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1 João Abreu de Faria Bilhim GESTÃO ESTRATÉGICA DE RECURSOS HUMANOS UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA INSTITUTO SUPERIOR DE CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS LISBOA – 2004 2 Apresentação Este manual de gestão de recursos humanos surge na sequência do concurso público para Professor Catedrático, na disciplina de Gestão de Recursos Humanos (GRH), que o seu autor fez no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, em Outubro de 2003. No âmbito do concurso, houve necessidade de proceder à elaboração de um relatório e do programa da disciplina; agora houve a preocupação de repensar e reelaborar o texto anterior em novos termos, como o exige a natureza de um manual. Ora, quando se trata de elaborar um Manual de Gestão de Recursos Humanos (GRH) há que ter previamente em conta que, em termos científicos, o conceito de gestão de recursos humanos é subsidiário de um conjunto grande de abordagens que resultam na adopção de diferentes bases científicas e do tipo evidenciado de perspectiva: micro, meso ou macro1. Assim, não surpreende que, ao consultarmos diversos manuais por onde no mundo se ensina gestão de recursos humanos, a primeira impressão com que ficamos é a de uma grande diversidade. Cada autor organiza as matérias à sua maneira. Não há dois autores com organizações semelhantes e, quando tal existe, o mais certo é que seja fruto de uma influência forte de um autor sobre o outro. Mesmo quando os conteúdos são praticamente os mesmos, as formas de organização e arrumação das matérias variam muito. Assim, vejamos: para De Cenzo e Robbins2, o campo da gestão de recursos humanos centra-se em quatro domínios: aquisição, manutenção, motivação e desenvolvimento. Storey e Sisson3 definem um ciclo de gestão de recursos humanos em cinco passos: selecção, desempenho, avaliação, retribuições e desenvolvimento. Beer, Spector, Lawrence, Mills e Walton4escolhem quatro temas: influência dos empregados, fluxos de recursos humanos (de dentro para fora e de fora para dentro), sistema retributivo e sistema de trabalho. 1 Ferris [et al.] – Handbook of Human Resources Management. Cambridge. Mass.: Blackwell, 1995. 2 De Cenzo; Robbins – Personnel/Human Resources Management. New York: Wiley and Sons, 1988. 3 Storey (ed) – New Perspectives of Human Resources Management. London: Routledge, 1991 4 Beer, Spector, Lawrence, Mills e Walton – Human Resources Management. New York: The Free Press, 1985 3 Tichy Frombrun e Devana1 consideram quatro grandes áreas: selecção, avaliação, retribuição (salários e benefícios complementares) e desenvolvimento. Schuleer e MacMillan2 incluem as seguintes áreas: planeamento de recursos humanos, apoio (recrutamento, selecção e socialização), avaliação, retribuição, treino e desenvolvimento e relações com os sindicatos. Gomez Mejia3 compõe o seu manual da seguinte forma: introdução; contextos da gestão de recursos humanos; recrutamento; desenvolvimento; compensação; governância. Em França, Peretti4 arruma as matérias da seguinte forma: Função pessoal (desenvolvimento da função recursos humanos, a função recursos humanos, a logística da função, a auditoria social), emprego (as pessoas, os empregos, políticas de emprego, recrutamento e integração, carreira na empresa), os salários (massa salarial, avaliação de funções e desempenho, política de remuneração) e desenvolvimento social (investimento em formação, investir na segurança e na melhoria das condições de trabalho, a gestão do tempo, as relações sociais, informação e comunicação na empresa). Chiavenato5 organiza as matérias da seguinte forma: Interacção entre pessoas e organizações; sistema de administração de recursos humanos; subsistema de suprimentos de recursos humanos; subsistema de aplicação de recursos humanos; subsistema de manutenção de recursos humanos; subsistema de desenvolvimento de recursos humanos; subsistema de controlo de recursos humanos. Em Portugal, Oliveira Rocha6 estrutura as matérias da forma seguinte: introdução; gestão de pessoal; procura de recursos humanos; integração de recursos humanos; avaliação de desempenho; desenvolvimento de recursos humanos; manutenção de recursos humanos; separação de recursos humanos; avaliação e controlo de recursos humanos e gestão de recursos humanos no futuro. Nesta obra, tivemos em conta a necessidade de ensinar gestão de recursos humanos, numa perspectiva estratégica e, consequentemente, as matérias foram organizadas por forma a que respondessem a este objectivo. Os recursos humanos hoje não constituem apenas mais um dos muitos recursos das organizações, mas antes, na sociedade da informação onde a mudança é a constante, constituem o recurso estratégico. Representam aquele factor crítico sem o qual não há forma de competir e ter sucesso. Os recursos humanos transformaram-se no activo mais valioso e tendem a ser encarados, desde os trabalhos pioneiros de Becker (prémio Nobel da economia) e Schultz, como capital humano. Por isso, se este manual em alguma coisa se distingue dos restantes, tal distinção tem a ver com a perspectiva adoptada, com a óptica 1 Tichy Frombrun, Devana – Strategic Human Resources Management. Sloan Management Review. 23 (2), 47-61, 1982 2 Schuleer e MacMillan – Gaining Competitive Advantage Through Human Resources Management Practices. Human Resources Management. 23 (3), (1984), p. 241-55. 3 Luíz Gomez Mejia – Managing Human Resources. London: Prentice Hall, 1998. 4Jean Marie Peretti – Recursos Humanos – Lisboa: Silabo, 1997. 5 Idalberto Chiavenato – Recursos Humanos. São Paulo: Atlas, 1992. 6 Oliveira Rocha – Gestão de Recursos Humanos. Lisboa: Presença, 1997. 4 assumida por nós no concurso para Professor catedrático, de que a gestão privada e a administração pública exigem uma gestão estratégica de recursos humanos. De facto, o actual paradigma da gestão não vê os recursos financeiros, tecnológicos ou logísticos, como principais factores competitivos, mas sim as pessoas, dado pressupor-se que quanto mais valorizadas estiverem, em termos de competências estratégicas para garantir o sucesso da organização, motivadas e empenhadas nas actividades, objectivos e missões, maior será a taxa de produtividade. Desta forma, a gestão estratégica de recursos humanos (GERH), constitui, hoje, um factor determinante do sucesso das organizações públicas ou privadas por colocar as pessoas no coração da organização. Em virtude desta orientação estratégica, que obriga ao entrosamento entre gestão de recursos humanos e estratégia organizacional, estruturámos este manual da seguinte forma: Introdução e abordagens teóricas; contextos de gestão e processos organizacionais; técnicas e práticas de gestão de recursos humanos. Estas últimas são subdivididas em três grandes dimensões: atracção de recursos humanos, avaliação e desenvolvimento, fidelização das pessoas à organização. Esta organização das matérias liga-se ao que se nos afigura constituir as novas dimensões que tenderão a integrar a gestão de recursos humanos: gestão estratégica; atracção de pessoas para a organização; investimento nos activos mais importantes da organização – as pessoas; fidelização das pessoas à organização, evitando que este activo se perca ou vá alimentar a concorrência. A abordagem teórica subjacente ao manual situa-se dentro da abordagem técnica (sistémica) da sociologia da gestão, a abordagem contingencial, pelo lado a teoria organizacional e a abordagem de Edgar Schein,1 pelo lado do comportamento organizacional. 1 Consultar: João Bilhim - Teoria Organizacional. 3.ª ed. rev. Lisboa: 2004. 5 ÍNDICE Apresentação 2 PARTE I – A FUNÇÃO RECURSOS HUMANOS 9 CAPÍTULO 1 - INTRODUÇÃOAOS PRINCIPAIS CONCEITOS 11 1.1. Introdução 11 1.1.1. O problema 11 1.1.2. Subsistema organizacional 13 1.1.3. Subsistema comportamental 16 1.1.4. Sociologia da gestão 18 1.2. Gestão de recursos humanos: definição e ciclo de vida 19 1.2.1.Definição 19 1.2.2. Passado e presente da gestão de recursos humanos 21 1.2.3. Ciclo de vida da gestão de recursos humanos 25 1.2.4. Gestão de recursos humanos no último quartel do século XX 28 CAPÍTULO 2 – GESTÃO ESTRATÉGICA DE RECURSOS HUMANOS 32 2.1. Gestão estratégica 32 2.2. Desafios da envolvente 35 2.2.1. Económica 35 2.2.2. Tecnológica 36 2.2.3. Demográfica 37 2.2.4. Valores 38 2.2.5. Instituições 39 2.3. Colocar a vantagem competitiva/comparativa nas pessoas 41 2.4. Alinhar estratégia e pessoas 45 2.5. Gestão estratégica de recursos humanos 48 2.6. Desafios da gestão estratégica de recursos humanos 52 CAPÍTULO 3 – O DEPARTAMENTO DE RECURSOS HUMANOS 57 3.1. O departamento de gestão de recursos humanos – Partilha e serviços e externalização 57 3.2. Sistema de informação e Balanced scorecard 61 3.3. Plano e orçamento 65 3.4. Técnicas de previsão de recursos humanos 67 3.5. Balanço social 74 3.6. Auditoria social 75 3.7. Rácios de gestão de recursos humanos 76 PARTE II – CONTEXTOS DE GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS 78 CAP. 4 – GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 79 4.1. Modelos de administração pública 79 4.1.1. O modelo tradicional: maior e melhor Estado 80 6 4.1.2. Visão liberal da Administração Pública: menor e melhor Estado 80 4.1.3. O novo serviço público: sentido de missão 82 4.2. Gerir recursos humanos em contexto político 83 4.2.2. Administração pública e privada 83 4.2.2. A função pública 85 4.3. Regime jurídico da função pública 88 4.3.1. A relação de emprego público 89 4.3.2. Recrutamento e selecção 90 4.3.3. Classificação dos concursos 90 4.3.4. Objectivos dos concursos 91 4.3.5. Procedimentos sobre concursos 92 4.3.6. Carreiras 93 4.3.7. Remunerações e outros abonos 95 4.3.8. Horário e duração do trabalho 96 4.3.9. Férias, faltas e licenças 98 4.3.10. Conclusão 102 CAP. 5 - RECURSOS HUMANOS EM CONTEXTO INTERNACIONAL E GLOBAL 104 5.1. Mentalidade ocidental e mentalidade oriental 104 5.2. O processo de ajustamento transcultural: Hofstede 105 5.3. Implicações para a GRH 106 5.4. A União Europeia 109 CAP. 6 – CULTURA ORGANIZACIONAL E GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS 114 6.1. Recursos humanos e cultura organizacional 114 6.2. A cultura influencia e é influenciada pela GRH 115 6.3. Culturas e subculturas 117 6.4. Socialização e cultura organizacional 119 6.5. Cultura organizacional e técnicas de GRH 121 CAP. 7 – FORMAS DE TRABALHO E SEU ENQUADRAMENTO 123 7.1. Formas de trabalho atípicas e/ou inovadoras 123 7.1.1. Trabalho independente 123 7.1.2. Trabalho temporário 124 7.1.3. Situação de pré-reforma com exercício de actividade 124 7.1.4. Trabalho a tempo parcial, por turnos e em jornada contínua 124 7.1.5. Trabalho ao domicílio e tele-trabalho 124 7.1.6. Trabalho a dias 125 7.2. Novas formas de trabalho: dificuldades e condições facilitadoras 125 7.3. Flexibilidade 126 7.4. Contratação colectiva e concertação social 129 7.5. O homem e o futuro do trabalho 130 7.5.1. Atitudes sociais 130 7.5.2. Centralidade do trabalho 131 7.5.3. O futuro 131 CAPÍTULO 8 – PROCESSOS DE GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS 133 8.1. – A EQUIPA E o grupo de trabalho 133 8.2. - Implicação e motivação 135 7 8.3. - Gestão da mudança 138 8.4. – A comunicação interna 141 8.5. Gestão de recursos humanos e qualidade 144 8.5.1. Centrar a qualidade no cliente/cidadão 146 8.5.2. Centrar a qualidade no empregado: qualidade de vida 148 PARTE III – TÉCNICAS E PRÁTICAS DE GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS 152 CAP. 9 – ATRACÇÃO DE RECURSOS HUMANOS PARA A ORGANIZAÇÃO 153 9.1. Análise de funções 153 9.2. Descrição de funções 156 9.3. Desenho de funções 158 9.4. Quadro de empregos 160 9.5. Recrutamento 161 9.6. Selecção 162 9.7. Acolhimento e socialização 165 CAP. 10 – DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS E AVALIAÇÃO 167 10.1. Competências profissionais 167 10.1.1. A construção social da qualificação 169 10.1.2. Aprendizagem organizacional 170 10.1.3. O valor da educação/formação: capital humano 172 10.1.4. Trabalhando com a inteligência emocional 173 10.2. Gestão da formação 174 10.2.1. A formação de adultos 174 10.2.2. Caracterização da formação na organização 176 10.2.3. O levantamento das necessidades 177 10.2.4. Plano e orçamento de formação 178 10.2.5. Gestão da formação 179 10.2.6. Avaliação da formação 180 10.3. Avaliação do desempenho 181 10.3.1. Itinerário da avaliação do desempenho 181 10.3.2. Em que consiste a avaliação do desempenho? 182 10.3.3. Identificação de dimensões de avaliação 183 10.3.4. Os três componentes da avaliação de desempenho 184 10.3.5. Métodos da avaliação de desempenho 191 10.4. Gestão e desenvolvimento de carreira 196 10.4.1. Os diferentes significados do termo carreira 196 10.4.2. Os estádios de evolução da carreira 197 10.4.3. Medir o sucesso da carreira 198 10.4.4. A escolha de uma carreira 198 CAP. 11 – FIDELIZAÇÃO DE RECURSOS HUMANOS 201 11.1. Avaliação de funções 201 11.1.1. Métodos globais/qualitativos 202 11.1.2. Métodos analíticos/quantitativos 204 11.2. Sistemas de recompensas 207 11.2.1. Definição 207 8 11.2.2. Objectivo dos sistemas de recompensas 207 11.2.3. Desenhar sistemas de recompensas 208 11.2.4. Compensação baseada na função ou nas habilidades 208 11.2.4. Políticas salariais 212 11.2.5. Compensar a realização dentro da mesma função 213 11.2.6. Benefícios 217 11.2.7. A remuneração dos quadros seniores e de vendedores 219 11. 3. Segurança e ergonomia 220 BIBLIOGRAFIA GERAL 222 9 PARTE I – A FUNÇÃO RECURSOS HUMANOS 10 11 CAPÍTULO 1 - INTRODUÇÃO AOS PRINCIPAIS CONCEITOS 1.1. Introdução 1.1.1. O problema A gestão de recursos humanos é, em geral, aceite como um tema central no estudo das organizações e, de acordo com a Harvard Business School, ela diz respeito “a todas as decisões de gestão que afectam a relação entre a organização e os empregados”1. Todavia, o conhecimento disponível acerca da influência das boas ou más práticas de gestão de recursos humanos sobre a produtividade e a eficácia organizacional é muito escasso. A gestão de recursos humanos, pela sua dimensão prática (ciência-prática), lembra frequentemente um receituário de boas práticas. Embora recorra à teoria e ao comportamento organizacionais, a necessidade de resolver problemas muito concretos amarra-a de tal forma ao quotidiano que sobressaem, com mais frequência, os aspectos instrumentais de receituário do que os aspectos doutrinais do corpo teórico. Do ponto de vista epistemológico, as decisões de gestão são de uma natureza eminentemente prática e, em si, não são científicas. A ciência ou o carácter científico da gestão relaciona-se com o tipo de conhecimento usado a montante da decisão. Por exemplo, nesta perspectiva, a decisão médica de diagnóstico não constitui um acto científico, mas antes de natureza técnica, embora tal decisão tenha sido tomada com base em informações científicas. Assim, também parece ocorrer na GRH. As decisões seriam de natureza técnica, mesmo que para tais decisões tenham concorrido informações de natureza científica. O concurso das diversas ciências estaria para a gestão de recursos humanos, como a química orgânica, a farmacopeia, ou a biologia, nomeadamente, para a medicina. Do ponto de vista conceptual, a designação “gestão de recursos humanos”, que descende do conceito de gestão de pessoal, antes dominante na literatura, está longe de apresentar um campo estabilizado de conhecimentos2. Falta realmente uma teoria geral explicativa do papel das pessoas na eficácia organizacional e no desempenho 1 M. Beer [et al.] - HumanResource Management: A general manager’s perspective. Nova York: Free Press, 1985. 2 Hendry , Pettigrew – Human Resource Management: an agenda for the 1990’s. The International Journal of Human Resources Management. Vol. 19 (1990), p. 17-43. 12 das empresas. Ferris, Barnum, Rosen, Holleran e Dulebohn1 consideram que a ausência de uma teoria geral explicativa do papel dos recursos humanos no desempenho das organizações deve ser atribuída ao seu carácter empírico e prático. A inexistência deste corpo teórico próprio constitui uma dificuldade que não é fácil de contornar, sobretudo num contexto económico marcado pelo aumento crescente da competição entre as nações e as empresas. Acresce que, pela globalização dos factores produtivos, as políticas nacionais de comércio externo, a gestão das pessoas, a tecnologia, a inovação e a educação assumem, progressivamente, um papel crítico para o sucesso de qualquer país ou empresa2. Na gestão de recursos humanos, encontramos conceitualizações psicológicas, sociológicas, económicas, jurídicas e até oriundas da ciência política, que lhe conferem um carácter ecléctico, não dispondo, deste modo, de uma base de conhecimentos fortemente integrada e consistente. Todavia, este eclectismo não enfraquece a sua posição actual onde todos, em geral, reconhecem, à gestão de recursos humanos, um papel estratégico. Este eclectismo fica-se a dever, do nosso ponto de vista, ao carácter extremamente variado e complexo dos problemas que constituem a agenda de investigação e de trabalho do pesquisador e do gestor de recursos humanos. O facto de a gestão de recursos humanos, do ponto de vista teórico, recorrer à teoria e ao comportamento organizacionais acarreta como consequência que se possa estabelecer diferenças significativas entre os diversos autores que têm abordado este tema. Confronta-se, assim, o investigador e o prático de GRH com a existência de uma multiplicidade de abordagens teóricas que resultam da adopção de diferentes abordagens científicas. Isto significa que o que a GRH integra no seu seio ou rejeita tem directamente a ver com a abordagem teórica que lhe subjaz, circunstância que poderá eventualmente confundir quem não possua uma maior bagagem conceptual. A gestão de recursos humanos evoluiu, em certa medida, ao longo do século XX, em articulação estreita com a teoria e o comportamento organizacionais, partilhando os pontos altos e baixos da evolução desta ciência dedicada ao estudo das organizações3. Fruto desta articulação, as pessoas que trabalham nas organizações têm sido encaradas de diversas e opostas maneiras. Assim, de engrenagem sujeita ao determinismo cego de uma máquina, passaram a ser cidadãos, parceiros activos, e são agora elevados a factor estratégico. Este carácter estratégico atribuído ao factor humano traduz o aspecto mais relevante da gestão de recursos humanos na actualidade. As actividades de gestão de recursos humanos (GRH) possuem um impacto muito significativo no desempenho e na realização (performance) individual e, por conseguinte, na produtividade e na realização global de qualquer organização. A sua 1 Ferris [et al.] – Handbook of Human Resource Management. Cambridge, Mass: Blackwell Publishers. 2 Dertouzos; Lester & Solow - Made in America. Cambridge, Mass: MIT Press, 1989. 3 João Pereira Neto – Prefácio. In João Bilhim – Questões Actuais de Gestão de Recursos Humanos. Lisboa: ISCSP, 2001. 13 capacidade de inovação depende da criação de uma ambiente propício e de apoio que por sua vez depende da existência de pessoas inovadoras. Por outro lado, a qualidade das decisões estratégicas está ligada à qualidade dos recursos humanos existentes, bem como o sucesso da implementação dos objectivos estratégicos é função, em grande medida, do sistema de GRH (selecção, avaliação, compensação e desenvolvimento de competências). Dada a sua importância estratégica, hoje em dia, a disciplina de GRH trata da concepção e execução de estratégias de gestão de recursos humanos através de dois temas centrais: como pensar sistemática e estrategicamente a gestão dos activos humanos de uma organização; o que é preciso fazer para implementar estas políticas e obter vantagens competitivas. Neste novo contexto de gestão estratégica, importa salientar que, ao contrário daquilo que prevaleceu até aos anos setenta do século passado, tal como constava ainda em Levitt, não há uma melhor maneira de gerir recursos humanos. À velha perspectiva one best way sucedeu a nova perspectiva contingencial da gestão dos recursos humanos. Justifica-se, assim, que cada organização analise a especificidade dos seus clientes e objectivos, articulando, de uma forma harmoniosa, as suas características com as necessidades dos consumidores. Importa, consequentemente, salientar que a gestão de recursos humanos apresenta os seguintes factores de contingência: estratégia de negócio, ligação com o consumidor, tecnologia, natureza da envolvente, tipo de pessoas1. Estes factores cruzam-se, por seu turno, com duas metáforas organizacionais (mecânica e orgânica), que correspondem aos dois extremos da grelha dos indicadores de medida2. Por outro lado, é importante não esquecer que a gestão de recursos humanos tem lugar no interior das organizações e estas podem ser vistas na perspectiva sistémica ou técnica. Ora, de acordo com esta perspectiva teórica, as organizações são compostas por dois grandes subsistemas: organizacional e comportamental. 1.1.2. Subsistema organizacional As organizações são as unidades sociais dominantes das sociedades complexas, quer sejam industriais ou da informação 3. Hoje, nascemos em hospitais, alimentamo-nos em restaurantes, trabalhamos em empresas, departamentos públicos, instituições sem fins lucrativos e, quando morremos, recorremos à igreja e à empresa funerária: tudo organizações, que penetram em todos os aspectos da vida contemporânea. O termo organização tem origem no grego “organon”, que significa instrumento, utensílio. A noção de organização apresenta dois significados. Por um lado, designa unidades e entidades sociais, conjuntos práticos, como, por exemplo, as fábricas, os 1 J. C. Chebat & P. Kollias – The Impact of Empowerment on Customer Contact Employees Roles in Service Organizations. Journal of Service Research. Vol. 3, (2000), p. 66-81. 2 João Bilhim – Teoria Organizacional. Lisboa: ISCSP, 2004. 3 Veja-se João Bilhim - Trabalho e Lazer na Sociedade da Informação. Lisboa: Instituto de Estudos Pós-Graduados da Universidade Internacional, 1995. 14 bancos e a Administração Pública. Por outro, designa certas condutas e processos sociais: o acto de organizar tais actividades, a disposição dos meios relativamente aos fins e a integração dos diversos membros numa unidade coerente1. Na primeira acepção, a organização é uma entidade social, propositadamente coordenada, gozando de fronteiras delimitadas, que funciona numa base relativamente contínua, tendo em vista a realização de objectivos. A coordenação consciente exige a gestão formal. O facto de a organização ser uma entidade ou unidade social significa que é integrada por pessoas e grupos de pessoas que interagem. A existência de fronteiras distintivas do que é ou não é organização, mesmo que esta mude ao longo do tempo e os seus limites não sejam sempre muito claros, permite distinguir os membros dos não membros. A organização existe para realizar os seus objectivos, os quais seriam inatingíveis se a sua concretização estivesse a cargo de uma só pessoa. Assim, as organizações: são constituídas por grupos de duas ou mais pessoas; há, entre elas, relações de cooperação; exigem a coordenação formal de acções; caracterizam-se pela prossecução de metas; pressupõem a diferenciação de funções; possuem uma estrutura hierárquica; caracterizam-se pelaexistência de fronteiras. Nesta linha, Edgar Schein define a organização como sendo: a coordenação racional de actividades de um certo número de pessoas, tendo em vista a realização de um objectivo ou intenção explícita e comum, através de uma divisão do trabalho e funções, de uma hierarquia de autoridade e de responsabilidade 2. A estrutura organizacional constitui um conjunto de variáveis complexas, sobre as quais os administradores e gestores fazem escolhas e tomam decisões. Define, pois, a forma como as tarefas devem estar destinadas, especifica quem depende de quem e estabelece os mecanismos formais. Mintzberg sintetiza os atributos organizacionais distinguindo três tipos de variáveis: contexto, estrutura, processo. As variáveis de contexto são: a idade e dimensão, a tecnologia, o meio envolvente, o poder. As variáveis de estrutura são: os mecanismos de coordenação e controlo, os elementos base da estrutura, os parâmetros de concepção, as configurações organizacionais. As variáveis de processo, por seu turno, são: os processos de comunicação, os processos de liderança, os processos de decisão e os processos políticos. Podemos considerar três características na estrutura organizacional: a complexidade, a formalização e a centralização. A complexidade inclui os múltiplos graus de especialização, a divisão de trabalho, os níveis hierárquicos, as extensões da organização e as filiais que possa ter. A formalização é constituída pelas regras e os procedimentos que as organizações têm para orientar o comportamento dos seus membros, e pelas suas normas escritas. A centralização aponta o lugar onde está localizado o poder de decisão. A centralização e a descentralização representam os dois extremos duma linha contínua. 1 João Bilhim – Teoria Organizacional. Lisboa: ISCSP, 2004. 2 Edgar Schein - A Psicologia na Organização. Tradução portuguesa de Maria Silva Bento. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1986. 15 A localização da organização nessa linha é um factor importante que nos pode informar sobre o tipo de estrutura da organização1. A atribuição de responsabilidades, a tomada de decisão, o agrupamento de funções, a coordenação e o controlo são requisitos fundamentais, que possibilitam a operação contínua da organização. A estrutura organizacional é profundamente influenciada por estes requisitos e auxilia a organização a alcançar os seus objectivos através de três maneiras: Como estrutura básica – tomando a forma de descrição do trabalho, de organogramas; Como mecanismo de operação – conformando os comportamentos dos indivíduos por meio de procedimentos, regras, rotinas de trabalho, padrões de desempenho, sistemas de avaliação e recompensa, programações e sistemas de comunicação; Como mecanismo de decisão – processando informação com origem na envolvente externa e interna e cruzando, avaliando e disponibilizando as informações indispensáveis aos decisores. O desenho organizacional tem a ver com o funcionamento e a mudança operada numa organização para atingir os fins propostos. Tal como na construção de uma casa, temos um objectivo a cumprir e seguimos um determinado plano (planta, maqueta). Na organização, o documento análogo será um gráfico organizacional (organograma, manuais de organização). O desenho organizacional expressa, pois, a configuração estrutural da organização, o seu funcionamento, os órgãos que a integram e as suas relações de interdependência. Enquadra-se no desenho organizacional, por um lado, a definição da estrutura e a repartição das tarefas por departamentos, divisões, grupos e posições. Compreende, por outro, todos os aspectos tangíveis e reguladores, destinados a conformar o comportamento dos indivíduos aos padrões organizacionais. a estrutura de uma organização pode ser entendida como o total dos meios utilizados para dividir o trabalho em tarefas distintas e, em seguida, assegurar a necessária coordenação entre as mesmas2. A estrutura organizacional deve compreender tanto os meios formais como os semiformais para dividir e coordenar o trabalho, de maneira a criar padrões estáveis de comportamento. Para Alfred Chandler3 a estrutura de uma organização seguia a estratégia. Ele classificou as estratégias de crescimento organizacional que provocaram alterações na estrutura como sendo de: expansão de volume, dispersão geográfica, integração vertical e de diversificação de produtos. Para o autor à medida que as organizações crescem e se tornam mais complexas elas alteram a sua estrutura passando do tipo funcional para o de produtos e finalmente para o mutidivisional. Em suma, para este autor as organizações que não alteraram as suas estruturas orgânicas à medida que alteraram as suas estratégias tornaram-se ineficientes e 1 João Bilhim – Teoria Organizacional. Lisboa: ISCSP, 2004. 2 Henry Mintzberg – Estrutura e Dinâmica das Organizações. Lisboa: Dom Quixote, 1995. 3 Alfred Chandler – Strategy and Structure: Chapters in history of the american industrial enterprise. Cambridge Mass: MIT Press, 1962. 16 acabaram por casar a estrutura com a estratégia ou faliram. Na perspectiva da gestão estratégica de recursos humanos, a estrutura é o modo como a organização foi desenhada para atingir os seus objectivos, incluindo a divisão do trabalho e a descrição das funções ou do trabalho a desenvolver, assim como o grau de centralização ou descentralização do controlo adoptado pelos gestores de topo1. 1.1.3. Subsistema comportamental O comportamento organizacional constitui um campo de ensino e investigação que trata da relação (impacto) que os indivíduos, grupos e estruturas organizacionais têm no comportamento humano dentro de uma determinada organização com o objectivo de usar tal conhecimento na melhoria da sua eficiência, eficácia e economia. O estudo do comportamento do homem na organização enquadra-se numa perspectiva micro que dá mais atenção aos pequenos grupos, ao indivíduo, à motivação. Os tópicos centrados nos pequenos grupos incluem: estatuto social, poder, conflito, liderança e comunicação. Os temas relacionados com os indivíduos dizem respeito à percepção e decisão individual, aos valores e atitudes de satisfação no trabalho e à motivação e absentismo2. A distinção estabelecida entre os níveis micro e macro, aceite em sociologia, não deixa de criar algumas sobreposições parcelares. Por exemplo, os factores estruturais detêm certo impacto sobre o comportamento individual dentro da organização, assim como os assuntos do nível micro são relevantes para o estudo do sistema organizacional. Importa, consequentemente, que as duas dimensões dos estudos organizacionais tenham em conta estas relações. Todavia, estas sobreposições parcelares não apresentam igual ênfase e igual peso. Por exemplo, num tema como o conflito organizacional, a dimensão comportamental tenderá a acentuar os aspectos interpessoais e intra-grupais, cuja origem se encontra nas diferenças de personalidade. Ao invés, sobre o mesmo tema, a dimensão da teoria organizacional enfatizará os aspectos de relação interdepartamental. De um modo geral, poder-se-ia acrescentar que, enquanto o nível micro tenderá a analisar os conflitos como problemas de pessoas, o nível macro revelará a propensão para os encarar em termos estruturais, de fluxos e barreiras à informação. Num domínio de estudo, investigação e ensino que ainda não tem um século, podemos afirmar que as Ciências Sociais — Antropologia, Sociologia, Psicologia e Ciência Política — desde muito cedo se começaram a dedicar ao estudo das organizações. A Antropologia tem estudado as culturas, tendo em vista uma melhor compreensão dos seres humanos e das suas actividades. Os seus trabalhos têm ajudado a compreender as diferenças de valores, atitudes e comportamentos, entre povos de diferentes países e organizações.Grande parte do nosso conhecimento actual sobre a cultura organizacional e, particularmente, as relações inter e transculturais, são o 1 Fombrun; Ichy; Devana – Strategic Human Resource Management. NY: John Wiley, 1984. 2 João Bilhim; Isabel Mota de Castro – Comportamento Organizacional. Lisboa: Universidade Aberta, 1997. 17 resultado do trabalho de antropólogos, ou de investigadores que usaram a metodologia antropológica. A Sociologia 1 coloca o acento no sistema social. As áreas que maior contributo receberam da Sociologia foram a dinâmica de grupos, a cultura organizacional, a teoria e estrutura formal das organizações, a tecnologia organizacional, as burocracias, a comunicação, o poder e o conflito. A Psicologia Social e a Psicossociologia têm ajudado a compreender, particularmente, o problema da mudança organizacional, assim como a mudança de atitudes, os padrões de comunicação, a dinâmica de grupo e o processo de decisão em grupo. Em suma, todas estas ciências sociais têm estudado as organizações, à luz de diferentes tradições de ensino e pesquisa, por vezes salientando aspectos específicos e, não raras vezes, debruçando-se sobre o mesmo objecto e usando metodologias e técnicas de pesquisa idênticas. Por outro lado, em resumo pode dizer-se que o comportamento organizacional diz respeito ao estudo do que as pessoas fazem e como o fazem dentro de uma organização e como o seu comportamento afecta o desempenho final de toda a organização. Assim, este subsistema liga comportamento e desempenho de funções, trabalho, saídas para o exterior, produtividade, absentismo, satisfação no trabalho etc, e integra os temas ligados a: motivação, liderança, poder, comunicação interpessoal, estrutura e processos de grupo, aprendizagem, desenvolvimento de atitudes e percepção, processo de mudança, conflitos, concepção de postos de trabalho e stress. Numa perspectiva de gestão estratégica, o padrão de comportamento organizacional tem de estar articulado com a estratégia2. Isto significa que a organização precisa de se definir quanto aos seguintes dilemas: Natureza do contrato psicológico de emprego. Paga-se de acordo com o que cada um produz numa lógica de curto prazo ou atribui-se trabalho significante para o indivíduo em troca da sua lealdade para com a organização? Grau de participação na decisão na organização. As decisões são tomadas pelo topo da pirâmide e comunicadas posteriormente ou, há participação da base para o topo no processo de tomada de decisão? Mercado de trabalho interno ou externo. Prevalece na organização o recrutamento interno ou pelo contrário quando há necessidade recruta-se, por princípio, do exterior, sem dar oportunidades internas? Realização individual ou de grupo. A cultura organizacional está orientada para o trabalho cooperativo ou competitivo? Se posicionarmos estes quatro dilemas da gestão de recursos humanos num contínuo que percorra uma escala de 1 a 10, a organização será obrigada a optar ou pelos extremos ou por um ponto intermédio. A gestão tem de optar por uma filosofia acerca das pessoas. Ora, a opção feita com maior ou menor coerência irá afectar o clima e a cultura organizacionais e, consequentemente, o padrão de comportamento exigido. 1 Veja-se João Bilhim — Dos Estudos Organizacionais à Sociologia da Empresa: Algumas controvérsias. Lusíada: Revista de Ciência e Cultura, Série de Gestão, n.º 2 Abril (1994). 2 Fombrun; Ichy; Devana – Strategic Human Resource Management. NY: John Wiley, 1984 18 1.1.4. Sociologia da gestão Mike Reed 1 caracteriza a gestão sob três perspectivas: técnica, política e crítica. A perspectiva técnica confunde-se com o paradigma positivista/funcionalista/sistémico/ contingencial reactivo. Nesta perspectiva, a gestão é um mecanismo, um instrumento racional destinado à realização de objectivos instrumentais ligados à eficiência, eficácia e economia. A perspectiva política sobrepõe-se ao paradigma interpretativo, construtivista, pró-activo, ligado à teoria da acção, em que a gestão é fundamentalmente negociação permanente. A perspectiva crítica, ligada ao paradigma estruturalista radical, valoriza fortemente o poder e apela à libertação de uma visão distorcida da realidade social, que muitos trabalhadores possuem.2. Nenhuma destas três perspectivas apresenta uma estrutura conceptual em que a visão parcelar, mas muito importante, de cada uma delas, é integrada de maneira sistemática e coerente. Contribuir para tal objectivo é um dos desafios actuais. Todavia, esta estruturação permite-nos entender melhor o que se passa com a gestão de recursos humanos. É, fundamentalmente, na perspectiva técnica que esta disciplina científica medrou, embora haja diversos estudos elaborados nas perspectivas política e crítica. Em nosso entender, é necessário integrar as três perspectivas, ou seja, adoptar uma abordagem que valorize devidamente o problema do poder e do conflito/dicotomia, por um lado, e a necessidade de integração, por outro. A nossa abordagem teórica tenta limar os exageros de ambos os lados, contribuindo nomeadamente para o que se julga ser um instrumento de análise mais útil para a prática dos gestores de recursos humanos. Os temas apresentados actualmente pela Sociologia da Gestão são: controlo de gestão; trabalho de gestão; conflito; gestão e classe. Naturalmente, as três perspectivas que acabámos de enumerar possuem visões diferentes sobre cada um destes temas. A análise sociológica sobre os processos de controlo contidos nas tarefas de gestão revela a existência de um tensão entre uma lógica de mercado e de modernização - que exigiu a implementação de uma estratégia de relações laborais, reafirmando o controlo ao nível do posto de trabalho - e uma ideologia tradicionalista, realçando a primazia da ordem interna e da estabilidade. Esta tensão encontra-se equacionada, em termos de valores contrastantes, no pensamento de Quinn3. A necessidade de relacionar as formas de controlo exercidas pelas estruturas de gestão com a transformação das condições em que são praticadas tem sido um tema 1 Mike Reed — Sociology of Management. London: Harvester Wheatsheaf,1989. 2 G. Burrell ; G. Morgan – Sociological Paradigms and Organizational Analysis. London: Heinemann, 1979; S. Deetz – Describing the Differences in Approaches to Organization Science: rethinking Burrell and Morgan and their legacy. Organization Science. Vol. 7, (1996), p. 191-207. 3 R. Quinn – Beyond Rational Management: Mastering the paradoxes and competing demands of high performance. San Francisco: Jossey-bass, 1988. 19 recorrente na sociologia da gestão. A sua expressão mais clara situa-se no debate sobre o processo de trabalho avançado por Braverman1. Por outro lado, a sociologia tem reflectido sobre a representação das funções de gestão como uma tecnocracia neutra, isto é, uma profissão que controla as organizações complexas no interesse da sociedade como um todo. As teorias actuais, como a sistémica ou a da contingência, veiculam ainda a ideia segundo a qual as funções de gestão consistem numa prática social caracterizada pelo planeamento e controlo racionais, livre de preconceitos ideológicos ou de interesses materiais. A análise sociológica da gestão sugere que a natureza da estrutura de gestão se caracteriza por uma ordem social altamente estratificada. A estrutura formal exige a rígida divisão do trabalho e a separação cultural entre os diferentes níveis de chefias, mas a complexidade das práticas obriga a uma certa cooperação. Assim, parece existir de forma implícita a ideia da ubiquidade do conflito organizacional nas práticas de gestão. Daí a gestão de recursos humanos ter um papel específico na gestão do conflito organizacional. Outra questão pertinenteque a sociologia da gestão nos traz relaciona-se com o papel do próprio gestor de recursos humanos. O debate à volta da separação entre propriedade e controlo na indústria moderna está associado às grandes mudanças económicas, políticas, organizacionais e tecnológicas que ocorreram no século XX. Acontece que, com a proliferação do capital por pequenos accionistas, o capitalista, o dono do capital e da empresa se encontra pulverizado e deixa de residir numa pessoa ou família física. O controlo, ou seja, o indivíduo ou grupo que tem poder real para escolher o conselho de administração, não é influenciado pela propriedade, não depende dela, como aconteceu ao longo do século transacto. Tal poder passou a estar nas mãos de um novo grupo, quiçá membro de um nova classe, o grupo dos gestores que dispõe agora de um poder arbitrário considerável. O argumento é válido não só para uma empresa em concreto, como para o conjunto do sistema empresarial, implicando que a direcção da indústria seja feita por indivíduos que não arriscaram o seu capital. Este novo sistema caracteriza-se pela propriedade do capital sem controlo significativo do mesmo e pelo controlo do capital sem a sua propriedade2. Esta nova situação, em que se encontra o gestor de recursos humanos, impele-o a assumir um papel muito mais activo na estratégia da organização e do negócio, abandonando totalmente a posição de controlador de comportamentos, à ordem do patrão. 1.2. GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS: DEFINIÇÃO E CICLO DE VIDA 1.2.1.Definição 1 H. Braverman – Labour and Monopoly Capital. NY: Monthly Review Press, 1974. 2 Mike Reed – Sociologia da Gestão. Lisboa: Celta, 1997. 20 A gestão de recursos humanos diz respeito a todas as decisões e acções de gestão que afectam a relação entre as organizações e os seus empregados. Envolve, por isso mesmo, todas as acções relativas à selecção, formação, desenvolvimento, recompensas e relações com os empregados. Numa perspectiva dinâmica pode dizer-se que a gestão de recursos humanos deve envolver todas as acções destinadas a assegurar a negociação e a gestão dos equilíbrios precários que permanentemente emergem entre actores sociais com interesses opostos, e, por vezes, irredutíveis. É desejável que a gestão de recursos humanos se apresente como abordagem coerente e estratégica para a gestão do activo mais importante da organização – as pessoas que lá trabalham e que individual e colectivamente contribuem para a realização dos seus objectivos e para a obtenção de uma vantagem competitiva sustentável. A este propósito, Beer entende que a gestão de recursos humanos envolve todas as decisões de gestão e as acções que afectam a relação entre a organização e os empregados – os seus recursos humanos. Por outro lado, Pettigrew e Whipp sugerem que a gestão de recursos humanos se relaciona com o conjunto total de conhecimentos, capacidades e atitudes de que as organizações precisam para competir. Tal exige um conjunto de preocupações e acções em matéria de gestão das pessoas, tais como: selecção, formação, desenvolvimento, relações de trabalho, compensação. Tais acções devem estar integradas numa filosofia de gestão de recursos humanos. Entende-se, actualmente, que a ênfase deve ser colocada nos seguintes factores: sistema de gestão; adopção de abordagens estratégicas; aquisição de valor acrescentado; e obtenção do compromisso dos trabalhadores com as metas e objectivos da organização. Por força disto, a gestão de recursos humanos passa a ser vista como um conjunto interrelacionado de políticas, com uma ideologia e uma filosofia subjacentes. A gestão de recursos humanos transforma-se, no que diz respeito à gestão das pessoas, numa filosofia orientada para a actividade /negócio, tendo em vista a obtenção do seu valor acrescentado na realização do sucesso organizacional. Tem-se entendido, tradicionalmente, que as funções da GRH são: planeamento (definição de metas e estratégias); organização (determinar o que/quem/ como/para quem/onde); liderança (motivar, dirigir, resolver conflitos) e controlar (monitorar o desempenho em relação ao planeamento). Isto significa que, na prática, se atribuiu ao gestor de recursos humanos as funções genéricas de todo o administrador, identificadas por Fayol, nos anos vinte do século passado. Quando se encara, pelo lado do perfil profissional e não da função, o que o gestor de recursos humanos é ou deve ser, tende-se a identificarem-se os seguintes papeis: interpessoal (liderança e ligação de actividades); informativo (monitorização, disseminação, de representação externa); decisor (empreendedor que resolve problemas, afecta recursos, negoceia). Esta perspectiva é novamente uma adaptação ao gestor de recursos humanos do perfil de gestão em geral, identificado por H. Mintzberg. 21 Na Figura 1.2-1 apresentam-se as quatro funções que são desempenhadas pelos gestores de recursos humanos em todas as organizações. Chama-se a atenção para a variável dependente que se encontra ao centro. Este ciclo representa as funções de gestão. A variável dependente é o comportamento das pessoas de acordo com um determinado conjunto de valores dominantes e o sistema é concebido para exercer impacto na realização/desempenho ao nível individual, departamental e organizacional. O desempenho é uma função de todos os componentes do sistema de GRH: Selecção. Quais são as pessoas melhor preparadas para realizar as tarefas que constam da descrição de funções? Avaliação do desempenho. Esta função facilita uma distribuição equitativa das recompensas e motiva as pessoas. Compensação. Esta componente do sistema deve estar dependente da avaliação para influenciar realmente o desempenho. Desenvolvimento. As necessidades de desenvolvimento são detectadas através da avaliação do desempenho, como recurso potenciador da melhoria do desempenho actual e como preparação para novos desafios futuros. Figura 1.2-1 As Quatro funções da GRH 1.2.2. Passado e presente da gestão de recursos humanos De todas as funções organizacionais, a função recursos humanos é, talvez, aquela que sofreu a transformação progressivamente mais acentuada, ao longo dos últimos anos. Esta evolução vai continuar, integrando tanto o conteúdo da função, como o perfil técnico dos profissionais desta área. No percurso da função recursos humanos, ao longo do século XX, verifica-se que, por exemplo, entre as seis funções de administração identificadas por Fayol (administrativa, técnica, comercial, financeira, contabilística, segurança) a função Avaliação do Desempenho Recompensas Selecção Desenvolvime nto Realização/ Desempenho 22 pessoal não é mencionada, embora alguns aspectos (segurança do trabalho, higiene) sejam integrados na função segurança. De facto, é a partir de 1945 que, na Europa e, particularmente, em França, a função pessoal começa o seu período de afirmação e crescimento. O período de 1945 a 1975 corresponde a uma fase gloriosa para a função, dado o impacto das teorias das relações humanas, do desenvolvimento organizacional e do sócio-técnico. O foco de atenção é a pessoa, mesmo que o capital continue a ser o recurso mais importante dos factores produtivos. Já ficara para trás o modelo de gestão de pessoal caracterizado pela exclamação do grande proprietário da indústria automóvel norte americana nascente, Henry Ford: “tudo quanto preciso são dois braços. Mas, infelizmente, com eles vem uma cabeça atrás”. O trabalhador ideal deveria ser apenas como uma roldana de uma máquina ou um robot dos nossos dias. Não precisava de pensar; era pago para trabalhar; para pensar lá estava um punhado de colarinhos brancos que procediam aos estudos do trabalho, nomeadamente, ao desenho das funções. Ao trabalhador só lhe restava fornecer a sua força de trabalho, em troca de uma remuneração. Estesanos de crescimento são marcados pela evolução do quadro jus-laboral, regulamentar e das ideias relativas ao homem no trabalho. Os trabalhos de Elton Mayo são o ponto de partida para numerosas transformações das condições materiais de trabalho. No final dos anos cinquenta do século XX, outros trabalhos dos EUA sobre os estilos de gestão orientados para a produção ou para as pessoas tornaram-se muito conhecidos no mundo ocidental. Estes trabalhos foram retomados e sintetizados por Rensis Likert, Argyris, Douglas McGregor, Maslow e Herzberg1. Na Europa, a profissionalização da função de técnico e gestor de pessoal tem lugar em França em 1947 (ANDCP) e em Portugal na década de sessenta do século XX, com a criação das respectivas associações profissionais2. A Associação Portuguesa de Técnicos e Gestores de Recursos Humanos foi fundada em Outubro de 1964, então com o nome de Associação Portuguesa dos Directores e Chefes de Pessoal. A criação destas associações privadas sem fins lucrativos tem por objectivo a troca de informações e experiências e a organização de meios de aperfeiçoamento sobre questões de pessoal. A proliferação, em quase todos os países europeus, de associações de directores e chefes de pessoal é sinal de que, no mundo industrial ocidental, as questões do pessoal tinham assumido um papel central, apelando a novas qualificações técnicas dos seus profissionais. Qual o conteúdo da função durante este período? O conteúdo aponta mais ou menos para os seguintes dez aspectos: gestão administrativa corrente; gestão dos recursos humanos; formação; desenvolvimento; gestão de custos com pessoal; informação e comunicação; envolvente e condições de trabalho; relações sociais; consultoria à hierarquia na gestão das pessoas; relações externas. 1 Sobre estes autores consultar: João Bilhim – Teoria Organizacional.3.ª ed.rev. Lisboa: ISCSP, 2004. 