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Lemony Snicket - Autobiografia Nao-Autorizada - Livro 01

Introdução de Lemony Snicket: Autobiografia Não Autorizada (tradução de Ricardo Gouveia). Apresenta carta do representante Daniel Handler, narrativa sobre uma comunicação dos editores, trechos do diário de um porteiro que menciona "Snicket" e o início de um episódio sobre um jantar num clube.

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LEMONY SNICKET: 
AUTOBIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA 
Tradução de Ricardo Gouveia 
 
 
INTRODUÇÃO 
de 
DANIEL HANDLER 
 
NA POSIÇÃO DE REPRESENTANTE OFICIAL DE Lemony Snicket para todos os 
assuntos legais, literários e sociais, muitas vezes sou solicitado a responder perguntas 
difíceis, mesmo quando estou com pressa. As perguntas que tenho ouvido com mais 
freqüência nos últimos tempos são: 
 
1. Quer fazer o favor de sair do meu caminho? 
 
2. De onde veio Lemony Snicket: autobiografia não autorizada, de Lemony 
Snicket? 
 
As respostas a essas perguntas são histórias muito longas, e só há espaço aqui para 
responder a uma delas. A origem da Autobiografia não autorizada é um tanto quanto 
críptica — uma palavra que aqui significa "enigmática" —, mas a história começa com uma 
carta que recebi recentemente dos editores deste livro. 
 
Caro Sr. Handler, começava a carta, 
 
Entramos em contato com o senhor, representante oficial de Lemony Snicket para 
todos os assuntos legais, literários e sociais, em razão de um assunto muito enigmático — 
uma palavra que aqui significa "misterioso" — que capturou nossa atenção. 
Tudo começou há não muito tempo em nossa sede. Como o senhor talvez possa se 
lembrar, nossa sede está localizada em um alto e imponente edifício, com um amplo e 
imponente saguão onde um imponente porteiro de meia-idade, que usa um casaco de 
tamanho exagerado para ele, fica em pé à entrada, para encaminhar os visitantes ao 
elevador. Naquele dia em particular, o porteiro de plantão era um homem que por vinte e 
sete anos vinha mantendo um diário acurado, onde anotava cada detalhe de sua vida com 
caneta esferográfica ou, na falta dela, já que não havia papelaria por perto, com um 
pedacinho de carvão. Ele escolhera trabalhar no saguão do edifício onde ficava nossa sede 
na esperança de que publicássemos seu diário. Sempre que pessoas da editora entravam no 
edifício, o porteiro as saudava com um sorriso e um aperto de mão, e então enfiava 
furtivamente entre as mãos do interlocutor algumas páginas de seu diário, esperando que 
fossem lidas, e que, de porteiro, fizessem-no autor. 
Certa manhã olhei para as folhas amarrotadas e sujas de carvão que ele me dera, e 
uma palavra me chamou a atenção: 
 
SNICKET 
 
Como você pode imaginar, todos nós da editora estávamos bastante preocupados 
com Lemony Snicket desde que seu obituário fora publicado n'O Pundonor Diário. É claro 
que só porque você lê alguma coisa impressa em uma página, isso não significa que ela seja 
verdadeira, mas ainda assim estávamos aguardando alguma notícia sobre Lemony Snicket e 
seu trabalho no caso Baudelaire, portanto imediatamente desamassei as folhas do diário e as 
li, enquanto o elevador me levava até o escritório. 
 
Querido Pecuário, começava o diário, continuou a carta, 
 
Hoje foi um dia muito frio e pungente, tão frio e pungente quanto uma taça de 
chocolate quente, se à taça de chocolate quente tivessem acrescentado vinagre, e se ela 
tivesse sido posta na geladeira por várias horas. Fora o tempo, o dia estava tão normal 
quanto um bando de focas aladas passeando de monociclo, se você mora em algum lugar 
onde isso é normal, até que uma pessoa misteriosa — uma palavra que aqui significa 
"arcana" — entrou pela porta giratória. 
A pessoa misteriosa era uma mulher, pelo menos tão alta quanto uma cadeira 
pequena e provavelmente tão velha quanto alguém que freqüentou a escola maternal muitos 
anos atrás. Estava totalmente vestida com peças de vestuário, e nada trazia nos pés a não ser 
um par de meias e sapatos. Ela lançou um olhar desesperado pelo saguão do edifício, que 
estava tão vazio quanto uma colméia depois que as abelhas foram expulsas de lá, e então 
jogou um maço de papel nas minhas mãos e começou a falar numa voz que me lembrava 
nitidamente a voz dela. 
A mulher explicou que os papéis lhe tinham sido entregues por um estranho, que 
contou a ela a seguinte história: 
Em um dia muito frio, não faz muito tempo, um cavalheiro idoso conhecido meu 
me levou para jantar em um clube localizado em uma parte da cidade de que eu nunca 
ouvira falar. O cavalheiro idoso conhecido meu tinha sido membro do clube na época em 
que morou na cidade, por isso era sempre bem-vindo toda vez que fazia uma visita. O clube 
ficava em uma enorme e imponente mansão, pintada de verde e decorada com uma grande 
e imponente insígnia entalhada na porta. 
Não vai adiantar nada tentar descrever a insígnia — minhas habilidades 
redacionais são, em minha humilde opinião, simplesmente lamentáveis —, portanto tentarei 
reproduzi-la nesta página: 
 
 
 
O jantar foi delicioso, e o cavalheiro idoso conhecido meu parecia estar na melhor 
das disposições, muito embora me lançasse, de quando em quando, um sorrisinho furtivo, 
como se estivesse guardando algum rocambolesco — uma palavra que aqui significa 
"enredado" — segredo para a sobremesa. A sobremesa, no entanto, não era um 
rocambolesco segredo, mas um pudim rocambolesco. 
Depois do pudim, eu e o cavalheiro idoso conhecido meu nos retiramos para uma 
enorme e imponente sala de estar para saborear um licor, e o sorriso furtivo retornou ao seu 
rosto quando alguns cavalheiros idosos, que não eram conhecidos meus, juntaram-se a nós, 
claramente para algum tipo de reunião. Como eu não era membro do clube, me ofereci para 
sair, mas o cavalheiro idoso conhecido meu argumentou que a reunião poderia me 
interessar muito, por isso fiquei. Sem qualquer explicação, um dos cavalheiros idosos que 
não eram conhecidos meus tirou um maço de pergaminhos amarelados, amarrado com 
barbante, das dobras do sobretudo. Esse maço era ainda menos conhecido meu do que 
qualquer um dos cavalheiros idosos que não eram conhecidos meus, então aproximei minha 
cadeira para examiná-lo melhor e travar com ele algum conhecimento. O sorriso furtivo 
desapareceu do rosto do homem e, com alguma dificuldade, seus dedos, junto com a mão, é 
claro, desataram o barbante, e depois que o cavalheiro pigarreou e percorreu rapidamente 
com os olhos o grupo ali reunido, ele começou a falar, muito embora eu não tenha sido 
capaz de adivinhar se estava lendo a primeira página do manuscrito ou simplesmente 
falando conosco. Ele disse: 
"Membros do clube, honoráveis convidados e qualquer duquesa disfarçada que por 
acaso esteja aqui presente: hesito em contar-lhes a história de como este pacote de 
informações concernentes ao sr. 
 
