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Desenvolvimento Humano e Social

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- -1
DESENVOLVIMENTO HUMANO E SOCIAL
INSTITUIÇÕES SOCIAIS, 
INDIVÍDUO E 
EXCLUSÃO: DE QUE 
FORMAS OS HOMENS SE 
DESENVOLVEM EM 
SOCIEDADE E QUE 
DESAFIOS POSSUEM?
Autoria: Dra. Elaine Borges da Silva Tardin - Revisão 
técnica: Dra. Karen Barbosa Montenegro de Souza
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Introdução
Os seres humanos organizam-se em sociedade há milênios. Em um primeiro momento, você até pode achar
que essa associação se deu de uma forma natural, mas não foi, e uma das ferramentas para analisarmos a
sociedade com um olhar científico e isento de nossas pré-noções e preconceitos é por meio do método
sociológico. Neste capítulo, você terá a oportunidade de olhar a realidade social de forma diferente,
compreendendo melhor o seu papel social enquanto indivíduo inserido nessa realidade. Compreenderá
também que há camadas sociais que sofrem exclusão social, pois nem todos os seres humanos são tratados da
mesma forma, uma vez que há uma série de barreiras que precisam ser superadas para vivermos em uma
sociedade mais igualitária.
Em um segundo momento, você terá a oportunidade de refletir sobre a influência que as instituições sociais
como a escola, a família e a igreja possuem sobre nós. Você se perguntará: até que ponto as decisões que eu
tomo são exclusivamente minhas, e não influenciadas pela sociedade?
Outro ponto para reflexão é sobre o que é o Estado, suas principais características, os teóricos que se
debruçaram a entender tal conceito, como os contratualistas, os pensadores Max Weber e Immanuel Kant, e
refletir sobre a relação intrínseca do Estado com o poder, o que nos leva a nos perguntar: quem limita o poder
do Estado? Essa é uma questão urgente no contexto atual, já que participamos diretamente da comunidade
política.
Em nosso último tópico, vamos entender o conceito e a trajetória do mundo do trabalho, como algo inerente
ao ser humano, mas que se modificou através da história. Na atualidade, o trabalho é uma fonte de prazer ou
de tristeza para o homem? O que pode ser feito para que o trabalho não seja visto como um fardo? É sobre
essas e outras questões que convidamos você a refletir em nosso capítulo.
Bons estudos!
Tempo estimado de leitura: 63 minutos.
1.1 Indivíduo, sociedade e exclusão: conceitos e enquadramentos
O desenvolvimento humano e social não se deu de uma forma aleatória, mas sim por um processo contínuo e
inacabado. Você já pensou de que forma os indivíduos se desenvolvem em sociedade e passam a adquirir uma
consciência coletiva? A partir de tal questão justifica-se a exclusão de grupos com características específicas,
alheias à pretensão homogênea da sociedade? Que mecanismos legais asseguram a manifestação das
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expressões culturais de grupos historicamente excluídos? A intenção deste tópico é fazer você refletir sobre
esses (e outros) pontos tão importantes para adquirirmos uma consciência crítica sobre os processos sociais.
Você ainda acompanhará - neste tópico a respeito do que as leis brasileiras normatizam quando há casos de
exclusão social, o direito por uma identidade própria e a representatividade de grupos historicamente
excluídos em nosso país.
1.1.1 O indivíduo e a consciência coletiva
Muitas vezes, ao nos depararmos com os fenômenos sociais cotidianos, podemos pensar que estudá-los tendo
por base o método científico pode ser perda de tempo. Afinal, acabamos por naturalizar desde o nosso
nascimento até as regras das instituições sociais, como escola, família, igreja, além do convívio com nossa
comunidade, nosso bairro, nossos amigos. Então, por qual motivo estudaríamos tais fenômenos
cientificamente?
De acordo com o sociólogo Anthony Giddens (2012, p. 1), a Sociologia é o “estudo social da vida humana”,
mas não de forma desordenada e acidental. Pensar sociologicamente é despir-se de nossas convicções
pessoais, tendo em mente o que pensávamos ser meramente uma manifestação individual é na verdade parte
de algo maior, muito além de suas pretensões internas. Assim, este tópico tem o objetivo de nos fazer pensar
sociologicamente como os homens se desenvolvem em sociedade e adquirem uma consciência coletiva e
como se tem pensado a superação da exclusão social de certos grupos.
Diferentes pensadores refletiram sobre a relação existente entre indivíduo e sociedade, e aqui destacamos a
visão do pai da disciplina sociológica, Émile Durkheim (1858-1957), pensador francês que afirmava que
possuímos duas consciências: a individual e a coletiva. No primeiro caso, estão as ações que se referem
somente a nós, às nossas escolhas pessoais, às ações que nos tornam únicos. No segundo caso, há a influência
de ideias, crenças, práticas, tradições e opiniões coletivas sobre nós. O difícil é conseguir perceber até que
ponto a sociedade, ou a consciência coletiva, nos influencia enquanto indivíduos. Em outras palavras, até que
ponto uma ação pode ser considerada meramente individual?
Você quer ler?
Em seu livro (DURKHEIM, 1982), publicado originalmente em 1897, O suicídio
Durkheim analisa como uma ação tão pessoal, que a princípio significaria uma escolha 
individual, na verdade representa algo para além das escolhas pessoais, com ligações 
diretas com o meio social em que o indivíduo vive, influenciando assim, diretamente, o 
ato suicida. Uma ótima leitura para entendermos melhor sobre os limites da sociedade 
em nossa consciência individual.
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Analisar sobre a influência da sociedade em nossa vida, é pensar em um conceito de Durkheim (1974): o de
solidariedade, ou aquilo que unia os indivíduos em sociedade, podendo ser de diferentes formas no decorrer
do tempo histórico, inclusive com avanços e retrocessos.
Nas sociedades mais simples, pré-capitalistas (mas não somente), havia a solidariedade mecânica. Nesse caso,
as escolhas individuais eram diminuídas em detrimento das escolhas do grupo. Logo, o todo fala mais alto que
o individual, dando ao indivíduo um maior sentido, ulterior a ele. Há a força das crenças, das tradições, dos
costumes e da ação moral do indivíduo pautado por algo que lhe é externo.
Já nas sociedades capitalistas, contemporâneas a Durkheim, o indivíduo já não se sente tanto parte do todo,
mas busca a sua satisfação pessoal. O autor a chamou de solidariedade orgânica. Vale ressaltar que os tipos de
solidariedade estudados por Durkheim não são estanques no tempo nem seguem um mesmo padrão. No
passado e no presente há sociedades que se caracterizam de uma forma ou de outra, ou seja, não há uma regra
pré-determinada para as sociedades.
Como vivemos em constante relação com o outro em sociedade, certos grupos podem criar identidades
específicas e a partir daí excluir o outro, por meio de mecanismos seletivos e excludentes, que podem ser
econômicos, políticos ou sociais, ou todos ao mesmo tempo. No próximo tópico, vamos estudar o que
significa a exclusão social e como ela simboliza um impedimento da convivência em uma sociedade mais
igualitária.
1.1.2 A exclusão social e seus desafios
De acordo com Giddens (2012, p. 325), entende-se por exclusão social as “formas pelas quais os indivíduos
podem ser afastados do pleno envolvimento na sociedade”. Tal exclusão pode ser percebida pelo viés
econômico, social ou político, ou ainda abranger os três. Vamos tomar como exemplo dois grupos
historicamente excluídos do pleno desenvolvimento da sociedade brasileira: os indígenas e os afro-brasileiros.
O antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro (2006), em sua obra “O povo brasileiro”, aponta que somos formados
enquanto povo e nação pelas matrizes indígena, portuguesa e africana, porém, esse processo de formação foi
Você sabia?
O dia 20 de novembro é considerado Dia da Consciência Negra no Brasil, em 
homenagem ao líder do quilombo dos Palmares, Zumbi, que teria sido assassinado nessa 
data no ano de 1695. A data, em alguns estados e, aproximadamente, mil cidades é 
declarada feriado nacional, para se refletir sobre a luta nos negros no país.
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repleto de violência e exclusão social, tantono passado quanto no presente. A história do Brasil não é uma
história de integração étnica, cultural ou social, ao contrário, representou a exaltação de uma cultura em
detrimento de outras. Inicialmente pelos portugueses e, desde a Independência, em 1822, pelos próprios
brasileiros, os índios e os afro-brasileiros têm sofrido até os dias atuais com exclusão econômica (tanto em
relação à produção ou ao acesso aos bens de consumo); política (no passado, pelo regime de escravidão e
impedimento de obterem cidadania, no presente pela ainda escassa representatividade); e social (acesso aos
direitos sociais prejudicado – trabalho, moradia, saúde, educação, entre outros).
Figura 1 - Uma das manifestações culturais de raiz afro-brasileira mais importantes no Brasil é a capoeira, reconhecida como 
Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO Fonte: Val Thoermer, Shutterstock, 2021.
 #PraCegoVer Na figura, temos a fotografia de um grupo de pessoas formando uma roda no meio da rua. Duas 
pessoas estão no centro, jogando capoeira. Atrás, outras pessoas seguram instrumentos típicos da prática, 
como o berimbau. Ao redor, pode-se observar prédios.
