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1 A Eleita do Grego - Duologia Primos

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D. A. LEMOYNE
 
Copyright © 2021
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
D. A. LEMOYNE
dalemoynewriter@gmail.com
Copyright © 2021 por D. A. Lemoyne
 
Título Original: A Eleita do Grego
Primeira Edição 2021
Carolina do Norte - EUA
 
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação
pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida por qualquer forma
ou por qualquer meio, incluindo fotocópia, gravação ou outros
métodos eletrônicos ou mecânicos, sem a prévia autorização por
escrito da autora, exceto no caso de breves citações incluídas em
revisões críticas e alguns outros usos não-comerciais permitidos
pela lei de direitos autorais.
 
Nome do Autor: D. A. Lemoyne
Revisão: Dani Smith Books
Capa: D. A. Lemoyne
ISBN: 978-65-00-35580-2
 
Esse é um trabalho de ficção. Nomes, personagens, lugares,
negócios, eventos e incidentes são ou produtos da imaginação da
autora ou usados de forma fictícia. Qualquer semelhança com
pessoas reais, vivas ou mortas ou eventos reais é mera
coincidência.
 
 
 
Sumário
 
Sinopse
Nota da autora:
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
Capítulo 41
Capítulo 42
Capítulo 43
Capítulo 44
Capítulo 45
Capítulo 46
Capítulo 47
Capítulo 48
Capítulo 49
Capítulo 50
Capítulo 51
Capítulo 52
Capítulo 53
Epílogo 1
Epílogo 2
Bônus
Papo com a autora
Obras da autora
Sobre a autora
 
 
 
 
Atenção: pode conter gatilhos.
 
 
Aviso: A Eleita do Grego, livro 1 da Duologia Primos Lykaios, é
um volume único. Por ser com casais diferentes, cada livro da saga
pode ser lido separadamente, mas é provável que o posterior
contenha spoilers do anterior.
 
 
Zoe
 
Algumas pessoas diriam que eu já estou muito velha para
acreditar em conto de fadas, mas a verdade é que você nunca será
esperta o suficiente ao ponto de conseguir resistir a uma louca
paixão.
E não uma qualquer, mas daquele tipo que lhe tira o fôlego, faz a
pele ficar arrepiada só pela voz da pessoa e o corpo, em chamas.
 
Christos
 
Não acredito em amor à primeira vista, mas tesão, sim. 
Quando a conheci, sabia que a faria minha, o que eu não contava
era que apenas dois dias depois, ela desapareceria sem olhar para
trás.
 
Um encontro inesperado. 
Uma atração explosiva. 
Nenhum dos dois estava preparado para o sentimento
avassalador que os envolveu, até que uma descoberta mudaria tudo
e a obrigaria a fugir.
 
Entretanto, o CEO bilionário não desistiria dela. Ele estava
disposto a tudo para ter Zoe de volta em sua cama.
O desejo pela única mulher que o deixou não tinha limites. Nem o
tempo foi capaz de diminuí-lo.
Quando enfim, o destino lhes dá uma segunda chance, ele
poderia perdê-la novamente.
Dessa vez, para sempre.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A todos aqueles que me pediram para transformar essa história em
livro.
 
 
 
 
Carolina do Norte, novembro de 2021.
 
 
 
 
 
NOTA DA AUTORA:
 
 
A Eleita do Grego é o primeiro livro da Duologia Primos
Lykaios e contará a história de Christos Lykaios, um CEO grego e
arrogante, da indústria da moda, e a top model Zoe, já conhecida do
livro Sobre Amor e Vingança, livro 2 dessa Duologia.
Ah, mas por que o livro 1 foi escrito depois do livro 2? Porque
esse livro era, inicialmente, um conto. Apesar de manter os
principais pontos da história, quem leu o conto verá que vários
outros foram modificados para que os personagens fossem mais
bem trabalhados.
Ao escrever esse livro, estou atendendo a pedidos dos meus
leitores que se apaixonaram pelo casal e me disseram que eles
mereciam ter uma história mais bem explicada.
Apesar de ser uma duologia, cada livro pode ser lido
independentemente do outro. Ainda assim, o livro posterior
provavelmente conterá spoilers do anterior.
Eu amei escrever sobre esse casal e espero que apreciem
também.
Um beijo carinhoso e boa leitura.
 
 
D.A. Lemoyne
 
 
 
 
 
 
Prólogo
 
 
 
 
Boston — Massachusetts 
 
 
Aos sete anos
 
 
Passado
 
 
 
 
Ela segura a minha mão, apertando-a forte e sem que precise
dizer nada, sei que está tão triste quanto eu.
Conversamos muito.
Todos os dias, na verdade, desde que vim morar aqui, há quase
um ano. Pauline é a única pessoa que consegue me fazer sorrir.
Minha mamãe morreu. Eu só tinha ela no mundo, já que papai foi
morar no céu muito antes.
Eu conto histórias para minha amiga porque aprendi a ler. Mamãe
fazia isso comigo, imitando o jeito dos personagens. Era muito
engraçado. Não sou boa, porque leio devagar e às vezes até
gaguejo, mas ela nunca ri de mim, ao contrário de tia Ernestine, a
mãe dela e dona da casa onde eu moro.
Pauline é mais velha do que eu — bem mais velha, já tem quase
doze e diz que não é criança, mas adolescente. Mesmo assim,
sendo quase uma adulta, ela não pode sair da cama porque suas
pernas não têm força para andar. Sofreu um acidente quando ainda
era mais nova do que eu sou agora.
Eu gostaria de ter o poder de fazê-la se levantar, correr e brincar,
mas como disse minha professora no outro dia: às vezes não
podemos entender a vontade de Deus, Zoe.
Não sei o que isso significa, mas não é justo. 
Eu descobri uma maneira de deixá-la feliz: faço as coisas em seu
lugar. Quando ela acorda e diz que queria dar uma volta no quintal,
corro para fora de casa. Volto com o pulmão explodindo, falta de ar,
mas quando vejo seu sorriso, vale a pena.
A primeira vez, falou que eu era doida, mas depois passou a
adorar a ideia e sempre me pede coisas.
“Zoe, vai lá fora e pegue um pouco de chuva por mim.”
“Zoe, me fale sobre o garoto mais bonito da sua escola. Ele vai
ser meu namorado secreto.”
“Zoe, como é a sensação de pular bem alto?”
Balanço meus pés, sentada na cama dela.
Eles não alcançam o chão ainda porque sua cama é alta — de
hospital e custou uma fortuna — tia Ernestine sempre fala, como se
fosse culpa de Pauline precisar de uma.
A gente brincava, apostando quando é que eu seria grande o
suficiente para conseguir fazer com que meus pés tocassem o piso.
Agora, nunca vamos saber porque eu estou indo embora.
— Promete vir me buscar quando for rica?
Olho para ela e sorrio, o que é bom para fazer passar a dor que
estou sentindo no peito. 
Há uma semana que não paro de chorar escondida. Desde que
eu soube que iria morar em um orfanato outra vez, estou muito
triste.
Minha tia de mentirinha chamou o homem do governo e disse
que ia me devolver porque o dinheiro[1] que recebia para ficar
comigo não era o bastante. Ela também tem outras crianças aqui,
então não entendo por que vou ser a única a ser devolvida.
— Como que eu vou ser rica, Pauline? — pergunto. — Só tenho
dois dólares no cofrinho que ganhei daquela vez em que fui ajudar a
senhora Nole a recolher as folhas do quintal.
— Lembra de nossa brincadeira em que você sou eu, quando faz
as coisas por mim? Eu sonho em virar uma top model[2] famosa.
Linda, desfilando e com todos os homens do mundo apaixonados
por mim, só que isso nunca vai acontecer porque eu não posso
andar.
— O que é uma top model? — pergunto, testando o nome na
minha língua e achando engraçado.
— São moças muito bonitas que desfilam em uma passarela ou
são fotografadas. Elas ganham roupas e viagens pelo mundo
inteiro. 
— Deve ser muito legal.
— Sim, Zoe. A melhor profissão do mundo. Prometa-me que fará
isso por mim e que em cada lugar por onde viajar, vai se lembrar do
meu pedido.
— Sei que sua mãe está me mandando embora, mas isso quer
dizer que nunca mais vou ver você, Pauline?
Ela meolha de uma maneira esquisita, como se soubesse um
segredo e não quisesse falar.
— Não tenho certeza, Zoe, mas de qualquer modo, quando
estiver triste e sozinha, olhe para o céu e pense em mim. Sempre
pensarei em você também.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 1
 
 
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
Barcelona
 
 
Onze anos depois
 
 
 
 
Ah, Deus, que desconforto!
Pauline, eu te amo muito porque essa ideia de viajar o mundo
inteiro está sendo mais difícil do que eu imaginei.
Um cruzeiro pelo mar mediterrâneo pode ser o sonho de todas as
garotas da minha idade, mas nesse instante, eu daria qualquer
coisa para tirar esse uniforme grudento e me jogar na neve de
Boston. Mas mesmo que eu estivesse em minha terra natal, isso
não seria possível, claro, já que lá também é verão.
Tento enxergar as horas no relógio lá dentro do navio, mas daqui
é muito difícil. Como somos proibidos de verificar o celular durante
do expediente, o que me resta é torcer para poder voltar para o ar-
condicionado bem depressa.
Com a mesma força que o pensamento de desânimo vem, eu o
afasto ao lembrar da minha melhor amiga e de como ela daria
qualquer coisa para estar vivendo até mesmo essa experiência
durante um úmido dia de verão, presa em um uniforme que faz
qualquer um se sentir como uma banana: coberta até o pescoço.
Odeio blusas de gola alta e gostaria muito de ter uma
conversinha com o estilista — se é que houve algum — que
desenhou uma roupa assim para as assistentes do navio.
— Que horas eu vou poder tirar uma foto com o bonitão do
comandante, minha filha? — uma senhorinha muito linda se
aproxima de mim e pergunta.
— Boa noite. Seja bem-vinda à Cruzeiros dos Sonhos[3] —
respondo com a frase decorada. — O comandante estará presente
meia hora antes do jantar de gala[4] hoje e ficará à disposição por
quinze minutos para fotografar com as passageiras.
— Só quinze? Eu preciso de pelo menos uma hora ao lado
daquele colírio.
Escondo uma risada. 
Ela deve ter uns oitenta anos ou mais e o comandante, uns
cinquenta, mas quem disse que o amor tem idade?
Eu, particularmente, não fui com a cara do homem na única vez
em que estivemos no mesmo ambiente, porque olha para todas as
mulheres como se considerasse que é um presente dos céus para
nós.
Uma outra menina, que também foi contratada para trabalhar
nesse cruzeiro de uma semana e que já participou de outros, me
disse que ele costuma encerrar cada viagem com as funcionárias
dos navios lutando por sua atenção. E que também, boa parte delas
— ou todas — dão uma voltinha em sua cabine.
A senhora se despede de mim e aproveito para dar uma
conferida se o material do fotógrafo está todo direitinho.
Quando eu li na internet há alguns meses, que a Dolphin
Cruises[5], a maior empresa de navios de turismo do mundo,
contrataria jovens mesmo sem experiência para trabalhar em uma
viagem pelo mar mediterrâneo, pensei: é agora.
Eles nos deram um treinamento de duas semanas e como eu
havia acabado de concluir o segundo grau, seria um presente
perfeito para mim mesma.
Passei fácil no treinamento e a própria empresa providenciou
meu passaporte.
Meus pais adotivos, um bondoso casal que finalmente me tirou
do orfanato em definitivo quando eu já tinha onze anos, nunca
poderiam me proporcionar algo assim. Em compensação, me deram
muito amor e mesmo que não tenham conseguido colar todos os
pedaços quebrados do meu coração, me fizeram sentir desejada,
depois de tanto lares temporários[6].
Somente há cerca de um ano, fui conhecer uma prima distante da
minha mãe biológica, mas apesar de ter gostado de encontrar
alguns parentes sanguíneos, eles nunca tentaram uma proximidade
verdadeira.
Têm dinheiro, o que é muito distante da vida que os meus pais
biológicos levavam e quando me convidavam para festas familiares,
eu me sentia sobrando e sendo olhada com superioridade. Somente
uma das filhas dessa prima de mamãe, uma garota tão tímida
quanto eu, Madeline, que tinha dislexia[7], é que era gentil comigo.
Eu tentei muito me dar com eles, mas cheguei ao meu limite
quando a mãe dela, em um jantar em que fui como convidada, me
perguntou se eu não poderia ajudar a copeira a servir a refeição
porque uma das funcionárias havia faltado. Eu disse que sim,
porque acho que na hora não entendi bem o que aquilo significava.
Quero dizer, quando meus pais adotivos recebem as pessoas em
sua casa, todo mundo ajuda a servir a mesa, lavar os pratos depois,
então não achei nada demais.
Somente quando ela me entregou o uniforme que suas
funcionárias estavam usando, foi que caiu a ficha.
Eu inventei uma desculpa, dizendo que minha mãe precisava de
mim e nunca mais voltei a procurá-los.
Tia Adley me via, eu entendi tarde demais, como um incômodo,
alguém que queria usufruir dos privilégios de sua riqueza. Não
poderia estar mais longe da verdade. Eu só desejava fazer parte de
uma grande família, já que meus pais adotivos não têm outros
parentes.
Observo as pessoas começarem a circular pelo navio em suas
roupas chiques. Os vestidos das mulheres longos e com brilho e os
homens de smoking, como a gente costuma ver nos filmes.
Às vezes eu sonho acordada, pensando que queria viver aquilo
ao menos por uma noite, como a Cinderela no baile com o príncipe.
Mas esse sonho é praticamente impossível de se tornar
realidade, então preciso mesmo é me manter focada e repor a
garrafa de água que o fotógrafo me avisou desde o primeiro dia que
não poderia faltar.
A coisa boa é que, depois que termino o serviço aqui, estou
liberada. Geralmente fico passeando pelo navio, mas amanhã de
manhã é a minha folga, então, decidi que darei uma volta por
Barcelona. Nada muito espetacular. Um passeio pelas ruas da
cidade e uma visita à La Sagrada Familia[8], a igreja mais famosa da
Espanha. Mamãe nunca viajou, mas me recomendou que não
deixasse de ir visitá-la, porque é um dos cartões-postais mundiais.
Pego uma caixa de guardanapos de papel e posiciono-a perto da
água. O fotógrafo sua para caramba e eu sempre deixo lenços de
papel ou guardanapos por perto.
Minha mãe falava que uma dama nunca deve se mostrar suada
em público. Acho que a recomendação serve para os cavalheiros
também.
Engraçado que essa é uma das poucas coisas que ainda me
lembro dela. 
Eu me sinto triste ocasionalmente porque quando penso em
mamãe agora, na maioria das vezes não é mais a biológica, mas
dona Macy, a adotiva. Já faz tanto tempo que ela e meu pai se
foram, que eu me esqueci de quase tudo o que vivemos. Já do
período em que passei no orfanato, para minha tristeza, eu me
recordo direitinho.
Dos pedidos que Pauline me fez na última vez em que nos vimos,
esse é o primeiro que eu tento realizar.
Mesmo que meu corpo favoreça tentar a profissão de modelo,
porque tenho um metro e setenta e sete, minha timidez acaba
fazendo com que eu me esconda do mundo.
Dentro da minha cabeça, sou muito extrovertida. Falo pelos
cotovelos comigo mesma e também sou irônica, mas na hora de
colocar tudo para fora, a coisa muda de figura.
— Zoe, está disposta a fazer uma graninha extra? — Tamara,
uma colega que foi contratada junto comigo e que também é de
Boston, pergunta. Nós dividimos uma cabine na ala dos
funcionários.
— Sempre — respondo, sorrindo. — Estou querendo comprar
umas lembrancinhas para os meus pais, então qualquer grana que
entrar será bem-vinda.
— Estão precisando de uma garçonete para o jantar de gala na
cabine do comandante. Haverá meia dúzia de convidados apenas,
mas será gente poderosa.
— Olha, essa é uma oportunidade e tanto, mas realmente acho
que não é uma boa ideia. A chance de que eu acabe derrubando
alguma coisa nas roupas desse povo elegante é grande. Sou bem
atrapalhada.
— Não seja boba, as gorjetas serão altas. Já trabalhei algumas
vezes em eventos assim.
— Mas por que eu?
— Fui eu quem sugeriu que fosse chamada. Sei que sua situação
não é muito boa.
Não me ofendo com o que ela diz porque não é nada mais do
quea verdade.
— Tem certeza disso? E seu eu fizer alguma bobagem e
prejudicar você?
— Fique tranquila. Relaxe e confie mais em si. Vai dar tudo certo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 2
 
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
Barcelona
 
 
Mais cedo, naquele dia
 
 
— O que tem para me oferecer? — pergunto, louco para que ele
me dê uma desculpa para que eu possa me levantar e ir embora.
— Você não está sendo razoável, Christos.
— Nunca fui acusado disso. Tem mais cinco minutos.
— Achei que a nossa negociação estava encaminhada.
— Eu também, até que descobri que você maquiou seu lucro
esse ano. Tem ideia do que pode acontecer se isso chegar aos
ouvidos dos acionistas?
Ele anda de um lado para o outro e mais uma vez lamento ter
que negociar com alguém assim. Se os meus analistas não
tivessem projetado um lucro quase indecente caso eu adquira a
empresa dele, eu o mandaria para o quinto dos infernos.
Frank Morrison é tudo o que eu desprezo em um homem: caráter
fraco, maleável, que age de acordo com o que acha que esperam
dele. Se quer ser um bastardo, agir como um, deve abraçar a causa
e não ter medo de alguém, mas se precisa se adaptar às situações,
então para mim, você é um nada.
— O que quer que eu faça?
— Se, e estou enfatizando bem o “se”, formos negociar, terá que
passar por uma auditoria dos últimos dez anos. Meus analistas
demoraram somente uma hora para descobrir inconsistências nos
números que você me enviou. 
Na verdade, eu já mandei que a auditoria fosse feita e tenho os
resultados no meu e-mail, mas gosto de fazê-lo suar. Além do mais,
quero saber se ainda tem algum esqueleto no armário. Dados que
meus empregados não tenham conseguido alcançar, mesmo que eu
desconfie que não. Frank não é um gênio das finanças, mas um
ladrãozinho que tentou fraudar a própria empresa e falhou logo de
cara.
Ele concorda com a cabeça, mas percebo que empalidece.
— E o que mais?
— Se houver outros indícios de fraude, o negócio estará
cancelado.
— Não houve, foi a primeira vez…
— A sua sorte é que o ano fiscal ainda não foi finalizado.
Segundo meus advogados, dá tempo de consertar. — Dobro uma
perna por cima da outra e o encaro. Ele parece prestes a desmaiar.
— Achou mesmo que me enganaria? Acreditou que eu investiria em
um negócio de quase um bilhão de dólares sem ter certeza de onde
estou pisando?
— Não… quero dizer, você não entende. Eu estava… estou
desesperado.
— Não, é você quem não entende, Frank. Minta para mim
novamente e não terá outra chance. Vou deixar que os bancos
liquidem todo seu patrimônio. Em pouco tempo, até mesmo esse
relógio caro que está usando, terá que ser dado em pagamento.
— Não vai acontecer, Christos. Tem minha palavra.
Levanto-me sem responder porque a palavra dele não me serve
de porra nenhuma mais. Uma vez mentiroso, sempre mentiroso. 
Desprezo criminosos de colarinho branco. Eles jogam com a vida
de milhares de famílias. 
— Qual será seu próximo passo agora? — pergunta, parecendo
apreensivo.
— Quero conhecer um dos navios. Disse-me que há um
ancorado aqui em Barcelona, então vamos lá. Leve-me para vê-lo. 
— Não posso esvaziar um navio com mais de dois mil
passageiros.
— Eu não pedi isso, mas quero falar com alguns dos
empregados. Não os temporários, mas os fixos. 
— Por quê?
— Nunca entraria em um negócio como esse sem estudá-lo
antes. Há coisas que só eles poderão me responder, que
especialista algum poderá atestar, mas sim quem está no dia a dia
com a tripulação e passageiros. 
— Posso pedir um exemplo?
— Não.
 
 
 
Mais tarde
 
 
 
Enquanto atravesso o navio cercado por meus seguranças, as
pessoas se afastam para me olhar. Não há nada que eu deteste
mais do que isso, mas sofri uma tentativa de assalto há cerca de um
mês e desde então, o chefe dos guarda-costas anda meio
paranoico.
É o preço que se paga por ser rico, mas nada que faça com que
eu me sinta arrependido pelo caminho que segui até aqui.
A história que meu pai conta, desde que nós imigramos para os
Estados Unidos, me marcou para sempre. Minha avó, a mãe dele,
morreu na Grécia por não ter dinheiro para custear seu tratamento
de saúde. Isso fez com que ele deixasse o país onde nasceu e
fosse procurar uma melhora de vida na América.
Eu ainda era uma criança, mas lembro-me de como papai
chegava tarde em casa, nunca tendo um dia de folga, cheio de
ideias e planos. 
Ele aprendeu a profissão de alfaiate e em pouco tempo começou
a ser muito requisitado, até que os negócios cresceram ao ponto
que precisou contratar funcionários e abrir filiais.
Para tornar curta uma história longa, quando fiz dezoito anos, nós
já éramos ricos. O lema do meu pai é crescer e multiplicar — e isso
não tem nada a ver com netos, embora eu tenha certeza de que ele
os deseja — mas com o saldo da nossa conta bancária. 
Hoje sou dono das dez maiores marcas de alta costura e
acessórios ao redor do mundo, no segmento masculino e feminino,
mas fiel ao lema do meu pai, ampliei meus negócios, investindo em
diversos setores.
É é justamente por isso que estou vindo a esse jantar hoje.
Minha mãe ficou louca com a ideia de que comprarei uma frota
de navios de turismo e quem vê assim até pensa que não sou dono
de um iate gigantesco. O problema é que dentro de dona Danae
Lykaios ainda existe uma moça simples, oriunda de uma pequena
ilha na Grécia. 
Não importa quantas joias e casacos de pele possua, é uma
mulher sem um grama de arrogância dentro de si e que adora
conversar com as pessoas — qualquer pessoa — de modo que
estar em um cruzeiro, ou vários, porque se a conheço bem, fará tour
pelo mundo caso esse negócio se concretize, parece sua ideia de
paraíso.
— Nós jantaremos em uma sala no último andar, junto ao
comandante, mas se quiser, pode visitar o navio depois — Frank
diz.
Concordo com a cabeça.
— Hoje não seria a noite de gala? Pelo que pude entender, o
comandante precisa estar presente.
Ele me olha, parecendo surpreso.
— Sim, e é, mas ele não comerá com os hóspedes. Raramente o
faz. Em nossos navios, somente a primeira classe é admitida nesse
jantar, mesmo assim o assédio ao comandante é grande,
principalmente por parte das mulheres. Para evitar problemas, ele
come sozinho ou… em companhias especiais.
— Eu não vou demorar.
Na verdade, eu nem pretendo jantar. Tenho uma atriz me
esperando em uma suíte presidencial do Oviedo Tower[9]. Ela é um
encontro casual quando estou em Barcelona. Essa seria a segunda
vez que nos veríamos.
Apesar de possuir um apartamento na cidade, não levo
namoradas para lá. Isso poderia passar uma impressão equivocada
de compromisso. Como todo grego, família é importante para mim e
claro que pretendo me casar um dia e ter descendentes, mas nunca
encontrei alguém que me fizesse pensar em algo mais do que boas
noites de sexo.
— Tudo bem. Como queira.
 
 
 
Meia hora de conversa e eu já estou pronto para ir embora.
Na verdade, com meus trinta e cinco anos, eu não preciso de
muito mais do que alguns minutos de conversa com alguém para
fazer uma leitura completa de sua personalidade, e o comandante,
Bentley Williams, não passa de um cretino vaidoso. O que quero
fazer mesmo é dar uma volta e conversar com alguns funcionários
aleatoriamente.
Preparo-me para levantar quando noto, na entrada da sala, um
delicioso par de pernas em uma minissaia.
Sim, um par de pernas, porque ela carrega uma bandeja duas
vezes o seu tamanho. Não podendo ver o rosto, sigo o caminho
inverso.
É alta, mas tem pés delicados, calçados em scarpins horríveis,
mas que nela ficam muito sexies. Os quadris são suaves, mas um
pouco hipnotizantes, já que ela tem um requebrar sensual quando
anda.
Por um momento, esqueço quem está à minha volta, louco para
ver mais.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 3
 
 
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
 
Tenho uma vaga noção de que alguém está falando comigo, mas
estou interessado demais em descobrir tudo sobre a deusa para daratenção. 
Pernas longas e cabelos loiros são o meu fraco e isso é tudo o
que consigo ver no momento, louco para descobrir a quem
pertencem. Cabelos quase platinados, finos e na altura dos ombros
e pernas intermináveis. Foi somente isso que a mulher precisou
mostrar para me deixar completamente preso a ela.
A bandeja que segura parece impossivelmente pesada para
alguém de estrutura tão delicada, o que é confirmado quando as
taças nela balançam de maneira perigosa.
Uma outra garota a ajuda e então, finalmente eu admiro o quadro
inteiro — de costas, porque como em uma brincadeira de esconde-
esconde, ela se vira antes que eu possa ver seu rosto.
E ainda assim, o pouco que observo faz minha pulsação acelerar.
Eu não faço o tipo poético, mas juro por Deus que me sinto diante
de um anjo.
Meu negócio principal é moda, então tenho um olho clínico para
corpos e a garota cujo o nome não faço ideia, daria uma excelente
modelo de passarela. Com uma estrutura daquelas, poderiam vesti-
la com sacos de lixo e ainda assim seria a única vista pela plateia.
O cabelo que imaginei mais curto, desce em um corte
arredondado pelas costas, uma cascata delicadamente ondulada
caindo pelos ombros estreitos.
Calculo que sem o salto alto, tem uns quinze centímetros a
menos do que meu um metro e noventa e cinco, mas seu corpo é
todo feminino.
Estou totalmente focado nela e isso não é algo comum para mim.
Adoro sexo e mulheres, mas nada me tira a atenção do que
acontece ao meu redor.
Mesmo antes que ela se vire, pego meu celular e envio uma
mensagem desmarcando meu encontro. Não desejo mais de uma
mulher por vez e não há chance de passar a noite com a modelo
com quem tinha um compromisso, quando meu corpo foi despertado
pela loira misteriosa.
Digito rápido.
 
“Divirta-se na suíte. Peça o que quiser. Surgiu um imprevisto. Eu
a recompensarei por isso.”
 
Faço uma anotação mental para pedir que meu assistente lhe
envie uma joia.
Desligo o telefone em seguida porque não lido bem com
lamentos ou cobranças e pelo tempo que tenho de estrada, sei que
é o que virá.
— Christos, quer dar uma volta no navio? — Frank pergunta ao
meu lado.
— O quê?
Finalmente tomo consciência de que há mais gente comigo, mas
exatamente naquele instante a loira se vira, quase que em câmera
lenta. 
Sua beleza me deixa tonto.
Ela é deslumbrante.
Nariz delicado, boca de lábios cheios e os olhos puxados, quase
orientais, mas azuis, fazem um contraste exótico com o conjunto. 
Estou acostumado a ver a beleza todos os dias e para ser
honesto, depois de um tempo, isso cansa, entedia até.
Mas a mulher à minha frente é perfeita e única. Nunca vi um rosto
de traços tão marcantes. Pele translúcida, mas com olhos de uma
japonesa. 
Os seios são pequenos, pelo que a frente do uniforme feio me
deixa ver, mas ela é muito sensual, como se seu corpo tivesse sido
construído para o prazer.
O predador em mim é despertado, a necessidade de fazê-la
minha ecoando forte.
Olhe-me— comando, como se meus pensamentos tivessem força
para fazer com que me obedeça.
— Christos?
— Sim, vou querer andar pelo navio — respondo, somente para
que ele pare de falar.
Qual é o problema da garota? Mesmo ao conversar com a outra
funcionária, ela não levanta os olhos do chão, não faz contato visual
com alguém e eu preciso que me veja.
A mulher que a auxilia, toma a frente e começa a nos servir,
enquanto frustrado, vejo a dona do meu interesse se afastar.
 
 
 
 
Enrolei o quanto pude durante o jantar para ver se ela voltaria,
mas nada aconteceu, então minutos depois, avisei que já estava
pronto para conhecer o navio. 
Não sinto a menor vontade de continuar na companhia dos dois,
cada um deles, desprezível à sua maneira, mas não volto atrás com
a minha palavra, mesmo estando louco para ir embora.
Mal escuto as explicações de Frank ou do comandante, ainda
que de vez em quando pare para falar com um membro da
tripulação.
Estou quase encerrando a noite, frustrado para caralho por saber
que terei que usar de outros meios para descobrir quem é a loira,
quando noto uma nuvem platinada sair por uma porta, em direção
ao convés.
Aviso aos homens que eles devem me aguardar por um instante
e deixo claro pelo meu tom que não quero companhia.
Como um louco perseguidor, saio no encalço do que eu imagino
que seja a mulher que despertou minha libido. Sou um crente de
que oportunidades não devem ser desperdiçadas e se é ela quem
está ali, não a perderei de vista outra vez.
Ando devagar, para não assustá-la.
Parece estar tirando fotos de si mesma — uma selfie — tendo
como fundo, o navio. 
A temperatura caiu e ainda vestida com o uniforme de garçonete,
percebo que parece estar sentindo frio, mas mesmo assim, não
desiste de tentar conseguir um bom ângulo.
Também fala consigo de vez em quando, sacudindo a cabeça,
argumentando e acabo de descobrir um voyeur[10] dentro de mim.
Não estou acostumado a esperar as coisas acontecerem, mas
dessa vez, no entanto, me mantenho nas sombras só olhando-a,
com as mãos nos bolsos da calça do terno.
O convés está deserto a essa hora porque há uma festa
acontecendo no piso inferior. Na verdade, pelo que entendi das
explicações de Frank, ela nem deveria estar aqui porque nesse
andar somente funcionários autorizados podem circular.
Como se sentisse que não está sozinha, ela olha para trás e no
susto ao me ver, deixa o celular cair no chão.
Abaixa-se para pegá-lo e parece prestes a sair correndo.
— Não. Fique — comando.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 4
 
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
Minutos antes
 
 
 
Subo as escadas para o andar de cima com as pernas bambas.
Eu sei que não deveria fazer isso. Vir a esse piso desobedece as
regras com as quais concordei quando fui contratada, mas acontece
que o andar superior, do lado de fora, é onde fica a vista mais bonita
do navio. Preciso tirar fotos, como prometi à Pauline.
Seguro a bonequinha que sempre carrego comigo e que a
representa, para que nós duas apareçamos na fotografia, mas é
difícil encontrar um bom ângulo. Eu precisava de selfie-stick[11].
O fato do meu coração estar batendo como um tambor também
não ajuda. Se me pegarem aqui, serei demitida.
Giro um pouco o braço e finalmente parece que ficaremos ambas
bem na foto. Estou pronta para acionar o botão quando, pelo visor
da câmera, percebo alguém — um homem — atrás de mim.
Volto-me para olhá-lo e no susto por ter sido flagrada, meu
telefone cai.
Ai, meu Deus!
Abaixo-me na velocidade da luz e como uma doida, me preparo
para correr — é, eu não estou raciocinando direito. Deveria me
desculpar por estar em um lugar não autorizado e tentar salvar o
resto da viagem.
— Não. Fique — o homem manda e como se tivesse sido
treinada para isso, eu congelo no lugar.
Estou olhando para o chão, morrendo de vergonha, mas há
qualquer coisa em seu tom que me faz querer obedecê-lo.
— Não precisa ter medo de mim — diz e eu acredito, mesmo sem
ter a menor noção de quem ele é.
— Eu sinto muito. Não deveria estar aqui — finalmente me obrigo
a falar, mas ainda sem encará-lo.
— Qual é seu nome?
Vejo-o através dos meus cílios porque minha maldita timidez não
me permite um olho no olho, mesmo que agora eu esteja um pouco
curiosa. Sua voz é bonita, ainda que soe dura. Não tenho dúvidas
de que pertence a alguém acostumado a ser obedecido.
A primeira coisa que noto são os ombros largos, quase uma linha
reta. E quando digo largos, essa é a exata definição. O terno que
veste parece ter sido moldado nele, sem uma dobra de tecido
sobrando.
A curiosidade vence a timidez e levanto o rosto para observá-lo.
Talvez não seja muito educado, mas faço um estudo por seus
traços.
Tem uma pele de um bronzeado suave e intuo que é natural. Ele
passa a impressão de ter tanta energia dentro de si, que duvido que
ficaria parado, tomando sol.
Deve ter mais de trinta anos.
Cabelo de um louro escuro, cortado curto, sem um fio fora do
lugar — o oposto dos meus, que porserem muito finos, estão
sempre esvoaçando. O nariz é reto. O maxilar quadrado e
precisando barbear completa o quadro. De uma maneira doida, eu
gosto daquilo porque quebra um pouco sua aura de perfeição,
tornando-o mais humano.
Mais próximo de mim — uma voz sem noção diz em minha
cabeça.
Próximo? Acho que não. Por sua aparência, ele poderia ser
perfeitamente da realeza. A postura é a de um nobre.
Nunca me senti tão impactada na presença de um homem antes
e não consigo parar de observá-lo.
Chego aos olhos. São azuis, profundos e me encaram como se
estivessem permitindo meu exame. 
Sem dizer mais nada, ele mesmo assim me prende no lugar.
— Nome — repete e dessa vez há um tom mais rouco em sua
voz que arrepia os pelos do meu corpo.
— Zoe Turner.
Ele dá um passo para mais perto, mas eu não sinto medo. Ao
contrário, fico ansiosa, mas antes que qualquer um de nós possa
falar, ouço uma porta se abrir por trás dele e, nervosa que possa ser
algum superior do navio que vá chamar minha atenção, saio
correndo.
 
 
 
 
Barcelona — Espanha
 
 
Na manhã seguinte
 
 
 
Eu nem acredito que estou aqui! É como fazer parte de um filme.
Ver pessoalmente uma construção que observei tantas vezes pelos
sites de turismo na internet.
De Boston para o mundo, Pauline.
Quando fui aprovada para trabalhar no navio, fiz uma lista com
mamãe dos lugares em que aportaríamos, para que pudéssemos
descobrir as melhores atrações turísticas das cidades.
Não tínhamos dinheiro para comprar antecipadamente tíquetes
para todos os museus que eu gostaria de visitar, mas pelo que
lemos, ao menos o de La Sagrada Familia eu precisaria, porque
eles são limitados e se esgotam rapidamente.
Quando cheguei, havia uma fila gigantesca de turistas do lado de
fora esperando para entrar e eu agradeci a Deus por ter sido
precavida.
Leio o folheto em minha mão[12].
 
“… La Sagrada Familia é uma grande basílica inacabada[13] de
Barcelona, Espanha. Projetada pelo arquiteto espanhol Antoni
Gaudí, faz parte do Patrimônio Mundial da UNESCO.
A construção da Sagrada Família começou em 19 de março de
1882, sob supervisão do arquiteto Francisco de Paula del Villar. Em
1883, quando Villar renunciou, Gaudí assumiu como arquiteto-chefe,
transformando o projeto com seu estilo arquitetônico e de
engenharia, combinando formas góticas[14] e curvilíneas art
nouveau[15]. Gaudí dedicou o resto de sua vida ao projeto e está
enterrado na cripta. Na época de sua morte, em 1926, menos de um
quarto do projeto estava concluído. 
Contando apenas com doações privadas, a construção da
Sagrada Família progrediu lentamente e foi interrompida pela
Guerra Civil Espanhola. 
Em julho de 1936, revolucionários atearam fogo à cripta e
invadiram a oficina, destruindo parcialmente as plantas, desenhos e
modelos de gesso originais de Gaudí, o que levou a 16 anos de
trabalho para juntar os fragmentos do modelo mestre. A construção
foi retomada com progresso intermitente na década de 1950. 
Avanços em tecnologias permitiram um progresso mais rápido e a
construção ultrapassou o ponto médio em 2010. No entanto, alguns
dos maiores desafios do projeto permanecem, incluindo a
construção de mais dez torres, cada uma simbolizando um
importante Figura bíblica no Novo Testamento…”
 
Enquanto caminho pela nave da igreja, vejo as pessoas
fotografando as paredes da construção. Eu prefiro olhar e depois
comprar um livro contando sua história porque se ficar parando para
tirar fotos, vou perder a verdadeira emoção de estar aqui. 
Quando sair, no entanto, vou tirar minha fotografia com Pauline.
Ela está dentro da bolsa. Até agora na viagem temos duas dúzias
de fotos juntas e vamos dar um senhor upgrade em nosso álbum.
Antes dessa viagem, eu tinha fotos com ela dentro de Boston,
mesmo. No museu de ciência, no Quincy Market[16] — que eu amo
visitar, mesmo sem ter dinheiro para comprar nada — e em Boston
Harbor[17], meu lugar favorito de todos, fora do verão. Nessa
estação, os turistas lotam as ruas e mal se consegue chegar até o
porto.
— Nenhuma selfie hoje? 
Meu coração dispara ao ouvir a pergunta porque sei
perfeitamente a quem a voz pertence.
Ao homem lindo de quem fugi ontem.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 5
 
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
 
Volto-me para ele com a mão espalmada sobre o peito. Não é
tanto pelo susto, mas em uma tentativa de acalmar as batidas do
meu coração.
O que há nesse homem que faz com que eu me sinta assim? Sou
inexperiente, mas vivo uma vida normal. Já tive até um namoradinho
no colégio, embora nunca tenha acontecido qualquer intimidade
entre nós. 
Não é como se eu morasse em uma ilha isolada e nunca tivesse
visto um homem bonito na vida. Principalmente depois que comecei
a trabalhar no navio. Não só muitos dos hóspedes, como também
vários tripulantes, são charmosos e interessantes. Mas há alguma
coisa nesse aqui, que faz com que minhas pernas fiquem trêmulas.
Ontem à noite, quando fugi dele e depois que o medo de ser
possivelmente flagrada pelos meus superiores fazendo algo fora das
regras passou, fiquei muito tempo sem conseguir dormir, olhando
para o teto da cabine abafada que divido com Tamara.
O rosto do homem não saía da minha mente, assim como a
sensação de formigamento pelo corpo inteiro.
Eu tenho certeza de que ele não trabalha no navio — não parece
trabalhar para qualquer um além de si mesmo — e também não é
um dos hóspedes habituais porque já conheço os hóspedes vips, da
primeira classe, que não são tantos quanto os das classes
econômicas.
E eu não duvido nem por um segundo sequer que esse aqui
parado à minha frente não precisa economizar nada. Ele passa uma
sensação tão grande de poder que chega a ser intimidante, embora
em se tratando de mim, não seja difícil assim me fazer sentir
acanhada. 
— Você não é muito de falar, não é? 
A voz demonstra irritação, o que acaba por despertar a minha
também.
— Não com estranhos — respondo, empinando o queixo. — O
que o senhor está fazendo aqui?
— Eu mandei que alguém a seguisse.
Abro e fecho a boca, mas sem conseguir emitir som. Estou
perplexa com a confissão.
— Não vai dizer nada?
— Eu não sei o que responder.
— Muito prazer seria um bom começo, Zoe Turner.
— Eu… hum… sequer sei seu nome.
— Xander Megalos — diz, esticando a mão em cumprimento.
Eu a olho. É enorme e um desejo súbito de sentir sua pele me
domina. Hesito antes de oferecer a minha, no entanto, mas assim
que faço, ele a pega, prendendo-a.
Um choque delicioso atravessa meu corpo, ao mesmo tempo em
que fico sem fôlego.
Seu polegar acaricia o dorso da minha mão e o contato simples
faz minha pulsação acelerar.
Isso dura poucos segundos, porque me obrigando a voltar à
realidade, solto-me dele e dou um passo para trás.
O homem é um estranho e geralmente sou bem arisca em
situações assim — quero dizer, não assim como a de agora, porque
até hoje nunca tive em meu encalço um tão lindo, mas já vivi
episódios bem constrangedores de pessoas que confundiram minha
gentileza com abertura para algo mais.
— Por que me seguiu, senhor Megalos? 
— Por que um homem segue uma mulher?
— Há um nome para isso nos Estados Unidos — falo, ao invés
de responder diretamente à pergunta. Até porque, não tenho certeza
e sinto medo de passar vergonha.
Tento me mostrar mais confiante do que sou, porque se eu for
honesta, estou excitada com a possibilidade de que alguém como
ele tenha se dado ao trabalho de vir atrás de mim.
— Estou me impondo a você, Zoe?
Olho-o tentada a dizer que sim, mas não sou uma mentirosa.
— Não, mas gostaria de entender por que mandou que me
seguissem, então.
— Porque quero conhecê-la melhor.
Finjo que não ouvi essa parte, embora agora meu coração esteja
martelando dentro do peito.
— Não entendo. Como me conhecer melhor? Nós não nos
conhecemos de maneira alguma, a não ser por aquele instante em
que fui ao andar superior e o encontrei.
— Você estava servindo o jantar ao comandantee eu a vi, mas
como não levantou o olhar do chão, não deve ter percebido que a
estava observando.
Meu Deus do céu, que homem direto!
Por que o que ele está dizendo, ao invés de me deixar
apavorada, me faz sentir como se houvesse uma revolução de
borboletas no meu estômago?
— Não há nada de errado em ser tímida — argumento e arrisco
um olhar.
Um canto de sua boca se ergue com a sombra de um sorriso.
— Eu não disse que havia, Zoe. 
Sinto minhas bochechas esquentarem. Estou agindo igual a uma
mal-educada desde ontem. Minha mãe me daria uma bronca
danada se descobrisse. A começar por ter ido escondido para o piso
superior e com isso, quebrado várias regras.
— Não costumo fugir das pessoas e sinto muito ter ido embora
daquele jeito ontem. Fui rude, mas me assustei. Eu não poderia
estar ali — falo, antes que consiga me parar, e logo em seguida,
completo — mas não perderia a oportunidade de tirar uma foto
naquele lugar. 
— Costuma aproveitar oportunidades, Zoe?
É muito louco que eu adore a maneira como pronuncia meu
nome? Parece calda de caramelo saindo de sua boca. Ele estica as
sílabas, como se saboreasse cada uma das letras.
— Nunca tive tantas assim que pudesse pensar a respeito. O
senhor é um hóspede? Tenho quase certeza de que não, mas quero
esclarecer porque, se for, nem poderíamos estar conversando.
Olho para suas mãos e não vejo qualquer aliança de casado,
mas quando torno a focar em seu rosto, sei que fui pega em
flagrante.
— Não para as duas perguntas.
O calor no meu rosto aumenta.
— Não entendi — disfarço.
— Não sou um hóspede. Estava no navio porque talvez compre a
frota. E não sou casado.
Nem tento salvar minha dignidade porque acho que ele não iria
acreditar, de qualquer modo.
— Não posso conversar com hóspedes, a não ser para servi-los
— explico.
— Não estamos no navio.
— Não é só isso. A maioria dos homens lá são casados e não
seria certo conversar com o senhor…
— Você — comanda.
— Tudo bem. Não seria certo conversar com você em qualquer
lugar, se fosse esse o caso.
— Mas não sou. E nem um hóspede tampouco, então podemos
pular essa parte.
— Não entendi.
— Almoce comigo.
— Ainda é de manhã. Além do mais, vim visitar a igreja. Ainda
não acabei. Não sei quando terei outra oportunidade dessa na vida
— explico. — Mas se quiser, pode me fazer companhia.
Nem eu mesma acredito que disse algo assim, mas a verdade é
que estou muito atraída por ele.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 6
 
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
 
Eu mal acredito no que acabo de ouvir.
Ela quer que eu passeie ao seu lado pela igreja?
Definitivamente, Zoe Turner não está nem perto de pertencer ao
meu mundo. Eu não preciso me dar ao trabalho de abordar as
mulheres nas quais estou interessado. Um olhar geralmente resolve
tudo e agora, enquanto caminho com ela dentro de La Sagrada
Família, me pergunto o que estou fazendo aqui.
À luz do dia, a garota parece ainda mais jovem do que eu
pensara a princípio e por um instante, considero recuar porque é
óbvio que ela é inexperiente. O problema é que Zoe me manteve
pensando nela desde o momento em que saiu correndo ontem.
Não, ela roubou minha total atenção no segundo em que vi as
pernas longas e perfeitas se equilibrando naquele sapato feio. 
— É sua primeira vez na Espanha?
— Minha primeira vez fora de Boston — responde, voltando-se
para me olhar.
E nesse segundo eu entendo o motivo pelo qual não há a menor
chance de que eu recue. Ela é linda demais.
— Seu nome, Xander Megalos, é grego? Não ria se eu estiver
falando besteira, mas soa como grego.
— É, sim — respondo sem elaborar mais.
Propositadamente, dei apenas meu segundo nome e o
sobrenome materno quando me apresentei a ela porque sou muito
conhecido no mundo inteiro. Como não tinha certeza se isso entre
nós resultaria em algo, preferi me manter anônimo. 
Mas depois de cinco minutos aqui, penso que foi uma bobagem.
Zoe não deve saber nada sobre a alta sociedade — o que só a torna
ainda mais atraente para mim.
— Fui indiscreta em perguntar isso?
— O quê?
— Não sou muito sociável, então não sei bem como puxar
conversa. 
— É isso o que estamos fazendo?
Ela dá de ombros.
— Você se dispôs a conhecer a igreja comigo, então achei…
— Já conheço essa igreja. Estou aqui porque quero você.
Também é a mesma razão que me fez mandar alguém descobrir se
sairia do navio hoje.
Vejo o movimento de sua garganta enquanto engole em seco.
— Isso é um pouco assustador.
— Provavelmente.
— Mas lisonjeiro também. Obrigada.
Ela está me agradecendo por desejá-la? Zoe não tem espelho
em casa?
— Vamos tomar um brunch[18]. Hoje é domingo, o dia em que
vocês americanos fazem isso.
Novamente ela foge de uma resposta.
— Como conseguiu um ticket para entrar aqui? Eu comprei o
meu há um tempão.
— Tudo tem um preço. Dinheiro, contatos, basta saber como
acionar o que o outro almeja e se consegue qualquer coisa.
— Parece um pouco frio.
— Direto, eu diria. Prefiro sempre a honestidade. Cartas na
mesa.
Estamos quase na saída agora e tenho a sensação de que não
fizemos progresso algum.
— Que horas tem que voltar ao navio?
— Ele só vai partir às cinco, então basta que eu esteja lá às três.
Preciso andar porque tenho que comprar umas lembrancinhas para
minha mãe.
— Venha comigo para o meu iate.
— Obrigada pelo convite, mas não o conheço. Em compensação,
ficaria encantada se me acompanhasse em uma xícara de
expresso. 
Olho para ela para ver se está jogando comigo, mas seu rosto
inocente me diz que está falando muito sério.
— Tenho uma contraproposta.
— Isso é uma negociação? — pergunta com as bochechas
coradas e finalmente eu vejo que está sim, tão interessada quanto
eu, mas talvez não saiba demonstrar.
— Tudo em minha vida é uma negociação, Zoe.
— Qual seria sua proposta?
— Um café para começar. Um almoço daqui a pouco. Eu quero
conhecê-la melhor.
— Mas eu vou embora hoje ainda.
Talvez você não queira ir. 
Mas ao invés de assustá-la com a minha arrogância habitual,
contorno suas dúvidas.
— Uma coisa de cada vez, Zoe. Um café e depois decidimos o
resto.
Saímos da Igreja e após driblarmos a multidão com meus guarda-
costas somente a alguns passos atrás, avisto meu carro. 
Mas aparentemente, Zoe também e para de andar.
— Achei que fôssemos caminhando.
— Não para onde a levarei.
— Eu…
— Você é adulta, Zoe?
— Sim.
— Então terá que tomar uma decisão. Eu quero conhecê-la
melhor, mas não a forçarei. Estou convidando-a para um café, mas
não em um lugar que teremos que gritar para escutar um ao outro.
Fica a seu critério vir comigo ou não.
— Não sei nada de você.
— Sabe meu nome. — Estico a mão em sua direção pedindo seu
celular que ela segura como se fosse um tesouro. — Desbloqueie.
Hesita, mas acaba obedecendo.
Abro sua agenda e gravo meu nome e telefone.
Depois ligo para mim mesmo.
— E agora tem meu telefone também. Compartilhe com quem
quiser se isso significar que virá comigo.
— Não sou criança — diz com o rosto fechado e nem isso diminui
sua beleza. — Posso muito bem ir tomar um café — fala,
enfatizando a palavra como que para deixar claro para mim que não
passará disso — sem precisar de autorização de alguém.
— Uma rebelde?
— Nada nem perto disso, mas não gosto de ser desafiada,
senhor Megalos.
Tenho certeza de que voltou a me chamar de senhor para me
provocar e isso só me excita mais.
Não gosto de discussões inúteis, então, apoiando a mão na parte
baixa de suas costas, eu a direciono para o carro.
Não me lembro a última vez em que me senti tão estimulado por
uma mulher.
Quando se está em jogos de sedução há muito tempo como eu,
chega uma hora em que tudo fica entediante e previsível. Com Zoe,
entretanto, eu não sei o que vai acontecer. Apesar da natureza
tímida, ela deixa claro que tem personalidade e isso está fazendo
meu sangue ferver.
O motorista nos espera com a porta do carro aberta. Ela vira para
trás e me diz.
— Preciso voltar aqui antes de ir para o navio. Não compreia
lembrancinha da minha mãe.
— Posso dar um jeito nisso.
Enquanto se acomoda no banco de trás, volto-me para um dos
guarda-costas.
— Vá a uma dessas lojas de souvenir e compre um de cada de
tudo o que encontrar escrito Barcelona e La Sagrada Família. 
— Sim, senhor.
Entro no veículo e ela está fechando o cinto de segurança.
— Estou aceitando um café. Nada além disso.
— Não me lembro de ter oferecido algo diferente, Zoe —
respondo, escondendo um sorriso.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 7
 
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
Meia hora depois
 
 
 
 
— Você está me fazendo falar, mas não disse quase nada sobre
si. 
Na verdade, está me observando como se quisesse enxergar
dentro de mim. Se eu não me sentisse tão atraída por ele, talvez
aquilo me assustasse, mas ser alvo de sua atenção me dá uma
sensação deliciosa.
Viemos ao terraço de um restaurante, sozinhos com ninguém
além de um garçom. Ele me convidou para almoçar depois, mas cá
estamos em um local apropriado e não me perguntou se eu
desejava uma refeição completa. Acho que é porque tem planos
comigo.
Claro que ansiosa como estou pela presença dele, eu não
conseguiria comer de qualquer modo.
— Talvez eu seja melhor ouvinte.
— Você é?
— Geralmente, não, mas gosto da sua voz. Na verdade, de tudo
o que vi em você até agora.
Foco na xícara de café expresso à minha frente.
— Você é bem direto.
— A vida é curta, Zoe. Não sou o tipo de homem que dá voltas.
Quando quero algo, vou atrás.
— Como eu.
— Sim — ele responde e um mal-estar se espalha dentro de
mim. Não tem nada a ver com sua franqueza, mas com a maneira
casual com que diz aquilo. 
Ninguém precisa ser um gênio para entender que não é a
primeira vez que ele vai atrás da mulher que deseja.
Com isso, minha bolha acaba de ser estourada. Meu sonho de
Cinderela, me sentindo especial para ele, desapareceu em um
passe de mágica e a realidade por trás do quadro que eu quis
enxergar não tem nada de bonita.
Xander quer sexo.
Sabe-se lá o motivo, me achou atraente e resolveu vir atrás.
Para disfarçar o quanto estou me sentindo uma idiota, confiro as
horas no celular.
Quando torno a encará-lo, sei que percebe imediatamente que
nosso encontro acabou.
— O almoço prolongado no meu iate está fora de questão,
suponho.
Balanço a cabeça para cima e para baixo.
— Eu preciso ir — falo, já pegando a minha bolsa. — Tenho que
voltar e pegar o souvenir da minha mãe. Além do que, não é
somente um almoço o que você tem em mente. 
Ele não nega e como a boba carente que sou, sinto meu coração
afundar.
Antes que eu possa me levantar, ele se posiciona atrás da minha
cadeira e ajuda a me erguer.
Não bastasse ser lindo e cheiroso, ainda é muito educado.
Ele não se afasta e o calor de seu corpo de encontro às minhas
costas me faz estremecer.
Eu não me movo, mas olho para trás.
Doce Senhor Jesus, o homem é um escândalo de tão bonito. Se
eu não fosse uma sonhadora que espera um dia encontrar um
príncipe encantado, aceitaria sem pestanejar ser sua… amante? É,
acho que é isso mesmo que homens como ele têm.
Olho em seus olhos, me despedindo dentro da minha cabeça do
homem mais sexy que eu já encontrei.
O problema é que posso não conhecer nada da vida, mas
conheço a mim mesma. Quando tudo acabar, o que significaria hoje
à tarde, já que tenho que voltar para o navio, eu vou me sentir
sozinha e rejeitada outra vez.
Todo o amor que recebi da minha mãe biológica está cada vez
mais distante na minha cabeça. E por mais que meus pais adotivos,
meus anjos encarnados, tenham ajudado a cicatrizar muitas feridas,
os anos nos quais mal me acostumava a uma família e era
novamente devolvida, me deixaram com verdadeiro pavor de ser
abandonada.
Eu teria que ser muito louca ou estúpida para escolher
espontaneamente algo assim.
Ele abaixa a cabeça e fala perto da minha orelha.
— A minha intuição diz que seria uma delícia, Zoe.
A boca dele está tão próxima que a tentação de me aproximar e
beijá-lo é grande demais.
Sentindo-me um pouco mais confiante porque estou decidida a ir
embora, o encaro.
— A minha também, mas acredite quando falo que, apesar disso,
nenhum de nós é o que o outro está procurando.
 
