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FUNDAMENTOS DE GEOGRAFIA DO BRASIL PARA CIÊNCIAS SOCIAIS SUMÁRIO 1 Explorando conceitos básicos do espaço no contexto das ciências humanas .......... 4 2 Formação Territorial do Brasil: Aspectos Socioeconômicos e Ambientais .............. 15 3 Interculturalidade na formação da identidade brasileira: povos indígenas, africanos e europeus ................................................................................................................... 25 4 A Evolução da Divisão Regional no Brasil .............................................................. 34 5 O CONCEITO DE REGIÃO NA GEOGRAFIA E A QUESTÃO REGIONAL BRASILEIRA NOS CONTEXTOS POLÍTICO E SOCIOECONÔMICO ..................... 45 6 Desafios e perspectivas do desenvolvimento regional no Brasil: governança e desigualdades ........................................................................................................... 57 7 Dinâmica Demográfica Brasileira: Transições e Desafios PARA O Século XXI ...... 65 8 Desigualdades Regionais e a Evolução Demográfica no Brasil: Uma Análise da Qualidade de Vida ..................................................................................................... 72 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ............................................................................... 81 INTRODUÇÃO Prezado aluno, O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 1 EXPLORANDO CONCEITOS BÁSICOS DO ESPAÇO NO CONTEXTO DAS CIÊNCIAS HUMANAS O espaço geográfico constitui uma delimitação específica na superfície terrestre, destacando-se por sua identificação natural, entretanto, também é suscetível à influência direta da atividade humana. As modificações realizadas pelo homem sobre o ambiente natural refletem suas necessidades e prioridades. Nesse contexto, a geografia, como disciplina de natureza social, se dedica ao exame das relações entre a sociedade e o meio ambiente, centrando-se nas ações humanas que delineiam a configuração terrestre. Para além do conceito primordial de espaço, outras categorias como paisagem, região, lugar e território (CORRÊA, 2003) desempenham papéis cruciais ao desvendar os complexos laços entre as atividades humanas e a estrutura geográfica. A consolidação da geografia enquanto ciência ocorreu no final do século XIX e início do século XX. Inicialmente, uma disciplina emergiu nas universidades europeias, sendo posteriormente solidificada por meio da formação de sociedades geográficas e da colaboração entre exploradores naturalistas e acadêmicos O espaço desempenhou um papel fundamental nas considerações geográficas, embora suas análises nem sempre tenham tido sua totalidade. A dicotomia entre a geografia física e a geografia humana, desde o início do desenvolvimento da ciência, representa um desafio, e a relação entre sociedade e natureza deve ser entendida como uma entidade integrada e não fragmentada. A transformação da geografia em uma disciplina científica ocorreu em um contexto temporal que testemunhou a expansão do conhecimento e a exploração de novas fronteiras geográficas. As universidades europeias foram pioneiras na formalização da disciplina, logo seguidas pela instituição de sociedades geográficas que forneceram um espaço de colaboração entre estudiosos e exploradores. Nesse ambiente, o espaço, como elemento geográfico fundamental, esteve em foco, embora sua abordagem tenha variado em profundidade. A tensão histórica entre a geografia física e humana delineou uma dualidade conceitual que perdurou ao longo do desenvolvimento da disciplina, destacando a complexidade intrínseca da interação entre sociedade e ambiente. A intersecção entre a natureza e a intervenção humana no espaço geográfico delineia uma relação intrínseca. À medida que o homem transforma o ambiente conforme suas necessidades, ele imprime suas marcas distintivas, refletindo o alcance de suas necessidades sobre o ambiente circundante. Esse aspecto é o cerne da geografia como ciência social, que orienta sua investigação para a análise das influências incorporadas pela sociedade na configuração da superfície terrestre. Junto ao conceito central de espaço, outras categorias fundamentais, como paisagem, região, lugar e território (CORRÊA, 2003), emergem como ferramentas analíticas que enriquecem a compreensão das relações intrincadas entre a sociedade e o espaço geográfico. Através do Quadro 1 a seguir, pode-se verificar a distinção entre esses espaços: Quadro 1 – Categorias de análise na ciência geográfica e suas características CATEGORIA DEFINIÇÃO Lugar O lugar se relaciona à vivência e à identidade. É o espaço que pode ser sentido, onde se vivenciam as experiências. Paisagem A paisagem é um instrumento de análise do espaço geográfico e mobiliza as relações humanas. Os sentimentos e as questão subjetivas são expressas diretamente no espaço geográfico, transformando a paisagem. Ela pode ser classificada como natural e humanizada, considerando os aspectos culturais. Território O território tem como características o espaço delimitado por relações de poder. Região A região expressa uma particularidade de determinado espaço ou apresenta características específicas. A região é classificada em região natural e região geográfica. Ela pode ser compreendida como uma porção do espaço que apresenta uma combinação de elementos da natureza. Fonte: Adaptado de Santos (2008) A evolução do pensamento geográfico pode ser categorizada em quatro correntes principais: geografia tradicional, geografia teorético-quantitativa, geografia crítica e geografia humanista/cultural. Cada uma dessas correntes reflete diferentes abordagens e ênfases na compreensão do espaço geográfico. A geografia tradicional, que se estende aproximadamente de 1870 a 1950, precedeu as transformações ocorridas nas décadas de 1950 e 1970. Ela sucedeu à geografia clássica descritiva e, embora não tivesse o conceito de espaço como central, vestígios dessa ideia foram encontrados nas obras de Ratzel, ainda que de maneira implícita. Durante esse período, a atenção da geografia tradicional foi dirigida principalmente para os conceitos de paisagem e região. Além disso, houve debates sobre a definição do objeto de estudo da geografia e sua identidade em relação a outras disciplinas. Dentro dessa vertente geográfica, os conceitos de paisagem, região natural, região-paisagem e paisagem cultural ganharam destaque e foram amplamente discutidos nos estudos da época. Ratzel, por exemplo, compreendeu dois conceitos fundamentais em sua abordagem geográfica: o de espaço vital e o de território. Esses conceitos possuíam raízes profundas na ecologia e ganharam um papel central em seus trabalhos (CORRÊA, 2003). Em resumo, a geografia tradicional foi uma fase precursora que precedeu mudanças significativas no campoda geografia. Ainda que nessa o conceito de espaço não fosse abordagem central, os debates em torno dos conceitos de paisagem, região e busca pela identidade disciplinar foram características marcantes desse período, com figuras como Ratzel aceitar com ideias fundamentais, como os conceitos de espaço vital e território, que possuíam ligações sólidas com a ecologia (CORRÊA, 2003). A proteção da população e dos recursos naturais em um território específico é incontestável. Como afirmado por Corrêa (2003, p. 18), “o espaço, por meio de intervenções políticas, assume a forma de território, tornando-se um conceito central na geografia.” Isso destaca a importância da dimensão política na transformação do espaço em território, um conceito fundamental na disciplina geográfica. A corrente teórico-quantitativa, surgida no cenário geográfico por volta de meados de 1950, baseia-se no positivismo lógico e provocou profundas mudanças na abordagem geográfica. Através do método de pensamento hipotético-dedutivo, essa perspectiva adotou uma visão científica que se assemelhava à abordagem das ciências naturais. Consequentemente, o espaço, pela primeira vez na história do pensamento geográfico, emergiu como o conceito central da disciplina, enquanto os conceitos de lugar e território não possuíam a mesma fala na geografia teorético- quantitativa (CORRÊA, 2003). Nessa abordagem geográfica, o espaço é considerado sob duas perspectivas não mutuamente exclusivas: a das planícies isotrópicas e das representações matriciais. O plano isotrópico é derivado de um paradigma racionalista e hipotético- dedutivo, empregando modelos matemáticos para analisar dados quantitativos, como densidade demográfica, renda e padrão cultural. O objetivo é aplicar uma lógica econômica baseada na minimização de custos e maximização de lucros ou satisfação. Por outro lado, as representações matriciais referem-se aos métodos operacionais que permitem extrair conhecimento sobre localizações, fluxos, competências e especializações funcionais, entre outros aspectos relevantes (CORRÊA, 2003). A crítica geográfica corrente surge em 1970, sendo fundamentada no materialismo histórico e na dialética. Ela busca, desde o início, romper com as abordagens da geografia tradicional e teorético-quantitativa. Nessa perspectiva, o espaço é destacado como conceito-chave na compreensão geográfica. A teoria marxista é mantida e aplicada para analisar as contradições entre países centrais e periféricos, assim como as disparidades entre esses grupos de nações. O foco dessa abordagem recai sobre a análise do sistema capitalista. Por outro lado, a corrente da geografia humanista/cultural emerge por volta de meados da década de 1970. Essa perspectiva redireciona a atenção para os aspectos culturais e históricos. Semelhante à abordagem crítica, essa corrente também se fundamenta em bases filosóficas, especialmente a fenomenologia e o existencialismo (CORRÊA, 2003). Operando em um sistema classificatório bastante diferente do nosso, estudos antropológicos sobre as cosmologias ameríndias demonstraram que essas culturas não estabelecem uma separação entre a vida humana e as formas de vida do mundo animal e natural. Em vez disso, compreendem as relações entre esses outros seres e os seres humanos como parte constituinte de sua humanidade (TORNQUIST; LISBOA; MONTYSUMA, 2010). É relevante destacar o trabalho significativo realizado por Eduardo Viveiros de Castro (2011) em relação às sociedades indígenas dos territórios latino-americanos. Eduardo Viveiros de Castro modificou o conceito de "perspectivismo ameríndio" para caracterizar o pensamento das sociedades ameríndias, que desempenha um papel importante na virada ontológica. Esse termo descreve a percepção de que o mundo é composto por uma multiplicidade de pontos de vista, uma vez que todos os seres, humanos e não humanos, têm o potencial de serem ativos (VIVEIROS DE CASTRO, 2015, citado em ARMANI, 2020). O perspectivismo implica que o universo é habitado por diferentes tipos de seres com capacidade de ação, tanto humanas quanto não humanas. Todos esses agentes percebem os demais existentes de acordo com perspectivas diversas. No contexto desse modelo de pensamento, o que é comum entre humanos e animais não é a animalidade, mas a capacidade ou habilidade de agir, tomar decisões e influenciar eventos no mundo. A virada ontológica também possui implicações políticas, pois busca consideração não apenas nas ações de não humanos (objetos, animais e outros seres), mas também de seres humanos que historicamente foram marginalizados, ou seja, colocados à margem da sociedade. O filósofo e antropólogo Philippe Descola (2012 apud ARMANI, 2020), lança uma crítica contundente à conduta intelectual que, frequentemente, age como se os não humanos não estivessem presentes em todos os lugares da vida social. Ele salienta a importância de reconhecer a presença e influência desses não humanos em todas as esferas da existência humana, lembrando-nos que as interações que moldam nosso mundo não se limitam apenas às instituições que guiam a vida dos seres humanos. Essa perspectiva desafia a visão convencional e impulsiona uma compreensão mais profunda das complexas redes de relações que conectam seres humanos e não humanos. Esses questionamentos têm impulsionado a chamada virada ontológica, cujos principais autores incluem o próprio Descola, Eduardo Viveiros de Castro, Bruno Latour, Manuela Carneiro da Cunha, Dawi Kopenava, Ailton Krenak, entre outros (ARMANI, 2020). Em linhas gerais, esse movimento questiona as posições de sujeito e objeto, abraçando a instabilidade dessas categorias e, mais ainda, desestabilizando as posições de pesquisador/antropólogo e objeto de estudo (encapsulado na figura do “nativo”). Essa virada tem possibilitado que grupos tradicionalmente assinalados como nativos (caso das populações indígenas) possam desenvolver teorias acerca das suas próprias sociedades (assim como de seus visitantes) (SÁ JÚNIOR, 2014). Essa abordagem — à qual é também dado o nome de antropologia simétrica — tem permitido o reconhecimento da multiplicidade conceitual da noção de natureza. humanidade. Os seres humanos têm o hábito de criar sistemas classificatórios para organizar o mundo ao seu redor e suas experiências cotidianas. Isso envolve categorizar pessoas, seres e objetos em grupos como masculino ou feminino, estabelecer relações de parentesco, e até mesmo classificar aspectos do cosmos e entidades com base em sistemas religiosos e cosmologias. Nos sistemas classificatórios ocidentais, a dicotomia entre natureza e cultura desempenha um papel significativo. Frequentemente, usamos a palavra “natural” para denotar uma suposta verdade ou essência humana imutável e universal. Por exemplo, podemos ouvir frases como "É natural que os homens sejam os provedores da família" ou "Os seres humanos ocupam naturalmente o topo da cadeia alimentar". Nesses casos, "natureza" é usada para implicar uma verdade intrínseca e inquestionável. Por outro lado, também é comum ouvirmos expressões como "A revolta da natureza" ou "A vingança dos tubarões", nas quais "natureza" é usada para representar forças ou eventos além do controle humano, muitas vezes associadas a princípios imutáveis e lógicas próprias. A sociologia contribui ao destacar que a distinção entre natureza e cultura não é algo transcendental, mas sim uma construção histórica e cultural moldada pelas ações humanas. Isso implica que o significado de "natureza" e "cultura" está intrinsecamente ligado a um outro. Em diferentes sociedades e culturas ao longo do tempo e do espaço, a maneira como essas categorias são articuladas podem variar. Como já foi dito, algumas sociedades, como as cosmologias ameríndias desenvolvidas pela antropologia, não separam a vida humana das formasde vida animal e natural. Nessas culturas, as relações entre seres humanos e outros seres são vistas como parte constitutiva da humanidade. Em resumo, o conceito de "natureza" é uma construção cultural e histórica que reflete os valores e representações de uma sociedade. Isso permite que as ciências sociais explorem temas que antes eram considerados exclusivos das ciências naturais, como corpo, emoção, sexualidade e relações interespécies. Essa abordagem relacional entre natureza e cultura nos ajuda a compreender como diferentes sociedades concebem e interagem com o mundo ao seu redor. Nas sociedades capitalistas modernas, a natureza frequentemente é percebida como uma entidade separada da cultura, um campo ontológico externo que existe para ser explorado, civilizado e dominado em benefício pleno da humanidade. Essa visão tem suas raízes nas mudanças significativas que ocorreram na Europa a partir do século XVI, quando o humanismo surgiu em meio a profundas transformações sociais, econômicas e políticas que moldaram a forma como a sociedade interage com o ambiente natural. Essa perspectiva dualista entre natureza e cultura tem influenciado não apenas a exploração dos recursos naturais, mas também as atitudes em relação à conservação ambiental e ao equilíbrio entre desenvolvimento econômico e preservação do meio ambiente. Durante os séculos XVI e XVII, a Europa testemunhou a Revolução Científica, um período caracterizado por uma ruptura significativa com os dogmas religiosos que dominaram a Idade Média. Essa revolução não apenas redefiniu a compreensão da natureza de forma mais racional, mas também estabeleceu uma nova visão de mundo, frequentemente chamada de humanismo, que colocou o "homem" no epicentro do conhecimento. Esse período de transformação não se limitou apenas ao domínio científico, mas também se estendeu à produção artística, onde a obra "O Homem Vitruviano" de Leonardo da Vinci se destaca como um exemplo notável. Essa representação icônica ilustra o homem como o ideal de perfeição, proporção e harmonia, simbolizando a transição da concepção medieval para uma abordagem mais centrada no ser humano em uma época que redefiniu os paradigmas da ciência e da cultura. Figura – O homem Vitruviano de Leonardo da Vinci, é um símbolo do antropocentrismo moderno Fonte: O homem... (2019, documento on-line). O filósofo, físico e matemático René Descartes (1596–1650) desempenhou um papel importante nesse contexto. Em sua perspectiva, a natureza era vista como uma máquina que poderia ser comprovada em termos de números e detalhes. Isso fez com que a natureza deixasse de ser vista como uma criação divina (obra de Deus) e passasse a ser considerada sujeita às leis de funcionamento. Isso implicava que os seres humanos passaram a assumir uma posição externa à natureza, transformando- a em objeto de estudo científico e de dominação. Essa abordagem cartesiana da natureza como máquina fundamentou a cultura ocidental moderna. Assim, nas sociedades ocidentais modernas, a relação entre natureza e cultura é frequentemente hierárquica, com uma clara separação entre os dois. Isso contrasta com outras culturas em que as fronteiras entre natureza e cultura são mais fluidas e permeáveis, como é o caso das cosmologias indígenas mencionadas acima. Já a geografia utiliza o conceito de trabalho e cultura para refletir sobre como os espaços naturais sofrem a intervenção humana e se transformam em espaços geográficos. O espaço natural, conforme definido pelo geógrafo Milton Santos, é a "primeira natureza" ou o espaço intocado pelo ser humano e que não ocorreu transformações (SANTOS, 2008). Neste contexto, observamos todos os elementos naturais, como clima, relevo, hidrografia, etc. No entanto, na atualidade, é cada vez mais difícil encontrar um espaço verdadeiramente natural, uma vez que o homem realiza mudanças constantes no ambiente. Exemplos remanescentes de espaços naturais incluem geleiras e algumas matas ou florestas intocadas, como alguns trechos da Floresta Amazônica. O espaço geográfico é considerado o principal objeto de estudo da geografia. De acordo com Santos (2008), é entendido como uma "segunda natureza" e é definido como o espaço que foi alterado pelo homem ao longo da história, à medida que este se apropria da natureza por meio do trabalho, das técnicas e da cultura, que engloba valores e implicações. O espaço geográfico é formado pela combinação dos elementos naturais com os elementos sociais. Elementos como cidades, prédios, estradas asfaltadas e parques são considerados espaços geográficos. Por exemplo, a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, é um espaço geográfico, pois as atividades comerciais e esportivas, são intervenções humanas que moldam o uso desse espaço como visto na Figura 2. Figura 2 – Praia de Copacabana invadida pela intervenção humana Fonte: adaptado de https://shre.ink/2a3O Essas definições são fundamentais para compreender a geografia e sua importância na análise das transformações do ambiente em decorrência da ação humana, bem como na compreensão das relações entre sociedade e natureza. Portanto, o espaço geográfico representa o resultado das interações entre seres humanos e o ambiente natural ao longo do tempo. Todo espaço, seja ele natural ou não, pode ser observado, descrito e analisado, surgindo assim um novo conceito, o de paisagem. Ela, além de ser um instrumento visual para analisar o espaço geográfico, influencia profundamente os humanos. Ela reflete sentimentos e questões subjetivas, moldando o ambiente. Classificado em natural e humanizada, incorpora aspectos culturais. (SANTOS, M. 2008). A definição de paisagem é essencial, pois desenvolve a habilidade e observação, descrição e análise, além de promover a compreensão e o entendimento das razões por trás da paisagem que se observa. Isso possibilita que a reflexão sobre questões como onde, como, por quê, por quem e para quem determinada paisagem existe. Segundo Santos (2008, p. 40), a paisagem abrange tudo o que podemos ver, tudo o que a nossa visão alcança. Ela engloba não apenas volumes, mas também núcleos, movimentos, odores, sons e muito mais. A paisagem é um conjunto de elementos diversos, de diferentes épocas e pedaços de tempos históricos que representam várias maneiras de produzir e construir o espaço. No cotidiano, vivenciamos diversas paisagens, como a rua em que moramos, o caminho para a escola ou o parque onde brincamos. A paisagem é dinâmica e se transforma ao longo do tempo. Se pensarmos no bairro em que vivemos nos últimos 20 anos, podemos notar mudanças significativas, como a substituição de casas por prédios, o surgimento de novos estabelecimentos comerciais e melhorias na infraestrutura. As paisagens podem ser convencionais em dois tipos principais: • Paisagens naturais: são compostas basicamente por elementos da natureza que sofreram pouca ou