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8ª Edição Peter Castro Michael E. Huber Biologia Marinha C astro • H uber Biologia M arinha www.grupoa.com.br BIOLOGIA MARINHA 8ª EdiçãoPeter Castro Michael E. Huber Biologia Marinha Entre os recursos didáticos desta edição, destacam-se: Resumos de conceitos-chave - enfatizam os termos e as ideias mais importantes apresentados ao longo dos capítulos, reforçando a aprendizagem. Miniglossários - explicam termos fundamentais para o entendimento dos tópicos, também direcionando o leitor para os capítulos e as páginas em que são abordados de forma mais aprofundada. Um glossário geral, ao final do livro, traz definições completas e referências a ilustrações ou outros termos-chave que auxiliam na compreensão dos conceitos abordados. Ilustrações e fotografias - cuidadosamente desenhadas e selecionadas, complementam e auxiliam na aprendizagem. Ensaios especiais - apresentam conteúdo adicional sobre diversos assuntos, como comunidades coralíneas de mar profundo, tsunamis e marés-vermelhas. Tabelas ilustradas - ao final de cada capítulo da Parte II, são apresentados os principais grupos taxonômicos e suas características. Biologia marinha, 8ª edição, ao mesmo tempo em que fornece uma introdução rigorosa à biologia marinha como ciência, reforça e aumenta o encantamento dos leitores por esta área. A obra reúne conhecimentos básicos sólidos, incluindo princípios da metodologia científica, de física e biologia. Visite a Área do Professor em www.grupoa.com.br para ter acesso às imagens da obra em formato PowerPoint® (em português), úteis como recurso didático em sala de aula. 028106_Biologia_Marinha.indd 1 10/02/12 17:32 Catalogação na publicação: Ana Paula M. Magnus – CRB 10/2052 C355b Castro, Peter. Biologia marinha [recurso eletrônico] / Peter Castro, Michael E. Huber ; [tradução: Monica Ferreira da Costa ... et al] ; revisão técnica: Duane Barros da Fonseca. – 8. ed. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre : AMGH, 2012. Editado também como livro impresso em 2012 ISBN 978-85-8055-103-7 1. Biologia. 2. Biologia marinha. I. Huber, Michael E. II. Título. CDU 573 Coordenação da tradução Monica Ferreira da Costa Oceanógrafa. Professora do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Mestre em Química pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCRJ). Ph.D. em Ciências Ambientais pela University of East Anglia, Norwich, Reino Unido. Equipe de tradução Ângela Spengler Oceanógrafa. Mestre em Oceanografia pela UFPE. Juliana Assunção Ivar do Sul Oceanógrafa. Mestre e Doutoranda em Oceanografia pela UFPE. Juliana Leonel Oceanógrafa. Doutora em Oceanografia pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP). Marinez Eymael Garcia Scherer Bióloga. Professora do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutora em Meio Ambiente e Gestão de Recursos Vivos Marinhos pela Universidad de Cadiz, Espanha. Walter Martin Widmer Biólogo. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Caterina (IF-SC). Mestre em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). PhD em Ciências pela Sydney University, Sydney, Austrália. 220 Peter Castro & Michael E. Huber terminada principalmente pelo suprimento de larvas a se instalarem no hábitat (esta escola de pensamento tem sido denominada de “ecologia da oferta”) ou por competição, predação e outras interações depois que as larvas se assentaram (ver “Competição”, p. 214). Assim como acontece com muitas controvérsias na ecologia marinha, a resposta pode muito bem estar entre essas opções. PRINCIPAIS ESTILOS DE VIDA E AMBIENTES MARINHOS Já foi observado que, em razão das mudanças nas condições físicas e químicas de lugar para lugar, diferentes partes do oceano abrigam co- munidades muito distintas. Os biólogos marinhos, portanto, categori- zam as comunidades de acordo com onde e como os organismos vivem. Talvez a classificação mais simples esteja relacionada ao estilo de vida do organismo: se ele vive no fundo ou na coluna d’água. Organismos bentônicos, ou bentos, são aqueles que vivem sobre ou enterrados no fundo (Fig. 10.11). Alguns organismos bentônicos são sésseis, ou pre- sos a um lugar; outros se movem. Organismos pelágicos, por outro lado, vivem na coluna d’água, longe do fundo. Os organismos pelágicos são subdivididos de acordo com o quão bem eles podem nadar. Alguns organismos marinhos nadam apenas fra- camente ou não nadam. Esses organismos, chamados de plânctons, es- tão à mercê das correntes e são transportados de um lugar para outro. O termo “plâncton” vem da palavra grega para “errante”. Algas planctônicas e outros organismos autotróficos são chamados coletivamente de fitoplânctons e são os produtores primários mais importantes em mui- tos ecossistemas marinhos. O plâncton heterotrófico é chamado de zooplâncton. O plâncton também pode ser subdividido de acordo com o tamanho, com a localização – se os organismos vivem na superfície do mar ou mais abaixo –, ou com período de vida no plâncton – se eles passam toda ou apenas parte de sua vida no plâncton (ver “Organismos epipelágicos”, p. 333, e “Os flutuadores”, p. 343). Os animais que podem nadar bem o suficiente para se opor às correntes são chamados de néctons. Os animais nectônicos são, na maioria, vertebrados, principalmente peixes e mamíferos marinhos. No en- tanto, há poucos invertebrados nectônicos, como as lulas. Nem todo o nécton é pelágico. A raia na Figura 10.11, por exemplo, faz parte do nécton porque pode nadar. Entretanto, não é considerada pelágica, pois passa a maior parte de seu tempo no fundo ou logo acima dele, em vez de na coluna d’água. Outra forma de classificar as comunidades ma- rinhas é pelo local onde elas vivem. O zoneamen- to de organismos bentônicos, por exemplo, refere- -se à profundidade e à plataforma continental (Fig. 10.12). Exatamente na fronteira entre a terra e o mar é a parte mais rasa da plataforma continental, a zona entremarés, às ve- zes chamada de zona litorânea. Essa é a área entre as marés, que está exposta ao ar quando a maré está baixa, mas fica debai- xo d’água na maré alta. A zona entremarés constitui apenas uma pequena fração da plataforma continental. A maior parte da plataforma nunca é exposta ao ar, mesmo na mais baixa das marés. Os organismos bentônicos que habitam a plataforma con- tinental abaixo da zona entremarés vivem na zona sublitoral, às vezes chamada de zona infralitoral. Longe da plataforma, o ambiente bentônico é subdividido em função da profundidade nas zonas batial, abissal e hadal. Por razões de simplicida- de, vamos reunir essas diferentes zonas e chamá-las de “fundo do mar profundo”. O ambiente pelágico também é sub- dividido em relação à plataforma conti- nental. O ambiente pelágico que se encon- Bentos Plânctons Néctons Pelágico Fitoplânctons Zooplânctons FIGURA 10.11 Três grandes grupos, os bentos, os néctons e os plânctons, surgem quando os organismos marinhos são classificados pelo estilo de vida. Abissopelágico Batipelágico Mesopelágico Epipelágico Entremarés Oceânico Nerítico Pelágico 100–200 m 1.000 m 4.000 m 6.000 m Coluna d’água Hadalpelágico Batial Abissal Abissal Hadal Fundo oceânico Quebra da plataforma Marca da maré baixa Marca da maré alta Bentos Subtidal FIGURA 10.12 As principais subdivisões do ambiente marinho têm como base a distância da terra, a pro- fundidade da água e a diferenciação de os organismos serem bentônicos ou pelágicos. Castro_10.indd 220Castro_10.indd 220 13/02/12 09:5413/02/12 09:54 Biologia Marinha 221 tra sobre a plataforma é chamado de zona nerítica. Águas oceânicas além da quebra da plataforma correspondem à zona oceânica. Além de ser dividido em zonas nerítica e oceânica, o ambiente pelágico é dividido verticalmente em zonas de profundidade, que correspondem à quantidade de luz. Naságuas mais rasas, a zona epipelágica, há luz suficiente para a fotossíntese, pelo menos du- rante parte do ano. Havendo fonte de nutrientes, o fitoplâncton se desenvolve, produzindo alimento para o resto do ecossistema. A zona epipelágica em geral se estende até uma profundidade de 100 a 200 m. Como essa é aproximadamente a profundidade da plataforma continental, quase todas as águas