Quando nos referimos à presença da matriz afro-brasileira em nossa sociedade precisamos abordar um
conceito muito utilizado e com permanência ainda hoje: o de raça. O geneticista italiano Guido Barbujani
(2007) desconstrói uma visão até então muito difundida – a de que os seres humanos estão divididos por raças
– branca, negra, indígena, asiática, dentre outras. O autor propõe repensar tal conceito, afirmando que as
diferenças genéticas entre os seres humanos devem ser encaradas como um dado social, e não meramente
biológico. Na verdade, todos nós fazemos parte de uma única espécie, a humana, logo, o preconceito e a
exclusão social são reproduzidos pelos homens em sociedade e é exatamente por isso que podem ser
modificadas e alteradas.
Você quer ler?
No livro (SCHWARCZ, 1993), você poderá refletir sobre o O espetáculo das raças
conceito de raça no Brasil na virada do século XIX para o XX, no contexto em que o 
conceito era hierarquizado e excludente, e assim descobrir como um país de ampla 
população negra como o nosso se projetava para o mundo.
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Ao falarmos que as populações indígenas e afro-brasileiras ainda são socialmente excluídas, você pode pensar
que é uma afirmação equivocada, uma vez que na atualidade a Constituição Federal de 1988, em seu artigo V,
garante a igualdade de todos perante a lei, inclusive com o racismo sendo considerado um crime inafiançável e
imprescritível (BRASIL, 2002). Porém, somente uma lei pode garantir o bom funcionamento da vida em
sociedade? Certamente que não.
A lei é o resultado das demandas e das transformações sociais do seio da sociedade, logo, é uma via de mão
dupla: enquanto a sociedade não agir contra a exclusão dos grupos historicamente excluídos, a lei será
meramente uma ferramenta teórica. Mesmo assim, vale observar de que forma a Constituição Federal de 1988
visa assegurar a manifestação cultural e a preservação da identidade indígena e afro-brasileira no Brasil, como
vamos acompanhar a seguir.
1.1.3 As manifestações culturais e a legislação brasileira
Para o exercício de reflexão sobre como a exclusão social acaba por gerar cada vez mais um abismo social
entre cidadãos no Brasil, é preciso, inicialmente, abordar o conceito de cultura e identidade.
De acordo com o antropólogo Cliord Geertz (1978, p. 15), a cultura pode ser compreendida como “uma teia de
significados tecida pelo homem”. Esta teia acaba por orientá-lo por um sistema de símbolos que ele mesmo
construiu, mas que está além dele. Assim, as crenças, os valores e as normas variam de cultura para cultura, e
não são estáticas nem inseridas dentro de um mesmo contexto cultural: as práticas culturais que possuíamos
no passado podem não ser as mesmas na atualidade. Como exemplo, poder escolher o futuro esposo ou
esposa, uma vez que o casamento servia para garantir o direito da posse e da herança, e somente a partir do
século XIX, nas sociedades ocidentais, surgiu com mais destaque a prática do casamento romântico, em que a
escolha amorosa era colocada em questão.
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Se há mudanças culturais pelas quais uma sociedade passa no decorrer dos tempos, o que definiria, então, uma
identidade cultural? É sentir-se pertencente a uma rede específica de um grupo social, ligado pela tradição,
ancestralidade, costumes e crenças. Em uma sociedade cada vez mais orgânica, individualista e globalizante
manter a identidade cultural de um grupo pode ser deveras desafiante.
Figura 2 - A cultura é uma rede de significados que acabam interligando os indivíduos, dando-lhes um sentido ulterior Fonte: Rawpixel.
com, Shutterstock, 2021.
 #PraCegoVer Na figura, temos uma fotografia editada digitalmente. Na parte inferior, encontramos pessoas de 
costas, olhando para frente, em direção a uma grande tela. Nesta, há uma espécie de apresentação indicando o 
que é cultura, envolvendo aspectos como nação, diversidade, tradição, crença, etnia e pessoas.
Estudo de Caso
Isabella é uma adolescente que sonha em ser uma importante empresária na área de 
exportação. Estuda muito, dia após dia, e tem as melhores notas na escola. Ao final do 
terceiro ano, aos 17 anos de idade, Isabella é surpreendida quando várias pessoas de sua 
família e de seu círculo de amizades repetem a mesma frase: “uma mulher só é completa 
se for casada e com filhos, desista de estudar.”
Isabella não dá ouvidos aos conselhos externos, continua a estudar, se forma e consegue 
um emprego em uma grande multinacional. Muda-se para o Japão. Torna-se uma mulher 
bem-sucedida e feliz em seu trabalho. Porém, todo ano, ao visitar os amigos e a família, 
ouve a mesma pergunta: “por que não se casa e tem filhos?” Isabella todo ano sorri e 
diz: “ah, sociedade, por que vocês querem colocar um padrão em algo que pode ser 
livremente escolhido por mim, um indivíduo autônomo?”
A sociedade não entende Isabella, mas ela continua sendo feliz por exercer suas escolhas 
livremente.
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Ao pensarmos sobre identidades coletivas, imediatamente precisamos refletir a respeito da proteção sobre tais
identidades, de quais mecanismos são utilizados para que sejam resguardadas. A identidade e as manifestações
culturais dos indígenas e dos afro-brasileiros são protegidas pelo Estado. Mas o que teriam esses povos de
diferente que possam justificar tal proteção?
Durante séculos de colonização e escravidão, esses povos, tão heterogêneos entre si, mas que eram
vistos uniformemente, viram sua cultura ser diminuída ou mesmo calada pelos detentores do poder: o
homem branco colonizador. Os costumes culturais indígenas e africanos, suas danças e manifestações
religiosas eram considerados pecados por uma lógica eurocêntrica cristã que eliminava qualquer
alternativa à fé portuguesa, a fé católica.
Assim, manter viva a cultura nativa e africana era possuir uma atitude de resistência. Os quilombos,
antigos redutos para escravos fugitivos, são uma forte expressão da resistência negra no Brasil,
desmistificando a ideia de que os antigos escravizados aceitavam passivamente sua situação de
escravos.
Os descendentes dos ex-escravizados que se autodefinem a partir da relação que possuem com o território,
com uma ligação com seus ancestrais e suas tradições formam as comunidades quilombolas. No Brasil,
existem 220 títulos emitidos, regularizando 754.811,0708 hectares em benefício de 152 territórios, 294
comunidades e 15.910 famílias quilombolas, segundo dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária, o INCRA, órgão responsável pela titulação das terras quilombolas (INCRA, 2017). Assim, busca-se a
preservação cultural desses grupos étnicos que durante séculos viram sua cultura tentar ser destruída, direta ou
indiretamente.
O Estado brasileiro, por meio de sua Constituição Federal de 1988, assegura a preservação cultural, material e
imaterial dos povos indígenase afro-brasileiros, conforme se pode observar pelo parágrafo 1º do artigo 215:
Em relação aos patrimônios culturais, o artigo 216 refere-se àqueles que possuem referências identitárias,
incluindo os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, como é o caso das comunidades quilombolas.
§ 1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de
outros grupos participantes do processo civilizatório nacional (BRASIL, 2002, p.126).
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No âmbito educacional, temos a lei 10.639, de 2003 (BRASIL, 2003) que determina que a História e cultura
afro-brasileira sejam componentes obrigatórios na educação básica, nos ensinos fundamental e médio. Assim,
os alunos poderão ter acesso a uma história das raízes brasileiras muitas vezes não contada pela história
oficial, tradicionalmente eurocêntrica.
Perceba, portanto, como os grupos historicamente excluídos, apesar do Estado assegurar suas manifestações
culturais, ainda sofrem pela falta de representatividade e pela exclusão social. A luta identitária é, sobretudo,
uma luta constante pelo reconhecimento e campos de poder, no qual demandas específicas devem ser tratadas
com seriedade e urgência, tanto pelo Estado, quanto pela sociedade.
1.2 O processo de socialização e as instituições sociais
As primeiras instituições que temos contato desde criança são a família, a escola e as instituições religiosas. A
partir da interação com os membros da sociedade, formamos nossos costumes, crenças e valores. Muitas
vezes, ao discordarmos de certas normas ou dogmas, acreditamos que estamos rompendo com uma verdade
absoluta, mas é preciso ter em mente que há uma construção social que envolve o indivíduo.
Assim, neste tópico, você irá aprender sobre um dos assuntos mais estudados pelas ciências humanas: as
instituições sociais e suas influências na vida do indivíduo. Você verá que desde cedo somos inseridos em um
contexto social mais amplo, e que as instituições acabam por determinar certas regras e costumes que muitas
vezes nos parecem naturais, mas que na realidade foram construídas socialmente.
1.2.1 As instituições sociais humanas
As instituições sociais são fruto da curiosidade científica no passado e no presente, uma vez que tratam
diretamente de nossa vida em sociedade. Alguns sociólogos, como Émile Durkheim, Karl Marx e Max Weber
pensaram em ferramentas que pudessem nos ajudar a entender como estamos inseridos em sociedade. Um
estudo mais aprofundado sobre as instituições merece destaque, para que possamos melhor compreender as
estruturas e consequências da vida em sociedade. .
Uma instituição pode ser entendida como uma estrutura criada pela sociedade com características específicas e
que serve aos seus próprios interesses. A primeira ideia que precisamos nos lembrar é que as instituições não
são estáticas,e passam por profundas transformações no decorrer dos tempos, uma vez que a própria sociedade
também passa por mutações.
Pense no surgimento da sociedade capitalista burguesa, a partir do século XIX, por exemplo. Naquele
contexto, com a vitória do capitalismo no cenário internacional e o advento de uma sociedade mais
mecanizada, as instituições tradicionais, com destaque para a família, passaram por profundas transformações.
