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W BA 12 55 _V 1. 0 HEMATOPOIESE E MEDULA ÓSSEA 2 Tatiane Marques Londrina Editora e Distribuidora Educacional S.A. 2023 HEMATOPOIESE E MEDULA ÓSSEA 1ª edição 3 2023 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR Homepage: https://www.cogna.com.br/ Diretora Sr. de Pós-graduação & OPM Silvia Rodrigues Cima Bizatto Conselho Acadêmico Alessandra Cristina Fahl Ana Carolina Gulelmo Staut Camila Turchetti Bacan Gabiatti Camila Braga de Oliveira Higa Giani Vendramel de Oliveira Gislaine Denisale Ferreira Henrique Salustiano Silva Mariana Gerardi Mello Nirse Ruscheinsky Breternitz Priscila Pereira Silva Coordenador Camila Braga de Oliveira Higa Revisor Janainna Grazielle Pacheco Olegario Editorial Beatriz Meloni Montefusco Carolina Yaly Márcia Regina Silva Paola Andressa Machado Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)_____________________________________________________________________________ Marques, Tatiane Hematopoiese e medula óssea / Tatiane Marques, – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2023. 32 p. ISBN 978-65-5903-388-1 1. Hematologia. 2. Hematopoiese. 3. Medula óssea. I. Título. CDD 616.150092 _____________________________________________________________________________ Raquel Torres – CRB 8/10534 M357h © 2023 por Editora e Distribuidora Educacional S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. 4 SUMÁRIO Apresentação da disciplina __________________________________ 05 Hematopoiese _______________________________________________ 07 Interpretação das alterações hematopoiéticas ______________ 18 Análise laboratorial da hematopoiese _______________________ 28 Interpretação clínica das alterações na hematopoiese _______ 38 HEMATOPOIESE E MEDULA ÓSSEA 5 Apresentação da disciplina Olá, seja bem-vindo(a)! Hematopoiese, ou Hematopoese, é o nome dado ao processo de produção das células sanguíneas na medula óssea, a partir de células-tronco pluripotentes. No interior dos ossos, mais especificamente na medula vermelha, todas as células sanguíneas são produzidas mediante estímulos específicos para multiplicação, diferenciação e maturação das células-tronco. Inicialmente, são formadas duas linhagens principais: linhagem linfoide, da qual se originam os linfócitos T e B e as células NK, e linhagem mieloide, da qual se originam os eritrócitos, as plaquetas, os monócitos e os granulócitos (eosinófilos, neutrófilos e basófilos). Inicialmente, nesta disciplina, você compreenderá o processo de hematopoiese e como, a partir de uma única célula indiferenciada, podem ser formadas todas as células sanguíneas. Você verá também que este processo pode ser subdividido em três eventos principais: eritropoese, que se refere à produção de eritrócitos; leucopoiese, nome dado à diferenciação nos diversos tipos de células de defesa; trombopoiese, que é a formação de plaquetas a partir da fragmentação dos megacariócitos. Os processos que ocorrem na medula óssea para formação e diferenciação das diferentes linhagens celulares refletem diretamente na população celular presente no sangue periférico. Nesta disciplina, você aprenderá a reconhecer como as alterações na hematopoiese podem ser identificadas no hemograma, um exame que analisa o repertório celular do sangue periférico. Será que toda alteração está relacionada a um processo patológico? Ou será que podem ocorrer alterações fisiológicas sem danos ao organismo? 6 Falando em hemograma, não é apenas este exame que pode ser realizado para avaliar o repertório celular sanguíneo, mesmo porque nem sempre as células alteradas estão presentes na circulação sanguínea. Para avaliar diretamente as células-tronco hematopoiéticas e detectar a presença de populações clonais mutantes, é preciso avaliar o repertório celular presente na medula óssea. O exame que faz esta análise é chamado de mielograma e, para que ele possa ser realizado, devem ser coletadas amostras diretamente da medula vermelha, por aspiração em ossos chatos. Se necessário, ainda, pode ser feita uma biópsia, para avaliação de possíveis infiltrados celulares e neoplasias na matriz óssea. Vai ser muito legal estudar como é feito este exame, não é mesmo? Imagine só saber interpretá-lo e identificar alterações em populações celulares específicas. Sim, esta parte é fundamental em hematologia, pois, a partir das linhagens e subpopulações celulares alteradas, é possível realizar a triagem e até mesmo o diagnóstico de leucemias, anemias e síndromes mielodisplásicas! Nesta disciplina, você adquirirá todos esses novos conhecimentos. Bons estudos! 7 Hematopoiese Autoria: Tatiane Marques Leitura crítica: Janainna Grazielle Pacheco Olegário Objetivos • Compreender o processo de produção de células sanguíneas na medula óssea e os fatores envolvidos neste processo. • Diferenciar as fases da hematopoiese conforme o desenvolvimento do organismo humano. • Compreender a importância da correta identificação de cada linhagem celular no processo hematopoiético. 8 1. Hematopoiese Hematopoiese é o processo de divisão, diferenciação e maturação das células sanguíneas. Talvez, você conheça este processo como hemopoiese, um sinônimo que é atribuído a esta importante função dos organismos vivos. Durante a vida adulta, ocorre, principalmente, na medula óssea, mas, como você aprenderá nesta leitura, outros órgãos hematopoiéticos podem assumir esta função (Antunes, 2019). O termo hematopoiese refere-se ao processo geral de produção de todas as células sanguíneas (Figura 1). No entanto, para a hematologia, é importante diferenciar os processos de divisão, maturação e diferenciação de cada uma das células sanguíneas. Dá-se a estes processos diferentes nomes, conforme a linhagem celular que está se diferenciando (Hoffbrand; Moss, 2018), conforme você verá a seguir: • Eritropoiese: produção de eritrócitos. • Granulopoiese: produção de granulócitos (neutrófilos, basófilos e eosinófilos). • Monopoiese: produção de monócitos. • Linfopoiese: produção de linfócitos. • Trombocitopoiese: produção de trombócitos (plaquetas). 9 Figura 1 – Células sanguíneas e hematopoiese Fonte: Shutterstock.com. Independentemente da linhagem a que pertençam, as células sanguíneas possuem características comuns a todas elas, que incluem a vida-média curta, de horas a dias, e a origem medular a partir das células-tronco hematopoiéticas. Estas células são as mais imaturas no processo de hematopoiese e, a depender do fator de crescimento ao qual sejam expostas, se multiplicarão e se diferenciarão em uma das linhagens de células descritas anteriormente. O processo de hematopoiese ocorre ao longo de toda a vida do ser humano, iniciando-se na vida intrauterina e perpetuando-se até 10 o momento de sua morte. O conjunto de eventos de multiplicação e diferenciação celulares que ocorre durante este processo tem três funções fisiológicas: automanutenção do pool de células indiferenciadas, geração e manutenção do pool de células precursoras comprometidas com determinada linhagem celular e proliferação e diferenciação de células precursoras em células diferenciadas que se encontram na corrente sanguínea (Rodrigues, 2019). As células-tronco hematopoiéticas são classificadas em duas subpopulações, conforme Hoffbrand e Moss (2018): LT-HSC e ST-HAC. As células-tronco hematopoiéticas de longa duração (LT-HSC) são células de longa sobrevida, imaturas e indiferenciadas, que se multiplicam e mantêm o pool de células hematopoiéticas indiferenciadas e imaturas. Estas células estão,em geral, na fase G0 do ciclo celular e se multiplicam por divisões binárias mitóticas por toda a vida do indivíduo. As células-tronco hematopoiéticas de curta duração (ST-HSC) também são linhagens imaturas e indiferenciadas. Sua origem é derivada de divisões celulares assimétricas das células-tronco, dando origem a células-filhas LT-HSC e ST-HSC, estas últimas com maior potencial de proliferação e comprometimento para gerar precursores de diferentes linhagens. A diferenciação das ST-SHC resulta em células formadoras de colônias (UFC), e estas se diferenciaram em linhagens hematopoiéticas específicas, conforme o estímulo de crescimento ao qual são expostas. 