neríticas residem na zona epipelágica. Outras zonas pelágicas estão em águas oceânicas profundas além da plataforma. Abaixo da zona epipelágica fica a zona me- sopelágica. Não há luz suficiente para suportar a fotossíntese, logo os produtores primários não conseguem crescer. Há, entretanto, luz suficiente para enxergar. Mesmo em um dia com muita luz, a zona mesopelágica é uma área de penumbra. Essa zona de penumbra nor- malmente se estende até uma profundidade de cerca de 1.000 m. Nenhuma luz solar penetra nas partes mais profundas dos oceanos, nas zonas batipelágica, abissalpelágica e hadalpelágica. Embora cada uma dessas zonas suporte uma comunidade diferente de animais, elas compartilham muitas similaridades. Nós nos referi- mos a todas essas zonas juntas como o ambiente do “mar profundo”. O FLUXO DE MATÉRIA E ENERGIA Todos os seres vivos usam energia para produzir e manter os com- plexos compostos químicos necessários para a vida. Os organis- mos autotróficos obtêm essa energia do ambiente não vivo, geral- mente sob a forma de luz solar. Eles usam a energia para fazer seu próprio alimento a partir de moléculas simples como o dióxido de carbono, água e nutrientes. À medida que os autotróficos crescem e se reproduzem, eles se tornam alimento para os organismos hete- rotróficos (Fig. 10.13). Quando um organismo come outro, tanto o material orgânico quanto a energia armazenada são passados de um para o outro. Assim, a energia e os compostos químicos fluem da parte não viva do ecossistema para os organismos e de organis- mo para organismo. Os caminhos tomados pela energia e pelos materiais nos dizem muito sobre como funciona um ecossistema. Estrutura trófica O fluxo de energia e matéria por meio de um ecossistema pode ser traçado pela observação das relações tróficas entre os seus organis- mos: quem produz a comida e quem a ingere. Os organismos podem ser divididos em dois grandes componentes: os produtores primários, os autotróficos que produzem a comida, e os consumidores, os hete- rotróficos que a ingerem. Nem todos os consumidores se alimentam diretamente dos produtores. Muitos animais alimentam-se de outros consumidores em vez de produtores primários. Assim, a transferência de energia por meio do sistema geralmente ocorre em várias etapas, o que é conhecido como cadeia alimentar. Cada uma das etapas da cadeia alimentar é conhecida como um nível trófico. A maioria dos ecossistemas tem um número diferente de produ- tores primários. Além disso, muitos animais comem mais do que ape- nas um tipo de comida, e muitos mudam sua dieta quando ficam mais velhos e maiores (ver Fig. 15.24). Por essas razões, a estrutura trófica é geralmente uma complexa e entrelaçada teia alimentar (Fig. 10.14) em vez de uma simples cadeia alimentar em linha reta. Teias alimentares Diatomáceas Krill Baleias FIGURA 10.13 Esta cadeia alimentar de três etapas é típica das águas da Antárti- ca. As diatomáceas são os produtores primários que capturam a luz solar para fixar carbono. As diatomáceas planctônicas são os principais produtores primários du- rante o verão, mas no inverno, as diatomáceas e outras algas que crescem no gelo da água do mar são mais importantes. A energia é transferida das diatomáceas para o krill que as come, e depois para as baleias-azuis que se alimentam do krill. Apesar de ser apenas parte de uma complexa teia alimentar (ver Fig. 10.14), essa cadeia alimentar simples foi responsável por uma grande parte da produtividade total das águas da Antártica até que as baleias foram caçadas, chegando quase à extinção. Quebra da plataforma Aumento no ângulo de inclinação que marca o limite externo da plataforma continental. • Capítulo 2, p. 33 Autotróficos Organismos que podem utilizar energia (geralmente energia solar) para produzir matéria orgânica. Heterotróficos Organismos que não podem fazer seu próprio alimento e que precisam comer matéria orgânica produzida pelos autotróficos. • Capítulo 4, p. 67 Produção Primária A conversão de dióxido de carbono em matéria orgânica pelos autotróficos, isto é, a produção de alimento. • Capítulo 4, p. 68 Castro_10.indd 221Castro_10.indd 221 13/02/12 09:5413/02/12 09:54 http://ca.as/ http://carbono.as/ 222 Peter Castro & Michael E. Huber são difíceis de serem desvendadas e compreendidas por biólogos, mas a sua complexidade é uma das razões para a enorme diversidade de vida. Energia e materiais são passadas de um nível trófico para outro ao longo de uma cadeia alimentar ou teia alimentar. O primeiro nível é ocupado pelos produtores primários, os demais níveis pelos consumidores. Níveis tróficos Cadeias alimentares e teias alimentares podem ser melhor compreendidas se considerarmos o número de etapas, ou níveis tróficos, pelo qual a energia passa (Fig. 10.15). O primeiro passo para o fluxo de energia e, portanto, o primeiro nível trófico, é ocupado pelos produtores primários que originalmente captam a energia e a armaze- nam em compostos orgânicos. As diatomáceas são os principais produ- tores primários na cadeia alimentar ilustrada nas Figuras 10.14 e 10.15. Os consumidores que se alimentam diretamente dos produtores são chamados de consumidores de primeiro nível, ou primários, e ocu- pam o próximo nível trófico. No nível acima, estão os consumidores de segundo nível, ou secundários, predadores que se alimentam de consu- midores primários. Alimentando-se de consumidores secundários estão os consumidores de terceiro nível, ou terciários, e assim por diante. Cada nível trófico depende do nível inferior para o seu sustento. No final da cadeia alimentar estão os predadores de topo, como as orcas. O conceito de níveis tróficos nos ajuda a compreender como a ener- gia flui por meio dos ecossistemas, mas os organismos em si não estão preocupados com o nível do qual se alimentam. Os predadores frequen- temente se alimentam de presas de diferentes níveis tróficos, por exemplo. A pirâmide trófica Em vez de ser passada para o nível imediatamen- te superior, grande parte da energia contida em um determinado nível trófico é usada pelas atividades dos organismos. Energia e matéria or- gânica também são perdidas como resíduos. Dependendo do ecossis- tema, apenas cerca de 5 a 20% da energia em um nível trófico passa para o próximo; a média é de cerca de 10%. Suponha, por exemplo, que as diatomáceas na cadeia alimentar da Antártica, ilustrada na Figura 10.13, contenham um total de 10 milhões de calorias de energia. De acordo com a regra dos 10%, apenas cerca de um milhão de calorias irá Foca-leopardo Pinguim- -imperador Foca-de- -weddell Peixes grandes Skua Foca-caranguejeira Orca Baleias de barbatana Pinguim- -de-adélia Petrel Krill Krill Copépodes Anfípodes Peixes pequenos e lulas Diatómaceas e outros fitoplânctons FIGURA 10.14 Uma teia alimentar simplificada da Antártica. A cadeia alimentar simples de diatomáceas-krill-baleia ilustrada na Figura 10.13 (sombra azul) é uma parte importante desta teia alimentar. Castro_10.indd 222Castro_10.indd 222 13/02/12 09:5413/02/12 09:54 Biologia Marinha 223 para os consumidores primários – o krill –, e as baleias obterão apenas cerca de 100 mil calorias. A estrutura trófica dos ecossistemas pode ser representada por uma pirâmide de energia (Fig. 10.16), com menos energia contida em cada nível seguinte. Como há menos energia disponível em cada nível, há também menos organismos individuais. Assim, há menos consumidores do que produtores primários, e menos consumidores secundários do que pri- mários. Muitas vezes, embora nemsempre, a pirâmide trófica pode ser representada em termos de número de indivíduos bem como de energia e é, então, chamada de pirâmide de números (ver “Standing stock”, p. 226). A pirâmide também pode ser expressa em termos do peso total do tecido, ou biomassa, produzido pelos organismos em cada nível. Neste caso, a pirâmide trófica é chamada de pirâmide de biomassa. Para su- portar uma determinada biomassa de consumidores primários, os pro- dutores primários devem corresponder à cerca de 10 vezes a quantidade de tecido vivo. Para sustentar 1.000 gramas de copépodes, por exemplo, os copépodes precisam comer cerca de 10.000 gramas de fitoplâncton. Por sua vez, apenas cerca de um