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LIBRAS II APRESENTAÇÃO Professora Me. Elizete Pinto Cruz Sbrissia Pitarch Forcadell ● Mestre em Ensino Formação Docente Interdisciplinar (UNESPAR). ● Especialista em Educação Especial: Área da Surdez – Libras (ESAP). ● Especialista em Psicopedagogia Institucional e Clínica (ESAP). ● Especialista em Atendimento Educacional Especializado – AEE (UEM). ● Graduada em Pedagogia (UEM). ● Graduada em Letras com Habilitação em Libras (EFICAZ). ● Proficiência em Tradução/Interpretação de Libras (FENEIS). ● Proficiência em Tradução/Interpretação de Libras (PROLIBRAS). ● Técnica em Tradução/Interpretação de Libras (IFPR). ● Docente Universitária da Disciplina de Libras. ● Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Especial e Inclusiva – GEPEEIN (IFPR) Currículo Lates: http://lattes.cnpq.br/4629794516295407 APRESENTAÇÃO DA APOSTILA Prezado(a) acadêmico(a)! Seja bem-vindo(a) à Disciplina de Libras II. Para que você alcance um nível razoável em seu desempenho comunicativo, precisará ter o desejo e oportunidade de se comunicar em Libras. Por isso, os tópicos que passaremos a conhecer neste material didático servirão para direcionar seus estudos, sabendo que para efetivar o processo de ensino e aprendizagem, você deverá ir além, colocar em prática com os usuários dessa língua o que você aprenderá em cada Unidade. Queremos, que ao decorrer dos estudos, você compreenda que a Língua Brasileira de Sinais não é um conjunto de gestos soltos e isolados, mas uma língua que possui suas características próprias como qualquer outra língua oral. Sabemos que não esgotaremos o assunto a ser estudado aqui, mas esperamos poder contribuir na construção, divulgação e compreensão desta língua enquanto alicerce para o desenvolvimento integral do educando surdo e enquanto língua adicional a ser apreendida por você, acadêmico(a). Para que o processo de aprendizagem dessa língua adicional seja aos poucos assimilada, compreendida e utilizada por você, dividimos esse material em 4 Unidades a saber: Unidade I - AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM POR CRIANÇAS SURDAS, você vai adquirir noções básicas sobre o artefato cultural, literatura visual surda, o ensino da Língua Portuguesa e métodos didáticos para o ensino dessa língua para surdos, além dos recursos didáticos para o ensino de Libras na formação acadêmica como segunda língua. Unidade II - ESTRUTURA, EXPRESSÃO, CONCEITOS DÊITICOS/ANAFÓRICOS E FIGURAS DE LINGUAGEM NA LÍNGUA DE SINAIS, passaremos a conhecer a estrutura de frases em Libras, as dimensões evolutivas dessa língua em suas expressões metafóricas e descritivas, bem como o uso de espaços nas suas enunciações compreendendo a dêixis enquanto processo de descrição. Unidade III - A LINGUÍSTICA DAS LÍNGUAS DE SINAIS, aprofundaremos os conhecimentos sobre a linguística da Língua Brasileira de Sinais, em seus aspectos fonológicos, morfológicos, sintáticos, semânticos e pragmáticos. Unidade IV - GRAMÁTICA DE LIBRAS apresenta-se o léxico da Libras, o uso de verbos, o sistema pronominal e as limitações na formação dos sinais. Vamos lá? Bons estudos e abraços sinalizados! UNIDADE I AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM POR CRIANÇAS SURDAS Professora Mestre Elizete Pinto Cruz Sbrissia Pitarch Forcadell Plano de Estudo: A seguir apresenta-se os tópicos que você estudará nesta unidade ● Cultura surda; ● Literatura visual; ● Literatura visual surda, Libras e o ensino; ● Desenvolvimento das etapas do ensino de Língua Portuguesa para Surdos; ● Produção didática para o aprendizado de Libras como segunda língua na formação dos acadêmicos. Objetivos de Aprendizagem: ● Pensar na cultura da comunidade surda, para descrever elementos identitários e artefatos da literatura brasileira surda; ● Compreender como trabalhar com as crianças surdas; ● Perceber as estratégias docentes no ensino de surdos nos espaços educacionais. INTRODUÇÃO Caro(a) acadêmico(a), nesta Unidade conversaremos sobre a comunidade surda, para compreendermos sua cultura, a construção da sua identidade, e a importância da sua experiência visual, além de visualizarmos como trabalhar com as crianças surdas e apresentá-las aos artefatos culturais como a literatura surda em Libras. É preciso fazer as crianças surdas construírem sua identidade e sua cultura. Por acaso, você já conhece as produções literárias em Libras para trabalhar com seus futuros alunos surdos? Caso não, fique atento, pois essa Unidade de Estudos está repleta de sugestões para serem trabalhadas em sala de aula e incentivar as crianças surdas a aceitarem-se surdas, e as crianças ouvintes a interagirem com literaturas que lhes apresentem o mundo surdo. Além desses, existem outros clássicos infantis que foram traduzidos para a língua de sinais, e com isso estimular a inserção das crianças surdas nas práticas sociais de leitura. O(a) professor(a) pode valorizar os aspectos culturais da criança surda, se isso acontecer, ficará mais fácil alcançar bons níveis de qualidade no ensino e na aprendizagem, num trabalho educacional bilíngue ou inclusivo que respeite os direitos fundamentais dos surdos e o ambiente em que esses sujeitos precisam estar inseridos. Um espaço de educação que priorize a Língua de Sinais, que o surdo tenha representatividade e que também seja protagonista de um sistema formativo, requer a articulação de todos os envolvidos nesse no espaço educacional, seja esse espaço público ou privado, de caráter linguístico e cultural. Para isso, precisamos refletir e perguntar a nós mesmos o que é currículo para surdos? A resposta pode variar muito e pode depender da visão de mundo que se tem, mas é importante perguntar a opinião dos professores surdos, o que pensam desse currículo adequado à cultura surda e o que pensam que deve ser inserido na grade curricular? Devemos pensar sobre como situar o papel do professor surdo nas escolas de surdos e a visão dos ouvintes sobre ele, bem como o currículo na Educação de Surdos. 1 CULTURA SURDA Figura - Charge humorística que explica a cultura surda e o uso da Libras por seus usuários Fonte: disponível em: https://docplayer.com.br/43089685-Universidade-de-sao-paulo-instituto-de-psicologia- alessandra-giacomet.html. Acesso em: 20 out. 2021. A pesquisadora Karin Strobel em sua publicação “As imagens do outro sobre a cultura surda” (2008), antes de iniciar a discussão propriamente dita sobre a cultura surda, apresentou dois principais questionamentos que servem para refletirmos sobre essa temática: Existe uma cultura surda? Os surdos produzem cultura? Abrimos nossa Unidade de Estudos com esses questionamentos para compreendemos alguns artefatos que estão diretamente ligados à cultura surda, abordados por Strobel. Bom, antes porém, é necessário saber que o marco da definição de cultura surda é feito por Carol Padden, também uma acadêmica surda, no início dos anos 1980, como um: “[...] conjunto de comportamento aprendido de um grupo de pessoas que têm sua própria língua, valores, regras de comportamento e tradição, [...] membros da cultura surda se comportam como surdos, usam a língua dos surdos e compartilham as crenças das pessoas surdas em relação a si mesmas e outras pessoas que não são surdas.” (PADDEN, 1980, p. 92-93). Assim, até o final da década de 1980, os Estudos Surdos se baseavam principalmente na dicotomia entre cultura surda/mundo surdo e mundo/cultura ouvinte. Essa distinção foi reforçada por aqueles estudiosos – surdos principalmente – líderes no ensino da ASL, já que essas aulas começaram a aumentar significativamente nos EUA, visto que os ouvintes se matricularam em grande número para aprender o idioma. Por exemplo, Carol Padden e Tom Humphries publicaram o curso para a aprendizagem de ASL como segunda língua (L2), intitulado“Um curso básico da Língua de Sinais Americana" (HUMPHRIES; PADDEN; O'ROURKE, 1980, p.1), no qual a Língua de sinais foi vista como o idioma nativo e/ou principal dos surdos, incorporando seus valores e experiências. Assim, Pimenta (2001, p.24), ator surdo brasiliense, declara que ‘a surdez deve ser reconhecida como apenas mais um aspecto das infinitas possibilidades da diversidade humana, pois ser surdo não é melhor ou pior do que ser ouvinte, é apenas diferente’. Se consideramos que os surdos não são ‘ouvintes com defeito’, mas pessoas diferentes, estaremos aptos a entender que a diferença física entre pessoas surdas e pessoas ouvintes gera uma visão não-limitada, não determinística de uma pessoa ou de outra, mas uma visão diferente de mundo, um ‘jeito Ouvinte de ser’ e um ‘jeito Surdo de ser’, que nos permite falar em uma cultura da visão e outra da audição. Os questionamentos trazidos acima por Strobel (2008), ocorrem pelo fato das pessoas não conhecerem ou não saberem como é a cultura surda/mundo surdo, Magnani (2007) argumenta que “[...] experiência com surdos era como a da maioria das pessoas, a de alguma vez ter visto duas pessoas conversando por meio de sinais, sem prestar maior atenção – o olhar não treinado não vai além do que o senso comum registra.” Cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de modificá-lo, a fim de se torná-lo acessível e habitável ajustando-os com suas percepções visuais, que contribuem para a definição das identidades surdas e das “almas” das comunidades surdas. Isso significa que abrange a língua, as ideias, as crenças, os costumes e os hábitos do povo surdo. Sobre essas identidades, Perlin (2004) descreve que: “[...] As identidades surdas são construídas dentro das representações possíveis da cultura surda, elas moldam-se de acordo com a maior ou menor receptividade cultural assumida pelo sujeito. E dentro dessa receptividade cultural, também surge aquela luta política ou consciência oposicional pela qual o indivíduo representa a si mesmo, se defende da homogeneização, dos aspectos que o tornam corpo menos habitável, da sensação de invalidez, de inclusão entre os deficientes, de menos valia social.” (PERLIN, 2004, p.77-78) É essencial entendermos que a cultura surda é a identidade do povo surdo, povo esse que tem uma comunidade, que compartilham em comum as normas, os valores e os comportamentos. Perlin (1998) em seus estudos sobre a questão identitária do surdo, diz que identificar essa identidade dependerá de como esse sujeito se assume dentro da sociedade, ela apresenta como pode ser definida essas identidades: ● Identidade flutuante: na qual o surdo se espelha na representação hegemônica do ouvinte, vivendo e se manifestando de acordo com o mundo ouvinte; ● Identidade inconformada: na qual o surdo não consegue captar a representação da identidade ouvinte, hegemônica, e se sente numa identidade subalterna; ● Identidade de transição: na qual o contato dos surdos com a comunidade surda é tardio, o que os faz passar da comunidade visual-oral (na maioria das vezes truncada) para a comunicação visual sinalizada – o surdo passa por um conflito cultural; ● Identidade híbrida: reconhecida nos surdos que nasceram ouvintes e se ensurdeceram e terão presentes as duas línguas numa dependência dos sinais e do pensamento na língua oral; ● Identidade surda: na qual o ser surdo é estar no mundo visual e desenvolver sua experiência na língua de sinais. Os surdos que assumem a identidade surda são representados por discursos que os veem capazes como sujeitos culturais, uma formação de identidade que só ocorre entre os espaços culturais surdos. Mas, existe uma cultura surda? Sim, se compreendermos que a cultura não está apenas relacionada às etnias, ou nacionalidades, quase sempre vinculadas a concepções biológicas (raciais) ou geográficas (de localização no espaço), mas como elementos materiais e simbólicos que não apenas expressam, mas, sobretudo, constituem os vínculos identitários que definem a organização de grupos sociais. Os surdos, por exemplo, não possuem nenhuma marca “física” racial que os identifique e, tampouco, habitam um mesmo território geográfico. No entanto, é inegável nossa percepção de que os surdos compartilham experiências pautadas em referências diferenciadas dos não surdos, que os identificam como parte de uma cultura minoritária, cujo maior símbolo identitário é a língua de sinais. Ainda que a comunicação visual seja a principal marca linguística que aproxima os membros dessa comunidade, existem outros traços que se somam a essa experiência, dependentes das relações que os surdos vivenciam em meio a outras referências culturais religiosas, étnico-raciais, econômicas e assim por diante. Sobre os artefatos culturais que a pesquisadora Karin Strobel (2008), surda da Universidade Federal de Santa Catarina menciona em sua publicação, trago uma síntese de cada um deles: ● Artefato cultural: linguístico – a língua de sinais é uma das principais marcas da identidade de um povo surdo, por ser uma forma de comunicação que capta as experiências visuais dos sujeitos surdos e possibilita a apropriação e transmissão do conhecimento universal. Decorrente de sua modalidade visual- espacial, a língua de sinais possui um sistema de escrita de base ideográfica, denominado SignWriting (SW), contribuindo para superar o mito de seu caráter ágrafo; ● Artefato cultural: familiar – a experiência de mais de 90% dos surdos pertencerem a famílias ouvintes criarem uma forma de integração típica, marcada pela carência de diálogo e entendimento da questão da cultura surda e da língua de sinais. Em contrapartida, famílias surdas apresentam modos interativos muito singulares em relação à questão da surdez de seus filhos. Na comunidade surda é comum o casamento entre surdos e o debate sobre a identidade cultural dos filhos de pais surdos, fazendo com que muitos casais almejem ter filhos surdos, como decorrência natural da vida comunitária; ● Artefato cultural: literatura surda – a literatura surda traduz a memória das vivências através das várias gerações dos povos surdos e se materializa em diferentes gêneros: poesia, história de surdos, piadas, literatura infantil, clássicos, fábulas, contos, romances, lendas e outras manifestações culturais. Essa produção é transmitida de geração em geração pela língua de sinais, a maioria delas parte de experiências das comunidades surdas que transmitem seus valores e orgulho da cultura surda que reforça os vínculos que une as gerações surdas mais jovens. A literatura surda faz referência às ações de grandes líderes e militantes surdos e a valorização de suas identidades na luta contra a opressão de uma sociedade majoritariamente ouvinte; ● Artefato cultural: vida social esportiva – a vida social esportiva do povo surdo é marcada por acontecimentos culturais, como casamentos entre os surdos, festas, lazeres e atividades nas associações de surdos, eventos esportivos e outros. As associações de surdos funcionaram, historicamente, como espaços de recreação e lazer e, mais recentemente, como espaço de organização de suas lutas políticas. A Confederação Brasileira de Desportos de Surdos (CBDS), o Comitê Internacional de Esportes dos Surdos (CISS), o Pan Americano de Deportes de Surdos (Panamdes), a Confederação Sudamericana Deportiva de Surdos (Consudes), são entidades que buscam a difusão das atividades culturais e esportivas dos surdos; ● Artefato cultural: artes visuais – as artes visuais são um meio para criações artísticas que sintetizam emoções, histórias, subjetividades e cultura do povo surdo. O artista surdo cria a arte para explorar novas formas de “olhar” e interpretar a cultura surda, além da denúncia de cenas de opressões ouvintistas; ● Artefato cultural: política – outro artefato cultural influentedas comunidades surdas são as lutas políticas organizadas pelos movimentos e lutas em favor de seus direitos. Os movimentos surdos são organizados politicamente no mundo todo, como, por exemplo, a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis), a principal entidade representativa no Brasil, filiada à Federation of The Deaf (WFD), com sede na Finlândia; ● Artefato cultural: materiais – o TDD (Telephone Device for the Deaf) um pouco maior que um telefone convencional, na parte de cima existe um encaixe de fone e, embaixo, um visor onde aparece escrito o que foi digitado e, mais embaixo, as teclas para digitar; instrumentos luminosos como a campainha em casas e escolas de surdos; despertadores com vibradores; legendas closed caption; babá- sinalizadores, são exemplos de artefatos materiais da comunidade surda. SAIBA MAIS Para finalizarmos este tópico sobre a criança surda e a construção da sua identidade, convido-lhe a assistir o documentário “Sou surdo e não sabia.” Esse documentário conta a história de Sandrine, uma menina surda de nascença que é filha de pais ouvintes. Ao frequentar a escola, a menina começa a questionar como os demais colegas compreendem o que a professora estava ensinando. A partir disso vamos compreender junto com Sandrine, como uma criança surda descobre que as crianças de sua sala se comunicam através de sons, e que esses sons são produzidos pelo movimento dos lábios através das palavras. Esse documentário olha para a questão a partir de dentro, pela perspectiva de Sandrine e sua história verídica. Paralelamente ao relato da autonomia conquistada com a Língua de Sinais, o filme levanta a discussão sobre a conveniência do implante coclear e da oralização de crianças surdas. Depois de assistir a esse filme, podemos fazer uma relação entre ele, seu título e o texto que estudamos a respeito da identidade surda. Já sabemos que é muito importante refletir sobre as crianças surdas nos espaços educacionais onde devem construir a sua identidade. Vamos assistir a esse filme inédito!! Filme: “Sou Surdo e Não Sabia” https://www.youtube.com/watch?v=Vw364_Oi4xc Fonte: UNIASSELVI. A Experiência visual: educação infantil e ensino fundamental. Caderno de Estudos, capítulo 3, Indaial-SC, 2012. #SAIBA MAIS# 2 LITERATURA VISUAL Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/preschool-teacher-reading-story-children- kindergarten-1203485464 Acesso em: 20 out. 2021. A maioria de nós quando indagados sobre o que é literatura, trazemos à memória algo que é escrito ou oral, histórias que nossos pais, avós, tios ou tias nos contavam, quando éramos crianças e que ficaram guardados na nossa memória. Ouvir histórias pelo prazer de conhecer histórias, imaginar cenários e personagens, acompanhar as aventuras dos heróis ao fugir de bruxas, ao esconder-se de madrastas más, encontrar príncipes, acordar princesas, vencer dragões, enfim esperar e torcer pelo final feliz, tudo isso criava em nós as expectativas de mergulhar nesse mundo de fantasias e imaginações, causando em nós uma atitude leitora, mesmo sem, nem ao menos ter o contato com o significado das palavras grafadas nos mais diversos livros de histórias infantis. A literatura infantil, portanto, tem a criança como principal representante, pois a representa sempre em busca de uma explicação que, mesmo quando mais lógica, é ainda mágica. Por isso, o gosto pelo mundo sobrenatural com fadas, ogros e bruxas serve para ‘dar asas à imaginação’. Essas são as maravilhas sem precedentes da leitura: o poder dos livros em criar mundos e a fácil absorção do leitor, a qual permite que o frágil mundo do livro, todo ar e pensamento mantenha-se por um instante, uma casa de bambu e papel entre terremotos; dentro dele os leitores adquirem paz, tornam-se mais poderosos, sentem-se mais bravos e mais sábios pelos caminhos do mundo. (NELL, 2001, p. 53). Pensar que a literatura escrita vem de aproximadamente 5000 anos atrás, registrada em tábuas de argila com escrita cuneiforme na antiga Babilônia, com a epopeia de Gilgamesh. Registros literários da Grécia e da Roma Antigas têm sido preservados de forma que até os dias de hoje podemos realizar sua leitura – seja no idioma original, seja em suas traduções. Nós também podemos pensar nos clássicos da literatura ao redor do mundo, como “Fausto”, de Goethe, “Anna Karenina”, de Tolstoy, ou as peças e poesias de William Shakespeare. Na língua portuguesa, talvez nos recordemos das obras de Camões no caso da Europa, enquanto no Brasil podemos considerar grandes clássicos como “Grande Sertão Veredas”, de João Guimarães Rosa, ou as obras de Jorge Amado. Também podemos pensar na literatura infantil, como “O Menino Maluquinho”, de Ziraldo. Todos esses são livros impressos, mas se pensarmos na literatura oral, temos a Literatura de Cordel que parece ter sido disseminada pelo Brasil por meio da reprodução impressa, porém a tradição da declamação e do canto persiste até os dias de hoje. Acadêmico(a), não é surpreendente, então, pensarmos que a Libras, uma língua que visual-gestual, também deve possuir uma literatura? Neste tópico queremos apresentar a você, acadêmico(a) quatro tipos de literaturas destacados por Rachel Sutton-Spence (2021), para cada literatura ela apresenta critérios nas suas produções, mas ressalta que essas produções não precisam contemplar simultaneamente esses quatro tipos de literaturas com seus critérios. 1. Literatura feita por surdos: pode ser criada e apresentada por surdos ou elaborada originalmente por não surdos, mas adaptada e apresentada por pessoas surdas. A narrativa Golf Ball, por Stefan Goldschmidt, é um exemplo desse tipo de literatura, pois é feita por um ator surdo e destinada (principalmente) aos surdos, porém não fala da experiência surda e não usa Libras, porque usa a técnica Vernáculo Visual (é a técnica de contar histórias de uma forma muito visual sem utilizar o vocabulário de sinais). Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=Gl3vqLeOyEE 2. Literatura que atingir um público surdo: os ouvintes também podem apreciar essa literatura, por exemplo os pais de crianças surdas ou professores que trabalham com alunos surdos, semelhante à literatura infantojuvenil, que espera ter como leitores crianças e jovens, sabendo, porém, que os adultos podem ser os seus leitores também. A maior parte da literatura surda em que o destinatário imaginado é o público surdo é criada por surdos, mas não é preciso ser assim. Autores ouvintes, ou autores surdos e ouvintes em parceria, também criam literatura surda destinada aos surdos e que trata da experiência ou do conhecimento dos surdos. Podemos ver um exemplo na narrativa O Negrinho do Pastoreio, de Roger Prestes, foi apresentada em Libras por um autor surdo e é destinada principalmente ao público surdo, mas tem origem não surda e não fala da experiência dos surdos. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=ZZnxEAVkMaU 3. Literatura com assuntos que tratam da experiência de ser surdo: existem muitos exemplos de literatura surda com a temática do “sujeito surdo”. Um autor surdo pode escrever sobre a experiência surda para atingir um público ouvinte. Por outro lado, alguns livros infantis têm autores ouvintes, mas desde que fale de uma pessoa surda e esteja destinado ao público surdo, digamos que é um tipo de literatura surda. Como exemplo podemos citar o Livro A Verdadeira Beleza, de Vanessa Lima Vidal, foi escrito por uma autora surda e fala da experiência de uma pessoa surda. Não está apresentado em Libras, mas em português, e o público esperado é tanto de ouvintes quanto de surdos. Fonte: https://www.libras.com.br/surdos-famosos-vanessa-lima-vidal 4. Literatura surda produzida em Libras: pessoas surdas, convivendo com ouvintes, em seu ambiente de trabalho oucom a família, se apropriam de meios visuais para entender o mundo e se relacionar com as pessoas ouvintes. Essa experiência visual, além do uso da língua de sinais, implica dividir a comunicação, o desejo de estarem juntos é a força da vida em comunidade e a força de sua língua, de sua diferença e isso também caracteriza a cultura surda. Alguns materiais existentes em Libras traduzem os textos clássicos da literatura brasileira para a Libras, ou seja, literatura adaptada de uma língua oral para uma língua sinalizada. A editora “Arara Azul” disponibiliza a coleção “Clássicos da Literatura em CD-R em Libras/Português, traduzidos por intérpretes de Libras como: Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol; As Aventuras de Pinóquio de Carlo Collodi; A História de Aladim e a Lâmpada Maravilhosa (autor desconhecido); Iracema de José de Alencar; O Velho da Horta de Gil Vicente; O Alienista; O Caso da Vara; A Missa do Galo; A Cartomante; O Relógio de Ouro, contos de Machado de Assis. Outro exemplo de literatura surda produzida em Libras é história A Rainha das Abelhas, contada por Mariá de Rezende Araújo, foi apresentada por uma tradutora ouvinte e tem origem não surda (por ser um conto de fadas dos irmãos Grimm), então não fala da experiência dos surdos. Porém, está contada em Libras e é destinada ao público surdo. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=nXI4aO2_G3E A partir do ano 2000 a Literatura surda produzida em Libras, passou a contar com a análise de livros infantis impressos contendo personagens surdos como: Figura 1 - Literatura Surda Fonte: Arquivos da autora (2021) ✔ Rapunzel Surda: é um livro de literatura infantil do Brasil escrito em língua de sinais. O livro Rapunzel Surda é uma versão do tradicional conto que insere elementos da cultura e identidade surda. Essa releitura inédita da história é acompanhada da escrita dos sinais (SW), ilustrações e uma versão em português. Voltada para o público surdo infantil, a obra é o resultado da pesquisa desenvolvida por Lodenir Becker Karnopp, Caroline Hessel e Fabiano Rosa. ✔ Patinho Surdo: conta o nascimento de uma ave pertencente a outra espécie em um ninho de cisnes ouvintes e a dificuldade em estabelecer-se uma comunicação entre eles são contados em ‘Patinho surdo’. No livro, o protagonista reencontra a sua família e aprende a linguagem de sinais usada pelos bichinhos da lagoa. ✔ Tibi e Joca: este livro pode ser facilmente compreendido por crianças surdas e ouvintes. Esta é a história de Joca, um menino especial, e seu amigo Tibi. Joca é surdo. Juntos, eles fazem uma descoberta que mudará as vidas de Joca e sua família. Uma descoberta que pode ser importante para você também. ✔ Adão e Eva: os autores contam a origem da língua de sinais através da criação do casal feita por Deus. Na história, os dois ficam sem roupa após comerem a maçã e veem-se obrigados a usar a fala, já que as mãos estão ocupadas em esconder a nudez dos corpos. A versão dessa história é recorrente de encontro entre os autores e a comunidade de surdos, no qual são contados e recontados vários clássicos da literatura. ✔ Cinderela Surda: a estrutura da narrativa é a mesma do conto tradicional, apenas com a inserção de elementos significativos na comunidade surda. Cinderela é uma jovem surda que convive com a madrasta e as irmãs. Que desconhecem a língua de sinais e se comunicam por poucos gestos, por isso, sente-se sozinha e abandonada. O conto destaca elementos importantes da cultura surda, como sua história, sua língua e a valorização desses aspectos, ao final do livro, invertendo a lógica de opressão em relação às diferenças culturais relativas aos surdos. Tal como no conto tradicional, Cinderela surda conquista a felicidade depois de superar muitas dificuldades difíceis obstáculos relativos à discriminação e enfrentar duras tribulações. 