 
 
Voltamos para o carro e havia ao menos três bolsas com dezenas
de souvenires dentro. Fiquei muito sem jeito quando ele me disse
que mandara seu funcionário comprar para minha mãe.
Falei que não poderia aceitar, mas ele não tomou conhecimento,
então a única saída seria agradecer, entrar no veículo e aproveitar a
carona de volta ao porto.
Para minha decepção, ele não me fará companhia, somente
dando instruções ao motorista de onde me deixar.
Com a porta ainda aberta, ele está me olhando com tanta
intensidade, que eu tenho vontade, pela primeira vez na vida, de
pagar para ver e faço algo que nunca imaginei ser capaz.
Solto meu cinto de segurança e saio do carro, o corpo quase
colado ao dele porque ainda permanece junto à porta.
Não se mexe, me olhando como um predador.
Eu me sinto linda e desejada e levo adiante meu plano. Em um
ataque de ousadia, passo os braços em volta de seu pescoço e colo
os nossos lábios.
Eu nem sei como beijar um homem como ele, mas não penso
nisso e somente que essa é a última chance de saber como é o
gosto de sua boca.
A intenção era que fosse um beijo leve, mas assim que nossos
lábios se tocam, ele passa a mão em volta da minha cintura, me
puxando contra seu corpo.
A mão enrosca em meu cabelo com força suficiente para fazer
minha cabeça inclinar para trás, mas sem me machucar.
— Eu não faço nada com suavidade, Zoe. Quer me beijar?
Vamos fazer gostoso.
E então, todas aquelas descrições dos filmes sobre céus
estrelados, sinos tocando, frio na barriga, acontecem ao mesmo
tempo quando ele toma o controle do beijo.
Cumprindo a promessa do que falou, os lábios me devoram,
sugando, mordendo, a língua pedindo passagem, a intensidade da
pegada em meu cabelo aumentando.
Eu me desmancho contra seu corpo, minha pele está em
chamas. Meus seios doloridos, sensíveis contra o peito sólido. As
mãos criam vida, se perdendo em seus cabelos, as unhas
arranhando-lhe de leve o pescoço. 
Estou tão rendida que me esqueço de tudo à minha volta, mas
ele aparentemente não, porque se afasta, mesmo que ainda me
segure pela cintura, talvez intuindo que não sou capaz de me
manter firme sobre meus pés.
Segundos depois, dá um passo para trás.
— Mudou de ideia?
— Eu não posso. Quero muito, mas já tive minha cota de
abandono na vida.
Volto para o carro depressa, antes que perca a coragem, porque
sei que há uma grande chance de que eu me arrependa por perder
essa oportunidade de sonhar.
Recosto a cabeça na poltrona, de olhos fechados e ouço a porta
fechar.
Essa tarde ficará na minha memória.
Não se conhece um homem como ele e se esquece depois. 
Todos ficarão apagados perto de sua beleza e masculinidade. 
Eu sempre me senti atraída por homens mais velhos, mas nunca
alguém com tanta aura de poder quanto Xander.
E pensar nisso, somente agora me faz lembrar do que disse
sobre estar interessado em comprar a frota de navios do cruzeiro.
Mais uma pequena amostra do abismo que existe entre nós. 
Não é apenas a idade ou experiência o que nos separa, mas
riqueza também.
O carro roda pelas ruas de Barcelona e isso normalmente me
empolgaria — as pessoas sorrindo e conversando despreocupadas,
um cenário diferente da minha vida sem graça em Boston — mas
nesse instante, tudo o que penso é em nosso beijo e seu olhar em
mim.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 8
 
 
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
 
 
Subo a rampa para voltar ao navio, com a sensação de que estou
deixando um sonho para trás. Sim, sei que é uma loucura e que
também haja uma grande chance de que esse sentimento seja fruto
da minha carência, mas e se for mais? E se, por medo, deixei de
viver algo incrível?
Os tripulantes me cumprimentam enquanto caminho. Pelos meus
cálculos, ainda faltam cerca de três horas antes no navio partir,então ao invés de ir direto para a cabine minúscula deixar as
sacolas com as lembrancinhas, sigo para o convés para olhar o mar.
Algumas pessoas falam comigo e eu reconheço entre elas um
hóspede ou outro, mas evito contato visual tanto porque não sou
aquela que inicia uma conversa, como também porque quero ficar
sozinha e pensar no dia de hoje.
Apoio meus cotovelos no parapeito e observo o mar.
Já sou uma adulta, mas não vivi nada ainda. Seria estupidez me
jogar em algo puramente físico com o grego lindo? 
Deus, o beijo do homem me tirou de órbita.
A força de seus lábios contra os meus. A urgência e a forma
como, sem forçar ou dizer nada, seu corpo fez com que eu me
rendesse ao desejo.
Como será ter como namorado alguém assim?
O problema é que ele não quer uma namorada. Pelo que pude
entender, estava à procura de uma tarde de sexo e isso não se
encaixa em minha vida.
— Vai à festa da tripulação hoje à noite?
Volto-me para ver quem falou comigo.
É um dos garçons da primeira classe que nunca havia me
cumprimentado. Na verdade, eu só o vi duas vezes até hoje.
— Boa tarde. Festa?
— Sim, esse é o penúltimo porto antes de voltarmos para casa.
Você também é americana, né?
— Sou sim.
— Então, essa já é a minha décima viagem e sempre antes de
chegarmos ao último porto, há uma festinha bem animada, somente
para os tripulantes.
Preciso de pouco tempo para perceber duas coisas. Não gosto
do jeito como ele diz aquilo e muito menos da maneira como está
me olhando: como se eu fosse um pedaço de carne.
Na verdade, acho que não gosto dele todo. O conjunto da obra.
— Não sabia de festa alguma — desconverso, em parte porque é
verdade, em parte porque não quero estar no mesmo lugar em que
esse cara esteja.
— Será muito mais divertido se você for, Zoe. Haverá substâncias
recreativas lá que fazem tudo ficar colorido.
Estou doida ou ele acaba de insinuar que têm drogas dentro do
navio?
— Hum… okay. Vou pensar nessa possibilidade — minto. —
Agora, se me der licença — digo, começando a me afastar, mas ele
segura meu braço.
— Não tem o que pensar, menina. Não seja boba. Nossas festas
são inigualáveis.
Solto-me com um puxão e dou dois passos para trás.
— Já disse o que queria e eu entendi. Não encoste em mim outra
vez ou vou avisar ao comandante.
Para minha surpresa, a ameaça o faz gargalhar.
— Boa sorte com isso — fala, de maneira enigmática.
Saio de perto do homem insuportável, chateada para caramba
por ele ter estragado o resto da minha tarde.
Vou direto para a cabine, pensando em tomar um banho e
descansar um pouco, mas quando chego, está uma bagunça, com
roupas de Tamara espalhadas por todos os lados.
Deixo minhas sacolas em cima da cama e sigo para o banheiro
minúsculo com meu celular na mão. Dez minutos depois, escuto
vozes dentro do quarto.
Tamara trouxe alguém para nossa cabine? Quero dizer, sei que
ela já ficou com alguns tripulantes e não julgo, mas fizemos um
acordo de que não faria isso dentro do lugar que dormimos.
Dou graças a Deus por ter trazido o vestido e a calcinha que vou
vestir. Geralmente faço isso porque ela não tem muita noção e uma
vez chegou quando eu estava me trocando e manteve a porta
escancarada por mais de um minuto, possibilitando que alguém que
estivesse passando no corredor me visse quase nua.
Desde então, não me visto mais no quarto.
Troco-me rapidamente, mas quando vou sair escuto o que
parecem ser gemidos.
Hesito, sem poder acreditar que aquilo esteja acontecendo. Não
é possível que ela esteja fazendo sexo no nosso dormitório, mas os
sons não deixam muito para a imaginação.
Deus, e agora?
Não sou um bebê, mas não quero fazer parte de um filme pornô,
tampouco.
Respiro fundo enquanto penso em um plano de fuga.
Abrir a porta e sair do quarto o mais rapidamente que eu puder.
Mas quando faço isso, fico enjoada com a cena.
Minha bolsa estava em cima da cama, então não é possível que
não soubessem que estou aqui. Fizeram de propósito?
Tamara está ajoelhada fazendo sexo oral no comandante que,
pelo que percebo, somente abriu o zíper. 
Não parece um ato de duas pessoas apaixonadas, mas algo vil e
me embrulha o estômago.
Sem olhá-los novamente, vou até a porta, esquecida da bolsa e
pensando em desaparecer o mais depressa que eu conseguir. Ao
girar a maçaneta, no entanto, ela não abre.
Giro o trinco e consigo destrancá-la, mas não demoro para
perceber que há alguém do lado de fora me impedindo de sair.
Minhas mãos ficam suadas pelo medo e quando olho para trás,
ambos me observam sorrindo.
— Hora da festa — o homem nojento fala. — Pode tratar de
desfazer essa pose de santa, garota. Sei que você esteve no piso
superior do navio sem autorização e adivinha só? Sumiu um colar
de diamantes de uma das hóspedes justamente nessa noite. Tem
duas opções: se ajoelhar e vir me satisfazer com essa boca linda ou
ser acusada de roubo em um país estrangeiro.
Estou apavorada, mas prefiro ser presa a obedecê-lo. Eles terão
que me matar primeiro.
Corro para o banheiro e tranco a porta, pensando na única
pessoa que poderia me ajudar.
Xander Megalos.
Procuro seu nome na agenda, o coração batendo no ouvido.
Quase desmaio quando ele atende no segundo toque.
— Xander?
— Quem está falando?
— Sou eu, Zoe.
— Zoe?
— Sim. Eu preciso de ajuda. Estou trancada no banheiro da
minha cabine… eles… o comandante e minha colega de quarto…
os dois não me deixam sair daqui.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 9
 
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
 
Do momento em que ela me telefonou, por volta de uma hora
depois que nos separamos, até o instante em que pisei no navio,
não levou mais do que vinte e cinco minutos.
Pelo caminho, entrei em contato com Frank para que autorizasse
minha entrada porque não passaria pelo check-in[19], já que não sou
passageiro.
Louco para fechar negócio como está, ele não questionou a
razão de eu querer vir até aqui.
Avisou que um funcionário estaria me esperando. 
O rapaz estranhou quando mandei que me levasse até a cabine
cujo número Zoe me passou, tentando me explicar que era a ala dos
tripulantes.
Paciência não é o meu forte e muito menos ter que dar
explicações, mas no momento, o que estava em jogo era a
segurança dela.
Eu ainda não entendi bem o que diabos está acontecendo,
porque a história parece tão absurda que é difícil de acreditar.
Como assim está presa no banheiro? Se for o que estou
pensando, meu encontro com o comandante não será bonito. Se ele
a tocou, pode dar adeus à carreira.
Enquanto falávamos ao telefone, tentei fazer com que me
explicasse o que aconteceu, mas ela soou nervosa demais e não
dizia coisa com coisa. Algo sobre um colar ter desaparecido ontem e
que eles a estava chantageando.
Entretanto, tudo começa a fazer sentido quando, ao chegar com
os meus seguranças na cabine que o tripulante me indicou como
sendo dela, vejo um rapaz recostado, braços cruzados, como se
estivesse vigiando o caminho. 
— Saia. — minha voz sai tão forte como um trovão.
— Se o senhor é hóspede, essa é a ala dos funcionários.
Agarro seu colarinho.
— Saia da minha frente.
Dessa vez ele parece entender e me olhando assustado, se
afasta. 
— Abra a porta — digo ao funcionário que me trouxe.
— Não sei se posso fazer isso.
Pego o telefone e rapidamente completo a ligação.
— Frank, quero entrar em uma das cabines dos funcionários. Isso
vai influenciar em minha decisão de fechar negócio. Algum
problema?
— Não estou entendendo nada, Christos.
— Apenas sim ou não, Frank.
— Sim, claro.
— Vou passar o telefone para seu funcionário.
Antes que eles possam se falar, no entanto, a porta se abre e o
filho da puta do comandante sai, ajeitando a camisa para dentro da
calça.
Fico louco. Vários cenários possíveis passando pela minha
cabeça.
Não importa quanto dinheiro eu tenha agora. Meu espírito ainda é
o mesmo de um garoto de uma ilha grega, acostumado a confrontos
físicos e a defender seus pontos de vista com os punhos.
— Onde está ela? — pergunto,imprensando-o contra a parede,
os dedos em garra em sua garganta.
— Enlouqueceu? Solte-me. Ela quem? 
O homem fica roxo, o sorriso cínico que exibia quando abriu a
porta, desaparecendo.
— Zoe Turner. 
O reconhecimento em seu rosto me mostra que ela me disse a
verdade.
— Não o deixem sair — aviso aos meus guarda-costas, já
andando para o quarto.
— Não pode me manter preso. Sou a autoridade máxima desse
navio.
— E nesse instante, passei a ser seu empregador — falo,
tomando uma decisão. — Mas pode me chamar de Deus, também.
Enquanto vejo meus homens se posicionarem para impedir que
ele fuja, entro na cabine.
Há uma mulher seminua lá, deitada na cama, mas nem sinal de
Zoe. 
Quando ela me vê, tenta se cobrir.
— Zoe, sou eu. — aviso.
— Xander?
Talvez fosse a hora de corrigir o equívoco e lhe dizer que todos
me conhecem por Christos e que ninguém me chama pelo segundo
nome, mas de alguma maneira, seguro a informação. Mesmo com a
loucura da situação presente, gosto da ideia de que ela não saiba
quem sou por enquanto.
— Sim, sou eu. Abra a porta. Você está segura agora.
Segundos depois, ouço o som do trinco sendo acionado, mas não
contava com o que acontece em seguida.
Uma Zoe com o rosto inchado pelo choro se joga em meus
braços, como se eu fosse seu porto e algo totalmente desconhecido
se espalha dentro de mim.
Esquecido de todos à nossa volta, eu a abraço, tocando o cabelo
suave.
— Vamos sair daqui.
— O navio vai partir daqui a pouco.
— Não, ele não vai, porque chamarei a polícia. Mas isso não
importa. Não continuará a viagem. Se quiser voltar para casa, tudo
bem. Mas venha comigo. Não há maneira de que a deixe
desprotegida aqui.
Ela se afasta um pouco para me olhar e espero que decida.
Segundos depois, vem a resposta que eu desejava.
— Tudo bem.
 
 
 
Barcelona — Espanha
 
Duas horas depois
 
 
 
Ela está descansando na suíte do meu apartamento. Após eu ter
mandado vir um médico examiná-la e de me certificar de que a
minha empregada cuidaria do que precisasse, contatei meus
advogados para tomarem as providências legais.
Decidi que ficarei com a frota de navios — que já era o que eu
queria, de qualquer modo — mas reformularei todas as regras sobre
relacionamentos entre os tripulantes porque pelo que os advogados
me explicaram, não é incomum esse tipo de assédio dos oficiais
superiores em relação à tripulação.
Quis estar presente quando interrogaram a tal Tamara e pelo que
contou, mantinha um relacionamento consensual com o
comandante. Até aí, não era problema meu, mas o que revelou
depois, sim.
Disse que desde o jantar ontem, quando vi Zoe pela primeira vez,
havia um plano de Bentley Williams para seduzi-la, por isso ela foi
chamada para auxiliar como garçonete na cabine dele. Mas como
eu apareci e pedi para conhecer o navio, não houve chance de que
o maldito a mantivesse lá por mais tempo. 
Foram ao quarto fazer sexo sabendo que Zoe já havia voltado e
com a intenção de persuadi-la para a festinha, mas quando ela abriu
a porta e os flagrou, ficou tão chocada que se trancou no banheiro.
Revelou também que o comandante tentou chantageá-la a
respeito de um colar supostamente roubado, o que era uma mentira,
pois não havia qualquer joia faltando. Ele contava com o fato de Zoe
ser inexperiente e estar em um país estranho. Achou que se ela
sentisse medo, acabaria cedendo.
Quando não obteve resultado nem mesmo com as ameaças,
queria abrir a porta do banheiro à força, mas em um resto de
consciência, ela o convenceu a não fazê-lo, prometendo que lhe
recompensaria pela ausência da amiga.
Amiga, o caralho! Amigos não conspiram ou traem.
Segundo seu relato, não seria a primeira vez que o homem usaria
de métodos mais agressivos para convencer alguém da tripulação a
fazer sexo com ele. Quando ameaças verbais não bastavam,
recorria ao constrangimento físico e que ao menos em uma ocasião,
fez uso do Boa Noite Cinderela[20].
São denuncias sérias, mas sem provas além do que aconteceu
hoje, não passam de boatos, disseram os advogados.
Precisei usar de todo o meu sangue frio para não matar o filho da
puta. Não gosto de pensar no que poderia ter acontecido se a
situação fosse outra e somente estivessem ele e Zoe no quarto.
Instruí meus advogados para que cavassem a vida do homem e
que o punissem como fosse possível. Eu me assegurarei também
de que nunca mais encontre trabalho nessa função.
Estou entrando no meu apartamento, depois de quase quatro
horas na delegacia, quando ao me virar após fechar a porta, dou de
cara com a mulher que, sem medo de errar, se tornou única em
minha vida em um piscar de olhos. De alguém por quem me senti
insanamente atraído, Zoe se transformou naquela a quem precisei
proteger.
Nunca andei por essa estrada, então, ao invés de planejar, como
faço com tudo em meu universo, resolvo deixar a vida me mostrar o
próximo passo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 10
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
 
Pela primeira vez na minha vida, eu não sei como agir.
Inicialmente, fiquei tão hipnotizado por sua beleza, o corpo
perfeito e rosto de anjo, que nem considerei nossa diferença de
idade, mas agora, vestida em um roupão imenso para o seu corpo
delicado, os cabelos molhados do banho e sem qualquer
maquiagem, percebo que Zoe é somente uma garota. 
Não preciso pensar muito tempo, no entanto, porque sem
qualquer indicação do que faria a seguir, exatamente da mesma
forma como no navio, ela vem para mim.
Não há hesitação. Ela passa os braços ao redor do meu pescoço,
colando nossos corpos.
A mulher tem o poder de desencadear um lado meu que nunca
chegou à superfície com alguém que tenha me envolvido
sexualmente: o instinto protetor.
— Obrigada.
Não quero falar. Não ainda. Prefiro sentir o cheiro de seu corpo
recém-banhado. As formas femininas moldadas a mim e a maneira
como seus dedos passeiam pela minha nuca.
Fico tenso de desejo porque ela me desperta uma ânsia
animalesca, mas sei que não é disso que precisa no momento.
— Conseguiu dormir?
Ela se afasta, parecendo finalmente tomar consciência do que
fez.
— Sim e sinto muito por tê-lo atacado, não costumo ser atirada,
mas…
Coloco os dedos sobre seus lábios.
— Passou um dia infernal e eu sou o único rosto conhecido.
— Não é isso, mas se eu explicar vai me achar imatura.
A despeito de toda a merda que atravessamos hoje, sorrio.
— Tente. 
— Normalmente já gosto de abraços e detesto ficar sozinha.
Quando vi você, fiz o que senti vontade.
— Me abraçar?
— Sim — diz, olhando para o chão.
Há uma submissão nela que me excita demais porque sei que faz
parte de seu temperamento, mas que, ao mesmo tempo, sabe se
impor quando precisa, já que me recusou hoje mais cedo.
— Sente fome? — pergunto, tentando muito forte me focar em
algo neutro.
— Sim.
— Quer sair para jantar?
— Primeiro me conte o que houve com a polícia.
Explico rapidamente o que se passou, sem esconder os piores
detalhes, inclusive sobre o relato de Tamara de que ele chegou a
drogar uma tripulante.
Quando termino de falar, ela está tão pálida que acho que pode
desmaiar.
— Sente-se. 
Olha em volta, parecendo perdida. 
Eu a pego no colo e coloco no sofá. Quando olho para baixo, o
roupão abriu um pouco, deixando um pedaço de sua coxa de fora.
Me afasto para não ceder à tentação de tocá-la. Não sou um
moleque. Se tudo correr como pretendo, terei tempo de sobra para
conhecer cada centímetro de seu corpo delicioso.
— Eu não acredito que eles planejaram algo assim para mim.
Como Tamara me traiu dessa forma?
Deus, ela é muito inocente para esse mundo.
— Fui ingênua? — pergunta, como se pudesse ler meus
pensamentos.
— Não. Acho que qualquer uma em seu lugar ficaria chocada.
Sou um cara vivido e nunca imaginei uma situação dessas.
— Preciso avisar minha mãe. Posso usar seu telefone? Ai, meu
Deus! E a minha mala?
— Já mandei que trouxessem. Você provavelmente estava
dormindo quando chegaram.
— Eu nem sei como dar o próximo passo.Quero dizer, vou
precisar comprar uma passagem de avião para voltar para casa,
mas eles não pagaram meu salário dessa semana. Tenho que
conseguir um jeito de recebê-lo.
Suas bochechas estão da cor de fogo e entendo rapidamente que
ela não tem meios de voltar aos Estados Unidos se não receber o
pagamento do navio.
— Isso não será um problema.
— Como não? Ai, Jesus, preciso falar com a mamãe.
— Use o telefone, se quiser. Também posso providenciar seu
retorno aos Estados Unidos, mas antes, tenho uma proposta a lhe
fazer.
— Proposta? — pergunta, parecendo subitamente em alerta.
Sei que provavelmente estou acumulando mais alguns bons anos
no inferno pelo que vou dizer, mas ela é irresistível.
— Sim. Passe um tempo comigo na Europa. Não voltarei aos
Estados Unidos antes do fim do verão, então, vamos nos conhecer
melhor.
Nunca fui tão longe com uma mulher. O que estou propondo à
Zoe é ficar amarrado por mais de um mês a mesma pessoa.
Ela abre a boca e torna a fechar, como se estivesse decidindo,
mas finalmente fala.
— Não sabemos nada um do outro. 
— Teremos tempo para isso, mas por ora, sem promessas ou
cobranças.
— Foi o que eu fiz hoje mais cedo? Cobrei você?
— Não, na verdade você argumentou e eu a respeito por isso.
— O que queria de mim quando me chamou para almoçar pela
manhã não era me conhecer melhor. — afirmo.
— Não. Eu a queria e isso era tudo.
De novo a boca linda se abre em uma expressão de espanto.
— Você é brutalmente honesto.
— Sim. Isso a assusta?
— Não tenho certeza, mas acho que prefiro a sinceridade. Se eu
disser que ficarei com você, o que isso implica?
— O que nós dois quisermos.
Ela pode ser nova, mas não é tão ingênua e entende
perfeitamente o que eu não digo.
Olha para o chão.
— Se eu responder sim, preciso avisar minha mãe de qualquer
modo e dar seu endereço também.
— Não será um problema, mas pretendo sair com meu barco.
Não quero ficar na cidade.
— Por que não? 
— Muita gente me conhece. Quero privacidade com você.
— Primeiro, eu aceitarei seu convite para jantar. Depois decido
sobre sua proposta. Eu preciso pensar, mas de qualquer forma —
ela se levanta e vem para perto da poltrona onde estou e estica a
mão — quero agradecer novamente.
Separo as coxas e a trago para o meio delas.
Ainda segura minha mão e com a livre, brinco com o laço de seu
roupão. Ela acompanha o movimento, a respiração arfante, mas não
tenta se afastar.
— Eu quero você. Provar cada pedaço seu, Zoe, mas a decisão
sobre ficar comigo está nas suas mãos. Se quiser voltar para casa,
tudo o que precisa é me dizer.
— Eu nunca fiz algo nem parecido com isso. 
— Imaginei que não.
— E ainda assim me quer?
Levanto-me e seguro seu rosto com as duas mãos, o polegar
acariciando suas bochechas.
Abaixo-me para falar perto de sua orelha, deixando meus lábios
tocarem o lóbulo.
— Não costumo me repetir, mas talvez você precise de uma
amostra.
Mordisco e deixo minha língua correr na carne macia e ela treme
contra mim, mas não vou longe demais. Ela precisa ter coragem de
se decidir, então me obrigo a tomar distância.
— Vá se trocar. Sairemos em meia hora.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 11
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
Naquela noite
 
 
 
— Você nunca faz uma refeição perto de outras pessoas? —
pergunto.
Estamos mais uma vez em uma ala privada do restaurante,
embora quando entramos e caminhamos por entre as mesas, eu
tenha visto várias cabeças girando para nos observar.
Sei que não foi por minha causa, então só pode ser por ele.
Quem é o homem com quem estou? Quero dizer, eu sei seu nome e
que também é muito rico, mas acho agora que é famoso também.
Pode parecer loucura, mas mesmo sem saber muito dele além de
como se chama, eu me sinto segura com Xander. Ele passa
honestidade e caráter.
Autoconfiança e arrogância também, claro. Mas principalmente,
algo que é fundamental no meu mundo: faz com que eu me sinta
querida — ou melhor, desejada — me corrijo.
Antes de virmos jantar, liguei para minha mãe. Não contei em
detalhes o que tinha acontecido no navio, mas apenas que não
poderia continuar a viagem porque não me sentia bem lá dentro.
Falei que ficaria mais uma semana na Europa, mesmo que eu ainda
não tenha me decidido sobre a proposta dele em definitivo. Levei
uns bons quinze minutos até convencê-la a não se preocupar,
apesar de não ter contado que estaria com um homem.
Como poderia, se até agora não sei direito o que nós somos? 
— Em locais públicos, se eu puder evitar, não — ele finalmente
responde.
— Por quê?
— Não gosto de barulho ou de ter que gritar para escutar quem
está falando comigo.
— Ainda mais eu, né? Quero dizer, todo mundo diz que minha
voz não passa de um sussurro.
Ele chega para trás na cadeira do restaurante, como se
precisasse de um pouco mais de espaço para me observar.
— Por timidez? — pergunta, sem negar.
— Acho que sim. Ou talvez porque, como você, também não
gosto de gritos. Já os tive por tempo demais em minha vida.
Vejo sua testa franzir em confusão e me arrependo
imediatamente por ter falado demais. Com certeza contar sobre meu
passado não é uma boa maneira de iniciar o que quer que
estejamos fazendo aqui.
— Por que houve gritos em seu passado?
— Não é uma conversa agradável para se ter em um jantar.
— A vida nem sempre é agradável, Zoe, mas posso lidar com
isso.
— Sou adotada. Perdi meus pais quando era pequena. Fui
acolhida e rejeitada… hum… diversas vezes. A maioria dos lares
não era composto por pessoas que queriam realmente um filho, mas
a ideia de ter um filho, de serem pais. Crianças dão trabalho e acho
que depois de um tempo, eles se decidiam que eu não valia a pena.
Para variar, não consigo encará-lo quando conto aquilo.
— Quantas vezes a devolveram?
Brinco com o guardanapo de tecido.
— Depois de um tempo a gente perde a conta, mas isso é
passado — minto, porque só Deus sabe o quanto me machucava
cada vez que via a pena no rosto da assistente social quando me
levavam de volta. — Eu fui adotada em definitivo aos onze anos e
desde então tenho pais maravilhosos.
Quando volto a encará-lo, seu rosto está sério e o maxilar,
trincado.
— O que aconteceu com seus pais biológicos?
— Morreram, ambos. Uma diferença de poucos anos entre um e
outro. Eu nem me lembro mais do meu pai, para ser sincera. De
mamãe, sim, mas fica cada dia mais difícil recordar nosso tempo
juntas.
— Quantos anos você tem?
Pela primeira vez desde que aquela conversa começou, respiro
aliviada. 
— Dezoito e meio. Muito nova?
Um de seus dedos brinca com o lábio inferior e aquilo me
hipnotiza um pouco.
— Aham. Pensei que tivesse ao menos uns vinte.
— E você?
— Trinta e cinco. Isso é um problema? — ele imita minha
pergunta.
— Não. O que você me fez sentir quando me beijou é muito mais
importante do que a nossa diferença de idade.
Depois do que eu falo, alguma coisa muda em seu rosto. Não
conheço o suficiente de homens, mas acho que é desejo. Seu olhar
me deixa arrepiada.
Até então, parecia estar me estudando, sem dar qualquer pista
do que pensava a meu respeito, mas agora, sinto em cada gota de
sangue do meu corpo que ele me quer. 
Sim, eu sei que ele já havia dito isso, mas o fato é que não
acredito muito em palavras ou promessas. Já tive um monte delas
em minha vida e todas foram quebradas.
Agora, no entanto, eu sinto seu querer e isso me deixa ansiosa
para ter mais do que quer que ele tenha para me ensinar.
— Já acabou?
— Já, sim. Nós vamos para casa?
— Ainda não. Pensei em algo diferente. Gosta de dançar?
— Eu adoro, por quê?
— Há uma boate de um amigo meu a alguns minutos daqui.
— Pensei que não gostasse de multidões.
— Essa tem um andar exclusivo. Teremos privacidade.
— Está fazendo isso por mim? 
— Sim. Depois do que passou hoje, merece um pouco de
diversão.
 
 
 
Boate Hazard[21]
 
 
Barcelona
 
 
 
— Não estava brincando quando falou que gostava de dançar —
ele diz, sussurrando em meu ouvido, enquanto se move muito
próximoa mim.
Estamos em um lounge que parece ser a ala vip da boate. Essa é
somente a segunda a qual eu vou, a outra, foi com amigas do
colégio.
Não tem comparação com a minha primeira experiência, no
entanto. É tudo muito chique. Até os espelhos e poltronas parecem
luxuosos.
Não há pessoas à nossa volta e percebo que, mesmo aqui, os
guarda-costas de Xander estão ao redor, impedindo que qualquer
um se aproxime.
— Eu costumo dançar sozinha em casa. Música me faz viajar.
Suas mãos estão em meus quadris e minha pulsação, muito
acelerada. Ele não é só lindo de morrer, mas muito sexy também. 
A maneira como olha para mim me deixa com vontade de colar o
corpo ao dele, ser ousada, mas cadê que a timidez permite?
Como se adivinhasse meu desejo, se aproxima, me puxando
para mais perto.
— E o que mais te faz viajar, linda Zoe?
Levanto o rosto para encará-lo.
— Eu ainda não sei, mas quero aprender. Pode me ensinar?
Antes que eu complete uma respiração, nossas bocas se unem.
No começo, em um beijo que parece mais uma exploração mútua.
Lábios se tocando, línguas, dentes.
Em pouco tempo, entretanto, sinto a rigidez de seu corpo
musculoso me dominando inteira. Me fazendo desejar ficar nua,
derretida nos braços dele.
Querendo mais, movo meus quadris ondulando contra seu corpo,
convidando-o.
— Quero te ensinar tudo, mas não aqui. Vamos embora?
Sei que ele não está falando somente de voltarmos para casa e
se eu tivesse com alguma célula cerebral em perfeito
funcionamento, provavelmente diria que não, mas não tenho certeza
de quanto tempo passaremos juntos e a despeito do meu medo de
viver e, consequentemente de sofrer, eu o desejo demais para
resistir.
— Sim. Estou pronta.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 12
 
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
 
Não era o que eu tinha planejado, mas uma conquista lenta.
Ainda que o lema da minha vida seja não perder tempo, sei que
Zoe é especial. Muito jovem também, o que, pela primeira vez, me
fez considerar uma rota alternativa e não partir diretamente para o
sexo.
Mantê-la comigo por um tempo e irmos nos conhecendo porque
ela me faz desejar mais do que já quis com qualquer outra, mesmo
antes de termos transado e isso também é inédito em em se
tratando de mim.
Eram bons planos e intenções, o problema é que a química
incendiária entre nós dita as próprias regras.
Ainda dentro do carro, enquanto o motorista dirigia pelas ruas de
Barcelona, nossas bocas não se separaram. Mãos se buscando,
ansiosas pelo toque, eletricidade pura, violenta e incontrolável.
A curiosidade de Zoe, seu desejo cru, mandou meus planos para
o inferno. Eu me sinto como um adolescente, louco para provar a
primeira namorada no banco de trás, quando, na verdade, sou um
homem experiente com um passado sexual muito próximo à
devassidão.
Mal me dei conta de que chegamos em casa e quando saí do
elevador privativo, já estava com ela em meus braços. Como um
neandertal, andei para o quarto sem sequer pensar em diminuir o
ritmo, pegar mais leve.
O número de mulheres que já passou pela minha cama faria
corar um homem médio. Gosto de sexo e embora nunca tivesse
encontrado até hoje alguém que despertasse meu desejo com tanta
fúria, estou mais do que acostumado à atração carnal.
Há alguma coisa nela, entretanto, que ultrapassa o limite do
físico.
A necessidade primitiva de tê-la nua embaixo de mim, uma
urgência que beira a loucura.
Eu a coloco no chão depois que entramos no quarto e abro a
porta, trazendo-a para a varanda da cobertura.
Sua respiração é curta, enquanto me observa na penumbra. 
Não a toco. Tomo distância, ao invés, mas por dentro estou
acelerado, o desejo impossível de ser represado.
Tesão faminto, vontade de me perder no corpo lindo.
Dou um passo para perto.
— Eu nunca…
— Sei disso, linda Zoe.
Passo o dedo pela alcinha do vestido, brincando de descê-la.
— Toda vez que você me toca, meu corpo inteiro formiga.
— Atração física — falo, tentando convencer a nós dois.
Ela não responde, só me encarando com aqueles olhos que
parecem pedras preciosas. 
Aciono o sistema central de som pelo meu celular e uma música
lenta começa a tocar.
— Vamos dançar? — Sorri, tímida.
— Por que não? — Ofereço a mão e ela vem para perto.
Antes de tomá-la em meus braços, tiro o blazer e deixo em uma
cadeira.
Quando finalmente a tenho junto a mim, ela parece impaciente e
me abraça.
— É certo me sentir tão segura e íntima de alguém que eu mal
conheço?
— Explique-se melhor. Eu quero ouvi-la. Diga-me o que está
pensando nesse instante — sussurro em sua orelha.
— Ficar perto de você me deixa arrepiada e trêmula. Não sei o
roteiro em uma situação dessas, mas eu quero tudo.
Mordo sua orelha de leve e ela geme.
Alcanço o zíper às suas costas e abro o vestido curto e simples,
de um azul da cor dos olhos dela.
— Não tenho vergonha de você e isso é estranho.
— Talvez nossos corpos se reconheçam.
— Acredita nisso? Destino?
Ela está só de lingerie e salto agora. Me afasto para olhá-la.
Tenta cobrir os seios e a frente da calcinha, parecendo muito
envergonhada.
— Não, eu quero vê-la.
Afasta as mãos e me encara. A inocência em seu rosto mexe
com algo profundo dentro de mim.
— Você é linda, Zoe Turner. E respondendo à sua pergunta, não
sei se creio em destino, mas que o universo se alinha para que as
coisas aconteçam. Um minuto a mais ou a menos — falo, me
aproximando e pousando as mãos na cintura fina — seria o
bastante para que nunca nos conhecêssemos, mas cá estamos nós.
Tudo em mim pulsa, lateja, arde por ela. Como um fogo
impossível de ser contido.
O desejo por Zoe é como uma tempestade arrebatadora em sua
força. 
Digo a mim mesmo que não há razão para pressa, ela está aqui e
nesse momento, é minha, mas um tesão febril domina meu corpo e
mente.
Ela parece pressentir minha necessidade e os dedos brincam
com os botões da minha camisa. 
— Abra — comando.
Um a um, ela os livra das casas, concentrada na tarefa.
Quando termina, solto os punhos da camisa e ela a desce por
meus ombros. Sua ação me deixa ver que também está presa na
mesma rede de desejo que eu, porque não parece do tipo que toma
a iniciativa.
Olha meu peito nu e lambe os lábios, envergonhada, mas
também cobiçosa.
A combinação de timidez com ousadia me inflama, transforma
meu sangue em lava.
— Você vai olhar para mim durante todo o tempo, Zoe. Eu nunca
desejei uma mulher como a quero, mas não farei nada sem que me
dê a certeza de que está comigo por todo o caminho.
— Onde? Para onde estamos indo?
— Para dentro um do outro.
Ela agora me encara abertamente, a luxúria suplantando o
temperamento naturalmente dócil.
Movo a mão entre nós e toco seu seio coberto pela lingerie. Zoe
estremece e sua reação só me diz o que eu já intuía: ela é sensível
e quando transarmos, será delicioso.
Manter qualquer barreira é inaceitável, então levo a mão às suas
costas e solto o fecho do sutiã.
Sinto antes de ver, os mamilos duros me tocando. Ela se move,
talvez de forma inconsciente e geme com o atrito dos bicos contra
meu peito. 
Beijo sua boca, pescoço, em uma trilha descendente até o colo.
Levanto a cabeça para olhá-la, ao mesmo tempo em que deixo a
língua tocar o montinho rígido. Ela arfa e as pernas dobram.
Pego-a no colo porque uma sedução à luz da lua para uma
virgem talvez seja mais do que ela consegue lidar.
De volta ao quarto, tento deitá-la na cama, mas ela se senta.
— Vai ficar nu também?
Incrivelmente não parece mais acanhada, e sim curiosa.
— É isso o que quer? — pergunto, com a mão na fivela do cinto.
Um acenar de cabeça é a minha resposta.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 13
 
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
 
Livro-me da calça, mas não da boxer ainda. Vou até onde está e
seguro o interior de suas coxas com ambas as mãos, sentindo-as
em meus dedos. Ela as amplia espontaneamente, reclinando-se na
cama, apoiada nos cotovelos.
Substituo a mão por meus lábios e Zoe urra baixinho.Porra, ela é um tesão.
— Vou deixá-la nua para mim.
Desço sua calcinha e ela acompanha cada movimento. Quando
vejo pela primeira vez a boceta de pelos curtinhos e loiros, minha
boca enche de água.
Provoco os mamilos, ora acariciando-os com o polegar ou
pinçando-os com o indicador e o dedo médio.
Ela grita e choraminga. Volta a sentar na cama.
— Aprenda a se tocar. Você já fez isso?
— Não.
Pego sua mão e sugo as pontas dos dedos, depois, coloco sobre
seu seio direito.
— Assim, mova-a e descubra do que gosta.
Quando faz o que lhe ordenei, rosno, louco de desejo e abocanho
o peito esquerdo, mamando gostoso. 
Faminto, envolvo os montes com as mãos, sugando os dois ao
mesmo tempo.
Ela me agarra o cabelo, puxando-me para mais.
Zoe se derrete de prazer em minha boca e eu mal comecei. 
Meus dedos seguem pela trilha até o vértice de suas coxas.
Mordisco o mamilo no momento exato em que meu polegar
resvala seu clitóris e ela quase se levanta da cama.
A força do meu desejo me faz querer tomá-la de uma vez, dura e
profundamente, mas apesar de não entender muito sobre virgens, já
que minhas parceiras são sempre experientes, sei que essa
primeira vez será importante para ela.
Me revezo mamando e mordendo seus peitos, gravando seus
gemidos em minha memória. 
Ela está me observando, os olhos enevoados de paixão, mas
também vulneráveis e aquilo mexe para caralho com as minhas
emoções.
Zoe é uma mistura única de beleza devastadora, sexualidade
quase indecente e uma pureza que me desconcerta.
Abro suas coxas, deixando a mão palmilhar a boceta encharcada
de desejo, explorando a quentura suave.
Ela rebola em meus dedos, intuitivamente correndo atrás de seu
prazer.
Quando geme e fecha os olhos, um sentimento assustador me
atinge, junto a uma voz ecoando: minha.
Eu a calo, empurrando-a para longe, me obrigando a ficar preso
somente ao prazer sexual.
Observo o contorno da boca inchada pelos meus beijos. A pele
quente pela excitação, a respiração pesada.
Ela olha atentamente, mas quando separo os lábios de sua
boceta e mamo o clitóris, enlouquece. 
Lambo seu sexo de boca aberta, a língua provando pela primeira
vez seu interior intocado.
Me deleito com seu corpo, sem me esquecer sequer de uma
curva ou reentrância, sem me permitir parar até que cada parte dela
seja provada. Quando goza, enchendo minha boca, eu bebo tudo,
sugando, engolindo e não é o suficiente.
Estamos completamente entregues ao mais puro desejo. Presos
um no outro, esquecidos do mundo lá fora.
Nesse momento, eu só quero estar nela. Não há nada além
dessa necessidade.
Aqui, comigo, Zoe é ar e comida.
Eu me ergo e ela parece confusa.
Sem parar de encará-la, desço a boxer.
Seus olhos se arregalam. Meu pau está duro, grosso, pesado e
eu o masturbo devagar, recolhendo um pouco do pré-gozo da
cabeça.
Me aproximo e paro o polegar diante de seus lábios.
— Chupe. Prove meu gosto. 
Ela abre a boca um pouquinho e esfrego o líquido em seu lábio
inferior. Sua língua percorre o local e ela fecha os olhos,
degustando.
— Ainda hoje vou ensiná-la a me tomar inteiro na boca, mas não
agora.
Quando volta a me encarar, não há qualquer receio ali, mas
necessidade.
Me posiciono sobre seu corpo, as bocas se unindo em um clamor
quase violento.
O beijo não é gentil, mas tão duro e impetuoso quanto meu
desejo.
Seguro o seio esquerdo, mordendo-o de leve e ela grita,
choramingando que quer mais.
Deixo um dedo penetrá-la pela metade, massageando-a por
dentro, preparando-a para mim.
Observo fascinado a transformação da garota tímida em uma
gata selvagem, exigente.
Meu pau é puro aço, e quando ela goza pela segunda vez, eu
não posso mais esperar. 
Levanto-me para alcançar um preservativo e visto-o em tempo
recorde.
Posiciono-me novamente sobre seu corpo e ensaio um contato
leve, testando, me movendo somente poucos centímetros.
— Vai doer?
— Um pouquinho, eu acho, mas não pense nisso e sim no prazer
que eu vou te dar depois.
Morde o lábio.
— Não deveria, mas confio em você.
Empurro nela só o suficiente para que sinta a cabeça do meu
pau, mas ela rebola, como se soubesse o que preciso.
Porra, é naturalmente sensual, mesmo sem conhecer nada sobre
sexo.
Movo os quadris, tomando-a mais.
Lambo o mamilo e ela agarra meus ombros com força. A
intensidade de seu desejo destrói qualquer resto de contenção e eu
a invado em uma arremetida longa.
— Ahhhhh… dói.
— Só um pouco, linda. Não se mexa, vai passar.
Beijo sua boca, brincando com a língua em sua quentura. Giro os
quadris para que ela me sinta, mas também para deixá-la mais
relaxada para mim.
— Você é tão apertada, Zoe. Tem um boceta deliciosa.
Ela geme e morde meu peito.
— Eu gosto quando diz coisas safadas. Continue.
Ela testa se mover também e eu começo um vai e vem suave,
preparando-a para o que virá.
— Oh, Deus!
Pulsa em volta da minha ereção e a contenção para não fodê-la
duro está me matando. Quando uma de suas pernas se ergue,
abarcando minha cintura, eu me perco.
Meto mais algumas vezes nessa posição e quando ela começa a
gemer alto e me arranhar, alterno afundar mais duro com golpes
longos.
Seus quadris se erguem, como se não pudesse esperar para
obter mais.
— Passou a dor?
— Ainda dói, mas eu preciso de tudo de você em mim.
Merda, ela é muito gostosa.
Apoio os cotovelos na cama, metendo em um ritmo constante e
desço a mão em seu clitóris rígido.
Massageio o ponto de prazer até que sua respiração me mostre
que vai gozar. Não paro até que seu último espasmo cesse e
somente então, me ajoelho na cama, trazendo ambas as coxas para
os meus ombros. 
Seus olhos brilham, vidrados de desejo.
Saio quase todo e volto devagar para que se acostume. 
Nessa posição, ela vai me sentir muito fundo.
— Me mostre tudo, eu quero você — pede.
Penetro-a até a base, os pelos roçando. Ela se fecha como uma
luva apertada à minha volta, suas paredes internas convulsionando.
Zoe é pequena e meu pau, muito grosso. Não quero machucá-la,
mas quando se mexe, gemendo, dou o que está me pedindo.
Está quase dobrada ao meio, os joelhos encostando no peito e a
posição me deixa à beira do precipício, muito próximo ao gozo.
As bocas se devoram, enquanto o ritmo da nossa foda acelera,
molhando nossos corpos de suor.
Aumento a velocidade e é como ser atingido por uma descarga
elétrica. Cada vez que meu pau entra e sai de seu corpo virgem, eu
alcanço o nirvana.
Mantenho uma martelada ininterrupta, dentro e fora e ela começa
a delirar entre pedidos por mais e avisos de que vai gozar.
As batidas dentro dela são profundas e sei que estou perto do
meu próprio orgasmo também.
Mordo os bicos dos seios, mas quando vou tocar seu clitóris para
que venha junto comigo, ela me entrega um outro gozo em um
gemido interminável, costas arqueadas, a boceta me apertando
ainda mais.
Calo seus lamentos de paixão, preenchendo-a por inteiro. Meu
pau em sua boceta, minha língua em sua boca.
Por muito tempo, a dança dos corpos domina a quietude da
madrugada, o bater dos sexos como uma música erótica.
Chupo seus peitos, determinado a fazê-la gozar outra vez e
quando seus quadris passam a se mover em círculos, tentando
alcançar o próprio clímax, eu belisco seu clitóris.
— Agora, Zoe.
É como acionar um interruptor. Ela torna-se ainda mais selvagem,
trancando as pernas à minha volta e atingimos o paraíso quase ao
mesmo tempo.
Ainda está de olhos fechados, viajando na luxúria do nosso ato,
mas eu não consigo parar de observá-la.
Linda, nua, entregue e agora, mulher.
E nesse instante, eu tomo uma decisão. 
Zoe será minha por tempo indeterminado.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 14
 
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
Eu acordo sem ter vontade de abrir os olhos. 
Sempre gostei de sonhar, mas hoje a realidade é melhor. 
O calor e cheiro do corpo dele ainda estão em mim, impregnados
na minha pele e sentidos e eu adoro essa sensação.
Sei que já se levantou.
Eu me mexo um bocado durante a noite e estou espalhadana
cama. Não teria como ele estar aqui sem que eu sentisse.
Deus, eu não acredito que fiz isso. 
Perdi minha virgindade com um desconhecido, um homem do
qual tudo o que sei é o nome. 
Não — me corrijo rapidamente — eu sei bem mais sobre ele do
que apenas o nome. Xander me salvou, me ajudou quando precisei.
Apesar do que fez, ter optado por ficar com ele — e sim, já estou
decidida a permanecer até o fim do verão — não tem nada a ver
com o fato de ter sido meu herói ontem, mas porque me faz sentir
completa.
O quão louco pode ser isso? Sem nos conhecermos direito, eu
me sinto mais inteira ao lado dele do que durante a minha vida toda.
Apesar da atração que ele me despertou, eu não sabia o que
esperar, mas certamente não era aquilo que aconteceu durante toda
a madrugada. Para ser franca, eu tinha um pouco de medo de sexo.
Não do ato em si, mas de ficar nua na frente de alguém ou permitir
que meu corpo fosse tocado intimamente. Entretanto, desde aquele
beijo na porta do carro dele, quando eu achei que não nos veríamos
nunca mais, pareceu que fazíamos isso desde sempre.
Suspirando, me rendo ao fato de que preciso me levantar e vou
atrás do meu celular para ver as horas.
Estranho ao não encontrar minhas roupas pelo chão, mas em
cima de uma poltrona, dobradas. Ele deve ser organizado, o que é
exatamente o meu oposto.
Quando já vou entrar no banheiro, percebo que em cima do meu
vestido, há um bilhete.
 
“Durma o quanto quiser. Minha governanta lhe servirá o café da
manhã assim que acordar. Tive que sair.”
 
As palavras são um banho de água fria e fazem meu estômago
contrair.
Casuais, secas, diretas.
Sem me chamar pelo nome ou finalizar com o dele.
Acho que em seu mundo, o que aconteceu entre nós foi comum,
mas no meu não. Claro que não esperava por um pedido de
casamento, mas ao menos que estivesse no apartamento quando
eu despertasse.
Deus, onde fui me meter?
Como devo agir? Será que esse bilhete dele é algum tipo de
sinal, significando que agora que conseguiu o que queria de mim,
devo ir? Que mudou de ideia?
Sacudo a cabeça. Preciso de um banho e uma xícara de café.
Não consigo pensar com clareza ainda.
 
 
 
 
Meia hora depois, de banho tomado, eu me sinto mais perdida do
que nunca e não melhora nem um pouco quando, ao entrar na
cozinha, uma mulher me olha de cima a baixo como se eu não
devesse estar aqui. 
Pode ser que boa parte dessa sensação venha da minha
insegurança natural, mas as pessoas costumam sorrir ao se
conhecerem, nem que seja por educação. Ao invés disso, ela
apenas pede que eu me sente, para que possa servir meu café da
manhã.
Mal como, nervosa e louca para fugir porque essa é quem eu
sou.
Após algumas goladas no café, em poucos minutos, já estou de
pé, pensando em sair daqui bem rápido, quando ela intercepta meu
caminho e me entrega um envelope.
A letra era a mesma do bilhete, então imagino que deva ser de
Xander e somente para confirmar, pergunto a ela.
— O senhor Christos, a senhorita quer dizer.
— Não. Xander Megalos, seu patrão, certo?
— Ninguém o chama assim, apesar de ser seu nome completo:
Christos Xander Megalos Lykaios. O mundo inteiro só o conhece
como Christos Lykaios — ela diz, franzindo a testa e me olhando
com ainda mais desprezo, provavelmente por eu sequer saber o
nome do homem com quem dormi.
Mas eu já não estou mais preocupada com o que pensa de mim e
sim com a descoberta.
Christos Lykaios. Christos Lykaios. Christos Lykaios... — repito
vezes sem conta, enquanto saio da cozinha.
Não pode ser, meu Deus! A vida não seria tão cruel.
Ando para o quarto, horrorizada demais para acreditar que seja
verdade e para me distrair do desespero em que me encontro, abro
o envelope. Dentro, há dinheiro e outro bilhete.
 
“Achei que você poderia precisar.”
 
Começo a tremer. Ele está me pagando pela noite de sexo?
Isso só confirma que o que descobri é verdade. Fui para a cama
com o mesmo ser humano desprezível que destruiu a vida de
Pauline.
Atordoada, jogo o nome Christos Lykaios no Google.
Sim, é ele. Christos Lykaios, formado pelo Massachusetts
College[22] , o mesmo lugar perto de onde se deu o acidente. Ele é
aquele que acabou com o futuro da minha melhor amiga. 
Um homem cruel ao ponto de me oferecer um pagamento por
uma noite de sexo, mesmo sabendo que eu era virgem antes de
dormirmos juntos.
Coloco as coisas de qualquer jeito dentro da minha mala e saio
do apartamento sem sequer me dar ao trabalho de me despedir da
mulher, Soraia.
Deixei um bilhete em cima da cama, não porque achasse que ele
merecia, mas para que tenha certeza de que não quero vê-lo nunca
mais.
Poucas palavras, mas de fácil compreensão.
 
“Não me procure. O que aconteceu foi um erro do qual me
arrependerei pelo resto dos meus dias.”
 
Assim como ele, não me despedi.
Ele não merece qualquer consideração. Não merece nada.
 