1.1 Microambiente e fatores de crescimento Fisiologicamente, para que a hematopoiese ocorra normalmente, os órgãos hematopoiéticos precisam apresentar um microambiente favorável a este processo, garantindo a síntese e a secreção de substâncias que possibilitem a sobrevivência das células-tronco e das outras células progenitoras. Este microambiente é composto por outros tipos celulares, além das células progenitoras, que incluem as células do estroma medular: fibroblastos, osteoblastos, osteoclastos, células-tronco mesenquimais, adipócitos, 11 macrófagos, linfócitos e células endoteliais dos sinusoides medulares. Componentes acelulares, como as citocinas, os fatores de crescimento e as proteínas da matriz extracelular, favorecem a organização e a estrutura do órgão hematopoiético e são essenciais para manter a produção de células da linhagem sanguínea (Antunes, 2019). A regulação da hematopoiese depende, além dos fatores de crescimento solúveis secretados no microambiente, da interação célula-célula, por meio de ligação a receptores específicos em sua superfície. Estes fatores de crescimento, de natureza glicoproteica, são essenciais para a sobrevivência, a proliferação e a diferenciação das células-tronco hematopoiéticas. Ao se ligar a receptores específicos na superfície celular, os fatores de crescimento induzem a maturação e diferenciação das células-tronco em células precursoras comprometidas com uma das linhagens celulares. Além disso, citocinas e hormônios exercem atividade modulatória sobre a divisão celular e diferenciação, permitindo sua proliferação e diferenciação ou agindo em sinergismo na proliferação de uma subpopulação celular específica. O Quadro 1, a seguir, resume os principais fatores solúveis da hematopoiese e sua função hematopoiética: Quadro 1 – Glicoproteínas reguladoras da hematopoiese na medula óssea Fator de Crescimento Função na Hematopoiese G-CSF Fator estimulador de colônias de granulócitos GM-CSF Fator estimulador de colônias de macrófagos e granulócitos IL-6 Estimula a sobrevivência e diferenciação de células-tronco hematopoiéticas IL-3 Regulação da mielopoiese Eritropoietina Regulação da eritropoiese IL-7 Regulação da linfopoiese TPO Diferenciação de megacariócitos e produção de plaquetas Fonte: elaborado pela autora. 12 Estes são alguns exemplos dos principais fatores que regulam o processo de hematopoiese na medula óssea. No entanto, é importante que você saiba que, além destes estímulos, a quantidade de células na circulação periférica e outras demandas fisiológicas, como a presença de uma infecção, exercem forte influência na diferenciação celular. Além disso, os fatores estimuladores do desenvolvimento de células sanguíneas podem sofrer leve variação conforme o órgão hematopoiético envolvido neste processo. 2. Fases da hematopoiese A hematopoiese, como já mencionado anteriormente, ocorre, principalmente, na medula óssea, um processo que se inicia ainda na vida intrauterina. No entanto, fisiologicamente, a produção e a diferenciação de células sanguíneas podem ser realizadas em outros órgãos hematopoiéticos, como o fígado, a placenta e o saco vitelínico. Em algumas situações patológicas, como na aplasia de medula, a medula óssea pode se tornar incapaz de realizar a hematopoiese, função que é, então, assumida pelo fígado. A hematopoiese extramedular também pode se desenvolver na metaplasia, quando há expansão de tecido hematopoiético para regiões extramedulares, como o fígado e o baço (Rodrigues, 2019). Nos seres humanos, a hematopoiese inicia-se no saco vitelínico, a partir do trigésimo dia de formação do embrião e, durante esta fase primitiva, as células-tronco hematopoiéticas diferenciam-se apenas em eritrócitos. A partir da quarta semana de gestação, inicia-se a fase definitiva, quando o nicho hematopoiético passa a localizar-se na mesoderme. Nesta fase, a região da aorta-gônadas-mesonefro (AGM) do embrião é composta por células capazes de autorrenovação e diferenciação em todas as células hematopoiéticas (Rodrigues, 2019). Em torno da quinta semana de gestação, a hematopoiese migra para a placenta e para o fígado fetal, onde permanece por algumas semanas. Em torno da décima segunda semana de gestação, ocorre a migração para a 13 medula óssea em formação, onde permanece até o término do período gestacional e por toda a vida extrauterina (Antunes, 2019). Durante a infância, nos primeiros anos de vida, todos os ossos apresentam medula óssea vermelha e podem realizar a hematopoiese. Conforme a criança vai crescendo, até o período da puberdade, a medula ativa é gradualmente substituída pela medula amarela, composta por tecido gorduroso, fato que ocorre, principalmente, nos ossos longos. Segundo Rodrigues (2019), até o início da vida adulta, a medula óssea ativa fica restrita às epífises dos ossos longos e aos ossos chatos (pélvis, crânio, vértebras, costelas e esterno). Conforme a fase de vida do ser humano, a hematopoiese classifica-se em diferentes fases, conforme o órgão que assume esta função. As três fases são: mesoblástica, hepática e medular (Portilho, 2017). A Figura 2 traz as principais características de cada uma dessas fases: Figura 2 – Fases da hematopoiese Fonte: elaborada pela autora. A fase mesoblástica é conhecida também como fase extraembrionária, pois, nesta fase, as células mesodérmicas se agrupam no saco vitelínico do embrião e iniciam a produção de eritrócitos. Neste órgão, as células chamadas de hemangioblastos têm potencial para se diferenciar em células vasculogênicas ou células hematopoiéticas, ou seja, os eritroblastos primitivos. Esta fase perdura até a sexta semana de vida do embrião (Portilho, 2017). 14 Após este período, o coração e os vasos sanguíneos já estão formados e é possível ouvir os batimentos cardíacos fetais. Nesta fase, inicia-se a circulação sanguínea fetal e as células-tronco hematopoiéticas migram para o fígado, entre a quarta e a sexta semanas de gestação, marcando o início da fase hepática. Baço, timo e linfonodos auxiliam o fígado no processo de hematopoiese e resultam na produção de eritrócitos e megacariócitos no baço, granulócitos, monócitos e células linfoides no timo e linfonodos. Todas estas células passam a fazer parte da circulação sanguínea fetal (Portilho, 2017). A hematopoiese no fígado e nos demais órgãos acessórios declina gradualmente durante o avanço da gestação e, ao nascimento, as células sanguíneas são produzidas integralmente na medula óssea. As células- tronco hematopoiéticas iniciam a colonização da medula óssea por volta da décima primeira semana de gestação e aumenta gradativamente até o nascimento (Portilho, 2017). Na vida extrauterina, ou seja, no período pós-natal, as células sanguíneas são produzidas exclusivamente na medula óssea, mas podem sofrer maturação em outros órgãos linfoides. Os linfócitos T, por exemplo, migram ativamente para o timo, onde sofrem diferenciação. Conforme a criança cresce e completa seu desenvolvimento, estas células alojam-se nos linfonodos, junto aos linfócitos B (Portilho, 2017). Agora que você já compreendeu a importância do processo hematopoiético e conhece os órgãos responsáveis pela produção das células sanguíneas na vida intrauterina e após o nascimento, você conheceráas linhagens celulares. 