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Penelope Série As Irmãs Fairweather: Livro 1 Anya Wylde Agradecimentos Obrigada, John, por tudo E Obrigada, PG Wodehouse, por criar o termo “canoozers”. É incrivelmente brilhante! Sumário Penelope Agradecimentos Sumário Prólogo Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19 Capítulo 20 Capítulo 21 Capítulo 22 Capítulo 23 Capítulo 24 Capítulo 25 Capítulo 26 Capítulo 27 Capítulo 28 Capítulo 29 Capítulo 30 Capítulo 31 Capítulo 32 Capítulo 33 Capítulo 34 Capítulo 35 Capítulo 36 Epílogo Sobre o autor Prólogo Era abril na Inglaterra. Assim, fazia sentido estar chovendo. Os ingleses, o que também fazia sentido, estavam animados porque o clima estava péssimo e eles tinham um motivo para reclamar. Mas naquele dia, os londrinos, especificamente, estavam ainda mais extáticos porque não era uma simples chuva, mas uma tempestade. Trovão, raio e vento forte tomavam as ruas de Londres levando consigo quilos de lixo, gatos magricelas, vassouras de chaminés, e a mocinha azarada com saia baloné cor-de-rosa que havia decidido escapar na surdina da casa de sua família para se encontrar com um homem que não era muito de família. Nas partes mais favorecidas da cidade, aristocratas rechonchudos se sentavam em almofadas igualmente rechonchudas lamentando o estado da economia, da política e da literatura. A exceção a isso era a Mansão Blackthorne, uma verdadeira fortaleza na qual o atual Duque de Blackthorne, Charles Cornelius Radclyff, vivia. Diziam que a história da família Radclyff tinha centenas de milhares de anos. Isso se as pessoas mantivessem a cabeça aberta, crente ou, melhor ainda, se não tivessem cabeça para isso. Sir Henry Woodville, a criatura viva mais velha na Mansão Blackthorne, não sabia ao certo onde começava a história, mas se tentasse, tinha certeza de que os ancestrais da família Radclyff eram os criadores originais da Atlantis de Platão, e depois de uma bebida, ele confessou que eles podiam ter sido Adão e Eva. (Corre, à boca miúda, em salas de visita de abastados, que Sir Henry Woodvile poderia estar um tiquinho senil). Então, a Mansão Blackthorne permanecia de pé e orgulhosa lutando contra a tempestade enquanto, dentro de suas paredes cinzas, a viúva rica e sua filha, Lady Anne Radclyff, estava encolhida perto da lareira, um pouco sobressaltada a cada trovoada. Eles não falavam sobre assuntos apropriados, mas esperaram a chegada de nossa protagonista, a Srta. Penelope Winifred Rose Spebbington Fairweather, e é onde começamos nossa história. Capítulo 1 A viúva rica lançou um olhar preocupado para a porta enquanto Lady Anne olhava para o relógio de seu avô, tentando fazer com que os enormes ponteiros se mexessem. — Ela está atrasada, Mamma. — Mas ela vai chegar logo. — Acha que ela morreu? — Annie, ela não está tão atrasada! — Sim, mas ela está vindo lá daquele... lá do Finny Village. Está chovendo desde cedo e ela recusou nossa carona. A charrete pode ter ficado presa em um buraco na rua e tombado. Ela pode muito bem estar caída numa poça do próprio sangue, com o corpo retorcido num ângulo estranho, sem ninguém por perto. — É Finnshire, não Finny, e a aia está com ela. — Bem, então a aia também morreu. O peso da carruagem acabou com ela bem antes de matar sua senhora. A coitada da Srta. Fairweather tremeu e estrebuchou por muito tempo até dar o último suspiro. — Levarei essa cena tão vívida em consideração se a Srta. Fairweather não chegar nas próximas cinco horas. Até lá, será que podemos conversar como duas mulheres bem-criadas? Se seu irmão ouvisse seu linguajar, ele a mandaria para o interior até o ano que vem. — Estou entediada. Não posso ir às lojas, nem cavalgar ou me sentir feliz com a estação. Você sabia que eu fui a cento e cinco bailes só no ano passado, e isso sem contar os jantares e recepções? — A Srta. Fairweather adoraria ter ido a cento e cinco bailes no ano passado. Você teve a satisfação de ir em três ocasiões, mas a pobre nunca frequentou nada além de um baile do bairro. — Como você acha que ela é? Já a encontrou? — Não a encontrei, mas a mãe dela e eu frequentamos a mesma escola de moças. A mãe dela, Grace, era animada, cheia de vida e ria muito, e se a filha dela se parecer um pouco com ela... — Era? — Ela morreu no parto da Srta. Penelope Fairweather. O Sr. Thomas Fairweather, pai de Penelope, casou-se com a filha do vigário, Gertrude, menos de um ano depois do enterro de Grace. Gertrude acabou tendo mais cinco filhos. Comecei a trocar correspondências com Gertrude para ter certeza de que a filha de Grace estava sendo bem-cuidada... — Você não pensou que a madrasta afogaria a criança — interrompeu Lady Anne. — Anne, a Srta. Fairweather não é um gatinho de rua que ninguém quer. Onde eu parei? Ah, sim, Gertrude escreve para mim com frequência. As cartas dela são cheias de artimanhas infantis. Tenho a sensação de conhecê-las — disse a viúva rica de modo sonhador. — Eu já as imaginei crescendo. Eles gritavam à noite e caíam de macieiras... — Você está fugindo do assunto de novo, Mamma. Não ligo para as irmãs da Srta. Fairweather. Quero saber sobre ela. — Por quê? Você nunca demonstrou tanto interesse assim em nenhum de meus outros hóspedes. Lady Anne chupou uma gota de limão, contraindo os lábios enquanto pensava. — Os outros hóspedes eram todos iguais. Eles dizem as mesmas coisas, foram criados da mesma maneira, todos eles usam as mesmas roupas. É como se uma moça de Londres e um rapaz de Londres tivessem sido colocados em formas diferentes por Deus e recriados diversas vezes. Consigo prever quais serão as respostas para as minhas perguntas. Nenhuma é original. A da Srta. Fairweather parece original. — Original? — Nunca vi uma caipira. — Annie! — Bom, é verdade, não é? Como é que a senhora vai fazer para apresentá-la a uma sociedade educada? — Grace, a mãe dela, era muito polida. Um pouco entusiasmada, mas, mesmo assim, uma mulher educada. — Quantos irmãos ela tem? — Cinco irmãs mais novas. — Seis meninas e dinheiro insuficiente para pagar nem mesmo um semestre para uma das filhas. Eu acho que sua amiga teria mais com que se preocupar do que ensinar as meninas a fazer cortesia e segurar um leque. A viúva rica bebericou seu chá sem responder. — Então, estou certa. — Não, mas tenho certeza de que a Srta. Fairweather sabe o mínimo. — Eu ouvi um — mas— ? — Gertrude parecia simpatizar com a Srta. Fairweather, mas quando perguntei se eu poderia pagar por um semestre de Penelope em Londres, sua resposta foi um pouco estranha. Ela me alertou para tomar cuidado com essa ideia... — A garota é tola? — Não, Annie, a garota não é tola. — A viúva rica parou e então disse: — Pelo menos, espero que não. Lady Anne sorriu triunfante. — Estou louca para conhecê-la. — Você vai se decepcionar. A garota vai se assustar e provavelmente não dirá nem uma palavra em seu primeiro dia aqui. Além disso, não sei se Gertrude não está sendo influenciada. Ela é a madrasta, e eu acho que ela estava relutando em mandar a filha de Grace até mim. Fiquei com a impressão de que ela preferiria que eu assumisse responsabilidade por um dos filhos dela. Não a julgo por isso, mas me preocupa que o lugar de Penelope tenha sido tomado. — Srta. Penelope Fairweather — disse Lady Anne, testando o nome em voz alta. — Ela terá cabelos ruivos e olhos pretos reluzentes, uma bruxa com uma beleza de encantar a todos. — Ela será pequenininha com cabelos e olhos castanhos, praticamente uma flor de plástico — respondeu a viúva rica. — De qualquer modo, ela está morta agora. — Não faz nem duas horas desde a hora que ela chegaria. — Espero que ela não tenha morrido. Ela é minha única esperança de sobrevivência nesse período. A viúva rica rolou os olhos e pegou sua costura. Elas permaneceram em silêncio, desviando o olhar de vez em quando para o cuco tiquetaqueando na parede. Conforme os minutos se passaram,a viúva rica foi ficando preocupada e Lady Anne, mais impaciente. — Devo pedir mais chá? — Lady Anne finalmente perguntou. — Como quiser — respondeu a viúva rica, deixando a costura de lado. Lady Anne pegou a sineta, mas antes que pudesse tocá-la, o mordomo entrou. — Srta. Fairweather — ele anunciou. — Mande-a entrar — disse Lady Anne, devolvendo a sineta ao seu lugar. Um dedo hesitante empurrou a porta para abri-la, e então o resto da Srta. Fairweather entrou na sala. A viúva rica e Lady Anne observaram a recém-chegada com interesse. A Srta. Fairweather não era bela, nem teria como ser uma flor de plástico. Era rústica, uma criatura da mata com uma aura de fada. Ela levou consigo, para dentro da sala de estar da Mansão Blackthorne, a névoa, a chuva e a tempestade, Tinha cabelos castanhos e olhos castanhos também, mas era só nisso que a previsão da viúva rica combinava. Seus cabelos escuros e armados desafiavam a série de grampos presos por todos os lados. Seu chapéu estava torto e parecia solto na cabeça, ameaçando cair a qualquer momento. Seu nariz era delicado, a pontinha era redonda e rosada. O queixo era teimoso e os lábios, sensíveis. Sardinhas rebeldes salpicavam suas faces coradas. Os olhos atentos e brilhantes percorriam o recinto com curiosidade, e a mão agarrando a saia era o único indício de seu nervosismo. Ela usava um vestido sem caimento, manchado de lama, que fez as duas mulheres se retraírem, mas não foi o vestido nem a aparência da jovem o que fez a Srta. Anne gritar ou a viúva rica berrar aterrorizadas. Quem fez isso foi o bode. A Srta. Penelope Fairweather havia entrado na sala acompanhada por um bode; um bode branco de tamanho médio, com patas pretas e um nariz claro em forma de pêssego. Ele olhava ao redor atentamente com os olhos de cílios compridos, as patas raspando no carpete azul fofo. A Srta. Fairweather fez uma reverência, agindo com elegância não para a viúva rica nem para a Srta. Anne, mas, sim, para o mordomo. — Obrigada, Perkins, é só por enquanto — a viúva rica logo interrompeu no momento em que a Srta. Fairweather abriu a boca para perguntar ao mordomo qual era seu nome. Perkins se afastou aliviado, desviando com cuidado do bode. A viúva rica se recompôs. — Srta. Fairweather, estou feliz por tê-la aqui. Estávamos ficando preocupadas, porque a chuva e a tempestade... Você trouxe um bode — ela finalizou de modo abrupto. A Srta. Penelope Fairweather se levantou com água pingando, e uma pequena poça se formou a seus pés. Ela observou a sala de estar azul luxuosa, a lareira acesa chamando sua atenção. Suas sandálias de couro fizeram barulho quando ela deu passos apressados e se curvou em reverência na direção das duas mulheres. — Sim, esse é meu animal de estimação, Lady Bathsheba. Lady Bathsheba, esta é... bem... a viúva rica e...? — Lady Anne — Lady Anne completou de modo solícito. —...Lady Anne, e ficaremos com elas por um tempo. — Ela se virou para a viúva rica. — Eu soube que algumas moças em Londres criam tigres e elefantes, por isso não pensei que minha única cabrinha pudesse causar problemas. A viúva rica ergueu a sobrancelha direita quando ouviu a parte do — única cabrinha— . Lady Anne sorriu. Ela nunca tinha sido apresentada a uma cabra. Penelope continuou falando, sem notar a sensação que estava causando. — Mary queria levá-la para a cozinha, mas a coitadinha ficou com receio de causar a impressão errada no andar de baixo. Afinal, a aia de uma senhora chegando com uma cabra não impressiona. Entre os empregados, é preciso se mostrar assertiva desde o começo ou você acaba com a pior das tarefas. Mary me disso isso. Ela quer agradar e talvez encontrar um caseiro com quem se casar. Ela adora bebês... É preciso se casar para ter bebês, mas Lilly, nossa vizinha, foi mandada para Dublin porque ela teve um bebê sem ter marido... o que foi esquisito... então, bem... Mary disse que uma aia com uma cabra não é algo desejável. Concordei em deixar a cabra ficar até ela impressionar as pessoas lá embaixo e... — Penelope hesitou com o olhar de desaprovação no olhar da viúva rica. A viúva rica se recostou no assento. Ela olhou para a garota nervosa com uma mistura de descontração e exasperação. O cuidado da Miss Fairweather em relação a sua aia era admirável, mas sua despreocupação com a impressão que ela mesma causaria ao chegar com a cabra era outra coisa. Mulheres não casadas tendo filhos... A viúva rica deu de ombros. Ela queria tampar os ouvidos da filha que ouvia com atenção. Ela queria repreender Penelope, mas não podia, não quando a garota havia acabado de chegar. Ela precisava ir devagar. Essa falha podia ser desconsiderada. Um coração gentil não era algo ruim, e assuntos apropriados para uma conversa podiam ser ensinados. Ela olhou para a filha, que parecia ter recebido um presente gigantesco embrulhado com papel cintilante com laços com tiras pendentes, e não surpreende — a Srta. Fairweather havia levado uma cabra e feito reverência ao mordomo. As coisas poderiam ter sido piores. A menina poderia estar caída, morta, em uma poça de sangue. — Você está ensopada, minha cara. Gostaria de trocar de roupa? Não podemos deixar que você fique resfriada logo no seu primeiro dia aqui — a viúva rica perguntou. — Obrigada, mas acho que a Mary não gostaria de ter que trabalhar depois de nossa longa viagem de Finnshire. Além disso, estou vendo que vocês ainda não tomaram seu chá. Não quero atrasar vocês ainda mais. Vou me sentar perto da lareira e me secarei logo. — Sim, mas... você está pingando — Lady Anne exclamou. — Sinto muito, está preocupada com a mobília? Não pensei... — Não seja tola. Um pouco de chuva feliz não vai estragar as almofadas — disse a viúva rica, lançando um olhar para acalmar a filha. — Bem, nesse caso, não se preocupe comigo. Já tomei chuva muitas vezes e nunca fiquei resfriada. A velha bruxa... quero dizer, a curandeira em nosso vilarejo costuma dizer que o trovão estoura e assusta aqueles de coração fraco. O raio cai e manda as pessoas para casa, mas só os corajosos ficam para sentir a chuva boa na pele. — Não os corajosos, mas os tolos, aqueles que não se têm medo de morrer — Lady Anne murmurou. A viúva rica retorceu as mãos sem saber o que fazer. Ficou se perguntando se a garota não batia bem. Chuva feliz, uma cabra como animal de estimação, e querer beber chá com a roupa toda molhada. E ainda não fazia cinco minutos desde sua chegada. Ela massageou a própria têmpora. Uma dor de cabeça, ela tinha certeza, não tardaria a chegar. Ela assentiu para a Srta. Fairweather se sentar, com a mente trabalhando a mil por hora para encontrar uma solução sobre como explicar o inexplicável a todos. Capítulo 2 É monstruosamente injusto que sempre que uma garota precisa se sair bem, ela acabe fazendo algo totalmente idiota. Penelope era esse tipo de garota. Ela não queria tomar chá com as roupas ensopadas. Não queria estragar as almofadas de seda em cima das quais estava sentada naquele momento. E com certeza não queria ver as duas mulheres com ar aristocrático olhando para ela como se ela fosse uma imbecil. No entanto, ali estava ela, tomando chá na sala de estra do duque, totalmente encharcada e desconfortável. Ela culpava a mansão Blackthorne. A Mansão Blackthorne era luxuosa, vibrante e linda, como as plumas recém-arrancadas de um pavão. Sua morada anterior, ou seja, a casa de seu pai, poderia ser comparada a um cogumelo em conserva. Era intimidador, e a Srta. Penelope Winifred Rose Spebbington Fairweather estava intimidada. E quando Penelope se sentia intimidada, não apenas agia como uma idiota, mas também gostava de agradar quem a intimidava. Às vezes, dava certo, mas na maioria das vezes, não dava. Em vez de se sentirem felizes, as pessoas que recebiam sua boa-vontade ficavam com medo de seu entusiasmo ou desconfortáveis. A viúva rica e Lady Anne estavam sofrendo com essa segunda emoção. Estavam um pouquinho desconfortáveis. O sorriso amarelo que Penelope exibia não ajudava em nada, necessário a presençade uma cabra extremamente curiosa. As saias encharcadas de Penelope, suas mãos trêmulas e a cabra que roubava sanduiches foram ignoradas em um acordo não expressado. As mulheres passaram a falar sobre o clima, um assunto sempre seguro. Discutiram quanto tinha chovido no último mês, quanto se esperava que chovesse no próximo mês, no frio que fazia, e então no calor, em como o clima estava incomum para aquela época do ano, e então sobre a chuva de novo. Depois de esgotar o assunto chuva, as mulheres se silenciaram. Àquela altura, um visitante da manhã normalmente se despediria. Penelope não podia fazer isso, já que ali era, agora, seu lar temporário. Assim, ela remexeu os polegares e olhou para cima, para o teto abobadado e decorado onde uma pintura muito vívida de um homem velho cutucando o nariz do demônio chamou sua atenção. A viúva rica fingia costurar, e Lady Anne se distraía com seu bolinho amanteigado. Em pouco tempo, pareceu que o silêncio tinha tomado a forma de um elefanta invisível que permanecia roncando entre as três mulheres. O elefante foi afastado pela Lady Anne quando ela perguntou: — Finnshire é uma vila de pescadores? — Vila de pescadores? Ah, por causa dos Finn. Não, estamos muito longe do mar. Mas temos um lago em nosso quintal. Temos peixes... os patos os comem — Penelope respondeu com tristeza. O elefante ameaçou chegar de novo, e a viúva rica logo comentou: — Espero que a viagem de Finnshire não tenha sido muito estressante, minha cara. Penelope se animou. — Eu vivi um tipo de aventura. Lady Anne se endireitou e se inclinou para a frente em sua cadeira, dizendo: — Conte mais. Cuidadosamente, Penelope colocou o prato na mesa e endireitou a coluna. Adotou o que suas irmãs chamavam de pose de contadora de histórias. Uniu as mãos no colo, ergueu um pouco o queixo e disse: — Eu deixei Gertrude, papai, minhas cinco irmãs, a cozinheira, a aia Martha, as cabras e vacas na fazenda, o porquinho Caramujo, a Sra. Biddy, meus amigos no vilarejo... — Eles sentirão sua falta, tenho certeza — disse a viúva rica, com empatia. — Ah, não, eles fizeram uma aposta. Janet, minha meia-irmã mais nova, aposta que eu voltarei em menos de uma semana. Della, a cozinheira, tem certeza de que eu ficarei longe pelo menos um mês, e a sra. Biddy, minha vizinha, apostou duas libras inteiras que voltarei até amanhã à tarde. Ninguém acredita que ficarei a estação toda fora, muito menos que voltarei casada. A viúva rica franziu o cenho. — Você vai ficar bem aqui. Prometi a sua mãe que cuidarei de você. Abrigarei você quanto tempo for preciso até você se casar, e com o homem certo. Penelope sorriu com tristeza, sem conseguir acreditar muito bem que a viúva manteria sua promessa. Ela não esperava mais do que alguns meses e duvidava que poderia ganhar a hospitalidade da viúva por mais tempo do que isso. Além disso, se os homens de Finnshire corriam para o outro lado sempre que ela se aproximava, enquanto que chance teria com os homens educados de Londres? — Conte-nos sobre a aventura — Lady Anne pediu com delicadeza. Penelope respirou fundo e afastou seus pensamentos infelizes. Mais uma vez, assumiu a pose de contadora de histórias e disse: — Sim, a aventura... Onde eu estava? Ah, sim, então eu me despedi de minhas irmãs e, acompanhada de meu tio, um guarda armado a cavalo, e de minha aia, parti na carruagem para Londres. A viagem dura apenas algumas horas e presumi que seria uma viagem simples e sem intercorrências. O dia estava incrivelmente bom, com um sol brilhante e nenhuma nuvem visível a quilômetros. Parti me sentindo melancólica, mas a ideia de ver Londres pela primeira vez na vida logo me deixou animada. Paramos em uma pousada, The Golden Pass, e almoçamos. Estava longe de ser saboroso, vou te contar. Afinal, acho que o frango que me serviram era, na verdade, um pobre corvo que o caseiro de cara azeda abateu no quintal. Com o apetite completamente arruinado e com todos nos sentindo bem enjoados, partimos mais uma vez para Londres. Balançávamos confortavelmente embalados pelos cavalos trotando quando de repente nossa carruagem estremeceu e parou. Um grito do condutor fez meu tio colocar a cabeça para fora da janela. Quando voltou, seu rosto estava branco como papel. – Não, o que foi? – Lady Anne perguntou em voz baixa. – Era... o Falcão. A viúva soltou um pequeno grito e Lady Anne agarrou a mão de Penelope e disse: – Oh, querida, não... não o Falcão. – Exatamente, ele mesmo – disse Penelope, balançando a cabeça. – Havia pelo menos dez homens com ele e estávamos em número muito menor. Ele ordenou que saíssemos da carruagem e não tivemos escolha a não ser obedecer. Nosso único atirador foi completamente cercado e meu pobre tio tremia muito. Minha aia Mary desmaiou e ficou prostrada no chão assim que o viu. Quase fiz a mesma coisa que Mary também quando o vi. O Falcon, posso dizer, é uma figura notável. — O que ele vestia? — perguntou a viúva aos sussurros. — Ele usava uma máscara preta, um terno escarlate com um longo casaco preto de cetim e seu chapéu era feito de renda francesa pura. — E as meias? — Lady Anne perguntou sem fôlego. — De seda branca — Penelope respondeu prontamente. — Então o que aconteceu? — Lady Anne perguntou, agora sentada na beira de sua cadeira. — Eu estava pálida de susto e meu tio ficou mudo de terror. O Falcão nos ignorou e, jogando a capa sobre os ombros, ordenou aos homens que trouxessem nossos baús. Ele manteve sua pistola apontada para o Tio e pediu a um de seus homens, o Terrível Tim, para abrir as fechaduras. Ele logo abriu um dos baús e exibiu seu conteúdo. Imagine meu horror quando percebi que o baú não era de ninguém, mas meu. Eu tremi de indignação. Imagine revirar a intimidade de uma senhora dessa maneira. Minha raiva me deu forças para contestar e eu disse a ele: — Senhor, esse é o meu baú. Como pode mexer nos pertences de uma senhora sem nenhum pudor? O que sua mãe diria? Ele fez uma pausa e olhou para mim como se me visse pela primeira vez. Seus olhos negros brilharam por trás da máscara. Eu o encarei de volta, recusando-me a baixar o olhar. Eu tinha encontrado coragem para falar e me recusei a me deixar intimidar. Ele então me disse: — Minha querida senhora, minha mãe me expulsou quando me pegou totalmente nu com a ordenhadora no celeiro. — Não, ele não disse isso! – Lady Anne exclamou em choque. — Ah, ele disse, e disse muito mais. Posso admitir para você que eu estava assustada e horrorizada, mas fiquei séria e disse friamente: — Que vergonha, senhor. Não é apropriado ficar despido na presença de uma mulher. Sua mãe teve razão em expulsá-lo. Em vez de se arrepender, o senhor passou a roubar viajantes inocentes. O senhor não é temente a Deus?— . Ele pareceu surpreso com minha ousadia, pois respondeu com mais respeito: — Peço desculpas por roubá-la, senhora. É apenas um infortúnio que me faz fazer isso. Eu prometo deixar o suficiente para que a senhora faça sua viagem. Sempre peço desculpas às minhas vítimas depois de despojá-las de seus bens materiais. Quanto a Deus, se ele existisse, eu não estaria casado com aquela ordenhadora hoje. Ela foi tão boa quando rolamos no feno, mas assim que os proclamas foram lidos, ela me mostrou sua verdadeira face. Ela já me deu oito capetinhas, e nem sei ao certo quais são meus. Mesmo assim, preciso alimentá-los e cumprir meu dever para com minha família— . Eu realmente derreti com aquele relato. Suavizei meu tom e disse: — Que triste. Oito é um número muito grande. Fico feliz em saber que você se desculpou com suas vítimas. Mesmo assim, acho que você deveria deixar de ser um ladrão de estradas. Você não consegue encontrar um trabalho honesto?— . — Ah, mas isso é apenas um trabalho secundário. Sou um ladrão importante, ladrão de veados e ladrão de cavalos. Roubo em estradas é apenas um bico— , respondeu ele com orgulho. Eu me endireitei e me dirigi a ele assim: — Então você não precisa de nossos xelins e nossas libras. Solte-nos e deixe-nos seguir nosso caminho. Está ficando tarde e aindatemos uma viagem de três horas. Não podemos permitir esse desvio. Se eu não estivesse com pressa, teria feito questão de visitar sua esposa e contar a ela o que você fez. Tenho certeza de que ela não aprovaria— . Isso pareceu funcionar, pois o pobre Falcon visivelmente estremeceu tomado por uma emoção desconhecida. Seus olhos umedeceram e seu lábio inferior, que estava visível sob a máscara, tremeu levemente. Ele finalmente se controlou e disse: — Faz muito tempo que uma mulher não me repreende assim. A última vez... a última vez foi minha irmã me repreendendo por sair de casa. Ela me implorou para mudar meus hábitos, mas eu estava tão cheio de orgulho que ignorei suas palavras. Minha esposa está ocupada demais cuidando dos filhos para se incomodar em me dizer o que fazer. Admito que sinto falta de minha mãe e de meus irmãos e irmãs... queria que eles me repreendessem mais uma vez..., ele parou. Meu coração se apertou de pena, então me aproximei dele e perguntei baixinho: — Qual é o nome da sua irmã?— . — Penelope— , respondeu ele. — O meu nome também! Eu também sou Penelope. Penelope Fairweather— , eu disse, fazendo uma mesura. Agora, deixe-me dizer, Lady Anne, minha reverência teve um efeito bem estranho sobre ele. Como eu o tratei como se ele fosse um cavalheiro, ele sentiu que era seu dever responder da mesma forma. Ele encheu o peito e me olhou com tanto carinho que senti uma pontada de afeto pela pobre alma perturbada. — Jimmy Grey ao seu dispor —, respondeu ele, curvando-se com um floreio e tanta elegância que em meu lugar até mesmo o Rei George teria ficado lisonjeado. — Jimmy Grey? — Lady Anne interrompeu com espanto. — Sim, não parece tão assustador agora, não é? Depois de saber seu nome, perdi um pouco do meu medo também e sorri para ele, e isso pareceu quebrar o gelo. Parecia que eu fazia com que ele pensasse muito em sua irmã e sua honra não permitia que ele nos roubasse mais. Ele rapidamente trancou nossos baús e os colocou de volta na carruagem. — Que bondade da parte dele — Lady Anne disse satisfeita. Penelope assentiu. — Eu também pensei assim. Jimmy é um bom homem, e ele se desculpou muito pela profissão que escolheu. Minha nossa, seu pedido de desculpas foi quase poético, e eu descobri que ele é um pouco parcial para Wordsworth e Byron. Ele é bastante... — Um salteador de estrada com muita cultura, quem diria? — a viúva comentou. — Oh, ele adora livros. Ele planeja se aposentar quando tiver dinheiro suficiente e mobiliar sua biblioteca com centenas de livros. Ele já começou uma coleção roubando tudo o que pôde encontrar com os senhores e pessoas assim. Um sujeito verdadeiramente bom. Ele era absolutamente maravilhoso, até mesmo ajudando a deixar Mary e meu tio à vontade. Ele insistiu em me acompanhar até Londres para garantir minha segurança. Ele queria ter certeza de que seu rival, o Cobra, não pararia nossa carruagem e roubaria nossas coisas. Aparentemente, o Cobra não tem honra. — O Cobra? — Lady Anne perguntou horrorizada. — Sim, ele é novo no trabalho, ainda não aprendeu as nuances do assalto à estrada. Jimmy disse que o homem tem uma tendência cruel e deveria avisar todos os meus amigos de sua presença. Seu território é Wikhinshire e arredores. Jimmy foi fiel à sua palavra. Ele veio conosco durante todo o caminho e nos contou algumas histórias notáveis durante nossa viagem para Londres. Foi muito divertido e me animou na hora. Eu não acho que ele estava me enganando. — Oh, conte-nos uma das histórias, Srta. Fairweather. A coisa toda parece bem romântica — Lady Anne implorou. Penelope sorriu e disse pensativa: — Deixe-me pensar... Ah, sim, esta é boa. Ele me disse que uma vez abordou a carruagem de um conde. Ele não me disse o nome do conde... queria proteger a privacidade de sua vítima. Afinal, ele é um ladrão honrado. Bem, esse conde era idoso, com cabelos brancos, costeletas e joelhos fracos. Jimmy procurou com todo o respeito pelos pertences do velho, mas por mais que tentasse, não encontrou nada no calção ou nos bolsos do casaco. Mas Jimmy é um homem muito inteligente. Ele sabia que algo estava acontecendo. O homem estava escondendo algo de grande valor e se contorcia de forma suspeita. Ele procurou muito, e acabou encontrando um diamante colado na orelha do conde. — Na orelha dele? — Lady Anne perguntou em dúvida. — Sim, na orelha dele. Na parte da curva da orelha. A parte de cima... bem aqui — Penelope disse, passando o dedo pela orelha esquerda de Lady Anne para demonstrar. — Como é possível enfiar algo aí, é tão pequeno — a viúva perguntou, cutucando a própria orelha. — Talvez porque você é mulher. Os homens têm orelhas maiores... Ah, aqui está um homem — disse Penelope, olhando para a porta que acabara de abrir. Ela se levantou e se aproximou dos cavalheiros que haviam entrado na sala. — Por favor, pode me emprestar sua orelha? — ela perguntou educadamente. — Como é? — o homem perguntou confuso. Penelope impacientemente ficou na ponta dos pés, agarrou a orelha dele e puxou com firmeza. O homem não teve escolha a não ser se curvar. — Ah, curve-se um pouco... Meu Deus, você é alto... Um pouco mais... Ah, sim, veja que a orelha dele é um belo espécime, grande o suficiente para demonstrar. Veja esta curva aqui. Alguém poderia facilmente enfiar um diamante aqui e ninguém saberia. Ela se virou para sorrir triunfantemente para as senhoras presentes que olhavam para ela com choque e horror gravados em seus rostos. Seu sorriso sumiu e ela se virou para examinar o homem cuja orelha ela estava segurando no momento. Ele estava curvado para a frente fazendo uma careta, já que ela ainda segurava sua orelha. No entanto, apesar de sua posição estranha, ela não pôde deixar de notar como ele era bonito. Seu rosto era um pouco sério, mas seus olhos eram de um azul escuro profundo, quase penetrantes de tão intensos. O cabelo era preto como azeviche, e ele estava tão perto que ela podia ver os fios de sua barba por fazer. Ela inspirou delicadamente e o cheiro de homem lhe causou um frio na barriga. Seu coração bateu forte nas costelas. Ela teve a sensação de que o homem não era um mordomo, como ela havia imaginado a princípio. Ela também começou a se sentir um pouco tonta. — Pode me devolver minha orelha? — ele perguntou irritado. Ela hesitou. — Mãe, pode pedir para esta criatura aqui me soltar? — Mãe? — ela guinchou. A mão que segurava a orelha tremeu. — Sim, minha cara. Veja, este é meu filho, o duque de Blackthorne — disse a viúva sem muita firmeza. Capítulo 3 O duque de Blackthorne, Charles Cornelius Radclyff, era famoso como todos os duques, viscondes, marqueses e membros da família real costumam ser. Mas ele era especialmente famoso porque era misterioso. Os vários senhores, senhoras, empregadas, pescadoras... Basicamente, toda a Grã-Bretanha consideravam um dever fofocar sobre a aristocracia como se fosse um direito nato. O visconde de Warwick — o cavalariço garantiu aos filhos boquiabertos de seu primo de quarto grau — parecia um leão e atualmente aquecia a cama da famosa cantora de ópera veneziana, apropriadamente chamada de — A Gatinha— . A delicada condessa de York era amaldiçoada — garantiu o dono da loja aos clientes —, e ela comprava creme de barbear a cada quinze dias para raspar sua espessa barba crespa todas as manhãs. Bem, o duque de Blackthorne irritava essas pessoas bem- intencionadas. Oh, todos sabiam que ele era sombrio, poderoso e rico o suficiente para rivalizar com os marajás, mas fora isso, eles não sabiam de nada. Isso agitava as mulheres ainda mais porque ele era diabolicamente bonito, sem compromisso, ostentando o número certo de dedos dos pés e das mãos, não mancava e não tinha nenhuma falha. Era direito delas saber de seu passado, dissecar sua personalidade e fofocar sobre seus últimos envolvimentos. Ele poderia ter confidenciado seus segredos mais profundos e sombrios se alguém tivesse perguntado, mas é claro que ninguém ousou perguntar. Penelope agora segurava a mesma orelha escura, dura e muito forte doduque. Ela tinha visto o interior de sua orelha, que notou ser bem limpinha. As senhoras da alta sociedade ficariam com inveja. Ela agora sabia mais sobre ele do que elas. Teria sido ideal se ela tivesse soltado a orelha dele naquele momento. Ela não o fez porque por algum motivo seu cérebro se recusou a deixá-la soltá-lo. Ela não queria enfrentar o que aconteceria quando devolvesse a ele sua orelha. Ela emitiu um som, uma mistura de gemido e guincho. O duque, cansado de esperar que ela agisse, segurou seu pulso e se desvencilhou. — Quem diabos é ela, Anne? — ele perguntou a sua irmã, gesticulando em direção à Penelope com repulsa. — Hmm... você se lembra de que a mamãe disse que a filha da Sra. Fairweather viria nos visitar durante a estação? É essa aí. Quero dizer, esta é a Srta. Fairweather — Lady Anne respondeu incomodada. — Não me diga — ele disse friamente, seus olhos a examinando de cima a baixo. Penelope sabia o que ele via, uma garota comum com cabelos castanhos sem brilho e olhos castanhos. Seu vestido, que infelizmente também era marrom, tinha flores cor-de-rosa bordadas por toda parte. Ela estava ciente das manchas de lama e de algumas grandes manchas úmidas da chuva. O Falcão ficara encantado com o vestido dela, observando que combinava exatamente com as cortinas de sua casa. Ela não achou que o duque considerara seu vestido encantador. Na verdade, ele estava olhando para ela como se ela fosse um roedor bem horrível. — Mãe, como é que a senhora vai apresentar essa... essa coisa para a sociedade? Ela obviamente não tem boas maneiras nem aparência digna de nota. Ela pelo menos tem um bom dote? — Charles! Como você pode falar assim? — a viúva disse indignada. — Ela agarrou minha orelha e se recusou a soltar. Isso é atitude de uma dama? Duvido que ela já tenha conhecido um duque na vida. Pelo estado de vestido dela, estou convencido este ela não é só desengonçada, mas também é pobre. Mãe, mande-a embora, ela nunca vai conquistar um homem. — Já chega, Charles — a viúva retrucou. Penelope ficou olhando para o duque em estado de choque. Ele era horrível, ela pensou, olhando para ele. Era verdade que ela não tinha dote. Seu pai era da pequena nobreza latifundiária, e a única conexão que eles tinham com a aristocracia era a prima de sua falecida mãe duas vezes removida, que era a terceira na linha de sucessão de um reino empobrecido. Aquela prima estava agora... morta também. Eles ganhavam apenas o suficiente para viver com conforto, mas não com luxo. Foi por isso que a viúva insistiu para que ela pagasse por seu tempo em Londres. Ainda assim, o duque não tinha o direito de falar sobre ela com tanto desdém. Seu rosto ficou vermelho de vergonha. Ele fez com que ela se sentisse pedindo esmola. Ela piscou rapidamente para dissipar as lágrimas de raiva e então respirou fundo. Ela não permitiria que este homem, duque ou não, a fizesse se sentir tão mal. Afinal, ela havia enfrentado o Falcão. Segundo Della, a cozinheira de sua casa, a melhor defesa de uma dama é seu pudor, alegria e um semblante elegante diante de um bruto. Della havia conseguido vencer o açougueiro rude, que costumava enganar seus clientes embalando mais ossos do que carne, com educação. O açougueiro estava agora a bordo de um navio com destino à Índia em busca de orientação espiritual. Assim, Penelope endireitou os ombros, agarrou sua saia e se abaixou em uma reverência estranha. — Peço desculpas, vossa graça — disse ela com uma voz apenas ligeiramente trêmula. Ele a encarou por um momento, procurando em seu rosto qualquer sinal de zombaria. Não encontrando nenhum, ele deu um breve aceno de cabeça e, em seguida, virou as costas para ela. — Anne, queria falar com você sobre o baile de Lady Hartworth. Eu gostaria de aceitar... — Ele desviou o olhar do canto onde Penelope estava sentada originalmente. Lady Anne olhou preocupada para a mãe e depois tentou tirar a saia para esconder a mancha da vista do duque. — Suas saias não podem esconder isso. Eu ainda consigo ver, Anne — o duque observou, olhando para as três. Ninguém se atreveu a responder. — Entendo... eu tenho que dizer o óbvio e fazer a pergunta, aparentemente. Estamos na Sala Azul e, mãe, você parecia estar recebendo um convidado para o chá. Agora, estou confuso e curioso para saber por que tem uma cabra comendo o que parece ser uma folha de alface naquele canto da cadeira Chippendale. A cabra em questão ergueu os olhos do prato de sanduíches de alface e baliu. — Lady Bathsheba não gosta de ser chamada de cabra... — Penelope murmurou para si mesma. O duque se virou para olhar para Penelope, e sua próxima declaração morreu em seus lábios. — Lady Bathsheba, é? — ele perguntou suavemente. Penelope agarrou a saia e tentou morder a língua. Seu infeliz hábito de falar mais do que a boca quando estava nervosa e acabar falando besteira escapava de seu controle de novo. Ela evitou olhar nos olhos dele, cerrando os punhos e cravando as unhas na palma da mão. Não adiantou. Ela pôde sentir as palavras borbulhando dentro dela, e finalmente desistiu da batalha e deixou sua língua seguir seu caminho, — Bem, sim, você vê que temos uma tia chamada Lady Bathsheba, e minha irmã mais nova Janet gosta muito dela, e quando ela partiu para as Américas, Janet não parava de chorar. Eu tive que fazer alguma coisa e, por fim, disse a ela que o cabrito era, na verdade, Lady Bathsheba, que havia sido transformada por um mágico que ela havia desprezado. Lady Bathsheba é realmente muito gentil e tem sido minha companheira há um tempo. Ela está acostumada a estar perto de mim o tempo todo, e só se comporta mal quando alguém a chama de cabra e... — Sua irmã, ela acreditou em você? — Lady Anne interrompeu, recebendo um olhar furioso do duque por seus esforços. — Sim, é que Janet tinha apenas cinco anos. Agora ela tem seis anos. Ela não acredita mais nisso... — Penelope respondeu, perdendo a voz. O duque pareceu perplexo por um momento, então franziu o cenho e disse: — Não vou concordar em gastar um bom dinheiro introduzindo esse... esse incômodo pastoral na sociedade educada. A cabra volta para casa com a menina hoje, e não me importa se isso acontecer tarde. Ela pode viajar a noite toda. Vou enviar guardas armados, se necessário. Ele então se dirigiu ao seu mordomo, que apareceu misteriosamente ao seu lado: — Perkins, peça a Hopkins para buscar o bigode falso no meu quarto. Eu preciso visitar meu avô. — Sim senhor. — E, Anne, encontre-me em meu escritório antes do jantar. — Sim, claro — Lady Anne respondeu. Ele deu um breve aceno de cabeça e, em seguida, lançando um último olhar para a cabra, saiu da sala. A porta bateu quando ele saiu, fazendo Penelope se sobressaltar. Ela escolheu um ponto no tapete e tentou parecer totalmente absorta. Ela havia sido dispensada sem cerimônia um dia após sua chegada a Londres. Estava totalmente mortificada e se sentia do tamanho de uma formiga. Ela se encolheu, fechando os olhos com força. Não sabia mais como enfrentar as duas mulheres para as quais estava fazendo sala alguns momentos ante. Ela se forçou a abrir um olho quando sentiu um toque em seu braço. A viúva foi até ela e Penelope se preparou para as desculpas que ela tinha certeza que viriam. A viúva, sem dúvida, lhe diria o quanto lamentava e que arranjaria uma carruagem adequada para levá-la de volta a Finnshire. — Abra seu outro olho também, Srta. Fairweather, e, por favor, venha e sente-se. Temos muito o que discutir — disse a viúva. Penelope abriu o outro olho e permitiu-se ser conduzida a seu lugar na cadeira. — Eu sinto muito — Lady Anne disse no momento em que Penelope se sentou. Penelope estremeceu, sem ter ideia do que poderia dizer em tal situação. A viúva pegou sua mão mais uma vez. — Meu filho é um pouco... — A viúva fez uma pausa buscando palavras. — Grosseiro? — Penelope disse sem pensar. — Orgulhoso e... — a viúva começou a dizer. — Dominador? — Penelope interrompeu de novo, tentando desesperadamente manter a boca fechada. Não adiantava insultaro duque, especialmente para sua mãe. — Obstinado — respondeu a viúva. — Rude? — Penelope disse. — Responsável — Lady Anne entrou na conversa. — Paternalista, odioso e um sujeito rabugento — Penelope rebateu. A boca da viúva tremeu quando ela respondeu: — Trabalhador, disciplinado e gentil. — Gentil? — Penelope perguntou em dúvida. — Sim, gentil. Agora, se você já se cansou dos jogos de palavras, posso explicar? — a viúva perguntou. Quando Penelope assentiu com timidez, os olhos da viúva ficaram vidrados e ela disse de modo saudoso: — Charles foi uma criança maravilhosa, um pouco travesso e sempre risonho... Tanto Penelope quanto Lady Anne bufaram, indignadas. A viúva as ignorou e continuou: — O pai dele morreu quando ele tinha dezessete anos e desde então ele tem sido responsável por um grande ducado. Ele é um bom duque e cuida bem de seus arrendatários. Infelizmente, seus numerosos deveres fazem com que ele tenha pouca paciência com qualquer coisa fora do comum. Sua vida funciona como um relógio, com tudo tendo um tempo determinado. Vocês devem perdoá-lo se ele for um pouco mal-humorado... — Um pouco mal-humorado? — Lady Anne sorriu. — Admito que às vezes ele esquece os bons modos — continuou a viúva em voz alta — e uma mãe pode continuar a elogiar suas virtudes. O que estou tentando dizer, minha querida, é que peço desculpas por ele. — Não precisa fazer isso — Penelope respondeu com franqueza. Apesar das palavras da viúva, ela não conseguiu perdoar o duque. Ele podia ser responsável pelo sustento de centenas, senão de milhares, mas isso não lhe dava o direito de ser um bruto mal- educado. Ele era, ela concluiu, completamente mimado. — Quanto a você e Lady Bathsheba, vocês ficarão até o fim da estação. Ele pode ser o duque, mas eu sou sua mãe. Você está aqui como minha convidada e a meu convite. Por favor, diga que vai ficar. Penelope olhou consternada para a viúva. Ela percebeu que a viúva tinha os mesmos olhos azuis escuros de seu filho. Eles não eram tão brilhantes ou intensos, nem eram duros na expressão. Eram menos brilhantes devido à idade, e gentis. Seus traços eram doces e delicados e, apesar dos cabelos grisalhos, era fácil perceber que a viúva já fora uma mulher muito bonita. O duque deve ter herdado seu rosto severo e maneiras de seu pai, ela concluiu. Quanto a ficar, ela estava dividida. É verdade que ela não podia voltar... No entanto, esta era, afinal, a casa do duque, independentemente do que sua mãe pudesse dizer. Ficar depois de ter sido rejeitada tão grosseiramente era contra seu orgulho. — O duque? — ela perguntou finalmente. — Temos uma maneira de convencê-lo. É infalível e só o usamos quando as circunstâncias são terríveis — disse a viúva, sorrindo. — Se ele concordar, você fica? — Lady Anne perguntou, ansiosamente. — Ele vai se desculpar? — Penelope perguntou, ainda indecisa. — Err... ele nunca se desculpa, mas vai pedir para você ficar. Por favor, tome isso como um pedido de desculpas, eu imploro — Lady Anne disse, apertando sua mão. — Como vocês conseguirão isso? — Penelope perguntou, ganhando tempo. A viúva sorriu e lançou um olhar firme para Lady Anne. Penelope, por sua vez, olhou para Lady Anne confusa. — Anne é nossa arma secreta. Penelope olhou para Lady Anne. Anne Radclyff, a irmã do duque, não herdou nem o temperamento doce e gentil de sua mãe, nem sua boa aparência. Seus olhos eram de um azul mais claro e seu nariz um pouco pontudo. Mas, como a maioria das damas inglesas talentosas, ela conseguia disfarçar seus defeitos sob um traje de elegância, pós e metros de seda de boa qualidade. Ela olhou para Penelope com uma expressão decidida. — Arma secreta? — Penelope perguntou, perplexa. — Sim, veja, Anne é o ponto fraco de Charles. Ele ama sua irmã mais do que tudo no mundo. Ele é protetor e possessivo, mas se Anne derramar uma única lágrima, ele faz de tudo para fazê-la sorrir novamente. Admito que às vezes usamos isso a nosso favor. — Vou derramar um monte de lágrimas por você, Srta. Fairweather — Lady Anne disse, feliz. Penelope olhou assustada para Lady Anne. Ela não imaginou que o duque pudesse amar tanto alguém. — Não permita que ela chore à toa, Srta. Fairweather. Você vai ficar? Penelope respirou fundo e soltou o ar lentamente. Por fim, ela sorriu e assentiu, incerta. Ela ainda não achava que o duque concordaria. Lady Anne bateu palmas de prazer e abraçou Penelope: — Oh, vamos nos divertir muito. A viúva sorriu: — Agora que está resolvido, quero saber o que aconteceu com o Falcon. Ele deixou você na nossa porta? — Sim, eu o convidei para o chá — respondeu Penelope. — Para o chá? Aqui? — a viúva perguntou em pânico. Que o duque ignorasse a presença de uma cabra era uma coisa, mas de um ladrão de estrada? — Ele recusou — disse Penelope tristemente. — Que... que pena — a viúva respondeu sem forças. — É, não é? — Penelope disse, e então franziu a testa: — Eu tenho uma pergunta. O que o duque quis dizer quando disse que precisa de um bigode falso para conhecer seu avô? — Ah, bem, Srta. Fairweather, o que acha de ver seus aposentos? Contarei tudo sobre meu avô e contarei sobre nossas regras e rotinas domésticas enquanto você se prepara para o jantar. Estou confiante de que você ficará. Portanto, é melhor que conheça todas as nossas peculiaridades o mais rápido possível — Lady Anne respondeu. — Regras... peculiaridades? — Penelope perguntou com nervosismo. — Venha, Srta. Fairweather, Lady Bathsheba. A instrução levará algum tempo — Lady Anne disse, levantando e afofando suas saias. Penelope se levantou e fez uma reverência apressada à viúva. Ela então correu atrás de Lady Anne, que já estava na porta. — Espere, eu quero saber quais regras. Por que bigodes falsos? Lady Anne... posso mudar de ideia sobre ficar... Lady Anne! Capítulo 4 — Você gosta do seu quarto? — Lady Anne perguntou. — Eu tenho uma cama de dossel só para mim — Penelope respondeu com admiração. — A sala de banho é por aqui — Lady Anne disse, abrindo uma porta de tela francesa lindamente pintada. Penelope espiou ali dentro e arregalou os olhos para a banheira de marfim com pés em forma de garras. — Há flores no banheiro também... flores frescas. — Gosto muito de flores, por isso o meu irmão cuida para que a casa esteja sempre florida. Ele pede à governanta, Sra. Reed, para colocá-las em todos os lugares para os quais eu possa olhar. Penelope não queria se lembrar do duque, então rapidamente foi até o guarda-roupa de nogueira e o abriu. Alguém havia desfeito sua mala de viagem e os poucos vestidos que ela possuía tinham sido cuidadosamente dobrados e colocados nas prateleiras. Eles pareciam patéticos em meio a todo o luxo. As cortinas do quarto seriam vestidos mais bonitos do que os que ela trouxera. — Agora, diga-me, Lady Anne, o que o duque quis dizer sobre o bigode? Lady Anne se juntou a ela e começou a inspecionar os vestidos enquanto falava: — Sir Henry Woodville é o pai da minha mãe. Ele se junta a nós para jantar todas as noites. Fora isso, ele fica em seus aposentos por causa de sua condição delicada e saúde debilitada. Ele... ele é um pouco tradicional em sua forma de pensar. O que quero dizer é que ele tem noções peculiares sobre como uma pessoa deve ser. — Entendo — disse Penelope, sem entender nada. Lady Anne pegou um vestido cor-de-rosa e o olhou para ele criticamente enquanto continuava: — O avô acha que um homem deve ser julgado pelo bigode. Se um homem tem um bigode respeitável e, com isso, ele quer dizer um bigode farto, muito grande e bem-cuidado, então esse homem tem alguma importância. Ele simplesmente se recusa a falar com quem não tem bigode. Inclinando a cabeça para um lado, Penelope procurou o rosto de Lady Anne... Ela a achou mortalmente séria. Lady Anne jogou o vestido em uma cadeira e foi se sentar na cama. Ela deu um tapinha no espaço ao lado dela e Penelope se aproximou. — Deixe-me explicar. O avô tem ideias muito antiquadas. Ele acredita que mulheres e crianças devem ser vistas e não ouvidas. As mulheres nãodevem ser educadas. Uma mulher ignorante é uma boa mulher. Devemos basicamente nos comportar como imbecis, piscando com nossos longos cílios e atendendo todos os desejos de um homem. Os homens, por outro lado, devem ser viris. Eles devem se comportar como seres viris e usar roupas adequadas que mostrem isso. Portanto, um homem sem bigode não é homem. Um homem, diz ele, deve ostentar o bigode com orgulho, e quanto mais glorioso o bigode, mais poderoso é o homem. — Ele parece horrível. Lady Anne suspirou e disse: — Sim, é difícil, mas veja, ele é tão velho que, por respeito, tentamos mantê-lo feliz. Achamos que ele vai morrer em breve, mas tenho ouvido falar de sua morte iminente desde que eu usava fraldas. — Quantos anos ele tem? — Calculamos cerca de cem, embora seja difícil determinar sua idade exata. Não havia registros de nascimento naquela época como fazemos agora. Ou, se havia, a mãe do avô não foi informada do fato. — O que acontece quando você recebe convidados que não têm bigodes? — Nós temos um estoque de bigodes falsos. O mordomo, Perkins, vem com a bandeja e todos escolhem um e colocam. Temos de todos os tipos – cinza, marrom, preto e castanho. Destes, alguns são finos, alguns são cheios e alguns são caídos, enquanto outros enrolam. O duque permite que os convidados escolham os seus e eles veem isso como uma boa piada. Eles não se importam e, mesmo que se importassem, ninguém diria isso ao duque. — Hum — disse Penelope, digerindo esse fato estranho. — Você vai usar este rosa para o jantar esta noite? É perfeito e o avô vai aprovar. Podemos cuidar do seu guarda-roupa e visitar a costureira amanhã. O primeiro baile será daqui a pouco mais de uma semana e tenho certeza de que Mademoiselle Bellafraunde terá algo adequado para você a tempo. Penelope olhou para o vestido volumoso com desgosto. Tinha camadas e mais camadas de saias, e era um pouco longo para ela. O corpete era baixo, mas não de modo embaraçoso. Havia pérolas artificiais espalhadas por toda parte. Foi um presente de sua vizinha bem-intencionada, a Sra. Biddy, e ela o