SNICKET 
 
veio parar em minhas mãos. Todos sabem que um dos meios mais fáceis de despistar seus 
inimigos é inventar uma longa e mentirosa história sobre como alguma coisa chegou às 
suas mãos, passada por um desconhecido misterioso, ou como, tendo perdido aquela coisa, 
você recebeu uma carta, ou uma mensagem escrita em letra de mão ilegível, por meio de 
um aperto de mão. Assim, não vou lhes contar a seguinte história: 
Minha tia, que ou é uma mulher chamada Julie Blattberg, ou alguém cujo nome 
estou fazendo de conta que é Julie Blattberg, me deu uma pequena chave que destrancava 
uma caixa, que continha uma chave, que por sua vez destrancava uma outra caixa que 
continha as informações que constituem este livro, e me fez jurar que jamais permitiria que 
chegasse ao público, nem mesmo aos membros de algum abstruso — uma palavra que aqui 
significa críptico — clube privado, mesmo sendo eles associados dignos de confiança, que 
saboreiam um licor após o jantar..." 
 
Isso me lembra, continuava a carta, que eu também gostaria de tomar um licor. Por 
favor, me dêem licença um momento. 
 
Obrigado. Como estava dizendo, se eu fosse contar a vocês que a minha tia me fez 
prometer só entregar este pacote à minha sobrinha ou ao meu sobrinho — só que eu não 
tenho sobrinha nem sobrinho, e não acho que algum dia terei, considerando as erupções 
cutâneas do meu irmão —, não esperaria que vocês acreditassem, portanto não lhes 
oferecerei absolutamente nenhum tipo de introdução aesta autobiografia, a não ser por 
estas três afirmações: 
 
1. Este livro não aparenta ser uma falsificação, o que não quer dizer que a história 
seja verdadeira — somente que é contada com rigor. 
 
2. Que este livro procede do sr. Snicket é fato inquestionável, o que não quer dizer 
que não seja questionado por algumas pessoas. 
 
3. O livro é mais ou menos dividido em treze partes, cada qual com uma pergunta 
como título. Não se sabe ao certo se foi dividido pelo próprio sr. Snicket ou por algum 
outro membro do grupo, embora o sr. Snicket raramente freqüente grupos. As treze 
perguntas são as seguintes: 
 
 
 
 
Nota do Editor: 
Os treze capítulos de Lemony Snicket: autobiografia não autorizada podem ser 
lidos em qualquer ordem. 
 
 
Outra nota do Editor: 
Algumas fotografias deste livro foram tiradas por Julie Blattberg. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O PUNDONOR DIÁRIO 
"Todas as notícias em paroxismos impressos" 
 
Obituáríos 
Lemony Snicket, Autor e Fugitivo 
 
O falecimento de Lemony Snicket, autor de Desventuras em Série, as 
supostamente verdadeiras crônicas da vida das crianças Baudelaire, foi comunicado hoje 
por fontes anônimas e possivelmente não confiáveis. Sua idade era tida como "alto, com 
olhos castanhos". Não deixa herdeiros conhecidos. 
Nascido em uma fazenda de gado e não em um hospital, Snicket teve uma 
promissora carreira erudita, começando como crítico teatral — em todos os sentidos — 
deste Pundonor Diário, seguindo-se a isso a publicação de diversos tratados 
antropomórficos, uma palavra que aqui significa "relatórios longos demais". Esse período 
de realização profissional — e, ao que se alega, amor não correspondido — terminou 
quando foi divulgada a notícia de seu envolvimento com c.s.c. e se publicou nestas 
mesmíssimas páginas o escândalo decorrente da notícia. 
O sr. Snicket então se tornou um foragido da Justiça e, nas raras vezes em que 
era visto em público, estava sempre de costas. Diversas expedições de caça ao homem 
— e, devido a um erro tipográfico, de caça à mulher — se provaram inúteis. Finalmente as 
histórias dos Baudelaire e do sr. Snicket parecem ter chegado ao fim. 
Como ninguém parece saber quando, onde, como e por que ele morreu, não 
haverá serviço funerário. Um enterro talvez seja programado mais para o fim do ano. 
 
 
 
NOTA PARA ARQUIVO: 
 