 
 
 
Uma hora e meia depois
 
Estou na fila aguardando para entrar no avião quando vejo uma
mulher me olhando insistentemente. 
Mesmo tímida, tenho uma natureza gentil e se as pessoas puxam
assunto, embarco na conversa. Hoje, entretanto, eu só quero ficar
sozinha.
Ainda não chorei, mas meu coração está destroçado. A culpa me
corroendo como ácido por dentro.
Assim, quando ela dá alguns passos para mais perto, penso
seriamente em me esquivar, mas não sou mal-educada.
— Oi, tudo bem? — cumprimenta e minha primeira ideia é de que
deve estar me confundindo com alguém.
— Oi — respondo, me forçando a entrar na conversa.
— Você é modelo?
— O quê? — De todas as coisas que esperava que dissesse,
essa não era uma delas.
— Estou perguntando se já trabalhou como modelo — diz,
sorrindo, mas depois sacode a cabeça. — Desculpe-me, estou
sendo grosseira. Meu nome é Bia Ramos, sou olheira[23] de uma
agência e por força do hábito estou sempre procurando novos
rostos. Você é perfeita.
— Perdoe-me a honestidade, mas esse papo parece louco.
— Eu sei, minha abordagem não foi das melhores, mas percebi
que está prestes a embarcar e não queria perder a oportunidade.
Qual é o seu nome?
— Zoe Turner.
Ela estica a mão e eu hesito, mas por fim, aperto.
— Muito prazer, Zoe. Vamos fazer o seguinte? Deixarei meu
cartão e você poderá me pesquisar na internet para ter certeza de
que não sou uma serial killer.
Está sorrindo quando diz isso e eu acabo relaxando um
pouquinho.
Seguro o cartão que me oferece.
— O que espera de mim?
— Um teste diante das câmeras, embora não tenha dúvidas de
que vou contratá-la.
— Olha, fico lisonjeada com o que está dizendo, mas estou tendo
o pior dia da minha vida e acredite quando eu digo que isso é uma
grande coisa porque já vivi vários deles, então vou aceitar seu
cartão e podemos nos falar depois, mas hoje eu realmente quero
ficar sozinha.
— Tudo bem, Zoe. Só prometa que vai me ligar.
— Tem minha palavra.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 15
 
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
 
A última coisa que eu queria, era ter saído de casa antes que ela
acordasse, mas meus planos escaparam dos trilhos no momento
em que meu celular vibrou logo cedo, com uma mensagem dos
advogados.
Precisávamos decidir sobre o tipo de publicidade que daríamos à
questão do navio, pois caso tudo venha à superfície, a aquisição da
frota se tornará um erro. As ações despencarão.
Ordenei que uma investigação rigorosa fosse feita e os culpados,
trazidos à tona. Nesse caso, acho que transparência seria a melhor
solução, embora não esteja muito entusiasmado em envolver o
nome de Zoe em um escândalo. Além de ser muito jovem, se o que
pretendo se tornar realidade — ficar com ela sem um fim definido —
a imprensa não lhe dará paz.
Minha intenção era tomarmos o café da manhã juntos e
esclarecer a confusão sobre o meu nome. Depois de ontem, não
havia mais porquê não abrir o jogo.
Penso na deusa loira enroscada em meus lençóis quando me
levantei. Estava meio desmaiada, exausta e me pergunto se não
peguei pesado demais para a primeiranoite juntos. Mas então me
lembro que na segunda e terceira vez, foi ela que me procurou
enquanto eu estava tentando me manter sob controle, temendo
machucá-la.
Zoe, mesmo inexperiente, é um furacão sexual e dentro de pouco
tempo, saberá tudo a respeito do próprio corpo. Quero ser aquele
que irá ensiná-la a se descobrir.
Nunca fiz planos além de um fim de semana com as minhas
namoradas, mas me pego pensando se haveria espaço para ela em
minha vida quando voltarmos aos Estados Unidos, já que lá fica
minha residência principal.
Ela me disse, em nossa conversa no restaurante, que mora em
Boston, mas que seu sonho era viver em uma propriedade rural — o
que não parece combinar nem um pouco com a mulher
deslumbrante que é.
Esse tipo de vida que almeja não poderia estar mais distante da
minha. Não tenho qualquer conexão com o campo, sou um homem
do mundo, não tanto por vontade, mas por conta dos meus
negócios.
De qualquer modo, gostaria de explorar mais essa atração sexual
intensa. Faz somente pouco mais de três horas que a deixei e já me
sinto ansioso para voltar ao apartamento e me perder em seu corpo
sexy.
Antes de sair, deixei um bilhete avisando que Soraia, minha
governanta, estaria à sua disposição para lhe servir o café da
manhã. Tímida como é, não duvido que ficasse com fome até eu
chegar e não faço a menor ideia de que horas será.
Também deixei com a minha empregada um envelope com mais
de o dobro do pagamento que ela receberia do navio. Não quero
que se sinta economicamente dependente do meu lado, embora a
quantia que representa seu salário, para mim seja equivalente ao
valor de um cafezinho.
— Tem certeza de que quer fechar negócio? — meu analista
questiona, se referindo aos navios.
— Sim, não volto atrás com a minha palavra. Quanto tempo mais
durará essa reunião?
— Meia hora.
Passo a mão pelo cabelo, irritado, meus pensamentos totalmente
focados na mulher linda à minha espera.
Dormi ao lado dela, o que é uma novidade, porque nunca fico a
noite inteira com uma namorada. Compartilhar o sono com alguém
pode gerar expectativas irreais e minha vida é sempre preto no
branco, quaisquer outras cores, excluídas. Mas quando ela se
deitou sobre mim e senti o calor de seu corpo, sua respiração suave
e as mãos no meu cabelo, qualquer chance de que eu pudesse me
levantar desapareceu. 
A necessidade por ela é uma espécie de vício, um tipo de
compulsão que só aumenta quanto mais tempo permaneço ao seu
lado.
Aliado a isso, à total ausência de vontade de ir embora, teve o
fato de que ela passou por merdas demais ontem.
Normalmente não sou um cara sensível, mas Zoe está em um
país estrangeiro e sou a única pessoa que conhece.
— Nem um minuto a mais — determino aos homens sentados à
minha frente. — O tempo já está correndo. Faça-o valer a pena.
 
 
 
Eu não sei dizer qual foi a última vez em que me senti ansioso
assim para rever uma mulher. Nunca, seria um ótimo palpite.
Enquanto entro no elevador para minha cobertura, entretanto, é
como se eletricidade se espalhasse por todo meu corpo. 
Pretendo levá-la para o iate ainda hoje, mas agora, a única coisa
que desejo é estar nela outra vez.
Digito o código para destrancar a porta e antes que possa abri-la,
alguém dentro o faz, mas não é Zoe, e sim, Soraia.
Estranho. A essa hora, já deveria ter partido.
— Doutor Lykaios, eu esperei que chegasse para avisá-lo
pessoalmente.
Suas palavras acionam minha preocupação na hora. Só pode ter
acontecido algo à Zoe. 
Foda-se, eu não deveria tê-la deixado sozinha.
Entro no apartamento sem olhar para minha funcionária, andando
em linha reta para o quarto.
— Doutor Lykaios... — a mulher continua me chamando e eu
estanco no alto da escada. 
— Agora não, Soraia. Preciso falar com minha… hóspede.
— Mas é exatamente isso que estou tentando lhe dizer. Ela se
foi. Há mais ou menos três horas, partiu sem se despedir.
— Como assim, se foi? 
— Comeu muito pouco no café da manhã. Então, eu lhe
entreguei o envelope como o senhor havia mandado. Uns quinze
minutos depois, ouvi a porta da frente bater. Quando olhei pela
câmera de segurança, ela já estava na portaria.
— Tem certeza de que ela saiu com a mala?
Talvez tenha precisado comprar algo. 
— Sim, com a mala — diz e pode ser loucura da minha cabeça,
mas parece satisfeita.
Soraia é uma funcionária que é enviada para minhas residências
na Europa sempre que passo um período mais prolongado em
algum lugar, embora seu local fixo seja em meu apartamento em
Londres. Não dorme em qualquer dos meus imóveis ao mesmo
tempo que estou, no entanto. Ainda que seja uma excelente
funcionária, às vezes tenho a sensação de que se intromete além de
suas funções.
— Você pode ir agora.
— Precisa de mais alguma coisa, doutor Lykaios?
— Já disse que pode ir, Soraia.
Ela vira as costas.
— Só mais uma coisa. Por que não me telefonou para avisar que
Zoe havia partido?
— Não achei que fosse importante.
— Vamos esclarecer algo: eu julgo o que é importante na minha
vida. Seu trabalho é me relatar qualquer coisa de anormal que
aconteça em minhas propriedades. Fui claro?
— Sim, senhor.
Viro as costas e vou para a suíte, ainda acreditando que tudo
pode passar de um mal-entendido.
Claro, eu quase não a conheço, mas pelo que demonstrou, Zoe
não parece ser o tipo de garota frívola, que fugiria sem uma
conversa.
Ao chegar ao quarto, a primeira coisa que vejo é uma folha de
papel em cima da cama.
Não sou de hesitar em relação ao que quer que seja, mas me
pego diminuindo os passos antes de alcançá-la.
Irritado comigo mesmo por agir assim, agarro o pedaço de papel.
 
“Não me procure. O que aconteceu foi um erro do qual me
arrependerei pelo resto dos meus dias.”
 
Leio três vezes até ter certeza de que meus olhos não estão me
enganando.
Um erro?
Ela chamou a noite de ontem de um erro?
Quem é você realmente, Zoe Turner? Não a mesma garota linda
que me fascinou. Ela não seria tão fria em uma despedida.
Passo e repasso tudo o que aconteceu entre nós desde o
momento em que a vi pela primeira vez.
Sim, eu não fui muito sutil na abordagem, mas não a forcei.
Nunca precisei me impor a uma mulher e cheguei a lhe perguntar
ontem se era isso o que eu estava fazendo.
O desejo de pegar o celular e esclarecer tudo é enorme, mas eu
estarei morto antes de permitir que alguém esmague meu orgulho.
Sou grego e não abaixo minha cabeça para homem ou mulher.
A partir desse minuto, Zoe Turner é passado.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 16
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
Boston
 
 
 
 
Uma semana depois
 
 
 
 
 
 
O cemitério está vazio, quase tanto quanto o meu coração.
Nada aconteceu como eu esperava quando voltei para casa. A
culpa ainda me consome, mas compete com a falta que sinto dele e
eu me odeio por isso.
Como posso ser tão estúpida?
Além de ser quem é, ele me tratou como uma prostituta ao
entregar dinheiro para aquela mulher me dar.
Deus, que vergonha!
Será que ela está acostumada a isso? Dispensar os casos dele?
Afasto esses pensamentos. Não importa. Não é da minha conta.
— Oi, amiga. Não me saí muito bem em nossa primeira viagem.
O navio era divertido, mesmo que eu não tenha conhecido tanta
gente assim, porque continuo a mesma: tímida e antissocial. 
Sento-me no chão, perto da lápide e recolho algumas folhas
secas.
— De qualquer forma, tirei várias fotos com você e ficaram lindas,
mas não tive coragem de imprimir ainda. Não tenho vontade de
fazer nada ultimamente e acho que estou com depressão. Não
contei para a mamãe Macy o que aconteceu no meu primeiro
emprego e nem depois, em Barcelona, para não preocupá-la. A
saúde dela não anda muito bem e papai está com medo de que o
câncer tenha voltado, mas eu estou tão triste, Pauline.
Seco uma lágrima que escorre pela minha bochecha.
— Eu já voltei há uma semana e deveria ter vindo visitá-la, mas
estava… estou ainda morrendo de vergonha. Eu fiz uma coisa muito
ruim e antes de qualquer coisa, precisodo seu perdão. Eu li em
algum lugar que amigos se perdoam, não importa o quê. Seria
capaz de fazer isso por mim?
Alguém passa segurando uma menina pela mão e me distraio por
um instante.
Será que a menininha, como eu em sua idade, perdeu um
familiar?
Um pássaro canta ao longe, como que me forçando a focar
novamente no que eu vim fazer.
— Sei que você está comigo o tempo todo, acompanhando meus
passos aí do céu, Pauline, mas mesmo assim, me senti na
obrigação de lhe pedir perdão pessoalmente, ainda que já o tenha
feito em minhas orações. Ele se apresentou como Xander Megalos
e eu não faço ideia da razão. Somente depois… — puxo o ar porque
estou sufocando — somente depois que dormimos juntos, foi que eu
descobri que ele é o mesmo homem que a machucou naquele
acidente. Fiquei com tanta raiva de mim mesma lá em Barcelona,
mas a cabeça da gente é uma coisa doida. Quando desembarquei
em Boston, eu queria que tudo fosse um engano, amiga, porque eu
me apaixonei por ele. A noite que nós… não, você não precisa ouvir
isso. Estou me perdendo no que preciso falar. Só quero que me
perdoe.
Quase posso ouvir sua voz, como se ainda fosse viva, dizendo
que sim, me perdoava porque Pauline era a melhor pessoa que já
existiu. Eu só consegui voltar a vê-la pouco antes de seu
falecimento, quando mamãe Macy me adotou. Foi o primeiro pedido
que lhe fiz: que me levasse para visitar minha amiga, mas daí já era
tarde demais.
— Fui procurar sua mãe anteontem. Não estava conseguido
comer ou dormir direito porque eu precisava da confirmação. Eu
queria que não fosse verdade, mas ela me mostrou uma fotografia e
apesar de ter acontecido há muitos anos, o rosto de Xander… de
Christos, é inconfundível.
Tiro lenços de papel da bolsa para secar meus olhos.
— Eu queria poder dizer a você que o odeio, Pauline, mas não
consigo. Posso lhe garantir que odeio a mim mesma por não
conseguir odiá-lo. Farei uma confissão e depois, uma promessa.
Quando me pediu, ainda criança, que me tornasse uma modelo e
viajasse o mundo inteiro como se fosse você, eu só concordei
porque queria vê-la feliz. Eu adorava vê-la sorrir, mas nunca quis
isso para mim. Desfilar na frente das pessoas, viajar para todos os
lugares, não é meu sonho. Quero uma casa no campo. Alguém que
me ame e por quem eu seja apaixonada — e ainda agora, em frente
ao túmulo da minha amiga, é o rosto dele que me vem à memória
quando digo isso — e muitos filhos. Um lar de onde ninguém possa
me mandar embora. 
Sopro umas pétalas de flor que teimam em ficar sobre a lápide
dela.
— Mas vou combinar uma coisa: primeiro realizarei seus sonhos,
depois, os meus. Eu conheci uma moça, como você já deve saber,
na volta da viagem de Barcelona. Ela é uma espécie de caça-
talentos de modelos, Pauline e me convidou para um teste. Ontem
lhe telefonei e ela vai mandar uma passagem para que eu vá até
Nova Iorque fazer esse tal teste diante das câmeras. Não posso
garantir que dará certo ou que vão me contratar, mas ao menos
estou tentando realizar seu sonho. 
Levanto-me, pronta para me despedir. Já está começando a
escurecer.
— Eu te amo, Pauline. Nós não conversamos muito depois que
cresci, mas você e seus planos, o desejo de realizá-los para fazê-la
feliz foi o que muitas vezes me impediu de desistir sempre que era
rejeitada pelos pais adotivos. Eu não podia desistir porque havia
feito nosso pacto. E afirmo, mesmo triste como me sinto agora: eu
não vou jogar a toalha porque estou reforçando a promessa. Farei o
que tiver ao meu alcance para ser famosa e viajar o mundo todo
com você.
 
 
 
 
 
 
 
Hospital Geral de Boston
 
 
 
Um ano e dois meses depois
 
 
 
— Está certa de que quer mesmo ficar aqui, Zoe? Posso reservar
um hotel perto do hospital. Não quero ser insensível, mas tem um
desfile daqui a alguns dias e não pode se dar ao luxo de aparecer
com olheiras.
Respiro fundo, tentando me acalmar. Sei que ela não está
falando por mal, mas porque é seu trabalho.
Depois do teste que fiz em Nova Iorque e fui aceita, Bia Ramos,
que depois eu descobri que é brasileira, se transformou em uma boa
amiga. Não importa em que parte do mundo eu esteja, se precisar
conversar, ela sempre me atende com uma palavra de conforto. 
Como agora em que após minha mãe ter uma piora, veio da
Oceania me apoiar.
— Eu vou ficar bem, só quero estar perto dela mais um pouco.
Assim que adormecer, conseguirei um hotel. Não posso deixar meu
pai sozinho.
— Tudo bem, amor, mas vai me chamar se precisar?
— Vou sim. E também há um filho de uma amiga de infância da
minha mãe, que é professor de Massachusetts College[24] chegando
para visitá-la e papai pediu que o recebesse. 
— Você é inacreditável, Zoe Turner — ela diz, passando as
costas das mãos na minha bochecha. — Atualmente um dos rostos
mais conhecidos do mundo, aquela por quem os homens dariam um
braço para levar para jantar, mas também a menina doce que
recepciona um amigo da família no hospital como qualquer pessoa
comum.
Olho para o chão.
— Sou comum, Bia. Não se engane. Todas as produções que me
fazem ou as roupas com as quais me vestem não têm nada a ver
com a verdadeira Zoe.
— Então por que isso tudo?
— Porque eu fiz uma promessa a alguém muito especial. Agora,
dou graças a Deus por ter ingressado nesse mundo, porque é ele
que me proporciona pagar as despesas hospitalares da minha mãe.
— E se depender de mim, vai ganhar muito mais.
— Do que está falando?
Bia, assim como Miguel, seu braço direito, se tornou minha
agente. Ela não presta esse serviço a outra modelo, mas logo que
entrei na profissão, fui enganada por um agente desonesto que
embolsou muito mais do que deveria sobre os meus pagamentos.
— Não é o momento apropriado para falarmos disso, mas temos
um contrato de sete dígitos em vista. Eles querem exclusividade.
— Não vou desfilar para outra marca?
— Não e nem fotografar, mas acredite, não vai precisar. Por ora,
aproveite seu tempo do lado da adorável Macy e do seu papai.
Depois conversaremos com calma. Sabe que se quiserem comprar
seu rosto lindo, vou tentar extrair até o último centavo deles. Agora,
preciso ir.
 
 
 
 
 
Meia hora depois
 
 
 
 
 
Estou sentada no corredor do hospital, verificando minhas
mensagens de trabalho, quando uma sombra projeta-se sobre mim.
Olho para cima e vejo um homem muito bonito me observando.
Sem querer parecer convencida, isso não é anormal, meu rosto é
bem conhecido atualmente.
— Boa noite, você deve ser a Zoe.
Viro a cabeça de lado, pensando como pode saber meu nome,
mas então me lembro da visita que papai esperava.
— Sou eu, sim. E você é o senhor Mike Howard?
— Só Mike, por favor. Já basta meus alunos me chamarem
assim.
— Não quis ofendê-lo — falo, sem jeito.
— Não me senti ofendido, Zoe. Só não quero parecer tão velho.
— Você não é — digo, com sinceridade. — Ai, meu Deus. Acho
que estou piorando tudo. Sou muito ruim em relação à vida social.
— Não se desculpe. Comigo sempre poderá agir como você
mesma. 
Sorri e acreditei nessa e mais em um monte de mentiras que ele
me contaria, até que fosse tarde demais.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 17
 
 
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
Nova Iorque
 
 
 
Sete meses depois
 
 
 
— Lindíssima, não é? — Yuri, meu assistente há quase uma
década, pergunta por trás da minha cadeira, na sede dos meus
escritórios.
Não sou um homem que costuma dar pistas sobre o que pensa,
mas estava tão sobrecarregado com a visão dela que não pude
fingir. Deve ter percebido pelo meu rosto que não conseguia desviar
da perfeição em forma de mulher nas fotos do portfólio à minha
frente.
— Muito — digo, como se não a conhecesse, como se a garota
não tivesse impregnada em cada célula do meu corpo há quase dois
anos, como se eu não combatesse o desejo por ela com uma
disciplina militar.
Eu acompanhei sua carreira e claro, a ascensão. Não tinha a
menor dúvida desde a primeira vez em que a vi, que Zoe Turner
seria perfeitaparas as passarelas e câmeras.
Por diversas vezes, fiquei tentado a forçar um encontro, olhar em
seus olhos para entender o que diabos deu errado naquela noite,
mas eu nunca me humilhei para alguém e nem pretendo, então ao
invés disso, fiquei nos bastidores, observando-a de longe,
querendo-a em silêncio.
Estava me decidindo sobre o que fazer, porque tinha certeza de
que ainda não havia chegado o fim para nós dois. 
Planejei o caminho lógico: prendê-la em um contrato com uma
das minhas marcas. Mantê-la por perto até que minha obsessão
passasse.
Eu já havia feito a oferta quando, surpreendendo o mundo inteiro,
há cerca de seis meses, ela se casou.
Fui um perseguidor oculto, mas atento o suficiente para ter
certeza de que sequer estava namorando, assim, quando surgiu nos
jornais a notícia de um casamento repentino e secreto, somente no
cartório, fiquei em choque.
Uma bola de ferro se aloja no meu estômago ao relembrar que
agora é comprometida com outro homem, porque uma palavra
martela sem cessar em meu cérebro desde aquela noite em
Barcelona.
Minha.
Mike Howard, é o nome do cretino. Um professor vinte anos mais
velho.
— Nem acredito que finalmente conseguimos fechar contrato
com ela. Zoe Turner estava sendo sondada por diversas marcas e
sendo exclusiva do nosso grupo agora, alçará voos ainda mais
altos. Foi um excelente negócio para ambas as partes.
Eu sei do que ele está falando. Yuri tem tanto conhecimento no
mundo da moda quanto eu próprio. Em pouco tempo, Zoe se
transformou em um fenômeno e também agora, em uma das
modelos mais bem pagas do mundo, porque fechou um contrato
milionário comigo. 
Não, ela não faz a menor ideia de que são minhas empresas por
trás, porque fiz com que uma das minhas menores marcas e que a
maioria não tem conhecimento de que me pertence, constasse
como a parte contratante. Guardarei a surpresa — e o choque, eu
diria — dela me rever agora que já assinou.
Há, inclusive, uma reunião marcada para dentro de alguns dias.
— E sabe o que é mais incrível? — pergunta, sem fazer a menor
ideia de para onde se encaminham meus pensamentos — Apesar
do sucesso, é tão doce quanto um pote de mel. Gentil, educada,
tímida. Incrivelmente, não foi contaminada com a arrogância que as
pessoas com seu tipo de beleza geralmente têm.
Penso no que ele está dizendo e não tenho como discordar.
Mesmo após a maneira como me deixou, sem uma conversa olho
no olho, Zoe tem um diferencial em sua personalidade que a fez ser
admirada no meio: não dá ataques de estrelismo e segundo se
comenta, é muito fácil de se trabalhar.
A única coisa que ninguém desconfia, é que tem uma pedra de
gelo no lugar do coração.
— Posso perguntar uma coisa?
— Não, mas sei que fará de qualquer modo.
— Por que lhe ofereceu tanto? Quero dizer, não estou falando
que ela não mereça, mas…
— Eu a queria. Nunca entro em uma negociação para perder.
Sei que não fui racional, que me deixei levar totalmente pelo
desejo, seja por ela, seja por vingança, mas o fato é que a quero ao
alcance da minha mão.
Ele fica em silêncio e mesmo relutante, desvio o olhar das
fotografias e o encaro.
Não sou o homem mais paciente do mundo.
— Hum… não sei como dizer o que estou pensando sem ser
indiscreto.
— Seria uma novidade, Yuri. Você nunca foi conhecido por ser
discreto, para início de conversa.
— Quando disse que a quer… é no sentido figurado, como sua
contratada ou no literal? 
— Como contratada — falo rápido, sem lhe dar margem de mais
questionamento, mas em seguida fodo tudo quando as palavras
escapam da minha boca. — O que importa, é que de agora em
diante ela é minha.
— Sua… — ele ecoa, mas não elabora mais a respeito, embora
eu suponha que compreenda o que eu não disse. 
É o resultado de anos de convivência, eu acho. Ele me conhece
bem. Nunca interferi na contratação de uma modelo, mas com Zoe
segui o passo a passo, inclusive oferecendo mais quando sua
agente pediu e concordando com a cláusula que vetava nudez — o
que eu já deixaria de fora de qualquer modo.
A verdade é que por mais que eu tentasse lutar contra, sabia que
minha história com Zoe apenas aguardava para acontecer. Aquilo
que houve na Espanha foi um aperitivo. Não tivemos um fim real e
não deixo nada em aberto em minha vida. Mas a partir do momento
em que soube que se casou, mudei meus planos.
Não vou atrás da mulher de outro homem, então me mantive
observando-a e preciso confessar que me deu uma satisfação
mesquinha constatar que Zoe não é feliz.
A deusa quase nunca sorri e isso me fez ter certeza de que ela
não vive seu conto de fadas.
Por duas vezes quase nos encontramos em eventos, mas eu
desviei meu caminho. Não sei se conseguiria controlar meu desejo.
Também investiguei o marido e não gostei do que descobri.
Ele é um homenzinho prepotente e vaidoso, que se considerava
a quintessência da sabedoria. 
Conheci muitos professores assim quando estudei na mesma
universidade em que ele atua como professor assistente. Indivíduos
que precisavam se desfazer de pessoas jovens para se sentirem
melhores. 
Além disso, há rumores de seu envolvimento com alunas —
atuais e ex — inclusive após o casamento.
Que tipo de filho da puta trairia a esposa poucos meses depois
de se casar? 
Isso não é problema seu — a razão avisa, mas ela não está no
comando quando se trata da modelo.
— Pelo seu interesse nela, suponho que comparecerá à reunião
na próxima semana?
— Sim, por quê?
— Nada demais, só estava pensando em alguns rumores que
ouvi.
— Não gosto de fofocas.
— Não se trata de fofoca, mas talvez seja algo que desperte seu
interesse.
— Fale de uma vez, Yuri.
— Há uma história correndo nos bastidores de que o casamento
dela chegou ao fim.
— O quê?
— Sim, parece que apenas seis meses após se casar, o sonho
acabou. Em breve, Zoe Turner estará livre.
Depois de me despejar aquilo, ele sai.
Eu me levanto e vou até a janela, tentando fingir que a
informação me é indiferente.
Mas a única conclusão a que chego é que desde que Zoe Turner
entrou em minha vida, estou me tornando um especialista em mentir
para mim mesmo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 18
 
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
Boston
 
 
 
Dias depois
 
 
 
 
Olho as pessoas sentadas à mesa, fazendo força para não deixar
transparecer as emoções, mas tudo o que consigo pensar é em sair
correndo daqui. O desejo é tão forte que me deixa enjoada.
Estou suando frio, testa e palmas das mãos úmidas e cheguei até
a pensar que havia pegado a tal gripe[25] que tem se espalhado pelo
planeta em uma velocidade alarmante. Várias pessoas já morreram,
mas ninguém sabe ao certo ainda qual é a principal forma de
contágio.
Puxo o ar e ele não vem.
Não é a primeira vez que me sinto assim. Tem sido recorrente
desde que me casei com Mike, há seis meses.
Sim, fui estúpida e carente o bastante para acreditar que alguém
como ele: bonito, gentil, mais velho e ainda conhecido da minha
família, me faria esquecer Christos Xander, quando na verdade eu
sempre soube que, ao menos para mim, nunca haverá outro. Pensei
que talvez poderia ter um recomeço, já que minha vida afetiva
esteve congelada desde que fui embora de Barcelona.
Sonhar pelo resto dos meus dias com alguém que, mesmo que
me quisesse, eu não me permitiria estar, era um passo e tanto para
a estrada da loucura.
Fiquei tão mal nos primeiros meses, que minha mãe foi à procura
de um psicólogo gratuito que diagnosticou depressão.
As conversas com ele me ajudaram a me reerguer e me perdoar.
 Também a seu conselho, pesquisei mais sobre o acidente que
envolveu Christos e Pauline, mas não encontrei quase nada, a não
ser uma ocorrência sem detalhes. Nas reportagens nem explicam
quem foi o culpado do acidente.
O que a mãe dela me contou foi que, por a família Lykaios ser
muito rica, exigiram um acordo a portas fechadas, confidencial. Sem
outra opção, ela o aceitou.
O dinheiro, no entanto, não foi nem perto do suficiente para
custear umavida decente para Pauline, mas a alternativa era brigar
com a poderosa família grega na justiça por anos, correndo o risco
de ainda assim eles mexerem seus pauzinhos e a ação dar em
nada.
Pesquisei seu nome mais profundamente somente uma vez:
bilionário grego que imigrou com a família ainda em criança para os
Estados Unidos, sempre cercado de mulheres lindas e que até onde
vi, nunca manteve um relacionamento duradouro.
Para minha surpresa, descobri também que seus principais focos
de negócios concentram-se no mundo da moda e fiquei perplexa ao
ver que as marcas mais famosas do planeta pertencem ao grupo
dele.
Ainda assim, em todos os desfiles e eventos de moda dos quais
participei, nós nunca nos encontramos, então eu acho que ele deve
ter várias pessoas administrando sua riqueza, já que me lembro
bem quando disse que compraria a frota de navios de cruzeiro na
qual trabalhei.
Deus, aquilo para ter acontecido em outra vida!
Eu mudei tanto de lá para cá. Se a situação fosse hoje, eu nunca
teria me trancado no banheiro do navio com medo do capitão e da
traidora da Tamara, mas feito um escândalo que até a primeira
classe ouviria. Continuo tímida, mas nunca mais permiti que
pisassem em mim. Agora jogo pela lei do bateu, levou.
As pessoas na mesa continuam falando alto e rindo.
Sinto pontadas na cabeça porque estou exausta. Só quero ir para
casa e resolver minha história com Mike de uma vez por todas.
Depois de amanhã precisarei ir até Nova Iorque para me
apresentar ao meu novo empregador.
Há alguns meses, Bia me veio com a proposta de um contrato
milionário. Um valor tão inacreditável que seria impossível recusar.
Eu assinei sem pensar duas vezes porque as despesas com a
saúde de mamãe são muito altas. Como ela não tinha seguro-saúde
antes de adoecer, quando tentei fazer, eles alegaram doença pré-
existente, o que era verdade. O fato é que não importava o quanto
eu trabalhasse, minha conta bancária estava sempre praticamente
zerada. Tudo o que me resta de poupança são algumas ações nas
quais investi a conselho de Bia e Miguel.
Assim, não é como se eu pudesse me dar ao luxo de dizer não a
um valor tão significante.
Vou a Nova Iorque só para acertar os detalhes, mas já está tudo
legalmente acordado e essa é uma das principais razões pelas
quais quero pedir a separação hoje mesmo. Começar um novo ciclo
sem me sentir em constante guerra dentro da minha casa já será
um ganho. Raramente fico em Boston muito tempo, mas quando
estou, quero paz e não sei mais o significado dessa palavra desde
que me casei.
Estou nervosa para caramba com esse encontro com o novo
empregador — sim, empregador porque eles pagaram para ter meu
rosto e corpo em suas campanhas pelos próximos cinco anos.
Já não sou mais tão frágil quanto antes e credito isso à terapia,
mas também não passei de um bicho do mato para a pessoa mais
corajosa do mundo. Estreias me assustam. Interações com
estranhos, também e haverá um pouco de cada em Nova Iorque.
Ouço a gargalhada de Mike e fico ainda mais irritada.
Deus, estava tudo errado desde o começo.
A maneira como eu cedi ao que agora vejo, era um charme
barato e muito ensaiado. Ter tentado fazer minha mãe feliz porque
lhe agradava a ideia de que eu estivesse em um relacionamento,
mas principalmente, acreditar que um príncipe poderia me resgatar
da solidão.
Só consegui foi somar mais decepção a tantas que já tive em
meu passado. 
Na única vez em que nós fomos jantar na casa dos meus pais,
em uma das altas que minha mãe teve, Mike foi arrogante e desfez
da minha família. Nós tínhamos um mês de casados, mas eu já
pensava em deixá-lo desde a noite de núpcias.
Quando contei minha intenção ao meu pai, ele conversou comigo
e pediu que eu esperasse um pouco mais para não me precipitar. 
Casamento e a convivência advinda dele pode ser bem difícil —
disse.
Difícil como? Eu tenho vinte anos e me sinto mais madura do que
Mike com quarenta, que se comporta como se o mundo devesse lhe
render homenagem da mesma forma que seus alunos fazem.
— Já leu esse livro do qual estamos falando, Zoe? — uma
morena muito linda me pergunta.
Sei que ela é uma das alunas do curso do meu marido.
Eu quase não fico nos Estados Unidos por conta das viagens de
trabalho, mas já participei de dois ou três jantares com os amigos de
Mike. Em todos, eles me olharam como se, só pelo fato de eu ser
modelo, tivesse uma ervilha no lugar de um cérebro.
Só mais hoje, Zoe — prometo a mim mesma.
Eu esperei e tentei assim como meu pai me pediu, mas não
suporto nem mesmo ouvir a voz do meu marido. Estou adoecendo
de novo, porque ele me faz sentir como se eu tivesse que agradecer
de joelhos por ter se casado comigo, quando na verdade, é um ser
humano tóxico e imoral.
— Zoe? — Ouço a voz dele, mas não me volto para olhá-lo,
focada na morena.
— Acho que não é a ideia de diversão da minha jovem esposa ler
algo tão complexo — diz antes que eu possa abrir a boca e sinto
meu rosto pegar fogo quando todos começam a rir.
Meu psicólogo me falou no outro dia que Mike está me
desencadeando gatilhos de ansiedade, mas nesse momento, é
gatilho de ódio mesmo.
Olho para os amigos dele. 
Pessoas que me menosprezam desde a primeira vez em que nos
encontramos. Professores e alunas com metade de suas idades,
assim como eu e Mike, com a diferença de que as mulheres
presentes são respeitadas, enquanto eu sou sempre o alvo de
gozação.
Depois de encarar um por um, volto-me para meu marido,
tentando despi-lo das cores com as quais o pintei antes de nos
casarmos para que se adequasse aos meus sonhos.
Essa noite, a única coisa que consigo ver é um homem
mesquinho, pequeno, que precisa humilhar a própria esposa para se
sentir melhor.
Levanto-me da mesa e pego a bolsa.
— Vocês tem razão. Meu cérebro atrofiado de modelo não
consegue confraternizar com mentes tão brilhantes. Assim, vou
deixá-los à vontade com seus salários de cidadão médio, enquanto
volto para casa para analisar o contrato de sete dígitos que acabo
de fechar.
 
 
 
 
Capítulo 19
 
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
 
 
Minhas pernas estão bambas enquanto saio do restaurante. Não
quero voltar para nosso apartamento, mas minhas malas estão lá e
não vejo alternativa.
Jesus, eu nunca enfrentei abertamente uma pessoa sequer na
minha vida inteira e hoje fiz com seis de uma só vez.
Não sou grosseira, mas paciente até demais, entretanto, meu
copo transbordou quando vi aquele sorriso cínico no rosto dele.
Quem pensam que são para me julgarem? Eu leio para caramba,
mas mesmo que não o fizesse, isso não faz de mim estúpida. Como
bem diz minha mãe, diploma não tira orelha de burro de alguém.
Peço um táxi ao manobrista e na hora em que estou entrando,
vejo Mike sair do restaurante. Ele me chama, mas eu o ignoro
porque com a raiva que estou sentindo, sou capaz de fazer uma
cena e não duvido que alguém fotografaria e estamparia nos jornais.
Quero terminar meu casamento exatamente como começou: de
maneira discreta.
Não tenho dúvidas de que ele vai me seguir, porque apesar de
nunca termos chegado a esse ponto como hoje, nossa vida é um
inferno desde a noite de núpcias e as brigas, recorrentes.
Foi como se, ao colocar uma aliança no meu dedo, ele achasse
que tinha um passe livre para fazer o que quisesse comigo.
Não mais.
 
 
 
 
 
 
Estou terminando de fechar minha mala quando ouço o som do
alarme do apartamento ser desligado.
— O que diabos deu em você hoje? — É a primeira coisa que
pergunta assim que entra no quarto.
Não me volto para encará-lo e sei que se calou porque me viu
fechando a mala.
Acabei de chegar de viagem e, na teoria, deveria ficar em Boston
até depois de amanhã, antes de seguir para Nova Iorque para a
reunião com meu novo empregador. Não irei embora da cidade hoje,
mas não há chance de que eu permaneça por mais um minuto
sequer ao lado dele.
— Zoe, eu lhe fiz uma pergunta.
Viro-me para ele.
— Não há mais qualquer sentido em respondê-la. Não importamais, Mike. Sabe perfeitamente o que estou fazendo: indo embora
— falo, mantendo a voz firme e agradecendo em silêncio pela
terapia que tem me ensinado a me amar e respeitar.
Fui rejeitada nos anos de orfanato, mas não preciso continuar
permitindo que façam isso comigo depois de adulta.
Pelo seu olhar, acho que ele entendeu que não estou falando
somente sobre a próxima viagem, mas para sempre.
Ainda assim, finge que estamos tendo mais uma das tantas
brigas em nosso curto casamento.
— Foi muito grosseira com meus amigos.
— Mais do que eles são comigo? — Começo, mas me arrependo.
Não há qualquer ponto em prolongar essa discussão quando, dentro
da minha cabeça, a decisão já está tomada. — Acabou, Mike. Nós
dois sabemos disso.
Seu rosto transmuta em puro ódio. Não é a primeira vez, mas
ainda assim, ele fica assustador. Todo o verniz de homem fino, de
intelectual, desaparece.
— Porque você não fez nada para melhorar. Nunca fez nada pelo
nosso casamento, Zoe.
— Se com fazer alguma sobre nosso casamento, você quer dizer
mergulhar em suas taras, sim, então eu não fiz nada pelo nosso
casamento. Achei que estava me unindo a alguém normal e não a
um homem que precisava de… eu nem tenho coragem de colocar
isso em palavras… mas alguém com suas preferências, para se
excitar.
Ele se aproxima tão rápido que não prevejo o movimento. No
instante seguinte um tapa forte atinge meu rosto que eu caio e bato
a cabeça contra a mesinha de cabeceira.
Mesmo tonta e apavorada por aquela atitude violenta, alcanço
meu celular em cima da cama e corro para o banheiro. Parece uma
repetição daquele dia no navio, mas dessa vez, vou chamar o único
homem em quem confio no mundo.
— Zoe?
— Papai, preciso que venha me pegar em casa. Mike acaba de
me bater. Eu quero ir embora, mas ele está do lado de fora do
quarto.
— Zoe, meu Deus! Quer que eu chame a polícia? 
— Não, por favor, será um escândalo. Depois vou pensar com
calma no que fazer, mas por enquanto só quero sair daqui.
— Eu estou indo, filha.
 
 
 
 
 
— Zoe, é o papai. Você já pode sair.
Olho minha imagem no espelho antes de abrir a porta. Não tive
coragem de fazê-lo até agora. Sabia que deveria estar feio porque
meu rosto inteiro dói.
A área onde ele me agrediu está dolorida e fiquei com medo de
que ao ver a evidência de seu desrespeito final contra mim, eu
desmontasse.
Agora, no entanto, confiro que a imaginação perdeu de lavada
para a realidade.
Todo meu lado esquerdo está inchado e meus olho, que é
naturalmente puxado, na área em que ele me deu o tapa, está ainda
menor.
Meu Deus, não há chance de que eu consiga sair daqui sem que
alguém me veja. A última coisa que quero é que o fim do meu
casamento vire manchete de revistas de celebridade.
— Zoe?
— Já vou, pai.
Destranco a porta e assim que me olha, seu rosto fica vermelho
como um pimentão.
Ao invés de me abraçar, sai do quarto e eu vou atrás porque já
imagino o que acontecerá.
Como eu pensava, meu pai tem Mike imprensado contra uma
parede e seu rosto já está ficando meio arroxeado.
— Pai, não faça isso, eu só quero sair daqui.
— Nunca mais toque na minha filha, desgraçado ou eu mato
você. 
Ele abre a porta do apartamento e espera que meu marido saia,
mas Mike ainda tenta se aproximar de mim. Meu pai se interpõe no
caminho.
— Zoe, me perdoe. Eu perdi a cabeça.
Olho para ele e penso que eu deveria ter ido embora na nossa
noite de núpcias, quando ele esperou até estarmos casados para
me dizer o que queria de mim.
— Não. Acabou. Meus advogados vão procurá-lo com os papéis
do divórcio. De você, a única coisa que eu quero agora é que me
deixe em paz. 
Ele tenta mais uma vez se aproximar, mas meu pai o impede.
— Eu não estava brincado, cretino. Toque na minha filha outra
vez e eu mato você.
Dessa vez, papai não espera que ele se decida, mas o empurra
para fora do apartamento e fecha a porta.
Depois, abre os braços para mim.
— Perdoe-me — diz.
— Não foi culpa sua.
— Foi sim. Logo no começo, quando veio me dizer que o
casamento não ia bem, deveria tê-la ouvido, mas fiquei preso ao
fato de que era muito nova e talvez estivesse estranhado a vida a
dois. Eu não fazia ideia de que ele era abusivo, filha.
— É a primeira vez que ele me agride fisicamente, se é disso que
o senhor está falando. Mas existem outras formas de abuso que não
o físico. Ele estava me secando, pai, consumindo minha energia,
que já não é lá grande coisa. Nosso casamento foi um engano.
— O que quer dizer com isso?
Penso no que aconteceu na nossa noite de núpcias, quando ele
enfim se revelou. Não passei a madrugada nos braços do homem
com quem tinha esperança de constituir uma família, mas chorando
sozinha no quarto ao lado.
— Nada. Não importa mais — digo, porque não tenho coragem
de contar aquilo ao meu pai. As únicas pessoas que sabem são
meu terapeuta e Bia. 
— Tudo bem, mas ao menos me conte o que o levou a agredi-la
hoje.
— O que faz com que um homem agrida uma mulher? Covardia
por saber se tratar de alguém com força física inferior a dele?
Enxergá-la como um objeto que ele pode tratar como bem
entender? Acho que uma combinação disso tudo, mas
principalmente a falta de respeito, papai. Nós nunca estivemos bem
desde o primeiro dia de casamento. Ele interpretou um personagem
até ter certeza de que estávamos ligados perante a lei.
— E agora, o que você vai fazer?
— Vou pedir a Bia amanhã mesmo que entre em contato com um
advogado especialista em divórcio. 
— Pode ir a uma delegacia também. Ele deveria pagar pelo que
lhe fez.
— Eu sei, mas não podemos nos dar ao luxo de ter meu nome
envolvido nas manchetes. Com aquele contrato de que lhe falei, vou
poder quitar a hipoteca da casa de vocês integralmente e dar mais
conforto à mamãe também, mas se meu nome aparecer em um
escândalo, pode ser que eles voltem atrás e rescindam.
— E vai viajar um pouco menos também? Você parece estar
sempre indo de um lado para o outro, filha.
— Eu não sei. Nesse novo contrato, eles terão exclusividade
sobre mim.
— Tudo bem, minha filha. A última coisa de que precisa hoje é
ser pressionada. Só quero que saiba que eu te amo, Zoe. Nós dois
a amamos muito e trazê-la para nossa família foi a melhor coisa que
já fizemos.
Ele está chorando e isso me faz finalmente desmontar.
— Eu também, pai. Não sou boa com palavras e menos ainda em
demonstrar sentimentos, mas eu os amo demais.
— Precisamos colocar gelo em seu rosto. Como aquele miserável
teve coragem?
— Acabou, pai. Isso é o que importa. Eu já estava decidida a pôr
um fim e já até houve uns rumores sobre isso na imprensa. Por isso
mesmo não quero ir à delegacia. Vou pedir à Bia que contrate um
advogado. Quando souber o que Mike fez, tenho certeza de que ela
vai conseguir mantê-lo longe de mim.
— Você é muito forte, Zoe. Quem a vê de for a, linda e de
aparência delicada, se engana. Você é feita de aço, criança.
— Ainda não, mas estou aprendendo.
 
 
 
 
Capítulo 20
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
Dois dias depois
 
 
 
 
— Do que diabos você está falando, Yuri?
— Para ser franco, não entendi muito bem, Christos. Somente sei
que a agente dela, Bia Ramos, pediu o menor número de pessoas
possível na reunião. E que também acontecesse em um lugar
discreto.
— Essa parte eu já ouvi, o que estou perguntando é o por
quê. 
— Parece que… hum… Zoe sofreu um acidente.
— O quê? Quando? E se foi esse o caso, porque não
noticiaram? 
— Acho que não foi esse tipo de acidente, mas um doméstico.
— Uma queda?
— Eu realmente não faço ideia. A agente dela a blinda do mundo,
como uma mãe faria, mas logo saberemos. Tomei a liberdade de
marcar nosso encontro no décimo terceiro andar, porque está vazio.
Algum problema?
— Claro que não. Só quero descobrir que tipo de acidente foi
esse. Grave algo: a partir do momento em que assinou o contrato,
Zoe me pertence, assim como sua vida. Quero ser informado até
mesmo se não acordou em um bom dia.
Ele me olha de maneira estranha,mas eu não dou a mínima. O
controlador dentro de mim quer saber o que está acontecendo e não
parará até descobrir.
 
 
 
 
Eu imaginei nosso reencontro muitas vezes na minha cabeça
porque eu sabia que mais cedo ou mais tarde, aconteceria.
Quase dois anos sem vê-la pessoalmente.
Um tempo em que tentei me convencer de que Zoe Turner não
era tanto quanto minha memória me fazia acreditar.
Que sua pele não era tão macia ou que seus gemidos e gritos de
prazer a cada vez que eu entrava em seu corpo eram como os de
qualquer outra mulher com quem já estive. Mas agora, quando
faltam poucos minutos para nosso reencontro, mal posso conter o
desejo.
Sabe o ditado: cuidado com o que sonha pois poderá conseguir?
Muito verdadeiro, porque só nesse instante me dou conta de que
conviver, mesmo que eventualmente com Zoe, será um inferno de
difícil.
Enquanto estiver casada, ela está fora do limite para mim.
Casada — repito como um aviso ao meu cérebro.
Não sou um mentiroso, eu a quero, mas nunca me prestaria ao
papel de ser uma terceira roda em uma relação. Traição é uma
palavra que não existe em meu vocabulário. 
Inadmissível. Imperdoável.
Não invado o território de outro homem, mesmo um tão patético
quanto Mike Howard.
Giro a caneta em minha mão, como uma espécie de exercício
para me desacelerar.
A secretária que trouxemos para esse andar acaba de anunciar
que Zoe e sua agente estão subindo e tento me convencer de que o
que está fazendo meu sangue bombear fortemente dentro do corpo
não tem a ver com a ansiedade em revê-la, mas porque há muito
rancor dentro de mim pela forma como ela partiu. O que vivemos foi
a melhor noite da minha vida no que diz respeito a sexo.
Estou de pé desde a hora em que cheguei porque há tanta
energia dentro do meu corpo que eu seria capaz de correr uma
maratona. 
Quando a porta se abre e uma mulher pequena entra, fico tenso
pela expectativa.
E em seguida, a cortina platinada surge. Finalmente estamos
frente a frente.
Bebo cada centímetro dela, começando pelos pés, como da
primeira vez, mas agora calçados em sofisticados scarpins e não
mais nos baratos do navio.
Veste um jeans ajustado no corpo perfeito, que não deixa muito
para a imaginação do observador. Uma camisa branca, sem
mangas, completa o conjunto simples e, ao mesmo tempo, elegante.
É como fazer um tour por uma estrada a qual você deseja há
muito tempo percorrer, mas no meu caso, já tenho memorizado
cada curva.
E então, finalmente chego ao rosto lindo.
Um segundo.
Esse é o tempo exato para saber o que aconteceu.
Eu já estive em muitas brigas de rua quando era um moleque na
Grécia. 
Zoe foi agredida. Essa é a razão de ter pedido um lugar discreto.
Eu não penso. Nenhuma célula cerebral minha funciona no
momento. Quando percebo, já estou nela.
— Quem fez isso? — pergunto, parado à sua frente.
Ela não tinha me visto ainda, distraída cumprimentando Yuri, que
formou uma espécie de barreira entre nós. Mas agora o rosto lindo
se ergue, parcialmente protegido por enormes óculos escuros. A
boca que eu já beijei e que ensinei a me tomar, aberta em uma
expressão de surpresa.
— Você?
— Todos para fora — comando, porque é com ela que eu quero
falar.
Pela minha visão periférica, percebo aquela que acredito ser sua
agente tentar iniciar um protesto e também quando Yuri lhe fala
qualquer coisa, mas mesmo assim, ela ainda pergunta à Zoe se
quer ficar a sós comigo.
— Está tudo bem, Bia — diz, me encarando.
É a primeira mudança que percebo. No passado, teria olhado
para o chão, envergonhada. 
Não me movo, mesmo quando ouço a porta bater.
— Devo assumir, senhor Lykaios, que é meu novo empregador.
— A voz ainda é suave, mas demonstra segurança. — Se está
preocupado com quanto perderá de dinheiro por causa do dano em
meu rosto, fique tranquilo. Eu já fui a uma cirurgiã e nada foi
quebrado. Somente minha pele é que está…
— Quem fez isso, Zoe?
Dou um passo à frente, mas antes que faça alguma sandice,
coloco as mãos nos bolsos da calça. Ela é uma mulher casada.
O que diabos está acontecendo comigo? 
— Não acho que seja uma cláusula contratual contar cada
detalhe da minha vida.
Sem conseguir me controlar, me aproximo ao ponto de quase
sentir o calor de sua respiração.
Mas não é desejo o que me domina no momento, mas a raiva por
vê-la ferida. 
Louco comigo mesmo e com ela porque nada do que eu planejei
saiu como esperado, ataco.
— Acredita mesmo nisso? Deveria olhar o contrato com mais
atenção então, porque pelos próximos cinco anos, você me
pertence, Zoe Turner.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 21
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
 
 
Torço para ser uma boa atriz. Fingir que a proximidade dele não
está me abalando quando, na verdade, meu coração bate de uma
forma quase dolorosa contra o peito.
Não são as memórias do porquê não devemos ficar juntos ou
mesmo a maneira como ele me dispensou, mandando aquela
mulher me entregar o envelope com o dinheiro, o que me volta
agora, mas tudo o que vivemos em nossa única noite juntos.
Seus beijos e o modo como o corpo se movia sobre o meu. As
coxas grossas pedindo passagem entre as minhas. Exigentes,
músculos poderosos contra minha maciez.
O olhar de um azul escuro me procurando na penumbra daquela
madrugada compartilhada.
— Eu não me vendi a você quando assinei o contrato. — Me
obrigo a falar e percebo que ele está focado na minha boca. — Se
eu soubesse que era o contratante, sequer teria aceitado.
— Duvido. Ninguém abriria mão de uma quantia tão alta.
Maldito. Ele sabe que estou blefando. Mesmo que eu tivesse
certeza de que era ele meu empregador, não poderia dispensar a
negociação. A casa dos meus pais já foi hipotecada[26] duas vezes e
a quantidade de dinheiro que gasto com o quarto particular e
enfermeiras para ficarem com ela vinte e quatro horas por dia é
obscena.
Não estou reclamando. Nenhum sacrifício é grande demais por
ela e o papai, mas isso fez com que desde o começo, eu tivesse
que aceitar praticamente todos os trabalhos que surgiam, viajando
sem parar.
Ele está me encarando e eu não recuo, mas admirar sua beleza
me faz ter consciência de como deve estar minha aparência. Como
se conseguisse ler meus pensamentos, pergunta.
— O que aconteceu com seu rosto, Zoe?
— Acidente doméstico. — De jeito nenhum vou contar que foi o
resultado do fim do meu casamento. 
Ninguém precisa saber a que nível de desrespeito meu ex-marido
chegou.
Ontem mesmo fui a um especialista em divórcios e depois de
contar toda a história da minha curta união, ele me aconselhou,
apesar do que aconteceu há dois dias, a tentar um fim amigável se
quero mesmo evitar escândalo, o que significa que ainda terei que
me encontrar com Mike para acertar os detalhes.
Vou ficar mais uns dias em Boston, então com meu pai e Bia
presentes, além do advogado, claro, teremos o que espero ser
nossa última conversa antes de assinarmos os papéis. Doutor Robin
tentou marcar um encontro em seu escritório, mas Mike alegou não
poder ir por conta do trabalho.
 Mamãe também está em casa, em home care[27] esse mês, já
que sempre que ela tem uma melhora, o médico permite isso como
forma de fazê-la se sentir vivendo a vida o mais normal possível.
— Seu acidente doméstico tem um nome?
Percebo que seus lábios formam uma linha fina, como se
estivesse contendo a raiva a muito custo.
— Minha vida pessoal é da sua conta, doutor Lykaios? Ou devo
chamá-lo de Xander Megalos?
Parece desconcertado por um instante.
— São meus nomes do meio.
— Agora eu sei. Com a dispensa rápida no dia seguinte, faz todo
sentido não querer dar o nome completo.
Segundos depois de deixar aquilo escapar, já estou arrependida.
Droga, a última coisa de que preciso é demonstrar vulnerabilidade
na frente dele. Até porque, se eu for honesta, quando descobrisse
sua verdadeira identidade naquele dia, iria embora de qualquer jeito.
— Não importa, é passado. Agora acho que devemosdeixar as
pessoas que estão lá fora entrarem.
— Tire os óculos, Zoe.
Eu deveria mandá-lo e o seu autoritarismo para o quinto dos
infernos, mas ao invés disso, me vejo obedecendo.
Faço, olhando em seus olhos. Não tive culpa do que aconteceu e
não vou me envergonhar por ter me unido a um covarde como Mike.
Sei que a minha aparência já não é tão ruim como no primeiro
dia, mas ainda dá para ver nuances de roxo e amarelo do
hematoma que se formou e que maquiagem alguma consegue
esconder. 
O tapa que ele me deu foi tão forte que somente por um milagre
não quebrou um osso, segundo a cirurgiã falou.
— Seu marido fez isso com você?
Eu poderia negar, mas estou cansada desse jogo. Só quero saber
o que será dessa reunião e depois, voltar para Boston.
— Ex-marido. Iniciei o processo de divórcio.
Não, eu não sei porque disse aquilo e nem o que ele está
pensando, pois agora a expressão de seu rosto tornou-se neutra.
— Responda. Ele a agrediu?
Concordo com a cabeça, mas sem encará-lo dessa vez.
— Mas como eu disse antes, a cirurgiã me garantiu…
Ele vem para perto e minha pulsação enlouquece. Não consigo
encontrar ar para os meus pulmões.
— Livre? — pergunta.
Minhas costas estão quase coladas contra a porta e eu sei que
deveria pará-lo, mas não consigo. Não quero.
— Sim. 
A força e intensidade de Christos é algo primitivo, cru, indo ao
encontro de todas as minhas necessidades femininas.
Como eu pude pensar que conseguiria um substituto para esse
homem? Independentemente do que ele fez e de como nunca
poderemos ficar juntos, sou dele.
— Nesse instante, você se considera livre, Zoe? — a voz soa
rouca.
Movo a cabeça para cima e para baixo e então, meus sonhos
proibidos, aqueles que eu não me permitia ter quando acordada,
acontecem.
A mão toca minha cintura como em um teste, como se eu fosse
algo precioso. Em reflexo, espalmo as minhas em seu peito. Sua
pegada se estreita e não há distância entre nós quando a boca me
toma sem aviso, indo no caminho oposto do cuidado das mãos.
A língua é exigente e entra em mim sem dar chance para recuos.
Eu respondo com a mesma ganância, tirando tudo dele também.
Perco a noção do tempo, de onde estamos. Eu só sei que quero
mais.
— Por que foi embora quando, bastando um toque meu, você se
derrete em meus braços, Zoe? Quando seu corpo, mesmo depois
de tanto tempo, ainda reconhece e responde às minhas carícias?
Gemo contra sua boca, faminta e deliciada, apertando-me contra
ele, mas, de repente, se afasta, me fazendo sentir perdida e vazia.
A maneira como me encara é fria e me traz de volta à realidade.
Deus, o que eu fiz? Como pude me esquecer de quem ele é?
— Não importa mais. Teve uma escolha no passado e tomou uma
decisão. Vamos tratar de negócios. É para isso que está aqui, Zoe.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 22
 
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
 
 
O resto da reunião passou como um borrão para mim. 
Eu não deveria, mas fiquei o tempo todo concentrada nele, ao
ponto de Bia me chamar a atenção duas ou três vezes por eu ter lhe
ignorado uma pergunta. 
O tempo separados fez com que a minha mente brincasse com
uma imagem de um homem cruel, inescrupuloso, que mesmo
sabendo que destruiu a vida de uma garota pela própria
irresponsabilidade, fugiu ao seu dever, oferecendo uma quantia
irrisória para sanar sua consciência.
Quando descobri em Barcelona quem ele era, eu não sabia nada
de Christos Lykaios além do desejo insano que me despertava, mas
agora, tentando analisá-lo imparcialmente, o que Ernestine, a mãe
de Pauline, me contou, não faz sentido.
Claro, as pessoas mudam. Eu não sou a mesma garota ingênua e
medrosa que ele conheceu no navio, mas não é disso que estou
falando.
Caráter é algo que você não tem como alterar e Christos não
mostra, agora percebo, nada parecido com alguém que fugiria
diante de uma obrigação.
Olho para seu rosto duro e com uma sombra de barba já
despontando.
Ele não parece tomar conhecimento da minha presença.
Enquanto eu sou incapaz de fazer meus neurônios alcançarem
um bom funcionamento, Christos se mantém impassível, sem
sequer olhar na minha direção. 
Ouço a conversa, mas totalmente desatenta. Sei que algumas
cláusulas novas foram adicionadas e quando Bia me perguntou se
eu concordava, fiz que sim com a cabeça, mas ao que me consta,
poderia estar negociando meu rim no mercado negro, porque eu
não saberia dizer do que se tratava nem para salvar minha própria
vida.
— Assim, o primeiro ensaio será na Grécia, na ilha particular do
doutor Lykaios.
Espera. O quê?
Olho confusa para Bia, mas ela parece absolutamente calma,
então deixo para surtar depois.
Aquilo não pode significar muita coisa. Para ensaios fotográficos
ou gravações de comerciais há sempre muitas pessoas em volta.
Não é como se fôssemos ficar sozinhos ou nem mesmo significa
que ele estará lá.
— Acho que com isso encerramos. — O outro homem, que sei se
chamar Yuri, sentencia e somente então, os olhos do meu primeiro
tudo, tornam a se voltar para mim.
Dura poucos segundos. Logo depois ele se levanta.
— Boa tarde, senhoras. Nossa reunião acabou. — diz.
Vira as costas e sai da sala em seguida, me deixando confusa,
perdida.
Ele parece com raiva de mim.
Por que foi embora quando, bastando um toque meu, você se
derrete em meus braços, Zoe? Quando seu corpo, mesmo depois
de tanto tempo, ainda reconhece e responde às minhas carícias?
Como pode ter me perguntado algo assim após me tratar como
uma qualquer?
As peças não se encaixam e não só em relação a nós dois.
A honra que Christos demonstra vai na contramão de tudo o que
Ernestine contou sobre ele.
Passo a mão na têmpora, com dor de cabeça, mas determinada a
pesquisar aquela história outra vez.
 
