Prévia do material em texto
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE LETRAS E ARTES FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA POR UMA “NOVA ARQUITETURA” NO BRASIL JORGE MACHADO MOREIRA (1904-1992) Paulo Jardim Prof. Dr. Mauro César de Oliveira Santos Orientador Dra. Paola Berenstein Jacques Co-orientadora Outubro 2001 II POR UMA “NOVA ARQUITETURA” NO BRASIL JORGE MACHADO MOREIRA (1904-1992) Paulo Jardim Reg. DRE: 09933731-3 Dissertação submetida ao Corpo Docente do Programa de Pós- Graduação em Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro – FAU / UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre. Aprovada em 27 de setembro de 2001, por: Prof. Dr. Mauro César de Oliveira Santos Orientador e Presidente da Banca Examinadora Dra. Paola Berenstein Jacques Co-orientadora Prof. Luiz Paulo Fernandez Conde Prof. Dr. Paulo Afonso Rheingantz Prof. Dr. Pablo Cesar Benetti III Jardim, Paulo, 1952- Por uma “Nova Arquitetura” no Brasil – Jorge Machado Moreira (1904-1992) / Rio de Janeiro: UFRJ/FAU/PROARQ, 2001 Xxiv, 256 p. il. Dissertação – Universidade Federal do Rio de Janeiro, FAU/PROARQ 1. Jorge Machado Moreira (1904-1992). 2. Arquitetura Moderna – Século XX. 3. Urbanismo – Século XX. 4. Dissertação (Mestrado – UFRJ/FAU/PROARQ). I. Título IV SUMÁRIO Agradecimentos ................................................................................ ix Prefácio ............................................................................................. xi Introdução ......................................................................................... 1 Figuras ....................................................................................... 13 Depoimento ...................................................................................... 15 Capítulo 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial ............................ 17 CIAM I a V – 1928 a 1939 .......................................................... 23 Gropius, Bauhaus e Germanófonos nos CIAM I, II e III ....... 27 Le Corbusier e Francófonos nos CIAM IV e V ..................... 44 Frank Lloyd Wright ..................................................................... 63 Jorge Machado Moreira e a Primeira Geração............................ 68 Figuras ....................................................................................... 70 Capítulo 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira .......................... 83 Gregori Warchavchik .................................................................. 92 Affonso Eduardo Reidy antes do MESP ..................................... 100 Jorge Machado Moreira antes do MESP .................................... 105 Lúcio Costa antes do MESP........................................................ 107 Razões da Nova Arquitetura ...................................................... 113 MESP ......................................................................................... 117 Depois do MESP ........................................................................ 134 V Figuras ....................................................................................... 137 Capítulo 3 – A “Nova Arquitetura” de Jorge Machado Moreira .......... 149 Marcelo e Milton Roberto ........................................................... 152 Affonso Eduardo Reidy depois do MESP ................................... 154 Jorge Machado Moreira depois do MESP .................................. 156 Oscar Niemeyer depois do MESP .............................................. 163 Jorge Machado Moreira a partir de 1940 .................................... 166 Panorama Mundial nos Anos 1940 ...................................... 167 Projetos de Jorge Machado Moreira nos Anos 1940 ........... 169 Jorge Machado Moreira nos Anos 1950 ..................................... 175 Panorama Mundial nos Anos 1950 ...................................... 175 Projetos de Jorge Machado Moreira no ETUB ..................... 184 Outros Projetos dos Anos 1950 ........................................... 191 Jorge Machado Moreira depois do ETUB ................................... 194 Figuras ....................................................................................... 198 Conclusões ....................................................................................... 219 Referências Bibliográficas ................................................................ 235 Anexos .............................................................................................. 240 Anexo 1 – Razões da Nova Arquitetura ..................................... 241 Anexo 2 – Quadro Sinóptico ....................................................... 253 VI RESUMO JARDIM, Paulo. Por uma “Nova Arquitetura” no Brasil - Jorge Machado Moreira (1904-1992) Orientador: Prof. Dr. Mauro César de Oliveira Santos; Co-orientadora: Dra. Paola Berenstein Jacques. Rio de Janeiro: UFRJ/FAU/PROARQ, 2001, Dissertação. Por volta de meados do Século XX, a arquitetura brasileira obteve reconhecimento mundial, graças à produção de alguns arquitetos que, desde a década de 1930 abandonaram os métodos acadêmicos e a linguagem eclética dominante e adotaram uma nova maneira de conceber, projetar e construir, se alinhando com as vanguardas arquitetônicas européias, congregadas nos CIAM – Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna. Para os brasileiros, as referência mais fortes eram Walter Gropius e Le Corbusier. As duas visitas que o segundo fez ao Brasil deslanchou uma rápida transformação nas convicções arquitetônicas dos profissionais brasileiros. A vasta e criativa atuação de alguns arquitetos sediados no Rio de Janeiro permitiu o desenvolvimento da chamada Escola Carioca, resultante adoção do léxico purista de Le Corbusier, reinterpretado segundo as tradições locais. Nesse contexto, Jorge Machado Moreira teve atuação importante pela quantidade e pelo porte das obras que projetou e construiu e pelo rigor com que tratou a doutrina da “Nova Arquitetura”. O presente trabalho aborda historicamente a carreira desse arquiteto, procurando identificar a matriz geradora de seu modo de agir arquitetônico e urbanístico. VII ABSTRACT JARDIM, Paulo. Por uma “Nova Arquitetura” no Brasil - Jorge Machado Moreira (1904-1992) Advisor: Prof. Dr. Mauro César de Oliveira Santos; Co-advisor: Dr. Paola Berenstein Jacques. Rio de Janeiro: UFRJ/FAU/PROARQ, 2001, Dissertation. By the middle of XX Century, Brazilian architecture was worldwide recognized due to the production of some architects that, from the beginning of the 1930s, abandoned the prevailing academic methods and eclectic language. They adopted a new way of conceiving, designing and building, aligning themselves with the European vanguards associated in the CIAM – Congrés Internacionaux d’Architecture Moderne (International Congress of Modern Architecture). For Brazilians, the strongest and principal references were Walter Gropius and Le Corbusier; and the two visits that the later made to Brazil – respectively in 1929 and 1936 – caused a rapid change in Brazilian professional architectural concepts. The widely expansive, creative work of some locally based architects in Rio de Janeiro evolved into the so-called “Carioca School”, as a consequence of the adoption of the purist Le Corbusier’s lexicon reinterpreted under local traditions. In this context, Jorge Machado Moreira played a significant role, especially in the quantity,importance and size of the works he designed and constructed, as well as the accuracy by which he interpreted the “New Architecture” doctrine. The present work is an historical approach to this architect career, and tries to identify the originating matrix of his architectonic and urbanistic way of working. VIII RESUMEN JARDIM, Paulo. Por uma “Nova Arquitetura” no Brasil - Jorge Machado Moreira (1904-1992) Orientador: Prof. Dr. Mauro César de Oliveira Santos; Co-orientador: Dra. Paola Berenstein Jacques. Rio de Janeiro: UFRJ/FAU/PROARQ, 2001, Diss. La arquitectura brasileña, alrededor de la mitad del siglo XX, obtuvo reconocimiento internacional gracias a la producción de algunos arquitectos que, desde la década del 30 abandonaron los métodos académicos y el lenguaje ecléctico para adoptar una nueva manera de concebir, proyectar y construir, más próxima de las vanguardias arquitectónicas europeas reunidas en los CIAM – Congrés Internationaux d’Architecture Moderne (Congresos Internacionales de la Arquitectura Moderna). Para los arquitectos brasileños las referencias más fuertes eran Walte Gropius y Le Cobusier. Las dos visitas que este último hizo al Brasil desencadenaron una transformación muy rápida en las convicciones arquitectónicas de estos profesionales. La inmensa y creativa actuación de algunos de estos arquitectos radicados en Río de Janeiro permitieron la formación de la “Escuela Carioca”, que incorporó el léxico purista corbusierano adaptándolo a las tradiciones locales. En este contexto Jorge Machado Morerira, debido a la cantidad, importancia y calidad de las obras construidas, y al rigor con que adoptó los principios de la “Nueva Arquitectura”, tuvo una actuación muy importante. Este trabajo aborda históricamente la carrera profesional de este arquitecto tratando de identificar la matriz generadora arquitectónica y urbanística de su forma de actuar. IX AGRADECIMENTOS Esta dissertação, para mim, representa a realização de um projeto tentado várias vezes, mas só agora levado a termo. Sua confecção teve início há pouco tempo, mas sua gestação vem de longa data. Quero deixar registrada a importância que dou, quero homenagear e quero agradecer a muitas pessoas – colegas e familiares – que me ajudaram no caminho que me trouxe até aqui e na construção desta minha pequena obra: Meus colegas de Universidade: Prof. Ulysses Burlamaqui (in memoriam) e Prof. Luiz Paulo Conde: catalisadores de potenciais, diretores entusiasmados da minha FAU/UFRJ; Prof. Jorge Czajkowski: antigo parceiro, me mostrou que arquitetura ia muito além da régua e do compasso, do prumo e do nível; Prof. Mauro Santos: orientador que orienta e segura as ondas para não quebrarem de mau jeito; Dra. Paola Berenstein Jacques: co-orientadora, não sei o que seria deste trabalho sem sua ajuda; Profa. Elizabete Martins: incentivadora constante, entusiasta incontrolável, você é 10; Prof. Milton Feferman: crítico implacável dos lugares comuns e das frases feitas; iconoclasta inveterado; obrigado por me ajudar a duvidar de algumas verdades; Professores Paulo Afonso Rheingantz, Pablo Benetti, Sílvio Colin, Mauro Nogueira e Margareth Pereira: me ajudaram a esclarecer aspectos específicos do trabalho, colaboraram com a literatura (na falta de uma biblioteca decente); acreditam na arquitetura e na importância de estudá-la com seriedade; X Henrique Houayek: o homem das imagens que aparecem neste volume; Colegas do PROARQ: companheiros com quem partilhei a realização deste projeto; Meus alunos, todos eles, desde 1978 até hoje: me provocando e me forçando a me posicionar no embate cotidiano da produção da arquitetura, afinal, nossa grande paixão; Meus familiares: Meu pai Ruy Moraes (in memoriam): sempre o admirei, pela atitude correta diante da vida e da profissão de médico e professor; achava pitoresca sua desajeitada maneira de amar; Minha mãe Celeste Maria: difícil comentar; quem a conhece sabe que palavras dizem pouco da figura mais importante de toda minha vida; a pessoa com o maior talento para viver que eu jamais encontrei, e que enxerga longe, apesar da pouca visão; Rachel: companheira de todos os momentos, sempre valorizando minhas poucas qualidades e tentando corrigir (sem muito sucesso) meus inúmeros vícios e defeitos (eu amo você!); Meus filhos, Felipe, Eduardo (revisor implacável) e Luisa: meus únicos projetos bem realizados; pessoas que amo imensamente, nas quais vejo aperfeiçoadas as qualidades do ser humano – pelo menos, não vejo neles muitos dos defeitos que vejo em mim; Meu irmão Eduardo (last, but not least): atualmente para mim um dos maiores pensadores da cultura brasileira; é um privilégio poder pegar no telefone e discutir coisas, desde as mais banais até as mais relevantes; obrigado também pela ajuda com o alemão. A todos, meu sincero agradecimento. PREFÁCIO DEL RIGOR EN LA CIENCIA ...EN AQUEL IMPERIO, el Arte de la Cartografía logró tal Perfección que el mapa de una sola Provincia ocupaba toda una Ciudad, y el mapa del Imperio, toda una Provincia. Con el tiempo, esos Mapas Desmesurados no satisficieron y los Colegios de Cartógrafos levantaron un Mapa del Imperio, que tenía el tamaño del Imperio y coincidia punctualmente con él. Menos Adictas al Estudio de la Cartografía, las Generaciones Siguientes entendieron que ese dilatado Mapa era Inútil y no sin Impiedad lo entregaron a las Inclemencias del Sol y de los Inviernos. En los desiertos del Oeste perduran despedazadas Ruinas del Mapa, habitadas por Animales y por Mendigos; en todo el País no hay otra reliquia de las Disciplinas Geográficas. SUÁREZ MIRANDA: Viajes de varones prudentes, Libro cuarto, cap. XLV, Lérida, 1658. Jorge Luis Borges El Hacedor. Emecé Editores S.A., 1960; 1996, p.119. PREFÁCIO xii Não é de hoje meu interesse e minha vontade de aprofundar mais cuidadosamente e detalhadamente o estudo da obra do arquiteto Jorge Machado Moreira (1904-1992). Há muitos anos freqüento quase cotidianamente a Ilha do Fundão, portanto, convivo com o fruto de seu trabalho, embora tenha dedicado a ele pouco mais do que uma visão leiga. Um dos primeiros contatos que tive com o trabalho de Jorge Machado Moreira – não foi o primeiro, vim a descobrir depois – foi em 1970, quando ingressei nessa Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Ninguém passa indiferente por este edifício; ninguém passa indiferente pelo Campus da UFRJ da Ilha do Fundão – eu também não passo indiferente por esse lugar. O espaço da Cidade Universitária e o espaço do Edifício da FAU propiciam ao visitante vivências espaciais pouco convencionais. São espaços que se distinguem do restante da cidade, seja pelo arranjo lógico das edificações e do traçado viário (conspurcado no ano 2000 pela invasão equivocada do trecho final da Linha Amarela), seja pelo porte e escala monumental dos espaços vazios e dos volumes edificados, características que são rapidamente apreendidas mesmo por um visitante pouco atento. Em mim, jovem estudante, pós-adolescente, foi intensa a impressão que causaram esses espaços, esses edifícios. Naquela época, em outros lugares do planeta já se contestavam, e já eram dadas como mortas por muitos arquitetos, as doutrinas da arquitetura moderna. Por aqui, muitos colegas acreditavam que ainda era possível se viver dos louros conquistados pela genialidade e criatividade sem paralelo da arquitetura brasileira produzida nos 30 ou 40 anos anteriores, que teria culminado com a construção de Brasília. É verdade que a ditadura militar tinha interrompido esta produção, mas tão logo fosse vencido o inimigo reacionário, iríamos retomar a trilha de glória que nossos colegas tinham aberto com tanta competência – era o que se pensava. Entendi o Edifício da FAU como uma aula em si.Ainda hoje constato, vendo trabalhos feitos por alunos, que para muitos dos que freqüentam essas salas, ele continua sendo uma aula. Com certeza a aula que este edifício dá hoje é muito diferente daquela que PREFÁCIO xiii deu nas décadas de 1960 e 1970. Um edifício feito para abrigar a própria Faculdade de Arquitetura não é um edifício qualquer. Vejo uma analogia com o jogo de palavras que há no nome Bauhaus – literalmente “casa da construção”. Aqui seria a “casa da construção de construtores de casas” (como se diria isto em alemão?). A pessoa que concebeu esse edifício quis demonstrar didaticamente em cada detalhe sua maneira de ver e de fazer arquitetura. Deveria, portanto, ser um exemplo da arquitetura a ser praticada por quem ali estudasse. Jorge Machado Moreira nunca foi, de fato, professor, mas através de sua obra e, especialmente através do Edifício da FAU, influiu indiretamente na formação de várias gerações de arquitetos que estudaram nessa Faculdade. No Brasil, há poucos casos de edifícios projetados especificamente para abrigarem Escolas de Arquitetura. O Rio de Janeiro abriga três deles. O primeiro é a Sede da Real Academia de Belas Artes, projetado por Grandjean de Montigny (1776-1850), em 1817, na Travessa das Belas Artes, hoje demolido, seu terreno é ocupado por um estacionamento. Outro edifício é a Escola Nacional de Belas Artes (atual Museu Nacional de Belas Artes), na Av. Rio Branco, projetado em 1902 por Adolfo Morales de los Rios (1858-1928). Finalmente, o atual Edifício na Ilha do Fundão, do qual estamos falando. Apesar desta singularidade, ainda não foi feito um estudo que relacione cada um destes edifícios, as idéias subjacentes às concepções que os geraram e a influência que eles exercem sobre os profissionais que neles se formam. O visitante que apenas rapidamente passa pela Ilha do Fundão fica impactado pelo porte e pela escala monumental dos espaços, tanto os externos como os internos. O usuário que vai sempre ali, superado este impacto inicial, percebe logo a racionalidade que determina todos os aspectos de sua concepção e de sua execução. A mão do projetista, que agiu como um geômetra, é percebida em todos os lugares e no lugar todo. Percorrer os andares de cada edifício é como andar sobre uma planta ampliada para a escala natural. Olhando o chão, as paredes e os tetos, enxergo os eixos, os detalhes básicos que se repetem, a aritmética dos forros, e dos azulejos e cerâmicas, formando módulos e sub-módulos, numa cadência ritmada e interminável. A situação se assemelha ao conto Del Rigor de la Ciencia (Do Rigor da Ciência), de Jorge Luis Borges, no qual o narrador discorre sobre a obsessão pela minúcia que alguns PREFÁCIO xiv cartógrafos desenvolveram em um antigo império. Esta obsessão os levou a fazê-los tão grandes e perfeitos que acabaram por se superpor ao próprio local mapeado. Hoje ainda se poderiam encontrar fragmentos deles em alguns lugares do país (Borges: 1960, 160). Nos projetos de Jorge Machado Moreira ocorre o processo inverso: a cada passo, o usuário tropeça nos riscos e nos instrumentos de desenho deixados sobre a prancheta, que se corporificam em matéria geometricamente controlada. A mesma racionalidade aplicada ao edifício, entendido como construção, se mostra também no arranjo das funções em blocos especializados. A distribuição dos setores em blocos pretende organizar os usos segundo uma lógica baseada na compreensão do programa. Os volumes que abrigam as circulações permitem que as funções se articulem com clareza cristalina, oferecendo ainda, como um generoso brinde, a formação de pátios ajardinados que amenizam os percursos, revelando também nesta estratégia a racionalidade que domina os espaços cobertos. Esta lógica visível, que decorre do entendimento do espaço projetado como a resposta a uma equação, me levou apressadamente a identificar aquilo que via como a essência do que seria a própria arquitetura moderna. Ou seja, se existia uma arquitetura tipicamente moderna, seria aquela. Este seria o modelo e tudo que dele se distanciasse, estaria se distanciando do autenticamente moderno. À medida que ia conhecendo os outros edifícios dentro da Cidade Universitária – o Centro de Tecnologia, o Hospital Universitário, o Alojamento de Estudantes, o Instituto de Pediatria e Puericultura –, esta impressão apenas se acentuava. Nos outros edifícios, percebia a mesma lógica a presidir o arranjo dos espaços e a concepção construtiva. Mas percebia também que, entre todos, os dois melhores eram o Instituto de Pediatria Puericultura e o Edifício da FAU. Nestes dois exemplares, o sentido lógico alcançava suas mais claras expressões, denunciado pela clara articulação dos blocos edificados e dos pátios, pela francamente perceptível hierarquização dos espaços e dos elementos da composição e pelo rigor construtivo. Durante o curso de Arquitetura, conheci e fui aluno de muitos arquitetos que participaram da equipe projetista do ETUB – Escritório Técnico da Universidade do Brasil, responsável por estes projetos: Orlando Magdalena, João Henrique Rocha, PREFÁCIO xv Donato Mello Júnior, Renato Sá, Arlindo Gomes, Carlos Alberto Boudet, Paulo Sá. Em sua maior parte, eram arquitetos “de prancheta” e “de canteiro”. Praticavam e ensinavam aquela arquitetura, porque acreditavam nela, achavam que ela “dava certo”, “funcionava”. Donato era o único com perfil mais próximo do modelo de um pesquisador acadêmico. Mesmo assim, se mostrava entusiasmado ao descrever o detalhamento das escadas do Edifício da FAU (talvez tenha sido este trabalho seu maior projeto). O que transparecia de seus relatos e das aulas destes colegas professores era a necessidade de sempre deixar à lógica e à racionalidade os critérios de decisão para determinar a forma que um edifício deveria tomar. Com poucos semestres cursados na faculdade, tomei conhecimento de que havia pelo mundo afora arquitetos como, por exemplo, Kenzo Tange, que praticavam uma arquitetura moderna à moda oriental, ou Marcel Breuer, Louis Kahn, Alvar Aalto e outros, muitos outros, que davam à arquitetura, ainda que essencialmente moderna, uma expressão extremamente particular. Ao mesmo tempo, as revistas estrangeiras mostravam que novos ventos arquitetônicos sopravam, vindos do sul da Europa e dos Estados Unidos. Venturi, Moore, Graves e Rossi, entre outros, viravam os dogmas modernos pelo avesso, e produziam obras tão desafiadoramente diferentes daquelas feitas pelos filhos dos CIAM, que era impossível ficar indiferente a elas. Comecei a questionar a validade e a atualidade daquela arquitetura moderna brasileira. Na época, o Governo Federal, através do BNH produzia sucessivamente enormes “monstrengos” a que chamava conjuntos habitacionais. Milhares de apartamentos compactos eram construídos nos vazios deixados na expansão das cidades rumo a suas periferias. A lógica destes projetos era baseada, pode-se dizer, quase exclusivamente na economia. Lançava-se mão de um “sub-urbanismo” com origem no padrão das superquadras de Brasília, adaptado aos orçamentos apertados dos programas habitacionais populares. Em 1978, numa pesquisa de avaliação destes conjuntos, constatei pessoalmente como era falso aquele modelo. O ruído da implosão de Pruitt Igoe, relatada por Jencks, em The Language of Post-Modern Architecture (A Linguagem da Arquitetura Pós-moderna) (Jencks: 1977), soava como a trilha sonora da queda da arquitetura moderna do pedestal onde ainda alguns arquitetos insistiam em mantê-la. PREFÁCIO xvi Ultimamente, tenho ouvido com inconveniente freqüência, de alguns colegas, e mesmo de alguns estudantes, um discurso de rejeição sumária a tudo que se refira ao moderno. É um discurso panfletário e, a meu ver, ultrapassado. Se isto ocorresse há 10 ou 20 anos atrás, ainda se compreenderiapois, nesta época, a crítica ao movimento moderno não havia se consolidado, a ponto de se poder distinguir nele os aspectos positivos dos negativos. Chamava atenção a degradação da paisagem urbana em todo o mundo. Era muito fácil associar esta degradação ao movimento moderno, pois a mais intensa urbanização que a humanidade já presenciou se deu concomitantemente ao apogeu deste movimento. No entanto, cabe ressalvar, como faz Frampton: “O reconhecimento da perda de identidade cultural que a urbanização trouxe consigo foi retomado com grande intensidade em meados da década de 1960, quando os arquitetos começaram a perceber que os códigos redutivos da arquitetura contemporânea tinham levado ao empobrecimento do ambiente urbano. Contudo, o modo exato como se deu este empobrecimento – até que ponto ele se deve às tendências abstratas presentes na própria racionalidade cartesiana ou, alternativamente, à inexorável exploração econômica – é uma questão crítica e complexa que ainda precisa ser ponderadamente resolvida.” (Frampton: 1992; 1997, 353) A saída que se mostrou mais eficaz, no lugar de sua simples contestação, foi uma atitude mais inclusiva, que permite olhar criticamente o movimento moderno. Esta atitude decorre diretamente da compreensão de que, ao contrário do fim da história pretendido pelos vanguardistas mais radicais, o movimento moderno foi mais um período na história da arquitetura, e que a contribuição que trouxe ainda está longe de se esgotar. Hoje, parece ser unanimidade a contestação ao urbanismo funcionalista, que segrega funções em setores especializados da cidade, e acaba dando ao sistema viário uma perversa prioridade que oprime a escala do pedestre. Ao mesmo tempo, o “Estilo Internacional”, que, de certa maneira, é uma degeneração dos princípios racionalistas modernos, perde terreno para uma gradativa e cada vez mais acentuada expressão individual e local das edificações. No entanto, não resta dúvida que este mesmo movimento revolucionou a estética de toda a humanidade, e incorporou à arquitetura métodos e processos industriais sem os quais seria impossível produzir edificações no ritmo que a crescente população mundial tem demandado, no que pese o fato de que grande parte desta população ainda não disponha de uma habitação PREFÁCIO xvii digna. Esta corrente, que se manifesta nos mais variados pontos do planeta, acabou sendo rotulada como Regionalismo Crítico, e inclui nomes e expressões formais tão variados como Ando, no Japão, Siza, em Portugal, Meier, nos Estados Unidos, Nouvell, na França, entre outros. Em resumo, “as culturas regionais e nacionais precisam atualmente, mais do que nunca, ser, em última instância, constituídas como manifestações localmente moduladas da ‘cultura mundial’.” (Frampton: 1992; 1997: 382) Ao mesmo tempo, face à dinâmica da sociedade global e a ineficácia demonstrada por qualquer instrumento de controle e planejamento, só nos resta aceitar nossa limitação a territórios mais restritos. “Numa sociedade hipnotizada pelo consumismo, o equilíbrio das condições eco-ontológicas talvez só possa ser alcançado através da estratégia da criação de enclaves descontínuos, ou seja, fragmentos delimitados nos quais uma certa simbiose cultural e ecológica possa prevalecer a despeito do caos circundante.” (Frampton: 1992; 1997, 416). Levando-se em conta que esta sociedade a cada dia incorpora em seu cotidiano uma tecnologia de informação crescentemente interativa, é possível que os indivíduos determinem os limites de seus enclaves menos em função da proximidade física com o vizinho de porta e mais em função das afinidades com outros que estejam do outro lado do mundo, mas ao alcance de apenas um instantâneo clique de seu mouse. Esta nova atitude arquitetônica valoriza novamente a história. Agora, no entanto, esta valorização se dá de forma diferente do distante respeito antigamente dirigido aos Serlio e Vignola. Sem desprezar os clássicos do passado, a história que alimenta a arquitetura hoje inclui todas as manifestações relevantes na formação da cultura, sejam elas eruditas ou populares. Valorizam-se eventos que tenham importância para um grande número de pessoas, mas não se desprezam coisas que tenham significado apenas para um grupo restrito de indivíduos ou uma pequena comunidade. É nesta perspectiva que se torna a cada dia mais importante conhecer e atribuir o adequado valor às manifestações de nossa cultura. No lugar de glorificar de forma ufanista os modernos brasileiros ou de condená-los preconceituosamente, é PREFÁCIO xviii importante colocá-los adequadamente no lugar que merecem ocupar na história da arquitetura. Nesta perspectiva, parece não restar qualquer dúvida sobre a relevância de se estudar a obra de Jorge Machado Moreira. Em 1993, Giuseppina Pirro Moreira, viúva de Jorge Machado Moreira, confiou ao NPD – Núcleo de Pesquisa e Documentação – a guarda de seu acervo, que incluía centenas de desenhos e fotografias. O conjunto abrangia todo o trabalho feito pelo arquiteto fora do ETUB, incluindo desenhos desde os tempos de estudante na Escola Nacional de Belas Artes, até os últimos projetos, feitos em parceria com ela própria, Giuseppina. As fotografias destinavam-se majoritariamente a publicação em revistas nacionais e estrangeiras. A parte relativa à Ilha do Fundão, material produzido no ETUB – Escritório Técnico da Universidade do Brasil –, continua pertencendo ao arquivo da Prefeitura da Cidade Universitária. Nesta época eu dividia com Jorge Paul Czajkowski a coordenação do Núcleo, criado em 1982 com o apoio do saudoso diretor e professor Ulysses Burlamaqui. Jorge comandava diretamente os pesquisadores e eu me empenhava para viabilizar operacionalmente o trabalho da equipe. Diria que foi uma dupla que funcionou. A incorporação desta nova coleção representou um acréscimo enorme de peças ao acervo do NPD. Assim que foram entregues, os rolos de desenhos eram abertos um a um com grande curiosidade, revelando a personalidade e os talentos de Jorge Machado Moreira. A maior parte dos desenhos era de seu próprio punho, mesmo as pranchas de grandes formatos, predominantemente técnicas – projetos executivos e detalhes de obra. Como já era esperado, a maior parte dos desenhos era referente às etapas de anteprojeto, projeto executivo e detalhamento. Eram impecáveis em sua paginação e legibilidade. Um dos desenhos que mais me chamou a atenção foi o detalhe em seção horizontal de uma fachada, na escala 1/1. A largura da prancha tinha a mesma dimensão que a fachada do edifício, sendo esta dimensão obtida pela emenda sucessiva de várias folhas de papel manteiga. Seu manuseio era semelhante ao de uma Toráh1. O desenho, a mão livre, em escala, mostrava todos os encaixes e 1 Toráh – Bíblia judaica, escrita em pergaminhos, emendados lado a lado, enrolados em dois bastões, PREFÁCIO xix dispositivos de movimentação das folhas de veneziana e vidro. Uma prova eloqüente da obsessão do autor pelo zelo construtivo, mostrando neste aspecto sua afinidade com Mies van der Röhe, um de seus inspiradores, que dizia que “Deus estava nos detalhes” (Röhe ap Huxtable: 2001, A14). Do primeiro apanhado deste material, resultou um artigo de Alex Nicolaeff, publicado na revista AU n° 49, de agosto/setembro de 1993. N icolaeff já conhecia bem o trabalho de Moreira pois, além de seu contemporâneo, conviveu com ele no Conselho Estadual de Tombamento do Estado do Rio de Janeiro, entre 1977 e 1979. É um artigo curto que mais descreve do que comenta a obra do arquiteto, valorizando sempre sua conduta ética: “Cidadão e arquiteto, Jorge Moreira espelhou sua obra nos conceitos romanos de ‘caráter’ e ‘decoro’, recomendados no texto de Vitrúvio.” (Nicolaeff: 1993) A idéia de montar uma exposição com o materialdesta coleção surgiu como conseqüência lógica. Esta, porém, só viria a se realizar em 1999, montada no Centro de Arquitetura e Urbanismo, vinculado à Secretaria Municipal de Urbanismo da Prefeitura do Rio de Janeiro, durante o mandato do Prof. Luiz Paulo Conde como Prefeito da Cidade. A exposição teve curadoria de Jorge Czajkowski, que também organizou o catálogo (Czajkowski, 1999). Todas as obras expostas pertencem à coleção da Dra. Giuseppina Pirro Moreira. O texto “Razão ao Cubo”, de Roberto Conduru, que abre o catálogo, é a análise mais extensa publicada até hoje sobre Jorge Machado Moreira e sua obra (Conduru: 1999). O catálogo praticamente reproduz as peças expostas. O critério da curadoria de expor apenas peças do acervo do NPD / FAU, deixou de lado todo o acervo pertencente ao ETUB. Para compensar esta situação, as obras deste período foram mostradas através de fotografias e desenhos utilizados em publicações especializadas – na maioria revistas nacionais e estrangeiras da época da construção. Os desenhos desta fase, feitos em grande quantidade, tanto pelo próprio um em cada extremidade. Ainda hoje utilizado nas sinagogas, em cerimônias religiosas. PREFÁCIO xx Jorge Machado Moreira, como pela equipe por ele chefiada, ficaram inteiramente de fora da exposição e do catálogo que a acompanha. Também ficaram de fora os desenhos técnicos direcionados mais especificamente para a execução de obra, mesmo aqueles pertencentes ao próprio acervo sob os cuidados do NPD. Entende-se o critério para se deixar estes desenhos de fora: seu apelo visual é de fato pobre e seu interesse é restrito ao público mais especializado. Por outro lado, ganharam destaque os trabalhos do início da carreira do arquiteto e os estudos preliminares para as residências unifamiliares e para os edifícios multifamiliares realizados para clientes particulares. Os estudos preliminares mostrados na exposição e em seu catálogo são excelentes objetos de análise. Com o estudo preliminar, o arquiteto convence o cliente da sua arquitetura; com estes desenhos se estabelece o pacto inicial, através do qual cliente e arquiteto se associam para travar a batalha da construção da edificação. Destacam-se neste conjunto os desenhos das Residências Ceppas e Corrêa da Costa, do início dos anos 1950. Uma destas me traria uma rara experiência, que me faria recordar coisas acontecidas muitos anos atrás. Conhecer esta coleção de desenhos e fotografias me permitiu rever, agora com outros olhos, uma obra que marcou minha infância. Era comum então, nos finais de semana, meus irmãos e eu nos amontoarmos no banco de trás do velho Dodge 1948 de meu pai, e passearmos pela cidade. Certos pontos por onde passávamos eram prenunciados e depois saudados com grande entusiasmo: os pontos de que mais me lembro eram o “Hospital do Papai”, na Rua Voluntários da Pátria, a “Garrafinha” do Guaraná Champagne na Praia de Botafogo, e a não menos saudada “Casa Feia”, perto do canal da Rua Visconde de Albuquerque, quase chegando na Praia do Leblon. Vendo fotos e desenhos de Jorge Machado Moreira, constatei que esta era nada menos do que um dos mais importantes de seus projetos – a Residência de Antônio e Rosinda Ceppas, hoje demolida para dar lugar a um edifício de apartamentos. Devo confessar que naquela época eu entrava no coro de meu irmãos, e também saudava aquela estranha construção como a “Casa Feia”. Mas, para não faltar com a verdade, devo afirmar também que aquela estranheza me fascinava, e via nela traços de afinidade com outras duas casas também na Visconde de Albuquerque, antes da Rua PREFÁCIO xxi Felix Pacheco. Uma era projeto de Oscar Niemeyer, feita para o ex-ministro Leonel Miranda e a outra, vizinha, de Sérgio Bernardes, feita para Jadir de Souza. Em 1957, quando se mudou para minha vizinhança uma família que viria a se tornar amiga da minha, fiquei fascinado por poder visitar a qualquer hora aquela casa de traços retilíneos que vinha sendo construída ali, perto da minha – sem contar, é claro, que estes vizinhos eram pessoas ótimas. Parecia em tudo com a “Casa Feia” do final do Leblon. E de feia não tinha nada. Os espaços amplos, iluminados, a vista generosa da Lagoa Rodrigo de Freitas, o arranjo lógico dos ambientes, tudo era radicalmente diferente daquela casa onde eu morava. Esta tinha sido mandada construir em 1925, um projeto de Januzzi, com estilo de chalé, e que por esta época, já sofrera pelo menos duas grandes reformas que descaracterizaram seu desenho original. Aquela outra casa, tão diferente da minha, era projeto de Carlos Frederico Ferreira que, como funcionário do IAPI, já tinha desenhado alguns conjuntos residenciais populares e praticava uma “Nova Arquitetura”, na qual prevaleciam critérios racionais em sua concepção. Acho que vem desta época meu encanto e meu interesse pela arquitetura. Jorge Machado Moreira já estava presente em meus registros e eu ainda não tinha consciência disto. Pouco depois do falecimento de Jorge Machado Moreira, Donato Mello Júnior. publicou na revista Projeto (Mello Júnior: 1993), uma biografia do arquiteto, com o qual conviveu no ETUB, destacando a importância de sua obra e ressaltando seu compromisso com a categoria. O artigo encerra assim: “Por certo, algum arquiteto, algum dia, fará da obra projetada e da parte executada o objeto de uma tese de mestrado ou de doutorado. Fica a idéia; documentos e obras não faltam in loco, além de divulgação dos depoimentos possíveis da equipe.” (Mello Júnior: 1993) Aí está, professor, minha contribuição. PREFÁCIO xxii Jorge Machado Moreira: Cidade Universitária da Ilha do Fundão (1949) (ap Czajkowski: 1999, 131) Espaços que se distinguem do restante da cidade pelo arranjo lógico das edificações e do traçado viário, ou pelo porte e escala monumental dos espaços vazios e dos volumes edificados Jorge Machado Moreira: Faculdade Nacional de Arquitetura – atual Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Reitoria (1957) (ap Czajkowski, 1999, 148,154) A mão do projetista, que agiu como um geômetra, é percebida em todos os lugares e no lugar todo. Percorrer os andares do edifício é como andar sobre uma planta ampliada para a escala natural. Olhando o chão, as paredes e os tetos, enxergo os eixos, os detalhes básicos que se repetem, a aritmética dos forros, e dos azulejos e cerâmicas, formando módulos e sub- módulos, numa cadência ritmada e interminável. Jorge Machado Moreira: Instituto de Puericultura (1949) (ap Czajkowski: 1999, 132-133) À medida que ia conhecendo os outros edifícios dentro da Cidade Universitária, percebia a mesma lógica a presidir o arranjo dos espaços e a concepção construtiva. Mas percebia também que entre todos, os dois melhores eram o Instituto de Puericultura e o Edifício da FAU. Nestes dois exemplares, o sentido lógico alcançava suas mais claras expressões. PREFÁCIO xxiii Jorge Machado Moreira: __________ () A largura da prancha tinha a mesma dimensão que a fachada do edifício, sendo esta dimensão obtida pela emenda sucessiva de várias folhas de papel manteiga. Seu manuseio era semelhante ao de uma Toráh. O desenho, a mão livre, em escala, mostrava todos os encaixes e dispositivos de movimentação das folhas de veneziana e vidro Capa do Catálogo da Exposição de Jorge Machado Moreira – Centro de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (1999) A idéia de montar uma exposição com o material desta coleção surgiu como conseqüência lógica. Esta, porém, só viria a se realizar em 1999, montada no Centro de Arquitetura e Urbanismo, vinculado à Secretaria Municipal de Urbanismo da Prefeitura do Rio de Janeiro, nomandato do Prof. Luiz Paulo Conde como Prefeito da Cidade. A exposição teve curadoria de Jorge Czajkowski, que também organizou o catálogo. Jorge Machado Moreira: Residência Ceppas (1951) ap Czjakowski: 1999, 55) Vendo fotos e desenhos de Jorge Machado Moreira, constatei que esta era nada menos do que um dos mais importantes de seus projetos – a Residência de Antônio e Rosinda Ceppas PREFÁCIO xxiv Oscar Niemeyer: Residência Leonel Franca (1953) (ap JB ago 2001) Via traços de afinidade com outras duas casas também na Visconde de Albuquerque, antes da Rua Felix Pacheco. Uma é projeto de Oscar Niemeyer, feita para o ex-ministro Leonel Miranda Carlos Frederico Ferreira: Residência Helena e Aluísio Reis (1957) (Moraes, 1957) Aquela casa de traços retilíneos que vinha sendo construída ali, perto da minha, parecia em tudo com a “Casa Feia” do final do Leblon. E de feia não tinha nada. Era projeto de Carlos Frederico Ferreira que, como funcionário do IAPI, já tinha desenhado alguns conjuntos residenciais populares e praticava uma “Nova Arquitetura”, na qual prevaleciam critérios racionais em sua concepção. INTRODUÇÃO A história é o que uma época considera digno de nota em outra. Jakob Burckhardt INTRODUÇÃO 2 O objetivo desse trabalho é estudar a obra do arquiteto Jorge Machado Moreira, com o intuito de atribuir a ela a devida importância na arquitetura brasileira e mundial. Até hoje, foram publicados somente dois trabalhos que abordam especificamente a obra de Jorge Machado Moreira. O primeiro é o artigo intitulado Jorge Moreira, de Alex Nicollaeff, publicado na revista Arquitetura & Urbanismo, n° 48, de ago/set 1993. Trata-se de trabalho curto, no qual as ilustrações mostram os projetos mais conhecidos do arquiteto, e dão sustentação a um texto que privilegia a descrição, sem se aprofundar em análises mais detalhadas. O mérito desse artigo foi divulgar o trabalho do arquiteto, reunido pela primeira vez de forma organizada. Durante sua carreira, muitos de seus projetos foram publicados em livros e revistas especializadas, mas nunca havia sido feito um apanhado geral do conjunto de suas obras projetadas. O segundo e último trabalho sobre Jorge Moreira é o Catálogo da Exposição de sua obra, realizada em 1999, sob curadoria de Jorge Paul Czajkowski, no Centro de Arquitetura e Urbanismo da Prefeitura do Rio de Janeiro. O Catálogo reproduz a maior parte das peças expostas na ocasião, e tem um texto de abertura de Roberto Conduru, com o título Razão ao Cubo. O autor baliza a carreira de Moreira entre dois marcos – o inicial, a Sede do MESP e o final, o Campus da Ilha do Fundão –, e1 destaca que estes marcos são referências não apenas na obra do arquiteto, mas da própria arquitetura moderna brasileira. No que diz respeito à caracterização de sua expressão, classifica Jorge Machado Moreira como “um exemplo de artista filiado à vertente construtiva da arte moderna, não só por sua adesão à forma pós-cubista abstrata e racional, mas também por sua crença na possibilidade de transformação social com a nova ordem plástica e por sua atuação profissional comprometida com o bem público.” (Conduru, 1999, 14) Neste texto, que é até hoje o trabalho de maior fôlego escrito sobre Jorge Machado Moreira, Conduru, para dar sustentação à análise que faz da obra do arquiteto, INTRODUÇÃO 3 recorre seguidamente aos argumentos do próprio Moreira, expressos no Depoimento que escreveu em 1980 para servir de verbete na Enciclopédia Contemporary Architects, Londres, St. James Press. O Depoimento aparece como texto de abertura do Catálogo. Conduru não questiona o arquiteto, e toma como verdade o auto-retrato que Jorge Machado Moreira faz ali. Pelo texto, é mais do que evidente sua intenção de se colocar no panorama da arquitetura como filiado a Le Corbusier: “De maior significação, porém, foi o contato mantido com Le Corbusier, em 1936, quando veio ao Rio de Janeiro a convite do Ministério de Educação e Saúde. Teve grande importância o convívio, durante cerca de três semanas, que com ele tiveram os arquitetos do grupo encarregado de projetar o edifício do ministério, do qual eu fazia parte, e que influiu decisivamente em minha formação profissional.” (Moreira: 1980) Ao tomar esta afirmação como verdade absoluta e não duvidar dela, qualquer análise de sua obra será tendenciosa e deixará de lado influências importantes que podem ter ocorrido em sua formação. A análise contida nas páginas seguintes procura examinar a biografia do arquiteto desde sua formação como estudante, dando uma especial atenção ao atribulado período por volta de 1930 e 1931, quando Lúcio Costa dirigiu a Escola Nacional de Belas Artes e teve Gregori Warchavchik como um dos mais importantes professores no curso de arquitetura. O próprio Moreira inicia seu texto destacando a importância que o russo teve em sua conversão aos valores da “Nova Arquitetura”, que defendeu por toda sua vida profissional. Buscar o significado e a importância de Warchavchik neste momento será fundamental para entender os primeiros passos não só de Jorge Machado Moreira, mas de toda uma geração de arquitetos que teve com ele sua iniciação à “nova maneira de conceber, projetar e construir” (Moreira: 1980). O professor Warchavchik era imigrado da Europa e mantinha contatos com a vanguarda européia. Passa a ser fundamental, portanto conhecer melhor o próprio Warchavchik e o conteúdo da doutrina que ensinava a seus alunos, para se INTRODUÇÃO 4 entender o real significado de sua influência naqueles jovens estudantes. A análise histórica se mostra, assim, como o único método que permite juntar coerentemente os fatores que conformaram aquele determinado momento e que esclarece como ocorreram seus desdobramentos. Uma dificuldade que se apresenta ao historiador, logo ao se deparar com seu objeto de estudo, é o de estabelecer os limites deste objeto. Esta definição será tão mais nítida quanto mais claro for o objetivo que se deseja alcançar no estudo. No presente caso, o objetivo principal é situar a obra de Jorge Machado Moreira dentro da arquitetura mundial em geral e a brasileira em particular. Para tanto, por razões de método e de organização, este objetivo foi subdividido em três: − identificar as origens dos conceitos fundamentais da obra de Jorge Machado Moreira ; − descrever o processo de adoção destes conceitos pelo arquiteto e por seus contemporâneos; − estabelecer comparações de seu trabalho na fase madura com os de seus contemporâneos e identificar suas especificidades. Os limites do estudo, portanto, se delineiam a partir de seu foco, ou seja, a própria obra e biografia do arquiteto. A partir daí, dois cortes podem ser traçados. O primeiro corte seria no sentido temporal, usualmente chamado pelos historiadores de corte vertical. Nesta abordagem, se busca alinhar eventos, de forma aproximadamente cronológica, na busca da identificação das origens, dos fatos caracterizadores e dos desdobramentos e conseqüências (se houver) do que se está estudando. O segundo corte, usualmente chamado de horizontal, busca estabelecer comparações com eventos simultâneos ou contemporâneos. Tem como objetivo justificar a inclusão, por afinidade, do objeto estudado em um conjunto mais amplo, visando destacar suas peculiaridades. Na introdução a Viena Fin-de-Siècle, Carl E. Schorske, ao descrever um método semelhante adotado na pesquisa que resultou no livro mencionado, faz uma interessante metáfora: INTRODUÇÃO 5 “... o historiador procura situar e interpretar temporalmente o artefato, num campo onde cruzam duas linhas. Uma é vertical, ou diacrônica, com a qual ele estabelece a relação de um texto ou um sistema de pensamento com expressões anteriores no mesmo ramo de atividade cultural(pintura, política, etc.). A outra é horizontal, ou sincrônica; com ele, o historiador avalia a relação do conteúdo do objeto intelectual com as outras coisas que vêm surgindo, simultaneamente, em outros ramos ou aspectos de uma cultura. O fio diacrônico é a urdidura, e o sincrônico é a trama do tecido da história cultural. O historiador é o tecelão, mas a qualidade do tecido depende da firmeza e cor dos fios.” (Schorske:1961: 17) Ou seja, é preciso ser cuidadoso na seleção do material que servirá para criar o tecido histórico. Uma conceituação clara é portanto indispensável. Para o presente estudo, entende-se que a arquitetura é um fenômeno cultural complexo. Adota-se a concepção vitruviana de arquitetura, que mesmo datando do Século I, e sendo a primeira definição de que se tem notícia sobre esta disciplina, permanece válida até hoje. Segundo Vitrúvio: “A arquitetura está dividida em duas partes: uma das quais trata da construção de muralhas e das obras públicas e, a outra, dos edifícios privados, ... E isso deve ser realizado de modo que os atributos de solidez (firmitas), da utilidade (utilitas) e da beleza (venustas) se encontrem.” (VITRUVIUS) Na seqüência do texto acima (De Arquitetura – Dez Livros sobre Arquitetura – Livro 1 – Parte III), Vitrúvio especifica o que enuncia na frase acima: “Terá o atributo da solidez (firmitas) quando a profundidade dos alicerces atingir camadas rígidas do solo e a escolha criteriosa de todos os materiais for feita sem mesquinharia; o da utilidade (utilitas), quando se chegar a uma distribuição vantajosa e adequada entre as regiões de acordo com seu gênero, cada coisa em seu lugar; e o da beleza (venustas), quando o aspecto da obra for agradável e elegante, devido à justa proporção de todas as partes.” (Vitruvius) INTRODUÇÃO 6 Vitrúvio, sabiamente, não prioriza um atributo ou declara que um prevaleça sobre os demais, residindo neste aspecto de interdependência dos atributos a complexidade da arquitetura. Em outra definição de arquitetura, bem mais recente e mais próxima temporalmente, Lúcio Costa complementa os conceitos milenares acima e dá uma forma mais contemporânea à formulação: “Pode-se definir arquitetura como construção concebida com a intenção de ordenar e organizar plasticamente o espaço, em