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Labirintos da precarização

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Editora CRV
Curitiba – Brasil
2023
Rosângela Nair de Carvalho Barbosa
Ney Luiz Teixeira de Almeida
(Organizadores)
LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO 
DO TRABALHO E DAS 
CONDIÇÕES DE VIDA
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Copyright © da Editora CRV Ltda.
Editor-chefe: Railson Moura
Imagem de Capa: Freepik
Diagramação e Capa: Designers da Editora CRV
Revisão: Os Autores
Edição fi nanciada com apoio da Capes / Proex - Programa de Excelência Acadêmica.
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)
CATALOGAÇÃO NA FONTE
Bibliotecária responsável: Luzenira Alves dos Santos CRB9/1506
L112
Labirintos da precarização do trabalho e das condições de vida / Rosangela Nair de Carvalho 
Barbosa, Ney Luiz Teixeira de Almeida – Curitiba: CRV, 2023.
466 p.
Bibliografi a
ISBN Digital 978-65-251-5287-8
ISBN Físico 978-65-251-5286-8
DOI 10.24824/978652515286.8
1. Serviço social 2. Precarização do trabalho 3. Reprodução social 4. Contrarreforma I. 
Barbosa, Rosangela Nair de Carvalho, org. II. Almeida, Ney Luiz Teixeira de, org. III. Título IV. 
Série.
CDU 364 CDD 360
Índice para catálogo sistemático
1. Serviço social - 360
2023
Foi feito o depósito legal conf. Lei nº 10.994 de 14/12/2004
Proibida a reprodução parcial ou total desta obra sem autorização da Editora CRV
Todos os direitos desta edição reservados pela: Editora CRV
Tel.: (41) 3039-6418 – E-mail: sac@editoracrv.com.br
Conheça os nossos lançamentos: www.editoracrv.com.br
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Este livro passou por avaliação e aprovação às cegas de dois ou mais pareceristas ad hoc.
Comitê Científi co:
Alexsandro Eleotério Pereira de Souza (UEL)
Claudiane Tavares (UNILA)
Luciene Alcinda de Medeiros (PUC-RJ)
Maria Regina de Avila Moreira (UFRN)
Patrícia Krieger Grossi (PUC-RS)
Regina Sueli de Sousa (UFG)
Solange Conceição Albuquerque 
de Cristo (UNIFESSPA)
Thaísa Teixeira Closs (UFRGS -RS)
Vanessa Rombola Machado (Universidade 
Estadual de Maringá)
Vinícius Ferreira Baptista (UFRRJ)
Conselho Editorial:
Aldira Guimarães Duarte Domínguez (UNB)
Andréia da Silva Quintanilha Sousa (UNIR/UFRN)
Anselmo Alencar Colares (UFOPA)
Antônio Pereira Gaio Júnior (UFRRJ)
Carlos Alberto Vilar Estêvão (UMINHO – PT)
Carlos Federico Dominguez Avila (Unieuro)
Carmen Tereza Velanga (UNIR)
Celso Conti (UFSCar)
Cesar Gerónimo Tello (Univer .Nacional 
Três de Febrero – Argentina)
Eduardo Fernandes Barbosa (UFMG)
Elione Maria Nogueira Diogenes (UFAL)
Elizeu Clementino de Souza (UNEB)
Élsio José Corá (UFFS)
Fernando Antônio Gonçalves Alcoforado (IPB)
Francisco Carlos Duarte (PUC-PR)
Gloria Fariñas León (Universidade 
de La Havana – Cuba)
Guillermo Arias Beatón (Universidade 
de La Havana – Cuba)
Jailson Alves dos Santos (UFRJ)
João Adalberto Campato Junior (UNESP)
Josania Portela (UFPI)
Leonel Severo Rocha (UNISINOS)
Lídia de Oliveira Xavier (UNIEURO)
Lourdes Helena da Silva (UFV)
Luciano Rodrigues Costa (UFV)
Marcelo Paixão (UFRJ e UTexas – US)
Maria Cristina dos Santos Bezerra (UFSCar)
Maria de Lourdes Pinto de Almeida (UNOESC)
Maria Lília Imbiriba Sousa Colares (UFOPA)
Paulo Romualdo Hernandes (UNIFAL-MG)
Renato Francisco dos Santos Paula (UFG)
Sérgio Nunes de Jesus (IFRO)
Simone Rodrigues Pinto (UNB)
Solange Helena Ximenes-Rocha (UFOPA)
Sydione Santos (UEPG)
Tadeu Oliver Gonçalves (UFPA)
Tania Suely Azevedo Brasileiro (UFOPA)
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SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO .......................................................................................... 11
PREFÁCIO .....................................................................................................21
PARTE 1
O DEBATE TEÓRICO SOBRE A PRECARIZAÇÃO 
SOCIAL NO CAPITALISMO
TRABALHO, PRECARIZAÇÃO E PRECARIEDADE: considerações 
teóricas à luz de um balanço (auto) crítico ...................................................... 37
Graça Druck
DOI: 10.24824/978652515286.8.37-66
MISÉRIA AUTOMATIZADA: a crise do valor como fundamento da 
precarização do trabalho .................................................................................67
Lana Carrijo
Mariela Becher
DOI: 10.24824/978652515286.8.67-84
CRISE DO CAPITAL, PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E TICS: o 
trabalho de assistentes sociais no “fi o da navalha” ........................................ 85
Raquel Raichelis
DOI: 10.24824/978652515286.8.85-108
AS FORMAS DE SER DO TRABALHO NO CAPITALISMO 
CONTEMPORÂNEO: do Taylorismo-Fordismo à acumulação fl exível e 
digital .............................................................................................................109
Ricardo Antunes
Luci Praun
DOI: 10.24824/978652515286.8.109-122
GEOGRAFIAS DA REPRODUÇÃO SOCIAL CRÍTICA: fraturas e 
fronteiras em territórios periféricos durante a crise ....................................... 123
Thiago Canettieri
DOI: 10.24824/978652515286.8.123-148
A CRÍTICA À PRECARIEDADE ..................................................................149
Rosangela Nair de Carvalho Barbosa
DOI: 10.24824/978652515286.8.149-176
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PARTE II
A VIOLÊNCIA DA DINÂMICA CAPITALISTA PRECARIZANTE 
E A GESTÃO DOS SEUS ESCOMBROS
EXPROPRIAÇÃO E VIOLÊNCIA: refl exões a partir dos impactos dos 
grandes projetos de desenvolvimento no espaço agrário do Rio de Janeiro ....177
Ana Costa
Paulo Alentejano
Pedro Catanzaro da Rocha Leão
DOI: 10.24824/978652515286.8.177-198
OS DANOS DA MINERAÇÃO SOBRE O MUNICÍPIO DE 
GOVERNADOR VALADARES: instrumentalização do território para a 
cadeia de valor ..............................................................................................199
Fábio Fraga dos Santos
DOI: 10.24824/978652515286.8.199-222
“ACIDENTE INDUSTRIAL AMPLIADO” COMO CONSEQUÊNCIA DO 
PROCESSO DE VALORIZAÇÃO: o caso da minério-dependência de 
Mariana/MG ...................................................................................................223
Roberto Coelho do Carmo
DOI: 10.24824/978652515286.8.223-244
REGIÃO PORTUÁRIA DO RIO DE JANEIRO E HABITAÇÃO 
SOCIAL: da invisibilidade à reivindicação do habitar ................................... 245
Maria Gorete da Gama
DOI: 10.24824/978652515286.8.245-264
TRABALHO E POPULAÇÕES TRADICIONAIS NO CAPITALISMO:
considerações sobre a pesca artesanal ........................................................ 265
Maria Fernanda Escurra
DOI: 10.24824/978652515286.8.265-288
TRABALHO E POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA: uma análise à 
luz da questão social no Ceará .....................................................................289
Régia Maria Prado Pinto
DOI: 10.24824/978652515286.8.289-316
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TRABALHO E REPRODUÇÃO SOCIAL NO CONTEXTO (ULTRA)
NEOLIBERAL: refl exões sobre condições de vida e ilicitude do comércio 
das drogas em terras brasileiras ...................................................................317
Valeria Forti
Juliana Menezes
André Menezes
DOI: 10.24824/978652515286.8.317-342
PARTE 3
A PRECARIZAÇÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS E SUA 
INCIDÊNCIA SOBRE O TRABALHO, OS DIREITOS SOCIAIS E A 
REPRODUÇÃO DAS FRAÇÕES DA CLASSE TRABALHADORA
TRABALHO E CRISE NO CONTEXTO DAS CONTRARREFORMAS 
BRASILEIRAS NO SÉCULO XXI ............................................................... 343
Inez Stampa
Tatiane Valéria Cardoso dos Santos
DOI: 10.24824/978652515286.8.343-364TRABALHO E SAÚDE-DOENÇA: a condição precária pós-reabilitação 
profi ssional ....................................................................................................365
Monica de Jesus Cesar
Paula Cristina Nunes de Sá
Ana Inês Simões Cardoso de Melo
DOI: 10.24824/978652515286.8.365-390
CONTRARREFORMA ADMINISTRATIVA, GERENCIALISMO E 
SERVIÇO SOCIAL: as alterações no processo de trabalho coletivo na 
Previdência Social .........................................................................................391
Gênesis de Oliveira Pereira
DOI: 10.24824/978652515286.8.391-412
ADOECIMENTO E MAL-ESTAR NO MUNDO DO TRABALHO:
discutindo a educação superior .....................................................................413
Deise Mancebo
DOI: 10.24824/978652515286.8.413-426
EXPANSÃO PRECARIZADA DA FORMAÇÃO PARA O TRABALHO 
COMPLEXO NO BRASIL NO SÉCULO XXI .............................................. 427
Amanda da Silva Belo
Carlos Felipe Nunes Moreira
Ney Luiz Teixeira de Almeida
DOI: 10.24824/978652515286.8.427-452
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ÍNDICE REMISSIVO ...................................................................................453
SOBRE OS(AS) AUTORES(AS) .................................................................459
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APRESENTAÇÃO
Esse livro chega ao público por iniciativa do Programa de Pós-Gra-
duação em Serviço Social (PPGSS) da Universidade do Estado do Rio de 
Janeiro (UERJ), com o apoio da CAPES, para dar visibilidade às inquieta-
ções teóricas e empíricas dos diferentes integrantes da Linha de Pesquisa 
“Trabalho, Relações Sociais e Serviço Social”. Em adição, concomitan-
temente, recebe a colaboração valiosa de pesquisadores de outras uni-
versidades que partilham conosco os desafi os de produzir conhecimentos 
sobre os desdobramentos das contradições internas da forma-mercadoria 
para a vida humana e a natureza, expressos nas diferentes manifestações 
de precariedade social do modo de vida no capitalismo, violentamente 
exacerbada nos últimos anos.
A reunião desses textos num único veículo editorial e sua divulgação no 
atual contexto de acirrada devastação do trabalho se presta a colaborar com os 
esforços refl exivos sobre o labirinto social do capital, forjado historicamente 
pelos homens, mas que os afronta com os grilhões da forma-valor. Parecendo 
transitar das histórias kafkianas – que se movem entre o absurdo e a eversiva 
normalidade –, a metáfora do labirinto possibilita entender o realismo dos 
paradoxos capitalistas, pois a sociedade que universaliza o trabalho abstrato 
– reduzindo a vida ao trabalho – progressivamente limita o acesso ao traba-
lho-valor e amplia a viração incerta como meio de vida de que são expressões 
o desemprego estrutural e a informalidade laboral, acentuadas nos últimos 
quarenta anos.
O desfecho trágico da humanidade é não compreender essa sociedade e 
sequer safar-se dela até hoje, como no labirinto de Creta da mitologia grega 
com seus corredores de portas falsas e armadilhas que aprisionam à cilada e 
à repetição. A própria incerteza sobre como levar à frente a vida, diante de 
ganhos incertos e ações públicas furtivas de reprodução social, enebria de 
positividade o empreendedorismo, alimentando a competitividade neoliberal 
entre trabalhadores ciosos por um lugar ao sol. O processo de precarização 
conta com essa disseminação ofi cial da penúria como ferramenta da compe-
titividade, com o trabalhador como empreendedor de si mesmo, pelos corre-
dores da cidade crescentemente mercantilizada. Ao lado dessa artimanha, a 
ampliação das pessoas redundantes aciona também políticas agressivas nada 
desprezíveis de controle populacional, de encarceramento e de militarização 
do cotidiano. Consubstanciando uma formação social desimplicada com a vida 
humana em si e com a própria natureza de que depende, como demonstram 
os problemas climáticos e o extrativismo predatório.
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Em síntese, a crítica social enlaça a coletânea de textos, dando signifi cado 
especial a esse compartilhamento de refl exões promovido pela universidade. 
Por prismas diferentes, os autores amparam-se na crítica da economia política 
e recortam a crise capitalista como decisiva para a análise hoje. Inclusive, os 
textos são críticos às respostas do capital a sua crise, que já somam mais de 
quarenta anos, desde a abertura comercial engendrada pela mundialização 
do capital, a ampliação dos dispositivos de capital fi ctício e de endividamen-
tos, assim como da neoliberalização do Estado com o enfraquecimento dos 
serviços públicos e a ampliação da mercantilização dos serviços de reprodu-
ção social. Ao contrário, o alto desemprego, a queda da renda e o aumento 
da desigualdade social se acentuaram com essa agenda socorrista, que pro-
voca sobreprecarização.
Como poderá ser apreciado pelos leitores, os escritos que apresentamos 
ao público resultam de refl exões atuais sobre trabalhos acadêmicos realiza-
dos ao longo dos últimos anos, em diferentes contextos do país. Os textos, 
reforçamos, versam sobre o assombro da precariedade das condições de vida 
e trabalho no capitalismo, apresentando refl exões apuradas sobre categorias 
teóricas explicativas, manifestações descritivas da realidade social e mapea-
mento dos desafi os para lidar com as agruras desse tempo sombrio. Para expor 
isso, o livro está estruturado em três partes, sendo a primeira parte, intitulada 
“O debate teórico sobre a precarização social no capitalismo”, composta de 
seis capítulos que abordam aspectos centrais dos fundamentos da precarização 
social no capitalismo.
O primeiro capítulo, de autoria de Graça Druck e alcunhado “Trabalho, 
precarização e precariedade: considerações teóricas à luz de um balanço (auto) 
crítico”, examina a produção bibliográfi ca sobre precarização, dialogando com 
variados autores que tratam o tema e com os próprios escritos anteriores da 
autora. A precisão conceitual e os aspectos históricos das transformações do 
capitalismo orientam o desafi o refl exivo do capítulo que sublinha as mutações 
neoliberais como chave-histórica decisiva para as (contra) inovações laborais 
que se expressam como regra e estratégia revigorada de dominação. Esse é o 
sentido das contrarreformas trabalhistas, da terceirização, da uberização, do 
empreendedorismo, do trabalho análogo à escravidão e da erosão da estrutura 
pública dos serviços de reprodução social. A heterogeneidade das formas e 
níveis de precariedade nos países parece decorrer da força da mundialização 
do capital, tornando a precarização aparentemente quase-inevitável, toda-
via, para a autora, esse é o próprio núcleo metabólico da dinâmica mercan-
til reconfi gurada.
Lana Carrijo e Mariela Becher acentuam no segundo capítulo – “Miséria 
automatizada: a crise do valor como fundamento da precarização do trabalho” 
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LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 13
– que a precarização neste século é inteligível somente se apreciada como 
resultado do agravamento da crise estrutural do capital, aberta nos anos de 
1970. Isso porque, desde então, a economia capitalista não foi capaz de impul-
sionar um processo de recuperação da acumulação de modo coerente com 
a compulsão por mais valor. Nesse sentido, entendem que a fl exibilização 
laboral e o desemprego estrutural resultam dos limites à valorização do valor, 
em razão da produtividade e da mundialização comprimir a expansão do 
capitalismo através do trabalho. Concentram a argumentação na observação 
sobre o fundamento do amplo processo de desmonte social no capitalismo 
contemporâneo – expresso em menos emprego, erosão de direitos e políticas 
sociais– delimitando como decifrador dessa peleja a base da produção de 
valor. Ainda que o trabalho continue como mediação das relações sociais no 
capitalismo, a dinâmica das inovações tecnológicas e a mobilidade global 
do capital ampliam a constituição social de humanos supérfl uos à econo-
mia capitalista.
Raquel Raichelis escreve o terceiro capítulo – “Crise do capital, pre-
carização do trabalho e TICs – o trabalho de assistentes sociais no ‘fi o da 
navalha’”– onde refl ete, em outro diapasão, sobre a centralidade da crise do 
capital, acentuando que ela desencadeia o severo contexto de precariedade 
social, pois para reverter os limites aciona-se agendas profundamente pre-
carizantes que agravam a questão social, o que repercute sobre o trabalho 
dos assistentes sociais, notadamente, por conta das novas confi gurações do 
mercado de trabalho da área profi ssional e da própria fragilização neoliberal 
dos serviços públicos. A autora estabelece alguns parâmetros sobre como a 
dinâmica capitalista contemporânea impacta a profi ssão, refuncionalizando o 
assalariamento dos profi ssionais, assim como as respostas às demandas sociais 
e a racionalização instrumental do trabalho através das novas tecnologias 
de informação. Desse modo, examina as mudanças do trabalho profi ssional 
como parte dos processos societários maiores que formam a totalidade social 
capitalista, em crise.
Ricardo Antunes e Luci Praun escrevem o quarto capítulo – “As formas 
de ser do trabalho no capitalismo contemporâneo: do taylorismo-fordismo à 
acumulação fl exível e digital”. O texto toma como ponto de partida o enten-
dimento sobre a redução do indivíduo à unidimensionalidade do trabalho 
no capitalismo, ao transformar a capacidade laboral em mercadoria força de 
trabalho, apequenando e exaurindo a vida humana no assalariamento. Com 
esse eixo analítico o capítulo percorre os ciclos expansionista do fordismo e 
de crise do capitalismo que redundou no toyotismo e, mais recentemente, na 
digitalização, apontando aspectos do processo de trabalho nesses contextos. Os 
autores centram-se na arguição sobre os sentidos intrínsecos, visando superar, 
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portanto, o enfoque que restringe a abordagem das transformações do trabalho 
à mera organização e gestão do trabalho, distanciada da dinâmica constitutiva 
da sociedade capitalista. Nessa argumentação tratam da precariedade como 
signo do trabalho capitalista com contornos de maior asselvajamento em 
escala global, nas últimas décadas, com novas engenharias de sujeição ao 
domínio do capital.
Sob outro prisma, a presente coletânea enfatiza também que a repro-
dução do capital em crise envolve dinâmicas sociais peculiares que tendem 
a aproximar a totalidade social às adversidades da reprodução da vida nas 
periferias e essa hipótese é a base substancial do capítulo cinco –“Geografi as 
da reprodução social crítica: fraturas e fronteiras em territórios periféricos 
durante a crise” – de autoria de Thiago Canettieri. De modo instigante, diz 
o autor, que a periferia existe como lugar da exclusão das formas básicas de 
sociabilidade do valor e, paradoxalmente, essa incongruência passa a compor 
também o núcleo do sistema social das mercadorias, que absorve com maior 
proeminência cenas sociais de precariedade, informalidade e irregularidades 
para realização da forma-valor, como outrora era específi co da periferia, onde 
a relação salarial não se completou dada a superexploração estrutural que sem-
pre implicou em estratégias precárias de reprodução social. Se o contexto da 
crise estrutural do capital provocou a universalização da condição periférica, 
o desafi o do autor, por conseguinte, é o de pensar o capitalismo na periferia, 
para então tratar do sistema como totalidade, no contexto do acirramento 
crítico do valor.
O sexto capítulo – “A crítica à precariedade” – encerra a Parte I do 
livro, com Rosangela Nair de Carvalho Barbosa interpelando também o 
signifi cado e o sentido social da precariedade nesse modo de produção. 
Para isso, faz uma breve digressão sobre a abordagem do tema nas Ciên-
cias Sociais para depois tratar da orgânica vinculação dessa corda bamba à 
natureza social do modo de produção capitalista e das mutações metabóli-
cas pós-1970, com o acirramento das contradições internas da forma-valor 
e, consequentemente, da barbárie social. Acentua a importância da volta 
às categorias fundamentais que dão sentido à sociabilidade capitalista e 
suas contradições, que tendem a forjar realidades críticas e precariedades 
sociais como parte de sua natureza social. Enfatiza as novas dimensões que 
se impõem à essa dinâmica social a partir da instrumentalidade digital da 
produtividade e dos novos entraves da forma-valor, abrindo um tempo de 
crise estrutural no capitalismo. 
A segunda parte do livro é composta por sete capítulos que, sob o título 
“A violência da dinâmica capitalista precarizante e a gestão dos seus escom-
bros”, aborda a continuidade e a atualidade dos processos de expropriação 
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LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 15
social, da produção econômica destrutiva, com destaque aos seus impactos 
na natureza e nas condições de vida da população, em diferentes territórios.
O capítulo sete que inicia a Parte II versa sobre “Expropriação e violên-
cia: refl exões a partir dos impactos dos grandes projetos de desenvolvimento 
no espaço agrário do Rio de Janeiro” e foi escrito por Ana Costa, Paulo Alen-
tejano e Pedro Catanzaro da Rocha Leão. Os autores analisam dois Grandes 
Projetos de Desenvolvimento (GDP) realizados no Estado do Rio de Janeiro: 
o do Complexo Portuário do Açu (São João da Barra) e o condomínio de 
luxo Aretê no Quilombo da Baia Formosa (Búzios). Partem da compreensão 
de que a ação do Estado é um elemento imprescindível para os processos de 
expropriação, considerando seu nítido sentido de classe. O ponto de partida 
dessa rica e potente refl exão é o reconhecimento de que ainda existem áreas 
nas quais o capital não fez incidências com o intuito de objetivar a sua pró-
pria razão de ser: a acumulação incessante. Deste modo, o mapeamento dos 
referidos espaços agrários no Estado do Rio de Janeiro é abordado a partir das 
iniciativas de consolidação de empreendimentos econômicos que têm provo-
cado acirrada expropriação do modo de vida das populações locais por meio 
de violência e violação de direitos, através da associação entre agentes eco-
nômicos privados, nacionais e internacionais, com forte mediação do Estado.
Os processos de espoliação e a violência do capital e do Estado são tam-
bém o foco da refl exão teórica de Fábio Fraga dos Santos. O autor contribui, 
com o oitavo capítulo intitulado “Os danos da mineração sobre o município 
de Governador Valadares: instrumentalização do território para a cadeia de 
valor”. Aborda o impacto do desastre ambiental do rompimento da barragem 
de rejeitos minerais – Mariana/MG (2015) – sobre o município de Governa-
dor Valadares. Em diálogo com a teoria marxista, ele recupera a busca pelas 
altas taxas de lucro realizada pelo capital em sua fase tardia, reafi rmando as 
funções do Estado no processo de garantia das condições de sua reprodução 
ampliada, com destaque para as novas modelagens sociais que decorrem da 
mercadorização da natureza através da apropriação do solo e do subsolo, como 
ocorre no caso das atividades de mineração. O texto, examina a relação entre a 
Companhia Vale do Rio Doce e a cidade de Governador Valadares em Minas 
Gerais, apresentando um resgate histórico de como a mineração se integra 
ao período de boom das commodities desses anos iniciais do século XXI, 
se constituindo em um componente estratégico na dinâmica acumulativa do 
capital na cadeia produtiva global de valor e na economia brasileira.
No nono capítulo, intitulado “ ‘Acidenteindustrial ampliado’ como 
consequência do processo de valorização: o caso da minério-dependência 
de Mariana/MG”, Roberto Coelho do Carmo fortalece a perspectiva aberta 
nessa parte do livro em relação à marca destrutiva do avanço do capital 
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sobre a natureza em busca de taxas de lucro mais vantajosas na economia 
minerária focalizando, sob outro ângulo, o mesmo crime socioambiental do 
complexo de Germano com o rompimento da Barragem do Fundão na cidade 
de Mariana, Minas Gerais. A abordagem enfatiza a dimensão econômica, mas 
também o ponto de vista dos efeitos que provocou na saúde física e mental 
da população de Mariana, precarizando profundamente seu modo de vida. 
Para tanto se vale do conceito de “acidente industrial ampliado” e reforça 
que o boom das commodities é chave para entender a gestão empresarial 
predatória, situando a realidade analisada a partir do marco compreensivo 
da minério-dependência, quando uma determinada localidade fi ca “refém” 
dessa atividade econômica.
A violação de direitos à cidade, à moradia e ao habitar é tratada pela 
autora Maria Gorete da Gama em “Região Portuária do Rio de Janeiro e 
habitação social: da invisibilidade à reivindicação do habitar”, décimo capí-
tulo da presente coletânea. A análise empreendida se debruça sobre a Opera-
ção Urbana Consorciada do Porto na Região Portuária da Cidade do Rio de 
Janeiro, demonstrando ser ela um dispositivo de precarização social. Maria 
Gorete reforça a função que o Estado exerce na garantia das condições de 
reprodução do capital, nessa nova fase da cidade mercantilizada. Identifi ca, 
nesse sentido, como os diferentes agentes públicos - Prefeitura da cidade do 
Rio de Janeiro e a Caixa Econômica Federal, vinculada ao Governo Federal 
- criam uma modelagem de utilização do espaço urbano que transfere recur-
sos do fundo público para a valorização da terra mediante investimentos de 
natureza urbanística. Essas intervenções urbanas se sustentam ideologicamente 
em discursos de revitalização de áreas abandonadas na cidade, mas expressam 
na verdade formas de negação do direito à cidade a partir do forte impacto 
que provocam nas condições de vida da população que vive na região e que, 
desse modo, produz novos espaços para o capital. 
Em “Trabalho e populações tradicionais no capitalismo: considerações 
sobre a pesca artesanal”, décimo primeiro capítulo, Maria Fernanda Escurra 
trata da subsunção da artesania pesqueira à dinâmica empresarial capitalista 
sufocando a tradição da pesca voltada para valores de uso. Mas, não se trata 
de exclusão do pescador artesanal, pois o capitalismo combina exploração da 
força de trabalho da pesca industrial com a subordinação do trabalho autônomo 
da produção mercantil simples. Ao problematizar as condições de trabalho 
dos pescadores artesanais em conexão com a pesca empresarial-capitalista, 
Maria Fernanda Escurra ressalta a precarização inerente aos processos de 
despossessão dos meios de produção, dos excedentes e da apropriação pelos 
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capitalistas. Além disso, nesse processo, a relação orgânica do pequeno pes-
cador com a natureza é revolucionada pelas relações de produção capitalista 
derrubando as barreiras ao seu avanço.
O décimo segundo capítulo, elaborado por Régia Maria Prado Pinto, 
“Trabalho e população em situação de rua: uma análise à luz da questão social 
no Ceará”, desvela as principais determinações do aumento da população em 
situação de rua no Estado do Ceará. A autora parte da compreensão das par-
ticularidades da questão social tomando a condição periférica do capitalismo 
dependente brasileiro como ponto de análise basilar, para então estabelecer 
as mediações com a particularidade da realidade cearense. Nesse movimento 
analítico reconhece que a seca e a pobreza guardam relação com a ampliação 
da população em situação de rua no território cearense. Para além da iden-
tifi cação imediata ou quantitativa do cenário de vida vivida nas ruas, Régia 
Maria apresenta um resgate histórico para compreensão das condições de 
acirramento desses fenômenos na atualidade, o que nos ajuda a cotejar como 
a dinâmica do capital matizada pelo coronelismo e o neoliberalismo se nutrem 
- em momentos distintos da realidade, histórica e econômica -, da fome e da 
sede da população. A refl exão ainda enlaça as expressões da questão social, 
especifi camente as condições de trabalho e de vida manifestas na realidade 
das cidades de Fortaleza, Marcanaú e Caucaia.
A Parte II do livro se encerra com o décimo terceiro capítulo escrito 
por Valeria Forti, Juliana Menezes e André Menezes, intitulado “Trabalho 
e reprodução social no contexto (ultra)neoliberal: refl exões sobre con-
dições de vida e ilicitude do comércio das drogas em terras brasileiras”. 
A relação trabalho e comércio de drogas envolvendo a juventude prole-
tária empobrecida ganha atenção especial neste capítulo, que principia 
expondo determinações fundamentais do trabalho no capitalismo, seguida 
pelo mapeamento das transformações ensejadas pela crise do capital que 
redundou na fl exibilização produtiva e laboral, ao lado da perniciosa neo-
liberalização. Destaque aos traços que caracterizam a situação brasileira 
desde os anos de 1990 e a ênfase ao aprofundamento da erosão dos direitos 
trabalhistas e o encolhimento do emprego, nos últimos anos. A juventude 
não absorvida no mercado de trabalho e com “frágil sentimento de per-
tencimento social” inserida no comércio de drogas é abordada a partir da 
teoria do valor-trabalho, apreendendo que essa mercantilização do ilícito 
se sustenta tanto na exploração como na forte punição da força de trabalho, 
em dispositivos violentos de produção, circulação e consumo, onde a vida 
humana é drasticamente relegada.
A terceira e última parte dessa obra reúne cinco capítulos que abordam a 
temática da precarização sob o prisma das contrarreformas e dos retrocessos 
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no campo dos direitos e das condições de vida dos trabalhadores em geral 
como daqueles que atuam no âmbito do Estado. Intitulada “A precarização 
das políticas públicas e sua incidência sobre o trabalho, os direitos sociais e 
a reprodução das frações da classe trabalhadora”, encerra a coletânea, mas 
não o debate, que esperamos seja rico e potentemente ampliado com a lei-
tura de vocês.
Em “Trabalho e crise no contexto das contrarreformas brasileiras no 
século XXI”, o décimo quarto capítulo que inicia a terceira parte do livro, 
Inez Stampa e Tatiane Va léria Cardoso dos Santos realizam um denso e 
minucioso exame das legislações que fl exibilizam as normativas e a regres-
são dos direitos sociais a partir do fi nal dos anos de 1990. Para as autoras as 
contrarreformas, acentuadas nos últimos sete anos, colocam os trabalhadores 
ainda mais submetidos às inseguranças do mercado e à precarização do 
trabalho. A análise que desenvolvem toma como objeto as transformações 
recentes na legislação trabalhista brasileira nos governos Michel Temer 
(2016-2018) e Jair Bolsonaro (2019-2022). A fl exibilização da legislação 
trabalhista analisada redunda no crescimento da ocupação precarizada. As 
novas normativas conduzem a formas ainda mais precárias de relações con-
tratuais, acentuando e ampliando as práticas da terceirização, a subocupa-
ção, além de fortalecer o trabalho por conta própria ou trabalho autônomo, 
reeditando a informalidade laboral historicamente marcante no mercado de 
trabalho brasileiro.
 Em sequência, no décimo quinto capítulo – “Trabalho e saúde-doença: 
a condição precária pós-reabilitação profi ssional” –, Monica de Jesus Cesar, 
Paula Cristina Nunes de Sá e Ana Inês Simões Cardoso de Melo analisam a 
relaçãoentre trabalho e processo saúde-doença por meio dos fundamentos 
estruturais do modo de produção capitalista e da particularidade da formação 
social brasileira, com destaque para a superexploração da força de trabalho e 
os desdobramentos nocivos à depreciação da saúde dos trabalhadores. O foco 
da pesquisa empírica que embasa a refl exão são os processos de adoecimento 
e/ou de acidentes de trabalho que resultam na inserção de trabalhadores em 
programa de reabilitação profi ssional da Previdência Social, após ser eviden-
ciada a impossibilidade de retorno à função laboral exercida anteriormente. 
A opção por nova atividade para esses trabalhadores envolve inclusive a 
requalifi cação profi ssional, levada à frente pela Previdência Social. Todavia, 
as autoras mostram que a empresa contratante anterior não é obrigada por 
lei a reinserir os trabalhadores, o que comumente leva à aprendizagem de 
nova atividade, sendo, a maioria, executada fora da empresa originária e 
na informalidade. As autoras tomam como chave analítica desses dados a 
precarização estrutural do trabalho, enfatizando a fl exibilização neoliberal 
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que, entre outros fatores, mobiliza a fragilização dos vínculos de trabalho, a 
gestão por metas, a compressão do tempo não-produtivo e, também, o acir-
ramento da degradação das condições de trabalho. Concluem as autoras, que 
os processos de adoecimento/acidente-reabilitação se inserem no contexto de 
acirrada precarização social, inclusive apresentando-se como dispositivo de 
ampliação da superpopulação relativa, dada a depreciação da força de trabalho 
e sua reinserção em atividade econômica rebaixada e, de maneira geral, em 
relações informais de trabalho.
No décimo sexto capítulo – “Contrarreforma administrativa, gerencia-
lismo e Serviço Social: as alterações no processo de trabalho coletivo na 
Previdência Social” – Gênesis de Oliveira Pereira desvela, a partir da expo-
sição de categorias centrais da teoria do valor-trabalho, tendências do mundo 
empresarial que adentram à esfera estatal, a ponto de transformar substantiva-
mente os serviços prestados no campo da Previdência Social. Sua análise leva 
em conta a mediação concreta dos processos de contrarreforma do Estado e a 
adoção das práticas gerencialistas no percurso das mudanças implementadas 
na esfera previdenciária. Dá destaque ao uso recorrente das tecnologias da 
informação nas práticas gerenciais que incidem na algoritimização da política 
previdenciária pela via da avaliação social média e da gestão por metas(pro-
dutivismo) para os processos abertos pelos trabalhadores contribuintes ou 
requerentes do Benefício de Prestação Continuada. Ao realizar um importante 
inventário das normativas que alteram as formas de gestão e de realização 
do trabalho, o autor aponta a modifi cação da base técnica do trabalho reali-
zado pelos assistentes sociais. Destacando no texto que a atividade central 
desenvolvida por essa categoria profi ssional passou a ser realizada através 
das chamadas avaliações sociais remotas ou teleavaliações, problematiza a 
repercussão dessas mudanças sobre as condições de trabalho e a qualidade 
da prestação de serviços aos trabalhadores.
O décimo sétimo capítulo “Adoecimento e mal-estar no mundo do traba-
lho: discutindo a educação superior”, Deise Mancebo identifi ca que os avanços 
tecnológicos têm progressivamente eliminado o trabalho vivo, aumentado o 
desemprego, a informalidade do trabalho e a desigualdade social. Adicional-
mente, enfatiza que a dinâmica do capitalismo contemporâneo, sob a égide 
do neoliberalismo, tem produzido um individualismo exacerbado, além de 
modos de gestão da vida, paradoxalmente, com base nos valores e nas práticas 
empresariais. Como desdobramento a autora destaca os processos de adoe-
cimento social, manifestos em depressão, que passa a fi gurar como narrativa 
hegemônica de sofrimento. Desse quadro, o capítulo recorta o adoecimento 
na universidade que tem se dado de forma silenciosa. Dentre os variados 
aspectos aí envolvidos, sublinha o não-reconhecimento do/no trabalho e as 
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limitações das estratégias defensivas e das resistências ao modelo de gestão 
gerencialista espalhado pelo neoliberalismo. A competitividade, o indivi-
dualismo e a submissão às avaliações quantitativas, associadas à crescente 
intensifi cação do trabalho são processos hoje fl agrantemente presentes no 
cotidiano da universidade e que concorrem para esse quadro de adoecimento.
Encerra a Parte III do livro o décimo oitavo capítulo, escrito por Amanda 
da Silva Belo, Carlos Felipe Nunes Moreira e Ney Luiz Teixeira de Almeida, 
com o título “Expansão precarizada da formação para o trabalho complexo 
no Brasil no século XXI”. A ampliação das redes de educação superior e de 
educação profi ssional e tecnológica públicas é analisada sob uma dupla e 
articulada perspectiva: a das particularidades que a política de educação e o 
acesso à educação, por ela mediatizada, têm no Brasil em função de inserção 
periférica e dependente na dinâmica do capitalismo mundial e a das necessida-
des de formação para o trabalho complexo. É a partir dessa articulação que o 
texto explora o novo quadro institucional da área entre os anos de 2003-2016, 
em decorrência da especifi cidade da coalização de classes que caracterizou 
os governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff , levando à expansão 
dessas redes pela ação do Estado – muito embora também tenha sido experi-
mentada em larga escala na esfera mercantil privada, sobretudo, a educação 
superior. A expansão da rede ocorreu de forma inédita no país incorporando 
segmentos sociais alijados desses níveis e modalidades de educação, ainda que 
isso tenha se dado de forma precarizada e sintonizada aos processos maiores 
de precarização do trabalho e das condições de vida.
Em suma, com essa diversidade de temas e abordagens sobre a preca-
rização das condições de vida e trabalho a coletânea contribui com o ama-
durecimento da perspectiva teórica crítica sobre o capitalismo, reforçando 
a exigência de se tomar a totalidade social engendrada pelo valor e que se 
expressa nas múltiplas manifestações e dinâmicas singulares das nossas vidas. 
Portanto, o propósito é o de apresentar um entendimento apurado sobre o 
tema da precarização, que graça hoje nas narrativas políticas e acadêmicas 
inquietas com o acachapante avanço violento do capital sobre as dimensões 
da reprodução social e da dinâmica do trabalho, em razão dos limites internos 
para reprodução ampliada do valor. Mobilizar maior capacidade teórica para 
pensar esse tempo faz parte da cumplicidade que desejamos, no momento, 
estabelecer com os leitores e leitoras, de modo a enfrentarmos os labirintos 
que nos enredam a esse tempo de instrumentalização humana e barbárie social.
Ney Luiz Teixeira de Almeida
Rosangela Nair de Carvalho Barbosa
Organizadores
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PREFÁCIO
Preliminarmente, saudamos a iniciativa de organização da coletânea 
Labirintos da precarização do trabalho e das condições de vida, tema da 
maior relevância na atualidade e alvo de distintas interpretações em debate 
no universo de autores especializados europeus e brasileiros. Nossas congra-
tulações aos responsáveis pela sua organização, as /aos pesquisadoras(es) que 
partilham seus estudos e pesquisas: autoras e autores, docentes de distintas 
universidades e egressos do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social 
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Agradecemos a honra do convite para prefaciar este livro necessário, 
corajoso, polêmico e revelador de processos históricos em curso. Reconhe-
cemos o privilégio da leitura prévia de textosinéditos, provocativos e desa-
fi adores teoricamente, que enriquecem a diversidade de angulações sobre a 
precarização do trabalho e das condições de vida, a partir da contribuição de 
autores consagrados que vêm se dedicando ao tema, assim como da crítica 
e autocrítica de interpretações veiculadas. Esta coletânea, ao reunir estudos 
referenciais sobre precarização das condições de trabalho e de vida, abre, 
simultaneamente, inéditas sendas para novas pesquisas.
Esta é uma obra enraizada na história recente e no debate contemporâ-
neo sobre as transformações operadas no universo do trabalho na trama da 
valorização do valor em um longo ciclo de crise do capital, em tempos de 
hegemonia das fi nanças e do Estado capturado pelos interesses do grande 
capital voltado a garantir as condições gerais da reprodução, pautado pela 
“nova razão do mundo” (DARDOT e LAVAL, 2016). Os textos reunidos são 
resultados de pesquisas voltadas a elucidar tanto as transformações operadas 
no trabalho quanto na coletividade dos sujeitos trabalhadores na sua dimen-
são de classe enquanto unidade de diversidade: de sexo, raça/ etnia, geração, 
território e nacionalidade.
Esta coletânea constrói fecundas interlocuções entre áreas de conheci-
mento ao romper fronteiras disciplinares em favor da perspectiva de totalidade 
histórica, preservando particularidades nacionais e regionais. 
A superacumulação de capacidades de produção especialmente ele-
vadas e a superprodução em tempos de hegemonia do capital fi nanceiro e 
fi ctício sem precedentes ante o capital produtivo, impulsionam crises, reper-
cutindo na difícil situação dos trabalhadores em qualquer parte do mundo 
(CHESNAIS, 2001, 2013). Sabe-se que o capital, na sua busca incessante 
de lucro, incorpora inovações científi cas e tecnológicas voltadas tanto ao 
aumento da produtividade do trabalho social quanto ao aperfeiçoamento 
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das comunicações, reduzindo o tempo de rotação do capital (tempo de pro-
dução mais o tempo de circulação), elementos determinantes na elevação da 
lucratividade (MARX, 2017, p. 97). O capital, no seu incessante movimento 
de expansão amplia a parcela do mais-valor investida em meios de produção 
(capital constante) ao mesmo tempo em que reduz relativamente a parcela 
investida na compra da força de trabalho (capital variável), tendo em vista 
a redução de custos, lançando mão de renovadas estratégias na sua busca de 
legitimação social.
É na esteira desses processos que tem lugar o tema desta coletânea. A 
elevação da produtividade social do trabalho, a intensifi cação do trabalho da 
parte da classe trabalhadora empregada, a contração da oferta de emprego 
ante o volume do investimento realizados ampliam a superpopulação 
relativa – ou população “sobrante” para as necessidades médias do 
capital–, condição e resultado contraditório da acumulação. Tais processos 
condicionam a “precarização do trabalho e das condições de vida”, sendo 
algumas de suas expressões aqui ressaltadas: a defasagem do salário em 
relação ao valor da força de trabalho, a ampliação do subemprego e do 
desemprego, a degradação das condições de trabalho cujo auge é trabalho 
similar à escravidão, a intensifi cação do consumo da força de trabalho e o 
prolongamento das jornadas de trabalho, a desproteção das relações no 
trabalho, a pauperização relativa e/ou absoluta de segmentos de classe, 
a pobreza e desnutrição, dentre outros. Naquela dinâmica expansionista e 
na contratendência de seus efeitos sociais deletérios tem sido fundamen-
tal o suporte dos Estados nacionais e do fundo público, que hoje fi gura 
como condição e pressuposto da acumulação (OLIVEIRA, 1998; BEH-
RING, 2022).
A radicalização neoliberal favorece o livre curso do capital fi nan-
ceiro, a acumulação e centralização do capital produtivo em trustes e 
cartéis ao nível mundial; e, ao capturar os Estados nacionais instaura políticas 
monetaristas restritivas aos direitos sociais, avessas aos direitos humanos, 
obstruindo propostas distributivas voltadas aos sujeitos da classe traba-
lhadora. Mas contraditoriamente, impulsiona a resistência na defesa da 
vida e da natureza.