 
 
 
Minutos depois
 
 
 
 
— O que aconteceu lá dentro, Zoe?
— Em relação ao quê?
— Eu poderia começar sobre o fato de que você parecia
totalmente alienada da realidade durante toda a reunião, mas não é
disso que estou falando e sim do antes. Ficou óbvio para todos que
já se conheciam. A energia sexual entre vocês poderia iluminar um
país.
Bia se tornou minha melhor amiga e também confidente, aquela
que sabe tudo sobre meu casamento, até mesmo os detalhes
sórdidos da noite de núpcias. Odeia Mike com todo o coração e foi
pelos conselhos dela, muito mais do que a terapia, que decidi me
separar.
Independentemente do que aconteceu, com aquela morena
tentando me humilhar e Mike rindo de mim, eu já pretendia terminar
tudo.
Mas o que ela fala agora não tem nada a ver com meu ex-marido.
Eu nunca contei minha história com Christos para ela e acho que
chegou a hora.
— Sim, nós temos um passado. E acho que preciso de você para
me ajudar a entendê-lo.
O assistente de Christos torna a se aproximar no corredor e avisa
que o avião particular do grego nos levará de volta a Boston. Eu
concordo no automático, ainda sobrecarregada pelo nosso encontro.
Uma hora e meia depois, já dentro da aeronove, Bia me olha em
choque.
— Nem sei por onde começar, mas vou tentar organizar meus
pensamentos. A primeira coisa a ser dita, é que agora tenho certeza
de que sua contratação não foi por acaso. Ele ainda a quer.
Já havia chegado a essa conclusão também. Não que ele me
quer, porque apesar do desejo que demonstrou, havia muita raiva
guardada, mas sim que minha contratação não foi obra do destino.
— Você fugiu dele por causa da sua amiga? Olha, me desculpe,
Zoe, mas Christos Lykaios é uma figura muito conhecida não
somente no mundo da moda, mas como um bilionário filantropo. Eu
lido com gente rica há tempos e jamais vi o nome dele em meio a
rumores de práticas ilegais. Estou falando de drogas principalmente.
Olhe para ele. Parece alguém que se dopa para fugir da realidade e
depois pega um carro, se envolve em um acidente e foge às
responsabilidades?
— Não. Ele não parece.
— Ao contrário, o homem é um dominante. Demonstra desejar ter
o controle do mundo na palma da mão.
— Eu sei e mesmo nova, fui atrás disso, conferiraquela história,
mas como Ernestine falou, o acordo que fizeram foi a portas
fechadas. Estou tão confusa.
— Você era muito nova. O que viveu foi uma situação surreal,
mas prometo que vou cavar fundo. Onde foi que disse que
aconteceu o acidente?
— Em Boston, mesmo. Segundo Ernestine, ele era um estudante
universitário e Pauline, muito pequena ainda.
— Tenho um ex-namorado que é detetive de polícia e que por sua
vez tem contatos dentro da promotoria. Prometo que descobrirei a
verdade. Agora vamos à questão do dinheiro no envelope. Tudo
bem, não foi legal você ter acordado e ele não estar lá, mas atribuo
muito do que sentiu novamente à sua juventude porque
honestamente, vou bancar o advogado do diabo aqui, mas Lykaios
não precisa ofender uma mulher para se livrar dela.
— E nem lhe pagar?
— Com aquela aparência? Amor, eu aposto que mesmo que ele
fosse um mendigo, teria fãs atrás de si. Com todo o respeito, mas a
beleza do homem é de fazer inverter a rotação da Terra.
— Não tem porque me pedir desculpas, ele não é nada meu.
— Se você diz… o fato é que tenho muitos anos de estrada a
mais do que você, Zoe e digo sem medo de errar que aquele
homem a quer. E a julgar pelo estado que você ficou, é reciproco.
— Ainda há a questão de Pauline.
— Sim, há e prometi que investigarei para você. Mas e se tudo
não passou de uma mentira daquela mulher? Pelo amor de Deus,
ela lhe devolveu ao orfanato quando era uma garotinha.
— Ela e mais várias outras famílias. É mais comum do que você
imagina, Bia. E juro que não estou querendo defendê-la, mas
dizendo isso porque é um fato. No caso dela, nunca houve intenção
de me adotar, eu só não esperava ser devolvida tão rápido porque
amava Pauline. Ainda a amo.
— A amizade mais pura do mundo: entre duas crianças.
Corações inocentes.
— Ela era linda e tão feliz. Pauline é minha melhor lembrança de
toda infância. Mesmo depois que se foi, eu continuei conversando
com ela em meus pensamentos, comemorando cada conquista. Foi
por isso que fiquei tão horrorizada quando descobri quem Christos
era.
— Eu vou investigar sobre isso, Zoe, mas mesmo sem qualquer
base sólida, posso lhe garantir que o que quer que tenha
acontecido, não foi como essa tal Ernestine lhe contou.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 23
 
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
 
Uma hora depois
 
 
 
 
Eu planejo tudo.
Tirando Zoe — o modo como nos conhecemos e meu convite
para que passasse o verão comigo, não sou um cara impulsivo,
minha vida é praticamente um arquivo, com cada pasta etiquetada
em seu devido lugar.
Atacar o inimigo em seu ponto fraco. Não deixar que se prepare
ou antecipe o golpe e tornar o castigo o mais doloroso possível, é
quem eu sou. Nesse instante, entretanto, quero ir atrás de Mike
Howard e torcer seu pescoço por tê-la agredido. Sentir o prazer de
ouvi-lo estalar sob minhas mãos.
Pego o celular e ligo para a única pessoa que não me julgaria.
— O que há, amigo? — diz, ao atender. — Sei que quando me
procura, é porque não vê outra saída. Você é o herói, eu o vilão.
— Não há nada de herói em mim e nós dois sabemos disso.
— Mas também não chega a ser a maçã podre, como eu.
— Preciso que descubra tudo o que puder sobre Mike Howard. É
um professor de Massachusetts College.
— O marido dela — ele diz, porque o homem simplesmente
parece saber de tudo. 
Nunca comentei sobre Zoe com ele, mas não duvido que conheça
todos os detalhes de nossa história, e talvez também da minha
obsessão pela mulher.
Sim, porque qual outro nome posso chamar meu apego a ela,
mesmo após ter me deixado com nada mais do que um bilhete se
referindo ao que houve entre nós como um erro, dois anos atrás?
Hoje tive a prova de que nada mudou. Eu continuo desejando-a com
cada gota do meu sangue.
— Ex-marido. Ele a agrediu — falo.
— O que aconteceu? — Seu tom de voz relaxado muda para
tenso e eu sei a razão. Agressões à mulheres são seu calcanhar de
Aquiles. Por ter presenciado o pai adotivo fazer isso com a mãe
muitas vezes na infância, Beau[28] não admite esse tipo de covardia. 
— Ela não contou os detalhes, mas seu rosto está machucado. 
— Filho da puta. O que você quer?
— O que puder descobrir. Já o investiguei, pelos métodos
normais. Quero ir além agora, no entanto.
— Me dê duas horas e eu vou te contar até mesmo quando caiu o
primeiro dente de leite dele.
 
 
 
 
Olho para o relatório à minha frente.
Não sei como conseguiu mas, pouco mais de duas horas depois
que lhe telefonei, minha secretária avisou que havia um portador
com uma pasta que só poderia ser entregue a mim. Não tive
dúvidas de que vinha de Beau.
Antes que eu consiga abri-la, no entanto, meu celular acende com
uma mensagem.
Zoe.
Sim, o número dela continua gravado entre os meus contatos e,
aparentemente, ela manteve o meu também, já que nada nas
negociações que firmamos envolve informações pessoais.
 
 
Zoe: “ Eu gostaria de fazer uma pergunta.”
 
 
Que poder tem essa mulher sobre mim que somente ler uma
fodida mensagem que não tem nada de significativo é o bastante
para fazer meu sangue ferver?
Aperto no botão para completar a ligação.
— E por que eu deveria respondê-la?
— Esqueça, Christos.
Merda! Essa seria minha deixa para encerrar o telefonema e
manter tudo entre nós em uma base profissional, mas como posso
fazer isso se ainda sinto o gosto da sua língua dentro da minha
boca?
— O que quer saber?
— O dinheiro no envelope que me deixou em Barcelona era uma
dispensa? Uma mensagem cifrada para que eu fosse embora de
seu apartamento?
— Do que diabos você está falando?
— Eu achei que poderia ser uma espécie de pagamento por...
— Não complete essa frase, Zoe. Não ofenda a nós dois desse
modo.
— Tudo bem. Era só isso. Obrigada.
— De jeito nenhum vai desligar assim. Nós ainda não acabamos.
— O que você quer?
Você nua, sob mim. Suas coxas de seda nos meus ombros
enquanto eu como sua boceta. Ouvir seus gritos me pedindo para ir
mais fundo em seu corpo apertado.
— Jante comigo.
— O contrato não nos impede?
— Foda-se o contrato, Zoe. Foi você quem me procurou e agora
eu não vou parar. Estou indo para Boston.
— Mas eu… nós… hoje será impossível. Além do mais, não é
uma boa ideia nos verem juntos.
— Disse-me que já está em processo de divórcio.
— Sim, estou, mas nada foi anunciado na imprensa. Seria loucura
nos encontrarmos. Somos ambos muito conhecidos.
— Mandarei alguém apanhá-la amanhã para almoçarmos, então.
— Não foi por isso que eu lhe escrevi. Não estava esperando um
encontro.
— Você me conheceu há dois anos, Zoe Turner e sabe
perfeitamente que sutileza não é o meu forte. Se vamos esclarecer
o passado, não será por mensagem ou mesmo durante a porra de
um telefonema. Esteja pronta ao meio-dia.
— Você pretende vir Boston ainda hoje?
— Nesse exato momento, já estou me dirigindo ao elevador.
Meio-dia em ponto. Não se atrase.
Depois que desligo, mando uma mensagem para Yuri para saber
se meu avião está pronto para me levar para Boston, já que deve ter
voltado de lá há poucas horas apenas.
Também carrego comigo a pasta que Beau mandou me entregar.
Pretendo ler o relatório sobre Mike Howard de dentro do avião.
 
 
 
 
Beau tem contatos que podem descobrir até o segredo mais bem
guardado de alguém, mas ainda que meu conceito em relação ao
ex-marido dela fosse o pior possível, não esperava aquilo. 
Não é sobre traições apenas, mas orgias sexuais com alunos
sem distinção de gênero. Ele e um grupo de professores, ao que
tudo indica, participavam dessas festinhas em que havia troca de
casais ou todo mundo ao mesmo tempo.
Não posso acreditar que ela esteja envolvida naquilo, então a
única conclusão a que chego é que ele a traiu indiscriminadamente,
colocando a saúde dela em risco.
Filho da puta!
Não me considero um homem moralista. Já fiz muitas loucuras no
que tange à satisfação sexual, mas sempre com uma parceira por
vez e se eu tivesse algo em que apostar toda a minhafortuna, seria
no fato de que Zoe não se encaixa nesse estilo de vida dele.
Afasto o pensamento porque só de pensar em um outro homem a
tocando já me faz querer matar alguém, quanto mais imaginá-la
sendo passada de mão em mão.
Viro a página, na parte que fala de agressões recorrentes à ex-
namoradas. 
Como é possível que ele tenha se livrado de uma acusação? Ao
menos meia dúzia de mulheres alegam terem sido espancadas pelo
maldito.
Conforme vou lendo, meu ódio aumenta. Como se não bastasse
tê-la machucado, ele a roubou.
Zoe ainda não sabe, mas todos os seus investimentos se foram. 
Ao que tudo indica, ele vem roubando-a há meses, mas ontem
houve uma grande transferência do que lhe restava, assim como a
venda de suas ações.
Nesse exato momento, o que a conta-corrente dela contém é
insuficiente até mesmo para pagar os remédios da mãe. Agora,
mais do que nunca, ela precisará do contrato que fechamos.
Pego o telefone para resolver a primeira questão: destruir o
mundo que Mike Howard conhece. Mas isso não chega nem perto
do que tenho planejado para ele. Vai agonizar em vida até que eu
coloque o fim em sua existência.
Dez minutos e um telefonema. Foi o que precisei para fazer o
universo dele ruir. Amanhã mesmo, será dispensado de seu posto
de professor auxiliar porque eu exigi isso. 
Como ex-estudante e um dos patronos mais generosos da
universidade, só precisei jogar a cartada da possibilidade da minha
contribuição ser suspensa caso não tivesse meu pedido atendido e
o desgraçado estava fora. 
Bem-vindo ao primeiro dos seus últimos dias nesse fodido
planeta, Mike.
Mal posso esperar para conhecê-lo pessoalmente.
 
 
 
 
— Dois telefonemas no mesmo dia. Isso quer dizer que já leu o
relatório.
— Já e quero que me indique alguém para tomar conta dela.
Vigiá-la de longe, somente para o caso dele tentar se aproximar.
Homens que façam a segurança da casa dos pais dela enquanto
Zoe estiver na cidade.
— Tudo bem. Posso providenciar isso amanhã de manhã. Mas e
quanto a ele? Vai dar um fim definitivo à questão?
— Você me conhece. O que acha?
— Algo discreto?
Sei que está falando sobre a morte do comandante Bentley
Williams, que muitos atribuíram a suicídio, mas que nós dois
sabemos que não foi o que aconteceu.
— Sim. — respondo sem elaborar mais.
— Você se decidiu, então? Ela é sua a partir de agora?
Ela sempre foi minha.
— Não há nada definido.
— Mas quer protegê-la mesmo assim. — afirma.
— Zoe acabou de assinar um contrato comigo. É do meu
interesse cuidar de sua segurança.
Ele não fala nada e eu entendo, porque até aos meus próprios
ouvidos, aquilo soa como uma desculpa de merda.
— Sabe como meus homens atuam em caso de perigo, Christos.
— Sei e é por isso mesmo que estou pedindo a você. Ao menor
sinal de risco para ela, não pode haver hesitação.
— Fique tranquilo, será feito. A partir de amanhã, Zoe terá
alguém vigiando-a vinte e quatro horas por dia. Sua… contratada?
Prefere esse termo? Será protegida.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 24
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
Boston
 
 
 
Naquela noite
 
 
— Como está se sentindo, mamãe? 
Ela parece animada hoje e meu coração sempre fica mais leve
quando a vejo sorrir. Ver um ente querido perder suas forças aos
poucos não é bonito, o câncer é a pior doença de todas. 
Há momentos de esperança para nós três e também aqueles que
beiram o desespero.
Eu tenho rezado muito para que ela fique boa, mas se for para
não sofrer, caso contrário, prefiro que seja feita a vontade de Deus.
É uma gota de esperança em um oceano de certeza.
Os médicos não têm as respostas que preciso. Ela melhora e
piora e por isso mesmo, com cada vez mais frequência, permitem
que venha para casa.
Graças a Deus estou conseguindo pagar para que ela tenha um
quarto montado como se fosse o de um hospital, assim como uma
enfermeira. Não importa para mim quanto tempo lhe resta, quero
que usufrua de todo o conforto que eu puder dar.
— Eu estou bem, filha, mas muito triste também.
Olho para as minhas mãos. Não preciso perguntar o motivo. Sei
que é por causa da agressão que sofri de Mike.
— Não pense nisso, mãe. Essa semana ainda, tudo será
resolvido. 
— Seu pai me contou que você lhe pediu ajuda dias após o
casamento. Estou tão envergonhada por ele ter lhe dito para tentar
mais um pouco.
— E eu, arrependida por ter escutado. Achei que havia algo de
errado comigo, mãe. Eu sempre acho que há algo de errado
comigo, já que não tenho muitas pessoas que me amam.
— É a perda delas, filha. Não há nada de errado com você. É
uma moça linda por dentro e por fora.
— Quando sabemos que amamos alguém, mamãe?
— Está falando sobre Mike? 
— Não. Mesmo antes do que ele fez, eu jamais consegui amá-lo.
Se eu for muito sincera, eu nem mesmo gostava dele. Acho que o
que aconteceu é que eu estava com muito medo de perdê-la. Você
e meu pai são minha única estabilidade na vida. Ele surgiu e
pareceu um ombro amigo, mais velho, carinhoso e compreensivo.
Eu confundi tudo. Não estou dizendo que lhe dei motivo ou
desculpando o que ele fez comigo, até porque há muito mais que eu
não estou disposta a compartilhar no momento, mas falando que eu
também errei ao me casar com alguém a quem eu conhecia
somente há um mês.
— Se não era a Mike que estava se referindo quando me
perguntou sobre amor, quem então?
— Alguém do passado.
— O homem de Barcelona?
— Por que está me perguntando isso?
— Zoe, você voltou de lá meio morta em vida. Eu nunca invadiria
sua privacidade quando não parecia disposta a me contar, mas
sabia que algo sério ocorrera. Depois veio sua depressão e me
concentrei em reerguê-la. Nada mais importava.
 — É esse homem, sim. Eu o reencontrei. Acho que o amo. Que
sempre o amei, mas....
— Mas o quê?
— Ele pode ter feito algo muito ruim no passado.
— Conversaram a respeito?
— Não. Estive com ele somente hoje após o tempo em
Barcelona. Vamos almoçar juntos amanhã.
— Não está se precipitando? Quero dizer, mal saiu de um
relacionamento.
 — E se eu perder essa chance? E se o perder para sempre?
— Mas e quanto ao que disse sobre ele ter feito algo ruim?
— Não tenho certeza, mãe. Na minha imaturidade, eu o julguei e
condenei sem sequer lhe dar a chance de se defender.
— Siga sua intuição. Você é uma menina ajuizada, nunca me deu
trabalho, mas quanto a essa história de almoço, preferiria que não
fosse a um restaurante. Os médicos toda hora estão falando na tv
sobre os aumentos dos casos dessa nova gripe. Preveem algo de
alcance mundial. Seu pai inclusive já até comprou máscaras há
cerca de duas semanas. Agora, parece que elas simplesmente
esgotaram, assim como o álcool em gel.
Fico calada, olhando-a triste.
— O que foi, filha?
— Não posso parar de trabalhar. Se essa história da nova gripe
for séria, vou precisar falar com a senhora apenas por chamada de
vídeo. O risco de que eu me contamine em algum aeroporto é
grande e não me perdoaria se a prejudicasse de algum modo.
Ela segura minha mão e meu coração afunda quando percebo
como está magrinha.
Trago seus dedos para os meus lábios e beijo.
— Não vamos sofrer por antecedência. Por ora, basta que se
cuide. Gostaria que saísse de máscara se precisar ir à rua.
— Seria ótimo. Ainda mais com o rosto assim.
— Como consegue brincar com uma coisa dessas?
— Não consigo, mãe, mas percebo que está se culpando pelo
que Mike fez e isso não é justo. Ninguém pode ser responsabilizado
por essa covardia além dele mesmo.
 — Nem eu ou seu pai fazíamos ideia de que ele era assim ou
nunca teríamos permitido que se aproximasse de você. Mike era um
bom rapaz quando mais jovem, eu não sei o que aconteceu.
Pouco tempo depois, ela começa a cochilar.
Ando até a janela, mas não estou prestando atenção na noite lá
fora e sim presa às recordações do meu casamento.
Um sonho que se transformou em pesadelo.
Eu, a menina boba que sonhava com um amor para a vida inteira,
me uni a um depravado que soube esconder sua outra faceaté ser
tarde demais.
Penso no que minha mãe falou sobre Mike ter sido um bom
rapaz. Eu duvido. Provavelmente ocultava de todos sua
personalidade verdadeira, como fez comigo. Ninguém dorme íntegro
e acorda um mentiroso, pervertido. Acho que é preciso anos de
treino para aprender a fingir tão bem.
Deus, se ela soubesse o que passei. A única coisa que me fez
aguentar por tanto tempo foi que quase não nos víamos.
Com as minhas viagens ao redor do mundo, talvez não
tenhamos, em seis meses, convivido por trinta dias no total,
provavelmente menos e quando acontecia, geralmente terminava
em briga, como aconteceu na noite em que ele me agrediu.
O que meus pais e amigos diriam se eu lhes contasse que o
homem de ouro, professor auxiliar de uma das maiores
universidades do país, me disse à queima roupa em minha noite de
núpcias que só se satisfazia em sexo grupal? Que jamais
conseguiria sentir tesão em um relacionamento regular? Que
esperava que eu dormisse com seus amigos para que assistisse,
porque não conseguia se excitar de outra forma com uma mulher?
As garotas contam maravilhas sobre suas noites de núpcias. Na
minha não houve sexo, carinho, nada. Fiquei trancada na suíte ao
lado da dele, vomitando de nervoso e chorando.
Nós não sairíamos em lua de mel de qualquer modo porque eu
tinha compromissos de trabalho, então no dia seguinte pela manhã,
corri para pedir ajuda ao meu pai.
Foi quando ele me disse que a convivência no casamento é
difícil.
Ainda que sem experiência, eu sabia que aquilo não tinha nada a
ver com convivência, era uma distorção dentro de Mike que não
poderia ser corrigida.
Passei o primeiro mês fora e quando voltei, ele tornou a ser o
homem gentil que conheci, no entanto, sem tentar me tocar. Acho
que acreditou que eu ficaria curiosa sobre sexo e que acabaria
cedendo, o que só prova que ele não sabia nada sobre mim. Passei
a sentir nojo dele. 
Nossa relação nunca foi baseada em atração física, mas da
minha parte, em amizade. Então, ele não dar qualquer indicação de
que queria transar comigo, não tenho vergonha de admitir, foi um
alívio. 
Nos três dias em que fiquei em Boston, conversamos como
antigamente, mesmo que ele tenha dormido no quarto ao lado.
Para ser franca, me acomodei à situação porque somente depois
de casados, foi que percebi que não queria outro homem me
tocando.
A calmaria durou até que eu voltasse para casa, um mês e meio
depois.
De novo, após um jantar desastroso com os amigos dele, me
culpou por nosso casamento não estar dando certo e trouxe outra
vez à tona a história de sexo em grupo.
Decidi sair de casa e ir ficar com meus pais, determinada a no dia
seguinte contar tudo à Bia e pedir que me ajudasse com o processo
de divórcio.
Nessa mesma noite, mamãe teve uma piora e achamos que
iríamos perdê-la. O médico sugeriu uma quimioterapia caríssima e
alternativa, um método novo. Eu tive que me concentrar em ganhar
dinheiro para pagar as contas do hospital, porque nunca me
perdoaria se ela morresse por não termos tido condições para tratá-
la.
A vida foi um carrossel de emoções ruins nesse período. Eu
viajava temendo receber um telefonema do meu pai dizendo que ela
se fora, então vivia tensa, dormindo pouco e me alimentando mal.
Sufocada, contei tudo à Bia e ela me disse que me apoiaria cem
por cento para tentarmos o divórcio de uma forma discreta. Foi com
essa intenção que voltei para casa essa semana.
Independentemente do que tivesse acontecido àquela noite, eu
acabaria com nossa união. Ele ter me agredido foi a pedra que
faltava no túmulo do relacionamento.
Que relacionamento, Senhor? Não houve relacionamento algum,
mas um engano. Nunca fomos sequer amigos, agora eu vejo.
Lembro-me do telefonema de Christos.
Fiz besteira em mandar aquela mensagem? Deveria ter esperado
que Bia esclarecesse tudo com seu ex-namorado antes de falar com
ele?
Eu não me arrependo de ter tomado a iniciativa, pela primeira vez
aceitando o fato de que tudo pode ter sido um horrível mal-
entendido.
Deus, ele queria me ver ainda hoje! Deve ter algum significado
ele largar tudo para vir me encontrar, ainda mais depois de como as
coisas terminaram entre nós.
Eu sabia que não o havia esquecido, que nunca o esqueceria,
mas não esperava que fosse senti-lo tão forte dentro do coração
depois do tempo passado.
Foi como se ele tivesse me tocado ontem. Como se eu ainda
fosse a menina insegura que se entregou para seu herói sombrio
em uma noite em Barcelona.
Eu preciso ouvir seu lado da história, nem que seja para
conseguir seguir em frente.
Entretanto, agora mesmo, ainda sem ter certeza de nada sobre o
acidente de Pauline, sei que seja qual for o resultado, jamais haverá
outro para mim.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 25
 
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
Uma hora depois
 
 
— Aonde você está indo? — Bia pergunta, quase me matando de
susto, quando passo pelo corredor.
— Eu ia pedir seu carro emprestado. O meu está sem gasolina e
quero comprar sorvete.
— Ansiosa?
Balanço a cabeça, fazendo que sim.
— Pode levá-lo, mas primeiro escute o tenho para dizer. Acabei
de falar com meu amigo detetive e… 
— Achei que havia dito que ele era um ex-namorado.
— Se eu contar como realmente o chamo, você não vai gostar.
Tenho medo que desmaie.
A despeito de toda a loucura que tem sido esses últimos dias,
começo a rir porque Bia tem a boca tão suja quanto a de um
marinheiro, mesmo que sua aparência seja a de uma dama da era
vitoriana.
— Fale. Acho que já dei várias amostras de que sou uma garota
crescida. Posso aguentar um palavrão ou outro.
— Pau amigo.
— Ai, Jesus!
— Eu avisei.
— E o que seria isso?
— O relacionamento é forte o bastante para que eu o considere
um amigo, mas não o suficiente para que o queira como namorado.
Policiais são certinhos demais para o meu gosto.
— Falou a bandida — brinco.
— Não iria tão longe, mas gosto de homens que quebram as
regras.
— Um fora da lei é seu sonho de consumo?
— Quem sabe? Nunca experimentei, mas não vou mentir e fingir
que não me excita um sexo mais selvagem.
— Informação demais, senhorita — falo, tampando os ouvidos. —
Agora me conte sobre o que seu amigo disse.
Ainda não falei nada para ela sobre meu encontro com Christos
amanhã. Vou precisar da coragem do açúcar antes de fazer
confissões.
— Disse que até amanhã conseguirá acessar o que precisamos e
que é comum pessoas muito ricas, quando envolvidas em ações
civis, fazerem um acordo confidencial sobre a quantia da
indenização, mas que não faz muito sentido exigir tal cláusula se o
valor foi irrisório, como a tal Ernestine lhe falou. Além do mais, ele
deu uma pesquisada por alto e não encontrou qualquer ação
criminal contra Lykaios. Geralmente em casos assim, ambas correm
paralelas.
— Não sei se entendi.
— Qual parte?
— A do valor.
— Ele explicou que geralmente quando se exige
confidencialidade em um acordo, o valor é astronômico.
— Não é possível, Bia. Elas viviam com sacrifício. Eu era
pequena, mas sabia bem que faltava tudo naquela casa. Quando
minha mãe biológica ainda vivia, nós não éramos nem perto de
ricas, mas tinha frutas e biscoito para mim. Na casa de Ernestine
era quase um caso de necessidade. Ela controlava cada colherada
de arroz que comíamos.
— E se ela gastou o dinheiro?
— Mas você disse que teria sido um valor astronômico.
— Sim, mas mesmo altos valores, se mal administrados, podem
acabar. Há vários casos de pessoas que ganham na loteria e depois
terminam a vida na miséria.
— Isso é verdade. Eu até assisti um documentário uma vez a
respeito desses ex-ricos. 
— Bom, por enquanto é tudo especulação, mas nós vamos
descobrir, Zoe. Prometo.
Vou até ela e a abraço.
— Você é a melhor amiga que eu poderia desejar.
— Estou mais para mãe, né? Pela minha idade.
— Pois vou rezar para chegar aos quarenta e cinco linda assim.
Ela sorri sem jeito. Como eu, não sabe lidar muito bem com
elogios.
— Você falou em ir comprar sorvete? — Muda deassunto.
— Sim, vou me dar a esse luxo. Depois de tudo o que aconteceu
hoje, posso sair da dieta.
Eu passo fome, literalmente, para conseguir me manter dentro
das medidas dos contratos que assino, mas de vez em quando me
permito uma escapulida, mesmo sabendo que provavelmente
amanhã terei que correr dez quilômetros para compensar.
— Acha que vai aguentar ficar nessa vida por muito tempo?
Quero dizer, atualmente a carreira de modelo é bem promissora e
você pode desfilar e fotografar até quase estar com a minha idade,
porque a indústria da moda finalmente entendeu que a mulher
moderna tem dinheiro para pagar suas próprias contas a partir dos
trinta, não com doze.
— Não acho que consiga. Nunca foi o que quis para mim. Eu
pretendia ficar por um par de anos, apenas para cumprir a promessa
que fiz à Pauline.
— E cumpriu direitinho, porque com o contrato que acaba de
fechar com Lykaios, você acaba de se tornar uma das cinco top
models mais bem pagas do planeta. Sem querer desmerecê-la, mas
ele não precisava ter oferecido tanto. Você demoraria ao menos
mais uns três anos para alcançar esse patamar. Esse homem tem
sentimentos por você, Zoe.
— Quero tanto estar errada, Bia. Quando o vi hoje, foi como se
eu nunca tivesse ido embora.
— Eu também quero que você esteja, mas por favor, vá com
calma. Estarei sempre na torcida pela sua felicidade, mas dessa
vez, vocês poderiam desacelerar um pouco. O encontro que tiveram
no passado, pelo que me contou, foi explosivo.
Olho para ela, sem saber o que responder. Acho que tem razão,
claro, mas por outro lado, se for levar em consideração sobre o que
acontece quando eu e Christos estamos próximos, desacelerar é
uma utopia.
— Vamos conseguir esclarecer essa história do acidente de sua
amiga. Tenho fé em Deus, mas agora me diga, que sabor de sorvete
você vai comprar?
— Não quer vir comigo?
— Perdoe-me, mas não. Estou podre de cansada, mas tomaria
um sorvetinho — diz, piscando um olho. 
— Folgada. Para sua sorte, gosto de você o suficiente para
compartilhar minhas gulodices.
 
 
 
Demoro mais tempo do que pretendia no supermercado porque
aparentemente, todo mundo resolveu fazer compras às onze horas
da noite.
Se fosse em outro bairro, eu não sairia de casa sozinha a essa
hora, mas aqui é bem tranquilo. Além do mais, fantasiada de
menino, como Bia chamou minha calça de moletom três números
maiores, casaco folgado e o cabelo escondido pelo capuz e tênis,
ninguém acreditaria se tratar de mim.
Ah, e seguindo a recomendação da minha mãe, resolvi vir de
máscara. Estava me sentindo ridícula quando saí de casa, mas para
minha surpresa, ao chegar no supermercado, o atendente não só
estava usando uma como me explicou que o governador iria tornar
obrigatório a partir do próximo sábado. Daí conforme fui passando
pelos corredores, várias pessoas estavam mascaradas também.
Que loucura! Preciso ler com mais atenção a respeito desse
vírus. Minha vida é tão corrida que quando tenho uma folga,
geralmente estou exausta. As pessoas acham que a carreira de
modelo é super fácil, mas ninguém faz ideia do que é ficar de pé
durante dez, doze horas para gravar um comercial em um frio
danado usando um biquíni minúsculo.
Passo em frente a um refrigerador e sorrio quando vejo minha
imagem refletida.
Na minha profissão, jamais posso me descuidar da aparência
porque a qualquer momento pode surgir um paparazzi, mas Bia me
disse que eu fazia bem em vir disfarçada, porque ajudaria a
esconder meu rosto machucado.
Assim, enquanto percorro as geladeiras em busca do sabor que
eu quero — morango com raspas de chocolate — eu me sinto meio
que uma agente secreta.
Claro que só tem um pote do meu sabor favorito e que a tampa
está meio aberta.
Eca.
Droga, vou ter que escolher outro. Sabe lá Deus se algum doido
mexeu no sorvete e colocou nojeiras ali dentro.
De jeito nenhum que eu tenho coragem de comer algo sem estar
lacrado.
— Posso ajudá-la? — um funcionário pergunta.
Não o encaro, com medo que me reconheça, mas depois começo
a rir por trás da máscara. Como ele conseguiria?
— Eu queria o de morango com raspas de chocolate, mas o
único pote está aberto.
— Ah, esses moleques do bairro! Deram para vir aqui fazer isso
ultimamente. Mas se não estiver com pressa, posso ir lá dentro ver
se encontro potes lacrados.
— Faria isso?
— Com certeza. Morango com raspas de chocolate é o melhor
sabor.
— Não é? E estou com desejo de comê-lo há mais de um mês.
— Espere um pouquinho minha filha, que já vejo se encontro
algum.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 26
 
 
 
 
 
 
Mike Howard
 
 
 
 
Minutos depois
 
 
 
 
Finalmente essa intrometida da Bia Ramos foi embora. Já estava
perdendo a esperança, achando que ela passaria a noite na casa
dos velhos, mas agora que saiu com o carro, posso colocar meu
plano em ação.
Olho de um lado para o outro antes de sair do furgão, somente
para ter certeza de que não há alguém na rua e quando confirmo
que está deserta, pego meu equipamento. Pelo que pesquisei na
internet, vou precisar somente de dez minutos até que tudo termine.
E terminar é uma boa escolha de palavra porque quando tudo
chegar ao fim, não haverá uma viga de pé.
Eu não pretendia voltar para ela, de qualquer forma. Depois de
sete meses juntos, seis casados, nos quais fui paciente e amoroso,
percebi que a princesa de gelo nunca iria ceder e se adequar ao
meu estilo de vida.
Fazer de Zoe minha esposa não foi obra do acaso.
Uma bela manhã, minha mãe estava me mostrando no jornal a
fotografia da filha adotiva de uma amiga e eu tive que admitir que
era linda. Entretanto, não foi isso o que me chamou a atenção, mas
o que ela me contou sobre a garota.
Uma modelo de apenas vinte anos com uma carreira em
ascensão. Bolso cheio de dinheiro que, infelizmente, estava sendo
desperdiçado com a velha Macy, que não fazia a gentileza de
morrer para sair das costas da filha.
Há muito tempo eu estava procurando uma parceira estável para
minhas preferências sexuais. E que pessoa melhor para ser
moldada do que uma orfã, menina carente e rejeitada por diversas
famílias?
É, eu fiz com que minha mãe me contasse tudo sobre ela. Ser
adotada por Macy e o marido foi uma espécie de última opção. Zoe
já estava bem velha para que outras pessoas a quisessem, então
deu muita sorte que o casal a tenha escolhido. Talvez seja por isso
que é grata e continua gastando dinheiro com os dois inúteis.
Ela foi um alvo tão fácil que nem precisei de muito esforço.
Ombro amigo para uma mulher carente é irresistível.
Não me preocupei que ela não tenha me dado abertura para o
sexo, porque ir para cama com uma mulher só não me dá tesão. Já
até tentei com as tais pilulazinhas azuis, mas mesmo assim, me
senti como se estivesse comendo um prato sem sal ou pimenta. Foi
por isso que meu relacionamento secreto com uma mexicana não
deu certo. Há alguns anos, passei férias naquele país e cometi a
estupidez de me unir diante da justiça à mulher. Durou um mês.
Voltei para os Estados Unidos, abandonando-a sem um aviso e
nunca mais pensei no assunto. Como não reconheci o casamento
em qualquer cartório daqui, ninguém faz ideia do meu erro.
Penso na minha atual esposa, a loira gelada — ou seria mais
certo dizer na minha “segunda esposa”?
Essa ideia de estar casado com duas sem que uma saiba da
outra me excita demais. Me sinto como um sultão.
Trabalhei todo o meu charme para que, depois do nosso
casamento, ela entendesse como as coisas funcionariam, mas foi aí
que a santinha me surpreendeu quando se mostrou horrorizada.
Pelo amor de Deus, em que século ela vive? Será que não
entendeu como foi sortuda por eu escolhê-la? Um professor
aclamado que poderia comer qualquer aluna com um estalar de
dedos me rebaixar ao nível de uma enjeitada? 
Ela chorou e se trancou no quarto na noite de núpcias. Depois, foi
para a casa dos pais e somente então, percebi que me precipitei.
Sim, eu sonhava com Zoe nua, sendo compartilhadaentre mim e os
meus parceiros de sexo, mas também queria os milhares de dólares
de sua conta bancária. Mais hora, menos hora, a velha morreria e
então eu poderia usufruir do que era meu por direito.
Confesso que suas frescuras já estavam me irritando e para puni-
la por não ceder, passei a fazer joguinhos com os meus amigos
quando a levava em nossos jantares, geralmente falando de um
tema que ela desconhecia, mostrando como ela era burra e inferior
e que deveria se sentir feliz por ter a honra de ser vista comigo em
público.
Ela nunca reagia, até nosso último encontro no restaurante, em
que pareceu estar possuída quando distratou meus amigos e me
humilhou na frente de todos.
Mas claro, eu sabia que acabara de fechar um contrato milionário
e não podia simplesmente deixá-la ir. Fui atrás dela em nossa casa,
mas não sou muito bom em fazer as pazes e por culpa da cadela,
acabei lhe acertando uma porrada.
Pronto. Foi o que bastou para a princesa chamar o papai e
estourar a terceira guerra mundial.
Essa semana ainda, teoricamente, deveríamos nos encontrar
para tratar do divórcio, mas para o azar dela e a minha sorte,
provavelmente comparecerei ao funeral da minha adorável mulher.
Fiz um seguro de vida para ela de três milhões de dólares. Com
esse montante, ficarei tranquilo para sempre, trabalhando apenas
por diversão.
O dinheiro das ações que vendi, assim como a limpa que fiz em
nossa conta corrente conjunta, só serviu para pagar as minhas
dívidas.
Mas agora, acabou. Vou dar adeus à vida de sacrifícios e ao
salário de classe média como a putinha jogou na minha cara
naquele dia.
Mike Howard está prestes a se tornar um milionário. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 27
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
 
Felicidade existe e tem nome e sobrenome: sorvete de morango. 
O senhor bonzinho conseguiu não somente um, como dois potes
e agora estou totalmente comprometida com o fato de que comerei
um sozinha. Bia geralmente gosta de dividir, tanto o sorvete, quanto
a culpa por cedermos à tentação, mas hoje vou enlouquecer e tomar
meu pote de meio litro inteiro.
Ainda fiquei comprando algumas coisas para o café da manhã
porque papai ultimamente não tem tempo para nada mais, coitado.
Ele anda tão cansado que fico com medo de que acabe caindo
doente também.
Viro a curva para entrar na rua da casa dos meus pais e um
animalzinho, que acredito ser um gambá, escolhe atravessar
naquele exato momento, quase me matando do coração. Freio por
um instante e fico olhando até ver o safado sair andando
calmamente, como se não tivesse qualquer preocupação na vida,
enquanto que a minha alma fugiu do corpo e voltou umas dez
vezes.
Volto a dirigir e escuto o locutor falar sobre a tal gripe. Jesus,
estou começando a ficar apavorada.
Não posso pensar só em mim, mas nos meus que já são idosos.
Com a quantidade de viagens que faço, não duvido nada que
acabe me contaminando e se acontecer, não poderei mesmo ver
mamãe. A imunidade dela anda muito baixa por conta do câncer e
não pode nem pensar em se expor a algo assim.
Bia chegou mesmo a dizer que acredita que, se a situação piorar,
muito em breve decretarão um lockdown[29] aqui nos Estados
Unidos, inclusive fechando as fronteiras.
Parece coisa de ficção científica e espero que tudo não passe de
mero alarmismo, porque não posso me dar ao luxo de parar de
trabalhar. Minha família e principalmente a saúde da minha mãe
dependem de mim.
Agora calculo que deva faltar dois minutos para chegar em casa.
A noite está escura, um céu sem estrelas, então quando vejo um
clarão, estranho.
Primeiro, penso se tratar de fogos de artifício, mas não faz o
menor sentido, pois estamos longe de quatro de julho[30].
Quanto mais me aproximo, maior a sensação de mal-estar se
espalha dentro de mim e quando finalmente chego, grito
horrorizada. 
A casa dos meus pais arde em chamas.
Deixo tudo para trás e enquanto corro, ligo para o 911[31]. 
— A casa dos meus pais está pegando fogo. Minha mãe tem
câncer, por favor, mande o corpo de bombeiros!
— Senhora, qual é o seu nome?
— Zoe Turner. Você ouviu o que eu disse? A casa dos meus pais
está em chamas.
— Por favor, acalme-se.
— Uma ova que vou ficar calma! O endereço é 1014, Peanut
Drive.
Jogo o celular no chão e corro para a porta no mesmo instante
em que ela se abre e meu pai sai com mamãe no colo. A enfermeira
vem gritando logo atrás.
Graças a Deus!
Mas então eu me lembro de Bia.
— Onde está Bia, pai?
— Eu não sei se ela conseguiu sair, minha filha.
— Não, meu Jesus!
Corro para dentro, mas não consigo passar da sala. O calor é
insuportável e começo a ficar com falta de ar.
— Bia!
— Zoe?
— Venha, estou aqui!
— Não vou conseguir, Zoe...
— Pelo amor de Deus, não me diga isso. É claro que vai.
— Saia da casa, Zoe. Proteja-se!
— Não. Eu não vou sair sem você. De jeito nenhum eu vou sair
sem você.
— Eu o prendi, Zoe. Consegui prender o maldito dentro do
quarto.
— Quem? De quem você está falando?
— Mike. Foi ele quem incendiou a casa. Achou que eu era você.
Ouço a sirene do corpo de bombeiros ao longe, mas não sei se
chegarão a tempo. Preciso salvar minha amiga.
Pego uma manta em cima da única poltrona que ainda não está
em chamas e como vi em um filme uma vez, atravesso até onde ela
está.
— Você é louca, Zoe! Vá embora! Vamos morrer as duas! Salve-
se!
— Não sem você.
Sinto o calor do fogo em minhas pernas, mas ainda assim eu não
paro até sua mão segurar a minha.
Nós duas estamos chorando.
— Louca, Zoe! Por que fez isso?
— Nunca deixaria você.
Começamos a fazer o caminho para a saída e apesar de tonta,
com dor e sem ar, já consigo ver uma movimentação lá fora, assim
como homens se aproximando. Mas então, como em um pesadelo,
uma viga pesada cai à nossa frente e tudo se torna vermelho. O
mundo é uma bola de fogo.
 