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Velhos conceitos foram abandonados e novos surgiram, assim também ocorre na atualidade, em que as
instituições estão constantemente passando por transformações e redefinições a cada dia. No tópico anterior,
você viu como Émile Durkheim refletia acerca da conjunção indivíduo/sociedade, e a respeito das instituições,
o autor afirma que:
Vamos a um exemplo prático partindo da lógica de Durkheim: uma criança de 9 anos, ainda no ensino
fundamental, se recusa a usar o uniforme escolar. Porém, os pais, concordando com as normas da instituição
escolar, não oferecem alternativa à criança a não ser obedecer, explicando que ela não pode se diferenciar dos
demais colegas da escola, ou seja, não pode exercer sua individualidade em um lugar de convivência coletiva.
Assim, para Durkheim, a consciência coletiva se sobrepõe à individual.
Figura 3 - A escola é um exemplo de instituição que molda e normatiza o indivíduo, e a figura do professor é vista como aquele que 
deve conduzir o conhecimento ao aluno Fonte: Royalty-Free/Corbis, Shutterstock, 2021.
ao mesmo tempo que as instituições se impõem a nós, aderimos a elas; elas comandam e nós as
queremos; elas nos constrangem, e nós encontramos vantagem em seu funcionamento e no próprio
constrangimento. (...) Talvez não existam práticas coletivas que deixem de exercer sobre nós esta ação
dupla, a qual, além do mais, não é contraditória senão na aparência. (DURKHEIM, 1974, p. 30)
- -11
 #PraCegoVer Na figura, temos a fotografia de uma mulher ajudando uma criança a ler. Esta segura um livro e 
o observa atentamente. A mulher, por sua vez, está atrás da criança, de pé, curvada, lendo a história. Há cubos 
coloridos embaixo do livro.
Outro pensador clássico que reflete sobre as ações individuais e coletivas e como isso pode ser estudado
cientificamente é Max Weber (1864-1920). Divergindo de Durkheim, Weber acredita que a sociedade não é
formada a partir de uma síntese, ou em outras palavras, a consciência coletiva não precede o indivíduo, ao
contrário, o indivíduo realiza suas ações sociais dotado de um sentido ao mesmo tempo racional e subjetivo e,
portanto, anterior às instituições. De uma forma mais direta, Weber (2009, p.22) assim define as instituições:
“não são outra coisa que desenvolvimentos e entrelaçamentos de ações específicas de pessoas individuais, já
que apenas elas podem ser sujeitos de uma ação orientada pelo seu sentido”.
Logo, para Weber, é a própria ação social que dá origem às instituições, e a relação social se dá a partir do
compartilhamento recíproco de conteúdos que possuem significância inicialmente para o indivíduo e somente
depois para os demais membros da sociedade.
A seguir, vamos acompanhar de perto os caminhos e descaminhos das principais instituições sociais que
persistem apesar das mudanças do mundo pós-moderno.
1.2.2 As instituições e os indivíduos: a família enquanto primeira 
instituição social do homem
A primeira instituição com a qual temos contato desde o nosso nascimento é a familiar. Nela, recebemos as
referências culturais como nossa língua, e somos orientados a seguir esta ou aquela religião, enfim, a família
nos molda a partir de suas próprias pré-noções e crenças. Como vimos, nenhuma instituição está alheia às
mudanças sociais que as cercam e, no caso da família, é perceptível ver na atualidade os novos arranjos
existentes. Por fim, nos perguntamos: com tantas mudanças sociais, como poderíamos definir a família? De
acordo com Outhwaite (1996, p. 297- 298):
Note como a própria definição de família não permite um enquadramento pré-existente. Se assim fosse,
retornaríamos a um passado que somente um tipo de família era permitido, aquele composto por um casal
heterossexual com prole constituída. Na realidade atual, pós-moderna, percebemos um amplo caleidoscópio de
o próprio conceito – a família –, portanto, não pode captar a extensão e a diversidade de experiência que
muitos hoje definem como sua. A família – na realidade, muitas famílias diferentes – veio ‘para ficar’. A
família é uma elaboração ideológica e social. Quaisquer tentativas de defini-la como uma instituição
delimitada, com características universais em qualquer local ou tempo, necessariamente fracassarão.
- -12
arranjos familiares: pais ou mães solteiros, netos sendo criados pelos avós, casais homoafetivos adotantes,
tantas as possibilidades que não seria possível descrevê-las neste capítulo.
Cabe aqui refletir se os preceitos morais da família em que crescemos excluem outros arranjos familiares ou
outros membros da sociedade, seja por sua condição social, cor, orientação sexual, entre outros. Exatamente
por ser a primeira instituição com a qual temos contato, a desnaturalizaçãodos conceitos apreendidos no seio
familiar é um exercício árduo, porém necessário. Ao vivermos em sociedade, temos que ter em mente que há
um campo de disputas de representações, onde cada grupo em particular exige cada vez mais demandas pelo
seu reconhecimento, tanto pela sociedade quanto pelo Estado. Sendo assim, é de direito que as minorias
sociais busquem cada vez mais o reconhecimento e a representatividade no meio social e político.
1.2.3 Moldando o ser humano: as instituições religiosas e a escola
Após refletir sobre nossa primeira instituição, a família, a próxima instituição que vamos destacar e que molda
o indivíduo ainda em sua infância é a religiosa, em suas diversas manifestações. Dificilmente haverá uma
sociedade na história que não possua alguma ligação com o sagrado e com símbolos, mitos, crenças e
tradições. Algumas religiões resistiram às situações tempestuosas, passaram por modificações e readaptações,
e permanecem na atualidade, mesmo que tenha havido certa perda da identidade na pós-modernidade.
Apesar da existência de tantas expressões religiosas diferentes, Giddens (2012) nos auxilia a compreender as
características em comum que as religiões teriam:
Assim, ao fazer parte de uma religião, o indivíduo torna-se pertencente a uma comunidade que partilha as
mesmas crenças. A partir daí, o indivíduo não é mais indivíduo, mas parte de algo maior.
Você quer ver?
No filme (CHOLODENKO, BLUMBERG, 2010), você pode Minhas mães e meu pai
acompanhar a história da família atípica de Jules e Nic, duas lésbicas que no passado 
fizeram inseminação artificial e agora se veem às voltas com seus dois filhos 
adolescentes que buscaram e encontraram seu pai biológico.
As características que todas as religiões parecem, de fato, partilhar são as seguintes. As religiões
implicam um conjunto de símbolos que invocam sentimentos de reverência ou de temor, ligados a rituais
ou cerimônias (como os serviços religiosos) realizados por uma comunidade de crentes (GIDDENS,
2012, p. 535).
- -13
Figura 4 - A religião traz ao homem o sentimento de pertencimento, de crença em comum, lhe dá sentido Fonte: Quick Shot, 
Shutterstock, 2021.
 #PraCegoVer Na figura, temos a fotografia de uma senhora com as mãos juntas ao peito, em sinal de prece. 
Ela veste um cobertor quadriculado por cima dos ombros e uma blusa de lã verde. Aparece apenas parte do 
seu rosto, com foco para suas mãos.
Por dar um significado maior ao indivíduo, a religião pode ser um instrumento perigoso de poder, pois pode
ser manipulável por aqueles que assumem posições de mando. Outro cuidado em relação à religião, é
compreender que o sistema de crenças somente diz respeito àqueles que acreditam em determinado dogma.
Uma crença religiosa, seja ela qual for, não pode ser determinante e imposta para toda uma sociedade, a não
ser que o regime político em questão seja o teocrático (teo: Deus; cracia: governo), como ocorre na Arábia
Saudita ou Paquistão, por exemplo. Nas sociedades democráticas, valer-se de preceitos religiosos para o
impedimento ao acesso de direitos políticos e/ou sociais dos grupos minoritários, é em si uma própria
controvérsia da gênese da democracia, que deve assegurar que os direitos da minoria não sejam incluídos
pelos da maioria. Assim como no caso da família, desnaturalizar as crenças e convicções religiosas que nos
tentaram moldar desde a infância não é uma tarefa fácil, porém é crucial que possamos desnaturalizar tal
atitude a fim de convivermos senão em harmonia, ao menos em uma sociedade justa.
A terceira instituição com a qual temos contato ainda criança é a escola, que pode ser tanto um espaço
socializador de forma positiva ou ser um espaço de exclusão. Na sua opinião, a escola pode integrar ao mesmo
tempo que pode excluir? Vamos refletir sobre esse ponto.
A educação brasileira tradicionalmente seguia um viés conservador, herdeira de uma educação
jesuítica que privilegiava aspectos quantitativos em detrimento dos qualitativos. Tanto essa vertente
quanto a tecnicista, privilegiava os resultados, não a emancipação do educando e sua compreensão do
mundo em que vive.
- -14
O maior educador brasileiro, Paulo Freire (1921-1997), sugere que abandonemos a “concepção
bancária da educação” (FREIRE, 2011, p. 33), onde alunos são meros receptáculos do conteúdo dado
por um professor que deteria todo o conhecimento, e passemos a lutar por uma educação humanista e
libertadora e, sobretudo, política, onde o professor reconheça que a todo o momento pode aprender
com o aluno. Assim, ambos constroem o conhecimento mutuamente, sem hierarquizar saberes.