nenhuma intervenção humana, como uma floresta intocada ou uma geleira. • Paisagens culturais: são aquelas formadas por elementos construídos pelo ser humano ou que passaram por transformações devido ao trabalho humano. Exemplos incluem cidades, parques e áreas de cultivo. As paisagens culturais podem apresentar predomínio de elementos culturais ou naturais. Por exemplo, um bairro é uma paisagem cultural com predominância de elementos construídos pelo homem, enquanto um parque ambiental representa uma paisagem cultural com elementos naturais modificados pelo ser humano, como caminhos e áreas de lazer. O estudo da paisagem assume um papel de importância fundamental na compreensão do mundo circundante, suas mudanças ao longo do tempo e a relação entre elementos naturais e culturais que se encontram presentes nas paisagens observadas diariamente. Nessa perspectiva, a pesquisa sobre paisagens possibilita uma apreciaçãomais profunda das complexidades e interações que definem a relação humana com o ambiente natural e construído. A interseção entre a ciência, a filosofia e as ciências sociais contemporâneas têm gerado um terreno fértil para a revisão e reconstrução de conceitos arraigados, especialmente aqueles relacionados à nossa percepção da natureza e da cultura. Nesse contexto, as reflexões de Bruno Latour, destacado pensador contemporâneo, sobre o conceito de "Gaia" emergem como uma abordagem inovadora que desafia as fronteiras tradicionais e nossa compreensão do mundo que nos cerca. Nas obras e palestras mais recentes de Bruno Latour, a figura de “Gaia” é usada para avançar sua crítica à cosmopolítica ocidental e para problematizar a noção de natureza como um bloco homogêneo (CASTRO; OLIVEIRA, 2018). Gaia é evocada como uma metáfora para os processos de uma Terra que está viva, reabrindo a noção de Natureza e redistribuindo o que havia sido embalado dentro desse conceito (CASTRO; OLIVEIRA, 2018, p. 354). Em contraposição à noção de que a Terra seria um espaço inerte, Gaia representa um mundo animado composto por múltiplas entidades que reagem às nossas ações de maneira não necessariamente previsível (CASTRO; OLIVEIRA, 2018). Gaia compreende ondas de ação que não regulam fronteiras entre humanos e natureza, sociedade e indivíduo. Nessa perspectiva, os agentes são como vizinhos que interagem ativamente entre si (CASTRO; OLIVEIRA, 2018, p. 356). Um exemplo dado pelos autores é a poluição dos oceanos por plástico, em que o descarte de plásticos nos oceanos resulta em uma complexa rede de interações entre organismos vivos e elementos inorgânicos. Essas interações incluem a manipulação lenta desses materiais no oceano, os peixes que ingerem com esses resíduos e, eventualmente, se tornam parte da cadeia alimentar humana, carregando consigo componentes químicos tóxicos (CASTRO; OLIVEIRA, 2018). Esse exemplo ilustra a complexa teia de interações e constituições mútuas entre seres vivos e elementos inorgânicos. Sob a perspectiva de Gaia, não há uma distinção clara entre um ser e seu ambiente, dissolvendo a ideia de dentro e fora (CASTRO; OLIVEIRA, 2018). Por fim, é enfatizado que a atual crise ecológica é resultado da perspectiva moderna que separa natureza e cultura. Portanto, é urgente buscar uma nova sensibilidade capaz de reconectar agentes e o coletivo (CASTRO; OLIVEIRA, 2018). Com o avanço das ciências sociais contemporâneas, emergiram uma série de terminologias, conceitos e modelos analíticos destinados a aprofundar nossa compreensão da intrincada rede de interações que abarca tanto os agentes humanos quanto os não humanos. Isso engloba uma variedade de elementos, como populações, ecossistemas, modos de produção, comunidades e uma ampla gama de formas de vida que coexistem na Terra. Esses desenvolvimentos representam um esforço contínuo para desvendar as complexidades subjacentes às relações que moldam nosso mundo. Em conclusão, torna-se incontestável que a separação artificial entre natureza e cultura representa uma construção fabricada pela modernidade ocidental, cujo surgimento ocorreu em um contexto histórico bem definido nos séculos XVI e XVII, e que atualmente está sendo objeto de questionamento e revisão. Esta reflexão lança luz sobre o fato de que a atual crise ambiental transcende sua dimensão puramente ecológica, pois afeta profundamente diversas populações vulneráveis em todo o mundo, destacando a interdependência indissolúvel entre os desafios ambientais e sociais que enfrentamos no século XXI. 2 FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL: ASPECTOS SOCIOECONÔMICOS E AMBIENTAIS Quando os portugueses chegaram ao Brasil em 1500, resgataram um território já habitado por diversos grupos étnicos indígenas, que há séculos ocupavam essa região. A presença dos colonizadores portugueses marcou uma mudança significativa na forma de uso e ocupação do território brasileiro. A coroa portuguesa e os colonos enviados para o Brasil adotaram um modelo de colonização baseado na exploração de recursos naturais, terras e mão de obra disponível na colônia, visando direcionar os produtos extraídos para uma metrópole. Esse processo de colonização teve um impacto profundo na vida dos indígenas, que já habitavam o território brasileiro. Como observado por Moreira (2011, p. 11), os colonos portugueses encontraram um território povoado por uma diversidade de tribos indígenas cujo soma chega a uma população de mais de cinco milhões de habitantes. Espaço e força de trabalho aí estão reunidos. Durante cerca de três séculos, os portugueses, juntamente com os bandeirantes, que eram exploradores que adentravam o interior das terras brasileiras, e os religiosos jesuítas, desempenharam papéis fundamentais na alteração das formas de uso e ocupação do território brasileiro. Essas intervenções tiveram consequências significativas tanto para a paisagem geográfica quanto para a vida dos povos indígenas que já habitavam o território. Portanto, a chegada dos portugueses ao Brasil e a subsequente colonização representaram um ponto de virada na história do uso e ocupação do território brasileiro, tendo impactos na cultura e na sociedade indígena, bem como na exploração dos recursos naturais e na configuração geopolítica da região. Os três primeiros séculos serão dedicados a essa tarefa de disponibilização, realizada por intermédio de uma ação simultânea de expropriação e realocação territorial das tribos indígenas. A expropriação será a tarefa dos bandeirantes. A realocação, dos jesuítas. Disponibilizado, o espaço pode agora ser ocupado pelo colono. E a população indígena dele despojada, usada como força de trabalho (MOREIRA, 2011, p. 11–12) Durante esse período, a disponibilização do espaço envolveu ações simultâneas de expropriação e realocação das tribos indígenas. Os bandeirantes desempenharam o papel de expropriadores, explorando e expandindo as fronteiras territoriais, enquanto os jesuítas desempenharam um papel na realocação das tribos. Esse processo permitiu a ocupação efetiva do espaço pelos colonos, muitas vezes à custa da população indígena, que foi despojada e usada como força de trabalho. Essa dinâmica complexa ilustra os desafios e as consequências sociais da colonização inicial do Brasil. A organização inicial do território brasileiro ocorreu por meio das capitanias hereditárias, que representavam uma estratégia de distribuição de terras implementada pelos colonizadores, dando continuidade às práticas estabelecidas. As capitanias hereditárias eram áreas de terra designadas aos donatários e transmitidas por hereditariedade, passando de pais para filhos. Cada donatário tinha a responsabilidade de administrar e proteger as terras que lhe fossem concedidas, além de cumprir as obrigações estipuladas pelo rei de Portugal. Essa estrutura de capitanias hereditárias desempenhou um papel fundamental na colonização do Brasil, estabelecendo um sistema de governança descentralizada em que os donatários detinham autoridade sobre suas respectivas áreas. Isso influenciou profundamente como o território foi explorado e ocupado durante os primeiros anos da colonização. Essa divisão territorial representou uma tentativa de organização do vasto território recém-descoberto, atribuindo diferentes áreas a donatários encarregados de sua administração. A criação das capitanias hereditárias foi uma iniciativa do rei D. João III e marcou o início da presença colonial portuguesa no Brasil. Embora as capitanias tenham desempenhado um papel significativo na colonização, a subsequente adoção da administração centralizada a partir de 1548, com a criação do Governo-Geral, desempenhou um papel crucial no estabelecimento de uma estrutura mais eficaz de controle sobre a colônia. Esse período inicial da colonização deixou um legado significativona história do Brasil. As capitanias hereditárias foram a primeira medida real de colonização tomada pelos portugueses em relação ao Brasil. Com as capitanias, foi implantado um sistema de divisão administrativa por ordem do rei português D. João III, em 1534. A América Portuguesa foi dividida em 15 faixas de terra, e a administração dessas terras foi entregue aos donatários. As capitanias existiram no Brasil durante séculos, mas, a partir de 1548, uma nova forma de administrar o Brasil foi criada (SILVA, 2020, documento on-line). Na Figura 1 abaixo, é possível observar as capitanias hereditárias e os europeus designados como donatários, ou seja, aqueles que receberam parcelas de terra para administrar. Essa representação cartográfica ilustra a distribuição das capitanias e os respectivos donatários, destacando a divisão territorial realizada durante o período colonial no Brasil. Figura 1 – Capitanias hereditárias do Brasil Colônia. Fonte: https://shre.ink/2wrU Outra maneira de organizar o espaço geográfico do Brasil, especificamente no que diz respeito à distribuição de terras, foram as sesmarias. As sesmarias foram instituídas com o propósito de introduzir práticas agrícolas e promover o povoamento das novas terras pertencentes à coroa portuguesa. A Sesmaria era um lote de terras distribuídas em nome do rei de Portugal para o cultivo de terras virgens, sendo amplamente utilizada no período colonial brasileiro. Originada nos últimos estágios da Idade Média em Portugal, começou com as capitanias hereditárias em 1534 e foi abolida durante a independência do Brasil em 1822, tendo sua origem nas terras comunais de Portugal e sua distribuição entre os habitantes rurais. (PINTO, 2020). Conforme Théry e Mello-Théry (2005), os ciclos econômicos desempenharam um papel fundamental no processo de povoamento do território brasileiro. Segundo esses autores, a interiorização do país, que durante muito tempo esteve concentrada nas faixas litorâneas, ocorreu por meio dos diversos ciclos econômicos. Estes ciclos, de acordo com a mesma fonte, foram responsáveis por contribuições à exploração de regiões até então desocupadas. Iniciava-se, assim, a formação de um “arquipélago” brasileiro, com uma espécie de mosaico de regiões autônomas. Formava-se um país de diferenças regionais, com uma série de ciclos econômicos em regiões distintas. Cada tipo de produção afetou uma região diferente do país, permitindo novos povoamentos (chamados de “interiorização”) (Théry; Mello-Théry, 2005). Até o século XVII, predominava o ciclo econômico do açúcar, restrito às áreas territoriais do litoral onde se cultivava cana-de-açúcar e se produzia açúcar em engenhos. Depois, iniciou-se um processo de interiorização, povoamento e expansão para Minas Gerais, com a descoberta de ouro. O ciclo econômico do ouro começou no final do século XVII (Théry; Mello-Théry, 2005). A mineração em Minas Gerais impulsionou a mudança da capital do Brasil Colônia. A capital, que antes era Salvador, passou a ser o Rio de Janeiro. Com essa mudança, o centro econômico, que era restrito ao litoral nordestino, deslocou-se para o centro-sul brasileiro. Isso intensificou o processo de interiorização do Brasil; formaram-se vilas e, consequentemente, polos de mineração. Em seguida, iniciou o ciclo econômico do café, nos séculos XIX e XX. Nesse ciclo, São Paulo ganha destaque. No estado, o café desenvolveu-se magnificamente, sobretudo no Vale do Paraíba Paulista, adaptando-se bem à terra roxa. Nesse período, o cultivo do café utilizou mão de obra assalariada (não mais servil e pouco comprometido), apresentado no início principalmente de imigrantes custeados pelos fazendeiros paulistas (Théry; Mello-Théry, 2005). Outro ciclo econômico e produtivo que contribuiu para modelar o território brasileiro foi o da borracha, no início do século XX, na região da Amazônia. Além disso, destaca-se a pecuária, que contribuiu mais do que o ouro para dilatar o espaço brasileiro. A produção pecuária se estendeu até depois do período do ouro, criando estradas e pontos de apoio resultados. Destaca-se ainda a atuação dos bandeirantes (bandeirantismo) e das missões jesuítas (aldeamentos) e a expansão da agropecuária no processo de interiorização do País. No entanto, esses processos implicaram impactos sociais e ameaças aos povos originários indígenas, bem como aos povos e comunidades afrodescendentes. Devido aos modelos econômicos e de trabalho vigentes, esses povos foram capturados, escravizados e, em alguns casos, mortos e extintos. Portanto, a distribuição de terras por capitanias hereditárias e sesmarias, bem como os ciclos econômicos, teve um impacto profundo na formação territorial do país. Entre as consequências desses processos, destacam-se a economia e a política latifundiária (em que prevalecem as grandes propriedades rurais), a concentração fundiária e a desigualdade social rural (Théry; Mello-Théry, 2005). Nos períodos colonial e monárquico, a organização do território brasileiro foi predominantemente influenciada pela exploração dos recursos naturais. De acordo com Moreira (2011), inicialmente, os colonos portugueses organizaram o território com base em características socionaturais conhecidas como 'faixas geobotânicas'. As faixas eram delimitações territoriais que refletiam a diversidade ambiental do Brasil e influenciavam diretamente as atividades econômicas da época. Cada faixa apresentava particularidades em termos de vegetação, solo e clima, determinando os tipos de cultivos e como a terra seria utilizada para atender às demandas da colônia. De acordo com Moreira (2011), inicialmente, os colonos portugueses organizaram o território com base em características socionaturais conhecidas como “faixas geobotânicas”. A seguir, descrevemos essas faixas: • Faixa Costeira (litoral): Esta região era caracterizada por uma vegetação de mata tropical. • Faixa Interiorana: Nessa área, uma vegetação predominante era uma mata campestre. • Faixa Setentrional (Região Norte): Na Região Norte do Brasil, localizada em vegetação de mata equatorial. Na Figura 2 abaixo, é possível visualizar os domínios geobotânicos brasileiros e sua representação cartográfica. Figura 2 – Domínios geobotânicos do Brasil. Fonte: Adaptado de Becker e Egler (2006 apud MOREIRA, 2011, p. 9). Nos domínios geobotânicos, foram condicionantes as formas de produção relacionadas ao setor primário da economia, incluindo agricultura, pecuária e extrativismo. Os colonizadores portugueses tinham como objetivo implementar a práticas de agricultura do tipo monocultura baseada no sistema de plantation, com o propósito de comercializar essa produção agrícola e direcioná-la para a metrópole portuguesa, mantendo assim a relação de colônia-metrópole. A cultura agrícola predominou em áreas de mata tropical litorânea, enquanto a pecuária foi desenvolvida em regiões de mata campestre no interior. O extrativismo, por sua vez, desenvolveu- se principalmente nas áreas da mata equatorial ao norte do país (Moreira, 2011). A chegada dos colonos portugueses ao Brasil com seu estilo de vida voltado para a monocultura e a exportação de produtos agrícolas aconteceu através das três faixas geobotânicas. Essa abordagem, embora em grande parte semelhante à ocupação indígena anterior, resultou em uma nova forma de relação com o ambiente, influenciando a integração da natureza e introduzindo diferentes arranjos socioambientais (MOREIRA, 2011). Veja abaixo uma descrição das principais características físicas e naturais das três faixas geobotânicas, conforme apresentado no Quadro 1. Essas características desempenharam um papel fundamental na definição das atividades econômicas predominantes em cada região do Brasil colonial, influenciando assim como o território foi inicialmente ocupado e utilizado peloscolonos. Quadro 1 – Principais características físicas e naturais das faixas geobotânicas Fonte: Adaptado de Moreira (2011). Segundo Gomes (1988), o arranjo e organização espacial foram moldados pela interação entre o modo de vida e a pertença étnica de grupos indígenas, como os tupis (que se dedicavam à agricultura e à lavoura de mandioca), os gês (que se envolviam na coleta e caça), além dos caribes e aruaques. Nas áreas da mata atlântica, eram habitadas pelas tribos tupis, enquanto as regiões de vegetação campestre abrigavam as tribos gês. Por outro lado, nas zonas de mata equatorial, encontravam-se as demais tribos indígenas, como caribes e aruaques. Posteriormente, uma nova abordagem na organização do território emergiu, considerando não apenas a distribuição espacial das tribos indígenas e as faixas geobotânicas, mas também aspectos climáticos, como tipos de clima, massas de ar, temperatura e regime de chuvas, bem como o relevo e as bacias hidrográficas. Os novos ocupantes passaram a considerar esses elementos (GOMES, 1988). Para definir os domínios morfoclimáticos do Brasil, Ab'Sáber (2003) desenvolveu uma abordagem holística, considerando cuidadosamente os elementos naturais fundamentais, como relevo, clima, vegetação e hidrografia. Além disso, ele se dedicou a compreender as complexas interações e relações entre esses componentes nas paisagens, fornecidas assim uma visão abrangente e integrada das características geográficas do país. O "domínio morfoclimático e fitogeográfico" representa uma extensa área territorial, abrangendo centenas de milhares de quilômetros quadrados, onde se observa um padrão consistente de características de relevo, tipos de solos, padrões de vegetação e condições climáticas e hidrológicas. Esses domínios territoriais apresentam características paisagísticas consistentes em termos de dimensão e distribuição, resultando na formação de um complexo relativamente uniforme e abrangente em relação às condições fisiográficas e biogeográficas (AB'SÁBER, 2003, p. 11–12). Na Figura 3, é possível observar os domínios morfoclimáticos do Brasil, conforme definidos por Ab'Sáber (2003). Esses domínios incluem o amazônico, cerrado, mares de morros, caatinga, araucária e pradarias. Além disso, na figura, são identificadas faixas de transição que não apresentam diferenciações distintas em suas características. Figura 3 – Domínios morfoclimáticos do Brasil. Fonte: Ab’Sáber (2003 apud RICO, 2017, documento on-line). Moreira (2011) observa que a organização espacial tanto dos indígenas quanto dos colonos no território brasileiro mantém uma correspondência significativa com os domínios morfoclimáticos. O autor destaca que a faixa de mata atlântica, habitada pelos tupis e utilizada para a prática da lavoura agrícola durante o período colonial no Brasil, corresponde ao domínio de mares de morros. Por outro lado, a faixa de mata campestre, ocupada pelos povos tapuias e utilizada para a prática pastoril, se alinha com os domínios da caatinga, cerrado, araucárias e pradarias. Por fim, a mata equatorial, que abrigava várias tribos indígenas e era caracterizada pela atividade extrativista, corresponde ao domínio amazônico (Moreira, 2011). A formação territorial do Brasil resultou da interação entre características naturais e atividades humanas. Desde a colonização, as práticas de ocupação e uso da terra foram moldadas pelas condições ambientais, como vegetação, clima e relevo, onde, diferentes regiões do país abrigaram modos de vida e atividades econômicas específicas, influenciadas pelas características socionaturais, e ciclos econômicos, como o do açúcar, ouro, café e borracha, também tiveram impacto na ocupação do território. A compreensão dessa relação é essencial para entender a diversidade geográfica e cultural do Brasil. A lei do arranjo espacial engloba a consideração de fatores como a localização e a fertilidade do solo, resultando na combinação ideal conhecida como “renda diferencial”. Em algumas áreas, busca-se compensar a qualidade inferior do solo com uma localização geográfica estratégica, como regiões litorâneas que desempenham um papel crucial no escoamento da produção (Moreira, 2011). A renda diferencial, conforme Oliveira (2007), é aquela que não depende da aplicação de capital, mas sim da natureza do solo e de sua fertilidade intrínseca, o que se traduz em maior produtividade. Nesse contexto, a fertilidade natural dos solos, a localização das terras (devido à valorização imposta pelo mercado naquela região) e os custos de transporte (associados às despesas de frete) são fatores territoriais de significativa importância (Oliveira, 2007). A ocupação do território durante o período colonial brasileiro iniciou-se nas capitanias da Região Nordeste, especificamente em São Vicente, Bahia e Pernambuco. Essa ocupação envolveu a instalação de canaviais, onde a cana-de- açúcar era cultivada, bem como engenhos de cana-de-açúcar. Essas atividades eram desenvolvidas em áreas de várzeas de rio, caracterizadas pela fertilidade do solo para a prática agrícola, e em regiões próximas a zonas portuárias, facilitando o escoamento da produção e a exploração das riquezas do território (Moreira, 2011). A migração da Região Nordeste para a Região Sudeste do Brasil não apenas influenciou a expansão da produção de café, mas também destacou a importância da relação entre a localização geográfica e a fertilidade dos solos na formação de polos de produção agrícola. Essa migração impulsionou o desenvolvimento de áreas com solos propícios para o cultivo do café, contribuindo significativamente para as consolidações do Sudeste como o principal produtor dessa cultura no país. Portanto, o processo de formação, ocupação e uso do território brasileiro foi moldado por ciclos produtivos e econômicos. Durante esse processo, a localização das atividades produtivas foi determinada pelos interesses dos colonizadores na exploração de recursos naturais e na utilização de grupos sociais, como indígenas e africanos. Além disso, essa localização foi influenciada por regulamentações espaciais que consideraram fatores como a qualidade e fertilidade do solo, o transporte de produtos e a proximidade de centros consumidores. Tudo isso ocorreu sob a lógica do valor e da reprodução social, resultando em impactos significativos e duradouros na sociedade e nos territórios (Moreira, 2011). 