Cheguei cedo e ainda tenho alguns minutos até o horário previsto para a chegada 
do Próspero, portanto achei que poderia escrever umas poucas notas com relação à notícia 
de minha morte, que foi alarmante, porém não verdadeira. Estou, às quatro e meia desta 
tarde, vivo, e muito certamente estava vivo no dia em que, sentado no Café Kafka, tomando 
o chá da tarde, li meu obituário no jornal. 
O Pundonor Diário nunca foi um jornal confiável: nem quando trabalhei lá, como 
parte de uma missão secreta, nem quando aquela repórter horrorosa começou a escrever 
sobre o caso Baudelaire, tampouco quando eles anunciaram uma liquidação de ternos 
alguns dias atrás, em uma loja que, ao que se viu, não vendia nada além de tapetes indianos. 
Diferentemente de um jornal confiável, que baseia suas matérias em fatos, O Pundonor 
Diário baseia suas matérias em insinuações, uma palavra que aqui significa "aquilo que 
dizem pessoas que procuram os jornais para contar coisas que não são necessariamente 
verdadeiras". 
A única coisa que provou ser verdade no meu obituário foi a última sentença, e na 
manhã de hoje vivi a curiosa experiência de comparecer ao meu próprio funeral. Para 
minha grande surpresa, uma considerável multidão prestigiou o evento — na maioria 
pessoas que acreditaram nas primeiras matérias sobre mim n'O Pundonor Diário, e queriam 
certificar-se de que um notório criminoso estava morto. A multidão estava muito quieta, 
mal se movia ou respirava, como se a notícia da morte de cada um deles tivesse sido 
publicada no jornal. Fiquei do lado de fora, escondendo o rosto embaixo de um 
guarda-chuva, enquanto meu caixão era carregado para um comprido carro preto, e o único 
som que pude ouvir foi um dic! mecânico de alguém tirando uma foto. 
As vezes, quando você está gostando muito de ler um livro, você começa a pensar 
tanto nas personagens e na história que se esquece do autor, mesmo que ele esteja em grave 
perigo e vá apreciar muito a sua ajuda. A mesma coisa pode acontecer quando se olha 
muito para uma fotografia. Você pode se concentrar tanto no que está retratado que se 
esquece de que alguém tirou aquela foto. Por sorte isso não aconteceu comigo, e prestei 
muita atenção na pessoa que empunhava a máquina no meio da multidão e que tirou a foto 
que você provavelmente tem neste arquivo. O fotógrafo está na sétima fileira da multidão, é 
o décimo segundo a partir da esquerda. Como você pode ver, a pessoa escondeu sua câmera 
atrás da décima primeira pessoa a contar da esquerda. É por isso que estou aguardando aqui 
neste porto nevoento, a fim de... 
O Próspero chegou, portanto vou parar de escrever e arquivar estas notas junto 
com a carta que escrevi tantos anos atrás ao professor Patton, na qual tratava de imprecisões 
com respeito a meu nascimento. Fico triste ao pensar que toda minha vida, do berço ao 
túmulo, está cheia de erros; o que me consola é saber que isso não vai acontecer com os 
Baudelaire. 
 
 
 
 
 
 
 
Dr. Charley Patton 
Professor Adjunto do Departamento 
de Música Popular 
Instituto Scriabin para Precisão na Música 
 
Prezado professor Patton, 
 
Foi com grande alívio que recebi sua carta com referência à balada popular 
"Snicket pequenininho". Como o senhor menciona, é uma das baladas mais populares da 
região, e muitas vezes, quando passei por teatros, hospedarias e armazéns, tive 
oportunidade de ouvi-la, geralmente acompanhada por um acordeom. Muito embora a 
melodia seja agradável, a canção não representa minha infância de modo satisfatório, e 
agradeço a oportunidade de finalmente corrigir as incorreções da letra. 
Por favor, perdoe a informalidade de minha resposta — simplesmente bati à 
máquina algumas breves observações sobre a letra que o senhor me enviou. No momento 
estou em meio aos preparativos de meu casamento, portanto não tenho tempo para o 
extenso e erudito relatório que costumo escrever em casos como esse. 
 
A primeira incorreção está logo na primeira linha: eu jamais nasci em uma fazenda 
de gado. Graças a "Snicket pequenininho", os boatos sobre meu nascimento me 
perseguiram durante toda vida — imagino que algum dia meu obituário também venha a 
alegar que nasci em uma fazenda de gado. O lugar onde nasci não é uma fazenda de gado. 
Como prova, ofereço uma fotografia do lugar, visto da margem do lago "bem mortal", 
congelado no inverno: 
 
 
 
Como o senhor talvez possa distinguir na fotografia, o Corajoso Sodalício 
Campestre Pecuário tem mais de trezentas vacas atrás de suas cercas, mas esses animais 
cedem apenas leite, não suas vidas. Pode parecer uma diferença pequena, mas não se você 
for uma vaca ou uma criança, como eu era, que não apenas nasceu em uma fazenda de 
laticínios (simplesmente porque meus pais pararam ali para comprar manteiga com alho na 
hora errada), como também fez amizade com os queijeiros que viviam no local. Esses 
queijeiros, cujos; nomes não vou revelar, continuam sendo associados muito próximos de 
toda minha família. É arriscado divulgar essa informação, mesmo para um erudito como 
você, mas, como parte de meu trabalho com os heróis dessa balada, eu freqüentemente 
tenho de fornecer informações secretas, que às vezes escondo em uma carta que começa 
com "Querido Pecuário". Se a carta for interceptada, será descartada como correspondência 
de algum queijeiro ou confundida com um fragmento de um "diário" grafado erroneamente. 
As demais incorreções no primeiro verso são bem menos importantes. Dizer que 
meu pai se chamava Jake não é bem verdade — ele era conhecidocomo Jacob por todos, 
menos por seu parceiro de longo tempo no bridge —, e como você provavelmente pode 
adivinhar, o verso que cita a estrada do Ladrão é invencionice. A estrada do Ladrão fica 
claramente do outro lado do condado, em relação ao meu lar de infância e ao Corajoso 
Sodalício Campestre Pecuário. Suspeito que o nome "estrada do Ladrão" tenha sido 
escolhido para enfatizar a natureza ladra do coro: 
 
 
 
Tentei sem sucesso encontrar a data de minha partida em um bom almanaque, mas 
não consegui confirmar que a lua estava de fato acinzentada naquela noite em particular. 
Pesquisar num almanaque é minha única chance de verificar essa alegação, já que eu 
mesmo não me lembro. Fui carregado para fora da cozinha pelos tornozelos, como é de 
costume, portanto estava virado para baixo, e não podia ver o céu, além disso, as janelas do 
carro tinham vidros escuros, portanto absolutamente tudo parecia cinzento quando fui 
levado de casa. 
 
 
 
Eu posso bem ter sido uma criança inteligente, se não especialmente vivaz, e como 
todos os bebês não amaldiçoados por sérias alergias, eu de fato bebia muito leite, mas a 
segunda metade da primeira metade do segundo verso é totalmente absurda. Meus pais 
jamais teriam se permitido luxos como berço de prata e fraldas de seda. A prova está aqui 
anexa. Esta fotografia me foi dada no automóvel, como prova de que os passageiros 
estiveram me "olhando". Agora a entrego ao senhor. 
 
Receio que a questão, a meu ver, mais importante não poderá jamais ser 
respondida, pois todas as pessoas que poderiam respondê-la, ou estão mortas, ou 
escondidas, ou são minhas inimigas. A questão é "quem tirou essa foto?". Minha mãe me 
fez a mesma pergunta quando voltou para casa naquele dia fatídico e encontrou a sua 
espera, não três criancinhas, mas um marido preocupado e duas xícaras de chá pela metade. 
 