3 LITERATURA VISUAL SURDA, LIBRAS E O ENSINO Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/beautiful-cute-caucasian-baby-girl-2-2009420486 Acesso em: 20 out. 2021. A literatura desempenha um importante papel no desenvolvimento de todas as crianças. Andrews e Baker (2019, p. 7) explicam que histórias e outras formas de jogos de linguagem em língua de sinais são importantes para aspectos como: “[...] desenvolvimento motor, comunicação, habilidades socioemocionais, conhecimento do mundo, cognição, linguagem e alfabetização.” O ensino de literatura infantil deve incluir histórias e jogos que “[...] manipulam a estrutura abstrata, sublexical ou fonológica dos sinais para fornecer às crianças experiências de linguagem lúdicas.” (ANDREWS; BAKER, 2019, p. 5). Essa literatura surge simultaneamente para instruir, divertir e educar, trazendo a criança ao mundo com o qual ela se identifica e no qual ela se sente livre para formar suas capacidades intelectuais, pessoais e sociais, visto que ela ainda está em um processo de formação de experiências reais. A literatura nada mais é do que uma fonte saudável de alimentação para a imaginação infantil. A palavra tem sua beleza própria, mas só reconhece quem sabe usá- la: “(...) já aos dois anos e meio as crianças constroem monólogos nos quais inter- relacionam a reflexão sobre sua experiência com a contemplação da linguagem, como um jogo de repetições e variações. Muito rapidamente estes monólogos e cadências se integram no quadro proporcionado pelas convenções culturais das narrativas, canções ou poemas (...) a inclusão de várias fórmulas de início e fim, o uso de imperfeito, a intenção de estabelecer relações causais entre os acontecimentos, etc., supõem indícios que mostram que as crianças aprenderam, que as histórias requerem o uso diferenciado da linguagem.” (COLOMER, 2003, p.90). As histórias infantis podem, assim, trabalhar na formação moral, social e literária da criança, acompanhando-a em seus momentos particulares e provendo, por intermédio da transposição do real, a melhor compreensão do mundo. Quando a criança surda é inserida no mundo da escrita, tornando-se parte em atividades em que a leitura é feita para que se conheça mais sobre um tema de interesse, quando ela mesma com esse texto internalizado sinaliza as histórias infantis lidas, despertando nelas o prazer em conhecer essas histórias, quando o professor prioriza esse envolvimento com a literatura, atribuindo sentido à leitura, torna-se uma possibilidade de tornar possível a formação de uma atitude positiva da criança surda em relação à escrita. Com isso, cria-se nessa criança uma atitude em relação à leitura que favorece sua aprendizagem e seu desenvolvimento. Nos tópicos anteriores vimos várias possibilidades de trabalharmos a literatura com as crianças surdas, porém o desafio está em formar nessa criança surda um motivo para a leitura de um texto escrito por ela ou para ela, e que esse traga à tona a sua cultura, sua comunidade e sua identidade, ou seja, temos que despertar na criança surda uma atitude de leitura, motivada pela compreensão da informação e do sentimento expresso no texto. Na formação das crianças ouvintes frente ao sentido para a leitura e da escrita adequada ao seu significado social, podemos observar duas situações distintas: uma em que a criança inicia o contato com a cultura escrita na escola; e outra em que a criança chega à escola, tendo já formado para si um sentido para a escrita alheio a sua função social, porém, tanto em um como em outro, a literatura infantil pode contribuir fortemente para formar nessas crianças uma atitude leitora e produtora de textos e aí, é claro que precisamos levar em consideração que essas crianças vêm de um ambiente familiar onde circulam com mais facilidades o contato com a leitura, a escrita e a comunicação em sua língua natural. Mas, e nas crianças surdas? Como podemosformar nelas essa atitude leitora e produtora de textos, como elas vão criar um sentido para a cultura escrita e tornar esse momento prazeroso, visto que a maioria está inserida em um espaço familiar e escolar onde não existe uma circulação e, muitas vezes, aceitação para essas produções literárias adaptadas ou mesmo com personagens que as representem, que sirvam de referência para a sua comunidade? Sabemos que as marcas históricas de uma proibição do uso da língua de sinais, perduram até hoje, as consequências desse longo período, resultaram num ensino que prioriza a aprendizagem da fala e da Língua Portuguesa, no reconhecimento de uma cultura surda e na produção de literatura surda, tardiamente. O registro da literatura surda começou a ser possível principalmente a partir do reconhecimento da Libras aprovada na Lei Federal nº10436/02 e regulamentada no Decreto Federal 5626/05, com o desenvolvimento tecnológico, que possibilitaram formas visuais de registro dos sinais. Nesse sentido, precisamos trazer a cultura surda e a Literatura Surda para as salas de aula bilíngues (STROBEL, 2008; MOURÃO, 2011) e também para as salas de aulas inclusivas, possibilitando que surdos e ouvintes conheçam esse tipo de literatura. Para fazer isso de maneira mais eficaz, precisamos pedir a opinião dos professores surdos na literatura (ROSA; KLEIN, 2011). A Pedagogia Visual é um elemento importante da educação (CAMPELLO, 2007) e a literatura mostra a Libras na sua forma mais criativa e visual. Lembramos também que, mesmo o ensino e a aprendizagem de Literatura Surda sendo fundamentais para as crianças surdas, também são importantes para os adultos surdos e os adultos ouvintes aprendizes da Libras como segunda língua – por exemplo, os pais de filhos surdos, professores bilíngues e outros profissionais que trabalham com surdos. Da mesma forma, os alunos ouvintes que têm colegas surdos na mesma sala de aula devem aprender Libras como segunda língua nas escolas para que haja uma real inclusão escolar naquele espaço. Nesse contexto, a Literatura Surda se mostra como uma maneira de ensinar a Libras por meio da ludicidade. Com certeza, o ensino de literatura em Libras tem um caráter de entretenimento e diversão, um dos principais motivos para que ela seja inserida nas aulas. Além disso, pode ser utilizada no ensino de diferentes áreas do conhecimento – nas aulas de História, Geografia, Ciências e até Matemática, as quais podem contar com histórias e jogos de linguagem. Para os alunos surdos, a literatura tem um papel de aculturação e auxílio na exploração e desenvolvimento da língua, analisando seus limites e dando ao autor/narrador uma oportunidade de mostrar suas habilidades linguísticas. Os professores precisam chamar a atenção dos alunos para a linguagem (SUTTON-SPENCE; RAMSEY, 2010). É importante que os alunos surdos entendam o objetivo de estudar a Literatura Surda (SCOTT, 2010). Idealmente, eles devem ver seus professores apresentando a literatura, mas se o professor não tiver as habilidades necessárias para a produção, eles podem assistir outras obras em vídeo e o professor pode enfatizar os elementos literários ali presentes. Mas como o aluno aprende a contar histórias? Primeiramente, pela observação enquanto o professor conta histórias ou as apresenta em vídeo; em seguida, no momento em que o aluno copia essa história do professor. Num ato coletivo, o professor pode incentivar a história de um aluno enquanto os outros assistem, apoiam e comentam, ou os alunos podem criar histórias coletivamente. Porém, nada disso deve acontecer sem que o professor ensine explicitamente quais são as técnicas de contação de história. 4 DESENVOLVIMENTO DAS ETAPAS DO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA PARA SURDOS Figura - Muro da Escola Municipal Noêmia Ribeiro do Amaral em Paranavaí – PR Fonte: disponível em: https://www.folhadelondrina.com.br/cidades/giro-pelo-parana---libras-enfeitam- muro-de-escola-de-paranavai-2956092e.html. Acesso em: 20 out. 2021. Focamos até agora na literatura visual, principalmente na Literatura em Libras, porém sabemos que o letramento em Libras adianta o desenvolvimento do letramento em português. Assim, o ensino da Literatura Surda em Libras pode apoiar o estudo da Literatura na Língua Portuguesa, ajudando os alunos a apreciar a literatura escrita e mantendo o “bi” em bilíngue. O ensino da Língua Portuguesa para alunos surdos é um processo complexo tanto para o aluno quanto para o professor, um procedimento que deve ser regido por metodologias que valorizem e respeitem a experiência visual e linguística do surdo. Dessa forma, é necessário pensar em metodologias e concepções que assegurem aos alunos surdos bom desempenho na aprendizagem, assim como na avaliação. Muitos surdos não gostam de literatura escrita, seja porque é difícil de entender as referências linguísticas ou culturais, seja porque não conhecem as convenções da língua em questão (SUTTON-SPENCE, 2020; SPOONER, 2016). Nesse viés, as traduções de literatura escrita para formas literárias em Libras, pautadas nas normas surdas de literatura, auxiliam muito no estudo do texto original. Além disso, é sabido que discutir sobre a literatura escrita pela língua de sinais permite que os alunos compreendam melhor as ideias nela inseridas (LANG, 2007). O livro “Ensino de Língua Portuguesa para Surdos: caminhos para a prática pedagógica” volume II, publicado em 2007 pela autora Heloisa Maria Moreira Lima Salles, nos faz compreender a relação entre a leitura em português (L2) e Libras, segundo a autora, a leitura deve ser uma das principais preocupações no ensino de português como segunda língua para surdos, tendo em vista que constitui uma etapa fundamental para a aprendizagem da escrita. Nesse processo, o professor deve considerar, sempre que possível, a importância da língua de sinais como um instrumento no ensino do português. Recomenda-se que, ao conduzir o aprendiz à língua de ouvintes, deve-se situá-lo dentro do contexto, valendo-se da sua língua materna (L1), que, no caso em discussão, é a Libras. É nessa língua que deve ser dada uma visão apriorística do assunto, mesmo que geral. É por meio dela que se faz a leitura do mundo para depois se passar à leitura da palavra em Língua Portuguesa. A língua de sinais deverá ser sempre contemplada como língua por excelência de instrução em qualquer disciplina, especialmente na Língua Portuguesa, o que coloca o processo ensino e aprendizagem numa perspectiva bilíngue. Considerando que o aluno surdo tem a Libras como língua materna, na escola ele aprenderá uma Língua Adicional, no caso, a Língua Portuguesa na modalidade escrita. A língua adicional é construída a partir da língua que o aluno já conhece. O sistema linguístico envolvendo a semântica, o léxico e a sintaxe, é construído sobre a língua já conhecida, muitas vezes constituindo contrastes, como, por exemplo, na estrutura da língua. A autora Heloisa Salles (2007), ainda sugere uma série de procedimentos importantes nesse processo. Segundo Garcez (2001 p. 24), reconhecer e entender a organização sintática, o léxico, identificar o gênero e o tipo de texto, bem como perceber os implícitos, as ironias, as relações estabelecidas intra, inter e extratexto, é o que “torna a leitura produtiva”. No caso do surdo, alguns dos procedimentos são imprescindíveis, e o professor deve sempre estar atento para conduzir o seu aprendiz a cumprir etapas, que envolvem aspectos macroestruturais: gênero, tipologia, pragmática e semântica (textuais e discursivos) e microestruturais: gramaticais/lexicais, morfossintáticos e semânticos (lexicais e sentenciais). Aspectos macroestruturais: ● Analisar e compreender todas as pistas que acompanhem o texto escrito: figuras, desenhos, pinturas, enfim, todas as ilustrações; ● Identificar,sempre que possível, nome do autor, lugares, referência temporais e espaciais internas ao texto; ● Situar o texto, sempre que possível, temporal e espacialmente; ● Observar, relacionando com o texto, título e subtítulo; ● Explorar exaustivamente a capa de um livro, inclusive as personagens, antes mesmo da leitura; ● Elaborar, sempre que possível, uma sinopse antes da leitura do texto; ● Reconhecer elementos paratextuais importantes tais como: parágrafos, negritos, sublinhados, travessões, legendas, maiúsculas e minúsculas, bem como outros que concorram para o entendimento do que está sendo lido; ● Estabelecer correlações com outras leituras, outros conhecimentos que venham auxiliar na compreensão; ● Construir paráfrases em Libras ou em português (caso já tenha um certo domínio); ● Identificar o gênero textual; ● Observar a importância social e discursiva, portanto pragmática, do gênero textual; ● Identificar a tipologia textual; ● Ativar e utilizar conhecimentos prévios; ● Tomar notas de acordo com os objetivos. Aspectos microestruturais: ● Reconhecer e substituir palavras-chave; ● Tentar entender, se for o caso, cada parte do texto, correlacionando-as entre si: expressões, frases, períodos, parágrafos, versos, estrofes; ● Identificar e sublinhar ou marcar na margem fragmentos significativos; ● Relacionar, quando possível, esses fragmentos a outros; ● Observar a importância do uso do dicionário; ● Decidir se deve consultar o dicionário imediatamente ou tentar entender o significado de certas palavras e expressões observando o contexto, estabelecendo relações com outras palavras, expressões ou construções maiores; ● Substituir itens lexicais complexos por outros familiares; ● Observar a lógica das relações lexicais, morfológicas e sintáticas; ● Detectar erros no processo de decodificação e interpretação; ● Recuperar a ideia geral de forma resumida. Em suma, segundo a autora, é importante ressaltar que, para cada texto, existe um conjunto de procedimentos adequados à compreensão, e, portanto, é impraticável a aplicação de todos os procedimentos listados à leitura de um único texto. No cenário da educação de alunos surdos, frequentemente nos deparamos com professores afirmando que alunos surdos não usam adequadamente a Língua Portuguesa escrita. A limitação auditiva, certamente, é apontada como a responsável por essa inaptidão quanto a essa modalidade da língua, transferindo a responsabilidade da não aprendizagem para o aluno surdo. O processo de aprendizagem envolve professores, alunos e práticas utilizadas para o ensino de Língua Portuguesa, necessitando, portanto, de reflexão. Em relação à aprendizagem de Língua Portuguesa, o aluno ouvinte tem uma vantagem notória sobre o aluno surdo, pois apreende a língua e suas facetas no convívio diário, o que favorece sua compreensão e sua formulação de hipóteses, durante o processo de construção do conhecimento linguístico. O sujeito surdo, por sua vez, não aprende a Língua Portuguesa de forma natural, uma vez que ela é um registro escrito de uma língua oral-auditiva, e a surdez impede que sua aprendizagem aconteça de forma completa, já que não possui acesso ao input necessário a essa aquisição. Segundo a teoria sociointeracionista, o desenvolvimento cognitivo se dá através da interação em situações sociais concretas, e é facilitado quando o aprendiz recebe suporte de um interlocutor mais experiente, seja professor ou colega de aula. No caso do aluno surdo, é necessário um mediador que possa orientá-lo durante a interação, permitindo a ele relacionar os conhecimentos linguísticos da Libras e os conhecimentos linguísticos da Língua Portuguesa escrita, sendo esse o princípio para pensar ou repensar metodologias. 5 PRODUÇÃO DIDÁTICA PARA O APRENDIZADO DE LIBRAS COMO SEGUNDA LÍNGUA NA FORMAÇÃO DOS ACADÊMICOS Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/young-couple-making-hearts-paper-valentine- 1017701308 Acesso em: 20 out. 2021. O compartilhamento dos materiais expostos, a partir de agora, foram pensados, elaborados e produzidos pelos acadêmicos ouvintes dos cursos de Pedagogia, Letras, Ciências Biológicas, História, Geografia, Matemática, Serviço Social, Educação Física e Enfermagem da Universidade Estadual do Paraná, campus Paranavaí durante os anos de 2015 e 2016 sob a orientação da professora autora dessa Unidade de Estudos em conjunto com o professor surdo Murilo Sbrissia Pitarch Forcadell. Em todas as produções foi ressaltada a importância do professor surdo avaliar e contribuir no sentido de que esses materiais fossem preparados e adaptados para atender especificamente aos alunos surdos. A visão e as orientações de um educador, também surdo, e com ampla experiência na área educacional dos surdos, fez com que o trabalho acadêmico fosse além de simplesmente construir um material para receber uma nota bimestral; mas, passou a ser elaborado e produzido pelos acadêmicos, valorizando a diferença que esses materiais poderiam fazer na vida educacional dos alunos surdos e na ação docente dos professores, enquanto educadores de alunos surdos. Toda produção deste material pode ser encontrada na Dissertação de Mestrado da professora Elizete Pinto Cruz Sbrissia Pitarch Forcadell (2017). ● Literatura Surda: produção de histórias infantis com personagens surdos Por meio da produção dessa literatura os acadêmicos ouvintes puderam conhecer, produzir e interagir com obras criadas ou adaptadas para o público surdo, uma vez que a elaboração e a produção dessas literaturas traziam como personagens principais da história, surdos que se comunicavam com outros personagens utilizando- se da língua de sinais. Nessa perspectiva, apresentamos, a seguir, uma mostra das literaturas de histórias infantis com personagens surdos, produzidas pelos acadêmicos ouvintes da Universidade em parceria com surdos de diferentes ambientes sociais e educacionais. Figura 2 - Produção Acadêmica de Literaturas com Personagens Surdos Fonte: Forcadell, Elizete (2017). Dissertação de Mestrado ● Lúdico em Libras: produção de jogos e brincadeiras para educação de surdos e ouvintes em Língua de Sinais Apresenta-se como um material para surdos e ouvintes, o professor, mesmo não tendo amplo conhecimento da Língua de Sinais, poderá introduzir no ambiente educacional os primeiros contatos com a língua, em sala de aula regular, priorizando a prática lúdica da aprendizagem da Libras. Ao trabalhar como docente da disciplina de Libras na Universidade, pudemos perceber que, na medida em que os conteúdos teóricos ensinados aos acadêmicos eram expostos, havia a necessidade de transformar essa teoria em prática para que eles pudessem, por meio da atividade lúdica, compreender esses conteúdos. Figura 3 - Produção Acadêmica de Jogos Adaptados para Surdos Fonte: Forcadell, Elizete (2017). Dissertação de Mestrado ● Literatura em Libras: produção de histórias infantis adaptadas para a Língua Brasileira de Sinais Atualmente, já existem várias literaturas clássicas infantis traduzidas da Língua Portuguesa para a Língua Brasileira de Sinais. Essas adaptações literárias estão sendo utilizadas pelas escolas bilíngues para surdos, mas, também, têm sido usadas, inclusive, por escolas regulares inclusivas para surdos. A representação desse tipo de literatura tem permitido que alunos ouvintes se interessem e aprendam a língua de sinais e acima de tudo, reconheçam, valorizem e respeitem a comunidade surda ou o povo surdo. A produção que ora apresentamos foi feita em equipes, e cada equipe escolheu uma história infantil já existente em Língua Portuguesa para adaptá-la para a Língua Brasileira de Sinais. Além disso, a escolha também sedeu pelo fato de que, os trabalhos realizados demonstraram muito envolvimento com a atividade proposta. Um exemplo claro desse fato é que eles reconheceram a importância da literatura, que propicia sentimentos, emoção e reflexão, considerando o valor da cultura surda. Os produtores dessas literaturas, não são Tradutores/Intérpretes de Libras, não são professores da língua de sinais, também não são fluentes em língua de sinais, muitos nunca tiveram contato com surdos ou com a Libras em seu dia a dia, são apenas acadêmicos aprendizes da língua de sinais. Figura 4 - Produção Acadêmica de Literatura Adaptada para Surdos Fonte: Forcadell, Elizete (2017). Dissertação de Mestrado SAIBA MAIS A pesquisadora surda Karin Strobel procura desconstruir o conceito de várias culturas surdas em que ela diz: “A cultura surda, ao analisarmos a sua história, vê-se que ela foi marcada por muitos estereótipos, seja através da imposição da cultura dominante, ou das representações sociais que narram o povo surdo como seres deficientes. Existem muitos autores que escrevem bonitos livros sobre oralismo, bilingüismo, comunicação total, ou sobre os sujeitos surdos... Mas eles realmente conhecem-nos? Sabem sobre a cultura surda? Eles sentiram na própria pele como é ser surdo? Essa é uma reflexão importante a ser feita atualmente, porque essas metodologias citadas não foram criadas pelo povo surdo e sim pelos ouvintes, não digo que seja errado, o que quero dizer é que essas metodologias não seguem a cultura surda... o que o povo surdo almeja realmente é a pedagogia surda. Para a comunidade ouvinte que está mais próxima de povo surdo - os parentes, amigos, intérpretes, professores de surdos – para os mesmos, reconhecer a existência da cultura surda não é fácil, porque no seu pensamento habitual acolhem o conceito unitário da cultura e, ao aceitarem a cultura surda, eles têm de mudar as suas visões usuais para reconhecerem a existência de várias culturas, de compreenderem os diferentes espaços culturais obtidos pelos povos diferentes. Mas não se trata somente de reconhecerem a diferença cultural do povo surdo, e sim, além disso, de perceberem a cultura surda através do reconhecimento de suas diferentes identidades, suas histórias, suas subjetividades, suas línguas, valorização de suas formas de viver e de se relacionar. Acadêmico(a), essa foi uma parte da entrevista concedida pela pesquisadora em 2 de março de 2008 ao blog Vendo Vozes, que você pode saber mais através deste link: http://www.blogvendovozes.com/search/label/Karin%20Strobel Fonte: Strobel (2008). Disponível em: http://www.blogvendovozes.com/search/label/Karin%20Strobel Acesso em: 27 de out. 2021. #SAIBA MAIS# REFLITA VOCÊ PRECISA SER SURDO PARA ENTENDER Como é "ouvir" uma mão? Você precisa ser surdo para entender! O que é ser uma pequena criança na escola, numa sala sem som com um professor que fala, fala e fala e, então quando ele vem perto de você ele espera que você saiba o que ele disse? Você precisa ser surdo para entender! Ou o professor que pensa que para torná-lo inteligente você deve, primeiro, aprender como falar com sua voz assim colocando as mãos no seu rosto por horas e horas sem paciência ou fim até sair algo indistinto assemelhado ao som? Você precisa ser surdo para entender! Como é ser curioso na ânsia por conhecimento próprio com um desejo interno que está em chamas e você pede a um irmão, irmã e amigo que respondendo lhe diz: "Não importa"? Você precisa ser surdo para entender! Como é estar de castigo num canto embora não tenha feio realmente nada de errado a não ser tentar fazer uso das mãos para comunicar a um colega silencioso um pensamento que vem, de repente, a sua mente? Você precisa ser surdo para entender! Como é ter alguém a gritar pensando que irá ajudá-lo a ouvir ou não entender as palavras de um amigo que está tentando tornar a piada mais clara e você não pega o fio da meada porque ele falhou? Você precisa ser surdo para entender! Como é quando riem na sua face quando você tenta repetir o que foi dito somente para estar seguro que você entendeu você descobre que as palavras foram mal entendidas? E você quer gritar alto: "Por favor, me ajude, amigo! Você precisa ser surdo para entender! Como é ter que depender de alguém que pode ouvir para telefonar a um amigo ou marcar um encontro de negócios e ser forçado a repetir o que é pessoal e, então, descobrir que seu recado não foi bem transmitido? Você precisa ser surdo para entender! Como é ser surdo e sozinho em companhia dos que podem ouvir e você somente tenta adivinhar pois não há ninguém lá com uma mão ajudadora enquanto você tenta acompanhar as palavras e a música? Você precisa ser surdo para entender! Como é estar na estrada da vida encontrar com um estranho que abre a sua boca e fala alto uma frase a passos rápidos e você não pode entendê-lo e olhar seu rosto porque é difícil e você não o acompanha? Você precisa ser surdo para entender! Como é compreender alguns dados ligeiros que descrevem a cena e fazem você sorrir e sentir-se sereno com a "palavra falada' de mão em movimento que torna você parte deste mundo tão amplo? Autores:Willerd e Madsen #REFLITA# CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta Unidade foram enfocados três principais assuntos: a Cultura Surda, abordando as identidades dos surdos e os artefatos culturais desse povo; a Literatura Surda em Libras, que cria uma experiência prazerosa e visual no público surdo e a importância de ensinar essa literatura nas escolas para alunos surdos e ouvintes. É preciso não esquecer que a língua de sinais brasileira é o produto da própria cultura Surda que de modo subjetivo e objetivo criou a própria identidade, devido à “experiência visual” que constitui todo o seu ser como sujeito, apesar de as identidades serem fragmentadas, produzindo várias identidades. E, com o efeito do multiculturalismo e as transformações às quais os Surdos foram submetidos pelos colonizadores, criaram uma resistência, no pós-modernismo, transformando-se em sujeito atuante e participativo dentro da sociedade não-surda. Vimos que o letramento dos alunos surdos vai além dos livros, por isso qualquer professor – seja ele surdo ou ouvinte, com o dom de contar histórias ou não – pode mostrar aos seus alunos surdos a riqueza da Literatura Surda em Libras. Juntos, os professores e alunos podem assistir à literatura, explorar e conhecer a riqueza da linguagem estética, estimulando ainda mais a produção artística e criativa da Libras. A “experiência visual” também é um “espaço de produção” (QUADROS, 2007), igualmente na teoria cultural e de Estudos Surdos, que provêm da constituição dos Surdos apresentando seus diversos artefatos, como: língua de sinais, história cultural, identidade, pedagogia, literatura, artes, trabalho, tecnologia, teatro, pintura, e outros. E destes cria-se um pertencimento cultural que, por meio da visualidade, se apropria, se medeia e transmite a cultura, proporcionando vários significados capazes de promover a sociabilidade e a identidade através da visualidade e da “experiência visual” como protagonistas dos processos culturais da comunidade Surda. A língua de sinais é um dos artefatos de comunicação e de instrução. LEITURA COMPLEMENTAR Recomendo a leitura do artigo “Existe uma cultura surda?” de Nídia Limeira de Sá, mãe de surda, psicóloga, mestre e doutora em Educação, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, coordenadora do Espaço Universitário de Estudos Surdos. A autora expõe argumentos em favor de os surdos apresentarem processos culturais específicos, em oposição a serem tratadosapenas como um grupo de deficientes ou incapacitados. Você pode encontrar esse artigo acessando o link: www.feneis.org.br/arquivos/identidade_surdas.pdf LIVRO Título: As imagens do outro sobre a cultura surda Autor: Karin Strobel Editora: UFSC - Florianópolis (2008) Sinopse: O livro narra a experiência visual dos surdos e os diferentes artefatos culturais que corroboram a existência de uma cultura surda, buscando inverter a lógica da visão patológica que vê os surdos apenas como um grupo de deficientes para a compreensão deles como um povo que, organizados em comunidades, produzem uma cultura própria. LIVRO Título: Literatura em Libras Autor: Rachel Sutton-Spence Editora: Arara Azul - Petrópolis - RJ (2021) Sinopse: “Literatura em Libras”, celebra a riqueza, a criatividade e a genialidade da Libras. Apresenta alguns conceitos fundamentais da literatura em Libras, detalhando a produção de narrativas, os elementos da linguagem estética de Libras e a inter-relação entre a sociedade e esta literatura. Tenta entender melhor como ela é enquanto é possível conhecer as obras literárias de Libras, analisar os exemplos e comentar sobre eles. No livro há uma sequência de obras literárias que é possível assistir, ler/ver, além de atividades que ajudam na compreensão do leitor. LIVRO Título: Ensino de Língua Portuguesa para Surdos: caminhos para a prática pedagógica Autor: Heloisa Maria Moreira Lima Salles Editora: MEC, SEESP - Brasília (2007) Sinopse: Os livros têm como objetivo, apoiar e incentivar a formação profissional de professores proporcionando acesso a materiais que tratam do ensino da Língua Portuguesa a alunos surdos usuários de Libras. FILME/VÍDEO Na internet, vemos uma quantidade significativa de traduções em Libras de livros escritos por autores ouvintes, originalmente em português. Essas traduções não têm um conteúdo surdo, porém esses livros traduzidos oferecem uma boa oportunidade para que alunos surdos leiam e compreendam as mesmas histórias que seus colegas ouvintes. A coleção “Mãos Aventureiras”, de Carolina Hessel Silveira, disponível no link: https://www.ufrgs.br/maosaventureiras/ é uma das plataformas com muitos recursos, traduzidos por artistas surdos brasileiros que trago como sugestão. Mesmo não sendo histórias que envolvem personagens surdos, as traduções permitem que pelo menos os elementos estéticos da Libras entrem na sala de aula. Nas boas traduções, as crianças surdas vão identificar exemplos da utilização criativa e imaginativa da Libras, sentindo orgulho de sua língua visual. Título: Mãos Aventureiras Ano: 2017 Sinopse: O blog apresenta uma série de livros publicados por autores brasileiros ou estrangeiros, para crianças. As aventuras são narradas em Libras para a comunidade surda, com o objetivo principal de unir a Língua Brasileira de Sinais com a literatura infantil. São apresentadas variadas histórias com diversos assuntos, ilustrações diferentes. REFERÊNCIAS ANDREWS, J.; BAKER S. ASL nursery rhymes: exploring a support for signing deaf children: early language and emergent literacy skills. Sign Language Studies, Washington DC, n. 20, 2019. BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Secretaria de Educação Especial. Legislação específica. Lei de Libras (Lei 10.436). Brasília: MEC/SEESP, 2002. Disponível em: <http://www.mec.gov.br/seesp/legislação.shtm>. Acesso em: 03 ago 2021. BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Secretaria de Educação Especial. Legislação específica. Decreto 5626 que regulamenta a Lei de Libras (Lei 10.436). Brasília: MEC/SEESP, 2005. Disponível em: < http://www.mec.gov.br/seesp/legislação.shtm>. Acesso em: 03 ago 2021. CAMPELLO, A. R. S. Pedagogia Visual / Sinal na Educação dos Surdos. In: QUADROS, R. M.; PERLIN, G. (Org.). Estudos Surdos II. Petrópolis: Arara Azul, 2007. LANG, H. Teaching from the heart and soul: the Robert F. Panara story. Washington DC: Gallaudet University Press, 2007. COLOMER, Teresa. A formação do leitor literário: narrativa infantil e juvenil atual. Tradução de Laura Sandroni. São Paulo: Global, 2003. FORCADELL, Elizete P. C. S. P. O Ensino de Libras na Universidade: políticas, formação docente e práticas educativas. Dissertação de Mestrado defendida na Universidade Estadual do Paraná, 2017.180 f. GARCEZ, L. H. do C. Técnica de redação: o que é preciso saber para bem escrever. São Paulo, Martins Fontes, 2001. HUMPHRIES, T., C. PADDEN, and T.J. O’ROUEKE. A basic course in American Sign Language. Silver Spring, Md.: T. J. Publisher, 1980. MAGNANI, J. G.; MANTESE, B. Jovens na metrópole: etnografias de circuitos de lazer, encontro e sociabilidade. São Paulo: Terceiro Nome, 2007. MOURÃO, C. H. N. Literatura Surda: produções culturais de surdos em língua de sinais. In: KARNOPP, L. B.; KLEIN, M.; LUNARDI-LAZZARIN, M. L. (Org.). Cultura Surda na contemporaneidade: negociações, intercorrências e provocações. Canoas: Editora da ULBRA, 2011. NELL, Vitor. 