhos passou por ela
correndo e subiu as escadas, obrigando-a a ir atrás dele. Ao chegar
no andar superior, ela sentiu a garganta apertar. De todos os
cômodos daquela casa, o moleque estava justamente entrando no
único proibido: o quarto onde papai guardava os bonecos do show.
Sofia voou na direção dele, puxando-o para fora pela camisa e
voltando a fechar a porta sem fazer barulho. Ela o sacudiu pelos
ombros.
— Está maluco? Eu vou contar para a sua mãe tudo o que você
está fazendo.
Carlinhos deu de ombros e mostrou a língua para ela. Sofia
segurou as mãos para conter o impulso de dar um tapa naquele
malcriado.
— Anda, vamos descer antes que você faça mais alguma besteira.
Quando os dois viraram, pararam no mesmo instante como se
estivessem brincando de estátua. Papai e tia Judith estavam no
corredor, parados na frente da escada, observando-os com as mãos
na cintura.
— De-desculpa, papai. Eu… não sabia, não vi… eu não vi o
Carlinhos subindo.
Papai não disse uma palavra, se limitou a abanar a cabeça e fazer
um gesto com a mão para que os dois descessem. Sofia logo
obedeceu torcendo para que papai tivesse entendido que não tinha
sido culpa dela e sim do enxerido do Carlinhos.
Os adultos voltaram para a cozinha, mas dessa vez Sofia não teve
coragem de se aproximar para ouvir a conversa. Levou o primo para
o quintal onde ele não poderia fazer coisas erradas que a colocariam
em apuros. Passou um tempão antes que os adultos terminassem a
conversa. A menina brincou duas vezes de amarelinha deixando o
primo ganhar, e já estava pensando em outro jogo para distraí-lo
quando o inesperado aconteceu. Papai e tia Judith saíram pela porta
sorrindo.
O resto do dia transcorreu bem. Papai fez churrasco e umas
bebidas com limão, que fizeram os adultos rirem ainda mais. Sofia
observou os dois de longe, nem parecia que tinham brigado. A
menina agradeceu à Papai do Céu antes de dormir, convencida de
que crucial significava uma situação que parecia ruim, mas em que
acabava ficando tudo bem.
Agora, com Snuf em seu quarto, ela tinha certeza de que se
enganara. Nada estava bem. Observou o boneco sem se aproximar.
Ele tinha quase o seu tamanho e estava sentado de pernas cruzadas
com as costas apoiadas na porta. Sofia nem se perguntou como
Carlinhos teria conseguido colocar o boneco atrás da porta fechada.
Tudo o que importava era que ela tinha que levar o Snuf para o
quarto em que papai guardava os acessórios do show e precisava
ser rápida. Deu um passo à frente, mas se deteve em seguida. Não
se sentia à vontade perto de Snuf. Não que ela tivesse medo dele,
claro que não. Também não tinha acreditado em nenhuma das
abobrinhas de Carlinhos sobre bonecos que ganhavam vida durante
a noite e matavam a família inteira com uma faca de cozinha ou que
tinham um punhal escondido dentro do corpo e arrancavam a pele
das crianças com ele. O problema era que Snuf tinha olhos
diferentes dos demais bonecos. Quando estava sozinha com ele,
Sofia podia jurar que ele a encarava. Mamãe costumava dizer que
não havia razão para temer e que ela estava impressionada pelos
truques que papai fazia, movendo as bocas dos bonecos e criando
uma voz para cada um deles. Mas mamãe não estava mais em casa
para protegê-la e Sofia não estava convencida. Na sua opinião,
todos os bonecos de papai eram normais, apenas madeira e tinta.
Exceto Snuf. Ele sim parecia real.
Sofia inspirou fundo. A despeito do coração um pouco acelerado,
pegou Snuf no colo e abriu a porta. Observou o corredor. Virou o
rosto na direção do quarto dos pais. A porta estava entreaberta, mas
não vinha nenhuma luz ou ruído de lá. O quarto dos bonecos
também estava fechado, e a menina não viu nenhuma luz saindo
pelo vão por baixo da porta. O andar de baixo, onde dormiam o
primo Carlinhos e a mãe dele, também estava silencioso. Sofia
fechou a porta com cuidado para não fazer barulho e deu um passo
na direção do quarto dos bonecos.
Com Snuf agarrado a ela, tudo o que Sofia mais desejava era
chegar logo ao seu destino, se livrar daquela porcaria e, se possível,
nunca mais chegar perto daquele monte de madeira. Então ela ouviu
a risada. Estancou no mesmo instante, o coração aos pulos. O
boneco em seus braços parecia ter dobrado de peso nos últimos
segundos. A risada veio de trás dela, mas ela não sabia se tinha
coragem de olhar. Pressionou os lábios, devia estar enganada.
Quem estaria rindo no meio do corredor àquela hora da madrugada?
Talvez fosse o Carlinhos. Talvez. E se ela virasse e descobrisse que
não havia ninguém ali, que seu primo estava quietinho dormindo na
sala? Ela deveria arriscar?
Inspirou fundo e prendeu o ar como costumava fazer antes de
pular na piscina, com a diferença de que dessa vez não poderia
fechar os olhos. virou-se rápido para trás, apertando Snuf contra o
seu corpo como se o boneco que ela tanto detestava fosse de
alguma forma protegê-la. O corredor estava deserto. Ela soltou o ar,
devia estar imaginando coisas. Mamãe dizia que o medo era capaz
de fazer as pessoas verem monstros nas sombras, e talvez fosse
isso o que tinha acontecido com ela. Afastou Snuf de si e observou
seu rosto. Imóvel, embora seus olhos parecessem mais brilhantes,
capazes de piscar a qualquer momento.