embalou por carinho e não com a intenção de usá-lo. Mas ela não queria ofender Lady Anne, então concordou com relutância. — Maravilhoso. Agora que está decidido, posso seguir com as regras. — Regras? — Regras da casa que todos devem seguir, incluindo convidados. Sem exceções. — Entendo. — Agora, regra número um. Todos devem chegar na hora das refeições. O jantar é às sete, o desjejum às nove, o almoço ao meio- dia e o chá, às quatro. Se você se atrasar, mesmo que seja um segundo, terá que perder sua refeição. Você também não pode começar a comer antes do tempo previsto. Nem um segundo antes, ou pedirão para você deixar a mesa. Espere que um de nós pegue o garfo para que você não cometa um erro — Lady Anne recitou o discurso bem-ensaiado. — Mas como vocês sabem se estamos um segundo adiantados ou atrasados? — O avô fica de olho no relógio de bolso e dá o sinal para começarmos. Outras vezes, o duque nos diz as horas. O único descanso que temos dessa programação é quando o duque e o avô não estão presentes. Então, podemos comer quando queremos. — O que mais? — Penelope perguntou, gostando ainda menos do duque. Ninguém tinha sido tão rigoroso em sua casa. Isso parecia terrível. — Você não pode comer nada no seu quarto. Nem mesmo um biscoito, embora você possa receber ocasionalmente uma bebida quente. Mamãe e eu tomamos chá em nossos quartos todas as manhãs. Eu também recomendo sair para cada refeição um pouco mais cedo do que você faria normalmente, já que a casa é grande e você pode se perder. Penelope se esforçou para procurar uma caneta e papel para escrever tudo. — Eu tenho tudo escrito. Eu mantenho um para todos os convidados. Deve estar na gaveta da sua penteadeira. Penelope assentiu fracamente e foi buscá-lo. — Agora, esta parte aqui significa que você não pode ir a lugar nenhum sem um acompanhante. Você não pode entreter ninguém na casa sem a permissão prévia do duque. Você não pode entrar em certas partes da casa, como os quartos dos empregados, cozinhas e o quintal dos fundos. — Por que não posso convidar ninguém? — O duque leva suas responsabilidades muito a sério. Ele é muito específico sobre a nossa segurança. — Eu dificilmente vou convidar um rufião para jantar — disse Penelope ofendida, esquecendo-se do fato de que apenas algumas horas antes ela havia feito um convite para um infame salteador, ladrão e surrupiador de veados. — Sim, bem, agora a próxima regra — disse Lady Anne apressadamente. — Você não deve, em hipótese alguma, entrar em seu escritório. Penelope não teria problemas para seguir essa regra. Ela evitaria o homem como o diabo foge da cruz. — O resto é bastante simples, destacando as consequências se você for solteira e visitar um cavalheiro em seus aposentos enquanto vive sob este teto. Não perambule pelos corredores à noite com sua camisola, entre outras mais. Leia hoje à noite quando tiver tempo. Fora isso, você pode fazer o que quiser. — Hum — disse Penelope, virando a página. Vinte e uma regras a serem seguidas ou ela seria convidada a sair. Tentou imaginar quanto tempo duraria ali. — Bem, acho que vou deixar você descansar e se preparar para o jantar. Eu mesmo irei buscá-la, apenas para mostrar o caminho. Agora, preciso ver meu irmão em seu escritório e derramar umas lágrimas. Me deseje sorte. — Boa sorte — Penelope murmurou distraidamente, seus olhos percorrendo sem parar O Decreto Padrão sobre os Princípios de Comportamento na Residência dos Blackthorne e tentando memorizá-lo ao mesmo tempo. Ela não ouviu o clique da porta quando Lady Anne saiu. ∞∞∞ Mary enfiou um pente no cabelo de Penelope e tentou alisá-lo. Ele logo ficou preso. — Seu cabelo, Srta. Pê, é como a cauda enrolada de um chimpanzé. — Você já viu um chimpanzé, Mary? — Não, mas o cavalariço estava me contando tudo sobre isso. Ele viu um em um circo. — Já está flertando? Acho que o cavalariço é um jovem robusto. — Minha nossa, Srta. Pê, a senhorita e sua provocação. Penelope sorriu para sua criada e Mary sorriu de volta. — É bom vê-la feliz, senhorita. Fiquei preocupada com o que Madame Gertrude lhe disse hoje cedo. A senhorita parecia terrivelmente infeliz. — Você ouviu? — Eu estava lavando a roupa, senhorita. Ouvi o suficiente. — Tenho certeza de que ela não quis dizer isso — Penelope respondeu, evitando o olhar de Mary. — Você vai encontrar um homem, senhorita? — A viúva vai me ajudar, tenho certeza. Se nada acontecer, você sempre pode voltar para a aldeia. Ou ficar aqui. — Ela mudou rapidamente de assunto. — A sua acomodação está boa, e como você está lidando com as coisas lá embaixo? — Eu estou bem. Estou preocupada com a senhorita. Quanto aos aposentos dos empregados, na verdade, temos janelas. Posso ver o jardim dos fundos e atirar da janela Lady Bathsheba para cuidar de seus negócios. — Então o duque cuida bem de seus servos? — Lady Anne está encarregada das cozinhas e dos criados. Não deixamos de receber algum dinheiro extra do chá de vez em quando, e podemos comer o que quisermos. Até a copeira é uma coisa gordinha. Parece bom demais para ser verdade para gente como nós. — Isso é maravilhoso — disse Penelope, calmamente. Depois de um momento, ela acrescentou: — Por ora é só, Mary, obrigada. Mary hesitou, mas um apelo silencioso de Penelope a fez fazer uma reverência e sair da sala, embora com relutância. Mary sempre quis um quarto com janela, Penelope pensou com carinho. Os quartos dos criados em Finnshire estavam escuros e úmidos, com apenas um feixe de luz. Ela olhou para a cama macia e convidativa e sorriu. Ela também tinha recebido um quarto digno de uma princesa, bem longe de seu pequeno, mas confortável quarto na casa de seu pai. Inquieta, ela se levantou e foi olhar pela janela. O cenário era sombrio. O sol estava se escondendo novamente e a poluição escura pairava confortavelmente acima deles. O roseiral, que ficava de frente para o quarto, parecia úmido, frio e triste. O vento, ela notou, era aúnica coisa feliz, correndo por entre as árvores e arbustos como um gatinho animado. Se ela se esforçasse, poderia vagamente distinguir o contorno de uma fonte à distância. Ela se concentrou na estrutura em cima da fonte e finalmente percebeu que era uma estátua de mármore de um anjo bebê de cabelos cacheados brincando no lago de lírios ali embaixo. Ela suspirou com tristeza e se afastou. Pegou o retrato da mãe no armário e o colocou na escrivaninha de sândalo vermelho. Soltou o corpo na cadeira e apoiou o queixo nas mãos. Inclinando a cabeça de um lado para o outro, ela examinou o retrato. O retrato a óleo era tão grande quanto sua mão, talvez um pouco maior. Mostrava sua mãe com 21 anos. Ela olhou para ele por alguns minutos e então disse: — Boa noite, mãe. Você parece bem. Como estão as coisas no céu? Que bom, que bom... Bem, estou meio em apuros. Pode me fazer o favor de pedir a Deus por mim? Parece que meu anjo da guarda fugiu ou tirou um sabático, e o substituto ainda não chegou. Ela fez uma pausa, tentando imaginar se as palavras demoravam para viajar da terra ao céu. Deixou passar um momento por garantia e, em seguida, olhando nos olhos castanhos que eram idênticos aos dela, continuou: — Acho que você se parece comigo, embora o papai discorde. Ele sempre diz que seu queixo é de pessoa boazinha, enquanto o meu é de pessoa teimosa. Meu nariz é redondo na ponta, enquanto o seu é pontudo e, enquanto tenho dezesseis sardas, você não tem nenhuma. Ele costumava me dizer que você era tão boa que Deus decidiu levá-la até ele. Não sou tão boa quanto você bem sabe, mamãe. Isso significa que irei para o inferno? Ou que vou ficar presa na terra por toda a eternidade? O padre na igreja da cidade parece pensar que meu lugar ao lado de Mefistófeles está reservado... Mas estou divagando. Queria contar a você tudo sobre o meu dia e sobre o problema em que estou metida. Aquele que precisa da intervenção de um anjo da guarda, ou talvez, se você puder, alguns anjos da guarda descendo para me ajudar a sair dessa situação. Ela olhou em volta distraidamente, tentando imaginar como poderia explicar melhor as coisas. Seus olhos se voltaram para a janela mais uma vez e ela disse vagamente: — Mamãe, você se lembra do peitoril da janela em meu quarto, onde eu costumava sentar quando era criança? Ficava acordada até tarde da noite, deixando as cortinas esconderem a mim e minha vela, enquanto olhava para a floresta verde escura nos fundos. Eu tinha certeza de que as fadinhas apareceriam para brincar e que um dia eu as veria dançando na horta. Eu permanecia sentada, quase sem respirar, por horas, ao que parece, e a única coisa emocionante que eu já vi foi uma raposa travessa a caminho do galinheiro. Ela fez uma careta ao se lembrar, apoiando os queixos nas mãos. — Eu gostaria de poder me sentar em um dos meus lugares favoritos de novo, especialmente na rocha lisa à beira do riacho... o riacho murmurante que corre perto da casa e desaparece na floresta, onde o Sr. Pato e a Sra. Pato dançam tranquilamente na água, seguidos pelos patinhos nadando freneticamente. — Ela fez uma pausa e continuou perdida e sonhadora. — E você se lembra de quando eu tinha dez anos e amarrava todas as minhas roupas em uma trouxa, usava meu vestido mais bonito e com rabos-de-cavalo impecáveis, decidi partir em uma aventura? O que acho estranho agora que olho para trás é que em vez de seguir o riacho floresta escura adentro onde eu estava tão convencida de que as fadas moravam, eu quis seguir o caminho branco cintilante que corria ao longo da floresta para fora da aldeia. O caminho que levava a uma terra desconhecida... Eu queria partir e chegar ao céu para encontrar você, mamãe... ou talvez encontrar um lar. Uma lágrima escorreu por sua bochecha e ela a enxugou com raiva. — Aquela megera horrível... Tudo bem, tudo bem, mãe, não se estresse. — Ela continuou em um tom mais respeitoso: — Minha madrasta, Gertrude, como você bem sabe, sempre me detestou. Quando criança, sentia um medo constante, um medo que só uma criança pode sentir, por causa dela. Fiz o melhor que pude para ficar longe dela e tentei agradar... Você sabe que eu tentei. Aí do céu, você provavelmente tem uma boa visão de tudo o que acontece aqui. Bem, a usurpadora agora exigiu, eu te conto caso você tenha perdido essa informação, exigiu que eu nunca retorne. Aquela bruxa ardilosa, imprestável... Oh, deixe minha língua solta, mamãe. Não toque sua varinha na minha consciência. Ela merece isso. Ela me disse para nunca mais voltar para a casa do meu pai. Observe como eu nunca chamo aquilo de casa. É sempre a casa do pai. Bem, ela nunca fez daquilo um lar e agora minha morada anterior também foi tirada de mim. Eu nem tive chance de me despedir direito de todos. — Ela soltou um lamento na última parte. Fungando, ela limpou o nariz escorrendo. A angústia não esperou que ela encontrasse e usasse lenços. — Ela me disse que eu não devo voltar nunca para a casa de papai. Ela disse que o pai desperdiçou toda a sua riqueza. Ele não tem mais como me vestir ou manter. Eu sabia que ele era terrível com as contas, mas... mas não sabia que as coisas haviam se tornado tão terríveis. Ela disse que como eu não tenho fortuna, realizações, beleza ou perspectivas de casamento no futuro, que eu deveria agarrar a oportunidade que a viúva me deu e arranjar um homem... qualquer homem que me queira, mesmo que isso signifique me tornar sua amante, ou devo encontrar algum trabalho adequado. Mãe, não sou mais aquela criança fraca e indefesa. Eu me recusei a ser intimidada. E eu disse isso a ela... e então ela mudou de tática. Ela me fazia lembrar de minhas irmãs mais novas; Janet, ainda com vestidos, e Celine, apenas um ano mais jovem do que eu e ainda não saiu de casa. Ela me perguntou como eu poderia ser tão cruel e continuar a ser um fardo para meu pai, que tinha que cuidar de cinco meninas. Eu admito que hesitei um pouco, mas ela percebeu que eu ainda estava indecisa, e foi quando ela puxou seu trunfo da manga. Penelope endireitou as costas e apertou a cadeira com força. — Mãe, Gertrude me informou que sabia da proposta de Lorde Weevil. O mesmo Lorde Weevil antigo que parece um rato enorme e asqueroso com dentes salientes e um único olho que sempre estica o olho para qualquer coisa com saias. Ele me abordou em várias ocasiões e sempre rejeitei suas propostas. Parece que ele se aproximou de Gertrude depois de saber de minha temporada iminente em Londres e, estimulado pelas circunstâncias, pediu-lhe minha mão. Talvez ele soubesse que meu pai recusaria. Bem, ela não recusou, mas pediu-lhe tempo, na esperança, creio eu, de que a viúva pudesse ajudar na situação e encontrar um partido melhor para mim. Se eu me casar com alguém bem-estabelecido, ela pode pendurar as responsabilidades das filhas em meu pescoço. Ela me disse que, se eu me atrevesse a voltar solteira ou desempregada, ela resolveria o problema por conta própria e cuidaria para que eu me casasse com aquele terrível, terrível Lorde Weevil. Ela parou aqui para respirar profundamente e se acalmar. — Então, veja, mamãe, estou desesperada. Tenho que casar ou então encontrar um emprego. Eu não posso voltar. O Lorde Weevil faz minha pele se arrepiar. Quando parti para Londres hoje cedo, ele parou a carruagem fora da aldeia e ordenou que eu descesse. Ele estava convencido de que, com a permissão de Gertrude, eu agora era sua noiva. Eu coloquei a cabeça para fora e educadamente pedi a ele para me deixar partir. Ele se recusou e se preparou para abrir a porta da carruagem. Oh, mamãe, eu realmente não queria, mas veja, eu não tive escolha. Eu tive que dar um soco no olho dele. Ela fez uma pausa respeitosa, pensando talvez que sua mãe, empoleirada em uma nuvem fofa, estivesse tendo um treco por causa daquela última notícia. — Bem, eu sinto muito agora por ter dado um soco nele. Não foi muito forte, apenas o suficiente para que ele caísse no chão e nos desse tempo para fugir. Ela acariciou o retrato de sua mãe: — Agora que estou em Londres,gostaria de estar em Finnshire. Sei que estou sendo contraditória, mas apesar da presença de Gertrude, fui feliz. Eu sei que queria seguir aquele caminho branco para a aventura, mas vou sentir falta da gentil Sra. Buttersmith, meus cúmplices de infância — Susey e Clair, a velha crepitante que vive na floresta, o Sr. Pato, a Sra. Pato e todos os pequenos patinhos. Mas, principalmente, vou sentir falta do pai e de minhas irmãs adotivas. Esse caminho branco não leva a nenhum lugar agradável, mamãe. Eu me sinto peculiar nesta casa estranha. Pelo menos na casa de papai tenho meu próprio quarto familiar, que é exatamente isso, se não é meu, pelo menos é familiar. Ela chorou um pouco, desta vez levantando-se da cadeira para localizar o lenço e assoar o nariz. — Gertrude me odeia porque diz que o papai sempre amou você, mamãe, e você ocupa um lugar especial no coração dele. Ela acredita que esse lugar é dela por direito. Ela sabe que ele se casou com ela simplesmente para me dar uma mãe, mas então por que ele fez cinco outros filhos logo depois? Ela acha que meu pai me dá atenção demais e atenção de menos para minhas meias-irmãs. Meu rosto faz com que ela se lembre constantemente de sua presença; um fantasma, diz ela, que deve permanecer frio e morto na sepultura. Seus olhos quando ela se despediu de mim tinham uma expressão quase de loucura, seu rosto marcado pelo ódio e por uma paixão tão profunda que me assustou. Ela soluçou forte e depois de chorar bastante, sentiu-se melhor. — Sua varinha está atingindo minha consciência novamente. Eu não deveria ter caído em um abismo de autopiedade como este. E sim, sim, eu entendo. Não posso descer para jantar com o duque com olhos de choro. Pronto, lavei meu rosto com água fria. Isso deve resolver. Ela enxugou o rosto com um pano de musselina mais branco do que seu vestido mais branco. — Agora, vou ver a situação pelo lado positivo. Sempre quis viajar, descobrir o mundo fora de Finnshire e escapar da horrível Gertrude. Bem, aqui estou eu com uma oportunidade que mais parece vinda de um conto de fadas, bem dentro da casa de um duque, com uma perspectiva de vestidos novos, danças, jantares e talvez, quem sabe?...meu primeiro beijo. Eu poderia, em alguns meses, ter um marido, e se só um ogro me quiser, e daí? Os pequenos ogros que eu teria pelo menos seriam adoráveis e eu poderia finalmente ter minha própria casa. Tenho meses para pensar no que fazer se não conseguir encontrar um homem. Além disso, mamãe, você teria enviado o guardião de volta para o meu lado com instruções estritas para que ele grudasse em mim como manteiga no pão. Ela beijou o retrato e, embrulhando-o em um papel fino, colocou-o de volta no armário. Alisando as saias, ela se sentou na cama e se preparou para esperar a chegada de Lady Anne, que a levaria para a sala de jantar. Ela tinha três meses para conquistar o afeto da viúva, três meses para encontrar um marido e, se todo o resto falhasse, três meses para encontrar uma outra solução. Ela tentou assoviar uma música alegre para se animar, mas conforme os minutos passavam, sua melodia se transformava em um canto fúnebre. Capítulo 5 — Está pronta, Srta. Fairweather? — Estou indo, Lady Anne — Penelope gritou. Pegou seu xale e correu para a porta. Tropeçou e se endireitou. O maldito vestido era muito comprido e tinha muitas saias por baixo. Lady Anne estava esperando no corredor, seus olhos azul-claros brilhando de impaciência. Ela usava um elegante vestido verde-mar esvoaçante como um sonho. Um pouco de farinha cobria suas bochechas coradas, e mechas de cabelo preto como tinta escaparam do coque na altura da nuca. Ela deu um rápido sorriso de boas- vindas e Penelope se sentiu desarrumada com sua roupa antiquada. — Espero que tenha conseguido se ocupar nessas últimas duas horas, Srta. Fairweather. Um pequeno desastre na cozinha me deteve e não pude vir antes. Eu sei como é difícil se ajustar a novos ambientes, especialmente no primeiro dia. Peço desculpas por ser uma anfitriã tão relapsa, mas prometo compensá-la por isso. — Oh, não, Lady Anne, não precisa se desculpar. Demorei um pouco para me vestir. Depois disso, tive uma longa conversa com minha mãe. Eu fiquei bem, de verdade. — Você conversou com sua mãe? Oh, você quer dizer que escreveu para sua madrasta. — Não, eu estava falando com o retrato da minha mãe. Aquela que já faleceu... que está mortinha da Silva no túmulo — explicou ela. Lady Anne parou brevemente e então continuou a andar com um sorriso que ia de orelha a orelha. — Como foi seu encontro com o duque? — Penelope perguntou, achando o sorriso um pouco irritante. Lady Anne entrelaçou seu braço no de Penelope. — Eu perguntei e ele recusou. Penelope se sobressaltou e Lady Anne sorriu. — Me ouça. Depois eu implorei e ele se recusou. Por fim, chorei, e antes que uma única lágrima pudesse percorrer minha bochecha, ele concordou. Até prometeu pedir pessoalmente para você ficar. Penelope olhou para Lady Anne com respeito. — Obrigada — disse ela. — Não, não me agradeça. Meu irmão foi um pouco duro... — Minha senhora — uma voz interrompeu. Ambos olharam para a frente e viram uma empregada bloqueando o caminho. — A Sra. Reed quer vê-la com urgência para falar algo sobre o jantar. Lady Anne bateu o pé, assustando Penelope um pouco. — De novo não! Eu estava na cozinha há pouco. Ah, esse nosso novo chef! Ele tem dificuldades para preparar as refeições na hora certa. Consegui amenizar desastres até agora, mas não sei por quanto tempo vou conseguir continuar pensando em soluções criativas. Sinto muito, Srta. Fairweather. Temos mais quinze minutos antes de o jantar ser servido e preciso conversar com a Sra. Reed. Becky, por favor, acompanhe a Srta. Fairweather até a sala de jantar. Espero que você não se importe. — Eu não me importo — Penelope respondeu rapidamente. Ela teria gostado de ter o apoio de Lady Anne enquanto enfrentava o duque e Sir Henry Woodville... Talvez a viúva já estivesse lá embaixo? Com um sorriso educado no rosto, ela seguiu a empregada... Becky, Lady Anne a havia chamado. ∞∞∞ Penelope ergueu o pé esquerdo e o observou criticamente. Em seguida, ergueu ligeiramente a saia e mais uma vez inspecionou o pé esquerdo. Não resolveu. Seu pé esquerdo permanecia escondido sob as saias. Ela olhou tristemente para a escada de carvalho sem fim e sinuosa, iluminada por dezenas de candelabros cintilantes. A empregada que deveria acompanhá-la até a sala de jantar havia desaparecido. Ela teria que descer as escadas sem ajuda. Era melhor arriscar a própria vida do que se atrasar para o jantar. Respirando fundo, ela desceu o primeiro degrau e cambaleou. Esticou o braço e se agarrou ao corrimão. Alguns momentos se passaram até que ela recuperasse a compostura. Não havia outra saída. Teria que subir ainda mais a saia. Espiou escada abaixo para ter certeza de que estava sozinha antes de tentar qualquer comportamento pouco feminino e encontrou o duque olhando para ela. Não ficou surpresa. Aquele tipo de coisa costumava acontecer com ela. Ele, por sua vez, olhou para ela com aborrecimento. Ela achou que ele era um pão — sério e diabolicamente bonito. Ela se forçou a respirar e forçou uma expressão de desdém. Ela podia zombar tão bem quanto ele, pensou com raiva. Inclinando o queixo para cima e mantendo uma expressão altiva, ela deu mais um passo para baixo. Seu pé não conseguiu pousar no segundo degrau e, em vez disso, pairou sobre o terceiro degrau em busca de terreno sólido. Ela oscilou na beirada, os braços se movimentando violentamente como uma corujinha testando as asas de filhote pela primeira vez. Sua boca se abriu, seus olhos se arregalaram e seus músculos faciais se contraíram de forma que não a favoreciam nem um pouco. Por fim, ela perdeu o equilíbrio e caiu, rolando escada abaixo até alguém segurá-la. Ela fechou os olhos com vergonha. — Você está bem? — perguntou o duque com urgência. — Você viu meus calções? — Ela sussurrou. — Desculpe? Bateu a cabeça? — Meus calções... você os viu? — ela perguntou,abrindo os olhos. — Err... não. — Ainda bem. Pelo menos essas malditas saias serviram para alguma coisa. Porém, foram elas que me fizeram tropeçar. — Você parece estar ilesa. Voltou a falar. Você está bem? Penelope olhou para o duque ajoelhado diante dela, a preocupação evidente em seu olhar penetrante. Desconcertada, ela empurrou os braços dele e rapidamente se levantou, e com a mesma rapidez tropeçou novamente e caiu de volta em seus braços. — Pare de se contorcer. Eu vou soltar você bem rápido. Levante o pé direito. Acho que a saia está presa por baixo... sim, agora segure no meu ombro e coloque o pé de volta no chão. É isso aí. Agora, vou soltar você. Tem certeza de que não vai cair de novo? — Não... não, eu estou bem. Eu... obrigada — Penelope gaguejou. O duque esperou até que ela conseguisse dar alguns passos sozinha antes de soltar seu braço. — Por que você vestiu algo tão ridículo? Posso ver que você não tem bom gosto nem senso prático. Você poderia ter se matado, tudo por causa da moda. — Sua irmã recomendou que eu usasse isto, Sua Graça — ela respondeu irritada. Ela havia se acalmado ao ver a preocupação dele com ela, mas ele logo retomou a atitude mordaz. Ela deduziu que a preocupação dele não era com sua segurança. Lidar com os cadáveres de convidados que quebraram o pescoço ao cair da escada com saias muito compridas teria atrapalhado sua programação. Limpar o sangue coagulado dos caros carpetes cor de creme teria atrapalhado ainda mais a hora do jantar. — Então seus outros vestidos devem ser realmente assustadores — murmurou o duque. Eles chegaram ao último degrau em segurança com Penelope quebrando a cabeça em busca de uma resposta inteligente. — Perkins, traga dois copos de conhaque. Capriche, por favor — ordenou o duque ao mordomo. Penelope ficou se remexendo, ainda pensando em uma resposta decente. — Senhorita Fairweather? Permita-me acompanhá-la até a sala de jantar. Penelope desistiu. Ela nem conseguia se lembrar ao que estava tentando responder. Tocou o braço dele com as pontas dos dedos delicadamente, tomando o cuidado de tocá-lo o mínimo possível. Sua boca se contraiu como se ele entendesse. Eles entraram na sala de jantar e o duque a acomodou em uma cadeira a uma mesa comprida o suficiente para acomodar dezesseis pessoas. — Tome, beba de uma vez — ordenou o duque, entregando a ela um copo de conhaque. Ela olhou para ele em dúvida. — Você vai entrar em choque. A queda da escada poderia ter matado você. É uma reação retardada. O conhaque vai ajudar a acalmar seus nervos. — Tem gosto de ameixa — ela murmurou e bebeu o conteúdo. Gaguejando e tossindo, ela bateu o copo vazio na mesa. Quando parou de tossir, ela se preparou para reagir com atraso ao baque da queda da escada. Não aconteceu. Ela se sentia extremamente bem. Na verdade, o conhaque lhe dera uma sensação deliciosa de calor e, pensando nisso, nunca havia tomado conhaque. Sempre era vinho. Ela se arrependeu de beber tão rápido. Deveria ter provado corretamente. — Posso tomar outro? — ela perguntou. — Outro o quê? — Conhaque ou uísque... rum? — Ela poderia muito bem experimentar todos os três já que o duque estava sendo generoso. — Você tem certeza? — perguntou o duque. — Sim, por favor — ela respondeu toda empertigada. Ele meneou a cabeça e serviu um pouco no copo dela. Ela agarrou o copo e deu um gole delicado. Estava horrível, mas ela tinha que beber agora com o duque olhando para ela. Ela tomou outro gole e depois outro. Pareceu se acostumar ao sabor, e quando se deu conta, já estava adorando. — Está delicioso, obrigada. — Não por isso. É conhaque de cereja. Vá devagar, você também está bebendo... Ah, vejo que terminou. — Posso...? — Não — ele respondeu, interrompendo-a no meio da frase. — Eu só queria um pouco mais — ela murmurou baixinho. Ela secretamente observou o duque tirar o relógio do bolso e ver as horas. O mordomo, como se esperasse a deixa, entregou ao duque algo em uma bandeja. Ele pegou um bigode cheio e escuro e caminhou até o espelho. Ele tinha acabado de colocá-lo no lugar quando a chegada de Sir Henry Woodville foi anunciada. — Quem é esta jovem? — Uma voz trêmula perguntou. — É a senhorita Fairweather, vovô. — Ah, sim, nossa convidada da temporada. Penelope observou o velho frágil sendo carregado para a sala por dois lacaios corpulentos. Sir Henry tinha cabelos muito brancos, olhos redondos bem escuros e um nariz bulboso no qual havia uma grande pinta preta. A metade inferior de seu rosto ficava escondida atrás do bigode mais primorosamente bem-cuidado de toda a Inglaterra. Era um bigode aristocrático, poderoso, digno e, acima de tudo, farto. Era longo, branco e as pontas se curvavam para cima, dando-lhe uma sensação quase ameaçadora. Um bigode decente pode intimidar um homem, enquanto um bigode grande pode assustar um exército. E o bigode de Sir Henry era ótimo. Adoravelmente unido à metade inferior do bigode, havia uma barba fofa. Seus lábios finos obviamente desapareciam por trás de todos os pelos. Penelope se levantou e fez uma reverência, oferecendo um sorriso incerto. — O que você acha de Londres? — o velho perguntou a ela do outro lado da mesa. — Cheguei hoje e ainda não vi o suficiente para formar uma opinião. — Você vai odiar. Na minha época, Londres era verde, os homens corajosos e as mulheres, saltitantes... — Ele parou quando um acesso de tosse o tomou. Perkins despejou rapidamente vinho em uma taça e colocou-a na frente de Sir Henry enquanto o duque se erguia em sua cadeira. Penelope agarrou a saia com horror. O acesso de tosse de Sir Henry pareceu durar para sempre. Ela estava convencida de que acabara de ouvir o velho proferir suas últimas palavras trágicas. Sir Henry Woodville logo parou. Seus olhos estavam fechados e Penelope se inclinou para a frente para verificar se ele ainda respirava. O duque também parecia ter decidido partir desta para uma melhor quando Sir Henry abriu os olhos e disse: — Gostei do seu vestido. Ela se sobressaltou. O duque voltou a sentar-se e calmamente voltou a bebericar o seu conhaque. — Hmm... obrigada — ela finalmente conseguiu dizer, com a mão no coração aos pulos. — As mulheres não têm mais noção de estilo. Eles usam roupas que puxam seus peitos até o pescoço. Andam praticamente nuas. Minha esposa usava mais saias de baixo na cama do que elas usam em um baile. Chamam de inspiração grega. Sei; É como ir a um baile de camisola. Deplorável. Minha querida, não deixe que essas modistas londrinas mudem seu estilo. Você tem a quantidade adequada de saias de baixo. Penelope agarrou a taça de vinho e bebeu o conteúdo de um gole. Seu rosto estava vermelho e ela não ousou olhar para o duque. Ficou se perguntando se era comum os aristocratas falarem sobre peitos e saias de baixo à mesa de jantar. Ela desejou desesperadamente que Lady Anne e a viúva chegassem e a salvassem de morrer de vergonha. Seu desejo foi atendido e eles entraram naquele exato momento. Assim que se sentaram, Perkins, o mordomo, entrou com uma nova jarra de vinho. Perkins havia chegado à Mansão Blackthorne junto com Sir Henry Woodville dezessete anos atrás, logo após a morte do duque de Blackthorne VI. Berkins, o mordomo na época, ficou tão chocado ao saber da morte de seu amado mestre que se aposentou. Perkins achou muito decente da parte do sujeito deixar o posto e torná-lo convenientemente disponível para ele. Na época, Perkins, que substituiu Berkins, era considerado o melhor mordomo da cidade. Ele era frequentemente abordado por membros da família aristocrática rivais com promessas de velas, garrafas, gordura, ossos e tabaco para deixar seu posto e ir trabalhar para eles. Ele, por lealdade e orgulho profundamente arraigados, recusava. Os criados do andar de baixo agora desejavam que alguém tivesse pensado em uma quantia suficiente para atrair o maldito homem para fora. Perkins, com seu cabelo branco, corpo encurvado e rosto enrugado como uma tâmara seca, era tão velho que deveria estar morto por direito. Mas ele não estava, e emboraseu cérebro funcionasse relativamente bem, seu corpo quase desistia, pois reclamava a cada passo que ele dava. Sua visão era muito ruim, beirava a cegueira, e em mais de uma ocasião ele conseguiu derramar o líquido de uma jarra de vinho nos peitos de várias mulheres atraentes que ousavam usar decotes muito profundos. É notável que apenas mulheres atraentes fossem assim banhadas e, estranhamente, ninguém na família notou essa coincidência. Este mesmo Perkins, com sua visão granulada, juntas doloridas e mãos trêmulas, avançou lentamente no árduo trabalho ao redor da mesa para encher as taças de vinho. Uma criada entrou carregando travessas de comida. Outro servo entrou em seguida, e depois outro até a mesa comprida ficar repleta de frutas, carnes, queijos, nozes e pão fresco. Alguém colocou uma tigela de sopa na frente dela e Perkins ainda não tinha tocado sua taça de vinho. Penelope lançou a Perkins um olhar maldoso. Ela desejou que o maldito homem se apressasse e enchesse seu copo. Ele estava pairando sobre a cabeça da viúva. Seus olhos deslizaram para o duque. O duque estava sussurrando algo para uma bela criada. Seu copo estava cheio, ela notou irritada. Ela puxou os olhos de volta para o prato. Um momento depois, a mesma donzela bonita apareceu ao seu lado e encheu seu copo de água. Penelope franziu a testa e depois olhou para o duque com irritação. Ele achava que ela havia bebido vinho suficiente naquela noite? Ela não era criança. Furiosa, ela esperou até que Perkins finalmente chegasse ao lado dela. Com um olhar triste para seu decote relativamente alto, ele despejou o vinho em sua taça. Desafiadoramente o pegou e tomou um gole generoso. O duque ergueu uma sobrancelha com descontração e voltou a beber seu conhaque. — O chef parece ter preparado o jantar na hora certa — disse Penelope a Lady Anne, que estava sentada ao lado dela. — Sim, bem, ele é temperamental. Ele é francês e a governanta, inglesa. Se você quiser testemunhar uma batalha, aventure-se em nossas cozinhas qualquer dia desses. Penelope acenou com a cabeça, compreendendo, e tomou um gole generoso de seu copo. — Este vinho é diferente do que estou habituado. É delicioso e de alguma forma o sabor é... mais profundo e a cor mais escura? — Mais escura? Parece que você só bebeu vinho — disse Lady Anne, rindo. Seu sorriso congelado ao notar a expressão de Penelope. — Você bebeu apenas vinho aguado! Meu Deus, eu não sabia... mas você bebeu apenas um copo. Você deve ficar bem. Beba com moderação. O que quero dizer é que se você não está acostumado com isso, então pode subir à sua cabeça. Penelope olhou para Lady Anne alarmada. Ela havia bebido mais que um copo, alguns, na verdade, e o conhaque. Quantos copos foram? Ela nem tinha comido nada. Isso melhorava ou piorava as coisas? Sua cabeça estava um pouco estranha, mas talvez fosse por causa da fome. Ela franziu a testa tentando pensar, e quanto mais ela esforçava seu cérebro, mais confusa parecia estar ficando. As velas pareciam ter ficado mais brilhantes e Penelope olhou para Sir Henry enquanto ele olhava para o relógio de bolso. Ele ergueu a mão e a deixou cair sobre a mesa com um baque uma vez. Lady Anne cutucou Penelope e notou que todos pegavam as colheres e começavam a tomar a sopa. Ela olhou para as inúmeras colheres e garfos e escolheu um ao acaso. Ela mergulhou cuidadosamente a colher na tigela e a ergueu em direção à boca. Seu cérebro estava decididamente embaralhado agora. Aquele procedimento simples estava se revelando uma tarefa difícil. Ela finalmente conseguiu levar a colher à boca e engolir o conteúdo. Ela sorriu alegre e olhou ao redor da mesa com orgulho. Lady Anne a olhava preocupada enquanto o duque parecia desaprovar. Penelope mostrou a língua para o duque e assim permaneceu. As colheres pararam no ar e todos se viraram para olhar para ela com espanto. Penelope ficou satisfeita. Ela iria mostrar ao duque, pensou feliz. Ela poderia comer sua sopa e beber tanto vinho quanto quisesse. Pegou seu copo e bebeu o conteúdo, lambendo os lábios. Sir Henry, alheio à situação, disse: — Srta. Fairweather, o que a traz a Londres? Penelope franziu a testa tentando dar sentido às palavras. — Estou aqui para arrumar um homem, um marido, quer dizer, durante a temporada. É estranho, não é, que a chamemos de temporada de Londres. É como dizer que é a temporada de caça... o que eu suponho que seja, mas caçamos homens em vez de coelhos. — Ela riu e repetiu: — Coelhos, homens com orelhas de coelho, hehe. — Você tem alguma ideia de que tipo de marido gostaria de arranjar? — perguntou Sir Henry, meio perdido com a história dos coelhos. — Não, qualquer um servirá desde que seja homem. Mas, Sir Henry, não vou encontrar um homem com este vestido. Eu o odeio porque é rosa e rosa me lembra porcos. Não sei por que me lembra porcos cor de rosa — ela disse tristemente. — Qualquer homem? — Sir Henry lutou desesperadamente para manter a conversa coerente. — Sim, qualquer homem. Se ele for rico, então melhor ainda — ela soluçou. — Eu não acredito que você tenha um título ou que seja uma herdeira, então como vai conseguir um marido rico, minha querida? Talvez devesse manter sua mente aberta a todos os candidatos em potencial. É um conselho gentil de um velho. — Suponho... suponho que usarei alguns dos truques femininos que as mulheres usam para apanhar um homem. Tenho que me casar e o mais rápido possível. Mas entendo o que quer dizer, Sir Henry. Aceito qualquer um que me aceitar. O garfo da viúva bateu no prato. Ela nervosamente olhou para o filho. O duque parecia alterado. — Você está um pouco embriagada, minha querida? Teve tempo de tomar só uma ou duas taças de vinho desde que nos sentamos. Um organismo fraco para a bebida, pelo visto — observou Sir Henry, finalmente compreendendo a situação. Penelope abriu um sorriso amplo, e depois de um minuto sorrindo como boba, ela disse: — Vamos fazer um brinde! Subindo em sua cadeira, ela ergueu o copo. — Um brinde aos... aos bigodes — ela riu. — Aos bigodes... Se ishtá [A1]pensando em se casar, Sir Henry, então minha cozinheira, Della, na casa de meu pai, tem um bigode ishplêndido. O senhor adoraria seu bigode, e ela até tem alguns fios no queixo. Encaracolados. Lady Anne deu um salto e tentou puxá-la para baixo sussurrando com urgência. — Shhh, Lady Rashclyff... Eu tenho um ishegredo — Penelope sussurrou de volta em voz alta. — Você é querida, eu gosto de você. A viúva é liiinda, também goshto dela... ela infe... infelizmente gerou um belo e rude e maldoso e outras coisas ruins... err... — Ela se endireitou e apontou para o duque. — Você, eu não goshto de você e, infelizmente, ishtou te vendo triplicado. — Por favor, cale-se, Srta. Fairweather — Lady Anne implorou. — Sim, sim, pícaro! — Penelope gritou. Lady Anne estremeceu, tapando as orelhas com as mãos. Penelope riu e girou em sua cadeira, — Oh, Lady Bathsheba, eu lhe deixei com Mary, mas você sentiu minha falta e veio. Todos se viraram para olhar para a porta onde a cabra agora estava parecendo entediada. Mary entrou correndo parecendo se desculpar e tentou levar o animal embora. — Nããão, Mary, você não pode levá-la embora... Lady Bathsheba — Penelope gritou e caiu da cadeira. O duque nem mesmo tentou segurá-la. Lady Anne deteve a queda, mas não completamente. Penelope ficou deitada no chão, completamente desmaiada. Um silêncio mortal se fez na sala. Sir Henry finalmente olhou para o duque disse: — Eu sabia que estávamos tendo problemas com o chef, mas enviar nosso jantar cru, vivo e dando chutes é realmente vergonhoso. O duque olhou confuso para o avô. — O carneiro não estava cozido. — Charles, leve Penelope para o quarto dela — a viúva interveio rapidamente. — Você vai fazer o que eu digo — acrescentou ela, notando a expressão do duque. O duque assentiu e sem cerimônia agarrou Penelope pela cintura, jogou-a sobre o ombro e saiu. Sir Henry, pela primeira vez, permitiu que a filha e os netos deixassem a mesa de jantar mais cedo. Ele os observou partir,girando a ponto de seu bigode branco e fofo enquanto pensava. Capítulo 6 Lady Anne começou a rir. A viúva olhou para ela, gesticulando para Penelope que estava dormindo na cama. — Mãe — Lady Anne riu. — Ela chegou esta tarde e conseguiu irritar Charles, assustar Sir Henry, horrorizá-lo e me divertir. E não acredito que ela esteja bêbada. Isso é esplêndido. Ah, eu gostaria que a temporada começasse. Imagine que a deixemos solta em um salão de baile. Ela destruirá o lugar mais rápido do que um tigre de Bengala real vivo. A viúva franziu o cenho em desaprovação para a filha. Lady Anne ficou séria, não por causa do olhar feroz de sua mãe, mas quando um novo pensamento invadiu seus agradáveis devaneios. — Ela terá que voltar para Finnshire? Charles nunca vai concordar em ficar com ela agora, e vovô, ora, se ele a vir no jantar novamente, pode ter um ataque ou em desespero se afogar na sopa de tartaruga — ela se encolheu decepcionada. A viúva olhou para Penelope, uma figura aparentemente inofensiva sorrindo em seus sonhos. Em seguida, ela olhou para sua filha, que havia adotado a pose de uma trágica rainha prestes a ver seu amante morto no campo de batalha. Ela suspirou e disse: — Eu não a entendo. Ela é incrivelmente ingênua, mas vejo inteligência por trás daqueles grandes olhos castanhos. Inicialmente, pensei que ela fosse tímida e sua insegurança a fazia balbuciar, mas então ela começou a contar aquela história descrevendo seu corajoso encontro com o salteador. Isso me abalou. Ela é uma mulher confiante, uma jovem negligenciada ou... — Ela está louca, mamãe. Doida, louca, maluca de pedra... completa e totalmente maluca. Pouco antes do jantar, ela me contou que estivera conversando com a mãe já falecida. Além disso, eu a peguei sussurrando para aquela cabra e não como quem fala com um animal de estimação, veja bem, mas tendo uma conversa adulta... com uma cabra. A viúva, em vez de ficar alarmada, olhou para Penelope com pena. — Talvez as cartas que Gertrude me escreveu jurando seu amor pela menina fossem completamente falsas. É possível que a Srta. Fairweather tenha sido vergonhosamente negligenciada e a tal ponto que teve que recorrer a objetos inanimados e animais para manter seu ânimo. E a menina tem força e coragem, bastante. Eu deveria ter vigiado melhor a garota. Fui negligente em minha promessa à mãe dela. Não é tarde demais. Eu farei o que puder. Temos que mantê-la. — Pfft — Lady Anne bufou. — Fácil falar, mamãe. Como vamos convencer a grande e arrogante fera da selva que é meu irmão? E o avô prefere raspar seu bigode fofo a concordar em manter um fugitivo sem punição. — Minha querida, como você deixou de perceber que em todos esses anos tudo correu de acordo com meus planos? Não os do meu filho nem os do meu pai. Oh, eles acreditam que estão no controle, mas fica uma lição para você, Anne, é que um homem, por mais que viva sob a ilusão, nunca está no controle. Uma mulher segura o chicote que açoita a anca do cavalo, minha cara. E aqui vai mais uma lição. Os homens são como barris de vinho no porão de Sir Hammersmith. Fortes, resistentes e convidativos por fora, enquanto que por dentro, completamente vazios. Elas não tiveram mais tempo para pensar nas atitudes dos homens, pois a carrancuda cabeça do duque apareceu na porta do quarto. O duque parou na porta, surpreendido pela visão de Penelope adormecida. Seu pequeno rosto aparecia sob a colcha grossa e seus longos cílios lançavam sombras em suas bochechas macias e coradas. Ele forçou o olhar para longe dela e se dirigiu a sua irmã. — Anne, ela estava bêbada na mesa de jantar. Em seu primeiro dia em Londres. Como você pode esperar que eu ignore isso? Posso perdoá-la por beliscar minha orelha, até por usar aquela... aquela abominação rosa e quase quebrar o pescoço, mas ficar embriagada e me insultar sob meu próprio teto é imperdoável. Sinto muito, Anne, mesmo se eu ceder, o vovô não vai. A viúva falou antes que Lady Radclyff pudesse responder: — Charles, ela teve um dia difícil. A menina saiu de casa pela primeira vez na vida. Quase foi roubada por um salteador no caminho para cá, e então você a dispensou rudemente. Você é um duque e ela, uma mera camponesa. Pense em como seu comportamento hostil deve tê-la assustado. Devíamos dar a ela outra chance. Quase não a conhecemos. — Você deve convencer o avô, Charles — Lady Anne acrescentou. — Ela não percebeu que o vinho não era aguado. A pobre, pobrezinha estava apavorada, apesar de sua demonstração de confiança. Eu vi suas mãos tremerem... e mamãe fez uma promessa à mãe da Srta. Fairweather. Pense na honra de mamãe, Charles. Você tem que deixá-la ficar. — Moças como ela não têm lugar aqui e a mãe sabe disso. Ela nunca deveria ter feito o convite, para começo de conversa — o duque rebateu. — Moças como ela? — A viúva disse franzindo a testa. — Você sempre tratou a todos com igualdade. Nunca pensei que você se considerasse superior aos outros simplesmente devido ao seu título. — Sim, moças como ela. Do tipo que faz qualquer coisa para prender um homem. Ela está desesperada para arranjar um casamento e ela... eu simplesmente não a quero nesta casa. A viúva olhou para o filho com simpatia. — Negue, diga que ela não está desesperada para se casar, desesperada o suficiente para enganar e trapacear. Todos vocês a ouviram no jantar hoje à noite. Caçar um homem como se caçaria um coelho — rugiu o duque. — Ela tem que se casar, mas o mesmo acontece com todas as jovens de sua idade. É verdade que sua família depende dela, e a pressão pode ter feito com que ela se desesperasse um pouco, mas pela atitude dela hoje, acho que ela é incapaz de enganar alguém. Seus erros foram lamentáveis, mas não imperdoáveis. Na verdade, nunca conheci ninguém tão honesto ou verdadeiro assim. Nenhuma criatura astuta e ardilosa meteria os pés pelas mãos assim. — Então você concorda que o comportamento dela foi desastroso. Como podemos deixar uma imbecil entrar na sociedade educada? — Charles, como é? — a viúva perguntou gentilmente. O duque deu as costas para a mãe e olhou para a garota adormecida. Ele não respondeu. Após um minuto de silêncio tenso, Lady Anne perguntou: — O que você quis dizer quando disse que ela quase quebrou o pescoço? — Ela tropeçou ao descer as escadas. Eu impedi sua queda e dei a ela um copo de conhaque para acalmar seus nervos. Agora me arrependo daquele ato de bondade. Eu deveria ter deixado ela se matar. — Agora você está sendo cruel. Não vou permitir que você fale assim. Quanto de conhaque você deu a ela? — a viúva perguntou. — Uma quantia generosa, e então ela pediu mais. Eu poderia jurar que ela nunca bebeu antes. — E você deu mais a ela? — Lady Anne perguntou. — Bem, sim... Lady Anne escondeu o sorriso atrás da mão. Trocou outro olhar significativo com a filha. Tirando o sorriso do rosto, Lady Anne adotou um semblante firme e encarou seu irmão. — Isso explica tudo. Não admira que a pobrezinha tenha ficado como ficou. Ela estava em choque e realmente, Charles, isso é tudo culpa sua. Você deveria ter cuidado melhor dela e cuidado para que ela tivesse comido um pouco antes de beber o conhaque, ou permitir que ela se retirasse para o quarto. Ela poderia ter morrido, Charles, morrido, depois de cair por aquelas escadas. E em vez de ajudá-la, você a embriaga. Mamãe, tenho certeza de que você concorda. Ele tem que se desculpar não apenas por ter sido rude com ela, mas também por deixá-la alterada. Ele tem que convencer o vovô. — O quê? Isso é ridículo. Eu não a embebedei — rugiu o duque. — Shhh, a garota está dormindo. Você foi cruel o suficiente e agora é seu dever consertar as coisas. Não quero ouvir mais nada sobre isso, Charles. Ela pode não saber, mas você sabe bem os efeitos de misturar conhaque e vinho. Você deveria tê-la alertado. Receio ter que concordar com Anne — a viúva disse com firmeza. O duque ficou roxo de raiva. Seus olhos estavam atirando não adagas, não, isso teria sido uma expressão muito banal, pelo contrário, eram trovões e raios queirrompiam das profundezas azuis flamejantes. Ele respirou fundo e se preparou para começar um discurso exigindo que a justiça fosse feita. Ele abriu a boca e as palavras indignadas subiram por sua garganta, e então borbulharam como água fria apagando o fogo, pois Penelope disse da cama: — Não, vou voltar para a casa do meu pai. Penelope despertara do estupor e ouviu parte da conversa. Os três se viraram para olhar para ela. — Agora você a acordou — Lady Anne murmurou para o duque. Ela correu para o lado de Penelope e se sentou na cama. — Como você está se sentindo? Beba isso. O cozinheiro disse que faz maravilhas. Eu sei que parece horrível, mas vai fazer você se sentir melhor. A colcha foi retirada com força de sua mão e o resto da cabeça de Penelope finalmente apareceu. — Eu sinto muito — disse ela com tristeza. — Eu concordo com o duque. Eu devo ir. Eu sou incapaz de lidar com Londres. — Ninguém está culpando você. Nós entendemos. As circunstâncias eram incomuns, e realmente deveríamos ter cuidado melhor de você — a viúva disse com calma. Penelope fungou e uma lágrima correu por sua bochecha. Flashes dos fatos da noite surgiram e desapareceram de sua mente. Ela se sentiu péssima. Sua cabeça doía e seu estômago se revirava, mas seu cérebro pelo menos parecia funcionar normalmente mais uma vez. A viúva chegou e sentou-se ao lado dela na cama. Pegou a mão de Penelope e a acariciou suavemente. Penelope não podia acreditar como a viúva e Lady Anne estavam sendo boas com ela. Ela sabia que tinha bagunçado as coisas, e seu próprio orgulho e constrangimento não permitiriam que ela ficasse um minuto a mais. Ela enxugou as lágrimas e afastou a colcha. Evitou os olhos de todos ao dizer: — Eu quero ir embora... sair de Londres. — Mas nós não culpamos você. Não foi sua culpa — Lady Anne a acalmou. — Sua madrasta está contando com você — acrescentou a viúva. Penelope não respondeu. Ela sabia que suas opções eram limitadas, mas era melhor partir antes que envergonhasse o duque e sua família na frente da alta sociedade. Ela estava fadada a fazer ou dizer algo bobo e não tinha mais confiança em si mesma. Ela havia se embriagado à mesa de jantar no primeiro dia em Londres. Muito mais poderia acontecer em três meses. Ela silenciosamente saiu da cama e deu um passo em direção ao guarda-roupa. No momento em que seu pé direito tocou o chão, ela gritou e caiu. — O que foi? — o duque perguntou cético, olhando para ela. Ela olhou para ele com os olhos cheios de dor. — Meu... meu tornozelo. Seus olhos brilharam de raiva. Ele lançou a ela um olhar incrédulo. — Deixe-me ver — disse a viúva, correndo para perto de Penelope. Penelope, apesar da dor, percebeu que o duque estava observando. Ela corou, recusando-se a puxar o vestido para cima. Ela não podia mostrar a ele seu pé descalço... seria simplesmente escandaloso. Lady Anne olhou ferozmente para o duque, que não queria sair. — Deixe-nos, por favor — disse a viúva, olhando para o duque. Ele abriu a boca para discutir, mas seu olhar de aço o deteve. Ele hesitou, seus olhos pousando no rosto pálido de Penelope. — Tudo bem, mas de agora em diante tudo correrá de acordo com meus desejos. Mãe, você sempre me ouviu e estou avisando que mantê-la aqui é um grande erro. Anne, não se atreva a derramar mais lágrimas. Não terá nenhum efeito sobre mim — ele retrucou, girando nos calcanhares. — Sim, sim, pícaro — Lady Anne saudou. O duque fechou a porta ao sair. Penelope se encolheu de alívio. A viúva puxou delicadamente o vestido e revelou o tornozelo. Estava vermelho e inchado. — Nossa, você deve ter torcido quando caiu da cadeira — disse a viúva. — Eu vou ficar bem. Peça a alguém que me carregue até a carruagem. Eu não posso ficar mais... não mais... — Calma, menina, eu não vou deixar você ir para casa nesse estado. O que sua família vai pensar? — Por favor. — Fique alguns dias. Deixe seu pé se curar. Podemos discutir sua saída depois disso. Se ainda quiser ir daqui a uma semana, não vou impedi-la. Sua família