 Como já anunciara Marx (1980, p. 221, vol. 2) no século XIX, “Dar à 
produção um caráter científi co é, por fi m a tendência do capital e se reduz o 
trabalho a mero momento desse processo”. Ampliam-se as forças produtivas 
do trabalho social – derivadas da ciência, dos inventos, da combinação social 
do trabalho, dos meios de comunicação, do mercado mundial, do emprego 
da maquinaria enquanto capital fi xo– e com elas o poder do capital sobre 
o trabalho vivo. No universo do valor e de sua valorização, o emprego de 
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novas tecnologias incorporadas ao capital constante fi xo e circulante no 
processo produtivo tem, como contrapartida, a redução relativa da demanda 
de trabalhadores - de trabalho vivo - e o consequente crescimento da popu-
lação sobrante para as necessidades médias dessa forma de organização da 
produção, impulsionando o crescimento das desigualdades e as crises. Ao 
mesmo tempo em que o capital tende a reduzir o tempo de trabalho vivo a 
um mínimo – imprescindível, porém subalterno -, ele é erguido como única 
medida da riqueza. “O capital trabalha, assim, em favor de sua própria dis-
solução como forma dominante de produção”. (MARX,1980, p. 22, v. 2). 
Nesse processo contraditório, o capital diminui o tempo de trabalho na forma 
de tempo de trabalho necessário à reprodução do trabalhador - trabalho pago 
sob a forma de salário - para aumentá-lo como tempo de trabalho excedente. 
Coloca assim, o tempo de trabalho excedente como condição do tempo de 
trabalho necessário. Mas move todos os poderes da ciência e da natureza, da 
cooperação e do intercâmbio sociais para fazer com que criação da riqueza 
seja, cada vez mais, relativamente independente do tempo de trabalho vivo 
nela empregado, reduzindo-o ao limite para que o valor já criado, corporifi cado 
nos meios de produção, conserve o seu valor transferindo-o aos produtos. Tal 
dinâmica expressa que o capital é contradição em processo. (MARX,1980, 
livro II, p. 229; IAMAMOTO, 2022). 
Nas últimas décadas, as transformações operadas nos processos materiais 
de produção e de formação de valor e valorização têm sido matrizados pela 
robótica, pela microeletrônica, por tecnologias da informação e comunicação 
(TICS) e desenvolvimento da inteligência artifi cial (IA), frutos da pesquisa 
científi ca de ponta. A automação dos processos foi seguida da chamada “4ª 
revolução industrial”, caracterizada pela conectividade e pelo processamento 
de dados, pela adoção de tecnologias capazes de executar tarefas com inte-
ligência artifi cial. Tais inovações tecnológicas permitem reduzir o tempo de 
rotação do capital, diminuindo o tempo em que o capital permanece impro-
dutivo sob as formas de capital mercadoria e capital dinheiro e favorecendo 
o retorno mais rápido do valor capital à forma de capital produtivo, única 
forma que lhe permite conservar valor, recriar valor e criar mais-valor. As 
novas tecnologias contribuem também para elevar a produtividade do tra-
balho, para ampliar as massas de lucro e para gerar lucros extraordinários 
mediante a incorporação pioneira de inovações científi cas e tecnológicas em 
esferas produtivas de ponta, acima do padrão médio vigente. A elevação das 
forças produtivas sociais do trabalho e o aumento da composição orgânica 
do capital – isto é, da composição de valor condicionada pela composição 
técnica (MARX, 2017, p. 180) - incidem diretamente na elevação das massas 
de lucros em que pese o rebaixamento das taxas de lucro.
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Essas tensões inerentes à dinâmica expansionista do capital se ancoram na
maior exploração do trabalho vivo, isto é, na elevação da taxa de mais-valor, 
que se expressa, de forma transfi gurada na taxa de lucro, na qual se encobre 
o segredo de sua existência e sua origem. Na taxa de lucro, o crescimento 
do capital aparece, de forma mistifi cada, como fruto de qualidade inerente 
ao próprio capital, numa relação consigo mesmo; ou seja, entre o mais-valor 
criado e o capital total investido, obliterando a distinção entre capital cons-
tante e capital variável. Assim, a taxa de lucro “expulsa” a visibilidade do 
trabalho vivo que faz crescer todo o capital: conserva valor dos meios de 
produção transferindo- aos produtos; recria o valor o capital variável e cria 
um mais-valor para além dos custos de produção, quando pensado sob a ótica 
do capitalista (MARX, 2017, p. 54), em cuja compreensão, o preço de custo 
apenas repõe o capital investido (capital constante e variável). Assim, para 
o capitalista, o lucro teria como fonte a circulação, isto é, a compra e venda 
de mercadorias capitalistas no mercado. Ocultar a exploração do trabalho é 
essencial nesse processo de mistifi cação.
A “precarização” no senso comum tende a ser naturalizada e tomada 
como noção “auto revelada”, parte da estratégia de ocultamento da explora-
ção, indispensável nesses tempos de “deifi cação dos mercados”, erigidos à 
condição de “entidade” inatingível, que se impõe como um poder superior 
à vida dos “homens simples” (IANNI, 1975). A “precarização”, na lin-
guagem corrente, poderia ser pensada como parte da lógica capitalista de 
obscurecimento da exploração do trabalho vivo que, em sua dupla e indisso-
ciável dimensão de trabalho concreto e abstrato, que conserva e faz crescer 
o valor de todo o capital. A precarização esconde e simultaneamente revela 
o aumento da exploração da força de trabalho, cujo preço fi ca abaixo de seu 
valor historicamente determinado, impulsionado pela imposição de “redução 
de custos”. Esta depreciação do preço da força de trabalho é também deter-
minada pelo crescimento da população trabalhadora excedente, que amplia a 
concorrência entre os próprios trabalhadores por empregos e pela capacidade 
de organização e luta da coletividade de trabalhadores. Na cena contempo-
rânea, consoante preceitos neoliberais, aquela depreciação é acompanhada 
da desmontagem e/ou restrição de serviços públicos universais atinentes aos 
direitos sociais em favor de sua privatização e mercantilização. Tais proces-
sos atingem duplamente o conjunto da classe trabalhadora, tanto no trabalho 
quanto na sua vida cotidiana.
 O registro descritivo de novas formas multifacetadas de “precarização” 
experimentadas nas condições de vida e no trabalho de distintos segmentos 
de trabalhadores é fundamental para trazer à luz as particularidades das trans-
formações ocorridas nos processos de produção e de circulação do capital na 
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atualidade, que merecem ser elucidadas. Elas são indissociáveis do respaldo 
político e legal dos Estados nacionais, comprometidos com o grande capital 
mundializado, em suas particularidades nas sociedades dependentes, peri-
féricas aos centros econômicos mundiais. Entretanto, como aqui se revela e 
se reafi rma, a noção multifacetada de precarização contém segredos ocultos, 
que não se mostram de imediato, sendo necessário revelá-los e decifrá-los 
na dinâmica contraditória do processo de reprodução global do capital e na 
dinâmica de sua crise.
 Uma das vertentes explicativas, presente nesta coletânea, reconhece o 
fenômeno da “precariedade”como estrutural ao capitalismo, indissociável de 
sua lógica expansionista sustentada no trabalho não-pago - ou mais-valor- 
em sua busca crescente de lucratividade, impensável respaldo dos Estados 
nacionais. Mas também se reconhece que a “precarização” assume formas 
históricas que se alteram ao longo do tempo, consoante a correlação de forças 
entre as classes, expandindo-se a partir da década de setenta nos marcos da 
fi nanceirização, da acumulação fl exível (HARVEY, 1993) e da radicalização 
neoliberal, em uma época de crise. Esta é interpretada sob distintas angula-
ções, mas a questão central é a capacidade do capital continuar se expandindo 
por meio do trabalho com a hipertrofi a fi nanceira. Apenas em sua forma 
mistifi cada, o capital dinheiro cresce numa relação consigo mesmo (D-D’) 
independente do trabalho (MARX, 2017, IAMAMOTO, 2007). Para além de 
seus fetiches, o capital é uma relação social indissociável do trabalho assala-
riado. Quando a capacidade viva de trabalho se incorpora às partes objetivas 
do capital, este se torna um monstro animado e começa a trabalhar como “se 
o amor no corpo houvesse” (MARX, 2022, p. 78), parafraseando o Fausto, 
de Goethe. Reiterando o já salientado, o trabalho vivo, enquanto trabalho útil, 
transfere o valor dos meios de produção ao produto; mas o mesmo trabalho 
vivo enquanto trabalho abstrato reproduz o valor do capital variável e cria um 
incremento de valor – um mais-valor – mediante a objetivação no produto de 
um quantum de trabalho excedente, acima do salário. (MARX, 2022, p. 57). 
O trabalho vivo como esforço, dispêndio de energia vital, é função pessoal do 
trabalhador, realização de suas capacidades produtivas em movimento. Mas 
como formador de valor é um modo de existência do valor-capital: força de 
preservação de valor e criação de valor novo, que aparece como processo de 
autovalorização do capital e empobrecimento do trabalhador. Este, ao criar o 
valor, cria-o como valor que lhe é estranho. Ora, trabalho pertence ao capita-
lista assim como as condições materiais para realização do trabalho - meios de 
produção e meios de subsistência. Estranhadas pelo próprio trabalhador, essas 
mercadorias aparecem como “fetiches dotados de vontade e alma próprias”: 
fi guram como coisas compradoras de pessoas, obscurecendo a relação social 
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de produção que o capital expressa. O domínio do capitalista sobre os traba-
lhadores é o domínio das condições de trabalho sobre o trabalhador (meios de 
produção e meios de subsistência), que se tornam autônomas frente a ele, o 
que só se realiza no processo de produção sob o controle do capital (MARX, 
2022, p. 60). Este livro não é alheio esse universo analítico. Ao contrário, 
tem a ventura de trazê-lo ao palco do debate ao lado de outras referências de 
interpretação do tema em questão.
A expansão das fi nanças vem contribuindo para fragilizar a luta da cole-
tividade dos trabalhadores, o desmonte direitos sociais conquistados no pós-
-guerra, no marco do pacto fordista-keynesiano, mediante desenvolvimento 
das lutas operárias e sindicais em defesa dos direitos do trabalho e das con-
dições de vida. Certamente as abordagens do tema aqui veiculadas ultrapas-
sam qualquer nostalgia do welfare state europeu, de cujo debacle dataria o 
nascedouro do fenômeno da “precarização”. Esta visão é alvo de contestação 
visto desconsiderar a própria dinâmica contraditória da sociedade do capital 
e a história do trabalho e dos trabalhadores nas sociedades dependentes, com 
seu passado colonial e/ou escravista, que não experimentaram nada similar 
ao Estado social europeu.
A presente coletânea está organizada em três partes: a) O debate teórico 
sobre a precarização social no capitalismo; b) A violência da dinâmica capita-
lista precarizante e a gestão de seus escombros; c) A precarização das políticas 
púbicas e sua incidência sobre o trabalho, os direitos sociais e a reprodução 
das frações da classe trabalhadora.
A primeira parte, a precarização do trabalho e das condiçõesde vida, 
coloca em relevo os desafi os teórico-metodológicos de seu tratamento, enfren-
tando-os sob angulações distintas que se complementam, mas também deba-
tem entre si. O leitor se encanta e se surpreende com um rico e rigoroso 
balanço crítico de distintos signifi cados atribuídos à precariedade do trabalho 
e as formas de “precarização” do trabalho na expansão capitalista contem-
porânea, tratada na multidimensionalidade de suas dimensões: econômica, 
político-ideológica e jurídica. Mas o debate vai além, ao apontar pistas e 
polêmicas teóricas em percursos para sua elucidação, especialmente em 
autores europeus e latino-americanos. Sob a órbita das fi nanças acompa-
nhada da acumulação fl exível e da radicalização neoliberal, esta coletânea 
apresenta interpretações sobre as metamorfoses da coletividade dos sujeitos 
que trabalham. Ou, em outros termos, sobre a compreensão mesma da classe 
trabalhadora hoje e seus segmentos: formas de ser, de viver, de organizar-se 
e de lutar para se defender, considerando sua territorialização.
Consoante uma das interpretações veiculadas nesta coletânea, a crise 
estrutural do capital em sua feição contemporânea, marcada pela “hipertrofi a 
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fi nanceira”, provoca o aumento do desemprego e a fl exibilização dos vín-
culos trabalhistas, decorrentes do estreitamento da valorização do valor, ou 
seja, da efetiva difi culdade do capitalismo continuar sua expansão por meio 
do trabalho. Assim, a precarização seria uma face da própria crise de valo-
rização do capital acompanhada do desmonte da proteção social, isto é, um 
processo de corrosão das bases de afi rmação da sociedade burguesa sob o 
crescimento acelerado do capital fi ctício. Mas a crise estrutural, expansio-
nista e destrutiva do capital em suas nefastas derivações na degradação tanto 
na força humana de trabalho quanto do meio ambiente é também abordada 
sob outros matizes: o signifi cado da crise apreendido não como falência, 
mas expressão do capital enquanto “contradição em processo”, que tende a 
reduzir a um mínimo o tempo de trabalho ao mesmo tempo que o erige com 
única medida e fonte de valor.
 Em vários momentos, neste livro, realiza-se uma fecunda articulação 
entre a precarização do trabalho, as tecnologias da informação e comunicação 
digitais, as políticas públicas e o trabalho assalariado de distintas especiali-
zações, dentre as quais o trabalho de assistentes sociais. Em outros termos, 
coloca-se em relevo as metamorfoses presentes na morfologia do trabalho na 
expansão capitalista: da inspiração taylorista no gerenciamento científi co do 
trabalho, ao fordismo na organização da produção e à acumulação fl exível, 
considerada em suas particularidades históricas nas sociedades dependentes, 
consoante a divisão social, técnica, sexual e racial do trabalho. Na atualidade, 
são exploradas transformações inéditas da morfologia do trabalho apoiadas 
no “trabalho uberizado” e nas tecnologias da informação e comunicação digi-
tais cuja expansão é acelerada no marco da pandemia da COVID19 - com a 
fl exibilidade, a expansão do trabalho digital, a gestão por metas, estratégias 
combinadas tanto de exploração acentuada do trabalho quanto de sua sub-
sunção ao capital. Registram-se também originais elaborações que buscam 
inscrever o signifi cado das novas morfologias do trabalho no movimento do 
capital como totalidade.
A precariedade das condições de reprodução social da vida em territórios 
periféricos reconhece a heterogeneidade de estratégias presentes no seu inte-
rior. A inexistência de garantias de reprodução social baseadas na socialização 
do valor impulsiona um conjunto de práticas, denominadas de “reprodução 
social crítica”, imersas no contexto de crise do capital: o “assistencialismo de 
crise”, o “microempreendedorismo”, o “rentismo periférico”, os “ilegalismos 
populares” e o “associativismo popular”
A primeira parte desta coletânea se encerra com um criterioso e sem 
precedentes balanço crítico da precariedade, em suas múltiplas angulações, 
construído no lastro da crítica da economia política, descortinando férteis e 
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inéditas perspectivas no tratamento da temática. Os fundamentos da precarie-
dade na lógica do valor e de sua valorização no regime especifi camente capita-
lista de produção na sua forma histórica hodierna, em cujo desenvolvimento, 
contraditoriamente, cultiva sua própria crise. A precarização do trabalho e das 
condições de vida emergem como uma das respostas aos óbices enfrentados 
pelo capital como relação social fetichizada, na desafi adora trama social da 
valorização do valor.
A segunda parte, volta-se a análise da “violência da dinâmica capitalista 
precarizante e a gestão de seus escombros”. Tem-se a denúncia da barbá-
rie fruto da exploração e da violência na expropriação de trabalhadores em 
favor da privatização da propriedade fundiária, enquanto monopólio da terra 
para fi ns de exploração capitalista por parte de grandes empreendimentos 
produtivos com o suporte e/ou conivência do Estado. As análises recaem 
sobre processos e manifestações históricas concretas de múltiplas formas de 
precarização social da existência humana. Elas são reveladoras das novas 
(e velhas) ofensivas do capital sobre amplos segmentos da população traba-
lhadora na fase contemporânea do capitalismo dependente no Brasil.
Dois capítulos têm como foco a compreensão dos danos e ruínas 
gerados pelos crimes sócio-ambientais com o rompimento das barragens 
da Mineradora Samarco, consorciada da Vale do Rio Doce em Mariana 
(2015), repetido em barragem da Vale em Brumadinho (2019), ambas terri-
torializadas no estado de Minas Gerais. Ainda que abordados por diferentes 
angulações, as análises desses desastres inscrevem suas determinações nas 
relações sociais de produção e reprodução ampliada do capital, trazendo 
as marcas das suas particularidades na formação social brasileira.
 A indústria de mineração de ferro assenta-se na dinâmica violenta do 
extrativismo predatório para a vida humana e a natureza cujos impactos, 
em todos os processos produtivos que a envolvem, reverberam em cadeia 
sobre amplos territórios, com consequências múltiplas e destrutivas, atin-
gindo comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, tradicionais e de 
pequenos agricultores familiares em sua condição física e material, suas 
fontes de trabalho e vida, suas dinâmicas sociais e culturais. As análises 
denunciam as condições e os riscos permanentes e ampliados de acidentes 
e desastres, adoecimentos e mortes para os que trabalham nessa atividade 
econômica, vivendo nas jornadas cotidianas, as situações que caracterizam 
a exponenciação da exploração da força de trabalho.
Aqui também se retratam impactos dos denominados grandes projetos 
de desenvolvimento (petroquímicos, hidroelétricos, portuários), no estado 
do Rio de Janeiro, vinculados às corporações de capitais transnacionais, 
favorecidos pelo Estado por meio de parcerias público-privado que efetuam 
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estratégias diversas de expropriação de terras e demais recursos naturais, 
atingindo sobretudo, os segmentos despossuídos dos trabalhadores refe-
ridos, além da dinâmica precarizante nas relações e condições de trabalho 
no interior de seus projetos. No trato de ambas as realidades, os/as autores 
evidenciam o papel do Estado, em viabilizar as condições fi nanceiras, com 
garantias de acesso ao fundo público pelo capital e seus agentes priva-
dos, com arcabouços políticos e jurídicos, acrescidas de reordenamento 
da gestão territorial e dos próprios escombros direcionadoaos interesses 
acumulação do capital. Destacam também a busca de legitimidade das 
empresas e empreendimentos, mediante mecanismos diversos de mani-
pulação dos sistemas políticos e convencimento de seus trabalhadores e 
populações locais, na tentativa de neutralizar e apaziguar práticas sociais 
e consciências.
Mas, as resistências e lutas sociais contraditoriamente marcam estas 
realidades. Elas são sinalizadas nas análises da coletânea pelas referências 
ao papel histórico e violento do Estado para criminalizar, reprimir e destruir 
essas manifestações dos trabalhadores, dos segmentos atingidos e seus 
aliados na defesa de seus direitos fundamentais, ainda que não seja esse 
o foco temático central de suas abordagens. São registradas ainda ações 
coletivas, movimentos pelo direito de usufruir da cidade como valor de 
uso e solidariedade de trabalhadores/ moradores de Zona Portuária do Rio 
de Janeiro no enfrentamento das precárias condições de vida e habitação 
face a projetos espoliativos de reurbanização do território, - típicos de 
empresariamento das cidades para a lógica do mercado.
Ainda na segunda parte, tem-se a análise das relações de trabalho 
de um segmento das populações tradicionais, no caso, da pesca arte-
sanal e da população em situação de rua, pouco tratadas em estudos 
do mundo do trabalho. Elas lançam luz, a partir das características 
próprias do capitalismo no país e no desafi o do estudo de como as
formas não-capitalistas de exploração do trabalho tornam-se meios de 
reprodução ampliada do capital, seja na apreensão do modo precário de 
inserção em contextos de trabalho de frações de trabalhadores que com-
põem o vasto exército industrial de reserva. Em abordagem inovadora 
são destacadas as condições de vida, história, cultura e trabalho das 
comunidades tradicionais de pescadoras/res, sua importância e papel na 
produção pesqueira brasileira que, longe de excluí-los, subordina seu 
trabalho autônomo, apropria-se da tradição dos seus saberes e técnicas, 
combinadas com a exploração direta da força de trabalho de pesca-
dores industriais. Manifestações precárias e insalubres de trabalho da 
população em situação de rua, marcadas pela informalidade, incluem 
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os catadores/as de materiais recicláveis, cujas atividades são inseridas 
no circuito produtivo da indústria de reciclagem, ao fornecerem parte da 
matéria-prima de novas mercadorias, a custos extremamente baixos ou 
mesmo sem custos. Suas atividades laborais e meios de subsistência (a 
catação/separação de materiais e a comercialização) são invisibilizados 
nos processos industriais, mediante exploração de sua força de trabalho 
que também nada custa ao capital. 
A terceira parte tematiza a precarização das políticas públicas e 
sua incidência sobre o trabalho, os direitos sociais e a reprodução das 
frações da classe trabalhadora, com densas pesquisas e análises centradas 
na crítica à demolição das conquistas, dos direitos sociais e das barreiras 
jurídicas e políticas, constituídas na dinâmica contraditória da luta de 
classe no combate à voracidade do capital sobre o trabalho. 
São examinadas as contrarreformas do Estado brasileiro das últimas 
décadas reconfi gurando a morfologia da regulação e proteção social do 
trabalho, com um conjunto de alterações regressivas na legislação tra-
balhista, que instaura a terceirização irrestrita, com contratos de trabalho 
intermitente e parcial, fl exibilização das jornadas, rebaixamento salarial, 
alterações nas normas de saúde e segurança, ampla diluição dos direitos 
e restrição do acesso dos trabalhadores à Justiça do Trabalho, entre outras, 
apostando na fragilização sindical. Processos regressivos dos direitos do 
trabalho que, articulados as mudanças na Previdência Social e a uma série 
de medidas econômicas e políticas de subfi nanciamento do conjunto das 
políticas sociais, aprofundam o rebaixamento dos meios de reprodução 
social do conjunto das classes assalariadas.
A análise da recente expansão da educação profi ssional e tecnoló-
gica e da educação superior no país é aqui apanhada tanto na dimensão 
do assalariamento precarizado do trabalhado docente, quanto da própria 
educação como um direito não universalizado, no exercício crítico de des-
vendar como são forjadas as novas exigências de formação para o trabalho 
complexo na periferia do capitalismo.
Outra fértil e provocativa exposição debruça sobre relações traba-
lho e processo saúde-doença, a decorrente inserção dos trabalhadores 
vinculados ao mercado de trabalho formal em programas de reabilitação 
profi ssional no âmbito da política previdenciária e as (im)possibilidades
de retorno ao trabalho, demarcando a descartabilidade da força de traba-
lho. São analisados os nexos entre precarização da força de trabalho e a 
confi guração da superpopulação relativa, considerando a inserção depen-
dente e subordinada do Brasil na divisão internacional do trabalho. Na 
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explicação destes vínculos, ilumina-se a análise recorrendo à categoria da 
superexploração da força trabalho, formulada no campo da teoria mar-
xista da dependência. Há avanços signifi cativos com esse ângulo analítico 
no desvendamento crítico da condição precária da força de trabalho e da 
profunda heterogeneização da classe trabalhadora no Brasil, de suas reper-
cussões nas debilidades da organização sindical, bem como no âmbito das 
políticas sociais. O leitor poderá identifi car esta preocupação de análise 
em textos que integram a coletânea, ainda que com pesos diferenciados. 
Por fi m, a exposição tematiza trabalho de assistentes sociais no 
contexto da contrarreforma administrativa de caráter trabalhista do 
Estado brasileiro, sob o predominio do gerencialismo, tendo como refe-
rência a Previdência Social. O estudo apresenta os pilares da reestrutu-
ração do aparelho estatal, sustentado na mercadorização da instituição 
pública com a adoção da lógica empresarial, detalhando as profundas 
alterações no processo coletivo de trabalho, assentadas especialmente na 
introdução de TI’s que vem provocando, entre outras consequências, 
a descaracterização do trabalho profi ssional. A refl exão dá visibilidade 
às condições e relações de condições de trabalho que presidem a ativi-
dade de assistentes sociais, em uma nítida denúncia do esvaziamento 
do conteúdo socioeducativo inerente a esse trabalho, contribuindo para 
que segmentos de trabalhadores violentados em seus direitos tenham 
acesso a eles. Demarca-se, ainda, o campo tenso de disputa de projetos 
profi ssionais nesse espaço sócio-ocupacional face à exigência de efe-
tivar alternativas de resistência, polarizando a relativa autonomia que 
conforma a condição assalariada do trabalho de assistentes sociais na 
defesa da natureza pública da política previdenciária e da qualidade dos 
serviços sociais prestados.
A ampliação sem limites e barreiras da condição estrutural de 
precariedade do trabalho e de formas de vida, com a generalização 
diversifi cada do trabalho abstrato integrando o circuito de valori-
zação do capital em seu estágio atual, na contrapartida criam-se as 
possibilidades históricas da unidade do conjunto da classe trabalha-
dora na superação da ordem capitalista.
Muitas indagações teóricas e políticas são suscitadas pelas rea-
lidades retratadas e submetidas à análise nessa coletânea, interpe-
lando o leitor. Realidades que repercutem também na poesia indignada 
de Drumond, em Lira Itabirana:
O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
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Ai, antes fosse
Mais leve a carga.
II
Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!
III
A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.IV
Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?”
***
Marilda Villela Iamamoto1
Maria Rosângela Batistoni2
Juiz de Fora (MG) e São Paulo (SP) setembro de 2023, 
anunciando a primavera.
1 (UERJ/CNPQ)
2 (UNIFESP)
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Inclui Enquete operária. São Paulo: Boitempo, 2022. Tradução: Ronaldo Vielmi 
Fortes. Organização e apresentação de Ricardo Antunes e Murilo van der Laan.
MARX, K. O Capital. Crítica da Economia Política. Livro I. O processo de 
produção c. São Paulo; Boitempo, 2014.
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MARX, K. O Capital. Crítica da Economia Política. Livro II. O processo 
de circulação do capital. São Paulo; Boitempo, 2014. 
MARX, K. O Capital. Crítica da Economia Política. Livro III. O processo 
global da produção capitalista. Edição de Friedrich Engels. Seleção de extras 
e tradução de Rubens Enderle, 1ªed. Paulo: Boitempo, 2017 .
OLIVEIRA, F. Os direitos do antivalor: a economia política da hegemonia 
imperfeita. Petrópolis: Vozes, 1998.
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PARTE 1
O DEBATE TEÓRICO SOBRE 
A PRECARIZAÇÃO SOCIAL 
NO CAPITALISMO
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TRABALHO, PRECARIZAÇÃO E 
PRECARIEDADE: considerações teóricas 
à luz de um balanço (auto) crítico
Graça Druck
DOI: 10.24824/978652515286.8.37-66
O objetivo desse capítulo é revisitar alguns escritos meus sobre a temá-
tica, com o espírito de buscar fazer um balanço crítico, avançando e atuali-
zando o diálogo com autores estrangeiros e nacionais, bem como introduzir 
considerações sobre transformações recentes no trabalho, especialmente o 
processo de uberização em suas especifi cidades, que tornam a precarização 
ainda mais central e radicalizada.
A discussão apresentada é fundamentalmente teórica, com o intuito de 
precisar alguns conceitos e suas diferenças, como o de precarização, precarie-
dade e precariado, exposta na primeira parte do texto. Em seguida, discute-se 
a relação entre a atual precarização social do trabalho e o neoliberalismo, 
articulando diferentes abordagens que têm em comum a centralidade das 
transformações do trabalho como campo privilegiado para se compreender o 
conteúdo e os objetivos centrais do projeto neoliberal, a exemplo das novas 
formas de organização do trabalho propiciadas pelas tecnologias de informa-
ção e comunicação, bem como de velhas modalidades como a terceirização.
Na terceira parte, se expõe o debate sobre a precarização e as classes 
sociais, problematizando a noção de precariado em diferentes autores. E, por 
fi m, como considerações fi nais, apresentam-se algumas especifi cidades da 
precarização nos países da periferia e, em especial, o caso brasileiro.
Alguns elementos conceituais
Os termos precarização e precariedade, embora tenham a mesma raiz 
etimológica, não são sinônimos. A precarização é um processo social, um 
movimento que se desenvolve historicamente, e que provoca uma situação 
de regressão social numa condição moderna, nova, reconfi gurando o velho, 
mantendo-o e introduzindo novos elementos. É uma metamorfose da preca-
riedade que, mesmo presente desde as origens do capitalismo, assume novos 
contornos, consequência dos processos históricos marcados por diferentes 
padrões de desenvolvimento e pelas lutas dos trabalhadores.
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A precariedade é estrutural no capitalismo desde os seus primórdios, 
mas as suas formas sócio-históricas se alteram, se redefi nem, se reconfi -
guram, indicando processos qualitativamente diferentes de precarização 
do trabalho.
A atual precariedade social do trabalho é um velho e novo fenômeno. 
Compreendê-la dessa forma, é reconhecer que ela sofreu uma metamorfose. 
Não é mais a mesma precariedade dos tempos da revolução industrial. Não 
é mais a que os países periféricos, como o Brasil, tiveram desde os tempos 
coloniais, com o trabalho escravo. No entanto, o padrão de assalariamento 
constituído no país, com limitados direitos sociais e trabalhistas conquistados 
pelos trabalhadores brasileiros, estabelecidos na CLT e na Constituição Federal 
que foram, em toda a nossa história, afrontados pelo empresariado brasileiro 
e sistematicamente desrespeitados.
Na atualidade, as transformações no trabalho decorrentes do processo 
de globalização fi nanceira, da reestruturação produtiva e da implantação de 
políticas neoliberais, colocaram a precarização social do trabalho como cen-
tro da dinâmica do capitalismo nos países centrais e nos países da periferia.
Klaus Dörre (2022) discorre sobre a centralidade que a precariedade 
assume no discurso político e no campo das análises das ciências sociais 
na Europa, a fi m de responder se a precariedade é a nova questão social do 
século XXI. Retomando algumas das principais formulações de sociólogos 
franceses – Gorz, Bourdieu, Castel – e com base em estudos empíricos e teó-
ricos na Alemanha, afi rma sobre o lugar central que os termos precariedade, 
precarização e precariado passam a ocupar no cotidiano do trabalho e da vida 
no país no período recente.
Vale enfatizar que os estudos europeus, sobretudo os franceses, desde as 
primeiras análises acerca dos processos de precarização do trabalho, tinham 
como referência primeira para classifi car as mudanças no trabalho como 
precárias, a “condição salarial”, ou seja, o trabalho regulado e protegido, 
com contratos por tempo indeterminado. Situação que predominou por pelo 
menos três décadas nos principais países que viveram os Estados de bem-es-
tar social. Nos anos 1980, essa condição foi se alterando, com a introdução 
dos contratos fl exíveis, temporários e mal pagos. Foi essa transformação 
que avançou pelos anos subsequentes até os dias atuais, invertendo a rela-
ção entre empregos protegidos e os chamados empregos precários. Nestas 
análises restritas ao plano empírico, os indicadores examinados para carac-
terizar a precarização estavam limitados à regulação do trabalho e, portanto, 
aos direitos trabalhistas. As taxas de desemprego, a incapacidade do mer-
cado de trabalho absorver um conjunto de trabalhadores “supranumerários”E
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(CASTEL, 1995, 1998) e os contratos fl exíveis, de curta duração, por tempo 
limitado, trabalho intermitente etc. são os indicadores quase exclusivos para 
concluir sobre a precarização.3
Em meus estudos sobre precarização do trabalho, a partir das pesquisas 
empíricas no Brasil e do uso dos conceitos de fl exibilização e precarização 
(DRUCK, 2007, 2011) busquei demonstrar que o fenômeno da precarização é 
multifacetado, com diversas dimensões e que não pode ser limitado ao campo 
dos direitos do trabalho ou da regulação, embora essa seja uma das expres-
sões fundamentais do processo de precarização. As análises sobre o caráter 
social da precarização do trabalho, buscam romper determinadas dualidades, 
a exemplo dos excluídos e incluídos, empregados e desempregados, formais 
e informais, ou seja, há um processo de precarização que se generaliza para 
todas as regiões e para todos os diferentes segmentos de trabalhadores; como 
uma « institucionalização da instabilidade », que passa a ser incorporada pela 
sociedade como um processo « natural » determinado pelo capitalismo fl exível 
(APPAY; THEBAUD-MONY, 1997).
Dörre (2022) em sua análise sobre « precariedade, precarização e preca-
riado » traz uma excelente contribuição, ao discutir conceitualmente no plano 
teórico e empírico, as múltiplas dimensões da precariedade, diferenciando ocu-
pação e trabalho, os planos quantitativo e qualitativo, as formas subjetivas de 
manifestação da « ocupação insegura » e do « trabalho precário ». Pois « [...] 
uma ocupação precária pode ser vinculada a um trabalho criativo, e a recíprova é 
verdadeira: um trabalho seguro pode ser combinado com formas extremamente 
precárias de atividade » (p. 108). No caso da Alemanha, ele observa que se vive 
uma transição para uma « sociedade precária de pleno emprego » (idem), pois 
os empregos criados são mal remunerados, inseguros e pouco reconhecidos, 
em grande parte ocupado por mulheres em prestação de serviços pessoais, num 
movimento que a ocupação precária supera o trabalho protegido. A generali-
zação da precarização vai atingindo todos os segmentos, mesmo que de forma 
desigual, e aqueles que ainda estão numa condição protegida de emprego, vivem 
« medos coletivos » numa clara manifestação de precariedade.
As implicações destas transformações do trabalho atingem todas as 
demais dimensões da vida social : a família, o estudo, o lazer e a restrição 
do acesso aos bens públicos (especialmente saúde e educação) (DRUCK, 
2013, 2020). Laval (2017), numa perspectiva teórica da biopolítica do capital, 
defende a tese que a precariedade se tornou um « estilo de vida » ou uma « 
3 Vale registrar que algumas estudiosas da precarização, como Annie Thebaud-Mony, Beatrice Appay, (1997), 
Helena Hirata (2002), dentre outros, para o caso da França, analisaram outros indicadores além da inserção 
no mercado de trabalho, a exemplo da saúde do trabalhador e o trabalho das mulheres.
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forma de existência », típida da era neoliberal, para além de ser um modo 
de gestão do trabalho. Nesta medida sob a hegemonia do neoliberalismo, 
se produz uma política de insegurança social, provocada pela instabilidade 
e perda da segurança dos empregos e por uma « cultura da precariedade » 
que, na visão empresarial, passa a ser defendida como empreendedorismo 
do trabalho. Uma racionalidade empresarial ou uma « empresarialidade », 
que se apresenta como um « novo modo de governo dos trabalhadores, [...] e 
um modo de existência novo, que, além do emprego, faz da ligação instável, 
móvel, instrumental com a organização produtiva e com as instituições sua 
própria marca e o seu valor agregado » (LAVAL, 2017, p. 101).
Na minha compreensão, inspirada em Marx/Engels e Gramsci, trata-se, 
na realidade, de analisar as transformações do trabalho a partir da ideia-força 
: a todo modo de produção corresponde um modo de vida. Foi assim na revo-
lução industrial, compreendida como um processo de revolução social, a partir 
das relações de subordinação real do trabalho ao capital, com o surgimento 
da fábrica, da mecanização, no uso da força de trabalho da família (mulhe-
res e crianças), da constituição de um operariado industrial, cujo modo de 
vida se alterou radicalmente, nas condições de moradia, na urbanização, no 
empobrecimento, nas relações familiares e assim por diante. Na história da 
sociedade capitalista, as transformações históricas no trabalho, propiciadas 
pelas revoluções tecnológicas e organizacionais, como taylorismo, fordismo, 
toyotismo, microeletrônica, tecnologias de informação e comunicação, rede-
fi niram não só as relações de trabalho, mas as formas de vida.
Conforme nos ensina Gramsci em « Americanismo e Fordismo », a luta 
pela hegemonia do capital que começa na fábrica, trascende seus muros e 
passa a conformar uma conduta condizente com a nova racionalidade capita-
lista, do industrialismo, da produção em massa, do homem disciplinado para 
dedicar integralmente sua capacidade intelectual e física para o trabalho e de 
uma nova moralidade:
[...] pois os novos métodos de trabalho são indissoluvelmente ligados a um 
determinado modo de viver, de pensar e de sentir a vida; não é possível obter 
êxito num campo sem obter resultados tangíveis no outro. Na América a 
racionalização do trabalho e o proibicionismo estão indubitavelmente ligados 
aos inquéritos dos industriais sobre a vida íntima dos operários, os serviços 
de inspeção criados por algumas empresas para controlar a ‘moralidade’ dos 
operários são necessidades do novo método de trabalho. Quem risse destas 
iniciativas (mesmo falidas) e visse nelas apenas uma manifestação hipócrita 
de ‘puritanismo’ estaria desprezando qualquer possibilidade de compreender 
a importância, o signifi cado e o alcance objetivo do fenômeno americano, 
que é também o maior esforço coletivo realizado até agora para criar, com 
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rapidez incrível e com uma consciência jamais vista na História, um tipo 
novo de trabalhador e de homem (GRAMSCI, 1984, p. 396).
Conforme já registrado em outros escritos, Druck (2013, 2020,p. 501-502):
Na atualidade, as transformações trazidas pela ruptura com o padrão 
fordista geraram um outro modo de trabalho e de vida pautados na fl e-
xibilização e precarização do trabalho, como exigências do processo de 
fi nanceirização da economia, que viabilizaram a mundialização do capital 
num grau nunca antes alcançado. Uma evolução da esfera fi nanceira que 
passou a determinar todos os demais empreendimentos do capital, subor-
dinando e contaminando todas as práticas produtivas e os modos de gestão 
do trabalho, apoiada centralmente numa nova confi guração do Estado que 
passa a desempenhar um papel cada vez mais de “gestor dos negócios da 
burguesia”, pois age em defesa da desregulamentação dos mercados, espe-
cialmente o fi nanceiro e o de trabalho, reafi rmando os valores neoliberais.
Na realidade, poderia se pensar, inspirada em Gramsci, que a acumulação 
fl exível trouxe uma ideologia e uma cultura do empreendedorismo que expres-
sam o crescente processo de individualização do trabalhador, responsável 
pelos riscos do seu empreendimento, uma condição que passa a ser defendida 
não só como única saída à crise do emprego, mas a ser considerada como 
libertadora do controle, como conquista de autonomia e de autogestão do 
trabalho (LIMA, 2010). Tal transformação da relação de trabalho determina 
uma conduta muito diferente do trabalhador assalariado “fordista”, pois sua 
forma de vida está orientada pela postura de um “empresário de si mesmo”, 
motivado pela concorrência e absorvendoa lógica do mercado como valor 
maior para seu comportamento em todas as esferas de sociabilidade. O que 
faria do empreendedorismo, segundo Amorim, Moda e Mevis (2021), uma 
forma análoga ao americanismo em tempos neoliberais.
A relação entre fl exibilização e precarização do trabalho
Numa perspectiva teórica mais geral, concorda-se com David Harvey 
(1992), quando formula a concepção de acumulação fl exível:
A acumulação fl exível, como vou chamá-la, é marcada por um confronto 
direto com a rigidez do fordismo. Ela se apoia na fl exibilidade dos pro-
cessos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de 
consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção intei-
ramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços fi nanceiros, 
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novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensifi cadas de inovação 
comercial, tecnológica e organizacional [...] (p 140).
[...] envolve rápidas mudanças dos padrões do desenvolvimento desigual, 
tanto entre setores como entre regiões geográfi cas, criando, por exemplo, 
um vasto movimento no emprego no chamado “setor de serviços”, bem 
como conjuntos industriais completamente novos em regiões até então 
subdesenvolvidas (tais como a “Terceira Itália”, Flandres, os vários vales 
e gargantas do silício, para não falar da vasta profusão de atividades dos 
países recém-industrializados) (p. 140).
[...] um novo movimento que chamarei de “compressão do espaço-tempo” 
[...] no mundo capitalista – os horizontes temporais da tomada de decisões 
privada e pública se estreitaram, enquanto a comunicação via satélite e a 
queda dos custos de transporte possibilitaram cada vez mais a difusão ime-
diata dessas decisões num espaço cada vez mais amplo e variegado (p. 140).
[...] A acumulação fl exível parece implicar níveis relativamente altos de 
“desemprego estrutural” (em oposição ao “friccional”), rápida destruição 
e reconstrução de habilidades, ganhos modestos (quando há) de salários 
reais [...] e o retrocesso do poder sindical – uma das colunas políticas do 
regime fordista (p. 140-141).
Harvey aponta o processo de reorganização do sistema fi nanceiro inter-
nacional, como central nessa nova confi guração da acumulação capitalista, 
tornando-se uma “novidade” sem igual, cujas implicações redefi nem a ordem 
econômica e social do sistema:
O que parece realmente especial no período iniciado em 1972 é o fl oresci-
mento e transformação extraordinários dos mercados fi nanceiros. [...] Na 
atual fase, contudo, o que importa não é tanto a concentração de poder em 
instituições fi nanceiras quanto a explosão de novos instrumentos e merca-
dos fi nanceiros, associada à ascensão de sistemas altamente sofi sticados de 
coordenação fi nanceira em escala global. Esse sistema fi nanceiro foi o que 
permitiu boa parte da fl exibilidade geográfi ca e temporal da acumulação 
capitalista. [...] O Estado-nação, embora seriamente ameaçado como poder 
autônomo, retém mesmo assim grande poder de disciplinar o trabalho e de 
intervir nos fl uxos de mercados fi nanceiros, enquanto se torna muito mais 
vulnerável a crises fi scais e à disciplina do dinheiro internacional. Estou, 
portanto, tentado a ver a fl exibilidade conseguida na produção, nos mercados 
de trabalho e no consumo antes como um resultado da busca de soluções 
fi nanceiras para as tendências de crise do capitalismo do que o contrário. Isso 
implicaria que o sistema fi nanceiro alcançou um grau de autonomia diante da 
produção real sem precedentes na história do capitalismo, levando este último 
a uma era de riscos fi nanceiros igualmente inéditos (HARVEY, 1992, p. 181).
