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******ebook converter DEMO Watermarks******* ******ebook converter DEMO Watermarks******* Em memória de Elisa Regina Kreimer, por ter colocado à prova a sinceridade desta obra. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Sumário Para pular o Sumário, clique aqui. Introdução I - Ordens e desordens Ocultamento – o meu, o seu, o nosso desespero Aié e Malé – Velamento e revelação Preservação – Distinguindo as dimensões de verdade e amor A concordata (nunca a falência) da consciência A entrega antes da entrega Estéticas fora do caos A estética das coisas no seu tempo certo (Davar Be-itó) A estética das coisas no seu lugar certo (Ba-asher Hu Sham) II - Ordens além da ordem “E viu que era bom.” Bom o quê? A morte A dinâmica das pausas 1/60 de morte 1/7 de morte Sabendo perder para o universo Ruim, não... amargo Amargo, não... bom Tachlis – Objetivamente, sem rodeios Lidando com o que não nos diz respeito Alegria como receptáculo A incomunicabilidade da visão – Nós não temos luz própria III - Desordem – Expansão por contração Com medo do conhecido Teria sido melhor não ter nascido! Os incríveis momentos em que não temos saída O maior de todos os terrores (leia em particular, se tem medo) ******ebook converter DEMO Watermarks******* O direito de pedir (Aquele que Ordenou que o Óleo Ardesse, que Diga ao Vinagre que Queime) IV - Abraçando a desordem A “esgotabilidade” da tristeza Saudades como falta de si mesmo Aprendendo a se salvar O ensinamento deste exato momento (Ora’at ha-sha’á) V - Segredos da desordem Os atrativos de se ficar Purezas e impurezas Montepios e previdências para mortais Consolo e con-todos Surdo, sim. Cego, não! Enumera teus dias Mostra-nos um amor que possamos compreender (Reb Nachman de Bratslav) Rastreando os limites A impermanência da morte Quando Deus for um Epílogo de outra dimensão Créditos O Autor ******ebook converter DEMO Watermarks******* A certeza é como uma fina camada de gelo sobre um lago. É o efeito de borda sob o qual os seres humanos experimentam sua vida. Por um lado, atravessam o lago os simplórios; caminham seguros sobre o lago congelado, tendo uma vaga sensação do que há sob os pés. Por outro, atravessam os alegoristas e os místicos; caminham pela superfície já semidegelada, saltando de um bloco de gelo a outro. É possível chegar à margem de ambas as formas. Para os primeiros, a incerteza é um fantasma, e sua ignorância os protege de qualquer vertigem. Para os últimos, a incerteza é a rachadura, que é vista apenas quando o pé já está sobre o bloco de gelo seguinte. Apesar de um mero efeito, o gelo é real, e sua solidez instável é suficiente para suportar a vida e tudo o que a ela diz respeito. Felizes daqueles que vão de margem a margem com algo sob os pés. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Introdução Este livro é um desejo antigo. Muito antes de assumir esta forma, ainda ao sabor de uma questão existencial, já existia como desejo. Nascia do choro infantil que no passado não encontrou acolhimento e conheceu a resignação, ou do período de tempo que transcorria já em braços calorosos para recobrar o gosto pela vida tentando dar conta de um descaso que assumira proporções cósmicas; ou da solidão de minhas quedas recompostas por impotentes curativos que não davam garantias para outros tropeços. De todas essas experiências de dor permanecia um misterioso senso de encontro. Um encontro que na vida adulta assume contornos oníricos, esquecidos que ficamos daquilo que sempre nos visitará. Encontros que na velhice e na perda se fazem reais, como a temida ânsia de vômito da infância que revela um eu involuntário, convulsão de tudo o que é real e irá mais cedo ou mais tarde externar-se e comparecer. Mundo do hálito, e não da estética. Mundo onde o que é vivo não conta com outro parceiro senão a própria vida. Mundo-referência, onde o que está em jogo na espera não é a chegada, mas a qualidade da própria espera. Mundo em que pais nos acariciam para que durmamos, enquanto seus olhos estão cheios das mesmas dúvidas que nos fazem temer o escuro. Instante em que nos deixam, semiadormecidos, numa fração de tempo em que não sabemos se choramos ou se nos entregamos ao torpor do sono. Momentos de resistir ou de se entregar à dor. Tempos bons, que nos subjugam em lágrima pela saudade do que ainda não sentimos falta. Tempos difíceis que se diluem no próprio tempo, deixando a incômoda sensação da cicatrização. Bendito sangue, que coagula e nos preserva! Maldito sangue, que coagula e nos faz mais fortes do que o próprio ferimento, marca do caráter dispensável de tudo o que gostaríamos que fosse indispensável. Anos mais tarde, quando prestei assistência espiritual em um hospital, minha alma voltaria a dissimular seu desconforto ao mimetizar pacientes que, ora de lado, ora de bruços, ora com o olhar perdido no teto, buscavam uma posição de vida. Reencontrava o antigo jogo de velar e desvelar meu companheiro. Jogo que fazia de mão dada a meu avô – apalpar sua mão calejada pela força da vida e olhá-lo de soslaio, fazendo uso de minha precária compreensão de que, em linha sucessória, seria ele o primeiro a abandonar-me. Dúvidas que se esclareciam à medida que me acostumava com elas. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Seria esse meu amigo, cujo nome não se deve nunca pronunciar, real ou ilusório? Esse amigo, que abraçava ao dormir junto de meus objetos transicionais, seria ele imaginário ou não? Um amigo que eu, apesar do medo, não exorcizava completamente, pelo prazer que me proporcionava fitá-lo nos olhos. Prazer daquele que, por ser vivo, não pode se dar ao luxo de abandonar qualquer aspecto da existência. Prazer de quem quer tudo a que tem direito, mesmo sua dor numa ousadia que é a própria definição e contradição da vida. Mas um mestre do passado teve a coragem de expor à luz esse amigo, ao preço do dia. Um mestre que sem propor novos tempos ou novas eras, desde seu pequeno mundo, teve coragem de olhar de frente seu “amigo monstro” e dizer: o desespero é uma ilusão. Sob sua cabeça, o monstro fez rugir do seu mais cruel uivo, debatendo-se e revelando-se mais e mais. E quanto mais se fazia visível, mais era desmascarado e friamente negado. Seu poder de rasgar a pele, de sufocar a alma na perda mais inaceitável que se possa imaginar, permitia ao mestre que ofertasse mais e mais material desse monstro em holocausto. Quanto mais lhe fazia ver as profundezas que a dor pode atingir, mais se regozijava na confirmação de sua descoberta – é uma ilusão. Tudo isso ao custo real da época, como custaria hoje a cada um de nós. Para a frustração daqueles que sonham com finais felizes, o monstro não se desfez nem se desmaterializou. Permaneceu ali, executando sua função vital, apesar de rebaixado a uma categoria não absoluta. Machucado, como humano que honrava em ser, o mestre estava tranquilo para entregar-se à dor, qualquer que esta fosse, sem a companhia do monstro. A dor não é uma ilusão, é sintoma de vida. Onde quer que haja vida, haverá dor; onde quer que haja vida, será possível desmascarar o desespero. Este livro traz várias das ideias que mapearam o caminho desse mestre rumo ao centro do seu ser, onde habita o desespero. As que não têm origem direta em suas palavras também se inspiram nesse mestre, que, apesar de pouco conhecido fora dos círculos judaicos, acredita ser parceiro em grandeza metodológica de outras importantes figuras do final de seu século. Freud quis ter acesso ao avesso da mente, Marx ao avesso do social, Einstein ao avesso da ciência; e ele, Reb Nachman de Bratslav, quis ver o avesso da existência. Seu estudo foi uma tentativa de estruturar a noção de caos a partir do melhor aparato de que dispunha – a perspectiva da existência. O resultado de sua pesquisa foi a descoberta arcaica de que a existência desafiava a lei da entropia. Sua percepção realista do mundo associada à obsessão pela alegria e o desdém pelo desespero, fizeram dele um dos ******ebook converter DEMO Watermarks*******primeiros a esboçar categorias de ordem e desordem nas quais o ser humano e tudo o que é vivo estão na contramão do cosmos. Por isso, tudo é tão perigosamente frio e alienante – estamos plantados num universo que postula contra nós. Para Reb Nachman, devemos ter a coragem de rejeitar o universo e de sustentar nossa esperança. “Este universo é apenas uma ponte muito estreita; o fundamental é não sentir medo.” Lançado que estava de braços abertos por sobre seu destino, a experiência de “cair” não o impressionava. Nada mais óbvio que, num mundo dessa natureza, a queda seja uma experiência constante daquilo que é vivo. Por sobre o caminho pavimentado por essa alma sem vertigens é que este trabalho se constrói. Visa mediar o encontro com aquele que, por estar adormecido e latente, é tão poderoso. Sua proposta, já em si muito pretensiosa, não anuncia alternativas de cura, mas medidas “sanitárias” no combate aos focos de desespero. ******ebook converter DEMO Watermarks******* I ORDENS E DESORDENS ******ebook converter DEMO Watermarks******* Ocultamento – o meu, o seu, o nosso desespero O desespero é um sentimento que nas diversas línguas foi expresso como “a perda de algo”. Em português, representa a perda da esperança. Em hebraico, a palavra “desespero” é expressa por um verbo reflexivo, construído a partir da raiz y-a-sh, que significa “desistência da busca de um objeto perdido”. Produto talvez da sabedoria popular, reconhecia-se que após buscar exaustivamente havia um momento derradeiro de desistência. Até então, acreditava-se na possibilidade de “encontro”; a partir daquele momento, porém, abre-se mão e se desiste. Algo semelhante à situação em que, por ocasião de um acidente, encerram-se as buscas por parte das autoridades e considera-se a tarefa impossível, ou que não vale mais a pena ou o custo. Colocada de maneira tão concreta, a forma reflexiva hebraica utilizada para significar “desespero” poderia muito bem ser traduzida como “desistir-se”. A partir dessa definição, se poderia classificar o desespero como uma anomalia – não faz parte do jogo da vida a possibilidade de se desistir de si mesmo. Por outro lado, dir-se-ia que o terror, associado ao desespero, não é produto de um iminente sofrimento, mas que se origina na própria dor de se abrir mão de si mesmo e suas implicações. É interessante notar que “desistir” é um ato de entrega, da mesma forma que a fé e a esperança são também atos de entrega. Quando os indivíduos perdem o fôlego da juventude ou dos interesses temporais, experimentam um afastamento da sensação de controle, que é uma estrutura artificial de “fé”, convencionada para gerar ordem. Tal crise surge pelo fato de a realidade biológica esgarçar de maneira irreversível a relação entre corpo e mente, tornando a entrega a única opção possível. Essa entrega pode então ser o desespero ou a fé. Por desespero não devemos conceber necessariamente o estereótipo de alguém em pânico, mas a situação em que um indivíduo é tomado por um cinismo rascante, pouco se importando se com sua perda arrasta consigo outras perdas. Tampouco devemos tomar como exemplo de fé a imagem do mestre espiritualizado ou a imagem da carola entorpecida, mas uma atitude de considerável serenidade diante do envelhecimento, das perdas e da valência de outras visões de mundo que não a nossa. Portanto, consideraremos o controle o patamar de vida onde o desejo do ******ebook converter DEMO Watermarks******* corpo impõe à alma uma sensação de estabilidade artificial. Enquanto essa sensação puder ser sustentada, ela se preservará; quando não for mais possível, a alma se porá em movimento. No controle, a alma fica estática, ou com a mobilidade extremamente reduzida. Como no fenômeno da obesidade, “inchamos” em vez de nos tornarmos maiores e mais fortes. No universo do controle, a vida não se afirma pela ordem percebida ou criada: a vida “incha”. A ordem não é uma estrutura visível a todos os momentos e muitas vezes não coincide com nossa particular percepção de ordem. Nosso interesse, por assim dizer, se volta para o momento em que “a alma se coloca em movimento”. O desespero e a esperança seriam, aparentemente, as duas únicas posturas de vida que poderiam conter em si a dimensão desses “deslocamentos”. O que é revolucionário em linguagem e ousadia no trabalho de Reb Nachman é negar que os deslocamentos do desespero e da fé se deem em sentidos opostos. Pela sua frase relativa à alma – ieridá tsorech aliá hí (a descida é uma necessidade intrínseca da ascensão) –, Reb Nachman se utiliza do modelo de vasos comunicantes com um fluxo na direção da ordem e da fé. Assim, o próprio desespero é um movimento momentâneo de descida cujo deslocamento se dá no mesmo sentido da fé e da esperança. O que ele descreve como o “fenômeno do ocultamento” é a sensação real de descida que se constitui, no entanto, de uma etapa da ascensão. A falta de compreensão dessas descidas por parte dos seres humanos é que constrange a percepção de uma realidade de ordem. Na linguagem de Reb Nachman, esta ordem é a divindade; a descida é seu ocultamento. O desconforto do desespero e a vertigem na queda são sintomas d’ alma, tal como a febre é sintoma do corpo. Cada causa identificada e vencida deste sintoma aumenta a imunidade do indivíduo. O desespero, ou a queda, é parte intrínseca de um “sistema imunológico existencial” – é parte da subida. A questão que se coloca, no entanto, é a seguinte: até que ponto se podem relativizar essas descidas sem transgredir nossa própria humanidade? De onde adviria a certeza de que há fundo no poço? Como esperar que nossa experiência passada possa resistir às dúvidas quando a vida se apresenta nova, diferente de tudo o que já vivemos? Como lidar com a morte e sua expectativa se a extensão dessa “descida” é imensurável? O desespero é construído de experiências que são o oposto do puro. Sensações de estarmos fazendo uma incursão em um território imundo... um lugar onde não há luz, onde não há natureza para trilharmos qualquer caminho. Nas palavras de Reb Nachman são lugares do vazio, onde não há ******ebook converter DEMO Watermarks******* Torá . Para os judeus, a Torá, a Revelação divina, é um ato de amor do Criador, porque dá orientação ao “nada”, oferecendo direção e sentido. Segundo ele, o caos original que é maculado pelo ato da Criação não foi extinto, mas tornou-se o próprio contexto onde a ordem se planta. A ordem que se havia estabelecido para as estruturas vivas conviveria com o caos latente da realidade. O segundo movimento de ordem, por sua vez, teria sido a Revelação, que buscava estendê-la não só à vida, mas também à esfera existencial. Nossa origem, nosso destino e a quem devemos prestar contas são a essência da busca de ordem existencial através da Revelação. A Revelação, ao contrário da Criação, é um ato inacabado, a espera da transcendência espiritual que instauraria ordem também na esfera existencial. Nesta dimensão, o caos e o vazio coexistem com a Revelação. Onde não houver a Torá, haverá vazio e carência de ordem na dimensão da existência. Isto tudo, no entanto, ainda não se constitui na experiência de desespero. O ocultamento não é a essência do desespero. O desespero é instaurado pela sedução que o ocultamento exerce sobre a criação. O ocultamento, o caos na experiência existencial, é parte intrínseca de um processo de Revelação ainda em andamento. Para esse processo, o próprio ocultamento, a própria sombra, tem uma função essencial, como veremos adiante. O véu que cobre a ordem ou o ocultamento da ordem seria imprescindível, porque a “luz absoluta” é de uma intensidade destrutiva. Para que tal luz pudesse existir no mundo da Criação, onde as criaturas, as diferenças e as integridades devem ser preservadas, se fez necessária a existência do ocultamento. O ocultamento contém a luz, sob a forma de uma klipá – uma casca ou uma pele. Mas por que a ordem e a vida teriam de se estruturar sob formas recobertas por algum tipo de couraça? Por que tudo e todos têm pele,cascas ou superfícies? Se repararmos, perceberemos que tudo o que existe é limitado por algum tipo de borda. Se assim não fosse, deixariam de “servir” à Criação com sua existência. Essas cascas, portanto, revestem uma essência que na sua limitação se faz específica. Há uma “limitação-banana”, uma “limitação- vaca” e uma “limitação-bromélia”, sem as quais não haveria neste mundo nenhuma dessas manifestações da Criação. A expectativa de dar conta do ocultamento, de eliminar as klipot, as cascas, é concebível apenas sob uma nova ordem, expressa em muitas tradições pela ideia milenar da Salvação. Para que esse processo se estabeleça, é prioridade básica conter o “encantamento” que a dimensão oculta exerce sobre o ******ebook converter DEMO Watermarks******* “mundo das cascas”. Isso porque as cascas não só nos preservam, mas têm como efeito colateral o desejo de mais cascas. Como se a ordem fosse alcançada produzindo mais couraças. As “cascas”, por servirem de proteção à individualidade e à diferença, tendem a fazer com que tudo o que é vivo deseje engrossá-las ou multiplicá-las. Na busca por ordem, se produz mais desordem. Para os seres humanos, a facilidade da mente em criar cascas representa um enorme risco de nos fazermos prisioneiros do mundo do ocultamento. Nossa consciência é um mundo de cascas; um espaço onde as coisas se fazem claras pela limitação, pela definição e pela diferenciação. É a dimensão do “ou” – “ou isto ou aquilo”. As cascas tentam eliminar toda forma de contradição e dão origem a todos os tipos de ciência neste mundo. Tal hábito de crescimento em direção ao ocultamento tem como custo maior a possibilidade do desespero. Acabamos, assim, por arquitetar um mundo sem saída, um labirinto de sofrimentos, perdas e angústias. Como podemos tratar as questões fundamentais da vida que não encontram resposta sem nos tornarmos presas da dimensão do desespero? Como abordá-las desde uma perspectiva de não desesperança sem trair nossa consciência e inteligência? ******ebook converter DEMO Watermarks******* Aié e Malé – Velamento e revelação Tanto a entrega ao desespero como a esperança estão intimamente relacionadas com a forma pela qual respondemos às nossas questões existenciais. No entanto, fica difícil compreender por que os indivíduos que possuem aparatos lógicos e de reflexão semelhantes possam chegar a visões de mundo marcadas tão distintas. Quando respostas existenciais diferem em essência, torna-se evidente que as questões iniciais foram entendidas de forma distinta. Reb Nachman conhecia essa realidade e pôs-se a enunciar duas estruturas de questionamento humano que são fundamentais para a compreensão da esperança e do desespero. Utilizando-se de duas formas nas quais a glória divina é mencionada na liturgia e nas Escrituras, Reb Nachman enuncia essa distinção. Tais menções falam da ordem de “Aié” – “Onde está o lugar de sua glória?” ( Aié mekom kevodó? ) e “Malé” – “Toda a Terra está repleta de Sua glória!” ( Malé ét kól ha-arets kevodó! ). A primeira expressa dúvida e angústia, e a segunda, certeza e fé. A palavra Aié (“onde?”) denota busca existencial. A mesma palavra – aieka, “onde estás” – é utilizada na Bíblia, no episódio em que o Criador procura por Adão no Paraíso, logo após este ter provado da Árvore da Sabedoria. “Aieka? ” significa: “Onde está você, Adão”, no sentido existencial (em vez de espacial) “neste momento? Por onde anda a tua alma?” Em outra instância, a mesma palavra aparece no relato dramático do quase- sacrifício de Isaque. Ao acompanhar seu pai ao que seria seu próprio sacrifício, Isaque desconfia de todo o preparativo e ritual da jornada e questiona: “Ve-Aié ha-sé le-olá” [“Vejo tudo o que é necessário para a realização de um sacrifício, mas onde está o cordeiro?”]. Nesse instante, o “onde está” é puro drama existencial – “onde está aquilo que é fundamental para eu compreender o que já começo a compreender?”. Há um tom retórico em Aié, por representar uma dúvida profunda d’alma que talvez não aguarda resposta, mas manifesta sua angústia. Quando alguém se pergunta “onde está a glória divina?”, expressa a mais sofisticada tentativa humana de lidar com o caos e a dúvida. Por sua vez, o conceito de Malé (a Terra está repleta de Sua glória) ******ebook converter DEMO Watermarks******* representa o mágico momento em que a ordem se decodifica de maneira clara e cristalina. Como na visão do profeta Isaías (6:3), de onde a frase é retirada, os seres celestes anunciam a presença da glória divina sem máscaras ou véus. Tal conceito representa os momentos em que somos tocados pela existência, em que não temos dúvida sobre a existência da ordem, ou os momentos nos quais o prazer e a alegria de se estar vivo são tão sólidos que nos fazem perceber o mundo como calçado por um chão de paz e certeza. As questões de vida do tipo Aié (onde está a glória divina?) são, por assim dizer, relativas a perguntas que não possuem resposta objetiva neste mundo, mas tão somente direcionamentos. Já as questões do tipo Malé (o mundo repleto da glória divina) são as que possuem, sim, resposta objetiva, ou seja, que estão ao alcance do conhecimento humano. Ambas são questões características dos seres humanos; todos nós chegamos a este mundo buscando compreensões do tipo “onde está?” e “aqui está!”. Nossa perspectiva inicial, por natureza, é sempre de ordem, seja ao buscar saber ou ao constatar. É a vida que nos torna céticos com relação à ordem. Assim, o desespero pareceria ser primordialmente definido pela ausência das percepções Malé (repleto). No entanto, é da carência de Aié (“onde está?”), na falta da busca em momentos de ocultamento, que se instala e de que se nutre o desespero. A existência de uma única busca do tipo Aié, de uma procura, basta para que se afaste o desespero. O desespero é instituído pela desistência, que é a incapacidade de lidar com o mundo sob o prisma de Aié (“onde está?”). Nesse sentido, a relação com as questões de Malé (repleto) também pode propiciar o desenvolvimento de condições adequadas ao desespero. A dimensão de Malé deveria ser sempre da ordem da gratidão, e nunca uma expectativa de que, para os seres humanos, todas as questões sejam contempladas com uma sensação de Malé. Muito ao contrário, reconhecer a existência de Aié é poder suportar o fato de que o mundo e a vida não podem ser reduzidos à ordem de Malé. Essa dimensão de Malé absoluto configura a esfera da Salvação, que não deve ser confundida com a esfera da Revelação – caracterizada pelo esforço para se esboçar formulações Malé e Aié, onde a dúvida enobrece o saber e a sabedoria supre a dúvida de fé. Os indivíduos que desafiam a legitimidade da Revelação (ou da ordem) pela expectativa de que tudo seja explicável, de que tudo possa existir para nós como Malé, não compreendem esse conceito. O que é revelado é tanto o “desvelado” (tornado claro, ofuscantemente claro) como o velado (o que é visto de maneira nebulosa, mas cuja luz é “opticamente apropriada”). Uma ******ebook converter DEMO Watermarks******* pessoa que tem esperança não é alguém que compreende tudo de maneira objetiva e explícita, mas que aceita respostas sob a forma velada. O justo na tradição judaica é aquele que tem maestria sobre a realidade de Aié, que pode enfrentar as situações aparentemente mais caóticas e inaceitáveis do ponto de vista humano, buscando saber “onde estaria a glória divina”. Ele consegue, portanto, lidar artisticamente com algo “ruim”, inferindo não respostas, mas perspectivas. Legitima, assim, as situações para as quais não encontramos respostas objetivas na dimensão humana, ao mesmo tempo que não permite que fiquem à mercê do ocultamento. Sabe que trata-se de situações potenciais de Malé em outra dimensão que não a humana, as quais existem, portanto, neste nosso mundo sob uma forma velada. Os véus não ocultam nada, apenas tornam algo indistinto ou nebuloso. Similarmente ao que se dá com nossos sonhos quando temos a impressão de viver e ao mesmo tempo não viver nossas experiências,a ordem em Aié é também embaçada, enevoada. Saber reconhecer se uma questão é da ordem de Malé ou de Aié e poder diferenciá-las é o grande segredo para desmascarar o desespero como ilusão. Cada vez que tratamos uma questão Aié como tal, fortalecemos nossa gratidão por aquilo que percebemos ser da dimensão Malé. Cada vez que tratamos uma situação Malé com o reconhecimento de que “o mundo está repleto, neste instante, da Ordem”, fortalecemos mais a nossa fé para aceitar respostas do tipo Aié. A não percepção de Malé, a incapacidade de reconhecer bênção, mágica ou alegria profunda em nossa vida abre espaço ao desespero. Da mesma forma que a expectativa de que o mundo de Aié far-se-á Malé evolui da frustração ao cinismo desesperado. O desespero, portanto, se sustenta da expectativa com relação às respostas, e não objetivamente das respostas. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Preservação – Distinguindo as dimensões de verdade e amor “Uma tomada elétrica não é moral ou ética...” Ao tentarmos definir a estrutura dos questionamentos e a maneira com que propiciam ou não o desespero, acabamos por esboçar duas estruturas de realidade – a do Amor e a da Verdade. Assumiremos Amor como sendo a ordem visível: cada vez em que o sol nasce, qualquer momento em que somos agraciados pela vida com saúde, sustento, sucesso ou realização pessoal. Nesses momentos de gratidão, compreendemos que Deus, a vida, a Natureza (ou qualquer que seja a denominação preferida) nos amam e nos protegem. Porém, quando nos deparamos com uma situação real de perda, como a morte de um ente querido ou a destruição de alguma coisa que nos seja sagrada, precisamos fazer contato com uma dimensão bastante distinta. Na tradição judaica, todos os momentos relevantes da vida são, por definição, exprimíveis sob a forma de uma bênção. É comum usar-se a expressão “deve haver uma bruche (uma bênção) para isso” quando algo importante nos acontece. Até mesmo no caso do luto, quando uma pessoa se encontra sob a indescritível sensação de estar à margem de qualquer prazer, há uma bênção a ser dita. Sua especificidade é dizer “abençoado és Tu, Deus, Soberano da Realidade, Juiz da Verdade”. Nesse momento, a forma de expressar a ordem é por meio do atributo da Verdade. E o que é a Verdade? Quando olhamos o mar e este nos inspira um poema, quando surfamos em suas ondas tomados pelo senso de soberania e liberdade, quando o mar nos aplaca o calor com sua refrescante consistência, ele é percebido como instrumento do Amor. No entanto, o mesmo mar pode nos afogar. Sua propriedade de poder afogar é parte de sua Verdade latente. Nós vivemos constantemente nossa realidade de Amor em meio a realidades latentes de Verdade. A tradição é muito sábia ao mudar a perspectiva, fazendo com que o enlutado e o magoado se transfiram para a dimensão da Verdade, em vez de buscarem traduzir sua experiência na dimensão do Amor. Cada vez que dizemos “foi melhor assim”, na tentativa de expressarmos sob a forma de Amor o que na realidade é da ordem da Verdade, estimulamos o cinismo. Na ordem do Amor, a tentativa de dizer que poderia ser sempre pior apenas ******ebook converter DEMO Watermarks******* “empurra com a barriga” essa grande pergunta: por que mesmo tinha de acontecer este “mal menor”? Esta é a razão pela qual a tradição judaica tem como oração aos mortos uma prece que pode parecer ao desavisado um total contrassenso. O kadish (a santificação), que é recitado no momento do enterro e nos meses subsequentes, é uma exaltação à grandiosidade e santidade de Deus. Sua função maior é trazer à comunidade que presencia e experimenta tal acontecimento a dimensão da Verdade. Se alguém, num instante de tamanha “violência”, se põe a louvar o Responsável por aquele momento, torna-se óbvio o equívoco de se tomar essa cena como relacionada com a realidade do Amor. É comum, porém, que se estabeleçam ruídos na comunicação e mal- entendidos toda vez que mencionamos que algo não pertence à realidade do Amor. É claro que, para os não desesperados, a realidade do que aqui chamamos de Verdade representará sempre alguma forma de Amor oculta, velada. No entanto, para que não haja manipulação ou atentado ao discernimento humano, é fundamental que se saiba diferenciar essas duas realidades. A Verdade não pode ser traduzida sob a ordem da gratidão; não pode ser Malé, totalmente revelada, porque, apesar de estarmos mergulhados nessa “ordem”, não somos essa “ordem”. O processo em andamento dessa ordem não salvaguarda nossas expectativas de um Amor que nos seja compreensível – pertence apenas ao mundo da fé e de percepções do tipo Aié. Compreender isto é fundamental. Pessoas expostas à realidade da Verdade, em particular aquelas realidades que se apresentam sob a forma calamitosa, devem cuidar para que não se tornem cínicas. O cinismo é produzido como um efeito colateral do contato entre a expectativa humana de constante Amor e a realidade da Verdade. É como se esse contato produzisse “resíduos de cinismo”, que a tudo aderem e desvirtuam. O luto nada mais é do que a quarentena necessária para que tais “resíduos de cinismo” possam baixar, para que não venham a aderir e causar destruição na realidade do Amor. Todo aquele que penetra na realidade da Verdade deve ficar muito atento, a fim de perceber os níveis pelos quais contamina seu mundo do Amor. Isto porque a Verdade não depõe contra o Amor; em realidade, ela é o pano de fundo onde este se faz possível. A Verdade depõe, outrossim, contra o mundo do controle – a compreensível, mas perigosa dimensão de esperar que a realidade possa ser reduzida apenas ao Amor. Dois relatos bíblicos me parecem particularmente sintonizados com esse ******ebook converter DEMO Watermarks******* tipo de classificação da realidade. O primeiro deles, a história de Jó, tornou- se um clássico para a abordagem das questões da ordem da “calamidade”. Para quem não recorda, Jó, um homem íntegro e justo, é submetido a inúmeras provações do “destino”. Coisas ruins acontecem a este homem bom, que propõe a si mesmo a tarefa de esgotar sua reflexão baseada no mundo do Amor para compreender a realidade. Do ponto de vista da ordem do Amor, só poderiam estar ocorrendo duas coisas; ou ele, Jó, não era bom como imaginara ou (o que era inaceitável para Jó) estava diante de uma ordem que “faz coisas ruins a quem é bom”. No transcorrer do relato, o texto bíblico acaba revelando que as conjecturas de Jó estavam equivocadas, algo que o próprio Jó talvez intuísse, quando se negou a aceitar que “Deus pudesse incluir a dimensão de ruim para quem é bom”. Jó olhava seu mundo com instrumentos da dimensão do Amor, e para não deixar de honrar sua sensibilidade e integridade só conseguia não entender. Na conclusão da história de Jó, a própria Divindade lhe revela que ele está no caminho errado. Apenas na dimensão da Verdade encontraria respostas – respostas veladas. Deus formulava outra hipótese: a de que o ruim que acontecia a pessoas boas não era “ruim”. Porém, para que Ele fizesse isso sem ao mesmo tempo violentar a humanidade de Jó (que, sim, sofria, que real e indiscutivelmente estava exposto a algo que lhe era ruim na realidade do Amor), Deus evocava a dimensão da Verdade. É curioso ressaltar que, nessa dimensão, a figura de Satã, o Obstruidor, torna-se uma presença necessária. A densidade satânica, ou a densidade de obstrução, é que determina se uma questão velada possui uma dimensão de resposta ou se é puro e simples ocultamento. Satã (do verbo listam, “obstruir”) é a densidade-limite, onde o véu não mais permite observar algo sob o questionamento de Aié. Satã imobiliza os seres humanos na dimensão do Amor e os torna cínicos. Faz isso não porque quer, como se fosse uma entidade, mas sob a perspectiva da Verdade enquanto um fenômeno, é o carcereiro que confina as pessoas unicamente à dimensão do Amor. Sem acesso à consciência e percepção da Verdade, um ser humano luta de maneira selvagem, como Jó, para não se entregar ao cinismo e ao desespero. Essa luta, porém,é das mais insidiosas, pois apenas na dimensão do Amor a presa é fácil. Outro relato bíblico menos conhecido, que também é bastante contundente na apresentação dessa classificação, diz respeito aos dois filhos de Aarão, o sacerdote irmão de Moisés. A pequena e inquietante passagem ******ebook converter DEMO Watermarks******* incide indiretamente na questão da “natureza da lógica divina”. Relata o texto (Lv 10:1-3): E os filhos de Aarão, Nadab e Abiú, tomaram cada um seu incensário e puseram fogo neles e ofereceram diante do Eterno um fogo estranho que não lhes ordenara. E saiu fogo diante do Eterno e os queimou e morreram diante do Eterno. E disse Moisés a Aarão: “Deus disse: ‘Por meus escolhidos me santificarei e ante a face do povo serei glorificado.’” E calou-se Aarão. Essa passagem evoca nos comentaristas o mesmo questionamento que expressava Jó: o que teriam feito de errado os dois filhos de Aarão para que as coisas assim sucedessem? Qualquer tentativa de classificar os filhos de Aarão como perversos traduz-se no perigoso intuito de restabelecer a ordem no mundo do Amor a qualquer custo. Eram ruins e pagaram. A “violência” da reação divina parece aplacada pelo fato de que “ofereceram um fogo estranho”. Tal tentativa de conter na realidade do Amor, da justiça, das recompensas e punições a compreensão desse incidente apenas intensifica a violência da situação. Torna-se absolutamente insuportável a possibilidade de não terem feito nada de errado do ponto de vista humano que justificasse tão severa reação. Esta, porém, parece ser a intenção dessa passagem. Deus é também a dimensão da Verdade, e lidar com o que é sagrado pressupõe estar exposto a esta realidade. O “fogo estranho” parece ser uma constatação divina que não é óbvia para a escala humana e, justamente por isso, o texto não se preocupa em esclarecer a natureza do que foi feito de “estranho”. Talvez fosse desumano esperar que Nadab e Abiú tivessem total controle sobre a situação, e que apenas a possibilidade de um erro viesse a ser capaz de expô-los à realidade da Verdade. A dimensão da Verdade não é o “custo” (na perspectiva humana) de um erro, mas o “custo” da possibilidade de as coisas existirem como são. Façamos uma comparação. Digamos que a forma de lidar com um reator atômico é tal que a chance de ocorrer um desastre é uma em dez milhões. Digamos também que por dez milhões e uma vez o reator é manipulado. Quando o desastre ocorrer após tal amostragem será ele de que ordem? A ordem que estabelece que os acidentes sejam tão raros e a ordem que permite segurança e critério são manifestações da realidade do Amor. O desastre ou o erro, por sua vez, não pode ser encampado por essa dimensão do Amor. Era ******ebook converter DEMO Watermarks******* sabido que parte da Verdade daquele reator era que, estando ele em interação com características humanas, tais como a capacidade de concentração e atenção ou a corrupção e a irresponsabilidade, ela produzia uma possibilidade de erro em dez milhões. Assim sendo, apesar de se poder identificar um erro humano da parte daqueles que lidaram erroneamente com o reator, o erro não é de um indivíduo, mas da própria natureza humana. Para questionar o trágico incidente, teríamos de nos perguntar: por que a natureza do ser humano é tal que isso possa acontecer uma vez a cada dez milhões de vezes e não uma a cada vinte milhões de vezes? Essa condição de Verdade teria salvado a equipe que erra na conduta com o reator. No entanto, esta é apenas uma constatação de que a mente humana apreende da experiência de integração de sua natureza com outras naturezas. Voltando ao relato bíblico, vemos que Moisés se recusa a observar o incidente por um olhar catastrófico (perspectiva da ordem do Amor), e busca, pela glorificação divina, estabelecer contato com a realidade da Verdade. Moisés, como descrito no texto, mostra apenas o aspecto da Verdade, porquanto nos são ocultos o choque e o abalo pela morte súbita dos sobrinhos. É por evocar essa realidade que se cala Aarão, o próprio pai. Para que um indivíduo se entregue à esperança e não ao desespero, é imprescindível algum nível de integração da realidade da Verdade à do Amor. Como céus e terra que se beijam suavemente no horizonte, a Verdade é irredutível ao Amor, mas a partir de um se pode chegar ao outro. O simples conhecimento da realidade da Verdade não é em si um antídoto para o desespero. Muitas vezes essa dimensão é confundida como sendo a própria dimensão da desordem, do caos. Somente através da integração e incorporação da dimensão da Verdade à nossa vida, como a expressão de uma ordem de natureza distinta, é que se consegue conter o impulso ao desespero. A fé, portanto, não é a capacidade de esperar por aquilo que gostaríamos que acontecesse, mas a capacidade de integração daquilo que está além de nosso querer. É a quase impossível tarefa de encontrar alegria na concretização daquilo que deve ser. É um nível de entrega que não se alcança pela reflexão, mas pela constante arte de saber honrar e celebrar as perdas e os ganhos da vida. ******ebook converter DEMO Watermarks******* A concordata (nunca a falência) da consciência A consciência para a espécie humana representa o mais importante investimento no processo de preservação e manutenção da individualidade ou da própria vida. Da mesma forma que o instinto é um mecanismo essencial para o reino animal, uma espécie de programa que gerencia a vida, a consciência é também um aparato humano fundamental de sobrevivência. Sua diferença em relação ao instinto é marcada pelo fato de não ser apenas fonte de reações