2 Cf. www.apg.pt http://www.apg.pt/ 23 Entretanto, nos anos setenta, instala-se a primeira grande crise petrolífera e as certezas dos gloriosos anos de prosperidade são postas em causa. Instalam-se a mudança permanente, a incerteza, os novos desafios das tecnologias, a internacionalização e, mais tarde, os mercados globais, novos perfis profissionais e de formação, necessidade de alinhar a gestão das pessoas com a estratégia de negócio, enfim, a complexidade veio para ficar. Neste contexto, a função pessoal transforma-se em gestão de recursos humanos. A mudança de nome corresponde a uma mudança de perspectiva e de práticas. A concepção tradicional do pessoal como fonte de custos cede lugar à visão dos trabalhadores como recursos cuja utilização é necessário optimizar. As pessoas que cooperam nos processos de transformação das organizações são recursos que é necessário mobilizar e desenvolver adequadamente; são activos onde importa investir. Estes recursos transformam-se nos primeiros recursos estratégicos da organização, a própria função e o seu responsável assumem novas responsabilidades e prestígio no contexto organizacional, traduzido, entre outros sinais, no nível de vencimento que subiu relativamente aos restantes directores. Ficou para trás o período do director e chefe de pessoal equivalente a burocrata, isto é, ao perito no jogo dos papeis administrativos. Os desafios do futuro são: tecnológicos, sociais, regulamentares, económicos, de globalização e, em particular, de um novo paradigma organizacional e comportamental marcado pela pós-modernidade. Deste ponto de vista, parece que actualmente há três tendências fundamentais: mudança do nível micro para o macro; tendência para abranger novas dimensões; tendência para produzir uma ciência prática com investigação útil. Com a mudança de enfoque do nível micro para o macro, acentua-se a integração funcional da gestão de recursos humanos e a sua natureza sistémica, de um sistema geral integrado noutro mais vasto. Esta mudança de centro de atenção permite explicar a relação entre as características organizacionais e as práticas de gestão, com recurso a dados qualitativos e quantitativos. Assim, têm surgido diversos estudos acerca do impacto das diversas técnicas de gestão de recursos humanos sobre o desempenho global da organização1. O alargamento das dimensões associa-se à importância crescente do papel estratégico da gestão de recursos humanos e da cultura organizacional. Com este alargamento, as políticas de gestão de recursos humanos encontram-se integradas na estratégia geral da organização e a gestão de recursos humanos é avaliada pelo contributo que tenha dado para o sucesso da estratégia da organização. A terceira tendência baseia-se no pressuposto de que a ciência e a prática da gestão de recursos humanos devem ser analisadas em conjunto, para que haja uma integração efectiva entre teoria, acção e investigação. 1Cf. Estevão de Moura – Gestão de Recursos Humanos. Lisboa: ISEG/UTL. Policopiado, Tese de doutoramento, 2000. 24 As três tendências marcam a natureza da gestão de recursos humanos. É que a gestão de recursos humanos situa-se no espaço criado entre a organização, entendida como um processo tendencialmente harmónico e consensual e as relações potencialmente conflituosas entre grupos de actores sociais. Esta contradição pressiona a resolução de conflitos de interesses, percepcionados como disfuncionais pelos actores1. Deste ponto de vista, as diversas técnicas de gestão de recursos humanos visam assegurar a conformidade das pessoas aos objectivos considerados legítimos da organização. Todavia, as divergências de perspectiva e de actuação não são meramente um fenómeno passageiro, mas sim uma característica permanente e irredutível dos processos organizacionais; nenhuma das técnicas por si só assegura a estabilização almejada. A estabilidade é sempre provisória, resultando do equilíbrio instável de forças entre os diferentes grupos e do impacto do contexto mais geral na organização, nomeadamente, do contexto cultural, político, social e económico. É, do meu ponto de vista, na manutenção de um equilíbrio instável e precário que a função recursos humanos tem procurado cimentar a sua legitimidade e a demonstração da sua importância organizacional. A gestão de recursos humanos encontra-se, assim, dependente de processos imprevisíveis e impossíveis de estabilizar de forma definitiva, sendo a sua dimensão política tão importante como a sua competência técnica2. Pelo que fica dito, é legítimo concluir-se que a gestão de recursos humanos não pode ser entregue apenas aos profissionais desta área. Todo o gestor é também gestor de recursos humanos e, em face disto, o que o profissional da área tem a fazer é ser o consultor deste gestor operacional, seu colega. É que a gestão de recursos humanos lida com a intervenção no processo político organizacional, com os fundamentos da própria organização, a sua raiz. Deste modo, a dimensão técnica da gestão de recursos humanos fundamenta-se numa dimensão política3. O gestor de recursos humanos é cada vez mais chamado a intervir em áreas organizacionais que até aos anos setenta lhe estavam vedadas. Até então, dificilmente um gestor de recursos humanos teria hipótese de vir a desempenhar a função de topo em qualquer organização. A gestão de recursos humanos era encarada como algo acessório às práticas e aos processos de gestão4. A gestão de recursos humanos era vista como um custo, o que equivalia a entender as pessoas como um meio – a mão-de-obra – que importa ser gerido ao mais baixo custo e com o máximo rendimento. Nesta fase, a gestão de recursos humanos foi designada por gestão de pessoal. A definição e as práticas de gestão de recursos humanos estavam marcadas pelos aspectos jurídico-administrativos. Por isso mesmo, durante décadas, o perfil de formação do director de pessoal era o militar ou o jurista.1 Edgar Schein. Psicologia na Organização. Lisboa: Clássica Editora, 1968. 2 Michael Armstrong – Handbook of Personnel Management Practices. London: Kogan Page, 1995 3 Michael Armstrong - Human Resource Management: Strategy & Action. London, Kogan Page Limited, 1993. 4 Michael Armstrong – Personnel and Bottom Line. London: Institute of Personnel Management, 1989. 25 Actualmente, os recursos humanos constituem o recurso estratégico das organizações, dada a sua criatividade, bem como a inovação e o potencial que representam, características que assinalam a diferença em face de outros recursos organizacionais como, por exemplo, o capital. Estas características colocam os recursos humanos como um activo organizacional que, como tal, necessita de ser valorizado através de investimento em formação. O facto de pessoas estarem a ser vistas, progressivamente, como a vantagem competitiva das organizações obriga a que a gestão de recursos humanos seja chamada a ter um papel activo sobre áreas da gestão onde nunca tinha penetrado. O gestor de recursos humanos, ao ter como competência nova a gestão do simbólico e do intangível – a cultura -, passou a ser mais solicitado a intervir na gestão estratégica, nomeadamente, ao nível das políticas e filosofias de gestão1. Em Portugal, as questões ligadas à competitividade estão a influenciar de forma intensa as práticas de gestão de recursos humanos que vêm progressivamente incluindo nos seus modelos as componentes estratégica e cultural dos recursos humanos. A gestão de recursos humanos, no essencial, ainda hoje integra as seguintes técnicas: recrutamento e selecção, formação e desenvolvimento, gestão do sistema de recompensas, relações de trabalho, higiene e segurança, análise de funções, gestão do desempenho, planeamento e gestão de carreiras, comunicação interna, e gestão administrativa. A abordagem sistémica/contingencial é a base para o desenvolvimento da gestão de recursos humanos. É, de facto, no contexto da metáfora orgânica que a gestão de recursos humanos ganhou a projecção de que actualmente desfruta. A gestão de recursos humanos é encarada como um sistema global, fazendo parte de um sistema mais amplo, no qual a envolvente, a estratégia e a cultura organizacionais constituem as principais condicionantes ao seu futuro. 1.2.3. Ciclo de vida da gestão de recursos humanos A abordagem contingencial, que estamos a seguir, possui, como um dos seus instrumentos conceptuais, o conceito de ciclo de vida, herdado da metáfora orgânica. De acordo com este conceito, as organizações descrevem percursos de vida semelhantes aos seres vivos e, consequentemente, as suas funções de gestão, nomeadamente a GRH, não se encontram alheias a este movimento. Por isso, parece- nos legítimo encarar o itinerário da GRH na perspectiva de um ser vivo que nasce, desenvolve-se, enfrenta crises de crescimento, de identidade e de maturidade e, por fim, morre. Por outro lado, pode encarar-se a GRH, ao longo do século XX, como estando confrontada permanentemente com duas preocupações: a resolução de problemas 1 J. Pfeffer, – Competitive Advantage Through People. Boston: HBRP, 1994. 26 internos e de problemas externos, ou seja, voltada para o interior ou, pelo contrário, voltada para o exterior. Por isso mesmo, à luz desta perspectiva, pode afirmar-se que, durante o século XX, a função recursos humanos passou por quatro grandes fases de transformações: administrativa; das relações humanas; da integração/ desenvolvimento; da estratégia. As fases acabadas de descrever não se excluem, mas coexistem e complementam-se: Até 1945: fase administrativa, contabilística ou pré-história da função; De 1945 a 1973: fase das relações humanas, legal ou fase técnica; De 1973 até 1985: fase da gestão integrada; A partir de 1985: fase da gestão estratégica. Etapas do Ciclo de Vida da GRH A fase administrativa liga-se à imagem mais tradicional. O técnico de pessoal é, normalmente, um ex-militar, pessoa experiente na aplicação da disciplina castrense e no domínio das técnicas de interpretação administrativa e regulamentar. O departamento de pessoal existe para manter e fazer respeitar a ordem estabelecida, funciona como sistema fechado, para si e para os seus processos de controlo. Nesta fase pré-histórica da função recursos humanos, que dura até aos anos trinta do século passado, os trabalhadores são vistos sob o enfoque contabilístico: comprava-se a mão- de-obra e, portanto, as entradas e saídas provenientes dessa conta, como de uma outra matéria-prima qualquer, deveriam ser registadas contabilisticamente. Nesta fase, procuram-se para integrarem o departamento de pessoal ex-militares e juristas. A fase das relações humanas corresponde ao apelo aos estudos de Elton Mayo, na Western Electric (1924 -1939)1 que, no final dos anos 40 do século XX, reconhece o papel da pessoa no sistema organizacional. Trata-se de uma postura mais técnica, que procura propor políticas e instaurar processos de trabalho que coloquem o acento na 1 João Bilhim – Teoria Organizacional. Lisboa: ISCSP, 2004. Escola das relações humanas. Até 1945 Gestão estratégica de RH. Após1985 Gestão de pessoal (1945-1973) Gestão integrada de RH (1973-1985 1973-85 EXTERIOR I N T E R I O R 27 pessoa e no social e que sejam coerentes com a evolução da organização. Parte-se do pressuposto de que trabalhadores satisfeitos serão sempre mais produtivos. Esta fase ainda enferma do pressuposto do one best way, de que há uma receita de gestão melhor e preferível a todas as demais. Neste caso, a receita é: “satisfaçam as necessidades de quem trabalha e de forma linear terão maior produtividade”. Nesta fase, os departamentos de recursos humanos recrutam essencialmente técnicos formados em ciências sociais, psicologia e sociologia, designadamente. A fase do desenvolvimento/integração corresponde à necessidade de conjugar as necessidades individuais e as organizacionais. Alimentou-se, nos anos sessenta do século XX, das teorias do desenvolvimento organizacional, com origem nos EUA e, na Europa, no Tavistock Institute de Londres,1 em particular com o que ficou conhecido por sistema sócio-técnico. Nesta fase, acentua-se o recrutamento de psicólogos para os departamentos de recursos humanos. Os pioneiros da gestão integrada de recursos humanos foram Peter Drucker (1955) e McGregor (1960). Mas, nos anos sessenta do século XX, o movimento comportamentalista, representado por Maslow, Likert, Argyris e Herzberg, deu os fundamentos à moderna gestão técnica de recursos humanos. No final desta década e início da década de setenta, o movimento do desenvolvimento organizacional e, em particular, Edgar Schein aprofundaram as raízes teóricas anteriores. Os investigadores da cultura organizacional, em particular, Pettigrew, Athos e Pascale, Peters e Waterman, completaram esta nova moldura teórica. Quanto à fase da gestão estratégica, pode dizer-se que a viragem da gestão de recursos humanos para a estratégia anda associada, por um lado, aos progressos anteriores até agora descritos e, por outro, ao novo pensamento nascente na gestão e na sociologia da gestão, através de Porter e de Rosabeth Kanter, ambos da HBS. Kanter, em 1984, salientou que a vantagem competitiva só se alcança através das pessoas; são as pessoas que implementam o plano empresarial. Os novos objectivos para a gestão de recursos humanos são: capacitar a gestão para o cumprimento dos objectivos organizacionais, lançando mão da força de trabalho; utilizar as pessoas no máximo das suas capacidades e potencial; impulsionar o compromisso dos empregados no sucesso da organização; integrar as políticas de gestão de recursos humanos com os planos de negócio e reforçar a criação ou renovação de uma culturavoltada para os resultados; criar uma ambiente de trabalho capaz de libertar e pôr ao serviço da organização a criatividade dos trabalhadores; criar condições em que a inovação, o trabalho de equipa, e a qualidade total possam desabrochar; encorajar a vontade de actuar de forma flexível, em prol de uma organização flexível e na busca da excelência. A fase da gestão estratégica corresponde ao desafio actual da gestão de recursos humanos. Traduz a crença nas pessoas como o recurso competitivo estratégico e o reconhecimento de que o capital e a terra deixaram de ocupar o lugar cimeiro dos factores de produção capitalista. A gestão tradicional de pessoal, baseada num modelo de organização rígido e burocrático finda nos anos 70, dando progressivamente lugar a uma função de recursos humanos integrada na estratégia da organização, onde se 1 Sobre o desenvolvimento organizacional e sistema sócio-técnico consultar: João Bilhim – Teoria Organizacional. 3.ª ed. Lisboa: ISCSP, 2004. 28 considera que o sucesso da empresa repousa na capacidade que esta tem de mobilizar os seus recursos humanos. Os profissionais que mais procurados são para integrar os actuais departamentos de recursos humanos são os trabalhadores com formação específica em gestão de recursos humanos. Esta fase, para além de procurar alinhar as pessoas com a estratégia organizacional, valoriza os conhecimentos nas áreas de articulação entre a gestão de recurso humanos, a gestão financeira e o marketing. 1.2.4. Gestão de recursos humanos no último quartel do século XX No segundo quartel do século passado, a nova perspectiva da gestão estratégica de recursos humanos foi impulsionada a partir dos trabalhos de duas grandes escolas de gestão dos EUA: Michigan e Harvard. A abordagem da Michigan Business School (MBS), protagonizada por Tichy, Frombrun e Devana1, é conhecida pela perspectiva da contingência. Esta perspectiva teórica realça a necessidade de desenvolver sistemas de gestão de pessoas compatíveis com os grandes objectivos da organização, como o aumento da qualidade e a melhoria da produtividade. O pressuposto teórico de onde parte é o seguinte: a eficácia organizacional encontra- se correlacionada com as práticas e políticas de gestão das pessoas e com o seu alinhamento com a estratégia de negócio. A mais importante finalidade da estratégia de recursos humanos é a sua contribuição para o sucesso da estratégia organizacional onde se insere. Para esta abordagem, o ciclo dos recursos humanos corresponde a uma sequência de actividades que são desempenhadas por todos os gestores de recursos humanos em todas as organizações. O ciclo dos recursos humanos, uma vez que está articulado com a gestão e a filosofia de gestão de pessoas, vai condicionar o desenho do sistema de gestão de recursos humanos. As áreas integradas neste ciclo são as seguintes: selecção, avaliação do desempenho, retribuição e desenvolvimento. De entre as quatro actividades, os autores destacam o papel da avaliação de desempenho como a chave para um sistema eficaz de recursos humanos. A obra, publicada em 1984, pela John Wiley &Sons, intitulada Strategic Human Resource Management por Charles Frombrun, Noel Tichy e Mary Devanna, constitui a viragem, na gestão de recursos humanos, para esta nova perspectiva da gestão estratégica. A obra está dividida em quatro grandes partes cujos títulos claramente mostram a novidade desta perspectiva: envolvente, estratégia e organização; papel estratégico do sistema de gestão de recursos humanos; questões estratégicas na gestão de recursos humanos; gestão de recursos humanos: a perspectiva do administrador executivo (CEO). 1 Tichy; Frombrun; Devanna – Strategic Human Resource Management. Sloan Management Review. Vol. 23, n.º 2, ( 1982), p. 47-61; Frombrun; Tichy; Devana – Strategic Human Resources Management. N.Y.: John Wiley & Sons, 1984. 29 Frombrun, Tichy e Devana criaram um modelo de gestão estratégica de recursos humanos onde as principais técnicas são integradas de forma coerente e estratégica. Eles reconhecem que as novas alterações que ocorreram na envolvente estiveram na base desta nova evolução da gestão de recursos humanos, em particular por exigirem um repensar permanente da missão, visão e estratégia das organizações com consequências na estrutura e nos processos de trabalho. A missão e a estratégia representam a razão de ser da organização e condicionam fortemente a escolha de meios em matéria de recurso humanos, financeiros e tecnológicos. Para aqueles autores, os sistemas de recursos humanos onde os seus componentes têm uma estreita ligação com a estratégia da organização envolvem quatro elementos: Selecção, incluindo o planeamento de recursos humanos; Avaliação de desempenho, de forma a oferecer uma remuneração justa e estimulante, recompensando os desempenhos elevados; Sistema de recompensas em que o salário é decomposto em parte fixa e variável; Desenvolvimento que compreende as actividades de formação oferecidas a todas as categorias de trabalhadores com vista a melhorar o desempenho actual. Os componentes do modelo destes três autores e as relações estreitas de interdependência entre eles, num ambiente onde as dimensões culturais, económicas e políticas são importantes são apresentados na Fig. 1.2 – 2. Missão e Estratégia Sistema de Gestão de Recursos Humanos Estrutura Organizacional Meio envolvente político, cultural e económico Remunureção Performance ou desempenho no trabalho Avaliação de Desempenho Selecção Formação, desenvolvimento e planeamento carreiras Os três autores desta obra afirmam: “a gestão em tempo de turbulência exige que as organizações voltem às questões básicas ligadas à sua natureza e à razão de ser da sua existência. Isto exige a inclusão da GRH no processo estratégico de gestão”. No mesmo sentido, Rosabeth Moss Kanter afirma a importância estratégica da GRH, acrescentando na apresentação da obra, “a excelência da estratégia de negócio não 30 significa nada sem as pessoas que desenvolvem isso”. Aqui reside o ponto de viragem da nova perspectiva estratégica. Quanto à escola de Harvard, esta é conhecida pelo destaque que dá aos multi- interessados (stakeholders) e foi desenvolvida por Beer, Spector, Lawrence, Mills e Walton1. No processo de gestão das pessoas, envolvem-se todas as decisões e acções de gestão que afectam a natureza da relação entre a organização e os empregados, os seus recursos humanos. Fiel a um tal princípio, esta filosofia central apenas pode ser implementada pelo dirigente máximo para garantir que as actividades de gestão de recursos humanos não se transformam num simples conjunto de actividades desconexas, cada uma conduzida pelo hábito. O papel da gestão de topo é equilibrar e integrar os diversos interessados da empresa: accionistas, empregados, clientes, fornecedores, comunidades de inserção, sindicatos, associações empresariais, governo. Assim, um dos aspectos mais destacados desta abordagem é a existência de um conjunto de diferentes interesses convergentes. As quatro áreas operativas consideradas por Beer para a concretização da estratégia de recursos humanos são: Influência dos empregados; Os fluxos de recursos humanos; Os sistemas retributivos; Os sistemas de trabalho. O autor considera que há quatro grandes questões que são fundamentais para precisar em que medida a gestão de recursos humanos contribui para aumentar o desempenho da organização, a saber: Compromisso: procura saber em que medida as políticas de gestão de recursos humanos aumentam o compromisso das pessoas com o seu trabalho e com a organização. Competência: indaga em que medida as políticas de gestão de recursos humanos atraem, conservam e/ou desenvolvem as pessoas com aptidões e conhecimentosnecessários à organização, à sociedade, agora e no futuro. Custos/ eficiência: inquire sobre qual é o custo efectivo de uma dada política em termos salariais, de benefícios, rotação, absentismo, greves, etc. Congruência: visa precisar que níveis de congruência as políticas de gestão de recursos humanos criam ou conservam entre os gestores e os empregados, entre diferentes grupos de empregados, a organização e a comunidade, os empregados e as suas famílias e no próprio indivíduo. A escola de Harvard (HBS) exerceu uma forte influência sobre o pensamento britânico da Warwick Business School (WBS). Os investigadores do Centre for 1 M. Beer [et al.] – Human Resources Management. NY: The Free Press, 1985; M. Beer [et al.]– Managing Human Assets. NY: The Free Press, 1984. 31 Corporate Strategy, presidido por Pettigrew1, partindo da perspectiva de Harvard, desenvolveram uma abordagem de formulação da estratégia nas organizações complexas relacionando-a com a capacidade para transformar as práticas de gestão de recursos humanos. A abordagem de Warwick parte do pressuposto de que as práticas de gestão de recursos humanos exercem uma forte influência no desempenho. Por isso, apelam a novas concepções e aptidões destinadas a compreender a importância da gestão de recursos humanos e a gerir melhor o processo de mudança. Para além das quatro áreas de Harvard, Warwick promove a integração da envolvente externa e da estratégia de negócio, considerando necessária a compreensão do papel cultural único da função de recursos humanos em termos de: definição de responsabilidades; competências num leque diverso de actividades e modo como a função se encontra organizada. Uma distinção importante de Warwick, relativamente a Harvard, radica na importância atribuída ao sistema de relações de trabalho. Para a HBS, este sistema não possui uma importância que o diferencie de outras condicionantes contextuais. Para a WBS, ele possui um papel fundamental na configuração dos sistemas internos de recursos humanos. Neste ponto, a diferença cultural entre os EUA e a Europa não deixa de ser marcante quanto ao peso dos trabalhadores no equilíbrio dos poderes dos multi-interessados. Nesta abordagem, há cinco grandes contextos: externo (cultura, estrutura, política liderança, tarefas/tecnologia, resultados do negócio); interno (socio-económico, técnico, político, legal, competitivo); estratégia de negócio (objectivos, produto/mercado, estratégia/táctica); gestão de recursos humanos (papel, definição, organização, saídas de recursos humanos); conteúdo da gestão de recursos humanos (fluxos de recursos humanos, sistema de trabalho, sistema retributivo). 1 Charles Hendry; Andrew Pettigrew – The Practice of Strategic Human Resources Management. Personnel Review. Vol. 15, (1986), 2-8; Charles Hendry; Andrew Pettigrew - Human Resources Management: an agenda for the 1990’s. The International Journal of Human Resources Management. Vol. 1, n.º 1, (1990), p. 17-43; Charles Hendry; Andrew Pettigrew; Paul Sparrow – Linking Strategic Change, Competitive Performance and Human Resource Management: Results of a UK empirical study . In R. Mansfield (ed) – Frontiers of Management Research. London: Routledge, 1989. 32 CAPÍTULO 2 – GESTÃO ESTRATÉGICA DE RECURSOS HUMANOS 2.1. GESTÃO ESTRATÉGICA A estratégia de uma organização corresponde aos padrões de comportamento reconhecidos, num longo período de tempo, como consequência das decisões dos seus gestores. As decisões estratégicas e as respectivas acções de concretização exercem uma fortíssima influência, no longo prazo, sobre a estrutura organizacional, bem como sobre a sua posição relativamente aos clientes, concorrentes, fornecedores e reguladores. A forma e a posição da organização condicionam decisivamente o seu desempenho. A estratégia transforma-se, deste modo, num padrão de acções e o seu resultado é traduzido através da forma e da posição apresentadas pela organização. A gestão estratégica emerge como o processo de formulação e implantação de planos que orientam a organização. Em bom rigor, a gestão estratégica integra o planeamento estratégico, as decisões operacionais e o funcionamento quotidiano da organização. Recomenda-se, em geral, que o planeamento seja flexível e criativo, e não um exercício burocrático, devendo o processo de planeamento ser contínuo e assumido por todos os gestores, mas com particular incidência pelos gestores de topo. A concorrência, a competitividade constituem os pontos críticos da actuação. O envolvimento de todos os níveis hierárquicos da organização permite a partilha do sistema de valores e o fomento do espírito de corpo necessário à integração interna, sem deixar de realçar os valores da diferenciação externa com a atenção dada à envolvente geral e específica. A gestão estratégica envolve: A identificação da missão, ou seja, o seu carácter, orientação global e forma de estar; A definição dos objectivos que concretizam a missão; A análise da envolvente geral e específica, para identificar ameaças e oportunidades; O diagnóstico interno para evidenciar os pontos fortes e fracos; Escolha estratégica que permitirá atingir as metas e os objectivos. 33 Porter1 identificou cinco forças competitivas que determinam o interesse de qualquer sector de actividade, a saber: O grau de rivalidade – competição entre os actuais concorrentes. Esta força exerce a sua acção ao nível dos preços, das práticas de inovação e da capacidade instalada; O poder negocial dos clientes – esta força leva a baixar preços ou ao fornecimento de serviços adicionais, caso seja relativamente elevado. O poder negocial dos fornecedores (matérias-primas, máquinas, recursos humanos) – caso seja elevado, gera uma pressão sobre os preços e, consequentemente, reduz a margem de lucro; A ameaça de novos concorrentes – a existência ou não de barreiras à entrada (tipo lei do condicionamento industrial) afectará a rendibilidade do sector em causa; A ameaça de produtos substitutos – é o caso da substituição dos produtos metálicos pelos de plástico, que vai limitar a política de preços, entre outras consequências. Em qualquer empresa, as potencialidades de sucesso no longo prazo são função destas cinco forças. Como conseguiram certas empresas manter crescimentos anuais de 20 por cento, durante um período de dez anos, como conseguiram outras colocar produtos no mercado mais depressa do que a concorrência, como conseguiram ainda outras evitar a falência? Da leitura da literatura especializada, tanto científica como profissional, fica-se com a ideia que foi colocando as pessoas no coração da organização. Há 15 anos a resposta teria sido a de que o sucesso foi obtido através do capital financeiro que as fez expandir. Após a Segunda Guerra Mundial, a resposta poderia ter sido: devido às vantagens tecnológicas e às patentes que exploram. Actualmente, vive-se um período em que o acesso ao capital depende das boas ideias do promotor e a tecnologia quase pode dizer-se que está como a fruta nas árvores (disponível), pelo que as vantagens do passado perderam significado. As novas fontes de vantagem competitiva sustentável colocam as pessoas no centro, no coração da empresa. São os recurso humanos qualificados, dispondo das competências necessárias à competição organizacional que se encontram na base do sucesso2. Os recursos humanos são, actualmente, o factor estratégico produtivo. Em bom rigor, pode dizer-se que a gestão estratégica de recursos humanos está centrada no pressuposto de que os empregados são activos essenciais da organização e que o seu valor pode ser aumentado e até potenciado através de uma abordagem sistemática e coerente de investimento na sua formação e desenvolvimento. A actual pressão no sentidoda redução dos custos e do aumento do valor acrescentado por cada empregado, dada a feroz concorrência dos mercados e a constante procura de vantagens competitivas, conta com o total empenhamento da gestão de recursos humanos, no sentido de se reinventar novos estilos de gestão das pessoas. 1 M.Porter – Competitive Strategy. NY: Free Press, 1980 2 Lynda Gratton – Estratégia Viva. Porto: Ambar, 2003. 34 Tais exigências conduzem a gestão de recursos humanos a uma postura dinâmica, que facilite o envolvimento e a participação dos empregados, ou seja, fomente a implementação de um conjunto de actividades estratégicas de gestão de recursos humanos. A gestão estratégica de recursos humanos envolve a concepção e a implementação de um conjunto de políticas e práticas com coerência interna, que garantam que as pessoas contribuam para alcançar os objectivos da organização. De acordo com o estudo de terreno conduzido por Jeffrey Pfeffer1, são dezasseis as práticas das empresas que basearam o seu sucesso na gestão dos recursos humanos: Garantia de segurança no emprego Selectividade no recrutamento Salários mais elevados que os da concorrência Incentivos Trabalhador accionista Partilha da informação Descentralização de poderes de controlo do processo de trabalho Funcionamento baseado em equipa Desenvolvimento das capacidades de cada um Flexibilidade de funções Eliminação dos símbolos de “status” Compressão das diferenças salariais Preenchimento dos lugares por promoção interna Perspectiva de longo prazo Medição de resultados Filosofia global e mobilizadora ou visão da gestão (saber onde se quer ir) Por detrás de uma empresa de sucesso, existe sempre uma estratégia, quer a empresa a tenha desenvolvido com recurso à análise formal, quer através da tentativa erro, ou lançando mão da intuição, ou ainda com a ajuda da sorte. Até as estratégias baseadas na sorte possuem uma lógica subjacente - uma espécie de princípios de suporte. Quando os gestores admitem que chegaram a certas estratégias através da intuição ou de um palpite, pode descobrir-se retrospectivamente uma certa lógica subjacente. Todavia, apesar da importância da estratégia universalmente reconhecida e da pesquisa feita durante décadas por académicos, a estratégia continua a encerrar muitos mistérios e não é possível, por enquanto, reunir grande consenso sobre o que é e como se desenvolve uma boa estratégia. Nesta matéria, quer no âmbito académico, quer no profissional, seria milagre reunir dois autores com idêntico ponto de vista. Este será o caso apropriado para dizer que “cada cabeça, cada sentença”. Da estratégia como “posição” à estratégia como “visão” muitas variantes se perfilham no horizonte e numerosas definições são possíveis2. 1 J. Pfeffer, – Competitive Advantage Through People. Boston: HBRP, 1994 2 João Bilhim – Teoria Organizacional. Lisboa: ISCSP, 2004 35 Se a confusão é grande quanto ao que é ou deve ser a estratégia, ela não é menor quanto ao modo como se poderá desenvolver uma boa estratégia. A grande questão dos últimos trinta anos anda à volta do seguinte: será que a empresa escolhe a sua estratégia a partir de um processo racional, formal ou, pelo contrário, a estratégia “emerge” de um processo de experimentação? A crença geral é a de que as empresas podem desenvolver boas estratégias a partir de perguntas inteligentes, explorando as respostas possíveis, experimentando possíveis soluções e, através do questionamento das respostas encontradas no estádio anterior, recomeçando o processo. A concepção de estratégias eficazes é um processo de permanente questionamento e de pensamento criativo sobre as questões. Assim, a formulação das perguntas correctas é mais importante do que as soluções encontradas. Pensar sobre um assunto de diversos pontos de vista é, muitas vezes, mais compensador do que coligir e analisar um número enorme de dados quantitativos; a experimentação de novas ideias é muitas vezes mais importante do que certas análises e discussões. Aliás, é aqui que radica a razão de ser da urgência actual na formação dos gestores e quadros em geral, em matérias ligadas à criatividade. A concepção da estratégia é algo que tem de ser permanente. Não tem um fim ou um ponto de chegada. O que hoje é uma estratégia ganhadora, pode não ser, e provavelmente não será, em breve. É preciso estar atento à lógica subjacente às estratégias de sucesso, aprender com elas e, em especial, se foram concebidas por palpite, por tentativa erro ou por pura sorte. É muito provável que a sorte não venha bater à porta uma segunda vez. A única fonte de vantagem competitiva é aprender mais depressa do que a concorrência. Se queremos chegar ao mercado um minuto mais cedo do que os nossos concorrentes, temos de aprender mais depressa do que eles. 2.2. DESAFIOS DA ENVOLVENTE 2.2.1. Económica Os principais desafios económicos que influenciam actualmente a gestão de recursos humanos nas empresas são: Internacionalização; Diminuição da taxa de crescimento económico; Diminuição da taxa de inflação. As empresas competem não só com empresas europeias, mas com empresas do mundo inteiro. Para fazer face à concorrência global as empresas deverão manter-se competitivas numa envolvente onde a inovação no processo e no produto e serviço ultrapassa as fronteiras dos estados nacionais. O aumento da concorrência conduziu a uma espécie de guerra económica a que todas as empresas estão sujeitas. Por outro lado, aumentou a incerteza nos negócios. A envolvente económica tornou-se mais turbulenta. As relações com a Europa de Leste e com os países asiáticos 36 suscitam novas interrogações, ao mesmo tempo que se acentua a instabilidade do sistema monetário internacional. As alterações sucedem-se a um ritmo acelerado que leva a empresa a ter de reagir aceleradamente, sob pena de perder contacto com a envolvente e assim desaparecer. As empresas têm de alinhar permanentemente as suas estratégias num clima de turbulência e incerteza, o que obriga a maior flexibilidade e vivacidade. Estas novas circunstâncias levam a empresa a ter de satisfazer novas exigências, entre as quais salientamos: Comparar a sua produtividade e o custo do trabalho com os dos seus concorrentes; Analisar os impactos da redução da inflação sobre a sua política de compensações; Prestação de atenção aos custos ocultos com a gestão de recursos humanos; Entrosar a estratégia de recursos humanos com a da organização. Como já vimos em outro ponto, com a internacionalização dos mercados, as empresas para sobreviver têm de praticar uma gestão de recursos humanos internacional que deverá abranger as diversas técnicas e práticas. As organizações confrontadas com estes desafios económicos tomam consciência de que os seus recursos humanos representam um trunfo concorrencial importante. São, deste modo, exercidas influências sobre a DRH para que se renove e crie qualificações e competências mais produtivas, flexíveis e inovadoras. 2.2.2. Tecnológica A tecnologia, ao influenciar as qualificações e os processos produtivos, acaba por afectar profundamente a GRH. As alterações tecnológicas atingem o sector produtivo vertical e horizontalmente. O eixo vertical corresponde ao lançamento nos mercados de novos produtos e serviços e o horizontal relaciona-se com as melhorias técnicas introduzidas nos processos de trabalho que permitem produzir mais e melhor os produtos já existentes. Acresce a tudo isto o facto das alterações tecnológicas se processarem num ritmo de aceleração contínua. Por outro lado, as novas tecnologias, nomeadamente da informação e comunicação vêm influenciar a gestão e a gestão de recursos humanos com a autonomização de processos de gestão. As alterações tecnológicas tornam, por um lado,obsoletas certos perfis profissionais e, por outro, fomentam novos perfis profissionais e de formação. Os seus efeitos no emprego são ao mesmo tempo de supressão e de criação. Acresce ainda que certos níveis intermédios de chefias parecem tender a serem eliminados, aproximando mais a coordenação e os colaboradores, contribuindo para a criação do conceito de membro da organização, em vez do anterior conceito de empregado ou funcionário. 37 Há quem seja de opinião que o ritmo com que os anteriores empregos desaparecem não corresponde igualmente ao ritmo com que os novos emergem1. A evolução tecnológica exige novas qualificações que têm de ser adquiridas antes e durante toda a vida profissional. Os cursos médios e superiores apresentam hoje novas áreas disciplinares ligadas aos sistemas de informação e as organizações desenvolvem um esforço permanente de formação. Um outro efeito da tecnologia na gestão de recursos humanos incide sobre a natureza do próprio trabalho. O trabalho está a ser invadido por tecnologia mais complexa e o esforço físico a ser substituído pelo mental. Os trabalhadores tendem a ocupar-se com actividades mais abstractas e analíticas mobilizadoras de esforços mentais, tais como a atenção, a memorização, o relacionamento de informação. Assiste-se igualmente a alterações nas condições de trabalho. A difusão de novas tecnologias confere uma nova importância a quem as utiliza, há diferentes papeis e estatutos e ocorrem alterações nas redes de poder, ao tornarem-se detentores de informação às quais antes não tinham acesso. As tecnologias de informação têm acarretado a erosão dos níveis de chefia, e a eliminação dos níveis intermédios e alterado as relações hierárquicas tradicionais. A diminuição de níveis hierárquicos tem levado à contracção dos efectivos, predominando a lógica de que ao investimento em novas tecnologias deverá corresponder redução em recursos humanos. Os ganhos de um lado compensarão com proveito os custos do investimento. Por outro lado, esta redução de chefias acarreta uma gestão mais participada, maior flexibilidade de gestão e, consequentemente, mais célere resposta à s exigências da envolvente em geral e dos mercados em particular. O impacto tecnológico na organização obriga a que a gestão de recursos humanos encontre as respostas adequadas para lhe fazer face, nomeadamente, através de: Formação e reconversão de perfis de formação e profissionais; Gestão previsional em ambiente de incerteza, com recurso a cenários; Outplacement para facilitar a diminuição de efectivos; Redesenho das funções. 2.2.3. Demográfica É sabido que as características da população influenciam as qualificações e competências disponíveis no mercado. O nível de escolaridade, a idade, a taxa de actividade, a taxa de emprego feminino constitui um conjunto de características demográficas que afectam a GRH. Na União Europeia, a taxa de crescimento do emprego feminino era, na década de noventa do século passado, de 2,9 enquanto a taxa de crescimento masculina era de 0,9. Nos países da União Europeia, o número de homens empregados era sempre superior ao das mulheres, mas a taxa feminização é em geral superior à masculina, em 1 Besseyre des Horts – Vers une Gestion Stratégique des Ressources Humaines. Paris: Les Editions d’Organisation, 1989 38 todos os países. Em Portugal, a taxa de emprego feminino é de cerca de 2,5 e a do masculino de 1,8. Há, entretanto, um outro desafio à GRH: a diminuição da população potencialmente activa. A tendência geral no grupo de idades dos 15 aos 64, dá-se no sentido da crescente diminuição do ritmo de expansão. O último desafio colocado à GRH é o desemprego dos jovens e, em particular, dos jovens portadores de habilitações superiores. A maioria da população desempregada na Europa pertence à classe etária dos 15 aos 24 anos, com uma taxa de desemprego de dois dígitos, enquanto que a classe etária superior a 25 anos tem apenas um dígito. Estudos feitos sobre este tema defendem que, se o desemprego de jovens durar cinco ou seis anos, diminuirá a capacidade de estes jovens conservarem um emprego mais tarde, por causa da dificuldade de se adaptarem à disciplina dos empregos regulares e em desenvolverem hábitos de trabalho1. Para Guérin, o envelhecimento da população activa vai levantar problemas de gestão de carreiras e de adaptação ao trabalho. A concentração de trabalhadores na organização com idades mais velhas pode colocar problemas graves de motivação e de gestão de carreiras, para não falar dos custos do trabalho, dado que um quadro júnior, por norma, custa menos do que um sénior. Para o autor, os postos de responsabilidade não responderão às necessidades de aspiração legítima de carreira destes trabalhadores, suscitando insatisfação. Estes trabalhadores menos móveis, bloquearão as fileiras profissionais e impedirão os empregados mais jovens de progredir e de se desenvolverem. Para além destes, outros problemas se levantarão nomeadamente de recrutamento e selecção, concepção das funções, formação, avaliação de desempenho e de compensação2. O crescimento da taxa de feminização obriga as organizações a alterarem os seus pressupostos e estereótipos de homem e de mulher, eliminando a discriminação com base no género. As organizações terão de começar a ponderar as questões da qualidade de vida no trabalho, carreiras duplas, procurar a equidade no emprego e a equidade dos sistemas de compensação. Acresce a esta questão da feminização a necessidade de ponderar os novos problemas do contacto de culturas e da diversidade cultural acarretados pela imigração, o que leva à necessidade da gestão da diversidade cultural e multi-étnica que marca a presença dos trópicos na Europa. 2.2.4. Valores Guérin refere que há uma espécie de nova ética relacionada com o trabalho, para caracterizar a alteração de valores de base relacionados com o trabalho. Há uma evolução progressiva das mentalidades, das crenças e hábitos que informam e comandam o pensamento de uma colectividade e se traduzem em alterações nas atitudes e comportamentos. 1William Wether – La Gestion des Ressources Humaines: Québec: McGraw-Hill, 1990 2 Gilles Guérin – Gestion des Ressources Humaines: du Modèle Traditionnel au Modèle Renouvelé: Montréal: Les Presses de la Université de Montréal, 1992 39 O trabalho que marcava o homo faber parece não ser mais o valor por excelência, a pedra angular sobre a qual repousa a vida. Outras instituições como a família, o lazer, os amigos constituem valores actuais da vida dos trabalhadores. Reclama-se por maior compatibilização entre trabalho e família, pelo aumento dos períodos de lazer, nomeadamente de férias, sabáticas de quadros, etc. Por outro lado, os jovens mais qualificados tendem a admirar líderes e a recusar obedecer a chefes. Os jovens têm tendência a desafiar a autoridade, eles já não estão prontos para se submeter a qualquer ordem, a formação ensinou-lhes a respeitar a autoridade baseada no conhecimento e competência e a desconfiar da autoridade que repousa sobre um título, ou nomeação. Desenvolve-se o conceito de cidadania organizacional em que cada pessoa é portadora de direitos e de deveres, banindo-se a postura tradicional marcada pela máxima: “eu pago-lhe para trabalhar, não é para pensar”. Deste modo, novas expectativas surgem, por parte das pessoas, relacionadas com o trabalho, como consequência da emergência destes novos valores. E de entre tais expectativas salientam-se: Maior necessidade de realização pessoal e profissional através do exercício de uma actividade interessante; Maior necessidade de reconhecimento psicológico, como pessoa de corpo inteiro e não apenas pela qualidade do cérebro ou pela força dos músculos que possua; Maior desejo de participação na organização eno seu processo de tomada de decisão; Necessidades de carreiras construídas a partir das necessidades das pessoas e não das características da organização; Uma maior qualidade de vida no trabalho. Naturalmente, a GRH não pode ser imune à pressão deste punhado de expectativas e novas necessidades. Como resultado desta pressão, a práticas e as técnicas de GRH voltam-se para modelos mais personalizados relativamente à selecção, planeamento de carreiras, compensação e à ajuda específica a cada empregado. Será indispensável reestruturar a organização do trabalho para que os trabalhadores possam encontrar mais possibilidades de desenvolvimento e realização pessoal. A criação de grupos de trabalho semi-autónomos, grupos de progresso, círculos de qualidade entre outras novas formas de organização do trabalho tenderão a proliferar para conferir maior responsabilidade de gestão a todos1. 2.2.5. Instituições Por instituições entendem-se aqui as diferentes entidades públicas e privadas com as quais a gestão de recursos humanos tem de interagir, nomeadamente: os sindicatos, as comissões de trabalhadores, o Estado, as associações patronais entre outros. 1 Laurent Bélanger – Les Effects de l’Environnement Externe et Interne sur les Ressources Humaines. In AAVV – Gestion Strategique et Operationnelle des Ressources Humaines. Quebec: Morin Editeur, 1993 40 Para Portugal, as instituições que jogam maior papel na GRH são os sindicatos, o Estado e a União Europeia e as associações patronais. O Estado, através do poder legislativo, especialmente a Assembleia da República, e através do poder executivo do Governo e também com recurso ao poder judicial na vertente dos tribunais de trabalho. O ordenamento jus-laboral colectivo e individual exerce uma influência determinante na GRH, favorecendo o desenvolvimento de determinadas práticas de gestão de recursos humanos, isto é, as que se encontram em harmonia com os valores sobre os quais as estratégias políticas são construídas. As leis representam instrumentos pelos quais os governos procuram implantar nas organizações as mudanças almejadas. Por vezes, nota-se uma certa falta de coerência entre a necessidade de flexibilidade e a tendência para a regulamentação excessiva. Por outro lado, verifica-se uma tendência na União Europeia para a uniformização do ordenamento jurídico-laboral. Os sindicatos, por sua vez, também jogam um papel crítico na GRH, nomeadamente na contratação colectiva e em particular no momento da negociação salarial. A GRH é claramente a função organizacional onde os sindicatos, através da negociação e convenções colectivas de trabalho, têm maior poder. Na Europa, há quem sustente com fundamento que o sindicalismo se encontra em profunda crise. Devido a diversos factores, tais como: Evolução da situação económica geral da população; Aumento da qualificação dos trabalhadores; Gestão mais participada das organizações; Maior cidadania no interior das organizações; Desadaptação dos sindicatos à nova sociedade pós-moderna; Diversidade crescente das expectativas dos trabalhadores; Crescente individualismo que dificulta a acção sindical colectiva. O sindicalismo parece ter desenvolvido um conjunto de características bem ajustadas à primeira e segunda revoluções tecnológicas, mas desadequadas à nova sociedade. Os seus pontos fortes passados constituem hoje, ao que tudo parece indicar, os seus maiores pontos fracos. Por outro lado, a matriz ideológica, que caracteriza algumas correntes sindicais, também não parece ajudar os sindicatos a renovar-se. Por último, importa salientar o papel da União Europeia nas transformações da GRH em Portugal. Na estrutura jurídica da EU, no que diz respeito ao trabalho, há dois temas fundamentais que são a livre circulação de pessoas e a política social. Quanto ao primeiro, a União Europeia salvaguarda o princípio da não discriminação, através do qual visa a aplicação de um mesmo tratamento por cada Estado-Membro, quer aos eus cidadãos, quer aos nacionais dos restantes países comunitários. Realça-se a liberdade de movimentação dos trabalhadores e a procura de empregos que estes julguem mais convenientes. Quanto à liberdade de circulação de trabalhadores, outros documentos foram publicados nomeadamente respeitando: 41 Discriminação, em razão da nacionalidade, entre trabalhadores dos Estados- membros no que respeita a emprego, remuneração, condições de trabalho, entre outros; Direito à permanência num Estado-membro depois de aí trabalharem; Igualdade de acesso aos empregos disponíveis. Neste novo contexto, alguns problemas velhos emergem com maior força, nomeadamente a pressão para remunerar a um ritmo que se aproxime da média da União Europeia. Com a europeização, o problema da equidade externa coloca-se em novos termos. A retribuição é apreciada em função dos diferentes níveis de vida e da variedade dos elementos que a constituem. 