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Portanto, identifi ca-se um movimento do capital comandado pela 
esfera fi nanceira, pautado na fl exibilidade levada a seu grau extremo. Essa 
fl exibilidade, embora inerente ao sistema capitalista, se metamorfoseia, 
centrada no curtíssimo prazo, na volatilidade e instabilidade como nunca 
antes alcançados.
Conforme exposto em análises anteriores (DRUCK, 2013, 2020) :
A hegemonia da “lógica fi nanceira” ultrapassa o terreno estritamente eco-
nômico do mercado e impregna todos os âmbitos da vida social. Trata-se 
de uma rapidez inédita do tempo social, que parece não ultrapassar o
presente contínuo, um tempo sustentado na volatilidade, efemeridade e 
descartabilidade, sem limites, de tudo o que se produz e, principalmente, 
dos que produzem - os homens e mulheres que vivem do trabalho. O curto 
prazo – como elemento central dos investimentos fi nanceiros –, impõe 
processos ágeis de produção e de trabalho, e para tal, é indispensável tra-
balhadores que se submetam a quaisquer condições para atender ao novo 
ritmo e às rápidas mudanças (2020, p. 501-502).
Em meus estudos sobre a precarização do trabalho, iniciados de forma 
mais sistemática, a partir de 2002, com o projeto “Trabalho, Flexibilização e 
Precarização: (re)construindo conceitos à luz de estudos empíricos”, passei a 
analisar a realidade do trabalho no Brasil, e suas especifi cidades, através de 
diferentes recortes e objetos de estudo, que indicavam um movimento mais 
geral de fl exibilização e precarização do trabalho que perpassava por todos 
os casos empíricos pesquisados. Neste projeto, já considerava que:
No quadro mais geral das transformações do mundo do trabalho num 
contexto de globalização, reestruturação produtiva e de políticas neoli-
berais, observa-se um fenômeno que articula e sintetiza esses três gran-
des movimentos: a fl exibilização, que tem, no trabalho – nas formas de 
produzir, na organização dos processos produtivos, na legislação sobre 
os trabalhadores, nas modalidades de emprego/ocupação e de regimes de 
trabalho, o seu substrato maior (DRUCK, 2002, p. 2).
No levantamento dos estudos sobre a temática, publicados desde 1990, em 
sua imensa maioria, demonstravam para todos os setores de atividades e casos 
pesquisados, que a fl exibilização do trabalho era o elemento chave do processo de 
reestruturação, expresso no quadro das mudanças organizacionais e tecnológicas, 
do mercado de trabalho, do emprego, da legislação trabalhista e dos sindicatos.
Nestas abordagens, a fl exibilização do trabalho revelada pelas pesquisas 
era invariavelmente associada ao fenômeno da precarização do trabalho e do 
emprego. E, nesta medida, os estudos apontavam os resultados negativos, 
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expressos num conjunto de indicadores como: desemprego, instabilidade, 
situações de risco e insegurança no trabalho, falta de segurança e condições 
propícias ao trabalho, aumento de doenças ocupacionais e de acidentes de 
trabalho, perda de vínculos e direitos, intensifi cação do trabalho, e outros.
Entretanto, ao incorporar o debate com outros autores e formulações, 
a exemplo de Robert Castel (1995), Annie Thebaut-Mony e Beatrice Appay 
(1997), passei a compreender a centralidade da precarização social do trabalho 
neste novo regime de acumulação. Assim, passei a considerar que não são 
dois fenômenos distintos, nem entrelaçados, como a maioria das pesquisas 
analisa, e como eu afi rmei em outros textos. No plano empírico, os indicadores 
das transformações do trabalho imputam à precarização como resultado da 
fl exibilização. E, ao fazer isso, permitem pensar a fl exibilização como fenô-
meno necessário e inexorável ao capitalismo mundializado e fi nanceirizado e, 
sob uma abordagem economicista, lhe dá um status que possibilita conceber 
o trabalho fl exível como mudança positiva que não necessariamente leva à 
precarização4. Mais recentemente, embasada no debate teórico e nos estudos 
empíricos, objeto dos levantamentos realizados, passei a conceber a fl exibi-
lização como sinônimo deprecarização do trabalho, “...consideradas como 
fenômenos idênticos, que expressam a “institucionalização da instabilidade” 
– como forma de dominação social do trabalho e de uma precarização social 
de novo tipo, metamorfoseada, mundializada, marcada pelas especifi cidades 
históricas de cada país (DRUCK, 2007). Assim, conforme sintetizado no 
verbete “Precarização social do trabalho” (DRUCK, 2013, 2020, p. 500-501), 
entendemos que é um processo econômico, social e político que se tornou 
hegemônico e central na atual dinâmica do novo padrão de desenvolvimento 
capitalista – a acumulação fl exível – no contexto de mundialização do capital 
e das políticas de cunho neoliberal. Trata-se de uma estratégia patronal, em 
geral apoiada pelo Estado e seus governos, que tem sido implementada em 
todo o mundo, cujos resultados práticos se diferenciam muito mais por conta 
da história passada de cada país, refl etindo os níveis de democracia e de con-
quistas dos trabalhadores, do que da história presente, cujos traços principais 
os aproximam e os tornam semelhantes, pois a precarização social do trabalho 
se impõe como regra e como estratégia de dominação assumindo um caráter 
cada vez mais internacionalizado.
Entendê-la como estratégia de dominação signifi ca perceber que o capi-
tal se utiliza da força e do consentimento, como recursos para viabilizar um 
grau de acumulação sem limites materiais e morais. A força se materializa 
principalmente na imposição de condições de trabalho e de emprego precárias 
frente à permanente ameaça de desemprego estrutural criado pelo capitalismo. 
4 O que Appay e Thébaud-Mony (1997) chamaram de paradigma da fl exibilidade positiva.
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Afi nal, ter qualquer emprego é melhor que não ter nenhum. Aplica-se aqui, 
de forma generalizada, o que Marx e Engels elaboraram acerca da função 
política principal do exército industrial de reserva, qual seja: a de criar uma 
profunda concorrência e divisão entre os próprios trabalhadores e, com isso, 
garantir uma quase absoluta submissão e subordinação do trabalho ao capital. 
O consenso se produz a partir do momento em que os próprios trabalhadores, 
infl uenciados por seus dirigentes políticos e sindicais, passam a acreditar 
que as transformações no trabalho são inexoráveis e, como tal, passam a ser 
justifi cadas como resultados de uma nova época ou de um “novo espírito do 
capitalismo” (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009).
A atual precarização social do trabalho e o neoliberalismo
Na atualidade, ao lado do processo de fi nanceirização – e condição 
necessária para a sua expansão – o neoliberalismo se tornou hegemônico, 
cuja proposição tem origem no fi nal de 1930 (Colóquio Walter Lippman em 
1938) e na fundação da Sociedade Mont Pelerin em 1947, como uma reação 
teórica e política contra o Estado « intervencionista » e de bem-estar. O projeto 
neoliberal só se concretizou quase 30 anos após a sua formulação teórica e 
teve sua primeira experiência no Chile, em 1973, com o golpe e a contrarevo-
lução comandada por uma junta militar, implantando uma das ditaduras mais 
violentas da América Latina. Na sequência, foi na Inglaterra em 1979 e nos 
EUA, em 1981, que o neoliberalismo se impôs e se consolidou, tornando-se 
referência para o mundo inteiro.
Nas diversas perspectivas de análise do neoliberalismo, há em comum a 
ideia central sobre o processo de mercantilização como elemento chave, isto 
é, o mercado passa a ocupar um lugar decisivo nas novas relações sociais, 
assim [...] Ele [o neoliberalismo] sustenta que o bem social é maximizado se 
se maximizam o alcance e a freqüência das transações de mercado, procurando 
enquadrar todas as ações humanas no domínio do mercado (HARVEY, 2014, 
p. 14). A troca no mercado se transforma numa ética que deve guiar a ação 
humana. Corroborando essa interpretação, Dardot e Laval (2016, p. 7) afi rmam 
sobre uma « racionalidade neoliberal », cujo âmago é estabelecer « a concor-
rência como norma de conduta e a empresa como modelo de subjetivação » .
Em ambas perspectivas, mesmo com referenciais teóricos diferentes, 
as relações de trabalho, marcadas pela precarização, são determinates para 
a mercantilização da vida no processo de neoliberalização da sociedade. 
Sauvetre et al. (2021) qualifi cam as transformações no « front do traba-
lho » como uma guerra econômica da concorrência – cujas fórmulas estão 
sintetizadas na defesa do « modernizar », « fl exibilizar », « fazer baixar o 
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custo do trabalho (p. 228) –, que se estende ao conjunto dos trabalhadores, 
estabelecendo uma « guerra de todos contra todos » no espaço do trabalho, 
visando reforçar a dominação do trabalho numa ofensiva dos capitalistas 
contra o compromisso fordista e as possibilidades democráticas do trabalho. 
Para os autores :
[...] as principais dimensões dessa guerra que, longe de se reduzir à globa-
lização econômica, implica o plano das práticas, dos discursos e dos modos 
de subjetivação necessários à fl exibilização e precarização do trabalho. 
[...] uma ofensica geral cujo principal objetivo não é apenas impor novas 
normas de trabalho pelo direito e a reorganização do trabalho, mas torná-
-las aceitáveis, apresentando-as sob as vestes sedutoras da emancipação 
e autorealização (SAUVETRE et al., 2021, p. 229).
Destruir as condições de uma possível “consciência de classe”, deslo-
cando para as lutas entre indivíduos, como inimigos potenciais, e “fazer-se 
radicalmente inimigo de si mesmo, jogando as regras de um jogo do qual a 
grande maioria sai perdedora” (Idem, p. 229).
Neste mesmo sentido, Harvey (2014, p. 63) sustenta:
As virtuosas reivindicações de especialização fl exível nos processos de 
trabalho e de fl exibilização dos contratos de trabalho puderam tornar-se 
partes da retórica neoliberal capazes de ser persuasivas para trabalhado-
res individuais, particularmente aqueles que haviam sido excluídos dos 
benefícios monopolistas, que a forte sindicalização às vezes trazia. Uma 
maior liberdade em geral e a liberdade de ação no mercado de trabalho 
podiam ser louvadas como uma virtude tanto para o capital como para o 
trabalho, e também nesse caso não foi difícil integrar valores neoliberais 
ao «senso comum» de boa parte da força de trabalho.
A neoliberalização do trabalho, para além da guerra aos sindicatos – 
empoderados durante o fordismo e os Estados de bem-estar e acusados de 
responsáveis pela queda da rentabilidade das empresas –, busca desmantelar 
os coletivos de trabalho e, para isso, procura substituir as relações de assa-
lariamento protegido pelo empreendedorismo, através da « uberização » ou 
capitalismo de plataforma. Processo também referido por Brown (2020, p. 
49) quando destaca que « [...] a desmassifi cação ordoliberal visava combater a 
proletarização por meio da empreendedorização (logo da reindividualização) 
dos trabalhadores, por um lado, e da realocação dos trabalhadores em práticas 
de autoprovisão familiar, por outro. 
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É neste contexto que se inserem algumas práticas de gestão e organi-
zação do trabalho que se tornam centrais e estratégicas de precarização. É o 
caso da terceirização que tem como um dos principais objetivos, se desven-
cilhar dos custos trabalhistas e da subordinação ao direito do trabalho. As 
“empresas prestadoras de serviços”, por exemplo, são contratadas através 
de uma relação comercial com a contratante e esta se desobriga dos direitos 
trabalhistas. A contratada, comprimida pela pressão dos custos e prazos, 
aumenta o grau de exploração dos trabalhadores e cria uma “cultura” de 
negação e desrespeito aos direitos dotrabalho, buscando anular a função 
protetiva do Estado. Numa economia comandada pela lógica fi nanceira sus-
tentada no curtíssimo prazo, as empresas buscam garantir seus altos lucros, 
exigindo e transferindo aos trabalhadores a pressão pela maximização do 
tempo, pelas altas taxas de produtividade, pela redução dos custos com o 
trabalho e pela “volatilidade” nas formas de inserção e de contratos. É o que 
sintetiza a terceirização, que, como nenhuma outra modalidade de gestão, 
garante e efetiva essa “urgência produtiva” determinada pelo processo de 
fi nanceirização (DRUCK, 2016).
A terceirização potencializa a concorrência entre os trabalhadores, pois 
além da redução de custos e da transferência de responsabilidades pelo vínculo 
empregatício para um terceiro, o empresariado tem uma motivação política 
ao provocar a fragmentação dos coletivos de trabalho, a criação de divisão 
e discriminação entre os trabalhadores, classifi cando-os como de primeira e 
segunda categoria e levando a um processo de dispersão dos sindicatos, já 
que trabalhadores de uma mesma unidade produtiva podem ser representados 
por vários sindicatos, quebrando a sua unidade e fragilizando as suas lutas 
(DRUCK, 2016 ; DRUCK ; BASUALDO, 2022).
As inúmeras pesquisas têm demonstrado a indissociabilidade entre ter-
ceirização e precarização em todas as dimensões: nas modalidades de contra-
tação precárias, que se estabelecem por períodos determinados cada vez mais 
curtos, nas condições de trabalho, na remuneração, na jornada de trabalho, 
na saúde do trabalhador, na representação sindical e nos direitos trabalhis-
tas. Os terceirizados recebem menos, trabalham mais, têm menos direitos e 
benefícios, têm maior rotatividade e instabilidade no trabalho, têm menos 
capacitação e treinamento, menos equipamentos de segurança; se acidentam 
e morrem mais e estão crescendo mais do que os demais. (KREIN, 2016; 
BIAVASCHI e TEIXEIRA, 2015, DROPPA e BIAVASCHI, 2014;TEIXEIRA 
et al., 2016; MARCELINO, 2004; DAU et al. 2009, DRUCK e BASUALDO, 
2022). Nessa medida, a terceirização antecipa o que as reformas trabalhistas 
objetivam legalizar para todos os trabalhadores : a precarização como regra.
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No plano empírico, a terceirização demonstra a precarização como um 
fenômeno multifacetado, quando se trata das suas diferentes dimensões : a) nas 
formas de mercantilização da força de trabalho, que produziu um mercado de 
trabalho heterogêneo, segmentado, marcado por uma vulnerabilidade estrutural 
e com formas de inserção (contratos) precários, sem proteção social e altas 
taxas de rotatividade; b) nos padrões de gestão e organização do trabalho – que 
tem levado a condições extremamente precárias, através da intensifi cação do 
trabalho (imposição de metas inalcançáveis, extensão da jornada de trabalho, 
polivalência etc.) sustentados na gestão pelo medo, na discriminação e nas 
formas de abuso de poder através do assédio moral; c) nas condições de (in)
segurança e saúde no trabalho – resultado dos padrões de gestão, que desrespei-
tam o necessário treinamento, as informações sobre riscos, medidas preventivas 
coletivas, etc. na busca incessante de redução de custos, mesmo que à custa de 
vidas humanas, levando a altos índices de acidentes de trabalho, adoecimento 
e mortes; d) no isolamento, na perda de enraizamento, de vínculos, de inser-
ção, resultantes da descartabilidade, da desvalorização e da discriminação, 
condições que afetam decisivamente a solidariedade de classe, solapando-a 
pela brutal concorrência que se desencadeia entre os próprios trabalhadores, 
difi cultando a sua identidade de classe; e) no enfraquecimento da organização 
sindical e das formas de luta e representação dos trabalhadores, decorrentes 
da violenta concorrência entre os mesmos, da sua heterogeneidade e divisão, 
implicando numa pulverização dos sindicatos; e) na negação do direito do 
trabalho, impulsionada pelo comportamento patronal, que questiona a sua 
tradição e existência, expressa na reforma trabalhista de 2017, que liberou a 
terceirização sem limites, além de outras mudanças na CLT que esvaziaram 
seu conteúdo protetivo. (DRUCK, 2011; DRUCK e BASUALDO, 2022)
Mais recentemente, uma nova forma de organização do trabalho se tor-
nou o centro do debate e das pesquisas no campo da sociologia do trabalho 
: a uberização. O uso de aplicativos se disseminou para inúmeras atividades 
profi ssionais, com destaque para os entregadores e motoristas. A natureza 
principal dessa forma de trabalho é a negação absoluta da condição de assa-
lariado dos trabalhadores, pois estabelece que eles são prestadores autônomos 
de serviços. Os aplicativos se apresentam apenas como intermediários técnicos 
que permitem uma ponte entre esses autônomos e os clientes. Sob o fetiche da 
tecnologia, as empresas donas dos aplicativos querem esconder uma relação 
de trabalho e de produção e não reconhecem qualquer vínculo empregatício 
com esses trabalhadores.
A terceirização e a uberização são fenômenos distintos – inclusive porque 
esta última está determinada pela economia das plataformas, onde a tecnologia 
de informação tem papel central para ocultar a relação de emprego e onde os 
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LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 49
meios de trabalho estão sob as custas dos trabalhadores, e tem na ideologia 
do empreendedorismo um elemento central, levando a que a maioria dos 
entregadores de aplicativos não se considere um trabalhador, mas um “empre-
sário de si mesmo”, acreditando que tem autonomia para defi nir seu trabalho 
e sua jornada, na condição de autônomo. Entretanto, pode se afi rmar que a 
terceirização abriu as portas para a uberização, antecipando em algumas de 
suas modalidades o não reconhecimento da relação de assalariamento, como 
é o caso as cooperativas, a pejotização, o trabalho integrado, trabalho avulso, 
trabalhadores independentes ou autônomos, dentre outras.
A inovação trazida pelas TICs é a combinação entre a negação do assa-
lariamento com modernos e sofi sticados instrumentos de controle do trabalho 
(registro dos tempos e movimentos em tempo real de cada tarefa propiciado 
por essas tecnologias), amplifi cando de forma inédita a organização taylorista 
do trabalho, sobre indivíduos supostamente autônomos que, contaminados 
pela ideologia do empreendedorismo, se subordinam ao controle das gran-
des corporações, assumindo todos os riscos e custos e acreditando que tem 
liberdade no trabalho fl exível e sem nenhum “patrão” ou “chefe” para lhe dar 
ordens. (ANTUNES e FIGUEIRAS, 2020)
Tal condição coloca em risco a integridade subjetiva do trabalhador, 
pois passa a sofrer uma coerção sobre si mesmo (SAUVETRE et al., 2021, 
p. 240-241), o « empresário de si é constrangido a fazer-se o inimigo de si 
», pois : « [...] a promoção de um modelo de autoempresariamento vai de 
encontro aos interesses da maioria. Jogar o jogo do empresário de si é, neste 
sentido, aceitar ‘voluntariamente’ a condição do ‘precariado’ e se apropriar de 
normas e valores contrários aos próprios interesses.» Ou o que outros autores 
denominam como « servidão voluntária » (ANTUNES, 2018).
É uma das expressões do que Gaulejac e Hanique (2015) nomeiam de 
« capitalismo paradoxal », uma concepção crítica sobre as sociedades hiper-
modernas, em que se exacerbam as contradições da modernidade, ancorada 
num individualismo extremo, quando os indivíduos são considerados como 
únicos responsáveis pelo seu sucesso ou fracasso. Gaulejac e Hanique ana-
lisam como esse “capitalismo paradoxal” vai psicologizando os problemas 
sociais, pois o desemprego deixa de ser uma questão econômica e social, fruto 
do sistema produtivo, e passa a ser considerado como um problema pessoal, 
daqueles que não têm competência, que fracassam por não se adaptarem às 
novas exigênciasda modernização capitalista. Os autores desenvolvem uma 
análise pormenorizada das transformações na organização do trabalho, das 
relações de poder, do lugar da gerência, da redefi nição das hierarquias, da 
cultura dos resultados e da urgência, da compressão dos tempos, da “discreta” 
violência institucional, da “autonomia controlada”, dentre outros aspectos, 
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para demonstrar como há um deslocamento da relação capital trabalho da 
era fordista, centrada no capitalismo industrial, para a era dos paradoxos, 
expressão do capitalismo fi nanceiro, cuja lógica torna-se hegemônica con-
taminando todos os espaços de sociabilidade, principalmente o campo do 
trabalho, cada vez mais reduzido a um custo que precisa diminuir e se adap-
tar ao curto prazo, à volatilidade, descartabilidade, enfi m, a uma condição 
precária como forma de vida.
A precarização e as classes sociais: existe um precariado?
O debate acerca da precariedade como condição permanente e não mais 
provisória na Europa, conforme análise de Castel (2010), qualifi ca as trans-
formações do trabalho a partir da crise da « condição salarial » do fordismo, 
agora substituída pela « condição precária ». Nas palavras do autor :
[...] Se converte assim em uma condição de alguma maneira ‘normal’ da 
organização do trabalho, com suas características próprias e seu próprio 
regime de existência. Assim como se fala de ‘condição salarial’ (caracte-
rizada pelo estatuto do emprego da sociedade salarial), teria que se falar 
de condição precária, [...]. Uma precariedade permanente que já não teria 
nada de excepcional ou de provisório. Poder-se-ia chamar ‘precariado’ 
a esta condição sob a qual a precariedade se converte em um regime 
próprio da organização do trabalho (CASTEL, 2010, p. 132 – tradução 
livre, grifos meus).
Na condição precária, há um processo de individualização profundo que 
dissolve a capacidade de existir como coletivo. Sob a ameaça do desemprego 
e da precarização, os trabalhadores são forçados a serem fl exíveis, adaptáveis, 
sendo obrigados a “entrar no jogo” do capitalismo fl exível. Neste cenário, 
promove-se uma brutal concorrência entre “iguais”, ou seja, entre trabalha-
dores que disputam as mesmas posições de inserção no mercado de trabalho, 
quando são levados a adotar estratégias individuais e não mais coletivas para 
enfrentar essa disputa (DRUCK, 2018).
Ainda na visão de Castel, essa condição de precariado desmonta um 
conjunto de direitos e constitui uma enorme heterogeneidade entre os tra-
balhadores, difi cultando sobremaneira a sua existência como classe social. 
Em diálogo com o marxismo, afi rma que « a classe operária perdeu a par-
tida » (2010, p. 285), desfazendo-se da condição de organização e luta por 
outra sociedade. Entretanto, reconhece que os elementos que a constituíram 
não desapareceram.
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LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 51
Guy Standing (2013) concebe o « precariado » como uma nova classe 
em formação e qualifi cada como « perigosa » no contexto da globalização 
e de novas relações sociais que exigem uma nova denominação, pois os ter-
mos “classe trabalhadora”, “trabalhadores” e “proletariado” estão superados 
e não expressam mais esse novo momento do capitalismo do século XXI. E 
apresenta a sua concepção:
O precariado tem características de classe. Consiste em pessoas que têm 
relações de confi ança mínima com o capital e o Estado, o que as torna 
completamente diferentes do assalariado. E ela não tem nenhuma das 
relações de contrato social do proletariado, por meio das quais as garantias 
de trabalho são fornecidas em troca de subordinação e eventual lealdade, 
o acordo tácito que serve de base para os Estados de bem-estar social. 
Sem um poder de barganha baseado em relações de confi ança e sem poder 
usufruir de garantias em troca de subordinação, o precariado é sui generis 
em termos de classe [...] (STANDING, 2013, p. 25).
Para Standing (2013), o precariado é composto por aqueles que estão fora 
da “cidadania industrial”, isto é, sem garantia de vínculo empregatício, sem 
segurança no emprego e no trabalho, sem garantia de reprodução de habili-
dade, insegurança de renda e sem garantia de representação. Vivem, portanto, 
numa situação de instabilidade, irregularidade e insegurança permanentes 
em todos os níveis sem qualquer possibilidade de um pertencimento a uma 
“comunidade trabalhista solidária”. Sem perspectivas de futuro, se movem 
no curtíssimo prazo, infl uenciados pelas novas tecnologias e mídias sociais, 
seu pensamento é rápido e curto e não há memória de longo prazo. Nessa 
condição de “incerteza crônica”, não conseguem criar vínculos nem formas 
de solidariedade, não se identifi cam uns com os outros, pois são “[...] uma 
crescente massa de pessoas [...] em situações que só podem ser descritas como 
alienadas, anômicas, ansiosas e propensas à raiva. O sinal de advertência é 
o descompromisso político” (STANDING, 2013, p. 47) (DRUCK, 2018).
Ainda segundo Standing (2013, p. 48), constituem uma “classe perigosa”:
‘o precariado não é uma classe organizada que busca ativamente seus interes-
ses, em parte porque está em guerra consigo mesmo.’ [...] As tensões dentro 
do precariado estão colocando as pessoas umas contra as outras, impedin-
do-as de reconhecer que a estrutura social e econômica está produzindo seu 
conjunto de vulnerabilidades. Muitos serão atraídos por políticas populistas 
e mensagens neofascistas, um desenvolvimento que já é claramente visí-
vel através da Europa e dos EUA e em outros lugares. É por isso que o 
precariado é a classe perigosa, e é por isso que ‘uma política de paraíso’ é 
necessária para responder aos seus medos, inseguranças e aspirações.
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Uma análise que vai ao encontro das formulações referidas anteriormente 
sobre a relação entre a precarização do trabalho e o neoliberalismo (SAUVE-
TRE et al, 2021; HARVEY, 2014; BROWN, 2019), que indicam o processo de 
individualização, da concorrência, do empresário de si mesmo, transformado 
em inimigo de si mesmo, desconstruindo a condição subjetiva de classe social.
Dörre (2022, p. 142) discute a “erosão da sociedade de classe inte-
grada”, isto é, a era fordista, em que houve um “status coletivo reconhe-
cido”, conquistando-se uma cidadania social, com um conjunto de conquistas 
que estabeleciam um padrão de vida de classe média para os trabalhadores 
empregados. Foram condições socioeconômicas específi cas do capitalismo 
que propiciaram essa confi guração naqueles países que viveram os Estados 
de bem-estar. Situação que vai se esgotando e leva à mobilização e lutas 
reivindicativas dos trabalhadores para manter a sua condição. O “regime de 
expropriação do capitalismo fi nanceiro” foi a resposta à crise do fordismo. 
Segundo Dörre (2022, p. 145):
[...] o capitalismo de mercado fi nanceiro se refere ao surgimento de uma 
determinada formação capitalista. Ela combina uma acumulação de capi-
tal – baseada em um domínio relativo do capital fi nanceiro – modelos de 
produção e disposições regulatórias (vínculos entre o discurso público e 
as práticas institucionais) fl exíveis, centradas no mercado, que priorizam 
a responsabilidade individual e a competitividade em detrimento do prin-
cípio de solidariedade.
O novo modus operandi desse regime de expropriação do capita-
lismo fi nanceirizado provocou uma desestruturação e reestruturação das 
relações de classe, sobrepondo velhas e novas estruturas. No campo das 
classes dominantes, novas frações e reposicionamentos provocados pela 
transnacionalização, juntando segmentos mais tradicionais, a exemplo dos 
banqueiros, com novos ricos especuladores, uma nova elite de executivos 
numa gestão empresarial orientadapara os acionistas e o surgimento de 
“uma classe de prestadores de serviço ao capitalismo do mercado fi nan-
ceiro” (DÖRRE, 2022, p. 148). Essa nova elite não tem compromisso 
corporativo e é movida por interesses pessoais diante das possibilidades 
de rápido enriquecimento através da especulação no mercado fi nanceiro. 
Uma composição de classe constituída por novas frações numa condição de 
permanente instabilidade, gerada pelo caráter volátil dos investimentos e 
seus resultados. Entretanto contam com uma reestruturação das instituições 
e das formas de regulação estabelecidas pelo Estado, que lhes garantem 
uma liberdade quase sem limites para atuar no processo de fi nanceirização, 
reforçadas pela remercantilização e expropriação, típicas da “acumulação 
por espoliação” (HARVEY, 2004).
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LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 53
No campo das classes trabalhadoras, a acumulação fl exível comandada 
pelo regime de expropriação do capitalismo fi nanceiro faz amplifi car o “exér-
cito industrial de reserva”, potencializando a insegurança e instabilidade, 
repercutindo sobre a composição das frações de classe, quebrando o status 
social e coletivo, reduzindo seu efetivo e substituindo-o pela crescente ocupa-
ção precária. Neste processo, perde-se a crença na organização coletiva e só 
o sucesso individual é possível. O que “...dá origem a orientações sociais que 
provocam lutas classifi catórias dentro da classe trabalhadora ao mesmo tempo 
que desencadeiam o repúdio a partes da sociedade consideradas improdutivas 
e ‘parasitárias” (DÖRRE, 2022, p. 150).
Neste contexto, os trabalhadores com carteira assinada e contratos por 
tempo indeterminado tendem a defender a manutenção das suas condições, 
assumindo uma postura corporativa e de transferência de riscos aos segmen-
tos mais precarizados, pois a relativa segurança dos primeiros depende da 
insegurança dos últimos.
Dörre (2022) defende o surgimento de um novo subproletariado, aqueles 
trabalhadores que não têm propriamente um emprego, mas trabalho incerto, 
são mal remunerados e socialmente desqualifi cados e negligenciados. Embora 
considere que:
É verdade que as formas estruturais contemporâneas da precariedade 
abrangem todas as “zonas de coesão social” e estão presentes em diferentes 
classes (frações) e estratos. A esse respeito, não há uma subclasse homo-
gênea nem um precariado claramente defi nível.” (DÖRRE, 2022, p. 152).
É nesta mesma perspectiva que analisei (DRUCK, 2018, p. 88):
[...] compreende-se que a precariedade sofreu mais uma grande metamor-
fose, como “dialética do mesmo e diferente” (CASTEL, 1998), tornando-se 
de outra natureza, tanto no Brasil como nos países do centro: deixou de ser 
“residual”, ou ainda refl exo do “atraso”, para se transformar no centro da 
dinâmica do capitalismo fl exível, se constituindo num fenômeno mundial 
que passou de “condicionado a condicionante” (MATOS, 2010). A preca-
rização – como processo, como movimento – se generalizou para todos 
os lugares (centro e periferia), para todos os setores (urbano e rural), para 
todas as atividades (indústria, serviços públicos e privados, comércio), 
para todos os segmentos de trabalhadores (mais qualifi cados, menos qua-
lifi cados, jovens, velhos, homens, mulheres, negros, brancos, migrantes, 
nativos), mesmo que atingidos em graus diferentes por essa precarização.
Nesta medida, reafi rmo o que já expus em escritos anteriores Druck 
(2016, 2018), o atual debate sobre precarização e precariado contribui para 
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explicitar o caráter histórico das classes sociais em sua processualidade. A 
precarização social do trabalho – como um movimento que está no centro da 
dinâmica do atual padrão de desenvolvimento capitalista, sob a hegemonia 
da lógica fi nanceira e do neoliberalismo –, reconfi gura as relações entre as 
classes e intraclasses, alterando a sua composição e morfologia. Observa-se 
o surgimento de novos contingentes de trabalhadores, constituídos a partir 
das novas formas de organização do trabalho e de transformações tecnoló-
gicas, cujo perfi l difere em muito do velho operário industrial, a exemplo 
dos trabalhadores em telemarketing e, mais recentemente, os trabalhadores 
de aplicativos. Denominados por Antunes (2018) de “novo proletariado de 
serviços”, considerado como parte da classe-que-vive-do-trabalho e, portanto, 
em discordância com Standing em sua afi rmação sobre o precariado como 
uma nova classe, pois:
[...] a classe-que-vive-do-trabalho, em sua nova morfologia, compreende 
distintos polos que são expressões visíveis da mesma classe trabalhadora, 
ainda que eles possam se apresentar de modo bastante diferenciado (dife-
renciação, aliás, que não é novidade na história da classe trabalhadora, 
sempre clivada por gênero, geração, etnia/raça, nacionalidade, migração, 
qualifi cação etc.) (ANTUNES, 2018, p. 58).
Em síntese, a descrição empírica das condições objetivas e subjetivas dos 
novos segmentos de trabalhadores que crescem em todo o mundo, classifi cados 
como “precários”, ou como “condição precária” – fora da relação de assalaria-
mento fordista ou “condição salarial” –, apesar de evidenciar as diferenças nas 
condições de trabalho, nos salários, nos direitos sociais e trabalhistas, não é sufi -
ciente para afi rmar sobre o surgimento de uma nova classe social: o precariado.
Este debate teórico, referenciado, principalmente nos países do centro, 
sobretudo naqueles em que se constituíram os Estados de bem-estar social, 
pode ser problematizado e adaptado para o caso das regiões periféricas, a 
exemplo do Brasil?
As especifi cidades da precarização nos países da periferia: o caso 
brasileiro
A especifi cidade do caso brasileiro só pode ser compreendida a partir da sua 
história passada. Um país colonial sustentado no trabalho escravo, que se especia-
lizou numa economia agrário-exportadora e cuja industrialização tardia, através 
do modelo de substituição de importações, o condenou a uma posição subordi-
nada às economias centrais, condição similar para os países latino-americanos.
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LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 55
O desenvolvimento mundial do capitalismo se deu de forma desigual 
e combinada, criando uma divisão internacional do trabalho, em que as 
antigas colônias na América Latina transformaram-se em países dependen-
tes, exportadores de matérias primas, enquanto a dinâmica industrial e de 
matrizes tecnológicas avançava nos países do centro. No caso do Brasil, a 
industrialização, mesmo que tardia, tornou a economia mais complexa e 
dinâmica, instalando-se no país as principais indústrias de bens de consumo 
durável, diferenciando a sua estrutura produtiva em relação a outros paí-
ses latino-americanos.
As transformações do trabalho em tempos de globalização fi nanceira e 
do neoliberalismo no Brasil precisam ser analisadas a partir da constatação de 
que aqui não se constituiu um Estado de Bem Estar Social, mas um sistema de 
proteção social (CLT – Consolidação das Leis do Trabalho) datado de 1943, 
condicionado pelo controle do Estado sobre os sindicatos, embora estabele-
cendo um conjunto de direitos sociais e trabalhistas restritos ao setor urbano, 
reivindicados pelos trabalhadores desde o pré 1930, e que representaram um 
avanço importante em direção à “condição salarial” da qual falam os estudos 
sobre a experiência europeia.
Diferentemente dos países mais desenvolvidos, onde foi possível estabe-
lecer um grau de integração e homogeneidade social maior durante os “30 anos 
gloriosos”, que tinham a “condição salarial” como hegemônica; no Brasil, essa 
“condição salarial” nunca foi atingida plenamente, mas sempre foi fortemente 
desejada e perseguidapelas lutas sociais e serviu de inspiração política para a 
crítica ao “capitalismo selvagem” brasileiro. Nesta medida, o “espírito capi-
talista” do padrão fordista de desenvolvimento e de regulação, que propiciou 
o período de prosperidade e progresso social naqueles países, era, de certa 
forma, reivindicada ou buscada como caminho para superar as condições de 
miséria, de pobreza, de subemprego e de “mal-estar social” em nosso país.
Historicamente o mercado de trabalho brasileiro foi marcado por uma 
enorme heterogeneidade e desigualdade, onde a precariedade estrutural do 
capitalismo dependente se manifestou desde as suas origens no Brasil, mesmo 
que sofrendo mudanças conjunturais.
No atual contexto, após três décadas de manifestação sistêmica da crise 
fordista no Brasil, pode-se afi rmar que a precarização do trabalho se consti-
tuiu como um novo fenômeno, cujas principais características, modalidades e 
dimensões sugerem um processo de precarização social inédito no país neste 
último período, revelado pelas mudanças nas formas de organização/gestão do 
trabalho, na legislação trabalhista e social, no papel do Estado e suas políticas 
sociais, no novo comportamento dos sindicatos e nas novas formas de atuação 
de instituições públicas e de associações civis.
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O caráter desta nova precarização social do trabalho está sustentado na 
ideia de que é um processo que instala – econômica, social e politicamente - 
uma institucionalização da fl exibilização e da precarização modernas do traba-
lho de caráter mundial, renovando e reconfi gurando a precarização histórica e 
estrutural do trabalho no Brasil, agora justifi cada – na visão hegemonizada pelo 
capital –, pela necessidade de adaptação aos novos tempos globais, marcados 
pela inevitabilidade e inexorabilidade de um processo mundial de precarização, 
também vivido a passos largos pelos países desenvolvidos. Assim, a referência 
para os países periféricos não está mais na cidadania fordista ou na condição 
salarial daqueles países, mas no capitalismo fl exível e global como “única 
saída” para a modernidade no mundo contemporâneo (DRUCK, 2011). Nesta 
medida, o capitalismo neoliberal procura enterrar o “sonho socialdemocrata”, 
responsabilizando as políticas sociais, a conquista de direitos e os sindicatos 
de trabalhadores pelas difi culdades no processo de acumulação.
A precarização em escala global, determinado pela acumulação fl exível 
tem expressões históricas nacionais e regionais diversas, pois é resultado das 
diferentes histórias do trabalho e do emprego, que marcaram as condições 
socioeconômicas e políticas de cada país. Entretanto, atualmente as realida-
des do trabalho na América Latina, na Europa, nos EUA e países asiáticos 
vêm se tornando cada vez mais semelhantes, conforme inúmeras pesquisas 
têm demonstrado.
No Brasil e nos países latino-americanos, a natureza da dinâmica da 
precarização do trabalho é a mesma, mas a sua potencialidade de genera-
lização é diferente, pois apenas um conjunto minoritário de trabalhadores 
conquistou uma relativa estabilidade, ou seja, a vulnerabilidade social sempre 
foi muito grande, mas também diferenciada entre os próprios trabalhadores e, 
hoje, mesmo aqueles protegidos pela legislação (os “formais”) estão também 
expostos e sofrem a precarização do trabalho.
Alguns elementos para a discussão sobre o precariado no Brasil5
Sem ter a pretensão de sistematizar a discussão sobre “precariado” no 
Brasil, destaco algumas formulações, com cujos autores tenho dialogado. É 
o caso de Giovanni Alves (2013a, 2013b, 2014), Ruy Braga (2012) e Ricardo 
Antunes (2018).
Alves (2013a) considera que o surgimento do precariado é uma demons-
tração histórica da crise dessa ordem social burguesa sustentada no emprego, 
nos direitos sociais, na inclusão pelo consumo e no Estado social. O novo 
5 Na primeira parte desse tópico, reproduzo resumidamente uma discussão apresentada em: Druck (2018).
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LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 57
caráter da precarização do trabalho na contemporaneidade surge da “nova 
precariedade salarial vigente no capitalismo global”, já que essa precarização 
é um “movimento de desconstrução da relação salarial constituída no capita-
lismo do pós-guerra”, assim como pode ser compreendida como “desmonte 
das formas reguladas da força de trabalho como mercadoria” (ALVES, 2013a, 
p. 85). Ainda na sua concepção a precarização não se limita ao “trabalho”, pois 
se estende ao “homem-que-trabalha”, que se desefetiva como ser genérico. 
Assim, considera que essa dupla precarização (do trabalho e do homem-
-que-trabalha) abre uma “[...] tríplice crise da subjetividade humana: a crise 
da vida pessoal, crise de sociabilidade e crise de autorreferência pessoal” 
(ALVES, 2013a, p. 87).
Assim no plano descritivo, classifi ca o precariado:
[...] como camada social média do proletariado urbano precarizado [...] 
constituído, por exemplo, por um conjunto de categoriais sociais imersas 
na condição de proletariedade como, por exemplo, jovens empregados 
do novo (e precário) mundo do trabalho no Brasil, jovens empregados ou 
operários altamente escolarizados, principalmente no setor de serviços e 
comércio, precarizados nas suas condições de vida e trabalho, frustrados 
em suas expectativas profi ssionais; ou ainda os jovens-adultos recém-gra-
duados desempregados ou inseridos em relações de emprego precário; ou 
mesmo estudantes de nível superior (estudantes universitários são traba-
lhadores assalariados em formação e muitos deles, estudam e trabalham 
em condições de precariedade salarial) (ALVES, 2013b, p. 3).
No caso do Brasil, Alves (2013a, p.88) salienta que é a partir dos anos 
de 1990 que se constitui um “novo e precário mundo do trabalho”, fruto da 
combinação de políticas neoliberais e da reestruturação produtiva, cuja centra-
lidade é a “nova precariedade salarial”, como elemento que sintetiza as demais 
dimensões da precarização. Ademais, refl ete as transformações no campo da 
tecnologia, dos novos métodos de gestão/organização do trabalho, dos coletivos 
geracionais híbridos e das novas relações fl exíveis de trabalho, cujas expressões 
empíricas são a remuneração fl exível, a jornada de trabalho fl exível e os novos 
contratos fl exíveis de trabalho. Em escritos mais recentes, afi rma:
Temos utilizado os conceitos de precariado e ‘proletaróides’ para caracte-
rizar camadas sociais da classe do proletariado, personagens sociais predo-
minantes (embora não exclusivas), de manifestações sociais no Brasil do 
neodesenvolvimentismo. Por isso, intitulamos as manifestações de junho 
de 2013 como ‘a revolta do precariado’; e os ‘rolezinhos’ ocorridos em 
dezembro de 2013 e janeiro de 2014 como ‘a invasão dos proletaróides’. 
Na verdade, a utilização dos conceitos de precariado e ‘proletaróides’ 
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visa caracterizar (e dar visibilidade) a novos personagens sociais que se 
constituíram na era do neodesenvolvimentismo e que explicitam em si e 
para si contradições da ordem burguesa hipertardia no Brasil (ALVES, 
2014, p. 1).
Assim, na visão do autor, o precariado é uma camada social do proleta-
riado, que é possível identifi car empiricamente, fruto da crise do fordismo e do 
capitalismo e da resposta do capital, através dos processos de reestruturação 
produtiva e da implementação do neoliberalismo. E, portanto, não se trata de 
uma nova classe social.
Braga (2012) também parte do debate internacional que associa a 
nova realidade do trabalho à crise do fordismo e dos Estados de bem-es-
tar social. Entretanto, destaca que a precariedade é “constitutiva da relação 
salarial” e, consequentemente, “[...] o precariado não deve ser interpretado 
comoantípoda do salariado, seu ‘outro’ bastardo ou recalcado” (BRAGA, 
2012, p. 17), como o fazem as análises de Castel (2010) e Standing (2013). 
Retoma a formulação de Marx sobre a população trabalhadora excedente 
como necessária ao modo de produção capitalista, subdividida em fl utuante, 
latente, estagnada e pauperizada, e com base nesta concepção, compreende 
o precariado como “proletariado precarizado”, ou o que Marx denominou 
de “superpopulação relativa”. Nas palavras de Braga (2012, p. 18), o preca-
riado está no “coração do próprio modo de produção capitalista e não como 
um subproduto da crise do modo de desenvolvimento fordista”, e é parte 
integrante da classe trabalhadora.