décimo da biomassa do consumidor primário irá passar para os consumidores secundários. Em média, apenas cerca de 10% da energia e da matéria orgânica em um nível trófico é passado para o próximo nível superior. Em cada nível da cadeia alimentar, algu- ma matéria orgânica é perdida em vez de ser consumida por consumidores de nível supe- rior. No entanto, essa matéria não é perdida para o ecossistema. Bactérias decompositoras, fungos e outros decompositores decompõem essa matéria orgânica sem vida em seus com- ponentes originais: dióxido de carbono, água e nutrientes. Uma parte da matéria orgânica é eliminada como resíduo, desperdiçada du- rante a alimentação, ou deixa as células por difusão. Este material se dissolve na água, por isso é conhecido como matéria orgânica dissolvida (MOD). Há também uma gran- de quantidade de matéria orgânica morta na forma sólida, como algas em decomposição, algas soltas e folhas de mangue, exoesqueletos descartados, pelotas fecais e animais mortos. Este material é chamado de detrito. O de- trito é uma importante via de energia para os ecossistemas marinhos, porque muitos orga- nismos marinhos se alimentam dele. Grandes populações de decompositores microscópicos vivem em associação com detritos, e os orga- nismos depositívoros geralmente alimentam- -se dos decompositores tanto quanto ou até mais do que dos detritos propriamente ditos. Da mesma forma, muitos organismos se ali- mentam dos microrganismos que decom- põem a MOD. Assim, os decompositores desempenham um papel vital no oceano, ca- nalizando a matéria orgânica morta de volta para a cadeia alimentar. Resíduos de matéria orgânica que são dissolvidos na água são chamados de matéria orgânica dissolvida (MOD). Detrito consiste em matéria orgânica sólida não viva. Os decompositores auxiliam a canalizar a MOD e os detritos de volta à cadeia alimentar. Se não fosse pelos decompositores, os resíduos e os organismos mortos iriam se acumular em vez de apodrecer. Isso não apenas causaria um grande transtorno, mas os nutrientes permaneceriam presos na ma- téria orgânica. Quando os decompositores decompõem a matéria orgâ- nica, os nutrientes incorporados à matéria orgânica durante a produção primária são liberados, tornando-os disponíveis novamente para os or- ganismos fotossintéticos. Esse processo é conhecido como regeneração de nutrientes. Sem ele, os nutrientes não seriam reciclados e disponibi- lizados para os autotróficos, e a produção primária seria muito reduzida. Medindo a produtividade primária Como a produção primária for- nece o alimento na base da pirâmide trófica, é útil saber a quantidade de produção que ocorre em uma determinada área. A taxa de produção primária, ou a produtividade, muitas vezes é expressa como a quantida- de de carbono fixado em um metro quadrado de superfície do mar em Orca Foca-leopardo Foca-de- -weddell Peixes grandes Pinguim- -imperador Skua Pequenos peixes e lulas Pinguim- -de-adélia Petrel Foca- -caranguejeira Baleias de barbatanas KrillCopépodes Diatomáceas Consumidores de sexto nível Consumidores de quarto nível Consumidores de terceiro nível (terciários) Consumidores de segundo nível (secundários) Consumidores de primeiro nível (primários) Produtores Consumidores de quinto nível Anfípodes FIGURA 10.15 Os organismos da teia alimentar da Figura 10.14 podem ser agrupados em categorias de acordo com o seu nível trófico. No entanto, um mesmo organismo pode se alimentar em diferentes níveis. Petréis, por exemplo, agem como consumidores de segundo nível quando comem copépodes, mas como consumidores de terceiro nível quando comem anfípodes. Neste diagrama simplificado, eles são mostrados como consumidores de segundo nível. A teia alimentar mostrada aqui é mais longa do que a maioria; três ou quatro níveis são mais comuns. Castro_10.indd 223Castro_10.indd 223 13/02/12 09:5413/02/12 09:54 224 Peter Castro & Michael E. Huber NA CIÊNCIADE OLHO FIGURA 10.16 (a) Embora os números variem, em média 90% da energia que os produtores primários capturam na fotossínte- se é perdida a cada etapa da cadeia alimentar. (b) Esta relação é frequentemente descrita como uma pirâmide que representa a quantidade de energia, com o número de indivíduos ou a biomassa em cada nível trófico. Independentemente da sua forma, a ideia é a mesma: é preciso muita energia, números e biomassa na parte infe- rior para suportar apenas um pouco na parte superior. Baleias 100.000 calorias Krill 1.000.000 calorias Fitoplâncton 10.000.000 calorias (a) (b) A mbos começam com “eco” (do grego oi- kos, que significa casa), mas as pessoas não costumam associar ecologia e economia. As duas disciplinas, na verdade, têm muito em co- mum. Para começar, ambas lidam com a distribui- ção e o fluxo de recursos, especialmente energia e matérias-primas, medidos como carbono orgâ- nico e nutrientes ou como dólares e barris de petróleo. O conceito de escassez – quantidade de recursos limitada – é fundamental para ambos os campos. Há outras áreas em que ecologia e economia lidam com problemas semelhantes. Por exemplo, demografia, o estudo e a previsão do crescimento populacional e de estrutura etária e sexo. À pri- meira vista, a taxa de crescimento da população é simplesmente determinada pelas taxas de na- talidade, de sobrevivência e de mortalidade, mas o assunto é mais complicado do que isso. Cada faixa etária média geralmente tem diferentes taxas de reprodução e morte, e como os indivíduos se movem por meio de classes de idade ao longo do tempo, a matemática da previsão das caracterís- ticas da população em geral pode se tornar bas- tante complexa. Ecologistas que trabalham sobre demografia perceberam que têm muito a aprender com o mundo dos negócios, especialmente com a indústria de seguros de vida, que se mantém pela previsão da longevidade das pessoas. Colabora- ções com demógrafos em companhias de seguros têm contribuído muito para a nossa compreensão de populações não humanas. Ecologistas têm dado sua contribuição em outras áreas, por exemplo, para uma compreen- são do sistema bancário global. Com a crescente globalização, o sistema financeiro tornou-se mais interligado em redes de alta complexidade. Essas redes incluem os fluxos de fundos entre institui- ções bancárias, a concorrência entre os bancos e as aquisições de um banco por outro, que se pa- recem suspeitosamente com os fluxos de ener- gia e matérias-primas pela cadeia alimentar por meio de cooperação, competição e predação. Um dos principais problemas no setor financeiro tem sido que as redes complexas comportam-se de maneira bem diferente em comparação com os modelos financeiros relativamente simples que os bancos usavam no passado. Como resultado, “soluços” que pareciam pequenos em um lugar podem ter repercussões escalares ao longo do sistema inteiro. A crise financeira global de 2008 foi atribuída a esse comportamento complexo de rede, e o fato de os bancos usarem ferramentas padrão para avaliar o risco não reflete adequada- mente as complexidades da rede. Logo, entram os ecologistas. Alguns ecologistas de alto nível que estudam teias alimentares e sistemas ecoló- gicos têm sido requisitadospor grandes bancos internacionais para aplicar seus modelos de com- plexos sistemas ecológicos aos sistemas financei- ros. Ainda é necessário aguardar, mas parece que estas colaborações podem levar a um melhor funcionamento dos sistemas bancários e regula- dores, considerando as associações entre institui- ções diferentes, e, esperamos, a uma economia global mais estável. Ecologia e economia Castro_10.indd 224Castro_10.indd 224 13/02/12 09:5413/02/12 09:54 Biologia Marinha 225 um dia ou em um ano (Fig. 10.17). Ela inclui a produção tanto do fito- plâncton na coluna d’água quanto dos produtores que vivem no fundo. A quantidade total de carbono orgânico produzido pelos produto- res primários é chamada de produção primária bruta. Os produtores primários imediatamente respiram uma parte da matéria orgânica que produzem para satisfazer suas próprias necessidades de energia, assim esta parcela de matéria orgânica não está disponível como alimento para os outros organismos. É a matéria orgânica que sobra, ou a produ- ção primária líquida, que