está contando com você. Fique por eles, se não por nada mais — a viúva persuadiu. Penelope assentiu com tristeza. Ela não queria ficar, mas a dor em sua perna estava dificultando a argumentação. Talvez pela manhã ela pudesse pedir à viúva que mudasse de ideia e a deixasse ir. Era só mais uma noite. Nada mais poderia dar errado. A viúva e Lady Anne partiram, deixando Penelope com seus pensamentos. Uma xícara fumegante de chá perfumado com ervas estava ao lado de sua cama. Ela a segurou com gratidão e pensou nas últimas palavras da viúva. O que ela dissera? Ah, sim, que sua família estava contando com ela. Ela fez uma careta. A família dela contava com ela, certo? Ela olhou para Lady Bathsheba se aquecendo na frente do fogo. — Lady Bathsheba, a viúva pensa que minha família está contando comigo. Ora, eu juro pelas minhas nádegas rosadas... — Ela parou, olhando culpada para a estante onde estava o retrato de sua mãe. Ela começou de novo: — O que quero dizer é que o anjo da guarda ainda não chegou. Mamãe tem estado ocupada jogando sua auréola para que os lobos celestiais busquem. Isso se cães forem permitidos no céu. Lady Bathsheba, para onde você acha que vai quando morrer? Ela fez uma pausa para organizar seus pensamentos. Bem, havia alguma verdade nas palavras da viúva. Sua família não consistia apenas na megera, mas também em suas meias-irmãs e seu pai. Se ela se casasse bem, poderia ajudá-los de alguma forma. Talvez ajudasse a introduzir Celine na sociedade londrina. Celine era apenas um ano mais jovem do que ela e, apesar de Gertrude, eram próximas uma da outra. Eles se conheceram secretamente longe dos olhos vigilantes de sua madrasta e compartilharam seus segredos mais sombrios mais profundos, se é que se pode dizer que as meninas têm segredos profundos e sombrios. Além disso, Finnshire não oferecia muito em termos de homens disponíveis. Era possível que uma de suas cinco irmãs acabasse algemada a Lorde Weevil. Ela estremeceu ao pensar nisso e puxou a colcha para mais perto. Ela deveria ficar e esquecer o desastre da embriaguez? Considerar o novo dia como um novo começo? Ela esvaziou sua xícara, colocou-a de lado e se aninhou ainda mais na cama. Mary logo estaria por perto para pegá-lo e levar a cabra para os quartos dos criados. Ela bocejou, com muito sono para decidir sobre um curso de ação adequado. Talvez as coisas ficassem mais claras pela manhã. Ela fechou os olhos e adormeceu. Capítulo 7 O relógio tocou uma hora depois e Penelope, junto com os outros habitantes da Mansão Blackthorne, cochilava. Lady Bathsheba olhou pensativamente para sua senhora. Ela piscou os longos cílios duas vezes e, em seguida, como se estivesse se decidindo sobre algum assunto grave, baliu. Ela baliu alto e claro e continuou até Penelope se sentar na cama. Ela piscou os olhos sonolentos. — Lady Bathsheba? Você deveria estar dormindo com Mary no quarto dos criados. Ela deve ter esquecido... Shhh, fique quieta. Alguém vai te ouvir. Oh não, você está me enganando. Você quer fazer seu negócio agora? Tudo bem... tudo bem, vou deixar você sair. Não tenho certeza do caminho... um momento, preciso vestir meu robe. Tudo bem, estou indo. Não consigo ver nada neste escuro de qualquer maneira. Penelope cambaleou em direção à porta e a entreabriu. Talvez uma vela acesa lá fora que ela pudesse usar? Infelizmente, Lady Bathsheba tinha outras ideias. Ela empurrou a porta com seu focinho macio e saiu correndo. Horrorizada, Penelope correu atrás dela para o corredor. — Pare, Lady Bathsheba, pare. Volte aqui agora ou não vou lhe dar uma única cenoura nunca mais — sussurrou Penelope, mancando atrás da cabra. A dor aguda em sua perna dificultava seu avanço, ela não podia correr. Lady Bathsheba não deu atenção e seguiu em frente. Ela correu pelo longo corredor, seguiu escada acima, correu pelo corredor, subiu apressada um segundo lance de escada e chegou ao seu destino. Ela entrou em uma sala à direita. Penelope olhou para a porta que estava entreaberta. Era umaporta enorme, e se uma porta podia parecer viril, aquela era uma delas. Ela sentiu vontade de rir e cobriu a boca com o punho cerrado. Se alguém a encontrasse espreitando no corredor no meio da noite, rindo histericamente para si mesma porque achava que uma porta parecia masculina, ela iria para um hospício antes que pudesse dizer — pícaro— mais uma vez. Ela mordeu a mão e se obrigou a se acalmar. Um minuto se passou e, quando Lady Bathsheba não apareceu, Penelope se aproximou da porta com cautela e encostou o ouvido na fresta. Ela se esforçou para ouvir um único som que pudesse deixar claro quem ou o que estava atrás da porta. Ela não ouviu nada e seus apelos lamentáveis para Lady Bathsheba foram ignorados. Ela respirou fundo e caiu de quatro. Ela empurrou a porta aberta e espiou para dentro. Uma vela estava acesa em algum lugar da sala e a luz estava fraca. Era um quarto com uma cama grande no centro. Um monte na cama indicava que alguém estava dormindo. Penelope abafou um grito e se preparou para sair da sala quando notou o rabo branco de Lady Bathsheba saindo do guarda-roupa. Penelope hesitou. Ela deveria esperar do lado de fora ou arrastar a cabra para fora? E se Lady Bathsheba começasse a balir? Ela podia esperar do lado de fora, mas não tinha ideia de que horas eram e quando o ocupante do quarto se levantou. E se a pessoa encontrasse Lady Bathsheba antes dela? Ela não podia se dar ao luxo de incomodar mais ninguém na casa. E se o ocupante fosse Sir Henry Woodville e ele ordenasse ao chef para cozinhar sua cabra? Este último pensamento fez com que ela tomasse uma decisão e ela entrou no quarto. Ela engatinhou por causa do tornozelo dolorido. Além disso, era mais fácil ser furtiva de quatro. Ela caminhou em direção ao guarda-roupa, grata porque o chão era densamente acarpetado. Seu coração bateu forte quando ela se aproximou de seu objetivo. Ela olhou para o traseiro da cabra. A cauda branca e atarracada balançava para a frente e para trás. Ela poderia atacar a cabra e pegá-la no colo e correr, mas seu pé poderia falhar e o barulho certamente despertaria a pessoa desconhecida. Ela não teve escolha a não ser persuadir o maldito animal a sair. Suavemente deu um tapinha nas costas da cabra. Lady Bathsheba colocou a cabeça para fora e olhou para Penelope de modo questionador. Ela segurava um pedaço de pano na boca. Penelope se lançou à frente e agarrou a ponta do pano. Depois disso, um cabo de guerra silencioso se seguiu. Lady Bathsheba segurou o pano com os dentes e puxou enquanto Penelope, com todas as suas forças, puxava. Penelope finalmente venceu, mas antes que pudesse agarrar a cabra pelo pescoço, Lady Bathsheba havia desaparecido no guarda- roupa novamente e emergiu com outro pedaço de pano. Penelope emitiu um leve gemido de frustração. Ela olhou para a cabra e depois olhou para o pano que conseguiu guardar. Seus olhos se arregalaram de horror. Pela primeira vez na vida, ela viu, minha nossa... a roupa íntima de um homem. Ela o jogou longe e então olhou primeiro para sua mão e depois para o pano. Ela tinha acabado de segurar a roupa íntima de Sir Henry... Ela fechou os olhos com força e esfregou as palmas das mãos nas saias. Ela olhou para Lady Bathsheba com reprovação, enquanto a cabra mastigava contente. Ela teve a curiosa sensação de que o outro pano pendurado na boca da cabra também era do mesmo tipo. — Lady Bathsheba... isso é muito indigno. Você não pode estar mastigando a roupa íntima de um homem. Por favor, seja uma boa moça e solte-o. Eu realmente não posso tocá-lo novamente — ela sussurrou suplicante. Lady Bathsheba ignorou seu apelo sussurrado e continuou mastigando alegremente. Finalmente, cansada de esperar, Penelope corajosamente fechou os olhos e agarrou o pano e puxou. — Solte... Lady Bathsheba, estou avisando, sem cenouras. Uma mulher refinada não se comporta assim. Por favor, dê isso para mim. Você é uma boa cabra, não é? Penelope desistiu. Ela arrastaria a cabra boba para fora, com a roupa de baixo e tudo. Ela sempre poderia arrancá-la no corredor e enfiá-la em um vaso de plantas. Não conseguia pensar em outra solução. Ela agarrou Lady Bathsheba pelo pescoço e começou a engatinhar para trás. No meio do caminho, suas nádegas atingiram uma parede. Ela não se lembrava de nenhum obstáculo quando entrou. Será que ela havia ido muito para trás? Confusa, ela olhou para trás e soltou um pequeno grito. O duque, com os braços cruzados, estava vestindo um roupão e olhava para ela. Penelope levantou-se, estremecendo enquanto seu pé doía e ela tentava se firmar. O duque não ajudou a estabilizá-la. Ele olhou para ela, a raiva gravada em cada linha de seu rosto. — Srta. Fairweather... — disse ele sarcasticamente e depois fez uma pausa. Ele tinha visto sua roupa íntima ainda na mão dela. Penelope corou e o soltou apressadamente. Ela então agarrou sua camisola e fez uma reverência. — Sinto muito, Lady Bathsheba escapou... — E dos duzentos e cinquenta quartos da casa Blackthorne, ela entrou logo no meu para se esconder. Por coincidência completa, suponho? — ele perguntou, levantando uma sobrancelha incrédula. — Sim — ela respondeu em voz baixa. — Já passa da meia-noite, Srta. Fairweather, mas eu ainda tenho controle de minhas faculdades mentais. Você está aqui para aquecer minha cama. — Sua cama está fria? — Diante da expressão surpresa dele, ela continuou apressadamente: — Não sabia que este era o seu quarto. Como eu ia saber? Acabei de chegar. — Uma moeda para as criadas e você teria descoberto. — Bem, eu não perguntei a nenhuma criada — esclareceu com sua expressão perplexa. — Lady Bathsheba escapou e eu corri atrás dela... — Pare de agir como tola. Você veio aqui para me seduzir. Tenho certeza de que você planejou que nos pegassem em uma posição comprometedora. Você tinha apenas uma noite em Londres. Portanto, você estava desesperada o suficiente para... — Seduzi-lo? — Penelope rebateu. — Por quê, seu idiota cabeça de vento? Eu não planejei nada assim. — Idiota cabeça de vento? Onde você aprende essas... essas palavras fascinantes? Com as vendedoras de peixe? — Finnshire não é uma vila de pescadores — disse ela com os dentes cerrados. — E de onde você tira suas roupas? — ele continuou, como se ela não tivesse falado. — Essa é a camisola mais horrível que eu já vi. Se você planejou isso, então não planejou bem. Você deveria ter chegado nua, então talvez... — Ouça aqui, eu sou uma garota do campo — Penelope rebateu, apontando o dedo para ele — uma garota forte e saudável do interior. Você é um duque e sem dúvida enfraquecido pelas águas de Londres. Tenha cuidado... eu... não vou permitir que você... manche meu nome... O duque começou lentamente a diminuir a distância entre eles. Ele segurou o pulso dela e o girou em suas costas. Ela fez uma careta de dor. — Eu estou segurando você, pardalzinho, com uma mão. Tente sair agora. Deixe-nos testar essa sua força — ele disse, olhando para ela. Ela guinchou, seus olhos arregalados para encontrar os dele. A vela projetava sombras em seu rosto, tornando suas feições mais nítidas e angulares. A expressão em seus olhos escuros a fez tremer incontrolavelmente. Assustada, ela se contorceu enquanto ele a segurava. Ele a puxou contra si mesmo, apertando mais. — Você confessou no jantar esta noite que você fará qualquer coisa para prender um homem. Você, então, chega ao meu quarto com sua horrível camisola cor mostarda, gola alta e manchas marrons com uma história ridícula. Suas intenções são claras. Eu conheço o seu tipo, Srta. Fairweather, e na maioria das vezes eles são lindas. Gosto de qualidade e você está longe disso. — Eu... não sei com que tipo de mulher o senhor está acostumado. Estou dizendo a verdade. Por favor, acredite em mim, eu não sou assim — ela implorou, lágrimas ardendo em seus olhos. — Você está desesperada para se casar, não é? — ele perguntou suavemente. — Você está me ma-machucando — ela gaguejou, evitando seus olhos. Ele imediatamente afrouxou o aperto, mas não a soltou.— Este é um jogo perigoso que você joga, minha cara, e se eu lhe violentar, ninguém vai acreditar em você. Penelope engoliu em seco, nervos. — Eu pensei que não era boa o suficiente para você. Ele estudou seu rosto, seus olhos percorrendo seu cabelo escuro e encaracolado e a pele delicada que aparecia acima do decote. O fato de ela se contorcer fez com que ele apertasse mais seu pulso. Algo mudou no ar e um tipo estranho de intensidade invadiu a sala. O duque se acalmou e seus olhos se intensificaram. — Oh, eu não sei — disse ele com voz rouca. — Você me faz lembrar de contos de fadas violentos e sombrios. Uma fada saída da página de um livro ou um ser com um toque de loucura à espreita com grandes olhos castanhos. Seria uma experiência nova... Ela manteve os olhos fixos em seu peito. Um leve rubor começou a subir por seu pescoço. — Você está tremendo — ele observou distraidamente. Seus olhos se fixaram nos dele enquanto seu peito subia e descia em agitação. Ele observou seus olhos e então sua expressão mudou. Soltando o pulso dela, ele se virou de. Sua voz estava desolada quando disse: — Estou furioso por você ter tentado me enganar, mas não vou machucar você. Não me olhe assim. — Ele se virou para encará-la novamente, os olhos concentrados em sua boca trêmula. — Alguém pode apreciar o que você oferece, mas eu não sou esse homem, Srta. Fairweather. Tenha cuidado com quem você escolherá no futuro. Os homens podem ser cruéis. Sua cabeça inclinou-se para ela, seus olhos escuros, preocupados e penetrantes. — Fique longe de mim, garota da roça. Eu sou professor, não pupilo. Eu planejo e as pessoas seguem. Entendeu? Ela meneou a cabeça, o rosto pálido. Ele observou seu rosto, sem pressa. Abaixou a cabeça ainda mais, os lábios bem próximos dos dela. — Saia — ele sussurrou. Ela saiu. Correu, esquecendo a dor no tornozelo. Nem mesmo se lembrou de Lady Bathsheba até se jogar na cama e encontrou a cabra tocando-a com o focinho. Ela abraçou a cabra e chorou. — Eu quero ir para casa, Lady Bathsheba, eu quero ir para casa — ela soluçou. ∞∞∞ O duque olhou para o local onde Penelope estivera recentemente. Suas mãos se fecharam em punhos quando ele se lembrou da sensação de tocar sua cintura fina. Ele sorriu zombeteiramente. Pelo menos Miss Penelope Fairweather nunca tentaria rastejar para sua cama novamente. Seu rosto assustado surgiu em sua mente e por um momento ele sentiu remorso. E se ela estivesse dizendo a verdade? Ele baniu o pensamento imediatamente. Ela era uma mulher astuta e ardilosa, e quanto mais rápido ela deixasse sua casa, melhor para todos os envolvidos. Uma tola camponesa não era páreo para o duque de Blackthorne. Ela partiria para Finnshire antes do que pensava. Capítulo 8 — O decreto padrão sobre os princípios de comportamento dentro da família Blackthorne— estava virado na mesa de cabeceira de pau-rosa de Penelope. As regras 5, 11, 13 e 15 foram riscadas. Penelope quebrou todos eles em um dia (um feito notável que ainda é incomparável até hoje). O sol, que faltava quando se queria, estava previsivelmente brilhando forte e feliz naquela manhã. Penelope puxou o lençol de cetim sobre o rosto, seguido pela colcha e, finalmente, o travesseiro. O sol alegre teceu seu caminho através do mesmo lençol, colcha e travesseiro para dançar em suas pálpebras. Enquanto isso, a mãe de Penelope, sentada no alto da Mansão Blackthorne na segunda nuvem à direita, observou sua filha dormir. Sua filhinha estava crescendo. Sua querida filha finalmente entendeu os perigos de lubrificar as entranhas com conhaque e vinho. Uma cabeça tonta e uma mortificação total certamente viriam. Suspirando, ela tomou um gole de seu próprio vinho celestial com prazer, a mão disparando automaticamente para pegar um cupido travesso escapando com sua garrafa de espírito santo. No céu, nunca se sentia dor de cabeça, por mais líquido que espirrasse em sua barriga. Sorrindo com lágrimas nos olhos, ela ajustou um halo acima da cabeça de um cão e guarda e se recostou em seu assento de nuvens para ver o dia se desenrolar. De volta ao quarto de hóspedes da Mansão Blackthorne, Penelope fechou os olhos com mais força, tentando desesperadamente dormir um pouco mais. O barulho de xícaras, alguém cutucando o fogo e uma melodia alegre tomaram seus ouvidos em seguida. Ela jogou a colcha para trás e olhou carrancuda para sua criada sorridente. — Bom dia, Srta. Perguntou ela — disse Mary, com as bochechas rosadas pelo exercício, os olhos brilhantes e uma expressão alegre. Penelope se perguntou se as mulheres eram enforcadas. Se ela assassinasse sua empregada, escaparia impune? Se planejasse as coisas corretamente, pensou ela, soprando uma mecha de cabelo do rosto. Seu cabelo sempre demorava a ceder à gravidade. A gravidade sempre vencia, mas a batalha a deixava parecendo um esfregão fofo todas as manhãs. Ela pegou sua xícara de chá e bebeu em silêncio. O caso de amor de Mary com o cavalariço estava progredindo satisfatoriamente. Naquela manhã, o cavalariço pegou a mão de Mary e deu a ela as pontas dos tocos de vela. Ela explicou toda essa cena romântica para Penelope em grandes detalhes, enfatizando a quantidade de vezes que ela corou e quantas vezes ele gaguejou. Normalmente Penelope teria pedido a ela mais detalhes e gostado da fofoca. Ela teria ficado feliz por sua empregada e lhe dado alguns conselhos úteis sobre a melhor forma de cortejar o cavalariço. Mas hoje não era um dia normal porque minúsculas criaturas criadas a partir de uma mistura de conhaque e vinho haviam subido do estômago de Penelope até sua cabeça. Eles agora tocavam violinos desafinados e flautas estridentes. Então, enquanto Mary tagarelava, Penelope a olhou com os olhos vermelhos de raiva e pensou nas várias maneiras pelas quais uma senhora podia matar a criada. Logo as coisas se tornaram ainda mais difíceis para Penelope porque Mary se aproximou dela com um pente. Mary era inteligente, ela pensou. Um pente passando pelo cabelo emaranhado na cabeça que latejava era uma arma excelente. Ela olhou para sua xícara com tristeza. Nem uma gota sobrou do chá escaldante, que poderia ter sido uma contra-arma brilhante. Irritada, ela permitiu que Mary atacasse. Era melhor ficar passivo e sofrer a tentar vencer uma guerra com as próprias mãos. Então Mary penteava, puxava, ajeitava e se esforçava. E enquanto Mary lutava contra os nós no cabelo de Penelope, sua tagarelice brilhante se transformou em um silêncio descontente, o sorriso sumiu de seus lábios e logo seu bom humor foi inteiramente substituído por uma carranca. Nada incomodava mais a criada do que um ninho de cabelos rebeldes, desobedientes e emaranhados. Penelope se sentiu vingada e revigorada. Ela molhou o rosto, esfregou os dentes e vestiu sua nova musselina manchada de um jeito mais calmo. ∞∞∞ Penelope se sentou em uma cadeira antiga inspecionando o tornozelo inchado. Estava pior; irritado e vermelho. Ela cutucou com cuidado e fez uma careta de dor. E então, um momento depois, ela cutucou novamente. Ainda estava doloroso. As manhãs na Mansão Blackthorne, ao que parecia, eram tempos de autoflagelação. Penelope fechou os olhos com força e se obrigou a reviver os acontecimentos da noite. O desastre da embriaguez, as palavras horríveis do duque e a cabra com a roupa de baixo do duque passaram por sua mente em vívidos detalhes. Ela não gostou de reviver aquelas cenas, mas experiências passadas a ensinaram que relembrar momentos embaraçosos logo após o acontecimento faz diminuir um pouco os sentimentos desagradáveis. Nunca é tão ruim quanto você pensa. Infelizmente, relembrar os acontecimentos da noite não a fez se sentir melhor. No mínimo, fez com que ela sofresse ainda mais. Penelope se forçou a respirar. Suas mãos frias tentaram esfriar suas bochechas aquecidas enquanto seu cérebro tentava descobrir o caminho mais rápido para sair de Londres sem ser vista. Depois de se entreter com a ideia de fugir com um circo, implorar a um vendedor de gim para adotá-la e juntar-se à maluca bruxaFinnshire na floresta, ela chegou à conclusão óbvia. Teria que se despedir da viúva. A questão era o que diabos ela deveria dizer a ela? Tentou encontrar uma resposta, mas seus pensamentos se recusaram a se comportar. Eles se afastaram da viúva várias vezes e voltaram ao duque. Sua mente passou da imagem da queda escada abaixo para os braços do duque que a seguravam, do terror que ele havia induzido, às acusações lançadas contra ela. Por que ele parecia tão desolado no final? Sua voz estava cheia de autoaversão. Ou seria arrependimento? Ele era tão difícil de entender. Ela se sacudiu e tocou o tornozelo. A dor a ajudou a se concentrar. O homem podre era inteligente o suficiente para se odiar. Ele era desprezível e era justo que conhecesse seu próprio caráter. Grosseiro. Ele não merecia sua simpatia. Ela era maluca por tentar ver algo de bom nele. O homem rude ousou insinuar que ela, Srta. Penelope Winifred Rose Spebbington Fairweather, se rebaixaria tanto a ponto de seduzi-lo, e isso também em seu primeiro dia em Londres. Ele pensou que ela fosse uma qualquer. — Arrrgh — Penelope resmungou em voz alta. Aquele homem precisava aprender uma lição. Duque ou não, alguém tinha que trazê-lo de volta à terra. Ele se comportava como se fosse o rei George... ou melhor, o próprio Deus. Ela fez uma careta. Ele a havia chamado de louca. Bem, ele era o maluco... Um arrastar de pés e um leve ruído a distraíram de seus pensamentos pesados. A cabra sentou-se no tapete coçando atrás da orelha. Ela olhou para a cabra com raiva. — Lady Bathsheba, você parece contente. Suponho que você já tenha tomado seu café da manhã, mas não tenho ideia se alguém vai aparecer com uma bandeja para mim. Não vou arriscar meu pescoço tentando descer aquelas escadas sinuosas de carvalho com um tornozelo torcido. Lady Bathsheba cruzou as patas dianteiras e se preparou para um longo monólogo. Penelope ficou em silêncio por muito tempo, e agora se voltava para seu público favorito, um que não podia interrompê-la. Se uma cabra podia suspirar, então Lady Bathsheba fez exatamente isso. — Estou com fome, com muita fome. Suponho que poderia enfiá-la na lareira e cozinhá-la. Você merece, você sabe. Eu não estaria nesta situação se não fosse por você. — Ela se entusiasmou com o assunto. — Sim, é isso. Não sou eu, é você. Você é o ponto crucial de toda essa confusão. Por que você teve que correr justamente para o quarto do duque? Só porque ele te chamou de cabra? Pronto, falei. Cabra, cabra, cabra. Você é uma cabra. Faça o que quiser com meu quarto e roupas, não me importo. Você deveria estar correndo com medo, Lady Bathsheba, em vez de parecer entediada. Falo sério, no momento não vejo meu querido animal de estimação sentado no tapete. O que vejo é um grande pedaço suculento de carneiro esperando para ser jogado no fogo. E quanto ao duque, espero nunca mais vê-lo. Suponho que ele esteja ocupado o dia todo fazendo o que quer que os duques façam, e quando ele voltar, estarei na carruagem a caminho de qualquer lugar... Você acredita que ele teve a ousadia de concluir... — Concluir? — o duque falou da porta. O ideal era que, quando Penelope o visse, ela permanecesse sentada na cadeira e acenasse de modo imperioso para ele. Era o tipo de coisa que uma moça refinada faria. Ela deveria, mas não fez. Em vez disso, guinchou e, por alguma razão extraordinária, saltou da cadeira, correu para a cama e mergulhou sob as colchas. Sua inteligência, ao que parecia, temia o duque. Sumia quando ele estava por perto. O duque olhou primeiro para a cadeira e depois para a cama. Uma sobrancelha se ergueu em dúvida e depois voltou ao lugar. Ele tentou parecer não ameaçador ao dizer: — Acalme-se, estou aqui para levá-la para o café da manhã no andar de baixo. Penelope deslizou ainda mais para trás em sua cama e agarrou os lençóis com força mortal. O duque franziu o cenho e disse: — Não quero carregá-la, assim como você não quer ser carregada por mim, mas minha mãe pediu. Eu não quero preocupá-la mais. — Não posso comer no meu quarto? — ela perguntou. — Não. — Bem, eu não quero café da manhã. — Você estava disposta a cozinhar seu animal de estimação um momento atrás. — Tudo bem, eu não quero que você me carregue. Pronto, falei. — Eu não te disse que faço o que quero? E agora eu escolho agradar a minha mãe. — Você queria que eu ficasse longe. Estou seguindo sua ordem, Sua Graça. — Estou feliz por minha ordem ter sido registrada em sua cabeça dura. Minha próxima ordem, como você diz, é nunca discutir comigo. Ela fez uma careta e então parou. Ele estava caminhando em sua direção com um sorriso estranho no rosto. — Eu não deveria ter beijado você. Atordoada, ela olhou para ele por um momento. A respiração de Penelope ficou mais rápida e seus olhos se dirigiram aos lábios dele. — Você não me beijou. — Quase. Ele quase a beijara? Ela se perguntou como havia perdido aquela informação interessante... e ele quis beijá-la? Ela franziu a testa e disse: — Isso é um pedido de desculpas? Ele a pegou no colo e caminhou em direção à porta. — Isso é um pedido de desculpas? — ela perguntou novamente, agarrando sua camisa com força. — Eu nunca me desculpo. Ela olhou para ele confusa. Por que ele havia mencionado o beijo se não queria se desculpar? Talvez, ela pensou, as palavras tenham escapado? Ele parecia estar arrependido por ter contado a ela agora... Seus pensamentos pararam de repente e ficaram totalmente confusos quando ela percebeu o calor das mãos dele passando por suas roupas e aquecendo sua pele. Ela estava em seus braços, ela percebeu, mais uma vez. Seu peito apertou e por alguma razão estranha ela começou a sentir o corpo formigar. Na tentativa de se distrair desse novo acontecimento perturbador, ela disse: — Você poderia contar a sua mãe que eu tentei... sobre a noite passada, quero dizer. Ela vai me mandar fazer as malas. — Seu rosto está vermelho como uma beterraba. Não me diga que você nunca esteve tão perto de um homem assim antes. Não vou acreditar, assim como sei que você está fingindo essa torção no pé. Quanto a contar para minha mãe, ela pode mandar você fazer as malas ou insistir para que eu me case com você. Se ela insistir no casamento, me livrar de você será um pouco mais difícil. E não se atreva a dizer a ela também, ou eu, pessoalmente, cuidarei para que sua vida seja um inferno. Ele fez uma pausa e, em seguida, soltou-a um pouco, ameaçando deixá-la cair. Ela esticou os braços e segurou o pescoço dele. Ela se segurou com força, o nariz enterrado em seu peito. — Eu não direi nem uma palavra — ela rapidamente prometeu. — Veremos — ele disse, seus braços mais uma vez segurando-a firmemente enquanto ele voltava a andar. — Eu quero ir embora. Quero mesmo, e você está certo, não posso enfrentar a temporada. Não estou preparada. Ele riu, — Então você quer ir para casa, não é? Meu avô se certificará disso após o desastre de ontem à noite, quer você realmente queira ou não. — Você tem que duvidar de tudo o que digo? — Penelope perguntou irritada. — Você vai ficar aí segurando-a e discutindo ou vai colocá-la no chão? — Lady Anne interrompeu, observando o casal com um brilho nos olhos. O duque olhou para a frente, surpreso ao ver que estava na sala de refeições. ∞∞∞ Duas xícaras de chá e uma fatia de pão torrado depois, Penelope havia deixado de se sentir como uma girafa gigante indesejada. A viúva quebrou o silêncio: — Agora que estamos fortalecidos, Charles, quero que você fique para discutirmos essa... essa situação. Uma hora do seu tempo não é pedir muito, não é? O duque sorriu e disse: — Claro que não, mãe. Posso dispensar uma ou duas horas, mas realmente acho que é uma causa perdida. O avô nunca concordará em tê-la em casa. — Então encontre uma solução. É isso que você faz, não é? Resolve os problemas das outras pessoas. Então pense em como resolver esse pepino também — Lady Anne disse. — Não seja boba, Anne. Não é a mesma coisa. Como duque, tenho certas responsabilidades, mas não desse tipo. — Como umduque, você tem que resolver questões pessoais e financeiras além de cuidar da lei e da ordem em sua propriedade. Isso não é diferente — Lady Anne argumentou. — Annie, você conhece o avô tão bem quanto eu. Ele não vai concordar. A Srta. Fairweather terá que ir para casa. — Você nem mesmo está tentando — Lady Anne reclamou. Pela primeira vez, Penelope se sentiu grata pela presença do duque. Ele, pelo menos, sem querer estava do lado dela. A viúva franziu a testa, pensativa. — Charles, tenho uma ideia. Isso vai garantir que meu pai não seja incomodado pela presença da Srta. Fairweather, e ela poderá ficar e aproveitar sua temporada. — Vamos ouvir — disse o duque com ceticismo. — O papai só desce para jantar. Caso contrário, fica em seu quarto. Proponho que flexibilizemos um pouco nossas regras e deixemos a Srta. Fairweather jantar em seu quarto. — Ele nunca saberá que ela está aqui — disse Lady Anne, batendo palmas de alegria. — Impossível, mãe. Como você pode sugerir uma coisa dessas? A casa Blackthorne nunca violou nenhuma regra em dois séculos. Além disso, como pode sequer pensar em enganar seu próprio pai? — Você viola uma regra todas as noites deixando uma vela acesa até a meia-noite, e eu encontrei migalhas de pão em suas roupas de cama durante toda a sua adolescência — respondeu a viúva. O duque gaguejou. — E o que dizer da vez em que você fugiu para... — Lady Anne disse. — Chega — o duque interrompeu. — Quanto a enganar meu pai, o que ele não sabe não pode machucá-lo. Simplesmente manteremos silêncio sobre a presença dela, nunca concordando ou discordando. Algumas semanas e ele teria esquecido da cara dela. Podemos, então, apresentá-la novamente e desta vez sem nenhum contratempo — continuou a viúva, ignorando o rosto corado de seu filho. — Eu me recuso a mentir para o vovô — disse o duque com firmeza. — Mas você vai ficar em silêncio. Se ele perguntar diretamente, você pode confessar — implorou a viúva. — Nenhum hóspede jamais violou uma regra nesta casa — o duque rebateu. — Você flagrou Lady Henley na cama com Lorde Stone e encontramos Henrietta, a copeira com... — Lady Anne murmurou baixinho. — Tudo bem, faça o que quiser, mãe. Não farei parte disso. — Isso é tudo que eu queria ouvir. E, Charles, mais uma coisa — a viúva disse sorrindo. — O que é agora? — Você tem que reivindicar a primeira dança da temporada. — Oi? — A primeira dança de Penelope deve ser com você. É esperado. — Mãe, eu não vou dançar com essa... essa... — Por favor — Lady Anne disse de modo lamentoso. — Tudo bem, vou dançar com ela. Guarde a primeiro para mim — ele disse a Penelope. Penelope hesitou. Não era assim que ela imaginava que sua temporada começaria ou como suas danças ocorreriam. — Agora, Srta. Fairweather, vamos discutir... — a viúva fez uma pausa e se virou para se dirigir ao filho. — Só isso, Charles, você pode ir. A porta foi batida quando ele saiu. — Agora que está resolvido, Srta. Fairweather, vamos lidar com nosso outro problema urgente — disse a viúva. — Você quer ir para casa, não é? — Lady Anne perguntou. — Sim, sinto muito, acho melhor se eu for embora... — disse Penelope. — Mas as coisas só vão melhorar de agora em diante, minha querida. Coisas assim não acontecem todos os dias. Foi um caso de circunstâncias extraordinárias — a viúva disse para acalmar. — Mas eu sempre caio nesses problemas — Penelope respondeu. — Você fica bêbada? — Lady Anne perguntou divertindo-se. — Não, mas se algo ruim acontece, então eu normalmente acabo ficando no meio de tudo. — Mas por quê? — Lady Anne perguntou fascinada. — Eu não sei — Penelope respondeu tristemente. — Bem, nada de terrível vai acontecer de agora em diante. Você tem a nós para guiá-la na direção certa — disse a viúva com firmeza. Penelope ficou tocada por tudo o que a viúva estava disposta a fazer por ela. Eles estavam dispostos a quebrar as regras e esconder sua presença de Sir Henry Woodville. O que ela não conseguia entender era por quê. Ela só tinha causado o caos desde que chegara a Londres. A viúva examinou o rosto de Penelope e entendeu suas apreensões. Ela puxou o tricô e, com as mãos ocupadas, disse: — Você conheceu meu pai, Sir Henry Woodville, e viu como ele é rígido? Suas opiniões sobre as mulheres... Bem, não vou contar uma longa história sobre como ele ficou assim. Em suma, ele sempre foi um velho tolo miserável. Lady Anne deu uma risadinha. O tom da viúva tornou-se sombrio enquanto ela continuava: — Minha mãe ficou doente certo inverno enquanto estávamos hospedados em nossa casa de campo. Meu pai achou melhor me mandar para o colégio feminino mais próximo enquanto ela se recuperava. Ele não queria ser perturbado por uma garotinha chorona. Fiquei cinco anos na escola e só voltei para casa depois da morte da minha mãe. Eu fui extremamente tímida durante aqueles primeiros dias na escola. Uma garota atrevida chamada Grace me encontrou chorando um dia. Ela me consolou e fez amizade comigo. Éramos totalmente diferentes. Eu era uma criança triste e calada, enquanto ela era vida, risada e alegria. Ela me puxou para fora da minha concha e me ensinou como viver. Pela primeira vez na minha vida, sentei-me ao sol sem me preocupar com a minha aparência, quebrei as regras e me senti emocionada e não com medo. Nós brincávamos e brigávamos uma com o outra. Ríamos, cantávamos e dançávamos. Aprendi a me divertir. Foi uma época feliz e despreocupada e eu guardo essas lembranças. Sou grato a ela... A viúva fez uma pausa para enxugar os olhos. — Alguns anos depois, recebi uma carta de Grace. Muitas vezes escrevíamos uma para a outra. Ela estava alegre e feliz em sua carta, contando que estava muito feliz porque logo seria mãe. Ela me pediu conselhos, pois eu já havia dado à luz Charles. Ela não me disse que estava doente ou sofrendo. A única dica que tive de que as coisas não estavam bem veio da última linha de sua carta. Ela me pediu para cuidar do futuro de seu bebê se algo acontecesse com ela. Eu imediatamente escrevi de volta prometendo cuidar de seu filho. Meu status e palavra de duquesa e nossa amizade de longa data dissiparam seus temores. Ou pelo menos espero que sim, já que foi a última carta que recebi dela. Ela morreu dando à luz uma linda menina chamada Penelope. O único som na sala era o das três mulheres chorando baixinho. Penelope foi e abraçou a viúva. — Obrigada — ela disse simplesmente. — Eu tenho uma razão mais egoísta para te ajudar — Lady Anne anunciou depois de enxugar os olhos. — Você pode achar difícil de acreditar, mas gosto de você. A temporada é chata, mas com você por perto, tenho certeza de que as coisas ficarão muito mais emocionantes. Penelope sufocou uma risada e depois ficou séria: — Não quero envergonhar a senhora. Agradeço sua gentileza, mas não estou pronta para a temporada. Eu entendo suas razões para me ajudar, Sua Graça, mas... — É aí que entramos. Temos uma semana e, no final dela, você será digna de ser a noiva de um rei. Confie em nós — a viúva persuadiu. Penelope estava em conflito. Por um lado, ela se perguntava se seria possível aprender as nuances da sociedade educada em tão pouco tempo. Duvidava disso. Ela também se perguntou se não seria melhor voltar para Finnshire a fazer papel de boba e envergonhar a família Radclyff na frente da alta sociedade. Por outro lado, ela sabia que, se casasse bem, poderia ajudar suas irmãs, seu pai e a si mesma. Além disso, as palavras da viúva a fizeram se sentir menos como um fardo indesejado, e ela queria ajudar a viúva a honrar sua promessa. Talvez, se ela se empenhasse, conseguiria atrair um homem. A visão de seu próprio rosto abatido em um uniforme cinza com um chapéu, correndo atrás dos pirralhos de outra pessoa passou por sua mente. Ela estremeceu. Era isso, uma encruzilhada onde um lar feliz estava ao seu alcance e, do outro lado, anos de solidão e tristeza. Ela olhou para as duas mulheres elegantes à sua frente. Ela não poderia pedir melhores professores do que a viúva e Lady Anne, e se ela recusasse essa oferta, ficariapara sempre pensando. E se? — Estou disposta a tentar — disse Penelope, com o coração disparado de excitação. — Então, não vamos perder tempo, vamos prepará-la para o primeiro baile da temporada, Srta. Fairweather — Lady Anne disse, pulando da cadeira. Penelope abriu um sorriso amarelo e meneou a cabeça, concordando. Capítulo 9 O duque foi frustrado em sua tentativa de mandar a Srta. Fairweather embora, mas a guerra ainda não havia acabado. Ele tinha um plano e sabia que tinha que agir rápido porque se aquela praga rural sequer sonhasse com o que ele planejava, não perderia tempo em encontrar uma saída. Ele sorriu; se é que um leve entortar de lábios pudesse ser considerado um sorriso. Com grande deferência, ele conduziu um senhor idoso ao Salão Azul. — Charles, o que o traz aqui? Eu nunca vi você fora de seu escritório a essa hora — Lady Anne disse, olhando para seu irmão com desconfiança. — Estou aqui simplesmente para cumprir o meu dever de bom anfitrião. Fiquei triste ao ver a Srta. Fairweather sofrendo devido àquela torção no tornozelo. Não podemos deixá-la desconfortável, certo? Portanto, eu trouxe um remédio — ele anunciou, parecendo bastante presunçoso com a solução engenhosa para todos os seus problemas. Ele se moveu para o lado para deixar um velho passar. — Dr. Johnson! Que consideração, Charles. Estou surpresa por nenhum de nós ter pensado em chamá-lo antes — a viúva disse, seus olhos dizendo ao duque que ela sabia o que ele estava fazendo. O duque arregalou os olhos inocentemente. A viúva resmungou e murmurou algo rude baixinho. O duque reprimiu um sorriso e se voltou para olhar Penelope. Ela parecia culpada, ele pensou com satisfação. Suas bochechas estavam rosadas, os olhos furtivos e suas mãos se remexiam. Ele a tinha agora. Ela não poderia enganar um médico experiente. Não havia absolutamente nada de errado com seu pé, e sua ceninha acabaria logo. A mãe ficaria chocada e Anne desapontada ao saber que sua amiguinha inocente não era tão inocente, que era, na verdade, uma mentirosa. Ele mal podia esperar para ouvir o que diria o médico. — Vá embora, Charles. O médico não pode examiná-la com você no quarto — ordenou a viúva. Um pouco de sua exuberância diminuiu ligeiramente. Ele abriu a boca para argumentar, mas foi totalmente derrubado por um simples olhar da viúva enganosamente doce. Com um meneio curto, ele saiu. Ele saiu, mas não saiu. Quer dizer, ele saiu pela porta, pisou um pouco, e então, uma vez que os ocupantes da sala se convenceram de sua partida, ele dobrou sua forma de um metro e oitenta e enfiou o olho no buraco da fechadura. Ele descobriu que tinha uma visão esplêndida da Srta. Fairweather, e se ela ficasse na mesma posição, ele poderia ver tudo claramente. Ela ficou na mesma posição. Foi o médico que a abordou. Depois de algumas perguntas de rotina, o médico segurou seu pé. O duque parou de respirar. Era aquele... o momento da verdade. De repente, ele ouviu um suspiro profundo atrás de si. Parou e então se virou para olhar para trás. Uma empregada estava olhando para ele com admiração e choque. A garota boba estava enraizada no local apenas olhando com os olhos arregalados, a boca ligeiramente aberta e um pouco de... Aquilo era baba? Ele olhou para ela com os olhos arregalados e ela não percebeu. Ele se endireitou, acenou e não obteve resposta. Ele pulou de um pé para o outro tentando atrair a atenção dela o mais silenciosamente possível. Quando isso também não ajudou, ele mexeu as nádegas e os olhos dela as acompanharam. Ele desistiu. Teria que lidar com ela mais tarde. Naquele momento, sua atenção era necessária com urgência em outro lugar. Ele se abaixou mais uma vez para olhar pelo buraco da fechadura. Mas antes que seus olhos pudessem se concentrar no que estava acontecendo dentro da sala, ouviu um pigarrear atrás de si. O duque fechou os olhos com irritação. Ele brevemente considerou ignorar aquela nova interrupção e então pensou melhor. Ele se virou para descobrir que Perkins havia se juntado à empregada. Perkins não parecia satisfeito, não pela expressão de admiração da empregada nem por seu ponto de interesse, nem pela ocupação indigna do duque. Mudo, Perkins tentou puxar a empregada junto. Atordoada, a garota se recusou a ceder. O duque olhou para os dois com irritação e mais uma vez se curvou para espiar pelo buraco da fechadura. Desta vez foi uma voz que o distraiu. — Sua Graça, eu... — A pobre criatura foi silenciada por Perkins, pela empregada e pelo duque. Ele se endireitou... de novo, suas costas dando uma leve fisgada, e viu o caseiro da propriedade, Theodore, também olhando para suas nádegas. Theodore era exatamente como alguém poderia imaginar que um homem com um nome como o seu seria — pequeno, moreno e irrequieto. Desta vez, o duque jurou que não desviaria o olhar, não importava quem chegasse. Ele se curvou mais uma vez e conseguiu espiar de novo pelo buraco da fechadura sem qualquer interrupção. Viu o médico beijando a mão da viúva. Ele havia terminado seu exame e estava dando seu parecer. Ou o parecer já havia sido dado? O duque não tinha certeza. Ele entrou em pânico. Se tivesse sido dado, eles viriam para cá. Reunindo os últimos resquícios de sua dignidade, ele correu de volta para seu escritório. A criada e Theodore correram atrás do duque. Perkins correu atrás deles na velocidade de um cavalo — isto é, ele corria, mas na cabeça. Na realidade, ele mancou alguns centímetros para a frente. — Vá embora — disparou o duque, virando-se e dirigindo-se à donzela encantada. A empregada saiu de seu transe. Seus olhos se desviaram de suas nádegas e se concentraram em seu rosto. Ela deu uma olhada em sua expressão e fugiu. — Theodore, eu não acho que preciso dizer a você, mas... — Não vou mencionar o pequeno incidente, Sua Graça. Nem mesmo em meu leito de morte. — Obrigado, mas para estar seguro, você deve me dar seu juramento solene. Theodore repetiu sua promessa com a mão no coração. — Ah, temos que fazer as coisas dele corretamente. Pegue um livro sagrado para mim. Theodore finalmente partiu depois de fazer seu juramento de várias maneiras e idiomas diferentes. O duque esperou meia hora em seu escritório, ficando cada vez mais impaciente. O médico havia saído há muito tempo e teria dito à mãe e à irmã que a moça caipira era uma fraude. Ele queria olhar por cima de seu nariz comprido e aristocrático para sua irmã e dizer a ela que no futuro ela deveria seguir suas ideias. Ela era muito jovem para avaliar corretamente o caráter de uma pessoa. Ele se ofereceria como guia com prazer, e em vez de parecer presunçoso e sabichão, adotaria um semblante compreensivo. Ele não zombaria de sua mãe. Não, ele sorriria para ela e a confortaria. Um erro como aquele era muito fácil de cometer. Ele lhe daria um tapinha nas costas, daria a ela um pouco de conhaque e então teria o agudo prazer de expulsar a Srta. Fairweather da Mansão Blackthorne, em uma carruagem com destino a Finnshire, e fora de sua vida para sempre. Ele pegou um tinteiro e o colocou de volta na mesa. Em seguida, abriu um livro-razão, olhou para os números por meio minuto e então fechou o livro. Seus olhos se voltaram para o relógio. Ele franziu a testa. Meia hora se passou e sua mãe ainda não havia chegado. Perdeu a paciência e decidiu inspecionar as coisas por si mesmo. Caminhou em direção ao Salão Azul, parando brevemente em frente a um grande espelho veneziano. Ele olhou para seu reflexo e examinou sua expressão. Parecia muito feliz. Franziu a testa um pouco, mas... não, aquilo também não estava certo... Então escolheu sua expressão aristocrática indiferente. Perfeito. Ele entrou na sala e encontrou uma foto; uma imagem que alguns considerariam doce, mas para ele parecia horrível. O brilho rosado, os sorrisos cintilantes, a risada feminina e a mão de sua mãe acariciando suavemente a mão da senhorita Fairweather o feriram profundamente. Ele silenciosamente se enfureceu com a tolice de seus familiares. Eles já a haviam perdoado? Eles não tinham respeitopróprio? — Charles — Lady Anne comentou, olhando a expressão trovejante de seu irmão em deleite. — O que o traz aqui... de novo? — a viúva perguntou, escondendo seu próprio sorriso atrás de uma xícara de chá florida. O duque reorganizou sua expressão para parecer levemente em dúvida: — Eu só estava preocupado com nosso convidado. Suponho que o Dr. Johnson a tenha visto? — Sim — disse a viúva. O duque esperou, e quando nada foi dito sobre o que havia ocorrido, ele se dignou a perguntar: — O prognóstico? Lady Anne teve pena de seu irmão e disse: — Ele enfaixou o tornozelo dela. Ele nos garantiu que não estava quebrado, apenas torcido. Deve ficar tudo bem em alguns dias. — Então estava torcido? — Sim, ela o torceu feio. Está horrível, todo vermelho e inchado. Parece estar doendo muito — Lady Anne respondeu. — Entendo... entendo. Acho que devo voltar ao trabalho então — ele murmurou, girando nos calcanhares. — Você não quer desejar à Srta. Fairweather uma recuperação rápida, já que estava tão preocupado com o bem-estar dela um momento atrás? — a viúva perguntou. — Senhorita Fairweather, vá caçar sapo! — o duque explodiu, batendo a porta ao sair. — Que comovente — Penelope murmurou. — Bastante — a viúva respondeu, pegando suas agulhas de tricô. Capítulo 10 Madame Bellafraunde entrou como se flutuasse com um farfalhar de saias cor de berinjela, véus e borlas douradas. Quatro criadas uniformizadas a seguiram. Seu corpo volumoso desabou imediatamente no sofá mais próximo, enquanto uma das criadas a abanava com urgência, usando um requintado leque de renda de seda e creme. Todos esperaram até que os sais aromáticos fossem oferecidos e o champanhe gelado, bebido. Finalmente, Madame, bem recuperada da dificuldade de caminhar de sua carruagem até a porta da casa do duque, ergueu uma mão de forma imperiosa. Lady Anne imediatamente deu uma explicação: — Ninguém além da senhora pode nos ajudar, Madame Bellafraunde. A situação é terrível. A Srta. Fairweather precisa de sua atenção imediatamente. Ela vem do campo, pobre como um rato de igreja e não tem nada para vestir, e será apresentada na próxima semana! Eu sei que a senhora não faz ligações para as casas dos clientes, mas a Srta. Fairweather torceu o tornozelo. Se as coisas não fossem tão graves, teríamos esperado. Mas como pode ver... apenas o melhor pode ajudá-la. Penelope mexeu os pés fazendo o possível para parecer patética. Disseram-lhe que uma pitada de lisonja e muitos comentários depreciativos contra a vítima pretendida era a única maneira de a modista excelente, extremamente exigente e mais cara da cidade ajudá-la. Corria o boato de que Madame Bellafraunde uma vez rejeitou uma condessa porque não gostou de seu sorriso. Penelope, portanto, não sorriu. A viúva entrou no Salão Azul e, maravilha das maravilhas, Madame Bellafraunde realmente se levantou do sofá para se curvar a ela. — Ela pode ficar apresentável? — a viúva perguntou. Madame Bellafraunde ergueu o véu e Penelope sufocou um suspiro. Madame Bellafraunde não era uma Madame, mas um Sr. Bellafraunde, com um bigode ralo e barba por fazer. Depois de um momento de silêncio atordoado, Penelope se virou. Ela se virou e o tapete e a mobília giraram e zuniram com ela. Ela imediatamente avistou o que procurava e rápido quando a luz correu em sua direção. Ela saltou sobre o sofá calculando mal a distância. Ela bateu no banco de trás e caiu de cara no chão. Ela ignorou a dor em seu tornozelo e reuniu forças. Levantou-se e deu outro salto voador. Suas pernas se abriram, suas saias esvoaçaram e os dedos dos pés apontaram graciosamente. Sua aterrissagem foi um pouco desajeitada, mas ela alcançou seu objetivo. Ela se virou como uma guerreira. Seus olhos se estreitaram e os lábios se separaram. Como uma caçadora experiente, ela ergueu o objeto que pegou de cima da lareira. Todos se sobressaltaram, arfando. Penelope segurava um ferro que latia — isto é, um rifle de caça — um rifle cinza enferrujado que era do avô paterno do duque. Seu último uso tinha sido na tentativa de abater um tigre. O tigre sobreviveu, mas o pobre esquilo que foi baleado no processo... não. Tirando isso, tinha sido usado para assustar convidados irritantes, pretendentes malcomportados de Lady Anne e um invasor ou outro. Agora Penelope o segurava e apontava para o imitador, o homem que ousara entrar na casa do duque vestido com um lindo vestido de seda cor de berinjela. — Não se preocupe, sua graça. Eu tenho tudo pronto. Lady Anne, faria a gentileza de chamar alguns lacaios corpulentos? Vamos amarrar esse impostor e mantê-lo na masmorra até que os homens cheguem. — Penelope estava orgulhosa por sua voz ter saído forte e alta. O encontro com o salteador de estrada fez maravilhas à sua coragem. Ela sempre supôs ser ousada como um rato. Londres, aparentemente, a havia transformado em um gato. — Hum, Srta. Fairweather... nós não temos uma masmorra e... — Lady Anne começou a dizer. — Bem, podemos também trancá-lo em um quarto ou sótão sujo. O importante é amarrar o homem. Pare de perder tempo e se apresse, Lady Anne. Não se preocupe, eu sei que tenho que apertar o gatilho, e se ele tentar escapar, vai se arrepender amargamente. Eu vi meu pai fazer isso. Tenho tudo sob controle. — Puxe o gatilho, minha querida — o homem disse. Penelope ficou boquiaberta. Ela se concentrou em sua expressão e ficou desconcertada ao notar que o homem parecia confiante e sereno, apesar de estar diante de uma arma carregada e usando metros de seda. Seria uma falsa bravata, ela se perguntou, sua coragem rapidamente vacilando com o sorriso dele. — Eu vou puxar... Estou avisando... — Por favor, vá em frente. — Não, Srta. Fairweather, você não entende. Está enganada — a viúva interrompeu com urgência. Mas Penelope já havia levantado a arma até o ombro e estava mirando. Todos na sala ficaram congelados, com a garganta contraída devido ao medo. Penelope fechou um olho e semicerrou o outro. Não conseguiu ver nada. Como