3 INTERCULTURALIDADE NA FORMAÇÃO DA IDENTIDADE BRASILEIRA: POVOS INDÍGENAS, AFRICANOS E EUROPEUS O Brasil é um país notável por sua diversidade, que se manifesta não apenas em suas características naturais, mas também na pluralidade de povos que compõem sua população e na heterogeneidade dos aspectos históricos e culturais que moldam a sociedade brasileira. Em termos simples, a formação do povo brasileiro é resultado da interação entre povos indígenas, africanos e imigrantes europeus (TRENNEPOHL, 2014). Para entender esse processo de formação, começaremos por uma visão retrospectiva, oferecendo uma breve descrição das diversas etnias que se desenvolveram para a construção da identidade brasileira. É importante destacar que esse percurso histórico não foi isento de conflitos, já que diferentes grupos sociais interagiram de diversas maneiras. Ao longo de milênios, a costa atlântica foi habitada por inúmeras comunidades indígenas que competiram pelos melhores locais para se estabelecerem. Nos últimos séculos, grupos indígenas de língua tupi, conhecidos por sua habilidade guerreira, estabeleceram-se ao longo de toda a costa atlântica, seguindo o curso do Rio Amazonas e subindo os principais rios, como o Paraguai, Guaporé e Tapajós, até suas fontes. Essa contribuição contribuiu para a configuração do que se tornaria o Brasil (RIBEIRO, 1995). O legado indígena não se limita apenas à geografia, pois também influencioua cultura e o modo de vida dos colonizadores portugueses. Os indígenas inspiraram-se na construção das primeiras casas portuguesas, introduziram o uso da rede para dormir, o hábito do banho de rio, a incorporação da mandioca na alimentação, a preparação de cestos de fibras vegetais e um vasto vocabulário nativo, principalmente do tupi, relacionado às coisas da terra, como nomes de lugares, plantas e animais (FRANTZ; TRENNEPOHL, 2014). No entanto, a contribuição dos povos indígenas vai além. Logo após a chegada dos portugueses, e dos indígenas serem pacificados e subjugados, compartilharam conhecimentos essenciais para a sobrevivência na selva, ensinando como lidar com os desafios das matas e orientando os colonizadores em suas expedições (SURUÍ, 2017). Ao longo da história da colonização do Brasil, os povos indígenas desempenharam papéis diversos, às vezes aliados na defesa contra invasores estrangeiros, outras vezes como mão de obra nas expansões agrícolas e extrativistas (SURUÍ, 2017). Os povos indígenas, devido à sua profunda conexão com a floresta, exploraram uma ampla variedade de alimentos, incluindo a mandioca e seus derivados, como farinha, pirão, tapioca, beiju e mingau, além de cultivos como milho, batata-doce, cará, feijão, tomate, amendoim, tabaco, abóbora, abacaxi, mamão, erva-mate e guaraná (PROGRAMA DE DOCUMENTAÇÃO DE LÍNGUAS E CULTURAS INDÍGENAS, 2012). Esses conhecimentos sobre as espécies nativas foram acumulados ao longo de milênios de convivência com a floresta. Além disso, os povos indígenas também desenvolveram significativamente o conhecimento das propriedades medicinais de plantas e ervas da região. Muitas dessas plantas, como a alfavaca (com propriedades antigripais, diuréticas e hipotensoras) e o boldo (com propriedades digestivas, antitóxicas e úteis contra a prisão de ventre e febres intermitentes), ainda são utilizadas por muitas pessoas no dia a dia (PROGRAMA DE DOCUMENTAÇÃO DE LÍNGUAS E CULTURAS INDÍGENAS, 2012). Os portugueses, oriundos da Península Ibérica na Europa, já tiveram contato com uma série de culturas, incluindo fenícios, gregos, romanos, judeus, árabes, visigodos, mouros, celtas e africanos. Deles, provem o idioma português, que se tornou o principal veículo da cultura brasileira, assim como a religião católica, que, posteriormente, se sincretizou com entidades das religiões africanas (FRANTZ; TRENNEPOHL, 2014). Em termos culturais, a influência lusitana na formação cultural brasileira é evidente. O calendário festivo brasileiro incorporou duas das festas mais emblemáticas, o carnaval e as festas juninas, trazidas pelos portugueses. Originalmente conhecidas como festas “joaninas” em homenagem a São João, essas celebrações dos santos populares, como são chamadas em Portugal, evoluíram para as festas juninas, integrando-se aos costumes locais brasileiros. Além disso, diversas festas populares, como a Festa do Divino, a Farra do Boi e a Folia de Reis, também têm raízes portuguesas (MUNDO LUSÍADA, 2016). O folclore brasileiro também foi influenciado pelo folclore português, incorporando uma série de criaturas e seres mágicos do imaginário lusitano, como o bicho-papão, a cuca e o lobisomem. Além disso, várias danças brasileiras, como o maracatu, o fandango e a caninha-verde, foram implementadas no país pelos portugueses ao longo dos séculos. O maracatu, por exemplo, chegou ao Brasil por volta de 1700, especialmente no Nordeste, enquanto o fandango, uma dança de pares de origem barroca, entrou no país algumas décadas depois, permanecendo popular no Sul. A dança de pares conhecida como caninha-verde é ainda mais antiga, tendo sido introduzida durante o Ciclo da Cana-de-Açúcar em diversas regiões canavieiras do Brasil, sendo atualmente típica do Ceará (MUNDO LUSÍADA, 2016). Uma influência significativa da cultura portuguesa na sociedade brasileira inclui as cantigas de roda, que eram comuns em Portugal na época do descobrimento. Músicas tradicionais como “Escravos de Jó”, “Sapo Cururu”, “Roda Pião”, “Atirei o Pau no Gato” e “Ciranda-Cirandinha” têm origem lusitana. Além disso, muitos dos pratos considerados típicos da culinária brasileira são adaptações da culinária portuguesa às condições do Brasil Colônia. Exemplos incluem a feijoada, o quindim, o caldo verde, a cachaça e a bacalhoada. Frutas, legumes, verduras e condimentos de Portugal também foram introduzidos nas comidas brasileiras, como jaca, fruta-do-conde, coco, manga, couve, pepino, alface, cebola e alho, entre outros (MUNDO LUSÍADA, 2016). A influência africana na formação da sociedade brasileira começou com o tráfico de escravos, que trouxe milhões de africanos para o Brasil como mão de obra escrava (FERREIRA, 2013). Embora tenham sido separados e submetidos a condições extremamente difíceis, os africanos assumiram a principal força de trabalho do Brasil, desempenhando um papel crucial no desenvolvimento econômico dos primeiros séculos (FRANTZ; TRENNEPOHL, 2014). Os escravos africanos eram fundamentais para a economia colonial, sendo descritos como “[...] as mãos e os pés dos senhores de engenho porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente [...]” (ANTONIL, 1982, p. 89 apud FERREIRA, 2013). Em outras palavras, a escravidão era vista como essencial para o projeto de desenvolvimento dos portugueses no Brasil. No entanto, a contribuição africana não se limita ao aspecto econômico. Os africanos desejaram preservar suas culturas de origem e criar novas práticas culturais através da interação com outras culturas. Além de manterem tradições culturais distintas, os africanos também incorporaram elementos das culturas europeias e indígenas, influenciando-as culturalmente. Esse intercâmbio cultural entre diferentes grupos étnicos contribuiu para a formação de uma cultura afro-brasileira única e rica em diversidade (FERREIRA, 2013). Vale destacar que os africanos não formaram um grupo homogêneo, pois suas origens eram diversas. No entanto, dois grupos em particular se destacaram no Brasil: os bantos e os sudaneses. Os bantos foram assim chamados devido à sua relativa unidade linguística, incluindo africanos de Angola, Congo e Moçambique. No Brasil, bantos e sudaneses se misturaram, resultando em uma troca biológica, cultural e religiosa significativa (FERREIRA, 2013). Misturavam-se informações, assim como etnias, tradições e práticas culturais. Novas cores eram forjadas pela sociedade colonial e por ela apropriadas para designar grupos diferentes de pessoas, para indicar hierarquização das relações sociais, para impor a diferença dentro de um mundo cada vez mais mestiço. Da cor da pele à dos panos que a escondia ou a valorizava até a pluralidade multicor das ruas coloniais, reflexo de conhecimentos migrantes, aplicados à matéria vegetal, mineral, animal e cultural (PAIVA, 2001, p. 36). Assim, fica evidente que as interações culturais entre os povos africanos desempenharam um papel fundamental na construção da identidade cultural brasileira, resultando em uma cultura afro-brasileira distinta (FERREIRA, 2013). Eles não hesitaram em criar novos códigos de comportamento e reinventar práticas de sociabilidade e cultura (PAIVA, 2001). Esse processo de cruzamentos culturais foi o resultado de um longo período de intercâmbio que enriqueceu de forma única a cultura brasileira. Em última análise, é importante considerar que as três matrizes étnicas abordadas aqui desempenharam papéis cruciais na formação histórica e cultural do Brasil. Cada uma delas contribuiu de maneira significativa para a diversidade cultural do nosso país, como distribuída, não de maneira uniforme ou importadora, mas sim em um contexto de grande heterogeneidade e contradições. Essa é apenas uma pequena parte da complexa origem do Brasil que conhecemos e ao qual pertencemos.Quando abordamos a religião e a religiosidade na América portuguesa, é crucial compreender o significado profundo dessas práticas para as pessoas daquela época. Para elas, suas opiniões, fé e religiosidade permeavam todos os aspectos da vida cotidiana, moldando sua maneira de agir e pensar, influenciando as dinâmicas familiares, assim como sua participação na sociedade e na política (PRIORE, 1994, p. 5). Em outras palavras, não existia uma divisão nítida entre essas esferas, conforme comum hoje em dia, e a religião não se limitava a uma mera tradição ritualística, mas era vivenciada de forma profunda e intrínseca em todas as dimensões da existência. Da mesma forma, é importante compreendermos que a religião, como uma dimensão cultural, não é estanque e está sujeita a apropriações e usos diversos, conforme as necessidades conjunturais, sendo o sincretismo algo bastante comum: No campo da religião, é importante perceber que os seres humanos não se limitam a reproduzir aquilo que aprenderam: são agentes ativos na construção de uma realidade simbólica, da qual participam de acordo com sua experiência social. O rico, o remediado ou o pobre, o negro, o mulato ou o branco apropriam-se das práticas religiosas, usando-as segundo suas necessidades espirituais e materiais. Assim, a religião se configura num conjunto de formas de conhecimento e de crença que religa as experiências concretas das pessoas ao significado que elas lhes atribuem, ao sentido que dão à vida e à morte (PRIORE, 1994, p. 5). No contexto das práticas religiosas africanas, é importante considerar que o estudo dessas tradições durante o período colonial apresenta desafios importantes, uma vez que a maioria das fontes disponíveis é de natureza policial e se refere principalmente à repressão dessas práticas, que eram consideradas heréticas e ilegais naquela época. Via documentos, se tem conhecimento da existência de cerimônias religiosas como o acotundá, o candomblé e o calundu (PRIORE, 1994). Os africanos escravizados compartilhavam rituais tradicionais tanto em suas terras de origem na África como durante as viagens transatlânticas. Eles continuaram a praticar suas crenças religiosas mesmo nos locais de trabalho no Brasil colonial. Nesse contexto, essas práticas religiosas desempenharam um papel importante na tentativa de recriar uma identidade social que havia sido perdida devido ao exílio. No entanto, essas manifestações mágicas-religiosas eram frequentemente malvistas pelas autoridades civis e, especialmente, pela Igreja Católica (CALAINHO, 2013, p. 118). O acotundá, também conhecido como “dança de tunda”, foi uma dessas práticas religiosas que se desenvolveram em Minas Gerais durante o século XVIII. A descrição do culto nos demonstra como havia um sincretismo entre aspectos da religiosidade africana e o catolicismo: [...] aos sábados, grande número de “negros forros e cativos para ali acorriam para fazer um folguedo, dançando ao som de um tambor ou tabaque”, como diz um documento de 1747. Uma mulher entrava na dança, cantando com palavras extraídas de textos católicos, mas também utilizando o dialeto courá, da Costa da Mina (atualmente parte de Gana) (PRIORE, 1994, p. 30). Alguns autores consideram que o acotundá assemelha-se ao candomblé e ao xangô praticados no Nordeste. O altar de um legítimo candomblé baiano, o peji, fica comumente instalado no interior da casa, e o santo é representado por pedras, búzios e fragmentos de pedra, conforme a invocação, e encerrado em uma urna de barro. [...] Muitos elementos do ritual são praticamente idênticos no século XVIII e na atualidade: o emprego de galos e galinhas, moringas, recipiente com terra fétida; a predominância feminina, o destaque de uma das dançantes identificada como líder cerimonial; o sacrifício de animais, a possessão e o transe ao som de atabaques (PRIORE, 1994, p. 31). A historiadora Mary del Priore (1994) destaca que em diversos desses rituais, como o culto a Nossa Senhora do Rosário e Santo Antônio, a evocação dessas figuras religiosas servia como uma forma de cultuar as manifestações da religiosidade africana, mesmo que sob diferentes denominações e identidades. Essa sincretização religiosa era uma característica marcante da religiosidade afro-brasileira na época colonial. Por outro lado, o calundu era um ritual que parecia não ter se fundido com outras práticas religiosas na América portuguesa. Originado da religião dos vodus, que tinha suas raízes no povo jeje do Reino de Daomé (atual Benin), o calundu se destacou como um elemento religioso distinto e não sincretizado, mantendo suas características e tradições culturais de forma independente na colônia. Conduzido por um vodunô, um líder espiritual, e com a ajuda de vodúnsis, membros do culto, o ritual consistia em danças e cantos na língua jeje, ao som de ferrinhos (agogôs e gans) e atabaques. O centro do cerimonial abrigava elementos ainda hoje utilizados no candomblé baiano: ervas, búzios, dinheiro, aguardente. Folhas de diversas plantas serviam na preparação de ebós (alimentos oferecidos às divindades), em ritos de iniciação e limpeza do corpo, na medicina africana e no assentamento de altares de entidades. [...] Os calundus tinham a função de dar a seus participantes um sentido para a vida e um sentimento de segurança e proteção contra um mundo incerto e hostil (PRIORE, 1994, p. 31). No contexto dos povos indígenas, os pajés ou caraíbas eram homens que possuíam a habilidade de comunicar-se com os espíritos e interpretar suas mensagens. Os jesuítas os referem como “santidades”. Esses rituais, que envolviam diversas práticas, refletiam a crença em uma mitologia tupi, mas também demonstravam um sincretismo com a religião católica, uma vez que muitos indígenas foram educados em escolas e colégios jesuítas. A historiadora Mary del Priore (1994, p. 53) traz o relato de um episódio de “santidade” ocorrido na Bahia em 1586: O movimento foi iniciado não por um dos velhos pajés, mas por um certo Antônio, educado pelos padres da Companhia de Jesus em suas aldeias de Tinharé, na Capitania de Ilhéus. Antônio se internou no sertão, munido do que aprendera no contato com os portugueses e com os padres. Não tardou a enxertar na santidade algumas cerimônias da liturgia católica. Em sua cerimônia, anunciava o advento próximo de uma idade de ouro em que reinariam a abundância e a preguiça, e os brancos passariam de senhores a escravos. [...] Em torno de Antônio se juntou rapidamente uma verdadeira multidão de índios pagãos e batizados, forros e cativos (PRIORE 1994, p. 53). Quando tratamos das artes e da literatura na América portuguesa, é comum focarmos na produção artística e literária de europeus e seus descendentes. Isso ocorre porque as manifestações artísticas e literárias dos africanos e indígenas não eram totalmente integradas aos ambientes de prática e difusão cultural da época. No entanto, é importante destacar que, apesar de não terem sido encontrados registros escritos ou materiais facilmente acessíveis, podemos conhecer essas expressões culturais por meio da arqueologia e da transmissão oral intergeracional. Historicamente considerado, o problema da ocorrência de uma literatura no Brasil se apresenta ligado de modo indissolúvel ao do ajustamento de uma tradição literária já provada há séculos — a portuguesa — às novas condições de vida no trópico. Os homens que escrevem aqui durante todo o período colonial são ou formados em Portugal, ou formados à portuguesa, iniciando- se no uso de instrumentos expressivos conforme os moldes da mãe-pátria. A sua atividade intelectual ou se destina a um público português, quando desinteressado, ou é ditada por necessidades práticas — administrativas, religiosas (AB’SABER, 2003, p. 106). De uma perspectiva ampla, podemos considerar as cartas e os relatos dos viajantes que acompanharam as navegaçõesexploratórias e as primeiras incursões no território americano como obras documentais, uma forma de “literatura informativa”. Nesse contexto, a primeira “obra” desse tipo teria sido a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel, que se enquadrava no gênero de literatura de viagens comum no século XV em Espanha e em Portugal. Esses documentos refletem interesses mercantis e religiosos, oferecendo uma visão observada e descritiva dos acontecimentos. Os colégios jesuítas na colônia desempenharam um papel significativo na promoção das artes e da cultura, especialmente com o propósito de catequizar os indígenas e colonos. A conversão religiosa era promovida por meio de manifestações artísticas impregnadas de moral e pedagogia cristã. Um exemplo notável é a obra teatral e poesia do padre José de Anchieta (1533–1597), que incorporou valores católicos adaptados à realidade dos indígenas, incluindo o uso do tupi e elementos da cultura indígena para representar dualidades cristãs, como bem versus mal e virtude versus vício. Também devemos mencionar os sermões do padre Antônio Vieira (1608–1697) nesse contexto (AB'SABER, 2003). Além desses espaços religiosos, destaca-se a obra de Gregório de Matos Guerra (1633–1696), que compôs poesias abordando temas amorosos, religiosos e satíricos. Suas poesias satíricas renderam o apelido de “Boca do Inferno”, já que ele ousou adentrar no âmbito religioso com temas relacionados ao pecado, intemperança e sarcasmo, buscando inspiração e redenção na religião (AB'SABER, 2003, p. 107). No século XVIII, testemunhamos a fundação das primeiras academias artísticas e literárias registradas na América portuguesa. Essas academias surgiram em centros urbanos e atraíram diversos grupos sociais, incluindo religiosos, militares, desembargadores e altos funcionários. Exemplos notáveis incluem a Brasílica dos Esquecidos, fundada em 1724, e a Brasílica dos Renascidos, fundada em 1759, ambas na Bahia. No Rio de Janeiro, foi criada a Academia dos Felizes em 1736, seguida pela Academia dos Seletos em 1752. As academias e os atos acadêmicos significam que a colônia já dispunha, na primeira metade do século XVIII, de razoável consistência grupal. E embora se tenham restringido a imitar os sestros da Europa barroca, já puderam nutrir-se da história local, debruçando-se sobre os embates como os holandeses no Nordeste ou sobre as bandeiras e o ciclo mineiro no centro- sul (BOSI, 2015, p. 54). Após a descoberta de metais e pedras preciosas na região de Minas Gerais, ocorreu o desenvolvimento de um movimento moderno e artístico conhecido como “barroco mineiro” e de um movimento literário chamado “arcadismo”. Vale ressaltar que na historiografia não há consenso absoluto quanto ao uso da denominação “barroco” para descrever esse movimento na colônia, já que alguns argumentam que não se trata de uma mera imitação do barroco europeu. No âmbito do barroco mineiro, o escultor mais renomado é Antônio Francisco Lisboa (1738–1814), também conhecido como Aleijadinho, responsável por esculpir diversas obras