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Objetivos de Aprendizagem:● Expressões da Libras; ● Descrição e uso do espaço; ● Referentes locais: aspectos sintáticos da Libras e figuras de linguagens; ● Uso dêitico e processos anafóricos. INTRODUÇÃO É com satisfação que iniciamos e lhes entregamos mais uma Unidade de Estudos, um material instrucional de Língua Brasileira de Sinais, que traz em sua composição um ensino sistemático dessa língua, para que você, acadêmico(a) aprenda a se comunicar com os surdos e oferecer um melhor atendimento docente para essa comunidade. Para começar, vamos explorar as expressões da modalidade visual da Libras, pensaremos também como a iconicidade e a incorporação afetam a linguagem figurativa da Libras. Conhecer uma língua requer conhecer bem como se podem dizer as coisas nessa língua. Nem sempre uma palavra isolada tem o mesmo significado quando ela está em uma frase, pois os sinais assim como as palavras vão estabelecendo uma rede de relações. Isso quer dizer que unidades linguísticas não são totalmente autônomas do ponto de vista conceitual. Com a inserção da gramática da Língua Brasileira de Sinais, é necessário entender também as propriedades dessa língua de acordo com sua modalidade viso- gestual. Para ter a “imersão” da Língua Brasileira de Sinais, é fundamental ter na mente a ampliação de conhecimento sobre o uso dessas propriedades da Língua de Sinais utilizada pela comunidade Surda, e, a partir desses estudos e práticas, por você aprendiz. 1 A ESTRUTURA DE FRASES EM LIBRAS Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/cute-little-girl-speech-therapist-office- 596748269 Acesso em: 27 out. 2021 Uma breve revisão da literatura permite-nos contemplar e apresentar diferentes definições de língua. Tais definições fornecem subsídios para a indicação de propriedades consideradas pela linguística essenciais às línguas naturais. Segundo Saussure (1995, p.17), [...] língua não se confunde com linguagem: é um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos, é, portanto, um produto social da faculdade de linguagem. Chomsky (apud Quadros & Karnopp, 2004, p. 25), considera que uma língua “é um conjunto (finito ou infinito) de sentenças, cada uma finita em comprimento e construída a partir de um conjunto finito de elementos”, considera ainda duas perspectivas: a língua externa e a língua interna. ● Língua Externa: associa o som à palavra ao seu significado. ● Língua Interna: define a “noção de estrutura” como parte estável, livre das expressões que podem variar de falante para falante. Fernandes (2002, p.16) traz a definição de Linguagem e Língua, vejamos: Imagem 1 - Definição de Linguagem Fonte: Fernandes (2002), adaptado pela autora Linguagem: tudo que envolve significação, que pode ser humano (pintura, música, cinema), animal (abelhas, golfinhos, baleias) ou artificial (linguagem de computador, código Morse, código internacional de bandeiras). Ou seja, “sistema de comunicação natural ou artificial, humana ou não”. Imagem 2 - Definição de Língua Fonte: Fernandes (2002), adaptado pela autora Língua: um conjunto de palavras, sinais e expressões organizados a partir de regras, sendo utilizado por um povo para sua interação. Sendo assim, a língua seria uma forma de linguagem: a linguagem verbal. As línguas estariam em uma posição de destaque entre todas as linguagens, ou seja, podemos falar de todas as outras linguagens utilizando as palavras ou os sinais. Entendemos por propriedades das línguas os traços comuns, características presentes em todas as línguas naturais humanas em relação aos outros sistemas de línguas (animais, matemática, tecnológicos). No quadro a seguir, junto às propriedades das línguas naturais orais apresentamos como essas propriedades se expressam nas línguas de sinais, comprovando que as línguas de sinais são línguas naturais. A coluna à esquerda apresenta as propriedades nas línguas – elaboradas com base na publicação de Quadros & Karnopp (2004) e a coluna à direita reproduz o trabalho de Ronice M. Quadros, Aline L. Pizzio e Patrícia F. Rezende (2009): Quadro 1 - Propriedade das Línguas Humanas e nas Língua de Sinais FLEXIBILIDADE E VERSATILIDADE Segundo Lyons (1981), nenhum outro sistema de comunicação parece ter o mesmo grau de flexibilidade e versatilidade que o humano, pode-se usar a língua para dar vazão às emoções e sentimentos; para solicitar a cooperação de companheiros; para ameaçar ou prometer; para dar ordens, fazer perguntas ou afirmações. É possível fazer referência ao passado, presente e futuro; a realidades remotas em relação à situação de enunciação e até mesmo a coisas que não existem. As línguas de sinais são usadas para pensar, são usadas para desempenhar diferentes funções. Você pode argumentar em sinais, pode fazer poesia em sinais, pode simplesmente informar, pode persuadir, pode dar ordens, fazer perguntas em sinais. Glosas em LIBRAS: VOCÊ GOSTAR MAÇÃ. VOCÊ <GOSTAR MAÇÃ>sn IX CASA DEFEITO EU PRECISO ARRUMAR < PROJETO> to AULA EU APRESENTAR ARBITRARIEDADE As palavras e os sinais são arbitrários entre a forma e o significado, visto que, dada a forma, é impossível prever o significado, e dado o significado é impossível prever a forma. As línguas de sinais apresentam palavras em que não há relação direta entre a forma e o significado. Glosas em LIBRAS: CONHECER AMIGO TRABALHO DESCONTINUIDADE As palavras que diferem de maneira mínima na forma, normalmente apresentam uma considerável diferença no significado. Por exemplo, a palavra fada e faca diferem minimamente na forma, tanto na língua escrita como na falada. Esse fato tem por efeito mostrar o caráter descontínuo da diferença formal entre forma e significado. Na língua de sinais verificamos o caráter descontínuo da diferença formal entre a forma e o significado. Há vários exemplos: o sinal de MORENO e de SURDO são realizados na mesma locação, com a mesma configuração de mão, mas com uma pequena mudança no movimento, mesmo assim nunca são confundidos ao serem produzidos em um enunciado. Tais sinais apresentam uma distribuição semântica que não permite a confusão entre os significados apresentados dentro de um determinado contexto. Glosas em LIBRAS: TRABALHO VIDEOCASSETE TV MORENO-SURDO CRIATIVIDADE/PRODUTIVIDADE Todos os sistemas linguísticos possibilitam a seus usuários construir e compreender um número indefinido de enunciados. A estrutura gramatical na produtividade é extremamente complexa e heterogênea seguindo os princípios que as mantêm e constituem. Chomsky coloca ainda, que tanto a complexidade como a heterogeneidade é regida por regras, dentro dos limites estabelecidos pela regra da gramática. As línguas de sinais são produtivas assim como quaisquer outras línguas. Glosas em LIBRAS: EU AMAR GISELE PORQUE ELA BONITA, LEGAL, ESPECIAL, 1AJUDAR2, GOSTAR TRABALHAR, INTELIGENTE .... DUPLA ARTICULAÇÃO A organização da língua em duas camadas – a camada dos sons que se combinam em uma segunda camada de unidades maiores é conhecida como dualidade ou dupla articulação. Por exemplo, os sons f, g, d, o, a - nada significam separadamente, já quando combinados eles adquirem um significado, como em fogo, gado, dado, fado etc. As línguas humanas têm em As línguas de sinais também apresentam o nível da forma e o nível do significado. Por exemplo, as configurações por si só não apresentam significado, mas ao serem combinadas formam sinais que significam alguma coisa. Exemplos em LIBRAS: CM sem significado torno de trinta a quarenta fonemas ou unidades. L sem significado M sem significado CM+L+M=significado (L + bochecha + semicírculo para trás) PADRÃO Cada item lexicalapresenta um padrão de combinação ou substituição por outros itens, conforme ilustram os exemplos abaixo: O rapaz caminhou rapidamente; Rapidamente, caminhou i rapaz; O rapaz rapidamente caminhou. As outras combinações são agramaticais. Na palavra sal, por exemplo, a vogal ‘a’ poderia ser substituída por ‘o’ ou ‘u’, mas não por ‘z’ ou 'h'. Em síntese o português apresenta restrições na maneira em que itens podem em que eles aparecem. As línguas de sinais são altamente restringidas por regras. Você não pode produzir os sinais de qualquer jeito ao usar a Língua de Sinais Brasileira, por exemplo. Você deve observar suas regras. Exemplo em LIBRAS: Obedecer às regras de formação de sinais e de sentenças. (ajudar com CM S mostrar exemplos de sinais com CM errada, ou L errada, ou M errada). DEPENDÊNCIA ESTRUTURAL Uma língua contém estruturas dependentes que possibilitam entendimento da estrutura interna de uma sentença, independente do número de elementos linguísticos envolvidos. Também é observada uma dependência estrutural entre os termos produzidos nas línguas de sinais. Glosas em LIBRAS: PAULO TRABALHAR+asp *TRABALHAR+asp PAULO SINAL BRASIL *BRASIL SINAL Fonte: Quadros & Karnopp (2004) Quadros, Pizzio e Rezende (2009) ESTRUTURA DE FRASES As línguas de sinais utilizam as expressões faciais e corporais para estabelecer tipos de frases, como as entonações na língua portuguesa, por isso para perceber se uma frase em LIBRAS está na forma afirmativa, exclamativa, interrogativa, negativa ou imperativa, precisa-se estar atento às expressões facial e corporal que são feitas simultaneamente com certos sinais ou com toda a frase, exemplos: ● FORMA AFIRMATIVA: a expressão facial é neutra Imagem 3 - Meu nome M-A-R-I-A Fonte: Felipe (1998), adaptado pela autora ● FORMA INTERROGATIVA: A forma interrogativa em Libras também pode acontecer a partir da mudança da “expressão não manual”. Segundo Felipe (1998), há a necessidade de franzir a sobrancelha e inclinar a cabeça para cima, essa expressão deve ser feita simultaneamente ao sinal. Imagem 4 - NOME - NOME QUAL? Fonte: Felipe (1998), adaptado pela autora ● FORMA EXCLAMATIVA: Felipe (1998), explica que, para a construção da forma exclamativa em Libras, se modifica a expressão facial, as sobrancelhas são levantadas e há um ligeiro movimento da cabeça, inclinando-se para cima e para baixo. A boca retraída com movimento para baixo pode compor a exclamação apresentada na sinalização abaixo, intensificando a expressão de admiração. Imagem 5 - EU VIAJAR RIO DE JANEIRO, BOM! BONIT@ LÁ! Fonte: Felipe (1998), adaptado pela autora ● FORMA NEGATIVA: Além das formas de negação preestabelecida na Libras, um mesmo sinal da testa também pode assumir a forma negativa a partir do uso simultâneo de uma expressão não manual determinada. No exemplo a seguir, observe que as sobrancelhas franzidas e o movimento do corpo para trás indicam desconfiança, descrédito, mudando o significado do sinal, do afirmativo para o negativo. Imagem 6 - ACREDITAR - NÃO ACREDITAR Fonte: Felipe (1998), adaptado pela autora A negação então, pode ser feita através de três processos: a) com o acréscimo do sinal NÃO à frase afirmativa: Imagem 7 - BLUSA FEI@ COMPRAR NÃO (negação) Fonte: Felipe (1998), adaptado pela autora b) com a incorporação de um movimento contrário ao do sinal negado: Imagem 8 - GOSTAR-NÃO (negação) CARNE, PREFERIR PEIXE Fonte: Felipe (1998), adaptado pela autora c) com um aceno de cabeça que pode ser feito simultaneamente com a ação que está sendo negada ou juntamente com os processos acima: Imagem 9 - EU VIAJAR PODER (não) Fonte: Felipe (1998), adaptado pela autora Em todas as línguas humanas existem, pelo menos, três elementos sintáticos principais, que podem se ordenar na frase de diferentes maneiras. Esses elementos são: sujeito – é o termo que expressa o agente da ação (que pratica ou sofre); verbo – é o termo que expressa a ação; objeto – é o termo que qualifica ou detalha o verbo. Quadros e Karnopp (2004) apontam que a ordem dos elementos na sentença da Libras é, geralmente, SVO (sujeito – verbo – objeto). Elas dizem que, além dessa ordem, são possíveis também as seguintes: OSV, SOV e VOS, sendo estas derivadas da ordem canônica e construídas a partir de operações sintáticas, tais como topicalização ou focalização, conforme pesquisa de Pizzio (2006). A seguir, exemplificamos algumas sentenças com a ordem básica da Libras: Imagem 10 - (SVO) EU GOSTAR LARANJA Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora Imagem 11 - (SVO) VOCÊ TER DINHEIRO Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora Imagem 12 - (SVO) EL@ SABER LIBRAS Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora Essa é a ordem chamada canônica, básica, e dela derivam as outras ordens – apontadas anteriormente – exemplificadas a seguir: Imagem 13 - (OSV) LARANJA EL@ AMAR Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora Imagem 14 - (OSV) BOLO EU FAZER Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora Imagem 15 - (OSV) TELEVISÃO VOCÊ VER Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora Imagem 16 - (VOS) GOSTAR LARANJA EL@? Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora Imagem 17 - (VOS) PASSEAR PRAIA VOCÊ Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora Imagem 18 - (VOS) COMPRAR CASA EU Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora Deve-se ressaltar, ainda, que alguns elementos apontados na frase podem ser apagados, pois na Libras, assim como em outras línguas, é possível que ocorra o apagamento, não apenas do sujeito, mas também do objeto. Na frase gostar laranja, o interlocutor identifica que há o sujeito eu oculto. Imagem 19 - GOSTAR LARANJA Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora 2 EXPRESSÃO E CONCEITOS EM LIBRAS: DIMENSÕES EVOLUTIVAS EM LIBRAS METAFÓRICAS E DESCRITIVAS Figura - Sinais em Libras: COMPARAÇÃO, METÁFORA e METONÍMIA Fonte: Arquivos da autora (2021) A Língua de Sinais, também faz uso das figuras de linguagem como a Comparação, Metáfora e Metonímia. Existe uma pequena diferença entre esses três processos. Na comparação se estabelece a aproximação de dois seres (objetos, ideias, realidades), por se perceber entre eles uma característica em comum ou distinta; gramaticalmente, a comparação é caracterizada pela presença de conectivos e/ou advérbios de intensidade. Já na metáfora a depreensão de uma característica comum entre um ser e outro, pode determinar o emprego de uma palavra no lugar de outra. No caso de metonímias há substituição de um elemento pela citação de outro que lhe está relacionado, ou seja, que lhe é próximo (ALBRES, 2006). Imagem 20 - Comparação - Sinal de DIFERENTES Fonte: Feneis (2008), adaptado pela autora Existe necessidade do uso de termos de comparação (IGUAL, PARECE) e estabelecimento de dois pontos no espaço Exemplo: Imagem 21 - Metáfora - CAIR-CARA Fonte: Feneis (2008), adaptado pela autora Um termo substitui o outro, como, por exemplo: Imagem 22 - Metonímia - CABELOS-GRISALHOS Significando idade avançada Fonte: Feneis (2008), adaptado pela autora No Brasil, a metáfora na Libras foi tema de dissertação defendida por Faria (2003), onde teceu delineamentos teóricos acerca desse tipo de figura de linguagem, buscando alicerces nos estudos metafóricos na ASL (Língua de Sinais Americana). Lembrando que a metáfora tem seu fundamento, sua construção, sua inteligência e entendimento alicerçado na cultura de cada falante ou sinalizantede um país, nota-se que os surdos acham estranhas as palavras ditas em português em que existe certa peculiaridade nos significados atribuídos pelos ouvintes na sua interação social. Isso acontece com o significado real da expressão dada pelos ouvintes, em que se constrói com base nas relações e ressignificações de cada grupo social, cultural. A seguir apresentaremos o trecho de Faria (2003) a que refere esse fenômeno: Os vocábulos das línguas, ao serem concatenados, produzem uma infinidade de trocadilhos cujos significados flutuam dos mais transparentes aos mais opacos; dos mais simples aos mais inusitados; dos mais grotescos aos mais poéticos. Essa recursividade encontra-se carregada da cultura vivenciada pelos indivíduos, na comunidade a que pertence. Por isso, muitas vezes, o que se diz é somente entendido por falantes nativos de dada língua ou por quem se encontra imerso nessa comunidade, por anos trocando, tropeçando e descortinando construções e interpretações as mais variadas, originadas no arcabouço linguístico e criativo das trocas comunicativas. Exemplo disso está o fato de que questões culturais incorporadas à Língua Portuguesa não têm sido transmitidas naturalmente aos surdos brasileiros, como acontece com os ouvintes que, quando crianças, ouvem expressões ‘estranhas’, mas, aos poucos, vão descobrindo o que realmente elas significam e as naturalizam. O objetivo deste tópico é conhecer as metáforas na Libras, porém, sabemos que os aprendizes dessa língua podem achar difícil compreender, por estarem iniciando seus conhecimentos e aproximação com essa nova língua, pois, como já dissemos esse assunto não trataremos apenas dos significados dos sinais, mas, da interpretação cultural. O campo de metáforas em Libras é imenso e necessita ser desbravado em todas as regiões brasileiras. Vamos conhecer apenas alguns exemplos para introduzir seus primeiros contatos com essa figura de linguagem. É comum a Libras recorrer a empréstimos linguísticos para complementar algo ou, ainda, os surdos naturalmente captam a ideia, as significações próprias da Língua Portuguesa e convencionam o sinal semelhante na forma e no sentido, como, por exemplo, o fraseologismo “segurar a vela”. Tal exemplo significa que a pessoa não quer ficar “sozinha” com casais ou casal. E os surdos quando souberam da gíria proveniente do universo ouvinte, passaram a adotar a referida gíria na língua de sinais utilizando o sinal “vela”. Assim, estabelece, conforme Faria (2003), uma metáfora na forma (“segurar vela”) e no sentido (“não ficar sozinho...”) para ambas as línguas. Da mesma forma, há metáfora semelhante em que é equivalente no sentido, mas diferente na forma. E, existem ainda sinais em que não há equivalência na Língua Portuguesa e são originários do universo linguístico criados pelos próprios surdos. ● Metáfora Equivalente: (equivalente na forma e no sentido), nesse caso, quando contrastam as duas línguas, verifica-se uma igualdade na forma escrita e na sinalizada, como é o caso de “cabeça dura”, cuja escrita é esta e que na sinalizada também remete à sinalização envolvendo a cabeça + o sinal de duro. Com relação ao significado, os dois parâmetros (forma e sentido) coincidem nas duas línguas: ser teimoso. Outros exemplos: Imagem 23 - TER/SER-CABEÇA-DURA, SER-IGNORANTE, SER-INFANTIL Imagem 24 - CAIR-O-QUEIXO, FICAR-BOQUIABERTA! FICAR-ADMIRADO! FICAR- HORRORIZADO! ESTAR-PASMO Imagem 25 - ENTRAR-POR-UM-OUVIDO-E-SAIR-PELO-OUTRO, NÃO-DAR-OUVIDOS, FAZER-OUVIDO-DE-MERCADOR! NÃO-ATENDER! FINGIR-NÃO-OUVIR Imagem 26 - ESTICAR-CONVERSA, FALAR-DEMAIS, CONVERSA-LONGA Fonte: Faria (2003), adaptado pela autora Imagem 27 - TER-LÍNGUA-GRANDE, LINGUARUDO Imagem 28 - ARREPIAR-OS-CABELOS, FICAR-COM-OS-CABELOS-EM-PÉ, ASSUSTAR Imagem 29 - (ESTAR-CARA-A-CARA, ENCARAR) (QUEBRAR-A-CARA) (CARECA-DE-SABER) Fonte: Faria (2003), adaptado pela autora Imagem 30 - (FALAR-PELAS-COSTAS, NÃO-ESTAR-PRESENTE) (QUE-LERDEZA! SER- VAGAROSO-DEMAIS! SER-UMA-LESMA!) Imagem 31 - (DAR-COM-A-CARA-NA-PORTA) (SEGURAR-VELA) Fonte: Faria (2003), adaptado pela autora ● Metáfora Semelhante: (equivalente no sentido, mas diferente na forma), ambas as línguas possuem formas equivalentes, como, por exemplo, existe a mímica de uma mão tocando no cotovelo, entretanto o seu significado varia: para a Libras, tal sinal significa ciúme, para Língua Portuguesa, é uma mímica representativa de dor de cotovelo. Outros exemplos: Imagem 32 - (FINGIR-NÃO-VER, ENTRAR-NUM-OLHO-E-SAIR-NO-OUTRO) (ESTAR-COM- CIÚME, ESTAR-COM-DOR-DE-COTOVELO) Imagem 33 - NÃO-QUERO-SABER-MAIS-DISSO! NUNCA-MAIS! CRUZ-CREDO! DEUS-ME-LIVRE! Fonte: Faria (2003), adaptado pela autora Imagem 34 - DAR/LEVAR-O-BOLO, DAR/LEVAR-O-CANO, FALHAR-COM-ALGUÉM, PISAR- NA-BOLA, DEIXAR-NA-MÃO, FICAR/ESTAR-DECEPCIONADO Imagem 35 - ESTAR-APERTADO-PARA-IR-AO-BANHEIRO, ESTAR-COM-DOR-DE-BARRIGA Imagem 36 - MORRER-DE-RIR, CHORAR-DE-RIR Fonte: Faria (2003), adaptado pela autora ● Metáfora Diferente: (diferente no sentido e na forma), comumente oriundo do universo linguístico dos surdos, não tendo correspondência na Língua Portuguesa. Na Língua Portuguesa encontra-se apenas tradução dos sinais. Imagem 37 - (TER-OUVIDO-BARATO) (TER-OUVIDO-CARO) Imagem 38 - (QUE-OBSERVADOR-AGUÇADO! QUE-VISÃO-PRECIOSA! QUE OLHOS-DE-ÁGUIA! QUE- VISTA-CARA! QUE-VISTA-AGUÇADA!) (QUE-OBSERVADOR-DISTRAÍDO!) Fonte: Faria (2003), adaptado pela autora Imagem 39 - (TER-MÃOS-DURAS, QUE-INTÉRPRETE-SEM-FLUÊNCIA-EM-LS!) (TER- MÃOS-LEVES, QUE-INTÉRPRETE-FLUENTE-EM-LS! Fonte: Faria (2003), adaptado pela autora A pesquisa desenvolvida por Faria (2003), traz outros exemplos metafóricos que fazem parte das enunciações dos surdos brasileiros, e, queremos que você aprendiz de Libras conheça exemplos dessas enunciações em sua forma sinalizada. Os exemplos a seguir, se referem a “bases experienciais”, principalmente, por experiências corpóreas. Todavia, Lakoff e Johnson (2002 [1980]) destacam que a cognição experiencialista inclui experiências sociais, emocionais e sensório-motoras, ampliando seu sentido inicial. Imagem 40 - ABRIR A MENTE Fonte: Faria (2003), adaptado pela autora Essa expressão significa ‘ter a mente aberta’, ser uma pessoa que permite inovações, mudanças de paradigmas, novos aprendizados etc. (Faria, 2003). Imagem 41 - CABEÇA-DURA Fonte: Faria (2003), adaptado pela autora Já o domínio alvo contrapondo-se à metáfora anterior de mente flexível, que pode mudar se refere a uma pessoa inflexível que dificilmente muda de pensamento ou de opinião (Faria, 2003). Imagem 42 - CABEÇA PESADA Fonte: Faria (2003), adaptado pela autora Quando se está nervoso e preocupado o corpo responde com uma reação física: o sangue sobe à cabeça e tem-se a impressão de que a cabeça aumenta e fica pesada, podendo ser interpretado como estar arrasado, nervoso, ‘o sangue sobe à cabeça". Imagem 43 - PÁLPEBRA CAIR-FECHAR Fonte: Faria (2003), adaptado pela autora O domínio fonte está na ação de fechar os olhos, as pálpebras se fecham. ‘Cair no sono’ traduz a ideia de um sono profundo que realmente faz jus à metáfora cair. Imagem 44 - ARREPIAR O CABELO-DA-CABEÇA Fonte: Faria (2003), adaptado pela autora A metáfora associa esse arrepio a qualquer dado surpreendente, escandaloso que possa ocorrer com a pessoa ou que ela possa presenciar ou ainda que seja a ela relatado Imagem 45 - ARREPIAR PÊLOS-BRAÇO Fonte: Faria (2003), adaptado pela autora ‘Emocionante’, ‘encantador’, ‘comovente’ e ‘surpreendente’ Imagem 46 - CONTRAÇÃO-ESFÍNCTER-ANAL Fonte: Faria (2003), adaptado pela autoraEm situações de embaraçamento, a sensação física é de contração dos músculos do corpo, inclusive do anel muscular à volta do ânus (esfíncter anal) ‘situação de perigo’, ‘situação de constrangimento’ ou mesmo personificando a condição de ‘covardia’ por um sujeito que não encara situações difíceis no dia a dia, algo tão corporal tem a capacidade de ser conceitualizado em um domínio abstrato. 