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FR EN TE Ú N IC A 145 propagação de suas obras que, finalmente, foram traduzidas para o francês na metade do século XX e assim apropriadas por aqueles que mais tarde viriam a desenvolver o existen- cialismo que conheceremos nas figuras de Jean-Paul Sartre, Albert Camus e Simone de Beauvoir. N ie ls C hr is tia n Ki er ke ga ar d/ W ik im ed ia C om m on s Fig. 10 Esboço inacabado de Søren Kierkegaard, desenho de Niels Christian Kierkegaard, c. 1840. A noção de escolha constitui uma das ideias fundamen- tais da filosofia de Kierkegaard. Ela seria o próprio núcleo da existência humana. Aqui reside seu existencialismo, uma vez que a verdade do mundo se acha no que serve para cada um individualmente. Mas a escolha está intimamente associada à angústia. Na obra O conceito de angústia (1844), o filósofo define esse afeto como um medo fora de foco, disperso, isto é, como vertigem. Usa a metáfora de um ho- mem que, na beira de um penhasco, sente medo. A primeira sensação é a do medo de que pode cair, a segunda é a de que pode decidir cair, isto é, lançar-se ao vazio. A angústia representa o medo de não saber o que fa- zer diante da liberdade de escolha, causando sentimentos de solidão ou o desejo exagerado por ter controle sobre a vida e nem sempre ter sucesso. Ter liberdade não garante felicidade. Mas o homem quer ser livre e ser feliz ao mesmo tempo, sendo a liberdade uma condição e a felicidade uma obrigação. Não podendo resolver a equação, torna-se insu- portável viver e, assim, surge outro sentimento: a frustração. Como ter certeza de que as escolhas expressam autenti- cidade ou são apenas os papéis sociais que a sociedade espera que sejam cumpridos? Fig. 11 O casamento é uma escolha ou uma convenção social? Tudo se intensifica quando estamos diante de esco- lhas morais, ou seja, aquelas que envolvem a noção de bem e de mal. Qualquer que seja nossa decisão diante de uma escolha, ela não é tomada sem antes envolver o sentimento de angústia. Para Kierkegaard, questionar-se é compreender que a angústia não é um sentimento de todo negativo, pois por meio dela nos tornamos autoconscientes. Refletimos se tomamos a via do pecado (da transgressão moral) ou se optamos pelo caminho da realização de nossa identidade: ser e fazer o que quisermos. Se a angústia é inevitável, seria possível aprendermos com ela? Kierkegaard mostrou o que acontece quando enfrentamos repetidas vezes a mesma situação: desenvol- vemos a autenticidade, a autoconsciência e, finalmente, a autonomia. Mas para compreender a repetição era preciso entender primeiro a noção de instante. Para o autor, há dois tipos de instante: o que se relaciona ao aqui e agora, ocasião para encontrar a autenticidade, e aquele em que a verdade surge com o tempo, sem depender do próprio sujeito e de suas ações, mas de algo além que permite sua autocompreensão. A repetição consiste no aprofundamento desse se- gundo instante, que aponta para um futuro. Não se trata, pois, de uma recordação, de um vetor para o passado, mas equivale ao processo de retomada da autenticidade: possibilidade de que cada um possa tornar-se aquilo que é. Possui um sentido religioso, relacionado ao conceito de redenção. Segundo Kierkegaard, a experiência da condição huma- na está dividida em três etapas ou estádios: estético, ético e religioso. Seu interesse era compreender como operam as escolhas na vida de qualquer indivíduo. O autor argumenta que todo ser humano, sendo ser em construção, pode per- correr tais etapas para finalmente tornar-se quem é. Todos os estádios espelham facetas da existência humana e, de certa forma, se completam, ainda que não seja certo afirmar que todos os indivíduos vivenciem todas as etapas. O estádio estético está ligado ao divertimento e ao prazer. Despreocupado e guiado pela fantasia que predo- mina sobre a razão, o indivíduo abraça o mundo exterior, o efêmero e o passageiro. O estádio ético está ligado à luta e ao conflito. O indivíduo vive uma etapa em que o dever e as responsabilidades são o que o movem. Por fim, o estádio religioso está ligado ao sofrimento e à fé. O indivíduo a percebe como necessária, mas isso implica obrigações de outra natureza, que entram em conflito com as obrigações das leis presentes no estádio ético. Nessa etapa, o indivíduo deve abandonar-se a Deus, por meio de renúncia, a qual implica sofrimento. Conside- ra-se assim que Deus não existe, Ele é. Se a realidade contém Deus, não é possível demonstrá-lo, uma vez que não se trata de algo natural. A fé representa o grau mais alto de subjetividade e é realizada pelo sentimento, mas também pelo entendimento. A escolha pela fé conta com a paixão pelo infinito, e não pelo conteúdo da verdade