 
 
 
 
Gritos, choro e sirenes me dão a certeza de que ainda estou viva.
As pálpebras tremem enquanto tento abrir os olhos, mas é como
se eles estivessem grudados com cola.
Minhas pernas ardem.
Vozes se distanciam e aproximam e de algum modo, sei que
estou ao ar livre.
Eu nunca gostei de espaços abertos. 
Não chega a ser agorafobia[32], mas prefiro lugares onde me sinta
protegida. 
Eles estão me movendo e há uma máscara de oxigênio sobre
meu rosto.
Tento relembrar os últimos acontecimentos, mas é tudo muito
confuso.
— Ela está reagindo! — uma voz diz acima de mim. 
— Excelente! É bonita demais para morrer tão jovem.
— Está brincando, né? Bonita? A mulher é linda! Essa é Zoe
Turner, a top model!
Sinto uma mão sobre meu rosto, afastando o cabelo.
— Jesus, é ela mesmo! Não consegui reconhecê-la por causa da
fuligem. Deu muita sorte que o rosto não tenha sido danificado.
Seria um crime se não tivesse conseguido escapar do fogo.
À menção da palavra fogo, minha memória começa a voltar.
O fogo, meus pais. Bia me dizendo que foi Mike quem fez aquilo.
Onde está minha família? A enfermeira Ann? Minha amiga? 
Lembro de entrar na casa para tentar salvá-la e a viga caindo à
nossa frente. Depois, antes que tudo virasse escuridão, o olhar
apavorado da mulher que se tornou um dos meus alicerces.
Se todos se forem será culpa minha e como castigo, eu ficarei
sozinha para sempre. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 28
 
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
Boston
 
 
 
Naquela mesma noite
 
 
 
 
Cresci ouvindo minha mãe dizer que telefonemas no meio da
noite nunca são um bom sinal. 
Esse conceito de noite, para mim, é muito relativo. Eu sempre
dormi apenas o necessário, preciso de poucas horas de sono para
me sentir inteiro, então não é um problema que o celular toque
quase à uma hora da madrugada, mas sim, quem está chamando.
Beau.
Quando liga, não importa o horário, traz sempre junto o prenúncio
de algo ruim. É um homem de poucas palavras e nunca faz
interações sociais sem um propósito. Ainda mais que nos falamos
duas vezes hoje, o que é um recorde para nós dois.
— O que aconteceu?— Sua menina, Zoe. Houve um incêndio. Ela está viva, mas foi
internada. 
Levo menos de um segundo para ficar de pé, o coração em uma
martelada irregular.
— Mande-me as informações de qual hospital e tudo o mais que
você conseguir descobrir. Só vou trocar de roupa e já estou a
caminho.
Enquanto me visto, não permito que qualquer outro pensamento
invada minha mente, a não ser o fato de que ela está viva.
Estou acostumado a conter minhas emoções. Foi essa disciplina
que me imponho o que me impediu de ir atrás dela quando me
deixou em Barcelona, mas nesse instante, nenhuma das minhas
fodidas regras se aplicam, porque nada é mais forte em mim do que
o puro terror.
Minutos depois, saio do quarto de hotel em Boston, ao mesmo
tempo em que envio uma mensagem para Yuri avisando do ocorrido
e passando o nome do hospital que Beau acaba de me mandar.
Não sou um familiar, então para chegar até ela, terei que usar da
minha influência. Pelo que Beau me disse, os pais de Zoe também
estavam na casa, o que significa que não há outro responsável por
ela, porque até onde sei, são tudo o que tem como família. 
Pela primeira vez em anos, deixo de seguir qualquer protocolo de
segurança ou planos, só quero encontrá-la.
Quando chego no elevador, meu celular toca outra vez.
— Tenho um motorista na porta do seu hotel — Beau avisa e nem
pergunto como ele sabe onde estou hospedado.
Não sou do tipo que costuma depender de alguém, mas nesse
momento, fico aliviado que tenha se adiantado e providenciado tudo.
— Fale-me o que aconteceu.
— A casa pegou fogo, desconfiam de incêndio criminoso e se for
esse o caso, já desconfio quem é o responsável.
— Eu vou matá-lo. 
— Ele desapareceu, já mandei dar uma busca. Mas isso não é
importante agora e sim que você saiba que todos os que estavam
na casa sobreviveram. 
— Todos? Quantos eram?
— Os pais e a agente, Bia Ramos. 
— Como descobriu sobre o incêndio?
— Porque confio na minha intuição. Como combinamos, eu iria
mandar a proteção sobre ela a partir de amanhã… de hoje, mas
algo me disse para me adiantar. Quando meus homens chegaram,
no entanto, já se depararam com o corpo de bombeiros. Não havia
mais nada a ser feito, então agiram naquilo em que são os
melhores: investigaram. Descobriram uma van estacionada do lado
de fora e antes que a polícia se desse conta, foram em busca de
digitais. Pertence ou ao menos foi usada por Mike Howard.
— Acha que ele descobriu que o verificamos e por isso se
vingou?
— Não. Ele ainda não havia sido informado da dispensa pela
universidade. Acredito que ele tentaria algo de qualquer modo. Mais
provável que tenha tentado matá-la porque não queria o divórcio,
mas por enquanto, tudo não passa de especulações e eu só
trabalho com fatos.
— Como sabe que ele não morreu também? Disse que a van
estava estacionada em frente à casa dos pais dela.
— Porque um dos meus homens já se informou com alguém do
corpo de bombeiros. Parece que Zoe disse o nome do marido
enquanto foi socorrida. Os paramédicos acharam que ela estava
chamando por ele, mas se quer um palpite, acho que ela estava
tentando avisar que foi ele. De qualquer modo, depois que
contiveram as chamas, deram uma busca e não havia outros corpos
no local. Se estava lá, fugiu.
— Eu o quero, Beau. Encontre-o, mas não faça nada. Eu vou
finalizar essa questão.
— Quanto à Zoe, só dá para saber o real estado dela quando
conversar com alguém pessoalmente. De tudo o que sabemos até
aqui, não sofreu queimaduras tão sérias, foram de segundo grau.
Fecho os olhos por um instante. Imaginá-la ferida é como ter uma
navalha cortando meu peito. A sensação real de algo me rasgando.
— Não importa. Ela está viva. Todo o resto é secundário. A única
coisa que eu não poderia lhe devolver, seria a vida. Já os cuidados
médicos que precisar, ela terá à disposição, nem que para isso eu
precise comprar um hospital.
Desligo o telefone e entro no carro que, como ele avisou, já
estava à minha espera.
Mal fecho a porta e meu celular toca.
— Christos, sou eu — Meu assistente diz. — Sua entrada no
hospital já está liberada. Basta dizer que é o namorado dela, mas há
algo que precisa saber. É muito sério. Tenho informações de dentro
do governo. A tal gripe vem se espalhando por todo o mundo, e há
suspeitas de casos em pessoas internadas no mesmo hospital em
que Zoe está com os pais e a agente dela. 
— E o nível de contaminação desse vírus é muito alto — falo,
porque tenho pesquisado sobre o assunto. Acho que até agora o
mundo não vinha dando atenção à gravidade do problema, mas
estou sempre dois passos à frente e já previa, baseado no que
diziam os especialistas, que não seria uma gripezinha qualquer.
— Sim, muito alto. Mortal, na verdade, principalmente para
pessoas na idade dos pais dela. O que estou tentando dizer é que o
governo vai fechar tudo: comércio e qualquer atividade não
essencial. Os pais de Zoe vão receber alta ainda hoje porque não
sofreram nada grave. Foram os primeiros a sair, mas como deve
saber, a mãe dela tem câncer. Provavelmente em breve precisará
retornar aos cuidados médicos. Pensei em montarmos uma clínica
com tudo o que precisaria, mas fora de um ambiente hospitalar. Se
for verdade que acontecerá o isolamento e ela estiver internada,
eles não deixarão que o marido chegue perto.
Penso nos meus pais, que estão juntos há mais de quarenta
anos. Se o que Yuri está dizendo for verdade e eles tivessem que se
separar, não acho que sobreviveriam.
— Faça o que for preciso. Contrate médicos e enfermeiros
exclusivamente para ela e ponha à disposição. 
— E sobre Zoe?
— Estou chegando no hospital.
— O estado dela não é grave, apesar de terem-na sedado, mas
Bia Ramos está em coma. Mesmo que providenciemos que Zoe
seja removida para um local seguro, a agente dela terá que ficar
internada. Nenhum médico lhe dará alta.
— Uma coisa de cada vez, Yuri. Providencie tudo para os pais
dela. Vou cuidar do resto.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 29
 
 
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
 
Amanhecendo o dia
 
 
 
Entrar no hospital e obter as informações sobre ela foi
relativamente fácil. Há quase nada que o dinheiro ou influência não
compre e eu tenho ambos de sobra.
Os pais dela, junto à enfermeira de confiança, serão
redirecionados, até o meio do dia de hoje, para uma clínica montada
especialmente para atender a mãe de Zoe.
Quando cheguei, soube que ainda não poderia vê-la porque
estava sendo atendida, então fui até eles e me apresentei como o
novo empregador de sua filha. 
O que mais eu poderia dizer? Que sou o homem que é obcecado
pela garota deles?
Macy e Scott são pessoas simples, simpáticas e a mãe dela
lembra muito a minha: alguém capaz de sorrir mesmo nas maiores
adversidades.
Aparenta muita fragilidade física, o que vai na contramão da
personalidade. Lúcida, me fez perguntas sobre detalhes do
incêndio.
Não tive muitas respostas para dar por ora, mas pretendo
descobrir tudo.
Além de tentar matar Zoe, o desgraçado ateou fogo na casa com
dois idosos dentro. Espero que o que Beau descobriu seja verdade
e que Mike ainda esteja vivo, pois eu quero pessoalmente livrar o
planeta daquele verme.
Nenhum dos dois ou a enfermeira, foi capaz de me contar o que
aconteceu, mas apenas que acordaram com os gritos de Bia para
que corressem para fora da casa.
Não tocaram no nome de Mike Howard, então assumi que não
fazem ideia de que há o dedo dele naquilo.
O interessante foi que quando expliquei a necessidade de
removê-los para uma clínica particular, o pai dela não demonstrou
surpresa, mas disse que seria a melhor solução, já que como eu,
acreditava bem mais na letalidade do novo vírus do que o cidadão
médio. 
As pessoas dentro do hospital, funcionários principalmente, já
estão usando máscaras — o que só mostra que muita gente do alto
escalão sabia que esse vírus era mais contagioso do que vinha se
noticiando. Não se pode tomar providências tão depressa a não ser
que um protocolode segurança já estivesse sendo orquestrado nos
bastidores.
Pedi que me autorizassem por escrito a tomar a frente com os
cuidados com Zoe e então, a mãe dela me fez uma pergunta que
me deixou desnorteado.
Indagou se eu era o homem de Barcelona.
O pai nos olhou confuso, então eu entendi que ela compartilhou
sobre nós com a mãe.
Respondi que sim, mesmo sem ter ideia se aquilo era uma boa
coisa.
Antes de me despedir deles, quiseram falar com o médico que
atendeu a filha. Permaneci no quarto.
O doutor nos explicou, como Beau já me adiantara, que a agente,
que aparentemente também é uma amiga, já que estava hospedada
na casa dos pais dela, está em coma, enquanto Zoe foi sedada por
conta da dor.
Nenhuma das duas sofreu queimaduras graves, foram de
segundo grau e não profundas, mas nos foi dito que são um pouco
dolorosas e que o tempo de recuperação total pode ser de uma a
até três semanas. Mesmo assim, poderão restar cicatrizes.
Terei que falar com o médico sozinho depois. Se a situação de
Zoe não é tão grave, assim como fiz com seus pais, eu a removerei
do hospital tão logo seja possível. Não arriscarei que seja
contaminada pelo vírus.
Quanto à agente, não há nada a ser feito. Não acredito que me
autorizariam a mover alguém na condição dela. 
Pelo que entendi, o que preocupou a equipe médica foi que
ambas foram expostas à fumaça. Além disso, Bia Ramos levou uma
forte pancada na cabeça e é essa a razão de estar em coma.
Arquivei mentalmente as informações como sempre faço,
comprometido a tomar as providências necessárias para que a
agente tenha o melhor atendimento possível, mas meus
pensamentos agora são todos para Zoe.
Poucas vezes me senti tão perdido.
É como se a vida estivesse me obrigando a tirar a venda de
orgulho que tenho usado, como receber um chamado, um despertar.
Há dois anos, venho girando em círculos, mantendo o espaço,
um verdadeiro abismo, quando eu sabia o tempo todo que não havia
qualquer chance de enterrar o que houve entre nós no passado.
Decido que o jogo acabou.
Eu poderia tê-la perdido hoje. A única mulher que desalinhou
meu mundo, que, em um período curto de tempo, me fez sentir e
desejar mais.
Não sei o que será daqui por diante, mas eu não vou mais manter
distância.
— Christos, eu gostaria de falar com você a sós — a mãe dela
pede. Depois que o médico e o pai de Zoe saíram para o corredor,
eu estava me preparando para ir também.
— Claro.
Ela aponta a poltrona perto de seu leito. Assim que cheguei,
providenciei para que fossem transferidos para um quarto particular.
— Sente-se, por favor. Quero falar sobre Zoe.
— Sobre o que perguntou a respeito de eu ser o homem de
Barcelona? — repito a expressão que ela usou.
— Também, mas por ora, deixe-me contar sobre a minha menina.
Antes de tudo, tenha em mente que sou muito velha, mas estou
lúcida. Ontem tive uma conversa com a minha filha e agora que
você está aqui, só precisei juntar dois e dois.
— Não sei se estou entendendo.
— Acredito que você queira ver Zoe nesse instante. Eu também,
mas pelo que o médico disse, ela ainda está sedada, então teremos
tempo. Vou começar do começo. Sempre quis ter filhos, mas sabe-
se lá por que razão, Deus determinou que não teria os meus
próprios, biológicos. Quando eu e meu marido decidimos adotar,
pensamos e pesamos muito antes. Nunca fomos ricos, mas classe
média baixa, ambos trabalhadores de segunda à sexta,
assalariados. Entretanto, acreditávamos que tínhamos o
fundamental para que alguém pudesse ser chamado de pai ou mãe:
amor de sobra para dar.
— Quando nos conhecemos em Barcelona, Zoe me disse que
havia sido rejeitada em diversos lares.
Falo com ela, mas na verdade, aquela lembrança serve para mim
mesmo.
Não sei se eu havia esquecido esses detalhes. Mais provável que
os tenha empurrado para o fundo da mente, em uma espécie de ato
de defesa contra a mulher que, agora tenho coragem de admitir, não
só feriu meu orgulho, mas meus sentimentos também.
— Sim, nós a pegamos na pré-adolescência e juro por tudo
quanto é mais sagrado que nunca vi um olhar mais triste em uma
criança. Sempre foi linda, mas não foi isso o que me fez ter a
certeza de que a queria para mim, mas a desesperança em seu
rosto. Não vou voltar no tempo e contar tudo minuciosamente
porque não me sinto emocionalmente forte para isso. Foi uma época
difícil para nós três até conseguirmos convencê-la de que nunca a
abandonaríamos.
Agora estou completamente atento à conversa. Ouvindo as
palavras de Macy, é como assistir ao filme da infância e
adolescência de Zoe. Ela me conta como a menina tinha medo de
demonstrar seus desejos, sempre temerosa de que ao não agradá-
los, poderia ser devolvida.
— Por que a rejeitavam?
— Quem sabe? Provavelmente porque se davam conta de que
ser pai e mãe de alguém era um trabalho de vinte e quatro horas por
dia, sete dias na semana. Não se desliga uma criança quando se
cansa de brincar com ela. É preciso dar atenção, amor. Requer
entrega. Mas estou lhe contando isso para poder chegar ao
encontro de vocês em Barcelona. Eu não sei o que houve lá na
Espanha. Ela não me contou o que aconteceu no navio e nem que
havia conhecido alguém, mas quando voltou, entrou em uma
depressão profunda. Nem mesmo a perspectiva da nova carreira,
que começou logo depois de seu retorno, a fez melhorar. Ela ia para
as viagens, mas quando voltava, se trancava no quarto e quase não
falava.
— Acha que fui eu quem fez isso? — pergunto, confuso para
cacete. — Zoe me deixou com apenas um bilhete.
É desconfortável compartilhar nosso curto relacionamento. Não
sou dado à confidências, mas já que as cartas estão na mesa, que
seja.
Lembro do que ela me perguntou, sobre se o dinheiro no
envelope era uma espécie de pagamento. 
Será possível? Foi essa a razão que a fez partir? Achou que
paguei pelo sexo que fizemos?
Não, tem que haver mais do que aquilo. Posso ter me
determinado a conquistá-la com os dois pés na porta, mas por
nenhum momento a tratei como uma acompanhante de luxo.
— Tenha em conta que ela só tinha dezoito anos. Sempre foi
madura para a idade, mas ainda assim, muito nova. — Não há
qualquer recriminação em seu tom. — Se o senhor está aqui depois
de tanto tempo, é porque o que havia entre vocês ainda não
acabou. 
— Da minha parte, não.
Ela concorda com a cabeça.
— Não tenho como afirmar se a depressão que ela teve esteva
ligada ao que viveram na Espanha e nem quero me meter no
relacionamento de vocês, mas estou contando toda essa história
para lhe pedir, senhor Lykaios, que se o que quer com a minha filha
for apenas aventura, então se vá agora mesmo. 
Abro a boca, mas ela faz um gesto com a mão, me parando.
— Zoe é muito mais forte agora do que há alguns anos, mas já
sofreu perdas demais. É um homem rico e também generoso.
Agradeço de todo o meu coração o que está fazendo por mim, mas
não machuque minha filha ou vou amaldiçoá-lo pelos dias que me
restarem na Terra.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 30
 
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
Horas depois
 
 
 
Já são três da tarde e os pais de Zoe foram transferidos para a
clínica que foi montada exclusivamente à disposição deles. 
Também pedi a Yuri que providenciasse um imóvel para instalá-
los caso desejem voltar para uma casa e os auxiliem em como
conseguir nova documentação. 
Transferi uma grande soma de dinheiro para a conta corrente de
Scott. Com o incêndio, eles perderam tudo, inclusive cartões de
banco e crédito.
Me informei com a equipe médica e não há qualquer alteração no
quadro clínico de Bia Ramos e como eu suspeitara, sua remoção
para uma clínica particular está fora de cogitação.
Agora, estou me encaminhando para o quarto de Zoe. Finalmente
fui autorizado a vê-la, mesmo que ainda esteja sedada.
Após a conversa reveladora com Macy, minha cabeça ferve com
as informações e não consigo chegar a qualquer conclusão.
Sim, ela era… é muito nova, mas não pode ter sido apenas a
confusão a respeito dodinheiro o que a fez fugir de mim.
O que, então?
A verdade é que não importa mais. Tudo ficou pequeno diante do
que aconteceu, da possibilidade de que nesse instante, ela poderia
estar morta.
Sei que quando cruzar a soleira da porta, não haverá mais
máscaras.
Alcanço a maçaneta do quarto, mas antes que possa entrar, o
médico que chefia a equipe que cuida de Zoe e Bia, se aproxima.
— Doutor Lykaios, precisamos nos falar com urgência.
— Agora?
— Sim. Três pacientes que vieram a óbito ontem testaram
positivo para o novo vírus. Se o senhor dispõe de meios, eu o
aconselho a levar a senhorita Turner para longe daqui o mais
depressa possível.
— Mas ela ainda não acordou.
— Sim, eu sei. Mas do mesmo modo que providenciou uma
clínica particular para os pais dela, creio que poderá fazê-lo para a
senhorita Turner também. As queimaduras que sofreu não foram
graves, embora talvez em um futuro próximo, necessite de uma
cirurgia corretiva na mão, mas nada disso é tão importante quanto
tirá-la daqui. Ela poderá se recuperar em casa. Tenho certeza de
que consegue montar um serviço de home care em tempo recorde.
— Ela permanecerá sedada?
— Por mais um dia ou dois, apenas, mas deveria levá-la embora
ainda hoje.
Observo-o se afastar, pensando que mais uma vez, todos os
meus planos com Zoe saíram dos trilhos. O que importa, agora,
entretanto, é garantir que fique viva.
 
 
 
 
 
Três horas depois
 
 
 
Eu saí para providenciar tudo o que fosse necessário para a
transferência dela a uma casa que Yuri alugou. 
Há uma equipe a postos agora e o médico me aconselhou que
partamos o mais rápido possível.
Novamente, estou parado em frente ao quarto de Zoe. A qualquer
momento, os funcionários que auxiliarão em seu transporte
chegarão, então aproveito uns poucos minutos roubados para
verificá-la sem testemunhas.
Abro a porta e antes de me aproximar, observo-a de longe. Saber
que sobreviveu ao incêndio e ter essa comprovação diante dos
meus olhos são coisas completamente diferentes.
A queimação no meu tórax se torna insuportável, me fazendo
sufocar.
Medo. Tive medo de perdê-la.
Alguns poderiam questionar esse sentimento, porque até poucos
dias, Zoe ainda estava casada com outro, mas o que é a porra de
um pedaço de papel perto da certeza dentro de mim de que ela
sempre me pertenceu? Sempre me pertencerá?
Ela poderia ter morrido — a voz repete em minha mente — e
então tudo o que restaria seriam as lembranças daquela noite.
Por ainda estar dormindo, tenho tempo de examiná-la sem
pressa.
A cama está elevada em um ângulo de trinta graus e os médicos
me informaram que seria necessário mantê-la assim, porque mesmo
que já tenham desobstruído suas vias nasais, esse é o
procedimento padrão no caso de inalação de fumaça.
O rosto não tem sequer um arranhão, a mão direita para fora do
lençol está enfaixada, assim como a parte inferior das pernas, mas
nada será capaz de destruir a perfeição dela para mim.
Quando a conheci, achei que o que havia me atraído em Zoe era
a beleza, agora percebo que não há como definir o que ela me
desperta. 
A sensação de ser puxado por um ímã, um reconhecimento de
almas que ela mesma apontou na noite em que transamos. É como
se tudo entre nós devesse ser. Sem explicações ou regras. Nós
somente devemos ser.
O leito parece grande demais para a delicadeza de seu corpo.
Zoe não deveria estar em um quarto de hospital ferida, indefesa. 
Um desejo louco de fazê-la acordar, provar que está bem, me
invade.
Mais uma vez, juro em silêncio que vou me vingar de Howard.
Não haverá misericórdia.
Beau está fazendo uma investigação paralela a da polícia. Tenho
certeza de que muito mais profunda e eficiente e em algum
momento, nós o apanharemos.
Com o crescimento do número de mortos pelo mundo, assim
como o aumento de casos do vírus em nosso país, a nova doença já
é tratada como pandemia[33] e os jornais e sites de notícias não
falam de outra coisa.
Isso fez com que o que aconteceu com a casa dos pais de Zoe
fosse relegado a segundo plano.
Claro, eu também usei da minha influência para tentar abafar a
ocorrência tanto quanto fosse possível, mas se o incêndio tivesse
acontecido em outra época, seria comentado nos jornais por meses,
já que mesmo que não saibam do paradeiro do ex-marido de Zoe, a
polícia já desconfia de seu envolvimento.
Eles interrogaram os pais dela e ambos relataram que a filha
estava em processo de separação. Aliado a isso, tem o fato de que
a polícia não conseguiu localizar Howard em lugar algum, o que fez
com que as suspeitas sobre ele se solidificassem.
O que os investigadores não sabem é que jamais colocarão as
mãos no miserável. Não há como se julgar e condenar um morto.
Porque é isso que Mike Howard já é.
Zoe tosse, o rosto ficando com uma coloração forte,
avermelhada, mas logo em seguida, volta a respirar normalmente.
Mesmo no período após sua partida, em que não admitia
continuar a desejá-la, não houve um dia em que ainda que por um
breve momento, a deusa loira não ocupasse minha mente.
Passo o dorso da mão em seu rosto e é como receber oxigênio
puro, renovado em meus pulmões. Em negação durante esses dois
últimos anos, não aceitei o quanto a queria. Preferi trabalhar aquele
sentimento como sendo rancor.
Não estou acostumado a perder o que quer que seja e a partida
de Zoe em Barcelona me pegou de surpresa.
Todas as teorias que criei sobre ela anteriormente se desfizeram
quando nos reunimos em meu escritório em Nova Iorque.
Não é frívola ou simplesmente foi embora porque mudou de
ideia. 
Tampouco o que aconteceu entre nós foi fruto da minha
imaginação ou uma atração unilateral. Cada beijo e gemido
entregues por ambos naquela noite eram verdadeiros e repletos de
desejo.
E agora, após quase perdê-la, decidi que não estou mais
disposto a me negar nada. 
Quero tudo e será com ela.
Como se minha vontade emitisse um chamado, seus olhos se
abrem e ela me encara.
— Christos, o que aconteceu?
Mas então, parece se lembrar, dando um grito de puro terror.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 31
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
Dias depois
 
 
 
Eles me sedaram de novo. Sei disso porque entre a névoa de
sono, ouvi um homem conversando com Christos.
Não passei os últimos dias totalmente desacordada. Embora não
conseguisse entender o que as pessoas diziam.
Eu fiquei apavorada quando o vi no hospital. Minha mente
confusa acreditou que ninguém além de mim havia sobrevivido ao
incêndio, mas agora eu me lembro que vi meus pais saindo e
também a enfermeira Ann.
E quanto a Bia? Onde está minha amiga?
Abro os olhos e me esforço para ficar sentada. Apoio a mão na
cama e dou um grito de dor. A pele repuxa e arde. Não está mais
enfaixada e quando vejo o que aconteceu com o dorso, começo a
ficar tonta.
Afasto os lençóis e olho para as minhas pernas. Também não há
mais faixas, apenas algumas cicatrizes de queimaduras menores do
que a da mão e são indolores.
De repente, algo atravessa minha mente. Ergo a mão para tocar
meu rosto, mas paro e saio da cama para tentar me ver no espelho. 
Jesus Cristo, não permita que tenha sido atingido. Eu preciso da
minha imagem para poder pagar as despesas médicas da minha
mãe. 
Meu Deus!
Quando piso no chão, no entanto, as pernas fraquejam e se
dobram.
Uma enfermeira aparece e quando me vê caída, corre para me
ajudar.
Percebo imediatamente que apesar dela estar vestida de branco,
não estamos em um hospital, mas em uma casa.
— Minha filha, eu saí somente por um instante. Eu sinto muito.
— Não foi culpa da senhora. Eu não deveria ter tentado me
levantar. — Me esforço para falar, mas a voz sai como lixa pela
garganta e eu acabo com uma crise de tosse.
A mulher é muito forte, porque me ergue com facilidade e depois
de me ajudar a voltar para a cama, pergunta como estou me
sentindo.
Não sei como responder àquilo, então ao invés, questiono onde
estou.
— Na casa do doutor Lykaios. Quero dizer, eu não sei se
pertencea ele, mas foi quem nos trouxe. Chegamos aqui há quatro
dias.
— Quatro dias? E ele… hum… o senhor Lykaios também ficou?
— Sim. Na verdade, há quarenta e oito horas, ninguém mais pode
sair. Foi decretado oficialmente que o mundo atravessa uma
pandemia e o governador, além de determinar o toque de recolher
para depois das cinco da tarde, pediu que ninguém saísse de suas
casas, a não ser trabalhadores essenciais.
— O quê? Toque de recolher? Não sair de casa? 
Volto a me sentir agitada.
— Onde estão meus pais?
— Em segurança, em uma clínica. Mesmo antes do lockdown ser
decretado, já havia rumores de um aumento absurdo dos casos e
parece que o doutor Lykaios se adiantou. Por isso a senhorita está
aqui também. Foi a conselho da equipe que a atendeu. Ninguém
deve ficar internado no hospital, a não ser em caso de extrema
necessidade, pois o risco de contaminação é altíssimo. Agora, por
favor, tente se acalmar. Está com dor?
— Não — respondo, olhando novamente minha mão. —
Machuquei meu rosto?
— Não, meu amor. Eu não sei o que houve ao certo com você,
mas o que se comenta é que sua casa foi levada pelo fogo. Deu
muita sorte. Está apenas com essa marca na mão, que um bom
cirurgião conseguirá resolver.
— Não estou preocupada por vaidade, mas porque preciso do
meu rosto para viver. Minha família depende de mim.
— Oh! — Ela parece espantada. — Eu sei quem você é, claro,
mas não que trabalhava para ajudar a família. De qualquer modo,
fique tranquila. Nada de mais grave aconteceu.
Crio coragem para perguntar o que preciso, mas o medo da
resposta me deixa enjoada.
— Quando eu desmaiei durante o incêndio, havia uma mulher
comigo. Ela é minha agente e também melhor amiga, Bia Ramos. A
senhora sabe onde está?
— Não com detalhes. Apenas que continua internada.
— Por favor, pode me ajudar a mudar de roupa? Preciso
encontrar um telefone e descobrir onde está minha amiga.
— Eu não sei se devo. Melhor falar com o médico primeiro.
— Christos… o doutor Lykaios está aqui nessa casa também?
— Sim, acredito que no escritório, no primeiro andar.
— Preciso falar com ele, mas antes quero tomar um banho.
— Vamos lavá-la da melhor forma possível e proteger os
ferimentos. Acredite em mim quando digo que a sensação da água
batendo neles será muito dolorosa.
 
 
 
 
 
Depois de muita dificuldade e com a ajuda da enfermeira, tomei
um banho, com as pernas para fora da banheira.
Ela lavou meu cabelo, porque a mão queimada, ao menos por
ora, se tornou inútil.
É a única dor física que estou sentindo, na verdade, é mais um
ardor. Mas nada se compara ao que está deixando meu peito
oprimido.
Bia sozinha no hospital? Por que ele não a trouxe também?
— Quer ajuda para descer?
— Sim, por favor. Leve-me até o senhor Lykaios.
Meus passos são incertos porque me sinto fraca e unido a isso,
há o medo de ter que apoiar a mão ferida no corrimão e me
machucar mais ainda.
A escadaria é interminável e demoramos uns cinco minutos para
descê-la. Quando finalmente chegamos, um Christos com o rosto
muito zangado me encara.
— Zoe, o que diabos você pensa que está fazendo?
Por conta da minha natureza tímida, em um primeiro momento,
esquecida de toda a situação e acostumada a fugir quando
confrontada, eu recuo, dando um passo para trás, o que faz com
que eu quase caia.
Para impedir o tombo, apoio a mão machucada e grito de aflição.
A sensação é tão forte que lágrimas escorrem dos meus olhos.
Segundos depois, braços me suspendem. Sem uma palavra, ele
anda comigo até uma sala e fecha a porta.
— Ponha-me no chão — peço, tentando salvar alguma
dignidade. 
— Não. 
— Não quero brigar.
— Eu não estou brigando com você, apenas evitando que se
mate.
Maldito homem controlador! 
Sabendo que não há chance de que eu vença essa batalha, me
deixo levar em silêncio, até que ele me acomode em um sofá
confortável. Mas não se afasta. Senta-se na beirada — o que é uma
tarefa quase impossível já que ele é enorme — e examina a mão
ferida.
Estremeço ao toque.
Ele percebe, mas não me solta.
— Não faça mais isso — diz. — Poderia ter caído da escada.
— Eu precisava descer para falar com você — não o encaro
porque mesmo com dor, sua proximidade me deixa com o corpo em
chamas. — A enfermeira Beth não sabia me dizer o que aconteceu
com Bia. Sei que meus pais estão bem e agradeço muito o que fez
por eles, mas agora quero ouvir sobre todo o resto. 
— Acalme-se.
— Não consigo. Eu preciso saber onde está Bia, Christos. Por
favor, fale a verdade.
— Em coma.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 32
 
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
 
 
Merda! Não foi dessa maneira que eu planejei revelar tudo a
ela, mas eu não sou aquele conhecido por dourar a pílula.
— Conte-me tudo.
Eu estava esperando lágrimas, então me surpreende para
cacete quando Zoe me olha parecendo serena. Essa
definitivamente não é a mulher com quem eu estive na Espanha e
ainda assim, é fascinante do mesmo jeito.
Em nosso reencontro e depois, no hospital, eu assumi,
talvez baseado no que aconteceu no passado, que ela precisaria
ser cuidada. Agora, levei apenas dois segundos para entender que
não. Zoe é sensível e talvez tenha passado por muito mais merda
em sua jovem vida do que a maioria das pessoas, mas ela nao é
uma florzinha frágil.
Levanto-me e sento na poltrona em frente onde está, porque
o desejo de tocá-la é grande demais e não é a hora certa para isso.
— Vou contar tudo, mas primeiro me diga como está se
sentindo.
— Não tenho dor, só o ferimento na mão que incomoda um
pouco.
— Pelo que conversei com os médicos, vocês duas
desmaiaram dentro da sala em chamas. Uma viga caiu e atingiu
sua agente na cabeça.
— Então é grave?
— Acho que qualquer pancada na cabeça inspira cuidados. 
Novamente, nenhuma lágrima, mas a mão que não está
machucada, se aperta em punho.
— Foi Mike… meu ex-marido.
Tento não demonstrar surpresa pela confirmação. Zoe não
tem ideia de que já sei tudo a respeito dele.
— Como tem certeza?
— Bia me contou. Eu saí para comprar sorvete. Estava
usando uma roupa folgada, o cabelo escondido e máscara, porque
minha mãe pediu. 
— Máscara?
— Sim. A enfermeira me disse que estamos trancados aqui
nessa casa por causa do tal vírus. Mamãe me contou que meu pai
já havia previsto isso há meses. Ele é virginiano com ascendente
em capricórnio — ela diz, como se aquilo fizesse algum sentido —
então está sempre preparado para o pior.
— Não deveria ter saído de casa sozinha tão tarde.
— Geralmente não faço isso, mas estava louca para — suas
bochechas coram — talvez não devesse falar isso porque é meu
novo empregador, mas a verdade é que eu estava me dando de
presente um pote de meio litro de sorvete.
— Por que nos encontramos? Foi isso o que a fez ficar
ansiosa?
— Também, mas principalmente pelo que aconteceu
naquela última semana. Como eu lhe disse, pedi a separação. Já
havia dado início ao processo de divórcio através de um advogado.
— Eu quero saber sobre isso depois.
Ela não responde e não insisto.
— Continue a me contar sobre a noite do incêndio. Terá que
prestar depoimento na polícia, mas falei com meus advogados e
eles vão providenciar para que seja dado através de chamada de
vídeo.
— A situação é tão séria assim?
— Pior do que qualquer um pensaria. Havia muita gente
contaminada sem se dar conta. O vírus se espalhou rapidamente,
mas há laboratórios do mundo inteiro em uma verdadeira corrida
contra o tempo[34] para fabricar uma vacina[35]. Agora, termine de
falar sobre a noite do incêndio.
— Saí por cerca de meia hora. Demorei mais tempo do que
pretendia porque não achava o sabor… Deus, isso parece tão fútil
agora, perto do que aconteceu.
— Continue.
— Fiquei mais tempo do que imaginara, quando voltei,
soube logo que havia algo errado pelo clarão no céu. Liguei para a
emergência e corri para a casa dos meus pais. Eles já estavam em
frente à varanda. Papai andando com dificuldade com minha mãe
no colo. Ann, a enfermaria, vinhalogo atrás, mas não havia sinal de
Bia.
Tento conter a tensão e o ódio que tenho refreado por dias,
porque não quero que ela saiba o que planejei para o desgraçado.
— Entrei na casa. Estava muito quente e havia fogo por
todos os lados. Bia gritava que havia sido Mike e que o prendera no
quarto. Pelo que entendi, ele confundiu nós duas porque eu saí de
casa no carro da minha amiga e também usando roupas enormes.
Agora, ela está em coma por minha causa.
— Não, Zoe, você não tinha como prever aquilo. Como
poderia? A não ser que… espera. Ele já a havia ameaçado antes?
— Ameaçado, não — diz, parecendo sem jeito.
— Então. Ninguém poderia desconfiar de que ele chegaria
àquele extremo. Descobri que estava de tocaia. 
— Estava?
— Sim. Foi encontrada uma van quase em frente à casa dos
seus pais. Se não tivesse atacado naquela hora, teria feito quando
estivessem todos dormindo.
Sinto meu maxilar contrair diante da possibilidade. A raiva
que me toma é descomunal.
— Ai, meu Deus! 
Ela cobre o rosto com as mãos e a visão do ferimento me
descontrola. Com lockdown ou não, vou atrás do miserável.
— Não deveria ter entrado na casa, Zoe.
— Bia não conseguia atravessar do corredor para a saída.
Como eu poderia deixá-la lá, sozinha? Imitando o que vi em um
filme, enrolei um cobertor em volta do meu corpo e atravessei o
fogo. Protegi a nós duas e estávamos quase saindo quando a viga
caiu, eu acho. Mas não percebi que havia atingido a cabeça dela.
— Disse que seu ex-marido não a ameaçara antes. — falo,
tentando entender o que levou o cretino a ir tão longe. Mas a
palavra ex, arranha minha garganta como ácido.
— Sim. O que você viu em meu rosto, a agressão que sofri,
foi a primeira vez que aconteceu. Naquela noite, eu o avisei que
nosso casamento havia chegado ao fim.
Ouvi-la dizer aquilo faz uma porrada de emoções confusas
escalarem dentro de mim.
Ela está livre ou ao menos, não se considera mais casada.
Mas esteve casada. 
De algum modo, o que aconteceu entre nós não foi forte o
bastante porque ela me substituiu, enquanto eu fiquei parado no
tempo.
Levanto-me e ando até a janela, lhe dando as costas.
— Não foi culpa sua. Nem a agressão e nem o incêndio.
Não era algo que se pudesse prever. 
— Mas depois que ele me agrediu, eu deveria ter ficado em
um hotel. Acabei colocando minha família em risco.
— Lamentar o passado não muda nada — falo, voltando a
encará-la. 
Isso serve para nós dois, claro. E não me refiro somente ao
passado recente.
Acho que ela percebe porque abre a boca, mas antes que
diga qualquer coisa, continuo.
— Sobre sua amiga, ela não corre risco de morte, mas
infelizmente, não pode ser movida de lá, então a preocupação
maior, por enquanto, é em relação ao vírus. Mas assim que os
médicos a liberarem, providenciarei para que vocês se encontrem.
— Quer dizer, ela vir para cá?
— Ou posso arranjar uma residência para vocês duas. Não
acho aconselhável que você vá ficar com seus pais por conta da
saúde de Macy, mas a decisão final é sua.
— Pensei que ninguém pudesse sair… quero dizer, achei
que ficaríamos aqui. Que você ficaria.
— Não posso parar a minha vida. Você não é uma
prisioneira, mas não tem prazo para ir embora. Só peço que se for
fazê-lo novamente, dessa vez, me avise cara a cara.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 33
 
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
 
— Mãe? 
— Zoe, minha filha, nem acredito que está acordada! Tenho
telefonado todos os dias.
— Peça ao papai para conectar na chamada de vídeo. Quero ver
vocês.
— Estou toda descabelada. Vai tomar um susto.
Contra todas as possibilidades, eu começo a rir. Mamãe Macy
sempre foi muito vaidosa e mesmo que o câncer tenha roubado
quase metade do seu peso, ela faz questão de ter os fios de cabelo
que voltaram a crescer sempre arrumados. Também não dispensa
um batonzinho.
Depois que Christos me deixou sozinha, a enfermeira veio me ver
com uma caixa contendo um telefone celular. Minha linha havia sido
transferida para esse novo aparelho. O homem simplesmente pensa
em tudo.
Estar com ele novamente é como andar em uma montanha-
russa. Emocionante e um pouco assustador. Suas mudanças de
humor me confundem. Brigou comigo quando cheguei, depois
pareceu que queria ficar ao meu lado, para alguns minutos depois
vir com aquela conversa de que, se eu quisesse, poderia me mudar.
A Zoe que ele conheceu, sairia correndo sem pensar duas vezes,
mas essa não é mais a maneira como enfrento meus problemas.
Nós temos que conversar, mas não é a melhor hora. Entretanto,
não pretendo ir a lugar algum. Quando Bia tiver alta, porque se
Deus quiser será em breve, pedirei a ele que a traga para cá.
Quanto a mim, não vou arredar o pé enquanto não esclarecermos
tudo sobre o passado.
Estou cansada de sentir medo de viver. 
Fui embora de Barcelona por achar que ele estava envolvido no
incidente com Pauline, mas se eu for sincera, provavelmente teria
fugido também ao receber aquele dinheiro no envelope.
Não mais. Eu quase morri e perdi minha família e amiga por
conta daquele doente com quem me casei. Chegou a hora de
encarar as adversidades como uma adulta.
— Pronto — mamãe fala e meu pai aparece por trás dela na
câmera, dando adeus.
— Eu amo vocês. Não tenho como expressar o quanto. Perdoem-
me pelo que aconteceu.
Eles estão tão velhinhos. Tão frágeis. 
— Só descobrimos que pode ter sido o Mike quem incendiou
nossa casa quando o policial veio nos interrogar no hospital. Você
não tem culpa de nada, minha filha. Se Bia não fosse tão esperta,
poderia ter acontecido o pior.
— Prometo que vou trabalhar para lhes dar outra casa, mamãe.
O seguro deve cobrir o prejuízo causado pelo incêndio, mas
como a casa já havia sido hipotecada duas vezes, para meus pais,
não fará diferença. Meus objetivo é quitar essas dívidas deles e lhes
comprar uma nova moradia.
— Não importa, Zoe. Matéria podemos repor, vidas, não. Eu
gostaria de saber notícias da Bia. Fico preocupada de deixá-la
sozinha naquele hospital. 
— Eu também, mamãe, principalmente porque ela não tem
família, só nós. Pretendo ligar para Miguel mais tarde para conferir
se é isso mesmo, porque caso contrário, alguém precisa ser
avisado.
— Como estão as queimaduras?
— Foram superficiais. Talvez a da mão deixe marcas, mas posso
corrigir com uma cirurgia. E vocês?
— Nós e a Ann não tivemos nada, além da inalação de um pouco
de fumaça. No mais, só a preocupação com você e Bia mesmo.
— E suas… hum… outras dores?
Eu odeio a palavra câncer.
— Acho que passei por tantas emoções nesses últimos dias, que
Deus me poupou de todo o resto. Quase não precisei da medicação.
— Que bom! E o papai?
— Estou bem também, minha filha — ele fala, voltando a
aparecer no visor. — Agora, cuide-se, okay? E nos dê notícias sobre
Bia assim que souber de alguma novidade.
Termino a ligação e procuro no Google o número do hospital no
qual Beth disse que minha amiga está internada. 
Custam a atender e quando o fazem, a pessoa leva ao menos
dez minutos antes de me dizer que não houve qualquer mudança no
quadro dela.
Preciso ligar para Miguel mais tarde. Ele provavelmente deve
estar em algum lugar pelo mundo, mas há de querer saber notícias
de nossa amiga. 
 
 
 
 
Três dias depois
 
 
 
Eu não o vi mais. Ontem, jantei sozinha, no quarto, porque a
enfermeira me comunicou que o doutor Lykaios estava trancado no
escritório e não queria ser perturbado.
Entendi aquilo como: mantenha-se à distância e como uma boa
menina, obedeci.
Mas hoje, decidi que não ficarei na suíte para que ele não me
veja.
Se minha presença incomoda, por que me trouxe?
Pode ser que ele não queira conversar, mas eu quero.
Amanheci melhor e já não sinto tanta dificuldade em segurar as
coisas com a mão queimada. O problema é quando bato com o
dorso em algum lugar. Daí sim, arde para caramba.
Além da enfermeira, havia um médico instalado no primeiro andar
da casa, mas ele disse ontem que como não necessito mais de
cuidados, basta que Bethfique comigo. Aparentemente os hospitais
estão precisando de todos os profissionais que conseguirem, já que
os casos não param de aumentar.
Hoje cedo liguei novamente para minha mãe e perguntei que
história é essa de Mike ter desaparecido.
Ela não sabe de nada também e disse que quando tentou
telefonar para a mãe dele, sua amiga, ela se recusou a atender. Ou
melhor, atendeu, mas falou que não queria falar com alguém da
nossa família.
A polícia deve tê-la procurado, claro. É a única razão para estar
com raiva, já que só estive com ela uma única vez. Nem mesmo no
meu casamento, no cartório, compareceu.
Hoje foi que caiu a ficha do que aconteceu naquela noite do
incêndio. 
Mike só pode ter enlouquecido. Será que me odeia tanto ao ponto
de destruir a própria vida para se vingar por eu tê-lo deixado?
Nunca me considerei uma pessoa violenta, mas não acho que
seria seguro para ele entrar na minha frente se eu estivesse com
uma arma na mão.
Ando para a porta do quarto, feliz por minhas pernas já estarem
mais firmes. Minha intenção é dar a volta no jardim da casa, que é
enorme.
Coloquei um dos vestidos que estavam no closet e que é
exatamente o meu tamanho.
Deus, ele pensou em tudo.
Por que cuidar de mim se quando estivemos juntos parecia
querer ficar o mais distante possível?
Balanço a cabeça, confusa. Sem ter a menor ideia do que
significam aquelas mensagens cruzadas que ele me envia.
Mal coloco o pé para fora do quarto e meu celular toca. Eu o
havia esquecido na mesinha de cabeceira e volto para atendê-lo.
— Alô?
— Zoe Turner?
— Sim. Quem está falando?
— Meu nome é Nick Irving. Sou detetive de polícia e amigo de Bia
Ramos.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 34
 
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
 
 
Ah, o pau amigo. — Penso e sinto minhas bochechas
esquentarem.
— Sim, agora sei quem é. Se está ligando para saber notícias de
Bia…
— Não, eu já consegui ir vê-la. Sou da Polícia de Miami, mas
quando soube o que havia acontecido, voei para Boston.
— E deixaram-no entrar?
— Usei de métodos persuasivos — diz, de maneira enigmática.
— Estou tão preocupada com ela, senhor Irving. 
— O pior já passou, senhorita…
— Basta Zoe.
— Tudo bem, então pode me chamar de Nick. Os médicos me
disseram que ela está em coma induzido agora, Zoe. — Eu me
sento na cama, agradecendo a Deus em pensamento. — Não houve
qualquer dano sério. O cérebro já desinchou, inclusive.
— Ai, Jesus! — quase gemo, mas me arrependo dois segundos
depois. — Sinto muito, é que sou muito sensível com relação a
hospitalizações, ainda mais de entes queridos. Bia é minha melhor
amiga.
— Ela também fala muito bem de você.
— Muito obrigada por ter me ligado, Nick. Estava agoniada sem
notícias dela.
— Bom saber que está mais tranquila, mas não foi por isso que
lhe telefonei.
— Não?
— Bia me pediu que investigasse um acordo financeiro sobre um
acidente. Aparentemente a parte indenizada alegou que não
recebeu o suficiente para o tratamento da vítima, no caso, uma
garotinha de nome Pauline Lambert, procede?
— Sim.
— O acordo firmado foi de um milhão de dólares.
— O quê? Não é possível. Elas viviam na miséria. Ernestine… a
mãe de Pauline, vive assim até hoje.
— Sim, eu sei. Sou detetive, Zoe. Quase um cão farejador. No
momento em que sinto algo diferente no ar, não paro até desvendar
tudo. Eu sei como ela e a filha viviam e há uma razão para isso. A
mãe de sua amiga entregou todo o dinheiro que recebeu na mão de
um namorado para que o investisse e o cara desapareceu,
deixando-as sem qualquer recurso.
— Jesus Cristo! Por que ela faria algo assim?
— Se quer uma resposta honesta, nunca teve a intenção de usar
aquele dinheiro para o tratamento da filha. Pensava que a
indenização era uma espécie de bilhete de loteria. E tem mais: a
família Lykaios nem precisava ter provido dinheiro algum. Eles não
tiveram qualquer culpa no acidente. Era o namorado dessa tal
Ernestine quem estava drogado, dirigindo o veículo que levava sua
amiga e que causou o acidente. Ele morreu na hora. Inclusive o
envolvido a quem Bia me pediu para investigar, Christos, foi ferido
também. Ele quebrou uma perna e ficou hospitalizado com suspeita
de concussão.
Sinto meu estômago revirar. Eu já estava desconfiada, depois
que o reencontrei, que Christos não era o tipo de pessoa que
Ernestine pintara e que a história não havia se passado como ela
falou, mas não imaginei que fosse algo tão sórdido.
— Eu nem sei o que dizer. Se o namorado morreu, quem fugiu
com o dinheiro da indenização então?
— Outro. Aparentemente, a mulher tem dedo podre para escolher
seus homens. Não sei o que esse rapaz significa para você, minha
filha, mas se tinha qualquer dúvida sobre o caráter dele, pode ir
viver sua felicidade tranquilamente. Ele fez muito além por sua
amiga do que era a obrigação. Alguns diriam que não havia
obrigação alguma. 
— Se não teve culpa de nada, por que ofereceu o acordo?
— Se eu pudesse chutar, em primeiro lugar porque tanto ele
quanto os pais são pessoas honradas e têm dinheiro guardado para
várias encarnações. Além do mais, mesmo sem ter qualquer culpa,
não seria interessante para os Lykaios terem seu nome envolvido
em um acidente. De qualquer modo, eles fizeram muito além do que
deveriam. Se a sua amiga passou a vida após o acidente em uma
condição de necessidade, a única responsável por isso foi a mãe
dela.
— Obrigada novamente, Nick. Você não tem ideia do que fez.
— Pode me devolver o favor me mantendo informado sobre o
estado de Bia. Não é sempre que posso deixar tudo aqui na Florida,
então não sei quando poderei vê-la novamente.
— Não se preocupe com isso. Assim que houver novidade, eu lhe
telefonarei. É desse número mesmo que você me ligou?
— Sim. Bom, já vou indo. Cuide-se, Zoe. 
— Você também.
— Só mais uma coisa. Quando a polícia capturar seu… seu ex-
marido, né?
— Isso.
— Quando os policiais daí o pegarem, pretendo acompanhar tudo
de perto e garantir que ele nunca mais veja a luz do sol.
Depois que ele desliga, eu não consigo me erguer da cama. 
São tantas informações para processar, principalmente quanto ao
sofrimento de Pauline.
Um milhão de dólares! 
Dinheiro mais do que suficiente para que a minha amiga
usufruísse de qualidade de vida.
Há algo além e muito mais grave que eu preciso corrigir, no
entanto.
Christos.
Eu o julguei e condenei sem nem lhe dar a chance de saber
sobre o quê.
Quando lhe perguntei se o dinheiro que deixou para mim em
Barcelona era um pagamento pela nossa noite juntos, ele me disse
para não ofender a nós dois falando algo do tipo. E agora, com a
resposta de Nick, me dou conta de que desperdicei dois anos de
nossas vidas sofrendo e culpando-o por uma coisa que ele não fez.
Nada garantiria que ficaríamos juntos até hoje, claro, mas ao
menos teríamos aproveitado aquele verão.
Saio do quarto determinada a esclarecer nossa história de uma
vez por todas. 
Eu quero uma segunda chance para nós dois e farei o que estiver
ao meu alcance para consegui-la.
 