alguém vê através da mira de um rifle de caça? Ela tentou novamente, olhando desesperadamente, os braços já doendo de segurar o rifle pesado. Ela desistiu e mirou com os dois olhos abertos. Pretendia mirar e manter a mira até que a ajuda chegasse. Infelizmente, foi quando o peso do rifle se tornou demais para ela e suas costas se curvaram e a mão escorregou. Ela puxou o gatilho... …E, por fim, atirou no teto. Lady Anne gritou, as criadas gritaram e Madame Bellafraunde estalou a língua. Alguns pedaços da argamassa caíram no chão e com eles, o gato fugiu. Penelope voltou a ser tão corajosa quanto um rato. O rifle agora estava no chão e ela não ousou pegá-lo novamente. — Minha querida, estávamos tentando explicar. Esta é a verdadeira Madame Bellafraunde. Ela não é uma impostora — a viúva disse, olhando para o telhado, horrorizada. — Mas... Mas essa ela... é ele! — Eu sou um homem, sim. Não precisa ficar tão horrorizada, garota. Sou um homem com alma de mulher e um cérebro que pode mudar a sua vida. — Eu... tenho certeza que você pode... eu estava... eu só fiquei surpresa. Mesmo onde moro, ouvimos falar de seu talento, senhor... quero dizer, Madame — Penelope gaguejou. A viúva e Lady Anne pareciam horrorizadas, enquanto Madame... Madame parecia contente e um pouco sonolenta, como um gato bem-alimentado que logo lamberia as patas e ronronaria. Ela esperava que Madame não se recusasse a ajudá-la agora. Meu Deus, quase havia atirado nela... e atirou no teto do duque. Nenhum homem ou mulher no lugar de Madame aceitaria tal imbecil. Estava tudo acabado antes mesmo de começar. Aflita, Penelope disse a todos os presentes: — Sinto muito por atirar na Madame. Quero dizer, no telhado. Eu só ia atirar no pé dela, mas com minha mira, eu poderia ter atirado na cabeça dela sem querer. Lamento muito quase matá-la, Madame. O telhado não é tão importante. Quer dizer, o telhado é importante, Lady Anne. Afinal, é sua casa, mas acho que a Madame é mais importante... Madame Bellafraunde ergueu a mão e a impediu de continuartagarelando. Penelope esfregou as palmas das mãos suadas. Seu coração estava na garganta. Ela podia sentir sua esperança de arranjar um homem murchando e morrendo. Silenciosamente, ela disse adeus a essa esperança. Ela se repreendeu pela precipitação. Não se importava se um homem grande e peludo escolhesse seus vestidos, contanto que ele a ajudasse em sua missão. Agora ele nunca a ajudaria. — Desespero suficiente em seu tom para quase me convencer, mas eu preciso inspecioná-la mais de perto para tomar a decisão — Madame disse, ignorando o incidente como se não tivesse sido nada. Penelope arregalou os olhos, a esperança ressurgindo mais uma vez. — Em que — perguntou Madame a Penelope — você é boa? Penelope respondeu ansiosamente: — Eu sou uma grande atiradora de comida. — Você poderia repetir? Acho que não ouvi direito. — Sim — disse Penelope, e então repetiu em voz alta: — Eu sou uma ótima atiradora de comida. O que um rifle não podia fazer, aquele fez. Madame empalideceu. As criadas correram para abanar as faces da Madame e os sais aromáticos e o champanhe foram administrados rapidamente. Por fim, ela se recostou na cadeira e, voltando-se para Penelope, disse: — Você quis dizer conhecedora, não... Não importa. Vamos prosseguir. Posso inspecioná-la mais de perto? — ela perguntou à viúva. A viúva deu um aceno rápido, e Madame, mantendo seus olhos arregalados em Penelope, aproximou-se dela. Ela segurou o rosto de Penelope com uma das mãos e o virou para um lado, depois para o outro. Seu cabelo estava aberto e agora caía em camadas grossas e sedosas por seus ombros. Sua cintura foi medida e os tornozelos, inspecionados. Suas unhas foram desaprovadas e as sobrancelhas, criticadas. O tempo todo Madame continuou a fazer perguntas à viúva: — Bons modos? — Péssimos. — Talentos? — Dança de um modo animado. — Desenha ou pinta? Costura? — De jeito nenhum. — Cozinha? — Sim, ela sabe cozinhar, mas nada sofisticado. — Usa leque? — Não sei. — Charme? — Um pouco. — O comportamento dela na frente dos homens? — Meu pai e o duque a desprezam. Madame Bellafraunde virou-se para sorrir para a viúva: — Estou impressionada. Nunca tive um caso tão ruim. Os homens sairiam correndo se a vissem se aproximando e isso para mim é um desafio. Ela será transformada na fantasia de um homem. Eu farei isso. Vou fazer isso e ter sucesso. Será um dos destaques da minha carreira porque a senhorita, Srta. Fairweather, apesar de suas falhas gritantes, se casará com o melhor que a temporada tem a oferecer. — Penelope abriu um sorriso amarelo, perguntando-se se deveria estar infeliz por ser chamada de caso perdido e ter seus defeitos tão abertamente discutidos, ou feliz por Madame ter concordado em ajudá-la por ela ser um caso perdido. A viúva e Lady Anne soltaram um suspiro de alívio. Depois disso, Madame Bellafraunde se transformou em outro ser. Sua caminhada lenta e letárgica se transformou em um trote rápido. Sua fala arrastada se transformou em um falatório rápido, e seu rosto se iluminou por uma espécie de excitação louca. A Srta. Fairweather iluminaria, brilharia, reluziria e chamaria atenção aonde quer que fosse, e enquanto a garota mantivesse a boca fechada para o resto de sua vida, ela se casaria e viveria feliz para sempre. — Fique só com a roupa de baixo — Madame Bellafraunde ordenou. — Agora? Na sua frente? — Penelope se surpreendeu. — Garota, deixe-me explicar algo. Eu tenho a alma de uma mulher, e isso significa que meu chapéu balança para os homens. — Como? — Você não leu nenhuma história romana? — Meu pai lê em voz alta e muitas vezes me escondi embaixo de sua mesa e ouvi... Quer dizer, não sabia... Achei que isso só acontecesse em livros e história. — Alguns de nós sobreviveram além de páginas monótonas — respondeu Madame ironicamente. Penelope olhou para a viúva com incerteza e, recebendo um aceno encorajador, começou a se despir. Uma das quatro criadas que acompanhavam Madame se aproximou de Penelope e começou a ajudá-la. A cada camada retirada, Penelope ficava ainda mais corada. Seu pescoço e até mesmo seus braços tinham adquirido um tom rosado. Logo ela estava seminua usando um espartilho desbotado, calções e meias. Seu único conforto era pensar que a maioria ali era mulher e o único homem na sala era mais mulher do que o resto delas juntas. Naquele exato momento, a porta se abriu e a cabeça do duque apareceu. — Mãe — ele começou e então parou. Lentamente, seus olhos se arregalaram e sua boca se abriu em choque. Ele olhou para Penelope quase nua e depois para Madame Bellafraunde. O choque se transformou em raiva. — Eu não vou permitir que você se relacione em minha casa desta maneira. Como se atreve a trazer um homem aqui? Aqui, sob meu teto, para coisas obscenas... — Charles! — a viúva falou do sofá. — Como você pôde? — Lady Anne acrescentou. O duque se acalmou ao finalmente notar sua irmã, mãe e quatro criadas presentes no quarto, além de Penelope e o homem. Seu rosto logo estampou uma confusão total. A viúva correu até o duque e o empurrou para fora da porta, em direção ao corredor. — Vou explicar as coisas. Por que você não continua, Madame. Peço desculpas pela interrupção — a viúva disse calmamente seguindo seu filho. Penelope escondeu o rosto nas mãos e gemeu. Por que, ah, por que as coisas estavam indo tão mal? — Não se preocupe com isso, minha querida — Madame Bellafraunde a acalmou, seus olhos brilhando com humor reprimido. Penelope bufou com as mãos cobrindo o rosto. Madame não podia imaginar o que Penelope estava sentindo no momento. Madame não tinha sido pega vestindo apenas um espartilho, calções lilases e meias. E os calções nem eram os melhores. Lady Anne enrolou um xale no corpo de Penelope e a levou até o sofá. Uma xícara de chá foi rapidamente administrada com uma generosa dose de conhaque. Assim que Penelope parou de tremer de vergonha e recuperou um pouco da cor, Madame Bellafraunde se levantou da cadeira e bateu palmas. As quatro criadas que a acompanhavam formaram uma fila. — Vá e junte-se a elas, Srta. Fairweather. Não temos tempo a perder. Pode ir. Você pode encharcar o travesseiro com lágrimas à noite, mas agora precisamos voltar ao trabalho. Penelope tirou o xale, deu um sorriso fraco e se juntou às criadas. Ela não podia mais suportar os olhares de pena das outras mulheres. A melhor cura para ela era a ação, e ela estava grata a Madame por passar por cima do incidente como se não tivesse importância. Pela segunda vez desde sua chegada, Madame de alguma forma amenizara a situação. Ela não sabia se era proposital. No entanto, estava agradecida. — Bem, Lady Anne, tenho uma proposta. Hoje vamos nos concentrar no guarda-roupa da Srta. Fairweather. Você é uma garota de sorte — disse Madame virando-se para olhar para Penelope — por não precisar ir ao Burlington Arcade ou ao Pantheon. Você levaria uma semana ou mais visitando a costureira, chapeleira, o fabricante de leques, o fabricante de bolsas, o alfaiate, a sapataria e o vendedor de xale para montar seu guarda-roupa. Mas tem a mim, e vou vesti-la da cabeça aos pés, adquirindo apenas o melhor disponível em Paris e Londres. Minhas assistentes farão o trabalho árduo, enquanto tudo o que eu exijo de você é que fique parada, me obedeça e seja bonita. Pode fazer isso? — Sim, Madame — disse Penelope, por um momento se sentindo como se estivesse sendo preparada para a guerra. — May, prepare uma faca afiada. Lady Anne, tome um banho com a banheira cheia de água quente. Coloque um lacaio do lado de fora da porta e não deixe ninguém entrar. Rose, vá buscar todas as caixas e materiais da carruagem. As duas jovens empregadas em uniformes pretos idênticos balançaram a cabeça e correram para cumprir suas ordens. Lady Anne hesitou: — Tomar banho aqui? — Onde mais, garota? Este cômodo é grande o suficiente, com a lareira acesa e está quente. Demoraria muito para aquecer qualquer outro cômodo e não temos tempo. Agora corra... Depressa. Lady Anne imitou as criadas e, depois de uma rápida reverência, saiu correndo.— Ah, sua graça, estamos prontos para começar a transformação — comentou Madame, assim que a viúva entrou na sala. Penelope não soube dizer se a viúva teve êxito em explicar a situação ao duque. Ela havia mencionado o desastre do tiroteio? O rosto da viúva estava impassível. Apenas sorriu levemente ao responder: — Isso é maravilhoso. Você precisa de alguma ajuda minha? — Talvez possa nos ajudar amanhã quando eu começar a cuidar dos modos dela e do manejar do leque? Hoje, deixe a garota em minhas mãos — disse Madame Bellafraunde com um olhar fixo. Penelope engoliu em seco quando a viúva saiu. Ela olhou cautelosamente para a faca afiada que a empregada havia pegado. Como, ela se perguntou, Madame faria uso da faca na tentativa de torná-la bonita? Cortar a cabeça dela talvez e acabar com isso? — Vou usar a faca e esta barra cremosa de sabonete para tirar os pelos das mãos e das pernas. Aprendi o método quando viajei para o leste em busca de segredos de beleza. As mulheres inglesas ainda não o adotaram, mas estou tentando introduzir uma nova moda. A cada poucos dias, peça a uma das empregadas para ajudá-la a fazer isso. Agora, tome cuidado e escolha alguém que saiba o que está fazendo. Um deslize e você pode cortar uma veia importante e sangrar até a morte, ou um único corte pode infeccionar seu braço, e então o médico pode ter que amputar um membro inteiro para salvar sua vida. Conheço algumas jovens, que Deus abençoe suas almas, que deram a vida por causa da moda. Mas nós queremos você viva, então pare de tremer, nenhum movimento, e não se preocupe, minha garota aqui vai me ajudar. Eu prometo que você vai ficar bem. Penelope congelou de medo. Ela fechou os olhos com força e rezou sem parar até tudo terminar. Estranhamente, Madame ficou só tempo suficiente para garantir que seus braços ficassem sem pelos. Quando chegou a vez das pernas, Madame saiu da sala. Em seguida, ela foi jogada em uma banheira e esfregada, untada com óleo e perfumada pelas criadas. Até seu cabelo foi borrifado com misturas de diferentes frascos. Ela se sentia exposta, despida e vulnerável. Mas pelo menos estava cheirando maravilhosamente bem. — Fique perto do fogo e beba este café. Preciso que seu cabelo seque o mais rápido possível. Pedi que sua empregada se juntasse a nós. Ela precisa aprender a cuidar do cabelo e da pele — disse Madame, entrando na sala assim que Penelope vestiu um robe. — Pele? — Você viu sua pele? Já vi cadáveres com melhor cor nas bochechas e sem nenhuma sarda no nariz. Ouça-me com atenção. Na verdade, escreva — disse Madame Bellafraunde, tirando a xícara meio cheia de café de Penelope. — Aqui está uma caneta e ah... obrigada. É Mary, certo? Você é a empregada da Srta. Fairweather? Ouça tudo o que tenho a dizer, Mary, e não se esqueça de nada. Você se tornará a melhor aia de sua pequena vila sob meu treinamento. No momento você é atroz. Onde eu estava...? Pele... Loção de Gowland, e está escrito na embalagem: — Humores eruptivos agem rapidamente, espinhas e sardas morrem dentro de uma hora— . Hum, eu não sei sobre isso, mas ele faz desaparecer manchas se você usá-lo fielmente por alguns meses e evitar o sol. Aqui, Mary, guarde para sua senhora. Penelope olhou para o pequeno pote de vidro na mão de Mary. Ela queria tocá-lo e cheirar seu conteúdo, mas Madame Bellafraunde já estava agitando outro pote na frente de seu nariz; desta vez, uma garrafa azul. — Leite de Rosas vai curar seu rosto dessa vermelhidão manchada e perturbadora. Use na hora de dormir. E isto — disse Madame, pegando carinhosamente uma garrafa de cristal — se chama Bloom of Ninon, um tônico maravilhoso que vai te ajudar com vermes, parasita, piolho... — Vermes? Eu não tenho vermes nem parasitas... nem piolho! — Sim, bem, eu não disse que você tem agora, mas pode ter. Além disso, é maravilhoso para suavizar calosidades, manter o rosto roliço e os seios firmes. Tome algumas gotas todas as manhãs com um copo de água. Mary ajudou Penelope a vestir um manto comprido e esvoaçante e conduziu-a até o sofá. Ela começou a esfregar a Loção de Gowland na pele, seguida de Leite de Rosas. — Isto aqui — Madame disse, puxando um frasco de uma caixa de madeira aberta, — é para o seu cabelo. É uma mistura de óleos que criei há alguns anos. Previne a calvície e no seu caso domará seus cachos. Seu cabelo é aceitável. Algumas lavagens com meu — Cabelo desmaiado— e você brilhará à luz de velas. — — Cabelo desmaiado— ? — O cheiro é tão delicioso que dizem que a Condessa Randalf desmaiou quando sentiu o cheiro pela primeira vez... — Seguirei seu conselho fielmente, madame. Obrigada — disse Penelope, preparando-se para se despedir. — Eu não terminei. Acabamos de começar! — Madame exclamou, abrindo uma caixa gigante cheia até a borda com bugigangas. Penelope se afundou no sofá balançando a cabeça em desespero. Onde havia se metido? Capítulo 11 Penelope sentou-se olhando os deliciosos bolos sobre a mesa enquanto as criadas se ocupavam cuidando de seu rosto e cabelo. Enquanto isso, Madame Bellafraunde pegava loções para o corpo, sabonete de uso diário, sabonete para as noites de festa, sabonete para lavar os cabelos, óleos para o corpo, cabelo e rosto, pasta para os dentes, talco imperial branco, essência de rosa para os lábios e bochechas, tinta para seus cílios e sobrancelhas, gotas para tornar seus olhos sedutores e luminosos, tônicos para a saúde, tônicos para beleza, uma engenhoca para arrancar os pelos das sobrancelhas e perfumes para usar em diferentes momentos do dia. Por fim, Madame recostou-se no sofá e chamou para pedir um chá e café frescos. — É hora do almoço. Sugiro que façamos uma pequena pausa, não mais do que quinze minutos, e então quero todos de volta ao trabalho. As criadas saíram e Penelope observou-as partir com tristeza. Ela ainda estava presa na mesma sala e não achava que teria um momento de liberdade até a hora do jantar. Lady Anne se juntou a eles assim que a bandeja do almoço foi trazida. — Você está maravilhosa — Lady Anne exclamou, olhando para Penelope. — Vamos agora começar as aulas de etiqueta à mesa de jantar — Madame disse, ignorando Lady Anne. Penelope olhou para Lady Anne num apelo silencioso. Por sua vez, Lady Anne encolheu os ombros, impotente. Penelope resmungou por dentro e pegou sua colher. — Sem pressa, moça. Goles delicados, mordidas pequenas. Veja, segure a colher assim. Levante-a e afaste-a da tigela... não em direção a si mesma... você não quer derrubar comida na mesa! Penelope se esforçou, mas sua mente cansada estava cheia até a borda. Exausta, ela afundou em seu assento e recebeu uma longa palestra sobre a importância da postura correta. Lady Anne a olhou com simpatia, mas não se atreveu a interromper Madame Bellafraunde. A viúva entrou para verificar a vítima. Ela deu uma olhada no rosto tenso de Penelope e entendeu a situação. — Madame Bellafraunde, talvez devêssemos passar rapidamente para o traje da Srta. Fairweather. Suas costureiras precisam começar a trabalhar no enxoval imediatamente. Podemos resolver o resto de suas falhas amanhã? — perguntou a viúva. — Eu concordo com você, sua graça. Sua pele áspera e unhas horríveis... Deixa pra lá. Vou pedir às meninas para trazerem a caixa de materiais. Vou ter que levar as joias sozinha... Penelope fechou os olhos de alívio assim que Madame saiu da sala. — Aqui, coma rapidamente. Não se preocupe com boas maneiras. Deixe isso para o salão de baile. Não temos tempo a perder... Coma... Coma, — Lady Anne disse, puxando um novo lote de biscoitos embrulhados em papel pardo. A viúva rapidamente produziu uma xícara de chá, agora um pouco morna, mas Penelope o inalou como uma criatura faminta. — Você quer que eu peça a Madame Bellafraunde voltar amanhã, então? Penelope engoliu o resto de chá e disse: — Não, preciso da ajuda dela e estou realmente grata por tudo o que você está fazendo por mim. Eu só tenho medo de que, apesar de todo esse trabalho, eu acabe bagunçando as coisas. Penelope colocou a xícara de chá de voltana bandeja e se recostou na cadeira. Quando olhou para cima, encontrou a viúva olhando para ela de um jeito esquisito. — Minha cara — disse a viúva —, você é muito corajosa. Quando percebi pela primeira vez que Madame era Lo... era um homem, desmaiei. Levei um ano para criar coragem suficiente para permitir que ela me vestisse. — Eu concordo, é admirável como você superou o choque inicial ao descobrir a identidade de Madame, enfrentou Charles em um estado de nudez e então seguiu para alcançar seu objetivo. Você não reclamou nenhuma vez, e tudo pensando em sua família — Lady Anne adicionou. Penelope sorriu incerta e olhou para suas mãos. Não sabia o que dizer. — Você deveria sorrir com mais frequência. Seu rosto ilumina e o toque de travessura nele é cativante — a viúva disse para incentivá- la. Depois de um momento, ela perguntou: — É a situação da sua família que está motivando você ou alguma outra coisa? Só pergunto porque na última carta de Gertrude ela disse que não dependia do seu sucesso. E se eles não depositaram todas as esperanças em você, então por que está tão preocupada, minha cara... Um ruído na porta distraiu a viúva e Penelope deu um suspiro de alívio. — Talvez queira ficar e olhar as placas e materiais, sua graça? Outro vestido para a senhora e Lady Anne, talvez? — Madame Bellafraunde perguntou, entrando na sala carregando uma caixa gigante. Suas quatro criadas seguiram atrás dela carregando vários pacotes, caixas de chapéu e bolsas de pano, enquanto dois lacaios entraram carregando um contêiner de madeira gigante. — Eu adoraria olhar os pratos. Acho que tanto minha filha quanto eu precisamos de mais alguns vestidos, madame. Madame Bellafraunde animou-se e mostrou os pratos prontamente. As senhoras serviram-se dos últimos cortes e estilos enquanto bebiam delicadamente schnapps de uva em taças compridas. — Eu vi um lindo vestido de festa na Espelho da moda e uma bela musselina branca na Revista Lady este mês. Devo ir buscá-los? — Penelope perguntou. — Não seja ridícula. Pessoas de sua posição não podem usar o que pode ser encontrado com facilidade em todas as casas onde alguém costura — Madame disparou. — Minha posição? — Bem, você terá uma posição ao final da temporada, moça, então comece a praticar. Se você acredita que é melhor do que todos, os outros também a tratarão com o mesmo tipo de deferência. Você ficará com a viúva e o duque. Não pode envergonhá-los agindo como agiria uma empregada. Penelope franziu a testa. Como alguém poderia fingir ser melhor do que era? — Meça suas palavras antes de falar. Deixe-os esperando, como se conversar com você fosse um privilégio. Mantenha a cabeça erguida e entre em uma sala sabendo que todos os olhos estão em você, e que permanecerão em você porque o contorno delicado de seu tornozelo, as finas veias azuis em seu pulso, o rubor em suas faces e o volume suave de seus seios são mais atraentes do que os de qualquer outra mulher presentes naquela sala. Entendido? — Madame perguntou. Penelope enrubesceu e olhou para o pulso como se nunca o tivesse visto antes. Quanto a entrar em uma sala sabendo que todos os olhos estariam nela... só de pensar nisso, seus joelhos tremiam como gelatina. — Seda âmbar com um leve volume e mangas compridas é o que sugiro para sua primeira festa. Vai combinar com seu cabelo e olhos castanhos. Um pouco de renda clara cor de creme aparecendo por baixo das saias, chinelos de seda âmbar e sem joias. — O corte? — a viúva perguntou. — Não se preocupe, sua graça. Será recatado, seu seio adequadamente coberto. Os homens gostam de imaginar e ter pensamentos vulgares, mas apresente-os com ousadia e eles fogem de medo. — Muito bem, eu deixo a decisão para você. Os outros vestidos? — Verde esmeralda, pêssego, cetim branco, verde Paris e papoula — sugeriu a Madame, retirando os materiais do recipiente de madeira. — Não o cor de papoula, ousado demais... Não é ousado, mas pode ficar exagerado com sua pele morena — Lady Anne disse. — Hum, e este azul francês? — Perfeito — disse a viúva. — Eu sugiro um azul celestial para Lady Anne e este vinho para você, sua graça. Lady Anne passou um tempo feliz remexendo na caixa de madeira enquanto a viúva olhava os pratos. — Os enfeites devem ser simples. Botões de rosa, rendas, fitas e pérolas. Cada vestido terá apenas um detalhe. Quero que ele seja sutil e deixar sua própria beleza brilhar. Eu quero que as pessoas vejam ela, não as roupas — Madame disse de modo pensativo. — Isso é generoso da sua parte — observou a viúva. — Eu tenho muitas mulheres dispostas passar do limite do decoro com minhas roupas. Eu posso brincar com estilos enquanto as visto. Elas precisam tirar proveito do fato de já não serem jovenzinhas. Para elas, crio roupas que distraem os olhos das regiões flácidas e enrugadas. Miss Fairweather não precisa de nada disso. Penelope desviou os olhos da renda em suas mãos. Aquilo tinha sido quase um elogio. Madame, que vestia princesas, viúvas e condessas; que tinha visto as mulheres mais bonitas, não poderia considerá-la aceitável. Ou poderia? ∞∞∞ Horas depois, em seu quarto, Penelope finalmente desabou na cama. O jantar dela estava na bandeja esfriando. Ela se sentia muito cansada para comer, sua mente tomada por todas as coisas que tinham sido compradas para ela em poucas horas. Seu novo guarda- roupa era formado por luvas de pelica, meias de seda, chinelos de veludo, vestidos de montaria, vestidos matinais, vestidos de festa encantadores, chapéus, sombrinhas, leques de seda e muito mais. Sua penteadeira estava cheia de potes, loções e aromas. Mais parecia um conto de fadas. Nunca em sua vida ela tinha imaginado que teria tanto. A coisa toda deve ter custado uma fortuna ao duque e, em vez de ficar satisfeita, ela se sentia infeliz. Depois de tudo o que estava sendo feito por ela, todas as libras e xelins gastos, e se ela acabasse sendo uma decepção? Ao longo do dia, ela havia perdido o medo da Madame e aprendido a ver o coração bondoso sob o exterior áspero. Mas, mesmo se acostumando com a Madame, seu coração continuou triste enquanto mais e mais coisas eram compradas para ela. O dinheiro tinha sido pago, as contas assinadas e loções e potes de creme abertos e usados. Ela não podia mais voltar. Teria que passar a temporada. Capítulo 12 Que sonho estranho, Penelope pensou. Madame Bellafraunde estava em seu quarto segurando Lady Bathsheba em seus braços. Ela estava acariciando a cabra sob o queixo e fazendo ruídos estranhos para ela. Penelope deu uma risadinha sonolenta. A cabeça de Madame Bellafraunde girou em direção à cama. Ela parou de acariciar a cabra e disse bruscamente: — Levanta, moça, não tenho o dia todo. Penelope se levantou na cama e esfregou os olhos. — É mesmo você? — Quem mais você esperava? Já passa das cinco. Na sua idade, eu costumava acordar às quatro. Agora se apresse e vista um de seus vestidos desprezíveis e desça. Temos trabalho a fazer. — Cinco da manhã? — Penelope guinchou. — Não, à noite. Claro que é de manhã. Agora se levante. Não consegui tirar sua criada da cama, então vista-se. Sua xícara de chá está esfriando. Beba depressa. — Madame? — Sim? — Por que você se importa tanto? Madame largou a cabra e foi sentar-se ao lado de Penelope. — O duque está me pagando um bom dinheiro — respondeu ela. — Não acho que seja esse o único motivo — disse Penelope, pegando a xícara de chá. Madame olhou para ela surpresa. — É sua intuição falando ou sua inteligência? Eu suspeito que seja a segunda. Agora, para responder sua pergunta, estou ajudando você por três razões. Em primeiro lugar, o duque está realmente me pagando uma bela soma para mandar em você. Em segundo lugar, sinto pena de meninas como você, que precisam se casar para melhorar sua situação. Uma solteirona leva uma vida terrível sendo constantemente dependente da boa vontade dos outros. E por último, transformá-la em uma dama é um desafio. Fiquei intrigada. Penelope assentiu e passou a mão nos olhos cansados e lacrimejantes. — Não chore, seusolhos ficarão vermelhos e você não pode se dar ao luxo de parecer mais terrível. Passe no rosto um pouco da essência de rosa que lhe dei antes de descer. Penelope sufocou uma risada e se forçou a sair da cama quente e aconchegante. Ela se sentiu melhor depois de jogar água no rosto. E agora que o choque havia passado e ela sabia o que esperar, o dia seguinte não parecia tão ruim. ∞∞∞ O Salão Azul havia sido alterada. A mobília foi empurrada para um lado para criar um espaço vazio no meio. Penelope agora podia admirar o espesso carpete azul-claro com seu design creme em toda sua glória. Um fortepiano gigante tinha sido trazido da sala de música a pedido de Madame, e agora estava em um canto deixando a lareira menor. — Dançar é uma arte, uma arte que permite à mulher atrair sutilmente a atenção de um homem para seu corpo. Não é importante com quem você dança, mas quem está observando você dançar. Um leve movimento do quadril e um delicado balanço do corpo podem criar fantasias na mente de um homem, ao mesmo tempo em que mantém o respeito da mulher intacto — disse Madame Bellafraunde, levantando-se de uma cadeira no canto. Penelope desajeitadamente dobrou o joelho em reverência e Madame fez uma careta. — Dançar é para criaturas elegantes que dominam o básico. Mudança de planos, minhas caras — disse Madame voltando-se para suas criadas — precisamos ensinar o básico à menina. Vamos começar com a entrada. Saia da sala, Srta. Fairweather. — Sair? — ela perguntou com a voz alterada. — Sim, sim, saia. Vá para fora, saia pela porta... É isso aí. Bem, quando seu nome for anunciado em um baile, todos os olhos na sala se voltarão para você e você deve aproveitar esses momentos. Você entrará na sala com a cabeça erguida, a mão segurando delicadamente o braço do cavalheiro, ou se estiver na companhia apenas de mulheres, mantenha o leque fechado e segure a saia com uma das mãos, enquanto a outra deve segurar delicadamente a bolsa... Não estrague a bolsa, moça... Veja, é assim que se faz. Penelope copiou Madame perfeitamente. — Não pense em nada e finja que você é uma princesa e que todos os que estão diante de você estão usando calções cor-de-rosa. Penelope deu uma risadinha. — Eu provavelmente riria se pensasse isso. — Você vai estar muito ansiosa. Rir vai ser a última coisa que você vai querer fazer. Mesmo se rir, vai fazer você parecer confiante. Madame passou as duas horas seguintes ensinando-a a entrar graciosamente em salões de festa, jantares e chás. Ela aprendeu até o método correto de subir e descer de uma carruagem da maneira mais elegante. — São quase sete. Faremos uma pausa para o chá. Depois disso, vou ensinar você a fazer reverência. É complicado e seus joelhos vão doer de tanto se dobrar, mas o resultado — ela disse, beijando a ponta dos dedos unidos — será maravilhoso. Você encantará a alta sociedade com sua entrada e, no momento em que fizer uma reverência, será vista como uma dama refinada. Depois disso, tudo o que precisa fazer é manter a boca fechada e nós a casaremos antes que você perceba. Já passava das nove quando Penelope foi dispensada para o café da manhã. Ela engoliu a torrada com manteiga e o chocolate quente rapidamente. Depois disso, voltou ao Salão Azul para sua próxima aula, aquela pela qual ela havia esperado toda a manhã: a aula de dança. Penelope entrou na sala e encontrou Madame rodeada por leques. Alguns eram feitos de seda, enquanto outros eram modelados, pintados, esculpidos em marfim ou com penas de pássaros variados coladas. Ela sentiu a decepção tomar conta e Madame sorriu. — Isso é para outra hora, Srta. Fairweather. Não esqueci minha promessa de lhe ensinar a dançar depois do café da manhã. Posso presumir, pelo seu olhar ansioso, que você é boa nisso? — Gosto de dançar. Se sou boa ou não, a senhora pode avaliar. Eu só dancei em pequenas reuniões onde moro até hoje. — Como está seu tornozelo? — Está muito melhor. Uma leve pontada de vez em quando, mas vou ficar bem. Consigo dançar. — Posições — Madame disse, e duas criadas correram para o centro da sala e ficaram frente a frente. Penelope foi e se juntou a elas parando na frente de uma terceira empregada. — Você sabe o que é isso? — Cotilhão, a dança das debutantes — Penelope respondeu. — Muito bom. Rose, mostre-nos suas habilidades e toque uma melodia no piano. Agora vamos dançar! Muito bom... Agora mude a posição... Mude de novo... Mostre essa anágua. Muito bom... Mais anáguas... Dê um passo, outro, outro, mostre essa anágua... Dê um passo, um passo, afunde e gire... Pare. — Srta. Fairweather, eu tinha tantas esperanças. E se eu olhar para o seu rosto, vejo alegria e confiança que geralmente faltam em seus modos, mas se eu me atrever a olhar para os seus pés, mal posso controlar minhas lágrimas. Você já dançou o cotilhão? — Sim na... — Vila. Eu sei que você disse. Você é rápida com os pés, então isso pode não ser tão difícil. Veja, me observe. Madame Bellafraunde entrou no centro da sala e escolheu a empregada mais alta com quem dançar. Ela acenou com a mão para Rose, que começou a tocar o piano. Ela então se abaixou, girou e deslizou pelo chão. Seus pés mal pareciam tocar o chão enquanto ela flutuava pela sala no ritmo da música. — Madame — disse Penelope, os olhos arregalados de admiração. — A senhora é uma dançarina maravilhosa. Também acho que você seria uma ladra muito boa. É tão leve que poderia facilmente escalar paredes, entrar na ponta dos pés nos quartos e roubar todas as joias, e ninguém notaria. Madame parou de dançar. Ela bufou, mas um pequeno sorriso satisfeito apareceu em seu rosto. — Agora você tenta — disse ela com um humor melhor. — Muito bom. Mais uma hora e teríamos conseguido dominar a primeira dança. — Uma hora para uma dança? — Esforce-se pela perfeição. Eu sei que estamos indo um pouco devagar, mas não tem como ser diferente. Talvez possamos trabalhar a noite toda. Vou ter que falar com a viúva. Com o prazer de dançar, Penelope, ela saltava, girava e saltitava com as melodias alegres. Os passos eram intercalados com flashes de tornozelos, pulsos e anáguas. Às onze, a viúva e Lady Anne se juntaram a eles, o que animou o Salão Azul. A cada novo estilo, Penelope ficava mais confiante. Ela só tinha que diminuir seu entusiasmo e tentar ser mais sensual. Seus movimentos se suavizaram e ela logo aprendeu a se movimentar com a música, deixando-a correr por seu corpo. Seu tornozelo doía, mas ela não se importou. Pela primeira vez desde a chegada de Madame, ela começava a gostar das aulas. — Agora chegamos à valsa. A dança feita para os amantes, quando você vai abraçar um homem pela primeira vez à vista do público. Se conseguir fazer isso direito, pode conseguir qualquer homem para se casar, se ele se interessar. — A valsa, mas isso é escandaloso — Penelope engasgou. — A valsa está na moda hoje em dia, e a viúva vai conseguir a permissão para você das donas do Almack's. Agora pare de corar como uma tola e levante-se. Lady Anne, pode encontrar um homem para nós que saiba dançar valsa? Lady Anne saiu com um brilho malicioso nos olhos que Penelope notou com pavor. Suas dúvidas se confirmaram quando o duque entrou na sala. Lady Anne devia ter derramado mais lágrimas por ela, era o que parecia. Lady Anne, concluiu ela, era totalmente irritante. A agitação de Penelope foi momentaneamente esquecida quando a viúva se desculpou, confessando que estava cansada depois de toda a agitação da tarde. Sua testa se enrugou de preocupação enquanto observava a viúva partir. — Estou feliz que a senhora aprove, sua graça. Faz apenas um dia e vejo que notou uma melhora na minha pupila — observou Madame. Os olhos de Penelope dispararam para o rosto do duque, assustada ao pegá-lo olhando para ela. Percebendo seu olhar, ele rapidamente disfarçou. — Suas bochechas estão coradas e seus olhos mais brilhantes e maiores. É uma maravilha o que alguns potes de loções podem alcançar — Madame comentou secamente. Penelope ficou corada e olhou para os pés. Ela ficou pensando no elogioda Madame. Seu vestido era velho, suas meias eram antigas e seus chinelos, pré-históricos. Ela não sabia que seu velho vestido tinha amarelado, o tecido amolecendo com os anos de uso e moldando-se perfeitamente ao seu corpo. Suas bochechas estavam rosadas e seus olhos brilhavam por causa de toda a dança. E a luz do sol brilhando através das janelas a fazia parecer delicada, suave e convidativa. O duque cerrou o punho e murmurou para que toda aquela maldita coisa começasse rapidamente. — Música — disse Madame suavemente, e o duque se aproximou e tomou Penelope em seus braços. Eles começaram os primeiros passos e a voz rouca de Madame disse no ritmo da música. — O homem lidera e a mulher segue. A Srta. Fairweather, uma mulher nos braços de um homem que ela ama perde o senso de onde está. Ela esquece o público, os passos e a música. Em vez disso, uma névoa desce sobre sua mente nublando seu julgamento, tornando-a consciente do toque, do cheiro e das emoções violentas. Ela só consegue ouvir os próprios batimentos cardíacos. Penelope, dançando nos braços do duque, não conseguia ouvir uma palavra do que Madame disse. Seus olhos estavam fixos no duque, sua mente focada no local onde as mãos dele tocavam sua cintura. O toque dele quase fez cócegas, e ela teria rido se outros sentimentos complexos não estivessem passando por ela ao mesmo tempo. — Você não me pediu para liderar, sua graça? — Madame perguntou, observando o casal circular pela sala. — Você é mais elegante do que muitas mulheres que conheço, madame — respondeu o duque. Penelope, momentaneamente tirada de sua confusão, olhou para Madame, que estava corando de alegria. Ela não sabia que o duque era capaz de encantar. — Mantenha os olhos fixos no duque, senhorita — corrigiu Madame. Penelope forçou seus cílios a se erguerem e olhou nos olhos azuis dele. Seu estômago embrulhou. — Devo chamá-la de Madame ou... — perguntou o duque, afastando os olhos de Penelope. — Pode ser a Madame — ela respondeu apressadamente. — Mas eu sei... — Concentre-se nos degraus, sua graça, e olhe para a Srta. Fairweather. Por que você está tentando se distrair da linda garota em seus braços? O duque relutantemente voltou a olhar para Penelope. Depois de um momento, Madame perguntou: — Você está pensando em sua avó, sua graça? O duque parou de dançar. — Como você...? — ele balbuciou. — Eu conheço os homens — Madame respondeu presunçosamente. — Por que estava pensando na vovó? — Lady Anne falou. O duque parecia envergonhado e, percebendo o rosto perplexo de Penelope, deu um passo para trás abruptamente. — Chega desse absurdo. Não me importo se você me prometer um mês sem lágrimas, Annie. Não vou me envolver no treinamento dela. Sinto muito, Madame, mas acabo de lembrar de um assunto urgente. Por favor, dê-me licença. Penelope trocou um olhar confuso com Lady Anne. O que no mundo fez o duque sair correndo com tanta pressa, e por que Madame parecia satisfeita? E como a falecida avó do duque estava envolvida? Lady Anne seguiu o duque para obter algumas respostas, enquanto Madame sentiu pena de Penelope. — Srta. Fairweather, quando um homem segura uma mulher desejável em seus braços, ele pensa na avó. Isso ajuda a amortecer seus instintos básicos. — O duque acha que sou desejável? — Penelope perguntou em descrença. — Os homens acham desejável todas as garotas de saias, dependendo de seu humor. Um homem não precisa amar para fazer amor. Penelope corou e evitou o olhar da Madame. — Você dançou a valsa bem o suficiente. Acho que você merece algumas horas de descanso. Pratique sozinha à noite antes do jantar. E, Srta. Fairweather, fique de olho na viúva. Acho que ela não se sentiu muito bem hoje à tarde. Ela mal tocou na refeição. — — Madame Bellafraunde, o que vou aprender amanhã? — A arma de uma mulher. Leques, Penelope pensou. Tinha que ser. — Muito bem, Srta. Fairweather. A lição de amanhã é a linguagem de leques, a importância das sombrinhas e a arte da conversa educada. Penelope hesitou. Madame às vezes era estranha em sua capacidade de ler mentes. — Eu não leio mentes, eu simplesmente observo melhor do que os outros — disse Madame, acenando para Penelope, que estava boquiaberta. Capítulo 13 — Escolha sua arma. Penelope ficou olhando para os leques coloridos sobre o sofá. Sua mão pairou sobre o de pena de pavão e o de cetim rubi, mas finalmente seus olhos foram atraídos por um simples leque oriental de seda com cabo de madrepérola. Ela o pegou e ficou satisfeita ao ver que Madame aprovou sua escolha. — Posicionem-se, moças. As criadas formaram uma fila em frente à longa mesa, cada uma segurando um leque. Penelope se aproximou delas. — Você sabe o básico? — Sim — disse Penelope, incerta. — Muito bem, agora siga meus comandos. Posicionem os leques. Penelope observou as criadas colocarem delicadamente os leques sobre a mesa e ela fez igual. — Para cima — Madame rugiu. As garotas pegaram seus leques com um movimento de pulso. — Abram-nos — ela gritou. Os leques foram abertos com um estalo semelhante a um tiro de pistola. Penelope se atrapalhou. Seu leque não tinha feito aquele som, mas parecia que o de todo mundo tinha. — Joguem-nos — foi o próximo grito e Penelope rapidamente jogou o leque sobre a mesa. — Para cima... e abanem, abanem, abanem — gritou Madame. Penelope estremeceu. — Abaixem-nos e parem. Madame enxugou a testa e olhou para Penelope. — Você conhece os comandos, mas a execução... Srta. Fairweather, o leque, esta bela criação, serve para manter as nossas mãos ocupadas, refrescar a nossa pele aquecida, esconder nosso rubor, ajudar a passar por cima de situações embaraçosas, comunicar mensagens secretas, mas acima de tudo, é uma arma cuja brisa deve ser forte o suficiente para mandar um homem para longe, o som deve assustar um assassino, e sua beleza deve enfeitiçar o homem amado. O que você fez foi uma vergonha, uma vergonha para todas as mulheres na Inglaterra. Você desrespeitou nossa única arma. Penelope abaixou a cabeça, os olhos pousando no objeto em questão. Ela reconheceu, com culpa, que sempre considerou o leque algo tolo, um objeto incômodo para segurar e carregar. Madame suspirou e desabou em uma cadeira. — Chá. Preciso de um descanso depois desse último desastre. Passaram-se duas horas até Madame se recuperar. A viúva, parecendo um pouco pálida, juntou-se a elas, assim como Lady Anne. As três passaram o dia inteiro ensinando a Penelope as nuances da diplomacia, a linguagem dos leques e a maneira correta de desenrolar e posicionar uma sombrinha. — Não fale sobre nada além do clima. Lembre-se, se você se sentir nervosa, imagine a pessoa com quem está conversando com calções cor-de-rosa e nada mais — aconselhou Madame. — Incentive a outra pessoa a falar sobre si mesma. Pergunte sobre a saúde dela se tiver que falar... digamos, em uma mesa de jantar. Divida sua atenção igualmente entre as duas pessoas sentadas ao seu lado — sugeriu a viúva. — Eu ficarei ao seu lado durante cada reunião social. Vou lhe guiar. Não se preocupe se uma situação que não tratamos hoje surgir — Lady Anne a confortou. Penelope assentiu levemente, seu cérebro cheio de conselhos, advertências e alertas. Sua cabeça, portanto, doía terrivelmente quando ela se retirou para dormir. Nem mesmo o chá de sassafrás de Mary ajudou a aliviar a dor. Ela se revirou a noite toda. Como se lembraria de tudo? A dança, o leque e as regras de educação na sociedade? Ela sabia que era um caso perdido, metade já estava esquecida. Naquela noite, seus sonhos foram vívidos. Ela sonhou com leques usando calções cor-de-rosa repreendendo-a por comer a cabeça de uma escultura requintada de biscoito. Então, os leques se transformaram em lordes e damas sem nome que deram a ordem para que ela dançasse para o duque. E de repente ela não tinha mais o controle de seus pés, enquanto eles saltitavam pela sala por conta própria. O duque, sentado em um trono dourado, sorria zombeteiramente, e as senhoras começaram a rir e a apontar para ela... Ela olhou para suas roupase se viu usando um vestido cinza esfarrapado e com manchas. O vestido estava se desintegrando lentamente e seus pés dançantes estavam descalços. Ela acordou grogue e deprimida. ∞∞∞ O duque também acordou de mau humor. Não dormia bem desde o dia em que aquela maldita mulher chegara. Ele ficou deitado na cama olhando para o teto ornamentado e coçou a orelha, a orelha direita, a mesma orelha que ela beliscou e atacou. Desde o momento em que ele pôs os olhos nela, ela o irritou. Ela, a caipira inconsequente, tentara aquecer sua cama. Ele havia vencido aquela rodada, pensou sorrindo. Colocou-a em seu lugar e a assustou profundamente. Seus pensamentos ficaram sombrios. Ela tinha de alguma forma conquistado o apoio de sua mãe e irmã. Ele foi forçado a deixá-la ficar, mesmo depois da bebedeira. Ela era uma jogadora inteligente. Todas as suas tentativas de mandá-la embora estavam falhando, e ele nunca falhava. A cidadezinha dela devia ter pessoas espertas para produzir um espécime tão engenhosa e maligna. Seu ego estava ferido. Várias vezes tinha sido contrariado. Ela havia mesmo torcido o tornozelo. Se tinha sido um acidente ou intencional, ele não tinha certeza. Mas a questão é que ele se sentia um idiota e tinha feito papel de idiota na frente da mãe e da irmã. Ele bateu com a mão na cama. No Quarto Azul, ele a encontrou nua. Fez uma pausa. Bem, quase nua. Ela estava usando roupa de baixo, meias e um espartilho. Uma imagem repentina dela sem as peças, meias e espartilho surgiu em sua mente. Ele rosnou baixo e profundamente. Ele havia dançado com ela e ela parecera diferente... e cheirava a rosas. Ele franziu a testa. Era uma coisa horrível, toda aquela confusão. Sua mãe e irmã deveriam ter apoiado a ele e não uma estranha irritante. Ele teria que bolar outro plano e desta vez tinha que funcionar. Estava ficando cada vez mais claro para ele que a Srta. Fairweather era como uma mosca — indesejada e insignificante. Uma mosca que não causaria nenhum dano, no entanto, era irritante e deveria ser eliminada. Todos os pensamentos sobre Penelope desapareceram quando Hopkins, seu valete, disse com urgência da porta: — Sua graça, sua mãe está se sentindo mal. O duque não titubeou. Saiu da cama, vestiu um roupão e correu para o quarto da mãe. A irmã estava sentada ao lado da mãe, enquanto a mosca estava pousada na outra extremidade da cama. Ele ignorou a presença delas, focando em sua mãe. Ela parecia pálida. — O que foi? — ele perguntou gentilmente. — Minha garganta dói — a viúva murmurou. — Ela está com febre — Lady Anne acrescentou. O duque ocupou o lugar da irmã na cama. Ele segurou o pulso frágil de sua mãe por um momento e então tocou sua testa. Estava quente. — Mandarei chamar o Dr. Johnson. Não, mãe, eu insisto nisso. Enquanto isso, Annie, saia do quarto. Não sei o que ela tem e pode ser contagioso. Anne, isso é uma ordem. Ele esperou até que Lady Anne fosse embora e então foi até a escrivaninha de sua mãe. Escreveu um breve bilhete e o entregou a Hopkins. — Saia imediatamente e volte com o médico. Uma vez sozinho, seu rosto perdeu um pouco da compostura. Ele se manteve de costas para a mãe, ciente de que seu terror agora era muito claro. Um toque suave em seu ombro o assustou. A Srta. Fairweather ainda estava no quarto. Ele havia se esquecido dela. O brilho de solidariedade nos olhos dela o irritou. — Saia — ele sussurrou. Penelope recuou, mas se recusou a sair. — Eu quero ficar ao lado dela. Ela pode precisar de algo. — Você não ouviu o que eu disse a Anne? — Sim, a viúva pode ter uma doença contagiosa, mas você ainda está aqui. — Eu sou filho dela. — Estou em dívida com ela. — Não o suficiente para arriscar sua vida. Saia ou eu mesmo vou expulsar você. — Eu sou um incômodo para você. Por que se importa... — Suas palavras foram interrompidas. O duque agarrou seu braço, arrastou-a pelo quarto e fechou a porta na cara dela. ∞∞∞ Madame chegou mais tarde naquela manhã e encontrou sua aluna distraída. — É enigma, não egnima, cardo, não darco, cacofonia e não cocafonia... — Madame fechou o livro com força. — Você roubou e leu muitos livros da biblioteca de seu pai, mas é uma pena que ninguém tenha lhe ensinado a pronunciar todas as palavras grandes. Na verdade, você deveria tentar falar frases curtas e simples e usar apenas palavras que você... Srta. Fairweather, está me ouvindo? Madame suspirou. O médico estava com a viúva e até esclarecer a família quanto ao diagnóstico, ninguém ficaria tranquilo. Ela saiu depois de persuadir Penelope a experimentar alguns espartilhos e tirar as medidas novamente para verificar o ajuste. Uma hora se passou até a criada chegar para informar a Lady Anne e Penelope que a viúva solicitara a presença das duas. As duas se levantaram antes que a empregada terminasse de falar e correram para o quarto da viúva. — Não fiquem tão taciturnas, minhas caras. Eu vou viver. Só tenho dor de garganta e um pouco de febre. Nada contagioso — a viúva sussurrou. — Não fale, mãe, posso ver que fazer isso lhe causa dor — Lady Anne disse, tomando seu lugar na cama. Penelope ficou indecisa na porta se perguntando se estava se intrometendo. Um sorriso encorajador da viúva a fez puxar uma cadeira. — Mamãe, encontramos Charles lá fora. Ele disse que a senhora tem que descansar por alguns dias. A viúva acenou com a cabeça parecendo séria. — Será terrivelmente enfadonho ficar em seu quarto o dia todo sem nada para fazer — Lady Anne continuou. A viúva parecia ainda mais infeliz. — Talvez a senhora possa ler? Tricotar? — Penelope perguntou. A viúva balançou a cabeça e apontou para os olhos e depois para a cabeça. — Ah, vai ficar com dor de cabeça — disse Penelope. — Posso... Quer que eu leia para a senhora? A viúva se animou. — Você não se importa de ler? — Lady Anne perguntou em dúvida. — Não, eu adoro ler. É claro que não consigo pronunciar palavras como cocafonia e egnima, mas tenho um livro que é bastante simples. Lady Anne e a viúva sorriram de alívio. — É uma aventura chamada O Estorvo de Bertie. Um conto gótico e assustador de... — ela parou, pois a viúva gesticulava freneticamente para o coração e sorria. — Você leu! É meu livro favorito. Ah, vejo que você também adora. Sim... sim, eu entendo que você nunca poderia dizer a ninguém que é o seu favorito. Não é culto o suficiente. Eu mantenho alguns títulos aceitáveis na minha cabeça cada vez que alguém me pergunta qual é o meu livro favorito, mas ninguém confessa de que livro de fato gosta e leu várias vezes... ∞∞∞ O duque olhou carrancudo para a cena. A mosca estava lendo algum conto idiota em voz alta. Sua irmã cochilava no sofá enquanto sua mãe ouvia extasiada a criatura zumbindo. Ele se viu em uma daquelas situações em que você não gosta do que está acontecendo, mas se a interromper, as consequências podem ser piores. Se ele impedisse a criatura de ler, então Anne teria que tomar seu lugar. Anne não gostava ler, detestava, na verdade, e isso significava que no final ele teria de substituí-la. Ele gostava de ler, mas para si mesmo. Não para sua mãe, ainda mais porque a mãe gostava de romance e contos de aventura. Era um pouco desconfortável ler em voz alta para sua mãe sobre donzelas desmaiadas e beijos apaixonados. Ele, portanto, relutantemente permitiu que a mosca continuasse voando ao redor de sua mãe. ∞∞∞ Penelope passou os próximos dois dias colada ao lado da viúva. Ela fazia pausas ocasionais para as refeições e para fofocar com Lady Anne quando estava aparecia para ver a viúva. Suas aulas não foram totalmente suspensas. Ela teve que suportar duas horas de palestras e ensinamentos com Madame. Um curioso vínculo se formou entre a viúva e Penélope naqueles dois dias. A capacidade de Penelope de avaliar o humor e os desejos da viúva a tornavam quase inestimável para a viúva. Suas habilidades de leitura eram insuficientes, mas a viúva estava feliz por estar ocupada e ouvir sua história favorita sendo lido para ela, mesmo que