alcançada pela objetividade. Assim, tem-se que a adesão à fé é pessoal e representa uma escolha sem garantias na razão, ainda que sua aceitação não seja irracional. Pa w el _C za ja /iS to ck ph ot o. co m PV_2021_FIL_FU_CAP11.INDD / 14-09-2020 (20:28) / LEONEL.MANESKUL / PROVA FINAL PV_2021_FIL_FU_CAP11.INDD / 14-09-2020 (20:28) / LEONEL.MANESKUL / PROVA FINAL FILOSOFIA Capítulo 11 Filosofia Contemporânea: século XIX 146 Na obra Temor e tremor (1843), Kierkegaard nos dá o exemplo bíblico de Abraão para refletir sobre a questão da escolha pela fé. Nessa passagem, Deus manda Abraão matar seu filho Isaac, mas Abraão entra em conflito. Quando o indivíduo sente a insuficiência da moralidade, ele perde segurança e estabilidade. Então, aceita a fé. C ar av ag gi o/ W eb G al le ry o f A rt Fig. 12 Caravaggio. O sacrifício de Isaac, 1590-1610. Óleo sobre tela. Abraão, des- crito como o “cavaleiro da fé” por Kierkegaard. Kierkegaard então chama atenção para o dilema de Abraão: fazer o que Deus exige ou poupar seu filho Isaac? Se Abraão não mata o filho, ele é ético, mas não obedece a Deus e perde a fé. Se mata o filho, peca diante de Deus. Nesse contexto, Kierkegaard mobiliza o conceito de absur- do e reflete sobre o paradoxo que a fé impõe. Abraão, sem saída, deve saltar para a fé, aceitando o absurdo da exigência divina e concordando com uma suspensão do ético em favor do religioso. Em situações críticas, a escolha que o indivíduo se sente obrigado a fazer independe de quaisquer critérios racionais, isto é, as regras gerais e universais não podem ajudá-lo. O filósofo reforça que essa escolha não ocorre de modo gradual, mas abrupta e radicalmente. Quem opta pela fé torna-se exceção, pois se desprende da vida social e firma um pacto com Deus. Essa opção representa solidão, pois o indivíduo que assim decide viver sabe que será incompreendido e viverá apartado. Por isso, se a escolha pela fé for motiva- da pela tentativa de escapar da angústia, essa será uma escolha infeliz. O filósofo dinamarquês tocou em um tema que faz sentido ainda em nossos dias: nossas experiências de sub- jetividade têm sido, em grande parte, negativas quando se opta pela perda de si mesmo. Ao não enfrentar a angústia, abandonamos o mundo interior e nos perdemos na aliena- ção. Hedonismo, excesso de controle e fanatismo religioso e/ou político são experiências comuns em nossa época. Nietzsche e a filosofia da suspeita Friedrich Nietzsche (1844-1900) nasceu na Alemanha e talvez seja, entre os filósofos apresentados neste capítulo, o mais conhecido entre o público leigo. O interesse por Nietzsche está muito associado à sua postura em relação à realidade, mas também ao seu modo de fazer filosofia. Nietzsche afirmava que aquilo que não pertence à vida torna-se uma ameaça. As criações que inventamos (Estado, religião, verdade, progresso, ciência, revolução, para citar alguns exemplos) devem ser destruídas para que possamos compreender o mundo tal como o vivemos. Fr ie dr ic h H ar tm an n/ W ik im ed ia C om m on s Fig. 13 Friedrich Nietzsche, fotografia de Friedrich Hartmann, c. 1875. Nietzsche busca desmascarar o otimismo pela razão, afirmando que o homemracional confunde a luta contra as mazelas do mundo com a tentativa de domesticá-lo. Afinal, a razão abomina tudo o que traz erro e imperfeição, ou seja, a “experimentação”. Para tanto, Nietzsche critica a influência de Sócrates na cultura ocidental, que ressalta as qualidades do deus Apolo (deus da forma, da clareza, da individualidade) afastando-as de Dionísio (o deus selvagem, do êxtase, das alegrias festivas, dos impulsos). Fig. 14 As tirinhas estabelecem diálogos entre Nietzsche, o homem e Deus. Note a crítica de Nietzsche ao idealismo, revelando a Deus sua imagem (negada) no espelho e, portanto, a sua inexistência. C ar lo s Ru as /w w w .u m sa ba do qu al qu er .c om PV_2021_FIL_FU_CAP11.INDD / 14-09-2020 (20:28) / LEONEL.MANESKUL / PROVA FINAL FR EN TE Ú N IC A 147 O traço niilista – que alguns atribuem à Nietzsche e que outros afirmam ser sua crítica – associa-se à recusa das crenças e convicções impostas pela modernidade ocidental a partir da denúncia lançada aos valores morais, éticos, estéticos, científicos e políticos. É importante, no entanto, tomar cuidado com o conceito de niilismo, pois há mais de um sentido para essa palavra na filosofia de Nietzsche. Ele é crítico do niilismo e, ao mesmo tempo, adepto dele. Haveria, ainda, outros dois tipos de niilismo. Niilismo (em geral): em que são negados os valores da vida em nome de ilusões idealistas, como o “mundo das ideias”, ou “paraíso cristão”, entre outras formulações. É o niilismo que Nietzsche criticava em Sócrates, Platão, no cristianismo e em outros, por exemplo. Niilismo (passivo ou