Entretanto, considera essencial defi nir o precariado como um segmento 
diferenciado, que reúne a “[...] a fração mais mal paga e explorada do proleta-
riado urbano e dos trabalhadores agrícolas, excluídos a população pauperizada 
e o lumpemproletariado, por considerá-la própria à reprodução do capitalismo 
periférico”. (BRAGA, 2012, p. 19). Embora reafi rme que a precariedade nos 
países periféricos nunca deixou de ser a regra, diferente dos países capita-
listas do centro; e, nesta medida, sempre foi tema dos estudos da sociologia 
do trabalho no Brasil, reconhece as especifi cidades da atual precarização do 
trabalho decorrente do neoliberalismo e da transição para um “pós-fordismo 
fi nanceirizado”, que se fi rmou nos anos 2000.
Braga (2012) dialoga com distintas análises de autores brasileiros, como 
a ideia de “subproletariado” de André Singer e de “batalhadores brasileiros” 
de Jessé de Souza, e defende que o precariado, como categoria descritiva, é 
formado pela população latente, população fl utuante e população estagnada, 
com renda entre um e dois salários-mínimos, e tem capacidade de mobili-
zação coletiva. Num outro plano de análise, retoma algumas das principais 
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teses desenvolvidas sobre a classe trabalhadora brasileira, com o fordismo 
periférico, o populismo, as lutas políticas e os sindicatos; e identifi ca, em 
cada momento histórico, as relações diversas entre os diferentes precaria-
dos (migrantes, metalúrgicos, pós-fordistas) e o Estado brasileiro, admitindo 
que houve “metamorfoses do precariado em condições sociais periféricas” 
(BRAGA, 2012, p. 88). Desta forma, apresenta o conceito de “precariado 
pós-fordista e periférico”, que está associado ao contexto da “empresa neo-
liberal”, em que:
[...] os trabalhadores foram subsumidos a um regime de acumulação 
mundializado organizado em torno da dominância dos mercados fi nan-
ceiros [...]. A fi nanceirização da gestão estimula a multiplicação das 
formas de contratação da força de trabalho, a terceirização, o aumento 
da rotatividade, o achatamento dos níveis hierárquicos, a administração 
por metas e a fl exibilização da jornada de trabalho, em uma escala iné-
dita se comparada ao regime de acumulação fordista (BRAGA, 2012, 
p. 186-87).
É a hegemonia fi nanceira que provoca um enfraquecimento da posição 
coletiva dos trabalhadores e transfere para eles uma parte considerável dos 
riscos da concorrência intercapitalista, reduzindo a sua capacidade de negocia-
ção coletiva. Segundo Braga (2012), o setor de telemarketing é paradigmático 
dessas transformações, pois se utiliza de um precariado jovem e se situa na 
conjunção da terceirização, privatização neoliberal e fi nanceirização do tra-
balho: são os infoproletários (ANTUNES; BRAGA, 2009).6
Em síntese, para Braga, existe um novo precariado, mesmo no Brasil, 
como proletariado precarizado em condições específi cas determinadas pela 
subordinação à fi nanceirização e ao neoliberalismo, que difi cultam, mas não 
impedem a sua organização coletiva, à medida que são estimulados a uma 
concorrência permanente entre eles mesmos, minando a sua solidariedade.
Antunes (2018), ao discutir sobre o “novo proletariado de serviços”, se 
posiciona criticamente aos autores que defendem o precariado como uma nova 
classe. E salienta sobre a necessidade de se caracterizar as especifi cidades 
das sociedades periféricas como o Brasil, em que o proletariado já surgiu em 
alta precariedade, herdada da escravidão, condição histórica muito diferente 
dos países do Norte. Para ele:
6 Em artigo mais recente Braga e Silva (2022, p. 120) discutem sobre os trabalhadores de plataformas, 
classifi cando-os como parte do precariado, compreendido como: “Por “precariado” entendemos aquele 
segmento das classes subalternas formado pela fusão das populações latentes, fl uentes ou estagnadas da 
classe trabalhadora, mais aqueles setores médios que estão em processo de proletarização, notadamente os 
grupos sociais formados por jovens em trânsito mais ou menos permanente entre o aumento da exploração 
econômica e a ameaça de exclusão social. Para mais detalhes, ver Braga (2012).” (tradução livre)
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[...] o precariado – se assim o quisermos chamar – deve ser compreendido 
como parte constitutiva do nosso proletariado desde sua origem, o seu 
polo mais precarizado, ainda que seja evidente, como já indicamos ao 
longo deste capítulo, que entre nós também venha se desenvolvendo com 
rapidez um novo contingente do proletariado, largamente vinculado aos 
serviços, com um traço geracional marcante (juventude) e cujas relações 
de trabalho estão mais próximas da informalidade, do trabalho por tempo 
determinado, dos terceirizados e intermitentes, modalidades que não param 
de se expandir (ANTUNES, 2018, p. 62).
No caso dos países do centro capitalista, há uma constituição recente do 
precariado, como um dos segmentos mais precarizados da classe trabalhadora, 
que os diferencia da condição “fordista”, propiciada pelo Estado de bem-estar 
social. Na periferia, como o Brasil, “...ele não só não se constitui como uma 
nova classe, como também não é tão profundamente diferenciado em relação 
ao proletariado mais regulamentado, pois aqui nunca fl oresceu um padrão 
societal típico do welfare State...”
Portanto, coerente com suas análises sobre as transformações da classe 
trabalhadora, Antunes (2018) reafi rma sua original contribuição no sentido 
de explicar que a nova morfologia do trabalho defi ne também uma nova 
morfologia da “classe-que-vive-do-trabalho”, cuja heterogeneidade em sua 
forma de ser que passa pela etnia, gênero, geração, migração, qualifi cação, e às 
tantas formas de inserção no mercado de trabalho é complementada por uma 
“... homogeneização que resulta da condição crescente pautada pela precari-
zação, cada vez mais desprovida de direitos do trabalho e de regulamentação 
contratual” (ANTUNES, 2018, p.64). Tais transformações abarcam também 
as formas de lutas sociais e sindicais, constituindo uma nova morfologia das 
formas de organização, de representação e de ação coletiva dos trabalhadores.
Por fi m, o debate acerca do precariado como nova classe ou fração de 
classe merece continuar, pois, expressa o grau de heterogeneidade do trabalho 
e da classe trabalhadora hoje. Sou partidária das críticas à concepção de uma 
nova classe social, mas é preciso registrar que tanto Standing, como Alves, 
Braga e Antunes estão afi rmando a existência de um precariado, a partir de 
uma descrição empírica das condições de trabalho impostas pela atual preca-
rização. Todos estão preocupados em classifi car e identifi car quem compõe o 
precariado, dando-lhe um status de uma categoria descritiva.
Notas Finais
Em primeiro lugar, busquei neste capítulo, “prestar contas” e reconhe-
cer (auto) criticamente algumas imprecisões conceituais no debate sobre 
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precariedade e precarização, revisitandomeus escritos, à luz das mais recen-
tes transformações do trabalho e procurando atualizar o debate conceitual 
contextualizado no capitalismo contemporâneo.
Neste esforço de sistematização, reafi rmei determinadas análises e tam-
bém registrei suas limitações, assim como as necessárias mudanças na com-
preensão dos fenômenos neste campo temático da precarização social do 
trabalho, propiciadas pela observação das realidades empíricas e pelo diálogo 
com velhos e novos autores.
Considero que uma das chaves principais para compreender o presente e 
o futuro do trabalho é a ideia que vivemos hoje, no capitalismo neoliberal, uma 
precariedade revigorada com novos contornos fazendo da precarização moderna 
a regra e estratégia de dominação, expressa nas diferentes dimensões que se 
pode identifi car no plano empírico: “reformas trabalhistas” que decretam o fi m 
da hipossufi ciência do trabalhador, deixando-os à mercê do mercado; a “uberi-
zação” que nega a condição de trabalhadores e os trata como empreendedores 
e empresários de si mesmos; a terceirização que discrimina e estabelece traba-
lhadores de segunda categoria; o trabalho análogo ao escravo, cada vez mais 
utilizado por capitalistas de todo tipo, no campo e nas cidades; a destituição do 
caráter público dos bens e serviços necessários à reprodução, com a privatização 
interna e externa do Estado, reduzindo o contingente de servidores públicos ou 
transformando-os em “servidores privados”, dentre outros indicadores.
O poder de generalização da precarização social e de sua “institucio-
nalização” – aceita como parte necessária e inevitável do capitalismo fi nan-
ceirizado sob a hegemonia neoliberal –, é diferenciado nas várias regiões 
do mundo, dada as especifi cidades históricas de cada país e, portanto, se
constituem níveis diferentes de precariedade, a exemplo dos países da peri-
feria como o Brasil. Entretanto, a mundialização do capital impôs e tornou a 
precarização o centro da sua dinâmica.
Um dos principais objetivos dessa lógica capitalista é retirar qualquer 
limite material e moral à exploração do trabalho. Limites que são postos 
como resultado das lutas e da organização dos trabalhadores. Portanto, para o 
capital trata-se de negar a condição de classe dos trabalhadores, seja no plano 
subjetivo e ideológico ou nas condições objetivas de trabalho. Para isso, é 
preciso negar a existência de uma relação social, que é central no capitalismo: 
a relação de assalariamento, a partir da qual, se ergue o trabalhador como ser 
coletivo. Sob a radical mercantilização da vida, do culto ao indivíduo versus 
o coletivo, da imposição da concorrência como forma de vida, transformando 
homens e mulheres em empresários de si mesmos, vive-se também a descar-
tabilidade da força de trabalho e a sua degradação a exemplo do crescente 
uso do trabalho análogo ao escravo.
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A força ideológica da precarização como regra está, por um lado, na 
banalização dessas transformações concebidas como fenômenos “naturais”, ou 
seja, inexoráveis, na atual fase do capitalismo. Entretanto, existem contra-mo-
vimentos, em diferentes formas e manifestações. A difi culdade – sociológica 
e política – de compreender a heterogeneidade das expressões de resistência 
dos trabalhadores passa pelas experiências históricas de cada país, mas passa 
fundamentalmente, pela compreensão do que são as classes sociais em sua 
historicidade e como a classe se manifesta ou “se faz ao mesmo tempo em que 
é feita”, como diria Thompson (1987). É preciso romper com o reducionismo 
presente na noção de classe trabalhadora, cuja expressão política estaria na 
somente na organização sindical e partidária. Os movimentos dos desempre-
gados, dos trabalhadores das empresas de aplicativos, dos movimentos dos 
sem teto e dos sem-terra, dos indígenas, não passam necessariamente pelos 
sindicatos ou pelos partidos institucionalizados, mas são também classistas, 
questionam a propriedade, as relações de trabalho e a precarização do traba-
lho e da vida. É preciso examinar as experiências de organização de redes de 
contra-poderes que articulam todos esses movimentos numa perspectiva de 
superação da precarização e de emancipação do trabalho, na construção de 
um outro modo de trabalho e de vida.
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MISÉRIA AUTOMATIZADA: 
a crise do valor como fundamento 
da precarização do trabalho
Lana Carrijo
Mariela Becher
DOI: 10.24824/978652515286.8.67-84
É um homem quem mata, é um homem quem comete ou suporta 
injustiças; não é um homem que, perdida já toda reserva, 
compartilha a cama com um cadáver. Quem esperou que seu vizinho 
acabasse de morrer para tirar-lhe um pedaço de pão, está mais 
longe (embora sem culpa) do modelo do homem pensante do que 
o pigmeu mais primitivo ou o sádico mais atroz. Uma parte da 
nossa existência está nas almas de quem se aproxima de nós; por 
isso, não é humana a experiência de quem viveu dias nos quais 
o homem foi apenas uma coisa ante os olhos do outro homem
Primo Levi
A sociedade que se apresenta nesse início do século XXI, traz consigo 
a continuidade e o agravamento da crise estrutural que vivenciamos desde 
meados da década de 1970. Apesar disso, é signifi cativo que, após quase meio 
século, a economia capitalista não tenha impulsionado um novo processo de 
acumulação capaz de proporcionar um desempenho econômico “saudável”, 
nem mesmo para os países da Europa ocidental e os EUA.
A crise contemporânea (que se confi gura em várias dimensões: crise do 
Estado, crise econômica, crise ecológica) expressa apenas a camada mais 
superfi cial de problemas que se encontram na base da produção capitalista. 
No campo do trabalho, por exemplo, a crise aparece como causadora da 
precarização dos vínculos empregatícios, seja pelo ponto de vista do grande 
capital, que justifi ca a “fl exibilização” do trabalho e o aumento do desemprego 
a partir da queda nas taxas de lucro, principalmente após 2008. Seja pelo 
ponto de vista dos defensores do trabalho, que apontam a crise como mais um 
mecanismo de expansão da acumulação de capital, dessa vez marcada pelo 
predomínio do capital fi nanceiro, que intensifi ca a expropriação do trabalho 
por encontrar no mercado de capitais (títulos, ações e derivativos) uma fonte 
mais rentável de aplicação da mais-valia produzida.
Queremos, no entanto, demonstrar que o agravamento da questão social, 
principalmente do desemprego estrutural nas últimas décadas, decorre do 
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estreitamento da capacidade de valorização do valor diante do nível de produ-
tividade e globalização atingido, ou seja, da real difi culdade de o capitalismo 
continuar se expandindo por meio do trabalho. Nesse caso, a precarização 
expressa a própria crise da valorização do capital. Mas não porque há um 
Estado grandioso que controla e absorve a maior parte do valor produzido 
no mercado, como argumenta o liberalismo econômico, ou porque não há um 
Estado forte no que se refere à proteção social e que redireciona maior parte 
do fundo público para o pagamento da dívida pública, priorizando a garantia 
de liquidez dos capitais que são investidos no mercado fi nanceiro ao invés 
da inversão em políticas sociais.
Sem dúvida, essa última é uma característica do capitalismo contem-
porâneo, mas quando se trata de apontar o fundamento desse processo de 
desmonte social, precisamos olhar para as mudanças que ocorreram na base 
da produção de valor. Nesse sentido, apontamos alguns aspectos da conjuntura 
específi ca da precarização do trabalho contemporânea, porque as condições 
econômicas e sociais que estimularam a expansão no período denominado 
como fordismo, não podem ser reproduzidas nesse princípio do século XXI. 
Com isso queremos chamar atenção para o fato de que, a crise contemporâ-
nea do capital expressa um processo de implosão das bases que permitiram 
a afi rmação da sociedade burguesa.
Trabalho e capital fi ctício
No “mundo do trabalho”7 contemporâneo, assistimos às novas formas 
de contratação, com redução dos direitos do trabalho, contratos temporários, 
extensão da jornada de trabalho (o que demonstra uma sobreposição da 
mais-valia relativa com a mais valia absoluta), remunerações extremamente 
baixas e instáveis, na maioria das vezes restritas ao mínimo da sobrevivência.
Entretanto, por trás dessa precarização estrutural do trabalho, viven-
ciamos um processo de crise fundamental do capitalismo. A degradação das 
condições de trabalho, da periferia ao centro do capital, ao invés de expressar 
um novo mecanismo de acumulação para a reprodução ampliada do capital, 
representa processos particulares, porém integrados, de corrosão da estrutura 
capitalista. Observamos esse movimento a partir do crescimento acelerado 
das montanhas de capital fi ctícioque tem garantido a sobrevivência, muito 
precária, da economia de mercado. Assim como no efeito cascata desenca-
deado por qualquer surto de desvalorização, como aconteceu com a crise 
7 Um termo que por si já faz alusão à cisão da vida entre as esferas da produção e reprodução social, própria 
da sociedade capitalista, que coloca o valor como fundamento e produz a ideia de um “exterior” no qual 
existem atividades que não geram valor.
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LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 69
no mercado imobiliário em 2008 nos EUA, que em maior ou menor medida 
atingiu todos os países do mercado global.
Se, como sabemos, a questão social antes da industrialização era determi-
nada pela escassez de recursos, e a partir do desenvolvimento do capitalismo 
passou a coexistir com a abundância da produção em larga escala, servindo 
para um processo de acumulação acelerada de capital. No século XXI ela 
representa um extremo nível de superacumulação de capital que agora descarta 
parcelas crescentes de força de trabalho que se tornaram supérfl uas para o 
capitalismo desenvolvido e globalizado.
O processo de “hipertrofi a fi nanceira” é consequência de uma crise 
que se arrasta nos últimos quarenta anos, com a busca incessante do capital 
para encontrar novos espaços e dimensões da vida que possa mercantilizar 
e escoar suas mercadorias. Em que a necessidade de expansão da riqueza 
capitalista não cabe mais dentro do seu próprio padrão de produtividade, 
que foi levado ao extremo e se aproxima agora de seus limites lógicos e 
concretos de reprodução.
Como assinala Trenkle,
Se a miséria no início do capitalismo na Europa e nas colônias europeias 
era um momento de imposição e ascensão da sociedade capitalista, a atual 
produção globalizada da miséria em massa resulta de um processo secular 
de deterioração e decadência dessa formação social que, em seu declínio, 
volta a desencadear todo o seu processo destrutivo (2020a, p. 40-41).
Esse processo destrutivo se expressa nas mudanças climáticas que 
ameaçam a continuidade da vida humana e de outras espécies, na situação 
de pobreza se agravando entre os trabalhadores empregados e a miséria 
daqueles que não conseguem nem mesmo ocupar a condição de explorado. 
A sociedade do trabalho após se impor como modo de vida universal, 
agora põe em andamento um processo crescente de eliminação negativa 
do trabalho.
Nesse sentido, a precarização do trabalho vivo, claramente refl ete nas 
atividades consideradas de “segunda ordem”8. Isto se aplica não só às ativi-
dades caritativas e voluntárias, mas fundamentalmente ao trabalho doméstico 
e cuidado familiar, que são cindidas e estruturalmente atribuídas as mulheres 
(TRENKLE, 2020b). Na medida que as condições de trabalho existentes se 
tornam cada vez mais degradantes, mais e mais pessoas, fundamentalmente 
as mulheres, precisam de um esforço cada vez maior para cumprir com as 
8 Se referem às atividades que são tratadas como periféricas e secundárias em relação ao trabalho e a 
produção de valor, consideradas em sentido capitalista, a centralidade da vida social.
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atividades de cuidado e a realização de algum trabalho precarizado que permita 
níveis mínimos subsistência econômica.
Seguindo com o autor, a lógica da externalização baseia-se na separação 
da produção capitalista de riqueza do contexto social. Da mesma forma, a 
exploração da natureza, em um contexto de colapso econômico, precisa ser 
cada vez mais destrutiva, de modo que permita um retorno rápido da acumu-
lação de valor, e possibilite a produção de riqueza. Neste cego mecanismo 
de funcionamento, a lógica autodestrutiva rompe de maneira contínua as 
barreiras na produção, aproximando-se de maneira acelerada ao limite lógico.
Assim como as atividades de cuidado são consideradas “sem valor” em 
uma noção restrita de riqueza social, tomada unicamente como dispêndio 
de trabalho produtor de mercadorias, os recursos naturais andam no mesmo 
plano: eles não possuem nenhum valor, e, portanto, nenhuma riqueza abstrata, 
embora sejam pré-requisito indispensável e base de toda produção de merca-
dorias. Esta noção deve ser entendida de maneira historicamente específi ca, 
já que a sociedade capitalista é a única sociedade na qual a produção de 
riqueza é dividida em um lado material e um lado abstrato. Como assinala 
Trenkle, “a produção capitalista da riqueza baseia-se sempre, portanto, na 
externalização de todo um espectro de atividades vitais que não assumem 
a forma da mercadoria, mas, por isso mesmo, podem ser apropriadas sem 
custo” (2020b, p. 65).
Na sociedade capitalista os recursos naturais são explorados e desgas-
tados sem nenhum tipo de consideração já que não pertencem ao mundo 
do valor, mas são considerados seu “exterior”, pertencendo ao mundo dos 
“acréscimos” sem custos para a produção de riqueza social. O problema se 
agrava quando esse “exterior”, não considerado como base indispensável da 
reprodução social, é utilizado como suporte à percepção de que sempre estará 
disponível para sustentar a riqueza abstrata, e dessa forma não é levado em 
consideração o limite concreto que eles apresentam.
Assim, esta “externalização”, que faz parte orgânica da sociedade capi-
talista, se aprofunda no contexto de acirramento da crise estrutural. Já que no 
processo de eliminação negativa do trabalho vivo, e na destruição da natureza, 
base fundamental para a produção de riqueza capitalista, esse “custo externo” 
se converte em um colapso social e ecológico.
A aceleração da produtividade gera uma sucessão de crises que só ser-
vem para adiar o limite da valorização do valor e não para ampliar o capital, 
como serviram as crises anteriores ao fordismo. Como assinala Konicz, “o 
pressuposto básico do fordismo, segundo o qual os trabalhadores seriam con-
sumidores de seus próprios produtos, há muito que se tornou inválido, face 
aos níveis de produtividade globalmente alcançados” (2015, s/p).
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LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 71
O período da produção fordista foi marcado por uma conjunção de fatores 
que favoreceram a expansão capitalista. Por um lado, com a inovação de produ-
tos, por outro com a expansão da produção, o que garantia simultaneamente a 
criação de um mercado consumidor com indivíduos que podiam ser integrados 
no sistema produtor de mercadorias na qualidade de trabalhador assalariado.
Segundo Lohoff (2015) a vitória da sociedade da mercadoria pode ser 
descrita como uma constante fuga para frente, interrompida pela crise e 
reanimada pelos impulsos das inovações tecnológicas que marcam época. 
Mas, esse padrão não pode ser prolongado eternamente, quando se supõe uma 
simples equação de inovação igual a boom econômico. Mesmo que as revo-
luções tecnológicas tenham refundado, no processo, o sistema capitalista de 
utilização do trabalho, isto não se deve à simples transformações do sistema de 
produção, mas sim a terem feito isto de uma maneira muito específi ca. Desde 
os descobrimentos dos grandes artesãos do século XIX, e a criação das estradas 
de ferro que abriram esferas de novos investimentos, ao mesmo tempo elas 
criaram mercados que não existiam até então. A passagem para o fordismo, 
que signifi cou uma grande transformação nos processos de produção, tornou 
possível a criação de automóveis, aparelhos elétricos, ampliando para além 
da produção artesanal e integrando-os no ciclo de utilização capitalista.
Após o esgotamento da produção em massa e a introdução da microele-
trônica a partir de meados da década de 1980, esse cenário se modifi ca, com 
a expulsão crescente da força de trabalho dos processos produtivos e a des-
conexão progressiva entre capacidade de produção ecapacidade de consumo 
(BOTELHO, 2022). A produtividade automatizada elimina uma quantidade de 
força de trabalho muito maior do que é capaz de absorver com os pequenos 
surtos de crescimento muito breves e localizados em determinados países e 
setores. O que consequentemente também reduz o poder de compra da grande 
massa da população. O barateamento permanente dos novos suportes tecno-
lógicos não atenua a crise, como em outros períodos históricos quando havia 
redução do valor dos elementos do capital constante, pelo contrário, agudiza 
a crise ainda mais, pois favorece a onipresença desta tecnologia.
A racionalização constante da produção torna a maior parte do trabalho 
vivo supérfl ua, o que ao mesmo tempo destrói a própria substância do valor. 
Assim como o barateamento das mercadorias também implica na redução da 
massa de valor total produzido pelo capital, porque o aumento da mais-valia 
relativa extraída por trabalhador não é compensado pela redução do número 
de trabalhadores produtivos provocada pela racionalização. O investimento 
em mais valia-relativa, com a intensifi cação da exploração de força de trabalho 
por um lado, não é capaz de compensar eternamente a constante eliminação 
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do trabalho produtivo por outro. Essa contradição interna não é percebida no 
nível dos capitais individuais porque para eles o que importa é o lucro obtido 
depois que as mercadorias circulam no mercado, onde cada um se apropria 
de parte da mais-valia produzido socialmente. Sendo assim,
O fundamento básico da crise econômica atual é, portanto, a queda da 
taxa de lucro que não pode ser demonstrada por este ou aquele capital 
em particular, mas somente pela média global do lucro das empresas 
produtivas. Com a disponibilidade de recursos monetários sem destinação 
lucrativa, aumenta a necessidade de sua mobilização nas estruturas fi nan-
ceiras do mercado, o que leva à crescente substituição da “valorização de 
valor” (geração de lucro) por “capitalização”, isto é, mera multiplicação 
monetária (geração de juros). Uma condição histórica em que o excesso 
de capital combinada com excesso de força de trabalho torna-se crônico, 
deixando de ser meramente cíclico: desemprego e “hipertrofi a fi nan-
ceira” são marcas inseparáveis na sociedade mundial há quatro décadas 
(BOTELHO, 2018).
O capital fi ctício passa a ser o principal mecanismo de enfrentamento 
desse limite de valorização do valor. Portanto, não se trata mais da formação 
de um excedente de mais-valia que fl ui para os mercados fi nanceiros, como 
ocorria até meados do século XX. Mas da fi ccionalização do próprio capital 
produtivo9, das contas públicas e do consumo privado, através da oferta de 
crédito em larga escala e do endividamento estatal, criando uma economia 
de circuitos defi citários (BOTELHO, 2022).
O avanço das tecnologias a partir da Terceira e mais recentemente com 
a Quarta Revolução Industrial no campo da informática, telecomunicações, 
eletrônica e inteligência artifi cial, não foi capaz de compensar a crise que 
assolou o mercado mundial a partir da década de 1970. Apesar da inovação de 
produtos e intensifi cação da produtividade, o motor da economia passou a ser 
o capital monetário, que com a perda do lastro do ouro, perde sua referência 
material e passa a circular sem a necessidade de sua reconversão real. Esse 
processo trouxe implicações para a acumulação de capital: a transformação 
de dinheiro em mais dinheiro sem a mediação da produção material, ou “acu-
mulação de capital sem acumulação de valor” (LOHOFF, 2014). Com isso, 
a quantidade de mais-valia acumulada a partir desse estágio do capitalismo 
passa a não ser sufi ciente para criar uma nova onda de crescimento.
9 Como assinala Trenkle “a antecipação de valor a ser produzido no futuro não fi nanciou (e fi nancia) em 
larga escala, pela venda de títulos de propriedade (como obrigações e ações), apenas investimentos na 
economia real e medidas de infraestrutura; também uma parte considerável dos investimentos, sobretudo 
no setor da construção civil, que emprega uma quantidade enorme de força de trabalho em todo o mundo, 
está diretamente relacionada à produção de capital fi ctício (especulação imobiliária)” (2016, p. s/p).
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LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 73
A drástica redução da necessidade de intervenção da atividade humana 
durante o processo de produção, induz também a expansão do setor terciário. 
Porém a ampliação do setor de serviços (administração, venda etc.) provoca a 
ilusão de crescimento econômico enquanto na verdade o lucro que os capitais 
individuais absorvem desse segmento é produzido pelos setores produtivos, 
primário e secundário.
O crescimento do comércio e da prestação de serviços não substitui o 
papel de destaque que a industrialização desempenhou para a consolidação 
da sociedade de mercado. O volume da massa de valor global produzida pelo 
trabalho vem caindo mesmo com o projeto neoliberal em andamento, com 
as políticas de ajuste econômico a partir dos anos 1990 e a intensifi cação dos 
mecanismos de exploração e precarização do trabalho. Isso acontece porque 
a maior parte do setor de serviços representa trabalho improdutivo, ou seja, 
não produz diretamente a valorização do valor e não amplia a massa de valor 
global. Dessa forma, apenas o aumento do número absoluto de postos de 
trabalho não signifi ca necessariamente o aumento da produção de valor, boa 
parte deles estão inseridos apenas no âmbito da circulação de mercadorias10
e muitos são criados pelo capital fi ctício. Ou seja, fi nanciados a partir da 
antecipação de valor a ser produzido no futuro, e não da apropriação de valor 
já produzido (mais valia).
Os problemas do colapso fi nanceiro e econômico de 2008 não foram 
resolvidos. Nem sequer atenuados. Ao contrário: tornaram-se ainda mais 
graves. Desde então os bancos centrais injetaram uma enorme quantidade de 
dinheiro na economia. E é lógico que, na falta de investimentos mais rentáveis, 
logo correram para as bolsas e especulação com outros ativos fi nanceiros. 
Nesse curso, formou-se o que passou a ser conhecido como a “Mãe de Todas 
as Bolhas”. A nova bolha já tocou os seus limites e há anos está na iminên-
cia de romper. No momento em que isso acontecer, imensos contingentes 
humanos, regiões e países inteiros serão duramente impactados. Trata-se de 
uma bolha imediatamente mundial. A própria China “superou” parcialmente 
os seus problemas econômicos por meio da criação de colossal injeção de 
crédito e de criação de circuitos defi citários de várias ordens. Mas por lá o 
castelo de cartas já está ruindo. Uma grave crise envolvendo o setor fi nanceiro 
e de construção já se tornou evidente. Não é menos aterradora a situação dos 
EUA e da Europa.
10 “Em 2007, a população economicamente ativa mundial estava distribuída já em 36,4 % para o setor primário, 
22,2 % no setor secundário e 41,4 % no setor terciário. Em 2012, a União Europeia apresentava 71,8 % de 
sua população ativa no setor terciário. Os EUA, 79,1 % e o Brasil, 71 %. Até mesmo a China, considerada 
a fábrica mundial, em 2012 já apresentava a maior parte de sua população ativa no setor terciário 35,7 %, 
contra 34,8 % no primário e 29,5 % no secundário.” (BOTELHO, 2018, s/p)
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Limites dos Estados nacionais diante da crise
A “hipertrofi a fi nanceira” e o desemprego moldaram a sociedade, não 
só economicamente, mas também em termos sociais e políticos. Ela foi 
inaugurada pelo desmantelamento da estrutura do Estado social11 e pela 
regulação fordista, desde o ajuste neoliberal da sociedade com a sempre 
intensa pressão sobre o mundo do trabalho fl exibilizado e a mercantilização 
de todas as relações sociais.Alguns dissidentes de esquerda, que criticam 
essa guinada, tiraram, no entanto, consequências quase tão ruins em ter-
mos ideológicos: estão aumentando a fantasia de que a solução consiste no 
retorno à “soberania nacional”.
A pacifi cação do Estado de bem-estar fordista é substituída por um com-
plexo policial, de segurança e penitenciário12 que acompanha a disciplina 
permanente, quase automática do mercado de trabalho desregulamentado. 
Dos sistemas sociais do Estado restou apenas um remanescente que, por um 
lado, serve para separar as partes da população trabalhadora “inúteis” para a 
concorrência por localização e proteger precariamente as partes “úteis”. Por 
outro lado, por razões de legitimação deve ao mesmo tempo simular algo 
assim como “justiça social”.
À dupla função assistencial-repressiva do Estado, a partir dos anos 1970, 
o desfi nanciamento se tornou crônico. Os setores médios da sociedade erguem-
-se sob um discurso raivoso e conservador contra a assistência direta, que 
aumenta na medida que o desemprego se torna massivo.
A crise do capital global também tem seu impacto na profunda crise 
de fi nanciamento do Estado. Várias localidades no mundo, enfrentando a 
concorrência global de custos, oferecem redução de impostos às empresas 
assim como também fi nanciamento subsidiado. Porém, na medida que grandes 
massas da população fi cam às margens da reprodução social, o Estado precisa 
destinar cada vez mais recursos à assistência social e ao mesmo tempo uma 
famigerada arrecadação fi scal. Em consequência, o que resta para atuar frente 
a esta situação de crise é o endividamento público.
Da mesma forma que grande parte das famílias subsistem na base do 
crédito, as empresas substituem lucros por juros, o Estado cobre o défi -
cit de arrecadação com empréstimos, emissão de dívida pública. Dessa 
maneira que a crise fi scal do Estado se tornou estrutural (assim como 
o desemprego)13.
11 Isto não se aplica a países como o Brasil, que nunca tiveram um Estado Social constituído plenamente.
12 O complexo policial é uma constante na formação social de países como o Brasil, onde os traços escravo-
cratas e punitivos nunca deixaram de existir para grandes parcelas da população que viveram e vivem às 
margens da forma social orgânica, reproduzindo de maneira permanente a violência e marginalização.
13 “somente a dívida pública em todo mundo alçou a soma de 42,4 trilhões em 2016.” (BOTELHO, 2018, s/p).
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Esta constante antecipação da criação de riqueza futura se manifestou 
numa crescente dívida estatal – mas este processo de endividamento tem seu 
limite atrelado ao processo de valorização que está constantemente sendo 
sufocado por esse fardo. Ao mesmo tempo, ele não pode ser interrompido, 
pois a crescente debilidade econômica seria imediatamente transformada 
numa aguda depressão a ser paga com o retorno dos velhos mecanismos defl a-
cionários, em formas mais acentuadas. Ao mesmo tempo, a crise provoca a 
desvalorização do capital real e do capital monetário através da desvalorização 
da própria mediação monetária: “Se o trabalho de uma economia nacional se 
revelar posteriormente inválido em grande escala no mercado mundial, ela 
pode mesmo mergulhar num processo hiperinfl acionário” (LOHOFF, 2015)14.
A “hipertrofi a fi nanceira” se torna o motor de fi nanciamento do Estado, 
através da produção de dinheiro sem lastro e fi ccionalização extrema. A capa-
cidade do Estado de emitir dívida amparada na futura arrecadação de impostos 
é uma fonte direta de capital fi ctício: essa dívida pública em algum momento 
deve ser executada.
As possibilidades de gestão da crise pelo Estado são cada vez mais limi-
tadas, porque, como dito anteriormente, seu próprio funcionamento interno se 
tornou dependente da injeção de capital fi ctício devido à redução constante 
de arrecadação da mais-valia15. A relativa autonomia dos Estados nacionais 
se tornou ainda mais frágil diante dos imperativos do mercado internacional 
porque a concorrência se tornou imediatamente global, com pouca margem 
para ações limitadas ao mercado interno.
Diante dessa conjuntura, não é mais possível tratar as contradições do 
capitalismo nacional separadas do contexto global, porque tanto a produção 
industrial, como os défi cits estatais não dependem apenas do mercado interno, 
mas estão diretamente relacionadas com o capital mundial.
A China, por exemplo, que despontava no início do século como nova 
potência econômica, demonstra agora que o crescimento do seu enorme 
parque industrial foi baseado em capital fi ctício, uma vez que, além de um 
endividamento estatal sem precedentes16, a compra de títulos do Tesouro 
14 “Bancarrotas dos Estados ocorrem regularmente desde os princípios da história do capital. No entanto, é 
muito diferente se um Estado declarou falência quando se apresenta somente como consumidor de bens 
de luxo (militar, corte), correspondendo a menos de 5% da riqueza existente, ou um Estado moderno, 
insubstituível para a reprodução social cotidiana, administrando de 40 a 50% do PIB” (LOHOFF, 2015, s/p).
15 “A crise econômica mundial de 2008 resultou precisamente do fato de que o governo de George W. Bush 
não quis “resgatar” e “salvar” os mercados fi nanceiros, deixando que a quebra do Lehman Brothers fosse 
usada como exemplo dissuasivo para os demais operadores fi nanceiros. As consequências dessa tentativa 
de sair da economia de bolha são bem conhecidas: os mercados fi nanceiros congelaram, os empréstimos 
estagnaram e a economia global entrou em recessão.” (KONICZ, 2020, p. 37).
16 “Em menos de duas décadas, a dívida duplicou seu tamanho total em relação ao PIB: em 2008, ela corres-
pondia a 140% do PIB; agora já chega a 265%, com um crescimento de 45% só nos últimos cinco anos. Todo 
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norte-americano subsidia fortemente a compra das mercadorias chinesas 
pelos EUA. Esse processo, no entanto, não representa nenhuma base real de 
crescimento, indica antes a intensifi cação de mecanismos de fi ccionalização 
da economia17. Essa dinâmica, portanto, “torna evidente que a globalização 
econômica não é uma simples intensifi cação das trocas em contextos nacio-
nais relativamente autônomos e sim uma estrutura imediatamente global 
que corrói a capacidade de regulação por parte das políticas econômicas 
nacionais” (BOTELHO, 2022).
O impulso do futuro econômico como um todo não consegue estar mais 
embaixo do guarda-chuva estatal, mas antes na esperança de que a valorização 
de muitos capitais individuais se realize e se transforme em matéria-prima da 
riqueza atual. Assim; “o cálculo coletivo da riqueza privada se tornou a base 
da economia e a real utilização do trabalho existe somente como apêndice da 
valorização do capital fi ctício” (LOHOFF, 2015, s/p).
A antecipação da criação de valor futuro, cujo veículo é a relação de cré-
dito dos sujeitos capitalistas, adquiriu tal dimensão que faz a antecipação 
[de valor], por meio da criação de dinheiro estatal, da era keynesiana 
aparecer, a posteriori, como uma ninharia. No entanto, quanto mais ela 
conduz para cima, mais profunda será́ a queda. O desacoplamento dos 
capitais fi ctícios da real valorização do valor permanece relativo e não 
pode se tornar absoluto, mesmo onde a estrutura fi nanceira se tornou, de 
forma absurda, a base da economia real (Idem).
Os Estado Nacionais e a política não têm possibilidade de deter essa 
desvalorização, encurtando-se nos últimos anos a margem de manobra que 
permitia uma infl uência em parte, nos processos defl acionários e infl acioná-
rios. As opções, nestes quadros, para os Estados, acabou sendo ou destruir 
os capitais fi ctícios ou tentar socializar as perdas através da desvalorização 
acelerada da mediação monetária.
Crise dotrabalho no Brasil
Kurz (2004) critica e aponta a complexidade em tentar defi nir camadas 
de classes em um contexto que impõe inúmeras situações de existência social 
que não podem ser resumidas como variações particulares da precarização 
esse endividamento em um ritmo inédito na história do capitalismo produziu a maior das bolhas imobiliárias, 
que agora exige novos recursos para que seu estouro seja adiado.” (BOTELHO, 2022)
17 Após a crise de 2008, com a queda substancial no consumo de mercadorias pelo país norte-americano, 
a China para tentar evitar os refl exos da crise começou a infl ar uma bolha fi nanceira interna a partir de 
investimentos em infraestrutura e especulação imobiliária, porém o seu mercado consumidor interno não é 
capaz de absorver as mercadorias em um nível minimamente compatível com o de sua produtividade atual.
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LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 77
do trabalho explorado. Trata-se antes, da eliminação da própria substância 
do capital (o trabalho), que empurra cada vez maiores parcelas de traba-
lhadores para estratégias de sobrevivência como sujeitos da mercadoria. 
Segundo o autor,
A nova pobreza não surge pela exploração na produção, mas pela 
exclusão na produção [...]. A massa problemática e “perigosa” da socie-
dade não é mais defi nida por sua posição no “processo de produção”, mas 
por sua posição nos âmbitos secundários, derivados, da circulação e da 
distribuição (idem, s/p).
As alterações muito específi cas na relação entre capital e trabalho, 
mudanças introduzidas na era fordista e concluídas no pós-fordismo, não 
criam uma reclassifi cação na estratifi cação social e sim o que Trenkle (2006) 
chama de uma desclassifi cação. Signifi ca que mais e mais pessoas em todo 
o mundo estão caindo fora das categorias funcionais pois não há mais lugar 
para elas num sistema produtor de mercadorias que pode explorar produtiva-
mente cada vez menos força de trabalho. Se tornando supérfl uas em sentido 
capitalista, surge de maneira universal um segmento de camadas inferiores 
que nada tem a ver com o velho proletariado, tornando-se desnecessárias na 
sociedade produtora de mercadorias.
No Brasil, esse segmento possui uma forte determinação de raça, que é 
administrada ou eliminada através da violência direta do Estado ou por outros 
aparelhos não ofi ciais, mas que funcionam por dentro do próprio Estado. 
Essa interdição foi marcada historicamente pela nossa particular sociedade 
do trabalho, que se ergueu sobre o colonialismo, escravismo e racismo, uma 
vez que na formação social brasileira a lógica do trabalho nunca possibilitou 
a incorporação massiva dos sujeitos.
Assim, quando o capitalismo entra em seu processo de declínio, as 
expressões da questão social brasileira estão assentadas nestas bases, cul-
turalmente e economicamente, atravessadas por uma forma particular de 
mercantilização das relações sociais. Mesmo a exploração extrema da força 
de trabalho como meio para compensar a baixa produtividade econômica em 
relação à média dos países mais desenvolvidos, não resolve as contradições 
internas da valorização do valor que são regidas pela concorrência mundial.
Como refl exo, a corrida pela racionalização das forças produtivas condi-
cionada pelo mercado externo e pelo curto prazo que pode ser sustentada por 
capital fi ctício, faz com que nos países periféricos, como o Brasil, a força de 
trabalho produtiva comece a ser eliminada antes mesmo de conseguir expandir 
o seu mercado consumidor interno.
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Desse modo, a precarização do trabalho, com suas diversas faces, não 
está relacionada apenas à incompletude do processo de industrialização bra-
sileiro. Ela condiz com a própria forma do desenvolvimento capitalista e 
seu projeto de modernização, que é determinado pela autocontradição da 
mercadoria, que impõe o trabalho como substância da riqueza, ao mesmo 
tempo que promove o constante esvaziamento dessa substância. Nas últimas 
quatro décadas, o movimento da realidade vem demonstrando a aproxima-
ção do limite dessa contradição, uma vez que a economia a nível global não 
indica novas fontes de extração de riqueza capitalista, seja no que se refere à 
recursos naturais, que já estão ameaçados de escassez, ou quanto à ampliação 
do mercado de trabalho.
Como dissemos anteriormente, a eliminação em massa de trabalho pro-
dutivo vivo como fonte de criação de valor não pode mais ser compensada 
por novos produtos barateados pela produção em massa, já que esta produção 
em massa não é mais mediada por uma reabsorção na produção de população 
trabalhadora “supérfl ua” previamente em outro lado. Portanto, a eliminação de 
trabalho produtivo vivo pela transformação científi ca, por um lado, combinado 
com a absorção de trabalho vivo por processos de capitalização ou criação de 
novos ramos de produção, por outro, inverte-se de um modo historicamente 
irreversível: “de agora em diante, será inexoravelmente eliminado mais tra-
balho do que pode ser absorvido” (KURZ, 2018).