mal. Por sua vez, uma viúva rabugenta e petulante deixouPenelope à vontade. Ela não mais olhava para a viúva com admiração. A viúva precisava dela e isso fez Penelope sentir, mesmo que apenas por um momento fugaz, que tinha um lugar ali. Capítulo 14 No terceiro dia, Penelope entrou na sala do café da manhã e encontrou Lady Anne e o duque já presentes. — Como está a mamãe? O médico não veio vê-la hoje? — Lady Anne perguntou. — A infecção na garganta melhorou, mas ela ainda está frágil. Mais um dia na cama e ela poderá retomar as atividades leves — respondeu o duque, com os olhos em Penelope. Penelope o ignorou e se sentou. Ele tinha adquirido o hábito de encará-la em todas as refeições. Ela estava se acostumando com isso. — Srta. Fairweather, gostaria de ir ao meu quarto depois de suas aulas com Madame? Pode me ajudar a planejar o que vestir amanhã. Estou dividida entre o vestido de seda cor-de-rosa ou lavanda — Lady Anne disse virando-se para Penelope. — Você planejou algo especial? — Penelope perguntou, adicionando uma porção generosa de creme e açúcar ao seu mingau. Lady Anne deu uma risadinha: — Você tem o dom de me fazer rir, Srta. Fairweather. Penelope acrescentou frutas picadas e polvilhou cuidadosamente a canela por cima. — Sinceramente, Lady Anne, não estou ciente de nada planejado para amanhã. — Bobagem — o duque murmurou, e então em voz alta, disse: — Anne, você quer a ajuda dela para escolher o que vestir? Bem, olhe para ela. — Bobagenzinhas — Penelope murmurou de volta. Seu vestido de musselina branca de gola alta era perfeitamente aceitável. — O que você disse? — Lady Anne perguntou. — Passas — respondeu Penelope. — Passas são bobagenzinhas? — Lady Anne perguntou, seus olhos brilhando. — Sim, coisinhas enrugadas. Não gosto delas — disse Penelope, mergulhando a colher na tigela de mingau. — Madame virá com seus vestidos hoje, Charles, e Penelope estará maravilhosa no baile amanhã. Você não terá motivo para reclamar. Penelope abaixou a colher, seu apetite completamente arruinado. Como, em nome de Belzebu, ela havia esquecido que o baile seria amanhã? ∞∞∞ — Madame Bellafraunde? — Srta. Fairweather, ouvi dizer que a viúva está melhor. — Sim, ela está melhor... Temos tempo suficiente? Madame sorriu. Ela gesticulou para uma de suas criadas, Rose, começar a tocar piano e então tomou Penelope em seus braços. — Vamos praticar alguns passos de dança e, enquanto dançamos, também vamos nos concentrar em nossos planos para amanhã. — Vai me guiar, Madame? — O tempo é curto. Não posso me dar ao luxo de persuadir o duque. Os ombros de Penelope se relaxaram automaticamente. — Um dia é tudo o que temos antes do baile de Lady Hartworth — Madame continuou. — Vai abrir a temporada e todos que vale a pena conhecer estarão presentes. Você certamente conhecerá todos os homens disponíveis na casa de Lady Hartworth, embora a presença deles no Almack's e em outras ocasiões pode não ser confirmada. Se você chamar a atenção de um homem, ele certamente comparecerá a todas as reuniões sociais das quais você escolher participar. Homens com desejo sabem ser criativos. Desta vez, Penelope nem mesmo corou. Ela estava se acostumando com a Madame. — Nunca estarei pronta a tempo. — Eu sei que. Você levará pelo menos um ano para atingir a perfeição. As meninas começam a aprender as artes desde o momento em que nascem. Infelizmente você não prestou atenção. Eu esperava que tivéssemos alguns dias de ensaios para repassar tudo o que você aprendeu. Não posso esperar que você se lembre de tudo em tão pouco tempo. Eu não sou tão irracional... Não fique tão séria. Se não conseguirmos atingir a perfeição, vamos nos esforçar para passar a ilusão de que a alcançamos. — O que você quer dizer? — Penelope perguntou. Madame deu a volta em torno dela. — Eu gosto de sua natureza espirituosa, sua maneira de falar o que pensa, mas os homens à procura de esposas não gostam disso. Eles acham que querem uma garota insípida que pareça obediente e dócil, o oposto de suas mães. O que eles não percebem é que essas mesmas criaturas insípidas acabam sendo megeras que se transformarão em mães no momento em que os juramentos forem feitos. O homem definhará lentamente de arrependimento, desejando ter escolhido a ruiva flamejante, porque pelo menos ela teria aquecido sua cama. Estou divagando... O que quero dizer é que você, minha querida, se tornará a insípida flor de plástico pelo próximo mês. Tão tímida que nem uma palavra sairá de seus lábios na presença dos homens, e tão doce que tudo o que você fizer será sorrir como uma tola para todos. As mulheres vão adorar você, pois sua estupidez vai fazer com que se sintam superiores, enquanto os homens vão ter pena de você e querer trancá-la em um quarto para protegê-la deste mundo cruel. Sua timidez vai agradá-los, fazendo-os acreditar que você estará disposta a seguir todos os seus caprichos e fantasias sem questionar. — Mas isso é terrível. Estarei mentindo para toda a sociedade londrina e me recuso a seguir todos os caprichos e fantasias tolas de um homem. Ora, quando meu primo tentou me forçar a dar a ele meu pedaço de torta, eu o joguei no rio... e antes que você pergunte, eu tinha dezoito anos e ele, vinte e quatro. — Como eu disse, eu admiro sua habilidade de... hum... jogar homens adultos nos rios. Espero que tenha sido no meio do inverno. Mas, minha querida menina, você quer continuar uma solteirona ou você quer se casar? — Eu quero me casar — respondeu Penelope, com a mão segurando os braços de Madame. — Por quê? — Você sabe o porquê. Pela minha família, para melhorar a situação deles... e a minha. — O suficiente para mentir para a sociedade? Penelope deu um passo em falso e cambaleou para a frente, dando de cara com a grande barriga de Madame. — Você pode mentir para a alta sociedade? — Madame perguntou novamente. Ela suspirou e finalmente assentiu. — Muito bom. Agora vou te ensinar como ser a flor de plástico perfeita. Tudo o que você precisa fazer é acenar com a cabeça, sorrir e não dizer uma palavra. Posso cuidar de sua aparência física e garantir que você seja notada. Você consegue ficar em silêncio por uma noite? — Consigo — ela respondeu com confiança. — Hum, veremos. Por enquanto, vamos nos concentrar em sua dança e entrada. Eu virei para dar aulas a você por duas horas todas as tardes até que a temporada acabe ou até você prender um homem, o que ocorrer primeiro. Penelope passou o resto do dia treinando para ser uma flor de plástico. Ela ouviu tudo o que Madame tinha a dizer enquanto ponderava sobre alguns fatos estranhos que vieram à tona. Madame tinha os cílios mais longos que ela já vira e, se olhasse com atenção, o resto de suas feições também eram marcantes. Penelope se perguntou por que Madame, que tinha um excelente olho para a estética, distorceria intencionalmente suas feições com a ajuda de ruge e pó. Mas, acima de tudo, ela se perguntou por que Madame precisava disfarçar seu corpo musculoso vestindo uma barriga falsa fortemente acolchoada. ∞∞∞ Já era tarde da noite quando ela entrou na sala e teve a chance de olhar as coisas que Madame levara para ela. Ela olhou para as caixas lindamente embrulhadas e pacotes amarrados com fitas e começou a chorar. — Calma, Srta. Pe. Isso é motivo para chorar? Tantas coisas bonitas. Você deveria estar feliz — Mary disse, aproximando-se para dar um tapinha nas costas de Penelope. — Eu estou feliz. — Não parece. — Não sei por que estou chorando. Eu não costumava chorar — Penelope fungou. — Eu acho que você está apenas cansada, Srta. Pe. A jornada e o salteador, todas aquelas aulas com Madame, e ainda por cima você passou o dia todo cuidando da viúva. — Talvez — ela respondeu incerta. — Ou pode ser a festa... Penelope começou a chorar. Mary pegou apressadamente a caixa mais brilhante da pilha e a balançou na frente de Penelope, que parou de chorar. — As caixas são lindas, Srta. Pe — Mary disse, acariciando a tampa dourada. Penelope assoou o nariz e pegou um pacote. — Você pode ficar com esse, Mary — ela respondeu, desatando os nós de umpacote embrulhado em metros de tecido rosa. — Eu não posso, senhorita. Não comece a dar embora suas coisas antes de ter a chance de usá-las. Se eu vir você entregando caixas e fitas aos empregados, trarei tudo de volta. — Mas eu quero que você fique com a caixa. — Eu sei que você quer, mas às vezes você precisa valorizar as coisas sozinha. Esta é a sua temporada, Srta. Pe, e ela nunca voltará. Deve aproveitá-la até o último instante. — Não posso usar as caixas, Mary, e tenho muitas delas. — Vou levar a caixa, mas só depois que a temporada acabar. — Então você terá que levar duas — ela respondeu sorrindo. O pacote foi finalmente aberto e Penelope puxou dele um tecido bege brilhante. Depois de muita inspeção, elas encontraram um bilhete preso no fundo do lenço. Vestidos chemise — É seda — Mary disse com admiração. — Para usar na cama... As pessoas usam seda na cama? — Penelope respondeu, deixando o material macio escorregar por entre seus dedos. — Tem mais chemises nesta caixa, senhorita. Dez deles... Para que você vai precisar de tantos? Pêssego, rosa escuro, lilás, e este aqui tem botões de rosa bordados na bainha. — O rosa é de renda francesa. Devo experimentar um? Todos estão jantando e, como não posso me juntar a eles por causa de Sir Henry, temos algumas horas. — Eu acho que você deveria. Eles são muito bonitos. — E se eu derramar algo sobre eles? Como vou dormir com isso? Tenho certeza de que vale mais do que meu vestido de manhã mais bonito. — Oh, vá em frente, Srta. Pe. Você precisa viver como gente rica. Não que sua família seja pobre, mas o duque deve ter um castelo no país com masmorras e milhares de baús de tesouro. — Mary, você tem ouvido aqueles viajantes de novo? — Não, senhorita, foi a governanta. Ela lê em voz alta às vezes e eu estava ouvindo uma história maravilhosa de piratas e mulheres. Talvez eu não deva dizer mais nada. — Não pare agora. O livro parece fascinante. Você poderia trazê-lo aqui sem que ninguém veja? — Minha nossa, senhorita. Eu nunca faria uma coisa dessas. Não é para mulheres —Mary disse de modo afetado, ajudando Penelope a tirar o vestido. — Nenhuma das coisas boas é para mulheres — Penelope resmungou, sua voz abafada enquanto Mary experimentava um dos vestidos. Ela correu para o espelho e olhou para seu reflexo. — É... — sussurrou Penelope. — Sim — Mary suspirou. — Indecente. — Bonito. — Mary, isso me deixa quase nua. A cor é a mesma da minha pele. Eu pareço... — Penelope parou. A seda deslizou sobre suas curvas, moldando e favorecendo cada parte dela. Suas pernas pareciam mais longas e sua cintura, fina. Seu cabelo, penteado para o lado em uma trança simples, brilhava à luz das velas. Ela parecia frágil, delicada... e sensual. Seus lábios se separaram como um convite e seus olhos se tornaram lânguidos. — Mary, como vou saber... — ela perguntou, seus olhos fixos em seu reflexo. — Saber o quê? — Como vou saber se estou apaixonada? — ela sussurrou corando. — Quando você estiver apaixonada, Srta. Pe, seus dedos do pé vão enrolar — Mary respondeu confortavelmente. — Meus dedos do pé vão enrolar? — Penelope guinchou. — Sim, senhorita. Penelope olhou horrorizada para sua empregada: — Gosto de ter os dedos dos pés retos, Mary. Eu gosto muito dos dedos dos meus pés! Mary olhou para Penelope, que estava segurando os dedos dos pés, e caiu na gargalhada. O que, ela se perguntou, aconteceria com a pobre Srta. Pe na festa amanhã? Capítulo 15 O dia seguinte amanheceu claro e limpo, ao contrário do humor de Penelope. — Srta. Fairweather, a senhorita mal tocou nos ovos e ontem à noite sua bandeja do jantar foi devolvida intocada. Está tudo bem? — Lady Anne perguntou. O duque fez uma careta, enterrando o nariz ainda mais no jornal. — Sim, Lady Anne. Quero dizer, estou bem, obrigada — Penelope respondeu de modo não muito convincente. — É a festa? — a viúva perguntou. A bondade nos olhos da viúva a deixou tocada. Ela respondeu com sinceridade: — Desculpe, é tão óbvio? Estou apenas preocupada. Quando Madame estava me ensinando, eu estava cansado demais para pensar. Agora tudo o que posso fazer é me preocupar com a festa. Ainda não estou pronta para enfrentar a alta sociedade. Eu gostaria que a Madame estivesse presente... — Ninguém vai à festa — rebateu o duque. — O quê? — gritou Lady Anne. — Mas por que não? — Mamãe está doente. Não posso tê-la cercada por um grande número de pessoas sem espaço para respirar. Ela precisa descansar. E não posso mandar vocês duas sem acompanhantes. Você terá que esquecer as festas até que a nossa mãe melhorar... — Bobagem, estou perfeitamente bem, Charles. A viúva suspirou ao ver a expressão decidida do filho. — Tudo bem, eu não vou... — Mãe! — Lady Anne exclamou. — Ouça-me, Anne. Vou ficar em casa e descansar se você, Charles, acompanhar as meninas à festa e ficar de olho nelas durante toda a noite. — Mas... — o duque balbuciou. — Você já estava planejando ir ao baile de Lady Hartworth. Isso significa simplesmente que você terá que deixar de ir ao salão de jogos. Não é pedir muito. — Eu sou solteira — Lady Anne adicionou piscando para seu irmão. — Eu preciso comparecer para encontrar um marido. Além disso, quando você não cuidou de mim? — Ela acrescentou baixinho para Penelope: — Ele assusta meus pretendentes. O duque lançou um olhar irritado para a irmã: — Tudo bem, vou levar as meninas. — Maravilhoso, a outra coisa que preciso que você faça... — Mãe, já concordamos que se eu acompanhar as moças, a senhora ficará em casa. — Sim, mas isso era para a festa de hoje à noite. Eu estava planejando levar a Srta. Fairweather e Anne às compras amanhã. — Você não vai a lugar nenhum. — Eu sei disso, e é por isso que eu ia dizer para você levá-las às lojas. Anne ficará desapontada se não puder ir, e é sua regra que não permite que ela visite as lojas apenas com sua empregada. — Charles nunca concordará em me levar, mãe. Ele nunca tem tempo para sua irmã mais nova. Ele é muito importante para perder seu tempo com essas ninharias — Lady Anne disse fazendo beicinho. — Eu não disse que não vou levar você, Annie. Lady Anne sorriu, piscando para sua mãe. ∞∞∞ Naquela noite, Penelope estava sentindo os solavancos na excelente carruagem do duque, conduzida por seis belos garanhões cinzentos. Ela estava a caminho do baile. E ficou assustada mais uma vez. Suas palmas estavam pegajosas de suor. Sua liga esquerda beliscava sua coxa, e o espartilho creme dificultava sua respiração. Ela queria colocar a cabeça para fora da janela e ofegar como um poodle francês obeso. Se o fizesse, seu cabelo totalmente trançado, preso no topo da cabeça e decorado com pentes encrustados de joias, se desfiaria. Além disso, ela não acreditava que o duque ou Lady Anne, sentada à sua frente, aprovariam tal conduta. — Você está linda — Lady Anne disse para acalmá-la. Penelope não se acalmou. Madame tinha chegado naquela noite para preparar Penelope pessoalmente. Ela havia feito um milagre. O vestido de cetim creme coberto por um delicado véu fino rose-gold tinha um corte modesto e flutuava ao redor dela como um sonho. Em seus pés, ela usava chinelos cor-de-rosa profundo feitos de um tecido absurdamente macio, e no centro de seus chinelos, minúsculas joias parecidas com rubis estavam agrupadas formando rosas. Não foram adicionados mais enfeites, nem mesmo um único fio de pérolas. Seu pescoço estava nu e cachos emolduravam seu rosto. Seus cílios escurecidos com rímel deixavam seus olhos castanhos brilharem, e os lábios impiedosamente esfregados com açúcar pareciam rosados e úmidos. — Srta. Fairweather, lembre-se das palavras de Madame e seja uma flor de plástico. Tudo ficará bem — Lady Anne a confortou. Depois de um momento, ela acrescentou: — Acho que você deveria respirar. Não está respirando. — Sim, estou bem. Serei uma flor de plástico, a melhor flor de plástico. Na verdade, serei uma parede, nem mesmo uma flor... Penelope foi interrompida quando a carruagem parou bruscamente, fazendo-a projetar-se do assento de couro escorregadio.Ela acabou esparramada no chão da carruagem. Quaisquer resquícios de confiança que ela tinha desapareceram. Ela se sentou no chão agarrando-se ao assento da carruagem e cravou as unhas. Lady Anne teve que separar os dedos e arrastá-la para o ar livre. O duque a ignorou enquanto Lady Anne murmurava algumas palavras reconfortantes e indistinguíveis. Penelope conseguiu chegar à entrada depois de tentar fugir apenas duas vezes. Lady Anne segurou seu braço como se fosse uma cobra apertando sua presa enquanto seus nomes eram anunciados. Pronto. Elas finalmente tinham entrado na temida festa de Lady Hartworth. A festa estava em pleno desenvolvimento. Condes, viscondes, marqueses e vários outros aristocratas, juntamente com suas melhores metades e seus numerosos filhos e filhas, amontoavam-se em uma grande multidão. Turbantes, penas de pavão, echarpes, seios, seda, brocado e perucas se misturavam como uma tigela colorida de salada de frutas que murchava ligeiramente devido ao calor insuportável. Rostos pintados de branco surgiram na frente de Penelope e mal dava para ver a pista de dança mal em meio à massa de corpos. Ela ficou aliviada. Lady Anne estava certa. Qualquer passo em falso de sua parte não seria notado em tal multidão. Quase imediatamente após sua entrada, um homem alto e de aparência distinta com um jovem casal chegaram para saudar o duque. — Srta. Fairweather, protegida de minha mãe. — O duque se voltou para Penelope e disse: — E este é o duque de Arden, Lorde Hamilton e Lady Hamilton. Penelope fez uma reverência elegante. E se lembrou vagamente de algo. Ela já tinha ouvido o nome antes, mas onde? Ocorreu-lhe de repente e ela disse: — Lembro-me de ter lido sobre o senhor, sua graça, em As reflexões. Meu pai recebe uma cópia todo mês. Eu sinto muitíssimo. Soube do fim infeliz de sua irmã. Ela foi assassinada, certo? E por... Uma beliscada afiada em seu braço, dada por Lady Anne, a interrompeu abruptamente. O Duque de Blackthorne estava olhando para ela. O Duque de Arden a observava com interesse, enquanto lorde e lady Hamilton pareciam um pouco escandalizados. Lady Anne murmurou desculpas apressadamente e arrastou Penelope pela sala em direção a um canto discreto do salão. Ela assustou um casal enroscado atrás das cortinas de seda cinza e tomou seu lugar. — Srta. Fairweather — Lady Anne disse com calma forçada — você não pode, absolutamente não pode, discutir assuntos de irmãs assassinadas, irmãos, tias... justamente com um duque... Ah, droga. Apenas evite o assunto de morte, nascimento e qualquer coisa que se interponha. Na verdade, deve ficar em silêncio. O que aconteceu? — Eu estava nervosa, não pensei. Sinto muito. Vou ficar em silêncio — Penelope respondeu envergonhada. — Bem, o duque de Arden é um sujeito decente. Ele é um grande amigo da família, então vai esquecer esse pequeno deslize de sua parte, mas não podemos esperar que os outros sejam tão gentis. Prometa-me, Srta. Fairweather, chega de tagarelice. — Eu não direi mais nem uma palavra — ela jurou. Elas saíram de trás das cortinas e encontraram o duque de Blackthorne esperando por elas. Lady Anne suspirou e sussurrou para Penelope: — Meu irmão fica de guarda sobre mim como uma esfinge ou um dragão de fogo. Somente homens com coragem podem abrir caminho para o meu lado, e infelizmente a Inglaterra está cheia de estúpidos de coração covarde. — Tenho certeza de que ele encorajaria um pretendente digno — sussurrou Penelope de volta. — Ele não acha que tais criaturas existam. A conversa parou momentaneamente quando um dândi esguio pareceu surgir do nada na frente do duque. Surgiu de um minuto para outro. Ele estava vestido de veludo verde de cima a baixo, e seus sapatos eram de um azul celeste brilhante. Seus dentes eram os maiores e mais brancos que Penelope já vira. Ela hesitou, sem ação ao vê-lo. Lady Anne suspirou: — Ele não é lindo? Penelope pensou que o homem parecia um leprechaun comprido, mas quem era ela para reclamar? Se Lady Anne dizia que ele era bonito, era isso o que ele era. Enquanto o duque estava ocupado com o leprechaun alongado, dois outros jovens passaram por ele e gesticularam timidamente para Lady Anne. Lady Anne se iluminou ao ver os homens. Ela abriu o leque e com a mão direita o segurou na frente do rosto. Penelope franziu a testa. Se ela se lembrava das lições de Madame sobre como manusear leques corretamente, então Lady Anne estava secretamente pedindo aos dois homens que a seguissem. Depois de um rápido olhar para o duque, que ainda estava ocupado conversando com o dândi verde, Lady Anne segurou firmemente a mão de Penelope e a conduziu para a mesa de refrescos. Uma vez escondidos entre a multidão e longe da linha de visão do duque, os dois cavalheiros chegaram para se juntar a eles. — Lorde Poyning — Lady Anne disse fazendo uma reverência. Penelope notou o rubor em seu rosto. O outro cavalheiro foi ignorado. Lady Anne só tinha olhos para um homem. Uma tosse discreta de Penelope fez Lady Anne se orientar e ela rapidamente apresentou Penelope. — Lorde Poyning e Lorde Rivers. E esta é a Srta. Fairweather. Lorde Edward Poyning era um homem alto e bonito com cabelo loiro prateado, lábios finos e grandes olhos azuis inocentes. Ele sorriu encantadoramente e imediatamente envolveu Penelope em uma conversa. Ou seja, ele tentou conversar com ela enquanto Penelope tentava ser tímida e retraída. Lorde Anthony Rivers, parado em silêncio de lado, não precisava fazer nenhum esforço para ser uma flor artificial. Ele era uma flor artificial perfeita. Sua natureza tranquila, aparência um pouco acima da média, com cabelos e olhos escuros, faziam que um esquecer que ele estava na sala. Ele quase nunca falava, exceto em frases curtas e cortadas, e muitos o achavam um tédio terrível. — A Srta. Fairweather é extremamente tímida e seus esforços são em vão. Ela não diz uma palavra que seja até o terceiro encontro — Lady Anne disse mal-humorada para Lorde Poyning, que estava tagarelando com Penelope. — Srta. Fairweather, você me lembra uma rosa ao amanhecer, uma rosa nova que está para florescer, suas pétalas enfeitadas e... — Lorde Poyning disse, ignorando Lady Anne e se esforçando para espiar Penelope. Penelope não pôde evitar. Ela riu. Lorde Poyning franziu a testa e sorriu ironicamente. — Ah, vejo que lisonja não funciona com você. Terei que mudar minha tática. Deixe-me ser honesto então, Srta. Fairweather. Eu acho que a senhorita é a moça mais bela da festa. Penelope, ciente que Lady Anne fervia silenciosamente de raiva, disse: — Eu não ri de sua alusão a eu ser um botão de rosa. — Não? Então o que foi? — ele perguntou, examinando rapidamente suas roupas para se certificar de que tudo estava em ordem. Mas Penelope nunca tinha sido submetida ao encanto de um homem bonito, e também ao de um senhor de sangue azul. Ela normalmente era ignorada pela maioria dos homens disponíveis em Finnshire. Portanto, ficou mais abalada do que esperava pelo persistente interesse de Poyning por ela. Era lógico que tais circunstâncias a teriam levado ao limite. Seus nervos só aguentavam a masculinidade até certo ponto. Ela fez o que fazia de melhor. Ela balbuciou. — Não, veja, eu sinto muito, mas o senhor me deixou nervosa. Terrivelmente nervoso porque tenho certeza de que o senhor é um homem perspicaz e... Bem, eu não sei bem o que perspicaz significa, mas Madame me ensinou e eu me esqueci completamente do significado. Não sei por que usei. Onde eu estava? Ah, sim, foi por causa da Madame que ri. Quero dizer, Madame Bellafraunde. Tenho certeza de que já ouviu falar dela. Bem, eu sou uma criatura tímida e retraída, nem mesmo uma flor de plástico, mas uma lagarta tímida se escondendo nas folhas. Eu odeio falar. Na verdade, eu o desprezo por causa de meus nervos delicados. Madame me disse para imaginar todo mundo com calções rosa para acalmar esses nervos e tornar a noite totalmente suportável. É por isso que ri, entende? Ah, não, o senhor não precisa. Bem, para ser sincera, pensar no senhor, LordePoyning, tão elegante em seu casaco de noite cinza, vestindo calções rosa por baixo é tão ridículo... Uma profunda gargalhada veio de trás de Penelope, interrompendo sua fala no meio do caminho. Ela se virou e viu o duque enxugando os olhos e rindo. Ele estava olhando para ela encantado, sem dúvida porque a havia escutado. Seus olhos se suavizaram e ele parecia jovem e despreocupado pela primeira vez. O sorriso malicioso em seu rosto fez o estômago de Penelope revirar. Uma adorável garota loira delicadamente vestida em chiffon cor de pêssego prendeu-se à manga esquerda do duque. Ele olhou para a recém-chegada, o sorriso ainda presente em seus lábios. — Charles, eu nunca vi você rir assim. Eu tentei tantas vezes fazer você sorrir. Você nunca sorri. O que foi tão divertido? — a garota perguntou à manga esquerda. Penelope desviou o olhar, sentindo-se como se estivesse se intrometendo em um momento privado. Ela estava intensamente curiosa para saber a identidade da garota que ousou chamar o duque por seu nome e ficou mais perto dele do que o apropriado. Ela procurou Lorde Poyning e Lorde Rivers e descobriu que eles haviam se afastado. — A Srta. Fairweather o fez rir — disse Lady Anne com irritação, olhando a garota agora presa à manga direita do duque. O duque parou de sorrir e a garota se acalmou. Seus olhos percorreram o ambiente e finalmente pararam em Penelope, que se encolhia. Penelope observou os olhos verdes ficarem frios. Sua expressão doce desapareceu brevemente e revelou um sorriso cruel. Ela nunca teria imaginado que uma garota tão bonita com um nariz pequeno e fofo pudesse parecer tão fria. A menina olhou para ela de cima a baixo e depois de novo. Em menos de um minuto, Penelope foi julgada, sentenciada e depois considerada sem importância. O duque voltou a parecer sombrio e zangado, uma linda garota zombava de Penelope e Lady Anne estava aborrecida. A festa parecia estar indo muito mal. Penelope suspirou. Isso é o que ela entendeu. Era assim que deveria ser. Roupas bonitas, carruagem elegante, pessoas de sangue azul e belos senhores querendo conversar com ela eram coisas demais para suportar em um único dia. O mundo se endireitou e ela agora estava em uma situação que entendia. Por que, ela se perguntou, não poderia ser apresentada a tudo pouco a pouco, ficando cheia como um balde enfiado embaixo de uma torneira aberta? — Srta. Fairweather — Lady Anne sussurrou, agarrando o braço de Penelope. — Vamos até as cortinas de seda cinza. Eu sei, eu sei — Penelope disse, já seguindo para a saída da festa. Mais uma vez, um casal apaixonado foi afastado e o sermão de Lady Anne começou: — Como você pôde? Como você pôde dizer a Lorde Poyning, logo para ele, que você o estava imaginando em calções cor-de-rosa? Eu nunca vou te perdoar. Ah, o que ele vai pensar de mim? — ela lamentou. — Sinto muito — Penelope respondeu com tristeza. — Srta. Fairweather, eu acho que é melhor se partirmos. Não tenho certeza de quantas pessoas ouviram o que disse. Posso fingir que estou com dor de cabeça e o duque nos colocará na carruagem em pouco tempo. Também precisamos conversar com Madame sobre o que fazer com seu tique nervoso. — Eu acho que seria o melhor — Penelope respondeu desanimada. — Bem, então vamos nos despedir de Lady Hartworth e encontrar Charles. A festa foi um pouco desanimadora. Eu sei que você esperava muito, mas temos toda a temporada. — Lady Anne deu um tapinha no ombro dela sem entusiasmo. — Lady Anne — disse Penelope, impedindo-a de puxar a cortina de lado. — Quem era aquela garota, aquela com o duque? — Oh, aquela era Lady Lydia Snowly, a noiva do duque — respondeu ela, voltando para o salão de festa. Penelope ficou mais um momento olhando para o pano cinza. — A noiva do duque, Lady Lydia Snowly — disse ela em voz alta. A música, as risadas e o barulho das pessoas conversando na sala de repente a fizeram querer chorar. Sua primeira festa tinha sido um desastre total. Capítulo 16 Penelope esbarrou no duque do lado de fora de seu escritório. — Não gosto de você — disse o duque, segurando o braço dela com dois dedos e ajudando-a a se endireitar. — Eu te desprezo — retrucou Penelope, sentindo-se magoada. Ela sabia que ele não gostava dela, mas não foi muito gentil da parte dele dizer isso na cara dela. Ela afastou a mão dele e deu um passo para trás. — Por que você não vai embora? Penelope encolheu os ombros. — Volte para Finnshire — ele ordenou. — Eu gosto de Londres, sua graça. O senhor é um excelente anfitrião — ela disse educadamente. — Você é surda, mulher? Eu pedi que você voltasse para sua aldeia — ele rosnou irritado. — Sua mãe me quer aqui, sua graça — Penelope respondeu docemente. — Eu não quero você aqui. Eu não quero ver seu rosto irritante todos os dias! — Bem, então o senhor pode ir embora — disse Penelope ficando irritada. — Esta é a minha casa — ele rugiu. — Fale com sua mãe então e diga a ela que o senhor me quer fora desta casa — Penelope rebateu, soprando um cacho de cabelo para longe do rosto. — Estou avisando, Srta. Fairweather, quero você fora desta casa ou as coisas vão ficar feias. Você sabe que eu sou o duque e... Você vai parar de soprar esse maldito cabelo? — ele disse, olhando para o cacho brilhante — Fuuu, fuuu, fuuu — Penelope zombou. — Mas o que... — disse o duque, olhando para ela boquiaberto. — Estou soprando o cacho do meu rosto. Fuuuu... Está bem? É meu cabelo. É minha respiração. Eu vou soprar se eu quiser... — Pare... pare de falar por um momento — o duque trovejou, agarrando seu ombro. Ele estendeu a mão até o cacho e o prendeu atrás da orelha de Penelope. Atordoada, Penelope olhou em seus olhos. Ele olhou de volta. As coisas ficaram bem quietas. Os olhos de Penelope se desviaram para o dedo indicador direito do duque, ainda tocando sua orelha esquerda. Os olhos do duque também deslizaram para o dedo indicador direito, ainda tocando sua orelha esquerda. Os dois se separaram. Evitando trocar olhares, eles se viraram e partiram em direções opostas... E se encontraram de novo um segundo depois perto do panteão negro do duque. Todos iam fazer compras juntos. ∞∞∞ Penelope, abrigada no panteão preto lindamente laqueado do duque, saltitou pelo caminho para as lojas. Ela estava usando um vestido parisiense azul-claro feito de musselina e bordado com babados brancos. Gemas azuis foram tecidas em seu cabelo e fitas azuis adicionadas ao seu chapéu. Nos pés, ela usava botinhas cinza- claro. Naquela manhã, Mary a havia besuntado generosamente com Tintura Real de Polpa de Pêssego e perfumado seu cabelo com Amor de Lavanda de Maharani. Ela se sentia, cheirava e parecia uma dama. Ela ficou infeliz ao notar que as janelas da carruagem estavam bem fechadas, impedindo-a de observar as ruas em plena luz do dia. Se as venezianas fossem abertas, ela foi informada, não demoraria nada para que ficassem cobertas de lama negra salpicada pelas rodas das carroças, carretas e outras carruagens que passavam. Embora as venezianas ocultassem a visão de seus olhos ansiosos, eles não podiam fazer nada a respeito dos sons que tomavam seus ouvidos. Rodas barulhentas em paralelepípedos, sinos de igreja batendo, crianças gritando, músicos desafinados dedilhando instrumentos mal afinados, floristas e leiteiras cantando, marinheiros, piratas e ladrões gritando palavras criativas, e vendedores ambulantes gritando suas mercadorias, faziam barulho nas ruas que alimentavam a imaginação de Penelope. Ela recostou-se ouvindo tudo com deleite. Anne tampara os ouvidos com lã e o duque fechara os olhos fingindo dormir. A carruagem serpenteava em seu caminho, virando bruscamente toda vez que alguém cruzava a estrada. Ela subia e descia nos buracos com as rodas amparadas pelas molas. Penelope logo ficou impaciente. O congestionamento nas estradas estava terrível, tornando seu progresso lento, e o barulho lá fora parecia muito excitante. Ela mal podia esperar para sair e explorar. Ela se perguntou se poderia arrancar a lã das orelhas de Anne, mas pensou melhor.Em vez disso, ela perguntou ao duque quanto tempo demoraria até que eles chegassem. Um músculo se contraiu próximo a sua boca, a única indicação de que ela havia sido ouvida e ignorada. Ela olhou para ele com irritação. Como uma mulher bonita como Lady Lydia poderia querer se casar com um homem como ele? Ela continuou olhando para ele, esperando que ele sentisse seus olhos nele e respondesse sua pergunta. Por um momento ela pensou sobre este último pensamento. Como as pessoas sabiam quando estavam sendo observadas? Foi um pouco estranho e mais do que assustador. Os olhos não tinham raios como o sol, que cutucava uma pessoa no pescoço para alertá-la sobre a consideração de outra. Ela semicerrou os olhos. Se houvesse raios aquecidos saindo de seus olhos, talvez semicerrar os olhos fortaleceria seu efeito e abriria um buraco na esplêndida camisa branca do duque. Estranhamente, ela não queria olhar diretamente para o rosto dele. Duque adormecido ou não, ela não teve coragem. A camisa branca foi submetida a toda a sua atenção, advertências silenciosas e sermões mentais. Ela estava no processo de mostrar a língua para a peça infernal da roupa quando a carruagem parou. Eles finalmente alcançaram seu destino. Mayfair. O duque saltou e foi seguido por Anne, que não parava de resmungar sobre querer ir para Cheapside e Fleet Street. Penelope correu atrás de Anne e colocou a cabeça para fora da carruagem. Ela rapidamente saltou para dentro de novo. Ela avistou quatro rostos manchados de fuligem olhando maliciosamente para a carruagem do outro lado da rua. Anne a persuadiu a sair, e o lacaio a ajudou a descer direto em um buraco. A estrada, ela ficou surpresa ao notar, era pavimentada, esburacada e larga. Duas ou mais carruagens poderiam facilmente ir lado a lado. Do outro lado da rua, havia filas e mais filas de lojas reluzentes projetando-se para a rua. As vitrines brilhavam à luz do sol e a área ao redor das lojas era mantida limpa. Penelope, Anne e o duque saltaram as poças, contornaram as crianças correndo e evitaram as carruagens, cavalos e carroças que passavam para chegar ao lado bonito da rua. Penelope parou na frente de quase todas as vitrines. Um grande sapato prateado brilhava do lado de fora. Uma tesoura de filigrana dourada estava pendurada na frente da oficina das costureiras. Montes de uvas espanholas, pêssegos exuberantes, de laranjas e maçãs acenavam das barracas. O mais bonito era a confeitaria decorada em tons pastel e recheada de bolos e biscoitos lindamente confeccionados. Ela ficou parada na frente da porta, sentindo o cheiro de massa fresca, café e canela. Anne pegou sua mão e a levou para uma loja no final da rua. Era um estabelecimento discreto; cinza e opaco por fora com uma sólida porta verde oliva. Apenas a placa acima indicava o que realmente era. Beany & Sons, 23 Winmore Street, Mayfair Loja de xale e linho oferecendo o melhor da Inglaterra e do mercado estrangeiro Dentro da loja fervilhava de mulheres clientes e homens operários ocupados. Era uma sala enorme com sofás e assentos almofadados estrategicamente colocados em frente a grandes mesas de madeira. Os vendedores puxaram rolos gigantes de tecido em diferentes cores, materiais e texturas e os colocaram sobre a mesa para as mulheres inspecionarem. Centenas desses rolos foram colocados nas prateleiras de cada parede, de cima a baixo. Champanhe, vinho, chá e café eram servidos de forma liberal e gratuita. Anne se acomodou em uma cadeira, pediu uma xícara de café e começou a trabalhar. O duque, depois de verificar que sua irmã não sairia do lugar por pelo menos uma hora, partiu para tratar de alguns negócios. Penelope já estava entediada. Ela não tinha ideia de que o brocado estava fora de moda e que a musselina dourada seria a próxima novidade. Além disso, ela tinha apenas cinquenta libras consigo, que não podia gastar com frivolidades. No entanto, ela se convenceu a levar um quilo para o caso de algo realmente maravilhoso chamar sua atenção. Os bolos na confeitaria tinham feito exatamente isso e seu estômago roncava, fazendo com que ela quisesse sair e sentir o cheiro lá fora um pouco mais. Depois de ouvir um vendedor tentando vender a ela seus metros de seda marrom horrível, ela desistiu. — Lady Anne, estou com fome. — Hmm, o que você acha desta pashmina prateada? Nunca senti nada tão macio em minha vida. — Parece cara. Posso descer na confeitaria? Estarei de volta em cinco minutos. — Hmm, você sabe como testar um xale de boa qualidade, Srta. Fairweather? Tire um anel de seu dedo e, em seguida, juntando o xale, puxe-o pelo orifício no anel. Se o xale inteiro sair pelo minúsculo espaço, então vale a pena comprar — disse ela demonstrando. — Que fascinante. Agora, posso ir? Eu não vou demorar. — Sim, sim... Você pode me mostrar o preto deste? — disse Anne, meio ouvindo Penelope, os olhos fixos nas peças. Penelope saltou da cadeira e correu porta afora. Ela sentiu o fedor de Londres e suspirou de prazer. Afinal, longe da loja chique e abafada. Ela rapidamente foi até a confeitaria e parou do lado de fora. Seus olhos estavam grudados no bolo de creme gigante decorado com pétalas de rosa cristalizadas e jasmins brancos. Sua boca se encheu de água, mas ela hesitou sabendo que os preços seriam exorbitantes. Deveria economizar seus centavos para algo que duraria, por uma fita ou duas, talvez? Um puxão rápido em sua anágua a fez olhar para a frente. Um garoto estava sorrindo a poucos metros dela segurando o que parecia ser sua bolsa de cordão. Ela olhou para ele confusa. Certamente não era dela. Ela havia costurado cuidadosamente a bolsa no bolso escondido dentro da saia. Como o garoto conseguiu extraí-la em um instante, e então teve a audácia de mostrar a ela seu trabalho bem-sucedido? Uma rápida verificação confirmou a habilidade do meliante e em um instante ela estava atrás dele. Ela correu pela rua, as saias voando e os tornozelos à mostra. Para o inferno com o decoro, ela pensou. Duas libras inteiras estavam naquela bolsa. Além disso, a bolsa era da Madame e, portanto, cara. Ela correu atrás do diabrete sujo de fuligem, saltando sobre buracos, evitando os vendedores de gim e passando por baixo dos braços de funileiros e ladrões. Ela claramente cruzou a elegante Mayfair e alcançou as partes mais sombrias da cidade. O garoto desapareceu em uma pequena pista à direita e Penelope hesitou. Ela deveria ou não?, ela se perguntou. O menino espiou pela esquina e mostrou a língua para ela. Agarrando as saias, ela não perdeu mais tempo em pensamentos e seguiu o garoto pelo beco escuro de Londres. Capítulo 17 A “Estrada do Gin 24”, como era apropriadamente chamada, era quente, úmida, sem sol e fedorenta. Alguns gatos estavam sentados limpando as patas nos degraus de trás de vários edifícios cinzentos amontoados em ambos os lados da pista. Uma dúzia de garotos malvados e sujos com idade entre nove e quinze anos se esparramavam pela rua imunda. Alguns estavam sentados jogando bolinhas de gude. Outro estava sentado com as costas contra a parede, mastigando o que parecia ser um pedaço de madeira. Alguns estavam fumando, e o ladrão que havia roubado sua bolsa estava sentado no topo de uma montanha de sacos cheios de lixo. Ao contrário do clamor e da multidão de Mayfair, ali estava tudo quieto com apenas alguns personagens obscuros preguiçosos. De repente, ela não estava se sentindo corajosa, mas fez o possível para parecer estar. — Ele roubou minha bolsa — ela anunciou ao grupo com sua voz mais altiva. Ninguém sequer olhou para ela, exceto o pequeno ladrão que estava sentado olhando para ela como um macaquinho curioso. Uma gargalhada de uma das crianças fez com que ela se sobressaltasse. Nesse ponto, outro dos demônios mais jovens a notou. — A senhora comprou lindas luvas e sapatos — disse ele, avançando em sua direção. Penelope brandiu sua sombrinha como uma arma. Um golpe e o garoto gritaria chamando a mãe, ela pensou. — Joe, veja moça bonita. Joe apareceu por trás dos sacos de lixo. Ele não era uma criança,mas um homem adulto com barba curta e braços musculosos. Sua sombrinha não daria conta daquele homem. Ela avançou para trás de repente, apavorada. Sabia que tinha se perdido na corrida louca para pegar o ladrão, mas certamente se pudesse voltar para a rua movimentada, alguém a ajudaria. Os olhos do homem brilharam e ele passou a língua pelos lábios grossos. Seus olhos não estavam em suas luvas ou sapatos, mas nela. Ela se virou para fugir e se viu cercada pelos meninos. Eles silenciosamente formaram um círculo ao redor dela, prendendo-a. Ela poderia lidar com uma criança, possivelmente duas, mas não quinze. Segurou a sombrinha apontando para eles a parte pontiaguda. Ela lentamente girou tentando encontrar a criança menor para afastar. O grupo se estreitou, deixando-a sem espaço para sair. Uma breve oração escapou de seus lábios. Ela ouviu a voz de seu pai repreendendo-a por todas as suas decisões precipitadas e a voz zombeteira de sua madrasta avisando-a de que suas ações impensadas um dia a levariam a um fim horrível. Foi isso o que ela se perguntou? Aquele era o fim feio? O homem estava perto dela agora, com o cheiro de gim forte em seu hálito. Ela observou como se estivesse em algum lugar distante quando ele levantou a mão. Foi tudo tão lento, ela pensou confusa, como se o tempo tivesse perdido a velocidade. Sua visão tornou-se clara e precisa. Ela viu um garoto coçar o nariz pelo canto do olho, outro arrastar os pés em algum lugar, e a grande mão manchada de tabaco do homem estava prestes a tocá-la. Ela fechou os olhos. — Solte-a — disse alguém atrás dela. Era uma voz que ela nunca tinha pensado que ficaria feliz em ouvir. Uma voz de ordem, forte e profunda. Seus olhos se abriram, ela se virou e viu o duque parado bem atrás dela. O homem tentou agarrá-la, mas o duque já a segurava pela cintura e a colocou atrás dele. — Vamos embora e não informarei as autoridades — sugeriu o duque. O homem zombou: — A moça é minha. — Caro amigo, adoraria entregar-lhe esta jovem com todas as minhas condolências, acredite em mim. Mas minha irmã e minha mãe arrancariam minha cabeça. Veja, ela pertence a elas — o duque rebateu. O homem fez uma pausa, seus olhos avaliando o duque. Em uma fração de segundo, a decisão foi tomada. — Rapazes, não podemos deixar essa coisa boa escapar — o homem berrou, levantando a mão para golpear o duque. O duque pretendera reagir. Na verdade, ele ergueu a mão para conter o golpe, mas Penelope, agora sem medo com o duque ao lado dela e encorajada pela voz retumbante do homem, ergueu a sombrinha primeiro. Ela golpeou o homem na cabeça e depois entre as pernas. O homem caiu e as crianças se espalharam. E assim a disputa foi vencida e ela começou a chorar. — Você acha que ele está morto? — ela choramingou. O duque respirou fundo. — Os garotos podem ter ido chamar mais amigos deles. Precisamos voltar para Mayfair e rápido. Agora corra! Penelope o ignorou e se moveu para tocar o homem caído no chão. O duque agarrou seu braço para girá-la e tirá-la dali. — Quando eu disser para correr — disse ele com os dentes cerrados — você corre. Penelope correu. Eles finalmente chegaram à carruagem do duque, e ele abriu a porta depressa e a empurrou para dentro. O motorista deu a volta e o duque deu-lhe instruções para dirigir se algum estranho se aproximasse da carruagem. Ele então mandou uma mensagem para sua irmã esperar na loja. Penelope ficou sentada com a cabeça entre os joelhos tentando recuperar o fôlego e ouvindo as instruções do duque. Ele parecia bem calmo, ela pensou com inveja, e nem um pouco sem fôlego. — Obrigada — ela disse com dificuldade, a cabeça ainda presa entre os joelhos. Ele a ignorou e começou a procurar algo embaixo dos assentos. Quando ela se endireitou, ela o viu guardar uma pequena pistola no bolso. — Eu agradeci. Ele não respondeu. — Bem, eu estou agradecida. Você me salvou daquele homem podre. Mas você poderia tê-lo cutucado com o dedão do pé para pelo menos certificar-se de que não o matei. Eu posso ter matado o homem e não saber disso. Para o resto da minha vida, vou passar para o outro lado da rua quando vir um padre ou um corredor. — Silêncio! Por um momento, fique em silêncio. Como você pode ser tão ridiculamente estúpida? Você tem alguma ideia do que o homem estava prestes a fazer? Tem? Sua garota tola, no final você preferiria estar morta... Um soluço de Penelope o deteve. Ela sabia que havia cometido um erro terrível, terrível. Aqueles poucos momentos na viela dariam a ela pesadelos para o resto da vida. O rosto malicioso daquele homem estava impresso em sua mente e ela se sentiu suja e enojada. O duque viu a mudança em sua expressão e o arrependimento genuíno em seu rosto. Ele se aproximou e se sentou ao lado dela. Seus braços deslizaram ao redor de seus ombros. — Sinto muito. Sempre me senti muito segura em Finnshire. Nunca entendi como Londres era perigosa. Eu persegui aquele garoto por duas libras, mas duas libras não pagam a minha vida — ela gritou, as mãos agarrando a camisa dele e o rosto enterrado no peito dele. — O homem não estava morto. Eu o vi respirar. Está tudo bem. Nada aconteceu. Você está segura agora... shhh — ele a confortou, abraçando-a. — Sinto muito. Estou sempre deixando você com raiva, não sou boa o suficiente para a alta sociedade, e minha madrasta me odeia. Não posso voltar para a casa do meu pai, sinto falta de Lady Bathsheba e Anne está esperando sozinha na loja — lamentou. — Anne vai ficar bem. Ela ficará feliz por ter mais alguns minutos para fazer compras. Você verá Lady Bathsheba assim que chegarmos em casa. Quanto à sua madrasta, nada posso fazer a respeito, mas você terá uma boa sogra. Ela vai te amar, tenho certeza. Penelope piscou para afastar as lágrimas e ergueu a cabeça para olhar para o duque. — Vai mesmo? Minha sogra vai me amar? — Vai mesmo — ele respondeu, sorrindo suavemente. — Promete? — Ela vai te amar de verdade, como sua própria mãe teria feito. — Como você sabe? — Eu só sei. Penelope procurou seus olhos. O brilho de luz passando pelas janelas fechadas escondeu a maior parte da expressão do duque. Londres, ao que parecia, ficara em silêncio. Pela segunda vez naquele dia, o tempo pareceu parar. Tudo o que ela podia ouvir era seu coração batendo forte, e tudo o que ela podia sentir era a mão dele apertando seu cabelo. Ele abaixou a cabeça e tocou brevemente os lábios dela com os seus. Uma batida na porta da carruagem os separou. Ele praguejou. O motorista disse algo, mas Penelope não conseguiu ouvir uma palavra. Seus batimentos cardíacos abafaram todos os outros sons. O duque a beijara brevemente, mas lábios tocando lábios significavam um beijo. Suas mãos cobriram seu rosto e seus olhos se fecharam. — Toma, coma um pouco — ordenou o duque. Sua voz parecia calma e controlada como se o beijo nunca tivesse acontecido. Ela abriu os olhos e via uma fatia grossa do bolo no qual estava de olho na confeitaria. Ele segurava um copo de limonada na outra mão. — Como você sabia? — Se ele podia fingir que o momento não havia acontecido, então ela também podia. — Eu vi você cobiçando o bolo quando passamos mais cedo. Não pude deixar de notar — respondeu ele, parecendo um pouco envergonhado. — Não, eu quis dizer como você sabia onde eu estava? — Um conhecido me atrasou ao atravessar a rua. Eu vi o garoto pegar sua bolsa e então vi você correndo atrás dele. Eu o segui, mas o perdi de vista pouco antes de você virar para a viela. Achei que você devia ter seguido em frente, mas depois de um minuto, não encontrei nenhum vestígio de você, então voltei e me arrisquei indo para a rua. Penelope assentiu. O bolo não parecia mais apetitoso, mas ela bebeu a limonada. O duque pegou o copo dela e, depois de certificar-se de que ela ainda não entraria em choque, disse: — Só vou dar uma palavrinha com o motorista. Eu estou lá fora. Ninguém vai entrar. Veja, estou deixando a pistola aqui apenas para que se sinta segura. Tudo bem? Não estava bem, mas Penelope sorriu bravamente. Ele a observoupor um momento e depois inclinou a cabeça para roçar os lábios nos dela mais uma vez. E então se foi. Ela se sentou atordoada, os breves beijos do duque extinguindo todos os outros pensamentos. Ela não sabia o que fazer com eles. Tinha sido gentileza da parte dele ou pena? Ou era simplesmente a situação que o compelia a fazer aquilo? Afinal, ela também havia perdido a cabeça por um momento. Ela não soube quanto tempo ficou sentada na carruagem escura. Podem ter se passado minutos ou horas até a porta se abrir e Anne e o duque entrarem. Vendo a expressão preocupada de Anne, as coisas se encaixaram. O duque a beijara para lhe dar algo em que pensar além daquele homem na viela. Ele disse a ela que estava saindo para falar com o motorista, quando na verdade foi buscar a irmã na loja. Ele mentiu para que ela se sentisse segura e sabendo que ela não estava em condições de enfrentar a rua tão cedo. Ele pedira ao motorista que lhe comprasse aquela fatia de bolo e deixara com ela a única pistola. Ela abraçou Anne com força, seus olhos no duque. Não queria pensar nele como uma pessoa gentil, atenciosa ou carinhosa. Ela desejou que ele fizesse algo, qualquer coisa, para fazê-la odiá-lo novamente. Capítulo 18 A carruagem parou na frente da Mansão Blackthorne. Anne se contorceu no assento de couro e o lacaio uniformizado a ajudou a descer da carruagem. Um momento depois, ela espiou de novo dentro da carruagem e sibilou para Penelope. — O que é isso? — Penelope perguntou, tentando espiar pela janela. Anne agarrou a cabeça de Penelope e a forçou a se abaixar. — Durante anos, o Dr. Johnson insistiu para que meu avô pegasse um pouco de ar fresco. Bem, ele finalmente decidiu seguir o conselho do bom médico. Ele está sentado no jardim, e você terá que passar por ele para entrar na casa... Você não pode passar por ele, eu não vou permitir. Fique na carruagem — Anne ordenou. — Mas eu estou