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73 a. Ao afirmar que “Cada dia sem gozo não foi teu / Foi só durares nele”, que topoi é retomada? b. É possível reconhecer um diálogo entre a última estrofe de Bocage e o poema de Ricardo Reis? Justifique. c. Entre as topoi que conheceu, qual(is) pode(m) ser reconhecida(s) no poema de Ricardo Reis? Justifique. 12 Leia um soneto do mineiro Cláudio Manuel da Costa (1729-1789). Observe como o poeta ár- cade apresenta a natureza que já não existe, mas que foi conhecida um dia. Soneto VII Onde estou! Este sítio desconheço: Quem fez tão diferente aquele prado! Tudo outra natureza tem tomado; E em contemplá-lo tímido esmoreço. Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço De estar a ela um dia reclinado: Ali em vale um monte está mudado: Quanto pode dos anos o progresso! É possível reconhecer uma aproximação entre os poemas, já que há uma valorização das coisas simples e naturais, o que leva à ventura ou ser venturos, como expresso no poema de Bocage. É possível reconhecer carpe diem, já que há uma referência explícita ao “gozo do dia” para que seja de fato vivido. Além disso, há também uma possível associação com aurea mediocritas, pois o importante é valorizar a simplicidade. O eu lírico retoma aqui o carpe diem, pois afirma que é preciso desfrutar o dia, aproveitá-lo para assim ter de fato vivido.os descritos ao longo do poema. Árvores aqui vi tão florescentes, Que faziam perpétua a primavera: Nem troncos vejo agora decadentes. Eu me engano: a região esta não era: Mas que venho a estranhar, se estão presentes Meus males, com que tudo degenera! Agora, responda às próximas questões. a. Logo na primeira estrofe é possível reconhecer o tema do soneto e qual é a visão do eu lírico sobre ele? b. Na segunda e na terceira estrofes é possível identificar o desenvolvimento do tema. Por que o eu lírico afirma não reconhecer esse lugar? c. A fuga para a natureza, tema comum aos clássicos, aqui se modifica: o eu lírico recorre à natureza, mas ela já não existe. É possível reconhecer uma alteração de um valor árcade? Literatura: assimilações, rupturas e permanências Você deve ter notado que o poema de Horácio traz elementos relacionados à natureza para alertar Leocônoe sobre a brevidade da vida. Para isso, utiliza comparações com os invernos e o mar de Tirreno a fim de instruir o interlocutor. No poema do poeta português Bocage, a vida sim- ples em meio à natureza é apresentada em oposição ao conforto vivido pelo nobre, com o pro- pósito de valorizar a simplicidade. A poesia de Bocage, representante do Arcadismo português, resgata os elementos da cultura clássica representados no poema de Horácio e lhes dá novas configurações, relacionadas à realidade vivida por ele, como homem burguês que pretendia, por meio dos seus poemas, transmitir determinadas mensagens e valores. Isso mostra como a litera- tura está em constante movimento de retomadas e rupturas por influência de diferentes realida- des históricas e pessoais de seus autores. Já Cláudio Manuel da Costa foi um dos representantes do Arcadismo brasileiro e, juntamente com outros escritores mineiros, trouxe para a poesia a paisagem das Minas Gerais, alterando a paisagem bucólica e inovando ao mostrar os efeitos do progresso nessa natureza, que passa a ser um local tão degradado quanto à cidade. Nesse sentido, o poeta brasileiro traz uma ruptura com a convenção da paisagem clássica como harmônica e amena. Enquanto isso, Fernando Pessoa, sob o heterônimo Ricardo Reis, não apenas assimila, os conceitos da lírica clássica, como mostra sua permanência em sua produção do modernismo português. É possível perceber que o eu lírico não reconhece mais a natureza que está ali, e que contemplar aquela nova paisagem não o anima. Porque ali havia antes uma outra paisagem: uma fonte, um mote, as árvores que perpetuavam a primavera. Mas agora não há nem troncos das árvores que um dia compuseram aquela paisagem. É possível reconhecer uma ruptura com a tradição, pois a natureza que deveria acolher o eu lírico foi modificada pelo progresso. COSTA, Cláudio Manuel da (Glauceste Saturno). Obras poéticas. Rio de Janeiro: Garnier, 1903. p. 89. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4722. Acesso em: 17 ago. 2020. (Ortografia atualizada pelos autores.) V6_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_Cap2_054a87_LA.indd 73V6_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_Cap2_054a87_LA.indd 73 29/09/2020 13:1129/09/2020 13:11 74 Repertórios e análises Desenho no espaço A instalação Fantasmagoria foi realizada em uma área de floresta na região de Biarritz, na França, pela paulista Edith Derdyk (1955-). A artis- ta foi chamada para desenvolver um trabalho para o jardim de escultu- ras La Petite Escalère, local privado que vem sendo ocupado ao longo dos anos com exposições de trabalhos de artistas convidados. Para desenvolver essa instalação de caráter efêmero — permaneceu 10 meses exposta no local —, Edith estendeu, por entre as árvores do parque, 78 km de linhas, e isso exigiu que, durante a criação e produção da obra, a artista caminhasse para esticar e alinhavar as linhas. Dessa forma, experimentou no próprio fazer a experiência que propõe ao pú- blico: caminhar pelo parque, percorrer por entre as linhas, criar com o próprio corpo trajetos e percepções sensoriais entre as linhas criadas e o local, perceber as relações que a obra estabelece com a geografia e organização das árvores, observar e sentir as características locais (tipo de solo, clima, vegetação, luz) e o impacto da instalação no parque. 1 Após observar a imagem, responda oralmente às questões. a. De que maneira você acha que o título da obra dialoga com a pro- posta de Edith Derdyk? b. Como a instalação estabelece uma relação com o espaço que ocupa? c. Que elemento visual você identifica nas formas dessa criação ar- tística? d. Você acha que o desenho pode se manifestar no espaço, arquite- tura e geografia do mundo de maneira visível ou sensorial? Como? Resposta pessoal. Resposta pessoal. Resposta pessoal. Espera-se que o estudante mobilize conhecimentos prévios e reconheça a linha como um elemento usado pela artista para desenhar no espaço. Respostas pessoais. fantasmagoria: fazer aparecer fantasmas ou figuras luminosas em lugar escuro, por efeitos de ilusão de óptica; algo ilusório ou de aparência falsa. Edith Derdyk, Fantasmagorie, 2017 (vídeo, 8 min). Disponível em: https://vimeo. com/224525443. Acesso em: 17 ago. 2020. Assista ao vídeo para conhecer mais desse trabalho de Edith Derdyk com um depoimento da artista. FICA A DICA NÃO ESCREVA NESTE LIVRO. B a rb a ra F e c ch io /S c u lp tu re N a tu re Fantasmagoria, de Edith Derdyk, 2017 (78 quilômetros de linha de algodão). Instalação efêmera exposta no Jardim de Esculturas La Petit Escalère, na França, de maio a novembro de 2017. TRILHA DE ARTE V6_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_Cap2_054a87_LA.indd 74V6_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_Cap2_054a87_LA.indd 74 29/09/2020 13:1129/09/2020 13:11