 
 
Sempre me incomodou o fato de a canção implicar que fui levado embora ainda de 
fraldas. De fato, ouvi no Norte uma versão alternativa da balada, com a letra do coro como 
segue: 
 
 
Mas letras de música não provam nada: fotogra-fias sim. Há muito tempo eu não 
engatinhava mais. Se conseguir encontrar, vou colar neste papel uma fotografia minha com 
a idade em que fui levado. (Se não conseguir, vou colar uma fotografia de outra pessoa 
mais ou menos com a mesma idade.) 
 
 
 
 
 
No verso três: 
 
 
Isso é mais ou menos exato, para grande desgosto de minha mãe, que sempre quis 
ter atrasado sua investigação um pouco mais, e assim ter estado em casa naquele dia para 
dizer adeus. Meu irmão insiste em dizer que o deixaram terminar o chá antes de partir, mas 
isso tem sido contestado com o passar dos anos. 
 
 
 
Acaba de me ocorrer que "nunca mais" pode ser uma expressão muito forte. Uma 
versão exata do coro substituiria a expressão "nunca mais" pela palavra "raramente", se 
bem que isso não seria dramático o bastante. 
Finalmente, temos a Coda, uma frase musical que aqui significa "o verso final que 
deixou você tão perplexo": 
 
 
 
Isso é inteiramente exato. A única coisa que me ocorre acrescentar é que não 
consigo ver nenhuma razão para a Coda inteira estar entre aspas. 
Espero sinceramente que o senhor ache essas notas úteis para seu nobre trabalho. 
 
Respeitosamente, 
 
Lemony Snicket 
 
P.S. A partitura musical anexada pelo senhor está completamente incorreta — a 
melodia parece ser de um conhecido hino sobre um desastre naval. Se possível, vou gravar 
a música correta e enviar-lhe uma cópia em cassete. 
 
P.P.S. Creio não poder ajudá-lo com relação à outra balada mencionada pelo 
senhor. Vou conferir com K., mas não me lembro de ninguém chamado "Velho McDonald" 
no Corajoso Sodalício Campestre Pecuário, e não creio que I.A.I.A.O. se refira a qualquer 
tipo de organização secreta. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Caro Sr. Snicket 
 
Graças aos céus o senhor está vivo e relativamente bem! Na noite passada, 
quando cheguei ao Observatório Orion para proferir minha conferência anual para 
a Sociedade Meteorológica, vi alguém arrombando um jipe azul-marinho, 
estacionado no canto sudoeste do estacionamento, e meu coração deu um pulo: 
talvez houvesse uma chance de o senhor estar vivo. Eu não esperava ter certeza 
disso, até que um funcionário me entregou sua carta. Foi um risco terrível me 
contatar, mas fico feliz que o senhor o tenha corrido. Lamento muito não ter 
podido impedir, ou ao menos adiar, sua captura no meu baile de máscaras naquela 
noite. Saiba que andei doente de preocupação durante todos esses anos em que 
esteve morto, a despeito dos rumores sobre suas atividades que se espalhavam 
pela rede de membros leais. Não restaram muitos de nós, sr. Snicket, mas estamos 
prontos a ajudá-lo do melhor modo que pudermos. 
Não posso, no entanto, ajudá-lo a responder a pergunta que o senhor me 
fez naquele papel de chiclete. O baile de máscaras foi o último evento público ao 
qual os membros da organização se atreveram a comparecer juntos, portanto, se 
um deles escondeu alguma coisa no quarto de hóspedes, deve ter sido naquela 
noite, provavelmente enquanto serviam a salada, quando o barão Van de Wetering, 
fantasiado de carvalho, distraiu a todos fingindo que havia um tigre debaixo da 
mesa. Após o desastroso final da noitada, não ousei chamar a atenção dos policiais 
para os pertences do senhor que eles se esqueceram de confiscar — eles poderiam 
ter deduzido que o senhor estava presente na festa, o que tornaria as coisas ainda 
piores para todos nós. 
Oh, sr. Snicket, tudo o que o senhor deixou na minha casa se foi. Sua roupa 
de toureiro se foi juntamente com todos os outros disfarces que confiou a mim: a 
falsa perna de pau, a caixa de perucas e aquele terno estranho que lhe permitiu se 
passar por uma cômoda. Sua máquina de escrever também se foi, assim como o 
acordeom azul-claro, que, pelo que me lembro, o senhor disse ser o seu terceiro 
favorito. Tudo naquele quarto de hóspedes se foi, e tudo no quarto de hóspedes 
vizinho também. Beatrice, é claro, está longe de reclamar bens perdidos — a 
mesma razão, estou certo, por que o senhor dedicou sua vida a pesquisar as vidas 
daquelas três pobres crianças. 
Elas também se foram? Parece que isso está acontecendo com tudo hoje em 
dia. Também se foram meus adorados lanches e meus móveis: as mesas, redondas, 
quadradas, retangulares, se foram — todas as mesas, e mais as cadeiras que as 
acompanhavam. Foram-se as cortinas, com exceção das que eram à prova de fogo, 
que ainda estão empilhadas aguardando o começo ao julgamento. Foi-se a grande 
escadaria com aqueles dois corvos de madeira entalhados na ponta de cada um 
dos corrimãos. Foram-se todas as plantas ornamentais e os guardanapos de pano 
com o brasão de Winnipeg bordado de um lado e o mapa subterrâneo da cidade 
bordado do outro. Foram-se as perucas que eu usei quando quis me disfarçar do 
senhor disfarçado de alguma outra pessoa. Foi-se a caixa de charutos que ganhei 
de meu pai na primeira vez em que fui visitar minha casa depois de ter sido levada, 
e foi-se minha cama de infância, onde os tutores de C.S.C. cuidaram de mim antes 
de ter sido agarrada pelos calcanhares e ter sido apresentada a minha nova vida. 
Tudo se foi, sr. Snicket. Cada página de cada livro da minha biblioteca particular 
— A teia de Charlotte, Mansões verdes, Ivan Lacrimoso: O Explorador do Lago — virou 
cinzas ilegíveis. 
Como fazia muito frio, fechei as janelas e, sem poder ouvir os grilos, o que 
me acordou naquela noite foi o som de uma estante de livros desmoronando, então 
saí correndo da mansão em chamas e fui direto para a neve, ainda de pijama e 
agarrada a um punhado de fotografias que estivera examinando antes de dormir. 
Eu olhava para as fotografias e me perguntava como tudo pôde ter dado tão errado. 
Tenho a impressão, meu caro amigo, que em determinado momento na enfermariaestávamos nos tornando amigos, cada um contando ao outro histórias que nos 
fizessem esquecer a dor nos tornozelos, mas no momento seguinte a organização 
inteira tinha se dissipado, como cinzas carregadas pelos deploráveis e úmidos 
ventos de Winnipeg. O fogo é como a ganância, meu camarada. Ele se espalha pelo 
mundo, pensando apenas em si mesmo, e apodera-se de tudo o que encontra, 
acabando com a diversão de todo mundo. 
Fique com essas fotografias, sr. Snicket. São tudo o que posso lhe oferecer, 
além de minha lealdade e preocupação, sem esquecer de dois lenços que acabei de 
encontrar no bolso. Estude essas imagens, meu amigo -— o retrato de sua irmã e 
eu, ou melhor, o retrato que dissemos ser de sua irmã e eu, mas na verdade não era, 
o instantâneo do Segundo Piquenique Anual de Criptoanálise, e as duas imagens 
de nossa sala de reuniões, vazia na primeira foto, e ocupada por uma figura 
solitária na segunda, alguém que aguardava pacientemente o início da sessão 
naquela enorme sala de madeira verde. A jovem parece estar bastante contente, 
não acha? Tão contente e, no entanto, tão inflamável. 
Respeitosamente., 
 