com calor, Lady Anne. Além disso, não sabemos quanto tempo Sir Henry vai ficar sentado aí. E se demorar horas para ele sair? — Ele não ficará muito tempo — Anne insistiu. — Como você pode saber disso? Os assentos de couro já estão queimando minhas saias e agora minhas nádegas... — Oh, tudo bem então — ela bufou. — Vou conversar com o avô. Tente esgueirar-se em cinco minutos. Ah, e lembre-se de se abaixar bastante e usar os arbustos a seu favor. Penelope esperou cinco minutos ou pelo menos o que esperava que fossem cinco minutos e saiu furtivamente da carruagem. Caminhou na ponta dos pés até o arbusto mais próximo e se escondeu atrás dele. Separou os ramos e espiou. Anne estava bem na frente de Sir Henry e gesticulava freneticamente. Se Penelope havia entendido bem a expressão de Sir Henry, o velho parecia bastante alarmado com o entusiasmo da neta. Ele estava inclinando o corpo o mais longe que podia de Lady Anne, e seus olhos percorriam o jardim ansiosamente. Penelope sentiu uma pontada de pena de Sir Henry. Lady Anne podia ser extraordinariamente formidável, pensou ela, fugindo da roseira brava e na direção da roseira. A roseira revelou-se esparsa e espinhosa. Mal a escondeu. Ela nervosamente olhou para Lady Anne, que agora estava fazendo o máximo que podia para distrair seu avô. Ela parecia estar representando uma cena em que era uma cavaleira em cima de um cavalo empunhando um chicote. Sir Henry estava agarrado à cadeira, os olhos arregalados e um cachimbo esquecido e pendurado na boca. Penelope afastou os olhos do espetáculo e examinou a paisagem. Ela descobriu que o próximo arbusto de tamanho decente estava a uma boa distância. Se Sir Henry acabaria por vê-la, seria agora. Ela se preparou para a corrida quando uma mão agarrou seu braço. Ela viu o duque sorrindo para ela. Ele estava de bigode. — Estou apenas tentando chegar à casa sem ser vista por Sir Henry. — Deixe-me ajudá-la, Srta. Fairweather — ele respondeu, puxando seu braço e puxando-a para longe dos arbustos e pelo caminho. — Não, ele vai me ver! — Exatamente o que pretendo. Venha agora — ele disse alegremente. — Mas você prometeu a sua mãe. — Eu tinha prometido não contar a ele sobre você. Não vou dizer a ele, vou mostrar a ele — disse ele, triunfante. — Srta. Fairweather — Sir Henry chamou do outro lado do jardim. Penelope engessou um sorriso no rosto. Ela queria um motivo para odiar o duque e ele lhe dera um. Ela atravessou o gramado o amaldiçoando silenciosamente. — Você disse que eu terei uma boa sogra. Como vou encontrar uma se você me mandar para Finnshire? — Sua respiração ficou presa no momento em que as palavras saíram de sua boca. O que aconteceu logo depois de ele dizer aquilo pairou pesado no ar. Ele ficou quieto por um momento, seus olhos a evitando. Quando falou, seu tom era leve. — Eu disse que você terá uma boa sogra e terá... em Finnshire. Penelope resmungou algo rude baixinho, fazendo o duque rir. O duque a deixou sem escolha. Ela teria que enfrentar Sir Henry. Com o canto do olho, ela percebeu a viúva correndo pelo caminho do jardim. Penelope diminuiu um pouco a velocidade para dar tempo de alcançá-los. Agora todas as suas esperanças dependiam da habilidade da viúva de convencer seu pai a deixá-la ficar. Apertando a sombrinha com força, ela respirou fundo antes de chegar perto do velho. — Sir Henry — disse Penelope fazendo uma reverência. — Srta. Fairweather — Sir Henry inclinou a cabeça. Anne agarrou o braço do irmão e cravou as unhas com força. — Vovô me informou que você insistiu que ele se sentasse aqui neste mesmo lugar neste horário porque você tinha algo especial para mostrar a ele. Em um dia, você conseguiu fazer algo que o Dr. Johnson não conseguiu em quinze anos. O que há de tão especial hoje, Charles? — Sim, eu fiz isso — respondeu ele, satisfeito. — Sim, o que você queria mostrar a ele? — a viúva perguntou, juntando-se à festa. — Isto — disse o duque, gesticulando para Penelope. Sir Henry, semicerrando os olhos, olhou para o duque e depois para Penelope. Depois de um momento de contemplação, ele sorriu. — Algo especial ou devo dizer alguém especial? Parabéns, meu rapaz. Acho que ela é simplesmente encantadora. Lembro-me de como ela estava encantadora na mesa de jantar naquele dia. Ela usava a quantidade adequada de saias de baixo, e depois de apenas uma taça de vinho, ficou louca — ele riu. — Que rosto maravilhosamente delicado. É verdade que suas habilidades de conversação são um pouco deficientes, mas quem precisa de uma esposa que fale? Pelo menos ela entende a importância do casamento. É difícil encontrar uma joia assim... Se eu fosse sessenta anos mais jovem... Quando é o casamento? Horrorizado, o duque abriu e fechou a boca como um peixe. Anne começou a rir. — Eu não vou me casar com ela — ele rugiu. — Então por que ela é especial? Você disse que ela era especial e me obrigou a vir e me sentar neste calor terrível porque era importante. É melhor que seus motivos valham a pena, garoto. Agora diga. O que você queria me dizer? O duque olhou horrorizado para o avô. Então voltou um olhar suplicante para sua mãe. Ela encolheu os ombros em resposta. Ele foi impedido de responder quando um ataque de tosse tomou Sir Henry de repente. Eles esperaram e então esperaram um pouco mais até que o acesso de tosse terminasse. E justamente quando Penelope começou a ficar alarmada, tudo ficou quieto. Parecia que Sir Henry finalmente havia dado o último suspiro. O duque enfiou cautelosamente o dedo sob o nariz do avô para verificar. Sir Henry abriu os olhos de repente, prendeu o dedo do duque entre os dentes e mordeu. Com força. Os olhos de Sir Henry esperaram por uma resposta. Se o duque queria seu dedo de volta, ele teria que inventar algo bom. — Tudo bem, tudo bem, estou pensando em me casar com ela. Queria sua opinião, mas nada é certo — balbuciou o duque. Sir Henry soltou o dedo e sorriu: — Bem, então você tem minhas bênçãos. A próxima vez que eu deixar a Mansão Blackthorne, será para assistir ao seu casamento com essa moça. Depois disso, Sir Henry, corado pelo sol e assobiando uma melodia alegre,foi levado de volta para dentro. Depois de alguns momentos de silêncio desconfortável, a viúva disse: — Você está noivo de Lady Lydia Snowly. Agora você também está noiva da Srta. Fairweather? — Eu não estou. Não consegui pensar em mais nada para dizer a ele. Achei que ele nunca mais iria querer vê-la em Blackthorne. Como eu saberia que o homem louco realmente gostou dela? Estou convencido de que meu avô ultrapassou o limite, mãe. — Sem dúvida, Charles. Mas agora o que você vai fazer? — a viúva perguntou. — Faça Lydia usar um longo véu opaco durante o casamento. Depois do casamento, o avô não poderá fazer muito — sugeriu Anne. — Estou certo de que o avô logo se esquecerá da Srta. Fairweather — respondeu o duque com firmeza. — Eu duvido disso. Afinal, a Srta. Fairweather vai se encontrar com ele na hora do jantar todos os dias a partir de agora — Anne disse alegremente. — Tudo bem, o véu é — ele disse, antes de sair furioso. — Bem, é isso. Pelo menos você pode se juntar a nós para jantar agora. É um peso tirado da minha mente — disse a viúva satisfeita. Penelope sorriu e acenou com a cabeça. No entanto, no fundo de sua mente estava a noção de que o duque não desistiria. Cada obstáculo em seu caminho o fazia odiar cada vez mais a presença dela em sua casa. Era apenas uma questão de tempo até que o duque vencesse. Como poderia a Srta. Penelope Fairweather de uma pequena vila chamada Finnshire competir com Charles Radclyff, o Duque de Blackthorne? ∞∞∞ Mais tarde naquela noite, Penelope e Lady Anne estavam do lado de fora da casa de Lady Virginia olhando para uma maçaneta ornamentada que lembrava a cabeça de um leão. — Você se lembra de tudo que a Madame disse a você ontem? — Lady Anne perguntou. — Sim, Lady Anne — Penelope respondeu, engolindo o medo. — Nada vai dar errado, espero? — Eu prometo pela minha honra. Ninguém vai notar minha presença. — Bom, então vamos considerar esta como sua primeira reunião social e esquecer o que aconteceu antes. — Sim, Lady Anne — ela respondeu, corajosamente avançando em direção à entrada. — Srta. Fairweather — o formidável mordomo anunciou. Era uma pequena reunião com não mais de quarenta pessoas convidadas para o jantar. Lady Virginia correu para cumprimentá-los. — Srta. Fairweather — o duque apresentou. Penelope sorriu e fez uma reverência elegante. A anfitriã rapidamente examinou o delicado e mais importante vestido de prata de Penelope e as pérolas genuínas presas em seu cabelo. Sua sobrancelha se ergueu em aprovação. Após uma breve, mas calorosa recepção, Lady Virginia partiu. — Isso foi bem feito — Anne elogiou. — Obrigada — Penelope respondeu satisfeita. Ela havia respondido às perguntas de Lady Virginia de maneira recatada e controlada. Ela estava orgulhosa de si mesma e se sentindo um pouco mais confiante. Quinze minutos depois, Penelope e Anne estavam de volta à carruagem sendo levadas de volta à Mansão Blackthorne. — O que aconteceu? — a viúva perguntou quando eles chegaram à casa. — Lady Virginia — Anne disse — estava usando um lindo vestido. Sem dúvida foi criação da Madame. — Era uma peça longa e delgada feita de renda rosa e chiffon ajustada e presa sobre um dos ombros. O resto do tecido foi espalhado pelo corpo terminando em uma longa cauda nas costas que varria o chão — Penelope acrescentou, seu rosto vermelho. — Sim, mas por que você voltou para casa tão cedo? — A Srta. Fairweather estava a caminho da mesa de refrescos — disse Anne. — Sim e...? — a viúva perguntou impaciente. — Lady Virginia também estava a caminho da mesa de refrescos — Anne continuou. — Anne — a viúva advertiu. — A Srta. Fairweather estava no encalço de Lady Virginia. O tecido estava delicadamente preso por um único broche de pérolas no ombro. Ele rasgou, o pano se desfez e um cavalheiro que passava rapidamente tirou seu casaco e envolveu Lady Virginia. Não podíamos ficar depois de deixar a anfitriã quase nua. — Muito bem — a viúva murmurou fracamente. Os sais aromáticos e o conhaque foram rapidamente solicitados. Capítulo 19 Aquele era o terceiro passeio de Penelope em Londres e eles estavam na casa de Lorde Abbey. Ela suspirou de alívio. As coisas até aquele momento tinham corrido bem. Ela entrou na sala de visitas, cumprimentou o anfitrião e depois se recolheu ao canto mais distante da sala. Ficou ao lado de um pilar de mármore rosa-salmão. Era uma boa posição de onde ela poderia observar discretamente todos os recém-chegados. Seus olhos brilharam de interesse quando Lady Lydia fez uma entrada dramática usando um vestido de seda verde-mar e um turbante de seda em tons de safira. Lady Lydia fixou os olhos no duque e caminhou em sua direção. Um leve toque no braço de Penelope a distraiu do que via. — Lorde Poyning está vindo para cá — Anne sussurrou com urgência. — Assim como Lorde Rivers — Penelope respondeu com nervosismo observando o par. — Não se preocupe, não vou lhe dar a chance de falar — disse Anne, acariciando seu cabelo. Um momento depois, Lorde Poyning e Lorde Rivers chegaram. Anne imediatamente iniciou uma conversa com Lorde Poyning. Lorde Rivers e Penelope ficaram mais do que felizes em deixar os dois divagar. — Que casaco maravilhoso — disse Anne. Poyning se envaideceu. Penelope tomou um gole de vinho e fez uma careta meio contida. O casaco em questão era castanho-avermelhado de veludo e estava posicionado bem na frente de seus olhos. Ela desviou o olhar da roupa chamativa e procurou pela sala. Encontrou quem estava procurando: o duque. Seu casaco cinza muito bem cortado, ela notou, era excelente e nada ofensivo. Ele estava absorto em uma conversa com um homem de cabelos grisalhos. Ela o encarou por algum tempo até que alguém a empurrou com força por trás. Ela engasgou, cambaleando. Rapidamente se virou, dizendo automaticamente um pedido de desculpas. Mas a mulher que a empurrou já estava saindo rapidamente de cena. Penelope só pôde ver a mulher voltando. Franzindo o cenho de modo pensativo, Penelope se virou e viu Lady Anne olhando para ela. Perplexa, ela olhou para Lorde Poyning sem entender. Lorde Poyning evitou os olhos dela, as mãos ocupadas esfregando uma mancha escura em seu casaco. — Você cambaleou e derramou vinho em seu amado casaco — observou Lorde Rivers. Penelope olhou para o copo vazio com horror. — Eu sinto muito, Lorde Poyning. Vou comprar um casaco novo para você. Tenho certeza de que Madame Bellafraunde me ajudará. Na verdade, eu não queria... — Srta. Fairweather, não precisa se desculpar. Vou procurar a anfitriã. Ela deve ter algo para a mancha. — Acho que vi Lady Abbey perto da sala de jogos. Ela estava conversando com a Srta. Berkley — Anne disse. Ela então se virou para Penelope e lançou-lhe um olhar significativo. Penelope entendeu e humildemente seguiu Anne em direção às cortinas de cetim vermelho. — Como você pôde? — Anne perguntou furiosamente. — Mas não foi minha culpa. Não desta vez — Penelope tentou explicar. — Nunca é sua culpa, não é, Srta. Fairweather? Não — ela disse levantando a mão. — Eu não quero ouvir mais nada. Por favor, traga meu irmão. Eu gostaria de ir para casa. — Mas... — Nós vamos partir — Anne disse friamente. O percurso de volta para casa foi feito em silêncio, com Anne enfurecida e Penelope tentando encontrar as palavras certas para se explicar. No momento em que entraram na Mansão Blackthorne, Penelope barrou o caminho de Anne. — Lady Anne, eu imploro, por favor, me escute. Anne tentou se esquivar de Penelope andando da direita para a esquerda e depois de volta. Depois de se esquivar por alguns minutos e descobrir que Penelope era muito rápida para ela, finalmente desistiu e disse: — O que você tem a me dizer? Penelope olhou para o duque parado ao lado deles. — Então você não tem nada a dizer em sua defesa? Logo imaginei — Anne disse, afastando a mão de Penelope. Penelope correu atrás dela e a seguiu até seu quarto. — Lady Anne, eu não poderia dizer. Não na frente do duque. Lady Lydia me empurrou e me fez derramar o vinho. — Ela o quê? — Sim, eela fez isso de propósito. Eu estava de costas para o pilar e ela veio por trás e me empurrou. Não pode ter sido um acidente. Havia ali um pequeno grupo com espaço de sobra para alguém andar sem esbarrar nos outros. Não entendo por que ela fez isso, mas ela fez. Não estou mentindo... — Você jura? — Sim, eu juro. Por que eu mentiria sobre isso? Sim, sou desajeitada, mas desta vez não é minha culpa. Anne se sentou na cama e gemeu. — Você acredita em mim? — Penelope perguntou preocupada. — Eu acredito. Eu posso acreditar nisso sobre Lady Lydia — Anne disse. Ao ver o olhar de Penelope, ela explicou ainda mais. — Tenho vergonha de admitir que Lydia e eu já fomos amigas. Eu a conheço bem e é o tipo de coisa mesquinha que ela faria. Ela gosta de embaraçar pessoas de quem não gosta, seja por palavras ou ações. Ela não gosta de você porque minha mãe e eu apoiamos você. E uma bela jovem solteira vivendo sob o mesmo teto que seu noivo faz com que ela fique nervosa. Ela fará o possível para assustá-la. Então, sim, eu acredito em você. — Obrigada — disse Penelope com alívio. Anne levantou a cabeça e gritou: — Por que você não derramou o vinho em Lorde Rivers? Ele estava parado ao lado de Lorde Poyning. Esta é a segunda vez que faço papel de idiota na frente dele e tudo por sua causa. — Sinto muito. Não se zangue, Lady Anne. Por favor, me dê a chance de consertar as coisas. — E como você vai fazer isso? — foi a resposta sarcástica. — Você gosta de Lorde Poyning, não é? — Penelope perguntou cuidadosamente. Anne corou e disse: — Somos amigos há dois anos. — Só amigos? Você não ficou tão perturbada quando rasguei o vestido de Lady Virginia e aquilo foi muito pior. Anne corou ainda mais. Por fim, disse: — Tudo bem, eu gosto dele, mas não tenho certeza sobre o que ele sente. — Então deixe isso comigo. Vou cuidar para que Lorde Edward Poyning se apaixone perdidamente por você. Anne olhou para ela com ceticismo. — Tenho muitos defeitos, Lady Anne, mas também sou criativa. Meus esquemas eram os melhores em Finnshire. Eles sempre funcionaram. Eu vou casar você com ele dentro de três meses. Anne se mexeu e perguntou esperançosa: — De verdade? — Dou minha palavra — respondeu Penelope com segurança. Anne franziu a testa refletindo sobre isso. — Mas primeiro você vai me contar sobre seus esquemas? — Claro. Já que você tem que realizá-los, você terá que saber. — Hum, acho que sempre posso verificar qualquer uma de suas ideias estranhas. Dois anos de espera e nada. É hora de algumas medidas desesperadas e você, Srta. Fairweather, é uma cúmplice perfeita. Desde sua chegada, mamãe tem se imposto cada vez mais, recusando-se a deixar Charles fazer o que quer. Ela pode nos deixar ir ao Hyde Park e receber pretendentes em casa. Charles está muito distraído com você por perto para perceber o que estou fazendo. Você realmente o irrita, irrita muito mesmo. Isso pode dar certo. — Agora que concordamos, tenho uma condição. — O quê? — Você vai me chamar de Penelope. — Feito, e você deve me chamar de Anne. As duas meninas sorriram uma para a outra. Elas pegaram uma folha de papel e começaram a trabalhar. Anne escreveu com uma caligrafia grande e bonita: Como atrair Lorde Poyning Depois de um momento de reflexão, Anne acrescentou alguns corações e flores ao nome de Lorde Poyning. Penelope assentiu com aprovação. — Esse tipo de coisa é importante. — Então, qual é o primeiro passo? — Anne perguntou, mordendo a ponta da pena. Penelope puxou o lençol para si e, depois de limpar a saliva das costas da pena, escreveu: Para atrair o homem, faça amizade com o amigo. Anne olhou para Penelope e sorriu. — Lorde Rivers — as garotas disseram em uníssono. ∞∞∞ Anne invadiu o quarto de Penelope. — Penelope, você não pode cometer nenhum erro hoje. Ofendemos vários anfitriões e não creio que a proteção do duque nos ajude por muito mais tempo. É apenas uma questão de tempo até que você seja rejeitada pela sociedade — Anne advertiu. — Eu nunca faço nada de propósito — disse Penelope com tristeza. — Eu sei disso — Anne disse. — Não é inteiramente sua culpa, mas um pouco é. Você costuma começar a sonhar acordada ou ficar nervosa e balbuciar. Por favor, tem que começar a assumir o controle dessa sua língua... e de suas mãos e pernas. Penelope assentiu. — Hoje, por exemplo. Você sabia que já estávamos atrasados para o jantar da Srta. Rosy. No entanto, você ainda assim foi lá e rasgou seu vestido. — Eu não rasguei. Mary não sabia que o broche estava preso, ela o puxou e o vestido rasgou. — Você poderia ter avisado ela. Suponho que você estava ocupada sonhando com vacas e campos verdes. Penelope ficou magoada. Anne suspirou: — Me desculpe, só estou preocupada. Isso é o que sugiro. A Srta. Rosy adora animais. Ela acaba de ganhar um presente de um príncipe indiano, um lindo gato que ela quer mostrar para a alta sociedade. Ela deu uma festa em homenagem ao animal. Quando ela falar com você, conte tudo sobre sua cabra. Ela ficará encantada e depois disso você terá conquistado uma das anfitriãs mais importantes da sociedade londrina. — Obrigada, mas ela não ficaria ofendida quando nos atrasássemos? É um jantar, não é? — Sim, ela gosta de pontualidade. Charles sugeriu que fôssemos sem você. Mandaremos a carruagem de volta e você pode se juntar a nós mais tarde. Ela não ficará tão chateada se o duque chegar a tempo. Penelope acenou com a cabeça. — Eu estarei vestida e pronta até então, e desta vez, Anne, nada vai dar errado. — Acredito que sim. Ainda nem colocamos nosso plano em ação. — Esta noite nós vamos colocar, Anne. Hoje faremos isso. Penelope trocou de roupa três vezes em uma hora. Duas horas já tinham se passado desde a hora marcada quando Penelope finalmente chegou à casa da Srta. Rosy. Seu cabelo estava trançado e preso no topo de sua cabeça. Pequenos fios dos cachos haviam escapado, emoldurando seu rosto lindamente. Seu vestido, um modelo elegante e com influência grega, cobria seu corpo com delicadeza. Seus cílios estavam escurecidos e os olhos brilhavam ao luar. Desta vez, ela sabia que estava lindíssima e tinha um plano excelente. A Srta. Rosy daria uma olhada nela e no que ela trouxera e a perdoaria por estar duas horas atrasada. Ela caminhou com um pouco mais de confiança. — Srta. Fairweather — o mordomo intimidante anunciou. Penelope não se deixou intimidar. Em vez disso, seu coração acelerou de excitação. Era esse, ela pensou, o momento em que a simples e velha Srta. Penelope Winifred Rose Spebbington Fairweather de Finnshire seria transformada em uma verdadeira dama de Londres. Ela estava pronta para encantar e enfeitiçar a alta sociedade. Pela primeira vez na vida ela se sentia bonita, e a sensação foi tão deliciosa que borbulhou dentro dela como uma garrafa de champanhe. Ela havia cometido muitos erros, mas era hora de esquecer o passado e começar de novo. Cuidadosamente, ela tocou as saias sedosas. Tinha a sensação de que naquela noite as coisas mudariam para melhor. Seu queixo se ergueu, suas costas se endireitaram e suas saias giraram enquanto ela entrava no quarto. Um momento depois, Penelope, desanimada, os ombros caídos e as costas curvadas, foi vista saindo da mansão da Srta. Rosy, seguida de perto por Anne e o duque. Uma cabra com um gorro verde pendurado na orelha seguiu correndo como se sua vida dependesse disso. E era isso mesmo, pois atrás dela surgiu o gato que tinha sido dado de presente à Srta. Rosy por um príncipe indiano. Não um gato malhado ou um persa nem uma daquelas variedades pintadas de preto e branco. Era um guepardo adulto que os perseguiu até eles alcançarem a segurança da carruagem. — Eu estou... — Penelope começou. — Não faça isso. Simplesmente não faça — Anne disse. Capítulo 20 A Sala Amarela era uma sala ensolarada com tapeçarias com detalhes dourados e cortinas brancas etéreas. Por gerações, a família Radclyff se reuniu ali para discutir situações que eram consideradas catastróficas. A última vez em que foi usada foi para planejar uma fuga quando a guerra estavano auge. A situação atual era considerada terrível o suficiente para a família abrir mais uma vez as portas de jacarandá do Quarto Amarelo. Os membros da família Radclyff (com exceção de Sir Henry), junto com Penelope como a parte culpada, Madame Bellafraunde como a conselheira sábia e Lady Bathsheba como testemunha, reuniram-se ali para debater a última calamidade que sobreviera à Mansão Blackthorne. A sala clara e relaxante tinha sido projetada para ter um efeito calmante e permitir que a família pensasse com clareza e calma. — Estaremos arruinados! Arruinados, rejeitados, isolados, desprezados por todos os membros da alta sociedade. Não vou permitir que esta criatura viva sob meu teto nem mais um minuto — gritou o duque. — Somos a família Radclyff. Temos honra. Não podemos abandonar uma pobre alma só porque ela levou seu animal de estimação para um jantar — Lady Anne gritou. — Calma, calma, filhos. Acalmem-se — a viúva disse suavemente. — Calma? Tivemos que sair correndo da festa de Lady Virginia porque ela arrancou o vestido da anfitriã. Depois disso, ela aborreceu você, Anne, ao despejar uma taça de vinho naquele idiota do Poyning. E então fomos perseguidos por uma chita porque essa tola trouxe uma cabra. Quem disse a ela para fazer uma coisa tão idiota? — Vamos conversar sobre isso com calma — a viúva tentou novamente. — Charles — Anne gritou mais alto do que sua mãe. — Você é um duque. Ninguém pode ousar expulsar você ou qualquer um de seus familiares. Desde quando você se tornou um idiota covarde? — Idiota covarde? Não me afeta, mas é você. Você é a idiota. Estou preocupado com seu bem-estar. Ninguém vai se casar com você se você fizer amizade com uma... — Shh, Charles, você não pode xingar a pobre Srta. Fairweather — a viúva interrompeu. — Eu não me importo se ninguém se casar comigo, eu quero que Penelope fique — Anne gritou. — Silêncio — Madame finalmente gritou. — Por favor, sentem-se e vamos discutir isso como seres civilizados. O duque e Anne se sentaram, embora com relutância. Penelope manteve os olhos fixos na flor ondulada ocre tecida no tapete. — Bem — Madame disse calmamente — o que aconteceu com Lady Virginia foi um acidente e todos, incluindo Lady Virginia, foram gentis o suficiente para ver que foi o que aconteceu. Quanto a Lorde Poyning, ele não reclamou quando a Srta. Fairweather o encharcou de vinho. Pelo contrário, só teve coisas maravilhosas a dizer sobre a Srta. Fairweather. — Como você sabe? — o duque interrompeu. — A Madame sabe tudo — a viúva o interrompeu. — Continue, Madame. E quanto à Srta. Rosy? — A Srta. Rosy tem vários animais de estimação, como vocês bem sabem. Ela mantém vários cães, gatos, pássaros, cavalos e porcos em sua casa. Ela ia deixar Puddles, que é a chita, acostumar-se com sua casa e então, lentamente, apresentá-la ao resto de seus animais de estimação. Ela agora percebe que Puddles provavelmente comeria seus queridos porcos, pássaros, poodles e outros enfeites. Ela tem uma grande dívida para com Lady Bathsheba por ajudá-la a entender que ela não pode controlar uma chita adulta. Ela também é grata por ter sido Lady Bathsheba quem ficou assustada, e não um de seus amados e sensíveis animais. Aparentemente, eles sofrem de nervosismo. Ela vai chamá-lo, excelência, porque quer agradecer pessoalmente à cabra e oferecer-lhe um saco de cenouras como compensação por tê-la assustado temporariamente. Quanto a Puddles, ela vai voltar para o lugar de onde veio. Penelope se animou ao ouvir isso. — Sim, mas podemos não ter tanta sorte da próxima vez. Sinto muito, Srta. Fairweather, mas concordo com Charles. Outro erro como este e eu serei forçada a mandá-la de volta para Finnshire — a viúva disse, desanimada. — Mãe? — Anne disse chocada. — Eu sinto muito, Anne, mas a alta sociedade não vai permanecer passiva se as coisas continuarem como estão. As senhoras vão começar a reprovar e, em vez de permitir que ela enfrente a humilhação, será mais gentil deixá-la ir para casa — explicou a viúva. Penelope prontamente caiu num choro ruidoso. Lady Bathsheba se levantou e foi embora. — Cabra desleal — soluçou Penelope em seu lenço. — Aqui está minha sugestão — disse Madame. — Deixem-me ficar com a moça por dois dias e duas noites. Depois disso, dê a ela uma última chance de provar a si mesma. Se a noite correr bem, deixe-a ficar. Caso contrário, faça as malas e mande-a embora. — Sim! — Anne exclamou. — Não! — o duque rugiu. — Uma última chance? — a viúva disse pensativamente. — Você acha que pode provocar uma mudança nela em apenas dois dias? — Eu posso tentar. Acho que sei o que fazer com seu hábito de balbuciar quando está nervosa. Se isso ficar sob controle, então a confiança virá — Madame respondeu. — Tudo bem — disse a viúva. — A festa de Lorde Bloodworth será dentro de três dias. Se ela conseguir sobreviver sem um acidente, então poderá ficar. — Mas, mãe... — o duque balbuciou. — Charles, você não acha que a Srta. Fairweather é capaz de lidar com a temporada. E se você está tão certo de que ela não sobreviverá à festa, então deixe-nos fazer o que quisermos. Ela tem uma chance e, se falhar, você terá o seu desejo atendido e ela irá para casa — respondeu a viúva em um tom que indicava claramente o fim da conversa. — Srta. Fairweather, não temos tempo a perder — disse Madame, puxando Penelope do sofá e arrastando-a para fora da sala. ∞∞∞ A programação detalhada dos dois dias seguintes foi entregue a Penelope. Penelope leu tudo e se perguntou se não seria melhor pegar a próxima carruagem de volta para Finnshire. — Quando eu vou comer? — Penelope perguntou. — Não diz aqui. — Hoje você come enquanto caminha — Madame respondeu rapidamente. — Andando? — Sim. Você não pode, de forma alguma, perder o rebolado, Srta. Fairweather. — Perder o rebolado? — Como um pato manco. E assim os dois dias de treinamento intensivo começaram... — Ande, Srta. Fairweather, balance seus quadris... — Mas, Madame, estou com os olhos vendados. Não consigo ver... Ai. — Eu quero que você use seus sentidos. Além da visão, há toque, cheiro e som. Use-os e deslize como um cisne sobre um lago cristalino, quase sem ondulações. Não como um urso pisando duro na floresta... ∞∞∞ Mais tarde naquela noite … — Você está cochilando de novo, Srta. Fairweather. Acorde. Ainda temos que revisar suas habilidades com o leque. — Já repassamos isso cento e sessenta vezes. Eu contei. — Bem, vamos para cento e sessenta e uma. Agora, coloque o seu leque... Abra-o... Feche-o... ∞∞∞ Às seis e meia da manhã seguinte, Penelope roncava. Uma pena fez cócegas em seu nariz. Ela espirrou e rolou para o lado. Um momento depois, uma forte explosão de som fez Penelope saltar do sofá e se colocar de pé. — O qu... Zoooque aconteceu? Madame estava com uma trombeta na mão. — Você dormiu bastante. É hora de praticar. Penelope olhou para Madame com os olhos vermelhos. Ela olhou para o relógio. — Eu dormi por quinze minutos. — Sim, bem, isso é tempo suficiente. — Eu desisto — disse ela pateticamente. Madame entregou-lhe uma xícara de chá e bateu o pé com impaciência. — É sério. Eu desisto, Madame. Eu não posso mais fazer isso. Eu quero voltar para Finnshire. — Muito bem, minha querida. Você pode voltar assim que terminarmos de praticar a quadrilha. — Não. — Você vai praticar. — Eu não vou. — Srta. Fairweather, você tem cinco minutos... — Ah, certo, mas eu vou embora logo depois. Capítulo 21 O clima na casa estava pesado. Parecia que alguém havia morrido na Mansão Blackthorne. Até as criadas estavam com cara de velório. Era o dia, o dia o qual todas as esperanças de Penelope estavam depositadas. Era o dia da festa de Lorde Bloodworth. Madame supervisionou pessoalmente a toalete de Penelope para a grande ocasião. Penelope, vestida com seda cor de vinho, ficou olhando para si mesma no espelho enquanto Madame ajeitava seu cabelo em uma touca baixa. Nenhum cacho perdido se atreveu a escapar dos alfinetes. A viúva chegou e lhe presenteou com brincos de rubi e um colar combinando.Penelope os pegou e colocou como um soldado prendendo suas medalhas antes de partir para a guerra. Penelope, de olhos secos, despediu-se da cabra e caminhou com atenção em direção à carruagem. Ver Perkins acenando com um lenço branco para ela enquanto a carruagem se afastava quase desfez sua compostura. Mas ela rapidamente recuperou seu equilíbrio e seus olhos permaneceram claros e brilhantes durante toda a viagem. Penelope entrou na casa cintilante de Lorde Bloodworth sem um único passo em falso. Seus quadris balançaram, o sorriso educado em seu rosto permaneceu fixo, e ela conseguiu imaginar cada um dos cento e cinquenta convidados presentes em calções cor-de-rosa brilhante. Um tipo peculiar de distanciamento havia tomado conta dela desde o início daquela manhã. Ela estava cansada, cansada de lutar e de tentar agradar. Ela não se importava mais se falava fora de hora ou fazia a coisa errada. Tudo o que queria era que a noite terminasse para que pudesse ir para casa, deitar-se encolhida na cama e dormir pelas próximas doze horas. Ela caminhou no meio da multidão com o queixo erguido e os ombros para trás. Os convidados reunidos confundiram seu desapego com orgulho, o tipo de orgulho que vem da confiança. Ela brilhava e seu charme foi ampliado pelo simples fato de ela não saber disso. Após uma hora andando pela multidão e duas taças de vinho morno depois, Penelope atingiu o estado espiritual de estar alegremente embriagada. Era aquele estado perfeito quando tudo começa a parecer maravilhoso e toda tragédia se transforma em comédia. Ela de repente se encheu de alegria. A falta de sono e a dieta restritiva aumentaram seu estado delirante. Ela se sentia cheia de amor por seus semelhantes. Avistou o rosto taciturno de Anne e seu coração parecia a ponto de explodir de afeto por sua querida amiga. Queria abraçar Anne, envolvê-la em um abraço caloroso e dizer-lhe que tudo ficaria bem. Mas ela ainda não estava tão embriagada e, reconhecendo a ladeira escorregadia pela qual estava descendo, deixou de lado a taça de vinho. Mas estava altinha o suficiente para fazer uma promessa e agir para cumpri-la. Ela, Penelope Fairweather, decidiu garantir que Anne ganharia seu Poyning naquela noite. — Você consegue vê-los? — Penelope sussurrou para Anne. — Eles acabaram de chegar. Você está alterada? — Anne perguntou. — Só um tiquinho. Nada para se preocupar — Penelope disse, ficando na ponta dos pés para dar uma olhada na entrada. Ela não conseguia ver absolutamente nada. — Beba a limonada. Pelo menos você não está falando enrolado — Anne murmurou. Ela não teve tempo para repreendê-la. Penelope bebeu toda a bebida adocicada. — Eles estão vindo para cá. Como estou? — Anne perguntou nervosamente. — Linda — disse Penelope com lealdade. A seda azul que Anne usava não estava ajudando muito em contraste com sua pele, mas favorecia suas curvas. Um minuto depois, Anne mudou de posição, de modo a esbarrar propositalmente em Lorde Rivers e Lorde Poyning. — Srta. Fairweather! — exclamou Lorde Poyning, seu rosto iluminando-se de alegria. Penelope franziu a testa e depois forçou um sorriso. Ela gostaria que o homem mantivesse seu entusiasmo por Anne. — Srta. Fairweather — Lorde Rivers a cumprimentou com muito menos fervor. — Srta. Fairweather — Lady Lydia disse, aproximando-se deles. Penelope rapidamente inclinou a cabeça para os três, começando a se sentir um pouco desconfortável com todos os olhos fixos nela. Sentiu as palavras subirem por sua garganta e fazer cócegas em sua língua, e rapidamente tomou um gole de sua limonada. A solução de Madame para seu pequeno problema de tagarelice era que mantivesse a boca ocupada bebendo água ou limonada toda vez que se sentisse agitada. Ela percebeu que estava funcionando. As palavras foram engolidas. Ela sorriu com mais confiança e deu outro grande gole. — Anne, mamãe me mandou dançar com você — disse o duque surgindo para se juntar à festa. — Mamãe mandou você dançar com a Srta. Fairweather — Anne sibilou para seu irmão. A boca do duque se torceu em desgosto, mas ele manteve o tom educado quando disse: — Venha, então — para Penelope. — Ir? — Penelope perguntou. — Prefere não? — o duque perguntou esperançoso. — Oh, não seja bobo, Charles. A Srta. Fairweather é muito tímida e duvido que ela consiga dançar em uma festa dessas. Você não me disse que ela é de uma pequena vila sem cultura? Não seja cruel. Eu vou ser seu par. É tão raro termos a chance de dançar juntos — Lady Lydia disse sorrindo docemente para o duque. Anne levantou o pé para pisar nos pés de Lady Lydia quando a voz de Penelope a deteve. — Se quando disse para “ir”, estava me convidando para dançar, então, sua graça, eu ficaria muito feliz em acompanhá-lo — disse Penelope. Seu rosto estava corado, mas sua voz era firme. O duque lançou a sua noiva um olhar de desculpas e conduziu Penelope pela pista. Os músicos tocaram a primeira nota. Foi um toque melancólico. Um eco de amor perdido. Ele tocou sua cintura e ela, mantendo o rosto afastado do dele, deu um passo à frente para encontrá-lo. — Você está bem? — ele perguntou gentilmente. Seus olhos pularam para o rosto dele. Ela ficou surpresa por ele ter se lembrado. Parecia que tinha acontecido há muito tempo. — Sim — ela disse um pouco sem fôlego. — Eu estava falando sobre... — O homem da rua. Eu sei. — Você tem certeza? Posso fazer alguma coisa? — Encontrar o homem e terminar o que comecei? Assassiná-lo? Não, estou bem. Acho que o que aconteceu... quase aconteceu, foi o melhor. — Você aprendeu uma lição valiosa — afirmou ele, simplesmente. A mão dela apertou brevemente seu ombro. Ela não precisava dizer nada. Ele entendeu. Ele a ergueu do chão, e quando a colocou de volta nele, ela estava mais perto dele do que o necessário. A música mudou, ficando mais rápida. Os dedos voavam sobre as teclas do piano e os violinistas balançavam a cabeça desgrenhada, movendo furiosamente os arcos sobre as cordas. Penelope se sentiu leve como uma pena enquanto o duque a conduzia pela pista. Sua mão firme a guiou não deixando espaço para erros. Ela olhou para ele timidamente, o rosto iluminado de felicidade. Aquela era sua primeira dança da temporada e ele a iniciara sendo gentil. Apesar de todos os erros que ela cometeu, ele estava realmente preocupado com a forma como ela estava se saindo. Agarrou a mão dele com mais força, deixando seus olhos mostrarem como estava grata. Talvez Madame tivesse feito um milagre nos últimos dois dias. O duque estava amolecendo em relação a ela. Ele sorriu para ela e ela sentiu o estômago embrulhar. Suas próximas palavras pareceram ecoar seus sentimentos. — Eu mudei minha opinião sobre você — disse ele, girando-a. — É mesmo? — ela perguntou, seu rosto corando de prazer. — Sim, pensei que você fosse uma mosca de fruta. — Uma mosca de fruta? — Sua bolha rosada murchou um pouco. — Sim, uma criaturinha inofensiva. Eu julguei você mal. Agora, estou convencido de que você é na verdade um mosquito. — Perdão? — Um mosquito, um mosquito fêmea. Eles são o único tipo que suga sangue, e alguns deles podem ser totalmente perigosos para a saúde de um homem. Seus pés pararam de se mover. A bolha rosada agora não existia. A mão dele em sua cintura a forçava a se mover. — Você é exatamente como um mosquito — ele continuou enquanto a música aumentava de ritmo — um pequeno inseto irritante, e eu gostaria de poder juntar minhas mãos e plá! Esmagar você em um instante. Penelope hesitou. O pianista bateu com as mãos no instrumento. A dança havia acabado. ∞∞∞ — Você está um pouco vermelha. Charles aborreceu você? — Anne sussurrou para Penelope assim que ela se aproximou. — Ele me promoveu de mosca de fruta a mosquito sugador de sangue. Então, para responder à sua pergunta — sim, as penas de avestruz que adornam meu cabelo estão um pouco despenteadas. Anne deu uma risadinha e Penelope fez uma careta. — Alguma novidade? — Penelope perguntou, pegando o copo de limonada de Anne. — Ele não me chamou para dançar — Anne respondeu,seu rosto desanimado. — Ele vai fazer isso. Deixe comigo — Penelope disse em seu ouvido. Ela então voltou sua atenção para Lorde Anthony Rivers. — Você dança, Lorde Rivers? — Raramente. — Eu danço — Lorde Poyning disse. — Anne adora dançar — Penelope sugeriu. — E você? — Lorde Poyning rebateu. — Sim, mas nunca poderei ser tão graciosa como Anne — respondeu Penelope com irritação. — Deixe-me resolver isso. Posso ter a próxima dança, Srta. Fairweather? — Lorde Poyning perguntou. Penelope tomou um longo gole antes de responder: — Estou um pouco cansada depois de minha dança com o duque. Eu prefiro assistir vocês dançando no momento. Talvez a próxima? — As mulheres são tão delicadas — disse Lorde Poyning, seus olhos percorrendo o corpo de Penelope. Penelope se contorceu sob o olhar, seu rosto ficou quente. Ela se sentiu um pouco perturbada com a expressão de Lorde Poyning e ansiou por fugir. — Charles está levando Lydia para a pista de dança — Anne anunciou. Penelope virou a cabeça para olhar para o casal. Ela observou o duque conduzir Lady Lydia pelo salão. Lady Lydia estava sorrindo, seus dentes brilhando brancos à luz das velas. Quando Penelope se virou de novo, encontrou Lorde Poyning finalmente convidando Anne para dançar. Satisfeita, ela sorriu para Lorde Rivers. — Quer dançar? — Lorde Rivers perguntou contrariado. Penelope o interrompeu: — Não, quero só observar. — Tudo bem — ele disse parecendo aliviado. Ela sorriu amplamente de novo. Era hora de colocar seu plano em ação. — Você conhece Anne há muito tempo? — ela perguntou, piscando. — Sim. Você está com alguma coisa nos olhos? Penelope acalmou suas pálpebras. — Eu acho que era poeira. Estou bem agora. Gostaria de dar uma volta pelo salão? — Não, está muito cheio. Homem chato, Penelope pensou, ficando irritada. Ela tentou novamente: — Lorde Rivers, gostaria de falar francamente. Eu venho de uma pequena aldeia e não posso flertar e insinuar coisas. Sei que mal nos conhecemos, mas a sua amizade com Lorde Poyning e a minha com Anne obriga-me a pedir-lhe ajuda. Você e somente você pode me ajudar nesta nobre empreitada. Sim, Lorde Rivers, você e eu podemos trazer felicidade aos nossos queridos amigos. Penelope ficou satisfeita com a facilidade com que as palavras foram ditas. O homem tímido e quieto diante dela a deixava à vontade. Era difícil ficar nervosa perto de alguém que parecia ainda mais deslocado em um salão de festa do que ela. — Como? — ele perguntou. Seus olhos ficaram subitamente atentos e ele estava olhando para ela pela primeira vez de verdade. Penelope vacilou com a expressão intensa em seu rosto. Percebeu que havia cometido um erro ao pensar que aquele homem poderia ser facilmente convencido. O ligeiro interesse que ela despertou nele transformou suas feições. Seus olhos eram inteligentes; a mudança sutil na expressão marcando-o como um homem quase bonito. Ela olhou para os casais dançando tentando ganhar tempo. Observou o duque puxar sua noiva para mais perto. Ela desviou o olhar da cena e disse: — Lorde Poyning é seu amigo e Anne é minha amiga. Acho que os dois deveriam se casar e você está na melhor posição para ajudar a uni-los. A expressão de Lorde River ficou fria. — Peço desculpas, mas não acho que os dois formariam um bom par. Não acho que Lorde Poyning esteja interessado em Lady Anne, e você está perdendo seu tempo em uma aventura infrutífera. — Como você pode ter certeza? Ele disse isso a você? — Não, mas ele não precisa fazer isso. Eu o conheço bem. — Lorde Rivers, entendo sua hesitação, mas que mal pode haver em pelo menos tentar? — Não. — Não? Apenas não? Você não acha... — Srta. Fairweather, por favor, não me envolva nisso. Sou muito mais velho do que você e sei como as coisas podem ficar feias se me intrometer em questões de amor, especialmente quando envolvem pessoas próximas. Eu sugiro que você deixe Lady Anne cuidar de seus próprios assuntos. Penelope não se ofendeu. O tom de Lorde Rivers foi gentil e suas palavras bem intencionadas. Ela estava um pouco irritada, no entanto. Estava muito otimista que naquela noite a história de amor de Anne e Poyning teria um final feliz. Ela esperava que secretamente Poyning amasse Anne assim como Anne amava Poyning. Lorde Rivers deveria confessar esse fato ou pelo menos ajudar a unir os dois. Nada disso aconteceu. A primeira parte do plano fracassou completamente. Ela ficou em silêncio até que Anne voltou de sua dança com Lorde Poyning. O resto da noite correu bem. Penelope não pronunciou uma única palavra fora de hora. Ela havia bebido dezesseis copos de limonada, passado a maior parte da noite no lavabo feminino e dançado cinco vezes com parceiros diferentes. Nenhum homem a havia cortejado e apenas um homem rico havia mostrado algum interesse genuíno por ela. Infelizmente, ele era tão velho quanto Sir Henry. De volta à carruagem do duque, uma calada Penelope seguiu aos solavancos para a Mansão Blackthorne. O alvo do amor de Anne estava se tornando mais difícil do que ela pensou que seria. Ela passou a viagem inteira puxando suas luvas desconfortavelmente apertadas e planejando o próximo passo sobre como juntar os dois pombinhos. No momento em que entrou na Mansão Blackthorne, a viúva segurou seu braço. — Penelope — disse ela — três damas vieram falar comigo hoje. Eles tinham algo a dizer sobre sua conduta esta noite. Penelope ficou pálida. Como ela poderia ter esquecido? A noite tinha sido um teste e se ela tivesse falhado, então amanhã de manhã estaria de volta a Finnshire. Ela passou a noite inteira conspirando para unir Anne e Lorde Poyning, mas se ela não ficasse mais em Londres, então como poderia ajudá-los? Anne, Madame, a viúva e até Lady Bathsheba contavam com ela. Ela duvidava que seus novos empregadores permitiriam que ela levasse uma cabra. Seus sonhos de se casar e ter um lar seriam destruídos. Ela se lembrou de seu estado de embriaguez no início da noite. Em um momento, seria uma solteirona solitária abatida e derrotada. Com as palavras seguintes da viúva, ela soube que estava prestes a perder tudo. — Mãe? — Anne perguntou, agarrando a mão de Penelope. — Eles me parabenizaram por ajudar uma jovem tão promissora. Minha querida, daqui em diante, você não é mais um risco social. — Eu não cometi nenhum erro? — Penelope perguntou atordoada. — Não, você não cometeu — respondeu a viúva sorrindo. — Penelope não cometeu nenhum erro?