A escola enquanto espaço excludente é aquela que rejeita e oprime as minorias sociais, sejam elas de
qualquer forma: de cor, religião ou orientação sexual, ou outras aqui não citadas, apartando-as do
processo socioeducativo, que deve ser construído com toda a comunidade, para além dos rumos da
instituição.
Na Constituição Federal (BRASIL, 2002, p. 123), artigo 205, a educação é referida como “direito de
todos e dever do Estado e da família”, inclusive sendo “promovida e incentivada com a colaboração da
sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e
sua qualificação para o trabalho". Portanto, a instituição escolar não está apartada de outras
instituições, como a família.
O tipo de escola que queremos reflete-se no tipo de sociedade que temos. Se a escola assume uma postura
excludente, preconceituosa, tecnicista ou que privilegia a memorização em detrimento da consciência crítica, é
porque a sociedade e o poder público não fiscalizam ou investigam o que deveria ser cumprido
obrigatoriamente, visto que é lei (BRASIL, 2002) que tenhamos um ensino pautado pelos princípios de
igualdade, liberdade e pluralismo de ideias e concepções pedagógicas. A construção de uma educação que
ensine de forma crítica, política e construtiva depende de uma sociedade verdadeiramente atenta para que tais
posturas ocorram de fato.
Figura 5 - A inclusão deve ser palavra de ordem de toda e qualquer escola. Se a escola for excludente, é porque toda a sociedade 
também o é Fonte: Nelosa, Shutterstock, 2021.
 #PraCegoVer Na figura, temos a fotografia de mãos segurando grandes letras vermelhas. Estas formam a 
palavra "inclusão".
- -15
No próximo tópico, vamos estudar a instituição que exerce poder sobre todos os indivíduos habitantes de um
território em comum: o Estado.
1.3 O Estado e suas representações sociais
Você deve ter percebido até aqui como as instituições sociais nos imputam crenças, valores e normas, porém,
é preciso conhecer outra instituição que exerce poder sobre nós. O pertencimento a esta instituição não é
opcional, pois ao nascermos já estamos inseridos em sua lógica. Vamos refletir como o Estado nos obriga, nos
limita e possui diferentes formas de atuação.
Então, neste tópico, você irá se aprofundar a respeito de como o Estado, instituição que regula, normatiza e
administra a vida em sociedade, pode ser pensado de forma crítica. Vamos levantar os questionamentos a
respeito da legitimação, do uso da força física e a representação que o Estado proporciona a seus cidadãos.
Também vamos conhecer mais sobre a divisão do poder dentro do próprio Estado.
1.3.1 Por uma definição de Estado
Existem diversas teorias a respeito da necessidade da fundação do Estado. Na Grécia antiga, o filósofo
Aristóteles acreditava que o Estado seria uma sociedade natural a partir de sua concepção de que o homem é
um animal político. Em “O príncipe”, escrito em 1532, Nicolau Maquiavel afirma que o Estado seria a
expressão de uma comunidade política soberana. No século XVII, pensadores políticos europeus,
denominados de contratualistas (Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau) defendiam a ideia do
surgimento da sociedade civil a partir do cumprimento de um contrato social que daria autoridade a um
governante de forma legítima. A assinatura simbólica do contrato pressupunhao mútuo acordo entre
governantes e governados, e havia a ideia da necessidade do governante, que naquele contexto detinha todo o
poder em si, para controlar as paixões humanas por meio da formalização de regras, normas e obrigações.
Você o conhece?
Thomas Hobbes (1588-1679) foi um teórico, filósofo, e matemático inglês que defendia 
a ideia de que o Estado era uma instituição criada artificialmente pelo homem para 
conter as paixões humanas, e por isso defendia o absolutismo. A partir do surgimento do 
Estado, após a assinatura do contrato social, havia leis civis, controle social e o fim de 
uma guerra até infinda entre os homens. Para mais informações, você pode ler a obra 
“Leviatã” (HOBBES, 1997).
- -16
A Europa passou por importantes transformações a partir do século XVIII dentre elas o fato de que o Estado
não mais se limitava a um governante, a partir da divisão dos poderes, para que houvesse o equilíbrio. Da
Europa para o mundo ocidental, o Estado foi se modificando e delimitando seus meios, até o formato dos dias
atuais.
O sociólogo Max Weber, em “A política como vocação” (2004), afirma que o Estado não pode ser definido
por seus fins, mas por seus meios: o monopólio legítimo da força física. Para o autor, o Estado seria uma
“comunidade humana que, dentro dos limites de determinado território – a noção de território corresponde a
um dos elementos essenciais do Estado – reivindica o monopólio do uso legítimo da violência física”
(WEBER, 2004, p. 98), ou seja, o Estado é o único que detém o uso exclusivo e legítimo da violência. Porém,
há a necessidade de mecanismos que delimitem tal poder, pois caso contrário, o Estado agirá de forma
autoritária e acabará por desrespeitar os direitos mais básicos dos cidadãos, sejam eles civis, políticos ou
sociais. Se o Estado não cumpre com suas prerrogativas, cabe aos cidadãos exigirem sua reformulação,
compatível com novas realidades.
A concepção tradicional de Estado de Direito provém do filósofo Immanuel Kant (1724-1778), para quem a
ideia de que os interesses do Estado devem estar vinculados às garantias individuais e à proteção da
propriedade privada. Defendendo que o Estado deveria ser subordinado ao direito, Kant (1998) afirma que a
razão deve reger a sociedade, em leis que devem ser válidas universalmente. Há uma discussão muito mais
ampla a respeito da definição jurídica de Estado, porém cabe ressaltar que o Estado é uma organização
coletiva que visa à manutenção da ordem pública com a legitimidade dada por todos os seus membros. O
princípio da legalidade é uma das bases em que se funda o Estado, pois somente após passar pelo crivo do que
foi instituído como legal é que uma lei deve ser respeitada e cumprida.
Partindo das concepções sociológicas e jurídicas do Estado, vamos agora para a busca da compreensão sobre o
papel e a função desta instituição nas sociedades ocidentais.
1.3.2 As ações do Estado na vida social
Agora que você já entendeu que o Estado é instituição criada pelo homem e possui como características o uso
da força física, a normatização de leis e a defesa dos direitos mais básicos dos cidadãos, vamos para algumas
ações do Estado em nossa vida cotidiana.
Um dos conceitos básicos ligados ao Estado é o de poder. Para o já citado sociólogo Max Weber, o poder
pressupõe uma relação de submissão (o domínio de um homem ou de um grupo sobre os demais), e quem o
possui em primeiro lugar deve obtê-lo de forma legítima e ser detentor dos meios materiais de organização.
Ou seja, o Estado precisa do reconhecimento de sua legitimidade por parte dos cidadãos.
- -17
Um tipo legítimo de poder é a dominação, só existindo quando há motivos suficientemente fortes para
assegurar a obediência, e não somente pelo uso da força. Em nossa relação com o Estado, há variados
exemplos que demonstram a submissão dos cidadãos a ele, do contrário, estaríamos indo de encontro às leis,
normas e obrigações. Por exemplo, no Brasil, o voto é obrigatório dos 18 aos 70 anos de idade. Se optarmos
por não votar, estaremos descumprindo um dos princípios básicos da cidadania e, por conta disso, sofreremos
uma série de represálias, como ter o título cassado e,assim, o impedimento de participar de concursos
públicos, de retirar passaporte ou carteira de identidade, de não renovar matrícula em estabelecimentos de
ensino público oficial, dentre outras sanções Em resumo, ao pertencemos a uma comunidade social
subordinada ao Estado, há certos deveres e obrigações implícitos, assim como direitos. Quando nascemos, já
há uma constituição vigente, leis trabalhistas, um código penal e as demais normas e somos enquadrados
previamente em toda essa lógica.
1.3.3 As formas de ação e organização do Estado
No decorrer da história da humanidade, o Estado assumiu diversas formas, mas para que nosso estudo fique
mais delimitado vamos tomar como exemplo a constituição do Estado brasileiro.
Antes de sermos Brasil, éramos colônia de Portugal, isto é, não tínhamos qualquer tipo de organização
político-administrativa autônoma, éramos súditos, não cidadãos. Isso quer dizer que o Estado brasileiro não
existia? Exatamente. O Estado passou somente a existir a partir da proclamação de independência de Portugal
e com nossa primeira constituição, em 1824. Não deixamos de ser Brasil, mas desde o nosso nascimento,
enquanto Estado Nação, passamos por diversos governos: império, república oligárquica, ditadura civil,
república democrática, ditadura civil-militar e por fim o retorno à democracia (desde 1985). Os governos
mudaram, mas o Estado permaneceu.
Desde o século XIX, a maioria dos Estados ocidentais adotou a forma de república como governo. A palavra
república é oriunda do latim, res publica – coisa pública, um governo republicano pressupõe rotatividade no
poder, a escolha dos representantes do povo e a divisão do poder em três: executivo, legislativo e judiciário.
Você sabia?
Estado e governo são diferentes? Sim. O Estado é permanente, é a instituição que 
centraliza em torno de si o poder e possui códigos, normas e sistemas. Os governos se 
alternam, são mutáveis, como vimos no exemplo do Estado brasileiro. Quer saber mais 
sobre isso? Recomendamos o livro “Dicionário de política” (BOBBIO, 1998), do 
historiador e filósofo político Norberto Bobbio.