 
 
A porta do escritório está fechada, como sempre, mas agora ouço
música lá dentro.
Um saxofone.
Ele comentou comigo em nosso único jantar na Espanha, que
tocava o instrumento e geralmente o fazia quando estava
estressado.
A melodia suave invade a casa, acalmando as batidas ansiosas
do meu coração.
Meio que em um estado de hipnose, caminho em direção ao
som. 
É quase como um chamado.
A música se torna mais alta conforme me aproximo. Não sei se
ele quer me ver, mas já passamos tempo demais longe um do outro.
Após essas descobertas de hoje, livre da culpa, me sinto faminta
por ele. 
Olho para os meus pés, criando coragem para abrir a maçaneta.
Respiro fundo e empurro a porta devagar.
Ergo a cabeça e ele está tocando, de costas para mim,
aparentemente, preso em seu próprio mundo.
Sinto-me como uma intrusa e viro-me para sair.
— Não vá.
Na minha cabeça, é como uma repetição de quando nos
conhecemos. Como se a vida estivesse permitindoum recomeço.
— Eu sinto muito por interrompê-lo. — digo, enquanto vejo-o
colocar o saxofone em cima de uma poltrona. — Não, é mentira.
Não me arrependo de ter entrado. Já fiquei longe por tempo demais,
Christos. Eu quero você.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 35
 
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
 
 
Eu esperei muito tempo por isso.
A hora em que a faria minha novamente.
Sei que a despeito do que disse, está nervosa, mas também
excitada. Os olhos brilham e as bochechas têm um tom de rosa
mais forte no centro.
Aproximo-me, sobrecarregado com a beleza dela. 
— Você é perfeita.
Zoe sacode a cabeça e levanta a mão com a queimadura.
— Não mais.
— Sempre será perfeita para mim.
— Não costumo acreditar em elogios. As pessoas parecem dizer
o que queremos ouvir, mas eu me sinto linda ao seu lado.
Estamos próximos, mas sem nos tocar.
— Disse que me quer. Prove-me.
— Não sei seduzir. 
— Basta respirar, Zoe. Só uma respiração sua já me deixa com
tesão.
Encorajada, ela cola nossos corpos. Fecha os olhos por uns
segundos.
— Como da outra vez.
— O quê?
— O mesmo formigamento. Os tremores. Ficar próxima a você é
como conseguir tocar o sol, Christos.
Não resisto em descer a boca pela pele de seda de seu rosto.
Macia e feminina. Cheirosa.
Ela espalma a mão em meu peito e, também como eu, aspira
meu cheiro. Nesse momento, somos dois animais, macho e fêmea
reconhecendo o parceiro.
A mão sã vem para o meu rosto.
— Eu me lembro de tudo daquela noite. Eu quis esquecer, mas
não consegui. — diz.
— Não vou permitir que se esqueça. Dessa vez, eu vou me
marcar tão profundamente dentro de você, que não conseguirá ir
embora.
Tomo sua boca em um beijo necessitado, ainda mais urgente do
que o que o demos em meu escritório.
Lambidas, chupadas, sugadas.
Um contato erótico, devasso, imoral.
Em pouco tempo, os beijos não são mais suficientes, quero a
pele. 
Olhar e tocar peitos, boceta, bunda. Provar com a língua e os
dentes. Ganhar gemidos. Gritos por mais.
Pego-a no colo e subo as escadas direto para o quarto que
ocupo. 
Quando a coloco no chão, dou um passo para trás, devorando
com os olhos o corpo sexy, coberto por um vestido leve.
Ela não parece estar disposta a esperar e vem para mim. Morde
meu queixo e passa o dedo pela gola da minha camisa.
Abre um botão e beija o pedaço de pele ali, depois morde mais
uma vez.
Meu pau está duro como aço e é difícil deixá-la explorar.
— Senti tanta saudade — diz.
Desinibida agora, abre o resto dos botões, mas por fazê-lo com
uma mão só, demora e aproveito para observá-la.
— Olhe para mim, Zoe.
— Sonhei em tocar você — fala.
Livro-me da camisa.
— Não hoje. Não posso pegar leve ou esperar. Estou louco para
sentir essa boceta apertada me abrigando.
— Ai, meu Deus…
Passo um dedo no decote do vestido e depois corro a língua pelo
vale de seus seios.
— Tecido demais.
Puxo a peça por cima da cabeça e ela ergue os braços para me
ajudar.
Está só de calcinha, os mamilos pontudos se oferecendo, pedindo
minha língua.
Me inclino e tomo um entre os lábios.
— Ahhhhhhhh…
Mamo com mais força, deixando os dentes roçarem e ela se
apoia em mim. 
— Cama. Não quero machucá-la.
Sento-a na beirada, as pernas para fora. Puxo sua calcinha e
aspiro seu cheiro de mulher.
Ela grita pelo contato da minha barba por fazer no clitóris
sensível, que desponta por entre os lábios melados de tesão.
— Eu quero esse mel escorrendo no meu queixo.
Separo suas coxas e lambo sua boceta.
Chupo o clitóris e a preparo para mim, meu dedo médio brincando
em seu calor molhado.
Ela tenta fugir, inquieta, desejosa. Sei que está perto de gozar.
Deliciosa e sensível.
Seus quadris movem-se em círculos. Pouco depois me avisa que
está gozando, mas mesmo quando seu prazer enche a minha boca,
eu não paro.
Não é uma escolha. Eu não consigo parar. O gosto dela é a
melhor iguaria do mundo.
Preciso me obrigar a levantar e tirar o resto da roupa. Zoe ainda
está rendida ao próprio clímax, um pouco desligada do mundo.
Como da primeira vez em que transamos, um desejo visceral me
impele a possuí-la vezes sem fim.
Ela abre os olhos e seu olhar no meu corpo nu não facilita para
que eu mantenha meu tesão em um nível seguro.
— Não quero usar preservativo. Estou limpo. 
— Eu também, mas não tomo pílula. Não havia razão para isso.
— Vou ser cuidadoso, mas quero sentir sua carne molhada no
meu pau. Quero que sinta cada veia minha te abrindo.
— Você vai me matar se continuar falando essas coisas.
Movo-me para o meio de suas pernas, afastando-as amplas.
Lambo seu clitóris mais uma vez porque não consigo resistir, mas
não posso mais esperar para estar nela.
— Estou louca para senti-lo em mim.
Roço meu pau no seu ponto de prazer e ela geme.
— Por favor.
Coloco só a cabeça em sua abertura e, observando minha ereção
separando sua carne rosa, me afundo todo nela.
Nós dois gritamos. Meu corpo está tenso, enquanto saio devagar
para voltar a invadir suas paredes estreitas.
Empurro forte e ela ergue os quadris, toda fêmea, fogosa,
carente.
Zoe está pegando fogo sob mim, febril, implorando, chupando
meus mamilos, me ordenando a ir mais forte. 
Ela me prende dentro de si, não só fisicamente. 
Foi assim desde a primeira vez. Eu estava nela, sempre estive
nela.
Me concentro em nossos corpos, já que eu não consigo nomear o
que somos ou sentimos.
Meto mais duro e sinto-a dilatar para me acomodar. Ela é gostosa
demais e seus músculos pulsando em minha carne estão me
roubando o juízo.
— Eu sou louco por você, Zoe — falo, metendo mais duro. — Não
estive com mais ninguém desde que foi embora, porque nenhuma
outra me satisfaria. É só essa boceta, seus gemidos de tesão e esse
rosto lindo que eu quero em mim.
Minhas palavras parecem lhe desencadear algo. Ela fica
selvagem, as pernas fechando-se em torno da minha cintura, me
puxando para uma foda mais dura.
Acelero os movimentos e ela pede mais.
A sensação dos nossos corpos melados se encaixando é erótica
para caralho, me levando a um estado de loucura ainda maior.
Eu a fodo profundo e rápido e ela uiva, gozando em espasmos
constantes.
Aperta e solta meu pau dentro de seu corpo e estou alucinado,
sem controle, lambendo onde a minha língua alcança, precisando
de qualquer pedaço dela.
Meto mais algumas vezes, sem contenção. Queria prolongar essa
tortura deliciosa ao infinito, mas quando meu pau engrossa ainda
mais, pesado, louco para se derramar nela, sei que cheguei ao meu
limite.
Massageio seu clitóris, desejando arrastá-la comigo.
— Goze — sussurro, mordiscando seu lóbulo e ela o faz, gritando
meu nome.
Saio dela e me ajoelho entre suas pernas. Masturbo meu pau e
então, meu orgasmo vem com a força de um galope selvagem. 
Olho minha semente despejada em seus seios e abdômen.
Desço sobre seu corpo, apoiado nos cotovelos.
Ela separa mais as coxas para me acomodar.
— Você é minha, Zoe.
— Nunca duvidei disso, Christos. Desde aquela primeira noite,
sempre foi você. Eu te amo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 36
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
 
No dia seguinte pela manhã
 
 
 
— Fale-me sobre você. Isso entre nós dois é uma loucura. Eu
sinto como se o conhecesse profundamente, e ao mesmo tempo,
não sei nada. Naquele jantar na Espanha, você não me entregou
muita coisa a seu respeito.
— Por que foi embora? Sei que o que aconteceu entre nós foi
forte para você também.
— Como poderia não ser? Você foi meu primeiro. — Ela desvia o
olhar. — Foi meu único.
— O quê?
— Não quero conversar sobre isso em detalhes agora, mas eu e
Mike, nós nunca… por favor, não vamos estragar essa noite
trazendo-o para junto de nós. Basta que você saiba que meu
casamento jamais foi consumado.
Eu quero que me fale mais sobre isso, mas deixo passar.
Entretanto, eu não seria eu mesmo se não investigasse o que
preciso saber.
— Vou falar sobre mim, mas se estamos recomeçando, preciso
entender a razão de você ter ido embora, Zoe. É assim que minhacabeça trabalha: organizar uma sala antes de entrar na outra.
— Eu preciso me vestir. É um assunto sério e não quero
conversar sobre isso nua.
Estico a mão e acendo a luz do abajur.
Ela segura o lençol contra o corpo enquanto se levanta. Eu a
encaro sem desviar. Nós dois sabemos que após essa noite,
conheço, ainda melhor do que antes, cada pedaço dela. Cada curva
e pinta, porque fiz um estudo sobre minha deusa.
Parecendo envergonhada, mas paradoxalmente, com um olhar de
desafio, ela deixa o tecido cair, me permitindo vê-la.
Meu pau reage.
— Está me provocando?
— Não — responde, mas sei que mente porque os bicos dos
seus peitos estão duros.
— Quer conversar ou foder?
— Você disse que queria esclarecer…
— O passado pode esperar mais um pouco.
Levanto-me e sua garganta se move quando vê minha excitação.
Movo a mão no meu pau e ela acompanha tudo, atenta.
— Ajoelhe-se, Zoe. Quero comer sua boca.
Obediente, faz o que eu mando, mas me surpreende quando,
depois de somente lamber a cabeça do meu pau, me toma
profundamente.
A sensação da língua quente, a boca macia e faminta me
engolindo, é tão prazerosa que receio não conseguir me manter de
pé.
Nunca cedo o comando durante o sexo, mas vê-la sendo
corajosa o suficiente para tomar a iniciativa está me matando de
tesão.
Empurro os quadris e ela engasga, mas logo depois, pega o jeito.
— Assim, mesmo. Me tome inteiro, Zoe. Você chupa muito
gostoso.
Acaricio seu rosto, enquanto vejo minha mulher nua mamando
meu pau. Agarro seu mamilo, beliscando e ela intensifica a
chupada.
Chego ao meu limite.
— Vou gozar. Relaxe a garganta. Quero vê-la me bebendo, amor.
Engula tudo.
Seguro seu rosto e meto mais profundo. Uma, duas, três vezes,
antes de me derramar na quentura de sua boca.
Fecho os olhos por um segundo, a força do orgasmo me tirando
de órbita. 
Abaixo-me e a pego no colo.
— Você não vai mais a lugar algum, minha Zoe. Você nunca
deveria ter ido a lugar algum.
 
 
 
 
Dois dias depois
 
 
 
Já é de manhã e, agora eu vejo que fomos muito pretensiosos em
acreditar que poderíamos ter qualquer conversa séria nas primeiras
quarenta e oito horas juntos.
Não saímos do quarto, a não ser para comer. 
Aproveitei para dispensar a enfermeira, porque o médico já havia
partido.
Zoe saiu para se despedir dela e o acanhamento ao se dar conta
do que Beth pensaria, me fez ver como ela ainda é uma menina.
Agora, com a casa somente para nós dois, preparo uma massa,
enquanto ela fica sentada em uma banqueta na ilha, me
observando.
— Fale-me por que foi embora. O assunto sério que disse que
teríamos para conversar.
— Não foi por causa do dinheiro que você deixou no envelope,
apesar de que tenha passado pela minha cabeça… enfim…
— Eu nunca ofenderia uma mulher dessa maneira.
— Agora eu sei disso, mas eu o conhecia há muito pouco tempo.
Ainda não o conheço, para falar a verdade. — Ela afasta uma
mecha de cabelo da frente do rosto. — O que estou tentando dizer,
foi que sim, eu me ofendi com o dinheiro, mas iria embora de
qualquer modo depois do que descobri.
— Vamos esclarecer a questão do dinheiro. Eu iria comprar
aquela frota de qualquer jeito, o que fazia de mim, de uma certa
forma, seu empregador. Você não chegou a receber o salário pelo
tempo que trabalhou lá. Estava em um país estranho, depois de
todas as merdas que passou e sem um tostão. Eu não queria que
ficasse comigo porque precisava, mas por escolha. Aquele dinheiro,
apesar de ser mais do que seu pagamento no navio, era uma
segurança para você mesma.
— Eu acabei usando-o, de qualquer modo — diz, vermelha. —
Não teria como ir embora se não o fizesse. Mas não sei se entendi
bem o que você acaba de dizer.
— Disse que não me conhecia direito, Zoe. O contrário também
era verdade. Eu imaginei que tudo o que aconteceu entre nós era
recíproco, mas podia chegar o momento em que você quisesse ir
embora e fosse tímida demais para me falar.
— Já que está esclarecendo alguns pontos, deixe-me fazê-lo
também, Christos. Eu era muito nova…
— Você ainda é.
— Sim, mas eu sabia o que queria quando aceitei ficar com você.
Eu nunca deixaria um homem me tocar contra a minha vontade.
Não passou pela minha cabeça que o dinheiro representava uma
segurança para mim. Nunca tive um namorado sério. Apesar disso,
como eu falei antes, não foi o que me fez ir embora, mas um erro de
julgamento.
Largo a faca com que cortava os tomates e me aproximo dela.
Não é muito fácil conseguir me surpreender.
— Erro de julgamento sobre mim?
— Você se apresentou como Xander Megalos e naquela manhã
quando o chamei assim para sua empregada, ela me corrigiu
dizendo que todos o conheciam por Christos Lykaios. Eu já ouvira
seu nome muitas vezes em um dos lares adotivos em que morei.
Passei por vários, como lhe contei, mas em um em especial, havia
uma garota. Ela ficou tetraplégica quando o carro em que estava
sofreu um acidente e capotou. Seu nome era Pauline Lambert.
Gelo se espalha em meu peito. Eu sei de quem ela está falando.
Como poderia me esquecer?
As lágrimas escorrem de suas bochechas e eu quero consolá-la,
mas não sei se é isso o que deseja.
— A mãe dela, Ernestine, o pintava como um demônio. O homem
que por estar drogado…
— O quê?
— Deixe-me terminar, por favor. Ela repetia todos os dias que por
sua causa, minha melhor amiga, minha única amiga naquela época,
não podia andar ou se sentar. Dizia outras várias coisas horríveis
que eu não quero me lembrar. Eu perdera minha mãe há pouco
tempo. Já era o terceiro lar temporário em que ficava e eu e Pauline
criamos um laço muito forte. Eu corria sem ter vontade, tomava
chuva e pulava de um pé só porque ela não podia fazer nada
daquilo. Foi por ela que me tornei modelo. Esse era seu sonho. O
último pedido que me fez quando fui embora da casa dela. Lembra
do dia em que nos conhecemos?
— Você estava tirando fotos.
— Sim, com uma bonequinha na mão que a representava. Eu a
amava de todo meu coração e em contrapartida, odiava você, o
homem que machucou minha amiga. Mas mesmo quando descobri
seu nome, eu não queria acreditar, então fui à casa de Ernestine.
Ela repetiu toda a história que me contara quando Pauline faleceu.
— Ela morreu?
— Sim, bem novinha ainda. Logo depois que a mamãe Macy me
adotou.
Passo as mãos no rosto.
Puta merda. Nunca imaginaria uma coisa daquelas.
Afasto-me para desligar o fogo.
— Se está aqui comigo, presumo que já sabe de toda a verdade.
— Sei sim e foi por isso que tomei uma decisão, Christos.
Quando ficamos juntos a primeira vez e eu descobri quem você era,
achei que o destino estava zombando de mim. Agora, penso
diferente. Acredito que nos encontramos porque era assim que
deveria ser. Não estou cobrando nada, até porque ainda não sou
completamente livre, mas dessa vez, eu não vou embora. Se
acabar, você vai ter que me dizer adeus.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 37
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
Horas depois
 
 
 
Suas palavras ainda ficam martelando na minha cabeça.
Se acabar, você vai ter que me dizer adeus.
Destino. Escolhas.
Deixar tudo na mão do acaso?
Não, já passamos dessa fase.
Decisões. Esse é o ponto central agora.
Nós nos separamos, giramos o mundo e no fim, acabamos do
mesmo modo que há dois anos. Dessa vez, espero que com um
resultado diferente.
— Sou grego, como você já sabe. — Começo, dando o que ela
me pediu.
Zoe tem razão. Quando nos conhecemos, em minha arrogância,
eu não compartilhei nada de mim porque achei que teríamos tempo
para isso.
— Filho único. Meus pais são casados há mais de quarenta anos
e mudaram-se para os Estados Unidos quando eu tinha apenas
três. Vivi boa parte da minha vida entre Londres, Nova Iorque e a
Califórnia, trabalhando.
— Eu adoro a Califórnia. 
— Achei que seu sonho era ser fazendeira.
Ela levanta a cabeça do meu peito.
— Você lembra disso?
— Lembro, sim. 
Ela parece sem jeito e muda de assunto.
— Em que parte da Califórnia?
— Minha casa?
— Sim.
—A principal em Sausalito, perto de São Francisco, mas tenho
outros lugares no país também. Nova York, Chicago. Meu trabalho
me faz viajar muito e eu não gosto de hotéis.
Isso é algo que eu e Beau temos em comum. Ambos possuímos
imóveis pelo país para não termos que ficar em hotéis.
— Entendo. Eles são tão impessoais. — Ela sorri. — Eu estranho
o travesseiro.
— O travesseiro? — Só agora percebo que estou sedento por
conhecer cada pequena coisa dela. Nenhum jornal ou pesquisa
poderia ter revelado o que faz parte do seu mundo secreto.
Ela sorri novamente e acena com a cabeça.
— Sim. Eu tenho um em formato de boomerang e não consigo
dormir direito sem ele. Além da moda, quais outros ramos você
atua?
— Teria que pegar um bloco de notas. Às vezes até eu me perco.
Tenho diversas empresas, mas a maioria é ligada à moda.
— Você exigiu exclusividade porque me queria de volta? —
pergunta à queima-roupa.
— Não sei perdoar, Zoe. Para ser franco, eu disse a mim mesmo
que a queria por perto, mas não me dei um motivo real. Eu só a
queria por perto.
— Para se vingar.
— Talvez.
— Há dois anos, quando nos conhecemos, eu não sabia o que
você queria de mim. Eu o queria, mas achava que seria impossível
um homem como você ficar com uma garota inexperiente e sem
sofisticação como eu. Você me encantou, Christos e eu despenquei
de cinquenta andares quando achei que havia sido aquele que
machucou minha amiga.
— Não tive culpa no acidente, Zoe, mas não sou um santo.
— O que isso significa? 
— Que eu irei até o inferno, mas encontrarei Mike Howard. E
então, eu vou puni-lo pelo que lhe fez.
— Punir de que jeito?
— Você não vai querer, saber, baby. Só guarde uma coisa: eu
nunca me esqueço ou perdoo.
— Você me perdoou.
— Não havia o que ser perdoado. O que aconteceu foi um mal-
entendido. Você errou em ter ido embora sem me perguntar o meu
lado da história antes, mas como bem disse sua mãe quando
conversamos, era nova demais. Já eu, não tenho essa desculpa.
Credito ao meu orgulho grego nunca ter ido atrás de você.
— Meu casamento foi um erro.
— Por que você não o amava?
— Também, mas principalmente, porque eu nunca me esqueci de
você. E me odiava por isso. Mesmo achando que era culpado pelo
acidente de Pauline, eu o queria.
— Então por que se casou? Quero dizer, namorar, eu entendo,
mas casamento é um passo muito definitivo.
— Poderia culpar minha juventude por isso também, ma
aconteceu há menos de um ano, então não é uma boa justificativa.
A verdade é que eu estava fragilizada. — Balança a cabeça de um
lado para o outro. — Se fosse ao contrário, partiria meu coração.
— O quê?
— Ver você casado com outra mulher.
— Por quê? 
— Porque eu sabia que tinha me casado por todos os motivos
errados, mas não você. Isso não faz parte de quem é, Christos. No
dia em que se casar com uma mulher, acho que ela será sua para
sempre.
— Sim, é verdade.
Sei que a exemplo dos meus pais, quando me decidir por uma
mulher, ela será a única para mim.
— Eu e Mike… nós nunca tivemos intimidade.
— Por que ele era promíscuo?
— Como sabe disso?
— Eu lhe disse, Zoe. Não sou um santo. Eu o investiguei por alto
quando soube que era casada, mas quando vi seu rosto naquele
dia, a maneira como o desgraçado a machucou, eu mandei que
fosse feito uma pesquisa mais profunda.
— Não era só promíscuo, era muito pior. Nosso relacionamento
nunca foi baseado em atração física. Trocamos não mais do que
meia dúzia de beijos no mês que antecedeu o casamento, que era
também o período completo que nos conhecíamos. Enfim, eu mal
tinha assinado meu nome no cartório e soube que havia cometido
um erro, mas eu só entendi o tamanho desse erro quando, na nossa
noite de núpcias, ele me disse que só se satisfaria fazendo sexo
grupal. Eu tenho vergonha de contar o resto. É tão infame.
— Não é necessário, eu sei de tudo. 
— Eu fui muito burra em me envolver com ele e minha família
quase pagou o preço por isso. Bia poderia ter morrido.
— Ingênua, precipitada, sim. Não burra. Ele era um amigo da sua
família. 
— Sim, é verdade.
— Há algo que preciso lhe contar. Eu lhe disse que investiguei
Howard, mas não falei que acabei com a carreira dele na
universidade. Naquele mesmo dia em que você foi embora de Nova
Iorque, logo após descobrir que a havia agredido, eu destruí a vida
profissional dele.
Ela parece surpresa, mas não chocada.
— Foi isso o que quis dizer sobre puni-lo?
— Não, isso foi o que eu fiz por ele ousar feri-la, mas por ele
tentar matá-la, não há perdão.
— Se eu não disser que esse seu lado me assusta, estaria
mentindo.
— Mas é quem sou, Zoe. Para o bem ou para o mal.
— E no entanto, mesmo sendo tão implacável, me quis de volta.
— Não é algo que eu consiga controlar.
— E o faria, se pudesse?
— Não sei. Isso que somos juntos, eu nunca vivi. Jamais tive
ciúmes de uma mulher ou a considerei minha, mas fiquei louco
quando soube do seu casamento. Eu não teria contratado-a se
soubesse que estava casada.
— Eu serei uma pessoa horrível se disser que fico feliz que não
tenha descoberto até fecharmos negócio? De outra maneira, acho
que jamais nos aproximaríamos de novo.
— Não acredito nisso. A vida sempre dá um jeito de alinhar as
peças do tabuleiro. Nosso jogo não havia terminado. Nós mal
começamos e você logo abandonou a partida.
— E quanto tempo mais acha que levará até chegar ao fim? Até
isso que sentimos, essa loucura que toma conta do meu corpo
quando você me toca, que me faz esquecer do meu próprio nome,
vai acabar?
— Talvez nunca.
Eu espero que nunca.
Mas ela ainda não está pronta para ouvir aquilo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 38
 
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
Uma semana depois
 
 
 
 
— Mãe, você não pode sair de casa. 
Jesus, estou tentando o meu melhor para não perder a paciência,
mas juro por Deus, que ela me deixa louco com esse jeito de não
levar nada a sério. Já perdi a conta das vezes em que me disse nos
últimos dias que não vai abrir mão dos poucos anos que lhe restam
— o que eu acho um exagero, já que as mulheres da família dela
passam dos cem — presa dentro de casa.
Quem a ouve pensa que está em uma quitinete e não em uma
mansão de nove quartos.
— Christos, não estou dizendo que vou bater perna à toa, mas
não sabemos quanto tempo durará essa fase que o mundo está
atravessando. Temos que dar um jeito de nos reunir.
— A única maneira segura seria se eu fosse vê-la de carro.
— São sete horas dirigindo.
— Mãe, mesmo que eu use meu avião, ainda há os comissários
de bordo que tiveram contato com outras pessoas. Não correrei o
risco de contaminá-la. 
Passo a mão pelo cabelo, frustrado. Sou muito próximo dos meus
pais. Embora o trabalho não permita que nos reunamos sempre,
quando é possível, passamos um tempo juntos, inclusive, na minha
ilha na Grécia.
— Quero conhecê-la. Você nunca me contou sobre suas
namoradas, mas já falou sobre Zoe cinco vezes nos últimos
minutos.
Eu fiz? Nem me dei conta.
— Vou conversar com ela, mas eu poderia apresentá-las por
chamada de vídeo.
— Nada substitui um abraço. Eu conheço você, meu filho. Viveu
mais tempo do que eu gostaria pulando de mulher em mulher e se
está assumindo essa moça como sua, há muito mais por trás do que
simplesmente cuidar de uma modelo que acabou de assinar um
contrato com suas empresas e que sofreu um acidente horrível.
Não contei a ela sobre já conhecer Zoe do passado, porque a
história não é só minha para compartilhar. Entretanto, mamãe não é
boba e sabe que somente o fato dela estar hospedada na mesma
casa que eu, já significa algo.
— Está certa, não é essa a razão pela qual eu a mantive comigo,
mas porque o que temos é especial. — Simplifico e mudo de
assunto. — Vamos nos falando e também acompanhando o
noticiário. Acho que a melhor solução seria que eu fosse de carro.
— Vai ser um acontecimento. Com a quantidade de guarda-
costas protegendo-o, a viagem vai parecer uma carreata.
Conversamos por mais alguns minutos até queela se despede,
dizendo que meu pai está esperando-a para dar uma volta pela
propriedade. Eles tentam se manter em forma, mesmo com o
lockdown e esse é o único exercício que têm feito. 
Graças a Deus a casa em que estou dispõe de uma academia
completa. Tenho energia demais dentro do meu corpo e mesmo com
a maratona sexual dos últimos dias, ainda me sinto acelerado boa
parte do tempo. 
Penso no que a minha mãe falou sobre eu nunca ter trazido uma
mulher para tão perto.
Não é que eu tivesse a ideia de um relacionamento perfeito em
minha mente, apenas jamais conheci alguém antes de Zoe que me
fizesse desejar algo mais permanente.
Meus pais têm uma relação de total cumplicidade. Aquele tipo de
amor que o mundo sabe que é para sempre. Um que eu nunca
achei que viveria, mas que depois que eu e Zoe finalmente
desistimos de resistir um ao outro, me pergunto se já não o
encontrei há dois anos.
Sou um cético por natureza. Acredito no tesão, em atração física
e de algum modo, sempre a separei do amor. Olhando de fora,
meus pais parecem mais amigos do que amantes, mas talvez eu
apenas estivesse atacando a questão pelo lado errado.
Quando me imaginava no futuro, pensava que terminaria meus
dias com alguém que mais ou menos seguisse o modelo familiar
que testemunhei. Agora, entretanto, começo a entender que o amor
não tem um molde no qual os relacionamentos devem se encaixar,
mas que a história de cada casal é que adapta o amor, tornando-o
único para eles.
Como se pudesse adivinhar que é a dona dos meus
pensamentos, ela bate na porta e sem esperar resposta, entra.
Zoe mudou. Está mais segura do que quer e ainda que a timidez
seja uma parte importante de sua natureza, ela já não baixa a
cabeça para a vida.
— Não sei se está trabalhando e não queria interromper, mas
acabei de receber um telefonema do hospital. Bia está acordada.
— Ótima notícia — digo, esticando a mão para que venha até
mim. 
Montei um escritório muito similar aos que tenho espalhados pelo
mundo.
Ela caminha até a mesa, parecendo hesitar. 
Eu não acho que seja resquício de vergonha. Não pode ser,
depois do que vivemos na última semana. Posso dizer com certeza
que nunca conheci o corpo de uma mulher como conheço o dela
agora.
Zoe é selvagem no sexo. Cada vez mais me mostra o que gosta,
e estou empenhado a descobrir tudo sobre ela, aprender o que a faz
gemer pedindo por mais ou gritar de tesão.
Meu corpo reage às lembranças do que fizemos nos últimos dias
e quando a puxo para que se sente em meu colo, ela percebe.
Olha para mim e sei que está excitada também. Não
conseguimos ficar muito tempo vestidos ao redor um do outro, mas
por mais que eu deseje sentá-la em minha mesa e comê-la no café
da manhã, não quero que pense que tudo o que desejo com ela é
sexo.
Já fiz uma confusão fodida em nosso primeiro round juntos, lá em
Barcelona. Dessa vez, pretendo mudar o roteiro.
— Disseram quando ela terá alta? — pergunto, afastando o
cabelo de seu pescoço e beijando o local exato em que uma veia
pulsa.
— Não consigo me concentrar com você fazendo isso —
confessa, se contorcendo no meu colo. — É muito gostoso.
— Desculpe-me — peço, nem um pouco arrependido.
Ela se vira e me monta de frente.
— Para um CEO implacável, você é um péssimo mentiroso,
senhor Lykaios. 
— Você já sabia disso. Me acusou de ser brutalmente honesto
uma vez.
— Prefiro assim. Odeio mentirosos.
Sei que está falando do ex-marido, mas não quero andar por
essa estrada agora. O que eu tinha para falar com ela sobre o
miserável, já fiz. Agora, o problema é entre mim e Mike Howard.
— Quero falar com Bia ao telefone. Será que vão deixar?
— Se acordou do coma, devem tê-la transferido para um quarto
particular como eu determinei. Com certeza tem um telefone lá.
— Além de estar louca para ouvir a voz dela, quero contar o que
aconteceu porque deve estar confusa. Preciso avisá-la também que
você providenciou documentação para todos nós.
Chego um pouco para trás na cadeira para observá-la.
— Não a incomoda que eu tome sempre a frente de tudo?
— Você está me ajudando, não tentando passar por cima de
mim. Se fosse o caso, eu já teria lhe dado um chega para lá.
Porra, por que tudo o que sai da boca da minha feiticeira tem que
ser tão excitante?
Limpo a garganta, porque eu levei menos de três minutos para
me esquecer da determinação de não deitá-la em minha mesa e
tomá-la por trás. Zoe me desperta fome e tesão bastando para isso,
se aproximar. Não importa quantas vezes transemos, meu desejo
não passa.
— Minha mãe quer conhecer você.
Ela me olha.
— O que foi?
— Você quer que eu a conheça?
Não preciso pensar a respeito.
— Quero.
— Eu não vou mentir.
— Sobre o quê?
— Estar em processo de divórcio. Acho que ela pode não gostar
de saber disso.
— Minha mãe não é assim, Zoe. Ela é grega e pode ser bem
convencional também, mas acima de tudo, acredita na felicidade.
— Então acho que temos os ingredientes certos, senhor Lykaios
ou devo chamá-lo de doutor, como os empregados fazem?
Dou uma palmada na bunda dela.
— Atrevida.
— Só com você. — Sorri.
— Por que temos os ingredientes certos, Zoe?
— Hein?
— Quando eu disse que minha mãe acredita na felicidade, você
contrapôs que nossa relação tem os ingredientes certos.
— Só posso falar por mim. Você me faz feliz, Christos. Se isso é
importante, já temos um bom começo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 39
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
Cinco dias depois
 
 
 
 
— Zoe, estamos vivas mesmo, né? Eu morri de medo de que
tivesse acontecido algo com você. Acordei apavorada. Agradeça ao
senhor Lykaios por ter colocado uma enfermeira particular comigo.
Quando despertei, ela me deu todas as informações de que eu
precisava para acalmar meu coração.
Mal acredito quando ouço a voz dela.
— Não sabia que ele tinha feito isso.
Christos é inacreditável. Ele me disse que não é um santo, mas
de qualquer modo, eu não acredito em santos ou que as pessoas
sejam boazinhas em tempo integral. 
Todo mundo tem um lado sombrio. 
Depois do que vivi nos anos em que fui devolvida ao orfanato, sei
que a vida não é apenas cor de rosa. O que importa, entretanto, é
que ele é bom no que conta.
Dedicado a todos aqueles que… ama? Será que é o que sente
por mim? Não me disse de volta quando eu me declarei no outro
dia, mas ainda assim, demonstra cuidado comigo em cada uma de
suas ações. 
Eu me sinto mais próxima a ele durante o curto período em que
estamos juntos do que no meu casamento com Mike.
Talvez porque, no fundo, ele nunca foi para longe de verdade.
Sempre esteve dentro do meu coração, por mais que eu lutasse
contra.
Na noite em que me entreguei novamente, disse-me que desde
que nos separamos, não dormiu com outra mulher. Se fosse outro a
falar aquilo, eu não levaria a sério, mas nele eu acredito. 
Christos não é do tipo que doura a pílula para agradar quem está
recebendo a mensagem e ficar dois anos sem tocar uma mulher
porque só desejava a mim, tem que ter algum significado. Assim,
resolvi que não preciso que me diga a frase certinha. Um eu te amo
não tem tanta importância quanto as ações. Acho que elas às vezes
têm mais força do que declarações de amor. 
Mike disse que me amava antes de nos casarmos e eu como
uma boba carente, acreditei. Se nosso relacionamento tóxico serviu
para algo, foi me ajudar a acordar para a vida.
— Não tem ideia de como fico mais calma por ouvi-la. Rezei dia e
noite. Como está se sentindo?
— Como se tivesse sido atropelada. Meu corpo inteiro dói, mas o
médico acha que é consequência de todo esse tempo deitada. Um
bônus do mal por ter passado dos quarenta. Quando voltar a
malhar, terei perdido todos os meus músculos.
Bia, ao contrário de mim que considero a corrida a única
atividade física tolerável, ama malhar e tem um corpo lindo, cheio de
curvas.
— Sua cabeça dói? 
— Não. E de acordo com os médicos, está tudo bem com ela. O
que está me deixando com medo é esse vírus. Gostaria de sair
daqui o mais depressapossível, mas a equipe médica me disse que
além de ter que esperar mais alguns dias em observação até
confirmarem que estou bem para ter alta, ainda terei que fazer o
teste para saber se me contaminei.
— Deram um prazo?
— Em três dias estarei oficialmente de alta, mas só poderei sair
do hospital quando sair o resultado do teste. 
— Quando eles derem o okay, posso pedir a Christos que mande
alguém buscá-la. Já conversei com ele. Pode ficar aqui conosco.
— Conosco, é? Fico contente em saber que acertaram as
arestas. Você merece ser feliz, Zoe.
— Fui idiota em não ir atrás da verdade antes.
— Não. Você foi crédula, o que infelizmente, no mundo de hoje, é
defeito. Mas agora tudo já está resolvido, né? Nick me ligou e disse
que vocês conversaram. 
— Sim, ele é muito boa gente. Acho que deveria mudar o status
de vocês para “em um relacionamento sério” nas redes sociais. Pau
amigo não é muito lisonjeiro.
— Você falou palavrão, princesa? — debocha.
— Talvez seja a convivência com Christos. O homem tem uma
boca tão suja que a faz parecer uma freira. Mas não mude de
assunto. Falando sério agora. Por que nunca ficaram juntos para
valer?
— Porque não nos gostamos desse jeito. O sexo é muito bom,
mas fora da cama, não fazemos um ao outro sonhar, sabe? Eu
quero mais, Zoe. Não vou me contentar com nada que não seja o
pacote completo. Nem falo de casar de véu e grinalda, mas de ter
alguém comigo que…
— Faça seu corpo formigar?
— Isso mesmo. Acho que estou esperando meu malvadão
aparecer.
— Lá vem você com essa história. Cuidado. Eu acredito muito
naquele ditado que fala que, ao desejarmos algo, o universo
conspira para que o realizemos. Vai que aparece um mafioso em
seu caminho.
— Não fala isso porque só de pensar já sinto meu coração
disparar.
Dou risada.
— É, agora sei que você está bem. Continua a mesma doida de
sempre.
— Sim, a mesma. Mudando de assunto, eu preciso dizer algo.
Aquela tal Ernestine merecia uns tapas na cara. Além de ser uma
mentirosa que atrapalhou sua história de amor, ela fez a filha viver
uma situação de penúria por ter entregado o dinheiro na mão de um
macho. Como pôde ser tão burra? Primeiro, se envolveu com um
homem que dirigiu drogado com uma garotinha no banco de trás,
sem cinto de segurança e depois, entregou a indenização do
acidente a um ladrão. 
— Quando isso tudo acabar, eu vou procurá-la. Pode não
adiantar nada, porque eu acredito que uma pessoa que faz o que
ela fez com a própria filha, não tem um pingo de consciência. Mas
ao menos direi tudo o que eu penso a seu respeito cara a cara.
— Conversamos sobre tudo e não perguntei o mais importante.
Você ficou machucada?
— A mão está com uma cicatriz. Talvez eu faça uma plástica, não
porque me incomoda, mas porque pode ser um problema para
quem me empregar no futuro. Agora, mais do que nunca, vou
precisar manter esse contrato com Christos. Meus pais perderam
tudo, Bia. Não sobrou uma fotografia do casamento deles, nada. Só
não perdi as da minha mãe biológica também porque há mais de um
ano mandei digitalizá-las, mas de resto, minhas recordações
dependerão da memória.
— Se eu encontrasse Howard eu o mataria com as minhas
próprias mãos. Nick me disse que ele está foragido.
— Está sim e quanto a matá-lo, vai ter que entrar na fila. Eu o
odeio.
— Ele dava algum sinal de loucura antes desse evento? Não
estou brincando, Zoe. O homem não é normal. O que fez, tentando
matar a todos nós, destruiu a carreira dele.
— Isso aconteceria de qualquer modo.
— Como assim?
— Christos já havia tomado providências a esse respeito depois
que viu meu rosto machucado.
— Vou te falar uma coisa, eu já torcia por vocês dois antes, mas
agora posso dizer sem medo de errar que sou muito fã do seu
grego.
— Ele não é meu… ainda.
— Opa. É assim que se fala, garota. Estou gostando de ver essa
mudança.
— Ter quase morrido me abriu os olhos, Bia. O fio da vida é muito
frágil. Naquele dia em que saí para comprar sorvete, eu achava que
meu mundo estava relativamente sob controle. Tinha fechado um
contrato milionário, me separara de Mike e reencontrei Christos. E
então, menos de meia hora depois, meu universo havia
desaparecido. O lar dos meus pais não existia mais e minha melhor
amiga estava em coma.
— Entendo o que está falando e pelo menos daquela situação
fodida, saiu algo de bom. Agora me fale sobre seus planos. 
— Os pais dele querem me conhecer. 
— Uau, isso é sério então.
— Não sei, vou visitá-los na próxima semana. Faremos o teste
antes para saber se estamos contaminados. Gostaria muito de ver
minha mãe, mas o médico dela disse não porque mesmo o teste
pode dar um falso negativo.
— Essa situação toda é uma merda.
— Você acordou do coma com a lista de palavrões de a a z, né?
— Estou treinando para voltar à velha forma.
— Não me respondeu sobre vir para cá quando tiver alta em
definitivo.
— Agradeço do fundo do meu coração, Zoe, mas preciso ficar um
pouco sozinha. Assim que as fronteiras forem reabertas, quero ir
para umas férias no Caribe, mas por ora, vou ficar quietinha em meu
apartamento.
— Não vou forçar a situação, Bia, mas a qualquer momento, se
mudar de ideia, basta me dizer.
— Claro que direi. Alguma novidade sobre os desfiles?
— Yuri, o assistente de Christos, está planejando fazer um evento
online. Apresentaríamos a nova coleção, mas seria passado nos
canais das marcas dele. Nada presencial.
— Adorei a ideia. Deixe-me saber se precisar de mim. 
— Te amo, Bia. Fique bem. Espero que possamos nos ver em
breve.
— Tenho certeza de que logo a vacina estará pronta e a vida
voltará a ser como antigamente.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 40
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
 
No mesmo dia
 
 
 
Desligo a chamada de vídeo com Yuri. Passamos mais de uma
hora conversando sobre estratégias para as minhas marcas de alta
costura durante a crise que o mundo está atravessando.
A única pendência era sobre o cancelamento presencial dos
desfiles. Decidimos que os transmitiremos ao vivo, mas até que
tenhamos certeza de como se desenvolverá a questão da
segurança quanto à saúde mundial, não quero multidões reunidas
ou carregar a culpa de uma contaminação em massa.
O lockdown não afetou em nada meus lucros. As pessoas
continuam comprando, mas talvez, se a situação persistir, o setor da
moda acabe prejudicado, claro. Para que comprar roupas se você
não precisa sair de casa? Mesmo eu, que há anos não usava jeans
durante a semana, o transformei juntamente às camisas pretas, de
manga comprida, em uma espécie de uniforme.
Pés descalços, no entanto. Livres de meias ou sapatos.
Tenho que admitir que, depois de passar a maior parte da vida
adulta em ternos ou blazers, é um alívio poder usar roupas mais
casuais. Eu nem me dava conta de como sentia falta disso até ter
que ficar em casa por imposição.
Diminuir o ritmo não é o meu estilo porque sou filho do meu pai.
O trabalho sempre veio em primeiro lugar, mas ficar trancado com
Zoe, já que apenas uma empregada que mora como caseira na
propriedade vem agora duas vezes na semana, tem me feito rever
conceitos sobre diversos setores da minha vida.
Ao invés de jantares em restaurantes sofisticados, às vezes
comemos um sanduíche ou dividimos um balde de pipoca assistindo
filmes. 
Banhos de ofurô, nadar nus na piscina em plena madrugada,
transar no meio do dia, conversar. 
Artigos que mesmo com todo o luxo do qual pude dispor em
minha vida adulta, nunca usufruí, ou se o fiz, foi com hora marcada
para acabar, porque eu sempre estava atrás do meu próximo
milhão.
Mais contratos, mais dinheiro e por dentro de mim, o vazio.
Entretanto, eu não tenho dúvida de que essa paz que sinto é
porque estou com ela. Não me imagino isolado com qualquer outra
pessoa sem que isso me enlouquecesse — nem mesmo com meus
pais — mas com Zoe, eu aproveito cada minuto.
Foi atração física o que nos uniu, mas depois que nos
reencontramos, há muito mais envolvido. Eu a quero. Não por contado passado ou em uma tentativa de nos dar uma segunda chance.
Eu a quero pelo hoje. 
Para isso, no entanto, eu preciso exterminar uma erva daninha:
Mike Howard.
Beau ainda não conseguiu descobrir nada sobre seu paradeiro, o
que não é pouca coisa já que meu amigo tem contatos em camadas
que a sociedade chama de foras da lei.
Assim, só me resta uma última cartada. Alguém que eu não
queria envolver.
Meu primo, que acabou se tornando um irmão mais novo: Odin
Lykaios[36].
O acerto de contas com Howard não será convencional, então eu
não queria a família envolvida. Até porque, Odin tem seus próprios
demônios para combater, mas não vejo outra solução. Tão certo
quanto o inferno é quente, o desgraçado que tentou matar Zoe não
sairá impune depois do que fez.
E quem mais poderia localizá-lo além do homem que é dono da
maior empresa de tecnologia da informação do país? Em pleno
século vinte, com câmeras por todos os lados, não há como se
esconder, a não ser que você esteja morto, ou tenha sido mantido
prisioneiro em algum porão. Caso contrário, vai deixar rastro.
Nos conhecemos depois de adultos. 
Foi um amigo em comum que chamou a atenção para o fato do
nosso sobrenome ser o mesmo, o que acabou por despertar minha
curiosidade, já que nem na Grécia ele é muito popular.
Qual a chance de dois CEOs terem Lykaios como último nome?
Pequena, eu diria.
Para tornar curta uma história longa, descobrimos que somos
primos distantes. 
Papai ficou encantado por reencontrar um parente, já que quando
ele veio para os Estados Unidos, há mais de trinta anos, perdeu o
contato com o resto da família grega. 
Entretanto, a amizade entre nós dois não foi fácil no início.
Ambos desconfiados e arredios em relação ao outro. Não tenho
dúvidas de que assim como o investiguei, ele fez o mesmo comigo.
Procuro seu número na agenda e encosto o dedo na tela.
— Christos, aconteceu alguma coisa? — pergunta, logo ao
atender.
Temos em comum o fato de atuarmos em linha reta, sem
embromação.
— Além do fim do mundo parecer uma certeza?
— A vacina aparecerá sem muita demora. A velocidade com que
será feita vai ser recorde. Mas tenho certeza de que não foi para
falar sobre o futuro do planeta que você me ligou.
— Não. Preciso que encontre alguém para mim.
— O homem que incendiou a casa da sua namorada?
— Eu nem sei porque telefono para você ou Beau. Poderíamos
poupar tempo e falar por telepatia.
— Beau?
— Esquece isso, falei demais.
— Sabe que não vou esquecer. Eu nunca me esqueço de nada.
— Sério, Odin. Ele não é alguém que você deva conhecer.
— Está falando como um irmão mais velho. Já sou um garoto
grande.
— E por falar nisso, como anda a negociação para comprar
aquela ilha grega?
— Tecnicamente, já é minha, mas terei que adiar um pouco os
meus planos até que essa merda toda termine.
— Falou sobre a vacina. Tem ideia de quando ficará pronta[37]?
— Em poucos meses — diz, com uma confiança que me
tranquiliza. Não tenho dúvidas de que ele tem acesso a informações
privilegiadas. — Quando eu tiver notícias sobre o filho da puta, eu
aviso.
— Não precisa de nenhuma informação adicional sobre ele?
Odin dá uma de suas raras risadas.
— Sou aquele que presenteia o mundo com informações, primo.
Não quem as busca.
 
 
 
 
Uma hora depois
 
 
 
 
— Então teremos que fazer o teste antes de ir visitar seus pais?
— Sim e eles também. Não sei se é necessário porque nenhum
de nós quatro está saindo, mas os médicos disseram que é um
protocolo de segurança. Tudo bem para você?
— Claro, não sou medrosa. Só gostaria de poder ver minha
família também.
— Meu primo me disse hoje que a vacina não demorará.
— Espero que não. Hoje eu liguei para o seguro para ver como
vai ficar a situação da casa dos meus pais. Não em relação às
hipotecas, claro. Quanto a isso, não há o que ser feito. Eles não
devem a nós, mas ao banco, porque a casa pertencia à instituição.
Duas vezes.
— Por que precisaram hipotecar uma segunda vez?
— Mamãe adoeceu novamente antes que eu começasse a
ganhar dinheiro com os desfiles. Mesmo que minha ascensão na
carreira tenha sido muito rápida, não foi o bastante.
— Eu posso cuidar disso.
— Não. Já está fazendo demais. Vou pagar com… — Ela para e
arregala os olhos. — O contrato ainda está de pé? Estou
perguntando porque nem tão cedo faremos aquele ensaio que você
queria na Grécia.
— Sim, está de pé. Daremos um jeito de fotografá-la. — diz e me
olha de um jeito estranho. 
— O que foi?
— O que foi o quê?
— Parece que ia falar algo e se interrompeu. 
— Você uma vez me acusou de ser pé na porta, então aí vai. A
Grécia era uma desculpa. Queria um tempo sozinho ao seu lado.
Isolado, onde não pudesse fugir.
— Mesmo pensando que eu ainda era casada?
— Meu assistente disse que havia rumores de que estava se
separando.
Ela concorda com a cabeça, mas o canto de sua boca está
erguido, escondendo um sorriso.
— Por que tenho a sensação de que está sorrindo de mim e não
para mim?
Monta no meu colo.
— Digamos que ambos.
— Posso saber a razão?
— Nada. Só fiquei pensando. Um CEO poderoso, rei do mundo,
dando uma desculpa para me levar para uma ilha deserta...
— Não é deserta, temos mais de cem funcionários lá.
— Não estrague meu sonho. Como eu ia dizendo, um CEO
poderoso…
Reviro os olhos.
— Pule para a conclusão. Não preciso de massagem no ego.
— Talvez não esteja pronto para o que eu vou dizer, Lykaios.
— Sou forte. Manda.
— Você era louco por mim. Só não admitia.
Puxo-a pela bunda, acomodando-a sobre meu pau.
— Cinquenta por cento de acerto.
— O que eu errei?
— O tempo do verbo. Ainda sou louco por você, Zoe.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 41
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
 
No dia da viagem para Washington, DC[38]
 
 
 
 
Os seguranças estão guardando a bagagem de Zoe no carro,
quando meu telefone vibra com a chegada de uma mensagem.
 
Beau: “Tenho notícias. Ligue-me. É urgente.”
 
 
Nem consigo completar a ligação e meu celular toca.
Odin.
Que diabos? Os dois ao mesmo tempo só pode significar uma
coisa: localizaram Mike Howard.
— Eu o encontrei — meu primo diz, assim que atendo.
— Sim? E onde está o filho da puta?
— Morto. Acidente de carro. Justiça poética ou não, o automóvel
pegou fogo.
— Tem certeza disso?
— Não sou legista, Christos, mas a perícia diz que sim, então,
por que duvidar?
— Onde aconteceu? 
— México. Ele atravessou a fronteira. Provavelmente tentando
fugir. Um acidente em uma estrada, ao que tudo indica. Perdeu o
controle e caiu em um barranco. Fim da linha.
— Fácil demais perto do que ele merecia. 
— Eu sei.
Tenho certeza de que o crime que Howard cometeu ao incendiar
a casa dos pais de Zoe é um ponto sensível para o meu primo, já
que ele perdeu toda a família em um incêndio: pais e a irmãzinha.
— Posso continuar verificando. Vou tentar por outros meios
descobrir se era ele mesmo.
— Que outros meios? — Estranho. 
— De novo, bancando o irmão mais velho.
— É inevitável. Não se meta em confusão por minha causa.
Tenho como conferir se era mesmo Howard sem que você se
exponha.
— Sabe que eu nunca me exporia. Apagar rastros é minha
especialidade, mas não quero interferir. Se deseja mesmo resolver
tudo sozinho... 
— Você já fez muito me trazendo isso.
— Tudo bem. Cuide-se, Christos.
Desliga e quando vou completar o telefonema para Beau, pois
agora tenho certeza de que era sobre Mike que ele queria falar, Zoe
sai da casa.
Acho que percebe algo em meu rosto, porque estava sorrindo,
mas um vezinho aparece no meio de sua testa.
— O que aconteceu? Meus pais?
Parece apavorada.
— Não. Eles estão bem, mas temos que conversar. Seu ex-
marido está morto.
— O quê?
— Um acidente de carro no México. O automóvel pegou fogo.
— Tem certeza de que era ele?
Não, eu não tenho, mas não direi isso a ela. Se Howard ainda
estiver nesse planeta, não será por muito tempo, de qualquer modo.
Antes que eu responda, completa.
— Eu não lamento. Espero que tenhasofrido — diz, me
surpreendendo. — Por causa do que fez, a vida dos meus pais foi
destruída. Sua história e lembranças. Ele machucou Bia, pensando
que era eu.
— Ele quase matou você também. — rosno, sentindo o mesmo
ódio do desgraçado de quando a vi naquele quarto de hospital.
Meu telefone toca e sei que é Beau. Talvez querendo dar a
mesma notícia que Odin.
— Eu preciso atender — digo e me afasto porque não faço ideia
do teor da conversa.
— Qual a parte do urgente você não entendeu?
— Estava falando com meu primo e em seguida, Zoe. Ele me
disse que Mike Howard está morto.
— O quê?
— Espera, não era isso que você ia me dizer?
— Não, mas parece que sua notícia é melhor do que a minha.
Era ele mesmo?
— Não sei, o que acha?
— Não acredito, talvez porque como você, sou cético por
natureza. Mas até amanhã de manhã, saberei. Agora vamos ao que
interessa. Estando ele morto ou vivo, sua mulher vai se livrar do
bastardo muito antes do que imagina.
— Não entendi.
— Quando se casou com sua Zoe, o professor já havia se unido
a alguém há mais de dez anos. Ele é bígamo, Christos, o que
significa que o segundo casamento, que vem a ser o com a sua
garota, é inválido. 
— Eu achei que nada mais do que descobríssemos sobre ele me
surpreenderia, mas o maldito conseguiu se superar.
— É um ganho para vocês dois. Qualquer bom advogado
conseguirá resolver a anulação… nem sei se é esse o nome que se
dá, porque como anular o que nunca existiu? Enfim, qualquer bom
advogado conseguirá resolver isso rapidamente. 
— Contatarei meus advogados ainda hoje.
— Vou dar um conselho de graça. Disse que está em dúvida se
ele morreu mesmo. Deixe que sua Zoe pense que sim. Se Howard
ainda estiver caminhando nesse vale de lágrimas, não será por
muito tempo. 
— Já havia pensado nisso. Não quero envolvê-la em meus
planos.
— Exatamente. Quando o encontrarmos, morrer queimado dentro
de um carro soará como o paraíso.
 