— Anne repetiu, incrédula. Ela agarrou os ombros de Penelope e a sacudiu ligeiramente para tirá-la de seu torpor. — Penelope, você conseguiu. Penelope, você ouviu isso? Você não cometeu um erro. — Eu posso ficar — Penelope sussurrou. — Ela pode ficar — Anne gritou, e agarrando Penelope, começou a valsar pela sala. Sua voz foi ouvida quando ela começou a cantar uma música improvisada: Oh, minha querida, ouça-me orar você não ouviu a mãe dizer? Srta. Penelope Fairweather você pode ficar, você pode crer! Penelope riu. A viúva, cheia de alegria, agarrou a pessoa mais próxima ao lado dela. Foi Hopkins, o condutor. Ela se juntou às duas garotas em sua própria versão de uma valsa mais recatada e disse: — Vamos vê-la agora na festa da Srta. Henleys, Srta. Masters e Srta. Attaways. Sim, a Srta. Fairweather certamente pode ficar. Anne girou Penelope duas vezes e depois a soltou: — Ela pode andar no Hyde Park, St. James e Ranelagh. — Ou Tattersalls e Vauxhalls — disse a viúva. — E ir a bailes e jantares — gritou Penelope. — Ir a encontros matinais e peças engraçadas. Todo o dia, todo dia — Anne disse. Hopkins, deixando-se levar pelo clima festivo, acrescentou com seriedade: — Srta. Fairweather, Srta. Fairweather, em Blackthorne você pode ficar. As empregadas, escondidas atrás do corrimão, começaram a fazer uma dança comemorativa e cantaram alegremente seu próprio refrão de fundo: Os esfregões e vassouras ficam maravilhados, As xícaras e pires estão um pouco atordoados. E todos queremos comemorar e uma festa fazer. A cabra pode ficar e também a Srta. Pê! Uma Penélope emotiva fungou e chorou,Traga os óculos Traga a garrafa Vamos comemorar Pois eu não sou mais nenhum problema Eu posso ficar, eu posso ficar A viúva disse que posso ficar! Perkins e Hopkins (de uma forma digna que condizia com seu status) balançavam a cabeça no ritmo da música imaginária enquanto Anne cantava outra melodia, Uma garota maluca e bolsos vazios Ares do interior e medalhões emprestados Agora pode rondar e caçar nas ruas de Londres Homens ricos e guloseimas açucaradas Em breve ela estará vestida de branco e caminhará pelo corredor perfumado, Em sua mão leva as flores enquanto exibe um sorriso tímido com fé E nós vamos chorar e berrar e chorar e gritar Quando ela se casar com o limpador de chaminés! — Todos juntos agora — a viúva gritou. Perkins, Hopkins e as criadas atrás do corrimão juntaram-se à viúva, Penelope e Anne, cantando com entusiasmo o refrão final: Ela pode ficar, ela pode ficar, ela pode ficar E ninguém ousaria dizer não Pois Penelope Fairweather estará aqui em Blackthorne Vivendo sem a menor hesitação! Quando as últimas notas morreram, o grupo fez uma reverência dirigida ao único espectador. O espectador era o duque, que naturalmente fez uma careta para tudo aquilo. Ele balançou a cabeça em desgosto enquanto se dirigia para a cama. Aquilo, ele concluiu, tinha sido horrível. Capítulo 22 Penelope abriu seu guarda-roupa e encontrou uma rosa murcha em seus xales. Ela a pegou e colocou cuidadosamente na última gaveta de sua penteadeira. Nas últimas duas semanas, ela havia encontrado um lenço com '”Pinilowpea” bordado, um velho par de luvas debaixo do travesseiro, um botão cuidadosamente embrulhado em papel pardo, uma caixa de biscoitos e duas velas. Mary a informou que os presentes eram das empregadas do andar de baixo e de Bagley, o lacaio, carinhosamente conhecido como Morsa. Bagley deixou a rosa e uma caixa de biscoitos porque se apaixonou por Penelope. Quanto às criadas, haviam deixado os presentes para Penélope como forma de incentivo. Quando as pessoas cantam e dançam juntas às quatro da manhã para o sucesso de alguém, esse alguém se torna especial. Os quarenta e dois criados dentro da Mansão Blackthorne agora sentiam um vínculo com Penelope. Os cento e vinte criados do lado de fora da mansão foram informados dos acontecimentos da noite e, por uma questão de solidariedade, também sentiram uma ligação com Penélope. As empregadas eram frequentemente flagradas cantando “ela pode ficar, ela pode ficar” enquanto realizavam seu trabalho diário. De repente, o sucesso de Penelope e sua conquista de um homem durante a temporada se tornaram um assunto de grande importância para os servos da propriedade Blackthorne. Eles tentaram à sua maneira apoiar a causa da “moça bonita de Finnshire”, como ela era agora chamada. Penelope apreciou os gestos, mas também sentiu que esses pequenos lembretes funcionavam como uma pressão adicional. Ela agora teria que conseguir um homem nesta temporada. Caso contrário, estaria decepcionando muitas pessoas e uma cabra. Mas ela estava tentando. Estava tentando e alguns homens e importavam com ela. Ainda assim, duas coisas a estavam incomodando muito. A primeira foi o fato de que apenas homens muito velhos e muito pobres haviam mostrado algum interesse por ela. Anne sugeriu que Penelope mantivesse seu pretendente mais velho como uma opção confiável. Afinal, Lorde Autenberry, de oitenta anos, morreria em breve e faria dela uma viúva rica. Além disso, ela não teria que dormir com ele. A segunda coisa que a incomodava era o fato de o duque ter parado de tentar mandá-la para casa. Ele não tinha passado a gostar dela. Pelo contrário, ele a reprovava com cada dia mais intensidade. Ela suspirou e prendeu um broche de safira no vestido. Teve que sair para a festa da Srta. Martin e não teve mais tempo para refletir. Por enquanto, não podia fazer nada além de manter os olhos abertos e ficar alerta para o próximo plano malvado do duque. ∞∞∞ Lorde Poyning apareceu diante de Penelope no momento em que ela entrou na festa da Srta. Martin. Ele a levou para a pista de dança e, segurando-a mais perto do que o decoro considerava correto, sussurrou em seu ouvido: — Você parece um lírio d'água perfumado e florescendo, minha querida. Penelope torceu o nariz. E ele, ela pensou, era como uma tigela de cebola fumegante e sopa de alho. Ele cheirava mal. Enquanto eles percorriam a pista de dança, Penelope ficou se perguntando por que já tinha considerado Lorde Poyning bonito. Seu encanto se dissipara rapidamente para ela, mas Anne e várias outras jovens continuavam a olhá-lo com luxúria. Ela tentou olhar para ele de modo desapegado e encontrar algo atraente. Seu rosto era bonito, embora seu sorriso fosse um pouco desconfiado. Seus olhos eram grandes, azuis e com cílios pesados. Eles poderiam ser considerados atraentes se não tivessem uma expressão furtiva constante. Seus braços eram finos como velas em um castiçal largo. Era uma visão estranha, mas o mais estranho ainda era seu estilo de dança. O homem não dançava. Ele saltava. Ele saltava como um coelho, e Penelope era forçada a saltar junto com ele. Ela bufava e bufava e saltava enquanto tentava combinar os passos com ele. No fim, decidiu que Lorde Edward Poyning era um gafanhoto pouco atraente. Lorde Poyning se considerava um libertino, um mulherengo, alguém que entendia a alma das mulheres. Ele também se considerava impecavelmente vestido, e seu valete míope concordava com essa opinião. Lorde Poyning também teve o cuidado de prender flores e fitas em seu blazer. A cada dança, ele arrancava uma flor e a entregava a cada mulher com quem dançava. Uma única rosa branca era reservada para a sua favorita da noite. Tudo era feito de forma muito discreta, deixando as meninas satisfeitas e coradas. Ao longo dos anos, Lorde Poyning quebrou muitos corações tolos. No momento, Penelope não estava se preocupando com seu coração, mas com seus pobres dedos, que estavam sendo esmagados pelos saltos entusiasmados de Lorde Poyning. Com a atenção voltada para os dedos maltratados, ela não percebeu como e quando ele os levou até a varanda. Os cabelos de sua nuca se arrepiaram quando o vento frio da noite atingiu seu rosto. Ela abriu o leque de marfim e começou a agitá-lo furiosamente. Lorde Poyning olhou para ela inquieto e apressadamente deu um passo para trás. — A arma de uma mulher é um leque — Penelope murmurou para si mesma, testando a extremidade pontiaguda do cabo para ver se havia nitidez. — Você disse algo? — Lorde Poyning perguntou. — Eu disse que está uma noite adorável — respondeu Penelope, a brisa do ventilador soprando os cachos para longe de seu rosto. — Está com calor, Srta. Fairweather? — Não. Na verdade, estou com um pouco de frio — disse Penelope, esperando que ele entendesse a dica e a levasse para dentro. — Talvez se guardar o seu leque, isso ajude? — Lorde Poyning sugeriu. Ela relutantemente fechou o leque. — Você está bem, Srta. Fairweather? — Lorde Poyning perguntou, aproximando-se dela. -- Sim, sim... — disse Penelope, recuando nervosamente. Sorrindo, ele avançou e agarrou a mão enluvada dela. — Senhorita Fairweather, eu já disse como você está bonita hoje? Penelope nunca havia sido chamada de bonita por ninguém antes e desejou que o elogio tivesse vindo de outra pessoa. Ela não se esqueceu de Anne. Anne amava esse homem e Penelope não poderia trair sua amiga. Ela contorceu a mão enluvada tentando libertá-la da mão dele. — Anne pode estar procurando por mim — Penelope disse. — Por favor, Srta. Fairweather, mais um minuto? Está uma noite adorável... — ele respondeu, acariciando seus dedos. — Lorde Poyning, realmente acho que devemos voltar para dentro de casa — Penelope insistiu. Ela puxou a mão com força. Ele a segurou. Ela então puxou a mão de novo com toda a força. Funcionou. Sua mão estava livre, mas a luva, não. Estava pendurada nas mãos do apaixonado Lorde Poyning. Ela olhou para a luva e decidiu deixá-la com ele. Colocou as duas mãos sob as axilas para desencorajá-lo a tentar voltara pegar seus pobres dedos. Ela agora estava completamente irritada e preocupada. Seu trabalho era fazer com que ele se apaixonasse por Anne e não por ela mesma. — Srta. Fairweather — ele disse. — Não se contenha. Penelope olhou para seus lábios franzidos com desgosto. Ela tinha duas escolhas. Uma, poderia sacar seu leque e cutucá-lo várias vezes com a ponta até que ele a soltasse, ou dois, poderia desmaiar. Ela decidiu escolher a última opção. Era uma saída mais civilizada e, consequentemente, ela levou a mão à testa, fechou os olhos e cambaleou. Quando ele se recusou a entender a indireta e continuou a murmurar palavras doces em seus ouvidos, ela relaxou as pernas. Ele a segurou quando ela se dobrou e, sendo incapaz de segurar um corpo inerte em seus braços por muito tempo, ele a deitou no chão da varanda. — Qual é o problema? — perguntou o duque., em algum lugar acima de sua cabeça. Ela franziu a testa numa carranca, mas logo a suavizou. — Eu não sei bem. Ela desmaiou... Talvez tenha sido devido ao calor? — Lorde Poyning gaguejou. Ele rapidamente colocou a luva de Penelope embaixo das costas dela e se levantou. — É uma noite fria, Lorde Poyning — respondeu o duque. — Não sei... Mulheres são tão delicadas. Devo chamar Lady Anne? — Lorde Poyning perguntou, ansioso para fugir. — Fique longe de minha irmã — disse o duque de maneira enfática. Ele pegou o braço de Penelope e verificou seu pulso. Notou a luva faltando. — Talvez eu possa ir buscar um copo d'água? — Conhaque pode ajudar — murmurou o duque, tirando a luva debaixo do corpo de Penelope. Lorde Poyning saiu rapidamente dali. — Querido, eu estava esperando você — Lady Lydia fez beicinho. Seus olhos se voltaram para a Srta. Fairweather prostrada no chão. — Como você pode ver, eu fui detido. — Suponho que você não pode deixá-la assim para que acorde sozinha? — Lady Lydia perguntou esperançosa. — Não. — Eu entendo. Você quer que eu faça algo? — Lady Lydia perguntou, olhando para Penelope. — Chame Anne e peça a ela para trazer sais aromáticos. A Srta. Martin pode ter um pouco. O duque esperou até que Lady Lydia partisse para dizer a Penelope: — Srta. Fairweather, estamos sozinhos agora. Você pode parar com essa bobagem e se levantar. Penelope manteve-se na personagem e continuou fingindo-se de morta. — Eu poderia despejar esta taça de vinho na sua cabeça — ele disse tranquilamente. Os olhos de Penelope se abriram e ela olhou para a mão dele. Estava vazia. Ela então se lembrou de sua situação e disse sonolenta: — Onde estou? O duque ergueu uma sobrancelha e disse: — Quem sou eu? Que horas são? — Oi? — É o que se diz ao acordar de um desmaio. Você esqueceu as outras duas frases. — Eu desmaiei — Penelope retrucou. — Eu não duvido. — Bem, acho que sim. — Acha que sim o quê? — Que você duvida. — Devo ter alguma razão para duvidar? Penelope não respondeu. Ela moveu a cabeça tentando se levantar. A mão do duque logo se movimentou para proteger sua cabeça de bater em um vaso de flores de barro. Ele fez uma careta. — Por que você estava fingindo? Lorde Poyning tentou fazer algo desagradável? — Não. — Você tem certeza? — ele perguntou, acenando com a luva na frente do rosto dela. — Sim — disse ela, pegando a luva dele e vestindo-a. — Estou surpreso, Srta. Fairweather. Você teve uma excelente oportunidade de prender um homem rico e a deixou passar? Ele deve ter feito algo. Caso contrário, por que... — Sua graça, já basta. Eu desmaiei e... — Ou desmaiar era parte do seu plano para prendê-lo? Ele não estava caindo no seu jogo? Eu me pergunto se eu estraguei as coisas vindo aqui e... Penelope se sobressaltou, agarrando o pescoço dele com suas pequenas mãos. — Oh, seu homem horrível, eu gostaria de poder estrangulá-lo. Eu não estava tentando prendê-lo. Você... Alguém pigarreou atrás deles e quando Penelope se virou, viu Anne, Lady Lydia e Lorde Poyning olhando para ela. Ela engoliu em seco e abaixou as mãos. — Todos vocês evitaram um assassinato hoje. Parabéns. Agora, podemos voltar para dentro de casa? — o duque perguntou suavemente. — Ah, o conhaque, acho que preciso dele mais do que a Srta. Fairweather aqui, Lorde Poyning. Depois de toda a situação de quase morte, estou em choque. Lorde Poyning entregou o copo ao duque e, em seguida, observando Penelope com cautela, voltou para o salão. — O que aconteceu? — Anne perguntou, uma vez que eles estavam sozinhos. Penelope ajeitou as saias e alisou os cabelos. — Desmaiei e tentei assassinar o duque. Devemos voltar para dentro do salão? — Sim, claro. É uma pena que você não tenha acabado com meu irmão. Se tivéssemos chegado alguns minutos depois... ∞∞∞ Depois de uma breve conversa com Anne, Penelope voltou à sala de estar da Srta. Martin com um novo plano de ação. De acordo com esse plano, ela deveria atrair Lorde Rivers, o que resolveria dois problemas urgentes. Em primeiro lugar, sua própria busca por um marido se tornaria mais focada. Lorde Rivers era um excelente partido — rico, nobre, jovem e agradável. E ainda assim ninguém o via como um candidato a marido. Seu desinteresse e respostas breves desanimavam até as mães mais ambiciosas de candidatas a noiva. E o mais importante, ele não lhe causava nada. Em segundo lugar, Lorde Poyning finalmente pararia de persegui-la. E se Lorde Rivers estava cortejando Penelope, então Anne passaria mais tempo com Lorde Poyning, pois os dois amigos pareciam próximos. O plano era bastante simples. A execução era o problema. Seu primeiro obstáculo ocorreu quando ela tentou puxar conversa com ele. Assim como todos os seus antecessores, ela também estava tendo dificuldade em arrancar mais do que uma palavra dele. Se ela fizesse charme, ele pensava que ela queria algo mais. Se ela o elogiava, ele a olhava com desconfiança, e se ela usava a linguagem de flerte com leques, ele logo se desculpava. Ela mudou de tática, falando com ele como faria com um primo ou amigo. Isso pareceu funcionar melhor. Ele tinha acabado de começar a gostar dela quando Lady Lydia de repente chegou ao meio deles como uma gota de gelo cintilante que se soltava do telhado de uma caverna escura e úmida e pousava no topo da cabeça de um urso polar desavisado. Penelope era aquele infeliz urso polar. — Lorde Rivers, você está sendo muito gentil mantendo nosso convidado entretido. Está se sentindo melhor, Srta. Fairweather? — Lady Lydia não esperou que ela respondesse, mas continuou: — Tenho sido negligente em meus deveres. Por direito, eu deveria ter providenciado o conforto da Srta. Fairweather. Ela quase não conhece ninguém aqui e eu... — Ela não é sua convidada — Anne disse cortando-a. — Anne, querida, sou a noiva do duque e em breve serei sua noiva. Serei a duquesa de Blackthorne e, por esse direito, tenho algumas obrigações a cumprir. A Srta. Fairweather é uma delas. Ela é a convidada do duque, então... — Você ainda não é a duquesa de Blackthorne. Acho que deve aproveitar sua liberdade enquanto a tem. Por favor, deixe a Srta. Fairweather comigo por enquanto. Você terá muito o que fazer quando e se acabar se casando com Charles — Anne respondeu, sua voz açucarada. — Onde está Charles? — Lady Lydia perguntou, olhando para Anne. Anne encolheu os ombros. — Você deveria saber. Afinal, ele é seu noivo. Sou apenas sua irmã e ele não sente necessidade de me manter informada sobre seu paradeiro. Lady Lydia jogou o xale vermelho-sangue sobre os ombros. Seu olhar de despedida advertiu claramente que assim que se tornasse a duquesa, a primeira pessoa que ela mandaria embora seria Anne. — Você pode me agradecer mais tarde por salvá-la daquela... daquela... arrrgh! Não conheço uma palavra ruim suficiente para ela — disse Anne. — Silêncio, Lorde Rivers e Lorde Poyning vão ouvi-la. Lembre-se, você é toda doce e leve, ou pelo menos deveria ser na presença de homens — disse Penelope. — Madame? — Quem mais vai me ensinar essas coisas? — Penelope disse sorrindo. — Eu gostaria que ele não se casasse com ela — Anne disse, seu rosto desanimado. — Eu sei que ela é umpouco ranzinza, mas se o duque a ama... — Rabugenta — Anne riu. — A Rabugenta Lady Lydia. Isso, sim. Quanto ao amor, é uma combinação de conveniência. Ela pertence à família certa, e seu pai, Lorde Snowly, tem muitos interesses comerciais em comum com Charles. Lydia correu para o pai no momento em que pôs os olhos em Charles. Seu pai nunca privou sua querida filha de nada, então ele embrulhou meu irmão em fitas e deu a ela de presente no aniversário dela. Fizeram uma festa naquela ocasião. — Não sabia que o duque estava disposto a se casar por conveniência. — Ele só vai se casar por conveniência. Qualquer coisa menos amor — Anne respondeu, terminando a conversa. Lorde Rivers havia desaparecido. Penelope presumiu que ela provavelmente o havia assustado. Portanto, sem mais nada com que se ocupar, ela passou a noite pensando no último comentário de Anne e observando os casais dançarem. Curiosamente, Lady Lydia estava valsando nos braços de Lorde Poyning, e os dois estavam muito mais próximos do que o que parecia apropriado. O duque e Anne mantinham expressões lívidas idênticas enquanto observavam a dança do casal. As razões de Anne eram compreensíveis, mas Penelope se admirou com a cara séria do duque. Anne havia dito que o duque não amava Lady Lydia, mas seria verdade? Ele estava sofrendo um ataque de ciúme ao ver Lady Lydia rir no ombro de Lorde Poyning? Pensar nisso fez com que o coração dela doesse por ele. Capítulo 23 Anne mexeu seu mingau melancolicamente. Parecia que o mundo havia desabado ao lado de suas orelhas ligeiramente pontiagudas. O duque olhou para o sol que entrava pelas grandes janelas francesas da sala de café da manhã. Às vezes garfava seus ovos e a salsicha. A viúva e Penelope olharam o prato ferido do café da manhã do duque em perigo. Era suficiente dizer que o dia havia começado bastante mal. Penelope não aguentava mais o clima de velório. Ela se lembrou da velha senhora que vira no Hyde Park no dia anterior. Ela estava tentando animar seu spaniel triste. O spaniel se animou e talvez o duque também. O truque era falar direito. Ela praticou suavemente bem baixinho. Ela perdeu o olhar assustado da viúva e a expressão alegre de Anne. Penelope falou alto, exatamente no tipo certo de voz que se usa em tais situações, e antes que a viúva pudesse avisá-la, já estava fora. — Duque, duquesinho, duque, duquesinho. Por que você está tão tristinho? Hein? Por que tão tristinho? O duquesinho está tristinho? Fez-se um silêncio atordoado. Penelope não desanimou. Tentou novamente. — Posso ver um sorriso pairando sobre sua cabeça, sua graça. O duque fez uma careta. — Opa, o sorriso caiu no topo da sua cabeça. Consegue senti-lo escorrendo até a ponta do nariz? Consigo ver. Agora está empoleirado em seu lábio superior. Olha, está escorregando lentamente... Agora atingiu o meio dos seus lábios... e está fazendo cócegas nos cantos dos seus lábios e ali, ali, ali eeee... Você sorriu! O duque não estava sorrindo. Anne caiu na gargalhada e a viúva enfiou um guardanapo na boca. Penelope desanimou rapidamente diante da expressão assustadora do duque. Ela se encolheu ainda mais em seu assento, desejando poder desaparecer. As palavras pareciam razoáveis em sua cabeça, mas dirigir-se com elas a Charles Radclyff, o duque de Blackthorne, não parecia muito certo. O duque lançou um olhar ácido para sua mãe e irmã, que estavam sem força de tanto rir. A cabeça dele se virou lentamente para Penelope, que agora havia deslizado da cadeira e se sentado embaixo da mesa. Apenas seus olhos eram visíveis acima da mesa. Ela o espiou por entre a geleia e a manteiga. Ele hesitou e, para o choque total de todos, começou a rir, uma risada profunda e estridente que ecoou pelo salão. Lágrimas brilharam nos olhos da viúva e seu rosto se suavizou ao ver seu filho rir. Anne agarrou a mão de Penelope e apertou-a com gratidão. Sua voz estava carregada de emoção quando disse: — Charles, Penelope fez você rir de novo. O duque congelou, seus olhos indo para Penelope. Ele se levantou lentamente, o sorriso desaparecendo. — Srta. Fairweather, gostaria de vê-la em meu escritório. Por favor, termine o seu café da manhã primeiro. — Ele falou com calma. A tristeza que brilhava em seus olhos naquela manhã foi substituída por algo pior. Vazio. O silêncio reinou após a partida do duque. ∞∞∞ O duque não estava feliz. Nos últimos cinco anos, ele não conseguia se lembrar de um único momento em que se sentira tão infeliz. Eram as mulheres que tornavam os homens tristes, ele pensou. Mulheres que entravam correndo na vida de um homem solteiro como um cachorrinho sem dono. Em vez de chinelos, elas mastigavam sentimentos, destruíam os bens favoritos de um homem, ocupavam todo o seu tempo e então olhavam para eles com grandes olhos inocentes que pareciam dize: “Quem, eu? Eu nunca faria isso”. Afastando o livro-razão, ele se perguntou o que fazer com a Srta. Fairweather. Todos os seus planos deram em nada, e com sua mãe apoiando o mosquito, as coisas estavam terríveis. — Sua graça? — Theodore guinchou. O duque fechou o livro-razão. Ele teria que planejar algo logo. Ela estava ficando cada vez mais ousada, até ousando fazê-lo rir. — Sua graça, é um assunto de grande urgência. A casa Desmond está fedendo a... O duque levantou a cabeça. — Fedendo? Cheira muito mal? — Muito mal, sua graça. Uma das garotas desmaiou. — Fedendo o suficiente para fazer uma garota desmaiar. Isso é maravilhoso, Theodore. As melhores notícias que recebo nos últimos dias. — Sua graça, mas... — Theodore, é só isso. Discutiremos o resto amanhã. Oh, e deixe um pequeno mapa de onde a casa de Desmond está localizada na minha mesa antes de ir. — Mas sua graça... — Mais tarde, Theodore. Os bigodes do homem tremiam muito, mas ele obedeceu. Ele deixou o mapa e partiu. ∞∞∞ — Entre. Penelope reuniu toda sua coragem e entrou no escritório. O duque estava sentado a sua mesa girando um globo em miniatura. Ele não ergueu os olhos quando ela entrou nem reconheceu sua presença de nenhuma outra forma. Continuou brincando com o globo enquanto ela estava nervosa, apoiando-se em um pé e depois no outro. Ele estava perdido em seus pensamentos, seus olhos desfocados. O que quer que ele estivesse pensando parecia estar deixando-o cada vez mais furioso. E com suas emoções cada vez mais intensas, o globo girava mais rápido. Mas foi só quando ele parou de repente o globo que Penelope começou a se preocupar. Ele finalmente olhou para a frente e fez um gesto em direção à cadeira. Penelope escolheu ficar de pé. Seria mais fácil correr assim. Sua boca se torceu sem que ele risse. Ele adivinhou seus pensamentos e passou por ela em direção à única entrada da sala. Ficou de costas para a porta bloqueando sua única rota de fuga. Penelope encontrou seus olhos corajosamente, recusando-se a se intimidar. Desta vez, tudo o que ela tinha feito foi fazê-lo rir. Isso não era um crime. — Você apertou minha orelha — disse o duque indignado. Penelope examinou o tapete. — Depois disso, você começou a ficar bêbada na mesa de jantar. — O duque começou a andar para cima e para baixo na sala. — Você fez amizade com minha mãe e minha irmã e as manipulou a tal ponto que minha mãe, que sempre segue meus conselhos, parou de me ouvir. E Anne, sob sua influência, tornou-se inconstante e desrespeitosa. Pedi para você sair e você se recusou a seguir minha ordem. Que mulher que se respeita continuará em um lugar onde ela é claramente indesejada? Uma minúscula carranca tomou a testa de Penelope. — Você é uma influência terrível para minha irmã. Tenho certeza de que você fará algo que difamará seu caráter e que, por sua vez, refletirá em Anne, que é sempre vista em sua maldita companhia. Penelope levantou a cabeça e olhou para ele. O duque continuou furioso: — Por que julgo seu caráter com tanta severidade? Em primeiro lugar, você tentou seduzir Lorde Poyning. Um homem e uma mulher não fogem para um canto escuro da varanda, longe de olhos curiosos para discutir o tempo. Eles queremprivacidade por um motivo e esse motivo é... — Eu não tentei seduzi-lo — Penelope finalmente explodiu. — Em segundo lugar — o duque continuou ignorando sua explosão — quando seu plano de prender Lorde Poyning falhou, você começou a ficar de olho em Lorde Rivers. Você, Srta. Fairweather, é inconstante em suas afeições. — Eu... — Penelope começou a dizer. O duque a interrompeu: — E em terceiro lugar — disse ele caminhando até ela —, você tentou me seduzir em seu primeiro dia em Londres. Penelope deu um passo para trás e suas pernas bateram na escrivaninha. — Eu não tentei te seduzir. Você me beijou. — Aquilo não foi um beijo. O duque se inclinou, forçando-a a se curvar para trás. — Minha cara Srta. Fairweather, concluindo, você é uma meretriz. Na verdade, pior do que isso, pois meretrizes são pagas por seus serviços enquanto você... Penelope ficou irada e agarrou a primeira coisa que tocou sua mão. Ela ergueu o objeto e o duque segurou seu pulso. — Esse tinteiro, minha querida, vale mais do que você. Largue-o. Penelope relutou. O tinteiro caiu no tapete com um baque, mas ela não desistiu. Ela se contorceu para fugir e o duque segurou seus pulsos, recusando-se a soltá-la. — Senhorita Fairweather, vou deixá-la ir se prometer se comportar de maneira civilizada e parar com esse absurdo. Sem jogar coisas por aí. — Por que você... seu babaca. Não vou prometer nada — Penelope rosnou, pisando em seu pé. — Ai, Srta. Fairweather, acalme-se. Pare com isso. Pare... Ai. O duque moveu seu grande pé revestido de couro para trás e Penelope deu um passo à frente, esticou seus minúsculos pés e bateu os pés várias vezes. — Sou uma meretriz? — Penelope gritou, soprando o cabelo do rosto. — Sua mãe e irmã não se importam se eu quebrar suas preciosas regras. Na verdade, elas me disseram que você as quebra o tempo todo, assim como seus convidados exaltados. Por que estou sendo escolhida? O duque pulava de um pé para o outro tentando evitar que ela batesse os pés. E enquanto seus pés dançavam pela sala, suas cabeças continuaram a discutir. — Eu fiquei porque sua mãe me pediu para ficar. A promessa dela à minha mãe moribunda significa algo para mim, mesmo que você não a valorize. Além disso, não tenho outro lugar para ir. Minha madrasta me proibiu de voltar para Finnshire. — Eu não culpo sua pobre madrasta. Ter uma criança selvagem como você empurrada em seu peito sem qualquer aviso — o duque começou a dizer quando Penelope levantou o joelho na tentativa de acertá-lo entre as pernas. Instintivamente, a perna do duque se curvou e ele perdeu o equilíbrio e caiu para trás, no sofá. Penelope acabou bem em cima dele. — Minha madrasta me odeia... — ela disse, sua voz abafada pela camisa dele. — Tem como culpá-la? — o duque perguntou incrédulo. Ela olhou para o rosto dele e respondeu: — Eu não vou embora. Você pode conversar com sua mãe. Se ela me disser para ir, eu irei. — Ela não vai mandar você ir. Você diz a ela que quer ir. Penelope fez uma careta para ele. — Diga a ela que quer ir — ela imitou com uma voz infantil. — Eu não gosto de você — ele disse carrancudo de volta. — Disso nós já sabemos — ela respondeu, tentando se levantar. Caiu de costas no peito dele. — Eu tenho uma proposta. Ela olhou para ele em choque. — Não esse tipo de proposta — disse ele apressadamente. — Eu quero que você limpe a casa. Ela se acalmou um pouco. — Limpar a casa? Os empregados... — Não esta casa, a casa Desmond. — Desmond? — Desmond era um jardineiro-chefe. Meu avô construiu uma casa para ele perto da Mansão Blackthorne. A casa agora está vazia, escondida entre as árvores... — E você quer que eu a limpe. Por quê? — É uma casa muito suja. Precisa de limpeza. — Mas por que eu deveria limpá-la? — É uma aposta. Se você limpá-la sozinha e dentro de um dia, permitirei que viva aqui pelo resto da vida. Vou considerar todas as suas dívidas pagas. Eu nunca vou pedir para você sair. Vou tolerar você como faria com um rato no porão. Você vai morar aqui e eu vou morar aqui sob o mesmo teto — o duque estremeceu e continuou — e enquanto nos mantivermos longe um do outro, então tudo ficará bem. — E se eu não puder? — Então você vai fazer as malas e convencer minha mãe que quer voltar para Finnshire. Minha mãe pode ignorar meus desejos, mas ela não pode forçá-la a ficar se você insistir que quer ir. — Qual é tamanho dessa casa? — Quatro quartos. Tenho certeza que você pode administrar muito. Penelope olhou para ele com desconfiança. — Quartos grandes ou pequenos? — Menores do que os quartos aqui, eu acho. Não tenho certeza. Isso não parecia tão ruim. Se ela conseguisse fazer isso, o duque pararia de tentar mandá-la para casa. O risco valia a pena. — Eu aceito. O duque sorriu para ela. — Eu sabia que você concordaria. De repente, eles perceberam que ainda estavam deitados um em cima do outro. O duque saltou e ajudou Penelope a se levantar. Ele foi até sua escrivaninha e pegou um pequeno mapa. — É aqui que você vai encontrar a casa. Lembre-se, você não pode levar ninguém para ajudá-la. Penelope, querendo fazer as coisas direito, cuspiu em sua mão e ofereceu a ele para selar a barganha. O duque olhou para a saliva brilhando na palma de sua mão. Ele agitou cuidadosamente dois de seus dedos. Penelope tentou retirar os dedos, mas ele os segurou com força. Estava olhando para as marcas vermelhas em seu pulso. — Eu não queria... Coloque um pouco de pomada nisso. — Eu vou — ela respondeu, alisando suas saias e seu cabelo. O duque desviou o olhar e fez um gesto em direção ao peito dela. — O que foi? — Penelope perguntou. — Ali — respondeu o duque, apontando vagamente para o seio dela. Ele se recusou a olhar na direção dela. Penelope olhou para o peito e percebeu que um botão havia se aberto. Ela dúvida um grito e, virando-se, fechou o botão de novo. Encarando o duque mais uma vez, ela inclinou a cabeça educadamente e saiu da sala. Era uma trégua por enquanto. Capítulo 24 Enquanto os ocupantes da Mansão Blackthorne roncavam, Penelope acordou e espreguiçou-se demoradamente. Ela se sentia contente, calorosa e feliz. A temporada estava indo tão bem quanto se podia esperar. Ela não vacilava mais quando um mordomo anunciava seu nome. Sir Henry, Anne e a viúva a aceitaram. As aulas com Madame estavam progredindo bem e, o mais importante, o duque finalmente decidira dar-lhe uma chance. Tudo o que ela precisava fazer era limpar a casa suja de Desmond. Depois disso, ela não teria nada a temer. Jogou as cobertas de lado e relutantemente se levantou. Uma olhada pela janela mostrou um lindo céu rosa. Ela se trocou rapidamente e, carregando uma vassoura e um balde cheio de escovas de limpeza, esfregões e trapos, saiu. O balde estava pesado e muitas vezes ela tinha que parar e descansar, mas não se importo, pois era uma manhã maravilhosa, nem muito fria nem muito quente. As flores desabrochavam, os pássaros cantavam e o cheiro de grama doce enchia o ar. Assoviando uma melodia feliz, ela caminhou em direção à casa de Desmond. ∞∞∞ Os londrinos, com o nariz pressionado contra as janelas frias, sorriam, pois uma tempestade de meados do verão assolava a Inglaterra. Zeus abençoou sua terra, tirando o sol brilhante e feliz e substituindo-o por rajadas de vento, chuva forte e miséria total. O duque estava sentado em seu escritório examinando as contas. Seus olhos olhavam rapidamente os números enquanto os bigodes de Theodore se contraíam nervosamente. — Sobre a casa de Desmond, sua graça... — Theodore guinchou. — Sim, pedi a alguém para limpar o lugar... Eu mencionei isso para você?— — Não, mas se tivermos sorte, a tempestade fará o trabalho. — A tempestade? — Sim, estou esperando que a tempestade derrube a casa, se não completamente, pelo menos parcialmente. Isso tornará nosso trabalho mais fácil. O duque olhou para a frente bruscamente. Ele perguntou lenta e cuidadosamente: — O que você quer dizer com derrubar a casa? Achei que você disse que o problema era o cheiro? — Sim, o cheiro era de madeira podre e mofo. A casa estávazia há anos, desde que o Sr. Desmond morreu. O filho da Sra. Green se casou recentemente, e achei que seria um presente maravilhoso para o filho dela se lhes déssemos a casa para alugar por um preço baixo. Fui inspecionar e uma viga quase caiu na minha cabeça. Tive medo de que alguém decidisse passar a noite ali e acabasse morrendo. Eu tentei te dizer isso, senhor... — O estado da casa está tão ruim assim? Theodore tremeu com o tom do duque. — A maior parte da madeira apodreceu e o teto está perigosamente baixo. As paredes têm rachaduras. Não podemos fazer muito a respeito, exceto queimar os restos mortais e construir uma nova casa do zero. Não se preocupe, senhor. Tenho outra propriedade em mente para o filho da Sra. Green... O duque circulou um número no livro-razão. Entregou o livro a Theodore e disse calmamente: — Isso não está somando. Vou deixar você terminar o resto do trabalho aqui. Tenho alguns negócios a tratar. Lide com qualquer coisa urgente. — Sim, sua graça — respondeu ele, seu rosto enrugando em confusão. Os sapatos pretos do duque estalaram no corredor em direção à sala matinal. Ele vira Penelope pela última vez no jantar de Lorde Henley na noite anterior. Naquela manhã, ela não desceu para o café da manhã. Todos presumiram que ela estava cansada depois de ter dormido tarde tantas noites e decidira dormir mais. — Mãe, viu a Srta. Fairweather? Anne? — Charles, estávamos indo até você. Eu não a vi em seu quarto desde hoje cedo. Sua empregada estava preocupada e acaba de nos informar de sua ausência. Espero que ela não tenha saído para dar um passeio e agora esteja presa em algum lugar devido a uma tempestade terrível. Já faz horas, Charles... — Anne disse preocupada. — Ela é uma camponesa. Tenho certeza de que ficará bem. No entanto, vou tentar encontrá-la. Ela deve ter se abrigado por perto e está esperando o clima melhorar. Calma, Annie. Mãe, voltarei em breve. O duque falou suavemente. Seu coração, porém, batia forte. No momento em que fechou a porta da sala matinal, começou a correr. Ele parou tempo suficiente para examinar o conteúdo de um mapa que estava em seu escritório. Depois disso, saiu da Mansão Blackthorne e enfrentou a tempestade violenta. Lá fora, parecia mais noite do que o meio da manhã. Nuvens negras encobriram o sol, enquanto o vento quebrava galhos de árvores, rasgando as delicadas videiras. A chuva caía em cascata como uma torneira quebrada e as flores se curvavam sob o peso. A terra havia se tornado lamacenta, escorregadia e perigosa. O duque correu a maior parte do caminho, sem se importar com o vento e a chuva golpeando seu rosto. Quando chegou à casa de Desmond, descobriu que a porta estava pendurada em uma dobradiça e o vento forte a balançava loucamente. Ele a pegou e segurou, com o coração na boca. Tudo o que podia ver era escuridão e a caixa de iscas em seu bolso estava encharcada. — Penelope — ele rugiu, tentando gritar por cima da tempestade violenta. Ele a chamou várias vezes, seus ouvidos se esforçando para ouvir o som de sua voz. — Aqui — uma voz suave foi ouvida vinda da parte de trás da casa. Ele vacilou, calando-se. Perguntou-se se tinha imaginado aquilo. Ele entrou mais fundo na casa. O cheiro de chuva e vento havia lavado o fedor. Uma viga havia desabado em um canto. Uma luz cinza suave vinda do telhado quebrado iluminou partes da casa. Ele cuidadosamente caminhou sobre a madeira e os móveis podres. Outro sussurro de som o alcançou e ele fez uma pausa, prendendo a respiração. — Eu estou aqui. A esperança cresceu em seu peito. Era a voz de Penelope. — Estou indo. Onde você está? — ele gritou. — Atrás da viga. Eu não posso sair. Uma grande viga havia caído diagonalmente em uma porta no canto. Uma pequena parte da porta no topo havia apodrecido, deixando uma pequena lacuna. Ele ficou na ponta dos pés e espiou pela abertura. Ela estava encolhida em um canto usando um vestido grande demais para ela; um vestido de empregada, ele imaginou. Ela estava segurando um trapo imundo nas pequenas mãos, e seu cabelo e rosto estavam sujos. Um balde vazio e uma vassoura estavam encostados na parede. Seu coração apertou ao ver aquilo. Ele começou a falar baixinho enquanto suas mãos trabalhavam para afastar a viga quebrada. — Um dia desagradável para passear. — Acordei cedo. Estava tudo bem de manhã... — disse ela, batendo os dentes. — Quando você saiu de casa? — Às cinco. — Você deveria ter trazido sua empregada junto. — Você me disse para limpar esta casa sozinha e sem ajuda. Como eu poderia levar Mary? Queria terminar de limpar. Você disse que se eu limpasse você me deixaria ficar... Eu estava limpando... Aí começou a tempestade e a viga caiu. Não consigo mais limpar... A madeira é muito pesada... — Ela ficou em silêncio. O duque praguejou baixinho. Já passava das onze. Ela tinha ficado presa por horas sem saber se sairia dessa viva. — Estaremos em casa em breve. — Eu não tenho uma casa. Eu não limpei... perdi... Ele se levantou, tentando levantar a viga. Ele viu o rosto dela... Estava congelado, em choque. Ele queria que ela gritasse, gritasse e jogasse coisas nele. Ele queria que ela se comportasse como a Penélope que ele conhecia. A voz dela estava tão diferente... O feixe se moveu sob suas mãos. Ele o ergueu e o moveu de lado. — Penélope? — ele disse suavemente, abrindo a porta. Ela se levantou com dificuldade e olhou para o duque. Ele abriu os braços e o pano caiu de sua mão. Ela deu um passo hesitante, os olhos fixos nos dele. Ela deu outro passo, desta vez com mais confiança, e de repente estava correndo na direção dele. Ela fez uma pausa quando eles estavam perto o suficiente para se beijar. Ele sorriu de modo encorajador. E foi então que ela o socou no estômago. Ele ficou mais aliviado do que ferido. O fogo estava de volta aos olhos de Penelope. Ele ergueu a mão, tentando alcançá-la. Ela recuou, escolhendo ir mais fundo na casa perigosa em vez de tê-lo tocando-a novamente. Ela falou rapidamente com os dentes batendo: — Você tentou me matar. — Não seja ridículo... Ela falou sobre ele: — Eu tive horas para pensar. A casa Desmond é sua propriedade. Você tinha que saber em que estado a casa estava. Como poderia não saber? Você me enviou aqui sabendo que eu poderia ser morto. A casa estava desmoronando antes mesmo de a tempestade começar. Você esperava encontrar meu cadáver? Você está desapontado por me ver vivo? — Você está sendo dramática. Acalme-se e me escute por um momento. — Não — gritou Penelope. — Eu não quero ouvir mais nada do que você tem a dizer. Você não gostou de mim desde o momento em que pôs os olhos em mim. Seu orgulho foi ferido quando eu me recusei a partir, então você planejou me matar. — Você está enganada. Ela ergueu a mão. Seu corpo inteiro tremia de raiva. — Eu não entendo você, não sua bondade nem seu ódio. Não entendo por que alguém tão insignificante como eu perturba seu mundo pretensioso. Mas sei que escolho a vida. Prefiro viver com Lorde Weevil, que faz minha pele arrepiar, e uma madrasta que odeia ver meu rosto, a morrer de autopiedade. Eu valorizo minha vida acima e acima da política, carruagens, joias e títulos mesquinhos de Londres. Eu quero viver, sua graça. Viva até ficar velha, grisalha e murcha. Você ganhou a aposta, duque de Blackthorne. Você conseguiu o que sempre quis. Estou indo embora — ela terminou sem alterar o tom. — Penelope... — Srta. Fairweather — ela o corrigiu friamente, movendo-se em direção à entrada. — Srta. Fairweather, deixe-me explicar... — disse ele, agarrando o braço dela. Ela balançou a cabeça recusando-se a ouvi-lo. Soltando a mão, ela cobriu os ouvidos e correu para fora da casa. Ele a observou desaparecer na tempestade lá fora. Seus passos eram seguros e sua cabeça estava erguida. Ela não derramou uma única lágrima. Ele bateu a mão na porta, seus olhos se fechando com remorso. Ela não tinha perdido, ele sabia, mas ganhou. Ele ficou por um longo tempo olhando com olhos cegos enquanto a casa de Desmond desmoronava ao seu redor. Capítulo 25Penelope abriu sua mala de viagem. Em seguida, puxou a bolsa de meias do guarda-roupa e começou a separá-las. Ela se recusou a pegar uma única peça de roupa que o duque pagou. Ela havia trazido duas meias, ambas pretas e desfiadas. Devia ser fácil de encontrar. — Srta. Fairweather. Ela se virou e encontrou o duque parado na entrada, ensopado. Ele não mudou, mas foi direto para o quarto dela. Ela recuou até que seus ombros tocassem o guarda-roupa. — Eu não estou aqui para matar você — disse ele irritado, caminhando para o outro canto da sala. — Vá e fique perto da porta. Se eu lançar um ataque, você será capaz de escapar. — Você vai atacar? — Não, mas eu peço que você me escute. Ela não respondeu. Em vez disso, foi até o guarda-roupa e começou a tirar os vestidos. — Eu vim aqui para explicar... — Explicar? Você deveria estar se desculpando... Oh, mas o grande duque de Blackthorne nunca se desculpa, é claro — disse ela, seus lábios se curvando amargamente. — Você vai ficar quieta até ouvir o que tenho a dizer? Depois disso, você pode voltar a me acusar. Os olhos de Penelope voaram para os dele. Ele estava parecendo envergonhado. — Isso é difícil para mim. Um pouco embaraçoso e não sei como dizer isso — disse o duque, hesitante. Penelope cruzou os braços sobre o peito. Esquecendo suas coisas, ela fixou os olhos nele. Isso estava ficando interessante. — Estou ouvindo — disse ela. — Está? Bem, você não quer continuar fazendo as malas enquanto eu falo? — Não, eu quero olhar bem para você. — Tudo bem, a questão é que... Bem, é que é um pouco impróprio falar sobre isso com uma mocinha. Mas então você não é exatamente uma moci.... Penelope soltou um grunhido. O duque continuou: — Quando eu tinha dezessete anos, me apaixonei por uma garota, Emily. Ela era um ano mais velha do que eu e disse que também me amava. Ela também me disse que estava grávida esperando um filho meu. Pouco depois disso... eu a peguei na cama com meu lacaio. — Você a flagrou com o Morsa? — Morsa? — Morsa, o lacaio. — Oh, não, era seu primo. Você sabe sobre isso? — ele perguntou, olhando para ela com desconfiança. — Não, foi um palpite. De qualquer forma, você foi traído e seu coração foi partido. Depois disso, você começou a odiar todas as mulheres. O pobre duque foi enganado no amor e decidiu nunca mais se apaixonar. Estou certa? — Não exatamente. Bem, veja, eu me apaixonei de novo aos vinte e dois. E desta vez, Elizabeth me disse que estava grávida de mim. Pouco depois, peguei-a na cama com o jardineiro-chefe. — Lovell? Mas ele tem oitenta anos. — Não. O jardineiro-chefe dela. — Certo, então você foi traído duas vezes. Muitas pessoas são enganadas em suas vidas, mas isso não é uma razão boa o suficiente para desconfiar de todas as mulheres. — Quando eu tinha vinte e cinco anos — continuou o duque — Elizabeth me contou que estava grávida do meu filho. Eu então a peguei na cama com meu cocheiro. — A mesma Elizabeth que você pegou com o jardineiro-chefe? — Não, era uma Elizabeth diferente. Quando eu tinha vinte e seis anos, eu peguei... — Pare — Penelope ordenou. — Eu acho que percebi onde você quer chegar com isso. Você foi traído várias vezes. Agora estou começando a entender por que você não quer mais se apaixonar. — Cada vez que me apaixonei, a garota em questão me traiu — disse ele com seriedade. — Eu nunca pensei que sentiria pena de você — disse ela. Então, depois de pensar um pouco, ela perguntou: — Mas por que eles traíram você e tantas mulheres. E quantas mulheres estavam lá? — — O número não importa. O que importa é o fato de que aquelas de quem só gostava, mas não amava, continuavam fiéis a mim. Mas se eu me apaixonasse, as mulheres acabavam na cama com outra pessoa. Era um pouco misterioso e perguntei a Lor... quero dizer, a Madame Bellafraunde sobre isso. — Quando você perguntou a ela? — O dia em que te peguei com seu espartilho e calcinha. Ela me encontrou depois da sua aula para explicar as coisas. Uma coisa levou à outra, e logo eu estava confessando meu dilema e ela parecia a pessoa certa com quem conversar. Afinal, ela é a senhora que treina as damas da alta sociedade em questões de amor e mentira. — Oh, eu me lembro agora. Foi o dia em que atirei no teto. — Você fez o quê? Você atirou no teto? Eu quero... — Ele fez uma pausa e respirou fundo. Depois de um momento, continuou com mais calma. — Não se preocupe com isso agora. Onde eu estava? Oh, sim, Madame. Ela disse que a razão pela qual as mulheres foram forçadas a me trair foi porque demorei muito a pedir que elas se casassem comigo. Elas tiveram que bolar um plano para me prender. Elas estavam perdendo a juventude, e eu sou um ótimo partido. Ela também disse que eu não estava apaixonado todas as vezes. Ela fez uma experiência comigo, em que me disse para me imaginar casado com uma das mulheres que pensei ter amado. — Então o que aconteceu? — Comecei a suar frio, minhas orelhas ficaram quentes, meu pescoço começou a coçar e todo o meu corpo começou a tremer de medo. Acontece toda vez que penso em me acorrentar a uma mulher pelo resto da vida. Madame disse que quando eu me apaixono, a ideia de perder a garota que amo deveria me fazer suar frio, e não a ideia de passar o resto da minha vida com ela. É por isso que decidi olhar para o casamento como uma parceria de negócios e não como uma união por amor. Isso torna as coisas mais fáceis. E eu preciso de um herdeiro. — Sua graça, quando você era mais jovem, você se apaixonava toda vez que espirrava? — Era mais como uma gripe sazonal. — Isso tudo é de partir o coração, mas por que você está me contando tudo isso? — Esta é a primeira razão pela qual eu queria você fora de casa. Agora você pode entender por que eu sou um pouco cauteloso com as mulheres, especialmente aquelas que tentam me seduzir. E você tentou dormir comigo naquela primeira noite. Estava convencido de que você faria algo maluco para me prender e se casar comigo. Você estava desesperada e Emily, Elizabeth, Lilly e todas elas estavam bem desesperadas para se casar. Eu fiquei com medo. — Eu não tentei dormir com você. — Suas ações dizem o contrário. — Eu não quero discutir sobre isso novamente. Qual é o outro motivo? — Minha mãe e minha irmã sempre acatam meus conselhos. Ninguém nunca me negou nada. É verdade que às vezes Anne consegue o que quer, mas seus desejos são materiais. Ela nunca antes foi contra minha vontade quando se trata de associar-me com a pessoa errada. Desde sua chegada, as duas se voltaram contra mim. Anne começou a discutir comigo e mamãe não ouve mais nada do que tenho a dizer. Você é a razão da mudança. Tudo estava indo bem até que você invadiu nossas vidas. — Então, seu ego monstruoso foi esmagado e você decidiu me matar? — Não seja ridícula. Eu não sabia que a casa Desmond estava em um estado tão ruim. Eu só sabia que estava fedendo. — Não ouse negar. Você tentou me matar! — Eu não. — Você sim. — Pense logicamente. Por que eu salvaria você se minha intenção era assassiná-la? Eu puxei de lado aquela viga e libertei você. — Quando você pega carne do açougueiro, você não se sente mal pela vaca que foi morta. Mas se alguém pedisse para você empunhar uma faca e matar a vaca com suas mãos, você não seria capaz de fazer isso. — Você está dizendo que é uma vaca? — Exatamente. — O quê? — Você me encontrou viva e não teve coragem de me matar. Tudo estaria bem se a tempestade tivesse acabado comigo. Eu sou como aquela vaca e a tempestade é o açougueiro. Você entende agora? — Sim, eu entendo. Você insiste que é uma vaca. Eu não vou discutir. — Eu não quis dizer... Oh, o que isso importa? Vá embora — ela disse, pegando os vestidos e os colocando na mala de viagem. — Você está simplesmente me usando como desculpa, Penelope. A verdade é que não tem coragem de enfrentar a temporada, pois você sabe tão bem quanto eu que ninguém se casará com você. Você tem medo de decepcionar muitas pessoas. É por isso que você decidiu fugir. — Isso não é verdade. — Então fique e prove — disse ele, caminhandoem direção à porta. — Você queria que eu fosse embora. — Agora eu quero que você fique. — É porque você mudou sua opinião sobre mim? Você ainda acha que eu sou uma meretriz? Após um breve silêncio, o duque falou muito rápido: — Achoquessim. — O quê? — Eu disse que acho que sim. — Você acha que sim? Que tipo de resposta é essa? Você acha ou não? — Acho que sim. — Oh, assim é muito melhor. Você supõe ou pensa que não sou mais uma meretriz. Isso deixa tudo muito claro. — Então, você vai ficar? — ele perguntou novamente, sua mão agora na maçaneta da porta. — Saia — ela murmurou, puxando os chinelos do guarda-roupa. Ele abriu a porta e saiu. Um momento depois, voltou a espiar ali dentro. — Penélope? — ele disse. — O que foi agora? — ela perguntou, preparando-se para apontar um chinelo na porta. — Eu sinto muito — ele disse suavemente e então fechou a porta. — Maldito homem podre — ela sussurrou, começando a abrir a bolsa. — Por que ele tinha que pedir desculpas? ∞∞∞ Exausta após a aventura da manhã e a luta com o duque, Penelope adormeceu. Ela acordou bem a tempo de se trocar para o jantar. Seu estômago roncou quando ela entrou na sala de jantar. Ela não tinha comido nada o dia todo. Ao sinal de Sir Henry, ela mergulhou a colher na sopa cremosa de tomate e levou à boca. Estava uma delícia. — Aonde você vai hoje? — perguntou Sir Henry. — Vamos ficar em casa. Penelope foi pega pela tempestade, vovô, e acho que ela está muito cansada para ir a qualquer lugar que seja — Anne respondeu. Penelope congelou ao ouvir sobre a tempestade. A sopa de repente ficou adocicada em sua boca, e ela colocou a colher de volta na tigela. Suas mãos tremiam. A parte racional de seu cérebro dizia que ela estava entrando em choque. Ela se sacudiu tentando se concentrar na mesa à luz de velas cheia de taças de vinho, carnes, frutas e queijos. Ela se lembrou de que estava cercada por pessoas e que estava segura. Forçou-se a se concentrar nas palavras de Sir Henry. — Ela está um pouco estranha. Achei que fosse uma briga de namorados, porque Charles também estava só olhando para sua sopa em vez de comê-la. O duque ergueu os olhos, silenciando a investigação de Sir Henry. Sir Henry olhou para os dois rostos brancos e franziu a testa. — Bem, Annie, alguma festa emocionante em vista? — perguntou Sir Henry, mudando de assunto com prudência. — Lady Plasket nos convidou para jantar amanhã à noite. — Srta. Fairweather, Lady Plasket parece um mangusto alongado. Sua cabeça é ridiculamente pequena em comparação ao seu torso interminável. Tenha cuidado com ela, minha querida. Ela tem fofocado desde que disparou aos gritos para este mundo. Eu a conheci há muito tempo. Duvido que ela tenha mudado. Sir Henry falhou em sua tentativa de fazer Penelope sorrir. Ela assentiu seriamente, seus olhos vagos. Perkins colocou um copo na frente dela, e ela distraidamente o pegou e tomou um gole. Seus olhos se voltaram para o duque quando o gosto do conhaque de cereja atingiu sua língua. Ele evitou os olhos dela. Ela cuidadosamente colocou o copo na mesa e se levantou. Com uma voz ligeiramente trêmula, ela se retirou. Ninguém a impediu. ∞∞∞ Penelope correu para seu quarto e encontrou Mary vestindo sua camisola. Lady Bathsheba estava sentada no tapete. — Mary? — O duque instruiu, senhorita. Lady Bathsheba deve ficar com você o tempo todo. Penelope abraçou seu animal de estimação e, pela primeira vez naquele dia, as lágrimas caíram. Ela escondeu o rosto no jaleco branco de Lady Bathsheba e ficou assim até Mary sair do quarto. Uma vez sozinha, suas lágrimas caíram com força. Ela colocou o retrato de sua mãe sobre a mesa, mas nenhuma palavra escapou de seus lábios. Ela chorou silenciosamente, sua mente mais uma vez presa na casa dilapidada com a tempestade rugindo sobre sua cabeça. Demorou um tempo para que ela se acalmasse. Assoando o nariz, ela subiu na cama arrastando Lady Bathsheba junto. A cabra acariciou sua bochecha tentando confortá-la. Depois de comer toda a lata de biscoitos que Walrus havia lhe dado, ela descansou a cabeça no travesseiro. Mas não conseguiu pregar o olho. Sua cabeça estava pesada e seu corpo doía. Inquieta, ela enfiou a mão embaixo do travesseiro tentando ficar confortável e encontrou um pedaço de papel. Ela puxou o lençol e, segurando-o mais perto da vela que quase se apagava, leu as palavras: Obrigado por ficar. Ela olhou para a linha de tinta azul escuro, seu coração disparado. A ponta do dedo traçou as palavras e seus olhos se fecharam com força. Ela amassou o papel e jogou no chão. Antes de dormir, seus sentimentos não eram mais de medo, mas de raiva. Capítulo 26 — Para atrair um homem, uma mulher deve sair para a floresta em uma noite de lua cheia completamente nua e dançar ao redor de uma fogueira. Se um leão com rabo peludo se aproximar, então a mulher conseguiu atrair o homem... O perigo é que você pode se tornar a ceia do leão. Ainda assim, estes são tempos desesperadores... Srta. Fairweather, eu tenho dito coisas sem sentido nos últimos dez minutos e você mal piscou... Srta. Fairweather? Madame suspirou. Sua aluna estava sonhando acordada novamente. Ela tentou outra vez: — O duque tem nádegas tão gloriosas quanto um babuíno de traseiro vermelho. Ah, isso chamou sua atenção. — Eu sinto muito, o que disse, Madame? — Penelope perguntou balançando a cabeça. Certamente ela tinha ouvido errado... sobre babuínos e nádegas. — O que está lhe preocupando, minha querida? Penelope se contorceu. — Srta. Fairweather, dificilmente pode confiar em Anne e na viúva se for sobre algo relacionado ao duque. Eu sou boa em guardar segredos. — Como sabia que isso dizia respeito ao duque? — Estou tentando chamar sua atenção há algum tempo e, no momento em que mencionei o duque e seu glorioso traseiro, você voltou a me dar atenção. Está apaixonada por ele? — Apaixonada? O homem tentou me matar! Madame revirou os olhos. — Ele fez isso agora? Penelope se