3. Linhagens celulares As células-tronco hematopoiéticas, denominadas também hemocitoblastos, são células pluripotentes, a partir das quais se originam todas as células 15 sanguíneas. Estas se multiplicam por divisão binária, em sucessivos processos de mitose, mantendo a população de células-tronco pluripotentes, característica essa que é denominada autorrenovação. Conforme o estímulo para sua diferenciação, dependente da secreção de glicoproteínas e hormônios, estas células-tronco são capazes de diferenciar- se nas diferentes linhagens sanguíneas. Outra importante característica atribuída a estas células é a capacidade de colonizar a medula óssea e reconstituir o sistema hematopoiético, por exemplo, após a realização de um transplante de medula óssea (Silva, 2016). As células tronco pluripotentes, após sua diferenciação inicial, diferenciam- se em duas linhagens celulares principais: células mieloides e células linfoides, que são também chamadas de células progenitoras multipotentes (Silva, 2016). Observe a Figura 3 e veja que, a partir da linhagem linfoide, formam-se os Linfócitos B e Linfócitos T. A linhagem mieloide, por outro lado, além dos granulócitos e monócitos, também pode se diferenciar em eritrócitos e megacariócitos, as células que dão origem às plaquetas. Figura 3 – Linhagens celulares mieloide e linfoide Fonte: Shutterstock.com. 16 As células progenitoras também são dotadas da propriedade de autorreplicação por mitose, para manter a população celular. Mediante estímulo de crescimento e diferenciação, estas células se diferenciam em células precursoras imaturas, os blastos. Este último tipo celular não é capaz de autorreplicar-se e já está comprometido com a diferenciação em um tipo celular específico, determinado pelas citocinas e pelos hormônios secretados pelo organismo (Antunes, 2019). Eritropoiese, nome dado ao processo de produção dos eritrócitos, inicia-se a partir da diferenciação das células progenitoras mieloides em proeritroblasto, na presença do hormônio eritropoetina, secretado pelos rins. Logo após, segue o processo de diferenciação nos seguintes tipos celulares: proeritroblasto eritroblasto basófilo eritroblasto policromático eritroblasto acidófilo (ortocromático) reticulócito eritrócito maduro, que é liberado na corrente sanguínea (Silva, 2016). Os granulócitos, derivados também de uma célula progenitora mieloide, diferenciam-se em um processo chamado de granulocitopoiese ou mielopoiese (Melo; Silveira, 2019). Os leucócitos granulócitos são assim chamados devido à presença de grânulos (azurófilos e específicos) em seu citoplasma. São três os tipos celulares com esta classificação: basófilos, eosinófilos e neutrófilos. O processo de diferenciação destas células segue esta ordem: mieloblasto promielócito mielócito metamielócito granulócito com núcleo em bastão mielócito maduro (basófilo ou eosinófilo ou neutrófilo). As plaquetas não são células, e sim fragmentos celulares resultantes da fragmentação do megacariócito, o último tipo celular derivado dos progenitores mieloides. A trombocitopoiese inicia-se a partir da diferenciação do progenitor em megacarioblasto, a célula mais imatura já comprometida com a formação das plaquetas. O megacarioblasto se diferencia diretamente em megacariócito, que, após a fragmentação de seu citoplasma, dá origem a milhares de plaquetas (Melo; Silveira, 2019). 17 O progenitor linfoide é comprometido apenas com a formação de Linfócitos T e Linfócitos B (Melo; Silveira, 2019). Estas células seguem a seguinte sequência de maturação: progenitor linfoide linfoblasto prolinfócitos Linfócitos T ou Linfócitos B. Os Linfócitos T migram para o timo, onde completam sua maturação, e o Linfócitos B permanecem na medula óssea até sua ativação (Portilho, 2017). Hematopoiese é um processo complexo estimulado por diferentes citocinas, quimiocinas e até mesmo hormônios, que ocorre, na vida extrauterina, essencialmente na medula óssea dos ossos chatos e ossos longos. A medula vermelha é colonizada por células-tronco pluripotentes, que são autorreplicativas e podem se diferenciar em progenitores mieloide e linfoide. A partir destes progenitores, são formadas todas as células sanguíneas do organismo, inclusive aquelas responsáveis pelo sistema de defesa (Portilho, 2017). Referências ANTUNES, S. R. Hematologia Clínica. Porto Alegre: SAGAH, 2019. HOFFBRAND, A. V.; MOSS, P. A. H. A. Fundamentos em Hematologia de Hoffbrand. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018. MELO, W.; SILVEIRA, C. M. Laboratório de Hematologia. Teoria, Técnicas e Atlas. 2. ed. Rio de Janeiro: Rubio, 2019. PORTILHO, N. A. O papel da placenta na ontogenia do sistema hematopoiético: origem, distribuição espacial e perfil fenotípico e de expressão de células comprometidas com a hematopoiese. 2017. Tese (Doutorado em Biologia Celular e Molecular) – FIOCRUZ, Rio de Janeiro, 2017. RODRIGUES, A. D. Hematologia Básica. 2. ed. Porto Alegre: SAGAH, 2019. SILVA, P. H. Hematologia Laboratorial: teoria e procedimentos. Porto Alegre: Artmed, 2016. 18 Interpretação das alterações hematopoiéticas Autoria: Tatiane Marques Leitura crítica: Janainna Grazielle Pacheco Olegário Objetivos • Conhecer as principais alterações na hematopoiese das séries branca e vermelha. • Correlacionar as alterações na hematopoiese a patologias sanguíneas e medulares. • Interpretar as alterações na hematopoiese e estabelecer uma correlação com doenças não hematológicas. 19 1. Alterações da hematopoiese Hematopoiese é um processo que ocorre na medula óssea, responsável pela maturação e diferenciação das células que mantêm o repertório sanguíneo, tanto para a série vermelha quanto para a série branca. Diariamente, a medula óssea libera bilhões de células e plaquetas na corrente sanguínea e, embora este processo seja rigorosamente regulado por fatores de crescimento e maturação, pode haver situações em que se observa uma desregulação da hematopoiese na medula óssea. O organismo humano possui métodos de controle e eliminação destes erros de multiplicação, porém, na presença de mutações genéticas, fatores ambientais e até mesmo infecções, células mutantes ou defeituosas podem ser produzidas (Antunes, 2019). Fisiologicamente, algumas alterações na produção de células sanguíneas, principalmente eritrócitos e plaquetas, podem ser observadas, por exemplo, após um quadro hemorrágico. Nestas ocasiões, para compensação da perda de sangue, a medula intensifica a produção de eritrócitos e megacariócitos, sendo comum o encontro de formas imaturas destas células na corrente sanguínea. Na presença de infecções por bactérias e vírus, é comum o aumento de células da série branca, pois o organismo está se preparando para combater e eliminar os possíveis patógenos. É preciso ressaltar que, neste último caso, o aumento populacional será direcionado para os clones específicos para o antígeno reconhecido (Antunes, 2019). E será que podem ocorrer alterações na hematopoiese que estejam diretamente relacionadas a patologias sanguíneas e medulares? Com certeza, sim! Você, provavelmente, pensou em alterações neoplásicas malignas, como leucemias, mielomas e síndromes mielodisplásicas. Estas são neoplasias em que se observa a expansão clonal de determinados tipos celulares e se forma um câncer de células sanguíneas. Ainda com relação às neoplasias, pode haver infiltração da medula por células 20 tumorais, um evento muito comum no câncer de mama e nos linfomas, mas que pode ocorrer com outros tipos também (Silva, 2017). As alterações hematopoiéticas da medula óssea podem, ainda, ser consequência de fatores externos e ambientais, que resultem na diminuição numérica das células progenitoras da medula ou até mesmo na aplasia medular, ou seja, na não produção destas células. Algumas classes de medicamentos e o tratamento por radiações ionizantes podem levar a esta aplasia intencionalmente,com a finalidade de preparar a medula para o recebimento de um enxerto, para tratamento de neoplasias sanguíneas. Outros fatores, como tratamento quimioterápico, infecções e intoxicações por metais pesados, como o chumbo, também podem causar estas alterações (Cazarin, 2005). De acordo com Silva (2017), estudos realizados nas últimas décadas, por diversos grupos de pesquisa, evidenciam que o envelhecimento hematopoiético pode estar relacionado à expansão celular, conservando mutações em uma hematopoiese clonal. Anteriormente, segundo o mesmo autor, estas mutações clonais já haviam sido correlacionadas como fatores causais de neoplasias sanguíneas, como a leucemia. A Síndrome Mielodisplásica também já foi atribuída a essa expansão clonal de células mutadas, levando à pancitopenia por falta de maturação celular. É importante ressaltar que, não raro, essas mutações podem estar presentes em pessoas sem alterações na população celular do sangue periférico e, além disso, sem sinais do desenvolvimento de patologias sanguíneas. 