2.3. COLOCAR A VANTAGEM COMPETITIVA/COMPARATIVA NAS PESSOAS As alterações na envolvente despoletaram um enorme esforço por parte das organizações, com o objectivo de garantir a sua sobrevivência. Por isso, as organizações iniciaram novas formas de gestão que obrigaram a repensar a actuação de todas as funções organizacionais, nomeadamente, a de recursos humanos. Como consequência, a gestão de recursos humanos passou a tratar a articulação e ajustamento entre as pessoas que trabalham na organização e as necessidades estratégicas desta, assegurando a total utilização dos recursos humanos disponíveis. Assim, a gestão de recursos humanos não diz respeito apenas às acções destinadas a atrair e seleccionar os futuros empregados na qualidade e quantidade estimável, mas também a todas as acções orientadas para a fidelização dos recursos humanos que melhor se adaptem à cultura organizacional, lançando mão de técnicas, tais como a avaliação do desempenho, a remuneração, a gestão da carreira, etc. A gestão de recursos humanos valoriza muito mais, e dá mais ênfase do que a tradicional gestão de pessoal, ao recrutamento e selecção das pessoas cuja atitude e comportamento sejam mais susceptíveis de melhor contribuírem, dadas as crenças de gestão, para o sucesso organizacional. A gestão de recursos humanos dá mais ênfase aos aspectos ligados às atitudes, emoções e características comportamentais dos novos empregados do que a tradicional gestão de pessoal. A gestão de recursos humanos, por oposição à gestão de pessoal, apoia-se numa concepção radicalmente diferente do que representa a pessoa para a organização. Besseyre des Horts1 apresenta duas concepções de pessoal na organização: pessoal/custo relacionada com a gestão de pessoal e pessoal/recurso relacionada com a gestão de recursos humanos, atribuindo-lhes um conjunto de características-chave que as distingue conforme se constata na Figura … Pessoal = Custo Pessoal = Recurso Ameaça Oportunidade 1 Charles-Henri Besseyre des Horts – Vers une Gestion Stratégique des Ressources Humaines. Paris: Les Editions D’Organization, 1989. 42 Minimizar Optimizar Curto prazo Longo prazo Resultados Meios + Resultados Quantitativo Qualitativo Inadaptável Adaptável Inflexível Flexível Dependente Autónomo Executante Empreendedor Para o autor, a designação “direcção de recursos humanos”, em si mesma, é sintomática da vontade de conceber e difundir práticas que correspondem à perspectiva que figura na segunda coluna da tabela apresentada. Para muitos autores não existem diferenças significativas entre gestão de pessoal e a gestão de recursos humanos. As poucas diferenças, por vezes, parecem ser mais ao nível da opinião do que dos factos e as semelhanças parecem ser maiores do que as diferenças. Acresce que muitas organizações mudaram o nome, sem que tal mudança tenha correspondidoa uma mudança de filosofia e de postura, correspondendo mais a uma questão de evolução do que de revolução. Esta evolução começou nos EUA e só muito paulatinamente atingiu a Europa, revelando o Reino Unido uma persistente resistência à evolução vinda do outro lado do Atlântico. A gestão de recursos humanos está mais centrada na procura (demand-driven) do que na oferta (suply-driven). A gestão de recursos humanos procurou a integração, centrando-se nas necessidades de recursos humanos e uma das preocupações do gestor de recursos humanos é a resolução de problemas com os outros gestores, ao contrário da gestão de pessoal que os resolve directamente com os empregados ou com os seus representantes legais1. Todavia, o aspecto mais crítico da gestão estratégica de recursos humanos situa-se ao nível da concepção e da implementação de um conjunto de políticas e práticas com coerência interna, que garantam que as pessoas contribuam para alcançar os objectivos da organização. Esta coerência e persistência internas são expressas e apoiadas pela cultura organizacional. Por isso, a gestão estratégica de recursos humanos deve ser uma gestão de e pela cultura, vista esta como um conjunto de normas, valores e crenças partilhadas pelos membros da comunidade organizacional. Por outro lado, as pessoas que integram a organização e a forma como “as coisas são feitas ali” constituem o factor diferenciador em relação à concorrência e constituem a sua vantagem competitiva. A gestão estratégica de recursos humanos situa-se no cruzamento de quatro componentes: a organização (estruturas, procedimentos, funções e alinhamento hierárquico); as pessoas (competências, potencial e gestão das suas capacidades); sistemas de recursos humanos (compensação, recrutamento, formação e comunicação); cultura organizacional (normas, valores e crenças). 1 Derek Torrington; Laura Hall – Personnel Management. NY: Prentice-Hall, 1991. 43 Como fonte de vantagem competitiva, as pessoas, que integram a organização com os seus saberes, têm de ser: mais-valias; únicas ou raras; difíceis de imitação pela concorrência; não substituíveis facilmente. Só, assim, é que, em nosso entender, a gestão de recursos humanos se distinguirá da gestão de pessoal tradicional e caminhará na direcção da verdadeira gestão das pessoas, usando um conjunto integrado de técnicas culturais, pessoais e estruturais1. Muitos gestores e organizações reconhecem que o ponto crítico da vantagem competitiva não deriva da concepção engenhosa de um produto, da melhor estratégia de marketing ou do domínio do estado da arte da tecnologia de produção, mas da posse de um sistema eficaz de obtenção, mobilização e gestão dos activos humanos da organização, as pessoas que a integram e formam a comunidade de trabalho. Muitos desenvolvimentos recentes, incluindo mudanças demográficas na força de trabalho, vertiginosas mudanças tecnológicas, aumentos da competição global, experiências de novos modelos organizacionais e a atenção renovada das políticas públicas sobre a força de trabalho tornaram a gestão de recursos humanos indispensáveis para todos os gestores da organização. Os gestores da maior parte das grandes empresas em todo o mundo reconheceram a necessidade de fazer algumas alterações radicais e mesmo transformações nos seus enraizados modelos organizacionais e de gestão. No entanto, muito poucos vão ao ponto de se livrarem dos seus velhos procedimentos habituais e muito poucos fazem algo mais do que limar as arestas. O problema é que eles estão tão dominados pelos modelos estruturais e de engenharia assentes nas suas hierarquias tradicionais que tentam aproximar-se da mudança através da reconfiguração dos bens e da reengenharia dos processos, em vez de se centrarem na forma de mudar as motivações individuais e o relacionamento interpessoal. Aqueles que lideraram as empresas com sucesso, através do processo de transformação, descobriram uma verdade universal: nada muda se as pessoas não mudarem. Mas, como o caso de muitas empresas ilustra, o processo de mudança de uma hierarquia estrutural, mecanicista e altamente burocratizada para uma empresa auto- renovável é normalmente longo e doloroso. Para que haja mudança sustentável, é preciso: Implicação, neste processo, da gestão de topo e dos accionistas da organização; Atenção particular à comunicação, não apenas para informar sobre a mudança, mas também e, sobretudo, para ouvir e agir sobre as reacções suscitadas; Que a remuneração encoraje a inovação e reconheça o sucesso dos que contribuem para a mudança; Numa perspectiva de “organização que aprende a aprender”, deve ser criada uma atmosfera de trabalho facilitadora e indutora da mudança. 1 J. Pfeffer, – Competitive Advantage Through People. Boston: HBRP, 1994. 44 Lembramos uma frase da pioneira norte americana da gestão, Mary Parker Follet: “Não há maior activo do que o orgulho de um homem no seu trabalho”. As pessoas estão no centro do sucesso da actividade. No coração de muitas empresas encontram-se as capacidades e comportamentos de grupos de pessoas de talento. Muitas investigações levadas a cabo nos EUA e na Europa reconhecem que o comportamento dos empregados individuais tem impacto no desempenho financeiro. Lynda Granton1 estabelece a seguinte relação entre o comportamento das pessoas e os resultados financeiros da organização Fig. 2.3-1 Figura 2.3-1 As empresas de elevada eficácia são criadas através da concentração num certo número de objectivos empresariais que são traduzidos para um contexto apropriado, no qual as pessoas trabalham. Os empregados comportam-se de uma forma que vai ao encontro dos objectivos empresariais e isso tem impacto no desempenho da empresa e, por fim, no desempenho financeiro. Quando as empresas adoptam determinadas práticas para com as pessoas têm significativos acréscimos nos lucros dos accionistas. Por outro lado, um significativo número de mudanças de produtividade ao longo do tempo pode ser explicado através da cultura organizacional e do empenho individual de cada empregado em relação à actividade. Todavia os recursos humanos só criam vantagem competitiva sustentada quando: São raros nas suas competências, qualificações; Têm valor tal que possui impacto no desempenho final da organização; São inimitáveis, isto é, não podem ser facilmente substituídos. Fica claro que não é a quantidade de pessoas (o efectivo global) que se encontram na organização que constitui o activo mais importante, mas as competências que as pessoas possuem e a cultura organizacional que constitui o seu ambiente de trabalho. No centro, encontra-se a noção de que as pessoas são únicas e diferentes do capital e da tecnologia. 1 Lynda Grantton – Estratégia Viva: Colocar as pessoas no coração da empresa. Porto: Âmbar, 2003. Comportam entos e atitudes dos indivíduos Desempenh o da organização Desempenh o financeiro Contexto pessoal Objectivos da actividade 45 2.4. ALINHAR ESTRATÉGIA E PESSOAS Importa ter presente a ideia de que a estratégia é um conceito dinâmico. É um padrão sim, mas em mudança contínua ao longo do tempo. É um padrão de acções que provocam outras mudanças na envolvente, da parte dos concorrentes, dos clientes e dos fornecedores. A estratégia transforma-se, em certo sentido, num circuito de retro- alimentação sem fim, que relaciona no tempo as acções, as consequências e as reacções. É a partir deste conceito dinâmico de estratégia que surge a necessidade de ligar a estratégia às pessoas, isto é, a urgência do forte alinhamento das pessoas com a visão da organização. São as pessoas (gestores) quem toma decisões estratégicas e são as pessoas (que trabalham na organização) quemvai praticar um conjunto de acções que, enquadradas num determinado período, poderão ou não configurar, através dos traços emergentes, a existência de uma estratégia, isto é, de uma visão/ideia acerca do futuro. Nesta perspectiva, sugere-se que as pessoas que integram as organizações (os seus recursos humanos) sejam envolvidas na definição da estratégia e, em particular, no planeamento (planificação da estratégia), por diversos tipos de razão. Em primeiro lugar, porque hoje planeia-se melhor a partir dos pontos de contacto com os clientes (indagar acerca das suas preferências) do que a partir da fortaleza fechada do departamento de planeamento. Em segundo lugar, a dedicação, motivação e grau de satisfação daqueles que implementarão a estratégia será tanto maior, quanto maior for a sua sensação, real ou psicológica, de que participaram na formulação daquela1. Não admira, pois, que longe vá o tempo da velha gestão de pessoal – de carácter meramente administrativo - para quem as pessoas não ultrapassavam a categoria de coisas, objectos destinados ao inventário contabilístico. Não se trata de cosmética de nomenclatura, mas antes de verdadeira transformação da postura tradicional. Com tal transformação, as pessoas deixam de ser encaradas como um custo e passam a ser um activo e um activo estratégico2. A participação dos colaboradores na definição da visão e na fixação das metas e objectivos permite-lhes não apenas conhecê-los, como atrair todos os indivíduos na sua concretização Tradicionalmente, a expressão gestão de pessoal aplicava-se à função do especialista responsável pela administração de normas, procedimentos e práticas respeitantes à relação entre os empregados e a entidade empregadora. Nesta função especializada, integravam-se as diversas técnicas de administração de pessoal, desde o recrutamento e selecção, passando pelo processamento de salários e terminando nos processos de aposentação. Esta abordagem tradicional levou à valorização excessiva dos aspectos estandardizados, rotineiros e mecanicistas dos procedimentos administrativos, muitas vezes contra a vontade dos gestores que tinham a seu cargo a gestão das pessoas3. 1 C. Tuss; L. Gratton – Strategic Human Resource Management: A conceptual approach. The International Journal of Human Resource Management, Vol. 5, n.º 3, 663-689. 2 M. Beer [et al.] – Human Resources Management. NY: The Free Press, 1985; M. Beer [et al.] – Managing Human Assets. NY: The Free Press, 1984. 3 R. Amit; P. Schoemaker – Strategic Assets and Organizational Rent. Strategic Management Journal, vol. 14, p. 33-46. 46 Se o factor humano é o recurso estratégico e o elemento diferenciador relativamente à concorrência, a questão da motivação e envolvimento das pessoas, que constituem as comunidades de trabalho, transforma-se na pedra angular de toda a construção de uma nova gestão de recursos humanos. A motivação não é mais uma entre muitas, antes é a questão da gestão de recursos humanos no início deste milénio. Gerir, tendo como preocupação central o envolvimento das pessoas que constituem as equipas e a comunidade de trabalho, significa ter abandonado a expressão “gestão de pessoal” para passar a falar, e sobretudo a viver, a nova expressão “gestão de pessoas”. As pessoas, para além de atitudes, características pessoais, conhecimentos e experiência, possuem um conjunto de competências pessoais que são conhecidas como habilidades e capacidades. Estes são os atributos que constituem normalmente os melhores indicadores do sucesso de um indivíduo, uma vez que têm tendência para estar directamente ligados às funções chave e às tarefas centrais que caracterizam um determinado trabalho. Por exemplo, para um gestor operacional, uma habilidade chave é muitas vezes a capacidade de reconhecer e aproveitar as oportunidades de alto potencial; numa função de desenvolvimento ao nível sénior, é a capacidade de delegar poderes de forma eficaz naqueles que estão na primeira linha, que é a vital; para os líderes de topo, por outro lado, a capacidade de criar um ambiente de trabalho que seja excitante e exigente ao mesmo tempo é uma habilidade muito importante e que deve ser desenvolvida. Mesmo entre aqueles que parecem ter as qualificações ideais, tanto ao nível das qualidades pessoais, como através da formação e experiência, muitos provam não ter sido a escolha adequada para aquela função. Alguns são simplesmente incapazes de demonstrar as habilidades vitais, mas tão difíceis de reter, que separam os desempenhos meramente satisfatórios dos verdadeiramente brilhantes. A razão para muitos destes fracassos é que as habilidades aplicadas dependem grandemente da compreensão tácita e de capacidades que advêm da interacção entre as atitudes e características próprias, pessoais, intrínsecas dos indivíduos e o conhecimento e experiência acumulados. A habilidade crítica de conseguir reconhecer o potencial das situações de negócio não é uma característica própria nem é facilmente alcançável através de treino. No entanto, parece ser uma habilidade que pode ser alimentada e cultivada nos indivíduos que sejam curiosos e intuitivos por natureza, e que também tenham desenvolvido uma compreensão estrutural rica relativamente à sua área de negócios e contexto organizacional. Linda Gratton1, na sua obra Estratégia Viva, refere seis etapas para a criação de uma estratégia viva destinada a colocar as pessoas no coração da empresa. 1 Linda Gartton – Estratégia Viva. Porto: Ambar, 2003. 47 Tais etapas são: Criar grupos de orientação – Capacidade para envolver um vasto número de indivíduos representando as diversas funções da organização. Envolver gestores executivos, profissionais de recursos humanos e pessoas ligadas ao sector comercial (contacto com os clientes). Capacidade para continuar a usar estes grupos de orientação, ao longo das etapas do processo. Imaginar o futuro – Capacidade para fazer participar todas as pessoas da organização no diálogo sobre o futuro. Imaginar a actividade no futuro, qual a sua estrutura, cultura, pessoas, líderes e processos. Compreender a capacidade actual e identificar a lacuna. Capacidade para criar um quadro preciso do estado actual da organização. Em particular, do contexto em que as pessoas trabalham, do seu comportamento e das medidas-chave de desempenho. Isso construi-se ao longo do tempo, fazendo comparações com equivalentes do sector de actividade e partilhando com os gestores do negócio. Criar um mapa do sistema. Capacidade para compreender e desenvolver capacidades de pensamento sistémico em toda a organização. Garantir que as decisões são tomadas com base no seu impacto na totalidade do sistema. Construir uma compreensão suficientemente profunda da actividade para começar a compreender a ligação causal. Criar um modelo da dinâmica. Capacidade para compreender a dinâmica dentro do sistema. Criar uma percepção partilhada das ligações entre as alavancas de processo e os resultados e a forma como estes mudam ao longo do tempo. Ponte para a acção. Capacidade para interpretar e comunicar a necessidade de mudança, através do envolvimento de uma vasto grupo de pessoas. Criar uma compreensão partilhada das medidas-chave de desempenho que marcam o caminho da viagem. Enraíza-se, progressivamente, a ideia da necessidade de alinhar as pessoas com a estratégia. Todavia, permanece em aberto a tensão entre a motivação intrínseca e a extrínseca. De forma caricatural, pode dizer-se que, em certas épocas (modas passageiras), a imagem que prevalece na gestão de recursos humanos é a do condutor de automóvel. O condutor traça o futuro e o trajecto e comanda a máquina, em ordem a que esta atinja a meta previamente definida. Aqui, os recursos humanos são a máquina já que, sem vontade e passivamente, obedecem. Se,eventualmente, alguma peça da máquina revela qualquer disfunção, o condutor procurará rapidamente substituí-la, evitando, deste modo um estorvo à realização as sua estratégia (atingir a meta). Noutros períodos ou no mesmo, mas com outros gestores, a obtenção da meta só tem lugar através da sedução das pessoas para o projecto, isto é, para a estratégia da organização. Por último, salienta-se que a decisão de alinhar as pessoas com a estratégia se encontra ligada a uma outra, que consiste em alinhar a estratégia com as pessoas. Na verdade, quer na metáfora mecânica (as pessoas e os processos são como máquinas), quer na metáfora orgânica (pessoas e processos são serem vivos), o alinhamento a estabelecer tem de ser nos dois sentidos: a estratégia está condicionada pelo tipo de automóvel/pessoas disponíveis. Esta tensão é equacionada através da gestão centrada 48 na realização dos objectivos e nos resultados e na correspondente gestão de compensações. 2.5. GESTÃO ESTRATÉGICA DE RECURSOS HUMANOS Actualmente, a gestão de recursos humanos trata fundamentalmente da articulação e ajustamento entre as pessoas que trabalham na organização e as necessidades estratégicas desta, assegurando a total utilização dos recursos humanos disponíveis. Assim, a gestão de recursos humanos não diz respeito apenas às acções destinadas a atrair e seleccionar os futuros empregados na qualidade e quantidade estimável, mas também a todas as acções orientadas para a fidelização dos recursos humanos que melhor se adaptem à cultura organizacional, lançando mão de técnicas, tais como a avaliação do desempenho, a remuneração, a gestão da carreira, etc. Os objectivos da gestão de recursos humanos foram expressos por Keep1 da seguinte forma: obtenção do material básico certo, na forma de força de trabalho, dotada das qualidades devidas, capacidades, conhecimentos e potencial para a formação futura, bem como no recrutamento e na selecção dos trabalhadores melhor posicionados para satisfazer as necessidades da organização. A gestão de recursos humanos valoriza muito mais, e dá mais ênfase do que a tradicional gestão de pessoal, ao recrutamento e selecção das pessoas cuja atitude e comportamento sejam mais susceptíveis de melhor contribuírem, dadas as crenças de gestão, para o sucesso organizacional. A gestão de recursos humanos dá mais ênfase aos aspectos ligados às atitudes, emoções e características comportamentais dos novos empregados do que a tradicional gestão de pessoal. Esta tendência não está isenta de riscos. Por um lado, as organizações mais inovadoras precisam de empregados não conformistas que podem, por outro lado, bloquear o sistema. Se os gestores seleccionam pessoas apenas iguais a si mesmos, à sua imagem e semelhança, correm o risco de perpetuarem uma cultura desajustada às novas necessidades da envolvente, que, embora tenha obtido sucesso no passado, corre o risco de fracassar no futuro próximo. Isto significa que a gestão estratégica de recursos humanos, ao reforçar a articulação entre os trabalhadores e as necessidades estratégicas da organização, não vai manter o status quo e perpetuar uma cultura moribunda. Pelo contrário, deve significar a introdução de mudanças muitas vezes radicais, não apenas em momentos de crise, mas, preventivamente, antes de se instalarem crises. A gestão estratégica de recursos humanos tem de estar a pensar no futuro e na forma de colocar ao dispor da organização o conjunto de competências necessárias ao sucesso desta. Segundo Storey2, a gestão estratégica de recursos humanos apresenta duas versões, “hard” e “soft”. A versão “hard” está focalizada no termo “recursos” que é qualquer 1 E. Keep – Corporate Training Strategies. In Storey (ed) – New Perspectives on Human Resources Management. Oxford: Blackwell, 1989. 2 John Storey – Development in the Management of Human Resources. Cambridge Mass: Blackwell Business, 1992 49 coisa que deverá ser utilizada desapaixonadamente e de forma racional, a versão “soft” coloca a ênfase no termo “humanos” indo buscar o seu sentido original ao movimento das relações humanas. Para o autor, há quatro elementos que expressam a perspectiva da gestão estratégica de recursos humanos: Recursos que deverão ser valorizados; Decisões sobre GRH são estratégicas; A GRH tem implicações de longo prazo, fundamentais para o desempenho da organização; As alavancas chave da GRH (recrutamento, selecção, formação, sistema de recompensas) devem aproximar e promover a sua integração sistemática. Para o autor, a gestão estratégica de recursos humanos abandona a perspectiva colectivista e formal, típica das anteriores fases históricas da evolução desta função/disciplina, para adoptar uma nova perspectiva, a que se chama individualista para significar que cada pessoa é um caso, isto é, deixa-se de gerir categorias profissionais, para gerir pessoas portadoras de um conjunto de competências e qualificações que são estratégicas para o futuro da organização. Assim, a gestão estratégica de recursos humanos, em matéria de recrutamento e selecção, coloca, por exemplo, as seguintes novas questões: de que tipo de pessoas precisaremos para competir de forma eficaz, eficiente e económica, agora e no futuro? Que teremos de fazer agora para atrair, desenvolver e manter tais pessoas? A filosofia subjacente à gestão estratégica de recursos humanos é a de que são as pessoas quem implementa os planos estratégicos. Quem planeia, tem de já ter as pessoas em mente, aquelas que serão responsáveis por traduzir na prática as metas organizacionais. Assim, o recrutamento e a selecção deverão garantir que a organização disponha: dos trabalhadores necessários para a implementação dos planos; das capacidades e competências necessárias à redução de custos ou ao aumento da qualidade; do conhecimento do impacto que as reestruturações de actividades poderão vir a trazer; dos planos de mudança de cultura; do lançamento ou eliminação de produtos e serviços no mercado. Nesta perspectiva estratégica, o que não é de forma nenhuma admissível é que ocorra aquele comportamento típico dos velhos tempos da gestão de pessoal: o departamento de pessoal era o último a saber do lançamento de um novo produto ou serviço, que acarretaria, em rigor, necessidade de formação para todos os empregados. O recrutamento e selecção, pelo que se acaba de expor, tem de estar articulado em permanência com os planos estratégicos e as respectivas revisões que possam sofrer ao longo do tempo. Utilizando a terminologia do Boston Consulting Group (BCG) (“ponto de interrogação, estrela, vaca leiteira, cão rafeiro”) ou, usando a terminologia de Miles e Snow, (“defensor, prospector, ou analisador”), as técnicas destinadas a atrair recursos humanos (recrutamento e selecção) terão preocupações diferentes, dado terem de se sintonizar com a posição estratégica da organização. O recrutamento e selecção de uma organização, numa posição de “vaca leiteira” ou de “prospector”, apresentarão características bem diferentes. 50 A implementação de uma estratégia de atracção de novos empregados leva a: identificar o tipo de competências que a organização precisa no curto, médio e longo prazo; diagnosticar as disponibilidades de candidatos no mercado interno e externo; planear e implementar campanhas de recrutamento; enriquecer competências através da formação; gerir a mobilidade interna ascendente de empregados; gerir a retenção de empregados. Os planos de negócio a curto e médio prazo têm de fornecer os seguintes elementos para a gestão estratégica de recursos humanos: novos negócios; abertura de novos mercados; introdução de novos produtos ou serviços; criação de novas actividades; introdução de novas tecnologias; desinvestimento; redução da actividade; fusão ou transferência de actividades; descentralização; reestruturação; redução de custos,melhorias de produtividade. Estes planos devem ser traduzidos para as actividades e orçamentos de curto e médio prazo da gestão de recursos humanos. A sua tradução indicará a quantidade necessária de empregados por unidade, departamento, função, competências e aptidões. Os planos estratégicos e de negócios devem definir a quantidade necessária de trabalhadores, as competências exigidas e os passos a dar para satisfazê-las, através do recrutamento e selecção. Por outro lado, há que ter em conta a análise de contingentes e de fluxos dos mercados externos de trabalho. A análise do mercado externo deve ter em conta o seguinte: a oferta dos mercados de trabalho locais e regionais, nomeadamente, as escolas, as tendências demográficas da população, a formação profissional e o estado da procura de competências, bem como a oferta do mercado nacional e internacional. Para obter informação de base demográfica sobre o comportamento do ensino formal e técnico profissional, os fenómenos migratórios, etc. O plano de recrutamento deve incluir: O recrutamento - números e fontes de recrutamento, especificação das competências, exigências comportamentais e métodos destinados a atrair candidatos; A fidelização/retenção – aumento do compromisso dos empregados com a empresa; A redução de trabalhadores. Se for necessário estabelecer planos para reduzir trabalhadores que estes sejam tão humanos quanto possível; Formação – destinada a fornecer, aumentar ou alargar os níveis de competências. Por outro lado, a adopção desta perspectiva estratégica implica igualmente transformações na forma como os departamentos de gestão de recursos humanos procedem ao desenvolvimento das competências dos trabalhadores. O recrutamento prende-se com a acção de dotar a organização das competências de base necessárias. O desenvolvimento liga-se ao enriquecimento e à expansão destas competências, através da formação e do acompanhamento e pelo incentivo ao melhor usos de tais competências. A utilização das técnicas de desenvolvimento de recursos humanos implica: a utilização sistemática e planeada da formação; a adopção de políticas de desenvolvimento permanentes; a criação e manutenção de organizações que aprendem; a relação entre formação e a realização/performance; atenção à gestão do desenvolvimento e ao planeamento das carreiras. 51 A gestão do desempenho pode ser definida como um processo ou um conjunto de processos que expressam uma ideia comum acerca do que deve ser feito e da respectiva gestão, bem como o desenvolvimento de competências necessárias para que tal realização seja atingida no curto e no médio prazo. Na perspectiva estratégica, a gestão do desempenho exige a criação de uma cultura organizacional onde os indivíduos e os grupos assumam as suas responsabilidades pela melhoria contínua dos negócios e actividades e pelas suas próprias competências, habilidades e contribuições. A gestão eficaz do desempenho deve desenvolver nos trabalhadores a ideia do que deve ser realizado, deve ajudar os trabalhadores a melhorar a sua performance e remunerar com base nos contributos de cada um. O papel da gestão do desempenho é apoiar a realização da estratégia da organização, através da especificação em detalhe da visão, missão, metas e objectivos, aos diversos níveis da pirâmide hierárquica e dos postos de trabalho. Numa perspectiva estratégica, a gestão da recompensa é um processo de desenvolvimento e implementação de estratégias, políticas e sistemas que ajudam a organização a realizar os seus objectivos através da obtenção e retenção das pessoas, aumentando a sua motivação e implicação. Numa perspectiva estratégica, o sistema de recompensas não é apenas acerca de dinheiro. Está relacionado com a motivação extrínseca e intrínseca; com os aspectos financeiros e não financeiros. O sistema de recompensas deve ser concebido de forma a apoiar a estratégia da organização. Deve basear-se numa filosofia de recompensa adaptada à cultura da organização, quer no sentido da sua manutenção, quer no da sua mudança. A estratégia de recompensa deve estar: alinhada com os valores e crenças da organização; emanar das estratégias e metas de negócio; ligada ao desempenho do negócio; conduzida e orientada para apoiar os comportamentos desejáveis; adaptada ao estilo de gestão. O sistema de recompensas deve remunerar de acordo com o desempenho, as competências e as aptidões de cada um. Que será a GRH num futuro próximo? A GRH terá de procurar integrar progressivamente os indivíduos e a organização e, nessa medida, será colocada mais energia na identificação das competências e das capacidades necessárias ao bom desempenho das funções de gestão. As organizações tendem a apoiar-se menos nas técnicas de entrevista para a selecção e a dar mais espaços aos centros de diagnóstico (assessment centers). Tende-se a dar mais importância a estes centros de diagnóstico no processo de promoção e progressão na carreira. A organização tenderá a ter de encontrar um racional de explicação para o tipo de selecção que faz e esta será cada vez menos feita com base na intuição. Tem de se prestar também mais atenção ao desenho de funções, como base de satisfação no trabalho e de dar aos trabalhadores, progressivamente, uma palavra a dizer no seu processo de promoção. Quanto à motivação, satisfação no trabalho e desempenho, as linhas de tendência são: o sistema de recompensas será mais individualizado; os gestores prestarão mais atenção ao sentido de equidade dos empregados; os gestores dedicarão mais tempo a explicar as suas expectativas acerca de cada um dos empregados; a compensação 52 estará ligada ao desempenho; o grau de satisfação dos trabalhadores será tido cada vez mais em conta na relação com o absentismo, as saídas para o exterior e a sindicalização e menos com o seu impacto na produtividade; os gestores tenderão a estar mais preocupados com quem está satisfeito e porquê, do que com o grau geral de satisfação. No que diz respeito ao desenho das funções, prevê-se que o redesenho das funções seja cada vez mais um meio de aumentar a qualidade de vida no trabalho e não o trabalho produzido. O redesenho das funções terá progressivamente mais em conta as circunstâncias que rodeiam o trabalho. Deslocar-se-á o foco da função para o processo. A gestão de processos tenderá a expandir-se. Quanto à liderança nas organizações, os gestores tenderão a adoptar um estilo situacional, isto é, a variar o estilo de situação para situação. Os gestores usarão os grupos mais frequentemente, para obterem compromissos para as decisões mais importantes. No que concerne à gestão de processos, aumentarão os procedimentos de decisão. Os sistemas de suporte à decisão permitirão que esta se apoie menos nas capacidades individuais do gestor. A avaliação do desempenho será usada numa variedade grande de propósitos, focando mais o comportamento do avaliado e menos a sua personalidade. Aumentará igualmente o papel dos grupos na organização. Os gestores terão mais sensibilidade aos benefícios do trabalho de equipa para aumentar a produtividade. O papel dos gestores será mais activo na fixação das normas de funcionamento das equipas de trabalho. Os comportamentos desviantes tenderão a ser vistos positivamente como inovação e menos como disfunção e algo a eliminar. 2.6. DESAFIOS DA GESTÃO ESTRATÉGICA DE RECURSOS HUMANOS Em Portugal, o campo da gestão estratégica de recursos humanos ainda é recente. O director de recursos humanos participa na implementação da estratégia da empresa, mas o seu envolvimento ainda é pequeno, limitado e parcelar Todavia, a preocupação, registada nos últimos anos quanto à gestão estratégica de recursos humanos, tenderá a manter-se, aprofundando alguns dos seus actuais aspectos. As dimensões que tenderão a integrar a gestão de recursos humanos serão as seguintes: Estratégia de gestão de recursos humanos. Integra-se neste pontoa gestão das pessoas como factor estratégico de competitividade. Assim, acções destinadas à comunicação interna, à gestão da cultura organizacional, à construção de organizações que aprendem, entre outras, têm aqui a sua expressão. Atracção de recursos humanos. Enquadra as acções de planeamento qualitativo e quantitativo de recursos humanos, a gestão de carreira, a gestão e avaliação de desempenho, os perfis profissionais e a análise e descrição de funções, assim como a negociação colectiva. 53 Formação e desenvolvimento. A valorização das pessoas através da formação, a formação vista como um investimento e não um custo, a implicação entre formação e produtividade têm todo o cabimento nesta dimensão. Fidelização de recursos humanos. Política salarial, benefícios, acção social, higiene e segurança, entre outras técnicas de gestão de recursos humanos destinadas a manter o efectivo, associam-se nesta dimensão. A ênfase colocada nas novas dimensões da gestão de recursos humanos parece- nos que fica a dever-se, fundamentalmente, aos três seguintes factores: Factor social. A gestão do emprego, na perspectiva da teoria institucional, representa um factor de elevado peso para o funcionamento social, nas dimensões individual e relacional. Factor político. A conflituosidade entre patrões e empregados, embora se tenha alterado com a sociedade da informação e do conhecimento, nem por isso deixou de existir. Ela apresenta novas características, exigindo a revisão de posturas de parte a parte. Cultura organizacional. Este factor é cada vez mais crítico em ambientes de feroz competição, em que as empresas se diferenciam pelo “modo como se fazem as coisas aqui”. Há um factor que, embora já hoje possua certo peso, tenderá a aumentar substancialmente no futuro próximo. Trata-se da dimensão internacionalização da gestão de recursos humanos, que começa a ser reconhecida, em ambientes de organizações internacionais, como o factor determinante do sucesso ou insucesso das actividades. Por outro lado, o factor internacionalização leva a colocar a questão da existência de um modelo americano e de um modelo europeu continental de gestão de recursos humanos. As poucas investigações empíricas sobre este ponto indicam que as práticas de gestão de recursos humanos apresentam acentuadas diferenças entre a Europa e os Estados Unidos da América. A linha de tendência será de esbater as diferenças culturais através dos contactos de culturas que estão a ter lugar a ritmo acelerado. Apesar do peso da internacionalização, reconhece-se que, em particular, as relações de trabalho possuem ainda um carácter nacional, na medida em que são definidas dentro de quadros culturais demarcados que determinam o que se designa por contratos sociais, ou seja, trata-se de consensos básicos sobre o que constitui uma relação de trabalho e sobre as obrigações mútuas do contrato. Estes consensos abrangem noções culturais que condicionam as práticas aceitáveis na gestão de recursos humanos e, consequentemente, podem impedir a aceleração da globalização de um modelo único de gestão de recursos humanos. Neste mesmo sentido, Covey1 afirma que a importância estratégica da gestão de recursos humanos assenta em sete dimensões: 1 S. Covey – The Seven Habits of Highly Effective People. London: Simon Schuster, 1999 54 a) Reactividade/proactividade – decidir tendo em conta os valores, princípios e compromissos para consigo e para com a organização. b) Subordinação/objectivos pessoais – conceber uma missão pessoal, definindo o que somos e o que queremos fazer. c) Disciplina/priorização – fomentar a autogestão, colocando em primeiro lugar as coisas que são realmente importantes. d) Estratégia competitiva/ estratégia cooperativa – incentivar uma liderança interpessoal, criando benefícios mútuos nas interacções humanas, ou seja, uma relação ganhadora para todas as partes. e) Necessidade de ser compreendido/necessidade de compreender – escutar com empatia, com controlo, respeito e consideração. f) Comunicação defensiva/criação de sinergias – criação de alternativas para todas as partes envolvidas. g) Mudança episódica/melhoria contínua – auto-renovação para vencer a entropia. Nesta perspectiva, o futuro das organizações encontra-se nas mãos das pessoas. Estas, ao criarem um equilíbrio entre o fazer e o aumento da capacidade de fazer, assim como ao centrar as suas vidas em princípios correctos, conseguem compatibilizar os interesses próprios com os da organização. A própria organização pode ser entendida como uma rede de pessoas interdependentes, geradoras de saberes e conhecimentos, capaz de ultrapassar as dicotomias tradicionais que atravessam a vida organizacional como resultado de interesses contraditórios. Esta interdependência nunca aparecerá por geração espontânea. São necessários procedimentos, propósitos e projectos capazes de fazer evoluir os interesses divergentes para interesses interdependentes, a partir da colaboração de todos e de cada um. Parece ter sido a pressão no sentido de melhor colocar a empresa no seu segmento de mercado que a levou a abandonar a velha gestão de pessoal - de carácter meramente administrativo - para se abrir ao papel inovador e criativo dos seus colaboradores. Neste novo contexto estratégico, a gestão de topo forçou as direcções de pessoal a reinventarem-se, mudando a sua postura e transformando-se em direcções de recursos humanos. Tudo indica que não se trata de cosmética de nomenclatura, mas antes de verdadeira transformação da postura tradicional. Com tal transformação, as pessoas deixam de ser encaradas como um custo e passam a ser um activo e um activo estratégico. Tradicionalmente, a expressão gestão de pessoal aplicava-se à função do especialista responsável pela administração de normas, procedimentos e práticas respeitantes à relação entre os empregados e a entidade empregadora. Nesta função especializada, integravam-se as diversas técnicas de administração de pessoal, desde o recrutamento e selecção, passando pelo processamento de salários e terminando nos processos de aposentação. Esta abordagem tradicional levou à valorização excessiva dos aspectos estandardizados, rotineiros e mecanicistas dos procedimentos administrativos, muitas vezes contra a vontade dos gestores que tinham a seu cargo a gestão das pessoas. Longe já parecem ir esses tempos e a nova filosofia de gestão estratégica de recursos humanos, na esteira dos trabalhos de Edgar Schein, Tichy, Frombrun e Devana, sentiu 55 a necessidade de olhar para a GRH a partir de um novo ângulo. Curiosamente, estes autores sugerem a existência de “contratos psicológicos” entre a gestão e os empregados e recomendam que a empresa ofereça trabalho com interesse em troca da sua lealdade, compromisso e motivação dos trabalhadores. Estes autores enfatizam a necessidade de: criar sistemas de selecção, promoção e compensação articulados com o grau de satisfação dos objectivos da organização; criar fluxos internos de pessoas articulados com a estratégia de negócio; articular os executivos chave com a estratégia da empresa; levar os gestores em geral a atribuir importância idêntica à que dispensam às restantes funções, tais como a financeira, o marketing, etc. A HBS, representada por Beer e Spector, expressou desta forma a nova filosofia: é necessário ligar a gestão de recursos humanos com o planeamento estratégico e a mudança cultural; as pessoas representam um capital social capaz de desenvolvimento; deve-se fomentar a aproximação de poderes internamente como meio para aumentar a confiança mútua e a colaboração; bem como estabelecer canais abertos de comunicação para construir a confiança, o compromisso; facilitar a orientação para os resultados a participação e escolhas devidamente informadas. Walton, também da HBS, salientou a importânciado desenvolvimento de uma relação mútua entre empregador e empregado quanto às metas, influência, respeito remuneração, responsabilidade. A teoria subjacente é que, quanto maior for esta relação de mutualidade, maior será o compromisso das partes, o que irá resultar numa melhor realização económica e em maior desenvolvimento humano. É que a gestão de recursos humanos eficaz não existe no vácuo, mas deve estar relacionada com a estratégia da organização no seu todo. A partir destes princípios filosóficos, são estabelecidas novas políticas de gestão de recursos humanos que apelam ao seguinte: o empregado é um activo valioso; a estratégia e a cultura são importantes; deve colocar-se maior ênfase no compromisso do que na conformidade e adaptação. Na sequência deste tipo de pensamento estratégico, propõe-se uma distinção entre a noção de gestão das pessoas e de gestão de recursos humanos. As pessoas são individualizadas, detêm competências e necessidades sociais, procuram preservar a sua autonomia e exercem influências sobre o meio envolvente que se transformam em ocasiões de aprendizagem. Aspiram deste modo a serem tratadas e geridas como seres únicos e insubstituíveis. A noção de recursos humanos remete-nos para um enquadramento organizacional pouco diferenciado ou apenas diferenciado pelas necessidades de cooperação previsível entre pessoas que desempenham tarefas no mesmo espaço e com um ritmo concertado. É normal que a confusão se instale entre os níveis da individualização e da massificação, quer do lado dos dirigentes, quer do lado dos trabalhadores. Trata-se então de conseguir uma coerência que assente no princípio da compatibilização entre as tendências individualistas que se sobrepõem à tradição colectivista e as tendências colectivistas que se sobrepõem à tradição integradora de cariz hierárquico. As primeiras parecem corresponder à definição habitual de práticas de cariz táctico e as segundas às práticas estratégicas. 56 Se as práticas e tácticas, na economia industrial, seriam suficientes para se obter eficácia organizacional, na era pós-moderna, serão as práticas estratégicas que assegurarão o sucesso organizacional. O problema é que a coerência entre umas e outras é crucial, embora não seja espontânea, mas antes fruto de uma estratégia criteriosa de gestão. 57 CAPÍTULO 3 – O DEPARTAMENTO DE RECURSOS HUMANOS 3.1. O DEPARTAMENTO DE GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS – PARTILHA E SERVIÇOS E EXTERNALIZAÇÃO Departamentos de recursos humanos, tal como actuam em muitas organizações, continuando na mesma rota, melhor seria extingui-los. Os departamentos de recursos humanos devem ser avaliados, não com base no que fazem, mas com base no serviço que prestam, nos resultados que alimentam e enriquecem a cadeia de valor relativamente ao cliente, ao accionista e aos trabalhadores. Para Dave Ulrich1, existem boas razões para a fraca reputação desta área, pois é normalmente dispendiosa, demonstrando pouca eficácia. Antes de mais, que deve a direcção de recursos humanos fazer? Primeiramente, há que ter presente que a gestão de recursos humanos já não é função apenas da direcção de recursos humanos. Todos os gestores terão forçosamente de considerar a gestão dos seus colaboradores como uma prioridade, em vez de a encararem como assunto da competência de um departamento específico da empresa. Todavia, fica a pergunta: se todos os gestores forem forçados a ganhar competência em recursos humanos, que papel terão os responsáveis por esta área? Do debate actualmente existente fica a ideia que terá de ser um papel radicalmente diferente. Tudo indica que o gestor de recursos humanos estará menos orientado para as funções tradicionais do seu departamento – recrutamento, gestão de carreiras, análise de desempenho, sistemas de compensação. Estas tenderão a ser desempenhadas pelos gestores das áreas de negócios ou entregues fora, em regime de externalização (outsourcing). Os gestores de recursos humanos evoluirão para o papel de consultores internos da administração e dos gestores de linha. Caber-lhes-á o papel de zelar pelo capital intelectual da organização, de serem os facilitadores dos processos de mudança e os responsáveis pelos programas de motivação e empenhamento de todos na estratégia organizacional. 1 Dave Ulrich - New Mandate for Human Resources. Harvard Business Review. 58 Isto obrigará os gestores de recursos humanos a ganharem competência noutras áreas, como a estratégia, o marketing e as finanças. Em suma, o gestor de recursos humanos tem de: Primeiro Ser parceiro (sem estar acima nem abaixo) de todos os gestores, ajudando-os na implementação da estratégia e no enfoque no mercado. Segundo Tornar-se perito na organização do trabalho. Terceiro Ser campeão no atendimento e resolução dos problemas dos trabalhadores, de forma a aumentar a sua participação. Quarto Ser agente de mudança organizacional e da cultura da empresa. Por que razão são os recursos humanos tão importantes? As pessoas são o activo mais valioso das empresas e estas enfrentam na sociedade da informação, cinco grandes desafios, os quais são pontos críticos de sucesso, exigindo novos perfis profissionais e novas capacidades por parte de toda a comunidade empresarial. Tais desafios são: Globalização - O imperativo estratégico de Porter, “think globally and act locally”, obriga a que seja necessário fazer circular pessoas, ideias, produtos e informação em todo o mundo, para ir ao encontro das necessidades locais dos clientes. Os trabalhadores têm, neste mercado global, necessidade de dominar, em maior grau, a capacidade de compreender os clientes, o comércio e a concorrência, agora em novos e menos familiares contextos culturais. A globalização obriga a empresa a aumentar a sua capacidade, para aprender a gerir a diversidade, a complexidade e a ambiguidade. Lucro através do crescimento - A grande preocupação dos anos 80 e 90 do século XX tem sido aumentar os lucros através do esmagamento dos custos. Para tanto, foram introduzidos diversos métodos de gestão que encheram as páginas dos jornais e revistas da especialidade. Lançaram-se buzzwords tais como: downsizing; rightsizing; reengineering. Os resultados dessas intervenções chegaram, em geral, a bom termo, e agora a preocupação parece ser a do crescimento. As empresas, que procuram atrair novos clientes e oferecer novos produtos, devem ser criativas, inovadoras e encorajar fluxos de comunicação livre, partilhando o conhecimento e a aprendizagem entre os trabalhadores. Precisam de estar mais focalizadas no mercado, mais em contacto com a rapidez da mudança e a diversidade das necessidades dos seus clientes. Tecnologia - A tecnologia tornou o nosso mundo mais pequeno e mais rápido. As lojas localizadas na internet, todo o comércio electrónico e o entretenimento expressam vivamente esta característica actual. Ideias e informação estão em constante movimento1. 