constitui a base da pirâmide trófica. A produção primária líquida pela fotossíntese pode ser estimada tanto pela quantidade de matéria-prima utilizada quanto pela quan- tidade de produtos emitidos pelos organismos fotossintéticos na luz solar. Tradicionalmente, isso era feito pela medição da quantidade de oxigênio (O2) produzido (Fig. 10.18), mas hoje em dia é mais comum medir a quantidade de dióxido de carbono (CO2) consumido. Este mé- todo utiliza um isótopo de carbono ( 14 C) que pode ser medido com grande precisão. Para medir a produção primária bruta, a respiração dos produtores primários pode ser estimada mantendo-os no escuro, onde a fotossíntese não pode ocorrer. Outros métodos para estimar a produção primária incluem a medição da quantidade de luz absorvida pelos produtores e a medição do brilho, ou fluorescência, que a clorofila emite quando absorve a luz solar. A taxa de produção primária geralmente é medida em garrafas claras e escuras. Alterações no nível de oxigênio ou de dióxido de carbono na garrafa clara indicam tanto fotossíntese quanto respiração, ao passo que as mudanças na garrafa escura refletem apenas respiração. No oceano, a quantidade de produção primária varia consideravelmente de um ambiente para outro (Tabe- la 10.1). Alguns ambientes marinhos são tão produtivos Fotossíntese CO2 + H2O + energia solar → matéria orgânica + O2 (glicose) • Capítulo 4, p. 66 Respiração Matéria orgânica + O2 → CO2 + H2O + energia (glicose) • Capítulo 4, p. 67 Isótopos Diferentes formas atômicas de um elemento. • Capítulo 2, p. 32 FIGURA 10.17 Para descrever a produtividade primária, os biólogos ma- rinhos determinam quanto carbono é fixado ou convertido de dióxido de carbono em matéria orgânica, na coluna d’água sob 1 m 2 de superfície do mar em um determinado intervalo de tempo. A produção primária bruta refere-se à quantidade total de matéria orgânica produzida, a produção primária líquida é a quantidade que sobra após a respiração dos produtores primários em si. A produtividade primária é expressa em unidades de gramas de carbono por metro quadrado por dia ou um ano (gC/m 2 /dia ou gC/m 2 /ano). Luz solar Coluna d’água sob 1 m 2 de superfície do mar CO2 + H2O Matéria orgânica + O2 Fundo do mar Fotossíntese Respiração Tabela 10.1 Taxas típicas de produção primária em vários ambientes marinhos Ambiente Taxa de produção (g de carbono fixado/m2/ano) AMBIENTES PELÁGICOS Oceano Ártico <1-100 Oceano Antártico 40-260 Mares subpolares 50-110 Águas temperadas (oceânicas) 70-180 Águas temperadas (costeiras) 110-220 Giros oceânicos centrais* 4-40 Áreas de ressurgência equatoriais* 70-180 Áreas de ressurgência costeiras* 110-370 AMBIENTES BENTÔNICOS Marismas 250-2.000 Mangues 370-450 Pradarias de algas 550-1.000 Pradarias de kelp 640-1.800 Recifes de coral 1.500-3.700 AMBIENTES TERRESTRES Desertos extremos 0-4 Regiões temperadas 550-700 Florestas tropicais 460-1.600 Nota: As taxas de produção podem ser muito maiores em certos períodos ou em locais específicos, especialmente em altas latitudes. Valores de ambientes terrestres selecionados são fornecidos para comparação. *Veja “Padrões de Produção”, p. 350. Castro_10.indd 225Castro_10.indd 225 13/02/12 09:5413/02/12 09:54 226 Peter Castro & Michael E. Huber como qualquer outro na Terra; outros são desertos biológicos, com uma produtividade tão baixa como qualquer deserto em terra. A produtivi- dade no oceano depende muito das características físicas do ambiente, em especial da quantidade de luz e nutrientes que estão disponíveis. Essas características serão exploradas em capítulos seguintes. Standing stock A quantidade total de fitoplâncton na água, chamada de standing stock ou standing crop de fitoplâncton, está relacionada à produtividade primária, mas os dois não são a mesma coisa. O standing stock refere-se à quantidade de fitoplâncton que já está na água. A pro- dutividade primária refere-se à quantidade de material orgânico novo que está sendo criado. Em um gramado, por exemplo, o standing stock corresponderia ao tamanho da grama, e a produtividade primária seria a quantidade de recortes feitos se o gramado fosse cortado todos os dias para manter o mesmo comprimento. Essa diferença entre produtividade primária e standing stock explica por que a pirâmide trófica nem sempre se traduz em uma pirâmide de números. A grama que está crescendo muito rapidamente irá produ- zir uma grande quantidade de recortes mesmo que seja mantida curta. Em outras palavras, ela pode ter alta produtividade, mas baixo standing stock. No oceano, quando os produtores primá- rios estão crescendo muito rapidamente, com frequência eles também são consumidos muito rapidamente. Com muito alimento disponível, a população de herbívoros cresce, mantendo o número de produtores primários baixo. Como resultado, a pirâmide de números é invertida, com mais herbívoros do que produtores pri- mários. A pirâmide de biomassa refere-se à produtividade, não ao standing stock, então, as- sim como a pirâmide de energia, a pirâmide de biomassa sempre é verdadeira. O fitoplâncton contém clorofila, assim, a quantidade de clorofila na água é uma boa indicação da abundância de fitoplâncton. Na verdade, a maneira mais comum de medir o standing stock de fitoplâncton é medir a con- centração de clorofila na água. O standing stock de fitoplâncton é a quantidade total de fitoplâncton na coluna d’água. O standing stock geralmente é determinado pela medição da concentração de clorofila. A clorofila pode ser medida por meio da sua extração química da água, mas esse proces- so é demorado e caro. Em vez disso, um ins- trumento chamado fluorímetro é geralmente usado para determinar a quantidade de cloro- fila presente pela sua fluorescência. O standing stock de fitoplâncton também pode ser medido a partir do espaço. Os saté- lites equipados com câmeras especiais obtêm fotos coloridas da superfície do mar e enviam as imagens para a Terra. Usando computado- res, os cientistas analisam cuidadosamente as fotos, com atenção especial para a caracterís- tica cor verde da clorofila. O standing stock de fitoplâncton pode ser estimado em vastas áreas da superfície do mar (Fig. 10.19), aplicando fatores de correção diver- sos, considerando o tempo no momento em que a foto foi obtida, e re- lacionando os resultados com medições reais de clorofila feitas a partir de navios. Os satélites são o único meio para avaliar a distribuição em grande escala do fitoplâncton, pois os navios podem medir standing stock em apenas um lugar a cada momento. Ciclos dos nutrientes essenciais Uma vez que a energia armazenada em compostos orgânicos é utili- zada pelo metabolismo ou consumida na forma de calor, ela está per- dida para o sistema para sempre. Ao contrário da energia, os materiais que compõem a matériaorgânica podem ser reutilizados em um ci- clo de repetição. Estes materiais, como carbono, nitrogênio e fósforo, são oriundos da atmosfera, do interior da Terra, ou do intemperismo das rochas. Começando como simples moléculas inorgânicas, eles são convertidos em outras formas e incorporados nos tecidos dos orga- nismos autotróficos. Quando este material orgânico é quebrado por Sol Fotossíntese Respiração Respiração CO2 CO2 H2O H2O Matéria orgânica Matéria orgânica O2 O2 O2 produzido pela fotossíntese O2 produzido pela fotossíntese O2 usado pela respiração O2 usado pela respiração Garrafa clara Garrafa escura + + + + FIGURA 10.18 Para medir a produção primária, os cientistas colocam amostras da água do mar em garrafas claras e escuras. A garrafa transparente permite a entrada de luz, de modo que ocorre fotossín- tese e respiração. A quantidade de oxigênio produzido reflete o saldo da fotossíntese sobre a respiração, ou a produção primária líquida. Para calcular a produção total de matéria orgânica pela fotossíntese, a quantidade de respiração deve ser conhecida. Essa pode ser medida a partir da quantidade de oxigênio utilizado na garrafa escura, onde só a respiração ocorre, porque a luz é bloqueada. Castro_10.indd 226Castro_10.indd 226 13/02/12 09:5413/02/12 09:54 288 Peter Castro & Michael E. Huber mente 150 m. A largura da plataforma também é muito variável. Ela pode ter desde