2. Alterações na hematopoiese e doenças hematológicas medulares e periféricas A hematopoiese se inicia na medula óssea vermelha ainda na vida intrauterina e, após o nascimento, este é o único órgão responsável 21 por toda a produção do repertório sanguíneo de um indivíduo. Até o segundo ano de vida, toda a medula óssea é capaz de realizar este processo e, a partir de então, parte da região medular é gradativamente substituída por tecido adiposo, restringindo os sítios de maturação e diferenciação celular. No indivíduo adulto, apenas o esqueleto central e as extremidades proximais da cabeça do fêmur ainda possuem alguma atividade hematopoiética (Hoffbrand; Moss, 2018). Durante o processo hematopoiético, ao longo da vida do ser humano, mutações aleatórias podem ocorrer nas células-tronco pluripotentes e se perpetuarem como uma população clonal. Com o passar do tempo, as mutações podem ser acumular e o envelhecimento e os fatores ambientais podem contribuir para o desenvolvimento de neoplasias e outras malignidades. Curiosamente, estas mutações estão, em sua maioria, ligadas ao Cromossomo X, e podem ser facilmente detectadas pelo sequenciamento de DNA (Silva, 2017). 2.1 Doenças clonais A perpetuação e multiplicação de uma célula-tronco hematopoiética pluripotente pode ser, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o fator inicial para o desenvolvimento de diversas doenças hematológicas derivadas de mutações somáticas. Dentre essas doenças, a Síndrome Mielodisplásica, a Anemia Aplástica e a Leucemia Mieloide Aguda são as mais frequentemente diagnosticadas (Papaemmanuil et al., 2013). Síndrome Mielodisplásica aguda refere-se a um conjunto de doenças com manifestações em comum, na qual ocorrem displasia medular, hematopoiese ineficaz e pancitopenia. Observa-se, ainda, um maior risco para desenvolvimento de Leucemia Mieloide Aguda (Zerbini et al., 2011). Veja a seguir, no Quadro 1, os subtipos de Síndrome Mielodisplásica Aguda reconhecidos pela OMS e suas características principais. 22 Quadro 1 – Classificação das Síndromes Mielodisplásicas segundo a OMS Tipo Sangue Periférico Medula Óssea Anemia Refratária (AR) Anemia; Blastos 1% Displasia da linhagem eritroblástica; < 5% Blastos Anemia Refratária com Sideroblastos em Anel (ARSA) Anemia; Ausência de blastos Displasia na linhagem eritroblástica; < 5% Blastos; < 15% Sideroblastos em anel Citopenia refratária com displasia multilinhagem (CRDM) Bi ou pancitopenia; < 1% blastos Displasia em > 10% das células de duas ou mais linhagens; < 5% blastos Citopenia refratária com displasia multilinhagem e sideroblastos em anel (CRDMSA) Bi ou pancitopenia; < 1% blastos Displasia em > 10% das células de duas ou mais linhagens; < 5% blastos; > 15% sideroblastos em anel Anemia refratária com excesso de blastos-1 (AREB- 1) Bi ou pancitopenia; < 5% blastos Displasia uni ou multilinhagem; 5%-9% blastos Anemia refratária com excesso de blastos-2 (AREB- 2) Bi ou pancitopenia; < 5%- 19% blastos; Monócitos <1.000mm3 Displasia uni ou multilinhagem; 10%-19% blastos Síndrome Mielodisplásica Inclassificável (SMD-I) Neutropenia ou plaquetopenia; blastos raros ou ausentes Displasia unilinhagem, < 5% Blastos Síndrome Mielodisplásica com del(5q) isolada Anemia; plaquetas normais ou elevadas; <5% Blastos Megacariócitos em número normal ou elevado com núcleos unilobulados; < 5% Blastos, 5q- Síndrome Mielodisplásica da Infância (SMD-P) Bi ou pancitopenia; 2%- 19% Blastos; Monócitos <1.000mm3 Displasia uni ou multilinhagem; 10%-19% Blastos Fonte: adaptado de Silva (2017). A análise minuciosa do Quadro 1 nos permite fazer algumas importantes inferências, que podem influenciar na suspeita clínica e no diagnóstico de uma Síndrome Mielodisplásica. Nota-se que todas as síndromes descritas apresentam alterações no perfil hematológico, tanto no sangue 23 periférico quanto na medula óssea. Além disso, a pancitopenia e os blastos, em porcentagens variáveis, são um achado bastante comum no sangue periférico. Essas alterações podem ser evidenciadas pela realização do hemograma. Já na medula óssea, a displasia da linhagem portadora do gene mutante é obrigatória e variará conforme a classificação das síndromes. A presença de blastos também é variável, assim como a de sideroblastos em anel. Curiosamente, apenas na Síndrome Mielodisplásica com del(5q) isolada nota-se a alteração na série plaquetária. Observe, a seguir, na Figura 1, como você verá o esfregaço sanguíneo de um paciente com Síndrome Mielodisplásica e Leucemia Mieloide Aguda. Figura 1 – Esfregaço sanguíneo na Síndrome Mielodisplásica Aguda Fonte: Shutterstock.com. A Figura 2 ressalta a aparência de um Sideroblasto em Anel, alteração muito comum em esfregaços do sangue periférico de pacientes com Síndrome Mielodisplásica. 24 Figura 2 – Sideroblasto em Anel em esfregaço sanguíneo Fonte: Shutterstock.com. Silva (2017) ressalta que todas as síndromes mielodisplásicas discriminadas no quadro apresentam elevadas chances de evolução para Leucemia Mieloide Aguda, que pode ser observada tanto no sangue periférico quanto na medula óssea. 3. Alterações na hematopoiese e fatores ambientais A exposição a produtos químicos e poluentes, o uso indiscriminado de medicamentos e até mesmo a recorrência de algumas infecções são considerados fatores ambientais que interferem na hematopoiese. Eles são isolados ou associados e podem induzir mutações genéticas nas 25 células-tronco pluripotentes. Uma vez que estas células sobrevivam e se multipliquem, tem-se o primeiro fator desencadeante das alterações hematológicas. Os fatores ambientais apenas potencializam a ocorrência de tais alterações, acelerando o desenvolvimento de síndromes mielodisplásicas e aplasia medular (Cazarin, 2005). Já no século XIX, segundo Cazarin (2005), as doenças hematológicas resultantes de alterações na hematopoiese eram causas constantes de morte entre trabalhadores. A exposição a carboidratos aromáticos, como o benzeno, o tolueno e o xileno, levava a síndromes hemorrágicas que resultavam na morte prematura. Ainda segundo o autor, no século XX, conheceu-se o potencial leucemogênico do benzeno, que também pode levar à aplasia de medula. As radiações ionizantes complementam a lista de fatores ambientais potencializadores das alterações na hematopoiese. Utilizadas também como importante método quimioterápico no combate a neoplasias, a exposição prolongada ou indevida pode levar à destruição da medula óssea ou ao acúmulo de mutações em células-tronco ou em células já diferenciadas. A exposição ocupacional e bélica, mesmo que inconsciente, também pode contribuir para aumentar as estatísticas de doenças hematológicas consequentes à exposição às radiações (Cazarin, 2005). No ano de 2020, o Ministério da Saúde atualizou a portaria que lista as inúmeras doenças que podemser desenvolvidas como consequência da exposição a fatores ambientais no trabalho. A Portaria nº 2.309, de 28 de agosto de 2020, lista as doenças relacionadas ao trabalho e, dentre elas, as doenças hematológicas resultantes da exposição a produtos químicos (Brasil, 2020). Esse Sistema de Vigilância foi estruturado pelos Programas de Saúde do Trabalhador na década de 1980, no estado de São Paulo, e estendido posteriormente para outros estados do país. Confira, no Quadro 2, a lista de doenças e neoplasias sanguíneas relacionadas ao trabalho segundo a Portaria nº 2.309. 26 Quadro 2 – Doenças e neoplasias sanguíneas relacionadas ao trabalho segundo a Portaria nº 2.309 Doenças e Neoplasias Risco Ocupacional Leucemias Benzeno; radiação ionizante; óxido de etileno; campos eletromagnéticos; inseticidas organoclorados Síndromes Mielodisplásicas Benzeno; radiação ionizante Anemias devido a transtornos enzimáticos Chumbo e seus compostos tóxicos Anemia hemolítica não autoimune induzida por drogas Derivados nitrados e aminados do benzeno Anemia aplástica devida a agentes externos e anemia aplástica não especificada Benzeno; radiação ionizante Anemia sideroblástica secundária a toxinas Chumbo e seus compostos tóxicos Púrpura e outras manifestações hemorrágicas Benzeno; cloreto de vinila; radiação ionizante Agranulocitose Benzeno; radiação ionizante; herbicida a base de pentaclorofenol Transtornos específicos dos glóbulos brancos: leucocitose; reação leucemoide Benzeno; radiação ionizante Metahemoglobinemia Aminas aromáticas e seus derivados Fonte: elaborado pela autora. Dentre os produtos químicos potencialmente lesivos para a saúde do homem, os agrotóxicos têm assumido lugar de destaque na lista atualizada na década atual. O fato mais preocupante é que, vários destes produtos químicos baseiam suas fórmulas em derivados do petróleo, como os organofosforados, os carbamatos e os piretróides. Todas essas substâncias são potencialmente lesivas ao ser humano e possuem efeitos negativos para a saúde da medula óssea (Brasil, 2020). As alterações hematopoiéticas refletem-se não apenas na medula óssea, onde podem ser diagnosticadas tardiamente. O profissional hematologista, principalmente na área laboratorial e clínica, deve sempre estar atento à presença de anormalidades no sangue periférico, pois é aí que podem ser encontrados traços sugestivos de mutações e alterações na hematopoiese. As mutações nas células-tronco são cumulativas e, frequentemente, podem resultar no desenvolvimento de 27 síndromes mielodisplásicas e neoplasias, geralmente diagnosticadas de modo tardio após uma punção medular. Referências ANTUNES, S. R. Hematologia Clínica. Porto Alegre: SAGAH, 2019. BRASIL. Portaria nº 2.309, de 28 de agosto de 2020. Altera a Portaria de Consolidação nº 5/GM/MS, de 28 de setembro de 2017, e atualiza a Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho (LDRT). Brasília: Ministério da Saúde, [2023]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2020/prt2309_01_09_2020.html. Acesso em: 5 set. 2023. CAZARIN, G. Doenças hematológicas e ambiente: estudo do registro de condições de risco em serviço especializado. 