em Vila Rica, que hoje é conhecido como Ouro Preto, e seus arredores. Quanto ao arcadismo, esse movimento literário teve origem na região das Minas Gerais por volta de 1757. Caracterizou-se pela valorização de temáticas bucólicas e simplicidade, além da utilização de modelos literários e mitológicos greco- romanos. Por esse motivo, o arcadismo também foi chamado de “neoclassicismo”, refletindo uma abordagem humanista em sua concepção. No que diz respeito às artes plásticas, é certo que a produção artística do período colonial estava fortemente ligada à Igreja Católica, abordando principalmente temas religiosos e sacros. Além disso, muitas obras de arte também retrataram a imagem do poder régio português, destacando a influência da coroa na produção de obras da época. A Igreja e o Estado português desempenharam um papel central na promoção e encomenda de obras de arte, o que resultou em uma abundância de pinturas, esculturas e arquitetura relacionadas a esses temas. De acordo com Cattani (1984, p. 116): [...] a produção artística foi dominada com exclusividade pelas diversas ordens religiosas que se instalaram no Brasil, para catequizar os indígenas e vigiar os colonos, estes muitas vezes fugidos da Inquisição. A produção artística concentrou-se nas Igrejas, centro da vida social. O dirigismo artístico manifestou-se, inicialmente, na imposição de uma arte de caráter religioso, respondendo evidentemente às necessidades do jogo político, pois, em última análise, era o rei de Portugal que comandava (CATTANI, 1984, p. 116). Nos séculos XVII e XVIII, as artes plásticas na América portuguesa apresentavam características do estilo barroco, tanto em Salvador, na Bahia, com a influência dos frades beneditinos, quanto em Minas Gerais (BRUNETO, 2001). O termo “barroco” tem sido objeto de extenso debate no campo da arte e da historiografia, sendo aceito por alguns e questionado por outros. No entanto, parece haver um consenso de que ele se refere às manifestações artísticas luso-brasileiras dos séculos XVII e XVIII, que reúnem características desse estilo. De acordo com Vainfas (2000, p. 68): Nos séculos XVII e XVIII, as artes plásticas na América portuguesa possuíam características do barroco, tanto em Salvador, na Bahia, como nos frades beneditinos, como em Minas (BRUNETO, 2001). “Barroco” é uma categoria com um longo debate artístico e historiográfico. De acordo com Vainfas (2000, p. 68): Nas artes plásticas, o barroco tem sido caracterizado por uma grande variedade de traços, em que se destacam a exuberância das formas, o gosto pelas oposições (como o uso do chiaro e oscuro na pintura), a visão do conjunto como uma composição de elementos distintos a que sempre podem ser justapostos [...] a prevalência da imagem sobre o desenho, a integração em profundidade dos planos da composição, e a manipulação de volumes que emprestam uma certa dimensão arquitetônica às obras. Na literatura, destaca-se o estilo ornamentado, o emprego das antíteses e das hipérboles, o jogo de palavras, que valorizava composições como os acrósticos. Na música, exprime-se por meio de novas formas, como a cantata (voz solista versus conjunto) e o concerto (concertino versus ripieno); da profusa ornamentação, que cabia ao executante acrescentar; e do apego a um certo virtuosismo vocal ou instrumental (VAINFAS, 2000, p. 68). Esse estilo barroco foi introduzido na América portuguesa pelos jesuítas, que já o praticavam em Portugal. Tornou-se a concepção estilística predominantemente na construção de capelas e igrejas nos arraiais mineiros durante o século XVIII. Favorecido pelo grande número de pequenos núcleos urbanos típicos da ocupação de Minas, esse movimento mobilizou quantidade extraordinária de recursos e de artesãos especializados, criando um ambiente cultural único, o chamado barroco mineiro, ao qual não faltaram manifestações musicais e literárias, além de pelo menos um artista de gênio, o mulato Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (VAINFAS, 2000, p. 69) Esse estilo barroco teria predominado até meados de 1760, quando começou a ceder espaço ao chamado estilo rococó. O rococó representou uma evolução na estética artística, caracterizada por uma maior leveza, detalhamento ornamental e influências francesas. Os povos indígenas, africanos e europeus desempenharam papéis cruciais na formação da identidade brasileira. Os indígenas influenciaram a cultura e o modo de vida dos colonizadores, os africanos enriqueceram a cultura brasileira com suas tradições, e os europeus trouxeram língua e religião. Essa diversidade é a base da identidade rica e complexa do Brasil, moldada pela convivência entre esses diferentes grupos étnicos e suas influências culturais. 4 A EVOLUÇÃO DA DIVISÃO REGIONAL NO BRASIL A regionalização no contexto brasileiroestá intrinsecamente ligada ao desenvolvimento político do país e à formação do Estado Nacional. O conceito de regionalização se manifesta historicamente como um elemento administrativo, sobretudo na subdivisão das macrorregiões. Para compreender esse conceito, é necessário reconhecer que a região de desenvolvimento desempenha um papel central nesse processo, refletindo as múltiplas concepções que moldaram sua formação ao longo do tempo. A influência de fatores internos e externos na construção regional é enfatizada por Santos (1994), que destaca a importância de uma análise dialética nesse contexto. Albuquerque Júnior (2009) destaca a relevância de considerar o caráter histórico das fronteiras e territórios regionais, que estão em constante evolução, influenciadas por fatores econômicos, políticos, jurídicos e culturais. O espaço regional é concebido como resultado das interações entre diferentes atores que operam em diversas escalas espaciais. A espacialidade regional não é estática e está sujeita a mudanças ao longo do tempo, refletindo a dinâmica das relações sociais e econômicas. Esse entendimento aproxima a noção de região da ideia de lugar, onde as interações cotidianas entre os atores desempenham um papel fundamental na compreensão da dinâmica regional. A discussão em torno da regionalização no Brasil é complexa, repleta de desafios epistemológicos, como observado por Paviani (1992). A regionalização no país remonta ao século XIX e teve origens políticas, respondendo à política centralizadora imposta pelo governo imperial e à oposição aos movimentos separatistas da época. Esse contexto histórico e político moldou o discurso regionalista, que se estruturou como uma resposta à centralização do poder. Mesmo durante os primeiros anos da Primeira República, a regionalização permaneceu como um elemento-chave na busca pela estabilidade do modelo federativo emergente. Mediante organismos descentralizadores, o governo teve em vista utilizar a regionalização como um meio de consolidar a unidade nacional, aproveitando a oportunidade para construir caminhos que promovessem a unificação do país (JÚNIOR, 2009). No entanto, vale ressaltar que, inicialmente, os documentos oficiais da República brasileira não mencionavam explicitamente a escala regional, concentrando-se principalmente na divisão em Estados, Municípios e Distritos para fins administrativos. Esse enfoque inicial foi uma proposta de trabalho que se assemelhava a um modelo anterior, demonstrando a influência do período anterior à República na formulação da estrutura administrativa do país (BRASIL, 1913). A implementação do federalismo brasileiro foi influenciada pelo modelo dos Estados Unidos, resultando em uma “federalização imperfeita” (MORAIS; VANDRESEN, 2003), marcada pela dualidade entre a União e os Estados Federados sobre o mesmo território e população. As oligarquias regionais desempenharam um papel crucial nesse processo, financiando a consolidação do modelo republicano enquanto buscavam legitimar a autonomia regional por meio de discursos que enfatizavam as singularidades políticas, econômicas, culturais e ambientais de suas regiões. Ratzel (1987) observa que as resistências regionais à integração podem resultar na formação de verdadeiros “sub-estados” no Estado, destacando a importância da coesão política e da organização do espaço político na estruturação do Estado. A proposta federativa brasileira gradualmente superou os movimentos separatistas, promovendo a observância republicana das peculiaridades regionais e a consolidação das ideias de pátria e nação. O lema do Manifesto Republicano de 1870, “Centralização-Desmembramento. Descentralização-Unidade,” ilustra a complexidade das aspirações republicanas locais e a busca pela independência política de cada Estado da federação brasileira (BRASIL, 1890). Assim, a federação brasileira emergiu como uma resposta ao desejo das elites regionais de manter o autogoverno, agora sem a interferência do Imperador, e garantir a sobrevida da constituição nacionalista. Nesse contexto, a regionalização passou a desempenhar um papel central na promoção do discurso nacionalista brasileiro. A relação dialética entre regionalismo e nacionalismo se transformou, e a concepção regional passou a ser uma ferramenta para a promoção do nacionalismo brasileiro (Candido, 1985). Na esfera financeira, o Brasil no período em questão era caracterizado pela fragmentação econômica regional, que ficou conhecida como “arquipélago econômico”. Isso se devia à falta de condições técnicas para uma integração econômica efetiva, resultando em distintas ilhas econômicas no país, como as regiões açucareira, cafeeira e extrativista. A frágil integração dessas economias ao nível federal contribuiu para que as perspectivas regionalistas predominassem sobre a ideia de formar um mercado nacional coeso. A situação geopolítica do Brasil no início do século XX era caracterizada pela fragmentação das oligarquias regionais e pela ausência de uma representatividade política nacional efetiva. No entanto, essa situação começou a mudar com o rompimento das alianças entre dois dos maiores representantes das oligarquias, Minas Gerais e São Paulo, em 1930. Esse momento marcou o início de uma reorganização política que, embora tenha continuado a reconhecer a importância das centralidades regionais, adotou um perfil mais centralizador após o golpe estado- novista de Getúlio Vargas em 1937. Inspirado pela política reservadora castilhista, o Estado Novo promoveu a construção de uma identidade nacional por meio de uma ampla propaganda nacionalista. Um exemplo disso foi a criação do Programa Nacional (atualmente conhecido como Voz do Brasil), que transmitia discursos nacionalistas por meio do rádio. No campo econômico, o governo implementou políticas de industrialização e integração econômica, visando desestruturar os arquipélagos econômicos e promover uma economia nacional mais coesa. Isso incluiu a transferência do direito de legislar sobre o comércio local das oligarquias regionais para o governo federal, a construção de infraestrutura nacional e a extinção de taxas no comércio inter-regional. A busca pela colonização da Amazônia, com foco na exploração da borracha, também fazia parte dos esforços para expandir a ocupação do território. Nesse contexto, o poder federal fortaleceu suas relações com o exército, reequipando e reestruturando as forças armadas. A ideia de centralização política e administrativa foi promovida como parte da identidade nacional durante o Estado Novo. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi criado em 1934 e instalado em 1936 como parte dos esforços para promover a unidade nacional. O IBGE tinha como objetivo coordenar e cooperar com as três esferas administrativas da República para melhor compreender o território brasileiro em constante evolução. O instituto desempenhou um papel fundamental na centralização técnica dos serviços estatísticos do país, afastando-se da estrutura oligárquica regional predominante no início do século XX e contribuindo para a construção da identidade nacional. Esses esforços refletiram a busca pela afirmação geopolítica do Brasil e a transição de uma economia regionalizada para uma economia nacional mais integrada, bem como a promoção da unidade nacional por meio de políticas centralizadoras e da construção de uma identidade nacional unificadora. Em primeiro lugar, é fundamental destacar que o surgimento do IBGE foi inserido em um contexto histórico marcado por um triplo movimento de centralização, burocratização e racionalização no âmbito do aparelho estatal. Esse período, identificado pelos analistas como um processo de formação do Estado capitalista- industrial brasileiro, representou uma quebra das “autonomias estaduais” que sustentavam os polosoligárquicos, resultando em uma concentração crescente de poder. Essa centralização se manifestou como um mecanismo regulador que afetou diversos setores da sociedade (Penha, 1993, p. 41). A complexidade da formação regional no Brasil, de acordo com Smith (1993), é um fenômeno histórico que se desenrola ao longo da trajetória da formação nacional, embora essa trajetória seja ainda incompleta. Sob essa perspectiva, a concepção de regionalização passa por mudanças significativas ao longo do processo de afirmação da República no Brasil. Nesse contexto, o governo de Getúlio Vargas incluiu a divisão regional como parte das medidas destinadas a reafirmar a identidade nacional. A permanência da noção de regionalização nesse período foi influenciada pela política de planejamento regional dos Estados Unidos, liderada por Roosevelt e seu New Deal. Assim, a busca por um novo perfil regional para o Brasil tornou-se um elemento essencial no discurso que abordava a organização socioespacial do país. No período que abrange desde a formação da primeira constituição republicana em 1892 até o significativo estudo de divisão regional realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 1941, diversas propostas de regionalização foram elaboradas. Essas propostas variavam conforme os objetivos dos planejadores e adotavam critérios diversos, incluindo aspectos orográficos, botânicos, climáticos e econômicos. Uma das divisões dignas de destaque é aquela desenvolvida em 1889 por André Rebouças. Esse estudo se diferencia por não se concentrar exclusivamente na seleção de regiões naturais, mas sim em uma abordagem econômica. O resultado desse trabalho foi a proposição de 10 regiões geoeconômicas que se destacaram, algumas das quais eram compostas por apenas um Estado, como Ceará, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul. A justificativa para essas regiões únicas estava nas características econômicas peculiares de cada uma delas, como a produção de algodão, café e charque. Além disso, é importante mencionar as considerações dos estudos coordenados pelo botânico alemão Carl Friedrich Philipp von Martius, que visitou o Brasil ainda durante o período imperial. Von Martius reconhecia a importância dos organismos regionais como meio de mitigar os movimentos separatistas. Sua proposta de levantamento regional partia de uma perspectiva que relacionava o papel das relações históricas. Seu objetivo era integrar a história nacional a partir da análise das relações sociais que se desenvolveram ao longo do processo histórico, buscando uma unidade na história do país. Para evitar conflitos, é sugerido por Martius que, em primeiro lugar, se represente o estado do país de maneira abrangente em épocas cuidadosamente selecionadas, abordando seus aspectos gerais. Posteriormente, ao focar nas partes do país que se distinguem fundamentalmente umas das outras, deve-se destacar em cada uma delas os elementos realmente importantes para a história. Como exemplo, a história das províncias de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso convergem em certos pontos; a história do Maranhão está conectada ao Pará, e os eventos em Pernambuco formam um grupo natural com os acontecimentos do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba. Em última análise, a história de Sergipe, Alagoas e Porto Seguro não é senão parte da história da Bahia (Martius, 1844, p. 400). Também é atribuído a Martius, juntamente com August Wilhelm Eichler e Ignatz Urban, a proposta de um recorte regional baseado em suas coletas botânicas para a obra “Flora Brasilienses. Este estudo, de natureza naturalista, abordou a taxonomia de 22.767 espécies, sido compilado em 15 volumes com a colaboração de cerca de 65 especialistas. Como resultado desse estudo, surgiu o Mapa Geral de Divisão Florística, que atribuiu nomes da mitologia grega a seis regiões: “Nayades” para a flora amazônica; “Hamadryades” para a caatinga; “Oreades” para os cerrados; “Dryades” para a mata atlântica; “Napaeae” para a mata das araucárias e os campos sul-rio- grandenses, além de uma região de denominação desconhecida localizada entre a floresta amazônica e a caatinga (MOTOYAMA, 2004; GUIMARÃES, 1942). Os estudos coordenados por Martius ganharam destaque nas análises regionais, uma vez que passaram a servir de base para as propostas de regionalização que seriam desenvolvidas posteriormente. Seguindo a linha do determinismo ambiental, os principais estudos regionais que emergiram nos primeiros anos da República brasileira foram fortemente influenciados pela noção de regiões orientadas por fatores naturais, consolidando assim o conceito de Região Natural no contexto do planejamento nacional (MATOS, 2013). Sob essa perspectiva, as diferentes abordagens de regionalização fundamentadas na ideia de Região Natural surgiram com a premissa de que o ambiente exerce influência significativa na orientação do desenvolvimento da sociedade. Segundo essa concepção, a região é considerada uma unidade morfológica pré-existente, resultante da combinação dos elementos naturais em áreas específicas (CORRÊA, 1986; GOMES, 1995). Influenciados por essa escola de pensamento, surgiram projetos de divisão regional intrinsecamente, ligados à noção de características naturais. Além de Martius, os professores Eliseé Réclus (1893) e Honório Silvestre (1922) também haviam adotado abordagens da escola determinista de Ratzel para realizar estudos sobre a regionalização brasileira, principalmente com fins educacionais. Nesse mesmo período, a escola possibilista francesa também começou a exercer influência nos estudos regionais. Delgado de Carvalho, um dos pioneiros da Geografia científica brasileira (ANDRADE, 1999), foi influenciado tanto pelo possibilismo de Lablache quanto pelo determinismo de Ratzel (PIRES, 2006). Ele enfatizou o papel fundamental dos estudos regionais na sistematização da ciência geográfica como meio de interpretação e compreensão do Brasil (CARVALHO, 1943). Ele definiu a noção de região como algo que surgiu quando a Geografia deixou de ser apenas descritiva para se tornar também explicativa (CARVALHO, 1943, p. 11). Delgado de Carvalho abordou a região natural considerando as tradições históricas do Brasil, destacando as diferentes influências fisiográficas, como relevo, hidrografia, clima e vegetação, no contexto da ocupação territorial ao longo da história brasileira. Ele propôs uma síntese regional que serviria como cenário para a ação humana, pois reconhecia que os aspectos físicos do ambiente influenciam tendo sido influenciados pela sociedade (CARVALHO, 1944, p. 16). A concepção de uma região natural é meramente a expressão de um fato que gradualmente se torna evidente por meio das reclamações feitas. As influências que atuam na superfície do planeta não são distribuídas de forma convocada e, na maioria das vezes, manifestam-se em áreas específicas. Portanto, a noção de natural ganha cada vez mais respaldo, e compreende-se que ela é a única que corresponde à continuidade das mesmas causas que produzem os mesmos efeitos (Carvalho, 1925). Sob esse objetivo, Delgado de Carvalho traz um dos mais importantes estudos sobre região à época, intitulada “Geografia do Brasil”, de 1913. Esse livro, de cunho didático, contribuiu para a consolidação da Geografia Escolar, servindo como modelo oficial de ferramenta de apoio no ensino dessa disciplina. Nele, o conceito de região natural surge como categoria de análise para se estudar o espaço brasileiro, apresentando um levantamento de cinco regiões naturais pensadas para o país, denominadas de Brasil Amazônico, Brasil Norte-Oriental, Brasil Oriental, Brasil Meridional e Brasil Central. Tal concepção regional, que se adiantava em certa medida à regionalização adotada pelo IBGE em 1942, segmentava seus estudos a partir de características físicase econômicas. Por meio dos estudos de Carvalho, que foram claramente influenciados pela análise regional de Élisée Reclus, buscou-se abordar os problemas regionais do país a partir do conceito de regiões naturais. Isso visava atenuar a conexão entre esses problemas e os aspectos econômicos e sociais, dando ênfase aos objetivos predominantemente políticos, ainda que disfarçados sob uma pretensa roupagem científica (Machado, 2008). No entanto, Carvalho destacou que a abordagem das regiões naturais, embora fundamentada na análise da interação entre o espaço físico e o social, ocasionalmente é imprecisa, pois o ambiente é um quadro complexo composto por diversos elementos sobrepostos, os quais nem sempre podem coincidir plenamente. Estes elementos incluem aspectos como o clima, a topografia, a vegetação, o regime pluviométrico, a economia e a população (Carvalho, (CARVALHO, 1943). Sílvio Frói Abreu, consultor técnico do IBGE, orientado pelos estudos de La Blache e Deffontaines, enfatizou e “[...] o estudo das diferentes regiões do País requer uma base de conhecimentos do