3 USO DE ESPAÇOS NA ENUNCIAÇÃO EM LIBRAS DÊIXIS EM PROCESSOS DE DESCRIÇÃO Fonte: Arquivos da autora (2021) A descrição pode ser de uma ação, de um espaço físico ou objeto. Na criação de discursos, os surdos fazem a sobreposição de várias situações de fala, especialmente com a criação daquilo que tem sido chamado de “espaço sub-rogado”. Esse espaço é aquele em que o surdo incorpora o personagem de uma história que ele está contando (VIOTTI, 2007). No uso do espaço de sinalização mapeamos os referentes nesse espaço. Na língua espaço-visual mesclam-se momentos de contar a história e de representar, ou seja, encenar a história. A “incorporação” é considerada um mecanismo produtivo usado, por exemplo, para expressar localização, número, pessoa (QUADROS, 1997). “As ‘transferências de pessoas' envolvem um papel (agente ou paciente) e um processo. O sinalizador ‘se transforma’ na entidade a que ele se refere ao reproduzir, em seu enunciado, uma ou mais ações realizadas pela entidade. Em geral, as entidades a que o sinalizador se refere são seres humanos ou animais, mas também podem ser seres inanimados.” (PIZZUTTO, ROSSINI, SALLANDRE e WILKINSON, 2008, p. 144). Na literatura específica tem-se usado para esse mecanismo o nome de troca de papéis ou incorporação do personagem. Contar uma história e incorporar ações dos personagens é como se você estivesse fazendo a ação naquele momento. Nos poemas em Libras também tem-se o uso do espaço, que não é apenas estético, mas pode gerar outros sentidos metafóricos. A teoria da metáfora cognitiva, com base no trabalho de Lakoff e Johnson (1980) fala da metáfora orientacional, na qual podemos entender que o espaço real e concreto tem sentido metafórico nos conceitos abstratos. Por exemplo, o que está mais alto significa metaforicamente uma coisa mais positiva ou poderosa e o que está mais baixo significa algo mais negativo ou sem poder. De frente para trás, o espaço mais perto e mais longe do corpo pode significar, numa escala metafórica, futuro ou passado, valorizado ou não, ou algo que está visível (e assim mais perto do espectador) ou escondido (portanto, mais próximo ao corpo). Na Libras, há a utilização dos espaços mentais, onde o espaço real deve ser conceitualizado igualmente entre os interlocutores. Assim, os nominais são estabelecidos a priori, com um ponto espacial no espaço de sinalização. A direção do verbo é importante para identificar o sujeito e o objeto (QUADROS, 1997). Deve-se respeitar os pontos espaciais estabelecidos na continuidade da história. Os pontos podem mudar, mas isso deve ser apresentado no decorrer da história, introduzindo outros personagens. Veja como isso acontece em Libras: Imagem 47 - Uso do espaço mental Fonte: Feneis (2008), adaptado pela autora Isso é como se dissesse: nesse PONTO A está o professor, Nesse PONTO B está o aluno. Logo em seguida DAR, com a direção do movimento do verbo dar indicando de B para A, portanto, foi do PONTO B que surgiu a ação de dar. Com essa característica linguística particularmente espacial o interlocutor compreende que foi o aluno que deu (alguma coisa pequena) para o professor, sendo ele o executor da ação. O uso do espaço é um componente gramatical muito importante nas línguas de sinais. Imagem 48 - Uso do espaço na Libras Fonte: UFSC (2008) Sobre os espaços mentais nos discursos em Libras, uma versão mais recente de Liddell (2000) apresenta três tipos de usos do espaço nas línguas de sinais: ● Espaço mental real: “é um mapeamento cognitivo do espaço físico que rodeia o sinalizador, são representações mentais das pessoas que estão presentes fisicamente no local e no tempo em que ocorre a sinalização (MOREIRA, 2007, p. 46). O espaço mental real de um tempo atrás pode permanecer na mente dos interlocutores. Nas imagens a seguir, a própria localização do referente determina o local estabelecido para um determinado referente, a apontação pode ser usada para referir a objetos e lugares no espaço. A referência anafórica requer que o sinalizante aponte (olhe ou gire o corpo).: Imagem 49 - Espaço mental real Fonte: UFSC (2008) Imagem 50 - Espaço mental real Fonte: UFSC (2008) ● Espaço mental token: “é um espaço integrado, em que as entidades ou coisas das quais se quer falar são representadas sob a forma de um ponto fixo no espaço físico, geralmente se faz a representação da 3ª pessoa (MOREIRA, 2007, p. 47). Esse ponto fixo no espaço pode ser usado para qualquer conceito.” Observe-se na imagem abaixo que a direção do verbo é importante para identificar o sujeito e o objeto, identificar as relações entre os referentes no discurso estabelecidas espacialmente. Verbos que podem indicar uma ação feita por duas pessoas ou dois objetos ao mesmo tempo usando as duas mãos. Imagem 51 - Espaço mental token (Verbo: OLHAR) “eles se olharam” “nós nos olhamos” Fonte: UFSC (2008) Esses verbos também utilizam os pontos espaciais e são estabelecidos utilizando espaços reais e tokens. ● Espaço mental sub-rogado: como já dissemos anteriormente, acontece quando o sinalizador assume o papel de qualquer participante da situação narrada e sinalizada como se fosse ele. São representações mentais em tamanho natural, que assumem posições realistas, como uma incorporação. Padden (1983, p.15) apresenta as formas de concordância pessoal direcionais da seguinte maneira: a) 1ª pessoa: próximo ao corpo do sinalizante; b) 2ª pessoa: na direção do receptor determinado pelo contato do olhar com o receptor real ou marcado discursivamente; c) 3ª pessoa: o marcador de concordância terá o mesmo ponto no espaço neutro assinalado à 3ª pessoa. Imagem 52 - Espaço mental sub-rogado (Verbo ENTREGAR na LIBRAS) eu- ENTREGAR-você eu- ENTREGAR–ele(a) ele (a)- ENTREGAR -eu Fonte: UFSC (2008) O verbo ENTREGAR na LIBRAS apresenta o mesmo comportamento e pode ser usado como exemplo dessa classe verbal. Para reconhecer um verbo direcional (com concordância) é necessário ter claro que a localização do sinalizante é identificada como a de primeira pessoa, a localização do seu interlocutor como a de segunda pessoa, e as outras localizações podem identificar as terceiras pessoas do discurso. Todo esse processo se utiliza de relações espaciais. Padden diz que a 1ª pessoa é fixa e as 2ª e 3ª pessoas apresentam infinitas possibilidades de localizações no espaço. A concordância, da mesma forma que o sistema pronominal, apresenta essas variações. DÊIXIS E ANÁFORA “A dêixis e anáfora na Libras são recursos que permitem o falante introduzir referentes no discurso (dêixis) e, subsequentemente, referir-se a eles em momentos posteriores (anáfora).” (PIZZUTTO, ROSSINI, SALLANDRE e WILKINSON, 2008, p. 140). Dêixis é a propriedade que têm alguns elementos linguísticos, tais como pronomes pessoais e demonstrativos, de fazer referência ao contexto situacional ou ao próprio discurso, em vez de serem interpretados semanticamente por si sós; referência. Já a anáfora significa termo que se relaciona ao referido anteriormente, como no exemplo a seguir: Imagem 53 - Uso da dêixis e anáfora em sentença João era empreendedor. Ele (anáfora de João) não mora mais aqui. (dêixis de sentido) Fonte: Arquivosda autora (2021) SAIBA MAIS Referência dêitica e anafórica na Língua Brasileira de Sinais (Síntese de Berenz, 1996) ● Dêixis - Propriedade de alguns elementos linguísticos, como os pronomes pessoais e demonstrativos, de aparecerem como ponto de referência de um contexto situacional, ou de um discurso, no lugar de serem interpretados semanticamente por si mesmos (Dicionário Aulete Digital). Propriedade que tem alguns elementos linguísticos, tais como pronomes pessoais e demonstrativos, de fazer referência ao contexto situacional ou o próprio discurso, em vez de serem interpretados semanticamente por si sós; referência (Dicionário Novo Aurélio Século XXI, Editora Nova Fronteira, 1999). ● Anáfora - Processo sintático pelo qual uma palavra (p. ex., um pr. pess.) remete a outras anteriormente referida(s). Ex.: João e José são meus amigos. Eles também me consideram seu amigo. Elemento linguístico cuja referência não é independente, mas ligada a de um termo antecedente. Em João barbeou-se, p. ex., o reflexivo se só pode ser interpretado com referência a João. (Dicionário Novo Aurélio Século XXI, Editora Nova Fronteira, 1999). #SAIBA MAIS# A contextualização feita a seguir pode ser encontrada de forma detalhada nos estudos realizados por Berenz (1996), a Universidade Federal de Santa Catarina traz uma síntese desses estudos pelas autoras Pizzio, Rezende e Quadros (2009) que preferimos manter o texto na íntegra. De acordo com Lyons (1981), existem três classes principais de expressões referenciais: nomes próprios, substantivos comuns (núcleo de sintagma nominal) e pronomes. Tradicionalmente, os pronomes têm sido tratados como substitutos dos substantivos, mas sua função mais básica é a função dêitica ou indexical. Isto é, pronomes são, para serem definidos como dêixis, primeira e principalmente um local espaço-temporal no contexto do enunciado. Alternativamente, eles podem ser vistos em termos de egocentricidade do contexto dêitico, no qual está sua mais subjetiva natureza. Assim, o contexto dêitico está centrado sob o ‘aqui e agora’ do falante. Por exemplo, o pronome de primeira pessoa ‘I’ do inglês refere-se normalmente ao próprio falante. Como o papel de falante passa de uma pessoa para outra no curso de uma conversação, então, o ponto-zero do contexto dêitico será alternado entre os participantes, junto com a referência de ‘I’ e “here’. Lyons coloca, também, que o termo dêixis e ‘index’ são ambos originados na noção de referência gestual, ou seja, na identificação do referente pelo significado de algum gesto corporal por parte do falante. Qualquer expressão referencial que apresente as mesmas propriedades lógicas dos gestos corporais é, em virtude disso, dêitica. Além disso, muitas expressões dêiticas são normalmente utilizadas em associação com algum tipo de referência gestual. O autor diz ainda que os pronomes ‘I’ e ‘you’ são dêixis pura, enquanto os pronomes de terceira pessoa são dêixis impuras, visto que trazem informações adicionais (tal como gênero) com a referência espaço-temporal. Fillmore (1982) diz que os pronomes são prototipicamente dêiticos, embora eles possam ter usos não-dêiticos (sentido expressivo ou social). Desse modo, alguns sistemas pronominais são encontrados em elementos dêiticos básicos, enquanto outros são encontrados em elementos dêiticos não básicos. 4 FIGURAS DE LINGUAGEM NA LÍNGUA DE SINAIS E SUAS DIFERENTES FORMAS DE MANIFESTAÇÃO Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/emotional-intelligence-side-view-sequence-man- 642768262 Acesso em: 27 out. 2021. Assim como na Língua Portuguesa, temos palavras diferentes para nos referir ao mesmo objeto, chamadas de ambiguidade, que é a característica das expressões linguísticas que apresentam mais de um sentido/significado para aquela palavra. Normalmente quando isso acontece, precisa de um contexto para ser compreendida, isto é, possui ambiguidade. Estamos diante de um dos seguintes fenômenos: homonímia e polissemia. Para Câmara Junior (1986) e Ilari (1990): A ambiguidade lexical se caracteriza por comportamentos homonímicos (palavras que possuem a mesma pronúncia com significados diferentes) e polissêmicos, do grego “poly”, significa diversidade, palavra ou expressão que possui mais de um significado”. Britto (2005) nos esclarece que a Libras apresenta menos casos de ambiguidade do que o português. (Disponível em: http://www.ileel.ufu.br/anaisdosielp/wp- content/uploads/2014/07/volume_2_artigo_154.pdf Acesso em: 14 ago. 2021. ● Sinais Homônimos Ocorrem quando os sentidos da palavra ambígua não são relacionados, ou seja, os sinais que, embora apresentem parâmetros idênticos em Libras, não estabelecem qualquer tipo de relação semântica entre si. Veja exemplos, na Língua Portuguesa: Cela (substantivo) – Sela (verbo). Agora reflita no exemplo em Libras com palavras diferentes. Imagem 54 - (BAHIA) e (JEITO/MANEIRA) Fonte: Capovilla e Raphael (2001), adaptado pela autora Como vimos no exemplo, em Libras a palavra/sinal Bahia pode referir-se a uma pessoa, a uma loja, a um time de futebol ou à cidade, pois existe uma relação homônima entre o sinal/palavra Bahia (substantivo simples, próprio, primitivo) e o sinal/palavra Jeito/maneira da pessoa (substantivo e advérbio de modo). ● Sinais Polissêmicos Estão relacionados à ambiguidade semântica, possuem dois ou mais significados, de acordo com o contexto. Um exemplo é a palavra “sinal”, que pode se aplicar de várias formas, tanto na Língua Portuguesa como na Língua Brasileira de Sinais - Libras. No caso da Língua Portuguesa ao referir-se a elementos representacionais (como sinais de trânsito): Imagem 55 - Sinais polissêmicos: elementos representacionais Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-vector/traffic-signs-vector-design-1897033447 Na Libras, existem sinais que assumem vários significados, apesar de apresentarem uma única forma; a isso, damos o nome de polissemia. A polissemia, entendendo a língua como um sistema abstrato, infere a um signo, um universo de possibilidades de significação. Bakhtin (2009, p. 95), afirma que “o sentido da palavra é totalmente determinado por seu contexto. De fato, há tantas significações possíveis quanto contextos possíveis.” Segundo Albres e Vilhalva (2004), o campo de significação está inteiramente relacionado com o intercurso de sentido. E a Libras, como todas as línguas, apresenta polissemia, o fato de um sinal ter muitas significações dependendo do contexto. Capovilla e Raphael (1997), em seu Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue, apresentam uma série de sinais polissêmicos, dos quais traremos a representação dos sinais para melhor compreensão: Imagem 56 - Sinais polissêmicos na Libras Capovilla e Raphael (1997), adaptado pela autora Imagem 57 - Sinais polissêmicos na Libras Capovilla e Raphael (1997), adaptado pela autora Imagem 58 - Sinais polissêmicos na Libras Capovilla e Raphael (1997), adaptado pela autora Imagem 59 - Sinais polissêmicos na Libras Capovilla e Raphael (1997), adaptado pela autora Imagem 60 - Sinais polissêmicos na Libras Capovilla e Raphael (1997), adaptado pela autora Imagem 61 - Sinais polissêmicos na Libras Capovilla e Raphael (1997), adaptado pela autora Imagem 62 - Sinais polissêmicos na Libras Capovilla e Raphael (1997), adaptado pela autora Imagem 63 - Sinais polissêmicos na Libras Capovilla e Raphael (1997), adaptado pela autora Imagem 64 - Sinais polissêmicos na Libras Capovilla e Raphael (1997), adaptado pela autora Além da polissemia, existemoutros fatores que influenciam na atribuição de sentido dos enunciados. Nas línguas orais, a linguagem corporal que acontece pelo movimento do corpo e de expressões faciais é parte significativa da comunicação. Certamente você já ouviu a frase “um gesto vale mais do que mil palavras”. Pois, então, podemos considerar esta uma verdade, entretanto uma posição, ou movimento do corpo, não tem por si só um significado preciso e incontestável. Sua significação vai depender de vários elementos envolvidos no contexto da comunicação discursiva. Vejamos alguns exemplos clássicos de mensagens enviadas através da linguagem corporal e das expressões faciais nas línguas orais: ⮚ Franzir de sobrancelhas – dificuldade ou preocupação; ⮚ Apertar os olhos ou erguer uma das sobrancelhas -sinal de descrédito, desconfiança; ⮚ Tamborilar os dedos – impaciência; ⮚ Bater na testa – esquecimento; ⮚ Levantar os ombros – indiferença; ⮚ Esconder a boca – mentira; ⮚ Olhar frequentemente para o relógio – pressa ou impaciência. ● Sinais Tautológicos A Tautologia na Língua Portuguesa funciona como marcadores conversacionais. Exemplo: né, então, tipo assim. Em Libras, são sinais que apresentam variantes regionais, com dois ou mais sinais que representam o mesmo significado, assim, o contexto expressa a mesma ideia, mas com sinais diferentes. Imagem 65 - Sinais tautológicos na Libras Fonte: Capovilla e Raphael (2001), adaptado pela autora Em todos os exemplos, notamos a versatilidade da Língua Brasileira de Sinais e como associar os contextos se faz necessário para uma boa comunicação entre surdos e ouvintes. Mais uma vez constatamos o dinamismo e a flexibilidade da qual se perfaz a língua de sinais, já que uma mesma palavra pode revelar diferentes sentidos, bastando, para isso, estar inserida em uma circunstância linguística, como as referidas. REFLITA O domínio que o professor precisa ter das semelhanças e diferenças da Libras e do Português contribui para que ele possa construir estratégias explicativas que favoreçam a aprendizagem dos seus alunos. Acadêmico(a), reflita, discuta com seus colegas, quais seriam as melhores estratégias para o ensino das figuras de linguagens para alunos surdos? Fonte: Exemplo de atividade extraído de Lima e Iunes (1999, p. 272-273). #REFLITA# CONSIDERAÇÕES FINAIS Enfim, chegamos ao final desta Unidade, nela foram apresentados os aspectos, as propriedades e a formação dos léxicos na morfologia que podem mudar o significado e o sentido. O texto apresentou a formação de sinais e sua descrição imagética, pois elas podem descrever cada objeto, animais e pessoas, com o objetivo maior de treinar as captações e a inserção de alguns elementos na gramática da Língua Brasileira de Sinais. Vimos que a metáfora é uma maneira pela qual a pessoa fala uma coisa, mas tem a intenção de ser entendida de outra forma. Em Libras, assim como em português, muitas vezes, falamos de ideias abstratas por meio de coisas concretas. Todavia, a Libras usa essa figura muito mais do que a língua portuguesa por ser uma língua visual em que o vocabulário é baseado na forma de imagens concretas de coisas que são abstratas. LEITURA COMPLEMENTAR ALBRES, Neiva de Aquino. “Tenha “OLHO CARO”: a interpretação de expressões idiomáticas da Língua de Sinais Brasileira Campo Grande – MS: EPILMS 17 e 18 de novembro, 2006. Disponível em: http://portal.sme.prefeitura.sp.gov.br/Portals/1/Files/19395.pdf Acesso em: 15 de ago. 2021. FARIA, Sandra Patrícia. “A metáfora na LSB e a construção dos sentidos no desenvolvimento da competência comunicativa de alunos surdos.” Dissertação de Mestrado, Universidade de Brasília, 2003. Disponível em: file:///C:/Users/Acer/Downloads/2003_SandraPatriciadeFaria.pdf Acesso em: 15 de ago. 2021. LIVRO Título: Estudos Surdos II Autor: Ronice Muller de Quadros e Gladis Perlin Editora: Arara Azul (2007) Sinopse: Coleção que apresenta pesquisas que estão sendo produzidas no campo dos Estudos Surdos. São pesquisadores surdos, pesquisadores bilíngues e intérpretes da língua de sinais desconstruindo e construindo saberes. LIVRO 02 Título: Tenho um aluno surdo, e agora? Introdução à Libras e educação de surdos Autor: Cristina Broglia Feitosa de Lacerda e Lara Ferreira dos Santos (Organizadoras) Editora: EdUfscar (2014) Sinopse: Este livro reúne textos de diversos autores, surdos e ouvintes, que atuam na área da surdez, visando possibilitar uma visão ampla de aspectos relacionados à Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS e à educação de surdos. FILME/VÍDEO Título: Bolinha de ping-pong Autor: Rimar R. Segala Ano: 2009 Sinopse: A narrativa explora as múltiplas perspectivas de ação e reação, no momento da sinalização, o autor incorpora pessoas jogando com uma bola, enquanto a bola pula e é rebatida. Pode-se perceber claramente o afastamento e a aproximação, o sinal da bola pulando, visto de maneira afastada, utilizando um classificador que expressa objetos pequenos; quando a bola é rebatida e se aproxima, ela se torna maior e acaba sendo representada pela cabeça do artista. Link: Bolinha de ping-pong - Rimar R. Segala - YouTube FILME/VÍDEO 02 Título: Como veio a alimentação Autor: Fernanda de Araújo Machado Ano: 2011 Sinopse: Os sinais da narrativa descrevem o lavrador rural, pobre e oprimido estão sempre colocados do lado esquerdo, enquanto os sinais para o morador urbano, rico e contente ficam no lado direito. Porém, adicionalmente, os sinais de lavrador são articulados mais baixos do que os do morador urbano. Assim, o uso de espaço para articular os sinais mostram a metáfora de que “o mais alto tem poder”. Link: como veio alimentação - YouTube FILME/VÍDEO 03 Título: Doll Autor: Paul Scott Ano: 2010 Sinopse: O poema narrado pelo poeta surdo em BSL (Língua de Sinais Britânica), apresentado no Festival em Bristol, mostra uma criança infligindo uma série de indignidades em sua boneca antes de arrancar sua cabeça. O poema é uma metáfora para o tratamento da comunidade surda pela sociedade ouvinte. Link: BSL poem "Doll" by Paul Scott - YouTube FILME/VÍDEO 04 Título: Poesia Farol da Barra em Libras (DEAF) Autor: João Ricardo Bispo de Jesus Ano: 2019 Sinopse: Neste poema, a luz brilhante da graça de Deus é mostrada pela configuração de mão aberta virada de lado e movimentando-se em direção ao rosto do poeta. A mesma configuração de mão muda de orientação e o seu movimento passa a ser o de flutuar para baixo para se tornar o mar. Desse modo, os sinais graça-divina ou luz-divina- no-rosto e mar-em-movimento unem as duas ideias ao se metamorfosearem um no outro. A configuração de mão em “O”, representando a rocha no oceano, muda de orientação e começa a se erguer, tornando-se a lua crescente. O poema fala do naufrágio que aconteceu durante a noite depois do barco bater na rocha, então os sinais estão conectados por suas formas visuais quando um se funde no outro. Link: poesia Farol da Barra em Libras (DEAF) - YouTube FILME/VÍDEO 05 Título: Fazenda: Vaca Autor: Rimar R. Segala e Sueli Ramalho Ano: 2011 Sinopse: A história contada por Rimar Segala, é uma parábola. Nela, assim como em muitas outras, o assunto da narrativa é concreto, mas a ideia contada é mais abstrata. Narra que um mestre e um discípulo seguem por uma estrada com fome. Uma família pobre, com apenas uma vaca, os recebe e dá leite e queijo para eles com toda a sua generosidade, apesar de serem muito pobres. O pai da família explica que graças a sua vaca continuam pobres, mas têm as necessidades mais básicas supridas. O mestre manda seu discípulo empurrar a vacade um precipício e matá-la. Muitos anos depois, o discípulo se arrepende de matar o único apoio que a família tinha e resolve voltar para pedir desculpas. Lá ele encontra uma fazenda rica e a família confortável com toda a comida que quisesse ter. O pai explica que, um dia, a única vaca morreu por acidente e a família teve que se esforçar para sobreviver. Tentaram novos negócios, até que criaram uma fazenda produtiva - o que nunca teria acontecido se a vaca continuasse a fornecer somente o básico. No final dessa parábola, Sueli Ramalho explica que a história mostra para o surdo que não é bom sempre se fazer a mesma coisa de maneira limitada, mas que se deve abrir a mente, se arriscar a fazer novas coisas, se desenvolver e tentar ter mais sucesso. Link: Fazenda: Vaca - Rimar R. Segala e Sueli Ramalho - YouTube FILME/VÍDEO 06 Título: Homenagem Santa Maria/RS Autor: Alan Henry Godinho Ano: 2013 Sinopse: É um poema elegíaco que descreve o luto. Este é normalmente visto como um subgênero dos poemas líricos. É um lamento em homenagem aos jovens da cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que morreram em um trágico incêndio em uma festa de formatura em 2013. Nesse poema, o artista fala dos jovens como se fossem muitas flores ou estrelas. Sobre as flores, sabemos que são lindas, mas que vivem pouco tempo. Compara as flores com a vida dos jovens. Depois, fala deles como se fossem estrelas. As estrelas também são lindas, mas elas duram muito tempo. Então compara as estrelas com a memória dos jovens. Sabemos que eles não são flores nem estrelas, tampouco pássaros que voam para o céu (o que o poeta também menciona), mas as ideias dentro do poema são metáforas concretas (flores, estrelas, pássaros) que mostram conceitos abstratos (vida, memória e paz). Link: Poesia de LIBRAS Homenagem Santa Maria/RS - YouTube FILME/VÍDEO 07 Título: Lutas Surdas Autor: Alan Henry Godinho Ano: 2011 Sinopse: Descreve de forma poética o movimento de luta dos surdos contra o fechamento do Instituto Nacional de Educação de Surdos, o INES. O poema tem muitas metáforas visuais. Ao falar da marcha de protesto dos surdos em Brasília, mostra visualmente a estrutura do Congresso Nacional tremendo com as vibrações da manifestação. Os prédios não tremeram de verdade, mas o poema os mostra de uma forma criativa, como se tremessem. Alan Henry não usou o sinal tremer, mas adicionou um movimento de tremer dentro dos sinais classificadores que mostram as edificações. Os prédios de Brasília são uma figura metonímica para significar o governo. Um prédio não pode respeitar a Libras, mas as pessoas poderosas dentro deles podem. Em outra metáfora, os surdos no protesto fazem uma construção de pedras, representando a FENEIS (a federação nacional dos surdos), as associações de surdos estaduais, a cultura surda, as associações esportivas dos surdos e a sociedade que apoia os surdos. Na verdade, todas as pedras da construção são coisas abstratas – sabemos que associações, culturas e sociedades não têm forma –,mas por metáfora são transformadas para serem concretas e mostrarem que os conceitos abstratos também apoiaram a luta. Quando os surdos no poema fazem essa construção referência, eles erguem uma bandeira enorme em cima dela, que tremula com o orgulho da Libras. A bandeira é um objeto concreto, mas a importância da língua de sinais é abstrata. A criação do sinal da bandeira feita por mãos que sinalizam mostra a importância da Libras para a comunidade surda. A bandeira não é de fato feita por uma língua nem pode fazer um prédio tremer, mas através da metáfora Alan Henry cria a ideia de que isso é possível. Link: LUTAS SURDAS... - YouTube FILME/VÍDEO 08 Título: O passarinho diferente Autor: Nelson Pimenta Ano: 2004 Sinopse: A história é baseada numa versão em ASL do artista e pesquisador surdo Ben Bahan. Nelson fez a sua tradução para Libras com adaptação à cultura brasileira. O passarinho nasce dentro de uma família de águias, mas com o bico pequeno e reto. A família percebe que ele é diferente e tenta achar uma cura para que ele se torne uma águia com o bico grande e curvado, ou, pelo menos, que ele aprenda a viver como elas, caçando coelhos e voando alto. O passarinho vai a uma escola especial para pássaros com bicos defeituosos como o dele para tentar remediar o problema. Conhece um grupo de passarinhos como ele, vivendo de outra maneira, comendo uvas e cantando; fica muito contente com eles, mas acaba voltando para a sua família. Ele aceita então uma cirurgia para que seu bico fique curvado e parecido com o de uma águia, mas fica zangado porque parece mais um papagaio. Ele volta aos amigos passarinhos, mas com a nova forma de seu bico ele não consegue mais comer uvas nem cantar. No final, ele voa sozinho até o pôr do sol no horizonte. A narrativa fala das aves, mas entendemos que é uma metáfora da sociedade humana. Para os surdos, fica claro que a narrativa é uma metáfora para a experiência dos surdos numa sociedade de ouvintes. O passarinho é o filho surdo e a família de águias (que ama muito o seu filho) é a família ouvinte. As tentativas de curar o bico têm paralelo com as tentativas de curar a surdez, e a escola para remediar o passarinho tem professores, objetivos e falhas bem conhecidos pela comunidade surda em sua educação. Os passarinhos que cantam e comem uvas são uma metáfora para a comunidade surda, vivendo do jeito natural deles. A cirurgia para curvatura do bico remete à cirurgia do implante coclear e o resultado de criar um bicho nem de águia nem de passarinho é o surdo que não se encaixa nem no mundo dos surdos tampouco no dos ouvintes. Link: 2004_RJ_Literatura_Fábula_O-passarinho-Diferente_NelsonPimenta (ufsc.br) FILME/VÍDEO 09 Título: O sapo e o boi Autor: Nelson Pimenta Ano: 2004 Sinopse: A fábula contada por Nelson Pimenta é exagerada para atrair as crianças. Na fábula “O Sapo e o Boi”, um sapinho cheio de inveja de um boi imponente tenta ficar inchado até ficar do tamanho do boi. Apesar de os amigos pedirem para que ele desista, continua inchando até estourar. Nelson Pimenta conta essa fábula com muitas figuras estéticas, seguindo as regras de criação de histórias visuais em Libras e, por isso, são contos que podemos valorizar como arte literária e divertida. A história tem um sentido metafórico e traz um ensinamento no final, que é melhor se aceitar como se é e não tentar ser o que não se pode ser (um sapo nunca pode atingir o tamanho de um boi). Link: 20040314_RJ_Literatura_Fábula_O-sapo-e-o-boi_NelsonPimenta (ufsc.br) REFERÊNCIAS ALBRES, Neiva de Aquino. “Tenha “OLHO CARO”: a interpretação de expressões idiomáticas da Língua de Sinais Brasileira Campo Grande – MS: EPILMS 17 e 18 de novembro, 2006. ALBRES, N. A.; VILHALVA, S. Língua de sinais: processo de aprendizagem como segunda língua. Petrópolis: Arara Azul, 2004. BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 13. Ed. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, 2009. BERENZ, N. Person and Dêixis in Brazilian Sign Language. Ph.D. Dissertation. University of California, 1996). CÂMARA JR, Joaquim Matoso. Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis: Vozes, 1986. Disponível em: http://www.ileel.ufu.br/anaisdosielp/wp- content/uploads/2014/07/volume_2_artigo_154.pdf Acesso em: 14 ago. 2021. CAPOVILLA, F. C.; RAPHAEL, W. D. Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue – Língua de Sinais Brasileira. São Paulo: EDUSP, 2001. CAPOVILLA, F. C.; RAPHAEL, W. D. Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue. 3 ed. São Paulo: EDUSP, 1997. FARIA, Sandra Patrícia. “A metáfora na LSB e a construção dos sentidos no desenvolvimento da competência comunicativa de alunos surdos.” Dissertação de Mestrado, Universidade de Brasília,2003. FELIPE, T. A. A relação sintático-semântica dos verbos e seus argumentos na Libras. Tese de Doutorado. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1998. FERNANDES, E., Linguagem e Surdez. Porto Alegre, Artmed, 2002. FILLMORE, C. 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Faculdade de filosofia, Letras e ciências Humanas (FFLCH) – USP, 2007. PADDEN, C. Interaction of morphology and syntax in ASL. 1983. Dissertation (Doctoral) - University of California, San Diego, 1983. PIZZIO, A. L. A variabilidade da ordem das palavras na aquisição da língua de sinais brasileira: construção com tópico e foco. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2006. PIZZUTTO, Elena; ROSSINI, Paolo; SALLANDRE, Marie-Anne; WILKINSON, Erin. Dêixis, anáfora e estrutura altamente icônicas: Evidências Interlinguísticas nas Língua de Sinais Americana, Francesa e Italiana. IN: QUADROS, Ronice; VASCONSELLOS, Maria Lucia Barbosa (orgs.). Questões teóricas das pesquisas em língua de sinais. Tisrls 9. Santa Catarina: 2008. QUADROS, R. M. de. Educação de Surdos: a aquisição da linguagem. Porto Alegre: Artmed, 1997. QUADROS, R. M.; KARNOPP, L. Língua de sinais brasileira: estudos linguísticos. Porto Alegre: ArtMed, 2004. QUADROS, R.; PIZZIO, A.; REZENDE, P. Língua Brasileira de Sinais V. Florianópolis: UFSC, 2009. SAUSSURE, Ferdinand. Curso de Linguística Geral. São Paulo: Cultrix, 1995. VIOTTI, Evani. Curso de Licenciatura em Letras-Libras-UFSC (USP) Introdução aos Estudos Linguísticos, 2007. UNIDADE III A LINGUÍSTICA DAS LÍNGUAS DE SINAIS Professora Mestre Elizete Pinto Cruz Sbrissia Pitarch Forcadell Plano de Estudo: A seguir apresenta-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ● Sobre Linguística; ● A Linguística e as Línguas de Sinais; ● Fonologia da Língua de Sinais; ● Morfologia da Língua de Sinais; ● Sintaxe da Língua de Sinais; ● Semântica e Pragmática da Língua de Sinais. Objetivos de Aprendizagem: ● Introduzir conceitos referentes à linguística e às línguas de sinais; ● Constatar os processos fonológicos, morfológicos, sintáticos, semânticos e pragmáticos da Língua Brasileira de Sinais; ● Aprofundar os conceitos sobre os parâmetros da Libras: configuração de mão, ponto de articulação, movimento, orientação da mão e expressão facial/corporal; ● Identificar os processos de formação dos sinais e das frases em Libras; ● Reconhecer a diferença dos significados e sentidos. INTRODUÇÃO A Libras é dotada de uma gramática composta por itens lexicais, que se estruturam a partir de níveis fonológicos, que analisam como os sinais são produzidos, ou seja, as unidades mínimas ou os parâmetros que compõem o sinal. No nível morfológico, indicam e registram-se as classes dos sinais produzidos, além de ser observada a flexão verbal, essa flexão pode acontecer em quaisquer verbos sempre que for apropriado, inclusive nos classificadores que são analisados no nível sintático. A sintaxe analisa, então, a estrutura das sentenças e a estrutura discursiva, e o nível semântico registra-se o significado do vocabulário e das sentenças produzidas está de acordo com a narração assistida. Em relação a esse nível de análise, o foco está na coerência, ou seja, nas unidades de sentido produzidas. Esses níveis são usados na geração de estruturas linguísticas de forma produtiva, possibilitando um número infinito de construções, a partir de um número finito de regras. Existe, também, componentes pragmáticos convencionais, codificados no léxico e na estrutura da Libras que permitem a geração de implícitos, sentidos metafóricos, ironias e outros significados não literais. Esses princípios regem também o uso adequado das estruturas linguísticas da Libras, isto é, permitem aos seus usuários usar estruturas nos diferentes contextos que se lhes apresentam, de forma a corresponder às diversas funções linguísticas que emergem da interação no dia-a-dia, bem como dos outros tipos de uso da língua. 1 SOBRE A LINGUÍSTICA Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-illustration/examine-study-linguistics-showed-magnify- glass-1856072773 Acesso em: 30 out. 2021 A Linguística é considerada uma ciência da linguagem humana que tem como objeto de estudo a língua natural humana. Analisa e descreve as línguas como se apresentam, não tendo a preocupação em emitir juízos de valor, não determina se é correta ou incorreta, não privilegia as formas mais cultas em detrimento das formas mais populares. A Linguística procura explicar a capacidade que as pessoas possuem para compreender uma língua, formar palavras, frases, textos, produzir sons, gestos, sinais. Para compreendermos melhor sobre os aspectos da linguística, nos apoiamos nos estudos de Ferdinand Saussure e de Noam Chomsky, com suas teorias importantes para entendermos o funcionamento da língua. Para Ferdinand Saussure (1995) existe uma distinção entre a linguagem e a língua. ● Linguagem: Capacidade humana natural, que nasce com o ser humano. Ou seja, é mais ampla que a língua, permite que o homem produza e compreenda todas as manifestações simbólicas como a pintura, a música, a dança, sendo a língua uma dessas manifestações. ● Língua: Lı́nguas são aprendidas, convencionais, surgem pela necessidade de comunicação entre as pessoas e se desenvolvem conforme o contexto cultural, geográfico, econômico, tecnológico, de um povo. Ou seja, é parte essencial da linguagem, constitui-se num sistema de signos, um conjunto de unidades que se relacionam de forma organizada dentro de um todo. Destaco ainda, sobre a definição de língua, que Saussure (1969, p. 17) afirma que a língua é um produto social, isso significa dizer que a língua é produzida e usada por toda uma comunidade, não sendo propriedade de ninguém individualmente. Uma língua não existe individualmente, ela se constitui no meio social e é no meio social que ela se realiza, se transforma e evolui. Por isso, ela é social e convencional, isto é, as palavras, os signos, devem ser conhecidos e compreendidos por todos os seus usuários. Saussure (1969) apresenta-nos ainda, quatro pares conceituais que formam as dicotomias, esses conceitos se opõem, um só pode ser compreendido se comparado ao outro, e juntando os dois formam um conceito maior, fundamental para entendermos o que é a língua. Vejamos: 1. Língua e Fala A língua é social, um sistema de signos convencionais, não pode ser mudado. A fala é individual, é a manifestação oral, é o sujeito falante usando o código da língua. A fala traz muitas marcas da cultura, do modo de viver do falante, de tal forma que uma mesma língua pode ser falada de diferentes maneiras, dependendo do lugar, das influências a que o falante está exposto. Enfim, a fala é a expressão individual, própria de cada pessoa. Porém, independente do jeito decada indivíduo falar, a língua é a mesma: no nosso caso o português. 2. Significado e Significante Para compreendermos a dicotomia “significante e significado”, precisamos entender melhor sobre o signo linguístico. Signos linguísticos: são unidades linguísticas que significam alguma coisa. Por exemplo: livro é um signo em português. Se eu usar esse signo, todas as pessoas que conhecem a língua portuguesa sabem a que eu me refiro. A palavra livraria também é um signo, porém é composta por dois signos menores que têm significação: livr (livro) + aria (indica um estabelecimento comercial que vende livros) forma o novo signo livraria. Frases ou textos também são signos porque significam alguma coisa. Por exemplo: o livro A Moreninha, de José de Alencar, é um signo. Assim, tudo que é existente e conhecido é representado por um signo. O signo é a associação indissolúvel de um significante e de um significado. Imagem 1 - Desenho de árvore Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-vector/illustration-tree-roots-1195516093 Árvore: o significado corresponde não ao objeto, a coisa em si, mas a ideia, o conceito que temos de árvore (galhos, tronco, raiz). O significante de árvore é a imagem acústica, que é a representação psíquica do som /a/r/v/o/r/e. O significante é a imagem acústica, ou seja, quando se pensa em algo conhecido, é como se o som ressoasse no cérebro, é um som não articulado. Imagem 2 - Significante ou imagem acústica Fonte: Imagem disponível em: https://letransfert.wordpress.com/2013/05/15/sintoma-e-desejo- psicanalitico-uma-perspectiva-linguistica/ Imagem 3 - Conceito de imagem acústica Fonte: Imagem disponível em: http://comunicacionparaadultos.blogspot.com.br/ Imagem 4 - Conceito da imagem representada no visual Fonte: Imagem disponível em: http://trabalhandocomsurdos.blogspot.com.br/2014/04/meios-de- transporte-em-libras.html Para resumir: signo linguístico compreende dois termos psíquicos unidos em nosso cérebro = significado (ideia, conceito) + significante (representação psíquica do som). 3. Sincronia e Diacronia Para Saussure (1969), o estudo Sincrônico da lı́ngua é a observação da lı́ngua num momento delimitado, num determinado ponto do tempo, num perıódo, não interessando o que aconteceu antes, nem o que poderá acontecer depois. Essa forma de analisar a língua se chama de sincronia, não se atém às transformações históricas da língua e nem a sua possível evolução. Já o estudo Diacrônico são as observações das ocorrências que aconteceram com a língua através do tempo, engloba as mudanças e transformações. Para exemplificar uma observação diacrônica podemos observar as transformações históricas: “vossa mercê”; “vosmicê”; “você”. 4. Sintagma e Paradigma ● Sintagma: São as combinações que acontecem dentro do contexto discursivo, uma palavra, um grupo de palavras ou uma frase. O sintagma acontece a partir do princípio da linearidade: são combinações consecutivas, se alinham uma após a outra, como acontece na fala. O sintagma tem duas ou mais unidades, como, por exemplo: pato = pa-to; Paulo chegou; Se fizer tempo bom, sairemos. Vimos que num sintagma cada termo linguı́stico tem um valor porque se opõe ao termo que vem antes e ao que vem após. ● Paraddigma ou Relações Assosiativas: São associações que acontecem em nossa memória com as palavras que têm alguma coisa em comum: ou o significado, ou a imagem acústica, a sonorização. Por exemplo: quando lemos ou ouvimos a palavra “livraria”, a essa palavra se associam muitas outras que estão na nossa memória, como livro, papel, arquivos, cadernos, lápis, enfim, um universo de palavras que poderão estar associadas ao significado de livraria. Outras palavras poderão ser associadas à sonorização de livraria: portaria, papelaria, pescaria. O eixo paradigmático ou eixo vertical é o eixo das relações associativas. O que dizem os estudos de Chomsky? Para Chomsky (1996), na Gramática Gerativa: ● Língua: É um objeto mental. Ou seja, a mente é o local onde a língua (um sistema de princípios) está radicada. É esse sistema de princípios mentais que é o objeto de estudo da Gramática Gerativa (VIOTTI, 2008). ● Linguagem: É uma capacidade inata, transmitida geneticamente e própria da espécie humana. Segundo Viotti (2008), a faculdade da linguagem já está formada quando a criança nasce, é comum a toda a espécie humana, é igual para todas as crianças, sejam surdas ou ouvintes. A faculdade da linguagem é um estado inicial a toda a pessoa quando nasce, é inata, faz parte da genética humana, chama-se gramática universal. A língua, “é o resultado da interação de dois fatores: o estado inicial e o curso da experiência” (CHOMSKY, 1996, p. 74). Assim sendo, se uma criança, ao nascer, passar a conviver com pessoas que falam português, o seu estado inicial da faculdade da linguagem, em interação com as informações linguísticas, vai se modificando e ela passará a falar português e não outra língua. Da mesma forma, se a criança for surda e os seus pais ou cuidadores usam a língua de sinais, a criança vai desenvolver a língua de sinais. Ao referir-se à faculdade da linguagem, Chomsky a considera como um “órgão linguístico”, como outros órgãos do corpo tais como o sistema visual, o sistema circulatório, dado o seu caráter fundamental em todos os aspectos da vida e da interação humana. SAIBA MAIS GERATIVISMO Segundo a teoria de Chomsky, todas as pessoas têm os mesmos mecanismos mentais destinados à produção e compreensão da linguagem. A faculdade da linguagem é parte da dotação genética humana, esse módulo especial, associado especificamente à língua e não às outras linguagens como a dança, a música, que se constitui o centro dos estudos da sua teoria, é chamada de GRAMÁTICA UNIVERSAL. Gramática Universal é o estado inicial, uma competência que toda a criança já traz quando nasce e está presente em todas as pessoas, sejam ouvintes ou surdas. Todas as pessoas são portadoras da faculdade da linguagem. Logo, todas possuem uma Gramática Universal. Porém, esse estado inicial da faculdade da linguagem, à medida que a criança passa a conviver num ambiente linguístico, com qualquer língua humana verbal ou a língua de sinais, a Gramática Universal vai se desenvolver e se tornar uma gramática constante, como a espanhol, o português, a LIBRAS. A preocupação da Gramática Universal são os mecanismos mentais dedicados à produção e compreensão da linguagem, em que os falantes de uma língua têm intuições sobre como devem ser as formas das sentenças. O conhecimento intuitivo era inicialmente chamado de Competência linguística, que representa o conhecimento que o falante possui sobre a sua própria língua, é o conhecimento interiorizado. Já o Desempenho linguístico representa o uso do conhecimento intuitivo, chamado de conhecimento exteriorizado. DICA DE FILME: Indicamos dois filmes importantíssimos para que você possa escolher pelo menos um deles. A primeira indicação é o filme do Menino Lobo, que evidencia a questão da aquisição de linguagem. Título: Mogli: O menino Lobo Autor: Jungle Book Ano: 2016 Sinopse: Mogli é um menino que foi criado por lobos em uma floresta indiana. Mesmo convivendo em harmonia com os animais ele é visto como uma ameaça pelo tigre Shere Kan. Temendo pela sua segurança e a do seu bando, ele decide se afastar da floresta. A segunda indicação é a do filme NELL: Título: NELL Autor: Michael Apted Ano: 1994 Sinopse: Relata a história fictícia de uma garota que é encontrada numa casa afastada da cidade. Apesar de não poder ser considerada uma criança selvagem, ela não aprendeu a falar, pois a mãe foi encontradamorta e tudo indicava que sofria algum tipo de distúrbio neurológico, mas descobriu-se que fora efeito da criação isolada (após a morte de sua mãe e irmã) e aprendizado de uma linguagem afásica de sua mãe, possível vítima de um AVC. #SAIBA MAIS# 2 A LINGUÍSTICA E AS LÍNGUAS DE SINAIS Fonte: Arquivos da autora (2021) A Libras, por ser uma lı́ngua natural, possui os mesmos fenômenos linguı́sticos comuns a todas as lı́nguas orais, podendo ser analisada nos nı́veis fonológico, morfológico, sintático, semântico e paradigmático. Por sua característica espacial, os níveis fonológico, morfológico e sintático se realizam espacialmente, uma vez que o espaço é um importante canal de constituição da língua de sinais. Assim, os estudos linguísticos das línguas de sinais partem dos mesmos pressupostos básicos, válidos tanto para as línguas orais como para as línguas visuoespaciais: as línguas são constituídas por um conjunto de princípios que fazem parte do conhecimento humano e determinam a produção oral ou viso-espacial, dependendo da modalidade das línguas, se faladas ou sinalizadas, da formação das palavras, da construção das sentenças e da construção dos textos. SAIBA MAIS Os estudos linguísticos das Línguas de Sinais iniciaram com o pesquisador linguista William Stokoe (1960) numa escola para surdos, chamada de Gallaudet College, hoje conhecida como Gallaudet University, importante centro acadêmico de pesquisas e ensino para surdos. Ele era ouvinte e desconhecia o mundo das pessoas surdas. Na escola empregava-se a oralização, a leitura labial. Através das suas observações sistemáticas, percebeu que nas situações informais, no pátio e nos corredores, os alunos usavam um conjunto de sinais para se comunicarem entre si, bem diferentes dos sinais de instrução usados nas aulas. Procurou aproximar-se dos alunos para conhecer os sinais que tinham maior força comunicativa, pois, na época, nem a língua de sinais americana era ensinada na escola. A partir das suas observações, passou a constatar que a sinalização usada pelos surdos era uma língua autônoma, com uma gramática própria. Apresentou uma análise descritiva da Língua de Sinais Americana, revolucionando a linguística da época, período em que todos os linguistas se dedicavam aos estudos da língua oral. Pela primeira vez um linguista estava apresentando elementos linguísticos de uma língua de sinais. Hoje, ainda temos poucos linguistas surdos pesquisando as línguas de sinais. VARIAÇÕES LINGUÍSTICAS: A língua é social e se realiza num determinado momento histórico e geográfico. Assim como a sociedade muda, a língua que usamos também sofre transformações. É muito comum, num mesmo país, as pessoas falarem a mesma língua de formas diversas, múltiplas. As variações são ocasionadas por diferentes fatores tais como a época, as condições econômicas, os ambientes sociais, a região geográfica, o uso das tecnologias e das redes sociais. Essas diversidades linguísticas normalmente se iniciam na fala, aparecendo depois na escrita. As línguas naturais nascem espontaneamente da necessidade de comunicação e interação entre as pessoas, são dinâmicas e estão sempre se modificando. Essa capacidade de transformação da língua chama-se variação linguística. As variações linguísticas refletem as diferentes formas das pessoas se comunicarem, muitas vezes o uso de gírias e regionalismos cumprem muito bem a função de comunicar, outras vezes há a necessidade de optar pela norma padrão da língua. As línguas de sinais também apresentam as mesmas variações que a Língua Portuguesa e as demais línguas orais. A seguir, veremos alguns tipos de variações que a língua sofre no decorrer do seu uso: ● Variação Histórica – São as modificações da língua no decorrer do tempo, por exemplo: as palavras antes escritas com ph como pharmacia - farmácia; as reduções: vosmicê – você; etc. Essas modificações também vão aparecer na língua de sinais, com o passar do tempo, um sinal pode sofrer alterações decorrentes dos costumes da geração que o utiliza. Como no exemplo do sinal AZUL Imagem 5 - Variação histórica do sinal AZUL Fonte: Arquivos da autora (2021) ● Variação Regional - São as variações ocorridas de acordo com a cultura de uma determinada região, diferentes Estados e diferentes áreas geográficas dentro de um mesmo Estado, (os chamados dialetos), como, por exemplo, a palavra mandioca, que em certas regiões é tratada por macaxeira ou aipim. Outro fator importante para a variação linguística é a origem rural ou urbana da pessoa usuária da língua oral, mas, também encontrada na língua de sinais como mostra o exemplo a seguir: Imagem 6 - Variação regional do sinal VERDE Fonte: Arquivos da autora (2021) ● Variação Social - É aquela pertencente a um grupo específico de pessoas. Neste caso, destacam-se as gírias, originadas em grupos de surfistas, ou adolescentes. Os jargões, que pertencem a uma classe profissional mais específica, como é o caso dos médicos, profissionais da informática, dentre outros. O grau de escolarização: o acesso maior ou menor à educação formal e, com ele, à cultura letrada, à prática da leitura e aos usos da escrita, é um fator muito importante na configuração dos usos linguísticos dos diferentes indivíduos. Na língua de sinais existem variações na configuração da mão e/ou no movimento, o que não modifica o sentido do sinal, apenas se adequa ao uso de determinado grupo. Por exemplo, o sinal de AVIÃO. Imagem 7 - Variação social do sinal AVIÃO Fonte: Arquivos da autora (2021) Caro(a) acadêmico(a)! A partir de agora passaremos aos estudos da fonologia, morfologia, sintaxe, semântica e pragmática da Língua Brasileira de Sinais. Os estudos de Quadros e Karnopp (2004), serão fundamentais para que possamos compreender esses conceitos enquanto áreas linguísticas que organizam e estruturam também as línguas de sinais. REFLITA ● Primeira reflexão: A língua de sinais é uma potência para as pessoas surdas, principalmente, no caso de crianças surdas que têm a língua de sinais como sua primeira língua. Temos alguns bons exemplos de sucesso de crianças surdas em famílias surdas. Destacamos a experiência vivida pela menina Fiorella, atualmente com cinco anos de idade. Os seus pais criaram o blog, “O Diário de Fiorella”, para acompanhar o desenvolvimento linguístico da menina. Com a chegada da bebê Florence, atualmente, os pais postam vídeos sobre as interações e o desenvolvimento linguístico em língua de sinais das duas filhas surdas, e ainda, acompanham o processo de alfabetização na língua portuguesa na modalidade escrita da menina Fiorella. As experiências positivas vivenciadas na prática por esta família de pessoas surdas, comprova as evidências de diversas pesquisas como as de (KING; MACKEY, 2007; KARNOPP, 1994), que apontam as línguas de sinais como possibilidade complexa que acompanha o desenvolvimento da comunicação e da cognição das crianças surdas. Você pode acompanhar todas as postagens desse diário através do link: https://www.youtube.com/channel/UC9g1xELVb53CLrS53UF4kuw/videos ● Segunda reflexão: Com a recente conquista materializada na Lei nº 14.191, de 3 de agosto de 2021 (BRASIL, 2021), a educação bilíngue de surdos passa a ser modalidade de educação na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDBEN. A língua de sinais está presente na educação bilíngue, como direito das pessoas surdas, mediante a aprovação dessa Lei, passa a ser aplicada em escolas bilíngues de surdos, classes bilíngues de surdos, escolas comuns ou em polos de educação bilíngue de surdos. O público a ser atendido será de educandos surdos, surdocegos, com deficiência auditiva sinalizantes, surdos com altas habilidades/superdotação ou com deficiências. A consolidaçãodessa conquista se deu através da rede das lutas e militâncias entre os surdos e a comunidade surda e na concretização de consistente marco teórico e legal. Dessa forma, comprovando a evidência do sucesso do acesso à língua de sinais e a comunicação em língua de sinais como um direito humano básico inegável. Fonte: BRASIL. Lei nº 14.191, de 3 de agosto de 2021. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/Lei/L14191.htm. Acesso em: 5 ago. 2021. #SAIBA MAIS# 3 FONOLOGIA DA LÍNGUA DE SINAIS Fonte: Arquivos da autora (2021) Quadros e Karnopp (2004), nos chamam a atenção para a fonologia enquanto ramo da linguística, sendo necessário compreender dois pontos fundamentais: o primeiro ponto se refere às unidades mínimas que formarão os sinais, e o segundo ponto é combinar essas unidades mínimas, levando em conta as suas variações possíveis. Salientam que o estudo da fonologia tem sido usado para conhecermos os elementos básicos das línguas de sinais, compreendendo a diferença entre as línguas orais, no que concerne à percepção e produção As autoras apontam para os estudos do pesquisador da Língua de Sinais Americana Stokoe (1960), o linguista propôs dois termos que marcam a diferença entre esses dois tipos de sistemas linguísticos: ❖ Quirema: para Stokoe, são as unidades formacionais dos sinais (configuração de mão, locação e movimento) ❖ Quirologia: que se refere ao estudo das combinações dessas unidades mínimas. A partir de 1978, Stokoe e outros pesquisadores passaram a utilizar os termos ‘fonema’ e ‘fonologia’ estendendo seus significados de modo a abarcar a realização linguística visual-espacial, compreendendo que as línguas de sinais são línguas naturais, que compartilham princípios linguísticos subjacentes com as línguas orais, apesar das diferenças de superfície entre fala e sinal (KLIMA e BELLUGI, 1979; WILBUR, 1976; HULST, 1993). As línguas de sinais apresentam: ❖ Léxico: conjunto de símbolos convencionais. ❖ Gramática: sistema de regras que regem o uso dos símbolos convencionais. E apresenta também a hipótese de que a forma das línguas de sinais é determinada pela gramática universal inata e pela interação entre percepção visual e produção gestual. Análises das unidades formacionais dos sinais, posteriores a de Stokoe, sugeriram a adição de informações referentes à (orientação de mão e expressões faciais/corporais), Battison, 1974, 1978. Esses dois parâmetros foram, então, adicionados aos estudos da fonologia. A organização fonológica da língua de sinais está dividida em: ❖ Parâmetros Primários: são as mãos (configuração de mãos), que se movimentam no espaço em frente ao corpo do interlocutor (movimentos) e o espaço onde se articulam os sinais em determinados pontos (locações). ❖ Parâmetros Secundários: as mãos se posicionam de acordo com o movimento (orientação de mãos) e o interlocutor usa várias expressões corporais e faciais como elementos extralinguísticos. SAIBA MAIS A fonética e a fonologia das línguas de sinais são áreas da linguística que estudam as unidades mínimas dos sinais que não apresentam significado isoladamente. Por terem o mesmo objeto de estudo, são áreas relacionadas. Portanto: ● A fonética se preocupa em descrever as unidades mínimas dos sinais, descreve as propriedades físicas, articulatórias e perceptivas de configuração e orientação de mão, movimento, ponto de articulação e expressão facial/corporal. Ou seja, é a área que investiga o aspecto material das unidades mínimas das línguas de sinais, as bases visuais relacionadas com a percepção e as bases fisiológicas relacionadas com a produção, suas unidades básicas são transcritas entre colchetes [ ]. ● A fonologia das línguas de sinais é um ramo da linguística que objetiva identificar a estrutura e a organização dos constituintes fonológicos, propondo modelos descritivos e explanatórios. A primeira tarefa da fonologia é determinar quais são as unidades mínimas que formam os sinais. A segunda tarefa é estabelecer quais são os padrões possíveis de combinação entre essas unidades e as variações permitidas/possíveis no ambiente fonológico. A fonologia estuda as diferenças percebidas e produzidas relacionadas com as diferenças de significado. #SAIBA MAIS# Com base nessas informações introdutórias, é hora de apresentar detalhadamente as propriedades de cada Parâmetro em Língua Brasileira de Sinais, isso significa conhecermos as propriedades de Configuração de Mão, Ponto de Articulação (Locação), Movimento, Orientação da Mão e Expressão Facial/Corporal. 