2005. 159 f. Dissertação (Mestrado em Saúde Pública) – FIOCRUZ, Recife, 2005. HOFFBRAND, A. V.; MOSS, P. A. H. A. Fundamentos em Hematologia de Hoffbrand. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018. PAPAEMMANUIL, E. et al. Clinical and biological implications of driver mutations in myelodysplastic syndromes. Blood, Washington, v. 22, n. 122, p. 3616-3627, set. 2013. SILVA, J. S. Descrição da hematopoiese clonal de potencial indeterminado como diagnóstico diferencial para pacientes hematológicos. 2017. 19 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Biomedicina) – Centro Universitário de Brasília, Brasília, 2017. SILVA-JÚNIOR, J. S.; BANDINI, M.; BAÊTA. K. F.; DIAS, E. C. Atualização 2020 da Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho no Brasil. Rev. Bras. Saúde Ocupacional, v. 47, p. 1-10, 2022. ZERBINI, M. et al. Classificação da Organização Mundial da Saúde para os tumores dos tecidos hematopoético e linfoide, 4ª edição, 2008 – principais modificações introduzidas em relação à 3ª edição, 2001. Revista da Associação Médica Brasileira, São Paulo, v. 57, n. 1, p. 6-73, fev. 2011. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2020/prt2309_01_09_2020.html 28 Análise laboratorial da hematopoiese Autoria: Tatiane Marques Leitura crítica: Janainna Grazielle Pacheco Olegário Objetivos • Listar os exames para avaliação laboratorial da hematopoiese. • Correlacionar os exames do sangue periférico com as alterações na hematopoiese. • Explicar as alterações na hematopoiese em função da análise laboratorial da medula óssea. 29 1. Avaliação laboratorial da hematopoiese A avaliação laboratorial da hematopoiese consiste na coleta de amostras sanguíneas e de medula óssea para estudo de sua população celular, com a finalidade de pesquisar anomalias na multiplicação, maturação e diferenciação destas células (Sossela; Zoppas; Weber, 2017). Deste modo, esta avaliação pode ter a finalidade tanto de triagem diagnóstica quanto de avaliação global do estado de saúde de um paciente. Amostras de sangue coletadas por punção do sangue periférico são analisadas para pesquisa de alterações numéricas e morfofuncionais. O exame realizado neste caso é o hemograma. Alterações nas populações eritrocitária, leucocitária e plaquetária podem indicar a presença de doenças hematológicas ou sugerir a presença de infecções, por exemplo. Algumas neoplasias sanguíneas também podem apresentar alterações no hemograma (Hoffbrand; Moss, 2018). O mielograma, por outro lado, é um exame bem mais complexo e delicado, em que são coletadas amostras da medula óssea por meio de uma biópsia. A análise do esfregaço de medula óssea evidencia as populações celulares imaturas presentes predominantemente ou alterações globais na população celular. A partir da cultura do aspirado medular, podem ser isoladas as células alteradas para tipagem genética e avaliação mais detalhada de sua morfofisiologia (Vicari et al., 2021). As alterações na hematopoiese podem ter diferentes significados clínicos, conforme a população celular ou a linhagem alterada. Mutações nas células-tronco pluripotentes, por exemplo, resultam em multiplicação e diferenciação de populações clonais mutantes e, posteriormente, no desenvolvimento de alterações multilinhagens. Por outro lado, caso estas mutações sejam induzidas tardiamente, nas linhagens progenitoras linfoides ou mieloides, tem-se o aparecimento de alterações na hematopoiese em linhagens únicas (Vicari et al., 2021). Alterações na linhagem linfoide, por exemplo, podem resultar no desenvolvimento de quadros de leucemia linfoide. 30 Caso a mutação selecionada tenha ocorrido em um progenitor mieloide, tem-se o desenvolvimento de uma leucemia mieloide ou até mesmo uma mielodisplasia, com a presença de alterações em uma ou mais linhagens celulares. Nestas linhagens, podem ocorrer a produção de eritrócitos alterados, levando a quadros de anemias ou hemoglobinopatias, conforme a mutação prevalente nas células progenitoras. De todo modo, estas alterações podem ou não estar presentes no sangue periférico, observadas através do exame de hemograma, dificultando o diagnóstico apenas pela realização deste exame. A biópsia de medula óssea, se requisitada diante de menor suspeita de alteração na hematopoiese, pode possibilitar o diagnóstico precoce da patologia, antes mesmo do surgimento de sintomas clínicos, e a rápida intervenção clínica, se necessário (Rosenfeld, 2000). 2. Avaliação do sangue periférico O exame para avaliação das células sanguíneas realizado em hematologia é o hemograma. Para a sua realização, uma amostra de sangue periférico é coletada por punção venosa em tubo a vácuo contendo o anticoagulante EDTA. A coleta pode ser feita sem que o paciente seja submetido ao jejum obrigatório ou à outra preparação especial.É desejável apenas que seja interrompida, com o consentimento do especialista que o acompanha, a administração de quaisquer medicações que possam alterar o exame. Amostras lipêmicas e hemolisadas também podem causar alterações no hemograma, não sendo recomendadas suas análises (Hoffbrand; Moss, 2018). O sangue coletado e homogeneizado é encaminhado para o setor de Hematologia do laboratório clínico, onde será analisado em um hemocitômetro, para avaliação das populações eritrocitária, leucocitária e plaquetária. O esfregaço em lâmina de vidro para análise de alterações morfológicas nos eritrócitos e a contagem diferencial de leucócitos em câmara de Neubauer também fazem parte do procedimento de 31 avaliação laboratorial. O laudo do exame de hemograma pode ser dividido em três partes, conforme a população celular avaliada (Sossela; Zoppas; Weber, 2017): • Eritrograma: exibe resultados referentes à análise da população de células vermelhas, os eritrócitos. Nesta parte do laudo, são exibidos dados referentes à contagem global de células, à sua morfologia, à sua coloração e à quantidade de hemoglobina intraeritrocitária. Alterações relativas à forma, ao agrupamento e à presença de inclusões podem sugerir alterações na hematopoiese de eritrócitos, a partir de progenitores mieloides com mutações conservadas. • Leucograma: refere-se à contagem total e diferencial de células da série branca, ou seja, os leucócitos. Em um exame normal, contam- se monócitos, linfócitos, eosinófilos, neutrófilos e basófilos. Contagens elevadas destas populações celulares podem indicar infecções virais, bacterianas, fúngicas ou parasitárias, ou ainda reações alérgicas. A presença de células imaturas ou atípicas, como blastos, bastonetes e linfócitos atípicos, é indicativa de alterações na população celular imatura e, como você verá em seguida, pode ter diferentes significados clínicos. • Plaquetograma: revela a quantidade total de plaquetas por mililitro (ml) de sangue. Resultados que apresentem plaquetopenia devem ser confirmados manualmente, pois indicam déficits de coagulação ou problemas nos megacariócitos, as células precursoras destes fragmentos celulares. Portanto, as alterações no hemograma podem sugerir ou indicar alterações na hematopoiese ou apenas a presença de infecções e processos alérgicos? É fato que o exame do sangue periférico tem sua principal aplicação na avaliação de infecções