solo, dos acidentes, do clima, da vegetação e da população; mas isso não basta, é apenas a base para o verdadeiro sentido interpretativo da geografia” (ABREU, 1939). Abreu observou que os estudos regionais realizados até então haviam contribuído pouco, na prática, pois estavam preocupados apenas com a descrição da natureza, sem a devida análise e interpretação (ABREU, 1939, p. 69). Portanto, apesar do reconhecimento da influência da natureza, os estudos regionais passaram a considerar o papel do ser humano, por meio de sua organização social e cultura, na forma como a natureza é utilizada (GOMES, 1995; DINIZ, BATELLA, 2005). No entanto, a divisão do Brasil em regiões naturais enfrentou desafios devido às dificuldades de se materializar uma divisão com base em critérios climáticos, botânicos ou geográficos, devido à falta de estudos detalhados do ambiente físico brasileiro. Além disso, a necessidade de criar uma divisão regional que não dividisse os estados brasileiros, respeitando os limites estaduais, também se mostrou uma barreira significativa. O desafio apresentado pelas regiões naturais, resultado das tendências integradas da geografia moderna, é, por natureza, uma questão complexa. Envolver a tarefa de estudar o complexo geográfico de um determinado território, agrupar as regiões onde ocorrem determinadas especificidades, para realizar uma visão geral da análise anterior. Como se pode perceber, esse não é um problema de resolução simples (Travassos, 1931). A referência do autor, influenciada pela abordagem regional proposta por Delgado de Carvalho, sublinhava a importância de considerar tanto os fatores físicos quanto os fatores humanos na organização do espaço brasileiro. Travassos reconhecia que, devido à diversidade de consequências ambientais que serviam como base para a definição das regiões naturais, era imperativo “identificar quais são as características verdadeiramente específicas, ou seja, aqueles que devem prevalecer como diretrizes para a delimitação das regiões naturais (Travassos, 1931). Adicionalmente, o avanço das técnicas de comunicação e transporte daquela época trouxe a complexidade de que esses meios “respeitam limites, por mais bem definidos que sejam”. Dentro desse contexto, Travassos apresentou a ideia de que uma unidade geográfica do Brasil poderia ser garantida pela presença de dois “Brasis” diferentes: o Brasil Amazônico e o Brasil Platino. Em uma escala menor, como uma maneira de estabelecer uma ligação entre esses dois “Brasis”, Travassos propunha a existência de regiões de transição conhecidas como Vertente Oriental dos Planaltos e Norte Subequatorial. Essas regiões de interligação eram caracterizadas pela conexão oceânica entre o Atlântico e o Pacífico por meio da estrutura hidrográfica e das vias de transporte, e desempenhavam um papel fundamental na política de expansão das áreas de influência do Brasil e da Argentina, no contexto da busca pela hegemonia na América do Sul. Diante dos desafios apresentados em relação aos critérios necessários para a divisão regional e da necessidade urgente do governo federal de estabelecer um plano regional abrangente, a responsabilidade de desenvolver uma nova proposta de regionalização para o Brasil foi atribuída a Fábio Macedo Soares Guimarães, que ocupava o cargo de chefe da seção de Estudos Geográficos do Serviço de Geografia e Estatística Fisiográfica do IBGE. Esse estudo, intitulado “Divisão Regional do Brasil”, foi concluído e publicado posteriormente em 1941 na Revista Brasileira de Geografia. Esse modelo regional foi oficialmente adotado para o país com base na Resolução n. 72, datada de 14 de julho de 1941. Guimarães (1941) reintroduziu o debate sobre o conceito de região natural. Para o autor, as regiões naturais deveriam ser caracterizadas principalmente por fatores geográficos e físicos. No que diz respeito aos aspectos humanos, seriam considerados apenas aqueles que resultassem das características do meio físico, especialmente para “solucionar os problemas que ainda se apresentem quanto aos limites” (GUIMARÃES, 1941). As características físicas eram preferíveis devido à estabilidade que proporcionavam para a comparação de dados estatísticos ao longo do tempo. Assim, Guimarães visou desvincular a ideia de unidade da noção de uniformidade, explorando a heterogeneidade das características fisiográficas para encontrar uma unidade geral. Como exemplo, ele citou uma região com variações notáveis em sua geografia, como vales, planaltos, cristas ou montanhas, mas que poderiam ser unificadas por alguma peculiaridade geológica ou estratigráfica. Portanto, a lógica da unidade buscava integrar a diversidade regional. No estudo de Guimarães, a unidade referia-se a um conjunto de fenômenos, em vez de um único fenômeno isolado. No esforço de compreender uma variedade de características relacionadas à flora, ao clima, à geologia e à geomorfologia, a proposta de Guimarães incorpora, em certa medida, a abordagem de divisão regional apresentada por Delgado de Carvalho. Nesse sentido, a regionalização em Norte, Nordeste, Leste, Centro-Oeste e Sul foi considerada a opção mais adequada para garantir a necessária estabilidade, uma vez que as variações físico-ambientais forneceriam uma base conveniente para comparações ao longo do tempo. Isso solidificava a noção de unidade nacional defendida pelo governo varguista, ao mesmo tempo, em que reconhecia e acomodava as diferenças regionais. Essa abordagem atendia às necessidades tanto da administração pública quanto da sistematização do ensino de Geografia do Brasil. Para resolver as contradições apresentadas pelas oligarquias regionais e atender às complexidades metodológicas da unidade regional, Guimarães dividiu duas regiões. A Região Nordeste foi subdividida em Nordeste Ocidental (Piauí e Maranhão) e Nordeste Oriental (Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas), considerando a característica de transição do ambiente físico dos estados de Piauí e Maranhão, que em partes se assemelhava ao bioma amazônico e à caatinga. Quanto à subdivisão do Leste, ela considerou as características humanas como meio de resolver as questões dos limites regionais que envolviam as unidades ambientais. Dessa forma, ao dividir dois dos maiores centros econômicos da época (Minas Gerais e Rio de Janeiro) dos estados da Bahia e Sergipe, procurou-se abordar a disparidade social existente naquela região. Nos anos subsequentes, o cenário regional do Brasil passou por mudanças específicas em resposta a critérios constitucionais. Novas unidades político- administrativas foram criadas, como o Território de Fernando de Noronha, incorporado ao Nordeste em 1942, e a inclusão dos territórios de Guaporé (hoje Roraima),Rio Branco e Amapá na Região Norte em 1943. Também em 1943, surgiu o Território de Iguaçu na Região Sul, resultante da subdivisão de partes dos Estados do Paraná e Santa Catarina, juntamente com a criação de Ponta Porã na Região Centro-Oeste, decorrente da divisão do Estado do Mato Grosso na mesma região. Contudo, em 1946, com a promulgação de uma nova constituição, os Territórios de Iguaçu e Ponta Porã foram extintos, atendendo a acordos políticos da bancada paranaense na Assembleia Nacional Constituinte (Brasil, 1946). A nova proposta de regionalização buscou atender às necessidades práticas decorrentes da industrialização e urbanização do Brasil, incorporando novos critérios para a divisão do território. A perspectiva de região natural perdeu relevância teórica, sendo excedente pela influência da economia regional e da geografia quantitativa, que fundamentaram as novas definições. Isso se refletiu nas teorias de localização e polos de crescimento, que se tornaram elementos-chave na análise territorial (PERIDES, 1994; BEZZI, 2004). Nesse contexto, a definição de microrregiões moderadas foi introduzida como uma abordagem alternativa para entender a organização territorial do país. O conceito de espaço homogêneo determina variáveis como áreas ecológicas, estrutura agrária, base industrial, infraestrutura de transporte, distribuição populacional e atividades terciárias não polarizadoras (MAGNANO, 1995). Esse processo resultou na definição de 361 microrregiões periódicas, que serviram como referência para o Censo de 1970. Nos anos 1970, devido às mudanças na estrutura espacial do país, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, foi necessário um novo instrumental conceitual para reforçar as políticas de planejamento econômico (ANDRADE, 1970). Isso levou à criação das mesorregiões em 1976, como uma escala territorial envolvida entre as microrregiões e as macrorregiões. Foram estabelecidos 87 recortes territoriais com base nos setores básicos da economia e nas estruturas urbanas e rurais como critérios de homogeneidade intragrupos. Apesar desses avanços, persistiu a necessidade de melhoria das regionalizações, principalmente para promover o desenvolvimento de áreas mais periféricas e deprimidas, devido às desigualdades socioeconômicas no território nacional (MAGNANO, 1995; BEZZI, 2004). Em 1990, houve aprimoramentos adicionais, resultando nas definições de microrregiões geográficas e mesorregiões geográficas, que consideraram aspectos naturais, sociais e de comunicação (IBGE, 2017a). Em 2017, o IBGE apresentou uma nova proposta de regionalização, apresentando as Regiões Geográficas Imediatas e as Regiões Geográficas Intermediárias. Essa abordagem considera conceitos como território-rede e território- zona para compreender a relação entre o espaço e os agentes sociais, bem como as funções territoriais (IBGE, 2017a). O território-zona é caracterizado por fluxos fixos em um espaço contíguo e homogêneo, enquanto o território-rede enfatiza a centralidade das cidades e a ampliação dos fluxos resultantes de processos modernos (BARBOSA, 2014; RIBEIRO, 2001). Essas perspectivas espaciais vão para a definição de espaços de interação e polarizações estruturadas. Em resumo, o processo de regionalização no Brasil evoluiu ao longo das décadas, incorporando novos critérios e conceitos para entender a organização territorial. Essas mudanças refletiram não apenas considerações teóricas, mas também as necessidades práticas do país em constante transformação rumo a uma proposta que agrupe claramente as reais estruturas socioespaciais. 5 O CONCEITO DE REGIÃO NA GEOGRAFIA E A QUESTÃO REGIONAL BRASILEIRA NOS CONTEXTOS POLÍTICO E SOCIOECONÔMICO A delimitação das divisões regionais no Brasil é uma questão crucial para compreender a estrutura socioeconômica e a organização do espaço geográfico no país. Este conceito de região, com sua origem na geografia clássica, desempenha um papel fundamental na análise das características e particularidades do espaço geográfico brasileiro. Ao longo da história da geografia, o termo “região” adquiriu diferentes significados, sendo aplicado em contextos políticos, socioeconômicos e culturais diversos. Neste contexto, é importante realizar um exame histórico das variações de significado atribuído à região e sua relevância no contexto territorial do Brasil. Adicionalmente, é relevante observar que a utilização do termo “região” transcende o âmbito da Geografia, estendendo-se a outras disciplinas ao longo do tempo, e inclusive permeando o senso comum, onde assume diversas conotações e significados. Nesse sentido, a exploração das múltiplas interpretações atribuídas ao conceito de “região” se revela de importância fundamental para uma análise completa das divisões regionais no contexto brasileiro e sua influência na compreensão da estrutura socioeconômica do país. Isso ressalta a necessidade de uma abordagem interdisciplinar que permita uma análise abrangente das diversas facetas do conceito de “região” e sua aplicação em diferentes contextos acadêmicos e sociais. Além disso, o dicionário ainda apresenta referências para a palavra que remetem a país, província, pátria, nação e distrito — termos esses que são amplamente utilizados para entender questões territoriais de determinado espaço geográfico (Gomes, 2011). Ao pesquisar sua etimologia, a palavra “região” aparece como derivada do latim “regere”, com o prefixo “reg” comum a outras palavras, como regra e regente, de acordo com Gomes (2011). Conforme as contribuições do autor, no contexto do Império Romano (conforme ilustrado na Figura 1), a terminologia “regione” era empregada para designar áreas territoriais que, embora estivessem subordinados a Roma, detinham uma forma de administração localizada. Gomes (2011) também argumenta que o surgimento do conceito de região durante esse período histórico está intrinsecamente relacionado à interpretação elaborada por certos filósofos que se dedicaram a examinar as complexas questões territoriais daquela época. Figura 1 – Império Romano, regiões e províncias dominadas por Roma, em 117 d.C. Fonte: Shutterstock.com/Peter Hermes Furian. O conceito de região, à semelhança de outros conceitos na área da Geografia, experimentou ao longo do tempo um processo de redefinição, abrangendo desde a antiguidade até os diferentes períodos da evolução da ciência geográfica. Essas redefinições foram influenciadas pelas particularidades de cada contexto histórico, incorporando novos significados em consonância com as questões territoriais, políticas, econômicas e sociais predominantes em cada período, conforme discutido por Gomes (2011). Num período subsequente, durante o regime militar, foram rompidas outras estratégias de cunho econômico e integração regional no Brasil. Alinhadas com a abordagem desenvolvimentista predominante na época, foram condicionais duas entidades importantes: a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia e a Superintendência para o Desenvolvimento do Centro-Oeste, ambas criadas no ano de 1967. Paralelamente, no mesmo período, foi instituída a Superintendência da Zona Franca de Manaus, uma iniciativa voltada para a promoção da industrialização na Região Amazônica, notabilizada por oferecer incentivos fiscais às empresas, especialmente aquelas que detinham tecnologias avançadas. Uma primeira observação importante é que o conceito de região desempenha um papel fundamental no âmbito das discussões políticas, na compreensão da dinâmica do Estado, na organização da cultura e na definição da diversidade espacial. Além disso, fica evidente que o debate sobre região (ou conceitos relacionados, como nação) está intrinsecamente ligado à aparência espacial. Isso significa que as abordagens desses temas, sejam elas políticas, culturais ou econômicas, são profundamenteinfluenciadas pelas percepções e representações espaciais de conceitos como autonomia, soberania, direitos, entre outros. Em terceiro lugar, é importante notar que a geografia desempenha um papel central nessas discussões, uma vez que abrange a região como um dos seus conceitos-chave e se carrega da missão de condução uma análise sistemática desse tema (GOMES, 2011). Quando realizamos uma análise histórica da evolução do pensamento geográfico ao longo do tempo, torna-se evidente que o conceito de região passou por transformações, rupturas e mudanças metodológicas e de significado. Como aponta Carvalho (2002), essas discussões e debates em torno do conceito de região acompanharam o progresso do pensamento científico e o desenvolvimento da disciplina geográfica. Segundo o autor, mesmo antes da geografia ser sistematizada como uma ciência, a noção de região já havia sido introduzida por filósofos como Immanuel Kant no século XVIII, e estava intrinsecamente ligada à concepção do espaço geográfico. Conforme o autor, o espaço pode ser subdividido em regiões que refletem a história da presença humana na superfície terrestre. No contexto da corrente determinista, a obra do geógrafo Friedrich Ratzel introduz uma ideia de região natural, categorizada como parte da geografia física e associada às questões naturais. Isso se deve ao fato de que, na perspectiva determinista, o ambiente natural exerce influência ou mesmo determina os padrões das diferentes sociedades humanas (Carvalho, 2002). Já a obra do geógrafo Paul Vidal de La Blache (1845-1918), fundador da corrente do possibilismo, argumentou que as regiões são entidades tangíveis que existem independentemente. Ele acreditava que era responsabilidade dos geógrafos demarcá-las e descrevê-las. Para ele, a geografia desempenhou um papel fundamental para identificar as diferentes regiões da superfície terrestre. Em sua concepção de região, ele incluía não apenas os elementos naturais que caracterizavam sua singularidade e unidade, mas também considerava a presença e influência do ser humano (CARVALHO, 2002, documento on-line). Outros geógrafos notáveis que desenvolveram para a abordagem do conceito de região incluem Alfred Hettner e Richard Hartshorne. Hettner considerou uma divisão das ciências em “ciências idiográficas” (observação e descrição de especificações em determinado lugar ou sobre algum tema) e “ciências nomotéticas” (levantamento, classificação de especificações e elaboração de sínteses para explicação de descobertas universais) (SPÓSITO, 2004). As ideias de Hettner foram posteriormente retomadas por Hartshorne em “The Nature of Geography”, onde se discute o método regional de estudo, enfatizando a distribuição e a localização espacial ao se estudar a região. Segundo Spósito (2004), Hartshorne afirmou que, a região não é algo que possa ser diretamente observado na realidade, mas sim uma construção mental, uma maneira de perceber o espaço que destaca os princípios subjacentes da organização espacial diferenciada. Em outras palavras, ela representa uma síntese de relações complexas que existem no espaço geográfico. (SPÓSITO, 2004). Além disso, diversas outras correntes do pensamento geográfico também influenciaram o conceito de região e sua aplicação. Destaca-se a geografia neopositivista, que atualmente o conceito de região é como uma divisão do espaço de acordo com critérios diferentes, criando as categorias de regiões funcionais e regiões interativas (Spósito, 2004). Também é relevante a noção de região na geografia crítica, que relaciona a diferenciação do espaço à divisão do trabalho e ao processo de acumulação de capital, utilizando o conceito de formação econômica para entender a região como uma riqueza concreta e histórica dos processos sociais (SANTOS, 1978, apud GOMES, 1995) (SPÓSITO, 2004). A evolução do entendimento da questão regional no contexto brasileiro ao longo do tempo tem sido manifesta através das abordagens distintas de regionalização. A primeira delas, datada de 1913 e atribuída a Delgado de Carvalho, tinha como objetivo a divisão do território nacional em regiões com base em características físico-naturais, tais como relevo, clima e vegetação. Esta abordagem visava principalmente aprimorar o ensino da geografia no país (HAESBART, 2020). No entanto, somente a partir da segunda metade do século XX é que as regionalizações brasileiras passaram a considerar de forma mais significativa as características econômicas e culturais como elementos preponderantes em seus modelos e propostas. Tal mudança foi influenciada, em parte, pela influência da obra de Vidal de La Blache, que, inicialmente, também considerou fatores naturais na delimitação das regiões (Haesbart, 2020). Este processo histórico evidencia a evolução da compreensão da questão regional no Brasil, passando de uma ênfase inicial em aspectos físicos e naturais para uma abordagem mais abrangente e contextualizada, que reforça a importância das dinâmicas econômicas e culturais na definição das regiões do país. Em 1945, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) modificou uma nova abordagem para regionalizar o território nacional, considerando tanto aspectos físicos quanto socioeconômicos. Nessa divisão regional, o Brasil foi categorizado em sete regiões distintas: Norte, Nordeste Oriental, Nordeste Ocidental, Centro-Oeste, Leste Setentrional, Leste Meridional e Sul. No entanto, ao longo da década de 1950 até a década de 1960, essas regiões passaram por modificações, incluindo a inclusão ou exclusão de áreas devido às transformações territoriais ocorridas nesse período. A regionalização oficial do IBGE atual foi desenhada em 1970, sendo o país dividido em cinco macrorregiões político-administrativas: Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Posteriormente, em 1990, com as mudanças da Constituição de 1988, essa divisão regional foi atualizada a partir de algumas mudanças territoriais que se configuraram. Uma regionalização notável pela consideração de aspectos econômicos e padrões de ocupação do espaço no Brasil é a divisão regional proposta por Pedro Geiger em 1964, conhecida como regiões geoeconômicas ou complexos regionais. Nessa regionalização, o autor dividiu o Brasil em três grandes regiões, com base nas atividades econômicas predominantes e no histórico de ocupação e organização do espaço: Amazônia, Nordeste e Centro-Sul (Figura 2). Figura 2 – Regiões geoeconômicas do Brasil – Pedro Geiger (1964). Fonte: Adaptada de Divisão... (2021, documento on-line) No livro intitulado “O Brasil — Território e sociedade no século XXI”, Santos e Silveira (2001) apresentam uma abordagem de regionalização do território brasileiro que se baseia nas variações territoriais resultantes da disseminação desigual do meio técnico-científico-informacional e das influências históricas distintas em várias regiões do Brasil. De acordo com essa perspectiva, os autores propõem a existência de quatro Brasis diferentes: • Região