 
 
 
 
 
NOTA PARA ARQUIVO: 
 
Esta carta chegou a mim aqui em Veblen Hall, onde estou aguardando alguns 
fornecedores para interrogá-los sobre quem exatamente estava dirigindo o carro naquele dia 
terrível. Por comoventes que sejam essas palavras, não posso ter certeza de que se trata 
realmente da duquesa de Winnipeg. O jipe do lado de fora do Observatório Orion não era 
azul-marinho, mas preto, e estava estacionado no lado noroeste, não no sudoeste. Ela 
jamais teria esquecido isso. A verdadeira R. foi posta à prova, mês após mês, durante mais 
de sete anos, a respeito dessa informação. Estaria ela tentando me dizer alguma coisa? 
Haveria outro jipe estacionado ali? Ou essa carta é de algum falsário? Essas fotografias 
poderiam ter sido roubadas da mansão da duquesa na noite da festa, ou mesmo terem sido 
fabricadas de algum modo — talvez pelo computador avançado da Escola Preparatória 
Prufrock. 
A carta estava embrulhada em um guardanapo de linho branco, com o brasão de 
Winnipeg bordado de um lado. O outro lado está em branco. Normalmente os grilos ficam 
em silêncio no inverno. Temo o pior. 
 
 
 
 
O que segue é a transcrição da reunião do Comitê de Construção 
de (rabisco) em (rabisco) de abril. Presentes J, L, M, R, R, M, L, K, 
D, S e EU. Nota: os nomes dos presentes são representados pela primeira 
letra do primeiro nome, com exceção de EU, que, além de não ser primeira 
letra, é um pronome. Algumas das pessoas presentes tinham a mesma 
primeira letra do nome, o que torna esta transcrição algo difícil de 
acompanhar, mas não importa: O Código de C.S.C. determina que esta ata 
não deve ser lida por ninguém que não tenha comparecido à reunião. 
 
(som de martelo de juiz batendo) 
 
M: Considere-se aberta a sessão. O secretário está pronto 
para transcrever a ata? 
 
J: Estou. 
 
M: Comecemos pela chamada. O vice-reitor quer fazer a 
gentileza de ler a lista do comitê para verificar a presença de 
todos? 
 
R: Quero. Por favor respondam quando eu chamar os nomes. 
J? 
 
J: Presente. 
 
R: J? 
 
J: Presente. 
 
R: M? 
 
M: Presente. 
 
R: M? 
 
M: Presente. 
 
R: K? 
 
K: Presente. 
 
R: K? 
 
K: Eu já disse "presente". 
 
R: Desculpe, não pude ouvi-lo. D? 
 
D: Presente. 
 
M: D, você está aqui como representante de L ou como agente 
independente? 
 
L: Eu estou aqui, portanto não existe razão para D me 
representar. 
 
R: Desculpe, eu não o tinha visto, L? 
L: Presente. 
 
R: L? Oh, acabei de falar com você, desculpe. S? 
 
S: Presente. 
 
R: R? 
 
R: Presente. 
 
R: E R, bom, R sou eu. Todos estão presentes, M. 
 
M: Muito bem. Vamos começar recitando o mote. 
J, L, M, R, R, M, L, K, D, S, J: Aqui o mundo é sereno. 
 
M: Muito bem. Agora, antes que passemos ao problema que temos 
em mãos, tenho alguns comunicados a fazer, Hoje à noite, às sete horas, 
nos encontraremos no saguão do edifício, a duas portas deste aqui, e 
de lá seguiremos para a sessão das sete e meia de Lobisomem na chuva, 
dirigido pelo dr. Sebald, a fim de receber sua mensagem em código. 
Amanhã de manhã, às nove horas em ponto, se dará o exame mensal para 
os neófitos R, L, K, B, J, E e G, portanto nossa sessão de cartografia 
será transferida do salão de exames para o jardim de esculturas... 
 
R: ...que, aliás, é muito mais bonito. 
 
M: Bem, sim. O que nos traz o problema urgente que temos 
em mãos. 
 
L: Qual o problema com nossas mãos? 
 
M: Não, não foi isso que M quis dizer, L. "Nas mãos" é uma 
expressão que aqui significa "o problema que nos reunimos para 
discutir". Quando você ficar mais velho, essas expressões serão 
mais fáceis de entender . 
 
J: Por favor, passe o licor. 
 
M: Por favor continue, M, 
 
M: Obrigado. Receio que tenhamos de mudar a nossa sede de 
operações mais uma vez. 
 
R: Não! 
 
D: Não pode ser! Não agora! 
 
M: Receio que já seja tarde demais. 
 
D: Nossos espiões n’O Pundonor Diário nos contam que G pode 
estar publicando o nosso endereço na coluna dela, “Organizações 
secretas que você precisa conhecer”. 
 