1. Configuração de Mão (CM) São formas das mãos, que podem ser da datilologia (alfabeto manual) ou outras formas feitas pela mão predominante (mão direita para os destros), ou pelas duas mãos do emissor ou sinalizador. As configurações de mão não se restringem às configurações do alfabeto manual, e hoje são descritas mais de 60 diferentes configurações que permitem a comunicação em Libras. A seguir, mostra-se a figura com 61 configurações de mão. Imagem 8 - Configurações de Mão Fonte: Arquivos da autora (2021) ● Leoa Guerreira Link: https://www.youtube.com/watch?v=rfnKoCXmSg4 Acesso em: 30 out. 2021. O vídeo acima mostra a história Leoa Guerreira, de Vanessa Lima, que apresenta a narrativa usando a mesma configuração de mão em forma de garra da leoa, como podemos observar nos sinais: LUTAR, DESISTIR, NÃO, CANSAR, FLORESTA, SOL, CALOR, LIMPAR-O-SUOR-DA-TESTA, OLHAR-A-DISTÂNCIA, TRABALHAR, DIFÍCIL, VAMOS e GRUPO. 2. Ponto de Articulação Stokoe (1960) define Locação ou Ponto de Articulação como um dos três principais aspectos formacionais da Língua Americana de Sinais (ASL). Friedman (1977, p.4) afirma que locação “é aquela área no corpo, ou no espaço de articulação definido pelo corpo em que ou perto da qual o sinal é articulado.” Na Língua Brasileira de Sinais (Libras) até o momento investigadas, o espaço de enunciação é uma área que contém todos os pontos dentro do raio de alcance das mãos em que os sinais são articulados. Ferreira-Brito e Langevin (1995) adaptaram para a Libras as locações, dividindo-as em quatro regiões principais: cabeça (topo da cabeça, testa, rosto, parte superior e inferior do rosto, orelha, olhos, nariz, boca, bochechas e queixo); mão (palma, dorso da mão, lado indicador, lado do dedo mínimo, dedos, pontas dos dedos, anelar, dedo médio, indicador e polegar); tronco (pescoço, ombro, busto, estômago, cintura, braço, antebraço, cotovelo e pulso) e espaço neutro. Vamos ver como esses pontos de articulações ou locações podem ser visualizadas no poema a seguir. ● Árvore Link: https://vimeo.com/267272296/e685ec89f9 Acesso em: 30 out. 2021 O poema Árvore, de André Luiz Conceição, traz a narrativa poética toda contada usando o antebraço na horizontal como Ponto de Articulação ou Locação se referindo a terra, e com o uso de classificadores e de incorporação, tem-se a plantação da árvore, a passagem do tempo através do movimento circular do sol. 3. Movimento Os movimentos identificados na Língua Brasileira de Sinais por Ferreira-Brito (1995) apresentam traços referentes ao tipo, direcionalidade, maneira e frequência do movimento. Assim, a autora menciona que o movimento pode estar nas mãos, pulsos e antebraço; os movimentos direcionais podem ser unidirecionais, bidirecionais ou multidirecionais; a maneira é a categoria que descreve a qualidade, a tensão e a velocidade do movimento; a frequência refere-se ao número de repetições de um movimento. Strobel e Fernandes (1998) apresentam os tipos de movimentos: retilíneo, circular, semicircular, angular, sinuoso, helicoidal e movimento estático. No link a seguir podemos contemplar no poema alguns tipos de movimentosem Libras. ● Homenagem Santa Maria/RS Link: https://www.youtube.com/watch?v=9LtOP-LLx0Y Acesso em: 30 out. 2021. O poema Homenagem Santa Maria/RS, de Alan Henry Godinho, é um lamento em homenagem aos jovens da cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que morreram em um trágico incêndio em uma festa de formatura em 2013. Nesse poema, o artista fala dos jovens como se fossem muitas flores ou estrelas. Sobre as flores, sabemos que são lindas, mas, que vivem pouco tempo. Compara as flores com a vida dos jovens. Depois, fala deles como se fossem estrelas. As estrelas também são lindas, mas elas duram muito tempo. Então, compara as estrelas com a memória dos jovens. Sabemos que eles não são flores nem estrelas, tampouco pássaros que voam para o céu (o que o poeta também menciona), mas as ideias dentro do poema são metáforas concretas (flores, estrelas, pássaros) que mostram conceitos abstratos (vida, memória e paz). Nesse poema encontramos vários tipos de movimentos utilizados na narrativa para execução dos sinais como: SOFRER (movimento retilíneo); FAMÍLIA (movimento circular); sinal: SANTA MARIA (movimento semicircular); PAZ (movimento angular); BRASIL (movimento sinuoso); ABRAÇO (movimento estático). 4. Orientação da Mão Battiston (1974) e outros pesquisadores argumentaram em favor da inclusão do parâmetro orientação da mão na fonologia das línguas de sinais com base na existência de pares mínimos em sinais que apresentam mudança de significado apenas na produção de distintas orientações da palma da mão (BATTISTON, 1974; BELLUGI, KLIMA e SIPLE, 1975). Por definição, a orientação é a direção para a qual a palma da mão aponta na produção do sinal. Ferreira-Brito (1995, p. 41), “na Libras”, e Marentette (1995, p. 204), “na ASL, enumeram seis tipos de orientações da palma da mão na Libras: palma para cima, para baixo, para o corpo, para frente, para o lado direito ou esquerdo.” Entenda como as mãos usam as direções para executar os sinais no poema a seguir. ● Peixe Link: https://www.youtube.com/watch?v=LEDC479z_vo Acesso em: 30 out. 2021 No poema Peixe, de Renato Nunes, pode ser observado a direcionalidade das mãos no uso da narrativa poética sobre a natureza, com apenas a mão aberta como configuração de mão, o narrador fala da água (palma da mão para baixo); de um peixe (palma da mão para o corpo); fala do sol (palma da mão para baixo), sugerindo o verão. O desfecho inesperado da narrativa acontece quando o peixe bate no vidro do aquário (palma da mão para o lado) e entendemos que ele não está livre na natureza. 5. Expressões Faciais e Corporais As expressões não-manuais (movimentos da face, dos olhos, da cabeça ou do tronco) prestam-se a dois papéis nas línguas de sinais: marcação sintática e diferenciação de itens lexicais. As expressões não-manuais que têm função sintática marcam sentenças interrogativas sim-não, interrogativas, orações relativas, topicalização, concordância e foco. As expressões não-manuais que constituem componentes lexicais marcam referência específica, referência pronominal, partícula negativa, advérbio, grau ou aspecto. Ferreira-Brito e Langevin (1995), baseados no trabalho de Baker (1983), identificam as expressões não-manuais da Libras, as quais são encontradas no rosto, na cabeça e no tronco. É necessário salientar que duas expressões não-manuais podem ocorrer simultaneamente, por exemplo, as marcas de interrogação e negação. Assista o vídeo a seguir e comprove como esses articuladores não-manuais estão presentes nas construções sintáticas da Libras. ● Golf Ball Link: https://www.youtube.com/watch?v=Gl3vqLeOyEE Acesso em: 30 out. 2021 Às vezes os articuladores não-manuais são os principais articuladores ou, até mesmo, os únicos. Em Golf Ball, a narrativa apresentada por Stefan Goldschmidt é sinalizada totalmente com os olhos, a boca e a cabeça, mostrando como a bola de golf se sente e se move sem nenhum sinal manual. 4 MORFOLOGIA DA LÍNGUA DE SINAIS Fonte: Arquivos da autora (2021) Quadros e Karnopp (2004, p. 86) definem que: Morfologia é o estudo da estrutura interna das palavras ou dos sinais, assim como das regras que determinam a formação das palavras. A palavra morfema deriva do grego morphé, que significa forma. Os morfemas são as unidades mínimas de significado. Alguns morfemas por si só constituem palavras, outros nunca formam palavras, apenas constituindo partes de palavras. Dessa forma, têm-se os morfemas presos que, em geral são sufixos e os prefixos, uma vez que não podem ocorrer isoladamente, e os morfemas livres que constituem palavras. Mas, na medida em que se pode formar palavras a partir de outras palavras, é importante reconhecer que as palavras podem ser unidades complexas, construídas de mais de um elemento. Nas línguas de sinais há descrições que se referem aos processos derivacionais e flexionais. É importante dizer que, existe um consenso no sentido de se entender os processos envolvendo a combinação de aglutinação e incorporação. ❖ Derivação nas línguas de sinais - Derivação de verbos Imagem 9 - CADEIRA (substantivo com movimento repetitivo) SENTAR (movimento do verbo se faz em uma vez só) Fonte: Arquivos da autora (2021) - Formação de compostos Imagem 10 - Sinal composto Fonte: Arquivos da autora (2021) - Incorporação de numeral (a incorporação de números é, no máximo, de quatro). Imagem 11 - Sinal: 2 DIAS - Sinal: 2 MESES Fonte: Arquivos da autora (2021) - Incorporação da negação Imagem 12 - NÃO-QUERER (movimento da cabeça de um lado para o outro junto com o sinal) Fonte: Arquivos da autora (2021) ❖ Flexão nas línguas de sinais Existem vários processos de flexão descritos na Língua de Sinais Americana – ASL. Os primeiros estudos realizados por Klima e Bellugi (1979) apresentam oito diferentes processos: 1) Pessoa (dêixis): flexão que muda as referências pessoais no verbo. Imagem 13 - Pronomes (dêixis) Fonte: Arquivos da autora (2021) 2) Número: flexão que indica o singular, o dual, o trial, e o múltiplo. Imagem 14 - EU ENTREGAR VOCÊ - VOCÊ ENTREGAR EU - EL@ ENTREGAR EL@ Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora 3) Grau: apresenta distinções para ‘menor’, ‘mais próximo’, ‘muito’ etc. 4) Modo: apresenta distinções, tais como os graus de facilidade. Imagem 15 - CASA PEQUENA - CASA GRANDE - GORD@ muito - ALT@ muito Fonte: Arquivos da autora (2021) 5) Reciprocidade: indica relação ou ação mútua. Imagem 16 - OLHAR (recíproco) Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora 6) Foco temporal: indica aspectos temporais, tais como ‘início’, ‘aumento’, ‘graduação’, ‘progresso’, ‘consequência’ etc. 7) Aspecto temporal: indica distinções de tempo, tais como ‘há muito tempo’, ‘por muito tempo’, ‘regularmente’, ‘continuamente’, ‘incessantemente’, ‘repetidamente’, ‘caracteristicamente', etc. As flexões de foco e aspecto temporal são diferentes das flexões aspecto distributivo, uma vez que se referem exclusivamente à distribuição temporal sem incluir a flexão de número. Imagem 17 - ONTEM - ANTEONTEM - ANO-PASSADO Fonte: Arquivos da autora (2021) Imagem 18 - CUIDAR (incessante) Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora 8) Aspecto distributivo: indica distinções, tais como ‘cada’, ‘alguns especificados’, ‘alguns não-especificados’, ‘para todos’ etc. Imagem 19 - AVISAR-TOD@ Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora SAIBA MAIS DÊIXIS: palavra grega que significa ‘apontar’ ou ‘indicar’ - descreve uma forma particular de estabelecer nominais no espaço que são utilizados pelos verbos com concordância como parte de sua flexão. A função dêitica em língua de sinais, como na Libras, émarcada através da apontação propriamente dita. Os referentes são introduzidos no espaço à frente do sinalizador, através da apontação em diferentes locais. As formas verbais para pessoa são estabelecidas através do início e fim do movimento e da direção do verbo, incorporando estes pontos previamente indicados no espaço para determinados referentes. #SAIBA MAIS# 5 SINTAXE DA LÍNGUA DE SINAIS Fonte: Arquivos da autora (2021) Quadros e Karnopp (2004, p.127) introduzem os estudos sobre a sintaxe da língua de sinais, com base na organização espacial. Segundo as autoras, “a Libras, espalhada por todas as regiões brasileiras, é organizada espacialmente de forma tão complexa quanto às línguas orais. Analisar alguns aspectos da sintaxe de uma língua de sinais requer ‘enxergar’ esse sistema que é visuo-espacial.” No espaço em que são realizados os sinais, o estabelecimento nominal e o uso do sistema pronominal são fundamentais para as relações sintáticas. De acordo com Baker e Cokely (1980, p.227), “o local no espaço de sinalização (espaço definido na frente do corpo do sinalizador) pode ser referido através de vários mecanismos espaciais”, como nos exemplos a seguir: a) Fazer o sinal em um local particular Imagem 20 - CASA (do João) - CASA (do Pedro) Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora b) Direcionar a cabeça e os olhos (e talvez o corpo) em direção a uma localização particular simultaneamente com o sinal de um substantivo ou com a apontação para o substantivo. Imagem 21 - CASA - XI (casa) Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora c) Usar a apontação ostensiva antes do sinal de um referente específico (por exemplo, apontar para o ponto ‘a’ associando esta apontação com o sinal CASA; assim o ponto ‘a’ passa a referir CASA). Imagem 22 - XI CASA Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora d) Usar um pronome (apontação ostensiva) numa localização particular quando a referência for óbvia. Imagem 23 - IX (casa) NOVA Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora e) Usar um classificador (que representa aquele referente) em uma localização particular. Imagem 24 - CARRO CL (carro passou um pelo outro) Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora f) Usar um verbo direcional (com concordância) incorporando os referentes previamente introduzidos no espaço. Imagem 25 - (eu) IR (casa) Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora Quadros e Karnopp (2004, p. 20-21) Sintaxe é o estudo da estrutura da frase, ou seja, da combinação das unidades significativas da frase. A sintaxe trata das funções, das formas e das partes do discurso. É parte da linguística que estuda a estrutura interna das sentenças e a relação interna entre suas partes. Nesse sentido, a sintaxe combina palavras de forma recursiva observando restrições impostas por princípios que a determinam. ❖ Formação de Frase Em primeiro lugar, vamos entender que o sistema pronominal e de concordância verbal são espaciais e depois trataremos dos mecanismos espaciais elaborados por Siple (1984 apud QUADROS; PIZZIO; REZENDE, 2009). Na literatura americana, os linguistas Bellugi e Klima (1982 apud QUADROS; PIZZIO; REZENDE, 2009) já deixaram claro que a formação de frase sintática com referência pronominal, concordância verbal e relações gramaticais na Língua Brasileira de Sinais também é “apontada”, assim como na Língua de Sinais Americana. O tipo de apontação mencionada acima é produzida tanto com referentes presentes como com referentes não presentes e referente anafórico no contexto do discurso. SAIBA MAIS ● Referente presente: Referente presente é o elemento envolvido no discurso (a primeira, a segunda e a terceira pessoa) e, para apontar determinado referente, utiliza-se o dedo indicador apontando para quem o sinalizante se refere. ● Referente ausente: apontação é direcionada a um local espacial já convencionado (arbitrário mesmo que seja invisível), ao longo do plano horizontal ou frontal, em frente ao corpo ou ao lado do sinalizador. Pode ser usada para referir-se a objetos, pessoas e lugares no espaço. ● Referente anafórico: é a referência nominal, chamada de correferente, que requer que o sinalizante aponte (olhe ou gire o corpo) para um local estabelecido uma vez e depois volte a apontar duas ou três vezes, depois de outro local estabelecido, referindo àquele nominal, dependendo do discurso e do contexto introduzido. ● Símbolo IX: é o índice da marcação do co-referente pronominal. Os números que acompanham os índices XI1, XI2, XI3, etc., são as sequências nas quais o sinalizador quer referir o espaço em que o referente está presente, mesmo ausente. #SAIBA MAIS# Na frase sintática em Língua de Sinais Brasileira há formação de frases interrogativas. É muito comum usar a expressão facial quando se quer fazer pergunta: Imagem 26 - Frases interrogativas nas Libras: COMO? O QUÊ? QUERER? PODE? POR QUÊ? ONDE? Fonte: Arquivo da autora (2021) As expressões faciais requerem muitos exercícios faciais, compreendendo as seguintes feições: • sobrancelhas levantadas; • sobrancelhas abaixadas e cabeça levantada; • sobrancelhas franzidas; • movimento lateral da cabeça com a boca para baixo; • assentimento; • assentimento rápido; • sobrancelhas levantadas e boca aberta; • sobrancelhas franzidas e boca torta para baixo. ❖ Formação de verbos Padden (1983 apud QUADROS; PIZZIO; REZENDE, 2008) mostra as formas de verbos da Língua de Sinais Americana que podem ser utilizadas na formação de frases sintáticas em Libras. São elas: a) Verbos simples Os verbos simples não se flexionam em pessoa e número e não aceitam afixos locativos, por exemplo, os verbos: Imagem 27 - CONHECER - ANDAR - CHEGAR Fonte: Arquivos da autora (2021) b) Verbos classificadores Outra característica da língua de sinais diz respeito à iconicidade, com a utilização de Configuração de Mãos. As línguas de sinais apresentam sinais que são icônicos, ou seja, que representam nitidamente o referente, como, por exemplo, o sinal de casa, tornando o sinal transparente e permitindo que a compreensão do significado seja mais facilmente apreendida. Imagem 28 - ANDAR Fonte: Arquivos da autora (2021) c) Verbos manuais Representam ações em que uma pessoa está segurando ou fazendo alguma coisa com os instrumentos “invisíveis”. Imagem 29 - PASSAR-BATOM Fonte: Quadros e Karnopp (2004), adaptado pela autora 6 SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA DA LÍNGUA DE SINAIS Fonte: Arquivos da autora (2021) ❖ Semântica Para Quadros e Karnopp A semântica estuda o significado da palavra e da sentença. A semântica trata da natureza, da função e do uso dos significados determinados ou pressupostos. É a parte da linguística que estuda a natureza do significado individual das palavras e do agrupamento das palavras nas sentenças, que pode apresentar variações regionais e sociais nos diferentes dialetos de uma língua. Para além desse tipo de significado, há aquele do utente da língua que pode incluir o literal e o não- literal das expressões (casos de ironias e metáforas, por exemplo). (2004, p. 21- 22) Apesar dessas variações, existem limites nos significados de cada expressão, ou seja, os utentes não podem usar expressões para significar o que bem entendem. Se fizerem isso, provavelmente serão mal-interpretados ou não-compreendidos. Portanto, o “significado” ou “significados” de uma expressão linguística apresentam características comuns compartilhadas entre os utentes de uma língua. Uma descrição semântica poderá ser feita ao nível da palavra, da frase e, ainda,do discurso. “Ambiguidade” no significado pode ser descrita em todos os níveis. Por exemplo, no nível lexical, a palavra ‘manga’ pode significar uma parte do vestuário ou uma fruta. No nível da frase, há ambiguidade estrutural, em que uma sentença do tipo ‘O João disse a Pedro que sua mulher foi para o hospital’, apresenta dois significados possíveis: ‘sua mulher’ refere à mulher de Pedro ou à mulher de João. No nível do discurso os termos referenciais como ‘ele’, ‘essa’, ‘seu’ podem ser ambíguos. A habilidade dos seres humanos de identificar e evitar a ambiguidade é uma das questões que a semântica investiga. No nível da palavra, existem a antonímia e a sinonímia, entre outros aspectos analisados pela semântica. Assim, as oposições observadas entre pares de palavras como ‘bonito’ e ‘feio’, ‘quente’ e frio’, bem como as similaridades que aproximam o significado de diferentes palavras, tais como ‘belo’ e ‘bonito’, são exemplos de antonímia e sinonímia, respectivamente. Os traços que identificam cada palavra parecem coincidir ou não, provocando tais aproximações e oposições entre os significados de diferentes palavras. A semântica busca conhecer e definir tais traços. As sentenças também podem ser consideradas sinônimas. Por exemplo: ‘O assaltante atacou o João’ e ‘O João foi atacado pelo assaltante’, apresentam significados equivalentes. Enfim, a semântica busca desvendar as propriedades dos significados nos diferentes níveis de expressão. ❖ Pragmática É o estudo da linguagem em uso (contexto) e dos princípios de comunicação. Essa definição citada por Quadros e Karnopp (2004, p. 22-23), “é considerada tradicional; no entanto, vale registrar que há várias tendências ao definir-se a área da pragmática.” A Pragmática envolve as relações entre linguagem e o contexto. É uma área que inclui os estudos da dêixis (utilização de elementos da linguagem através da demonstração – indicação -, que envolve basicamente os pronomes), das pressuposições (inferências e antecipações com base no que foi dito), dos atos de fala (como se organizam os atos de fala e quais as condições que observam), das implicaturas (as coisas que estão subentendidas nas entrelinhas, incluindo o significado que não foi dito explicitamente) e dos aspectos da estrutura conversacional (a estrutura das conversas entre duas ou mais pessoas e a organização da tomada de turnos durante a conversação). Um exemplo de implicatura seria: a) - Você tem horas? - Nove e trinta. Ninguém responde a pergunta em (a) com um ‘sim’, mas com a hora. Isso acontece porque os falantes implicam que ao ser realizada tal pergunta quer-se obter a informação referente à hora e não ao fato de ter ou não o relógio. Esse é um exemplo de como o significado ultrapassa as fronteiras do que realmente foi dito. Um exemplo de pressuposição seria: ‘João morreu num acidente de carro’. Essa informação pressupõe que ‘João um dia estava vivo’, apesar de isso não ser dito explicitamente. A pragmática busca desvendar as estratégias, as formas, as intuições e as estruturas que são acionadas pelos utentes ao usarem a língua. CONSIDERAÇÕES FINAIS A presente Unidade de Estudos esteve ancorada nas pesquisas de Quadros e Karnopp (2004), autoras referência nos assuntos linguísticos da Língua Brasileira de Sinais. Sendo assim, foi possível abordar no tópico 1 os aspectos da fonologia dos sinais na Língua Brasileira de Sinais. Vimos a organização fonológica dos sinais, dando destaque aos termos, aos conceitos da área de articulação, às unidades formacionais dos sinais e apresentamos vários exemplos para elucidar as teorias da literatura sobre a fonologia da Libras na descrição dos parâmetros fonológicos: configurações de mão (CM), movimento (M), locações (L) ou ponto de articulação (PA), orientação da mão (Or) e expressões faciais e corporais ou não-manuais (ENM). No tópico 2 enfatizamos a morfologia como estrutura complexa da Língua Brasileira de Sinais, apresentamos os aspectos, as propriedades e a formação dos léxicos na morfologia que podem mudar o significado e o sentido. O texto apresentou cada processo morfológico da língua de sinais, o que nos permitiu ‘exercitar os olhos’ e refletir sobre cada formação de sinais e sua descrição imagética, pois elas podem descrever cada objeto, animais e pessoas. O tópico 3 trouxe as definições dos processos sintáticos de língua de sinais e a forma de identificar a formação de frases. Vimos que para formar uma frase, é necessário nomear as marcas da formação de interrogativa, de acordo com o contexto. Sem falar da inserção dos verbos e a concordância da língua de sinais. As construções sintáticas dão mais significado e sentido nas captações visuais e mentais, reconhecendo cada elemento na gramática da Libras. Por fim, mas não no fim, porque acreditamos que a partir desses estudos introdutórios, você acadêmico(a), poderá continuar ampliando seus estudos e conhecimentos, o tópico 4, ainda seguindo as pesquisas de Quadros e Karnopp (2004), compreendemos que na Língua Brasileira de Sinais é possível criar um novo sinal utilizando um significado já existente, porém um contexto que requer uma classe gramatical diferente. Os níveis semântico e pragmático são os estudos dos significados individuais de um sinal, do agrupamento de frases, e descrevem a significação dos sinais no contexto e no discurso. LEITURA COMPLEMENTAR Caro(a) Acadêmico(a)! Ao longo deste material didático apresentamos inúmeros profissionais surdos e ouvintes, grandes inventores, que se debruçaram a estudar, pesquisar e divulgar a Língua Brasileira de Sinais, trazendo-nos importantes bases teóricas e práticas que hoje são destaques para nossos futuros estudos e pesquisas. Não teríamos condições de apresentar todos os pesquisadores que mencionamos, porém, fica aqui uma dica para que você a partir dos seus estudos busque complementar suas leituras, conhecendo esses e outros autores, com suas histórias, pesquisas, invenções, experiências, militâncias e engajamentos. Bem, vamos conhecer alguns desses pesquisadores? ● GLÁDIS PERLIN Reconhecida como uma das maiores especialistas brasileiras na temática da surdez. Constata-se também que 90% dos trabalhos de pesquisa na área da surdez ou que tenham relação com estudos de linguística voltados para a Libras fazem referência a algum de seus artigos ou à sua famosa tese de Doutorado, intitulada "O ser e o estar sendo surdo: alteridade, diferença e identidade”. Possui graduação em Licenciatura em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1987), mestrado (1998) e doutorado em educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2003). Foi a primeira surda a obter o título de doutora no Brasil. Atualmente, é professora adjunta da Universidade Federal de Santa Catarina. Tem experiência na área de educação, com ênfase em educação de surdo, atuando, principalmente, nos seguintes temas: surdo, identidade, alteridade, diferença, cultura, educação. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/9965241502111110 ● ANA REGINA CAMPELLO Possui graduação em Pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1996), graduação em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade Santa Úrsula (1981) e Doutorado em educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (2008). Tem experiência na área de educação e Linguística, com ênfase em educação Bilíngue, Inclusiva e Sociolinguística, atuando principalmente nos seguintes temas: língua de sinais, educação dos surdos-mudos, educação inclusiva, intérprete de língua de sinais, comunidade surda-muda e defesa dos direitos dos surdos-mudos. Proficiência em PROLIBRAS e da Língua Portuguesa (CELPE). Atualmente, é professora adjunta do INES – InstitutoNacional de Educação de Surdos na disciplina: Estudos Surdos e Prática Pedagógica. Também ministra Ensino de Línguas: LSB e professora colaboradora de uma das Disciplinas de Estudos da Tradução na UFSC – Santa Catarina e do CMPDI – Curso de Mestrado Profissional Diversidade e Inclusão da UFF – Universidade Federal Fluminense, nas disciplinas Libras II e III, e ASL. Participa como vice-coordenadora do NPDIS desde 2013 e coordenadora do Projeto de Pesquisa do DESU/INES: Instrução em Libras como L1 e L2 desde 2015. Coordenadora do GT da ANPOLL. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/6945261731062194 ● KARIN STROBEL Durante quase 25 anos trabalhou como professora de surdos em escolas de surdos na cidade de Curitiba-PR e por 10 anos fez parte da equipe pedagógica da DEE/SEED (Secretaria de Educação do Paraná). Doutora na área de educação na Universidade Federal de Santa Catarina UFSC (bolsista CNPq), formada em pedagogia da UTP (Universidade Tuiuti do Paraná) e com especialização em área de surdez. Autora do livro “As imagens do outro sobre a cultura surda". Atualmente, faz parte da equipe de Letras/Libras da UFSC como professora das disciplinas "Fundamentos de educação dos surdos", "História de educação dos surdos", "Metodologia de ensino de Libras como Língua 1", "Metodologia de ensino de Literatura surda" e outras disciplinas afins. Assumiu a coordenação geral de Letras-Libras em 2013. Tem experiência com ênfase em educação, atuando principalmente nos seguintes temas: língua de sinais, educação, surdos, linguística e metodologia de língua de sinais. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/6652911914719737 ● NELSON PIMENTA Primeiro ator surdo a se profissionalizar no Brasil, estudou na New York National Theatre of the Deaf (NTD), é mestre e doutor em Estudos da Tradução pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e se formou em Letras-Libras na UFSC e em cinema na Universidade Estácio de Sá.Tem certificação PROLIBRAS-MEC-UFSC como professor de nível superior e é autor/coautor de 15 livros em Libras. Tem experiência na área de Linguagem, com ênfase em Língua Brasileira de Sinais. É professor titular do Departamento de Educação Básica no INES. De 1999 a 2013 atuou na empresa de educação LSB Vídeo, com a missão de contribuir para o fortalecimento da identidade e da cultura surda através da difusão da língua de sinais brasileira, que além de produzir material de ensino-aprendizagem em Libras, participou em importantes eventos artísticos, culturais e científicos, como o Programa de Planetário do Rio de Janeiro em Libras, o 1º Encontro Internacional de Arte e Cultura Surda em São Paulo e o espetáculo teatral "Nelson 6 ao Vivo", que cobriu mais de vinte cidades do Brasil por mais de uma década. Participou na fundação da FENEIS na década de 1980 e vários grupos de pesquisa linguística no INES e UFRJ. Atualmente participa do grupo de pesquisa Método Eletrônico. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/5120615815365350 ● RIMAR SEGALLA Doutorando em Linguística pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP) e Mestre em Estudos da Tradução pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC - 2010). Possui graduação em Letras Libras (Licenciatura) pela Universidade Federal de Santa Catarina (2012) e em Matemática pelo Centro Universitário Assunção (2004). Atualmente é Professor Assistente II do Departamento de Psicologia no Curso de Bacharelado em Tradução e Interpretação em Libras e Língua Portuguesa da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Tem experiência na área de Letras, tradução, educação, arte e literatura com ênfase em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/4770939741538780 ● SUELI RAMALHO SEGALA Surda de familiares de três gerações surdas, bilíngue nativa de duas línguas , LIBRAS e Português, Especialista em Libras e Inclusão de pessoas surdas nas áreas educacionais e empresariais, ATRIZ com DRT sob Número 224909/SP, formação no Galpão de Folias CLOWN, possui Lato Sensu nível de especialização em Gestão Estratégica de pessoas, Graduada em Letras Português/Espanhol pelo Centro Universitário Sant'Anna, também graduada em Letras LIBRAS pela UFSC no polo da USP, Autodidata, Especialista em Língua de Sinais, ministra aulas como Professora de Pós-Graduação e Graduação na Universidade Nove de Julho em São Paulo, e professora convidada para outros centros universitários Fênix,Faccamp, Uníntese/RS e em outras Universidades, Orientadora de TCC, monografias a nível de Pós Graduação em Libras e Educação Inclusiva, foi Coordenadora de Inclusão/LIBRAS no Centro Universitário Sant'Anna, docente em LIBRAS no curso da área de Saúde, Humanas, Exatas, presta Consultoria em Inclusão e Libras promovendo acessibilidade em Teatros e espaços culturais, formação para Tradutores e Intérpretes de língua de Sinais, Docentes, e comunicação para pessoas em geral. Palestrante acerca da LIBRAS, PESSOA SURDA e Inclusão, Coautora de várias obras em língua de sinais, Editora Panda, Escala Educacional,Ed. Mucédola roteirista pela companhia Cia. Arte e Silêncio acerca da área de Libras e surdez. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/2633237655107969 ● MARIANNE STUMPF Possui graduação em tecnologia de informática pela Universidade Luterana do Brasil (2000), graduação em Educação de Surdos pela Universidade de Santa Cruz do Sul (2004) e doutorado em Informática na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com estágio na Universidade de Paul Sabatier e Universidade de Paris 8 (2001-2005). Pós-doutorado na Universidade Católica Portuguesa (2013-2014). Atualmente é professor associado da Universidade Federal de Santa Catarina, professora de pós graduação em linguística da USFC. Vice-diretora do Centro de Comunicação e Expressão CCE. Líder do Grupo de Pesquisa de Estudos sobre o SignWriting registrado no CNPq. Líder do Grupo de Pesquisa Léxico e terminologia em Libras: tradução, validação e tecnologia registrado no CNPq (www.glossário.libras.ufsc.br). Tem experiência de 20 anos na área de Educação, com ênfase em Educação de Surdos, atuando principalmente nos seguintes temas: formação de professores de libras, escrita de sinais pelo sistema SignWriting, traduções, terminologia de libras, sinais internacionais e formação de intérpretes de libras. Membro da comissão de assessoramento técnico-pedagógico em Libras da DAEB/INEP e as traduções de Enem 2017, 2018, 2019 e 2020 em Libras. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/4624844037162346 ● RONICE QUADROS Ronice Müller de Quadros é professora e pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina desde 2002 e pesquisadora do CNPQ - PQ1C, com pesquisas relacionadas ao estudo das línguas de sinais, desde 2006. Pedagoga (1992), Mestre (1995) e Doutora (1999) em Linguística pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, com estágio por 18 meses na University of Connecticut (1997-1998) com pesquisas voltadas para a gramática da Libras e a aquisição da Libras. Pós-doutora pela Gallaudet University e University of Connecticut (2009-2010) com pesquisas relacionadas ao desenvolvimento bilíngue bimodal (crianças usuárias de Libras e Português e crianças usuárias de ASL e Inglês), com financiamento da NIH e do CNPQ (2009-2014) e pós-doutora na Harvard University com pesquisas com as línguas de bilíngues bimodais (Libras e Português e ASL e Inglês), com financiamento do CNPQ (2015-2016). A Prof. Quadros consolidou o Núcleo de Aquisição de Línguas de Sinais (NALS) na Universidade Federal de Santa Catarina com dados longitudinais e experimentais de crianças surdas e crianças ouvintes bilíngues bimodais (2002-atual) e o Grupo de Pesquisa Corpus de Libras(2014-atual), integrante do Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPQ, que está vinculado aos projetos de pesquisas envolvendo a documentação de Libras. A Prof. Quadros está coordenando a consolidação do Inventário Nacional de Libras que inclui vários subprojetos para composição da documentação da Libras, contando com financiamento do CNPQ e do Ministério da Cultura. Estes projetos já estão sendo disponibilizados no atual Portal de Libras www.libras.ufsc.br, em especial, na página do www.corpuslibras.ufsc.br. Também faz parte do Projeto de Sobreposição de Línguas em Bilíngues Bimodais, que conta com financiamento parcial da NSF, em parceria com a University of Connecticut, relacionado com o projeto em crianças bilíngues bimodais http://bibibi.uconn.edu/index.html. Tem experiência na área de Lingüística, com ênfase em Psicolinguística e Linguística Aplicada, atuando principalmente nos seguintes temas: língua de sinais brasileira, aquisição da língua de sinais, bilinguismo bimodal, línguas de herança, educação de surdos e tradução e interpretação de língua de sinais. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/7307577422387099 ● LUCINDA FERREIRA BRITO Possui graduação em Letras-Portugues pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1971), mestrado em Lingüística pela Universidade de São Paulo (1974) e doutorado - Université de Paris IV (1977). Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trabalha desde 1977 nas áreas Semântica e Pragmática da Lingüística, com ênfase em Teoria e Análise Lingüística, focalizando, principalmente, os seguintes temas: significado, cognição, espaço, dêixis, pressuposição, atos de fala e categorização gramatical do contexto. Desde 1979, vem trabalhando com as línguas de sinais do Brasil, a LIBRAS e a LSKB (língua de sinais dos índios Urubus-Kaapor da Floresta Amazônica). No estágio de pós-doutorado em Berkeley, trabalhou, na Faculdade de Filosofia, com teoria dos atos de fala, junto a J. Searle e, no Departamento de Lingüística, no segundo ano, com semântica e pragmática, bem como aquisição, junto aos professores C. Fillmore, G. Lakoff, S. Ervin-Tripp, Gumperz, P. Kay, Slobin e outros. No estágio de pós-doutorado em Nijmegen, seu trabalho junto a S. Levinson e G. Senft, centralizou-se mais na área de Pragmática e em questões de espaço e cognição. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/1695994704730655 A partir de agora você pode continuar as buscas para saber mais sobre outros pesquisadores... Boa pesquisa! LIVRO Título: Língua de Sinais Brasileira: Estudos linguísticos Autor: Ronice Muller de Quadros e Lodenir Becker Karnopp Editora: Artmed (2004) Sinopse: Neste livro, as autoras descrevem e analisam a Língua Brasileira de Sinais, apontando, de modo competente, seus aspectos fonológicos, morfológicos e sintáticos. LIVRO 02 Título: Língua de Sinais: Instrumentos de avaliação Autor: Ronice Muller de Quadros e Carina Rebele Cruz Editora: Artmed ( 2011) Sinopse: O livro auxilia os profissionais a identificar o nível de desenvolvimento linguístico nos sujeitos surdos. Contribui também para reconhecer padrões linguísticos alterados e selecionar as estratégias adequadas para a estimulação e o desenvolvimento da língua. FILME/VÍDEO Título: Coleção Educação de Surdos Autor: Instituto Nacional de Educação de Surdos - INES (organização) Ano: 2015 Sinopse: A COLEÇÃO EDUCAÇÃO DE SURDOS é composta de dez volumes sendo esse o conjunto das primeiras publicações que o Instituto Nacional de Educação de Surdos fez em Língua Brasileira de Sinais. Ela é composta de pequenos Documentários sobre o serviço e funcionamento do Instituto assim como de uma série de Contações de Histórias em LIBRAS (algumas com dublagem e legendagem). Fábulas, mitos e contos folclóricos protagonizados por pessoas surdas (funcionários, instrutores e ex-alunos do Instituto). Aqui você encontrará toda essa videografia disponível para download gratuito Link: https://www.ines.gov.br/publicacoes REFERÊNCIAS BAKER, C.; COKELY, D. American sign language: a teacher’s resource texto grammar and culture [s., n.] 1980. BATTISON, R. Phonological deletion in american sign language. Sign Language Studies, v5, p.1-19, 1974. BATTISON, R. 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UNIDADE IV GRAMÁTICA DE LIBRAS Professora Mestre Elizete Pinto Cruz Sbrissia Pitarch Forcadell Plano de Estudo: A seguir apresenta-se os tópicos que você estudará nesta Unidade ● O Léxico da Libras; ● Regência Verbal da Língua de Sinais; ● Sistema Pronominal; ● Restrições na Formação dos Sinais. Objetivos de Aprendizagem: ● Conceituar lexicologia e lexicografia para esclarecer a formação do léxico na Libras; ● Reconhecer os verbos, os pronomes e a concordância da língua de sinais; ● Identificar as limitações na formação e execução dos sinais.INTRODUÇÃO Ao usar um sistema linguístico, em qualquer língua ou modalidade de linguagem, os indivíduos dispõem de uma gama muito variável de opções para organizar seus enunciados. A forma escolhida depende de aspectos sintáticos, semânticos e pragmáticos e, geralmente, implica uma visão específica de uma situação e do que é importante nela. Sacks (1990 p. 22) afirma que “as língua de sinais são completas em si mesmas: possuem sintaxe, gramática e semântica própria, têm, porém, um caráter diferente do de qualquer língua falada ou escrita.” Segundo o autor, “não é possível transliterar uma língua falada para língua de sinais, palavra por palavra ou frase por frase”, isso porque as “suas estruturas são essencialmente diferentes”. Os surdos internalizam os sinais e suas possibilidades de uso na relação dialógica com outros surdos ou ouvintes usuários de Libras. Não se sabe bem o porquê da delimitação de um sinal, pois, exatamente, determina certos conceitos ou de onde especificamente foram derivados, a não ser os sinais icônicos e os que são produzidos pela inicialização da primeira letra da escrita; não se sabe por que alguns sinais “morrem” aos poucos, mesmo quando as funções e experiências na vida concreta da comunidade ainda fazem uso, e por que vinculam esse conceito a outro sinal. Os usuários da língua usam os sinais que lhes parecem naturais, pois desde cedo aprendem a ver o mundo através da lente desses sinais/conceitos. Nesta Unidade de estudos destacamos o léxico da Libras, é importante saber que uma pessoa que desconhece a linguagem em funcionamento pode supor que o dicionário seja a chave de uma língua, e estando de posse desse dicionário poderá decifrar e dominar a língua. Na realidade, temos que ter em mente, quando a intenção é o uso de uma língua, que aprender essa língua, utilizando o dicionário é uma estratégia equivocada, porque os sentidos são construídos em estruturas, na interação social, não em fragmentos lexicais isolados. No caso da Libras em que vemos os estudos da sua forma de grafia ainda se estruturando, enquanto escrita, podemos dizer que o aprendiz se beneficia muito de um dicionário de língua de sinais, para consultar palavras isoladas e ampliar seu vocabulário. Mas, vale lembrar sempre que a língua de sinais é viva e dinâmica, necessitando ser construída a partir da interação entre os usuários. 1 O LÉXICO DA LIBRAS Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/portrait-her-she-attractive-focused-knowledgeable- 1777955267 Acesso em: 30 out.2021 O léxico em uma língua é o dicionário, o conjunto do vocabulário da língua. “Em Libras, os itens lexicais são os sinais. É totalmente errado pensar que a datilologia (soletração utilizando o alfabeto manual) é a simulação de um sinal. As letras do alfabeto digital representam as letras do alfabeto da língua oral de um idioma, e cada letra não significa um sinal” (HONORA, 2010, p. 16). Assim como as línguas orais possuem um léxico, as línguas de sinais também possuem um conjunto de palavras (sinais) que formam a língua. Neste tópico, cremos que é importante pensarmos juntos sobre o estudo básico do léxico da Libras, entendendo essa língua como uma atividade constitutiva e em construção entre seus usuários. Para compreender melhor o conceito de léxico, vamos esclarecer dois termos importantes: ❖ Lexicologia: é o estudo voltado ao léxico da língua, estudo diacrônico, analisa os neologismos e mudanças da língua, vocabulários técnico-científicos. Isso significa dizer que a lexicologia da língua de sinais, atua no sentido de analisar a realidade dessa língua, buscando entendê-la em sua estrutura própria e histórica. Podemos compreender então, que os usuários de uma língua oral e visual-gestual, assim como a Libras, não a conhecerão completamente, visto que a língua é viva e novas palavras e novos sinais vão surgir com o passar do tempo, vocabulários podem aparecer ou desaparecer. ❖ Lexicografia: é quando analisamos a produção de dicionários ou glossários de língua de sinais, agrupando em classes gramaticais, como uma lista de palavras para auxiliar os aprendizes, e compreender como estes dicionários interferiram no registro do léxico da língua em questão. O registro de dicionário mais antigo no Brasil foi produzido no INES, no Rio de Janeiro, intitulado Iconographia dos signaes dos surdos-mudos, produzido pelo aluno surdo Flausino José da Gamaem em 1875. Desde então, foram produzidos vários materiais dessa natureza no país como o de Oates e Fernandes & Strobel (1998), e mais recentemente o dicionário trilíngue de Capovilla & Raphael (2001), distribuído pelo MEC para as escolas públicas. SAIBA MAIS Acadêmico(a) você poderá conhecer mais sobre o dicionário mais antigo do Brasil Iconographia dos signaes dos surdos-mudos de Flausino José da Gamaem em 1875, numa série histórica produzida pelo Instituto Nacional de Educação de Surdos (2011) volume 1 através do link:https://www.ines.gov.br/publicacoes Acesso em: 09 set. 2021. #SAIBA MAIS# Já vimos ao longo dos nossos estudos que as línguas de sinais possuem um sistema de criação de sinais, e estes sinais possuem unidades mínimas com significado, conhecidas também como morfemas, passíveis de combinações. O Léxico da Libras engloba muitos significados dependendo de como o sinal é usado no contexto dessa língua. Nesse caso, perceberemos que a língua de sinais possui estrutura complexa, com incorporações de palavras estrangeiras (empréstimos linguísticos), inclui as soletrações, utilizadas como estratégias de esclarecimento dos sinais e não como meio principal de comunicação, além dos classificadores, que podem constituir e significar melhor e mais claramente a comunicação (também considerados como léxico nativo). Quadros e Karnopp (2004) utilizaram a proposta de Brentari & Padden (2001) como possibilidade para representar o léxico da Libras. Assim como, nas línguas orais há empréstimos linguísticos, nas línguas de sinais isso também ocorre, via soletração manual, muitas vezes derivada em transformação em um próprio sinal como no exemplo no sinal de S-O-L, que pode ser S-L. Quadros e Karnopp (2004) também explicam que, quando não existe sinal a ser utilizado, a soletração é uma estratégia para contextualizar a palavra em um discurso realizado em língua de sinais. 2 REGÊNCIA VERBAL DA LÍNGUA DE SINAIS Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/smiling-indian-latin-deaf-disabled-child-1814238713 Acesso em: 30 out. 2021 Cada língua, a partir de uma Gramática Universal, possui a sua gramática particular. As estruturas fono-morfo-sintáticas são, portanto, indiossincrasias linguísticas específicas a cada língua, assim cada língua tem seu sistema de flexão formado por morfemas presos ou livres que são relevantes para a sua sintaxe e suas regras transformacionais. Neste tópico, veremos como os verbos são divididos em Libras. Focalizamos em exemplos que o orientarão a aumentar seu aprendizado e ter um entendimento satisfatório nessa classe gramatical tão importante. Apresentamos, as definições dos processos sintáticos de língua de sinais e a forma de identificar a formação de frases. Para formar uma frase, é necessário nomear as marcas da formação de interrogativa, de acordo com o contexto. Sem falar da inserção dos verbos e a concordância da língua de sinais. As construções sintáticas dão mais significado e sentido nas captações visuais e mentais, reconhecendo cada elemento na gramática da Língua Brasileira de Sinais. A sintaxe é a área da gramática que trata da estrutura da sentença. Analisar alguns aspectos da Libras requer “enxergar” ou “ler” esse sistema que é viso-espacial e NÃO oral-auditivo. Os verbosrepresentam as ações. Em Libras alguns verbos apresentam variação de acordo com o contexto, por exemplo, não existe sinal para o verbo “ABRIR”, o sinal para esse verbo vai depender do contexto, ou seja, o sinal para “abrir a porta” será diferente do sinal de “abrir os olhos’, “abrir o pote” entre outros. Veja na figura a diferença: Imagem 1 - Variações do verbo ABRIR de acordo com o contexto Fonte: Arquivos da autora (2021) ❖ Verbos Simples São os verbos que não se flexionam em pessoa e número e não incorporam afixos locativos, porém alguns desses verbos apresentam flexões de aspecto, como vimos nos itens acima. A maioria dos verbos que estão nos pontos de locações no corpo são verbos simples. Também há alguns que são feitos no espaço neutro ou espacial. Vamos ver nas figuras abaixo exemplos de verbos simples: Imagem 2 – Verbos simples Fonte: Arquivos da autora (2021) Felipe (1988) apresentou verbos da Libras que possuem concordância como os direcionais. Seus estudos apontam para a Flexão número-pessoa. Nesse sistema de flexão verbal da Libras há o parâmetro direcionalidade, por exemplo, “eu pergunto pra você”, “eu aviso você” e “eu protejo você”, podemos perceber a direção do movimento em que esses sinais são realizados, do emissor para o receptor. Já nos exemplos “você pergunta pra mim”, “você me avisa” e “você me protege”, a direção do movimento acontece de forma contrária, sendo do receptor para o emissor. Imagem 3 – Flexão verbal: direcionalidade Fonte: Arquivos da autora (2021) Cabe destacar ainda, que pode acontecer desses ou outros sinais serem direcionados para uma terceira pessoa do discurso, conforme exemplificado nas imagens a seguir: Imagem 4 – Flexão verbal: direcionalidade Fonte: Arquivos da autora (2021) Destaca-se ainda o uso dos Verbos direcionais que incorporam o objeto, por exemplo: TROCAR Imagem 5 – Verbos direcionais que incorporam o objeto - TROCAR Fonte: Arquivos da autora (2021) Para Campello (2008) os verbos com concordância apresentam a direcionalidade (em inglês é chamado de blackward) e a orientação de mãos. A direcionalidade é muito importante porque está associada às relações semânticas, já que existem dois pontos distintos no espaço da Língua Brasileira de Sinais: fonte e alvo e vice-versa. Quando a orientação da mão volta para o objeto da frase sinalizada é associada na sintaxe como, por exemplo, da glosa em sinais: Imagem 6 – Verbos direcionais Fonte: Campello (2008) adaptado pela autora Nos Verbos não-direcionais: que são os verbos que possuem marca de concordância, quando se faz uma frase é como se eles ficassem no infinitivo. Os verbos não-direcionais podem aparecer. ✔ Ancorados no corpo: por serem verbos realizados em contato ou muito próximos do corpo. Podem ser verbos de estados cognitivos, emotivos ou experiências, como: Imagem 7 – Verbos não-direcionais ancorado ao corpo Fonte: Arquivos da autora (2021) Sobre a Flexão para locativo, Felipe (1988) ressalta que o ponto de articulação também é um tipo de flexão verbal, ou seja, são verbos que começam ou terminam em um determinado lugar que se refere ao lugar de uma uma, coisa, animal ou veículo, que está sendo colocado, carregado etc. Assim, o ponto de articulação marca a localização, podemos ver também, nesses verbos, os classificadores, como você pode observar no exemplo: Imagem 8 – Verbo classificador ATIRAR no ponto de articulação ‘cabeça’ CABEÇA ATIRAR (eu atiro na minha cabeça) Fonte: Felipe (1988) adaptado pela autora ❖ Verbos espaciais (junto com o ponto de locação no espaço + loc) São os verbos que têm afixos locativos. Observe os exemplos na figura abaixo: Imagem 9 – Verbos espaciais com afixos locativos Fonte: Felipe (1988) adaptado pela autora Felipe (1998) apresenta também a Flexão para gênero, assim na Libras os classificadores são formas que, substituindo o nome as precedem, pode vir junto ao verbo para classificar o sujeito ou o objeto que está ligado à ação do verbo. Os classificadores na Libras então, são marcadores de concordância de gênero: PESSOA, ANIMAL, COISA, podem ter plural, que é marcado ao se representar duas pessoas ou animais simultaneamente com as duas mãos ou fazendo um movimento repetido em relação ao número, como demonstram os exemplos: Imagem 10 - Verbo classificador para pessoa, animal, coisa e veículo Fonte: Felipe (1988) adaptado pela autora REFLITA ✔ Assista ao vídeo editado pelo Instituto Nacional de Educação dos Surdos – INES, que conta a história de Chapeuzinho Vermelho em libras. Observe o uso de classificadores do verbo andar. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=JuCVU9rGUa8>. Acesso em 13 set. 2021. ✔ Assista também ao vídeo do INES, onde o professor destaca os classificadores enquanto marcadores de flexão de gênero. Veja como ele descreve o corpo de pessoas e animais em cada abordagem, preste atenção aos detalhes de cada sinal classificador. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Nk1Xz0NEQFM>. Acesso em 13 set. 2021. Fonte: Disponível em: http://tvines.org.br/ Acesso em: 30 out.2021 #REFLITA# 3 SISTEMA PRONOMINAL Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/this-me-portrait-happy-preschool-curly-1632611956 Acesso em: 30 out. 2021 ⮚ Pronomes Interrogativos Os pronomes interrogativos QUE e QUEM geralmente são usados no início da frase, mas o pronome interrogativo ONDE e o pronome QUEM, quando está sendo usado com o sentido de “quem é” ou “de quem é” são mais usados no final. Todos os três sinais têm uma expressão facial interrogativa feita simultaneamente com eles. Na variante do Rio de Janeiro, o pronome interrogativo QUEM, dependendo do contexto, pode ter duas formas diferentes, os sinais QUEM e o sinal soletrado QUM. Se se quer perguntar “quem está tocando a campainha”, usa-se o sinal o sinal QUEM; se quer perguntar “quem faltou hoje” ou “quem está falando” ou ainda “quem fez isso”, usa- se o sinal soletrado QUM, como nos exemplos abaixo: Interrogativa 1 – QUEM Imagem 11 - Pronome interrogativo QUEM Fonte: Arquivos da autora (2021) Interrogativa 2 – Q-U-M Imagem 12 - Pronome interrogativo Q-U-M Fonte: Arquivos da autora (2021) ⮚ Pronomes Pessoais A Libras possui um sistema pronominal para representar as pessoas no discurso ● Primeira Pessoa (singular, dual, trial, quatrial e plural): EU; NÓS-2, NÓS-3, NÓS- 4, NÓS-GRUPO, NÓS/NÓS-TOD@. Felipe (2001) pontua como acontece a sinalização. Note que a direção da mão e do olhar é determinante para a significância do sinal. ● Primeira pessoa do singular: EU Apontar para o peito do enunciador (a pessoa que fala) Imagem 13 - Pronome pessoal primeira pessoa do singular - EU Fonte: Arquivos da autora (2021) ● Primeira pessoa do plural: NÓS-2, NÓS-3, NÓS-4, NÓS-GRUPO, NÓS/NÓS- TOD@S Imagem 14 - Pronome pessoal primeira pessoa do plural - NÓS Fonte: Arquivos da autora (2021) ● Segunda pessoa (singular, dual, trial, quatrial e plural): VOCÊ, VOCÊ-2, VOCÊ- 3, VOCÊ-4, VOCÊ-GRUPO, VOCÊS/VOCÊS-TOD@S ● Segunda pessoa do singular: VOCÊ Apontar para o interlocutor (a pessoa com quem se fala) Imagem 15 - Pronome pessoal segunda pessoa do singular - VOCÊ Fonte: Arquivos da autora (2021) ● Segunda pessoa do plural: VOCÊS-2, VOCÊS-3, VOCÊS-4, VOCÊS-GRUPO, VOCÊS/VOCÊS-TOD@S Imagem 16 - Pronome pessoal segunda pessoa do plural - VOCÊS Fonte: Arquivos da autora (2021) ● Terceira pessoa (singular, dual, trial, quatrial e plural): El@, El@-2, El@-3, El@- 4, El@-GRUPO, El@/El@TOD@) ● Terceira pessoa do singular: EL@ Apontar para uma pessoaque não está na conversa ou para um lugar convencionado para uma pessoa. Imagem 17 - Pronome pessoal terceira pessoa do singular – EL@ Fonte: Arquivos da autora (2021) ● Terceira pessoa do plural: El@, El@-2, El@-3, El@-4, El@S-GRUPO, El@S/El@S-TOD@S) Imagem 18 - Pronome pessoal terceira pessoa do plural – EL@ Fonte: Arquivos da autora (2021) No singular, o sinal para todas as pessoas é o mesmo, o que difere uma das outras é a orientação da mão: o sinal para “eu” é um apontar para o peito do emissor (a pessoa que está falando), o sinal para “você” é um apontar para o receptor (a pessoa com quem se fala) e o sinal para “ele/ela” é um apontar para uma pessoa que não está na conversa ou para um lugar convencionado para uma terceira pessoa que está sendo mencionada. No dual, a mão ficará com o formato do numeral dois (quantidade), no trial o formato será do numeral três (quantidade), no quatrial, o formato será do numeral quatro (quantidade). Para o plural existem dois sinais: um sinal composto, formado pelo sinal para a respectiva pessoa do discurso (1ª, 2ª 3ª), mais o sinal GRUPO; e outro sinal para plural que é feito pela mão predominante com a configuração em “d”, fazendo um semicírculo à frente do sinalizador, apontando para as duas pessoas ou três pessoas do discurso. Como na Língua Portuguesa, na Libras, quando uma pessoa surda está conversando, ela pode omitir a primeira pessoa porque, pelo contexto, as pessoas que estão interagindo sabem a qual das duas o contexto está relacionado, por isso, quando esta pessoa está sendo utilizada pode ser para dar ênfase à frase. Quando se quer falar sobre uma terceira pessoa que está presente, mas deseja- se uma certa reserva, por educação, não se aponta para