1 Jean Paul Basquiat – Internet et les Administrations: La Grande Mutation. Paris: Berger- Levrault, 1999. 59 Ora, nem todas as tecnologias acrescentam valor à cadeia. Os trabalhadores têm de estar formados para perceber isso e aproveitar o que a tecnologia oferece, dado que ela afecta a forma e o local de trabalho. Capital intelectual - A gestão do saber tornou-se uma vantagem competitiva para certas empresas, nomeadamente as de consultoria, mas também para as empresas em geral. As organizações de sucesso são aquelas que se apresentam mais aptas para atrair, desenvolver e formar as pessoas indispensáveis e críticas para o seu negócio. Assim, o desafio para as empresas consiste em serem capazes de descobrir, assimilar, desenvolver, compensar e reter esses indivíduos talentosos. Mudança e mais mudança - As empresas devem ser capazes de aprender rápida e continuamente,inovar sem cessar, e assumir novos imperativos estratégicos de uma forma mais rápida e confortável. A mudança constante significa que a empresa deve criar um desconforto saudável relativamente ao seu quotidiano, uma capacidade para detectar, mais rapidamente, as tendências emergentes do que os seus competidores e uma capacidade rápida de decisão e agilidade para descobrir novas maneiras de fazer negócio. Neste contexto de gestão estratégica de recursos humanos (GERH), fará ainda algum sentido manter o departamento de GRH, ao lado do financeiro, operações, marketing entre outros? Longe vão os tempos dos grandes departamentos de pessoal ou mesmo de recursos humanos. Assiste-se a uma tendência, que, aliás, é comum a todas as funções organizacionais, para entregar a terceiros, as funções e actividades que não constituam o essencial, a razão de ser dessa entidade. Até agora tem-se verificado que o organograma da direcção de recursos humanos é função da dimensão do efectivo da organização. Uma média empresa terá, por exemplo, um director de recursos humanos e quatro a cinco chefias, respectivamente, de recrutamento e selecção, gestão administrativa, formação e desenvolvimento, avaliação e promoção e de serviços de apoio social. Uma grande empresa poderá ter três vezes mais chefias e um efectivo dedicado à GRH da ordem dos duzentos empregados. Na Administração Pública, quer nos serviços de administração directa, quer indirecta do Estado, os recursos humanos encontram-se, em cada direcção-geral, integrados numa direcção de serviços com divisões de formação, administrativa, recrutamento e selecção, estudos e planeamento etc. Num serviço pequeno da Administração ou numa mini empresa, pode não haver nenhum departamento específico de recursos humanos e a função encontrar-se integrada numa secretaria geral. Nos nossos dias, as organizações tendem a externalizar (entregar a terceiros) ou criar centros de serviços partilhados para tudo quanto não constitua a parte dura ou essencial do seu negócio/actividade. Se, ao encarar uma organização pública ou privada, estabelecermos uma separação entre actividades de apoio/suporte e actividades operacionais, a GRH emerge, normalmente como actividade de apoio/suporte e, nessa medida, constitui uma área de actividade propícia para ser 60 susceptível de ser externalizada ou ser organizada em termos de centro de serviços partilhados. Algumas das vantagens mais referidas na literatura a favor da externalização (outsourcing) da gestão de recursos humanos passam por uma redução global de custos, por uma maior concentração nas actividades nucleares, fundacionais (core) que só o Estado ou a empresa pode realizar pela melhoria da qualidade de serviço prestado. Acresce que outra forma de pensar no departamento de recurso humanos é encará-lo na perspectiva dos centros de serviços partilhados (CSP). A partilha de serviços comuns é um conceito com alguma provas já dadas e que está crescentemente a ser experimentado e consequentemente testado. Alguns indicadores de benchmarking referem que, quando utilizado, as organizações públicas ou privadas poderão obter reduções médias de custos na ordem dos 25% a 55%. A partilha de serviços de recursos humanos permite a eliminação das múltiplas repetições estruturais. Mas, será possível e desejável entregar ao exterior (outsourcing) toda a função de recursos humanos? Parece-nos que a parte estratégica da GRH tem de ficar sempre na organização. Todavia, a permanência do resto dependerá da análise de custo benefício. Assim, há quem entregue ao exterior ou constitua centros de serviços partilhados para tratar do processamento de vencimentos. Aliás, há muito tempo (pelos menos em Portugal desde os anos oitenta do século passado) que as empresas procedem à terceirização da selecção (testes psicológicos). Fará sentido um organização dispor de um gabinete jurídico para a representar em Tribunal? Certas funções técnicas como a selecção, a consultoria jurídica, entre outras, tenderão a sair da organização pública ou privada, assim como certas actividades de cariz mais rotineiro, como, por exemplo, o processamento de vencimentos. Mas, por outro lado, tendem a integrar a DRH novas competências tais como as ligadas à comunicação interna. Neste sentido, regista-se actualmente uma forte tendência para recorrer à terceirização, como o outplacement quando se trata de reduzir empregados. A profissão de consultor em reinserção profissional nasceu nos anos 60 do século passado, nos EUA. Em França, surgiu uma dezena de anos mais tarde. O seu papel principal é ajudar os quadros, obrigados a deixar a organização, a encontrar uma nova situação, fornecendo-lhes, durante a procura, os meios necessários para valorizar a sua personalidade e a sua experiência profissional. Há vantagens e desvantagens neste tipo de decisão. Entregar ao exterior significa de algum modo perder em parte o controlo. Por isso, recomenda-se que, pelo menos, o controlo do fornecimento externo de serviço nunca seja entregue ao exterior. Há que controlar a terceirização da actividade de GRH e nunca terceirizar o controlo. Isto significa que o DRH terá de dispor de competências específicas, não propriamente para executar, mas para saber comprar e controlar, em suma para gerir os novos tipos de contrato. 61 3.2. SISTEMA DE INFORMAÇÃO E BALANCED SCORECARD A informação e documentação utilizada no departamento de recursos humanos, quando está elaborada, depurada, contida e acessível através de meios electrónicos costuma denominar-se base de dados de recursos humanos e, mais propriamente, sistema de informação de recursos humanos (SIRH). Os sistemas de informação vieram alterar profundamente a gestão de recursos humanos e, em especial, a capacidade de planeamento e controlo. A contribuição dos sistemas de informação reflecte-se a diversos níveis: aumento da produtividade, medida por cada trabalhador do departamento de GRH; melhoria do serviço prestado; melhoria da qualidade da decisão; maior capacidade de antecipação aos problemas e de gestão previsional. O sistema de informação é um conjunto de instrumentos que permite: registar na origem todas as informações úteis; guardar as informações (actuais e que constituem o histórico); submetê-las aos diversos processos de tratamento; fornecer as informações estatísticas aos interessados, no momento oportuno, no formato acordado1. O sistema de informação deve permitir analisar o passado, conhecer o presente e planear/criar o futuro. O sistema de informação de recursos humanos integra normalmente cinco dimensões: Informação relativa à organização; informação relativa aos postos de trabalho; informação relativa à estrutura organizacional; informação genérica sobre a organização; informação de natureza social. O esquema da Figura 3.2-1 descreve essas dimensões2. Figura 3.2-1 1 Carlos Reis – Planeamento Estratégico de Sistemas de Informação. Lisboa: Presença, 1987 2 Carlos Zorrinho – Gestão da Informação. Lisboa: Presença, 1991 62 O sistema de informação de recursos humanos (SIRH) é definido como o subsistema de informação da organização que tem por objecto dispor do conjunto de dados estatísticos e informações, tanto gerais como específicas da área dos recursos humanos, que servem, entre outras aplicações, para estabelecer previsões acertadas dentro do campo dos recursos humanos. Este sistema é tão importante como as bases de dados dos clientes, de gestão financeira, patrimonial ou outra qualquer. Lembramos que só o que é medido é gerido e só o que é gerido é susceptível de vir a ser concretizado. A aplicação do balanced scorecard1 constitui a ferramenta mais poderosa que actualmente existe para obtenção de dados. Nasceu na década de noventa do século passado, especificamente em 1992, pela mão de Robert Kaplan e David Norton, dois conceituadosacadémicos. É o resultado de um trabalho levado a acabo em 12 empresas distintas – “medindo a performance da organização no futuro”. O scorecard aplicado aos recursos humanos é um instrumento de planeamento estratégico de planeamento, avaliação e medida do desempenho dos trabalhadores. O balanced scorecard está estruturado em redor de quatro perspectivas distintas: a perspectiva financeira; a perspectiva orientada para o cliente; a perspectiva virada para os processos internos e, por fim, a perspectiva dos processos de inovação e aprendizagem da empresa. O seu próprio nome (marcador equilibrado) reflecte o equilíbrio entre objectivos de curto e longo prazo, entre indicadores financeiros e não financeiros, entre perspectivas de performance externas e internas. O marcador (scorecard) dos recursos humanos permite estabelecer o alinhamento entre a medida do desempenho e a estratégia da organização; definir os indicadores-chave do desempenho, isto é, key performence 1 Robert Kaplan; David Norton – The Balanced Scorecard: Translating strategy into action. Boston: HBSP, 1996. Dados sobre competências/ formação Dados sobre a organização Envolvente geral e específica Dados dos postos de trabalho Dados individuais SIRH 63 indicators (KPI); efectuar a integração dos recursos humanos na medida do desempenho da organização. Este instrumento de gestão e controlo permite comunicar e clarificar a estratégia da empresa, apresentando indicadores mensuráveis, que possibilitarão quantificar e gerir os diversos desempenhos organizacionais. Se, no início, este instrumento surgiu como um sistema de avaliação do comportamento, do desempenho, cedo se tornou em algo mais, num instrumento de gestão estratégica, pois, ao delinear indicadores passíveis de quantificar realidades distintas, converteu a estratégia em objectivos operacionais, melhorando claramente a gestão empresarial. Embora muitas organizações disponham de medidas de desempenho dos recursos humanos e medidas do desempenho da função recursos humanos, o valor acrescentado que este sistema oferece é o estabelecimento de uma relação causal destas medidas com as medidas de desempenho da organização, clarificando muito bem o que é medido e o que é importante para a estratégia. Os indicadores a seleccionar não podem ser os que se encontram disponíveis no momento, mas aqueles que realmente possuem impacto na estratégia. Cedo, os gestores de topo viram neste instrumento uma estrutura central onde se organizam os processos de gestão mais importantes, tais como: a definição de objectivos individuais e de equipa, as formas de compensação, a atribuição de recursos, bem como a aprendizagem estratégica, uma temática a ser valorizada pela GRH. A construção de um balanced scorecard deve encorajar as unidades organizacionais a ligar os seus objectivos financeiros à estratégia da empresa. É vital para a organização definir quem é o seu cliente, em que segmento de mercado se insere, como deve a empresa direccionar os seus esforços no sentido de melhorar a prestação de um serviço ou a produção de um bem. Com os processos internos, transforma-se a estratégia empresarial em objectivos operacionais. A inovação e aprendizagem formula objectivos e elementos de controlo para a valorização, satisfação, retenção e produtividade dos trabalhadores. O balanced scorecard figura 3.2-2 centra-se em: Clarificar e traduzir a visão e a estratégia para toda a organização; Planeamento e estabelecimento de metas estratégicas, que alinhem a actuação de toda a organização; Conversão da estratégia em objectivos estratégicos operacionais; Comunicar estes objectivos a todos os trabalhadores, o que conduzirá ao seu compromisso na obtenção daqueles. Figura 3.2-2 64 O balanced scorecard revela potencialidades elevadas como instrumento de gestão da organização, no seu todo, e de um departamento específico e, em particular, pensa-se que é de importância decisiva para a GERH, na sua dimensão externa (relação com os restantes departamentos da organização) e interna (no interior do departamento de gestão de recursos humanos). Salienta-se que um sistema de medida deve cobrir duas dimensões distintas e complementares: o controlo de custos (reduzindo custos na função recursos humanos e contribuindo para os reduzir em toda a organização e a criação de valor (assegurando a intersecção adequada da arquitectura de recursos humanos com o processo de implementação da estratégia). Um sistema de medida adequado permite: Melhorar o processo de tomada de decisão, ajudando os gestores a focalizar a sua atenção e acção nos aspectos da organização que criam realmente valor; Proporcionar informação adequada, válida e sistemática para decisões de afectação de recursos. Permite avaliar os resultados da afectação de recursos a áreas e projectos relacionados com os recursos humanos, ligando-os de uma forma causal e clara aos resultados da organização. Habilita a encarar a área de recursos humanos como recursos estratégico e não apenas como um centro de custos sobre o qual há que actuar numa mera perspectiva de redução de custos. Um bom sistema de medida não se restringe a medir atributos tais como o grau de satisfação dos empregados. Mede também a relação entre o atributo e o resultado estratégico é indutor de desempenho. Em suma, os indicadores deverão entre outras dimensões concentrar-se em: para quem é que se cria valor? Em que e com que é que se cria valor? Como é que se cria valor na organização, no departamento e ao nível individual? Comunicar e Interligar Planear e delinear metas Feedback e Aprendizagem Estratégica Clarificar e traduzir a visão e a estratégia Balanced Scorecard 65 3.3. PLANO E ORÇAMENTO Numa perspectiva estratégica de gestão de recursos humanos, a função planeamento necessita de adoptar uma interpretação integrada da relação entre os diversos níveis de GRH. O plano tem de ajudar a identificar e escolher as pessoas que melhor conduzirão a organização no curto e longo prazo e necessita de contemplar um largo conjunto de programas e actividades destinadas a encontrar tais indivíduos. O desafio é o desenvolvimento de uma perspectiva de longo prazo na planificação das actividades. As decisões que actualmente são tomadas a partir de um determinado plano de actividades afectarão o sucesso futuro. Se a organização precisa de ter as melhores pessoas e as mais actualizadas competências e qualificações para fazer face aos desafios da envolvente terá de ter todas as suas actividades de gestão de recursos humanos voltadas para este objectivo estratégico e o mesmo terá de estar reflectivo no plano de actividades de curto, médio e longo prazo. O planeamento de recursos humanos lida com um conjunto de termos que importa clarificar logo de início, tais como: O efectivo – noção de efectivo, estrutura de efectivo, quadros. Estrutura do efectivo – pirâmide de idades; repartição por sexos; pirâmide de antiguidades; estrutura da qualificação. Diferenciação de estatutos: os quadros; trabalho a tempo parcial; trabalho no domicílio; tele-trabalho; inserção dos jovens; subcontratação. Evolução do efectivo – movimentos. Uma vez definida a estratégia de negócio e os objectivos organizacionais, deverão ser analisados os seus impactos sobre os recursos humanos. Assim, deve-se fazer: Previsões de necessidade de recursos humanos (competências) requeridas pelo negócio; Análise da envolvente e do mercado de trabalho; Análise da capacidade instalada em relação com as metas estratégicas. No que toca à análise da capacidade instalada, há que ter em conta o seguinte: Distribuição das competências na organização; Distribuição dos empregados por tempo de casa; Distribuição dos empregados por tempo de funções; Distribuição dos empregados por pirâmidede idades e por escolaridade; Saídas para o exterior (abandonos da organização); Quadro geral sobre remunerações; Resultados da avaliação de desempenho; Identificação do potencial de trabalho; Avaliação das competências/formação; Identificação das competências chave, actuais e futuras; Planos de sucessão. 66 As decisões estratégicas para os recursos humanos geram planos, projectos, programas e actividades que serão executados a curto/médio/longo prazo. Assim, as organizações dispõem normalmente de um plano quantitativo, operacional/anual de GRH, onde toda a movimentação de entradas, saídas e promoções automáticas e facultativas se encontram previstas, por categoria profissional, departamento etc. Possuem também um plano a médio/longo prazo ou plano de desenvolvimento mais qualitativo do que o operacional, onde transparece a relação entre a estratégia da organização e a estratégia de GRH1. O plano previsional de recursos humanos liga-se à mudança da envolvente, nomeadamente, à evolução dos mercados e às alterações que se verificam nos empregos. A inovação tecnológica encarrega-se de tornar obsoletos, muitos empregos, a um ritmo muito acelerado nos nossos dias. O plano previsional de recursos humanos deve estar atento à evolução ocorrida e a ter lugar na envolvente externa, nomeadamente, ao impacto tecnológico, de forma a antecipar as consequências evitando as ameaças e potenciando as oportunidades. Um plano previsional de recursos humanos deve ter quatro etapas: definição de objectivos estratégicos; aprofundamento de tais objectivos por direcção; medição dos desvios; tratamento das consequências2. A missão do planeamento de recursos humanos é dimensionar e planear as necessidades de recursos humanos, a longo/médio/curto prazo, para responder às exigências do negócio e aos objectivos estratégicos e tácticos da organização. As suas responsabilidades são: Assessoria organizacional para o planeamento estratégico da actividade e para os recursos humanos; Estudo sobre os impactos das decisões estratégicas da actividade (negócio), das mudanças organizacionais e da envolvente, sobre os recursos humanos; Análise dos recursos humanos, quantitativa e qualitativamente, gerando informações e conclusões para a formulação das decisões estratégicas para os recursos humanos; Formulação das políticas de recursos humanos; Acompanhamento da execução orçamental de recursos humanos; Coordenação dos sistemas de informação para a GRH3. O orçamento de GRH deve ser encarado como a tradução financeira do plano. O controlo orçamental de recursos humanos pode encontrar-se na direcção de recursos humanos, na direcção financeira e na direcção de planeamento e controlo, quando existe. A preocupação macro a ter com o plano e orçamento de recursos humanos é que este se enquadre nos proveitos previstos para o ano em apreço, isto é, que se ajuste à evolução da actividade da organização, nomeadamente, aos proveitos 1 Francisco Barranco – Planificación Estratégica de Recursos Humanos. Madrid: Pirámide, 1993 2Óscar Soares Barata – O Factor Humano na Gestão das Organizações. Estudos Políticos e Sociais. Lisboa: ISCSP. Vol. 9, n.º 3-4, (1988), p. 21-47. 3 Maria Diva Lucena – Planejamento de Recursos Humanos. São Paulo: Atlas, 1990. 67 registados ou ao desenvolvimento previsto da actividade. No sector público, é preciso também ter atenção à conformidade dos actos com a legalidade. Esta preocupação com o plano e o controlo dos recursos humanos deve constituir um eixo fundamental da gestão de qualquer gestor de recursos humanos. Esta preocupação terá de ser tanto maior quanto a organização seja de trabalho intensivo, em que, por exemplo, a esmagadora fatia dos custos (mais de 50%) é com recursos humanos. É que os resultados operacionais da organização serão imediatamente afectados e até comprometidos por uma pequeno deslize no plano, na gestão, ou no controlo As grandes e médias empresas, para além do balanço social e da auditoria social, possuem indicadores periódicos, normalmente mensais, sobre a execução do plano e orçamento de GRH. São estes indicadores detalhados por departamento e constituem uma das bases para o controlo do plano da organização. 3.4. TÉCNICAS DE PREVISÃO DE RECURSOS HUMANOS O objectivo último da planificação de recursos humanos é a previsão ou o cálculo das necessidades de pessoas (qualificações e competências), necessárias no curto, médio e longo prazo para que a organização atinja os seus objectivos. Partindo do princípio de que a planificação tem por fim concretizar quantitativa e qualitativamente o número de trabalhadores de que a organização vai precisar, temos de reconhecer que há um conjunto de factores (envolvente interna e externa) que afectam profundamente o futuro da organização e que são de difícil quantificação, por serem incertos, mutáveis e complexos. Fazer previsões é fundamental para a tomada de decisões nas organizações e, em particular, na gestão de recursos humanos. Há quem recorra à previsão subjectiva baseada na experiência, na intuição, em conjecturas e numa boa dose de crenças. Outros lançam mão da extrapolação feita com uma régua em que as tendências passadas são simplesmente projectadas para o futuro. E há ainda quem recorra ao modelo causal (causa e efeito), usando relações estabelecidas para predizer, por exemplo, as necessidades de recursos humanos com base no volume previsto de vendas. O plano operacional pode ser construído a partir de um exercício de aritmética simples. Um exemplo elementar seria o seguinte: O volume de produção de uma organização é de 300.000 unidades por ano e os cálculos indicam que, numa hora, se podem fabricar seis unidades. Assim, o tempo necessário para cumprir o plano de fabricação seria (300.000/6 = 50.000) 50.000 horas por ano. Ora se um trabalhador labora 1900 horas por ano será necessário (50.000/1900 = 26) 26 trabalhadores. Importa ter presente que as unidades produtivas têm tempos mortos, inoperantes, derivados da própria dinâmica do trabalho e de circunstâncias alheias ao mesmo – como o absentismo – facto que não pode deixar de ser tido em conta no momento de uma planificação de recursos humanos realista. Um factor que se costuma utilizar para o cálculo da inactividade é a aplicação de 10% (0,10) sobre o tempo total de trabalho. 68 Isto significa que no cálculo anterior há que, na última operação, multiplicar 50.000 horas por 0,10 o que dá 5.000 horas. Assim, será 55.000/1900 = 28,84 cerca de 30 em vez de 26 trabalhadores. Quanto à previsão de recursos humanos a médio e longo prazo, usamos normalmente os seguintes métodos: a) Extrapolação de tendências; b) Regressão e correlação; c) Delphi. a) Extrapolação de tendências Quanto à extrapolação de tendências, temos diversas técnicas estatísticas: mínimos quadrados; médias móveis; analise exponencial. A mais utilizada é o ajustamento dos mínimos quadrados. A previsão calcula a função matemática de ajuste da série temporal de dados do quadro de recursos humanos para determinar os dados. O caso mais simples é quando as necessidades se adaptam a uma linha recta do tipo (y = a + bx) - y representa o número de empregados para um determinado ano. - x seria a variável temporal, os anos. - a e b são dois coeficientes resultantes da resolução das equações: x bany 2xbxaxy - n é o número de anos cuja informação dispomos Exemplo nº1: Tabela 3.5.1 Ano Número de empregados 1997 764 1998 789 1999 812 2000 829 2001 872 2002 980 2003 1039 2004 1006 2005 1140 Se desejamos conhecer os efectivos necessários para os anos de 2006, 2007, 2008 e 2016, supondo que se mantêm as mesmas condições internas e externas à 69 organização, que existiram até ao presente, o primeiro passo será representar graficamente a evolução do quadrode pessoal que se encontra no gráfico abaixo, onde a nuvem de dados se pode ajustar a uma linha recta. Por isso, vamos calcular esta linha. Na tabela seguinte, encontram-se os dados necessários para o cálculo dos coeficientes. Com o objectivo de simplificar os cálculos, apresentam-se os dados da origem das coordenadas no ano central de 2001, a que damos o valor 0. Os anos anteriores terão valor negativo e os posteriores positivos. Substituindo os valores dessa tabela nas equações anteriormente indicadas temos: 56,915 9 240.8 ;9240.8 aa 55,45 60 733.2 ;60733.2 bb Diagrama 3.5-1 700 750 800 850 900 950 1000 1050 1100 1150 1200 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 Exemplo nº2: Tabela 3.5.2 Ano X Quadro de pessoal Y XY X2 1997 -4 764 -3056 16 1998 -3 798 -2394 9 1999 -2 812 -1624 4 2000 -1 829 -829 1 2001 0 872 0 0 2002 1 980 980 1 2003 2 1039 2078 4 2004 3 1006 3018 9 2005 4 1140 4560 16 Total 0 8240 2733 60 70 Em consequência, a recta de ajustamento do quadro de pessoal desta empresa seria xy 55,4556,915 As necessidades previstas para os próximos anos seriam: Para 2006: 5x 1143555,4556,915 y Trabalhadores Para 2007: 6x 1189655,4556,915 y Trabalhadores Para 2008: 7x 1234755,4556,915 y Trabalhadores Para um prazo maior, por exemplo, o ano de 2016, teríamos um valor de x = 15 e o quadro de pessoal prevista seria de: Para 2016: 15x 15991655,4556,915 y Trabalhadores Exemplo n.º 2 Um caso um pouco mais complexo é quando a evolução do quadro de pessoal se adapta a uma curva de segundo grau, a parábola, positiva se os efectivos crescem ou negativa se diminuem. A equação a utilizar é: 25 cxbxay 2xcxbany xcxbxaxy 2 xcxbxax y 22 Tabela 3.5.3 Ano Número de empregados 1993 24 1994 31 1995 40 1996 49 71 1997 60 1998 75 1999 90 2000 104 2001 122 2002 130 2003 150 Ano Quadro de pessoal Produção 1993 -5 24 25 -125 625 -120 600 1994 -4 31 16 -64 256 -124 496 1995 -3 40 9 -27 81 -120 360 1996 -2 49 4 -8 16 -98 196 1997 -1 60 1 -1 1 -60 60 1998 0 75 0 0 0 0 0 1999 1 90 1 1 1 90 90 2000 2 104 4 8 16 208 416 2001 3 122 9 27 81 366 1098 2002 4 130 16 64 256 520 2080 2003 5 150 25 125 625 750 3750 0 875 110 0 1958 1412 9146 Diagrama 3.5.2 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 Aplicando os valores obtidos na tabela anterior às três equações, obtém-se o seguinte: 875 = 11a + 110c 1412 = 110b 9146 = 110b + 1958c 72 Resolvendo este sistema de equações, deduzem-se os valores dos três coeficientes: 95,74a 84,12b 46,0c Substituindo estes coeficientes na equação da parábola resulta a curva de ajustamento da evolução do quadro de pessoal da empresa: 246,084,1295,74 xxy Para efectuar as previsões, substituem-se os valores de “x” pelos que correspondem à série de anos. Assim, o quadro de pessoal para 2008 será 6x 1693646,0686,1295,74 y Para 2013 11x 27212146,01186,1295,74 y Para 2018 16x 39825646,01686,1295,74 y b) As técnicas de regressão e correlação estatísticas As previsões de necessidades de recursos humanos, baseadas nos métodos da correlação e regressão estatísticas, partem do princípio de que existe uma determinada relação entre uma ou mais variáveis quantitativas no quadro de pessoal ou na envolvente e que tal relação se irá manter no futuro. Se tal relação não existir, no presente e no futuro, não se deverá utilizar este método. É um dos melhores métodos de previsão a médio ou a longo prazo. O problema é identificar a variável ou variáveis relacionadas. Por exemplo, nas empresas, costuma-se atribuir uma relação entre o volume de vendas da empresa e as necessidades de efectivos. Assume-se que, uma empresa de formação na área das tecnologias da informação, cada trabalhador deverá gerar 100.000 Euros. Assim, em termos simples, se o volume de vendas previsto para o ano seguinte for de dois milhões de Euros, deverá ter cerca de 20 trabalhadores. Usando a técnica estatística atrás descrita, os passos a seguir são os seguintes: Determinar o conjunto das variáveis que poderão estar relacionadas directamente com as necessidades de recursos humanos: volume de vendas, quantidade de produtos produzidos, etc. Calcular a correlação existente entre a variável ou variáveis do quadro de pessoal. 73 Para tal, calcula-se o coeficiente de correlação através da expressão: 22 yyxx yyxx R Nesta expressão x é o quadro e y a variável explicativa. O resultado de R é desde 0 (zero) a + 1 e quanto mais próximo do +1, maior será a relação entre ambas as variáveis. Exemplo nº3: Tabela 3.5.4 Ano Quadro de pessoal Produção 1997 85 95 1998 91 90 1999 98 106 2000 100 106 2001 100 100 2002 110 106 2003 116 111 Total 700 714 Se queremos calcular os efectivos de pessoal necessários em 2009, sabendo que as previsões de fabricação para esse ano são de 140 toneladas, o primeiro passo é identificar a relação entre o quadro de pessoal e o volume de produção. Assim, considerando x como a variável que indica o quadro e y a que indica a produção, os valores médios correspondentes a cada uma das variáveis serão: 100 7 700 x Empregados 102 7 714 y Toneladas Na tabela 3.5.5 abaixo, indicam-se os cálculos necessários para determinar o coeficiente de curva de tendência. O coeficiente de correlação será: 84,0 326666 389 R Tabela 3.5.5 Ano Quadro de pessoal Produção 1997 85 95 -15 -7 105 225 49 74 1998 91 90 -9 -12 108 81 144 1999 98 106 -2 4 -8 4 16 2000 100 106 0 4 0 0 16 2001 100 100 0 -2 0 0 4 2002 110 106 10 4 40 100 16 2003 116 111 16 9 144 256 81 Total 700 714 - - 389 666 326 O valor elevado de R=0,84 indica-nos que existe certa relação entre ambas as variáveis (volume de pessoal e de produção). E o ajustamento prova-se ser rectilíneo: baxy 58,0666 389 2 xx yyxx a Como a recta deve passar pelo ponto médio, sendo 102;100 yx 44;10058,0102 bb A recta de ajustamento será 4458,0 xy . Se a produção prevista para 2009 for de 140y toneladas, o número de trabalhadores que necessitaremos será o valor resultante da resolução da seguinte equação: 4458,0140 x 165 58,0 44140 x Empregados c) Delphi. Existe um processo de previsão bem fundamentado, conhecido como método Delphi. O método Delphi é um processo de previsão qualitativo que combina as opiniões individuais num certo consenso. Cada membro de um grupo de inquiridos preenche um questionário, esboçando as suas expectativas para o futuro. Os resultados são tabulados e devolvidos aos inquiridos com um segundo questionário, baseado nos resultados do primeiro inquérito. Este processo pode ser repetido várias vezes, até que os inquiridos, colectivamente, gerem uma visão consistente do futuro. Só então a previsão é entregue aos responsáveis pela tomada de decisão. O processo procura evitar a influência da personalidade e da categoria, mas está sujeito a manipulações por pessoas que mantenham ideias extremas. 3.5. BALANÇO SOCIAL 75 A Lei n.º 141/85, de 14 de Novembro, conjugada com o Decreto – lei n.º 9/92, de 22 de Janeiro, instituíram a obrigatoriedade de elaboração do balanço social para todas as empresas com pelo menos 100 pessoas ao serviço, qualquer que seja o seu regime contratual. O balanço social privilegia a informação em valores absolutos, em desfavor da informação em valores relativos, indicadores ou rácios. A informação encontra-se organizada à volta de cinco grandes capítulos, nomeadamente, emprego e formação. Os órgãos de gestão das empresas que, no termo de cada ano civil, tenham um mínimode 100 trabalhadores ao seu serviço, qualquer que seja o seu regime contratual, são responsáveis pela elaboração, até 31 de Março do ano seguinte, do respectivo balanço social. A informação a incluir no balanço social é a prevista em formulários próprios. O balanço social será remetido, até 15 de Maio, ao Departamento de Estatística do Ministério do Emprego e da Segurança Social. Na mesma data, serão enviadas cópias do balanço social à associação ou associações em que esteja filiada a entidade patronal e ao sindicato ou sindicatos em que estejam filiados os trabalhadores. O Departamento de Estatística do Ministério do Emprego e da Segurança Social enviará cópia do balanço social à Inspecção-Geral do Trabalho. 3.6. AUDITORIA SOCIAL A auditoria social é um instrumento de controlo do departamento de recursos humanos, semelhante à auditoria financeira, tendente a avaliar a capacidade de uma organização para lidar com os problemas de recursos humanos que lhe são apresentados pela envolvente interna e externa, nomeadamente, com a capacidade da organização deter os trabalhadores necessários ao cumprimento das sua metas e objectivos. Pierre Candou1 define a auditoria social como um processo independente e indutivo de observação, análise, avaliação e recomendação, assente numa metodologia que, recorrendo a padrões explícitos, lhe permite identificar, numa primeira etapa, os pontos fortes e os problemas resultantes do emprego pessoal e os condicionalismos, sob a forma de custos e de riscos. Isto leva a diagnosticar as causas dos problemas identificados, avaliar a sua importância e, por fim, chegar à formulação de recomendações ou propostas de acção, que não cabe ao auditor implementar. A auditoria social distingue-se de outras auditorias, nomeadamente, a financeira e contabilística, em virtude do domínio a que se aplica: a gestão de recursos humanos. Por outro lado, este domínio da gestão é mais qualitativo do que o financeiro e, consequentemente, as técnicas a que a auditoria social lança mão são menos 1 Pierre Candou – Audit Social. Paris: Vuibert, 1986. 76 quantitativas. Para chegar ao diagnóstico ou para ultrapassar a falta de informação quantitativa, o auditor usa métodos e técnicas qualitativas, como a entrevista. Antes de proceder a uma auditoria, o auditor deve fixar os eixos e objectivos da sua missão; os limites do controlo, os métodos e os meios de recolha de informação. A organização da sua missão passa por: pesquisas preliminares; elaboração de um programa de trabalho; recolha de informação; redacção do relatório final. De entre os trabalhos mais frequentes a realizar pelos auditores estão os seguintes: análise por diagramas; questionários de auditoria; análise dos documentos obrigatórios; exame de manuais de procedimentos e descrição; entrevista aos trabalhadores; tratamento de informação escrita; análise dos incidentes críticos. As missões da auditoria social podem agrupar-se em três níveis. A auditoria de conformidade – aprecia a conformidade das práticas às regras aplicáveis na organização e formula juízos sobre a qualidade da informação. A auditoria de eficácia responde às duas questões seguintes: estão os resultados conformes aos objectivos? Foram tais resultados conseguidos ao menor custo? A auditoria estratégica responde à dupla preocupação: estão as políticas de recursos humanos conformes aos objectivos estratégicos? Encontram-se em sintonia com a estratégia global da organização? Cada aspecto da política social é formulada e adaptado às especificidades da organização e à evolução da sua envolvente? O auditor deve também verificar a coerência entre os princípios directores das políticas de GRH e os valores fixados pela empresa e pelo seu projecto? 3.7. RÁCIOS DE GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS Não há gestão sem mediação. A natureza da gestão - quer na perspectiva da eficiência (relação meios/objectivos), quer na vertente da eficácia (resultados alcançados e seu impacto a médio e longo prazo), quer pelo lado da economia (ciências dos recursos escassos) – exige que o profissional da gestão tenha, entre os seus instrumentos essenciais de trabalho, os rácios. O que é um rácio? Um rácio é uma relação entre dois elementos económicos que têm uma relação de coerência ou de correlação. É composto por um numerador e um denominador que não evoluem sempre no mesmo sentido e quase nunca proporcionalmente. Pode ser expresso em percentagem ou em relatividade. Os rácios servem para ilustrar uma informação. É um olhar de síntese que permite visualizar instantaneamente a evolução de um determinada situação. Permitem efectuar comparações, preparar decisões, levantar questões e preparar diagnósticos. Os rácios mais significativos para a gestão de recursos humanos são: a) Volume de negócios/efectivo. Responde à pergunta: quantas unidades, em média, cada trabalhador executam num determinado período? Permite 77 comparar com a média do sector económico. Neste rácio pode ou não estar integrado todo o efectivo, mesmo aquela parte que não está directamente ligada à produção, nomeadamente, a secretária do director. b) Custos sociais/efectivo1. Responde à pergunta: a empresa gasta quanto por trabalhador em benefícios sociais? c) Custos sociais X 100/volume de negócios. Responde à pergunta: qual a percentagem dos custos sociais relativamente ao volume de negócios? d) Custos sociais X 100/massa salarial. Qual a percentagem dos custos sociais relativamente à massa salarial? e) Horas de absentismo X 100/horas totais pagas ou trabalhadas. Responde à pergunta: qual a percentagem do absentismo sobre as horas pagas? Há sectores onde pode atingir 10% e outros onde poderá atingir 3%. f) Acidentes de trabalho/efectivo. Quantos acidentes por total dos trabalhadores? g) Remuneração bruta/por efectivo de uma dada categoria profissional. Procura informar sobre o equilíbrio entre as diversas categorias profissionais. h) Efectivo saído X 100/efectivo total. Qual a percentagem de saídas para o exterior relativamente ao total dos trabalhadores? i) Custo de formação X 100/ custo da produção. Qual a percentagem do custo da formação em relação ao custo total da produção? j) Custo da formação X 100/volume de vendas. Qual a percentagem do investimento em formação relativamente às vendas? As boas organizações costumam investir em formação (custo total) 1% do volume de vendas. k) Custo da formação X 100/efectivo. Quanto gastou a empresa em formação num determinado período, por exemplo, um ano, por trabalhador? l) Dias de greve X 100 / número de dias de trabalho. Qual a percentagem de dias de greve? m) Horas de greve X 100/horas totais teóricas. Percentagem das horas de greve pelo total de trabalho. n) Número de litígios transmitidos à Inspecção do trabalho /efectivo. Procura saber quantos litígios por trabalhador. o) Número de litígios transmitidos ao Tribunal de trabalho /efectivo. É igual ao anterior, mas em relação ao Tribunal. p) Número de trabalhadores aposentados ou reformados X 100/total dos trabalhadores. Permite identificar as necessidades de recrutamento e selecção para o ano seguinte. 1 Podem considerar-se os custos sociais totais, os custos sociais obrigatórios, os custos sociais facultativos, os custos sociais patronais ou os custos sociais salariais. A definição e o conteúdo da expressão “custos sociais” devem ser explicitados. 78 PARTE II – CONTEXTOS DE GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS 79 CAP. 4 – GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA 4.1. MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA Quando se procede ao estudo comparado da administração pública sobressai claramente a existência e a coexistência de diversos modelos de administração pública. Por outro lado, há uma certa correlação entre o modelode administração pública e modelos de gestão de recursos humanos. Daí, antes de nos debruçarmos directamente sobre a gestão de recursos humanos na Administração Pública, importa, de forma breve e resumida, analisarmos os três modelos mais conhecidos de administração pública do século XX. Há três modelos ou tipos de administração pública: o tradicional, do Estado empreendedor, o liberal, do Estado franqueador, o do novo serviço público, do Estado parceiro1. Os três paradigmas de administração pública em sentidos diferentes separam política e administração. O da velha administração pública, centrado na construção institucional de uma administração pública baseada no modelo de tipo ideal utilizado por Weber, distante da política, contrapondo leis e procedimentos administrativos a valores; políticos a burocratas, onde prevalece a racionalidade do “homem administrativo”. O da nova administração pública, liberal, desestatizante e desregulador, centrado numa administração pública mínima e submetida a um rigoroso controlo político e de mercado, contrapõe a política ao Estado; o mercado às organizações públicas, prevalecendo a racionalidade do “homem económico”. O do novo serviço público, que procura integrar os aspectos positivos dos modelos anteriores, centra a gestão nas parcerias entre público, privado e o terceiro sector, ao mesmo tempo que apela ao envolvimento dos funcionários, através da mística do serviço público, defendendo uma liderança organizacional participada, interna e externamente, prevalecendo, neste caso, a racionalidade estratégica e política. 1 Robert Denhardt – The New Public Service: Serving, not steering. New York M. E. Sharpe, 2003 80 4.1.1. O modelo tradicional: maior e melhor Estado O modelo tradicional tem como matriz o pensamento de Weber, isto é, o tipo ideal de burocracia, embora este possa revelar diacrónica e sincronicamente certas diferenças morfológicas. Tende a prescrever reformas destinadas a melhorar a eficiência e o fortalecimento institucional das organizações e poderes públicos1. A visão ortodoxa remonta, no caso dos EUA e de Inglaterra, à emergência do conceito de sociedade industrial e, no Continente Europeu, ao conceito de Estado Nação. Corresponde, na segunda metade do Século XIX, ao aparecimento de movimentos destinados a ultrapassar a visão patrimonial da Administração. Posteriormente, em meados do Século XX, a emergência de preocupações novas, ligadas ao Welfare State, veio aprofundar e alargar este mesmo modelo. Nos Estados Unidos, os seus maiores cultores foram Woodrow Wilson, Luther Gulick, Louis Brownlow e Leonard White. As teorias iniciais foram aperfeiçoadas por autores contemporâneos, tais como Paul Vocker, Robert Denhardt, Edward Jennings, Robert Reich, Steven Cohen, James Stever e Charles Goodsell. O pensamento ortodoxo evoluiu no sentido de apontar reformas que ajudem a consolidar uma administração pública actuante, baseada na expansão efectiva do Estado e na construção de instituições fortes para a maximização das respostas aos desafios sociais e com as seguintes características: planeamento e coordenação central da implementação de políticas públicas; aumento da capacidade de implementação de tais políticas, a todos os níveis das esferas do Estado; ocupação de postos chave por funcionários altamente treinados; ênfase na mística e capacidade do servidor público como incentivo para a inovação; limitação da interferência política na esfera administrativa, mediante contratos de gestão flexíveis; responsabilidade da base ao topo e direcção do topo à base; ênfase no cidadão como utente. Actualmente, este modelo está a evoluir para o que é conhecido, de acordo com a expressão de Janet e Robert Denhardt, por new public service2. De acordo com esta nova versão da administração tradicional, há que servir cidadãos e não clientes; refundar o interesse público; valorizar a cidadania e não a capacidade empreendedora; pensar estrategicamente e actuar democraticamente; reforçar a obrigação da prestação de contas a todos os níveis da administração; servir mais do que mandar; dar ênfase às pessoas e não à produtividade. 4.1.2. Visão liberal da Administração Pública: menor e melhor Estado Uma visão liberal da administração pública centra-se no conceito de mercado. Ao nível micro-organizacional, a utilidade das organizações públicas liga-se às finalidades do mercado e o seu valor expressa-se através do rácio custo/benefício. Defende-se um aumento da capacidade de decisão política do administrador, desde que esteja submetido à conformação das orientações político-partidárias. 1 Jacques Chevalier - Science Administrative. 2a edição. Paris: PUF, 1994. 2 Janet and Robert Denhardt - New Public Service. London: M. E. Sharpe, 2003 81 Os seus princípios inspiram-se nas recomendações sobre a intervenção estatal dos economistas clássicos e nos adeptos da escola da escolha pública (public choice) que por sua vez, se baseiam na filosofia liberal de Adam Smith e no pensamento económico da Escola Austríaca do século XIX. A escolha pública atingiu, nos meios académicos e políticos, o seu apogeu, nos anos oitenta do Século XX. Destacam-se, actualmente, as correntes monetaristas e neoliberais, onde se incluem Milton Friedman, George Stigler, Gary Baecker e os mais conhecidos autores da escolha pública, Buchanan, Gordon Tullock, Wiliam Niskanen e Vicent Ostrom. Este modelo liberal partiu de uma imagem altamente negativa da administração pública: negligência quanto ao interesse público; excesso de despesa; falta de interesse do funcionário na obtenção de resultados; monopólio de funções; adopção pelos funcionários e administradores das políticas que lhes sejam mais favoráveis. As características do modelo são as seguintes: redução do tamanho do Estado pela privatização, terceirização, e voluntarismo; desconcentração e descentralização de serviços; desregulamentação; forte liderança política do topo à base, lealdade extrema aos programas do governo; ocupação de cargos-chave por pessoas comprometidas com a vida político-partidária, em vez de funcionários de carreira, aplicação de técnicas de gestão por resultados ao nível da execução, como gestão por objectivos, prémios, incentivos por produtividade; decisão centrada na análise do custo/benefício. Adopta um estilo de gestão autoritário e rígido; a ocupação de cargos é feita com recurso a critérios fundamentalmente políticos, não incentiva a gestão participativa; efectua privatizações e desregulamentações que poderão retirar o serviço público de áreas onde é necessário1. Este modelo coloca a política contra a administração, dada a crença na incapacidade dos organismos públicos para promover o serviço público de forma integrada e funcional. O modelo, que agora aparece, lança as suas raízes de pensamento no conceito de cidadania democrática e política, tal como esta era entendida por Aristóteles na sua Política, oposta à cidadania jurídica, tal como era entendida em Roma por Gaio e posteriormente por Hobbes, no Leviatan2. Esta nova visão da administração pública vai beber a sua inspiração nas seguintes fontes: teorias da cidadania democrática; modelos de comunidade e sociedade civil; humanismo organizacional. As teorias da cidadania democrática mais activa apelam à participação dos cidadãos na administração da polis, na existência de governos centrados nos cidadãos, em dirigentes e funcionários públicos que não se apresentam como portadores de autoridade (do Estado), mas como servidores, encarregados de fazer aquilo que competiria a todos fazer. Estas teorias salientam que o “governo somos nós”, “todos somos accionistas do Estado”, a participação na polis não depende do ter, mas do ser. 1 OCDE/PUMA – In Search of Results:Performance Management Practices. Paris, 1997. 