- -18
A teoria da divisão do poder em três vertentes foi mais bem formulada pelo filósofo Charles de Montesquieu
em “O espírito das leis” (1979), obra que influenciou governos republicanos posteriores. Assim, o poder não
seria centralizado nas mãos de um único governante, mas seria equilibrado a partir da função que cada um dos
três setores exerceria de forma independente, porém em harmonia entre si.
Figura 6 - Montesquieu (1689-1755) foi um dos mais importantes teóricos políticos do mundo, influenciando diversos processos 
revolucionários no mundo ocidental Fonte: Shutterstock, 2021.
 #PraCegoVer Na figura, temos um esboço em preto e branco do perfil de Montesquieu. Ele está com um leve 
sorriso e veste roupas pesadas, com um lenço amarrado no pescoço.
O poder executivo tem a função de governar, ou de executar as leis previstas na Constituição, carta máxima
dos países. O chefe do executivo, geralmente um presidente, possui algumas atribuições que, sobretudo,
devem zelar pelo bem-estar da população. Ele tem o poder de vetar ou sancionar os projetos de lei formulados
pelo poder legislativo, mas não tem o poder de criar as leis, pois essa é uma função do poder legislativo. Além
disso, é o poder legislativo que fiscaliza o Executivo, vota leis orçamentárias e em casos excepcionais, até
mesmo julga seus próprios membros ou os do poder executivo.
Cabe ao poder judiciário promover a justiça levando em consideração as leis e as regras constitucionais pré-
estabelecidas. Sua hierarquia é formada pelas chamadas instâncias, e a primeira instância é o primeiro local
em que uma ação é analisada e julgada, as instâncias confirmam ou refutam as decisões tomadas
anteriormente.- -19
Entre os três poderes, há o princípio de , ou freios e contrapesos, a fim de que o poderchecks and ballances
seja equilibrado, para que nenhum poder supere o outro. Dessa forma, assegurando a harmonia e a
independência em um Estado democrático.
Perceba, portanto, como é importante que o poder seja equilibrado e não defenda somente os interesses de
uma parte da população. Quando há vigência de um Estado democrático de direito, o governo tem que ser para
todos, não somente para uma parcela da população. Assegurar que a lei seja cumprida e que a justiça seja
feita, independente de classe, raça, orientação sexual ou qualquer distinção, é o princípio básico de qualquer
sociedade que se diz democrática e justa. Nenhum dos poderes é estático, logo, a vigilância por parte de toda
sociedade é crucial para que não haja desarmonia e desigualdades. No próximo tópico, você vai refletir sobre a
correlação entre trabalho, sociedade e economia e que de forma isso influencia sua vida em sociedade.
1.4 Trabalho, sociedade e economia – I
No presente tópico, vamos refletir sobre o conceito de trabalho, produção social e de que forma nossa vida
produtiva influencia nossos papéis sociais, e ainda vamos analisar a evolução do conceito de trabalho e suas
diferentes relações no decorrer do tempo. A forma com que os homens produzem no decorrer da história se
alterou profundamente, assim como as relações entre os seres humanos O exercício de olhar para o passado
nos possibilita enxergar a nossa realidade de uma forma crítica, ao percebermos as desigualdades e exclusões
no mundo do trabalho e no meio social, uma vez que o trabalho é uma atividade inerentemente humana.
1.4.1 O trabalho numa perspectiva ontológica
A reflexão sobre o trabalho deveria partir de todo indivíduo, uma vez que a escolha de uma profissão e seu
exercício é uma das decisões mais importantes que tomamos em nossa vida. A filosofia nos ajuda a questionar
conceitos e a ontologia, significa o estudo do ser enquanto ser, ou seja, que explora suas características, seus
princípios e natureza. Portanto, pensar no trabalho numa perspectiva ontológica é refletir sobre suas origens,
natureza, percurso e transformações sócio-históricas.
A primeira relação que deve ser estabelecida é entre o homem e seu trabalho, pois as formas com que os
homens produzem influenciam toda a vida social. Devemos nos questionar, por exemplo, porque os homens
produzem, se o trabalho é necessariamente uma fonte de opressão e refletir sobre o que sua trajetória tem a
nos dizer.
Um dos teóricos mais conhecidos, por tratar o trabalho como objeto de estudo, é o alemão Karl Marx (1818-
1883). Para o autor, é impossível separar o homem do trabalho, uma vez que:
- -20
Assim sendo, independente do tipo de Estado, governo ou tempo histórico, a relação do homem com o
trabalho permanece. O homem é o único que, diferentemente dos animais, consegue planejar previamente,
criar metas, objetivos e alterar a natureza a seu redor. Um animal, por melhor que produza, continua a
produzir da mesma forma que fazia há milênios, pois é guiado por seus instintos. Já o homem, cria os próprios
meios para a sua sobrevivência, e essa ação de alterar a natureza em prol de sua própria necessidade é o que se
chama de trabalho.
Vamos usar como exemplo uma galinha, ela produz ovos, e assim sua espécie tem feito há milênios. Uma
galinha não visa aumentar sua produção, não faz hora extra nem coloca um logotipo em seus ovos. São os
homens que, pensando em seu próprio lucro, tornam os galinheiros lugares cada vez mais insipientes para que
elas produzam mais, com o uso de luz artificial, adição de proteína e cálcio. A galinha não deixa de ser
galinha, mas o homem, ao acrescentar meios artificiais aos naturais para aumentar a produção, acaba por
alterar toda uma natureza. O trabalho é, portanto, a alteração da natureza pelo homem com o fim de suprir
suas próprias necessidades. No próximo tópico, você refletirá sobre a história do trabalho no decorrer do
tempo histórico.
1.4.2 O trabalho através da história
Uma das questões mais importantes sobre o trabalho, uma vez que já entendemos que o homem produz
alterando o meio em que vive a partir de sua própria ação, é analisar sua trajetória, e para isso vamos retornar,
mais uma vez, a Karl Marx. O autor parte da análise da sociedade capitalista do século XIX, e identifica um
profundo abismo entre trabalhador e o fruto do seu trabalho, uma verdadeira impessoalidade ou, conforme o
autor chamava, alienação. Essa lógica rompia abruptamente com o que ocorria anteriormente na Idade Média,
época em que havia as corporações de ofício, as associações que regulamentavam as profissões, e cada
homem sabia sua profissão e seu exercício. A partir de uma divisão lógica do trabalho, o trabalhador perde o
elo que tinha com o resultado de seu próprio trabalho, e isso o torna mais mecanizado e alienado.
como criador de valores de uso, como trabalho útil, é o trabalho, por isso, uma condição de existência do
homem, independente de todas as formas de sociedade, eterna necessidade natural de mediação do
metabolismo entre homem e natureza e, portanto, da vida humana (MARX, 2011, p. 167).
- -21
Figura 7 - Karl Marx (1813- 1883), um dos teóricos mais importantes a respeito da análise do mundo do trabalho Fonte: Nicku, 
Shutterstock, 2021.
 #PraCegoVer Na figura, temos um esboço em preto e branco do busto de Karl Marx. Ele tem cabelos e barba 
cheios e longos. Veste paletó e tem um colar pendurado em seu pescoço.
Para melhor entender a realidade do século XIX, Marx olha para o passado a fim de investigar como era a
relação dos homens com o trabalho, e formula o conceito de modo de produção, que significa como os
homens se organizam socialmente, formado pela junção daquilo que se produz (forças produtivas) e pelas
relações de produção. Marx (2011) afirma que no decorrer da história da humanidade tivemos cinco distintos
modos de produção:
Modo de produção primitivo
No início da sociedade humana, ainda não havia a instituição do Estado ou de leis que limitassem a vida
humana em sociedade. Também não havia propriedade privada, assim como não havia uma relação de
produção dividida entre proprietários e empregados, pois os bens coletivos eram divididos entre todos.
Modo de produção escravista
Extremamente desigual e violento, esse modo de produção estabelecia uma relação de dominação em que o
senhor tudo detinha (os meios de produção - terra, materiais - e a força de trabalho), pois ao se tornar o
escravo o homem não mais pertencia a si, mas ao outro, que poderia vendê-lo, alugá- lo e obrigá-lo a trabalhar
- -22
até o fim de sua vida. Houve casos em que a escravidão era por dívida, por tempo determinado ou
indeterminado, mas o que se precisa destacar é que a condição de escravo despersonalizava o homem e o
transformava em mercadoria.
Modo de produção asiático
Presente na China, Egito, parte da África e Índia, esse modo foi marcado pela presença soberana do Estado,
que controlava a economia, a política e mesmo a religião. Era utilizado trabalho escravo e servil, símbolo de
grande desigualdade e abismo social que imperava.
Modo de produção feudal
Também marcado pela desigualdade social, a sociedade era dividida, sobretudo, entre senhores (que detinham
os meios de produção) e servos, que diferentemente dos escravos, não eram propriedade do senhor, mas
estavam presos à terra. Os servos deviam fidelidade ao senhor, e assim ocorreu por muito tempo. A
desagregação do mundo feudal ocasionou o surgimento do modo de produção ainda vigente no mundo atual.
Modo de produção capitalista
Ainda em vigência e tendo passado por ciclos, é caracterizado pela presença da propriedade privada e pelas
relações assalariadas de produção, visando sempre maior lucro.
Em seu início, na primeira fase capitalista, a classe social que detinha os meios de produção era a burguesia, e
os trabalhadores eram chamados de proletariados. Apesar denão serem escravos nem servos, o proletário via-
se às voltas com um verdadeiro “exército de reserva”, ou seja, uma profunda concorrência entre aqueles que
também precisavam sobreviver em uma realidade tão dura. As demais fases do capitalismo são chamadas de
comercial, industrial e financeiro, ainda em vigência nos dias atuais.