irritou com o tom da Madame. Contrariada, ela contou a Madame tudo o que acontecera desde sua chegada à Mansão Blackthorne. A raiva forçou sua língua a dizer um pouco mais do que ela gostaria. Madame a ouviu em silêncio, seu rosto ficando sério. — Penelope, acho que posso chamá-la pelo seu nome depois de tudo o que você me contou. Bem, se o duque realmente queria matar você, então por que ele a salvou daquele homem no beco? Por que ele ergueu a viga quando você estava presa? Por que ele lhe contou seu segredo e implorou para você ficar? — Não tenho certeza... — Você nunca realmente acreditou que ele pretendia machucá-la, não é? O que a preocupa é o fato de que, com raiva, você o acusou injustamente. Você está assustada... — Assustada? Sim, suponho que estou. Eu ainda tenho pesadelos em que estou presa... — Oh, eu não quis dizer isso. Você está com medo da intensidade... da intensidade que o duque traz consigo sempre que a encontra. — Estou com medo por causa de... amendoins. — Amendoins? — Madame perguntou sem força. — Sim, amendoim. Beth, uma das minhas irmãs é alérgica a amendoim. Sempre que ela come um amendoim, seu rosto fica vermelho, sua língua fica inchada, o coração dispara e ela se sente esquisita. Sinto o mesmo quando o duque está por perto, portanto, você vê que a única conclusão é que sou alérgica ao duque. Eu sei que ele não quer realmente me matar, mas pode fazer isso simplesmente por estar perto de mim. Madame começou a rir até que as lágrimas escorreram por seus olhos. — É por isso que eu acho que as meninas devem ser educadas em questões de amor. Você realmente deveria saber o que acontece antes e depois... especialmente depois — Madame ficou séria e continuou. — Penelope, você não é alérgica ao duque, e acho que você sabe disso tão bem quanto eu. Você é uma garota inteligente e ainda está tentando encontrar desculpas tolas para explicar seus sentimentos. Madame deixou suas palavras se assentarem. Ela então mudou de assunto: — Você está se saindo muito bem nas aulas, mas mesmo depois que a temporada terminar, queroque lembre que estarei aqui para ajudá-la. — Madame, o que devo fazer com ele? — A palavra “duque” congela na sua língua — disse Madame, sorrindo gentilmente. — Eu sugiro que você se concentre na sua temporada e se mantenha fiel ao seu objetivo. Você tem que se casar, meu amor. Quanto ao duque, no fundo você confia nele de todo o coração e alma. Você sempre fez isso desde o momento em que beliscou a orelha delicada dele. Não minta para si mesma ou para ele. Penelope traçou as ranhuras na mesa de madeira, seus olhos se recusando a encontrar os de Madame. — É só isso por hoje. Eu vou te ver novamente amanhã. E, Penelope, meu conselho final sobre o assunto é nunca esquecer a existência de Lady Lydia Snowly. A mão de Penelope parou. Seus olhos encontraram os de Madame, e o olhar que ela recebeu foi cheio de dor e pena. ∞∞∞ — Mãe, pare de querer Penelope só para você. Por que ela tem que ler para você todos os dias? Tenho algo muito importante para discutir com ela. — Penelope tem que praticar sua música, Anne, de acordo com as instruções da Madame. Sua fofoca pode esperar — a viúva respondeu com firmeza. Anne fez uma careta, mas consentiu. Assim, eles marcharam para a sala de música, arrastando uma Penelope relutante junto. O sol do fim da tarde entrava pelas janelas altas, e Penelope olhou para os vários instrumentos musicais colocados ao redor da sala. Ela engoliu em seco. — Anne, eu acho que precisamos discutir algo urgentemente. Eu posso tocar para você outro dia. — Não. Você vai tocar agora, Penelope. Estamos apenas Annie e eu nesta sala. Venha agora, escolha um instrumento — a viúva persuadiu. — Você não pode ser pior do que eu — Anne disse e adicionou em um sussurro. — Falaremos sobre esse assunto mais tarde. Irei ao seu quarto amanhã de manhã. — Teremos tempo para planejar? — Penelope sussurrou de volta. — Estarei em seu quarto antes de o nascer do sol — Anne respondeu com um olhar firme. — Meninas, parem de sussurrar como imbecis — repreendeu a viúva. Penelope, parecendo envergonhada, foi até o piano e se sentou. Ela pressionou uma tecla e a nota soou verdadeira. O piano estava afinado perfeitamente e pronto para uso. Penelope fechou os olhos com consternação. Tinha ficado sem desculpas. Tinha que jogar. Ela tocou a primeira nota assim que o duque entrou. Seus dedos pararam, seus olhos disparando para a viúva em pânico. O duque cumprimentou a mãe e a irmã com um beijo na testa e então fez a coisa mais estranha. Ficou ao lado dela e estendeu a mão para ela. Ela olhou para a mão dele em confusão. Ele ergueu a sobrancelha e sorriu: — Dê-me sua mão, Srta. Fairweather. Ela deu sem pensar. Ele a apertou com cuidado e a virou. Então abaixou a cabeça e beijou as costas da mão dela. — Boa tarde — ele disse suavemente. A viúva e Anne engasgaram em choque. O duque nunca tinha tratado Penelope como um ser humano, e ele a estava tratando como uma dama naquele momento. Penelope ficou sentada olhando para o ponto onde os lábios dele tocaram sua pele. A voz do duque a tirou de seu transe: — Qual é o problema, Srta. Fairweather? O instrumento não é bom o suficiente para você? — Ele parou e franziu a testa. Depois de respirar fundo, ele falou novamente com um tom educado. — Eu gostaria de ouvir você tocar. Penelope franziu a testa, bem aborrecida. — Eu nunca antes toquei em um instrumento tão bom. Eu... Eu não sou muito boa. Receio que você ficará desapontado. — Pare de perder tempo, Penelope. Nós temos apenas uma hora antes de nos vestirmos para o jantar — Anne disse. Penelope voltou-se para o piano novamente. Desta vez, seu estômago estava vibrando e ela não confiou em sua voz. Seus olhos dispararam para o duque. Em seu aceno encorajador, ela cuidadosamente tocou as teclas. Após as primeiras notas de prática, suas mãos voaram sobre o instrumento. Fechando os olhos, ela tocou uma melodia alegre. Felizmente eu cantei pelo buraco na calça De um babuíno de traseiro grande. Eu era as pernas que você vê e a cabeça era Maryanne, De um babuíno de traseiro grande. Nós galopamos pelo palco, Com leopardos e leões, Pavões, coelhos e um velho enrugado, Enquanto eu fazia parte de um babuíno de traseiro grande. Certa, alegre e felizmente cantamos, De selvas selvagens e vinho de fadas. Minha cabeça apareceu, Minha língua ficou pra fora, Na multidão infeliz, Tudo através do buraco na calça De um grande babuínoooo! Penelope parou e abriu os olhos. Ela pensou que não tinha sido tão ruim. Sorrindo, olhou para sua plateia. Um silêncio mortal foi o que ela recebeu. Depois de um minuto, ouviu-se um aplauso, que logo se transformou em uma salva de palmas de Anne. A viúva puxou a filha de volta para se sentar. — Err... isso foi... alguma coisa. A música talvez não seja adequada para uma reunião social, mas você demonstrou entusiasmo e foi um prazer ver a sua alegria — murmurou a viúva. — Mãe, aquilo foi horrível e cantado tão mal que os animais sobre os quais ela cantava desmaiariam e morreriam depois de ouvir o som terrível que emanava do meu excelente piano. Não posso permitir que ela toque no instrumento novamente, com medo de que meus ouvidos sangrem ou que os criados se demitam depois de tanta angústia... O que deu em você para cantar algo tão ridículo? — o duque explodiu. Penelope sabia por que ela havia cantado. Sua conversa com Madame antes sobre babuínos e o traseiro do duque devia estar à espreita no fundo de sua mente. Anne desistiu e riu: — Isso foi... oh, Penelope, onde você ouviu isso? Eu adorei cada momento. Conhece algum outro parecido? Talvez possa me ensinar? — Ela não fará tal coisa, Annie. Não permitirei que minha irmã cante como uma bêbada de taverna. — Eu sinto muito — disse Penelope com tristeza. Anne ficou séria. — Eu não queria rir. Eu goste. Mas tenho que ser sincera, você não pode cantar essas canções em público. Quanto à sua habilidade com o piano, um instrumento mais delicado pode não sobreviver ao fervor com que você ataca as teclas. Penelope afundou em seu assento. — Não se decepcione, minha cara — consolou a viúva. — Não vou me decepcionar. Estou aliviado. Eu sei que não posso cantar nem tocar. Estou tão feliz que não terei que enfrentar todas essas pessoas e fazer papel de boba. Muitas vezes eu tive que fazer isso na minha aldeia e nunca foi uma experiência agradável. Anne sorriu alegrando-se: — Eu também não sei cantar nem tocar. Porém, eu teria prestado mais atenção se meu professor tivesse me ensinado canções como essa. O duque olhou carrancudo para a irmã, nada satisfeito com seu entusiasmo. — Você aprendeu em Finnshire? É popular lá? — Anne continuou, ignorando seu irmão. — Oh, não, Jimmy me ensinou. — A estrada — Anne começou a perguntar. — Sim, sim, a quem mais ela poderia se referir? — a viúva disse apressadamente, lançando um olhar para o duque carrancudo. Anne fechou a boca, e a viúva mergulhou em uma longa discussão sobre fitas, botões e anáguas. O duque saiu da sala. ∞∞∞ Penelope estava indo vestir um traje de gala quando o duque bloqueou seu caminho. — Quem é Jimmy? — ele rosnou. — Um homem — ela respondeu, irritada com seu tom exigente. Seus olhos se fecharam, sua cabeça erguida em direção ao céu, e parecia que ele estava fazendo uma oração silenciosa. Quando voltou a falar, seu tom era mais respeitoso. — No passado, eu teria suposto que ele era seu amante. Mas agora... estou perguntando a você. Ela se recusou a responder. Ele não tinha o direito de fazer-lhe tais perguntas, e ela não sairia como louca cumprindo suas ordens. — Penelope, estou tentando muito ser razoável. Eu gostaria que fôssemos amigos. Não é fácil mudar de um relacionamento hostil para um amigável. Você tem que me ajudar. Ela se sentiu um pouco culpada. Depois da conversa com Madame, sabia que ele não era totalmente culpado. No entanto, ali estava ela punindo-o por algum motivo estranho. — Quero ser amiga — respondeu ela, com um sorriso trêmulo. Ele sorriu de volta, seu rosto se iluminando. Mas quando ela fez um movimento para fugir, a mãodele disparou para agarrar seu braço. — Você não respondeu à minha pergunta. Quem é Jimmy? — Eu também tenho amigos poderosos, sua graça — ela respondeu misteriosamente. — Que tipo de amiga ensina canções de taverna a uma senhora? — ele perguntou suavemente. — Por que você se importa? Ele é meu amigo e gosto de suas canções. Ele come gente como você no café da manhã, então é melhor você cuidar do seu tom, sua graça — ela sorriu. — Penelope, pare de testar minha paciência. Estou perguntando pela última vez, quem é Jimmy? Ela hesitou em sua expressão. Sua bravata diminuiu levemente. — Jimmy é um salteador de estrada, um ladrão de veados e um ladrão. Ele é o Falcão — ela guinchou. Atordoado, o duque abaixou o braço e Penelope disparou como um tiro antes que ele pudesse recobrar a ousadia. Capítulo 27 Penelope se sentiu como o salmão que estava comendo; esmagado entre fatias de pão branco macio. As fatias de pão eram os seios de duas senhoras fortemente perfumadas que estavam tendo uma animada conversa diretamente acima de sua cabeça. — Você soube que o poeta tinha dezesseis amantes? Elas testemunharam, na verdade, juraram durante o julgamento que ele mantinha todas satisfeitas. É uma pena que ele teve que ir matar seu tio-avô. Eu adoraria ter... — Penélope? — Sssshhh — ela disse, afastando a intrusa. O assunto tinha acabado de ficar animado quando alguém a puxou para longe das mulheres fofoqueiras. Ela se virou irritada. O duque estava ali, segurando um copo de limonada. — Por que você me puxou dali? — Eu não deixaria Anne sufocada entre duas mulheres doidas. — Eu não sou sua irmã — ela disse irritada, seus olhos procurando as duas mulheres. Talvez se ela os seguisse, ouviria mais? — Não, você não é minha irmã. Algo em sua voz chamou sua atenção de volta para ele. — Não me olhe assim — ela murmurou, virando o rosto. — Assim como? Ela não precisava vê-lo para saber que ele estava sorrindo. — Você sabe... — Eu não sei. Por favor, explique. — Oh, vá para o inferno — disse ela, dando um passo para longe dele. — Fugindo de novo, Penelope? Ela congelou e se virou para encará-lo: — Eu não estou fugindo. E eu nunca te dei permissão para usar meu nome, sua graça. — Eu sou o duque e faço o que quero — ele respondeu presunçosamente. Penelope franziu a testa. Ela nunca tinha visto o duque assim. Provocador, relaxado e sorridente... Isso fez com que ela se sentisse inquieta e estranhamente tímida. Ela levou o copo de limonada aos lábios para esconder o rosto quando um pensamento lhe ocorreu. Ela olhou para o duque com desconfiança e depois para o copo. — Você me trouxe limonada? — Sim. Achei que você pudesse estar com sede. Ele estava rindo dela. — Eu estou... Está um pouco quente aqui. — Você está quente. Ela corou, seus olhos pousando no copo mais uma vez. — Eu não envenenei a bebida, Penelope. Você ainda não me perdoou? Ela não respondeu. Depois de um momento, ele riu. — Eu acho — disse ele — que seu nome, em vez de Srta. Fairweather, deveria ser Srta. Badweather, ou “tempo ruim”. — Essa foi péssima. — Eu sei, é por isso que é engraçado — ele disse sorrindo. Penelope sentiu seus lábios se contraírem. — Não se deve rir de suas próprias piadas, sua graça. — Você sorriu e isso significa que estou perdoado — o duque sorriu. — Que absurdo. E eu não sorri. — Eu vi você esboçando um sorriso. Você sorriu. — Eu não sorri, e você não está perdoado. — Desculpe, mas não concordo. Se você sorrir por causa da minha piada péssima, isso significa que me perdoa. — Sua lógica é idiota — ela murmurou, esvaziando o copo. — Você bebeu a limonada. Isso definitivamente significa que estou perdoado. — Ela olhou para ele e depois para o copo. — Srta. Badweather?— ele perguntou. Uma risadinha escapou de seus lábios. — Tudo bem, eu te perdoo, sua graça. E acho que estou vendo Anne. Preciso ir. O duque inclinou a cabeça e deu um passo para o lado. Seus olhos estavam brilhando de alegria. ∞∞∞ — Sei que prometi ir vê-la esta manhã, mas não acordei na hora, Penelope. O que nós vamos fazer? — Anne lamentou. — Anne, não podemos discutir nada aqui. Muita gente ouvindo. Eu sugiro que você peça a Bessie para acordá-la amanhã cedo para... — Ela parou de repente e perguntou em um tom reverente. — Quem é ele? — Lorde William Ellsworth Hartell Adair, o Marquês de Lockwood, e com ele estão Lady e Lorde Scrivenor. Você conheceu o marquês — Anne respondeu prontamente. — Eu não conheci o marquês. Como alguém poderia não se lembrar de tê-lo conhecido? Ele é quase tão bonito quanto o du... — ela parou, mordendo o lábio. — As pessoas o consideram mais bonito do que Charles — Anne disse, seus olhos brilhando. — Oh, aonde ele está indo?— Penelope perguntou, observando o marquês se afastar do grupo. — Venha, vamos segui-lo. Eu posso apresentar você a ele — Anne disse, seu rosto iluminado com travessura. Penelope não hesitou e correu atrás da figura que partia. Ele desapareceu na varanda. Penelope e Anne o seguiram rapidamente. Uma jovem com um vestido escarlate saiu das sombras e caiu nos braços do marquês. Anne puxou Penelope para trás de um grande vaso de planta. A cena diante deles não era oportuna para apresentações. Elas teriam que esperar a mulher ir embora. As lâmpadas da varanda permitiram que Penelope admirasse o homem em toda a sua glória. Ele era alto e tinha ombros largos e quadris estreitos. Mas foi seu rosto que chamou sua atenção. Era esculpido com perfeição, com um nariz comprido e aristocrático, lábios sensuais e olhos escuros emoldurados pelos cílios mais longos que ela já vira. A mulher moveu os braços para puxar sua cabeça para um beijo. Pouco antes de seus lábios se tocarem, ele sorriu. Esse sorriso transformou a admiração de Penelope em choque. Lorde William Adair, o Marquês de Lockwood, não era ninguém menos do que Madame Bellafraunde. Anne também ficou chocada, mas por um motivo diferente. Por que em nome de Belzebu Madame Bellafraunde estava beijando uma mulher? O casal se beijou pelo que pareceu uma eternidade. As duas garotas observavam com fascinação ávida, as duas reparando muito bem em cada suspiro e gemido emitido, o ângulo da cabeça, a técnica praticada que evitava que os dois batessem no nariz um do outro. Quando o beijo terminou, o marquês sussurrou algo no ouvido da mulher. Ela assentiu e com um último olhar amoroso, desapareceu de volta nas sombras. Lorde Adair puxou um charuto e disse em voz alta: — Vocês podem sair agora, Lady Anne, Penelope. As duas garotas surgiram parecendo culpadas, nem um pouco surpresas por verem que ele sabia de sua presença. Afinal, ele era Madame Bellafraunde. — Vocês têm perguntas — disse ele, acendendo o charuto e dando uma tragada. Olhou para o jardim escuro, a fumaça saindo de sua boca formando anéis perfeitos. — Madame Bellafraunde? — Penelope perguntou, ainda insegura de sua identidade. — Sim, Penelope, sou Lorde William Adair, o Marquês de Lockwood, e em alguns círculos, Madame Bellafraunde. — Eu não entendo... Penelope ficou boquiaberta. — Por que eu preciso me vestir como uma modista se sou um marquês rico? Não é por dinheiro e isso é tudo o que posso dizer por agora. — Mas... mas você beijou uma mulher. Nós vimos... — Anne balbuciou. — Eu beijei uma mulher — disse ele, virando-se para encará-las. Seus olhos estavam fechados, sua expressão não revelando nada. — Foi uma pena vocês testemunharem isso. Eu estava em uma situação em que não conseguia escapar do beijo ou denunciar sua presença. Penelope, Lady Anne, podem fazer segredo sobre esse pequeno incidente? Não posso lhes dar nenhuma explicação, exceto implorar que confiem em mim. Vocês podem confiar em mim? Penelope se lembrou das inúmeras vezes em que Madame Bellafraunde fora em seu auxílio. Ela não teve que pensar duas vezes. Prontamente respondeu: — Eu confio em você, Madame. Quero dizer, Lorde Adair. — Eu também — Anne falou, embora com menos confiança. Ele olhou para as duas em silêncio, os músculos de seu rosto se contraindo com a emoção reprimida. — Obrigado— ele disse simplesmente. As palavras suaves continham um grande significado. Anne, sentindo-se um pouco abalada, voltou para o salão de baile e Penelope se moveu para segui-la. O marquês a deteve. — Uma palavra. Esqueça o incidente desta noite. Ainda sou Madame Bellafraunde para você, Penelope. Ela assentiu com a cabeça, seus olhos disparando para as janelas francesas. — Penelope, você chamou a atenção de muitos pretendentes. Você é um sucesso, minha querida. Ela sorriu ironicamente. — Eu acho que você está enganado. Ninguém tentou me cortejar, meu senhor. — Lição número cinquenta e dois. A maioria dos homens não tem muita coragem. Você tem que encorajá-los, mas tem que notá-los primeiro. Você fez vista grossa a todos os homens na sala, exceto... — Isso não é verdade! Ele jogou o charuto para longe e suspirou. — Eu sinto muito, minha querida, mas eu tenho que ir. Podemos discutir isso outra hora. Até lá, lembre-se de que minha casa está aberta para você quando precisar. — Se eu precisar — disse Penelope, virando-se. Ela queria escapar para pensar sobre tudo o que tinha testemunhado. — Você está apaixonada pelo duque. Você vai precisar, minha querida. Penelope parou e lentamente se virou para encará-lo. A escuridão e as lamparinas tremeluzentes tomaram seu rosto pálido. Lorde Adair havia desaparecido. ∞∞∞ Mais tarde naquela noite… — Senhorita Pê, Lady Anne mandou este bilhete para você. — Obrigada, Mary — disse Penelope, rasgando o envelope. Mary atacou o cabelo de Penelope enquanto ela estava distraída com o bilhete. Penelope examinou rapidamente o conteúdo. Pedi a quinze criadas diferentes para me acordar amanhã de manhã. A hora foi confirmada. Crie um novo plano. Todos os outros planos seus foram horríveis. Com amor, Anne. Penelope amassou o papel, estremecendo quando Mary puxou seu cabelo com um pente de marfim. Ela estava satisfeita por ter algo em que pensar além da verdadeira identidade de Madame e suas palavras de despedida. Mary apagou a vela e Lady Bathsheba tomou seu lugar ao pé de Penelope, que suspirou suavemente com o peso familiar em suas pernas e passou algum tempo pensando em planos para Anne. Quando o relógio bateu quatro horas, enfiou a mão sob o travesseiro para agarrar o pedaço de papel que estava ali. Finalmente fechou os olhos e dormiu. Não foi o bilhete de Anne que ela apertou na mão, mas o do duque, que dizia: “Obrigado por ficar.” Capítulo 28 — Acorde. — Vou levar você para mijar já, já... em alguns minutos — Penelope murmurou sonolenta. — O quê? Eu não preciso que você me leve para mijar. Eu quero que você acorde. — Lady Bahhh... thsheba... um momento. — Sua cabra fala agora, não é? Estou avisando, acorde. Penelope se aconchegou ainda mais na cama e colocou um travesseiro no topo da cabeça. O travesseiro foi arrancado e um grande jarro de água esvaziado sobre sua cabeça. — O que, o que, o que, o que. Penelope despertou e saltou da cama. Anne estava sorrindo, segurando uma jarra vazia. Penelope olhou para ela. Rápida como um raio, ela foi até a bacia ao lado do lavatório e esvaziou o conteúdo sobre a cabeça de Anne. As duas ficaram encharcadas, trocando olhares com raiva. Um ronco alto as distraiu. Anne, olhando para o volume na ponta da cama, perguntou: — Eu não sabia que cabras roncam! — Ninguém disse isso a Lady Bathsheba — resmungou Penelope. — Tudo bem, eu sinto muito. Você não acordava de jeito nenhum e eu não tive escolha... Eles estarão aqui em breve, Penelope. — Eu poderia ter morrido — respondeu Penelope recusando-se a aceitar as desculpas. — É final de maio, e este quarto está horrivelmente quente. No mínimo, eu te fiz um favor, esfriando você. Você estava suando dormindo. Por favor, Penny — Anne disse, piscando. — Você promete não me afogar enquanto durmo de novo? — Penelope perguntou, um pouco menos irritada. — Eu prometo. Trouxe uma xícara de chá e biscoitos para você. — Que horas são? — Penelope perguntou, pegando o copo e inspecionando o conteúdo do prato. Anne sorriu. Seu pedido de paz tinha sido aceito e ela foi perdoada. — O relógio marcava cinco horas quando Bessie me acordou. Deve ser cinco e meia agora. — Eu só dormi por uma hora — Penelope resmungou. — Você pode dormir à tarde. Vou mandar um bilhete para a Madame e pedir a ela que não venha. Ao ouvir o nome de Madame, as duas meninas ficaram em silêncio. Penelope se sentou em uma cadeira perto da escrivaninha, e Anne cutucou a cabra adormecida até conseguir espaço para se sentar na parte seca da cama. — Você acha que Madame mentiu sobre só tirar o chapéu para homens? — Anne perguntou. — Pode tirar para homens e mulheres? — Penelope perguntou. Anne deu de ombros. — Ela é misteriosa e seu jeito de saber tudo ao seu redor é incrível. Eu acho que ela é uma bruxa... Penelope não riu. — Ela pode muito bem ser. Acho que as escolhas dela são dela. Ela tem sido gentil comigo e guarda todos os meus segredos. Eu pretendo guardar os dela. Embora eu esteja surpresa que uma fofoca tão suculenta tenha passado sem ser notada pela alta sociedade. Como a Madame conseguiu isso? — A razão pela qual Madame é tão exigente quando se trata de seus clientes é por causa de sua verdadeira identidade, e apenas um punhado de mulheres conhece seu segredo. Veja bem, se ela não fosse a melhor modista da cidade, com uma experiência inestimável e um talento especial para descobrir os segredos sombrios de suas clientes, ela teria sido desmascarada anos atrás. Minha mãe e eu descobrimos há muito tempo e decidimos respeitar seus desejos porque, de alguma forma, não podíamos deixar de confiar nela. Mesmo agora, ainda confio nela. Ela tem que ter um bom motivo... As meninas ficaram em silêncio. Penelope terminou seu chá e deixou a xícara de lado. — O rio estava frio? — Anne de repente deixou escapar. Penelope fez uma careta. Ela vinha evitando discutir isso nos últimos dois dias e esperava que Anne já tivesse entendido a mensagem. — Como você quase acabou se afogando no Tâmisa? Eu pensei que eu era a vítima pretendida — Anne persistiu. — De acordo com nosso plano — disse Penelope com os dentes cerrados —, você deveria pular no Tâmisa e fingir que estava se afogando. Lorde Poyning viria salvá-la. Eu estava vigiando para dar o sinal quando os dois homens chegaram. Lady Bathsheba tinha outras ideias. Um cavalo ganiu ao longe e ela se assustou. Escapou de mim e correu pela prancha de madeira que se projetava para o rio. Eu o segui, escorreguei e caí. — Lorde Rivers pescou você — Anne a consolou. — Não foi romântico. Foi um peixe com cheiro podre que ele pescou. A maldita ideia tinha sido terrível desde o início. Lorde Rivers sentiu-se mais repelido do que atraído pelo que viu. — Foi ideia sua — Anne disse baixinho. Penelope olhou para ela. — Madame disse que os homens amam donzelas em perigo. Ela deixou de apontar que as donzelas em perigo parecem tristes, arrasadas e totalmente horríveis. — Os homens amam donzelas em perigo. Nós simplesmente precisamos estar lindos enquanto lutamos contra o perigo mortal. Penelope enfiou a cabeça embaixo da cama em busca de seus chinelos. Depois de um momento, sua voz abafada perguntou hesitante: — Você tem certeza... sobre Lorde Poyning, Anne? — O que você quer dizer? — Anne perguntou bruscamente. — Você o ama? — ela perguntou com cuidado, emergindo com os chinelos na mão. — Claro. Como você pode me perguntar isso? — Eu acho... Se você realmente o ama, então... Bem... — Eu o amo de todo o coração. Penelope examinou o rosto de Anne e, em seguida, satisfeita com o que viu em seus olhos, assentiu. — Eu tenho um plano, mas desta vez precisaremos praticar para garantir que tudo corra bem. — Eu sabia que podia contar com você — Anne disse, batendo palmas. — Quanto tempo temos antes que Lorde Poyning e Lorde Rivers nos chamem? — Algumas horas. Eles estarão aqui ao meio-dia. — Você tem certeza? — Sim, eu estava bem atrás de Lorde Martin quando ouvi Lorde Poyning dizer isso a Lorde Rivers. — Você quer dizer que estava se escondendo atrásdo porco Lorde Martin e espionando. Anne não negou, mas teve a elegância de corar. Penelope olhou para ela por um momento fingindo estar brava, então sorriu e disse: — Muito bem. Anne sorriu de volta. — Vista-se e me encontre no pomar em dez minutos. Precisamos trabalhar — Penelope decidiu. — Sim, senhora — Anne disse, com uma reverência. ∞∞∞ — Bem, aqui vai minha sugestão. Em vez de ir ao Hyde Park, ficaremos aqui mesmo na propriedade Blackthorne. Faremos um piquenique no adorável jardim oriental, e depois mencionarei como eu adoraria ter maçãs frescas e crocantes... — — Não é época de maçãs — Anne interrompeu. Penelope olhou para as árvores infrutíferas no pomar. Seu coração ficou desanimado. —É tempo de alface crespa — disse Anne. — Alface não é algo romântico. — Alcachofras? — Anne, eu preciso de uma árvore que dê frutos! — Laranjas? Temos algumas variedades espanholas no laranjal. — Laranjas espanholas... isso vai servir. Após o piquenique, iremos ao laranjal. Você subirá uma escada e Lorde Poyning ficará embaixo para pegar as frutas. Vou tirar Lorde Rivers de cena. Assim que eu for embora, você vai escorregar e cair nos braços de Lorde Poyning. Você ficará em choque e fingirá desmaiar e, em seguida, vai abrir os olhos piscando e gemer baixinho. — Parece maravilhoso — Anne disse, seus olhos vidrados. — Sim, bem, agora precisamos praticar a queda. — Por quê? Penelope respirou fundo e soltou o ar lentamente. — Anne, você tem que parecer encantadora ao cair. Apenas uma parte do seu tornozelo deve aparecer. E você tem que cair do lugar certo. Se ele não te pegar, você pode quebrar o pescoço. Eu não quero você morta. — Por que ele não me pega? — Anne perguntou. — Ele pode ser distraído por uma borboleta com pintas verdes. Não sei, tudo pode acontecer. Não estou deixando nada ao acaso. — Você está terrivelmente mal-humorado hoje. — Eu não dormi — Penelope rosnou. — Não, eu concordo. Devemos praticar. Após o desastre do Tâmisa, você planejou trancar Lorde Poyning e a mim no celeiro... tão romântico... De qualquer forma, assim que você nos prendeu, aquele idiota do Lorde Rivers nos deixou sair imediatamente. Seus planos são terrivelmente furados. Penelope não deu atenção ao que dizia sua amiga. Ela encostou uma escada em uma árvore e subiu até o terceiro degrau. — Deixe-me tentar isso primeiro para ter uma ideia — ela chamou Anne. Deixou o pé escorregar e caiu no chão com força suficiente para sair machucada. — Você — disse ela, cerrando os dentes — deveria me pegar! — Você não me disse — Anne respondeu. Penelope se levantou do chão, ignorando a mão estendida de Anne. — Você vai escalar e cair de agora em diante — disparou Penelope. Anne acenou com a cabeça humildemente. ∞∞∞ O duque parou na frente do laranjal, seus olhos capturados pelo curioso espetáculo. Anne estava subindo uma escada e então caiu. Ele estava prestes a correr para ajudá-la quando Penelope pegou sua irmã com habilidade. Ele deu um suspiro de alívio e se virou para sair quando a voz de Penelope o deteve. — Anne, você caiu toda desengonçada. Não podemos exibir suas anáguas. Não se esqueça do seu rosto. Mantenha-se calma e serena. Penelope estava agora no quarto degrau, e então caiu em direção ao chão. Anne a segurou e disse: — Você parecia um pardal bebê sendo atirado para fora do ninho pela mãe pela primeira vez. estava batendo as asas. — Sim, bem, é por isso que sugeri que praticássemos — Penelope murmurou. O duque observou as duas subirem e caírem, várias vezes. Ele coçou a cabeça e decidiu ficar de olho nelas pelo resto do dia. Elas estavam tramando algo e ele tinha a sensação de que não era boa coisa. Capítulo 29 Penelope sorriu para Lorde Rivers. Tudo correu de acordo com o plano. Anne estava subindo uma escada com a presença de Lorde Poyning. Penelope estava se afastando muito da cena do crime, arrastando um relutante Lorde Rivers. Ela parou no meio do caminho quando encontrou uma segunda escada. Ela franziu os lábios, pensativa. Afinal, ela havia praticado cair tanto quanto Anne. — Talvez devêssemos colher algumas laranjas também, Lorde Rivers — ela disse, tentando não piscar. Mulheres atrapalhadas alarmavam o homem. — Nós temos que fazer isso?— Lorde Rivers perguntou sem muito ânimo. — Por favor, você pode segurar a escada enquanto eu subo — Penelope disse. — Sim, claro — respondeu ele com relutância. Penelope alisou as saias, passou a mão pelos cabelos e depois subiu delicadamente no primeiro degrau. Seu rosto era uma máscara de serenidade. Foi no quarto degrau que uma visão do duque tocando seus lábios fez com que ela parasse. Seus olhos se fecharam e seu estômago se revirou. — De novo, não — ela sussurrou em angústia. Ultimamente, seu cérebro adquirira o péssimo hábito de evocar pensamentos sobre o duque nos momentos mais inoportunos. Era como ter algum tipo de espasmo que apertava seu coração e a arrancava do mundo ao seu redor. A coisa toda era inconveniente, especialmente em momentos como aquele. Ela se preparou quando a sensação agridoce familiar de medo e prazer tomou conta dela. Ela se lembrou, pela milésima vez, do beijo casto e breve que ele lhe dera naquele dia na carruagem, o calor de suas mãos quando eles dançaram e a alegria que sua risada sempre acendia dentro dela. Ela esperou o feitiço passar. Sempre passava, a menos que... Ela balançou, seu coração aos pulos. Sabia que ele estava por perto. De alguma forma, ela sempre sabia quando ele estava olhando para ela. A escada sacudiu sob ela e seus olhos se abriram. O laranjal, a árvore e a escada entraram em foco. Ela olhou para baixo e abafou um grito. Subira mais alto do que pretendia. Mais uma vez, a escada balançou de forma assustadora e Penelope titubeou no quarto degrau, com as mãos suadas cerradas com força em um esforço para ficar parada. Mas o terceiro empurrão entusiasmado a afetou e seu pé escorregou, suas saias voaram, seus braços se agitaram e ela caiu no chão. Quando abriu os olhos, ela se viu nos braços de Lorde Rivers. O duque estava ajoelhado ao lado dele, olhando ansiosamente para o rosto dela. O duque, ela gemeu por dentro, tinha o dom de aparecer ao lado dela nos momentos mais inconvenientes. Ela acalmou o coração aos pulos e murmurou, envergonhada: — Estou bem. — Lady Bathsheba deu uma cabeçada na escada. Você caiu antes que eu pudesse estabilizá-la — Lorde Rivers contou. O duque ficou em silêncio. Ele agarrou a mão dela e puxou-a para longe de Lorde Rivers. — Encontre-me em meu escritório — disse o duque, com uma voz controlada. — Anne? — Penelope sussurrou, olhando ao redor. — Traga-a junto — ele ordenou com raiva, girando e dando passos largos. Lorde Rivers pigarreou. — O duque parece chateado. Acho que devemos partir, Srta. Fairweather. Está ficando tarde. Penelope assentiu distraidamente. Ela viu Anne aparecer por entre as árvores parecendo mais feliz do que se sentia. O plano parecia funcionar para ela. Depois que Lorde Poyning e Lorde Rivers partiram, Anne perguntou alegremente: — O que você acha que Charles quer? Penelope não respondeu. Ela teve a sensação de que o duque sabia o que eles estavam fazendo. — Tenho muito a lhe contar, Penny. Pare de arrastar os pés. Charles gostou de você. Ele não vai repreender. Talvez ele finalmente tenha marcado uma data para seu casamento... ∞∞∞ — Sente-se — disse o duque, deixando de lado o livro-razão. Anne esmaeceu ligeiramente ao ver o rosto de seu irmão. — O que é? Avô? — Ele está vivo e não poderia estar melhor. Eu quero te perguntar sobre o pequeno incidente no laranjal. De quem foi a ideia? Anne empalideceu. — Que ideia? — Aquela que envolvia você cair de uma laranjeira nos braços de um homem desavisado. — Eu escorreguei. — Anne se contorceu em sua cadeira. — Eu vi vocês dois treinando hoje cedo. Bem, de quem foi a ideia? — Minha — Penelope e Anne murmuraram juntas. — Srta. Fairweather, como você pôde envolver Anne em tais esquemas? Eu pensei que tinha te avisado. — Foi ideia minha — Anne gritou indignada. — Vocêestá mentindo. — Eu não estou. — Srta. Fairweather? — perguntou o duque, virando-se para ela. — Foi ideia minha — respondeu Penelope, com as orelhas ficando vermelhas. — Mas eu pedi a ela que planejasse isso — Anne fez uma careta, cruzando os braços. O duque voltou-se novamente para Penelope e ergueu uma sobrancelha. Penelope assentiu. — Anne, como você pôde seguir um esquema maluco inventado por este... imbecil? Esta... mulher louca cabeça de vento, estúpida e com cabeça de ganso. Este caipira maluco... — Charles! Não vou permitir que você insulte Penelope na minha frente. Ela foi gentil o suficiente em me ajudar enquanto você... — Ajudar como? Fazendo você parecer desesperado? — Estou desesperada, não tive escolha — gritou ela. — Você assusta todos os homens. Eu quero me casar. É seu dever me ajudar e não me atrapalhar o tempo todo. — Eu permiti que Lorde Beetle se aproximasse de você. Na verdade, eu permiti que ele a pedisse em casamento. — Eu não quero ser Lady Beetle. Quem gostaria de se casar com um homem chamado Beetle? — Ah, e Poyning é melhor? — Ele é bonito e teremos bebês lindos... — Anne! — o duque rugiu escandalizado. Sua própria irmã falando em fazer bebês... — O outro homem que você permitiu qualquer chegasse perto de mim foi o Sr. Appleby — ela continuou acaloradamente. — Ele me levou para cavalgar, e você sabia que eu adormeci cinco minutos depois de ele abrir a boca? Você só deixa os homens mais chatos e mórbidos se aproximarem de mim. Lorde Berry, outro pretendente que você fez o favor de aprovar, teve a audácia de me dizer que meus olhos eram grandes e lindos como os de seu precioso Nuggins. Nuggins é o sapo dele. — Anne, vamos falar sobre isso — ele disse suavemente. — Não, você deve me ouvir. Estou à procura há três anos inteiros e ainda estou solteira. Não quero morrer solteirona. Não quero viver com você e com aquela Lydia horrível pelo resto da minha vida. Você sempre ditou cada passo da minha vida... Penelope se levantou. Aquilo era coisa de irmãos. Ela não tinha o direito de estar ali. — Sente-se!— Anne e o duque rugiram. Penelope se sentou. Anne bateu com o punho na mesa. — Onde eu estava? Ah, sim, Lydia. Você brigou com ela? Eu a vi te interromper ontem à noite. É por isso que você está descontando sua frustração em mim? — Lydia e eu não somos da sua conta — ele alertou. — Seus apegos não são da minha conta? Você pode se casar com quem você gosta? Você não se importa que eu não suporte vê-la, mas acha que tem o direito de me dizer com quem me casar? — Eu não preciso da sua permissão para me casar com ninguém, enquanto você, minha querida irmã, precisa da minha. Anne empurrou a cadeira para trás, o rosto lívido. — Eu fiquei de fora da maioria dos bailes por sua causa. Você é a razão pela qual ninguém se atreve a se aproximar de mim. Eu não quero bugigangas. Não quero que você me encha de flores. Eu quero um marido e bebês. — Sério, você não deveria mencionar que quer bebês na minha frente. Não é adequado... Anne saiu antes que ele terminasse sua frase. O duque olhou para Penelope. Duas grandes lágrimas rolaram de seus olhos. — Por que você esta chorando? — ele perguntou franzindo a testa. — Você brigou com Anne — ela disse, derramando mais lágrimas. Ele deu a volta para o lado dela. — Verdade, mas nem Anne nem eu estamos chorando. Então por que diabos você está? — Porque vocês brigaram e se ofenderam — ela choramingou. Ele rapidamente tirou um grande lenço e o colocou na mão dela. Ela assoou o nariz. Alto. Ele recuou quando ela tentou devolver o lenço. — Fique com ele. É essa a única razão pela qual você está chorando? — E a Madame disse que estou... — Penelope fechou a boca e saltou da cadeira. O braço do duque disparou, bloqueando sua fuga. — Você está o quê? — Você é um pouco possessivo com Anne. Você não deve ditar cada movimento dela — ela disse calmamente, ignorando sua pergunta. — Sabe, nunca vi ninguém parar de chorar tão rápido. Suas lágrimas secaram. É notável. Ele pegou seu queixo e o ergueu. — Você sabe de mais alguma coisa? — ele perguntou delicadamente. Ela balançou a cabeça, negando em silêncio. — Você, Srta. Fairweather, é bem estranha. Ele sorriu para ela e ela sorriu de volta. — Nós somos amigos, não somos, Penelope? — Amigos não xingam uns aos outros. Você me chamou de imbecil, cabeça de vento... — Sinto muito — interrompeu o duque. Penelope ficou boquiaberta. — Essa é a segunda vez que se desculpou comigo, sua graça. — É difícil da primeira vez. Depois disso, fica fácil. — Entendo. Bem, acho que devo falar com Anne. Ela está perturbada... — Eu conheço ela. É melhor deixá-la sozinha nesse estado de espírito. Fale com ela à noite. Além disso, tenho algo mais a dizer a você. — Eu não vou me desculpar por ajudar Anne... Ele ergueu a mão, silenciando-a. — Não estou pedindo que se desculpe. Acho que é principalmente minha culpa. Eu mimei minha irmã. Fui forçado a me tornar seu irmão, amigo, confidente e pai aos dezessete anos, e talvez não soubesse fazer isso. Eu era muito jovem e o hábito pegou. Tive que protegê-la dos pontos de vista estritos de Sir Henry sobre como uma garota deveria ser criada. Em suma, ele queria que eu a ignorasse. Eu fiz o oposto. Tornei-me possessivo, enchi-a de carinho... Agora eu me lasquei... bem, o que quero dizer é que talvez você tenha razão. Eu deveria parar de mandar nela. Penelope ficou impressionada. O duque parecia estar aceitando bem a explosão de Anne a pequena aventura delas. Ele dissipou tudo isso no momento seguinte. — Anne está apaixonada por aquele bobalhão? — Quem? — Poyning? Penelope lançou um olhar penetrante para ele. — Ah, então toda essa conversa doce e fingimento de remorso foi para arrancar essa resposta de mim? — Ela está realmente apaixonada por ele ou é uma fantasia passageira? — ele insistiu, aproximando-se dela. — Eu não vou responder isso — disse ela, de repente tendo dificuldade para respirar. — Hmm. Você pode me dizer se está apaixonada por Lorde Rivers? Quando ela não respondeu, ele abaixou a cabeça e olhou em seu rosto tentando chamar sua atenção. — Você caiu da árvore nos braços dele. Ele era seu alvo pretendido, não era, Penelope? Você está apaixonada por ele? Ela se esquivou de seu olhar perscrutador. — Eu não sei o que é amor. — Ele faz seu coração bater quando se aproxima de você? O coração de Penelope disparou. — Sim — ela mentiu. Ele levou a mão à nuca dela e a forçou a olhar para ele. — Você treme com o toque dele? Ela assentiu em silêncio, segurando as mãos nas saias para impedi-las de tremer. — Então você, garota da roça, está apaixonada — sussurrou o duque, curvando-se para beijá-la. Desta vez, seu beijo não foi casto, nem fugaz. Era exigente, desesperado, apaixonado. Os dedos dos pés dela se enrolaram e ela parou de respirar. “Quando você estiver apaixonada, Srta. Pe, seus dedos do pé vão enrolar”, a voz de Mary sussurrou em sua mente. Ela afastou a voz e se concentrou na boca do duque movendo-se sobre seus lábios hábil e sensualmente. Uma sensação doce e aguda percorreu seus membros. À distância, os sinos da igreja tocaram e, lentamente, os sons suaves de um violino filtraram-se pela névoa em seu cérebro. Logo um piano se juntou e depois uma harpa. Algumas flautas depois, uma orquestra inteira tocava na cabeça de Penelope. Quando os anjos começaram a cantar, Penelope não pôde mais negar. Sua mãe estava andando de um lado para outro com um cupido enviando-lhe uma mensagem clara diretamente do céu. Ela estava verdadeira, louca e profundamente apaixonada pelo duque... … E o duque se casaria com Lady Lydia. Ela interrompeu o beijo e com ele seus sonhos se despedaçaram. Ela não olhou para ele, com medo de que ele visse a emoção brilhando em seus olhos. Em vez disso, fez a única coisa que podia. Ela fugiu. Capítulo 30 Penelope olhou para a fatia de bolo de frutas. Estava um pouco seco, mas comestível. Ela pegou uma passa e colocou na boca. Estava morrendo de fome. Ela tinha perdido o jantar e o café da manhã, tudo porquenão se sentia capaz de encará-lo... não depois daquele beijo... seu primeiro beijo glorioso. Seus olhos ficaram vidrados e ela distraidamente deu uma mordida e mastigou. Seus olhos se fecharam de prazer. Se era pelo bolo doce se dissolvendo em sua boca ou pelo beijo, ela não tinha certeza. O sol batia em seus ombros nus. Sua sombrinha de prímula que combinava com o vestido de caminhada estava abandonada no banco do jardim. Era quase meio-dia. O duque estaria em seu escritório. Ela se recostou e relaxou. No momento, não havia medo de topar com ele. — Você não é uma meretriz. Seus olhos se abriram. O duque estava olhando para ela. — Você! Você deveria estar em seu escritório. — Eu estava — respondeu ele, sentando-se ao lado dela. — Agora não sou. — Entendo — ela disse, afastando-se dele e pegando sua sombrinha. — Por que você está parecendo tão estranho? Você está resfriado? Está gritando. — — Não, eu estou... bem. — Ela pigarreou. — Eu queria falar com você... Penelope rezou para que ele não mencionasse o beijo. — ... sobre seu caráter questionável. — Eu não entendo. Achei que você tivesse mudado de opinião sobre mim — disse ela, cravando a ponta pontiaguda de sua sombrinha na terra. — Não inteiramente. O problema é que eu sabia que meu passado pode estar atrapalhando meu julgamento, mas você não fez nada para dissipar meus temores. Na verdade, sua conduta foi completamente oposta. Eu tinha dúvidas. Penelope franziu a testa e olhou para o chão. Ela havia desenhado um coração com a ponta da sombrinha. Ela logo desfez tudo com seu pé. — Mas então mudei de ideia — disse ele. — Na verdade, estou convencido de que você é inocente, pura como um lírio, pura como a neve... — O que fez com que mudasse de ideia, sua graça? — ela perguntou, seu coração batendo forte. — Foi o beijo que demos — respondeu ele, confirmando seus pensamentos. Ele não percebeu o rosto dela corando e continuou. — Aquele beijo foi... surpreendente. Nunca experimentei um beijo assim antes em minha vida... você... você me surpreendeu. Ela esmagou o bolo na mão. Seu rosto estava brilhando de prazer. — Eu... eu surpreendi você...? — Sim, por ser tão ruim beijando. Como pode alguém não saber beijar? Foi terrível e tão, tão terrível que fui forçado a concluir que a razão pela qual você não tem habilidade é porque você nunca tinha beijado antes. Vê o que você fez? Você, minha querida Penelope, me forçou, Charles Radclyff, o duque de Blackthorne, a mudar de ideia e apresentar-lhe o título de não meretriz — disse ele satisfeito. Penelope agarrou seu chapéu florido e o colocou na cabeça. Em seguida, abriu a sombrinha e saltou do banco. — Você deve estar encantada — disse o duque, levantando-se para acompanhá-la. Penelope começou a trotar em direção à casa. As longas pernas do duque a alcançaram facilmente. — Sua graça? — ela finalmente falou. — Sim? — Em cinco anos …— — Sim?— — Espero que você fique careca — ela disse friamente. — Como você pode? — ele perguntou chocado. Ela não respondeu. — Você está com raiva — disse ele, examinando o rosto dela. — De modo nenhum. — Tem certeza? — Sua graça, o que você quer? — ela perguntou, olhando para ele. — Eu quero saber se Anne está apaixonada por Lorde Poyning. Sei que ela confiou em você e estou preocupada com ela, Penelope. Lorde Poyning não é o homem para ela. Você não pode deixar sua lealdade de lado por um momento, pela felicidade de Anne? — Por que você mesmo não pergunta a ela, sua graça? — Ela ainda está com raiva de mim. Além disso, como ela pode confessar tal coisa ao próprio irmão? Ela sabe que não aprovo Poyning. Eu detesto aquele homem, e você está perdendo seu tempo tentando ajudá-la. Eu nunca vou consentir em sua união. — Sua graça, eu acho que se ela realmente o ama, então ela nunca será feliz com ninguém. Você não pode ditar a vida dela. Afinal, você nunca pediu permissão a ela antes de escolher Lady Lydia. — Mas ela o ama de verdade? — ele persistiu. Ela se recusou a responder. — De qualquer forma, eu não preciso da permissão de ninguém para escolher minha noiva, enquanto Anne precisa do meu consentimento — ele disse irritado. Penelope começou a andar novamente. Ele era insuportavelmente arrogante. Tudo tinha que correr de acordo com seus desejos. Ele não se preocupava com a felicidade de sua irmã. Não admira que Anne se recusasse a falar com ele. O que se pode dizer a uma mula teimosa? O duque agarrou seus ombros e a forçou a se virar. — Não se atreva a ir embora quando eu estiver falando com você — ele disse para ela. — Não tenho nada a dizer a você — ela respondeu brevemente. — Você gosta de Poyning? Penelope parou de se contorcer. Uma expressão de culpa tomou seu rosto. — Ah, então você também não gosta dele. Na verdade, eu me lembro daquele dia na varanda. Você fingiu desmaiar para fugir dele. — Eu... eu não posso gostar de todos que Anne ama. — Então ela o ama — ele disse delicadamente. Penelope encontrou seus olhos, seu rosto ferido. — Eu enganei você. Não se sinta culpada. Você é uma pessoa extremamente leal. Ele a puxou para trás de um grande carvalho, longe de olhos curiosos. Continuou, falando com urgência: — Preciso que você confie em mim. Poyning não é o homem para ela... Ele não é um bom homem, Penelope. Acredite em mim. Estou disposto a deixar Anne se casar com quem ela quiser. Só não ele. Diga que você vai me ajudar? — O que ele fez? — Eu não posso te dizer, mas eu juro pela minha honra que ele não é confiável. Ele vai arruiná-la. — Eu preciso saber mais. — Eu nunca machucaria minha irmã. Não é sua riqueza ou posição que estou querendo. Eu... eu não posso dizer mais. Eu gostaria de poder. Penelope notou a dor e a verdade em sua voz. Ela finalmente disse: — Ele me lembra uma berinjela... O duque ficou boquiaberto. — Você disse berinjela? — ele perguntou após um breve momento. — Sim, as berinjelas são pegajosas e enganam. — Enganam? — Elas são tão bonitas e roxas por fora, parecem frutas deliciosas e crocantes. Mas são vegetais enganosos, pegajosos e viscosos quando cozidos. Eu não gosto delas. — Ah, entendo agora. Lorde Poyning é uma berinjela. — Ele acrescentou, pensativo: — Acho que ele é uma batata. — Batata? — Sem graça, insípido e sem gosto. As batatas adquirem o sabor de qualquer molho em que são colocadas. Sem sabor distinto, sem caráter moral... Na verdade, sem caráter nenhum. — Todo mundo gosta de batatas. Como você pode não gostar de batatas? Isso é estranho. — Todo mundo gosta de Poyning. — Eu não — ela respondeu, e então mordeu o lábio. — Vou tentar falar com Anne hoje à noite. — Obrigado — ele respondeu suavemente, prendendo um cacho rebelde atrás da orelha dela. O anelzinho saltou para trás e roçou sua bochecha mais uma vez. — Rebelde — ele sorriu, seu humor mais leve agora que tinha um aliado. — Sua graça — ela disse, afastando-se dele. — Você deveria fazer as pazes com Anne. — Irmãos e irmãs brigam muito e o tempo todo. Você deveria saber disso. Afinal, você tem cinco irmãs mais novas. Dentro de alguns dias, tudo será perdoado e esquecido. Não se preocupe, Anne sempre vem até mim quando sua cabeça está mais fria. Ela inevitavelmente percebe que estou sempre certo. Ela vai se desculpar. — Acho que desta vez é diferente. Eu nunca a vi tão furiosa... — ela disse preocupada. — Penelope — interrompeu o duque. — Você é bonita. Ela hesitou com a mudança repentina de assunto. — Bonita? — Simplesmente bonita. Atraente, interessante... Seus olhos se desviaram. O que, ela se perguntou, havia de errado com o duque, de repente? — Obrigada — disse ela em dúvida. Estava esperando por um insulto a qualquer momento. — Vamos nos beijar de novo? — Sua graça, você perdeu o juízo? — ela engasgou. — Beijar é como se desculpar. Fica mais fácil depois da primeira vez. Ela chamou sua atenção e percebeu que ele estava brincando com ela. Seus olhos estavam brilhando. Ela fez uma careta. — Devemos voltar para dentro de casa. Está quase na hora do chá e suas regras... — Para o inferno com as regras — ele disse preguiçosamente,