J: Mas ninguém deveria conhecer nossa organização! 
 
M: Isso é precisamente o que M queria dizer. Precisamos 
mudar de lugar mais uma vez. 
 
R: Isso já está ficando absurdo. 
 
R: Concordo. Tenho nove anos de idade, mas o que me preocupa 
é que esse tipo de mudança brusca venha a afetar nossos membros 
mais jovens. 
 
R: R tem razão. Estamos entrando nas casas das pessoas... 
 
J: Pedimos permissão primeiro. 
 
L: Deixe-a terminar. 
 
R: Já vou terminar. Estamos entrando nas casas das pessoas, 
pegando crianças pequenas que demonstram excepcionais talentos 
para observação e/ou anotações, e as isolamos por longos períodos 
de tempo das pessoas que elas conhecem. São entregues a estranhos 
e espalhadas por todo o globo terrestre, cumprindo missões que 
as deixam perplexas, até que seus tornozelos tenham sarado, até 
que saibamos que é possível confiar nelas, e até que saibamos que 
ninguém mais procura por elas. Então, finalmente, nós as trazemos 
para a sede de operações e ensinamos a elas as habilidades 
necessárias à reinserção na sociedade, a fim de garantir que o 
mundo continue, como dizemos, sereno. 
 
K: E extinto. 
 
R: Mas, se causamos mais rompimentos no processo de 
treinamento, nos arriscamos a confundir nossos neófitos ainda 
mais. Amanhã de manhã, por exemplo, acontecem nossos exames 
mensais. Se esses jovens ficarem acordados a noite inteira, 
ajudando-nos a mudar de lugar todos os romances, sacos de dormir, 
garrafas de cristal, câmeras, arquivos, kits de disfarces, mapas, 
moedores de café, cópias heliográficas, livros de códigos, varas 
de pescar, agendas, cardápios falsos, pastas, saca-rolhas, guias 
de pássaros, material de escritório, aquários com peixinhos 
dourados, mapas falsos, mangueiras de jardim, lentes de aumento, 
instrumentos musicais, redes, cabos elétricos, jóias, caixas de 
ferramentas, espectroscópios, projetores, ração para animais, 
casacos pesados de inverno, baralhos, cortinas, Colheres de caviar, 
gazuas, cordas, mesas e divãs dobráveis, dicionários e atlas, 
gaiolas, hashi, bicicletas, arpéus, equipamento de iatismo, 
latarias, tanques de armazenamento, falsos cadernos de endereços, 
falsas cópias heliográficas, dispositivos telegráficos, fumaça 
enlatada, fachadas de edifícios, falsos moedores de café, kits 
de disfarces... 
 
J: Você já disse "kits de disfarces". 
 
R: Se eles ficarem acordados a noite inteira levando todo 
esse material para uma nova sede de operações — presumindo que 
possamos encontrar uma —, como você acha que vão se sair nos 
exames? Como sabemos pelo relatório de S sobre a Escola 
Preparatória Prufrock, se pessoas jovens não dormem o suficiente, 
é provável que o seu rendimentosofra com isso. Alguém poderia, 
por exemplo, esquecer informações cruciais quanto à localização 
exata dos automóveis que usamos para armazenar arquivos 
necessários e levar mensagens, ou poderiam esquecer o Código 
Sebald e pensar que havia oito palavras não codificadas separando 
cada palavra codificada, em vez de dez. O segredo do açucareiro 
poderia passar totalmente despercebido por suas mentes. Isso 
poderia levar a graves mal-entendidos durante a comunicação 
codificada, e não podemos nos permitir isso. 
 
M: E nem podemos nos permitir ser descobertos. Se a nossa 
localização for revelada n'O Pundonor Diário, o edifício 
provavelmente será destruído até o final da semana. 
 
J: Mas como aquela repórter horrorosa descobriu nossa 
localização? Nós paramos de gravar nossa insígnia do lado de fora dos 
edifícios faz muito, muito tempo, e há um bom tempo não usamos mais 
madeira como material de construção. 
 
M: Não temos tempo para descobrir como fomos descobertos. 
 
J: Pelo contrário, M. Está mais que na hora de descobrir como 
a repórter nos encontrou. É chegado o momento de dizermos aqui, em um 
encontro oficial, o que todos estamos dizendo discretamente uns aos 
outros já faz um bom tempo; um inimigo se infiltrou em nossas fileiras. 
 
K: Infiltrou? 
 
J: "Infiltrou" é uma palavra que aqui significa "entrou 
sorrateiramente, sem que percebêssemos". 
 
K: Eu sei o que significa a palavra. Quando eu disse "infiltrou?" 
queria dizer:"Você acha mesmo? Não pode ser". 
 
R: K tem razão. 
 
R: Não, quem tem razão é J, 
 
R: K. 
 
R: J. 
 
R: K. 
 
R: J. 
 
R: Kl 
 
R: J! 
 
M: Chega! Podemos discutir isso em outra ocasião. 
 
J: Desculpe, M, mas nós devíamos discutir isso agora. Desde que 
ingressei na organização, já fomos forçados a trocar de sede de 
operações sete vezes. Encontrei vocês todos pela primeira vez — com 
exceção de L, é claro — na rua Columbia 1485, sede que tivemos 
de abandonar quase imediatamente, para migrar para aquele 
edifício de tijolos com as sebes malcuidadas. Dois meses depois 
avistamos alguém que tirava fotografias enquanto um de nossos 
agentes e duas pessoas muito estranhas caminhavam do lado de fora, 
portanto tivemos de mudar tudo para aquele outro edifício, com 
as duas torres redondas, em uma vizinhança tão nevoenta que todos 
os nossos girassóis morreram, e tivemos de interromper aquele 
experimento específico. Então M nos acordou no meio da tarde a 
fim de abandonar o edifício nevoento e ir para uma nova sede de 
operações escondida na agência do correio de Versailles, de onde 
fugimos para a agência rival um ano depois. Daí em diante 
decidimos partir para as ativldades subterrâneas, a começar pela 
rede de túneis que tivemos de escavar embaixo daquele poste de 
iluminação, mas nossos espiões n'O Pundonor Diário nos 
aconselharam a escavar uma nova sede de operações, embaixo do 
"barracão abandonado" na região da Floresta Finita. Quem sabe 
quanta informação e quantos equipamentos perdemos, encaixotando 
e desencaixotando tantas vezes? Quem sabe quanto tempo precioso 
se foi para sempre? Só Existe uma explicação para nossa localização 
secreta ter sido descoberta tantas vezes seguidas: um membro de 
C.S.C. — talvez até alguém presente nesta sala — nos traiu. 
 