função de uma determinada época, de um determinado meio, de uma determinada técnica e de um determinado programa. Estabelecidos, assim os vínculos necessários da intenção plástica com os demais fatores fundamentais em causa, e constatada a simultaneidade e constância dessa múltipla presença na própria origem e durante o transcurso da elaboração arquitetônica, o que lhe justifica a classificação tradicional na categoria das Belas Artes, pode-se então abordar mais de perto a questão no propósito de elucidar, com o apoio do testemunho histórico e da experiência contemporânea, como procede o arquiteto ao conceber e projetar.” (Costa 1995: 245-258) A definição de Lucio Costa é menos sintética, e pouco acrescenta, em essência aos elementos relacionados por Vitrúvio. O mais interessante em sua formulação é a explicitação de três aspectos que em Vitrúvio não estavam explícitos, apesar de poderem ser deduzidos através de análise criteriosa de seu texto. O primeiro aspecto é a referência a uma determinada época. Vitrúvio entende a história como fonte de referência básica, à qual o arquiteto deve lançar mão para justificar seu trabalho. Entre os saberes dos quais o arquiteto deve dominar, “Um amplo conhecimento de história é necessário porque, entre as diversas partes do trabalho do arquiteto, há muitas idéias fundamentais cuja aplicação ele deve ser capaz de justificar. Por exemplo, suponha-se que o uso de estátuas de mármore de mulheres em vestes longas, chamadas Cariátides, no lugar de colunas ...” (Vitruvius: Livro I, Capítulo 2) INTRODUÇÃO 7 O texto prossegue, dando as razões históricas para o uso deste elemento arquitetônico. Mais adiante, ao exemplificar o uso adequado das ordens arquitetônicas, fica claro que o conhecimento da história tem como finalidade a consolidação da tradição: “A conveniência (adequação) é a perfeição de estilo que se obtém quando um trabalho é feito inquestionavelmente segundo os princípios aprovados. Estes decorrem das prescrições, do uso e da natureza.” (Vitruvius: L. I – Cap. 2) Lúcio Costa, por sua vez, admite uma dinâmica na história, impensável vinte séculos antes, e entende que cada época deve produzir uma arquitetura que lhe seja compatível. Um segundo aspecto, este também implícito em Vitrúvio, que Lúcio Costa destaca é a simultaneidade dos fatores a serem considerados no transcurso da elaboração arquitetônica. Por último, cabe chamar a atenção para a inclusão da disciplina na “categoria das Belas Artes”. Com esta afirmação, Lúcio Costa dá à arquitetura sua dimensão de fenômeno cultural, portanto inter-relacionada com a sociedade e o meio em que é produzida. É segundo esta ótica que vai ser feito o estudo a seguir. Consciente dos riscos que a aceitação de tal complexidade impõe, melhor arriscar do que cair em simplismos observados em tantos estudos que desconsideram algumas das dimensões vitruvianas. Os autores de tais estudos, nesse processo simplificatório, reduzem a arquitetura apenas a sua dimensão tecnológica ou estética, excluindo as demais e a rica complexidade daí decorrente. Outro erro que deve ser evitado é a visão preconceituosa e a aceitação de simplificações grosseiras. Sem desmerecer a importância que Paolo Portoghesi tem na crítica e na história da arquitetura, chega a ser ridículo afirmar que “a arquitetura que obedece ao estatuto do funcionalismo nasce, por assim dizer, por partenogênese, ...” (Portoghesi: 1982, 13). Nesta afirmação, Portoghesi ignora toda discussão que se travava na Europa desde meados do século XIX sobre a renovação que vinha se processando nas artes em geral e na arquitetura em particular, e destitui do modernismo toda a incontestável carga intelectual que possui. INTRODUÇÃO 8 As três subdivisões do objetivo principal, definidas no início deste capítulo, correspondem aos três capítulos principais da presente dissertação. Caberia aqui explicitar os detalhes metodológicos aplicados na elaboração deste trabalho. Tarefa ingrata quando o trabalho em questão é uma reflexão pessoal com base essencialmente em pesquisa bibliográfica. Fazendo novamente alusão à metáfora já citada de Schorske, na busca dos melhores fios para tecer a trama desta história, muito se coletou, bastante se descartou pela falta de pertinência ao tema e pela pouca contribuição que traria à compreensão do processo histórico e cultural em estudo. Restou ao fim um conjunto que inclui, entre outros, os clássicos já consagrados, cuja leitura atual foi enriquecida com a vasta produção recente sobre o tema. Hoje, vencida por completo a fase modernista da arquitetura, vários autores têm-se debruçado sobre as obras, os projetos e os escritos deste período. Com isto, pode-se avaliar toda essa enorme produção com menos parcialidade e menos paixão, como se analisa qualquer outra época da história. Sempre que disponível, se buscou recorrer às fontes primárias, ou seja, edições originais, suas traduções ou reproduções consideradas as mais fiéis. No trato com a referência histórica houve o cuidado de respeitar e valorizar sua própria historicidade, ou seja, considerar o fato estudado dentro do contexto em que ocorreu. Esta conduta visa essencialmente não estabelecer qualquer critério apriorístico na análise dos fatos. Ao contrário, tem como objetivo explicitar as condições em que os mesmos se deram em suas respectivas épocas. O presente estudo adota como fio condutor o próprio Depoimento que Jorge Machado Moreira redigiu em 1980 para a Enciclopédia Contemporary Architects. Noentanto, em vez de tomá-lo como verdade, procurou-se desconstruí-lo e usar cada fragmento resultante dessa desconstrução para conferir seu significado, fosse ele explícito, implícito ou, por outro lado, omitido ou contestado pelo autor. Da análise que surgiu daí, verifica-se que o reconhecimento da “maior significação que teve Le Corbusier em sua formação” não deixa de ser uma verdade, mas omite um aspecto de enorme importância na construção da maneira arquitetônica de agir do arquiteto. Percebe-se que a influência de Warchavchik foi fundamental em sua INTRODUÇÃO 9 formação, ao trazer para a ENBA sua visão arquitetônica calcada nos ideais apregoados pela Bauhaus, pelos arquitetos de língua alemã, os holandeses, russos e outros europeus que fundamentavam suas opções construtivas e estéticas na ideologia socialista. Antes mesmo de conhecer a “Nova Arquitetura” defendida pelos CIAM, Jorge Machado Moreira já demonstrara que a atitude racionalista fazia parte de seu modo de projetar, o que pode ser observado nos seus primeiros projetos, ainda como estudante. O funcionalismo construtivista alemão foi, portanto, aceito por ele com total naturalidade. Faltava apenas adaptar-se a uma nova expressão estética, o que foi feito sem dificuldades. O estudo da obra do arquiteto mostrou que sua maneira de tratar os problemas construtivos, proveniente dessa vertente alemã, e ensinada por Warchavchik, permaneceu até o fim de sua carreira. No entanto, a estética de seus projetos passaria por várias transformações. No primeiro de seus projetos conhecidos – a Residência – publicada em revista antes de 1930, o estilo chalé mostra que as lições da academia eram respeitadas e seguidas. A partir de sua conversão aos princípios da “Nova Arquitetura” dos CIAM, entre 1930 e 1931, adotou a estética praticada principalmente por Gropius, com forte influência neoplástica; esta fase se prolongou até próximo a 1940. A presença da linguagem inspirada em Le Corbusier, com quem conviveu em 1936, na elaboração dos projetos do MESP e da Cidade Universitária da Mangueira, só apareceria em sua obra a partir dos anos 1940, e permaneceria até encerrar sua carreira no ETUB, em 1962. De Le Corbusier, adotou a visualidade dos projetos puristas anteriores a 1929, e desprezou as manifestações mais livres, brutalistas e personalistas posteriores àquela data. Depois que se afastou do serviço público, talvez influenciado pela parceria com a esposa Giuseppina Pirro, experimentou a linguagem que Mies van der Rohe adotara em seus projetos experimentais dos anos 1920 e também algumas das formas menos contidas do mestre Le Corbusier. Sempre, é bom destacar, tendo como referência técnica e construtiva os projetos de Gropius. Esquematicamente, na fase mais produtiva de sua carreira, que vai de 1940 a 1962, INTRODUÇÃO 10 recorrendo à tríade vitruviana (firmitas – utilitas – venustas), seria possível representar a modelagem de sua própria doutrina pelo diagrama abaixo: O primeiro capítulo, aborda os primeiros encontros dos CIAM, os quais Jorge Machado Moreira declara no Depoimento fazerem parte do movimento ao qual estava integrado, que visava a implantação de uma “Nova Arquitetura”. Situadas no contexto europeu, as vanguardas artísticas e arquitetônicas encontraram neste instrumento um mecanismo para enfrentar o conservadorismo da Academia. Os personagens principais desses encontros – Walter Gropius e Le Corbusier – são estudados, de modo a caracterizar suas respectivas contribuições neste movimento. Procurou-se destacar seus pontos em comum e suas divergências, que se manifestavam no CIAM, refletindo as tendências em geral do debate europeu. Frank Lloyd Wright, mencionado no Depoimento de Moreira, também é visto, de modo a situar sua importância em relação ao movimento que se desenrolava na Europa e a importância que teve na formação do arquiteto brasileiro. O segundo capítulo trata do processo através do qual as idéias da vanguarda européia e, conseqüentemente as obras construídas segundo estas idéias, foram tomando corpo no Brasil. São fundamentais as figuras dos paulistas Oswald de Gropius Firmitas Le Corbusier Venustas CIAM Utilitas JMM INTRODUÇÃO 11 Andrade, Mário de Andrade e do russo Gregori Warchavchik. Destaca-se também a importância da passagem de Lúcio Costa pela direção da ENBA em 1930-31. São tratados os trabalhos de início de carreira de Jorge Machado Moreira e de Affonso Eduardo Reidy, bem como os primeiros exercícios de projeto de caráter contemporâneo de Lúcio Costa. Ainda nesse capítulo, se aborda todo o episódio do MESP, desde os projetos do concurso, passando pelo primeiro projeto da equipe comandada por Lúcio Costa, os dois projetos de Le Corbusier e os projetos finais da equipe depois da volta de Le Corbusier à Europa. O terceiro capítulo se situa no período posterior ao projeto do MESP, na qual os arquitetos brasileiros desenvolveram expressões próprias e deram grande contribuição ao desenvolvimento da “Nova Arquitetura”. Sempre estabelecendo paralelos com o panorama mundial e com a produção brasileira, a obra do arquiteto Jorge Machado Moreira é abordada em profundidade, de modo a, finalmente, tentar estabelecer sua posição relativa neste cenário. Para não estender em demasia o pano de fundo sobre o qual se pretende situar a obra de Moreira, restringiram-se os paralelos apenas àqueles demais colegas com quem partilhou o projeto do MESP. Do mesmo modo, no panorama internacional, procurou-se situar o trabalho dos brasileiros com relação ao debate que se travou no âmbito dos CIAM e com a obra de Le Corbusier. Todo o trabalho de pesquisa se fundamentou na literatura existente, recorrendo-se apenas eventualmente a entrevistas com pessoas que, de um modo ou de outro, partilharam algum momento de sua carreira, e a algum material de arquivo, consultado principalmente no acervo do NPD/FAU/UFRJ. Portanto este trabalho pode ser visto como uma revisão bibliográfica, no qual as fontes consultadas tiveram suas respectivas historicidades destacadas. Por essa razão, procurou-se sempre, ao citar outros autores, indicar a data da versão original do documento, além daquela efetivamente disponível. As obras arquitetônicas, por se tratarem de produtos culturais, foram grifadas em itálico do mesmo modo como recomendam as Normas Técnicas para citação de obras escritas. Cada capítulo abre com a transcrição do Depoimento escrito em 1980 por Jorge INTRODUÇÃO 12 Machado Moreira, sendo destacada graficamente a parte que será abordada nas páginas seguintes; e tem, no final, um conjunto de figuras com legendas, que correspondem, aproximadamente, ao texto escrito, permitindo uma segunda ou terceira leitura do conjunto. INTRODUÇÃO 13 Chalé em Petrópolis (Reis Filho: 1970; 1973, 51) Jorge Machado Moreira: Residência (s/d) (ap Czajkowski: 1999, 37) No primeiro de seus projetos conhecidos – a Residência – publicada em revista antes de 1930, o estilo chalé mostra que as lições da academia eram respeitadas e seguidas. Walter Gropius: Bloco de Alojamentos da Sede da Bauhaus em Dessau (1925) (ap Kahn: 2001, 24) Jorge Machado Moreira: Edifício Tapir (1939) (ap Czajkowski: 1999, 73) A partir de sua conversão aos princípios da “Nova Arquitetura” dos CIAM, entre 1930 e 1931, adotou a estética praticada principalmente por Gropius, com forte influência neo-plástica; esta fase se prolongou até próximo de 1940. Le Corbusier: Sede do MESP no terreno da Praia de Santa Luzia. (1936) (ap Costa: 1995, 122) Jorge Machado Moreira: Faculdade Nacional de Arquitetura (1957) (ap Czajkowski: 1999, 154) A presença da linguagem inspirada em Le Corbusier, com quem conviveu em 1936, durante a elaboração dos projetos do MESP e da Cidade Universitáriada Mangueira, só apareceria em sua obra a partir dos anos 1940, e permaneceria até encerrar sua carreira no ETUB, em 1962. De Le Corbusier, adotou a visualidade dos projetos puristas anteriores a 1929, e desprezou as manifestações mais livres, brutalistas e personalistas posteriores àquela data. INTRODUÇÃO 14 Mies van der Rohe: Casa de Campo em Concreto – projeto (1923) (ap Johnson: 1947; 1978,33) Jorge Machado Moreira: Restaurante no Parque do Flamengo ( 1962) (ap Czajkowski: 1999, 117) Depois que se afastou do serviço público, talvez influenciado pela parceria com a esposa Giuseppina Pirro, experimentou a linguagem que Mies van der Rohe adotara em seus projetos experimentais dos anos 1920 Le Corbusier: Maison aux Mathes (1935) (ap Boesiger & Girsberger: 1967, 71) Jorge Machado Moreira: Residência Ornellas ( 1970) (Czajkowski: 1999, 21) E também algumas das formas menos contidas do mestre Le Corbusier DEPOIMENTO DEPOIMENTO 16 DEPOIMENTO1 Depoimento elaborado para a enciclopédia Contemporary Architects, Londres, St. James Press, 1980. 1 Iniciei minha vida profissional em 1932, integrado no movimento – do qual começara a participar ativamente como estudante – para implantação de uma nova arquitetura, conforme vinha ocorrendo em muitos países, como conseqüência da campanha mundial movida pelos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna, os CIAM, desde 1928. O movimento na Escola Nacional de Belas Artes, onde eu fazia o curso de arquitetura, teve início em 1931, quando Lúcio Costa nomeado diretor, empenhou-se em reformar o ensino, “implantando a nova maneira de conceber, projetar e construir”. Gregori Warchavchik, pioneiro da arquitetura moderna no Brasil, então contratado como professor, exerceu grande influência nos estudantes, contribuindo para seu interesse e entusiasmo pela iniciativa de Lúcio Costa. A vinda de Frank Lloyd Wright ao Rio de Janeiro, naquele ano, e a ação aqui desenvolvida, foi importante para consolidar esse movimento. 2 Concluído o curso, fui trabalhar numa companhia construtora. Senti imediatamente dificuldades para fazer arquitetura como passara a entendê-la. Decidi, então, subordinar minha permanência à liberdade de projetar. Aceita a condição, pude exercer a profissão como desejava, durante o tempo em que lá permaneci. A exigência de liberdade para projetar mantenho até hoje. Ela não traduz o propósito de impor meu ponto de vista. Procuro, através do diálogo como o cliente, achar a solução adequada que atenda às suas aspirações, sem contudo fazer concessões contrárias aos princípios que, como arquiteto, me cabem defender. Esse critério nunca foi motivo para abandonar um trabalho. Encontro sempre argumentos para justificar minhas opiniões, fazendo o cliente compreender que estou agindo em defesa de seus interesses. Em 1937 passei a ter meu escritório de arquitetura. 3 Na minha vida profissional tive o privilégio de conhecer pessoalmente Frank Lloyd Wright, Walter Gropius, Richard Neutra, Mies van der Rohe, Marcel Breuer, Kenzo Tange e Phillip Johnson. De maior significação, porém, foi o contato mantido com Le Corbusier, em 1936, quando veio ao Rio de Janeiro a convite do Ministério de Educação e Saúde. Teve grande importância o convívio, durante cerca de três semanas, que com ele tiveram os arquitetos do grupo encarregado de projetar o edifício do ministério, do qual eu fazia parte, e que influiu decisivamente em minha formação profissional. 4 Nos anos decorridos desde aquela época, nossa arquitetura tem sentido as conseqüências da evolução das condições sociais, políticas e econômicas do país, que se refletiram na maneira de exercermos a atividade profissional. Não influíram, entretanto, em meu modo de sentir a arquitetura e de considerar sua importância. Para mim, fazer arquitetura é idealizar a obra visando resolver, com intenção plástica, o problema proposto, de acordo com a época, os materiais e as possibilidades técnicas; analisando e considerando os fatores externos que nela influem; respeitando imposições e hábitos do meio; detalhando e articulando todos os elementos e buscando sempre a verdade, quanto à sua finalidade e função, tanto na forma como no uso dos materiais. Dou toda assistência à construção para que a obra seja realizada tal como a imaginara e, quando concluída, o cliente sinta seu desejo satisfeito e eu minha tarefa corretamente cumprida. Preocupo- me com a ambiência da obra projetada e sua significação no contexto em que será inserida; construída, passa a constituir um elemento da paisagem urbana, cuja harmonia deve ser assegurada. Por essa razão, todo arquiteto deve ter preocupação urbanística. De acordo com esse princípio, tenho procurado, através de uma participação bastante ativa, colaborar no estabelecimento de regulamentações e normas urbanísticas que estruturem a cidade e orientem seu desenvolvimento, sem prejuízo da paisagem natural e dos testemunhos materiais de sua história, cujos remanescentes nos cabe preservar. 5 Espero que lutas e decepções, próprias da vida profissional, nunca me façam esmorecer nem abandonar os ideais que me animam e sempre se atualizam, para melhor servir à arquitetura e à profissão, em qualquer atividade e em qualquer circunstância. Jorge Machado Moreira 1 Transcrito de CZAJKOWSKI, J. P., org. Jorge Machado Moreira. Rio de Janeiro, Centro de Arquitetura e Urbanismo, 1999. Numeração de parágrafos não consta do original. CAPÍTULO 1 Por uma “Nova Arquitetura” mundial “Well, now that he (Le Corbusier) has finished one building, he’ll go write four books about it. All they (French people) are interested is in fashion. Fashion and perfume and sauce. They ruin perfectly good food with their sauces. “No, I am not interested in meeting Mr. Le Corbusier. ” Corbu’s influence in this country is just terrible, and he has no business here.” “I am very sorry. I’m quite busy and I have no desire to meet or entertain Herr Gropius. What he stands for and what I stand for are poles apart. Our ideas could never merge. In a sense, we’re professional enemies – but he’s an outside enemy. At least I am in my own country.” “By all means, bring him (Mies van der Rohe) up!” Frank Lloyd Wright 1935, ap Edgar Tafel, in Years with Frank Lloyd Wright – Apprentice to Genius 1979; 1985 CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 18 DEPOIMENTO1 Depoimento elaborado para a enciclopédia Contemporary Architects, Londres, St. James Press, 1980. 1 Iniciei minha vida profissional em 1932, integrado no movimento – do qual começara a participar ativamente como estudante – para implantação de uma nova arquitetura, conforme vinha ocorrendo em muitos países, como conseqüência da campanha mundial movida pelos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna, os CIAM, desde 1928. O movimento na Escola Nacional de Belas Artes, onde eu fazia o curso de arquitetura, teve início em 1931, quando Lúcio Costa nomeado diretor, empenhou-se em reformar o ensino, “implantando a nova maneira de conceber, projetar e construir”. Gregori Warchavchik, pioneiro da arquitetura moderna no Brasil, então contratado como professor, exerceu grande influência nos estudantes, contribuindo para seu interesse e entusiasmo pela iniciativa de Lúcio Costa. A vinda de Frank Lloyd Wright ao Rio de Janeiro, naquele ano, e a ação aqui desenvolvida, foi importante para consolidar esse movimento. 2 Concluído o curso, fui trabalhar numa companhia construtora. Senti imediatamente dificuldades para fazer arquitetura como passara a entendê-la. Decidi, então, subordinar minha permanência à liberdade de projetar. Aceita a condição, pude exercer a profissão como desejava, durante o tempo em que lá permaneci. A exigência de liberdade para projetarmantenho até hoje. Ela não traduz o propósito de impor meu ponto de vista. Procuro, através do diálogo como o cliente, achar a solução adequada que atenda às suas aspirações, sem contudo fazer concessões contrárias aos princípios que, como arquiteto, me cabem defender. Esse critério nunca foi motivo para abandonar um trabalho. Encontro sempre argumentos para justificar minhas opiniões, fazendo o cliente compreender que estou agindo em defesa de seus interesses. Em 1937 passei a ter meu escritório de arquitetura. 3 Na minha vida profissional tive o privilégio de conhecer pessoalmente Frank Lloyd Wright, Walter Gropius, Richard Neutra, Mies van der Rohe, Marcel Breuer, Kenzo Tange e Phillip Johnson. De maior significação, porém, foi o contato mantido com Le Corbusier, em 1936, quando veio ao Rio de Janeiro a convite do Ministério de Educação e Saúde. Teve grande importância o convívio, durante cerca de três semanas, que com ele tiveram os arquitetos do grupo encarregado de projetar o edifício do ministério, do qual eu fazia parte, e que influiu decisivamente em minha formação profissional. 4 Nos anos decorridos desde aquela época, nossa arquitetura tem sentido as conseqüências da evolução das condições sociais, políticas e econômicas do país, que se refletiram na maneira de exercermos a atividade profissional. Não influíram, entretanto, em meu modo de sentir a arquitetura e de considerar sua importância. Para mim, fazer arquitetura é idealizar a obra visando resolver, com intenção plástica, o problema proposto, de acordo com a época, os materiais e as possibilidades técnicas; analisando e considerando os fatores externos que nela influem; respeitando imposições e hábitos do meio; detalhando e articulando todos os elementos e buscando sempre a verdade, quanto à sua finalidade e função, tanto na forma como no uso dos materiais. Dou toda assistência à construção para que a obra seja realizada tal como a imaginara e, quando concluída, o cliente sinta seu desejo satisfeito e eu minha tarefa corretamente cumprida. Preocupo- me com a ambiência da obra projetada e sua significação no contexto em que será inserida; construída, passa a constituir um elemento da paisagem urbana, cuja harmonia deve ser assegurada. Por essa razão, todo arquiteto deve ter preocupação urbanística. De acordo com esse princípio, tenho procurado, através de uma participação bastante ativa, colaborar no estabelecimento de regulamentações e normas urbanísticas que estruturem a cidade e orientem seu desenvolvimento, sem prejuízo da paisagem natural e dos testemunhos materiais de sua história, cujos remanescentes nos cabe preservar. 5 Espero que lutas e decepções, próprias da vida profissional, nunca me façam esmorecer nem abandonar os ideais que me animam e sempre se atualizam, para melhor servir à arquitetura e à profissão, em qualquer atividade e em qualquer circunstância. Jorge Machado Moreira 1 Transcrito de CZAJKOWSKI, J. P., org. Jorge Machado Moreira. Rio de Janeiro, Centro de Arquitetura e Urbanismo, 1999. Numeração de parágrafos não consta do original. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 19 A leitura da frase de abertura do Depoimento de Jorge Machado Moreira (1904- 1992) mostra que no início de sua vida profissional, em 1932, havia um movimento para implantar uma “Nova Arquitetura” e que este movimento era objeto de uma campanha mundial movida pelos CIAM – Congrès Internationaux d’Architecture Moderne (Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna). Quando ele se afirmava “integrado no movimento” é preciso aprofundar um pouco o entendimento deste movimento para ver de que forma ele aí se inseria. Sua carreira se desenrolou simultaneamente à existência dos CIAM e somente isto já justifica estabelecer um paralelo entre sua carreira e estes Congressos. Além disto, o próprio arquiteto induz a esta visão ao se afirmar integrado ao movimento. De fato, como se verá no desenvolvimento desta dissertação, toda a atuação de Jorge Machado Moreira se deu tendo os CIAM como referencial. O que se procurará mostrar é que desde o início de sua carreira, ele adotou a cartilha moderna, mas enquanto este movimento foi se consolidando e, simultaneamente, abrindo o leque de alternativas formais, sua postura projetual foi adquirindo um caráter mais ortodoxo, à medida que lhe eram confiados projetos de maior porte. Uma primeira questão que se apresenta a partir da leitura do Depoimento é a seguinte: se havia um movimento para implantar uma “Nova Arquitetura”, pode-se concluir, de imediato, que havia uma “Velha Arquitetura” à qual a “Nova” se opunha, e com a qual Jorge Machado Moreira certamente não se identificava. Que “Nova Arquitetura” seria esta? E por que a “Velha Arquitetura” – se ela existia, de fato – deveria ser substituída? Tinha perdido sua validade? Evidentemente, a “Nova Arquitetura” a que Jorge Machado Moreira se referiu é a arquitetura moderna, mas ele em momento algum de seu texto menciona esta palavra – moderno. Ela aparece apenas indiretamente, como uma das letras da sigla CIAM. Neste seu Depoimento, que serve como fio condutor desta dissertação em forma de ensaio, ele procura dar sua própria definição do que seria esta sua arquitetura, sendo que no parágrafo 4 ele chegou a um enunciado bastante explícito. Isto, porém, será abordado apenas mais adiante. Aqui nos interessa, a princípio, CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 20 identificar as bases sobre as quais ele construiu sua idéia de arquitetura. Diz o Depoimento, que este movimento para implantar a “Nova Arquitetura“ era um movimento mundial. Novas questões se apresentam: importa saber, no seu entender, que mundo seria este, que território cobria? Sendo este movimento mundial, como afirma, seria correto admitir que no mundo todo a “Velha Arquitetura” tinha perdido sua validade? E a “Nova Arquitetura” seria ela válida para qualquer lugar? Imediatamente, chama a atenção o fato dos CIAM, que defendiam a “Nova Arquitetura”, terem todos acontecido, até aquela época, na Europa, reunindo predominantemente arquitetos europeus. Portanto, caberia questionar se eram idênticos os panoramas da arquitetura no Brasil e no mundo, a ponto de se manterem válidas aqui as recomendações dos CIAM formuladas no Velho Mundo. Cabe ainda questionar se Jorge Machado Moreira tinha consciência das contradições e das disputas internas existentes entre os membros do CIAM e, caso tivesse conhecimento, como se posicionava diante delas. Seriam unânimes as resoluções dos CIAM? É mais do que razoável supor que havia princípios gerais suficientemente fortes para que estes arquitetos se identificassem como parceiros na mesma luta, a ponto de se reunirem em um Congresso, cujo nome por si só já identificava um posicionamento. Não era um Congresso de Arquitetura simplesmente, mas um Congresso Internacional, o que indica a pretensão de que sua abrangência e suas resoluções teriam validade ampla e geral. E também não era um Congresso que reunisse qualquer arquiteto, mas somente aqueles inequivocamente “Modernos”. Mas, é também natural supor que houvesse divergências e contradições internas. O Depoimento não deixa indicações sobre a existência destes conflitos, ao contrário, faz parecer que dali emanava um corpo doutrinário sólido. Mas, como se verá adiante, havia várias tendências, que predominaram em determinadas fases e submergiram em outras. Além disto, as circunstâncias mundiais sofreriam tal mudança desde 1928 até 1959 – período compreendido entre o primeiro e o último CIAM – que certamente isto se refletiria no interior dos Congressos em seus documentos e resoluções. Portanto, a afirmação de “ser integrado ao movimento” pode ter um caráter muito mais múltiplo do que a objetividade cartesiana que o texto de Moreirasugere. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 21 Logo a seguir, ainda no primeiro parágrafo do Depoimento, eram mencionados Lúcio Costa e Warchavchik (1896-1972), e o movimento ocorrido em 1931 na ENBA, no qual Lúcio, como diretor, “empenhou-se em reformar o ensino , ‘implantando a nova maneira de conceber, projetar e construir’”. O primeiro parágrafo encerrava-se destacando a importância da visita de Frank Lloyd Wright (1869-1959) na consolidação deste movimento entre os estudantes. Gregori Warchavchik e Lúcio Costa são duas figuras importantes na história da “Nova Arquitetura” no Brasil, havendo farta documentação a este respeito, especialmente relativa ao segundo. Sobre a importância de Wright, pouca coisa existe, e não é clara, ainda hoje, a influência que teve sua vinda ao Rio de Janeiro nesta ocasião. Jorge Machado Moreira atribuía a estes três arquitetos praticamente o papel de anjos anunciadores a trombetear a “Nova Arquitetura” dos CIAM. É preciso um pouco de cautela ao se induzir o leitor a esta crença como sugere o Depoimento. Um certo distanciamento temporal, como o que se pode ter hoje, ajuda a colocar as coisas em posições mais justas, ajuda a relativizar certas afirmações quase categóricas como esta. Sempre é bom lembrar que o texto de Moreira foi escrito em 1980, portanto, mais de 20 anos atrás. Depois de um parágrafo no qual Jorge Machado Moreira descrevia algumas de suas convicções, no terceiro parágrafo do Depoimento o fio da meada do primeiro era retomado, voltando a ser mencionadas as influências que sofreu. Mais que apenas mencionar suas fontes de referência, ele se colocava ao lado dos arquitetos que citava, como que se equiparando a eles. Além de Wright, já mencionado antes, relacionou Gropius (1883-1969), Neutra (1892-1970), Mies (1886-1969), Breuer (1902-1981), Tange (1913-) e Johnson (n. 1906). Colocar todos num mesmo pé de igualdade é uma simplificação que, mesmo num texto condensado como este Depoimento, pode levar a um entendimento equivocado da importância que cada um deles teve para a arquitetura em geral e para o próprio Jorge Machado Moreira em particular. Wright, Gropius, Mies e Neutra pertencem ao que se poderia chamar de primeira geração de modernos, na qual também se poderia incluir Le Corbusier (1887-1965). Já Breuer, Jonhson e Tange pertenceriam a uma segunda geração, mais próxima da de Jorge Machado Moreira (1904-1992) (Drew: 1973). O fato de ter CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 22 conhecido pessoalmente estes colegas de renome internacional o coloca como real interlocutor deste grupo, fato avalizado ao se constatar que efetivamente dividiu com eles as páginas das publicações especializadas da época. É preciso, no entanto, distinguir e atribuir a correta importância de cada um deles. Le Corbusier é colocado em destaque, e isso se justifica plenamente. Suas visitas ao Brasil em 1929 e 1936 foram determinantes nos destinos da arquitetura brasileira. Sobre isso, é farto o material de referência. Curioso é o fato de não haver menção nominal aos colegas com os quais trabalhou em 1936 nos projetos dos quais Le Corbusier foi consultor – o edifício do Ministério De Educação e Saúde (atual Palácio Gustavo Capanema) e a Cidade Universitária da Quinta da Boa Vista. Dentre estes colegas – Lúcio Costa (1902-2000), Oscar Niemeyer (n. 1907), Affonso Eduardo Reidy (1909-1964), Carlos Leão (1906-1983), e Ernani Vasconcelos (1909-1988) – com a exceção de Ernani Vasconcelos, todos os demais tiveram atuação profissional tão expressiva ou até mais quanto a dele próprio. É verdade que cada um deles adotou uma linha diferente, quase sempre tendo como referência os princípios gerais da “Nova Arquitetura”, mas se afastando dos preceitos mais dogmáticos da doutrina dos primeiros CIAM, seguindo em direção de expressões mais personalizadas. Ainda que houvesse tendências variadas entre os arquitetos europeus que participavam dos CIAM, ainda que entre os brasileiros também surgissem expressões individuais próprias, havia algo que fazia todos os arquitetos mencionados até aqui se identificarem de alguma maneira. Todos buscavam implantar a “Nova Arquitetura” de que fala Jorge Machado Moreira logo na primeira frase de seu Depoimento. Buscavam uma nova expressão formal para a arquitetura, bem como a adoção de métodos projetuais e de técnicas construtivas compatíveis com os processos produtivos industriais e que respondessem a uma demanda populacional urbana crescente. As mudanças políticas vividas principalmente na Europa, mas também no resto do mundo, incluindo o Brasil, eram o pano de fundo para as transformações pelas quais passaria a arquitetura. Nesse contexto, muitos arquitetos freqüentemente recorriam CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 23 a interpretações ideologizadas para fundamentar posturas estéticas e técnicas, o que provou não ser um recurso sempre eficaz e coerente. CIAM I a V – 1928-1939 Houve 11 encontros dos CIAM, de 1928 até 1959, além de cerca de 25 encontros intermediários – os chamados CIRPAC - Comité International pour la Réalisation des Problèmes d’Architecture Contemporaine. É preciso distinguir os cinco Congressos que se realizaram antes da II Guerra dos seis últimos, realizados depois de 1945. Os cinco primeiros encontros se realizaram com intervalos de um a dois anos, até 1937. Foram interrompidos com a II Guerra, e retomados a cada dois ou três anos entre 1947 e 1956, intervalo no qual ocorreram cinco congressos. O último, em 1959, normalmente não é considerado como um CIAM regular, pois serviu essencialmente para encerrar o movimento. Os conteúdos, a forma de associação e até mesmo a língua predominante deram a cada período uma certa caracterização, como se verá adiante. Ainda dentro do primeiro período, de 1928 a 1939, portanto, antes da II Guerra Mundial, podem ser identificadas duas fases. A primeira fase inclui o Congresso fundador – CIAM-I – de junho de 1928, em La Sarraz, o CIAM-II – de outubro de 1929, em Frankfurt, com o tema Die Wohnung fur das Existenzminimum (O habitat mínimo), e o CIAM-III, em novembro de 1930, com o tema Rationelle Bebauungsweisen (A Construção Racional). Esta primeira fase foi dominada pelos arquitetos que se identificavam sob o rótulo de Neue Sachlichkeit (Nova Objetividade), predominantemente germanófonos – alemães, holandeses, austríacos e também russos, poloneses e tchecos. Tinham quase todos tendências socialistas, e procuravam fazer desta ideologia a base para suas formulações arquitetônicas e urbanísticas. A segunda fase pré-guerra inclui o CIAM-IV, em julho de 1933, no cruzeiro entre Marseille, França e Atenas, Grécia, a bordo do SS-Patris, com o tema Die Functionelle Stadt ( A Cidade Funcional), e o CIAM-V, em junho de 1937, em CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 24 Paris, com o tema Logis e Loisirs (Alojamento e Lazer). O CIAM-VI, previsto para acontecer em setembro de 1939, em Liège, na Bélgica, foi cancelado devido à Guerra. Esta segunda fase foi marcada pela personalidade de Le Corbusier, que alterou a ênfase predominante, fazendo-a incidir sobre o planejamento urbano. (Frampton: 1992; 1997, 328) O primeiro encontro do CIAM foi resultado de esforços em várias direções, dos quais os mais significativos foram a campanha internacional em defesa do projeto de Le Corbusier rejeitado no Concurso para a Sede da Liga das Nações2, e os encontros de arquitetos em Weißenhof3, Stutgart, ocorridos por volta de 1927. Trabalharam para sua realização, além do próprio Le Corbusier, Gabriel Guévrékian (1900-1970), alguns membros do Swiss Werkbund e o historiador da arte Siegfried Giedion (1888- 1968). Antes disto, Le Corbusier já havia sido convidado em 1924 pelo russo Eliezer (El) Lissitzki (1980-1941) para formar um grupode vanguarda arquitetônica nos moldes de outros que existiam na Europa entre artistas plásticos e literários. (Mumford: 2000, 12). Desde o começo, os CIAM foram concebidos com o intuito de reunir a vanguarda internacional da arquitetura moderna. Deveriam se constituir em uma nova estrutura e instrumento de propaganda em favor da causa da “Nova Arquitetura”, contra o então dominante neoclassicismo das academias de arquitetura. Neste sentido, tinha como propósito tanto definir as bases de uma nova arquitetura, como também 2 Em 1927, a Liga das Nações lançou um concurso internacional de projetos para sua sede, a ser construída em Genebra, na Suíça. O projeto de Le Corbusier, feito em associação com seu primo Pierre Jeanneret (1896-1967), foi rejeitado devido a tecnicalidades argüidas pelo jurado francês Lemasquier, figura poderosa da École des Beaux-Arts e inimigo da arquitetura moderna. Le Corbusier e Giedion começaram então uma campanha internacional para anular o veredicto. (Mumford: 2000, 10) 3 Weißenhof Siedlung in Stuttgart: conjunto residencial experimental e demonstrativo das experiências com habitação, promovido pelo Deutsche Werkbund, em 1927, sob a direção de Mies van der Rohe. Reuniu arquitetos de vários países da Europa. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 25 promovê-la vigorosamente entre clientes oficiais e o público em geral. A definição das ‘bases de uma nova arquitetura’ incluía essencialmente a formulação de certas estratégias formais e técnicas em um programa de transformação social coletivista através da arquitetura e do planejamento regional. (Mumford: 2000, 10-12) Independente de qualquer conflito interno, o inimigo comum era perfeitamente visível: os mestres da Academia, identificados com a “Velha Arquitetura”, a qual ensinavam e praticavam. Contra esta Academia, os defensores da “Nova Arquitetura” desferiam toda a munição de que dispunham, e os venenos mais peçonhentos. Todos, incluindo os brasileiros, que aderiram à “Nova Arquitetura” adotaram este inimigo comum, usando de armas semelhantes para atacá-los. Le Corbusier, em 1927, comentando o Concurso para a Sede da Liga das Nações, no qual seu projeto (feito em parceria com o primo Pierre Jeanneret) foi rejeitado, não economizou em ironias: “Ah, mas que escândalo! Escândalo na Academia que mobilizou todas as suas tropas. Suas tropas enviaram para Genebra algo como dez quilômetros de plantas, pálidos reflexos de atitudes históricas. A opinião se manifesta: decididamente o mundo não está tão avançado como acreditávamos; a ‘boa sociedade espera um palácio e para ela o verdadeiro palácio existe nas imagens registrada durante uma viagem de núpcias aos países dos príncipes, dos cardeais, dos doges ou dos reis.” (Le Corbusier: 1927; 1998, XXVII) Gropius, em 1935, comentava a elitização da arte e a dissociação do artista tradicional em relação às práticas construtivas, acusando a Academia por este estado das coisas: “Há uma crença disseminada de que a arte é um luxo desnecessário. Isto é um dos legados fatais de uma geração que arbitrariamente elevou alguns de seus ramos acima dos demais, atribuindo a estes o caráter de ‘Obras de Arte’ (Fine Arts), e assim procedendo, retirou toda sua identidade básica e naturalidade. A típica incorporação da mentalidade de ‘arte pela arte’, bem como de seus instrumentos específicos, foi a ‘Academia’. Ao excluir os artesãos e a própria indústria das atividades formadoras do artista, a academia retirou deles sua vitalidade e conduziu o artista a um completo isolamento da comunidade.” (Gropius: 1935; 1995, 57-58) Em 1934, Lucio Costa, em Razões da Nova Arquitetura, afirmava, em discurso CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 26 inflamado, de tom panfletário: “Ainda existe, no entanto, presentemente, completo desacordo entre a arte, no sentido acadêmico e a técnica: a tenacidade, a dedicação, a intransigente boa fé com que tantos arquitetos – moços e velhos – se empenham às cegas por adaptar num impossível equilíbrio a arquitetura que lhes foi ensinada às necessidades da vida de hoje e possibilidades dos atuais processos construtivos, causa pena; chega mesmo a comover o cuidado, a prudência pudica, os prodígios de engenho empregados para preservar, no triste contato com a realidade, a suposta reputação da donzela arquitetura. Um verdadeiro reduto de batalhadores apaixonados e destemerosos se formou em torno à cidadela sagrada, e, penacho ao vento, pretende defender, contra a sanha bárbara da nova técnica, a pureza sem mácula da deusa inatingível”. (Costa:1935; 1995: 111) O próprio Jorge Machado Moreira, sem mencionar explicitamente a Academia, se referiu indiretamente a esta, no segundo parágrafo de seu Depoimento, ao afirmar que “senti imediatamente dificuldades para fazer arquitetura como passara a entendê-la.” Tais dificuldades seriam as resistências iniciais que lhe ofereceu a empresa construtora onde foi trabalhar, habituada às tradições acadêmicas. Além do inimigo comum, havia a unir os arquitetos dos CIAM a afinidade com uma expressão arquitetônica decorrente do uso de estruturas de concreto e aço, e uma estética que privilegiava as formas geométricas simples e a ausência de ornamento. No primeiro período, desde sua criação até a interrupção pela guerra, os CIAM passaram por duas fases, que podem ser descritas esquematicamente pela predominância da influência dos arquitetos germanófonos e russos nos três primeiros encontros e pela dos francófonos nos dois últimos. O grupo com predominância de francófonos tinha como líder Le Corbusier, e contava com o apoio de Siegfried Giedion; no outro grupo, com predominância de germanófonos, os que mais se destacavam eram Hans Schmidt (1893-1972), Ernst May (1886-1970) e Mart Stam (1899-1987), este último com atuação profissional concentrada em Frankfurt. Walter Gropius, figura também da maior importância nos CIAM desta primeira fase, oscilava entre as posições destes dois grupos, porém, dada sua importante contribuição na Bauhaus, que por sua vez forneceu boa munição para os germanófonos, não seria equivocado alinhá-lo junto a seus compatriotas. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 27 Jorge Machado Moreira, no terceiro parágrafo de seu Depoimento, declarou explicitamente sua filiação à linha de Le Corbusier, ao mesmo tempo que excluiu a influência de outros arquitetos. No entanto, a análise de sua obra permite ver que esta fidelidade não é absoluta. Dos conceitos do CIAM, adotou propostas tanto do mestre Corbusier, como dos arquitetos com os quais ele rivalizava em certos aspectos dentro do CIAM. E mais: de Le Corbusier, Jorge Machado Moreira incorporou uma parte do seu modo de fazer arquitetura, mas desprezou a influência de outros importantes aspectos que lhe eram característicos. Gropius, Bauhaus e Germanófonos nos CIAM I, II e II I O CIAM de Frankfurt, em 1929, foi aberto coincidentemente no mesmo dia da quebra da bolsa de Nova York – 24 de outubro. Enquanto na Meca do capitalismo, as pessoas se atiravam literalmente das janelas dos edifícios depois de constatarem a perda de seus investimentos, no centro da Europa, Siegfried Giedion lia o discurso preparado por Walter Gropius na sessão de abertura do primeiro Congresso Internacional de Arquitetura Moderna. Este foi o CIAM II, mas há uma unanimidade em considerar o CIAM I, de La Sarraz, apenas como um encontro preparatório. Le Corbusier não compareceu ao encontro de Frankfurt, pois se encontrava na América do Sul, em sua primeira viagem a este continente ao sul do equador. Em seu discurso, Gropius fazia uma apologia às reformas sociais nos moldes das que vinham ocorrendo na União Soviética. Defendia a igualdade das classes, a igualdade das funções sociais de homens e mulheres, a responsabilidadedo Estado pela subsistência dos trabalhadores. Coerentemente, acreditava numa arquitetura que ao mesmo tempo viabilizasse esta nova organização social, mas que também pudesse ser, ela própria, o meio para a transformação social nesta direção. A posição defendida por Gropius tinha apoio majoritário de seus compatriotas e de outros arquitetos holandeses, austríacos, russos, poloneses e tchecos, pois a própria prática de muitos deles os tinha levado nesta direção. Não era, portanto, uma atitude romântica ou panfletária; ao contrário, tinha forte fundamentação no debate e CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 28 nas experimentações que mesmo alguns governos locais vinham patrocinando. A Bauhaus tinha grande importância neste contexto. Era a escola de arquitetura mais prestigiada da Alemanha. Nesta época era dirigida por Hannes Meyer (1889- 1954), que enfatizava o compromisso dos estudantes e profissionais com as demandas sociais. Alguns de seus ex-alunos, professores e conferencistas, como Hans Schmidt e Mart Stam, vinham conduzindo projetos residenciais importantes na Alemanha, nos quais se adotavam conceitos fundamentados na ideologia socialista. A formação deste corpo de idéias resultou, portanto, de um processo que já acumulava razoável massa crítica de idéias e realizações. A Bauhaus tinha sido fundada em 1919. A idéia da criação, na Alemanha, de uma escola com suas características vinha do final do século XIX. Nos últimos anos daquele século, o governo prussiano praticou uma consciente espionagem industrial na Inglaterra, com o objetivo de descobrir a origem do sucesso do desenho dos utensílios e máquinas ingleses. Hermann Muthesius fora enviado a Londres com esse objetivo, e apurou que este sucesso se baseava, entre outros aspectos, no modelo de ensino das Escolas de Artes e Ofícios nos moldes preconizados por Ruskin e Morris. Por este modelo, o artista e o artesão trabalhavam em conjunto ou mesmo se confundiam no mesmo indivíduo. Dessa forma a criação e a inovação formal podiam frutificar mais livremente. A partir de então, na Alemanha, introduziram-se oficinas em todas as escolas de artes e ofícios e contrataram-se professores entre os artistas modernos, como Peter Behrens, em Dussseldorf; Hans Poelzig, em Breslau; Bruno Paul, em Berlim; Otto Pankok, em Stutgart; Henri van de Velde, em Weimar. Mas enquanto as oficinas Arts and Crafts inglesas tinham recusado a produção mecanizada, na Alemanha defendia-se incondicionalmente este modo de produção. (Droste: 2001, 11) (Frampton: 1992; 1998, 130-132) A cooperação entre arte, indústria e artesanato se efetivou muito em função da DWB – Deutsche Werkbund (Associação Alemã de Artes e Ofícios), fundada em 1907. Sua finalidade era estimular a relação entre estes segmentos, e teve efetivamente enorme responsabilidade no esforço para a elevação da qualidade dos produtos industriais alemães na primeira década do Século XX, até a I Guerra. Nesse CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 29 contexto, Peter Behrens foi uma figura que se destacou. Sua colaboração com a AEG – Allgemeine Elektricitæts Gesellschaft o levou a projetar desde lâmpadas, luminárias, ventiladores, peças de publicidade até a própria arquitetura das fábricas, sendo a mais famosa a fábrica de turbinas (1908), em Berlim. Nesse edifício, de porte gigantesco, o uso de novos materiais – concreto na estrutura e aço e vidro nas esquadrias –, é um eloqüente exemplar do avançado nível tecnológico da Alemanha na ocasião, e do descompromisso formal com a estética acadêmica. A I Guerra, de 1914 a 1918 redesenhou o mapa político da Europa e deixou em suspenso o processo de renovação que vinha ocorrendo. Finda a guerra, o esforço de reconstrução do país incluía a renovação das instituições de ensino e a indústria. Neste cenário, se destaca Walter Gropius. Gropius, formado em 1908, antes da guerra tinha trabalhado com Behrens, de quem aprendeu o “entendimento lógico e sistematizado dos problemas da arquitetura” (Gropius: 1935; 1968, 47). Ainda antes da I Guerra, em 1911, associado a Adolf Meyer, projetou a Fábrica Fagus, primeiro edifício a usar a fachada inteiramente de vidro. Associou-se à DWB, mas durante a guerra percebeu que as antigas instituições deveriam ser totalmente renovadas: “... qualquer homem pensante sentia a necessidade de uma mudança intelectual. ... Percebi que um arquiteto não poderia querer realizar seus ideais a não ser que pudesse influenciar a indústria de seu país a ponto de produzir como resultado uma nova escola de projeto; e que esta escola se tornasse marcantemente influente. Vi também que para viabilizar isto seria necessário toda uma equipe de colaboradores e assistentes: pessoas que trabalhariam não automaticamente como uma orquestra obedece à batuta do maestro, mas independentemente, ainda que em cooperação, tendo em comum uma causa e um objetivo.” (Gropius: 1935; 1968, 51) Finda a guerra, já em 1919, sob a direção de Walter Gropius, se fundiram a Weimar Grossherzogliche Kunstgewerbeschule (Escola de Artes e Ofícios de Weimar) , anteriormente dirigida por Henri van de Velde, e a Weimar Grossherzogliche Hochschule für Bildende Kunst (Academia de Belas Artes de Weimar), vindo a se chamar Das Staatliche Bauhauses in Weimar. (Droste: 2001, 17). Com esse modelo – a fusão das Escolas de Artes e Ofícios com a de Belas Artes - foi possível resolver CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 30 o problema mais crítico de combinar o projeto imaginativo com as habilidades técnicas. “A Bauhaus foi inaugurada com o objetivo específico de realizar uma arte arquitetônica moderna a qual, assim como a natureza humana, deveria ser abrangente em seu escopo. Nesta ampla abrangência e união de diferentes artes (considerando-se as várias tendências e manifestações de cada uma delas) – todos os ramos do projeto, todas as técnicas – poderiam se coordenar e encontrar seu lugar apropriado. Nosso objetivo final, portanto, seria o completo e inseparável objeto artístico – a grande construção – na qual a velha divisão entre elementos construtivos e decorativos tivesse desaparecido para sempre. (Gropius: 1935; 1968, 66) Em seus breves 14 anos de existência, a Bauhaus viveu uma permanente seqüência de superação de crises. Havia opositores a atacá-la de vários lados. O modelo anti- academicista não era bem visto pelos artistas mais tradicionalistas. As indústrias, para as quais o ensino deveria a princípio ser dirigido, freqüentemente criticavam o desenho de seus objetos, devido ao alto custo de fabricação. A maior parte dos ataques, no entanto, vinha dos políticos e administradores públicos que identificavam a escola com a ideologia comunista. “Noventa por cento dos tremendos esforços feitos por aqueles envolvidos neste empreendimento eram gastos na luta contra a oposição a nível local e regional, restando apenas dez por cento para o trabalho criativo propriamente dito.” (Gropius: 1971, ap Droste: 2001, 49). Apesar disto, a Bauhaus, teve, e ainda tem, enorme influência no design e na arquitetura produzidos a partir dos anos de 1920, marcando tanto sua prática como seu ensino. Desde sua criação, serviu de modelo para diversas escolas, inclusive no Brasil. A contribuição que deu na “construção” da “Nova Arquitetura” foi fundamental. Desde a fundação em 1919, até a dissolução em 1933, a Bauhaus passou por várias fases. Na primeira fase, desde a fundação até 1925, sua sede foi em Weimar, sendo dirigida por Gropius. Apesar do empenho deste, o currículo não incluía arquitetura; mas contemplava apenas o que mais tarde viria a se denominar design. De início, o que mais caracterizava a escola eram os métodos pouco ortodoxos e CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 31 anti-academicistas dos mestres, entre os quais se destacou o polêmicoJohannes Itten (1888-1967), que lá trabalhou de 1919 até o início de 1923. Outro artista que muito influenciou a Bauhaus foi Theo van Doesburg. Apesar de nunca ter sido professor da Bauhaus, Doesburg morou e trabalhou em Weimar entre 1921 e 1925, e manteve estreita ligação com a escola. Muitos alunos da Bauhaus freqüentavam os cursos livres de De Stijl oferecidos por Doesburg em seu ateliê particular, e levavam suas idéias para dentro da escola. László Moholy-Nagy (1886- 1969), que substituiu Itten em 1923 no curso introdutório, aceitava e incentivava o uso das formas neoplásticas nos exercícios de composição de seus aprendizes. De certa forma esta influência externa acabou sendo uma das mais importantes referências para o desenvolvimento de um certo “estilo Bauhaus”, que viria a ser uma das bases da matriz formal da “Nova Arquitetura” em geral. A produção arquitetônica da fase Weimar se resumiu à construção de duas casas e à reforma do Teatro de Iena. A primeira casa que a Bauhaus construiu – Residência Sommerfeld (1920-21) –, era fortemente influenciada pelas Prairie Houses, de Frank Lloyd Wright, particularmente no que diz respeito ao tratamento dos detalhes e acabamentos. Entende-se, a esta altura, a afinidade com Wright e a adoção nesta casa, de seu estilo decorativo. A identificação com o arquiteto norte-americano durou pouco, e se dava mais pelo entendimento construtivo do que propriamente pelo gosto estético. Esta “escorregada” formalista mereceu de Gropius uma advertência aos “mestres da Bauhaus para lembra-lhes que existe o perigo de um romantismo diversificado e o de uma mal interpretada volta à natureza de Rousseau”. (Gropius ap Pevsner: 1968, 1974, 133) Na verdade, a volumetria desta casa era bastante simples, resumindo-se a uma planta quadrada, com telhado de quatro águas; nisto se diferindo radicalmente das volumetrias dinâmicas das residências wrightianas. Destaca-se o fato de ter sido uma obra de arte unificada, na qual colaboraram todas as oficinas da escola. Este caráter construtivo, no qual artistas, arquitetos e artesãos trabalham coletivamente na construção da edificação era um ponto no qual as visões de Wright e da Bauhaus convergiam. Esta postura defendida por Gropius – a qual, é bom CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 32 destacar, não lhe era original –, viria a se disseminar entre os arquitetos mais atuantes nos países de língua alemã. Constituiu o aspecto em que mais se distanciava da postura dos franceses, no âmbito dos CIAM, e seria incorporada pelos arquitetos adeptos da “Nova Arquitetura” mundo afora, de forma mais ou menos radical. Jorge Machado Moreira viria a ser um dos que incorporaram esta postura. Tal atitude marcaria caracteristicamente sua obra e sua conduta frente às questões de organização da categoria profissional no futuro. Depois da Residência Sommerfeld, veio o Teatro de Iena, em 1922. Foi projetado pelo escritório particular de Gropius, em parceria com seu antigo sócio Adolf Meyer, e detalhada e construída pelas oficinas da Bauhaus. A terceira obra foi a Casa Modelo Am Horn, construída para a exposição da Bauhaus de 1923. Nestas duas obras, o estilo expressionista da Residência Sommerfeld foi abandonado, adotando- se uma estética marcada pelos princípios do De Stijl. Cabe ressaltar que, por esta época, já era marcante, entre os aprendizes da Bauhaus, a influência de Theo van Doesburg, criador e defensor radical desta corrente artística e, forte opositor dos caprichos românticos. Em 1925, a Bauhaus saiu de Weimar e foi se instalar em Dessau, após uma crise não solucionada com as autoridades municipais daquela cidade, envolvendo visões ideológicas e apoio financeiro. Teve início uma segunda fase, durante a qual era dirigida ainda por Gropius. Dessau recebeu efusivamente a escola, tendo inclusive doado o terreno para a construção da sede da escola, as residências dos mestres e alojamentos variados. Além disto, encomendou o projeto para o Bairro Törten, destinado a trabalhadores da emergente indústria metalúrgica local, bem como a Sede da Secretaria do Trabalho local. Estes projetos foram ainda feitos particularmente por Gropius, contando com o auxílio da escola em seu desenvolvimento. O Bairro Törten se inseria no programa desenvolvido pelo governo alemão a partir de 1923, de construção de habitações populares. A ênfase deste programa se dava na massificação da produção e visava simultaneamente dinamizar a economia, que passava por forte recessão e por inflação crescente. Em diversas cidades foram CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 33 criadas repartições municipais para implementar o programa. O modelo adotado inicialmente nesses programas habitacionais era o dos conservadores Heimatstil Haus (casa em estilo da pátria). Gradativamente, no entanto, foram sendo adotadas propostas mais inovadoras, que incorporavam uma estética mais simples e contemplavam o planejamento do território de forma mais abrangente. Entre esses programas, um dos mais bem sucedidos foi o de Frankfurt, conduzido por Ernst May (1886-1970). Em seus projetos, a estratégia básica de planejamento era relacionada ao conceito de cidade satélite suburbana de Raymond Unwin4. Na Das Neue Frankfurt (A Nova Frankfurt), o maior de todos os projetos desse programa, May adotou blocos residenciais com dois e quatro pavimentos, cobertura em laje plana, fachadas em massa, elementos de concreto pré-fabricados, e detalhes padronizados de janelas, portas e outros componentes, uso extensivo de eletricidade e pontos para antenas de rádio em todas as unidades. Foram projetados diversos equipamentos coletivos, como creches, salões de festas, terraços descobertos, jardins, estacionamentos e parques públicos. Foram mais de 20 conjuntos projetados. A implantação dos primeiros projetos respeitava o traçado tradicional da rua-corredor, com grandes áreas centrais ajardinadas. Nos últimos, o padrão de blocos paralelos em fita se afirmou com maior clareza. Este padrão, tradicionalmente usado em acampamentos militares, oferecia a simplicidade e o caráter repetitivo necessários para os métodos de produção industrializados em linhas de montagem. (Mumford: 2000, 28-30) Para a Bauhaus, trabalhar neste programa, ao mesmo tempo em que construía sua sede e seus alojamentos, foi uma excelente oportunidade para desenvolver e aplicar na arquitetura todo o potencial formal e metodológico que vinha desenvolvendo. “O novo edifício da escola, concebido por Gropius, e as casa dos 4 Raymond Unwin (1863-1940): Arquiteto inglês que se associou ao empresário Barry Parker e com ele construiu a primeira e célebre Letchworth Garden-city e o Hampstead Garden Suburb. Ocupou em Birmingham uma das primeiras cátedras de Town Planning daquela Universidade. (Choay: 1965; 1979, 229) CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 34 mestres que ele construiu para o corpo docente da Bauhaus tornaram- se no epítome da moderna arquitetura alemã. No Bairro Törten, Gropius pôde, pela primeira vez, demonstrar técnicas de construção industrial, assim como na Secretaria do Trabalho de Dessau, constituindo seus mais lógicos e atraentes exemplos da arquitetura funcional.” (Droste: 2001, 120) A sede da Escola teve caráter pioneiro. Do ponto de vista formal, o edifício adotava o partido de adição assimétrica de volumes. Cada volume correspondia a um conjunto de funções similares – oficinas, ateliês e salas de aula, administração, alojamento, refeitório e auditório. Cada bloco oferecia solução arquitetônica de planta e aparência exterior compatível com a função a abrigar. A referência estética mais imediata é a dos princípios compositivos neoplásticos. Sobre isso, diria Gropius: “Um edifício construído no espírito dos nossos tempos rejeitariao modelo imponente da fachada simétrica. Tem de se percorrer o edifício todo para se poder apreciar a sua corporalidade e a função de seus componentes.” (Gropius, in Droste: 2001, 121) Do ponto de vista construtivo, foi adotada estrutura independente de concreto, com planta livre, teto plano impermeabilizado, fachadas envidraçadas nos lados pouco ensolarados e predominantemente cega nos demais. Diversos componentes foram fabricados nas indústrias locais, como as esquadrias de ferro e de madeira, bem como boa parte do mobiliário, aí incluídas as poltronas do auditório, desenhadas por Marcel Breuer, e feitas na fábrica de aviões Junkers. A participação de Breuer, nesta época ainda aprendiz, no desenho dos móveis, ilustra o modelo de organização pretendida pela Bauhaus, pelo qual deveria ser minimizada a divisão entre os trabalhos de concepção e de execução da obra, devendo o projetista se inserir diretamente na produção. Nas casas dos mestres, Gropius, através do prisma neoplástico, aprimorou a linguagem depurada que Adolf Loos5 preconizava, e da qual Le Corbusier já vinha 5 Adolf Loos (1870-1933): Arquiteto austríaco, é autor dos projetos da Residência Steiner, em Viena (1910) e o Edifício Goldman e Salatsch (1911). Sua fama se deve ao manifesto Ornament und Verbrechen (Ornamento e Delito) (1908) no qual condenava o uso de ornamentação nas edificações, CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 35 fazendo uso em suas primeiras experiências arquitetônicas. Uma linguagem que poucos anos depois seria introduzida no Brasil através de Gregori Warchavchik6 em suas Casas Modernistas. A preocupação com métodos industrializados, padronizados e de baixo custo pôde ser explorada no Bairro Törten. A estética neoplástica, mais uma vez se mostrou perfeitamente adequada a estes propósitos. Ao mesmo tempo, a idéia de ampliar a atuação do arquiteto além dos limites estritos da edificação, indo até a escala da cidade, era coerente com a idéia que os defensores da “Nova Arquitetura” tinham sobre a abrangência que deveria ter sua atuação. Não se tratava de uma ambição gratuita, mas a conseqüência natural de um pensamento que via a arquitetura como instrumento de aperfeiçoamento da sociedade, através da correta ordenação do espaço segundo princípios científicos racionais e objetivos. “Acredito que a ‘Nova Arquitetura’ está destinada a uma esfera de abrangência muito mais ampla do que apenas a construção como é vista hoje; e que a partir de seu estudo, avançaremos na direção de uma concepção de projeto ainda mais ampla e profunda como um grande e abrangente todo – imagem que corresponde à indivisibilidade, imensidão e unidade subjacente à vida propriamente dita, da qual ela é parte integrante.” (Gropius: 1935; 1968, 99) A segunda fase da Bauhaus, em Dessau, sob a direção de Gropius, foi fértil e criativa, tendo sido nela que se desenvolveram os projetos que marcaram a imagem que até hoje se tem de seus produtos. Toda a criatividade formal, entretanto, não correspondeu a uma boa saúde financeira e comercial. Os contratos com as indústrias que fabricavam seus projetos rendiam poucos royalties e o ônus para a municipalidade foi crescente, levando a sucessivas crises. Em 1928, Gropius saiu da escola e estabeleceu escritório próprio em Berlim. Quem o sucedeu na direção foi Hannes Mayer (1889-1954), que ficou até maio de 1930. Como arquiteto independente, Walter Gropius teve atuação marcante, se fundamentando em argumentos morais e econômicos. 6 Ver Capítulo 2. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 36 principalmente nos programas habitacionais. Logo em 1928, assumiu a Vice- presidência da Reichsforschungsgeselschaft für Wirtschaftlichkeit im Bau und Wohnungwesen (Associação Nacional para a Pesquisa em Construções Econômicas e Residências). Em dois concursos promovidos por esta organização, um para a periferia de Berlim e outro para Karlsruhe, ganhou o primeiro lugar, sendo, a seguir, indicado para chefiar suas respectivas construções. Elaborou também projetos urbanos e residenciais para o Siemensstadt (Distrito Industrial da Siemens), em Berlim, entre outros. Os projetos de Gropius eram constituídos por blocos em fita de gabarito intermediário e alto, arranjados paralelamente. Este partido já vinha sendo experimentado e aperfeiçoado em vários projetos habitacionais, inclusive naqueles que viriam a ser projetados pela Bauhaus, sob a nova direção, de Hannes Mayer. Data desta época o início dos estudos nos quais Gropius procurava as soluções habitacionais mais adequadas, levando em consideração custo de construção, densidade populacional, gabarito, insolação e distância entre blocos de apartamentos. Este problema concentrava as discussões que aconteciam na Alemanha, vindo a ser o tema dos CIAM II e III. Naturalmente, os arquitetos germanófonos, com essa experiência acumulada, tinham condições de fazer prevalecer seus pontos de vista estes encontros. Na administração de Mayer, a tônica foi a inserção da escola na indústria e a comercialização dos produtos. Foi a única fase em que a escola foi saudável economicamente e lucrativa. Muitos estudantes puderam ser remunerados por seus trabalhos e alguns recebiam bolsas. A arquitetura passou a ser o curso mais importante da escola, e as demais oficinas foram reestruturadas de modo a projetar objetos mais adequados à produção industrial, ainda que sacrificando a sofisticação formal que predominava anteriormente. As aulas de arquitetura, dadas pelo próprio Hannes Mayer eram baseadas em seu profundo conhecimento da construção. Para ele, “construir não é um processo estético. Construir é apenas uma organização: social, técnica, econômica, psíquica” (Meyer: 1928, ap Droste: 2001, 190) CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 37 Esta atitude em relação à arquitetura estava em sintonia com a visão de mundo dominante entre os arquitetos modernos alemães. Impregnados fortemente da ideologia marxista, procuravam mecanismos para a criação de uma arquitetura que fosse compatível com essa maneira de pensar. Apregoavam o funcionalismo como procedimento para o desenho dos espaços. Os métodos construtivos deveriam caminhar na direção da padronização total da edificação. A expressão individual do arquiteto deveria ser neutralizada; nutriam especial simpatia pela estética neoplástica, pois a simplicidade das formas e a reduzida paleta de cores preconizada por este movimento cultural facilitava a produção mecanizada em larga escala. Mart Stam, um dos arquitetos atuantes na Holanda, afinado com estas idéias, foi convidado por Meyer para dar um curso especial em 1928. Sua passagem foi marcante, e induziu a participação dos estudantes em concursos e projetos de obras públicas. Organizados em ateliês verticais, produziram diversas obras, das quais se destacou o Allgemeiner Deutscher Gewerkschaftsbund in Bernau (Escola Estatal para a Federação de Sindicatos da Alemanha em Bernau) e um novo setor do Bairro Törten em Dessau. A Escola em Bernau tinha o porte muito maior do que a própria Sede da Bauhaus, mas evidentemente é muito mais despojada em seu aspecto. Os materiais eram mais baratos e os espaços menos grandiosos. Fugindo um pouco do rigor dos blocos paralelos em fita, que caracterizava os conjuntos residenciais, aqui prevaleceu o sentido orgânico da composição, aproveitando-se a declividade natural do terreno. A regularidade dos ritmos marcava todas as fachadas, cujo aspecto externo sempre condizia com sua função: janelas ritmadas nos alojamentos, grandes vãos envidraçados nas salas de aula, etc. A fachada voltada para o acesso – chamá-la de frente seriaquase uma heresia, quando se pretende um edifício em que todas as faces devem ter a mesma importância – denunciava a tendência neoplástica. Três enormes chaminés de seção quadrada, regularmente ritmadas, não deixavam esquecer que se tratava de um edifício ocupado por trabalhadores fabris. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 38 Na ampliação do Bairro Törten, Meyer introduziu uma novidade relativa às circulações coletivas nos pavimentos-tipo, que viria a ser uma das marcas registradas dos edifícios de apartamentos populares: a galeria externa contínua. Esta solução se justificava basicamente pela economia, pois o número de escadas ficava radicalmente reduzido, às vezes bastando apenas uma escada para um bloco de inúmeros apartamentos por andar. Sua adoção se fundamentava ideologicamente na desmistificação do caráter individual da residência. Neste novo formato, a habitação passava a ter o status de equipamento coletivo, cuja eficiência funcional deveria prevalecer. Neste sentido, se aproximava dos conceitos da “máquina de morar” de Le Corbusier. Formalmente, se assemelhava ao esquema de circulação comum do Immeubles-villas (1922) de Le Corbusier, que também prevê uma galeria linear. Difere deste, porém, com relação à volumetria, arranjo dos blocos e tipo de unidade residencial, sendo a solução da Bauhaus muito mais simples. Esta solução viria a ser utilizada em muitas edificações residenciais também aqui no Brasil. Entre estes, devem-se destacar os conjuntos residenciais do Pedregulho e da Gávea, de Reidy, o Conjunto de Deodoro, de Marinho Rego, e o alojamento de estudantes da Cidade Universitária, de Jorge Machado Moreira. No final da década de 1920, o clima de conflitos políticos era disseminado na Europa, e se exacerbava na Alemanha. Durante a administração de Meyer, a Bauhaus presenciou o surgimento de vários núcleos políticos de estudantes de tendência socialista e comunista. Isto acontecendo simultaneamente à ascensão do nacional-socialismo acabou por criar uma situação de confronto político insustentável. Muitos estudantes foram forçados a sair, e o próprio Meyer, acusado de ser comunista, não resistiu às pressões e acabou por se desligar da instituição. A seguir, junto com vários colegas (Ernst May, Mart Stam, Hans Schmidt e mais treze outros), deslocou-se para Moscou, onde acreditava que seria possível desenvolver uma arquitetura socialista. Poucos anos depois, porém, foram todos expulsos por Stalin, que condenava a arte e a arquitetura modernas, consideradas por ele como manifestações decadentes e burguesas. O último diretor da Bauhaus foi Mies van der Röhe. Mies acabara de projetar o Pavilhão Alemão para a Feira Internacional de Barcelona, em 1929, obra cujas CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 39 qualidades formais foram exaltadas imediatamente. Era considerado despolitizado, mas relutou em praticar o expurgo exigido pelos administradores públicos. Em sua gestão, a Bauhaus deixou de ser uma escola de design, e passou a ser uma verdadeira escola de arquitetura. A estreita vinculação de teoria e prática, marca registrada das gestões anteriores, foi abandonada, prevalecendo agora as atividades de projeto em ateliê. Mies, ele próprio professor, valorizava os exercícios formais abstratos. “As diferenças (entre Meyer e Mies) também podem ser observadas no emprego da linguagem. O que Meyer chamava simplesmente de Bauen (construção), para Mies era Baukunst (arte de construção).” (Droste: 2001, 214) Outro importante professor nessa fase foi Ludwig Hilberseimer (1885-1967), que, de certa forma, deu continuidade ao estilo de arquitetura do antecessor Meyer: valorizou o estudo de tipologias construtivas para habitações populares e aprofundou as pesquisas que combinavam densidades e gabaritos para blocos em fita. Em 1930, com a crescente presença na cena política do partido nazista, aumentaram as perseguições políticas e étnicas a estudantes e professores. Com a escola inteiramente desprovida de recursos, Mies teve que retirá-la de Dessau no final de 1932, e ainda tentou uma sobrevida em Berlim, agora como uma escola particular, desvinculada do orçamento público. A experiência não vingou devido às dificuldades financeiras e principalmente à atuação da Gestapo que perseguia ostensivamente os inimigos da Alemanha – judeus e comunistas. Em 19 de julho de 1933, Mies propôs aos professores remanescentes a dissolução imediata da Bauhaus, sendo sua proposta aceita, pois desde abril suas atividades já haviam sido suspensas pela polícia política. Em 1928, portanto, quando surgiu a idéia de se reunirem os arquitetos modernos num Congresso Internacional, os alemães viram nesta iniciativa uma possibilidade concreta de reforçar as posições que já tinham alcançado. Desde o primeiro encontro, em La Sarraz, eles se empenharam pela sua liderança. Na Declaração final conseguiram incluir alguns de seus principais conceitos, impregnados da CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 40 ideologia socialista, ao mesmo tempo que deixaram de fora algumas proposições sugeridas por Le Corbusier, que se referiam especificamente ao repertório formal da arquitetura moderna. Entre outros itens, destacam-se, na Declaração de La Sarraz: 1. a não distinção entre área urbana e rural, devendo todo o território, indistintamente de sua destinação, ser objeto do urbanismo, cuja essência deveria ser a ordem funcional. Neste aspecto se assemelhava ao Manifesto Comunista de Marx e Engels, que também não distinguia os trabalhadores de um setor em relação aos dos demais; 2. a introdução do conceito de “Cidade Funcional”, abrigando as funções de habitar, produzir e descansar, às quais se viria somar posteriormente a função de circular. Embutida nesse conceito, automaticamente está a idéia de zoneamento do território; e 3. a denúncia do processo caótico de parcelamento do solo, que deveria ser abolido e substituído por uma economia metódica e coletiva, que previsse a redistribuição da terra de acordo com as necessidades coletivas. O conceito urbanístico de Le Corbusier de adensamento do centro da cidade, atribuindo a este lugar os signos e o significado de espaço das trocas mais intensas, foi deixado de fora, por ser associado diretamente com o espaço das metrópoles capitalistas, a exemplo de Manhattan. A forte posição dos germanófonos, liderados por Ernst May, Hans Schmidt e Mart Stam, levou à defesa da adoção de processos industriais de produção, fundamentado no conseqüente melhor aproveitamento dos materiais que, ao aumentar a produção em pouco tempo, liberaria maiores recursos para todos. Esta visão seria identificada como a “abordagem da engenharia” defendida pelo Construtivismo e identificada com o comunismo. Ainda que esta lógica formal se justificasse em termos de uma estética socialista da engenharia, ela também estava relacionada com os métodos de composição elementaristas, o De Stijl e a estética de Le Corbusier. (Mumford: 2000, 19-21). Ficou de fora da Declaração a defesa dos Cinco Pontos da Nova Arquitetura7, cuja inclusão foi pleiteada por Le Corbusier. 7 Os Cinco Pontos da Nova Arquitetura (1925) serão abordados na parte seguinte deste capítulo, que CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 41 A enorme preocupação dos germanófonos com a habitação popular e seu esforço para produzí-la a baixos custos os levou a sugerir o tema para o CIAM II – “Die Wohnung für die Existenzminimum” (Habitat Mínimo), e o local do encontro em Frankfurt, significativamente, a cidade que obtivera o maior sucesso no programa habitacional alemão. O CIAM II, Frankfurt, 1929, foi aberto com a palestra de Gropius, lida por Giedion, como relatado acima. Gropius defendia que a transformação inevitável da sociedade em direçãoao socialismo viria culminar com a dissolução da própria estrutura familiar, cujas funções passariam a ser do Estado. Evidentemente esta visão de sociedade viria influenciar o projeto dos espaços mínimos para viver. A discussão principal deveria girar em torno da unidade residencial propriamente dita, não havendo qualquer dúvida que a construção de conjuntos residenciais populares seria a única solução viável para a solução desse problema (Mumford: 2000, 37) (Frampton: 1992; 1998, 327-329). Foi distribuído previamente questionário aos congressistas, sendo solicitado que preparassem relatórios sobre as experiências conhecidas em seus respectivos países a respeito do tema. A falta de estrutura da organização impediu que fosse feita qualquer tabulação ou análise com bases tecnicamente satisfatórias sobre esse material. Não impediu, no entanto, a rica troca de experiências que ocorreu. Com o material enviado, Mart Stam e sua equipe prepararam uma exposição com mais de 200 exemplos de projetos de habitações populares desenhados em pranchas padronizadas de 2 x 2 m, as plantas e cortes sendo desenhados todos na mesma escala de modo a permitir a fácil comparação. Não foram mostradas fotografias e os autores dos projetos foram intencionalmente omitidos. Eram indicadas apenas a cidade onde o projeto se localizava, a área da unidade e seu custo de produção. Este material foi posteriormente publicado, constituindo a principal peça dos anais do congresso, e incluía também os textos das palestras (Mumford: 2000, 30). A despersonalização da representação gráfica desta exposição ilustra bem o trata da participação de Le Corbusier e dos Francófonos nos CIAM. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 42 entendimento que os germanófonos tinham da função do arquiteto. Coerente com a visão igualitária socialista, pretendiam a eliminação da idéia de autoria, sendo o arquiteto apenas mais um elemento inserido no processo produtivo do espaço construído. Coerente com esta atitude, o grupo germânico, nele incluídos também russos, etc., defendia a pré-fabricação total da edificação, ao contrário dos francófonos que defendiam a pré-fabricação de apenas alguns elementos da edificação, o que não impediria a manifestação das “qualidades artísticas pessoais” (Mumford: 2000, 23). O CIAM III, em Bruxelas, 1930, teve como tema Rationelle Bebauungweisen (Loteamento Racional). O foco da discussão deixou de ser a unidade habitacional e passou para a escala da edificação e dos conjuntos edificados. Assim como no Congresso de Frankfurt, neste também foi feita uma exposição, mostrando cerca de 60 exemplos urbanísticos. Os painéis receberam tratamento gráfico idêntico, procurando dar alguma neutralidade ao material exposto, mas os comentários de Giedion incluídos em cada prancha denotavam suas preferências. Afinado com as idéias corbusianas, condenava todos os exemplos de traçados tradicionais e não poupava críticas desfavoráveis aos exemplos mais recentes que mostravam baixas densidades ou baixos gabaritos. Naturalmente, os projetos teóricos de Corbusier, feitos nos anos 1920 e incluídos na exposição, foram os mais valorizados. Este material, junto com as palestras, foi publicado posteriormente, vindo a se constituir nos anais do Congresso. Ainda que nos painéis da exposição o ponto de vista de Corbusier e Giedion prevalecesse, neste Congresso, tanto quanto no anterior, de Frankfurt, predominaram as idéias defendidas pelos germanófonos. Discutiu-se essencialmente a questão da densidade dos conjuntos residenciais e da cidade em geral, na linha das pesquisas que Gropius e Hilberseimer desenvolviam àquela altura. Havia um certo consenso sobre a conveniência do partido Zeilenbau (blocos em fita), que os alemães desenvolveram na década anterior e alcançava popularidade entre os praticantes da “Nova Arquitetura”. Os arquitetos mais à esquerda, entre os quais se incluíam Ernst May, Herbert Boehm, Eugen Kaufman, CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 43 além de Mart Stam e Hans Schmidt, que já tinham se destacado por sua atuação em Frankfurt, defendiam a adoção de gabaritos baixos. Sua argumentação se baseava no esforço para diminuir custos, sendo comprovado que os blocos de cinco pavimentos eram os mais baratos. Novamente defendiam o processo de industrialização como o único caminho no sentido de produzir em grande escala a custos factíveis. Gropius, evocando a necessidade de não se descuidar de atributos necessários à arquitetura, defendia a elevação dos gabaritos a onze pavimentos. Argumentava com diagramas que demonstravam as vantagens ambientais decorrentes do gabarito mais alto, defendendo que o custo maior seria razoável face ao ganho de qualidade espacial que se obteria. A discussão sobre a altura baixa- média-alta dominou as discussões. Houve consenso quanto à condenação da rua-corredor tradicional. O discurso sobre suas incoveniências tinha em geral tom panfletário. As argumentações destacavam a pouca higiene dos edifícios construídos no alinhamento dos quarteirões, destacando os problema decorrentes da falta de luz do dia, ventilação insuficiente e o perigo representado pelos automóveis trafegando em ruas estreitas, muito próximos dos pedestres. A necessidade de abolir a rua parecia, assim, auto- evidente. (Mumford: 2000, 49-58) As mudanças políticas na Europa iriam influenciar os CIAM definitivamente. Em 1934, um edital do governo nazista alemão condenou a arte e a arquitetura modernas como fundamentalmente “não alemãs, estrangeiras e bolcheviques”. Isto interrompeu subitamente a produção e o debate a respeito da “Nova Arquitetura” na Alemanha. Como conseqüência imediata, além do banimento dos arquitetos socialistas, começava a ganhar espaço, nos encontros do Congresso, o discurso de Le Corbusier. Para os brasileiros em geral, a importância dos arquitetos da vanguarda alemã e russa é pouco valorizada. De modo geral, a influência de Le Corbusier é a única de que tratam os livros que abordam os primórdios da “Nova Arquitetura” no Brasil. No entanto, é bom ressaltar que foi através de Gregori Warchavchik que a maior parte dos estudantes da ENBA tomou conhecimento da existência dos CIAM e de uma CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 44 “nova maneira de conceber, projetar e construir” (Moreira: 1980). Warchavchik era russo de nascimento e o estágio com Piacentini, em Roma, antes de migrar para o Brasil, não o distanciou dos compatriotas arquitetos nem o afastou da ideologia que com eles partilhava. A geração de arquitetos que freqüentava a ENBA no atribulado ano de 1931 foi fortemente influenciada pelo russo, e a arquitetura que praticaram durante algum tempo no Brasil carrega nitidamente esta influência. Entre os arquitetos cujas obras são abordadas neste trabalho, esta influência é mais marcante em Affonso Eduardo Reidy e em Jorge Machado Moreira. Le Corbusier e Francófonos nos CIAM IV e V Além da inegável importância que Le Corbusier teve nos CIAM, o próprio Jorge Machado Moreira destacou o mestre franco-suíço como sua maior referência: “De maior significação, porém, foi o contato mantido com Le Corbusier, em 1936, quando veio ao Rio de Janeiro a convite do Ministério de Educação e Saúde. Teve grande importância o convívio, durante cerca de três semanas, que com ele tiveram os arquitetos do grupo encarregado de projetar o edifício do ministério, do qual eu fazia parte, e que influiu decisivamente em minha formação profissional.” (Moreira: 1980 ap. Czajkowski: 1999, 12-13) Eric Mumford ratifica a importância dos CIAM na arquitetura moderna brasileira: Apesar de Gregori Warchavchik, de São Paulo, ter sido indicado por LeCorbusier, em sua viagem de 1929, como representante brasileiro nos CIAM, a experiência de colaboração de Le Corbusier com Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Reidy, Carlos Leão, Jorge Moreira e Ernani Vasconcelos no novo Ministério teve enorme influência na arquitetura brasileira subseqüente. (Mumford: 2000, 104-105) Quando hoje se lê Jorge Machado Moreira, afirmando-se alinhado a Le Corbusier, é preciso cautela. É sempre bom ter em mente que o Depoimento foi escrito em 1980, época na qual, como mencionado no prefácio, por aqui a crítica ao movimento moderno não havia se consolidado, a ponto de distinguir nele os aspectos positivos CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 45 dos negativos. Talvez fosse possível, em 1980, estabelecer uma total identificação entre os CIAM e Le Corbusier. Talvez fosse mesmo esse o entendimento que Jorge Machado Moreira tivesse naquela ocasião. Só isto justificaria a simplificação que ele sugere, ao excluir as influências dos outros arquitetos que mencionou. É inegável que boa parte do vocabulário arquitetônico de Jorge Machado Moreira, adotado a partir dos anos 1940, e principalmente nos edifícios da Cidade Universitária da Ilha do Fundão, provém dos modelos corbusianos mais clássicos do final dos anos 1920, como por exemplo, a Villa Savoye (1928). Por outro lado, sua visão construtiva da edificação o aproxima definitivamente da postura de Gropius e de seus colegas germanófonos e russos. Por que Jorge Machado Moreira nega estas afinidades? Talvez a resposta a esta questão só possa ser obtida através de uma análise psicológica de sua personalidade, o que foge ao escopo deste trabalho. Importa aqui, após ter analisado a participação dos germanófonos nos CIAM, alinhar alguns pontos que caracterizem a contribuição de Le Corbusier neste contexto. A partir de então, discernir, dentro da doutrina dos CIAM, suas convergências e variantes, de modo a entender, finalmente, como cada um dos modernos brasileiros processou a absorção deste ideário. Não se contesta, de qualquer forma, a influência de Le Corbusier. Talvez o estilo panfletário do arquiteto franco-suíço o colocasse mais em evidência do que seu colega alemão. Le Corbusier escrevia e publicava com freqüência, ao contrário de Gropius, que era mais reservado neste aspecto. Esta faceta de Le Corbusier, que irritava alguns, como Wright, era fator de sedução para os arquitetos mais jovens, ávidos por renovações radicais. A questão da preponderância da influência de Le Corbusier sobre a de Gropius não é recente. Em 1987, Lúcio Costa, em entrevista a J. Czajkowski, M. C. Burlamaqui e R. Brito, questionado sobre esta preferência, respondeu: “Gropius era uma figura excepcional também. Muito culto, era casado com uma mulher muito inteligente e bonita. Durante a primeira guerra ele foi da cavalaria, foi ulano, ele mesmo me contou. Era uma figura esplêndida. Estive longamente com ele em Paris, e depois aqui, lá em casa. Gostou muito de Leleta, que o levou ao Jardim Botânico. Mas Le Corbusier era o único que encarava o problema de três ângulos: o sociológico – ele dava muita importância ao social –, a adequação à CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 46 tecnologia nova e a abordagem plástica. Isso é o que mais me marcou, que o diferenciava de todos, embora Gropius, lá na Bauhaus tivesse organizado uma coisa estupenda. Muita gente vê hoje aquele movimento da Bauhaus como uma coisa muito rígida e restritiva, mas não podemos esquecer a estrutura fabulosa que foi, na época, a Bauhaus – Kandinski, Klee, etc. Mas a abordagem de Le Corbusier seduzia mais. Depois, ele tinha o dom da palavra e o texto das publicações, com diagramação diferente, aliciava. Era aquela força que se comunicava com as pessoas jovens.” (Costa: 1987; 1995, 144-145) O depoimento de Lúcio Costa oferece alguma pista para entender os laços que uniram Le Corbusier e o Brasil mas, olhando mais em detalhe sua história, é fácil ver que este era um relacionamento que vinha se construindo já de longa data. Le Corbusier teve uma trajetória muito diferente daquela dos arquitetos seus contemporâneos holandeses e alemães. Sua formação arquitetônica, um tanto “heterodoxa”, e os ambientes que freqüentou moldaram um profissional que defendia ardentemente uma “Nova Arquitetura”, compatível com as técnicas construtivas contemporâneas e com uma nova organização social. Ao mesmo tempo, nunca deixou de entender a arquitetura como fonte de poesia. É neste sentido que difere essencialmente dos germanófonos dos CIAM, que pretendiam dar uma expressão despersonalizada à arquitetura, reduzindo o projetista a apenas mais um trabalhador inserido no processo produtivo da edificação. Charles-Edouard Jeanneret (nome de batismo de Le Corbusier) nasceu em 1887, em La Chaux-de-Fonds, na região do Jura, na Suíça. Permaneceu nesse ambiente provinciano e lá mesmo iniciou, aos 14 anos, seus estudos de projetista e gravador na escola de artes e ofícios local, voltada especialmente para a indústria relojoeira. Seu professor mais influente, Charles L’Eplattenier, tinha como referência os trabalhos de Owen Jones, particularmente seu compêndio de arte decorativa The Grammar of Ornament (A Gramática do Ornamento) (1856). L’Eplattenier procurava ensinar seus alunos a derivar todo ornamento de seu meio ambiente natural imediato. Vêm daí os fundamentos que Le Corbusier adotaria para a composição formal de seus projetos e a crença nas possibilidades poéticas da arte e da arquitetura, que iriam marcar toda sua carreira (Frampton: 1992; 1997, 180 / Beeby: 199_, 11-28)). CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 47 Em 1905, com apenas 18 anos, projetou sua primeira casa, para um dos diretores da escola. Este projeto era a aplicação fiel do aprendizado que teve até então. O dinheiro recebido nesse trabalho lhe permitiu viajar, nos primeiros meses de 1907, pela Itália, Budapeste e Viena, onde conheceu Josef Hoffmann8. (Boesiger & Girsberger: 1967, 14 / Frampton: 1992; 1997: 180). Nesse mesmo ano conheceu Tony Garnier em Lyon, quando este começava a ampliar seu projeto de 1904, para uma Cité Industrielle. Foi imediata sua identificação com os princípios socialistas utópicos e a abordagem tipológica da arquitetura de Garnier. Sobre esse encontro, diria depois: “Esse homem sabia que o nascimento iminente de uma nova arquitetura dependia de fenômenos sociais. Seus planos revelavam uma grande facilidade. Eram a conseqüência de um século de evolução arquitetônica na França.” (Le Corbusier: ap. Frampton: 1992; 1998, 180) Também em 1907, visitou o convento de cartuxos de Ema, na Toscana, Itália. O modelo de comuna que ali encontrou viria a se tornar o modelo sócio-físico de sua própria reinterpretação das idéias socialistas utópicas que herdou de Garnier e do próprio L’Éplattenier. (Frampton: 1992; 1997, 180) Em 1908-1909, trabalhou em Paris, por 14 meses, já como arquiteto, com Auguste Perret (1874-1954), com quem aprendeu a projetar com estruturas de concreto armado. Neste período parisiense, a visita a museus, bibliotecas e salas de conferências ampliou sua visão de mundo. Essas vivências repercutiram no projeto que fez para sua escola de origem, em 1909-10. O projeto consistia de um conjunto de oficinas, cada uma delas dedicada a uma técnica. As oficinas tinham um pequeno pátio adjacente, sendo dispostas em torno de um espaço comunitário central, coberto por um telhado piramidal. A planta se baseava em elementos 8 Josef Hoffmann (1870-1956): arquiteto austríaco, que liderou o movimento Sezession, em Viena. Seus trabalhos posteriores ao período da Sezession introduziram um vocabulário de grelhas regulares, no qual a clareza funcional e a pureza abstrata permitem enquadrá-lo como um antecessor do MovimentoModerno (Sharp ap Mathews: 2001) . Era interesse de L’Éplattenier que Jeanneret se tornasse aprendiz de Hoffmann em Viena, mas o contato não frutificou. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 48 modulares de dimensões uniformes, permitindo expansões futuras, representando, espacialmente, uma livre interpretação da forma celular do convento de Ema, na Toscana. Era, portanto, a primeira vez que o arquiteto interpretava um tipo clássico com a finalidade de conciliar um programa inteiramente novo. (Frampton: 1992; 1997, 181) Já se fazia presente a idéia de modulação e racionalização da construção através de elementos repetitivos. Entre 1910 e 1911, esteve na Alemanha, designado pela escola de Chaux-de-Fonds para estudar o desenvolvimento dos ofícios naquele país. Lá, trabalhou por 5 meses no escritório de Peter Behrens, tendo feito contato com Gropius, Mies e outros arquitetos do Deutsche Werkbund. A pesquisa realizada na Alemanha foi publicada em 1911. Viajou, por sete meses, pelos Bálcãs – Hungria, Rumânia, Bulgária, indo até Istambul, Atenas e Roma – e retornou a Chaux-de-Fonds, onde ministrou alguns cursos, a convite do antigo mestre L’Eplattenier. (Boesiger & Girsberger: 1967, 14) Kenneth Frampton destaca que os dez anos, entre 1906 e 1915, foram fundamentais na formação de Corbusier, propiciando uma sólida formação acadêmica, sem a qual lhe seria impossível sintetizar com clareza os princípios da arquitetura moderna e ainda contradizê-la simultaneamente: “... acima de tudo, parece necessário examinar os longínquos antecedentes albigenses de sua família, de resto calvinista, e aquela visão de mundo maniqueísta meio esquecida, mas latente, que parece ter sido a origem de sua atitude mental ‘dialética’. Refiro-me àquele jogo onipresente de opostos – do contraste entre sólido e vazio, luz e sombra, Apolo e Medusa – que impregna sua arquitetura e é evidente como postura mental na maioria de seus textos teóricos.” (FRAMPTON: 1992; 1997, 179) Em 1914, junto com seu amigo Max du Bois, elaborou dois projetos – as Casas Dom-Ino e as Villes Pilotis – que continham os elementos que moldariam o desenvolvimento de seu trabalho pelas duas décadas seguintes. Nas Casas Dom-Ino surgiram, pela primeira vez, os conceitos da estrutura independente em concreto armado, a planta livre e a fachada livre, bem como a idéia de pré-fabricação e de construção racionalizada. Do ponto de vista urbano, a justaposição das casas segundo o desenho do jogo que lhe dava o nome, rompia CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 49 inteiramente com o traçado tradicional da rua-corredor. Esta justaposição sugeria um agrupamento do tipo comunal, recriado a partir do arranjo do convento Toscano, conceito que seria incorporado em seu urbanismo e que viria a utilizar nas futuras Unidades de Habitação. As Villes Pilotis, cujo conceito certamente provém da Rue Future (Rua Futuro), de Eugène Henard9, de 1910, redesenhava a rua elevada, o trânsito segmentado conforme o tipo de transporte e as residências deslocadas do chão. Estes conceitos aqui lançados, seriam aprimorados nos anos seguintes e resultariam na síntese dos “Cinco Pontos da Nova Arquitetura”, de 1926, e nas bases de seu urbanismo. Em 1916, Jeanneret se mudou para Paris. A princípio, e durante os anos da I Guerra, trabalhou como gerente numa fábrica de tijolos, dividindo seu tempo com estudos e ensaios em pintura e arquitetura. Em 1918, em parceria com o pintor Amédée Ozenfant , desenvolveu as idéias do Purismo, que defendia a perfeição evolutiva de todos os objetos, incluindo a arte, o design e a arquitetura (Frampton: 1992; 1997, 182). Em 1920, fundou a revista L’Ésprit Nouveau (O Espírito Novo) que serviu de base de lançamento para as idéias que viria a divulgar com crescente entusiasmo. Ali publicou em números separados, os artigos que, posteriormente reunidos, constituiriam seu primeiro livro canônico – Vers une Architecture (Por uma Arquitetura)10, em 1923. Nestes artigos, nos quais usou pela primeira vez o nome Le Corbusier, fazia a apologia da estética do engenheiro, enquanto condenava a arquitetura, parada no tempo: “Os engenheiros constroem os instrumentos de seu tempo. Tudo, salvo as casas e as alcovas apodrecidas.” (Le Corbusier: 1923; 1998, 6) 9 Eugène Henard (1849-1923): Como arquiteto da Cidade de Paris, dedicou-se ao estudo dos problemas de circulação nas vias públicas. Sua proposta de logradouros em vários níveis (Rue Future) se baseava na idéia de segregar os meios de transporte conforme a finalidade, interligando os vários níveis da rua diretamente com as edificações. 10 Vers une Architecture: a tradução mais adequada seria “Em direção a uma arquitetura”, ou “Rumo a uma arquitetura”. Lúcio Costa, em entrevista a Mário Cesar de Carvalho, publicada na Folha de São Paulo, em 23 de julho de 1995, usa “A Caminho de uma Arquitetura”. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 50 “... os homens vivem em velhas casas e ainda não pensaram em construir casas para si. Gostam muito do próprio abrigo, desde tempos imemoriais. Tanto e tão fortemente, que estabeleceram o culto sagrado da casa. Um teto! Outros deuses lares. As religiões são fundadas sobre dogmas, os dogmas não mudam; as civilizações mudam; as religiões desmoronam apodrecidas. As casas não mudaram. A religião das casas permanece idêntica há séculos. A casa desabará.” (Le Corbusier: 1923; 1998, 5) Para ilustrar a atualidade da engenharia, lançava mão das imagens dos artefatos mecânicos – aviões, navios, automóveis – cuja “lição está na lógica que presidiu ao enunciado do problema e à sua realização”, reivindicando para a casa esta mesma abordagem: “a casa como uma máquina de morar” (Le Corbusier: 1923; 1998, 69). Ao mesmo tempo, não descuidava de reivindicar para a arquitetura sua poética específica: “Quando uma coisa responde a uma necessidade, ela não é bela, ela satisfaz uma parte de nosso espírito, a primeira parte, aquela sem a qual não há satisfações ulteriores possíveis; restabeleçamos esta cronologia. “A arquitetura tem um outro significado e outros fins que acusar as construções e responder às necessidades (necessidades tomadas no sentido, aqui subentendido, de utilidade, de conforto, de disposição prática). A ARQUITETURA é a arte por excelência, que atinge o estado de grandeza platônica, ordem matemática, especulação, percepção de harmonia pelas relações comoventes. Eis aí o FIM da arquitetura.” (Le Corbusier: 1923; 1998, 73) Por essa época, já instalado em seu ateliê na Rue de Sèvres, 35, Le Corbusier mantinha intenso intercâmbio com o meio artístico e arquitetônico parisiense. Datam dessa época os primeiros contatos com artistas brasileiros que iam freqüentemente a Paris. “Foi provavelmente numa das feijoadas oferecidas por Tarsila do Amaral (1886-1973), em seu ateliê parisiense, que Le Corbusier conheceu Di Cavalcanti (1897-1976), que realizou, durante sua estada parisiense em 23, um retrato do arquiteto” (Santos et al.: 1987, 32)11. Sua revista L’Esprit Nouveau era assinada por 11 Tarsila do Amaral trabalhava no ateliê do pintor Fernand Léger, grande amigo de Le Corbusier. Os dois, além dos laços de amizade, partilhavam as mesmas opções estéticas. É grande a produção pictórica de Le Corbusier nesta época. Léger esteve presente em 1934 na viagem do navio SS- CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 51 cerca de 10 artistas paulistas (Santos et al.: 1987, 39), provavelmente por indicação de Tarsila. Nos anos 1920, Le Corbusier, associado a seu primo Pierre Jeanneret, desenvolveu diversos projetos, procurando sempre manter a coerência com os princípios da “Nova Arquitetura”, cuja formulação mais sintética foi perseguindo continuamente. Estasíntese foi finalmente obtida nos “Cinco Pontos da Nova Arquitetura”, enunciados em 1926 e que, evidentemente, guardam total coerência com sua visão urbanística. Tornaram-se canônicos em sua maneira de projetar e construir nos anos seguintes. São eles: 1 O pilotis 2 O terraço-jardim 3 A planta livre 4 A janela em fita 5 A fachada livre Na obra construída, o próprio Le Corbusier apontou os quatro modelos de composição que adotou na busca desta síntese, no diagrama desenhado em 1929. Partindo da Maison La Roche (1923) [gênero mais para o fácil, pitoresco, movimentado], a seguir, três variações para o prisma puro: a Maison à Garches (1927), [muito difícil – satisfação do espírito], a Weißenhofsiedlung em Stuttgart (1927) [muito fácil] e finalmente a Villa Savoye (1929) [muito generosa – afirma-se no exterior uma vontade arquitetural; se satisfazem no interior todas as necessidades funcionais (insolação, contigüidades, circulação)]. De fato, foi nessa última obra que se afirmariam pela primeira vez de forma construída os “Cinco Pontos”. Essa síntese só se observaria novamente, de forma quase didática, no projeto do Ministério da Educação e Saúde Pública, no Rio de Janeiro, 7 anos Patris, durante o encontro do CIAM IV, a convite de Le Corbusier. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 52 depois. Esses dois edifícios se constituem, assim, quase como modelos arquetípicos que serviriam como referência principal para os edifícios projetados pelos arquitetos brasileiros, principalmente os cariocas, a partir de meados da década de 1930. Jorge Machado Moreira iria incorporar este modelo a seu repertório, adaptado, a partir do começo dos anos 1940. Simultaneamente à consolidação dos conceitos arquitetônicos, desenvolvia-se sua visão de cidade. Le Corbusier, assim como a maior parte dos arquitetos europeus identificados com a “Nova Arquitetura”, tinha claro que esta só se viabilizaria se houvesse uma renovação de igual relevância no urbanismo. Sintonizado com as vanguardas européias que vinham discutindo a renovação da arquitetura, Le Corbusier sempre abordava a questão urbana de forma abrangente, vendo a questão da edificação como uma parte da questão mais ampla, da cidade e do território. Neste sentido, seguia a tradição francesa de “exportar” sua cultura e vender serviços. Esta “exportação” da cultura arquitetônica e urbanística francesa iria se materializar em algumas situações no futuro próximo: o Plano de Remodelação, Extensão e Embellezamento da Cidade do Rio de Janeiro (1928- 1930), de Alfred Agache, o Estudo de Urbanização do Rio de Janeiro (1929) feito pelo próprio Le Corbusier, em sua primeira viagem à América do Sul, e o projeto do Ministério de Educação e Saúde Pública (1936), feito também com sua colaboração12. Em 1922 e em 1925, Le Corbusier fez duas propostas urbanísticas bastante semelhantes. A primeira proposta, de 1922, de uma Cidade Contemporânea para 3 Milhões de Habitantes, era um ensaio urbanístico em situação ideal, na qual procurava mostrar a configuração de uma cidade inteira. A segunda proposta – o 12 Por exemplo, a renovação promovida por Haussmann no século anterior já tinha sido “exportada” para várias outras cidades que pretendiam renovar sua imagem, conferindo-lhes a atmosfera cosmopolita de Paris da virada do século. Havana, em Cuba, e o Rio de Janeiro, com as obras promovidas por Pereira Passos, se incluem neste processo. A Missão Artística Francesa, liderada por Lebreton, que trouxe, no começo do Século XIX, diversos arquitetos e artistas (entre os quais Grandjean de Montigny), já teria sido uma destas exportações culturais promovidas pela França. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 53 Plan Voisin13, de 1925, era um projeto para a área central de Paris, na qual o tecido urbano antigo era eliminado, enxertando-se aí um novo tecido, em área que compreendia diversos bairros. Estes projetos foram minuciosamente defendidos e descritos no livro Urbanisme (Urbanismo), de 1925. Ambos foram desenhados na forma de enormes dioramas sobre papel canson, incluíam também as respectivas plantas e maquetes. Na Cidade Contemporânea, o núcleo propriamente urbano teria área equivalente a quatro vezes a ilha de Manhattan. Simbolicamente representava o centro metropolitano capitalista, podendo ser perfeitamente entendida como a grande cidade norte americana passada a limpo. A densidade prevista era pouco superior à existente em Paris à época, sendo este um forte argumento de Le Corbusier em favor das qualidades ambientais de seus projetos. O traçado urbano se assemelhava à retícula ortogonal clássica. A linha reta era um fundamento básico do desenho: “A linha curva é o caminho das mulas, a rua reta o caminho dos homens. “A rua curva é o resultado da vontade arbitrária, da indolência, do relaxamento, da descontração, da animalidade. “A reta é uma reação, uma ação, uma atuação, o resultado de um domínio de si. É sadia e nobre.” (Le Corbusier: 1925; 2000, 10-11) Os problemas de congestionamentos da cidade tradicional foram superados no projeto através de amplos jardins e vias de circulação generosamente dimensionados, com a previsão de vários níveis para as diferentes modalidades de transporte: “Contrariamente aos costumes mais seculares, os imóveis não se agrupariam em maciços retangulares projetando-se sobre as ruas, com subdivisões interiores em inúmeros pátios. Um sistema de loteamento 13 O nome Plan Voisin é derivado do nome da empresa que patrocinou o trabalho e que também custeou parte do Pavilhão Esprit-Nouveau, onde o projeto foi exposto, em 1925, na Exposition des Arts Décoratifs de Paris. O próprio pavilhão reproduz uma das unidades residenciais-tipo destes projetos. O nome Voisin é, em si, um jogo de palavras, pois ao mesmo tempo é o nome do patrocinador e significa “vizinho”, em francês CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 54 com reentrâncias que suprimisse totalmente os pátios, espaçaria as casas de 200 a 400 ou 600 metros e daria para parques maiores que as Tulherias. A cidade se tornaria um parque imenso: 15% de superfície construída, 85% de superfície arborizada, densidade equivalente à de Paris congestionada de hoje, grandes ruas axiais de 50 metros só se cruzando a cada 400 metros (a circulação automotiva exige a supressão de dois terços das ruas atuais); ginásios de esporte e de diversão contíguos às habitações, supressão dos pátios, transformação radical do aspecto da cidade, contribuição arquitetural de primeira importância.” (Le Corbusier: 1925; 2000, 94) As edificações seguiam basicamente três tipos. Para os escritórios, localizados mais ao centro, foram utilizadas torres de escritórios de planta cruciforme, a que chamou Arranha-céus Cartesianos. Formalmente se assemelhavam aos Glashochhaus mit prismatischer Gliederung (arranha-céu em vidro sobre planta prismática), proposto por Mies van der Rohe para Friedrichstrasse, em Berlim, em 1919. Diferia deste pela implantação pois, enquanto o projeto de Mies acompanhava o alinhamento dos logradouros, as torres de Le Corbusier eram localizadas nos centros de enormes quadras ajardinadas. Era a transformação de um objeto, que deixava de ser apenas a busca de lucros empreendida por uns poucos, e passava a ser a oportunidade de uma sociedade melhor para todos: uma utopia urbana apolítica, que permaneceria como um tema recorrente em todo o seu trabalho (Mumford: 2000, 20). Havia dois modelos de blocos residenciais, com cinco ou seis pavimentos duplex.Um dos modelos (utilizado apenas no projeto de 1922) era um grande bloco disposto ao redor da quadras, ensejando a formação de um pátio central bastante amplo. O outro (presente nos dois projetos) era um longo bloco serrilhado (rendant), solto em meio a um grande parque. O modelo do bloco serrilhado foi posteriormente modificado para adquirir formas sinuosas em diversos projetos urbanos de Le Corbusier, entre os quais o do Rio de Janeiro e o de Argel, sendo também a base do modelo de edifício de grande altura adotado no MESP, em 1936. Nos projetos da Cidade de 3 Milhões de Habitantes e no Plan Voisin, alguns dos “Cinco Pontos” apareciam já de forma explícita. O pilotis, destinado a serviços, o terraço-jardim, a planta livre e a fachada livre estão presentes. A janela em fita não se adequava ao modelo de unidade residencial-tipo projetada. O padrão gráfico da área urbana, bem como a disposição dos blocos nas quadras remetia diretamente aos padrões CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 55 ornamentais de Owen Jones, sendo fácil perceber a analogia com tapeçarias orientais. (Beeby: 199_, 11-28) O apartamento-tipo sugerido para os blocos residenciais reproduzia o padrão já experimentado anteriormente nas Casas Citrohan (1920) e na Ateliê do Pintor Ozenfant (1922). Consistia de um amplo ambiente de estar com pé direito duplo iluminado por um grande vão frontal, completado com mezanino de dormitórios. Este padrão viria a ser utilizado em diversos projetos seus e também adotado por arquitetos brasileiros. Os irmãos Roberto aplicaram este modelo nos Edifícios Residenciais da Rua Fernando Ferrari (1947) e da Rua São Clemente, da mesma época. Jorge Machado Moreira o utilizou nas Residências de Sérgio Correa da Costa (1951) e de Antônio e Rosinda Ceppas (1951). Em escala ampliada, foi freqüentemente utilizado nos pavimentos de acesso e nos espaços monumentais de diversos edifícios: Pavilhão do Brasil na Feira de Nova York (1939), de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer; IRB (1941) e Aeroporto Santos Dumont (1944) de Marcelo e Milton Roberto; Cassino da Pampulha (1942) e Banco Boavista (1946), de Oscar Niemeyer (1946); Parque Guinle (1948-54), de Lúcio Costa; e finalmente no Centro de Tecnologia (1956) e Faculdade Nacional de Arquitetura (1957), de Jorge Machado Moreira. Em 1935, depois de ter esboçado propostas para outras cidades, como Rio de Janeiro, Buenos Aires e Argel, propôs um novo modelo urbano na Ville Radieuse (Cidade Radiosa). Aqui, o modelo concêntrico da cidade foi abandonado, substituído por um modelo linear. Por trás dessa transformação morfológica, a motivação conceitual se fundamentava na eliminação das escalas hierárquicas sugeridas nos modelos da década anterior. O Arranha-céu Cartesiano, bem como o arranjo dos blocos residenciais denteados foi mantido, mas o desenho das unidades residenciais neste projeto de 1935 decorria da preocupação com a pré-fabricação, a racionalização e a eficiência no uso do espaço – temas recorrentes nas discussões do CIAM, que já vinham ocorrendo desde 1928. Aparece com mais clareza a preocupação com o zoneamento e a setorização dos usos. Pela época do projeto da Ville Radieuse, Le Corbusier já estivera no Brasil, em visita CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 56 que resultou de contatos havidos desde pelo menos meados dos anos de 1920. Le Corbusier era amigo comum do pintor Léger e do poeta Blaise Cendrars, nascido como ele, também em Chaux-des-Fonds. Em 1926, a partir de informações obtidas com os brasileiros que freqüentavam o ateliê de Le Corbusier, Blaise Cendrars escreveu a Le Corbusier nos seguintes termos: “ATENÇÃO: informo-lhe que o governo brasileiro acaba de pedir ao Congresso a verba necessária para a construção da capital federal prevista na constituição. Construção de uma cidade de um milhão de almas: PLANALTINA, numa região ainda hoje virgem! Creio que isso deva interessá-lo! Se for este o caso, colocarei você em contato com quem de direito.” (Cendrars ap Santos et al.: 1987, 42) “Quem de direito”, no caso, era Paulo Prado, empresário paulista bem sucedido, mecenas das artes, com fácil acesso aos círculos mais íntimos do poder central brasileiro. Com seu apoio, Cendrars já tinha vindo ao Brasil anteriormente, e mantinha estreita ligação com os artistas da vanguarda paulista, entre os quais se incluíam Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Mario de Andrade, etc. (Jacques: 2000). Desde que recebeu esta informação privilegiada, “o desejo de construir no Brasil passou a fazer parte das estratégias do arquiteto, e a perspectiva de ver realizada sua concepção de cidade ‘ideal’, fez de Le Corbusier um atento observador da realidade brasileira”. (Santos et al.: 1987, 34) Em 1929, Le Corbusier foi convidado para dar uma série de palestras em Buenos Aires, e viu aí a oportunidade de se aproximar do Brasil e, quem sabe, obter para si o projeto da nova Capital Federal, com o qual vinha sonhando havia alguns anos. Certamente esta não era uma idéia descabida, pois por essa época já estava em fase de conclusão o projeto para o Rio de Janeiro de seu compatriota e concorrente Agache. Le Corbusier, se dirigiu, então a Paulo Prado de forma bastante direta. Em carta de 28 de julho de 1929, dizia: “Estaria muito interessado em poder parar no Rio e São Paulo, isso se as condições financeiras forem compensadoras. O fato é que deixar os negócios em Paris engendra deficits sérios. Aliás, só me decidi a fazer uma viagem tão longa, porque creio na simpatia latina na América do Sul e numa colaboração útil. Efetivamente, o sonho de ‘Planaltina’ não me sai da cabeça: gostaria de poder construir nesses seus países novos alguns dos grandes trabalhos de que me tenho ocupado aqui, CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 57 cuja realização a letargia continental certamente jamais permitirá. Quando muito, meu grande plano para Paris servirá de inspiração a alguns semi-acadêmicos num pálido e mesquinho plágio.”(Le Corbusier: 1929 ap Santos et al.: 1987, 44) Paulo Prado, de fato, se empenhou na concretização da visita de Le Corbusier ao Rio e a São Paulo, tendo conseguido o apoio financeiro do Círculo Politéchnico e da Prefeitura de São Paulo e condições similares na Cidade do Rio de Janeiro. (Santos et al.: 1987, 45). O tom levemente displicente da carta de junho de 1929 de Le Corbusier a Paulo Prado, revela apenas parcialmente o entusiasmo de Le Corbusier com a sonhada ‘Planaltina’. Tamanho era seu interesse nesse projeto que deixou de comparecer ao encontro do CIAM II, de Frankfurt, para empreender essa viagem. Somente uma aposta muito alta, como Planaltina, o faria ausentar-se deste Congresso, cuja formação, é bom lembrar, foi sua própria iniciativa. A viagem de 1929 de Le Corbusier à América do Sul representou um ponto de mutação para os brasileiros, mas foi um impacto forte também para ele próprio. Além de fazer contato com uma realidade social, cultural e histórica totalmente diferente daquela do velho mundo, a paisagem tropical o marcou profundamente. A viagem da França ao Brasil foi num transatlântico, objeto de conjecturas e metáforas antigas em seus escritos. No navio, conheceu e se tornou amigo de Josephine Baker, artista que fazia sucesso nos palcos populares da Europa, e que vinha ao Brasil para exibições. Foi aqui também que fez sua primeira viagem de avião – uma experiência hoje banal, na época representava total mudança nos pontos de vista e nas escalas de apreensão do território. Em Corollaire Bresilien (Corolário Brasileiro), escrito em 1930, ele descreveu todo o impacto que essas experiências representaram: “... quando de avião tudo se tornou claro, e apreende-se esta topografia – este corpo tão movimentado e complexo; quando, vencida a dificuldade e, tomados pelo entusiasmo, sentimos nasceremas idéias, penetramos no corpo e no coração da cidade, compreendemos uma parte do seu destino. “... então, no Rio de Janeiro, cidade que parece desafiar radiosamente toda colaboração humana com sua beleza universalmente proclamada, CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 58 somos possuídos por um desejo violento, louco talvez, de tentar, aqui também, uma aventura humana – o desejo de jogar uma partida a dois, uma partida ‘afirmação-homem’ contra ou com ‘presença-natureza’” (Le Corbusier: 1930 ap Santos et al.: 1987, 88-89) A partida a dois ‘afirmação-homem’, ‘presença-natureza’, foi o Estudo de Urbanização do Rio de Janeiro, no qual propunha “uma imensa auto-estrada, ligando à meia altura os dedos dos promontórios, abertos sobre o mar, de modo a unir rapidamente a cidade, pela auto-estrada, aos elevados dos platôs salubres” (Le Corbusier: 1930 ap Santos et al.: 1987, 94). Esse projeto, evidentemente foi concebido sob o impacto revelador do sobrevôo de avião sobre a cidade, quando pode apreender a totalidade do território. Nele, apareciam alguns elementos presentes nas propostas anteriores da Cidade Contemporânea e do Plan Voisin, tais como os pilotis, o longo bloco edificado e os apartamentos modulados com pé-direito duplo. No Estudo de Urbanização do Rio de Janeiro, porém, estes elementos ganharam muito maior liberdade formal. O grande bloco edificado perdeu sua geometria ortogonal para adquirir uma forma sinuosa e contínua, decorrente de movimentos gestuais amplos; os apartamentos tinham arranjo interno livre e variado, os pilotis ganharam alturas variadas, elevando o bloco fechado acima dos telhados das casas existentes, e o próprio edifício passava a funcionar como via de transporte. O grande parque arborizado aqui seria a cidade tradicional aos pés desta gigantesca estrutura de concreto. Posteriormente, Le Corbusier sugeriu soluções similares para São Paulo, Montevideo, Buenos Aires e Algers. Sua Ville Radieuse, de 1935, bem como todo seu urbanismo daí em diante, foram impregnados de idéias originadas dessa experiência sul-americana. “Até 1930, suas propostas de cidade ou de renovação urbana são estetizantes e restritas. De agora em diante elas tentam instituir os princípios técnicos de um novo modo de funcionamento global da sociedade onde a estética é decorrência da noção de ‘rendimento’. Por sua vez, essa noção entende-se como racionalização e normatização aplicadas tanto à produção arquitetônica, quanto aos métodos industriais.” (Santos et al.: 1987, 19) De volta à Europa, Le Corbusier não perdeu contato com os brasileiros. Atitude que CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 59 acabaria resultando na sua segunda e mais marcante visita ao Brasil, em 1936, à qual Jorge Machado Moreira se referiu em seu Depoimento. Em 1929, foram concorridíssimas as conferências de Le Corbusier no Rio de Janeiro, mas poucos arquitetos brasileiros se deram conta do potencial transformador ali presente. O próprio Agache, em encontro com o colega e com o prefeito do Rio de Janeiro, declarou, que “Corbusier é um homem que quebra os vidros, um homem que produz correntes de ar, e nós, os outros, passamos depois ...” Agache deixou aqui um projeto completo para a cidade, mas Le Corbusier viria a transformar radicalmente os corações e mentes de muitas gerações de arquitetos a partir dos anos seguintes. Em 1936, o meio arquitetônico já tinha processado as idéias revolucionárias da “Nova Arquitetura”, que provocaram certa estranheza em 1929, e estavam prontos para tomar uma nova dose daquela cachaça. Enquanto, por aqui, os brasileiros se dedicavam a estudar esta lição de casa, o mestre se empenhava em avançar na consolidação da arquitetura e do urbanismo modernos. O espaço privilegiado para este avanço eram os CIAM, nos quais, com a retirada compulsória dos arquitetos socialistas alemães e russos, cada vez mais se abria espaço para afirmar sua presença. Até 1930, os CIAM tinham abordado os temas da unidade habitacional (Frankfurt, 1929) e do loteamento (Bruxelas, 1930). Na seqüência crescente de escalas e porte, o próximo tema, pela lógica seria a cidade. A experiência acumulada dos socialistas acima referidos seria excepcional, face as discussões teóricas e as realizações práticas que tinham alcançado nessa área. E, de fato, este foi o tema escolhido – Die functionelle Stadt (A Cidade Funcional) – para o CIAM IV, previsto inicialmente para acontecer em Moscou. Após muitas mudanças de data e de local, devidas à instável situação política européia, finalmente o quarto congresso se realizou a bordo do navio a vapor SS-Patris II, num cruzeiro que partiu de Marseille, no sul da França, foi até Atenas, na Grécia, e retornou ao porto de saída após duas semanas. Neste período, em meio a conferências, visitas a locais históricos e encontros de simples lazer, foram analisadas as plantas de 34 cidades, classificadas em Metrópoles, Cidades Administrativas, Portos, Cidades Industriais, Cidades de Lazer, Cidade de Funções variadas e Cidades Novas. Num esforço de tornar CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 60 comparáveis estas cidades, foram estabelecidas previamente determinadas codificações e padronizações gráficas. Devido à falta de uma metodologia previamente estabelecida, as análises feitas foram quase informais, o que dividiu os presentes quanto à eficácia do procedimento. Por sugestão de Le Corbusier, foram estabelecidas algumas categorias de análise: (Mumford: 2000, 81) 1. Opiniões sobre a) cidades existentes, b) novos assentamentos; 2. O papel dos edifícios e sítios históricos na cidade moderna; 3. Princípios de orientação solar; 4. Tamanho e localização dos locais de educação e lazer; 5. A rua moderna e sua relação com a habitação. A categorização sugerida por Le Corbusier guardava total coerência com as funções da cidade, de acordo com as definições do congresso anterior, de Bruxelas: “habitação, trabalho, lazer e circulação”, e incluía uma quinta categoria, referente aos locais de valor histórico. Há, entre os críticos e historiadores, uma certa unanimidade quanto à importância deste CIAM IV no futuro da arquitetura moderna, assim descrita por Mumford: “Os seminários a bordo do navio, os sítios Mediterrâneos clássicos, e as conferências de Le Corbusier e Léger levaram os CIAM a uma nova direção. No que pese a retórica de Le Corbusier, esta direção não rompeu tão fortemente com as tradições acadêmicas da Beaux-Arts quanto o tinham feito os defensores alemães da ‘Nova Construção’. Uma nova ênfase na história mitologizada, na pintura moderna, e nas qualidades míticas do CIAM em si como vanguarda, definindo um novo caminho através do Mar Mediterrâneo, estava agora presente, e permaneceria como importante parte do discurso dos CIAM nos anos da década de 1950 e em diante. (Mumford: 2000, 85) O grande volume de material reunido e a falta de um consenso sobre as discussões impediu a produção de um material de análise imediatamente após o encontro. Os painéis padronizados com as plantas das 34 cidades foram a base de uma exposição itinerante, enriquecida com os textos de algumas conferências. As CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 61 anotações feitas a bordo do SS-Patris II foram objeto de penoso trabalho de vários participantes daquele congresso de 1933. As anotações eram divididas em ‘Constatações’ e ‘Resoluções’ e foram publicadas separadamente em versões preliminares pouco após o encontro em revistas de arquitetura. Somente na década seguinte seriam publicadas versões completas desse trabalho. Simultaneamente, Le Corbusier, na França, e Josep Lluis Sert, espanhol migrado para os Estados Unidos, trabalharam sobre estas anotações, produzindo publicações que, apesar de terem textos muito semelhantes, por sua paginação e pela organização dos capítulosdiferem radicalmente uma da outra. Em 1943, Le Corbusier publicou seu texto, concluído dois anos antes, com o título La Chartre d’Athénes (A Carta de Atenas). Poucos meses depois, Sert publicou sua versão, com o título Can our Cities Survive? (Podem nossas cidades sobreviver?)14. O aspecto gráfico das publicações mostra a diferença nas condições em que ambas foram produzidas. A edição francesa era em brochura de formato convencional, papel barato e sem ilustrações, enquanto a americana era de capa dura, papel couché em formato paisagem, grande e ilustrada. Estas duas publicações se tornaram os documentos mais importantes da arquitetura e do urbanismo modernos, sendo adotados por muitos arquitetos como verdadeiras bíblias. Entre os brasileiros, a versão de Le Corbusier foi mais difundida. Ambas as versões respeitavam a existência de dois conjuntos de anotações: Constatações e Resoluções. A versão de Sert, ilustrada, procura mostrar com fotos dramáticas a decadência e falência do urbanismo tradicional, contraposto à eficiência da doutrina dos CIAM. Ironicamente, algumas das ilustrações podem ser utilizadas para sustentar tanto a defesa quanto a condenação dos postulados por ele apresentados, o que dá ao livro um caráter premonitório da breve falência da doutrina urbanística dos CIAM. A seleção das imagens feita por Sert é emblemática do choque e da perplexidade do arquiteto espanhol migrado para os Estados Unidos, onde encontrou a civilização da máquina em pleno funcionamento, 14 Algumas edições têm o título “Should our Cities Survive?” (Devem Nossas Cidades Sobreviver?”) CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 62 provocando tanto resultados maravilhosos como lamentáveis. A edição preparada por Le Corbusier não tem imagens, mas apenas textos. A organização do texto segue um diagrama cristalino, que contrapõe ‘Observações’ com ‘Exigências’, referentes a habitação, lazer, trabalho e circulação – esses os princípios da Cidade Funcional –, acrescido de patrimônio cultural (por exigência dos italianos). O volume é completado com um breve histórico dos Congressos anteriores, e conclui com as resoluções finais do CIAM IV, propriamente A Carta de Atenas. Colocado dessa maneira, a Carta... parece ao leitor a única conclusão razoável para os problemas urbanos e da arquitetura. A lógica do texto e sua eficiente diagramação tornam sua leitura extremamente fácil, didática, aliciante, como disse Lúcio Costa, citado anteriormente. Entre os pontos doutrinários definidos na Carta, destacam-se os seguintes: “A escala humana deve reger o dimensionamento de todas as coisas dentro do dispositivo urbano; “A cidade deve assegurar, tanto no plano material, como no espiritual, a liberdade individual e o benefício da ação coletiva; “A cidade é parte de um sistema econômico, social e político, e deve ser entendida como inserida numa região da qual faz parte; “A chave do urbanismo se encontra nas quatro funções: habitar, trabalhar, recrear, circular; “Os planos definirão a estrutura de cada um dos setores e fixarão seu posicionamento no conjunto “A habitação deve ocupar as melhores partes da cidade, e deve ser o centro das preocupações urbanísticas; “Deve ser revisto o princípio das circulações urbanas face a velocidade dos meios de transporte e a necessidade de torná-los eficientes, através da criação de grandes artérias. “Deve-se entender e trabalhar com a altura das edificações, de modo a liberar área no solo e adensar a cidade; “Cada cidade deve definir suas leis de acordo com seu programa que, por sua vez deve decorrer de análise de especialistas, levando-se em conta os recursos naturais, a topografia, os dados econômicos e sociológicos e os valores espirituais; “As técnicas modernas devem ser usadas no sentido de resolver a CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 63 grande tarefa de construir a cidade, onde se insere a arquitetura, como principal instrumento de ordenação da cidade; “O interesse privado se subordinará ao interesse coletivo; a escala dos trabalhos a empreender no rearranjo das cidades se coloca em posição antagônica com estado da propriedade territorial infinitamente dividida.” (Le Corbusier: 1943; 1957) Quando, em 1936, Le Corbusier veio em sua segunda viagem ao Brasil, ainda não tinha concluído o trabalho de síntese da Carta de Atenas. Já estava, no entanto, convicto dos princípios que viriam a ser ali explicitados e que ajudara a construir. Com estes, e com os princípios arquitetônicos mais específicos, desenvolveu os projetos do Ministério e do Campus e fertilizou o terreno onde germinaria a arquitetura moderna brasileira. Esse espírito que estava presente no “convívio, durante cerca de três semanas, que com ele tiveram os arquitetos do grupo encarregado de projetar o edifício do ministério, do qual eu fazia parte, e que influiu decisivamente em minha formação profissional.” (Moreira: 1980) Não foi só no convívio diário nas equipes de projeto do MESP e da Cidade Universitária que Le Corbusier divulgou seu ideário. As palestras que deu na Escola de Música, às quais compareceu grande público, serviram para que os ainda recentes debates do SS- Patris II fossem divulgados entre os brasileiros. Desse modo, quando, finalmente, em 1943, as publicações vieram a público, foram recebidas com entusiasmo. Cabe notar que pela época das publicações, o trabalho de alguns daqueles arquitetos neófitos de 1936, começava a receber amplo reconhecimento. Jorge Machado Moreira, que até o início dos anos 1940 ainda se mantinha mais fiel à linha germânica e russa, parece que teve suas convicções estéticas definitivamente abaladas com a leitura da Carta..., ao perceber a relevância e permanência dos valores que trazia. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 64 FRANK LLOYD WRIGHT Wright é o terceiro arquiteto da chamada primeira geração de modernos que Jorge Machado Moreira menciona em seu Depoimento. Até hoje é ainda obscura a importância que ele teve nos acontecimentos de 1931, quando Lúcio Costa dirigia a ENBA. Em que pese sua afirmação de que sua “vinda ao Rio de Janeiro naquele ano, e a ação aqui desenvolvida foi importante para consolidar esse movimento”, existe .pouca informação sobre os passos que deu por aqui. Em 1993, Donato Mello Júnior., pouco após o falecimento de Moreira, comentava a esse respeito, em artigo na revista Projeto: “Cobramos15 várias vezes dele que, em memória da vida acadêmica coeva (sic)16, deixasse um depoimento de sua participação estudantil na polêmica greve de 1931 contra o professor Gastão Bahiana e dos contatos com Frank Lloyd Wright por ocasião do julgamento da segunda fase do concurso internacional do Farol de Colombo, ocorrido no Rio de Janeiro.” (Mello Júnior: 1993) Entre os norte-americanos, o pioneirismo de Wright não é questionado. O fato é que seu modernismo tem outras matrizes, muito diferentes das matrizes européias. Em alguns momentos houve alguma afinidade entre Wright e os europeus, mas a regra geral neste relacionamento é a hostilidade e disputa. Desde o começo do Século XX, logo que encerrou seu estágio com Louis Sullivan, Wright projetou e construiu diversas residências para famílias abastadas nos novos bairros periféricos de Chicago. Nestas obras, Wright desenvolveu uma linguagem que viria a ser praticamente sua marca registrada por mais de 20 anos. Nestas residências – as chamadas Prairie Houses (Casas da Pradaria) – a composição do conjunto resultava da adição de volumes irregulares e orgânicos. Wright substituiu o rígido método acadêmico baseado em eixos e simetria estática pelo equilíbrio 15 Plural majestático. 16 Coeva = contemporânea CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 65 assimétrico edinâmico. As plantas, onde predominava o ângulo reto e o arranjo cruciforme, se revelavam na volumetria, na qual os elementos ou partes do programa funcional da casa se manifestavam externamente, cada um deles tendo sua expressão própria perfeitamente identificável pelo exterior. Wright inovou ainda mais ao adotar para os elementos construtivos – telhados, esquadrias, painéis de parede, forros e pisos – uma linguagem absolutamente pessoal, derivada parcialmente da estética de Machintosh, com influências na decoração residencial japonesa, cultura pela qual nutria especial admiração. Do ponto de vista construtivo, Wright defendia a verdade dos materiais, e não desprezava o virtuosismo dos artesãos e mestres de obra, demonstrando perfeita coerência nesse particular. A tal ponto ia sua obsessão nesse aspecto, que deplorava o uso de pintura sobre as superfícies revestidas: caso o material não pudesse se mostrar ao natural, o pigmento cromático deveria fazer parte integrante da argamassa, dispensando acabamentos. (Tafel: 1979, 39) Este talvez seja o ponto em que haja maior identidade entre Jorge Machado Moreira e o arquiteto americano, qual seja, o esmero técnico e a busca de uma perfeição na execução da obra, na qual a verdade do materiais deveria se manifestar sempre. As exposições das obras de Wright na Europa, no começo do século passado, influenciou alguns arquitetos, principalmente holandeses, e deu um fruto solitário na obra da Bauhaus, logo extirpado, episódio já comentado anteriormente. Depois que construiu uma vida profissional de sucesso, Wright estabeleceu seu ateliê-escola em Taliesin, Wisconsin, a norte de Chicago, em meio a uma fazenda. Lá, os estudantes de arquitetura e demais colaboradores tinham como tarefas não apenas o trabalho de escritório. Mesma importância era dada às atividades de canteiro, executando e aprimorando-se nos serviços de marceneiro, pedreiro, pintor, e todo tipo de mão-de-obra envolvida na construção, que podiam incluir ainda os trabalhos nas plantações e no cuidado com os animais. Esta visão de não- separação entre projeto e obra permeou a atuação de Wright e mostrava coerência com seu desprezo pelas formalidades acadêmicas. Edgar Tafel, que trabalhou com Wright entre 1932 e 1945 relata: CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 66 “O processo educacional era um tanto informal; a escola não exigia disciplina. Uma combinação de artes e ofícios, jardinagem e cuidados com as plantações, além de esportes, nos dava um espírito vigoroso, mas nosso treinamento acadêmico era pouco sólido.” (Tafel: 1979, 11) Tafel relata que seu primeiro dia de atividades em Taliesin foi ajudando pedreiros na execução de revestimentos nas paredes do celeiro, sob os olhares críticos de Wright, que controlava o traço da massa com rigor. (Tafel: 1979, 38). Esta postura que Wright defendia, na qual se incluía a exaltação dos valores do trabalho manual, levava a um ideal bucólico de vida junto à natureza. A cidade ideal que Wright projetou em 1934 – Broadacre City – representa a corporificação de uma teoria do estabelecimento humano que é uma espécie de anti-urbanismo. A desmaterialização da cidade que ele propunha diferia dos conceitos defendidos pelos urbanistas russos, que também propunham uma desconstrução da cidade. Pela proposta dos russos, todos os trabalhadores deveriam se equiparar socialmente, portanto não deveria haver diferenças mesmo espaciais entre eles. A idéia de planejamento total levaria a indissociação entre o trabalho urbano e rural e entre os espaços urbano e rural, da mesma maneira. A proposta de Wright parte do pressuposto que no campo o homem está em sintonia com a natureza e lá vai encontrar os verdadeiros valores morais e culturais que a cidade degenera. Pela proposta de Wright ele rarefaz o tecido urbano, fazendo todos os cidadão retornarem à vida no campo, em contato diário com ele. É inegável o papel de Wright no desenvolvimento da linguagem arquitetônica do Século XX. Com seus projetos, muitas regras acadêmicas rígidas foram postas abaixo, e as lições de Durand17 foram – pelo menos a oeste de Greenwich – rasgadas em definitivo: em especial o abandono do Marche a suivre dans la Composition d’un Projet Quelconque (Caminho a seguir para um projeto qualquer) (Durand: 1819; 1985,) e o respeito às ordens clássicas. Daí a reivindicar para Frank Lloyd Wright o pioneirismo da Arquitetura Moderna, como defende Tafel, vai um 17 J.N.L.Durand: Autor de Précis des Leçons d”Architecture (1819) a l’École Royale Politechnique. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 67 passo largo demais. “É fato que a arquitetura moderna nasceu, cresceu e frutificou em nosso meio-oeste e, devido unicamente à persistência do Sr. Wright, finalmente se desenvolveu na Europa.” (Tafel: 1979, Prefácio) Tafel é no mínimo apressado, para não dizer irresponsável, ao classificar Wright como arquiteto moderno e atribuir a ele o pioneirismo. A chamada Arquitetura Moderna admite tantas e tão amplas definições que qualquer arquiteto nascido nos últimos 500 anos pode ou não ser incluído nesta categoria, dependendo dos critérios a serem adotados em cada definição. A obra de Wright é inovadora ao romper com as regras clássicas de composição e ao adotar um repertório arquitetônico inédito, especialmente nas residências que projetou. O repertório por ele utilizado representa uma total descontinuidade em relação à tradição das delicadas casas que caracterizavam a paisagem da Nova Inglaterra, e inaugura um novo estilo americano de morar. O uso intensivo de elementos decorativos coloca seus projetos numa direção oposta aos caminhos que percorreria a “Nova Arquitetura” na Europa. Por essa mesma época Adolf Loos fazia pregação contra o uso de elementos decorativos na arquitetura, em seu famoso manifesto Ornament und Verbrechen (Ornamento e Delito). Somente a partir de meados dos anos 1930, quando teve início uma nova fase de sua carreira – a fase das Usonian Houses – Wright viria a adotar detalhamento mais sóbrio. Um dos projetos mais marcantes do início dessa fase é a Fallingwater – Kaufman House (Casa da Cascata) (1936), projetada poucos anos depois que ele andou passeando pela Rua Toneleiros, e onde andou buscando alguma inspiração (Costa: 1948). O que prova que, mesmo para um autêntico WASP18, um pouco de antropofagia pode fazer bem. Mas isto é outra história ...19 A depuração formal que procedeu nessa segunda fase pouco aproximou a linguagem de Frank Lloyd Wright daquela que foi desenvolvida pelos arquitetos europeus. Wright não apenas rejeitava esta arquitetura de origem européia, como 18 WASP – White Anglo-Saxon Protestant (Protestante Anglo-saxão Branco) 19 Que será abordada no Capítulo 2. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 68 desprezava os próprios arquitetos, principalmente depois que estes, fugindo da guerra, vieram se estabelecer nos Estados Unidos. De todos, o único que respeitava era Mies van der Rohe, que considerava por suas qualidades particulares, sem incluí-lo no conjunto dos europeus (Tafel: 1979, 70). A referência que Jorge Machado Moreira fez ao arquiteto norte-americano em seu Depoimento pode ser atribuída a uma certa característica comum a ambos, no que diz respeito ao rigor construtivo e minúcia no detalhamento arquitetônico. Poderia também, ao colocar o nome de Wright ali, estar prestando alguma espécie de homenagem e reverência ao velho arquiteto, ou mesmo estar fazendo um agradecimento tardio a alguma intervenção a seu favor nos polêmicos dias de 1931. Tudo isto são conjecturas. O fato inquestionável é que há muito pouca afinidade formal entre a obra destes dois arquitetos. Se é nosso interesse investigar a origem da arquiteturade Jorge Machado Moreira, certamente é procurando junto aos europeus que se vai encontrar o fio da meada. JORGE MACHADO MOREIRA E A PRIMEIRA GERAÇÃO Jorge Machado Moreira menciona, em seu Depoimento, quatro arquitetos da chamada primeira geração moderna: Le Corbusier, Walter Gropius, Mies van der Rohe e Frank Lloyd Wright. Dos quatro, atribui maior significação à influência exercida por Le Corbusier. Pouca atenção dedica a Gropius e Mies, e não explicita a real importância de Wright. Entender a obra e a carreira de Moreira através de seu próprio prisma, pode nos levar a desprezar aspectos importantes de sua formação e conseqüentemente interpretar equivocadamente determinadas posturas projetuais que adotou. É voz corrente na historiografia da arquitetura brasileira restringir a Le Corbusier a única influência relevante na formação dos arquitetos brasileiros defensores da “Nova Arquitetura”. Levando-se em conta que foi Warchavchik o professor que apresentou a essa geração o que seria a “nova maneira de conceber, projetar e construir”, sendo ele um russo convictamente alinhado com a ideologia e a estética de seus compatriotas, fica difícil desprezar a importância do grupo CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 69 germanófono na sua formação. É incontestável a importância de Le Corbusier, mas é preciso resgatar na história a verdadeira importância que tiveram outras importantes referências, como Gropius, Mies, e a Bauhaus em geral, para que se possa entender como se processou esta absorção de idéias, esta antropofagia ou canibalismo de idéias estrangeiras, que depois foram elaboradas e transformadas em expressão própria, como ocorreu. Jorge Machado Moreira soube aproveitar de Gropius, Mies e da experiência da Bauhaus a atitude técnica, que manda tratar a edificação como produto de um processo racional e que conduzia a uma despersonalização da autoria da obra. A princípio, adotou também a estética associada a esta atitude. Na fase madura de sua carreira, foi buscar em Le Corbusier as referências visuais, estéticas e compositivas que tanto marcaram a “Escola Carioca”, conciliando-as com os ideais construtivos que adotara anteriormente, e que não abandonaria. Por outro lado, é quase consenso que foi muito pequena a importância de Frank Lloyd Wright em nosso meio. E isto também deve ser ratificado, procurando-se sempre atribuir a devida importância aos fatos que a história demonstra. A maneira como se deu a absorção da doutrina da “Nova Arquitetura” no Brasil é o assunto do próximo Capítulo. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 70 Le Corbusier: Projeto de Concurso da Sede da Liga das Nações – Genebra, Suíça (1927) (Boesiger & Gisberger: 1967, 95) O primeiro encontro do CIAM foi resultado de esforços em várias direções, dos quais um dos mais significativos foi a campanha internacional em defesa do projeto de Le Corbusier rejeitado no Concurso para a sede da Liga das Nações Nénot, Flegenheimer, Broggi, Vago& Lefebvre: Projeto vencedor do Concurso para a Sede da Liga das Nações – Genebra, Suíça (1927), como apresentado por Alberto Sartoris em 1932. A tarja preta foi a menira do grupo suíço ABC indicar trabalhos arquitetônicos considerados errados. (Mumford: 2000, 11) “Ah, mas que escândalo! Escândalo na Academia que mobilizou todas as suas tropas. Suas tropas enviaram para Genebra algo como dez quilômetros de plantas, pálidos reflexos de atitudes históricas. A opinião se manifesta: decididamente o mundo não está tão avançado como acreditávamos; a ‘boa sociedade espera um palácio e para ela o verdadeiro palácio existe nas imagens registrada durante uma viagem de núpcias aos países dos príncipes, dos cardeais, dos doges ou dos reis.” (Le Corbusier: 1927; 1998, XXVII) CIAM I – La Sarraz, Suíça (1928) (Kahn: 2001, 37) CIAM I – La Sarraz, Suíça (1928) Guevrekian, Le Corbusier, Giedion e Peirre Jeanerret (Boesiger & Gisberger: 1967, 13) O encontro de La Sarraz, é considerado apenas uma reunião preparatória para o CIAM II, que ocorreria em 1929, em Frankfurt. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 71 Peter Behrens: AEG – Allgemeine Elektricitæts Gesellschaft, Berlim, Alemanha (1908) (Droste:2001,14) Peter Behrens: Cartaz de propaganda de lâmpadas da AEG (1907) (Droste:2001,15) A colaboração de Peter Behrens com a AEG – Allgemeine Elektricitæts Gesellschaft o levou a projetar desde lâmpadas, luminárias, ventiladores, peças de publicidade até a própria arquitetura das fábricas, sendo a mais famosa a fábrica de turbinas (1908), em Berlim. Neste edifício, de porte gigantesco, o uso de novos materiais – concreto na estrutura e aço e vidro nas esquadrias, é um eloqüente exemplar do avançado nível tecnológico da Alemanha na ocasião, e do descompromisso formal com a estética acadêmica. Walter Gropius & Adolf Meyer:: Fábrica de Calçados Fagus – Alfeld, Alemanha (1911) (Kahn: 2001,16) Ainda antes da I Guerra, em 1911, Walter Gropius, associado a Adolf Meyer, projetaram a Fábrica Fagus, primeiro edifício a usar a fachada inteiramente de vidro. Herbert Bayer: Exercício das Oficinas de Projto da Bauhaus – Projeto de Quiosque de jornais (1924) (Droste:2001,59) Gerrit Thomas Ritveld: Casa Schröder (1924) (Kahn, 2001, 18) Herbert Bayer: Exercício das Oficinas de Projto da Bauhaus – Projeto de Quiosque de jornais (1924) (Droste:2001,59) Apesar de nunca ter sido professor da Bauhaus,Theo van Doesburg morou e trabalhou em Weimar entre 1921 e 1925, e manteve estreita ligação com a escola. Muitos alunos da Bauhaus freqüentavam os cursos livres de De Stijl oferecidos por Doesburg em seu atelier particular, e levavam suas idéias para dentro da escola. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 72 Walter Gropius & Adolf Mayer: Residência Sommerfeld (1920-21) (Droste: 2001, 42-45) A primeira casa que a Bauhaus construiu – Residência Sommerfeld (1920-21) –, era fortemente influenciada pelas Prairie Houses, de Frank Lloyd Wright, particularmente no que diz respeito ao tratamento dos detalhes e acabamentos. Na verdade, a volumetria desta casa era bastante simples, resumindo-se a uma planta quadrada, com telhado de quatro águas; nisto se diferindo radicalmente das volumetrias dinâmicas das residências wrightianas. Destaca-se o fato de ter sido uma obra de arte unificada, na qual colaboraram todas as oficinas da escola. Walter Gropius & Adolf Mayer: Reforma do Teatro de Iena, Alemanha (1922) (Droste: 2001: 110) Adolf Mayer & Georg Much: Casa Modelo Am Horn – Exposição da Bauhaus (1923) (Droste: 2001, 52, 108. Nestas duas obras, o estilo expressionista da Residência Sommerfeld foi abandonado, adotando-se uma estética marcada pelos princípios do De Stijl. Cabe ressaltar que, por esta época, já era marcante, entre os aprendizes da Bauhaus, a influência de Theo van Doesburg, criador e defensor radical desta corrente artística e, forte opositor dos caprichos românticos. Walter Gropius: Casa de Walter Gropius e Casas dos Mestres da Bauhaus – Dessau, Alemanha (1925-26) (Droste: 2001, 126- 128) Nas casas dos mestres, Gropius, através do prisma neo-plástico, aprimorou a linguagem depurada que Adolf Loos preconizava, e da qual Le Corbusier já vinha fazendo uso em suas primeiras experiências arquitetônicas. Uma linguagem que poucos anos depois seria introduzida no Brasil através de Gregori Warchawchik em suas Casas Modernistas. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 73 Walter Gropius: Sede da Bauhaus – Dessau, Alemanha (1925-26) (Kahn: 2001, 24-25 / Droste: 2001, 121-125) Formalmente, o edifício adotou o partido de adição assimétrica de volumes. Cada volume correspondia a um conjunto de funções similares – oficinas, ateliers e salas de aula, administração,alojamento, refeitório e auditório. Cada bloco oferecia solução arquitetônica de planta e aparência exterior compatível com a função a abrigar. A referência estética mais imediata é a dos princípios compositivos neo-plásticos. Foi adotada estrutura independente de concreto, com planta livre, teto plano impermeabilizado, fachadas envidraçadas nos lados pouco ensolarados e predominantemente cega nos demais. Diversos componentes foram fabricados nas indústrias locais, como as esquadrias de ferro e de madeira, bem como boa parte do mobiliário, aí incluídas as poltronas do auditório, desenhadas por Marcel Breuer, e feitas na fábrica de aviões Junkers. A participação de Breuer, nesta época ainda aprendiz, no desenho dos móveis ilustra o modelo de organização pretendida pela Bauhaus, pelo qual deveria ser minimizada a divisão entre os trabalhos de concepção e de execução da obra, devendo o projetista se inserir diretamente na produção. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 74 Walter Gropius: Bairro Torten – Dessau, Alemanha (1926) (Droste: 2001, 133 / Frampton: 1997, 168) A preocupação com métodos industrializados, padronizados e de baixo custo pôde ser explorada no Bairro Törten. A estética neo-plástica, mais uma vez se mostrou perfeitamente adequada a estes propósitos. Ao mesmo tempo, a idéia de ampliar a atuação do arquiteto além dos limites estritos da edificação, indo até a escala da cidade, era coerente com a idéia que os defensores da “Nova Arquitetura” tinham sobre a abrangência que deveria ter sua atuação. Não se tratava de uma ambição gratuita, mas a conseqüência natural de um pensamento que via a arquitetura como instrumento de aperfeiçoamento da sociedade, através da correta ordenação do espaço segundo princípios científicos racionais e objetivos. Walter Gropius: Siemensstadt Sielung – Berlim, Alemanha (1929) (Gropius: 1935; 1968, 69) Blocos em fita de gabarito intermediário e alto, arranjados paralelamente. Walter Gropius: Diagramas ilustrando o Desenvolvimento da implantação de Edifícios Retangulares com Linhas Parallas de Blocos de Apartamentos de Diferentes Alturas (1929) (Gropius: 1935; 1968, 104-5) Data desta época (1929) o início dos estudos nos quais Gropius procurava as soluções habitacionais mais adequadas, levando em consideração custo de construção, densidade populacional, gabarito, insolação e distância entre blocos de apartamentos. Este problema concentrava as discussões que aconteciam na Alemanha, vindo a ser o tema dos CIAM II e III. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 75 Hannes Meyer e equipe da Bauhaus: Allgemeiner Deutscher Gewerkschaftsbund (Escola Estatal para a Federação de Sindicatos da Alemanha) – Bernau, Alemanha (1929) A Escola em Bernau tem o porte muito maior do que a própria sede da Bauhaus, mas evidentemente é muito mais despojada em seu aspecto. Os materiais são mais baratos e os espaços menos grandiosos. Fugindo um pouco do rigor dos blocos paralelos em fita, que caracterizava os conjuntos residenciais, aqui o sentido orgânico da composição prevalece, aproveitando- se a declividade natural do terreno. A regularidade dos ritmos marca todas as fachadas, cujo aspecto externo sempre condiz com sua função: janelas ritmadas nos alojamentos, grandes vãos envidraçados nas salas de aula, etc. A fachada voltada para o acesso – chamá-la de frente seria quase uma heresia, quando se pretende um edifício em que todas as faces devem ter a mesma importância – denuncia a tendência neo-plástica. Três enormes chaminés de seção quadrada, regularmente ritmadas, não deixam esquecer que se trata de um edifício ocupado por trabalhadores fabris. Hannes Meyer e equipe da Bauhaus: Ampliação do Bairro Torten – Dessau, Alemanha (1929) A galeria externa contínua se justificava basicamente pela economia, pois o número de escadas ficava radicalmente reduzido, às vezes bastando apenas uma escada para um bloco de inúmeros apartamentos por andar. Sua adoção se fundamentava ideologicamente na desmistificação do caráter individual da residência. Neste novo formato, a habitação passava a ter o status de equipamento coletivo, cuja eficiência funcional deveria prevalecer. Mart Stam: Contra-capa da revista Das Neue Frankfurt Nov. 1929), mostrando oConjunto Hellerhoh (1929) (Mumford: 2000, 36) A implantação dos primeiros projetos respeitava o traçado tradicional da rua corredor, com grandes áreas centrais ajardinadas. Nos últimos, o padrão de blocos paralelos em fita se afirma com maior clareza. Este padrão, tradicionalmente usado em acampamentos militares, oferecia a simplicidade e o caráter repetitivo necessários para os métodos de produção industrializados em linhas de montagem. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 76 Gropius: Casas Copper-Plate (1932) (Gropius: 1935; 1968, 88) Impregnados fortemente da ideologia marxista, procuravam mecanismos para a criação de uma arquitetura que fosse compatível com esta maneira de pensar. Apregoavam o funcionalismo como procedimento para o desenho dos espaços. Os métodos construtivos deveriam caminhar na direção da padronização total da edificação. A expressão individual do arquiteto deveria ser neutralizada; nutriam especial simpatia pela estética neo-plástica, pois a simplicidade das formas e a reduzida paleta de cores preconizada por este movimento cultural facilitava a produção mecanizada em larga escala. Mies van der Rohe: Pavilhão Alemão na Feira Internacional de Barcelona (1929) (Kahn: 2001, 87) Mies acabara de projetar o Pavilhão Alemão para a Feira Internacional de Barcelona, em 1929, obra cujas qualidades formais foram exaltadas imediatamente. Era considerado despolitizado, mas relutou em praticar o expurgo exigido pelos administradores públicos. Em sua gestão, a Bauhaus deixou de ser uma escola de design, e passou a ser uma verdadeira escola de arquitetura. Wilhem Jacob Hess: Estudo de densidade populacional em loteamento residencial – exercício das aulas de Hilberseimer (1931) (Droste: 2001, 213) Ludwig Hilberseimer (1885-1967) de certa forma deu continuidade ao estilo de arquitetura do antecessor Meyer: valorizava o estudo de tipologias construtivas para habitações populares e aprofundou as pesquisas que combinavam densidades e gabaritos para blocos em fita. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 77 CIAM II: Capa da Publicação e Painel típico dos Projetos Habitacionais – Frankfurt, Alemanha (1929) (Mumford: 2001, 41-43) A forte posição dos germanófonos, liderados Ernst May, Hans Schmidt e Mart Stam, levou à defesa da adoção de processos industriais de produção, fundamentado no conseqüente melhor aproveitamento dos materiais que, ao aumentar a produção em pouco tempo, liberaria maiores recursos para todos. Esta visão seria identificada como a “abordagem da engenharia” defendida pelo Construtivismo e identificada com o comunismo. Ainda que esta lógica formal se justificasse em termos de uma estética socialista da engenharia, ela também está relacionada com os métodos de composição elementaristas, o De Stijl e a estética de Le Corbusier. A despersonalização da representação gráfica desta exposição ilustra bem o entendimento que os germanófonos tinham da função do arquiteto. Coerente com a visão igualitária socialista, pretendiam a eliminação da idéia de autoria, sendo o arquiteto apenas mais um elemento inserido no processo produtivo do espaço construído. Mies van der Rohe: Urbanização de Weißenhof – Stutgart, Alemanha (1927) (Kahn: 2001, 81) No CIAM II, em Bruxelas, 1930, discutiu-se essencialmente a questão da densidade dos conjuntos residenciais e da cidade em geral, na linha das pesquisas que Gropius e Hilberseimer desenvolviam àquela altura. Havia um certo consenso sobre a conveniência do partido Zeilenbau (blocos em fita), que os alemãesdesenvolveram na década anterior e alcançava popularidade entre os praticantes da “Nova Arquitetura”. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 78 Le Corbusier: Ateliê de Artes em Cahux-de Fonds ( 1910) (Boesiger & Girsberger: 1967, 23) O projeto consistia de um conjunto de oficinas, cada uma delas dedicada a uma técnica. As oficinas tinham um pequeno pátio adjacente, sendo dispostas em torno de um espaço comunitário central, coberto por um telhado piramidal. A planta se baseava em elementos modulares de dimensões uniformes, permitindo expansões futuras, representando, espacialmente, uma livre interpretação da forma celular do convento de Ema, na Toscana. Le Corbusier: Maisons Domino (1914) (Boesiger & Girsberger: 1967, 24) Surgiam pela primeira vez, os conceitos da estrutura independente em concreto armado, a planta livre e a fachada livre, bem como a idéia de pré-fabricação e de construção racionalizada. Do ponto de vista urbano, a justaposição das casas segundo o desenho do jogo que lhe dava o nome, rompia inteiramente com o traçado tradicional da rua- corredor. Le Corbusier: Vers une Architecture (1923) Para ilustrar a atualidade da engenharia, lançava mão das imagens dos artefatos mecânicos – aviões, navios, automóveis – cuja “lição está na lógica que presidiu ao enunciado do problema e à sua realização”, reivindicando para a casa esta mesma abordagem: “a casa como uma máquina de morar” (Le Corbusier: 1923; 1998, 69). Ao mesmo tempo, não descuidava de reivindicar para a arquitetura sua poética específica: CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 79 Le Corbusier: Maison “Citrohan” (1920) (Boesiger: 1972; 1998, 12) Le Corbusier: Ateliê do pintor Ozenfant (1922) (Boesiger & Girsberger: 1967, 30-31) Le Corbusier: Stuttgart-Weissenhof (1927) (Boesiger & Girsberger: 1967, 50-51) Le Corbusier: Villa Stein em Garches ( 1927) (Boesiger & Girsberger: 1967, 54-55) CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 80 Le Corbusier: Villa Savoye (1929) (Boesiger & Girsberger: 1967, 58-61) De fato, foi nessa última obra que se afirmariam pela primeira vez de forma construída os “Cinco Pontos”. Essa síntese só se observaria novamente, de forma quase didática, no projeto do Ministério da Educação e Saúde Pública, no Rio de Janeiro, sete anos depois. Esses dois edifícios se constituem, assim, quase como modelos arquetípicos que serviriam como referência principal para os edifícios projetados pelos arquitetos brasileiros, principalmente os cariocas, a partir de meados da década de 1930. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 81 Le Corbusier: Cidade de 3 milhões de habitantes (1922) (Boesiger & Ginsberger,: 1967, 316-319) Simbolicamente representava o centro metropolitano capitalista, podendo ser perfeitamente entendida como a grande cidade norte americana passada a limpo. A densidade prevista era pouco superior à existente em Paris à epoca, sendo este um forte argumento de Le Corbusier em favor das qualidades ambientais de seus projetos. O traçado urbano se assemelhava à retícula ortogonal clássica. Le Corbusier: Estudo de Urbanização do Rio de Janeiro (1929) (Boesiger & Ginsberger,: 1967, 324- 325) O grande bloco edificado perdeu sua geometria ortogonal para adquirir uma forma sinuosa e contínua, decorrente de movimentos gestuais amplos; os apartamentos tinham arranjo interno livre e variado, os pilotis ganharam alturas variadas, elevando o bloco fechado acima dos telhados das casas existentes, e o próprio edifício passava a funcionar como via de transporte. O grande parque arborizado aqui seria a cidade tradicional aos pés desta gigantesca estrutura de concreto. Le Corbusier: Urbanização da Cidade de Argel (1930-35) (Boesiger & Ginsberger,: 1967, 327) Posteriormente, Le Corbusier sugeriu soluções similares para São Paulo, Montevideo, Buenos Aires e Algers. Sua Ville Radieuse, de 1935, bem como todo seu urbanismo daí em diante, foram impregnados de idéias originadas dessa experiência sul-americana. CAPÍTULO 1 – Por uma “Nova Arquitetura” mundial 82 Josep Lluis Sert: Can Our Ciies Survive? Em 1943, Le Corbusier publicou seu texto, concluído dois anos antes, com o título La Chartre d’Athénes (A Carta de Atenas). Poucos meses depois, Sert publicou sua versão, com o título Can our Cities Survive? (Podem nossas cidades sobreviver?) A edição francesa era em brochura de formato convencional, papel barato e sem ilustrações, enquanto a americana era de capa dura, papel couché em formato paisagem, grande e ilustrada. Estas duas publicações se tornaram os documentos mais importantes da arquitetura e do urbanismo modernos, sendo adotados por muitos arquitetos como verdadeiras bíblias. Entre os brasileiros, a versão de Le Corbusier foi mais difundida. Frank Lloyd Wright: Robie House (1909) (Izzo & Gibitosi: 1977,25) A composição do conjunto resultava da adição de volumes irregulares e orgânicos. Wright substituiu o rígido método acadêmico baseado em eixos e simetria estática pelo equilíbrio assimétrico e dinâmico. As plantas, onde predominava o ângulo reto e o arranjo cruciforme, se revelavam na volumetria, na qual os elementos ou partes do programa funcional da casa se manifestavam externamente, cada um deles tendo sua expressão própria perfeitamente identificável pelo exterior. Frank Lloyd Wright: Fallingwater – Kaufman House (1936) Somente a partir de meados dos anos 1930, quando teve início uma nova fase de sua carreira – a fase das Usonian Houses – Wright viria a adotar detalhamento mais sóbrio. Um dos projetos mais marcantes do início dessa fase é a Fallingwater – Kaufman House (Casa da Cascata) (1936), projetada poucos anos depois que ele andou passeando pela Rua Toneleiros, e onde andou buscando alguma inspiração (Costa: 1948). O que prova que, mesmo para um autêntico WASP, um pouco de antropofagia pode fazer bem. CAPÍTULO 2 Por uma “Nova Arquitetura” brasileira Quando nos aproximamos da aldeia, chamada Ubatuba, notei sete cabanas. Bem perto da praia, para onde os barcos foram puxados, as mulheres estavam trabalhando no campo, onde se cultivava mandioca. Tive de gritar-lhes, na língua delas “Aju ne xe pee remiurama”, o que vem a ser a mesma coisa que : “Eu, a sua comida, estou chegando”. Hans Staden (1525-1576) A Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Ferozes Devoradores de Homens. 1548-55; 1998 Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Philosophicamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os collectivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupy, or not Tupy that is the question. Oswald de Andrade Manifesto Antropófago. Anno 374 da Deglutição do Bispo Sardinha, 1928; 1975 CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 84 DEPOIMENTO1 Depoimento elaborado para a enciclopédia Contemporary Architects, Londres, St. James Press, 1980. 1 Iniciei minha vida profissional em 1932, integrado no movimento – do qual começara a participar ativamente como estudante – para implantação de uma nova arquitetura, conforme vinha ocorrendo em muitos países, como conseqüência da campanha mundial movida pelos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna, os CIAM, desde 1928. O movimento na Escola Nacional de Belas Artes, onde eu fazia o curso de arquitetura, teve início em 1931, quando Lúcio Costa nomeado diretor, empenhou-se em reformar o ensino, “implantando a nova maneira de conceber, projetar e construir”. Gregori Warchavchik, pioneiro da arquitetura moderna no Brasil, então contratado como professor, exerceu grandeinfluência nos estudantes, contribuindo para seu interesse e entusiasmo pela iniciativa de Lúcio Costa. A vinda de Frank Lloyd Wright ao Rio de Janeiro, naquele ano, e a ação aqui desenvolvida, foi importante para consolidar esse movimento. 2 Concluído o curso, fui trabalhar numa companhia construtora. Senti imediatamente dificuldades para fazer arquitetura como passara a entendê-la. Decidi, então, subordinar minha permanência à liberdade de projetar. Aceita a condição, pude exercer a profissão como desejava, durante o tempo em que lá permaneci. A exigência de liberdade para projetar mantenho até hoje. Ela não traduz o propósito de impor meu ponto de vista. Procuro, através do diálogo como o cliente, achar a solução adequada que atenda às suas aspirações, sem contudo fazer concessões contrárias aos princípios que, como arquiteto, me cabem defender. Esse critério nunca foi motivo para abandonar um trabalho. Encontro sempre argumentos para justificar minhas opiniões, fazendo o cliente compreender que estou agindo em defesa de seus interesses. Em 1937 passei a ter meu escritório de arquitetura. 3 Na minha vida profissional tive o privilégio de conhecer pessoalmente Frank Lloyd Wright, Walter Gropius, Richard Neutra, Mies van der Röhe, Marcel Breuer, Kenzo Tange e Phillip Johnson. De maior significação, porém, foi o contato mantido com Le Corbusier, em 1936, quando veio ao Rio de Janeiro a convite do Ministério de Educação e Saúde. Teve grande importância o convívio, durante cerca de três semanas, que com ele tiveram os arquitetos do grupo encarregado de projetar o edifício do ministério, do qual eu fazia parte, e que influiu decisivamente em minha formação profissional. 4 Nos anos decorridos desde aquela época, nossa arquitetura tem sentido as conseqüências da evolução das condições sociais, políticas e econômicas do país, que se refletiram na maneira de exercermos a atividade profissional. Não influíram, entretanto, em meu modo de sentir a arquitetura e de considerar sua importância. Para mim, fazer arquitetura é idealizar a obra visando resolver, com intenção plástica, o problema proposto, de acordo com a época, os materiais e as possibilidades técnicas; analisando e considerando os fatores externos que nela influem; respeitando imposições e hábitos do meio; detalhando e articulando todos os elementos e buscando sempre a verdade, quanto à sua finalidade e função, tanto na forma como no uso dos materiais. Dou toda assistência à construção para que a obra seja realizada tal como a imaginara e, quando concluída, o cliente sinta seu desejo satisfeito e eu minha tarefa corretamente cumprida. Preocupo- me com a ambiência da obra projetada e sua significação no contexto em que será inserida; construída, passa a constituir um elemento da paisagem urbana, cuja harmonia deve ser assegurada. Por essa razão, todo arquiteto deve ter preocupação urbanística. De acordo com esse princípio, tenho procurado, através de uma participação bastante ativa, colaborar no estabelecimento de regulamentações e normas urbanísticas que estruturem a cidade e orientem seu desenvolvimento, sem prejuízo da paisagem natural e dos testemunhos materiais de sua história, cujos remanescentes nos cabe preservar. 5 Espero que lutas e decepções, próprias da vida profissional, nunca me façam esmorecer nem abandonar os ideais que me animam e sempre se atualizam, para melhor servir à arquitetura e à profissão, em qualquer atividade e em qualquer circunstância. Jorge Machado Moreira 1 Transcrito de CZAJKOWSKI, J. P., org. Jorge Machado Moreira. Rio de Janeiro, Centro de Arquitetura e Urbanismo, 1999. Numeração de parágrafos não consta do original. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 85 Em 1929, Jorge Machado Moreira (1904-1992) não assistiu às duas conferências proferidas por Le Corbusier (1887-1965) no Rio de Janeiro2. Na verdade, somente mais de um ano depois, no início de 1931, quando ele começava já o 4° ano do Curso de Arquitetura da Escola Nacional de Belas Artes – na época eram exigidos seis anos para a integralização do curso – foi que tomou conhecimento da existência de uma outra arquitetura, diferente daquela que os mestres da academia lhe vinham ensinando até então. Esse conhecimento – ou essa iniciação – se deu através de Gregori Warchavchik (1896-1972), professor recém-contratado para a Escola Nacional de Belas Artes por indicação de Lucio Costa(1902-2000). Essa contratação de Warchavchik foi uma das primeiras iniciativas da breve, explosiva, porém emblemática gestão de Lúcio Costa na direção da ENBA entre 1930 e 1931. Através do professor Warchavchik, Jorge Machado Moreira foi também informado sobre o primeiro CIAM – Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, acontecido em junho de 1928, no qual Le Corbusier teve importante participação, e de onde surgiu o texto ‘Manifesto de La Sarraz’ (CIAM I: 1928; Ferraz: 1965, 30), mostrando que já havia suficiente consistência e mesmo algum consenso entre os arquitetos europeus a respeito do que seria essa “Nova Arquitetura”. Para o estudante Jorge Machado Moreira, assim como para muitos de seus colegas, receber do professor Warchavchik, de Lúcio Costa e de outros arquitetos e professores cheios de idéias renovadoras, a notícia da existência dessa outra arquitetura, pareceu uma revelação. O clima de renovação que dominava o país foi o ambiente ideal para que, jovens e idealistas, logo desprezassem a tradição acadêmica e aderissem facilmente não apenas a um novo estilo formal, mas a toda uma doutrina, que ainda anunciava a possibilidade de transformação social. Para esses estudantes a “Nova Arquitetura” se traduzia no sedutor sabor da novidade. Não só os estudantes, mas até mesmo Lúcio Costa reconhecia que seu 2 Esta informação foi dada em entrevista feita pelo autor com Francisco Bologna, que trabalhou com Jorge Machado Moreira entre 1944 e 1945 e de quem se tornou muito amigo. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 86 conhecimento sobre a arquitetura moderna era pouco ou quase nenhum naquela época: “...somente em 1929, ... numa revista chamada “Para Todos”, tomei conhecimento da existência de Gregori Warchavchik. A nota trazia uma fotografia da casa “modernista” exposta em São Paulo. Apesar da minha congênita ojeriza pela expressão, gostei da casa.” (Costa: 1995, 72) Mais representativo de sua ignorância, então, em relação ao movimento moderno é sua declaração relativa às Conferências de 1929 de Le Corbusier: “Cheguei um pouco atrasado [à conferência de Le Corbusier] e a sala estava toda tomada. As portas do salão da Escola estavam cheias de gente e eu o vi falando. Fiquei um pouco e depois desisti e fui embora, inteiramente despreocupado, alheio à premente realidade.” (Costa: s/d; 1995, 144) A discussão que predominava na ENBA, como de forma geral na produção arquitetônica, era sobre a conveniência dos estilos. Passados os últimos anos do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX, período no qual o ecletismo com fortes referências européias dominou a arquitetura, discutia-se, agora, a consolidação de um estilo genuinamente brasileiro – o neocolonial – que já tinha produzido exemplos notáveis. O próprio Lúcio Costa foi um dos arquitetos que, com sua grande cultura e conhecimento histórico, muito contribuiu neste sentido. Uma de suas obras mais citadas dessa fase é a Residência na Rua Rumânia, em Laranjeiras, hoje sede da RioArte. Não menos expressiva era a Sede da Embaixada da Argentina (1927-28), também de sua autoria, na Praia de Botafogo, lamentavelmente demolida para dar lugar ao um grande edifício de escritórios. Em seu livro de memórias ele mostra alguns outros exemplos, através dos quais se vê que este estilo já tinha alcançadosuficiente coerência, como expressão arquitetônica. Em 1922, tinham sido construídos no estilo neocolonial alguns pavilhões e também feitas reformas em vários edificações existentes para abrigar a Feira Internacional em comemoração ao Centenário da Independência do Brasil. Este evento marcou a consagração deste estilo entre nós. Dessa Feira, restou de pé apenas um exemplar CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 87 neste estilo, porém de grande expressão – o atual Museu Histórico Nacional, reformado para a ocasião a partir de projeto de Archimedes Memória (1893-1960) e Francisque Cuchet, titulares de um dos maiores escritórios de arquitetura na época. A edificação original tinha fins militares e foi reformada para abrigar o Palácio das Indústrias. Hoje ainda restam algumas outras construções feitas para a Feira de 1922, como o atual Museu de Imagem e do Som, projeto de Sílvio e Raphael Rebechi, feito para abrigar o Pavilhão da Administração e do Distrito Federal; o atual Serviço de Saúde dos Portos, projeto de Gastão Bahiana – Pavilhão da Estatística; a sede original da Academia Brasileira de Letras, projeto dos franceses Viret e Marmorat – Pavilhão da França. Esses três exemplos citados seguem o estilo eclético, com referências no classicismo greco-romano, demonstrando a convivência de estilos arquitetônicos de origem variada. Num período no qual o ecletismo de origem européia dava mostras de estar se esgotando, a discussão mais relevante entre os arquitetos era a busca de uma expressão genuinamente nacional. Essa busca não se restringia apenas à arquitetura. Pelo contrário, outras expressões artísticas perseguiam a mesma meta. O centro deste movimento, encontrava-se em São Paulo, e reunia artistas mais ligados às artes plásticas e à literatura. Na verdade, desde a década de 1910, essa questão vinha merecendo a atenção de artistas e intelectuais. Graça Aranha (1868- 1931), escritor e crítico de arte e literatura, em 1921, apontava a fragilidade e pouca originalidade que a criação artística brasileira oferecia. O que escreveu, então, se referia principalmente à literatura, mas poderia perfeitamente aplicar-se a qualquer expressão artística, inclusive e especialmente à arquitetura: “Assim, a nossa inteligência, para se libertar dos elementos bárbaros, fez da cultura um ato de mau gosto e um ato de covardia, produzindo uma literatura incolor, sem obras, onde o idealismo do nosso espírito metafísico não encontra os seus símbolos, nem a vida as suas criações ideais. E no entanto, aqueles elementos bárbaros da nossa formação espiritual e da nossa nacionalidade reclamam, antes de seu desaparecimento total, os seus vates e os seus escritores. ... O pedantismo matou neles a íntima selvageria, deixaram de exprimir inconscientemente para ver e explicar. Nunca tais escritores se entenderam secretamente com as coisas de que trataram” (Graça Aranha: 1921 ap Moraes: 1976: 39) CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 88 O próprio Graça Aranha propunha o caminho a ser seguido, destacando o caráter orgânico e abrangente de seu pensamento: “O movimento espiritual, modernista, não deve se limitar unicamente à arte e à literatura. Deve ser total. Há uma ansiada necessidade de transformação filosófica, social, artística” (Aranha: 1921 ap Moraes: 1976: 30) Segundo Moraes, autor do ensaio acima referido, “... a via proposta por Graça Aranha [é] o projeto de construção de uma cultura nacional que, não desprezando nosso traço característico, a imaginação, nem nossa natureza, defina o projeto cultural brasileiro por um novo encontro da alma brasileira com a natureza que a circunda. Esta é a via que assegura o enraizamento necessário da cultura no território nacional. ... É apenas pela afirmação das nacionalidades que alcançaremos a integração universal. Não se pode passar à integração universal sem antes procedermos à adequação da alma nacional com a natureza do país.” (Moraes: 1978, 44)3 As primeiras manifestações dos arquitetos em relação a este tema não esperaram as formulações de Graça Aranha. Alguns anos antes, em 1914, Ricardo Severo (1969-1940), em conferência intitulada A Arte Tradicional no Brasil, proferida na 3 Pode parecer fora de propósito inserir, num espaço de discussão da arquitetura moderna no Brasil, como este, outras formas de expressão artística aparentemente tão díspares quanto a pintura e a literatura. Não é. A discussão filosófica, teórica e conceitual permeia todas as expressões artísticas e culturais. Se, em certo momento histórico o debate se concentra em torno de uma determinada expressão ou modalidade artística, mais adiante a situação se modifica, e outra modalidade vem acompanhar a anterior ou assumir a vanguarda que outra liderou. Em certos momentos a arquitetura carrega esta bandeira renovadora, em outras (mais freqüentemente), é levada a reboque. Só este entendimento abrangente seria o bastante para justificar a inclusão de qualquer forma de arte nesta discussão. Além disto, cabe sempre lembrar – como será visto mais adiante ainda neste capítulo – que a virada da arquitetura brasileira em direção aos caminhos da modernidade de deu sob o patrocínio do Poder Público estabelecido. Mais precisamente, a Sede do Ministério da Educação e Saúde Pública, considerado ícone da arquitetura moderna brasileira, foi mandada projetar na gestão de Gustavo Capanema, quando este tinha a assessorá-lo vários funcionários oriundos e ainda ativistas das vanguardas artísticas literárias, fato que foi determinante no desenrolar dos acontecimentos. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 89 Sociedade de Cultura Artística, em São Paulo, já “preconizava a valorização da arte tradicional como manifestação de nacionalidade e como elemento de constituição de uma arte brasileira” (Segawa: 1998, 35). A resposta formal para o proposto “encontro da alma brasileira com a natureza que a circunda”, permitiu, a princípio, na arquitetura, uma livre interpretação – a eleição, um tanto arbitrária, do colonial brasileiro como nossa genuína “natureza” arquitetônica, daí resultando o neocolonial. Ricardo Severo, junto com Victor Dubrugas (1868-1933) foram arquitetos que praticavam uma arquitetura de inspiração tradicional em São Paulo, sendo pioneiros nesta linha de trabalho. No Rio de Janeiro, José Mariano Filho (1881-1946), mesmo não sendo arquiteto, foi o fundador do IAB – Instituto de Arquitetos do Brasil, e fez desta instituição a base para defender a oficialização deste estilo como aquele autenticamente nacional. “Apesar da incoerência conceitual de buscar uma expressão nacionalista no período colonial, o neocolonial foi uma reação contra a arquitetura importada da Europa e anseio por uma forma de decorativismo brasileiro. Curiosamente, esse estilo ufanista foi um movimento internacional que se articulou com outros análogos dos EUA e México à Argentina.” (Rocha-Peixoto: 2000, 16) A “ansiada necessidade de transformação” mencionada por Graça Aranha, conduzia obrigatoriamente a uma ruptura com o passadismo acadêmico e, neste sentido, os artistas brasileiros tinham um ponto em comum com as vanguardas européias. Anita Malfatti (1896-1964) evitou a opção pitoresca adotada pelos arquitetos neocoloniais; em vez disso, sua arte representou uma ruptura efetiva com a tradição acadêmica. Sua expressão, que no panorama brasileiro era inquestionavelmente inovadora, estava fortemente vinculada às expressões contemporâneas de artistas da vanguarda européia. A sua exposição realizada em dezembro de 1917, em São Paulo, é considerada, por essa razão, um marco inicial do movimento moderno no Brasil. Nas artes plásticas e na literatura, o movimento moderno com sede em São Paulo viu aparecer, além do trabalho da própria Anita Malfatti, obrascomo Paulicéia Desvairada (1922), de Mário de Andrade (1983-1945) e a pintura de Tarsila do CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 90 Amaral. O fato que viria marcar esse movimento foi a famosa Semana de Arte Moderna, de 1922. Se nas artes plásticas e na literatura a Semana representava efetivamente uma polêmica ruptura com as tradições acadêmicas4, na arquitetura, suas manifestações foram inexpressivas. Apenas dois arquitetos estiveram presentes – Antonio Garcia Moya e Georg Przyrembel – que mostraram apenas desenhos e a maquete de uma residência. Moya não tinha o propósito de que um dia esses seus projetos fossem construídos, pois “queria mostrar algo contrário ao que se fazia.” Apresentou projetos para um templo, um Pantheon, um mausoléu, duas residências, etc., nos quais “tomou liberdades inauditas, ... procurando dar uma tendência moderna, restabelecer o colonial brasileiro”. Na verdade, longe de se assemelhar ao neocolonial praticado por Lúcio Costa, em seus projetos, predominavam “estruturas geométricas maciças, fincadas ao solo, e nelas se notava um forte relacionamento com as grandes edificações palacianas ou religiosas da Antigüidade no Oriente Médio, ou com templos pré-colombianos no México”. Dos projetos de Przyrembel, destacava-se a Taperinha na Praia Grande – residência de veraneio de sua própria família, em estilo classificado por Aracy Amaral de neocolonial afrancesado, em voga na ocasião. Nenhum dos dois arquitetos manteve continuidade de relações com o núcleo de artistas da Semana de 22, e ambos seguiriam carreiras independentes, projetando em estilos ecléticos variados. (Amaral: 1970: 1998, 151-160) A vanguarda paulista, até 1922 estava mais preocupada em romper com as tradições passadistas. Eis porque foi possível aceitar, em meio a obras flagrantemente contestatórias, certas manifestações menos ousadas, como os projetos de Przyrembel e Moya. “Ser moderno, significava tudo aquilo que vinha se opor aos cânones passadistas que, até então, dominavam a cultura nacional” (Moraes: 1976, 55). Klaxon, a primeira revista modernista, cujos propósitos eram os mesmos definidos pelo grupo organizador da Semana de fevereiro de 22, já apontava alguns caminhos. Logo na apresentação do primeiro número, defendia 4 A este respeito, ver AMARAL, A. A. Artes Plásticas na Semana de 22 (1970; 1998) CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 91 que o importante era ser atual, inscrito na vida presente, o que exigia a participação do Brasil no cenário internacional. Daí viria a necessidade de contato com as vanguardas internacionais. Em certos trechos havia uma enorme afinidade com o discurso das vanguardas arquitetônicas européias, quando comparava os escritores aos engenheiros, que deveriam utilizar os materiais que lhes conviessem, em seu ímpeto construtivo. A partir daí surgiria, cada vez mais clara, a necessidade de se construir alguma coisa que substituísse a velha ordem. Diria Mário de Andrade: “não se destruirá coisa nenhuma sem que se tenha certeza de reconstruir melhor” (Andrade: 1922 ap Moraes: 1976, 64). A proposta, que vinha desde Ricardo Severo e Graça Aranha, indicava que o projeto para “reconstruir melhor” deveria ter como bandeira a afirmação da nacionalidade. O Manifesto Pau-brasil, de Oswald de Andrade, publicado em março de 1924, no Correio da Manhã, marca a nova postura da vanguarda artística paulista. O “Órgão Oficial” desta vanguarda, a partir de 1926 foi Terra Roxa e Outras Terras, em cujas páginas, além dos textos-manifesto, foram publicadas obras que expressavam esta forma de pensar. Não se trata mais de combater o passado em nome da atualização / modernização, mas de introduzir a ótica do nacionalismo no processo de renovação: só seremos modernos se formos nacionais. E aos poucos se firmará a idéia de que só seremos participantes do universo cultural se nele nos integrarmos com nosso coeficiente de nacionalidade. (Moraes: 1976, 83) Transcorrida uma década desde a celebrada exposição de Anitta Malfatti em 1917, a vanguarda modernista paulista já tinha passado por duas fase distintas, e novas questões se colocavam. Superada a fase de combater as manifestações passadistas, e tendo posteriormente identificado a brasilidade como meio de se alcançar a modernidade, apresentava-se agora o problema de como se posicionar face a contribuição do progresso civilizador com o qual estamos em permanente contato. A resposta surgiu da radicalização do discurso da fase anterior, através da Antropofagia, proposta por Oswald de Andrade. No Manifesto Antropófago, publicado no primeiro número da Revista de Antropofagia, em maio de 1928, CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 92 Oswald, com boa dose de ironia, propunha a absorção do estrangeiro naquilo que valesse a pena, desprezando a parte que não interessava. Do mesmo modo, Hans Staden relatara um ritual antropofágico no qual “jogaram a cabeça fora e chamuscaram a pele; o corpo foi cortado e repartido em partes iguais” (Staden: 1548-55; 1998, 96). Em sua essência, “ ... o instinto antropofágico, por um lado, destrói, pela deglutição, elementos de cultura importados; por outro, assegura a sua manutenção em nossa realidade, através de um processo de transformação / absorção de certos elementos alienígenas. Ou seja: antes do processo colonizador, havia no país uma cultura na qual a antropofagia era praticada, e que reagiu, sempre antropofagicamente mas com pesos diferentes, ao contato dos diversos elementos novos trazidos pelos povos europeus. ” ... o índio devora o colonizador e, atribuindo-lhe novo valor, utiliza-se dos elementos aproveitáveis da figura do devorado. O nacionalismo antropofágico não é um simples primitivismo. Ele sintetiza a pureza natural e os resultados da técnica moderna. Só a utilização dos valores industriais pelo espírito isento do natural garante a instauração do ‘matriarcado de Pindorama’” (Moraes: 1976, 144-160) Neste contexto, a chegada de Gregori Warchavchik, adquire caráter praticamente de uma seqüência natural dos fatos, desde que devidamente “aclimatado” e “antropofagizado”. Warchavchik tem importância pela contribuição que deu às vanguardas artísticas paulistas e por seu pioneirismo. Para nós, importa sobretudo o fato de ter sido o mestre que abriu os olhos de Jorge Machado Moreira para a “Nova Arquitetura”, tendo sido seu professor em 1931, no Curso de Arquitetura da Escola Nacional de Belas Artes. Gregori Warchavchik Nascido na Rússia, em 1896, Warchavchik estudou arquitetura na Universidade de Odessa, sua cidade Natal, mas só veio a se formar em Roma, em 1920. Trabalhou, em seguida, com Marcelo Piacentini (1881-1960), renomado arquiteto italiano que, na década de 1930, viria a disputar com Le Corbusier espaço de trabalho no Brasil, CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 93 na época da elaboração dos projetos do MESP e da Cidade Universitária. Posteriormente Piacentini viria a se tornar o arquiteto oficial de Mussolini. Apesar das idéias conservadoras de Piacentini, o convívio de Warchavchik com ele não foi suficiente para impedir que o arquiteto russo tomasse conhecimento das vanguardas arquitetônicas que a essa altura lutavam para abrir espaço na Europa. Em busca de trabalho no Novo Mundo, veio para o Brasil em 1923, contratado pela Companhia Construtora de Santos, que Roberto Simonsen dirigia, e que tinha obras por todo o território nacional. (Ferraz: 1965, 21) Em 1925, fez publicar, primeiramente em italiano, no Il Picollo (O Pequeno) – jornal da colônia italiana paulista – e posteriormente em português, no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, seu manifesto em defesa da arquitetura moderna, sendo este manifesto considerado pioneiro na defesa da “Nova Arquitetura” noBrasil. Os termos do manifesto revelavam que Warchavchik tinha aprendido bem as lições de Gropius e de Le Corbusier, mas se mantinha distante do debate artístico que ocorria em São Paulo e no Brasil. A defesa da racionalidade da construção e a analogia da lógica do avião com a lógica que deveria presidir o projeto de uma residência, mostram bem sua atualidade com as vanguardas arquitetônicas européias. Seu cotidiano na Companhia Construtora de Santos, onde trabalhava, era, de certa forma, compatível com seu discurso em defesa da “Nova Arquitetura”. Era uma das construtoras mais atuantes no Brasil, e seu sucesso se devia em grande parte à contratação de arquitetos inovadores, como Jayme da Silva Telles (1895-1966) e Rino Levi (1901- 1965), mas também aos processos construtivos racionalizados adotados nos canteiros de obra. (Segawa: 1998, 55-56) O discurso renovador de Warchavchik o aproximou dos artistas da vanguarda modernista paulista que viram nele excelente material a ser antropofagicamente devorado. Apesar do tema nacionalista não constar de sua pauta tanto quanto desejavam os brasileiros – afinal, nem mesmo era brasileiro –, em 1926, saiu publicada em Terra Roxa e Outras Terras uma entrevista em que o arquiteto de origem russa defendia os princípios da arquitetura moderna como a entendia, então. Essencialmente seu discurso se identificava com os princípios da Bauhaus: racionalização da construção, síntese do trabalho de criação e produção e estética CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 94 despojada, baseada na ausência de ornamentos. Em 1927, o casamento de Gregori Warchavchik com Mina Klabin (1896-1969) – herdeira de rica família de industriais paulistas – propiciou ao arquiteto as oportunidades para realizar suas experiências arquitetônicas sem os constrangimentos impostos por uma grande construtora. A primeira de uma série de sete casas que fez em São Paulo foi para si mesmo e sua esposa. Por sua configuração inovadora provocou debates acalorados, que acabaram em polêmica na grande imprensa paulista – fato que por si só lhe garantiu uma inesperada e bem- vinda visibilidade. Em sua defesa, as páginas do Diário Nacional foram franqueadas a Mário de Andrade, que contestava a atitude “reacionária” do Correio Paulistano. Formalmente a casa se assemelhava às Casas dos Mestres da Bauhaus (1926) em Dessau, devido à ausência de ornamentos e ao partido de adição de volumes prismáticos. Alguns aspectos a distinguiam do modelo inspirador: a composição simétrica da fachada principal revelava resquício da tradição acadêmica; o uso de telhas canal à vista na varanda posterior – defendido pelo arquiteto como sendo a valorização da tradição brasileira – entrava em franco conflito com o restante da composição, predominantemente ortogonal; a implantação no terreno, ditada pela simetria da fachada vista da rua representava uma continuidade em termos urbanísticos com a casa urbana tradicional. O toque de brasilidade foi dado pelo paisagismo, no qual Nina Klabin – esposa de Warchavchik – abusou das plantas tropicais, com ênfase nos cactos, palmeiras e bromélias. A escolha destas espécies acabou por dar ao jardim um aspecto pitoresco, quase folclórico, pois essa vegetação não é, evidentemente original do planalto paulista, lembrando mais uma caricatura tropical. De qualquer forma, este insólito paisagismo representou uma ousadia, pois trouxe para o jardim burguês, pela primeira vez no Brasil, plantas tidas como inadequadas para uso ornamental. As demais casas dessa fase até 1929 foram menores, e seguiam a mesma linguagem da primeira. Em 1930, Warchavchik destacou uma das casas para fazer uma maior divulgação de seu trabalho. A Casa da Rua Itápolis, 119, no Pacaembú, intitulada Casa Modernista, recebeu tratamento de obra de arte. Obras de artistas CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 95 plásticos brasileiros foram expostos; foram programadas declamações de poesia, leituras de textos e apresentações musicais. Foram distribuídos convites e a casa foi aberta ao público, tendo recebido mais de 20 mil visitantes em cerca de um mês. Geraldo Ferraz, biógrafo de Warchavchik, considerou que esta casa era o “completamento da revolução assinalada pela Semana de Arte Moderna de 1922” (Ferraz: 1965, 85). De fato, era a manifestação arquitetônica mais inovadora na Capital Paulista e que mais parecia se aproximar do pensamento da corrente artística modernista. Warchavchik mantinha contatos regulares com arquitetos europeus e, em 1928, quando se reuniu pela primeira vez o CIAM, pouco depois já tinha em mãos o texto final produzido em La Sarraz, que traduziu e procurou divulgar. Seu principal contato na Europa era Pietro Maria Bardi5, que conheceu durante sua temporada em Roma. Bardi indicou Warchavchik a Le Corbusier, para que ele fosse o representante dos CIAM na América Latina. De fato, quando Le Corbusier esteve em São Paulo, em 1929, oficializou o convite. Nas visitas que fez às casas modernistas paulistas, Le Corbusier estranhou um certo exagero no uso das cores, mas reconheceu em seu autor a necessária identificação com os ideais da “Nova Arquitetura” (Bardi: 1984, 48). A partir de então, estabeleceu-se uma troca de correspondência oficial regular entre os organizadores dos CIAM e Gregori Warchavchik. Apesar de nunca ter comparecido aos Congressos, algumas de suas obras foram publicadas por Alberto Sartoris (1901-1998) e Siegfried Giedion (1888- 1968) em livros sobre a arquitetura contemporânea. Toda a visibilidade obtida por Warchavchik motivou Lúcio Costa, em 1930, a convidá-lo para integrar o corpo docente da ENBA em 1930. Convite feito, convite aceito, chamou para auxiliá-lo Affonso Eduardo Reidy (1909-1964), ainda estudante, 5 Pietro Maria Bardi.(1900-19__): Crítico e historiador e galerista da arte italiano. Como editor da revista Quadrante, em 1931 foi convidado por Giedion para se juntar ao CIAM. No final da II Guerra veio para o Brasil, onde, a convite do jornalista Assis Chateaubriand, dirigiu o MASP – Museu de Arte de São Paulo –, instituição que possui um dos maiores acervos artísticos no Brasil. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 96 no último ano do curso de arquitetura. Se Jorge Machado Moreira não assistiu às conferências de Le Corbusier em 1929, isto não o impediu de, pouco depois da visita do mestre ao Brasil, tomar conhecimento e ser aliciado pela doutrina da “Nova Arquitetura”. É o próprio Moreira quem denuncia, em seu Depoimento, o responsável por este aliciamento: “Gregori Warchavchik, pioneiro da arquitetura moderna no Brasil, então contratado como professor, exerceu grande influência nos estudantes, contribuindo para seu interesse e entusiasmo pela iniciativa de Lúcio Costa.” (Moreira: 1980) Lúcio Costa, por essa época, ainda não tinha consolidado as convicções modernas que viriam a dar nova direção em sua carreira. Teve sensibilidade suficiente, no entanto, para perceber que uma renovação importante estava em marcha na arquitetura, e que Warchavchik poderia ser o catalisador de que precisava para deslanchar o processo no âmbito do ensino. Afinal, até ali, ninguém mais tinha ousado tanto quanto o russo naturalizado brasileiro na contestação à velha arquitetura. A temporada carioca ainda renderia outros frutos para Warchavchik. Em 1930, projetou a Residência William Norschild, na Rua Toneleiros, 138 (demolida), considerada a “primeira Casa Modernista do Rio de Janeiro”. Esta casa teve inauguração festiva, que mereceu matéria na imprensa, reproduzida a seguir: “Inaugurou-se ontem, em Copacabana, a ‘Exposição da primeira casa modernista do Rio de Janeiro’, projetada e construída por Gregori Warchavchik. Compareceram ao curioso acontecimento, o arquiteto Frank LloydWright, o escultor Celso Antônio, o pintor Cândido Portinari, o poeta Manuel Bandeira, o arquiteto Lúcio Costa, os Srs. Herbert Moses, Renato Villela, Jorge Machado Moreira e os membros do Diretório Acadêmico da Escola de Belas Artes, arquitetos, engenheiros, pintores, escultores e muitas outras pessoas. (Extraído de uma reportagem do Correio da Manhã, de 23 de outubro de 1931)” (ap Ferraz: 1965, 158) Sobre esta casa, Lúcio Costa fez, em 1948, um comentário que merece ser lembrado: “... Da única vez que recebi a visita desse benemérito senhor (Phillip CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 97 Goodwin – autor de Brazil Builds), prestei-lhe as informações que me ocorreram no momento, tendo dado o devido destaque à obra do Warchavchik, bem como indicado a casa da Rua Toneleiros, havendo até referido a propósito, se não me engano, a visita de Frank Lloyd Wright àquela casa e assinalado a impressão forte que parece lhe haver causado certo balcão em balanço, pois esse pequeno pormenor teria, de algum modo, talvez sugerido a concepção da espetacular casa que construiu a seguir.” (Costa: 1948; 1995, 200) Encerrada a experiência na ENBA, Warchavchik e Lúcio criaram uma sociedade que projetou e construiu, entre 1931 e 1933, duas residências particulares, o Conjunto Residencial da Gamboa e fez ainda mais algumas reformas de apartamentos e residências. Nestes trabalhos, Warchavchik e Lúcio contaram com a participação do estudante de arquitetura Oscar Niemeyer (1907-), que aí travava seus primeiros contatos diretos com a “Nova Arquitetura” (Ferraz: 1965, 183). A experiência se esgotou em pouco tempo, devido à escassez de encomendas e porque, no ponto de vista de Lúcio, “o tal ‘modernismo estilizado’ que às vezes aflorava, já não parecia ajustar-se aos verdadeiros princípios corbusianos a que nos apegávamos.” (Costa: s/d; 1995, 72) Em Arquiteturas no Brasil (1998), Segawa resume assim a contribuição de Warchavchik: “O patrocínio dos modernistas foi o grande trunfo de Warchavchik para se inserir no circuito intelectual de São Paulo e do Rio de Janeiro, e seu trabalho correspondeu à tardia participação da arquitetura no concerto ensaiado a partir de 1917 por um movimento de renovação das artes. Participação não propriamente sintonizada com as preocupações com uma arte brasileira – o papel de Warchavchik , nesse sentido, foi muito mais de um pioneiro na ruptura com a arquitetura conservadora passadista. A renovação inspirava-se em idéias européias, mas restringiu-se apenas ao plano das idéias, porquanto concretamente a prática do arquiteto estava afastada de conteúdos de maior repercussão social, como se preconizava no funcionalismo europeu de entreguerras. “Gregori Warchavchik não acompanhou a politização do modernismo brasileiro, tampouco participou da cooptação da linguagem moderna pelo Estado na década de 1930. Pode-se afirmar que o papel de protagonista da arquitetura moderna de Warchavchik encerrou-se com o alvorecer da década de 1930.” (Segawa: 1998, 49) Esta talvez seja a razão pela qual, mesmo tendo sido convidado por Le Corbusier para representar a América Latina nos CIAM, na edição francesa da Carta de CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 98 Atenas, o mesmo Le Corbusier não ter mencionado o nome de Warchavchik entre os delegados do CIAM. Naquela publicação de arquitetos brasileiros figura apenas o nome de Oscar Niemeyer, como membro individual. A crise na ENBA no final de 1931 tirou Lúcio Costa da direção da escola e, com ele saíram também Warchavchik e os demais professores por ele trazidos. Iniciava-se uma fase na qual uma nova geração de arquitetos iria se empenhar, como nos dizeres de Jorge Machado Moreira, na “... implantação de uma nova arquitetura, conforme vinha ocorrendo em muitos países, como conseqüência da campanha mundial movida pelos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna, os CIAM, desde 1928. (Moreira: 1980) Paulo Santos, em seu Quatro Séculos de Arquitetura, chama de “Fase heróica”6 ou de “implantação” do movimento moderno o período que tem início com a posse de Lúcio Costa na ENBA e vai até a chegada de Le Corbusier ao Brasil, em 1936 Santos: 1981, 103). O nome se justifica. O estilo neocolonial dava sinais de ter alcançado seu mais alto patamar institucional durante o recém encerrado IV Congresso Pan-americano de Arquitetos. Numa das moções finais desse Congresso, sugeria-se que os governos estabelecessem este estilo como sendo oficial e obrigatório nos prédios públicos. Nesse encontro, que teve a presença entusiasmada e aclamada de José Mariano Filho, os arquitetos de espírito mais inovador, ao perceberem que o ambiente não lhes favorecia, estrategicamente abandonaram a trincheira, deixando o campo aberto para o adversário. Em clima de convescote, o Congresso foi encerrado em animado arraial montado nos jardins do Solar Monjope, residência de Mariano Filho no Jardim Botânico. Arquitetos e sanfoneiros confraternizavam em meio a nacionalismos, verde-amarelismos, canjica e balões. “Era a consagração ao mesmo tempo do homem, de um ambiente de vida e de uma arquitetura que parecia inapelavelmente vitoriosa. Mas estaria mesmo?” (Santos: 1981, 103) 6 Paulo Santos atribui a autoria deste nome a Gregori Warchavchik. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 99 A passagem de Le Corbusier pelo Rio de Janeiro, cerca de um ano antes, já desencadeara, especialmente entre os mais jovens, a febre de renovação que viria a seguir. A imprensa registrou grande número de pessoas nas conferências de 29, mas garimpando a literatura arquitetônica, encontram-se poucos nomes de arquitetos na audiência. Paulo Santos é um deles e, sem esconder sua admiração, relata: Assistimos às conferências. Cerca de duas horas cada uma. Lógica implacável. Lucidez total. A maioria de nós ouvimo-lo perplexos. Le Corbusier já tinha atingido o ápice de sua carreira. A parte principal de sua obra Vers une Architecture (Por uma Arquitetura) (1923), e L’Urbanisme (O Urbanismo) (1924), seus dois livros mais importantes, e mais: La Peinture Moderne (A Pintura Moderna) (1925), L’Art Décoratif d’Aujourd’hui (1926), Almanach d’Architeucture Moderne (Almanaque de Arquitetura Moderna), Une Maison, un Palais (Uma casa, um Palácio) (1928) – todas precedidas da famosa Revue de l’Esprit Nouveau (Revista do Espírito Novo) (1919-1920) que lhes abriu o caminho – já tinha sido publicada.” (Santos, 1976, 100)7 Além de Paulo Santos, sabe-se que Reidy também compareceu às conferências (Reidy: 1933 ap Bonduki: 2000,12). Ainda estudante na ENBA, em 1928, Reidy leu Vers une Architecture e, motivado pelo livro, procurou conhecer o trabalho de Le Corbusier e dos arquitetos modernos europeus. As conferências consolidaram suas novas convicções, que se confrontavam com o ensino acadêmico que recebia. Em 1930, ano de sua formatura como engenheiro-arquiteto, ao esboçar seu projeto para o Concurso de Grau Máximo, tentou romper com a tradição Beaux-Arts. Sua iniciativa foi barrada sob a argumentação oficial de que “os trabalhos que não obedecessem às leis acadêmicas dificilmente seriam aceitos pela comissão julgadora” (Bonduki: 2000, 13). Cedendo à pressão, apresentou o projeto de um Palácio de Convenções Rotarianas cuja planta e composição volumétrica respeitava os princípios compositivos clássicos, e obteve, com esse projeto, a medalha de ouro. Este projeto poderia figurar perfeitamente entre as pranchas do Précis de Durand, não fosse a sobriedade do tratamento das superfícies e a ausência dos elementos 7 Os quatro primeiros títulos listados abarcam o conjunto de suas teses doutrinária modernas. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 100 clássicos greco-romanos – optou pelo usoextremamente comedido de ornamentos inspirados na cultura asteca (Acervo FAU/NPD). Antes de concluir o curso, Reidy apresentou um projeto para concorrer ao Prêmio de Viagem Caminhoá, que a Escola oferecia anualmente. O prêmio foi dado a Wladimir Alves de Souza (1908-19__), cuja proposta seguia os moldes tradicionais; Reidy ficou em segundo lugar. Lúcio Costa, já diretor, afixou as pranchas de Reidy na portaria da vetusta sede da Escola, na Av. Rio Branco, assinalando que aquela era a “arquitetura preconizada pela direção” (Costa: 1930 ap Santos: 1976, 104). Este episódio motivou Warchavchik, recém nomeado professor, a convidar Reidy, ainda estudante, para auxiliá-lo nas disciplinas de projeto, função que ocupou até 1933, mesmo depois de encerrado o mandato de Lúcio na direção da ENBA, dois anos antes. Affonso Eduardo Reidy antes do MESP Analisar a carreira de Affonso Eduardo Reidy e colocá-la lado a lado com a de Jorge Machado Moreira é extremamente importante para o presente trabalho. Reidy, apesar de cinco anos mais velho que Moreira, concluiu o curso da ENBA dois anos antes. Convivendo na escola, Reidy já como professor de Pequenas Composições e Moreira ainda estudante, iniciaram uma forte amizade e respeito mútuo que durariam até a morte prematura de Reidy, aos 55 anos, em 19648. Partilharam diversos projetos e defenderam causas comuns. Suas esposas, por conta do relacionamento dos maridos e por afinidade profissionais – ambas ligadas também ao mesmo ramo, sendo Carmem Portinho (1906-2001), esposa de Reidy, engenheira, e Giuseppina Pirro Moreira (1908-), esposa de Moreira, arquiteta –, estabeleceram relacionamento 8 Declaração obtida em entrevista com Dr. Francisco Bologna, em agosto de 2001. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 101 amigável até a morte recente da viúva de Reidy, há poucas semanas9. Mais importante do que os aspectos pessoais acima citados, há outros argumentos para estabelecer o paralelo entre a carreira dos dois arquitetos. Tomando-se a divisão que Paulo Santos sugere para a história da “Nova Arquitetura” no Brasil, observa-se que a carreira de Reidy perpassa todas as quatro fases por ele enumeradas, tanto quanto a de Moreira: 1 – Fase de implantação (ou heróica): da posse de Lúcio na direção da ENBA à vinda de Le Corbusier, em 1936; 2 – Da vinda de Le Corbusier e início da construção do MESP à Pampulha (1941); 3 – Da Pampulha (1939-41) a Brasília (1957-61) 4 – Iniciada com Brasília (1957-...) (Santos: 1976, 103) Reidy foi o segundo arquiteto brasileiro a ter sua obra publicada em livro – Affonso Eduardo Reidy – Bauten und Projekte, de Siegfried Giedion e Klaus Franck - em 1960, precedido apenas de Niemeyer, cuja obra foi abordada em Work of Oscar Niemeyer e Oscar Niemeyer: Works in Progress, por Stamo Papadaki, em 1950 e 1956, respectivamente, fato que denota o reconhecimento internacional da relevância de seu trabalho. Deve-se lembrar ainda que ambos – Reidy e Moreira – realizaram a maior parte de seus trabalhos vinculados a órgãos públicos. Independente de conveniências trabalhistas e comerciais inerentes à vida profissional, esta conduta revela a compreensão que ambos tinham do Estado como agente transformador da sociedade, e decorre da interpretação que faziam dos preceitos dos primeiros CIAM. Ainda a justificar a colocação lado a lado da obra de Reidy com a de Moreira, mais do que os aspectos que as aproximam, devem-se destacar aqueles que as 9 Declaração obtida em entrevista com a Dra. Giuseppina Pirro Moreira, em agosto de 2001. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 102 distinguem. Yves Bruand, em sua categorização dos desdobramentos do Movimento por uma “Nova Arquitetura” no Brasil, coloca em pé de igualdade o trabalho de Reidy e de Moreira, sob o rótulo generalizante de “Continuidade Racionalista” (Bruand: 1997). Trata-se de uma simplificação que se tolera naquele trabalho, dado o caráter abrangente e generalista que tem. Mas é exatamente na maneira de interpretar racionalismo que cada um destes arquitetos adota, que se dá a distinção entre o trabalho dos dois, como se verá adiante. Reidy tinha maiores inquietações intelectuais do que Moreira. Lia em vários idiomas, não só publicações técnicas, mas apreciava literatura em geral, e também as artes plásticas. Escrevia com fluidez: são muitos os memoriais justificativos de seus projetos, bem como relatos e depoimentos. Este seu caráter instigou a ironia de alguns colegas, inclusive a de Oscar Niemeyer, que via nesta conduta motivo de pilhéria10. A atitude mais lírica e poética de Reidy iria dar novo rumo a sua obra a partir do final dos anos 1930, afastando-o dos preceitos mais dogmáticos das primeiras experiências aprendidas na ENBA. Moreira era mais circunspecto. Sua apreciação da arte era mais seletiva: reconhecia o valor dos artistas abstratos de geometria depurada, como Mondrian e Albers, o que não o impediu de pendurar alguns desenhos do colega Carlos Leão (1906-1983), mostrando sensuais figuras femininas, nas paredes de seu apartamento. Na literatura, apreciava os autores de leitura amena, como Jorge Amado e Graciliano Ramos, e dedicava suas horas de estudo às publicações técnicas, especialmente aquelas que enfocavam as realizações da arquitetura moderna11. Sua escrita era eminentemente técnica, quase lacônica – o Depoimento que serve de fio condutor a este texto é uma prova eloqüente desta afirmação. Esta característica lhe permitiu colaborar de forma decisiva na elaboração de leis e normas, uma das quais a Lei Federal 5.164, ainda em vigor, que rege o exercício profissional. Fisicamente, Jorge Machado Moreira era alto; além da grande estatura, tinha genu valgum, problema congênito que 10 Informação obtida em entrevista com o arquiteto. Francisco Bologna, em agosto de 2001. 11 Idem Dra. Giuseppina Pirro Moreira. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 103 restringia um pouco seus movimentos; e a pele extremamente clara e sensível. Seu problema ósseo representou, quando sofreu um acidente automobilístico, em 1962, uma dificuldade adicional na sua recuperação. Esta sua condição física vulnerável talvez explique a necessidade de buscar, em sua arquitetura, a superação de uma fragilidade que o atormentava. A obsessão pela exatidão, tanto nos desenhos, como nas obras, seria a busca de uma perfeição que seu corpo não tinha. Evidentemente que ao sarcástico e excelente desenhista Oscar Niemeyer não passavam desapercebidas estas características, as quais ridicularizava em caricaturas e piadas de mau gosto.12 No ano seguinte ao que Reidy terminou o curso de arquitetura, ganhou o concurso para o projeto do Albergue da Boa Vontade13, feito em sociedade com Gerson Pompeu Pinheiro. Neste projeto, “o sistema de galerias, que rodeia um pátio interno, ainda traz a influência da arquitetura acadêmica” (Segre: 2000, 47). A ausência de ornamentos, o uso de esquadrias basculantes de desenho sóbrio e de laje plana no lugar do telhado denunciam a lógica racionalista em sua concepção. A preocupação com a ventilação natural e cruzada é mais um aspecto que reforça esse tipo de abordagem. A estrutura de concreto neste projeto não é ainda tratada segundo os conceitos de estrutura independente e planta livre preconizados nos Cinco Pontos da Nova Arquitetura, de Le Corbusier. Ao contrário, a estrutura fica embutida na alvenaria das paredes e sua expressão plástica é negada. Este aspecto está presente na maior parte dos projetos desta primeira fase moderna, tanto de Reidy, como nos dos demais seus contemporâneos, sendo ainda este aspecto ainda influência do professor Warchavchik e das obras da Bauhaus dosanos 1920. As poucas casas e os poucos edifícios públicos projetados nessa fase, tanto por Reidy, como por Jorge Machado Moreira, mostram que as lições de Warchavchik 12 Idem Francisco Bologna 13 Apesar de um pouco descaracterizado, o edifício encontra-se em funcionamento. Hoje abriga uma clínica com internação para tratamento de doentes mentais pertencente ao Governo do Estado do Rio de Janeiro. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 104 tinham sido bem aprendidas. As duas residências projetadas por Reidy em Ipanema (1933) e na Urca (1935) e a Residência Fernando Lyra, no Leblon (1933), projeto de Moreira, poderiam ter saído da prancheta do mestre. Estes projetos têm em comum a simplicidade dos volumes cúbicos assentados diretamente no terreno e a sobriedade do detalhamento. O projeto de Moreira, no entanto, tem a volumetria muitíssimo mais simples que os projetos de Reidy. A casa no Leblon, de Moreira, se resume a dois cubos dispostos assimetricamente no terreno, sendo um o corpo principal, mais próximo da rua, e o outro, menor, localizado junto à divisa de fundos, destinado a serviços. A disposição no terreno enseja a formação de pátios diferenciados. No bloco principal, as paredes do segundo pavimento coincidem em planta com as do primeiro, o que permite disfarçar as vigas dentro das paredes. Nas casas de Reidy, a volumetria é mais variada. Além do uso de varandas embutidas, há maior variedade na dimensão dos vãos; há ainda o uso de colunas e de balanços. Tudo isso confere à construção um aspecto mais movimentado, mas prejudica um pouco a simplicidade construtiva. Da mesma época é o projeto da Residência Mário Brazil (1934), de Álvaro Vital Brazil (1909-1997)14, em Niterói-RJ, aonde também se encontram as lições de Warchavchik, por sua vez inspirado diretamente nas Casas dos Mestres da Bauhaus (1923) em Dessau. O discreto jogo de volumes observado no balanço que caracteriza a porta de entrada, coloca esta casa a meio caminho entre o comedimento austero da casa de Moreira e a maior liberdade formal das de Reidy. Já nesses primeiros projetos, como se vê, manifestam-se as tendências que ao longo das carreiras destes arquitetos iriam se acentuar. Apesar de fazerem uso de 14 Álvaro Vital Brazil foi contemporâneo de Jorge Machado Moreira na ENBA, enquanto cursava simultaneamente Engenharia Civil na Escola Politécnica. É autor, em parceria com Adhemar Marinho, do projeto do Edifício Esther (1936), considerado a primeira grande obra moderna de São Paulo. Sua carreira foi cheia de importantes realizações, com obras executadas em Niterói, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e em São Paulo. Em 1986, publicou 50 Anos de Arquitetura – Álvaro Vital Brazil, que é verdadeiramente seu currículo ilustrado. Sobre este mesmo arquiteto, em 2000, Roberto Conduru publicou Vital Brazil, que aborda a obra completa do arquiteto. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 105 um repertório praticamente idêntico, cada qual adotou uma gramática ditada por critérios absolutamente pessoais. Reidy sacrificou levemente a racionalidade construtiva em favor da plástica. Moreira, sem fazer concessões à técnica, elaborou sua estética exatamente a partir dos constrangimentos que esta lhe impunha. Nesse aspecto, seu trabalho tem muito em comum com a vertente alemã que dominou os primeiros CIAM, bem como com a obra de Mies van der Rohe, fortemente caracterizada pelo uso das técnicas construtivas industriais. Trabalhando para a Prefeitura do Distrito Federal, a partir de 1932, Reidy retomava sua vinculação com o poder público, iniciada nos anos de 1929 e 1930 quando, ainda estudante da ENBA, trabalhou no Plano de Remodelação, Extensão e Embellezamento da Cidade do Rio de Janeiro (1928-1930), de Alfred Agache. Na Escola Primária Coelho Neto (1934), em Ricardo de Albuquerque, Reidy mostrou que a linguagem adotada nas residências particulares era aplicável também aos edifícios públicos. Essencialmente, neste projeto, foram utilizados os mesmos elementos da linguagem arquitetônica das casas citadas acima. Aqui, porém, as restrições orçamentárias exigiram maior comedimento formal, obrigando a modulação da estrutura e a menor variedade nas dimensões dos vãos. Jorge Machado Moreira antes do MESP Em 1932, Jorge Machado Moreira foi trabalhar na Construtora Baerlein. Como se depreende de seu Depoimento, não foi totalmente fácil a aceitação de seus projetos por seus patrões: “Concluído o curso, fui trabalhar numa companhia construtora. Senti imediatamente dificuldades para fazer arquitetura como passara a entendê-la. Decidi, então, subordinar minha permanência à liberdade de projetar. Aceita a condição, pude exercer a profissão como desejava, durante o tempo em que lá permaneci.” (Moreira: 1980) Liberdade para projetar, no caso, era não repetir o estilo neocolonial que dominava o mercado imobiliário, com eventuais ecléticos de origens diversas. Liberdade para CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 106 projetar era adotar sem restrições a linguagem da “Nova Arquitetura” defendida pelos CIAM: “Iniciei minha vida profissional em 1932, integrado no movimento ... para implantação de uma nova arquitetura, ... como conseqüência da campanha mundial movida pelos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna, os CIAM, desde 1928.” (Moreira: 1980) O primeiro projeto, um Edifício Residencial de Três Pavimentos, de 1933, era praticamente a sobreposição, de uma casa, cuja composição seguia o partido ensinado por Warchavchik. Neste projeto, encontram-se esquadrias e elementos volumétricos a formar varandas ou acessos do mesmo modo como apareciam nas casas modernistas do Pacaembú. Do mesmo ano, há mais dois projetos de edifícios: um para a Construtora Baerlein, Edifício Residencial de Cinco Pavimentos-tipo, e outro o Edifício para Thérèse Vilain Alves, com três pavimentos-tipo. À primeira vista, podem-se encontrar muitas semelhanças entre estes edifícios e o primeiro projeto da Baerlein, como a ortogonalidade dos planos e volumes e os detalhes das esquadrias. Mas há diferenças radicais. Estes dois projetos incorporaram, pela primeira vez nos projetos de Jorge Machado Moreira, alguns elementos doutrinários da “Nova Arquitetura”: o pilotis, a estrutura independente, a planta livre e a janela em fita. Todos estes elementos só se viabilizaram nesses projetos em função da estratégia adotada para a resolução da estrutura e a articulação desta com as alvenarias que definem as plantas dos apartamentos. A estrutura obedeceu a uma trama de dois vãos iguais definidos por três linhas de colunas no sentido da maior dimensão do terreno, enquanto na outra direção os vãos se repetiam regularmente (este mesmo partido seria depois utilizado no bloco principal do MESP, em 1936 e no Edifício da Faculdade Nacional de Arquitetura, em 1957). As paredes foram estrategicamente colocadas sobre os eixos desta trama estrutural. De tal modo a planta se superpunha à estrutura, que é difícil afirmar se esta determinava aquela, ou vice- versa. Não houve concessões a qualquer formalismo gratuito. Ao mesmo tempo, a funcionalidade não foi comprometida por uma obsessão construtiva. A solução surgiu da conciliação da funcionalidade com a técnica, segundo uma estética CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 107 depurada. Esses dois projetos foram pouco anteriores a outro de Vital Brazil, também em parceria com Adhemar Marinho, como a maior parte desta época, com sete pavimentos-tipo, no qual se observava a mesma estratégia projetual. Todos estes projetos tinham como referência principal a Villa Savoye (1929), de Le Corbusier, materialização genial dos Cinco Pontos para uma Nova Arquitetura. Em 1935,Vital Brazil, num esforço para igualar o mestre franco-suíço, projetou uma residência no Rio de Janeiro (Brazil: 1935 ap Conduru: 2000, 53), na qual as semelhanças com este modelo são francamente evidentes. No entanto, tantas foram as concessões que foi obrigado a fazer para obter seu intento, que o resultado é pateticamente infeliz em termos de funcionalidade, estética e lógica construtiva. Assim como esta experiência mal sucedida, houve inúmeras outras. O fato é que, com freqüência, o manifesto de Warchavchik, de 1925, e a idéia corbusiana da “casa como máquina de morar” foram interpretados de forma equivocada por alguns arquitetos, o que os tornou alvo fácil para a crítica tradicionalista, como nos relata Paulo Santos: “ ... na prática a arquitetura que resultou desta interpretação tinha muitas falhas: basculantes com vidros estreitos e translúcidos mas não transparentes barravam a visibilidade dos jardins e transformavam as casas em prisões; janelas de canto convencionais; óculos inspirados em vigias dos navios e pilotis encaixados a martelo não tinham outro propósito a não ser o de parecer modernos; com a ausência de beiral, os revestimentos enegreciam depressa; terraços mal isolados e mal impermeabilizados deixavam-se atravessar pelo calor e pela água e tornavam escaldantes os compartimentos, resultando disso tudo: frieza, agressividade, às vezes pedantismo e sempre anti-racionalismo e anti- funcionalismo ...” (Santos: 1976, 106) Como não poderia deixar de ser, um dos mais ferrenhos desses críticos foi José Mariano Filho, que não aceitava a contestação ao estilo neocolonial. Não se conformou com a “traição” do (ex-)companheiro Lúcio Costa, e o atacou pela imprensa quando este tentou modificar o ensino na ENBA. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 108 Lúcio Costa antes do MESP Lúcio Costa, afinal, um dos catalisadores da ruptura com a tradição acadêmica teve trajetória diferente das de Reidy e Moreira. A “conversão” de Lúcio pode ser perfeitamente localizada no tempo. Deu-se exatamente em 1930, enquanto trabalhava no projeto da Casa Ernesto Fontes. Lúcio chegou a desenhar duas versões desta casa segundo a estética neocolonial, que chamou de “Última manifestação de sentido eclético-acadêmico”. A seguir, fez a “Primeira proposição de sentido contemporâneo” para o mesmo serviço” (Costa: 1995, 55). Lúcio não revela em seu livro Registro de uma Vivência a reação do cliente a esta sua reviravolta conceitual, mas a fotografia da casa executada mostra a segunda versão “eclético-acadêmica” e não a versão “contemporânea”. Nesta sua primeira experiência na “Nova Arquitetura”, Lúcio já demonstrava a compreensão do conceito de estrutura independente, e fazia uso de colunas de concreto esbeltas segundo uma trama regular em planta; as paredes eram finas placas de separação de ambientes, muito diferentes das pesadas alvenarias das versões neocoloniais anteriores; mas é curioso notar, nas perspectivas de interiores, o uso predominante de móveis tradicionais. Vencida a tumultuada passagem pela ENBA e esgotada a experiência com Warchavchik, já abordadas anteriormente, Lúcio passou uma temporada a que chamou de Chômage (recesso), quando as encomendas eram poucas: “A clientela continuava a querer casas de ‘estilo’ – francês, inglês, ‘colonial’- coisas que eu então já não conseguia mais fazer. Na falta de trabalho, inventava casas para terrenos convencionais de doze metros por trinta e seis – ‘Casas sem Dono’. “E estudei a fundo as propostas e obras dos criadores, Gropius, Mies van der Rohe, Le Corbusier, – sobretudo este, porque abordava a questão no seu tríplice aspecto: o social, o tecnológico e o artístico, ou seja, o plástico, na sua ampla abrangência.” (Costa: 1995, 83) A análise destas Casas sem dono, em verdade, três casas, vistas em seqüência, poderia constituir um capítulo inteiro de uma dissertação. Resumidamente, chama a atenção a cada ensaio – entendendo-se cada projeto como tal –, a incorporação CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 109 criteriosa aos projetos, dos elementos e da gramática da “Nova Arquitetura”. Desde o Projeto 1, a estrutura independente estava presente. Nos três projetos, a estrutura foi tratada da mesma maneira, de forma semelhante à que Jorge Machado Moreira tratou nos projetos dos edifícios com pilotis já descritos. É importante salientar que, ainda que a Villa Savoye fosse o modelo de referência para estes projetos, a estratégia para a solução da estrutura nos projetos de Lúcio e Moreira era muito diferente da de Le Corbusier. Na Villa Savoye, a estrutura obedecia a uma trama regular, independente da disposição das paredes. Como resultado, os pilares aqui e ali apareciam soltos no interior de alguns recintos, como protagonistas da cena arquitetônica. Nos projetos dos brasileiros, diferentemente, a trama regular da estrutura se superpunha aos eixos das paredes principais, de modo que os pilares no pavimento térreo – pilotis – devido a sua regularidade, colaboravam decisivamente para a identidade do espaço, enquanto no pavimento principal, a estrutura não era perceptível, ficando escondida dentro na alvenaria das paredes. Quando observados em seqüência, os aspectos que sofrem as maiores mudanças de um projeto para outro, eram a disposição das plantas e o aproveitamento do térreo (pilotis). No Projeto 1, o arranjo dos compartimentos seguia a distribuição da casa tradicional, com a sala no térreo e a parte íntima no segundo pavimento (Reis F°: 1973). O que seria o pilotis, não passava de u ma varanda aberta, no qual a estrutura aparente conferia ao espaço um caráter “moderno”. No Projeto 2, todo o programa da casa foi resolvido no segundo pavimento. O térreo ficou livre – um autêntico pilotis – mas seus espaços eram indefinidos. Aparecia um terraço-jardim no segundo pavimento, adjacente a um dos quartos. A planta, de contorno irregular, permitia a formação de um vazio no trecho central, com caráter de prisma de ventilação e iluminação. No Projeto 3, Lúcio Costa testou os limites de criatividade que a gramática moderna admitia, introduzindo elementos inéditos neste contexto, que somente alguém com sua bagagem cultural poderia experimentar. Deu também um novo significado para a relação da casa com a rua, ao localizar o serviço junto à testada do lote. Esta disposição seria levada ao extremo no projeto de Brasília, em 1957, no conjunto de CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 110 casas junto à Av. W3, no qual a rua de veículos dá acesso à parte de serviço das casas, enquanto o acesso principal é feito por um jardim comum exclusivo para pedestres. O deslocamento do setor de serviço para a frente, jogava automaticamente a parte social da casa para o interior do lote. O vazio central que aparecia no Projeto 2 apenas como prisma de ventilação e iluminação, nesta terceira versão adquiriu o caráter de pátio, em torno do qual a casa se desenvolvia. Os pilotis deixaram de ser apenas uma área coberta indefinida; os espaços adquiriram significado, com usos e destinações adequados a suas respectivas conformações e localizações. Os acessos ao pavimento superior se davam a partir de um par de escadas simétricas que partiam do pátio, enfatizando o caráter do mesmo como centro da composição. Estas escadas, inspiradas nas escadarias de acesso aos adros de algumas igrejas barrocas15, inauguraram a introdução de elementos tradicionais brasileiros na linguagem da “Nova Arquitetura”. Os terraços-jardim funcionavam, efetivamente, como pátios elevados, de acordo com a prescrição corbusiana. Finalmente, as janelas em fita, que no Projeto 1 apareciam praticamente como janelas convencionais, no Projeto 3, finalmente adquiriram a expressão genuína, que justificava o nome. O uso de venezianas, combinadas com vidros, seria maisum elemento da tradição brasileira presente nessas casas. Lúcio Costa não conseguiu que fossem construídas praticamente nenhuma das casas que projetou nesta fase, nem mesmo algumas “com dono”, como as que projetou para Álvaro Osório de Almeida, na Praia de Ipanema, para Carmem Santos e para Genival Londres. A única exceção foi uma das três que projetou no Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro, a pedido de Hernani Coelho Duarte. Acentuando o caráter de recesso deste período, teve rejeitado o projeto que enviou para o concurso da Vila Monlevade, próxima a Sabará, MG, para a Companhia Belgo- 15 Escadarias com este desenho encontram-se na Igreja de N. S. da Glória do Outeiro, no Rio de Janeiro e na Igreja de Nosso Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, Minas Gerais. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 111 Mineira S. A., em 1934.16 (Costa: 1934; 1962, 42-55) Se, por um lado, Lúcio Costa teve pouco êxito na construção de seus projetos nesse período, por outro, contribuiu decisivamente na consolidação da base teórica sobre a qual se construiu a “Nova Arquitetura” brasileira. O texto Razões da Nova Arquitetura, de 193417, pode ser identificado como uma declaração de princípios do grupo renovador. Percebe-se, no texto, além da visão arquitetônica de Lúcio, a base filosófica suprida por Mário de Andrade, essencial para o encadeamento e fundamentação das idéias. Mário de Andrade condenava as “desbridadas liberdades” do experimentalismo contemporâneo e as “vontadinhas” dos artistas, como a base de todo tipo de iniciativa ou invenção formal, sempre apresentadas como tentações virtuosísticas, como as responsáveis pela situação de decadência em que se encontrava a arte (Moraes: 1999, 87). Esta era uma situação que Mário de Andrade observava como muito distante daquela que existia na antigüidade: “Nas manifestações artísticas anteriores a Cristo, ou isentas da concepção da primordialidade do indivíduo que o Cristianismo nos trouxe, o princípio de utilidade condicionava de tal forma a criação artística que a beleza era muito mais uma conseqüência que uma das finalidades da obra de arte. A beleza era apenas um meio de encantação aplicado a uma obra que se destinava a fins utilitários muito distantes dela.” (Andrade: 1938 ap Moraes: 1999, 51)18 As idéias centrais da teoria da arte que Mário de Andrade oferecia, diziam respeito 16 Interessante notar neste projeto a semelhança existente entre os projetos da Igreja e do Cinema com a Église Seine-Saint-Denis, em Raincy (1925), de Auguste Perret. 17 O texto é um Programa para um Curso de pós-graduação do Instituto de Artes dirigido por Celso Kelly na antiga Universidade do Distrito Federal, criada por Anísio Teixeira, com a participação ainda de Mário de Andrade, Gilberto Freire, Prudente de Moraes Neto, Sergio Buarque de Holanda, Portinari, Celso Antônio e outros (Costa: 1995, 108). Ver anexo 1. 18 O trecho transcrito pertence ao discurso proferido em 1938, na abertura do curso de História da Arte da antiga Universidade do Distrito Federal. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 112 ao reconhecimento do caráter social da arte e propunham uma crítica ao formalismo característico da arte moderna.19 “Mais ainda, e é esta a sua novidade, sua concepção pretende sublinhar o vínculo necessário que existe entre essas duas idéias, referindo-se a elas como intrinsecamente imbricadas. “Em oposição ao individualismo e ao formalismo da situação moderna, Mário de Andrade propõe uma ‘atitude estética’, que apresenta-se como a promessa de um pleno enlace. Enlace dos aspectos técnicos e materiais da arte, que se expressa na exigência que é feita de atenção à dimensão artesanal nela envolvida e enlace da arte com seu público, em um diálogo que havia sido prejudicado pelos modernos experimentalismos, e que assegura novamente à arte a sua função genuína que é social. (Moraes: 1999, 24-25) A “atitude estética”, à distância do desvio do formalismo moderno, exige a adesão do artista às exigências materiais que todo fazer arte comporta. Por esta razão, “quando Mário de Andrade propôs-se a apresentar a sua via de superação dos impasses da arte contemporânea, concentrou a sua atenção no papel determinante que a técnica deveria desempenhar” (Moraes: 1999, 87). Esta postura, descontados os aspectos referentes a ideologias políticas, é perfeitamente coerente com aquelas defendidas pelos arquitetos modernos reunidos nos CIAM. Mais especificamente, os arquitetos de língua alemã, calcados numa ideologia marcadamente socialista, defendiam a “tecnicização” total dos processos produtivos através de processos mecanizados, pois viam neste caminho “a inevitável ditadura do proletariado seguida da ‘ditadura da máquina’, libertando a classe trabalhadora da monotonia manual” (Mumford: 2000, 22). Mais que isso, embutida na industrialização generalizada dos produtos, entre os quais se incluíam as edificações, vinha a despersonalização do caráter individual e personalista do artista criador dissociado dos demais indivíduos envolvidos no processo produtivo. Quando Mário de Andrade se referia especificamente à arquitetura, a afinidade com 19 A arte moderna formalista a que Mário de Andrade se refere é aquela praticada modernamente, ou seja contemporaneamente. Não se refere, em absoluto, à arte moderna na acepção usual, aquela produzida pelas vanguardas artísticas do Século XX. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 113 os arquitetos da vanguarda européia se evidenciava ainda mais: “A arquitetura é considerada uma forma de arte que deve fiar-se menos na invenção do artista do que nas exigências do engenheiro. Ainda que guarde um critério de natureza estética, ela depende basicamente de pressupostos de natureza técnica, dedutiva e não de invenção do artista. Por este motivo, a arquitetura ocupa um lugar à parte entre as belas-artes, sendo possível mesmo argumentar a favor da sua exclusão de seu meio. Ela depende, em razão da sua proximidade com a engenharia, das determinações de natureza técnica e do material, a que não pode escapar. “É esta situação que explica a aclamada ‘ausência do indivíduo’ própria da arquitetura, especialmente a moderna. A arquitetura moderna é, por sua natureza, arte social, tendo superado o individualismo, pois ‘escapa da própria imaginação criadora, não só pelos fins imediatamente práticos que tem de preencher, como pela importância mais primordial que tem nela o determinismo histórico, na sua mais lata concepção’. Daí decorre que a própria idéia de autoria em arquitetura precisa ser questionada.” (Moraes: 1999, 77) O pensamento de Mário de Andrade é praticamente idêntico ao de Lúcio Costa, que se manifesta da seguinte maneira, ao escrever a Le Corbusier em 1936: “Em virtude de sua função eminentemente utilitária – e ainda que as exigências sociais e técnicas às quais ela forçosamente deve submeter- se estejam subordinadas a uma concepção diretora de ordem puramente plástica – a arquitetura é, de todas as artes, aquela que menos se presta aos impulsos de ‘individualismo’.” (Costa: 1936 ap Santos et al.: 1987, 141-144) Razões da Nova Arquitetura Em 1934 Lúcio Costa foi solicitado por Celso Kelly a orientá-lo na montagem de um curso de pós-graduação do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal. Lúcio redige, então um texto – Razões da Nova Arquitetura –, que é considerado como o verdadeiro manifesto brasileiro desta “nova maneira de conceber, projetar e construir”. Razões da Nova Arquitetura segue a estrutura básica em três estágios, similar ao CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 114 discurso religioso: o texto (1) é descritivo, ou seja, diz o queé ou o que deve ser a “Nova Arquitetura”; (2) é revelatório, ou seja, diz que a “Nova Arquitetura" é realidade; e finalmente (3) é prescritivo, ou seja, determina que deve-se crer nesta “Nova Arquitetura”. Há no texto uma concepção polêmica da “Nova Arquitetura”. A afirmação das idéias centrais se faz através da oposição àquelas que quer contestar; não se justificam pela história, mas sim pela sincronia com seu tempo. Incapacidade de julgar a nova realidade (§ 1) X O velho espírito transfigurado descobre encanto imprevisto (§ 1) As construções atuais refletem falta de rumo (§ 3) X As experiências se vêm somando (§ 3) O canteiro, ... o oleiro, ... o pedreiro, ... as corporações, ... o artífice. (§ 12) X A máquina (§13) Passado (§ 14) X Futuro (§ 14) O homem conseguiu domar a besta (§ 15) X O homem conseguiu locomover com o próprio engenho (§ 15) Desacordo entre técnica e arte (§ 19) X Beleza que resulta de um problema tecnicamente resolvido (§ 17) Impulsos individualísticos (§ 18) X Oportunidades de evasão bastante restritas (§ 18) Falsas e incríveis estilizações (§ 23) X Estruturas surpreendentes (§ 24) Paredes ancoradas ao chão (§ 27) X Ossatura independente (§ 27) Espessa parede (§ 27) X Lâmina de cristal (§ 27) Simetria (§ 38) X Traçados reguladores (§ 38) Ecletismo diletante do século passado (§ 39) X Aspecto industrial e ausência de ornamentação (§ 39) O autor se socorre do saber de outras disciplinas para legitimar as teses defendidas. Há uma referência recorrente às novas técnicas construtivas, demonstrando enfaticamente que estas técnicas exigem uma expressão arquitetônica compatível. Este aspecto permeia todo o texto, relacionando-o com a estética desprovida de ornamentos que daí deve resultar. Recorre, pois, principalmente ao saber da engenharia para afirmar sua verdade. Faz analogias com a revolução que ocorreu com os meios de transporte, reclamando que o mesmo deve ocorrer na arquitetura. “Uma nova técnica construtiva, à espera da sociedade à qual deverá pertencer; “A revolução, imposta pela nova tecnologia, conferiu outra hierarquia aos elementos da construção; “As revoluções são os meios de vencer a encosta, levando-nos de um plano árido a outro ainda fértil; CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 115 A lição dos meios de transporte.” O texto estabelece a extensão do conceito (“isto é arquitetura:”), mas não estabelece a compreensão do conceito (“arquitetura é isto:”). Em suas definições de arquitetura, são abordados os três aspectos da tríade vitruviana (firmitas – utilitas – venustas). Os conceitos da “Nova Arquitetura” são explicitados pela aplicação dos princípios técnicos, funcionais e estéticos, quando estes são condicionados pela aplicação adequada das novas técnicas construtivas (a ossatura independente, a planta livre, o uso de ar condicionado), a estética desprovida de ornamentos e a valorização do aspecto funcional como determinante da forma. Com relação à história, Razões da Nova Arquitetura estabelece sua própria história da arquitetura; rompe com história feita até então e estabelece o seu reinício, a partir da negação do passado. O sujeito do texto se coloca na posição de origem da modernidade. Neste sentido, assume um tom divino, revelatório, acima mesmo da ciência, pois até esta admite sua falibilidade. O discurso coloca a “Nova Arquitetura” no mesmo patamar das mais altas expressões da arquitetura de toda a história. Compara e se coloca acima da “... humanística do Renascimento ...”, posiciona-se como num momento de revelação, no qual “... uma grande idéia acorda um povo ou, melhor ainda, parte da humanidade, senão, propriamente, a humanidade toda ...” O autor revela ao leitor sua verdade, e através dela oferece a salvação para o problema existente. Quanto ao leitor, sobram-lhe duas possibilidades: aquele que crê será salvo e aquele que se opõe aos conceitos emitidos está condenado ao passado e ao anacronismo. O texto inicia elegendo seu opositor: “... a incapacidade dos contemporâneos no julgar do vulto e alcance da nova realidade cuja marcha pretendem sistematicamente deter." A tônica é de desqualificação dos opositores, incapazes de perceber “... a falta de sincronização que por momentos se observa, e faz lembrar as primeiras tentativas do cinema sonoro, quando, com a boca já falando, o som ainda corria atrás.” Seguindo neste tom, inclui no rol dos opositores, os "... impressionantemente proletários, que insistem em restringir a arte aos contornos sintetizadores do cartaz de propaganda, negando interesse a tudo que não cheire a suor.” CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 116 Em algumas passagens, o tom de pregação se acentua, adotando-se uma atitude defensiva: “É pueril o receio de uma tecnocracia; não se trata do monstro causador de tantas insônias em cabeças ilustres, mas de animal perfeitamente domesticável...“ Ou ainda: “se quer atribuir à nova arquitetura outro pecado: o internacionalismo (que) nada tem de excepcional, nem de judaico, ... nem de germânico, ... nem de eslavo ...“ Finalmente, com relação a Razões da Nova Arquitetura, pode-se observar que em nenhuma ocasião Lúcio Costa menciona a expressão “arquitetura moderna”. Para evitar um rótulo incômodo, sempre se refere à arquitetura propugnada por ele como a “Nova Arquitetura”. Somente no PS (post-scriptum), de 1991, ele é explícito com relação a essa expressão, aproveitando para fazer um oportuno esclarecimento: “Depois de uma coisa, vem outra; ser moderno é - conhecendo a fundo o passado - ser atual e prospectivo. Assim, cabe distinguir entre moderno e "modernista", a fim de evitar designações inadequadas. “A arquitetura dita moderna, tanto aqui como alhures, resultou de um processo com raízes profundas, legítimas e, portanto, nada tem a ver com certas obras de feição afetada e equívoca - estas sim, "modernistas". “Ao contrário do que ocorreu na maioria dos países, no Brasil foram justamente aqueles poucos que lutaram pela abertura para o mundo moderno os que mergulharam no país à procura das suas raízes, da sua tradição, tanto em São Paulo nos anos 20, como no Rio, em Minas, sul e nordeste nos 30, propugnando pela defesa e preservação do nosso passado válido (SPHAN).” (COSTA: 1991; 1995, 116) Em termos de conteúdo, Razões... nada acrescenta a tudo que já se defendia relativo à “Nova Arquitetura”. Hoje, a importância que se atribui a ele se deve, primeiramente à abrangência dos conceitos que cobre, e sobretudo ao fato de representar o primeiro texto através do qual o próprio Poder Público, através da Universidade do Distrito Federal, para a qual foi redigido, aceitou e incorporou em seu discurso oficial a “Nova Arquitetura”. Mais que um avanço nos conceitos arquitetônicos, representou um ganho político, e por que não dizer também, um ganho de espaço de trabalho que um grupo obteve em detrimento de outro. Lissovski & Moraes de Sá, ao relatar a história da construção do MESP, em Colunas CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 117 da Educação, destacam a esse respeito: “O exame da conjuntura agitada dos anos 30 e do confronto entre as diversas concepções arquitetônicas que disputavam o espaço arquiteturável estatal no Rio de Janeiro revela que os modernistas souberam inserir-se em um debate que não era essencialmente técnico ou artístico; e argumentar segundo uma lógica eminentemente política.” (Lissovski & Moraes de Sá: 1996, xxiv) MESP A grande oportunidade para os arquitetos defensores da “Nova Arquitetura” viria com o projeto para a Sede do Ministério da Educação e Saúde Pública. Não é, entretanto, nosso objetivo relatar, neste texto, os detalhes da história deste edifício pois, desde a posse do Ministro Gustavo Capanema em 1932, o Edital do Concurso Público, os inscritos, a eliminação dos projetos de tendênciamoderna, o primeiro lugar dado ao projeto de Archimedes Memória, o pagamento do prêmio, a condenação deste projeto, a contratação de Lúcio Costa para fazer um novo projeto, a formação da equipe, o primeiro projeto da equipe, as tratativas para a vinda de Le Corbusier como consultor, as conferências de Le Corbusier, o primeiro projeto de Le Corbusier no terreno da Praia de Santa Luzia, o segundo projeto de Le Corbusier no local primitivo, a segunda versão da equipe, a terceira e definitiva versão da equipe, o esforço na construção – tudo isso já foi exaustivamente descrito em pelo menos quatro publicações respeitáveis. São elas, na ordem em que vieram a público: Le Corbusier – Riscos Brasileiros, de Elizabeth Davis Harris, de 1987; Le Corbusier e o Brasil, de Cecília Rodrigues dos Santos, Margareth Campos da Silva Pereira, Romão Veriano da Silva Pereira e Vasco Caldeira da Silva, de 1987; Registro de uma Vivência, de Lúcio Costa, de 1995 e; Colunas da Educação – A Construção do Ministério da Educação e Saúde, de Maurício Lissovski e Paulo Sérgio Moraes de Sá, de 1996. Importa aqui, por outro lado, cobrir um aspecto que estas publicações pouco aprofundam, que é exatamente a análise das várias versões dos projetos. Mais CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 118 ainda, interessa estudar as versões nas quais esteve envolvido, de alguma forma, Jorge Machado Moreira. Nas fontes pesquisadas, não foi encontrada uma lista com os inscritos no concurso do MESP. No abaixo-assinado em que os concorrentes pediam ao Ministro o adiamento do prazo de entrega dos anteprojetos (Lissovski & Moraes de Sá: 1996, 7), podem-se identificar, dos arquitetos que se alinhavam com a “Nova Arquitetura”, as assinaturas de Jorge Machado Moreira, Gerson Pompeu Pinheiro, Ernani Vasconcelos, Lúcio Costa, Carlos Leão, Oscar Niemeyer de Soares Filho, Álvaro Vital Brazil, Atílio Correa Lima, Wladimir Alves de Souza, etc. A assinatura de Reidy, se lá está, é ilegível mas, entre os 34 projetos inscritos um certamente foi o dele. Todos os acima listados foram eliminados na primeira parte do concurso. De seus projetos, apenas o de Reidy e o de Moreira, em parceria com Ernani Vasconcelos restaram disponíveis, por terem sido publicados na Revista PDF20. Dos três projetos classificados para a segunda fase do concurso – Pax, de Archimedes Memória, Minerva, de Rafael Galvão e Mário Fertim e Alfa, de Gérson Pompeu Pinheiro, apenas o terceiro tinha alguns elementos do vocabulário moderno21: No acesso e ao redor do pátio central, no térreo, havia colunas cilíndricas desprovidas de ornamento, sugerindo um pilotis. O efeito se perdia, no entanto, em decorrência do fechamento total das paredes periféricas. A obstrução da visão decorrente deste fechamento conferia ao edifício projetado o mesmo caráter de pesada massa monolítica dos dois demais finalistas. Nesses três projetos, a implantação dos blocos edificados ao longo dos alinhamentos dos quatro logradouros seguia rigorosamente os preceitos do Plano Agache, como era estabelecido no Edital do Concurso. Acentuava-se, assim, a característica de bloco maciço e ratificava-se a idéia de rua corredor, de acordo com o desenho urbano 20 Revista PDF: Revista do Departamento de Engenharia da Prefeitura do Distrito Federal. Criada e dirigida por Carmem Portinho, serviu para divulgar as idéias e os trabalhos do grupo renovador da arquitetura. 21 Os projetos eram identificados por codinomes, para evitar a identificação dos autores. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 119 previsto para a Esplanada do Castelo. Os projetos de Reidy e de Moreira e Vasconcellos, desclassificados, se assemelhavam bastante quanto à volumetria. Em ambos, havia uma tentativa de conciliar a regra de implantação definida no Edital, que exigia o respeito aos alinhamentos, com uma expressão mais “leve” para o conjunto edificado. Esta tentativa, que provavelmente foi a razão da desclassificação de ambos, foi feita através do uso de pilotis, da eliminação dos pátios internos e do respeito apenas parcial aos alinhamentos dos logradouros. Na verdade, nem tanto os alinhamentos foram respeitados, mas apenas o paralelismo a eles foi seguido, sendo os blocos projetados paralelos, mas com algum afastamento em relação a eles. Ambos foram projetados segundo uma planta em H; nos dois, o auditório foi abrigado em um volume menor, localizado no espaço vazio entre as duas pernas do H, no meio da quadra. Se a intenção desta planta era evitar os pátios internos, ambos foram bem sucedidos. A preocupação com os “fatores mesológicos”, como então era moda chamar a ecologia, foi resolvida praticamente da mesma maneira nos dois projetos. Para dar aos compartimentos o conforto térmico e lumínico adequados, em ambos os projetos, os gabinetes de trabalho foram dispostos junto às fachadas menos sujeitas à radiação solar, ou nas quais a incidência da radiação se desse apenas nas primeiras horas da manhã; ao mesmo tempo, as circulações foram dispostas junto às fachadas mais quentes, ou que recebessem o sol da tarde. Esse mesmo recurso estava sendo utilizado simultaneamente no projeto da Sede da ABI, pelos irmãos Marcelo e Milton Roberto. Lá, de forma mais ousada, as circulações foram dispostas ao longo das fachadas principais voltadas para as duas ruas em esquina, e protegidas do sol por enormes lâminas de concreto, que funcionavam como brises-soleils. Nos projetos de Reidy e de Moreira e Vasconcellos não havia proteção das fachadas contra o sol da tarde. É bom lembrar que o uso de ar refrigerado não era disseminado na época e devia-se contar preferencialmente com a ventilação natural. Os pilotis estavam presentes nos dois projetos, mas não os terraços-jardim. A estrutura independente era ponto fundamental de um e de outro, mas tratada de CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 120 maneira diferente em cada projeto. Esta diferença, aparentemente insignificante, constitui, talvez, o aspecto conceitual mais significativo que faz distinguir um projeto do outro, e revela, em cada um, a visão de arquitetura que vai se firmando a partir desses projetos de início de carreira. Moreira e Vasconcellos adotaram, para a estrutura, uma estratégia semelhante àquela adotada por Moreira nos edifícios multifamiliares sobre pilotis de 1933. Naqueles projetos, os pilares, estavam dispostos regularmente em planta, de modo a configurar uma rigorosa regularidade no térreo, enquanto nos pavimentos-tipo eram escamoteados, embutidos nas alvenarias internas. No projeto para o MESP, a linha central de pilares foi eliminada e os pilares da periferia foram localizados no plano das fachadas. Sem dúvida, isto levaria a um alto custo de construção, devido ao grande vão a ser vencido. Levaria também à presença dos pilares na fachada, coisa que a perspectiva não mostrava. De qualquer maneira, o conceito de planta livre estava presente, e mais que isso, levado ao extremo nos pavimentos de escritório, nos quais não havia qualquer obstáculo a limitar o arranjo interno. Ainda assim, as divisões sugeridas respeitavam desnecessariamente a modulação estrutural. O partido estrutural do projeto de Reidy era um meio termo entre o projeto de Moreira e Vasconcellos e a solução arquetípica da Villa Savoye, de Le Corbusier. Na faixa destinada às circulações, o procedimento adotado foi o mesmo que adotaram Moreira e Vasconcellos. É interessante notar que neste projeto também havia um sub-dimensionamento dos pilares. Assim como no projeto de Moreira e Vasconcellos, os pilares localizados nos planos das fachadas não foram mostrados na perspectiva; em planta, seu dimensionamento era nitidamente insuficiente para suportar a carga a que estavam submetidos. A diferença da solução estruturalaparecia nas linhas de pilares opostas às circulações, ou seja, em planta, nas faixas destinadas aos gabinetes de trabalho. Nestes trechos, Reidy afastou os pilares da fachada. Esta disposição seguia o modelo da Villa Savoye e antecipava o partido que viria a ser adotado nas soluções posteriores do MESP, inclusive as finais. As paredes apareciam como simples divisórias, em posições inteiramente desvinculadas das linhas de eixo da estrutura. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 121 Ambos os projetos se referenciavam fortemente ao Palácio do Centrosoyus em Moscou (1929), de Le Corbusier, que por sua vez era uma versão formalmente depurada do Palácio para a Liga das Nações (1927-28), também de Le Corbusier. O fato não passou desapercebido inclusive a Saturnino de Brito Filho que, posteriormente, no longo parecer encomendado por Capanema, referente ao primeiro projeto da equipe chefiada por Lúcio Costa, faria o seguinte comentário: “O partido geral adotado é quase que exatamente o mesmo que o do projeto dos arquitetos Jorge Moreira e Ernani Vasconcellos, apresentado no concurso de projetos para o ministério e publicado na Revista da Diretoria de Engenharia, Rio, setembro 1935. Este projeto de Moreira-Vasconcellos obedeceu à inspiração do de Le Corbusier para o Centrosoyus de Moscou, conforme se poderá ver cotejando a página 515 da revista citada com a página 116 de La Ville Radieuse.” (Brito F°: 1936 ap Lissovski & Moraes de Sá: 1996, 77) Para Le Corbusier, estes projetos (Liga das Nações e Centrosoyus) representavam praticamente a culminância de um processo de desenvolvimento de uma linguagem, iniciado pelo menos 20 anos antes, com as Casas Dominó (1914), e que, para ele, já dava mostras de esgotamento. Ao passo que para os jovens arquitetos brasileiros eram as primeiras incursões numa expressão arquitetônica que ainda não dominavam. Le Corbusier, a esta altura, manobrava com grande desenvoltura os mecanismos projetuais que ele mesmo desenvolvera. Estes mecanismos, que Allan Colquhoun analisou em Displacement of Concepts in Le Corbusier (1972)22, permitiram que os dois projetos do mestre franco-suíço acima citados, apesar de muito maiores, mostrassem uma delicadeza e um requinte formal que não se observavam nos projetos de Reidy e de Moreira e Vasconcellos. Além da evidente analogia do partido de planta em H, alguns detalhes chamavam a atenção pela ingenuidade com que foram simplesmente transplantados do modelo que lhes serviu de base. O projeto de Moreira e Vasconcelos reproduzia a mesma marquise sobre o acesso e o mesmo revestimento das fachadas. O de Reidy aproveitava a forma cilíndrica do conjunto das rampas e também o tratamento das fachadas. 22 O texto citado será abordado em mais profundidade nas Conclusões. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 122 Uma vez encerrado o concurso e o prêmio tendo sido pago aos vencedores, o Ministro Gustavo Capanema encomendou alguns pareceres sobre o projeto vencedor, de modo a garantir fundamentação técnica para condenar a proposta de Archimedes Memória, como era seu desejo. A seguir, entrou em contato com Lúcio Costa, para que este desenvolvesse novo projeto. Lúcio figurava nas listas de duas de três associações profissionais a que o ministro pediu sugestões de nomes para elaborar o projeto23 (Lissovski & Moraes de Sá: 1996, 25). Além disso, sua gestão na diretoria da ENBA, em 1931, e o recente trabalho realizado com Celso Kelly para a Universidade do Distrito Federal, do qual resultou Razões da Nova Arquitetura, eram credenciais mais que suficientes para esta missão. Lúcio Costa relata assim a montagem da equipe: “Anulado o concurso havido, pagos os prêmios, o ministro me encomendou um projeto. Convidei então o Carlos, meu amigo, o Reidy e o Jorge, que haviam concorrido, grupo depois acrescido com a inclusão do Ernani e do Oscar; e assim, os honorários ficaram irmãmente divididos por seis – um conto para cada um.” (Costa: 1995, 131) A inclusão de Ernani foi a pedido de Jorge, pois além de amigos, eram co-autores do projeto do concurso. Oscar insistiu com Lúcio para entrar no grupo, argumentando que “se o Moreira quer pôr o sócio dele no projeto, eu, que participo do projeto como amigo há um ano, também quero entrar”24 Provavelmente, Lúcio aquiesceu ao apelo do colega recém-formado visando contar com um bom desenhista, mais do que com o talento de Oscar como arquiteto, como disse: “Era simpático, mas não mostrou talento. Era só um desenhista. Na época, eu não apostaria um tostão nele. É para você ver como as coisas são enganadoras. Oscar só se revelou depois que Le Corbusier veio ao Brasil, em 1936. Antes, ele estava alheio a Le Corbusier, não 23 Entidades consultadas: Clube de Engenharia, Sindicato Nacional de Engenheiros e Instituto Central de Arquitetos. O nome de Lúcio Costa constava das listas do Instituto e do Sindicato. 24 Declaração de Lúcio Costa a Mário de Cesar Carvalho em entrevista a este, publicada na Folha de São Paulo, em 23 de julho de 1995, encartada a Registro de uma Vivência, de Lúcio Costa, 1995. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 123 sabia nada disso.”25 O projeto que a equipe então produziu tinha enormes semelhanças com o que Moreira e Vasconcellos apresentaram no Concurso, como já foi assinalado anteriormente. A implantação, a volumetria e o tratamento das paredes externas eram praticamente idênticos. Havia diferenças, no entanto. A volumetria, e a posição dos acessos foram modificados. A planta em H, da versão de Moreira e Vasconcellos, passou a ser quase um U; o bloco correspondente à base do U passou a predominar na composição – mais larga e mais alta que os demais –; o bloco destinado ao auditório, antes parcialmente escondido entre os blocos laterais, passou para uma posição de destaque, à frente do bloco principal. Ao mesmo tempo que a nova posição do bloco do auditório conferia a esta parte da composição a prioridade hierárquica do conjunto, os acessos foram localizados sob os pilotis, voltados para o pátio interno, numa disposição francamente menos importante no conjunto e contraditória com a importância do volume destacado do auditório. Nesse aspecto foi uma involução com relação ao projeto de Moreira e Vasconcellos, e criava uma ambigüidade que o primeiro projeto não tinha. O projeto de Reidy, na questão do acesso tinha sido mais feliz e se aproximava mais do modelo do Centrosoyus. Nesses, a aparente simetria da planta em H era quebrada ao se aumentar um de seus lados, e localizar aí o acesso, criando-se, em conseqüência, uma interessante tensão entre os elementos do conjunto. A segunda modificação foi a introdução dos brises-soleils nas fachadas adjacentes aos halls, voltadas para o norte, portanto, mais castigadas pelo sol. A terceira modificação digna de nota foi na estrutura. O partido estrutural do Centrosoyus foi seguido à risca, com duas linhas de pilares afastados da fachada. Ou seja, como consta do memorial descritivo do projeto, “os suportes foram transferidos do alinhamento das fachadas para o interior do edifício ... um sistema de lajes duplas solidárias com as vigas e nervuras de forma a permitir tetos lisos e 25 Idem CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 124 contínuos ...” (Costa et al.: 1936 ap Lissovski & Moraes de Sá, 1996, 61) Contaram para esta solução com a colaboração de Emílio Baumgart (1889-1943), calculista cuja atuação já se notabilizara pelo projeto do Edifício A Noite (1931), entre outros. Este era a mais alta estrutura de concreto armado do mundo na ocasião, recorde que foi mantido por muitos anos. A planta livre, que justifica em última instância a adoção daestrutura independente, pouco tinha deste atributo de liberdade. As divisões entre os ambientes foram sempre colocadas sobre os eixos da estrutura, respeitando desnecessariamente a modulação estrutural, uma vez que os tetos planos não impunham qualquer restrição de layout. Não é de surpreender que a equipe tenha se sentido insegura com sua proposta. Sua rigidez era incontestável. Contribuíam para isso a rigorosa simetria, da composição, a pouca inventividade dos tratamentos das fachadas, até mesmo o respeito, ainda que parcial, aos alinhamentos previstos no Plano Agache. O esforço no sentido de copiar um modelo, que imaginavam era o do mestre Le Corbusier, se mostrou ineficaz. O racionalismo exacerbado e a falta de intimidade com a linguagem que queriam explorar, mostravam a imaturidade da equipe. Face a estas constatações, a vinda de Le Corbusier não seria apenas conveniente, tornara-se indispensável para ajudar a enterrar a “múmia”, como seus próprios autores passaram a chamar o projeto. O apelido se justificava: além da rigidez e do aspecto de corpo enfaixado, já era dada como morta pelos arquitetos, apesar de agradar ao ministro. Lúcio Costa, disfarçando um pouco o constrangimento que sentia em relação ao projeto que fizeram, assim se dirigiu a Corbusier, quando já era certa e breve sua visita: “Uma última coisa. Uma de suas incumbências junto ao Ministro será a de lhe transmitir sua opinião sobre o projeto cujas fotografias estou lhe enviando por meio desta. Se não gostar dele, diga-nos sem rodeios, mas peço-lhe: não diga bruscamente ao ministro Capanema: ‘é feio ... eles não me entenderam!” – porque nesse caso estaríamos perdidos, uma vez que os ‘outros’ já o proclamaram e nós o estamos tomando como testemunha.” (Costa: 1936 ap Santos et al.: 1987, 141-4) CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 125 Uma vez decidido que Le Corbusier seria convidado a colaborar no projeto, foram rápidos os entendimentos para sua vinda. Certamente ele não desperdiçaria esta excelente oportunidade, “como poucas que tivera, de trabalhar em relação estreita com a ‘autoridade’” (Santos et al.: 1987, 112). Em algumas semanas e, com algumas cartas para lá e para cá, acertaram-se o programa de trabalho e os honorários. A justificativa oficial para a remuneração de um profissional estrangeiro se baseava na necessidade de se pagar pelas seis conferências que, de fato, faria durante o mês de agosto de 1936, na Escola de Música. No entanto, “a importância das conferências parece secundária se lembrarmos que do ponto de vista do enunciado, elas retomaram o discurso teórico que muitos dos arquitetos brasileiros já tinham ouvido, num tom mais poético, em 1929. ... além disso, elas não continham muita novidade, uma vez que suas idéias vinham sendo acompanhadas no Brasil através de publicações como Précisions, La Ville Radieuse e Oeuvre Complète.” (Santos et al.: 1987, 112) O interesse efetivo dos arquitetos era trabalhar junto do mestre, observar seu método, para aprender com ele. Jamais, porém, “cogitariam de ser pura e simplesmente substituídos em suas atribuições por aquele que lhes inspirava o pensamento.” (Santos et al.: 1987, 111) A estratégia traçada por Lúcio e sua equipe foi plenamente bem sucedida. As conferências tiveram o efeito multiplicador esperado e “catalisaram as inquietações dos jovens arquitetos brasileiros, oferecendo-lhes uma doutrina completa com um conjunto de soluções formais passíveis de serem exploradas e aplicadas a cada programa construtivo.” (Santos et al.: 1987, 112-3) A grande publicidade dada pela imprensa ajudou a difusão dessa doutrina entre o público em geral e deu à “autoridade” – no caso, o Ministro Capanema e sua equipe – os argumentos para justificar a adoção oficial da “Nova Arquitetura”. A equipe de arquitetos pôde acompanhar a elaboração de três projetos – dois para o Ministério e um para a Cidade Universitária –, na etapa que mais lhes interessava: a dos estudos preliminares, na qual os conceitos básicos são lançados. Oscar Niemeyer foi, dentre todos os que trabalharam diretamente com Le Corbusier, o que mais rapidamente e melhor captou a essência dos mecanismos projetuais do mestre. Sua habilidade no desenho lhe favoreceu, como declarou Lúcio Costa: CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 126 “Ele (Le Corbusier) gostava do Oscar porque às vezes o ajudava a fazer os desenhos, ajudava a fazer as figuras que aparecem nas perspectivas. Dos vários arquitetos, tinha um – o Oscar – que toda hora estava à mão e pronto para fazer qualquer coisa. ... O Oscar, na época, era tímido, não tinha a menor comunicação e recebeu aquilo em cheio, aquele oxigênio todo. Aí é que revelou o que era de fato, o que estava incubado.” (Costa: 1985, 152) Le Corbusier, como foi dito acima, fez dois projetos para o MESP. O primeiro, em terreno de sua escolha, à beira-mar, de frente para a Praia de Santa Luzia, perto de onde hoje está o Aeroporto Santos Dumont. O segundo, menos desenvolvido, foi feito para o local atual. Os projetos tinham muitas semelhanças, sendo o segundo, uma adaptação do primeiro a um novo (antigo) terreno. Le Corbusier abordou o problema do edifício de forma totalmente diferente daquela dos brasileiros. Ele elevou o edifício à categoria de monumento e o projetou de fora para dentro. Na verdade, ele não gostou do projeto feito pela equipe. “Logo num dos primeiros encontros de trabalho, ao olhar o projeto em U, foi logo dizendo (é de Jorge Moreira a informação): – Porque vocês não põem dobradiças nesses braços, fazendo-os girar, e não deslocam para um dos cantos à frente o auditório? E assim lançava o partido do novo projeto do Ministério da Educação." (Moreira 1965 ap. JB) A primeira questão era a implantação A escolha do terreno, denotava esta sua preocupação. Não fosse isto, nenhuma objeção seria feita ao terreno original. O que incomodava Le Corbusier era a excessiva regularidade da malha da Esplanada do Castelo e a impossibilidade do edifício se destacar naquele entorno: “Fui visitar o terreno no próprio local. Seus arredores estão livres, mas os gabaritos já estão determinados pela prefeitura. ... Proponho substituir o terreno, que é ruim. “Seria deplorável que a iniciativa do ministro submergisse num conjunto arquitetônico e urbanístico de tal natureza que de nenhuma maneira e, apesar de toda a perfeição do prédio, seria possível atingir uma impressão de nobreza e de grandiosidade. “O início e o essencial de uma obra arquitetônica residem em sua localização. A localização equivale a mais da metade da concepção arquitetônica, ela é predominantemente decisiva. Um exemplo no Rio: a localização de uma simples igrejinha, a da Glória. Tem-se o dever de atribuir à localização de um prédio o máximo de chance possível.” (Le Corbusier: 1936 ap Lissovski & Moraes de Sá: 1996, 108-113) CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 127 Le Corbusier não hesitou em fazer algumas concessões a sua doutrina. Até aquela data, não tinha realizado nenhuma obra daquele porte; em projeto, os maiores edifícios que projetara eram os Arranha-céus Cartesianos. A frontalidade, inexistente naquele projeto experimental, aqui se mostrou fundamental, para que o edifício marcasse definitivamente o local, como convinha a um monumento. Nesse procedimento, não hesitou em adotar uma importante recomendação de Camilo Sitte, a quem desprezava, relativa à disposição dos monumentos e chafarizes: “É desta maneira, que cada lugar tem seu significado e sua história, e assim compreendemos porque chafarizes e monumentos não se localizam nos principais eixos do tráfego, nem no centro das praças, nem ainda alinhados a pórticos, mas, de preferência ao lado de tudo isto” (Sitte: 1889; 1992, 37) O terreno escolhido atendia perfeitamente às pretensões de monumentalidadede Le Corbusier, segundo os critérios de Sitte. O edifício ficaria disposto lateralmente em relação a uma via de trânsito intenso, e de frente para a Baía de Guanabara – posição mais destacada seria impossível. O programa, é claro, deveria ser atendido, mas o arquiteto não se deixou intimidar pela infinidade de salas, gabinetes e compartimentos a abrigar. Ao contrário, ele subjugou o programa em benefício da plástica monumental, que o edifício, entendido como símbolo, exigia. Neste processo, elegeu os elementos do programa que deveriam merecer destaque – o auditório e a sala de exposições – e que pudessem, de alguma maneira se destacar da massa que lhes serviria de pano de fundo. A própria disposição do edifício no terreno foi usada no intuito de acentuar sua monumentalidade. Se o programa era subjugado em benefício da composição, também o sistema construtivo deveria ser abordado segundo este critério. O esqueleto estrutural deveria ser desenhado de tal maneira que o programa pudesse ser contido dentro dele sem estabelecer conflitos com ele, e se possível, deixar parte dele à vista (os pilotis) para que pudesse ser plasticamente valorizado e sua presença ser discretamente acentuada. As duas linhas de pilares projetadas no bloco principal foram dispostas afastadas das fachadas, de tal maneira que uma delas coincidisse CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 128 com as paredes das circulações, deixando a outra dentro da faixa em planta destinada aos gabinetes. A regularidade proporcionada à fachada, mais do que uma vantagem construtiva, dava ao volume principal o caráter monolítico monumental desejado. A fachada norte, adjacente à qual foram projetadas as circulações, foi protegida por brises-soleils horizontais – nitidamente secundária. Porém, devido a sua homogeneidade, era um ótimo pano de fundo para destacar o volume do auditório à sua frente. O projeto para o terreno do Castelo foi feito em apenas dois dias, e constava somente de croqui, incluindo três plantas, três fachadas e uma perspectiva de conjunto. Comparado com a primeira versão, da Praia de Santa Luzia, observa-se que a disposição relativa dos volumes foi mantida, mas suas proporções foram modificadas, para se adaptar às dimensões menores do terreno. O bloco principal foi encurtado no comprimento e acrescido de alguns pavimentos, de modo a manter a área total exigida no programa. Para provocar o efeito da monumentalidade, este bloco foi posicionado junto a uma das ruas, garantindo-se, assim a distância necessária para que o conjunto pudesse ser observado em sua totalidade do extremo oposto da esplanada deixada livre à frente do edifício. O bloco mais baixo, destinado ao auditório e ao salão de exposições, que na versão anterior era disposto atravessado em relação ao bloco maior, aqui foi disposto todo à sua frente, formando um L no canto da quadra. Nos demais aspectos, em essência os dois projetos eram iguais. Depois que Le Corbusier partiu de volta para a Europa, a equipe voltou para o escritório da Av. Nilo Peçanha, 151, com a obrigação de desenvolver um novo projeto, já que a esta altura, a “múmia” já pertencia ao passado, e o projeto deixado por Le Corbusier para o terreno do Castelo, deixava bastante a desejar. A transposição do projeto do terreno à beira-mar para este, foi feito meio “a martelo”. A implantação no terreno não agradava, pois, só de um lado da quadra o efeito plástico monumental era obtido. Do outro, estando o bloco principal localizado junto e ao longo de uma das ruas, criava-se o efeito da rua-corredor, que tanto Le Corbusier como a equipe queriam evitar. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 129 A solução para o problema da implantação foi dada por Niemeyer. Lúcio Costa insinua isto, sem ser explícito: “... foi durante esse curto mas assíduo período de quatro semanas que o gênio incubado de Oscar Niemeyer aflorou.” (Costa, 1975; 1995, 135- 138) Francisco Bologna, em depoimento prestado em agosto de 2001, disse ter ouvido de Jorge Machado Moreira um relato, segundo o qual, Oscar, estando com ele no escritório, riscou um croqui da implantação, mas por timidez ou insegurança, atirou-o à rua, pela janela. Jorge, querendo ver o trabalho do colega, desceu ao térreo e o resgatou. Lá estava, em essência, a configuração que finalmente a edificação assumiria. Somente o estreito convívio no escritório que Oscar tivera com Le Corbusier teria permitido ao jovem carioca o necessário desembaraço para elaborar aquela proposta. Le Corbusier demonstrara, na prática que “... embora partisse de uma doutrina supostamente objetiva ou a ela chegasse graças a uma tendência natural para classificar e elaborar normas precisas, que propunha para si e principalmente para os outros, pessoalmente ele nunca se comprometia por inteiro com as regras que instituía. Sabia libertar-se de sua rigidez, estimulando, sempre que possível, sua capacidade criadora. “Adepto de formas simples e geométricas, clássico por excelência, exaltou desde o início a pureza absoluta, através do jogo de volumes e luz. Portanto, o emprego sistemático do prisma como elemento básico da composição arquitetônica não era uma recusa do sentido plástico, mas uma subordinação voluntária de seu vocabulário aos meios de expressão que julgava capazes de proporcionar uma perfeita satisfação formal. Seus discípulos brasileiros, entretanto, na falta desse contato direto, embora não ignorando as preocupações essenciais de Le Corbusier, tinham perdido de vista o caráter eminentemente plástico de toda sua obra, prendendo-se freqüentemente no seu aspecto teórico e funcional. No entanto, apenas seis semanas26 de trabalho sob a orientação do mestre, cujo método não consistia em ordenar os problemas de ordem prática e os de ordem estética, foram suficientes para desinibí-los e conscientizá-los do verdadeiro significado do aspecto plástico em toda obra digna de merecer a qualificação de arquitetura e não de mera construção.” (Bruand: 1969; 1997, 90) 26 Na verdade apenas quatro semanas. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 130 A implantação proposta, que acabou sendo a definitiva, recuperava o caráter monumental do edifício. Isto só foi possível, localizando-se o bloco principal atravessado ortogonalmente no meio da quadra. Eliminava-se, assim, o efeito da rua-corredor e propiciava-se, por todos os lados, a distância necessária para que o edifício pudesse ser visto por inteiro mesmo por um observador muito próximo a ele. O bloco secundário, disposto perpendicularmente em relação ao principal e, mais próximo da rua menos importante, estabelecia claramente a subordinação dos elementos da composição – um em relação ao outro –, e recuperava a expressão que este volume tinha no projeto da Praia de Santa Luzia e que fora perdida na segunda versão de Le Corbusier para o terreno do Castelo. No sentido vertical, os pilotis do bloco principal foram aumentados para o equivalente a um pé-direito duplo, efeito indispensável para conferir maior delicadeza ao volume sustentado acima e para “monumentalizar” o acesso. Para poder abrigar todos os gabinetes previstos no programa funcional, foi necessário aumentar até quase o dobro a largura em planta do bloco principal. O vão resultante exigiu a solução estrutural em três linhas de pilares (ao invés de apenas duas, como em todas as versões anteriores), sendo uma próxima de cada fachada e uma no eixo do bloco. Este partido estrutural seria repetido, com extrema conveniência, por Jorge Machado Moreira no Edifício da Faculdade Nacional de Arquitetura (1957) na Ilha do Fundão. A solução estrutural foi viabilizada graças à fundamental colaboração de Emílio Baumgart: “O emprego de pilotis não era propriamente uma novidade, mas jamais se haviaadotado a solução na escala de um prédio como o MESP – criando dificuldades para o contraventamento da estrutura. Contrariando as normas então vigentes, Baumgart atribuiu às lajes planas a função de vigas dispostas horizontalmente, apoiadas nas paredes cegas laterais (que são interrompidas na laje de encontro com os pilotis; se elas seguissem até o chão, o problema de contraventamento estaria resolvido). A busca de uma solução estrutural ‘arquitetônica’ – como preconizava Le Corbusier – ensejou a definição de uma estrutura que evitou vigas, ao mesmo tempo que se conseguiram lajes de pouca espessura para os pavimentos. Pela primeira vez se especificou no Brasil a laje-cogumelo, e de forma inovadora. A estrutura em cogumelo desvirtua a concepção de tetos lisos; a solução projetada previu a inversão do capitel para a face superior da laje, deixando liso o acabamento pelo lado do forro. O nivelamento do piso seria feito com material leve, aproveitando-se esse CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 131 espaço de enchimento para a passagem das instalações elétricas.” (Vasconcellos: 1985 ap Segawa: 1998, 91) A planta livre foi garantida graças à engenhosidade da solução estrutural de Baumgart, que foi explorada com a eliminação de paredes de alvenaria nas áreas destinadas a gabinetes e pela sua substituição por armários a meia altura. Estes funcionavam como divisórias, e podiam ser dispostos em qualquer posição no pavimento, em função das necessidades funcionais. Os arranjos internos sugeridos mostravam que a posição dos pilares centrais, ao contrário do que poderia parecer, não atrapalhavam o layout, mas ajudavam a definir a posição mais adequada para as circulações. O conforto térmico e lumínico foi resolvido abrindo-se para sul uma enorme curtain- wall (pele de vidro), associada a persianas internas; na fachada norte foram projetados brises-soleils horizontais móveis. A diferença de temperatura entre as fachadas sul e norte e os ventos dominantes vindos do mar garantiriam a permanente troca de ar no interior do edifício. A regulagem adequada das persianas, esquadrias e brises permitiriam a dosagem adequada de ar e luz. O detalhamento da construção mereceu atenção especial dos arquitetos. Lúcio Costa, em carta ao ministro em 1939, que reclamava do alto custo da obra, se referia às novas questões construtivas que o projeto apresentava: “... a boa qualidade do material de acabamento, além de satisfazer às conveniências de uma aparência digna, resulta, afinal, com o tempo, em economia, porquanto seja ele melhor, maior será também a sua duração, conservando sempre o bom aspecto próprio das coisas de qualidade, – o que é capital quando se trata de obras empreendidas para o serviço de mais de uma geração. “Não se trata de uma construção do tipo usual. A estrutura, as esquadrias, os revestimentos, a proteção contra o sol, etc., tudo obedece a processos ainda não admitidos como de uso corrente, o que certamente também concorre para elevar o preço global da construção.” (Costa: 1939; 1995, 123-134) Jorge Machado Moreira trouxe para si a responsabilidade de desenhar alguns destes detalhes especiais. Com sua preocupação de conferir à obra toda a exatidão que a técnica poderia proporcionar, detalhou toda a fachada norte, incluindo os CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 132 brises-soleil móveis e todas as partes molhadas – banheiros, copas e cozinhas. Acompanhou depois a execução dos mesmos no canteiro. 27 O projeto feito pela equipe chefiada por Lúcio Costa ainda sofreria mais uma modificação. O bloco principal, projetado a princípio com 10 pavimentos-tipo, depois foi aumentado para 14 pavimentos, não sendo feitas outras modificações além desta. O conjunto se completaria com as obras de arte – murais, esculturas e pinturas – e os magníficos jardins de Roberto Burle Marx (1909-1994). Tanto na grande praça deixada livre ao nível do chão, como nos terraços-jardim, os desenhos do famoso paisagista teriam, pela primeira vez, a oportunidade de serem vistos. Os painéis de azulejo, desenhados por Cândido Portinari, buscavam uma releitura atualizada da tradicional técnica usada pelos portugueses e pelos artistas barrocos principalmente nas igrejas, entre as quais a Igreja de N. S. da Glória do Outeiro, que tanto fascinou Le Corbusier. O uso de todos os materiais e técnicas tradicionais, como acima relacionado, e mais o uso do granito cinza e rosa da Tijuca, aplicado nas fachadas, seguia orientação de Lúcio Costa que, desde sua “primeira proposição de sentido contemporâneo” – a Residência de Ernesto Fontes –, em 1930, sempre procurou introduzir elementos locais nos projetos. Parece, portanto, um tanto fora de propósito a colocação de Bruand ao afirmar que: “A pregação de Le Corbusier foi ainda mais significativa, porquanto se identificava com as tendências mais representativas do pensamento brasileiro do Século XX. A valorização dos elementos locais naturais ou históricos , integrava-se perfeitamente no contexto nacionalista. A onda de ascetismo funcionalista tinha, por razões doutrinárias, tentado provisoriamente abafar esses aspectos, em vez de considerá-los, na elaboração de uma arquitetura realmente racional; no entanto não se havia perdido por completo a consciência de seu significado. O mestre franco-suíço demonstrava que o estilo do Século XX era internacional, mas não impunha, muito pelo contrário, o abandono das variáveis regionais que assegurassem uma expressão regional.” (Bruand: 1969; 1997, 91) 27 Depoimento de Francisco Bologna, citado CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 133 Desde sua primeira viagem à América Latina, o trabalho de Le Corbusier sofreu uma radical transformação, incorporando-se elementos nativos e artesianas aos projetos. É verdade que os arquitetos brasileiros souberam aprender com Le Corbusier sua maneira de abordar um problema arquitetônico, mas também é verdade que o ambiente tropical influiu determinantemente na maneira de Le Corbusier entender que as possibilidades formais da arquitetura poderiam ir muito além do purismo que praticara com exclusividade até 1929. Em setembro de 1937, Le Corbusier, após ver o projeto e fotos da maquete que Lúcio Costa lhe enviara, deu sua aprovação ao trabalho de seus discípulos brasileiros: “O seu edifício do Ministério da Educação e Saúde Pública parece-me excelente. Diria mesmo; animado de um espírito clarividente, consciente dos objetivos: servir e emocionar. Ele não tem esses hiatos ou barbarismos que freqüentemente, aliás em outras obras modernas, mostram que não se sabe o que é harmonia. Ele está sendo construído? Sim? Então tanto melhor, e estou certo que será bonito. Será como uma pérola em meio ao lixo ‘agáchico’. Meus cumprimentos, meu ‘OK’ (como você reclamava).” (Le Corbusier: 1937 ap Santos et al.: 1987, 199,200) Era natural esta reação de Le Corbusier ao projeto brasileiro para a Sede do MESP. Era, pois, até aquela data, a maior obra na qual os Cinco Pontos da Nova Arquitetura tinham sido aplicados em toda sua extensão; uma versão ampliada do modelo em escala residencial representado pela Villa Savoye. Manifestava arquitetonicamente todos os seus princípios urbanísticos defendidos na Ville Radieuse. A mais importante lição dada por Le Corbusier, em 1936, foi a mais surpreendente. Nos projetos feitos antes de sua visita, os arquitetos – Reidy, Moreira e Vasconcellos e depois a equipe chefiada por Lúcio Costa – adotaram uma atitude ortodoxa. Partiram do modelo arquetípico da Villa Savoye e tentaram encaixar nesse modelo o programa de necessidades. O resultado foi infeliz, assim como foi infeliz também a tentativa feita por Vital Brasil na residência projetada com Adhemar Marinho em 1935, já mencionada anteriormente, cujo estratégiaprojetual foi similar. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 134 Quando foi conscientemente abandonado o modelo formal arquetípico e o objetivo foi deslocado para o efeito dramático que a obra devia proporcionar, ou seja, quando a arquitetura foi abordada como o livre jogo de volumes sob a luz, enfim, quando foi solicitada da arquitetura que ela proporcionasse toda a poesia de que era capaz, finalmente a magia se tornou real. Os arquitetos brasileiros puderam compreender que os Cinco Pontos da Nova Arquitetura não eram o objetivo final da arquitetura. Muito pelo contrário, eram os meios contemporâneos de que podiam dispor para viabilizar e para dar expressão aos edifícios que projetavam. Esta foi a grande lição, que não foi dada, mas foi aprendida. Talvez por isto até hoje ainda exista entre alguns professores de projeto a crença de que é possível aprender a fazer arquitetura, embora seja impossível ensinar a fazê-la. A matéria não foi dada, mas foi perfeitamente aprendida. Estava nas entrelinhas, e foi Oscar Niemeyer o primeiro a captar esta mensagem. Em breve, outros arquitetos brasileiros digeririam antropofagicamente a novidade bem temperada, aprenderiam a lição e cumpririam a profecia do mestre: “Sob uma tal luz a arquitetura nascerá.” (Le Corbusier – Prólogo Americano, 1929) Depois do MESP Por esta época, e desde sua viagem anterior, em 1929, Le Corbusier “começava a perder a fé no inevitável triunfo da máquina; começava a reagir contra a produção racionalizada da machine a habiter. Não se sabe ao certo se o terá feito por desilusão com a técnica moderna enquanto tal ou por desespero diante de um mundo arrebentado pela depressão econômica e pela reação política”. (Frampton: 1980; 1997, 221) Talvez tenha sido simplesmente a sedução dos trópicos, a ampliação de sua visão de mundo ao conhecer outras culturas ou simplesmente seu deslumbramento ao voar acima dos homens e das montanhas como fez naquela viagem. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 135 Em decorrência destes questionamentos, desde sua primeira viagem à América do Sul começaram a aparecer na obra de Le Corbusier elementos técnicos primitivos. Primeiro na Casa Errazuriz (1930), no Chile, onde usou troncos de madeira em bruto na armação do segundo piso e placas de pedra natural na pavimentação. Em 1935, projetou duas residências que conceitualmente se afastavam radicalmente do purismo formal observado nas obras da década de 1920. Uma delas, uma casa de fim de semana nos subúrbios de Paris tinha paredes de pedra e tetos abobadados, muito diferente das plantas livres preconizadas nos Cinco Pontos de 1925. Na outra, uma casa de praia, em Mathes, ainda havia alguma preocupação com a modulação estrutural e com a racionalidade construtiva, mas o uso de paredes de pedra e de telhados inclinados com madeiramento à vista conferiam a esta pequena construção um aspecto artesanal, rústico e pesado – a antítese da Villa Savoye. O projeto do MESP foi para Le Corbusier uma das últimas manifestações na qual a estética purista estava presente e dava a identidade à obra. Depois deste projeto, em apenas outras duas obras de grande porte esta expressão seria utilizada: na Sede da ONU (1947), em Nova York e no Centro Cultural de Orsay (1961), em Paris. Já se tornavam cada vez mais freqüentes nesta época as expressões brutalistas e as texturas artesanais impregnadas de traços individuais e locais em seus projetos. Para os brasileiros, no entanto, esta estrada estava apenas começando a ser trilhada. Alguns arquitetos adotaram imediatamente o léxico clássico corbusiano, mas fazendo, evidentemente, suas respectivas interpretações. Os irmãos Marcelo e Milton Roberto, Oscar Niemeyer e Affonso Eduardo Reidy estariam entre esses. Lúcio Costa, talvez por falta de encomendas e por ter se engajado no SPHAN, só mais adiante teria oportunidade de mostrar como digeriu esta refeição. Carlos Leão adotou uma postura reservada, e pouco ortodoxa. Em seus projetos, em geral casas para ricos, conciliava a lógica funcionalista com uma expressão tradicionalista muito peculiar, que acabou levando o rótulo de “Nativismo Carioca”; só mais tarde viria a adotar a linguagem mais próxima do purismo dos projetos clássicos de Corbusier. Jorge Machado Moreira, a princípio, resistiu a abandonar a estética gropiusiana, só o fazendo quase dez anos depois, talvez por ter constatado o sucesso alcançado pela Escola Carioca, simultaneamente a um certo anacronismo de seus projetos. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 136 Quando passou a projetar segundo esta cartilha, foi um praticante dedicado e fervoroso, que a cada projeto, procurava depurar os conceitos dessa doutrina, em busca de sua manifestação mais cristalina. A maior parte dos brasileiros, no entanto, não soube acompanhar o desenvolvimento das idéias e as discussões que se desenrolavam cada vez em ritmo mais veloz e incorporando contingentes maiores de arquitetos, tendo os CIAM como ponto de referência. Neste debate internacional, no qual os brasileiros pouco contribuíram, iam surgindo caminhos novos para a arquitetura, à medida em que as doutrinas mais ortodoxas dos CIAM iam se mostrando ineficazes. Esse distanciamento foi o principal motivo pelo qual a arquitetura brasileira, que numa certa época conseguiu produzir obras excepcionais, foi gradativamente perdendo sua importância no cenário mundial e foi se mediocrizando gradativamente. Oscar Niemeyer foi o único, dos seis que participaram do projeto do MESP, que conseguiu produzir uma obra com reconhecimento internacional, mas a originalidade atribuída a seu trabalho não decorre de uma reflexão teórica que se rebatia no projeto; muito ao contrário, Niemeyer adotou uma postura de livre criador de formas, individualista e desvinculado de correntes. No outro extremo dessa postura projetual se situou Jorge Machado Moreira. Ele procurou minimizar em seus projetos a expressão individual de autor, em favor da impessoalidade da máquina-edifício. O empenho com que se dedicou a este objetivo o levou a criar obras de extremo apuro e perfeição técnica. Eram, no entanto, obras deslocadas no tempo, pois a base teórica e a circunstância social que as justificariam já estavam a exigir outras respostas. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 137 Manifesto de La Sarraz (1928) (Ferraz: 1965, 30) Através do professor Warchavchik, Jorge Machado Moreira foi informado sobre o primeiro CIAM – Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, acontecido em junho de 1928, no qual Le Corbusier teve importante participação, e de onde surgiu o ‘Manifesto de La Sarraz’, mostrando que já havia suficiente consistência e mesmo algum consenso entre os arquitetos europeus a respeito do que seria essa “Nova Arquitetura”. Lúcio Costa: Embaixada da Argentina (1927) (Costa: 1995, 31) Passados os últimos anos do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX, período no qual o ecletismo com fortes referências européias dominou a arquitetura, discutia-se, agora, a consolidação de um estilo genuinamente brasileiro – o neocolonial – que já tinha produzido exemplos notáveis. O próprio Lúcio Costa foi um dos arquitetos que, com sua grande cultura e conhecimento histórico, muito contribuiu neste sentido. Gregori Warchavchik: Casa na Rua Santa Cruz, São Paulo ( 1928). Em 1927, o casamento de Gregori Warchavchik com Mina Klabin (1896-1969) – herdeira de rica família de industriais paulistas – propiciou ao arquiteto as oportunidades para realizar suas experiências arquitetônicas sem os constrangimentos impostos por uma grande construtora. Formalmente a casa se assemelhava às Casas dos Mestres da Bauhaus (1926) em Dessau, devido à ausência de ornamentos e ao partido de adição de volumes prismáticos.CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 138 Gregori Warchavchik: Casa modernista de São Paulo – Rua Itápolis, 119. (1929) (Ferraz: 1965, 83-99) Geraldo Ferraz, biógrafo de Warchavchik, considerou que esta casa era o “completamento da revolução assinalada pela Semana de Arte Moderna de 1922” . De fato, era a manifestação arquitetônica mais inovadora na Capital Paulista e que mais parecia se aproximar do pensamento da corrente artística modernista. Gregori Warchavchik: Residência Norschild (1931) “Inaugurou-se ontem, em Copacabana, a ‘Exposição da primeira casa modernista do Rio de Janeiro’, projetada e construída por Gregori Warchavchik. Compareceram ao curioso acontecimento, o arquiteto Frank Lloyd Wright, o escultor Celso Antônio, o pintor Cândido Portinari, o poeta Manuel Bandeira, o arquiteto Lúcio Costa, os Srs. Herbert Moses, Renato Villela, Jorge Machado Moreira e os membros do Diretório Acadêmico da Escola de Belas Artes, arquitetos, engenheiros, pintores, escultores e muitas outras pessoas. (Extraído de uma reportagem do Correio da Manhã, de 23 de outubro de 1931)” (Ferraz: 1965, 158) “... Da única vez que recebi a visita desse benemérito senhor (Phillip Goodwin – autor de Brazil Builds), prestei-lhe as informações que me ocorreram no momento, tendo dado o devido destaque à obra do Warchavchik, bem como indicado a casa da Rua Toneleiros, havendo até referido a propósito, se não me engano, a visita de Frank Lloyd Wright àquela casa e assinalado a impressão forte que parece lhe haver causado certo balcão em balanço, pois esse pequeno pormenor teria, de algum modo, talvez sugerido a concepção da espetacular casa que construiu a seguir.” (Costa: 1948; 1995, 200) Lúcio Costa & Gregori Warchavchik: Conjunto residencial da Gambôa (1933) (Ferraz: 1965, 190-192) Encerrada a experiência na ENBA, Warchavchik e Lúcio criaram uma sociedade que projetou e construiu, entre 1931 e 1933, duas residências particulares, o Conjunto Residencial da Gambôa e fez ainda mais algumas reformas de apartamentos e residências. A experiência se esgotou em pouco tempo, devido à escassez de encomendas e porque, no ponto de vista de Lúcio, “o tal ‘modernismo estilizado’ que às vezes aflorava, já não parecia ajustar-se aos verdadeiros princípios corbusianos a que nos apegávamos.” (Costa: s/d; 1995, 72) CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 139 40 Affonso Eduardo Reidy & Gerson Pompeu pinheiro: Albergue da Boa Vontade (1931) (Bonduki, 1999: 36-39) A ausência de ornamentos, o uso de esquadrias basculantes de desenho sóbrio e de laje plana no lugar do telhado denunciam a lógica racionalista em sua concepção. A preocupação com a ventilação natural e cruzada é mais um aspecto que reforça esse tipo de abordagem. A estrutura de concreto neste projeto não é ainda tratada segundo os conceitos de estrutura independente e planta livre. Ao contrário, a estrutura fica embutida na alvenaria das paredes e sua expressão plástica é negada. Affonso Eduardo Reidy: Residência na Urca (1935) (Bonduki: 2000, 43) Jorge Machado Moreira: Residência Firnando Lyra Filho (1933) (Czajkowski: 1999, 1933) No projeto de Moreira, a disposição no terreno enseja a formação de pátios diferenciados. No bloco principal, as paredes do segundo pavimento coincidem em planta com as do primeiro, o que permite disfarçar as vigas dentro das paredes. Nas casas de Reidy, a volumetria é mais variada. Além do uso de varandas embutidas, há maior variedade na dimensão dos vãos; há ainda o uso de colunas e de balanços. Tudo isso confere à construção um aspecto mais movimentado, mas prejudica um pouco a simplicidade construtiva. Reidy sacrificou levemente a racionalidade construtiva em favor da plástica. Moreira, sem fazer concessões à técnica, elaborou sua estética exatamente a partir dos constrangimentos que esta lhe impunha. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 140 Álvaro Vital Brazil & Adhemar Marinho: Residência Mário Brazil (1934) (Coduru; 2000, 50) O discreto jogo de volumes observado no balanço que caracteriza a porta de entrada coloca esta casa a meio caminho entre o comedimento austero da casa de Moreira e a maior liberdade formal das de Reidy. Álvaro Vital Brazil & Adhemar Marinho: Residência (1935) (Conduru: 2000, 53) As semelhanças com a Villa Savoye, tomada como modelo, são francamente evidentes. No entanto, tantas foram as concessões que foi obrigado a fazer para obter seu intento, que o resultado é pateticamente infeliz em termos de funcionalidade, estética e lógica construtiva. Affonso Eduardo Reidy: Escola Primária Rural Coelho Neto ( 1934) (Bonduki: 2000, 44-45) Essencialmente, neste projeto, foram utilizados os mesmos elementos da linguagem arquitetônica das casas citadas acima. Aqui, porém, as restrições orçamentárias exigiram maior comedimento formal, obrigando a modulação da estrutura e a menor variedade nas dimensões dos vãos. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 141 Jorge Machado Moreira: Edifício em 3 pavimentos para a Construtora Baerlein ( 1933) (Czajkowski: 1999, 64,65) Era praticamente a sobreposição, de uma casa, cuja composição seguia o partido ensinado por Warchavchik. Neste projeto, encontram-se esquadrias e elementos volumétricos a formar varandas ou acessos do mesmo modo como apareciam nas casas modernistas do Pacaembú. Jorge Machado Moreira: Edifício para Thérèse Vilain Alves (1933). (Czajkowski: 1999, 68-69) Jorge Machado Moreira: Edifício em 5 pavimentos para a Construtora Baerlein (1933) (Czajkowski: 1999, 66-67) Aparecem alguns elementos doutrinários da “Nova Arquitetura”: o pilotis, a estrutura independente, a planta livre e a janela em fita. Todos estes elementos só se viabilizaram nesses projetos em função da estratégia adotada para a resolução da estrutura e a articulação desta com as alvenarias que definem as plantas dos apartamentos. A estrutura obedeceu a uma trama de dois vãos iguais definidos por três linhas de colunas no sentido da maior dimensão do terreno, enquanto na outra direção os vãos se repetiam regularmente De tal modo a planta se superpunha à estrututra, que é difícil afirmar se esta determinava aquela, ou vice-versa. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 142 Lúcio Costa: Residência Ernesto Fontes (1930) (Costa: 1995, 55-66) A “conversão” de Lúcio pode ser perfeitamente localizada no tempo. Deu-se exatamente em 1930, enquanto trabalhava no projeto da Casa Ernesto Fontes. Lúcio chegou a desenhar duas versões desta casa segundo a estética neocolonial, que chamou de “Última manifestação de sentido eclético-acadêmico”. A seguir, fez a “Primeira proposição de sentido contemporâneo” para o mesmo serviço” (Costa: 1995, 55). Lúcio não revela a reação do cliente a esta sua reviravolta conceitual, mas a fotografia da casa executada mostra a segunda versão “eclético-acadêmica” e não a versão “contemporânea”. Nesta sua primeira já fazia uso de colunas de concreto esbeltas segundo uma trama regular em planta; as paredes eram finas placas de separação de ambientes, muito diferentes das pesadas alvenarias das versões neocoloniais anteriores; mas é curioso notar, nas perspectivas de interiores, o uso predominante de móveis tradicionais. Lúcio Costa: Monlevade (1934) (Costa: 1934, 91-99 Acentuando o caráter de recesso deste período, teve rejeitado o projeto que enviou para o concurso da Vila Monlevade, próxima a Sabará, MG, para a Companhia Belgo-Mineira S. A., em 1934 CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 143 Lúcio Costa: Casa sem Dono 1 (1933) (Costa: 1995: 84, 89) O arranjo dos compartimentos seguia a distribuição tradicional, com a sala no térreo e parte íntima no segundopavimento. O que seria o pilotis, não passava de uma varanda aberta, na qual a estrutura aparente conferia ao espaço um caráter “moderno”. Lúcio Costa: Casa sem Dono 2 (1933) (Costa: 1995: 84, 89) Todo o programa da casa foi resolvido no segundo pavimento. O térreo ficou livre – um autêntico pilotis – mas seus espaços eram indefinidos. Aparecia um terraço-jardim no segundo pavimento, adjacente a um dos quartos. A planta, de contorno irregular permitia a formação de um vazio no trecho central, com caráter de prisma de ventilação e iluminação. Lúcio Costa: Casa sem Dono 3 (1933) (Costa: 1995: 84, 89) Os acessos ao pavimento superior se davam a partir de um par de escadas simétricas que partiam do pátio, enfatizando o caráter do mesmo como centro da composição. Estas escadas, inspiradas nas escadarias de acesso aos adros de algumas igrejas barrocas, inauguravam a introduçào de elementos tradicionais brasileiros na linguagem da “Nova Arquitetura”. Igreja de Nosso Senhor de Bom Jesus de Matozinhos Congonhas do Campo, MG CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 144 Dos três projetos classificados para a segunda fase do concurso – Pax, de Archimedes Memória, Minerva, de Rafael Galvão e Mário Fertim e Alfa, de Gérson Pompeu Pinheiro, apenas o terceiro tinha alguns elementos do vocabulário moderno: No acesso e ao redor do pátio central, no térreo, havia colunas cilíndricas desprovidas de ornamento, sugerindo um pilotis. O efeito se perdia, no entanto, em decorrência do fechamento total das paredes periféricas. A obstrução da visão decorrente deste fechamento conferia ao edifício projetado o mesmo caráter de pesada massa monolítica dos dois demais finalistas. Nesses três projetos, a implantação dos blocos edificados ao longo dos alinhamentos dos quatro logradouros seguia rigorosamente os preceitos do Plano Agache, como era estabelecido no Edital do Concurso. Acentuava-se, assim, a característica de bloco maciço e ratificava-se a idéia de rua corredor, de acordo com o desenho urbano previsto para a Esplanada do Castelo. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 145 40 Jorge Machado Moreira & Ernai Vasconcellos: Projeto de Concurso para Sede do MESP (1935) (Czajkowski: 1999, 90-91) O conceito de planta livre estava presente, levado ao extremo nos pavimentos de escritório, nos quais não havia qualquer obstáculo a limitar o arranjo interno. Ainda assim, as divisões sugeridas respeitavam a modulação estrutural. Afonso Eduardo Reidy: Projeto de Concurso para Sede do MESP (1935) (Bonduki: 2000, 50-51) Nas faixas destinadas aos gabinetes de trabalho, Reidy afastou os pilares da fachada. Esta disposição seguia o modelo da Villa Savoie e antecipava o partido que viria a ser adotado nas soluções posteriores do MESP, inclusive as finais. As paredes apareciam como simples divisórias, em posições inteiramente desvinculadas das linhas de eixo da estrutura. Lúcio Costa, Carlos Leão, Jorge Machado Moreira, Affonso Eduardo Reidy, Oscar Niemeyer e Ernani Vasconcellos: Projeto para a Sede do MESP (1936) (Czajkowski: 1999, 92-93) Não é de surprender que a equipe tenha se sentido insegura com sua proposta. Sua rigidez era incontestável. Contribuíam para isso a rigorosa simetria, da composição, a pouca inventividade dos tratamentos das fachadas, até mesmo o respeito, ainda que parcial, aos alinhamentos previstos no Plano Agache. O esforço no sentido de copiar um modelo, que imaginavam era o do mestre Le Corbusier, se mostrou ineficaz. O racionalismo exacerbado e a falta de intimidade com a linguagem que queriam explorar, mostravam a imaturidade da equipe. Face a estas constatações, a vinda de Le Corbusier não seria apenas conveniente, tornara-se indispensável para ajudar a enterrar a “múmia”, como seus própios autores passaram a chamar o projeto. O apelido se justificava: além da rigidez e do aspecto de corpo enfaixado, já era dada como morta pelos arquitetos, apesar de agradar ao ministro. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 146 Le Corbusier: Palácio do Centrosoyus – Moscou (1929) (Boesiger & Ginsberger: 1967, 100-103) Os projetos se referenciavam fortemente ao Palácio do Centrosoyus em Moscou (1929), de Le Corbusier, que por sua vez era uma versão formalmente depurada do Palácio para a Liga das Nações (1927-28), também dele. Para Le Corbusier, estes projetos (Liga das Nações e Centrosoyus) representavam praticamente a culminância de um processo de desenvolvimento de uma linguagem, iniciado pelo menos 20 anos antes, com as Casas Dominó (1914), e que, para ele, já dava mostras de esgotamento. Ao passo que para os jovens arquitetos brasileiros eram as primeiras incursões numa expressão arquitetônica que ainda não dominavam. Le Corbusier, como foi dito acima, fez dois projetos para o MESP. O primeiro, em terreno de sua escolha, à beira-mar, de frente para a Praia de Santa Luzia, perto de onde hoje está o Aeroporto Santos Dumont. O segundo, menos desenvolvido, foi feito para o local atual. Os projetos tinham muitas semelhanças, sendo o segundo, uma adaptação do primeiro a um novo (antigo) terreno. Le Corbusier: MESP no terreno da Praia de Santa Luzia (1936) (Harris, 1987,87) Le Corbusier abordou o problema do edifício de forma totalmente diferente daquela dos brasileiros. Ele elevou o edifício à categoria de monumento e o projetou de fora para dentro. A frontalidade, inexistente naquele projeto experimental, aqui se mostrou fundamental, para que o edifício marcasse definitivamente o local, como convinha a um monumento. Nesse procedimento, não hesitou em adotar uma importante recomendação de Camilo Sitte, a quem desprezava, relativa à disposição dos monumentos e chafaris. Elegeu os elementos do programa que deveriam merecer destaque – o auditório e a sala de exposições – e que pudessem, de alguma maneira se destacar da massa que lhes serviria de pano de fundo. A própria disposição do edifício no terreno foi usada no intuito de acentuar sua monumentalidade. As duas linhas de pilares projetadas no bloco principal foram dispostas afastadas das fachadas, de tal maneira que uma delas coincidisse com as paredes das circulações, deixando a outra dentro da faixa em planta destinada aos gabinetes. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 147 Le Corbusier: MESP no terreno da Esplanada do castelo. (1936) (Lissovki & Moraes de Sá: 1996, 115-122) O projeto para o terreno do Castelo foi feito em apenas dois dias. O bloco principal foi encurtado no comprimento e acrescido de alguns pavimentos, de modo a manter a área total exigida no programa. Para provocar o efeito da monumentalidade, este bloco foi posicionado junto a uma das ruas, garantindo-se, assim a distância necessária para que o conjunto pudesse ser observado em sua totalidade do extremo oposto da esplanada deixada livre à frente do edifício. O bloco mais baixo, destinado ao auditório e ao salão de exposições, que na versão anterior era disposto atravessado em relação ao bloco maior, aqui foi disposto todo à sua frente, formando um L no canto da quadra. Nos demais aspectos, em essência os dois projetos eram iguais. Lúcio Costa, Carlos Leão, Jorge Machado Moreira, Affonso Eduardo Reidy, Oscar Niemeyer e Ernani Vasconcellos: Projeto para a Sede do MESP (1936) (Lissovski & Moraes de Sá: 1996, 128-132) Jorge Machado Moreira um relato, segundo o qual, Oscar, estando com ele no escritório, riscou um croquis da implantação, mas por timidez ou insegurança, atirou-o à rua, pela janela. Jorge, querendo ver o trabalho do colega, desceu ao térreo e o resgatou. Lá estava, em essência, a configuração que finalmente a edificação assumiria. A implantação proposta, que acabou sendo a definitiva, recuperava o caráter monumental do edifício. Isto só foi possível, localizando-se o bloco principal atravessadoortogonalmente no meio da quadra. Eliminava-se, assim, o efeito da rua-corredor e propiciava-se, por todos os lados, a distância necessária para que o edifício pudesse ser visto por inteiro mesmo por um observador muito próximo a ele. CAPÍTULO 2 – Por uma “Nova Arquitetura” brasileira 148 Lúcio Costa, Carlos Leão, Affonso Eduardo Reidy, Jorge Machado Moreira, Ernani Vasconcellos, Oscar Niemeyer: MESP (1936) Quando foi conscientemente abandonado o modelo formal arquetípico e o objetivo foi deslocado para o efeito dramático que a obra devia proporcionar, ou seja, quando a arquitetura foi abordada como o livre jogo de volumes sob a luz, enfim, quando foi solicitada da arquitetura que ela proporcionasse toda a poesia de que era capaz, finalmente a magia se tornou real. A implantação proposta, que acabou sendo a definitiva, recuperava o caráter monumental do edifício. Isto só foi possível, localizando-se o bloco principal atravessado ortogonalmente no meio da quadra. Para poder abrigar todos os gabinetes previstos no programa funcional, foi necessário aumentar até quase o dobro a largura em planta do bloco principal. O vão resultante exigiu a solução estrutural em três linhas de pilares (ao invés de apenas duas, como em todas as versões anteriores), sendo uma próxima de cada fachada e uma no eixo do bloco. Os arranjos internos sugeridos mostravam que a posição dos pilares centrais, ao contrário do que poderia parecer, não atrapalhavam o layout, mas ajudavam a definir a posição mais adequada para as circulações. O conforto térmico e lumínico foi resolvido abrindo-se para sul uma enorme curtain-wall (pele de vidro), associada a persianas internas; na fachada norte foram projetados brises-soleils horizontais móveis. A diferença de temperatura entre as fachadas sul e norte e os ventos dominantes vindos do mar garantiriam a permanente troca de ar no interior do edifício. A regulagem adequada das persianas, esquadrias e brises permitiriam a dosagem adequada de ar e luz. Jorge Machado Moreira trouxe para si a responsabilidade de desenhar alguns destes detalhes especiais. Com sua preocupação de conferir à obra toda a exatidão que a técnica poderia proporcionar, detalhou toda a fachada norte, incluindo os brises-soleil móveis e todas as partes molhadas – banheiros, copas e cozinhas. Acompanhou depois a execução dos mesmos no canteiro. O uso de todos os materiais e técnicas tradicionais, e mais o uso do granito cinza e rosa da Tijuca, aplicado nas fachadas, seguia orientação de Lúcio Costa CAPÍTULO 3 A “Nova Arquitetura” de Jorge Machado Moreira "J'ai tenté la conquète de l'Amerique par une raison implacable et par une grande tendresse que j'ai voueé aux choses et aux gens; j'ai compris chez ces frères separés de nous par le silence d'un ocean, les scrupules, les doutes, les hesitations et les raisons qui motivent l'état actuel de leurs manifestations et j'ai fait confiance a demain. Sous une telle lumière, l'architecture naitra." Le Corbusier Prologue Americain in Precisions sür un État Present de l’Architecture et de l‘Urbanisme, 1930; 1994, 19 (Tentei a conquista da América por uma razão implacável e por uma grande ternura que votava às coisas e às pessoas; compreendi, na terra desses irmãos separados de nós pelo silêncio de um oceano, os escrúpulos, as dúvidas, as hesitações e as razões que motivam o estado atual de suas manifestações, e confiei no seu amanhã. Sob uma tal Luz, a arquitetura nascerá.) Le Corbusier – Prólogo Americano CAPÍTULO 3 – A “Nova Arquitetura” de Jorge Machado Moreira 150 DEPOIMENTO1 Depoimento elaborado para a enciclopédia Contemporary Architects, Londres, St. James Press, 1980. 1 Iniciei minha vida profissional em 1932, integrado no movimento – do qual começara a participar ativamente como estudante – para implantação de uma nova arquitetura, conforme vinha ocorrendo em muitos países, como conseqüência da campanha mundial movida pelos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna, os CIAM, desde 1928. O movimento na Escola Nacional de Belas Artes, onde eu fazia o curso de arquitetura, teve início em 1931, quando Lúcio Costa nomeado diretor, empenhou-se em reformar o ensino, “implantando a nova maneira de conceber, projetar e construir”. Gregori Warchavchik, pioneiro da arquitetura moderna no Brasil, então contratado como professor, exerceu grande influência nos estudantes, contribuindo para seu interesse e entusiasmo pela iniciativa de Lúcio Costa. A vinda de Frank Lloyd Wright ao Rio de Janeiro, naquele ano, e a ação aqui desenvolvida, foi importante para consolidar esse movimento. 2 Concluído o curso, fui trabalhar numa companhia construtora. Senti imediatamente dificuldades para fazer arquitetura como passara a entendê-la. Decidi, então, subordinar minha permanência à liberdade de projetar. Aceita a condição, pude exercer a profissão como desejava, durante o tempo em que lá permaneci. A exigência de liberdade para projetar mantenho até hoje. Ela não traduz o propósito de impor meu ponto de vista. Procuro, através do diálogo como o cliente, achar a solução adequada que atenda às suas aspirações, sem contudo fazer concessões contrárias aos princípios que, como arquiteto, me cabem defender. Esse critério nunca foi motivo para abandonar um trabalho. Encontro sempre argumentos para justificar minhas opiniões, fazendo o cliente compreender que estou agindo em defesa de seus interesses. Em 1937 passei a ter meu escritório de arquitetura. 3 Na minha vida profissional tive o privilégio de conhecer pessoalmente Frank Lloyd Wright, Walter Gropius, Richard Neutra, Mies van der Röhe, Marcel Breuer, Kenzo Tange e Phillip Johnson. De maior significação, porém, foi o contato mantido com Le Corbusier, em 1936, quando veio ao Rio de Janeiro a convite do Ministério de Educação e Saúde. Teve grande importância o convívio, durante cerca de três semanas, que com ele tiveram os arquitetos do grupo encarregado de projetar o edifício do ministério, do qual eu fazia parte, e que influiu decisivamente em minha formação profissional. 4 Nos anos decorridos desde aquela época, nossa arquitetura tem sentido as conseqüências da evolução das condições sociais, políticas e econômicas do país, que se refletiram na maneira de exercermos a atividade profissional. Não influíram, entretanto, em meu modo de sentir a arquitetura e de considerar sua importância. Para mim, fazer arquitetura é idealizar a obra visando resolver, com intenção plástica, o problema proposto, de acordo com a época, os materiais e as possibilidades técnicas; analisando e considerando os fatores externos que nela influem; respeitando imposições e hábitos do meio; detalhando e articulando todos os elementos e buscando sempre a verdade, quanto à sua finalidade e função, tanto na forma como no uso dos materiais. Dou toda assistência à construção para que a obra seja realizada tal como a imaginara e, quando concluída, o cliente sinta seu desejo satisfeito e eu minha tarefa corretamente cumprida. Preocupo- me com a ambiência da obra projetada e sua significação no contexto em que será inserida; construída, passa a constituir um elemento da paisagem urbana, cuja harmonia deve ser assegurada. Por essa razão, todo arquiteto deve ter preocupação urbanística. De acordo com esse princípio, tenho procurado, através de uma participação bastante ativa, colaborar no estabelecimento de regulamentações e normas urbanísticas que estruturem a cidade e orientem seu desenvolvimento, sem prejuízo da paisagem natural e dos testemunhos materiais de sua história, cujos remanescentes nos cabe preservar. 5 Espero que lutas e decepções, próprias da vida profissional, nunca me façam esmorecer nem abandonar os ideais que me animam e sempre se atualizam, para melhor servir à arquitetura e à profissão, em qualquer atividade e em qualquer circunstância.Jorge Machado Moreira 1 Transcrito a partir de CZAJKOWSKI, J. P., org. Jorge Machado Moreira. Rio de Janeiro, Centro de Arquitetura e Urbanismo, 1999. Numeração de parágrafos não consta do original. CAPÍTULO 3 – A “Nova Arquitetura” de Jorge Machado Moreira 151 A rápida passagem de Le Corbusier pelo Rio de Janeiro, em 1936, deslanchou uma radical renovação na arquitetura que aqui se produzia. O impasse até então vivido pelos defensores da “Nova Arquitetura”, e que bloqueava seu desenvolvimento no Brasil, se caracterizava por um falso conflito entre a racionalidade implícita na nova doutrina e a necessidade de dar uma expressão genuína às obras que produziam. O caminho para a superação desse impasse já vinha sendo traçado por Lúcio Costa, mas foi preciso o aval e a ação catalisadora de Le Corbusier para que essa superação se procedesse. A influência de Le Corbusier na arquitetura brasileira – e por que não dizer, também no resto do mundo –, resultou não apenas da pura e simples aplicação dos princípios explícitos de sua doutrina. Isto os arquitetos brasileiros vinham tentando, sem obterem resultados satisfatórios em seus projetos. Era preciso ler nas entrelinhas e para isto o convívio direto foi fator fundamental. “Estar na equipe comandada por Le Corbusier era algo mais do que assistir aulas e palestras, participar de debates e seminários, era acompanhar um dos formuladores do racionalismo no desenvolvimento de projetos excepcionais por sua situação urbana, complexidade funcional e representatividade simbólica, observando as inflexões do pensamento corbusiano na aplicação dos princípios gerais da arquitetura moderna aos casos específicos do edifício ministerial e do campus universitário.” (Conduru: 1999, 17) Mais que isto, esta experiência permitiu àqueles que com ele conviveram, perceber os limites que a doutrina impunha e ao mesmo tempo conhecer na prática as estratégias através das quais esta mesma doutrina poderia ou deveria ser respeitada, superada ou simplesmente abandonada em função da busca das possibilidades estéticas que, afinal, permitem uma edificação superar sua condição de simples atendimento a um programa funcional para se elevar à categoria de verdadeira arquitetura. Alguns arquitetos brasileiros, talvez por seu próprio talento, ou por uma certa interpretação menos ortodoxa das doutrinas da “Nova Arquitetura”, antes mesmo da vinda de Le Corbusier em 1936, já produziam obras na quais revelavam expressões CAPÍTULO 3 – A “Nova Arquitetura” de Jorge Machado Moreira 152 originais e peculiares, sinalizando que a profecia do mestre, de fato, poderia se concretizar. “Sob uma tal Luz, a arquitetura nascerá.” (Le Corbusier: 1929 ap Santos et al.: 1987) Marcelo e Milton Roberto Destacam-se neste caso os irmãos Marcelo e Milton Roberto que, com dois projetos, ambos ganhos em concurso público, mostraram que já tinham atingido um considerável desembaraço no trato da linguagem da “Nova Arquitetura”, agindo, portanto, com ampla liberdade criativa. Estes projetos são a Sede da ABI (1935) (já referido anteriormente), anterior ao do MESP (1936), e o Terminal de Passageiros do Aeroporto Santos Dumont (1937), feito no mesmo ano das versões finais do MESP. Sem dúvida, nestes dois projetos, tanto o arranjo de planta, como o tratamento das superfícies externas evidenciavam uma grande inventividade, que ainda não se observava nos projetos dos arquitetos da equipe do MESP. Em ambos os casos a questão funcional e os “fatores mesológicos” foram as condicionantes principais para a configuração da composição arquitetônica. Na Sede da ABI, a exiguidade do terreno limitou as possibilidades volumétricas e plásticas. Mas não se pode ignorar a ousadia que representou o partido arquitetônico deste edifício. Nunca se tinha visto um edifício de escritórios cujo projeto, decorrendo essencialmente da prioridade dada aos fatores climáticos, invertia a posição das salas e das circulações. As salas, ao invés de se abrirem para a rua, foram colocadas nos fundos do prédio, com orientação menos sujeita à incidência do sol tropical, e as janelas se abrindo para a área coletiva no miolo da quadra prevista no desenho do Plano Agache para a Esplanada do Castelo. A circulação foi localizada junto às fachadas das ruas em esquina, protegidas do sol da tarde por lâminas fixas de concreto. As fachadas principais não tinham qualquer janela tradicional, o que conferia ao exterior um aspecto fabril insólito. CAPÍTULO 3 – A “Nova Arquitetura” de Jorge Machado Moreira 153 No Terminal de Passageiros do Aeroporto do Santos Dumont, sendo uma edificação maior e, a princípio, menos sujeita a restrições formais, foi possível fazer um projeto cuja volumetria era mais elaborada e a composição em geral era muito mais livre. Estavam presentes novamente as lâminas de concreto a proteger do sol da tarde na fachada da rua, voltada para o poente. Na fachada voltada para a pista de pouso, uma curtain-wall permitia que se descortinasse a ampla vista da própria pista, da Baía de Guanabara e das montanhas que a cercam. A adoção desse tratamento das fachadas não representava propriamente uma inovação, pois tinha sido adotada no ano anterior no projeto do MESP. Ainda com relação ao aspecto externo, a fachada com colunas de ordem gigante (dupla) se assemelhava bastante com a solução adotada no bloco de exposições do MESP, estando o primeiro teto apoiado por consolos ou cachorros engastados a meia altura nos pilares periféricos. A grande invenção introduzida no Terminal de Passageiros, foi a utilização dos pilotis internamente à edificação. Condicionados pelo programa, que exigia amplos espaços cobertos e abrigados para os passageiros, os Irmãos Roberto projetaram duas amplas galerias em pé-direito duplo, dispostas em cruz. Uma das galerias ficava disposta longitudinalmente em toda a extensão do edifício, com os balcões e lojas ao seu redor e a outra, perpendicular a essa, vazava o prédio desde a rua até a pista, configurando um saguão de dimensões monumentais. A ambiência assim criada tinha caráter ambíguo, sendo um espaço público, aparentemente aberto, praticamente uma praça, mas que ao mesmo tempo, sendo coberta, permitia abrigar e distribuir perfeitamente as lojas e as funções de embarque e desembarque dos passageiros. Tornou-se um modelo de aeroporto que foi depois copiado em outras cidades do Brasil em aeroportos de porte semelhante (Recife, Belém, Belo Horizonte). A utilização dos pilotis, pilares em ordem gigante (dupla) com a laje intermediária encachorrada, os brises-soleils, etc., foi, pouco a pouco, caracterizando um estilo específico da “Nova Arquitetura”, que viria a ser rotulado de Escola Carioca. A partir do início da década seguinte, quando passaria a projetar edifícios de maior porte e, posteriormente, em vários edifícios da Cidade Universitária da Ilha do Fundão, Jorge Machado Moreira viria a utilizar este vocabulário, trazido por Le Corbusier e CAPÍTULO 3 – A “Nova Arquitetura” de Jorge Machado Moreira 154 reinterpretado pelos arquitetos brasileiros. Se Frank Lloyd Wright desprezava os molhos com os quais dizia que os franceses estragavam os pratos simples e bons2, pode-se imaginar o que pensaria da exótica culinária brasileira e de seus molhos. Mas foi exatamente o tempero carioca que deu sabor e identidade a nossa arquitetura a partir de meados da década de 1930. Affonso Eduardo Reidy depois do MESP Entre aqueles que participaram da equipe do MESP, Reidy foi o primeiro a ter oportunidade de pôr em prática as lições recém aprendidas em 1936. Sendo funcionário da Prefeitura do Distrito Federal, eram constantes as demandas por novos equipamentos urbanos e edifícios para repartições públicas. Entre 1937 e 1939, projetou algumas obras nas quaisse notava claramente que as formas ainda um tanto rígidas dos projetos anteriores, adquiriram leveza, ao incorporar criteriosamente a gramática dos Cinco Pontos da Nova Arquitetura. Mesmo em prédios pequenos, como nos três Prédios de Apoio da Floresta da Tijuca, nas duas Sedes das Divisões de Viação e na Residência do Horto Florestal, lá estavam presentes os pilotis, a estrutura independente, a planta livre e as janelas rasgadas em fita. A semelhança destes projetos com a Villa Savoye é inequívoca. No entanto, não se observa nestes projetos o insucesso para o qual já foi chamada a atenção, do projeto de Vital Brazil e Adhemar Marinho na Residência de 1935. Naquele projeto, Brazil e Marinho partiram do modelo para chegar ao projeto, tendo atingido um resultado patético. Reidy parte da função que o edifício deve abrigar e, lançando mão da gramática moderna, chega a resultados de grande coerência arquitetônica. Comparados à experiência de Brazil e Marinho, estes projetos estão formalmente mais distantes do modelo em que se inspiram, mas se aproximam mais desse modelo do ponto de vista conceitual. Talvez isto se explique por sua crença 2 Ver epígrafe do Capítulo 1. CAPÍTULO 3 – A “Nova Arquitetura” de Jorge Machado Moreira 155 de que “uma forma arquitetônica é a exteriorização natural, espontânea da função do elemento que lhe dá razão.” (Reidy: 1938 ap Bonduki: 1999, 40) Uma demonstração mais eloqüente da inauguração de uma nova fase na arquitetura brasileira, via superação das contradições, conforme mostrado no início deste capítulo, se verifica na comparação das três versões de Reidy para a Sede da Prefeitura do Distrito Federal. O primeiro projeto é de 1932, o segundo, de 1934 e o terceiro é de 1938. O projeto de 1932 ainda tinha todos os elementos da linguagem de Warchavchik. Guardadas as proporções, reproduzia, em escala ampliada, o projeto de Jorge Machado Moreira para o Edifício de Apartamentos com 3 pavimentos feito para a Construtora Baerlein em 1933: blocos prismáticos maciços firmemente fincados ao solo, janelas em caixilharia regular e estética desprovida de ornamentos, estrutura de concreto coincidindo com as paredes divisórias internas. O projeto de 1934 lembra sua própria proposta para o Concurso do MESP. Descrever um deles em linhas gerais seria o mesmo que descrever o outro – a mesma disposição na quadra, o mesmo sistema construtivo, a mesma volumetria, inclusive a mesma rampa cilíndrica em uma das extremidades do bloco de acesso – versões levemente diferentes para programas similares. O projeto de 1938 era inteiramente diferente dos dois anteriores e, se a versão de 1934 para a Sede da Prefeitura era irmã do projeto do Concurso do MESP, o projeto da Prefeitura de 1938 é irmão gêmeo do projeto do MESP feito pela equipe chefiada por Lúcio Costa. Ressalvada a planta de situação, que levou o Projeto da Prefeitura a um partido de blocos paralelos (diferente do MESP, com partido volumétrico de dois blocos perpendiculares), de resto há tantas semelhanças que seria razoável alguém considerar equivocadamente que foram ambos criados pelo mesmo autor. Deve-se chamar atenção para o que talvez seja a única diferença notável, apontada acima, entre os dois projetos: a disposição dos blocos em paralelo. Tal disposição, exigiu a criação de um pátio interno entre o bloco principal e o de fundos, com a ligação entre os dois blocos sendo feita através de galerias laterais abertas. Trata- se da recriação dos pátios das fazendas de café na Região do Vale do Paraíba, CAPÍTULO 3 – A “Nova Arquitetura” de Jorge Machado Moreira 156 tanto no aspecto morfológico como no funcional. Em ambos os casos – no projeto de Reidy e nas fazendas de café –, a posição dos pátios é atrás do bloco principal e estabelece uma distância, portanto, com o bloco de fundos, determinando simultaneamente a prevalência hierárquica do bloco da frente em relação ao de trás. As galerias laterais intermediam a ligação entre os dois blocos e delimitam o pátio que, apesar de visitável, é muito mais um jardim para ser visto de fora – um contra- ponto ajardinado à massa edificada. Este é mais um elemento, entre muitos, que foram sendo acrescidos à linguagem da “Nova Arquitetura” na sua interpretação tropical. Jorge Machado Moreira utilizou estes pátios nos projetos da Faculdade Nacional de Arquitetura e no Instituto de Pediatria e Puericultura da Ilha do Fundão, dotando-os da mesma atmosfera. Carlos Leão os utilizou com extrema propriedade, freqüentemente, nos projetos de residências, entre os anos 1940 e 1960, como por exemplo na Residência de Hélio Fraga. Sérgio Bernardes e outros também os utilizaram – passou a ser um importante elemento de caracterização da expressão da casa brasileira moderna. Jorge Machado Moreira depois do MESP Enquanto na Europa a recessão econômica fazia escassear os projetos, por aqui, o clima de paz e relativa prosperidade era propício para as realizações dos jovens arquitetos brasileiros. Em 1937, Lúcio Costa, em meio a longa carta a Le Corbusier, escreveu: “Reidy está construindo pequenos prédios para a municipalidade – aqueles que você viu na PDF, e Moreira, você sabe – o ‘grande’ – constrói casinhas para os valorosos burgueses.” (Costa: 1937 ap Santos et al.: 1987, 184) As “casinhas para os valorosos burgueses” a que se referia Lúcio Costa, eram uma ou outra residência unifamiliar e os edifícios da Construtora Baerlein, na qual Jorge Machado Moreira continuou trabalhando até 1937, antes de passar a ter seu próprio escritório de arquitetura. As casas deste período não apresentavam novidades CAPÍTULO 3 – A “Nova Arquitetura” de Jorge Machado Moreira 157 fossem do ponto de vista estético como do construtivo, se comparadas àquelas feitas logo após a conclusão do curso da ENBA. A Residência Izabel Azevedo Alves Silva (1937), na Gávea, por exemplo, era tão austera quanto a Residência Fernando Lyra (1933), de quatro anos antes. Pelo menos em programas pequenos, Jorge Machado Moreira não dava mostras de ter incorporado em seu trabalho a maneira como Le Corbusier abordava um projeto. Ao contrário, ainda demonstrava forte apego à estética e às soluções construtivas ensinadas por Warchavchik. Quando se tratava de programas maiores, a coisa mudava de figura. No entanto, longe de fazer tudo que seu mestre mandasse, suas fontes de referência eram menos restritas do que, por exemplo, as de Reidy ou de Niemeyer a esta época, cujas respectivas linguagens arquitetônicas eram francamente derivadas da experiência do MESP. No Edifício Tapir (1939), que Jorge Machado Moreira projetou para um lote amplo no Flamengo, a influência de Le Corbusier podia ser percebida no uso do pilotis e no terraço-jardim, no qual o volume da caixa d’água sobre o terraço praticamente repetia o padrão do projeto do MESP, de dois anos antes. No entanto, a solidez do volume principal e o detalhe das varandas balanceadas, eram claras alusões ao bloco de alojamento da Bauhaus (1926) de Dessau de Walter Gropius, tema que já tinha sido utilizado pelo próprio Moreira em 1934, no Edifício Residencial para Armando Aguinaga. O sistema construtivo, baseado na estrutura independente de concreto aramado, confirmava, neste projeto, o partido adotado desde os primeiros edifícios sobre pilotis projetados antes de 1936, e que se tornou padrão em todas as suas obras de predominância vertical. Mais uma vez, neste projeto se observava o intercolúnio regular nas duas direções ortogonais da planta, as colunas à vista no térreo, porém embutidas nas alvenarias nos pavimentos. Naturalmente, este sistema exigia um enorme exercício cerebral para a conciliação das alvenarias com a estrutura, face a disparidade das dimensões dos compartimentos dos apartamentos - quartos salas, banheiros,etc. A função, entretanto, jamais parece ter sido inibida ou prejudicada pelo jugo estrutural e construtivo. O projeto do Edifício Tapir encerra, de certa maneira, uma primeira fase da carreira da carreira do arquiteto. Nesta fase, e desde os primeiros projetos, Jorge Machado CAPÍTULO 3 – A “Nova Arquitetura” de Jorge Machado Moreira 158 Moreira já tinha eleito sua maneira de tratar o sistema construtivo em geral e, particularmente a estrutura dos edifício, que iria sofrer apenas algumas alterações até o fim de sua carreira. Sua abordagem dos problemas técnicos advinha do racionalismo defendido pelos arquitetos germanófonos dos primeiros CIAM mas, estava presente de forma latente, desde seus trabalhos estudantis. É preciso ressaltar que a defesa da racionalidade feita pelos europeus acima referidos tinha como base de sustentação teórica a ideologia socialista, francamente identificada com o movimento comunista em curso na União Soviética3. Jorge Machado Moreira não tinha filiação partidária e ideologicamente estava mais próximo dos conservadores e dos socialistas utópicos, a exemplo de Le Corbusier. Suas ações em geral não eram pautadas por uma atitude partidária, muito menos ele se identificava com as esquerdas revolucionárias, ao contrário, por exemplo, de seu colega Oscar Niemeyer, que sempre se declarou comunista, e sempre viu o Partido Comunista Russo como o farol a iluminar o caminho da redenção da humanidade (ainda vê). A defesa do racionalismo, para Jorge Machado Moreira se enquadrava perfeitamente em sua visão de mundo e conduta ética, demonstrada no extremo respeito e consideração que sempre teve pelo “outro”, tanto no meio profissional como no meio familiar. Em família4, estava todo o tempo atento a problemas com os pais irmãos, cunhados e sobrinhos5, sempre pronto a colaborar, embora nunca dispusesse de grandes posses materiais. Alex Nicolaeff, em artigo já citado, destacou como sua visão ética presidia sua conduta profissional: “O mais simples dos mestres da moderna arquitetura brasileira foi uma figura sempre presente no cotidiano da profissão. Interessava-se por tudo que dizia respeito ao arquiteto, de estatutos de órgão de classe à participação nos problemas da cidade e do país. Externava esse senso coletivo, de responsabilidade social, através da participação no IAB e no Clube de Engenharia, onde era querido e respeitado por sua naturalidade, bom humor e conduta ética. Cidadão e arquiteto, Jorge 3 Este tema foi explorado no Capítulo 1 deste trabalho. 4 Depoimento tomado junto a seu irmão Roberto Machado Moreira, por telefone, em agosto de 2001. 5 O arquiteto foi casado, desde 1953 com Giusepina Pirro Moreira, mas não teve filhos. CAPÍTULO 3 – A “Nova Arquitetura” de Jorge Machado Moreira 159 Moreira espelhou sua obra nos conceitos romanos de “caráter” e “decoro” recomendados no texto de Vitrúvio.” (Nicolaeff: 1993) Sua defesa do racionalismo se fundamentava, portanto, em sua visão de mundo humanista, rebatida nas bases éticas que aplicava à profissão e na crença inabalável de que esta seria o instrumento para a transformação da sociedade: “O arquiteto é um exemplo de artista filiado à vertente construtiva da arte moderna, não só por sua adesão à forma pós-cubista abstrata e racional, mas também por sua crença na possibilidade de transformação social com a nova ordem plástica, e por sua atuação profissional comprometida como bem público. Intervindo socialmente e projetando desde bairros e edifícios até móveis e utensílios, seguiu o ideal construtivo de transformar com a boa forma o ambiente da vida.” (Conduru: 1999, 14) A relevância que dava à racionalidade no trato das questões da profissão, é reconhecida por ele próprio em seu Depoimento: “Para mim, fazer arquitetura é idealizar a obra visando resolver, com intenção plástica, o problema proposto, de acordo com a época, os materiais e as possibilidades técnicas; analisando e considerando os fatores externos que nela influem; respeitando imposições e hábitos do meio; detalhando e articulando todos os elementos e buscando sempre a verdade, quanto à sua finalidade e função, tanto na forma como no uso dos materiais.” (Moreira: 1979 ap Czajkowski: 1999, 12-13) A síntese que fez de seu ofício, acima, não denuncia a preferência ou escolha arbitrária de um determinado estilo arquitetônico. Conduru chama a atenção para esta forma dissimulada que Moreira usou para defender a neutralidade de suas escolhas pessoais, mas a contesta: “A despeito de suas escolhas formais por demais evidentes, não há menção ao léxico plástico racionalista. Contudo, a “verdade” a que se refere é a verdade do racionalismo, cuja causa abraçou e tornou sua. Assim, essa conceituação é uma profissão de fé no ideal da arquitetura racionalista de conciliar funcionalismo prático, fins sociais, novos materiais e técnicas de construção, linguagem a-histórica e universal.” (Conduru: 1999, 22) O discurso de Moreira se aproximava, aqui, definitivamente daquele dos germanófonos dos CIAM, e particularmente de Hannes Mayer, que entendia que “construir não é um processo estético. Construir é apenas uma organização: social, CAPÍTULO 3 – A “Nova Arquitetura” de Jorge Machado Moreira 160 técnica, econômica, psíquica.” (Mayer: 1928, ap Droste: 2001, 190). Daí decorre todo seu empenho no sentido de atribuir sempre a seus projetos o caráter de produto industrial; objeto resultante de uma montagem racional, cuja seqüência seria facilmente perceptível. Estas características, as que dizem respeito aos aspectos técnicos e construtivos, se delineiam desde os primeiros projetos feitos profissionalmente. Não seria errado afirmar mesmo que desde os tempos de estudante, ainda na ENBA, estas características já estavam presentes. Tomemos como exemplo seu projeto para uma Residência (s/d), publicado em A Casa (ap Czajkowski: 1999, 37). Neste projeto já estão presentes algumas características do modo de projetar de Jorge Machado Moreira, que iriam se consolidar muito em breve. O estilo desta Residência a aproxima dos chalés, então em moda, muito diferente das formas puras prismáticas preconizadas pelos defensores da “Nova Arquitetura”, que viria a adotar em futuro breve. Chama a atenção, neste projeto, a economia de recursos empregada para conciliar a questão funcional com a construtiva. A planta “resolve” eficientemente o programa, estabelecendo hierarquias claras. Mas sobre esta planta não é preciso alongar os comentários, pois não apresenta novidades expressivas em relação ao que era prática corrente. Chama a atenção a simplicidade da geometria das alvenarias, dispostas regularmente, revelando desde muito cedo, ainda como estudante de arquitetura, as preocupações com a racionalização dos processos construtivos, a exatidão do dimensionamento e a perfeita inter-relação entre as partes entre si e entre as partes com o todo. Em outro projeto, ainda dos tempos de estudante – Edifício para Renda (s/d) (ap Czajkowski: 1999, 39) – o entendimento lógico da questão construtiva aparece, para se estabelecer definitivamente, daí por diante, como primordial na concepção de sua arquitetura. A composição das fachadas, nas quais só figuravam formas retangulares, revela que a esta altura, alguma coisa já havia mudado em sua visão de mundo. Ainda que de forma incipiente e experimental, é possível notar a presença da influência neoplástica na composição das superfícies externas. A planta e a estrutura se articulavam intimamente, através de um sistema de malha regular de eixos, sobre a qual se superpunham as vigas e as alvenarias. A solução CAPÍTULO 3 – A “Nova Arquitetura” de Jorge Machado Moreira 161 estrutural era decorrente de sua preocupação em explorar as possibilidades do concreto armado, consciente da necessidade de adotar umasolução simples e repetitiva, que visaria, em última instância, uma hipotética obra perfeitamente racionalizada. A mudança radical de estilos de um projeto para o outro, demonstra o quanto pode ser arbitrária uma escolha estética. O arquiteto permeou os dois projetos com o mesmo tipo de preocupação construtiva e os mesmos critérios de racionalidade, e os aplicou a sistemas construtivos e concepções estéticas inteiramente diferentes – a Residência, um chalé em alvenaria autoportante e o Edifício para Renda (quase) neoplástico em estrutura de concreto armado. Se a eleição do estilo foi arbitrária, seu entendimento da edificação como objeto técnico a ser produzido racionalmente fazia parte de um conjunto de convicções mais enraizadas. Esta não seria a única vez que Jorge Machado Moreira faria mudanças radicais em suas opções estéticas sem nunca abrir mão, no entanto, da mesma abordagem construtiva. O extraordinário nesta mudança é notar, no discurso do arquiteto, que até mesmo uma atitude tão arbitrária como a opção estética, ganha uma dimensão através da qual ela pode se encaixar na lógica funcionalista que está sempre presente em sua carreira e que lhe é peculiar. Se observarmos com atenção a sentença de seu Depoimento “Para mim, fazer arquitetura ...”, transcrita acima, ela é válida tanto se for aplicada ao projeto da Residência-Chalé, como também ao Edifício para Renda. O que faz esta afirmação permanecer válida tanto para um projeto como para o outro, é a referência que faz, no texto, aos fundamentos básicos inquestionáveis da arquitetura, enunciados por Vitrúvio, séculos atrás (firmitas – utilitas – venustas), aqui atualizados para “materiais e possibilidades técnicas” – “problema proposto, fatores externos, imposições e hábitos do meio” – “intenção plástica”. Se estes são os fundamentos permanentes da arquitetura, por outro lado, a chave para se admitir sua mudança reside essencialmente em duas expressões desta mesma sentença, que são: “de acordo com sua época” e “buscando sempre a verdade”. Incluindo estas expressões em seu discurso, Jorge Machado Moreira automaticamente admite que cada época tem sua verdade arquitetônica, seja ela determinante da questão construtiva, funcional ou estética. A radical mudança estética que se processa entre CAPÍTULO 3 – A “Nova Arquitetura” de Jorge Machado Moreira 162 a Residência e o Prédio para Renda se deve unicamente ao fato do autor destes projetos ter percebido, no curto período de tempo decorrido entre um e outro, que o projeto da Casa não representava mais “a verdade” de “sua época”. Nos demais momentos em que ocorreram outras mudanças estéticas em sua carreira, elas se deveram unicamente a interpretações funcionalistas das questões estéticas, similares a que se operou na transformação aqui em foco. O despudor com que Jorge Machado Moreira trocou de estilo, assim como se troca de roupa, foi o mesmo que permitiu a Affonso Eduardo Reidy e Lúcio Costa, entre outros, proceder da mesma maneira, bandeando-se para as fileiras da “Nova Arquitetura”. Resultava simplesmente da tomada de consciência de que novos tempos estavam a exigir uma nova arquitetura e esta já estava ali, pronta para ser convenientemente antropofagizada. O catalisador desta reviravolta foi Warchavchik, munido do discurso incendiário e aliciante dos CIAM, e tendo o sinal verde dos intelectuais da vanguarda artística brasileira disponíveis para avalizar a absorção da novidade. Na interpretação do discurso dos CIAM, com a adoção de novas técnicas e materiais de construção, veio a reboque a estética dos arquitetos que praticavam e defendiam a “Nova Arquitetura” naquele foro. Era, portanto, mais que lógico que os projetos de Gropius, Mayer, Stam e outros germanófonos, fundamentados no discurso e nas experiências artísticas neoplásticas, fossem vistos por Moreira e seus colegas, a princípio, como referências estéticas “verdadeiras”. Não há outra explicação para a adoção imediata das imagens e do repertório da arquitetura alemã nos projetos de Reidy e de Moreira até 1936 e mesmo após esta data e até finais da década de 1930, por Jorge Machado Moreira. É o que se vê, por exemplo, nos projetos do Edifícios de Apartamentos para Armando Aguinaga e do Edifício Tapir, como já assinalado. No discurso de Gropius, os fundamentos explicitados por Vitrúvio sofriam uma subversão, que resumia sua doutrina (Gropius ap Maxwell: 1978, 14). Pelo seu entendimento, a formulação dos fundamentos arquitetônicos de Vitrúvio seria basicamente: Firmitas + Utilitas + Venustas CAPÍTULO 3 – A “Nova Arquitetura” de Jorge Machado Moreira 163 Mas, segundo seu entendimento deveria ser modificada para: Firmitas + Utilitas = Venustas O esquema faz crer que a beleza seria o resultado inevitável da boa técnica construtiva aplicada a uma solução de planta eficaz. Esta formulação se adapta perfeitamente à postura funcionalista de Jorge Machado Moreira. Poderia se dizer, até, que ele não foi em busca da “Nova Arquitetura” ou de qualquer arquitetura mas, ao contrário, a “Nova Arquitetura” veio até ele que, naquele contexto, estava absolutamente receptivo. Ele e os demais brasileiros que adotaram a nova ideologia e o novo léxico arquitetônicos. Para estes, não foi preciso percorrer os árduos caminhos trilhados pelas vanguardas européias, combatendo contra os reacionários acadêmicos. Quando chegou sua vez de fazer suas escolhas, foi-lhes oferecida farta munição já pronta. Faltava entendê-la e processá-la, como, de fato, foi feito. Oscar Niemeyer depois do MESP A presença de Le Corbusier em 1936 foi, realmente decisiva. Para os demais membros da equipe do MESP, os efeitos deste contato foram imediatos, como o que foi descrito com relação a Reidy. Não foi menos rápido em relação a Niemeyer, Lúcio Costa e Carlos Leão. Mas, nos projetos de Jorge Machado Moreira essa influência só seria perceptível a partir de alguns anos depois, no início da década de 1940, quando ele começou a buscar entre clientes institucionais oportunidades para desenvolver projetos de maior porte e relevância social. Era maior entre os clientes institucionais a aceitação da “Nova Arquitetura”. Bruand destaca, a este respeito o que segue: “Verifica-se, portanto, que ao final da Segunda Guerra Mundial, quando a nova arquitetura brasileira passou a ser conhecida no exterior, obtendo uma imediata consagração, ela tinha a seu crédito um certo número de realizações de primeira ordem; havia superado a fase de experiências e afirmava-se como um movimento autônomo, decorrente da ação teórica e prática de Le Corbusier, mas que havia encontrado uma expressão pessoal, distinta de tudo que até então se fazia. ... CAPÍTULO 3 – A “Nova Arquitetura” de Jorge Machado Moreira 164 durante essa primeira fase, quase todas as oportunidades significativas que os partidários de nova arquitetura tiveram para afirmar-se foram propiciadas pelas autoridades públicas federais ou municipais ou por entidades paraestatais, o que explica certos traços característicos dessa arquitetura.” (Bruand: 1969; 1997, 114) As características a que Bruand se refere são a monumentalidade e a importância que se dava aos problemas formais nas obras realizadas. Estas características estão associadas à visibilidade das obras, seja pela localização das mesmas, normalmente em locais de grande movimento de pessoas, seja pelo desejo do administrador ou político que as promoveu de usá-las como instrumento de divulgação de sua ação pública. A partir da polêmica que sucedeu o concurso para o MESP e a posterior execução da obra segundo conceitos inovadores, alguns políticos e administradores públicos perceberam a carga simbólica que a “Nova Arquitetura” continha, associando-a aos conceitos de modernidade e de brasilidade. Na difusão destes conceitos, contavam com o apoio das vanguardas