incompleto): em que os valores vigentes são destruídos, porém não dão lugar a novos. Tem-se como exemplo o movimento anarquista. Niilismo (ativo ou completo): compreende a ideia de que, no mo- mento em que o homem nega os valores de Deus, deve aprender a ver-se como criador de valores, e no momento em que entende que não há nada de eterno após a vida, deve aprender a ver a vida como um eterno retorno, sem o qual o niilismo seria sempre um ciclo incompleto. Nietzsche aposta no niilismo ativo. Saiba mais Em Assim falou Zaratustra (1883-1885) Nietzsche de- senvolve os conceitos mais relevantes que explicam sua postura diante dos temas sobre os quais queria refletir, sen- do também porta de acesso à sua maneira de escrever. Os conceitos de eterno retorno e de além-do-homem são re- levantes porque trazem a temporalidade da vida como algo essencial em seu pensamento, caracterizando Nietzsche como um filósofo da existência humana. A passagem do tempo é a principal forma pela qual podemos nos dar conta da existência, o que nos leva a pensar sobre sua imperma- nência e inconsistência. Contudo, o que fica para trás no tempo é o que per- mite comprovar a nossa impotência como seres humanos, sendo este o drama fundamental. O tempo em relação à vida humana revela simultaneamente sua consistência e sua vulnerabilidade. Passado é o Presente que não é mais. Presente é aquilo que deixa de ser no momento em que é. Futuro é o Presente que ainda não é. Nietzsche irá propor o resgate da impotência, anali- sando as várias tentativas humanas de superá-la, não para lamentar, mas para poder manter uma relação mais sincera com o tempo. Em primeiro lugar, é preciso amar, querer o que já foi e que não se pode modificar. Em segundo lugar, é preciso viver cada instante como se aquele instante pu- desse se repetir eternamente. Ou seja: aceitar o presente (amor fati ou amor ao destino) da forma como ele é. Liberando o horizonte de futuro e redimindo-se da sua impotência, é possível pensar que a repetição da vida não é, necessariamente, uma maldição, mas justamente a con- dição para que se possa ter uma vida plena. Por meio do personagem Zaratustra, que teria a mis- são de colocar para a humanidade novos valores (após a morte de Deus), a ideia de um portal do instante sur- ge para mostrar que viver eternamente no presente é o que possibilitará a inteireza e a beleza de uma vida, que para o filósofo deveria ser como a de uma obra de arte. No entanto, viver a vida como obra de arte é algo sobre-humano. Fig. 15 Ouroboros: representação do eterno por meio do ciclo que se reinicia. O tema do bem e do mal que acompanha Nietzsche nas reflexões de obras posteriores aparece pela primeira vez em Assim falou Zaratustra. Inspirando-se em uma lenda persa dos séculos XII a VI a.C., Nietzsche elabora a figura do profeta Zoroastro, considerado um dos primeiros inventores da moral metafísica que afirma que o bem e o mal eram forças que lutavam entre si. O objetivo principal dessa obra centra-se na ideia de recusar os ideais do homem moderno por meio da quebra dos valores morais sustentados hipocritamente pelas ins- tituições educativas, políticas e culturais. Nietzsche afirma que é preciso destruir os ídolos existentes e criar novos valores. Esse é um ponto importante que o afasta de ser um pensador niilista passivo, pois não apenas recusa os valores existentes, mas tem a pretensão de oferecer uma saída. E a saída está na figura do Übermensch, que pode ser traduzida como além-do-homem ou super-homem, isto é, a criação de um homem com novos valores. O ponto de partida para se chegar a ser esse super-ho- mem é a destruição do cristianismo, pois foi isso que deu início às formas de pensamento igualitarista, considerada por Nietzsche um “amolecimento dos sentimentos”. Para o filósofo, sentimentos como a compaixão, perpetuados pelo cristianismo ao longo dos séculos, propagou o medo diante da vida, a espera pela punição dos opressores e a recompensa após a morte. A dimensão fundamental do além-do-homem consiste no que ele pode fazer para poder suportar viver em um mundo em que não pode mudar o passado (os valores que já estão constituídos). Somente o homem que vive intensa- mente seu presente e que o aceita pode, como a serpente mitológica, autodestruir-se, questionando as imposições e criando valores novos. Por meio do conceito de vontade de poder, Nietzsche constrói uma interpretação global contra o dogmatismo que caracterizou as múltiplas esferas da cultura: a ciência, a arte, a ética, a religião, a política, a economia e a educação. i_ pa nk i/i St oc kp ho to .c om PV_2021_FIL_FU_CAP11.INDD / 12-09-2020 (09:44) / WALTER.TIERNO / PROVA FINAL PV_2021_FIL_FU_CAP11.INDD / 12-09-2020 (09:44) / WALTER.TIERNO / PROVA FINAL