A maioria da população mundial já consiste hoje, portanto, em sujeitos-di-
nheiro sem dinheiro, em pessoas que não se encaixam em nenhuma forma 
de organização social, nem na pré-capitalista nem na capitalista, e muito 
menos na pós-capitalista, sendo forçadas a viver num leprosário social
que já compreende a maior parte do planeta (KURZ, 1992, p. 194,195).
Estatisticamente falando, provavelmente nunca houve tantos sujeitos eco-
nômicos. Assim como a valorização capitalista alcançou seus limites absolutos, 
seu processo de afi rmação histórico também. Transformou a maioria da popula-
ção mundial em sujeitos monetários sem dinheiro, isto é, todos são obrigados 
a ganhar dinheiro de alguma maneira (mesmo que sejam centavos ou nada), já 
que as bases de outras formas de reprodução social estão quase completamente 
destruídas. Mesmo com alguns elementos de autoajuda comunitária ou de outras 
formas, eles não permitem segurar a reprodução integral cotidiana da vida.
O trabalho informal por exemplo, que no Brasil possui grande relevância 
por representar um enorme contingente populacional18, do ponto de vista da 
18 “Segundo indicadores da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) do segundo semestre de 2021, 
na superacumulação de uma massa de pessoas subempregadas, uberizadas, “se virando” na informalidade, 
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valorização do capital se tornou supérfl uo. Porque mesmo que as pessoas 
vendam balas na rua, ou serviços de limpeza, ou tecnológicos, há de fato um 
ciclo mercadoria-dinheiro, mas não valorização do capital e, portanto, não se 
dá a acumulação capitalista. Eles são circuitos de segunda e terceira ordem que 
dependem do funcionamento da produção globalizada do mercado mundial, 
pois estão ligados através de vários estágios de mediação.
Como destaca Botelho (2020),
em 2019, no Brasil, 25 milhões de pessoas no Brasil atuavam como “autô-
nomos”. Realizando atividades diárias por “conta própria”, 11,7 milhões 
estavam desempregados, 52,7 milhões de brasileiros viviam de aposen-
tadoria, pensão, aluguel, programas de transferência de renda, seguro-de-
semprego etc., 4,5 milhões e meio de desempregados procuravam trabalho 
há mais de um ano e, desses, 2,9 milhões buscavam trabalho há mais de 
dois anos, sem conseguir. Mais de um terço da população brasileira, estava 
fora de qualquer relação salarial: metade de toda a população do Brasil 
acima de 14 anos (legalmente apta ao trabalho).
Contudo, de acordo com a perspectiva de crise aqui apontada, a supe-
rexploração do trabalho na periferia não pode servir de exemplo para afi rmar 
a continuidade do processo de expansão do capitalismo.Esse cenário de 
precarização do trabalho representa, em sentido inverso, uma maneira de 
sobrevivência para esses trabalhadores, uma forma de gestão da crise pelo 
Estado em meio à decadência das formas sociais capitalistas.
Na atualidade, nos deparamos a uma realidade diferente, com a existên-
cia massiva no mundo todo de trabalhadores miseráveis, informalizados, que 
são o reverso da aplicação extremamente avançada da ciência na produção. 
Assim temos a complementariedade de uma alta tecnologia combinada com 
trabalho precarizado por um lado, e um padrão de produtividade que implica 
na constante redução da quantidade de valor representado em uma hora de 
trabalho, o que Trenkle chama de “Miséria high-tech”,
As longas jornadas de trabalho da força de trabalho precarizada não repre-
sentam uma grande massa de valor e, portanto, não podem servir de base 
para um novo impulso autônomo da acumulação de capital – mesmo que, 
naturalmente, aumentem os lucros das empresas individuais e das cadeias 
comerciais envolvidas [...] Embora esse tipo de exploração, no sentido 
da teoria neoliberal, substitua o capital dispendioso pelo trabalho barato, 
33,8 milhões sobreviviam com um rendimento mensal de até um salário-mínimo. Desse contingente, 21,9 
milhões obtêm rendimento entre meio e um salário-mínimo. No intervalo de um ano, houve um aumento de 
4,4 milhões de trabalhadores. Tomando como parâmetro o primeiro trimestre de 2022, o número salta para 
36,414 milhões de pessoas” (BRITO, 2022).
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ele não amplia a valorização do capital no nível da sociedade como um 
todo, não neutraliza o processo de crise secular baseado na diminuição 
da massa de valor em escala global (2020a, p. 44).
Assim temos grandes massas da população que vivem de uma subecono-
mia voltada à sua reprodução, sem vínculos signifi cativos com o grande mer-
cado. Essa realidade, que é dominante no Brasil, vive nas bordas de qualquer 
instituição pública ou privada, à margem dos direitos, largados a sua própria 
sorte, em uma luta constante pela sobrevivência. Isto, que é uma constante no 
nosso processo de formação social, se torna cada vez mais agudo e profundo, 
na medida que esses contingentes de sujeitos aumentam exponencialmente 
nas últimas décadas.
Considerações Finais
Este processo de decomposição social, que se aprofundou nos últimos 
dois anos, no Brasil e América Latina signifi cou um crescimento exponen-
cial da fome e da miséria19. Este aumento da pobreza se traduziu em uma 
sobrevida miserável de grande parte da população, os quais já nem sequer 
conseguem ingressar no mercado precarizado do trabalho. A impossibilidade 
desse ingresso, ou em alguns casos, o ingresso pelas formas de trabalho fl e-
xibilizado, aprofunda ainda mais o processo de degradação social. Se, em 
algumas regiões do planeta temos setores que ainda conseguem viver nessa 
Miséria high-tech, outra grande maioria morre de fome no meio de uma guerra 
civil desesperada pelos recursos naturais e pelo território.
A escolha entre a peste (o desaparecimento gradual do trabalho com 
as consequências sociais que isso implica) e a cólera (o colapso ecológico). 
Uma produção de mais-valia em queda e uma guerra pelos escassos recursos 
naturais, provavelmente não seja uma escolha, porque ambas nos esperam 
(ORTLIEB, 2009).
Contudo, apontar sinais de colapso da sociedade de mercado não é o 
mesmo que afi rmar que o capitalismo tende a se autodestruir e transitar para 
a emancipação social. A crítica consiste em trazer para o debate as especi-
fi cidades da crise contemporânea, uma vez que desde fi nais do século XX 
19 Segundo o informe da FAO “em 2022 até 828 milhões de pessoas padeceram de fome em 2021, 46 milhões 
de pessoas a mais que no ano anterior e 150 milhões a mais que em 2019” https://www.fao.org/newsroom/
detail/un-report-global-hunger-SOFI-2022-FAO/es. No Brasil, “o número de domicílios com moradores 
passando fome saltou de 9% em 2019 (19,1 milhões de pessoas) para 15,5% em 2022 (33,1 milhões de 
pessoas). São 14 milhões de novos brasileiros/as em situação de fome em pouco mais de um ano”. 
Disponível em: https://olheparaafome.com.br/.
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estamos vivenciando o estreitamento da base produtiva do capital, no qual as 
possibilidades de atingir o pleno emprego e a ampliação de direitos sociais 
relacionados ao trabalho estão cada vez mais fora de alcance do que foi pro-
pagandeado como “missão civilizatória do capital”.
O horizonte que temos à nossa frente, com a possibilidade de nos 
emanciparmos de uma sociedade que não teria mais sua produção baseada 
no trabalho, é ao mesmo tempo, o desenvolvimento expresso na superfl ui-
dade crescente das pessoas, mesmo que elas continuem estruturalmente 
necessárias ao capital.
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CRISE DO CAPITAL, PRECARIZAÇÃO 
DO TRABALHO E TICS: o trabalho de 
assistentes sociais no “fi o da navalha” 20
Raquel Raichelis
DOI: 10.24824/978652515286.8.85-108
A crise contemporânea do capitalismo, como expressão da crise estrutural 
do metabolismo social do sistema do capital (MESZÁROS, 2011), vem se con-
fi gurando como orgânica nos marcos da falência tanto do sistema de regulação 
keynesiano-fordista, quanto do socialismo realmente existente na ex-URSS.
A crise que se desencadeia nos anos de 1960/1970 já indicava os primeiros 
sinais, de esgotamento da fase expansiva do desenvolvimento capitalista durante 
os “30 anos dourados” que se seguiram ao fi m da Segunda Guerra Mundial, 
com a queda da produtividade e redução das taxas médias de lucro do capital.
Mais recentemente, a crise fi nanceira de 2008/2009 - conhecida como 
a crise do subprime – cujo marco foi a falência do banco Lehman Bro-
thers nos Estados Unidos, um dos maiores e mais antigos bancos de 
investimentos do mundo, desencadeou um dos piores desastres econômicos 
globais dos últimos anos, alastrando-se pelo restante do mundo com efeitos 
catastrófi cos e duradouros.
A eclosão da pandemia do novo coronavírus no início de 2020 agravou 
dramaticamente esse panorama crítico em todo o mundo, expressando a con-
fl uência de múltiplas crises – econômica, política, social, ambiental, civilizató-
ria – lançando o trabalho “no fi o da navalha” (RAICHELIS; ARREGUI, 2021) 
em decorrência das transformações do capitalismo em crise em escala global.
Tais processos societários de largo espectro, aqui apenas enunciados, evi-
denciam que as crises no capitalismo não são fenômenos eventuais ou episódi-
cos, mas processos imanentes que se manifestam ciclicamente provocados pela 
concorrência intercapitalista, aumento da produtividade do trabalho e supera-
cumulação de capital, em contextos de baixos salários e desemprego crescente.
Para Mészaros (2011) e outros analistas, esta é uma crise estrutural, 
expansionista, destrutiva e, no limite, incontrolável. E, quanto mais aumentam 
20 As refl exões aqui apresentadas benefi ciam-se diretamente dos estudos, pesquisas e debates desenvolvidos 
pelo Núcleo de Estudos e Pesquisa Trabalho e Profi ssão (NETRAB), do PPG em Serviço Social da PUC-SP, 
sob minha coordenação, notadamente de suas últimas pesquisas publicadas em e-book de acesso gratuito, 
com o título “Nova-velha morfologia do trabalho no Serviço Social – TICs e pandemia”, disponível para 
download em https://www.pucsp.br/educ
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a competitividade e a concorrência intercapitais, mais nefastas são suas con-
sequências – a destruição e/ou precarização da força humana que trabalha e a 
degradação crescente do meio ambiente, na relação metabólica entre homem, 
tecnologia e natureza, subordinada aos parâmetros do capital e do sistema pro-
dutor de mercadorias.
Portanto, cabe refl etir sobre o signifi cado das crises para a reprodução 
do sistema capitalista, menos como falência e mais como “contradição em 
processo” (MARX, 2011) pois, como observado, as crises no capitalismo 
são elementos constitutivos da lógica de sua estruturação, continuidade e 
reprodução. São elas (as crises) que possibilitam a retomada ou criação de 
estratégias propícias à superacumulação e lucratividade do capital, buscando 
nichos de extração de valor e mais valor no processo de reprodução ampliada 
do capital. Como analisou Marx:
O próprio capital é contradição em processo, [pelo fato] de que procura 
reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, ao mesmo tempo que, por outro 
lado, põe o tempo de trabalho como única medida e fonte de riqueza. Por 
essa razão ele diminui o tempo de trabalho na forma de trabalho necessário 
para aumentá-lo na forma do supérfl uo; por isso, põe em medida crescente 
o trabalho supérfl uo como condição – questão de ‘vida e de morte’ – do 
necessário (2011, p. 588-589).
Por essa razão, para Konicz (2020), com quem concordamos, não com-
preenderemos adequadamente a crise atual se não entendermos o próprio capi-
talismo, mais precisamente o movimento do capital em sua busca incessante 
de valorização do valor por meio da transformação de tudo em mercadoria e 
dinheiro (D-M-D’), buscando acumular cada vez mais trabalho assalariado 
abstrato e trabalho morto (2020, p. 35).
Como uma totalidade histórica concreta e contraditória, a “instabilidade 
e a propensão às crises – mas também a dinâmica destrutiva – do sistema 
capitalista resultam da tendência do capital, mediado pelo mercado, de reduzir 
o uso do trabalho assalariado no processo produtivo” (KONICZ, 2020, p. 35).
Em tal contexto, o capital precisa se expandir incessantemente ou decreta 
sua destruição; e, contraditoriamente, ao fazê-lo, tenta se livrar da sua própria 
substância – o trabalho assalariado –, processo impulsionado pelo progresso 
técnico que aprofunda a contradição entre as relações sociais de produção e 
as forças produtivas do trabalho (MARX, 2013).
Portanto essa contradição em processo no movimento histórico de 
expansão do sistema capitalista mundial vai desencadeando crises sucessivas 
– bolhas, estagnação econômica, crises monetárias, dívida dos países depen-
dentes em permanente crescimento, desemprego, precarização do trabalho, 
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LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 87
da vida humana e natural etc. – impulsionadas pelas suas próprias contradi-
ções internas.
Para fazer frente às crises estruturais, o capital conta com a intervenção 
ativa dos Estados nacionais e do fundo público como fi nanciador da acumu-
lação e das altas taxas de lucratividade do capital em detrimento do trabalho. 
No capitalismo tardio, o fundo público se torna condição de vida ou morte 
para a valorização do valor, como afi rma Behring (2022). E prossegue pon-
derando que:
Na verdade, o que se observa é que o fundo público assume tarefas e 
proporções cada vez maiores no capitalismo contemporâneo, diga-se em 
sua fase madura e decadente – fortemente destrutiva na atualidade -com 
o predomínio do neoliberalismo e da fi nanceirização, não obstante todas 
as odes puramente ideológicas em prol do Estado mínimo, amplamente 
difundidas desde a década de 1980 (BEHRING, 2022, p. 32).
As políticas (ultra) neoliberais, expressando um projeto de dominação 
de classe, são acionadas para o enfrentamento da crise, contexto em que o 
Estado burguêsassume papel central para recuperar e fortalecer o poder 
do capital, privatizando lucros e socializando custos. Como bem analisou 
Netto (2009, p. 26), o Estado no capitalismo monopolista atua como um 
instrumento de organização da economia, operando como um administrador 
dos ciclos de crise, o que não ocorre sem contradições entre os diferentes 
interesses em luta.
Nesses termos, é preciso romper com qualquer linearidade na análise 
das crises capitalistas, pois nas estratégias de seu enfrentamento pelo bloco 
no poder aprofundam e agravam a questão social a níveis intoleráveis; mas 
também, e no mesmo processo, desencadeiam respostas de parcelas da socie-
dade organizada e da classe trabalhadora em seu movimento de resistência e 
defesa de direitos conquistados historicamente.
Diante desse cenário, o trabalho de assistentes sociais e de outros profi ssio-
nais sofre profundas infl exões decorrentes das novas confi gurações do mercado 
de trabalho que incidem também nos espaços em que os assistentes sociais se 
inserem como trabalhadoras/es assalariadas/os, majoritariamente em instituições 
públicas e privadas responsáveis pela implementação de políticas e serviços 
sociais, que não escapam às determinações estruturais que movem os processos 
de exploração e precarização do trabalho, no contexto da crise mundial.
Esse texto pretende analisar as metamorfoses do trabalho em sua (nova/
velha) morfologia no capitalismo mundializado e fi nanceirizado em crise, 
problematizando as (re) confi gurações do trabalho de assistentes sociais nesse 
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contexto, bem como as (novas/antigas) requisições e respostas profi ssionais a 
partir da maciça incorporação das tecnologias de informação e comunicação 
(TICs), potencializadas no contexto da pandemia da covid-19.
Por isso, como observou Iamamoto (2011), na análise da crise estrutural 
contemporânea, não é possível segmentar processos societários que na reali-
dade compõem uma totalidade orgânica, que precisa ser considerada em suas 
conexões e determinações. Nas palavras da autora:
a mundialização fi nanceira sob suas distintas vias de efetivação unifi ca, 
dentro de um mesmo movimento, processos que vêm sendo tratados pelos 
intelectuais [e acrescento, também por assistentes sociais] como se fossem 
isolados ou autônomos: a “reforma” do Estado, tida como específi ca da 
arena política: a reestruturação produtiva, referente às atividades econômicas 
empresariais e à esfera do trabalho: a questão social, reduzida aos chama-
dos processos de exclusão e integração social, geralmente circunscrita a 
dilemas da efi cácia da gestão social; à ideologia neoliberal e concepções 
pós-modernas, atinentes à esfera da cultura (IAMAMOTO, 2011, p. 114, 
grifos da autora).
Crise estrutural e precariedade histórica do trabalho no 
capitalismo dependente
Nessa ambiência societária de crise estrutural permanente, o capital fi nan-
ceiro passa a comandar a totalidade do processo de acumulação por meio da 
integração das grandes empresas industriais transnacionais com as instituições 
fi nanceiras, como bancos, fundos de investimento, fundos de pensão, segu-
radoras, etc., num movimento permanente de valorização e busca de lucros, 
encobrindo a ampliação das relações de exploração do capital sobre o trabalho, 
criando a mística do “dinheiro que gera dinheiro” (D-D’), impondo novas for-
mas de dominação à classe trabalhadora, em estreita associação com o mundo 
das fi nanças e com os interesses do capital rentista (IAMAMOTO, 2011).
A crise sanitária provocada pelo novo coronavírus apresentou-se como 
catalizadora dessa processualidade contraditória, apoiada na estratégia do 
capital para reverter a queda tendencial das taxas médias de lucro em decor-
rência do movimento estrutural de superprodução de mercadorias e subcon-
sumo, centralização e superacumulação de capitais, aumento do poder dos 
monopólios e fi nanceirização da economia.
Nesse âmbito, o capital incorpora as inovações e os avanços tecnológicos 
e científi cos, especialmente as tecnologias microeletrônicas de base digital, 
que aceleram a produtividade do trabalho, provocam redução de trabalho vivo 
e ampliação do trabalho morto, exponenciando a população sobrante para as 
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necessidades médias de valorização do capital, alargando e diversifi cando a 
superpopulação relativa (MARX, 2013).
Frente a esse quadro, é preciso reconhecer que a precarização do trabalho 
não é uma fatalidade – visão ideologizada amplamente veiculada, ainda mais 
na situação de capitalismo pandêmico (ANTUNES, 2022). Ao contrário, nossa 
hipótese é que a precariedade estrutural do trabalho representa (mais) uma 
estratégia decorrente do padrão de acumulação capitalista ultra neoliberal 
disseminado na periferia capitalista. Ela constitui um poderoso mecanismo 
de reorganização das relações de trabalho no contexto do capitalismo rentista 
hegemonizado pelas fi nanças, que combina fl exibilização, terceirização e 
informalidade do trabalho – tripé que sintetiza a nova/velha morfologia do 
trabalho (ANTUNES, 2020; RAICHELIS, 2022).
No Brasil, como de resto nos países da periferia capitalista dependente 
dos grandes centros hegemônicos, antes mesmo da onda (neo) liberalizante 
dos ajustes fi scais permanentes, e muito antes da crise pandêmica da covid-19, 
os altos índices de subemprego e informalidade da força de trabalho urbana e 
rural, bem como a ausência e fragilidade do sistema de proteção social já se 
apresentavam como traços marcantes do capitalismo dependente brasileiro, 
desde a transição do trabalho escravo para o trabalho livre.
Em tal contexto situa-se a questão social e a questão racial, em suas 
conexões estruturantes da formação social brasileira, em um país de base 
escravocrata e colonial, sustentada pelo racismo estrutural permanentemente 
atualizado até o tempo presente. Trazendo as refl exões de Assis21, com base em 
Clóvis Moura, sobre a imbricação entre questão social e racismo na formação 
sócio-histórica brasileira, a autora afi rma que a escravidão no país
não deve ser tomada como um mero episódio na história do desenvolvimento 
brasileiro, mas como um completo conformar da sociedade apoiado em um 
monumental investimento político, social, jurídico e cultural. A escravidão 
ocorreu em muitos lugares do mundo, mas somente no Brasil submeteu por 
tanto tempo toda a sociedade a depender exclusivamente do que era produ-
zido pelos escravizados. Para tanto, foi necessário todo um aparato jurídico 
e ideológico de sustentação desse modo de produção e, consequentemente, 
de uma sociabilidade que lhe é inerente (ASSIS, 2022, p. 227).
A partir dessas bases históricas fundacionais, e dando um salto na análise 
das confi gurações assumidas pelo capitalismo monopolista no país, salienta-
mos que o chamado fordismo a brasileira guarda importantes singularidades 
21 Para aprofundamento da análise sobre a “necessária radicalização e racialização da questão social” no 
Brasil e no Serviço Social, consultar a tese de doutorado de Assis (2022), recentemente defendida no PPG 
em Serviço Social da PUC-SP.
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em relação ao fordismo “clássico”, caracterizando-se por um regime de tra-
balho com fraca proteção social e elevados índices de rotatividade da força de 
trabalho, derivados da informalidade e precariedade estruturais do mercado de 
trabalho no Brasil (RAICHELIS, 2013). E, como observado, da não integração 
de amplas parcelas da classe trabalhadora, especialmente de trabalhadores/
as de pele preta, ao trabalho regular e protegido, ainda que no contexto do 
“Estado de mal-estar social” brasileiro, lembrando a conhecida formulação 
do saudoso professorFrancisco de Oliveira.
Mais precisamente, em nosso país constituiu-se o que Braga (2012, p. 
21) identifi cou como fordismo periférico, um sistema social estruturado pela 
combinação de economias e nações capitalistas desenvolvidas e subdesenvol-
vidas, dominado pela mundialização das trocas mercantis, constituindo-se em 
uma das principais mediações históricas entre os países capitalistas avançados 
e os países capitalistas subdesenvolvidos ou dependentes.
Ao contrário do que aconteceu historicamente com o capitalismo nos 
países centrais, o Estado brasileiro não criou condições para a reprodução 
social da força de trabalho, nem estendeu direitos de cidadania ao conjunto da 
classe trabalhadora, excluindo imensas parcelas de trabalhadores/as do acesso 
ao trabalho formal e a condições dignas de vida, especialmente trabalhadores/
as rurais e negros e negras deixados à sua própria sorte após a abolição ofi cial 
da escravidão no Brasil (RAICHELIS, 2013). Assim, a superexploração da 
força de trabalho, nos termos da teoria marxista da dependência, atuou histo-
ricamente como um rebaixador estrutural dos níveis de reprodução social da 
classe trabalhadora, na medida em que os salários pagos aos/às trabalhadores/
as são invariavelmente inferiores ao valor da força de trabalho, impedindo que 
essa classe se reproduza em condições “normais”, de acordo com as conquis-
tas civilizatórias de cada sociedade em distintas particularidades históricas.
Considerando esse contexto histórico a partir da periferia capitalista, as 
transformações que o mundo do trabalho vem experimentando nas últimas 
décadas caracterizam uma nova era de precarização estrutural do trabalho
(ANTUNES, 2018). A etapa atual de fi nanceirização capitalista faz com que 
o trabalho, mediação fundamental das relações sociais e elemento estrutu-
rante da sociabilidade humana, seja destituído de sua função protetora para 
segmentos majoritários da classe trabalhadora, cujos salários têm perdido 
potência integradora face à corrosão de direitos e benefícios dele derivados.
Nessa ambiência societária, a denominada nova morfologia do trabalho
(ANTUNES, 2018) desencadeia mudanças profundas nas formas de orga-
nização, relações e gestão do trabalho, gerando processos continuados de 
informalidade, insegurança e desproteção, e novas modalidades de contra-
tação da força de trabalho assalariada através de empregos terceirizados, 
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subcontratados, temporários, em tempo parcial ou por projeto, além das formas 
regressivas que se supunha eliminadas como o trabalho escravo, o trabalho 
infantil, para citar apenas algumas das expressões da precariedade a que estão 
submetidos/as os/as trabalhadores/as no mundo do trabalho.
Contudo, embora a precarização do trabalho não seja um fenômeno novo, 
inegavelmente assume dimensões e manifestações singulares no tempo presente 
de crise orgânica do capital agravada pela pandemia da covid-19, atingindo o 
conjunto da classe trabalhadora, ainda que com diferentes intensidades, consi-
derando-se a divisão sociotécnica, sexual e étnico-racial do trabalho, na qual 
negros e negras, mulheres, jovens, povos indígenas, população LGBTQI+ são 
invariavelmente as/os mais afetadas/os. Certamente o salto científi co-tecno-
lógico e a expansão das tecnologias de informação e comunicação colaboram 
intensamente para agravar o cenário de degradação e destrutividade do trabalho 
pelo capital, questão que será aprofundada no próximo item.
Trabalho uberizado e tecnologia digital no capitalismo em crise
Para analisar a centralidade crescente das TICs na confi guração da nova 
morfologia do trabalho no capitalismo em crise, partimos do pressuposto que 
sua disseminação é constitutiva do processo permanente de reestruturação 
produtiva do capital, no qual as tecnologias digitais assumem um papel deci-
sivo na instrumentalização de novos produtos e negócios, e na estruturação 
de relações e dinâmicas de trabalho que promovem inusitadas formas de 
intensifi cação e exploração do trabalho (TONELO, 2020, p. 139).
Nesse contexto, cresce o trabalho uberizado como una (nova/velha) forma 
de organização e controle do trabalho, que se dissemina globalmente no centro e 
na periferia capitalista, apoiado em plataformas digitais - empresas que se apre-
sentam como aplicativos, mas são de fato grandes conglomerados transnacionais.
Para Abilio, Amorim e Grohmann (2021, p. 48), o que vem sendo cha-
mado de uberização do trabalho é um processo anterior às plataformas digi-
tais, caracterizado por novos arranjos produtivos, eliminação de direitos, 
transferência de riscos e custos do trabalho para o/a próprio/a trabalhador/a, 
traços característicos do trabalho em países capitalistas periféricos e depen-
dentes como o Brasil, onde a informalidade não é exceção ou um ponto fora 
da curva, mas é a regra que caracteriza o modo de vida das populações peri-
féricas, como analisado anteriormente22.
22 Abílio (2021) denomina esse processo de “autogerenciamento subordinado”, noção que propõe adotar critica-
mente no lugar de empreendedorismo, para não alimentar a subjetivação neoliberal que dissemina a ideologia do 
trabalhador proprietário “patrão de si mesmo”. A autora chama atenção para o trabalho de viração, que vai além 
do “viver de bicos” (gig economy no jargão atual) ou de um trabalhador informal, que sempre existiu nas periferias 
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No contexto do aprofundamento da pandemia da covid-19, Antunes 
(2022, p. 35) referiu-se à pandemia da uberização para dar conta dessa pro-
cessualidade que caracteriza o trabalho fl exível, intermitente e desprotegido 
para uma massa crescente da força de trabalho sobrante que não encontra 
alternativas a não ser permanecer disponível para aceitar qualquer trabalho, 
ainda que precário e de baixa remuneração.
Para o autor, trata-se de um tipo de trabalho que, subordinado a gigantes-
cas corporações globais hegemonizadas pelo capital fi nanceiro, articula pelo 
menos três traços defi nidores: o uso intensivo das tecnologias de informação 
e comunicação; a disponibilidade de uma grande massa de trabalhadores/as 
dispostos/as a trabalhar de qualquer jeito por alguma remuneração; a trans-
fi guração de trabalhadores/as assalariados/as em prestadores/as de serviços 
(empreendedores/as) para que não sejam alcançados/as pela legislação pro-
tetora dos direitos do trabalho (ANTUNES, 2022, p. 35).
Essas tendências contribuem para aprofundar a superexploração, intensi-
fi cação e precarização do trabalho, encobrindo vínculos de assalariamento de 
fato existentes por relações crescentemente individualizadas e (supostamente) 
não protegidas pela legislação trabalhista, o que tem motivado denúncias e 
processos contra essas empresas-plataformas em todo o mundo. Situação que 
não elimina, contudo, a urgência de (novas) formas de regulação para uma 
multiplicidade de vínculos e modos de realização do trabalho (presencial 
e virtual), mediados pelas plataformas e dispositivos digitais não cobertos 
pela legislação trabalhista em vigor, ainda mais após a sua desidratação pela 
contrarreforma trabalhista de 201723.
Com a crise pandêmica e (supostamente) “pós-pandêmica”, tais con-
fi gurações do mundo do trabalho aceleraram a “pandemia da uberização”, 
intensifi cando as formas de controle do trabalho por meio do gerenciamento 
algorítmico, não apenas no chão da fábrica e na produção de mercadorias 
materiais tangíveis, mas também no amplo e heterogêneo campo do trabalho 
em serviços, incluindo os serviços públicos e as instituições governamentais.
Essa processualidade própria da produção capitalista na “era digital” 
foi exponenciada com a disseminação da pandemia da covid-19, e funcionou 
como um grande laboratório para o capital e seus representantesno aparelho 
de Estado, cenário em que o maquinário digital-informacional (algoritmos, 
indústria 4.0, inteligência artifi cial, internet das coisas, robótica etc.) assume 
das cidades brasileiras, estruturando modos de vida e relações de trabalho sem direitos e proteções sociais, 
transformando trabalhadores/as em sujeitos solitários/as na busca cotidiana e desesperada pela sobrevivência.
23 Para o que nos interessa nesse texto, não é excessivo lembrar que o trabalho uberizado não se limita às 
empresas UBER, sendo que na atualidade esse tipo de trabalho se expande para todos os segmentos 
do mercado de trabalho, nas empresas e organizações privadas, no Estado e nas instituições públicas, 
principalmente no trabalho em serviços, incidindo portanto no exercício profi ssional de assistentes sociais 
e demais trabalhadores/as que participam da formulação, gestão e implementação de políticas sociais e 
de serviços sociais públicos e privados.
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o comando do processo produtivo, aprofundando e ampliando as formas de 
subsunção do trabalho ao capital (MARX, 1975; MARX, 2013).
As mudanças na base técnica – da eletromecânica para a microeletrônica 
na passagem do século XX para o século XXI permanecem revolucionando 
as forças produtivas em busca de novas formas de extração do excedente por 
meio do aumento da produtividade do trabalho.
Como Marx analisou nos Grundrisse, a ciência é um produto do trabalho 
social coletivo, resultado do desenvolvimento das forças produtivas sociais 
do trabalho pois, nas palavras do autor:
A natureza não constrói máquinas nem locomotivas, ferrovias, telégrafos 
elétricos, máquinas de fi ar automáticas etc. Elas são produto da indústria 
humana; material natural transformado em órgãos da vontade humana sobre 
a natureza ou de sua atividade na natureza. Elas são órgãos do cérebro 
humano criado pela mão humana; força do saber objetivada (MARX, 
2011, p. 589).
Contudo no capitalismo a ciência é transformada em força produtiva para 
o capital e a atividade do trabalhador determinada e regulada pelo movimento 
da maquinaria e não o inverso.
A ciência, que força os membros inanimados da maquinaria a agirem 
adequadamente como autômatos por sua construção, não existe na cons-
ciência do trabalhador, mas atua sobre ele por meio da máquina como 
poder estranho, como poder da própria máquina (MARX, 2011, p. 581).
Assim o trabalho objetivado na maquinaria se contrapõe ao trabalho 
vivo como um poder que o governa, subsumindo o trabalhador a esse 
mecanismo que o aliena como algo externo e poderoso, transformando-o 
em mero apêndice da máquina. Nesse processo de busca incessante de 
valorização, da contradição em processo, a incorporação das tecnologias 
leva à redução do trabalho vivo ampliando a população sobrante para as 
necessidades do processo produtivo, o que está na raiz das crises sistêmi-
cas do capital e da (re) produção incessante das desigualdades que lhes 
são inerentes.
Nesse universo do valor, altera-se a composição orgânica do capital, por 
meio do aumento do capital constante e a consequente redução do capital variá-
vel (Marx, idem), o que é obtido com a introdução do sistema de máquinas (na 
atualidade com o sistema maquínico-digital-informacional) e diminuição da 
demanda por mais trabalhadores/as, ampliando a população supérfl ua e descar-
tável para o capital e, consequentemente, o poder do capital sobre o trabalho.
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Nesse contexto as novas formas de (re) produção e repartição do exce-
dente competem pela hegemonia para se tornarem o padrão socialmente neces-
sário, que garante lucro extraordinário da renda tecnológica do monopólio24, de 
um lado; e de outro, impõe perdas da desvalorização do trabalho, provocando 
(mais) uma crise do trabalho (TAUILE, 2001, p. 121).
É de conhecimento geral que o Brasil, e os países periféricos da América 
Latina e Caribe, em sua inserção subordinada na divisão internacional do 
trabalho, participam mais como consumidores do que produtores de artefatos 
e dispositivos tecnológicos, dependentes que são dos grandes conglomerados 
que hegemonizam as tecnologias de informação e comunicação, a indústria 
4.0, a robótica, a IA e as gigantescas plataformas digitais25.
Como analisa Tauile (2001, p. 120), a aplicação dessa base técnica 
microeletrônica encontra terreno fértil justamente no trabalho em serviços, 
principalmente naquelas atividades que lidam com manipulação de informa-
ções padronizadas, que ganharam impulso com a automação bancária a partir 
da década de 1970, exatamente na transição da eletrônica para a microeletrô-
nica. E nesse âmbito, o que se observa, de modo geral, é que
à medida que as informações e os conhecimentos do saber trabalhador 
são crescentemente codifi cados nos dispositivos eletrônicos de proces-
samento de dados, para uma grande maioria de atividades de operação 
de equipamentos e de utilização de bens de consumo durável, ou ainda, 
de terminais de serviços com base nas novas tecnologias, há nitidamente 
um processo de simplifi cação dessas atividades (TAUILE, 2001, p. 123).
24 Para Dantas (2022b), em suas instigantes e polêmicas análises sobre o valor da informação-trabalho à luz da 
teoria marxiana do valor-trabalho, a questão fundamental do capitalismo contemporâneo é que “o acesso ao 
conhecimento cientifi co-técnico, aos produtos artísticos, ao entretenimento cultural e aos próprios ‘estilos’ dos 
valores de uso necessários ao dia a dia nas sociedades contemporâneas passa a depender das condições 
impostas ao mercado por algum detentor monopolista da propriedade sobre esse conhecimento” (p. 72 , 
grifo do autor). Tal dinâmica dá origem à renda informacional, sustentada por uma draconiana legislação 
internacional que transfere ao investidor privado capitalista os direitos de propriedade intelectual (DPI) sobre 
os produtos do trabalho semiótico de cientistas, engenheiros, artistas, professores e outros trabalhadores 
informacionais. Processo este que ocorre por meio do registro das patentes, marcas, desenhos industriais, 
direitos autorais sobre softwares, obras cientifi cas, artísticas e literárias, endereços de sitos de internet, 
entre outros, confi gurando um movimento de “cercamento” similar ao que deu origem ao cerceamento de 
terras por ocasião da acumulação primitiva de capital descrita por Marx. Para aprofundamento dessa refl exão 
sobre direitos de propriedade intelectual (DPIs) e rendas informacionais, Dantas remete ao texto de Larissa 
Ormay (2022, p. 97-144), na mesma obra organizada por Dantas, Moura, Raulino e Ormay (2022).
25 Dantas (2022a, p. 4) observa que durante o governo Collor de Mello (1990-1992), período em que se 
popularizou a internet no Brasil voltada sobretudo para o comércio e o lucro, “travou-se uma luta aberta 
contra políticas industriais protecionistas que poderiam favorecer o aparecimento e avanço de uma indústria 
brasileira de TICs”, sob o discurso do ingresso do Brasil no “primeiro mundo”, em defesa de ampla abertura 
comercial e facilitação do acesso de todos (diga-se da classe média) aos prazeres do consumo.
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Nesse contexto, o processo de subsunção real do trabalho ao capital 
(MARX, 1975; MARX, 2013), como expropriação de conhecimentos e de ener-
gias vitais das/os trabalhadoras/es, sofre uma infl exão no trabalho em serviços, 
considerando que a informação e o conhecimento são a base das atividades de 
coleta massiva, registro, codifi cação, armazenamento, processamento, trans-
missão e uso de dados próprios do trabalho intelectual no âmbito dos serviços.
A refl exão coletiva de Santos, Freitas, Vieira e DiasJunior (2022, p. 
59-83) sobre o trabalho no Serviço Social e suas relações com as TICs proble-
matiza o signifi cado da tecnologia por meio da qual as forças sociais dominan-
tes se apropriam privadamente da produção intelectual coletiva - do intelecto 
geral do fundo humano de conhecimento – para a valorização do capital, nos 
termos desenvolvidos por Marx nos Grundrisse (2011).
Ao problematizar as interfaces entre informação, conhecimento e poder, 
as/os autoras/res chamam atenção para essa contradição entre a incidência 
generalizada das novas tecnologias de informação e comunicação na vida 
cotidiana de grande contingente de pessoas, conectadas ou não à rede, no 
intenso processo de estabelecimento de novas interações sociais e novos for-
matos de produção e compartilhamento de informação e conhecimento; e, 
ao mesmo tempo, sua apropriação privada pelo capital e classes dominantes. 
Nessa refl exão afi rmam que:
O impacto do uso da internet e das correlatas TICs no nosso cotidiano é 
de várias ordens. Coloca em questão a implicação da conectividade 24/7; 
as modifi cações nas interações interpessoais, na estruturação do pensar de 
indivíduos, grupos e classes sociais; seus efeitos na organização e desen-
volvimento das cidades, atendendo à pressão constante de modelização das 
“cidades globais”; questões relacionadas à privacidade, à transparência, ao 
controle, à segurança de dados e ao controle social do uso comercial e político 
de informações pessoais; o impacto em processos eleitorais e nos mecanismos 
e estruturas democráticas; e as implicações do seu uso intensivo nas relações 
produtivas e na reestruturação do mundo do trabalho (idem, op. cit. p. 60-61).
Na análise de Valente (2021, p. 180), o uso digital, como suporte da infor-
mação, teve nas TICs a base para o desenvolvimento de um “novo paradigma 
calcado na coleta massiva de dados (datafi cação), ao processamento inteligente 
por meio de algoritmos e sistemas de inteligência artifi cial e a oferta de serviços 
personalizados e moduladores de comportamentos, sobretudo por meio de apli-
cativos (apps) para cada vez mais atividades [...]” (VALENTE, 2021, p. 180).
Mesmo considerando a dinâmica contraditória que envolve o uso 
das tecnologias na vida cotidiana e nos processos de trabalho, é o capital, 
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hegemonizado pela fração fi nanceira, que se benefi cia do valor da informação 
como valor trabalho, “trabalho em ação, interação, atividade”, nos termos 
de Dantas:
O capital fi nanceiro que, por meio dos juros de seus empréstimos, abo-
canha parte do mais-valor extraído pelo capital produtivo, encontrou nas 
PSD [Plataformas Sociodigitais] outro poderoso meio de se apoderar do 
mais-valor do trabalho social – aqui sem intermediários. E manda a conta 
para quem realmente produz”. (2022b, p. 89)
A abundante literatura sobre os usos das TICs na organização e efetivação do 
trabalho em seus múltiplos espaços de materialização, apesar das polêmicas que 
envolvem, é inequívoca quanto aos impactos na destruição/redução de empregos 
e criação de novas ocupações (que não conseguem repor o número de empregos 
perdidos), nas alterações qualitativas das profi ssões e nas novas formas de orga-
nização e controle do processo de trabalho, como observa Valente (2021, p. 162).
A expansão da digitalização do trabalho e do trabalho online, como o tra-
balho no domicílio (home offi ce), o teletrabalho e as distintas modalidades de 
trabalho remoto e teleatendimento, existentes até então de modo periférico, com 
a pandemia do novo coronavírus passaram a ser adotados com centralidade em 
larga escala, em todas as áreas e setores do mercado de trabalho público e privado. 
Tal situação não apenas incorpora novas estratégias de organização e processa-
mento do trabalho, orientadas por uma racionalidade gerencialista e produtivista, 
 como (re)confi gura a natureza do trabalho e sua forma social nos diferentes 
espaços ocupacionais, como ocorre com o trabalho de assistentes sociais.
A apropriação crítica desse complexo e multifacetado processo de ube-
rização do trabalho (Abílio, 2020; Antunes, 2020; Antunes 2022) ou de pla-
taformização do trabalho, Grohmann (2021) exige compreender que tanto 
as novas formas de controle e gerenciamento por parte do capital, quanto as 
possibilidades de construção de alternativas autônomas por parte da classe 
trabalhadora são objeto de acirradas disputas (contra e) hegemônicas. Se, 
de um lado, dissemina-se amplamente a gestão algorítmica e as formas de 
vigilância apropriadas pelo capital para intensifi car o trabalho e aprofundar 
os controles sobre sua produtividade; por outro lado, encontramos experimen-
tações conduzidas por coletivos de trabalhadores que buscam novos meios de 
apropriação das tecnologias digitais em seu próprio benefício, construção de 
plataformas alternativas e lutas coletivas por melhores condições de trabalho 
(GROHMANN, 2021, p. 13).
Estabelecendo uma analogia com o fetichismo da mercadoria descrito 
por Marx (2013), quando desvela o caráter social do trabalho e não como uma 
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suposta propriedade natural das coisas, da mesma forma é necessário fazer a 
crítica da tecnologia, considerando que
artefatos tecnológicos que nos parecem no dia a dia neutros, intrinsecamente 
bons, produzidos tão somente para resolver problemas práticos, contêm 
relações sociais historicamente determinadas e obscurecem o conteúdo de 
classe das escolhas tecnológicas (NOVAES; DAGNINO, 2004, p. 189).
Como observa Mészáros (2011, p. 53, grifos do autor), a questão central 
não se limita a debater se empregamos ou não a ciência e a tecnologia para 
resolver nossos problemas, o que seria óbvio, “mas se seremos capazes ou não 
de redirecioná-las radicalmente, uma vez que hoje ambas estão estreitamente 
determinadas e circunscritas pela necessidade da perpetuação do processo 
de maximização dos lucros”, ou seja, pela apropriação capitalista do uso da 
tecnologia voltada à valorização do capital.