menos de 1 km até mais de 750 km, com uma média de cerca de 80 km. Os bentos da plataforma continental vivem na zona sublitoral, ao passo que os plânctons e os néctons da coluna d’água habitam a zona nerítica. A zona sublitoral consiste no fundo do mar desde o nível de maré baixa até a quebra da plataforma, a borda externa da plataforma continental. Os fatores físicos que afetam os organismos do sublitoral são re- lacionados a duas características fundamentais da plataforma: as suas águas relativamente rasas e a sua proximidade com o continente. Uma vez que o fundo é raso, a temperatura varia mais de um lugar para outro na zona sublitoral do que no fundo do mar mais profundo, além da plataforma. Esse aspecto é significativo, pois a temperatura é um dos fatores que influenciam de maneira mais importante a distribuição dos organismos marinhos. Os tipos de organismos encontrados na zona sublitoral mudam consideravelmente do Equador para os polos. Exis- tem também mais, e não apenas diferentes organismos no Equador do que nos polos. Contudo, o fundo do mar abaixo do gelo Ártico e An- tártico está longe de ser um deserto (ver “Embaixo do gelo antártico”, p. 290). O fundo em águas rasas também é mais afetado por ondas e cor- rentes do que no mar profundo. A subida e a descida das marés podem produzir correntes de maré particularmente fortes na plataforma, em especial em baías e canais estreitos. Ondas geradas pelo vento podem afetar o fundo até profundidades de 200 m. A movimentação da água, também chamada de turbulência, agita a coluna d’água e impede a estratificação. Portanto, com exceção das variações sazonais ou a curto prazo, a temperatura e a salinidade da água no fundo da zona sublitoral não são muito diferentes daquelas na superfície. Mais importante, os nutrientes não se concentram na camada do fundo e, assim, se tornam inacessíveis aos produtores primários, como ocorre nas águas profundas (ver “Nutrientes”, p. 350). Os nutrientes são também trazidos pelos rios, algumas vezes na forma de subpro- dutos dos marismas e manguezais altamente produtivos que margeiam a costa. Como re- sultado, a água acima da plataforma continen- tal é bem mais produtiva e rica em plâncton do que a água do mar aberto; portanto, muito mais alimento está disponível. A alta concen- tração de fitoplâncton, aliada à decomposição da matéria orgânica trazida pelos rios, confere às águas costeiras uma coloração esverdeada, em oposição ao azul profundo das águas de mar aberto. Os rios, obviamente, também trazem grandes quantidades de água doce. O aporte de água doce dilui a água do mar, reduzin- do sua salinidade. Os efeitos de grandes rios como o Mississippi e o Amazonas se esten- dem por milhas mar adentro. Contudo, longe da influência dos rios, a salinidade das águas costeiras é semelhante àquela além da plata- forma continental. A combinação da proximidade continen- tal com as águas rasas influencia bastante a sedimentação – a precipitação das partículas de sedimento na água. Os sedimentos na pla- taforma, em sua maioria, são litogênicos, e os rios trazem enormes quantidades de sedimentos dos continentes. A movimentação da água seleciona essas partículas por tamanho e densidade, especialmente nas partes mais rasas da plataforma. Material formado por grãos grandes, como cascalho e areia, precipita até mesmo em áreas com ondas gran- des e correntes fortes. Por outro lado, a turbulência mantém partículas finas, como o silte e a argila, em suspensão. As partículas finas vão se depositar apenas em áreas calmas ou em águas profundas onde a turbu- lência não alcança o fundo. Os abundantes fitoplânctons e os sedimentos que são trazidos pe- los rios e agitados pelas ondas e correntes deixam a água da plataforma mais turva do que a do mar aberto. A luz não penetra tão intensamente, o que reduz a profundidade na qual os produtores primários – fito- plânctons e algas e fanerógamas marinhas – podem realizar a fotossín- tese e crescer. O tipo de fundo, a profundidade, a turbulência, a temperatura, a salinidade e a luz estão entre os mais importantes fatores físicos que influenciam a vida na plataforma continental. AS COMUNIDADES BENTÔNICAS DA PLATAFORMA CONTINENTAL O tipo de fundo, ou substrato, é muito importante para determinar qual organismo particular irá habitar o fundo da plataforma continen- tal. Ele também dita como esses organismos serão amostrados pelos biólogos marinhos (Fig. 13.2). Na verdade, as comunidades sublitorais são geralmente classificadas de acordo com o tipo de substrato. As mais comuns destas são as comunidades associadas a fundos não consolida- dos ou moles. As comunidades de fundos duros, ou de fundos rochosos, formam o segundo tipo. FIGURA 13.1 O mergulho autônomo expandiu significativamente as possibilidades de estudo do am- biente sublitoral. Estes dois biólogos estão usando uma grade para determinar a densidade (número por área) e o espaçamento, ou distribuição, de organismos bentônicos (ver Fig. 13.4). Castro_13.indd 288Castro_13.indd 288 10/02/12 15:0810/02/12 15:08 Biologia Marinha 289 Comunidades sublitorais de substratos não consolidados Substratos arenosos ou lodosos dominam as plataformas continentais mundialmente. Grandes áreas cobertas com sedimentos não consolida- dos se espalham da costa até a borda da plataforma. Mesmo ao longo de costas rochosas, as rochas acabam por dar lugar à areia ou ao lodo em águas mais profundas. Os organismos que habitam esses fundos em geral planos e aparentemente homogêneos (Fig. 13.3) não são ne- cessariamente distribuídos ao acaso. Há muito tempo já se descobriu que esses organismos formam comunidades distintas cuja distribuição é bastante influenciada por fatores como o tamanho da partícula, a es- tabilidade do sedimento, a luz e a temperatura. As comunidades dos fundos moles da plataforma continental compartilham diversos traços com as comunidades das praias arenosas e das planícies de maré abordadas nos Capítulos 11 e 12. Os infaunas, ou seja, os animais que se enterram ou que cavam o sedimento, pre- dominam em todas essas comunidades. Contudo, existem também al- guns indivíduos que vivem sobre o sedimento, os chamados epifaunas. Devido ao fato de os fundos moles não oferecerem nada que se possa agarrar, são raras as formas de vida sésseis ou aderidas. A maior parte da plataforma continental é coberta por lodo ou areia. As comunidades do sublitoral presentes nessas áreas são dominadas pelos infaunas. O número de espécies vivendo em fundosnão consolidados do sublitoral é em geral maior do que o número de espécies que vivem nos fundos não consolidados da zona entremarés. Isso se deve principal- mente ao fato de que, abaixo da linha de maré baixa, as condições físi- cas são relativamente mais estáveis. A dessecação não é um problema. Além disso, não existem mudanças de temperatura drásticas causadas pela exposição solar durante a maré baixa, nem as variações de salinida- de das planícies de maré estuarinas. A estreita relação entre o tamanho da partícula do sedimento e a distribuição dos organismos é particularmente evidente nos infauna, os quais, em sua maior parte, são bastante seletivos em termos da locali- zação escolhida para viver. Espécies diferentes podem também dividir o ambiente que habitam e dessa forma reduzir a competição, vivendo em diferentes profundidades no substrato. Uma vez que apenas a ca- mada superior do sedimento contém oxigênio suficiente, existe um li- mite na profundidade do sedimento onde os infaunas podem viver. Na lama rica em matéria orgânica, o oxigênio é rapidamente usado para a decomposição. Em contrapartida, a areia muitas vezes contém menos matéria orgânica. Ela é também mais porosa, permitindo que a água circule através do sedimento e reponha o oxigênio (Fig. 11.27). Assim, os infaunas podem cavar mais fundo na areia do que na lama. Mesmo (b) (a) (c)(c) FIGURA 13.2 Embora o mergulho autônomo seja um método excelente para amostrar e estudar os ambientes sublitorais, o seu uso é limitado às profundi- dades rasas. Os fundos não consolidados em profundidades maiores podem ser estudados com o uso de diversos equipamentos de amostragem. As dragas de fundo (a), como a draga