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R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 146 U n id a d e A • G e n é ti ca 2 Genes humanos com herança ligada ao cromossomo X Na espécie humana, em que o sistema de determinação do sexo é XY, como na drosófila, foram descobertas diversas características condicionadas por genes que seguem o padrão de herança ligada ao cromossomo X. Vejamos os mais bem estudados, a seguir. Daltonismo ou cegueira às cores Uma mulher heterozigótica (XDXd) geralmente tem visão normal, uma vez que o alelo para o daltonismo comporta-se como recessivo. Se ela transmitir o cromossomo X portador do alelo alterado a uma filha, esta será daltônica se seu pai também o for. Mulheres filhas de pai não daltônico terão visão normal, pois receberão um alelo normal do pai. (Tab. 6.2) Tabela 6.2 Genótipos e fenótipos no dal tonismo Mulheres Homens Genótipo Fenótipo Genótipo Fenótipo X DX D Normal X DY Normal X DX d Normal portadora X dY Daltônico X dX d Daltônica Se a mulher heterozigótica transmitir o cromossomo X portador do alelo para daltonismo a um filho, ele será certamente daltônico, pois, não tendo um segundo cromossomo X, apresentará apenas o alelo alterado do gene. Cerca de 50% dos filhos homens de uma mulher heterozigótica para o daltonismo herdarão o cromossomo portador do alelo alterado e serão daltônicos. Homens daltônicos, por outro lado, só transmitem seu cromossomo X portador do alelo alte- rado às filhas; aos filhos, eles transmitem o cromossomo Y. (Fig. 6.6) Figura 6.5 Diagramas utilizados para identificar o tipo mais comum de cegueira às cores (daltonismo). Pessoas de visão normal conseguem distinguir um número escrito dentro dos círculos, o que não ocorre se a pessoa é daltônica. Cerca de 5% a 8% dos homens e 0,04% das mulheres possuem um tipo de cegueira às cores, conhecida como daltonismo, que os torna incapazes de distinguir entre as cores vermelha e verde. O termo daltonismo deriva do nome do físico inglês John Dalton (1766-1844), que apresentava essa característica. (Fig. 6.5) Há três tipos básicos de cegueira às cores: tipo I) a pessoa não distingue a cor púrpura (vermelho-escuro tendendo ao vio- leta) da cor vermelha; tipo II) a pessoa vê o vermelho como se fosse verde (daltonismo); tipo III) a pessoa não distingue o verde do vermelho, vendo essas duas cores como avermelhadas. A cegueira às cores do tipo I é condicionada por um gene re- cessivo localizado em um autossomo, seguindo, assim, padrão de herança autossômica. As cegueiras às cores dos tipos II e III são condicionadas por genes localizados no cromossomo X, seguindo padrão típico da herança ligada a esse cromossomo sexual. A visão em cores depende da presença de pigmentos visuais em certas células da retina, os cones. Retina é a camada sensível à luz que forra o fundo do olho. Os pigmentos retinianos são de três tipos diferentes: sensíveis ao vermelho, sensíveis ao azul e sensíveis ao verde. Cada pigmento é produzido pela ação de um gene específico, e, por mutação, surgem na população alelos alterados desses genes, incapazes de produzir um ou outro pigmento visual. O daltonismo é condicionado por um alelo mutante do gene responsável pela pro- dução de um dos pigmentos visuais, localizado no cromossomo X. Um homem hemizigótico para o alelo mutante (XdY) ou uma mulher ho- mozigótica (XdXd) são incapazes de distinguir o verde do vermelho. mulher normal portadora XH Xh XH mulher normal Y XHXh XHXH Homem normal XHY mulher portadora XHXh Homem hemofílico XhY XHY Homem normal mulher normal portadora XD Xd XD mulher normal Y XDXd XDXD Homem normal XDY mulher portadora XDXd Homem daltônico XdY XDY Homem normal