As plataformas-redes, assim como quaisquer tecnologias, são orientadas 
por valores e normas inscritos em seus desenhos, algoritmos e interfaces que 
podem, e quase sempre apresentam, mecanismos discriminatórios de classe, 
raça, gênero, etnia, entre outros26, pois são produtos do trabalho humano, cuja 
materialidade envolve processos e meios de trabalho (físicos e naturais), que 
participam das cadeias de produção e extração de valor. Por isso, para com-
preender o trabalho plataformizado é preciso ir além da análise das plataformas 
em si mesmas e “olhar também para as interrelações entre fi nanceirização, 
neoliberalismo e datafi cação” (GROHMANN, 2021, p. 14), pois as platafor-
mas são ao mesmo tempo meios de produção e meios de comunicação, com 
implicações e dimensões políticas que precisam ser desvendadas criticamente.
O trabalho profi ssional mediado pelas TICs – teletrabalho, gestão 
por metas e controle digital
Como já referido, o trabalho remoto desencadeou um conjunto de novas 
situações em relação às quais tínhamos pouco conhecimento acumulado, con-
siderando ainda que, de modo geral, foi imposto de cima para baixo na maioria 
das instituições, sem participação e tempo de preparação das/os profi ssionais 
e docentes nas universidades públicas e privadas.
26 Exemplo emblemático são os aplicativos de reconhecimento facial criados com vieses racistas e machis-
tas. Para uma interessantíssima e instigante abordagem dessa questão, ver o documentáario Coded Bias
(2020), dirigido por Shalini Kantayya, que mostra como uma pesquisadora negra da MIT Media Lab de 
Massachussets percebeu o problema do reconhecimento facial quando posiciona o seu rosto em frente a 
uma tela com dispositivo de inteligência artifi cial e não é reconhecida. Mas quandoela coloca uma máscara 
branca, o sistema consegue detectar. Assim, a pesquisadora começou a constatar que os programas de 
IA são treinados para identifi car padrões baseados em um conjunto de dados (de homens brancos) e, por 
isso, parecem não reconhecer com precisão faces femininas ou negras.
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A intensidade e velocidade da disseminação do teletrabalho mediado 
por plataformas digitais e pela gestão com base em metas de produtividade 
desencadeiam complexas situações que redimensionam as fronteiras temporais 
e espaciais do trabalho: favorecem novas modalidades de controle e vigilân-
cia dos processos e resultados do trabalho; transferem o gerenciamento do 
trabalho para os/as próprios/as trabalhadores/as, com a imposição de metas 
de produtividade frequentemente inaceitáveis; instalam um tipo de gestão por 
pressão que reforça a individualização do trabalho e estimula a competição 
entre pares. Trata-se de um quadro propício ao crescimento do assédio moral 
e institucional, desgaste mental, múltiplas formas de sofrimento e adoeci-
mentos, provocados pelos processos de reestruturação produtiva em curso27.
Para Alves (2022, p. 190),
ao lado do home-offi ce, a implantação efetiva da Gestão de Metas é uma 
mudança violenta na vida organizacional do trabalho público, contribuindo 
para disseminar como estratégia de gestão organizacional, o Assédio 
Moral. A Gestão de Metas é efetivamente um elemento estressor que 
provoca - a médio e longo prazo - sérios impactos na saúde e qualidade 
de vida das(os) profi ssionais do serviço público.
Na conjuntura pandêmica, essas situações se agravaram com a ampliação 
das jornadas de trabalho para 10/12h; isolamento social; fadiga pelo tempo 
excessivo de permanência em frente à tela do computador, sem direito à desco-
nexão; multiplicação do número de reuniões até a exaustão, provocando ruptura 
das fronteiras entre tempo de trabalho e de não trabalho, vida privada e vida 
pública. O impacto do home offi ce ou teleatendimento no trabalho de assistentes 
sociais, seja nas instituições de prestação de serviços sociais ou na formação 
acadêmica graduada e pós-graduada foi intenso, exigindo respostas imediatas 
para as quais ainda não havia acúmulo de debate e conhecimento sufi ciente, o 
que se confi gurou em fonte de profundas tensões, sofrimento e adoecimentos.
Também no trabalho de assistentes sociais já era possível observar o uso 
crescente de dispositivos digitais e informacionais, que durante a pandemia do 
novo coronavírus se generalizaram. O retorno ao trabalho presencial, a convi-
vência do trabalho remoto com ampliação das jornadas de trabalho e a captura do 
tempo de trabalho a serviço das metas de produtividade estão se consolidando e 
naturalizando, processos nem sempre acompanhados da necessária refl exão crítica 
– individual e coletiva – sobre suas implicações e impactos no trabalho e na vida.
A dimensão contraditória das tecnologias digitais e da internet se mani-
festou com grande visibilidade durante a pandemia. No caso do exercício 
27 Para aprofundar a análise dos sofrimentos e desgastes provocados pelo trabalho de assistentes sociais 
mediado pelas TICs e seus impactos na saúde e nos conteúdos teórico-metodológicos e ético-políticos do 
exercício profi ssional, consultar Vicente e Monteiro (2022, p. 117-137).
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profi ssional, o teletrabalho ou trabalho no domicílio se, por um lado, viabili-
zaram o atendimento social à parcela da população usuária em um contexto 
de isolamento e aumento da violência contra mulheres, idosos, crianças e 
adolescentes; por outro, ampliaram jornadas de trabalho sem remuneração, 
intensifi caram e invadiram as fronteiras dos espaços de vida e de trabalho 
de assistentes sociais, transferiram custos às/aos próprias/os trabalhadoras/
es, além de trazerem maior impacto sobre a vida das mulheres, pois na tradi-
cional e patriarcal divisão sociossexual do trabalho, são elas que continuam 
assumindo a responsabilidade pelas atividades de cuidado e de reprodução 
social nos espaços da vida privada.
Também observou-se no trabalho presencial durante a pandemia, o 
recrudescimento de antigas e indevidas requisições profi ssionais, movidas 
pela urgência social (o histórico “pronto-socorro social “) e alimentadas pelo 
clientelismo e fi siologismo político. Dentre suas expressões destacam-se o 
processamento do auxílio emergencial criado no desgoverno de Bolsonaro, a 
distribuição de cestas básicas, de vouchers, entre outras, que exigiram respos-
tas profi ssionais que passaram ao largo das políticas e dos sistemas públicos 
de proteção social (caso da Política de Assistência Social e do SUAS), apoia-
das em equipes desfalcadas, precárias condições materiais e tecnológicas, 
sucateamento de computadores, fragilidade das redes de internet, ausência de 
equipamentos de proteção individual e coletiva, inexistência de protocolos e 
planos de contingência, entre outros.
Por essas razões, na dinâmica institucional que envolve o trabalho profi s-
sional, é importante refl etir sobre o trabalho remoto e presencial como faces 
contraditórias e complementares da nova morfologia do trabalho profi ssional 
no capitalismo contemporâneo (RAICHELIS, 2020; 2022). E buscar proble-
matizar o signifi cado da tecnologia em sua historicidade, como produto do 
trabalho social cristalizado no sistema maquínico-digital-informacional, que 
potencializa a subsunção real do trabalho intelectual aos circuitos de valori-
zação do capital. Mas que, ao mesmo tempo e contraditoriamente, abre pos-
sibilidades inéditas de apropriação crítica das TICs em uma dimensão contra 
hegemônica, apropriados pelos trabalhadores em função de seus interesses 
e formas de lutas, desde que sejam superados tanto determinismos quanto 
fetichismos e reifi cações que cercam o uso das tecnologias. Torna-se urgente 
pois a criação de estratégias de enfrentamento das múltiplas situações que 
podem colocar em xeque os valores éticos e os compromissos históricos da 
profi ssão de Serviço Social com a classe trabalhadora, reconhecendo possi-
bilidades, limites e contradições.
O quadro de pandemia incidiu diretamente no “núcleo duro” das atri-
buições e competências profi ssionais, agregando novos elementos à refl exão 
que vínhamos desenvolvendo sobre a nova morfologia do trabalho no Serviço 
Social (RAICHELIS, 2018; 2020; 2021; 2022) .
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O trabalho remoto, o home offi ce e os vários tipos de teletrabalho, adotados 
de forma esporádica, embora crescente, nos diferentes espaços sócio-ocupacio-
nais, se generalizaram com as medidas sanitárias, como amplamente divulgado.
No caso do trabalho profi ssional, em algumas instituições, como o INSS, 
o processo de digitalização e automação do trabalho por meio de plataformas 
digitais para acesso pelos benefi ciários (como o Meu INSS) estava em curso e 
foi intensifi cado durante a pandemia, inclusive com fechamento de agências 
para atendimento presencial dos demandantes e implantação da robotização do 
atendimento. Também no Ministério Público e Tribunais de Justiça, o processo 
judicial eletrônico e o trabalho à distância já estavam em experimentação, na 
modalidade de trabalho no domicílio, cercados de polêmicas e de certa natu-
ralização por parte dos profi ssionais, com o objetivo institucional expresso de 
ampliar a efi ciência, os controles e os níveis de produtividade do trabalho28.
Em relação ao teletrabalho, a (contra) reforma da CLT em 2017 insti-
tuiu um capítulo específi co sobre o trabalho remoto, a ser realizado por meio 
de contrato por tempo determinado ou indeterminado, mas não defi niu novas 
regras que garantam os direitos de trabalhadores/asnessa nova modalidade de 
trabalho, o que certamente será remetido para negociação entre empregadores/
as e trabalhadores/as, prevalecendo “o negociado sobre o legislado”, em uma 
conjuntura de descenso do movimento sindical e da organização coletiva das/
os trabalhadoras/os29.
No caso dos trabalhadores do setor público está em tramitação no 
Congresso Nacional, a proposta de EC n. 32/2020, que representa, se for 
aprovada, o desmonte fi nal do serviço público e do estatuto do servidor 
público, com a extinção dos concursos públicos para ingresso e progressão 
na carreira, fi m do regime jurídico próprio, fl exibilização de contratos, 
demissão em massa, entre outras, que esperamos seja rapidamente retirada 
pelo governo Lula, junto com os incontáveis desmontes do desgoverno 
anterior, o desmanche das políticas públicas e dos direitos de servidores/
as públicos responsáveis pela sua execução, sob os infl uxos do processo 
crescente de privatização e mercadorização dos serviço sociais públicos 
(HUWS, 2017; ARAÚJO, 2022).
28 Sobre essa matéria, cf. a resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de maio de 2020, que dispõe 
sobre a realização de perícias em meios eletrônicos ou virtuais em ações em que se discutem benefícios 
previdenciários por incapacidade ou assistenciais, enquanto durarem os efeitos da crise ocasionada pela 
pandemia do novo Coronavírus. Mais recentemente, a Resolução Nº 1.466/2022 - CPJ, de 20 de abril de 
2022, do MP- SP regulamentou o teletrabalho, com o objetivo declarado de aumentar o controle sobre a 
produtividade do trabalho e transferir custos aos próprios trabalhadores/as, com base na suposição que o 
trabalho remoto apresenta resultados similares ou até melhores do que o trabalho presencial.
29 Como observam Praun e Antunes (2020, p. 183 e segs.), há no texto da CLT algumas especifi cações 
sobre o teletrabalho, que deve ser exercido fundamentalmente fora das dependências da empresa e com 
apoio tecnológico. Mas não há nenhum detalhamento sobre duração da jornada de trabalho, nem quanto à 
responsabilidade pela aquisição e manutenção dos equipamentos tecnológicos e infraestrutura necessária 
para o exercício das atividades remotas, além de atribuir à/ao própria/o trabalhadora/or a prevenção contra 
doenças e acidentes de trabalho.
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É preciso considerar ainda as condições sociais e materiais da popu-
lação atendida pelas políticas públicas, que em sua maioria não dispõe 
de smartphone e/ou computador com acesso à internet, portanto como 
excluídos digitais acabam sendo excluídos também do acesso a programas e 
benefícios socioassistenciais, a exemplo do que ocorreu com o auxílio emer-
gencial e o renomeado Auxílio Brasil implantado no desgoverno Bolsonaro.
Nota fi nal: o trabalho no fi o da navalha e os novos desafi os para 
o trabalho de assistentes sociais
Como desenvolvemos ao longo desse texto, a restruturação produtiva 
neoliberal transformou-se num processo permanente para reverter a queda das 
taxas médias de lucro do capital, em seu afã incontrolável de busca e criação 
de novos nichos de acumulação. Nesse contexto, as TICs assumem um papel 
decisivo no aprofundamento de estratégias de exploração e de subsunção do 
trabalho ao capital, com destaque para os mecanismos de controle e instru-
mentalização do trabalho intelectual, com vistas à valorização do capital e 
dos seus representantes nas instituições estatais e privadas.
Nesse contexto, o trabalho assalariado e a classe que vive da venda de 
sua força de trabalho são profundamente atacados, assim como seus direitos 
conquistados ao longo de lutas históricas, sendo as tecnologias digitais um 
vetor dinâmico e altamente potencializador da sociabilidade do capital no 
capitalismo contemporâneo em crise.
Esse quadro, que se reproduz no processamento do trabalho de assis-
tentes sociais, aponta para a tendência à simplifi cação, à fragmentação e à 
padronização das tarefas, gerando desprofi ssionalização, rebaixamento do 
trabalho intelectual, perda de conteúdos criativos e críticos do trabalho, com 
incidências na autonomia relativa, na qualidade dos serviços prestados e na 
direção estratégica do projeto ético-político profi ssional.
Nesse momento de retomada do trabalho presencial, cabe indagar: por 
que a exigência de teletrabalho permanece e se consolida cada vez mais nas 
diferentes instituições públicas e privadas? O que explica o açodamento que 
estamos presenciando, inclusive nas instituições de ensino superior no âmbito 
da formação acadêmico-profi ssional graduada e pós-graduada, para implanta-
ção do assim chamado modelo híbrido, como possível combinação de traba-
lho presencial e remoto, apoiado nos sistemas informacionais e plataformas 
digitais que, no entanto, carece de fundamentos teórico-metodológicos e de 
normas que regulamentem seu uso? Esse “hibridismo” no trabalho profi ssio-
nal tem sido imposto de forme autoritária e, não raro, como “benesse” a que 
trabalhadores/as devem fazer jus, a depender da avaliação de desempenho e 
do alcance de metas, sem diálogo com os coletivos de trabalhadores e suas 
entidades de representação profi ssional e/ou sindical.
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Minha hipótese para buscar desentranhar o signifi cado mais profundo da 
disseminação do teletrabalho e de formas alternadas/hibridas de trabalho pelas 
equipes profi ssionais é que o teletrabalho e outras modalidades de trabalho media-
das por dispositivos digitais, para além de meios técnicos, confi guram uma nova 
forma social de organização, gestão e de controle do trabalho, apoiada na gene-
ralização da automação e na uberização do trabalho, em tempos de capitalismo 
decadente em crise. Nem sempre perceptível para o conjunto dos/as trabalha-
dores/as, o teletrabalho promove mudanças profundas, não apenas no trabalho 
remoto, mas também no trabalho presencial, atingindo a totalidade do processo 
de trabalho e sua forma social, portanto, as relações sociais nas quais se insere, 
provocando nova divisão social, técnica, sexual e racial do trabalho, por meio da:
• Implosão da jornada de trabalho, nos termos conquistados pela luta 
histórica da classe trabalhadora, com extensão ilimitada do tempo 
de trabalho, tornando o/a trabalhadora inteiramente disponível para 
as demandas de trabalho;
• Maior centralização e controle sobre o trabalho coletivo e individual, 
potencializados pela maciça presença das TICs;
• Precarização, humilhação e intensifi cação do trabalho, provocando 
sofrimento e adoecimentos decorrentes da dinâmica das relações 
de trabalho restruturadas;
• Implantação de um sistema de vigilância e avaliação de desempenho 
com base em metas de produtividade e remuneração diferenciada, 
estimulando a competição entre trabalhadores/as e enfraquecendo 
a organização de pautas e lutas coletivas.
A obrigatoriedade do trabalho remoto durante a pandemia, medida ade-
quada nesse contexto, foi assumida de forma pragmática e imediatista por 
muitos/as assistentes sociais e outros/as profi ssionais, no mais das vezes sem 
avaliação crítica dos seus possíveis efeitos. Além disso, o trabalho no domi-
cílio exerce grande poder de sedução, principalmente entre as mulheres – o 
que é relevante no caso da categoria de assistentes sociais majoritariamente 
composta por mulheres – pela crença de maior liberdade para dispor do seu 
próprio tempo, defi nir a jornada de trabalho, conciliar tarefas domésticas e 
de cuidado com fi lhos, compatibilizar trabalho produtivo e reprodutivo etc.
Contudo se, por um lado, o teletrabalho no ambiente doméstico traz 
aspectos positivos para quem mora distante do local de trabalho e enfrenta 
grandes congestionamentos em conduções lotadas e precárias; por outro lado, 
como inúmeras pesquisas demonstram, além de realizar-se emespaços ina-
dequados (a casa não foi feita para o trabalho), transfere custos às/aos pró-
prias/os trabalhadoras/es (internet, pacote de dados, celular, manutenção do 
computador, energia elétrica, mobiliário etc.); cria novas formas de vigilância 
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e controle do trabalho; provoca isolamento social; exaustão física e mental, 
adoecimento e sofrimento, como já pontuado ao longo da análise. E, num 
aparente paradoxo com a narrativa dominante, cria maior impacto exatamente 
sobre as mulheres, pois na divisão sociossexual/patriarcal do trabalho são elas 
(somos nós) que assumem a responsabilidade pelas atividades reprodutivas 
no espaço doméstico, a exemplo do cuidados com crianças, idosos e pessoas 
doentes; e também como acompanhantes dessas pessoas nos serviços de saúde 
e nos hospitais, assumindo também a titularidade de benefícios e serviços, por 
recomendação das políticas sociais e também de assistentes sociais, como res-
ponsáveis pelas orientações sociais. São as mulheres, mais ainda as mulheres 
negras, que sofrem maior compressão do tempo de trabalho e tempo da vida 
privada, como bem analisou Ferreira (2020), em sua importante pesquisa sobre 
a apropriação do tempo de trabalho das mulheres nas políticas de saúde e as 
implicações para o processo de reprodução social da classe trabalhadora30.
Além disso, é preciso aprofundar o debate sobre o teletrabalho do ponto 
de vista do signifi cado do trabalho como criação coletiva, elemento vital 
e fonte de enriquecimento da sociabilidade humana. Nesse sentido há um 
retrocesso na disseminação do trabalho em domicílio ou teletrabalho, pois 
essas formas de trabalho rompem com a divisão entre trabalho público e vida 
privada, histórica conquista da luta da classe trabalhadora desde o século XIX, 
como magistralmente descreveu Marx em O Capital.
Essas modalidades remotas de trabalho, e também o hibridismo em curso, 
promovem a disciplinarização da vida das/os trabalhadoras/es, colocando-as/
os inteiramente disponíveis ao trabalho, sem direito “à desconexão. Além 
disso, rompem com a sociabilidade coletiva no trabalho, criam uma cisão 
entre trabalhadores/as com diferentes condições de trabalho e vínculos con-
tratuais (terceirizados, pejotizados, intermitentes, fl exíveis, intermediados 
por microempresas, entre outros), impondo-se a lógica da concorrência e do 
individualismo, tão cara à ideologia do empreendedorismo em curso.
E por último, mas não menos relevante, o teletrabalho e o trabalho 
no local de moradia respondem à imediaticidade da vida, enfraquecendo 
projetos de longo prazo e alimentando a constituição do sujeito neoliberal, 
nos termos de Dardot e Laval (2016), quando se referem ao neoliberalismo 
como a nova razão do mundo.
Nesse contexto, assistentes sociais e demais trabalhadores/as no seu 
trabalho de implementação de políticas sociais e entrega de serviços e bene-
fícios sociais a segmentos diversifi cados da classe trabalhadora, majorita-
riamente mulheres e negras, para além de uma avaliação pessoal de custo/
benefício do teletrabalho, precisam analisar criticamente o impacto coletivo 
e institucional do trabalho mediado por dispositivos digitais no isolamento 
30 Para aprofundar a análise sobre os efeitos na captura do tempo de trabalho e erosão de direitos no quadro 
mais geral da fl exibilização capitalista, consultar Barbosa (2020, p. 69-104).
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da casa, também em termos do impacto na qualidade dos serviços prestados 
e na natureza de um trabalho dialógico assentado na interação entre sujeitos, 
como é o trabalho profi ssional de assistentes sociais.
Vive-se no Brasil o calor dos resultados da eleição mais decisiva para 
nosso país desde o fi nal da ditadura e dos desafi os do início do governo Lula, 
sob impacto da tentativa do golpe de 8 de janeiro/2023, pelas forças da extrema 
direita fascista no Brasil. Diante dos monumentais desafi os para construir um 
governo democrático, que consiga não apenas desfazer a terra arrasada herdada 
do desgoverno anterior, mas avançar nos compromissos históricos com as neces-
sidades e direitos da maioria da população, a categoria de assistentes sociais tem 
muito a contribuir nessa caminhada, a partir de uma multiplicidade de espaços 
e alianças com organizações e movimentos coletivos da classe trabalhadora. 
Por isso, a luta pela qualifi cação e capacitação continuadas, por espaços insti-
tucionais coletivos de estudo e de refl exão, aprofundamento do debate sobre as 
concepções que orientam as práticas e os efeitos por elas produzidos nas condi-
ções de vida dos usuários, é parte da luta pela melhoria das relações de trabalho 
e do direito da população ao acesso a serviços sociais públicos de qualidade.
Quanto mais qualifi cados/as as/os trabalhadoras/es sociais, menos sujei-
tos/as a manipulações e mais preparadas/os para enfrentar o assédio institu-
cional como estratégia de gestão do trabalho, bem como os jogos de pressão 
política e de cooptação nos espaços institucionais.
Para além do conhecimento e domínio das ferramentas informacionais 
e digitais, é fundamental enfrentar o produtivismo e o tecnicismo, e voltar a 
investir no trabalho socioeducativo e de mobilização popular, retomando a 
ação coletiva com os sujeitos nos seus territórios de vida e de trabalho. Assim, 
é preciso aprofundar a refl exão e o debate sobre as estratégias para tensionar 
a apropriação das tecnologias digitais na perspectiva de fortalecimento dos 
valores ético-políticos que orientam o projeto profi ssional.
Para isso, é decisivo que as/os profi ssionais não se deixem submeter acri-
ticamente às imposições do poder institucional, mas saibam negociar os termos 
dos acordos estabelecidos, seus limites e possibilidades técnicas e éticas no 
uso dos diferentes dispositivos e ferramentas do trabalho. O que é possível ou 
impossível realizar na modalidade de teletrabalho ou home offi ce; a possível 
combinação de formas presenciais e remotas (hibridismo?); a incorporação 
de novos processos de trabalho mediados por plataformas e sistemas de auto-
mação e digitalização; e a defi nição de quais são as condições exigidas para 
cada uma dessas situações de trabalho, são prerrogativas profi ssionais a serem 
negociadas com empregadores no espaço institucional e com as entidades de 
fi scalização e representação de trabalhadores/as, no sentido de ter garantidas 
as condições éticas e técnicas, qualidade no atendimento, sigilo profi ssional, 
respeito aos direitos de usuárias/os e de trabalhadoras/os.
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AS FORMAS DE SER DO 
TRABALHO NO CAPITALISMO 
CONTEMPORÂNEO: do Taylorismo-
Fordismo à acumulação fl exível e digital31
Ricardo Antunes
Luci Praun
DOI: 10.24824/978652515286.8.109-122
Desde que a vida humana começou a se desenvolver, o trabalho confor-
mou-se como atividade imprescindível e efetivada pela criação cotidiana de bens 
de uso socialmente necessários para a própria sobrevivência da sociedade. O 
mundo em que vivemos, podemos afi rmar, é um mundo transformado pelo tra-
balho, atividade vital capaz de criar e recriar cotidianamente a vida em comum.
Foi recuperando esse ponto central para o ser humano que o fi lósofo 
György Lukács (2013) fez a seguinte assertiva: o trabalho tem sempre, em 
alguma medida, uma dimensão consciente e se insere na gênese do processo de 
humanização do ser. Para tanto, trabalhar pressupõe um conhecimento concreto, 
ainda que jamais perfeito, de determinados fi ns e meios para sua realização.
O ponto de partida de Lukács é a concepção aristotélica, que distingui 
dois componentes centrais no trabalho: o pensar e o produzir. O primeiro 
concebe a fi nalidade e os meios para realizá-lo. O segundo realiza a concreção 
do fi m pretendido. Há, por isso, um ineliminável vínculo entreação e cons-
ciência, trabalho e teleologia, que interagem de modo recíproco no processo 
de produção e reprodução social (ANTUNES, 2010).
Dessa forma, em um processo recíproco e interrelacional, ao mesmo tempo 
em que os indivíduos transformam a natureza exterior, alteram também a sua 
própria natureza, convertendo o trabalho social em elemento central do desen-
volvimento da sociabilidade humana e de sua emancipação (MARX, 2013).
Essa dinâmica assumida pelo trabalho, capaz de entrelaçar o fazer de 
uns e outros, pode ser percebida, entre outros aspectos, nas descobertas que 
alinhavam a trajetória humana ao longo de milhões de anos: do uso e controle 
do fogo, da ponta de lança feita da madeira das árvores ou de pedra pelos 
31 Este texto é uma versão ampliada de artigo publicado sob o título “Transformações do trabalho no mundo 
contemporâneo” no livro Engenharia do trabalho: saúde, segurança, ergonomia e projeto, organizado por 
D. Braatz, R. Rocha e S. Gemma (Ed. Ex Libris Comunicação, 2021, p. 41-53).
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nossos antepassados, às possibilidades abertas pelo desenvolvimento da 
linguagem, dos artefatos mais sofi sticados, do mapeamento genético, das tec-
nologias digitais. Quanto mais complexa a práxis social, maior sua simbiose 
com uma organização do trabalho fundada na cooperação. Mais profundas e 
complexas também as necessidades humanas que dela se desdobram.
Tratar a questão sob esta perspectiva, entretanto, não deve nos levar a 
concluir que seja essa uma articulação, por si só, geradora de condições e 
situações progressivamente humanizadoras, provedoras da vida tanto no que 
se refere ao que lhe é exigido materialmente como subjetivamente.
Trabalhar, então, é uma atividade vital que se realiza no mundo. Em seu 
processo de transformação, esse mundo, criado e recriado pelos seres huma-
nos, foi assumindo ao longo da história diferentes e mais complexas formas 
de produção e reprodução em sociedade.
O capitalismo é uma dessas formas. E sob este modo de produção, o 
trabalho assume fi nalidades, confi gurações e sentidos particulares. É a partir 
da constituição desse modo de produção que o trabalho adquire uma “segunda 
natureza”, ao converter-se em uma mercadoria especial, a força de trabalho,
que generalizou o assalariamento (ANTUNES, 2010).
Embora o trabalho assalariado nascente assumisse a aparência de liberdade
(acentuada especialmente quando comparado aos trabalhos escravo e servil ante-
riores), ele se tornou, em verdade, no único meio de sobrevivência existente para 
mulheres e homens despossuídos do campo e das cidades, desprovidos dos meios 
de produção e de riqueza. Compreender criticamente suas principais confi gura-
ções, consiste em parte dos desafi os cruciais da humanidade neste século XXI.
Os objetivos deste texto caminham nesse sentido. Buscamos, ao resgatar 
elementos fundamentais das formas de organização do trabalho predominantes 
entre o século XX e XXI, contribuir para uma perspectiva crítica sobre os 
processos de trabalho, suas fi nalidades e sentidos. Por isso, em um primeiro 
momento apresentamos as características fundamentais do taylorismo-for-
dismo, padrão de acumulação predominante na maior parte do século XX, 
para em seguida, analisar o advento do toyotismo, da acumulação fl exível e 
da explosão do trabalho digital no mundo do trabalho contemporâneo.
No conjunto, mais que descrever as características dessas formas de orga-
nização do trabalho, pretende-se problematizá-las, questionando a perspectiva 
que as apresenta como meros instrumentos de gestão, dissociados da dinâmica 
geral da sociedade capitalista. As formas de organização e de gestão do trabalho 
devem ser compreendidas, neste contexto, sempre como parte da gestão do 
processo de trabalho. Assim sendo, envolvem, do ponto do gestor, conhecer o 
trabalho executado com vistas a controlá-lo e mensurá-lo na busca incessante 
por cortar custos e ampliar sua produtividade. Uma questão chave dos modelos 
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de gestão é, portanto, desvendar quantos trabalhadores e trabalhadoras, sob quais 
condições, incluindo o maior ou menor uso de tecnologias, são necessários 
para que uma dada atividade ou tarefa seja executada em menor tempo e custo 
possível. Não à toa a precariedade atravessa e marca o mundo do trabalho desde 
sempre, ainda que se apresente com contornos particulares nas últimas décadas.
Identifi car a importância e repercussões da precarização do trabalho
na vida de mulheres e homens, dentro e fora dos locais de trabalho, deve nos 
exigir uma capacidade crítica que não se desvincule do desejo de mudar a 
realidade. Esse também se constitui como um dos objetivos desse texto.
Tempo cronometrado, produção cadenciada
A expansão da atividade fabril, ao longo do século XIX, foi responsável 
pela absorção de um amplo contingente de trabalhadores e trabalhadoras. 
Expulsos das áreas agrícolas, homens e mulheres deslocaram-se massivamente 
para os centros urbanos. Parte desse contingente foi absorvida pela indústria, 
em plena expansão no continente europeu. Adultos e crianças, submetidos 
a jornadas que extrapolavam facilmente as doze horas diárias, passaram a 
trabalhar em espaços comuns. A atividade artesanal, já alterada nos séculos 
anteriores sob a manufatura, aos poucos foi se reconfi gurando frente à inserção 
das máquinas no processo produtivo. Os ofícios, caracterizados pelo domínio 
e habilidade de produzir objetos do início ao fi m, aos poucos foram cedendo 
espaço para um tipo de atividade parcial, parcelar (PRAUN, 2018a).
A partir das últimas décadas do século XIX, mudanças expressivas nas 
formas de organização do trabalho e da produção foram incorporadas. O 
acirramento da concorrência entre empresas, com atuação cada vez mais 
internacionalizada, em parte já convertidas em sociedades anônimas, associado 
ao desenvolvimento tecnológico e da malha ferroviária, impulsionou o que 
fi cou conhecido no início do século XX como “administração científi ca” do 
trabalho ou, simplesmente, taylorismo.
A expressão taylorismo é uma referência direta ao sistema de gerencia-
mento do trabalho e da produção proposto por Frederick Winslow Taylor (1856-
1915). Parte importante de suas ideias foi publicada sob o título Princípios da 
Administração Científi ca, em 1911. Este trabalho, assim como outros manus-
critos produzidos pelo autor, resultou da sistematização de experiências desen-
volvidas pelo próprio Taylor ao longo de mais de 20 anos (PRAUN, 2018a).
Neste período, Taylor trabalhou em fábricas, inicialmente em atividades 
operacionais, mas na maior parte do tempo, como chefe. Em seu convívio 
com os trabalhadores, concluiu que enquanto os velhos operários das ofi cinas 
possuíam conhecimento e destreza sobre seus ofícios, assumindo, ainda que 
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parcialmente, o controle sobre o processo e tempo de execução do trabalho, 
faltava à gerência o conhecimento sobre como controlar e potencializar a pro-
dutividade do trabalho ao máximo. Suas proposições visavam, portanto, inverter 
essa lógica, de forma que “cada homem e cada máquina” pudessem “oferecer o 
melhor rendimento possível” à empresa (TAYLOR, 1990, p. 26). Imbuído deste 
propósito, Taylor concentrou esforços no sentido de construir o que ele próprio 
denominou de gerência científi ca (PRAUN, 2018a; ANTUNES; PINTO, 2017).
Ancorada na premissa da racionalização dos processos produtivos, a 
gerência científi ca passou a operar tendo como eixo ordenador o desenvolvi-
mento de formas de organização da produção que possibilitassem alto grau de 
controle do trabalho. Taylor, ao ter como alvo inicial o sistema de tarefas, her-
dado do trabalho artesanal ainda vigenteem muitas ofi cinas daquele período, 
esbarrou inicialmente em uma questão essencial das relações capitalistas 
de produção: o trabalho como um tipo particular de mercadoria, que não se 
constitui em um produto específi co, mas decorre de uma relação na qual o/a 
trabalhador/a, livre, coloca à venda sua única posse, sua força de trabalho.
Não por acaso, uma das premissas que sustenta o sistema proposto por 
Taylor é a da transferência de todo o processo de elaboração, assim como 
o planejamento da execução das atividades, passo a passo, para a gerência. 
Interessa à gerência científi ca apoderar-se da engenhosidade do trabalho, de 
um tipo de conhecimento que não consta nos manuais, sendo originado e 
alimentado pelos desafi os impostos pelas situações de trabalho. Um conhe-
cimento, portanto, que é talhado pelo fazer cotidiano, síntese da experiência 
acumulada e construída pelo aprendizado compartilhado entre a classe-que-
-vive-do-trabalho (ANTUNES, 2015).
O controle do conhecimento do trabalho, ponto nevrálgico do taylorismo, 
passa a viabilizar, portanto, o prévio planejamento do conjunto de ações a 
serem desenvolvidas pelos/as operários/as. Frente ao que resta de autonomia 
do trabalho, impõe-se os gestos calibrados com seus movimentos aprisionados, 
monótonos, submetidos a um conjunto de “regras, números, leis e fórmulas” 
(BRAVERMAN, 1977, p. 103). A norma geral é a da conversão das atividades
antes desempenhadas pelos trabalhadores em tarefas simplifi cadas ao extremo 
e esvaziadas ao máximo, portanto, de seu sentido minimamente criativo.
Relatando sobre uma de suas experiências, na Bethlehem Steel Company, 
Taylor salienta que
um dos requisitos para um indivíduo que queira carregar lingotes de ferro 
como ocupação regular, é ser tão estúpido e fl eumático que mais se asse-
melhe, em sua constituição mental a um boi [...]. Um homem de reações 
vivas e inteligentes é, por isso mesmo, inteiramente impróprio para tarefa 
tão monótona (1995, p. 53).
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No início do século XX, as ideias de Taylor contaram com grande receptivi-
dade não somente nos Estados Unidos, onde se desenvolveram incialmente, mas 
nos demais países industrializados ou em processo de industrialização. Tal situa-
ção, conforme já assinalamos anteriormente, deve ser compreendida no contexto
da expansão da indústria e ampliação de sua capacidade produtiva em meio ao 
desenvolvimento tecnológico e ao acirramento concorrencial (PRAUN, 2018a).
Em 1910, o taylorismo se adaptaria com perfeição às linhas de montagem 
da Ford. Associados às esteiras de produção, capazes de fi xar o trabalhador, 
ao longo da jornada, em seu posto de trabalho, os princípios da gerência 
científi ca, articulados ao fordismo, assumiram sua expressão mais profunda. 
O trabalho simplifi cado, repetitivo, monótono é redimensionado na cadên-
cia, no fl uxo contínuo e cronometrado das linhas de produção mecanizadas. 
Entrelaça-se a esse processo o desenvolvimento das pesquisas e inovações 
no campo da siderurgia, assim como daquelas relacionadas à evolução dos 
motores à combustão interna, às quais Henry Ford (1862-1947) dedicou-se 
com interesse particular (PRAUN, 2018b).
Decorrem desse ambiente histórico, portanto, as alterações na organiza-
ção do trabalho e produção, adotadas no início do século XX, na Ford Motors 
Company. Em sua fábrica localizada em Detroit, Estados Unidos e fundada 
em 1903, Ford desenvolveu um sistema organizado com base na fi xação dos 
operários em seus postos de trabalho. Conforme assinalou em suas memórias, 
“nenhum operário deve ter mais que um passo a dar”, devendo sempre fazer 
“uma só coisa com um só movimento” (FORD, 1954, p. 68). Inspirado pelo 
“sistema de carretilhas aéreas” utilizado nos matadouros de Chicago, Ford 
passa a adotar, a partir de 1913, esteiras ou trilhos capazes de mover as peças 
diante de operários dispostos ao longo das diferentes etapas do processo 
produtivo (idem, p. 71). Ao alcance das mãos deveriam estar também os ins-
trumentos e a matéria-prima necessários para a execução da tarefa.
A adoção deste conjunto de procedimentos, conforme relatou Ford 
(1954), fez com que, em 1914, a montagem de um motor de carro, por exem-
plo, antes realizada por um único operário, passasse a ser executada por 84 
trabalhadores, evidenciando assim o alto grau de divisão do trabalho propor-
cionado pelo sistema. O fl uxo contínuo e cronometrado das linhas móveis de 
produção, alimentadas por peças padronizadas, passa assim a estabelecer uma 
cadência na qual os corpos, impelidos a desencadearem movimentos simples 
e repetitivos, entram em sintonia com o ritmo e a intensidade imposta pela 
maquinaria. A produtividade e intensidade do trabalho atingem patamares 
nunca experimentados antes (PRAUN, 2018b).
Não à toa, os primeiros a resistirem à adoção do sistema de produção 
taylorista-fordista foram os antigos operários especializados. Estes, entretanto, 
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aos poucos, foram sendo substituídos por outros que, incorporavam-se às 
linhas de montagem atraídos por uma diária de trabalho média de valor supe-
rior àquela praticada pelas demais empresas. Tal situação, temporária, era 
viabilizada pela alta produtividade atingida pela fábrica.
Em 1921, “pouco mais de metade dos automóveis do mundo (53%)”
vinham “das fábricas Ford. O capital da empresa, que era de 2 milhões de 
dólares em 1907, passa a 250 milhões em 1919, graças aos lucros incessan-
tes” (GOUNET, 1999, p. 20). Ganhava forma, então, a ideia perseguida por 
Ford desde antes de fundar sua própria empresa: produzir em larga escala, 
produtos padronizados, de forma a impactar nos custos fi nais da mercadoria, 
impulsionando o consumo massifi cado.
O fordismo, associado aos princípios da gerência científi ca, havia 
rompido os muros da fábrica Ford, convertendo-se em padrão de acumu-
lação de capital e de sociabilidade prevalente até os anos 1970. Esteve, 
nesse sentido, na base, a partir dos anos 1930, de um novo ciclo mundial 
de expansão da industrialização. Esta, por sua vez, dirigida sobretudo às 
regiões da periferia do capitalismo, a exemplo da América Latina, onde a 
presença acentuada das poucas e poderosas corporações do ramo automo-
tivo tornou ainda mais evidente o caráter dependente e subordinado das 
economias locais.
A profunda harmonia alcançada entre taylorismo e fordismo, observada 
inicialmente nas linhas de montagem das fábricas de Detroit, fez-se presente 
no cotidiano de gerações de trabalhadores. A ordem de sua expansão, no 
entanto, passou a corresponder à grandeza da acentuada insatisfação, fadiga, 
sofrimento e adoecimento entre aqueles que vivem de seu trabalho, tal como 
descreveu Simone Weil:
O primeiro detalhe que, cada dia, torna a servidão sensível, é o relógio 
de ponto. O caminho da casa à fábrica está dominado pelo fato de que é 
preciso chegar antes de um segundo mecanicamente determinado. Pode-se 
chegar cinco ou dez minutos adiantado; o escoamento do tempo, aparece, 
neste caso, como algo sem piedade que não deixa nenhum lance ao acaso. 
Num dia de operário, é o primeiro golpe de uma regra cuja brutalidade 
domina toda a parte da vida passada entre as máquinas; o acaso não tem 
direitos à cidadania na fábrica (1996 [1936], p. 157).
Mas, situações como essas, por outro lado, auxiliadas pela alta concen-
tração de operários, típica das fábricas organizadas aos moldes do tayloris-
mo-fordismo, também se converteram no pós-Guerra em combustível para o 
fortalecimento das lutas e das entidades representativas da classe trabalhadora 
em diferentes países. Dessas lutas, assim como daquelas travadas desde o 
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século XIX, resultou um conjunto de direitos sociais e do trabalho que, na 
virada para o século XXI, foram sendo progressivamente desmontados.
O esgotamento do padrão taylorista-fordista, que não pode ser com-
preendido sem considerá-lo articulado às mudanças desencadeadas no interior 
do capitalismo, à exemplo da acentuada fi nanceirização da economia, da 
progressiva concentração de riquezas, do acirramento da concorrência entre 
as corporações, dos novos patamares de desenvolvimento tecnológico, abriu 
o caminho para um profundo processo de reestruturação produtiva, cujos 
entraves impostos pela “rigidez” taylorista-fordista deveriam ser, conforme 
seus defensores, suplantados pela máxima “fl exibilidade”.
Essas alterações, com forte repercussão no mundo do trabalho, fi zeram-se 
também acompanhadas da ascensão do neoliberalismo e de sua incorporação 
e tradução nas políticas de Estado, cada vez mais subordinadas aos interesses 
do “mercado”. Sob o neoliberalismo, é instituída uma inversão: a “segurança 
jurídica” para o “mercado”, essa entidade que invisibiliza as corporações e 
seus interesses, só se realiza no avanço do desmonte dos direitos sociais e do 
trabalho outrora conquistados e, em parte, expressos em legislação protetora. 
Em nome da segurança das corporações é a medida da insegurança generali-
zada para trabalhadores e trabalhadoras, tal como exemplifi cam as “reformas” 
previdenciárias e trabalhistas (PRAUN, ANTUNES, 2020).
Flexibilidade como regra e expansão do trabalho digital
Os sinais do esgotamento do padrão taylorista-fordista começaram a soar 
ao fi nal da década de 1960. Anunciavam o fi m de um longo ciclo de cresci-
mento da economia mundial, balizado por políticas locais de perfi l keynesiano, 
e estruturado em base à produção seriada e em larga escala. Indicadores de 
queda das taxas de lucro das grandes corporações, do refreamento do con-
sumo, da restrição dos investimentos em produção, juntamente à explosão 
do desemprego, evidenciaram a chegada da crise que avançou sobre a década 
seguinte. O padrão taylorista-fordista de acumulação de capital, vigente na 
maior parte do século XX, já não respondia às necessidades de reprodução do 
capital (HARVEY, 1992; ANTUNES, 2010, 2015; PRAUN, 2018a).
Uma parcela de intelectuais, sobretudo aquela que observou o curso 
dos acontecimentos a partir exclusivamente dos países centrais, enxergou 
equivocadamente, tanto na crise como no desenvolvimento tecnológico então 
alcançado, o advento de novas experiências alternativas, projetando novos 
e melhores tempos para a classe trabalhadora. Afi nal, diziam, se o trabalho 
fora caracterizado, ao longo do século XX, como monótono, intensivo e alie-
nante, a crise abriria o caminho para uma sociedade onde o labor poderia ser 
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enfi m valorizado, dadas as novas tecnologias digitais e as possibilidades de 
ampliação do tempo livre (ANTUNES, 2010, 2015).