a determinados estímulos, mas de ser também determinadora de significado. A partir da descoberta da ferramenta, da causalidade e de padrões na realidade à sua volta, o ser humano desenvolveu uma íntima relação com o conceito de controle, e originou-se a consciência. O controle, diferente do ato reflexo, no esforço de dar conta de uma situação específica, confere significados ao mundo à sua volta. Esses significados, no entanto, ficam comprometidos com a própria motivação original, que é de preservação e sobrevivência. O controle faz, portanto, com que os seres humanos atravessem a rua com cuidado, e o resultado desse ato de controle que é eficiente na preservação da vida é percebido como uma estrutura de ordem. Ou seja, o controle torna mais provável que aconteça aquilo que é “bom” para a preservação da vida e da individualidade. No entanto, se por um lado o controle otimiza a preservação da vida, por outro estabelece uma rígida construção de ordem. Essa percepção de ordens exacerbadas pelo controle gera expectativas de que ela seja, além de corriqueira, também um direito em nossa vida. Libere um animal ou uma criança, ou uma pessoa incapacitada mentalmente em um apartamento, e o que deveria refrigerar não refrigerará, o que deveria conter não conterá, o que deveria estar aberto estará fechado e o que deveria permanecer fechado se abrirá, e assim por diante. Aquele ambiente organizado de eletrodomésticos, de engenharia e reflexão arquitetônica se tornará um local perigoso. A ordem que os seres humanos “costuram” por entre sua realidade tem na consciência e na característica controladora um instrumento fundamental de sobrevivência para lidar com a própria ordem. Enquanto houver alguma margem de controle, haverá alguma escala de ******ebook converter DEMO Watermarks******* ordem a ser percebida, ou alguma forma “ordenada” de tratar a ordem. No entanto, quando o controle é rompido por algum tipo de perda profunda, nossa consciência não consegue dar conta da tarefa de atribuir significado a nossas experiências. Sua única opção para não ir contra a própria programação interna é negar ao mundo exatamente o atributo que constitui sua essência – o significado e a ordem. De maneira quase ingênua, a mente prefere declarar a falência do mundo da ordem e do significado a admitir qualquer incongruência de sua própria lógica. A consciência opta pelo desespero para preservar-se, o qual,portanto, é uma construção sua. O poder da consciência está no fato de ser ela o somatório das experiências de cada um de nós; ou seja, nossa história pessoal e que confundimos com a própria individualidade. A consciência humana diante do descontrole se sente mais à vontade de abrir mão de seu futuro do que de seu passado. Declarar daqui para a frente a falência da ordem é mais fácil (por mais difícil que seja) do que declarar falida toda a experiência de nosso passado. Assim como é mais fácil morrer do que destruir o que nos é sagrado, nossa consciência prefere morrer – sabotar a noção de ordem de nosso futuro – a matar –, reduzir nossa existência passada à insignificância (eliminar o que nos é próximo). Em outras palavras, nossa individualidade está sempre mais comprometida com nosso passado do que com nosso futuro. Eis a razão pela qual nos é tão difícil e dolorosa a mudança ou nossa transformação pessoal – o compromisso com o luto por aquilo que estamos deixando de ser nos parece maior do que o desejo de redenção daquilo que no futuro nos tornaremos. E isto é, do ponto de vista afetivo, bastante compreensível. Afinal, o que fomos até agora é da escala do conhecido, do familiar e do íntimo; o que seremos, por sua vez, é da escala do desconhecido, do estranho e do distante. Somente a vida e o descontrole são capazes de romper essa aliança da consciência com seu passado de controles. Sua resistência em fazer contato com uma realidade que não possui ainda uma dimensão de significado é da mesma grandeza que a resistência instintiva de um animal ao cruzar uma barreira de fogo ou um descampado aberto que o torne visível e vulnerável. Para podermos preservar a fé, deveremos ser capazes de declarar nossas consciências momentânea e esporadicamente como em processo de insolvência, e pedir concordata. Essa medida, que reconhece a incapacidade da consciência de nos representar plenamente na arena da existência, tem também como objetivo não permitir sua falência final. Dependemos dessa consciência em infinitas situações de sobrevivência; sua falência é nossa ******ebook converter DEMO Watermarks******* própria extinção. Para podermos honrar a consciência e a experiência existencial, temos de conhecer a arte de pedir “concordata” para nosso empreendimento na dimensão da consciência. Tal concordata tem como parte de seu objetivo salvaguardar a própria consciência de uma possível falência, que representaria a alienação total. Essa concordata é comumente chamada de entrega. Popularmente, dizemos coisas como “está nas mãos de Deus”, “está entregue à sorte”, para expressar um estado em que abrimos mão da perspectiva de controle, sem que ao mesmo tempo faça-se espaço para o caos e para a desesperança. É um estado de fé, um estado de graça, onde, após termos feito sem sucesso tudo o que poderíamos fazer em dada situação, ainda assim preservamos a noção (Aié) de ordem no reconhecimento de que aquilo que tiver de ser, será. Essas frases traduzem instantes em que temos coragem para assumir a insolvência de nossa consciência para preservar a ordem no mundo à nossa volta. Essa ordem, obtida como se fosse um “gerador” ao apagar das luzes da dimensão do controle, é de uma natureza não objetiva. Ela é resultante da ordem circundante, que cria em torno da experiência existencial um clarão, mesmo quando se instala a escuridão. Uma ilustração desse fenômeno poderia ser obtida de um conceito da Cabala, segundo o qual o texto bíblico teria sido formado por dois diferentes fogos que incrustaram as Tábuas da Lei. De acordo com esse conceito, um fogo negro inscreveu o formato das letras, enquanto um fogo branco criou o contorno branco que delimita o negro da tinta e que mais nitidamente percebemos como a escrita. Assim, a escrita não é apenas a marca negra deixada pelas letras registradas no papel, mas também o branco que as circunda. Da mesma forma, a ordem não é apenas a situação objetiva (as letras), mas um fundo ou uma moldura de vida (o branco circundante), que delimita nossas experiências e é real. É como se imaginássemos, por exemplo, que o texto escrito pudesse perder o sentido ao ter suas letras dispostas de maneira aleatória, mas mesmo assim preservasse alguma estrutura de ordem. O branco de um texto, mesmo que não faça sentido, é evidência de sofisticados níveis de ordem. O tal clarão que pode iluminar uma desordem, fazendo com que pareça adquirir um sentido de ordem, depende de uma percepção que raramente conseguimos capturar sob a forma de consciência. Acaso reconhecêssemos que a proporção daquilo que podendo sair mal e não sai é bastante superior à proporção daquilo que poderia sair bem e não sai, perceberíamos uma moldura de ordem pela simples existência de limites às desordens. Se ******ebook converter DEMO Watermarks******* pudéssemos perceber a constância de uma lei “anti-Murphy”, ou seja, que nos fosse tão impactante a situação em que o pão cai no chão com a face da manteiga voltada para cima quanto nos é a situação em que cai voltada para baixo, a vida seria uma constante celebração da ordem. No entanto, isto é impossível, pois a consciência é um instrumento rastreador de ordem e não da percepção das possíveis desordens que não se concretizam como tal. Tal dimensão é resgatada exatamente nessa “insolvência” da consciência, na entrega. Entregar-se é possuir alguma noção da magnitude da ordem existente nas infinitas possibilidades de aleatoriedade e caos que não se concretizam e que não são registradas sistematicamente por nossa consciência. A entrega reconhece formas de ordem no branco que circunda a própria desordem. A entrega, por sua vez, não é uma resignação. É a persistência de fé na ordem, mesmo quando esta se faz oculta à nossa consciência. A entrega não é uma aceitação passiva, como a resignação. É um ato, um esforço de grande sofisticação, cujo impacto não incide apenas sobre o indivíduo, mas também sobre o mundo à sua volta. Por exemplo, se alguém se expressa sinceramente dizendo “não sei mais o que fazer e preciso de ajuda”, se abandonar a expectativa de equacionar uma situação de forma Malé e conseguir transitar por formas de Aié (“onde está a glória?”), tal pessoa se posiciona em relação à vida de maneira favorável para que a própria natureza da vida desencadeie resultados práticos e concretos. Como se no mundo exterior nos fosse dado evocar forças “mágicas” do universo próximo a nós antes ocultas, que nos abrem caminhos e oportunidades pelo simples fato de não mais estarmos na contramão da Verdade. Em outras palavras, aventurar-se pela dimensão da Verdade não apenas pode trazer “compreensão”, como pode resultar em manifestações reais na dimensão do Amor. A entrega, no entanto, não visa seduzir ou subornar a realidade da Verdade para que se expresse sob a forma de Amor. É o próprio ato de honrar a Verdade que traz em si uma experiência na dimensão do Amor. A arte da entrega é a capacidade de se enveredar pela dimensão da Verdade sem perder a fé. Diz respeito ao que é vivenciado de forma velada, sem permitir ocultamento. Essa arte, como todas, é desenvolvida de modo a não ser percebida como uma tecnologia passível de ser dominada. Este livro tratará de diversas dimensões onde a entrega pode ser experimentada no cotidiano, de maneira a gradualmente desmascarar o desespero. O resgate da condição do desespero como sendo uma mera sensação, impossibilitando-o de se instalar como realidade, é a função maior ******ebook converter DEMO Watermarks******* da entrega. ******ebook converter DEMO Watermarks******* A entrega antes da entrega Um último conceito nos é importante antes de iniciarmos um tour por nossa realidade distinguindo as dimensões de Amor e Verdade contidas em todas as situações de vida. Trata-se de identificar a última fronteira, a “alfândega” que separa o território da esperança do território do desespero. Referimo- nos às instâncias quando não estamos em condições de assumir nossa entrega, quando não dispomos dos meios ou da autoridade para declarar a insolvênciamomentânea de nossas consciências. Tais situações são comuns, devido ao comportamento persistente de evadir-nos dos encontros com a dimensão da Verdade e pela resistência que temos ao descontrole. Essa última fronteira é a espera. Para revelar esse segredo, Reb Nachman cita um versículo dos Salmos (31:25), que diz: “Sejai fortes, firmai vossos corações, vós que esperais o Eterno...” Aqueles que não conseguem entregar-se, por qualquer que seja a razão, devem poder, pelo menos, esperar por Deus. Como um ensinamento, “esperar por Deus” significa uma entrega preliminar que não é ainda uma entrega definitiva e ativa. Por exemplo, pessoas sob o impacto de uma realidade muito dolorosa diante de sua perplexidade e incapacidade de “digerir” os acontecimentos podem optar por “esperar por Deus”. O próprio versículo dos Salmos utiliza-se da imagem de uma tempestade, em que aqueles que esperam devem agarrar-se fortemente e firmar o coração para que não sejam levados pela intensidade avassaladora dos acontecimentos. Quando não há forma humana de assimilar uma realidade da dimensão da Verdade, os que conseguem esperar realizam o esforço mínimo necessário para não serem levados ao desespero. Conseguem, portanto, dimensionar sua perplexidade como transitória e momentânea e não elevá-la à perigosa categoria do conclusivo e definitivo. Esta é a razão pela qual a palavra desespero traz em sua raiz a antítese da espera. A entrega antes da entrega, ou a espera, não é idêntica a uma postura Aié (“onde está a glória?”). Aié é uma busca e aceitação ativa daquilo que não será revelado, apenas mostrado sob sua forma velada. A entrega antes da entrega é traduzida na escala coletiva pela ideia messiânica pela qual, seja qual for a realidade que se apresente diante de uma geração, sua postura será de espera. A salvação, para decepção de muitos, não será o mundo da ordem Malé (“aqui está a glória”), nem da ordem do controle e da consciência, nem um mundo ******ebook converter DEMO Watermarks******* composto unicamente pela realidade do Amor. Será, sim, o mundo onde existem as condições necessárias para que haja entrega. Uma realidade em que a entrega ativa será universalmente parte do comportamento humano – em que tudo o que é oculto passará a ser velado. Este é o final do processo para aqueles que trazem “circulando em seu sistema” o fruto da Árvore da Sabedoria. A sabedoria permite a compreensão exatamente porque está separada do objeto que ela compreende. A consciência ou a sabedoria, por definição, vivem fora do Paraíso e existem da distinção constante entre as manifestações de Amor e Verdade. Apenas no Paraíso, o lugar da não consciência, é possível que a Verdade e o Amor sejam equivalentes e vivenciados de maneira revelada. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Estéticas fora do caos Nos capítulos anteriores, buscamos algumas classificações que nos possibilitassem identificar a essência do desafio e da ameaça que fustigam os seres humanos. Reconhecemos que o nosso real inimigo não é o mal, mas o caos. O caos não é a manifestação do mal, mas quando o mal se mistura de forma indistinta com o bem. Quando a consciência não consegue manter seus parâmetros de avaliação do mundo e dele abre mão em depressão e desespero. É interessante notar, no entanto, que a sociedade ocidental organizou-se muito mais pela vertente que busca estruturar o mundo à nossa volta por meio do controle – que visa distinguir o bem do mal expurgando o mal –, do que pela entrega –, que visa distinguir o bem do mal, acolhendo o mal e desobrigando-se do bem. É por isso que alguns modelos orientais que preservaram um melhor equilíbrio entre essas duas formas de sabedoria (refinar o bem excluindo o mal e refinar o mal excluindo o bem) tornaram- se nas últimas décadas tão importantes na busca do Ocidente por significado e ordem. As estéticas do mundo ocidental revelam o grande espaço que o caos conseguiu ganhar penetrando no cerne da percepção rotineira das massas. Essas estéticas são bolsões onde a mistura do bem e do mal se dá indiscriminadamente, resultando na montagem, diante de todos nós, de uma realidade distorcida. Analisaremos, em especial, duas estéticas que constantemente moldam nossa compreensão do mundo: as coisas na hora certa e as coisas no lugar certo. A primeira dessas estéticas tornou forma na linguagem pela palavra timing; a segunda chamaremos de spacing. Inicialmente, porém, devemos nos perguntar: o que há de errado com essas estéticas? Nada. Não há nada mais harmônico do que algo na hora certa e algo no lugar certo. Mais do que isso: quando as duas estéticas se combinam, acabam formando algo especial, que muitos denominam “sorte”. Sorte é uma forma de estética semelhante ao coringa do baralho, que, com suas componentes de timing e de spacing, preenche de ordem qualquer espaço e situação. Dificuldades, entretanto, vão aparecer, na medida em que essas estéticas sejam experimentadas a partir da busca por controle. Na dimensão pura da consciência, quando algo não existir no seu tempo próprio e/ou no seu lugar próprio, deflagra-se o processo de percepção do “azar”. Algo fora ******ebook converter DEMO Watermarks******* de seu tempo ou fora de seu lugar assume um espectro de algo que é feio, antiestético. Na dimensão do Amor e da ordem, portanto, não há possibilidade de que algo “fora do seu tempo” ou “fora do seu lugar” possa ser percebido como estético. Na obsessão por compartimentar o belo como pertinente a realidades objetivas (Malé), perdemos a habilidade de discernir estruturas estéticas nas manifestações veladas de ordem. Uma pequena história chassídica vai ajudar-nos a ilustrar a cultura estética do Ocidente: Contou o rabino de Dubnov: Um médico prescreveu pílulas a um jovem paciente. As pílulas, como de costume, eram recobertas por uma camada de açúcar e aromatizantes. Com o passar do tempo, o paciente não demonstrou qualquer melhora, e o médico resolveu investigar. Ao acompanhar o procedimento do rapaz, o médico descobriu que o tolo lambia a cobertura adocicada e cuspia fora a pílula. Nossa atitude é análoga à do menino. Absorvemos nossas experiências do dia a dia de maneira semelhante, pois integramos o doce (a estrutura do Amor) e “cuspimos” a componente Verdade. Nossa “cura”, nosso desenvolvimento como seres não desesperados, não é possível, porque nos negamos a engolir a componente da vida que tem a possibilidade de sarar futuros ferimentos causados pela dúvida e pela desorientação. Com certeza, o açúcar da pílula foi elaborado para exercer uma função. É ele que nos permite engolir a pílula como um todo. Isoladamente, o açúcar não tem qualquer efeito ou eficácia. Uma inscrição nos cemitérios judaicos é bastante reveladora dessas estéticas que não vemos ou não queremos ver. Ela diz: “Abençoado é o Eterno, que vos fez através da dimensão da Verdade (ba-din), e vos mantém vivos pela dimensão da Verdade (ba-din), e vos alimenta pela dimensão da Verdade... e vos fará reviver no futuro através da dimensão da Verdade.” É incrível perceber que a realidade da Verdade, aquela que nos faz perder e morrer, é a mesma que possibilita a nossa vida, o nosso sustento e a nossa reciclagem no futuro. Aquilo que nos dói e tem um custo está incluído e faz parte do somatório positivo que é a vida, por mais que tentemos torná-lo estranho e externo a ela. Tão positivo é esse somatório que ninguém quer abrir mão da vida; fosse a vida ruim e, portanto, o morrer fácil, preferiríamos ******ebook converter DEMO Watermarks******* a realidade ora vigente. Não há como perceber a vida como boa sem que sua perda tenha um componente que nos pareça “antiestético”. Mas não deveria ser assim. Perceber a beleza contida na Verdade, reconhecendo que, além de permitir, ela também mantém e reaviva a vida, seria equivalente a descobrir uma nova dimensão estética. A estética comum, avessa a qualquer ordem que não seja explícita, torna-se campo fértil para o desenvolvimento do conceito de caos. A capacidade de perceber estética noque é velado é a única saída para evitarmos que o mundo se torne feio à medida que vivemos e amadurecemos para a vida. Faremos a seguir um breve estudo do verdadeiro senso estético de algo em seu tempo certo e de algo em seu lugar certo. ******ebook converter DEMO Watermarks******* A estética das coisas no seu tempo certo (Davar Be-itó) Aos cinco anos – a idade do estudo das Escrituras Aos dez anos – o estudo da Mishná Aos treze anos – a responsabilidade de cumprir os mandamentos Aos dezoito – a busca do casamento Aos vinte – a procura do sustento Aos trinta – o auge da força Aos quarenta – a sabedoria Aos cinquenta – a possibilidade de aconselhar Aos sessenta – o início da velhice Aos setenta – a plenitude dos anos Aos oitenta – o corpo cansado Aos cem – com um pé em cada mundo Rabi Iehudá ben Tema (“Ética dos Ancestrais”, 5:24) A noção de que há uma estética no cumprimento de um ciclo está entre os primeiros conceitos de ordem que desenvolvemos. Esta estética diz respeito à descoberta do tempo, de sua aparente direção rumo ao futuro e das noções a ele associadas – antes/depois e começo/fim. O tratado talmúdico que versa sobre o luto (3:8) revela essa percepção de forma bastante concreta: “quem quer que seja levado deste mundo antes dos cinquenta anos terá sido levado antes de seu tempo.” Se uma pessoa vier a morrer antes do período da possibilidade de aconselhar, será como se não tivesse tido oportunidade de cumprir um ciclo, acima de tudo, estético. A natureza dessa não estética da morte antes do tempo é construída a partir da percepção de que a plenitude, como se esta fosse um objetivo, não foi alcançada. No entanto, não há qualquer razão para termos tal expectativa, uma vez que ninguém “completa” nada nem fecha qualquer ciclo por controle próprio. Assim sendo, todo e qualquer ciclo que se fecha, seja antes, durante ou depois do que esperaríamos, é sempre davar be-itó, uma coisa a seu tempo. É claro que a aceitação disso é extremamente difícil. É da mesma ordem de dificuldade de querermos crer em algo que viole nosso senso de realidade e nossa experiência. Fica assim exposto nosso despreparo para lidar com a vida e se evidencia o quão viciados somos pela expectativa de ordem. Por ordem entenda-se o desejo constante de que as coisas sejam do jeito que gostaríamos que fossem e não do jeito que deveriam ser. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Quando queremos que as coisas sejam da esfera de “como devem ser”, estamos falando do mundo velado. Não podemos compreendê-lo plena e explicitamente – Malé –, mas o aceitamos. Nesse instante, as coisas no seu tempo certo ganham um novo sentido para além daquilo que gostaríamos que acontecesse. Certa vez, visitando uma pessoa gravemente doente, descobri o que apelidei “síndrome da torta de queijo”. Devido ao tratamento a que era submetida, essa pessoa havia perdido o paladar. Num de nossos encontros, ela comentou sobre seu profundo desejo de sentir o gosto e a textura dessa torta que ela tanto amava. Porém, ao mencionar que daria tudo para poder sentir esse gosto apenas mais uma vez, a pessoa enferma parou e ponderou: “que besteira... se me permitissem sentir tal sabor e depois me tirassem essa possibilidade, continuaria a sentir a mesma nostalgia e o mesmo desejo de agora. Quantas vezes comi essa torta, e veja... aqui estou, sentindo sua falta. Tivesse eu provado mil vezes mais dela, ainda assim sentiria o desejo e a tristeza que hoje experimento.” Este é um sentimento com o qual podemos nos identificar. Não queremos abandonar a possibilidade de sentir os gostos. Na verdade, tal possibilidade, muito mais do que a própria torta, é que trazia prazer a essa pessoa. Reparemos, porém, que, por meio dessa relação com o mundo, limitamos a percepção de “algo a seu tempo” à dimensão daquilo que queremos, à realidade do Amor. Essa “linha de lógica” leva diretamente ao desespero, pois não há possibilidade real de que venhamos a fazer qualquer concessão absoluta ao que queremos. Assim, as perdas permanecem para sempre vinculadas a “algo que não é a seu tempo” e serão vividas como feias, como uma intromissão do caos em nosso santuário particular de ordem. Um discípulo reclamou ao rabino de Ger: “Há vinte anos me esforço e não alcanço a realização de um artesão que se torna mestre de sua arte, seja pela criação de algo de melhor qualidade ou de algo que seja feito com maior eficácia e rapidez. Da mesma forma que era há vinte anos, assim sou hoje.” O rabino respondeu: “Veja o caso de um boi, por exemplo. Todo dia pela manhã sai de seu estábulo, vai para o campo, ara a terra e é levado de volta a seu estábulo. Isso é feito dia após dia e nada muda em relação ao boi – porém, a cada ano, a terra arada dá sua colheita.” Nossa vida não é celebrada por qualquer diplomação ao concluirmos o ******ebook converter DEMO Watermarks******* currículo que imaginamos para nossa vida. É um sonho, um desejo de impor a ordem do Amor, queremos tornar a vida estética através da expectativa de que tudo acontecerá em seu tempo certo. Certa vez oficiei o funeral de uma senhora falecida aos 98 anos e seu filho não parava de me perguntar por que aquilo tinha de acontecer logo naquele momento. No meu íntimo, achei graça. “Se não ela, quem?”, pensei com meus botões. Mas estava fazendo uso da mesma rejeição da verdade que aquele homem que julgava patético. O que me parecia óbvio e ordenado – uma mulher quase centenária morrer – minha estética que queria impor previsibilidade era tão controladora como a dor do filho enlutado que exigia que as coisas fossem do “jeito que ele queria”. A possibilidade de uma pessoa encontrar razão para a própria vida ao comer a torta de queijo de agora, não atribuindo unicamente sentido exclusivamente à possibilidade de prosseguir tendo a chance de degustá-la, é encontrar o caminho para davar be-itó, “o que acontece realmente em seu tempo certo”. O que é estético em nossa história sobre o boi são os campos reais, que são arados, semeados e frutificam. No boi, em si, a vida não celebra – regozija-se, sim, de seus campos. No desejo de dominar o poder de sentir o gosto da torta, a vida não celebra – no degustar e no prazer de tê-la à boca, sim, a vida se regozija. O desejo do discípulo de estar aperfeiçoando a si mesmo, como se estivesse esculpindo a si próprio, é uma ilusão. São os campos arados, ou seja, nossos feitos, que terão impacto sobre nós mesmos e sobre o mundo. São eles a nossa construção e não a construção de nós mesmos. Seria, então, a vida regida pelo princípio do “aqui e agora”? Sim, mas diferentemente do sentido hedonista ao qual a expressão é comumente associada. “Aqui e agora” não significa uma vida destituída de responsabilidades e projetos, mas a possibilidade de se usufruir a potência da vida a cada instante. O depois será sempre objeto de controle; o “aqui e agora” é o chão da entrega. Resgatar o significado de cada momento de vida é exercício indispensável para livrar-nos do cinismo. Saber reconhecer essa estética é poder ver além desse mundo explícito. É descobrir no contentamento o supremo senso estético da harmonia, e na busca obsessiva da felicidade, uma estética de controle. Como é feio o afetado, o que quer preservar o que é perecível, ou aquele que peca por excesso! A vida nada tem a ver com isso – algo a seu tempo estará sempre associado a um sentimento de entrega, jamais a expectativas de controle. ******ebook converter DEMO Watermarks******* É estético o contrário do que frequentemente acreditamos ser estético. ******ebook converter DEMO Watermarks******* A estética das coisas no seu lugar certo (Ba-asher Hu Sham) Outra percepção estética que compartilhamos diz respeito aos momentos em que nos sentimos entusiasmados e autoconfiantes. São períodos que nos permitem sonhar e planejar; quando as coisas parecem mover-se para a frente e ambicionamos crescer e nos expandir. Momentos em que Deus parece estar do nosso lado e os mais tolos chegam a desenvolver teorias sobre a predileçãoque acreditam gozar. Tal estética identifica a bem- aventurança como uma manifestação pura da realidade do Amor. Deus é então “brasileiro”, do nosso time, da nossa religião ou simplesmente “está conosco”. Na famosa noite decisiva em que o Norte dos Estados Unidos resolveu entrar em guerra com o Sul, conta-se que um general ergueu um brinde dizendo: “Possa Deus estar conosco!”, ao que foi corrigido por Abraham Lincoln: “Possamos nós estar com Deus.” Essa pequena inversão expressa a possibilidade do “sucesso” como uma manifestação fundamentada não na realidade do Amor, mas nesta que estamos chamando de Verdade. Se você acha que está bem porque Deus o ama ou porque está com você naquele instante, terá de admitir em outros momentos, quando você não estiver num bom momento, que Deus não gosta mais de você. Tal percepção do mundo, na mesma medida em que é atrativa, é também destrutiva e fomentadora do desespero. Reb Nachman ilustrava essa questão por uma passagem bíblica (Gn 21), em que Agar, esposa de Abraão, é expulsa de casa. Agar estava às raias do desespero, porque se encontrava com o filho Ismael abandonada no deserto. Para não presenciar a morte da criança, ela tenta se afastar do menino. Nesse instante Deus ouve o choro do menino e diz (v. 17): “‘O que tens, Agar? Não temas’; pois escutou Deus a voz do menino de onde ele está! ( ba-asher hu sham).” Quando uma pessoa percebe que “de onde quer que esteja” há uma estética que lhe permite a percepção de estar “com Deus”, mesmo em meio a uma experiência da esfera da Verdade, nada mais pode assustá-la. “Não tema”, diz o Criador, aliás sua fala predileta, dita a todos os Patriarcas e a Moisés. Não temer é o que nos salvaguarda do cinismo. Esse lugar (qualquer ******ebook converter DEMO Watermarks******* lugar) é o que nos retira o temor e nos permite buscar encontrar Deus, a ordem e o estético, não apenas quando as coisas parecem ir de encontro ao que esperamos e desejamos. Desde o próprio lugar onde nos encontramos, seja na escuridão ou nas profundezas, de lá – e não de uma posição de suborno, “se as coisas vierem a melhorar...” – devemos fazer contato com a ordem, com o Eterno. “Desde lá procurarás o Eterno, teu Deus”, afirma o texto bíblico (Dt 4:29) e Reb Nachman se pergunta, retoricamente: “Desde lá onde?” Lá. Desde o lugar onde você se encontra. Deus não se encontra na prova vencida, na cura obtida ou no sucesso alcançado, procure-O/A desde o lugar onde você está. Poder compreender o mundo desde o lugar onde você está, e não pelo lugar onde você gostaria ou acha que mereceria estar, é buscar o beijo, a confluência da realidade da Verdade e do Amor. Apenas “de onde você está” é que essa janela pode ser vista. Tal janela se faz na única possibilidade que tem o “parcial” de compreender o “todo”. Somos parte de um “todo” que nos despeja a realidade da Verdade; somos também parte de um “particular” que concebe o mundo a partir da dimensão do Amor e do não Amor. A noção de “onde quer que estejamos” permite que percebamos existencialmente nossa realidade “particular” como parte do “todo”. Esperar que as coisas fossem apenas como gostaríamos é querer reduzir tudo à esfera do “ particular” , o que nos leva ao encontro do desespero. Por outro lado, ter a pretensão de apreender a realidade pela perspectiva do “todo” é não conhecer as limitações de nossa humanidade e é marcar encontro com uma vida destituída de significado, onde a morte é certeza e fim absoluto. O mundo da Verdade e o mundo do Amor devem estar constantemente se acasalando e preservando uma relação não hierárquica. Toda vez que o Amor buscar controle sobre a verdade – o particular sobre o todo –, estaremos agindo de forma ilusória e assumindo todos os custos dessa atitude. Toda vez que a Verdade tentar suprimir o Amor – e o “todo” subjugar o “particular” –, estará nos colocando diante do desespero e do cinismo. O cinismo é, muitas vezes, tido como um antídoto contra o desespero. Trata-se, porém, de uma noção falsa. O cinismo produz uma sensação momentânea de que se está para além da realidade, como se estivéssemos falando de um mundo na terceira pessoa e não na primeira. Avesso à dor, o cínico mais cedo ou mais tarde terá de subir à tona de sua própria existência ou se asfixiar nesse distanciamento de si mesmo. O seu grande problema é ******ebook converter DEMO Watermarks******* que na superfície, na superfície do mundo que criou para si não há oxigênio, mas desespero. Não há como fugir do desespero na fantasia (espaço restrito do Amor), mas no abraço total à realidade de nosso momento. Devemos perceber que os locais onde o Amor e a Verdade “se beijam” são aqueles “onde estamos”. Nesses lugares onde nos encontramos, há a possibilidade pontual de lidar com o Amor e com a Verdade. Assim sendo, a estética de um “lugar certo” não é a experiência de quando tudo vai bem ou sob controle, mas a possibilidade de vivermos integralmente o que se nos apresenta num dado instante. É, portanto, o ponto constante e permanente onde Deus ou a esperança nos encontram, “onde quer que estejamos”. Uma estética muito distinta, portanto, daquela que identifica o “lugar certo” como uma posição no futuro, onde o “todo” se adequará ao “particular”. ******ebook converter DEMO Watermarks******* II ORDENS ALÉM DA ORDEM ******ebook converter DEMO Watermarks******* “E viu que era bom.” Bom o quê? A morte Muito do que compreendemos por desespero e por caos diz respeito à morte. Para a experiência dos vivos, a descontinuidade gerada ao passar-se pelos limites da vida e da morte é tão grotescamente real que se torna temível e terrível. Diante da morte, estamos diante da Verdade, e, como vimos anteriormente, em tais situações, em vez de nossa consciência renunciar a si mesma, prefere devastar a realidade e não abrir mão de seu controle. Entre as formas de buscar controlar a morte, a consciência tem um truque que lhe é predileto. Trata-se da artimanha de nos fazer oscilar entre duas formas de corrupção da realidade. Uma dessas formas é o pessimismo cuja estratégia é promover um verdadeiro festival de horrores e abrir o máximo de espaço ao caos. Mas o pessimismo não passa de uma estratégia de controle. Ao produzir o pior cenário possível, parece nos proteger de surpresas indesejadas, além de buscar antecipar a dor para poder suportá-la. A segunda forma – o otimismo – projeta sobre a morte as mesmas condições da vida. A aparente descontinuidade da morte é reduzida e maquiada como uma distinta forma de continuidade. Nela, a individualidade não termina com a morte, mas persiste eternamente, se renovando e reciclando-se. São as reencarnações e os diversos sistemas de punição e recompensa que visam preservar os enredos do indivíduo. O pessimismo controla pelo cinismo e pelo sarcasmo. O otimismo controla se fazendo cúmplice e íntimo ao “todo”. Ambas as formas não representam a realidade, apesar da sedução que exercem sobre a consciência. Nessa confusão oscilante, a consciência encontra uma maneira para não admitir que sua condição está limitada a uma realidade que é “particular” e que não diz respeito ao “todo”. Salvaguarda, assim, a si própria, mas não a nós. Isso porque somos mais do que apenas nossa consciência, e preservar- nos não implica garantir a qualquer custo apenas a manutenção de sua coerência. Sentimos, intuímos e vivemos uma dimensão existencial. Quando falamos de nossa “integralidade”, não podemos reduzir a morte à questão “filosófica” de ser ela um momento final que desafia a nossa compreensão. Devemos, com grande sensibilidade, perceber que a vida está imersa e ******ebook converter DEMO Watermarks******* embebida no oceano da morte. Não há descontinuidade na morte; há um ruidoso e ofuscante revigoramento de algo que a vida, em sua também ruidosa e ofuscante dimensão, não nos permite perceber. A morte e a vida se beijam como a Verdade e o Amor, tal como na imagem que mencionamos sobre o texto das Escrituras em que as letras negras e o vazio branco que as envolve se tornamuma única coisa. Ou como nas ilustrações utilizadas na Gestalt, em que se percebe ora um jarro, ora um rosto, e que nos brindam graficamente com o conceito de “ver um é não ver o outro”. Ninguém, portanto, poderá determinar de maneira conclusiva se o desenho é um jarro ou se é um rosto. Tamanha é a convicção encontrada na tradição judaica de que a vida se entrelaça ou, melhor, se “estrela” (a estrela de Davi) com a morte, que o Midrash se permite fazer o mais ousado de todos os comentários. Em Gênesis Raba (9:3), na análise do versículo final da Criação, quando Deus se volta a tudo o que havia criado em admiração, lemos o seguinte: “E Deus viu tudo o que tinha feito e viu que era muito bom” (Gn 1:31). Rabi Meir disse: “‘e viu que era muito bom’ – muito bom o quê? Isso se refere ao Anjo da Morte.” É no mínimo surpreendente imaginar o Criador, Aquele/a que faz e diferencia tudo, que cria, dando identidade e especificidade a tudo, que possa apreciar sua obra como um artista e afirmar ser justamente o Anjo da Morte o seu toque de mestre. A Criação havia sido confeccionada sobre um fundo que Deus identifica como extremamente estético (e viu que era muito bom!). Talvez melhor do que a imagem de um “fundo” que induz a ideia de algo separado da própria obra nos valhamos de um modelo mais refinado. O processo gráfico conhecido como “retícula”, por exemplo, é uma ilustração mais adequada. Nesse processo, a intensidade da cor é formada pela variação do número de pontos dessa mesma cor contidos no papel. Por exemplo, a aplicação sobre um papel branco de milhares de pontinhos vermelhos resulta no efeito cromático do rosa. Se o número de pontos vermelhos fosse aumentado, perceberíamos o vermelho mais escuro. Digamos, para efeitos visuais, que a vida possa ser percebida como “rosa”. Ela nada mais seria do que o fenômeno de ter intercalados branco e vermelho em certa proporção. Assim é com a vida e com a morte – pigmentos de vida e morte se intercalam, produzindo a existência. Para que vivamos, é necessário que a própria estrutura de nossas células saiba morrer e se reciclar. Enquanto vivemos, milhões de mínimas partículas ******ebook converter DEMO Watermarks******* de nós mesmos estão constantemente morrendo. A morte e a vida são parceiras, não adversárias. Ora são parceiras para preservar a vida, ora para preservar a morte. O inverno se move em direção ao verão, e este ao inverno; o dia se move em direção à noite, e esta ao dia; a expiração, à inspiração, e esta, à expiração. Nem o dia, nem o verão, nem a inspiração isoladamente representam a vida; nós os experimentamos, respectivamente, como sendo claros, calorosos e revigorantes, e acabamos por confundi-los com a própria dimensão do Amor – aquilo que está a “nosso favor”. Fazemos isso sem perceber que a escuridão, o frio e o esvaziamento são da mesma forma indispensável e que também “estão a nosso favor”. Essa realidade de frio e escuridão, ou a dimensão da Verdade, não é “inimiga”, mas aliada. É parte importante da Criação e de sua estética – daquilo que viu como “muito bom”. Assim, vemos que a natureza pulsante, seja de nosso organismo ou do próprio cosmos em suas contrações e expansões, tem algo a nos dizer sobre a relação entre a vida e a morte. A cada batida, o coração pulsa aqui neste mundo e repulsa no mundo de lá, de volta para este mundo. A morte atua constantemente na realidade da vida, como faz o inverno com o verão, “empurrando” tudo o que é vivo de volta à vida. A vida faz o mesmo com a morte. Seu convênio é que nos permite existir e não existir. A estética que Deus percebe na morte ( tóv meod, “muito bom”) nos é uma realidade velada. Mas é nela que se encontra a salvação ou a arte de se salvar. ******ebook converter DEMO Watermarks******* A dinâmica das pausas Comentava uma amiga: “Estou preocupada, pois estou chegando à menopausa.” Ao que respondeu um senhor de idade, a seu lado: “Isto não é nada... e eu, que estou diante da grande pausa?” Há uma dinâmica de pausas em nossa vida que percebemos apenas em momentos de crise – como na meia-idade ou na velhice. No entanto, as pausas representam uma necessidade constante. De escuridão em escuridão, recobramos o senso da claridade; de silêncio em silêncio, resgatamos o sentido da mensagem. Uma pausa, diferente do ato de parar, é uma experiência. A pausa é situação existencial na qual hibernam nossas expectativas e ansiedades. Não possuímos uma memória ativa para nossas pausas, pelo menos não na intensidade com que retemos as atividades de nossa vida. No entanto, as pausas fazem parte da nossa história. Saber honrar nossas pausas constantes é uma maneira de estabelecer contato com a realidade da Verdade. Esse contato apropriado resulta numa relação sadia, que é experimentada também como Amor. Quando bem vividas, uma menopausa e até mesmo as vésperas da “grande pausa” podem tornar-se experiências em grande medida adoçadas. É possível se encontrar nessas situações de vida o ponto onde a realidade da Verdade beija a do Amor. No entanto, temos medo das pausas. Todos nós já tentamos dar conta das pausas buscando controlá-las, e a sensação resultante não é agradável. Uma pausa é uma corrente que já tem rumo. Ao contrário do que a palavra possa nos sugerir, uma pausa não é algo neutro. Trata-se de um trecho ou uma passagem de fluxo onde não temos por que controlar o leme – o rumo já é definido. Na pausa não há arbítrio ou livre-arbítrio. Entregar-se é a única forma de navegar pelas pausas, e quando não compreendemos essa lei de seu fluxo, ficamos bastante angustiados. Reagir a uma pausa é, portanto, remar contra a maré, é nadar contra a corrente de nossa própria vida. As pausas ficam assim associadas à perda de controle e às experiências e ao temor que estas nos incitam. Seja uma queda, uma força ou uma velocidade que nos surpreende ou um objeto que escapa das mãos, e confirmamos nosso temor. Essas quedas, esses deslocamentos silenciosos sem controle são pausas. A pausa, como dissemos, não é uma inatividade, mas a hibernação dos meios de controle da realidade à nossa volta. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Quem se permite experimentar uma pausa, quem se permite descobrir que, para além da violência do descontrole, atingem-se trechos do percurso onde a vida retoma o controle (onde não há mais rumo, mas calmaria), acaba por encontrar uma nova forma de se relacionar com a própria vida. Quando a pausa for intensa ou quando se tratar da “grande pausa”, o indivíduo possuirá a experiência necessária para saboreá-la como parte integrante e não intrusa da vida. Nosso medo da dor é tão concreto que desenvolvemos como que uma infância permanente ao lidar com ela. Essa criança que existe dentro de nós é vivamente ilustrada pelo rabino de Mezeritch: Um homem, ao levantar o filho após este ter tropeçado e caído, percebeu que havia um espinho no pé do menino. Rapidamente, procurou extrair o espinho, sem dar atenção ao choro da criança. Logo após a experiência ambos, pai e filho, ficaram temerosos: o pai, pela possibilidade de uma infecção vir a instalar-se no pé do filho; o menino, por ter em algum momento futuro de sua vida de sentir a mesma dor. O pai temia a ferida, o menino temia a cura. Esse pai simboliza o indivíduo projetado na dimensão da Verdade e do Amor; o menino, por sua vez, representa nossa vida reduzida ao mundo do Amor. O adulto existencial em nós preocupa-se com a integração dessas realidades quando são perturbadas por nossas experiências. Para ele, a saúde e o equilíbrio restabelecidos são o objetivo primordial. Temer a ferida é reconhecer que está em risco um valor maior e há possibilidade de alastramento da Verdade de forma infecciosa. Já para a criança existencial em nós, a retirada do espinho e sua dor terapêutica serão lembradas como uma tormenta que o fará temer e fugir de processos de cura. As pausas são, dessa maneira, experiências assimiláveis pelo adulto existencial dentro de nós. Esse adulto busca reconhecê-las, render-se a elas e costurar pelassuas dinâmicas uma ordem de outra ordem. Em alguma medida, as pausas fazem a assepsia de nossas feridas. Há em todas elas, mesmo na “grande pausa”, um elemento de cura que a criança existencial em nós muito teme. ******ebook converter DEMO Watermarks******* 1/60 de morte No Talmude encontramos uma definição e uma medida curiosa para o sono. Segundo ele, o sono é 1/60 da morte. [1] Tal definição expõe elementos importantes de nossa realidade cotidiana. Experimentamos constantemente, a cada noite, uma entrega que nos faz perder 1/60 de nossa capacidade de controle. Permanecemos num estado 1,66 por cento mais velado do que no estado desperto. Nossa consciência perde 1,66 por cento de sua capacidade de manipulação e o mundo dos sonhos intensifica em 1/60 questões do tipo Aié – “onde está a glória divina” – em detrimento da busca por Malé (explícitas – “aqui está a glória”). Tomando-se essa medida, vislumbramos o quanto se estremecem as fronteiras da realidade com uma ínfima variação na estrutura do controle. A pausa do sono teria, por assim dizer, um rumo corrente predeterminado com velocidade maior do que zero. Segundo o Talmude , essa velocidade é equivalente a 0,166 por cento da entrega máxima, que seria a própria morte (uma unidade total de rumo). Quanto mais caminharmos nessa escala em direção à perda de controle, maior a nossa penetração no mundo velado. Um delírio, um desmaio ou um estado de coma apontaria para índices ainda mais elevados de perda de controle e de aprofundamentos da pausa e do entorpecimento da consciência. Da mesma maneira, a morte se faz mais presente nas meditações, contemplações, fantasias e nos devaneios. A capacidade de integrar níveis mais elevados de morte, pausa e entrega está relacionada com abandonar o estado de alerta e de controle. O efeito sedutor das drogas está justamente em permitir ampliar o descontrole e a presença da morte, expandindo assim a área de intercessão entre o Amor e a Verdade. Nesse beijo que se faz mais intenso se produz uma sensação inicial de conforto e euforia, como se nossa mãe e nosso pai nos enlaçassem num abraço afetuoso. No entanto, tal abraço mostra-se artificial e destrutivo, imobilizando e asfixiando gradualmente. Mergulhar em níveis mais profundos de morte é restrito aos que perseveram em delicados processos de iluminação espiritual. Ao contrário do que muitos pensam, o processo de autoiluminação tem mais a ver com a capacidade de velar do que desvelar. Tal processo busca obscurecer o mundo consciente, a fim de conter a claridade ofuscante que emana da consciência e de se estar desperto. O caminho da iluminação está mais envolto pelas névoas ******ebook converter DEMO Watermarks******* do que pela clareza e certeza. A iluminação é estar-se desperto, mas não da maneira que normalmente estamos. Seu adormecer para uma parcela da realidade representa o despertar em outra realidade. Estados alterados de consciência são entregas onde se aumenta o percentual de pigmentação da morte, produzindo um fenômeno reticular no qual a Verdade ganha matiz em relação ao Amor. Essa retícula torna mais perceptível o velamento. Enquanto as drogas, a depressão e o cinismo ampliam o ocultamento, a maturidade, a espiritualidade, a sabedoria e a entrega adensam o velamento. 1. Talmude, Brachot, 57b: “O fogo é 1/60 do inferno, o mel é 1/60 do maná, o sábado é 1/60 do Mundo Vindouro, o sono é 1/60 da morte, e o sonho é 1/60 da profecia.” ******ebook converter DEMO Watermarks******* 1/7 de morte O que estamos dizendo é que a morte perpassa a vida a todos os instantes. A percepção que temos dela (via Verdade) ou que temos da vida (via Amor) varia de acordo com nossas faculdades e limitações. Mas sua intercessão é constante e dela se faz a realidade. No relato da Criação, em Gênesis, o Criador dá índices para a frequência das pausas. Como um manual para o manejo de sua Criação, no sétimo dia Deus faz uma pausa. Esse 1/7 destacado de sua atividade revela a frequência com a qual a criatura deveria temperar seu estado de alerta. Um sétimo dia por semana de entrega é um receituário preciso para que níveis mínimos de morte e pausa ingressem em nossa vida. A ampliação dessa densidade da morte no sábado é experimentada de forma prazerosa e muitas vezes descrita como puro gozo para os que observam essa pausa. A morte, em certa dose, intensifica a vida e o prazer, não sendo um elemento externo ou intruso na realidade. Assim como o sono nos vitaliza e faz parte de nosso equilíbrio, também a morte é parceira de nossa saúde. Quem de nós não sente profundo prazer ao descansar, mesmo sabendo que se trata de uma atividade que demanda entrega? Esses momentos de velamento que ativam a vida expõem o entrelaçamento entre a vida e a morte. O teólogo Rubem Alves ilustra esse entrelaçamento ao relatar um incidente que se deu com sua filha. Pai e filha costumavam passar momentos juntos após o jantar para ler histórias. Num certo dia, com a menina no colo, percebeu que do rosto dela escorria uma lágrima. Perguntou-lhe por que chorava, e a menina respondeu que estava tão contente que já sentia falta daquele momento. A vida se misturava com a morte; a presença com a ausência e a alegria com a nostalgia. A percepção dos pigmentos da morte que perfazem a retícula da vida mostra que a Verdade tem tanta participação na alegria e na paz quanto tem o Amor. Qualquer índice menor do que 1/7 de pausa ou de morte na vida faz com que a dimensão do Amor fique distorcida por um esgarçamento para além de sua maleabilidade. Quanto mais esgarçado se fizer o Amor, maiores serão a dúvida e o desespero. Em índices menores do que 1/7 imperam níveis insustentáveis de expectativa por ordem e o que “gostaríamos que acontecesse” se manifesta com uma frequência maior do que a própria ******ebook converter DEMO Watermarks******* realidade é capaz de suportar. Esta faixa com índices tão baixos de pausa e entrega é constantemente assolada por tempestades de cinismo e medo. Viver em índices abaixo de 1/7 de morte implica o constante risco de não resistirmos à descompressão de nos confrontarmos com realidades onde a intensidade da morte e da perda nos seja insuportável. Essa descompressão pode causar “embolia” às almas que não saibam guardar esse mínimo de entrega. Quando o índice de presença da morte tende a zero, quando não há mais elemento de morte na vida, entramos na esfera do suicídio. O suicídio é um controle radical, uma dimensão onde apenas Malé pode penetrar, não havendo espaço para Aié. Esse controle extremado expurga qualquer possibilidade de rumo próprio à vida. Supõe-se, assim, total controle da vida, que, destituída de qualquer componente de morte, nos lança ao desespero pleno. No suicídio não há entrega, mas absoluto controle. Ele deriva das profundezas da busca obstinada e radical por revelação e por Malé (“aqui está repleto da glória”). Sem qualquer tolerância para o velamento, nos fazemos presas de um mundo de profundo ocultamento e dúvida. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Sabendo perder para o universo Saber perder para o universo é, acima de tudo, conhecer e respeitar as regras que fundamentam a própria vida. “Deus dá e Deus tira; abençoado o Nome de Deus para todo o sempre”, diz o texto bíblico, apontando para uma relação entre Divindade e criação, que para muitos deixa apenas lugar à resignação. No entanto, diferente da resignação, saber perder para o universo está associado à capacidade de saber ganhar do universo (dá e tira!). Há uma relação profunda entre o que nos permitimos esperar da vida – ganhar – e a maneira com que conseguimos nos desapegar – devolver. Há duas maneiras bastante distintas de se lidar com as expectativas. A primeira pode ser exemplificada no lamento típico do blues: “todo sonho, mais cedo ou mais tarde, se transforma em dor.” Por essa perspectiva, qualquer expectativa, na exata proporção que por ela ansiamos, nos expõe à decepção, ao sofrimento ou à perda. Tal perspectiva gradualmente imobiliza os sonhos, tornando-os potenciaisáreas de sofrimento. À medida que a vida progride, nos tornamos frustrados e com menor interesse em investir em projetos, por simples medo da dor e do desapontamento. Existe, porém, uma forma distinta de se lidar com as expectativas. Uma vez por ano, a sinagoga onde trabalhei organizava uma visita de familiares a um antigo cemitério já desativado. Por ser um cemitério antigo, os parentes que vinham prestar homenagem eram todos muito idosos. Saímos juntos de ônibus e, antes de seguirmos para nosso destino, entreouvi uma conversa de um grupo de homens. Eles perguntavam uns aos outros sobre suas idades. Todos já octogenários, tinham uma aparência muito envelhecida, com exceção de um senhor. E justamente aquele que estava em melhores condições físicas revelou-se o mais velho do grupo. Quando o ônibus partiu, sentei-me junto a ele e, comentando ter escutado a conversa, indaguei sobre o segredo de sua longevidade e saúde. Ele então confidenciou: “O segredo é o seguinte: meus filhos pensam que sou louco, mas ainda hoje faço planos para o futuro, a médio e longo prazos. Compro imóveis para pagar em dez anos e me programo para o futuro de uma tal maneira que nem eles têm coragem de fazer. Eles têm medo. Mas penso que a mim cabe fazer planos, é Deus que sabe quando me chamar. É assim hoje, mas sempre foi assim, mesmo quando eu era jovem.” O segredo desse homem se resumia a uma relação saudável com seus ******ebook converter DEMO Watermarks******* sonhos. Sua atitude não era nem alienada nem fantasiosa, mas exibia uma proporção estética e artística, cuidadosamente moldada para si, sobre o ganho e a perda. A arte de se salvar diz respeito a essa relação muito precisa e acurada entre o desejo do ganho e a disposição para a perda. Caso essa relação não fosse apurada e apropriada, ele seria devorado pelo pavor angustiante de projetar expectativas e apostar apenas na possibilidade de suas realizações. Tal comportamento só poderia ser assumido por uma pessoa que nunca tivesse se deparado com qualquer perda (inconcebível a um octogenário), ou alguém muito bem graduado na escola da vida e de suas perdas. Ou seja, teria de ser alguém que tivesse absorvido dosagens saudáveis de morte para poder suportar esse tipo de sonhos e expectativas. Teria de ser alguém que soubesse “perder para o universo”. Uma pessoa de idade muito avançada assemelha-se a um indivíduo consciente de sua terminalidade. Sonhar nessa sintonia só é possível no mais refinado comportamento humano, qual seja, viver a vida aceitando a sombra circundante que também a define. Esse comportamento representa entrar no jogo da vida para ganhar, amando a perda com a mesma intensidade que se ama a conquista, sabendo que uma é o avesso da outra e que é impossível ser grato por uma sem também o ser pela outra. O Deus que Dá e o Deus que Tira é, na mesma medida, o Deus da vida. Saber perder para o universo é a única atitude que nos permite tomar posse das graças e bênçãos em nossa vida. Sem essa atitude fica difícil receber da vida, e somos constantemente ameaçados pelo pânico daqueles que tentam exorcizar as sombras e as percentagens reais de morte da vida. Como se poderia então sonhar se constantemente temos que saber perder para o universo? O Rabi Bunam ilumina essa questão: Há dois tipos de buscas neste mundo. Há a busca de uma pessoa por um tesouro que acredita existir num certo local, e há a busca de alguém que perdeu algo precioso. A primeira pode abandonar facilmente a sua busca, porque não tem certeza de que o que procura existe. Porém, se perseverar e encontrar o que procura, ficará eufórica, tomada da alegria de ter ganho algo inesperado. Já no segundo tipo de busca, a pessoa procura sem cessar porque tem certeza de que o objeto perdido está de fato em algum lugar. Ela não abandonará facilmente a sua busca. No entanto, se encontrar o que perdera, fica contente apenas em parte, já que só recobra o que já possuía. Na verdadeira busca, devemos fazer ambas as coisas: procurar incessantemente, como se tivéssemos perdido algo, e nos permitir a ******ebook converter DEMO Watermarks******* euforia de quem encontra um tesouro que não esperava. Devemos buscar como se tivéssemos perdido algo, como se tivéssemos o direito de reencontrá-lo; ao mesmo tempo, devemos manter uma mentalidade de busca ao tesouro que, em caso de sucesso, nos faça agradecer como se não tivéssemos direito a ele. Este é o exercício diário que deveríamos realizar para aprender a perder para o universo. Aprender a perder para o universo exige comportar-se corretamente quando ganhamos do universo. A maneira pela qual recebemos algo do universo é fundamental, pois favorece ou não a capacidade de perder para o universo. Assim sendo, não deveríamos nunca deixar de reconhecer no conceito teórico de “Deus dá e Deus tira” a dimensão violenta que existe também em se experimentar o “receber” (no mínimo tão violenta quanto a percepção que temos daquilo que nos é tirado). Enxergar isso no dia a dia é uma prática mística. É discernir, mesmo que de forma velada, a realidade da Verdade, não apenas nos hospitais, cemitérios ou nas primeiras páginas dos jornais, mas em qualquer despertar sem dor, em qualquer sorriso e projeto de vida. Qualquer outra postura em relação a expectativas e buscas promove patologias no campo existencial. Quem procura alguma coisa como se a tivesse perdido e, ao achá-la, reage justamente como se a possuísse, transforma-se no decorrer da vida numa pessoa amarga, crítica e desesperada. Sua capacidade de esforço e de procura é sempre retribuída por uma sensação menor de alegria. A vida cansa esse indivíduo que se exaure numa rotina cinzenta e sem graça para obter o mínimo para sobreviver. A vida se desencanta e as possibilidades de ganho se definem exclusivamente pela possibilidade de não ter perdido. Quem, por outro lado, busca apenas tesouros e não conhece a garra das buscas de alguém que perdeu e não desiste de encontrar, viverá sempre inseguro. Por um lado, conhece a alegria e a euforia; por outro, teme a fragilidade de suas buscas. Sua falta de confiança e fé na busca o torna dependente do passado, das alegrias do passado que se fizeram possíveis na busca difusa de achados intensos. Longe do desespero e próximo da apatia, tal pessoa não sabe perder para o universo, pois perde mais do que o universo gostaria que perdesse. Por último, encontramos aquele que busca sem fé e encontra sem fé. Trata-se de quem busca coisas na vida como quem procura tesouros e, ao encontrá-los, toma-os como se fossem algo perdido. Por um lado, age como se não tivesse direitos, como se a dimensão do Amor não fosse real; por ******ebook converter DEMO Watermarks******* outro lado, trata os resultados de sua procura como se fossem um direito adquirido, suprimindo assim qualquer percepção de uma realidade de Verdade. Podemos supor que saber perder para o universo diz respeito à fé na busca e à fé no resultado dessa busca. Ambas as formas de fé são idênticas, tendo, porém, “sinais trocados”. A entrega na busca é acreditar na ordem, na esfera do Amor plenamente. Já na esfera dos resultados, a entrega está em confiar numa Ordem Maior, que nem sempre se nos apresenta como uma ordem discernível; em outras palavras, a esfera que tratamos pelo título de Verdade. Saber perder para o universo é abrir mão de forma artística do controle nessas duas variáveis – busca e resultado. Na busca, abrir mão do controle é não se deixar levar pela lógica que reprime e suprime a crença de que há algo para ser encontrado. No resultado, abrir mão do controle é permitir a si mesmo a surpresa de ter encontrado algo de cuja existência se tinha certeza na busca. Quando, no entanto, o resultado é a perda e nada encontramos, não se registra nenhum efeito de mágoa, uma vez que esta é uma reação de quem espera e não de quem se surpreende no ato de encontrar. Saber perder é, portanto, um comportamento “contraditório”, onde esforços e expectativas não compartilham de uma mesma realidade. A integração entreuma busca com fé e a gratidão por um resultado só é possível por meio de uma leitura constante deste mundo através da óptica do que nos é velado. Buscar acreditando que há é considerar o mundo como da ordem de Malé numa realidade comumente experimentada como Aié; encontrar sob a sensação de surpresa é experimentar o mundo como Aié numa realidade comum e erroneamente tratada por Malé. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Ruim, não... amargo Disse o rabino de Kobrin: Quando sofremos alguma adversidade, não devemos dizer: “Isto é ruim”, pois Deus não dispensa sobre nós coisas ruins. Devemos dizer, no entanto: “Estou passando por uma experiência amarga”, tomando o revés como um remédio amargo que um médico prescreve a fim de curar o paciente. A capacidade de perceber as coisas como “amargas” não é um engodo ou um pensamento comprometido com nossos desejos. É uma possibilidade real de comportamento humano. Estamos constantemente aprisionados a nosso único instrumento detector de ordem e de Amor, qual seja, o atendimento de nossas necessidades, nossos desejos e expectativas. Estamos perdidos no universo apenas com esse aparato. Por um lado, ele é de grande sofisticação no rastreamento de sentido. Vivemos para crescer, amar, reproduzir, ter prazer e nos afirmar na realização e no sucesso. Gostaríamos de que a existência humana fosse restrita a essas possibilidades, e em grande medida ela é. Toda uma epopeia genética e fisiológica se processa apenas com esse objetivo. Porém, a existência não é composta de um único estágio. A lagarta é a borboleta, mas a ordem da borboleta já não é mais a ordem da lagarta. O voo é símbolo da distância que existe entre as duas realidades. Suas cores, seu formato e seu mundo não são mais os mesmos. Também os seres humanos experimentam uma metamorfose similar. Partindo do mundo dos sonhos e da imortalidade, próprio de uma primeira etapa em nossa vida, somos levados a compreender nosso mundo circundante tendo abandonado a antiga carcaça da certeza, do maniqueísmo e do esforço por controle. Ganha espaço um mundo onde aquilo que contraria nossas expectativas não mais é considerado um inimigo, nem é visto segundo a mentalidade de “se não é a favor, com certeza é contra”. Abandonamos o mundo do ruim para passar a tratá-lo pelos critérios de nosso paladar. Ainda atestamos o amargor do ruim (lagarta e borboleta ainda preservam um forte vínculo), porém um gosto deixa de ser uma realidade absoluta e ocupa sua condição de mera sensação. A noção de ruim é própria da percepção da vida como uma batalha com claros e definidos objetivos. A noção de amargo, por sua vez, denota uma relação com a vida menos conceitual, mais sensorial. A vida deixa de vigorar numa dimensão confrontativa, e passa a uma dimensão de “cidadania” da ******ebook converter DEMO Watermarks******* existência. Somos parte em vez de sermos contra. Mas, para tal, precisamos abrir mão de certas ambições de ordem, descobrindo uma relação de direitos e deveres que anteriormente não percebíamos. Fazer a transição do “ruim” para o “amargo” não é algo simples nem sequer garantido a todos os seres humanos. É um processo de amadurecimento. Mas é um crescimento necessário, já que a persistência do “ruim” sob a forma de “ruim” é o que propicia o desespero. A dificuldade está no fato de que o amargo é verdadeiramente experimentado como algo “ruim”. Trata-se, porém, de um estado passageiro do “ruim”. Como uma criança que não deseja tomar uma vacina e prolonga seu sofrimento por dias de agonia que apenas se somarão à dor momentânea da agulha. A agulha é “amarga”, ela não é “ruim”. Muito pelo contrário, o “amargo”, em geral, traz importantes compensações “doces”, como no caso da vacina evitando doenças. Essa primeira fase de transformação de nossas relações com o mundo é fundamental. O adoçamento do amargor é uma tarefa relativamente fácil, se comparada à transição do conceito de ruim para o de amargo. Na grande maioria das situações de inconformidade, lidamos não com um amargor que não consegue ser adoçado ou ao qual buscamos nos acostumar, sendo assim algo da dimensão “ruim” que não consegue transcender sob a forma de amargor. Para que essa transição seja possível, dependemos também da capacidade de discernir que o bom não é “bom”, mas “doce”. Deus ou o universo não é responsável pelo bom, pois esse também é um conceito nosso. O que percebemos como doce nem sempre é bom à luz de outra perspectiva. Percebemos assim que nós mesmos somos os maiores propagadores da noção de caos – o território no qual o bom se dissimula em ruim e o ruim em bom. O triunfo do mal e a desesperança são produtos de nossa insistência em “compreender” o bem que não é bem e o mal que não é mal. O doce nos confunde, e também o amargo. Sabemos isso da vida, pois doce não é uma conceituação absoluta de bom. Os diabéticos sabem disso, os obesos também. O doce pode ser instrumento de grandes desequilíbrios – egocentrismo, obsessão, insegurança e pânico. Viver o prazer com a moderação de sabê-lo doce e não como o bom, puro e destilado é temperar a vida com sua dimensão morte. É tê-la diante de nós de forma mais real. Não significa um mundo menos gostoso, pois nos é dado sentir em sua realidade também o doce. Não há custo em termos de intensidade de prazer na transformação do conceito de “bom” em conceito ******ebook converter DEMO Watermarks******* de “doce”; há, porém, uma limitação do caráter da insaciabilidade. O bom é da dimensão do insaciável; o doce, não. A doçura perde sua própria intensidade na ausência do amargo. Os gourmets concordariam: o amargo e o doce são inseparáveis. É só e somente só ao não saber dosá-los que invadimos o território do que é ruim. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Amargo, não... bom Vamos, agora, fazer um passeio até a fronteira. Teremos, para isso, de abusar um pouco de nosso senso de realidade, esgarçando-o quase a ponto da descrença. Vamos tentar conceber algo que é bastante inquietante – compreender o amargo como “bom”, sem que com isso se faça uma apologia do sofrimento. Devemos perceber que estamos aqui em um terreno com o qual se deve ter um cuidado cirúrgico para que a fé não venha a ser instrumento de uma tentativa de falência da consciência e do intelecto. Quando isso ocorre, também a fé contribui para o aumento dos níveis de caos neste universo. Tentaremos tangencialmente compreender algo que não nos cabe compreender. Na verdade, muito do que estamos analisando parte do pressuposto de que aceitamos a existência de uma dimensão Aié, onde não se pode apreender de forma plena e objetiva. Essa é uma premissa da perspectiva religiosa que a difere radicalmente da visão científica. A religião se propõe a conviver com uma realidade onde o inapreensível pode ser experimentado em sua forma velada. Por conviver devemos entender uma atitude de aceitação ativa desse “lado velado” que se faz visível apenas de forma indireta, em seu reflexo e em sua silhueta. Qualquer religião que se imagina podendo expressar a realidade sob a estrutura Malé se torna autoritária, fundamentalista e um braço da esfera do controle. Se a perspectiva da religião for a de explicar, ela então se outorga a legitimidade de uma ciência. Se, ao contrário, destitui a inteligência, torna-se uma forma de ignorância. O território da religião é o mundo simbólico, o mundo enevoado daquilo que se expressa no casamento entre revelado e velado. O ritual e o misticismo são tentativas de expressar o que é inefável e incompreensível, mas que ainda assim é de nossa esfera de percepção. Um homem veio até o Rabi Dov Ber, o Maguid da cidade de Mezeritch, com a seguinte pergunta: “Como posso aprender a aceitar as coisas ruins em minha vida?” O Maguid respondeu: “Tenho um discípulo que pode ajudá- lo. Seu nome é Reb Sussia. Ele vive em tal lugar... agora vá até ele.” O homem colocou-se a caminho e acabou por chegar a uma pequena casa que lhe indicaram como sendo de Reb Sussia. O estado da casa era lastimável, demonstrando sinaisde profunda miséria. Quando o rabino ******ebook converter DEMO Watermarks******* apareceu à porta, viu que se tratava de um homem muito doente. Mesmo assim o homem explicou a razão de sua visita. O rabino pareceu muito surpreso e disse: “Mas eu não compreendo... Por que o Maguid mandou que viesse até mim? Logo a mim, que nunca tive um dia ruim em toda a minha vida!” Que tipo de resposta é essa? Seria esse personagem concebível na vida real? Como pode Reb Sussia estar totalmente imunizado contra a dor, o desconforto, a fome, a privação e a humilhação? Como pode afirmar nunca ter sido exposto a algo ruim em toda a sua vida? Devemos compreender que Reb Sussia não se refere a seus reveses como sendo doces. O amargo não pode ser doce, mas pode ser bom. Para o amargo ser bom, temos de desenvolver nosso paladar cuidadosamente. Por um lado, poderíamos tentar entender a atitude de Reb Sussia por um ditado do Zohar: “Não conhecemos o verdadeiro gosto do doce até que conheçamos o gosto do amargo.” Ou seja, o amargo potencializaria as dádivas e graças deste mundo que percebemos como doces. Seria, portanto, de uma natureza boa, pois contribui e intensifica o paladar para o doce. Reb Sussia, porém, parece estar dizendo algo para além disso. A afirmação de que o amargo tonifica o gosto para o doce continua legitimando o doce como um objetivo último. E Reb Sussia parece estar numa sintonia onde o amargo, por si próprio, também pode ser experimentado como bom ou como parte do objetivo. Reb Sussia vê o mundo de “cabeça para baixo” e postula que, em natureza, é idêntico ao mundo de “cabeça para cima”. Bom é uma atribuição que fazemos em relação a alguma coisa que conhecemos e que podemos perceber como adequada. Digamos que pela perspectiva religiosa exista uma realidade que é velada. Nessa dimensão, não saberíamos qualificar algo como bom ou ruim. Sem o poder da compreensão, não podemos dizer se algo é bom, se possui a qualidade de adequar-se a uma natureza ou a uma função. Nessa esfera, sem trairmos nosso senso de realidade, o bom nos seria intangível, apesar de existir. É em tal exata medida de consciência sobre o mundo que é velado que se encontra a possibilidade de compreensão do mundo pelo olhar de Reb Sussia. O amargo é bom num território que está além do controle. Reb Sussia preserva e cultiva esse “território” em sua vida, fazendo dele objeto de seu aperfeiçoamento e desenvolvimento espiritual. Ao se recusar a conceber o “amargo” como “ruim”, ele provavelmente teve de abrir mão de conceituar o ******ebook converter DEMO Watermarks******* “doce” como “bom”. Eis a resposta que o rabino quer que o discípulo assimile de Reb Sussia: “Como posso aprender a aceitar as coisas ruins em minha vida?” Aprendendo a desapegar-se das coisas boas de sua vida. Não é possível um comportamento sem o outro. A ânsia pelo doce é o mais amargo de todos os destinos. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Tachlis – Objetivamente, sem rodeios Existe uma maneira de testarmos a presença do mistério e daquilo que é velado em nossa vida. Trata-se do teste de tachlis. Essa palavra, uma corruptela do idioma iídiche do verbete hebraico tachlit (objetivo), é uma expressão utilizada para exigir um compromisso absoluto com o concreto e com o real. Seu significado literal é “sem subterfúgios”, “na prática”, “sem rodeios” ou “objetivamente”. Tachlis representa um compromisso radical com o que é palpável e a interdição da abstração e da racionalização. Quando nos cobrarmos uma postura tachlis com relação a um momento ou a nossa vida como um todo, fica exposto o nível de velamento que preservamos em nós uma vez que não há coerências e consistências absolutas em nossas atitudes. Durante a infância, o território de velamento é muito real. A fala “Quando crescer você entenderá” é uma colocação constante dos adultos, que demanda um extraordinário esforço dos mais jovens. Uma energia considerável da juventude é despendida nesse ato de fé nos adultos, e por mais que haja contestação e rebeldia prevalece uma moldura de velamento representada pelas experiências de que o jovem não dispõe. Com o passar do tempo, com a maturidade, essa tolerância se reduz drasticamente e passamos a nos pautar por aquilo que é revelado e conhecido. No entanto, há realidades que permanecem proibidas “a menores de 18 anos” para toda a vida. Não há idade em que não se esteja submetido a alguma interdição, e é um grande erro pensarmos ter acesso garantido a todos os aspectos da realidade. Quando nos perguntamos “tachlis? ”, tendemos a responder fazendo uso da integração de toda a nossa história, de todos os nossos condicionamentos e experiências e, sem rodeios, falamos daquilo em que acreditamos, naquilo em que investiríamos, naquilo com que nos comprometeríamos. Tachlis é nosso voto, nosso sufrágio em termos de preferência por um mundo em vez de outro. Tachlis é o momento diante da urna, quando, sem discursos ou máscaras, assinalamos aquilo que é um resumo de quem somos naquele instante. O teste de tachlis é exatamente este: se você manifestasse agora, sem qualquer dissimulação ou falsidade, sua crença, qual o nível de velamento que ela comportaria? ******ebook converter DEMO Watermarks******* Certa vez, estudando textos medievais que falavam sobre o Mundo Vindouro, um aluno questionou o professor: “Estou muito incomodado com esses textos. Afinal, quem de nós acredita nessas imagens de Mundo Vindouro, Paraíso, Inferno?” Em vez de responder, o professor, calmamente, retirou sua carteira do bolso, puxou uma nota de vinte dólares e propôs ao aluno: “Se é assim... Você me venderia sua porção no Mundo Vindouro por esses vinte dólares?” Fez-se um profundo silêncio. Por que não deveria aproveitar a oportunidade? Se essas coisas não existem, por que não ficar com os vinte dólares? Por outro lado, estávamos todos apreensivos e temerosos de que ele viesse a vender sua “alma”. O silêncio pareceu uma eternidade e, não obtendo resposta, o professor lentamente guardou o dinheiro sem mais nada dizer. Ele acabara de realizar um teste de tachlis. Uma coisa é o que o intelecto nos diz, e outra é o centro real de crenças que nos constitui. Racionalmente, o aluno não acreditava em todas aquelas coisas; no entanto, elas estavam entranhadas no sistema de crenças com o qual ele funcionava. Tachlis é uma medida invisível que se faz real à medida que se fortalecem nossos compromissos com a realidade da Verdade. Existem basicamente dois tipos de comportamento tachlis: o hedonismo e a prática de Reb Sussia. Todos os outros comportamentos, se colocados à prova de tachlis, vão se mostrar cenários que acobertam uma ou outra dessas perspectivas. Ambas as propostas querem dar conta do sofrimento. A primeira por suprimi-lo ao afogar-nos de prazer. Se estivermos sentindo prazer, não haverá espaço para o sofrimento. A segunda também quer erradicar o sofrimento, incorporando-o ao próprio sistema de prazer. Assim como a vida e a morte se entrelaçam na existência, o prazer e o sofrimento se entrelaçam no “bom”. Reb Sussia nunca teve um dia ruim porque tudo o que lhe aconteceu até aquele instante foi um entrelaçamento de prazer e sofrimento de adversidade e bênção, que costuraram dias que nunca foram ruins. O “bom” não é um instantâneo, mas uma sensação que integra a existência como um todo. O mérito do hedonismo é o de não se abrir mão de tachlis por nada, mas seu custo é o desespero. Não é possível alijar o sofrimento do sistema da vida e da possibilidade de prazer. O hedonismo será vítima de reveses, nem que seja do envelhecimento ou da finitude da vida. É daí que a proposta de Reb Sussia se torna tão interessante. Ele também não quer abrir mão de tachlis, e não propõe um truque ou uma racionalização. Porém, ao reconhecer que o ruim é apenas amargo e o amargo parte de um projeto que permite o doce, ******ebook converter DEMO Watermarks******* faz com que seu tachlis seja a soma de seus desejos do momento (Malé) e a maturidade que a vida lhe legou (Aié). Entre reveladoe velado, Reb Sussia vive a sua vida como “bom”. No desejo hedonista da constante revelação, do retorno constante e sem risco, agendamos um encontro com o desespero. Certa vez um comerciante me procurou, perplexo, por causa de uma senhora muito simples que de tanto em tanto fazia compras em sua loja. Sempre que ela ia até lá, conversavam longamente sobre sua crença e sua devoção religiosa. Um tanto irritado pelo que parecia uma postura piedosa e ingênua, o comerciante quis alfinetar com certa ironia: “Então a senhora acha que este mundo é um mundo de ordem e justiça? Olhe em qualquer canto e a senhora não vai encontrar paz em lugar nenhum. Dê-me um único exemplo de onde há paz neste mundo.” O dono da loja estava seguro de que o que dizia era totalmente sensato. A mulher sequer hesitou por um instante e respondeu, convicta: “Aqui... aqui dentro há paz”, apontando para si e para seu coração. O dono da loja ficou tão perturbado com a momentânea sensação de que o que ela dizia fazia um profundo sentido que resolveu me procurar. O tachlis dessa mulher é tão intenso que ela sequer hesita em responder. Ela não se sente obrigada a dar conta de toda a realidade. Sua paz é tão real e tão desobrigada de se ver negada pelas coisas que não são Malé neste mundo. Sua simplicidade, inicialmente tomada como ausência de sofisticação, revelou um tachlis verdadeiro, ou seja, não era uma ilusão ou uma utopia, que chocou o dono da loja. O comerciante, que se achava objetivo e fiel a seu tachlis, se dá conta de que talvez ele viva de ilusões. O seu tachlis, que era trabalhar e prosperar ao máximo, tentando construir sua paz no mundo exterior, se dá conta de sua própria ingenuidade e de seu próprio cinismo. Durante toda a sua vida, o caminho para a paz mirava o que é Malé, sem integrar Aié. Seu susto é marcado pela descoberta de que sua visão não era tão abrangente nem sensata quanto inicialmente considerara. Percebia assim que talvez se movimentasse pelo mundo com um mapa errado. Afinal, nosso tachlis, nossa postura objetiva, é uma reprodução fiel do mapa com o qual nos guiamos pela vida afora. Esse mapa deve ser constantemente atualizado à luz de nossas mais novas experiências e reflexões acerca da vida e de nós mesmos. Mais do que sua atualização, porém, esse mapa deve ser o instrumento mais fidedigno e sofisticado de que dispomos. Melhor ter consciência de que você ainda não tem um bom mapa do que se nortear pelo mundo com um mapa errado. Acaso o seu mapa assinala alguma região, algum espaço, no qual reside a ******ebook converter DEMO Watermarks******* dimensão daquilo que não é para o nosso bico, que seja velado? Qual é o seu tachlis hoje, agora? Você realmente confiaria nele, fecharia os olhos e se entregaria a seu traçado se tivesse consciência dos acidentes de percurso que a utilização de um mapa inadequado pode causar? Em particular, desconfie de tachlis que sejam puramente constituídos de uma lógica e objetividade externa (Malé). Esses são os roteiros que invariavelmente terminam no desespero. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Lidando com o que não nos diz respeito Interagir com algo que “não nos diz respeito” parece um contrassenso. Se algo é da dimensão do que “não nos diz respeito”, deveria estar para além de qualquer possibilidade de interação. Mas podemos interagir com coisas sem o recurso da compreensão, utilizando o instrumento da experiência. O que não pode ser apreendido ou capturado por nosso entendimento permanece ainda como podendo ser experimentado. Não compreendemos a razão de algo acontecer, mas temos de conviver com essa realidade. Mencionamos anteriormente duas formas de não aceitar o que não é compreendido: 1) classificá-lo como pertencente à esfera da desordem (preservação da integridade da consciência) e 2) negando essa realidade, admitindo que sim, “é para o nosso bico”, apenas ainda em processo de ser compreendido (ciência). Vamos tentar abordar aqui formas de lidar com o que não nos é compreensível sob a perspectiva de estruturas de ordem. Estaremos assim engendrando uma terceira forma de lidar com o incompreensível, além da óptica da desordem e do controle. Para realizar isso, necessitamos encontrar janelas de contato entre o mundo do Amor e a dimensão da Verdade. Para detectar os “passes” por entre essas duas realidades, vamos buscar duas áreas fundamentais da experiência humana – a sensorial e a sentimental. Nelas, respectivamente, encontraremos as faculdades da visão e a alegria, símbolos místicos universais dessas interfaces entre Amor e Verdade. Estudaremos cada uma delas a seguir. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Alegria como receptáculo A alegria é uma reação; poucas vezes percebemos isso. A alegria não é uma fonte em si mesma, mas uma resposta a um estímulo. Da mesma forma que a febre é um mecanismo do “painel de controle” biológico em nós embutido, também a alegria serve como um medidor. Mas medidor de quê? De ordem. Se as coisas vão bem, se as coisas se encaixam, se as coisas estão caminhando e estamos nos sentindo bem, nosso sistema produz alegria. Se há sentido de estética, se algo nos comove pelo engenho, pela graça ou pelo humor, e estamos bem, novamente experimentamos alegria. Se um momento envolve prazer, se em alguma medida algo nos sacia, nos acalenta ou refresca, experimentamos alegria. Se algo nos afirma, confirma ou assegura, gera alegria. Não há sensação de ordem que não libere alegria. Quando tudo está sob controle, a alegria é densa e pura. Tal é a experiência que guardamos da infância e que vemos se desvanecer com o amadurecimento. A sensação momentânea de que tudo pode estar sob controle é muito mais real na infância do que nas fases subsequentes da vida. Um menino ou menina, ao concluir o ano escolar com aprovação em todas as matérias, se vê diante das férias num estado de plenitude que o adulto não consegue atingir. O adulto tem responsabilidades que não cessam, mesmo nas férias, e a preocupação o impede de planejar qualquer segmento de tempo sem que pese a possibilidade de alguma coisa dar errado, de receber uma má notícia etc. Uma criança possui muita fé, e talvez por isso em boa medida dispense instrumentos como a religião. Por um lado, uma criança experimenta a construção biologicamente orquestrada pela maternidade e paternidade de um mundo de muito Amor à sua volta e, por outro, não está tão condicionada como o adulto a antecipar o futuro. Por mais que a realidade da Verdade se faça presente a cada tombo ou a cada mal-estar, é a ordem nessa fase que se faz companheira constante da vida. Mesmo que a criança não entenda algo, sempre haverá um adulto para lhe sinalizar direta ou simbolicamente que o futuro trará as respostas. Entretanto, à medida que um indivíduo cresce, alcança menos respostas e passa a ter menos garantias de que elas existam. Inicia-se, portanto, a convivência com uma realidade que exige uma relação diferente para com alguns de nossos sentimentos. E, muito em particular, sua relação com a alegria. ******ebook converter DEMO Watermarks******* A alegria tem para o espírito uma função similar à que tem o sangue para nosso corpo. A alegria “oxigena” o espírito, trazendo-lhe fé. Inicialmente, é receptáculo apenas da fé palpável que a experiência de uma ordem explícita e objetiva pode propiciar. Com o tempo, porém, o conteúdo desse receptáculo terá de dar lugar a outro tipo de fé que possa englobar a realidade da Verdade e honrar a presença de níveis constantes de descontrole. Essa transformação é vital, pois o espírito, à medida que é forjado e moldado pelas experiências e pelos sofrimentos da vida, não consegue mais absorver o tipo de fé que a alegria da infância e de seu mundo de Amor produzia. Essa fé passa a intoxicar o espírito e, lentamente, asfixia o mundo espiritual e emocional num denso cinismo. Faz-se necessário que a alegria continue a realizar sua tarefa de trazer esse nutriente energético tão fundamental, mas agora de forma adaptada à nova realidade do espírito. A alegriaunicamente embasada em realidades de Amor deve sofrer uma mutação estrutural para que não seja rejeitada pelo espírito de um adulto. A questão diz respeito a preservar a alegria que nos é vital (Amor), enquanto promovemos sua mutação para adequá-la ao novo sistema existencial da maturidade. É como se verificássemos aqui a transferência da experiência dos sentidos para os sentimentos. Estamos verificando que a diminuição da velocidade dos processos metabólicos do corpo (envelhecimento) estimula um aumento da velocidade “metabólica” (mutações nos receptáculos) do espírito. Precisamos, pois, rapidamente nos adaptar a outro meio ambiente para nosso espírito, onde a “salinidade, a umidade e a densidade” do que lhe é vital são diferentes. Precisamos de um ambiente onde a falta de resposta e a orfandade que experimentamos com a ausência de qualquer garantia de respostas não inviabilizem as possibilidades de transcendência e uma postura de esperança. Tal mutação diz respeito à expectativa associada à alegria. Com o passar do tempo, enquanto o espírito é moldado pelos contatos com o mundo da Verdade o corpo se condiciona às experiências de Amor. O ego e a consciência, como uma extensão do próprio corpo, fazem projetos de felicidade à medida que o crescimento lhes dá mais independência e poder. Por felicidade entendem a projeção da possibilidade de controle sobre toda e qualquer área da vida. E é, no entanto, exatamente a essa felicidade que o espírito tem “alergia” e hipersensibilidade. Como um meio que é anteparo e “colchão” entre a individualidade e o Todo, entre o interno e o externo, o espírito agoniza com a expectativa dessa felicidade. A alegria que lhe é vital – a “alegria arterial” – é aquela que já sofreu a “hematose” da fé e, portanto, ******ebook converter DEMO Watermarks******* integra tanto as realidades do Amor como da Verdade. Esta é a alegria do contentamento, capaz de vivenciar cada momento sem se tornar presa de expectativas do que acontecerá no futuro. A alegria que lhe é tóxica – a “alegria venosa” – é aquela que descarrega uma fé falsa, um desejo de que as coisas possam ser sempre da maneira que esperamos que sejam. Cumulativamente, esse tipo de fé aniquila por asfixia o espírito. É como uma gargalhada comprometida com a fuga e a alienação, e que soa na esfera do espírito como um terrível grito de dor. Tais são as alegrias dos sentidos que utilizamos para tentar dar conta de sistemas de fé falidos e que deixam o espírito sufocado, ansiando por um “ar” que não consegue inalar. Por sua vez, a alegria do contentamento “oxigena” o espírito porque preserva abertos os canais de comunicação e de “respiração” dos mundos interno e externo. O contentamento “inspira” o espírito de fé real (Verdade e Amor), vivificando a vida, e “expira” de volta ao mundo uma fé pura de Amor. Como se a capacidade de alegrar-se por contentamento trouxesse aos “pulmões” do espírito oxigênio e liberasse CO2. A condição do espírito de se oxigenar justamente com a dúvida, a incerteza e a Verdade permite que ele devolva ao mundo uma alegria por contentamento que amplia a ordem e o Amor. Como se o ser humano participasse de algum processo simbiótico – é sua capacidade de processar a desordem que faz retornar ao mundo externo a tranquilidade e a esperança. Assim sendo, a alegria é um instrumento fundamental da sobrevivência do espírito e da imunização contra o desespero. Como uma forma de alegria pode nutrir o espírito de fé, a outra pode envenená-lo. Este poder vivificador e letal é característico das fronteiras entre realidades distintas. A alegria se constitui de uma borda fundamental, lábios pelos quais céus e terra se entregam e se beijam. ******ebook converter DEMO Watermarks******* A incomunicabilidade da visão – Nós não temos luz própria Acabamos de definir a alegria como uma abertura no mundo dos sentimentos entre as realidades do Amor e da Verdade. Vamos, agora, fazer uma prospecção na busca de uma abertura na esfera dos sentidos. Muitas vezes, a fé é condicionada à visão. “Ver para crer” é uma expressão que revela a natureza dos sentidos humanos. Tanto a fala como a escuta, aquilo que captamos e emitimos, determina a possibilidade das versões. Posso assim reproduzir o que ouvi pelo meu órgão emissor – a boca. Já a visão não dispõe de acesso a versões. Os olhos captam, porém carecemos de um órgão emissor de visão. Nós mesmos precisamos ver para crer. Não estamos fazendo uma análise crítica da Criação à maneira de Monteiro Lobato, mas apenas constatando aquilo que em inúmeras tradições é conhecido ou tratado como a necessidade de um “terceiro olho”. Esse olho místico não é um receptor de imagens, como pareceria num primeiro instante, mas um emissor de visão. A boca pode reproduzir o que ouvimos, possibilitando toda a comunicabilidade da linguagem; imaginemos a revolução que se daria se o mesmo pudesse se dar com a visão! Poderíamos trocar versões sobre o que foi visto e teríamos acesso a uma linguagem visual, que nos é desconhecida. As telas e as realidades virtuais tentam atualmente ocupar esse espaço – emitir para nós o que nós, entre nós, não conseguimos. Assim, a incrível riqueza da experiência humana capturada pela visão fica privada da possibilidade cotidiana de troca. Como o poeta, o filósofo e o escritor recriam mundos de falas e escutas dentro de nós. Com a emissão da visão teríamos também acesso à comunicação em um universo inimaginável, o que ocasionaria uma expansão espetacular de nossa compreensão. Ou, quem sabe, o acesso à comunicação visual viesse a causar um impacto forte demais, trazendo-nos um mundo que nos inundaria com experiências da alteridade e perturbaria a nossa própria identidade? Essa é a razão pela qual o testemunho da existência de Deus é prestado no judaísmo pelo sentido da audição. “Ouve, Israel: Deus é Um” é o mandamento bíblico repetido na liturgia hebraica como um testemunho. Ouvir é aparato de captação, que encontra outro aparato de emissão com a mesma estrutura, que é a fala. Ouvir, portanto, para nossa configuração ******ebook converter DEMO Watermarks******* anatômica, é a forma mais calibrada de se prestar um testemunho. Captação e emissão são da mesma natureza e, portanto, mais fidedignas para expressarem uma à outra. Quando o Talmude deseja engajar alguém num processo de estudo racional, utiliza a expressão “vá e ouça” (ta sh’má). Isso porque a escuta simboliza a lógica e a apreensão. “Ouvir” representaria a capacidade de cognição objetiva. Já o Zohar (o maior compêndio literário do misticismo judaico e da Cabala) se vale da expressão “vá e veja” (ta- chazei) quando deseja engajar alguém no estudo esotérico. Seu objeto de estudo é a esfera do que nos é velado, tanto de ver o que é velado quanto de transmitir a visão do que é velado. Nesse campo místico, a expectativa é de poder ver e transmitir o que foi visto, possibilitando o testemunho no nível visual e não apenas auditivo. Sua proposta é a comunicação visual, que permitiria “contar sobre algo” de forma visual. Na verdade, todos os riscos que os místicos associam ao envolvimento com questões secretas estão contidos nos perigos de se ver e na incapacidade de se fazer ver aquilo que se viu. O perigo, portanto, é que nos percamos em visões que não conseguimos testemunhar, tornando-nos solitários, loucos e, gradualmente, céticos em relação àquilo que nós próprios vimos. A expressão “Veja, Israel!” pertence a outra ordem, a outro mundo, onde dispomos de luz própria. A expressão “ver para crer” não quer simplesmente dizer que basta que se veja para que se creia. Isso é uma ilusão. A visão só seria alimento para a fé se esta pudesse prestar-se a comunicar, a emitir a outros sua experiência. E nós não temos, em estados normais de atividade, luz própria. Sem essa luz da comunicabilidade visual é melhor não imputarmos à visão a tarefa de conduzir-nos à fé. A única “visão” que pode nos levar à fé é a iluminação. Não é, portanto, uma visão receptiva, mas emissora. Quando conseguirmos integrarnossa vida e nossas experiências de modo a tocar a vida dos que estão à nossa volta, então conheceremos comentários do tipo: “Não é que você tem razão? Eu nunca tinha visto isso sob tal perspectiva.” Quando fazemos outros verem, indicação de que podemos ser uma fonte iluminadora (emissora), significa mais do que simplesmente um ensinamento cognitivo. Significa que conseguimos gerar um campo afetivo tal que desmontou certas visões e certos padrões de vida e expôs aquilo que queríamos transmitir. Desenvolver essa faculdade de comunicação pela visão é tangenciar mais uma das fronteiras entre o mundo do Amor e o da Verdade; entre os mundos explícitos e os velados. O estudo, o exemplo e a experiência comunicam ******ebook converter DEMO Watermarks******* visualmente numa dimensão onde não temos um órgão emissor de visão. Nossos mestres e aqueles que nos “fazem ver” oferecem uma visão que nossos olhos recebem, estabelecendo assim a fantástica experiência de comunicação entre visões. O mundo explícito e o mundo do controle são representados pela “comunicação sonora”, para a qual possuímos meios físicos de difusão e recepção (boca-ouvido). Para lidarmos com o que “não é para o nosso bico” necessitamos ter acesso, mesmo que limitado, à comunicabilidade da visão. Só essa comunicabilidade pode nos fazer “ver para crer”. Com as inúmeras tentativas de desenvolver a comunicabilidade pela visão, seja pela espiritualidade ou por técnicas milenares de desapego e contemplação, ou simplesmente pelo aprofundamento no amor ao próximo, disponibilizamos algum acesso ao mundo que não compreendemos e que “não é para o nosso bico”. Enquanto “fazer ouvir” é da dimensão do Amor, daquilo que explicitamente está ao nosso alcance pela boca, “fazer ver” é da dimensão da Verdade. Portanto, a aquisição de “luz própria” na esfera da vida está intimamente relacionada à interação com os níveis de morte contidos na própria vida. Iluminar-nos é integrar esses espaços de morte/Verdade que possibilitam uma visão emissora, por meio da qual os outros podem se identificar de maneira absoluta, como se vissem o que lhes “mostramos”. O mundo da não vida, daquilo que é incompreensível à ordem da vida, é o mundo de “Veja, Israel”; nosso mundo, porém, é marcado pela realidade de “Ouve, Israel”. Em resumo, devemos aprender a criar realidades de “visão” emissora neste mundo para honrar as parcelas de nossas essências que operam nessa realidade. Esta é a estratégia fundamental no sentido de preservarmos a fé e de lidarmos com o que não está a nosso alcance. Permaneceremos, porém, com uma questão: por que “Israel” (termo específico que deveria designar aquele(a) que busca preservar sua fé em meio ao incompreensível ou ao inaceitável, ou, em sentido literal, “aquele que briga com Deus e prevalece”) deve ouvir? “Escuta, Israel, Adonai é nosso Elohim [Deus], Adonai é Um”, diz a frase com a qual a tradição judaica sintetiza todos os ensinamentos referentes à fé. Por que o objetivo final é expresso por ouvir e não por ver, uma vez que a faculdade da visão, como vimos, é representativa do verdadeiro mundo do mistério? Essa questão, que nos é fundamental, será abordada mais adiante. ******ebook converter DEMO Watermarks******* ******ebook converter DEMO Watermarks******* III DESORDEM – EXPANSÃO POR CONTRAÇÃO ******ebook converter DEMO Watermarks******* Com medo do conhecido Pela consciência fizestes de todos nós covardes. (Shakespeare) Vivemos com um temor falso. Acreditamos que o que nos causa medo é o encontro com o desconhecido, mas desde quando se pode realmente sentir medo do que não se conhece? Na verdade, nossa antecipação, nossa preocupação, nossa angústia e nosso controle é que não toleram lidar com situações nunca antes experimentadas sem buscar preenchê-las com vivências passadas. Tememos, portanto, não o que desconhecemos, mas tudo o que de doloroso e amargo do passado possa ser evocado para preencher nossas antecipações diante do inusitado e do novo. Somos trazidos a este mundo sem nenhum registro de algo a temer. É verdade que alguns apontariam registros atávicos, condicionamentos da espécie humana e mesmo “reencarnações” como fontes de temores que já trazemos para este mundo antes de nosso nascimento. Seja como for, em todos esses casos estamos falando de algum nível de experiência em que foi possível experimentar alguma coisa ruim. O temor nunca é original. O temor sempre se baseia em um evento anterior ao próprio temor. Qualquer experiência que nos seja nova não pode ter um temor real a si associada. O temor do desconhecido é um contrassenso, que só encontra sentido quando se baseia na expectativa de que o desconhecido significa a perda de prazeres experimentados pelo conhecido. Mesmo assim, estamos supondo o desconhecido como conhecido; afinal, de onde procede a certeza de que o “desconhecido” não encerra em si as possibilidades daquilo que nos é conhecido? Querer impor ao desconhecido a condição de conhecido é próprio do controle. E para controlar o desconhecido utilizamos o mecanismo do medo. O medo, o terror e o pânico são acionados pelo controle nos momentos em que o desconhecido se apresenta diante de nós. Evitamos assim, por intermédio do medo, a porção de morte contida na vida e tentamos tornar da dimensão do Amor experiências que pertencem à dimensão da Verdade. O medo que antecipa e paralisa é o último recurso do Amor para evitar a entrega. Buscamos constantemente refúgio no medo porque preenche o escuro e o ******ebook converter DEMO Watermarks******* futuro com possibilidades conhecidas e possibilidade da perda com o apego. Os macabros seres que habitam cortinas e sombras em noites de tempestade e de dificuldades estão a serviço ou são anjos do controle. A fantasia que preenche o escuro com monstros e demônios é um truque para iluminar quando não temos acesso a acender as luzes. O medo oferece uma “claridade” que acaba por nos ofuscar, não permitindo que tenhamos a penumbra tão essencial ao sono e ao descanso. Marcados na testa pelo controle, optamos por algo que é pior do que o descontrole. Ao querer limitar o desconhecido, o tornamos ilimitado e infindável. Diz um ditado em iídiche que “o medo do infortúnio é pior do que o próprio infortúnio”. Com o medo, saímos da órbita do mal, porque o antecipamos e enclausuramos no temor, mas caímos presa do “pior”, de seu superlativo. E o pior, diferentemente do mal, é a própria representação do caos. O medo nos empurra ao caos e à desesperança. O vício de vida de preencher o desconhecido com temores do conhecido é algo que devemos aprender a combater. Entretanto, como em toda situação de vício, é dificílimo livrar-nos dele. É comum pensarmos que o caminho para desfazer-nos de um vício é justamente o controle. Não percebemos que com isso estamos aprofundando ainda mais o vício. Todo vício é em si uma manifestação exagerada de controle, e jamais sairemos do vício pelo controle sem cairmos em outros vícios. Se não quisermos promover apenas a transferência de um vício a outro, deveremos dizer aos viciados: descontrolem-se. Da mesma forma, o vício de lidar com o desconhecido pelo medo do conhecido também deve ser vencido pelo descontrole. Para tal, temos de nos lembrar constantemente de que o temor não é natural dos lugares desconhecidos, e sim dos conhecidos. Para compreender isso de maneira mais concreta, talvez devamos resgatar nossa mais intensa experiência do desconhecido. Refiro-me ao tempo antes do nascimento. Quem de nós já teve um pesadelo cujo enredo se reportasse a um momento antes de ter nascido? Não me refiro a experiências de regressão a “outras vidas”, que muitos afirmam ter experimentado, mas simplesmente a um tempo vazio, que antecede ao nosso nascimento. Como era 1853 para você? Será que algo na sua inexistência, algo desse desconhecido poderia ser expresso sob a forma de medo? Acaso esse período era ruim e envolvia qualquer forma de sofrimento? Acaso se pode associar qualquer angústia ou desespero a esse tempo anterior à existência?Nada disso procede. Esse desconhecido está além de qualquer classificação pelo conhecido. O temor não habita a realidade do desconhecido. ******ebook converter DEMO Watermarks******* É verdade que se poderia arguir que esse período de inexistência também não contém nenhum registro de algo bom. E assim sendo, o medo do desconhecido seria real uma vez que ele não nos oferece, como na esfera do conhecido, a possibilidade do bom. Teríamos então medo pelo simples fato de estarmos alienados da possibilidade do prazer e do bom. No entanto, não é esse o sentimento atrelado ao passado quando não existíamos. Há nele uma neutralidade mais próxima à paz do que a qualquer forma de aflição. Confundimos, como no caso da “torta de queijo”, a noção do que é bom com a possibilidade da repetição indefinida do que foi bom. No entanto, o novo e o desconhecido são para nós essenciais, pois sem eles não há sonho, conquista ou graça, produzindo o tédio e a depressão, que nada têm a ver com “bom”. Temer o desconhecido por ele não ser como o conhecido é idêntico à atitude na infância quando evitamos provar os alimentos. Lutamos para permanecer no “bife e batatinhas”, como se para além desses não houvesse mais a possibilidade do prazer e do bom. É apenas com o tempo, com a ousadia de tentar e viver que descobrimos as incríveis iguarias que este mundo pode nos proporcionar. Assim, o controle do prazer pela repetição do conhecido não responde aos anseios da própria vida, e é a avenida principal ao desespero. Na verdade, a repetição e a dependência ao conhecido permitem o controle a expensas de um ingrediente essencial da existência – o tempo. Escreveu o filósofo A. J. Heschel: “Costumamos despender tempo para ganhar espaço. Garantir nosso poder no mundo do espaço é o nosso principal objetivo... O poder que obtemos na dimensão do espaço termina abruptamente na fronteira do tempo. No entanto, o tempo é o coração da existência, e por mais que tentemos não conseguimos conquistar tempo através de espaço. Podemos ter maestria sobre o tempo apenas no tempo.” O que Heschel classifica por espaço é tudo o que está sujeito à possibilidade da apropriação. O espaço pode ser cercado, delimitado e, portanto, controlado. Por tempo estamos tratando do aspecto da vida que honra o que é desconhecido. Nossos medos são agentes do controle, com a função de transformar nosso tempo em espaço. O medo ao dar rosto e concretude ao que é desconhecido oferece a posse ilusória sobre aquilo que jamais se fará patrimônio e a retenção imaginária sobre aquilo que jamais será apreensível. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Assim, o medo é uma espécie de resíduo material em nossa vida, um ectoplasma da presença da morte sob uma forma adulterada. A parcela de morte e descontrole que constitui a própria vida se transveste de roupagens da própria vida. Tal atitude lega essa parcela constante de morte e que se faz presente a qualquer momento e a qualquer experiência, inclusive de alegria, à dimensão do mórbido. O medo faz o descontrole ser mórbido; seu resíduo no mundo é o que a Cabala denomina “impurezas” . Tais impurezas respondem por boa parte dos tormentos e do sofrimento humano. O comentarista Gersônides (século XIII) resume o efeito dessas impurezas: “A paz que deriva do medo é o oposto do que é a paz.” O medo, portanto, nos protege, garantindo uma paz que é o contrário da paz. O temor no mundo animal não é uma fuga, mas uma forma de enfrentamento de situações que não podem ser controladas. O temor racional pela antecipação e pela noção do desconhecido é, ao contrário, uma forma de fuga e não de enfrentamento. Na dimensão humana, em seu caráter espiritual, há apenas uma forma de temor, que é marcado pelo enfrentamento e não pela fuga. Trata-se do temor que os sábios denominavam “temor aos céus” (ir’at shamaim). Comumente mal compreendido, esse termo não representa o medo de alguma forma de punição (conhecida do passado ou imaginada de experiências passadas), mas a reverência ao mistério. Ao contrário, o que inspira esse temor é o respeito à grandiosidade de tudo o que está diante de nossa pequena compreensão. Seu impacto é o oposto do medo do conhecido, que nos paralisa e nos faz fugir. O medo dos céus nos chama a tomar posse de nossa vida, admitindo-a de forma ativa. Implica, dessa forma, o reconhecimento de que ao esquivarmos de cumprir com aquilo que nos cabe, estamos violando estruturas primordiais da vida. O temor aos céus é o único legítimo temor ao desconhecido. Tememos o desconhecido não para fugirmos dele, mas para enfrentá-lo. Tememos como forma de autenticá-lo em vez de tentarmos erradicá-lo sob uma forma de “conhecido”. É um temor que não produz resíduos de morbidez, pois nos remete constantemente de volta à vida e à profunda necessidade de que a vivamos em sua plenitude. No verdadeiro temor ao desconhecido, não tememos nada da ordem do que já foi experimentado; não é uma projeção do que habita nossas angústias e vivências dolorosas do passado. Tememos, por isso, o que realmente não conhecemos, e reconhecemos nossa vida, para além de suas histórias, como sendo também entrelaçadas à rotunda da realidade, ao pano de fundo aos quais estão imersas. É como a imagem (que várias vezes já utilizamos) do ******ebook converter DEMO Watermarks******* texto que, marcando o papel com tinta negra, só existe em relação ao branco que tem por fundo. Temer o “branco” em torno do “texto” de nossa existência é estar em conexão com a fonte de sentido que resgata nossas histórias pessoais do vazio de seu sentido “literal”. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Teria sido melhor não ter nascido! Ensinaram os nossos mestres: Por dois anos e meio, os discípulos de Hilel e Shamai engajaram-se em violentas disputas. A escola de Shamai dizia: teria sido melhor – ou mais simples – não se ter nascido. A escola de Hilel, por sua vez, dizia: é melhor ter nascido. Após trinta meses de debates, realizou-se uma votação, finda a qual, a casa de Shamai saiu-se vitoriosa. Sim, realmente, teria sido melhor ao ser humano não ter nascido – porém, tendo nascido, deve fazer um constante balanço de sua consciência e de sua alma, e tornar precisas as suas ações, de maneira a encontrar nelas significado. (Talmude babilônico) Vamos tentar analisar a questão da morte a partir de sua faceta “teria sido melhor não existir”. Passaremos a tratá-la, portanto, na dimensão do sentido ou do significado humano. Segundo esta, a relação entre vida e morte concentra-se justamente na questão debatida pelos mestres Hilel e Shamai. Nesse território do sentido, seja qual for a pena que a morte nos parece impingir, se ela puder se mostrar menor do que o benefício da vida se tornará compreensível e adequada à realidade da ordem e do Amor. Ou seja, mesmo que a vida não seja um mar de rosas, a simples comprovação de um saldo positivo em relação à morte, por ínfimo que seja, é suficiente para se abraçar a realidade na dimensão do Amor, da ordem e da possibilidade de Malé. A discussão que o Talmude relata ocorreu mais de vinte séculos atrás. Travou-se entre duas casas, duas tendências galvanizadas por duas personalidades – Hilel e Shamai. Para a tradição judaica, essa dupla é inseparável. Hilel não existe sem Shamai, e vice-versa. Isso decorre não apenas do fato de que eram contemporâneos que constantemente discordavam entre si, mas acima de tudo porque, no respeito à opinião do outro, criaram um vínculo que lhes permitiu reproduzir com grande acuidade a realidade. Seu pressuposto é de que um sentido só existe em relação a outro sentido. Trata-se do universo que não é explícito ou totalmente Malé, e que portanto não vê as coisas como exclusivas. Não se trata da asserção de que “se isto for isto” por definição não será mais aquilo. Trata-se de uma mentalidade analógica, que admite “e isto e aquilo” ( ele vê-ele-divrei elohim chaim – este e aquele expressam a vida). O branco não faz sentido sem o preto, nem o quente sem o frio, o alegre sem o triste, a vida sem amorte, e Hilel sem Shamai. A realidade expressa exclusivamente pelo branco, pelo quente, pelo alegre, pela vida e por Hilel não faz o menor sentido. A dimensão do “isto ou aquilo” é uma dimensão absoluta, gerada da expectativa de poder ******ebook converter DEMO Watermarks******* compreender a realidade exclusivamente por Malé, do explícito e revelado. Na dimensão do “isto e aquilo”, por sua vez, não temos definições tão objetivas e as formas são veladas, mas esse é o território do real conhecimento. Na sua polaridade, Hilel é humano, gentil e paciente com o mundo. Seu desejo é a constante preservação do espírito da lei, consciente de que há sempre um contexto humano como cenário de fundo de qualquer situação. Hilel é sensível à injustiça, tem compaixão para com qualquer vítima e tolerância para com o alienado. Shamai, por sua vez, é símbolo de integridade, de consistência e da incapacidade de montar esquemas e estratégias para com a realidade. As coisas são da forma que são, e adoçá- las é adulterá-las. Shamai gosta do natural, do fresco, mesmo que seu paladar tenha de experimentar constantemente o amargo. Shamai é “diabético” em relação a mascarar a realidade por meio de um adoçamento que deturpe o próprio prazer de viver, qual seja: viver a vida que se nos apresenta e não a que gostaríamos de viver. A aridez de Shamai é a beleza dos desertos e dos ângulos dramáticos das escarpas e dos rochedos. Shamai ama a ordem, mas é incorruptível por esta – é capaz de entregar-se ao caos se o resgate da ordem depender de manipulações e subterfúgios que a adulterem. É importante, porém, mencionar que, para a tradição judaica, a jurisprudência de Hilel, na grande maioria dos casos, precede à de Shamai. No entanto, as decisões favorecendo Hilel são inseparáveis cognitivamente das posições de Shamai. O que essa predileção aponta é uma praticidade para lidar com as interações humanas, pela qual, por convenção e não por justiça, arbitra-se tendenciosamente, valorando-se e justificando-se os sentimentos e movimentos humanos mais comuns e triviais. Assim sendo, temos a partir dessa bizarra discussão entre os mestres algumas questões que nos saltam aos olhos. Primeiramente, em relação à própria natureza do debate, qual seria a situação em que se encontravam que exigia de forma tão premente uma abordagem tão genérica e definitiva? E por que se decidiu pela votação numa questão tão conceitual, como se dessa decisão dependesse alguma medida prática a ser tomada imediatamente? E ainda, em relação à própria resolução, como podem os sábios adotar uma posição tão negativa e de tanta desesperança? E por que naquela oportunidade a opinião de Shamai foi vencedora, se sabemos que Hilel normalmente tinha suas opiniões favorecidas? Hilel e Shamai viveram num período de enormes tensões políticas, sociais e religiosas. Sob o domínio romano, o Israel de Hilel e Shamai era cenário constante de violência e opressão e se achava à beira da desintegração ******ebook converter DEMO Watermarks******* nacional e cultural. Sua geração partilhava a premonição acurada de uma diáspora e de um exílio com contornos escatológicos na medida em que experimentavam o “fim de um mundo”. Hilel e Shamai encontravam-se numa situação em que o mundo como o concebiam, o seu mundo, estava em processo acelerado de deterioração e em vias de extinção. Como se estivessem falando segundo uma perspectiva “terminal” coletiva, os sábios encontravam razões para debater questões como a da validade ou não do nascimento humano. Compreendemos assim a urgência em adotar uma decisão – tratava-se da urgência da “terminalidade”. A própria natureza da questão é típica da antecipação de algum fim, que é quando surge essa penetrante coragem para se abordar as perguntas ofuscantes. Estamos, portanto, diante de uma situação coletiva análoga à dos indivíduos que, ao se perceberem terminais, se debatem visceralmente sobre as razões que estariam por trás de tudo, ousando formular a pergunta de se, no cômputo total, a vida vale ou não a pena. O direito conquistado pelo indivíduo consciente de sua terminalidade é o de fazer um balanço da própria vida, uma vez que “o fim” possibilita postular-se sobre a natureza da vida e de seu significado. Se a vida terminar aqui, quais são as conclusões que se fazem possíveis? O “término” imanta a realidade com um sentido que vai aos poucos se delineando e que, antes de se saber como seria o fim, era impensável e inimaginável. Diante de Hilel e Shamai, nessa polêmica ocorrida há mais de dois milênios, encontramos os fundamentos de um debate interno que se repete a cada geração nos indivíduos que se deparam com a consciência de seu fim. O resultado dessa disputa traz luz sobre uma questão solitária que pouco circula por nossa cultura por ser seu hábitat a angústia recôndita do moribundo e do idoso. O que Hilel e Shamai têm a dizer sobre essa questão é fundamental. Este é um momento de Verdade. Nenhuma conversa pequena se mantém e desmoronam as dissimulações ante a total intolerância diante da superficialidade, da estética, da formalidade e do pudor. Diminui o fantástico poder de sedução da dimensão do Amor e da ordem no qual se afirma como única opção possível para a aceitação da vida. O desejo passa a ser então a busca de um balanço verdadeiro, que é, em si, a instância superior de todos os consolos. É nessa dimensão que as prerrogativas de Hilel são canceladas. O equilíbrio pende para a rascante fidelidade e para o compromisso inegociável com a Verdade que Shamai representa. A Verdade passa a assumir a liderança ******ebook converter DEMO Watermarks******* da condução do debate, condição que é legitimada pelo próprio Amor. Shamai aparece como coordenador das conclusões finais. Sob esse prisma, o que poderia declarar? Que é melhor se ter nascido? No momento de lidar com a conclusão da própria vida, seria uma incongruência dizer isso. Se a vida é boa, se a vida tem sentido, se a vida tem qualquer vínculo com alguma qualidade que não seja ilusão, então não pode ser fácil morrer. Para que a vida valesse a pena no final, teríamos de reduzir tudo à dimensão do Amor e de encontrar uma forma de preservar algo do somatório desta vida que não permanecesse apenas no passado. Teríamos de invadir com imaginação e exigências o nosso futuro pós-morte, mas quem tem esse direito? Quem pode pleitear para si o direito a uma biografia de Amor em meio ao território da Verdade? Shamai não diz que a vida não vale a pena; diz que era melhor ou mais simples não nascer. Sua resposta não é uma meia-verdade camuflada por falsas esperanças por todos os lados. Ela é real, como a resposta de qualquer um que tenha honrado sua vida e o que nela construiu e que tenha a obrigação de conceber sua perda como algo fundamental. À luz dessa despedida, teria sido mais simples, ou, melhor, que nada tivesse se iniciado... No entanto, não há sentido em falar de Shamai alienando-se Hilel. Hilel e Shamai constituem uma dupla, uma dialética, como o yin/yang. Da mesma forma, não há sentido em falar de uma dimensão de Verdade que não se encontre no horizonte com Amor. Tal conclusão de terminalidade a que chegaram os sábios vem mitigada pela consideração de que, uma vez nascidos (e sobre isso não nos é permitido arbitrar), devemos encontrar um significado para nossa alma e nossa história. A frase “melhor não ter nascido” é um reconhecimento, sem o subterfúgio de projeções de Amor para o pós-morte, do sagrado da vida. Representa ao mesmo tempo sagrar a vida e resistir à tendência ao cinismo e ao desespero resultantes da realidade de que é efêmera. Devemos aprender a resistir à tentação de olhar a vida pela perspectiva que encerra a assertiva “melhor e mais simples é nascer”. Essa expectativa revela-se a mãe de todas as frustrações. Jamais será simples cumprir e honrar a responsabilidade de amar a vida com a maior intensidade possível e abrir mão dela com a entrega que se faz necessária diante do fim, sem que a vida se torne um espaço de grande complexidade,esforço e sofrimento. Não devemos temer a crueza dessa afirmação, pois ela é, em si, libertadora. Faz com que a busca de significado da vida se desvincule de uma ******ebook converter DEMO Watermarks******* sensação de lucro, saldo positivo ou ganho real. Se considerarmos que nascer não é melhor nem mais simples do que não nascer, eliminamos qualquer tentativa obsessiva de querer viver a vida ao máximo, otimizando prazeres e sensações, pois esse procedimento não tem qualquer efeito nem consegue neutralizar a afirmação “melhor não ter nascido”. Ter vivido bem no passado não modifica em nada a realidade da velhice nem a realidade do que já passou, pois o que já foi não é mais esfera do prazer (“síndrome da torta de queijo”). Nem mesmo a sensação de “vivi muito” neutraliza nossa dor na despedida, apesar de nos trazer o consolo de não nos culparmos por aquilo que não fizemos. No entanto, tudo isso é detalhe numa realidade que desdenha detalhes. Só a capacidade de encontrar sentido e de dar significado a nossos atos mais do que qualquer prazer derivável deste mundo sobrevive à claridade da percepção de que “melhor teria sido não nascer”, Não há aqui qualquer condenação ao prazer nem a se viver da melhor maneira possível. Esta, afinal, é uma questão de bom-senso e obrigação dentro da própria realidade do Amor. O que está sendo dito aqui é que a única estrutura de nossa vida que não despenca diante da Verdade é a estrutura de sentido e significado que damos à nossa própria vida. Percebemos assim que é um absurdo a ideia sustentada por grande número de indivíduos de que, no momento em que a vida não mais puder lhes proporcionar a qualidade esperada, irão dar fim à própria vida. Shamai diria que tais pessoas são, no mínimo, tolas. Esperar que a vida lhes desse mais, que amassem a vida ainda mais loucamente, para então abandoná-la... melhor nem sequer criar tais vínculos de amor e dependência com a vida, e acabar com tudo de uma vez, já. Não há como amar a vida sem que sua despedida seja dolorosa. Esta dor pode ser como a do parto – a dor de quem abdica de um mundo perfeito em si mesmo, apenas para descobrir outra realidade além do útero. A possibilidade de aceitarmos a vida como um todo, e não apenas o que nos parece ser a “cobertura da torta”, o melhor, só nos é possível com uma mentalidade de que “melhor teria sido não nascer”. Os proveitos e prazeres deste mundo são parte do efeito colateral de nossa estada. A possibilidade de dar significado à vida, no entanto, é o colete salva-vidas com o qual fazemos a transição não desesperada entre o antes e o depois da perda, o antes e o depois da morte. A partir das melodias que captamos por entre os segmentos de nossa vida é que montamos as canções que nos fazem perceber que o efêmero da flor é sua beleza; tudo o que apreciamos neste mundo, do sorriso amoroso de um neném à sensualidade que há num flerte, à força com que o ******ebook converter DEMO Watermarks******* ancião transfere às novas gerações seus conhecimentos, tudo é produto dessa qualidade efêmera que, em outro contexto, nos revolta. Encontrar significado é estar constantemente em contato com essa condição efêmera. Só devemos temê-la quando conscientes de que sua mão, além de determinada, é também carinhosa. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Os incríveis momentos em que não temos saída Você já se encontrou num trampolim, com medo de saltar, estando atrás de você uma inexorável fila de pessoas determinando a irreversibilidade de sua situação? Você acaso já conheceu o pânico dos momentos em que gostaria de voltar atrás, mas não pôde? Já experimentou um leve tremor por todo o corpo momentos antes do encontro com um desconhecido? Uma imagem em particular me ocorre quando busco resgatar esses instantes. De minha infância praieira, recordo-me da sensação de estar no mar e perceber ao longe uma gigantesca onda se formar. O repuxo e a profundidade da água já não mais permitiam nadar até a areia, e não restava outra alternativa a não ser enfrentar a onda. Recordo-me desses momentos, em que uma única fração de tempo congelava a descoberta: “Não tem saída.” Essa constatação produzia duas reações contraditórias: querer chorar ou gritar por minha mãe, por Deus ou por alguém que estivesse próximo (exatamente nessa sequência) e atender a uma ordem interna que exigia ação. Mesmo nas vezes que nadava em direção à onda, sempre que a sensação de não ter saída surgia, percebia que ambas as ordens – “foge” e “fica” – permaneciam soando em meu coração estreitado. Elas não se anulavam e a experiência era terrível, provavelmente tão terrível quanto o terrível pode ser. Parecia claro desde aquela época que grande parte da angústia associada a tal experiência advinha dessas “ordens contraditórias”. Quanto mais conscientes nos tornamos da necessidade de pular do trampolim, e quanto mais vontade temos de implorar à fila que nos pressiona que nos deixe descer do trampolim, maior é o esgarçamento de nosso coração e a certeza de que não temos saída. Uma passagem bíblica (Êx 14:13-15) relata o momento em que Moisés e o povo de Israel se encontravam, encurralados, entre o Mar Vermelho e o exército do Faraó. Estavam sem saída e viviam uma espécie de paradigma para tais situações. Na cena que a seguir transcrevemos do texto bíblico, Moisés tentava convencer o povo, que, em pânico, questionava até a própria saída do Egito: E disse o povo a Moisés: “Foi porque não havia sepulcros no Egito que ******ebook converter DEMO Watermarks******* nos tomaste para morrer no deserto?” E disse Moisés ao povo: “Não temais; ficai [ it’iats’vu (“segurai vossa onda; aguentai a barra”)] e vede a salvação do Eterno, que se fará hoje; porque os egípcios que vedes hoje, não volvereis a vê-los nunca mais.” E disse o Eterno a Moisés: “Por que clamas a mim? Fala aos filhos de Israel que marchem” (Ex 14:13). O que percebemos inicialmente é que, em momentos sem saída, instaura-se um intenso diálogo interno. Tomemos por analogia o povo como o elemento físico que deseja preservar-se (preocupado com possíveis “sepulcros”), Moisés como sendo o intelecto (o guia que deseja encontrar uma saída para a situação sem saída) e Deus, como a alma cujos projetos são incompreensíveis ao físico e apenas intuitivos ao intelecto. Segundo o texto, o povo (físico) só compreende as experiências passadas. Teme, portanto, o conhecido, e só consegue imaginar o futuro em termos de seu passado. Incapacitado de imaginar o que pode ser a liberdade, o povo só consegue conceber o retorno à escravidão. Trocaria assim, sem qualquer hesitação, o desconhecido pelo conhecido, mesmo que ruim e doloroso. Moisés (o intelecto), por sua vez, se coloca nesses momentos na posição de quem “faz discurso”. Chama a atenção do povo (físico) para a realidade da entrega, sem muito sucesso. Diz “segurai vossa onda e vede”, “aceitai a realidade à vossa volta e então vereis”. Vereis o quê? Que há saída. Esta é a lição maior que Moisés (intelecto) deseja transmitir ao povo. A sensação de não haver saída é produto da não aceitação de nossa condição. Quando, na praia, eu nadava em direção à onda, o maior sofrimento, aquele que de melhor maneira expressava o desespero, era a incapacidade de aceitar o lugar e a situação em que me encontrava. O próprio ato de gritar pela mãe ou por Deus evidencia o desejo de sermos retirados magicamente daquela situação e de que a ordem e o conhecido reassumam instantaneamente o comando. Essa relutância em aceitar a situação em que se está é um mimo natural vivenciado por qualquer ser vivo, pelo fato de a ordem do Amor nos aquecer, alimentar, iluminar e dar prazer. Diante da possibilidade de algo ruim, querer o bom é bastante natural; o único problema é que esta não é a realidade. Não há opção, há o que há. A aceitação disso é fundamental para se perceber que existe, sim, saída. Não haver saída é sinônimo de não aceitação. Queremos algo bom e nos são apresentadas apenas opções de algo ruim. Moisés (intelecto) suplica ao povo que não qualifiquea realidade, mas que simplesmente a aceite e a viva. ******ebook converter DEMO Watermarks******* “Essa realidade”, diria ele, “é a própria vida, a própria história de vocês, e não representa a intervenção de algo que não era para ser. Onde vocês se encontram, aqui e agora, isto são vocês”. Recorrendo novamente à imagem da corrida em direção à onda, não existe a possibilidade mágica de estarmos na areia, tomando um sorvete e olhando a bela e vigorosa onda que se levanta. Estamos dentro d’água e o repuxo não nos permite voltar; o caminho é para a frente, e a onda não será uma experiência plástica e longínqua, mas uma experiência “molhada” com a Verdade de seu poderio. É como se estivéssemos estabelecendo que “não haver saída” é a experiência imaginária em que gostaríamos de estar em outro “aqui e agora”, que torna insuportavelmente pesado o compromisso com o nosso verdadeiro “aqui e agora”. Moisés sabe o segredo: “Fica.” Fica aqui, põe os pés no lugar onde realmente estás e haverá saída. Ela não está em voltar à areia para contemplar a onda, tomando um sorvete, mas na interação “gelada” com a onda. Porém, se Moisés (intelecto) sabe disso e conhece o segredo, ele não convence. Se voltarmos ao texto, perceberemos que a intervenção de Deus no diálogo é bastante estranha. Moisés estava encorajando e dirigindo-se ao povo quando Deus o repreende: “Por que clamas a mim?...” Estaria, de fato, Moisés clamando a Deus? Nem sequer parecia estar se dirigindo a Deus em sua fala. Por que Deus reagiu como se Moisés O estivesse importunando com pedidos ou súplicas? A resposta está no fato de o discurso de Moisés não ser inteiro, da mesma forma que também não é um ato inteiro a caminhada em direção à onda, pois, apesar de ser um ato já decidido, não se esquiva do pensamento de fugir por um só instante. É como se Moisés estivesse pensando, enquanto falava ao povo: “Meu Deus, me ajude... Socorro... Não temos saída... O que vamos fazer agora?...” Essa dúvida de Moisés é uma prova de que o intelecto não tem o poder de nos retirar de uma situação de desespero ou de convencer-nos de que há saída. O próprio intelecto reconhece sua fraqueza e, enquanto tenta honrar seu discernimento sobre a existência de uma possível saída, chora e sofre junto com o povo (físico) pela truculência do sentimento de não haver saída. Afinal, a realidade de se ter os egípcios por um lado e o mar por outro é demasiadamente contundente. Então, qual é a saída que existe quando “não há saída”? O texto bíblico nos fornece a resposta. O que diz Deus (alma) para Moisés (intelecto)? “Por que clamas a mim? Fala aos filhos de Israel que marchem.” “Fala, não finjas uma coragem que não tens ou uma certeza que não te é dada; é tão evidente o ******ebook converter DEMO Watermarks******* que falas por trás da tua fala, na qual me perturbas, pedindo que Eu reverta a ordem do universo e que te aponte uma saída. A solução de teus problemas não está nessa falsa coragem, como não está no pedido por milagres. Fala sem esperar pela intervenção mágica em que nem tu acreditas; não te baseies em tuas experiências passadas nem no reconhecimento que conferes àquilo que o povo (físico) diz, mas fala da única percepção que te é real. Fala da tua sensação, intelecto, de que há ordens (dimensões) que o povo (físico) não distingue, ordens estas que apresentas ao povo quando pedes a ele que permaneça e veja. Queres que eles vejam uma realidade, uma dimensão que não conseguem ver em seus anseios físicos. Essa é a tua fala e a tua obrigação. Mas não queiras dar a solução, não queiras resolver algo de forma objetiva e concreta sem retornar ao nível do concreto e objetivo. Marchem!, fala de forma íntegra e deixa que eles mesmos, por si próprios, marchem. Deixa que o próprio povo (físico) encontre a saída para o que não tem saída. Afinal, só o povo pode realizar esse êxodo. Não é um êxodo de intelectos nem um êxodo de almas, mas o êxodo de um povo.” Tentemos analisar alguns ensinamentos contidos no texto sobre a percepção de “sem saída”. O povo (físico) resiste por medo do conhecido, o intelecto tenta criar modelos conceituais, tentando lidar com a irreversibilidade da realidade, intercedendo para que o povo a compreenda e “fique” onde está. A alma, por sua vez, pede ao intelecto para cessar de importuná-la com pedidos do povo (físico) e para desistir de seu intento de tentar solucionar o que não pode. Só o povo (físico) pode agir de forma a encontrar uma saída. O fato talvez mais incrível de todo esse circuito de diálogos e intervenções é que, para que haja saída, se processa um retorno à própria dimensão “sem saída”. Lembremo-nos de que o momento que se segue ao do relato bíblico em questão é a abertura do Mar Vermelho, que possibilita a passagem do povo e simboliza a saída para aquilo que “não tinha saída”. Descobrimos assim que a capacidade de entrega é o único caminho para que se abram os mares diante das posições “encurraladas” de nossa vida. E a entrega não é um dom natural de um indivíduo. A entrega não é resultante de um inconsciente animal que se impõe sobre a consciência, mas da interação complexa entre o nosso ser que experimenta as sensações (medo, dor, alegria), nosso ser que dá sentido e significado a tais experiências e nosso ser que regula o compromisso entre o significado e a experiência. Este último, denominado alma, é o elemento de suprema sutileza da existência humana, que orquestra as impossibilidades ou as saídas de onde “não há saída”. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Qualquer dificuldade de comunicação entre esses elementos resulta em desespero. Manter esses canais de comunicação funcionais e eficazes é um esforço que faz a diferença – abre mares que nunca antes se imaginou pudessem ser abertos e dá opções ao que até então estava encurralado. Outro exemplo que também pode nos ajudar a obter saídas para quando não há saída encontra-se numa análise feita pelo psicanalista Victor Frankel. Sobrevivente de guerra, o Dr. Frankel utilizou sua própria experiência em campos de concentração e o que neles viu para formular questões sobre a sobrevivência. Um dos casos por ele analisados relata a situação de um homem numa fila que se encaminha para a câmara de gás num campo de concentração. Se o homem sair da fila e correr ou se avançar sobre os guardas que o acompanham, será fuzilado. Se, por sua vez, continuar na fila, será executado, e ele sabe disso. Na verdade, ele acha que será executado porque a certeza existe numa fração infinitesimal imediatamente sucedida por dúvidas. Ele pode não ter certeza de que a fila é a morte, pois tantas coisas podem acontecer – um capricho de um oficial poderia sustar a caminhada, ou uma seleção de última hora daqueles que estavam aptos a trabalhar poderia salvá- lo, e assim por diante. A opção de correr também encerra a possibilidade de um desfecho diferente, mas é uma forma mais perigosa de reação, pois dá início e instaura de forma ativa os eventos que o colocam em risco de morte. Se correr, se suicida; se permanecer passivamente na fila, já está morto antes de o fato consumar-se. Trata-se, na verdade, de uma experiência análoga à de pessoas com doenças muito graves. O tratamento dessas doenças poderia ser considerado o avanço gradativo da fila rumo à câmara de gás. Sabem que se permanecerem ingerindo os potentes e tóxicos remédios de que hoje dispomos para lidar com tais doenças estarão lentamente caminhando para a deterioração do próprio corpo, culminando na morte. Se, no entanto, recusarem-se a utilizar os únicos medicamentos disponíveis realizam, em certa medida, um suicídio. Novamente, o drama desses casos está na ausência de certezas. Se os remédios não pudessem curar, de imediato seriam abandonados. Porém, uma mínima porcentagem responde ao tratamento, e isto já é o suficiente para tornar a outra opção uma forma de suicídio. Qual seria, então, a saída? Devemos lembrar que a saída de uma situação que não tem saída não é da mesma ordem que as “saídas” comuns do dia a dia. Nessas últimas,fazemos apenas um remanejamento de nossos recursos e poderes. Nas saídas onde não há saída não dispomos dos recursos que ******ebook converter DEMO Watermarks******* desejamos para negociar nossos arbítrios. Entretanto, dispomos da possibilidade de arbítrio. Não podemos tomar o sorvete na praia, mas podemos permanecer ou ir de encontro à onda. Não podemos estar fora da fila, mas podemos nos manter nela ou enfrentar os guardas. Nessa escolha que, reconhecemos, deixa pouca margem, reside a vida. Sem ela estamos, por definição, mortos. A margem pode ser muito pequena, mas sua intensidade é exponencial. Para o homem na fila rumo à câmara de gás, a saída está em não abrir mão das opções de que dispõe, por um instante que seja e por mais reduzidas que elas sejam. E, é claro, esta não é uma questão teórica e em algum momento ele terá de decidir-se. Quando sua decisão for tomada, quando já não mais houver alternativas envolvidas e for chegado o momento de proceder à escolha, de se entregar ao próprio destino... ainda assim haverá escolha. Na verdade, esta é a escolha que liberta ou desespera. O Rabi Akiva, um dos mestres do Talmude , explicitava essa questão dizendo: “tudo está previsto, menos o temor aos céus.” Sempre teremos a derradeira possibilidade de aceitar ou não o que nos acontece. O “temor aos céus” é a esperança de que haja um quinhão no mundo da Verdade que seja nosso, que nos diga respeito. Por mais dolorosa que seja uma experiência, a aceitação reflete a percepção de que há um processo e de que não estamos sendo excluídos dele. Estar diante da onda no instante de mergulhar e sonhar com o sorvete em terra firme ou simplesmente voltar para trás, vislumbrando a possibilidade de fuga, configura o próprio desespero. “Ficar” – estar no lugar e no momento – é o passo inicial para “marchar”. Marchar e dar curso a um projeto ou a um processo, por incrível que possa nos parecer, torna possíveis coisas que fora desse processo seriam uma impossibilidade. O mar se abre não porque se consegue efetuar esse fenômeno de forma corriqueira, mas porque um processo com sua história e sua intensidade própria pode instaurar novas opções do tipo semelhante ao “mar que se abre para nossa passagem”. Não se trata de um milagre e também não é a realização de nossas expectativas ou daquilo que gostaríamos que acontecesse, mas é o resultante de um processo maior do que simplesmente o nosso desejo. ******ebook converter DEMO Watermarks******* O maior de todos os terrores (leia em particular, se tem medo) Durante o período em que trabalhei com aconselhamento espiritual junto a pessoas enfermas, uma cena me impressionou mais do que qualquer outra. Temia defrontar-me com pessoas padecendo de chagas e sofrimentos que estivessem aquém de minha estrutura emocional ou temia a morbidez que poderia advir do contato constante com a finitude e a aflição. Tudo isso, no entanto, era pouco diante de outro fenômeno que me chocou de forma mais contundente. Não havia nada mais terrível do que a pergunta não incomum: “Rabino, o que foi que eu fiz da minha vida?” A agonia de pessoas atormentadas pela sensação de terem desperdiçado quarenta, cinquenta ou até sessenta anos de sua vida era desumana. O fim não seria tão insuportável se não fosse a chancela definitiva daquilo que não se fez e não se viveu. O desconhecido da morte é a parte do processo que não compreendemos. Sua realidade nos atemoriza; porém, é o seu desperdício e o não aproveitamento do potencial de nossa vida que se constituem das mais terríveis das experiências humanas. Nesse ponto, voltamos a tratar da área da “impureza”, da existência de resíduos poluidores da dimensão da morte que se materializam na realidade da vida. Quem não vive a sua vida potencial desregula os meios comunicantes entre vida e morte e despeja resíduos de morbidez e desespero entre os vivos. O acúmulo das vidas não vividas são shedim – assombrações que amargam e sujam este mundo. Os fantasmas das vidas mal vividas são muito mais numerosos do que os fantasmas gerados pelas grandes injustiças, pela crueldade ou até mesmo pelos assassinatos. Nosso mundo está poluído por esse resíduo negativo de potenciais “não utilizados de vida” através das gerações. Esse tipo de desespero é o pior de todos, porque é real. Talvez seja a única forma real de desespero, pois sabemos que corrompe de maneira inexorável a fé. É muito mais fácil lidar com a frustração daquilo que foi impossibilitado por limitações externas da realidade do que impossibilidades geradas pelo próprio indivíduo. Não é por acaso que muitas crenças postulam que se nossa tarefa neste mundo não for cumprida teremos de arcar com uma espécie de “recuperação”, que nos fará retornar a este mundo para completar ******ebook converter DEMO Watermarks******* a tarefa. Cabe a nós, porém, perceber que essa postura, quando compreendida de forma concreta, pode promover duas falácias. A primeira é a que tenta diminuir a carga e o custo de desperdiçarmos o potencial de vida. Podemos assim voltar a este mundo e pagar apenas o preço do retardamento de nosso projeto original. A segunda dissimula uma inversão psíquica, fazendo aquilo que mais desejamos passar-se por uma forma de castigo. Afirmamos não querer o que mais queremos, ou seja, viver. A afirmação de que quem vive está sendo penalizado com a própria vida é uma tentativa de abrandar a realidade, o que acaba por descaracterizá-la. Ao fazer isso, podemos colocar em risco elementos que têm um grande valor para a sobrevivência e para o processo de dar significado à vida. Não estamos descartando a ideia da reencarnação, mas analisando de forma crítica o significado popularmente a ela atribuído. Não podemos fazer nenhuma concessão que possa diminuir a responsabilidade de viver ou que venha a diluir o terror e a impureza associados ao alienar-se da responsabilidade de viver. Tal urgência de vida nos escapa na rotina diária. Seria maravilhoso se pudéssemos assimilar o aprendizado fugidio dos momentos em que nos conectamos com a realidade da Verdade e a honramos. No entanto, isso é muito difícil. Um amigo relatou-me que após um longo período de convalescença, comentou com seu analista: “Não vou me esquecer, quando estiver bem, da bênção que isso significa.” O analista lhe disse: “Vai... vai esquecer, sim!” Nós nos esquecemos. É parte da natureza humana não conseguir sustentar a visão plena, sem véus, por muito tempo. Se compreendêssemos isso, a realidade seria muito diferente; toda a organização da sociedade seria diferente e disporíamos de nosso tempo de maneira diferente. Quando estamos ameaçados de perder a vida, percebemos isso com uma nitidez assustadora. Uma história chassídica conta que em uma pequena cidade várias pessoas sonharam um mesmo sonho. Nesse sonho premonitório, todos recebiam a mesma mensagem: em determinado dia e hora os mortos ressuscitariam por um período de meia hora. Revelado o segredo, a cidade toda começou a se preparar para o incrível acontecimento. Familiares de pessoas falecidas ficaram profundamente ansiosos com a expectativa de tão ansiado e breve reencontro. No dia marcado, na hora marcada, sucedeu que os mortos levantaram de suas tumbas. O povo reunido na porta do cemitério não aguentava mais de emoção. Mas, para a surpresa de todos, os mortos ressuscitavam e se punham ******ebook converter DEMO Watermarks******* a correr, passando ao largo de seus familiares como se não os reconhecessem. Perplexo e assombrado, o povo começou a seguir os ressuscitados para saber aonde iam. Descobriram então que todos corriam para a Casa de Estudos e, uma vez lá, retiravam com frenesi livros das prateleiras e os liam compulsivamente. Passada exatamente meia hora, os ressuscitados, que como colegiais antes de provas ainda tentavam absorver até o último segundo da possibilidade de estudo, foram pouco a pouco voltando para suas tumbas. A moral da história está no discernimento que os mortos reavivados demonstraram em relação ao tempo que lhes foi dado. Seus valores eram outrose sua busca mais perene do que a repetição de experiências que, se importantes do ponto de vista afetivo, ao mesmo tempo lhes era insuportavelmente efêmera. Se perguntarmos a qualquer mortal o que faria se lhe fosse dado viver por apenas mais meia hora, não obteríamos como resposta o procedimento dos mortos da passagem descrita. Os vivos estão apegados aos processos efêmeros que definem a própria percepção de si mesmos. Somos quem somos e fazemos o que fazemos por força do que entendemos e do que é a nossa realidade. Nós mesmos, diante de um conhecimento diferente, seríamos diferentes. O que a nossa história demonstra é que o desejo de aproveitar a vida, para aqueles que trazem consigo a consciência de uma realidade maior, diz respeito ao mundo interno em vez do externo. O estudo simboliza em nossa história essa dimensão interna. O conceito de “aproveitar”, desde essa margem da realidade, está sempre apegado ao mundo externo – ao prazer, ao sucesso, ao poder e à propriedade. O desperdício de vida, quando atinge níveis crônicos, é uma das piores misérias humanas, se não a pior. Expõe a falta de sentido com que pautamos nossos dias e despeja sobre nós todo o pesar da constatação por parte dos rabinos de que seria melhor não ter nascido. Essa era talvez sua recomendação mais ousada: não ter medo de retirar da vida um valor absoluto, reconhecendo, ao mesmo tempo, a necessidade de produzir sentidos. O que parece um paradoxo – desvelar a ideia de que a vida não tem um sentido preconcebido e pautar-nos pela criação desses sentidos – é, na verdade, o lugar do livre-arbítrio e da parceria entre Criador e criatura. Confrontado com essa realidade, o ser humano é atormentado por uma carência existencial só preenchível por aquilo de que menos dispõe no final da vida – o tempo. Nenhum prazer, sucesso, poder ou propriedade conseguirão preencher esse vazio, pois, como explicara o filósofo A. J. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Heschel, todas essas conquistas são da dimensão do espaço. Foram apropriadas e como tais não estão formatadas pelo tempo e pelo significado, mas pelo espaço e pelo apego. Ou seja, não se fizeram pelo ato de assumir a vida, mas por acúmulo. Esse pobre ser humano, confrontado pela existência desperdiçada, só conhece a “síndrome da torta de queijo”, que lhe rouba todas as forças e o lança ao mais profundo desespero. ******ebook converter DEMO Watermarks******* O direito de pedir (Aquele que Ordenou que o Óleo Ardesse, que Diga ao Vinagre que Queime) A entrega, como vimos, é uma sintonia muito fina com a vida. Por um lado, ela faz fronteira com o apego, por outro, com a resignação. Temos tentado decodificar sua “frequência” pelo mapeamento do apego e iremos agora buscar definir suas fronteiras a partir da outra margem. Inúmeras tentativas de demarcar esse tênue limite com a resignação foram feitas por diversos mestres e sábios. Uma delas diz: “Nunca necessitei de nada que já não tivesse.” Como que colocando os verdadeiros bois na frente da verdadeira carroça, essa máxima retrata o contentamento com o nosso quinhão, com o que nos é dado, como o pano de fundo dos próprios desejos. A ideia por detrás dessa percepção da vida é a de que só venhamos a perceber a necessidade por aquilo que já é nosso, como uma espécie de antítese da ideia do consumo. Aqui, nessa fronteira da aceitação e da resignação, só se deseja algo quando este já é possuído, só se necessita do que é disponível. Percebemos assim que os justos e os simplórios estão a uma ínfima distância um do outro e que o que os separa é justamente a linha entre a entrega e a resignação. A diferença básica está no fato de que na dimensão da entrega honra-se a realidade da Verdade da mesma forma que se honra a realidade do Amor, enquanto a resignação capitula por completo na realidade da Verdade: aquele que se entrega mantém sempre uma comunicação, por mais tênue que seja, com a esperança, sob a perspectiva do mundo do Amor. Na oração do Vidui, uma espécie de “extrema-unção” da tradição judaica, isto fica evidente. Ao recitá-la, um indivíduo se encontra pronto a aceitar a mão estendida da Morte, porém o texto insiste categoricamente em ressaltar que essa prontidão é condicionada ao fato de não haver outro caminho. Havendo qualquer possibilidade de cura e restabelecimento, com a mesma intensidade com que nos entregamos à realidade da Verdade, estamos prontos também a reassumir a realidade do Amor. Muitos entendem isto como uma forma de nos furtarmos a abrir mão da vida, ou a nos entregar. Porém, ao contrário, esta é a única forma de não cair na resignação. A prontidão em assumir os projetos de nossa vontade também ******ebook converter DEMO Watermarks******* é um ingrediente essencial da entrega. Ou seja, a entrega é uma submissão na esfera humana. Ela jamais deverá propor uma postura angelical, sobre- humana, ou simplória, subumana. Existe um personagem na tradição rabínica que traduz essa sintonia de maneira especial. Seu nome é Rabi Chanina ben Dossa. Ele era um milagreiro, bastante incomum para os personagens talmúdicos. No entanto, sua maneira de agir e seu procedimento criterioso em relação à entrega e à não resignação eram tão marcantes que sua memória foi preservada. Para compreender a ousadia do Rabi Chanina em suas orações e expectativas, devemos analisar uma pequena história: Quando o filho do Rabi Iochanan ben Zakai, o grande de sua geração, ficou doente, o famoso rabino procurou o Rabi Chanina. Este colocou a cabeça entre as pernas e implorou pela saúde do filho de Rabi Iochanan. Sua oração surtiu efeito. Disse o Rabi Iochanan: “Se eu tivesse orado, teria falhado.” Sua esposa ficou ofendida. “Como?”, perguntou. “Acaso ele é mais merecedor do que tu és?” O Rabi Iochanan explicou: “Entre nós dois há uma diferença de funções, não de mérito. O Rabi Chanina é, por assim dizer, um servo de Deus, enquanto eu sou Seu ministro. Um ministro precisa marcar audiências, mas um servo vem e vai a todo o momento.” Este era o segredo do Rabi Chanina: ele era como um servo. Ele não possuía o poder de exigir que as coisas fossem da maneira que esperava, mas tinha acesso direto, sem audiências, ao Criador. Como um faxineiro do gabinete do governador que pode pedir coisas que muitas pessoas influentes não podem. Esta deveria ser, portanto, nossa atitude em relação às preces e às expectativas. Não devemos deixar de “querer” as coisas do jeito que gostaríamos, mas deveríamos exercer esse desejo com a inocência de quem está pedindo como um servo. Essa relação, que nos permite “ir e vir” a qualquer momento à presença do Mestre, é a atitude daquele que vive no mundo do Amor (do desejo) e também no mundo da Verdade com a sem- cerimônia típica da entrega. Porém, como se pode pedir com uma atitude de entrega sem que isso seja um contrassenso? Observemos alguns relatos sobre pedidos de Rabi Chanina. Certa vez o Rabi Chanina caminhava com um balde de sal sobre a cabeça quando começou a chover. “Mestre do Universo”, exclamou, “vede como ******ebook converter DEMO Watermarks******* o mundo todo está contente agora porque necessita de chuva. Apenas vosso filho, o Rabi Chanina, está triste”. Imediatamente, parou de chover. Quando chegou em casa, mudou seu pedido: “Mestre do Universo, vede como vosso filho Chanina está feliz, mas o mundo todo está triste.” Voltou então a chover. O Rabi Chanina não se furta de pedir o que deseja. Reconhece a existência de outra realidade na qual o mundo se alegra enquanto ele está triste e mostra-se pronto a aceitá-la. No entanto, faz expresso o seu desejo. Não está exigindo aos céus nem muito menos chantageando os céus ou colocando em questão, em qualquer nível, sua fé. Ele faz uma sugestão ao Criador do universo e com isso realiza sua tarefa de não resignação. Abre assim um canal de comunicação e permissão para que possamos honrar nossa expectativa de Amor sem comprometer nossa aceitação da Verdade. Nessa ocasião, ele chega ao limite de não apenas fazer um pedido, mas pedir algo parasi que parece contrariar o interesse do resto do mundo. Mesmo assim, o Rabi Chanina (ou qualquer um de nós) ainda preserva o direito de “sugerir” ao universo. Ele não espera que o universo realize o impossível nem que prejudique qualquer outro ser ou estrutura. Ele apenas sugere, e caso seja possível... O Rabi Chanina simboliza o limite que antecede a incursão no grave erro da resignação. Seu pedido vem do espaço da “entrega”, que não é avesso aos nossos quereres; ao contrário, a partir deles é que esse espaço se define. Talvez a característica marcante do Rabi Chanina explicita as fronteiras do Amor na experiência da entrega. Numa véspera de Shabat, o Rabi Chanina percebeu que sua filha estava triste. Buscou saber a razão, e ela lhe confidenciou: “Eu confundi os dois recipientes que contêm óleo e vinagre, e coloquei vinagre na lâmpada de Shabat.” Já era muito tarde para consertar o erro, uma vez que o ritual exigia seu acendimento naquela hora. “Não se preocupe”, disse o pai, usando um simples e convincente argumento: “Aquele que ordenou que o óleo deveria queimar, que ordene que o vinagre também queime!” Nesse relato, o Rabi Chanina demarca as fronteiras entre a entrega, o apego e a resignação. O apego é feito do desejo de que “o vinagre queime”. A resignação é composta pela aceitação de que “o vinagre não queima”. Já a entrega caracteriza-se pelo reconhecimento de que o vinagre não queima, mas que Aquele que ordenou que o óleo queimasse pode vir a fazer com que o ******ebook converter DEMO Watermarks******* vinagre também queime. A entrega representa a fé numa estrutura maior do que nós e nossa compreensão, mas não abdica jamais da fé que pode permitir a expressão do que se aproxima ao que gostaríamos que fosse. Não há nada de errado nesse procedimento, desde que seja acompanhado por desejos próprios a “um servo” que, ao possuir certa intimidade com a Verdade, não assume interior ou exteriormente a pretensão de alguém que se acha no direito de exigir que suas vontades tenham precedência àquilo que deve ser. Peça sem pedir, reconhecendo que se pode pedir, que esta é uma obrigação humana. A entrega é a anulação da perspectiva calcada no ego, mas jamais perde o contato com o eu interior. Esse “eu” não precisa que as coisas aconteçam da maneira desejada, mas não deixa de apreciar, no entanto, o estético, a ordem e o prazeroso. Tanto no apego quanto na resignação, o sujeito é o ego. Na entrega, porém, não nos perdemos no todo; ao contrário, preservamos uma individualidade que ainda quer. A entrega, por mais profunda, por mais desapegada, não se furta a sugerir que Aquele que faz o óleo queimar permita também ao vinagre queimar. ******ebook converter DEMO Watermarks******* IV ABRAÇANDO A DESORDEM ******ebook converter DEMO Watermarks******* A “esgotabilidade” da tristeza Uma conhecida canção brasileira tem como refrão a frase: “tristeza não tem fim; felicidade, sim.” Tal frase expressa a experiência cotidiana da precariedade da felicidade. Nossa expectativa de que o que é bom possa ser preservado ou incrementado é constantemente frustrada por uma infinidade de coisas que podem e irão sair errado. Estamos, portanto, sempre muito atentos à condição efêmera de estarmos felizes. Poucas vezes percebemos que a tristeza também é uma condição passageira, que a tristeza se esgota. A tristeza é, acima de qualquer coisa, uma oportunidade da alma, uma convulsão que se esgota à medida que a acatamos e abraçamos. O grande problema da tristeza está na tentativa de se evadir dela. É nessa condição que ela perdura e nos assombra. Quando nos sentimos tristes, buscamos nos distrair, ocupar ou consolar com coisas que nos alegrem. Não percebemos que dessa maneira fortificamos a experiência de tristeza. Isto porque tristeza se encara de frente, olhando direto em “seus olhos”. Experimente aceitar a tristeza quando ela se instala. Deixe por momentos que o aperto na glote se misture com o amargor do coração e, ao “agarrar” a tristeza, descubra sua esgotabilidade. Se corrêssemos ao encontro de todas as nossas tristezas, perceberíamos que elas são sintomas da alma e que das lágrimas que esta pode gerar surge a possibilidade do arco- íris, de um novo dia com renovada fé. O medo da tristeza é o elemento principal que fertiliza a sensação de desespero. No entanto, a tristeza em si pode ser um importante instrumento da fé. Todos conhecemos a experiência que se sucede ao nos entregarmos a um choro profundo que alivia o coração e o faz mais leve abrindo novas perspectivas de esperança. A verdade é que não conseguiremos explicar esse fenômeno apenas como uma descarga de sentimentos que nos desopila. Não se trata apenas de um “volume” de tristeza a ser escoado. A razão de a tristeza ser seguida de uma sensação de esperança tem a ver com um ensinamento que descobrimos ao entregarmo-nos a ela. Revela-se a nós o fato de que cada instante traz em si os meios para que lidemos com ele. Por mais terrível que possa ser ou parecer nossa realidade, há sempre à nossa disposição uma forma de vivê-la. Na verdade, acreditar que cada momento traz em si tudo o que ele mesmo possa vir a exigir de nós é a maior de todas as esperanças. Essa esperança se ******ebook converter DEMO Watermarks******* traduz numa forma de confiança seja no Criador, no Universo ou na Natureza que não exige abrirmos mão de nosso intelecto. Sabemos que não podemos esperar nem cobrar que a vida não nos faça conhecer nenhuma perda, ou até mesmo a perda dela própria. No entanto, esperar que cada situação tenha inerente a ela os meios pelos quais possamos suportá-la e que permitam lidar com ela é um ato de fé que não contradiz a realidade. No Talmude há um dito que expressa uma lógica referente às leis que poderia ser estendida às leis naturais, existenciais e espirituais. Diz essa máxima: “Não se decretam leis ou éditos que não possam ser cumpridos.” Confiar não é o ato de esperar que nada de errado nos aconteça, mas, acima de tudo, ter certeza de que seja ele qual for, o édito virá sempre acompanhado dos meios para ser suportado. Esta é, na realidade, exatamente a definição de não desesperar. Isto vale para a angústia e para a ansiedade: o fundamental não é que se procure sublimá-las, mas vivê-las. Quando vividas, elas se esgotam. A propósito, conta-se que: Reb Leib de Lantzut era um abastado mercador, também bastante versado na Torá. Aconteceu que o Reb Leib perdeu toda a sua fortuna do dia para a noite e ficou em estado de miséria. Apesar disso, ele parecia não estar nem um pouco incomodado com tal situação, e passava seu tempo estudando. Sua mulher perguntou-lhe: “Como é possível que você não esteja triste ou ansioso?” Reb Leib respondeu: “Deus me deu uma boa cabeça, que pensa rápido. A preocupação e a tristeza que outros processariam em um ano eu processei em um único momento.” Essa capacidade de concentrar ansiedade, tristeza e luto não se consegue pela fuga, mas pelo enfrentamento desses sentimentos. Todos esses sentimentos podem ser relevados se vividos profundamente. A evidência maior se encontra no sorriso que desponta depois da entrega ao pranto, ou na sensação de triunfo e transcendência que experimentamos depois do sofrimento. A tristeza é uma oportunidade, não deve ser perdida. Se ela passar por você, persiga-a com a certeza de que ela lhe indicará o caminho para o “oásis”. A tristeza, portanto, é um mecanismo capaz de restabelecer nossa confiança de que cada momento contém em si a forma de ser enfrentado. Cada vez que vivenciamos a tristeza e a suportamos, se fortalece nossa esperança de que também nos céus prevaleça a lógica que evita que se baixem ******ebook converter DEMO Watermarks******* decretos que estejam além das possibilidades de que sejam cumpridos. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Saudades como falta de si mesmo O elemento mais real e doloroso numa perda diz respeito ao impacto que a falta e a privação acarretam em nossa vida. Pode parecer muito cruel reconhecermos isso, mas a grande dor vividano sentimento de luto relaciona-se com o impacto da ausência do outro mais do que com a identificação e solidariedade ao falecido. O luto é uma experiência de perda do ego. Da falta que faz para mim, não da falta que a falta faz ao outro (no caso, o maior perdedor). O choro do enlutado vem em maior intensidade quando este resgata a dimensão daquilo que perdeu, e não o que perdeu a figura amada levada deste mundo. Nenhuma culpa deve estar associada a esse sentimento, mesmo porque não faria qualquer sentido o engajamento na realidade da dor do luto pela tentativa de ser o outro. Não conseguimos fazer isso sequer quando estamos vivos, e possuímos a capacidade concreta de avaliar as necessidades do outro, quanto mais quando estamos separados por dimensões diferentes. A empatia pelo perdido é uma racionalização; já o sentimento vivo diz respeito à dor de perder-se o que de mais real havia, ou seja, a relação entre indivíduos. A dor inconsolável não tem origem nas percepções do tipo: “Quantos anos ainda não poderia ter vivido?”, “Viajou tão pouco, aproveitou a vida tão pouco...”, mas sim das constatações ocultas por trás dessas afirmações: “Quantas vezes ainda poderíamos rir, chorar, aproveitar juntos”; “Que falta me faz... como posso seguir vivendo?” Tal realidade talvez fique mais aceitável quando reconhecemos que choramos mais pela perda da função de mãe, de avô, de irmã etc. do que pela passagem do indivíduo em si. Nossa relação com o outro é, na verdade, a forma de vermos e percebermos o outro. Não podemos resgatar a essência daquilo que foi perdido sem que o façamos por meio do que nos faz falta. Uma das formas de mediar esse “egoísmo” é restituir ao “outro perdido” o seu ego. Diferentes leituras religiosas (de uma forma ou de outra presentes em todas as tradições) procuram projetar no “outro perdido” esse mesmo tipo de dor – o(a) falecido(a) também sente falta das pessoas e das coisas e não consegue se desapegar. Da mesma forma que sentimos sua falta como dor maior, também a falta que sente de nós é sua dor maior. Talvez esta seja uma forma legítima de se lidar com o desconhecido ******ebook converter DEMO Watermarks******* segundo as regras do conhecido. No entanto, é fundamental não impormos o Amor à Verdade (e vice-versa), sob pena de comprometer a qualidade de nossa percepção da realidade e, a longo prazo, abrir espaço para o sentimento de desespero. Como vimos, tal comportamento teria todas as características de uma tentativa de controle. No entanto, se, por um lado, esse sentimento de perda é legítimo, por outro representa um perigo. A falta do outro concebida em termos da falta que ele nos faz reforça o movimento de internalização do universo, onde tudo existe para nós e em relação a nós mesmos. E esta é uma das mais terríveis batalhas existenciais. Só nos parece existir sentido apreensível quando olhamos o mundo pela perspectiva da diferenciação e da individualização, o que em si é um convite ao desespero. Sim, porque aquilo que é em si universo e ao mesmo tempo finito não tem outra saída a não ser compreender o jogo da vida como um jogo perdido. Sem que haja uma dimensão externa à existência na própria existência não existe possibilidade de esperança. O próprio ego deve perceber em sua atitude última de fazer uso do próprio desespero para se manter “entronizado” um comportamento autodestrutivo. Pede-se ao ego, portanto, que abra mão de sua autorreferência e da autoridade que exerce sobre o indivíduo, para dar vez àquilo que, sendo externo ao indivíduo, ainda é o próprio indivíduo. Sem dúvida um paradoxo para a concepção de si que tem o nosso ego. Entretanto, este é um ato de sobrevivência existencial. Viktor Frankel em seus estudos psicanalíticos sobre sobreviventes de campos de concentração faz uma importante relação entre os homens que se resignavam e aqueles que ainda “rapavam a barba”. Na situação-limite do extermínio, alguns prisioneiros acordavam de manhã cedo e, mesmo dispondo apenas de um caco de vidro, tratavam de barbear-se. Em vez de se entregarem a uma aparência que seria justificável socialmente devido às condições extremas a que estavam submetidos, esses indivíduos por esse ato simples ampliavam em muito sua chance de sobrevivência. Prestemos atenção à imensa complexidade desse comportamento: não é um ato de fuga da realidade, pois, se assim fosse, certamente teria diminuído suas chances de sobrevivência. Estamos falando, portanto, de pessoas conscientes de sua situação, que encarando a degradação e a ameaça de forma realista se colocavam diante de um espelho para não permitir que o caos vigente no mundo externo conspurcasse a sua relação com a dimensão do Amor, da ordem e da estética. Se, para aqueles que vivem vida mais confortável, o grande desafio é ******ebook converter DEMO Watermarks******* equilibrar o Amor com a Verdade, na crueza da realidade dos campos de concentração a grande prova era justamente o contrário, ou seja, temperar a Verdade com doses de Amor. Estamos tratando aqui de pessoas que não abriam mão de si mesmas quando estavam de forma tão real diante da possibilidade da perda de si mesmas. Essas pessoas não estavam resistindo à entrega, como pareceria a muitos, mas, ao contrário, estavam verdadeiramente se entregando. A entrega é em si um ato de resistência e não uma forma de resignação, como vimos anteriormente. A entrega é ativa, nunca passiva. E só quem se entrega tem maiores chances de salvação. A entrega é um ato de generosidade para com a vida (um detalhe carinhoso, como o rapar da barba). A entrega se caracteriza por um ato de amor, a vida que está acima de qualquer coisa, com exceção da fé na própria vida. Quando sentimos falta de algo ou quando temos saudades, experimentamos uma verdadeira e legítima falta de nós mesmos e saudades de nós mesmos. Acreditamos que a falta é do outro e a saudade é do outro, mas não é assim. A verdadeira saudade e a verdadeira falta do outro são sentimentos frequentes e constantes que um indivíduo vive em relação a si mesmo. Trata-se da parte de si que não está incluída em si, esse quinhão externo, esse oitavo de morte-viva em nós. Assim, a saudade do outro que camufla a saudade de si mesmo é uma tentativa de o ego conter-se, de ser um universo infinito encerrado em si mesmo. A mãe, o amigo, o cachorro, a perna, o brinquedo, o sol... tudo isso podemos perder com grande dor, mas tal dor serve apenas ao propósito de reforçar nosso próprio ego. A única forma de evitar-se esse beco sem saída, esse encontro marcado com o desespero, encontra-se na descoberta de que essa saudade não é de si, mas de uma parte de si que não está em nós. Não temer a morte e não fazê-la algo externo a nós são as maneiras que temos de abraçar a dimensão da ordem e do Amor. Quem se barbeia no campo de concentração ama a vida e não exclui a morte da vida. Sua saudade de si mesmo não se encerra no seu ego, mas inclui também o quinhão de morte que é parte de si mesmo. Uma das noções mais revolucionárias do chassidismo foi o reconhecimento de que não amamos o “outro” por ser um outro, mas porque nele há um pedaço de nós. Tal conceito põe por terra a tradicional expectativa de sermos altruístas e atingirmos níveis de solidariedade utópicos. A falta de si mesmo, a parte de nós que não está em nós, é um dado. A convivência com essa falta faz da ausência uma parte fundamental de nossa ******ebook converter DEMO Watermarks******* existência. Nesse sentido, o que é vivido como perda pode chegar a ser vivido como resgate. A amada que parte ou o amigo que desaparece pode nos devolver a consciência da parte perdida de nós mesmos. Tal ausência resgata à vida a percepção de que é uma constante busca, em vez da tentativa de agregar-se posses e apegos na triste tarefa de administrar e preservar que nos imputamos. Exacerbar a falta do outro pelo que o outro nos faz falta é não perceber a falta de nós mesmos; é representá-la externamente, tornando-a passível de controle (e de descontrole). A dimensão sagrada do outro, seja representadapor um pai, filha ou amigo, é uma manifestação da falta de nós mesmos, da parcela de nossa existência que nos é externa. Essa visão pode parecer estranha, mas está presente na constante experiência de solidão que experimentamos na dimensão da Verdade. Nela não há mediação de mães, de amantes ou de amigos, e todos esses personagens e suas funções sagradas se desfazem ao cruzar-se o limiar de nossa profunda solidão. Na falta do outro se esconde o difícil sentimento de reconhecer a falta de si mesmo. E é nos momentos de passagem, tanto de crises durante a vida como na fronteira da morte, que experimentamos o máximo de nossa individualidade. Ficamos, assim, asfixiados nesse absoluto estar só, e só nos resgatamos nesse fragmento de nós no outro. Uma parábola da tradição judaica conta sobre um aldeão que recebeu um chamado do rei. Ele e toda a sua família ficaram muito assustados com a convocação. Em solidariedade, os moradores o acompanharam até a saída da pequena aldeia; seus familiares e amigos mais próximos seguiram com ele até a porta do palácio e, dali em diante, ele seguiu só, acompanhado apenas por seu mérito próprio. O rei e seu chamamento são simbólicos da morte. Os conhecidos acompanham uma pessoa até o fim de sua vida (limites da aldeia); seus amigos mais próximos e familiares, até o cemitério (porta do palácio); mas, dali em diante, ele está só... acompanhado apenas pelo pedaço de si próprio que nunca tinha sido parte de si. Esse “mérito”, esse pedaço nosso nos outros, esse “nós” mesmos no limiar de não mais existir são fundamentais para preservarmos a esperança até nosso último instante. Esta é a única bagagem que nos é permitido levar para além da dimensão da vida. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Aprendendo a se salvar O que significa “se salvar”? Talvez a mais concreta conceitualização dessa expressão tenha sido obtida pela cibernética. Nos computadores, a função – salvar – é ativada para preservar um arquivo. Sem essa função, todo o trabalho gerado perde-se e não mais pode ser resgatado. Se acionada, no entanto, um arquivo mesmo desativado permanece latente no hardware do computador. Ninguém sintetizou melhor essa imagem, associando-a a questões existenciais, do que o Rabino Zalman Schachter, que declarou: “No meu funeral, quero que digam que esse programa, Zalman.exe, está neste momento sendo salvado no disco rígido da Memória Global.” Nós todos queremos ser salvos. Na velhice, não é incomum se sonhar com a publicação de livros autobiográficos que dramaticamente expressam a perplexidade de seus autores diante da perda iminente de histórias e sapiências lapidadas durante toda uma vida. Oitenta anos podem não representar nada em muitas escalas, mas o olhar de uma vida por oitenta anos responde pela saga da existência de um universo por completo. O Talmude diz: “destruir uma vida é como destruir um mundo.” Na verdade, não há medida quantitativa para uma existência que possa ser mensurada por outra unidade que não uma existência. Não que ela seja uma infinitude diante de tantas e tão grandiosas infinitudes neste cosmos, mas sua característica de ser única eleva exponencialmente a importância de sua manifestação. Sabemos disso e não conseguimos nos conformar com nossa própria perda. Salvar toda essa preciosidade não é sequer uma questão de preservação, mas, acima de tudo, de sentido. A desordem que percebemos na aniquilação de processos tão custosos, sofisticados e raros, oriundos do diálogo e do convívio com a existência, é de tamanha emoção e magnitude que nos é insuportável. Dizia o rabino Kotzk: “não me importo em sofrer, apenas gostaria de saber em nome de quê.” O investimento na vida é tão absurdo que se torna um ato de enorme violência ter de jogar o “jogo” sem o conhecimento prévio de suas regras. De alguma forma nos salvarmos implica incursões no território de se saber “em nome de quê”. Um episódio durante meu trabalho como capelão acompanhando pacientes gravemente enfermos num hospital em Nova York ajudou-me a compreender de que maneira podemos nos salvar. Algo que está sempre, em ******ebook converter DEMO Watermarks******* todos os instantes, disponível a nós. Na ocasião, eu era responsável por todos os internos judeus de um dos andares do hospital. Já a poucas semanas de minha ordenação como rabino, foi trazido em estado grave ao hospital um rabino ultraortodoxo. Tratava-se de um rebe, o líder de um grupo chassídico que, com sua longa e branca barba e aspecto severo, evocava os lendários estereótipos de sábios e piedosos. Seu estado era bastante delicado e minha tarefa era visitá-lo, colocando-me à sua disposição, no sentido de lhe trazer o maior conforto possível. Ocorre, porém, que me sentia constrangido ao visitá-lo, porque eu era muito jovem e inexperiente. Nenhum crachá ou posição oficial dentro do hospital conseguiria dar conta de meu rosto de menino e me conferiria a legitimidade que me parecia necessária para lidar com a situação. Como oferecer conforto e aconselhamento a um homem que representava justamente a sabedoria e a experiência? Diante daquele homem saído dos livros de histórias do passado, de uma figura bíblica como aquela, como imaginar que eu poderia lhe oferecer qualquer ajuda ou consolo? Como poderia eu aconselhar um homem octogenário, detentor de um vasto conhecimento humano, próprio de quem já viveu uma vida inteira como líder e ainda por cima profundamente sensibilizado pela brevidade de seus dias? Como enfrentar seus discípulos, que o cercavam 24 horas por dia, apresentando-me como um rabino para seu rebe? Confesso que tinha verdadeiro terror daquelas visitas, e tratava de evitá-las de todas as maneiras. Todas as vezes, porém, que eu conseguia enfrentar a situação e entrar em seu quarto, era recebido com extrema delicadeza. Conversávamos então sobre amenidades, e minha sensação era de que eu não conseguia articular qualquer pensamento mais profundo. “É ridículo! O que vou dizer a esse homem?”, pensava. Quando podia ser de alguma utilidade, sentia-me imensamente aliviado. Lembro ter conseguido que a porta automática do hospital fosse desligada aos sábados, para que seus discípulos pudessem visitá-lo sem dessacrar o Shabat, que proíbe o acionamento de qualquer aparato eletrônico. Mas era só. Quando podia me esquivar de visitá-lo, eu o fazia. Meu supervisor começou a perceber esse “mecanismo” e insistiu para que eu me esforçasse para lidar com aquela situação. A verdade é que eu aproveitava quando o rabino dormia para deixar cartões com votos de melhoras, atestando que havia passado para visitá-lo. O tempo foi passando, até que um dia, durante uma de minhas rondas, notei um tumulto junto ao quarto do rabino. Ele estava agonizando. Uma equipe médica encerrava seus ******ebook converter DEMO Watermarks******* procedimentos, enquanto um grupo de discípulos cercava seu líder, fazendo orações. Quando me aproximei, fui interceptado por um desses discípulos, que segurando e lendo meu crachá, perguntou: “Quem é você?” Respondi, meio sem jeito: “Sou o capelão-rabino deste andar.” Ele fitou-me com um misto de desdém e surpresa, enquanto fazia um gesto com a mão, que deixava bastante claro que eu não era necessário... talvez, mais do que isto, o gesto revelava que era a última coisa de que precisavam naquele momento. Nem sequer pensei duas vezes, e aceitando ser um intruso obsoleto, dei a volta para ir embora. Nesse instante ouvi um burburinho às minhas costas e voltei o olhar novamente em direção ao quarto. O rabino, com uma máscara de oxigênio sobre a face, fazia sinais para que eu me aproximasse. Cheguei até a porta. Dois discípulos perguntavam ao rabino, em iídiche: “O que o senhor deseja?” Ele respondeu por fala e gestos que me queria ali com ele, e que nos deixassem a sós. Os discípulos relutaram no início, mas, percebendo que era um pedido claro e objetivo, foram gradualmente abandonando o quarto. Com muita curiosidade e uma certa animosidade, o último a retirar-se fechou a porta, deixando-me sozinho com o rabino.Lá estava eu, assustado e recorrendo pela memória a todos os manuais e ensinamentos que conhecia, na tentativa de lidar com aquela situação. A instrução mais básica me veio à mente: “Pega a mão do rabino!” Peguei sua mão sem muito compreender o que se passava, nem por que estava ali. O rabino, então, olhou-me fundo nos olhos e perguntou: “O que você acha que vai acontecer comigo?” Tentei fugir da pergunta, retornando aos manuais. “O que o senhor acha que vai acontecer?” O rabino balançou lentamente a cabeça, em desaprovação: “Não... não... o que você acha que vai acontecer comigo?” “Acho... acho que o senhor vai morrer...” , foi o que saiu de minha boca naquele momento, como se eu me entregasse ao comprometimento com aquele instante de sinceridade profunda. O rabino então começou a repetir, enquanto apertava minha mão: “Obrigado... obrigado... obrigado...” Permaneceu assim por alguns instantes, que pareceram uma eternidade, e completou: “Obrigado por dizer adeus.” Meus olhos estavam marejados e um fortíssimo nó na garganta marcava aquele lugar e aquele momento com uma densidade humana incomum. Por instantes, pareceu-me que o vazio que existe entre um e outro também estava preenchido e que, portanto, o que definia os limites tinha se tornado obscuro, menos perceptível. Passados alguns momentos, o rabino pediu que eu recitasse para ele o Vidui (uma oração que tem uma função semelhante à “extrema-unção” no cristianismo). Eu havia esquecido o livro que continha o texto da oração, e ******ebook converter DEMO Watermarks******* confesso que não a sabia integralmente de cor. O rabino, no entanto, a conhecia muito bem. Pedia, porém, que eu a fizesse por ele por alguma razão. Eu não quis romper aquele instante de coragem e honestidade, e comecei a esboçar a dita oração com as frases de que me recordava e ele simplesmente as ouviu, sem corrigir nem interpelar, como se falássemos diretamente, fazendo uso da fórmula da tradição apenas como um veículo em que a essência claramente não está na forma, mas no conteúdo. Ele ouvia com o coração, e eu falava com o coração. Quando encerrei, ficamos por alguns instantes em silêncio, nos despedindo de alguma maneira. Quando saí e a porta bateu às minhas costas eu já não era a mesma pessoa. Por ironia, o mesmo discípulo que havia me dispensado anteriormente aproximou-se, querendo saber o que se tinha passado. Tomado pelo momento, fitei-o profundamente e segui meu caminho. Vamos tentar resgatar o que aconteceu nesse episódio. Uma pessoa imersa na mais absoluta impotência, atirada sobre uma cama e submetida a um balão de oxigênio demonstrava que se pode sempre ser mestre do momento, mesmo quando estamos aparentemente sem opções nem poderes para barganhar com a vida. O que havia feito aquele homem? Ele olhou à sua volta, tentando encontrar suporte imediatamente ali, naquele instante e lugar onde se encontrava. Buscou rapidamente identificar dentre todas as pessoas que o cercavam quem poderia ser o receptáculo naquele momento para salvá- lo. Sabia que para realizar isto precisava estabelecer uma relação que não fosse de recebimento, mas de troca. Ele estava desesperado para fazer contato com aquele preciso momento de sua vida, um momento tão especial, e para tal precisava que alguém se despedisse dele. Todos à sua volta, no entanto, tentavam reanimá-lo fisicamente ou encorajá-lo com palavras animadoras e com orações pedindo por sua cura. Ele sabia que o momento era próprio para algo diferente da luta insana por impor nossa vontade ao que será da forma que tem de ser. Queria alguém que estivesse ali de verdade, junto dele; não indivíduos que, por melhor que fossem suas intenções, estavam longe de seu mundo. Insistiam numa dimensão de Amor tão longínqua de sua realidade de Verdade. Ao mesmo tempo, ele tivera a sensibilidade para perceber durante o período em que o visitava que eu era a pessoa que naquele momento mais precisava ser legitimada e empossada de si mesma. Afinal, prestes a me ordenar como rabino, encontrava-me em briga com minha própria imagem, com a própria legitimidade de algo que naquele diálogo de corações descobri pertencer a outra esfera – a esfera da integridade. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Ao mapear o ambiente à sua volta, o rabino buscou a pessoa que mais se beneficiaria ao beneficiá-lo, e com grande sapiência desvendou uma importante chave da “salvação” que se encontra na mutualidade. Ele havia acionado a função salvar e a instalava em minha alma de maneira definitiva. Conto e reconto esta história enquanto guardo um carinho único por alguém que não conheci direito e cujo nome hoje não sei. Tenho certeza de que não busquei saber informações detalhadas desse meu companheiro de vida porque não me parecia necessário preservá-lo sob qualquer rótulo ou forma, da mesma maneira que minha oração pôde desapegar-se também da forma. Há algo dele em mim. Ele já não mais vive, e lá, onde quer que este não espaço e não tempo seja, há algo que o faz pleno em meio à falta. Algo que lhe dá uma “saudade” inconquistável, preenchendo o nada com uma fração da existência. Este si mesmo em meio ao que já não mais é constitui-se daquilo que foi “salvo”. Por salvo não devemos ter a compreensão preconceituosa de que o que “há” nessa outra realidade se perdeu, mas que permaneceu, para o outro lado do umbigo da existência, uma “saudade de si mesmo” – uma falta nesta margem que, na outra, é plenitude a macular a própria ausência. Não é preciso escrever livros para se salvar. Não é preciso sequer estar em domínio pleno de qualquer função vital; não são necessários grandes blocos de tempo: basta um único momento. Não é nem ao menos necessária a troca com alguém conhecido, sendo suficiente um único e verdadeiro encontro. Não são necessárias ideias, técnicas ou razão. Basta vibrar na sintonia humana e evocar no outro uma mesma manifestação. Neste caldeirão onde a experiência de ser é comum a todos os que trocam, não há mais percepção de si mesmo que faça sentido na ideia de que alguém se encerre em si mesmo. O eu no outro e o outro no eu são explicações para essa eterna saudade de algo que nos faz falta; o outro, aquele/aquilo que não sou, traz em si, por sua vez, algo que também não é parte de si próprio. Não há melhor forma de beijar a morte do que reconhecer o outro – o que não somos e onde não existimos nós mesmos. O mesmo 1/7 de morte, de falta, de não ser é o material do qual é feito o outro dentro de nós. A morte é que nos faz sociáveis. Ela é que nos faz amar o outro. O outro é a forma mais real que possuímos de experimentar a morte, o não ser. Conseguir olhar o outro em sua alteridade é reconhecê-lo não em relação a nós ou como sendo nós mesmos. Ao vê-lo como tal, estamos diante da morte sem medo, sem desespero. É como se estivéssemos num mundo invertido, onde ter saudades do outro não nos faz reconhecê-lo e nos leva ao ******ebook converter DEMO Watermarks******* desespero. Por outro lado, ter saudades de nós mesmos nos encaminha ao outro; no outro nos encontramos salvos de “sermos apenas em nós mesmos”. Em nenhum momento devemos nos permitir mergulhar dentro de nós mesmos num comportamento eremita, o que representa em si o desespero. Todo aquele que é vivo, que inicia sua caminhada pela vida ao que está no limiar do fim do processo, precisa do outro. É comum que pessoas gravemente enfermas experimentem ao enfrentar as questões de sua finitude um desejo de se afastar dos outros. Fazem isso movidas pelo inconformismo de que os outros lhe relembram constantemente tudo que estão por perder. A vida do outro que continua, ou as oportunidades do outro que continuam mesmo depois de nossa morte, são quase insuportáveis. Cada risada do outro, cada olhar do outro são vividos como uma bofetada. E nem sequer é preciso tratar-se de um ser humano. Cada vez que o sol nasce é uma bofetada, cada barulho de vento ou gosto apreciado é uma bofetada. Ou seja, tudo aquilo que não é parte de nós e que “não se extinguirá” quando nos extinguirmos, nosagride. Esta é a atitude do desespero, que lê no outro a morte como um escuro onde não estamos. A incapacidade de reconhecer a si mesmo no outro é desespero. A visão que, ao contrário, vê no outro parte de si mesma, salva. Do episódio do rabino, duas lições podem ser extraídas. A primeira é a técnica de buscar o outro no limiar onde ele e nós mesmos nos identificamos. O rabino, em um momento de transição em sua vida, um momento de insegurança, precisando de um último empurrão para entregar-se, dialoga com o outro, que também atravessa um momento de transição e insegurança e que precisa também de um último empurrão. O rabino encontra o outro onde ele, rabino, está. A sinceridade e a telepatia são fenômenos desse ato de eliminação de um meio que separa. O rabino e o outro são um só e falam um para o outro. Não há dissimulações, falsidades ou fingimentos, pois não há meio externo entre os dois, unidos que estão por sua humanidade. A segunda lição, que complementa a primeira, explicita que não é necessário deixar de ser a si mesmo para encontrar o outro. Na verdade, só assim é possível o encontro. O rabino não se utilizou de um movimento sedutor ou estético para chegar tão próximo de mim. Ele simplesmente honrou a situação em que estava naquele momento de sua vida. Pensou ele: “Preciso de uma despedida, de um adeus.” Como nas lendárias histórias do tipo “A Bela Adormecida”, o rabino precisava de alguém idêntico a ele naquele momento para utilizar como recipiente de si mesmo. Sua alma gêmea era aquela que nas circunstâncias se apresentava mais próxima, tão próxima ******ebook converter DEMO Watermarks******* que, ao arrancar essa despedida de sinceridade, fazia com que ele a percebesse como uma despedida de si próprio. Por assim dizer, o próprio rabino se despedia do rabino, e se algo dele mesmo se despedia dele, sua perda por definição não era total – estava salvo. Nenhum de nós deve esperar por seus derradeiros momentos de vida para imitar os passos do rabino. A vida é definida como uma infinidade de oportunidades que nos permitem realizar esse mesmo fenômeno de autorreconhecimento nos outros, sejam pessoas ou coisas. A cada um desses reconhecimentos nos certificamos desse pequeno elemento de exterioridade que possuímos e somos tomados pelo sentimento da esperança. Tais encontros são o que os mestres chassídicos chamavam de reconhecimento das fagulhas divinas espalhadas pelo mundo. Cada vez que descobrimos a nós mesmos fora de nós, grande é a euforia de saber-nos maiores do que imaginávamos ser. ******ebook converter DEMO Watermarks******* O ensinamento deste exato momento (Ora’at ha-sha’á) A partir da história do rabino enfermo, podemos estabelecer uma relação entre a existência e o momento vivido. Toda a interação entre nossa vida e uma dada situação tem amarras, pontos de contato, que são, na verdade, a própria definição de nosso eu. Minha existência diante de outra situação de vida automaticamente define outro eu. Se alguém fizesse um experimento de fazer um indivíduo regredir ao passado e o transferisse do Brasil para a China, descobriria que teria criado um “Frankenstein psicoespiritual”, um outro eu. As grandes depressões e dificuldades de centramento de uma pessoa surgem exatamente dessa desconexão entre existir e a situação em que se existe. São as doenças de não sabermos onde estamos, das crises de sentido que com frequência se abatem sobre nós. São como “resfriados psicoespirituais”, que se instalam por conta de baixas imunológicas justamente na área do equilíbrio entre ser e estar. O que são as pequenas crises que pedem por sábados, as médias que pedem por férias, as grandes que pedem por anos sabáticos ou as “megacrises” que nos pedem uma nova vida por completo? São tentativas de correção das defasagens que se avolumam por não estarmos existindo na situação de vida, no “agora mesmo” de cada instante, ou seja, por não estarmos no lugar onde estamos. Este “agora mesmo” é um local/tempo em que não aceitamos qualquer forma de falsidade e não nos permitimos qualquer tipo de mentira e abstração. É a realidade em que identificamos o sentimento do momento, a crença do momento e o impulso do momento. Evitamos assim projeções de outros e expectativas de nós mesmos e nos defrontamos com a vida para valer. Novamente, os enfermos em estado grave têm essa percepção muito acentuada, e não é por acaso que desejam estar junto daqueles que lhes são sinceros e que não tentam enfeitar a realidade fugindo de seus próprios medos e hesitações. Um pequeno conto pode nos ilustrar a questão: Quando o rabino de Bratslav caiu enfermo, foi trazido a ele seu neto de quatro anos para visitá-lo. O Bratslaver pediu então ao menino que rezasse para sua recuperação. O menino rapidamente reagiu: “Me dá de presente o ******ebook converter DEMO Watermarks******* teu relógio e então eu rezo para você!” O Bratslaver sorriu e passou o relógio ao menino, que disse: “Querido Deus, Deus que cuida das pessoas, faz meu vovô ficar bom!” O Bratslaver comentou: “Esta é uma maneira correta de oferecer uma prece. Qualquer outra é inútil!” A grande surpresa deste conto é que aquilo que deveria ser motivo de crítica e repreensão é, ao contrário, elogiado e incentivado. Como pode um neto querer recompensas para só então orar pelo avô? Não seria este um comportamento interesseiro e materialista? Talvez não para um menino de quatro anos. Ele quer que seu avô fique bom, mas se puder ter o relógio também ficará exultante, e o rabino reconhece que só assim sua prece será plena. A presença de seu desejo o coloca por inteiro naquela oração. O Bratslaver reconhece a sintonia de sinceridade de seu neto, que não abdica de seu “agora mesmo” em nome de convenções e da moral. O “agora mesmo” é a verdadeira fronteira do encontro. É somente quando alguém se encontra em seu agora psicoespiritual real que outra pessoa, desde que também em seu agora psicoespiritual real, pode encontrá- lo. Quanto mais tempo passarmos em nosso agora psicoespiritual, maiores serão as chances de cruzarmos com verdadeiros “outros” e de realizarmos o tipo de descoberta que verificamos ao analisar a questão do “salvar”. Esses encontros nos restituem a esperança de que não iremos nos perder nem nos desperdiçar. O encontro é um fenômeno que ocorre na esfera da sinceridade. Para que ocorra, é necessário que nos desvencilhemos de todas as nossas hipocrisias, enquanto aceitamos todos os fragmentos de nossas incongruências. Só quando conseguimos nos aceitar é que nos permitimos aceitar os outros por inteiro, o que possibilita encontros. A tradição judaica reconhece que cada encontro ou interação entre dois presentes no momento acarreta uma mensagem ou uma aprendizagem. A Ora’at ha-sha’á – a aprendizagem do agora – é única, por ser produto exatamente da interface entre um dado momento da existência e uma dada situação. A riqueza de nossa vida, ou mesmo a sapiência que acumulamos ao longo da vida, é resultante direta das vezes em que soubemos absorver o nosso ensinamento do momento. E esses ensinamentos são redentores. A aprendizagem do agora é uma essência transcendente, que nos leva para nós mesmos. O que nos transcende é o que nos dá esperança e amplia a ordem do mundo à nossa volta. Todos os grandes insights da história da humanidade foram produto de momentos de aprendizagem do agora de ******ebook converter DEMO Watermarks******* alguém. Caso não fossem, não teríamos qualquer possibilidade de resgatar sua profundidade e sua sensibilidade. A imortalidade é sempre resultado dessas aprendizagens do agora, uma vez que elas demarcam eternamente que aqui, nesse momento, passou tal existência e que do casamento entre situação e existência se gerou tal aprendizado. Talvez devêssemos todos agir com a mesma intolerância que a terminalidade impõe rejeitando todas as interações mascaradas que deslocam a existência, impedindo-a de se encontrar numa dada situação. A continuidade destas interações que Martin Buber chamava de Eu-Isso aniquila a possibilidade deencontros Eu-Tu. Perdemos oportunidade atrás de oportunidade de colher os ensinamentos do agora e fortificarmos a existência na dimensão da gratificação do ego e nos tornamos “insalváveis”. ******ebook converter DEMO Watermarks******* V SEGREDOS DA DESORDEM ******ebook converter DEMO Watermarks******* Os atrativos de se ficar De não ir e de não viajar nunca se arrependa. Ditado em iídiche A mente humana e sua capacidade de imaginar criaram a possibilidade do que hoje conhecemos por realidade virtual. Construímos “realidades” dentro de nossa mente com tamanha facilidade e frequência que somos obrigados a checar constantemente em que medida essas “realidades particulares” distorcem ou assumem o lugar da realidade compartilhada com o outro. Assim, criamos um mecanismo de grande eficácia para nos proteger do que nos é desagradável. Não é por acaso que uma das soluções mais comuns para nossos desesperos rotineiros sejam os sonhos de viagens ou a criação de realidades virtuais plantadas em meio à realidade externa. Ir para outro lugar, longínquo, de preferência, nos parece uma boa maneira de se evitar as dificuldades da vida. Desde aqueles que se deslocam espacialmente, utilizando os temperos, os rostos e as culturas para ocultar seu medo de “ficar”, até aos que singram pelo tempo, imaginando momentos no futuro onde as dores e as complicações do presente fiquem esquecidas, todos são marinheiros que não encontrarão porto. Há algo de extremamente perigoso na opção de partir: ela camufla, por atitudes de aparente busca, formas sofisticadas de fuga. Ficar é e sempre foi uma condição muito privilegiada. Para se ter acesso a ela é preciso vencer certas memórias míticas que servem em muito para alimentar nosso desespero. Abordaremos a seguir duas formas de valorizar o ato de ficar – no espaço e no tempo – com o intuito de desmistificar e dar nova perspectiva a certos vícios que temos em relação ao que consideramos ou não prazeroso: 1) Ficando no espaço: Imagine-se recém-chegado a um hotel depois de dar início à sua tão esperada viagem. Você ainda está cansado da viagem na noite anterior e acaba de se jogar na cama refrescante e cuidadosamente preparada. Em euforia, logo vai à janela, que descortina uma vista panorâmica da cidade, de onde emanam incontáveis estímulos para todos os seus sentidos. Você liga a televisão, vai ao banheiro, revira gavetas e armários atrás dos pequenos brindes que o hotel oferece. Você está diante de inúmeras possibilidades e ******ebook converter DEMO Watermarks******* assimila este momento como a concretização da utopia de viver. Confunde- se, porém, achando que a essência dessa excitação e alegria está no fato de ter partido. Na verdade, a essência de sua alegria se encontra no fato de que você se preparou para sair e, ao fazê-lo, aprofundou a experiência de ficar. Ao partir, você se permite perder tempo, sonhar, relaxar e assim por diante. Se você fizesse isso ao ficar, se planejasse seu ficar ou se o valorizasse da mesma maneira que valorizou seu partir, ficaria surpreso quanto à sua capacidade de gerar prazer. Seu prazer ao partir está associado a uma realidade virtual, pois em Londres, nos Alpes, no Tibete, nas areias de Natal e em todos os lugares se “fica”. A consciência do valor de cada minuto da viagem, a prospecção de todas as possibilidades que o próximo momento pode proporcionar, a permissão de se estar em sintonia com o que realmente se deseja, a intolerância com qualquer tipo de intromissão em seus planos e outros atributos da viagem podem também ser verdadeiros para o ficar. Ficar, afinal, é a condição necessária para o encontro e para o salvar-se. Quem não fica, não pode ser encontrado. 