de Van Veen, são lançadas da superfície. A boca se fecha, dragando uma amostra do fundo sedimentar, à medida que a draga é recuperada. Diferentes equipamentos de arrasto de fundo (b) são usados para coletar os habitantes grandes dos fundos moles. Eles são semelhantes aos petrechos de arrasto usados pelos pescadores (ver Fig. 17.6d). Equipamentos de arrasto (c) com bordas metálicas pesadas são usados para raspar os organismos dos fundos rochosos. Bentos Organismos que vivem no fundo. Plânctons Organismos que derivam com as correntes. Néctons Organismos capazes de nadar contra as correntes. • Capítulo 10, p. 220; Figura 10.11 Estratificação A separação da coluna d’água em camadas, com a mais densa e fria no fundo, o que impede a mistura da água profunda e rica em nutrientes com a camada superficial, menos densa e mais quente. • Capítulo 3, pág. 52; Figura 3.22 Sedimento litogênico Sedimento que se origina da degradação física ou química de rochas continentais. Sedimento biogênico Sedimento composto por esqueletos e conchas de organismos marinhos. • Capítulo 2, p. 32 Castro_13.indd 289Castro_13.indd 289 10/02/12 15:0810/02/12 15:08 http://areia.as/ 290 Peter Castro & Michael E. Huber na lama, contudo, a presença de buracos contribui com a circulação, ajudando os organismos a obter oxigênio. Os substratos não consolidados geralmente contêm manchas formadas por diferentes tipos de sedimento. Como resultado, a dis- tribuição dos organismos ao longo do fundo é uma distribuição em manchas, ou seja, os organismos ocorrem em agrupamentos ou man- chas distintas (Fig. 13.4). Algumas espécies possuem uma distribuição em mancha porque suas larvas planctônicas selecionam um ambiente particular no qual possam se aderir e realizar a metamorfose. Sabe-se que algumas larvas atrasam a metamorfose e testam o fundo até encon- trarem determinado tipo de substrato (ver “Ecologia das larvas, p. 219). A metamorfose pode ser desencadeada por fatores químicos, físicos e biológicos específicos (Fig. 13.5). As larvas de algumas espécies podem sentir a presença de adultos e preferem se instalar próximo a eles. Isso pode fazer com que as espécies se distribuam de maneira aglomerada, mesmo que exista um fundo homogêneo. A chegada de novos indiví- duos na população, quer seja por larvas que se instalam ou por adultos ou jovens migratórios, é conhecida como recrutamento. A Antártica, uma das últimas áreas selvagens na Terra, é para muitos de nós uma visão de baleias impressionantes, focas sorriden- tes e pinguins divertidos. A vida na plataforma con- tinental antártica é tão fascinante e antiga como nas águas acima dela. O gelo é o principal fator físico para os or- ganismos dessa plataforma. Uma camada de gelo com diversos metros de espessura se forma no inverno, congelando e esmagando qualquer orga- nismo que viva no fundo. Os ventos e as corren- tes empurram o gelo, fazendo-o arrastar no fundo e esmagar, assim, ainda mais organismos. O gelo também pode se formar ao redor dos organismos em profundidades de 30 m ou mais, e sendo me- nos denso do que a água, com frequência flutua em direção à superfície, trazendo com ele esses organismos capturados e em geral congelados. Com exceção desses efeitos do gelo de inverno nas profundidades rasas, o ambiente físico nas águas antárticas é notadamente constante. As tem- peraturas baixas durante todo o ano significam que os processos vitais, incluindo o crescimento, avançam em um ritmo lento. Em contrapartida à região ártica, não existe escoamento de rios na Antártica. Outra diferença importante em relação ao Ártico é a ausência das perturbações causadas pela alimentação dos grandes mamíferos, como a baleia-cinzenta e as morsas. Embora as macroalgas estejam presentes em diversas ilhas oceânicas, elas estão surpreendente- mente ausentes na Antártica continental, onde são substituídas por Desmarestia e algumas outras pou- cas algas marrons. Essas algas não são consideradas algas pardas gigantes, embora possam ser grandes. Os organismos sésseis são raros nas pro- fundidades mais rasas da plataforma, em razão do efeito abrasivo do gelo de inverno. Abaixo dessa profundidade, contudo, os invertebrados ben- tônicos são abundantes. A fauna invertebrada da Antártica é rica, colorida e muito diversa. Muitas das espécies de invertebrados são endêmicos do continente. Eles evoluíram ao longo de um grande período de isolamento das plataformas continen- tais dos outros continentes. As águas ricas em nutrientes são o resultado de uma produção primária bastante alta, quando a luz solar se torna disponível durante os longos dias de verão. Florações intensas de fitoplâncton (as diatomáceas crescem até mesmo no gelo) for- necem alimento para muitos animais que se ali- mentam de material em suspensão. As esponjas, particularmente, são tão comuns que cobrem a maior parte do fundo em alguns lugares. As esponjas são representadas não apenas por muitas espécies diferentes, mas também por uma grande variedade de formas de crescimen- to. As esponjas enormes, parecidas com vulcões, crescem até 2 m de altura. Esses grandes indiví- duos possuem provavelmente centenas de anos de idade. Outras esponjas são parecidas com leques e lembram arbustos ou corais ramificados. Essas e outras esponjas fornecem refúgio e poleiros para muitos peixes e outros animais dotados de mobi- lidade, de maneira semelhante ao papel desempe- nhado por algas pardas gigantes e por corais em outros ambientes. As esponjas são tão comuns que o fundo do mar abaixo de cerca de 30 m de profundidade nada mais é do que uma camada es- pessa de espículas silicosas (vidro) das esponjas – verdadeiramente um fundo de vidro. As espículas de vidro podem desempenhar um papel impressionante em algumas esponjas an- tárticas que abrigam algas simbiontes. Essas algas verdes podem fornecer alguns nutrientes para as esponjas, mas necessitam receber luz para realizar a fotossíntese. Como essas algas simbióticas so- brevivem nas profundezas das esponjas que vivem em águas cobertas por uma grossa camada de gelo é algo que intriga os biólogos marinhos. A resposta parece estar nas espículas de vidro. Elastransmi- tem de maneira eficiente para as algas a pouca luz que chega às esponjas, em um verdadeiro sistema de cabos de fibras ópticas! Outros invertebrados são abundantes: anê- monas marinhas, corais moles, estrelas-do-mar, nudibrânquios e pepinos-do-mar. Muitos destes, assim como as esponjas, se alimentam de material em suspensão, ao passo que outros se alimentam das esponjas. Para se proteger dos predadores, muitas esponjas produzem substâncias tóxicas. Essas defesas químicas são especialmente co- muns entre as esponjas de cores brilhantes. Ou- tros animais são predadores dos animais que se alimentam de esponjas, evitando que as esponjas de crescimento lento sejam extintas da área. Nem todos esses invertebrados do sublitoral são en- dêmicos da Antártica. Alguns são encontrados em outros lugares, mas em águas progressivamente mais profundas, à medida que fica-se próximo da linha do Equador. Os peixes antárticos são notáveis pela capa- cidade de se manterem ativos em temperaturas próximas do ponto de congelamento da água do mar. Muitos deles possuem substâncias químicas anticongelantes no sangue. A água fria carrega tan- to oxigênio dissolvido que alguns peixes, como o peixe-gelo, possuem sangue sem cor, que carece de hemoglobina. O bacalhau antártico (Notothenia), durante o inverno, reduz seu metabolismo e entra em um estado que se assemelha à hibernação. As maravilhas da vida na Antártica, tanto aci- ma como abaixo do gelo, estão infelizmente sendo ameaçadas. O Tratado Antártico, assinado por 46 nações para administrar e gerenciar o continente, agora obriga os poluidores a reparar o dano cau- sado ou então pagar multas. Navios de cruzeiros turísticos, embarcações de pesca, poluição por óleo ou por esgoto, lixo abandonado, exploração potencial de petróleo e de outros recursos mine- rais, e o buraco de ozônio (ver “Sem ozônio”, p. 238) podem finalmente sobrecarregar nosso mais desolado continente e afetar negativamente sua biologia única. Embaixo do gelo antártico Um coral mole com formato arbustivo, uma es- ponja