Prévia do material em texto
E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão Editora CRV Curitiba – Brasil 2023 Rosângela Nair de Carvalho Barbosa Ney Luiz Teixeira de Almeida (Organizadores) LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão Copyright © da Editora CRV Ltda. Editor-chefe: Railson Moura Imagem de Capa: Freepik Diagramação e Capa: Designers da Editora CRV Revisão: Os Autores Edição fi nanciada com apoio da Capes / Proex - Programa de Excelência Acadêmica. DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) CATALOGAÇÃO NA FONTE Bibliotecária responsável: Luzenira Alves dos Santos CRB9/1506 L112 Labirintos da precarização do trabalho e das condições de vida / Rosangela Nair de Carvalho Barbosa, Ney Luiz Teixeira de Almeida – Curitiba: CRV, 2023. 466 p. Bibliografi a ISBN Digital 978-65-251-5287-8 ISBN Físico 978-65-251-5286-8 DOI 10.24824/978652515286.8 1. Serviço social 2. Precarização do trabalho 3. Reprodução social 4. Contrarreforma I. Barbosa, Rosangela Nair de Carvalho, org. II. Almeida, Ney Luiz Teixeira de, org. III. Título IV. Série. CDU 364 CDD 360 Índice para catálogo sistemático 1. Serviço social - 360 2023 Foi feito o depósito legal conf. Lei nº 10.994 de 14/12/2004 Proibida a reprodução parcial ou total desta obra sem autorização da Editora CRV Todos os direitos desta edição reservados pela: Editora CRV Tel.: (41) 3039-6418 – E-mail: sac@editoracrv.com.br Conheça os nossos lançamentos: www.editoracrv.com.br E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão Este livro passou por avaliação e aprovação às cegas de dois ou mais pareceristas ad hoc. Comitê Científi co: Alexsandro Eleotério Pereira de Souza (UEL) Claudiane Tavares (UNILA) Luciene Alcinda de Medeiros (PUC-RJ) Maria Regina de Avila Moreira (UFRN) Patrícia Krieger Grossi (PUC-RS) Regina Sueli de Sousa (UFG) Solange Conceição Albuquerque de Cristo (UNIFESSPA) Thaísa Teixeira Closs (UFRGS -RS) Vanessa Rombola Machado (Universidade Estadual de Maringá) Vinícius Ferreira Baptista (UFRRJ) Conselho Editorial: Aldira Guimarães Duarte Domínguez (UNB) Andréia da Silva Quintanilha Sousa (UNIR/UFRN) Anselmo Alencar Colares (UFOPA) Antônio Pereira Gaio Júnior (UFRRJ) Carlos Alberto Vilar Estêvão (UMINHO – PT) Carlos Federico Dominguez Avila (Unieuro) Carmen Tereza Velanga (UNIR) Celso Conti (UFSCar) Cesar Gerónimo Tello (Univer .Nacional Três de Febrero – Argentina) Eduardo Fernandes Barbosa (UFMG) Elione Maria Nogueira Diogenes (UFAL) Elizeu Clementino de Souza (UNEB) Élsio José Corá (UFFS) Fernando Antônio Gonçalves Alcoforado (IPB) Francisco Carlos Duarte (PUC-PR) Gloria Fariñas León (Universidade de La Havana – Cuba) Guillermo Arias Beatón (Universidade de La Havana – Cuba) Jailson Alves dos Santos (UFRJ) João Adalberto Campato Junior (UNESP) Josania Portela (UFPI) Leonel Severo Rocha (UNISINOS) Lídia de Oliveira Xavier (UNIEURO) Lourdes Helena da Silva (UFV) Luciano Rodrigues Costa (UFV) Marcelo Paixão (UFRJ e UTexas – US) Maria Cristina dos Santos Bezerra (UFSCar) Maria de Lourdes Pinto de Almeida (UNOESC) Maria Lília Imbiriba Sousa Colares (UFOPA) Paulo Romualdo Hernandes (UNIFAL-MG) Renato Francisco dos Santos Paula (UFG) Sérgio Nunes de Jesus (IFRO) Simone Rodrigues Pinto (UNB) Solange Helena Ximenes-Rocha (UFOPA) Sydione Santos (UEPG) Tadeu Oliver Gonçalves (UFPA) Tania Suely Azevedo Brasileiro (UFOPA) E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão SUMÁRIO APRESENTAÇÃO .......................................................................................... 11 PREFÁCIO .....................................................................................................21 PARTE 1 O DEBATE TEÓRICO SOBRE A PRECARIZAÇÃO SOCIAL NO CAPITALISMO TRABALHO, PRECARIZAÇÃO E PRECARIEDADE: considerações teóricas à luz de um balanço (auto) crítico ...................................................... 37 Graça Druck DOI: 10.24824/978652515286.8.37-66 MISÉRIA AUTOMATIZADA: a crise do valor como fundamento da precarização do trabalho .................................................................................67 Lana Carrijo Mariela Becher DOI: 10.24824/978652515286.8.67-84 CRISE DO CAPITAL, PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E TICS: o trabalho de assistentes sociais no “fi o da navalha” ........................................ 85 Raquel Raichelis DOI: 10.24824/978652515286.8.85-108 AS FORMAS DE SER DO TRABALHO NO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO: do Taylorismo-Fordismo à acumulação fl exível e digital .............................................................................................................109 Ricardo Antunes Luci Praun DOI: 10.24824/978652515286.8.109-122 GEOGRAFIAS DA REPRODUÇÃO SOCIAL CRÍTICA: fraturas e fronteiras em territórios periféricos durante a crise ....................................... 123 Thiago Canettieri DOI: 10.24824/978652515286.8.123-148 A CRÍTICA À PRECARIEDADE ..................................................................149 Rosangela Nair de Carvalho Barbosa DOI: 10.24824/978652515286.8.149-176 E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão PARTE II A VIOLÊNCIA DA DINÂMICA CAPITALISTA PRECARIZANTE E A GESTÃO DOS SEUS ESCOMBROS EXPROPRIAÇÃO E VIOLÊNCIA: refl exões a partir dos impactos dos grandes projetos de desenvolvimento no espaço agrário do Rio de Janeiro ....177 Ana Costa Paulo Alentejano Pedro Catanzaro da Rocha Leão DOI: 10.24824/978652515286.8.177-198 OS DANOS DA MINERAÇÃO SOBRE O MUNICÍPIO DE GOVERNADOR VALADARES: instrumentalização do território para a cadeia de valor ..............................................................................................199 Fábio Fraga dos Santos DOI: 10.24824/978652515286.8.199-222 “ACIDENTE INDUSTRIAL AMPLIADO” COMO CONSEQUÊNCIA DO PROCESSO DE VALORIZAÇÃO: o caso da minério-dependência de Mariana/MG ...................................................................................................223 Roberto Coelho do Carmo DOI: 10.24824/978652515286.8.223-244 REGIÃO PORTUÁRIA DO RIO DE JANEIRO E HABITAÇÃO SOCIAL: da invisibilidade à reivindicação do habitar ................................... 245 Maria Gorete da Gama DOI: 10.24824/978652515286.8.245-264 TRABALHO E POPULAÇÕES TRADICIONAIS NO CAPITALISMO: considerações sobre a pesca artesanal ........................................................ 265 Maria Fernanda Escurra DOI: 10.24824/978652515286.8.265-288 TRABALHO E POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA: uma análise à luz da questão social no Ceará .....................................................................289 Régia Maria Prado Pinto DOI: 10.24824/978652515286.8.289-316 E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão TRABALHO E REPRODUÇÃO SOCIAL NO CONTEXTO (ULTRA) NEOLIBERAL: refl exões sobre condições de vida e ilicitude do comércio das drogas em terras brasileiras ...................................................................317 Valeria Forti Juliana Menezes André Menezes DOI: 10.24824/978652515286.8.317-342 PARTE 3 A PRECARIZAÇÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS E SUA INCIDÊNCIA SOBRE O TRABALHO, OS DIREITOS SOCIAIS E A REPRODUÇÃO DAS FRAÇÕES DA CLASSE TRABALHADORA TRABALHO E CRISE NO CONTEXTO DAS CONTRARREFORMAS BRASILEIRAS NO SÉCULO XXI ............................................................... 343 Inez Stampa Tatiane Valéria Cardoso dos Santos DOI: 10.24824/978652515286.8.343-364TRABALHO E SAÚDE-DOENÇA: a condição precária pós-reabilitação profi ssional ....................................................................................................365 Monica de Jesus Cesar Paula Cristina Nunes de Sá Ana Inês Simões Cardoso de Melo DOI: 10.24824/978652515286.8.365-390 CONTRARREFORMA ADMINISTRATIVA, GERENCIALISMO E SERVIÇO SOCIAL: as alterações no processo de trabalho coletivo na Previdência Social .........................................................................................391 Gênesis de Oliveira Pereira DOI: 10.24824/978652515286.8.391-412 ADOECIMENTO E MAL-ESTAR NO MUNDO DO TRABALHO: discutindo a educação superior .....................................................................413 Deise Mancebo DOI: 10.24824/978652515286.8.413-426 EXPANSÃO PRECARIZADA DA FORMAÇÃO PARA O TRABALHO COMPLEXO NO BRASIL NO SÉCULO XXI .............................................. 427 Amanda da Silva Belo Carlos Felipe Nunes Moreira Ney Luiz Teixeira de Almeida DOI: 10.24824/978652515286.8.427-452 E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão ÍNDICE REMISSIVO ...................................................................................453 SOBRE OS(AS) AUTORES(AS) .................................................................459 E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão APRESENTAÇÃO Esse livro chega ao público por iniciativa do Programa de Pós-Gra- duação em Serviço Social (PPGSS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com o apoio da CAPES, para dar visibilidade às inquieta- ções teóricas e empíricas dos diferentes integrantes da Linha de Pesquisa “Trabalho, Relações Sociais e Serviço Social”. Em adição, concomitan- temente, recebe a colaboração valiosa de pesquisadores de outras uni- versidades que partilham conosco os desafi os de produzir conhecimentos sobre os desdobramentos das contradições internas da forma-mercadoria para a vida humana e a natureza, expressos nas diferentes manifestações de precariedade social do modo de vida no capitalismo, violentamente exacerbada nos últimos anos. A reunião desses textos num único veículo editorial e sua divulgação no atual contexto de acirrada devastação do trabalho se presta a colaborar com os esforços refl exivos sobre o labirinto social do capital, forjado historicamente pelos homens, mas que os afronta com os grilhões da forma-valor. Parecendo transitar das histórias kafkianas – que se movem entre o absurdo e a eversiva normalidade –, a metáfora do labirinto possibilita entender o realismo dos paradoxos capitalistas, pois a sociedade que universaliza o trabalho abstrato – reduzindo a vida ao trabalho – progressivamente limita o acesso ao traba- lho-valor e amplia a viração incerta como meio de vida de que são expressões o desemprego estrutural e a informalidade laboral, acentuadas nos últimos quarenta anos. O desfecho trágico da humanidade é não compreender essa sociedade e sequer safar-se dela até hoje, como no labirinto de Creta da mitologia grega com seus corredores de portas falsas e armadilhas que aprisionam à cilada e à repetição. A própria incerteza sobre como levar à frente a vida, diante de ganhos incertos e ações públicas furtivas de reprodução social, enebria de positividade o empreendedorismo, alimentando a competitividade neoliberal entre trabalhadores ciosos por um lugar ao sol. O processo de precarização conta com essa disseminação ofi cial da penúria como ferramenta da compe- titividade, com o trabalhador como empreendedor de si mesmo, pelos corre- dores da cidade crescentemente mercantilizada. Ao lado dessa artimanha, a ampliação das pessoas redundantes aciona também políticas agressivas nada desprezíveis de controle populacional, de encarceramento e de militarização do cotidiano. Consubstanciando uma formação social desimplicada com a vida humana em si e com a própria natureza de que depende, como demonstram os problemas climáticos e o extrativismo predatório. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 12 Em síntese, a crítica social enlaça a coletânea de textos, dando signifi cado especial a esse compartilhamento de refl exões promovido pela universidade. Por prismas diferentes, os autores amparam-se na crítica da economia política e recortam a crise capitalista como decisiva para a análise hoje. Inclusive, os textos são críticos às respostas do capital a sua crise, que já somam mais de quarenta anos, desde a abertura comercial engendrada pela mundialização do capital, a ampliação dos dispositivos de capital fi ctício e de endividamen- tos, assim como da neoliberalização do Estado com o enfraquecimento dos serviços públicos e a ampliação da mercantilização dos serviços de reprodu- ção social. Ao contrário, o alto desemprego, a queda da renda e o aumento da desigualdade social se acentuaram com essa agenda socorrista, que pro- voca sobreprecarização. Como poderá ser apreciado pelos leitores, os escritos que apresentamos ao público resultam de refl exões atuais sobre trabalhos acadêmicos realiza- dos ao longo dos últimos anos, em diferentes contextos do país. Os textos, reforçamos, versam sobre o assombro da precariedade das condições de vida e trabalho no capitalismo, apresentando refl exões apuradas sobre categorias teóricas explicativas, manifestações descritivas da realidade social e mapea- mento dos desafi os para lidar com as agruras desse tempo sombrio. Para expor isso, o livro está estruturado em três partes, sendo a primeira parte, intitulada “O debate teórico sobre a precarização social no capitalismo”, composta de seis capítulos que abordam aspectos centrais dos fundamentos da precarização social no capitalismo. O primeiro capítulo, de autoria de Graça Druck e alcunhado “Trabalho, precarização e precariedade: considerações teóricas à luz de um balanço (auto) crítico”, examina a produção bibliográfi ca sobre precarização, dialogando com variados autores que tratam o tema e com os próprios escritos anteriores da autora. A precisão conceitual e os aspectos históricos das transformações do capitalismo orientam o desafi o refl exivo do capítulo que sublinha as mutações neoliberais como chave-histórica decisiva para as (contra) inovações laborais que se expressam como regra e estratégia revigorada de dominação. Esse é o sentido das contrarreformas trabalhistas, da terceirização, da uberização, do empreendedorismo, do trabalho análogo à escravidão e da erosão da estrutura pública dos serviços de reprodução social. A heterogeneidade das formas e níveis de precariedade nos países parece decorrer da força da mundialização do capital, tornando a precarização aparentemente quase-inevitável, toda- via, para a autora, esse é o próprio núcleo metabólico da dinâmica mercan- til reconfi gurada. Lana Carrijo e Mariela Becher acentuam no segundo capítulo – “Miséria automatizada: a crise do valor como fundamento da precarização do trabalho” E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 13 – que a precarização neste século é inteligível somente se apreciada como resultado do agravamento da crise estrutural do capital, aberta nos anos de 1970. Isso porque, desde então, a economia capitalista não foi capaz de impul- sionar um processo de recuperação da acumulação de modo coerente com a compulsão por mais valor. Nesse sentido, entendem que a fl exibilização laboral e o desemprego estrutural resultam dos limites à valorização do valor, em razão da produtividade e da mundialização comprimir a expansão do capitalismo através do trabalho. Concentram a argumentação na observação sobre o fundamento do amplo processo de desmonte social no capitalismo contemporâneo – expresso em menos emprego, erosão de direitos e políticas sociais– delimitando como decifrador dessa peleja a base da produção de valor. Ainda que o trabalho continue como mediação das relações sociais no capitalismo, a dinâmica das inovações tecnológicas e a mobilidade global do capital ampliam a constituição social de humanos supérfl uos à econo- mia capitalista. Raquel Raichelis escreve o terceiro capítulo – “Crise do capital, pre- carização do trabalho e TICs – o trabalho de assistentes sociais no ‘fi o da navalha’”– onde refl ete, em outro diapasão, sobre a centralidade da crise do capital, acentuando que ela desencadeia o severo contexto de precariedade social, pois para reverter os limites aciona-se agendas profundamente pre- carizantes que agravam a questão social, o que repercute sobre o trabalho dos assistentes sociais, notadamente, por conta das novas confi gurações do mercado de trabalho da área profi ssional e da própria fragilização neoliberal dos serviços públicos. A autora estabelece alguns parâmetros sobre como a dinâmica capitalista contemporânea impacta a profi ssão, refuncionalizando o assalariamento dos profi ssionais, assim como as respostas às demandas sociais e a racionalização instrumental do trabalho através das novas tecnologias de informação. Desse modo, examina as mudanças do trabalho profi ssional como parte dos processos societários maiores que formam a totalidade social capitalista, em crise. Ricardo Antunes e Luci Praun escrevem o quarto capítulo – “As formas de ser do trabalho no capitalismo contemporâneo: do taylorismo-fordismo à acumulação fl exível e digital”. O texto toma como ponto de partida o enten- dimento sobre a redução do indivíduo à unidimensionalidade do trabalho no capitalismo, ao transformar a capacidade laboral em mercadoria força de trabalho, apequenando e exaurindo a vida humana no assalariamento. Com esse eixo analítico o capítulo percorre os ciclos expansionista do fordismo e de crise do capitalismo que redundou no toyotismo e, mais recentemente, na digitalização, apontando aspectos do processo de trabalho nesses contextos. Os autores centram-se na arguição sobre os sentidos intrínsecos, visando superar, E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 14 portanto, o enfoque que restringe a abordagem das transformações do trabalho à mera organização e gestão do trabalho, distanciada da dinâmica constitutiva da sociedade capitalista. Nessa argumentação tratam da precariedade como signo do trabalho capitalista com contornos de maior asselvajamento em escala global, nas últimas décadas, com novas engenharias de sujeição ao domínio do capital. Sob outro prisma, a presente coletânea enfatiza também que a repro- dução do capital em crise envolve dinâmicas sociais peculiares que tendem a aproximar a totalidade social às adversidades da reprodução da vida nas periferias e essa hipótese é a base substancial do capítulo cinco –“Geografi as da reprodução social crítica: fraturas e fronteiras em territórios periféricos durante a crise” – de autoria de Thiago Canettieri. De modo instigante, diz o autor, que a periferia existe como lugar da exclusão das formas básicas de sociabilidade do valor e, paradoxalmente, essa incongruência passa a compor também o núcleo do sistema social das mercadorias, que absorve com maior proeminência cenas sociais de precariedade, informalidade e irregularidades para realização da forma-valor, como outrora era específi co da periferia, onde a relação salarial não se completou dada a superexploração estrutural que sem- pre implicou em estratégias precárias de reprodução social. Se o contexto da crise estrutural do capital provocou a universalização da condição periférica, o desafi o do autor, por conseguinte, é o de pensar o capitalismo na periferia, para então tratar do sistema como totalidade, no contexto do acirramento crítico do valor. O sexto capítulo – “A crítica à precariedade” – encerra a Parte I do livro, com Rosangela Nair de Carvalho Barbosa interpelando também o signifi cado e o sentido social da precariedade nesse modo de produção. Para isso, faz uma breve digressão sobre a abordagem do tema nas Ciên- cias Sociais para depois tratar da orgânica vinculação dessa corda bamba à natureza social do modo de produção capitalista e das mutações metabóli- cas pós-1970, com o acirramento das contradições internas da forma-valor e, consequentemente, da barbárie social. Acentua a importância da volta às categorias fundamentais que dão sentido à sociabilidade capitalista e suas contradições, que tendem a forjar realidades críticas e precariedades sociais como parte de sua natureza social. Enfatiza as novas dimensões que se impõem à essa dinâmica social a partir da instrumentalidade digital da produtividade e dos novos entraves da forma-valor, abrindo um tempo de crise estrutural no capitalismo. A segunda parte do livro é composta por sete capítulos que, sob o título “A violência da dinâmica capitalista precarizante e a gestão dos seus escom- bros”, aborda a continuidade e a atualidade dos processos de expropriação E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 15 social, da produção econômica destrutiva, com destaque aos seus impactos na natureza e nas condições de vida da população, em diferentes territórios. O capítulo sete que inicia a Parte II versa sobre “Expropriação e violên- cia: refl exões a partir dos impactos dos grandes projetos de desenvolvimento no espaço agrário do Rio de Janeiro” e foi escrito por Ana Costa, Paulo Alen- tejano e Pedro Catanzaro da Rocha Leão. Os autores analisam dois Grandes Projetos de Desenvolvimento (GDP) realizados no Estado do Rio de Janeiro: o do Complexo Portuário do Açu (São João da Barra) e o condomínio de luxo Aretê no Quilombo da Baia Formosa (Búzios). Partem da compreensão de que a ação do Estado é um elemento imprescindível para os processos de expropriação, considerando seu nítido sentido de classe. O ponto de partida dessa rica e potente refl exão é o reconhecimento de que ainda existem áreas nas quais o capital não fez incidências com o intuito de objetivar a sua pró- pria razão de ser: a acumulação incessante. Deste modo, o mapeamento dos referidos espaços agrários no Estado do Rio de Janeiro é abordado a partir das iniciativas de consolidação de empreendimentos econômicos que têm provo- cado acirrada expropriação do modo de vida das populações locais por meio de violência e violação de direitos, através da associação entre agentes eco- nômicos privados, nacionais e internacionais, com forte mediação do Estado. Os processos de espoliação e a violência do capital e do Estado são tam- bém o foco da refl exão teórica de Fábio Fraga dos Santos. O autor contribui, com o oitavo capítulo intitulado “Os danos da mineração sobre o município de Governador Valadares: instrumentalização do território para a cadeia de valor”. Aborda o impacto do desastre ambiental do rompimento da barragem de rejeitos minerais – Mariana/MG (2015) – sobre o município de Governa- dor Valadares. Em diálogo com a teoria marxista, ele recupera a busca pelas altas taxas de lucro realizada pelo capital em sua fase tardia, reafi rmando as funções do Estado no processo de garantia das condições de sua reprodução ampliada, com destaque para as novas modelagens sociais que decorrem da mercadorização da natureza através da apropriação do solo e do subsolo, como ocorre no caso das atividades de mineração. O texto, examina a relação entre a Companhia Vale do Rio Doce e a cidade de Governador Valadares em Minas Gerais, apresentando um resgate histórico de como a mineração se integra ao período de boom das commodities desses anos iniciais do século XXI, se constituindo em um componente estratégico na dinâmica acumulativa do capital na cadeia produtiva global de valor e na economia brasileira. No nono capítulo, intitulado “ ‘Acidenteindustrial ampliado’ como consequência do processo de valorização: o caso da minério-dependência de Mariana/MG”, Roberto Coelho do Carmo fortalece a perspectiva aberta nessa parte do livro em relação à marca destrutiva do avanço do capital E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 16 sobre a natureza em busca de taxas de lucro mais vantajosas na economia minerária focalizando, sob outro ângulo, o mesmo crime socioambiental do complexo de Germano com o rompimento da Barragem do Fundão na cidade de Mariana, Minas Gerais. A abordagem enfatiza a dimensão econômica, mas também o ponto de vista dos efeitos que provocou na saúde física e mental da população de Mariana, precarizando profundamente seu modo de vida. Para tanto se vale do conceito de “acidente industrial ampliado” e reforça que o boom das commodities é chave para entender a gestão empresarial predatória, situando a realidade analisada a partir do marco compreensivo da minério-dependência, quando uma determinada localidade fi ca “refém” dessa atividade econômica. A violação de direitos à cidade, à moradia e ao habitar é tratada pela autora Maria Gorete da Gama em “Região Portuária do Rio de Janeiro e habitação social: da invisibilidade à reivindicação do habitar”, décimo capí- tulo da presente coletânea. A análise empreendida se debruça sobre a Opera- ção Urbana Consorciada do Porto na Região Portuária da Cidade do Rio de Janeiro, demonstrando ser ela um dispositivo de precarização social. Maria Gorete reforça a função que o Estado exerce na garantia das condições de reprodução do capital, nessa nova fase da cidade mercantilizada. Identifi ca, nesse sentido, como os diferentes agentes públicos - Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro e a Caixa Econômica Federal, vinculada ao Governo Federal - criam uma modelagem de utilização do espaço urbano que transfere recur- sos do fundo público para a valorização da terra mediante investimentos de natureza urbanística. Essas intervenções urbanas se sustentam ideologicamente em discursos de revitalização de áreas abandonadas na cidade, mas expressam na verdade formas de negação do direito à cidade a partir do forte impacto que provocam nas condições de vida da população que vive na região e que, desse modo, produz novos espaços para o capital. Em “Trabalho e populações tradicionais no capitalismo: considerações sobre a pesca artesanal”, décimo primeiro capítulo, Maria Fernanda Escurra trata da subsunção da artesania pesqueira à dinâmica empresarial capitalista sufocando a tradição da pesca voltada para valores de uso. Mas, não se trata de exclusão do pescador artesanal, pois o capitalismo combina exploração da força de trabalho da pesca industrial com a subordinação do trabalho autônomo da produção mercantil simples. Ao problematizar as condições de trabalho dos pescadores artesanais em conexão com a pesca empresarial-capitalista, Maria Fernanda Escurra ressalta a precarização inerente aos processos de despossessão dos meios de produção, dos excedentes e da apropriação pelos E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 17 capitalistas. Além disso, nesse processo, a relação orgânica do pequeno pes- cador com a natureza é revolucionada pelas relações de produção capitalista derrubando as barreiras ao seu avanço. O décimo segundo capítulo, elaborado por Régia Maria Prado Pinto, “Trabalho e população em situação de rua: uma análise à luz da questão social no Ceará”, desvela as principais determinações do aumento da população em situação de rua no Estado do Ceará. A autora parte da compreensão das par- ticularidades da questão social tomando a condição periférica do capitalismo dependente brasileiro como ponto de análise basilar, para então estabelecer as mediações com a particularidade da realidade cearense. Nesse movimento analítico reconhece que a seca e a pobreza guardam relação com a ampliação da população em situação de rua no território cearense. Para além da iden- tifi cação imediata ou quantitativa do cenário de vida vivida nas ruas, Régia Maria apresenta um resgate histórico para compreensão das condições de acirramento desses fenômenos na atualidade, o que nos ajuda a cotejar como a dinâmica do capital matizada pelo coronelismo e o neoliberalismo se nutrem - em momentos distintos da realidade, histórica e econômica -, da fome e da sede da população. A refl exão ainda enlaça as expressões da questão social, especifi camente as condições de trabalho e de vida manifestas na realidade das cidades de Fortaleza, Marcanaú e Caucaia. A Parte II do livro se encerra com o décimo terceiro capítulo escrito por Valeria Forti, Juliana Menezes e André Menezes, intitulado “Trabalho e reprodução social no contexto (ultra)neoliberal: refl exões sobre con- dições de vida e ilicitude do comércio das drogas em terras brasileiras”. A relação trabalho e comércio de drogas envolvendo a juventude prole- tária empobrecida ganha atenção especial neste capítulo, que principia expondo determinações fundamentais do trabalho no capitalismo, seguida pelo mapeamento das transformações ensejadas pela crise do capital que redundou na fl exibilização produtiva e laboral, ao lado da perniciosa neo- liberalização. Destaque aos traços que caracterizam a situação brasileira desde os anos de 1990 e a ênfase ao aprofundamento da erosão dos direitos trabalhistas e o encolhimento do emprego, nos últimos anos. A juventude não absorvida no mercado de trabalho e com “frágil sentimento de per- tencimento social” inserida no comércio de drogas é abordada a partir da teoria do valor-trabalho, apreendendo que essa mercantilização do ilícito se sustenta tanto na exploração como na forte punição da força de trabalho, em dispositivos violentos de produção, circulação e consumo, onde a vida humana é drasticamente relegada. A terceira e última parte dessa obra reúne cinco capítulos que abordam a temática da precarização sob o prisma das contrarreformas e dos retrocessos E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 18 no campo dos direitos e das condições de vida dos trabalhadores em geral como daqueles que atuam no âmbito do Estado. Intitulada “A precarização das políticas públicas e sua incidência sobre o trabalho, os direitos sociais e a reprodução das frações da classe trabalhadora”, encerra a coletânea, mas não o debate, que esperamos seja rico e potentemente ampliado com a lei- tura de vocês. Em “Trabalho e crise no contexto das contrarreformas brasileiras no século XXI”, o décimo quarto capítulo que inicia a terceira parte do livro, Inez Stampa e Tatiane Va léria Cardoso dos Santos realizam um denso e minucioso exame das legislações que fl exibilizam as normativas e a regres- são dos direitos sociais a partir do fi nal dos anos de 1990. Para as autoras as contrarreformas, acentuadas nos últimos sete anos, colocam os trabalhadores ainda mais submetidos às inseguranças do mercado e à precarização do trabalho. A análise que desenvolvem toma como objeto as transformações recentes na legislação trabalhista brasileira nos governos Michel Temer (2016-2018) e Jair Bolsonaro (2019-2022). A fl exibilização da legislação trabalhista analisada redunda no crescimento da ocupação precarizada. As novas normativas conduzem a formas ainda mais precárias de relações con- tratuais, acentuando e ampliando as práticas da terceirização, a subocupa- ção, além de fortalecer o trabalho por conta própria ou trabalho autônomo, reeditando a informalidade laboral historicamente marcante no mercado de trabalho brasileiro. Em sequência, no décimo quinto capítulo – “Trabalho e saúde-doença: a condição precária pós-reabilitação profi ssional” –, Monica de Jesus Cesar, Paula Cristina Nunes de Sá e Ana Inês Simões Cardoso de Melo analisam a relaçãoentre trabalho e processo saúde-doença por meio dos fundamentos estruturais do modo de produção capitalista e da particularidade da formação social brasileira, com destaque para a superexploração da força de trabalho e os desdobramentos nocivos à depreciação da saúde dos trabalhadores. O foco da pesquisa empírica que embasa a refl exão são os processos de adoecimento e/ou de acidentes de trabalho que resultam na inserção de trabalhadores em programa de reabilitação profi ssional da Previdência Social, após ser eviden- ciada a impossibilidade de retorno à função laboral exercida anteriormente. A opção por nova atividade para esses trabalhadores envolve inclusive a requalifi cação profi ssional, levada à frente pela Previdência Social. Todavia, as autoras mostram que a empresa contratante anterior não é obrigada por lei a reinserir os trabalhadores, o que comumente leva à aprendizagem de nova atividade, sendo, a maioria, executada fora da empresa originária e na informalidade. As autoras tomam como chave analítica desses dados a precarização estrutural do trabalho, enfatizando a fl exibilização neoliberal E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 19 que, entre outros fatores, mobiliza a fragilização dos vínculos de trabalho, a gestão por metas, a compressão do tempo não-produtivo e, também, o acir- ramento da degradação das condições de trabalho. Concluem as autoras, que os processos de adoecimento/acidente-reabilitação se inserem no contexto de acirrada precarização social, inclusive apresentando-se como dispositivo de ampliação da superpopulação relativa, dada a depreciação da força de trabalho e sua reinserção em atividade econômica rebaixada e, de maneira geral, em relações informais de trabalho. No décimo sexto capítulo – “Contrarreforma administrativa, gerencia- lismo e Serviço Social: as alterações no processo de trabalho coletivo na Previdência Social” – Gênesis de Oliveira Pereira desvela, a partir da expo- sição de categorias centrais da teoria do valor-trabalho, tendências do mundo empresarial que adentram à esfera estatal, a ponto de transformar substantiva- mente os serviços prestados no campo da Previdência Social. Sua análise leva em conta a mediação concreta dos processos de contrarreforma do Estado e a adoção das práticas gerencialistas no percurso das mudanças implementadas na esfera previdenciária. Dá destaque ao uso recorrente das tecnologias da informação nas práticas gerenciais que incidem na algoritimização da política previdenciária pela via da avaliação social média e da gestão por metas(pro- dutivismo) para os processos abertos pelos trabalhadores contribuintes ou requerentes do Benefício de Prestação Continuada. Ao realizar um importante inventário das normativas que alteram as formas de gestão e de realização do trabalho, o autor aponta a modifi cação da base técnica do trabalho reali- zado pelos assistentes sociais. Destacando no texto que a atividade central desenvolvida por essa categoria profi ssional passou a ser realizada através das chamadas avaliações sociais remotas ou teleavaliações, problematiza a repercussão dessas mudanças sobre as condições de trabalho e a qualidade da prestação de serviços aos trabalhadores. O décimo sétimo capítulo “Adoecimento e mal-estar no mundo do traba- lho: discutindo a educação superior”, Deise Mancebo identifi ca que os avanços tecnológicos têm progressivamente eliminado o trabalho vivo, aumentado o desemprego, a informalidade do trabalho e a desigualdade social. Adicional- mente, enfatiza que a dinâmica do capitalismo contemporâneo, sob a égide do neoliberalismo, tem produzido um individualismo exacerbado, além de modos de gestão da vida, paradoxalmente, com base nos valores e nas práticas empresariais. Como desdobramento a autora destaca os processos de adoe- cimento social, manifestos em depressão, que passa a fi gurar como narrativa hegemônica de sofrimento. Desse quadro, o capítulo recorta o adoecimento na universidade que tem se dado de forma silenciosa. Dentre os variados aspectos aí envolvidos, sublinha o não-reconhecimento do/no trabalho e as E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 20 limitações das estratégias defensivas e das resistências ao modelo de gestão gerencialista espalhado pelo neoliberalismo. A competitividade, o indivi- dualismo e a submissão às avaliações quantitativas, associadas à crescente intensifi cação do trabalho são processos hoje fl agrantemente presentes no cotidiano da universidade e que concorrem para esse quadro de adoecimento. Encerra a Parte III do livro o décimo oitavo capítulo, escrito por Amanda da Silva Belo, Carlos Felipe Nunes Moreira e Ney Luiz Teixeira de Almeida, com o título “Expansão precarizada da formação para o trabalho complexo no Brasil no século XXI”. A ampliação das redes de educação superior e de educação profi ssional e tecnológica públicas é analisada sob uma dupla e articulada perspectiva: a das particularidades que a política de educação e o acesso à educação, por ela mediatizada, têm no Brasil em função de inserção periférica e dependente na dinâmica do capitalismo mundial e a das necessida- des de formação para o trabalho complexo. É a partir dessa articulação que o texto explora o novo quadro institucional da área entre os anos de 2003-2016, em decorrência da especifi cidade da coalização de classes que caracterizou os governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff , levando à expansão dessas redes pela ação do Estado – muito embora também tenha sido experi- mentada em larga escala na esfera mercantil privada, sobretudo, a educação superior. A expansão da rede ocorreu de forma inédita no país incorporando segmentos sociais alijados desses níveis e modalidades de educação, ainda que isso tenha se dado de forma precarizada e sintonizada aos processos maiores de precarização do trabalho e das condições de vida. Em suma, com essa diversidade de temas e abordagens sobre a preca- rização das condições de vida e trabalho a coletânea contribui com o ama- durecimento da perspectiva teórica crítica sobre o capitalismo, reforçando a exigência de se tomar a totalidade social engendrada pelo valor e que se expressa nas múltiplas manifestações e dinâmicas singulares das nossas vidas. Portanto, o propósito é o de apresentar um entendimento apurado sobre o tema da precarização, que graça hoje nas narrativas políticas e acadêmicas inquietas com o acachapante avanço violento do capital sobre as dimensões da reprodução social e da dinâmica do trabalho, em razão dos limites internos para reprodução ampliada do valor. Mobilizar maior capacidade teórica para pensar esse tempo faz parte da cumplicidade que desejamos, no momento, estabelecer com os leitores e leitoras, de modo a enfrentarmos os labirintos que nos enredam a esse tempo de instrumentalização humana e barbárie social. Ney Luiz Teixeira de Almeida Rosangela Nair de Carvalho Barbosa Organizadores E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão PREFÁCIO Preliminarmente, saudamos a iniciativa de organização da coletânea Labirintos da precarização do trabalho e das condições de vida, tema da maior relevância na atualidade e alvo de distintas interpretações em debate no universo de autores especializados europeus e brasileiros. Nossas congra- tulações aos responsáveis pela sua organização, as /aos pesquisadoras(es) que partilham seus estudos e pesquisas: autoras e autores, docentes de distintas universidades e egressos do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Agradecemos a honra do convite para prefaciar este livro necessário, corajoso, polêmico e revelador de processos históricos em curso. Reconhe- cemos o privilégio da leitura prévia de textosinéditos, provocativos e desa- fi adores teoricamente, que enriquecem a diversidade de angulações sobre a precarização do trabalho e das condições de vida, a partir da contribuição de autores consagrados que vêm se dedicando ao tema, assim como da crítica e autocrítica de interpretações veiculadas. Esta coletânea, ao reunir estudos referenciais sobre precarização das condições de trabalho e de vida, abre, simultaneamente, inéditas sendas para novas pesquisas. Esta é uma obra enraizada na história recente e no debate contemporâ- neo sobre as transformações operadas no universo do trabalho na trama da valorização do valor em um longo ciclo de crise do capital, em tempos de hegemonia das fi nanças e do Estado capturado pelos interesses do grande capital voltado a garantir as condições gerais da reprodução, pautado pela “nova razão do mundo” (DARDOT e LAVAL, 2016). Os textos reunidos são resultados de pesquisas voltadas a elucidar tanto as transformações operadas no trabalho quanto na coletividade dos sujeitos trabalhadores na sua dimen- são de classe enquanto unidade de diversidade: de sexo, raça/ etnia, geração, território e nacionalidade. Esta coletânea constrói fecundas interlocuções entre áreas de conheci- mento ao romper fronteiras disciplinares em favor da perspectiva de totalidade histórica, preservando particularidades nacionais e regionais. A superacumulação de capacidades de produção especialmente ele- vadas e a superprodução em tempos de hegemonia do capital fi nanceiro e fi ctício sem precedentes ante o capital produtivo, impulsionam crises, reper- cutindo na difícil situação dos trabalhadores em qualquer parte do mundo (CHESNAIS, 2001, 2013). Sabe-se que o capital, na sua busca incessante de lucro, incorpora inovações científi cas e tecnológicas voltadas tanto ao aumento da produtividade do trabalho social quanto ao aperfeiçoamento E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 22 das comunicações, reduzindo o tempo de rotação do capital (tempo de pro- dução mais o tempo de circulação), elementos determinantes na elevação da lucratividade (MARX, 2017, p. 97). O capital, no seu incessante movimento de expansão amplia a parcela do mais-valor investida em meios de produção (capital constante) ao mesmo tempo em que reduz relativamente a parcela investida na compra da força de trabalho (capital variável), tendo em vista a redução de custos, lançando mão de renovadas estratégias na sua busca de legitimação social. É na esteira desses processos que tem lugar o tema desta coletânea. A elevação da produtividade social do trabalho, a intensifi cação do trabalho da parte da classe trabalhadora empregada, a contração da oferta de emprego ante o volume do investimento realizados ampliam a superpopulação relativa – ou população “sobrante” para as necessidades médias do capital–, condição e resultado contraditório da acumulação. Tais processos condicionam a “precarização do trabalho e das condições de vida”, sendo algumas de suas expressões aqui ressaltadas: a defasagem do salário em relação ao valor da força de trabalho, a ampliação do subemprego e do desemprego, a degradação das condições de trabalho cujo auge é trabalho similar à escravidão, a intensifi cação do consumo da força de trabalho e o prolongamento das jornadas de trabalho, a desproteção das relações no trabalho, a pauperização relativa e/ou absoluta de segmentos de classe, a pobreza e desnutrição, dentre outros. Naquela dinâmica expansionista e na contratendência de seus efeitos sociais deletérios tem sido fundamen- tal o suporte dos Estados nacionais e do fundo público, que hoje fi gura como condição e pressuposto da acumulação (OLIVEIRA, 1998; BEH- RING, 2022). A radicalização neoliberal favorece o livre curso do capital fi nan- ceiro, a acumulação e centralização do capital produtivo em trustes e cartéis ao nível mundial; e, ao capturar os Estados nacionais instaura políticas monetaristas restritivas aos direitos sociais, avessas aos direitos humanos, obstruindo propostas distributivas voltadas aos sujeitos da classe traba- lhadora. Mas contraditoriamente, impulsiona a resistência na defesa da vida e da natureza. Como já anunciara Marx (1980, p. 221, vol. 2) no século XIX, “Dar à produção um caráter científi co é, por fi m a tendência do capital e se reduz o trabalho a mero momento desse processo”. Ampliam-se as forças produtivas do trabalho social – derivadas da ciência, dos inventos, da combinação social do trabalho, dos meios de comunicação, do mercado mundial, do emprego da maquinaria enquanto capital fi xo– e com elas o poder do capital sobre o trabalho vivo. No universo do valor e de sua valorização, o emprego de E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 23 novas tecnologias incorporadas ao capital constante fi xo e circulante no processo produtivo tem, como contrapartida, a redução relativa da demanda de trabalhadores - de trabalho vivo - e o consequente crescimento da popu- lação sobrante para as necessidades médias dessa forma de organização da produção, impulsionando o crescimento das desigualdades e as crises. Ao mesmo tempo em que o capital tende a reduzir o tempo de trabalho vivo a um mínimo – imprescindível, porém subalterno -, ele é erguido como única medida da riqueza. “O capital trabalha, assim, em favor de sua própria dis- solução como forma dominante de produção”. (MARX,1980, p. 22, v. 2). Nesse processo contraditório, o capital diminui o tempo de trabalho na forma de tempo de trabalho necessário à reprodução do trabalhador - trabalho pago sob a forma de salário - para aumentá-lo como tempo de trabalho excedente. Coloca assim, o tempo de trabalho excedente como condição do tempo de trabalho necessário. Mas move todos os poderes da ciência e da natureza, da cooperação e do intercâmbio sociais para fazer com que criação da riqueza seja, cada vez mais, relativamente independente do tempo de trabalho vivo nela empregado, reduzindo-o ao limite para que o valor já criado, corporifi cado nos meios de produção, conserve o seu valor transferindo-o aos produtos. Tal dinâmica expressa que o capital é contradição em processo. (MARX,1980, livro II, p. 229; IAMAMOTO, 2022). Nas últimas décadas, as transformações operadas nos processos materiais de produção e de formação de valor e valorização têm sido matrizados pela robótica, pela microeletrônica, por tecnologias da informação e comunicação (TICS) e desenvolvimento da inteligência artifi cial (IA), frutos da pesquisa científi ca de ponta. A automação dos processos foi seguida da chamada “4ª revolução industrial”, caracterizada pela conectividade e pelo processamento de dados, pela adoção de tecnologias capazes de executar tarefas com inte- ligência artifi cial. Tais inovações tecnológicas permitem reduzir o tempo de rotação do capital, diminuindo o tempo em que o capital permanece impro- dutivo sob as formas de capital mercadoria e capital dinheiro e favorecendo o retorno mais rápido do valor capital à forma de capital produtivo, única forma que lhe permite conservar valor, recriar valor e criar mais-valor. As novas tecnologias contribuem também para elevar a produtividade do tra- balho, para ampliar as massas de lucro e para gerar lucros extraordinários mediante a incorporação pioneira de inovações científi cas e tecnológicas em esferas produtivas de ponta, acima do padrão médio vigente. A elevação das forças produtivas sociais do trabalho e o aumento da composição orgânica do capital – isto é, da composição de valor condicionada pela composição técnica (MARX, 2017, p. 180) - incidem diretamente na elevação das massas de lucros em que pese o rebaixamento das taxas de lucro. E di tora C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 24 Essas tensões inerentes à dinâmica expansionista do capital se ancoram na maior exploração do trabalho vivo, isto é, na elevação da taxa de mais-valor, que se expressa, de forma transfi gurada na taxa de lucro, na qual se encobre o segredo de sua existência e sua origem. Na taxa de lucro, o crescimento do capital aparece, de forma mistifi cada, como fruto de qualidade inerente ao próprio capital, numa relação consigo mesmo; ou seja, entre o mais-valor criado e o capital total investido, obliterando a distinção entre capital cons- tante e capital variável. Assim, a taxa de lucro “expulsa” a visibilidade do trabalho vivo que faz crescer todo o capital: conserva valor dos meios de produção transferindo- aos produtos; recria o valor o capital variável e cria um mais-valor para além dos custos de produção, quando pensado sob a ótica do capitalista (MARX, 2017, p. 54), em cuja compreensão, o preço de custo apenas repõe o capital investido (capital constante e variável). Assim, para o capitalista, o lucro teria como fonte a circulação, isto é, a compra e venda de mercadorias capitalistas no mercado. Ocultar a exploração do trabalho é essencial nesse processo de mistifi cação. A “precarização” no senso comum tende a ser naturalizada e tomada como noção “auto revelada”, parte da estratégia de ocultamento da explora- ção, indispensável nesses tempos de “deifi cação dos mercados”, erigidos à condição de “entidade” inatingível, que se impõe como um poder superior à vida dos “homens simples” (IANNI, 1975). A “precarização”, na lin- guagem corrente, poderia ser pensada como parte da lógica capitalista de obscurecimento da exploração do trabalho vivo que, em sua dupla e indisso- ciável dimensão de trabalho concreto e abstrato, que conserva e faz crescer o valor de todo o capital. A precarização esconde e simultaneamente revela o aumento da exploração da força de trabalho, cujo preço fi ca abaixo de seu valor historicamente determinado, impulsionado pela imposição de “redução de custos”. Esta depreciação do preço da força de trabalho é também deter- minada pelo crescimento da