E: (risos) 
 
O: Sem dúvida, senhoras e senhores, talvez alguém aqui nesta 
sala os tenha traido! 
 
M: O! 
 
K: E também E! Nenhum de vocês estava lá atrás do teatro 
de fantoches. 
 
M: E e O, nenhum de vocês é bem-vindo nesta reunião. 
 
O: Na verdade, prefiro ser chamado de T, 
 
M: Não vamos chamá-lo de coisa nenhuma. Por favor, saiam agora. 
 
E: Nós não vamos a lugar algum, seus tolos. 
 
O: Dêem uma olhada nisso! 
 
(gritos sufocados de um bocado de gente) 
 
L: Oh, Deus! 
 
M: Ponha isso de volta na caixa imediatamente! 
 
O: Mão antes de comunicar as seguintes exigências: 
 
Conforme instruções, esta transcrição será guardada em duas 
metades separadas A primeira metade termina aqui, e permanecerá em meu 
dossiê, juntamente com as fotografias que a acompanham e um relato sobre 
um possível neófito. A segunda metade será escondida entre as páginas 
302 e 303 de um exemplar de Ivan Lacrimoso: O Explorador do Lago, uma 
biografia tão tediosa que é improvável que alguém venha a ler. Esse 
livro estará escondido embaixo da cama de alguém. 
 
 
 
 
 
Caro J, 
Anexas a esta estão algumas fotografias do neófito que mencionamos antes. Está 
ficando cada vez mais difícil se esconder em playgrounds hoje em dia para tirar fotografias 
sem que ninguém perceba, não obstante consegui adquirir estes três instantâneos. Como 
você pode ver, o indivíduo parece fisicamente bastante competente, e tem um admirável 
desejo de se proteger de um possível incêndio. Assim que puder verificar em que cidade ele 
está, serei capaz de prover mais informações concernentes a um possível recrutamento 
("levar"). 
 
 
 
 
 
 
 
Querido Pecuário, 
 
O dr. Sebald não compareceu a nosso compromisso, e estou começando a ficar 
preocupado. Como vocês sabem, meus caros queijeiros, se você está esperando alguém e 
esse alguém não aparece, é difícil saber exatamente quando desistir e aceitar que ele não 
vem. Por exemplo, se você for um dentista e o seu paciente marcou hora às cinco, às cinco 
e vinte e cinco você pode resolver esperar mais cinco minutos antes de desistir e decidir que 
o paciente esqueceu o compromisso ou está tão apavorado de fazer uma limpeza nos dentes 
que se trancou em um armário de onde se recusa a sair. Se você for um observador de 
pássaros, e às seis e quarenta e cinco ainda estiver aguardando pela chegada do pombo das 
seis e meia, você pode resolver aguardar mais vinte minutos antes de desistir e decidir que 
o pombo foi comido por um gato, ou pegou no sono. Mas eu não sou um dentista esperando 
um paciente nem um observador de pássaros aguardando um pombo, embora tenha comigo, 
neste momento, uma garrafa de anti-séptico bucal e um par de binóculos. Sou um 
pesquisador esperando por um diretor de cinema há dezenove horas. Resolvi esperar mais 
vinte minutos, antes de desistir e aceitar o fato de que mais um membro de C.S.C. foi 
capturado por nossos furtivos, gananciosos e mal-humorados inimigos. 
É possível, é claro, que o dr. Sebald não tenha sido capturado, mas tenha sido 
simplesmente retido, além do mais, se tivesse sido capturado, ele teria nos mandado uma 
mensagem em código. Se eu estivesse no cinema, assistindo a um dos filmes do dr. Sebald, 
e o diálogo fosse o seguinte: 
 
PERSONAGEM 1 (tocando um sino): Eu adoro comer damascos. Eles são tão 
suculentos, carnudos, deliciosos. Eu estou sempre feliz quando como um damasco, exceto 
quando ele fica preso entre meus dentes. 
 
PERSONAGEM 2 {concordando com a cabeça): Eu também. Se acontecer, preciso 
que mande buscar meu marido, que poderá — se não estiver ocupado — oferecer ajuda 
para sua remoção. 
 
PERSONAGEM 1 (pegando um caderno e uma caneta): Onde mora o seu 
marido? 
 
PERSONAGEM 2: Comigo, na Alameda dos Chicletes, imediatamente ao lado 
daquele museu cor de ameixa que visitamos uma vez. 
 
(Os dois personagens tocam um sino de novo.) 
 
então eu saberia que o dr. Sebald estava preso, e que eu deveria mandar ajuda 
imediatamente. Mas em vez disso, estou aqui sentado neste bote, olhando para as águas do 
Pântano Maligno e me perguntando onde diabo ele poderia estar. 
Se foi capturado, então não é mais seguro guardar comigo as páginas do roteiro de 
seu filme Zumbis na neve. Eu deveria ter devolvido essas páginas a ele dezenove horas 
atrás — agora que estou convencido de que o dr. Montgomery nunca aprendeu o Código 
Sebald —, mas se o cineasta não chegar em mais dezenove minutos, vou anexá-las a esta 
carta. Por favor, meus amigos queijeiros, escondam bem estas páginas. 
Lembrem-se, vocês são a minha penúltima esperança de que as histórias dos 
órfãos Baudelairesejam finalmente contadas ao grande público. 
 
Respeitosamente, 
 
Lemony Snicket 
 
 
P.S. Para me divertir durante essa espera de dezenove horas, anotei diversos títulos 
possíveis para um livro sobre minha própria vida. Não imagino que vá escrevê-lo, mas 
talvez, algum dia, alguém escreva, e vocês poderão prover o autor dessa informação, caso 
solicitada. 
 