Quando ela se virou novamente na direção do quarto dos bonecos,
ficou paralisada. A porta estava entreaberta. Piscou os olhos
repetidas vezes. Não era possível, um segundo antes estava
fechada. Será que estava sonhando? Ou, pior, papai estaria lá
dentro? O pensamento fez sua pulsação acelerar. Droga, não podia
ser. Abanou a cabeça, tentando manter a calma. O que mamãe diria
nessa situação? Ela com certeza a tranquilizaria dizendo que era
apenas seu medo falando e que Sofia devia ser corajosa. Isso
mesmo, ela já era uma mocinha, iria conseguir devolver o boneco
para o lugar e na manhã seguinte daria um soco no insuportável do
Carlinhos por fazer ela passar por isso, não importava se ficasse de
castigo em pé com a cara na parede por horas e horas.
Reconfortada com a ideia de vingança, ela encontrou a força de
que precisava para seguir adiante. Ergueu a cabeça e estufou o
peito, e não deixaria o medo nem nenhum boneco idiota impedi-la.
Deu um passo firme em direção ao seu destino. Outra risada ecoou
no corredor, mas dessa vez ela não parou, não viraria para procurar
a origem do som. Pelo contrário, apressou o passo chegando na
porta do quarto dos bonecos em um segundo. Parou na entrada.
Torceu o nariz, sentindo um cheiro estranho que vinha lá de dentro.
Era um odor que ela não conseguia identificar com certeza, mas que
a lembrava das vezes em que ia ao açougue com a mamãe comprar
o almoço. A lembrança fez seu peito encolher, queria que mamãe
voltasse logo para casa. Será que ela não sabia que Sofia sentia sua
falta? Lágrimas surgiram em seus olhos e ela os secou com as
costas da mão livre. Não podia ficar chorando igual uma bebezinha,
o grande show de papai seria no dia seguinte e tudo ficaria bem, pois
mamãe voltaria para casa. Mas, para isso, era importante que Sofia
devolvesse Snuf para o lugar antes que papai a visse.
Hesitante, a meninatocou a madeira da porta, sentindo o material
áspero contra a palma de sua pequena mão. Empurrou-a
lentamente, torcendo para que ela não rangesse e a denunciasse. O
quarto estava escuro e, com a porta totalmente aberta, o cheiro
ferroso era muito mais forte. A pouca luz que se projetava do
corredor não era suficiente para iluminar o ambiente, e Sofia sentiu a
garganta apertar só de imaginar entrar naquele cômodo cheio de
bonecos que pareciam se mover sozinhos.
Outra risada veio de trás dela. Sofia prendeu o ar e olhou por
sobre o ombro para confirmar o que já sabia. Não havia ninguém no
corredor. Afastou Snuf de seu corpo. Não seria ele quem estava
rindo, seria? Droga, já estava no quarto, queria poder jogá-lo ali de
qualquer jeito e correr de volta para a segurança de sua cama, se
esconder sob as cobertas e só sair na manhã seguinte quando a
claridade do sol chegasse para dissipar seus medos.
Pressionou os lábios enquanto tateava a parede em busca do
interruptor. Tinha que devolver Snuf para o local certo, não podia
largá-lo ali. Quando a luz se acendeu, Sofia sentiu o corpo ficar mole,
deixou Snuf cair aos seus pés. Seu pai estava lá dentro, trabalhando
no escuro em um de seus bonecos bizarros. Ele pintava a madeira
de vermelho, fazendo o contorno de uma boca que ia até a lateral do
rosto num meio sorriso alongado demais. Ao seu redor, havia
diversas caixas pretas apoiadas nas paredes. Sofia imaginou que
aquelas caixas eram onde os bonecos ficavam e se perguntou em
qual delas deveria colocar Snuf, mas achou algumas grandes demais
para um boneco daquele tamanho.
Papai parou o que fazia e olhou para Sofia. Não havia repreensão
ou a raiva habitual em seu rosto. Ele fez um gesto com a mão.
— Vem, filha. Pode entrar.
Sofia ficou paralisada onde estava sem saber se obedecia ou se
antes devia pegar Snuf do chão. Papai se levantou do banquinho e
limpou as mãos no avental. A respiração de Sofia estava irregular,
queria correr para seu quarto, se afastar de papai e seus bonecos
horrorosos. Por um instante, ela teve certeza de que tinha sentido
Snuf se movendo no chão à sua frente. Não teve coragem de olhar e
se certificar; para certas perguntas, Sofia preferia permanecer sem
resposta. Além do mais, toda sua atenção estava fixada nas caixas
ao redor de papai. Eram tantas que, enfileiradas lado a lado, cobriam
três paredes do quarto. Sofia nem sabia que ele possuía aquela
quantidade toda de bonecos para guardar.
Então Sofia viu. Não era mais um medo bobo. Por mais que
quisesse, ela não podia atribuir o que estava diante de seus olhos à
pura imaginação. Snuf caminhava na direção de papai. Seu andar
era cambaleante, como se o boneco tivesse dificuldade em controlar
sozinho seu corpo de madeira, e seus pés estalavam contra o piso a
cada passo. Snuf se posicionou ao lado de papai, deixou a cabeça
pender para o lado e acenou para Sofia. Uma risada ecoou no
quarto, igual à que ela ouvira antes no corredor. Sofia apertou os
olhos, era Snuf o tempo todo. Papai estendeu a mão para ela. 
— Deixa eu te mostrar o que o Snuf me ensinou a fazer.
Papai piscou o olho para Snuf. O boneco assentiu com a cabeça
antes de se afastar, indo para um canto do quarto. Ao andar, Snuf
mantinha os olhos grudados em Sofia, virando o rosto para evitar
perdê-la de vista.
A respiração de Sofia saía em espasmos. Não queria ver nada,
pois qualquer coisa relacionada àqueles bonecos seria ruim, ela
tinha certeza. Onde estava mamãe em uma hora dessas? Sofia
precisava de alguém para lhe dizer que nada daquilo era real, que
tudo ficaria bem. Uma lágrima escorreu por sua bochecha. Ela deu
um passo atrás e mais outro.
— Não precisa ter medo. Já está todo mundo aqui — papai disse.
Ele empurrou então a tampa da caixa enorme que havia a seu lado.