esta pessoa diretamente. Nessa situação, o enunciador faz um sinal com os olhos e um leve movimento de cabeça para a direção da pessoa que está sendo mencionada, ou aponta para a palma da mão encostando o dedo indicador da mão esquerda na mão direita um pouco à frente do peito do emissor, estando o dorso da mão direita voltada para a direção onde se encontra a pessoa referida (FELIPE, 2007, p. 142-143). Diferentemente do Português, os pronomes pessoais na terceira pessoa não possuem marca para gênero (masculino e feminino) ⮚ Pronomes Demonstrativos e Advérbios de Lugar Os pronomes demonstrativos e os advérbios de lugar têm o mesmo sinal, somente o contexto os diferencia pelo sentido da frase acompanhada de expressão facial. Estes tipos de pronomes e de advérbios estão relacionados às pessoas do discurso e representam, na perspectiva do emissor, o que está bem próximo, perto e distante. Estes pronomes ou advérbios têm a mesma configuração de mãos dos pronomes pessoais (mão em d), mas os pontos de articulação e as orientações do olhar são diferentes (FELIPE, 2007, p. 41). Na Libras, como no Português, os pronomes demonstrativos e os advérbios de lugar estão relacionados às pessoas no discurso e representam, na perspectiva do emissor, o que está bem próximo, perto ou distante. Eles têm a mesma configuração de mãos dos pronomes pessoais, mas os pontos de articulação e as orientações do olhar são diferentes. Os pronomes demonstrativos e os advérbios de lugar relacionados à 1ª pessoa, EST@/AQUI, são representados por um apontar para o lugar perto e em frente do emissor, acompanhado de um olhar para este ponto. EST@ também pode ser sinalizado ao lado do emissor apontando para a pessoa/coisa mencionada. ESS@/AI é um apontamento para o lugar perto e em frente do receptor, acrescido de um olhar direcionado não para o receptor, mas para o ponto sinalizado com relação à coisa/pessoa que está perto da segunda pessoa do discurso. AQUEL@/LÁ é um apontar para um lugar mais distante, o lugar da terceira pessoa, mas diferentemente do pronome pessoal, ao apontar para este ponto há um olhar direcionado para a coisa/pessoa ou lugar. Como os pronomes pessoais, os pronomes demonstrativos também não possuem marca para gênero: masculino e feminino. ● Pronomes pessoais EU (olhando para o receptor: 2ª pessoa) VOCÊ (olhando para o receptor: 2ª pessoa) EL@ (olhando para o receptor: 2ª pessoa) ● Pronomes demonstrativos ou advérbios de lugar EST@/AQUI (olhando para coisa/lugar apontando, perto da 1ª pessoa) EST@/AI (olhando para a coisa/lugar apontando, perto da 2ª pessoa) AQUEL@/LÁ (olhando para a coisa/lugar distante apontado) Imagem 19 - Pronomes demonstrativos ou advérbios de lugar Fonte: Arquivos da autora (2021) ⮚ Pronomes Possessivos Os pronomes possessivos, como os pessoais e demonstrativos, também não possuem marca para gênero e estão relacionados às pessoas do discurso e não à coisa possuída, como acontece em Português. Imagem 20 - Pronomes possessivos Fonte: Arquivos da autora (2021) Para a primeira pessoa: ME@, pode haver duas configurações de mão: uma é a mão aberta com os dedos juntos, que bate levemente no peito do emissor, a outra é a configuração da mão em P com o dedo médio batendo no peito – MEU-PRÓPRIO. Para as segunda e terceira pessoas, a mão tem esta segunda configuração em P, mas o movimento é em direção à pessoa com que se fala (segunda pessoa) ou está sendo mencionada (terceira pessoa), Capovilla e Raphael (2001). Não há sinal específico para os pronomes possessivo no dual, trial, quatrial e plural (grupo), nestas situações são usados os pronomes pessoais correspondentes. Exemplo: NÓS FILH@ “nossos(a) filhos(a).” Os adjetivos são sinais que formam uma classe específica na Libras. Figueira (2011) expõe essa relação apresentando-os sempre na forma neutra, não havendo, portanto, nem marca para gênero (masculino e feminino), nem para número (singular e plural). Muitos adjetivos, por serem descritivos e classificadores, apresentam iconicamente uma qualidade do objeto, desenhando-a no ar ou mostrando-a a partir do objeto ou do corpo do emissor. Em português, quando uma pessoa se refere a um objeto como sendo arredondado, quadrado, listrado, está também descrevendo e classificando, mas na Libras esse processo é mais 'transparente', porque o formato ou textura são traçados no espaço ou no corpo do emissor, em uma tridimensionalidade permitida pela modalidade da língua. Em relação à colocação dos adjetivos na frase, eles geralmente vêm após o substantivo que o qualifica (FELIPE, 2007, p. 121). Assim, o gênero não se apresenta em Libras para substantivos e adjetivos, mas sim quando quer explicitar alguns substantivos dentro de determinados contextos. O sinal utilizado para essa distinção é o sinal de homem e o sinal de mulher em conjunto com sinais de pessoas ou animais. Imagem 21 - Gênero (feminino/masculino) Fonte: Arquivos da autora (2021) ⮚ Pronomes Indefinidos Imagem 22 - Pronomes indefinidos Fonte: Capovilla e Raphael (2001), adaptado pela autora Exemplos: NINGUÉM (acabar) Imagem 23 - Pronome indefinido – NINGUÉM – na sentença Fonte: Arquivo da autora (2021) NENHUM (não) Imagem 24 - Pronome indefinido – NENHUM (não) – na sentença Fonte: Arquivo da autora (2021) Imagem 25 - Pronome indefinido – NENHUM (não) – na sentença Fonte: Arquivo da autora (2021) NENHUM-POUQUINHO Imagem 26 - Pronome indefinido – NENHUM-POUQUINHO – na sentença Fonte: Arquivos da autora (2021) 3 RESTRIÇÕES NA FORMAÇÃO DOS SINAIS Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-illustration/isolated-red-x-green-tick-black-789694312 Acesso em: 30 out. 2021 Para Quadros e Karnopp (2004, p. 52) conversar em qualquer língua não basta conhecer as palavras, é preciso aprender as regras de combinação das palavras em frases. As palavras, ou itens lexicais, são os sinais. Partindodo pressuposto que cada língua tem um número determinado de unidades mínimas cuja função é determinar a diferença de um sinal em relação a outro sinal, Essa união de regras lexicais possibilita a transmissão de qualquer pensamento visual não verbal e que se fundamenta através da cultura e identidade das comunidades surdas. Consideramos aqui, a importância de que o sinal ao ser produzido nunca deve ficar em frente aos olhos, e sim em frente ao tronco, facilitando a comunicação e compreensão dos sinais. Ressaltamos ainda que essa orientação é de suma importância para não se criar sinais com movimentos sem sentido ou de difícil execução, já que a tendência das línguas é a economia e redução de palavras para agilidade na compreensão do receptor. Já analisamos a importância da criação correta dos sinais, mas será que é imposta alguma restrição ou podemos executar os sinais de qualquer maneira? Siple (1978) mostrou que propriedades do sistema de percepção visual restringem a produção de sinais. A acuidade visual é maior na área da face, pois é onde o interlocutor fixa o olhar e específica possíveis combinações entre as unidades mínimas (configuração de mão, movimento, ponto de articulação e orientação de mão), na formação dos sinais. Observe a figura a seguir: Imagem 27 - Área central do espaço de sinalização Fonte: Quadros e Karnopp (2004, p. 78) Dessa forma, quando executamos o sinal, devemos prestar atenção se está sendo realizado de forma correta e em uma área que o receptor consiga ver e interpretar. Podemos citar, como exemplo, se a pessoa usa barba/bigode e vai fazer um sinal na face, certifique-se que o sinal está sendo realizado limpo/sem impedimento/barreiras. Por isso, pense nessas restrições físicas e linguísticas, como forma de nos capacitar para fazermos os sinais corretamente. Como já compreendemos ao longo dos nossos estudos, Libras não são gestos ou palavras soltas no ar, e nem é um sistema de comunicação superficial, muito pelo contrário, o sinal foi criado com um objetivo a ser cumprido. Battison (1978) demonstra que na região facial existe um grande número de diferentes locações, comparada à região do tronco. Além disso, CM mais complexas (marcadas) ocorrem com maior frequência na região da face do que na região do tronco. Essas observações relacionam-se perfeitamente com as colocações de Siple (1978), que anteriormente apresentamos. O sistema articulatório (fisiologia das mãos) é importante na produção de sinais, pois a comunidade ouvinte tem pouca percepção visual e acaba errando ou distorcendo o uso das CM. Por exemplo, o sinal correto para designar “língua de sinais”. Imagem 28 - sinal: LÍNGUA DE SINAIS Fonte: Arquivos da autora (2021) Outro erro ou distorção visual nos aspectos de locação é fazer os sinais na frente do rosto. Os sinais produzidos nunca devem ficar em frente dos olhos, e sim em frente do tronco, conforme os exemplos abaixo: Imagem 29 - Sinal: NOME Fonte: Arquivos da autora (2021) Quadros e Karnopp dizem que As restrições fonológicas requeridas para a boa formação de sinais podem ser exemplificadas em sinais produzidos pelas mãos. De um modo geral, pode-se fazer a seguinte classificação: a) sinais produzidos com uma mão; b) sinais produzidos com duas mãos em que ambas são ativas, e c) sinais de duas mãos em que a mão dominante é ativa e a mão não-dominante serve de locação. (2004, p. 78). Na classificação proposta por Battison (1978), existem duas restrições fonológicas na produção de diferentes tipos de sinais envolvendo as duas mãos: a condição de simetria e a condição de dominância. A primeira restrição estabelece: a) Condição de simetria: caso as duas mãos se movam na produção de um sinal, então determinadas restrições aparecem, a saber: a CM deve ser a mesma para as duas mãos, a locação ou ponto de articulação deve ser a mesma ou simétrica, e o movimento deve ser simultâneo ou alternado. Imagem 30 - Sinais que apresentam simetria na CM e P.A., mas se diferem no Movimento Fonte: Quadros e Karnopp (2004) adaptado pela autora b) Condição de dominância: se as mãos apresentam distintas CM, então a mão ativa produz o movimento, e a mão passiva serve de apoio, apresentando um conjunto restrito de CM (não-marcadas). Imagem 31 - sinais que apresentam dominância de uma das mãos para executar o sinal, enquanto a outra mão atua como apoio Fonte: Quadros e Karnopp (2004) adaptado pela autora As restrições na formação de sinais, derivadas do sistema de percepção visual e da capacidade de produção manual, restringem a complexidade dos sinais para que eles sejam mais facilmente produzidos e percebidos. O resultado disso é uma maior previsibilidade na formação de sinais e um sistema com complexidade controlada. SAIBA MAIS Existem algumas questões que podem ser pensadas na pesquisa de língua de sinais e sua tradução, por exemplo: Como vamos traduzir de modo fidedigno a língua de sinais através dos sinalizantes? Somos capazes de captar todos os sinais e sua expressividade através de expressões faciais? Existem tantas questões que podem ser resolvidas com uma ferramenta: transcrição de dados de língua de sinais. A transcrição de língua de sinais é muito importante para a pesquisa de qualquer língua de sinais do mundo. Através dela, podemos estudar, analisar, perceber, pesquisar, descrever, em todos os níveis de análise, uma língua (fonológico, morfológico e sintático). Essa ferramenta é recente nos estudos linguísticos de língua de sinais. Stokoe (1960) foi quem realizou o primeiro trabalho com a Língua de Sinais Americana (ASL). A partir de então, as línguas de sinais foram reconhecidas como língua, graças às pesquisas analíticas e científicas. Aqui no Brasil, a introdução da transcrição de língua de sinais foi realizada pela linguista Brito (1982). O processo de transcrição de dados, desde então, vem sofrendo adaptações de metodologias porque a língua de sinais, através da modalidade gesto- visual e trimendisional, dificulta a captação de cada detalhe e do espaço de sinais. Os avanços tecnológicos propiciaram uma melhor descrição das línguas de sinais, conforme apresentam, Quadros; Pizzio (2007). Outros autores, McCleary e Viotti (2007), mostraram a grande dificuldade nos sistemas de notação, ou seja, nas formas de representar os sinais nos sistemas de transcrição de dados porque cada grupo de pesquisa utiliza uma notação diferente ou adaptações de um mesmo sistema de notação, de acordo com seu objeto de estudo, dificultando, assim, a padronização e propõem, no futuro, o armazenamento dos trabalhos coletados em um único banco de dados, acessível a qualquer pesquisador. As línguas de sinais têm características próprias e existem sistemas de convenções. Antigamente, usavam-se estas convenções (veja tabela a seguir) para escrevê-las, utilizando vídeo para reproduzir a distância. Este sistema, conforme Felipe (1988,1991,1993), é um “Sistema de notação em palavras” porque as palavras de uma língua oral-auditiva são utilizadas para representar aproximadamente os sinais. Essas convenções vêm sendo utilizadas para poder representar, linearmente, uma língua espaço-visual, que é tridimensional. Veja abaixo a tabela comparando os estudos de Brito (1982) e Felipe (1988,1991,1993). Quadro 1 - Comparação dos estudos de Brito (1995) e Felipe (1988, 1991, 1993). CATEGORIAS BRITO (1984) FELIPE (1988,1991,1993) GLOSA Letra maiúscula em português para conceitos da LIBRAS: HOMEM TRABALHAR MUITO. O verbo vem sempre na forma infinitiva, posto que não há flexão para modo e tempo verbal em LIBRAS. Os sinais da LIBRAS, para efeito de simplificação, serão representados por itenslexicais da Língua Portuguesa (LP) em letras maiúsculas. Exemplos: CASA, ESTUDAR, CRIANÇA, etc. PALAVRA COM HÍFEN Quando duas ou mais palavras em português são necessárias para traduzir o conceito que é representado por um único sinal em LIBRAS, eles devem ser ligados por hífen. NÃO-QUERER, BEBER-PINGA, COMER-MAÇÃ. Um sinal, que é traduzido por duas ou mais palavras em língua portuguesa, será representado pelas palavras correspondentes, separadas por hífen, por exemplo: CORTAR-COM-FACA, QUERER-NÃO “não querer”, MEIO-DIA, AINDA-NÃO, etc. SINAL COMPOSTO Um sinal composto, formado por dois ou mais sinais, que será representado por duas ou mais palavras, mas com a ideia de uma única coisa, serão separados pelo símbolo ^, por exemplo: CAVALO^LISTRA (zebra). DATILOLOGIA Usamos letras separadas pelo hífen quando se trata de soletração digital: #J-O-Ã-O#R-I-O Este tipo de soletração é usado quando se trata de nome próprio de pessoa e de lugar ou, então, quando não há sinal para o conceito expresso na palavra da Língua Portuguesa. É o caso dos empréstimos, marcados por #. A datilologia (alfabeto manual), que é usada para expressar nome de pessoas, de localidades e outras palavras que não possuem um sinal, está representada pela palavra separada, letra por letra, por hífen, por exemplo: J-O-Ã-O, A-N-E-S-T-E-S-I-A. SINAL SOLETRADO O sinal soletrado, ou seja, uma palavra da língua portuguesa que, por empréstimo, passou a pertencer à LIBRAS por ser expressa pelo alfabeto manual com uma incorporação de movimento próprio desta língua, está sendo representado pela datilologia do sinal em itálico, por exemplos: R-S “reais”, A-C-H-O, QUM “quem”, N-U-N-C-A, etc. DESINÊNCIAS Como se pode observar em Verbo- Direcional e Pronomes (tabela a seguir), não há marcação de gênero nem nos verbos com flexão ou direcionais e nem nos pronomes. Na LIBRAS não há desinências para gêneros (masculino e feminino) e número (plural), o sinal, representado por palavra da Língua Portuguesa que possui estas marcas, está terminado Assim, se a pessoa é do sexo feminino, esta informação deverá ser inferida através do contexto. No caso de ambiguidade, o enunciador pode se servir do sinal feminino (sinal que aparece nas expressões menina em oposição a menino) após o pronome ou antes dele. com o símbolo @ para reforçar a ideia de ausência e não haver confusão, por exemplo: AMIG@ “amiga(s) e amigo(s)” , FRI@ “fria(s) e frio(s)”, MUIT@ “muita(s) e muito(s)”, TOD@, “toda(s) e todo(s)”, EL@ “ela(s), ele(s)”, ME@ “minha (s) e meu(s)” etc. TRAÇOS NÃO MANUAIS As expressões faciais e corporais podem expressar interrogação (____), exclamação (__!___), topicalização (__t___), negação (___ñ___), intensidade (___int___), força ilocucionária (___EFp____), no caso de um pedido, (___EFo___), no caso de uma ordem, etc., e serão representadas, respectivamente, pelos símbolos abaixo, entre os pontilhados acima da porção do enunciado onde elas aparecem: __t___ CARRO, EU COMPRAR NOVO (Eu comprei um carro novo) __ ___ NOME, pro2 (Qual é o seu nome) ___!____ BONITO Loc1 (Que bonito isto aí!) ___ñ____ ACREDITAR VOCÊ (Não acredito em você) Os traços não-manuais: expressões facial e corporal, que são feitos simultaneamente com um sinal, estão representados acima do sinal ao qual está acrescentando alguma ideia, que pode ser em relação ao: a) tipo de frase ou advérbio de modo: interrogativa ou ... i ... negativa ou ... neg ... etc. Para simplificação, serão utilizados, para a representação de frases nas formas exclamativas e interrogativas, os sinais de pontuação utilizados na escrita das línguas orais-auditivas, ou seja: !, ? e ?! b) advérbio de modo ou um intensificador: muito rapidamente exp. f “espantado” etc. Exemplos: exclamativo NOME TRAÇOS NÃO MANUAIS VERBOS COM CONCORDÂNCIA DE GÊNERO ATRAVÉS DE CLASSIFICADORES Os verbos que possuem concordância de gênero (pessoa, coisa, animal), através de classificadores, estão representados por um tipo de classificador em subscrito. Exemplos: pessoaANDAR, veículoANDAR, coisa-arredondada COLOCAR, etc. VERBOS COM CONCORDÂNCIA DE LUGAR OU NÚMERO- PESSOAL Os verbos que possuem concordância de lugar ou número-pessoal, através do movimento direcionado, estão representados pela palavra correspondente com uma letra em subscrito que indicará: a) a variável para o lugar: i = ponto próximo à 1a pessoa, j = ponto próximo à 2a pessoa, e k’ = pontos próximos à 3a pessoas, e = esquerda, d = direita; b) as pessoas gramaticais: 1s, 2s, 3s = 1a, 2a e 3a pessoas do singular; 1d, 2d, 3d = 1a, 2a e 3a pessoas do plural; 1p, 2p, 3p = 1a, 2a e 3a pessoas do plural; Exemplos: 1s DAR2S “eu dou para “você”, 2sPERGUNTAR3P “você pergunta para eles/elas”, kdANDARk,e “andar da direita (d) para à esquerda (e) PLURAL Às vezes, há uma marca de plural pela repetição do sinal. Esta marca será representada por uma cruz no lado direto, acima do sinal que está sendo repetido: Exemplo: GAROTA + SINAL COM DUAS MÃOS Quando um único enunciado é realizado com ambas as mãos ao mesmo tempo, colocam-se os sinais simultâneos um acima do outro, isto é, em linhas diferentes, vindo na primeira linha o(s) sinal(is) realizado(s) com a mão dominante (mão direita para os destros). Outras estratégias podem ser utilizadas na transcrição de enunciados e textos, porém, estas são as mais básicas e nos limitaremos a elas, que constam no livro da autora Lucinda Brito. Quando um sinal, que geralmente é feito somente com uma das mãos, ou dois sinais estão sendo feitos pelas duas mãos simultaneamente, serão representados um traço abaixo do outro com indicação das mãos: direita (md) e esquerda (me). Exemplos: IGUAL (md) PESSO@-MUIT@ ANDAR (me) IGUAL (me) PESSOAEM-PÉ (md). VERBO DIRECIONAL Quando o verbo é direcional, isto é, apresenta flexão, marcando sujeito e objeto, usamos números de 1 a 3 para marcar as pessoas no singular ou 1p, 2p e 3p para as pessoas do plural. 1DAR2 LIVRO (Eu dei o livro para você) 3pTELEFONAR1 ONTEM (Elas/eles me telefonaram ontem) 3PERGUNTAR1p VERDADE (Ele/Ela nos disse a verdade). PRONOMES Os pronomes em LIBRAS são representados da seguinte forma: pro3 NÂO-GOSTAR pro1 (Ela/ele não gosta de mim) PRONOME DEMONSTRATIVO OU ADVÉRBIO DE LUGAR Os pronomes demonstrativos e os advérbios de lugar são representados por Loc i - este/aqui Loc j – esse/aí Loc k – aquele/a, ali/lá Loc é o símbolo para locativo. CLASSIFICADORES Os classificadores são representados pelas iniciais CL: acompanhadas de símbolos de configuração de mãos que são utilizadas para representar a classe semântica que representam. CARRO CL: V BATER CL: G1 POSTE (O carro bateu no poste) Fonte: Brito (1995) e Felipe (1988, 1991, 1993). #SAIBA MAIS# CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta Unidade, observamos que, ultimamente, no processo de ampliação do léxico da língua de sinais, os novos sinais têm uma produção mais arbitrárias e menos icônica, ou seja, cada vez mais diminui a criação de sinais por intenção icônica e passa a usar recursos como a inicialização, um “empréstimo” da língua portuguesa, consideramos esse fato importante, pois revela a ação das línguas em contato, principalmente pelo desenvolvimento acadêmico dos surdos. Cabe pensarmos profundamente na Língua de Sinais, por ser de modalidade espaço-visual tem uma produção de um caráter do léxico icônico ou mesmo de sinais indicativos, direcionais como as formas pronominais usadas com referentes presentes ou pronomes demonstrativos. Constatamos que esses traços icônicos têm diminuído passando a convenção de traços arbitrários ou de grande influênciada Língua Portuguesa pela inicialização. A inicialização, de acordo com Brito (1995), ocorre quando se faz uso da letra inicial da palavra em português para produzir o sinal, uma configuração de mão que corresponde à letra do alfabeto manual associada a um movimento. Muitos sinais têm forte motivação icônica, permitindo a representação de traços semânticos do significado, mas Quadros (1995) considera que Os sinais, em si mesmos, normalmente não expressam o significado completo do discurso. Este significado é determinado por aspectos que envolvem a interação dos elementos expressivos da linguagem. No ato da conversação, o receptor deve determinar a atitude do emissor em relação ao que ele produz [...]. QUADROS (1995, p. 1) Esperamos que a partir das experiências comunicativas em Libras exemplificadas nesta Unidade de estudos você, acadêmico(a) venha construir um repertório interessante para compreender, envolver-se e comunicar-se em Libras, entendendo que no uso da palavra/sinal, requer que a busca de interação social com os usuários dessa língua. LEITURA COMPLEMENTAR A tese de doutoramento em linguística da pesquisadora Tanya Amara Felipe de Souza (1998), intitulada: A RELAÇÃO SINTÁTICO-SEMÂNTICA DOS VERBOS E SEUS ARGUMENTOS NA LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS (LIBRAS) VOLUME I é um excelente material complementar de pesquisas e estudos que teve como principal objetivo estudar o verbo em uma língua de modalidade gestual-visual e estabelecer uma classificação para os verbos da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). Para se fazer este estudo foi necessário repensar sobre tipologia de línguas, categorias gramaticais e fazer uma pesquisa de campo para, através de dados elicitados, propor uma classificação para os verbos dessa língua. A constituição do verbo, enquanto item lexical, possuidor de uma raiz onde se agregam outros elementos que ou são marcas de concordância ou são satélites, foi o foco de estudo. Através de uma abordagem morfológica, sintática e semântica, o verbo foi apresentado como uma rede que, devido a regras de seleção restritiva, seleciona seus argumentos, suas regras temáticas e suas alterações diátesis. Existe, portanto, um frame verbal que induz a um frame temático que induz a uma frame proposicional. Assim, os verbos da LIBRAS foram divididos em classes a partir do seu sistema de flexão: gênero, número-pessoal e locativo. Os resultados obtidos neste estudo trarão uma contribuição que ultrapassa o entendimento das línguas de sinais, oferecendo subsídios à teoria geral da linguagem, demonstrando a aplicação àquelas de princípios que vêm sendo propostos para a análise de línguas orais-auditivas. Link: https://pantheon.ufrj.br/bitstream/11422/4401/4/476265%20vol.I.pdf Acesso em: 09 set. 2021. LIVRO Título: Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue Língua de Sinais Brasileira - LIBRAS – Volume I e II Autores: Fernando César Capovilla e Walquíria Duarte Raphael. Ano: 2001. Sinopse: o Dicionário da Língua de Sinais Brasileira (Libras) é resultado de vários anos de pesquisa realizada pelos autores junto a professores especializados em educação de surdos e informantes surdos, com o objetivo de fornecer um instrumento para a educação bilíngue no Brasil. O dicionário documenta, em três línguas (português, inglês e libras) cerca de 9500 verbetes, fornecendo com exatidão descrições da forma e articulação dos sinais. Traz também ilustrações com o significado dessas convenções, permitindo à criança pré-alfabetizada compreender o significado de cada sinal, sem a mediação da escrita. FILME/VÍDEO Título: Glossário Libras Ano: 2006. Sinopse: Glossário é uma lista de unidades lexicais específicas de um domínio de uma língua e geralmente surge como apêndice de uma obra temática. Em 2006 a UFSC em parceria com 8 instituições de ensino superior ofertou pela primeira vez o curso de graduação em Letras-Libras na modalidade à distância. Foi desenvolvido um ambiente virtual específico para disponibilizar os materiais do curso em Libras e Língua Portuguesa aos estudantes surdos. A tradução dos textos-base das disciplinas para Libras ficou a cargo de uma equipe de tradutores surdos, que identificaram a necessidade de pesquisar e/ou propor sinais correspondentes para termos das áreas de especialidades estudadas no curso. Além dos filtros: Configuração de mão e Localização do sinal estão disponíveis também a busca pela digitação da palavra em português e a opção de busca do termo em inglês, ampliando ainda mais as possibilidades de divulgação do léxico de Libras e de interação com outros pesquisadores. Link: https://glossario.libras.ufsc.br/ FILME/VÍDEO 02 Título: Manuário Ano: 2011. Sinopse: Manuário é um programa que apresenta novos itens lexicais em Libras. É um dicionário acadêmico bilíngue: Língua Brasileira de Sinais e Português. A pesquisa é desenvolvida pela equipe do DESU- Departamento de Ensino Superior do INES/ Instituto Nacional de Educação de Surdos. A cada episódio são apresentadas curiosidades, cultura e história sobre a vida de filósofos, pensadores e personalidades marcantes. O programa auxilia estudantes surdos, ouvintes e intérpretes, na leitura e aprendizado dos sinais de cada personagem. Link: http://tvines.org.br/?page_id=333 REFERÊNCIAS BATTISON, R. Lexical borrowing in american sign language. Silver Spring. MD: Linstok, 1978. BRENTARI, D.; PADDEN. C. A. Native and foreign vocabulary in American Sign Language: A lexicon with multiple origins. In. D. Brentari (ed.), Foreign vocabulary: A cross-linguistic investigation of word formation, p. 87-119, Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, 2001. BRITO, L.F. Por uma gramática da Língua de Sinais. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, UFRJ – Departamento de Linguística e Filosofia, 1995. BRITO, Lucinda Ferreira. Por uma gramática de Línguas de Sinais. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro: UFRJ, Departamento de Lingüística e Filosofia, 1982. CAMPELLO, Ana Regina. 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Dialogamos sobre as estratégias dos professores no ensino de surdos, identificamos os processos de formação da lexicografia dos sinais e das frases em Libras, reconhecendo a diferença dos significados e sentidos e as restrições na formação e execução dos sinais. Enfim, finalizamos a disciplina. A partir de agora desejo que você volte às Unidades de Estudo sempre que precisar colocar em prática os conhecimentos apreendidos e treine a sinalização no seu dia a dia, oportunizando um aprendizado básico que possibilite desenvolver uma comunicação com os surdos brasileiros. Até uma próxima oportunidade, abraços sinalizados!