2 Adelino Maltez – Princípios de Ciência Política. Lisboa: ISCSP, 1996 82 Por outro lado, actualmente, assiste-se ao retorno de conceitos, tais como comunidade e sociedade civil, como sendo centrais para a nossa existência. Independentemente de tal retorno se ficar a dever ao esforço feito pelos cidadãos para se curarem do individualismo e do interesse egoísta, tal como é apresentado na teoria económica neoliberal, ou para estarem ligados à necessidade de regressar aos valores básicos da comunidade em que todos se conheciam, controlavam e eram controlados por todos, a busca da comunidade é uma procura de sentido para a existência individual. O investimento próprio numa comunidade, a aceitação da sua autoridade, oferece identidade, sentido e âncora para a vida de cada um. Por outro lado, a participação cívica é mediada pela participação na família, nos grupos de trabalho, nas igrejas, associações cívicas, grupos de vizinhança, organizações de voluntários, grupos sociais e até grupos desportivos. O humanismo organizacional (Argyris1 e Robert Golembiewski) opõe-se à perspectiva da escolha racional de Herbert Simon2. Apela à liberdade individual dos funcionários nas organizações públicas e à moral elevada, contrariando, assim, as perspectivas que recomendam modelos organizacionais fortemente hierarquizados e controlados. 4.1.3. O novo serviço público: sentido de missão Esta nova visão da administração pública apresenta um conjunto de lições práticas que desafiam as duas anteriores visões: Servir cidadãos e não clientes: O interesse público é muito mais o resultado do diálogo e da partilha de valores do que a agregação de interesses egoístas individuais. Assim, os funcionários públicos não respondem apenas às necessidades de consumidores, mas, pelo contrário, procuram construir relações de confiança e colaboração com e entre os cidadãos. Procurar o interesse público: Os funcionários públicos e os seus dirigentes devem construir uma noção partilhada de interesse público. O objectivo não é tanto obter a solução imediata através da escolha individual, mas a criação de interesses e responsabilidades partilhadas. Valorizar a cidadania e não a capacidade empreendedora: O interesse público é melhor garantido pela acção de funcionários e cidadãos envolvidos em fazer coisas importantes para a sociedade do que por gestores empreendedores, agindo como se o dinheiro público fosse deles. Pensar estrategicamente e actuar democraticamente: As políticas e programas públicos podem ser realizados de forma mais económica, eficiente e eficaz se foram desenvolvidos de forma participada e em colaboração. Prestar contas não é coisa simples: Os funcionários públicos devem estar atentos e prestar contas a algo mais do que ao mercado. Devem também ter em linha de conta a Constituição da República, as leis, os valores da comunidade, as normas de serviço, os padrões profissionais e os interesses dos cidadãos. 1 Chris Argyris – Personality and Organization. NY: Harper & Row, 1957. 2 Herbert Simon – Administrative Behaviour. 2th. ed. NY: Macmillan, 1975. 83 Servir mais do que mandar: Os funcionários públicos e os seus dirigentes devem progressivamente adoptar um estilo de liderança participado e baseado em valores, na ajuda aos cidadãos ou na satisfação dos seus interesses, mais do que controlar ou orientar a sociedade. Valorizar as pessoas, não apenas a produtividade: As organizações públicas e as redes onde actuam terão a longo prazo mais sucesso se actuarem em colaboração e usarem a liderança partilhada baseada no respeito pelas pessoas, do que teriam se se tornassem obcecadas pelo controlo cibernético da actividade. 4.2. GERIR RECURSOS HUMANOS EM CONTEXTO POLÍTICO 4.2.2. Administração pública e privada A grande diferença entre a administração privada e a administração pública radica no contexto político em que ambas operam. A administração pública é uma entidade no seio da qual se desenvolvem actividades administrativas, destinadas à satisfação de necessidades colectivas. A satisfação de necessidades colectivas confere-lhe uma especificidade: dependência instrumental do poder político. A sujeição da administração pública ao poder político afasta-a do âmbito da administração privada que está marcada pelo mercado e suas leis. O mercado emite sinais que indicam onde há carências e onde há excedentes e é, juntamente com os incentivos e as penalidades, um estímulo à intervenção e ao aperfeiçoamento. A administração pública actua num contexto de constrangimentos jurídico-legais, que a pode obrigar muitas vezes a sobrepor os aspectos processuais, o como deve ser feito aos objectivos ou ao que deve ser feito. As diferenças entre os serviços públicos e os privados resultam de factores únicos e específicos inerentes às organizações públicas e que restringem a sua descrição, estrutura e estilos de gestão. Tais factores incluem: o controlo por políticos eleitos; o enquadramento legal destinado especificamente aos serviços públicos; a responsabilidade perante uma série de garantias do interesse público1. Se entendermos a administração como um conjunto de padrões formais e informais de comportamento e processos que regem o funcionamento dos indivíduos que integram a organização estadual (sistemas de remuneração, de incentivos e restrições, mecanismos de coordenação e supervisão, fluxos de informação, relações hierárquicas), temos de reconhecer que há diferenças entre a administração pública e a privada. Os problemas da administração pública podem ser resolvidos com o apoio dos conceitos, modelos e técnicas em uso na administração privada. A administração pública é essencialmente administração (decisões de coordenação e motivação, 1 J. A. Oliveira Rocha – Gestão Pública e Modernização Administrativa. Lisboa: INA, 2001 84 destinadas a obter resultados através da cooperação dos outros indivíduos, utilizando recursos escassos). Não são o tamanho, a complexidade, a sua natureza hierárquica, o grau de controlo traços específicos e muito menos exclusivos da administração pública. Há organizações privadas grandes, complexas e altamente controladas e hierarquizadas. A diferença ente administração privada e pública situa-se apenas ao nível do enquadramento. De facto, a administração pública tem lugar numa envolvente particular e específica de restrições, impostas pelo carácter jurídico-político que a envolve. A administração pública tradicional tem estado marcada pela supremacia do direito e pela natureza política dos seus fins1. O contexto político, em que a administração pública opera, condiciona profundamente o estilo de gestão de recursos humanos. Por mais que os teóricos tenham defendido a separação entre política e administração, na prática esta foi, e continua a ser, uma das circunstâncias marcantes da gestão de recursos humanos, nomeadamente, quanto ao recrutamento e selecção, promoção e remuneração. Há certamente quadros de perfil médio, na administração pública e no sector empresarial do Estado, que nunca teriam alcançado as elevadas posições na hierarquia que atingiram, se o processo de tomada de decisão fosse a racionalidade técnica e não a racionalidade política2. Em diversos estudos de tipo extensivo, feitos à base de questionários, sobre os dirigentes da administração, em Portugal e no estrangeiro, verifica-se que, do ponto de vista da representação social dos actores, a esmagadora maioria afirma estar naquela posição por razões de ordem técnica e não política. Todavia, quando se aprofunda mais a questão com análise de tipo intensivo, constata-se exactamente o contrário. Este é claramente um problema que uma futura reforma da função pública tem que resolver3. A questão é saber se nenhum nível hierárquico na administraçãopública (desde chefe de secção a director-geral) está sujeito a esta circunstância, ou, se está, a partir de que nível se deve estabelecer a separação. Há aqui um questão estratégica e de valores com a qual a táctica se tem de conformar. Não assumir a estratégia, fazendo referência a valores para cativar o eleitorado e, utilizando tácticas concretas que contrariam tudo isto, é que se afigura não poder continuara a acontecer4. Salienta-se que a Lei n.º 2/2004, de 15 de Janeiro, estabelece que a técnica de recrutamento e selecção para cargos de direcção intermédia de 1.º e 2.º grau (directores de serviço e chefes de divisão) assente na escolha de indivíduos licenciados, aprovados num curso de formação específica (curso de alta direcção em administração pública) e seis a quatro anos de experiência profissional em carreiras para cujo provimento seja legalmente exigível uma licenciatura, consoante se trate de cargos de direcção intermédia de 1.º ou 2.º grau, respectivamente. 1 João Bilhim - Ciência da Administração. Lisboa: Universidade Aberta, 2000. 2 Eduarda Machado – Relação entre Políticos e Burocratas: Contributos para o seu Estudo em Portugal. Braga: Universidade do Minho, (Dissertação de Mestrado), 2000. 3 Gerard E. Caiden – Administrative Reform Comes of Age. Nova York: Walter de Gruyter, 1991. 4 Hermano Carmo – O Factor Humano na Administração Pública em Portugal. Lisboa: ISCSP, (Dissertação de Mestrado), 1985. 85 4.2.2. A função pública São três as perspectivas em que normalmente a expressão função pública é utilizada: actividade exercida ao serviço das pessoas colectivas públicas; conjunto de trabalhadores submetidos ao estatuto disciplinado pelo direito público; regime jurídico aplicável a uma parte da administração pública. A reforma a que nos estamos a referir tem a ver com o regime jurídico, ou seja, com esta última acepção de função pública. E sobre esta, a primeira observação que gostava de fazer é que não existem dois países, mesmo vizinhos, que tenham funções públicas idênticas ou sobrepostas. Cada país tem a sua própria função pública. Aliás, a União Europeia ainda não tem formalmente metas ou objectivos que visem a integração das funções públicas dos diversos países membros, nem da própria administração pública. Esta é matéria que continua a ser da competência de cada país membro. O facto de não haver orientações da União Europeia sobre esta matéria, para um país como Portugal, é muitas vezes considerado desvantajoso, do ponto de vista da modernização. A modernização (racionalização da administração) tem sido feita normalmente sob pressão exógena, isto é, por impulso vindo do exterior. Se tal estímulo não existir, o mais certo é que vá prevalecer a racionalidade política, mais adequada a “deixa correr”, “pode acontecer um milagre”, “por que razão me vou aborrecer?”, “isto vai fazer-me perder as eleições”, “isto vai desagradar aos meus amigos”, “isto não vai chatear os meus inimigos”, “isto vai levantar ondas, quando eu preciso de passar por entre os pingos da chuva sem me molhar”. O funcionário e o agente da Administração não é apenas um técnico, um decisor, ou um empregado do Governo. Ele é, sobretudo, alguém que integra a responsabilidade da cidadania no exercício da sua actividade. Os funcionários públicos são cidadãos que se encontram no lugar de todos nós1. A divisão social do trabalho obriga a que haja separação de funções e tarefas. Os funcionários públicos fazem o que cada um de nós deveria fazer e se não o fazem é por uma questão de economia (separação de funções/especialização). Quando o funcionário público funda a razão de ser da sua actividade (identidade ética) no conceito de cidadania democrática, a sua postura surge a uma nova luz, nomeadamente, com a necessidade de prestação de contas à comunidade a que pertence, como consequência da moral democrática2. O seu papel administrativo tem origem no papel de cidadão que, antes de tudo, o indivíduo desempenha. Antes de ser funcionário, é cidadão. Assim, quando o administrador público ou o dirigente da administração pública se empenha na eficiência, eficácia e economia, estas preocupações de gestão não o podem distrair de outras preocupações que são prévias a estas, como seja o envolvimento dos cidadãos 1 Francisco Liberal Fernandes, – Autonomia Colectiva dos Trabalhadores da Administração. Crise do Modelo Clássico de Emprego Público. Coimbra: Coimbra editora, 1995. 2 Astrid Auer – Civil Services in the Europe of Fifteen: Current Situation and Prospects. Maastricht: European Institute of Public Administration, 1996. 86 nas decisões públicas. O envolvimento e a responsabilização da comunidade não podem ser tidos como perda de tempo, mas antes como exigência democrática. Outra observação tem a ver com a Constituição da República que, pelo menos no que diz respeito à autonomia colectiva e ao direito à greve, esbateu a fronteira tradicional estabelecida entre o contrato de trabalho e a relação de emprego público1. A caracterização do estatuto profissional dos funcionários públicos continua a ser um problema com certa complexidade por, tradicionalmente, integrar dois elementos cuja harmonização se reveste de certas dificuldades. Por um lado, temos a subordinação funcional do funcionário à prossecução do interesse público (arts. 266.º, n.º 1, e 269.º n.1, da CRP) e a sua pertença a um organismo que representa a autoridade do Estado; por outro, a natureza salarial do vínculo estabelecido (o tipo de contrato) entre o particular e a Administração. Esta dualidade de interesses foi, tradicionalmente, o fundamento para o carácter peculiar da relação de emprego público. No entanto, actualmente, o interesse público é prosseguido, em diversas modalidades de contratualização, por entidades privadas e do terceiro sector, sem que os trabalhadores dessas organizações possuam um regime jurídico especial. Por outro lado, as ideias que deixámos atrás apontam para que o funcionário público preste serviços aos cidadãos, não como agente de autoridade, mas numa nova atitude de serviço e parceria2. Isto, na prática, significa que, se ao “reinventarmos” a nossa Administração Pública, lançarmos as suas novas raízes no conceito de cidadania de Aristóteles e Rousseau, aqueles elementos que nos pareciam inconciliáveis passam a dar-se perfeitamente bem. A importância destes elementos advém do conceito de cidadania adoptado. O conceito jurídico de cidadania da Roma imperial, expresso como já vimos por Gaio e, posteriormente, aprofundado por Hobbes no Leviatan, anda de mãos dadas com a Administração Pública tradicional e com uma postura autoritária dos funcionários públicos. Os aspectos que, por um lado, concorreram para a decadência do modelo clássico de emprego público foram de tipo estatutário, nomeadamente, o reconhecimento dos direitos sindicais aos funcionários, o direito à greve, a liberdade sindical e o direito de constituição de comissões de trabalhadores3e, por outro lado, radicaram na mudança ocorrida na natureza do que se entende, hoje, por interesse e serviço público. As novas abordagens da administração pública, quer na perspectiva gestionária e managerialista/reinvenção da governação, quer na actual perspectiva do novo serviço público, provocam a queda da superioridade da administração pública, ao mesmo tempo que promovem o cidadão/cliente, como ser histórico, ao lugar cimeiro da definição do interesse e do serviço público4. 1 José Ribeiro; Soledade Ribeiro – A Relação Jurídica de Emprego na Administração Pública: Anotações e comentários ao Decreto-Lei n.º 427/89, de 7/12. Coimbra: Almedina, 1994. 2 OCDE – Flexibilité dans la Gestion du Personnel de l’Administration. Paris, 1990. 3 Decreto-lei n.º 215-B/75, de 30 de Abril; Lei n.º 46/79, de 12 deSetembro. 4 Ronald C. Moe – Reinventing Government Exercise: Misinterpreting the Problem, Misjudging the Consequences. Public Administration Review. Vol. 54, n.º 2: 111-122, 1994. 87 Os aspectos estatutários provocaram ruptura na medida em que as novas medidas passaram a limitar a supremacia da administração sobre os funcionários e agentes. Como sabemos, a doutrina clássica considerava a relação de emprego público como uma natureza não patrimonial, o objecto da relação era uma coisa pública, uma função pública, que não constituía uma riqueza, por não ser permutável. Assim, o funcionário e agente eram reduzidos à categoria de órgão da administração1. A doutrina do funcionário-órgão constitui uma herança da teoria orgânica das pessoas colectivas, elaborada pela doutrina alemã. O funcionário deixa de ser pessoa dotada de autonomia jurídica para ser um sujeito que, tendo capacidade natural, se limitava a manifestar a vontade do Estado. Era uma entidade despersonalizada, um instrumento que desempenhava uma função. O vínculo, visto desta perspectiva, não tinha subjectividade na administração e reduzia a relação de emprego a um mecanismo de imputação da actividade de uma pessoa física a um ente público. A qualificação das relações laborais como um problema interno da organização da Administração e o recurso à figura do funcionário-órgão, representante da autoridade do Estado, explicam a supremacia do ente público e a subordinação do agente, já que o objectivo da doutrina clássica era garantir que o indivíduo actuasse em representação do Estado. Não havia lugar, nesta concepção, à existência de conflitos com a entidade dirigente ou à prevalência de interesses pessoais. Por outro lado, a função a cujo cumprimento se encontrava obrigado não continha, no seu conteúdo, a referência aos elementos que hoje são fundamentais, numa nova concepção do serviço público, como seja a qualidade vista pelos olhos do cidadão2. Existia uma posição de supremacia do ente administrativo para com os agentes e, assim, a relação de serviço tinha origem numa decisão unilateral da autoridade pública. A doutrina clássica rejeitava a possibilidade de se constituírem vínculos de natureza contratual e, nas suas relações com terceiros, intervinha sempre na qualidade de autoridade pública. Hoje, que estamos na encruzilhada entre a abordagem tradicional e as novas abordagens da administração pública, já referidas atrás, a caracterização do vínculo do emprego público enfrenta uma dilema que assenta no facto de existirem no agente duas realidades: o trabalhador por conta de outrem e o membro de um organismo através do qual é exercido a autoridade pública. No primeiro, é o elemento laboral e, no segundo, é o elemento organizacional, de estatuto e de papel social que ganha relevo. A tensão entre estas duas forças encontra-se presente na Constituição da República Portuguesa. Por um lado, o funcionário e agente goza dos direitos, liberdades e garantias de todos os trabalhadores, mas, por outro lado, continua a participar no exercício do poder político. O funcionário e agente é, simultaneamente, um indivíduo que desempenha uma actividade laboral subordinada a outrém e que representa o Estado. É um indivíduo no gozo pleno dos seus direitos como trabalhador comum e, ao mesmo tempo, participa no exercício da autoridade do Estado. 1 Steven Hays, Richard Kearney. 3.ª ed. – Public Personnel Administration and Prospects. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1983. 2 Francisco Liberal Fernandes – Autonomia Colectiva dos Trabalhadores da Administração. Crise do Modelo Clássico de Emprego Público. Coimbra: Coimbra editora, 1995. 88 O problema, actualmente, reside em saber se em todos os corpos da administração pública se encontra presente esta representação da autoridade do Estado. Será que um funcionário que atende ao guichet de um hospital, ou um médico que atende um doente num hospital público representa o Estado? Será que o seu conteúdo funcional quando de manhã trabalha num hospital público e de tarde num hospital privado muda assim tanto? Será que um polícia de segurança pública quando intervém para salvaguardar a ordem pública numa rua de Lisboa ou quando intervém como empregado de um qualquer empresa de segurança numa discoteca vê o seu conteúdo funcional mudado? Parece-nos que, no primeiro caso do hospital, tal não acontece e que provavelmente terá lugar no segundo. Não será por aqui, que deve ser encontrada a linha separadora de águas? Hoje, a posição de superioridade da Administração, relativamente aos seus funcionários, tende a evoluir. O emprego público deixou no seu todo de ser equiparado às relações de soberania, assim como o estatuto do agente da Administração deixou de situar-se numa zona livre do direito. Deixou de fazer sentido acentuar a ideia de que o carácter unilateral da relação de emprego público se justifica por razões de interesse público, uma vez que o próprio conceito tradicional de interesse público está em crise, dando lugar em muitas áreas da administração ao conceito de serviço público. 4.3. REGIME JURÍDICO DA FUNÇÃO PÚBLICA O diploma básico regulador dos princípios gerais em matéria de emprego público, remunerações e gestão de pessoal é o Decreto – Lei n.º 184/89, de 2 de Junho1, conforme se pode verificar quer da leitura do seu Preâmbulo, quer do texto do seu artigo 1º. Este diploma aplica-se aos serviços e organismos da Administração Pública, em sentido lato, isto é: aos serviços da pessoa colectiva Estado e aos institutos públicos, nas modalidades de serviços personalizados do Estado e de fundos públicos. Abrange, por outro lado, o pessoal que, exercendo funções de natureza subordinada nos serviços acima mencionados, esteja sujeito ao regime de direito público, com as seguintes excepções: os juízes e os magistrados do Ministério Público, que têm estatutos especiais; as forças armadas e de segurança, a quem, todavia, as normas deste diploma podem ser aplicadas, mediante adaptação às especificidades dos respectivos estatutos. Como princípios informadores do exercício de funções públicas prevêem-se os seguintes: princípio da exclusividade dos funcionários e agentes ao serviço do interesse público; subordinação destes trabalhadores à Constituição e à lei; exigência de condutas responsáveis e éticas; respeito pelos princípios da justiça, da 1 - Diploma alterado pelo Decreto - Lei n.º 25/98, de 26 de Maio 89 imparcialidade e da proporcionalidade; respeito pelos direitos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos. O diploma enuncia igualmente os princípios gerais e básicos sobre emprego, remunerações e gestão de pessoal, os quais foram objecto de desenvolvimento através de diversos diplomas que o vieram regulamentar e aos quais iremos de seguida fazer referência mais detalhada. O Decreto – Lei n.º 184/89 entrou em vigor no dia 16 de Outubro de 1989, data do início de vigência do Decreto – Lei n.º 353-A/89, de 16 de Outubro, por força do disposto no nº1 do seu artigo 43º. 4.3.1. A relação de emprego público Esta matéria encontra-se prevista nos artigos 5º a 12º do Decreto - Lei n.º 184/89 e no Decreto - Lei n.º 427/89, de 7 de Dezembro, sendo que este último tem vindo a sofrer sucessivas alterações1. A última foi introduzida pela Lei n.º 23/2004, de 22 de Julho que aprova o regime do contrato individual de trabalho na Administração Pública. Todavia, no âmbito da administração directa do Estado, não podem ser objecto de contrato de trabalho por tempo indeterminado actividades que impliquem o exercício directo de poderes de autoridade que definam situações jurídicas subjectivas de terceiros ou o exercício de poderes de soberania. A relação de emprego público constitui-se por duas formas: a nomeação, que é a forma por excelência de exercício profissionalizado da funçãopública; o contrato que apenas pode revestir duas modalidades: a) contrato administrativo de provimento que confere ao particular outorgante a qualidade de agente administrativo; b) contrato de trabalho que se rege pela lei n.º 23/2004, de 22 de Julho e que não confere ao particular outorgante a qualidade de agente administrativo e rege-se pelo Código de Trabalho com as especificidades constantes de diploma especial sobre contrato de trabalho na Administração Pública. Este tipo de contrato poderá ter ou não termo resolutivo e neste caso só em certas situações o termo poderá ser incerto. Constituída a relação jurídica de emprego público, ela pode, obviamente, sofrer alterações ou extinguir-se. A relação jurídica de emprego constituída por nomeação pode modificar-se pelas seguintes vias: nomeação em substituição; nomeação em comissão de serviço extraordinária; transferência; permuta; requisição; destacamento. Sobre esta matéria, veja-se o disposto nos artigos 22º a 27º do Decreto - Lei nº 427/89, com as alterações introduzidas pelos já citados diploma legais. No que à extinção da relação jurídica de emprego concerne, há que distinguir entre causas aplicáveis só a funcionários (exoneração), causas aplicáveis a funcionários e agentes (morte, aplicação de pena disciplinar expulsiva, desligação do serviço para efeito de aposentação e mútuo acordo entre o interessado e a Administração) e causas específicas dos contratados (denúncia de qualquer das partes e rescisão pelo contratado). As normas reguladoras destas causas estão previstas nos artigos 28º a 30º do Decreto – Lei n.º 427/89. 1 - Efectuadas pelo Decreto - Lei n.º 407/91 de 17 de Outubro, pela Lei n.º 19/92, de 13 de Agosto e pelos Decreto - Leis n.º s 175/95, de 21 de Julho, 102/96, de 31 de Julho, e 218/98, de 17 de Julho. 90 Corolários do princípio da exclusividade de funções, a que aludimos supra, são as normas que impedem ou condicionam a acumulação, quer de funções ou cargos públicos, quer destes com actividades privadas, contidas nos artigos 31º a 32º do Decreto – Lei nº 427/89 e desenvolvidas no Decreto - Lei n.º 413/93, de 23 de Novembro, cujo escopo foi o reforço das garantias de isenção da Administração Pública. Neste ponto, há que ter em atenção, ainda, o seguinte: o princípio da exclusividade do serviço público tem relevância constitucional, encontrando-se previsto nos nºs. 4 e 5 do artigo 269º da Lei Fundamental; por vezes, leis especiais prevêem outros casos de incompatibilidades, como é o caso das proibições de exercício de certas actividades por parte dos funcionários e agentes da Direcção - Geral dos Impostos, previstas no artigo 32º do Decreto - Lei n.º 363/78, de 28 de Novembro. 4.3.2. Recrutamento e selecção Como regra, exige-se o concurso, quer para o ingresso na função pública (n.º 1 do artigo 26º do Decreto - Lei n.º 184/89), quer para o acesso dentro de cada carreira (n.º 1 do artigo 22º do mesmo diploma), isto é, para a promoção à categoria seguinte dentro de uma dada carreira. Este diploma prevê, todavia, as seguintes duas excepções: o acesso nas chamadas carreiras horizontais, o qual se efectua mediante progressão, isto é, através de mudança de escalão e não carece de concurso; o recrutamento excepcional previsto no seu artigo 28º, relativamente ao qual, segundo se crê, poucas vezes terá sido usado nestes cerca de 15 anos de vigência. O diploma que contém o regime geral de recrutamento e selecção de pessoal para a Administração Pública é o Decreto – Lei n.º 204/98, de 11 de Julho. Exceptuam-se do âmbito de aplicação deste diploma, nos termos do seu artigo 3º os regimes de recrutamento e selecção do pessoal dos corpos especiais e das carreiras de regime especial. Os princípios e garantias (artigo 5º) a que devem obedecer os concursos são: Princípios de liberdade de candidatura; Igualdade de condições e de oportunidades para todos os candidatos; Garantias de: Neutralidade da composição do júri; Divulgação atempada dos métodos de selecção a utilizar, do programa das provas de conhecimentos e do sistema de classificação final; Aplicação de métodos e critérios objectivos de avaliação; Direito de recurso. 4.3.3. Classificação dos concursos Os concursos podem, quanto à origem, ser classificados em externos ou internos e, quanto à natureza das vagas, de ingresso ou acesso. 91 Concursos externos são os abertos a todos os indivíduos; pelo contrário, denominam- se internos os concursos circunscritos a funcionários ou agentes embora sejam abertos a todos os serviços de Administração Pública, no sentido lato que já referimos, e inclui o pessoal vinculado por contrato administrativo de provimento. Um concurso será de ingresso se visa o preenchimento de lugares da categoria de base de uma dada carreira e de acesso desde que se destine a preencher lugares intermédios ou do topo de uma carreira. Os concursos internos de acesso podem ainda subdividir-se em: concurso interno de acesso geral - se for aberto a todos os funcionários e agentes, independentemente do serviço ou organismo a que pertençam; concurso interno de acesso limitado - se apenas se puderem habilitar os funcionários ou agentes pertencentes ao serviço ou quadro único para o qual é aberto o concurso; concurso interno de acesso misto - quando se prevejam duas quotas distintas, destinadas, uma, aos funcionários e agentes do serviço e, a outra, aos funcionários e agentes de outros serviços ou organismos. As condições em que é possível optar entre a abertura de um concurso interno de acesso geral ou limitado vêm previstas no artigo 8º. Quando se pretenda abrir concurso de acesso para lugares de carreiras verticais com dotação global e a totalidade dos lugares do respectivo quadro se encontre preenchida, só é possível usar a modalidade de concurso interno de acesso limitado, por força do estatuído no n.º 5 do artigo 8º. 4.3.4. Objectivos dos concursos Os concursos podem visar: o preenchimento de todos ou alguns dos lugares vagos existentes à data da sua abertura; o preenchimento dos lugares vagos existentes e dos que vierem a vagar até ao termo do seu prazo de validade; o preenchimento dos lugares vagos existentes e dos que vierem a vagar até um número limite fixado no aviso de abertura, desde que este número se verifique até ao termo do seu prazo de validade; a constituição de reservas de recrutamento. O prazo de validade dos concursos pode ser fixado pela entidade competente para autorizar a sua abertura entre um mínimo de três meses e um máximo de um ano, contado da data de publicação da lista de classificação final. Mas o concurso aberto apenas para o preenchimento de vagas existentes caduca logo que a última destas seja preenchida. As regras de composição e funcionamento do júri dos concursos vêm previstas nos artigos 12º a 17º, sendo de realçar as seguintes, pela sua importância: a obrigatoriedade de serem lavradas actas das reuniões do júri, com o fundamento das deliberações tomadas; o direito de acesso dos interessados às actas e aos documentos em que assentam as deliberações do júri, efectivado mediante a entrega, no prazo de três dias úteis, de certidões ou reproduções autenticadas das actas, sempre que os interessados o requeiram. Quanto aos métodos de selecção possíveis, estes são a avaliação curricular e as provas de conhecimentos, os quais podem ser utilizados isolada ou conjuntamente e ter carácter eliminatório. 92 Com carácter complementar, podem ainda ser utilizados a entrevista profissional de selecção, que não tem carácter eliminatório, o exame psicológico de selecção, que pode ter ou não esse carácter e o exame médico de selecção, que tem sempre carácter eliminatório. As provas de conhecimentos obedecem a um programa previamente aprovado e dado a conhecer aos interessados e são obrigatórias nos concursos de ingresso.A avaliação curricular tem, como factores obrigatórios de apreciação, nos termos do n.º 2 do artigo 22º: a habilitação académica de base; a formação profissional; a experiência profissional. No que concerne à classificação de serviço, a sua consideração só é obrigatória nos concursos internos de acesso limitado. Os resultados obtidos na aplicação dos métodos de selecção são classificados numa escala de 0 a 20 valores, com as seguintes excepções: nos exames psicológicos é atribuída a classificação de Favorável preferencialmente (20 valores); Bastante Favorável (16 valores); Favorável (12 valores); Favorável com Reservas (8 valores) e Não Favorável (4 valores); no exame médico distinguem-se apenas os Aptos dos Não Aptos. 4.3.5. Procedimentos sobre concursos O procedimento do concurso vem regulado no Capítulo III - artigos 27º a 42º - do Decreto - Lei n.º 204/98 e inicia-se com a publicação do aviso de abertura, nos termos e com os requisitos estabelecidos nos artigos 27º e 28º.. Aos candidatos são exigidos requisitos gerais e especiais de admissão, os quais têm de estar preenchidos até ao termo do prazo para apresentação das candidaturas. A candidatura ao concurso efectua-se mediante a apresentação do requerimento e demais documentos exigidos no aviso de abertura do concurso, dentro do prazo no mesmo fixado, nos seguintes termos: entre 10 e 20 dias úteis, para concursos externos; entre 10 e 15 dias úteis para os concursos internos gerais e mistos; entre 5 e 7 dias úteis para os concursos internos de acesso limitado. Verificado, pelo júri, se os candidatos preenchem os requisitos de admissão a concurso, segue-se a audiência prévia dos candidatos que devam ser excluídos, aos quais é reconhecido o direito de participação nos termos e condições previstos no artigo 34º, sendo supletivamente aplicável o regime previsto nos artigos 100º a 105º do Código do Procedimento Administrativo, por força do disposto no artigo 48º do Decreto - Lei n.º 204/98. Findo o prazo para o exercício desse direito de participação, caso se mantenha a decisão de exclusão, os candidatos nessas condições são todos notificados, sendo na notificação indicado o prazo de interposição de recurso hierárquico (oito dias úteis, de acordo com o preceituado no n.º 1 do artigo 43º) e o órgão competente para a sua apreciação (o dirigente máximo do serviço ou, se este for membro do júri, o competente membro do Governo). 93 Os candidatos admitidos são convocados para a realização dos métodos de selecção nos termos do artigo 35º. Aplicadas as diversas fases ou métodos de selecção, de acordo com os critérios fixados nos artigos 36º e 37º, o júri elabora a lista de classificação final, a qual está sujeita a audiência prévia dos interessados, ao abrigo do disposto no artigo 38º e, supletivamente, nos artigos 100º a 105º do CPA, sendo, após o exercício deste direito, apreciadas as alegações oferecidas e elaborada a lista definitiva de classificação final (ou listas de classificações finais, no caso de o concurso ser misto), posteriormente homologada (s) pela entidade competente (ver artigo 39º) e publicada (s) nos termos do artigo 40º. Desta homologação cabe recurso hierárquico com efeito suspensivo para o membro do Governo competente, a interpor no prazo de dez dias úteis, contados nos termos do artigo 44º. O prazo de decisão é de 15 dias úteis, contados a partir da data da remessa do processo pelo órgão recorrido ao órgão competente para tal decisão, considerando-se o mesmo tacitamente indeferido, com cessação do efeito suspensivo, se naquele prazo não for tomada qualquer posição sobre o recurso. Com a nomeação dos candidatos aprovados, nos termos dos artigos 41º a 42º, conclui- se o procedimento de concurso. Por estarem relacionados com esta matéria, é importante atender ainda aos diplomas excepcionais que, reconhecendo a existência de situações laborais irregulares na Administração Pública, têm vindo desde há alguns anos a prever medidas para a regularização de tais situações. Destes, salientem-se os mais recentes: Decreto - Lei n.º 427/89, de 7 de Dezembro (artigos 38º e 39º, com a redacção dada pelo Decreto - Lei n.º 407/91, de 17 de Outubro); Decreto - Lei n.º 81 - A/96, de 21 de Junho; Lei n.º 76/97, de 24 de Junho; Decreto - Lei n.º 195/97, de 31 de Julho; Decreto - Lei n.º 256/98, de 14 de Agosto. Por último, cabe referir, nesta sede, o Decreto - Lei n.º 175/98, de 2 de Julho, que veio permitir e regular a mobilidade entre funcionários da administração local e da administração central. 4.3.6. Carreiras Em Suplemento ao Diário da República, 1ª Série A n.º 291, de 18 de Dezembro de 1998, foi publicado o Decreto - Lei n.º 404 - A/98 que, no uso da autorização legislativa conceda pela Lei n.º 77/98, de 19 de Novembro, veio aprovar o regime geral de estruturação de carreiras da Administração Pública. Este diploma veio a ser alterado pela Lei n.º 44/99, de 11 de Junho, e republicado na íntegra em Anexo a esta Lei. O diploma contém as regras sobre o ingresso, acesso e progressão nas carreiras e categorias de regime geral, o que significa que, entre outras, não estão aqui previstas 94 as carreiras médicas, de enfermagem e docentes, quer do ensino básico e secundário, quer do ensino superior, bem como as do pessoal de informática ou as próprias de alguns serviços e organismos. Quais são, então, as carreiras e categorias às quais se aplica este regime? São as seguintes: carreira técnica superior (para indivíduos habilitados com licenciatura em área adequada ao conteúdo funcional dos lugares a prover); carreira técnica (para indivíduos habilitados com curso superior adequado que não confere o grau de licenciatura); carreira técnico - profissional (para indivíduos habilitados com cursos tecnológicos profissionais ou artísticos - ver alínea d) do n.º 1 do art. 6.º); categoria de chefe de secção; carreira de tesoureiro; carreira de assistente administrativo (para indivíduos habilitados com o 11.º ano de escolaridade ou equivalente); carreira de pessoal auxiliar (motoristas, fiscais de obras, telefonistas, operadores de reprografia, guardas - nocturnos, serventes e auxiliares de limpeza); categoria de encarregado de pessoal auxiliar; carreiras de pessoal operário (veja-se ainda o Decreto-lei n.º 518/99, de 10 de Dezembro, que veio criar e regular a carreira de operário altamente especializado) Neste domínio, convém ainda referir os seguintes aspectos: Prevê-se que os técnicos especialistas principais se possam candidatar a concursos para técnico superior principal, nos termos previstos no n.º 2 do artigo 4.º ; Alarga-se a área de recrutamento para a categoria de técnico principal aos coordenadores da carreira técnico - profissional e aos chefes de secção, nos termos do n.º 2 do artigo 5º e para a categoria de técnico de 1.ª classe aos técnicos profissionais especialistas principais e aos chefes de secção, nos termos do n.º 3 do mesmo preceito; Alarga-se a área de recrutamento para a categoria de técnico profissional de 1.ª classe aos operários principais da carreira de operário qualificado que preencham os requisitos fixados no n.º 2 do artigo 6.º; São fixadas as áreas de recrutamento para chefe de secção (de entre assistentes administrativos especialistas e tesoureiros com classificação de serviço não inferior a Bom), para tesoureiro (de entre assistentes administrativos especialistas com os requisitos enunciados no artigo 9.º), e para encarregado de pessoal auxiliar (de entre auxiliares administrativos posicionados no escalão remuneratório referido no n.º 1 do artigo 11.º); São fixadas escalas salariais para as carreiras de regime geral no Anexo a este diploma, bem como regras de transição, nos artigos 18.º a 23.º; São introduzidas alterações automáticas aos quadros de pessoal nos termos do artigo 29.º. Este diploma foi adaptado à administração local pelo Decreto -Lei n.º 412 - A/98 de 30 de Dezembro, publicado em suplemento ao Diário da República deste dia, o qual só contempla expressamente os aspectos que não sejam coincidentes com a regulamentação do regime geral, constante do Decreto - Lei n.º 404 - A/98. Pela sua importância nos dias de hoje, convém igualmente ter presente as carreiras e categorias específicas do pessoal de informática da Administração Pública, as quais constam de um estatuto especial: o Decreto – Lei n. º 90/2000, de 26 de Março, complementado pela Portaria n.º 350/2002, de 3 de Abril. 95 4.3.7. Remunerações e outros abonos No desenvolvimento do regime jurídico instituído pelo Decreto - Lei n.º 184/89, de 2 de Junho, em 16 de Outubro de 1989, é publicado o Decreto - Lei n.º 353 - A/89, que vem definir os princípios informadores em matéria salarial, bem como a estrutura das remunerações dos funcionários e agentes da Administração Pública central, local e regional autónoma, incluindo os institutos públicos nas modalidades de serviços personalizados do Estado e de fundos públicos. Já no Decreto – Lei n.º 184/89 se haviam fixado alguns parâmetros, dos quais se destacam os mais importantes: a) a determinação dos elementos constitutivos do Novo Sistema Retributivo (NSR): Remuneração base (definida no artigo 17.º); prestações sociais e subsídio de refeição (definidos no artigo 18.º) e suplementos (constantes no artigo 19.º), aliada à proibição de atribuição de qualquer outro tipo de abonos (artigo 15.º); b) a previsão de escalas indiciárias diferenciadas para as carreiras de regime geral, para as de regime especial, para os órgãos dirigentes e para os cargos especiais, com expressa delimitação do âmbito deste grupo (artigo 16.º); c) a extinção das diuturnidades e de todas as remunerações não previstas ou enquadráveis no artigo 15.º (artigos 37.º e 38.º). Por seu turno, o Decreto - Lei n.º 353 - A/89 veio desenvolver a regulamentação da realidade que ficou conhecida como o NSR e da qual importa ressaltar o seguinte: - A remuneração base mensal correspondente a cada categoria, quer do regime geral, quer do regime especial passou a constar de uma escala própria, em que a cada escalão corresponde um índice, sendo que o índice mais baixo é o 100; este índice é actualizado anualmente por Portaria, sendo os restantes alterados proporcionalmente e os das escalas indiciárias especiais actualizados em igual percentagem (artigo 4.º); - Distingue-se, em continuidade com o regime anterior, a remuneração base em remuneração de categoria (5/6 da remuneração base acrescida dos suplementos que se baseiem em incentivos à fixação em zonas de periferia e em transferência para localidade diversa que confira direito a subsídio de residência ou outro) e remuneração de exercício (1/6 da remuneração base acrescida dos mesmos suplementos) - artigo 5.º; - São especificadas as prestações sociais, nos artigos 8.º e 9.º, e os suplementos, nos artigos 11.º e 12º; - Fixam-se as regras a aplicar nos casos de promoção (artigo 17.º), inter- comunicabilidade horizontal ou vertical ou de mobilidade entre carreiras (artigo 18.º) e de progressão (artigos 19.º e 20.º); - São definidas, nos anexos 1 a 10, diversas escalas salariais, respectivamente, para: a) Anexo 1 - Carreiras e Categorias do Regime Geral; b) Anexos 2 e 3 - Carreiras e Categorias da Administração Local; c) Anexo 4 - Carreiras do pessoal dos serviços gerais dos estabelecimentos e serviços de saúde; 96 d) Anexo 5 - Carreiras do pessoal auxiliar dos serviços estabelecimentos da segurança social; e) Anexo 6 - Carreiras do pessoal não docente dos estabelecimentos de ensino não superior; f) Anexo 7 - Certas carreiras de regime especial; g) Anexo 8 - Pessoal dirigente; h) Anexo 9 - Carreira diplomática; i) Anexo 10 - Carreira de inspecção de alto nível; - Permite-se, no 1º do artigo 29.º, que constem de diplomas autónomos as estruturas remuneratórias das carreiras de regime especial não previstas neste diploma, designadamente as de informática, de técnico e de técnico superior da aviação civil, dos oficiais de justiça, da administração tributária (Decretos - Lei n.º 187/90, de 7 de Junho e 557/99, de Dezembro), do tesouro, da contabilidade pública e do crédito público e, no n.º 2 , um regime especial para a Direcção - Geral das Alfândegas; - Estabelecem-se regras de transição para o NSR (nos artigos 30.º a 39.º, com especial destaque para o artigo 38.º, que veio estabelecer um regime de progressivo descongelamento de escalões e o artigo 39.º que ressalvou os concursos pendentes). Importante é ainda referir que o Decreto - Lei n.º 353 - A/89 tem vindo a ser objecto de sucessivas alterações, levadas a cabo pelos Decretos - Leis nºs. 393/90, de 11 de Dezembro, 204/91, de 7 de Junho, 420/91, de 29 de Outubro, 109/96, de 1 de Agosto, 404 - A/98, de 18 de Dezembro, 412-A/98, de 30 de Dezembro, 498/98, de 19 de Novembro e 70-A/2000, de 5 de Maio que foi alvo de rectificação publicada no DR, 1.ª Série, n.º 299, de 30 de Dezembro de 1989 (Suplemento). Pela sua relevância, em sede retributiva, gostaríamos também de chamar a atenção para os Decretos – Leis n.º 4/89, de 6 de Janeiro, e 276/89, de 11 de Setembro, que regulamentam o abono para falhas e para o Decreto - Lei n.º 53- A/98, de 11 de Março, que veio disciplinar as condições de atribuição dos suplementos de risco, penosidade e insalubridade. 4.3.8. Horário e duração do trabalho As regras e princípios gerais sobre duração e horário de trabalho na Administração Pública encontram-se hoje vertidas no Decreto - Lei n.º 259/98, de 18 de Agosto, completado pelos Decretos - Leis nºs 324/99 e 325/99, de 18 de Agosto, dos quais o primeiro institui um regime de trabalho a tempo parcial para o pessoal com mais de 55 anos de idade e o segundo introduz a semana de trabalho de quatro dias. O âmbito de aplicação destes diplomas é limitado aos serviços integrados na Administração directa do Estado e aos institutos públicos que tenham a natureza de serviços personalizados ou de fundos públicos. Distingue-se entre período de funcionamento e de atendimento, sendo que este último pode ser igual ou inferior ao primeiro e tem tendencialmente a duração mínima de sete horas diárias (ver artigos 2.º e 3.º do Decreto - Lei n.º 259/98), permitindo-se nos artigos 5.º e 6.º, uma certa flexibilidade na adopção dos regimes concretos de prestação de trabalho. A duração semanal do trabalho é de trinta e cinco horas, sem prejuízo da existência de regimes de duração semanal inferior, nos termos do n.º 2 do artigo 7.º do D-L n.º 97 259/98, repartida por cinco dias, com um período normal de trabalho diário de sete horas. Como regimes especiais de duração de trabalho, prevêem-se os seguintes: - Para os serviços de funcionamento especial, nos termos definidos no artigo 10.º do D-L n.º 259/98; - Regime de trabalho a meio tempo nos termos e condições fixados no artigo 11.º do DL n.º 259/98; - A possibilidade de fixação de outros regimes a tempo parcial (n.º 1 do art.º 12.º) de que são exemplo o regime especial de trabalho a tempo parcial, igual a metade da duração semanal ou mensal do trabalho, para os funcionários de nomeação definitiva com mais de 55 anos de idade nos termos e condições previstos no D-L n.º 324/99, e a semana de quatro dias regulada pelo D-L n.º 325/99; - A possibilidade de fixação de regimes de duração semanal inferior para a actividade sujeita a risco, penosidade ou insalubridade (n.º 2 do artigo 12.º). Define-se, no artigo 13.º, o que é horário de trabalho, estabelecendo-se igualmente a regra da não prestação de mais de cinco horas de trabalho consecutivo, a existência de um intervalo de descanso de duração compreendida entre uma e duas horas, ou de mais do que um, para os funcionários e agentes portadores de deficiência e um horário especial para o pessoal de limpeza. Nos artigos 15.º a 22.º prevêem-se e regulam-seos diversos tipos de horários dos quais os serviços podem adoptar um ou mais do que um, simultaneamente. São eles: a) - Horários flexíveis - que permitem aos trabalhadores gerir os seus tempos de trabalho, escolhendo as suas horas de entrada e saída, de acordo com as regras enunciadas nos nºs. 2 a 6 do artigo 16.º; b) - Horário rígido: c) - Para os serviços de funcionamento comum, que encerram aos sábados - de 2.ª a 6.ª feira, das 9 horas às 12 horas e 30 minutos (período da manhã) e das 14 horas às 17 horas e 30 minutos (período da tarde); d) - Para os serviços que funcionam ao sábado de manhã - de 2.ª a 6ª feira, das 9 horas e 30 minutos às 12 horas e 30 minutos e das 14 horas às 17 horas e trinta minutos e, aos sábados, das 9 horas e 30 minutos às 12 horas. e) - Horários desfasados - são os que, mantendo inalterado o período normal de trabalho diário, permitem estabelecer, serviço a serviço ou para determinado grupo ou grupos de pessoal, sem possibilidade de opção, horas fixas de entrada e saída, diferentes das comuns; f) - Jornada contínua - consiste na prestação ininterrupta de trabalho , com excepção de um período de descanso de duração nunca superior a 30 minutos que é, para todos os efeitos, considerado tempo de trabalho; deve ocupar predominantemente um dos períodos do dia e determinar uma redução do período normal de trabalho diário nunca superior a uma hora; pode ser adoptada esta modalidade de horário nos casos previstos no artigo 22.º (trabalhadores - estudantes e funcionários e agentes com descendentes ou afins na linha recta descendente, adoptandos ou adoptados a cargo, com idade inferior a 12 anos ou portadores de deficiência) ou em casos excepcionais devidamente fundamentados; 98 g) - Trabalho por turnos, que é aquele em que, por necessidade dos serviços, há lugar à prestação de trabalho em, pelo menos dois períodos diários e sucessivos, cada um de duração não inferior à duração média do trabalho - está sujeito às regras enunciadas no n.º 2 do artigo 20.º e confere direito a um subsídio de turno desde que um dos turnos seja total ou parcialmente coincidente com o período nocturno, nos termos previstos nos nºs. 2 a 10 do artigo 21.º. Prevêem-se, ainda, no Decreto - Lei n.º 259/98, os casos de não sujeição a horário de trabalho (artigo 23.º) e de isenção de horário de trabalho (artigo 24.