Concentrada: esta abrange as regiões Sul e Sudeste do país caracterizada por uma concentração de atividades tecnológicas e científicas, bem como pela influência econômica e cultural predominante. Essa região é vista como uma área de desenvolvimento mais avançada. • Brasil do Nordeste: referente à região Nordeste do Brasil, que se destaca por sua riqueza histórica e cultural, mas também enfrenta desafios econômicos e sociais significativos. • Centro-Oeste: esta região é caracterizada pela sua localização geográfica, estratégica e pelo desenvolvimento agroindustrial. É vista como um centro de expansão econômica e agrícola. • Amazônia: refere-se à vasta região amazônica, marcada por sua diversidade natural, mas também por questões socioeconômicas e ambientais complexas, incluindo a preservação da floresta tropical. Essa abordagemde regionalização proposta pelos autores visa destacar as diferentes dinâmicas territoriais e culturais que moldam o Brasil contemporâneo, confirmando as disparidades e singularidades presentes em cada uma das quatro regiões identificadas. As diferentes regionalizações apresentadas ilustram como diversos mapeamentos e análises podem ser propostas a partir do conceito de região. Para regionalizar uma área, é preciso considerar aspectos importantes como a escala e os critérios que serão usados para destacar as peculiaridades das áreas mapeadas. Além das regionalizações mencionadas, existem outros tipos de mapeamentos realizados em escala nacional, estadual e até mesmo local, utilizando vários critérios, desde aspectos da geografia física até aspectos da geografia humana. Não é de surpreender que o espaço físico e geográfico tenha sido uma causa motivadora de disputas em todo o mundo ao longo de diferentes períodos da história. A busca pela expansão territorial, a promoção do comércio ou o fortalecimento do poder político e militar muitas vezes se traduziram em conflitos armados, resultando na maioria das guerras registradas ao longo dos séculos. A influência do espaço geográfico na geopolítica global permanece uma constante fonte de desafios e rivalidades internacionais até hoje. Comumente, a expansão desorganizada dos territórios resultou em diversas distorções, seja no aspecto religioso, cultural, econômico, entre outros. O Brasil é um exemplo dessa necessidade de expansão do Império Português, e as distorções persistiram entre metrópole e colônia até a transferência do reinado para o Brasil, culminando com a Independência em 1822. No entanto, mesmo no Império do Brasil, que considerava as mesmas dimensões do Brasil atual, notavam-se distorções, já que toda a estrutura política e econômica estava centralizada na capital e em pouquíssimas localidades litorâneas, deixando o interior do país intocado. Em 1823, José Bonifácio entregou um memorial a Dom Pedro, então imperador do Brasil, preocupado com a vulnerabilidade da capital do Império a ataques externos, já que a capital estava localizada na atual cidade do Rio de Janeiro. Bonifácio projetou a construção de uma nova capital, próxima da atual Brasília, que só foi concretizada em 1960. A organização política, econômica e regional do país só se consolidaria após a Proclamação da República, especialmente durante o período do Estado Novo, instaurado pelo presidente Getúlio Vargas (1937-1946). Nesse contexto, o eixo econômico e político já se deslocava para além do Rio de Janeiro, embora ainda fosse a sede do governo, alcançando Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais. No entanto, não havia uma orientação estatal de políticas específicas para as diferentes regiões do país até os anos 1950, sob as políticas desenvolvimentistas do presidente Juscelino Kubitscheck (JK). Essas políticas incentivaram a indústria, o setor dos transportes e a energia, substituindo as importações. Foi nesse período que o Brasil distribuiu pela primeira vez uma política clara de organização e desenvolvimento regional (MEGIATO, 2014). As decisões econômicas no Brasil na metade do século XX foram amplamente influenciadas ou guiadas pelo economista Celso Furtado, que era um desenvolvimentista e regionalista notável e um fervoroso defensor e teórico da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL). Furtado, por meio de sua obra e seu legado, defendeu políticas integracionistas e de colaboração para promover o desenvolvimento no subcontinente. Como destacado por Colistete (2001), ao longo do tempo, torna-se possível avaliar os resultados e significados das teses elaboradas pelo grupo de economistas e cientistas sociais na criação da CEPAL. Naquela época, e ainda mais hoje, tanto a época do pensamento cepalino quanto o de Celso Furtado (1969) foram influenciados pelo economista John Maynard Keynes. Este, apesar de não abordar o regionalismo, defendeu o papel do governo na intervenção na economia para corrigir possíveis distorções em um regime de mercado livre a curto prazo, uma ideia que era totalmente aceita em todo o mundo na época. No Brasil, essa abordagem foi bem recebida e desencadeou uma série de ações, começando pela construção da nova capital, Brasília, que marcou o início de uma nova era no país. O marco desse novo momento foi o Plano de Metas, um conjunto de 31 metas de integração e desenvolvimento nacional que deveriam ser realizadas em cinco anos. Devido à velocidade dessas ações, o plano ficou conhecido como “50 anos em 5”. No entanto, apesar dos avanços, algumas regiões ainda ficaram à margem do desenvolvimento. Apesar dos avanços consideráveis para a época, algumas regiões permaneceram marginalizadas. Para abordar essa questão, o governo propôs a criação de superintendências regionais para promover o desenvolvimento equitativo em todo o país. Nesse contexto, durante o governo de Juscelino Kubitschek, surgiu a Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste, um órgão dedicado a uma região que enfrentava desafios de desenvolvimento, mas tinha grande potencial, conforme evidenciado pelos documentos de sua fundação em 1957. Posteriormente, durante o período militar, foram adotadas outras iniciativas econômicas e de integração regional. Seguindo a mesma abordagem desenvolvimentista, foram criadas a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia e a Superintendência para o Desenvolvimento do Centro-Oeste, ambas fundadas em 1967. No mesmo ano, visando promover a industrialização na Região Amazônica, surgiu a Superintendência da Zona Franca de Manaus, uma área de incentivos fiscais para empresas, especialmente aquelas com tecnologia. Mais tarde, na década de 1970, dois novos planos foram elaborados com base na experiência do Plano de Metas: o I Plano Nacional de Desenvolvimento (I PND) e o II PND. Novamente, o foco era a planificação econômica ao nível nacional. Durante esse período, o Brasil experimentou um período de crescimento econômico notável conhecido como “milagre econômico”. Foi nesse contexto que importantes empresas estatais, como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), foram fundadas, com a Embrapa sendo particularmente notável por sua abordagem sustentável de integração e desenvolvimento regional, adaptando-se às potencialidades e especificidades de cada região brasileira. A discussão sobre as políticas regionais está inextricavelmente ligada ao cenário econômico. Quando o Estado enfrentou crises de qualquer natureza, isso acaba por interferir na continuidade das políticas regionais, como já foi evidenciado no Brasil nos anos 1980. Nesse período, a abordagem desenvolvimentista perdeu força devido ao endividamento do Estado, seu principal financiador. A situação foi tão grave que a própria Constituição de 1988 tratou limitadamente das questões regionais. Nos anos 1990, o regionalismo voltou a ser relegado ao segundo plano ao nível nacional, agora em prol da necessidade de estabilização econômica. Como resposta a essa mudança de foco, alguns estados passaram a explorar o regionalismo dentro de seus próprios territórios. Um exemplo é o Rio Grande do Sul, que distribuiu os Conselhos Regionais de Desenvolvimento. Além disso, no âmbito estadual, surgiram outras formas de regionalização, como as regiões condicionais pelas secretarias estaduais de saúde, que mapearam as coordenadorias regionais de saúde e suas respectivas áreas. Essa regionalização tem sido amplamente utilizada, como demonstrada no caso do Modelo de Distanciamento Controlado proposto pelo estado do Rio Grande do Sul em 2020, como parte dos esforços para conter a disseminação da COVID-19. O Brasil, um país de dimensões impressionantes, abrange uma vasta extensão territorial, totalizando 8.515.759 km². Classificado como o quinto maior país domundo em termos de área, o Brasil também ocupa essa posição em relação à sua população, com uma estimativa de 212.433.654 habitantes. Em termos de organização política e administrativa, o Brasil está dividido em cinco grandes regiões: Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Dentro de suas fronteiras, o país inclui 26 estados (como ilustrado na Figura 3) e um distrito federal, com os municípios desempenhando o papel de unidades administrativas de menor hierarquia dentro de sua estrutura política, de acordo com dados do IBGE em 2021. Figura 3 – Mapa político do Brasil. Fonte: IBGE (2021, documento on-line). Naquela época, e ainda mais atualmente, tanto o período caracterizado pelo pensamento cepalino quanto a obra de Celso Furtado (1969) foram impactados pelas ideias do renomado economista John Maynard Keynes. Embora Keynes não tenha abordado diretamente a questão do regionalismo, ele defendeu fortemente pelo papel do governo na intervenção na economia, a fim de ajustar possíveis distorções em um contexto de mercado livre a curto prazo. Essa perspectiva foi amplamente aceita globalmente naquela época, e suas contribuições influenciaram significativamente as abordagens econômicas e políticas adotadas em todo o mundo. Conforme as diretrizes condicionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2021, o processo de divisão regional do Brasil se sustenta na agregação de unidades federativas (estados) e divisões político-administrativas menores (municípios) em unidades regionais mais amplas. O objetivo primordial deste procedimento é facilitar a compreensão das características distintivas de diferentes regiões do país e estabelecer uma estrutura territorial sólida que possibilite a coleta e a divulgação de dados estatísticos abrangentes. Essa abordagem visa primário fornecer apoio à formulação e implementação de políticas públicas e estratégias de investimento nos âmbitos federal, estadual e municipal, para promover o desenvolvimento regional e nacional de forma mais eficaz e informada. Conforme esclarecido pelo IBGE em 2021, a concepção de regionalização tem sido uma constante desde os primórdios da instituição, com a finalidade crucial de oferecer um panorama abrangente do território brasileiro e embasar a formulação de estratégias para o ordenamento e planejamento territorial. A abordagem atual tem em vista aprimorar progressivamente as regionalizações, de modo a torná-las cada vez mais representativas e relevantes para o contexto nacional, contribuindo, assim, para uma compreensão mais profunda e inclusiva do país. As cinco regiões oficialmente determinadas no Brasil (conforme representadas na Figura 4) apresentam em seus territórios não apenas variações nas características físicas, como relevo, clima, vegetação e hidrografia, mas também disparidades notáveis em termos socioeconômicos e culturais. Essas discrepâncias são o resultado de processos de configuração do espaço que se desdobraram ao longo da história de cada região, sob a influência de contextos políticos e sociais específicos. Figura 4 – Divisão regional do Brasil: em verde, região Norte; em azul, região Nordeste; em amarelo, região Centro-Oeste; em vermelho, região Sudeste; em laranja, região Sul. Fonte: Regiões Brasileiras (2020, documento on-line). No Quadro 1, por meio da exposição dos estados brasileiros e suas correspondentes regiões político-administrativas de filiação, é possível discernir claramente o método empregado para a elaboração desse alcance geográfico. Esse agrupamento é resultado de uma análise criteriosa que considera fatores geográficos, demográficos, culturais e administrativos, que juntos definem a divisão territorial do Brasil em regiões coerentes e funcionais, facilitando o planejamento e a gestão em todo o país. Quadro 1 – Regiões brasileiras e seus respectivos estados O Brasil ostenta um vasto território, caracterizado por particularidades regionais, que transcendem não apenas os aspectos naturais, notáveis por sua diversidade em termos de relevo, hidrografia, vegetação e clima. Este país também abriga uma imensa riqueza cultural. Ao contemplarem as diversas culturas presentes no Brasil, fortemente influenciadas pelos processos históricos e socioeconômicos que moldaram cada região brasileira, surgem múltiplos Brasis, como apresentados por Santos e Silveira (2001) em sua obra “O Brasil: Território e Sociedade no início do século XXI”. Cada região do Brasil exige uma análise e estudo que considere suas especialidades e características intrínsecas. 6 DESAFIOS E PERSPECTIVAS DO DESENVOLVIMENTO REGIONAL NO BRASIL: GOVERNANÇA E DESIGUALDADES Antes de explorar a condição histórica, política e democrática do Brasil contemporâneo, é crucial compreender os significados socialmente construídos das palavras “república”, “democracia” e “cidadania”. No período da República Velha, a formação da classe trabalhadora foi influenciada pela ascensão e declínio do poder econômico dos fazendeiros paulistas, centrados na produção de café. A vinda de operários imigrantes europeus foi fundamental para a formação da classe trabalhadora no país (Montaño; Duriguetto, 2011). Ao explorar o desenvolvimento dos movimentos operários na Europa, é evidente que o pensamento de Marx e Engels influenciou a formação de partidos e sindicatos, defendendo a participação política da classe operária. No entanto, no Brasil, os operários estrangeiros foram severamente perseguidos durante o processo de industrialização, evidenciando desafios únicos (Montaño; Duriguetto, 2011). A Era Vargas desempenhou um papel ambíguo, equilibrando interesses da classe operária e dos proprietários do capital. A criação do Ministério do Trabalho em 1930 declarou uma resposta governamental às demandas dos trabalhadores. No entanto, o Golpe de Estado em 1937 instituiu o Estado Novo, um regime ditatorial que perdurou sete anos, mostrando a complexidade da relação entre Estado e classe trabalhadora (Couto, 2004). A palavra “cidadania” tem sua origem no latim civitas, conferindo direitos e obrigações aos indivíduos. A participação ativa da sociedade foi crucial na elaboração da Constituição de 1988, denominada “Constituição Cidadã”. O processo refletiu a luta pela efetivação dos direitos civis, políticos e sociais na vida dos brasileiros (Camargo, 2017). A transição para a democracia na década de 1980 foi marcada por intensos movimentos sociais, culminando na Constituição de 1988. As manifestações em favor das “Diretas Já” e o envolvimento ativo da sociedade civil foram fundamentais nesse processo, evidenciando a importância da mobilização social na configuração política do país. A configuração social e política do Brasil contemporâneo é resultado de uma interação complexa entre eventos históricos, movimentos sociais e a evolução do sistema democrático, refletindo um processo contínuo de construção e redefinição da república, democracia e cidadania (Montaño; Duriguetto, 2011; Couto, 2004; Camargo, 2017). Conforme analisado por Senra (2011), as políticas federais de desenvolvimento regional no Brasil adquiriram configurações específicas, estando sempre alinhadas com a orientação política e ideológica predominantemente no governo federal vigente. Sendo relevante ressaltar, conforme a periodização proposta pelo autor a partir da década de 1950, que os diferentes períodos históricos dos governos brasileiros delinearam propostas específicas de políticas federais para o desenvolvimento territorial e local. Estas políticas podem ser categorizadas como desenvolvimentistas, neoliberais e neo-desenvolvimentistas, com a presença de subperíodos distintos, exemplificados por: • Programas de metas de Juscelino Kubitschek (JK) e o desenvolvimento regional; • Auge do planejamento nacional e regional duranteo período militar; • Eixos nacionais de desenvolvimento e políticas de desenvolvimento local (SENRA, 2011). O Quadro 1 oferece uma visão geral, organizada por periodização, das iniciativas federais específicas para o desenvolvimento regional e local no Brasil. Este quadro reflete a diversidade de abordagens adotadas ao longo do tempo, evidenciando as diferentes ênfases e estratégias delineadas pelos sucessivos governos para promover o desenvolvimento em regiões distintas do país. Quadro 1 – Iniciativas federais para o desenvolvimento regional e local do Brasil por períodos Período Duração Iniciativas Pós-Guerra (1945–1964) Iniciativas institucionais para o desenvolvimento regional (desenvolvimentismo), predominantemente orientadas pelo sistema capitalista keynesiano (aumento do investimento público) e pela participação do Estado na economia, com a criação de instituições regionais nos primeiros anos desse período. Pós-golpe militar (1964–1988) Medidas realizadas por governos autoritários para o desenvolvimento nacional orientadas por Constituições Federais conservadoras e um planejamento estatal centralizado; as políticas de desenvolvimento regional adquirem características de cunho liberal. Pós-Constituição Federal de 1988 (1988–2009) Prevaleceram medidas definidas no Consenso de Washington (fases neoliberais), mas também desenvolvimentistas e neodesenvolvimentistas. Fonte: Adaptado de Senra (2011). A trajetória inicial da República brasileira, ilustrada na Figura 1, comprometeu- se em direcionar o desenvolvimento para diversas regiões do país, marcada pela iniciativa pioneira do mais antigo organismo de desenvolvimento criado em 1909: a Inspetoria de Obras Contra as Secas (IFOCS), conforme destacado por Senra (2011). Estabelecida em 1909 e vinculada ao Ministério da Viação e Obras Públicas, a IFOCS foi inicialmente denominada Inspetoria de Obras contra as Secas. Em 1919, modificou o nome de Inspetoria Federal de Obras contra as Secas, e, finalmente, em 1945, substituiu a designação que perdura até os dias atuais. A criação do IFOCS surgiu como resposta à insatisfação em relação à abordagem adotada no combate às secas no Nordeste desde 1877 (ABREU, [2009]). Contudo, foi na década de 1930 que efetivamente se iniciaram as políticas de desenvolvimento regional no Brasil, sob a liderança do presidente Getúlio Vargas. Nesse período, houve uma melhoria de políticas voltadas para o desenvolvimento industrial, evoluindo rompendo com a concepção de um país predominantemente agroexportador e promovendo o crescimento da indústria nacional. Dada a vastidão territorial do Brasil, suas atividades econômicas manifestam uma notável diversidade, sendo as características econômicas individuais de cada estado um dos critérios fundamentais para a regionalização em macrorregiões. A contextualização geoeconômica do país, delineada por Pedro Pinchas Geiger em 1967, adicionou uma dimensão crucial a essa abordagem ao incorporar critérios associados à dinâmica econômica e histórica do território brasileiro. Nesse escopo, Geiger propôs a classificação do Brasil em três regiões principais: Amazônia, Centro- Sul e Nordeste. A disparidade na distribuição econômica em território nacional pode ser abordada com base na análise da participação de cada região e estado no Produto Interno Bruto (PIB) do país. Essa avaliação inclui uma análise minuciosa das atividades econômicas com maior predominância em cada localidade. Essa abordagem metodológica fornece uma visão mais aprofundada das nuances econômicas intrínsecas a cada região do Brasil, permitindo uma compreensão mais abrangente das dinâmicas regionais e, por conseguinte, uma base mais sólida para a formulação de políticas públicas e estratégias de desenvolvimento econômico no âmbito nacional. A economia da região Nordeste do Brasil apresenta uma diversificação notável, pautando-se primordialmente no setor agropecuário, de serviços, turismo e industrial. O setor agropecuário, delineado por características distintivas, evidencia uma notável concentração de terras e a produção de monoculturas, destacando-se cultivos como cana-de-açúcar, fumo, cacau, algodão, cebola, vinha e arroz. Na região do sertão, a produção de caprinos (cabras) assume particular relevância. O turismo figura como atividade econômica preponderante na região Nordeste, especialmente ao longo de sua extensa área litorânea, fundamentada nas atrativas praias e belezas naturais. A localização geográfica do litoral nordestino com países europeus e os Estados Unidos propicia um influxo significativo de turistas estrangeiros. A dinâmica turística no Nordeste, portanto, desencadeia a geração de empregos em larga escala, impulsionando setores como restaurantes e hotéis. O setor industrial, embora de dimensões menores em comparação com outras regiões, consolidou-se na região Nordeste, especialmente a partir da década de 1980. Esse fortalecimento industrial decorreu da desconcentração industrial no Sudeste, aliada aos incentivos fiscais que atraíram diversas indústrias para a região Nordeste. Em geral, as indústrias que