2) Ficando no tempo: O presente também parece ficar em desvantagem em relação ao futuro. O planejamento futuro é outra forma de criarmos realidades virtuais que se confundem com a realidade externa. Não são apenas fantasias; porém, a concessão que permite ao futuro ser preenchido por qualquer coisa, em especial aquilo que nunca acontecerá, pode servir aos propósitos de se evitar ficar. E por que trocaríamos esse potencial absoluto que é o futuro por um presente amarrado e irremediavelmente já comprometido? Uma das formas de resgatar o valor do presente e de criar condições para que “fiquemos” está justamente na desmistificação do futuro. Para tanto, devemos reconhecer que nossos sonhos do tipo “estou louco para que fique pronto, para que chegue, para que eu possa ver...” não são apenas compostos dos prazeres e deleites que seletivamente peneiramos do futuro. O futuro é maior e, junto com o que queremos ver, virá também aquilo que não queremos ver. Portanto, o presente, apesar de sua restrição de não poder oferecer oportunidades ilimitadas, é um investimento de muito menor risco. Tamanha pode ser a diferença de “lucro” na discrepância entre a proporção de segurança do presente e o risco especulativo do futuro que encontraremos por este mundo afora uma infinidade de casos de enriquecimento de vida no presente e outra infinidade de indivíduos levados à bancarrota por investirem ******ebook converter DEMO Watermarks******* exclusivamente no mercado aventureiro do futuro. No presente há a possibilidade de encontro e salvação; no futuro, não. O futuro é estéril de “agora mesmo”. Representa um turismo no tempo, que se justifica como lazer, mas que, se tornado busca, camufla fugas e reforça estruturas de desespero. Recordo-me de uma vez em que essa noção ficou tão clara e densa que tive a sensação de poder tocá-la. Saía de um dia de trabalho no hospital em véspera de feriado. Após inúmeras visitas muito pesadas, onde o infortúnio humano, as enfermidades e o sofrimento se tornaram opressivos, comecei a me preparar para voltar para casa. A tarde estava especialmente linda e o fim de minha tarefa do dia me preenchia de realização. Estava muito contente por poder sair daquele local e vislumbrar a miríade de possibilidades de meu longo fim de semana, e me entreguei por inteiro a um sentimento de liberdade e gratidão. Pensei: “Posso fazer tudo: ir ao cinema, jantar fora, trabalhar em casa tranquilamente, viajar etc.” Num segundo momento, porém, percebi que poderia fazer algumas dessas coisas, mas não todas. Percebi que minha alegria era virtual. Percebi que tinha opções e que era isto que me alegrava. Ficar está relacionado ao sonhar com as opções do agora, fantasiar com o agora. A distinção é que as opções do presente são reais e a fantasia do presente é a criatividade. Se pudermos nos rejubilar com as incríveis possibilidades e opções do agora, utilizando-nos da criatividade, nos tornaremos viajantes do ficar, planejadores do presente e senhores da esperança. Há muita gente com inveja daqueles que podem se dar ao luxo de sonhar com o futuro, quando deveriam invejar e tomar como modelo aqueles que conseguem sonhar com seu presente. Entre partir e ficar, é o último que representa a vida acima de qualquer coisa. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Purezas e impurezas O sábio Hilel fez o seguinte comentário: “Entre os que estão de pé, não te sentes. Entre os que estão sentados, não fiques de pé.” Tal afirmação em nossos dias parece bastante controversa. Ela poderia traduzir uma postura de conformismo que desencorajaria tanto a liberdade como a criatividade. Mas talvez devamos nos empenhar um pouco para resgatar um significado mais profundo dessa afirmação sem nos precipitarmos em julgá-la como reacionária. Em particular pela pessoa do autor da afirmação. Esse tipo de frase por certo melhor caberia a Shamai, seu opositor, cuja função era fazer valer a polaridade da obediência, da severidade e da disciplina. O fato de ser Hilel que faz tal afirmação, a polaridade da tolerância e da individualidade, requer maior reflexão. Na busca pela sabedoria e pela verdade, nos dedicamos a compreender o mundo que nos cerca da forma mais ampla possível, tentando fazer com que a realidade seja mais inclusiva e que englobe todos os aspectos e dimensões que estejama nosso alcance. No entanto, nunca somos capazes de dar conta de todos os meandros da realidade. Em dado momento, temos de realizar um “fechamento”, uma aproximação, que, mesmo não sendo a realidade absoluta, nos permitam lidar com a vida de forma concreta e pragmática. A condição de nossa existência é a de sermos diferenciados, de sermos uma parcela em meio ao todo. Por isso, por mais liberais, tolerantes e ecléticos que sejamos, há um limite e nele se faz necessário resgatar a especificidade e a particularidade. Esse limite é a fronteira que a Antiguidade identificava pelos conceitos de puro e impuro. Essa fronteira seria o extremo onde a ideia de “entre os teus que se sentam, senta-te; entre os teus que se colocam de pé, põe-te de pé” se torna uma sabedoria. Aquele que não honra esse tipo de limites gradativamente vê sua vida perder sentido ou até mesmo vitalidade. A essência de nossa vida não está contida apenas numa estrutura física que nos mantém, mas, acima de tudo, numa estrutura existencial que se alimenta do que lhe é próprio e que se enfraquece quando exposta àquilo que trai a natureza do que lhe é próprio. É exatamente pela incapacidade de manter essa estrutura existencial que se esvai nossa vitalidade. Precisamos estar constantemente reparando e cuidando da manutenção de nossa estrutura existencial que nos permite lidar com a vida e com a realidade sob formas absolutas mesmo quando sabemos que do ponto ******ebook converter DEMO Watermarks******* de vista intelectual isso é uma impossibilidade. Por várias vezes mencionamos que somos parte do todo, mas, para nos conectarmos com o todo, dispomos apenas do aparato de nós mesmos. O todo, se não é mediado por esse aparato, nos sufoca e nos invade de vazio. A sensação de horror que vivenciamos diante da desintegração de qualquer uma de nossas faculdades é a sensação de estarmos sendo engolidos, tragados por este todo-nada que invade e corrompe. Nesse sentido, o todo e o vazio representam uma mesma essência, e a única forma que temos de nos relacionar com ela é pela nossa especificidade e pelo nosso indivíduo. É essa a tênue fronteira que separa a transcendência do terror. É ela que determina se algo nos é puro ou impuro. O relato dos momentos finais da vida de Reb Simcha Bunam retrata essa questão. Conta-se que nos últimos momentos de vida sua esposa irrompeu num choro convulsivo e Reb Bunam tentou consolá-la: “Por que você está chorando?”, disse ele. “Minha vida inteira não teve outro propósito que o de me ensinar a viver este momento, não tinha outra finalidade senão a de que soubesse como morrer.” Em vez de perceber naquele evento a culminância da falta de sentido, Reb Bunam alerta para uma visão diametralmente oposta: tratava-se do pináculo de todos os propósitos. A capacidade de perceber a realidade dessa forma positiva e não destituída de sentido depende de nossa relação com o puro e o impuro. De um lado de Reb Bunam estão o desespero e o pavor impuro do vazio; de outro, a transcendência e a pureza da plenitude. Ficamos assim mais próximos de entender que por puro e impuro se buscava apontar para distintas instâncias, foros ou alçadas da existência que são próprias ou impróprias à vida. O impuro seria a perda das fronteiras que nos distinguem e que nos garantem a separação necessária para sermos indivíduos e imprimirmos com isso sentido à nossa vida. O impuro, portanto, não seria uma essência, mas a qualidade de qualquer essência quando esta não honra a sua natureza e aparece adulterada de si mesma. O puro, por sua vez, seria a preservação de uma pertinência a si mesmo, não abrindo mão em momento algum de sua parcialidade diante do todo. É isso o que diz Reb Bunam a sua mulher: “Calma, não estou sendo invadido e devorado pelo vazio. Ao contrário, estou diante do pleno sentido de minha individualidade!” A permissividade existencial que caracteriza as impurezas é produto da incapacidade de se afirmar a individualidade e a especificidade. E essa não é uma tarefa fácil. Como esse indivíduo e especificidade estão em constante mutação, nosso trabalho existencial consiste em estarmos de posse ou na ******ebook converter DEMO Watermarks******* presença desse nosso novo ser a cada instante. Mas é somente essa especificidade cuidada com todo o esmero que pode nos afastar da ilusão do desespero. Dessa forma vemos o quão imprescindível é preservarmos nossas diferenciações e nossa individualidade. É essa diferença que nos protege do vazio. Afinal, nossa individualidade é um sistema especialmente desenhado para nos distinguir do vazio, permitindo-nos acesso ao Todo e ao que chamamos de existência. Reb Bunam não está disposto a entregar essa individualidade, mesmo diante de seu último instante. Esse instante pertence à individualidade, o que, por definição, o preenche de sentido e não de vazio. A pureza desse momento em Reb Bunam está em ser a si mesmo, indiferente ao fato de estar no limiar de não ser mais a si mesmo. Vamos nos ater a um caso específico de impureza – o suicídio. Para a tradição judaica, esse ato rende a pessoa de tal forma impura que é necessário até mesmo o ato ritual de enterrá-la em lugar separado, no perímetro externo do cemitério. Por um lado, o suicídio é uma decisão definitiva, que afeta não apenas a pessoa que toma a decisão, mas todas as pessoas que essa pessoa poderia vir a ser no decorrer de sua vida. Ele decide por si e por todos que um dia poderia vir a ser. Ou seja, todas as diferentes percepções e mentalidades que poderia vir a ter e ser no futuro ficam à mercê da compreensão daquele único instante. Faz assim uso de uma opção no presente que não é, por definição, uma opção do presente. Faz com que o presente e o futuro confluam e se misturem, gerando grande intensidade de impureza. O suicida desconhece que a compreensão não é estática, mas que se dá também no tempo; que uma de suas coordenadas é a própria existência. Esta compreensão não é apenas um entendimento absoluto de uma verdade de que se possa ter maestria num único momento, mas a relação constante entre o que se compreende e aquele que compreende. O suicida não se restringe apenas ao sujeito que tira a sua própria vida, mas a todo aquele que toma decisões definitivas e as torna “fechadas” pela vida afora. Todas as questões fechadas inibem a possibilidade de sermos outra pessoa, outro pai, outro amante, outro irmão etc. Somos suicidas toda vez que usurparmos ao presente instâncias que pertencem ao futuro. O enfermo, em particular o dito “terminal”, deve estar muito atento para que esse tipo de impureza não se dissemine por todas as áreas de seu ser. Até o derradeiro momento de vida, estamos compromissados com a pureza, com o reconhecimento das instâncias da vida. ******ebook converter DEMO Watermarks******* As impurezas são produzidas em particular quando não conseguimos descerrar os véus da vida sobre o vazio, preservando nossa fronteira com o Todo. Ver diretamente, sem véus, ofusca a vida e suas diferenciações. Nessas condições, a luz é tão intensa que tem a mesma essência da escuridão – ela nos ofusca e nos cega. Conta-se no Talmude que o Rabi Jonatan (considerado um homem muito bonito) foi visitar o Rabi Eleazar, que estava doente. Assim que o viu, o Rabi Eleazar começou a chorar. O Rabi Jonatan então lhe perguntou: “Por que choras, Eleazar?” O Rabi Eleazar respondeu: “Choro por causa de tua beleza, cujo destino é a terra...” Os dois então irromperam em choro. Devemos aprender a todo custo a não mesclar a vida de morte além de seu 1/7 constante. Se o fazemos, produzimos impurezas da ordem da morbidez em nossa vida, assim como ao impormos Amor e expectativas de vida à morte nos poluímos de desespero. Esse talvez seja o sentido mais profundo da frase de Hilel: se nos sentarmos entre os que estão de pé, não conseguiremos jamais estar sentado entre os sentados. Seremos um “de-pé-sentado”, zumbis entre os sentados. Há instâncias a serem respeitadas e a vida é a maior delas. Saber preservar sua relação com a morte sem conspurcaruma da outra é estar sentado entre os sentados e, quando for para se estar de pé, estar de pé entre os que estão de pé. Compreender essa relação entre condição e existência é a única forma de nos salvarmos. A origem do senso de pureza e impureza nos seres humanos está encravada na própria existência. Não é apenas produto da necessidade de categorizar a realidade de acordo com nossas preferências e preconceitos, mas decorre da experiência humana de a cada momento e a cada situação se ter uma dimensão de vida e de não vida. Não existe neutralidade, meio-termo. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Montepios e previdências para mortais Um dos tratados do Talmude versa sobre um mandamento bíblico que dá origem a seu título – Peah. Essa palavra hebraica significa “os cantos” ou “as bordas”. Trata-se da orientação para que durante a colheita se deixe as bordas dos campos intactas. Diz o mandamento: “E quando cortardes a ceifa de vossa terra, não acabareis de segar o canto de vosso campo... para o pobre e para o estrangeiro os deixareis.” No sentido mais literal, trata-se de uma lei de fundo social. No entanto, no tratado talmúdico o campo e a colheita são compreendidos num sentido simbólico de tal forma que o campo denota o “potencial de vida”, e a colheita, a “produção de uma vida”. Fazendo uso de imagens agrícolas de maneira simbólica, nos é dito: “Estes são os quatro ativos cujos juros [frutos] podemos usufruir neste mundo, enquanto seu capital principal fica preservado para o mundo vindouro: 1) honrar nossos pais; 2) realizar atos de benemerência; 3) apaziguar aqueles que disputam; e 4) o estudo, acima de tudo.” Primeiramente, essa afirmação tenta esboçar a relação entre mundos distintos. Como obter o melhor resultado que é a possibilidade de se usufruir deste mundo passageiro sem comprometer nosso investimento maior na eternidade. Ou melhor, como honrar essa individualidade que somos sem comprometer nossa participação no Todo. Como desfrutar neste mundo dos “juros”, enquanto a essência do “ativo” se preserva. Se prestarmos atenção, veremos que os itens listados são formas de Amor, representando os ativos da própria vida e da ordem. São todos exemplos de relações de desapego, que é o único tipo de natureza capaz de transcender ao mundo da Verdade. E essas são as componentes capazes dessa transcendência: a Evolução (honrar os pais); a Ecologia, em seu sentido absoluto (solidariedade, benemerência); a ampliação da Ordem (apaziguar); e, por último, a Consciência (estudo). Estes são os ativos que são transferíveis ao outro mundo e que permanecem influenciando este mundo. A Evolução, a Ecologia, a Ordem e a Consciência são expressões de Amor que se somam e que progridem em parceria com o mundo vindouro. A morte tem sociedade em todos esses esforços da própria vida. Não seria possível à vida realizar tais empreendimentos sem contar com a morte como sua parceira. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Essas, porém, são questões abstratas, cuja compreensão nunca nos será permitida, a não ser dessa forma velada. Falamos assim de seus contornos, porque seu objeto é o nada. Só podemos calcular suas” órbitas”, mas jamais as capturaremos por qualquer um de nossos sentidos, a não ser da maneira que apontamos antes – através de nós mesmos, de nossas experiências e particularidades. Tudo o que alimenta o particular e ao mesmo tempo se preserva no Todo, ou seja, se salva, tem a ver com este conceito de Peah, com o abandono das bandas do campo para que outros possam entrar e colher o que lhes é essencial. Para esse lado da vida e do Amor, é fundamental compreendermos que não podemos “raspar a panela”. De todos os comportamentos, este é o que mais rapidamente nos arranca a fé e a esperança, lançando-nos ao desespero. “Colhe do teu campo” significa que todos nós plantamos, semeamos e colhemos em nossa vida resultados desse esforço. “Deixa as bordas” significa que se deve ter cuidado para que não se queira preencher todos os espaços da vida apenas de si. Permitir que os outros colham das bordas de seu campo é uma função simbiótica, sem a qual nenhum ser humano se salva. São estes convites à entrada de outros e de suas necessidades que permitem que levem o que é de nosso campo a outras paragens, como pássaros que fertilizam outras espécies, sem saber. Nós também podemos contribuir em outros “campos de possibilidades”, muito além dos limites de nós mesmos. Se reservarmos as bordas do campo (Peah) em todos os momentos de nossa vida, se não ocuparmos tudo, se não “rasparmos a panela”, então, por definição, o próprio vazio deixado como espaço para os outros preenche o nosso mundo de algo além de nós mesmos. Quando o nosso mundo é maior do que nós então há “salvação”. Não estamos tratando aqui de comprar e garantir “lotes” no mundo vindouro nem de indultos e muito menos de se ganhar “pontos” nos céus. A “salvação” é garantida pelo simples fato de que fazemos parte de um Todo. A experiência e a forma com que vivenciamos este mundo é que determinam isso. Se não nos permitirmos abrir mão dos cantos e se não fizermos contato por essas bordas com o mundo que nos cerca, estaremos perdidos e teremos encontro marcado com o desespero. O desespero vê o mundo que é transitório e se mortifica pela incapacidade de se salvar na efemeridade de sua existência. Sem ramificações de nosso campo no campo dos outros, sem essas bordas que perdem a clareza de sua propriedade, não podemos preservar para além de nossa individualidade e ******ebook converter DEMO Watermarks******* estamos prontos a ser deletados da realidade. Daí Hilel nos alertar para que não estejamos “de pé” entre sentados. Esse ensinamento de deixar bordas refere-se à capacidade de aceitação de nosso 1/7 que não faz parte de nós. Fala da possibilidade de não preservar a pureza da vida honrando nossa individualidade ao mesmo tempo que nos protege da impureza de buscarmos a cada momento nos preencher inteiramente de nós mesmos. Eu e não eu, o Tu, são a combinação mágica que salva. Em cada integração de vida que nos é possível não ocupar tudo, não pensar em tudo ou não querer tudo, há um convite implícito ao outro. A morte se faz presente nesse outro, não como um anjo inoportuno, mas como uma dosagem repleta de Amor que a cada inoculação nos torna mais imunes ao terror e à falta de fé. Este é um fato conhecido desde tempos muito antigos. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Consolo e con-todos Esta interação com o outro é a essência do consolo. Um conto que é tradicionalmente relatado no final do primeiro período de luto no judaísmo, ao término do sétimo dia, explica o antigo costume de se comer bolos de mel nesta ocasião: Uma mulher estava inconsolável pela perda de um filho. Tentara fazer de tudo para vencer o luto, mas não conseguia. Seus dias eram amargos, suas lembranças transformaram-se em tortura e sua incapacidade de lidar com o desmoronamento de sua fé a estava consumindo. Em desespero, esta mulher procurou um rabino e lhe disse: “Rabino... não aguento mais. Pelo amor de Deus, faça algo... algo mágico que me tire deste fosso terrível em que me encontro...” O rabino ponderou: “Algo mágico?... Muito bem. Vou pedir-lhe algo difícil.” A mulher reagiu de imediato, com esperança: “Faço tudo, qualquer coisa, rabino...” Ele então procedeu com ar grave: “A senhora terá de conseguir ingredientes bastante especiais para fazer um bolo mágico. Um bolo feito da farinha de uma pessoa que nunca tenha tido nenhuma perda na vida e mel de uma outra pessoa que também não tenha sofrido qualquer tipo de perda na vida. Com esses ingredientes, a senhora fará um bolo e o comerá... e encontrará consolo.” E assim foi. A pobre mulher pôs-se a procurar os tais ingredientes, mas não havia porta em que batesse onde não houvesse alguém com uma história de perdas para lhe relatar. Perdas de pessoas queridas, doenças que implicavam limitações e perda de faculdades, pobrezas que enlouqueciam mães e pais e opressão de toda a sorte. Pais sem filhos,filhos sem pais, esposas sem maridos, maridos sem esposas, irmãos sem irmãos, amigos sem amigos. Pouco a pouco, a mulher foi se consolando. Voltou então ao rabino com um bolo. Não era feito dos ingredientes mágicos, mas este bolo conseguira retirá-la do luto. O nome de tal bolo passou a ser lekach, que significa em hebraico “porção” ou “quinhão”. A mulher compreendera que cada um de nós tem o seu quinhão. Aquela mulher precisava resgatar uma dimensão de justiça que não estivesse confinada à justiça do indivíduo. Isso porque a justiça na esfera do ******ebook converter DEMO Watermarks******* indivíduo não dá conta da morte, ou mesmo de qualquer outro tipo de perda. Para se consolar, um indivíduo deve sair de seu pequeno mundo e se abrir para uma realidade diferente, de con-todos. É esta realidade de todos, do Todo, do outro e da morte contida na própria natureza da vida que tem de ser internalizada e elaborada na solidão, no consolo. Porém, a possibilidade de se encontrar esta paz não está dentro de nós. Torna-se fundamental que sejamos abraçados pela comunidade, pela espécie ou mesmo pela vida como um todo e que nos seja afirmado: “Não tomes isto como algo pessoal... a vida contém isso tudo, não está fora da vida, fora de sua individualidade e de seu sentido. Resgata o belo, o maravilhoso e a gratidão por tudo ter sido possível...” Para que haja a possibilidade de consolo, é prerrogativa que não se “raspe a panela” e que se tenha espaço para que, nas “bordas”, o quinhão dos outros nos permita fazer parte de uma realidade e de uma justiça maiores do que aquelas sob o comando dos nossos desejos e expectativas. A justiça da vida, a do planeta e a de outras estruturas maiores são as únicas capazes de dar conta da realidade da morte. Sozinhos estamos num mundo que não tem saída, ou melhor, cujas saídas não conseguimos reconhecer como tais. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Surdo, sim. Cego, não! Se, por um lado, o consolo é importante para não produzir impurezas que nos conduzam ao desespero, por outro é fundamental darmos conta da tristeza e de nosso inconformismo. Toda pessoa enlutada tem o direito (talvez a obrigação) de brigar com Deus, com a Natureza ou mesmo com a Ordem como parte de seu consolo. Deve, portanto, reconhecer que sua expectativa de estruturas de ordem perceptíveis a partir da dimensão do Amor foi traída. Já vimos que essa “traição” é parte de tudo pelo qual somos gratos e que, portanto, é próprio (puro) para o vivo chorar, lastimar e mesmo “estremecer” as relações com a vida. Tal conflito, quando sadio, restitui uma fé mais profunda do que a existente anteriormente. Essa nova fé passa a ser marcada por níveis maiores de entrega típicos de quem conseguiu aceitar o que deve ser, em vez de pautar-se por aquilo que gostaria que fosse. Nesse “estremecimento”, no entanto, muitos se perdem. Diríamos, talvez, que há instâncias que são apropriadas para essa mágoa e outras que não o são. Reb Its’ chak de Berdichev é uma referência para a tradição judaica no que diz respeito à demarcação entre as mágoas e as revoltas próprias e impróprias. Certa vez, quando sua comunidade estava sob grande sofrimento, vivendo grande violência e miséria, ele deu vazão a seu sentimento de forma bastante contundente. Reb Its’ chak tomou uma frase litúrgica presente nas orações diárias e fez um sagaz jogo de palavras. Tomado por empatia e dor pelo sofrimento de sua comunidade, em vez de recitar “Quem é como Tu entre as forças (elim) do Universo, ó Eterno?”, ele pronunciou “Quem é como Tu entre os surdos (ilmim) do Universo, ó Eterno?”. Elim, as forças de Deus, podem em dado momento ser apropriadamente tomadas por Ilmim, por surdez. Já havíamos definido anteriormente, em A incomunicabilidade da visão acerca da diferença entre a esfera do ouvir e a do ver. O ouvir simboliza a dimensão do Amor e da ordem, enquanto o ver simboliza a dimensão da Verdade. Esta é a razão de podermos nos comunicar verbalmente pelos órgãos que têm ambas as funções de recepção e de emissão. A escuta também é a mídia para o mais importante testemunho no judaísmo, e que postula: “Ouve, Israel, o Eterno é nosso Deus, o Eterno é Um.” “Não se exige um testemunho da vida que não seja da ordem de ouvir. Pedir que se visse seria exigir um enxergar desvelado que é impróprio a nossa natureza e só amplia dúvidas e ******ebook converter DEMO Watermarks******* impurezas. A responsabilidade do ser humano e da vida é ouvir. Portanto, nada mais justo que numa relação ‘estremecida’ a própria divindade seja acusada de ‘surda’. É surda porque não nos ouve; não a tratamos, no entanto, por ‘cega’, pois junto com o inconformismo preservamos nossa fé naquilo que é maior do que nós. Nessa dimensão, quem somos nós para atestar por uma possível cegueira? A acusação de ‘surdo’, porém, está dentro dos limites apropriados à vida.” Com isto, o Reb Its’ chak chama nossa atenção para formas construtivas de se estar triste, deprimido ou inconformado. Há instâncias onde cabem esses sentimentos temporários, e o consolo é obtido por um criterioso respeito a eles. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Enumera teus dias Uma das passagens mais evocadas pela mística judaica é a narrativa bíblica que conta sobre os primeiros espiões que Moisés enviou à Terra Prometida. A tensão desse episódio reside na reportagem que os espiões fazem do que viram em sua incursão. Dez dos 12 componentes deste grupo, apesar de impressionados com a abundância da terra, fizeram um relatório negativo e assustador sobre os habitantes da região. Descreveram seu poder equiparando-os a gigantes e disseminaram pavor entre o povo. Em sua fala, sob a influência do medo e da falta de fé, chegaram a cometer um lapso que o texto bíblico registra: “a gente da terra é muito forte e nos consideramos a nossos olhos como gafanhotos”. Na verdade, deveriam ter dito que “a seus olhos” (e não “a nossos olhos”) seriam como gafanhotos. Esse lapso em sua fala revela uma predisposição inconsciente ao temor e à inferioridade. O tema dessa passagem serve como estrutura para nossa realidade psíquica. Todos nós enviamos “espiões” para rastrear as possibilidades da “terra prometida”, a conclusão de nossa vida. Imaginamos e fantasiamos o futuro enquanto nossos “espiões” trazem reportagens. A grande maioria delas é de falta de fé. Olhamos os nossos destinos com os olhos do medo e trazemos relatos que nos atemorizam. Mas, afinal, como poderiam esses espiões trazer outras informações, se o que haviam visto era de fato povos bem organizados, poderosos e numerosos? Parece claro que não poderiam fazer outro relato e que, portanto, não é no conteúdo, mas na natureza de seu relatório que se encontra a chave da questão. Os outros dois espiões, no entanto, viram a mesma coisa e analisaram sua informação de forma bastante distinta. Ao apresentarem seus relatórios, os espiões estavam considerando apenas o que viram, sem computar por um segundo a sua própria realidade e situação. Eles já haviam experimentado tantos milagres e prodígios para que chegassem onde haviam chegado, mas, ao que tudo indica, não conseguiam interiorizar o que lhes acontecera. Um mar tinha sido aberto para eles, comida havia caído dos céus, brotara água da rocha, mas nada disso foi suficiente para fazer frente à mensagem que traziam do futuro. O passado, por mais esplendoroso e glorioso que tenha sido, reduz-se a nada diante das necessidades de agora e do futuro. Já havíamos tocado nesse assunto ao comentarmos a “síndrome da torta de queijo”. ******ebook converter DEMO Watermarks******* O objetivo deste episódio é justamente o de buscar dar conta dessa questão. Sua lição é contundente – as reportagens do futuro, de nosso destino, serão para nós desesperadoras se não soubermos nos proteger da mesma maneira que fizeram os espiões cujos relatórios foram favoráveis. E como conseguiram isso? Eles simplesmente dispunham da habilidade de registrar o que lhes havia acontecido no passado mantendo-o em interação com seu presente.A alegria, a benesse e a gratidão do passado não perdem valor ou essência no presente. Elas permanecem influenciando a maneira de olhar este presente e também o futuro. Em outras palavras, a vida é cumulativa e não pontual. Os Salmos apontam para esta lição, dizendo: “Enumera teus dias.” Enumerar propõe uma relação entre esses dias que não nos permite vivê-los como capítulos isolados de vida. As atitudes do passado e de hoje estão formatadas, configuradas pela sensação de que os dias são numerados – finitos. O futuro, por sua vez, também é moldado pelo fato de que tudo o que se viveu até ele já levava em conta uma vida na qual esse futuro era parte. É como se o futuro, de alguma forma, também influenciasse o passado. Para melhor compreendermos o processo de uma vida “amarrada” pela enumeração de seus dias, talvez devamos imaginar a forma com que os raios solares atuam. Seu efeito é cumulativo, ou seja, a quantidade de radiação do sol que tomarmos em qualquer momento se torna parte de nós. Podemos parar de tomar sol e permaneceremos com o mesmo nível de sol absorvido. Essa absorção revela a nossa própria história em termos da quantidade de radiação solar a que ficamos expostos. Na vida, também as coisas não se extinguem; elas se somam, de tal forma que o próximo momento será por definição distinto do anterior. Por essa definição, seria possível conceber que mesmo que nada acontecesse durante toda uma vida, a própria passagem do tempo já significaria em si uma vida. Sendo assim, mesmo que no dia de hoje nada tenha acontecido de marcante comigo, exatamente porque meus dias são numerados, estou em outra posição de vida, fazendo com que a paisagem vista deste mirante seja totalmente distinta daquela do dia anterior. Para a “síndrome da torta de queijo”, esta é uma resposta: a torta de queijo de hoje não é igual à torta de queijo de ontem. E se estivermos falando de uma dada torta de queijo como sendo a última, com certeza ela não será a mesma torta de queijo que você já provou antes. O desespero encontra-se em se acreditar que não vale mais a pena tentar comer outra vez torta de queijo. As experiências não são repetitivas e ******ebook converter DEMO Watermarks******* estanques como imaginamos. Se fossem, estariam em contradição com a própria vida, cuja característica maior é movimento, mesmo quando estamos “parados”. Esta é a mensagem que o Reb Nachman passa a seus discípulos nos últimos instantes de sua vida. Ele diz: “Já vivi todos os meus dias e todas as minhas etapas. Portanto, pedir para viver mais é um contrassenso. Viver o dia de hoje como vivi o dia de ontem constitui o abandono da vida.” É essa mesma certeza que o faz interpretar a frase dos Salmos de Davi que diz: “Agora sei que Tu és o Senhor.” Ele se questiona: “Como pode o Rei Davi dizer ‘Agora sei’? Acaso então não sabia antes?” E Reb Nachman ensina: “Claro que sabia, mas não da maneira que sabe agora.” A vida é cumulativa e, quando deixar de ser, quando se tornar um ponto isolado e dissociado, com seus dias não enumerados, perderá sua essência. Para os espiões que trazem um relatório favorável da “terra prometida”, o passado é o grande avalizador do futuro, assim como é o Amor que avaliza pela Verdade. Seu segredo, que acaba por permitir a chegada a essa “terra prometida”, resume-se na possibilidade de ficar marcado pelo bem e pela ordem da mesma maneira que somos marcados pelo mal e pelo caos. E isso não é fácil. Certa vez ouvi o comentário de um rabino que dizia nunca ter sido procurado por uma família a quem algo de bom tivesse ocorrido, com uma questão teológica do tipo: “Rabino, por que Deus fez isto de bom comigo? Por que logo comigo?” As pessoas só ficam teologicamente intrigadas quando coisas ruins lhes acontecem. Na verdade, quantas vezes as pessoas acorrem a sacerdotes para “consolar-se” de coisas extraordinárias que lhes tenham acontecido e para as quais não têm resposta? Pois é exatamente por nos permitirmos ficar perplexos com algo de bom que nos acontece, sem tomarmos a ordem por algo dado, como processo óbvio e obrigatório por parte do universo, que podemos integrar a gratidão no espaço normalmente alocado ao pavor. Coletar nossa vida e trazê-la conosco, não aceitando que fique espalhada pelo tempo do passado, faz com que sejamos e nos sintamos hoje a soma dessa acumulação. Para tal, é muito importante sermos o que nos acontece. Antes, já abordamos a questão da interação entre existir e a condição específica onde se existe. Dessas interações em que nos encontramos em nossos “agora mesmo”, produzimos uma existência que é composta hoje da alegria ou do prazer vividos ontem. Precisamos ser o que nos acontece, e não apenas sorver nossas situações como se fossem descartáveis e desconectadas. Segue- ******ebook converter DEMO Watermarks******* se uma história: Um jovem rapaz envolvido com práticas ascetas veio até o rabino de Rizin, pedindo que lhe ordenasse rabino. O rabino inquiriu-o sobre seus hábitos e observâncias. O rapaz foi logo se exibindo de suas práticas: “Eu constantemente me visto de branco, não bebo outra coisa que não seja água, coloco pregos em meu sapato para mortificar-me, rolo nu pela neve apesar do frio e peço diariamente que o zelador da sinagoga me castigue com quarenta chibatadas nas costas.” Nesse instante, um cavalo entrou no jardim, começou a beber água e rolar pela neve. “Veja bem...”, disse o rabino, “essa criatura é branca, bebe apenas água, tem pregos em seus cascos, rola na neve e recebe mais do que quarenta chibatadas todos os dias. Mesmo assim, não é nada além de um cavalo!” Se nossa vida não faz parte de nós, se ela é simplesmente como um casco que se desgasta com o uso ou se é consumida pelo tempo, então nada permanece. O fim dos dias é o fim do crédito. O fim dos dias é o fim da ordem. É a bancarrota da existência e, certamente, razão para desespero. O discípulo dessa história chassídica poderia ser qualquer um que se encontrasse diante dos portões dos céus sendo inquirido sobre como vivemos nossa vida. Podemos responder: “Construí, amei, gozei, sofri, experimentei, banquei, resisti, tomei, entreguei.” Se não tivermos interagido com todas essas vivências, tornando-as parte de nós e nos fazendo completos, poderemos ser comparados a qualquer cavalo ou a qualquer coisa que por definição possa experimentar as mesmas condições e situações. Sem um eu para amalgamar a vida, então ela não passa de uma infinidade de fragmentos estéreis, sem sentido. Enumera teus dias, que eles te darão a moldura necessária para constituir teu eu. Faz da morte e da finitude a única estrutura fundamentada sobre a qual é possível construir a vida. Nessa condição o agora é eterno, tão eterno quanto tu fores. E se essa eternidade não te satisfaz, saibas que jamais te será dado conhecer na dimensão do Amor qualquer outra eternidade que não seja o conjunto total e enumerado (sem acréscimo ou decréscimo de uma infinitesimal fração de instante que seja) daqueles que são os teus dias. ******ebook converter DEMO Watermarks******* ******ebook converter DEMO Watermarks******* Mostra-nos um amor que possamos compreender (Reb Nachman de Bratslav) Há um segredo fundamental para que possamos