Com um estrondo, a tampa caiu no chão. Papai não se incomodou
com o barulho, continuou abrindo uma caixa após a outra, revelando
seu interior. A cada nova caixa aberta, Snuf ria e aplaudia. A risada
do boneco se misturou ao som das tampas se chocando no piso.
Sofia soltou um longo grito, suas pernas fraquejaram.
Papai dissera a verdade, estava todo mundo ali. Carlinhos e tia
Judith nas caixas do meio, com as cabeças inclinadas para baixo,
usavam roupas parecidas com as de Snuf, trajes de marinheiro.
Imóveis, os dois eram como bonecos imperfeitos, seus corpos ainda
preservavam um aspecto que lembrava ao de uma pessoa, embora
cobertos pela mesma tinta de Snuf.
Nas outras caixas, Sofia reconheceu algumas pessoas; uma moça
que trabalhava na padaria perto de casa, o entregador da farmácia, o
vizinho que costumava passear com o cachorro na rua tarde da
noite.
— Calma filha, eles ainda não estão prontos. Vão ficar mais
bonitos quando eu terminar — ele fez uma pausa. — Agora, se
prepare para ver minha melhor criação, ela sim está pronta para o
show.
Por mais irracional que fosse, o instinto de Sofia implorava para
que ela corresse, que chamasse pela mãe. Ela precisava de alguém
que a protegesse da cena que se desenrolava diante dela. Outra
parte de Sofia, porém, sabia que não adiantava chamar, pois a
mamãe não poderia socorrê-la. Sorrindo de orgulho, papai abriu a
última caixa. Lá estava ela. Com um vestido rosa de lacinho, mamãe
exibia um sorriso paralisado no rosto coberto de verniz.
NÃO DEIXE AS CRIANÇAS SOZINHAS
Passava de meia-noite e eu seguia caminhando rápido. Trazia os
sapatos na mão, pois havia perdido a batalha contra as bolhas em
algum ponto dos dois quilômetros entre a estação de trem e minha
casa.
Encontrei a rua deserta como sempre acontecia quando eu voltava
tarde do trabalho. Sob a luz amarelada do poste, imaginei como seria
chegar em casa cedo, quando o sol estivesse começando a sumir do
céu, e poder encontrar meus filhos ainda acordados, dar um abraço
apertado em cada um, jantar com eles. Desviei o olhar do cartaz que
me aguardava no mesmo lugar da noite anterior, colado na lateral da
banca de jornal do Seu Zé. O papel já desbotado se tornara parte da
minha rotina no caminho para casa nas últimas semanas, mas eu
ainda sentia a garganta apertar cada vez que me aproximava dele.
Criança desaparecida, estava escrito acima da fotografia da
menina. Inspirei fundo, a imagem fazia meu estômago pesar. Camila
era a melhor amiga do meu filho, Bernardo. Os dois eram
inseparáveis, costumavam passar as tardes brincando na pracinha
em frente à minha casa. Foi o último local em que a menina foi vista.
Engoli em seco, me lembrando da ocasião em que a foto fora
tirada. Era a comemoração do aniversário de cinco anos da menina e
ela fez questão de ser fotografada ao lado de Bernardo. Era absurdo
pensar que não se passara nem um mês entre um dia tão feliz e o
desaparecimento, certamente o maior pesadelo da vida dos pais
dela.
No cartaz que agora me encarava, a foto utilizada era uma das
que Bernardo e Camila apareciam juntos. A imagem fora cortada
para aparecer apenas a menina. Porém, a mãozinha de Bernardo
permanecia visível ali, no ombro da amiga, numa advertência para
mim de que meu filho também não estava seguro.
Meu supervisor vivia repetindo que eu devia me mudar para um
bairro que não fosse tão perigoso. Claro, para ele era fácil falar. Eu
mal conseguia arcar com o aluguel sem ter que encarar horas extras
no trabalho. Por mais que a região em que eu morava estampasse
diariamente os piores tabloides com notícias de crimes e que isso me
apavorasse, eu não estava exatamente nadando num mar de
opções. Metade dos meus dias era preenchida pelo dilema entre
fazer mais horas extras para poder comprar coisas para meus filhos
e passar algum tempo com eles.
Desde que a amiguinha de Bernardo desapareceu, porém, minha
preocupação era outra. Eu vinha comendo mal, meu sono era
agitado. Nem dava mais tanta importância às notas de Thiago que
vinham caindo desde o início do ano, ou às ligações da escola
reclamando do comportamento hostil dele. Meu pensamento estava
focado em encontrar formas de proteger meus meninos. Fiquei tão
paranoica que os proibi de brincarem na pracinha, passei a exigirque eles deixassem as portas e janelas fechadas mesmo se
estivesse calor. Nos intervalos do trabalho, eu sempre dava um jeito
de ligar para o celular de Thiago e me certificar de que estava tudo
bem, e havia dias em que ia ao banheiro várias vezes só para
telefonar. Óbvio que não era o suficiente, mas era o máximo que eu
podia fazer.
Estava quase chegando em casa quando notei uma sombra no
chão. Um homem caminhava pela rua a uma certa distância. O
sangue se esvaiu do meu rosto. Revirei a bolsa em busca da chave,
a tensão aumentando enquanto meus dedos tocavam nos diversos
objetos em seu interior. Ao encontrar a chave, corri para abrir o
portão. Mesmo protegida pelo muro que cercava meu quintal,
estremeci desejando que o muro fosse bem mais alto, intransponível.
Apoiei a testa no metal gelado do portão depois de trancá-lo, num
alívio que sabia ser passageiro. Após o sumiço da menina, eu vinha
suspeitando de todos os desconhecidos que avistava no bairro,
especialmente tarde da noite.
Entrei em casa dando o meu melhor para não fazer barulho. Como
eu esperava, os meninos já estavam dormindo, os dois aninhados
em minha cama. Da porta do quarto, assoprei um beijo para cada
um. Muitas tarefas ainda me aguardavam, mas me permiti ficar um
tempinho ali, estudando suas silhuetas na escuridão quebrada
apenas pela luz que vinha do corredor. Meus filhos eram perfeitos,
Bernardo com cinco anos e Thiago prestes a completar onze. Os
dois tão parecidos que, não fosse a diferença de idade, poderiam
muito bem ser gêmeos.