e inflamações, mas é importante que você saiba que a presença de elementos imaturos é uma observação que requer especial atenção do hematologista clínico. A presença destas células na corrente sanguínea é sugestiva de um 32 aumento de sua produção na medula óssea, seja por maior demanda fisiológica, seja pela existência de uma patologia que está estimulando sua produção. Em ambos os casos, todas as alterações devem ser relatadas no laudo do hemograma, para serem contrastadas com o quadro clínico do paciente. Veja, a seguir, no Quadro 1, algumas alterações no hemograma que têm correlação com distúrbios na hematopoiese. Quadro 1 – Alterações no hemograma e sua correlação com distúrbios na hematopoiese Alterações no hemograma Distúrbio na hematopoiese Eritrograma Drepanócitos Eritrócitos com mutação no gene codificador da hemoglobina S. Eliptócitos Eritrócitos com mutação no gene codificador da hemoglobina C, E ou S. Eritrócitos Policromáticos Eritrócitos contendo RNA em seu interior (imaturos). Aumento de demanda na produção pela medula óssea. Eritrócitos em Roulex Mutações no gene codificador de globulinas, macroglobulinemia ou mieloma múltiplo. Eritrócitos com pontilhados basófilos Eritrócitos com mutação no gene codificador da hemoglobina C, E ou S. Leucograma Linfoblasto Aumento na maturação e diferenciação de linfócitos. Leucemia Linfoide Aguda. Linfoma de Burkitt. Mieloblasto Aumento na maturação e diferenciação de mielócitos. Leucemia Mieloide. Síndrome Mielodisplásica. Reação Leucemoide (infecção grave). 33 Monoblasto Aumento na maturação e diferenciação de monócitos. Leucemia Mielomonocítica Aguda. Leucemia Monocítica Aguda. Bastonetes Aumento na produção e diferenciação de neutrófilos em resposta a infecções. Plaquetograma Megacariócitos Aumento na produção e diferenciação por demanda do organismo. Fonte: elaborado pela autora. Lembre-se de que, isoladamente, a presença de uma ou mais destas alterações pode não ter um significado claro ao analisar o hemograma. No entanto, em infecções e em neoplasias, é comum que mais de uma destas alterações estejam presentes e, associadas ao quadro clínico do paciente, podem direcionar a uma suspeita diagnóstica. Por outro lado, no caso das hemoglobinopatias, quando a mutação está presente no gene codificador da hemoglobina, a presença de uma destas alterações eritrocitárias já direciona o hematologista para um diagnóstico mais específico (Vicari et al., 2021). Uma vez que a suspeita clínica foi levantada, novas investigações são necessárias para a confirmação do quadro patológico e, em grande parte, elas são feitas por análise direta da população celular da medula óssea. 3. Avaliação da medula óssea A análise da população celular da medula óssea pode ser realizada por dois procedimentos que, erroneamente, são tidos como sinônimos: o mielograma e a biópsia de medula óssea. Você sabe a diferença entre eles? Eles diferem no tipo de material coletado. Mielograma refere-se à coleta apenas de amostra líquida após punção óssea, ou seja, são 34 isoladas apenas as populações celulares ali presentes. A biópsia de medula óssea é um procedimento mais delicado e, além da amostra de células, é retirado também um fragmento ósseo, para análise pelo profissional hematologista. Ambos os procedimentos são realizados em campo estéril, com anestesia local e rigorosos protocolos para evitar contaminação do paciente (Alves, 2009) e da amostra (Figura 1). Figura 1 – Biópsia e aspiração de medula óssea para avaliação diagnóstica Fonte: Shutterstock.com. As amostras coletadas nestes procedimentos são analisadas para pesquisa de alterações na população de células-tronco hematopoiéticas pluripotentes. Para que esta análise seja feita, no momento da coleta, são realizados esfregaços secos em lâminas para microscopia, como ilustrado na Figura 1. Estas lâminas são coradas, e a população celular é analisada ao microscópio, com a finalidade de identificação de alterações nas populações celulares, para diagnóstico de desordens hematológicas e neoplasias sanguíneas. Este procedimento também pode ser realizado para monitoramento de quimioterapia e análise da viabilidade de amostras para transplante de medula óssea (Alves, 2009). 35 O Quadro 2 lista mais algumas indicações clínicas e algumas contraindicações para coleta de mielograma ou biópsia da medula óssea. Quadro 2 – Indicações e contraindicações para citologia e histologia de medula óssea Indicações Contraindicações Investigação de anemia inexplicada e outras citopenias Trombocitopenia grave Investigação de alterações morfológicas no sangue periférico sugestivas de alterações na hematopoiese Deficiência de fatores da coagulação Diagnóstico, monitoramento e estadiamento de doenças oncohematológicas Infecção no local da punção Investigação de suspeita de infiltração por células metastáticas Uso de medicações antiagregantes plaquetárias Investigação de lesões ósseas de etiologia desconhecida - Exclusão de doenças hematológicas em potenciais doadores alogênicos de células hematopoiéticas - Fonte: elaborado pela autora. 3.1 Mielograma O mielograma, ou exame de aspirado da medula óssea, é indicado apenas quando há forte suspeita clínica de desordens na produção, diferenciação e maturação das células-tronco hematopoiéticas, após detecção de alterações no hemograma. A coleta e análise deste material é importante para confirmar ou descartar o diagnóstico de citopenias, como anemias, leucopenias e trombocitopenias(Alencar et al., 2002). Além disso, até mesmo com maior relevância clínica, este procedimento possibilita o estadiamento de neoplasias sanguíneas e medulares. A coleta de amostras para o mielograma é realizada em campo estéril, apenas com anestesia local, em ossos chatos do corpo humano. Na maioria das vezes, é coletada uma amostra da fossa supra ilíaca, mas 36 também pode ser coletada do esterno ou de outro osso chato. Após higienização local, a área de coleta pode receber uma pequena incisão para facilitar a entrada da agulha de coleta, que deve penetrar no osso por movimentos rotacionais até que a agulha esteja fixada ao osso de forma bem firme. O mandril é removido e, em seu lugar, é acoplada a agulha contendo o anticoagulante EDTA. A coleta do aspirado de medula é feita por pressão negativa e, após a coleta, o material deve ser homogeneizado para não coagular. Após a seringa ser desconectada da agulha, o aspirado da medula é dispensado em uma placa de petri para avaliação do material coletado e realização do esfregaço sanguíneo. As lâminas são fixadas em metanol e coradas por Giemsa, Leishman ou outra coloração padrão do laboratório (Alencar et al., 2002). 3.2 Biópsia de medula óssea A biópsia, ou histologia de medula óssea, é o procedimento que consiste na retirada de um fragmento do osso após punção para análises histopatológicas. Este procedimento é recomendado em suspeita de alterações medulares não confirmadas por coleta aspirativa e na avaliação do envolvimento neoplásico medular, como o estadiamento do linfoma. A análise de um fragmento ósseo também é ideal para determinar e identificar a presença de alterações do estroma medular, como mielofibrose, mieloma múltiplo, avaliação adequada da celularidade, anemia aplástica e acúmulo focal de células neoplásicas (Alencar et al., 2002). Por se tratar de um fragmento ósseo que será submetido ao processamento histológico, após a coleta, a amostra deve ser armazenada em formaldeído 10% antes de seu processamento. É recomendável, ao coletar a amostra, realizar um esfregaço por rolamento, antes de incluí-la em formol, para avaliação comparativa da população celular. Dentre outras etapas, a preparação do material para análise histopatológica envolve a desidratação e a descalcificação 37 cuidadosas do material. A preservação da população celular e de seu repertório antigênico será um diferencial nas análises microscópicas após a coloração e, se necessário, um possível exame imuno- histoquímico (Alencar et al., 2002). A análise laboratorial da medula óssea é importante não apenas para diagnóstico de doenças hematológicas mas também para realizar o estadiamento de neoplasias e monitorar quimioterapias específicas. A suspeita de desordens na hematopoiese pode, inicialmente, ser levantada após a identificação de alterações no hemograma, com a presença de células imaturas. Nestes casos, é recomendada a realização da aspiração de medula óssea para análise do mielograma, em que as populações celulares alteradas serão identificadas com maior precisão. Caso esta análise seja inconclusiva, realiza-se a biópsia de medula óssea, com coleta de um fragmento, que será submetido às análises imunogênica e histopatológica. Referências ALENCAR, N. X. de; kohayagawa, A.; CAMPOS, K. C. H. de; TAKAHIRA, R. K. Mielograma. Parte I: Indicações e Colheita do Material. Rev. Educ. Cont. em Med. Vet. e Zootec. do CMRV-SP, v. 5, n. 2, p. 157-163, 2002. ALVES. A. C. Histologia da Medula Óssea. Rev. Bras. Hematol. Hemoter., v. 31, n. 3, p. 183-188, 2009. HOFFBRAND, A. V.; MOSS, P. A. H. A. Fundamentos em Hematologia de Hoffbrand. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018. ROSENFELD, R. Estudo histológico das partículas medulares obtidas por punção aspirativa de medula óssea e sua importância clínica. 2000. 71 f. Dissertação (Mestrado em Medicina de Urgência) – Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2000. SOSSELA, F. R.; ZOPPAS, B. C. A.; WEBER, L. P. Leucemia Mieloide Crônica: aspectos clínicos, diagnóstico e principais alterações observadas no hemograma. RBAC, v. 49, n. 2, p. 127-130, 2017. VICARI, P.; QUEIROZ, V. C.; STHELL, V. M.; LOGUY, S. S.; LACERDA, K. M. S.; CABRAL, C. C.; TUKIK, S. Avaliação de Aspirado de Medula Óssea: Perfil de Exames Realizados em Laboratório de Grande Porte em São Paulo. Hematol. Transf. and Cell Teraphy, v. 43, n. 1, p. S420-S421, 2021. 38 Interpretação clínica das alterações na hematopoiese Autoria: Tatiane Marques Leitura crítica: Janainna Grazielle Pacheco Olegário Objetivos • Identificar patologias hematológicas relacionadas a alterações na hematopoiese. • Reconhecer o significado clínico de alterações no hemograma relativas às desordens na hematopoiese. • Explicar alterações no mielograma e correlacioná-las a patologias que envolvam alterações na população celular da medula óssea. 39 1. Patologias associadas a alterações na hematopoiese Os distúrbios na hematopoiese podem ser fisiológicos, por exemplo, quando há aumento da demanda do organismo após um evento hemorrágico ou durante a fase de maior desenvolvimento da criança. Falhas no processo hematopoiético e acúmulo de mutações ao longo da vida também são comuns em indivíduos idosos. Há situações não fisiológicas em que falhas na diferenciação de uma única linhagem celular podem ter correlação com doenças genéticas transmitidas de geração em geração. Nestes casos, é comum a doença manifestar-se já ao nascimento, com alterações detectáveis no hemograma e citopenia persistente (Naoum; Naoum, 2015). Por outro lado, distúrbios na hematopoiese podem ser adquiridos, ou seja, desenvolvem-se silenciosamente durante semanas, meses ou anos. Os sinais e sintomas se manifestam tardiamente, sinalizando a ocorrência de processos patológicos medulares, cursando com hipercelularidade ou hipocelularidade em uma ou mais linhagens de células. A exposição a radiações ionizantes e produtos químicos potencialmente tóxicos, como hidrocarbonetos derivados do petróleo e inseticidas organofosforados, podem induzir à ocorrência e seleção destas mutações e, consequentemente, favorecer o surgimento destes distúrbios (Silva; Nascimento, 2018). A avaliação da função hematopoiética e da população celular na medula óssea pode ser feita, inicialmente, por um exame de hemograma, em busca de populações celulares imaturas e anomalias morfológicas. Uma vez que alterações clinicamente significativas sejam identificadas neste exame, o hematologista pode solicitar a coleta de uma amostra do aspirado de medula óssea e a avaliação por mielograma, para determinar alterações morfológicas e no percentual relativo de células. Em caso de resultados inconclusivos, pode, ainda, ser solicitada uma 40 biópsia de medula óssea, para investigação de neoplasias e infiltrados metastáticos (Ferreira; Ferreira, 2021). A análise quantitativa realizada no mielograma refere-se à celularidade da medula óssea e resultará na classificação em normocelular, hipercelular ou hipocelular. Nesta avaliação, é estabelecida também a relação entre células mieloides (M) e células eritroides (E) para obtenção da relação M/E, que deve variar entre 2:1 e 4:1 em uma análise medular normal. O percentual de linfócitos deve concentrar-se próximo a 10% da população celular total, e são observadas também alterações na formação e fragmentação de megacariócitos. Achados incomuns, como a presença de microrganismos (bactérias, vírus, fungos e parasitos) e células sugestivas de neoplasias, devem ser relatados (Ferreira; Ferreira, 2021). Veja, no quadro a seguir, os valores de referência para o mielograma normal de um adulto. Quadro 1 – População celular esperada em um mielograma normal no adulto Célula Percentual Médio (%) Valor de Referência Mieloblasto 3 0,5 – 5,5 Pró-mielócito 5 1,5 – 8,0 Mielócito Neutrófilo 12 4,5 – 18,0 Mielócito Eosinófilo 2 0,0 – 3,0 Mielócito Basófilo 0,5 0,0 – 1,0 Metamielócito Neutrófilo 27 12,0 – 42,0 MetamielócitoEosinófilo 2 0,5 – 3,5 Metamielócito Basófilo 0 0,0 – 0,1 Bastão Neutrófilo 24 15,0 – 33,0 Bastão Eosinófilo 1 0,0 – 2,0 Bastão Basófilo 0,2 0,0 – 0,5 Segmentado Neutrófilo 25 14,0 – 35,0 Segmentado Eosinófilo 4 1,0 – 7,0 Segmentado Basófilo 0,2 0,0 – 0,5 Linfócito 22 7,0 – 38,0 Monócito 3 0,0 – 5,0 Pró-Eritroblasto 3 0,0 – 6,0 41 Célula Percentual Médio (%) Valor de Referência Eritroblasto Basófilo 3 1,0 – 6,0 Eritroblasto Policromatófilo 15 5,0 – 26,0 Eritroblasto Acidófilo 11 2,0 – 21,0 Célula Reticular 1 0,0 – 2,0 Célula Plasmática 1 0,0 – 3,0 Megacariócito 0,5 0,0 – 1,0 Relação M/E 3/1 2/1 – 4/1 Mitoses Raras Raras Fonte: elaborado pela autora. O laudo liberado após a realização do mielograma e a análise detalhada da população celular na medula óssea direcionará para a triagem específica ou o descarte de um determinado diagnóstico. Neste laudo, devem constar a celularidade da amostra, o tipo celular predominante e as linhagens cujas alterações foram observadas. 2. Leucemias Leucemia é um conjunto de patologias do sangue em que há distúrbios na hematopoiese, os quais resultam na proliferação descontrolada de um único tipo celular. Essa linhagem alterada surge em decorrência de mutações gênicas em células-tronco hematopoiéticas, que, por seleção clonal, se sobressaem em relação às células não alteradas e se multiplicam acentuadamente, podendo até mesmo perder sua capacidade de maturação (Dorfman et al., 2018). As leucemias são doenças malignas, ou seja, são neoplasias hematológicas em que há predomínio de uma ou mais linhagens celulares alteradas que se multiplicam na medula óssea e migram, pela corrente sanguínea, para outros órgãos (fígado, rins e baço). Uma outra característica que contribui para o caráter de maior malignidade destas células é sua sobrevida aumentada em relação às células normais, 42 resultando em uma elevação sistemática da população celular no sangue periférico (Naoum; Naoum, 2015). Estas doenças classificam-se, em função de seu tempo de evolução, em leucemias agudas e crônicas, e em função da linhagem alterada, em linfoide e mieloide (Figura 1). Figura 1 – Classificação das leucemias de acordo com seu tempo de evolução e linhagem celular alterada Fonte: elaborada pela autora. Observando o esquema da Figura 1, nota-se que as leucemias agudas ainda são divididas em alguns subtipos, conforme a população celular alterada, de modo que, na verdade, existem doze tipos de leucemia, classificados inicialmente como quatro tipos primários: Leucemia Mieloide Aguda (LMA) e seus subtipos, Leucemia Linfoide Aguda (LLA) e seus subtipos, Leucemia Mieloide Crônica (LMC) e Leucemia Linfoide Crônica (LLC). As leucemias agudas recebem esta classificação pois progridem rapidamente, resultando em um rápido aumento de leucócitos na circulação periférica e acúmulo de blastos (células imaturas). São 43 doenças comuns em crianças e adultos jovens, que se agravam muito rapidamente, colocando o paciente em risco de morte, e há predomínio de medula hiperplásica. Ao exame de sangue periférico, encontram-se anemia normocítica e normocrômica, granulocitopenia e plaquetopenia (Dorfman et al., 2018). Sinais e sintomas sugestivos incluem febre e infecções