se estabeleceram na região são modernas e diversificadas, abrangendo setores como o petroquímico, têxtil, automobilístico, entre outros. Sendo esta análise setorial uma compreensão mais aprofundada da complexidade econômica da região Nordeste, permitindo informações cruciais para estratégias de desenvolvimento econômico e formulação de políticas públicas na esfera regional e nacional. A região Norte do Brasil apresenta um perfil econômico centrado predominantemente no setor primário, destacando-se atividades como extração mineral, vegetal e pesca. Essa localidade é reconhecida por sua vasta riqueza em minerais, abrangendo alumínio, cobre, chumbo, ouro, estanho, ferro, manganês, entre outros. O setor terciário, compreendendo comércio e serviços, também exibe expressividade, notadamente nas atividades relacionadas ao turismo amazônico e ao comércio, com foco nas capitais regionais, a exemplo de Manaus, Belém e Rio Branco. No que diz respeito à atividade industrial, destaca-se a Zona Franca de Manaus, notabilizada pela produção de eletrodomésticos, e o Distrito Industrial de Belém, que abriga indústrias tradicionais, como moveleira, alimentícia, têxtil e química, ambas atraídas por incentivos fiscais na década de 1990. Na região Sudeste, epicentro da economia brasileira com maior concentração do Produto Interno Bruto (PIB), sobressaem-se os setores industriais, de comércio e serviços, bem como a agropecuária. A infraestrutura de transporte, compreendendo modalidades rodoviárias, ferroviárias, aéreas, portuárias e hidroviárias, desempenha papel fundamental no dinamismo do desenvolvimento econômico regional, facilitando o escoamento da produção. O setor agropecuário, por sua vez, adota práticas modernas, incorporando tecnologias em suas atividades, notadamente nas culturas de cana-de-açúcar, café, laranja e batata. O comércio se destaca, sendo favorecido pela infraestrutura robusta e pela densa concentração populacional. São Paulo, por exemplo, concentra as sedes de centenas de multinacionais e a Bolsa de Valores brasileira. A concentração dos principais portos brasileiros e uma infraestrutura de transporte bem desenvolvida na região Sudeste contribuíram para o desenvolvimento de indústrias e agroindústrias modernas e diversificadas. A industrialização na região remonta a 1930, centralizando-se inicialmente na região do ABC paulista, notadamente nas cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano, com ênfase em indústrias metalúrgicas e, posteriormente, automobilísticas, configurando-se como principal área de industrialização no Brasil. Outras áreas de concentração industrial incluem o interior de São Paulo, o Vale do Aço na Região Metropolitana do Riode Janeiro, o Quadrilátero Ferrífero na região de Belo Horizonte/MG, e a região de Vitória/ES, que se destacam, principalmente, no processamento de minérios. Na região Sul do Brasil, observa-se uma marcante predominância do setor agropecuário, complementada significativamente pelos setores industriais, de comércio e serviços. Esta região detém a segunda maior participação no Produto Interno Bruto (PIB) do país e é o epicentro das principais agroindústrias nacionais, incluindo empresas de renome como Sadia e Perdigão. A agropecuária na região Sul se destaca pela adoção de tecnologias avançadas, diversificação de produção e produção em larga escala, com ênfase em culturas como soja, milho, trigo, arroz, suínos e aves. Além disso, o turismo desempenha um papel relevante na economia da região Sul, beneficiando-se de uma infraestrutura urbana bem desenvolvida, especialmente nas cidades de Gramado e Canela, bem como de um litoral desenvolvido e das belezas naturais dos parques nacionais, como as Cataratas do Iguaçu. Embora a agropecuária seja um setor de grande relevância, a economia regional é predominantemente impulsionada pela atividade industrial. O complexo industrial na região concentra-se principalmente no abastecimento do mercado interno, englobando setores como alimentos, têxteis, calçados, móveis, petrolíferos, entre outros, desempenhando um papel crucial no desenvolvimento do comércio e dos serviços. Essa dinâmica econômica é particularmente notável nas áreas metropolitanas de Curitiba, Vale do Itajaí, Porto Alegre, além das cidades de Londrina e Maringá. A região Centro-Oeste do Brasil possui uma organização econômica centrada principalmente nas atividades agropecuárias, voltadas principalmente para a exportação. A partir da década de 1960, houve uma expansão das fronteiras agrícolas com a exploração do cerrado, resultando em uma característica notável da atividade agropecuária na região, marcada pela concentração de terras, pecuária bovina e produção de soja voltada ao agronegócio voltado à exportação. No entanto, o setor de serviços ocupa uma posição mais proeminente na economia regional, com potencial no turismo, particularmente em Brasília e na região do Pantanal. Além disso, os serviços públicos desempenham um papel significativo, especialmente no Distrito Federal. O comércio interno é igualmente caloroso para atender à demanda local. A indústria na região Centro-Oeste foi estruturada com o auxílio de incentivos fiscais, contribuindo para a desconcentração industrial em relação ao Sudeste. Ela apresenta uma característica moderna e diversificada, abrangendo produtos relacionados à madeira, indústria automobilística, mineradoras, entre outros segmentos, que colaboram com a dinâmica econômica regional. A despeito do papel relevante desempenhado pelo Estado na promulgação e ampliação de políticas e projetos desenvolvimentistas, os quais se desenvolvem para o crescimento em determinadas localidades, a persistência da desigualdade regional representa um obstáculo para o desenvolvimento eficaz e abrangente do país. Nesse cenário, observa-se um destaque crescente para discussão, debates e ações voltadas ao desenvolvimento regional/local, enfatizando a importância da atuação assertiva do Estado e de mecanismos de governança nos territórios. A governança territorial, surgida na década de 1970, propõe a promoção de mecanismos de regulação por meio da integração de diferentes esferas, nomeadamente o Estado, o mercado e a sociedade civil, estabelecendo uma dinâmica de cooperação entre os setores público e privado, com o propósito de alcançar o desenvolvimento regional/local. No contexto brasileiro, a questão da governança se manifesta por meio de entidades como câmaras, comitês, circuitos, arranjos, conselhos, sindicatos, associações, fóruns, entre outras formas de organização que reúnem diversos atores. Estas iniciativas visam o fomento do desenvolvimento local em setores produtivos específicos, na gestão de recursos ou em determinados territórios. Esta abordagem propicia uma abordagem mais participativa e colaborativa na busca por soluções e estratégias que atendam às necessidades específicas de cada região, rompendo com uma abordagem tradicional centralizada e propiciando um ambiente propício para o avanço do desenvolvimento regional no Brasil. No âmbito de locais onde o desenvolvimento é endógeno, caracterizado pela ausência de condições propícias, recursos, infraestrutura e elementos institucionais e parâmetros preexistentes, a promoção do desenvolvimento deve, predominantemente, emanar do poder público estatal. Em regiões marcadas por uma maior vulnerabilidade social, as ações estatais devem priorizar a atuação em frentes que visem atender às condições mínimas, abrangendo áreas cruciais como saúde, educação, saneamento básico e habitação. A formulação de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento de estratégias fundamentais em regiões de alta especificidade territorial, a exemplo da região do Bioma Amazônico, como evidenciado pelo novo Plano Amazônia Sustentável (PAS), requer a busca por meios que conciliem o crescimento econômico com a Preservação dos recursos naturais e inclusão social (BECKER, 2005). Nesse contexto, é imperativo investir em políticas públicas de desenvolvimento que contemple a gestão ambiental e o ordenamento do território, bem como um novo padrão de financiamento, inclusão social, infraestrutura e produção sustentável, aliados à inovação tecnológica e competitividade (BECKER, 2005). Na região amazônica, especificamente, torna-se essencial articular diferentes projetos, interesses e conflitos regionais, ao mesmo tempo, em que se promovem políticas de desenvolvimento eficazes, promovendo a superação da polaridade conflituosa entre a política ambiental e o desenvolvimento regional (BECKER, 2005). Assim, para todo o território nacional, o Estado, em suas diversas esferas (federal, estadual e municipal), desempenha um papel crucial no desenvolvimento regional, industrialização, planejamento e modernização econômica do país. O Estado surge como um agente promotor e formulador de políticas públicas de desenvolvimento regional, além de mitigar as disparidades regionais, especialmente em áreas prioritárias, que afetam a população brasileira. 7 DINÂMICA DEMOGRÁFICA BRASILEIRA: TRANSIÇÕES E DESAFIOS PARA O SÉCULO XXI O crescimento demográfico global de uma região ou país resulta da soma do crescimento vegetativo (calculado como a diferença entre as taxas de natalidade e mortalidade) e do fluxo migratório (diferença entre as taxas de imigração e emigração). O crescimento populacional, expresso como a disparidade entre o número total de nascimentos e óbitos, é encapsulado pela taxa de crescimento vegetativo, definida como a diferença entre as taxas de natalidade e mortalidade por mil indivíduos ao ano. A ampliação dessa discrepância reflete um aumento efetivo na população. Portanto, um resultado positivo indica crescimento populacional, enquanto um resultado negativo sugere redução demográfica. Por sua vez, uma equivalência entre as duas taxas denota estabilidade populacional (DANTAS; MORAIS; FERNANDES, 2011). A dinâmica populacional brasileira experimentou transformações significativas desde meados do século XX, tanto em termos quantitativos quanto na configuração etária. O crescimento populacional e a transição demográfica são indicadores fundamentais, exercendo influência sobre as exigências associadas às políticas públicas essenciais, nomeadamente nas áreas da saúde e da educação. Além disso, a consideração da dimensão estrutural, abrangendo ações políticas tanto quanto privadas com impacto sobre a economia e a sociedade, bem como das contingências conjunturais, de natureza temporária, como crises econômicas no âmbito nacional e internacional,é imperativa. O crescimento populacional e as alterações na estrutura etária, em geral, resultaram em insights relevantes sobre a disponibilidade de mão-de-obra e disparidades regionais correlacionadas a essas configurações, influenciando a composição demográfica. Nesse contexto, a compreensão das transformações demográficas em determinada localidade exige uma avaliação aprofundada da natureza intrínseca dessas variáveis e de suas inter-relações. A dinâmica demográfica é principalmente influenciada pelas taxas de natalidade, fecundidade e mortalidade, assim como por fatores que impactam o aumento e a redução desses indicadores. A taxa de natalidade refere-se ao número de nascidos vivos em um grupo de mil indivíduos durante um ano específico. Por sua vez, uma taxa de fecundidade está associada à média, na população residente, de filhos nascidos vivos gerados por uma mulher ao longo de seu período reprodutivo em um determinado contexto geográfico (DANTAS; MORAIS; FERNANDES, 2011). De maneira análoga ao observado na taxa de fecundidade, as taxas de mortalidade experimentaram, no Brasil, uma diminuição significativa nas últimas décadas. A taxa de mortalidade, representando o número de óbitos de mil indivíduos durante um ano, emerge como um indicador crucial da qualidade de vida e das condições básicas que sustentam o bem-estar de uma população. (DANTAS; MORAIS; FERNANDES, 2011) A mortalidade, passível de análise em grupos específicos, segundo variáveis como idade, profissão e renda, entre outras, permite uma abordagem específica das condições demográficas. Destaca-se o cálculo da mortalidade infantil, elucidando o número de óbitos ocorridos antes do primeiro ano de vida. Este índice assume relevância ao evidenciar o nível de desenvolvimento socioeconômico, refletindo o atendimento às necessidades básicas da população, tais como alimentação, serviços médicos, habitação e saneamento. No contexto brasileiro, a redução das taxas de mortalidade infantil se manifestou gradualmente a partir da década de 1930, sendo inicialmente mais notável nas regiões Norte, Centro-Oeste e Sudeste. A região Sul, em virtude da influência dos migrantes em sua composição populacional, já apresentou índices inferiores à média nacional nesse período. O Nordeste, por sua vez, testemunhou uma redução das taxas de mortalidade infantil a partir do final da década de 1940, porém em uma cadência inferior comparada a outras regiões. Durante as décadas de 1950 a 1975, as taxas de mortalidade infantil adequadamente estabilizadas, sofreram uma ligeira elevação em algumas regiões durante a crise econômica e política do período militar. Esta crise, nomeadamente afetando as regiões Sul e Sudeste, impactou as taxas de mortalidade infantil devido à diminuição do poder aquisitivo do salário mínimo, à concentração de renda e à deficiência nos serviços essenciais, nomeadamente o saneamento básico (SIMÕES, 2016). Observando as disparidades regionais, é notório que as taxas de mortalidade infantil não divergiram significativamente entre o centro-sul e o Norte e Nordeste até a década de 1930. No entanto, o desenvolvimento econômico desigual entre essas regiões, resultando numa divergência crescente nas taxas de mortalidade infantil, uma disparidade que perdurou até o final da década de 1980. A partir da década de 1990, como evidenciado na Figura 1, é notável o declínio nas taxas de mortalidade infantil no Brasil, registrando uma queda de 48 óbitos por 1.000 menores de um ano em 1990 para 29,0‰ em 2000 e 17,2‰ em 2010. Na região Nordeste, a taxa de mortalidade infantil, que era de 75,8‰ em 1990, seguiu-se para 45,2‰ nos anos 2000, alcançando 23,1‰ em 2010 (SIMÕES, 2016). Figura 2 – Mortalidade infantil no Brasil – mortes de crianças de até 1 ano a cada mil nascidos vivos Fonte: G1.com.br (2013 documento on-line) Para a consecução da redução das taxas de mortalidade infantil, um conjunto de medidas foi implementado por agentes públicos, governamentais e diversas entidades. A atuação da Pastoral da Criança da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), do Programa Saúde da Família do Ministério da Saúde e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), juntamente com programas assistenciais de complementação de renda do Governo Federal, desempenhou um papel crucial na mitigação das taxas de mortalidade infantil por meio do monitoramento e apoio às famílias cuidadas. Apesar dos esforços empreendidos, as taxas de mortalidade infantil permanecem elevadas nas regiões Norte e Nordeste em comparação com estados de outras regiões brasileiras. Projeções com base nos dados do censo de 2010, projetadas para 2014, indicaram uma taxa média de mortalidade infantil para o país de 14,4‰. Estados como Amapá, Rondônia e Acre, na região Norte, e Maranhão, Alagoas, Piauí e Bahia, na região Nordeste, apresentaram taxas mais elevadas, enquanto estados como Espírito Santo, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo, Distrito Federal, Minas Gerais e Rio de Janeiro apresentam taxas mais baixas (SIMÕES, 2016). As transformações nas taxas de mortalidade infantil ao longo das décadas, além de refletirem a eficácia das políticas públicas e intervenções de organizações no enfrentamento da miséria e monitoramento infantil em áreas vulneráveis, evidenciam a influência de fatores socioeconômicos. A persistência de disparidades regionais, especialmente em relação à saúde, educação e oportunidades de trabalho e renda, destaca a necessidade contínua de políticas públicas focalizadas nessas áreas para atenuar as consequências das desigualdades regionais. O século XIX testemunhou um crescimento vegetativo populacional relativamente modesto no Brasil, aproximadamente 2,0% em 1900, apesar das elevadas taxas de natalidade e fecundidade. De 1940 até a década de 1970, no entanto, o país experimentou um crescimento vegetativo notável e acentuado, passando de 41 para 93 milhões de habitantes, com uma taxa média de crescimento de 2,8% ao ano. Esse período também foi marcado por um aumento no ritmo de crescimento entre as décadas de 1940, 1950 e 1960, acarretando taxas médias de crescimento vegetativo de 2,4%, 3,0% e 2,9%, respectivamente (CARVALHO, 2004). O aumento no ritmo de crescimento populacional pode ser atribuído à redução nas taxas de mortalidade e ao aumento médio de 10 anos na expectativa de vida entre as décadas de 1940 e 1960, combinado com a alta taxa de fecundidade. Embora o crescimento vegetativo da década de 1970 tenha se mantido em 2,9%, o início do declínio na taxa de fecundidade indicava mudanças nas taxas de crescimento, efetivas para 2,5% na década de 1980. O censo demográfico de 1991 confirmou a tendência de declínio na fecundidade, registrando uma taxa de crescimento vegetativo de 1,9%. Posteriormente, nos censos dos anos 2000 e 2010, a redução no padrão de crescimento vegetativo persistiu, proporcionando taxas de 1,64% e 1,17%, respectivamente (SIMÕES, 2016). A partir dos dados de crescimento vegetativo, é possível inferir que o processo de envelhecimento populacional no Brasil iniciou em 1991, com a redução da população mais jovem e o aumento da população economicamente ativa (PEA) e da parcela acima de 60 anos. A queda nas taxas de natalidade e fecundidade, aliada ao envelhecimento da população, reconfigurou a estrutura etária do Brasil. A redução dos nascimentos resultou na diminuição da população mais jovem, enquanto a PEA e a população idosa aumentaram sua participação na estrutura etária (CARVALHO, 2004). A interconexão entre demografia e economia é evidenciada pela mudança da estrutura etária do Brasil, decorrente da redução das taxas de natalidade, fecundidade e mortalidade. Essa dinâmica demográfica possui uma relação intrínseca com processos econômicos, dado que a composição da população, em termosde idade e gênero, está intrinsecamente associada a elementos econômicos, como o mercado de trabalho e o mercado consumidor (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016). Os padrões de produção e consumo estão estreitamente relacionados ao perfil demográfico, incluindo a proporção de homens, mulheres, crianças, jovens e idosos. A transição demográfica no Brasil, iniciada na década de 1980 com a diminuição das taxas de natalidade e fecundidade, verificada em um estreitamento da base da pirâmide etária. Isso se traduziu em uma redução na participação de crianças e adolescentes na composição populacional, acompanhada pelo aumento da parcela da população entre 15 e 59 anos. De maneira geral, os estudos demográficos evidenciam que uma transição demográfica pode ser categorizada em quatro fases (Figura 2). Alguns pesquisadores ainda incluem a fase da pré-transição, caracterizada por altas e resultam taxas de natalidade, juntamente com taxas de mortalidade elevadas e variáveis, resultando em um baixo crescimento vegetativo populacional e uma estrutura etária predominantemente jovem (VASCONCELOS; GOMES, 2012). Figura 2 – Modelos genéricos das pirâmides etárias, mostrando quatro estágios de configuração da transição demográfica. Fonte: 7 Bilhões de Habitantes no Mundo (2011, documento on-line). A primeira fase da transição demográfica inicia-se com a lenta redução da mortalidade, enquanto as altas taxas de natalidade e fecundidade são mantidas. Esse período está geralmente associado ao progresso técnico e científico, bem como à urbanização das cidades, que promovem uma maior eficiência nos serviços de saúde e saneamento (VASCONCELOS; GOMES, 2012). Na segunda fase, ocorre uma transição reprodutiva, caracterizada pela redução da taxa de fecundidade e da mortalidade, embora as taxas de natalidade ainda se mantenham elevadas. A terceira fase, na qual o Brasil se encontra atualmente, está marcada para uma redução significativa nas taxas de natalidade. Isso, juntamente com as baixas taxas de fecundidade e mortalidade, resulta em um pequeno crescimento populacional. Nesta fase, também se observa o aumento da expectativa de vida e da proporção da população jovem e adulta, que compõem a população economicamente ativa (PEA), além do aumento da população idosa (VASCONCELOS; GOMES, 2012). A quarta fase refere-se ao momento em que as taxas de natalidade, fecundidade e mortalidade atingem seus valores mais baixos, diminuindo uma redução na população mais jovem e um aumento constante da população adulta e idosa, caracterizando o envelhecimento da população (VASCONCELOS; GOMES, 2012). A população economicamente ativa (PEA), compreendendo indivíduos de 15 a 59 anos, desempenha um papel central na geração de renda. O aumento da participação da PEA correlaciona-se positivamente com a geração de renda per capita em núcleos familiares, conforme destacado por Bolzon, Marguti e Marques (2016). A concentração da população nessa faixa etária é indicativa da transição demográfica para uma fase de estabilização. Durante o período de bônus demográfico, quando o PEA supera a soma das outras parcelas populacionais (crianças, jovens e idosos), a capacidade de geração de