º), para o pessoal dirigente, chefes de repartição e de secção e pessoal de categorias legalmente equiparadas ou cujas funções não confiram direito a trabalho extraordinário. O diploma contém ainda, nos artigos 25.º a 35.º, regras sobre a prestação e retribuição do trabalho extraordinário, nocturno e prestado em dias de descanso semanal, de descanso complementar ou em feriados, bem como regras transitórias, das quais destacamos as do artigo 35.º, para o pessoal dos grupos operários e auxiliar. 4.3.9. Férias, faltas e licenças O regime das férias, faltas e licenças dos funcionários e agentes da Administração Central, Regional e Local, incluindo os institutos públicos que revistam a natureza de serviços personalizados ou de fundos públicos, consta do Decreto - Lei n.º 100/99, de 31 de Março, alterado pela Lei n.º 117/99, de 11 de Agosto, pelo Decreto Lei n.º 503/99, de 20 de Novembro, pelo Decreto Lei n.º 70-A/2000, de 5 de Maio e pelo Decreto-Lei n.º 157/2001 de 11 de Maio. Nesta sede, vigoram ainda outros diplomas que iremos referir quando abordarmos os aspectos a que se aplicam. A) FÉRIAS O direito a férias é um direito com relevância constitucional, uma vez que se encontra previsto na alínea d) do n.1 do artigo 59.º da Constituição da República Portuguesa, sendo irrenunciável e imprescritível, nos termos do n.º 7 do artigo 2.º do Decreto - Lei n.º 100/99. O número de dias a que cada funcionário ou agente tem direito é diferenciado consoante a idade e vai desde um mínimo de 25 dias úteis, até se completar 39 anos, 26 desde esse limite e até aos 49, 27 entre os 49 e os 59 e 28 a partir dos 59 anos de idade, considerando-se, para este efeito, a idade que o interessado completar até 31 de Dezembro do ano em que as férias se vencem (n.ºs 1 e 2 do artigo 2.º). No ano civil de ingresso, só há, todavia, direito a dois dias úteis de férias por cada um dos meses completos de serviço até 31 de Dezembro desse ano e depois de decorridos 60 dias de prestação efectiva de trabalho (artigo 3.º, com a redacção dada pela Lei n.º 117/99). Os dias de férias podem ser gozados em meios dias, no máximo de quatro meios dias, seguidos ou interpolados (n.º 7 do artigo 2.º). O direito a férias adquire-se com a constituição da relação jurídica de emprego público, vence-se no dia 1 de Janeiro de cada ano e reporta-se, em regra, ao serviço prestado no ano civil anterior (n.ºs 4 e 6 do artigo 2.º). 99 Corolário da finalidade de assegurar os objectivos deste direito, que estão fixados no n.º 5 do artigo 2.º, é a proibição, vertida no n.º 9 deste preceito, de exercício de qualquer actividade remunerada durante as férias, salvo se a mesma já viesse sendo legalmente exercida. O direito a férias confere direito ao pagamento do respectivo subsídio, nos termos do artigo 4.º. As férias devem ser gozadas, em princípio, no decurso do ano civil em que se vencem (artigo 8.º) e obedecem às regras sobre marcação contidas nos artigos 5.º e 6.º. Excepcionalmente, permite-se que as férias respeitantes a determinado ano possam ser gozadas no ano civil imediato, nos termos estabelecidos no artigo 9.º. Aos funcionários e agentes, que gozem a totalidade das férias entre 1 de Janeiro e 31 de Maio e/ou de 1 de Outubro a 31 de Dezembro, é concedido um período complementar de cinco dias úteis de férias, de acordo com o estipulado no artigo 7.º. As férias interrompem-se nos casos de maternidade, paternidade, adopção, doença do próprio ou de familiares e, ainda, por razões imperiosas e imprevistas decorrentes do funcionamento dos serviços, nos termos do artigo 10.º. Neste domínio, aplica-se igualmente o Decreto - Lei n.º 194/96, de 16 de Outubro, diploma que veio regulamentar o regime constante da Lei n.º 4/84, de 5 de Abril, bem como os diplomas que a vieram alterar (regime jurídico da protecção da maternidade e paternidade). Actualmente, encontra-se esta lei republicada em anexo ao Decreto-Lei n.º 70/2000, de 4 de Maio. As únicas faltas que descontam nas férias são as previstas nos artigos 66.º e 67.º do Decreto - Lei n.º 100/99 (faltas por conta das férias) e as faltas injustificadas. Já as licenças têm repercussão nas férias nos termos previstos a propósito de cada um dos tipos de licença (ver artigos 74.º e seguintes deste diploma). Neste capítulo, é ainda regulado o regime do gozo de férias nos seguintes casos especiais: Cumprimento de serviço militar (artigo 14.º); Comissão de serviço e requisição em entidades sujeitas a regime diferente do da função pública (artigo 15.º); Cessação definitiva de funções (artigo 16.º). B) FALTAS Define-se o conceito de falta, distinguindo desta a ausência por exercício do direito à greve, a qual se rege pelo disposto na Lei n.º 65/77, de 26 de Agosto (Lei da greve), alterada pela Lei n.º 30/92, de 20 de Outubro, e considera-se justificada, embora dê sempre lugar a perda das remunerações correspondentes aos períodos de ausência. As faltas podem ser justificadas, quando observem o condicionalismo legalmente exigido e sejam reconduzíveis aos motivos tipificados taxativamente no n.º 1 do artigo 21.º, ou injustificadas, quando sejam dadas por outros motivos, quando não respeitem o condicionalismo legalmente fixado e, ainda, quando o motivo invocado seja falso. Do elenco taxativo do artigo acabado de citar constam as seguintes faltas: 100 - Por casamento (ver também o artigo 22.º) - 11 dias úteis equiparados a serviço efectivo mas determinando perda do subsídio de refeição; - Por maternidade, paternidade e adopção (artigos 23.º e 26.º, respectivamente,remetendo-se para os diplomas que contêm o regime jurídico desta matéria: Lei nºs 4/84, de 5 de Abril, alterada pelas Leis n.ºs.17/95, 102/97, de 5 de Abril, e 18/98, de 28 de Abril); embora não expressamente referido, é importante não esquecer que, nesta sede, é igualmente aplicável o Decreto - Lei n.º 194/96, já anteriormente citado - estas faltas são consideradas, para todos os efeitos legais, como prestação efectiva de trabalho, mesmo para efeitos de atribuição do subsídio de refeição; - Por nascimento (artigo 24.º) – trata-se do direito conferido ao pai, de faltar dois dias úteis, aquando do nascimento de um filho - são equiparadas a serviço efectivo mas implicam a perda do subsídio de refeição; - Para consultas pré-natais e amamentação - artigo 25.º, que remete para os diplomas reguladores da maternidade e da paternidade - não implicam perda de remuneração nem de quaisquer regalias; - Por falecimento de familiar (artigo 27.º e 28.º) - até cinco dias consecutivos por falecimento de cônjuge não separado de pessoas e bens, de pessoa com quem o funcionário ou agente viva há mais de dois anos em condições análogas à do cônjuge ou de parente afim no 1.º grau de linha recta e dois dias no caso de falecimento de parente ou afim em qualquer outro grau da linha recta e no 2.º e 3.º graus da linha colateral - são consideradas serviço efectivo mas determinam a perda do subsídio de refeição; - Por doença (artigos 29.º a 48.º) - implicam sempre a perda do subsídio de refeição e determinam, exceptuados os casos de internamento hospitalar ou de faltas dadas por deficientes quando decorram da deficiência, a perda do vencimento de exercício nos primeiros 30 dias de ausência, seguidos ou interpolados em cada ano civil, bem como o desconto na antiguidade, para efeitos de carreira, quando ultrapassem 30 dias seguidos ou interpolados em cada ano civil; o vencimento de exercício perdido pode ser recuperado nos termos do n.º 6 do artigo 29.º , com a redacção dada pela Lei n.º 117/99, de 11/98. Para além das exigências em sede de comprovação da doença, contidas nos artigos 30.º a 32.º há a possibilidade de verificação domiciliária da doença, de acordo com o preceituado nos artigos 33.º a 35.º. - Por doença prolongada (artigo 49.º) – a lista de doenças desta natureza consta de despacho conjunto dos Ministros das Finanças e da Saúde e conferem ao trabalhador o direito a faltar até ao limite de 36 meses, não descontando para efeitos de antiguidade, promoção e progressão; as faltas dadas ao abrigo da Assistência a Funcionários Civis Tuberculosos regem-se pelo disposto no Decreto - Lei n.º 48359, de 27 de Abril de 1968; quanto a este regime, há que ter em conta, todavia a revogação operada pelo art. 107.º do Decreto – Lei n.º 100/99; - Dadas por acidente em serviço ou doença profissional - não determinam desconto na antiguidade, nem perda de vencimento de exercício e do subsídio de refeição - regem- se por legislação especial (Decreto - Lei n.º 503/99, de 20 de Novembro); - Para reabilitação profissional - artigo 51.º - é a situação em que se encontram os trabalhadores que, tendo sido considerados pela junta médica da ADSE incapazes para o exercício das suas funções mas aptos para outras, requeiram a sua reconversão ou reclassificação profissional; esta situação pode ter a duração de seis meses, prorrogáveis por duas vezes, por períodos não superiores a três meses; estas faltas produzem os efeitos das faltas por doença, com excepção da perda do vencimento de exercício ou o das faltas por acidente de trabalho ou doença profissional, se for este o motivo determinante da situação; 101 - Para tratamento ambulatório, realização de consultas médicas e exames complementares de diagnóstico do funcionário ou agente (artigo 52.º) ou do seu cônjuge, descendentes ou equiparados (artigo 53.º) – têm de obedecer ao regime previsto nestes preceitos, sendo as horas utilizadas, depois de somadas, convertidas em dias completos de faltas, os quais são, para todos os efeitos legais, considerados como serviço efectivo; - Para assistência a familiares (artigo 54.º, com a redacção dada pela Lei n.º 117/99 e diplomas reguladores da maternidade e paternidade) ; - Por isolamento profiláctico (artigos 55.º a 58-º) - são equiparadas a serviço efectivo; - Ao abrigo do estatuto de trabalhador - estudante (artigo 59.º e Lei n.º 116/97, de 4 de Novembro) - não implicam perda de vencimento nem de qualquer outra regalia, considerando-se justificadas as faltas dadas para as deslocações para prestação de provas de avaliação na estrita medida que essas deslocações impliquem; - Dadas como bolseiro ou equiparado (artigo 60º e Decretos - Leis n.ºs. 220/84, de 4 de Julho, 272/88, de 3 de Agosto e 282/89, de 23 de Agosto) - há lugar a dispensa temporária, total ou parcial, do exercício das funções, sem prejuízo das regalias inerentes ao serviço efectivo, designadamente, pagamento da remuneração e contagem de tempo de serviço para todos os efeitos legais; - Por doação de sangue e socorrismo (artigos 61.º e 62.º) - não implicam a perda de quaisquer direitos ou regalias, desde que respeitadas as formalidades fixadas nestes preceitos; - Para cumprimento de obrigações (artigos 63.º e 64.º) – há que distinguir entre as faltas motivadas pelo cumprimento de obrigações legais ou por imposição de autoridade judicial, policial ou militar que não implicam a perda de qualquer direito ou regalia e as faltas dadas por motivo de prisão. No caso de prisão preventiva, as faltas determinam a perda do vencimento de exercício e do subsídio de refeição, sendo tal perda, todavia, recuperada se a prisão preventiva for revogada ou extinta e o funcionário não venha a ser condenado definitivamente. O cumprimento de pena de prisão determina a perda total do vencimento e a não contagem do tempo para qualquer efeito; - Para prestação de provas de concurso (artigo 65.º) - não implicam a perda de quaisquer direitos ou regalias; - Por conta do período de férias (artigos 66.º e 67.º) - 2 dias por mês, até ao máximo de 13 dias por ano, podendo ser utilizadas em períodos de meios dias e sendo dada aos interessados a opção de relevar essas faltas no período de férias do próprio ano ou no do ano seguinte; obrigam a participação ao superior hierárquico da intenção de faltar na véspera ou, se tal não for possível, no próprio dia, podendo aquele recusar, a autorização, fundamentando a sua decisão com base no interesse do serviço; - Com perda de vencimento (artigo 68.º) - foram concebidas como uma situação excepcional que carece de autorização do respectivo dirigente, a conceder em termos idênticos à prevista para as faltas por conta do período de férias; não podem ultrapassar um dia por mês e seis dias em cada ano civil e descontam para todos os efeitos legais; - Para deslocação para a periferia (artigo 69.º e Decreto - Lei n.º 45/84, de 3 de Fevereiro) - não determinam a perda de quaisquer direitos ou regalias; - Por motivos não imputáveis ao funcionário ou agente (artigo 70.º) - são consideradas como tal as faltas determinadas por facto qualificado como calamidade pública ou por motivos não previstos neste diploma, desde que impossibilitem o cumprimento do dever de assiduidade ou o dificultem em termos que afastem a sua exigibilidade - são equiparadas a serviço efectivo. 102 C) LICENÇAS Definem-se as licenças como ausências autorizadas e prolongadas do serviço. O diploma prevê os seguintes tipos de licenças: - Licença sem vencimento até 90 dias (artigos 74.º e 75.º) - pode ser concedida a funcionários e agentes e gozada seguida ou interpoladamente, implicando a perda total das remunerações e o desconto na antiguidade para efeitos de carreira, aposentação e sobrevivência; tem, ainda, reflexos nas férias, nos termos referidos nos nºs 2 a 4 do artigo 75.º; - Licença sem vencimento por um ano, renovável até ao máximo de três anos (artigos 76.º e 77.º) - só pode ser concedidaa funcionários e com fundamento em circunstâncias de interesse público, implicando a perda total das remunerações e o desconto na antiguidade para efeitos de carreira, aposentação e sobrevivência; é permitida a contagem desse tempo para efeitos de aposentação, sobrevivência e fruição dos benefícios da ADSE se o interessado mantiver os correspondentes descontos; os reflexos nas férias são os referidos nos n.ºs 3 a 6 do artigo 77.º; - Licença sem vencimento de longa duração (artigos 78.º a 83.º) - só pode ser concedida a funcionários com provimento definitivo e um mínimo de cinco anos de serviço efectivo; não pode ter duração superior a um ano, determina abertura de vaga, suspensão do vínculo com a Administração, perda total da remuneração e desconto na antiguidade para efeitos de carreira, aposentação e sobrevivência, embora seja possível manter a contagem de tempo para os dois últimos efeitos, desde que tal seja requerido, mediante o pagamento das respectivas quotas; os reflexos nas férias são os regulados no artigo 81.º; o regresso ao serviço só é possível após um ano e está sujeito aos condicionalismos fixados nos artigos 82.º e 83.º; - Licença sem vencimento para acompanhamento do cônjuge colocado no estrangeiro (artigo 84.º a 88.º) - aplica-se a funcionários ou agentes quando o respectivo cônjuge, seja qual for a natureza da sua relação de trabalho, for colocado no estrangeiro por período superior a 90 dias ou indeterminado, em missões de defesa ou representação de interesses do país ou em organizações internacionais de que Portugal seja membro; tem a mesma duração que a da colocação do cônjuge, embora possa ter o seu início em momento posterior e o regresso possa ser antecipado, determina a abertura de vaga, e não conta para quaisquer efeitos, excepto para aposentação, sobrevivência e fruição dos benefícios da ADSE, se forem mantidos os correspondentes descontos; o regresso e os reflexos nas férias vêm regulados nos artigos 85.º, n.º 3, 86.º e 88.º; - Licença sem vencimento para exercício de funções em organismos internacionais (artigos 89.º a 92.º), só pode ser concedida a funcionários ou agentes que tenham o contrato administrativo como forma normal de provimento e reveste duas modalidades: licença para exercício de funções com carácter precário ou experimental e licença para o exercício de funções como funcionário ou agente do organismo internacional. 4.3.10. Conclusão Em síntese, fuga para o direito privado, a todos os níveis, como acontece com a possibilidade do sector não económico poder celebrar contratos de trabalho e contratos de prestação de serviços com entidades especializadas, singulares e 103 colectivas1 e o facto de a determinadas relações de emprego do sector público não económico, mesmo quando está em causa o preenchimento de lugares permanentes, ser aplicado já hoje o Código de Trabalho, tal como acontece, entre outros, com o IEFP, o INE, a ANACOM, são evidências de que algo está a mudar rapidamente no panorama da função pública. A lei n.º 23/2004, de 22 de Julho constitui a primeira sistematização da introdução do contrato de trabalho na Administração Pública em que as pessoas colectivas públicas são no art. 3.º equiparadas a empresas para efeitos de aplicação das regras do Código de Trabalho. Os trabalhadores estão obrigados a deveres especiais, nomeadamente, de prossecução do interesse público e de actuação com imparcialidade e isenção perante os cidadãos. Além disso, estão tal como os funcionários e agentes sujeitos ao regime de incompatibilidades, carecendo de autorização para exercerem outra actividade. Para efeitos de aplicação aos contratos de trabalho, as convenções colectivas podem ser dos seguintes níveis: contratos colectivos nacionais, contratos colectivos sectoriais, acordos colectivos sectoriais, acordos por pessoa colectiva pública. Fica, assim, claro que, um novo contexto de implementação das políticas públicas, atento à contenção de custos, à eficiência, eficácia e economia, à gestão da qualidade, isto é, sensível à introdução de certos processos e técnicas de gestão do sector privado como forma de modernizar a administração pública, a fuga para o direito privado e a redução do âmbito da aplicação do direito administrativo e, em certos casos, até a própria reinvenção deste em certos aspectos constituem elementos essenciais para a prestação de um melhor serviço público ao cidadão. Num estudo, levado a cabo, em Inglaterra, por George Boyne2 e colegas, chegou-se à conclusão de que o modelo de gestão de recursos humanos do sector público é mais paternalista, estandardizado e colectivizado do que o modelo privado. Convém salientar que estas três características foram definidas na obra de Farnham e Horton,3 que desenvolveram um método de análise da gestão de recursos humanos, no sector público, a partir destas três variáveis básicas. O estilo paternalista tem a ver com os propósitos de proteger e promover o bem-estar dos funcionários. As práticas estandardizadas de emprego ligam-se à uniformização, não tendo em conta que há diferenças de performance e prendem-se com o facto de o modelo não admitir excepções, as quais são avaliadas em termos de precedente grave. A colectivização prende-se com o tipo de relações industriais, ou seja, com o tipo de relação entre os funcionários e os sindicatos e entre estes últimos e a administração. 1 Decreto-lei n.º 184/89, de 2 de Junho. 2 George Boyne et al. - op. Cit. p. 417. 3 D. Farnham; S. Horton - Managing People in the Public Services. London: Macmillan, 1996. 104 CAP. 5 - RECURSOS HUMANOS EM CONTEXTO INTERNACIONAL E GLOBAL A internacionalização da gestão de recursos humanos tem vindo a emergir como uma consequência natural da globalização dos negócios, das actividades produtivas e da economia. Entre os principais problemas e necessidades específicas que se colocam a este nível, destacam-se algumas incertezas, nomeadamente em: determinar o grau de normalização/estandardização das políticas de gestão de recursos humanos e as tarefas a centralizar; gerir carreiras internacionais, escolher a nacionalidade dos dirigentes das filiais; preparar a deslocação de um país para outro, escolher e gerir os quadros que se encontram fora do seu país; dar formação em línguas e culturas; identificar o perfil do gestor internacional e dos quadros que trabalham fora do seu país. Neste ponto, deve existir uma forte interligação entre a gestão de recursos humanos e a estratégia da organização, cujos assuntos de maior importância, no plano internacional, são: o recrutamento; métodos de avaliação do desempenho; gestão das carreiras; estatutos e sistemas de remuneração de quem se encontra fora do país; as revisões salariais, e as políticas de emprego. É preciso gerir as diferenças culturais. A tendência é para dar prioridade aos pontos de vista de interesse estritamente económico. Pode-se abrir uma excepção em relação ao recurso crescente a formação para quadros expatriados: as empresas oferecem cada vez mais oportunidades de formação inter cultural aos gestores que enviam para o exterior. Todavia, continuam a subestimar os factores culturais nos casos de fusões e aquisições. 5.1. MENTALIDADE OCIDENTAL E MENTALIDADE ORIENTAL Hoje é reconhecida a forte influência que as culturas nacionais exercem nas culturas organizacionais: as diferenças de programação mental entre os empregados de diferentes empresas e instituições. A cultura nacional tem um impacto profundo nas organizações, com repercussões nos negócios e nos governos. As culturas organizacionais são menos a expressão de valores dos seus membros e mais manifestações superficiais como símbolos, heróis e rituais comuns. 105 A maioria das pessoas reconhece a importância dos factores culturais no sucesso competitivo do Japão e de outros países do Extremo Oriente. As principais diferençasculturais entre as nações residem nos valores. Existem diferenças sistemáticas nos valores referentes ao poder e desigualdade, à relação entre o indivíduo e o grupo, aos papéis sociais do homem e mulher, às formas de lidar com as incertezas da vida, à atenção privilegiada face ao futuro ou ao presente e passado. ORIENTAÇÃO A CURTO PRAZO ORIENTAÇÃO A LONGO PRAZO Respeito pela tradição Adaptação da tradição Respeito pelo estatuto a qualquer custo Respeito limitado pelas obrigações sociais Pressão social para” não ser menos que o vizinho” independentemente do custo Austeridade, economia de recursos Baixa poupança, poucos fundos para investimento Elevada poupança, fundos disponíveis para investimento Resultados imediatos Perseverança face a resultados tardios Preocupação com a “face” Subordinação a um objectivo superior Preocupação por possuir a verdade Respeito pelas exigências da verdade 5.2. O PROCESSO DE AJUSTAMENTO TRANSCULTURAL: HOFSTEDE O autor usa um modelo de quatro dimensões, a saber: maior ou menor distância hierárquica; tendência para o colectivismo ou para o individualismo; tendência para a masculinidade ou feminilidade; controlo ou incerteza1. A distância hierárquica constitui um factor que mostra a relação de dependência. Nos países onde a distância hierárquica é mais baixa, a dependência dos subordinados relativamente às suas chefias é menor: trata-se mais de um interdependência entre chefe e colaborador, preferindo-se um estilo consultivo. A tendência para o colectivismo ou individualismo caracteriza as sociedades nas quais os laços entre os indivíduos são pouco firmes. Cada um deve ocupar-se de si mesmo e da sua família mais próxima. O colectivismo caracteriza as sociedades nas quais as pessoas são integradas, desde o nascimento, em grupos fortes e coesos, que as protegem para toda a vida em troca de uma lealdade inquestionável. A tendência para a masculinidade ou feminilidade reúne num factor um conjunto de questões que eram respondidas sistematicamente de forma diferente por homens e por mulheres. Assim, serão masculinas as sociedades onde os papeis são nitidamente diferenciados (o homem deve ser forte, impor-se e interessar-se pelo sucesso material, enquanto a mulher deve ser mais modesta, terna e preocupada com a qualidade de vida); são femininas aquelas sociedades onde os papeis sociais dos sexos se sobrepõem (tanto os homens como as mulheres devem ser modestos, ternos e preocupados com a qualidade de vida). 1 Geert Hofstede – Culturas Organizacionais. Lisboa: Sílabo, 1991. 106 O controlo da incerteza mede o grau de inquietude dos indivíduos face às situações desconhecidas ou incertas. Este sentimento exprime-se, entre outros, pelo estresse e a necessidade de previsibilidade: uma necessidade de regras escritas ou não. Neste factor, inclui-se a reacção provável dos indivíduos a assumirem que o que é diferente é perigoso. De acordo com estas dimensões o autor estabelece tipos de cultura comuns a conjuntos de países. Assim, por exemplo, de língua inglesa, tais como Austrália, Canadá, EUA e Reino Unido, apresentam valores elevados no individualismo, na masculinidade e baixos na incerteza e distância ao poder. Portugal surge como um país de elevada feminilidade, baixo individualismo e elevada incerteza e distância ao poder. 5.3. IMPLICAÇÕES PARA A GRH A rápida e progressiva globalização dos negócios e os seus impactos nas empresas está fora de discussão. O debate actual centra-se na forma de responder à procura cada vez mais global e integrada e, ao mesmo tempo, responder à especificidade dos mercados locais. A prosperidade actual e futura das empresas depende do desenvolvimento das pessoas que possam funcionar com sucesso num contexto global – formulação e implementação de estratégias, concepção e utilização de novas tecnologias e criação e coordenação da informação. As funções internacionais constituem poderosos meios para desenvolver os futuros líderes globais Por que razão certa empresa compete com sucesso e outras fracassam no mercado mundial? Alguns especialistas afirmam que a resposta se encontra na estratégia: os ganhadores possuem os planos certos para o jogo. Outros atribuem a causa à estrutura organizacional. Outros ainda vêem como explicação a tecnologia e inovação. Mas muitos pensam que a chave da resposta se encontra nas pessoas. São as pessoas que concebem e implementam a estratégia; as pessoas desenham e constroem estruturas organizacionais; as pessoas inventam e aplicam as tecnologias. Um estudo levado a cabo pela International Personnel Association, em 1997, apoia esta conclusão. Este estudo mostra uma relação positiva entre as capacidades organizacionais de uma empresa multinacional para desenvolver líderes e o sucesso organizacional alcançado pelas camadas inferiores da hierarquia. Um outro estudo conduzido pelo Global Leadership Institute, mostra uma relação positiva entre o nível de internacionalização dos empregados e os resultados económicos da empresa. Ambos os resultados mostram que a globalização das pessoas é a chave para a competitividade internacional e o sucesso do negócio1. Os futuros directores de recursos humanos têm de possuir experiência de gestão em diversos países. Isto significa que só as pessoas são a chave do sucesso. Em última análise, a estratégia de uma empresa é função do pensamento estratégico dos seus dirigentes. Por exemplo, se os estrategos reconhecem ou não as ameaças e oportunidades, é função da sua experiência e das suas perspectivas. A forma como 1 N. J. Adler – International Dimensions of Organizational Behavior . Boston: PWS-Kent 1986 107 estruturam a sua empresa, num contexto global, depende da forma como vêem o mundo das organizações, os mercados, os competidores, etc. Como adquirir uma mentalidade e perspectivas globais eficazes? Num estudo realizado, durante três anos, com 150 executivos, em 50 diferentes empresas na Europa, América do Norte e Ásia, a resposta encontrada foi: “o desempenho de uma função internacional é a única e mais poderosa experiência na formatação das perspectivas e habilidades dos futuros líderes”. Parece ser também a experiência mais cara que uma empresa tem, em matéria de preparação dos quadros. Hoje, o estudo do contexto internacional de gestão de recursos humanos constitui um novo campo de investigação e ensino. Pensa-se ser muito importante identificar as melhores práticas, e desenvolver pesquisa académica que sirva também de guia prático capaz de melhorar a gestão das pessoas em contexto internacional e global1. Para se compreender a importância do desenvolvimento de uma nova geração de líderes globais, basta ter em conta alguns acontecimentos recentes ocorridos no mercado internacional: a crise financeira asiática; o regresso de Hong Kong à China; liberalização dos mercados financeiros; a democratização dos países do antigo Pacto de Varsóvia; a unificação da Alemanha; os blocos económicos emergentes (UE; NFATA); a invasão do mercado interno por empresas estrangeiras; as mudanças políticas na Indonésia; as economias emergentes (China, Índia, América Latina)2. A formulação e implementação de planos estratégicos para este século exige gestores e quadros capazes de focalizar bem as necessidades dos clientes, fornecedores, mercados de trabalho, ambiente político e tecnologias ao nível local e global. Ao nível individual, isto exige uma enorme capacidade de diagnóstico da envolvente e de reunir e analisar informação. Exige um vasto conhecimento e capacidade de processar e interpretar, de forma eficaz, matéria-prima informativa. Exige capacidade de compreender e trabalhar eficazmente com pessoas de diferentes culturas3, religiões e tradições étnicas, bem como capacidade de gerir equipas compostas por elementos com origens culturais diversas.Esta experiência internacional parece ser tão importante que não existe substituto para ela. O aperfeiçoamento de liderança internacional só se consegue com o desempenho de funções internacionais4. A gestão de recursos humanos em contexto internacional exige uma atitude estratégica, o que significa que a gestão das pessoas não é função específica de um departamento (de recursos humanos), mas um conjunto de actividades que qualquer gestor, em qualquer área funcional, deve dominar. Cada actividade constrói-se em cima da outra, enquanto o processo se vai transformando num pacote integrado. Assim, no que toca ao contexto internacional, parece haver cinco actividades de gestão de recursos humanos que são altamente influenciadas: selecção; formação; acolhimento; nomeação; liderança. 1 J. Stewart Black [et al.] – Globalizing People Through International Assignments. Reading Mass: Addisson-Wesley, 1999. 2 F. Trompenaars – Riding the Waves of Culture – Understanding Cultural Diversity in Business. London: Economist Books, 1993. 3 G. Hofstede – Culture Consequences. London: Sage, 1980. 4 C. Brewster – The Management of Expatriates. London: Kogan Page, 1991. 108 A selecção visa encontrar a pessoa certa para o lugar certo, com as necessárias adaptações contingenciais ao longo do tempo. Um gestor deve identificar, recrutar e colocar um indivíduo no posto de trabalho adequado. Por vezes, este processo é concluído lançando mão do mercado interno, mas outras vezes é necessário recorrer ao mercado externo1. Muitas empresas americanas escolhem os seus gestores para posições no estrangeiro com base na experiência obtida no mercado interno. Ora, embora isto seja uma informação importante, ninguém garante que o sucesso doméstico seja prenúncio de sucesso no estrangeiro. O recrutamento de candidatos para funções internacionais levanta as seguintes questões: que características devem ser utilizadas na selecção destes candidatos? Por que razão aceitam estes candidatos funções internacionais? Como se poderá identificar e disponibilizar um conjunto de posições internacionais? Podem os questionários e as entrevistas ser usadas eficazmente para seleccionar candidatos com melhores capacidades para obter sucesso em contexto internacional? A formação é uma forma de ajudar as pessoas a fazer as coisas certas. O trabalho que os gestores têm de desempenhar e os padrões de comportamento que servirão de medida devem fazer parte da formação a fornecer. Isto levanta a questão da preparação dos gestores que devem lidar com empregados, clientes, fornecedores e competidores de diferentes culturas2. Estarão aqueles adequadamente treinados para trabalhar com sucesso com estes grupos? A formação levanta as seguintes questões: Devem todos os que vão ocupar lugares internacionais ter formação prévia? Quais serão os métodos mais eficazes para a formação deste tipo de formandos? Quais serão os conteúdos mais adequados a ministrar antes da partida e depois da chegada? Como se poderá calcular os custos da formação? A avaliação do desempenho. Uma vez recrutado e formado, o desempenho de um empregado deverá ser medido e avaliado. Todavia, parece ser muito mais enganador avaliar o desempenho de um gestor no estrangeiro do que no seu próprio país. Por exemplo, enquanto, na Europa e nos EUA, variáveis, tais como ganhos financeiros, vendas realizadas, quota de mercado, são utilizadas como medidas do desempenho, num contexto internacional estas medidas podem não ajudar muito3. Com efeito, poucas empresas possuem ideias claras sobre quais serão os indicadores que fomentam ou dificultam o compromisso organizacional. A avaliação do desempenho levanta as seguintes questões: Como poderá ser avaliado o desempenho dos trabalhadores fora do seu país? À luz de critérios exógenos ou endógenos? Qual será a mistura ideal de indicadores quantitativos e qualitativos para esta avaliação? Em que medida podem os gestores locais avaliar os trabalhadores estrangeiros? 1 C. Glissen; M. Durrick – Predictors of Job Satisfaction and Organizational Commitment in Human Service Organizations. Administrative Science Quarterly. Vol. 33, (1988), p. 61-81. 2 J. S. Black; M. E. Mendenhall – Cross-Cultural Training Effectiveness. Academy of Management Review. Vol. 15, (1990), p. 113-116. 3 H. B. Gregersen [et al.] – Expatriate Performance Appraisal in US Multinational Firms. Journal of International Business Studies. Vol. 27, (1996), p. 711-38. 109 A remuneração é um instrumento que encoraja a que se façam as coisas certas. A organização deve compensar o desempenho específico dos colaboradores. Todavia, levanta-se a questão: devem todos os gestores receber benefícios iguais independentemente do país onde trabalham? Muitas empresas queixam-se dos custos com os trabalhadores deslocados e outras tentam reduzir o número de empregados a prestar funções fora do país natal para reduzir os respectivos custos1. A remuneração levanta este tipo de questões: Em que medida o pacote de remuneração de um expatriado pode ser fixado com base apenas nas diferenças do custo de vida? Como se poderá entrar em linha de conta com as diferenças de impostos e taxas de um país para outro? O desenvolvimento das pessoas tem lugar através de uma sequência de actos que passam por desempenho de funções no estrangeiro, oportunidades oferecidas e responsabilidades assumidas2. As questões levantadas neste ponto são: em que medida devem as funções internacionais curtas ser usadas para o desenvolvimento de jovens quadros? Como se poderá equilibrar as necessidades imediatas inerentes ao cargo internacional e às necessidades de desenvolvimento? Como pode o quadro nacional ser transferido com sucesso para outras missões internacionais? 5.4. A UNIÃO EUROPEIA A agenda social europeia apresenta seis áreas de interesse com implicações directas na gestão de recursos humanos, no contexto da União Europeia: liberdade de circulação e mobilidade dos trabalhadores, igualdade de raça e género, segurança e saúde no trabalho, educação vocacional e formação, participação e envolvimento dos trabalhadores e desemprego. A mobilidade dos trabalhadores liga-se à emergência de novos mercados de trabalho europeus, abertos e acessíveis a todos no contexto da globalização e da economia do conhecimento, o que reflecte o facto de ser cada vez mais frequente as pessoas aproveitarem as vantagens do mercado interno, vivendo e trabalhando em países que não os de origem. Os poderes públicos têm um papel a desempenhar para garantir que estes mercados de trabalho são tão abertos e acessíveis quanto possível, vencendo os obstáculos da burocracia, dos regimes fiscais e de segurança social, pensões e qualificações. A eliminação desses obstáculos e o reforço da informação sobre mobilidade contribuem para aumentar a adaptabilidade à mudança da mão-de-obra europeia. A União reconhece que deveria ser mais fácil a transferência de competências entre fronteiras e adequar melhor a oferta de mão-de-obra especializada à procura. As competências, quer se trate das que são adquiridas no sistema educativo básico, quer as que se relacionam com actividades específicas ou qualificações profissionais, 1 F. Hansen – Repatriation Programs Work. Compensation and Benefits Review. Vol. 29, n.º 5, (1997). 2N. J. Adler – International Dimensions of Organizational Behavior. 2d ed. Boston: PWS-Kent, 1990. 110 representam também um factor essencial para a abertura a todos dos mercados de trabalho europeus. O direito à livre circulação de trabalhadores dentro da União pode ser visto como: um direito fundamental ligado à cidadania europeia; um meio de desenvolvimento trans- cultural e a obtenção de um certo grau de integração europeia; uma fonte de tensão étnica; um mecanismoindispensável à integração económica; uma ameaça à soberania nacional. A igualdade entre as pessoas, no contexto dos mercados de trabalho, dos comportamentos e práticas de emprego – em particular a igualdade de raça e sexo/género. Quando falamos de igualdade há três dimensões que se encontram presentes: oportunidades, tratamento e resultados. A igualdade de oportunidades liga- se com as experiências e as circunstâncias prévias ao trabalho ou as oportunidades de competição pelo trabalho e progressão numa determinada organização. A igualdade de tratamento abrange a afectação a funções, as condições de trabalho, etc. A igualdade de resultados abarca a questão da remuneração e as quotas de emprego. Adnett1, ao definir os tipos de discriminação nos mercados de trabalho, identifica três: discriminações prévias à entrada; discriminações de emprego ou ocupacionais; discriminações de salários. Apesar destes propósitos da União Europeia, os seus mercados de trabalho estão marcados pela desigualdade e discriminação de género e raça. A magnitude desta discriminação e o seu impacto varia de país para país. O seu impacto parece abarcar: diferenciais em termos de remuneração, não baseados nas diferenças de produtividade; elevadas taxas e longos períodos de desemprego; desigualdades nos mercados de emprego. As mulheres também parecem ter menor participação e maior incidência na precariedade de emprego. Há, porém, algumas tendências interessantes, tais como a diminuição do diferencial quanto a remuneração entre homens e mulheres por trabalho igual e maior equilíbrio entre homens e mulheres, quanto à taxa de emprego e desemprego. A segurança e saúde no trabalho tem sido objecto de acções dos governos nacionais e de muitas iniciativas da União Europeia2. As mudanças científicas, tecnológicas, económicas e demográficas na envolvente implicam que os esquemas de protecção na doença e segurança no trabalho sejam permanentemente revistos em ordem a manterem-se o mais actualizados possível. Há uma obrigação moral quanto às preocupações com a implementação de técnicas inovadoras destinadas a melhorar a saúde e evitar as doenças profissionais e segurança no local de trabalho3. A União Europeia tem legislado no sentido de garantir um mínimo de direitos e princípios gerais e obrigações relevantes para a gestão eficaz da saúde e segurança nas condições de trabalho. 1 N. Adnett – European Labour Markets: Analysis and Policy. Longman, 1996. 2 European Union – Europe for Safety and Health at Work. European Commission, 1994. 3 European Union – Fourth Action Programme on Health and Safety at Work. European Commission, 1995. 111 Naturalmente que há quem não acate as leis e regulamentos da parte das entidades patronais e da parte dos próprios trabalhadores. As inspecções formais conduzidas por inspectores públicos ou pelas companhias de seguros ajudam a controlar os comportamentos das partes, o que conduz a uma subida do nível da protecção contra acidentes e doenças profissionais. A educação vocacional e a formação profissional têm vindo a ser referida como os factores que mais contribuem para a empregabilidade e para a taxa de emprego. Não existe grande consenso sobre o significado da educação vocacional e formação profissional. Toma-se aqui esta expressão enquanto conjunto de processos e mecanismos que modificam o comportamento, as atitudes, os conhecimentos, as capacidades, e as competências dos indivíduos no desempenho das suas tarefas e responsabilidades no contexto do trabalho. Naturalmente, existem dimensões individuais, organizacionais e sociais deste conceito. Este tema levanta um conjunto de questões sobre o qual não existe total consenso, nomeadamente: o contributo da formação relativamente à competitividade das empresas e das nações; eficiência e eficácia do mercado como mecanismo através do qual são afectados os recursos para a formação; legitimidade e valor do papel do governo (ou até se deverá ter algum papel ) nesta matéria; legitimidade dos organismos comunitários para intervir nesta matéria; em que medida a formação é um bem público ou privado e se beneficia os indivíduos ou a sociedade ou ambos; capacidade dos agentes económicos fazerem escolhas racionais nesta matéria, dado o longo prazo do investimento. Regini1 identifica cinco tipos de estratégias organizacionais com consequências em matéria de gestão de recursos humanos: produção de qualidade e diversificada; produção em massa mas flexível; especialização flexível; neo-fordismo; as pequenas empresas tradicionais. Estes cinco diferentes tipos de estratégia empresarial exigem também diferentes tipos de níveis e graus de mistura de habilidades; impõem ao mercado de trabalho as suas condições; o tipo de oferta de trabalho influencia o tipo de procura. Hoje, assume-se que a União Europeia possui legitimidade para fomentar a formação profissional e que a tendência será para associar este papel da União ao princípio da subsidiariedade2. Assim, o investimento em matéria de educação vocacional e formação profissional manter-se-á como instrumento de desenvolvimento equilibrado de toda a União. Tudo indica que há potenciais benefícios em termos de competitividade, desenvolvimento e crescimento, embora não sejam garantidos; serão sempre a longo prazo e de difícil medição. A participação e envolvimento dos trabalhadores na vida das empresas significam coisa diferente para diferentes pessoas. Há diversas perspectivas sobre o conceito, as quais muitas vezes se confundem com as envolventes culturais e ideológicas. Assim, existem diferentes percepções sobre a importância desta participação3. A participação 1 M. Regini - Firms and Institutions: The demand for skills and their social production in Europe. European Journal of Industrial Relations. Vol. 1, n.º 2 (1995), p. 191-202. 2 N. Adnett – European Labour Markets: Analysis and Policy. London: Longman, 1996. 3 European Union – Green Paper, Partnership for a New Organization of Work. European Commission, 1997. 112 dos trabalhadores pode ser no capital, nos lucros, no controlo do processo de trabalho, nas decisões de gestão e na organização e distribuição das funções. Existe alguma ambiguidade acerca de três termos que costumam andar associados: participação, envolvimento e democracia. A participação1 dos trabalhadores começa por andar associada à democracia industrial2 e, posteriormente, é percebida como um fim em si mesma, como uma questão de direito com associações morais e políticas. O envolvimento dos trabalhadores anda menos associado à participação, uma vez que algumas das suas práticas pouco têm a ver com participação. De acordo com Mowday3, o envolvimento dos trabalhadores implica: identificação com as metas e valores organizacionais; desejo de pertença; vontade de se esforçar em favor da organização. O aumento do número de esquemas destinados ao envolvimento dos trabalhadores revela que a balança pende a favor do patrão/capital. Tais esquemas e acções são motivados pela vontade de aumentar a produtividade, o desempenho, a flexibilidade etc. E, consequentemente, a competitividade. As iniciativas da União Europeia foram motivadas pela crença no direito dos trabalhadores de participar nas decisões de gestão, nas quais são um dos muitos interessados (stakeholders). Todavia, também a participação foi vista como um meio para: resolver o conflito (gestores, proprietários, trabalhadores) no interior das empresas; resolver certos problemas de produtividade, encorajando os trabalhadores a usarem os seus conhecimentos e habilidades; contrabalançar o poder exagerado da empresa, em particular, a multinacional. O desemprego, desde o início da Comunidade Europeia, foi tido em conta como uma consequência eventual do mercado único. As remoção das barreiras alfandegárias teria um efeitopositivo em certas regiões e negativo em outras. Assim, foi de imediato criado, no artigo 123 do Tratado de Roma, assinado em 1960, o Fundo Social destinado a resolver esta eventual consequência. A decisão de criar, em 1986, o mercado único veio dar maior importância a esta questão. A questão do desemprego ganhou forte projecção na recessão económica dos anos noventa e com a reunificação da Alemanha. Recentemente, à luz dos impactos da sociedade da informação, novas perspectivas foram colocadas, em 2000, na Cimeira de Lisboa. O desemprego pode ser definido de diversas maneiras. O Eurostat – o departamento estatístico da UE – reviu os métodos usados para calcular o desemprego em 1995, e adoptou novos métodos baseados nas recomendações da International Labour Office (ILO). A OCDE também produz séries estatísticas que fornecem as bases para as comparações internacionais e, desde 1984, as definições usadas são comuns à ILO. No essencial, ambas as instituições procuram, através de inquéritos ao emprego, saber: quem se encontra sem trabalho (pago ou auto-emprego); quem se encontra 1P. Sparrow; J. Hiltrop – European Human Resource Management in Transition. Prentice-Hall, 1994. 2 M Marchington; [et al.] – Involvement and Participation. In Storey (ed) – Human Resource Management. Routledge, 1995. 3 R. T. Mowday [et al.] – Employee-Organization Linkages: the psychology of commitment, absenteeism and turnover. Academic Press, 1982. 113 disponível para trabalhar; quem está activamente à procura de emprego. Estes valores são expressos em percentagem da população activa. Embora pareçam indicadores pacíficos, na realidade, levantam-se diversas questões de interpretação dos mesmos. Por exemplo: em que consiste o pagamento? Disponibilidade significa ser capaz de iniciar um trabalho contra um pagamento? Por trabalho é entendido qualquer um, ou aquele para o qual o indivíduo está qualificado? 114 CAP. 6 – CULTURA ORGANIZACIONAL E GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS 6.1. RECURSOS HUMANOS E CULTURA ORGANIZACIONAL O interesse pela cultura organizacional remonta ao movimento do desenvolvimento organizacional do final dos anos sessenta do século passado. Todavia, a sua qualidade de variável e metáfora organizacional só é patente a partir do célebre artigo de A. Pettigrew, na Administrative Science Quarterly, no final dos anos setenta do século XX1. Uma das razões prende-se com a necessidade de integrar, na explicação do sucesso organizacional, causas de ordem simbólica e subjectiva. Na década de oitenta do século passado, também houve lugar a muitas fusões de empresas e o sucesso de tais operações foi medido, tendo em linha de conta a forma como a cultura de empresa tinha sido gerida. Há muitas definições de cultura organizacional. Aliás, esta multiplicidade de sentidos é herdada da ciência base, aquela que, por excelência, estuda a cultura, isto é, a Antropologia. Assim, encontramos definições desde as mais simples até às mais complexas, tais como: “a forma como se fazem as coisas aqui”; “normas, valores e crenças próprios de uma organização”, passando pelos célebres “pressupostos básicos” de Edgar Schein2, até constituir um constructo multifacetado e polissémico, podendo ser encarado como “mapa mental”, metáfora ou até mesmo como paradigma. Abordar as organizações de um ponto de vista cultural implica valorizar os aspectos humanos das organizações que, embora não seja uma abordagem nova na teoria organizacional – remonta a Elton Mayo –, acrescenta-lhe agora a conceptualização da própria organização como algo radicado na mente e no património das pessoas que a integram3. Há diversas tipologias para classificar a cultura organizacional; umas são de dimensões unipolares (Deal e Kenndy, Harrison, Handy, White e Cock), outras são bipolares (Quinn, Denison)4. 1 A. Pettigrew - On Studying Organizational Culture. Administrative Science Quarterly. Vol. 24 (1979), p. 570-581. 2 João Bilhim – Teoria Organizacional. 3.ª ed. Rev. Lisboa: ISCSP, 2004. 