recorrentes, púrpuras e hemorragias frequentes, esplenomegalia, linfadenopatia e leucostase (dores ósseas). Leucemias crônicas são mais comuns em adultos a partir dos quarenta anos de idade, em idosos e em pessoas do sexo masculino. A seleção e a multiplicação desordenadas de células alteradas ocorrem como nas demais neoplasias, mas, neste caso, é mais lenta. A doença pode demorar meses ou anos para manifestar sinais e sintomas clínicos e, quando presentes, manifestam-se como inchaço nos linfonodos e infecções recorrentes por microrganismos oportunistas. Outros sinais sugestivos que podem ou não estar presentes incluem esplenomegalia discreta (LMC), adenopatia (LLC) e anemia. Não raro a doença pode progredir sem que haja alterações de células da série branca nos esfregaços sanguíneos. Muitas vezes, o diagnóstico destas patologias ocorre ao acaso, quando o paciente realiza exames de rotina (Dorfman et al., 2018). A confirmação do distúrbio da hematopoiese é feita pelo mielograma ou pela biópsia da medula. No entanto, para melhor definição do diagnóstico e direcionar o correto manejo do paciente, é necessária a classificação da leucemia, a qual se faz com a análise citoquímica da população celular. Para isso, podem ser feitas provas citoquímicas com Ácido Periódico de Schiff (PAS), provas da Peroxidase, coloração com Sudan Black e marcador TdT (Terminal deoxinucleotidil transferase) em leucemias agudas. Finalmente, pode ser realizada a imunofenotipagem de marcadores de superfície celular por citometria de fluxo (Naoum; Naoum, 2015). As leucemias crônicas podem ser confirmadas por dosagem de imunoglobulinas, através da técnica de eletroforese, e por cariotipagem, para pesquisa e detecção de translocações gênicas, como o cromossomo 44 Philadélfia (translocação t(9;22) (q34.1;q11.21)). O tratamento, em geral, é realizado por quimioterapia, para depleção da medula óssea e eliminação das células mutantes, e transplante de medula óssea doada por doador compatível (Dorfman et al., 2018). 3. Síndrome Mielodisplásica Síndrome Mielodisplásica é um grupo heterogêneo de desordens da hematopoiese que, apesar de suas vastas manifestações clínicas e patológicas, apresentam um ponto em comum: trata-se de uma alteração que resulta em hematopoiese inefetiva, resultando em citopenia no sangue periférico e hipercelularidade medular. Esta patologia é mais comum em adultos, principalmente do sexo masculino, com idade entre 65 anos e 80 anos. Muito rara em crianças abaixo de 14 anos, quando ocorre, é majoritariamente em portadores da Síndrome de Down (Maioli; Souza; 2012). Assim como outras doenças relacionadas a defeitos na hematopoiese, a Síndrome Mielodisplásica é desencadeada pela seleção clonal de células- tronco hematopoiéticas que sofreram mutações genéticas e alterações citogenéticas, sendo as adições e deleções de grandes segmentos cromossômicos as mais frequentes, por exemplo, -7, -5q ou -5, +8 e +20q (Maioli; Souza; 2012). Essas alterações cromossômicas resultam, além da hematopoiese ineficaz, no aumento da susceptibilidade à apoptose, resultando em citopenias, que são comuns na fase inicial da doença. No entanto, é preciso ressaltar que, além dos fatores genéticos, os fatores ambientais, como exposição a produtos químicos, radiações e algumas infecções virais, podem acelerar o desenvolvimento dessas patologias (Silva; Nascimento, 2018). As síndromes mielodisplásicas são classificadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) através de critérios que avaliam as alterações morfológicas da população celular, os antígenos determinados por 45 imuno-histoquímica e as alterações citogenéticas. Os subtipos da doença são classificados segundo alguns achados no hemograma e no mielograma: linhagens displásicas medulares, citopenias periféricas, percentual de blastos, presença de sideroblastos em anel e pelas anomalias citogenéticas, principalmente a del(5q-). Silva e Nascimento (2018) ressaltam que, apesar de tantos critérios avaliados, alguns subtipos não se encaixam nas categorias já existentes, sendo incluídos na categoria dos subtipos inclassificáveis, ou idiopathic cytopenia of uncertain signficance (ICUS). O diagnóstico e a classificação desta desordem não são fáceis, visto que as anomalias medulares e sanguíneas são muito variáveis e nem sempre os achados citogenéticos são claros. Deste modo, os hematologistas adotam alguns critérios para identificação e triagem diagnóstica desta síndrome (Silva; Nascimento, 2018), como descrito na Figura 2: Figura 2 – Critérios para triagem, diagnóstico e classificação da Síndrome Mielodisplásica Fonte: elaborada pela autora. 46 A análise por citometria de fluxo, embora ainda não seja utilizadana rotina diagnóstica para a Síndrome Mielodisplásica, é uma técnica com grande potencial de aplicação. Apesar de ser considerada de alto custo e requerer equipamento e equipe técnica especializados, é um método altamente confiável para avaliações qualitativas e quantitativas da população de células hematopoiéticas. Em estudos multicêntricos já realizados, segundo Maioli e Souza (2012), a imunofenotipagem por esta técnica permitiu a identificação de anormalidades na medula óssea comumente observadas na Síndrome Mielodisplásica. Uma doença tão complexa também não apresenta um esquema terapêutico muito simples, pois é preciso levar em conta o tipo de displasia apresentado, a idade e as condições clínicas do paciente e o prognóstico de evolução para LMA. Em sua vasta maioria, os pacientes são monitorados e tratados apenas para amenizar os sintomas da doença, melhorando sua qualidade de vida. Casos mais graves podem requerer transfusões sanguíneas recorrentes e a administração de drogas imunomoduladoras (alenalidomida), agentes estimuladores da eritropoetina (epoetina α ou dabepoetina), terapia imunossupressora com globulina antitimócitos, com ou sem ciclosporina. O transplante de células-tronco hematopoiéticas é recomendado apenas para pacientes com elevado risco de morte, pois pode haver complicações graves, como o risco de desenvolver a doença do enxerto versus hospedeiro ou anemias hemolíticas autoimunes (Silva; Nascimento, 2018). As doenças relacionadas a alterações na hematopoiese são multifatoriais e, muitas vezes, até mesmo silenciosas, manifestando-se clinicamente quando já apresentam uma certa gravidade. É fato que as mutações genéticas e as alterações cromossômicas são essenciais para que os clones mutantes sejam preservados, mas, não raro, fatores ambientais atuam como plano de fundo para acelerar este processo. Saber interpretar e reconhecer as alterações no hemograma e no mielograma é essencial para a triagem e o correto diagnóstico das doenças hematológicas, principalmente para realizar a correta classificação necessária para a intervenção terapêutica. 47 Referências DORFMAN, L.; FLORIANI, M.; OLIVEIRA, T.; CUNEGATTO, B.; ROSA, R.; ZEN, P. The role of cytogenetics and molecular biology in the diagnosis, treatment and monitoring of patients with chronic myeloid leucemia. J. Bras. Patol. e Med. Lab., v. 54, n. 2, p. 83-91, 2018. FERREIRA, P. B.; FERREIRA, S. B. Patologias Hematológicas. Santa Maria: Arco Editores, 2021. MAIOLI, M. C. P.; SOUZA, M. H. F. O. de. Síndromes Mielodisplásticas (SMD). Rev. Hosp. Univ. Pedro Ernesto., Rio de Janeiro, n. 11, p. 24-36, 2012. NAOUM, F. A.; NAOUM, P. C. Hematologia Laboratorial–Leucócitos. 3. ed. São José do Rio Preto: Academia de Ciência e Tecnologia, 2015. SILVA, E. B. da.; NASCIMENTO, J. A. O diagnóstico das síndromes mielodisplásicas: revisão da literatura. Rev. Bras. Anal. Clin., v. 50, n. 4, p. 315-320, 2018. 48 Sumário Apresentação da disciplina Hematopoiese Objetivos 1. Hematopoiese 2. Fases da hematopoiese 3. Linhagens celulares Referências Interpretação das alterações hematopoiéticas Objetivos 1. Alterações da hematopoiese 2. Alterações na hematopoiese e doenças hematológicas medulares e periféricas 3. Alterações na hematopoiese e fatores ambientais Referências Análise laboratorial da hematopoiese Objetivos 1. Avaliação laboratorial da hematopoiese 2. Avaliação do sangue periférico 3. Avaliação da medula óssea Referências Interpretação clínica das alterações na hematopoiese Objetivos 1. Patologias associadas a alterações na hematopoiese 2. Leucemias 3. Síndrome Mielodisplásica Referências