Você não deve esquecer que o modo de produção capitalista não é linear, mas os países sofrem seus processos
de forma particular e em seu próprio ritmo. A concorrência e a busca pelo lucro continuam sendo uma máxima
capitalista, e os empresários e profissionais donos do meio de produção ainda fazem uma mesma pergunta: de
que forma posso lucrar mais gastando o mínimo possível? Durante séculos, os direitos trabalhistas foram
ignorados, pois o poder sempre pendia para o lado do patrão. Porém, graças à militância, greves e lutas, os
direitos trabalhistas foram conquistados ao redor do mundo, o que não quer dizer que não existam casos
análogos a escravidão ainda nos dias atuais. Não há um modo de produção ideal, pois mesmo que se considere
este ou aquele menos desigual é necessário permanecer fiscalizando em prol de uma sociedade mais
equilibrada. O trabalho deve ser pensado de forma crítica, não mais mecanizada ou manipulada, e é o que
vamos ver a seguir.
1.4.3 Pensando o trabalho criticamente
- -23
Na atual fase do modo de produção capitalista, ainda é muito presente a pressão pela escolha de uma profissão
que traga retorno financeiro e imediato, porém, um jovem, ao escolher sua profissão, não deve fazê-lo
simplesmente pelo lucro, mas deve entender que a profissão que escolher significará alterar a sociedade em
que vive.
Um conceito básico para refletirmos sobre o trabalho atual é o de autonomia. Ser autônomo significa pensar
por si, não se deixar alienar pelo resultado de um trabalho que você nunca terá acesso. é se perceber
participante de toda uma lógica social, e que ao alterar a natureza para sua própria sobrevivência, tudo ao seu
redor consequentemente muda, não somente em termos econômicos.
Conceitos como consciência ambiental, trabalho humanizado e responsabilidade social devem estar na pauta
de grandes empresas, que nem sempre agiram assim pelo curso da história. A atualidade traz consigo novos e
importantes desafios e você acompanhará essas novas consciências melhor nos próximos capítulos. Desde o
surgimento do capitalismo, o lucro é o que mais se busca por parte de quem detém os meios de produção, mas
há mecanismos que emergem da própria sociedade civil que regulamentam o trabalho para que ele não seja
degradante. É importante que novas consciências e direitos surjam para que o trabalho tenha cada vez mais um
significado positivo, para o mercado, mas, principalmente, para os trabalhadores.
- -24
Conclusão
Concluímos o primeiro capítulo da disciplina. Agora, já podemos refletir sobre as questões sociais que muitas
vezes passavam despercebidas. Você pôde entender que a sociologia pode te oferecer as ferramentas para
observar a realidade com outro olhar, o científico.
Nesta unidade, você teve a oportunidade de:
• refletir sobre o debate entre indivíduo e consciência coletiva em diferentes perspectivas;
• analisar como a exclusão social é uma realidade no Brasil ainda na atualidade, principalmente para as 
matrizes étnicas que formaram nosso país: indígenas e afro-brasileiros;
• observar os mecanismos legais que garantem a preservação cultural e identitária desses povos;
• refletir sobre o papel das instituições sociais na vida do indivíduo, como família, escola e instituições 
religiosas;
• entender o conceito de Estado, seus mecanismos de poder e sua divisão; aprender sobre o conceito de 
trabalho e sua evolução através dos tempos, assim como as relações entre os homens.
•
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Referências
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- -1
DESENVOLVIMENTO HUMANO E SOCIAL
DESENVOLVIMENTO, 
CAPITALISMO E TERRA: 
A PRODUÇÃO NA ERA 
GLOBAL PRECARIZA O 
TRABALHO?
Autoria: Dr. Marcone Costa Cerqueira - Revisão 
técnica: Dra. Karen Barbosa Montenegro de Souza
- -2
Introdução
A dinamicidade com a qual o sistema capitalista se adapta às crises e se autorreestrutura torna o processo
produtivo cada vez mais dependente de novas tecnologias e de mão de obra mais qualificada. Conforme a
tecnologia avança, principalmente por meio da automação, a força de trabalho humana se torna dispensável?
Essa alteração no processo produtivo impulsionou uma exponencial capacidade de se alcançar níveis cada vez
maiores de produção e, assim, alcançar também um mercado maior de consumidores.
A globalização só poderia ser possível por conta dessa alteração no processo produtivo, com cifras jamais
imaginadas a partir dos processos antigos de produção? Nesse contexto, a questão se torna o papel do
trabalhador, que traz inúmeros reflexos na organização político-social, em especial, nos grandes centros
urbanos.
Ao analisar a questão do campo, nos questionamos sobre como a produção agrícola sofreu o impacto da
revolução tecnológica dos processos produtivos? Sabemos que o agronegócio é impulsionado pela automação
de várias partes da produção no campo, da semeadura até a colheita. E que a produção agrícola também gera
impactos no quadro social, principalmente nas classes menos favorecidas como o campesinato, os povos
indígenas e as comunidades quilombolas.
Neste capítulo, vamos abordar essas questões para compreender o desenvolvimento humano e a organização
social atual. Vamos entender os reflexos da tecnologia produtiva no cenário social, compreender o problemadas políticas econômicas que direcionam a atual organização produtiva e sua inserção na organização político-
social. E também vamos estudar a questão agrária a partir das políticas de organização e a temática social de
reconhecimento e garantia dos direitos dos povos originários e quilombolas.
Bons estudos!
: 55 minutos.Tempo estimado de leitura
2.1 Trabalho, sociedade e economia - II
No moderno processo de produção, a tecnologia alcançou extrema importância. No entanto, as consequências
desta realidade são sentidas em todos os âmbitos da organização social. Lançando nossa atenção para os
paradoxos advindos desse processo, vemos ao mesmo tempo uma alavancagem nas formas de organização da
produção e um aumento da desigualdade social nos grandes centros urbanos.
- -3
Tal paradoxo não se dá apenas em termos regionais ou locais, a produção cada vez mais automatizada é a
impulsionadora da formação de um mercado global. Dessa forma, países mais ricos contrastam com países
onde a pobreza é extrema. Nos grandes centros urbanos, podemos ver bairros com enormes mansões ao lado
de comunidades com IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) comparável ao de países pobres da África. A
partir desse cenário, vamos tratar da questão da tecnologia no processo produtivo, sua importância para a
globalização e seus reflexos nas expressões das diversas questões sociais.
2.1.1 As constantes “revoluções industriais” e o processo autodestrutivo 
da tecnologia
Ao pensar sobre a história humana no decorrer dos séculos, vemos um enorme esforço do homem em moldar a
natureza, modificá-la e extrair o necessário para a sua sobrevivência e segurança. Por muito tempo, esse
esforço dependeu somente da força física empreendida no trabalho e na utilização de tração animal. O que
mudou o quadro de esforço primitivo foi a utilização de máquinas alimentadas por fontes diversas de energia.
Desde as rodas d’água, passando por moinhos, até o advento das máquinas a vapor, o homem tem
aperfeiçoado a forma de se beneficiar da energia de fontes da natureza para potencializar seu trabalho. A
chamada Revolução Industrial, ocorrida no final do século XVIII e início do século XIX na Europa, foi uma
importante etapa nesse processo. O maquinário movido pela energia a vapor transformou a rústica produção
artesanal em dinâmica produção industrial.
O processo de aperfeiçoamento do uso de maquinários determina um tipo de evolução tecnológica, ou seja, a
busca de tecnologias modernas e capazes de aumentar a produção industrial tem tornado o processo produtivo
uma corrida determinada pela inovação.
“O passar da invenção de um novo produto ou processo para a sua utilização comercial é chamado inovação”
(SANTOS, 1987, p. 17). Dessa forma, uma nova tecnologia, seja no processo de produção ou de uso pessoal,
tem a característica de se tornar obsoleta, ou pelo menos, ultrapassada, em relação à tecnologia anterior, o que
altera a própria relação de produção e a concorrência entre as empresas. Para compreender a evolução dos
processos produtivos e das crises pelas quais o capitalismo passava, Schumpeter (1997) propôs que os ciclos
de altos e baixos existentes no processo de produção capitalista e suas subsequentes crises estavam
diretamente relacionados à alternância de tecnologias utilizadas na produção.
- -4
Figura 1 - A inovação tecnológica e sua implementação é o fator primordial para a modernização da produção no capitalismo Fonte: 
Olivier Le Moal, Shutterstock, 2021.
 #PraCegoVer Na figura, temos uma fotografia focando em um botão de ligar, indicando ativar a "inovação".
Por essa perspectiva, quem tem o melhor maquinário e a tecnologia mais avançada tem condições para uma
melhor produção, proporcionando diminuição nos custos e uma baixa nos preços finais do produto, o que,
obviamente, deixa o produto mais competitivo no mercado. Essa lógica de competição na inovação do
processo produtivo por meio da evolução tecnológica cria as constantes revoluções industriais. 
Isso é a marca do moderno modo de produção capitalista, no qual novos processos de produção e novas fontes
de energia estão constantemente sendo buscadas. Com esse cenário, vemos surgir o fenômeno da globalização,
a inovação tecnológica não só impulsiona o processo produtivo como também permite uma maior distribuição
dos produtos e a interação nos mercados do mundo inteiro. Vamos tratar desse tema no próximo item.