 
 
Uma hora depois
 
 
 
— Você está de novo com aquele olhar como se quisesse dizer
algo e desistisse no meio do caminho. Se arrependeu da viagem?
— O quê? Não. 
— Olha, se mudou de ideia sobre eu conhecer sua família…
— Já deveria saber que ninguém me força a fazer o que não
quero, Zoe.
— Tudo bem. Então o que há de errado, Christos? Essa coisa de
ficar tentando adivinhar me deixa ansiosa. Eu já estou nervosa por ir
conhecer seus pais e você me olhando desse jeito não está
ajudando.
Pego a mão dela, que estava repousada na coxa e trago para os
lábios, deixando um beijo leve.
— Não tem nada a ver com a viagem. Continuo querendo que
conheça a minha família.
— Então qual é o problema?
— Estou pensando em como te contar algo.
— É sobre Mike? Se está preocupado com o que estou sentindo
em relação à morte dele, pode ficar tranquilo. Não vou perder cinco
minutos de sono por isso. Não sei direito o que houve, Christos, mas
já decidi que vou guardar minhas lágrimas para quem as merece.
Morto ou vivo, nunca o perdoarei pelo que fez à minha família.
Como pôde ter coragem, sabendo que a minha mãe tem câncer, o
quanto ela tem lutado para sobreviver, incendiar a casa com os dois
dentro? Quero dizer, eu entendo que na cabeça louca dele, queria
se vingar de mim. Mas meus pais? Não, você não vai me ver
lamentar a morte dele.
— Não tem a ver com a morte do cretino.
Dou seta e entro em um desvio na estrada. Noto pelo retrovisor
os dois carros com os guarda-costas fazerem o mesmo.
Desligo o motor e a encaro.
— Seu casamento com Mike é inválido.
— O quê?
Eu não ganharia um prêmio por diplomacia, então despejo tudo
de uma vez. 
— Eu mandei que o localizassem. Não faz parte da minha
personalidade ficar de braços cruzados esperando que a polícia
descobrisse seu paradeiro. Esse meu amigo foi atrás como pedi,
mas ao invés de encontrá-lo…
— Não foi ele quem deu a notícia da morte de Mike?
— Não, foi meu primo. Enfim, meu amigo descobriu que Mike tem
esposa, o que faz com que o casamento de vocês seja inválido. E
tem mais. — continuo, porque não faz qualquer sentido guardar o
resto das informações. — Não deve ter tentado movimentar sua
conta-corrente, com todas essas merdas acontecendo ultimamente,
mas ele as limpou, assim como as ações em que você tinha
investido.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 42
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
 
Ela solta o cinto de segurança e abre a porta do carro. Sai
andando, as duas mãos na cabeça.
Vou atrás. Eu sabia que ficaria puta quando descobrisse que
Howard a roubou, mas não antecipei uma reação de tanto
desespero.
— Ai, meu Deus!
— Zoe.
— É informação demais, Christos. O que fiz com a minha vida?
Estou aliviada pelo nosso casamento ter sido uma farsa. Não
somente o relacionamento em si, mas também perante a justiça. O
que esperar de um mentiroso que aguardou colocar uma aliança na
minha mão para somente então decidir me contar sobre seu estilo
de vida? Seus desvios sexuais? Não é com isso que estou nervosa
agora, mas com o fato dele ter vendido as ações. Eram meu único
investimento. A doença da minha mãe… ela requer muito dinheiro.
— Posso custear.
— Eu sei, mas não é sua responsabilidade. Não é por isso que
estou com você. Sempre paguei minhas contas sozinha.
— Zoe, nós fechamos um contrato milionário, que ainda está de
pé. Vai conseguir colocar suas finanças em dia.
— Não parece certo receber esse dinheiro, nem sabemos quando
voltarei a trabalhar...
— Mas voltará. Não se preocupe com isso. Agora, vamos para o
carro ou minha mãe vai lhe dar um puxão de orelhas quando
chegar. Ela não gosta de atrasos para o jantar.
Ela vem para perto e me abraça.
— Não estou fazendo drama. Me acostumei a ser sozinha, pagar
minhas contas e as da minha família. Não compartilhar
preocupações.
— Também não sou bom em dividir, mas sou o melhor no que diz
respeito a lidar com problemas — brinco, porque ela ainda parece
tensa.
Ergue a cabeça do meu peito.
— Essa sua autoconfiança sempre me excitou. Você é muito
arrogante, mas de um jeito sexy.
— Tudo em você me excita. 
Fica na ponta dos pés e enlaça meu pescoço para um beijo. Não
costumo dar demonstrações públicas de afeto, principalmente
porque sei que é provável os guarda-costas nos observam, mas
nada com Zoe é sobre regras. Já fiz as pazes com o fato de que ela
é única em minha vida.
Não demora muito e estamos ambos sem fôlego, as peles
fervendo de desejo.
Ela toma a inciativa de se afastar, talvez enfim consciente de que
não estamos sozinhos.
Ainda assim, não consegue esconder sua excitação. A boca está
inchada do beijo e a pele de porcelana, corada. Linda para caralho.
— Como faço para cortar qualquer laço com ele, Christos? Não
quero mais nada daquele homem.
— Facilita bastante o fato de não ter mudado seu nome quando
se casou. 
Mesmo sendo o que agora sei se tratar de um casamento de
mentira, ainda sinto a palavra descendo como ácido pela minha
garganta. Imaginá-la ligada a alguém para o resto da vida me
enlouquece de ciúmes.
Imaginá-la ligada pelo resto da vida a alguém que não seja você
o enlouquece de ciúmes — uma voz dentro da minha cabeça diz o
que até agora não tive coragem de admitir.
Olho para ela e percebo que me encara de volta. É como se
ambos estivéssemos tentando desvendar o que o outro representa
em seu mundo.
Sim, ela disse que me ama, mas não acho que Zoe consiga
entender nós dois, como eu mesmo não posso. As apostas eram
contra e tínhamos tudo para dar errado. Entretanto, a vida nos uniu.
Não estou disposto a desperdiçar essa segunda chance.
Pego sua mão e depois de abrir a porta do carro para que entre,
me acomodo atrás do volante.
— Vou acionar meus advogados assim que chegarmos em D.C.
Será rápido. Logo você vai estar livre.
— Nem cheguei a me sentir casada.
— A ideia lhe agrada?
— O quê? — Disfarça.
— Casar. Constituir uma família.
Seu rosto fica em um tom mais escuro de vermelho.
— Fui abandona por mais tempo do que possuí um lar. Na
terapia, eu aprendi queesse será sempre meu ponto fraco: viver em
busca do que não tive. Então sim, me casar e ter minha própria
família é um objetivo.
Ainda não dei partida no motor, a mente sobrecarregada com
uma certeza que acaba de se desvendar. Eu a quero para mim. Não
por um tempo, até explorarmos o que sinto ou o que somos. Quero
Zoe como o meu para sempre.
— E a fazenda. — falo.
— O quê?
— Quer uma fazenda também, e suponho que muitos filhos.
— Sim, tantos quanto Deus quiser me dar — diz, olhando pela
janela do carro.
Sei que está desconfortável, mas eu preciso saber mais.
— E quanto à sua carreira?
— Como você bem falou, fechei um contrato milionário com um
grego obcecado por mim — tenta brincar, mas falha. — Não vou
poder terminar esse compromisso nem tão cedo.
Sei que aquele é um ponto sensível para ela. Zoe se sente sem
jeito por nossa relação envolver dinheiro.
— Isso não tem nada a ver com nós dois. Sim, eu a escolhi
principalmente porque a queria de volta, mas você é linda e será um
enorme ganho para as minhas marcas. Vai representar a Vanity[39].
— O quê? Mas o contrato era para uma marca menor. A Vanity é
sinônimo de luxo no mundo inteiro. Eu mesma esperei mais de um
ano em uma fila gigantesca para conseguir comprar a bolsa dos
meus sonhos.
— Você é a imagem que eu desejo passar da Vanity: linda,
sofisticada e jovem. Há muito tempo venho querendo dar uma
reavivada nessa marca. Mostrar que pode ser usada por todas as
idades.
— Eu não sei o que dizer. Ou melhor, eu sei. Obrigada. Desfilar
uma grife que é sinônimo de luxo é o sonho de qualquer modelo.
 Não demoro a ler o que ela não revela.
— Mas não o seu.
— Não quero soar ingrata, mas como já lhe disse antes, comecei
na carreira por causa de Pauline e continuei pela necessidade.
Fazer dieta para o resto da vida não é a minha ideia de diversão.
Nunca tinha analisado a situação das modelos por esse ponto de
vista. Para mim, era somente a maneira como ganhavam a vida.
— E qual é sua ideia de diversão, menina bonita?
Olha para as mãos.
— Vou realizar todos os meus sonhos, Christos. Errei na escolha
da primeira vez, mas quando me casar novamente, será com
alguém que me dê valor. Que queira doar, ao invés de só tirar.
Alguém com quem eu não tenha vergonha de ser eu mesma. Nem
sempre forte ou corajosa. Nem sempre arrumada ou maquiada. A
Zoe real.
— Você é linda independentemente do que vista.
Ela torna a olhar para fora da janela.
— É tudo o que vê em mim? Beleza?
— Não — respondo, sem pestanejar. — O que eu vi primeiro,
talvez, mas não mais.
— O que, então?
— A mulher que eu quero.
Não me encara como eu esperava.
— Você já me tem, mas acho que isso entre nós dois só está
funcionando porque estamos presos em casa. Logo sua vida vai
voltar ao normal.
— E qual é o meu normal, Zoe?
— Viagens, festas, glamour. E nada disso faz parte do meu
mundo, Christos, a não por obrigações de trabalho. Tenho pensado
muito nesses últimos dias. Com o dinheiro do contrato que
firmamos, vou pagar todas as dívidas dos meus pais e lhes comprar
outra casa. Depois, irei atrás de mim mesma. Do meu sonho real.
Não assinarei mais contratos com qualquer outra marca. Você será
meu último.
Em mais de um sentido do que possa imaginar, Zoe. Você será
minha para sempre.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 43
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
Washington — DC[40]
 
 
 
— Nem acredito que estou abraçando você, meu filho — a mãe
de Christos diz e eu me pego sorrindo, porque a mulher não tem
qualquer contenção ao demonstrar amor. 
Observo a reação dele. Achei que ficaria sem graça pelo jeito
extravagante da mãe que até a bochecha lhe apertou, como se
ainda fosse um garotinho. Mas não. Ele a mantém em um abraço e
o beijo que retribui, é demorado.
Sinto meus olhos se encherem de lágrimas, pensando nas
minhas duas mães, a biológica e a adotiva. Gostaria de ganhar um
abraço assim também. 
— Mãe, essa é a Zoe.
Assim que Christos estacionou em frente à mansão, ela veio
correndo nos receber.
 
É baixinha, um pouco cheinha e de cabelos grisalhos em um
corte na altura dos ombros. Não é linda— sim, eu tenho esse
defeito. De tanto trabalhar em meio a modelos que beiram a
perfeição física, acabo por analisar a aparência de todo mundo —
mas é tão cheia de vida que torna-se deslumbrante. Você quase
pode tocar a força vital dela.
Finalmente se desprende do filho e vem para perto de mim.
— Minha querida, que prazer em conhecê-la. Sinto muito pela
tragédia que atravessou. Como estão seus pais?
Ao contrário do que costuma acontecer quando sou confrontada
com pessoas muito diretas, não me sinto desconfortável. Ela não
parece ter perguntado aquilo para se intrometer, mas porque
lamenta realmente. Demonstra preocupação com a minha família.
— Muito prazer, dona Danae. 
— Danae. Não sou tão velha assim. 
— Certo. — Sorrio. — Muito prazer, Danae. Eles estão bem, na
medida do possível. 
— Nem imagino o pesadelo que atravessaram, Zoe, mas estão
todos vivos e isso é o que importa. Agora vamos entrar, Alekos já
está reclamando de fome — diz, se referindo ao marido.
Como se soubesse que estávamos falando dele, o pai de
Christos aparece. É como ver uma versão mais velha do meu
namorado. O homem também deve ter sido lindo de morrer quando
mais jovem. Será que Danae sabe atirar? Eu com certeza me
matricularia em um curso de tiro se tivesse que ficar com o filho dela
para o resto da vida.
O pensamento espalha uma sensação boa pelo meu peito, mas
eu a afasto. Gostaria de ter mais tempo com ele e não pretendo ir
embora de sua vida, mas também não quero me iludir, achando que
ficaremos juntos para sempre.
— Alekos, venha conhecer a namorada do seu filho.
Ele vem, mas antes para e dá um beijo na testa da esposa. Então
percebo que, independentemente da beleza do homem, ele é
apaixonado pela mulher. Não tem diferença física que suplante
isso. 
Olho para Christos e o pego me observando enquanto seu pai me
abraça e me dá um beijo na bochecha.
Sorrio sem jeito, mas muito feliz com a recepção. Mike só tinha
mãe viva e a mulher me olhou estranho na única vez em que nos
vimos. 
Eu tenho problemas sérios com rejeição e talvez nunca consiga
superá-los completamente. A recepção dos pais de Christos fez
meu coração ficar mais calmo, pois agora tenho coragem de admitir,
estava morrendo de medo deles me tratarem com frieza.
 
 
 
 
 
Comemos para caramba e aprendi o que é um verdadeiro almoço
ao estilo grego. Experimentei moussaka[41], dolmadakia[42] e para
sobremesa, portokalopita, que é um bolo de laranja com canela. É
fofinho e muito saboroso.
No fim, eu me sentia prestes a explodir, mas os três gregos
conversavam como se aquela fosse uma refeição normal para eles.
Christos é um camaleão. Eu estive com ele em público tanto em
Barcelona, quanto no seu escritório em Nova Iorque e sei o quão
poderoso e imponente é em seu dia a dia, mas aqui, com os pais,
parece completamente relaxado. Acho que é por está entre aqueles
que considera verdadeiramente como seus.
Por duas vezes, ao me ligar, mamãe me pediu para falar com ele
e ficaram ao telefone por uns cinco minutos. No fim, meu namorado
quis conversar com meu pai também, e aquilo mexeu com meu
coração.
Mike nunca fez qualquer esforço para ser gentil com meus pais.
Mesmo antes do casamento, jamais o vi dando atenção a eles. 
— Zoe, precisamos combinar uma viagem à Grécia quando isso
tudo passar. A ilha do meu filho é linda.
— Ela fará um ensaio fotográfico lá, então será mais breve do
que imagina.
— Ótimo. Vamos todos juntos — Alekos diz, se convidando e eu
sinto vontade de rir. — Deus sabe que precisamos de um pouco de
descanso desse caos que se tornou o mundo. Podemos ir em seu
avião, filho.
— Eu adoraria, mas antes quero me encontrar com meus pais.
Falo com mamãe todos os dias ao telefone, mas quero vê-la. Não
sei se conseguem me entender.
— Claro que sim, minha filha — Danae diz, segurando minha
mão. — Nada substituiestar frente a frente.
— Eu ia fazer uma surpresa, mas não quero deixá-la ansiosa. —
Christos fala. 
— Surpresa?
— Sim. Quando voltarmos para Boston, vamos passar para ver
seus pais. Já combinei tudo com Macy. Só não vai poder ter abraço
porque o médico continua firme com a proibição, mas seu pai
montará umas cadeiras no jardim e poderemos conversar.
— Eu achei que eles estavam na clínica ainda. Quero dizer,
estavam até ontem.
— Sim, mas quando providenciei a clínica, pedi que Yuri alugasse
uma casa também, caso eles quisessem sair um pouco do ambiente
do hospital se sua mãe estivesse bem o suficiente para isso.
Abro e fecho minha boca, pasma.
— Você se deu ao trabalho de organizar tudo?
Pela primeira vez desde que nos conhecemos, tenho a impressão
de que ele cora.
— Não foi nada de mais. Eu…
Antes que termine, me levanto e vou até onde está e, sem parar
para pensar no que estou fazendo, lhe dou um beijo na bochecha.
— Obrigada.
Preparo-me para voltar ao meu lugar, mas ele afasta a cadeira,
me puxa para seu colo e me dá um beijo na boca na frente dos pais.
— Agora sim, considero isso um agradecimento.
Ouço a risada de Alekos e fico vermelha feito um pimentão.
Evito encarar qualquer um dos três, mas sinto os olhos dos
representantes da família Lykaios em mim o tempo todo.
 
 
 
 
Uma hora depois
 
 
 
 
Surpreendendo-me totalmente, Alekos e o filho disseram que
iriam arrumar a louça do almoço. Como nós em Boston, os pais de
Christos só estão com uma empregada para a limpeza duas vezes
por semana, para evitar pessoas circulando dentro da casa e com
isso, correrem o risco de serem contaminados.
Christos já lavou louça mesmo lá em nossa casa e eu sempre
admirei isso, pois tem a ver com a criação que recebeu. Não suporto
pessoas que ficam sentadas esperando serem servidas e meu
namorado é um homem de ação em qualquer setor de sua vida.
Entretanto, não imaginava que fosse assim também na casa de
seus pais e nem que o Lykaios mais velho seria aquele que tomaria
a iniciativa de nos mandar passear enquanto cuidavam de tudo.
— Está mais tranquila agora que sabe que vai ver sua mãe?
— Estou, sim. A vida é uma coisa muita esquisita, né? Eu passei
os últimos anos preocupada com o câncer dela e vem esse bendito
vírus e nos dá uma rasteira. Minha ansiedade nesse momento é
com o fato de mamãe ter uma piora e precisar ser internada em um
hospital de verdade, caso a clínica que Christos providenciou não
seja suficiente.
— Vamos ter fé, filha. Sei que todos nós estamos incertos quanto
ao futuro, mas precisamos nos manter positivos. Adoecer
mentalmente pode ser tão perigoso quanto no corpo.
— Eu sei, mas quando falo em ansiedade, não é como as
pessoas normalmente têm, mas algo que me paralisa. Por isso
mesmo continuo fazendo terapia duas vezes por semana, online.
Olho para ela enquanto falo. Não vou fingir algo que não sou para
ganhar sua simpatia. Eu tive depressão quando voltei de Barcelona
e achei que aquilo havia sido um fator isolado por conta de tudo o
que vivi, mas meu terapeuta me disse que pode acontecer de novo.
— Não há nada de errado em procurar ajuda. Não sei sobre sua
vida, Zoe, mas tenho certeza de que é uma menina especial.
Ela me trouxe em sua estufa de flores e enquanto passeamos,
penso que no futuro quero uma assim para mim. Nunca havia
prestado atenção em flores, mas a mãe de Christos me falou que
considera uma terapia cuidar de suas orquídeas.
— Por quê? — pergunto, em referência ao que acaba de dizer.
— Dificilmente encontrará alguém mais arredio a relacionamentos
do que Christos e, no entanto, aqui está você.
— Não é como se seu filho tivesse muita opção, né? Estou
hospedada na casa dele.
— Você é uma moça inteligente, então me responda: por que
meu Christos está em Boston e não em Nova Iorque, onde fica sua
residência principal?
Fico calada, entendendo o que ela quer dizer. Com a fortuna que
tem, Christos poderia ir para qualquer parte do mundo durante essa
crise e, no entanto, escolheu ficar comigo.
Uma pontada de esperança começa a surgir no meu coração.
— Nossa história é complicada.
— Eu tenho tempo e me considero uma boa ouvinte.
A propriedade deles é enorme e enquanto andamos, agora já ao
sol, eu lhe explico tudo. Desde o momento em que ele me flagrou
em Barcelona tirando foto no andar proibido do navio, passando por
minha volta para os Estados Unidos sem me despedir e o
reencontro.
— O acidente do qual você está falando, além de tê-lo ferido
fisicamente, mexeu muito com a cabeça do meu filho. Mesmo sem
razão para isso, ele se culpou pela garotinha. O homem que dirigia
o carro estava drogado. Não algo leve, mas quase em overdose.
Poderia ter matado a todos.
— Eu só acreditei na história de Ernestine porque não o conhecia
bem. Qualquer um que passar dez minutos ao lado de Christos sabe
que ele não é do tipo que foge às responsabilidades.
— Está apaixonada por ele, Zoe.
— Acho que sempre fui. Não houve uma escolha. Desde a
primeira troca de palavras, ele me encantou.
Ela me olha como se soubesse um segredo do qual eu não faço
a menor ideia, então continuo.
— Tenho medo de me machucar, no entanto. Meu casamento
falso não foi capaz de me magoar porque eu nunca o amei, mas
Christos poderia me destruir.
— Não sou porta-voz dos sentimentos alheios, filha. Cada casal
tem seu próprio ritmo e história, mas meu menino sente o mesmo
que você. Ainda que ele não tenha colocado em palavras, eu o
carreguei durante nove meses e conheço meu garoto. Como o pai,
ele só ama uma vez e você, minha linda, é a eleita.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 44
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
Volta para Boston
 
Três dias depois
 
 
— Como está se sentindo? — ele pergunta.
Estamos quase chegando na casa que alugou para os meus pais.
— Ansiosa. Sei que é besteira porque falo com eles ao telefone,
mas meu pai e mamãe são tudo o que tenho no mundo. Minha
verdadeira família, já que o que sobrou da biológica em Boston,
tirando a prima de quem lhe falei, Madeline, não me dá a mínima.
Ela contou que era parente dos Turner de Boston. Eu tive o
desprazer, em um jantar de gala para caridade há alguns anos, de
conhecer a tia a quem se referiu, Adley. É insuportável, soberba e
age como se o universo devesse ficar grato por ela respirar o
mesmo ar que o resto da humanidade.
— Eles estão bem. — falo, me referindo aos seus pais.
— Eu sei e agradeço muito por isso. 
— Não entendeu ainda, depois de tudo o que passamos, que não
há nada que eu deixaria de fazer para vê-la feliz, Zoe?
Não estou brincando e acho que ela percebe, mas depois de me
olhar rapidamente, muda de assunto.
— As ruas parecem como uma série de tv. O apocalipse, como se
fôssemos os únicos sobreviventes.
— Quem tem o privilégio de poder trabalhar em casa, está sendo
consciente. 
Rodamos de carro e minha atenção que estava inteiramente nela,
muda para conferir o que comentou. Raramente um automóvel
passa por nós.
— Muitos perderam seus empregos — diz.
Para todos os lugares que olhamos, as poucas pessoas nas ruas
estão usando máscaras.
A notícia de que a primeira vacina começará a ser fabricada
dentro de um mês[43] surpreendeu até mesmo a minha mãe, que é
uma otimista por natureza. Odin, mais uma vez, estava certo.
Entretanto, acho que mesmo que as pessoas comecem a ser
vacinadas, o mundo nunca mais será o mesmo.
Acredito que custará um bom tempo até que se sintam seguras
outra vez. Talvez nunca mais aconteça. Somente na próxima
geração ou além. Meus filhos provavelmente só falarão sobre isso
como uma fase ruim, mas para nós, é uma nova realidade.
Filhos? De onde surgiu isso?
Apesar de ser algo que eu deseje para o futuro, nunca me vi
pensando nos meus descendentes, como aconteceu agora.
— Reparou que mesmo tomando distância, as pessoas param
para se cumprimentar? — ela pergunta, enquanto entramos no
bairro familiar no qual os pais estão morando.
— Acho que a maioria sente falta de conversar,principalmente
quem vive sozinho. Nem todos têm a sorte de ficarem trancados
com uma top model.
Olho para ela, escondendo um sorriso e bem a tempo de vê-la
revirando os olhos.
— E eu, com um CEO grego. Sorte a minha, perda das outras.
— Que outras?
Ela me olha rapidamente, mas torna a desviar.
— Não é da minha conta. Falei por falar.
— Eu não dormi com outra depois que nos conhecemos em
Barcelona. Não sou guiado pelo meu pau. Quando desejo uma
mulher, é só ela quem eu quero, mas geralmente não dura.
— Não quero ouvir sobre isso — diz, parecendo puta comigo.
— Mas precisa, porque sei que se sente insegura. Estou com
você, Zoe, não porque temos que ficar trancados em casa, mas
porque eu quero. Se estivesse apenas atrás de sexo, um
telefonema resolveria meu problema. Eu desejo mais.
— Pode parar o carro um instante? Me deixa nervosa brigar
enquanto dirige.
— Estamos brigando?
Ela não responde, mas assim que encontro um acostamento,
solta seu cinto e vem para o meu colo.
— Nunca fui boa em interpretação de texto.
— O quê?
— Estamos juntos para valer? Tipo mergulhando de cabeça em
uma possibilidade de futuro?
Suas mãos seguram meu rosto para que eu não desvie o olhar.
Não haveria necessidade. Eu não quero parar de encará-la
quando respondo.
— Sim, estamos juntos para valer. Está pronta para isso?
Meu coração bate de uma maneira quase dolorosa. Mesmo que
ela tenha dito que me ama, um pensamento invade.
E se o contrário for verdadeiro e ela só está comigo porque não
tem mais para onde ir?
— Pronta para quê? Palavras, Christos. Me dê com todas as
letras o que quer de mim. De nós dois.
— Tudo. Um futuro. Nada mais de fugas, nem físicas e nem
mentais, Zoe. Eu quero tudo.
Ela me olha como se tentasse conhecer todos os meus
pensamentos. Parecendo convencida, em seguida me puxa para um
beijo que me faz esquecer de onde estamos e desejar me enterrar
em seu corpo.
— Tanto quanto me agrada a ideia de rever seus pais, estou
louco para chegar em casa.
O canto de sua boca se ergue.
— Tem que trabalhar, doutor Lykaios?
— Muito. Dentro de você, metendo profundamente. Está
totalmente curada dos machucados nos pés e nas mãos, então
podemos foder com menos cuidado.
Ela fica vermelha. Já reparei que sempre que ajo como sou de
fato, sem usar palavras bonitas para dizer o que quero, ela cora,
mas também fica excitada.
— Isso quer dizer que até agora o que fizemos foi suave?
Parece sem fôlego.
— Mais tarde você vai descobrir.
 
 
 
— Se houve algo de bom em meio a tanta morte e medo, foi as
pessoas voltarem a prestar atenção em seus entes queridos — a
mãe dela fala.
Estamos conversando do lado de fora da casa há quase duas
horas e percebi que ao contrário do que acontece com a maioria das
pessoas com quem convivo, não sinto vontade de ir embora.
Socializar para mim geralmente não é algo natural. Faço com
moderação. Eu e Zoe temos isso em comum, mas no meu caso não
é por timidez, é falta de vontade de conversar mesmo. Os pais dela,
entretanto, são bem interessantes e o Scott levantou uma hipótese
que eu já considerara: que mesmo quando a vacina começar a ser
fabricada, não erradicará a doença, por conta das mutações do
vírus. É mais provável que a tomemos para o resto da vida, como
acontece com a da gripe.
— Eu também era assim — falo, um pouco envergonhado. — Mal
tinha tempo para comer. Raramente almoçava, sempre envolvido
em mil compromissos. 
— E o que mudou? — Zoe pergunta.
— Antes eu a vigiava à distância, agora estou obcecado em fazer
isso de perto. — digo, muito mais sério do que brincando.
Não sei o quanto ela contou de nós dois para os pais, mas ambos
começam a rir, enquanto Zoe fica rubra.
— Meu perseguidor particular. — Ela se recupera e me enfrenta.
— Pode apostar nisso. — Pego sua mão e dou um beijo. — Mas
agora, eu vejo as coisas de modo diferente.
— Como assim? — Scott pergunta.
— Eu quero ajudar as pessoas. Sempre fiz doações generosas
para diversas causas, mas quero algo mais efetivo, como construir
hospitais de boa qualidade e mais acessíveis a quem não tem como
pagar por um bom plano.
— É, infelizmente essa é uma das mazelas do nosso país, meu
filho. O acesso à saúde para todos os cidadãos de classes sociais
menos privilegiadas, ainda é um sonho. Mesmo antes dessa
situação que estamos vivendo, algumas pessoas ficavam doentes e
se recusavam a procurar atendimento com medo de acumular uma
dívida enorme depois[44].
— Eu tenho algumas ideias — Zoe diz.
— Sobre ajudar as pessoas?
— Sim. Sempre me preocupei com o futuro da humanidade, mas
tenho minha atenção voltada para crianças e idosos principalmente.
— As duas extremidades — digo.
— Isso. Os idosos merecem um fim de vida digno e muitas vezes
não têm qualquer familiar por perto. Andei pesquisando nesse meu
tempo livre nas últimas semanas e imaginei centros recreacionais.
Uma espécie de clube gratuito onde eles possam se reunir para
jogar, conversar, fazer uma refeição se estiverem com fome. —
Pausa para ganhar fôlego. Ela é linda em qualquer momento, mas
assisti-la defender suas ideias de maneira tão apaixonada me mata
de tesão. — Eu pensei que quando tudo voltar ao normal, podemos
procurar voluntários que estejam dispostos a dar uma hora de seu
dia para somente ouvi-los nesse centro. Às vezes, tudo o que uma
pessoa precisa é de uma palavra amiga. A solidão pode ser tão letal
quanto uma doença.
Ofereço a mão, convidando-a para o meu colo.
— Cada vez que eu penso que não tem como me fascinar mais,
você me prova que estou enganado.
Sorri, envergonhada, talvez por estarmos na presença de seus
pais, mesmo que não tenha motivo para isso. Foi com alívio que
Scott e Macy receberam a notícia de que o casamento dela é
inválido e meus advogados já estão tomando as providências para
que Zoe nunca mais seja associada àquele verme.
— Fico feliz em saber que tem planos para ajudar a humanidade,
Christos. Espero que outros empresários como você, se
conscientizem. Talvez o mundo estivesse precisando dessa pausa. 
Concordo em silêncio. 
Vivíamos de tal modo acelerados, achando que éramos imortais
— ou ao menos que tínhamos muito tempo de vida — e de repente,
Deus vem e nos prova que talvez nossa passagem nesse planeta
seja mais curta do que imagináramos.
— Contou que tem planos de irem à Grécia para Zoe fazer um
ensaio. Quando seria isso? — Scott pergunta.
— Precisamos organizar tudo para conseguir que o menor
número de pessoas seja necessário, mas acho que dentro de um
mês, no máximo, viajaremos.
— Aproveitem por mim — Macy diz.
— Em breve você poderá ir conosco.
Zoe se vira para me olhar e vejo milhares de perguntas em seu
rosto. Ela é transparente.
— Sim, conosco — reafirmo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 45
 
 
 
 
Christos
 
 
 
Grécia
 
 
Um mês e meio depois
 
 
 
 
— Com todo o respeito, mas ela é muito linda — Yuri fala do meu
lado, enquanto observamos minha mulher posar para as últimas
fotos do ensaio. Depois disso, estaremos oficialmente de férias.
Eu não tenho ciúmes pelos homens a olharem. Como poderia, se
fazer com que a admirem é a profissão dela? Desde que não se
aproximem, estou bem com isso.
Além do mais, sei que Yuri não está falando por maldade. Ele,
como eu, está acostumado a ver mulheres bonitas. Algumas são
lindas depois de arrumadas, outras, em fotografias, após muitos
efeitos de imagem, mas eu já vi Zoe de tudo quanto foi jeito: cabelo
molhado, suada, de casaco de moletom e produzida como agora.
Posso falar sem medo de errar que, para mim, não tem mulher mais
bonita no mundo. 
Talvez o que me fascina não tenha somente a ver com sua
aparência física, mas o conjunto da obra. 
Ela é tímida, mas também safada durante o sexo. Não pede ou
fala muito, mas entra na minha, se permitindo experimentar tudo.
Sinto meu pau ficar pesado quando me lembro de como
transamos na praia ontem de madrugada.
Zoe me cavalgando à luz da lua é uma memória que sempre voucarregar.
E há o outro lado. Algo que nunca encontrei em uma mulher —
talvez porque também não tenha desejado. 
A mistura de doçura e determinação. Sua coragem de intervir
quando acha que estou trabalhando demais e precisando de uma
pausa.
Sem o menor constrangimento, ela vem para o meu colo e me
beija, pouco preocupada se estou fechando uma negociação.
Como se isso não fosse o suficiente, ainda há as pequenas
coisas, como ligar para a minha mãe todos os dias, assim como faz
com a dela, para saber se eles estão bem ou precisando de algo.
Meus pais chegam amanhã de manhã, mas nós estamos aqui já
há uma semana. Não fazia sentido trazê-los antes quando não
poderíamos lhes dar atenção.
Eu nunca havia participado de uma seção de fotografia para um
catálogo. Principalmente por falta de interesse mesmo, mas sabia
do trabalho que dava. 
Entretanto, não pensava pelo ponto de vista das modelos. Ela
deve estar exausta de ficar o dia todo de salto alto e biquíni — que
por sinal, está me deixando louco.
— Hey, chefe, não falei por mal. — Yuri me chama a atenção,
interpretando errado o meu silêncio.
— O quê? — Volto a encará-lo a tempo de ver um sorriso mal
disfarçado.
— Deixa para lá, Christos. Já entendi. Seu problema não é
ciúmes de mim, mas estar hipnotizado por sua mulher.
Meia hora depois, Zoe finalmente vem para perto de nós.
Percebo o olhar da equipe e também das duas outras modelos
que participaram do ensaio e chegaram há três dias.
Ignoro a todos.
Yuri definiu bem: estou completamente hipnotizado pela minha
sereia.
— Quer nadar? Estou morrendo de calor — diz, me abraçando.
— Sim, mas não na praia. Vamos para casa.
— Todos irão embora ainda hoje, não é?
— Sim. E a ilha será nossa.
— Por vinte e quatro horas, até seus pais chegarem. Ah, e não
podemos esquecer de uma dúzia de funcionários.
— Eu avisei que não precisavam vir cuidar da casa, mas eles não
me deram ouvidos.
— Ah, coitadinho do magnata grego. Aqui ele não é o todo
poderoso CEO, é só um garotinho.
Dou um tapa na bunda dela para castigá-la por ser tão
debochada.
Eu contei que foi nessa ilha que nasci. Onde toda minha família
morou a vida inteira. Meus pais eram empregados e quando minha
avó morreu, foi a deixa para irmos embora. Voltei assim que ganhei
dinheiro o bastante e a comprei porque sei que meu pai tem uma
ligação emocional com o lugar. O que eu não contava, é que
também voltaria a me apaixonar pela minha terra.
— Eles ainda me veem como um menino. Não há como
convencê-los de que agora sou Deus — brinco, mas não muito.
Ela ri. A mulher descarada ri de mim.
— Deveria massagear meu ego, dizendo algo bem clichê como
“você é meu deus grego, Christos.”
— Não precisa de massagem no ego, senhor. Tenho certeza de
que já teve um grande contingente feminino fazendo isso antes de
mim. Além do mais, tenho planos que envolvem massagem, mas
não a do seu ego e garanto que vai preferir.
Seu sorriso malicioso me faz ter certeza de que esses planos
envolvem nós dois nus.
Abaixo-me a seus pés e a livro dos saltos altos. Depois, pego-a
no colo e começo a andar para casa, sem olhar para trás.
— Acho que não vejo mais vocês — Yuri diz, quando passamos. 
— Adeus, Yuri. Não mostre sua cara feia para mim pelas
próximas duas semanas.
— Ele não é feio.
— Cuidado, mulher, posso puni-la por paquerar meu assistente.
— Eu, paquerando seu assistente? Como poderia, se tenho meu
próprio deus grego para me dar todo o prazer que desejo? — a
safada fala e depois dá uma piscadinha. — Clichê o suficiente, meu
rei?
— Ah, Zoe, eu vou gostar tanto de te colocar de quatro na cama
e foder duro.
Ela engole em seco.
— Espero que sim — diz, com um olhar enigmático.
Entro direto para o quarto. Só estamos nós dois na casa porque a
essa altura, os empregados já se foram.
— Ponha-me no chão e fique nu.
Levanto uma sobrancelha, surpreso.
— Não me faça repetir isso, Lykaios. Prometo que valerá a pena,
mas não sou tão corajosa ao ponto de lhe fazer um segundo
convite. Tire sua roupa e deite-se de bruços na cama.
— Por quê?
Suas bochechas ficam vermelhas.
— Quero testar algo que eu li.
— Vai ficar nua também?
Um aceno de cabeça é a minha resposta.
— Tire o biquíni para mim, Zoe.
Ela não hesita. Leva a mão atrás das costas e solta o laço do
bustiê tomara-que-caia.
Os mamilos estão rígidos, assim como meu pau.
Passo a língua no lábio inferior.
— A calcinha, agora.
Ela a desce pelas coxas esguias.
— Jesus, Zoe, não há uma maldita vez que eu a veja nua que
isso não me enlouqueça.
Ameaço dar um passo à frente, mas ela me para com a mão
erguida.
— De jeito nenhum vai estragar meus planos. Nu, agora, Lykaios.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 46
 
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
 
 
Sem deixar de encará-la, tiro a camiseta branca e em seguida,
desço o jeans e a boxer. Meu pau salta duro, grosso, apontando
para cima e ela arfa.
— Eu lhe pedi para deitar de costas, mas vou ter que adaptar.
Não consigo segurar um sorriso.
— Tem ideia de como me deixa louco com essa mistura de
inocência e ousadia?
— Vá para a cama ou vou esquecer todo o roteiro, Christos.
Obedeço, curioso sobre a tal massagem. 
Ela vai ao banheiro da suíte e quando volta, tem um vidro na mão
que lembra perfume.
— Óleo perfumado — diz, como se pudesse ler minha mente.
— Está mesmo comprometida com a ideia da massagem — falo,
tentando manter meu tom neutro, quando na verdade já estou louco
de tesão, imaginando aquelas mãos pequeninas em mim.
— Faço tudo com comprometimento, grego, e meu objetivo hoje
é… — pausa, abrindo o vidro — enlouquecer você.
Ela vem para a cama e se ajoelha perto dos meus tornozelos. 
— Vou testar uma massagem tântrica[45] — diz, mas sem me
tocar ainda.
— Mesmo? — Mal consigo me ater ao que ela fala. Zoe me
descontrola, bastando para isso respirar, e vê-la tão próximo e nua
está roubando qualquer concentração.
— Sim. Sabe para que serve?
— Não tenho certeza. 
— Eu li que ela é um bom caminho para se conectar com o
parceiro. — A mão finalmente encosta no meu pé e é como levar um
choque de luxúria. O óleo está morno.
Usa ambas as mãos agora e estão meladas com o óleo. Começa
a subi-las pelas minhas pernas e meu coração acelera. 
— Faça o que quiser, Zoe, mas depois eu vou te pegar tão
gostoso. Você vai gritar meu nome cada vez que eu estocar nessa
bocetinha apertada.
Ela morde o lábio e eu tenho certeza de que se a tocar agora, vai
estar encharcada.
Zoe não brincou quando disse que estava comprometida com a
massagem, no entanto, porque ela pressiona a minha pele. Está
tocando minhas coxas, muito perto do meu pau e juro por Deus que
sinto dor física de tanto desejo.
Surpreendendo-me, torna a abrir o vidro e passa óleo nos seios.
Puxa os mamilos duros, esticando-os e eu rosno porque não
consigo me conter.
— Porra!
Sorri, de cabeça baixa e se inclina para a frente.
Quase enlouqueço quando, segurando ambos os peitos, prende
meu pau entre eles e começa a me masturbar. Ergo-me da cama e
ela para.
— Não se mexa ou farei greve de sexo hoje.
Volto a me deitar e vale muito a pena, porque a boca macia se
abre e ela passa a combinar chupadas na cabeça do meu pau com
a masturbação.
Agarro os lençóis do lado da cama, me obrigando a ficar imóvel.
Ela me suga com fome, a língua deslizando em toda minha
extensão e tenho que pensar em tudo que eu mais detesto para
refrear meu gozo.
Acho que está fazendo algum tipo de jogo também, porque
quando percebe que estou no limite, para.
De novo fica de joelhos na cama e passa as mãos com óleo no
próprio corpo. Abdômen, coxas e bunda.
Deita-se sobre mim e começa a se esfregar, deslizando. Eu a
subo um pouco para colocar os peitos na altura da minha boca.
Ela parece que vai protestar, mas não permito, mordendo o
mamilo, sugando duro.
Grita e começa a esfregar o clitóris no meu comprimento.
— Tão safada. Essa boceta gostosa está louca para gozar, não
é?
— Sim, mas como eu disse, Lykaios, tenho planos.Ela gira em meus braços, deitando-se de costas sobre meu
corpo.
Olha para trás.
— Por que não me massageia também?
— Só se for do meu jeito. 
Antes que se dê conta do que está acontecendo, com os meus
pés, separo suas coxas.
Dedilho sua boceta. O polegar atacando o ponto de prazer
enquanto meu dedo médio entra inteiro nela, que geme e rebola.
Meu eixo se encaixa entre as bochechas de sua bunda e minha
respiração fica ruidosa.
— Brinque com seus peitos — comando.
Aperto seu ventre, continuando a me masturbar em sua bunda,
enquanto outro dedo acompanha o primeiro, dilatando seu sexo. 
Movendo-se também, ela sobe, fazendo minha cabeça se
encaixar perfeitamente em sua abertura intocada. Empurra contra
mim e meu pau engrossa mais.
Estou entendendo direito?
Faço um teste, retirando os dedos de dentro dela, escorregando-
o entre suas pernas até alcançá-la por trás. Pressiono um e ela
rebola.
Porra!
Meu dedos estão melados dos líquidos de seu sexo.
— Olhe para mim. Se quer isso, vai me olhar, Zoe. 
Estou louco de tesão.
Giro-a de frente e agora estamos cara a cara.
— Abra as pernas bem amplas.
Sua respiração está acelerada. Quando volto a pressioná-la por
trás, me morde e lambe.
— Quer que eu te foda aqui?
Insiro a ponta do meu dedo nela e rebola, ansiosa.
— Não quero te machucar.
— Estou sonhando com isso. Em te pertencer completamente. 
Merda. Essa mulher vai ser a minha morte.
Movo seu corpo de cima do meu, deixando-a na cama de bruços.
Coloco um travesseiro sob ela.
— Abra essa bunda bonita para mim. Eu quero ver você.
Ela hesita, mas obedece.
Linda para caralho, morrendo de tesão, se oferecendo.
Me abaixo e a chupo, a língua brincando onde nunca foi tocada.
Uso seus líquidos para lubrificá-la, mas não acho que será
suficiente, então abro o vidro de óleo e melo um dedo com ele.
Brinco na abertura, pressionando mais do que metendo.
Deixando-a se acostumar enquanto mordo a carne dura das
nádegas e coxas.
Ela geme e posso ver os fluidos escorrendo de seu sexo sedento.
Inclino-me para frente e encaixo meu pau em sua boceta. Não sou
delicado. Meto tudo até a base. 
Gritamos de tesão.
Afasto o cabelo de sua nuca e mordo forte. Quero marcá-la para
que se lembre de que é minha.
— Mais. 
— Mais o quê?
— Mais duro. Não se segure, mostre-me que sou sua mulher.
Fico de joelhos e a ergo, fodendo-a de quatro. Bato sem pena, os
impulsos dos meus quadris fazendo com que seu rosto fique
encostando na cama. 
Ela começa a apertar meu pau. Seus músculos internos me
enlouquecendo. 
Toco seu clítoris, beliscando-o de leve, do jeito que sei que a faz
gozar e como eu esperava, não se passa meio minuto e ela geme,
vindo toda para trás, me tomando até as bolas.
Cai na cama exausta, mas não estou nem perto de acabar.
Me retiro dela e com a cabeça do meu pau encharcada com seus
líquidos, brinco em seu lugar virgem.
— Peça-me para parar — comando, completamente louco.
Alucinado de desejo por saber que vamos derrubar a última barreira
entre nós.
— Não. Eu quero você dentro de mim. Quero que me possua de
todas as maneiras. Sou sua mulher.
Ainda está melada com o óleo e eu, escorrendo de seu gozo.
Encaixo-me nela, inclinando para a frente, mas sem soltar o peso.
Quando me sente tocá-la, rebola.
— Shhhh… não empurre ainda. Não quero que sinta dor.
Ela fica parada e espera. Achei que já havia experimentado todas
as formas de loucura com Zoe, mas essa nova experiência está me
tirando de órbita.
Empurro um pouco e senti-la se abrir me faz trincar os dentes. É
quente e apertada para caralho.
Desço a mão para sua boceta, massageando o clítoris e devagar,
mas com determinação, vou abrindo passagem em seu corpo. 
Grita, em um choramingo de dor e prazer, mas não foge. Empina
a bunda ao invés disso e meto mais.
— Que delícia, Zoe.
Passo o braço pela frente de seu pescoço e ombro e dou um
impulso que me faz entrar pela metade. 
Ela me morde.
— Eu vou te foder tão gostoso. Enchê-la com meu esperma. Vou
fazer escorrer em suas coxas e boceta.
— Ai, meu Deus!
Enfio dois dedos em seu sexo e ela me suga para dentro. 
— Gosta assim? Ser tomada por mim de todas as formas ao
mesmo tempo?
— Eu sou sua e você é meu. Eu adoro tudo o que fazemos.
E com isso, ela derruba meu último resquício de consciência e eu
me arremeto inteiro nela. 
Grita. Chora. Morde. Enrijece embaixo de mim.
— Minha. Você é minha.
Acho que precisava ouvir aquilo porque um instante depois, sem
que eu peça, começa a se mover.
Ajoelho outra vez e a visão do meu pau abrindo-a me deixa a
centésimos de segundo de gozar, mas quero aproveitar a sensação
de estar preso nela.
Começo um vai e vem longo, louco em iguais partes, tanto pelo
prazer de ter seus músculos me apertando, quanto por vê-la
choramingar para fodê-la mais forte.
Minhas mãos são como garras em seus quadris. Eu a mantenho
parada, perdido na sensação de seu calor.
Fodo-a em um ritmo constante, mas perco o pouco de controle
que restou quando sua mão começa a se dar prazer.
— Quer gozar, gostosa?
— Por favor.
— Coloque dois dedos dentro de sua boceta.
Dedilho seu clítoris quando ela me obedece. Em pouco tempo,
está empurrando para trás. 
Jogo para o caralho qualquer tentativa de pegar leve e meto
forte. 
Os uivos, gritos, ordens, pedidos que fazemos ao mesmo tempo,
provavelmente estão sendo ouvido por toda ilha.
Não há pudor ou vergonha. Só uma foda deliciosa entre um casal
louco um pelo outro.
— Eu vou gozar — avisa e agarro um punhado de seu cabelo
loiro.
— Quero mais forte. Aguenta?
— Sim — diz, entre gemidos de tesão.
— Você gosta disso? Eu sei que está adorando. Está
encharcando minha mão, safada.
— Ahhhhh…
Nos perdemos por minutos inteiros, ansiosos pelo prêmio, pela
pequena morte[46]. O percurso tão delicioso quanto o que sabemos
que virá na linha de chegada.
Ela empina uma última vez e vem toda para mim, me tornado um
prisioneiro.
É o meu fim. 
Entro e saio. Quando volto, a encho com meu gozo. 
Como prometi, ele se espalha por sua coxas, escorrendo.
O neandertal dentro de mim quer bater no peito.
Minha mulher.
— Eu te amo, Zoe. Desde sempre, para sempre.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 47
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
 
 
— Disse aquilo no calor do momento? — pergunto.
— Não. Eu amo você.
Abro os olhos, finalmente desperta. Ainda não estou recuperada
de tudo o que aconteceu. Um pouco de desconforto no corpo não é
nada perto da sensação de ser possuída pelo homem que eu amo. 
Estremeço ao lembrar de suas palavras e ações ao me tomar. 
— Sou louco por você. Amor é um conceito simples demais para
explicar, mas vou pegar emprestado até que inventem outro melhor.
Levanto a cabeça do ombro dele e olho para trás.
Christos me preparou um banho de banheira e está me
segurando na água morna por quase uma hora. 
Não conversamos porque não havia nada que pudesse explicar o
que aconteceu. 
A entrega, o desejo. 
Sou dele. Sempre fui dele. Como pude achar que poderia haver
outro?
— Estou bem com amor — falo, virando-me e montando-o de
frente, mas em suas coxas para não provocá-lo.
— É mais, Zoe. Eu lutei contra porque meu orgulho exigia que eu
não a procurasse, mas eu sabia.
— Sabia o quê?
— Que não importava quanto tempo se passasse, nós
pertencemos um ao outro.
— Se não voltássemos a nos ver, você eventualmente
encontraria alguém.
Ele balança a cabeça, fazendo que não.
— Eu nunca amei antes de você e nunca amarei depois. —
Coloca uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. — Acho que eu
sou como meu pai. Não o imagino casando-se novamente caso algo
aconteça à mamãe. Eu sabia que não haveria uma substituta desde
que encontrei você.
 
 
 
 
— Vou me despedir de Yuri — falo, subindo o shorts, mas ainda
sem a parte de cima. Ele entra no closet e pela maneira que está
me olhando, nem parece que fizemos amor de novo depois do
banho.
— Yuri já deve ter ido embora — responde, com o semblante
fechado.
Ambos sabemos que é mentira.O iate ainda está ancorado na
marina.
Viro meu rosto de lado, tentando entender por quê parece tão
zangado de repente.
— Está com ciúme do seu assistente?
— Claro que não.
Escondo um sorriso.
— Não seja bobo. — Me aproximo, ainda sem blusa ou sutiã. —
Sou sua, grego. 
Ele segura meu seio e massageia o mamilo com o polegar.
Gemo.
— É sim. Todinha minha, agora.
Agarro-me a ele, as pernas bambas. Inacreditável o poder que
tem sobre meu corpo.
— Tem certeza de que quer ir?
A autoconfiança em seu tom me faz, mesmo contra a vontade,
afastá-lo.
— Convencido.
Dá de ombros, mas não nega.
Visto a camiseta.
— Só quero agradecer pelo que fez para os meus pais. Com toda
a confusão da gravação dos comercias e as sessões de fotos, não
tive tempo. Ele é um bom amigo e eu valorizo pessoas assim.
— Ele é. Só não agradeça com muita ênfase.
— Jesus! — Rio alto, balançando a cabeça.
Acabo de me vestir e desembaraço o cabelo com os dedos
mesmo. Nem calço a sandália.
Desço as escadas correndo e vou direto para a marina. 
— Yuri!
Ele está entrando no iate de Christos, que levará a equipe,
incluindo fotógrafos, cinegrafistas, maquiadores e as duas modelos,
de volta à costa. Vira para trás quando o chamo.
— Zoe, aconteceu alguma coisa?
— Não — respondo, sem fôlego. — Só queria dizer obrigada.
Você foi muito bom para os meus pais organizando tanto a clínica
para a mamãe quanto a casa para eles morarem nos intervalos da
internação. Tenho uma dívida de gratidão eterna.
— Não foi nada demais. Só fiz o meu trabalho. — Parece ficar
sem jeito.
— Esse é o meu trabalho. Cuidar deles, quero dizer. Mas você foi
maravilhoso. Muito obrigada. 
Dou adeus com a mão e viro de costas para voltar à mansão,
mas antes ouço o comandante gritar que está faltando uma pessoa
a embarcar e que eles têm que sair antes que caia a tempestade
que está prevista.
Pulo o degrau da entrada de dois em dois, e depois de limpar os
pés no capacho, começo a subir para o segundo andar, quando
ouço a voz de Christos. 
— Vista-se. 
Seu tom é duro, implacável. 
Sem ter ideia do que está acontecendo, ando até onde acho que
está — a cozinha. 
— Você não sabe o que está perdendo. — Reconheço que a
pessoa com quem ele está discutindo é uma das modelos que
participaram do ensaio. Meu sangue ferve.
Vista-se?
O que no inferno está acontecendo?
Antes que os alcance, ela fala.
— Se é uma mulher que você quer para passar as férias, por que
não eu? Sou mais nova e mais bonita.
— Saia.
— Ela está aleijada. Aquelas cicatrizes nos pés e principalmente
a da mão são nojentas.
Por um instante, fico abalada. Olho para os meus pés. Sim, ainda
há marcas das queimaduras por minha pele ser fina, mas a
maquiadora conseguiu cobrir tudo. A da mão é um pouquinho pior,
mas não nojenta.
— Fora, porra! O que não entendeu do que eu falei? Você está
demitida. — Christos grita.
Entro na cozinha e na mesma hora, a menina volta a vestir o top
que havia tirado, mostrando os seios para o meu homem.
— O que acha que está fazendo? — pergunto.
Vejo o lábio inferior dela tremer.
— Saia! — meu namorado volta a ordenar.
— Espere um instante. Deixe que ela me responda. O que acha
que está fazendo, Hanna? Disse que é mais nova do que eu, mas
tem ao menos dezoito ou não estaria aqui. Farei vinte e um em
breve, mas essa não é a questão. Já vivi uma vida a mais do que
você. 
— Zoe, eu… — começa, mas eu a interrompo.
— Acha que se oferecendo para fazer sexo, ficando nua na frente
de um homem, ele vai valorizá-la? Em dez anos, se não antes, sua
bunda e peitos vão começar a cair. Força da gravidade, amor. Dela,
ninguém escapa. Nesse ritmo, ficará conhecida não por ser
fotogênica, mas por ter transado com seus patrões. Uma transa
fácil, como se chama em nosso meio.
— Eu sinto muito — a falsa diz.
— Eu não acabei. — Dou dois passos para perto dela. — Essa
que falou com você agora, foi a antiga Zoe. Ainda há um resquício
dela em mim. Ela é boazinha e compassiva. Perdoa fácil também.
Mas para seu azar, aquela menina boba ficou para trás. A que está
no comando agora é a Zoe raivosa. — Dou um tapa de mão cheia
na cara dela. — Nojenta é você, que usa o fato de eu ter cicatrizes
para tentar me diminuir. 
— Você me bateu!
— E vou bater de novo se souber que falou de mim desse jeito. 
— Está com ciúmes porque sabe que disse a verdade. Ele vai
enjoar de você — rosna, o rosto transfigurado em ódio.
— Não me entenda mal, estou com raiva sim porque ele é meu,
mas Christos é grandinho e sabe enxotar mulheres como você. O
tapa foi por ter falado das minhas marcas, mesmo.
— Eu vou processá-la, Turner.
— Faça isso — Christos diz, apontando para as câmeras de
vigilância na cozinha — e no dia seguinte, eu a processarei por
assédio sexual.
Yuri entra, esbaforido.
— Hanna, o que diabos está fazendo aqui?
— Se oferecendo para o meu namorado, mas perdeu a viagem.
Tchau, Yuri.
Viro as costas e subo a escada correndo. Estou com muita raiva,
talvez mais de mim do que dela, por deixá-la me fazer perder o
controle.
Mal alcanço o quarto, entretanto, e Christos segura meu braço.
— Zoe.
— Não estou chateada com você. Já desfilo há quase dois anos.
Sei bem como é esse meio. Não é a primeira vez que vejo uma
garota mostrar os peitos para um cara como uma espécie de cartão
de visita, mas é a primeira vez que vejo uma fazer isso para o meu
homem. Eu menti. Aquele tapa não foi nada. Queria encher a cara
dela de sopapos.
Ele se aproxima, como quando alguém ronda um animal
selvagem, acho que sem saber qual vai ser minha reação.
— Ciúme?
— Não. Ciúme não define. Vontade de matá-la, isso sim.
— Não foi o que pareceu — diz, me rodeando pela cintura. —
Fiquei preocupado quando ela falou da sua mão. Eu não dou a
mínima. Eu…
Coloco os dedos sobre os lábios dele.
— Eu sei. E eu também não. Poderia ter perdido meus pais e
minha melhor amiga, Christos. Essas cicatrizes não são nada.
Então, não foi minha autoestima o que ela feriu. Era ciúme dos
brabos, mas não daria meu braço a torcer.
Ele ri, o que acaba me fazendo relaxar, apesar de todo o estresse
de uns instantes atrás. Segundos depois, no entanto, fica sério,
colando nossas testas.
— Eu tenho um presente. Ia esperar até seu aniversário de vinte
e um anos, mas não quero deixar mais nada em suspenso em
relação a nós dois. — Ele me dá um beijo leve nos lábios e se
afasta. — Não saia daqui.
— Sim, senhor.
Ouço-o descendo as escadas e volta um minuto depois. Tem um
papel nas mãos.
— O que é isso?
— Abra.
Leio, minha boca ficando enorme.
— Uma fazenda?
— Sim. Na Carolina do Norte. Seu sonho de ser fazendeira agora
se tornará realidade.
— Era um plano distante. Não sei o que fazer com uma fazenda.
— Teremos muitos empregados, mas também podemos aprender
juntos.
Olho para ele incrédula e acho que vê a pergunta no meu rosto,
porque balança a cabeça, concordando.
— Sim, é isso mesmo. Estou lhe pedindo que seja minha.
— Achei que já havíamos ultrapassado essa parte. Eu sou sua.
— Deixa eu tentar fazer melhor, então.
Vai até a mesinha de cabeceira e tira uma caixa de joias de
dentro. 
Em seguida, se ajoelha aos meus pés e meu coração dispara em
uma corrida louca.
— Eu planejei fazer isso com nossos pais presentes, mas nada
entre nós segue um roteiro, Zoe. — Ele abre a caixinha da Tiffany’s
com um anel de diamantes em formato princesa. — Precisei
encontrá-la e em seguida perdê-la, para ter certeza de que é aquela
que esperei minha vida toda. Fui seu perseguidor silencioso. Eu a
amei, mesmo quando eu ainda não sabia que era amor e…
Não aguardo que ele acabe de falar e o puxo pela mão para que
se levante.
— Eu te amo e quero viver ao seu lado por tanto tempo quanto
me restar nesse mundo.
— Você ainda não respondeu.
— Sim. Sim. Sim! Não há nada que eu queira mais do que ser
sua esposa.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 48
 
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
No dia seguinte
 
 
 
— Meus parabéns, filha. Vou parecer muito pretensiosase disser
que sabia que isso ia acontecer?
— Como? — pergunto, sorrindo.
— Estou velha e talvez um pouco fora de forma, mas consigo
reconhecer um casal apaixonado quando vejo. 
— Ah, isso é verdade. Também percebi, quando estiveram lá em
casa. Acho que conhecemos bem nossas crianças, não é, Macy? —
Danae intervém.
Sorrio por ela se referir ao filho como criança. Quando olho para
ele, está balançando a cabeça também, provavelmente pelo mesmo
motivo.
Estamos todos reunidos na casa principal da ilha, contando aos
meus pais, por chamada de vídeo, que vamos nos casar.
Danae e Alekos chegaram hoje cedo e minha sogra — é, acho
que agora posso chamá-la assim — ficou radiante quando soube da
novidade.
Eu ainda não estou acreditando. Sinto-me tão feliz que tenho
medo de que tudo não tenha passado de um sonho.
Hoje cedo, Christos teve uma reunião com a equipe de
advogados. Eles disseram que no máximo em dois meses a questão
do falso casamento estaria resolvida. Meu noivo não gostou e exigiu
um mês como prazo. Depois, me falou que queria que casássemos
tão logo um juiz decretasse a invalidade do meu enlace com Mike.
— Então, pretendem se casar onde?
— Na nossa fazenda — respondo rápido, olhando para Christos.
— Já tem sua resposta, minha sogra. Zoe decide, eu vou lá e
digo o sim.
Reviro os olhos.
— Até parece.
— Quem vê assim, acredita! — a mãe dele diz, rindo. — Você e
seu pai são iguaizinhos. Se eu deixasse, Alekos escolheria até a cor
das minhas peças íntimas.
— Muita informação, dona Danae — meu noivo diz.
Minha mãe gargalha.
O clima é de camaradagem e me pego desejando um futuro com
a casa cheia de filhos, natais em família e muito amor.
Essa parte já está garantida. Eu me sinto amada e acolhida tanto
por Christos quanto por seus pais. Isso no meu mundo equivale a
um prêmio de loteria.
— Vou conversar com Yuri para ver como ele pode me ajudar
com a organização do casamento e tenho certeza de que Bia
também vai querer participar.
— Falando nisso, como ela está? — mamãe pergunta.
— Bem, mas depois do que aconteceu, me disse que pretende
fazer uma mudança de vida. Não quer mais ser olheira e nem
agente. Vai deixar tudo na mão de Miguel e tirar um ano sabático. Já
se recuperou cem por cento do… nosso acidente.
Olho para Christos e vejo seu maxilar trincar.
— Ainda bem que a justiça divina foi feita — a mãe dele diz. —
Aquele homem cruel teve o fim que mereceu. — Completa, se
referindo a Mike.
— Bom, agora temos que ir, minha filha. Adoramos a novidade.
Espero estar bem o suficiente para poder participar do seu
casamento.
— Estará, mamãe. Tenho certeza.
Ficamos mais um pouco conversando na sala, mas minutos
depois peço licença e me retiro. Há algo que preciso fazer.
Subo para o meu quarto. Com o celular e minha bonequinha
Pauline na mão, saio da casa correndo em direção à praia.
Meia hora e muitas fotos depois, sento-me na areia, olhando para
o mar.
— Hey, amiga, espero que consiga ver, aí do céu, o quanto estou
feliz. Vou me casar com meu grego, digo, meu deus grego, de
acordo com o ego dele — brinco. — Não vim falar com você antes
porque logo após o incêndio, minha cabeça estava muito confusa.
Não lido bem com novidades e elas chegaram por atacado. A casa
dos meus pais destruída, Bia em coma e no meio disso tudo, eu
indo morar com Christos.
Sorrio pensando no que ele me disse no outro dia: que a vida deu
voltas para, no fim, acabarmos no mesmo lugar — nos braços um
do outro.
— Nem preciso falar o quanto estou aliviada por meu casamento
com Mike, que nunca saiu do papel, também perante a justiça ter
sido uma mentira. Ele é tão mau-caráter que eu nem consigo
numerar qual das suas ações odeio mais. Não, isso não é verdade.
De tudo o que me fez, o que não vou perdoá-lo jamais foi ter tentado
matar minha família. Deus pode um dia achar que ele merece uma
segunda chance e tirá-lo do inferno que é onde tenho certeza de
que está, mas me reservo o direito de odiá-lo por ora. Enfim, eu só
queria dizer “oi” e reafirmar que não me esqueci do nosso projeto.
As fotos continuarão, mas a carreira de modelo, não por muito
tempo mais, espero. Sempre vou carregar você em meu coração
para onde quer que eu vá, mas chegou a hora de viver um pouco a
minha vida também, Pauline.
— Quer companhia?
Olho para trás e vejo Christos se aproximar.
Dou uma batidinha na areia ao meu lado.
— A sua? Sempre.
— Tirando fotos com sua amiga?
Ele se posiciona atrás de mim, me abraçando com braços e
pernas. Eu me sinto presa em uma muralha. A sensação é deliciosa.
— Sim. Fiquei um tempo sem fazê-lo porque gosto de enviar
boas vibrações quando converso com Pauline e no começo, logo
após o incêndio, eu estava muito chateada.
— Puta da vida.
— O quê?
— Não precisa moderar o que sente, Zoe. Você é humana e tem
o direito de ficar louca às vezes. Não estava chateada, mas puta da
vida, porque aquele desgraçado quase destruiu seu mundo inteiro.
Ele mentiu ao se casar com você já sendo casado. Em seguida, a
roubou e no fim, tentou matá-la. Tem o direito de externar o que
sente. Grite, permita-se xingar e sentir raiva. 
— Eu internalizo meus sentimentos.
— Na maioria das vezes, eu também. Não sou bom com
palavras. Mas não acho saudável que você guarde quando está
com raiva.
— Mesmo que seja de você?
— Principalmente de mim. Nós somos um para sempre. Não
quero um relacionamento de comercial de tv, mas um real. Sou
grego e tenho um gênio infernal. Controlador, arrogante e não tenho
a menor dúvida de que brigaremos muitas vezes.
— Pode apostar nisso. Até porque, adoro as pazes depois. 
Sinto seu peito vibrar às minhas costas e sei que está rindo.
— Vou ter que levá-la para um tratamento de viciados em sexo,
futura senhora Lykaios?
— Não, por favor. Estou bem com o meu vício. Aliás — digo, me
levantando, tirando shorts e blusa, ficando só de biquíni — eu quero
mais.
 