Sorri. Eles faziam valer à pena a dor nas costas que eu sentia
depois de cada dia trabalhando naquele supermercado horroroso,
aturando os piores clientes sempre com um sorriso no rosto para não
desagradar meu supervisor. Massageei meus ombros cansados
pensando em como desejava uma vida diferente para eles, em que
Thiago não precisasse tomar conta do irmão ao voltar da escola, em
que eu pudesse levá-los para passear nos finais de semana ou ao
menos comprar um bom presente para meus filhos no natal.
Depois de um banho frio, eu estava pronta para cuidar da casa. O
trabalho de uma mulher nunca tem fim, minha mãe costumava dizer.
Comecei pelos brinquedos de Bernardo, mais uma vez largados pela
sala apesar dos meus esforços para que ele os guardasse no baú.
Nesse ponto, ele era o oposto do irmão. Thiago desde cedo tinha
demonstrado um zelo quase obsessivo com seus pertences, e ainda
na pré-escola fazia questão de dobrar o uniforme ao chegar em
casa, desajeitado no início, mas logo foi ganhando habilidade.
Fui recolhendo os brinquedos e juntando todos para levar ao baú
de uma só vez. Sob a almofada do sofá, encontrei o boneco Batman
que pertencia a Thiago. Observei o objeto por um momento, com
braços e pernas faltando. Thiago não seria capaz de estragar um
brinquedo — aquilo era obra de Bernardo.
O cansaço do dia inteiro registrando produtos no caixa do
supermercado cravou as garras em mim de uma só vez naquele
momento. Era fácil visualizar a cena da manhã seguinte: eu
atrasada, tentando fazer com que os dois se arrumassem para a
escola, enquanto eles se ocupavam de brigar por causa do maldito
boneco. Já podia ouvir os gritos de Thiago acusando o irmão de
destruir tudo o que era dele e o choro sofrido de Bernardo pedindo
desculpas. Pobrezinho, Bernardo ficava arrasado quando
decepcionava o irmão.
Com os ombros curvados, examinei a situação. O desleixo de
Bernardo não era novidade, tampouco as reações de Thiago.
Estremeci ao lembrar da última vez que Bernardo estragara um
carrinho de controle remoto do irmão algumas semanas antes. Foi
necessária a ajuda de um vizinho para separar a briga e impedir que
Thiago machucasse Bernardo.
— Eu vou estragar o seu brinquedo preferido — Thiago repetia aos
berros.
Por sorte, Thiago é um bom menino, apesar de impulsivo. As
ameaças proferidas no momento de raiva nunca se concretizaram.
Nenhum brinquedo de Bernardo apareceu quebrado e a convivência
entre os dois logo voltou a ser pacífica.
Comecei a busca pelos benditos membros do Batman. Minha mãe
devia estar certa afinal de contas, pois meu trabalho nunca tinha fim.
Varri o chão da sala com o olhar, procurei por toda a parte, mas nem
sinal dos braços e pernas perdidos.
Resignada, abri o baú. Quem sabe no domingo, durante a faxina,
eu não encontraria atrás do sofá ou debaixo da cama. Talvez eu
pudesse esconder o Batman no meu armário até lá para evitar a
confusão. Ah, merda. A quem eu queria enganar? Com certeza na
manhã seguinte Thiago daria falta da porcaria do brinquedo e
haveria um escândalo. Desde que o pai deles foi embora, o
temperamento de Thiago vinha mudando e, por mais que eu
desviasse do assunto nas reuniões da escola, a verdade era que eu
não sabia como lidar com ele.
Para minha surpresa, assim que abri o baú avistei um pedaço de
plástico preto, um dos braços. Agora só precisava ver se conseguia
encaixá-lo de volta ao boneco. Uma onda de alegria percorreu meu
corpo ao ouvir o clique do braço se conectando ao tórax musculoso.
Depois de um dia como o que eu tive, mesmo uma vitória
insignificante ainda era digna de ser celebrada.
Faltava pouco para garantir o meu sossego. Ajoelhada no chão,
revirei a confusão de bonecos, carrinhos e blocos de montar do baú.
Quando dedos roçaram em algo úmido, minha reação instintiva foi a
de afastar a mão. Apesar de não saber em que havia tocado, estava
certa de que não era nada bom.
Balancei a cabeça, rindo de minha própria reação exagerada. Não
devia ser nada demais. Afinal, nada mais comum do que uma
criança fazer bobagens. Eu mesma havia batido minha cota de
traquinagens quando pequena, brincando de comidinha com lama
misturada a pedaços de macarrão cru que roubava do armário da
cozinha. Thiago, sempre tão organizado e metódico, era quem havia
me acostumado mal. O normal para quem tinha filhos era o caos,
como minhas colegas do mercado diziam.
Resolvi virar o baú e acabar de vez com o mistério, mas assim que
todo o conteúdo rolou para o chão, precisei levar as duas mãos à
boca para conter a ânsia de vômito. Um dedo se destacava em meio
às cores vibrantes dos brinquedos. A unha pequena denunciava ter
pertencido a uma criança.
Dei um passo para trás, a respiração acelerada. O que aquilo
estava fazendo ali? Meu desejo era de arrancar meus filhos da cama
e abandonar aquela casa para sempre. Quem seria capaz de fazer
uma atrocidade dessas com uma criança? Pressionei os olhos,
tentando ser racional. Será que… será que o dedo era da Camila?
Não era difícil imaginar o que poderia ter acontecido. Thiago já havia
ignorado minha proibição aos passeios na pracinha algumas vezes…
Eles foram brincar e Bernardo pode ter encontrado o dedo ali, no
último lugar onde a menina fora vista. Era a única explicação.