amarela, moluscos e outros invertebrados bentônicos da Antártica. Castro_13.indd 290Castro_13.indd 290 10/02/12 15:0810/02/12 15:08 http://constante.as/ Biologia Marinha 291 Comunidades de substratos não consolidados desprovidas de for- mas vegetais A grande maioria das comunidades de substratos não consolidados da plataforma continental não apresenta macroalgas ou fanerógamas marinhas * em quantidades significativas. Elas são, por- tanto, conhecidas como comunidades desprovidas de formas vegetais. A ausência das grandes algas e das plantas superiores é a característica definidora dessas comunidades. O alface-do-mar (Ulva) e outras algas verdes como Enteromorpha podem crescer nas águas rasas, mas apenas sobre superfícies duras como rochas e fragmentos de conchas. Os prin- cipais produtores primários são as diatomáceas e algumas outras pou- cas algas microscópicas e bactérias que crescem nas partículas de areia ou lama em águas rasas. Essa quase completa ausência de algas e plan- tas significa que, assim como nas praias arenosas, a produção primária gerada pelos produtores primários bentônicos é geralmente bastante baixa. Quase toda a produção primária é realizada pelos fitoplânctons, que não fazem parte das comunidades de fundo. Uma vez que existe pouca produção primária gerada por orga- nismos bentônicos, os detritos são uma fonte de alimento bastante importante para muitos habitantes dessas comunidades. Os detritos são trazidos por correntes a partir de estuários, costas rochosas, e de outras comunidades costeiras mais produtivas, também estão presentes na forma de fezes, carcaças de organismos mortos e outros resíduos do plâncton e do nécton na coluna d´água. Os detritos são também gera- dos pelos próprios habitantes do fundo. Os detritos são usados pelas bactérias e por muitos tipos de animais microscópicos que vivem entre as partículas do sedimento, os animais intersticiais, ou meiofaunas (ver “A vida na lama e na areia”, p. 295)*. Os grandes invertebrados bentônicos também se alimentam de detritos. Eles são formados principalmente pelos organismos depo- sitívoros cavadores (Fig. 13.6). Desses, os poliquetas formam o grupo mais diverso nos sedimentos não consolidados da plataforma conti- nental. Os vermes tubículas (Pectinaria; Fig. 13.6 e Clymenella, veja Fig. 12.11), que habitam tubos construídos por eles usando partículas do sedimento, são poliquetas que se alimentam de material depositado. O poliqueta Arenicola e outros vermes se alimentam de detritos e outros tipos de matéria orgânica, coletando-os com seus tentáculos ou inge- rindo o sedimento e extraindo o alimento dele. Alguns ouriços-do-mar possuem adaptações únicas para viver se ali- mentando dos depósitos sobre os fundos moles. Ouriços-do-mar com formato de coração (Spatangus) abandonaram o formato arredondado típico da maioria dos ouriços, desenvolvendo uma forma mais hidrodinâmica, com espinhos mais cur- tos que se deitam (Figs. 13.6 e 13.7). As bolachas- -do-mar (Dendraster) são quase completamente chatas e possuem espinhos muito curtos (Figs. 13.8 e 7.47b). Elas se alimentam de detritos e usam muco para carregar as partículas até a boca. Entre os infau- na, incluem-se outros animais depositívoros, como os equiúros (Fig. 13.9), os sipúnculos, os pepinos- -do-mar e os corruptos (Neotrypaea, veja Fig. 12.11). Os infaunas também incluem animais suspen- sívoros que comem detritos e plânctons que vagam na coluna d´água. Muitos desses animais são filtra- dores, que ativamente filtram a água para obter as partículas em suspensão bombeando a água através de estruturas filtrantes ou varrendo a água com es- sas estruturas (ver Fig. 7.3). De maneira contrária, os animais que se alimentam passivamente de par- tículas em suspensão usam apenas o muco ou cílios para mover as partículas até a boca. Os animais que se alimentam de material em suspensão dos fundos * N. de T. Seagrasses, no original. FIGURA 13.3 Formas de vida conspícuas nos fundos arenosos rasos incluem agregações ocasionais de algas que conseguem crescer sobre peque- nas rochas ou conchas, e grandes predadores como os linguados. (a) Aleatória (b) Regular (c) Em manchas FIGURA 13.4 O espaçamento, ou distribuição, dos organismos pode ser classificado em três tipos básicos: (a) aleatório, no qual os animais apresentam-se espalhados sem qualquer padrão particular, (b) regular, em que se encontram espaçados a intervalos regulares, e (c) em manchas ou agregado, onde se agrupam em determinadas áreas. Muitas espécies marinhas apresentam uma distribuição em man- chas. Esses padrões de distribuição podem ser obtidos usando uma grade, conforme mostrado na Figura 13.1. Você pode imaginar uma razão pela qual organismos como as vieiras possam apresentar uma distribuição regular? Metamorfose A transformação de um estágio de um ciclo de vida em outro estágio, como quando uma larva se transforma em um indivíduo jovem. • Capítulo 7, p. 117 Produtores primários Organismos que podem gerar matéria orgânica a partir do CO2, geralmente pela fotossíntese. • Capítulo 4, p. 68 Detritos Partículas de matéria orgânica morta. • Capítulo 10, p. 223 Organismos depositívoros Animais que se alimentam da matéria orgânica depositada sobre o sedimento. Organismos suspensívoros Animais, incluindo os filtradores, que se alimentam de partículas suspensas na coluna d´água. • Capítulo 7, p. 116; Figura 7.3 Castro_13.indd 291Castro_13.indd 291 10/02/12 15:0810/02/12 15:08 334 Peter Castro & Michael E. Huber O fitoplâncton Grandes produtores primários como as macroalgas ou as fanerógamas marinhas estão praticamente ausentes no ambiente epipelágico, porque não encontram nenhum local para se fixarem. As macroalgas flutuantes são importantes em alguns poucos lugares, como o Mar de Sargasso (ver Fig. 8.24), mas, na maioriados ambientes epipelágicos, os úni- cos produtores primários são organismos unicelulares ou formados por cadeias simples de células. Esses minúsculos organismos compõem o fitoplâncton, que ocorre praticamente em qualquer lugar do ambiente epipelágico, em geral em quantidades enormes. O fitoplâncton realiza mais de 95% da fotossíntese dos oceanos. Essa quantidade representa quase a metade da produção primária mundial e produz quase a meta- de do oxigênio da nossa atmosfera. Uma vez que o plâncton de rede é relativamente fácil de capturar, a sua importância foi reconhecida há bastante tempo. Entre esses organismos, as diatomá- ceas (Fig. 15.3) e os dinoflagelados são muito impor- tantes. Antes da descoberta do nanoplâncton e do pi- coplâncton, se pensava que as diatomáceas dominavam o fitoplâncton e eram responsáveis pela maioria da fo- tossíntese realizada no ambiente epipelágico. Embora saibamos hoje em dia que isso não é verdade, as dia- tomáceas ainda são extremamente importantes. Elas são bastante comuns nas regiões temperadas e polares e em outras águas ricas em nutrientes. Elas são abun- dantes tanto próximo da costa como no mar aberto. Os dinoflagelados são outro grande grupo do fitoplâncton de rede. Eles são importantes tanto em águas neríticas como em águas oceânicas, mas tendem a preferir áreas mais quentes. Nos trópicos, eles costu- mam substituir as diatomáceas como o grupo nume- ricamente mais abundante do fitoplâncton de rede. Os dinoflagelados podem ser mais bem adaptados do que as diatomáceas para as condi- ções de baixa oferta de nutrientes. Com nutrientes, por outro lado, os dinoflagelados podem florescer, ou seja, crescer de maneira explosiva em quantidades enormes, algumas vezes causando as marés vermelhas (ver “Marés vermelhas e florações de algas nocivas”, p. 338). Um grupo de cianobactérias, Trichodesmium, cresce na forma de colônias filamentosas que podem ser capturadas pelas redes. Esse gru- po pode ser muito abundante, algumas vezes formando marés verme- lhas. São particularmente abundantes em águas pobres em nutrientes, talvez porque podem fixar o nitrogênio (ver “Nutrientes”, p. 350). Uma vez que são tão pequenos e tão difíceis de serem capturados, ou até mesmo de serem vistos em um microscópio, o picoplâncton fotossin- Mesoplâncton (Tamanho: 0,2-20 mm) Microplâncton (Tamanho: 20-200 μm) Plâncton de rede Nanoplâncton (Tamanho: 