 
 
 
 
Nova Iorque
 
 
 
Um mês depois
 
 
 
 
— Está me dizendo que sou livre agora? — pergunto ao
advogado que conversa comigo e Christos em uma chamada de
vídeo.
— Sim. Na verdade, senhorita Turner, sempre foi. Faltava
somente a justiça reconhecer isso.
Ignorando que estamos na frente de outra pessoa, corro para o
colo de Christos e o abraço.
Eu estava trabalhando em um quadro quando ele mandou que a
empregada me avisasse que queria me ver. Me matriculei em um
curso de pintura online para desestressar. Não sou uma Picasso,
mas gosto das minhas criações. Tem ajudado a controlar a
ansiedade.
Estamos em Nova Iorque agora. Chegamos há três dias.
Voltamos da Grécia para Boston porque eu queria ver meus pais,
mas Christos precisou vir para cá resolver questões de suas
empresas.
— Ouviu isso? Vamos nos casar. — falo para o meu noivo, feliz
feito uma boba.
— Obrigado, Steve — Christos diz, encerrando a chamada com o
advogado. — Amanhã? — me pergunta em um dos seus raros
sorrisos.
— Não tão depressa. Nem dei o sim definitivo ao vestido ainda. E
faltam os detalhes da festa.
— Deixe nas mãos de Yuri. Tenho certeza de que ele resolverá
tudo rapidamente.
— Nas de Bia também. Ela já me disse que quer ser aquela a
organizar nossa festa.
— Por mim tudo bem, senhorita Turner. Desde que isso signifique
que não vou esperar muito até vê-la caminhando para mim vestida
de branco.
— E eu, para tê-lo nu na noite de núpcias.
— Devassa.
— Sua devassa.
 
 
 
 
 
Uma semana depois
 
 
 
 
Termino as últimas pinceladas em um quadro que quero dar de
presente para minha mãe, quando meu celular toca. Não atendo
imediatamente porque não conheço o número, mas o chamador
insiste e bufando, desisto de tentar ignorá-lo.
— Alô? — atendo, mal-humorada.
— Zoe?
— Quem é?
— Nelly Howard. Liguei em má hora?
A mãe de Mike? O que pode querer comigo?
— Hum… não. Sinto muito, não reconheci o número. — e nem a
voz, já que a senhora nunca fez questão de estar comigo. Mas
guardo essa segunda parte para mim.
— Nem poderia. Só nos vimos umavez.
Algo no tom dela me irrita, então decido que não vou prolongar o
sofrimento.
— Não quero ser rude, mas há uma razão em particular para
estar me telefonando? Quando meus pais perderam tudo, pelo que
soube, a senhora disse que não queria contato conosco.
— Sim, eu estava muito revoltada.
— Comigo? Perdoe-me a honestidade, mas foi seu filho quem
tentou me matar e à minha família. Assim, se alguém deveria estar
louca da vida, seria eu.
— Sim, eu sei. Eu estava deprimida. A polícia me notificou algum
tempo depois do incêndio na casa dos seus pais que o meu Mike
havia falecido em um acidente de carro.
— Se está esperando que eu me desculpe por não ter telefonado
para lhe dar as condolências, não vai acontecer. Tenho alguns
defeitos, mas a falsidade não é um deles.
— Não esperava que dissesse que sentia muito e não liguei para
brigar, mas para ter uma conversa franca. Voltei a frequentar a igreja
e o padre me aconselhou a tentar aparar as arestas do passado.
Consertar meus erros.
— Não estou entendendo nada.
— Quando Mike se casou com você, eu sabia que ele já era
casado. Por isso não compareci ao cartório no dia em que vocês se
comprometeram. Não poderia fazer parte naquela farsa.
— O quê? Está me dizendo que sabia que seu filho estava
cometendo um crime, além de enganar a mim e à minha família e se
manteve em silêncio?
— Sim. Sei que o fiz não foi certo.
— Não foi certo? Deixou que seu filho me guiasse para uma
relação de mentira!
— Não peço que entenda minhas razões. Só queria me desculpar
mesmo. Quando for mãe, verá que não há limites para o que faria
por um filho.
— Jamais me tornarei esse tipo de mãe. Amar um filho é educá-
lo com bons princípios e isso inclui mostrar o que é certo e o que é
errado. Quando se omitiu, senhora Howard, compactuou com as
maldades de Mike. Desejo-lhe sorte em tentar seu perdão com
Deus, mas de mim, não o obterá. Tenha uma boa tarde.
Desligo o telefone sentindo o peito mais leve. Talvez seja isso o
que Christos me disse sobre externalizar quando estou com raiva.
Eu poderia ter oferecido meu perdão a ela, mas seria da boca para
fora. Não pretendo alimentar mágoa, mas não quero contato com o
que quer que seja em relação a Mike e isso inclui a mãe dele.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 49
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
Nova Iorque
 
Duas semanas depois
 
 
 
 
— Tenho um presente para você. Acho que vou até dá-lo
antecipadamente, de casamento.
— Limpeza de ratos? — pergunto, acelerado.
Sei que ele está me dizendo que encontrou Howard.
Nunca tive dúvidas de que o faria. Nem por um segundo acreditei
naquela história de carro incendiado. Muito conveniente morrer
assim quando a polícia dos Estados Unidos estava à caça do
maldito.
— Isso. Sabe como sou bom em criar armadilhas para roedores.
Na verdade, em exterminar também. 
— Não foi isso o que combinamos. 
— Combinamos algo? A empresa de limpeza é minha, amigo.
Não preciso de um sócio. Além do mais, no atual cenário mundial,
seria impossível. A limpeza não foi feita nos Estados Unidos, mas
na Nicarágua.
— O quê?
— Aproveite sua vida, Christos. Tem uma mulher linda em casa.
Seu negócio é ganhar dinheiro, não lidar com roedores. Deixe que
pessoas como eu cuidem do lado feio da vida. Eu sempre estarei
vigilante. 
Discordo do que ele disse. Sou capaz de matar sem remorsos por
aqueles a quem amo e Zoe é meu mundo.
Gostaria de ter feito Howard sofrer. 
O que me tranquiliza é saber que se sua morte se deu pelas
mãos de Beau ou dos homens dele, levou horas e foi dolorosa.
Como em uma combinação perfeita, o celular toca, mostrando o
número de Odin. 
— Sua mulher finalmente teve o livro do passado dela fechado.
Prontos para começarem a escrever uma nova história?
— Poético, primo?
Assumo que ele está falando sobre a anulação do falso
casamento, porque não acho que ele teria como saber que Beau
caçou e exterminou Mike. Ou teria?
— Animado, eu diria. Tomar a vacina vai me permitir seguir com
meus planos.
Soubemos hoje que a vacinação terá início em breve.
Ele não elabora a respeito dos tais planos. Nunca falou sobre
isso, mas eu sei do que se trata. Não tento dissuadi-lo, no entanto,
porque em seu lugar, faria o mesmo.
— Então, assim que tomar a vacina irá à Grécia?
— Sim. Para a minha ilha.
— Já é sua?
— Ela e todos aqueles que a ocupam. Principalmente Leandros
Argyros[47].
— E o resto da família dele?
— Não me vingo de mulheres.
— É vingança o que deseja?
— Para que nomear? Mas eu chamaria de um acerto de contas.
Com a outra parte sendo eliminada, não tenho dúvidas. Mas
quem sou eu para julgá-lo se nesse instante estou satisfeito com a
morte de Mike Howard?
— Como soube que o passado de Zoe foi finalmente encerrado?
— Não é porque você me pediu para não intervir que eu parei de
investigar. Você é meu primo. Sua vida é a minha também.
Qualquer um que o ameace, é meu inimigo.
Fico mexido com o que diz. Odin consegue ser ainda mais arisco
do que eu e é praticamente sozinho no mundo. Sei o quanto
significa nossa amizade para ele.
— Isso vale para os dois lados, então tenha em mente que estarei
de olho quando viajar para a Grécia.
— Não tinha dúvidas disso, mas eu tenho tudo sob controle.
— Vai ao nosso casamento?
— Eu não perderia por nada. 
 
 
 
Nova Iorque
 
 
Três semanas depois
 
 
 
 
— O que mais falta?
— Surgiu um imprevisto, mas fora isso, fazer a prova de
docinhos. Com essa história de distanciamento social, agendar um
horário é um verdadeiro caos.
— Poderia ser pior. Eu não imaginava que a vacina ficaria pronta
ainda esse ano. Seus pais e os meus serão os primeiros a tomar.
Nós dois, acho que somente no grupo quatro.
— Talvez não — diz, de maneira enigmática.
— Por que acho que está guardando um segredo?
— Porque eu estou, mas infelizmente sou uma péssima
mentirosa.
Eu estava trabalhando na biblioteca do meu apartamento quando
ela veio falar comigo toda misteriosa. Achei que era algo
relacionado à cerimônia, mas agora percebo que há mais por trás
desse sorriso lindo e dissimulado.
— Não tenho como discordar — falo, chegando a cadeira para
trás e dando um tapinha na minha coxa.
Ela se senta, montando-me de frente.
— Que sou uma péssima mentirosa?
— Aham. A pior do mundo. Ficaria pobre em um jogo de pôquer.
— Isso não faz bem para minha autoestima.
— Ser mentirosa não é uma qualidade, mas, para não destruir
seu ego de vez, saiba que o que a entrega são seus olhos. Eles
brilham como pedras preciosas quando está feliz.
— Nesse caso, um par de óculos escuros resolveria o problema.
Ela está fugindo do assunto e eu, mais curioso do que nunca.
— Disse que além da prova de doces, surgiu um imprevisto. O
que aconteceu?
— Deus, você não deixa passar nada.
— Não. E então?
— Há uma questão com o vestido.
— Achei que já havia se decidido pelo modelo. O estilista da
Vanity[48] não prometeu desenhá-lo?
— Sim, e o fez. Ficou lindo, mas o tamanho está errado.
— O quê?
Ela sorri.
— Vamos ter que reajustá-lo. Alargar um pouco.
Encaro-a sem entender em um primeiro momento, mas então
percebo a felicidade mal disfarçada.
— Engordou? — pergunto para ter certeza, mas meu coração já
está batendo duro contra minha caixa torácica.
— Sim. Dois quilos e acho que ficarei ainda maior em um futuro
próximo.
— Palavras, Zoe. Eu quero ouvir isso. Preciso ouvir isso — peço,
segurando seu rosto. 
Minha mão treme um pouco. Não é fácil me emocionar, mas ela
parece conhecer todos os botões certos.
— Estou grávida — diz, e uma lágrima escorre. — Vamos ter um
bebê. Sei que não foi o que combinamos, mas…
Eu a beijo porque não há nada que possa dizer que vai conseguir
transmitir o que estou sentindo. 
Criamos uma vida. 
Meu amor por ela, agora vai ser materializado através de um
pedaço de nós dois.
Quando afastamos as bocas, está sorrindo.
— Eu fiquei com receio de contar porque não havíamos
conversado sobre isso ainda, mas estou tão feliz. Quase levitando,desde que descobri hoje cedo. 
— Achou que eu não ficaria?
— Sei que me ama. Sinto isso em cada célula do meu corpo, mas
filho é uma responsabilidade eterna.
— Lido bem com elas, mas isso aqui — falo, colocando a mão
sobre seu ventre — não é responsabilidade para mim, é nosso amor
e futuro. Meu mundo.
Ela se aconchega nos meus braços e deita a cabeça em meu
peito. Eu a seguro apertado. 
Acredito que tudo tem uma razão de ser. Não foi coincidência,
mas a mão do destino intervindo que fez com que Beau descobrisse
e eliminasse Mike Howard há algumas semanas. Aconteceu no
momento certo, como se as peças do tabuleiro da vida estivessem
finalmente se encaixando em seus devidos lugares.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 50
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
Dois meses depois
 
 
 
— Pode ser que fique com o braço dolorido, senhorita — a
enfermeira que acaba de aplicar a primeira dose da vacina me diz.
Ao contrário do que pensávamos a princípio, já há vacina[49] para
todos, mesmo que inicialmente tenham dado preferência aos idosos.
Resolvi esperar para me casar depois de tomá-la, porque mesmo
correndo o risco de estar mais cheinha no dia da festa, fico mais
tranquila por saber que eu e os convidados estaremos imunizados.
Bia veio comigo. Essa é a primeira vez que nos encontramos
depois de toda a tragédia, mesmo que tenhamos nos falado ao
telefone quase todos os dias. Agora, principalmente em relação ao
casamento.
— Não gosto de sentir dor — ela diz à atendente, levantando a
manga da blusa para receber sua dose.
— A outra opção é muito pior — pondero.
— Nem me fale. Graças a Deus a vida finalmente voltará ao
normal. Assim que você se casar, enfim vou sair de férias para o
Caribe, dando início ao meu tão sonhado ano sabático.
— Cruzeiro? — pergunto, enquanto andamos de volta em direção
ao carro. 
— Não. Uma amiga se casou com um milionário. — Ela para e
sorri. — Uma outra amiga minha, além de você — se corrige —
casou com um milionário. Até porque, em relação a Christos, o
correto é dizer bilionário.
— E vai lhe emprestar uma ilha? Se queria viajar, poderia ir para
a de Christos, na Grécia.
— Ciumenta. 
— Sou mesmo.
— Quem sabe durante as minhas andanças no próximo ano, não
acabo passando por lá?
— Basta me avisar se quiser mesmo ir.
— Por falar em Grécia, o comercial e o catálogo que você fez na
ilha de Christos estão espalhados pelos quatro cantos do mundo.
Tem ideia de quantos telefonemas e e-mails Miguel tem recebido
todos os dias de marcas querendo que as represente?
— Vamos ficar ricos — brinco.
— Você já é rica. O contrato que fechou com Christos a elevou
para um patamar invejado pela elite das passarelas, mas segundo
Miguel, recebeu uma proposta da concorrente da Vanity. Eles estão
dispostos a dobrar a oferta de Christos por um contrato exclusivo e
ainda arcar com sua multa com ele, caso você se decida a mudar de
barco.
— Essa empresa sabe que meu grego não é só empregador, mas
futuro marido também? 
— Provavelmente sim, mesmo que vocês ainda não tenham
anunciado o casamento em público.
— Porque Christos decidiu fazer isso em nossa ida à ópera, em
uma apresentação exclusiva para a alta sociedade, daqui a pouco
mais de um mês. Minha barriga já estará visível e os fofoqueiros de
plantão vão ter dois assuntos para comentar de uma vez só. Será
até bom, porque quando souberem que estou grávida, rapidinho vão
desistir de me oferecer uma fortuna para desfilar.
— Não sei. Do jeito que esse novo comercial da Vanity está
sendo comentado, acredito que eles até mesmo esperariam você ter
o bebê.
— Duvido muito que não se saiba que eu e Christos estamos
juntos. As fofocas correm a solto em nosso meio e se for esse o
caso, acham mesmo que eu romperia um contrato com meu futuro
marido em troca de mais dinheiro?
— Amor, você não sabe o que algumas pessoas são capazes de
fazer por umas verdinhas a mais no banco.
— Algumas pessoas, não eu. Ainda que não fosse apaixonada
por Christos, dinheiro algum me faria quebrar o contrato. Vou ficar
exclusivamente com a Vanity pelos cinco anos combinados e
depois, parar de vez de modelar.
 
 
 
 
 
 
Noite de Ópera em Nova Iorque
 
 
Um mês e meio depois
 
 
 
— Estou um pouco ansiosa — falo, antes que ele abra a porta da
limusine. — Não, deixe-me corrigir isso. Estou muito ansiosa.
— Eu sei. Já a conheço, Zoe. Está dando choque de tão elétrica.
— Eles vão me devorar viva quando eu sair do carro.
Principalmente devido ao vestido que escolhi.
Ele olha para a minha barriga arredondada. Por ser magra, se eu
colocasse um vestido solto, ainda daria para disfarçar, mas com
esse colado e tomara-que-caia, não haverá dúvidas.
— Fez de propósito?
— Sim, não tenho vergonha dos nossos meninos. 
Descobrimos que teremos gêmeos. Foi uma surpresa e uma
alegria também. Dois bebês ao mesmo tempo é uma benção. Eu só
não entendi como seria possível, até que conversando com
Madeline ao telefone — minha prima e acho que a única familiar
sanguínea que gosta de mim — ela me disse que sua mãe já
sofrera um aborto de gêmeos. Depois, contou sobre alguns casos
na família e acha que provavelmente é por isso que fui premiada.
Ela é um amor e vai estar aqui essa noite — infelizmente, a bruxa
da mãe dela também, mas a vida não é perfeita, né?
— Fodam-se os fofoqueiros, Zoe. O que importa somos nós dois.
Ou melhor, nós quatro. Ninguém vai fazer com que nos
envergonhemos da nossa família.
— Nunca. Acho que a ansiedade é mais porque não gosto de
chamar atenção.
— Não chamar atenção no seu caso é impossível. Você é linda.
Entre de cabeça erguida. Estarei ao seu lado a cada passo.
A porta do carro se abre e vejo os guarda-costas já posicionados.
Christos sai, me oferece a mão e assim que me ergo, fico cega com
os flashs dos fotógrafos. É assustador, porque mesmo com a
barreira humana formada pelos seguranças, eles parecem moscas
em cima do mel.
É como se agora que estão todos vacinados, deram a si mesmos
o direito de esquecer a boa educação.
Estou acostumada com o assédio, principalmente ao fim dos
desfiles, mas o que está acontecendo hoje é surreal. 
Só pode ser por conta dos comercias da Vanity. Ou por estar de
braços dados com Christos. Ou talvez pelo conjunto da obra.
Mantenho um sorriso congelado, impessoal e meu rosto está
duro de tanta tensão. A única coisa que me tranquiliza um pouco é o
braço de Christos em volta da minha cintura enquanto a outra mão
protege meu abdômen.
Ignoro as perguntas que parecem vir de todos os lados,
concentrada em não tropeçar.
Meu coração bate muito rápido e sinto as mãos geladas. Está
sendo mais difícil do que eu imaginara e só consigo respirar aliviada
quando finalmente entramos no prédio onde se localiza a ópera.
— Tudo bem? — Christos pergunta.
— Sim — minto e depois me corrijo. — Ansiosa.
Ele beija meus lábios. 
— Eu não queria estar aqui também, mas precisávamos dessa
aparição pública ou o mundo viraria de cabeça para baixo quando
descobrissem do casamento e da gravidez. Vai ser melhor assim.
Amanhã, Yuri colocará um anúncio oficial nos jornais.
Aceno com a cabeça, rezando para a noite passar rápido.
— Zoe? — uma voz hesitante me chama e me viro para ver quem
é.
Minha prima, Madeline Turner.
— Nem acredito que finalmente nos reencontramos. — diz. 
Não nos beijamos ou damos as mãos. É horrível, mas as
pessoas têm evitado fazer isso mesmo depois de vacinadas. Acho
que essa será outra cicatriz na memória coletiva: o medo de abraçar
e beijar.
— Madeline, estou tão feliz de vê-la. Está linda.
— Obrigada — diz com timidez. 
Ela é realmente linda. Pele clara, cabelos da cor de chocolate,
enormes olhos azuis e delicada como uma fada.
Usa um vestido longo, vermelho, chamativo e que não combina
em nada com sua personalidade. Tenho certeza de que não foi ela
quem o escolheu.
— Madeline, esse é meu futuro marido, Christos. Christos, essa é
minha prima de quem lhe falei, Madeline.
Eles trocam amenidades e umhomem se aproxima, chamando a
atenção do meu noivo. Volto-me para falar com ela, mas congelo ao
ouvir alguém dizer.
— Zoe, que maravilha reencontrá-la, filha!
Ai, Jesus. Falsidade tem nome e sobrenome: Adley Turner, minha
tia. Ou melhor, a mãe de Madeline, já que nunca foi uma tia para
mim.
E “filha”? Ela me ofereceu um uniforme de copeira da última vez
que nos vimos!
Viro-me em direção à voz, de má vontade.
A mulher tem um sorriso tão escancarado — e fingido — que
parece que fez uma tatuagem no rosto.
— Nunca mais me procurou, mas não sou de guardar rancor,
então, vou desconsiderar sua ingratidão.
Não consigo segurar uma revirada de olhos.
— Estou muito feliz com o sucesso na campanha — diz, mas
olhando para minha barriga de gravidez bem marcada no vestido.
Talvez eu esteja muito sensível, mas sinto como se ela
insinuasse que consegui o trabalho pelo golpe da barriga, já que a
Vanity é de Christos.
— Obrigada — respondo seca.
— Mas vejo que não poderá fotografar por um bom tempo de
agora em diante. 
Dá um passo para frente com a mão esticada, como se fosse
alisar meu ventre. Ando para trás, mas antes que eu possa me
afastar mais, a voz de Christos troveja.
— Não.
É um não absoluto, do tipo que não deixa dúvidas e dá para ler
tudo nele.
Não se aproxime.
Não importune minha mulher.
Não toque nos meus filhos.
Ela congela, o sorriso diminuindo um pouco.
— Christos Lykaios, ouvi mesmo uns comentários de que minha
sobrinha estava… — faz uma pausa dramática e quero bater nela —
trabalhando com você.
Ouço um suspiro desgostoso de Madeline e morro de pena.
Provavelmente está envergonhada do comportamento da mãe.
Meu noivo me rodeia com o braço.
— Não só trabalhando — ele diz, em um tom que qualquer um
dentro do salão vip poderia ouvir. — Ela é minha em todos os
sentidos. Zoe será minha esposa e a mãe dos meus filhos.
Um “ohhhhh” se faz ouvir e depois, o silêncio reina por quase
meio minuto. 
Adley é a primeira a se recuperar.
— Ah, mas que alegria! — Muda completamente o tom. —
Parabéns, Zoe. Estou muito feliz com a notícia. Quando será o
casamento?
Atinjo minha quota de masoquismo do dia. 
Ignorando a pergunta da víbora, viro-me para Madeline.
— Pode me acompanhar ao toalete?
— Claro.
Seguro a mão de Christos e dou um beijo no dorso.
— Já volto.
Ele me olha como se quisesse dizer algo, mas para. Quando nos
afastamos, percebo que um guarda-costas nos segue.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 51
 
 
 
 
 
Zoe
 
 
 
 
 
 
— Sinto muito por tudo, Zoe.
— Não é culpa sua, Maddie — falo, chamando-a pelo apelido. —
Ninguém pode escolher a mãe que tem.
Ela dá um bufo de riso.
— Eu, mais do que qualquer pessoa, sei disso.
— Vai ao casamento, né?
— Vou sim. Nunca estive na Carolina do Norte. Estou muito
animada, mas queria pedir um favor. — Paro de andar.
— Claro.
— Ajude-me a escolher um vestido. Minha mãe sempre coloca
defeitos em todas as minhas roupas e quando me ajuda, são
parecidos com isso aqui — diz, apontando o próprio traje.
— É lindo, mas não combina com você.
— Eu sei. Não sou extravagante ou gosto de mostrar muita
carne. Com todo respeito — fala, olhando para a minha roupa, onde
uma fenda grande deixa a coxa esquerda descoberta.
— Estou acostumada a me vestir e despir. Não me envergonho
mais de mostrar meu corpo, mas no começo da carreira, era bem
mais tímida. Terapia ajudou no processo de libertação.
— E por falar em libertação, estou pensando em fazer uma
loucura — diz.
— De que tipo?
— Fugir para Londres. Conseguir um trabalho. Viver a vida.
— O quê? 
— Acha que não sou capaz?
— Se está me perguntando sobre força mental, acho que
qualquer um é capaz de qualquer coisa. Só não estou entendendo a
razão desse desejo súbito.
— Planejo isso há muito tempo. Sair debaixo da saia da minha
mãe e ir para a Europa, quero dizer. Não aguento mais a pressão
que está fazendo para eu me casar. Terminei a faculdade, mas não
posso trabalhar porque envergonharia o bom nome dos Turner —
diz, imitando a mãe e dou risada porque ficou muito igual.
— O que precisa para realizar esse plano?
— Apoio moral, principalmente.
— Você já tem. Conte comigo para o que for necessário. Na
verdade, acabo de ter uma ideia. Há um amigo de Christos, Kamal.
Ele é um Sheik, mas também empresário. CEO, na verdade. Meu
noivo comentou que estava à procura de uma assistente.
— Ai, meu Deus! Será que consigo?
— Bom, algumas qualificações você tem. Conhece o mundo
inteiro e tem bom gosto. Pelo que eu entendi, ele quer alguém que
viaje com ele e também que lhe dê alguns toques sobre etiqueta
ocidental. 
— Toques de etiqueta? Ele é um bruto?
— Aí eu já não sei dizer. Mas se quiser, posso conversar com
Christos a respeito.
— Claro que sim! Acha que esse homem me consideraria para o
cargo?
Decido pela honestidade.
— Eu não sei. Nunca conheci um Sheik na vida. Infelizmente, ele
não irá ao meu casamento porque tem um compromisso na mesma
semana, caso contrário, Christos poderia apresentá-los. Mas
prometo que vou conversar com meu noivo a respeito.
O banheiro está vazio e depois de usarmos as cabines,
retocamos a maquiagem, falando sobre uma marca de batom nova
que acabou de ser lançada e que não faz testes em animais.
De repente, a porta se abre e pelo espelho, vejo a última pessoa
que imaginei.
Ernestine Lambert, a mãe de Pauline.
Ainda é uma mulher bonita, apesar de sua beleza se resumir a
uma casca. Está bem arrumada, em um longo preto, completamente
à vontade como dama da alta sociedade.
Parece surpresa ao me ver. Acho que ambas estamos em
choque na verdade, mas me recupero primeiro.
— Olá, sua mentirosa. O que está fazendo aqui? — pergunto.
Sim, acho que os hormônios da gravidez estão atuando em mim
de uma maneira muito louca. Estou numa fase tipo: me irritou, eu
sinto vontade de arrancar a cabeça da pessoa.
— Zoe, que prazer revê-la! Quanto à sua pergunta, não foi só
você quem conseguiu um bilionário, queridinha.
— Não posso dizer o mesmo. Não sinto qualquer prazer em rever
você. — Viro-me para minha prima. — Madeline, pode ficar lá fora e
cuidar para que ninguém entre?
Ela sai sem discutir.
— Não temos nada para falar, Zoe. Ou quer pedir perdão por ser
amante daquele assassino?
— Se abrir a boca para falar do meu noivo, vou bater em você.
Aliás, não vai dizer nada. Eu vou. Como tem coragem de se olhar no
espelho depois do que fez? Você é podre, Ernestine. Ela era sua
garotinha. Sua menina para amar e proteger. Sabia quem tinha sido
o homem que a colocou naquele estado e ainda assim mentiu para
todos nós. Se aproveitou do fato de que Pauline era muito pequena
para se lembrar do verdadeiro culpado. Por quê? Para ganhar a
pena das pessoas? Para que todos não soubessem a desgraçada
irresponsável que você é? Não satisfeita, entregou a indenização na
mão de outro namorado enquanto sua filha passava necessidade!
— Não sabe de nada.
— Talvez não, mas o que sei me enoja. Nunca pensei que diria
algo assim, mas Pauline teve sorte de ir para o céu. Deus a levou
porque você não a merecia. Mentirosa, interesseira. Você é um
esboço de ser humano. Tão podre e vil quanto aquele rato que
provocou o acidente. Espero que quando você morrer, os dois se
encontrem no inferno. Tenha uma vida de merda, pensando no que
sua filha sofreu por sua causa. Ou ao menos, pelas consequências
dos seus atos.
Saio antes que eu faça uma besteira, como enfiar a mão na cara
dela. Não me entendam mal, não é estarmos em uma festa chique o
que me impede, mas a preocupação com meus bebês. Não quero
prejudicá-los, então mesmo muito louca da vida, resolvo partir.
Quando chego ao corredor, Maddie continua a postos como um
soldado. 
Christos está conversando com um guarda-costas e há, a alguns
passos de distância dele, um senhor de cabelo branco.
Minha intuição diz que esse homem está com Ernestine e
quando, pela minha visão periférica, a vejo sair do banheiro e andar
na direção dele, vou atrás.
— Muitoprazer, sou Zoe Turner. Não sei qual é o seu tipo de
relacionamento com Ernestine, mas se quer um conselho, fuja
enquanto é tempo. Quem não tem amor dentro de si para proteger a
própria filha, o que não faria com um estranho? Se quiser me
procurar, lhe conto toda a história. 
Tiro um cartão de visitas da minha bolsinha e entrego a ele.
Viro-lhes as costas e ando até o meu homem.
Ele passa o braço em volta dos meus ombros e começa a voltar
comigo para o salão. Somos seguidos por Maddie e o guarda-
costas.
— O que acabou de acontecer? —pergunta, parecendo não
entender nada.
— Sabe quem é ela?
— Não tenho certeza se a conheço. O rosto me é familiar, mas…
— A mentirosa responsável pela nossa separação. A mãe de
Pauline.
Seu rosto se transfigura em ira e ele para de andar. Faz menção
de retornar, mas seguro seu braço. 
— Não, amor. Acabou. Finalmente, acabou.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 52
 
 
 
 
Beau Carmouche-LeBlanc
 
 
 
Em algum lugar da América Central
 
 
Um dia antes do casamento de Christos
 
 
 
— Por que não me mata de uma vez, caralho? — grita.
Não há mais qualquer dignidade no que restou dele. Nem um só
resquício do professor arrogante e espancador de mulheres.
— Tão rude, doutor. Os seus ex-alunos ficariam chocados com o
linguajar. Não todos, claro. Aqueles a quem fodeu provavelmente
estão acostumados.
— O que eu te fiz, porra?
— A mim? Nada. Mas da última vez, errou na escolha de vítima,
Mike. Para seu azar, mexeu com a mulher de um grande meu
amigo. 
— Quem? Porque ao menos não me diz do que estou sendo
acusado?
— Porque não seria tão divertido — respondo, indiferente.
Howard não sabe ainda, mas hoje é seu último dia nesse planeta.
Deixei que meus homens cuidassem dele por meses, mas vim
pessoalmente finalizar o serviço.
— Ahhhhhhhh… ahhhhhhhhhhh! — grita de desespero e cruzo
os braços, recostado a uma parede.
— O que foi? Não é tão legal quando você é a vítima e não dois
velhinhos indefesos? Ou sua ex-esposa… opa, espera. Ela nunca
foi sua esposa. Acabei de me lembrar. Nem no papel e nem
biblicamente. 
— Estou aqui por causa da cadela da Zoe? Nunca a quis, só
estava interessado no dinheiro — mente, porque duvido que
qualquer homem vivo pudesse ser indiferente à beleza da noiva de
Lykaios.
— Não acredito. Entretanto, isso não importa mais, amigo. Ela
está bem. Os pais também. Macy recuperada do câncer. Scott com
uma saúde de ferro e você, preso em um porão no meio do nada
sendo torturado há meses. Valeu a pena?
Uma ponta de esperança aparece em seus olhos.
— Não. Estou arrependido.
Pego a lâmina com a qual gosto de trabalhar e em um único
golpe, ponho fim à vida dele.
— Era uma pergunta retórica, Mike. No momento em que entrou
no caminho do meu amigo, você já estava morto. Só não sabia
disso ainda.
 
 
 
 
Capítulo 53
 
 
 
 
Christos
 
 
 
 
Carolina do Norte
 
Dia do casamento de Christos e Zoe
 
 
 
 
 
Ela está vindo para mim. 
Linda, sorrindo. 
Minha.
Atravessamos uma vida para chegarmos até aqui, mas a partir de
hoje, só a morte poderá nos separar. Talvez, nem ela.
Zoe desabrochou, mas ao mesmo tempo, continua aquela
mistura linda de menina e mulher.
Tem gargalhado e brincado muito ultimamente e acredito que a
recuperação de Macy seja um fator importante nessa equação.
Ah, e nossos meninos, claro. Ela ama estar grávida e fica feliz de
perceber a barriga crescendo.
Também se tornou mais confiante. Com coragem de desagradar
uma pessoa ou outra, eventualmente.
Mamãe, minha sogra, ela e Bia organizaram todo o casamento,
usando Yuri como último recurso. Desconfio que ele deu graças a
Deus, porque quando as quatro começam a falar ao mesmo tempo,
só um tradutor para conseguir entender.
Quando perguntei por que não contratou uma empresa
especializada, me respondeu que esse seria seu único e verdadeiro
casamento, então, desejava fazer tudo como sempre sonhara.
Há alguns dias, fizemos da fazenda aqui na Carolina do Norte,
nossa residência em definitivo. A mudança foi discutida por toda a
família e quando meus pais disseram que se mudariam para Chapel
Hill[50] para ficarem mais perto de nós, ela chorou.
No entanto, eu sabia que sua felicidade nunca seria completa
sem Scott e Macy por perto, então, depois de conversar com meus
sogros, lhes dei de presente uma casa ao lado da dos meus pais.
Assim, os quatro acompanharão o crescimento dos netos. Não só
dos gêmeos que estão por vir, mas de muitos outros, pois
planejamos contribuir com empenho para o aumento populacional
do planeta.
Zoe anda de braços dados com o pai e Scott parece muito
orgulhoso de sua menina. Ele lhe cochicha algo e ela sorri. 
Deus, a mulher é muito linda. Sou completamente enamorado
dela, de tudo nela.
Temos nossos desentendimentos como qualquer casal —
geralmente por conta do meu excesso de cuidado e pavor de que
algo lhe aconteça— mas as brigas não duram. Zoe tem o poder de
acalmar minha natureza combativa.
Continua firme na terapia e sua crises de ansiedade têm
diminuído, embora às vezes ainda aconteçam.
Outro dia, acordou no meio da madrugada e me perguntou o que
seria dos bebês se morrêssemos. 
Sei que é a mente dela pregando peças. Não é algo que possa
evitar. Tenho lido a respeito. Crise de ansiedade não é frescura,
como a maioria pensa, mas um problema real.
Até mesmo entrei em um curso online para saber como ajudá-la a
lidar com isso. 
Aprendi que são desencadeadas por gatilhos. Conversando com
ela a respeito, tentamos criar estratégias para evitá-los, mas nem
sempre é possível.
De qualquer modo, quase não tem momentos de tristeza agora e
cada dia passado ao seu lado é uma descoberta. 
Zoe é de uma bondade e beleza interior que rivaliza com a
externa.
Finalmente chega à minha frente e Scott a abraça, apertando-lhe
a bochecha. Papai desce do púlpito, quebrando o protocolo, para
beijá-la na testa.
Acho que minha mulher precisava disso. Da sensação de ser
acolhida em uma família que a amasse. Juntos com Macy e Scott,
formamos um todo e nossas crianças estão vindo para somar.
Optamos por uma cerimônia pequena, com apenas cinquenta
convidados — em sua maioria familiares, como Odin.
Beau se desculpou, mas disse que casamentos não são sua
praia. Não levei a mal. Ele já provou que é meu amigo leal. Cada um
lida com aquilo que consegue.
Fui convencido pelo meu assistente a conceder a entrada de
alguns jornalistas e fotógrafos, escolhidos a dedo. 
Apesar de não estar muito satisfeito com isso, Yuri argumentou
que se não permitíssemos que viessem, a imprensa especularia e
transformaria o início do nosso casamento em um inferno, tentando
encontrar notícias.
Depois que Macy e mamãe também a abraçam, vou ao encontro
da mulher da minha vida.
Beijo-a, saciando um pouco da fome eterna por ela, ao invés de
somente aceitar sua mão para concluir o caminho até o altar. 
Não presto atenção ao que o celebrante, da nossa fé, a igreja
ortodoxa, diz. 
A cerimônia para mim é somente um protocolo para a sociedade,
assim como a folha de papel que assinaremos.
Zoe é minha e eu sou dela.
Não há nada e nem ninguém que poderia mudar esse fato.
Sua mão pequena me aperta, me segurando forte, e consigo
sentir o quanto está emocionada.
Ela se vira para mim e sei que chegou a hora dos votos.
Sorri e beija minha mão antes de falar.
— Eu fiquei muito ansiosa... — pausa. — na verdade, eu sou
muito ansiosa, mas fiquei um pouco mais porque, além de nunca ter
falado para uma plateia — volta para os convidados, sorrindo —
queria que tudo fosse perfeito. Ao mesmo tempo, não desejava algo
ensaiado, porque minha história com meu amor nunca seguiu um
roteiro.
Sacudindo a cabeça, ela aponta para o próprio rosto, que está
vermelho. Sei o quanto deve ser difícil ser o centro das atenções.
— Eu te amo — falo.
— Eu também. — Me dá um beijo leve. — Quando conheci meu
grego, aquele a quem vocês chamam de Christos Lykaios,tive a
certeza, desde o primeiro momento, que era meu príncipe
encantado. Um bem relutante, arredio, mas meu coração já sabia
antes que nos déssemos conta, que ele seria o meu para sempre.
Ao contrário dos contos de fada, o príncipe e a princesa se
separaram por um tempo. Ela estava perdida, assustada, mas o
príncipe não era homem de desistir fácil. Ele me encontrou uma vez
e depois, me reencontrou. Me amou e protegeu. Obrigada por
participarem conosco desse dia tão especial. Daqui a pouco,
poderão testemunhar o verdadeiro começo de nossa história e dizer:
e eles viveram felizes para sempre.
Zoe se joga em meus braços em um beijo longo.
Quando enfim nos afastamos, me preparo para declarar minha
devoção por ela em público.
— Eu planejei recitar um poema, mas acabo de me decidir por
algo mais real e não ecoar o que talvez milhares de casais tenham
repetido por todo o mundo. Não há palavras que expressem o que
você é para mim, Zoe. Mulher, amante, mãe dos meus filhos, minha
casa e minha alma. A única, a primeira, a eterna. Meu amor.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Epílogo 1
 
 
 
 
Noite de núpcias
 
 
 
Achei que depois de tanto tempo juntos, a emoção de fazer amor
com Christos diminuiria, mas eu me sinto sobrecarregada como da
primeira vez.
Gosto de tudo nele, principalmente, da maneira como olha para
mim. Seu olhar é profundo, cheio de frases não ditas, mas que
irradiam tanto amor e desejo, que me deixa tonta.
Estou somente a alguns passos de distância. Eu me sinto bonita,
independentemente de ter ganhado vários quilos. 
— Tem ideia de como me deixa louco vê-la se expondo para mim
com essa barriga arredondada dos nossos bebês?
Sacudo a cabeça fazendo que não, mas é uma mentira.
Um canto da minha boca se ergue e ele sabe que estou
provocando-o. Nos despimos um para o outro, mas enquanto meu
marido está nu, lindo, o membro rígido me convidando a uma noite
deliciosa, ainda mantenho a calcinha.
Passo os dedos em meus mamilos sensíveis e ouço um som
rouco vindo de sua garganta.
— Vai me deixar brincar com seu corpo?
— Sou seu, mulher. 
Ando para perto.
— Tire a calcinha. — Mas logo depois que manda, ajoelha-se a
minha frente. — Não, eu faço isso.
Desce a peça com lentidão e sentir seus dedos em minha pele
quente me traz arrepios de prazer.
Estou nua agora e não afasta minhas pernas, mas os lábios do
meu sexo. Suga meu ponto mais sensível e preciso me apoiar nele
para não cair.
— Você me disse que era meu — gemo, desesperada. Meu plano
para seduzi-lo indo ladeira abaixo.
— Aham, e sou, mas nunca prometi ficar parado.
Coloca uma das minhas coxas sobre o ombro e me prova de
boca aberta, me devorando, faminto.
Em pouco tempo, trêmula, me desmancho em seus lábios.
Ele me carrega no colo e leva-nos para a cama.
— Joga sujo, Lykaios.
— Não consigo resistir, Zoe. Você é uma delícia — diz, passando
a língua no lábio inferior.
Está deitado de costas e eu, montada em suas coxas, mas sem
que nossos sexos se toquem ainda.
Fecho os olhos, a força do meu amor por ele fazendo com que se
encham de lágrimas.
— Olhe para mim — comanda, enquanto me segura os quadris,
encaixando nossos sexos.
Ele me invade devagar, como que saboreando e eu gemo alto.
Quando me possui por inteira, não se move, apenas me sentindo,
aberta para ele — alma, corpo e coração.
Uma das mãos acaricia meu mamilo arrepiado, enquanto a outra
repousa em meu ventre.
— Cavalgue-me — manda.
Agora, segura-me pelas bochechas do meu bumbum, me
erguendo. Solto meu corpo, tomando-o lentamente.
O ajuste entre nós é difícil. Meu sexo pequeno sendo esticado
para acomodar cada polegada dele, nos fazendo gemer conforme
percorre centímetro por centímetro dentro das minhas paredes.
— Eu te amo — repete, cada vez que desço em sua rigidez
grossa. 
Minhas mãos se apoiam em seus ombros. Estou louca de prazer,
mas também inundada de um amor tão intenso que me rouba a
capacidade de falar.
Talvez intuindo isso, ele toma o controle, nos levando a uma
cavalgada que também é uma conexão inquebrantável, se
apossando profundamente de mim e tudo o que consigo pensar é
na perfeição que somos juntos.
— Mais — imploro.
Toca meu clitóris e se senta na cama, chupando os bicos dos
meus seios, os movimentos acelerando a uma velocidade selvagem.
— Você é muito gostosa — diz e quando move os quadris,
acertando um ângulo perfeito, eu grito chamando seu nome e gozo.
Rebolo, determinada a arrastá-lo comigo e me sinto vitoriosa
quando vejo seu rosto tenso, em um aviso de que está próximo à
própria libertação.
— Eu vou gozar.
— Me dê tudo. Encha-me. 
— Zoe… — uiva.
Os corpos criam a própria cadência, buscando-se sem cessar em
golpes constantes por vários minutos. 
Ele engrossa dentro do meu corpo e quando os primeiros jatos de
seu orgasmo me preenchem, me sinto completa.
Deita-se, saindo de mim e me posicionando de costas sobre si.
Minutos se passam e ainda sinto a batida de seu coração — dos
nossos corações — acelerados. 
— Como é possível ficar sempre melhor? — pergunto.
— Porque não é só físico, minha Zoe, ou um encaixe perfeito de
sexos em busca do prazer, mas um encontro de peles, cheiros,
bocas, línguas e principalmente, de nossas almas.
 
 
 
 
 
— Quem é ela na vida de Odin?
Estamos a caminho de Nova York. Christos tem uma reunião lá.
Quero fazer compras para os bebês e também cortar o cabelo com
uma cabeleireira brasileira que Bia me indicou. Ela está fazendo o
maior sucesso na Big Apple[51]. Já enjoei do meu corte atual.
Quando soube que iríamos, o primo dele nos convidou para
jantar em sua casa e segundo Christos, haverá uma mulher lá: Elina
Argyros[52].
— Se eu pudesse chutar, diria que é namorada. Qual outro nome
se pode dar para um casal morando junto?
— Colegas de quarto?
Ele sorri.
— Odin, com uma colega de quarto? Meu primo é o ser humano
mais individualista que já existiu.
— Você também era, senhor Lykaios, e, no entanto, aqui estamos
nós.
Ele fica sério por um instante, depois, solta meu cinto de
segurança e me leva pela mão para o quarto do seu — do nosso,
avião.
Deita na cama e me puxa para ficar ao seu lado.
— Porque faltava você, Zoe. Eu sempre soube, antes de
conhecê-la, que ainda não havia encontrado a pessoa certa.
— Como poderia saber?
— A alma reconhece nossa outra metade, ainda que o cérebro
não se dê conta disso.
— Mesmo quando brigamos?
— Dividir a vida com alguém não é simples, mas tudo em nós
dois vale a pena. Até sua bagunça.
— Não sou bagunceira. Você que é maníaco por arrumação.
— Não nego, mas não me importo de pegar suas calcinhas
espalhadas pelo chão do closet. São cheirosas. 
Eu rio tanto que perco o fôlego.
— Não tenho nem palavras para expressar o quanto isso soou
pervertido, marido.
— Achei que esse ponto já estava estabelecido. Sou um
pervertido, mas só quando se trata de você, mulher.
— Bem colocado, Christos. Tenho andado mais ciumenta do que
o normal. Preserve sua vida.
— Sou louco por você, Zoe Lykaios. Como pode se sentir
insegura?
— Porque às vezes eu ainda não acredito. 
— Em quê?
— Que transformamos o conto de fadas na vida real.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Epílogo 2
 
 
 
 
 
Dia do Parto
 
 
 
 
 
 
É como se todas as emoções que não me permiti sentir ao longo
da vida, tivessem sido acumuladas em uma carta de milhagem para que
eu as experimentasse com Zoe.
Olho minha esposa na cama de hospital com um bebê em cada
braço, enquanto a enfermeira a fotografa como pediu. Eu não consigo me
mexer, paralisado pela inundação de amor que me atinge ao ver os três
reunidos.
Adonis e Demetrius vieram ao mundo como os Lykaios que são:
berrando a plenos pulmões, anunciando suas estreias para que ninguém
duvide de que há outra geração de gregos arrogantes em vista.
Zoe sorri enquanto olha de um para outro. A felicidade irradiando
dela como luz.
Minha mulher brilha. Completa, linda, mãe.
Meu coração martela

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