Um nó se formou em minha garganta ao imaginar o choque que
seria para os pais da menina desaparecida. Minha vida seria
destruída se algo acontecesse a um dos meus filhos. Lágrimas
embaçavam a visão daquela anomalia entre os brinquedos. A culpa
era minha, não havia dúvidas, eu havia deixado meus filhos sozinhos
mesmo depois do desaparecimento de Camila, mesmo sabendo que
o bairro era um dos mais perigosos. Enquanto eu recuava em
direção ao corredor, meus olhos permaneciam fixos naquela coisa
que me encarava do meio dos brinquedos. Aquele dedo decepado
denunciava o que eu vinha tentando negar havia tanto tempo: minha
ineficiência como mãe, minha incapacidade em preservar a inocência
dos seus filhos.
Um pensamento fez meu estômago se contrair. Quem fez aquilo
com a menina podia saber que Bernardo encontrou o dedo. E, se eu
tinha razão, nós não estávamos seguros. O assassino faria de tudo
para proteger seu segredo. Podia, inclusive, ser o homem que estava
me seguindo quando eu cheguei em casa.
Olhei para a janela da sala, que não tinha grade. Se alguém
pulasse o muro para nos atacar, certamente entraria por ali. Corri
para verificar se a janela estava devidamente fechada, mesmo
sabendo que uma pessoa capaz de sequestrar e matar uma menina
não teria dificuldadeem quebrar um vidro se desejasse. Minhas
mãos tremiam. Eu precisava ligar para a polícia, manter meus filhos
seguros até que os policiais chegassem.
Quase caí para trás ao me virar e encontrar Thiago parado no
corredor. Sob seu olhar duro, tive certeza de que ele julgava meus
erros. Sem saber bem como reagir, sequei afobada as lágrimas do
rosto. Estava tão desesperada que nem tinha percebido que Thiago
havia acordado. Me posicionei em sua frente para que ele não visse
o que havia na sala.
— Anda, filho. Está tarde, vamos para o quarto. — Eu apoiei a
mão em suas costas para conduzi-lo para longe dali.
Ele resistiu e, para o meu desespero, apontou para o meio dos
brinquedos.
Um tremor percorreu meu corpo, mal conseguindo coordenar os
movimentos, me curvei para ficar na altura dele. Thiago era muito
fechado, então eu precisava olhar em seus olhos, conquistar sua
confiança para que ele me contasse o que sabia. Por mais que eu
estivesse desesperada, lutava para exibir uma fachada de calma.
— Você viu o que tem ali, meu anjo? — Minha voz saiu trêmula,
apesar de meus esforços.
Ele assentiu, o semblante fechado.
— Você sabe o que aconteceu? Sabe quem fez isso com a
Camila?
Thiago apertou os olhos.
— A Camila? Não, a Camila foi antes.
Ele estava em negação, só podia. Natural, um choque desse
tamanho para alguém tão jovem. Olhei de novo para a janela,
imaginando a silhueta de um homem surgindo ali a qualquer instante,
um martelo na mão pronto para quebrar o vidro e nos matar.
— A culpa é sua, mãe.
Sequei as lágrimas que surgiram em meus olhos. Ele tinha razão,
mas não era o que eu precisava saber. A agitação tomava conta de
mim, e eu tinha que extrair logo uma resposta de Thiago. Inspirei
fundo, teria que ser direta.
— Meu anjo, não estou entendendo. Estou falando do dedo de
criança que eu encontrei no meio dos brinquedos.
Ele assentiu.
— A culpa é sua — ele repetiu pausadamente. — Eu já falei para
você não deixar o Bernardo mexer nas minhas coisas.
MENINOS SÃO ASSIM MESMO
Aquelas eram as piores férias de todos os tempos, Bia pensou
enquanto dava tudo de si para alcançar os primos que andavam
rápido à sua frente. Os músculos das panturrilhas ardiam com o
esforço, o mato que beirava a estrada roçava em seus calcanhares,
pinicava a pele, mas ela sabia que não podia perdê-los de vista.
Estavam longe do sítio da tia Dirce, com certeza; vinham
caminhando pela estrada de terra batida por mais de meia hora
naquele passo acelerado. Era final da tarde, o sol começava a
desaparecer no horizonte deixando o céu avermelhado, uma cigarra
cantava em alguma árvore nos arredores. Fazia uns bons dez
minutos desde a última vez que tinha visto uma casa. Margeando a
estrada, apenas o mato crescendo sem cerimônia, árvores
salpicadas aqui e ali.
A paisagem era estranha para Bia. O campo era tão diferente de
onde morava. Perto de sua casa, para onde olhasse, haviam prédios,
casas, lojas, carros passando na rua e, principalmente, adultos
vigiando as crianças. Ali era o oposto, um lugar em que as crianças
podiam se esgueirar para longe de qualquer supervisão, onde
podiam fazer tudo.
Bia apertou o passo. Não podia parar, por mais que sentisse uma
dor fininha sob a costela e que o suor em suas costas grudasse o
vestido no corpo. Como encontraria o caminho de volta sem os
gêmeos? Pensou em pedir que eles a esperassem, mas acabou por
desistir da ideia. Da última vez que pedira, os primos não fizeram
nada além de rir e chamá-la de menininha da cidade. Por outro lado,
ela bem que podia correr, mas já estava ficando sem fôlego. Além
disso, não queria mostrar a eles que se importava.
O jeito era se manter andando o mais rápido que conseguia e
rezar para chegarem logo ao destino. Bia lembrou para onde
estavam indo e, como se fosse uma buzina que foi apertada, o corpo
dela expeliu todo o ar. Ela devia ter recusado o convite dos gêmeos.
Agora era tarde demais para desistir.
De repente, os primos pararam. Bia sorriu consigo mesma. Ótimo,
não sabia por quanto tempo mais aguentaria continuar. Paulo disse
alguma coisa no ouvido de João, que pareceu muito animado com o
que ouviu. Aquele foi o sinal de alerta que apagou o sorriso do rosto
de Bia. Eles iam aprontar.