2-20 μm) Picoplâncton (Tamanho: 0,2-2 μm) Fentoplâncton (tamanho: 0,02-0,2 μm) Megaplâncton (Tamanho: 20-200 cm) Macroplâncton (Tamanho: 2-20 cm) FIGURA 15.2 O plâncton é geralmente separado em categorias com base no tamanho dos organismos (ver também o Apêndice A). Note que o tamanho dos organismos em cada categoria aumenta logaritmamente, isto é, a faixa de tamanho de cada categoria é dez vezes maior do que a faixa de tamanho da categoria imediatamente menor. (a) (b) FIGURA 15.3 As diatomáceas possuem carapaças escul- pidas, chamadas de frústulas, feitas de sílica. (a) Thalassiosira allenii (visões superior e lateral) consiste em uma única célula. (b) Fragillaria é uma diatomácea que forma cadeias de células. Cada divisão nos filamentos longos e verdes é uma célula individual (ver também Fig. 5.6). Castro_15.indd 334Castro_15.indd 334 13/02/12 10:5313/02/12 10:53 Biologia Marinha 335 tetizante e o nanoplâncton não são tão bem conhecidos como o fitoplânc- ton de rede, e a grande importância desses dois grupos foi apenas recen- temente reconhecida. O picoplâncton fotossintetizante e o nanoplâncton são bem mais abundantes do que o plâncton de rede e contribuem com a maioria da fotossíntese epipelágica, 90% ou mais em muitos lugares. As cianobactérias são os organismos mais abundantes do pico- plâncton e são responsáveis por pelo menos metade da produção pri- mária dos oceanos. O grupo unicelular Prochlorococcus é o mais abun- dante de todo o fitoplâncton marinho e é especialmente dominante em águas tropicais e subtropicais pobres em nutrientes. Aparentado a eles, o grupo Synechococcus é também muito abundante em todas as águas, com exceção das águas polares. Embora as cianobactérias dominem o picoplâncton fotossinteti- zante, vários protistas são também importantes. Esses organismos eu- cariontes compõem menos de 5% do total de células picoplanctônicas na água, mas são responsáveis por mais de 30% das células picoplanc- tônicas. Um amplo fornecimento de nutrientes parece favorecer o au- mento da abundância dos protistas em relação às cianobactérias. Mui- tos dos protistas fotossintetizantes no picoplâncton não foram isolados e são conhecidos apenas pela presença de sequências características de ácidos nucleicos na água (ver “Pequenas células, grandes surpresas”, p. 92). O papel ecológico deles no fitoplâncton é pouco conhecido. Embora os protistas tenham um papel incerto no picoplâncton, eles dominam o nanoplâncton, e muitos deles são fotossintetizantes. Os cocolitoforídeos são um dos mais abundantes grupos, e prova- velmente o que se melhor conhece. Eles se desenvolvem bem no mar aberto, mas também ocorrem em águas costeiras. Outro grupo de fitoplânctons diminutos conhecidos como crip- tófitas é muito comum nas águas neríticas. Eles parecem ser muito importantes para a economia dos mares, mas pouco se sabe sobre eles. Os silicoflagelados (ver Fig. 5.96) florescem ocasionalmente e se tor- nam produtores primários importantes. Diversos outros grupos de na- noplâncton protistas parecem ser produtores primários importantes no ambiente epipelágico. Muitas diatomáceas e dinoflagelados pertencem ao plâncton de rede, mas algumas poucas espécies atipicamente peque- nas pertencem ao nanoplâncton. O fitoplâncton é o principal produtor primário do ambinte epipelágico. Os grupos mais abundantes do fitoplâncton são as cianobactérias e vários grupos de protistas formadores do pico e do nanoplâncton, incluindo os cocolitoforídeos, as criptófitas e os silicoflagelados. Entre os organismos maiores do plâncton de rede, as diatomáceas e os dinoflagelados são dominantes. A Tabela 15.1 mostra os principais grupos do fitoplâncton ma- rinho. Vários outros grupos podem formar florações, mas de maneira relativamente rara, e de importância secundária para a economia geral dos oceanos. O zooplâncton O fitoplâncton forma a base da teia alimentar. A energia solar que eles capturam e armazenam como matéria orgânica é passada adiante para outras criaturas do ambiente epipelágico, desde diminutos organismos formadores do zooplâncton até baleias gigantes. O primeiro passo nesse fluxo de energia ocorre quando os herbívoros ingerem o fitoplâncton. Os herbívoros são a conexão vital entre os produtores primários do fito- plâncton e o resto da comunidade biológica. Grandes animais epipelági- cos não conseguem se alimentar diretamente do minúsculo fitoplâncton. Eles dependem do zooplâncton herbívoro, o qual consegue. Portanto, uma parte fundamental da teia alimentar do ambiente epipelágico é o fluxo de energia do fitoplâncton para o zooplâncton herbívoro. Muitos poucos organismos do zooplâncton são herbívoros estri- tos, e aqueles que se alimentam de fitoplâncton também se alimentam ocasionalmente de outros organismos zooplanctônicos. A maioria das espécies de zooplâncton é primariamente carnívora e dificilmente in- gere fitoplâncton. Esses carnívoros podem se alimentar diretamente de zooplâncton herbívoro e, portanto, consumir a produção do fito- plâncton com apenas um passo intermediário, conhecido como nível trófico, na teia alimentar. Eles podem também se alimentar de outros carnívoros, adicionando conexões à teia alimentar (Fig. 15.4). Zooplâncton protozoário Os minúsculos picoplâncton e nanoplân- ton são muito pequenos para que a maioria dos animais multicelulares possa capturá-los e ingerí-los. Os protozoários, contudo, conseguem. Quando se descobriu que o pico e o nanoplâncton são as formas mais abundantes do fitoplâncton, a importância dos protozoários tambémfoi reconhecida. Sem os protozoários, muito da produção primária do ambiente epipelágico não seria utilizado. O mais importante grupo desses protozoários é composto por vários flagelados, que são os pro- tozoários que se movem com o uso de flagelos. Os ciliados, os fora- miníferos (Fig. 15.5) e os radiolários (ver “Protozoários: os protistas similares a animais”, p. 97) são também importantes protozoários her- bívoros, tanto no plâncton de rede como no pico e no nanoplâncton. Muitos protozoários herbívoros são capazes de realizar a fotossíntese, de maneira que eles também atuam como membros do fitoplâncton. Copépodes Os pequenos crustáceos, especialmente os copépodes (Fig. 15.6) dominam o zooplâncton de rede. Os copépodes são os mem- bros mais abundantes do zooplâncton em praticamente qualquer lugar nos oceanos, representando 70% ou mais da comunidade. Isso os torna provavelmente o grupo de animais mais numeroso na Terra. Quase todos os copépodes epipelágicos se alimentam pelo menos de um pouco de fitoplâncton. Já se pensou que eles usassem as cerdas situ- adas no aparato bucal e nas antenas para filtrar o fitoplâncton da água, ingerindo qualquer partícula que fosse do tamanho certo para se prender nas cerdas. Na verdade, esse não é o caso. Para organismos pequenos como os copépodes, a água é muito mais viscosa, com a consistência de um xa- rope, do que ela parece para nós. Os apêndices em forma de cerdas dos copépodes são mais parecidos com remos do que com redes, e são usados para criar correntes de água que levam células individuais de fitoplâncton Arqueas Organismos procariontes unicelulares que já foram considerados bactérias, mas atualmente se sabe que são tão diferentes das bactérias quanto são dos humanos. • Capítulo 5, p. 89 Dinoflagelados Organismos unicelulares que usam flagelos para nadar. • Capítulo 5, p. 94 Fixação do nitrogênio A conversão do gás nitrogênio (N2) em compostos nitrogenados que podem ser usados pelos produtores primários como nutrientes. • Capítulo 5, p. 92; Tabela 5.1 Organismos eucariontes Organismos com células que possuem um núcleo e outras organelas cercadas por membranas. • Capítulo 4, p. 69; Figura 4.8 Protozoários Organismos unicelulares que são assemelhados aos animais por ingerirem alimento e geralmente se moverem. • Capítulo 5, p. 97 Castro_15.indd 335Castro_15.indd 335 13/02/12 10:5313/02/12 10:53 http://cerdas.na/ PRINCIPAIS ESTILOS DE VIDA E AMBIENTES MARINHOS O FLUXO DE MATÉRIA E ENERGIA Estrutura trófica Ciclos dos nutrientes essenciais AS COMUNIDADES BENTÔNICAS DA PLATAFORMA CONTINENTAL Comunidades sublitorais de substratos não consolidados O fitoplâncton O zooplâncton