Foi da experiência da Toyota japonesa que vieram as principais alterações 
nas formas de organização do trabalho e da produção, implantadas especial-
mente a partir da década de 1980 e adaptadas às diferentes corporações e loca-
lidades do globo. Longe das previsões otimistas, as mudanças que impactaram 
o mundo do trabalho e a sociabilidade construída neste contexto inauguraram 
um período de acentuada precarização do trabalho. Em oposição aos tantos 
aspectos negativos do taylorismo-fordismo, o toyotismo, a acumulação fl exível 
e a expansão do capitalismo informacional-digital desenvolveram-se no uni-
verso onde se consolidou nova trípode destrutiva, dada pelo neoliberalismo, 
reestruturação produtiva permanente e pela hegemonia do capital fi nanceiro.
O trabalho relativamente contratado e regulamentado, resultante de uma 
secular luta operária por direitos sociais, foi sendo substituído pelas diversas 
formas de “empreendedorismo”, “cooperativismo”, “trabalho voluntário”, 
“trabalho atípico”, “intermitente”, acentuando a superexploração e confi gu-
rando uma tendência crescente à precarização estrutural da força de trabalho 
em escala global (ANTUNES, 2018, p. 169).
Esse processo, que ganha projeção, sobretudo nos países europeus, 
a partir das décadas de 1970-80, espalha-se no Brasil na década seguinte. 
Nos anos 1990, as medidas de fl exibilização do trabalho avançam no chão 
de fábrica por meio da adoção dos “times” de trabalho, da polivalência 
e multifuncionalidade, assim como das metas progressivas e avaliações 
por desempenho (ANTUNES, 2019; BIHR, 1998; PINTO, 2011; PRAUN, 
2016a). São também introduzidas, entre outras medidas, as práticas de fl e-
xibilização da jornada de trabalho, a exemplo do banco de horas e de dias. 
A ampliação do contingente de trabalhadores e trabalhadoras terceirizados, 
expressão fundamental dos processos de reestruturação produtiva que avança 
desde a década de 1990 tanto no setor privado como no público (DRUCK 
et al., 2018).
Vivenciamos, desde então, uma ampliação exponencial de novas (e 
velhas) modalidades de (super)exploração do trabalho, desigualmente impos-
tas e globalmente combinadas por uma nova divisão internacional do traba-
lho. Esses novos arranjos, tecidos pelos processos de reestruturação produtiva 
e pelo espraiamento do neoliberalismo, em interface com a fi nanceirização 
crescente da economia, encontram convergência no progressivo desmante-
lamento dos sistemas de proteção social, repercutindo, ainda que de forma 
diferenciada, em todos os países do mundo. Da China ao México. Dos EUA 
à Índia. Do Brasil à Coreia. O avanço de condições e situações de trabalho 
ultrajantes compõe a trama da globalização neoliberal.
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Nesse universo da nova “empresa fl exível”, “liofi lizada”32, alteraram-se, 
em muitos pontos, os mecanismos do padrão de acumulação do capital. E isso 
teve consequências, também, na própria subjetividade do/a trabalhador/a e 
nas distintas manifestações do fenômeno da alienação.
Quem conhece uma fábrica da era taylorista-fordista e observa as atuais 
percebe que a diferença é visível no seu desenho espacial, de trabalho, de 
organização técnica e de controle do trabalho. Não há mais as divisórias. Não 
há o restaurante do “peão” e o da gerência. É uma fábrica que seduz com 
o “encantamento” de um espaço de trabalho supostamente mais “participa-
tivo”, “envolvente” e menos despótico, ainda que apenas na aparência. Em 
verdade, o toyotismo converte trabalhadores e trabalhadoras em déspotas de 
si mesmos (ANTUNES, 2015).
A empresa fl exível só pode existir, então, com base no envolvimento, na 
expropriação do intelecto do trabalho. Por isso passou a ser comum exigir-se 
não apenas a execução de variadas tarefas (operação e manutenção dos equi-
pamentos, limpeza e organização do local de trabalho, controle de qualidade 
etc.), mas também a responsabilidade quanto às sugestões de melhorias nos 
processos de maneira a cortar estoques e elevar a produtividade.
Danièle Linhart (2000), ao tratar das mudanças no mundo do traba-
lho, destacou o que denominou como individualização, mecanismo capaz 
de impulsionar a competição e favorecer à constituição de um ambiente de 
trabalho que pressiona, de forma difusa, para a adesão às regras do jogo.
Pesquisadoras como Venco e Barreto (2010, p.5) observam como esse 
“contexto de instabilidade confi gura-se como campo fértil para a instalação 
de patologias do medo, cujas características de angústia frente às incertezas 
são equivalentes às vivenciadas pela situação de desemprego” (2010, p.5). 
Concordando com elas, destacamos o quanto, este ambiente hostil tem sido 
particularmente perverso com a juventude trabalhadora, desafi ada a encarar 
um mundo onde a precariedade dos vínculos, a frágil e instável inserção 
no mercado de trabalho,além da expansão dos adoecimentos, soma-se às 
exigências constantes e progressivas, típicas da era neoliberal (ANTUNES; 
PRAUN, 2015, PRAUN, 2016a).
Expressões frenquentes, tais como “sociedade do conhecimento”, “capital 
humano”, “trabalho em equipe”, “times ou células de produção”, “salários fl e-
xíveis, “envolvimento participativo”, “trabalho polivalente e multifuncional”, 
“colaboradores”, “pj” (pessoa jurídica, denominação falsamente apresentada 
32 Como a liofi lização, expressão utilizada por Juan J. Castillo, não é um termo das Ciências Sociais, cabe 
aqui uma explicação rápida: na Química, liofi lizar signifi ca, em um processo de temperatura baixa, secar 
as substâncias vivas. O leite em pó é um leite liofi lizado. Nos referimos, portanto, aqui, à secagem da 
substância viva que, na empresa, é o trabalho vivo, que produz coisas úteis, riqueza material e valor, e que 
contraditoriamente se reduz no capitalismo.
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como “trabalho autônomo”), “empreendedorismo”, “trabalho intermitente”, 
“trabalho uberizado” ou em “plataformas”, “economia digital”, “trabalho 
digital”, “trabalho on line”, passaram a fazer parte do novo léxico do mundo 
do capital corporativo, impondo a todos e todas o novo cronômetro da era 
digital: as constantes e crescentes “metas”. A técnica, o tempo e o espaço se 
metamorfosearam: sob a lógica da fi nanceirização, a demolição dos direitos 
do trabalho tornou-se exigência inegociável (ANTUNES, 2018; 2020).
Do mesmo modo, a terceirização, informalidade, fl exibilidade, desem-
prego, desemprego por desalento e pauperização amplifi cada assumem 
forma dramática no cotidiano de trabalhadores e trabalhadoras. Do Japão 
dos operários encapsulados aos ciberrefugiados que dormem nos cibercafés 
para procurar um trabalho contingente no dia seguinte. Da Inglaterra para 
o mundo se esparrama o “contrato de zero hora”, massifi cando o trabalho 
intermitente e sem direitos. Na Itália assistimos à explosão do trabalho oca-
sional, pago por voucher.
No Brasil, amplia-se o contingente de trabalhadores e trabalhadoras que, 
à margem do mercado formal, veem-se obrigados a ganhar a vida com os 
chamados “bicos”. A separação entre tempo de vida no trabalho e fora do tra-
balho, no contexto das formas “modernas” de escravidão digital (ANTUNES, 
2018), tornou-se privilégio de poucos. A uberização do trabalho, presente nas 
plataformas digitais e nos aplicativos, tem se convertido na marca das relações 
de trabalho na contemporaneidade (ANTUNES, 2020).
Não por acaso, nas últimas décadas observamos a explosão dos casos de 
adoecimentos relacionados ao trabalho. Chama especial atenção a incidência 
das lesões por esforços repetitivos, os assédios, a fadiga extrema, a exaustão, 
e sua correlação com o desgaste e adoecimento psíquico (MAENO, 2011; 
SELIGMANN-SILVA, 2011; FRANCO, DRUCK E SELIGMANN-SILVA, 
2010; PRAUN, 2016b: HELOANI, R., BARRETO, M. (2018). As altera-
ções vivenciadas no mundo do trabalho, que invadem a vida como um todo, 
incidem negativamente, objetiva e subjetivamente, sobre a saúde daqueles e 
daquelas que vivem do seu trabalho.
Considerações fi nais
As marcas do trabalho, impressas nesse mundo que construímos cotidia-
namente, evidenciam os descaminhos de nossa humanidade. Expressam-se, 
conforme destacamos anteriormente, para a classe-que-vive-do-trabalho, em 
uma vida submetida e marcada pelo sacrifício, pela exploração e privação, 
pelas incertezas impostas tanto pelo desemprego, sempre à espreita, como 
pelos frágeis laços do trabalho fl exibilizado.
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LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 119
Se a fábrica automotiva taylorista-fordista sofreu grandes transforma-
ções em sua forma espacial, organizacional e sociotécnica, alterando seus 
instrumentos de controle do trabalho, com o advento do toyotismo e da acu-
mulação fl exível e, mais recentemente, com o mundo informacional-digital, 
pudemos presenciar, conforme salientamos anteriormente, a eliminação das 
divisórias, a organização do trabalho em células/equipes/times de trabalho 
(que propiciaram a introdução da multifuncionalidade e de polivalência), a 
substituição do cronometro taylorista pelo sistema de metas (que intensifi cou 
ainda mais a concorrência no interior do espaço produtivo). Essas alterações 
são apresentadas, comparadas às da fábrica taylorista, com propiciadoras 
de “mais participação” (ANTUNES, 2010). Mas, essa “maior participação” 
visava a criar condições mais favoráveis para a desregulamentação e conse-
quente perda de direitos do trabalho, o que acentuou a precarização estrutural 
do trabalho em escala global.
Em sua dimensão subjetiva, no universo taylorista-fordista o exercício 
do despotismo fabril era mais explícito e mais visível. Com o advento do 
Toyotismo, da acumulação fl exível e do trabalho digital, desenvolveram-se as 
novas formas de organização e controle do trabalho, sob denominações como 
“gestão de pessoas”, “colaboradores e colaboradoras”, “empreendedorismo”, 
voltadas a intensifi car as formas de alienação e coisifi cação, que foram mais 
interiorizadas, com vistas a torná-las mais “voluntárias”, de modo a converter 
os trabalhadores e as trabalhadoras em déspotas de si mesmos. Desse modo, 
as novas engenharias da sujeição tornaram-se ainda mais complexifi cadas, 
agudizando as formas de alienação e de estranhamento, através das fl exibili-
zações, dos ganhos por produtividade etc. (ANTUNES, 2015).
Essas transformações, concomitantes ao avanço da privatização dos 
serviços públicos e do desmonte dos direitos sociais, que extrapolam o 
espaço e tempo de trabalho, estão na base da ampliação das desigualdades 
sociais e da degradação da vida como um todo. Dar visibilidade a essas 
contradições, desvelando a profunda mercantilização e descartabilidade 
da vida humana sob o capitalismo, é sem dúvida um importante ponto de 
partida para o desenvolvimento de práticas profi ssionais que sejam também 
polos de resistência e mudança, capazes de participar da construção de uma 
sociedade na qual as fi nalidades e sentidos do trabalho estejam voltadas 
a redesenhar o mundo em direção a uma efetiva vida dotada de sentido. É 
neste contexto que se insere nossa contribuição.
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GEOGRAFIAS DA REPRODUÇÃO 
SOCIAL CRÍTICA: fraturas e fronteiras 
em territórios periféricos durante a crise33
Thiago Canettieri
DOI: 10.24824/978652515286.8.123-148
A reprodução da vida nas periferias brasileiras é atravessada por adver-
sidades. Investigar a complexa trama da reprodução social nesses territórios é 
fundamental para se compreender a dinâmica contemporânea da reprodução do 
capital em crise e as dinâmicas sociais que se desenvolvem. O entendimento 
do lugar que a periferia ocupa na reprodução das relações sociais capitalis-
tas passa por ressaltar um caráter peculiar: uma “integração negativa”, isto 
é, sua inserção na totalidade concreta do sistema do capital acontece pela 
exclusão das formas básicas de sociabilidade do valor. Sua característica de 
incompletude estrutural não é sinal de atraso ou de formas atávicas, mas é 
parte necessária do moderno sistema produtor de mercadorias: precariedade, 
informalidade, irregularidade e ilegalidade são condições necessárias para a 
realização da forma-valor na periferia do capitalismo.
As periferias, enquanto espacialização das desigualdades sociais que se 
manifestam nas contradições da urbanização, não são índices do atraso ou 
do arcaísmo das economias subalternas, mas estão intrinsecamente conecta-
das com o desenvolvimento capitalista em sua escala planetária. A condição 
de superexploração estrutural implicou a organização de certas estratégias 
de reprodução social da população periférica que passava pela mencionada 
complexa trama de ilegalidade, informalidade e precariedade. Esse cenário 
tende a se agravar no atual contexto: o desenvolvimento da crise do capi-
tal signifi cou o aprofundamento e a generalização da condição periférica 
(CANETTIERI, 2020).
Este texto parte da realização de uma pesquisa de inspiração etnográfi ca34
e de anos de ativismo em periferias para analisar a vida cotidiana em territórios 
33 Agradeço à Marina Paolinelli, Felipe Magalhães, Lourenço Morais e Taís Clark pela leitura e comentários 
das ideias esboçadas neste texto. Naturalmente, equívocos, defi ciências e exageros são de minha inteira 
responsabilidade.
34 Estou convencido de que descrevo, ainda que em linhas gerais, processos sociais abrangentes, que 
não se limitam apenas ao campo de minha pesquisa, realizado em Belo Horizonte, no âmbito do projeto 
Disjunções e fraturas na periferia: sobre as fronteiras periféricas das metrópoles. Dessa forma, para a 
segurança dos(das) meus(minhas) interlocutores(ras) e por julgar que não é o foco deste texto, eu optei 
por omitir a localização da área do campo.
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periféricos e as condições da reprodução social. A noção que orienta o texto, 
“geografi as da reprodução social” (GRAY, 2022), visa ampliar a discussão 
presente na teoria da reprodução social desenvolvida pelo feminismo marxista 
(BHATTACHARYA, 2017; FERGUSON, 2020). Com isso, ressalta-se não 
apenas “qual” é a natureza do trabalho de reprodução, mas também “onde” 
esse trabalho acontece, enfatizando a (re)produção do espaço nesse processo. 
Em adição, darei ênfase à processualidade histórica do capital. O capitalismo 
não pode ser compreendido como um processo sempre idêntico a si mesmo 
em todos os lugares e ao longo do tempo, mas carrega em seu próprio desen-
volvimento elementos que são históricos. A fi m de captar com maior precisão 
a processualidade histórica do capital em seu momento contemporâneo de 
crise, apresento a noção de reprodução social crítica35 como um aparato 
categorial que dê conta dessa complexidade, isto é, que descreva a forma da 
reprodução social no momento de crise.
Desse modo, olhar para a periferia interessa sobremaneira. A periferia 
foi o lugar em que a relação salarial não se consolidou completamente. No 
atual contexto de crise, como escreve Gago (2018, p. 10), “o salário deixa de 
ser garantia privilegiada da reprodução”. Analisar a dinâmica de reprodução 
social na periferia, portanto, pode ser um meio para compreender os caminhos 
do capitalismo como um todo36.
Se a noção de periferia ocupa um lugar de relativo destaque no campo 
dos estudos urbanos (na geografi a, no urbanismo, na sociologia, na economia, 
entre outros), em muitos dos casos as publicações contemporâneas tratam 
dessa noção de uma forma homogênea. Ainda que certos processos sociais 
sejam, de fato, homogeneizantes, impondo uma forma única ao espaço, como 
a disseminação da precariedade e a imposição da mercantilização, é importante 
reconhecer a heterogeneidade que existe dentro das periferias (FELTRAN, 
2011; 2014). Nas minhas inserçõesem territórios de periferia, chamou-me 
atenção a diversidade de estratégias de reprodução que existem nesses ter-
ritórios, que produzem uma variedade de formas espaciais, ou, se preferir, 
de geografi as da reprodução social. No interior dos territórios periféricos, 
existem diferenças, fronteiras, fraturas e disjunções que, quando consideradas 
na análise, revelam muito sobre a vida cotidiana nesses espaços e, por con-
sequência, podem oferecer pistas para compreender a dinâmica social nesses 
territórios. É interessante observar que, no nível da vida cotidiana, existe um 
gradiente da condição periférica, que indica situações mais ou menos precárias 
35 Aqui, como espero esclarecer ao longo do texto, refi ro-me a forma histórica e espacialmente específi ca da 
reprodução social sob um contexto de crise.
36 Segundo Roberto Schwarz (1999), a periferia se tornou um posto de observação privilegiado para com-
preender a dinâmica de desagregação do capitalismo global, como veremos adiante.
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(situação de fome, ausência de moradia, ou moradia com risco de alagamento, 
ou remoção, por exemplo). Essa gradação da pobreza faz parte da gestão dos 
confl itos e do funcionamento cotidiano das periferias37. Estar atento a essa 
diversidade é fundamental para conseguir construir um quadro matizado da 
realidade periférica. Essa constatação revela um cenário caleidoscópico que 
deve ser levado em conta para o estudo da complexidade interna das periferias. 
Como afi rma Gray (2022, p.815), uma perspectiva baseada na composição 
espacial tem como foco a diferenciação espacial que emerge do processo de 
produção do espaço e os seus diferentes usos que se inter-relacionam. Por 
fi m, vale dizer que este texto propõe uma refl exão acerca das novas e velhas 
estratégias de sobrevivência das classes populares em territórios periféricos. 
Trata-se de centrar nosso olhar nas variações de distintas formas de sobreviver 
na adversidade que estão se desenvolvendo nas periferias. A população perifé-
rica enfrenta essas condições de vida que produzem o caráter nebuloso como 
ainda são descritas as dinâmicas e estratégias da população que sobrevive na 
adversidade produzida e reproduzida pelo capitalismo periférico-dependente 
– em especial num contexto de colapso da modernização.
Formação e desconstrução do espaço periférico brasileiro
A formação do mundo do trabalho no Brasil aconteceu a partir de seu 
engate subalterno e dependente na dinâmica do mercado mundial. O territó-
rio brasileiro se constituiu historicamente como um espaço para a expansão 
capitalista explorar recursos naturais e força de trabalho a baixíssimos custos. 
As formas “atrasadas” de reprodução garantiam a reprodução do contingente 
para o exército industrial de reserva, e o baixo custo de reprodução da força 
de trabalho, para o moderno sistema produtor de mercadorias. Segundo o 
argumento de Oliveira (2003), existe uma “simbiose de contrários” entre rela-
ções “não capitalistas” e o próprio desenvolvimento capitalista. Essa dialética 
garantiu a funcionalização das formas arcaicas de reprodução das pessoas para 
manter os custos da reprodução do trabalho em um patamar muito rebaixado, 
permitindo que a economia brasileira continuasse em crescimento.
O processo de modernização brasileiro assentou-se na reprodução das desi-
gualdades históricas. Isso porque inexiste nas periferias a condição de se integrar 
à totalidade concreta do capital que não seja de forma negativa. Por isso, o próprio 
desenvolvimento nacional teve que se apoiar na superexploração violenta, na 
inclusão negativa e na disseminação da precariedade para boa parte da popula-
ção, mesmo que, cinicamente, o discurso de modernização tentasse apontar para 
37 Ou seja, ainda podemos adotar o termo “periferia”, pois existem elementos homogêneos que conecta estes 
lugares a um conceito. Todavia, periferia é um gênero para designar uma pluralidade de realidades e contextos.
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o lado contrário. A miragem de inclusão na formação categorial propriamente 
moderna do capital exigia uma anteposição legal prefi gurativa que desse o molde 
industrial. Segundo Anselmo Alfredo (2013, p. 100), a formalização das legisla-
ções de trabalho não pôde produzir a efetiva formação categorial da sociedade.
O processo de territorialização e aclimatação do capital cá nos trópicos 
dependeu, portanto, de certas práticas para a gestão de uma parcela signifi ca-
tiva da população que, supostamente, havia se tornado sujeitos monetários, 
mas com as condições de sua existência monetarizada completamente barradas 
pela própria constituição do mercado.
Nesse contexto, a noção de periferia, construída pela sociologia urbana 
brasileira, cumpre um papel elucidativo importante, afi nal, “as periferias 
urbanas se desenvolveram no Brasil como o lugar dos trabalhadores pobres 
e o lugar para os trabalhadores pobres” (HOLSTON, 2013, p. 197). Diante 
de uma economia de espoliação (KOWARICK, 1979) e de um mercado de 
terras altamente restrito (MARICATO, 1979), as periferias afastadas se torna-
ram as áreas em que trabalhadores pobres e migrantes em busca de emprego 
conseguiam se estabelecer. E só o conseguiam na base da autoconstrução 
de barracos em terrenos que quase sempre eram ilegais e não dispunham da 
maioria dos serviços e das infraestruturas urbanas. Oliveira (2003) carac-
teriza essa relação como um dos regimes de trabalho de exploração intensa 
que permitiram o crescimento econômico brasileiro, o que o autor chamou 
de “industrialização dos baixos salários”. Considerando que a indústria não 
absorveu esses trabalhadores de imediato, a solução foi “transferir o custo 
da moradia, conjuntamente aos gastos com transporte, para o próprio tra-
balhador” (KOWARICK, 1979, p. 35). Desta maneira, importa lembrar o 
argumento de Alfredo (2013, p. 31), para quem a urbanização brasileira que 
se constituiu pela expansão das periferias como locus de uma população 
excluída, superexplorada e precarizada que “foi posta na socialização nega-
tiva do trabalho”.
O fi nal do século XX foi marcado pelo fi m de um ciclo desenvolvimen-
tista (SCHWARZ, 1999). Desde então, essa crise não deixou de se aprofundar, 
acompanhando o desenvolvimento negativo da planetarização do capital. 
Devido ao arranjo da produtividade em escala planetária, a periferia foi coa-
gida a se integrar aos índices da socialização burguesa pelo valor, a maioria 
de sua população foi mantida de fora desses critérios. Com o aprofundamento 
da crise, que tendeu a se tornar hegemônica, boa parte dos esforços da socie-
dade, escreve Menegat (2019), foram direcionados à construção de diques 
de contenção da barbárie que fermentava nas periferias dos países periféricos 
onde essa realidade sempre foi a regra.
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A crise, portanto, rompeu a associação – quase automática – que existia 
entre “trabalho” e “progresso”38. Como argumenta Feltran (2011, p. 32-33), o 
contexto dos anos 1990 e o começo dos anos 2000 indicou uma crise genera-
lizada: “crise do emprego formal, do trabalho, do projeto de ascensão social, 
dos movimentos sociais, da família”. Roberto Schwarz (1999), ao olhar para 
o “fi m do século” brasileiro, percebeu que o país passava pelo que chamou de 
“desagregação do desenvolvimento”. A sociedade não é mais regulada pelo 
horizonte de expectativas de inclusão no mundo do trabalho. Agora se trata, 
como nomeou Oliveira (2003, p. 164-166), de um “trabalho sem forma”. Essa 
nova característica reconfi gurou o mundo do trabalho. De um lado, a “revolução 
molecular-digital” produziu um conjunto de trabalhadores “transformadoem 
uma soma indeterminada de exército da ativa e da reserva, que se intercambiam 
não nos ciclos de negócios, mas diariamente” (OLIVEIRA, 2003, p. 136).
Hoje, no século XXI, a economia não promete mais nenhum emprego. Os 
sobrantes devem se virar de toda forma possível e imaginável para sobrevive-
rem. Boa parte da degradação social em curso no mundo hoje não é decorrente 
da provada exploração capitalista, salienta Schwarz (1999, p. 194), “mas sim, ao 
contrário, da ausência dessa exploração”. Como cunhou o nosso presidente-so-
ciólogo, trata-se de “inempregáveis”39 que estão concentrados nas áreas perifé-
ricas das metrópoles brasileiras. Assim, a população periférica vive de todos os 
tipos de trabalho marginal, informal, frequentemente à margem da legalidade 
e, não raro, exposta a toda sorte de periculosidade. Para a reprodução desses 
grupos, diferentes estratégias de sobrevivência e reprodução são mobilizadas.
O atual estágio do “desenvolvimento” capitalista é marcado pela sua 
crise imanente. A dinâmica tautológica do capital produz um enorme exce-
dente populacional que não é mais mobilizável para a valorização do valor40. 
Essa é a razão para a generalização da precarização do trabalho, formais ou 
informais (na verdade, parece haver um deslocamento do primeiro em direção 
ao segundo41). É exatamente o esgotamento da sociedade salarial que produz 
a miragem do otimismo da empregabilidade: contrata-se de forma cada vez 
mais precarizada. Ou seja, a nova morfologia do trabalho é resultado da des-
substancialização do capital e de sua crise absoluta.
38 A bem da verdade, tanto a forma moderna do trabalho como o progresso propriamente dito nunca tenham 
se estabelecido por aqui.
39 A expressão foi cunhada por Fernando Henrique Cardoso em 7 de abril de 1997: “O processo global de 
desenvolvimento econômico cria pessoas dispensáveis no processo produtivo, que são crescentemente 
‘inempregáveis’, por falta de qualifi cação e pelo desinteresse em empregá-las”.
40 Aqui sigo o argumento de Robert Kurz (2018; 2014; 1993) que demonstra como o movimento contraditório 
do capital cria as barreiras e limites que bloqueia a valorização.
41 Esse movimento, por sua vez, foi assim sintetizado pelo então presidente-capitão: “a legislação trabalhista 
vai ter que se aproximar da informalidade”. A frase teria sido dita em uma reunião com deputados no dia 
12 de dezembro de 2018.
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Se a reprodução social periférica se baseou historicamente em uma 
“inclusão negativa”, que mantinha a noção de trabalho como um polo atrator 
das expectativas e que dava régua e compasso para as relações sociais, a 
virada do século XX para o século XXI fez a geração nascida nesse período 
conviver com a realidade da crise. Seus modos de vida já foram conformados 
pela presença dela (FELTRAN, 2011), o que obrigou a reconfi guração das 
alternativas de reprodução social nas periferias, levando a uma atualização 
das formas de se “sobreviver na adversidade” (HIRATA, 2017).
Vale ser ressaltado que, no contexto da reprodução social na periferia, 
os limiares que separam “trabalho” e “reprodução” são borrados e confusos. 
Diante da ausência de meios para garantir o próprio sustento para a família por 
meio de empregos regulares, a casa da periferia, espaço da reprodução familiar, 
é convertida em um espaço produtivo para complementação da renda e para 
o autoprovimento de meios de reprodução da força de trabalho (MACHADO 
DA SILVA, 2018; RIZEK, 2010). Deve ser salientado que, nessa situação, 
a esfera doméstica da reprodução do trabalhador só é aparentemente mais 
afastada do domínio do capital. De tal forma, as periferias não são apenas 
“dormitórios” para os trabalhadores que se deslocam até o centro, mas também 
se apresentam como um território produtivo, só que incluído negativamente 
na totalidade concreta do capital.
Crise, dissolução e precarização na periferia: um olhar para a 
reprodução social
Bhattacharya (2018) defi ne a reprodução social como o conjunto de ativida-
des e instituições necessárias para gerar vida, sustentá-la e garantir a sucessão de 
gerações. A organização da sociedade para cumprir esse conjunto de atividades 
é necessariamente histórica que se desenvolvem no interior das relações sociais 
de produção. Trata-se de abordar diretamente formas sociais que não são for-
mas remuneradas de trabalho, mas que desempenham papel fundamental para 
a reprodução de toda a sociedade. Por exemplo, mesmo o trabalho doméstico 
feminino sendo condição para a existência do capitalismo (FEDERICI, 2018), 
ele não é incorporado enquanto uma forma social propriamente capitalista, isto 
é, não está no interior da forma social do trabalho. Para evitar mal-entendidos, a 
noção de reprodução social possui um perímetro de abrangência superior à noção 
de “reprodução de força de trabalho”, como aparece na teoria de Marx (2013).
Olhando para esse contexto, Roswitha Scholz (1996, p.18) argumenta que 
as atividades de reprodução, mesmo estando fora das relações assalariadas, 
não são estranhas à forma do valor. Se, por um lado, o conjunto das atividades 
imputado às mulheres (administração do lar, educação dos fi lhos, alimentação, 
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“convívio social”, entre outras) é exterior à socialização do valor, por outro, 
é um elemento intrínseco e determinado pela forma-valor. Dessa maneira, 
Scholz explica que a constituição do valor tem uma origem dissociada, isto 
é, uma natureza sexualmente específi ca.
Partindo da formulação de Scholz e assumindo-a como um esquema analí-
tico pertinente para a crítica do capital, sugeri, em outros escritos (CANETTIERI, 
2020), que a forma do valor não é decorrente apenas da dissociação sexual, mas 
também de uma dissociação espacial. Com isso, meu interesse está em apontar 
que a reprodução social tal qual ocorre nas periferias é, simultaneamente, uma 
condição necessária para a reprodução ampliada do valor e uma forma que 
ocorre fora dos marcos da socialização do valor. Dessa maneira, as atividades 
de reprodução social indicam que a penetração da dominação pela forma do 
valor42 “deixa de ser um momento exclusivo da relação capital-trabalho para 
se confundir com a própria reprodução da vida” (CANETTIERI, 2020, p. 78).
Essa forma determinada de produção do espaço e reprodução da vida está 
submetida à socialização pelo valor. Como assevera Henri Lefebvre (2014), 
é no âmbito da vida cotidiana que se reproduzem as relações sociais de pro-
dução, isto é, a própria reprodução do capitalismo – entretanto, a reprodução 
do capitalismo não é a sua constante reposição. Como vimos, sua dinâmica 
desmedida é propensa ao aprofundamento de sua crise imanente.
Isso signifi ca pensar a processualidade histórica da forma do valor. Em 
seu momento contemporâneo, marcada pela crise absoluta (KURZ, 2014), 
como a dissociação espacial do valor se manifesta? Vimos, na seção anterior, 
que a penetração da forma social do capital no Brasil produziu o efeito de 
organizar toda a sociedade de acordo com suas premissas, ainda que a maior 
parte da população não conseguisse passar pelo buraco de agulha dessa forma 
social. Ainda, o contexto de crise contemporânea erode ainda mais essa forma 
social, ao mesmo tempo em que a perpetua, de forma fetichista, como critério 
de socialização, representando um novo conteúdo para a dissociação espacial 
do valor (CANETTIERI, 2020).
A reprodução social em territórios periféricos, nesse contexto, já não 
ocorre como pressupôs a teoria mais tradicional, criando uma espécie de espan-
talho sempre idêntico do capital: “vender seu tempo de trabalho por um preço; 
incorporar seu tempo de trabalho nas mercadorias; consumir mercadorias” 
(PERMAN, 1970, p. 347 – tradução minha). Como argumentei anteriormente, 
ocontexto contemporâneo é marcado por uma crise do capital que produz 
uma dissolução das formas sociais historicamente constituídas. A dinâmica 
da reprodução social contemporânea das periferias ocorre majoritariamente 
42 Tenho em conta a teoria de Postone (2014), para quem o conceito de valor em Marx cumpre a função de desig-
nar uma forma especifi camente moderna de dominação social abstrata que se exerce por meio do tempo.
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por intermédio de uma série de “gambiarras”, “virações” e de uma complexa 
malha de práticas sociais que ultrapassam a socialização do valor, mas ainda 
estão submetidas ao seu imperativo decadente, isto é, completamente mone-
tarizadas. Diante da inexistência de garantias da reprodução social baseada 
na socialização do valor, a classe trabalhadora encontra formas de garantir 
essa reprodução, ainda que de maneira precária: a reprodução social crítica.
Numa dinâmica social desse tipo, trata-se de reconhecer a forma de desig-
nação da expressão negativa da totalidade concreta do capitalismo sob a qual 
ocorre a inserção de uma determinada população na periferia do capitalismo. A 
precariedade, não só a laboral43, comporta hoje um amplo espectro de situações 
nas quais os sujeitos se encontram nesse momento do colapso da modernização. 
Nessas condições, a destruição e decomposição das formas sociais historicamente 
constituídas faz aparecer formas regressivas e precárias de reprodução da vida.
A vida cotidiana assume a forma que o movimento estrutural, em sua 
contradição própria, produz (LEFEBVRE, 2014). Sendo assim, se a crise 
do capital se aprofunda, é coerente conceber que as dinâmicas de repro-
dução social se alteram.
A reprodução social periférica no contexto de crise não se restringe 
apenas à reprodução da força de trabalho, mas é uma forma de reprodução 
social crítica que já não é mais absorvida pelos circuitos produtivos como 
força de trabalho. Entretanto, ao mesmo tempo, por um lado, o imperativo da 
reprodução fi ctícia do capital se impõe a essas pessoas; por outro, o critério 
da socialização do valor, mesmo erodido, ainda se perpetua como índice de 
sociabilidade. É até esse entremeio confl ituoso, complexo, que a análise crítica 
deve descer: o terreno oculto da reprodução social periférica.
Geografi as da reprodução social crítica nas periferias
Na “viração”, na “correria”, entre uma “fi ta” e outra, pulando de “bico” 
em “bico”, de “frila” em “frila”, “batalhando” e “lutando” para sobreviver: 
43 Faço essa ressalva porque boa parte da produção intelectual que se vale dessa categoria a utiliza para 
analisar o mundo do trabalho. Embora tenha contribuições relevantes para conhecer essa realidade, não a 
utilizo aqui no mesmo sentido. Meu interesse é enfocar um amplo processo social de decaimento das condi-
ções de vida que são impedidas de serem acessadas e desenvolvidas pela maioria dos indivíduos expulsos 
das formas básicas de sociabilidade capitalista. Assim, não é do meu interesse tratar a precariedade como 
faz Ruy Braga (2017), ao entendê-la como uma “dimensão intrínseca ao processo de mercantilização do 
trabalho” a partir da defi nição de um patamar de renda, tampouco uso o termo restrito à perda de direitos e 
inovações jurídico-legais que intensifi cam a exploração do trabalho, como faz Antunes (2018). Da mesma 
maneira, não é meu interesse seguir o trabalho de Guy Standing (2013), que entende a precarização como 
a condição de um emprego incerto, de baixa renda e com baixos níveis de segurança e como uma falta de 
identidade segura baseada no trabalho. Meu interesse no uso da expressão precariedade é designar uma 
condição específi ca, embora presente desde muito tempo na periferia, que marca a reprodução material 
da vida em diferentes graus de intensidade e de diferentes maneiras.
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assim é a reprodução social crítica nas periferias. Trata-se, na expressão de 
Denning (2010), de uma “vida sem salário”44. Essa prática de reprodução 
na periferia do capitalismo envolve a mobilização de diferentes estratégias 
que transitam nas tênues fronteiras entre o legal e o ilegal, entre o formal e o 
informal (TELLES, 2011).
Essa realidade descrita possui no Brasil um profundo recorte de raça. 
Como é ressaltado nos importantes escritos de Clóvis Moura (2019, p.30), o 
desenvolvimento nacional se baseou na constituição de vários “[...] mecanismos 
de barragem étnica que foram estabelecidos historicamente contra ele [o negro 
urbano brasileiro] na sociedade branca”. Trata-se de um bloqueio que impede 
a inclusão social e o reconhecimento do negro como um sujeito portador de 
direitos através de “inúmeros mecanismos e subterfúgios estratégicos” que 
coloca “essa grande massa negra [...] como o rescaldo de uma sociedade que 
já tem grandes franjas marginalizadas em consequência da sua estrutura de 
capitalismo dependente, é rejeitada e estigmatizada” (MOURA, 2019, p. 31).
Práticas de reprodução social para além do momento exclusivo do traba-
lho assalariado se desenrolam historicamente nas periferias. Kowarick (1979) 
ressalta as várias práticas de solidariedade e reciprocidade em atividades 
reprodutivas na periferia, a maioria desempenhadas por mulheres. Iniciativas 
como apoio familiar, participação em mutirão de autoconstrução, produção 
de hortas coletivas são algumas dessas iniciativas. De maneira sintética, essas 
formas de reprodução correspondem, segundo Machado da Silva (1982, p. 
95), “a um momento de intensifi cação da exploração, uma de cujas caracte-
rísticas é justamente a ausência da atividade mediadora do Estado”. Ou, mais 
precisamente, não raro a ação do Estado produz efeitos de agudizar ainda mais 
a condição de precariedade que as camadas periféricas estavam submetidas.
Ainda que esse cenário sofresse uma relativa transformação no contexto 
da redemocratização brasileira, com uma signifi cativa – porém insufi ciente 
– expansão do Estado como provedor de políticas públicas em direção às 
periferias, boa parte dessa intervenção não implicou em uma redução signi-
fi cativa nos abusos e restrições que a população periférica sofre. Marca disso 
é exatamente a presença violenta do Estado nesses territórios por meio do seu 
braço armado (RICHMOND et al. ,2020).
Essa forma histórica e espacialmente específi ca de reprodução social se 
desenvolve exatamente no momento de impossibilidade da sociedade salarial 
que, decorrente das contradições do capital, se torna bloqueada e não conse-
gue se efetivar. Gago (2018) apresenta a noção de “pragmática vitalista” para 
44 Sobre isso, deve–se ter em conta o que escreve Denning (2010, p.79 - tradução minha): “No capitalismo, 
a única coisa pior do que ser explorado é não ser explorado. Desde os primórdios da economia salarial, a 
vida sem salário tem sido uma calamidade para aqueles despossuídos dos meios de subsistência”.
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designar a forma de reprodução da vida social que ocorre sem a mediação das 
instituições modernas tradicionais, isto é, uma forma de vida que se desenvolve 
às margens do Estado, do trabalho, do sindicato, da igreja, do partido, da assis-
tência social. A autora insiste, apesar de existir sem a mediação das tradicionais 
instituições, que a pragmática vitalista das populações periféricas negocia os 
limites de sua atuação, validade e legitimidade com essas instituições, relacio-
nando-se com elas. Desse modo, criam-se dinâmicas de reprodução social que 
são próprias da atual fase do capitalismo. Também inspirada por Gago (2018), 
Isadora Guerreiro (2020, s.p.) nota que essas são “dinâmicas de sobrevivência 
que atravessam (ou não) o mundo do trabalho, mas não se detêm nele, não se 
conformam (pois,afi nal, fi cam “sem forma”) por suas determinações internas”.
Contudo, nota-se que a erosão do regime de normatividade das institui-
ções tradicionais não leva à superação de uma vida baseada no dinheiro, afi nal, 
o capitalismo logrou transformar a todos em sujeitos monetários – mesmo que 
sem dinheiro (KURZ, 1993). Isso signifi ca que a capacidade de reprodução 
continua dependente da circulação monetária. Todo o rearranjo na constelação 
da reprodução social continua sendo determinado pela monetarização, isto é, 
com o dinheiro desempenhando papel fundamental na dinâmica da media-
ção e dos confl itos sociais. Cada vez mais ocorre monetização das relações 
cotidianas e vicinais nas periferias. Gabriel Feltran identifi ca que nas perife-
rias coexistem diferentes normativos e o que garante a coexistência coesa é 
exatamente a circulação de dinheiro: “o dinheiro aparece como único modo 
objetivo de mediar suas relações” (FELTRAN, 2014, p. 508).
Na ausência de uma fonte segura de dinheiro, como a do trabalho estável 
prometido pela sociedade salarial, as pessoas nas periferias se envolvem com 
qualquer atividade que possa gerar acesso ao dinheiro necessário para a sua 
própria reprodução. Essas atividades contingentes e dispersas, atravessam 
expedientes legais e ilegais, percursos descontínuos no mercado de trabalho, 
com uma tentativa de empreendimento aqui, uma associação político-par-
tidária ou religiosa ali, a mobilização da propriedade da terra para extrair 
renda, o endividamento familiar, entre outros. Boa parte dessas “saídas de 
emergência” para a reprodução social são entendidas pelos sujeitos periféricos 
como uma válvula de escape tanto do desemprego como do próprio trabalho 
ultraprecarizado repleto de situações de assédio.
Sem pretender uma descrição exaustiva dessas práticas, apresento algu-
mas que, de minha perspectiva, podem ser organizadas como parte desse pro-
cesso e que ocupam papel destacado na dinâmica da reprodução dos territórios 
periféricos no contexto da crise. São práticas conhecidas da periferia, mas que 
ganham novos conteúdos: i.) o trabalho de viração; ii.) o assistencialismo de 
crise; iii.) o microempreendedorismo; iv.) o endividamento de baixa renda; 
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v.) o rentismo periférico; vi.) os ilegalismos populares; vii.) o associativismo 
popular. Todos esses elementos formam uma constelação de práticas para 
sobreviver na adversidade que podem ser combinadas de complexas maneiras. 
Contudo, importa ressaltar que essa divisão é utilizada aqui por um motivo 
analítico. Na realidade observada em campo, as relações são muito mais 
imbricadas, formando uma constelação de estratégias de reprodução para 
enfrentar o mosaico de adversidades.
Trabalho de viração
A condição precária do trabalho apresenta uma certa permanência histó-
rica na dinâmica da sobrevivência periférica. Ludmila Abílio (2021) percebeu 
que essa é uma prática social recorrente na periferia. A formalização do tra-
balho nunca ocorreu com ampla abrangência nos territórios periféricos. Os 
processos recentes de ampliação e generalização da precarização do trabalho 
atingem com maior força a periferia – isto é, aqueles que ainda possuem algum 
trabalho. Na verdade, a realidade mais comum é exatamente o desemprego 
(RIZEK, 2006).
Nessa condição de uma vida sem salário fi xo e estável, a saída encon-
trada por muitos é se virar entre um bico e outro. Abílio (2018) chamou 
esse processo de subsunção real da viração. No sentido dado pela autora, 
a viração é a ausência de uma identidade profi ssional estável, defi nida e 
reconhecida. A reprodução material da vida está determinada por instáveis 
oportunidades de trabalho que garantem a sobrevivência. Trata-se de um 
constante trânsito entre atividades formais temporárias e informais intermi-
tentes, atravessando diferentes atividades ocupacionais que se combinam 
dentro do tempo de cada família ou indivíduo, funcionando como uma forma 
de acessar os recursos para garantir sua própria reprodução (MACHADO 
DA SILVA, 2018).