buscar uma medida apropriada daquilo que a vida pode nos prover. É bom, agradável, nos traz paz quando sabemos exigir na proporção certa aquilo que podemos obter. Um pouco menos e um pouco mais e nos tornamos grosseiros, como convidados que não sabem se comportar diante do anfitrião. Essa impropriedade, seja para um lado ou para outro, é o que chamamos de morbidez. Podemos ser mórbidos ao exigirmos menos da vida, mas, com certeza, também podemos sê-lo ao exigirmos além do que é próprio. Há pessoas muito “alegres” e eufóricas neste mundo que são tão mórbidas quanto outras que se manifestam pela depressão e pelo desencanto. Esse segredo traduz uma aceitação tácita de que por mais iluminados, ou por mais que busquemos transcender, somos limitados em nossa especificidade. Ser vivo é não poder trair essadimensão de diferenciação que é a própria vida. Haverá sempre a expectativa de que nos possa ser mostrado um Amor que possamos compreender. Tal pergunta e tal expectativa, no entanto, não parecem poder ser saciadas pela existência. Encontramos evidências disso num relato do Talmude sobre um outro Rabi Nachman, este do século IV, nos instantes finais de sua vida: Rava estava ao lado da cama de Rabi Nachman no instante em que este começou a partir deste mundo. Enquanto o Rabi Nachman dava seus últimos suspiros, Rava suplicou-lhe: “Aparece diante de mim [depois que morreres].” Nachman morreu e acabou mostrando-se a Rava num sonho. Rava perguntou: “Sofreste muito?” O Rabi Nachman respondeu: “Foi fácil e simples como retirar um fio de cabelo de uma vasilha de leite. Mas, por acaso, se Deus dissesse a mim ‘Vai e volta ao mundo de onde vieste’, eu não quereria ir. O medo da morte é muito grande por lá.” Rabi Nachman fala da morte como um episódio leve e suave na essência ******ebook converter DEMO Watermarks******* do seu transcorrer. No entanto, ainda desse lado, antes da própria experiência em si, fica impossível traduzir em Amor o que já definimos antes como sendo parte da esfera da Verdade. É justamente o nosso desejo centrado em nossa especificidade que não consegue dar conta de outro desejo que já não é mais da ordem do particular. Deus, ou mesmo a dimensão da Verdade, é “ecoimparcial”, de uma maneira que não nos é possível compreender. Esse sistema “ecológico” que tem de dar conta de todas as necessidades e verdades da Criação a um só tempo é que é responsável pela realidade que se manifesta. E essa ecologia não diz respeito apenas à rede interconectada daquilo que é vivo, mas também à rede daquilo que não é vivo. É uma ecologia que envolve mais do que o presente, entrelaçando-o com o passado e o futuro. É uma ecologia de vasos comunicantes não só no espaço (meio ambiente), mas também no tempo (meio crônico). Lidarmos com essa “vontade divina” que não pode identificar-se com a nossa vontade particular é algo muito complexo. Na verdade, esta é a mais radical proposta do monoteísmo: revelar por meio da equação de que “Deus é Um” uma única vontade que responda por todas as vontades. Na proposta em que cada um podia ter o seu deus particular, as distintas vontades desses deuses promoviam grandes combates para que estas prevalecessem. O mundo do Deus Único, por sua vez, é um mundo muito difícil, porque o mesmo Deus que presta contas ao vencedor também tem de prestar ao derrotado. Aceitar que Deus é Um implica necessariamente que o Amor não nos possa ser mostrado explicitamente para que o compreendamos de forma particularizada. Um ensinamento de extrema sabedoria na perspectiva de reconhecer esse limite é encontrado na “Ética dos Ancestrais” (2:4): “O Raban Gamaliel dizia: ‘Faz a vontade Dele como se fosse a tua, pois assim far-se-á a vontade Dele como a tua; abre mão de tua vontade por conta da vontade Dele, para que se abra mão da vontade de outros por conta da tua vontade.’” Não apenas nos é ensinado que é fundamental a entrega, o abrir mão de nossa vontade para que o que deve ser possa ser, mas o ensinamento vai bem mais longe. Esperaríamos que a simetria da primeira afirmação se repetisse na segunda, ou seja, “abre mão da tua vontade diante da Dele, para que Ele abra mão da Sua vontade diante da tua”. Isso, no entanto, não é dito. Há uma assimetria proposital que encerra um significado existencial de primeira grandeza. Cumprir com as expectativas do que identificamos divino não nos garante o que imaginaríamos como recompensa em reciprocidade. Nossa ******ebook converter DEMO Watermarks******* recompensa não é a imposição universal de nossa vontade, mas a permissão para que, ao declinarmos de nossa vontade, ela possa em outro momento também se impor a uma vontade de outro ser. São dadas aqui, portanto, duas coordenadas da vida, uma vertical e uma horizontal. Na vertical, nos deparamos com a entrega oriunda do esforço deliberado de fazer convergir a nossa vontade e a Vontade divina. Na horizontal, vemos definida uma espécie de coordenada ecológica, por meio da qual renunciamos à nossa vontade para que em outras instâncias outros possam realizar o mesmo, privilegiando nossa vontade. Assim sendo, o Amor na coordenada horizontal se processa como na frase “de ti eu recebo, para ti eu dou e disso nós vivemos”. Já o Amor na coordenada vertical diz respeito a sabermos de alguma forma o que é a vontade divina e podermos realizar as necessárias manobras e crescimentos que permitam que nos honremos mesmo quando temos de transcender nosso próprio desejo. Essa busca da vida para conseguir transcender e abrir mão enquanto se honra a si mesmo é justamente a busca de querer saber identificar a vontade divina e torná-la nossa. É essa componente (juntamente com a componente da sobrevivência e da manutenção de nós mesmos) que nos traz alegria e paz. Qualquer outro caminho é vazio e esbarra na insuportável esterilidade de nossas próprias vontades. Encontramos, portanto, nesse dito dos ancestrais uma inter-relação distinta daquela que normalmente concebemos entre a transcendência e a honra daquilo que somos. Imaginamos que devemos primeiramente nos honrar, para só então trazermos à pauta a questão da transcendência. O ensinamento nos sugere o oposto. Primeiramente, busca a transcendência porque ela é fundamental para o conhecimento daquilo que te honra. É como se num nível muito simplista estivéssemos dizendo a uma espécie: “Conhece primeiro as diretrizes de tua evolução antes mesmo de cuidares da tua sobrevivência.” Ou seja, reconhece a si mesmo antes do seu desejo, porque você é mais do que o somatório dos seus desejos. É essa Vontade anterior a todas as vontades já sentidas e que serão sentidas que sacia verdadeiramente as nossas carências. O relato que se segue da morte do sábio Reb Sussia nos oferece um exemplo seminal de nossas verdadeiras demandas e compromissos: Reb Sussia era um homem de grande bondade e em seus últimos momentos de vida se encontrava junto de seus mais queridos discípulos. Eles estavam profundamente angustiados, não só pela eminente perda do ******ebook converter DEMO Watermarks******* mestre, mas porque este estava muito agitado, como se algo o preocupasse. Um deles voltou-se ao rabino e inquiriu sobre a razão de tanta aflição. Reb Sussia então disse: “Estou com medo do Tribunal Celeste...” Os discípulos ficaram perplexos: como podia uma pessoa do porte humano do Reb Sussia temer a auditoria celeste? Como uma pessoa tão bondosa poderia estar receosa de prestar contas de sua vida? O rabino prosseguiu: “Não tenho medo de que me cobrem porque não fui neste mundo como o profeta Moisés, que tanto realizou pela humanidade. Não tenho medo porque posso sempre responder que não fui Moisés porque não sou Moisés. Também não temo que me cobrem não ter sido como o filósofo Maimônides, que tanto fez por nossa tradição, porque posso sempre responder que não fui Maimônides porque não sou Maimônides. No entanto, temo e me apavoro com a possibilidade da pergunta: ‘Reb Sussia, por que não foste Reb Sussia?’” Vemos aqui invertida a questão existencial primordial. Em vez de pedir-se que o Amor seja apresentado de uma forma compreensível para que possamos nos perceber “salvos”, há a expectativa de que a vida na dimensão do Amor possa ter sido o mais convergente possível com a Verdade que a envolvia. Em vez da súplica para que a dimensão da Verdade seja traduzida no mundo do Amor, espera-se de nós que não permitamos que a experiência do Amor comprometa a nossa relação com a dimensão da Verdade. Estar em dia consigo, ter sido a si mesmo (Reb Sussia ser Reb Sussia), é mais do que alimentar todas as nossas necessidades e mais do que honrar sentimentos e valores. Ser a si mesmo é poder manter uma estreita relação com a dimensão da Verdade, mesmo quando neste mundo tudo o que almejamos e buscamos seja traduzir em Amor nossas experiências. Reb Sussia sabe que temos um encontro marcado coma dimensão da Verdade, simbolizado por um tribunal. Nesse tribunal, somos confrontados com nossa capacidade de ter vivido em meio à nossa busca por Amor, nosso compromisso com a Verdade. O desespero nada mais é do que o diferencial, o montante credor, da má integração da Verdade em nossa vida. Quanto mais restritos e apegados ao Amor, mais limitada fica a nossa “salvação” e mais presente o sentimento da iminência de algo ruim e da própria extinção. ******ebook converter DEMO Watermarks******* ******ebook converter DEMO Watermarks******* Rastreando os limites Se, por um lado, a história de Reb Sussia é tão fundamental como ensinamento para os vivos, por outro ela pode ampliar nossa ansiedade. Afinal, quem de nós pode garantir que realmente cumpriu seu papel consigo mesmo durante sua vida? Há, no entanto, uma janela sempre pronta a estabelecer contato entre o Amor e a Verdade. Este é o fundamento principal para que se negue ao desespero um caráter absoluto. A Verdade e o Amor estão sempre juntos e representam uma mesma realidade percebida por nossos sentidos que se sensibilizam pela dualidade constante. Numa história com estrutura similar, descobrimos que existe ainda outra instância superior a esta em que se encontra Reb Sussia e à qual podemos recorrer num ponto ainda mais extremo do limite entre o Amor e a Verdade. Conta- se sobre Reb Elimelech, da cidade de Lizansk (século XVIII): Disse Reb Elimelech: “Quando eu morrer e encontrar-me diante da corte celeste, hão de me perguntar se cumpri com o que deveria ter sido. E eu responderei que não. Perguntarão se estudei tudo o que deveria ter estudado, e novamente direi que não; ou indagarão se orei o quanto deveria ter orado, e desta vez também terei de dar a mesma resposta: ‘não!’ Então, o Juiz Supremo sorrirá para mim e dirá: ‘Elimelech, você expressou a Verdade [foi sincero]. Mesmo que apenas por isso, você já tem o seu lugar no mundo vindouro.’” Elimelech faz menção a uma instância superior onde basta que se mantenha constante contato com a vida, não abrindo mão da honestidade e evitando as dissimulações que tentam nos proteger de nossos medos, para que sirva como um cordão umbilical ligando este mundo e o mundo vindouro. Vemos, assim, que até mesmo num último momento, quando a própria possibilidade de cumprir a vida já se esvai, é possível honrá-la pela espontaneidade e pela sinceridade. Talvez quando nos fazemos tão verdadeiros, sem perceber estejamos participando na dimensão da Verdade e a possamos vivenciar com menos medo e sem a sensação de sua crueza e de seu amargo. Até o derradeiro instante isto é possível, embora não seja simples realizá-lo. A grande maioria de nós tentaria replicar a algumas das perguntas do Tribunal, tentando se defender e se explicar. Elimelech tem uma visão ******ebook converter DEMO Watermarks******* muito boa de si mesmo e não se vê distorcido por expectativas além de sua própria. Ele sabe que não fez tudo o que deveria, mas sua honestidade é a garantia de que tentou tudo o que estava a seu alcance. E os céus se desarmam diante da vida que simplesmente é; e a Verdade se dissolve em Amor pela propriedade de tudo o que é a si mesmo e de todo aquele que ocupa seu próprio ser. Por isso, para tantas tradições, o “arrependimento antes da morte” é tão fundamental. Tal conceito pressupõe a capacidade de entrega necessária para não nos depararmos com o desespero. O limite, no entanto, não é vivido de forma pontual. Seria fácil se a entrega se constituísse de um único e triunfal momento em que aceitamos o que é maior do que nós e que este maior nos incluísse. O limite, no entanto, é cercado por dores, por contrações da morte, por apegos e, acima de tudo, ele não é vivido num único momento, mas numa infinidade deles. Podemos realizar inúmeros esforços de transcendência e sinceridade do tipo que o rabino Elimelech realizou, mas é difícil manter tal atitude por longos períodos de tempo e são comuns as recaídas de angústia diante da perda de controle. Para lidar com o limite e, eventualmente, com nossa própria finitude, somos obrigados a vivenciar experiências semelhantes às que conhecemos em nosso nascimento. Há o rompimento da bolsa, há encaixes e movimentos de toda a sorte para sairmos desse meio e ingressarmos em outro. O Reb Nachman considerava que o enfrentamento dessas limitações devem ser pela maestria da arte do bitul (anulamento). Para ele, todos nós dispomos desse incrível recurso de podermos nos anular. Basta que fechemos os olhos, abdiquemos de sentimentos e sensações e neutralizemos nossos pensamentos. Para ele, toda pessoa tem condições de fazer isso. Mestres ou iniciados podem fazê-lo de maneira mais fácil e prolongada, mas qualquer um pode permanecer em estado de bitul por um certo tempo. E o bitul é bastante importante nesse processo de “encaixe” para o “parto”, a esta nova dimensão. Se perseveramos na tentativa de bitul, acabamos por evocar uma consciência distinta, que nos confere laivos de paz sem abandono e sem tristeza. A cada saída desse estado de bitul, temos um encontro marcado com o impulso ao desespero, mas, se o olharmos de frente, descobriremos que pouco a pouco aceitamos o bitul com maior intensidade, a ponto de um dia nos sentirmos prontos para uma entrega absoluta a ele. Por mais angustiantes que sejam esses momentos, mesmo que não saibamos mais honrar a nós mesmos, isso tem a ver com permanecer na luta e no apego, ou, se tem a ver ******ebook converter DEMO Watermarks******* com a entrega total rumo a esse parto que nos aniquila, devemos perseverar no bitul. Quase magicamente o fechar os olhos acolhendo uma dor ou um sofrimento dá lugar a um abrir de olhos com um novo sentido. E esse novo sentido é um salto que se produz da esfera de nossa individualidade e particularidade para a esfera do Todo-Nada. O que antes era vazio, matéria- prima do próprio desespero, passa, agora, a ser o meio que nos adota e conforta. O bitul nos aproxima da parcela da morte que faz parte de nós mesmos, esse 1/7 que também nos preenche e que nos é tão familiar, como os 6/7 de vida aos quais nos apegamos tão profundamente. Na dor de cada um de nós, nos olhos que se esforçam por ver, essa realidade já nos é familiar. Se, por um lado, nossa ignorância e nosso desejo de manipular a realidade são inesgotáveis, por outro, nossa lembrança do desconhecido também é verdadeira. Este 1/7 de nós que vara a existência com a inexistência é uma essência de nós que não se dissipa e nos oferece o recurso para dar conta do desespero. A grande obra da Criação, seu toque máximo, foi imiscuir ambos os mundos, da existência e da inexistência, um no outro. Essa porcentagem de morte que existe na vida e, provavelmente, de vida que há na morte, macula ambos os mundos e nos faz pertinentes ao ser e ao não ser. Ou, como diz a “Ética dos Ancestrais” (4:29): Os que nascem estão destinados a morrer; os que morrem, a ser vivificados... Não penses que a tua sepultura é teu refúgio, pois sem o teu consentimento foste formado, sem o teu consentimento foste nascido, sem o teu consentimento foste feito viver, sem o teu consentimento foste feito morrer e sem o teu consentimento te será exigido prestar contas. A Verdade se traduz por todas essas dimensões que estão fora do alcance de nossa vontade e que não dependem de nosso consentimento. É justamente pelo nosso descontrole que podemos tomar contato com uma regulamentação superior que ordena o que nem sempre nos parece em ordem. Querer compreender para além disso é querer exercer controle sobre aquilo que não nos é dado controlar, da mesma forma que, como diz o comentário, tornar a sepultura o final da linha é estratégia racional de dar uma solução conhecida ao desconhecido. É sobre limites que versa primordialmente o Livro de Jó. Trata-se de um livro que teria tudo para depor contra os interesses das religiões, uma vez que elimina a possibilidade de a fé ser compreensível. Deus dá uma resposta ******ebook converter DEMO Watermarks******* própria da dimensão da Verdadea Jó, e lhe oferece como resposta acolher seus próprios limites. E essa “resposta”, por mais incompreensível e frustrante como resposta, é um ato de carinho e preocupação. No Livro de Jó, o limite é tratado como uma entidade. Sob o nome de Satã, aquele que bloqueia e limita (do verbo hebraico “obstaculizar”), esse “anjo” tem como função estabelecer fronteiras, impedindo que possamos perceber a dimensão de Amor presente na Verdade, origem de todo o sentimento de desespero. Fazer as pazes com esses limites personificados, ou seja, com o que é satânico e com o Anjo da Morte, é admiti-los como parte intrínseca e fundamental de nós mesmos. Nos olhos vermelhos e flamejantes dessas entidades está estampada a própria realidade de nossa especificidade e de nossa essência limitada. Satã é a casca, a pele, o raio máximo de nossa visão ou as frequências máximas e mínimas entre as quais fica nossa audição; enfim, representa tudo aquilo que nos limita. Abençoado é o limite que nos limita. Dele são feitas nossa especificidade e nossa existência. Também é dele que se fazem nossa ignorância, nosso temor e, particularmente, nosso desespero. ******ebook converter DEMO Watermarks******* A impermanência da morte O Livro de Eclesiastes é um livro importante no que tange à questão do desespero. A obra, atribuída ao Rei Salomão, é uma análise objetiva e crua que se propõe olhar a realidade sem romantismos e subterfúgios. A palavra mais recorrente do texto é justamente aquela que fustiga o desesperado – o vazio dos vazios. O texto não se furta de evocar a temida sensação de ausência de sentido, afirmando que apenas o viver, e não a vida, faz sentido. “Vazio dos vazios!”, clama o sábio. “O vazio é a essência de tudo, o coração da realidade.” Com uma incontestável lucidez, kohélet, o coletor de sapiências, fala ao coração de nossa experiência existencial. Para muitos, a existência desse livro como parte do cânone do Velho Testamento parece em contradição ao mundo da fé. No entanto, esse livro, bem com o de Jó, são chaves indispensáveis para representarmos de forma fidedigna deste lado da realidade os limites que nos apartam da dimensão da Verdade. Seria o vazio, este nada que parece restar depois de uma vida inteira de realizações e esforços, de busca de sapiência e de prazer, seria ele o próprio desespero? Em seu livro O coletor de sapiências o Rabino Rami Shapiro coloca a seguinte fala na boca do kohélet: “Você ainda não aprendeu a verdade do vazio... Veja o sol: ele se levanta e se põe e volta novamente a levantar-se. Acaso reclama de sua tarefa, mesmo que sua luz sempre tenha que dar lugar à escuridão? Veja o vento: sopra para o sul e depois para o norte, sempre circundando, sem nunca chegar. Acaso reclama? Veja o rio: derrama-se sobre o mar, sem nunca enchê-lo, e tem as águas pela chuva retornadas à sua nascente para fluir por si uma vez mais. Acaso reclama pelo mar não se tornar nunca repleto?” Inquiriu o discípulo: “Somos então prisioneiros de nossa natureza que nos compele a fazer o que jamais será feito?” Respondeu kohélet: “Por acaso você quer dizer que a tarefa do sol é fútil? Que é melhor viver na escuridão? Você sugere, acaso, que o leito de um rio é inútil? Melhor seria a terra seca sem o seu verde? “Você é um ser humano e os seus desejos é que são fúteis... tão fútil ******ebook converter DEMO Watermarks******* quanto seria o rio se quisesse preencher o oceano. O rio deseja fluir. O sol deseja levantar-se e pôr-se novamente. “O vento deseja soprar.” Esses desejos que fazem sentido, que não são fúteis, são prisioneiros do mundo da existência e da função. Para poder olhar filosoficamente para além das fronteiras desses desejos, um ser humano não tem outra saída além de recorrer ao instrumental do místico. Para este, o vazio não é o caos, mas um rompimento. Dessa perspectiva, o vazio é o único indicador de razões para além da funcionalidade. O vazio é como um indispensável mestre na arte de suportarmos a descontinuidade de nosso conhecimento. O lugar em que a razão, a causalidade e a previsibilidade cessam, ao contrário do que poderia parecer, não é o local do desespero, mas seu único antídoto. O vazio fala da impermanência de tudo e não exclui disso a própria morte. Tudo nesse universo é fluxo, e “empalhar” a morte como permanente é estender a arrogante expectativa do conhecimento sobre o que foge ao conhecimento. Citávamos anteriormente que “o que nasce se destina a morrer; o que morre se destina a ser vivificado...”. A impermanência é também um fundamento da morte. A morte não é um hábito, mas uma engrenagem essencial da própria transformação. É sobre esta estrutura que kohélet nos diz que tudo é “igual debaixo do sol”. Tudo se repete, tudo é conhecido, porque a realidade não pode ser mudada, ela é a própria mudança. A morte escura, eterna, de uma solidão absoluta e impossibilitada de comunicar-se com o que lhe é externo é uma imposição humana de grande impertinência. Mais uma vez, a “Ética dos Ancestrais” (3:20) é certeira: O Rabi Akiva dizia: “Tudo é dado sob caução, e a rede está estendida por sobre toda a vida. A loja está aberta, e o guardião da loja dá a crédito, e o livro de contabilidade está aberto, e a mão anota, e todo aquele que deseja tomar algo que venha e tome, e os coletores fazem suas rondas diariamente, e coletam os pagamentos dos seres vivos com ou sem o seu consentimento, pois possuem o penhor e a cautela para tal. E as transações são transações da Verdade, e tudo está pronto para o banquete!” O vazio fala de uma interdependência cujos custos e benefícios contabilizáveis são extraídos de uma única dimensão, quando os reais custos e benefícios dizem respeito a todas as dimensões. Como o fio que cose, visto ******ebook converter DEMO Watermarks******* pelo lado de dentro da camisa, adentra esse lado e ressurge nesse lado. O botão fixado por um lado é mistério fundamentado no vazio pela perspectiva do outro lado da camisa. A vida toma emprestado da morte, e a morte da vida, criando um banquete que na dimensão da Verdade não se esgota jamais. A eternidade da morte é o desejo de preencher o desconhecido com um desconhecido que é o oposto do conhecido. Camuflado, o desejo de controle faz com que a morte seja da ordem do pesadelo – um encadeamento de medos do conhecido. Este é o desespero nu, que, na tentativa de ocultar sua nudez, combina o terrível com o ridículo. Todas as compras, empréstimos, créditos e contabilidades culminam no banquete – custos e benefícios são sempre as realidades do outro lado. Seja no 1/7 de morte deste lado, ou no 1/7 de vida do outro lado, só nos é dado reconhecer no vazio a acariciante certeza do mistério. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Quando Deus for um Temos tratado de avaliar as nossas limitações em conhecer as verdadeiras regras do “jogo” do qual fazemos parte. Intuímos das profundezas de nossas experiências uma ordem intraduzível por inteiro na realidade discernível à nossa volta. No entanto, a possibilidade de desmascarar o desespero é um esforço sobre-humano da civilização. Esforço bem-sucedido, herança lapidada de lágrimas e questionamentos angustiantes que permite que nossos filhos venham a um mundo que continua explodindo de alegria e fé na juventude. Um mundo que vê graça e razão para continuar construindo. Poderíamos, é claro, argumentar que este é um fato inexorável e que toda a vida na ascensão da juventude não se permite ouvir o desencanto da velhice, da doença ou da perda. Mas não é assim. Quisessem os pais, de dentro de suas casas, declarar que este mundo é insensato, que a existência é insuportável pelo que lhe causa a inexistência, e este seria um mundo de grande desespero, e a vida sob a forma humana já estaria há muito extinta. As inaceitáveis injustiças deste mundo em suas inúmeras épocas e eras já poderiam ter dado conta de nossa sobrevivência consciente há muito tempo. Há um relato sobre o Rabi Ishmael, um homem de grande fé que presenciou grandes massacres de inocentes diante de seusolhos e tentou agarrar-se à sua fé como quem crava as unhas em uma haste para não ser levado pelo furacão da desesperança. Conta, no entanto, o Talmude que esse homem foi levado ao limite da capacidade humana. Ao ver seu mundo ser destruído, sua família perseguida e morta, e estando ele submetido à tortura, liberou um grito que sacudiu os céus. Tão penetrante e perturbador foi o brado que a própria dimensão da Verdade intimou o Grande Guardião a tomar uma atitude. Deus teria então dito ao Rabi Ishmael: “Solte mais um grito destes e retornarei tudo a seu caos original.” O Rabi Ishmael tinha diante de si a possibilidade de vingar todos os momentos insanos em que brados foram sufocados pelo silêncio de não encontrarem qualquer interlocutor. A ele era dada a chance de dizer ao “mau” e ao “imperfeito” e ao “inaceitável” um basta definitivo. A tortura prosseguiu até a morte do Rabi Ishmael, mas ele não mais gritou. Encravado em sua garganta e entranhas ficou um grito que impediu, como acontece em todas as gerações, que se declarasse a existência como destituída de sentido. A cada ******ebook converter DEMO Watermarks******* instante, a decisão de estabelecer o caos original se encontra ao alcance de mães que choram por seus filhos, barrigas que roncam diante da indiferença e de qualquer instância sagrada que seja profanada. Esses gritos não proferidos são a prova maior da intuição coletiva, da própria espécie humana, de que o sentido existe e está em nós escrito sem que nos seja possível dominá-lo e apreendê-lo. E por mais inatingíveis que sejam os limites do sentido, a verdade é que temos de lidar com eles. Como um peixe colhido por uma rede ou um pássaro abatido em pleno voo, somos retirados desta existência subitamente; para quem deste lado permanece, a ruptura com a dimensão do Amor é absoluta. No entanto, diz essa mesma intuição-instinto que nos preservou a cada geração dos gritos derradeiros de figuras como o Rabi Ishmael que a realidade absoluta não é esta. Esta é a realidade refratada pelo meio de nossos limites. Entre as manifestações dessa resistência intuitiva, encontramos um versículo bíblico de Deuteronômio (4:39) que diz: “E saberás hoje, e considerarás no teu coração que o Eterno [ Ha Shem – O Nome] ele é o teu Deus [Elohim], em cima nos céus e embaixo na terra, não há nenhum outro.” A exclamação “Saiba: O Nome [ Ha Shem] ele é o teu Deus [Elohim]” encerra um segredo muito especial, a ser compreendido apenas no momento final de nossa existência nesta dimensão. Essa frase é, na verdade, o antídoto final ao desespero para a tradição judaica, expresso também na afirmação quase idêntica: “Sh’má Israel (Ouve, Israel) YHWH ELOHEINU ([ O Nome de) Deus é Deus) Hashem Echad (o Nome é Um).” Reb Nachman esclarece o sentido secreto dessa expressão. Nessa frase estão contidas duas facetas da realidade: a compaixão ( chessed) e a justiça estrita ( gevurá). Saiba que elas são Um. YHWH – o Juiz severo – é Elohim – o Compassivo. Elohim é YHWH. YHWH é Um. A Verdade e o Amor são Um. “Devemos”, dizia Reb Nachman, “num momento de insuportável dor ou tormento, fechar completamente os olhos a este mundo, num esforço supremo para focalizar apenas a verdade transcendente: de que o bem e o mal, que o inaceitável e o prazeroso são Um.” Ou, como no versículo: “Neste dia, YHWH será Um e Seu Nome Um” (Zac 14:9), sobre o qual o Talmude comenta. Questionavam-se os sábios: “Por que ‘neste dia’? Acaso não é Um hoje?” Eles mesmos responderam que “hoje” abençoamos a Deus com a expressão “o bom que é benfeitor” (bênção proferida diante de algo positivo que nos acontece), enquanto para coisas amargas e difíceis o abençoamos com a expressão “o Juiz da verdade”. A conexão entre essas realidades é ******ebook converter DEMO Watermarks******* oculta à grande maioria. No futuro, no entanto, interpretaram os sábios, “neste dia”, ainda por vir, abençoaremos a Deus por tudo apenas como “o bom que é benfeitor”. O nosso futuro é compreender que o propósito maior é de natureza idêntica àquilo que qualificamos como ordem e Amor. “Neste dia” a ordem e a desordem serão Um – serão ordem. De tal maneira funciona esta afirmação do “Sh’má Israel” (Ouve, Israel!) como símbolo dessa compreensão maior, que os mestres cabalistas apontam para o detalhe de que a palavra Um ( echad) tem valor numérico idêntico à palavra Amor ( ahavá). Ambas traduzem-se numericamente pelo 13. Aquilo que é Um é a própria dimensão do Amor que transcende nossa compreensão como uma forma de Amor. “Neste dia” toda forma de Amor nos será compreensível como tal. Esse dia esperado é visualizado como uma experiência coletiva, de todos, ou do Todo. Ao mesmo tempo, ela nos é individual também no momento de partida deste mundo. Não é por acaso que o Vidui (a “extrema-unção” no judaísmo) termina repetindo sete vezes: “YHWH hú ha-Elohim”, o Juiz e o Compassivo são UM, a Verdade e o Amor são UM. Esta é a certeza com que partimos deste mundo. Assustados pela avassaladora descoberta, como que tomados pelo susto de nunca termos juntado uma coisa com outra, a morte nos arranca uma última perplexidade desde essa margem. Fechar os olhos e suavemente poder reconhecer, mesmo que de forma fragmentada, que os opostos da dor e do prazer, da alegria e da tristeza, da conquista e da perda exaltam a mesma realidade, abre caminho à entrega. A entrega espera, ela nunca desespera; ela jamais nos nega a espera. Como afirmou Reb Nachman, esta vida é uma ponte muito estreita; o fundamental é não temê-la. Alguns corrigem isso e dizem que o dito original não é “não temê-la”, mas não temer a “si próprio”. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Epílogo de outra dimensão Reb Nachman morreu muito jovem. Ele foi acometido por uma doença fatal com a idade de 38 anos, e por conta da enfermidade precisou submeter-se a intervenções cirúrgicas e a procedimentos bastante dolorosos. Isto ocorreu no início do século XIX, no interior da Rússia, quando não existiam anestésicos eficientes e recorria-se à vodca para aliviar o sofrimento. Conta a lenda que Reb Nachman sempre se recusava a beber, preferindo cantarolar uma melodia. As cirurgias eram feitas “a seco”, enquanto ele usava a cantilena para afastar a dor. Aparentemente, Reb Nachman se utilizava dessa melodia como um instrumento para atingir estágios de bitul (autoneutralização). Conta-se que, no dia de sua morte, Reb Nachman chamou seus discípulos que estavam à volta do leito e lhes disse: “Não fiquem tristes com minha partida. Guardem esta melodia e, sempre que alguém estiver sofrendo, que alguém precisar da fé necessária para alcançar o bitul e o conforto, bastará que a cante. Onde quer que eu esteja, virei ficar ao lado de tal pessoa, ajudando-a a suportar seu tormento. Minha missão será, pela música, tornar evidente o fato de que essa condição é temporária.” Seja na luta pelo restabelecimento da saúde, quando entramos em pânico diante de nossos medos do conhecido, seja nos instantes em que temos de olhar de frente a nossa finitude, Reb Nachman e sua canção nos fazem olhar a besta, a fera do desespero, de outra maneira. Há sempre uma forma tranquila de retirar chá do samovar e servi-lo à existência; de jogar uma “partidinha de dominós” com a vida e relaxar no sofá, ao som de crianças que brincam e dos ruídos da cozinha. Alguém sempre está a preparar um banquete. Este epílogo se constitui de outra essência. Diferentemente das palavras e dos pensamentos aqui costurados, compartilho a melodia deixada por esse grande Reb, um gigante humano na arte de ser humano. E um humano que acreditava que honrando-se como humano seria o suficiente para dar conta de uma vida de alegria e espera. Possa esta melodia nos trazer o conforto de uma cantiga de ninar cheia de afeto e servir-nos como um tema que possamos assoviar ao caminhar pela ponte da vida. Mesmo com ela, ainda assim será uma ponte estreita, mas que não tenhamos medo nem dela nem de nós mesmos. Aprenda-a e a tenha sempre consigo. ******ebook converter DEMO Watermarks*******Concluído no décimo sexto dia da lua de Elul do ano de 5753 e revisada no Purim de 5765 ******ebook converter DEMO Watermarks******* Copyright © 1994, 2005, 2011 by Nilton Bonder Direitos desta edição reservados à EDITORA ROCCO LTDA. Av. Presidente Wilson, 231 – 8º andar 20030-021 – Rio de Janeiro – RJ Tel.: (21) 3525-2000 – Fax: (21) 3525-2001 rocco@rocco.com.br www.rocco.com.br Conversão para e-book mailto:rocco@rocco.com.br FREITAS BASTOS 2ª edição eletrônica ROCCO DIGITAL Coordenação Digital LÚCIA REIS Assistente de Produção Digital JOANA DE CONTI ******ebook converter DEMO Watermarks******* CIP-Brasil. Catalogação na Publicação. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ B694a Bonder, Nilton A arte de se salvar [recurso eletrônico]: ensinamentos judaicos sobre os limites do fim e da tristeza / Nilton Bonder. – Rio de Janeiro: Rocco Digital, 2011. recurso digital ISBN 978-85-8122-003-1 (recurso eletrônico) 1. Sofrimento – Aspectos religiosos – Judaísmo. 2. Morte – Aspectos religiosos – Judaísmo. 3. Livros eletrônicos. I. Título. 11-6862 CDD: 296.7 CDU: 26-4 ******ebook converter DEMO Watermarks******* RABINO NILTON BONDER é um escritor com 19 livros publicados. Reconhecido nacional e internacionalmente como pensador nas áreas de humanismo, filosofia e espiritualidade, seus trabalhos fizeram grande sucesso nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia. É autor de A alma imoral, O sagrado e Tirando os sapatos, editados pela Rocco, que lança, também, trilogia composta por A Cabala da comida, A Cabala do dinheiro e A Cabala da inveja. ******ebook converter DEMO Watermarks******* Document Outline Folha de Rosto Dedicatória Sumário Epígrafe Introdução I - Ordens e desordens Ocultamento – o meu, o seu, o nosso desespero Aié e Malé – Velamento e revelação Preservação – Distinguindo as dimensões de verdade e amor A concordata (nunca a falência) da consciência A entrega antes da entrega Estéticas fora do caos A estética das coisas no seu tempo certo (Davar Be-itó) A estética das coisas no seu lugar certo (Ba-asher Hu Sham) II - Ordens além da ordem “E viu que era bom.” Bom o quê? A morte A dinâmica das pausas 1/60 de morte 1/7 de morte Sabendo perder para o universo Ruim, não... amargo Amargo, não... bom Tachlis – Objetivamente, sem rodeios Lidando com o que não nos diz respeito Alegria como receptáculo A incomunicabilidade da visão – Nós não temos luz própria III - Desordem – Expansão por contração Com medo do conhecido Teria sido melhor não ter nascido! Os incríveis momentos em que não temos saída O maior de todos os terrores (leia em particular, se tem medo) O direito de pedir (Aquele que Ordenou que o Óleo Ardesse, que Diga ao Vinagre que Queime) IV - Abraçando a desordem A “esgotabilidade” da tristeza Saudades como falta de si mesmo Aprendendo a se salvar O ensinamento deste exato momento (Ora’at ha-sha’á) V - Segredos da desordem Os atrativos de se ficar Purezas e impurezas Montepios e previdências para mortais Consolo e con-todos Surdo, sim. Cego, não! Enumera teus dias Mostra-nos um amor que possamos compreender (Reb Nachman de Bratslav) Rastreando os limites A impermanência da morte Quando Deus for um Epílogo de outra dimensão Créditos O Autor Folha de Rosto Dedicatória Sumário Epígrafe Introdução I - Ordens e desordens Ocultamento – o meu, o seu, o nosso desespero Aié e Malé – Velamento e revelação Preservação – Distinguindo as dimensões de verdade e amor A concordata (nunca a falência) da consciência A entrega antes da entrega Estéticas fora do caos A estética das coisas no seu tempo certo (Davar Be-itó) A estética das coisas no seu lugar certo (Ba-asher Hu Sham) II - Ordens além da ordem “E viu que era bom.” Bom o quê? A morte A dinâmica das pausas 1/60 de morte 1/7 de morte Sabendo perder para o universo Ruim, não... amargo Amargo, não... bom Tachlis – Objetivamente, sem rodeios Lidando com o que não nos diz respeito Alegria como receptáculo A incomunicabilidade da visão – Nós não temos luz própria III - Desordem – Expansão por contração Com medo do conhecido Teria sido melhor não ter nascido! Os incríveis momentos em que não temos saída O maior de todos os terrores (leia em particular, se tem medo) O direito de pedir (Aquele que Ordenou que o Óleo Ardesse, que Diga ao Vinagre que Queime) IV - Abraçando a desordem A “esgotabilidade” da tristeza Saudades como falta de si mesmo Aprendendo a se salvar O ensinamento deste exato momento (Ora’at ha-sha’á) V - Segredos da desordem Os atrativos de se ficar Purezas e impurezas Montepios e previdências para mortais Con-solo e con-todos Surdo, sim. Cego, não! Enumera teus dias Mostra-nos um amor que possamos compreender (Reb Nachman de Bratslav) Rastreando os limites A impermanência da morte Quando Deus for um Epílogo de outra dimensão Créditos O Autor