3 José Neves – Clima Organizacional, Cultura Organizacional, Gestão de Recursos Humanos. Lisboa: RH, 2000. 4 João Bilhim – Teoria Organizacional. 3. ª ed. Rev. Lisboa: ISCSP, 2004. 115 Deal e Kennedy identificam quatro tipos de cultura (cultura de risco, agressividade, acção, processo), formados através dos quadrantes de dois eixos: alto e baixo risco e alta e baixa velocidade. Harrison e Handy definem os quatro tipos de cultura (Zeus/poder, Apolo/função, Atenas/tarefa, Dionísio/atomista), através dos eixos de alta e baixa formalização; e de alta e baixa centralização. White e Cock identificam os quatro tipos (regras, objectivos, inovação, apoio), usando os eixos de muito e pouco dinamismo; e de muito e pouco controlo. Denison identifica quatro tipos de cultura (consistência, desenvolvimento, adaptabilidade, missão), usando os eixos controle/flexibilidade e interno/externo. Quinn usa os mesmos eixos de Denison e define os seguintes quatro tipos: regras, objectivos, inovação, apoio. 6.2. A CULTURA INFLUENCIA E É INFLUENCIADA PELA GRH Neste ponto, o que iremos tratar é da relação entre a gestão de recursos humanos e a cultura organizacional. Veremos como se poderá entender a cultura como uma consequência da gestão de recursos humanos ou, pelo contrário, como a gestão de recursos humanos é um artefacto da cultura. A relação entre cultura organizacional e gestão de recursos humanos não é pacífica. Na literatura, as práticas de gestão de recursos humanos – recrutamento e selecção, formação, avaliação, remuneração, entre outras – são, por muitos autores, consideradas expressão da cultura da organização. Por outro lado, há quem saliente a influência recíproca entre gestão de recursos humanos e cultura. Quando se encaram as práticas de gestão de recursos humanos como consequências da cultura organizacional, parte-se do pressuposto de que é a cultura que determina o tipo de gestão que se pratica na organização. A cultura enforma tudo e todos nos contextos organizacionais, colocando as práticas de gestão, em geral, e as de recursos humanos, em particular, na dependência directa das características dos contextos organizacionais. Deste ponto de vista, as práticas de gestão, para serem eficazes, precisam de ser desenvolvidas na dependência e em conformidade com as exigências da cultura. Se tal dependência não tiver lugar, as práticas de gestão não possuem impacto real. Edgar Schein ilustra bem este ponto de vista, na sua obra de 1985 intitulada Corporate Culture and Leadership. Com efeito, para Schein, é a cultura organizacional que determina o tipo de práticas de gestão. Para o autor, a cultura organizacional é um “padrão de pressupostos básicos que um dado grupo (organização) inventou, descobriu ou desenvolveu, aprendendo a lidar com os seus problemas de adaptação externa e de integração interna e que têm funcionado suficientemente bem para serem considerados válidos e para serem ensinados aos novos membros como o modo correcto de compreender, pensar e sentir em relação a esses problemas”. 116 Schein pensa que a cultura organizacional pode ser analisada a diferentes níveis. Um primeiro nível diz respeito aos aspectos visíveis e tangíveis (artifacts & creations), tais como a arquitectura dos edifícios da organização, a tecnologia usada, a maneira de vestir, falar e de se comportar, chegando até às publicações dessa organização. Este aspecto é visível, mas nem sempre a sua mensagem é decifrável. Um segundo nível relaciona-se com os valores (values), o qual para ser visto requer já um maior nível de consciência por parte dos diversos actores organizacionais. Um terceiro nível, invisível — tomado à partida como indiscutível —, é representado pelos pressupostos básicos (basic assumptions). Deste modo, as práticas de gestão de recursos humanospodem ser encaradas como uma das manifestações da cultura organizacional. Assim, tomando a cultura como uma variável organizacional, a ideia básica é captar as normas, os valores e crenças que estão subjacentes à vida organizacional e que resultam dum processo mais ou menos longo de socialização e ajustamento mútuo. Como observa Schein, a cultura, neste sentido, é um produto da aprendizagem, da experiência do grupo. A cultura é algo que a organização “tem”. Por outro lado, o trabalho de Hofstede sobre a cultura da IBM, deste ponto de vista também pode ser paradigmático. O autor chama a atenção para o facto das práticas de gestão de uma multinacional reflectirem, de alguma forma, as cores da cultura nacional , onde a IBM se encontra. Para Hofstede, a cultura constitui uma espécie de programação mental, determinante, em parte, dos comportamentos, cognições e afectos das pessoas. As configurações culturais, para o autor, permitem distinguir países e agrupá-los por famílias culturais. Por isso, na perspectiva de Hofstede, os fundamentos das práticas de gestão encontram as suas raízes mais profundas na natureza da programação mental dos países onde tais práticas têm lugar. Há autores que assumem uma posição oposta à anterior, afirmando que são as práticas de gestão de recursos humanos que determinam a cultura. A proposta de Ulrich e Lafasto coloca-se na posição teórica do tipo cognitivo para quem: “compreender a cultura organizacional implica a estrutura mental – ou pensamento automático – que os indivíduos partilham numa organização (...) e que representa as maneiras inconscientes através das quais os indivíduos agem e pensam as organizações”. Para aqueles autores, estes pensamentos automatizados podem ser identificados nos diversos níveis da vida organizacional, podendo ser mudados ou mantidos através da transformação das práticas de gestão de recursos humanos. São as direcções de recursos humanos as responsáveis pelo tipo de cultura existente. Um tipo de cultura burocrática, inovadora, marcada pelos objectivos ou pelos processos é criada pela gestão de topo e pelas práticas de gestão de recursos humanos usadas. É interessante entender a profundidade do pensamento dos autores a este respeito. Numa perspectiva cognitiva, os esquemas mentais (cultura) são criados pelas experiências e comportamentos e pela informação obtida. Ora, as práticas de gestão de recursos humanos visam o fomento da comunicação e a direcção comportamental em função da eficácia. Logo, as práticas de gestão de recursos humanos marcam o tipo de cultura. 117 PRÁTICAS DE GRH INFORMAÇÃO COMPORTAMENTO Desenvolvimento Comunica o que é valorizado Conforma-se com o que é aprendido na formação Avaliação Valoriza positivamente os pensamentos automáticos adequados Promove comportamentos de acordo com a avaliação Recompensas Paga de acordo com o que a informação diz estar certo Conformam-se com os valores e objectivos Estrutura Os papeis e a distribuição do poder indicam o que se deve fazer Limita o quando e o como fazer Comunicação Partilhada com a gestão de topo Indica o que está certo e errado. Selecção Quem é valorizado, através de quem é contratado, promovido ou mudado? Encoraja comportamentos que levam a ser promovido Nesta perspectiva, as pessoas são remetidas para um papel passivo que se adapta ao imperativo ou determinação do sistema cultural. Quando se encara a cultura como sistema de ideias e significados partilhados, as organizações passam a assumir formas expressivas, manifestações da consciência humana. As organizações já não são estudadas em termos económicos e materiais, mas nos seus aspectos simbólicos. Neste contexto, pode falar-se mais de as organizações serem cultura. Nesta acepção, procura-se compreender a organização, tentando interpretá-la e descrevê-la, geralmente adoptando-se uma dupla perspectiva teórica: Cognitiva — em que se identificam os conhecimentos comuns utilizados pelos membros da organização para percepcionar, classificar e analisar fenómenos e comportamentos; Simbólica — em que se tenta compreender como é que cada membro da organização partilha um sentido comum da realidade que com a experiência se tornou importante: o objecto de estudo é o processo que levou as pessoas a partilhar uma visão comum. Este tipo de ênfase no papel das práticas de gestão como enformadoras do tipo de cultura assume um carácter determinista, de sentido oposto ao de Edgar Schein e de Hofstede. 6.3. CULTURAS E SUBCULTURAS As organizações possuem cultura ou culturas? E se possuem apenas uma cultura qual o papel das subculturas1? A cultura dominante expressa as normas, os valores e as crenças essenciais a toda a organização e que são partilhados por um número maior ou menor de membros. Quando se fala de cultura organizacional, está-se a referir à cultura dominante, à 1 Geert Hofstede - Identifying Organizational Subcultures: An Empirical Approach. Journal of Management Studies. Vol. 35, n.º 1 (1998), p. 1-12. 118 macro visão da cultura que confere à organização a sua personalidade distinta. Nesta perspectiva de identidade cultural de toda a unidade social, há quem diga que a cultura está para a organização como a personalidade está para o indivíduo. Todavia, nem todos os autores estão de acordo em que haja apenas uma cultura organizacional. Deve-se a Sainsaulieu a ideia de proceder à análise cultural das relações de trabalho, mostrando que, sobretudo em empresas complexas e com marcada estratificação social, os diferentes grupos em presença referem-se a diferentes culturas e nelas baseiam inclusivamente os seus jogos e estratégias. Num modelo pluralista, que labore a partir da dicotomia e que valorize acentuadamente as questões políticas, a cultura actua como suporte das estratégias inter-grupo e fará todo o sentido encarar a organização como possuindo diversas culturas, nomeadamente a cultura das categorias socioprofissionais. No trabalho efectuado por Sainsaulieu, o autor concluiu a existência, numa única empresa, dos modelos culturais seguintes: • Operários não qualificados desenvolvem dois tipos de modelos: de “retirada”, se a implicação na empresa é fraca (mulheres, emigrantes), de “unanimismo”, se a implicação é mais forte (fundidores). • Operários qualificados têm igualmente dois tipos de comportamentos diferentes, consoante são confrontados com técnicas clássicas na presença de “solidariedade democrática” ou com técnicas de ponta “separatismo”. • Técnicos, cujo comportamento, atraído pelo posição de quadro e pela lembrança da oficina, é caracterizado pela existência de “afinidades selectivas”. • Quadros confrontados com os problemas da autoridade e a resistência da organização, mas de forma individualizada, em que a “estratégia” é o modelo dominante. • Empregados de escritório, repartidos entre dois modelos: “individualismo" ou “acordo e compromisso”, segundo o grau de integração na organização e nos grupos. • Agentes de comando que, privilegiando e justificando por isso a sua posição hierárquica, seguem um modelo de “integração”. Num modelo que labore a partir do princípio da unidade, a cultura é, sobretudo, encarada como processo de integração e faz todo o sentido falar de subculturas. Estas, embora partilhem os aspectos fundamentais da cultura comum a toda a organização, de alguma forma apresentam departamentos com especificidades. Geert Hofstede1 afirma que: “as organizações têm culturas, mas partes das organizações podem ter distintas subculturas”. É o caso dos diversos departamentos nas grandes organizações. Por exemplo, o departamento de contabilidade, à partida, possui normas, valores e crenças distintos dos do departamento de investigação e desenvolvimento. Jones, em 1983, distinguiu a existência, no interior de uma organização, de três tipos diferentes de subculturas: produção,burocracia ou serviços administrativos, profissional. No estudo que acabámos de citar, feito por Geert Hofstede numa empresa 1 Geert Hofstede - Identifying Organizational Subcultures: An Empirical Approach. Journal of Management Studies. Vol. 35, n.ºº 1, (1998), p. 1. 119 de seguros, o autor distinguiu a presença das seguintes três subculturas: profissional, administrativa e de quem tem a responsabilidade da relação directa com o cliente. As dimensões culturais, analisadas por Hofstede1 para caracterizar as três sub culturas, foram: orientação para o processo ou para os resultados; orientação para o empregado ou para a função; postura paroquial ou profissional; sistema aberto ou sistema fechado; alto ou baixo controlo; orientação normativa ou pragmática. Se uma organização não tiver uma cultura, como variável independente, que permita aos seus membros uma interpretação comum do que seja adequado ou não fazer, naturalmente, nesta perspectiva, não sobreviverá. É, precisamente, este carácter de partilha de compreensão que confere à cultura a capacidade de guiar e dirigir os comportamentos. Para Shein, a cultura é o cimento integrador de toda a organização e produto dos líderes formais, sobretudo dos heróis fundadores, enquanto que, para Sainsaulieu, não se pode falar de uma só cultura mas de diferentes culturas, com os seus líderes formais e informais, a definir não uma realidade unitária e consensual mas um sistema de acção concreto, com os conflitos de interesse e jogos de poder. A cultura desempenha um papel crucial na manutenção de cumplicidade na estrutura orgânica, pois é, em parte, através da cultura que a gestão assegura que todos os valores sejam consistentes com aqueles que são exteriores à organização. Assim como os povos têm culturas diferentes, também o mesmo acontece com as organizações e os seus departamentos. Deste modo, tal como as culturas das sociedades ajudam a influenciar o comportamento dos seus membros, também a cultura das organizações influencia a opinião e o comportamento dos seus empregados. 6.4. SOCIALIZAÇÃO E CULTURA ORGANIZACIONAL A socialização nas normas, valores e crenças da organização constitui o mais importante processo de aculturação dos novos empregados. O processo de aculturação ocorre nos dois sentidos: da empresa sobre o indivíduo e destes sobre a empresa. A organização pode renovar-se com a admissão de novos empregados e assim mudar a sua cultura, mas os empregados também, ao integrarem a cultura da empresa, de alguma forma mudam alguns traços do seu perfil. Todavia, na literatura, a perspectiva dominante é a que estuda o impacto da cultura da empresa sobre o comportamento dos indivíduos, com estes a assumirem uma atitude passiva e conformista face às imposições daquela. É neste sentido que Hellriegel2 refere os resultados possíveis da socialização bem e mal sucedida. Assim, a socialização organizacional afirma-se como um processo compatível com a perspectiva integradora da cultura organizacional. Aqui, a cultura seria uma espécie 1 Geert Hofstede - ob. cit. p 8. 2 D. Hellriegel et al. – Management des Organisation. Bruxelles: De Boeck, 1993. 120 de cola que uniria os diversos elementos, dando-lhes coesão e sentido sistémico do todo. SOCIALIZAÇÃO COM SUCESSO SOCIALIZAÇÃO COM FRACASSO Satisfação profissional Insatisfação profissional Clarificação do papel Ambiguidade e conflito quanto ao papel Forte motivação Fraca motivação Compreensão e controlo Mal-entendidos, tensões, conflitos Forte investimento no trabalho Fraco investimento Forte adesão ao espírito organizacional Fraca adesão Estabilidade de recursos humanos Absentismo e saídas para o exterior Elevada qualidade Prestação suficiente Aceitação interior dos valores Rejeição dos valores Nesta perspectiva, em que a cultura tem a função de ligar as diversas partes da organização, os ritos organizacionais desempenham um papel fundamental no fortalecimento dos laços ou, antes, no reforço do cimento que liga os diversos tijolos do edifícios organizacional. No quadro abaixo, apresentam-se alguns exemplos de tais ritos. Ritos organizacionais RITOS Função Focagem Exemplo Passagem Ascensão Individual Promover Degradação Degradação Individual Despedir Reconhecimento Valorização Individual Premiar Renovação Nova estrutura Grupal Renovar a gestão Integração Revitalização Grupal Festejar Conflitos Equilíbrio Grupal Negociar Numa perspectiva diferente, Van Mann e Shein salientam os diversos resultados da socialização, tendo em conta um conjunto de tácticas de socialização desencadeadas pela organização para integrar os novos membros. O que está em causa é o facto de a organização poder influenciar o modo através do qual os seus novos membros desempenham o seu papel, ao configurar a informação que estes recebem no momento do seu acolhimento. Todavia, não será demais salientar que a socialização não tem lugar apenas no momento da integração de novos elementos. Na verdade, ao longo da sua vida profissional existem transições, sejam com origem na progressão hierárquica, sejam associadas a mudanças horizontais de funções. A socialização é um processo contínuo que acompanha o ciclo de vida profissional dos indivíduos. Edgar Schein, em 1997, chamou a atenção para o efeito desintegrador da existência de “comunidades ocupacionais”, que atravessam as organizações e que têm que interagir com as culturas geradas na organização. O autor refere a existência de três culturas de gestão: cultura operacional; cultura de engenharia; cultura executiva. A cultura operacional ocorre no interior de uma organização ligada aos departamentos operacionais. Os gestores operacionais assumem que o funcionamento do sistema é 121 fruto da interdependência de todos os factores humanos e técnicos que formam a organização e conhecem o papel importante que joga a qualidade da comunicação e a cooperação para que o trabalho seja efectuado. Reconhecem que o imprevisto terá uma alta probabilidade de ocorrer, por mais regras e especificações que sejam reproduzidas, as quais exigem respostas inovadoras. A cultura de engenharia é a dos elementos que concebem a tecnologia básica da organização e está presente nas tecnologias da informação, nos estudos de mercado, nos sistemas financeiros. Esta cultura representa uma comunidade ocupacional que atravessa a organização, os sectores da actividade económica e os próprios países. A sua preocupação central é a concepção de soluções para os problemas que sejam tecnicamente eficientes, em que as pessoas podem ser fonte de perturbação. A cultura executiva integra os directores-gerais e os seus directos colaboradores. É igualmente uma cultura que atravessa as organizações, sectores e países, na medida em que os executivos tendem a ser confrontados com problemas semelhantes. A sua principal preocupação é a sobrevivência e a manutenção do crescimento financeiro da organização. As pessoas são fonte de custo a minimizar e a actividade de gestão deve ser efectuada com sistemas e rotinas impessoais. Para Schein, a dificuldade de aprendizagem organizacional reside nestas diferentes orientações culturais. Para os recursos humanos, o que se verifica é o facto de apenas uma destas culturas, a operacional, integrar as pessoas nas suas preocupações fundamentais. As outras relegam o papel dos recursos humanos para posições extremamente baixas na escala das suas preocupações. 6.5. CULTURA ORGANIZACIONAL E TÉCNICAS DE GRH O sistema de compensação de uma determinada organização expressa de alguma forma a cultura, constituindo uma manifestação cultural em si mesma e nos valores, normas e crenças que se encontram subjacentes a tais práticas de gestão. Todavia, se o sistema de recompensas expressa uma determinada constelação de valores e pressupostos básicos,também não é menos verdade que se a cultura organizacional não se afigura adequada aos objectivos estratégicos da gestão, as mudanças no sistema de recompensas vão contribuir para a mudança da cultura. Para Sethia e Von Glinow a relação entre cultura organizacional e recompensas é recíproca1. Numa cultura organizacional altamente burocratizada, é expectável o investigador vir a encontrar um sistema de recompensas apoiado na antiguidade. No entanto, se a mudança estratégica baseada nas novas exigências da envolvente exige uma nova forma de recompensar, por exemplo, baseada no desempenho efectivo de cada indivíduo, esta mudança no sistema de remuneração terá influência na cultura. É que os valores subjacentes passam a ser outros. Os sinais que são dados pela gestão de topo vão no sentido de apoiar quem de facto contribuiu para os resultados e não quem à partida teria condições para os apoiar. Não se remunera com base no pressuposto de que um indivíduo com tais requisitos tem condições para contribuir para o 1 N. Sethia, M. Von Glinow – Arriving at Four Cultures by Managing Reward System. In R. Kilman – Gaining Control on Corporate Culture. San Francisco: Jossey-Bass, 1985 122 desenvolvimento da organização. Remunera-se, independentemente dos requisitos, quem de facto contribuiu. Naturalmente, esta segunda forma de remunerar não está isenta de críticas. A questão neste caso, mais polémica consiste em saber se todos os indivíduos tiveram iguais oportunidades de trabalhar. Por exemplo, no sector comercial sabe-se que nem todos os clientes são iguais, nem todas as áreas geográficas são iguais. Assim, quando se remunera a partir do negócio efectivamente obtido por um determinado vendedor, aqueles que foram colocados nas melhores áreas geográficas ou nos mesmos clientes não se encontram em pé de igualdade com os restantes. De qualquer forma, no que toca à cultura organizacional, uma coisa é certa: passa a haver um novo valor para fundamentar o sistema de remuneração. A antiguidade deixou de ser um posto, as habilitações literárias abandonaram o seu papel de preditor do desempenho e apenas o trabalho efectivamente prestado é central como base do novo sistema. Por exemplo, o pagamento acima da média do sector económico ou de igual grupo profissional, entre o sector público e o privado pode gerar uma cultura de elite, enquanto que o desenvolvimento de abordagens participativas dos trabalhadores na definição do sistema de recompensas favorece uma cultura de participação. Aliás, é este o fundamento principal da ideia da gestão da cultura através dos sistemas de remuneração1. Quanto ao subsistema de formação e desenvolvimento, há muito que se assumiu a reciprocidade da relação com a cultura organizacional. A cultura está presente no processo de recrutamento, selecção, acolhimento, e formação inicial, contribuindo para a socialização e aculturação do novo membro. Todavia, em simultâneo, estas práticas de gestão de recursos humanos também expressam e configuram de alguma forma a cultura, constituindo elementos cruciais dos seus artefactos e dos respectivos valores subjacentes. Para Harrison2, a cultura, a estrutura e o poder são os contextos onde a formação se desenvolve. De igual modo, Latham e Crandall3 referem que a formação contribui, numa percentagem significativa, para a mudança do comportamento dos indivíduos e que as opções estratégicas assentes na inovação requerem formação, de forma a que as pessoas aprendam a lidar com a ambiguidade e a incerteza. 1 Lawler & Jenkins - Strategic Reward System. In M. Dunnette ; L. Hough (eds) – Handbook on Industrial and Organizational Psychology, 2th ed. Palo Alto: Consulting Psychologists Press, 1992 2 Harrison – Training and Development. London: IPM, 1988 3 Latham, Crandall - Organizational and Social Factors. In J. Morrison – Training for Performance: principles of applied human learning. Chichester: John Wiley, 1991, 123 CAP. 7 – FORMAS DE TRABALHO E SEU ENQUADRAMENTO A evolução recente das formas de trabalho trouxe consigo uma série de modalidades de trabalho atípicas ou inovadoras, que se diferenciam da relação salarial de dependência hierárquica, do Pós Segunda Guerra Mundial. As mutações no emprego modificam as relações tradicionais patrão/empregado. Por isso, dificilmente se consideram apenas empregados os indivíduos que se encontram com um contrato de trabalho típico, com uma relação legalmente tipificada de trabalho subordinado. Perspectivam-se no horizonte múltiplas formas de emprego, ao ponto de, num futuro próximo, as formas que actualmente são consideradas atípicas poderiam passar a assumir a designação de formas típicas, se a tendência continuar a ser no sentido de as favorecer. 7.1. FORMAS DE TRABALHO ATÍPICAS E/OU INOVADORAS 7.1.1. Trabalho independente O trabalhador independente - por vezes, chamado “trabalhador por conta própria”, “autónomo”, ou em “auto-emprego” - é o indivíduo que exerce a sua actividade por conta própria sem auxílio de assalariados. Trata-se de um trabalhador que é simultaneamente um empresário. O trabalho independente constitui uma realidade histórica antiquíssima, sobretudo vinculada ao sector agrícola (e outras actividades primárias), à produção artesanal de bens, ao comércio, à prestação de serviços e às actividades artísticas. Esta forma de trabalho sempre se manteve como modalidade de actividade económica relevante, embora secundária. Actualmente, o trabalho independente ou auto-emprego tende a ganhar novo vigor em virtude da competitividade das empresas e da necessidade de redução de custos, com a tendência para a terceirização da economia, e, em especial, com as políticas públicas tendentes à desregulamentação de sectores, com a respectiva privatização e redução do peso do Estado na economia. Por outro lado, o Estado, em vez de atribuir subsídios às empresas para manutenção de postos de trabalho, tem preferido incentivar com subsídios a criação do próprio emprego. Tem-se expandido a criação de micro-empresas sedeadas no domicílio e têm emergido novos modelos de descentralização e articulação de actividades 124 empresariais, como a subcontratação e o franchising, que no seu todo potenciam a independência dos agentes económicos nos nossos dias. 7.1.2. Trabalho temporário O trabalho temporário inclui, nomeadamente, as modalidades de trabalho sazonal (ligado às práticas agrícolas) e de contratos de trabalho a termo certo. Estas formas de trabalho correspondem a respostas das empresas às garantias, consideradas excessivas, dos contratos normais subordinados e do trabalho temporário realizado através de uma empresa ou agência de emprego. São, no seu todo, modalidades de actividade intermitente. 7.1.3. Situação de pré-reforma com exercício de actividade Esta modalidade foi introduzida na última década em Portugal, no momento em que as organizações (empresas e Administração Pública) iniciaram processos de redução do efectivo (downsizing), promovendo a aposentação antecipada dos mais idosos e a pré-reforma de outros, com ou sem prestação de trabalho, com redução de vencimento. O pré-reformado é um trabalhador com vínculo à sua empresa que lhe paga uma remuneração até à idade de aposentação definitiva, mas que pode legalmente exercer uma outra actividade remunerada. Trata-se de um dispositivo jurídico destinado a aliviar os custos com os recursos humanos, proporcionando formas lentas e diferidas no tempo de afastamento da vida activa. 7.1.4. Trabalho a tempo parcial, por turnos e em jornada contínua Estas três formas atípicas de trabalho relacionam-se com diferentes formas de estruturação da actividade, de processo produtivo e de organização do trabalho. Quando estas modalidades são mutuamente interessantes acontecem situações potenciadoras de motivação e satisfaçãono trabalho, quando não são, a empresa pode impor estas modalidades, forçando o trabalhador a aceitar tais incómodos como um mal menor. 7.1.5. Trabalho ao domicílio e tele-trabalho O trabalho ao domicílio foi uma modalidade importantíssima na história dos processos de industrialização e subsiste hoje com um enquadramento jurídico específico em certo tipo de actividades marginais. Os trabalhadores a domicílio são tradicionalmente mulheres e minorias étnicas. O tele-trabalho é um modalidade emergente de trabalho ao domicílio que poderá introduzir algumas alterações em relação àquele, no que diz respeito às formas de controlo que a organização do trabalho pode ter, quando estruturada de uma forma leve e à distância, sobre os comportamentos produtivos do trabalhador, diminuindo a sua margem de autonomia. O tele-trabalho pode ser também um meio precarizado do emprego, caso não veja associados meios cautelares de promoção da segurança na relação de trabalho. Pode 125 igualmente potenciar o isolamento dos indivíduos e há que encontrar uma solução eficaz para que esta forma de trabalho possa ser negociada e estudada nas suas diferentes dimensões. 7.1.6. Trabalho a dias Esta é uma forma mais precária de prestação de trabalho, correspondendo muitas vezes a actividades informais de prestação de serviço. Trata-se de uma modalidade de emprego minoritária. Pode vir a assumir um papel mais relevante junto de alguns segmentos da actividade produtiva, nomeadamente na agricultura e nos serviços pessoais e domésticos. 7.2. NOVAS FORMAS DE TRABALHO: DIFICULDADES E CONDIÇÕES FACILITADORAS Uma das dificuldades ao incremento destas novas formas de trabalho é a existência de um enquadramento legal e de uma cultura, particularmente por parte das organizações representativas dos trabalhadores, pensadas e voltadas para as modalidades tradicionais de trabalho e consequentemente desajustadas das necessidades actuais. Além disso, o papel regulador/facilitador que o Estado deve exercer e que os parceiros sociais reclamam é, muitas vezes, obscurecido pelo carácter esterilizador e burocrático que inferioriza os interventores em vez de os valorizar. O Estado não deve regulamentar ao detalhe, mas antes definir as grandes linhas e deixar aos agentes espaço para a auto-regulação. Um outro domínio onde se coloca um certo bloqueio ao avanço destas novas formas inovadoras de trabalho e de actividade é o económico-financeiro. É muitas vezes uma análise insuficiente dos custos e benefícios da nova e velha solução o cerne da pouca inovação das empresas portuguesas. Os trabalhadores, por seu turno, também tendem a avaliar esta questão em termos semelhantes ao empresário: apenas pelo lado dos rendimentos directos. Questões, tais como a realização pessoal, a sociabilidade, o stress profissional, a fadiga, a organização da vida quotidiana ou o reconhecimento público do trabalho, surgem em lugar secundário face ao salário e ao ganho. Assim, quer pelo lado dos custos e das condições de crédito ao investimento, quer pelo lado dos rendimentos proporcionados, o factor económico-financeiro desempenha um papel crítico na expansão destas formas inovadoras de trabalho. Outro ponto importante na adopção de formas de trabalho mais autónomas liga-se com as condições de risco e protecção social dos sujeitos envolvidos. Num estudo elaborado por João Freire, em 1995, punha-se em evidência a deficiente cobertura dos sistemas de segurança social pública, uma vez que cerca de 15% do total não estariam cobertos por eles, embora a realidade tenha eventualmente evoluído nos últimos tempos1. 1 João Freire – Variações sobre o Tema Trabalho. Porto: Afrontamento, 1997. 126 É visível o peso das dificuldades económicas dos agentes para enfrentar os custos individuais da protecção social. Por isso, não será de estranhar a fuga e os comportamentos desviantes, eximindo-se ou limitando o pagamento das suas contribuições, aproveitando em seu favor contradições organizacionais dos sistemas. A formação profissional, ou seja, a valorização de cada sujeito, assume um papel estratégico no desenvolvimento destas novas formas inovadoras de trabalho. O sucesso e consistência de formas de trabalho atípico mais inovadoras e, em particular, daquelas que se colocam em patamares mais elevados de autonomia e responsabilidade, dependem fortemente da qualificação profissional dos seus agentes. Assim, a baixa escolaridade e qualificação profissional pesam fortemente sobre os desempenhos dos trabalhadores e os resultados das actividades em que se encontram envolvidos. Outro aspecto, considerado na literatura especializada acerca das formas de trabalho independente, tendo especialmente em conta o arquétipo da profissão liberal, é o do associativismo destes agentes económicos. Segundo estudos feitos neste domínio, a taxa de sindicalização do sector aproxima-se da taxa de geral de adesão a uma associação profissional, sendo de cerca de 30%. Todavia, quando comparamos as profissões altamente qualificadas como os advogados, com os canalizadores a diferença é abissal. Há menor associativismo nas profissões socialmente menos consideradas. 7.3. FLEXIBILIDADE Registam-se actualmente fenómenos contraditórios, resultantes da desarticulação entre a oferta e a procura do emprego. Esta desarticulação tem tido diversas consequências na qualidade de vida dos cidadãos, devido ao envelhecimento da população e forçou a emergência crescente do carácter precário do emprego e exteriorização da mão-de-obra e a maior exigência de qualificações e competências. Para Priscilla Donavan e Jacquelyn Wonder, a explicação encontra-se na flexibilidade, isto é, na capacidade de ceder sem partir. É esta qualidade que permite reagir à mudança. A flexibilidade é básica em toda a espécie. As construções que se mantém em pé são flexíveis1. Num estudo da OCDE2 define-se o processo de fabricação ideal como aquele “organizado para manter a flexibilidade máxima associando elementos de todas as categorias descritas: flexibilidade mecânica ou operacional (equipamentos), flexibilidade do trabalho (organização do trabalho e qualificações), flexibilidade da gestão (sistemas de informação para a gestão), flexibilidade económica (inovação tecnológica e qualificação do trabalho)”. 1 Priscilla Donavan; Jacquelyn Wonder – Les Secrets de la Flexibilité. Montréal: Les Editions de l’Homme, 1993. 2 Graham Vickery; Duncan Campbell – Ressources Humaine: Technologies de fabrication avancées. Paris: OCDE, 1991. 127 A flexibilidade liga-se ao desenvolvimento e implementação tecnológica, bem como à junção de tecnologias da informação ao desempenho dos empregados nesse processo. Há que ter em conta o processo de modernização a partir da incorporação de novas tecnologias, a sua gestão e a maneira pela qual essa incorporação é planeada. Destaca- se o impacto dessas mudanças sobre a eficiência e a produtividade. As empresas de capital privado ou público, cada vez mais pressionadas, designadamente pela necessidade de se manter e sobreviver estrategicamente nos mercados interno e externo, procuram adoptar um estilo de gestão que agilize a produção através da tecnologia da informação. Buscam progressivamente uma interacção da electrónica com a informática e as telecomunicações, que promova - da maneira mais consciente possível - o envolvimento dos empregados com o novo processo de trabalho. Há vários tipos de flexibilização. A flexibilidade de trabalho, tal como é utilizada pela OCDE, permite a divisão em duas componentes: flexibilidade numérica que ajusta o número de trabalhadores e/ou horas de trabalho às necessidades da produção, que corresponderá à flexibilidade externa; e a flexibilidade funcional que junta os diferentes empregos e fomenta a polivalência, permitindo que cadaum desempenhe um leque mais variado de funções diferentes o que corresponde à flexibilidade interna. O Manpower Studies1 considera que há três tipos de flexibilidade: Funcional – abrange os empregados que, com formação adequada, se adaptam facilmente a novas actividades; Numérica – procura adaptar o número de trabalhadores ao ciclo produtivo, isto é, às necessidades; Financeira – oferece sistemas de compensação, ligando o trabalho efectivamente prestado ao salário. Há quem vá mais longe e encontre seis tipos diferentes de flexibilidade de acordo com a figura abaixo2. 1 Alastair Evans; Jenny Bell. In Chris Curson – Flexible Patterns of Work. London: IPM, 1986. 2 Giovanni Gasparini – La Flexibilité en Italie. Paris: Syros/ Alternatives, 1989. 128 A flexibilização funcional dos trabalhadores nucleares destina-se a potenciar a iniciativa e o desenvolvimento de novas competências, bem como o alargamento/enriquecimento do posto de trabalho. Fomenta ainda a criação de equipas de competências mútuas e especialização flexível baseada em trabalhos manuais, assim como a reorganização das fronteiras internas dos perfis. A tentativa de redução dos custos tem levado à flexibilidade funcional com diminuição dos trabalhadores para o mesmo número de funções; ao alargamento do posto de trabalho com intensificação laboral, ao aumento do controlo sobre o trabalhador e abrange os trabalhadores que com a formação adequada podem rapidamente adaptar-se a novas actividades. A flexibilidade financeira permite fomentar a expansão do sistema de compensação variável e sua ligação à realização individual e de grupo, por oposição à compensação uniforme. O trabalho a tempo parcial e a terceirização dos serviços constituem mecanismos que visam o alargamento desta modalidade de flexibilidade. A sua utilização faz-se umas vezes por estratégia, outras por oportunismo. Os recurso ao trabalhador temporário tem em vista resolver os picos de produção sazonal ou diário e reflecte-se em: empenhamento; trabalho de equipa; qualidade de trabalho1. A flexibilidade organizacional (numérica) permite adaptar o número de trabalhadores ao ciclo produtivo (horários flexíveis, horários de trabalho atípicos, subcontratação). A flexibilidade fiscal prende-se com o recurso a esquemas ousados de relação com a administração fiscal, nomeadamente os conhecidos benefícios sociais. 1 Paulo Manuel Duarte Nobre Lança – O Paradigma da Flexibilidade Laboral. Lisboa: ISCTE, Dissertação de Mestrado, 1999 Organizacio nal Fiscal Tecnológica Remuneratória Contratual Funcional Flexibilidade de Trabalho 129 Com a flexibilidade tecnológica predomina a polivalência e a adaptabilidade às instalações técnicas e às técnicas de produção das empresas. Há variação do volume da força de trabalho e dos horários de trabalho. A flexibilidade contratual visa o aumento da facilidade de recrutamento e, em especial, de despedimento ao livre arbítrio do empresário. A flexibilidade emerge sobretudo como uma filosofia do ser, estar e agir, como uma forma de actuar e interagir no quotidiano, uma abertura face às novas ideias e às novas tecnologias, na apreciação da variedade de opiniões e dos comportamentos das pessoas1. Constituindo um novo paradigma organizacional, a flexibilidade dos sistemas organizacionais (ao nível laboral, técnico, social e produtivo) destaca-se como uma das soluções que permite às empresas adquirirem vantagens competitivas no actual espaço mundial, lançando mão da adaptação e da reacção rápida e constante, através da inovação, às exigências da envolvente. 7.4. CONTRATAÇÃO COLECTIVA E CONCERTAÇÃO SOCIAL Não levanta dúvidas para ninguém que a generalidade das convenções colectivas assenta na noção de “trabalho dependente típico” e a expressão disso é, que nos últimos 25 anos, a auto-regulação se tem ocupado apenas das cláusulas pecuniárias, com a necessária actualização salarial. As formas atípicas de trabalho são formas marginais, susceptíveis quando não de extermínio pelo menos de oportunidade para compensação pecuniária. Veja-se o caso do trabalho extraordinário, nocturno e por turnos. Num estudo elaborado em 1998 pelo IESE para o Observatório do Emprego e Formação Profissional é feito o um levantamento das novas formas de trabalho que surgem com mais frequência actualmente, sendo nesse estudo referidas como tais as seguintes: contrato a termo certo; subcontratação de empresas ou de mão-de-obra; recibos verdes; contratos de formação; trabalhadores contratados à peça; cedência de mão-de-obra para outros países; utilização de população estrangeira em situação precária; desvinculação, ou seja, troca por vínculo mais fraco; recurso a empresas de trabalho temporário. As formas de organização flexível do tecido empresarial, baseadas em redes de empresas e alianças empresariais, conduzem ao desenvolvimento de pequenas e micro empresas e ao aparecimento de trabalhadores independentes que se comunicam através de subcontratação, empreitadas ou prestação de serviços. Por outro lado, verifica-se a diminuição de garantias dos trabalhadores no que respeita aos vínculos contratuais, traduzida no aumento dos contratos a prazo, no trabalho temporário e mesmo na ausência de vínculos. Infelizmente, embora haja mercado para estas novas formas de trabalho, o que se tem verificado é que nem sempre são voluntárias, sendo muitas vezes o produto de pressões sobre um mercado onde há muita mão-de-obra disponível. 1 OCDE – La Flexibilité du Marché du Travail. Paris, 1990. 130 Neste sentido, as novas formas de trabalho agravam a segmentação do mercado de trabalho, levando a um acréscimo de desigualdades salariais e de outros tipos de condições de trabalho. Assim, levantam-se questões, tais como: A relação entre este novo tecido empresarial flexível e as vantagens que advirão para os trabalhadores, empregadores e para a economia em geral; A equidade dentro da mesma empresa entre trabalhadores; A relação entre o desenvolvimento organizacional e o desenvolvimento profissional e pessoal de quem trabalha. 7.5. O HOMEM E O FUTURO DO TRABALHO 7.5.1. Atitudes sociais O trabalho permanece o elemento estruturador por excelência da vida. Assim, as atitudes face ao trabalho estão condicionadas pela evolução do desemprego. Por outro lado, a forma como o emprego for gerido e como for o acesso de novas pessoas ao mundo do trabalho, nomeadamente, jovens, camponeses, imigrantes e mulheres, assim, será o ritmo da evolução das atitudes. Além disso, a partilha do trabalho poderá constituir um meio solidário de lutar contra o desemprego, dependendo a evolução das atitudes da forma como vai operar tal partilha. Esta terá de ser acompanhada de ganhos de produtividade decorrentes da introdução de novas tecnologias. As novas tecnologias poderão emergir como ameaçadoras se não forem acompanhadas de mudanças na organização do trabalho. A reorganização do trabalho implica novas formas de olhar para as qualificações, a compensação e a participação dos trabalhadores nos processos de trabalho. Em todo este quadro acabado de descrever, temos de admitir que se deverá pensar que as novas atitudes perante o trabalho possam evoluir de um modo tal que, futuramente, ponham em causa os tradicionais modos e ritmos de vida e a própria gestão urbana, como por exemplo, deixar de haver necessidade de entrada de grandes massas de indivíduos nos centros urbanos entre as oito e as dez horas da manhã. Os resultados gerais do inquérito do ISSP sobre as atitudes sociais perante o trabalho, realizado, em Portugal, em 1997, sobre uma amostra representativa da população do Continente de idade igual ou superior a 18 anos, pelos serviços do INE, destacam a segurança/estabilidade do empregocomo a dimensão do trabalho mais importante, seguida das dimensões sociais (utilidade, ajuda a terceiros) e as auto-referenciadas (realização, interesse intrínseco e pessoal na actividade desenvolvida), só depois surgindo a dimensão remuneração do trabalho. Neste inquérito, as novas tecnologias aparecem como capazes de reduzir o emprego existente, mas também de torná-lo mais interessante. Quanto às opções, elas vão no sentido do trabalho por conta própria, face ao trabalho por conta de outrem. Em geral, neste inquérito, os portugueses atribuem um papel muito destacado ao trabalho no seu quotidiano, designadamente para o acesso ao rendimento, ao estatuto social, a um maior nível de satisfação e realização pessoal e ao desenvolvimento de um sentimento de utilidade face à sociedade onde vivem. 131 7.5.2. Centralidade do trabalho O trabalho desempenha um papel central nas vidas das pessoas, que dele retiram diversos tipos de recompensas: materiais, na medida em que recebem uma remuneração pela actividade desenvolvida; sociais pelo contacto com outras pessoas que o trabalho proporciona; prestígio, pelo estatuto social associado às funções desempenhadas; valorização pessoal, enquanto fonte de auto-estima, identidade e meio de realização pessoal pelo trabalho prestado1. Uma das formas de conhecer esses significados é analisar a centralidade do trabalho, ou seja, o lugar que o trabalho ocupa na vida das pessoas. A centralidade do trabalho prende-se com as crenças que os indivíduos possuem relativamente ao grau de importância que o trabalho desempenha nas suas vidas. A centralidade do trabalho é vista como um resultado da socialização, uma vez que os indivíduos aprendem a valorizar o trabalho a partir da sua religião, da sua cultura, dos seus familiares e dos seus amigos. No inquérito do ISSP de 1997 esta questão foi colocada aos portugueses pedindo que manifestassem o seu grau de concordância (1 – discordo totalmente a 5 – concordo totalmente) relativamente à seguinte afirmação: “gostaria de ter um emprego remunerado mesmo que não precisasse de dinheiro”. Ficou claro que 64% dos inquiridos declararam que gostariam de ter um emprego remunerado mesmo que não precisassem de dinheiro. Podemos inferir que, para uma larga parte da população portuguesa, o trabalho ocupa um lugar central nas suas vidas. 7.5.3. O futuro O futuro passará por novas relações entre o homem e o trabalho, resultantes das modificações que terão lugar no papel que desempenham as actividades de produção, de distribuição e de comunicação, devido à acção de um nova dinâmica social, ao deslizamento dos dados económicos (custos dos factores produtivos) e à automatização dos sistemas de informação. Isto ocorrerá no sentido de uma dupla mutação do trabalho: do trabalho à peça ao trabalho em sistema e do trabalho em cadeia ao trabalho em rede. Neste sentido, parece impor-se a passagem de um modelo de trabalho rígido e fechado como elemento central da estruturação de toda a vida económica e social e factor principal de integração social, para um modelo aberto que não vai assegurar a todos de uma forma rígida e constante o emprego, persistindo uma massa importante de desempregados. A Europa substituirá o Estado Providência pelo Estado Social, em que a protecção social do Estado será restringida e, em alternativa, o acento será colocado no valor individual de cada um. Multiplicar-se-ão formas, ainda hoje qualificadas como atípicas, que passarão a constituir a moda (valor com maior número de frequências numa série) das futuras formas de trabalho 1 Joao Freire – Sociologia do Trabalho, 2ª ed. Porto: Afrontamento, 1998. 132 Em resumo, assistir-se-á: à revalorização do trabalho não remunerado; a maior diversidade e flexibilidade dos estatutos do trabalho; à diminuição da sua duração e à modificação na relação entre o tempo de trabalho e o tempo de não trabalho. No que toca ao futuro, para Jacques Lesourne, existem três trajectórias de cenários que se apresentam como mais prováveis na Europa, partindo do princípio de que a mudança das atitudes profundas se faz lentamente: desemprego em todas as categorias; liberalismo americano; liberalismo temperado. A) DESEMPREGO EM TODAS AS CATEGORIAS: Preferência dos indivíduos por uma remuneração directa; persistência de uma política macroeconómica de cariz restritivo; manutenção da diferença custo trabalho/remuneração líquida; ténue transformação da duração do tempo de trabalho. Neste cenário, o desemprego clássico subsiste nos períodos de alta conjuntura e, nos períodos de recessão, o desemprego Keynesiano sustenta um acréscimo suplementar do desemprego clássico B) LIBERALISMO AMERICANO: Flexibilidade do mercado de trabalho e fraco desvio do custo de trabalho – remuneração líquida. Corresponde a um desemprego flutuante com a conjuntura mais frágil e ligado a uma forte desigualdade na distribuição dos rendimentos C) LIBERALISMO TEMPERADO: Resulta da junção do cenário anterior a instrumentos de redistribuição que não tenham efeitos perversos sobre o emprego: o custo do trabalho dos menos qualificados é reduzido, enquanto que o seu nível de vida é mantido ou melhorado. 