 
LEMONY SNICKET: 
Biógrafo dos Baudelaire 
 
LEMONY SNICKET: 
Covarde e cavalheiro 
 
LEMONY SNICKET: 
A verdade por trás do homem 
 
LEMONY SNICKET: 
O homem atrás da verdade 
 
LEMONY SNICKET: 
O homem atrás das sebes 
 
LEMONY SNICKET: 
A verdade por trás das mentiras 
 
LEMONY SNICKET: 
A verdade por trás das mentiras por trás da verdade 
 
LEMONY SNICKET: 
A verdade por trás das mentiras por trás da verdade por trás do homem atrás das sebes 
 
LEMONY SNICKET: 
A verdade por trás da história por trás da organização atrás de um bocado de problemas 
 
LEMONY SNICKET: 
A verdade por trás do homem atrás da história por trás dos órfãos 
 
LEMONY SNICKET: 
A história de um homem que nunca incendiou nada 
 
LEMONY SNICKET: 
A história de um homem que nunca incendiou nada, a despeito de tudo o que você pode ter 
ouvido 
 
LEMONY SNICKET: 
A história de um homem que suspeita que outras pessoas incendiaram coisas, 
 ainda que ele mesmo não tenha feito isso 
 
LEMONY SNICKET: 
A história de um homem que gostaria que a história tivesse sido outra 
 
LEMONY SNICKET: 
A história de um homem que precisa da sua ajuda 
 
LEMONY SNICKET: 
A história de um homem que precisa da sua ajuda, por favor 
 
LEMONY SNICKET: 
A história de um homem, uma mulher e uma organização 
 
LEMONY SNICKET: 
A história de um homem, uma mulher e diversos fósforos 
 
LEMONY SNICKET: 
A história de um homem, uma mulher, e outro homem 
 
LEMONY SNICKET: 
A história de três pessoas, duas das quais são homens 
 
LEMONY SNICKET: 
A história de três iniciais, todas elas secretas 
 
LEMONY SNICKET: 
A história de três iniciais, todas elas consoantes 
 
LEMONY SNICKET: 
A história de três irmãos, um dos quais, pelo menos, está morto 
 
ISSO NÃO É CHEIRO DE FUMAÇA? 
A história de Lemony Snicket 
 
LEMONY SNICKET: 
Um homem bom metido em problemas ruins, e não vice-versa 
 
 
 
 
 
 
 
 
DOLORES 
(concluindo sua canção): 
Eu estou muito, muito agoniada, 
Quem sabe quem comerão a seguir? 
 
PAI DA CIDADE Nº 1 
 
(Tocando um sino) Atenção, cidadãos! A noite aproxima-se 
rapidamente! Em breve o sol estará escondido da vista, e logo 
centenas de zumbis famintos vão estar dentro da nossa aldeia 
querida! Precisamos nos esconder atrás da barreira do resguardo, 
construída em robusto carvalho pelos pais da cidade. Esse 
homem-de-neve, Jovem Rölf, pare de construí-lo antes que seja 
tarde, pois há, proteção somente atrás da barreira! 
 
JOVEM RÖLF: 
 
Zumbis não me assustam! Quero um homem-de-neve! 
 
 
 
Sebald • 99 
 
PAI DA CIDADE Nº 2: 
 
Jovem Rölf, se você quer mesmo ser mais um sobrevivente dos 
zumbis, é melhor obedecer! 
 
JOVEM RÖLF: 
 
Cai fora! 
 
PAI DA CIDADE Nº 1: 
 
Já estamos enjoados do seu comportamento, Jovem Rölf. Se 
realmente não importa que um grande zumbi o coma, então vá fazer 
o seu homem-de-neve. Pelo fogo de Apo-lo, lavo as mãos desse 
menino desobediente. Ele tem encontro marcado com seu Criador 
esta noite. Venham, meus concidadãos, venham conosco para trás 
da robusta barreira de carvalho. Nenhum zumbi penetrará na 
proteção para nos comer. 
 
ALDEÕES 
 
(aplaudindo): Escutem! Escutem! 
 
GERTA 
 
(avançando um passo): Escutem? Os pais da cidade mandam 
abandonar o Jovem 
 
 
Sebald • 100 
 
Rölf para morrer, e dizem "escutem"? Onde está sua 
consciência? Onde está sua preocupação com os jovens? Este 
povoado devia se envergonhar! 
 
PAI DA CIDADE Nº 1: 
 
Pare de falar como estrela de filme, Gerta. 
 
PAI DA CIDADE N° 2: 
 
Sim, sua leiteirinha tola, os zumbis estão se aproximando! 
Tem discussões que tomam tempo demais quando deveríamos estar em 
um lugar seguro, tipo robusta barreira de carvalho. 
 
PAI DA CIDADE Nº 1: 
 
Junte-se a nós, Gerta. Traga também o Jovem Rölf. Senão você 
certamente vai acabar entre as últimas vítimas dos zumbis 
famintos. 
 
GERTA: 
 
Eu já falei para vocês três mil vezes: os zumbis não nos 
machucarão, nem às nossas crianças. Meu plano é fazer amizade com 
esses zumbis, e... 
 
 
Sebald • 101 
 
PAI DA CIDADE Nº 2: 
 
O seu plano é totalmente absurdo, Gerta. Para zumbis, 
pessoas são alimento novo e fresco, não possíveis amizades! 
 
JOVEM RÖLF: 
 
Ignore-os, Gerta. Você pode ser assistente construtora. 
 
 
 
PAI DA CIDADE N° 1: 
 
Vai se arrepender, Gerta. 
 
ALDEÕES 
 
(saindo): Escutem! Escutem! 
 
GERTA: 
 
Oh, Rölf. Não tem jeito. Eu avisei aos meus concidadãos que 
a barreira é incapaz de resistir aos dentes dos zumbis. Eles já 
comeram um muro de robusto carvalho. 
 
JOVEM RÖLF: 
 
Por isso fiquei aqui. As barreiras de madeira são inúteis. 
 
 
Sebald • 102 
 
(Ouve-se um enorme barulho de coisas se quebrando, e diversos 
aldeões voltam correndo para o enquadramento da câmera.) 
 
PAI DA CIDADE Nº 1 : 
 
Zumbis! Zumbis! Zumbis! Acudam! Façam algo por nós! 
 
PAI DA CIDADE N° 2: 
 
Socorro! Socorro! Socorro! Socorro! Socorro! Socorro! 
Socorro! Socorro! Socorro! Socorro! Cuidado! 
 
(Toca um sino de alarme.) 
 
DOLOBES 
 
(começando uma canção): 
Eles comerão os meus pés, 
meu aparelho digestivo, 
pois nada mais sou que alimento, 
que comida de morto-vivo.

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