Bia estreitou os olhos ao perceber que Paulo havia se abaixado
para apanhar algo no chão. Quando ele se levantou, já tinha um
braço esticado para trás, o corpo meio inclinado. Sem nenhum aviso,
Paulo atirou uma pedra na direção dela. Bia se encolheu por
instinto, curvando o corpo com os braços dobrados sobre a cabeça,
embora soubesse que ele não pretendia machucá-la, que não atiraria
a pedra tão perto assim de onde ela estava. Meninos eram assim
mesmo. Seus primos agiam igual ao Samuel da escola, que puxava
seu cabelo todos os dias e dava petelecos em sua orelha quando a
professora não estava olhando. Sua mãe já havia explicado que,
quando um menino gosta de você, ele nunca sabe como expressar e
muitas vezes acaba sendo malvado para chamar sua atenção.
Os primos gargalhavam. João com a cabeça jogada para trás e a
mão na barriga, enquanto Paulo estava com o corpo arqueado para
a frente, as mãos nos joelhos.
— Seus palhaços, isso não tem graça — Bia gritou.
Paulo deu de ombros e disse que tinha achado muito divertido,
então se virou e continuou andando. Bia fechou a cara, pisava duro
no chão de terra. Pelo menos a distância entre ela e os primos
diminuíra, e devia aproveitar que eles andavam mais devagar agora,
ainda rindo da brincadeira, para tentar chegar mais perto. Agitou a
mão no ar para espantar um inseto, só queria poder voltar logo para
a casa da tia. Mesmo que a tia não fosse muito legal e que Bia se
sentisse desconfortável na casa de uma pessoa de quem ela nunca
ouvira falar em toda sua vida, era bom ter um adulto por perto.
Passou as mãos no vestido com estampa de unicórnios, um de
seus preferidos. Analisou o vestido, até o momento tudo bem, não se
sujara. Já suas sandálias, eram um caso perdido; torrões de terra
entre seus dedos, lama cobrindo o glitter nas laterais. Tia Dirce
ficaria uma fera. Bia bufou, sabia que não adiantaria dizer que foram
os primos que a convenceram a ir para o mato. Onde já se viu uma
menina sair por aí fazendo essas coisas de moleque? Você já é
quase uma mocinha, tem que agir como tal, a tia diria. E ai de Bia se
argumentasse dizendo que os primos eram mais velhos. Meninos
são assim mesmo, a tia responderia, você, por outro lado, deve
aprender a se comportar melhor, a ser uma boa menina.
— Anda logo, sua lerda, estamos quase lá — João disse sem olhar
para trás.
Inspirou fundo. Estavam quase chegando, e Bia começava a se
questionar se queria mesmo ir à tal Casa da Bruxa. Claro que ela
não estava com medo. Não, ela não era uma medrosa. Além do
mais, sabia que não existia nenhuma bruxa de verdade, que eles
estavam só tentando assustá-la, como o tio Jorge, o último
namorado de sua mãe, gostava de fazer com suas histórias de terror.
Bia sentia falta dele; de todos os namorados que sua mãe tivera, ele
era o mais divertido. Mesmo que ficasse estranho e gritasse com
elas quando bebia demais, na manhã seguinte ele pedia desculpas,
comprava chocolate para Bia e uma rosa para sua mãe. Ela às vezes
dizia que tio Jorge não passava de um menino crescido e Bia achava
que fazia bastante sentido, pois ele podia ser malvado com elas para
mostrar o quanto se importava. Sim, devia ser isso.
Bia sentiu os pelos dos braços arrepiarem. Podia ver uma
construção antiga, uma casa abandonada um pouco mais à frente.
Suspirou, achava que havia sido por causa das histórias de terror do
tio Jorge, sempre divertidas, que ficara animada quando os primos
falaram sobre a casa assombrada que havia na região. Segundo
eles, a casa pertencia a uma bruxa que muitos anos antes fora
queimada na fogueira pelos moradores da vila. Os primos contaram
também que todas as noites dava para ouvir os gritos da bruxa
dentro da casa, mas que se você ouvisse o choro dela, era porque a
bruxa não te deixaria sair nunca mais.
Ao ouvir a história, Bia mal conseguia mantero foco na tarefa que
a tia lhe passara de separar os grãos de feijão ruins num pote. Logo
se imaginou contando a experiência de estar dentro da casa para
suas amigas quando voltassem as aulas. Inventaria detalhes, diria
que havia teias de aranha, um uivo e barulho de morcegos. As
amigas adorariam, diriam que Bia fora muito corajosa. Se tivesse
sorte, até Samuel ficaria tão fascinado com a história que se
esqueceria de puxar seu cabelo ou de implicar com Bia porque ela
não tinha pai.
O problema era que o caminho para a tal casa mal-assombrada
era longo e sua curiosidade se esvaía, cedendo espaço para outros
sentimentos. Não chegava a ser medo. Mal passava de um
desconforto, como uma coceira insistente.
Bia ouvira certa vez duas vizinhas conversando no bairro onde
morava. Uma delas dissera que uma moça que vai com um rapaz em
um lugar deserto só pode estar esperando que ele se aproveite dela
e sabe que está se metendo em encrenca. Seria essa a intenção dos
primos? Se aproveitar dela? Não fazia sentido, de que forma eles
tirariam proveito dela? Pedindo que Bia limpasse seus tênis? A
menina coçou a cabeça, não sabia o que significava o que a vizinha
dissera, e ela não respondera quando a menina perguntou nem
explicara em que tipo de encrenca a moça poderia se meter. De toda
forma, Bia era uma boa menina, sua mãe sempre falava. E queria
continuar sendo, não se meteria em encrenca.
— Você vem ou não? — Paulo perguntou.
Os gêmeos já estavam na frente da casa acenando para ela. A
construção não tinha porta ou janela, apenas buracos que deixavam
ver o escuro do lado de dentro como bocas prontas para engolir
qualquer um que se aproximasse demais. Bia parou de andar e
comprimiu os lábios. Estava perto da casa o suficiente para perceber
seus detalhes, e longe o bastante para sentir que ainda dava tempo
de se afastar. Era impressão ou havia uma sombra entre os primos
na parede da casa? A bruxa. A bruxa era real?