133 CAPÍTULO 8 – PROCESSOS DE GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS 8.1. – A EQUIPA E O GRUPO DE TRABALHO As organizações tendem a apresentar estruturas cada vez mais leves com menor número de níveis hierárquicos e a ser articuladas em redes de negócios ou actividades autónomas. Serão progressivamente mais horizontais do que as organizações que, em geral, conhecemos hoje. As relações hierárquicas tradicionais tenderão a ceder lugar a redes de grupos de trabalho de elevada competência, investidas de autonomia e poder. A informação será posta à disposição geral e deixará de constituir um privilégio da chefia. As pessoas trabalharão cada vez mais em grupos no seio da organização, grupos não interligados por linhas hierárquicas tradicionais. Estes grupos possuirão elevado grau de liberdade para definirem como devem cumprir a missão que lhes for confiada pelos gestores. O seu desempenho é fundamentalmente avaliado pelo grau de cumprimento da missão. Em geral, entende-se por “equipa de trabalho” colectivos de trabalho que desejam optimizar o funcionamento da sua área; o conjunto de empregados de diferentes níveis hierárquicos ou de diferentes áreas da organização, que desejam melhorar a coordenação e aumentar a produtividade1. Para que equipas de trabalho funcionem bem, são necessárias duas condições: Missão; Competências. A missão assegura a animação das equipas e permite que se exerça a liderança. As organizações mais horizontais poderão não ser as mais participativas, nem as menos dirigidas. Por isso, a clareza da missão, tanto para a organização, no seu todo, como para os elementos que a compõem, é uma condição crítica de sucesso numa organização em rede. As competências corporizadas em cada pessoa serão a base para a criação dos grupos de trabalho. Assim, dar-se-á menor atenção às funções do que às competências individuais. Os indivíduos portadores de certas competências e idiossincrasias constituem os elementos base do grupo de trabalho. 1 J. M. Barbier; F. Berton; J. J. Boru – Situations de Travail et Formation. Paris: L’Harmattan, 1996. 134 A coesão entre os membros é um factor muito importante das equipas de trabalho. A coesão pode ajudar a melhorar a eficácia, mas não da maneira que muitos gestores pensam. A coesão torna a vida na organização mais agradável, o clima organizacional mais sereno e com menor tensão e a cooperação entre todos mais eficaz. Todavia, a relação entre coesão e produtividade é fraca. A coesão apenas reduz as diferenças, isto é, a variação de produtividade entre os membros de um grupo ou equipa de trabalho, mas não aumenta necessariamentea produtividade global do grupo. É possível, porém, os gestores estimularem positivamente a produtividade em grupos altamente coesos. Back1 induziu a coesão em grupos experimentais, lançando mão da atracção pessoal, do prestígio e da tarefa em si mesma. O resultado foi no sentido de a produtividade ter aumentado quando os estímulos foram ligados à tarefa. Quando se fazia saber que um determinado grupo era altamente prestigiado pela administração (prestígio), a preocupação dos membros não se centrava na tarefa, mas no que os outros trabalhadores pensavam deles. Quando se estimulava que os membros gostassem uns dos outros (atracção pessoal), os membros tendiam a alongar-se em conversas sem objectivo específico. Pelo contrário, quando se incentivava o grupo a produzir um excelente trabalho, os membros tendiam a ignorar as questões interpessoais e a trabalhar mais intensa e eficientemente para conseguirem completar a sua tarefa. Parece haver duas situações em que a coesão do grupo conduz claramente à baixa produtividade. A primeira diz respeito ao trabalho em si mesmo, que não fomenta a coesão de grupo. Aqui, é normal que a coesão do grupo vá no sentido de evitar a dureza do trabalho. A segunda relaciona-se com grupos altamente coesos em função do prestígio, em que poderá não haver ninguém disposto a remar. Todos quererão mandar. As normas do grupo também jogam um papel importante sobre a produtividade. Se os membros do grupo sentem que a gestão os apoia tenderão a aumentar a produtividade e a diminui-la se a gestão não os apoiar. Os gestores também desempenham um papel importante na mudança das normas do grupo. Além disso, é mais fácil mudar as normas numa fase embrionária do processo de construção do grupo do que numa fase madura do seu ciclo de vida. Por fim, reconhece-se que o facto de os gestores conhecerem o processo de nascimento das normas de um grupo e a forma como reforçam os padrões de comportamento lhes serve de ajuda no diagnóstico das tensões latentes e na gestão dos problemas enfrentados no dia a dia da organização. Chama-se a atenção para a distinção que certos autores estabelecem entre equipa e grupo de trabalho. A equipa seria uma espécie de grupo altamente coeso e envolvido nas metas e objectivos que unem os seus elementos. O grupo de trabalho seria mais formal e, consequentemente, exigiria menor envolvimento e coesão dos seus elementos e menor liderança. O grupo aproximar-se-ia mais das normas, valores e 1 Kurt Back – Influence Through Social Communication. Journal of Abnormal and Social Psychology, Vol. 46, (1951), 190-207. 135 crenças de uma unidade departamental, sendo a coordenação determinada superiormente, isto é, o poder no grupo seria exercido a partir da legitimidade da nomeação por quem de direito, enquanto, na equipa, o líder emergiria tendencialmente pela escolha dos seus membros. 8.2. - IMPLICAÇÃO E MOTIVAÇÃO O conceito de implicação está relacionado com o conceito de motivação no trabalho. É uma das suas consequências. Significa uma elevada identificação com a organização. As políticas de gestão de recursos humanos são concebidas para obter a máxima integração organizacional, implicação dos empregados, flexibilidade e qualidade. Se o alinhar estratégia e pessoas obrigou a reinventar a função recursos humanos e a transformar os departamentos de GRH em novos departamentos de gestão estratégica de recursos humanos (GERH), importa, por seu turno, não esquecer que esta mudança não se opera, se não for revisitada a velha questão da motivação/satisfação no trabalho. A motivação pode ser entendida de forma simples como o que dá energia, dirige e mantém o comportamento humano. Em GRH, muitas vezes entende-se a motivação como o desejo pessoal para fazer o melhor possível o seu trabalho ou para fazer todo o esforço que for possível para cumprir as tarefas ou atingir os objectivos que foram propostos e aceites. As muitas teorias sobre a motivação procuram compreender e explicar por que razão certa actividade motiva mais do que outra ou satisfaz mais um trabalhador do que outro. Esta questão é crucial para os gestores por, em geral, se aceitar que os trabalhadores altamente motivados dispõem de maior probabilidade de serem altamente produtivos. Entre as diversas teorias, destacamos a teoria da motivação dos dois factores de Herzberg: factores motivadores e factores higiénicos. Recorda-se que, para esta teoria, o salário não integra o conjunto dos factores motivadores. O salário faz parte dos factores higiénicos, isto é, em si mesmo, não motiva, mas a ausência de salário justo provoca grande desmotivação. A teoria do ajustamento do trabalho sustenta que a motivação é o resultado do “ajustamento” entre as capacidades, habilidades e expectativas da pessoa e as características da função e da organização. Um trabalho desafiante para uma pessoa poderá não o ser para outra. Além disso, nem todos os trabalhadores quererão responsabilidades acrescidas. Esta teoria questiona a ideia de que todo o trabalhador procura maior responsabilidade. Por outro lado, a teoria da fixação de objectivos sugere que os objectivos dos empregados ajudam a explicar a sua motivação e a sua realização. Para Edwin Lock a motivação é um comportamento dirigido por objectivos. Quando os objectivos são 136 claros e desafiadores (susceptíveis de serem atingidos com certo esforço) produzem mais motivação do que quando são ambíguos e fáceis. Por fim, a teoria das características do trabalho, desenvolvida por Richard Hackman e Greg Oldham, sustenta que os trabalhadores revelarão maior motivação e satisfação com o trabalho na medida em que este possua certas características. Assim, descrevem cinco conjuntos de características que activam três estados psicológicos críticos. Os oito conjuntos de características são: Variedade do trabalho; Identidade do trabalho; Significado para os outros; Autonomia; Feedback dos resultados; Importância e significado para si; Responsabilidade pelos resultados; Informação sobre a sua eficácia. Os três conjuntos de estados críticos são: Em que medida o trabalhador sente que o seu trabalho é importante, útil e valioso; Em que medida o trabalhador se sente pessoalmente responsável e tem necessidade de prestar contas pelos resultados do seu trabalho; Em que medida o trabalhador compreende a eficácia da forma como realiza as suas tarefas. Importa, porém, salientar que, entre as muitas teorias que se perfilam no horizonte dos académicos e dos profissionais de gestão para explicar a motivação, há duas que, por serem extremas, ajudam a realçar melhor o que está em jogo quando se pensa e fala em motivação de equipas de trabalho. A primeira filia-se na tradição de Murray - Sloan School do MIT - e a segunda em Mayo – Harvard Business School. Escolas cujos investigadores e docentes - fundadores destas duas tradições - não se leram uns aos outros, embora distem apenas poucos quilómetros uma da outra. Murray valoriza os aspectos extrínsecos da motivação – o salário -, ao contrário de Mayo que enfatiza os aspectos intrínsecos, o gostar do que se faz. Esta última abordagem centra-se em formas de enriquecer o conteúdo funcional dos cargos e em dar às pessoas amplas responsabilidades, aumentando a sua noção de compromisso e satisfação no trabalho. Esta corrente tem tido pensadores proeminentes, como Herzberg e Walton, que defendem a maior participação das pessoas como chave para a criação de uma equipa e comunidade de trabalho envolvida e comprometida. Por outro lado, o grupo do MIT sempre se inclinou mais para os aspectos extrínsecos da motivação. Ora, se nos primórdios da busca da compreensão da motivação no local de trabalho, havia pouco intercâmbio entre estas duas tradições, hoje, meio século passado, existe uma interacção muito maior entre os dois grupose o caso mais notável é o de Rosabeth Moss Kanter que, sendo de Harvard, tem vindo a argumentar em 137 favor da eficácia das recompensas extrínsecas, estimulando os gestores a transformar as pessoas com quem trabalham em empreendedores, remunerando-os segundo o seu desempenho. Rosabeth Moss Kanter, num artigo na Harvard Business Review, intitulado “O Ataque ao Salário”, defendia o papel que as recompensas extrínsecas possuem sobre a motivação das pessoas. Nesse artigo, a autora exorta os gestores a transformar as pessoas que com eles trabalham em empreendedores, não enriquecendo os seus cargos ou envolvendo-os nos processos de decisão, antes remunerando-os de acordo com o seu desempenho. A remuneração deverá, na sua perspectiva, ser menos baseada na antiguidade e no tipo de função que exercem e mais nos contributos que dão para os resultados da organização. Neste artigo, a autora faz as seguintes recomendações aos gestores: Pense de forma estratégica sobre as implicações para a organização das mudanças nas práticas de remuneração; Caminhe rumo à redução da parte fixa do salário e ao aumento da parte variável; Gira a inveja e o conflito inerentes a um salário mais amplamente variável, tornando os padrões claros, dando a todos as mesmas oportunidades de aumento de ganhos; Analise – e, se necessário, repense – o relacionamento entre salário e valor para a organização. Por este processo de remunerar cada um de acordo com o contributo dado, ou seja, de acordo com o valor que cada um acrescentou com o seu próprio contributo para os resultados da organização, está-se a sacudir a gaiola de ferro da burocracia. Esta sacudidela na burocracia, pela transformação do sistema de remuneração, pode, nomeadamente, trazer a jusante alterações e mudanças na própria hierarquia. É que a mudança rumo ao salário baseado na contribuição só faz sentido com base na igualdade, no custo/produtividade e no espírito empreendedor. Frederick Herzberg foi defensor da motivação intrínseca. O autor salienta as muitas limitações das recompensas e castigos extrínsecos, referindo-se aos últimos como o pontapé no rabo. A sua proposta é a motivação através do próprio trabalho, a ser conquistada com o enriquecimento de funções. Herzberg chega a levantar a hipótese de haver actualmente, nesta era da globalização, uma tentação maior para lançar mão do pontapé no rabo e diminuir a atenção a dar às fontes de motivação, que são sempre intrínsecas ao relacionamento das pessoas com o que fazem na organização. Harry Levinson, na sequência da tradição de Herzberg, é crítico em relação ao poder das fontes extrínsecas de motivação, que chama de “grande falácia dos tolos”. Aliás, ele afirma que foi esta perspectiva extrínseca da motivação - que alcunha de “morde e assopra” - a responsável pela criação de sindicatos mais extremistas, pela sabotagem frequente de esforços motivadores da gestão e pela suspeita de que a gestão está permanentemente a querer manipular os trabalhadores. Entre estas duas tradições - Murray e Kanter por um lado e Mayo e Herzberg por outro -, qualquer gestor notará enormes diferenças e receitas opostas quanto ao que 138 deve ser feito para que as pessoas que integram as equipas de trabalho estejam motivadas e felizes com e pelo trabalho1. Como se poderá, então, conciliar estas duas diferentes perspectivas? Será que ambas poderão estar certas? Se tal estiver correcto, significaria que as mesmas, embora diferentes, seriam complementares. Outra possibilidade é que ambas estejam certas, mas em diferentes situações. Será que premiar e punir de acordo com a performance constitui uma regra universal da gestão? Será que enriquecer a função, dando mais responsabilidade, mais poder, melhor liderança leva sempre a maior motivação? Há já quem fale da síndrome do “só faço aquilo para que me pagam”. Não será que a qualidade de vida na organização exigirá algo mais? Ora, tanto nesta matéria, como em outras da gestão e das ciências sociais em geral, “ a ocasião faz o santo e o ladrão”. Certamente que, sem falar em imperativo da envolvente, é esta que condiciona o que está certo e está errado, o que é eficaz e o que não o é. Certamente que o prazer que se pode tirar da realização do trabalho poderá diminuir quando se encontram incentivos extrínsecos que forçam a realização da tarefa. Há situações ligadas ao sector económico, à organização, ao momento do ciclo de vida organizacional, país, cultura, capital social etc., que poderão aconselhar ou desaconselhar a opção por Herzberg ou Kanter. Transformar em lei universal uma boa prática, cuja validade parece ser muito paroquial e local, é, no mínimo, entrar no jogo da moda e desacreditar a muita pesquisa já feita sobre o tema. Finalmente, importa acrescentar que, nos estudos de terreno, tem-se verificado que a satisfação no trabalho não anda positivamente correlacionada com o pagamento com base no trabalho efectivamente prestado. A remuneração baseada no trabalho prestado parece correlacionar-se positivamente com a produtividade, isto é, quanto mais se pagar dessa forma, maior produtividade se regista, mas este tipo de remuneração tende a diminuir o grau de satisfação no trabalho e a aumentar o stress2. 8.3. - GESTÃO DA MUDANÇA A gestão de recursos humanos está altamente empenhada na mudança organizacional e das pessoas para que a organização seja eficiente, eficaz e económica. A mudança prende-se sempre com o diagnóstico do ponto de situação actual da organização e do horizonte desejável. Neste processo, o papel da gestão de recursos humanos é preparar as pessoas para atingirem o horizonte almejado. 1Para aprofundar os conhecimentos das diversas teorias sobre a motivação consultar: João Bilhim – Teoria Organizacional:Estruturas e Pessoas. Lisboa: ISCSP, 2004. 2 Schwab, D. P. – Conflicting Impacts of Pay on Employee Motivation and Satisfaction. Personnel Journal, 53 (3), 194-206, 1974 139 Geralmente, a gestão da mudança organizacional implica: diagnóstico; intervenção; avaliação. Além disso, exige que se compreenda: quais os principais tipos de mudança (estratégica, táctica, incremental, revolucionária, endógena, exógena); como é que a mudança atingirá as pessoas; o processo de mudança; prescrições para a gestão da mudança; como construir empenhamento para a mudança; o papel da liderança; o papel do técnico de recursos humanos como facilitador do processo de mudança1. Para mudar algo de forma eficaz, é preciso uma estratégia prévia. A mudança implica uma modificação de rotinas, de relações de trabalho, de responsabilidades, de hábitos e comportamentos das pessoas da organização. A mudança, porém, é sempre difícil, em virtude de as pessoas pautarem a sua actuação pela coerência com o seu passado. O sucesso passado reforça o presente, circunstância que torna muito árduo persuadir as pessoas de que o que foi causa de sucesso no passado não continuará a sê-lo no futuro. A mudança é sentida como crítica quando surge uma oportunidade estratégica ou uma ameaça que se procura contornar/evitar. As oportunidades ou ameaças que levarão à mudança organizacional, são as seguintes: mudança de objectivos; aquisição de novo equipamento; escassez de competências; introdução de complexos sistemas de informação; nova regulamentação política ou desregulação dos mercados; factores económicos; pressão sindical; aumento da concorrência; fusões ou aquisições; operações rápidas de preços, matérias-primas ou qualidade de serviço; pressão concorrencial; queda da motivação dos empregados; aumento do absentismo; súbita hostilidade externa ou interna; ausência de uma política de gestão de recurso humanos de retenção dos melhores empregados; queda brusca ou prolongada nos resultados operacionais. Os factores que têm influenciado as mudanças organizacionais são de quatro tipos: tecnológico; económico;sócio-cultural; político. Em suma, as causas da mudança são internas ou externas, isto é, têm a ver com a integração interna ou com problemas de adaptação externa. Os factores geradores de mudança são os seguintes: a envolvente; o desempenho; o estilo de liderança; a estrutura e a estratégia organizacional. A mudança ocorre a diversos níveis: individual, ao nível de novas competências; grupal, ao nível da cooperação e competição interna; organizacional, relativamente à cultura, estrutura, estratégia e processos de trabalho. Há diversos tipos de mudança organizacional: incremental; evolucionária; transformacional; revolucionária. A incremental baseia-se na melhoria contínua do padrão existente. A evolucionária apoia-se no sucesso do passado e nas melhores práticas da concorrência; a transformacional visa a envolvente interna, nomeadamente, o clima, o grau de satisfação dos funcionários no seu todo ou para certas categorias organizacionais. A revolucionária, que tem por objectivo a alteração radical do tecido social existente, procura uma mudança de natureza relativamente ao passado, procura um estado qualitativamente diferente e até mesmo oposto ao anterior, relativamente aos processos, estilo de gestão, estrutura, cultura. 1 Para aprofundar este ponto, consultar: João Bilhim – Teoria Organizacional: Estruturas e Pessoas, 3.ª ed. Lisboa: ISCSP, 2004. 140 A mudança, planeada ou não planeada, prende-se com a questão de saber se a mesma tem lugar de forma reactiva ou pró-activa. Se a mudança vai tendo lugar por mera adaptação corrente às alterações na envolvente interna ou externa, sem que a mesma tenha sido previamente reflectida, estaremos numa processo de mudança não planeada. Se, pelo contrário, tem lugar com base na planificação de uma estratégia, por exemplo, mudando quando tudo, no momento, até está aparentemente a correr bem e por iniciativa deliberada da gestão, estaremos perante um processo planeado. O modelo de mudança de Kurt Lewin1 permite focar o processo de transição entre as três fases do ciclo de mudança: descongelamento; mudança; recongelamento. “Descongelamento” é o desequilibrar do sistema actual, responsável pelo tipo de comportamentos existentes e que se pretende mudar. “Mudança” é o montar no terreno o novo projecto, o que se pretende mudar, é a fase “instituinte”, por excelência. O “recongelamento” é a fase final de cristalização de padrão, de processos ou do novo “instituído”. Para compreender melhor esta transição, vamo-nos socorrer do pensamento da socióloga da Harvard Business School, Rosabeth Kanter que, na sua obra Frontiers of Management 2 , ajuda os gestores e responsáveis governamentais a melhor compreender os seus papeis em organizações que estavam a passar por processos globais de mudança. Esta mudança, muitas vezes revolucionária, traduziu-se num ataque à rigidez organizacional, às fronteiras fechadas, à tradição top-down. Assim, os temas abordados nesta obra são: estratégia, inovação, serviço ao cliente, globalização e planeamento para a mudança. Em síntese, esta obra transmite a seguinte mensagem: é importante proporcionar instrumentos e condições que libertem as pessoas e lhes permitam usar o brainpower. A mudança de que fala Kanter não acontece por decreto. As pessoas, que teoricamente têm o poder, não conseguem liderar a mudança se o não partilharem com a organização. Os líderes têm de enfrentar, diariamente, a dificuldade de conseguir levar as pessoas a fazer o que consideram que deve ser feito. Para que a organização acompanhe a mudança, os líderes devem possuir oito capacidades essenciais: - Olhar para além das suas fronteiras para descobrir o que de diferente pode ser feito. Muitas organizações avaliam-se por comparação com o desempenho dos seus concorrentes. Os líderes da mudança devem posicionar-se, antes, no caminho de um padrão de excelência. Nas suas empresas, há uma insatisfação permanente que é o motor da procura de melhores formas de fazer as coisas. Há uma vontade de melhorar e diminuir o fosso entre o que fazem e o que poderiam fazer. - Desafiar o estabelecido. Os líderes da mudança procuram descobrir novos caminhos. O seu pensamento é como um caleidoscópio: juntam os mesmos fragmentos de forma diferente para dar origem a novos padrões. Foi o que fez Fred Smith ao lançar a 1 K. Lewin – Teoria de Campo em Ciências Sociais . São Paulo: Pioneira Editora, 1951 2 Kanter – Frontiers of Management . Boston: HBS, 141 Federal Express; ou a Intel, que inovou também no marketing, com a campanha “Intel inside”, conseguindo fazer com que um componente (o processador) seja mais importante do que o próprio computador. - Visão. Martin Luther King, um bom exemplo de liderança, apregoava: “Eu tenho um sonho”, não dizia: “Tenho algumas ideias, podemos formar um comité, estudá-las e ver se resulta”. Moisés conduziu o seu povo pelo deserto, durante 40 anos, porque tinha uma visão, uma terra prometida para lhe oferecer. A visão ajuda a ultrapassar as dificuldades e dá um retrato geral de onde a organização quer estar no futuro. - Formar parcerias. A importância de formar uma equipa é óbvia e confirmada pelas pesquisas. As organizações que implementam as ideias mais rapidamente são as que envolvem, o mais cedo possível, todas as entidades que têm interesse na empresa (empregados, clientes, fornecedores, accionistas). - Criar uma equipa. O papel do líder é criar e apoiar uma equipa de entusiastas. Deve lutar junto do resto da organização para conseguir espaço, informação e recursos materiais para que a equipa possa desenvolver o seu trabalho. - Persistir e insistir. A mudança é uma tarefa árdua e, no princípio, tudo parece um fracasso. Mas se se desistir quando os problemas se acumulam e os recursos, energia e tempo começam a escassear, então será mesmo um fracasso. Se se persistir será um sucesso. - Partilhar os méritos. Mesmo que a ideia inicial fosse sua, o líder da mudança deve repartir o mérito. As pessoas precisam de saber que são reconhecidas. Infelizmente muitos gestores tropeçam nesta última capacidade. - Mudar a cultura organizacional, para que a empresa possa competir melhor através da inovação permanente, é o grande desafio. Para a autora, a inovação é o processo de dar às ideias utilização prática e produtiva; exige uma cultura aberta que inclua relacionamentos em todas as direcções e não é sinónimo de intuição e de inspiração. Na prática, a inovação requer uma grande quantidade de esforço intelectual. A inovação não se restringe ao desenvolvimento de processos e produtos. As ideias são vulneráveis. Torná-las uma realidade obriga a despender tempo, esforço e cuidado, ao interligá-las com os objectivos da organização1. 8.4. – A COMUNICAÇÃO INTERNA A comunicação é a chave para o estabelecimento de boas relações de trabalho. Grande parte dos problemas que surgem entre a gestão e os trabalhadores, individual ou colectivamente representados, tem a ver com deficientes formas de comunicação. A comunicação não pode ser nem de mais, nem de menos. O excesso e a escassez 1 João Bilhim – Questões Actuais de Gestão de Recursos Humanos. Lisboa: ISCSP, 2002. 142 causam perturbações graves nas relações de trabalho e, consequentemente, na produtividade do trabalho. O estabelecimento de saudáveis relações de trabalho exige que os trabalhadores sejam e se sintam tratados de maneira justa e adequada, que se sintam cidadãos no interior da sua organização, que sintam fazer parte dos multi-interessados da organização e como tal possuam um conjunto de direitos reconhecidos. Quanto mais justo e adequado for o tratamento dos trabalhadores, menos conflitualidade existirá e menos importantes se tornam as organizações representativas dos trabalhadores. O papelmediador destas organizações será tanto mais forte e indispensável quanto menos bem tratados forem os trabalhadores. Quando um gestor não ouve um trabalhador é natural que ele se dirija ao delegado sindical para falar em seu nome. Ora, quanto mais este comportamento for gratificado, mais o trabalhador vai enraizar a ideia de que quem o ouve na organização é o sindicato. O departamento de recursos humanos deve ter um quadro responsável pelas relações de trabalho que assegure que as políticas da organização nesta matéria são seguidas e que sirva de facilitador entre o trabalhador e a sua chefia, em situações particulares de tensão. A política de relações laborais tem em vista a transmissão atempada e da forma adequada do pensamento de gestão, evitando a conflitualidade nos locais de trabalho. Uma nova política de relações de trabalho que mantenha abertos os canais de comunicação entre a gestão e cada trabalhador, diminuindo, assim, a tensão entre estes dois elementos, levará a que as próprias organizações representativas dos trabalhadores se tenham de mover para outras áreas de actuação onde o seu papel ainda é indispensável. Por outro lado, não há boas relações de trabalho sem uma excelente comunicação interna. Importa reter que a montagem dos canais de comunicação não é tarefa fácil. É que a complexidade organizacional exige que sejam criados canais de comunicação a todos os níveis, ascendente, descendente e horizontal, entre outros1. A comunicação descendente permite aos gestores comunicar as metas (o que querem que seja feito) aos colaboradores, influenciando os escalões mais baixos da hierarquia a cumprir os seus objectivos. A comunicação ascendente permite que os trabalhadores dos escalões mais baixos da hierarquia transmitam as suas ideias e sentimentos aos decisores, colocados no topo da pirâmide organizacional2. A comunicação faz circular no canal, geralmente, dois tipos de informação: relativa a factos e a sentimentos. Os factos são bocados de informação que podem objectivamente ser medidos ou descritos, como, por exemplo, o custo de um 1 Robert McPhee – Formal Structure and Organizational Communication. In R. McPhee; Phillip K. Tompkins (ed) – Organizational Communication: Traditional themes and new directions. London: Sage, 1985 2 Eric M. Eisenberg; H. L. Goodall, Jr. – Organizational Communication, 3. ed. Boston: Bedford/St. Martin’s, 2001. 143 computador, o número de peças produzidas, entre outros. Os sentimentos têm a ver com as emoções dos trabalhadores. Prendem-se com as suas reacções às decisões de gestão. Esta questão dos sentimentos é particularmente importante nos momentos em que a organização esteja a reestruturar-se, a proceder a despedimentos, a reduzir o número de chefias, em suma, nos momentos de contracção. Os gestores, antes de tomarem certas decisões, devem antecipar o seu efeito nos trabalhadores e minimizar os prejuízos ou potenciar os resultados positivos. Por exemplo, um gestor decidiu cortar os benefícios sociais aos trabalhadores a partir de uma determinada data, sem os avisar ou preparar para este corte. A reacção foi de tal ordem que este gestor foi exonerado e a empresa teve de fazer mais cedências com custos superiores aos anteriores. Não basta apenas decidir para mostrar força. É preciso decidir e antecipar as consequências de tal decisão. Isto é particularmente sensível na GRH. Há diversos suportes de comunicação interna à disposição das organizações como o suporte em papel e o electrónico. Entre os instrumentos de comunicação interna com suporte em papel, destacam-se: o papel de carta/ofício, memorandos/papel para pareceres; os relatórios financeiros; o controle de gestão e os jornais, boletins ou revistas internas. Destes, deve-se destacar, para efeitos de comunicação interna, propriamente os últimos, ou seja, jornais/boletins ou revistas internas. Estes instrumentos de comunicação respondem, em cerca de 40%, às necessidades de comunicação de qualquer organização, quando estão bem feitos e cumprem os prazos de publicação, ou seja, quando são lidos. Os restantes 60% de necessidades de comunicação ainda não satisfeitas podem, em nosso entender, vir a ser colmatados através da comunicação face a face, nos postos de trabalho. Em primeiro lugar, entre a chefia directa e cada trabalhador ou o conjunto da sua equipa de trabalho. Em segundo lugar, justifica-se, também que a DRH vá aos postos de trabalho em certos momentos críticos para prevenir que a conflitualidade aumente. O departamento de recursos humanos pode também lançar mão de inquéritos periódicos para obter informação acerca do grau de satisfação e impacto que os mesmos possuem nos empregados. É aconselhável que, pelo menos, haja um por ano e desejável que haja um por semestre, em grandes organizações. Nestes inquéritos por questionário, procura-se obter informação sobre as atitudes dos trabalhadores, sobre o clima e até sobre a cultura organizacional. Por outro lado, o avanço tecnológico permite, actualmente, usar certos instrumentos de comunicação que primam pela sua rapidez, tais como o correio electrónico, a intranet e a videoconferência, entre outros. O departamento de recursos humanos, quando não integra no seu seio a valência comunicação interna, não poderá deixar totalmente esta função nas mãos da direcção de comunicação. A comunicação interna é um instrumento muito poderoso na GRH e, nessa medida, a direcção de recursos humanos deverá ter sempre um papel muito activo na sua gestão e avaliação. Não se pode deixar de salientar que a comunicação escrita com suporte em papel ou electrónico é de facto muito importante, mas não é panaceia para todas as necessidades de comunicação. Ela complementa o papel de comunicação das diversas 144 chefias, mas nunca o substitui. As chefias não poderão em caso algum refugiar-se na comunicação escrita para escamotear a sua responsabilidade nesta matéria. Para tanto, importa que as chefias sejam apoiadas e se sintam parte integrante da equipa de gestão. Para além destes instrumentos de comunicação formal necessária, existe a comunicação informal desejável. Este tipo de comunicação é desejável em virtude da comunicação formal - por melhor que seja - não preencher todas as necessidades de comunicação dos indivíduos e da própria gestão. Os gestores podem e devem usar as redes de comunicação informal para envolver todos os trabalhadores nos objectivos e, consequentemente, facilitar a obtenção dos resultados previstos. A comunicação informal consiste na troca de informação sem planeamento, que tem lugar informalmente entre os indivíduos. Muita comunicação informal ocorre entre grupos de amigos que passaram a frequentar o café ou a almoçar ao mesmo tempo. Há informações que circulam nestes canais que muitas vezes não podem circular formalmente, tais como quem vai ser promovido a director e quais as diferenças no montante do prémio atribuído, entre outras. Quanto mais deficiente for a comunicação formal, mais intensa será a informal. O gestor, numa perspectiva contingencial, terá que, em cada momento, gerir a quantidade e qualidade de informação que fará circular no canal formal para indirectamente gerir os canais informais. Uma intensa comunicação informal pode significar a probabilidade de elevado grau de tensão e conflitualidade. Por princípio, se o gestor não gerir a comunicação informal na organização, esta vai gerir o dia a dia do gestor. Em suma, pode dizer-se que a comunicação é tão importante que, por vezes, é difícil dar-lhe importância. 8.5. GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS E QUALIDADE A qualidade significa essencialmente a satisfação do cliente/utente/cidadão e é em geral reconhecida como o factor chave para obter vantagens competitivas/comparativas. A qualidade é obtida através da cooperação das pessoas que trabalham nas organizações. Assim, as políticas degestão de recursos humanos estão altamente correlacionadas com a qualidade de serviço e dos produtos fornecidos. Neste ponto, dá-se a conhecer o seguinte: aspectos fundamentais da qualidade total; as abordagens da gestão da qualidade, norma ISO e modelos da EFQM e CAF; identificação das áreas onde é necessário actuar na gestão de recursos humanos para obter elevados índices de qualidade. A gestão da qualidade total pode ser vista segundo duas perspectivas: a da gestão industrial e a da gestão de recursos humanos, isto é, a da fábrica/técnica ou a das pessoas. A perspectiva da gestão industrial prende-se com o conjunto de técnicas, instrumentos de gestão da qualidade: fluxogramas, análises de Pareto, diagramas de causa e efeito, mapas de dispersão e análise de regressão, investigação da causa dos defeitos, controlo estatístico do processo, etc. Estas técnicas e instrumentos procuram 145 recolher dados, detectar e analisar problemas, descobrir as suas causas e propor soluções. A perspectiva da gestão de recursos humanos, enquadra-se na perspectiva de que não há mudança sem as pessoas, por mais atraente que tal mudança aparentemente possa parecer. Assim, esta perspectiva relaciona-se com os conhecimentos, capacidades e atitudes das pessoas, o envolvimento de todos os empregados, a cultura organizacional e as práticas de GRH. Nesta perspectiva, a qualidade total é uma filosofia de gestão que assenta na GRH e passa por: aceitar que a última responsabilidade pela qualidade total cabe à gestão de topo e não ao director fabril; não constitui um aspecto da agenda de gestão da fábrica, mas é a própria agenda de gestão; é uma estratégia de longo prazo; não existem soluções miraculosas de curto prazo; envolve todas as pessoas na organização; não se limita à conformidade do produto ou serviço fornecido com o protótipo industrial; não é uma panaceia para todos os males da organização. Blackburn e Benson, num estudo efectuado, em 1995 com vários departamentos de recursos humanos, constataram as seguintes práticas adoptadas por estes com o objectivo de integrarem os princípios da gestão da qualidade total: adoptar a filosofia de que os outros departamentos são clientes internos; avaliar o nível de satisfação com as actividades de gestão de recursos humanos na organização; tentar reduzir os ciclos de tempo no fornecimento de serviços às outras unidades; criar equipas de trabalho plurifuncionais para resolver problemas de trabalho com os serviços prestados pelo departamento de recursos humanos: controlar estatisticamente e dar feedback para melhorar a qualidade dos produtos e serviços; comunicação das melhores práticas. Segundo Hackman e Wageman, a gestão da qualidade total tem que alterar a forma como as pessoas se comportam e que se resume da seguinte forma: Motivação – os aspectos a considerar para se incrementar este processo podem ser através do redesenho do trabalho (análise e redesenho dos sistemas de trabalho), o estabelecimento de objectivos e análise dos sistemas de remuneração e compensação do trabalho. Aprendizagem – sobre os processos (gestão de processos), aprendizagem sobre os objectivos colectivos e aprendizagem com as outras pessoas da organização (aprendizagem colectiva). Mudança – de atitudes e comportamentos de forma a os indivíduos implementarem melhorias contínuas nos processos de trabalho, reduzindo as inerentes resistências às mudanças, isto é, de modo a ultrapassarem as dificuldades relativas ao processamento de informação e comprometimento emocional na relação com o cliente. Os diversos tratadistas da gestão da qualidade atribuem grande importância à gestão de recursos humanos. Deming atribui a importância à formação dos empregados para os habilitar na descoberta dos defeitos e melhoria da qualidade. Refere ainda a necessidade de lhes serem atribuídos trabalhos desafiantes e que estejam, se possível, de acordo com os 146 desejos individuais, para além da existência de recompensas. Alega ser necessário haver relações sustentadas na confiança. Juran releva a formação e a liderança. Atribui ainda importância à autonomia, através do conceito das equipas autogeridas. Crosby releva a importância do conhecimento e envolvimento dos trabalhadores na gestão da qualidade total e ainda a comunicação dos incidentes detectados à gestão. Feigenbaun afirma que é necessária a colaboração de todos os trabalhadores e o conhecimento dos objectivos da gestão da qualidade total. Ishikawa atribui importância ao envolvimento das pessoas e dá grande ênfase ao conceito dos clientes internos e à noção da participação colectiva. A humanidade é referida como a filosofia da GQT. Fica claro que a pessoas constituem o centro da gestão pela qualidade total. Como refere Ishikawa, a humanidade dos empregados deve ser respeitada e devem ser-lhes dadas oportunidades para que sintam prazer no seu trabalho. Não podem, também, ser esquecidas as recompensas pelo seu trabalho individual. A criação e a manutenção de um clima de trabalho, que encoraje e potencie os trabalhadores a incrementar o seu desempenho individual e da organização, é um aspecto chave da gestão. 8.5.1. Centrar a qualidade no cliente/cidadão Hoje o cliente quer que o serviço que compra seja mais rápido, melhor, mais barato e feito à sua maneira. Na obra, Wining the Service Game, é apresentada uma visão nova para as organizações de serviços que desafia os gestores a melhor entender o processo de criação de valor. Este livro ajuda a compreender o que significa vender um serviço, estabelecendo uma relação estreita entre a gestão de recursos humanos e o marketing e a questão da qualidade1. Os seus autores, com base na sua experiência de trinta anos de ensino e consultoria em gestão de empresas de serviços, apresentam um conjunto de cinco princípios críticos, sem os quais não é possível prestar ao cliente um serviço de qualidade que exceda as suas expectativas. Tais princípios são os seguintes: a) O cliente faz parte da empresa. Assim, nunca se deve separar o cliente do conjunto de pensamentos que se tem acerca do que é o negócio ou do modo como o mesmo deve ser gerido. 1 Benjamin Schneider; David E. Bowen – Winning the Servica Game. Boston: HBSP, 1995. 147 b) Deve-se seleccionar, formar e recompensar os empregados pela qualidade de serviço que eles estão a oferecer, tendo em conta que quem define a qualidade é o cliente. c) É imprescindível prestar tanta atenção ao pessoal que trabalha nas operações (Tratamento) como ao que contacta directamente com os clientes. Se a qualidade do serviço é baixa, o cliente não quer saber quem na empresa é o responsável. d) Deve-se assegurar que todas as direcções da empresa possuem a mesma orientação para o cliente, quando se tenta ir ao encontro das necessidades e das expectativas deste. e) É importante coordenar as quatro recomendações anteriores para poderes promover uma “cultura de serviço”. A função de recursos humanos tenderá a orientar-se para o serviço, fazendo dos recursos humanos o factor diferenciador da empresa face à concorrência, valorizando- os como o “activo” realmente estratégico. Cerca de 65% a 85% dos clientes, que mudam para a concorrência, afirmam que estavam satisfeitos. Isto significa que uma empresa não pode deixar-se adormecer à sombra mole e tépida da satisfação dos clientes. Tem de ultrapassar essa zona de indiferença, atingindo o seu afecto e convertendo os clientes em fieis apóstolos. Sem isso, o perigo espreita em cada esquina. Já lá vão os tempos em que as grandes empresas de serviços, actuando em regime de total ou parcial monopólio, assumiam posturas majestáticas face ao mercado e aos clientes, obrigando o mercado a comprar de acordo com os padrões de qualidade e preço que o patrão escolhera. Durante décadas, na Europa continental, a gestão administrativapouca ou nenhuma importância atribuía ao cliente. Com as mudanças estratégicas, surgidas nos anos oitenta, as novas preocupações estratégicas de administração e gestão passaram a pôr em causa os valores anteriores, que perduraram, ao longo de várias décadas, valorizando em contrapartida o primado do cliente. Neste novo contexto, o cliente é quem faz viver a empresa; permite a evolução dos serviços; é o único juiz da qualidade. A gestão pela qualidade total é o total de aprendizagens sobre a qualidade, expressas em normas, valores e crenças que a comunidade organizacional e cada um dos indivíduos, herdou ou adquiriu, na sua interacção com a envolvente interna e externa, que se revelam válidas e por isso são ensinadas aos mais novos que se integram na organização ou empresa. Os novos valores partilhados são: Satisfação do cliente. Melhoria contínua. “Empowerment” e trabalho em equipa. Liderança/planeamento estratégico. Consolidação de novas normas, valores e crenças. 148 Muitos interrogam-se se a qualidade paga. Os especialistas afirmam que de facto vale a pena a aposta estratégica numa cultura de qualidade porque: Fideliza os clientes já existentes; Atrai novos clientes; Reduz custos (custos da não qualidade); Aumenta receitas; Satisfaz os trabalhadores; Reduz esforços: trabalhar melhor é trabalhar menos; Aumenta a responsabilização individual; Apela à criatividade; Contribui para a saúde financeira da empresa. A qualidade parece dar prazer e valer a pena, desde que esteja orientada para metas de excelência. A excelência é ter prazer em dar ao cliente mais do que ele espera. É exceder as suas expectativas. Se o que o cliente obtém é menor do que estava à espera, há má qualidade; se é igual, há indiferença; se é maior, há seguramente qualidade. É nesta relação de expectativas e percepções do cliente que hoje se joga a excelência da prestação de serviço Ora, tais percepções e expectativas dizem respeito não apenas ao cliente externo que compra um serviço, mas também ao cliente interno, a que vulgarmente chamamos empregado. Sem empregados satisfeitos e fieis, ou seja, agarrados pelo seu lado afectivo, não teremos certamente clientes externos fiéis e, para termos clientes - internos e externos – fiéis, precisamos de prestar a todos um serviço de excelência. Daí, a responsabilidade pela criação e gestão de uma cultura de qualidade dever ser de todos, incumbindo, naturalmente, particular e relevante papel à gestão de topo, à direcção de qualidade e de recursos humanos. Só assim, haverá uma mudança cultural em que o primado deixe de estar do lado dos processos e passe definitivamente para os clientes. Hoje, já não se aceita, quer no sector privado, quer no público, que alguém escolha pelo cliente. O primado do ponto de vista do valor já não reside no processo - no fazer as coisas bem e da maneira certa (eficiência) - , mas antes reside no cliente e daí a importância em fazer as coisas certas (eficácia). As organizações centradas no exterior e no cliente o que esperam dos seus colaboradores é que façam o que for preciso para resolver o problema do cliente. A gestão de recursos humanos desempenha um papel importante na gestão da qualidade, quer de bens físicos, quer de serviços. Todavia, a importância do seu papel é claramente superior na gestão da qualidade dos serviços. Nas organizações de serviços, a qualidade liga-se fundamentalmente à excelência do desempenho das pessoas que as integram. Ora, quem trata deste recurso na organização é a função recursos humanos e, consequentemente, a importância dos recursos em causa contagia a respectiva função. 8.5.2. Centrar a qualidade no empregado: qualidade de vida 149 A gestão de recursos humanos tem por objectivo a condução dos processos relacionados com a admissão, o desenvolvimento, a avaliação e a remuneração dos colaboradores de uma determinada organização. A qualidade de serviço numa organização tem lugar logo no início no processo de admissão (recrutamento, selecção e acolhimento). Isto significa que a organização deve ter muito bem definido o perfil dos seus profissionais em termos do saber mais, saber fazer e saber ser, numa perspectiva que integre a própria inteligência emocional e, em face deste perfil, deverá seleccionar a pessoa certa para o lugar certo, entendido com uma relativa elasticidade que se prende com a mudança e desenvolvimento organizacional e profissional. Se não se selecciona o candidato com o perfil adequado para o atendimento de público, por exemplo, é natural que a qualidade do serviço prestado possa baixar. Por outro lado, mesmo tendo sido seleccionado o candidato certo para o lugar certo, se este não for devidamente acolhido e socializado, de pouco servirá toda a técnica colocada na primeira fase. Por mais bem seleccionado que seja um candidato, se a organização não tiver preocupações sérias com o acolhimento e a socialização, é muito natural que em breve este novo indivíduo milite contra, ou pelo menos não milite tão a favor quanto seria expectável, em prol da qualidade do serviço a dar ao cliente. A socialização, incluindo a formação e o acolhimento iniciais, é a primeira das ferramentas disponíveis para transformar o recém-chegado num novo membro da comunidade de trabalho. Após a selecção, a organização precisa de gerir os seus recursos humanos de forma concertada e estratégica de forma a evitar falhas na percepção de qualidade pelo cliente. A gestão de recursos humanos terá de desenvolver as competências adequadas ao momento e suscitar os níveis de motivação ajustados em benefício da qualidade de serviço. Gerir recursos humanos é, em grande medida, gerir níveis de motivação e envolvimento da equipa de trabalho e cada um dos seus elementos. Uma equipa de trabalho motivada reúne à partida uma das condições críticas para ser ganhadora, atingindo níveis mais elevados de desempenho e de satisfação no trabalho. A gestão da satisfação no trabalho deve ser incentivada através de uma intervenção integrada das diversas componentes de gestão de recursos humanos. Aspectos, tais como o estilo de liderança, os sistemas de remuneração, o desenho do posto de trabalho, a envolvente social, a política de gestão de recursos humanos, são alguns componentes a valorizar na melhoria da qualidade de vida no trabalho. O domínio das competências, profissionais e emocionais, para o bom desempenho do posto de trabalho, é um requisito indispensável para que a organização forneça uma boa qualidade de serviço. Se o empregado sorri muito, mas não informa tecnicamente bem o cliente, o mais certo é que este venha a abandonar este fornecedor e, tratando- se de um serviço prestado em regime de monopólio, sem alternativa no mercado, o normal é que a qualidade, vista pelo olhar do utente, atinja níveis extremamente baixos. 150 A modificação do comportamento organizacional pode não dar apenas origem à alteração de comportamentos numa direcção pretendida, como também ser sujeita a medição objectiva, a qual permite avaliar quer os resultados da formação, quer a distância entre a qualidade desejada e a obtida1 A gestão do desempenho também desempenha um papel importante no processo destinado a aumentar a qualidade de serviço através da acção dos trabalhadores. A definição de objectivos, para cada indivíduo e para cada departamento, nomeadamente, usando processos como o balanced scorecard2 e o controlo do desempenho, devem ser acompanhados de entrevistas para definição partilhada de objectivos, as quais não devem centrar-se exclusivamente no desempenho passado, antes retirando dele implicações para o futuro. A organização não deve transformar a entrevista de identificação de objectivos num momento de controlo, mas numa oportunidade de desenvolvimento, aproveitando o desempenho passado para preparar e traçar metas para o futuro. Na linguagem corrente de gestão, diz-se