população trabalhadora excedente, que amplia a concorrência entre os próprios trabalhadores por empregos e pela capacidade de organização e luta da coletividade de trabalhadores. Na cena contempo- rânea, consoante preceitos neoliberais, aquela depreciação é acompanhada da desmontagem e/ou restrição de serviços públicos universais atinentes aos direitos sociais em favor de sua privatização e mercantilização. Tais proces- sos atingem duplamente o conjunto da classe trabalhadora, tanto no trabalho quanto na sua vida cotidiana. O registro descritivo de novas formas multifacetadas de “precarização” experimentadas nas condições de vida e no trabalho de distintos segmentos de trabalhadores é fundamental para trazer à luz as particularidades das trans- formações ocorridas nos processos de produção e de circulação do capital na E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 25 atualidade, que merecem ser elucidadas. Elas são indissociáveis do respaldo político e legal dos Estados nacionais, comprometidos com o grande capital mundializado, em suas particularidades nas sociedades dependentes, peri- féricas aos centros econômicos mundiais. Entretanto, como aqui se revela e se reafi rma, a noção multifacetada de precarização contém segredos ocultos, que não se mostram de imediato, sendo necessário revelá-los e decifrá-los na dinâmica contraditória do processo de reprodução global do capital e na dinâmica de sua crise. Uma das vertentes explicativas, presente nesta coletânea, reconhece o fenômeno da “precariedade”como estrutural ao capitalismo, indissociável de sua lógica expansionista sustentada no trabalho não-pago - ou mais-valor- em sua busca crescente de lucratividade, impensável respaldo dos Estados nacionais. Mas também se reconhece que a “precarização” assume formas históricas que se alteram ao longo do tempo, consoante a correlação de forças entre as classes, expandindo-se a partir da década de setenta nos marcos da fi nanceirização, da acumulação fl exível (HARVEY, 1993) e da radicalização neoliberal, em uma época de crise. Esta é interpretada sob distintas angula- ções, mas a questão central é a capacidade do capital continuar se expandindo por meio do trabalho com a hipertrofi a fi nanceira. Apenas em sua forma mistifi cada, o capital dinheiro cresce numa relação consigo mesmo (D-D’) independente do trabalho (MARX, 2017, IAMAMOTO, 2007). Para além de seus fetiches, o capital é uma relação social indissociável do trabalho assala- riado. Quando a capacidade viva de trabalho se incorpora às partes objetivas do capital, este se torna um monstro animado e começa a trabalhar como “se o amor no corpo houvesse” (MARX, 2022, p. 78), parafraseando o Fausto, de Goethe. Reiterando o já salientado, o trabalho vivo, enquanto trabalho útil, transfere o valor dos meios de produção ao produto; mas o mesmo trabalho vivo enquanto trabalho abstrato reproduz o valor do capital variável e cria um incremento de valor – um mais-valor – mediante a objetivação no produto de um quantum de trabalho excedente, acima do salário. (MARX, 2022, p. 57). O trabalho vivo como esforço, dispêndio de energia vital, é função pessoal do trabalhador, realização de suas capacidades produtivas em movimento. Mas como formador de valor é um modo de existência do valor-capital: força de preservação de valor e criação de valor novo, que aparece como processo de autovalorização do capital e empobrecimento do trabalhador. Este, ao criar o valor, cria-o como valor que lhe é estranho. Ora, trabalho pertence ao capita- lista assim como as condições materiais para realização do trabalho - meios de produção e meios de subsistência. Estranhadas pelo próprio trabalhador, essas mercadorias aparecem como “fetiches dotados de vontade e alma próprias”: fi guram como coisas compradoras de pessoas, obscurecendo a relação social E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 26 de produção que o capital expressa. O domínio do capitalista sobre os traba- lhadores é o domínio das condições de trabalho sobre o trabalhador (meios de produção e meios de subsistência), que se tornam autônomas frente a ele, o que só se realiza no processo de produção sob o controle do capital (MARX, 2022, p. 60). Este livro não é alheio esse universo analítico. Ao contrário, tem a ventura de trazê-lo ao palco do debate ao lado de outras referências de interpretação do tema em questão. A expansão das fi nanças vem contribuindo para fragilizar a luta da cole- tividade dos trabalhadores, o desmonte direitos sociais conquistados no pós- -guerra, no marco do pacto fordista-keynesiano, mediante desenvolvimento das lutas operárias e sindicais em defesa dos direitos do trabalho e das con- dições de vida. Certamente as abordagens do tema aqui veiculadas ultrapas- sam qualquer nostalgia do welfare state europeu, de cujo debacle dataria o nascedouro do fenômeno da “precarização”. Esta visão é alvo de contestação visto desconsiderar a própria dinâmica contraditória da sociedade do capital e a história do trabalho e dos trabalhadores nas sociedades dependentes, com seu passado colonial e/ou escravista, que não experimentaram nada similar ao Estado social europeu. A presente coletânea está organizada em três partes: a) O debate teórico sobre a precarização social no capitalismo; b) A violência da dinâmica capita- lista precarizante e a gestão de seus escombros; c) A precarização das políticas púbicas e sua incidência sobre o trabalho, os direitos sociais e a reprodução das frações da classe trabalhadora. A primeira parte, a precarização do trabalho e das condiçõesde vida, coloca em relevo os desafi os teórico-metodológicos de seu tratamento, enfren- tando-os sob angulações distintas que se complementam, mas também deba- tem entre si. O leitor se encanta e se surpreende com um rico e rigoroso balanço crítico de distintos signifi cados atribuídos à precariedade do trabalho e as formas de “precarização” do trabalho na expansão capitalista contem- porânea, tratada na multidimensionalidade de suas dimensões: econômica, político-ideológica e jurídica. Mas o debate vai além, ao apontar pistas e polêmicas teóricas em percursos para sua elucidação, especialmente em autores europeus e latino-americanos. Sob a órbita das fi nanças acompa- nhada da acumulação fl exível e da radicalização neoliberal, esta coletânea apresenta interpretações sobre as metamorfoses da coletividade dos sujeitos que trabalham. Ou, em outros termos, sobre a compreensão mesma da classe trabalhadora hoje e seus segmentos: formas de ser, de viver, de organizar-se e de lutar para se defender, considerando sua territorialização. Consoante uma das interpretações veiculadas nesta coletânea, a crise estrutural do capital em sua feição contemporânea, marcada pela “hipertrofi a E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 27 fi nanceira”, provoca o aumento do desemprego e a fl exibilização dos vín- culos trabalhistas, decorrentes do estreitamento da valorização do valor, ou seja, da efetiva difi culdade do capitalismo continuar sua expansão por meio do trabalho. Assim, a precarização seria uma face da própria crise de valo- rização do capital acompanhada do desmonte da proteção social, isto é, um processo de corrosão das bases de afi rmação da sociedade burguesa sob o crescimento acelerado do capital fi ctício. Mas a crise estrutural, expansio- nista e destrutiva do capital em suas nefastas derivações na degradação tanto na força humana de trabalho quanto do meio ambiente é também abordada sob outros matizes: o signifi cado da crise apreendido não como falência, mas expressão do capital enquanto “contradição em processo”, que tende a reduzir a um mínimo o tempo de trabalho ao mesmo tempo que o erige com única medida e fonte de valor. Em vários momentos, neste livro, realiza-se uma fecunda articulação entre a precarização do trabalho, as tecnologias da informação e comunicação digitais, as políticas públicas e o trabalho assalariado de distintas especiali- zações, dentre as quais o trabalho de assistentes sociais. Em outros termos, coloca-se em relevo as metamorfoses presentes na morfologia do trabalho na expansão capitalista: da inspiração taylorista no gerenciamento científi co do trabalho, ao fordismo na organização da produção e à acumulação fl exível, considerada em suas particularidades históricas nas sociedades dependentes, consoante a divisão social, técnica, sexual e racial do trabalho. Na atualidade, são exploradas transformações inéditas da morfologia do trabalho apoiadas no “trabalho uberizado” e nas tecnologias da informação e comunicação digi- tais cuja expansão é acelerada no marco da pandemia da COVID19 - com a fl exibilidade, a expansão do trabalho digital, a gestão por metas, estratégias combinadas tanto de exploração acentuada do trabalho quanto de sua sub- sunção ao capital. Registram-se também originais elaborações que buscam inscrever o signifi cado das novas morfologias do trabalho no movimento do capital como totalidade. A precariedade das condições de reprodução social da vida em territórios periféricos reconhece a heterogeneidade de estratégias presentes no seu inte- rior. A inexistência de garantias de reprodução social baseadas na socialização do valor impulsiona um conjunto de práticas, denominadas de “reprodução social crítica”, imersas no contexto de crise do capital: o “assistencialismo de crise”, o “microempreendedorismo”, o “rentismo periférico”, os “ilegalismos populares” e o “associativismo popular” A primeira parte desta coletânea se encerra com um criterioso e sem precedentes balanço crítico da precariedade, em suas múltiplas angulações, construído no lastro da crítica da economia política, descortinando férteis e E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 28 inéditas perspectivas no tratamento da temática. Os fundamentos da precarie- dade na lógica do valor e de sua valorização no regime especifi camente capita- lista de produção na sua forma histórica hodierna, em cujo desenvolvimento, contraditoriamente, cultiva sua própria crise. A precarização do trabalho e das condições de vida emergem como uma das respostas aos óbices enfrentados pelo capital como relação social fetichizada, na desafi adora trama social da valorização do valor. A segunda parte, volta-se a análise da “violência da dinâmica capitalista precarizante e a gestão de seus escombros”. Tem-se a denúncia da barbá- rie fruto da exploração e da violência na expropriação de trabalhadores em favor da privatização da propriedade fundiária, enquanto monopólio da terra para fi ns de exploração capitalista por parte de grandes empreendimentos produtivos com o suporte e/ou conivência do Estado. As análises recaem sobre processos e manifestações históricas concretas de múltiplas formas de precarização social da existência humana. Elas são reveladoras das novas (e velhas) ofensivas do capital sobre amplos segmentos da população traba- lhadora na fase contemporânea do capitalismo dependente no Brasil. Dois capítulos têm como foco a compreensão dos danos e ruínas gerados pelos crimes sócio-ambientais com o rompimento das barragens da Mineradora Samarco, consorciada da Vale do Rio Doce em Mariana (2015), repetido em barragem da Vale em Brumadinho (2019), ambas terri- torializadas no estado de Minas Gerais. Ainda que abordados por diferentes angulações, as análises desses desastres inscrevem suas determinações nas relações sociais de produção e reprodução ampliada do capital, trazendo as marcas das suas particularidades na formação social brasileira. A indústria de mineração de ferro assenta-se na dinâmica violenta do extrativismo predatório para a vida humana e a natureza cujos impactos, em todos os processos produtivos que a envolvem, reverberam em cadeia sobre amplos territórios, com consequências múltiplas e destrutivas, atin- gindo comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, tradicionais e de pequenos agricultores familiares em sua condição física e material, suas fontes de trabalho e vida, suas dinâmicas sociais e culturais. As análises denunciam as condições e os riscos permanentes e ampliados de acidentes e desastres, adoecimentos e mortes para os que trabalham nessa atividade econômica, vivendo nas jornadas cotidianas, as situações que caracterizam a exponenciação da exploração da força de trabalho. Aqui também se retratam impactos dos denominados grandes projetos de desenvolvimento (petroquímicos, hidroelétricos, portuários), no estado do Rio de Janeiro, vinculados às corporações de capitais transnacionais, favorecidos pelo Estado por meio de parcerias público-privado que efetuam E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 29 estratégias diversas de expropriação de terras e demais recursos naturais, atingindo sobretudo, os segmentos despossuídos dos trabalhadores refe- ridos, além da dinâmica precarizante nas relações e condições de trabalho no interior de seus projetos. No trato de ambas as realidades, os/as autores evidenciam o papel do Estado, em viabilizar as condições fi nanceiras, com garantias de acesso ao fundo público pelo capital e seus agentes priva- dos, com arcabouços políticos e jurídicos, acrescidas de reordenamento da gestão territorial e dos próprios escombros direcionadoaos interesses acumulação do capital. Destacam também a busca de legitimidade das empresas e empreendimentos, mediante mecanismos diversos de mani- pulação dos sistemas políticos e convencimento de seus trabalhadores e populações locais, na tentativa de neutralizar e apaziguar práticas sociais e consciências. Mas, as resistências e lutas sociais contraditoriamente marcam estas realidades. Elas são sinalizadas nas análises da coletânea pelas referências ao papel histórico e violento do Estado para criminalizar, reprimir e destruir essas manifestações dos trabalhadores, dos segmentos atingidos e seus aliados na defesa de seus direitos fundamentais, ainda que não seja esse o foco temático central de suas abordagens. São registradas ainda ações coletivas, movimentos pelo direito de usufruir da cidade como valor de uso e solidariedade de trabalhadores/ moradores de Zona Portuária do Rio de Janeiro no enfrentamento das precárias condições de vida e habitação face a projetos espoliativos de reurbanização do território, - típicos de empresariamento das cidades para a lógica do mercado. Ainda na segunda parte, tem-se a análise das relações de trabalho de um segmento das populações tradicionais, no caso, da pesca arte- sanal e da população em situação de rua, pouco tratadas em estudos do mundo do trabalho. Elas lançam luz, a partir das características próprias do capitalismo no país e no desafi o do estudo de como as formas não-capitalistas de exploração do trabalho tornam-se meios de reprodução ampliada do capital, seja na apreensão do modo precário de inserção em contextos de trabalho de frações de trabalhadores que com- põem o vasto exército industrial de reserva. Em abordagem inovadora são destacadas as condições de vida, história, cultura e trabalho das comunidades tradicionais de pescadoras/res, sua importância e papel na produção pesqueira brasileira que, longe de excluí-los, subordina seu trabalho autônomo, apropria-se da tradição dos seus saberes e técnicas, combinadas com a exploração direta da força de trabalho de pesca- dores industriais. Manifestações precárias e insalubres de trabalho da população em situação de rua, marcadas pela informalidade, incluem E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 30 os catadores/as de materiais recicláveis, cujas atividades são inseridas no circuito produtivo da indústria de reciclagem, ao fornecerem parte da matéria-prima de novas mercadorias, a custos extremamente baixos ou mesmo sem custos. Suas atividades laborais e meios de subsistência (a catação/separação de materiais e a comercialização) são invisibilizados nos processos industriais, mediante exploração de sua força de trabalho que também nada custa ao capital. A terceira parte tematiza a precarização das políticas públicas e sua incidência sobre o trabalho, os direitos sociais e a reprodução das frações da classe trabalhadora, com densas pesquisas e análises centradas na crítica à demolição das conquistas, dos direitos sociais e das barreiras jurídicas e políticas, constituídas na dinâmica contraditória da luta de classe no combate à voracidade do capital sobre o trabalho. São examinadas as contrarreformas do Estado brasileiro das últimas décadas reconfi gurando a morfologia da regulação e proteção social do trabalho, com um conjunto de alterações regressivas na legislação tra- balhista, que instaura a terceirização irrestrita, com contratos de trabalho intermitente e parcial, fl exibilização das jornadas, rebaixamento salarial, alterações nas normas de saúde e segurança, ampla diluição dos direitos e restrição do acesso dos trabalhadores à Justiça do Trabalho, entre outras, apostando na fragilização sindical. Processos regressivos dos direitos do trabalho que, articulados as mudanças na Previdência Social e a uma série de medidas econômicas e políticas de subfi nanciamento do conjunto das políticas sociais, aprofundam o rebaixamento dos meios de reprodução social do conjunto das classes assalariadas. A análise da recente expansão da educação profi ssional e tecnoló- gica e da educação superior no país é aqui apanhada tanto na dimensão do assalariamento precarizado do trabalhado docente, quanto da própria educação como um direito não universalizado, no exercício crítico de des- vendar como são forjadas as novas exigências de formação para o trabalho complexo na periferia do capitalismo. Outra fértil e provocativa exposição debruça sobre relações traba- lho e processo saúde-doença, a decorrente inserção dos trabalhadores vinculados ao mercado de trabalho formal em programas de reabilitação profi ssional no âmbito da política previdenciária e as (im)possibilidades de retorno ao trabalho, demarcando a descartabilidade da força de traba- lho. São analisados os nexos entre precarização da força de trabalho e a confi guração da superpopulação relativa, considerando a inserção depen- dente e subordinada do Brasil na divisão internacional do trabalho. Na E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 31 explicação destes vínculos, ilumina-se a análise recorrendo à categoria da superexploração da força trabalho, formulada no campo da teoria mar- xista da dependência. Há avanços signifi cativos com esse ângulo analítico no desvendamento crítico da condição precária da força de trabalho e da profunda heterogeneização da classe trabalhadora no Brasil, de suas reper- cussões nas debilidades da organização sindical, bem como no âmbito das políticas sociais. O leitor poderá identifi car esta preocupação de análise em textos que integram a coletânea, ainda que com pesos diferenciados. Por fi m, a exposição tematiza trabalho de assistentes sociais no contexto da contrarreforma administrativa de caráter trabalhista do Estado brasileiro, sob o predominio do gerencialismo, tendo como refe- rência a Previdência Social. O estudo apresenta os pilares da reestrutu- ração do aparelho estatal, sustentado na mercadorização da instituição pública com a adoção da lógica empresarial, detalhando as profundas alterações no processo coletivo de trabalho, assentadas especialmente na introdução de TI’s que vem provocando, entre outras consequências, a descaracterização do trabalho profi ssional. A refl exão dá visibilidade às condições e relações de condições de trabalho que presidem a ativi- dade de assistentes sociais, em uma nítida denúncia do esvaziamento do conteúdo socioeducativo inerente a esse trabalho, contribuindo para que segmentos de trabalhadores violentados em seus direitos tenham acesso a eles. Demarca-se, ainda, o campo tenso de disputa de projetos profi ssionais nesse espaço sócio-ocupacional face à exigência de efe- tivar alternativas de resistência, polarizando a relativa autonomia que conforma a condição assalariada do trabalho de assistentes sociais na defesa da natureza pública da política previdenciária e da qualidade dos serviços sociais prestados. A ampliação sem limites e barreiras da condição estrutural de precariedade do trabalho e de formas de vida, com a generalização diversifi cada do trabalho abstrato integrando o circuito de valori- zação do capital em seu estágio atual, na contrapartida criam-se as possibilidades históricas da unidade do conjunto da classe trabalha- dora na superação da ordem capitalista. Muitas indagações teóricas e políticas são suscitadas pelas rea- lidades retratadas e submetidas à análise nessa coletânea, interpe- lando o leitor. Realidades que repercutem também na poesia indignada de Drumond, em Lira Itabirana: O Rio? É doce. A Vale? Amarga. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 32 Ai, antes fosse Mais leve a carga. II Entre estatais E multinacionais, Quantos ais! III A dívida interna. A dívida externa A dívida eterna.IV Quantas toneladas exportamos De ferro? Quantas lágrimas disfarçamos Sem berro?” *** Marilda Villela Iamamoto1 Maria Rosângela Batistoni2 Juiz de Fora (MG) e São Paulo (SP) setembro de 2023, anunciando a primavera. 1 (UERJ/CNPQ) 2 (UNIFESP) E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 33 REFERÊNCIAS ANDRADE, C. D. de. Lira Itabirana. O Cometa Itabirano, Itabira, 1984. BEHRING, E. R. Fundo público, valor e política social. São Paulo: Cor- tez, 2021. CHESNAIS, F. As raízes da crise econômica mundial. Em Pauta, Rio de Janeiro, v. 11, n. 31, p. 21-37, 2013. CHESNAIS, F. Mundialização: o capital fi nanceiro no comando. Outubro, São Paulo, n. 5, p. 7-28, 2001. DARDOT, P. e LAVAL, C. A nova razão do mundo – ensaios sobre a sociedade neoliberal. São Paulo Boitempo, 2016. HARVEY, D. A condição pós-moderna. São Paulo: Ed. Loyola, 1993. IAMAMOTO, M. V. Serviço Social em tempo de capital fetiche: capital fi nanceiro, questão social e Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2007. IAMAMOTO, M. V. “Radicalização do neoliberalismo e pandemia: contradi- ções, resistências e desafi os para o Serviço Social na garantia de direitos”. Conferência de abertura no XXIII Seminário Latinoamericano de Trabajo Social ALAEITS. Uruguay. Montevideo. 21 de nov. de 2022 IANNI, O. A mentalidade do homem simples. In: IANNI, O. Sociologia e sociedade no Brasil. São Paulo: Ed. Alfa-Omega, 1975. MARINI R. M. La dialética de la dependencia. Mexico: Ed. Era, 1973. MARX, K. Elementos fundamentales para la Crítica de la Economía Politica. (Grundrisse) 1857-1858. 12ªed. México: Siglo XXI, 1980, 2 vols. MARX, K Capítulo VI (inédito).Manuscritos de 1863-1867, O capital. Livro I. Inclui Enquete operária. São Paulo: Boitempo, 2022. Tradução: Ronaldo Vielmi Fortes. Organização e apresentação de Ricardo Antunes e Murilo van der Laan. MARX, K. O Capital. Crítica da Economia Política. Livro I. O processo de produção c. São Paulo; Boitempo, 2014. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 34 MARX, K. O Capital. Crítica da Economia Política. Livro II. O processo de circulação do capital. São Paulo; Boitempo, 2014. MARX, K. O Capital. Crítica da Economia Política. Livro III. O processo global da produção capitalista. Edição de Friedrich Engels. Seleção de extras e tradução de Rubens Enderle, 1ªed. Paulo: Boitempo, 2017 . OLIVEIRA, F. Os direitos do antivalor: a economia política da hegemonia imperfeita. Petrópolis: Vozes, 1998. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão PARTE 1 O DEBATE TEÓRICO SOBRE A PRECARIZAÇÃO SOCIAL NO CAPITALISMO E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão TRABALHO, PRECARIZAÇÃO E PRECARIEDADE: considerações teóricas à luz de um balanço (auto) crítico Graça Druck DOI: 10.24824/978652515286.8.37-66 O objetivo desse capítulo é revisitar alguns escritos meus sobre a temá- tica, com o espírito de buscar fazer um balanço crítico, avançando e atuali- zando o diálogo com autores estrangeiros e nacionais, bem como introduzir considerações sobre transformações recentes no trabalho, especialmente o processo de uberização em suas especifi cidades, que tornam a precarização ainda mais central e radicalizada. A discussão apresentada é fundamentalmente teórica, com o intuito de precisar alguns conceitos e suas diferenças, como o de precarização, precarie- dade e precariado, exposta na primeira parte do texto. Em seguida, discute-se a relação entre a atual precarização social do trabalho e o neoliberalismo, articulando diferentes abordagens que têm em comum a centralidade das transformações do trabalho como campo privilegiado para se compreender o conteúdo e os objetivos centrais do projeto neoliberal, a exemplo das novas formas de organização do trabalho propiciadas pelas tecnologias de informa- ção e comunicação, bem como de velhas modalidades como a terceirização. Na terceira parte, se expõe o debate sobre a precarização e as classes sociais, problematizando a noção de precariado em diferentes autores. E, por fi m, como considerações fi nais, apresentam-se algumas especifi cidades da precarização nos países da periferia e, em especial, o caso brasileiro. Alguns elementos conceituais Os termos precarização e precariedade, embora tenham a mesma raiz etimológica, não são sinônimos. A precarização é um processo social, um movimento que se desenvolve historicamente, e que provoca uma situação de regressão social numa condição moderna, nova, reconfi gurando o velho, mantendo-o e introduzindo novos elementos. É uma metamorfose da preca- riedade que, mesmo presente desde as origens do capitalismo, assume novos contornos, consequência dos processos históricos marcados por diferentes padrões de desenvolvimento e pelas lutas dos trabalhadores. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 38 A precariedade é estrutural no capitalismo desde os seus primórdios, mas as suas formas sócio-históricas se alteram, se redefi nem, se reconfi - guram, indicando processos qualitativamente diferentes de precarização do trabalho. A atual precariedade social do trabalho é um velho e novo fenômeno. Compreendê-la dessa forma, é reconhecer que ela sofreu uma metamorfose. Não é mais a mesma precariedade dos tempos da revolução industrial. Não é mais a que os países periféricos, como o Brasil, tiveram desde os tempos coloniais, com o trabalho escravo. No entanto, o padrão de assalariamento constituído no país, com limitados direitos sociais e trabalhistas conquistados pelos trabalhadores brasileiros, estabelecidos na CLT e na Constituição Federal que foram, em toda a nossa história, afrontados pelo empresariado brasileiro e sistematicamente desrespeitados. Na atualidade, as transformações no trabalho decorrentes do processo de globalização fi nanceira, da reestruturação produtiva e da implantação de políticas neoliberais, colocaram a precarização social do trabalho como cen- tro da dinâmica do capitalismo nos países centrais e nos países da periferia. Klaus Dörre (2022) discorre sobre a centralidade que a precariedade assume no discurso político e no campo das análises das ciências sociais na Europa, a fi m de responder se a precariedade é a nova questão social do século XXI. Retomando algumas das principais formulações de sociólogos franceses – Gorz, Bourdieu, Castel – e com base em estudos empíricos e teó- ricos na Alemanha, afi rma sobre o lugar central que os termos precariedade, precarização e precariado passam a ocupar no cotidiano do trabalho e da vida no país no período recente. Vale enfatizar que os estudos europeus, sobretudo os franceses, desde as primeiras análises acerca dos processos de precarização do trabalho, tinham como referência primeira para classifi car as mudanças no trabalho como precárias, a “condição salarial”, ou seja, o trabalho regulado e protegido, com contratos por tempo indeterminado. Situação que predominou por pelo menos três décadas nos principais países que viveram os Estados de bem-es- tar social. Nos anos 1980, essa condição foi se alterando, com a introdução dos contratos fl exíveis, temporários e mal pagos. Foi essa transformação que avançou pelos anos subsequentes até os dias atuais, invertendo a rela- ção entre empregos protegidos e os chamados empregos precários. Nestas análises restritas ao plano empírico, os indicadores examinados para carac- terizar a precarização estavam limitados à regulação do trabalho e, portanto, aos direitos trabalhistas. As taxas de desemprego, a incapacidade do mer- cado de trabalho absorver um conjunto de trabalhadores “supranumerários”E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 39 (CASTEL, 1995, 1998) e os contratos fl exíveis, de curta duração, por tempo limitado, trabalho intermitente etc. são os indicadores quase exclusivos para concluir sobre a precarização.3 Em meus estudos sobre precarização do trabalho, a partir das pesquisas empíricas no Brasil e do uso dos conceitos de fl exibilização e precarização (DRUCK, 2007, 2011) busquei demonstrar que o fenômeno da precarização é multifacetado, com diversas dimensões e que não pode ser limitado ao campo dos direitos do trabalho ou da regulação, embora essa seja uma das expres- sões fundamentais do processo de precarização. As análises sobre o caráter social da precarização do trabalho, buscam romper determinadas dualidades, a exemplo dos excluídos e incluídos, empregados e desempregados, formais e informais, ou seja, há um processo de precarização que se generaliza para todas as regiões e para todos os diferentes segmentos de trabalhadores; como uma « institucionalização da instabilidade », que passa a ser incorporada pela sociedade como um processo « natural » determinado pelo capitalismo fl exível (APPAY; THEBAUD-MONY, 1997). Dörre (2022) em sua análise sobre « precariedade, precarização e preca- riado » traz uma excelente contribuição, ao discutir conceitualmente no plano teórico e empírico, as múltiplas dimensões da precariedade, diferenciando ocu- pação e trabalho, os planos quantitativo e qualitativo, as formas subjetivas de manifestação da « ocupação insegura » e do « trabalho precário ». Pois « [...] uma ocupação precária pode ser vinculada a um trabalho criativo, e a recíprova é verdadeira: um trabalho seguro pode ser combinado com formas extremamente precárias de atividade » (p. 108). No caso da Alemanha, ele observa que se vive uma transição para uma « sociedade precária de pleno emprego » (idem), pois os empregos criados são mal remunerados, inseguros e pouco reconhecidos, em grande parte ocupado por mulheres em prestação de serviços pessoais, num movimento que a ocupação precária supera o trabalho protegido. A generali- zação da precarização vai atingindo todos os segmentos, mesmo que de forma desigual, e aqueles que ainda estão numa condição protegida de emprego, vivem « medos coletivos » numa clara manifestação de precariedade. As implicações destas transformações do trabalho atingem todas as demais dimensões da vida social : a família, o estudo, o lazer e a restrição do acesso aos bens públicos (especialmente saúde e educação) (DRUCK, 2013, 2020). Laval (2017), numa perspectiva teórica da biopolítica do capital, defende a tese que a precariedade se tornou um « estilo de vida » ou uma « 3 Vale registrar que algumas estudiosas da precarização, como Annie Thebaud-Mony, Beatrice Appay, (1997), Helena Hirata (2002), dentre outros, para o caso da França, analisaram outros indicadores além da inserção no mercado de trabalho, a exemplo da saúde do trabalhador e o trabalho das mulheres. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 40 forma de existência », típida da era neoliberal, para além de ser um modo de gestão do trabalho. Nesta medida sob a hegemonia do neoliberalismo, se produz uma política de insegurança social, provocada pela instabilidade e perda da segurança dos empregos e por uma « cultura da precariedade » que, na visão empresarial, passa a ser defendida como empreendedorismo do trabalho. Uma racionalidade empresarial ou uma « empresarialidade », que se apresenta como um « novo modo de governo dos trabalhadores, [...] e um modo de existência novo, que, além do emprego, faz da ligação instável, móvel, instrumental com a organização produtiva e com as instituições sua própria marca e o seu valor agregado » (LAVAL, 2017, p. 101). Na minha compreensão, inspirada em Marx/Engels e Gramsci, trata-se, na realidade, de analisar as transformações do trabalho a partir da ideia-força : a todo modo de produção corresponde um modo de vida. Foi assim na revo- lução industrial, compreendida como um processo de revolução social, a partir das relações de subordinação real do trabalho ao capital, com o surgimento da fábrica, da mecanização, no uso da força de trabalho da família (mulhe- res e crianças), da constituição de um operariado industrial, cujo modo de vida se alterou radicalmente, nas condições de moradia, na urbanização, no empobrecimento, nas relações familiares e assim por diante. Na história da sociedade capitalista, as transformações históricas no trabalho, propiciadas pelas revoluções tecnológicas e organizacionais, como taylorismo, fordismo, toyotismo, microeletrônica, tecnologias de informação e comunicação, rede- fi niram não só as relações de trabalho, mas as formas de vida. Conforme nos ensina Gramsci em « Americanismo e Fordismo », a luta pela hegemonia do capital que começa na fábrica, trascende seus muros e passa a conformar uma conduta condizente com a nova racionalidade capita- lista, do industrialismo, da produção em massa, do homem disciplinado para dedicar integralmente sua capacidade intelectual e física para o trabalho e de uma nova moralidade: [...] pois os novos métodos de trabalho são indissoluvelmente ligados a um determinado modo de viver, de pensar e de sentir a vida; não é possível obter êxito num campo sem obter resultados tangíveis no outro. Na América a racionalização do trabalho e o proibicionismo estão indubitavelmente ligados aos inquéritos dos industriais sobre a vida íntima dos operários, os serviços de inspeção criados por algumas empresas para controlar a ‘moralidade’ dos operários são necessidades do novo método de trabalho. Quem risse destas iniciativas (mesmo falidas) e visse nelas apenas uma manifestação hipócrita de ‘puritanismo’ estaria desprezando qualquer possibilidade de compreender a importância, o signifi cado e o alcance objetivo do fenômeno americano, que é também o maior esforço coletivo realizado até agora para criar, com E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 41 rapidez incrível e com uma consciência jamais vista na História, um tipo novo de trabalhador e de homem (GRAMSCI, 1984, p. 396). Conforme já registrado em outros escritos, Druck (2013, 2020,p. 501-502): Na atualidade, as transformações trazidas pela ruptura com o padrão fordista geraram um outro modo de trabalho e de vida pautados na fl e- xibilização e precarização do trabalho, como exigências do processo de fi nanceirização da economia, que viabilizaram a mundialização do capital num grau nunca antes alcançado. Uma evolução da esfera fi nanceira que passou a determinar todos os demais empreendimentos do capital, subor- dinando e contaminando todas as práticas produtivas e os modos de gestão do trabalho, apoiada centralmente numa nova confi guração do Estado que passa a desempenhar um papel cada vez mais de “gestor dos negócios da burguesia”, pois age em defesa da desregulamentação dos mercados, espe- cialmente o fi nanceiro e o de trabalho, reafi rmando os valores neoliberais. Na realidade, poderia se pensar, inspirada em Gramsci, que a acumulação fl exível trouxe uma ideologia e uma cultura do empreendedorismo que expres- sam o crescente processo de individualização do trabalhador, responsável pelos riscos do seu empreendimento, uma condição que passa a ser defendida não só como única saída à crise do emprego, mas a ser considerada como libertadora do controle, como conquista de autonomia e de autogestão do trabalho (LIMA, 2010). Tal transformação da relação de trabalho determina uma conduta muito diferente do trabalhador assalariado “fordista”, pois sua forma de vida está orientada pela postura de um “empresário de si mesmo”, motivado pela concorrência e absorvendoa lógica do mercado como valor maior para seu comportamento em todas as esferas de sociabilidade. O que faria do empreendedorismo, segundo Amorim, Moda e Mevis (2021), uma forma análoga ao americanismo em tempos neoliberais. A relação entre fl exibilização e precarização do trabalho Numa perspectiva teórica mais geral, concorda-se com David Harvey (1992), quando formula a concepção de acumulação fl exível: A acumulação fl exível, como vou chamá-la, é marcada por um confronto direto com a rigidez do fordismo. Ela se apoia na fl exibilidade dos pro- cessos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção intei- ramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços fi nanceiros, E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 42 novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensifi cadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional [...] (p 140). [...] envolve rápidas mudanças dos padrões do desenvolvimento desigual, tanto entre setores como entre regiões geográfi cas, criando, por exemplo, um vasto movimento no emprego no chamado “setor de serviços”, bem como conjuntos industriais completamente novos em regiões até então subdesenvolvidas (tais como a “Terceira Itália”, Flandres, os vários vales e gargantas do silício, para não falar da vasta profusão de atividades dos países recém-industrializados) (p. 140). [...] um novo movimento que chamarei de “compressão do espaço-tempo” [...] no mundo capitalista – os horizontes temporais da tomada de decisões privada e pública se estreitaram, enquanto a comunicação via satélite e a queda dos custos de transporte possibilitaram cada vez mais a difusão ime- diata dessas decisões num espaço cada vez mais amplo e variegado (p. 140). [...] A acumulação fl exível parece implicar níveis relativamente altos de “desemprego estrutural” (em oposição ao “friccional”), rápida destruição e reconstrução de habilidades, ganhos modestos (quando há) de salários reais [...] e o retrocesso do poder sindical – uma das colunas políticas do regime fordista (p. 140-141). Harvey aponta o processo de reorganização do sistema fi nanceiro inter- nacional, como central nessa nova confi guração da acumulação capitalista, tornando-se uma “novidade” sem igual, cujas implicações redefi nem a ordem econômica e social do sistema: O que parece realmente especial no período iniciado em 1972 é o fl oresci- mento e transformação extraordinários dos mercados fi nanceiros. [...] Na atual fase, contudo, o que importa não é tanto a concentração de poder em instituições fi nanceiras quanto a explosão de novos instrumentos e merca- dos fi nanceiros, associada à ascensão de sistemas altamente sofi sticados de coordenação fi nanceira em escala global. Esse sistema fi nanceiro foi o que permitiu boa parte da fl exibilidade geográfi ca e temporal da acumulação capitalista. [...] O Estado-nação, embora seriamente ameaçado como poder autônomo, retém mesmo assim grande poder de disciplinar o trabalho e de intervir nos fl uxos de mercados fi nanceiros, enquanto se torna muito mais vulnerável a crises fi scais e à disciplina do dinheiro internacional. Estou, portanto, tentado a ver a fl exibilidade conseguida na produção, nos mercados de trabalho e no consumo antes como um resultado da busca de soluções fi nanceiras para as tendências de crise do capitalismo do que o contrário. Isso implicaria que o sistema fi nanceiro alcançou um grau de autonomia diante da produção real sem precedentes na história do capitalismo, levando este último a uma era de riscos fi nanceiros igualmente inéditos (HARVEY, 1992, p. 181). E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 43 Portanto, identifi ca-se um movimento do capital comandado pela esfera fi nanceira, pautado na fl exibilidade levada a seu grau extremo. Essa fl exibilidade, embora inerente ao sistema capitalista, se metamorfoseia, centrada no curtíssimo prazo, na volatilidade e instabilidade como nunca antes alcançados. Conforme exposto em análises anteriores (DRUCK, 2013, 2020) : A hegemonia da “lógica fi nanceira” ultrapassa o terreno estritamente eco- nômico do mercado e impregna todos os âmbitos da vida social. Trata-se de uma rapidez inédita do tempo social, que parece não ultrapassar o presente contínuo, um tempo sustentado na volatilidade, efemeridade e descartabilidade, sem limites, de tudo o que se produz e, principalmente, dos que produzem - os homens e mulheres que vivem do trabalho. O curto prazo – como elemento central dos investimentos fi nanceiros –, impõe processos ágeis de produção e de trabalho, e para tal, é indispensável tra- balhadores que se submetam a quaisquer condições para atender ao novo ritmo e às rápidas mudanças (2020, p. 501-502). Em meus estudos sobre a precarização do trabalho, iniciados de forma mais sistemática, a partir de 2002, com o projeto “Trabalho, Flexibilização e Precarização: (re)construindo conceitos à luz de estudos empíricos”, passei a analisar a realidade do trabalho no Brasil, e suas especifi cidades, através de diferentes recortes e objetos de estudo, que indicavam um movimento mais geral de fl exibilização e precarização do trabalho que perpassava por todos os casos empíricos pesquisados. Neste projeto, já considerava que: No quadro mais geral das transformações do mundo do trabalho num contexto de globalização, reestruturação produtiva e de políticas neoli- berais, observa-se um fenômeno que articula e sintetiza esses três gran- des movimentos: a fl exibilização, que tem, no trabalho – nas formas de produzir, na organização dos processos produtivos, na legislação sobre os trabalhadores, nas modalidades de emprego/ocupação e de regimes de trabalho, o seu substrato maior (DRUCK, 2002, p. 2). No levantamento dos estudos sobre a temática, publicados desde 1990, em sua imensa maioria, demonstravam para todos os setores de atividades e casos pesquisados, que a fl exibilização do trabalho era o elemento chave do processo de reestruturação, expresso no quadro das mudanças organizacionais e tecnológicas, do mercado de trabalho, do emprego, da legislação trabalhista e dos sindicatos. Nestas abordagens, a fl exibilização do trabalho revelada pelas pesquisas era invariavelmente associada ao fenômeno da precarização do trabalho e do emprego. E, nesta medida, os estudos apontavam os resultados negativos, E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 44 expressos num conjunto de indicadores como: desemprego, instabilidade, situações de risco e insegurança no trabalho, falta de segurança e condições propícias ao trabalho, aumento de doenças ocupacionais e de acidentes de trabalho, perda de vínculos e direitos, intensifi cação do trabalho, e outros. Entretanto, ao incorporar o debate com outros autores e formulações, a exemplo de Robert Castel (1995), Annie Thebaut-Mony e Beatrice Appay (1997), passei a compreender a centralidade da precarização social do trabalho neste novo regime de acumulação. Assim, passei a considerar que não são dois fenômenos distintos, nem entrelaçados, como a maioria das pesquisas analisa, e como eu afi rmei em outros textos. No plano empírico, os indicadores das transformações do trabalho imputam à precarização como resultado da fl exibilização. E, ao fazer isso, permitem pensar a fl exibilização como fenô- meno necessário e inexorável ao capitalismo mundializado e fi nanceirizado e, sob uma abordagem economicista, lhe dá um status que possibilita conceber o trabalho fl exível como mudança positiva que não necessariamente leva à precarização4. Mais recentemente, embasada no debate teórico e nos estudos empíricos, objeto dos levantamentos realizados, passei a conceber a fl exibi- lização como sinônimo deprecarização do trabalho, “...consideradas como fenômenos idênticos, que expressam a “institucionalização da instabilidade” – como forma de dominação social do trabalho e de uma precarização social de novo tipo, metamorfoseada, mundializada, marcada pelas especifi cidades históricas de cada país (DRUCK, 2007). Assim, conforme sintetizado no verbete “Precarização social do trabalho” (DRUCK, 2013, 2020, p. 500-501), entendemos que é um processo econômico, social e político que se tornou hegemônico e central na atual dinâmica do novo padrão de desenvolvimento capitalista – a acumulação fl exível – no contexto de mundialização do capital e das políticas de cunho neoliberal. Trata-se de uma estratégia patronal, em geral apoiada pelo Estado e seus governos, que tem sido implementada em todo o mundo, cujos resultados práticos se diferenciam muito mais por conta da história passada de cada país, refl etindo os níveis de democracia e de con- quistas dos trabalhadores, do que da história presente, cujos traços principais os aproximam e os tornam semelhantes, pois a precarização social do trabalho se impõe como regra e como estratégia de dominação assumindo um caráter cada vez mais internacionalizado. Entendê-la como estratégia de dominação signifi ca perceber que o capi- tal se utiliza da força e do consentimento, como recursos para viabilizar um grau de acumulação sem limites materiais e morais. A força se materializa principalmente na imposição de condições de trabalho e de emprego precárias frente à permanente ameaça de desemprego estrutural criado pelo capitalismo. 4 O que Appay e Thébaud-Mony (1997) chamaram de paradigma da fl exibilidade positiva. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 45 Afi nal, ter qualquer emprego é melhor que não ter nenhum. Aplica-se aqui, de forma generalizada, o que Marx e Engels elaboraram acerca da função política principal do exército industrial de reserva, qual seja: a de criar uma profunda concorrência e divisão entre os próprios trabalhadores e, com isso, garantir uma quase absoluta submissão e subordinação do trabalho ao capital. O consenso se produz a partir do momento em que os próprios trabalhadores, infl uenciados por seus dirigentes políticos e sindicais, passam a acreditar que as transformações no trabalho são inexoráveis e, como tal, passam a ser justifi cadas como resultados de uma nova época ou de um “novo espírito do capitalismo” (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009). A atual precarização social do trabalho e o neoliberalismo Na atualidade, ao lado do processo de fi nanceirização – e condição necessária para a sua expansão – o neoliberalismo se tornou hegemônico, cuja proposição tem origem no fi nal de 1930 (Colóquio Walter Lippman em 1938) e na fundação da Sociedade Mont Pelerin em 1947, como uma reação teórica e política contra o Estado « intervencionista » e de bem-estar. O projeto neoliberal só se concretizou quase 30 anos após a sua formulação teórica e teve sua primeira experiência no Chile, em 1973, com o golpe e a contrarevo- lução comandada por uma junta militar, implantando uma das ditaduras mais violentas da América Latina. Na sequência, foi na Inglaterra em 1979 e nos EUA, em 1981, que o neoliberalismo se impôs e se consolidou, tornando-se referência para o mundo inteiro. Nas diversas perspectivas de análise do neoliberalismo, há em comum a ideia central sobre o processo de mercantilização como elemento chave, isto é, o mercado passa a ocupar um lugar decisivo nas novas relações sociais, assim [...] Ele [o neoliberalismo] sustenta que o bem social é maximizado se se maximizam o alcance e a freqüência das transações de mercado, procurando enquadrar todas as ações humanas no domínio do mercado (HARVEY, 2014, p. 14). A troca no mercado se transforma numa ética que deve guiar a ação humana. Corroborando essa interpretação, Dardot e Laval (2016, p. 7) afi rmam sobre uma « racionalidade neoliberal », cujo âmago é estabelecer « a concor- rência como norma de conduta e a empresa como modelo de subjetivação » . Em ambas perspectivas, mesmo com referenciais teóricos diferentes, as relações de trabalho, marcadas pela precarização, são determinates para a mercantilização da vida no processo de neoliberalização da sociedade. Sauvetre et al. (2021) qualifi cam as transformações no « front do traba- lho » como uma guerra econômica da concorrência – cujas fórmulas estão sintetizadas na defesa do « modernizar », « fl exibilizar », « fazer baixar o E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 46 custo do trabalho (p. 228) –, que se estende ao conjunto dos trabalhadores, estabelecendo uma « guerra de todos contra todos » no espaço do trabalho, visando reforçar a dominação do trabalho numa ofensiva dos capitalistas contra o compromisso fordista e as possibilidades democráticas do trabalho. Para os autores : [...] as principais dimensões dessa guerra que, longe de se reduzir à globa- lização econômica, implica o plano das práticas, dos discursos e dos modos de subjetivação necessários à fl exibilização e precarização do trabalho. [...] uma ofensica geral cujo principal objetivo não é apenas impor novas normas de trabalho pelo direito e a reorganização do trabalho, mas torná- -las aceitáveis, apresentando-as sob as vestes sedutoras da emancipação e autorealização (SAUVETRE et al., 2021, p. 229). Destruir as condições de uma possível “consciência de classe”, deslo- cando para as lutas entre indivíduos, como inimigos potenciais, e “fazer-se radicalmente inimigo de si mesmo, jogando as regras de um jogo do qual a grande maioria sai perdedora” (Idem, p. 229). Neste mesmo sentido, Harvey (2014, p. 63) sustenta: As virtuosas reivindicações de especialização fl exível nos processos de trabalho e de fl exibilização dos contratos de trabalho puderam tornar-se partes da retórica neoliberal capazes de ser persuasivas para trabalhado- res individuais, particularmente aqueles que haviam sido excluídos dos benefícios monopolistas, que a forte sindicalização às vezes trazia. Uma maior liberdade em geral e a liberdade de ação no mercado de trabalho podiam ser louvadas como uma virtude tanto para o capital como para o trabalho, e também nesse caso não foi difícil integrar valores neoliberais ao «senso comum» de boa parte da força de trabalho. A neoliberalização do trabalho, para além da guerra aos sindicatos – empoderados durante o fordismo e os Estados de bem-estar e acusados de responsáveis pela queda da rentabilidade das empresas –, busca desmantelar os coletivos de trabalho e, para isso, procura substituir as relações de assa- lariamento protegido pelo empreendedorismo, através da « uberização » ou capitalismo de plataforma. Processo também referido por Brown (2020, p. 49) quando destaca que « [...] a desmassifi cação ordoliberal visava combater a proletarização por meio da empreendedorização (logo da reindividualização) dos trabalhadores, por um lado, e da realocação dos trabalhadores em práticas de autoprovisão familiar, por outro. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 47 É neste contexto que se inserem algumas práticas de gestão e organi- zação do trabalho que se tornam centrais e estratégicas de precarização. É o caso da terceirização que tem como um dos principais objetivos, se desven- cilhar dos custos trabalhistas e da subordinação ao direito do trabalho. As “empresas prestadoras de serviços”, por exemplo, são contratadas através de uma relação comercial com a contratante e esta se desobriga dos direitos trabalhistas. A contratada, comprimida pela pressão dos custos e prazos, aumenta o grau de exploração dos trabalhadores e cria uma “cultura” de negação e desrespeito aos direitos dotrabalho, buscando anular a função protetiva do Estado. Numa economia comandada pela lógica fi nanceira sus- tentada no curtíssimo prazo, as empresas buscam garantir seus altos lucros, exigindo e transferindo aos trabalhadores a pressão pela maximização do tempo, pelas altas taxas de produtividade, pela redução dos custos com o trabalho e pela “volatilidade” nas formas de inserção e de contratos. É o que sintetiza a terceirização, que, como nenhuma outra modalidade de gestão, garante e efetiva essa “urgência produtiva” determinada pelo processo de fi nanceirização (DRUCK, 2016). A terceirização potencializa a concorrência entre os trabalhadores, pois além da redução de custos e da transferência de responsabilidades pelo vínculo empregatício para um terceiro, o empresariado tem uma motivação política ao provocar a fragmentação dos coletivos de trabalho, a criação de divisão e discriminação entre os trabalhadores, classifi cando-os como de primeira e segunda categoria e levando a um processo de dispersão dos sindicatos, já que trabalhadores de uma mesma unidade produtiva podem ser representados por vários sindicatos, quebrando a sua unidade e fragilizando as suas lutas (DRUCK, 2016 ; DRUCK ; BASUALDO, 2022). As inúmeras pesquisas têm demonstrado a indissociabilidade entre ter- ceirização e precarização em todas as dimensões: nas modalidades de contra- tação precárias, que se estabelecem por períodos determinados cada vez mais curtos, nas condições de trabalho, na remuneração, na jornada de trabalho, na saúde do trabalhador, na representação sindical e nos direitos trabalhis- tas. Os terceirizados recebem menos, trabalham mais, têm menos direitos e benefícios, têm maior rotatividade e instabilidade no trabalho, têm menos capacitação e treinamento, menos equipamentos de segurança; se acidentam e morrem mais e estão crescendo mais do que os demais. (KREIN, 2016; BIAVASCHI e TEIXEIRA, 2015, DROPPA e BIAVASCHI, 2014;TEIXEIRA et al., 2016; MARCELINO, 2004; DAU et al. 2009, DRUCK e BASUALDO, 2022). Nessa medida, a terceirização antecipa o que as reformas trabalhistas objetivam legalizar para todos os trabalhadores : a precarização como regra. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 48 No plano empírico, a terceirização demonstra a precarização como um fenômeno multifacetado, quando se trata das suas diferentes dimensões : a) nas formas de mercantilização da força de trabalho, que produziu um mercado de trabalho heterogêneo, segmentado, marcado por uma vulnerabilidade estrutural e com formas de inserção (contratos) precários, sem proteção social e altas taxas de rotatividade; b) nos padrões de gestão e organização do trabalho – que tem levado a condições extremamente precárias, através da intensifi cação do trabalho (imposição de metas inalcançáveis, extensão da jornada de trabalho, polivalência etc.) sustentados na gestão pelo medo, na discriminação e nas formas de abuso de poder através do assédio moral; c) nas condições de (in) segurança e saúde no trabalho – resultado dos padrões de gestão, que desrespei- tam o necessário treinamento, as informações sobre riscos, medidas preventivas coletivas, etc. na busca incessante de redução de custos, mesmo que à custa de vidas humanas, levando a altos índices de acidentes de trabalho, adoecimento e mortes; d) no isolamento, na perda de enraizamento, de vínculos, de inser- ção, resultantes da descartabilidade, da desvalorização e da discriminação, condições que afetam decisivamente a solidariedade de classe, solapando-a pela brutal concorrência que se desencadeia entre os próprios trabalhadores, difi cultando a sua identidade de classe; e) no enfraquecimento da organização sindical e das formas de luta e representação dos trabalhadores, decorrentes da violenta concorrência entre os mesmos, da sua heterogeneidade e divisão, implicando numa pulverização dos sindicatos; e) na negação do direito do trabalho, impulsionada pelo comportamento patronal, que questiona a sua tradição e existência, expressa na reforma trabalhista de 2017, que liberou a terceirização sem limites, além de outras mudanças na CLT que esvaziaram seu conteúdo protetivo. (DRUCK, 2011; DRUCK e BASUALDO, 2022) Mais recentemente, uma nova forma de organização do trabalho se tor- nou o centro do debate e das pesquisas no campo da sociologia do trabalho : a uberização. O uso de aplicativos se disseminou para inúmeras atividades profi ssionais, com destaque para os entregadores e motoristas. A natureza principal dessa forma de trabalho é a negação absoluta da condição de assa- lariado dos trabalhadores, pois estabelece que eles são prestadores autônomos de serviços. Os aplicativos se apresentam apenas como intermediários técnicos que permitem uma ponte entre esses autônomos e os clientes. Sob o fetiche da tecnologia, as empresas donas dos aplicativos querem esconder uma relação de trabalho e de produção e não reconhecem qualquer vínculo empregatício com esses trabalhadores. A terceirização e a uberização são fenômenos distintos – inclusive porque esta última está determinada pela economia das plataformas, onde a tecnologia de informação tem papel central para ocultar a relação de emprego e onde os E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 49 meios de trabalho estão sob as custas dos trabalhadores, e tem na ideologia do empreendedorismo um elemento central, levando a que a maioria dos entregadores de aplicativos não se considere um trabalhador, mas um “empre- sário de si mesmo”, acreditando que tem autonomia para defi nir seu trabalho e sua jornada, na condição de autônomo. Entretanto, pode se afi rmar que a terceirização abriu as portas para a uberização, antecipando em algumas de suas modalidades o não reconhecimento da relação de assalariamento, como é o caso as cooperativas, a pejotização, o trabalho integrado, trabalho avulso, trabalhadores independentes ou autônomos, dentre outras. A inovação trazida pelas TICs é a combinação entre a negação do assa- lariamento com modernos e sofi sticados instrumentos de controle do trabalho (registro dos tempos e movimentos em tempo real de cada tarefa propiciado por essas tecnologias), amplifi cando de forma inédita a organização taylorista do trabalho, sobre indivíduos supostamente autônomos que, contaminados pela ideologia do empreendedorismo, se subordinam ao controle das gran- des corporações, assumindo todos os riscos e custos e acreditando que tem liberdade no trabalho fl exível e sem nenhum “patrão” ou “chefe” para lhe dar ordens. (ANTUNES e FIGUEIRAS, 2020) Tal condição coloca em risco a integridade subjetiva do trabalhador, pois passa a sofrer uma coerção sobre si mesmo (SAUVETRE et al., 2021, p. 240-241), o « empresário de si é constrangido a fazer-se o inimigo de si », pois : « [...] a promoção de um modelo de autoempresariamento vai de encontro aos interesses da maioria. Jogar o jogo do empresário de si é, neste sentido, aceitar ‘voluntariamente’ a condição do ‘precariado’ e se apropriar de normas e valores contrários aos próprios interesses.» Ou o que outros autores denominam como « servidão voluntária » (ANTUNES, 2018). É uma das expressões do que Gaulejac e Hanique (2015) nomeiam de « capitalismo paradoxal », uma concepção crítica sobre as sociedades hiper- modernas, em que se exacerbam as contradições da modernidade, ancorada num individualismo extremo, quando os indivíduos são considerados como únicos responsáveis pelo seu sucesso ou fracasso. Gaulejac e Hanique ana- lisam como esse “capitalismo paradoxal” vai psicologizando os problemas sociais, pois o desemprego deixa de ser uma questão econômica e social, fruto do sistema produtivo, e passa a ser considerado como um problema pessoal, daqueles que não têm competência, que fracassam por não se adaptarem às novas exigênciasda modernização capitalista. Os autores desenvolvem uma análise pormenorizada das transformações na organização do trabalho, das relações de poder, do lugar da gerência, da redefi nição das hierarquias, da cultura dos resultados e da urgência, da compressão dos tempos, da “discreta” violência institucional, da “autonomia controlada”, dentre outros aspectos, E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 50 para demonstrar como há um deslocamento da relação capital trabalho da era fordista, centrada no capitalismo industrial, para a era dos paradoxos, expressão do capitalismo fi nanceiro, cuja lógica torna-se hegemônica con- taminando todos os espaços de sociabilidade, principalmente o campo do trabalho, cada vez mais reduzido a um custo que precisa diminuir e se adap- tar ao curto prazo, à volatilidade, descartabilidade, enfi m, a uma condição precária como forma de vida. A precarização e as classes sociais: existe um precariado? O debate acerca da precariedade como condição permanente e não mais provisória na Europa, conforme análise de Castel (2010), qualifi ca as trans- formações do trabalho a partir da crise da « condição salarial » do fordismo, agora substituída pela « condição precária ». Nas palavras do autor : [...] Se converte assim em uma condição de alguma maneira ‘normal’ da organização do trabalho, com suas características próprias e seu próprio regime de existência. Assim como se fala de ‘condição salarial’ (caracte- rizada pelo estatuto do emprego da sociedade salarial), teria que se falar de condição precária, [...]. Uma precariedade permanente que já não teria nada de excepcional ou de provisório. Poder-se-ia chamar ‘precariado’ a esta condição sob a qual a precariedade se converte em um regime próprio da organização do trabalho (CASTEL, 2010, p. 132 – tradução livre, grifos meus). Na condição precária, há um processo de individualização profundo que dissolve a capacidade de existir como coletivo. Sob a ameaça do desemprego e da precarização, os trabalhadores são forçados a serem fl exíveis, adaptáveis, sendo obrigados a “entrar no jogo” do capitalismo fl exível. Neste cenário, promove-se uma brutal concorrência entre “iguais”, ou seja, entre trabalha- dores que disputam as mesmas posições de inserção no mercado de trabalho, quando são levados a adotar estratégias individuais e não mais coletivas para enfrentar essa disputa (DRUCK, 2018). Ainda na visão de Castel, essa condição de precariado desmonta um conjunto de direitos e constitui uma enorme heterogeneidade entre os tra- balhadores, difi cultando sobremaneira a sua existência como classe social. Em diálogo com o marxismo, afi rma que « a classe operária perdeu a par- tida » (2010, p. 285), desfazendo-se da condição de organização e luta por outra sociedade. Entretanto, reconhece que os elementos que a constituíram não desapareceram. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 51 Guy Standing (2013) concebe o « precariado » como uma nova classe em formação e qualifi cada como « perigosa » no contexto da globalização e de novas relações sociais que exigem uma nova denominação, pois os ter- mos “classe trabalhadora”, “trabalhadores” e “proletariado” estão superados e não expressam mais esse novo momento do capitalismo do século XXI. E apresenta a sua concepção: O precariado tem características de classe. Consiste em pessoas que têm relações de confi ança mínima com o capital e o Estado, o que as torna completamente diferentes do assalariado. E ela não tem nenhuma das relações de contrato social do proletariado, por meio das quais as garantias de trabalho são fornecidas em troca de subordinação e eventual lealdade, o acordo tácito que serve de base para os Estados de bem-estar social. Sem um poder de barganha baseado em relações de confi ança e sem poder usufruir de garantias em troca de subordinação, o precariado é sui generis em termos de classe [...] (STANDING, 2013, p. 25). Para Standing (2013), o precariado é composto por aqueles que estão fora da “cidadania industrial”, isto é, sem garantia de vínculo empregatício, sem segurança no emprego e no trabalho, sem garantia de reprodução de habili- dade, insegurança de renda e sem garantia de representação. Vivem, portanto, numa situação de instabilidade, irregularidade e insegurança permanentes em todos os níveis sem qualquer possibilidade de um pertencimento a uma “comunidade trabalhista solidária”. Sem perspectivas de futuro, se movem no curtíssimo prazo, infl uenciados pelas novas tecnologias e mídias sociais, seu pensamento é rápido e curto e não há memória de longo prazo. Nessa condição de “incerteza crônica”, não conseguem criar vínculos nem formas de solidariedade, não se identifi cam uns com os outros, pois são “[...] uma crescente massa de pessoas [...] em situações que só podem ser descritas como alienadas, anômicas, ansiosas e propensas à raiva. O sinal de advertência é o descompromisso político” (STANDING, 2013, p. 47) (DRUCK, 2018). Ainda segundo Standing (2013, p. 48), constituem uma “classe perigosa”: ‘o precariado não é uma classe organizada que busca ativamente seus interes- ses, em parte porque está em guerra consigo mesmo.’ [...] As tensões dentro do precariado estão colocando as pessoas umas contra as outras, impedin- do-as de reconhecer que a estrutura social e econômica está produzindo seu conjunto de vulnerabilidades. Muitos serão atraídos por políticas populistas e mensagens neofascistas, um desenvolvimento que já é claramente visí- vel através da Europa e dos EUA e em outros lugares. É por isso que o precariado é a classe perigosa, e é por isso que ‘uma política de paraíso’ é necessária para responder aos seus medos, inseguranças e aspirações. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 52 Uma análise que vai ao encontro das formulações referidas anteriormente sobre a relação entre a precarização do trabalho e o neoliberalismo (SAUVE- TRE et al, 2021; HARVEY, 2014; BROWN, 2019), que indicam o processo de individualização, da concorrência, do empresário de si mesmo, transformado em inimigo de si mesmo, desconstruindo a condição subjetiva de classe social. Dörre (2022, p. 142) discute a “erosão da sociedade de classe inte- grada”, isto é, a era fordista, em que houve um “status coletivo reconhe- cido”, conquistando-se uma cidadania social, com um conjunto de conquistas que estabeleciam um padrão de vida de classe média para os trabalhadores empregados. Foram condições socioeconômicas específi cas do capitalismo que propiciaram essa confi guração naqueles países que viveram os Estados de bem-estar. Situação que vai se esgotando e leva à mobilização e lutas reivindicativas dos trabalhadores para manter a sua condição. O “regime de expropriação do capitalismo fi nanceiro” foi a resposta à crise do fordismo. Segundo Dörre (2022, p. 145): [...] o capitalismo de mercado fi nanceiro se refere ao surgimento de uma determinada formação capitalista. Ela combina uma acumulação de capi- tal – baseada em um domínio relativo do capital fi nanceiro – modelos de produção e disposições regulatórias (vínculos entre o discurso público e as práticas institucionais) fl exíveis, centradas no mercado, que priorizam a responsabilidade individual e a competitividade em detrimento do prin- cípio de solidariedade. O novo modus operandi desse regime de expropriação do capita- lismo fi nanceirizado provocou uma desestruturação e reestruturação das relações de classe, sobrepondo velhas e novas estruturas. No campo das classes dominantes, novas frações e reposicionamentos provocados pela transnacionalização, juntando segmentos mais tradicionais, a exemplo dos banqueiros, com novos ricos especuladores, uma nova elite de executivos numa gestão empresarial orientadapara os acionistas e o surgimento de “uma classe de prestadores de serviço ao capitalismo do mercado fi nan- ceiro” (DÖRRE, 2022, p. 148). Essa nova elite não tem compromisso corporativo e é movida por interesses pessoais diante das possibilidades de rápido enriquecimento através da especulação no mercado fi nanceiro. Uma composição de classe constituída por novas frações numa condição de permanente instabilidade, gerada pelo caráter volátil dos investimentos e seus resultados. Entretanto contam com uma reestruturação das instituições e das formas de regulação estabelecidas pelo Estado, que lhes garantem uma liberdade quase sem limites para atuar no processo de fi nanceirização, reforçadas pela remercantilização e expropriação, típicas da “acumulação por espoliação” (HARVEY, 2004). E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 53 No campo das classes trabalhadoras, a acumulação fl exível comandada pelo regime de expropriação do capitalismo fi nanceiro faz amplifi car o “exér- cito industrial de reserva”, potencializando a insegurança e instabilidade, repercutindo sobre a composição das frações de classe, quebrando o status social e coletivo, reduzindo seu efetivo e substituindo-o pela crescente ocupa- ção precária. Neste processo, perde-se a crença na organização coletiva e só o sucesso individual é possível. O que “...dá origem a orientações sociais que provocam lutas classifi catórias dentro da classe trabalhadora ao mesmo tempo que desencadeiam o repúdio a partes da sociedade consideradas improdutivas e ‘parasitárias” (DÖRRE, 2022, p. 150). Neste contexto, os trabalhadores com carteira assinada e contratos por tempo indeterminado tendem a defender a manutenção das suas condições, assumindo uma postura corporativa e de transferência de riscos aos segmen- tos mais precarizados, pois a relativa segurança dos primeiros depende da insegurança dos últimos. Dörre (2022) defende o surgimento de um novo subproletariado, aqueles trabalhadores que não têm propriamente um emprego, mas trabalho incerto, são mal remunerados e socialmente desqualifi cados e negligenciados. Embora considere que: É verdade que as formas estruturais contemporâneas da precariedade abrangem todas as “zonas de coesão social” e estão presentes em diferentes classes (frações) e estratos. A esse respeito, não há uma subclasse homo- gênea nem um precariado claramente defi nível.” (DÖRRE, 2022, p. 152). É nesta mesma perspectiva que analisei (DRUCK, 2018, p. 88): [...] compreende-se que a precariedade sofreu mais uma grande metamor- fose, como “dialética do mesmo e diferente” (CASTEL, 1998), tornando-se de outra natureza, tanto no Brasil como nos países do centro: deixou de ser “residual”, ou ainda refl exo do “atraso”, para se transformar no centro da dinâmica do capitalismo fl exível, se constituindo num fenômeno mundial que passou de “condicionado a condicionante” (MATOS, 2010). A preca- rização – como processo, como movimento – se generalizou para todos os lugares (centro e periferia), para todos os setores (urbano e rural), para todas as atividades (indústria, serviços públicos e privados, comércio), para todos os segmentos de trabalhadores (mais qualifi cados, menos qua- lifi cados, jovens, velhos, homens, mulheres, negros, brancos, migrantes, nativos), mesmo que atingidos em graus diferentes por essa precarização. Nesta medida, reafi rmo o que já expus em escritos anteriores Druck (2016, 2018), o atual debate sobre precarização e precariado contribui para E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 54 explicitar o caráter histórico das classes sociais em sua processualidade. A precarização social do trabalho – como um movimento que está no centro da dinâmica do atual padrão de desenvolvimento capitalista, sob a hegemonia da lógica fi nanceira e do neoliberalismo –, reconfi gura as relações entre as classes e intraclasses, alterando a sua composição e morfologia. Observa-se o surgimento de novos contingentes de trabalhadores, constituídos a partir das novas formas de organização do trabalho e de transformações tecnoló- gicas, cujo perfi l difere em muito do velho operário industrial, a exemplo dos trabalhadores em telemarketing e, mais recentemente, os trabalhadores de aplicativos. Denominados por Antunes (2018) de “novo proletariado de serviços”, considerado como parte da classe-que-vive-do-trabalho e, portanto, em discordância com Standing em sua afi rmação sobre o precariado como uma nova classe, pois: [...] a classe-que-vive-do-trabalho, em sua nova morfologia, compreende distintos polos que são expressões visíveis da mesma classe trabalhadora, ainda que eles possam se apresentar de modo bastante diferenciado (dife- renciação, aliás, que não é novidade na história da classe trabalhadora, sempre clivada por gênero, geração, etnia/raça, nacionalidade, migração, qualifi cação etc.) (ANTUNES, 2018, p. 58). Em síntese, a descrição empírica das condições objetivas e subjetivas dos novos segmentos de trabalhadores que crescem em todo o mundo, classifi cados como “precários”, ou como “condição precária” – fora da relação de assalaria- mento fordista ou “condição salarial” –, apesar de evidenciar as diferenças nas condições de trabalho, nos salários, nos direitos sociais e trabalhistas, não é sufi - ciente para afi rmar sobre o surgimento de uma nova classe social: o precariado. Este debate teórico, referenciado, principalmente nos países do centro, sobretudo naqueles em que se constituíram os Estados de bem-estar social, pode ser problematizado e adaptado para o caso das regiões periféricas, a exemplo do Brasil? As especifi cidades da precarização nos países da periferia: o caso brasileiro A especifi cidade do caso brasileiro só pode ser compreendida a partir da sua história passada. Um país colonial sustentado no trabalho escravo, que se especia- lizou numa economia agrário-exportadora e cuja industrialização tardia, através do modelo de substituição de importações, o condenou a uma posição subordi- nada às economias centrais, condição similar para os países latino-americanos. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 55 O desenvolvimento mundial do capitalismo se deu de forma desigual e combinada, criando uma divisão internacional do trabalho, em que as antigas colônias na América Latina transformaram-se em países dependen- tes, exportadores de matérias primas, enquanto a dinâmica industrial e de matrizes tecnológicas avançava nos países do centro. No caso do Brasil, a industrialização, mesmo que tardia, tornou a economia mais complexa e dinâmica, instalando-se no país as principais indústrias de bens de consumo durável, diferenciando a sua estrutura produtiva em relação a outros paí- ses latino-americanos. As transformações do trabalho em tempos de globalização fi nanceira e do neoliberalismo no Brasil precisam ser analisadas a partir da constatação de que aqui não se constituiu um Estado de Bem Estar Social, mas um sistema de proteção social (CLT – Consolidação das Leis do Trabalho) datado de 1943, condicionado pelo controle do Estado sobre os sindicatos, embora estabele- cendo um conjunto de direitos sociais e trabalhistas restritos ao setor urbano, reivindicados pelos trabalhadores desde o pré 1930, e que representaram um avanço importante em direção à “condição salarial” da qual falam os estudos sobre a experiência europeia. Diferentemente dos países mais desenvolvidos, onde foi possível estabe- lecer um grau de integração e homogeneidade social maior durante os “30 anos gloriosos”, que tinham a “condição salarial” como hegemônica; no Brasil, essa “condição salarial” nunca foi atingida plenamente, mas sempre foi fortemente desejada e perseguidapelas lutas sociais e serviu de inspiração política para a crítica ao “capitalismo selvagem” brasileiro. Nesta medida, o “espírito capi- talista” do padrão fordista de desenvolvimento e de regulação, que propiciou o período de prosperidade e progresso social naqueles países, era, de certa forma, reivindicada ou buscada como caminho para superar as condições de miséria, de pobreza, de subemprego e de “mal-estar social” em nosso país. Historicamente o mercado de trabalho brasileiro foi marcado por uma enorme heterogeneidade e desigualdade, onde a precariedade estrutural do capitalismo dependente se manifestou desde as suas origens no Brasil, mesmo que sofrendo mudanças conjunturais. No atual contexto, após três décadas de manifestação sistêmica da crise fordista no Brasil, pode-se afi rmar que a precarização do trabalho se consti- tuiu como um novo fenômeno, cujas principais características, modalidades e dimensões sugerem um processo de precarização social inédito no país neste último período, revelado pelas mudanças nas formas de organização/gestão do trabalho, na legislação trabalhista e social, no papel do Estado e suas políticas sociais, no novo comportamento dos sindicatos e nas novas formas de atuação de instituições públicas e de associações civis. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 56 O caráter desta nova precarização social do trabalho está sustentado na ideia de que é um processo que instala – econômica, social e politicamente - uma institucionalização da fl exibilização e da precarização modernas do traba- lho de caráter mundial, renovando e reconfi gurando a precarização histórica e estrutural do trabalho no Brasil, agora justifi cada – na visão hegemonizada pelo capital –, pela necessidade de adaptação aos novos tempos globais, marcados pela inevitabilidade e inexorabilidade de um processo mundial de precarização, também vivido a passos largos pelos países desenvolvidos. Assim, a referência para os países periféricos não está mais na cidadania fordista ou na condição salarial daqueles países, mas no capitalismo fl exível e global como “única saída” para a modernidade no mundo contemporâneo (DRUCK, 2011). Nesta medida, o capitalismo neoliberal procura enterrar o “sonho socialdemocrata”, responsabilizando as políticas sociais, a conquista de direitos e os sindicatos de trabalhadores pelas difi culdades no processo de acumulação. A precarização em escala global, determinado pela acumulação fl exível tem expressões históricas nacionais e regionais diversas, pois é resultado das diferentes histórias do trabalho e do emprego, que marcaram as condições socioeconômicas e políticas de cada país. Entretanto, atualmente as realida- des do trabalho na América Latina, na Europa, nos EUA e países asiáticos vêm se tornando cada vez mais semelhantes, conforme inúmeras pesquisas têm demonstrado. No Brasil e nos países latino-americanos, a natureza da dinâmica da precarização do trabalho é a mesma, mas a sua potencialidade de genera- lização é diferente, pois apenas um conjunto minoritário de trabalhadores conquistou uma relativa estabilidade, ou seja, a vulnerabilidade social sempre foi muito grande, mas também diferenciada entre os próprios trabalhadores e, hoje, mesmo aqueles protegidos pela legislação (os “formais”) estão também expostos e sofrem a precarização do trabalho. Alguns elementos para a discussão sobre o precariado no Brasil5 Sem ter a pretensão de sistematizar a discussão sobre “precariado” no Brasil, destaco algumas formulações, com cujos autores tenho dialogado. É o caso de Giovanni Alves (2013a, 2013b, 2014), Ruy Braga (2012) e Ricardo Antunes (2018). Alves (2013a) considera que o surgimento do precariado é uma demons- tração histórica da crise dessa ordem social burguesa sustentada no emprego, nos direitos sociais, na inclusão pelo consumo e no Estado social. O novo 5 Na primeira parte desse tópico, reproduzo resumidamente uma discussão apresentada em: Druck (2018). E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 57 caráter da precarização do trabalho na contemporaneidade surge da “nova precariedade salarial vigente no capitalismo global”, já que essa precarização é um “movimento de desconstrução da relação salarial constituída no capita- lismo do pós-guerra”, assim como pode ser compreendida como “desmonte das formas reguladas da força de trabalho como mercadoria” (ALVES, 2013a, p. 85). Ainda na sua concepção a precarização não se limita ao “trabalho”, pois se estende ao “homem-que-trabalha”, que se desefetiva como ser genérico. Assim, considera que essa dupla precarização (do trabalho e do homem- -que-trabalha) abre uma “[...] tríplice crise da subjetividade humana: a crise da vida pessoal, crise de sociabilidade e crise de autorreferência pessoal” (ALVES, 2013a, p. 87). Assim no plano descritivo, classifi ca o precariado: [...] como camada social média do proletariado urbano precarizado [...] constituído, por exemplo, por um conjunto de categoriais sociais imersas na condição de proletariedade como, por exemplo, jovens empregados do novo (e precário) mundo do trabalho no Brasil, jovens empregados ou operários altamente escolarizados, principalmente no setor de serviços e comércio, precarizados nas suas condições de vida e trabalho, frustrados em suas expectativas profi ssionais; ou ainda os jovens-adultos recém-gra- duados desempregados ou inseridos em relações de emprego precário; ou mesmo estudantes de nível superior (estudantes universitários são traba- lhadores assalariados em formação e muitos deles, estudam e trabalham em condições de precariedade salarial) (ALVES, 2013b, p. 3). No caso do Brasil, Alves (2013a, p.88) salienta que é a partir dos anos de 1990 que se constitui um “novo e precário mundo do trabalho”, fruto da combinação de políticas neoliberais e da reestruturação produtiva, cuja centra- lidade é a “nova precariedade salarial”, como elemento que sintetiza as demais dimensões da precarização. Ademais, refl ete as transformações no campo da tecnologia, dos novos métodos de gestão/organização do trabalho, dos coletivos geracionais híbridos e das novas relações fl exíveis de trabalho, cujas expressões empíricas são a remuneração fl exível, a jornada de trabalho fl exível e os novos contratos fl exíveis de trabalho. Em escritos mais recentes, afi rma: Temos utilizado os conceitos de precariado e ‘proletaróides’ para caracte- rizar camadas sociais da classe do proletariado, personagens sociais predo- minantes (embora não exclusivas), de manifestações sociais no Brasil do neodesenvolvimentismo. Por isso, intitulamos as manifestações de junho de 2013 como ‘a revolta do precariado’; e os ‘rolezinhos’ ocorridos em dezembro de 2013 e janeiro de 2014 como ‘a invasão dos proletaróides’. Na verdade, a utilização dos conceitos de precariado e ‘proletaróides’ E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 58 visa caracterizar (e dar visibilidade) a novos personagens sociais que se constituíram na era do neodesenvolvimentismo e que explicitam em si e para si contradições da ordem burguesa hipertardia no Brasil (ALVES, 2014, p. 1). Assim, na visão do autor, o precariado é uma camada social do proleta- riado, que é possível identifi car empiricamente, fruto da crise do fordismo e do capitalismo e da resposta do capital, através dos processos de reestruturação produtiva e da implementação do neoliberalismo. E, portanto, não se trata de uma nova classe social. Braga (2012) também parte do debate internacional que associa a nova realidade do trabalho à crise do fordismo e dos Estados de bem-es- tar social. Entretanto, destaca que a precariedade é “constitutiva da relação salarial” e, consequentemente, “[...] o precariado não deve ser interpretado comoantípoda do salariado, seu ‘outro’ bastardo ou recalcado” (BRAGA, 2012, p. 17), como o fazem as análises de Castel (2010) e Standing (2013). Retoma a formulação de Marx sobre a população trabalhadora excedente como necessária ao modo de produção capitalista, subdividida em fl utuante, latente, estagnada e pauperizada, e com base nesta concepção, compreende o precariado como “proletariado precarizado”, ou o que Marx denominou de “superpopulação relativa”. Nas palavras de Braga (2012, p. 18), o preca- riado está no “coração do próprio modo de produção capitalista e não como um subproduto da crise do modo de desenvolvimento fordista”, e é parte integrante da classe trabalhadora. Entretanto, considera essencial defi nir o precariado como um segmento diferenciado, que reúne a “[...] a fração mais mal paga e explorada do proleta- riado urbano e dos trabalhadores agrícolas, excluídos a população pauperizada e o lumpemproletariado, por considerá-la própria à reprodução do capitalismo periférico”. (BRAGA, 2012, p. 19). Embora reafi rme que a precariedade nos países periféricos nunca deixou de ser a regra, diferente dos países capita- listas do centro; e, nesta medida, sempre foi tema dos estudos da sociologia do trabalho no Brasil, reconhece as especifi cidades da atual precarização do trabalho decorrente do neoliberalismo e da transição para um “pós-fordismo fi nanceirizado”, que se fi rmou nos anos 2000. Braga (2012) dialoga com distintas análises de autores brasileiros, como a ideia de “subproletariado” de André Singer e de “batalhadores brasileiros” de Jessé de Souza, e defende que o precariado, como categoria descritiva, é formado pela população latente, população fl utuante e população estagnada, com renda entre um e dois salários-mínimos, e tem capacidade de mobili- zação coletiva. Num outro plano de análise, retoma algumas das principais E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 59 teses desenvolvidas sobre a classe trabalhadora brasileira, com o fordismo periférico, o populismo, as lutas políticas e os sindicatos; e identifi ca, em cada momento histórico, as relações diversas entre os diferentes precaria- dos (migrantes, metalúrgicos, pós-fordistas) e o Estado brasileiro, admitindo que houve “metamorfoses do precariado em condições sociais periféricas” (BRAGA, 2012, p. 88). Desta forma, apresenta o conceito de “precariado pós-fordista e periférico”, que está associado ao contexto da “empresa neo- liberal”, em que: [...] os trabalhadores foram subsumidos a um regime de acumulação mundializado organizado em torno da dominância dos mercados fi nan- ceiros [...]. A fi nanceirização da gestão estimula a multiplicação das formas de contratação da força de trabalho, a terceirização, o aumento da rotatividade, o achatamento dos níveis hierárquicos, a administração por metas e a fl exibilização da jornada de trabalho, em uma escala iné- dita se comparada ao regime de acumulação fordista (BRAGA, 2012, p. 186-87). É a hegemonia fi nanceira que provoca um enfraquecimento da posição coletiva dos trabalhadores e transfere para eles uma parte considerável dos riscos da concorrência intercapitalista, reduzindo a sua capacidade de negocia- ção coletiva. Segundo Braga (2012), o setor de telemarketing é paradigmático dessas transformações, pois se utiliza de um precariado jovem e se situa na conjunção da terceirização, privatização neoliberal e fi nanceirização do tra- balho: são os infoproletários (ANTUNES; BRAGA, 2009).6 Em síntese, para Braga, existe um novo precariado, mesmo no Brasil, como proletariado precarizado em condições específi cas determinadas pela subordinação à fi nanceirização e ao neoliberalismo, que difi cultam, mas não impedem a sua organização coletiva, à medida que são estimulados a uma concorrência permanente entre eles mesmos, minando a sua solidariedade. Antunes (2018), ao discutir sobre o “novo proletariado de serviços”, se posiciona criticamente aos autores que defendem o precariado como uma nova classe. E salienta sobre a necessidade de se caracterizar as especifi cidades das sociedades periféricas como o Brasil, em que o proletariado já surgiu em alta precariedade, herdada da escravidão, condição histórica muito diferente dos países do Norte. Para ele: 6 Em artigo mais recente Braga e Silva (2022, p. 120) discutem sobre os trabalhadores de plataformas, classifi cando-os como parte do precariado, compreendido como: “Por “precariado” entendemos aquele segmento das classes subalternas formado pela fusão das populações latentes, fl uentes ou estagnadas da classe trabalhadora, mais aqueles setores médios que estão em processo de proletarização, notadamente os grupos sociais formados por jovens em trânsito mais ou menos permanente entre o aumento da exploração econômica e a ameaça de exclusão social. Para mais detalhes, ver Braga (2012).” (tradução livre) E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 60 [...] o precariado – se assim o quisermos chamar – deve ser compreendido como parte constitutiva do nosso proletariado desde sua origem, o seu polo mais precarizado, ainda que seja evidente, como já indicamos ao longo deste capítulo, que entre nós também venha se desenvolvendo com rapidez um novo contingente do proletariado, largamente vinculado aos serviços, com um traço geracional marcante (juventude) e cujas relações de trabalho estão mais próximas da informalidade, do trabalho por tempo determinado, dos terceirizados e intermitentes, modalidades que não param de se expandir (ANTUNES, 2018, p. 62). No caso dos países do centro capitalista, há uma constituição recente do precariado, como um dos segmentos mais precarizados da classe trabalhadora, que os diferencia da condição “fordista”, propiciada pelo Estado de bem-estar social. Na periferia, como o Brasil, “...ele não só não se constitui como uma nova classe, como também não é tão profundamente diferenciado em relação ao proletariado mais regulamentado, pois aqui nunca fl oresceu um padrão societal típico do welfare State...” Portanto, coerente com suas análises sobre as transformações da classe trabalhadora, Antunes (2018) reafi rma sua original contribuição no sentido de explicar que a nova morfologia do trabalho defi ne também uma nova morfologia da “classe-que-vive-do-trabalho”, cuja heterogeneidade em sua forma de ser que passa pela etnia, gênero, geração, migração, qualifi cação, e às tantas formas de inserção no mercado de trabalho é complementada por uma “... homogeneização que resulta da condição crescente pautada pela precari- zação, cada vez mais desprovida de direitos do trabalho e de regulamentação contratual” (ANTUNES, 2018, p.64). Tais transformações abarcam também as formas de lutas sociais e sindicais, constituindo uma nova morfologia das formas de organização, de representação e de ação coletiva dos trabalhadores. Por fi m, o debate acerca do precariado como nova classe ou fração de classe merece continuar, pois, expressa o grau de heterogeneidade do trabalho e da classe trabalhadora hoje. Sou partidária das críticas à concepção de uma nova classe social, mas é preciso registrar que tanto Standing, como Alves, Braga e Antunes estão afi rmando a existência de um precariado, a partir de uma descrição empírica das condições de trabalho impostas pela atual preca- rização. Todos estão preocupados em classifi car e identifi car quem compõe o precariado, dando-lhe um status de uma categoria descritiva. Notas Finais Em primeiro lugar, busquei neste capítulo, “prestar contas” e reconhe- cer (auto) criticamente algumas imprecisões conceituais no debate sobre E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 61 precariedade e precarização, revisitandomeus escritos, à luz das mais recen- tes transformações do trabalho e procurando atualizar o debate conceitual contextualizado no capitalismo contemporâneo. Neste esforço de sistematização, reafi rmei determinadas análises e tam- bém registrei suas limitações, assim como as necessárias mudanças na com- preensão dos fenômenos neste campo temático da precarização social do trabalho, propiciadas pela observação das realidades empíricas e pelo diálogo com velhos e novos autores. Considero que uma das chaves principais para compreender o presente e o futuro do trabalho é a ideia que vivemos hoje, no capitalismo neoliberal, uma precariedade revigorada com novos contornos fazendo da precarização moderna a regra e estratégia de dominação, expressa nas diferentes dimensões que se pode identifi car no plano empírico: “reformas trabalhistas” que decretam o fi m da hipossufi ciência do trabalhador, deixando-os à mercê do mercado; a “uberi- zação” que nega a condição de trabalhadores e os trata como empreendedores e empresários de si mesmos; a terceirização que discrimina e estabelece traba- lhadores de segunda categoria; o trabalho análogo ao escravo, cada vez mais utilizado por capitalistas de todo tipo, no campo e nas cidades; a destituição do caráter público dos bens e serviços necessários à reprodução, com a privatização interna e externa do Estado, reduzindo o contingente de servidores públicos ou transformando-os em “servidores privados”, dentre outros indicadores. O poder de generalização da precarização social e de sua “institucio- nalização” – aceita como parte necessária e inevitável do capitalismo fi nan- ceirizado sob a hegemonia neoliberal –, é diferenciado nas várias regiões do mundo, dada as especifi cidades históricas de cada país e, portanto, se constituem níveis diferentes de precariedade, a exemplo dos países da peri- feria como o Brasil. Entretanto, a mundialização do capital impôs e tornou a precarização o centro da sua dinâmica. Um dos principais objetivos dessa lógica capitalista é retirar qualquer limite material e moral à exploração do trabalho. Limites que são postos como resultado das lutas e da organização dos trabalhadores. Portanto, para o capital trata-se de negar a condição de classe dos trabalhadores, seja no plano subjetivo e ideológico ou nas condições objetivas de trabalho. Para isso, é preciso negar a existência de uma relação social, que é central no capitalismo: a relação de assalariamento, a partir da qual, se ergue o trabalhador como ser coletivo. Sob a radical mercantilização da vida, do culto ao indivíduo versus o coletivo, da imposição da concorrência como forma de vida, transformando homens e mulheres em empresários de si mesmos, vive-se também a descar- tabilidade da força de trabalho e a sua degradação a exemplo do crescente uso do trabalho análogo ao escravo. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 62 A força ideológica da precarização como regra está, por um lado, na banalização dessas transformações concebidas como fenômenos “naturais”, ou seja, inexoráveis, na atual fase do capitalismo. Entretanto, existem contra-mo- vimentos, em diferentes formas e manifestações. A difi culdade – sociológica e política – de compreender a heterogeneidade das expressões de resistência dos trabalhadores passa pelas experiências históricas de cada país, mas passa fundamentalmente, pela compreensão do que são as classes sociais em sua historicidade e como a classe se manifesta ou “se faz ao mesmo tempo em que é feita”, como diria Thompson (1987). É preciso romper com o reducionismo presente na noção de classe trabalhadora, cuja expressão política estaria na somente na organização sindical e partidária. Os movimentos dos desempre- gados, dos trabalhadores das empresas de aplicativos, dos movimentos dos sem teto e dos sem-terra, dos indígenas, não passam necessariamente pelos sindicatos ou pelos partidos institucionalizados, mas são também classistas, questionam a propriedade, as relações de trabalho e a precarização do traba- lho e da vida. É preciso examinar as experiências de organização de redes de contra-poderes que articulam todos esses movimentos numa perspectiva de superação da precarização e de emancipação do trabalho, na construção de um outro modo de trabalho e de vida. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 63 REFERÊNCIAS ALVES, G. Dimensões da precarização do trabalho – ensaios de sociologia do trabalho. Bauru: Projeto Editorial Praxis, 2013a. ALVES, G. O que é precariado. Blog da Boitempo. São Paulo: Boitempo, 2013b. Disponível em: http://blogdaboitempo.com.br/22/07/2013. Acesso em: 20 out. 2013b. ALVES, G. Precariado e “proletaróides” – uma nota metodológica. Blog da Boitempo. São Paulo: Boitempo, 2014. 2014. Disponível em: http://blogda- boitempo.com.br/. Acesso em: 22 mar. 2014. AMORIM, H. MODA, F. MEVIS, C. Empreendedorismo: uma forma de americanismo contemporâneo? In: Caderno CRH. Salvador: UFBA, v. 34, p. 1-16, 2021. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/crh/article/ view/36219. Acesso em: 30 nov. 2021. ANTUNES, R. O privilégio da servidão – o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018. ANTUNES, R.; BRAGA, R. (org.) Infoproletários – degradação real do tra- balho virtual. São Paulo: Boitempo, 2009. ANTUNES, Ricardo; FILGUEIRAS, Vitor. Plataformas digitais, Uberização do trabalho e regulação no Capitalismo contemporâneo. Contracampo. Nite- rói/RJ: UFF, v. 39, n. 1, p. 27-43, abr./jul. 2020. APPAY, R.; THÉBAUD-MONY, A. Précarisation sociale, travail et santé. Paris: lResco, 1997. BIAVASCHI, M.; TEIXEIRA, M. A Terceirização e seu Dinâmico Processo de Regulamentação no Brasil: Limites e Possibilidades. Revista da ABET. João Pessoa/PB: UFPB, ABET, n. 14, p. 37-61, 2015. BOLTANSKI, L. ; CHIAPELLO, E. O novo espírito do capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009. BRAGA, R. A política do precariado – do populismo à hegemonia lulista. São Paulo: Boitempo, 2012. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 64 BRAGA, R.; SILVA, D. The meanings of Uberism: Work platforms, infor- mality and forms of resistance in the city of São Paulo. Revista de Ciências Sociais - Política & Trabalho. João Pessoa/PB: UFPB, n. 56, p. 118-135, Jan./Jun. de 2022. BROWN, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo - ascensão da política anti- democrática no ocidente. São Paulo: Editora Politeia, 2019. CASTEL, R. Les métamorphoses de la question sociale. Une chronique du salariat. Paris: Fayard, 1995. CASTEL, R. As metamorfoses da questão social. Rio de Janeiro: Vozes, 1998. CASTEL, R. El ascenso de las incertidumbres – trabajo, proteciones, estatuto del individuo. Buenos Aires: Fonde de Cultura Económica, 2010. DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016. DAU, D.; RODRIGUES, I. e CONCEIÇÃO, J. Terceirização no Brasil — do discurso da inovação à precarização do trabalho. São Paulo: Annablume/ CUT, 2009. DÖRRE, Klaus. Teorema da Expropriação Capitalista. São Paulo: Boi- tempo, 2022. DROPPA, A.; BIAVASCHI, M. A dinâmica da regulamentação da terceirização no Brasil: as súmulas do Tribunal Superior do Trabalho, os projetos de lei e as decisões do Supremo Tribunal Federal. Revista de Ciências Sociais -Política & Trabalho. João Pessoa/PB: UFPB, 41, p. 121-145, 2014. DRUCK, G. Trabalho, Flexibilização e Precarização: (re)construindo con- ceitos à luz de estudos empíricos, Projeto de Pesquisa Bolsa Produtividade do CNPq, 2002. Mmeo. DRUCK, G. A Precarização social do trabalho no Brasil: uma proposta de construção de indicadores. Salvador: Centro de Recursos Humanos. Projeto de Pesquisa Bolsa Produtividade do CNPq, 2007. Mmeo. DRUCK, G. Trabalho, precarização e resistências:velhos e novos desafi os? Caderno CRH. Salvador: UFBA, v. 24, n. spe 01, p. 9-12, 2011. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 65 DRUCK, G.Precarização Social do trabalho (Verbete). In: IVO, A. (org.), Dicionário Temático Desenvolvimento e Questão Social. São Paulo: Anna- blume, 2013, 2020. DRUCK, G. A indissociabilidade entre precarização social do trabalho e terceirização. In: TEIXEIRA, M. O.; ANDRADE, H. R.; COELHO, E. D. (org.), Precarização e Terceirização — faces da mesma realidade. São Paulo: Sindicato dos Químicos-SP, 2016. DRUCK, G. A metamorfose das classes sociais no capitalismo contemporâ- neo: algumas refl exões. Revista Em Pauta. Rio de Janeiro: UERJ, n. 41, v. 16, p. 68 – 92, 2018. DRUCK, G.; BASUALDO, V. Terceirização e suas conexões com os processos de reforma trabalhista e a “uberização”: quatro teses a partir da análise das relações de trabalho na Argentina e Brasil. In: BIAVASCHI, M. B.; DROPPA, A. (org.). Terceirização e as reformas trabalhistas na América Latina. Buenos Aires: CLACSO, 2022. ENGELS, F. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2008. FILGUEIRAS, L. e CAVALCANTE, S. Terceirização: um problema con- ceitual e político. Le Monde Diplomatique Brasil, 90. 2015. Disponível em: https://diplomatique.org.br/terceirizacao-umproblema-conceitual-e-politico/. GAULEJAC, V. HANIQUE, F. Le capitalisme paradoxant. Un système qui rend fou. Paris/Fr: Éditions du Seuil, avril 2015. GRAMSCI, Antônio. Maquiavel, a Política e o Estado Moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984. HARVEY. D. A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992. HARVEY, D. O neoliberalismo – história e implicações. São Paulo: Loyola, 2014. HARVEY, David. O novo imperialismo, São Paulo: Ed Loyola, 2004. HIRATA, H; PRETÉCEILLE, E. Trabalho, Exclusão e precarização socioe- conômica – o debate das ciências sociais na França. Caderno CRH. Salvador: UFBA, n. 37, p. 47-80, jul/dez 2002. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão KREIN, J. Terceirização e Relações de Trabalho. In: MACAMBIRA, J.; ARAÚJO, T. de; LIMA, R. A. de (org.), Mercado de Trabalho. Qualifi ca- ção, Emprego e Políticas Sociais. Fortaleza: Instituto de Desenvolvimento do Trabalho, 2016. LAVAL, C. Precariedade como “estilo de vida” na era neoliberal. Parágrafo. Indianápolis/SP: FIAM-FAAM, V.5, n.1, p. 101-108, jan-jun /2017. LIMA, Jacob. Participação, empreendedorismo e autogestão: uma nova cultura do trabalho? Sociologias. Porto Alegre: UFRGS, ano 12, n . 25, p. 158-198, set./dez. 2010. MARCELINO, P. A logística da precarização — terceirização do trabalho na Honda do Brasil. São Paulo: Expressão Popular, 2004. SAUVETRE, P.; LAVAL, C.; GUEGUEN H.; DARDOT, P. A escolha da guerra civil - uma outra história do neoliberalismo. São Paulo: Editora Ele- fante, 2021. STANDING, G. O Precariado – a nova classe perigosa. Belo Horizonte: Autêntica, 2013. TEIXEIRA, M. O.; ANDRADE, H. R.; COELHO, E. D. (org.), Precariza- ção e Terceirização — faces da mesma realidade. São Paulo: Sindicato dos Químicos-SP, 2016. THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão MISÉRIA AUTOMATIZADA: a crise do valor como fundamento da precarização do trabalho Lana Carrijo Mariela Becher DOI: 10.24824/978652515286.8.67-84 É um homem quem mata, é um homem quem comete ou suporta injustiças; não é um homem que, perdida já toda reserva, compartilha a cama com um cadáver. Quem esperou que seu vizinho acabasse de morrer para tirar-lhe um pedaço de pão, está mais longe (embora sem culpa) do modelo do homem pensante do que o pigmeu mais primitivo ou o sádico mais atroz. Uma parte da nossa existência está nas almas de quem se aproxima de nós; por isso, não é humana a experiência de quem viveu dias nos quais o homem foi apenas uma coisa ante os olhos do outro homem Primo Levi A sociedade que se apresenta nesse início do século XXI, traz consigo a continuidade e o agravamento da crise estrutural que vivenciamos desde meados da década de 1970. Apesar disso, é signifi cativo que, após quase meio século, a economia capitalista não tenha impulsionado um novo processo de acumulação capaz de proporcionar um desempenho econômico “saudável”, nem mesmo para os países da Europa ocidental e os EUA. A crise contemporânea (que se confi gura em várias dimensões: crise do Estado, crise econômica, crise ecológica) expressa apenas a camada mais superfi cial de problemas que se encontram na base da produção capitalista. No campo do trabalho, por exemplo, a crise aparece como causadora da precarização dos vínculos empregatícios, seja pelo ponto de vista do grande capital, que justifi ca a “fl exibilização” do trabalho e o aumento do desemprego a partir da queda nas taxas de lucro, principalmente após 2008. Seja pelo ponto de vista dos defensores do trabalho, que apontam a crise como mais um mecanismo de expansão da acumulação de capital, dessa vez marcada pelo predomínio do capital fi nanceiro, que intensifi ca a expropriação do trabalho por encontrar no mercado de capitais (títulos, ações e derivativos) uma fonte mais rentável de aplicação da mais-valia produzida. Queremos, no entanto, demonstrar que o agravamento da questão social, principalmente do desemprego estrutural nas últimas décadas, decorre do E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 68 estreitamento da capacidade de valorização do valor diante do nível de produ- tividade e globalização atingido, ou seja, da real difi culdade de o capitalismo continuar se expandindo por meio do trabalho. Nesse caso, a precarização expressa a própria crise da valorização do capital. Mas não porque há um Estado grandioso que controla e absorve a maior parte do valor produzido no mercado, como argumenta o liberalismo econômico, ou porque não há um Estado forte no que se refere à proteção social e que redireciona maior parte do fundo público para o pagamento da dívida pública, priorizando a garantia de liquidez dos capitais que são investidos no mercado fi nanceiro ao invés da inversão em políticas sociais. Sem dúvida, essa última é uma característica do capitalismo contem- porâneo, mas quando se trata de apontar o fundamento desse processo de desmonte social, precisamos olhar para as mudanças que ocorreram na base da produção de valor. Nesse sentido, apontamos alguns aspectos da conjuntura específi ca da precarização do trabalho contemporânea, porque as condições econômicas e sociais que estimularam a expansão no período denominado como fordismo, não podem ser reproduzidas nesse princípio do século XXI. Com isso queremos chamar atenção para o fato de que, a crise contemporâ- nea do capital expressa um processo de implosão das bases que permitiram a afi rmação da sociedade burguesa. Trabalho e capital fi ctício No “mundo do trabalho”7 contemporâneo, assistimos às novas formas de contratação, com redução dos direitos do trabalho, contratos temporários, extensão da jornada de trabalho (o que demonstra uma sobreposição da mais-valia relativa com a mais valia absoluta), remunerações extremamente baixas e instáveis, na maioria das vezes restritas ao mínimo da sobrevivência. Entretanto, por trás dessa precarização estrutural do trabalho, viven- ciamos um processo de crise fundamental do capitalismo. A degradação das condições de trabalho, da periferia ao centro do capital, ao invés de expressar um novo mecanismo de acumulação para a reprodução ampliada do capital, representa processos particulares, porém integrados, de corrosão da estrutura capitalista. Observamos esse movimento a partir do crescimento acelerado das montanhas de capital fi ctícioque tem garantido a sobrevivência, muito precária, da economia de mercado. Assim como no efeito cascata desenca- deado por qualquer surto de desvalorização, como aconteceu com a crise 7 Um termo que por si já faz alusão à cisão da vida entre as esferas da produção e reprodução social, própria da sociedade capitalista, que coloca o valor como fundamento e produz a ideia de um “exterior” no qual existem atividades que não geram valor. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 69 no mercado imobiliário em 2008 nos EUA, que em maior ou menor medida atingiu todos os países do mercado global. Se, como sabemos, a questão social antes da industrialização era determi- nada pela escassez de recursos, e a partir do desenvolvimento do capitalismo passou a coexistir com a abundância da produção em larga escala, servindo para um processo de acumulação acelerada de capital. No século XXI ela representa um extremo nível de superacumulação de capital que agora descarta parcelas crescentes de força de trabalho que se tornaram supérfl uas para o capitalismo desenvolvido e globalizado. O processo de “hipertrofi a fi nanceira” é consequência de uma crise que se arrasta nos últimos quarenta anos, com a busca incessante do capital para encontrar novos espaços e dimensões da vida que possa mercantilizar e escoar suas mercadorias. Em que a necessidade de expansão da riqueza capitalista não cabe mais dentro do seu próprio padrão de produtividade, que foi levado ao extremo e se aproxima agora de seus limites lógicos e concretos de reprodução. Como assinala Trenkle, Se a miséria no início do capitalismo na Europa e nas colônias europeias era um momento de imposição e ascensão da sociedade capitalista, a atual produção globalizada da miséria em massa resulta de um processo secular de deterioração e decadência dessa formação social que, em seu declínio, volta a desencadear todo o seu processo destrutivo (2020a, p. 40-41). Esse processo destrutivo se expressa nas mudanças climáticas que ameaçam a continuidade da vida humana e de outras espécies, na situação de pobreza se agravando entre os trabalhadores empregados e a miséria daqueles que não conseguem nem mesmo ocupar a condição de explorado. A sociedade do trabalho após se impor como modo de vida universal, agora põe em andamento um processo crescente de eliminação negativa do trabalho. Nesse sentido, a precarização do trabalho vivo, claramente refl ete nas atividades consideradas de “segunda ordem”8. Isto se aplica não só às ativi- dades caritativas e voluntárias, mas fundamentalmente ao trabalho doméstico e cuidado familiar, que são cindidas e estruturalmente atribuídas as mulheres (TRENKLE, 2020b). Na medida que as condições de trabalho existentes se tornam cada vez mais degradantes, mais e mais pessoas, fundamentalmente as mulheres, precisam de um esforço cada vez maior para cumprir com as 8 Se referem às atividades que são tratadas como periféricas e secundárias em relação ao trabalho e a produção de valor, consideradas em sentido capitalista, a centralidade da vida social. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 70 atividades de cuidado e a realização de algum trabalho precarizado que permita níveis mínimos subsistência econômica. Seguindo com o autor, a lógica da externalização baseia-se na separação da produção capitalista de riqueza do contexto social. Da mesma forma, a exploração da natureza, em um contexto de colapso econômico, precisa ser cada vez mais destrutiva, de modo que permita um retorno rápido da acumu- lação de valor, e possibilite a produção de riqueza. Neste cego mecanismo de funcionamento, a lógica autodestrutiva rompe de maneira contínua as barreiras na produção, aproximando-se de maneira acelerada ao limite lógico. Assim como as atividades de cuidado são consideradas “sem valor” em uma noção restrita de riqueza social, tomada unicamente como dispêndio de trabalho produtor de mercadorias, os recursos naturais andam no mesmo plano: eles não possuem nenhum valor, e, portanto, nenhuma riqueza abstrata, embora sejam pré-requisito indispensável e base de toda produção de merca- dorias. Esta noção deve ser entendida de maneira historicamente específi ca, já que a sociedade capitalista é a única sociedade na qual a produção de riqueza é dividida em um lado material e um lado abstrato. Como assinala Trenkle, “a produção capitalista da riqueza baseia-se sempre, portanto, na externalização de todo um espectro de atividades vitais que não assumem a forma da mercadoria, mas, por isso mesmo, podem ser apropriadas sem custo” (2020b, p. 65). Na sociedade capitalista os recursos naturais são explorados e desgas- tados sem nenhum tipo de consideração já que não pertencem ao mundo do valor, mas são considerados seu “exterior”, pertencendo ao mundo dos “acréscimos” sem custos para a produção de riqueza social. O problema se agrava quando esse “exterior”, não considerado como base indispensável da reprodução social, é utilizado como suporte à percepção de que sempre estará disponível para sustentar a riqueza abstrata, e dessa forma não é levado em consideração o limite concreto que eles apresentam. Assim, esta “externalização”, que faz parte orgânica da sociedade capi- talista, se aprofunda no contexto de acirramento da crise estrutural. Já que no processo de eliminação negativa do trabalho vivo, e na destruição da natureza, base fundamental para a produção de riqueza capitalista, esse “custo externo” se converte em um colapso social e ecológico. A aceleração da produtividade gera uma sucessão de crises que só ser- vem para adiar o limite da valorização do valor e não para ampliar o capital, como serviram as crises anteriores ao fordismo. Como assinala Konicz, “o pressuposto básico do fordismo, segundo o qual os trabalhadores seriam con- sumidores de seus próprios produtos, há muito que se tornou inválido, face aos níveis de produtividade globalmente alcançados” (2015, s/p). E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 71 O período da produção fordista foi marcado por uma conjunção de fatores que favoreceram a expansão capitalista. Por um lado, com a inovação de produ- tos, por outro com a expansão da produção, o que garantia simultaneamente a criação de um mercado consumidor com indivíduos que podiam ser integrados no sistema produtor de mercadorias na qualidade de trabalhador assalariado. Segundo Lohoff (2015) a vitória da sociedade da mercadoria pode ser descrita como uma constante fuga para frente, interrompida pela crise e reanimada pelos impulsos das inovações tecnológicas que marcam época. Mas, esse padrão não pode ser prolongado eternamente, quando se supõe uma simples equação de inovação igual a boom econômico. Mesmo que as revo- luções tecnológicas tenham refundado, no processo, o sistema capitalista de utilização do trabalho, isto não se deve à simples transformações do sistema de produção, mas sim a terem feito isto de uma maneira muito específi ca. Desde os descobrimentos dos grandes artesãos do século XIX, e a criação das estradas de ferro que abriram esferas de novos investimentos, ao mesmo tempo elas criaram mercados que não existiam até então. A passagem para o fordismo, que signifi cou uma grande transformação nos processos de produção, tornou possível a criação de automóveis, aparelhos elétricos, ampliando para além da produção artesanal e integrando-os no ciclo de utilização capitalista. Após o esgotamento da produção em massa e a introdução da microele- trônica a partir de meados da década de 1980, esse cenário se modifi ca, com a expulsão crescente da força de trabalho dos processos produtivos e a des- conexão progressiva entre capacidade de produção ecapacidade de consumo (BOTELHO, 2022). A produtividade automatizada elimina uma quantidade de força de trabalho muito maior do que é capaz de absorver com os pequenos surtos de crescimento muito breves e localizados em determinados países e setores. O que consequentemente também reduz o poder de compra da grande massa da população. O barateamento permanente dos novos suportes tecno- lógicos não atenua a crise, como em outros períodos históricos quando havia redução do valor dos elementos do capital constante, pelo contrário, agudiza a crise ainda mais, pois favorece a onipresença desta tecnologia. A racionalização constante da produção torna a maior parte do trabalho vivo supérfl ua, o que ao mesmo tempo destrói a própria substância do valor. Assim como o barateamento das mercadorias também implica na redução da massa de valor total produzido pelo capital, porque o aumento da mais-valia relativa extraída por trabalhador não é compensado pela redução do número de trabalhadores produtivos provocada pela racionalização. O investimento em mais valia-relativa, com a intensifi cação da exploração de força de trabalho por um lado, não é capaz de compensar eternamente a constante eliminação E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 72 do trabalho produtivo por outro. Essa contradição interna não é percebida no nível dos capitais individuais porque para eles o que importa é o lucro obtido depois que as mercadorias circulam no mercado, onde cada um se apropria de parte da mais-valia produzido socialmente. Sendo assim, O fundamento básico da crise econômica atual é, portanto, a queda da taxa de lucro que não pode ser demonstrada por este ou aquele capital em particular, mas somente pela média global do lucro das empresas produtivas. Com a disponibilidade de recursos monetários sem destinação lucrativa, aumenta a necessidade de sua mobilização nas estruturas fi nan- ceiras do mercado, o que leva à crescente substituição da “valorização de valor” (geração de lucro) por “capitalização”, isto é, mera multiplicação monetária (geração de juros). Uma condição histórica em que o excesso de capital combinada com excesso de força de trabalho torna-se crônico, deixando de ser meramente cíclico: desemprego e “hipertrofi a fi nan- ceira” são marcas inseparáveis na sociedade mundial há quatro décadas (BOTELHO, 2018). O capital fi ctício passa a ser o principal mecanismo de enfrentamento desse limite de valorização do valor. Portanto, não se trata mais da formação de um excedente de mais-valia que fl ui para os mercados fi nanceiros, como ocorria até meados do século XX. Mas da fi ccionalização do próprio capital produtivo9, das contas públicas e do consumo privado, através da oferta de crédito em larga escala e do endividamento estatal, criando uma economia de circuitos defi citários (BOTELHO, 2022). O avanço das tecnologias a partir da Terceira e mais recentemente com a Quarta Revolução Industrial no campo da informática, telecomunicações, eletrônica e inteligência artifi cial, não foi capaz de compensar a crise que assolou o mercado mundial a partir da década de 1970. Apesar da inovação de produtos e intensifi cação da produtividade, o motor da economia passou a ser o capital monetário, que com a perda do lastro do ouro, perde sua referência material e passa a circular sem a necessidade de sua reconversão real. Esse processo trouxe implicações para a acumulação de capital: a transformação de dinheiro em mais dinheiro sem a mediação da produção material, ou “acu- mulação de capital sem acumulação de valor” (LOHOFF, 2014). Com isso, a quantidade de mais-valia acumulada a partir desse estágio do capitalismo passa a não ser sufi ciente para criar uma nova onda de crescimento. 9 Como assinala Trenkle “a antecipação de valor a ser produzido no futuro não fi nanciou (e fi nancia) em larga escala, pela venda de títulos de propriedade (como obrigações e ações), apenas investimentos na economia real e medidas de infraestrutura; também uma parte considerável dos investimentos, sobretudo no setor da construção civil, que emprega uma quantidade enorme de força de trabalho em todo o mundo, está diretamente relacionada à produção de capital fi ctício (especulação imobiliária)” (2016, p. s/p). E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 73 A drástica redução da necessidade de intervenção da atividade humana durante o processo de produção, induz também a expansão do setor terciário. Porém a ampliação do setor de serviços (administração, venda etc.) provoca a ilusão de crescimento econômico enquanto na verdade o lucro que os capitais individuais absorvem desse segmento é produzido pelos setores produtivos, primário e secundário. O crescimento do comércio e da prestação de serviços não substitui o papel de destaque que a industrialização desempenhou para a consolidação da sociedade de mercado. O volume da massa de valor global produzida pelo trabalho vem caindo mesmo com o projeto neoliberal em andamento, com as políticas de ajuste econômico a partir dos anos 1990 e a intensifi cação dos mecanismos de exploração e precarização do trabalho. Isso acontece porque a maior parte do setor de serviços representa trabalho improdutivo, ou seja, não produz diretamente a valorização do valor e não amplia a massa de valor global. Dessa forma, apenas o aumento do número absoluto de postos de trabalho não signifi ca necessariamente o aumento da produção de valor, boa parte deles estão inseridos apenas no âmbito da circulação de mercadorias10 e muitos são criados pelo capital fi ctício. Ou seja, fi nanciados a partir da antecipação de valor a ser produzido no futuro, e não da apropriação de valor já produzido (mais valia). Os problemas do colapso fi nanceiro e econômico de 2008 não foram resolvidos. Nem sequer atenuados. Ao contrário: tornaram-se ainda mais graves. Desde então os bancos centrais injetaram uma enorme quantidade de dinheiro na economia. E é lógico que, na falta de investimentos mais rentáveis, logo correram para as bolsas e especulação com outros ativos fi nanceiros. Nesse curso, formou-se o que passou a ser conhecido como a “Mãe de Todas as Bolhas”. A nova bolha já tocou os seus limites e há anos está na iminên- cia de romper. No momento em que isso acontecer, imensos contingentes humanos, regiões e países inteiros serão duramente impactados. Trata-se de uma bolha imediatamente mundial. A própria China “superou” parcialmente os seus problemas econômicos por meio da criação de colossal injeção de crédito e de criação de circuitos defi citários de várias ordens. Mas por lá o castelo de cartas já está ruindo. Uma grave crise envolvendo o setor fi nanceiro e de construção já se tornou evidente. Não é menos aterradora a situação dos EUA e da Europa. 10 “Em 2007, a população economicamente ativa mundial estava distribuída já em 36,4 % para o setor primário, 22,2 % no setor secundário e 41,4 % no setor terciário. Em 2012, a União Europeia apresentava 71,8 % de sua população ativa no setor terciário. Os EUA, 79,1 % e o Brasil, 71 %. Até mesmo a China, considerada a fábrica mundial, em 2012 já apresentava a maior parte de sua população ativa no setor terciário 35,7 %, contra 34,8 % no primário e 29,5 % no secundário.” (BOTELHO, 2018, s/p) E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 74 Limites dos Estados nacionais diante da crise A “hipertrofi a fi nanceira” e o desemprego moldaram a sociedade, não só economicamente, mas também em termos sociais e políticos. Ela foi inaugurada pelo desmantelamento da estrutura do Estado social11 e pela regulação fordista, desde o ajuste neoliberal da sociedade com a sempre intensa pressão sobre o mundo do trabalho fl exibilizado e a mercantilização de todas as relações sociais.Alguns dissidentes de esquerda, que criticam essa guinada, tiraram, no entanto, consequências quase tão ruins em ter- mos ideológicos: estão aumentando a fantasia de que a solução consiste no retorno à “soberania nacional”. A pacifi cação do Estado de bem-estar fordista é substituída por um com- plexo policial, de segurança e penitenciário12 que acompanha a disciplina permanente, quase automática do mercado de trabalho desregulamentado. Dos sistemas sociais do Estado restou apenas um remanescente que, por um lado, serve para separar as partes da população trabalhadora “inúteis” para a concorrência por localização e proteger precariamente as partes “úteis”. Por outro lado, por razões de legitimação deve ao mesmo tempo simular algo assim como “justiça social”. À dupla função assistencial-repressiva do Estado, a partir dos anos 1970, o desfi nanciamento se tornou crônico. Os setores médios da sociedade erguem- -se sob um discurso raivoso e conservador contra a assistência direta, que aumenta na medida que o desemprego se torna massivo. A crise do capital global também tem seu impacto na profunda crise de fi nanciamento do Estado. Várias localidades no mundo, enfrentando a concorrência global de custos, oferecem redução de impostos às empresas assim como também fi nanciamento subsidiado. Porém, na medida que grandes massas da população fi cam às margens da reprodução social, o Estado precisa destinar cada vez mais recursos à assistência social e ao mesmo tempo uma famigerada arrecadação fi scal. Em consequência, o que resta para atuar frente a esta situação de crise é o endividamento público. Da mesma forma que grande parte das famílias subsistem na base do crédito, as empresas substituem lucros por juros, o Estado cobre o défi - cit de arrecadação com empréstimos, emissão de dívida pública. Dessa maneira que a crise fi scal do Estado se tornou estrutural (assim como o desemprego)13. 11 Isto não se aplica a países como o Brasil, que nunca tiveram um Estado Social constituído plenamente. 12 O complexo policial é uma constante na formação social de países como o Brasil, onde os traços escravo- cratas e punitivos nunca deixaram de existir para grandes parcelas da população que viveram e vivem às margens da forma social orgânica, reproduzindo de maneira permanente a violência e marginalização. 13 “somente a dívida pública em todo mundo alçou a soma de 42,4 trilhões em 2016.” (BOTELHO, 2018, s/p). E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 75 Esta constante antecipação da criação de riqueza futura se manifestou numa crescente dívida estatal – mas este processo de endividamento tem seu limite atrelado ao processo de valorização que está constantemente sendo sufocado por esse fardo. Ao mesmo tempo, ele não pode ser interrompido, pois a crescente debilidade econômica seria imediatamente transformada numa aguda depressão a ser paga com o retorno dos velhos mecanismos defl a- cionários, em formas mais acentuadas. Ao mesmo tempo, a crise provoca a desvalorização do capital real e do capital monetário através da desvalorização da própria mediação monetária: “Se o trabalho de uma economia nacional se revelar posteriormente inválido em grande escala no mercado mundial, ela pode mesmo mergulhar num processo hiperinfl acionário” (LOHOFF, 2015)14. A “hipertrofi a fi nanceira” se torna o motor de fi nanciamento do Estado, através da produção de dinheiro sem lastro e fi ccionalização extrema. A capa- cidade do Estado de emitir dívida amparada na futura arrecadação de impostos é uma fonte direta de capital fi ctício: essa dívida pública em algum momento deve ser executada. As possibilidades de gestão da crise pelo Estado são cada vez mais limi- tadas, porque, como dito anteriormente, seu próprio funcionamento interno se tornou dependente da injeção de capital fi ctício devido à redução constante de arrecadação da mais-valia15. A relativa autonomia dos Estados nacionais se tornou ainda mais frágil diante dos imperativos do mercado internacional porque a concorrência se tornou imediatamente global, com pouca margem para ações limitadas ao mercado interno. Diante dessa conjuntura, não é mais possível tratar as contradições do capitalismo nacional separadas do contexto global, porque tanto a produção industrial, como os défi cits estatais não dependem apenas do mercado interno, mas estão diretamente relacionadas com o capital mundial. A China, por exemplo, que despontava no início do século como nova potência econômica, demonstra agora que o crescimento do seu enorme parque industrial foi baseado em capital fi ctício, uma vez que, além de um endividamento estatal sem precedentes16, a compra de títulos do Tesouro 14 “Bancarrotas dos Estados ocorrem regularmente desde os princípios da história do capital. No entanto, é muito diferente se um Estado declarou falência quando se apresenta somente como consumidor de bens de luxo (militar, corte), correspondendo a menos de 5% da riqueza existente, ou um Estado moderno, insubstituível para a reprodução social cotidiana, administrando de 40 a 50% do PIB” (LOHOFF, 2015, s/p). 15 “A crise econômica mundial de 2008 resultou precisamente do fato de que o governo de George W. Bush não quis “resgatar” e “salvar” os mercados fi nanceiros, deixando que a quebra do Lehman Brothers fosse usada como exemplo dissuasivo para os demais operadores fi nanceiros. As consequências dessa tentativa de sair da economia de bolha são bem conhecidas: os mercados fi nanceiros congelaram, os empréstimos estagnaram e a economia global entrou em recessão.” (KONICZ, 2020, p. 37). 16 “Em menos de duas décadas, a dívida duplicou seu tamanho total em relação ao PIB: em 2008, ela corres- pondia a 140% do PIB; agora já chega a 265%, com um crescimento de 45% só nos últimos cinco anos. Todo E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 76 norte-americano subsidia fortemente a compra das mercadorias chinesas pelos EUA. Esse processo, no entanto, não representa nenhuma base real de crescimento, indica antes a intensifi cação de mecanismos de fi ccionalização da economia17. Essa dinâmica, portanto, “torna evidente que a globalização econômica não é uma simples intensifi cação das trocas em contextos nacio- nais relativamente autônomos e sim uma estrutura imediatamente global que corrói a capacidade de regulação por parte das políticas econômicas nacionais” (BOTELHO, 2022). O impulso do futuro econômico como um todo não consegue estar mais embaixo do guarda-chuva estatal, mas antes na esperança de que a valorização de muitos capitais individuais se realize e se transforme em matéria-prima da riqueza atual. Assim; “o cálculo coletivo da riqueza privada se tornou a base da economia e a real utilização do trabalho existe somente como apêndice da valorização do capital fi ctício” (LOHOFF, 2015, s/p). A antecipação da criação de valor futuro, cujo veículo é a relação de cré- dito dos sujeitos capitalistas, adquiriu tal dimensão que faz a antecipação [de valor], por meio da criação de dinheiro estatal, da era keynesiana aparecer, a posteriori, como uma ninharia. No entanto, quanto mais ela conduz para cima, mais profunda será́ a queda. O desacoplamento dos capitais fi ctícios da real valorização do valor permanece relativo e não pode se tornar absoluto, mesmo onde a estrutura fi nanceira se tornou, de forma absurda, a base da economia real (Idem). Os Estado Nacionais e a política não têm possibilidade de deter essa desvalorização, encurtando-se nos últimos anos a margem de manobra que permitia uma infl uência em parte, nos processos defl acionários e infl acioná- rios. As opções, nestes quadros, para os Estados, acabou sendo ou destruir os capitais fi ctícios ou tentar socializar as perdas através da desvalorização acelerada da mediação monetária. Crise dotrabalho no Brasil Kurz (2004) critica e aponta a complexidade em tentar defi nir camadas de classes em um contexto que impõe inúmeras situações de existência social que não podem ser resumidas como variações particulares da precarização esse endividamento em um ritmo inédito na história do capitalismo produziu a maior das bolhas imobiliárias, que agora exige novos recursos para que seu estouro seja adiado.” (BOTELHO, 2022) 17 Após a crise de 2008, com a queda substancial no consumo de mercadorias pelo país norte-americano, a China para tentar evitar os refl exos da crise começou a infl ar uma bolha fi nanceira interna a partir de investimentos em infraestrutura e especulação imobiliária, porém o seu mercado consumidor interno não é capaz de absorver as mercadorias em um nível minimamente compatível com o de sua produtividade atual. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 77 do trabalho explorado. Trata-se antes, da eliminação da própria substância do capital (o trabalho), que empurra cada vez maiores parcelas de traba- lhadores para estratégias de sobrevivência como sujeitos da mercadoria. Segundo o autor, A nova pobreza não surge pela exploração na produção, mas pela exclusão na produção [...]. A massa problemática e “perigosa” da socie- dade não é mais defi nida por sua posição no “processo de produção”, mas por sua posição nos âmbitos secundários, derivados, da circulação e da distribuição (idem, s/p). As alterações muito específi cas na relação entre capital e trabalho, mudanças introduzidas na era fordista e concluídas no pós-fordismo, não criam uma reclassifi cação na estratifi cação social e sim o que Trenkle (2006) chama de uma desclassifi cação. Signifi ca que mais e mais pessoas em todo o mundo estão caindo fora das categorias funcionais pois não há mais lugar para elas num sistema produtor de mercadorias que pode explorar produtiva- mente cada vez menos força de trabalho. Se tornando supérfl uas em sentido capitalista, surge de maneira universal um segmento de camadas inferiores que nada tem a ver com o velho proletariado, tornando-se desnecessárias na sociedade produtora de mercadorias. No Brasil, esse segmento possui uma forte determinação de raça, que é administrada ou eliminada através da violência direta do Estado ou por outros aparelhos não ofi ciais, mas que funcionam por dentro do próprio Estado. Essa interdição foi marcada historicamente pela nossa particular sociedade do trabalho, que se ergueu sobre o colonialismo, escravismo e racismo, uma vez que na formação social brasileira a lógica do trabalho nunca possibilitou a incorporação massiva dos sujeitos. Assim, quando o capitalismo entra em seu processo de declínio, as expressões da questão social brasileira estão assentadas nestas bases, cul- turalmente e economicamente, atravessadas por uma forma particular de mercantilização das relações sociais. Mesmo a exploração extrema da força de trabalho como meio para compensar a baixa produtividade econômica em relação à média dos países mais desenvolvidos, não resolve as contradições internas da valorização do valor que são regidas pela concorrência mundial. Como refl exo, a corrida pela racionalização das forças produtivas condi- cionada pelo mercado externo e pelo curto prazo que pode ser sustentada por capital fi ctício, faz com que nos países periféricos, como o Brasil, a força de trabalho produtiva comece a ser eliminada antes mesmo de conseguir expandir o seu mercado consumidor interno. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 78 Desse modo, a precarização do trabalho, com suas diversas faces, não está relacionada apenas à incompletude do processo de industrialização bra- sileiro. Ela condiz com a própria forma do desenvolvimento capitalista e seu projeto de modernização, que é determinado pela autocontradição da mercadoria, que impõe o trabalho como substância da riqueza, ao mesmo tempo que promove o constante esvaziamento dessa substância. Nas últimas quatro décadas, o movimento da realidade vem demonstrando a aproxima- ção do limite dessa contradição, uma vez que a economia a nível global não indica novas fontes de extração de riqueza capitalista, seja no que se refere à recursos naturais, que já estão ameaçados de escassez, ou quanto à ampliação do mercado de trabalho. Como dissemos anteriormente, a eliminação em massa de trabalho pro- dutivo vivo como fonte de criação de valor não pode mais ser compensada por novos produtos barateados pela produção em massa, já que esta produção em massa não é mais mediada por uma reabsorção na produção de população trabalhadora “supérfl ua” previamente em outro lado. Portanto, a eliminação de trabalho produtivo vivo pela transformação científi ca, por um lado, combinado com a absorção de trabalho vivo por processos de capitalização ou criação de novos ramos de produção, por outro, inverte-se de um modo historicamente irreversível: “de agora em diante, será inexoravelmente eliminado mais tra- balho do que pode ser absorvido” (KURZ, 2018). A maioria da população mundial já consiste hoje, portanto, em sujeitos-di- nheiro sem dinheiro, em pessoas que não se encaixam em nenhuma forma de organização social, nem na pré-capitalista nem na capitalista, e muito menos na pós-capitalista, sendo forçadas a viver num leprosário social que já compreende a maior parte do planeta (KURZ, 1992, p. 194,195). Estatisticamente falando, provavelmente nunca houve tantos sujeitos eco- nômicos. Assim como a valorização capitalista alcançou seus limites absolutos, seu processo de afi rmação histórico também. Transformou a maioria da popula- ção mundial em sujeitos monetários sem dinheiro, isto é, todos são obrigados a ganhar dinheiro de alguma maneira (mesmo que sejam centavos ou nada), já que as bases de outras formas de reprodução social estão quase completamente destruídas. Mesmo com alguns elementos de autoajuda comunitária ou de outras formas, eles não permitem segurar a reprodução integral cotidiana da vida. O trabalho informal por exemplo, que no Brasil possui grande relevância por representar um enorme contingente populacional18, do ponto de vista da 18 “Segundo indicadores da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) do segundo semestre de 2021, na superacumulação de uma massa de pessoas subempregadas, uberizadas, “se virando” na informalidade, E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 79 valorização do capital se tornou supérfl uo. Porque mesmo que as pessoas vendam balas na rua, ou serviços de limpeza, ou tecnológicos, há de fato um ciclo mercadoria-dinheiro, mas não valorização do capital e, portanto, não se dá a acumulação capitalista. Eles são circuitos de segunda e terceira ordem que dependem do funcionamento da produção globalizada do mercado mundial, pois estão ligados através de vários estágios de mediação. Como destaca Botelho (2020), em 2019, no Brasil, 25 milhões de pessoas no Brasil atuavam como “autô- nomos”. Realizando atividades diárias por “conta própria”, 11,7 milhões estavam desempregados, 52,7 milhões de brasileiros viviam de aposen- tadoria, pensão, aluguel, programas de transferência de renda, seguro-de- semprego etc., 4,5 milhões e meio de desempregados procuravam trabalho há mais de um ano e, desses, 2,9 milhões buscavam trabalho há mais de dois anos, sem conseguir. Mais de um terço da população brasileira, estava fora de qualquer relação salarial: metade de toda a população do Brasil acima de 14 anos (legalmente apta ao trabalho). Contudo, de acordo com a perspectiva de crise aqui apontada, a supe- rexploração do trabalho na periferia não pode servir de exemplo para afi rmar a continuidade do processo de expansão do capitalismo.Esse cenário de precarização do trabalho representa, em sentido inverso, uma maneira de sobrevivência para esses trabalhadores, uma forma de gestão da crise pelo Estado em meio à decadência das formas sociais capitalistas. Na atualidade, nos deparamos a uma realidade diferente, com a existên- cia massiva no mundo todo de trabalhadores miseráveis, informalizados, que são o reverso da aplicação extremamente avançada da ciência na produção. Assim temos a complementariedade de uma alta tecnologia combinada com trabalho precarizado por um lado, e um padrão de produtividade que implica na constante redução da quantidade de valor representado em uma hora de trabalho, o que Trenkle chama de “Miséria high-tech”, As longas jornadas de trabalho da força de trabalho precarizada não repre- sentam uma grande massa de valor e, portanto, não podem servir de base para um novo impulso autônomo da acumulação de capital – mesmo que, naturalmente, aumentem os lucros das empresas individuais e das cadeias comerciais envolvidas [...] Embora esse tipo de exploração, no sentido da teoria neoliberal, substitua o capital dispendioso pelo trabalho barato, 33,8 milhões sobreviviam com um rendimento mensal de até um salário-mínimo. Desse contingente, 21,9 milhões obtêm rendimento entre meio e um salário-mínimo. No intervalo de um ano, houve um aumento de 4,4 milhões de trabalhadores. Tomando como parâmetro o primeiro trimestre de 2022, o número salta para 36,414 milhões de pessoas” (BRITO, 2022). E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 80 ele não amplia a valorização do capital no nível da sociedade como um todo, não neutraliza o processo de crise secular baseado na diminuição da massa de valor em escala global (2020a, p. 44). Assim temos grandes massas da população que vivem de uma subecono- mia voltada à sua reprodução, sem vínculos signifi cativos com o grande mer- cado. Essa realidade, que é dominante no Brasil, vive nas bordas de qualquer instituição pública ou privada, à margem dos direitos, largados a sua própria sorte, em uma luta constante pela sobrevivência. Isto, que é uma constante no nosso processo de formação social, se torna cada vez mais agudo e profundo, na medida que esses contingentes de sujeitos aumentam exponencialmente nas últimas décadas. Considerações Finais Este processo de decomposição social, que se aprofundou nos últimos dois anos, no Brasil e América Latina signifi cou um crescimento exponen- cial da fome e da miséria19. Este aumento da pobreza se traduziu em uma sobrevida miserável de grande parte da população, os quais já nem sequer conseguem ingressar no mercado precarizado do trabalho. A impossibilidade desse ingresso, ou em alguns casos, o ingresso pelas formas de trabalho fl e- xibilizado, aprofunda ainda mais o processo de degradação social. Se, em algumas regiões do planeta temos setores que ainda conseguem viver nessa Miséria high-tech, outra grande maioria morre de fome no meio de uma guerra civil desesperada pelos recursos naturais e pelo território. A escolha entre a peste (o desaparecimento gradual do trabalho com as consequências sociais que isso implica) e a cólera (o colapso ecológico). Uma produção de mais-valia em queda e uma guerra pelos escassos recursos naturais, provavelmente não seja uma escolha, porque ambas nos esperam (ORTLIEB, 2009). Contudo, apontar sinais de colapso da sociedade de mercado não é o mesmo que afi rmar que o capitalismo tende a se autodestruir e transitar para a emancipação social. A crítica consiste em trazer para o debate as especi- fi cidades da crise contemporânea, uma vez que desde fi nais do século XX 19 Segundo o informe da FAO “em 2022 até 828 milhões de pessoas padeceram de fome em 2021, 46 milhões de pessoas a mais que no ano anterior e 150 milhões a mais que em 2019” https://www.fao.org/newsroom/ detail/un-report-global-hunger-SOFI-2022-FAO/es. No Brasil, “o número de domicílios com moradores passando fome saltou de 9% em 2019 (19,1 milhões de pessoas) para 15,5% em 2022 (33,1 milhões de pessoas). São 14 milhões de novos brasileiros/as em situação de fome em pouco mais de um ano”. Disponível em: https://olheparaafome.com.br/. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 81 estamos vivenciando o estreitamento da base produtiva do capital, no qual as possibilidades de atingir o pleno emprego e a ampliação de direitos sociais relacionados ao trabalho estão cada vez mais fora de alcance do que foi pro- pagandeado como “missão civilizatória do capital”. O horizonte que temos à nossa frente, com a possibilidade de nos emanciparmos de uma sociedade que não teria mais sua produção baseada no trabalho, é ao mesmo tempo, o desenvolvimento expresso na superfl ui- dade crescente das pessoas, mesmo que elas continuem estruturalmente necessárias ao capital. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 82 REFERÊNCIAS BOTELHO, M. Ainda sobre o “milagre chinês” (I). Blog da Boitempo, 12 jan.. São Paulo: Boitempo, 2022. Disponível em: https://blogdaboitempo. com.br/2022/01/12/ainda-sobre-o-milagre-chines/. Acesso em 21 dez. 2022. BOTELHO, M. Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo. Revista Maracanan. Rio de Janeiro: UERJ, n. 18, p.157-180, jan./ jun. 2018. BOTELHO, M. A informalidade dos informais. Ensaios e Textos Libertários. São Paulo: Utopias Pós-Capitalistas, 25 maio 2020. Disponível em: https:// arlindenor.com/2020/05/25/11184/. Acesso em: 21 dez. 2022. BRITO, F. Notas sobre a devastação do trabalho no Brasil atual e o bolsona- rismo. Blog da Boitempo, 06 set. São Paulo: Boitempo, 2022. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2022/09/06/notas-sobre-a-devastacao-do-tra- balho-no-brasil-atual-e-o-bolsonarismo. Acesso em: 21 dez. 2022. KONICZ, T. “Estará a China na iminência de um colapso? O crescimento da economia chinesa fi nanciado pelo endividamento não aguenta mais”. Origi- nal “Droht China ein Kollaps?” em http://www.exit-online.org. Publicado em 05/2015 com o título “Reicht‘s der Mitte?” Tradução de Boaventura Antunes. Disponível em: http://www.obeco-online.org/tomasz_konicz4. htm. Acesso em: 21 dez. 2022. KONICZ, T. As origens da crise econômica atual: visão geral das causas sistêmicas e do curso histórico da crise do sistema mundial do capitalismo tardio. Revista Margem Esquerda. São Paulo: Boitempo, n. 35, p. 33-39, 2020. KURZ, R. O declínio da classe média. Tradução de Luís Repa. Folha de São Paulo, São Paulo, 19 de setembro de 2004. Disponível em https://www1.folha. uol.com.br/fsp/mais/fs1909200408.htm. Acesso em: 21 dez. 2022. KURZ, R . O colapso da modernização: da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. KURZ, R. A crise do valor de troca. Tradução: André Villar Gomez e Marcos Barreira. Rio de Janeiro. Consequência Editora, 2018. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 83 LEVI, P. É isto um homem? Rocco : Rio de Janeiro, 1988. LOHOFF, E. Acumulação de capital sem acumulação de valor: o caráter fetichista das mercadorias do mercado de capitais e o seu segredo. (Título ori- ginal: Kapitalakkumulation ohne Wertakkumulation. Tradução: Javier Blank). Revista Krisis, 31/12/2015. Disponível em: https://www.krisis.org/2018/acu- mulaao-de-capital-sem-acumulaao-de-valor/. Acesso em: 21 dez. 2022. LOHOFF, E. Fugas para frente. Crise e desenvolvimento do capital. (Título original: Grosse Fluchten: Krise und Entwickung des Kapitals. Tradução: André Villar Gomez). Revista Krisis, 31/12/2015. Disponível em: https://www. krisis.org/2015/fugas-para-frente/. Acesso em: 21 dez. 2022. ORTLIEB, C. P. Uma contradiçãoentre matéria e forma: Sobre a importân- cia da produção de mais-valia relativa para a dinâmica de crise fi nal. Revista EXIT! Crise e crítica da sociedade da mercadoria, n.6/2009. Tradução: Boaventura Antunes e Lumir Nahodil. Disponível em: http://o-beco-pt. blogspot.com/2010/06/claus-peter-ortlieb-uma-contradicao.html. Acesso em: 21 dez. 2022. TRENKLE, N. Luta sem classes. Por que não há um ressurgimento do prole- tariado no processo de crise capitalista. Tradução de Marcos Barreira. Revista Krisis, n. 30/2006. Disponível em: http://www.krisis.org/2015/luta-sem-clas- ses/. Acesso em: 21 dez. 2022. TRENKLE, N. Miséria informalizada. Sobre a relação entre o setor informal e a moderna produção mercantil. Revista Margem Esquerda. São Paulo: Boi- tempo, n. 35, p. 40-45, 2020a. TRENKLE, N. Verdrängte Kosten [Custos deslocados] em: LOHOFF, Ernst; TRENKLE, Norbert. (org.). Shutdown. Klima, Corona und der notwendige Ausstieg aus dem Kapitalismus. Münster: UNRAST, 2020b. TRENKLE, N. Die Arbeit hängt am Tropf des fi ktiven Kapitals [o trabalho dependente da injeção de capital fi ctício]. (Tradução: Javier Blank) Revista Krisis, 1/2016.. Original disponível em: https://www.krisis.org/wp-content/ data/krisis_eins_2016.pdf. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão CRISE DO CAPITAL, PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E TICS: o trabalho de assistentes sociais no “fi o da navalha” 20 Raquel Raichelis DOI: 10.24824/978652515286.8.85-108 A crise contemporânea do capitalismo, como expressão da crise estrutural do metabolismo social do sistema do capital (MESZÁROS, 2011), vem se con- fi gurando como orgânica nos marcos da falência tanto do sistema de regulação keynesiano-fordista, quanto do socialismo realmente existente na ex-URSS. A crise que se desencadeia nos anos de 1960/1970 já indicava os primeiros sinais, de esgotamento da fase expansiva do desenvolvimento capitalista durante os “30 anos dourados” que se seguiram ao fi m da Segunda Guerra Mundial, com a queda da produtividade e redução das taxas médias de lucro do capital. Mais recentemente, a crise fi nanceira de 2008/2009 - conhecida como a crise do subprime – cujo marco foi a falência do banco Lehman Bro- thers nos Estados Unidos, um dos maiores e mais antigos bancos de investimentos do mundo, desencadeou um dos piores desastres econômicos globais dos últimos anos, alastrando-se pelo restante do mundo com efeitos catastrófi cos e duradouros. A eclosão da pandemia do novo coronavírus no início de 2020 agravou dramaticamente esse panorama crítico em todo o mundo, expressando a con- fl uência de múltiplas crises – econômica, política, social, ambiental, civilizató- ria – lançando o trabalho “no fi o da navalha” (RAICHELIS; ARREGUI, 2021) em decorrência das transformações do capitalismo em crise em escala global. Tais processos societários de largo espectro, aqui apenas enunciados, evi- denciam que as crises no capitalismo não são fenômenos eventuais ou episódi- cos, mas processos imanentes que se manifestam ciclicamente provocados pela concorrência intercapitalista, aumento da produtividade do trabalho e supera- cumulação de capital, em contextos de baixos salários e desemprego crescente. Para Mészaros (2011) e outros analistas, esta é uma crise estrutural, expansionista, destrutiva e, no limite, incontrolável. E, quanto mais aumentam 20 As refl exões aqui apresentadas benefi ciam-se diretamente dos estudos, pesquisas e debates desenvolvidos pelo Núcleo de Estudos e Pesquisa Trabalho e Profi ssão (NETRAB), do PPG em Serviço Social da PUC-SP, sob minha coordenação, notadamente de suas últimas pesquisas publicadas em e-book de acesso gratuito, com o título “Nova-velha morfologia do trabalho no Serviço Social – TICs e pandemia”, disponível para download em https://www.pucsp.br/educ E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 86 a competitividade e a concorrência intercapitais, mais nefastas são suas con- sequências – a destruição e/ou precarização da força humana que trabalha e a degradação crescente do meio ambiente, na relação metabólica entre homem, tecnologia e natureza, subordinada aos parâmetros do capital e do sistema pro- dutor de mercadorias. Portanto, cabe refl etir sobre o signifi cado das crises para a reprodução do sistema capitalista, menos como falência e mais como “contradição em processo” (MARX, 2011) pois, como observado, as crises no capitalismo são elementos constitutivos da lógica de sua estruturação, continuidade e reprodução. São elas (as crises) que possibilitam a retomada ou criação de estratégias propícias à superacumulação e lucratividade do capital, buscando nichos de extração de valor e mais valor no processo de reprodução ampliada do capital. Como analisou Marx: O próprio capital é contradição em processo, [pelo fato] de que procura reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, ao mesmo tempo que, por outro lado, põe o tempo de trabalho como única medida e fonte de riqueza. Por essa razão ele diminui o tempo de trabalho na forma de trabalho necessário para aumentá-lo na forma do supérfl uo; por isso, põe em medida crescente o trabalho supérfl uo como condição – questão de ‘vida e de morte’ – do necessário (2011, p. 588-589). Por essa razão, para Konicz (2020), com quem concordamos, não com- preenderemos adequadamente a crise atual se não entendermos o próprio capi- talismo, mais precisamente o movimento do capital em sua busca incessante de valorização do valor por meio da transformação de tudo em mercadoria e dinheiro (D-M-D’), buscando acumular cada vez mais trabalho assalariado abstrato e trabalho morto (2020, p. 35). Como uma totalidade histórica concreta e contraditória, a “instabilidade e a propensão às crises – mas também a dinâmica destrutiva – do sistema capitalista resultam da tendência do capital, mediado pelo mercado, de reduzir o uso do trabalho assalariado no processo produtivo” (KONICZ, 2020, p. 35). Em tal contexto, o capital precisa se expandir incessantemente ou decreta sua destruição; e, contraditoriamente, ao fazê-lo, tenta se livrar da sua própria substância – o trabalho assalariado –, processo impulsionado pelo progresso técnico que aprofunda a contradição entre as relações sociais de produção e as forças produtivas do trabalho (MARX, 2013). Portanto essa contradição em processo no movimento histórico de expansão do sistema capitalista mundial vai desencadeando crises sucessivas – bolhas, estagnação econômica, crises monetárias, dívida dos países depen- dentes em permanente crescimento, desemprego, precarização do trabalho, E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 87 da vida humana e natural etc. – impulsionadas pelas suas próprias contradi- ções internas. Para fazer frente às crises estruturais, o capital conta com a intervenção ativa dos Estados nacionais e do fundo público como fi nanciador da acumu- lação e das altas taxas de lucratividade do capital em detrimento do trabalho. No capitalismo tardio, o fundo público se torna condição de vida ou morte para a valorização do valor, como afi rma Behring (2022). E prossegue pon- derando que: Na verdade, o que se observa é que o fundo público assume tarefas e proporções cada vez maiores no capitalismo contemporâneo, diga-se em sua fase madura e decadente – fortemente destrutiva na atualidade -com o predomínio do neoliberalismo e da fi nanceirização, não obstante todas as odes puramente ideológicas em prol do Estado mínimo, amplamente difundidas desde a década de 1980 (BEHRING, 2022, p. 32). As políticas (ultra) neoliberais, expressando um projeto de dominação de classe, são acionadas para o enfrentamento da crise, contexto em que o Estado burguêsassume papel central para recuperar e fortalecer o poder do capital, privatizando lucros e socializando custos. Como bem analisou Netto (2009, p. 26), o Estado no capitalismo monopolista atua como um instrumento de organização da economia, operando como um administrador dos ciclos de crise, o que não ocorre sem contradições entre os diferentes interesses em luta. Nesses termos, é preciso romper com qualquer linearidade na análise das crises capitalistas, pois nas estratégias de seu enfrentamento pelo bloco no poder aprofundam e agravam a questão social a níveis intoleráveis; mas também, e no mesmo processo, desencadeiam respostas de parcelas da socie- dade organizada e da classe trabalhadora em seu movimento de resistência e defesa de direitos conquistados historicamente. Diante desse cenário, o trabalho de assistentes sociais e de outros profi ssio- nais sofre profundas infl exões decorrentes das novas confi gurações do mercado de trabalho que incidem também nos espaços em que os assistentes sociais se inserem como trabalhadoras/es assalariadas/os, majoritariamente em instituições públicas e privadas responsáveis pela implementação de políticas e serviços sociais, que não escapam às determinações estruturais que movem os processos de exploração e precarização do trabalho, no contexto da crise mundial. Esse texto pretende analisar as metamorfoses do trabalho em sua (nova/ velha) morfologia no capitalismo mundializado e fi nanceirizado em crise, problematizando as (re) confi gurações do trabalho de assistentes sociais nesse E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 88 contexto, bem como as (novas/antigas) requisições e respostas profi ssionais a partir da maciça incorporação das tecnologias de informação e comunicação (TICs), potencializadas no contexto da pandemia da covid-19. Por isso, como observou Iamamoto (2011), na análise da crise estrutural contemporânea, não é possível segmentar processos societários que na reali- dade compõem uma totalidade orgânica, que precisa ser considerada em suas conexões e determinações. Nas palavras da autora: a mundialização fi nanceira sob suas distintas vias de efetivação unifi ca, dentro de um mesmo movimento, processos que vêm sendo tratados pelos intelectuais [e acrescento, também por assistentes sociais] como se fossem isolados ou autônomos: a “reforma” do Estado, tida como específi ca da arena política: a reestruturação produtiva, referente às atividades econômicas empresariais e à esfera do trabalho: a questão social, reduzida aos chama- dos processos de exclusão e integração social, geralmente circunscrita a dilemas da efi cácia da gestão social; à ideologia neoliberal e concepções pós-modernas, atinentes à esfera da cultura (IAMAMOTO, 2011, p. 114, grifos da autora). Crise estrutural e precariedade histórica do trabalho no capitalismo dependente Nessa ambiência societária de crise estrutural permanente, o capital fi nan- ceiro passa a comandar a totalidade do processo de acumulação por meio da integração das grandes empresas industriais transnacionais com as instituições fi nanceiras, como bancos, fundos de investimento, fundos de pensão, segu- radoras, etc., num movimento permanente de valorização e busca de lucros, encobrindo a ampliação das relações de exploração do capital sobre o trabalho, criando a mística do “dinheiro que gera dinheiro” (D-D’), impondo novas for- mas de dominação à classe trabalhadora, em estreita associação com o mundo das fi nanças e com os interesses do capital rentista (IAMAMOTO, 2011). A crise sanitária provocada pelo novo coronavírus apresentou-se como catalizadora dessa processualidade contraditória, apoiada na estratégia do capital para reverter a queda tendencial das taxas médias de lucro em decor- rência do movimento estrutural de superprodução de mercadorias e subcon- sumo, centralização e superacumulação de capitais, aumento do poder dos monopólios e fi nanceirização da economia. Nesse âmbito, o capital incorpora as inovações e os avanços tecnológicos e científi cos, especialmente as tecnologias microeletrônicas de base digital, que aceleram a produtividade do trabalho, provocam redução de trabalho vivo e ampliação do trabalho morto, exponenciando a população sobrante para as E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 89 necessidades médias de valorização do capital, alargando e diversifi cando a superpopulação relativa (MARX, 2013). Frente a esse quadro, é preciso reconhecer que a precarização do trabalho não é uma fatalidade – visão ideologizada amplamente veiculada, ainda mais na situação de capitalismo pandêmico (ANTUNES, 2022). Ao contrário, nossa hipótese é que a precariedade estrutural do trabalho representa (mais) uma estratégia decorrente do padrão de acumulação capitalista ultra neoliberal disseminado na periferia capitalista. Ela constitui um poderoso mecanismo de reorganização das relações de trabalho no contexto do capitalismo rentista hegemonizado pelas fi nanças, que combina fl exibilização, terceirização e informalidade do trabalho – tripé que sintetiza a nova/velha morfologia do trabalho (ANTUNES, 2020; RAICHELIS, 2022). No Brasil, como de resto nos países da periferia capitalista dependente dos grandes centros hegemônicos, antes mesmo da onda (neo) liberalizante dos ajustes fi scais permanentes, e muito antes da crise pandêmica da covid-19, os altos índices de subemprego e informalidade da força de trabalho urbana e rural, bem como a ausência e fragilidade do sistema de proteção social já se apresentavam como traços marcantes do capitalismo dependente brasileiro, desde a transição do trabalho escravo para o trabalho livre. Em tal contexto situa-se a questão social e a questão racial, em suas conexões estruturantes da formação social brasileira, em um país de base escravocrata e colonial, sustentada pelo racismo estrutural permanentemente atualizado até o tempo presente. Trazendo as refl exões de Assis21, com base em Clóvis Moura, sobre a imbricação entre questão social e racismo na formação sócio-histórica brasileira, a autora afi rma que a escravidão no país não deve ser tomada como um mero episódio na história do desenvolvimento brasileiro, mas como um completo conformar da sociedade apoiado em um monumental investimento político, social, jurídico e cultural. A escravidão ocorreu em muitos lugares do mundo, mas somente no Brasil submeteu por tanto tempo toda a sociedade a depender exclusivamente do que era produ- zido pelos escravizados. Para tanto, foi necessário todo um aparato jurídico e ideológico de sustentação desse modo de produção e, consequentemente, de uma sociabilidade que lhe é inerente (ASSIS, 2022, p. 227). A partir dessas bases históricas fundacionais, e dando um salto na análise das confi gurações assumidas pelo capitalismo monopolista no país, salienta- mos que o chamado fordismo a brasileira guarda importantes singularidades 21 Para aprofundamento da análise sobre a “necessária radicalização e racialização da questão social” no Brasil e no Serviço Social, consultar a tese de doutorado de Assis (2022), recentemente defendida no PPG em Serviço Social da PUC-SP. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 90 em relação ao fordismo “clássico”, caracterizando-se por um regime de tra- balho com fraca proteção social e elevados índices de rotatividade da força de trabalho, derivados da informalidade e precariedade estruturais do mercado de trabalho no Brasil (RAICHELIS, 2013). E, como observado, da não integração de amplas parcelas da classe trabalhadora, especialmente de trabalhadores/ as de pele preta, ao trabalho regular e protegido, ainda que no contexto do “Estado de mal-estar social” brasileiro, lembrando a conhecida formulação do saudoso professorFrancisco de Oliveira. Mais precisamente, em nosso país constituiu-se o que Braga (2012, p. 21) identifi cou como fordismo periférico, um sistema social estruturado pela combinação de economias e nações capitalistas desenvolvidas e subdesenvol- vidas, dominado pela mundialização das trocas mercantis, constituindo-se em uma das principais mediações históricas entre os países capitalistas avançados e os países capitalistas subdesenvolvidos ou dependentes. Ao contrário do que aconteceu historicamente com o capitalismo nos países centrais, o Estado brasileiro não criou condições para a reprodução social da força de trabalho, nem estendeu direitos de cidadania ao conjunto da classe trabalhadora, excluindo imensas parcelas de trabalhadores/as do acesso ao trabalho formal e a condições dignas de vida, especialmente trabalhadores/ as rurais e negros e negras deixados à sua própria sorte após a abolição ofi cial da escravidão no Brasil (RAICHELIS, 2013). Assim, a superexploração da força de trabalho, nos termos da teoria marxista da dependência, atuou histo- ricamente como um rebaixador estrutural dos níveis de reprodução social da classe trabalhadora, na medida em que os salários pagos aos/às trabalhadores/ as são invariavelmente inferiores ao valor da força de trabalho, impedindo que essa classe se reproduza em condições “normais”, de acordo com as conquis- tas civilizatórias de cada sociedade em distintas particularidades históricas. Considerando esse contexto histórico a partir da periferia capitalista, as transformações que o mundo do trabalho vem experimentando nas últimas décadas caracterizam uma nova era de precarização estrutural do trabalho (ANTUNES, 2018). A etapa atual de fi nanceirização capitalista faz com que o trabalho, mediação fundamental das relações sociais e elemento estrutu- rante da sociabilidade humana, seja destituído de sua função protetora para segmentos majoritários da classe trabalhadora, cujos salários têm perdido potência integradora face à corrosão de direitos e benefícios dele derivados. Nessa ambiência societária, a denominada nova morfologia do trabalho (ANTUNES, 2018) desencadeia mudanças profundas nas formas de orga- nização, relações e gestão do trabalho, gerando processos continuados de informalidade, insegurança e desproteção, e novas modalidades de contra- tação da força de trabalho assalariada através de empregos terceirizados, E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 91 subcontratados, temporários, em tempo parcial ou por projeto, além das formas regressivas que se supunha eliminadas como o trabalho escravo, o trabalho infantil, para citar apenas algumas das expressões da precariedade a que estão submetidos/as os/as trabalhadores/as no mundo do trabalho. Contudo, embora a precarização do trabalho não seja um fenômeno novo, inegavelmente assume dimensões e manifestações singulares no tempo presente de crise orgânica do capital agravada pela pandemia da covid-19, atingindo o conjunto da classe trabalhadora, ainda que com diferentes intensidades, consi- derando-se a divisão sociotécnica, sexual e étnico-racial do trabalho, na qual negros e negras, mulheres, jovens, povos indígenas, população LGBTQI+ são invariavelmente as/os mais afetadas/os. Certamente o salto científi co-tecno- lógico e a expansão das tecnologias de informação e comunicação colaboram intensamente para agravar o cenário de degradação e destrutividade do trabalho pelo capital, questão que será aprofundada no próximo item. Trabalho uberizado e tecnologia digital no capitalismo em crise Para analisar a centralidade crescente das TICs na confi guração da nova morfologia do trabalho no capitalismo em crise, partimos do pressuposto que sua disseminação é constitutiva do processo permanente de reestruturação produtiva do capital, no qual as tecnologias digitais assumem um papel deci- sivo na instrumentalização de novos produtos e negócios, e na estruturação de relações e dinâmicas de trabalho que promovem inusitadas formas de intensifi cação e exploração do trabalho (TONELO, 2020, p. 139). Nesse contexto, cresce o trabalho uberizado como una (nova/velha) forma de organização e controle do trabalho, que se dissemina globalmente no centro e na periferia capitalista, apoiado em plataformas digitais - empresas que se apre- sentam como aplicativos, mas são de fato grandes conglomerados transnacionais. Para Abilio, Amorim e Grohmann (2021, p. 48), o que vem sendo cha- mado de uberização do trabalho é um processo anterior às plataformas digi- tais, caracterizado por novos arranjos produtivos, eliminação de direitos, transferência de riscos e custos do trabalho para o/a próprio/a trabalhador/a, traços característicos do trabalho em países capitalistas periféricos e depen- dentes como o Brasil, onde a informalidade não é exceção ou um ponto fora da curva, mas é a regra que caracteriza o modo de vida das populações peri- féricas, como analisado anteriormente22. 22 Abílio (2021) denomina esse processo de “autogerenciamento subordinado”, noção que propõe adotar critica- mente no lugar de empreendedorismo, para não alimentar a subjetivação neoliberal que dissemina a ideologia do trabalhador proprietário “patrão de si mesmo”. A autora chama atenção para o trabalho de viração, que vai além do “viver de bicos” (gig economy no jargão atual) ou de um trabalhador informal, que sempre existiu nas periferias E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 92 No contexto do aprofundamento da pandemia da covid-19, Antunes (2022, p. 35) referiu-se à pandemia da uberização para dar conta dessa pro- cessualidade que caracteriza o trabalho fl exível, intermitente e desprotegido para uma massa crescente da força de trabalho sobrante que não encontra alternativas a não ser permanecer disponível para aceitar qualquer trabalho, ainda que precário e de baixa remuneração. Para o autor, trata-se de um tipo de trabalho que, subordinado a gigantes- cas corporações globais hegemonizadas pelo capital fi nanceiro, articula pelo menos três traços defi nidores: o uso intensivo das tecnologias de informação e comunicação; a disponibilidade de uma grande massa de trabalhadores/as dispostos/as a trabalhar de qualquer jeito por alguma remuneração; a trans- fi guração de trabalhadores/as assalariados/as em prestadores/as de serviços (empreendedores/as) para que não sejam alcançados/as pela legislação pro- tetora dos direitos do trabalho (ANTUNES, 2022, p. 35). Essas tendências contribuem para aprofundar a superexploração, intensi- fi cação e precarização do trabalho, encobrindo vínculos de assalariamento de fato existentes por relações crescentemente individualizadas e (supostamente) não protegidas pela legislação trabalhista, o que tem motivado denúncias e processos contra essas empresas-plataformas em todo o mundo. Situação que não elimina, contudo, a urgência de (novas) formas de regulação para uma multiplicidade de vínculos e modos de realização do trabalho (presencial e virtual), mediados pelas plataformas e dispositivos digitais não cobertos pela legislação trabalhista em vigor, ainda mais após a sua desidratação pela contrarreforma trabalhista de 201723. Com a crise pandêmica e (supostamente) “pós-pandêmica”, tais con- fi gurações do mundo do trabalho aceleraram a “pandemia da uberização”, intensifi cando as formas de controle do trabalho por meio do gerenciamento algorítmico, não apenas no chão da fábrica e na produção de mercadorias materiais tangíveis, mas também no amplo e heterogêneo campo do trabalho em serviços, incluindo os serviços públicos e as instituições governamentais. Essa processualidade própria da produção capitalista na “era digital” foi exponenciada com a disseminação da pandemia da covid-19, e funcionou como um grande laboratório para o capital e seus representantesno aparelho de Estado, cenário em que o maquinário digital-informacional (algoritmos, indústria 4.0, inteligência artifi cial, internet das coisas, robótica etc.) assume das cidades brasileiras, estruturando modos de vida e relações de trabalho sem direitos e proteções sociais, transformando trabalhadores/as em sujeitos solitários/as na busca cotidiana e desesperada pela sobrevivência. 23 Para o que nos interessa nesse texto, não é excessivo lembrar que o trabalho uberizado não se limita às empresas UBER, sendo que na atualidade esse tipo de trabalho se expande para todos os segmentos do mercado de trabalho, nas empresas e organizações privadas, no Estado e nas instituições públicas, principalmente no trabalho em serviços, incidindo portanto no exercício profi ssional de assistentes sociais e demais trabalhadores/as que participam da formulação, gestão e implementação de políticas sociais e de serviços sociais públicos e privados. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 93 o comando do processo produtivo, aprofundando e ampliando as formas de subsunção do trabalho ao capital (MARX, 1975; MARX, 2013). As mudanças na base técnica – da eletromecânica para a microeletrônica na passagem do século XX para o século XXI permanecem revolucionando as forças produtivas em busca de novas formas de extração do excedente por meio do aumento da produtividade do trabalho. Como Marx analisou nos Grundrisse, a ciência é um produto do trabalho social coletivo, resultado do desenvolvimento das forças produtivas sociais do trabalho pois, nas palavras do autor: A natureza não constrói máquinas nem locomotivas, ferrovias, telégrafos elétricos, máquinas de fi ar automáticas etc. Elas são produto da indústria humana; material natural transformado em órgãos da vontade humana sobre a natureza ou de sua atividade na natureza. Elas são órgãos do cérebro humano criado pela mão humana; força do saber objetivada (MARX, 2011, p. 589). Contudo no capitalismo a ciência é transformada em força produtiva para o capital e a atividade do trabalhador determinada e regulada pelo movimento da maquinaria e não o inverso. A ciência, que força os membros inanimados da maquinaria a agirem adequadamente como autômatos por sua construção, não existe na cons- ciência do trabalhador, mas atua sobre ele por meio da máquina como poder estranho, como poder da própria máquina (MARX, 2011, p. 581). Assim o trabalho objetivado na maquinaria se contrapõe ao trabalho vivo como um poder que o governa, subsumindo o trabalhador a esse mecanismo que o aliena como algo externo e poderoso, transformando-o em mero apêndice da máquina. Nesse processo de busca incessante de valorização, da contradição em processo, a incorporação das tecnologias leva à redução do trabalho vivo ampliando a população sobrante para as necessidades do processo produtivo, o que está na raiz das crises sistêmi- cas do capital e da (re) produção incessante das desigualdades que lhes são inerentes. Nesse universo do valor, altera-se a composição orgânica do capital, por meio do aumento do capital constante e a consequente redução do capital variá- vel (Marx, idem), o que é obtido com a introdução do sistema de máquinas (na atualidade com o sistema maquínico-digital-informacional) e diminuição da demanda por mais trabalhadores/as, ampliando a população supérfl ua e descar- tável para o capital e, consequentemente, o poder do capital sobre o trabalho. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 94 Nesse contexto as novas formas de (re) produção e repartição do exce- dente competem pela hegemonia para se tornarem o padrão socialmente neces- sário, que garante lucro extraordinário da renda tecnológica do monopólio24, de um lado; e de outro, impõe perdas da desvalorização do trabalho, provocando (mais) uma crise do trabalho (TAUILE, 2001, p. 121). É de conhecimento geral que o Brasil, e os países periféricos da América Latina e Caribe, em sua inserção subordinada na divisão internacional do trabalho, participam mais como consumidores do que produtores de artefatos e dispositivos tecnológicos, dependentes que são dos grandes conglomerados que hegemonizam as tecnologias de informação e comunicação, a indústria 4.0, a robótica, a IA e as gigantescas plataformas digitais25. Como analisa Tauile (2001, p. 120), a aplicação dessa base técnica microeletrônica encontra terreno fértil justamente no trabalho em serviços, principalmente naquelas atividades que lidam com manipulação de informa- ções padronizadas, que ganharam impulso com a automação bancária a partir da década de 1970, exatamente na transição da eletrônica para a microeletrô- nica. E nesse âmbito, o que se observa, de modo geral, é que à medida que as informações e os conhecimentos do saber trabalhador são crescentemente codifi cados nos dispositivos eletrônicos de proces- samento de dados, para uma grande maioria de atividades de operação de equipamentos e de utilização de bens de consumo durável, ou ainda, de terminais de serviços com base nas novas tecnologias, há nitidamente um processo de simplifi cação dessas atividades (TAUILE, 2001, p. 123). 24 Para Dantas (2022b), em suas instigantes e polêmicas análises sobre o valor da informação-trabalho à luz da teoria marxiana do valor-trabalho, a questão fundamental do capitalismo contemporâneo é que “o acesso ao conhecimento cientifi co-técnico, aos produtos artísticos, ao entretenimento cultural e aos próprios ‘estilos’ dos valores de uso necessários ao dia a dia nas sociedades contemporâneas passa a depender das condições impostas ao mercado por algum detentor monopolista da propriedade sobre esse conhecimento” (p. 72 , grifo do autor). Tal dinâmica dá origem à renda informacional, sustentada por uma draconiana legislação internacional que transfere ao investidor privado capitalista os direitos de propriedade intelectual (DPI) sobre os produtos do trabalho semiótico de cientistas, engenheiros, artistas, professores e outros trabalhadores informacionais. Processo este que ocorre por meio do registro das patentes, marcas, desenhos industriais, direitos autorais sobre softwares, obras cientifi cas, artísticas e literárias, endereços de sitos de internet, entre outros, confi gurando um movimento de “cercamento” similar ao que deu origem ao cerceamento de terras por ocasião da acumulação primitiva de capital descrita por Marx. Para aprofundamento dessa refl exão sobre direitos de propriedade intelectual (DPIs) e rendas informacionais, Dantas remete ao texto de Larissa Ormay (2022, p. 97-144), na mesma obra organizada por Dantas, Moura, Raulino e Ormay (2022). 25 Dantas (2022a, p. 4) observa que durante o governo Collor de Mello (1990-1992), período em que se popularizou a internet no Brasil voltada sobretudo para o comércio e o lucro, “travou-se uma luta aberta contra políticas industriais protecionistas que poderiam favorecer o aparecimento e avanço de uma indústria brasileira de TICs”, sob o discurso do ingresso do Brasil no “primeiro mundo”, em defesa de ampla abertura comercial e facilitação do acesso de todos (diga-se da classe média) aos prazeres do consumo. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 95 Nesse contexto, o processo de subsunção real do trabalho ao capital (MARX, 1975; MARX, 2013), como expropriação de conhecimentos e de ener- gias vitais das/os trabalhadoras/es, sofre uma infl exão no trabalho em serviços, considerando que a informação e o conhecimento são a base das atividades de coleta massiva, registro, codifi cação, armazenamento, processamento, trans- missão e uso de dados próprios do trabalho intelectual no âmbito dos serviços. A refl exão coletiva de Santos, Freitas, Vieira e DiasJunior (2022, p. 59-83) sobre o trabalho no Serviço Social e suas relações com as TICs proble- matiza o signifi cado da tecnologia por meio da qual as forças sociais dominan- tes se apropriam privadamente da produção intelectual coletiva - do intelecto geral do fundo humano de conhecimento – para a valorização do capital, nos termos desenvolvidos por Marx nos Grundrisse (2011). Ao problematizar as interfaces entre informação, conhecimento e poder, as/os autoras/res chamam atenção para essa contradição entre a incidência generalizada das novas tecnologias de informação e comunicação na vida cotidiana de grande contingente de pessoas, conectadas ou não à rede, no intenso processo de estabelecimento de novas interações sociais e novos for- matos de produção e compartilhamento de informação e conhecimento; e, ao mesmo tempo, sua apropriação privada pelo capital e classes dominantes. Nessa refl exão afi rmam que: O impacto do uso da internet e das correlatas TICs no nosso cotidiano é de várias ordens. Coloca em questão a implicação da conectividade 24/7; as modifi cações nas interações interpessoais, na estruturação do pensar de indivíduos, grupos e classes sociais; seus efeitos na organização e desen- volvimento das cidades, atendendo à pressão constante de modelização das “cidades globais”; questões relacionadas à privacidade, à transparência, ao controle, à segurança de dados e ao controle social do uso comercial e político de informações pessoais; o impacto em processos eleitorais e nos mecanismos e estruturas democráticas; e as implicações do seu uso intensivo nas relações produtivas e na reestruturação do mundo do trabalho (idem, op. cit. p. 60-61). Na análise de Valente (2021, p. 180), o uso digital, como suporte da infor- mação, teve nas TICs a base para o desenvolvimento de um “novo paradigma calcado na coleta massiva de dados (datafi cação), ao processamento inteligente por meio de algoritmos e sistemas de inteligência artifi cial e a oferta de serviços personalizados e moduladores de comportamentos, sobretudo por meio de apli- cativos (apps) para cada vez mais atividades [...]” (VALENTE, 2021, p. 180). Mesmo considerando a dinâmica contraditória que envolve o uso das tecnologias na vida cotidiana e nos processos de trabalho, é o capital, E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 96 hegemonizado pela fração fi nanceira, que se benefi cia do valor da informação como valor trabalho, “trabalho em ação, interação, atividade”, nos termos de Dantas: O capital fi nanceiro que, por meio dos juros de seus empréstimos, abo- canha parte do mais-valor extraído pelo capital produtivo, encontrou nas PSD [Plataformas Sociodigitais] outro poderoso meio de se apoderar do mais-valor do trabalho social – aqui sem intermediários. E manda a conta para quem realmente produz”. (2022b, p. 89) A abundante literatura sobre os usos das TICs na organização e efetivação do trabalho em seus múltiplos espaços de materialização, apesar das polêmicas que envolvem, é inequívoca quanto aos impactos na destruição/redução de empregos e criação de novas ocupações (que não conseguem repor o número de empregos perdidos), nas alterações qualitativas das profi ssões e nas novas formas de orga- nização e controle do processo de trabalho, como observa Valente (2021, p. 162). A expansão da digitalização do trabalho e do trabalho online, como o tra- balho no domicílio (home offi ce), o teletrabalho e as distintas modalidades de trabalho remoto e teleatendimento, existentes até então de modo periférico, com a pandemia do novo coronavírus passaram a ser adotados com centralidade em larga escala, em todas as áreas e setores do mercado de trabalho público e privado. Tal situação não apenas incorpora novas estratégias de organização e processa- mento do trabalho, orientadas por uma racionalidade gerencialista e produtivista, como (re)confi gura a natureza do trabalho e sua forma social nos diferentes espaços ocupacionais, como ocorre com o trabalho de assistentes sociais. A apropriação crítica desse complexo e multifacetado processo de ube- rização do trabalho (Abílio, 2020; Antunes, 2020; Antunes 2022) ou de pla- taformização do trabalho, Grohmann (2021) exige compreender que tanto as novas formas de controle e gerenciamento por parte do capital, quanto as possibilidades de construção de alternativas autônomas por parte da classe trabalhadora são objeto de acirradas disputas (contra e) hegemônicas. Se, de um lado, dissemina-se amplamente a gestão algorítmica e as formas de vigilância apropriadas pelo capital para intensifi car o trabalho e aprofundar os controles sobre sua produtividade; por outro lado, encontramos experimen- tações conduzidas por coletivos de trabalhadores que buscam novos meios de apropriação das tecnologias digitais em seu próprio benefício, construção de plataformas alternativas e lutas coletivas por melhores condições de trabalho (GROHMANN, 2021, p. 13). Estabelecendo uma analogia com o fetichismo da mercadoria descrito por Marx (2013), quando desvela o caráter social do trabalho e não como uma E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 97 suposta propriedade natural das coisas, da mesma forma é necessário fazer a crítica da tecnologia, considerando que artefatos tecnológicos que nos parecem no dia a dia neutros, intrinsecamente bons, produzidos tão somente para resolver problemas práticos, contêm relações sociais historicamente determinadas e obscurecem o conteúdo de classe das escolhas tecnológicas (NOVAES; DAGNINO, 2004, p. 189). Como observa Mészáros (2011, p. 53, grifos do autor), a questão central não se limita a debater se empregamos ou não a ciência e a tecnologia para resolver nossos problemas, o que seria óbvio, “mas se seremos capazes ou não de redirecioná-las radicalmente, uma vez que hoje ambas estão estreitamente determinadas e circunscritas pela necessidade da perpetuação do processo de maximização dos lucros”, ou seja, pela apropriação capitalista do uso da tecnologia voltada à valorização do capital. As plataformas-redes, assim como quaisquer tecnologias, são orientadas por valores e normas inscritos em seus desenhos, algoritmos e interfaces que podem, e quase sempre apresentam, mecanismos discriminatórios de classe, raça, gênero, etnia, entre outros26, pois são produtos do trabalho humano, cuja materialidade envolve processos e meios de trabalho (físicos e naturais), que participam das cadeias de produção e extração de valor. Por isso, para com- preender o trabalho plataformizado é preciso ir além da análise das plataformas em si mesmas e “olhar também para as interrelações entre fi nanceirização, neoliberalismo e datafi cação” (GROHMANN, 2021, p. 14), pois as platafor- mas são ao mesmo tempo meios de produção e meios de comunicação, com implicações e dimensões políticas que precisam ser desvendadas criticamente. O trabalho profi ssional mediado pelas TICs – teletrabalho, gestão por metas e controle digital Como já referido, o trabalho remoto desencadeou um conjunto de novas situações em relação às quais tínhamos pouco conhecimento acumulado, con- siderando ainda que, de modo geral, foi imposto de cima para baixo na maioria das instituições, sem participação e tempo de preparação das/os profi ssionais e docentes nas universidades públicas e privadas. 26 Exemplo emblemático são os aplicativos de reconhecimento facial criados com vieses racistas e machis- tas. Para uma interessantíssima e instigante abordagem dessa questão, ver o documentáario Coded Bias (2020), dirigido por Shalini Kantayya, que mostra como uma pesquisadora negra da MIT Media Lab de Massachussets percebeu o problema do reconhecimento facial quando posiciona o seu rosto em frente a uma tela com dispositivo de inteligência artifi cial e não é reconhecida. Mas quandoela coloca uma máscara branca, o sistema consegue detectar. Assim, a pesquisadora começou a constatar que os programas de IA são treinados para identifi car padrões baseados em um conjunto de dados (de homens brancos) e, por isso, parecem não reconhecer com precisão faces femininas ou negras. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 98 A intensidade e velocidade da disseminação do teletrabalho mediado por plataformas digitais e pela gestão com base em metas de produtividade desencadeiam complexas situações que redimensionam as fronteiras temporais e espaciais do trabalho: favorecem novas modalidades de controle e vigilân- cia dos processos e resultados do trabalho; transferem o gerenciamento do trabalho para os/as próprios/as trabalhadores/as, com a imposição de metas de produtividade frequentemente inaceitáveis; instalam um tipo de gestão por pressão que reforça a individualização do trabalho e estimula a competição entre pares. Trata-se de um quadro propício ao crescimento do assédio moral e institucional, desgaste mental, múltiplas formas de sofrimento e adoeci- mentos, provocados pelos processos de reestruturação produtiva em curso27. Para Alves (2022, p. 190), ao lado do home-offi ce, a implantação efetiva da Gestão de Metas é uma mudança violenta na vida organizacional do trabalho público, contribuindo para disseminar como estratégia de gestão organizacional, o Assédio Moral. A Gestão de Metas é efetivamente um elemento estressor que provoca - a médio e longo prazo - sérios impactos na saúde e qualidade de vida das(os) profi ssionais do serviço público. Na conjuntura pandêmica, essas situações se agravaram com a ampliação das jornadas de trabalho para 10/12h; isolamento social; fadiga pelo tempo excessivo de permanência em frente à tela do computador, sem direito à desco- nexão; multiplicação do número de reuniões até a exaustão, provocando ruptura das fronteiras entre tempo de trabalho e de não trabalho, vida privada e vida pública. O impacto do home offi ce ou teleatendimento no trabalho de assistentes sociais, seja nas instituições de prestação de serviços sociais ou na formação acadêmica graduada e pós-graduada foi intenso, exigindo respostas imediatas para as quais ainda não havia acúmulo de debate e conhecimento sufi ciente, o que se confi gurou em fonte de profundas tensões, sofrimento e adoecimentos. Também no trabalho de assistentes sociais já era possível observar o uso crescente de dispositivos digitais e informacionais, que durante a pandemia do novo coronavírus se generalizaram. O retorno ao trabalho presencial, a convi- vência do trabalho remoto com ampliação das jornadas de trabalho e a captura do tempo de trabalho a serviço das metas de produtividade estão se consolidando e naturalizando, processos nem sempre acompanhados da necessária refl exão crítica – individual e coletiva – sobre suas implicações e impactos no trabalho e na vida. A dimensão contraditória das tecnologias digitais e da internet se mani- festou com grande visibilidade durante a pandemia. No caso do exercício 27 Para aprofundar a análise dos sofrimentos e desgastes provocados pelo trabalho de assistentes sociais mediado pelas TICs e seus impactos na saúde e nos conteúdos teórico-metodológicos e ético-políticos do exercício profi ssional, consultar Vicente e Monteiro (2022, p. 117-137). E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 99 profi ssional, o teletrabalho ou trabalho no domicílio se, por um lado, viabili- zaram o atendimento social à parcela da população usuária em um contexto de isolamento e aumento da violência contra mulheres, idosos, crianças e adolescentes; por outro, ampliaram jornadas de trabalho sem remuneração, intensifi caram e invadiram as fronteiras dos espaços de vida e de trabalho de assistentes sociais, transferiram custos às/aos próprias/os trabalhadoras/ es, além de trazerem maior impacto sobre a vida das mulheres, pois na tradi- cional e patriarcal divisão sociossexual do trabalho, são elas que continuam assumindo a responsabilidade pelas atividades de cuidado e de reprodução social nos espaços da vida privada. Também observou-se no trabalho presencial durante a pandemia, o recrudescimento de antigas e indevidas requisições profi ssionais, movidas pela urgência social (o histórico “pronto-socorro social “) e alimentadas pelo clientelismo e fi siologismo político. Dentre suas expressões destacam-se o processamento do auxílio emergencial criado no desgoverno de Bolsonaro, a distribuição de cestas básicas, de vouchers, entre outras, que exigiram respos- tas profi ssionais que passaram ao largo das políticas e dos sistemas públicos de proteção social (caso da Política de Assistência Social e do SUAS), apoia- das em equipes desfalcadas, precárias condições materiais e tecnológicas, sucateamento de computadores, fragilidade das redes de internet, ausência de equipamentos de proteção individual e coletiva, inexistência de protocolos e planos de contingência, entre outros. Por essas razões, na dinâmica institucional que envolve o trabalho profi s- sional, é importante refl etir sobre o trabalho remoto e presencial como faces contraditórias e complementares da nova morfologia do trabalho profi ssional no capitalismo contemporâneo (RAICHELIS, 2020; 2022). E buscar proble- matizar o signifi cado da tecnologia em sua historicidade, como produto do trabalho social cristalizado no sistema maquínico-digital-informacional, que potencializa a subsunção real do trabalho intelectual aos circuitos de valori- zação do capital. Mas que, ao mesmo tempo e contraditoriamente, abre pos- sibilidades inéditas de apropriação crítica das TICs em uma dimensão contra hegemônica, apropriados pelos trabalhadores em função de seus interesses e formas de lutas, desde que sejam superados tanto determinismos quanto fetichismos e reifi cações que cercam o uso das tecnologias. Torna-se urgente pois a criação de estratégias de enfrentamento das múltiplas situações que podem colocar em xeque os valores éticos e os compromissos históricos da profi ssão de Serviço Social com a classe trabalhadora, reconhecendo possi- bilidades, limites e contradições. O quadro de pandemia incidiu diretamente no “núcleo duro” das atri- buições e competências profi ssionais, agregando novos elementos à refl exão que vínhamos desenvolvendo sobre a nova morfologia do trabalho no Serviço Social (RAICHELIS, 2018; 2020; 2021; 2022) . E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 100 O trabalho remoto, o home offi ce e os vários tipos de teletrabalho, adotados de forma esporádica, embora crescente, nos diferentes espaços sócio-ocupacio- nais, se generalizaram com as medidas sanitárias, como amplamente divulgado. No caso do trabalho profi ssional, em algumas instituições, como o INSS, o processo de digitalização e automação do trabalho por meio de plataformas digitais para acesso pelos benefi ciários (como o Meu INSS) estava em curso e foi intensifi cado durante a pandemia, inclusive com fechamento de agências para atendimento presencial dos demandantes e implantação da robotização do atendimento. Também no Ministério Público e Tribunais de Justiça, o processo judicial eletrônico e o trabalho à distância já estavam em experimentação, na modalidade de trabalho no domicílio, cercados de polêmicas e de certa natu- ralização por parte dos profi ssionais, com o objetivo institucional expresso de ampliar a efi ciência, os controles e os níveis de produtividade do trabalho28. Em relação ao teletrabalho, a (contra) reforma da CLT em 2017 insti- tuiu um capítulo específi co sobre o trabalho remoto, a ser realizado por meio de contrato por tempo determinado ou indeterminado, mas não defi niu novas regras que garantam os direitos de trabalhadores/asnessa nova modalidade de trabalho, o que certamente será remetido para negociação entre empregadores/ as e trabalhadores/as, prevalecendo “o negociado sobre o legislado”, em uma conjuntura de descenso do movimento sindical e da organização coletiva das/ os trabalhadoras/os29. No caso dos trabalhadores do setor público está em tramitação no Congresso Nacional, a proposta de EC n. 32/2020, que representa, se for aprovada, o desmonte fi nal do serviço público e do estatuto do servidor público, com a extinção dos concursos públicos para ingresso e progressão na carreira, fi m do regime jurídico próprio, fl exibilização de contratos, demissão em massa, entre outras, que esperamos seja rapidamente retirada pelo governo Lula, junto com os incontáveis desmontes do desgoverno anterior, o desmanche das políticas públicas e dos direitos de servidores/ as públicos responsáveis pela sua execução, sob os infl uxos do processo crescente de privatização e mercadorização dos serviço sociais públicos (HUWS, 2017; ARAÚJO, 2022). 28 Sobre essa matéria, cf. a resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de maio de 2020, que dispõe sobre a realização de perícias em meios eletrônicos ou virtuais em ações em que se discutem benefícios previdenciários por incapacidade ou assistenciais, enquanto durarem os efeitos da crise ocasionada pela pandemia do novo Coronavírus. Mais recentemente, a Resolução Nº 1.466/2022 - CPJ, de 20 de abril de 2022, do MP- SP regulamentou o teletrabalho, com o objetivo declarado de aumentar o controle sobre a produtividade do trabalho e transferir custos aos próprios trabalhadores/as, com base na suposição que o trabalho remoto apresenta resultados similares ou até melhores do que o trabalho presencial. 29 Como observam Praun e Antunes (2020, p. 183 e segs.), há no texto da CLT algumas especifi cações sobre o teletrabalho, que deve ser exercido fundamentalmente fora das dependências da empresa e com apoio tecnológico. Mas não há nenhum detalhamento sobre duração da jornada de trabalho, nem quanto à responsabilidade pela aquisição e manutenção dos equipamentos tecnológicos e infraestrutura necessária para o exercício das atividades remotas, além de atribuir à/ao própria/o trabalhadora/or a prevenção contra doenças e acidentes de trabalho. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 101 É preciso considerar ainda as condições sociais e materiais da popu- lação atendida pelas políticas públicas, que em sua maioria não dispõe de smartphone e/ou computador com acesso à internet, portanto como excluídos digitais acabam sendo excluídos também do acesso a programas e benefícios socioassistenciais, a exemplo do que ocorreu com o auxílio emer- gencial e o renomeado Auxílio Brasil implantado no desgoverno Bolsonaro. Nota fi nal: o trabalho no fi o da navalha e os novos desafi os para o trabalho de assistentes sociais Como desenvolvemos ao longo desse texto, a restruturação produtiva neoliberal transformou-se num processo permanente para reverter a queda das taxas médias de lucro do capital, em seu afã incontrolável de busca e criação de novos nichos de acumulação. Nesse contexto, as TICs assumem um papel decisivo no aprofundamento de estratégias de exploração e de subsunção do trabalho ao capital, com destaque para os mecanismos de controle e instru- mentalização do trabalho intelectual, com vistas à valorização do capital e dos seus representantes nas instituições estatais e privadas. Nesse contexto, o trabalho assalariado e a classe que vive da venda de sua força de trabalho são profundamente atacados, assim como seus direitos conquistados ao longo de lutas históricas, sendo as tecnologias digitais um vetor dinâmico e altamente potencializador da sociabilidade do capital no capitalismo contemporâneo em crise. Esse quadro, que se reproduz no processamento do trabalho de assis- tentes sociais, aponta para a tendência à simplifi cação, à fragmentação e à padronização das tarefas, gerando desprofi ssionalização, rebaixamento do trabalho intelectual, perda de conteúdos criativos e críticos do trabalho, com incidências na autonomia relativa, na qualidade dos serviços prestados e na direção estratégica do projeto ético-político profi ssional. Nesse momento de retomada do trabalho presencial, cabe indagar: por que a exigência de teletrabalho permanece e se consolida cada vez mais nas diferentes instituições públicas e privadas? O que explica o açodamento que estamos presenciando, inclusive nas instituições de ensino superior no âmbito da formação acadêmico-profi ssional graduada e pós-graduada, para implanta- ção do assim chamado modelo híbrido, como possível combinação de traba- lho presencial e remoto, apoiado nos sistemas informacionais e plataformas digitais que, no entanto, carece de fundamentos teórico-metodológicos e de normas que regulamentem seu uso? Esse “hibridismo” no trabalho profi ssio- nal tem sido imposto de forme autoritária e, não raro, como “benesse” a que trabalhadores/as devem fazer jus, a depender da avaliação de desempenho e do alcance de metas, sem diálogo com os coletivos de trabalhadores e suas entidades de representação profi ssional e/ou sindical. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 102 Minha hipótese para buscar desentranhar o signifi cado mais profundo da disseminação do teletrabalho e de formas alternadas/hibridas de trabalho pelas equipes profi ssionais é que o teletrabalho e outras modalidades de trabalho media- das por dispositivos digitais, para além de meios técnicos, confi guram uma nova forma social de organização, gestão e de controle do trabalho, apoiada na gene- ralização da automação e na uberização do trabalho, em tempos de capitalismo decadente em crise. Nem sempre perceptível para o conjunto dos/as trabalha- dores/as, o teletrabalho promove mudanças profundas, não apenas no trabalho remoto, mas também no trabalho presencial, atingindo a totalidade do processo de trabalho e sua forma social, portanto, as relações sociais nas quais se insere, provocando nova divisão social, técnica, sexual e racial do trabalho, por meio da: • Implosão da jornada de trabalho, nos termos conquistados pela luta histórica da classe trabalhadora, com extensão ilimitada do tempo de trabalho, tornando o/a trabalhadora inteiramente disponível para as demandas de trabalho; • Maior centralização e controle sobre o trabalho coletivo e individual, potencializados pela maciça presença das TICs; • Precarização, humilhação e intensifi cação do trabalho, provocando sofrimento e adoecimentos decorrentes da dinâmica das relações de trabalho restruturadas; • Implantação de um sistema de vigilância e avaliação de desempenho com base em metas de produtividade e remuneração diferenciada, estimulando a competição entre trabalhadores/as e enfraquecendo a organização de pautas e lutas coletivas. A obrigatoriedade do trabalho remoto durante a pandemia, medida ade- quada nesse contexto, foi assumida de forma pragmática e imediatista por muitos/as assistentes sociais e outros/as profi ssionais, no mais das vezes sem avaliação crítica dos seus possíveis efeitos. Além disso, o trabalho no domi- cílio exerce grande poder de sedução, principalmente entre as mulheres – o que é relevante no caso da categoria de assistentes sociais majoritariamente composta por mulheres – pela crença de maior liberdade para dispor do seu próprio tempo, defi nir a jornada de trabalho, conciliar tarefas domésticas e de cuidado com fi lhos, compatibilizar trabalho produtivo e reprodutivo etc. Contudo se, por um lado, o teletrabalho no ambiente doméstico traz aspectos positivos para quem mora distante do local de trabalho e enfrenta grandes congestionamentos em conduções lotadas e precárias; por outro lado, como inúmeras pesquisas demonstram, além de realizar-se emespaços ina- dequados (a casa não foi feita para o trabalho), transfere custos às/aos pró- prias/os trabalhadoras/es (internet, pacote de dados, celular, manutenção do computador, energia elétrica, mobiliário etc.); cria novas formas de vigilância E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 103 e controle do trabalho; provoca isolamento social; exaustão física e mental, adoecimento e sofrimento, como já pontuado ao longo da análise. E, num aparente paradoxo com a narrativa dominante, cria maior impacto exatamente sobre as mulheres, pois na divisão sociossexual/patriarcal do trabalho são elas (somos nós) que assumem a responsabilidade pelas atividades reprodutivas no espaço doméstico, a exemplo do cuidados com crianças, idosos e pessoas doentes; e também como acompanhantes dessas pessoas nos serviços de saúde e nos hospitais, assumindo também a titularidade de benefícios e serviços, por recomendação das políticas sociais e também de assistentes sociais, como res- ponsáveis pelas orientações sociais. São as mulheres, mais ainda as mulheres negras, que sofrem maior compressão do tempo de trabalho e tempo da vida privada, como bem analisou Ferreira (2020), em sua importante pesquisa sobre a apropriação do tempo de trabalho das mulheres nas políticas de saúde e as implicações para o processo de reprodução social da classe trabalhadora30. Além disso, é preciso aprofundar o debate sobre o teletrabalho do ponto de vista do signifi cado do trabalho como criação coletiva, elemento vital e fonte de enriquecimento da sociabilidade humana. Nesse sentido há um retrocesso na disseminação do trabalho em domicílio ou teletrabalho, pois essas formas de trabalho rompem com a divisão entre trabalho público e vida privada, histórica conquista da luta da classe trabalhadora desde o século XIX, como magistralmente descreveu Marx em O Capital. Essas modalidades remotas de trabalho, e também o hibridismo em curso, promovem a disciplinarização da vida das/os trabalhadoras/es, colocando-as/ os inteiramente disponíveis ao trabalho, sem direito “à desconexão. Além disso, rompem com a sociabilidade coletiva no trabalho, criam uma cisão entre trabalhadores/as com diferentes condições de trabalho e vínculos con- tratuais (terceirizados, pejotizados, intermitentes, fl exíveis, intermediados por microempresas, entre outros), impondo-se a lógica da concorrência e do individualismo, tão cara à ideologia do empreendedorismo em curso. E por último, mas não menos relevante, o teletrabalho e o trabalho no local de moradia respondem à imediaticidade da vida, enfraquecendo projetos de longo prazo e alimentando a constituição do sujeito neoliberal, nos termos de Dardot e Laval (2016), quando se referem ao neoliberalismo como a nova razão do mundo. Nesse contexto, assistentes sociais e demais trabalhadores/as no seu trabalho de implementação de políticas sociais e entrega de serviços e bene- fícios sociais a segmentos diversifi cados da classe trabalhadora, majorita- riamente mulheres e negras, para além de uma avaliação pessoal de custo/ benefício do teletrabalho, precisam analisar criticamente o impacto coletivo e institucional do trabalho mediado por dispositivos digitais no isolamento 30 Para aprofundar a análise sobre os efeitos na captura do tempo de trabalho e erosão de direitos no quadro mais geral da fl exibilização capitalista, consultar Barbosa (2020, p. 69-104). E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 104 da casa, também em termos do impacto na qualidade dos serviços prestados e na natureza de um trabalho dialógico assentado na interação entre sujeitos, como é o trabalho profi ssional de assistentes sociais. Vive-se no Brasil o calor dos resultados da eleição mais decisiva para nosso país desde o fi nal da ditadura e dos desafi os do início do governo Lula, sob impacto da tentativa do golpe de 8 de janeiro/2023, pelas forças da extrema direita fascista no Brasil. Diante dos monumentais desafi os para construir um governo democrático, que consiga não apenas desfazer a terra arrasada herdada do desgoverno anterior, mas avançar nos compromissos históricos com as neces- sidades e direitos da maioria da população, a categoria de assistentes sociais tem muito a contribuir nessa caminhada, a partir de uma multiplicidade de espaços e alianças com organizações e movimentos coletivos da classe trabalhadora. Por isso, a luta pela qualifi cação e capacitação continuadas, por espaços insti- tucionais coletivos de estudo e de refl exão, aprofundamento do debate sobre as concepções que orientam as práticas e os efeitos por elas produzidos nas condi- ções de vida dos usuários, é parte da luta pela melhoria das relações de trabalho e do direito da população ao acesso a serviços sociais públicos de qualidade. Quanto mais qualifi cados/as as/os trabalhadoras/es sociais, menos sujei- tos/as a manipulações e mais preparadas/os para enfrentar o assédio institu- cional como estratégia de gestão do trabalho, bem como os jogos de pressão política e de cooptação nos espaços institucionais. Para além do conhecimento e domínio das ferramentas informacionais e digitais, é fundamental enfrentar o produtivismo e o tecnicismo, e voltar a investir no trabalho socioeducativo e de mobilização popular, retomando a ação coletiva com os sujeitos nos seus territórios de vida e de trabalho. Assim, é preciso aprofundar a refl exão e o debate sobre as estratégias para tensionar a apropriação das tecnologias digitais na perspectiva de fortalecimento dos valores ético-políticos que orientam o projeto profi ssional. Para isso, é decisivo que as/os profi ssionais não se deixem submeter acri- ticamente às imposições do poder institucional, mas saibam negociar os termos dos acordos estabelecidos, seus limites e possibilidades técnicas e éticas no uso dos diferentes dispositivos e ferramentas do trabalho. O que é possível ou impossível realizar na modalidade de teletrabalho ou home offi ce; a possível combinação de formas presenciais e remotas (hibridismo?); a incorporação de novos processos de trabalho mediados por plataformas e sistemas de auto- mação e digitalização; e a defi nição de quais são as condições exigidas para cada uma dessas situações de trabalho, são prerrogativas profi ssionais a serem negociadas com empregadores no espaço institucional e com as entidades de fi scalização e representação de trabalhadores/as, no sentido de ter garantidas as condições éticas e técnicas, qualidade no atendimento, sigilo profi ssional, respeito aos direitos de usuárias/os e de trabalhadoras/os. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 105 REFERÊNCIAS ABÍLIO, Ludmila C. Uberização: a era do trabalhador just in time? Estudos Avançados. São Paulo, USP, v. 34, n. 98, p. 111-126, jan./abr., 2020. ABÍLIO, Ludmila C. Uberização, autogerenciamento e o governo da vira- ção. Revista Margem Esquerda. São Paulo: Boitempo, n. 36, p. 55-69, jun. 2021. ALVES, Giovanni. Gestão de metas e serviço público. A degradação do tra- balho no Brasil neoliberal. Bauru: RET/ Projeto Editorial Práxis, 2021. ANTUNES, Ricardo . O privilégio da servidão – o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018. ANTUNES, Ricardo. Coronavírus: o trabalho sob fogo cruzado. São Paulo: Boitempo, 2020. ANTUNES, Ricardo. Capitalismo pandêmico. São Paulo: Boitempo, 2022. ARAUJO, Alison Cleyton de. A mercadorização dos serviços sociais públicos: tendências contemporâneas e infl exões no exercício profi ssional. Recife/PE, Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, UFPE, 2022, mimeo. ASSIS, Eliane S. de. A fundamental radicalização e racialização da ques- tão social para um projeto profi ssionalantirracista no Serviço Social. São Paulo, Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, PUC-SP, 2022. BARBOSA, Rosangela N. de C. Trabalho e mediação digital. Captura do tempo e erosão de direitos. In: MAURIEL, Ana Paula Ornelas et al. (org.). Crise, ultraneoliberalismo e desestruturação de direitos. Uberlândia/Minas Gerais: Ed Navegando, 2020, p. 69-104. BEHRING, Elaine Rossetti. Fundo público, valor e política social. São Paulo: Cortez, 2021. BRAGA, Ruy. A política do precariado – do populismo à hegemonia lulista. São Paulo: Boitempo, 2012. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 106 DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo – ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016. DANTAS, Marcos. Palavra-chave: internet. Livreto Armas da Crítica. São Paulo, Boitempo, 2022a. DANTAS, Marcos. Informação, trabalho e capital. In: DANTAS, Marcos et al. (org.). O valor da informação – de como o capital se apropria do traba- lho social na era do espetáculo e da internet. São Paulo: Boitempo, 2022b, p. 17-96. DANTAS, Marcos et al. (org.). O valor da informação – de como o capital se apropria do trabalho social na era do espetáculo e da internet. São Paulo: Boitempo, 2022b. FERREIRA, Verônica M. Apropriação do tempo de trabalho das mulheres nas políticas de saúde e de reprodução social – uma análise de suas tendencias. Recife: Editora UFPE., 2020 GROHMANN, Rafael. Trabalho plataformizado e luta de classes. In: Revista Margem Esquerda. São Paulo: Boitempo, n. 36, p.40-46, jun. sem 2021a. GROHMANN, Rafael (org.). Os laboratórios do trabalho digital São Paulo: Boitempo, 2021b. HUWS, Úrsula. A formação do cibertariado – trabalho virtual em un mundo real. São Paulo: Boitempo, 2017. IAMAMOTO, Marilda V. Serviço Social em tempo de capital fetiche. Capital fi nanceiro, trabalho e questão social. São Paulo: Cortez, 2011. KONICZ, Tomasz. As origens da crise atual: visão geral das causas sistêmi- cas e do curso histórico da crise do sistema mundial do capitalismo tardio. Revista Margem Esquerda. São Paulo: Boitempo, n. 35, p.33-39, dez./2020. MARX, K. O capital. Crítica da economia política. Livro 1. O processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013. MARX, K. Capítulo Inédito do Capital. Resultados do processo de produção imediato. Porto (Portugal): Publicações Escorpião, 1975. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 107 MARX, Karl. Grundrisse. Manuscritos econômicos de 1857-1858. Esboços da critica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2011. MÉSZÁROS, István. A crise estrutural do capital. São Paulo: Boitempo, 2011. NETTO, J.P. Capitalismo monopolista e Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2009. NOVAES, Henrique; DAGNINO, Renato. O fetiche da tecnologia. Revista Organizações & Democracia. Marília/SP: Editora da Unesp, v. 5, n. 2, p. 189-209, 2004. PRAUN, Luci; ANTUNES, Ricardo. A demolição dos direitos do trabalho na era do capitalismo informacional-digital. In: ANTUNES, Ricardo (org.). Uberização do trabalho, trabalho digital e indústria 4.0. São Paulo: Boitempo, 2020, p. 179-192. RAICHELIS, Raquel. Proteção social e trabalho do assistente social: tendên- cias e disputas na conjuntura de crise mundial. Serviço Social & Sociedade. São Paulo: Cortez, n. 116, p. 609-635, out./dez. 2013. disponível em https:// www.scielo.br/j/sssoc/a/nWD4BRgjxy4H54tJtXyxVst/?format=pdf&lang=pt Acesso em: 14 nov. 2022. RAICHELIS, Raquel. Serviço Social: trabalho e profi ssão na trama do capita- lismo contemporâneo. In: RAICHELIS, Raquel; VICENTE, Damares; ALBU- QUERQUE, Valéria (org.). A nova morfologia do trabalho no Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2018. RAICHELIS, Raquel. Atribuições e competências profi ssionais revisitadas: a nova morfologia do trabalho no Serviço Social. In: CFESS (org). Atribuições privativas do/a assistente social em questão – volume 2. Brasília: CFESS, 2020. Disponível em: http://www.cfess.org.br/arquivos/CFESS202-Atribui- coesPrivativas-Vol2-Site.pdf Acesso em: 21 jul. 2022. RAICHELIS, Raquel. Serviço social, trabalho e tecnologia – o trabalho pro- fi ssional em tempos pandêmicos. In: RAICHELIS, R. et al. (org). Nova-velha morfologia do trabalho no Serviço Social – Tics e Pandemia. São Paulo: EDUC, 2022, p. 33-58. E-book gratuito. Disponível em: https://www.pucsp. br/educ/livro?id=605. Acesso em: 20 jan. 2023. RAICHELIS, Raquel;VICENTE, Damares; VIEIRA, Nuria P. (org.). Nova-ve- lha morfologia do trabalho no Serviço Social – Tics e Pandemia. São Paulo: E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 108 EDUC, 2022. E-book gratuito. Disponível em: https://www.pucsp.br/educ/ livro?id=605 Acesso em: 20 jan. 2023. RAICHELIS, Raquel;ARREGUI Carola C. O trabalho no fi o da navalha: nova morfologia no Serviço Social em tempos de devastação e pandemia. Serviço Social & Sociedade. São Paulo: Cortez, n. 140, p. 134-152, jan./abr. 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/sssoc/a/MVGcWc6sHCP9w- FM5GHrpwQR/?format=pdf Acesso em: 21 jul. 2022. SANTOS, Clenivalda F. dos et al. Informação, conhecimento e poder: notas sobre a incorporação das TICs no trabalho de assistentes sociais. In: RAICHE- LIS, R. et al. orgs. Nova-velha morfologia do trabalho no Serviço Social – Tics e Pandemia. São Paulo: EDUC, 2022, p.59-82. E-book gratuito. Disponível em: https://www.pucsp.br/educ/livro?id=605. Acesso em: 20 jan. 2023. TAUILE, José Ricardo. Para (re) construir o Brasil contemporâneo. Trabalho, tecnologia acumulação. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001. TONELO, Iuri. Uma nova reestruturação produtiva pós-crise de 2008. In: ANTUNES, Ricardo (org.). Uberização, trabalho digital e indústria 4.0. São Paulo: Boitempo, 2020. VALENTE, Jonas C. L. Trabalho e Tecnologias da Informação e Comunicação: para uma crítica da noção de trabalho digital e uma abordagem marxista do fenômeno. In: Alves, G. (org.). Trabalho e valor. O novo (e precário) mundo do trabalho no século XXI. Marília/SP: Projeto Editorial Práxis, 2021, p.162-189. VICENTE, Damares; MONTEIRO, Claudia L. (2022) Sofrimentos e des- gastes: apontamentos sobre o trabalho de assistentes sociais mediado pelas Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs). In: RAICHELIS, R. et al. (org.). Nova-Velha morfologia do trabalho no Serviço Social – Tics e Pandemia. São Paulo: EDUC, 2022, p.117-137. E-book gratuito. Disponível em: https://www.pucsp.br/educ/livro?id=605. Acesso em: 20 jan. 2023. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão AS FORMAS DE SER DO TRABALHO NO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO: do Taylorismo- Fordismo à acumulação fl exível e digital31 Ricardo Antunes Luci Praun DOI: 10.24824/978652515286.8.109-122 Desde que a vida humana começou a se desenvolver, o trabalho confor- mou-se como atividade imprescindível e efetivada pela criação cotidiana de bens de uso socialmente necessários para a própria sobrevivência da sociedade. O mundo em que vivemos, podemos afi rmar, é um mundo transformado pelo tra- balho, atividade vital capaz de criar e recriar cotidianamente a vida em comum. Foi recuperando esse ponto central para o ser humano que o fi lósofo György Lukács (2013) fez a seguinte assertiva: o trabalho tem sempre, em alguma medida, uma dimensão consciente e se insere na gênese do processo de humanização do ser. Para tanto, trabalhar pressupõe um conhecimento concreto, ainda que jamais perfeito, de determinados fi ns e meios para sua realização. O ponto de partida de Lukács é a concepção aristotélica, que distingui dois componentes centrais no trabalho: o pensar e o produzir. O primeiro concebe a fi nalidade e os meios para realizá-lo. O segundo realiza a concreção do fi m pretendido. Há, por isso, um ineliminável vínculo entreação e cons- ciência, trabalho e teleologia, que interagem de modo recíproco no processo de produção e reprodução social (ANTUNES, 2010). Dessa forma, em um processo recíproco e interrelacional, ao mesmo tempo em que os indivíduos transformam a natureza exterior, alteram também a sua própria natureza, convertendo o trabalho social em elemento central do desen- volvimento da sociabilidade humana e de sua emancipação (MARX, 2013). Essa dinâmica assumida pelo trabalho, capaz de entrelaçar o fazer de uns e outros, pode ser percebida, entre outros aspectos, nas descobertas que alinhavam a trajetória humana ao longo de milhões de anos: do uso e controle do fogo, da ponta de lança feita da madeira das árvores ou de pedra pelos 31 Este texto é uma versão ampliada de artigo publicado sob o título “Transformações do trabalho no mundo contemporâneo” no livro Engenharia do trabalho: saúde, segurança, ergonomia e projeto, organizado por D. Braatz, R. Rocha e S. Gemma (Ed. Ex Libris Comunicação, 2021, p. 41-53). E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 110 nossos antepassados, às possibilidades abertas pelo desenvolvimento da linguagem, dos artefatos mais sofi sticados, do mapeamento genético, das tec- nologias digitais. Quanto mais complexa a práxis social, maior sua simbiose com uma organização do trabalho fundada na cooperação. Mais profundas e complexas também as necessidades humanas que dela se desdobram. Tratar a questão sob esta perspectiva, entretanto, não deve nos levar a concluir que seja essa uma articulação, por si só, geradora de condições e situações progressivamente humanizadoras, provedoras da vida tanto no que se refere ao que lhe é exigido materialmente como subjetivamente. Trabalhar, então, é uma atividade vital que se realiza no mundo. Em seu processo de transformação, esse mundo, criado e recriado pelos seres huma- nos, foi assumindo ao longo da história diferentes e mais complexas formas de produção e reprodução em sociedade. O capitalismo é uma dessas formas. E sob este modo de produção, o trabalho assume fi nalidades, confi gurações e sentidos particulares. É a partir da constituição desse modo de produção que o trabalho adquire uma “segunda natureza”, ao converter-se em uma mercadoria especial, a força de trabalho, que generalizou o assalariamento (ANTUNES, 2010). Embora o trabalho assalariado nascente assumisse a aparência de liberdade (acentuada especialmente quando comparado aos trabalhos escravo e servil ante- riores), ele se tornou, em verdade, no único meio de sobrevivência existente para mulheres e homens despossuídos do campo e das cidades, desprovidos dos meios de produção e de riqueza. Compreender criticamente suas principais confi gura- ções, consiste em parte dos desafi os cruciais da humanidade neste século XXI. Os objetivos deste texto caminham nesse sentido. Buscamos, ao resgatar elementos fundamentais das formas de organização do trabalho predominantes entre o século XX e XXI, contribuir para uma perspectiva crítica sobre os processos de trabalho, suas fi nalidades e sentidos. Por isso, em um primeiro momento apresentamos as características fundamentais do taylorismo-for- dismo, padrão de acumulação predominante na maior parte do século XX, para em seguida, analisar o advento do toyotismo, da acumulação fl exível e da explosão do trabalho digital no mundo do trabalho contemporâneo. No conjunto, mais que descrever as características dessas formas de orga- nização do trabalho, pretende-se problematizá-las, questionando a perspectiva que as apresenta como meros instrumentos de gestão, dissociados da dinâmica geral da sociedade capitalista. As formas de organização e de gestão do trabalho devem ser compreendidas, neste contexto, sempre como parte da gestão do processo de trabalho. Assim sendo, envolvem, do ponto do gestor, conhecer o trabalho executado com vistas a controlá-lo e mensurá-lo na busca incessante por cortar custos e ampliar sua produtividade. Uma questão chave dos modelos E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 111 de gestão é, portanto, desvendar quantos trabalhadores e trabalhadoras, sob quais condições, incluindo o maior ou menor uso de tecnologias, são necessários para que uma dada atividade ou tarefa seja executada em menor tempo e custo possível. Não à toa a precariedade atravessa e marca o mundo do trabalho desde sempre, ainda que se apresente com contornos particulares nas últimas décadas. Identifi car a importância e repercussões da precarização do trabalho na vida de mulheres e homens, dentro e fora dos locais de trabalho, deve nos exigir uma capacidade crítica que não se desvincule do desejo de mudar a realidade. Esse também se constitui como um dos objetivos desse texto. Tempo cronometrado, produção cadenciada A expansão da atividade fabril, ao longo do século XIX, foi responsável pela absorção de um amplo contingente de trabalhadores e trabalhadoras. Expulsos das áreas agrícolas, homens e mulheres deslocaram-se massivamente para os centros urbanos. Parte desse contingente foi absorvida pela indústria, em plena expansão no continente europeu. Adultos e crianças, submetidos a jornadas que extrapolavam facilmente as doze horas diárias, passaram a trabalhar em espaços comuns. A atividade artesanal, já alterada nos séculos anteriores sob a manufatura, aos poucos foi se reconfi gurando frente à inserção das máquinas no processo produtivo. Os ofícios, caracterizados pelo domínio e habilidade de produzir objetos do início ao fi m, aos poucos foram cedendo espaço para um tipo de atividade parcial, parcelar (PRAUN, 2018a). A partir das últimas décadas do século XIX, mudanças expressivas nas formas de organização do trabalho e da produção foram incorporadas. O acirramento da concorrência entre empresas, com atuação cada vez mais internacionalizada, em parte já convertidas em sociedades anônimas, associado ao desenvolvimento tecnológico e da malha ferroviária, impulsionou o que fi cou conhecido no início do século XX como “administração científi ca” do trabalho ou, simplesmente, taylorismo. A expressão taylorismo é uma referência direta ao sistema de gerencia- mento do trabalho e da produção proposto por Frederick Winslow Taylor (1856- 1915). Parte importante de suas ideias foi publicada sob o título Princípios da Administração Científi ca, em 1911. Este trabalho, assim como outros manus- critos produzidos pelo autor, resultou da sistematização de experiências desen- volvidas pelo próprio Taylor ao longo de mais de 20 anos (PRAUN, 2018a). Neste período, Taylor trabalhou em fábricas, inicialmente em atividades operacionais, mas na maior parte do tempo, como chefe. Em seu convívio com os trabalhadores, concluiu que enquanto os velhos operários das ofi cinas possuíam conhecimento e destreza sobre seus ofícios, assumindo, ainda que E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 112 parcialmente, o controle sobre o processo e tempo de execução do trabalho, faltava à gerência o conhecimento sobre como controlar e potencializar a pro- dutividade do trabalho ao máximo. Suas proposições visavam, portanto, inverter essa lógica, de forma que “cada homem e cada máquina” pudessem “oferecer o melhor rendimento possível” à empresa (TAYLOR, 1990, p. 26). Imbuído deste propósito, Taylor concentrou esforços no sentido de construir o que ele próprio denominou de gerência científi ca (PRAUN, 2018a; ANTUNES; PINTO, 2017). Ancorada na premissa da racionalização dos processos produtivos, a gerência científi ca passou a operar tendo como eixo ordenador o desenvolvi- mento de formas de organização da produção que possibilitassem alto grau de controle do trabalho. Taylor, ao ter como alvo inicial o sistema de tarefas, her- dado do trabalho artesanal ainda vigenteem muitas ofi cinas daquele período, esbarrou inicialmente em uma questão essencial das relações capitalistas de produção: o trabalho como um tipo particular de mercadoria, que não se constitui em um produto específi co, mas decorre de uma relação na qual o/a trabalhador/a, livre, coloca à venda sua única posse, sua força de trabalho. Não por acaso, uma das premissas que sustenta o sistema proposto por Taylor é a da transferência de todo o processo de elaboração, assim como o planejamento da execução das atividades, passo a passo, para a gerência. Interessa à gerência científi ca apoderar-se da engenhosidade do trabalho, de um tipo de conhecimento que não consta nos manuais, sendo originado e alimentado pelos desafi os impostos pelas situações de trabalho. Um conhe- cimento, portanto, que é talhado pelo fazer cotidiano, síntese da experiência acumulada e construída pelo aprendizado compartilhado entre a classe-que- -vive-do-trabalho (ANTUNES, 2015). O controle do conhecimento do trabalho, ponto nevrálgico do taylorismo, passa a viabilizar, portanto, o prévio planejamento do conjunto de ações a serem desenvolvidas pelos/as operários/as. Frente ao que resta de autonomia do trabalho, impõe-se os gestos calibrados com seus movimentos aprisionados, monótonos, submetidos a um conjunto de “regras, números, leis e fórmulas” (BRAVERMAN, 1977, p. 103). A norma geral é a da conversão das atividades antes desempenhadas pelos trabalhadores em tarefas simplifi cadas ao extremo e esvaziadas ao máximo, portanto, de seu sentido minimamente criativo. Relatando sobre uma de suas experiências, na Bethlehem Steel Company, Taylor salienta que um dos requisitos para um indivíduo que queira carregar lingotes de ferro como ocupação regular, é ser tão estúpido e fl eumático que mais se asse- melhe, em sua constituição mental a um boi [...]. Um homem de reações vivas e inteligentes é, por isso mesmo, inteiramente impróprio para tarefa tão monótona (1995, p. 53). E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 113 No início do século XX, as ideias de Taylor contaram com grande receptivi- dade não somente nos Estados Unidos, onde se desenvolveram incialmente, mas nos demais países industrializados ou em processo de industrialização. Tal situa- ção, conforme já assinalamos anteriormente, deve ser compreendida no contexto da expansão da indústria e ampliação de sua capacidade produtiva em meio ao desenvolvimento tecnológico e ao acirramento concorrencial (PRAUN, 2018a). Em 1910, o taylorismo se adaptaria com perfeição às linhas de montagem da Ford. Associados às esteiras de produção, capazes de fi xar o trabalhador, ao longo da jornada, em seu posto de trabalho, os princípios da gerência científi ca, articulados ao fordismo, assumiram sua expressão mais profunda. O trabalho simplifi cado, repetitivo, monótono é redimensionado na cadên- cia, no fl uxo contínuo e cronometrado das linhas de produção mecanizadas. Entrelaça-se a esse processo o desenvolvimento das pesquisas e inovações no campo da siderurgia, assim como daquelas relacionadas à evolução dos motores à combustão interna, às quais Henry Ford (1862-1947) dedicou-se com interesse particular (PRAUN, 2018b). Decorrem desse ambiente histórico, portanto, as alterações na organiza- ção do trabalho e produção, adotadas no início do século XX, na Ford Motors Company. Em sua fábrica localizada em Detroit, Estados Unidos e fundada em 1903, Ford desenvolveu um sistema organizado com base na fi xação dos operários em seus postos de trabalho. Conforme assinalou em suas memórias, “nenhum operário deve ter mais que um passo a dar”, devendo sempre fazer “uma só coisa com um só movimento” (FORD, 1954, p. 68). Inspirado pelo “sistema de carretilhas aéreas” utilizado nos matadouros de Chicago, Ford passa a adotar, a partir de 1913, esteiras ou trilhos capazes de mover as peças diante de operários dispostos ao longo das diferentes etapas do processo produtivo (idem, p. 71). Ao alcance das mãos deveriam estar também os ins- trumentos e a matéria-prima necessários para a execução da tarefa. A adoção deste conjunto de procedimentos, conforme relatou Ford (1954), fez com que, em 1914, a montagem de um motor de carro, por exem- plo, antes realizada por um único operário, passasse a ser executada por 84 trabalhadores, evidenciando assim o alto grau de divisão do trabalho propor- cionado pelo sistema. O fl uxo contínuo e cronometrado das linhas móveis de produção, alimentadas por peças padronizadas, passa assim a estabelecer uma cadência na qual os corpos, impelidos a desencadearem movimentos simples e repetitivos, entram em sintonia com o ritmo e a intensidade imposta pela maquinaria. A produtividade e intensidade do trabalho atingem patamares nunca experimentados antes (PRAUN, 2018b). Não à toa, os primeiros a resistirem à adoção do sistema de produção taylorista-fordista foram os antigos operários especializados. Estes, entretanto, E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 114 aos poucos, foram sendo substituídos por outros que, incorporavam-se às linhas de montagem atraídos por uma diária de trabalho média de valor supe- rior àquela praticada pelas demais empresas. Tal situação, temporária, era viabilizada pela alta produtividade atingida pela fábrica. Em 1921, “pouco mais de metade dos automóveis do mundo (53%)” vinham “das fábricas Ford. O capital da empresa, que era de 2 milhões de dólares em 1907, passa a 250 milhões em 1919, graças aos lucros incessan- tes” (GOUNET, 1999, p. 20). Ganhava forma, então, a ideia perseguida por Ford desde antes de fundar sua própria empresa: produzir em larga escala, produtos padronizados, de forma a impactar nos custos fi nais da mercadoria, impulsionando o consumo massifi cado. O fordismo, associado aos princípios da gerência científi ca, havia rompido os muros da fábrica Ford, convertendo-se em padrão de acumu- lação de capital e de sociabilidade prevalente até os anos 1970. Esteve, nesse sentido, na base, a partir dos anos 1930, de um novo ciclo mundial de expansão da industrialização. Esta, por sua vez, dirigida sobretudo às regiões da periferia do capitalismo, a exemplo da América Latina, onde a presença acentuada das poucas e poderosas corporações do ramo automo- tivo tornou ainda mais evidente o caráter dependente e subordinado das economias locais. A profunda harmonia alcançada entre taylorismo e fordismo, observada inicialmente nas linhas de montagem das fábricas de Detroit, fez-se presente no cotidiano de gerações de trabalhadores. A ordem de sua expansão, no entanto, passou a corresponder à grandeza da acentuada insatisfação, fadiga, sofrimento e adoecimento entre aqueles que vivem de seu trabalho, tal como descreveu Simone Weil: O primeiro detalhe que, cada dia, torna a servidão sensível, é o relógio de ponto. O caminho da casa à fábrica está dominado pelo fato de que é preciso chegar antes de um segundo mecanicamente determinado. Pode-se chegar cinco ou dez minutos adiantado; o escoamento do tempo, aparece, neste caso, como algo sem piedade que não deixa nenhum lance ao acaso. Num dia de operário, é o primeiro golpe de uma regra cuja brutalidade domina toda a parte da vida passada entre as máquinas; o acaso não tem direitos à cidadania na fábrica (1996 [1936], p. 157). Mas, situações como essas, por outro lado, auxiliadas pela alta concen- tração de operários, típica das fábricas organizadas aos moldes do tayloris- mo-fordismo, também se converteram no pós-Guerra em combustível para o fortalecimento das lutas e das entidades representativas da classe trabalhadora em diferentes países. Dessas lutas, assim como daquelas travadas desde o E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DASCONDIÇÕES DE VIDA 115 século XIX, resultou um conjunto de direitos sociais e do trabalho que, na virada para o século XXI, foram sendo progressivamente desmontados. O esgotamento do padrão taylorista-fordista, que não pode ser com- preendido sem considerá-lo articulado às mudanças desencadeadas no interior do capitalismo, à exemplo da acentuada fi nanceirização da economia, da progressiva concentração de riquezas, do acirramento da concorrência entre as corporações, dos novos patamares de desenvolvimento tecnológico, abriu o caminho para um profundo processo de reestruturação produtiva, cujos entraves impostos pela “rigidez” taylorista-fordista deveriam ser, conforme seus defensores, suplantados pela máxima “fl exibilidade”. Essas alterações, com forte repercussão no mundo do trabalho, fi zeram-se também acompanhadas da ascensão do neoliberalismo e de sua incorporação e tradução nas políticas de Estado, cada vez mais subordinadas aos interesses do “mercado”. Sob o neoliberalismo, é instituída uma inversão: a “segurança jurídica” para o “mercado”, essa entidade que invisibiliza as corporações e seus interesses, só se realiza no avanço do desmonte dos direitos sociais e do trabalho outrora conquistados e, em parte, expressos em legislação protetora. Em nome da segurança das corporações é a medida da insegurança generali- zada para trabalhadores e trabalhadoras, tal como exemplifi cam as “reformas” previdenciárias e trabalhistas (PRAUN, ANTUNES, 2020). Flexibilidade como regra e expansão do trabalho digital Os sinais do esgotamento do padrão taylorista-fordista começaram a soar ao fi nal da década de 1960. Anunciavam o fi m de um longo ciclo de cresci- mento da economia mundial, balizado por políticas locais de perfi l keynesiano, e estruturado em base à produção seriada e em larga escala. Indicadores de queda das taxas de lucro das grandes corporações, do refreamento do con- sumo, da restrição dos investimentos em produção, juntamente à explosão do desemprego, evidenciaram a chegada da crise que avançou sobre a década seguinte. O padrão taylorista-fordista de acumulação de capital, vigente na maior parte do século XX, já não respondia às necessidades de reprodução do capital (HARVEY, 1992; ANTUNES, 2010, 2015; PRAUN, 2018a). Uma parcela de intelectuais, sobretudo aquela que observou o curso dos acontecimentos a partir exclusivamente dos países centrais, enxergou equivocadamente, tanto na crise como no desenvolvimento tecnológico então alcançado, o advento de novas experiências alternativas, projetando novos e melhores tempos para a classe trabalhadora. Afi nal, diziam, se o trabalho fora caracterizado, ao longo do século XX, como monótono, intensivo e alie- nante, a crise abriria o caminho para uma sociedade onde o labor poderia ser E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 116 enfi m valorizado, dadas as novas tecnologias digitais e as possibilidades de ampliação do tempo livre (ANTUNES, 2010, 2015). Foi da experiência da Toyota japonesa que vieram as principais alterações nas formas de organização do trabalho e da produção, implantadas especial- mente a partir da década de 1980 e adaptadas às diferentes corporações e loca- lidades do globo. Longe das previsões otimistas, as mudanças que impactaram o mundo do trabalho e a sociabilidade construída neste contexto inauguraram um período de acentuada precarização do trabalho. Em oposição aos tantos aspectos negativos do taylorismo-fordismo, o toyotismo, a acumulação fl exível e a expansão do capitalismo informacional-digital desenvolveram-se no uni- verso onde se consolidou nova trípode destrutiva, dada pelo neoliberalismo, reestruturação produtiva permanente e pela hegemonia do capital fi nanceiro. O trabalho relativamente contratado e regulamentado, resultante de uma secular luta operária por direitos sociais, foi sendo substituído pelas diversas formas de “empreendedorismo”, “cooperativismo”, “trabalho voluntário”, “trabalho atípico”, “intermitente”, acentuando a superexploração e confi gu- rando uma tendência crescente à precarização estrutural da força de trabalho em escala global (ANTUNES, 2018, p. 169). Esse processo, que ganha projeção, sobretudo nos países europeus, a partir das décadas de 1970-80, espalha-se no Brasil na década seguinte. Nos anos 1990, as medidas de fl exibilização do trabalho avançam no chão de fábrica por meio da adoção dos “times” de trabalho, da polivalência e multifuncionalidade, assim como das metas progressivas e avaliações por desempenho (ANTUNES, 2019; BIHR, 1998; PINTO, 2011; PRAUN, 2016a). São também introduzidas, entre outras medidas, as práticas de fl e- xibilização da jornada de trabalho, a exemplo do banco de horas e de dias. A ampliação do contingente de trabalhadores e trabalhadoras terceirizados, expressão fundamental dos processos de reestruturação produtiva que avança desde a década de 1990 tanto no setor privado como no público (DRUCK et al., 2018). Vivenciamos, desde então, uma ampliação exponencial de novas (e velhas) modalidades de (super)exploração do trabalho, desigualmente impos- tas e globalmente combinadas por uma nova divisão internacional do traba- lho. Esses novos arranjos, tecidos pelos processos de reestruturação produtiva e pelo espraiamento do neoliberalismo, em interface com a fi nanceirização crescente da economia, encontram convergência no progressivo desmante- lamento dos sistemas de proteção social, repercutindo, ainda que de forma diferenciada, em todos os países do mundo. Da China ao México. Dos EUA à Índia. Do Brasil à Coreia. O avanço de condições e situações de trabalho ultrajantes compõe a trama da globalização neoliberal. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 117 Nesse universo da nova “empresa fl exível”, “liofi lizada”32, alteraram-se, em muitos pontos, os mecanismos do padrão de acumulação do capital. E isso teve consequências, também, na própria subjetividade do/a trabalhador/a e nas distintas manifestações do fenômeno da alienação. Quem conhece uma fábrica da era taylorista-fordista e observa as atuais percebe que a diferença é visível no seu desenho espacial, de trabalho, de organização técnica e de controle do trabalho. Não há mais as divisórias. Não há o restaurante do “peão” e o da gerência. É uma fábrica que seduz com o “encantamento” de um espaço de trabalho supostamente mais “participa- tivo”, “envolvente” e menos despótico, ainda que apenas na aparência. Em verdade, o toyotismo converte trabalhadores e trabalhadoras em déspotas de si mesmos (ANTUNES, 2015). A empresa fl exível só pode existir, então, com base no envolvimento, na expropriação do intelecto do trabalho. Por isso passou a ser comum exigir-se não apenas a execução de variadas tarefas (operação e manutenção dos equi- pamentos, limpeza e organização do local de trabalho, controle de qualidade etc.), mas também a responsabilidade quanto às sugestões de melhorias nos processos de maneira a cortar estoques e elevar a produtividade. Danièle Linhart (2000), ao tratar das mudanças no mundo do traba- lho, destacou o que denominou como individualização, mecanismo capaz de impulsionar a competição e favorecer à constituição de um ambiente de trabalho que pressiona, de forma difusa, para a adesão às regras do jogo. Pesquisadoras como Venco e Barreto (2010, p.5) observam como esse “contexto de instabilidade confi gura-se como campo fértil para a instalação de patologias do medo, cujas características de angústia frente às incertezas são equivalentes às vivenciadas pela situação de desemprego” (2010, p.5). Concordando com elas, destacamos o quanto, este ambiente hostil tem sido particularmente perverso com a juventude trabalhadora, desafi ada a encarar um mundo onde a precariedade dos vínculos, a frágil e instável inserção no mercado de trabalho,além da expansão dos adoecimentos, soma-se às exigências constantes e progressivas, típicas da era neoliberal (ANTUNES; PRAUN, 2015, PRAUN, 2016a). Expressões frenquentes, tais como “sociedade do conhecimento”, “capital humano”, “trabalho em equipe”, “times ou células de produção”, “salários fl e- xíveis, “envolvimento participativo”, “trabalho polivalente e multifuncional”, “colaboradores”, “pj” (pessoa jurídica, denominação falsamente apresentada 32 Como a liofi lização, expressão utilizada por Juan J. Castillo, não é um termo das Ciências Sociais, cabe aqui uma explicação rápida: na Química, liofi lizar signifi ca, em um processo de temperatura baixa, secar as substâncias vivas. O leite em pó é um leite liofi lizado. Nos referimos, portanto, aqui, à secagem da substância viva que, na empresa, é o trabalho vivo, que produz coisas úteis, riqueza material e valor, e que contraditoriamente se reduz no capitalismo. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 118 como “trabalho autônomo”), “empreendedorismo”, “trabalho intermitente”, “trabalho uberizado” ou em “plataformas”, “economia digital”, “trabalho digital”, “trabalho on line”, passaram a fazer parte do novo léxico do mundo do capital corporativo, impondo a todos e todas o novo cronômetro da era digital: as constantes e crescentes “metas”. A técnica, o tempo e o espaço se metamorfosearam: sob a lógica da fi nanceirização, a demolição dos direitos do trabalho tornou-se exigência inegociável (ANTUNES, 2018; 2020). Do mesmo modo, a terceirização, informalidade, fl exibilidade, desem- prego, desemprego por desalento e pauperização amplifi cada assumem forma dramática no cotidiano de trabalhadores e trabalhadoras. Do Japão dos operários encapsulados aos ciberrefugiados que dormem nos cibercafés para procurar um trabalho contingente no dia seguinte. Da Inglaterra para o mundo se esparrama o “contrato de zero hora”, massifi cando o trabalho intermitente e sem direitos. Na Itália assistimos à explosão do trabalho oca- sional, pago por voucher. No Brasil, amplia-se o contingente de trabalhadores e trabalhadoras que, à margem do mercado formal, veem-se obrigados a ganhar a vida com os chamados “bicos”. A separação entre tempo de vida no trabalho e fora do tra- balho, no contexto das formas “modernas” de escravidão digital (ANTUNES, 2018), tornou-se privilégio de poucos. A uberização do trabalho, presente nas plataformas digitais e nos aplicativos, tem se convertido na marca das relações de trabalho na contemporaneidade (ANTUNES, 2020). Não por acaso, nas últimas décadas observamos a explosão dos casos de adoecimentos relacionados ao trabalho. Chama especial atenção a incidência das lesões por esforços repetitivos, os assédios, a fadiga extrema, a exaustão, e sua correlação com o desgaste e adoecimento psíquico (MAENO, 2011; SELIGMANN-SILVA, 2011; FRANCO, DRUCK E SELIGMANN-SILVA, 2010; PRAUN, 2016b: HELOANI, R., BARRETO, M. (2018). As altera- ções vivenciadas no mundo do trabalho, que invadem a vida como um todo, incidem negativamente, objetiva e subjetivamente, sobre a saúde daqueles e daquelas que vivem do seu trabalho. Considerações fi nais As marcas do trabalho, impressas nesse mundo que construímos cotidia- namente, evidenciam os descaminhos de nossa humanidade. Expressam-se, conforme destacamos anteriormente, para a classe-que-vive-do-trabalho, em uma vida submetida e marcada pelo sacrifício, pela exploração e privação, pelas incertezas impostas tanto pelo desemprego, sempre à espreita, como pelos frágeis laços do trabalho fl exibilizado. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 119 Se a fábrica automotiva taylorista-fordista sofreu grandes transforma- ções em sua forma espacial, organizacional e sociotécnica, alterando seus instrumentos de controle do trabalho, com o advento do toyotismo e da acu- mulação fl exível e, mais recentemente, com o mundo informacional-digital, pudemos presenciar, conforme salientamos anteriormente, a eliminação das divisórias, a organização do trabalho em células/equipes/times de trabalho (que propiciaram a introdução da multifuncionalidade e de polivalência), a substituição do cronometro taylorista pelo sistema de metas (que intensifi cou ainda mais a concorrência no interior do espaço produtivo). Essas alterações são apresentadas, comparadas às da fábrica taylorista, com propiciadoras de “mais participação” (ANTUNES, 2010). Mas, essa “maior participação” visava a criar condições mais favoráveis para a desregulamentação e conse- quente perda de direitos do trabalho, o que acentuou a precarização estrutural do trabalho em escala global. Em sua dimensão subjetiva, no universo taylorista-fordista o exercício do despotismo fabril era mais explícito e mais visível. Com o advento do Toyotismo, da acumulação fl exível e do trabalho digital, desenvolveram-se as novas formas de organização e controle do trabalho, sob denominações como “gestão de pessoas”, “colaboradores e colaboradoras”, “empreendedorismo”, voltadas a intensifi car as formas de alienação e coisifi cação, que foram mais interiorizadas, com vistas a torná-las mais “voluntárias”, de modo a converter os trabalhadores e as trabalhadoras em déspotas de si mesmos. Desse modo, as novas engenharias da sujeição tornaram-se ainda mais complexifi cadas, agudizando as formas de alienação e de estranhamento, através das fl exibili- zações, dos ganhos por produtividade etc. (ANTUNES, 2015). Essas transformações, concomitantes ao avanço da privatização dos serviços públicos e do desmonte dos direitos sociais, que extrapolam o espaço e tempo de trabalho, estão na base da ampliação das desigualdades sociais e da degradação da vida como um todo. Dar visibilidade a essas contradições, desvelando a profunda mercantilização e descartabilidade da vida humana sob o capitalismo, é sem dúvida um importante ponto de partida para o desenvolvimento de práticas profi ssionais que sejam também polos de resistência e mudança, capazes de participar da construção de uma sociedade na qual as fi nalidades e sentidos do trabalho estejam voltadas a redesenhar o mundo em direção a uma efetiva vida dotada de sentido. É neste contexto que se insere nossa contribuição. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 120 REFERÊNCIAS ANTUNES, R. (org.). Uberização, trabalho digital e indústria 4,0. São Paulo, Boitempo, 2020. ANTUNES, R. (org.). Riqueza e miséria do trabalho no Brasil IV. São Paulo, Boitempo, 2019. ANTUNES, R. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo, Boitempo, 2018. ANTUNES, R.; PINTO, G. A. (org.). A fábrica da educação. São Paulo: Cortez, 2017. ANTUNES, R. Adeus ao trabalho? Edição comemorativa 20 anos. São Paulo: Cortez, 2015. ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2010. ANTUNES, R.; PRAUN, L., 2015. A sociedade dos adoecimentos no tra- balho”. Revista Serviço Social & Sociedade. São Paulo: Cortez, n. 123, p.407-427, 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pi- d=S010166282015000300407&script=sci_abstract&tlng=pt Acesso em: 25 fev. 2023. BIHR, Alain. Da grande noite à alternativa: o movimento operário europeu em crise. São Paulo: Boitempo, 1998. BRAVERMAN, H. Trabalho e Capital Monopolista. A degradação do trabalho no século XX. Rio de Janeiro: Zahar, 1977. DRUCK, Graça; SENA, J.; PINTO, M. M.; ARAÚJO, S. A terceirização no serviço público: particularidades e implicações. In: IPEA. Terceirização do trabalho no Brasil: novas e distintas perspectivas para o debate / organizador: André Gambier Campos. Brasília: Ipea, 2018, p. 113-141. FORD, H. Os Princípios da Prosperidade. Rio de Janeiro: Editora Brand, 1954. FRANCO T., DRUCK G., SELIGMANN-SILVA, E. As novas relações de trabalho,o desgaste mental do trabalhador e os transtornos mentais no trabalho E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 121 precarizado. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional. São Paulo: FUNDA- CENTRO, v. 35, n. 122, p.229-248, jul.2010. Disponível em: https://www.scielo. br/j/rbso/a/TsQSX3zBC8wDt99FryT9nnj/?lang=pt#. Acesso em: 26 fev. 2023. GOUNET, T. Fordismo e toyotismo na civilização do automóvel. São Paulo: Boitempo, 1999. HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola, 1992. HELOANI, R., BARRETO, M. Assédio moral: gestão por humilhação. Curi- tiba: Juruá Editora, 2018. LINHART, D. O indivíduo no centro da modernização das empresas: um reconhecimento esperado, mas perigoso. Revista Trabalho & Educação. Belo Horizonte: UFMG/NETE, v. 7, p. 24-36, 2000. Disponível em: https://perio- dicos.ufmg.br/index.php/trabedu/article/view/9201 Acesso em: 25 fev. 2023. LUKÁCS, G. Para uma Ontologia do ser social. São Paulo: Boitempo, 2013. MAENO, M. LER e transtornos psíquicos relacionados ao trabalho: faces de uma mesma moeda. In: Laerte Idal Sznelvar. (Org.). Saúde dos bancários. São Paulo: Publisher Brasil, Editora Gráfi ca Atitude Ltda, 2011, p. 207-230. MARX, K. O capital, Vol. I, São Paulo: Boitempo, 2013. TAYLOR, F. W. Princípios de administração científi ca. São Paulo: Atlas, 1995. PINTO, G. A. A máquina automotiva em suas partes. São Paulo: Boi- tempo, 2011. PRAUN, L. Fordismo e Pós-Fordismo. In: MENDES, René (org.). Dicioná- rio de Saúde e Segurança do Trabalhador: Conceitos – Defi nições – Histó- ria – Cultura. Novo Hamburgo (RS): Proteção Publicações Ltda., 2018a, p. 546-548. PRAUN, L. Taylorismo. In: MENDES, René (org.). Dicionário de Saúde e Segurança do Trabalhador: Conceitos – Defi nições – História – Cultura. Novo Hamburgo (RS): Proteção Publicações Ltda., 2018b, p. 1123-1124. PRAUN, L. Reestruturação produtiva, saúde e degradação do trabalho. Cam- pinas: Papel Social, 2016a. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 122 PRAUN, L. A solidão dos trabalhadores: sociabilidade contemporânea e degradação do trabalho. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. São Paulo: USP, v. 19, n. 2, p. 147-160, 2016b. DOI: 10.11606/issn.1981-0490. v19i2p147-160. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/cpst/article/ view/140593. Acesso em: 26 fev. 2023. PRAUN, L.; ANTUNES, R. A demolição dos direitos do trabalho na era do capitalismo informacional-digital. In: ANTUNES, R. Uberização, trabalho digital e indústria. São Paulo: Boitempo, 2020, p. 178-192. SELIGMANN-SILVA, E. Trabalho e desgaste mental: o direto de ser dono de si mesmo. São Paulo: Cortez, 2011. VENCO, S.; BARRETO, M. O sentido social do suicídio no trabalho. Revista Espaço Acadêmico. Maringá: UEM, v. 9, n. 108, p.1-8, 2010,. Disponível em> http://www.assediomoral.org/IMG/pdf/Selma_Venco_e_Margarida_Barreto_O_ sentido_social_do_suicidio_no_trabalho_1_.pdf. Acesso em: 25 fev. 2023. WEIL, S. A Condição Operária. In: BOSI, E. Simone Weil: A condição operária e outros escritos. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1996, p. 75-175. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão GEOGRAFIAS DA REPRODUÇÃO SOCIAL CRÍTICA: fraturas e fronteiras em territórios periféricos durante a crise33 Thiago Canettieri DOI: 10.24824/978652515286.8.123-148 A reprodução da vida nas periferias brasileiras é atravessada por adver- sidades. Investigar a complexa trama da reprodução social nesses territórios é fundamental para se compreender a dinâmica contemporânea da reprodução do capital em crise e as dinâmicas sociais que se desenvolvem. O entendimento do lugar que a periferia ocupa na reprodução das relações sociais capitalis- tas passa por ressaltar um caráter peculiar: uma “integração negativa”, isto é, sua inserção na totalidade concreta do sistema do capital acontece pela exclusão das formas básicas de sociabilidade do valor. Sua característica de incompletude estrutural não é sinal de atraso ou de formas atávicas, mas é parte necessária do moderno sistema produtor de mercadorias: precariedade, informalidade, irregularidade e ilegalidade são condições necessárias para a realização da forma-valor na periferia do capitalismo. As periferias, enquanto espacialização das desigualdades sociais que se manifestam nas contradições da urbanização, não são índices do atraso ou do arcaísmo das economias subalternas, mas estão intrinsecamente conecta- das com o desenvolvimento capitalista em sua escala planetária. A condição de superexploração estrutural implicou a organização de certas estratégias de reprodução social da população periférica que passava pela mencionada complexa trama de ilegalidade, informalidade e precariedade. Esse cenário tende a se agravar no atual contexto: o desenvolvimento da crise do capi- tal signifi cou o aprofundamento e a generalização da condição periférica (CANETTIERI, 2020). Este texto parte da realização de uma pesquisa de inspiração etnográfi ca34 e de anos de ativismo em periferias para analisar a vida cotidiana em territórios 33 Agradeço à Marina Paolinelli, Felipe Magalhães, Lourenço Morais e Taís Clark pela leitura e comentários das ideias esboçadas neste texto. Naturalmente, equívocos, defi ciências e exageros são de minha inteira responsabilidade. 34 Estou convencido de que descrevo, ainda que em linhas gerais, processos sociais abrangentes, que não se limitam apenas ao campo de minha pesquisa, realizado em Belo Horizonte, no âmbito do projeto Disjunções e fraturas na periferia: sobre as fronteiras periféricas das metrópoles. Dessa forma, para a segurança dos(das) meus(minhas) interlocutores(ras) e por julgar que não é o foco deste texto, eu optei por omitir a localização da área do campo. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 124 periféricos e as condições da reprodução social. A noção que orienta o texto, “geografi as da reprodução social” (GRAY, 2022), visa ampliar a discussão presente na teoria da reprodução social desenvolvida pelo feminismo marxista (BHATTACHARYA, 2017; FERGUSON, 2020). Com isso, ressalta-se não apenas “qual” é a natureza do trabalho de reprodução, mas também “onde” esse trabalho acontece, enfatizando a (re)produção do espaço nesse processo. Em adição, darei ênfase à processualidade histórica do capital. O capitalismo não pode ser compreendido como um processo sempre idêntico a si mesmo em todos os lugares e ao longo do tempo, mas carrega em seu próprio desen- volvimento elementos que são históricos. A fi m de captar com maior precisão a processualidade histórica do capital em seu momento contemporâneo de crise, apresento a noção de reprodução social crítica35 como um aparato categorial que dê conta dessa complexidade, isto é, que descreva a forma da reprodução social no momento de crise. Desse modo, olhar para a periferia interessa sobremaneira. A periferia foi o lugar em que a relação salarial não se consolidou completamente. No atual contexto de crise, como escreve Gago (2018, p. 10), “o salário deixa de ser garantia privilegiada da reprodução”. Analisar a dinâmica de reprodução social na periferia, portanto, pode ser um meio para compreender os caminhos do capitalismo como um todo36. Se a noção de periferia ocupa um lugar de relativo destaque no campo dos estudos urbanos (na geografi a, no urbanismo, na sociologia, na economia, entre outros), em muitos dos casos as publicações contemporâneas tratam dessa noção de uma forma homogênea. Ainda que certos processos sociais sejam, de fato, homogeneizantes, impondo uma forma única ao espaço, como a disseminação da precariedade e a imposição da mercantilização, é importante reconhecer a heterogeneidade que existe dentro das periferias (FELTRAN, 2011; 2014). Nas minhas inserçõesem territórios de periferia, chamou-me atenção a diversidade de estratégias de reprodução que existem nesses ter- ritórios, que produzem uma variedade de formas espaciais, ou, se preferir, de geografi as da reprodução social. No interior dos territórios periféricos, existem diferenças, fronteiras, fraturas e disjunções que, quando consideradas na análise, revelam muito sobre a vida cotidiana nesses espaços e, por con- sequência, podem oferecer pistas para compreender a dinâmica social nesses territórios. É interessante observar que, no nível da vida cotidiana, existe um gradiente da condição periférica, que indica situações mais ou menos precárias 35 Aqui, como espero esclarecer ao longo do texto, refi ro-me a forma histórica e espacialmente específi ca da reprodução social sob um contexto de crise. 36 Segundo Roberto Schwarz (1999), a periferia se tornou um posto de observação privilegiado para com- preender a dinâmica de desagregação do capitalismo global, como veremos adiante. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 125 (situação de fome, ausência de moradia, ou moradia com risco de alagamento, ou remoção, por exemplo). Essa gradação da pobreza faz parte da gestão dos confl itos e do funcionamento cotidiano das periferias37. Estar atento a essa diversidade é fundamental para conseguir construir um quadro matizado da realidade periférica. Essa constatação revela um cenário caleidoscópico que deve ser levado em conta para o estudo da complexidade interna das periferias. Como afi rma Gray (2022, p.815), uma perspectiva baseada na composição espacial tem como foco a diferenciação espacial que emerge do processo de produção do espaço e os seus diferentes usos que se inter-relacionam. Por fi m, vale dizer que este texto propõe uma refl exão acerca das novas e velhas estratégias de sobrevivência das classes populares em territórios periféricos. Trata-se de centrar nosso olhar nas variações de distintas formas de sobreviver na adversidade que estão se desenvolvendo nas periferias. A população perifé- rica enfrenta essas condições de vida que produzem o caráter nebuloso como ainda são descritas as dinâmicas e estratégias da população que sobrevive na adversidade produzida e reproduzida pelo capitalismo periférico-dependente – em especial num contexto de colapso da modernização. Formação e desconstrução do espaço periférico brasileiro A formação do mundo do trabalho no Brasil aconteceu a partir de seu engate subalterno e dependente na dinâmica do mercado mundial. O territó- rio brasileiro se constituiu historicamente como um espaço para a expansão capitalista explorar recursos naturais e força de trabalho a baixíssimos custos. As formas “atrasadas” de reprodução garantiam a reprodução do contingente para o exército industrial de reserva, e o baixo custo de reprodução da força de trabalho, para o moderno sistema produtor de mercadorias. Segundo o argumento de Oliveira (2003), existe uma “simbiose de contrários” entre rela- ções “não capitalistas” e o próprio desenvolvimento capitalista. Essa dialética garantiu a funcionalização das formas arcaicas de reprodução das pessoas para manter os custos da reprodução do trabalho em um patamar muito rebaixado, permitindo que a economia brasileira continuasse em crescimento. O processo de modernização brasileiro assentou-se na reprodução das desi- gualdades históricas. Isso porque inexiste nas periferias a condição de se integrar à totalidade concreta do capital que não seja de forma negativa. Por isso, o próprio desenvolvimento nacional teve que se apoiar na superexploração violenta, na inclusão negativa e na disseminação da precariedade para boa parte da popula- ção, mesmo que, cinicamente, o discurso de modernização tentasse apontar para 37 Ou seja, ainda podemos adotar o termo “periferia”, pois existem elementos homogêneos que conecta estes lugares a um conceito. Todavia, periferia é um gênero para designar uma pluralidade de realidades e contextos. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 126 o lado contrário. A miragem de inclusão na formação categorial propriamente moderna do capital exigia uma anteposição legal prefi gurativa que desse o molde industrial. Segundo Anselmo Alfredo (2013, p. 100), a formalização das legisla- ções de trabalho não pôde produzir a efetiva formação categorial da sociedade. O processo de territorialização e aclimatação do capital cá nos trópicos dependeu, portanto, de certas práticas para a gestão de uma parcela signifi ca- tiva da população que, supostamente, havia se tornado sujeitos monetários, mas com as condições de sua existência monetarizada completamente barradas pela própria constituição do mercado. Nesse contexto, a noção de periferia, construída pela sociologia urbana brasileira, cumpre um papel elucidativo importante, afi nal, “as periferias urbanas se desenvolveram no Brasil como o lugar dos trabalhadores pobres e o lugar para os trabalhadores pobres” (HOLSTON, 2013, p. 197). Diante de uma economia de espoliação (KOWARICK, 1979) e de um mercado de terras altamente restrito (MARICATO, 1979), as periferias afastadas se torna- ram as áreas em que trabalhadores pobres e migrantes em busca de emprego conseguiam se estabelecer. E só o conseguiam na base da autoconstrução de barracos em terrenos que quase sempre eram ilegais e não dispunham da maioria dos serviços e das infraestruturas urbanas. Oliveira (2003) carac- teriza essa relação como um dos regimes de trabalho de exploração intensa que permitiram o crescimento econômico brasileiro, o que o autor chamou de “industrialização dos baixos salários”. Considerando que a indústria não absorveu esses trabalhadores de imediato, a solução foi “transferir o custo da moradia, conjuntamente aos gastos com transporte, para o próprio tra- balhador” (KOWARICK, 1979, p. 35). Desta maneira, importa lembrar o argumento de Alfredo (2013, p. 31), para quem a urbanização brasileira que se constituiu pela expansão das periferias como locus de uma população excluída, superexplorada e precarizada que “foi posta na socialização nega- tiva do trabalho”. O fi nal do século XX foi marcado pelo fi m de um ciclo desenvolvimen- tista (SCHWARZ, 1999). Desde então, essa crise não deixou de se aprofundar, acompanhando o desenvolvimento negativo da planetarização do capital. Devido ao arranjo da produtividade em escala planetária, a periferia foi coa- gida a se integrar aos índices da socialização burguesa pelo valor, a maioria de sua população foi mantida de fora desses critérios. Com o aprofundamento da crise, que tendeu a se tornar hegemônica, boa parte dos esforços da socie- dade, escreve Menegat (2019), foram direcionados à construção de diques de contenção da barbárie que fermentava nas periferias dos países periféricos onde essa realidade sempre foi a regra. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 127 A crise, portanto, rompeu a associação – quase automática – que existia entre “trabalho” e “progresso”38. Como argumenta Feltran (2011, p. 32-33), o contexto dos anos 1990 e o começo dos anos 2000 indicou uma crise genera- lizada: “crise do emprego formal, do trabalho, do projeto de ascensão social, dos movimentos sociais, da família”. Roberto Schwarz (1999), ao olhar para o “fi m do século” brasileiro, percebeu que o país passava pelo que chamou de “desagregação do desenvolvimento”. A sociedade não é mais regulada pelo horizonte de expectativas de inclusão no mundo do trabalho. Agora se trata, como nomeou Oliveira (2003, p. 164-166), de um “trabalho sem forma”. Essa nova característica reconfi gurou o mundo do trabalho. De um lado, a “revolução molecular-digital” produziu um conjunto de trabalhadores “transformadoem uma soma indeterminada de exército da ativa e da reserva, que se intercambiam não nos ciclos de negócios, mas diariamente” (OLIVEIRA, 2003, p. 136). Hoje, no século XXI, a economia não promete mais nenhum emprego. Os sobrantes devem se virar de toda forma possível e imaginável para sobrevive- rem. Boa parte da degradação social em curso no mundo hoje não é decorrente da provada exploração capitalista, salienta Schwarz (1999, p. 194), “mas sim, ao contrário, da ausência dessa exploração”. Como cunhou o nosso presidente-so- ciólogo, trata-se de “inempregáveis”39 que estão concentrados nas áreas perifé- ricas das metrópoles brasileiras. Assim, a população periférica vive de todos os tipos de trabalho marginal, informal, frequentemente à margem da legalidade e, não raro, exposta a toda sorte de periculosidade. Para a reprodução desses grupos, diferentes estratégias de sobrevivência e reprodução são mobilizadas. O atual estágio do “desenvolvimento” capitalista é marcado pela sua crise imanente. A dinâmica tautológica do capital produz um enorme exce- dente populacional que não é mais mobilizável para a valorização do valor40. Essa é a razão para a generalização da precarização do trabalho, formais ou informais (na verdade, parece haver um deslocamento do primeiro em direção ao segundo41). É exatamente o esgotamento da sociedade salarial que produz a miragem do otimismo da empregabilidade: contrata-se de forma cada vez mais precarizada. Ou seja, a nova morfologia do trabalho é resultado da des- substancialização do capital e de sua crise absoluta. 38 A bem da verdade, tanto a forma moderna do trabalho como o progresso propriamente dito nunca tenham se estabelecido por aqui. 39 A expressão foi cunhada por Fernando Henrique Cardoso em 7 de abril de 1997: “O processo global de desenvolvimento econômico cria pessoas dispensáveis no processo produtivo, que são crescentemente ‘inempregáveis’, por falta de qualifi cação e pelo desinteresse em empregá-las”. 40 Aqui sigo o argumento de Robert Kurz (2018; 2014; 1993) que demonstra como o movimento contraditório do capital cria as barreiras e limites que bloqueia a valorização. 41 Esse movimento, por sua vez, foi assim sintetizado pelo então presidente-capitão: “a legislação trabalhista vai ter que se aproximar da informalidade”. A frase teria sido dita em uma reunião com deputados no dia 12 de dezembro de 2018. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 128 Se a reprodução social periférica se baseou historicamente em uma “inclusão negativa”, que mantinha a noção de trabalho como um polo atrator das expectativas e que dava régua e compasso para as relações sociais, a virada do século XX para o século XXI fez a geração nascida nesse período conviver com a realidade da crise. Seus modos de vida já foram conformados pela presença dela (FELTRAN, 2011), o que obrigou a reconfi guração das alternativas de reprodução social nas periferias, levando a uma atualização das formas de se “sobreviver na adversidade” (HIRATA, 2017). Vale ser ressaltado que, no contexto da reprodução social na periferia, os limiares que separam “trabalho” e “reprodução” são borrados e confusos. Diante da ausência de meios para garantir o próprio sustento para a família por meio de empregos regulares, a casa da periferia, espaço da reprodução familiar, é convertida em um espaço produtivo para complementação da renda e para o autoprovimento de meios de reprodução da força de trabalho (MACHADO DA SILVA, 2018; RIZEK, 2010). Deve ser salientado que, nessa situação, a esfera doméstica da reprodução do trabalhador só é aparentemente mais afastada do domínio do capital. De tal forma, as periferias não são apenas “dormitórios” para os trabalhadores que se deslocam até o centro, mas também se apresentam como um território produtivo, só que incluído negativamente na totalidade concreta do capital. Crise, dissolução e precarização na periferia: um olhar para a reprodução social Bhattacharya (2018) defi ne a reprodução social como o conjunto de ativida- des e instituições necessárias para gerar vida, sustentá-la e garantir a sucessão de gerações. A organização da sociedade para cumprir esse conjunto de atividades é necessariamente histórica que se desenvolvem no interior das relações sociais de produção. Trata-se de abordar diretamente formas sociais que não são for- mas remuneradas de trabalho, mas que desempenham papel fundamental para a reprodução de toda a sociedade. Por exemplo, mesmo o trabalho doméstico feminino sendo condição para a existência do capitalismo (FEDERICI, 2018), ele não é incorporado enquanto uma forma social propriamente capitalista, isto é, não está no interior da forma social do trabalho. Para evitar mal-entendidos, a noção de reprodução social possui um perímetro de abrangência superior à noção de “reprodução de força de trabalho”, como aparece na teoria de Marx (2013). Olhando para esse contexto, Roswitha Scholz (1996, p.18) argumenta que as atividades de reprodução, mesmo estando fora das relações assalariadas, não são estranhas à forma do valor. Se, por um lado, o conjunto das atividades imputado às mulheres (administração do lar, educação dos fi lhos, alimentação, E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 129 “convívio social”, entre outras) é exterior à socialização do valor, por outro, é um elemento intrínseco e determinado pela forma-valor. Dessa maneira, Scholz explica que a constituição do valor tem uma origem dissociada, isto é, uma natureza sexualmente específi ca. Partindo da formulação de Scholz e assumindo-a como um esquema analí- tico pertinente para a crítica do capital, sugeri, em outros escritos (CANETTIERI, 2020), que a forma do valor não é decorrente apenas da dissociação sexual, mas também de uma dissociação espacial. Com isso, meu interesse está em apontar que a reprodução social tal qual ocorre nas periferias é, simultaneamente, uma condição necessária para a reprodução ampliada do valor e uma forma que ocorre fora dos marcos da socialização do valor. Dessa maneira, as atividades de reprodução social indicam que a penetração da dominação pela forma do valor42 “deixa de ser um momento exclusivo da relação capital-trabalho para se confundir com a própria reprodução da vida” (CANETTIERI, 2020, p. 78). Essa forma determinada de produção do espaço e reprodução da vida está submetida à socialização pelo valor. Como assevera Henri Lefebvre (2014), é no âmbito da vida cotidiana que se reproduzem as relações sociais de pro- dução, isto é, a própria reprodução do capitalismo – entretanto, a reprodução do capitalismo não é a sua constante reposição. Como vimos, sua dinâmica desmedida é propensa ao aprofundamento de sua crise imanente. Isso signifi ca pensar a processualidade histórica da forma do valor. Em seu momento contemporâneo, marcada pela crise absoluta (KURZ, 2014), como a dissociação espacial do valor se manifesta? Vimos, na seção anterior, que a penetração da forma social do capital no Brasil produziu o efeito de organizar toda a sociedade de acordo com suas premissas, ainda que a maior parte da população não conseguisse passar pelo buraco de agulha dessa forma social. Ainda, o contexto de crise contemporânea erode ainda mais essa forma social, ao mesmo tempo em que a perpetua, de forma fetichista, como critério de socialização, representando um novo conteúdo para a dissociação espacial do valor (CANETTIERI, 2020). A reprodução social em territórios periféricos, nesse contexto, já não ocorre como pressupôs a teoria mais tradicional, criando uma espécie de espan- talho sempre idêntico do capital: “vender seu tempo de trabalho por um preço; incorporar seu tempo de trabalho nas mercadorias; consumir mercadorias” (PERMAN, 1970, p. 347 – tradução minha). Como argumentei anteriormente, ocontexto contemporâneo é marcado por uma crise do capital que produz uma dissolução das formas sociais historicamente constituídas. A dinâmica da reprodução social contemporânea das periferias ocorre majoritariamente 42 Tenho em conta a teoria de Postone (2014), para quem o conceito de valor em Marx cumpre a função de desig- nar uma forma especifi camente moderna de dominação social abstrata que se exerce por meio do tempo. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 130 por intermédio de uma série de “gambiarras”, “virações” e de uma complexa malha de práticas sociais que ultrapassam a socialização do valor, mas ainda estão submetidas ao seu imperativo decadente, isto é, completamente mone- tarizadas. Diante da inexistência de garantias da reprodução social baseada na socialização do valor, a classe trabalhadora encontra formas de garantir essa reprodução, ainda que de maneira precária: a reprodução social crítica. Numa dinâmica social desse tipo, trata-se de reconhecer a forma de desig- nação da expressão negativa da totalidade concreta do capitalismo sob a qual ocorre a inserção de uma determinada população na periferia do capitalismo. A precariedade, não só a laboral43, comporta hoje um amplo espectro de situações nas quais os sujeitos se encontram nesse momento do colapso da modernização. Nessas condições, a destruição e decomposição das formas sociais historicamente constituídas faz aparecer formas regressivas e precárias de reprodução da vida. A vida cotidiana assume a forma que o movimento estrutural, em sua contradição própria, produz (LEFEBVRE, 2014). Sendo assim, se a crise do capital se aprofunda, é coerente conceber que as dinâmicas de repro- dução social se alteram. A reprodução social periférica no contexto de crise não se restringe apenas à reprodução da força de trabalho, mas é uma forma de reprodução social crítica que já não é mais absorvida pelos circuitos produtivos como força de trabalho. Entretanto, ao mesmo tempo, por um lado, o imperativo da reprodução fi ctícia do capital se impõe a essas pessoas; por outro, o critério da socialização do valor, mesmo erodido, ainda se perpetua como índice de sociabilidade. É até esse entremeio confl ituoso, complexo, que a análise crítica deve descer: o terreno oculto da reprodução social periférica. Geografi as da reprodução social crítica nas periferias Na “viração”, na “correria”, entre uma “fi ta” e outra, pulando de “bico” em “bico”, de “frila” em “frila”, “batalhando” e “lutando” para sobreviver: 43 Faço essa ressalva porque boa parte da produção intelectual que se vale dessa categoria a utiliza para analisar o mundo do trabalho. Embora tenha contribuições relevantes para conhecer essa realidade, não a utilizo aqui no mesmo sentido. Meu interesse é enfocar um amplo processo social de decaimento das condi- ções de vida que são impedidas de serem acessadas e desenvolvidas pela maioria dos indivíduos expulsos das formas básicas de sociabilidade capitalista. Assim, não é do meu interesse tratar a precariedade como faz Ruy Braga (2017), ao entendê-la como uma “dimensão intrínseca ao processo de mercantilização do trabalho” a partir da defi nição de um patamar de renda, tampouco uso o termo restrito à perda de direitos e inovações jurídico-legais que intensifi cam a exploração do trabalho, como faz Antunes (2018). Da mesma maneira, não é meu interesse seguir o trabalho de Guy Standing (2013), que entende a precarização como a condição de um emprego incerto, de baixa renda e com baixos níveis de segurança e como uma falta de identidade segura baseada no trabalho. Meu interesse no uso da expressão precariedade é designar uma condição específi ca, embora presente desde muito tempo na periferia, que marca a reprodução material da vida em diferentes graus de intensidade e de diferentes maneiras. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 131 assim é a reprodução social crítica nas periferias. Trata-se, na expressão de Denning (2010), de uma “vida sem salário”44. Essa prática de reprodução na periferia do capitalismo envolve a mobilização de diferentes estratégias que transitam nas tênues fronteiras entre o legal e o ilegal, entre o formal e o informal (TELLES, 2011). Essa realidade descrita possui no Brasil um profundo recorte de raça. Como é ressaltado nos importantes escritos de Clóvis Moura (2019, p.30), o desenvolvimento nacional se baseou na constituição de vários “[...] mecanismos de barragem étnica que foram estabelecidos historicamente contra ele [o negro urbano brasileiro] na sociedade branca”. Trata-se de um bloqueio que impede a inclusão social e o reconhecimento do negro como um sujeito portador de direitos através de “inúmeros mecanismos e subterfúgios estratégicos” que coloca “essa grande massa negra [...] como o rescaldo de uma sociedade que já tem grandes franjas marginalizadas em consequência da sua estrutura de capitalismo dependente, é rejeitada e estigmatizada” (MOURA, 2019, p. 31). Práticas de reprodução social para além do momento exclusivo do traba- lho assalariado se desenrolam historicamente nas periferias. Kowarick (1979) ressalta as várias práticas de solidariedade e reciprocidade em atividades reprodutivas na periferia, a maioria desempenhadas por mulheres. Iniciativas como apoio familiar, participação em mutirão de autoconstrução, produção de hortas coletivas são algumas dessas iniciativas. De maneira sintética, essas formas de reprodução correspondem, segundo Machado da Silva (1982, p. 95), “a um momento de intensifi cação da exploração, uma de cujas caracte- rísticas é justamente a ausência da atividade mediadora do Estado”. Ou, mais precisamente, não raro a ação do Estado produz efeitos de agudizar ainda mais a condição de precariedade que as camadas periféricas estavam submetidas. Ainda que esse cenário sofresse uma relativa transformação no contexto da redemocratização brasileira, com uma signifi cativa – porém insufi ciente – expansão do Estado como provedor de políticas públicas em direção às periferias, boa parte dessa intervenção não implicou em uma redução signi- fi cativa nos abusos e restrições que a população periférica sofre. Marca disso é exatamente a presença violenta do Estado nesses territórios por meio do seu braço armado (RICHMOND et al. ,2020). Essa forma histórica e espacialmente específi ca de reprodução social se desenvolve exatamente no momento de impossibilidade da sociedade salarial que, decorrente das contradições do capital, se torna bloqueada e não conse- gue se efetivar. Gago (2018) apresenta a noção de “pragmática vitalista” para 44 Sobre isso, deve–se ter em conta o que escreve Denning (2010, p.79 - tradução minha): “No capitalismo, a única coisa pior do que ser explorado é não ser explorado. Desde os primórdios da economia salarial, a vida sem salário tem sido uma calamidade para aqueles despossuídos dos meios de subsistência”. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 132 designar a forma de reprodução da vida social que ocorre sem a mediação das instituições modernas tradicionais, isto é, uma forma de vida que se desenvolve às margens do Estado, do trabalho, do sindicato, da igreja, do partido, da assis- tência social. A autora insiste, apesar de existir sem a mediação das tradicionais instituições, que a pragmática vitalista das populações periféricas negocia os limites de sua atuação, validade e legitimidade com essas instituições, relacio- nando-se com elas. Desse modo, criam-se dinâmicas de reprodução social que são próprias da atual fase do capitalismo. Também inspirada por Gago (2018), Isadora Guerreiro (2020, s.p.) nota que essas são “dinâmicas de sobrevivência que atravessam (ou não) o mundo do trabalho, mas não se detêm nele, não se conformam (pois,afi nal, fi cam “sem forma”) por suas determinações internas”. Contudo, nota-se que a erosão do regime de normatividade das institui- ções tradicionais não leva à superação de uma vida baseada no dinheiro, afi nal, o capitalismo logrou transformar a todos em sujeitos monetários – mesmo que sem dinheiro (KURZ, 1993). Isso signifi ca que a capacidade de reprodução continua dependente da circulação monetária. Todo o rearranjo na constelação da reprodução social continua sendo determinado pela monetarização, isto é, com o dinheiro desempenhando papel fundamental na dinâmica da media- ção e dos confl itos sociais. Cada vez mais ocorre monetização das relações cotidianas e vicinais nas periferias. Gabriel Feltran identifi ca que nas perife- rias coexistem diferentes normativos e o que garante a coexistência coesa é exatamente a circulação de dinheiro: “o dinheiro aparece como único modo objetivo de mediar suas relações” (FELTRAN, 2014, p. 508). Na ausência de uma fonte segura de dinheiro, como a do trabalho estável prometido pela sociedade salarial, as pessoas nas periferias se envolvem com qualquer atividade que possa gerar acesso ao dinheiro necessário para a sua própria reprodução. Essas atividades contingentes e dispersas, atravessam expedientes legais e ilegais, percursos descontínuos no mercado de trabalho, com uma tentativa de empreendimento aqui, uma associação político-par- tidária ou religiosa ali, a mobilização da propriedade da terra para extrair renda, o endividamento familiar, entre outros. Boa parte dessas “saídas de emergência” para a reprodução social são entendidas pelos sujeitos periféricos como uma válvula de escape tanto do desemprego como do próprio trabalho ultraprecarizado repleto de situações de assédio. Sem pretender uma descrição exaustiva dessas práticas, apresento algu- mas que, de minha perspectiva, podem ser organizadas como parte desse pro- cesso e que ocupam papel destacado na dinâmica da reprodução dos territórios periféricos no contexto da crise. São práticas conhecidas da periferia, mas que ganham novos conteúdos: i.) o trabalho de viração; ii.) o assistencialismo de crise; iii.) o microempreendedorismo; iv.) o endividamento de baixa renda; E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 133 v.) o rentismo periférico; vi.) os ilegalismos populares; vii.) o associativismo popular. Todos esses elementos formam uma constelação de práticas para sobreviver na adversidade que podem ser combinadas de complexas maneiras. Contudo, importa ressaltar que essa divisão é utilizada aqui por um motivo analítico. Na realidade observada em campo, as relações são muito mais imbricadas, formando uma constelação de estratégias de reprodução para enfrentar o mosaico de adversidades. Trabalho de viração A condição precária do trabalho apresenta uma certa permanência histó- rica na dinâmica da sobrevivência periférica. Ludmila Abílio (2021) percebeu que essa é uma prática social recorrente na periferia. A formalização do tra- balho nunca ocorreu com ampla abrangência nos territórios periféricos. Os processos recentes de ampliação e generalização da precarização do trabalho atingem com maior força a periferia – isto é, aqueles que ainda possuem algum trabalho. Na verdade, a realidade mais comum é exatamente o desemprego (RIZEK, 2006). Nessa condição de uma vida sem salário fi xo e estável, a saída encon- trada por muitos é se virar entre um bico e outro. Abílio (2018) chamou esse processo de subsunção real da viração. No sentido dado pela autora, a viração é a ausência de uma identidade profi ssional estável, defi nida e reconhecida. A reprodução material da vida está determinada por instáveis oportunidades de trabalho que garantem a sobrevivência. Trata-se de um constante trânsito entre atividades formais temporárias e informais intermi- tentes, atravessando diferentes atividades ocupacionais que se combinam dentro do tempo de cada família ou indivíduo, funcionando como uma forma de acessar os recursos para garantir sua própria reprodução (MACHADO DA SILVA, 2018). Assistencialismo de crise Destaca-se, na dinâmica de reprodução social periférica, a integração de programas de assistência social dos governos e ações de solidariedade de diferentes entidades – como igrejas, ONGs e movimentos sociais. Ainda que refl itam práticas com interesses bem diversos, faz sentido aproximá-las em uma confl uência importante: uma forma de suporte assistencial para a reprodução social num contexto de crise. Há, de um lado, as políticas assistenciais do Estado – cada vez mais focalizadas e, não raro, cada vez mais dilapidadas pelo neoliberalismo. De E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 134 outro, há o processo de “onguização dos atores locais” (RIZEK, 2006), tanto da igreja como do movimento social, que se reduz ao provimento de itens mais básicos, condição da assistência em uma era de emergência. Ambas as dinâmicas fazem parte de estratégias de sobrevivência para conseguir acessar recursos necessários para a reprodução: uma forma de desvio para a constituição do chamado “salário indireto”, afi nal, esses percursos “pouco ou nada têm a ver com o trabalho assalariado e seus confl itos” (RIZEK, 2006, p.51). Há as igrejas (sobretudo neopentecostais) que desempenham um funda- mental papel na “seleção da miséria”, entendida como uma estratégia local mobilizada por lideranças informais que estabelecem critérios pouco claros e arbitrários para defi nir prioridade no recebimento das doações (VERDI, 2022). Na periferia, são muitos aqueles que não possuem nada e vivem em situação de penúria. Dessa maneira, a ação de “fazer solidariedade” aparece como uma importante função na comunidade. Muitas pessoas dependem de iniciativas como essa para sobreviverem. Como Ribeiro (2017) esclarece, as igrejas (neo)pentecostais organizam formas de satisfazer necessidades obje- tivas entre os seus membros, como grupos com informações e indicações de emprego, doação de alimentos e remédios, ou ajuda fi nanceira direta para pagar certas contas, como uma “circulação de benefícios” que só é constituída pelos vínculos estabelecidos internamente com a Igreja. Também há os movimentos sociais, associações e cooperativas que desem- penham papel no provimento do assistencialismo de crise. Essa presença na reprodução material das pessoas é acompanhada da contrapartida de uma maior adesão. Isadora Guerreiro (2022) chama esse processo de extrativismo político. Em todos os casos, seja pela assistência social, seja pela exploração comunitária, ou ainda pelo extrativismo político, o assistencialismo de crise desempenha papel preponderante na organização da reprodução das classes populares contemporâneas. Microempreendedorismo Outra forma de atuação parece fi gurar nas periferias contemporâneas: o microempreendedorismo. Daniel Giavarotti (2018), estudando a região do Jardim Ibirapuera e suas imediações, observou entre seus interlocutores de segunda ou terceira geração (nascidos no bairro) a lógica empreendedora. Há uma espécie de “apropriação” da infraestrutura produzida pela primeira geração que ocupou o bairro. Em geral, trabalhadores (mesmo que precários) conseguiram autoproduzir a própria moradia e melhorá-la com o tempo, e E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 135 esses moradores pioneiros, por meio da auto-organização, conquistaram a permanência no local. Costa (2022) ressalta que o microempreendimento popular é uma recor- rente resposta para “ganhar a vida”. Ao mesmo tempo, reforça e é reforçado pela subjetividade concorrencial individualista. Torna-se, assim, uma aspi- ração das classes populares para se engajarem na batalha de empreender. Nadefi nição do autor, entende-se o microempreendimento como constituído por continuidades e mudanças de práticas residuais da economia popular penetradas por tendências e discursos que conformam a lógica cultural do capitalismo contemporâneo. Ele se posiciona “na interseção entre a ética indi- vidualista do trabalho por conta própria e do pequeno comércio tradicional, de um lado, e a utopia libertadora prometida pelo discurso empreendedor mais moderno entre outros” (COSTA, 2022, p. 42), sem deixar de produzir tentativas de acomodação, contradições, tensões e confl itos na relação entre as duas dimensões. Endividamento de baixa renda Na década de 1990 e na primeira década do século XXI, observou-se a expansão do sistema de crédito na direção das periferias. Os bancos organi- zaram novas estratégias para aumentar seus resultados fi nanceiros e optaram pela construção do mercado de crédito aos mais pobres, gerando novas for- mas de concessão de empréstimos e ampliando o acesso ao cartão de crédito (SCIRÈ, 2011). Deve-se ressaltar que a política pública de assistência social também promoveu a “bancarização” do pobre. Os benefícios, movimentados apenas por meio dessas instituições, obrigaram uma massa de periféricos a utilizar esse serviço – e mais alguns, anexados aos benefícios por iniciativa dos próprios bancos. Ana Sylvia Maris Ribeiro (2015) explica que essa facilidade de acesso ao crédito permitiu a ascensão de diversos Microempreendeores Individuais (MEI). A autora revela que muitos desses negócios só podem ser abertos com a obtenção de créditos, empréstimos e outras “fi nanceirizações”. Isso contribui para a criação de um “capital fi ctício” que fi nancia um mercado futuro e incerto de relações trabalhistas comerciais. Dessa forma, cada vez mais pessoas se tornam “empreendedoras da própria força de trabalho”, cons- tituindo uma relação que reforça a produção do chamado “capital fi ctício”. A lógica dessa “reprodução social fi ctícia” (GIAVAROTTI, 2018), isto é, baseada no endividamento, implica uma mudança radical na forma pela qual as pessoas, sobretudo as populações periféricas, lidam com o dinheiro: a gestão da renda baseada no esquema poupança-consumo foi substituída por E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 136 outro esquema: “crédito-consumo-dívidas”, com a poupança substituída pelo consumo imediato garantido pelos cartões de crédito. O endividamento de baixa renda, em curso nas periferias, atende a diver- sas demandas do setor popular diante da incapacidade de essa população ser explorada em troca de um salário devido ao enorme desenvolvimento das for- ças produtivas. Em primeiro lugar, o próprio consumo das famílias. O acesso aos bens de consumo necessários para a reprodução social aparece mediado pelo endividamento como uma condição necessária, afi nal, o crédito é, nesse caso, promessa de consumo. Em segundo lugar, esse é o meio de alavancagem para lançar um microempreendimento. A compra de equipamento ou estoque e as reformas necessárias só são possíveis por meio da assunção de dívidas. Rentismo periférico Terra e imóvel são frequentemente mobilizados para a reprodução social em situação crítica nas periferias. Marina Paolinelli (2022; 2023) analisa essa forma de reprodução social em sua pesquisa45. A pesquisadora desenvolve o argumento que a propriedade periférica é mobilizada pelas classes populares como uma estratégia de reprodução a partir, sobretudo, do mercado informal e popular de aluguéis, que constitui parte considerável das pessoas que vivem em situação de défi cit habitacional (PAOLINELLI, 2023). Esse processo, destaca Paolinelli (2023), tem raízes antigas: Nabil Bonduki e Raquel Rolnik (1979, p. 67) demonstram que “grande parte dos trabalhadores não possui condições para a compra de um lote e para a edifi cação”. Assim, instaura-se nas periferias um mercado de aluguéis com uma destacada importância na dinâmica da reprodução social dessas pessoas. Do ponto de vista do proprietário periférico, que constrói casas para alugar, signifi ca “uma das únicas e a mais frequente forma de inves- timento possível, dentro de suas possibilidades, que acrescenta uma renda suplementar ao seu salário e que não está sujeita a oscilações existentes devido à instabilidade no emprego” (BONDUKI; ROLNIK, 1979, p. 68). Os autores percebem que frequentemente a construção das moradias em áreas periféricas, a esmagadora maioria das vezes por regimes de autoconstrução, envolve a construção também de casas para aluguel46. 45 Apesar de Paolinelli (2023; 2022) utilizar a expressão rentismo de baixo, apoiando-se, sobretudo, na ideia de uma “neoliberalismo de baixo” apresentada por Gago (2018), aqui utilizo a expressão rentismo periférico para dar ênfase ao rentismo que se desenvolve no interior da periferia. 46 Bonduki e Rolnik (1979) descrevem alguns casos que antes mesmo da casa do proprietário apresentar qualidade de habitabilidade, algumas famílias empreendem na produção de imóveis para alugar, pois é uma fonte primordial de acesso a recursos. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 137 A propriedade de um imóvel, descreve Paolinelli (2023), mesmo infor- mal e sem validade jurídica, parece ser uma pertinente forma que os grupos periféricos encontraram para garantir uma renda [income] a partir da apro- priação de uma renda fundiária [land rent] advinda da propriedade privada (informal) de um imóvel periférico. Há uma miríade de processos para fazer com que isso se viabilize: um primeiro tem a ver com o uso intensivo do lote, com a construção de barracões de fundo ou com a edifi cação de outros andares; há também a forma de manifestação do rentismo periférico pelo acesso a novos terrenos, com essas pessoas indo ocupar novas fronteiras de expansão urbana; ainda pode ocorrer a formação de um “rentista” de pequeno porte por intermédio da compra e da retenção de imóveis visando alugá-los. Apesar dessa forma permanente, observa-se que algumas mudanças têm ocorrido no padrão do rentismo periférico. O padrão de relacionamento de alguns proprietários periféricos que alugam moradia (nas suas mais variadas formas) se alterou, fortalecendo essa tendência do rentismo periférico. A mora- dia alugada, portanto, parece ser uma condição necessária para a reprodução da vida de parcela considerável nas periferias: do ponto de vista do inquilino, que se encontra saltando de viração em viração, já não se vislumbram as con- dições de adquirir uma casa própria pela compra; mesmo o ato de ocupar é limitado pelos altos custos para arcar com a construção. Do ponto de vista do locatário, o aluguel que recebe é uma importante complementação de renda para a família (PAOLINELLI, 2022). Atualmente, o que se identifi ca é a produção da escassez de novas terras periféricas, alterando a dinâmica de disputa pelo acesso a elas (GUERREIRO, 2020, s.p.). Segundo Isadora Guerreiro (2020), resultados de pesquisas recen- tes indicam que a população nas periferias brasileiras está mudando, indicando uma tendência de “inquilinização” das periferias. Isso é resultado de um processo de crise social generalizada que restringe os recursos das famílias periféricas e limita o acesso à moradia. Ilegalismos populares Nas periferias, existe um complexo arranjo de ilegalismos populares que garantem a reprodução de parte da população periférica e é gerido por meio de negociações tácitas com os diferentes grupos que intervêm e atuam nas perife- rias. Gabriel Feltran (2011) em suas inserções etnográfi cas, percebe a expansão do mundo do crime como uma referência social nas periferias decorrente de uma profunda transformação: o que funcionava como pilar fundante da dinâ- mica social das periferias em seu período de formação, nas décadas de 1970 E di to ra C R V - Pr oibi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 138 e 1980, ruiu. As periferias eram um espaço de relações sociais estruturadas pela categoria trabalho, pelas ações coletivas populares, pela dominância da moral católica, pela centralidade da família e por sua perspectiva de ascensão social. Todas essas esferas mantinham a coesão interna desses ambientes e se confrontavam com o mundo do crime. Entretanto, atravessa-se um momento de crise – crise do emprego formal, do trabalho, do catolicismo, do projeto de ascensão social, bem como dos movimentos sociais – dentro da qual o modo de vida dos jovens foi conformado: o trabalho é incerto e, quando há, é precário. Portanto, as saídas criminosas parecem mais plausíveis e o regime normativo do mundo do crime mais aceito, pois é uma alternativa de reprodução social para os sujeitos periféricos. Feltran (2011) argumenta que, apesar dos matizes (que vão de um pai de família que abomina o tráfi co ao próprio tráfi co enquanto tal), a fi gura do bandido cumpre, atualmente, a função de garantir a coesão social num tecido esgarçado. Existe, agora, uma maior amplitude da circulação, interna às periferias, de um marco discursivo próprio do mundo crime que disputa os espaços de legitimação nas formas de sociabilidade. Vera Telles (2011) chama atenção que essa “nova economia política dos ilegalismos” está relacionada com a integração econômica globalizada que reconfi gura as relações entre legalidade e ilegalidade para além de uma dicotomia. É nessa “transitividade entre o universo da lei e o mundo do crime que se compõem as microrregulações da vida cotidiana” (TELLES, 2011, p. 367). Apesar dessa conectividade, ela não ocorre sem confl itos. Com base na análise de um arranjo familiar que combina entre seus membros “traba- lhadores” e “bandidos”, Feltran (2011) demonstra as tensões que emergem dessa organização – ambos os lados trocam ofensas e desconfi anças uns em relação aos outros. A unidade se dá por um balanço: de um lado, os fi lhos trabalhadores sustentam a estrutura do grupo simbolicamente, enquanto os fi lhos “bandidos” garantem o sustento material. Por fi m, há algo a ser dito das organizações criminosas. Elas fun- cionam como verdadeiros hubs do agenciamento criminal, promovendo a unidade nas periferias por meio das formas de solidariedade e cooptação produzidas no seu interior (FELTRAN, 2011). O crime organizado possui a legitimidade de se constituir como gestor da vida periférica, apresentando regras de conduta claras, redes de acesso a mercadorias, serviços e favores e o estabelecimento de uma rede de confi ança e segurança. No fi nal das contas, as organizações criminosas operam como organizadoras de parte da vida social periférica. A economia dos ilegalismos populares se conecta com a “economia em geral”. Feltran (2014) mostra muito bem como o dinheiro não tem problema E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 139 algum em circular por diferentes regimes normativos, dando coesão onde existe confl ito. Os pobres são mobilizados por essa economia, seja como clientes, consumidores, operadores, produtores ou intermediários, garantindo o ciclo das mercadorias ilegais. Associativismo popular A ação coletiva dos movimentos populares é uma estratégia conhecida no Brasil e muito importante no processo de urbanização brasileira (CAL- DEIRA, 2017; HOLSTON, 2013). Trata-se de uma forma de produção do espaço urbano realizada pela iniciativa popular, que se baseia em iniciati- vas coletivas, auto-organização e nas atividades cotidianas dos moradores (MARICATO, 1979). O associativismo popular em territórios periféricos pode assumir diferentes formas: movimentos sociais, associações de mora- dores ou de bairro, cooperativas, coletivos e grupos. Ou seja, designa uma coletividade organizada e autorregulada com objetivos compartilhados que agem coletivamente. Por meio de diferentes formas de mobilização populares e de ações polí- ticas, os pobres urbanos conquistam direitos e melhoram suas condições de vida. Ônibus, água e esgoto encanado; energia elétrica; asfaltamento; além dos equipamentos públicos, como escola, posto de saúde, centro de referência da assistência social, entre outros, são importantes elementos para garantir a repro- dução (CALDEIRA, 2017). Por exemplo, o associativismo popular desem- penha papel fundamental no provimento das redes materiais que facilitam a circulação de pessoas, bens, energia, água, resíduos e informações, garantindo, dessa forma, efetivamente, o melhoramento das condições de reprodução social. As estratégias são variadas: pressão na prefeitura; marchas até a região central; abaixo-assinados; reuniões com representantes do poder público, entre tantas outras. Com essa pressão, é possível conquistar as melhorias do local, frequentemente repleta de confl itos. A presença dos movimentos sociais tem, contudo, maior abrangência do que o provimento de infraestrutura. Eles envolvem uma série de ações comunitárias como cursos (de formação política, cursinhos pré-vestibular, de profi ssionalização), rodas de debate e discussão, formas de recreação, grupos de mulheres e antirracistas, hortas comunitárias, entre tantas outras. Essas iniciativas servem para fortalecer a consciência de classe em territórios populares e ampliar a solidariedade em momentos de crise47. 47 Importante destacar as diversas ações de solidariedade ocorridas em territórios periféricos durante o período mais intenso da pandemia de covid-19. Conferir, sobre isso, Canettieri (2021). E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 140 A presença das formas de associativismo popular, portanto, pode ser compreendida como uma forma, que possui uma enorme importância, de garantir a reprodução social em áreas periféricas. Essas ações incidem na pres- são às instâncias institucionais, em formas de ação direta de autoprovimento de serviços e infraestruturas e em ações de práticas cotidianas de reprodução (PAOLINELLI; CANETTIERI, 2019). As várias formas do associativismo popular garantem às famílias periféricas uma forma de acessarem condições de vida por meio de diferentes estratégias, mobilizando diferentes recursos, mas, em geral, dependendo da organização coletiva. Fraturas e fronteiras periféricas na reprodução social crítica O conjunto de práticas de reprodução social crítica nas periferias forma uma constelação de estratégias para o enfrentamento do mosaico de adver- sidades que marca o cotidiano dessas populações. Designo essa complexa realidade como “fraturas periféricas” que, mesmo disjuntas, formam as bases da reprodução de centenas de milhares de pessoas em todo o Brasil. Embora a exposição aqui realizada tenha delimitações estanques, como dito, isso não ocorre na realidade. Existem “fronteiras” que separam esses regimes normativos e de legitimidade, no entanto, como é da natureza das fron- teiras, as pessoas atravessam-nas com frequência. Uma pessoa tem tão ou mais condições de se reproduzir materialmente quanto sua capacidade de navegar por esses regimes normativos e de legitimidade, compreendendo seus códigos e suas práticas, mobilizando-os de acordo com cada situação (BERALDO, 2022). Vera Telles (2011) nomeou esse procedimento de “arte do contornamento”, que envolve uma inteligência prática, desenvolvida nas experiências cotidianas, e um senso de oportunidade como condição de garan- tir a reprodução dia após dia. As formas de reprodução social crítica descritas aqui se misturam com frequência. Trata-se de estratégias que as pessoas mobilizam e desmobilizam constantemente a depender do contexto. Por exemplo, a forma do rentismo periférico é utilizada recorrentemente por redes criminosas objetivando a capitalização e alavancagem de suas atividades ilegais (SIMONI, 2020). Ou então,vale lembrar que, para iniciar um microempreendimento, muitas famílias se veem obrigadas a contrair dívidas para poderem ter alguma expectativa de começarem a ganhar dinheiro (GIAVAROTTI, 2018). Impor- tante destacar ainda que é relativamente comum que os “bicos” aos quais as pessoas em condição de viração se envolvem estão, em alguma medida, conectados às dinâmicas do assistencialismo de crise de ONGs, dependendo de editais e recursos estatais (COSTA, 2022). Não carece de destrinchar E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 141 cada uma das combinações possíveis: as variações são praticamente infi - nitas. O que interessa é ressaltar o aspecto complexo das disjunções peri- féricas, constantemente (re)combinadas para garantir a reprodução social crítica. Ou seja, a reprodução social crítica opera nas fronteiras, muitas vezes indiscerníveis, entre vários regimes normativos e de legitimidade, envolvendo um complexo arranjo de aparatos e instituições, formais e infor- mais. A constelação de estratégias mobilizadas para a reprodução social das populações periféricas está intrinsecamente conectada ao momento contemporâneo da reprodução do capital que atinge seu limite interno e absoluto, agravando a crise. Com o aprofundamento da crise, as dimensões da reprodução material da vida passam por uma reconfi guração. As formas contemporâneas de reprodução ativam circuitos econômicos que transitam nas incertas fronteiras do informal e do formal, do ilegal e do legal, do ilícito e do lícito. Importa destacar que todas essas linhas se entrecruzam nas práticas sociais da peri- feria, penetram a economia doméstica e a circulação das mercadorias e o jogo social se faz a partir da conexão – não sem tensões e choques – com outros circuitos e regimes normativos que se embaralham. Interessante frisar que as estratégias para sobreviver na adversidade envolvem composições complexas, legitimadas pelas práticas de vida cotidiana dos grupos perifé- ricos. Para sobreviver na adversidade da periferia, é preciso desenvolver uma combinação de estratégias e articulá-las de modo a aumentar sua efi - ciência de sobrevivência. Ao mesmo tempo, todavia, essa situação acaba reproduzindo e atualizando desigualdades históricas que são incorporadas ao atual momento do capital: basta pensar como as formas de exclusão racial de uma sociedade racista e a permanência da violência de gênero de uma sociedade patriarcal são constantemente incorporadas e amplifi cadas no contexto de crise48. Não é possível ignorar o fato de que essa reprodução está, muitas vezes, restrita a fazer uma gestão da miséria. Por meio dessas estratégias de repro- dução social crítica, a vida cotidiana em um contexto de formas sociais decadentes continua se reproduzindo. Dessa maneira, ocorre a mercantili- zação de todas as relações sociais e momentos da vida cotidiana, mas num sentido diferente do ressaltado por Henri Lefebvre (2014). Já não ocorre uma dominação pela inclusão nas formas sociais do capital, mas pelo seu contrário: a exclusão completa e absoluta das formas sociais de reprodu- ção social próprias do capital. Essa dinâmica contraditória não extingue a 48 Aqui, tenho em conta exatamente a formulação de Roswitha Scholz (2008, s.p. - tradução minha): “Ora, deduz-se precisamente da estrutura da dissociação-valor, como forma fundamental, que no capitalismo a estratifi cação social, a desclassifi cação e a exclusão são defi nidas como necessárias”. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 142 monetarização da vida e a mercantilização do cotidiano. Cibele Rizek (2022, p. 57) identifi ca que as formas de governo diferenciado que foram instauradas nas periferias, que estimulam o desenvolvimento das formas de reprodução crítica descritas aqui, “criavam e recriavam (em vez de se contrapor e neutra- lizar sua ação) mercados” das mais variadas naturezas: políticos, religiosos, de práticas ilegais, culturais, entre tantos. Ao mesmo tempo, essas mesmas práticas de gestão diferencial do território produziram formas de violência (MACHADO DA SILVA, 2004) que já não apontam para a transformação social49, mas para uma espécie de reprodução da crise, cada vez mais geren- ciada de forma securitária. Considerações fi nais O enquadramento que sugiro pode contribuir para refl etir sobre a “con- fl uência entre urbanização, reprodução social e as transformações na compo- sição de classe” (GRAY, 2022, p.811) a partir da análise da vida cotidiana nas periferias. A forma de reprodução social na periferia ocorre de maneira crítica, isto é, imersa no contexto de crise do capital. Embora as formas de garantir a reprodução dos indivíduos, famílias e grupos se deem fora da relação propria- mente imediata entre capital e trabalho, elas estão submetidas ao imperativo da mercantilização e da monetarização da vida. No entanto, destaca-se que, ainda que tenha ganhado novos conteúdos com o aprofundamento da crise, a condição periférica, desde sempre, já era o anúncio da crise. Com o desen- volvimento desta, veremos um movimento de generalização da reprodução social crítica e da forma-periferia. A condição de precariedade que marca a forma-periferia possui também uma historicidade. A expressão espacial de formas precárias, informais, irre- gulares e ilegais nada tem a ver com situações atávicas ou arcaicas. Como vimos, essa expressão espacial foi condição para a realização da forma-valor na periferia do capitalismo, agora essa expressão é o resultado do desenvol- vimento e aprofundamento da crise do capital. Espero ter sido possível demonstrar que periferias são espaços de grande complexidade, marcados por fraturas e fronteiras que delimitam, em seu próprio interior, diferenças de regimes de normatividade e de legitimidade. Reconhecer essa complexidade, constituída como um mosaico de práticas sociais, signifi ca também reconhecer que os indivíduos estão sempre tran- sitando entre diferentes regimes normativos para garantir sua reprodução. 49 Por exemplo, Roberto Schwarz (1999) rastreia elementos dessa sociedade violenta nos livros Cidade de Deus, de Paulo Lins, e Estorvo, de Chico Buarque. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 143 Diferentes composições entre o formal e o informal, o legal e o ilegal se manifestam nas periferias, mesmo diante de processos gerais que precari- zam as relações cotidianas e ampliam as vulnerabilidades à que a população periférica está sujeita. Novas confi gurações e mediações surgem nos espaços periféricos, e devem ser descritas e analisadas para melhor se compreender as liminaridades, porosidades, diferenças e indiferenças que ocorrem nes- ses territórios. À guisa de conclusão, gostaria de sugerir que, apesar da diversidade de maneiras de manifestação dessa reprodução social crítica, existe uma unidade sintética ao processo dada pelo que se pode chamar de forma-pe- riferia, que parece esclarecer o processo de colapso e permite colocar em destaque o derretimento das formas sociais anteriormente erigidas no sistema produtor de mercadorias. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 144 REFERÊNCIAS ABÍLIO, L. Uberização e viração: mulheres periféricas no centro da acu- mulação capitalista. Margem Esquerda. São Paulo: Boitempo, n. 31, p.54- 59, 2018. ABÍLIO, L. Relatório de pesquisa: informalidade e periferia no Brasil con- temporâneo. In: MARQUES, L. Trajetórias da informalidade no Brasil Con- temporâneo. São Paulo: Editora Perseu Abramo, 2021, p. 13-39. ALFREDO, A. Crítica à economia política do desenvolvimento e do espaço. São Paulo: Annablume, 2013. ANTUNES, R. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviçona era digital. São Paulo: Boitempo, 2018. BERALDO, A. Negociando a vida e a morte: estado, igreja e crime nas margens urbanas. São Carlos/SP: Ed.UFSCar, 2022. BHATTACHARYA, T. Social reproduction theory: remapping class, recen- tering oppression. London: Pluto Press, 2017. BONDUKI, N.; ROLNIK, R. Periferias: ocupação do espaço e reprodução da força de trabalho. São Paulo: FAUUSP, 1979. BRAGA, R. Rebeldia do precariado: trabalho e neoliberalismo no Sul global. São Paulo: Boitempo, 2017. CALDEIRA, T. Peripheral urbanization: autoconstruction, transversal logics, and politics in cities of the global South. Environment and Planning D: Society and Space, v. 35, n. 1, p. 3-20, 2017. CANETTIERI, T. Periferia e a luta por moradia e pela vida em tempos de pan- demia: cenário e desafi os. Ipê Roxo. Jardim/MS: UEMS, v. 2, p. 51-61, 2021. CANETTIERI, T. A condição periférica. Rio de Janeiro: Consequência, 2020. COSTA, H. Um lugar ao sol: utopia e sofrimento no empreendedorismo popular paulistano. Campinas/SP. Tese de Doutorado em Ciências Sociais, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, UNICAMP, 2022, mimeo. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 145 DENNING, Michael. Wageless life. New Left Review, n. 66, p. 79–97, 2010. FEDERICI, S. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico reprodução e lutas feministas. São Paulo: Elefante, 2018. FELTRAN, G. Fronteiras de tensão: política e violência nas periferias de São Paulo. São Paulo: Editora Unesp, 2011. FELTRAN, G. O valor dos pobres: a aposta do dinheiro como mediação para o confl ito social contemporâneo. Cadernos CRH. Salvador: UFBA, v. 27, n. 72, p. 495-512, 2014. FERGUSON, S. Woman and Work: feminism, labour and social reproduction. Londres: Pluto Press, 2020. GAGO, V. A razão neoliberal: economias barrocas e pragmática popular. São Paulo: Elefante, 2018. GIAVAROTTI, D. Eles não usam macacão: crise do trabalho e reprodução do colapso da modernização a partir da periferia da metrópole de São Paulo. São Paulo. Tese de Doutorado em Geografi a. Programa de Pós-Graduação em Geografi a, USP, 2018. GRAY, N. Rethinking Italian autonomist marxism: spatial composition, urban contestation, and the material geographies of social reproduction. Antipode, v. 54, n. 3, p. 800-825, 2022. GUERREIRO, I. Aluguel informal e a divisão da classe. Passapalavra, 26 out. 2020. Disponível em: https://passapalavra.info/2020/10/134839/ Acesso em: 1 fev. 2023. HIRATA, D. Sobrevivendo na adversidade: mercados e formas de vida. São Carlos: EdUFSCar, 2018. HOLSTON, J. Cidadania insurgente: disjunções da democracia e da moder- nidade no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. KOWARICK, L. A espoliação urbana. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. KURZ, R. Dinheiro sem valor: linhas gerais para uma transformação da crítica da economia política. Lisboa: Antígona, 2014. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 146 KURZ, R. A crise do valor de troca. Rio de Janeiro: Consequência, 2018. KURZ, R. O colapso da modernização: da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial. São Paulo: Paz e Terra, 1993. LEFEBVRE, H. Critique of Everyday Life. London: Verso Books, 2014. MACHADO DA SILVA, L. A. Estratégias de vida e jornada de trabalho. In: MACHADO DA SILVA, L. A. (org.). Condições de vida das camadas popu- lares. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. MACHADO DA SILVA, L. A. Sociabilidade violenta: por uma interpretação da criminalidade contemporânea no Brasil Urbano. Sociedade & Estado. Brasília: UNB, v. 19, n. 1, p. 53-84, 2004. MACHADO DA SILVA, L. A. O mundo popular: trabalho e condições de vida. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens, 2018. MARICATO, E. A produção capitalista da casa (e da cidade) no Brasil urbano. São Paulo: Alfa-Omega, 1979. MARX, K. O Capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013. MENEGAT, M. A crítica do capitalismo em tempos de catástrofe. Rio de Janeiro: Consequência, 2018. MOURA, C. Sociologia do negro brasileiro. São Paulo: Editora Perspec- tiva, 2019. OLIVEIRA, F. Crítica da Razão Dualista / O ornitorrinco. São Paulo: Boi- tempo, 2003 PAOLINELLI, M. “Sem-casa” ou inquilino? Passapalavra, 29 ago. 2022. Disponível em: https://passapalavra.info/2022/08/145580/ Acesso em: 3 fev. 2023. PAOLINELLI, M. Ocupar, alugar, ocupar: rentismo de baixo e organização popular na produção da cidade. Belo Horizoner/MG, Tese de Doutorado em Arquitetura e Urbanismo, UFMG, 2023. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 147 PAOLINELLI, M.; CANETTIERI, T. Dez anos de ocupações organizadas em Belo Horizonte: radicalizando a luta pela moradia e articulando ativismos contra o urbanismo neoliberal. Cadernos Metrópole. São Paulo: PUC-SP, v. 21, n. 46, p. 831-853, 2019. PERLMAN, F. La reproduction de la vie quotidienne. L’homme et la société, n. 15, p. 345-362, 1970. POSTONE, M. Tempo, trabalho e dominação social. São Paulo: Boi- tempo, 2014. RIBEIRO, A. S. Vai crédito hoje? do ‘curto-circuito’ ao blackout da repro- dução crítica do capital fi ctício em São Paulo. São Paulo. Dissertação de Mestrado em Geografi a, USP, 2015. RIBEIRO, V. Redes de amparo e os evangélicos (neo)pentecostais em favela. ANAIS. 41º Encontro Anual da Anpocs. Caxambu: Anpocs, 2017. RICHMOND, M.; KOOPER, M.; OLIVEIRA, V. C.; PLACENCIA, J. Espa- ços periféricos, ontem e hoje. In: RICHMOND, M. (org.). Espaços periféricos: política, violência e território nas bordas da cidade. São Carlos: Ed.UFSCar, 2020, p. 13-40. RIZEK, C. Viração e trabalho: algumas refl exões sobre dados de pesquisa. Estudos de Sociologia. Araraquara/SP: UNESP, v. 11, n. 21, p. 49-59, 2006. RIZEK, C. Verde, amarelo, azul e branco: o fetiche de uma mercadoria ou seu segredo. In: OLIVEIRA, F.; BRAGA, R.; RIZEK, C. (org.). Hegemonia às avessas. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 215-236. RIZEK, C. Periferias: revisitando fraturas e crises. In: CARLOS, A. F.; RIZEK, C. Direito à cidade e direito à vida: perspectivas críticas sobre o urbano e a pandemia. São Paulo: IEA/USP, 2022, p. 44-71. SCHOLZ, R. O valor é o homem. Novos Estudos. São Paulo: Cebrap, n. 45, p. 15-36, 1996. SCHOLZ, R. Überfl üssig sein und Mittelschichtsangst. Das Phänomen der Exklusion und die soziale Stratifi kation. Exit! Krise und Kritik der Waren- gesselschaft, v. 5, 2008. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 148 SCHWARZ, R. Sequências brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. SCIRÈ, C. 2011. Financeirização da pobreza: Crédito e endividamento no âmbito das práticas populares de consumo. Teoria & Pesquisa. São Carlos/ SP: UFSCAR, v. 20, p. 65-78, 2011. SIMONI, C. Periferia e fronteira: o governo dos pobres nos confi ns da urba- nização. In: CARLOS, A. F.; CRUZ, R. de C. (org.). Brasil, presente! São Paulo: FFLCH, 2020, p. 47-70. STANDING, G. O precariado: a nova classe perigosa. Belo Horizonte: Autên- tica, 2013. TELLES, V. A cidade nas fronteiras do legal e do ilegal. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2011. VERDI, E. Vem, Espírito, e mostra quem realmente precisa. In: LACZYNSKI, P.; PULHEZ, M.; MILANO, G.; PIETRO, G.; PETRELLA, G. (orgs.). Acu- mulação do capital e reprodução da vida: tensões a partir da produção do espaço. São Paulo: Instituto das Cidades/Unifesp, 2022, p. 44-71. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão A CRÍTICA À PRECARIEDADE Rosangela Nair de Carvalho Barbosa DOI: 10.24824/978652515286.8.149-176 O tema da precariedade tem tomado a agenda de debates acadêmicos e profi ssionais, fi gurando como uma expressão recorrente, em todo lugar, desde o fi nal do século passado. A incidência dessa contenda,todavia, nem sempre é acompanhada de precisão teórica e analítica a respeito de que fatores da realidade são reconhecidos no termo guarda-chuva precariedade e que fun- damentos os explicam. O vocábulo tem sua raiz na língua latina como precarius, designando a qualidade de algo incerto, de pertencimento alheio, revogável, passageiro ou de baixa estabilidade. Precariedade diz respeito a um estado ou situação instável, adversa, insegura e suscetível à invalidação, ainda que o envolvido dependa dos bens ou serviços que temporariamente lhe eram disponibilizados. Nas Ciências Sociais, particularmente, a precariedade costuma ser referida à insegurança e instabilidade das condições de vida e trabalho no capitalismo, a partir dos anos de 1970. Nesse enquadramento, na literatura, o termo coirmão precarização diz respeito ao fazer-se precário, ou seja, envolve o paulatino processo e confl ito social de rebaixamento das condições e relações de trabalho que ainda não estão vilipendiadas (DRUCK; THÉBAUD-MONY, 2007)50. O problema é que essa instabilidade e incerteza social não é uma questão nova no capitalismo, mas constitutiva da natureza social do modo de produção capitalista, ainda que desde 1970 apresente mudanças qualitativas em razão do acirramento das contradições internas provocadoras de limites à valorização do valor, impelindo a barbarização da vida51. Este capítulo aborda a precarização das condições de vida e trabalho como assentamento da lógica da sociedade capitalista, determinada pela natureza 50 A partir de diferentes ângulos teóricos Guy Standing (2013), Ruy Braga (2012, 2017) e Alves (2013) debatem acerca da constituição social do precariado, referindo-se aos indivíduos atingidos pelas formas precárias de vida e trabalho. 51 Evidente, que compreendemos que há uma alteração qualitativa nos últimos quarenta anos, na medida em que o ápice dos limites e contradições internas da sociabilidade capitalista carrega o novo tempo para uma acirrada reestruturação capitalista mundial com picos de agravamento em 2000 e, sobretudo, em 2008. O esgotamento do modo técnico-operacional de aumento da produtividade dos “trinta anos gloriosos” impactou o consenso social que sustentava esse ciclo virtuoso do capitalismo, provocando a colisão da associação distribuição de renda aos assalariados e acumulação de capital. Para variados estudiosos é um rompimento com o pacto social existente desde o pós-Segunda Guerra e que provoca o esgarçamento do tecido social (CASTEL, 1998; BOURDIEU, 1998, 2008; POLANYI, 2000), colocando em ruínas o consenso social em torno do trabalho assalariado fordista. Para outros, expressa a crise estrutural do capital, em sua reprodução ampliada, conforme mencionaremos adiante. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 150 intrínseca da mercadoria e de suas contradições. Inicialmente, aborda a ênfase do tema nas Ciências Sociais, que o associa, principalmente, à decadência do pacto social fordista. Em seguida, o texto interpreta alguns fundamentos centrais da lógica do capital, destacando a indissociabilidade da insegurança social, do modo de ser da riqueza capitalista, efetivamente provocadora de verdadeiros dramas humanos resultantes das vidas vividas à deriva. Por fi m, o texto conclui sobre a importância do avanço da crítica do fetiche da segurança dos contratos fordistas para que se possa avançar na compreensão do core das determinações da precariedade, da vida subsumida às condições capitalistas. Alguns parâmetros do debate A precariedade emergiu como tema relevante nos estudos sociológicos franceses, nos anos de 1980 (BARBIER, 2005), abarcando distintas expres- sões sociais, decorrentes da nova onda de desemprego de longa duração, de trabalhos não cobertos por contratos legais e por proteção social (CASTEL, 1998), assim como da emersão de novas atividades de prestação de serviços, na fl exibilidade laboral pós-fordista (GORZ, 2004). Outros estudos franceses enfatizaram, desse quadro, a descoletivização laboral da indústria com a rees- truturação produtiva, a segregação das periferias urbanas e a heterogeneidade das formas de trabalho, confi gurando verdadeiros entraves ao entrosamento social, além de situarem o desalento da vida vivida no capitalismo, em razão da remuneração baixa e incerta (BOURDIEU, 1998). O ponto de partida da abordagem da precariedade envolve, nesse diapa- são, uma crítica à neoliberalização do capitalismo e às consequências dele- térias sobre as condições de vida e trabalho, incluindo a atomização dos indivíduos sociais. E, com efeito, para a Sociologia francesa essa precariedade atinge, de algum modo, a todos os assalariados, sendo que as situações mais drásticas envolvem pungente desestruturação da existência humana, com o futuro incerto para os cuidados materiais, para as relações afetivas e para as insurgências coletivas contra esse abismo social. Por outro lado, para os que conseguem manter os empregos com relativa segurança social resta a angústia avassaladora com o espectro da (sempre) possível substituição eminente, tendo em vista o denso exército de trabalhadores desempregados52. 52 É válido acrescentar que esse universo de ponderações sobre as condições de vida e de trabalho no capitalismo infl uenciou também a OIT (Organização Internacional do Trabalho) que passou a caracterizar o trabalho precário como aquele regido por contratos de duração restrita (temporário, intermitente, casual), crescentemente menos normatizado por regulações públicas e com proteção frágil contra demissão; baseado em relações de trabalho camufl adas e trianguladas como subcontratação, estágios, cooperativas ou empre- sas-plataformas, além de gestão individualizada do trabalho, tendência a impedir a organização sindical e condições laborais inseguras com restrição do salário, das condições de saúde e segurança ocupacional, E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 151 Efetivamente, o debate francês sobre a precariedade – que infl uenciou a Europa como um todo, assim como o sul global –, referencia-se na observação sobre um tipo novo de insegurança social, resultante do reordenamento da produção do valor e da fl exibilização do Estado social nos países centrais, que outrora mantiveram uma cesta abrangente de segurança social pública e de empregos. Portanto, a precariedade escoa do novo ciclo do capitalismo, com a queda estrutural do emprego, a desregulação do trabalho, o rebaixamento da renda e a diminuição da ação do Estado social, como expressão de uma época histórica específi ca do capitalismo, a partir dos anos de 1970. Então, a precariedade é problematizada, principalmente, à luz da segurança social e da renda do trabalho, sendo ela tanto maior quanto mais rebaixado forem esses fatores. Mas, a precariedade também pode decorrer, de acordo com os estudos, do trabalho intenso que provoca adoecimentos, letalidade e sobre-exploração, sendo capaz de atingir, inclusive, o núcleo mais estável da força de trabalho53. Por outro lado, a própria ruína da forma-emprego cria outros destroços, pois o alto desemprego igualmente provoca a reprodução de ocupações regu- lares de não-emprego, ampliando, nessas condições, a escala de trabalhadores que vive em condições de vida instáveis, de modo transitório, por longo tempo ou para sempre, empurrados para a sarjeta comum dos supranumerários54. acrescido de ausência de promoção da qualifi cação e do crescimento em carreira. Para essa agência mul- tilateral, o quadro de fl exibilização, além de baixa proteção jurídica e atuação sindical, provoca expansivo deslocamento de riscos dos empregadores para os trabalhadores (OIT, 2011). 53 Essa é uma ponderação recorrente nos estudos do trabalho, como o faz Linhart quando enfatiza o sentimento de precariedade como uma variável pertinenteàs condições de saúde do trabalhador, em razão das exigências de intensidade do trabalho que leva a que os trabalhadores estejam permanentemente preocupados com a possibilidade de não terem condições de cumprirem as metas, o que os levariam a não se sentirem seguros ou protegidos em seus postos de trabalho, tornando o futuro aleatório. A autora chama isso de precariedade subje- tiva, inerente ao assalariado estável que mesmo não compondo o exército de desempregados, vive a tormenta da incerteza no trabalho, por não poder se fi ar na experiência, competência, habilidade e rede de sociabilidade laboral, necessitando se esforçar continuamente para atingir os objetivos fi xados pela empresa. Sem contar com amparo coletivo, dada a individualização das relações de trabalho, dissemina-se o empreendedorismo na gestão da carreira e, portanto, a viva competição entre os trabalhadores. “O resultado é, frequentemente, o medo, a ansiedade, a sensação de insegurança (...) o sentimento difuso de (...) ser obrigado a cometer erros para atingir objetivos (...) erros que (também) poderiam justifi car um afastamento.” (LINHART, 2014, p. 46). 54 O problema da população em excesso no capitalismo não é um desafi o dos dias de hoje, nem mesmo a polarização em torno da heterogeneidade do trabalho. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), nos anos de 1960, classifi cou o trabalho na forma emprego (com contrato de trabalho, regido por legislação trabalhista, realizado em empresas formalizadas do mercado tipicamente capitalista) como trabalho for- mal e chamou de trabalho informal aquele realizado sem contrato de trabalho e em formas econômicas pré-capitalistas, observável nos países periféricos do capitalismo. Já nos anos de 1980, a OIT, tratou as mudanças no trabalho capitalista mundial por meio das noções de emprego padronizado versus empregos não-padronizados. O emprego padronizado era o emprego em tempo integral, contínuo e estável, represando os trabalhadores em trajetória ocupacional com um único (ou poucos) empregador(es). Essa modalidade envolvia também salário para sustento da família, acesso às políticas públicas (apoio à reprodução social), legislação protetiva do trabalho e representação sindical. O emprego não-padronizado era a negativa ou a insegurança em todos esses quesitos. A base da sociedade salarial europeia envolvia esse emprego-padrão, E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 152 Os impasses dessa refl exão merecem nosso destaque, pois a morfologia da precariedade descritiva apela para os traços fenomênicos das relações sociais de produção capitalistas contemporâneas em torno do neoliberalismo e, ainda que esses diagnósticos tenham papel no debate teórico e político, não expõem per se as determinações fundamentais desse quadro societário. A despeito das diferenças entre essas interpretações é possível identifi car que a maioria delas se apoia na economia política do reformismo, requerendo a constituição de uma nova regulação no capitalismo da era globalizada. O problema exposto por elas é a integração ou a coesão social na institucionalidade da democracia burguesa, quando trabalhadores são empurrados para maior insegurança, para a assimilação de uma identidade social negativa e para a apatia provocadora do suposto radicalismo despolitizado (BRAGA, 2012, 2017). Se o estatuto do trabalho assalariado fordista canalizava o confl ito capital/ trabalho – com a institucionalização de Estado social, interface com sindicatos, negociação coletiva, consumo de massas -, quando o trabalho atípico vira qua- se-norma da economia capitalista – com o trabalho sem forma (OLIVEIRA, 2013) – parte dos críticos da precariedade chamam a atenção para a corrosão das instituições. Por isso, o que propõem é recompor o Estado, no sentido de renovar as bases do compromisso capital/trabalho na era da acumulação fl exível, para restaurar os mecanismos de regulação social. Isso signifi ca o debate em torno do Estado neoliberal, por não ser ele uma alternativa viável para a integração na sociedade, portanto, questionam o modelo de regulação e não o capital55. ao menos no centro e no norte do continente. Todavia, o oposto, o emprego não-padrão, era invisibilizado nessas regiões ainda que envolvesse segmentos de trabalhadores expressivos como mulheres e migrantes (ou seus descendentes) que difi cilmente participavam da experiência laboral padrão. Esse modo dominante de pensar o trabalho (emprego-padrão) tinha o efeito ideológico de positivar o enquadramento fordista e deixar na penumbra o trabalho e as condições de vida que atravessavam a maior parte do planeta. No capitalismo dependente, por exemplo, fortaleceu-se o enquadramento dos bons trabalhos como aqueles com contrato ou “carteira assinada” (formais) e os demais como informais, repletos de precariedade. Nesse caso, a saída era ter como horizonte o crescimento dos trabalhos formais, o que invisibilizava o trabalho informal – que abarcava a maioria da população ativa -, e de certo modo alimentava o argumento místico de que mais modernização capitalista levaria à ampliação de empregos-padrão. Hoje, com as mutações em voga, não é possível ver a generalização da forma emprego-padrão e, ao contrário, a precariedade ganha expressão e a sua caracterização descritiva tende a relacionar o trabalho temporário – com ou sem contrato -, à renda baixa e/ou irregular e à falta de benefícios sociais trabalhistas. O mais arrebatador é que essa forma de trabalho historicamente precária da periferia capitalista se generalizou, demonstrando que o que se vivia antes no sul global era mesmo capitalismo barbarizante, como futuro antecipado, que, agora, se espalhou no novo tempo do mundo, conforme refl etiu Oliveira (2013) e Arantes (2023). 55 Esses estudiosos tendem a se apoiar em Polanyi (2000), para quem, a mercantilização da terra e do trabalho, assim como a dinâmica desmesurada desse processo aniquila o que ele chama de a própria substância da sociedade, o sentido coletivo das relações entre os homens e deles com a natureza, portanto dos próprios valores de uso. Essa degradação tenderia a ruir também com o próprio mercado e essa contradição seria o substrato da história moderna. A solidariedade fordista, com as formas sociais de regulação do mercado, serviu como boia de salvação para as contradições perenes da mercantilização. O Estado e o sindicato E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 153 De acordo com BRAGA (2012) trata-se da nostalgia do fordismo no debate europeu, visando a institucionalização de novas relações que possam domar o capital e integrar os trabalhadores. Ao fundo, não deixa de ser uma via ideológica de passivização dos confl itos e apatias em favor da moderni- zação da gestão das ruínas do capitalismo. Sem alcançar as determinações sociais, concentram-se nas fl exiseguridades (FLEYSSINET, 2009), ou seja, nas possibilidades de viabilizar alguma ocupação aos trabalhadores nas suas trajetórias fl exíveis no mercado ou assistência social aos empurrados para os porões da usina de imprestáveis para o capital. O movimento crítico contrário, que queremos enveredar, é o de buscar os fundamentos da mencionada crise, evidenciando seu caráter estrutural e sistêmico, pois atinge o coração do capitalismo, o cerne da acumulação de capital, tornando a sua reprodução mais barbarizante (MENEGAT, 2019). A precarização das condições de trabalho e de vida caracteriza-se como resposta do capital ao seu caos para valorização do valor – em contexto não expansivo do valor -, desencadeando um amplo processo de transformação da morfo- logia do trabalho e da proteção social, que signifi ca desvalorização da força de trabalho, ampliação do capital constante na economia, encurtamento do trabalho vivo, diminuição da distribuição do mais-valorpara o Estado Social e abertura de novas esferas de negócios em áreas ainda não capitalizadas (serviços e novos extrativismos da natureza). A priorização da análise dos fundamentos e das contradições internas da dinâmica capitalista não desconsidera as manifestações históricas da realidade concreta. Por isso, detectamos que a partir de 2008, o mundo capitalista vive, de fato, um novo fl uxo de precariedade, como resultado dos ajustes austericidas do capital para fazer frente ao curto-circuito fi nanceiro iniciado no mercado das hipotecas norte-americanas e reverberado globalmente. Esse marco é antecedido pelo conhecido quadro neoliberal do regime pós-fordista encetado a partir dos anos de 1980 e que, na primeira fase, foi responsável pelo deslocamento espacial da produção, pela desregulamentação dos mercados, pela hiperfi ccionalização da economia (dispositivos fi nanceirizados), pelo crescente desmanche dos direitos trabalhistas e pelo enxugamento dos serviços públicos. No contexto pós-2008, aprofundam-se esses fundamentos neoliberais com a generalização da preca- riedade, espalhando com mais ardor a insegurança social56. eram a estrutura de emergência que canalizava o antagonismo para o curso da cidadania salarial (proteção social e carreira ocupacional), a nosso ver, num período peculiar do capitalismo, quando o expansionismo do valor estava em alta, sendo outra a situação na crise aberta a partir dos anos de 1970. 56 A resistência a essa reacomodação neoliberal do capitalismo não deixou de vir à tona e a juventude mundial reagiu em diversos pontos geopolíticos. Esses escombros mobilizaram insurgências contra a desenfreada expropriação social, contra as privatizações, o reordenamento do trabalho, o alto custo de vida e a violên- cia sobre a população acantonada nas periferias urbanas. Contramovimentos de novo tipo, de natureza E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão 154 No entanto, superar a restrição do debate da morfologia neoliberal do traba- lho têm possibilitado a abertura de novas veredas investigativas. Dörre (2022), por exemplo, afi rma que uma nova etapa dos estudos se inicia na Europa, com o necessário reencontro da Sociologia com os estudos marxistas para aprofundar a compreensão sobre a sociedade precária, com a generalização de ocupações com baixa remuneração, com ampliação das ocupações relacionadas aos servi- ços pessoais e com o crescimento do emprego de curta duração por toda parte. Ainda que a abordagem morfológica descritiva tenha bastante espaço em seus estudos, o autor considera o contexto atual como uma nova fase do capitalismo que engendra uma mobilidade social circular ao assalariado, com o trabalhador dependendo de seguro-desemprego, mesmo estando ocupado, devido à baixa remuneração, transitando entre “desemprego, trabalho substituto socialmente fomentado e empregos precários” (DÖRRE, 2022, p. 111) com, na melhor das hipóteses, uma movimentação horizontal na pirâmide social, quando não a derrocada para patamares mais baixos em termos de condições de vida. Para o sociólogo, esse drama merece ser criticamente compreendido, superando-se também o conhecimento patriarcal que desde sempre, na Europa, tomou como referência as condições estáveis de trabalho, de homens brancos. As formas de trabalhos fl exíveis (atípicos, informais, temporários) mesmo nos países centrais, sempre abarcaram mulheres e migrantes, sendo que agora estão ingressando no radar da crítica e, por isso, a importância de ampliar a pesquisa sobre a multidimensionalidade das expressões da precariedade, abrangendo as dimensões de classe, de gênero, de etnia/raça e de nacionalidade/regionalidade. Em adição, o autor acentua que as condições de vida instáveis atingem também indivíduos não integrados no trabalho remunerado por serem inativos – crianças, jovens e aposentados - , o que signifi ca que de algum modo, a instabilidade social que marca a precariedade não envolve somente o indivíduo (trabalhador ocu- pado), mas repercute sobre o entorno, nas relações sensíveis em que está inserido e isso não é adequadamente problematizado e dimensionado nas pesquisas57. espontânea, contra esse novo estágio do capitalismo, que amplia a mercantilização e cria mais empecilhos para o acesso ao trabalho e a renda. O cerne da mobilização seriam os destroços da fi nanceirização. ata- das à denúncia das relações de opressão, exploração e espoliação por forças fi nanceirizadas mundiais. A precariedade da condição proletária começou a aparecer, então, como o novo meio de possível unifi cação dos subalternos (BRAGA, 2012, 2017). 57 Para Dörre (2022), ainda que a precariedade, hoje, atinja a todos que dependem do assalariamento, a compreensão mais próxima da complexidade da realidade social exige que se pense esses marcadores sociais mencionados e a conexão entre classe e riscos de precariedade; frações de classe e de segmento social e a maior permeabilidade à insegurança e à instabilidade social. Mesmo que não forme uma classe à parte como precariado, tudo indica que os efeitos materiais e subjetivos na vida do assalariado merecem ser apreciados, inclusive, para entender essa universalização do trabalho abstrato e a menor expressão dos conteúdos particulares do trabalho concreto, que aprofundam os efeitos humanos negativos, ao passo que possibilitam entender e atuar sobre o nexo comum dos trabalhos, desviando de dispositivos corporativos hierarquizantes que tradicionalmente marcaram as identidades laborais fordistas. E di to ra C R V - Pr oi bi da a im pr es sã o e/ ou c om er ci al iz aç ão LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 155 Essa reviravolta nos estudos do trabalho exige, segundo Döre, considerar as conexões nas cadeias globais de valor, que como totalidade mostram indí- cios importantes de que estamos diante de uma sociedade precária mundiali- zada, não podendo essa dinâmica ser restringida a uma parte do mundo, a um ramo econômico ou a um capitalista particular, como comumente foi tratado - casos à parte ou como fruto do subdesenvolvimento do hemisfério sul58. Esse universo de novas vias de estudos do trabalho já era abordado, em parte, na crítica de Alves (2013) e Antunes (2020). De Alves (2013), por exemplo, podemos ressaltar, em especial, a abordagem histórica da precari- zação das últimas quatro décadas, como parte das novas determinações estru- turais do capital em crise de valorização do valor, motivo da proeminência da fi nanceirização da riqueza e da hegemonia do capital fi nanceiro. Antecipa que a precariedade do trabalho é um traço estrutural do capitalismo e que esse tempo histórico da crise estrutural altera a sua forma de ser, mas não é uma realidade inesperada ou restrita ao pós-fordismo. Para ele, há uma primeira geração de precarização manifesta no século XIX, como amadurecimento do modo de produção concomitante a precariedade sala- rial extrema, que inclusive alimentou as lutas sociais por regulação do trabalho e as necessidades de ampliação de mercado (matérias-primas, trabalho e consumo). O capital monopolista, entre as duas grandes Guerras Mundiais associou o sis- tema de produção (e sua expansão geopolítica) com a redistribuição de riqueza nos países cêntricos, envolvendo direitos trabalhistas, salários relativamente crescentes, carreira estável, organização sindical e serviços sociais públicos. A segunda geração de precarização provocou a corrosão desse estatuto salarial, a partir dos anos de 1970, abrindo um novo tempo histórico de degra- dação e incertezas nas condições de vida e trabalho. Entretanto, o novo (e precário) mundo do trabalho abriria, segundo o autor, uma terceira geração de precariedade que diz respeito à precariedade existencial provocada pelo emprego generalizado de tecnologia informacional e do Toyotismo (método just in time) na produção e na totalidade da vida social, engendrando maior