mulher normal portadora XD Xd Xd mulher portadora Y XDXd XDXd Homem normal XDY mulher daltônica XdXd Homem daltônico XdY XdY Homem daltônico mulher normal portadora XD Xd XD mulher normal Y XDXd XDXD Homem normal XDY mulher portadora XDXd Homem daltônico XdY XDY Homem normal mulher normal portadora XD Xd Xd mulher portadora Y XDXd XDXd Homem normal XDY mulher daltônica XdXd Homem daltônico XdY XdY Homem daltônico R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 147 C a p ít u lo 6 • H e ra n ça e s ex o Hemofilia Hemofilia é uma doença hereditária causada por uma falha no sistema de coagulação do sangue, de modo que a pessoa hemofílica pode ter hemorragias abundantes mesmo em peque- nos ferimentos. O mecanismo normal de coagulação do sangue compõe-se de uma série de reações con- troladas por proteínas denominadas fatores de coagulação, presentes no plasma sanguíneo. Os fatores de coagulação são produzidos pela ação de genes localizados tanto em autossomos quanto no cromossomo X. Um dos tipos mais graves de hemofilia, a hemofilia A, é causado pela deficiência no fator VIII de coagulação e segue a he- rança ligada ao cromossomo X. O alelo nor- mal do gene (H) produz fator VIII funcional e atua como dominante, condicionando fenótipo não hemofílico; o alelo mutante (h), recessivo, condiciona ausência do fator VIII, sendo responsável pela hemofilia A. Homens de genótipo XhY e mulheres de genótipo XhXh são hemofílicos; homens de genótipo XHY e mulheres de genótipos XHXH e XHXh geralmente são normais quan- to a essa característica. A transmissão hereditária da hemofilia segue o padrão típico de herança ligada ao cromosso- mo X. (Fig. 6.7) Figura 6.6 Representação esquemática da herança do daltonismo em dois tipos de casamento: à esquerda, homem normal com mulher portadora do alelo condicionante do traço; à direita, homem daltônico com mulher portadora do alelo condicionante do traço. Figura 6.7 Representação esquemática da herança da hemofilia no casamento de um homem normal com mulher portadora do alelo condicionante da doença. Ed ua rd o (D uq ue d e Ke nt ) R ai nh a V itó ri a (d a In gl at er ra ) (1 81 9- 19 01 ) A lb er to V itó ri a G ui lh er m e II G eo rg e V Ir en e A lic e B ea tr iz V itó ri a Eu gê ni a Le op ol do R up er t A lfo ns o I G on za lo So fia Ju an C ar lo s (d a Es pa nh a) M au rí ci o Lu ís II Fr ed er ic o G ui lh er m e Le op ol do (d a A lb ân ia ) A le xa nd ra (d a R ús si a) D uq ue d e W in ds or G eo rg e V I W al de m ar H en ri qu e A na st ác ia A le xi s M ar ga re t ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? Pr ín ci pe Ph ili p La dy D ia na Pr ín ci pe C ha rl es A nn e H en ry W ill ia m A nd re w Ed w ar d ? ? H om em h em of íli co M ul he r po rt ad or a do a le lo p ar a he m ofi lia H om em e m ul he r no rm ai s Fe nó tip o de sc on he ci do El iz ab et h II (d a In gl at er ra ) Ed ua rd o V II A lic e R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 148 U n id a d e A • G e n é ti ca A hemofilia afetou diversas pes- soas da nobreza europeia. Acredita- -se que a rainha Vitória (da Inglater- ra) era portadora do alelo mutante para a hemofilia, que teria surgido espontaneamente em suas células reprodutivas ou em um de seus ancestrais. Esse alelo mutante foi passado para um filho e para duas filhas da rainha inglesa e deles para outras famílias nobres da Europa. Alexis, filho do último tsar da Rússia, herdou o alelo para a hemofilia da rainha Vitória, que era avó de sua mãe Alexandra. (Fig. 6.8) Figura 6.8 Árvore genealógica de parte da nobreza europeia, mostrando a transmissão do alelo para a hemofilia a partir da rainha Vitória da Inglaterra (1819-1901).