Um pássaro a sobrevoou piando o que parecia um grito de alerta.
Bia elevou o olhar para o céu e, quando voltou a atenção para onde
os primos estavam, não havia sombra alguma. Inspirou fundo. Que
droga, estava tão nervosa que começava a imaginar coisas, devia
ser isso.
Segurou as mãos, estavam tremendo. Era melhor apenas ir
embora. No entanto, o que os primos fariam com Bia se ela fugisse?
Passariam o resto das férias chamando-a de medrosa, de bebezinho
chorão. Sentiu o peito apertar; se ela desistisse, eles viriam atrás
dela? Talvez ela pudesse voltar sozinha para a casa da tia Dirce,
quem sabe fosse só seguir pela estrada de terra até chegar ao sítio.
Mas ela não tinha certeza de que o caminho era esse, não prestara
atenção. Poderia se perder. Os primos procurariam por ela? Ou ela
ficaria vagando sem rumo naquele lugar deserto e nunca mais teria a
chance de ver a mãe? Passou a mão no cabelo, cruzou as mãos.
Precisava tomar uma decisão, mesmo que todas as suas alternativas
parecessem ruins.
Paulo encerrou o dilema de Bia ao puxá-la pelo braço.
— Vem logo, medrosona. Não queria ver a bruxa? Ela vai adorar
conhecer você.
Bia foi levada aos empurrões para dentro da casa. Engoliu em
seco, não ia chorar. Ao cruzar a porta, pediu em pensamento que a
bruxa perdoasse a invasão, como se nunca tivesse duvidado de sua
existência.
Na casa, tudo era abandono. As paredes escurecidas pela ação do
tempo deixavam a atmosfera opressiva. Pedaços de madeira se
misturavam às folhas secas que cobriam o chão; uma cadeira de
metal sem o assento estava encostada em um dos cantos. Um odor
de mofo impregnava o ar. O estômago de Bia se contraía a cada
respiração, a sensação de que estavam cometendo um erro se
alastrava dentro dela.
Bia levou as mãos à boca mas não pôde abafar o grito quando
uma série de ruídos agudos chegaram aos seus ouvidos.
Paulo riu.
— Olha ela, está com medinho.
— Não se preocupa, esse barulho é de rato, não é a bruxa. Ainda
— João disse.
Bia esfregou os braços, nunca vira um rato de verdade e desejava
continuar assim. Mais uma vez a menina questionou sua decisão de
seguir os primos. A casa não tinha nada da aventura que ela havia
imaginado.
Em frente à porta, um corredor escuro levava aos demais
cômodos. João indicou o caminho com a cabeça.
— Vamos ver o que tem lá.
A despeito das pernas trêmulas, Bia seguiu os gêmeos. Por mais
que tudo dentro dela gritasse para que fosse embora daquela casa,
estar sozinha era uma perspectiva ainda pior. Cruzando o corredor,
um vento gelado a atingiu enquanto passava pelo antigo banheiro
com um buraco onde devia haver o vaso sanitário e plantas entrando
pelo basculante. Havia também outro cômodo, que deveria ser o
quarto, com roupas emboladas e uma cômoda de madeira escura
sem gavetas.
Em algum lugar, um pássaro emitiu um piado agudo e longo. Bia
apertou os olhos repetindo em pensamento que estava tudo bem,
que não era a bruxa, somente um animal lá fora. Mais alguns passos
e os três estavam na cozinha, onde tudo o que restava era a pia com
bancada de pedra. Ao lado da pia, a saída dos fundos da casa era
igualmente desprovida de porta. Um amontoado de terra e vegetação
um pouco mais alto do que Bia, no entanto, obstruía a passagem e
ela se perguntou se conseguiria escalá-lo sem que os primos a
impedissem.
— Pronto, já conhecemos a casa. Podemos ir embora — Bia
tentou convencer os primos.
Os gêmeos se entreolharam.
— De jeito nenhum. — Paulo tirou um canivete do bolso. — Não
dá para ir embora sem invocar a bruxa.
Bia sentiu os músculos dos ombros retesarem. Olhou para o
corredor que havia acabado de cruzar visualizando uma rota de fuga.
Paulo deu um passo na direção dela, exibindo o canivete.
— O que você vai fazer com isso? — A voz saiu trêmula.
João se posicionou atrás da prima e segurou-a pelos braços como
se desconfiasse de sua intenção de escapar.
— Ué, nunca viu filme de terror? — Paulo se aproximou dela. —
Para invocar a bruxa, vamos precisar de sangue.
Os olhos de Bia se arregalaram. Sangue, ele dissera. O que ela ia
fazer? Não acreditava que aquilo estava acontecendo. Meninos
costumavam ser um tanto brutos, mas nunca a machucariam, não de
propósito. O suor frio escorria pela nuca de Bia, assim como todas as
suas certezas.
— Não quero. Não vou deixar — se forçou a dizer.
Os gêmeos riram. João aumentou a pressão em seus braços.
— Ela não vai deixar, que gracinha — disse Paulo, já puxando a
mão de Bia e aproximando o canivete.
— Ah, larga de ser chorona. Nem vai doer — João completou.
Bia lutava para se soltar, debatendo-se em vão. Lágrimas quentes
corriam pelo seu rosto. O metal do canivete refletia os últimos raios
de sol que entravam pela porta.
— E-eu vou contar para a sua mãe.
Sem se dar o trabalho de responder, Paulo pressionou a lâmina do
canivete contra a palma da mão de Bia. A primeira gota de sangue
surgiu acompanhada pela onda de dor. Paralisada pelo medo, Bia
não conseguia sequer gritar.
Um ruído vindo da sala fez Paulo congelar. Bia engoliu o choro por
um instante tomada pela esperança de que houvesse um adulto no
local, alguém que pudesse resgatá-la daquela situação.