2.1.2 Globalização e processo produtivo: o mundo é uma grande indústria
Sabemos que uma das bases do modo de produção capitalista é o excedente de produção, ou seja, a
possibilidade de produzir mais, tendo menos custos para acumular lucro e capital. Para que isso funcione, é
necessário ‘escoar’ o excedente de produção, alcançar mercados consumidores que possam absorver a
produção dos produtos e, assim, gerar o ciclo econômico que alimenta o próprio processo produtivo. A partir
dessa lógica, quanto mais diversificado for o mercado consumidor, mais chances o produtor tem de ‘escoar’
sua produção, gerando mais capital e possibilitando o aumento no próprio fluxo de produção.
Você quer ler?
A obra (SCHUMPETER, 1997) trata de maneira Teoria do desenvolvimento econômico
ampla a questão do desenvolvimento nos primeiros ciclos do capitalismo industrial. A 
percepção é a de que o cerne da capacidade de evolução do processo capitalista é 
exatamente a possibilidade de se criar infinitamente novas tecnologias, sendo as antigas 
tornadas obsoletas.
- -5
Figura 2 - A globalização proporciona o aumento nas relações financeiras entre os diversos países, eliminando as dificuldades causadas 
pelos limites geográficos Fonte: EM Karuna, Shutterstock, 2021.
 #PraCegoVer Na figura, temos uma fotografia editada digitalmente. Tratam-se duas pessoas apertando as 
mãos no centro, com foco em suas mãos. Ao fundo, pode-se observar a ilustração do mapa do mundo.
Quanto mais avançada a tecnologia de produção, maior é a capacidade produtiva e as empresas têm
necessidade de expandir seus negócios para além dos mercados locais, geograficamente próximos, pois eles
não são mais suficientes para absorver toda a produção. Então, parte-se para a busca de mercados estrangeiros
como um fator de alavancagem para o aumento dos lucros. 
Essa busca ligou os diversos mercados consumidores, em países diferentes, proporcionando a chamada
globalização de mercado. No entanto, o processo de globalização vai além da lógica de se produzir em um
país e consumir em outro. Podemos afirmar que a globalização é um fenômeno político-econômico, uma vez
que interfere não somente no quadro financeiro dos grandes centros urbanos, mas também na organização
social. Nesse sentido, a globalização não se vincula apenas ao processo produtivo, mas também a um processo
ideológico-cultural que dá substrato à formação de mercados consumidores. Sklair (1995) nos aponta que:
A globalização, portanto, gera demandas de consumo que na verdade são direcionadas pelas necessidades
induzidas pelas grandes indústrias ao inserirem seus produtos em um novo mercado. Esse processo também
inclui a ampla divisão da produção, ou seja, grandes indústrias multinacionais implantam suas fábricas em
diferentes regiões ou países, utilizando mão de obra mais barata, criando pontos estratégicos de produção para
escoamento, gerando,assim, a possibilidade de aumento dos lucros. Por exemplo, uma montadora
a criação de necessidades depende de estruturas e dinâmicas de camadas múltiplas que fazem a conexão
das características individuais do consumidor com os processos que operam em nível social. O sistema
capitalista global propaga uma cultura e uma ideologia do consumismo integradas através da
manipulação das necessidades de consumo já existentes e da criação de novas necessidades. (SKLAIR,
1995, p. 98)
- -6
multinacional europeia de veículos automotores pode produzir seus motores e peças em um país europeu, mas
ter uma linha de montagem em um país asiático, e a comercialização do automóvelser feita em outro
continente.
Esse formato de divisão internacional da produção transforma o planeta em um grande conglomerado
industrial, interligado para atender à demanda de mercados globalizados.
Com isso, há o impacto gerado na organização político-econômica dos grandes centros urbanos,
principalmente em relação ao trabalhador. Esse é o nosso ponto de estudo a seguir.
2.1.3 O trabalhador frente à globalização da produção
A evolução dos processos produtivos ocorrida nas últimas décadas nos leva a pensar na condição do
trabalhador e nas consequências da globalização da produção em relação à vida dos indivíduos nos grandes
centros urbanos. O processo que o capitalismo tem percorrido nos últimos 100 anos vem transformando as
relações de trabalho e a forma como o trabalhador é inserido no sistema. Em sentido amplo, as contradições
sociais geradas pelo processo de produção capitalista se aprofundaram, com o sentido de obsolescência que
passou a afetar a mão de obra humana nos processos produtivos cada vez mais mecanizados.
Com a constante inovação tecnológica dos processos de produção, principalmente proporcionadas pela
automação e gestão integrada de máquinas, a mão de obra foi sendo reduzida na linha de produção.
Figura 3 - A automação dos processos de produção é um dos fatores de aumento nos lucros, uma vez que diminui a necessidade de mão 
de obra humana Fonte: archetype, Shutterstock, 2021.
 #PraCegoVer Na figura, temos a fotografia de duas máquinas amarelas que servem como "braços" mecânicos. 
Há uma em cada lado, ambas apontadas para o centro.
Como consequência da mecanização, o contingente de trabalhadores desempregados foi aumentando, os
postos de trabalho foram mudando e para esses novos postos, a mão de obra convencional não é considerada
mais qualificada. Como a maioria desses trabalhadores pertence às classes sociais mais vulneráveis e proveem
- -7
uma importante parte do sustento de suas famílias, temos aqui um grande impacto na realidade social. Observe
como os reflexos da inovação tecnológica refletem na realidade político-econômica, ao considerarmos a
questão social do desemprego. Vemos também que o processo de globalização, tanto da produção quanto da
comercialização, também influencia diretamente a questão social em uma cadeia. 
As maiores empregadoras são as grandes indústrias multinacionais que possuem tecnologia mais
avançada e competitividade, porém estão reduzindo seus quadros de funcionários, justamente por
adquirirem tecnologia mais autônoma. Por outro lado, essas multinacionais tornam a concorrência
insustentável para indústrias pequenas e de médio porte, que ao fecharem as portas, dispensam
milhares de funcionários, contribuindo para o aumento de trabalhadores desempregados.
As multinacionais, em geral, buscam estabelecer seus pátios de produção em países onde a mão de
obra é mais barata e o escoamento por meio de portos é mais fácil. No entanto, a riqueza gerada pela
produção é, muitas vezes, direcionada para suas sedes localizadas nos países desenvolvidos. Dessa
forma, a globalização da produção em muitos casos não contribui para o desenvolvimento político-
econômico dos países subdesenvolvidos nos quais as multinacionais se instalam.
Na realidade, esse cenário de competitividade entre as empresas e o excesso de mão de obra ociosa, acaba por
criar subempregos, ou seja, situações nas quais o trabalhador aceita receber pouco, ou trabalha apenas algumas
horas por dia ou semana, ou ainda trabalha sem direitos garantidos. É preciso entender que dentro do processo
produtivo, da matéria-prima até o produto final, o que gera riqueza é a manufatura do produto, sua construção
enquanto bem de consumo. Sendo assim, os empregos gerados nos demais setores da cadeia econômica, tais
como de serviços e vendas, por exemplo, são dependentes desse elo inicial da cadeia.
Todo o arranjo político-econômico tem o Estado, suas agências reguladoras e de assistência social como
fontes de regulação que atuam desde as leis sobre produção, importação, exportação e comercialização, até o
que os trabalhadores, empregados ou não, recebem do poder público.
Com isso, vamos agora discutir a questão das políticas econômicas e suas implicações.
2.2 Trabalho, sociedade e economia - III
Como vimos, o processo produtivo desenvolvido pelo modo de produção capitalista gerou inúmeras mudanças
políticas e econômicas, como os avanços tecnológicos e as desigualdades sociais em países menos
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desenvolvidos. As políticas públicas de regulação do setor produtivo e do comércio procuram diminuir os
impactos de tais questões na vida social dos indivíduos, principalmente os que se encontram em situação de
risco e vulnerabilidade social.
Diante disso, é preciso entender qual é o direcionamento político hegemônico no mundo atualmente e quais
suas diretrizes para a questão econômica e social. É necessário ainda compreender como se formam os blocos
econômicos entre os diversos países e suas influências nos demais. Vamos entender esses pontos a seguir.
2.2.1 Do liberalismo ao neoliberalismo: as políticas econômicas 
hegemônicas
Ao estabelecer uma discussão sobre a questão da produção nos moldes do capitalismo moderno, é preciso
pensar nas questões políticas que dão substrato a essa realidade. Os países chamados desenvolvidos, nos quais
a produção industrial é vigorosa, possuem políticas de governo que se pautam pelas necessidades produtivas
das grandes empresas. Na realidade, esse processo não é novo, pois surgiu antes mesmo da Revolução
Industrial.
Podemos entender isso com as teorias políticas mais alinhadas à produção capitalista, que surgem após a
Revolução Industrial. Uma delas, a teoria do liberalismo econômico, cujo principal autor é Adam Smith,
defende que o Estado, enquanto ente político, não deve interferir nas relações econômicas. A economia é
regulada por uma espécie de ‘mão invisível’, equilibrada pelos interesses destes mesmos indivíduos em
sustentar as relações econômicas (SMITH, 1996). Ao Estado cabe proteger a posse privada e criar leis que
regulem as relações econômicas.