renda per capita é ampliada, promovendo um aumento no consumo. Além disso, o bônus demográfico reduz a razão de dependência, beneficiando a qualidade de vida ao diminuir o peso econômico dos dependentes. O Brasil, desde a década de 1990, experimenta um período de bônus demográfico, projetado para pensar entre as décadas de 2030 e 2050. As diferenças regionais nesta dinâmica estão associadas não apenas à redução das taxas de natalidade, mas também aos fluxos migratórios que influenciam a composição da PEA (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016). Entretanto, para aproveitar o bônus demográfico e traduzi-lo em maior geração de renda, são permitidas políticas públicas específicas. A transição demográfica requer investimentos direcionados para melhorar serviços essenciais e o nível educacional da população. No entanto, no Brasil, essas políticas não foram inovadoras de maneira uniforme e igualitária, resultando na maioria da população despreparada para o mercado de trabalho. A ausência de políticas públicas adequadas, aliada a problemas estruturais persistentes, contribuiu para uma parcela significativa da população engajada no mercado de trabalho informal, incapaz de gerar renda suficiente para a subsistência. Essa lacuna é abordada de maneira paliativa pelo Estado por meio de diversos auxílios para a complementação da renda, mas sem contribuir eficazmente para o fortalecimento da economia. A falta de qualificação, especialmente no ensino superior, perpetua a hipertrofia do setor de serviços com salários baixos, resultando num ciclo vicioso no qual a economia não cumpre o seu papel social, impedindo o desenvolvimento econômico e coletivo. Além disso, a manutenção de uma PEA no mercado informal e com baixa geração de renda compromete a contribuição ao sistema previdenciário e a arrecadação fiscal, podendo levar a um colapso do sistema previdenciário e de saúde para uma população acima de 60 anos. Conforme registrado no censo de 2010, a população brasileira atingiu a marca de 190 milhões de habitantes. Nesse período, o tempo necessário para dobrar a população foi de 40 anos, demonstrando um padrão de crescimento mais lento em comparação com décadas anteriores. Além disso, houve um aumento notável na proporção da população em idade ativa e uma elevação na expectativa de vida, que atingiu a marca dos 70 anos (SIMÕES, 2016). Esse envelhecimento da população tem implicações tanto positivas quanto desafiadoras. O aumento da população em idade ativa, conhecido como a população economicamente ativa (PEA), pode contribuir para taxas de crescimento e desenvolvimento econômico do país, contribuindo para uma maior geração de renda. No entanto, o aumento da parcela de idosos na população também traz desafios, uma vez que pode exercer pressão sobre o sistema de saúde e o sistema previdenciário, que precisam se adaptar às necessidades da população mais idosa. A partir de 2010, foi apresentado que o Brasil está em um período de bônus demográfico, o que significa que a soma das porcentagens dos grupos etários jovens (entre 0 e 14 anos) e dos idosos (acima de 65 anos) é menor do que a soma das porcentagens dos grupos etários economicamente ativos. Esse bônus demográfico sugere que o país tem a oportunidade de investir mais em outros setores, como infraestrutura produtiva e inovação, alarga a ampliação da capacidade produtiva e o aumento da geração de renda (Pereira, 2018). 8 DESIGUALDADES REGIONAIS E A EVOLUÇÃO DEMOGRÁFICA NO BRASIL: UMA ANÁLISE DA QUALIDADE DE VIDA O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) foi concebido com o propósito de realizar uma análise integrada e abrangente de países, bem como de suas subdivisões políticas, com o intuito de compreender os diversos fatores que exercem influência nas oportunidades e na qualidade de vida dos habitantes. (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016). Essa abordagem sistemática permite uma compreensão mais profunda das condições socioeconômicas e dos indicadores que apontam para a mensuração do desenvolvimento humano em localidades específicas. O cálculo do IDH envolve a consideração de três variáveis principais: saúde, educação e o Produto Interno Bruto (PIB) per capita de cada país ou região, com a coleta de dados anual. Dessa forma, o IDH incorpora três elementos fundamentais para a qualidade de vida das populações. Esses elementos compreendem a oportunidade de desfrutar de uma vida longa e saudável, o acesso ao conhecimento e à qualificação por meio da educação, e a capacidade de usufruir de um padrão de vida condigno, sustentado por uma renda adequada (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016). O IDH é expresso em uma escalaque varia de 0 (indicando ausência de desenvolvimento humano) a 1 (representando o desenvolvimento humano máximo). A partir da média desses indicadores, as regiões podem ser expressas em quatro categorias, conforme os valores obtidos: “muito alto” (0,900 ou superior), “alto” (entre 0,800 e 0,899), “médio” (entre 0,500 e 0,799) e “baixo” (abaixo de 0,500) (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016). Com base em dados de IDH de 2010 para as regiões do Brasil, a região Sudeste apresentou o IDH mais elevado, com um valor de 0,766, seguido pela região Centro-Oeste, que registrou um IDH de 0,757. A região Sul ocupou a terceira posição, com um IDH de 0,754, enquanto a região Norte teve um IDH de 0,667. O menor IDH foi distribuído na região Nordeste, com um valor de 0,663. A comparação entre o IDH mais alto e o mais baixo evidencia uma redução nas disparidades regionais ao longo das décadas, alcançando, em 2010, uma diferença de 0,103. Apesar desse progresso na diminuição das desigualdades, ainda é necessária a implementação de diversas políticas públicas relacionadas à educação, à distribuição e à geração de renda nas diferentes regiões do país (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016). O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) na Região Sudeste, registrado em 0,766, posiciona todas as unidades federativas que a compõem na faixa de desenvolvimento humano médio. Em 1991, uma percentagem significativa de 98% dos municípios sudestinos estava predominante na faixa de baixo desenvolvimento. Contudo, ao longo das décadas, em 2010, apenas 4% dos municípios da região permaneceram nesse estrato, assinalando uma notável melhoria nas condições de desenvolvimento (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016). Quanto às dimensões reveladas, a evolução na Região Sudeste está situada na faixa de desenvolvimento elevado, refletindo avanços expressivos em indicadores relacionados à longevidade. Ao mesmo tempo, as dimensões de educação e renda, embora posicionadas na faixa de desenvolvimento médio, demonstram a continuidade de esforços necessários para elevar ainda mais esses componentes, contribuindo para um desenvolvimento mais equitativo e abrangente. É não relevante que todos os indicadores tenham valores superiores à média nacional na Região Sudeste, com exceção do indicador de renda no estado de Minas Gerais, que se encontra abaixo do índice nacional (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016). O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) na Região Centro-Oeste foi visto em 0,757, situando suas unidades federativas na faixa de desenvolvimento humano médio, à exceção do Distrito Federal, que apresentou um IDH de 0,824. Em 1991, uma proporção expressiva de 94% dos municípios da Região Centro-Oeste estava avançando na faixa de baixo desenvolvimento. No entanto, em 2010, apenas 3% dos municípios envolvidos nessa faixa, com 97% situados na faixa média ou alta de desenvolvimento (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016). A análise das dimensões revela que o indicador de longevidade na Região Centro-Oeste está posicionado na faixa de desenvolvimento elevada, enquanto as dimensões de educação e renda encontram-se na faixa de desenvolvimento médio. É relevante observar que o estado de Goiás e o Distrito Federal ultrapassaram a média nacional. Em contrapartida, Mato Grosso encontra-se abaixo da média brasileira, tanto no IDH quanto nos indicadores de renda e educação. Já o Mato Grosso do Sul está abaixo da média nacional na dimensão educação (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016). O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) na região Sul atingiu 0,754, refletindo um cenário em que todos os estados que a compõem também apresentam índices situados na faixa média do desenvolvimento humano (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016). No ano de 1991, aproximadamente 73% dos municípios sulistas foram selecionados na faixa de baixo desenvolvimento, porém, em 2010, todos os municípios da região ascenderam para a faixa de médio desenvolvimento. Ao analisarmos as dimensões específicas, observamos que a longevidade na região Sul se encontra na faixa de alto desenvolvimento, enquanto as dimensões de educação e renda situam-se na faixa de desenvolvimento médio. É relevante notar que todos os indicadores nessas dimensões apresentam valores superiores à média nacional, evidenciando um panorama favorável em relação a esses aspectos em todos os estados sulistas (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016). Na Região Norte, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) foi registrado em 0,667. Uma análise dos resultados revela que ao longo da década compreendida entre 2000 e 2010, os estados da região progrediram de um IDH classificado como de baixo desenvolvimento para um IDH categorizado como de desenvolvimento médio (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016). Quanto aos municípios, em 1991, aproximadamente 99% deles estavam classificados na faixa de baixo desenvolvimento humano. Entretanto, em 2010, essa proporção foi significativamente reduzida, atingindo 4%. A despeito desse avanço, vale destacar que a Região Norte abriga o município de Melgaço, no estado do Pará, que ostenta o menor IDH do país, com um índice de 0,418 (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016). No que se refere às dimensões desenvolvidas, a dimensão de longevidade na Região Norte está situada na faixa de desenvolvimento elevada, enquanto as dimensões de educação e renda se encontram na faixa de desenvolvimento médio. Contudo, é importante observar que todos os indicadores nas três dimensões apresentaram valores inferiores à média nacional na Região Norte (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016). Na Região Nordeste, no levantamento de 2010, todos os estados foram classificados na faixa de médio desenvolvimento humano, posicionando-se abaixo da média nacional. Em 1991, uma percentagem significativa de 99% dos municípios localizados na faixa de baixo desenvolvimento humano, no entanto, em 2010, essa proporção foi reduzida para 0,8% (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016). Analisando as dimensões específicas, observa-se que a dimensão de longevidade alcançou a faixa de alto desenvolvimento na Região Nordeste, enquanto as dimensões de educação e renda situaram-se na faixa de desenvolvimento médio. No entanto, é relevante notar que todos os indicadores avaliados nessas dimensões consideraram valores inferiores à média nacional na região (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016). Para uma comparação mais abrangente das médias de cada região brasileira e dos valores do IDH de cada dimensão avaliada, é possível consultar o Quadro 1 (BOLZON; MARGUTI; MARQUES, 2016).S, 2016). Quadro 1 – IDH por região e por dimensão Fonte: Adaptado de Bolzon, Marguti e Marques (2016). Ao se examinar a dinâmica populacional brasileira, evidencia-se que o progresso e a modernização do país influenciaram significativamente o modo de vida da população, resultando em repercussões nas taxas de natalidade, fecundidade e mortalidade. Consequentemente, ao longo das décadas, o comportamento da população experimentou transformações, refletindo também no crescimento vegetativo. Essas modificações no padrão de crescimento populacional exerceram impactos na parcela da população em idade economicamente ativa (PEA). Esse componente populacional desempenha um papel crucial no desenvolvimento socioeconômico do país. Sua qualificação e influência diretamente no valor agregado aos produtos e serviços, à arrecadação de impostos e à sustentabilidade do sistema previdenciário. Contudo, a falta de planejamento na transição demográfica e na entrada no bônus demográfico no Brasil resultou em uma PEA com baixa qualificação, predominantemente concentrada pela informalidade, resultando em menor renda, arrecadação reduzida e uma perspectiva de colapso futuro no sistema previdenciário. Os avanços proporcionados pelo crescimento e desenvolvimento também impactaram positivamente nas dimensões avaliadas pelo Índice de DesenvolvimentoHumano (IDH). Embora os indicadores revelem desigualdades regionais substanciais, é claro que as diferentes regiões brasileiras experimentam fases distintas na dinâmica populacional, influenciando diversos indicadores como renda e educação. No exame da pirâmide etária do Brasil, destaca-se que o país se encontra na terceira fase da transição demográfica. Nessa etapa, observa-se uma redução nas taxas de natalidade e mortalidade, um aumento na expectativa de vida e uma expansão da População Economicamente Ativa (PEA). Contudo, na virtude das dimensões continentais do Brasil e de sua história de ocupação e desenvolvimento, persistem desigualdades socioeconômicas que influenciam a expectativa e a qualidade de vida da população de maneira regional. É relevante ressaltar que o processo de transição demográfica no Brasil não ocorre de forma recorrente e simultânea em todas as regiões do país. As discrepâncias sociais e econômicas entre as macrorregiões, como as existentes entre o Norte e o Nordeste, em comparação com o centro-sul do país. Nesse contexto, verifica-se que, para o conjunto do Brasil, a transição demográfica encontra-se mais avançada, caminhando em direção à quarta fase. Contudo, uma análise regional revela que cada região do Brasil está vivenciando momentos diferentes nesse processo. A desigualdade no desenvolvimento regional brasileiro remonta à sua condição inicial como colônia de exploração, onde os ciclos econômicos determinavam o desenvolvimento, e as regiões, após a exaustão desses ciclos, eram frequentemente abandonadas em favor da exploração de outras áreas no país. Isso resultou na estagnação de muitos núcleos populacionais formados em decorrência dos ciclos econômicos, notadamente evidenciada pela situação da região Nordeste (PEREIRA, 2018). O avanço do centro-sul do país, iniciado na década de 1930, desencadeou um significativo processo de urbanização, acompanhado por uma expansão notável na oferta de serviços fundamentais, como saúde pública, educação e saneamento básico. Além disso, houve uma integração da mulher no mercado de trabalho. Esses avanços, combinados com os progressos na indústria químico-farmacêutica, desempenharam um papel crucial no controle e redução de diversas doenças, especialmente as infectocontagiosas e pulmonares, que antes eram altamente letais. Esse conjunto de ações contribuiu para a melhoria da qualidade de vida da população, resultando no aumento da expectativa de vida ao nascer. Até meados da década de 1950, a expectativa de vida ao nascer registrada um aumento nacional de aproximadamente 10 anos, elevando-se de 41,5 anos nas décadas de 1930–1940 para 51,6 anos nas décadas de 1950 e 1960. Ao analisar regionalmente, observa-se que, durante o mesmo período, o Nordeste apresentou um aumento de 4,3 anos na expectativa de vida, enquanto no centro-sul do país esse incremento foi significativamente mais expressivo, atingindo 13,7 anos (SIMÕES, 2016). O ciclo do café e seus desdobramentos, incluindo o fortalecimento do ciclo da pecuária e os estímulos estatais e privados à industrialização, contribuíram para um rápido desenvolvimento no centro-sul do país. Esse crescimento acelerou e incentivou consideráveis fluxos populacionais entre as décadas de 1950 e 1960, com muitos indivíduos migrando das regiões Norte e Nordeste para o centro-sul em busca de novas oportunidades. No entanto, esse desenvolvimento desigual teve impactos significativos nas regiões de origem desses migrantes, que participaram tardiamente do progresso socioeconômico. Essas mudanças provocaram uma redução nas taxas de natalidade e mortalidade, conforme indicadores a partir da década de 1970, nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, confirmando a transição demográfica para a segunda fase. Por outro lado, as regiões Norte e Nordeste, na mesma década, apresentaram altas taxas de natalidade e mortalidade infantil, diminuindo que essas regiões ainda estavam no primeiro estágio da transição demográfica (VASCONCELOS; GOMES, 2012). Em 1970, a mesma disparidade era observada na expectativa de vida. Enquanto o Centro-Sul já havia ultrapassado a marca dos 60 anos, o Nordeste alcançou essa expectativa apenas uma década depois. Apesar das melhorias que resultaram em um aumento lento na expectativa de vida, percebe-se que esse indicador é fortemente dependente do contexto socioeconômico. Na época, a falta de políticas externas para a melhoria das condições de vida, especialmente infantis, combinadas com as consequências econômicas da crise institucional entre 1965 e 1975, impactou níveis os segmentos populacionais mais pobres e vulneráveis. Ao analisar os dados do censo e a evolução das pirâmides etárias ao longo das décadas, constata-se que o Brasil ainda não alcançou o equilíbrio demográfico, caracterizado por baixos índices de mortalidade e natalidade (Figura 2). Figura 2 – Pirâmides etárias do Brasil demonstrando a evolução ao longo das décadas e a projeção para 2030. Fonte: Carmo; Camargo (2018, p. 24) Devido às desigualdades regionais, a distribuição dos grupos etários é irregular entre as regiões, e mesmo que os níveis de fecundidade tenham caído abaixo do nível de reposição na maior parte do país, diferenças como a idade da mulher, questões culturais e condições socioeconômicas permanecem e mantêm as taxas de natalidade mais elevadas que a média nacional (VASCONCELOS; GOMES, 2012). A expectativa e a qualidade de vida estão relacionadas à oferta de serviços básicos, como saúde e educação, bem como à capacidade de geração de renda dos indivíduos, que permite acesso a melhores condições de alimentação, moradia, instrução e segurança. Quando estudamos esses indicadores em escala regional, percebemos que o desenvolvimento desigual das regiões do Brasil afetou e ainda afeta a transição demográfica brasileira, intimamente ligada com as condições de vida da população. As regiões que se desenvolveram mais tardiamente, como o Nordeste e o Norte do país, apresentam menor expectativa e qualidade de vida global quando comparadas com o centro-sul do país. Nas grandes cidades das regiões Norte e Nordeste, a expectativa e a qualidade de vida são melhores em virtude do processo de urbanização e da disponibilidade de serviços como saúde e educação, além da maior oferta de políticas públicas. Essas mudanças passaram a ser observadas no censo de 1991, pois a ampliação dos serviços de saneamento básico em áreas até então excluídas dos programas de saúde materno-infantil — sobretudo os voltados para o pré-natal, parto e pós-parto —, programas de serviços médico-hospitalares, campanhas de vacinação, programas de aleitamento materno e reidratação oral contribuíram para a redução da mortalidade infantil e para o aumento da expectativa de vida. Além disso, a disseminação da escolarização desempenhou um papel crucial na elevação desses indicadores e na participação ativa das famílias nos programas governamentais desenvolvidos (SIMÕES, 2016). No entanto, é importante ressaltar que uma parcela específica da população urbana enfrenta situações de pobreza e subemprego, exercendo impactos significativos na configuração da pirâmide etária dessas regiões. Além disso, nas áreas rurais das regiões Norte e Nordeste, muitos indivíduos tem agricultura de subsistência como principal fonte de sustento e renda, enfrentam condições precárias de acesso aos serviços básicos. Devido à natureza dessa atividade econômica, que geralmente resulta em baixos níveis de renda, pobreza e acesso limitado à educação, a qualidade de vida e as expectativas de vida dessas comunidades são significativamente comprometidas. Essas situações estão voltadas para a ampliação das disparidades sociais, agravando ainda mais os desafios relacionados à qualidade de vida nessas regiões.REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 7 BILHÕES DE HABITANTES NO MUNDO. Transição demográfica. 16 nov. 2011. Disponível em: https://7bilhoes.wordpress.com/2011/11/16/transicao-demografica. Acesso em: 17 maio 2020. AB’SÁBER, A. N. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003. ABREU, A. A. de. Departamento nacional de obras contra as secas (DNOCS). In: CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO BRASIL, [2009]. Disponível em: https://shre.ink/nN0E. Acesso em: 29 set. 2023. ABREU, S. F. As regiões naturais da Baía (ensaio duma visão). Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 68-76, 1939. ALBUQUERQUE JÚNIOR, D. M. A invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2009. ANDRADE, M. C. A construção da geografia brasileira. 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