— Ouviu isso? — Paulo perguntou ao irmão.
— Deve ser o vento. Ou um bicho — João respondeu sem
desgrudar as mãos de Bia.
O ruído se repetiu, mais nítido dessa vez. Pareciam passos sobre
as folhas ressecadas da sala.
— Vou lá ver. Segura ela que eu já volto.
Paulo desapareceu pelo corredor com o canivete em punho. O
peito de Bia tremia com sua respiração entrecortada. Queria pedir ao
primo que a soltasse, mas sabia que ele não atenderia. Um baque
surdo veio da sala, seguido por um urro de dor de Paulo.
— Paulo — João gritou na direção do corredor escuro. — Tudo
bem aí?
JO garoto soltou Bia, passando para sua frente.
— Fica paradinha aí. Escutou? — ele disse com o dedo apontado
para o rosto dela.
No semblante do primo, Bia viu refletido pela primeira vez o
sentimento de vulnerabilidade que a acompanhava havia tanto
tempo. Ciente de que nunca era uma boa ideia contrariá-lo, Bia
assentiu. Mais um estrondo e João correu na direção da sala.
Osgritos dos dois primos se misturaram. Sem saber como reagir,
Bia se encolheu com as costas coladas na parede e cobriu o rosto
com as mãos, o sangue que escorria do corte se misturando às
lágrimas salgadas. Imaginou o que estaria acontecendo na sala.
Com todo aquele barulho, não podia ser uma pessoa o que os
primos encontraram. Devia ser algo mais poderoso que se vingava
pela audácia dos três em estarem ali. Bia engoliu em seco quando o
choro dos meninos ficou mais alto. Ela seria a próxima?
Um ruído ecoou em seus ouvidos, sem que ela conseguisse
decifrá-lo. Podia ser o som de um sapo. Ou talvez fosse mesmo o
que ela pensara, uma voz quase humana. Arriscou abrir os olhos, o
ambiente ao seu redor estava mais escuro, a noite engolira a casa
da bruxa.
— Me ajuda, Bia. — A voz de Paulo veio estrangulada.
Ainda paralisada, Bia não conseguia detectar nenhuma presença
sobrenatural na cozinha. Os primos podiam estar lhe pregando uma
peça. Meninos sempre faziam esse tipo de brincadeira de mau gosto.
Deu um passo à frente e hesitou, olhando o corredor agora bem mais
escuro e ameaçador ao som dos gritos e batidas.
A voz voltou a falar em seu ouvido. Bia sentiu o ar escapar dos
pulmões de uma só vez. Não havia mais dúvida. Não podia mais se
enganar dizendo que era um sapo ou uma ave do lado de fora. Seus
ombros se encolheram. Corre, a bruxa dissera. Os gritos de dor e os
barulhos de pancada vindos da sala aumentavam enquanto Bia
escalava o monte de terra na porta dos fundos. O vento que agora
entrava pela porta a empurrava para dentro. Bia escorregou, ralando
o joelho na terra com pedras, e quase caiu de costas de volta no
chão da cozinha. Voltou a subir sem hesitar. Desistir não era uma
opção. Suas mãos trêmulas se fincavam na terra como garras,
deixando um rastro de sangue do corte.
Quando finalmente chegou ao topo do monte de terra, Bia olhou
por sobre o ombro num ímpeto de coragem. Um vulto guardava a
passagem da cozinha para o corredor. Ignorando os apelos dos
primos, Bia seguiu em frente sabendo que os gêmeos não voltariam
mais para casa.
Agradecimentos
Eu nunca conseguiria agradecer a todos que me incentivaram e
ajudaram nessa jornada louca que é a escrita. Vou citar alguns, já
me desculpando antecipadamente por quem eu acabar deixando de
fora.
Correndo o risco de soar piegas, vou começar pela família. Quero
agradecer à minha mãe, que fez os esforços mais extraordinários
para que tudo saísse bem para mim. Às minhas filhotas, Caroline e
Giovanna, obrigada por acreditarem em mim mesmo quando eu
mesma duvidei. Ao meu marido, capaz de aturar minhas crises de
ansiedade misturadas à insegurança e ainda assim me amar. E a
meu pai, cuja memória permanece depois de mais de 25 anos de
ausência e continuará enquanto eu viver.
Aos meus amigos da pós de roteiro, Claudio Formiga, Thiago
Penna e Débora Costa, agradeço a parceria constante ao longo dos
anos, pelas ideias mirabolantes e editais em cima da hora. Agradeço
a todos que acreditam no meu talento e torcem por mim, como
Andrea Carvalho, o querido A. T. Sérgio e tantos outros amigos. A
todos que leram esses contos e apontaram melhorias: Cláudia
Lemes, Diego Lanza, Diogo Iendrick, Day Celestino, Iza Artagão,
meu muito obrigada. Quero agradecer ainda ao Henrique Morais, da
Corvus: obrigada de coração por dar uma chance aos meus contos.
Por fim, meu muito obrigada a você que leu até aqui. Espero ter te
entretido e, quem sabe, até assombrado. Desejo que possamos nos
encontrar de novo em outras histórias sombrias.
Thaís Messora
 
Thaís Messora é formada em História pela UFRJ e vem se
dedicando à escrita desde 2014. Cursou Pós-Graduação em Roteiro
para Cinema e TV na Universidade Veiga de Almeida entre 2014 e
2016. Atualmente está cursando Pós-Graduação em Escrita Criativa
pelo Nespe na Uni Ítalo. Tem contos publicados em coletâneas como
Um Ótimo Dia Para Morrer, Paralysis Somni e Numa Floresta
Sombria, tendo o conto participante desta última antologia sido
indicado como semifinalista do Prêmio ABERST de literatura.
 
	OS BONECOS DO PAPAI
	NÃO DEIXE AS CRIANÇAS SOZINHAS
	MENINOS SÃO ASSIM MESMO
	Agradecimentos
	Thaís Messora

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