A teoria do liberalismo econômico se tornou a base do capitalismo industrial, alinhado à compreensão do que
seria uma organização política ideal para o desenvolvimento do comércio e da riqueza das nações. Devemos
lembrar que essa é uma questão ideológica, na qual o sistema capitalista defende um entendimento político
que privilegie sua livre atuação, independente das questões sociais.
No século XX, o que vemos é um neoliberalismo político-econômico, derivado do liberalismo
clássico, e mais alinhado aos interesses das classes dominantes capitalistas e das grandes empresas.
Esse pensamento político-econômico se tornou hegemônico dentro do moderno cenário globalizado,
serve de diretriz para muitos países desenvolvidos e, inclusive, subdesenvolvidos.
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Essa posição relacionada também aos países subdesenvolvidos, muitos com economia mista, foi
defendida pelo chamado Consenso de Washington, apoiado pelo FMI e pelo Banco Mundial de que
“não existe país subdesenvolvido, mas apenas país malcomportado. Ou seja, país que não obedece aos
preceitos do neoliberalismo. Desregulamentada, privatizada e aberta a economia, basta o Estado cruzar
os braços para que estimule o desenvolvimento” (Magalhães, 2000, p. 17).
Aqui, percebemos que o Estado não deve, nem mesmo, intervir nas questões relativas às instituições sociais
básicas, tais como educação, saúde, moradia, transportes. Tudo isso deve ficar a cargo da iniciativa privada,
até mesmo a produção de energia, abastecimento e comércio. Assim, qualquer investimento do Estado em
políticas públicas limita a iniciativa privada, onera a máquina pública e causa o subdesenvolvimento político e
econômico. É uma ideologia político-econômica que nega a luta de classes e as desigualdades sociais,
enquanto problemas do Estado, e privilegia, exclusivamente, a ação do grande capital. 
No próximo tópico, vamos entendercomo essa ideologia influencia a organização global do comércio.
2.2.2 A globalização do mercado e as livres áreas de comércio: U.E, 
Mercosul e Nafta
Na dinâmica de interação entre países produtores e consumidores, países mais desenvolvidos e os menos
desenvolvidos, vigora a mesma lógica neoliberal que influencia a política interna de muitos dos países
industrializados do mundo. Significa que é hegemônica a visão de que é necessário deixar “livre” o mercado
para que se autorregule e para que a competição entre as empresas crie o arranjo necessário para o
desenvolvimento econômico.
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Figura 4 - A busca do livre comércio entre os vários mercados internos e externos é o objetivo da formação dos chamados "blocos 
econômicos" Fonte: chombosan, Shutterstock, 2021.
 #PraCegoVer Na figura, temos uma fotografia editada digitalmente. Há um homem de terno à esquerda, com 
os braços estendidos, com as palmas das mãos para cima. Há um projeção acima das mãos do homem com o 
Planeta Terra e ícones financeiros. Encontramos, também, outros elementos gráficos ao redor e no fundo.
Por esse prisma, percebemos qual é a lógica por trás da criação de áreas de livre comércio. Essas áreas tendem
a deixar as relações econômicas entre mercados internos de diversos países menos restritas, facilitando a
importação e exportação de bens de consumos, serviços e demais produtos comercializáveis, e isso ocorre por
meio da diminuição de taxas de importação e restrições nas tributações financeiras de movimentação. De certo
modo, esse processo aumenta a concorrência interna no mercado econômico dos países integrantes da área de
livre comércio, privilegiando as grandes indústrias e empresas que apresentam produtos mais competitivos.
Existem diversas áreas de livre comércio ao redor do mundo, muitas delas baseadas em acordos bilaterais
entre dois ou mais países. Há três áreas, em três continentes, que se destacam. A União Europeia, na Europa,
que se tornou uma área de livre comércio, com abrangência também na interação entre instituições
educacionais, turismo e demais setores. Na América Latina, o Mercosul, área de livre comércio que visa
integrar vários países deste continente. Já na América Central e do Norte, há o Nafta, acordo econômico entre
México, Canadá e Estado Unidos.
Estudo de Caso
Em um determinado país, vamos chamá-lo de X, existem determinadas leis trabalhistas 
que limitam a ação de rotatividade da mão de obra, determinam regras para o comércio 
de produtos importados e mantêm sob poder do Estado as principais decisões sobre 
questões econômicas. O país Y deseja implantar uma fábrica no país X, e o prepara para 
receber seus produtos. No entanto, as barreiras impostas pelo país X são, no 
entendimento da empresa Y, demasiadas para sua expectativa de lucros. Isso representa 
um obstáculo para a interação comercial e inviabiliza, em grande parte, o processo de 
globalização comercial.
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Todas essas áreas de comércio visam proporcionar uma ampliação de mercado para suas empresas internas,
seguindo uma lógica de abertura de mercado e diminuição nas restrições econômicas sobre a comercialização
de produtos e serviços.
Como vimos, a visão neoliberal de comércio prega a doutrina do chamado ‘Estado mínimo”, que tem sido
hegemônica. No entanto, é imprescindível pensar a questão social a partir dessa lógica de mercado, e para
isso, vamos, a seguir, entender melhor a distribuição de renda.
2.2.3 Dos mais pobres aos mais ricos: a questão social frente à distribuição 
de renda
A lógica político-econômica do neoliberalismo pode até ser hegemônica dentre os países capitalistas, mas
mesmo assim, a sociedade não é homogênea, pois não estão todos na mesma condição de disputa social pela
subsistência e pela aquisição de bens de consumo e serviços.
A renda gerada pela produção de riquezas se concentra na mão de uma minoria que controla os meios de
produção ou dos capitais financeiros que não produzem bens de consumo, mas lucram com a especulação
econômica. Já a maior parte da população, depende de sua força de trabalho e da disponibilidade de empregos
para se sustentar.
Você quer ler?
O mundo é plano: o mundo globalizado no século XXI (FRIEDMAN, 2014) apresenta 
de forma clara, e amplamente embasada, a maneira como o processo de globalização da 
economia tem aproximado as diversas culturas. Ao chamar a atenção para o surgimento 
desse processo, o autor o demonstra ser um processo inevitável e sem volta.
Você quer ver?
O tema da desigualdade social, principalmente a extrema pobreza de pessoas que 
subsistem com aquilo que é descartado pela sociedade, é tema do documentário Ilha das 
 (FURTADO, 1989). Ele busca mostrar os traços da desigualdade social desde a Flores
produção até o descarte dos produtos, mostrando uma cadeia social que exprime bem as 
contradições do sistema capitalista.
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Observe aqui que esse cenário opõe duas ideias: a do Estado Liberal, ou de ‘meritocracia’, que beneficia a
minoria e quer o máximo de independência, e o chamado Estado de ‘bem-estar social’, que supre as
necessidades da maioria da população.
Dentro do chamado Estado de bem-estar social, os indivíduos em situação de risco social são atendidos pelas
políticas públicas assistenciais, em todas as áreas. O Estado de bem-estar social ganhou força após a Segunda
Guerra Mundial, principalmente por conta do enfraquecimento do liberalismo e pela devastação causada pelo
conflito.
Figura 5 - O Estado de bem-estar social visa fornecer assistência em diversas áreas aos indivíduos em situação de risco social Fonte: 
addkm, Shutterstock, 2021.
 #PraCegoVer Na figura, temos a fotografia de uma pessoa oferecendo comida para outra. Uma está à 
esquerda, derramando uma concha de sopa no recipiente de isopor do outro indivíduo. Há uma panela com a 
sopa exposta. Ao fundo, pode-se observar outras marmitas já feitas, pessoas se servindo e uma mesa com 
outros alimentos.
Após meados de década de 1970, houve um novo fortalecimento do Estado Liberal, ou neoliberal,
principalmente a partir das políticas da Inglaterra e dos Estados Unidos. Segundo Santos (1987), o capitalismo
consegue impor sua lógica de Estado mínimo e disputa livre de comércio quando não há uma crise prolongada
ou quando não há uma situação de desemprego em massa. No entanto, em vista das crises prolongadas e dos
momentos de extremo desemprego ou arrefecimento da economia, o capitalismo conta com o Estado de bem-
estar social para solucionar os problemas surgidos na condição de manutenção da força de trabalho, o
trabalhador que depende da política assistencial do Estado para manter sua subsistência básica.
Em vista disso, é preciso pensar um Estado que possa direcionar os recursos necessários para a assistência
social aos indivíduos em situação de risco social, dando também condições de mercado para o fortalecimento
de empresas nacionais que gerem emprego, mas que não submeta a geração de riqueza aos interesses do
grande capital estrangeiro. Esse quadro de globalização da economia e disputa das classes menos favorecidas
pela subsistência não se dá apenas no cenário urbano, mas ocorre também no âmbito agrário. Vamos nos deter
na análise da questão agrária no próximo tópico.
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2.3 O desenvolvimento humano social no Brasil: a questão da 
terra - I
Ao analisar a história de exploração e disputa de terras e riquezas que envolve o Brasil, podemos vislumbrar a
complexidade e assimetria desse processo. É preciso entender como se organizou a divisão das terras, seus
problemas sociais e políticos que ainda hoje reverberam na organização rural e urbana do país. Essas questões
serão nosso objeto de estudo e análise neste tópico, por isso, vamos abordá-las de maneira crítica, buscando
compreender os meandros constitutivos da questão agrária no Brasil.
2.3.1 Propriedade agrária no Brasil: das capitanias aos grandes latifúndios
Durante sua história recente, enquanto colônia de exploração, a ocupação do

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