Assistencialismo de crise
Destaca-se, na dinâmica de reprodução social periférica, a integração 
de programas de assistência social dos governos e ações de solidariedade 
de diferentes entidades – como igrejas, ONGs e movimentos sociais. Ainda 
que refl itam práticas com interesses bem diversos, faz sentido aproximá-las 
em uma confl uência importante: uma forma de suporte assistencial para a 
reprodução social num contexto de crise.
Há, de um lado, as políticas assistenciais do Estado – cada vez mais 
focalizadas e, não raro, cada vez mais dilapidadas pelo neoliberalismo. De 
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outro, há o processo de “onguização dos atores locais” (RIZEK, 2006), tanto 
da igreja como do movimento social, que se reduz ao provimento de itens 
mais básicos, condição da assistência em uma era de emergência. Ambas 
as dinâmicas fazem parte de estratégias de sobrevivência para conseguir 
acessar recursos necessários para a reprodução: uma forma de desvio para 
a constituição do chamado “salário indireto”, afi nal, esses percursos “pouco 
ou nada têm a ver com o trabalho assalariado e seus confl itos” (RIZEK, 
2006, p.51).
Há as igrejas (sobretudo neopentecostais) que desempenham um funda-
mental papel na “seleção da miséria”, entendida como uma estratégia local 
mobilizada por lideranças informais que estabelecem critérios pouco claros 
e arbitrários para defi nir prioridade no recebimento das doações (VERDI, 
2022). Na periferia, são muitos aqueles que não possuem nada e vivem em 
situação de penúria. Dessa maneira, a ação de “fazer solidariedade” aparece 
como uma importante função na comunidade. Muitas pessoas dependem de 
iniciativas como essa para sobreviverem. Como Ribeiro (2017) esclarece, as 
igrejas (neo)pentecostais organizam formas de satisfazer necessidades obje-
tivas entre os seus membros, como grupos com informações e indicações de 
emprego, doação de alimentos e remédios, ou ajuda fi nanceira direta para 
pagar certas contas, como uma “circulação de benefícios” que só é constituída 
pelos vínculos estabelecidos internamente com a Igreja.
Também há os movimentos sociais, associações e cooperativas que desem-
penham papel no provimento do assistencialismo de crise. Essa presença na 
reprodução material das pessoas é acompanhada da contrapartida de uma maior 
adesão. Isadora Guerreiro (2022) chama esse processo de extrativismo político.
Em todos os casos, seja pela assistência social, seja pela exploração 
comunitária, ou ainda pelo extrativismo político, o assistencialismo de crise 
desempenha papel preponderante na organização da reprodução das classes 
populares contemporâneas.
Microempreendedorismo
Outra forma de atuação parece fi gurar nas periferias contemporâneas: 
o microempreendedorismo. Daniel Giavarotti (2018), estudando a região do 
Jardim Ibirapuera e suas imediações, observou entre seus interlocutores de 
segunda ou terceira geração (nascidos no bairro) a lógica empreendedora. 
Há uma espécie de “apropriação” da infraestrutura produzida pela primeira 
geração que ocupou o bairro. Em geral, trabalhadores (mesmo que precários) 
conseguiram autoproduzir a própria moradia e melhorá-la com o tempo, e 
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esses moradores pioneiros, por meio da auto-organização, conquistaram a 
permanência no local.
Costa (2022) ressalta que o microempreendimento popular é uma recor-
rente resposta para “ganhar a vida”. Ao mesmo tempo, reforça e é reforçado 
pela subjetividade concorrencial individualista. Torna-se, assim, uma aspi-
ração das classes populares para se engajarem na batalha de empreender. Nadefi nição do autor, entende-se o microempreendimento como constituído 
por continuidades e mudanças de práticas residuais da economia popular 
penetradas por tendências e discursos que conformam a lógica cultural do 
capitalismo contemporâneo. Ele se posiciona “na interseção entre a ética indi-
vidualista do trabalho por conta própria e do pequeno comércio tradicional, 
de um lado, e a utopia libertadora prometida pelo discurso empreendedor 
mais moderno entre outros” (COSTA, 2022, p. 42), sem deixar de produzir 
tentativas de acomodação, contradições, tensões e confl itos na relação entre 
as duas dimensões.
Endividamento de baixa renda
Na década de 1990 e na primeira década do século XXI, observou-se a 
expansão do sistema de crédito na direção das periferias. Os bancos organi-
zaram novas estratégias para aumentar seus resultados fi nanceiros e optaram 
pela construção do mercado de crédito aos mais pobres, gerando novas for-
mas de concessão de empréstimos e ampliando o acesso ao cartão de crédito 
(SCIRÈ, 2011). Deve-se ressaltar que a política pública de assistência social 
também promoveu a “bancarização” do pobre. Os benefícios, movimentados 
apenas por meio dessas instituições, obrigaram uma massa de periféricos a 
utilizar esse serviço – e mais alguns, anexados aos benefícios por iniciativa dos 
próprios bancos. Ana Sylvia Maris Ribeiro (2015) explica que essa facilidade 
de acesso ao crédito permitiu a ascensão de diversos Microempreendeores 
Individuais (MEI). A autora revela que muitos desses negócios só podem ser 
abertos com a obtenção de créditos, empréstimos e outras “fi nanceirizações”. 
Isso contribui para a criação de um “capital fi ctício” que fi nancia um mercado 
futuro e incerto de relações trabalhistas comerciais. Dessa forma, cada vez 
mais pessoas se tornam “empreendedoras da própria força de trabalho”, cons-
tituindo uma relação que reforça a produção do chamado “capital fi ctício”.
A lógica dessa “reprodução social fi ctícia” (GIAVAROTTI, 2018), isto 
é, baseada no endividamento, implica uma mudança radical na forma pela 
qual as pessoas, sobretudo as populações periféricas, lidam com o dinheiro: 
a gestão da renda baseada no esquema poupança-consumo foi substituída por 
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outro esquema: “crédito-consumo-dívidas”, com a poupança substituída pelo 
consumo imediato garantido pelos cartões de crédito.
O endividamento de baixa renda, em curso nas periferias, atende a diver-
sas demandas do setor popular diante da incapacidade de essa população ser 
explorada em troca de um salário devido ao enorme desenvolvimento das for-
ças produtivas. Em primeiro lugar, o próprio consumo das famílias. O acesso 
aos bens de consumo necessários para a reprodução social aparece mediado 
pelo endividamento como uma condição necessária, afi nal, o crédito é, nesse 
caso, promessa de consumo. Em segundo lugar, esse é o meio de alavancagem 
para lançar um microempreendimento. A compra de equipamento ou estoque 
e as reformas necessárias só são possíveis por meio da assunção de dívidas.
Rentismo periférico
Terra e imóvel são frequentemente mobilizados para a reprodução 
social em situação crítica nas periferias. Marina Paolinelli (2022; 2023) 
analisa essa forma de reprodução social em sua pesquisa45. A pesquisadora 
desenvolve o argumento que a propriedade periférica é mobilizada pelas 
classes populares como uma estratégia de reprodução a partir, sobretudo, 
do mercado informal e popular de aluguéis, que constitui parte considerável 
das pessoas que vivem em situação de défi cit habitacional (PAOLINELLI, 
2023). Esse processo, destaca Paolinelli (2023), tem raízes antigas: Nabil 
Bonduki e Raquel Rolnik (1979, p. 67) demonstram que “grande parte 
dos trabalhadores não possui condições para a compra de um lote e para 
a edifi cação”. Assim, instaura-se nas periferias um mercado de aluguéis 
com uma destacada importância na dinâmica da reprodução social dessas 
pessoas. Do ponto de vista do proprietário periférico, que constrói casas 
para alugar, signifi ca “uma das únicas e a mais frequente forma de inves-
timento possível, dentro de suas possibilidades, que acrescenta uma renda 
suplementar ao seu salário e que não está sujeita a oscilações existentes 
devido à instabilidade no emprego” (BONDUKI; ROLNIK, 1979, p. 68). Os 
autores percebem que frequentemente a construção das moradias em áreas 
periféricas, a esmagadora maioria das vezes por regimes de autoconstrução, 
envolve a construção também de casas para aluguel46.
45 Apesar de Paolinelli (2023; 2022) utilizar a expressão rentismo de baixo, apoiando-se, sobretudo, na ideia 
de uma “neoliberalismo de baixo” apresentada por Gago (2018), aqui utilizo a expressão rentismo periférico 
para dar ênfase ao rentismo que se desenvolve no interior da periferia.
46 Bonduki e Rolnik (1979) descrevem alguns casos que antes mesmo da casa do proprietário apresentar 
qualidade de habitabilidade, algumas famílias empreendem na produção de imóveis para alugar, pois é 
uma fonte primordial de acesso a recursos.
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A propriedade de um imóvel, descreve Paolinelli (2023), mesmo infor-
mal e sem validade jurídica, parece ser uma pertinente forma que os grupos 
periféricos encontraram para garantir uma renda [income] a partir da apro-
priação de uma renda fundiária [land rent] advinda da propriedade privada 
(informal) de um imóvel periférico. Há uma miríade de processos para fazer 
com que isso se viabilize: um primeiro tem a ver com o uso intensivo do 
lote, com a construção de barracões de fundo ou com a edifi cação de outros 
andares; há também a forma de manifestação do rentismo periférico pelo 
acesso a novos terrenos, com essas pessoas indo ocupar novas fronteiras de 
expansão urbana; ainda pode ocorrer a formação de um “rentista” de pequeno 
porte por intermédio da compra e da retenção de imóveis visando alugá-los.
Apesar dessa forma permanente, observa-se que algumas mudanças têm 
ocorrido no padrão do rentismo periférico. O padrão de relacionamento de 
alguns proprietários periféricos que alugam moradia (nas suas mais variadas 
formas) se alterou, fortalecendo essa tendência do rentismo periférico. A mora-
dia alugada, portanto, parece ser uma condição necessária para a reprodução 
da vida de parcela considerável nas periferias: do ponto de vista do inquilino, 
que se encontra saltando de viração em viração, já não se vislumbram as con-
dições de adquirir uma casa própria pela compra; mesmo o ato de ocupar é 
limitado pelos altos custos para arcar com a construção. Do ponto de vista do 
locatário, o aluguel que recebe é uma importante complementação de renda 
para a família (PAOLINELLI, 2022).
Atualmente, o que se identifi ca é a produção da escassez de novas terras 
periféricas, alterando a dinâmica de disputa pelo acesso a elas (GUERREIRO, 
2020, s.p.). Segundo Isadora Guerreiro (2020), resultados de pesquisas recen-
tes indicam que a população nas periferias brasileiras está mudando, indicando 
uma tendência de “inquilinização” das periferias. Isso é resultado de um 
processo de crise social generalizada que restringe os recursos das famílias 
periféricas e limita o acesso à moradia.
Ilegalismos populares
Nas periferias, existe um complexo arranjo de ilegalismos populares que 
garantem a reprodução de parte da população periférica e é gerido por meio de 
negociações tácitas com os diferentes grupos que intervêm e atuam nas perife-
rias. Gabriel Feltran (2011) em suas inserções etnográfi cas, percebe a expansão 
do mundo do crime como uma referência social nas periferias decorrente de 
uma profunda transformação: o que funcionava como pilar fundante da dinâ-
mica social das periferias em seu período de formação, nas décadas de 1970 
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e 1980, ruiu. As periferias eram um espaço de relações sociais estruturadas 
pela categoria trabalho, pelas ações coletivas populares, pela dominância da 
moral católica, pela centralidade da família e por sua perspectiva de ascensão 
social. Todas essas esferas mantinham a coesão interna desses ambientes e se 
confrontavam com o mundo do crime. Entretanto, atravessa-se um momento 
de crise – crise do emprego formal, do trabalho, do catolicismo, do projeto de 
ascensão social, bem como dos movimentos sociais – dentro da qual o modo de 
vida dos jovens foi conformado: o trabalho é incerto e, quando há, é precário. 
Portanto, as saídas criminosas parecem mais plausíveis e o regime normativo 
do mundo do crime mais aceito, pois é uma alternativa de reprodução social 
para os sujeitos periféricos. Feltran (2011) argumenta que, apesar dos matizes 
(que vão de um pai de família que abomina o tráfi co ao próprio tráfi co enquanto 
tal), a fi gura do bandido cumpre, atualmente, a função de garantir a coesão 
social num tecido esgarçado. Existe, agora, uma maior amplitude da circulação, 
interna às periferias, de um marco discursivo próprio do mundo crime que 
disputa os espaços de legitimação nas formas de sociabilidade.
Vera Telles (2011) chama atenção que essa “nova economia política 
dos ilegalismos” está relacionada com a integração econômica globalizada 
que reconfi gura as relações entre legalidade e ilegalidade para além de uma 
dicotomia. É nessa “transitividade entre o universo da lei e o mundo do crime 
que se compõem as microrregulações da vida cotidiana” (TELLES, 2011, p. 
367). Apesar dessa conectividade, ela não ocorre sem confl itos. Com base 
na análise de um arranjo familiar que combina entre seus membros “traba-
lhadores” e “bandidos”, Feltran (2011) demonstra as tensões que emergem 
dessa organização – ambos os lados trocam ofensas e desconfi anças uns em 
relação aos outros. A unidade se dá por um balanço: de um lado, os fi lhos 
trabalhadores sustentam a estrutura do grupo simbolicamente, enquanto os 
fi lhos “bandidos” garantem o sustento material.
Por fi m, há algo a ser dito das organizações criminosas. Elas fun-
cionam como verdadeiros hubs do agenciamento criminal, promovendo a 
unidade nas periferias por meio das formas de solidariedade e cooptação 
produzidas no seu interior (FELTRAN, 2011). O crime organizado possui a 
legitimidade de se constituir como gestor da vida periférica, apresentando 
regras de conduta claras, redes de acesso a mercadorias, serviços e favores 
e o estabelecimento de uma rede de confi ança e segurança. No fi nal das 
contas, as organizações criminosas operam como organizadoras de parte 
da vida social periférica.
A economia dos ilegalismos populares se conecta com a “economia em 
geral”. Feltran (2014) mostra muito bem como o dinheiro não tem problema 
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algum em circular por diferentes regimes normativos, dando coesão onde 
existe confl ito. Os pobres são mobilizados por essa economia, seja como 
clientes, consumidores, operadores, produtores ou intermediários, garantindo 
o ciclo das mercadorias ilegais.
Associativismo popular
A ação coletiva dos movimentos populares é uma estratégia conhecida 
no Brasil e muito importante no processo de urbanização brasileira (CAL-
DEIRA, 2017; HOLSTON, 2013). Trata-se de uma forma de produção do 
espaço urbano realizada pela iniciativa popular, que se baseia em iniciati-
vas coletivas, auto-organização e nas atividades cotidianas dos moradores 
(MARICATO, 1979). O associativismo popular em territórios periféricos 
pode assumir diferentes formas: movimentos sociais, associações de mora-
dores ou de bairro, cooperativas, coletivos e grupos. Ou seja, designa uma 
coletividade organizada e autorregulada com objetivos compartilhados que 
agem coletivamente.
Por meio de diferentes formas de mobilização populares e de ações polí-
ticas, os pobres urbanos conquistam direitos e melhoram suas condições de 
vida. Ônibus, água e esgoto encanado; energia elétrica; asfaltamento; além dos 
equipamentos públicos, como escola, posto de saúde, centro de referência da 
assistência social, entre outros, são importantes elementos para garantir a repro-
dução (CALDEIRA, 2017). Por exemplo, o associativismo popular desem-
penha papel fundamental no provimento das redes materiais que facilitam a 
circulação de pessoas, bens, energia, água, resíduos e informações, garantindo, 
dessa forma, efetivamente, o melhoramento das condições de reprodução social.
As estratégias são variadas: pressão na prefeitura; marchas até a região 
central; abaixo-assinados; reuniões com representantes do poder público, 
entre tantas outras. Com essa pressão, é possível conquistar as melhorias do 
local, frequentemente repleta de confl itos.
A presença dos movimentos sociais tem, contudo, maior abrangência 
do que o provimento de infraestrutura. Eles envolvem uma série de ações 
comunitárias como cursos (de formação política, cursinhos pré-vestibular, 
de profi ssionalização), rodas de debate e discussão, formas de recreação, 
grupos de mulheres e antirracistas, hortas comunitárias, entre tantas outras. 
Essas iniciativas servem para fortalecer a consciência de classe em territórios 
populares e ampliar a solidariedade em momentos de crise47.
47 Importante destacar as diversas ações de solidariedade ocorridas em territórios periféricos durante o período 
mais intenso da pandemia de covid-19. Conferir, sobre isso, Canettieri (2021).
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A presença das formas de associativismo popular, portanto, pode ser 
compreendida como uma forma, que possui uma enorme importância, de 
garantir a reprodução social em áreas periféricas. Essas ações incidem na pres-
são às instâncias institucionais, em formas de ação direta de autoprovimento 
de serviços e infraestruturas e em ações de práticas cotidianas de reprodução 
(PAOLINELLI; CANETTIERI, 2019). As várias formas do associativismo 
popular garantem às famílias periféricas uma forma de acessarem condições 
de vida por meio de diferentes estratégias, mobilizando diferentes recursos, 
mas, em geral, dependendo da organização coletiva.
Fraturas e fronteiras periféricas na reprodução social crítica
O conjunto de práticas de reprodução social crítica nas periferias forma 
uma constelação de estratégias para o enfrentamento do mosaico de adver-
sidades que marca o cotidiano dessas populações. Designo essa complexa 
realidade como “fraturas periféricas” que, mesmo disjuntas, formam as bases 
da reprodução de centenas de milhares de pessoas em todo o Brasil. Embora 
a exposição aqui realizada tenha delimitações estanques, como dito, isso 
não ocorre na realidade. Existem “fronteiras” que separam esses regimes 
normativos e de legitimidade, no entanto, como é da natureza das fron-
teiras, as pessoas atravessam-nas com frequência. Uma pessoa tem tão ou 
mais condições de se reproduzir materialmente quanto sua capacidade de 
navegar por esses regimes normativos e de legitimidade, compreendendo 
seus códigos e suas práticas, mobilizando-os de acordo com cada situação 
(BERALDO, 2022). Vera Telles (2011) nomeou esse procedimento de “arte 
do contornamento”, que envolve uma inteligência prática, desenvolvida nas 
experiências cotidianas, e um senso de oportunidade como condição de garan-
tir a reprodução dia após dia.
As formas de reprodução social crítica descritas aqui se misturam com 
frequência. Trata-se de estratégias que as pessoas mobilizam e desmobilizam 
constantemente a depender do contexto. Por exemplo, a forma do rentismo 
periférico é utilizada recorrentemente por redes criminosas objetivando a 
capitalização e alavancagem de suas atividades ilegais (SIMONI, 2020). 
Ou então,vale lembrar que, para iniciar um microempreendimento, muitas 
famílias se veem obrigadas a contrair dívidas para poderem ter alguma 
expectativa de começarem a ganhar dinheiro (GIAVAROTTI, 2018). Impor-
tante destacar ainda que é relativamente comum que os “bicos” aos quais 
as pessoas em condição de viração se envolvem estão, em alguma medida, 
conectados às dinâmicas do assistencialismo de crise de ONGs, dependendo 
de editais e recursos estatais (COSTA, 2022). Não carece de destrinchar 
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cada uma das combinações possíveis: as variações são praticamente infi -
nitas. O que interessa é ressaltar o aspecto complexo das disjunções peri-
féricas, constantemente (re)combinadas para garantir a reprodução social 
crítica. Ou seja, a reprodução social crítica opera nas fronteiras, muitas 
vezes indiscerníveis, entre vários regimes normativos e de legitimidade, 
envolvendo um complexo arranjo de aparatos e instituições, formais e infor-
mais. A constelação de estratégias mobilizadas para a reprodução social 
das populações periféricas está intrinsecamente conectada ao momento 
contemporâneo da reprodução do capital que atinge seu limite interno e 
absoluto, agravando a crise.
Com o aprofundamento da crise, as dimensões da reprodução material 
da vida passam por uma reconfi guração. As formas contemporâneas de 
reprodução ativam circuitos econômicos que transitam nas incertas fronteiras 
do informal e do formal, do ilegal e do legal, do ilícito e do lícito. Importa 
destacar que todas essas linhas se entrecruzam nas práticas sociais da peri-
feria, penetram a economia doméstica e a circulação das mercadorias e o 
jogo social se faz a partir da conexão – não sem tensões e choques – com 
outros circuitos e regimes normativos que se embaralham. Interessante frisar 
que as estratégias para sobreviver na adversidade envolvem composições 
complexas, legitimadas pelas práticas de vida cotidiana dos grupos perifé-
ricos. Para sobreviver na adversidade da periferia, é preciso desenvolver 
uma combinação de estratégias e articulá-las de modo a aumentar sua efi -
ciência de sobrevivência. Ao mesmo tempo, todavia, essa situação acaba 
reproduzindo e atualizando desigualdades históricas que são incorporadas 
ao atual momento do capital: basta pensar como as formas de exclusão 
racial de uma sociedade racista e a permanência da violência de gênero de 
uma sociedade patriarcal são constantemente incorporadas e amplifi cadas 
no contexto de crise48.
Não é possível ignorar o fato de que essa reprodução está, muitas vezes, 
restrita a fazer uma gestão da miséria. Por meio dessas estratégias de repro-
dução social crítica, a vida cotidiana em um contexto de formas sociais 
decadentes continua se reproduzindo. Dessa maneira, ocorre a mercantili-
zação de todas as relações sociais e momentos da vida cotidiana, mas num 
sentido diferente do ressaltado por Henri Lefebvre (2014). Já não ocorre 
uma dominação pela inclusão nas formas sociais do capital, mas pelo seu 
contrário: a exclusão completa e absoluta das formas sociais de reprodu-
ção social próprias do capital. Essa dinâmica contraditória não extingue a 
48 Aqui, tenho em conta exatamente a formulação de Roswitha Scholz (2008, s.p. - tradução minha): “Ora, 
deduz-se precisamente da estrutura da dissociação-valor, como forma fundamental, que no capitalismo a 
estratifi cação social, a desclassifi cação e a exclusão são defi nidas como necessárias”.
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monetarização da vida e a mercantilização do cotidiano. Cibele Rizek (2022, 
p. 57) identifi ca que as formas de governo diferenciado que foram instauradas 
nas periferias, que estimulam o desenvolvimento das formas de reprodução 
crítica descritas aqui, “criavam e recriavam (em vez de se contrapor e neutra-
lizar sua ação) mercados” das mais variadas naturezas: políticos, religiosos, 
de práticas ilegais, culturais, entre tantos. Ao mesmo tempo, essas mesmas 
práticas de gestão diferencial do território produziram formas de violência 
(MACHADO DA SILVA, 2004) que já não apontam para a transformação 
social49, mas para uma espécie de reprodução da crise, cada vez mais geren-
ciada de forma securitária.
Considerações fi nais
O enquadramento que sugiro pode contribuir para refl etir sobre a “con-
fl uência entre urbanização, reprodução social e as transformações na compo-
sição de classe” (GRAY, 2022, p.811) a partir da análise da vida cotidiana nas 
periferias. A forma de reprodução social na periferia ocorre de maneira crítica, 
isto é, imersa no contexto de crise do capital. Embora as formas de garantir a 
reprodução dos indivíduos, famílias e grupos se deem fora da relação propria-
mente imediata entre capital e trabalho, elas estão submetidas ao imperativo 
da mercantilização e da monetarização da vida. No entanto, destaca-se que, 
ainda que tenha ganhado novos conteúdos com o aprofundamento da crise, 
a condição periférica, desde sempre, já era o anúncio da crise. Com o desen-
volvimento desta, veremos um movimento de generalização da reprodução 
social crítica e da forma-periferia.
A condição de precariedade que marca a forma-periferia possui também 
uma historicidade. A expressão espacial de formas precárias, informais, irre-
gulares e ilegais nada tem a ver com situações atávicas ou arcaicas. Como 
vimos, essa expressão espacial foi condição para a realização da forma-valor 
na periferia do capitalismo, agora essa expressão é o resultado do desenvol-
vimento e aprofundamento da crise do capital.
Espero ter sido possível demonstrar que periferias são espaços de grande 
complexidade, marcados por fraturas e fronteiras que delimitam, em seu 
próprio interior, diferenças de regimes de normatividade e de legitimidade. 
Reconhecer essa complexidade, constituída como um mosaico de práticas 
sociais, signifi ca também reconhecer que os indivíduos estão sempre tran-
sitando entre diferentes regimes normativos para garantir sua reprodução. 
49 Por exemplo, Roberto Schwarz (1999) rastreia elementos dessa sociedade violenta nos livros Cidade de 
Deus, de Paulo Lins, e Estorvo, de Chico Buarque.
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Diferentes composições entre o formal e o informal, o legal e o ilegal se 
manifestam nas periferias, mesmo diante de processos gerais que precari-
zam as relações cotidianas e ampliam as vulnerabilidades à que a população 
periférica está sujeita. Novas confi gurações e mediações surgem nos espaços 
periféricos, e devem ser descritas e analisadas para melhor se compreender 
as liminaridades, porosidades, diferenças e indiferenças que ocorrem nes-
ses territórios.
À guisa de conclusão, gostaria de sugerir que, apesar da diversidade 
de maneiras de manifestação dessa reprodução social crítica, existe uma 
unidade sintética ao processo dada pelo que se pode chamar de forma-pe-
riferia, que parece esclarecer o processo de colapso e permite colocar em 
destaque o derretimento das formas sociais anteriormente erigidas no sistema 
produtor de mercadorias.
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A CRÍTICA À PRECARIEDADE
Rosangela Nair de Carvalho Barbosa
DOI: 10.24824/978652515286.8.149-176
O tema da precariedade tem tomado a agenda de debates acadêmicos e 
profi ssionais, fi gurando como uma expressão recorrente, em todo lugar, desde 
o fi nal do século passado. A incidência dessa contenda,todavia, nem sempre 
é acompanhada de precisão teórica e analítica a respeito de que fatores da 
realidade são reconhecidos no termo guarda-chuva precariedade e que fun-
damentos os explicam.
O vocábulo tem sua raiz na língua latina como precarius, designando 
a qualidade de algo incerto, de pertencimento alheio, revogável, passageiro 
ou de baixa estabilidade. Precariedade diz respeito a um estado ou situação 
instável, adversa, insegura e suscetível à invalidação, ainda que o envolvido 
dependa dos bens ou serviços que temporariamente lhe eram disponibilizados. 
Nas Ciências Sociais, particularmente, a precariedade costuma ser referida à 
insegurança e instabilidade das condições de vida e trabalho no capitalismo, a 
partir dos anos de 1970. Nesse enquadramento, na literatura, o termo coirmão 
precarização diz respeito ao fazer-se precário, ou seja, envolve o paulatino 
processo e confl ito social de rebaixamento das condições e relações de trabalho 
que ainda não estão vilipendiadas (DRUCK; THÉBAUD-MONY, 2007)50.
O problema é que essa instabilidade e incerteza social não é uma questão 
nova no capitalismo, mas constitutiva da natureza social do modo de produção 
capitalista, ainda que desde 1970 apresente mudanças qualitativas em razão do 
acirramento das contradições internas provocadoras de limites à valorização 
do valor, impelindo a barbarização da vida51.
Este capítulo aborda a precarização das condições de vida e trabalho como 
assentamento da lógica da sociedade capitalista, determinada pela natureza 
50 A partir de diferentes ângulos teóricos Guy Standing (2013), Ruy Braga (2012, 2017) e Alves (2013) debatem 
acerca da constituição social do precariado, referindo-se aos indivíduos atingidos pelas formas precárias 
de vida e trabalho.
51 Evidente, que compreendemos que há uma alteração qualitativa nos últimos quarenta anos, na medida em que 
o ápice dos limites e contradições internas da sociabilidade capitalista carrega o novo tempo para uma acirrada 
reestruturação capitalista mundial com picos de agravamento em 2000 e, sobretudo, em 2008. O esgotamento 
do modo técnico-operacional de aumento da produtividade dos “trinta anos gloriosos” impactou o consenso social 
que sustentava esse ciclo virtuoso do capitalismo, provocando a colisão da associação distribuição de renda aos 
assalariados e acumulação de capital. Para variados estudiosos é um rompimento com o pacto social existente 
desde o pós-Segunda Guerra e que provoca o esgarçamento do tecido social (CASTEL, 1998; BOURDIEU, 1998, 
2008; POLANYI, 2000), colocando em ruínas o consenso social em torno do trabalho assalariado fordista. Para 
outros, expressa a crise estrutural do capital, em sua reprodução ampliada, conforme mencionaremos adiante.
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intrínseca da mercadoria e de suas contradições. Inicialmente, aborda a ênfase 
do tema nas Ciências Sociais, que o associa, principalmente, à decadência 
do pacto social fordista. Em seguida, o texto interpreta alguns fundamentos 
centrais da lógica do capital, destacando a indissociabilidade da insegurança 
social, do modo de ser da riqueza capitalista, efetivamente provocadora de 
verdadeiros dramas humanos resultantes das vidas vividas à deriva. Por fi m, o 
texto conclui sobre a importância do avanço da crítica do fetiche da segurança 
dos contratos fordistas para que se possa avançar na compreensão do core das 
determinações da precariedade, da vida subsumida às condições capitalistas.
Alguns parâmetros do debate
A precariedade emergiu como tema relevante nos estudos sociológicos 
franceses, nos anos de 1980 (BARBIER, 2005), abarcando distintas expres-
sões sociais, decorrentes da nova onda de desemprego de longa duração, de 
trabalhos não cobertos por contratos legais e por proteção social (CASTEL, 
1998), assim como da emersão de novas atividades de prestação de serviços, 
na fl exibilidade laboral pós-fordista (GORZ, 2004). Outros estudos franceses 
enfatizaram, desse quadro, a descoletivização laboral da indústria com a rees-
truturação produtiva, a segregação das periferias urbanas e a heterogeneidade 
das formas de trabalho, confi gurando verdadeiros entraves ao entrosamento 
social, além de situarem o desalento da vida vivida no capitalismo, em razão 
da remuneração baixa e incerta (BOURDIEU, 1998).
O ponto de partida da abordagem da precariedade envolve, nesse diapa-
são, uma crítica à neoliberalização do capitalismo e às consequências dele-
térias sobre as condições de vida e trabalho, incluindo a atomização dos 
indivíduos sociais. E, com efeito, para a Sociologia francesa essa precariedade 
atinge, de algum modo, a todos os assalariados, sendo que as situações mais 
drásticas envolvem pungente desestruturação da existência humana, com o 
futuro incerto para os cuidados materiais, para as relações afetivas e para as 
insurgências coletivas contra esse abismo social. Por outro lado, para os que 
conseguem manter os empregos com relativa segurança social resta a angústia 
avassaladora com o espectro da (sempre) possível substituição eminente, tendo 
em vista o denso exército de trabalhadores desempregados52.
52 É válido acrescentar que esse universo de ponderações sobre as condições de vida e de trabalho no 
capitalismo infl uenciou também a OIT (Organização Internacional do Trabalho) que passou a caracterizar 
o trabalho precário como aquele regido por contratos de duração restrita (temporário, intermitente, casual), 
crescentemente menos normatizado por regulações públicas e com proteção frágil contra demissão; baseado 
em relações de trabalho camufl adas e trianguladas como subcontratação, estágios, cooperativas ou empre-
sas-plataformas, além de gestão individualizada do trabalho, tendência a impedir a organização sindical e 
condições laborais inseguras com restrição do salário, das condições de saúde e segurança ocupacional, 
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LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 151
Efetivamente, o debate francês sobre a precariedade – que infl uenciou a 
Europa como um todo, assim como o sul global –, referencia-se na observação 
sobre um tipo novo de insegurança social, resultante do reordenamento da 
produção do valor e da fl exibilização do Estado social nos países centrais, que 
outrora mantiveram uma cesta abrangente de segurança social pública e de 
empregos. Portanto, a precariedade escoa do novo ciclo do capitalismo, com 
a queda estrutural do emprego, a desregulação do trabalho, o rebaixamento 
da renda e a diminuição da ação do Estado social, como expressão de uma 
época histórica específi ca do capitalismo, a partir dos anos de 1970. Então, a 
precariedade é problematizada, principalmente, à luz da segurança social e da 
renda do trabalho, sendo ela tanto maior quanto mais rebaixado forem esses 
fatores. Mas, a precariedade também pode decorrer, de acordo com os estudos, 
do trabalho intenso que provoca adoecimentos, letalidade e sobre-exploração, 
sendo capaz de atingir, inclusive, o núcleo mais estável da força de trabalho53.
Por outro lado, a própria ruína da forma-emprego cria outros destroços, 
pois o alto desemprego igualmente provoca a reprodução de ocupações regu-
lares de não-emprego, ampliando, nessas condições, a escala de trabalhadores 
que vive em condições de vida instáveis, de modo transitório, por longo tempo 
ou para sempre, empurrados para a sarjeta comum dos supranumerários54.
acrescido de ausência de promoção da qualifi cação e do crescimento em carreira. Para essa agência mul-
tilateral, o quadro de fl exibilização, além de baixa proteção jurídica e atuação sindical, provoca expansivo 
deslocamento de riscos dos empregadores para os trabalhadores (OIT, 2011).
53 Essa é uma ponderação recorrente nos estudos do trabalho, como o faz Linhart quando enfatiza o sentimento 
de precariedade como uma variável pertinenteàs condições de saúde do trabalhador, em razão das exigências 
de intensidade do trabalho que leva a que os trabalhadores estejam permanentemente preocupados com a 
possibilidade de não terem condições de cumprirem as metas, o que os levariam a não se sentirem seguros ou 
protegidos em seus postos de trabalho, tornando o futuro aleatório. A autora chama isso de precariedade subje-
tiva, inerente ao assalariado estável que mesmo não compondo o exército de desempregados, vive a tormenta 
da incerteza no trabalho, por não poder se fi ar na experiência, competência, habilidade e rede de sociabilidade 
laboral, necessitando se esforçar continuamente para atingir os objetivos fi xados pela empresa. Sem contar 
com amparo coletivo, dada a individualização das relações de trabalho, dissemina-se o empreendedorismo 
na gestão da carreira e, portanto, a viva competição entre os trabalhadores. “O resultado é, frequentemente, o 
medo, a ansiedade, a sensação de insegurança (...) o sentimento difuso de (...) ser obrigado a cometer erros 
para atingir objetivos (...) erros que (também) poderiam justifi car um afastamento.” (LINHART, 2014, p. 46).
54 O problema da população em excesso no capitalismo não é um desafi o dos dias de hoje, nem mesmo a 
polarização em torno da heterogeneidade do trabalho. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), nos 
anos de 1960, classifi cou o trabalho na forma emprego (com contrato de trabalho, regido por legislação 
trabalhista, realizado em empresas formalizadas do mercado tipicamente capitalista) como trabalho for-
mal e chamou de trabalho informal aquele realizado sem contrato de trabalho e em formas econômicas 
pré-capitalistas, observável nos países periféricos do capitalismo. Já nos anos de 1980, a OIT, tratou as 
mudanças no trabalho capitalista mundial por meio das noções de emprego padronizado versus empregos 
não-padronizados. O emprego padronizado era o emprego em tempo integral, contínuo e estável, represando 
os trabalhadores em trajetória ocupacional com um único (ou poucos) empregador(es). Essa modalidade 
envolvia também salário para sustento da família, acesso às políticas públicas (apoio à reprodução social), 
legislação protetiva do trabalho e representação sindical. O emprego não-padronizado era a negativa ou a 
insegurança em todos esses quesitos. A base da sociedade salarial europeia envolvia esse emprego-padrão, 
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Os impasses dessa refl exão merecem nosso destaque, pois a morfologia da 
precariedade descritiva apela para os traços fenomênicos das relações sociais 
de produção capitalistas contemporâneas em torno do neoliberalismo e, ainda 
que esses diagnósticos tenham papel no debate teórico e político, não expõem 
per se as determinações fundamentais desse quadro societário. A despeito das 
diferenças entre essas interpretações é possível identifi car que a maioria delas 
se apoia na economia política do reformismo, requerendo a constituição de 
uma nova regulação no capitalismo da era globalizada. O problema exposto 
por elas é a integração ou a coesão social na institucionalidade da democracia 
burguesa, quando trabalhadores são empurrados para maior insegurança, para 
a assimilação de uma identidade social negativa e para a apatia provocadora 
do suposto radicalismo despolitizado (BRAGA, 2012, 2017).
Se o estatuto do trabalho assalariado fordista canalizava o confl ito capital/
trabalho – com a institucionalização de Estado social, interface com sindicatos, 
negociação coletiva, consumo de massas -, quando o trabalho atípico vira qua-
se-norma da economia capitalista – com o trabalho sem forma (OLIVEIRA, 
2013) – parte dos críticos da precariedade chamam a atenção para a corrosão das 
instituições. Por isso, o que propõem é recompor o Estado, no sentido de renovar 
as bases do compromisso capital/trabalho na era da acumulação fl exível, para 
restaurar os mecanismos de regulação social. Isso signifi ca o debate em torno 
do Estado neoliberal, por não ser ele uma alternativa viável para a integração 
na sociedade, portanto, questionam o modelo de regulação e não o capital55.
ao menos no centro e no norte do continente. Todavia, o oposto, o emprego não-padrão, era invisibilizado 
nessas regiões ainda que envolvesse segmentos de trabalhadores expressivos como mulheres e migrantes 
(ou seus descendentes) que difi cilmente participavam da experiência laboral padrão. Esse modo dominante 
de pensar o trabalho (emprego-padrão) tinha o efeito ideológico de positivar o enquadramento fordista e 
deixar na penumbra o trabalho e as condições de vida que atravessavam a maior parte do planeta. No 
capitalismo dependente, por exemplo, fortaleceu-se o enquadramento dos bons trabalhos como aqueles 
com contrato ou “carteira assinada” (formais) e os demais como informais, repletos de precariedade. Nesse 
caso, a saída era ter como horizonte o crescimento dos trabalhos formais, o que invisibilizava o trabalho 
informal – que abarcava a maioria da população ativa -, e de certo modo alimentava o argumento místico 
de que mais modernização capitalista levaria à ampliação de empregos-padrão. Hoje, com as mutações em 
voga, não é possível ver a generalização da forma emprego-padrão e, ao contrário, a precariedade ganha 
expressão e a sua caracterização descritiva tende a relacionar o trabalho temporário – com ou sem contrato 
-, à renda baixa e/ou irregular e à falta de benefícios sociais trabalhistas. O mais arrebatador é que essa 
forma de trabalho historicamente precária da periferia capitalista se generalizou, demonstrando que o que 
se vivia antes no sul global era mesmo capitalismo barbarizante, como futuro antecipado, que, agora, se 
espalhou no novo tempo do mundo, conforme refl etiu Oliveira (2013) e Arantes (2023).
55 Esses estudiosos tendem a se apoiar em Polanyi (2000), para quem, a mercantilização da terra e do trabalho, 
assim como a dinâmica desmesurada desse processo aniquila o que ele chama de a própria substância da 
sociedade, o sentido coletivo das relações entre os homens e deles com a natureza, portanto dos próprios 
valores de uso. Essa degradação tenderia a ruir também com o próprio mercado e essa contradição seria 
o substrato da história moderna. A solidariedade fordista, com as formas sociais de regulação do mercado, 
serviu como boia de salvação para as contradições perenes da mercantilização. O Estado e o sindicato 
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De acordo com BRAGA (2012) trata-se da nostalgia do fordismo no 
debate europeu, visando a institucionalização de novas relações que possam 
domar o capital e integrar os trabalhadores. Ao fundo, não deixa de ser uma 
via ideológica de passivização dos confl itos e apatias em favor da moderni-
zação da gestão das ruínas do capitalismo. Sem alcançar as determinações 
sociais, concentram-se nas fl exiseguridades (FLEYSSINET, 2009), ou seja, 
nas possibilidades de viabilizar alguma ocupação aos trabalhadores nas suas 
trajetórias fl exíveis no mercado ou assistência social aos empurrados para os 
porões da usina de imprestáveis para o capital.
O movimento crítico contrário, que queremos enveredar, é o de buscar 
os fundamentos da mencionada crise, evidenciando seu caráter estrutural e 
sistêmico, pois atinge o coração do capitalismo, o cerne da acumulação de 
capital, tornando a sua reprodução mais barbarizante (MENEGAT, 2019). A 
precarização das condições de trabalho e de vida caracteriza-se como resposta 
do capital ao seu caos para valorização do valor – em contexto não expansivo 
do valor -, desencadeando um amplo processo de transformação da morfo-
logia do trabalho e da proteção social, que signifi ca desvalorização da força 
de trabalho, ampliação do capital constante na economia, encurtamento do 
trabalho vivo, diminuição da distribuição do mais-valorpara o Estado Social 
e abertura de novas esferas de negócios em áreas ainda não capitalizadas 
(serviços e novos extrativismos da natureza).
A priorização da análise dos fundamentos e das contradições internas da 
dinâmica capitalista não desconsidera as manifestações históricas da realidade 
concreta. Por isso, detectamos que a partir de 2008, o mundo capitalista vive, 
de fato, um novo fl uxo de precariedade, como resultado dos ajustes austericidas 
do capital para fazer frente ao curto-circuito fi nanceiro iniciado no mercado das 
hipotecas norte-americanas e reverberado globalmente. Esse marco é antecedido 
pelo conhecido quadro neoliberal do regime pós-fordista encetado a partir dos 
anos de 1980 e que, na primeira fase, foi responsável pelo deslocamento espacial 
da produção, pela desregulamentação dos mercados, pela hiperfi ccionalização da 
economia (dispositivos fi nanceirizados), pelo crescente desmanche dos direitos 
trabalhistas e pelo enxugamento dos serviços públicos. No contexto pós-2008, 
aprofundam-se esses fundamentos neoliberais com a generalização da preca-
riedade, espalhando com mais ardor a insegurança social56.
eram a estrutura de emergência que canalizava o antagonismo para o curso da cidadania salarial (proteção 
social e carreira ocupacional), a nosso ver, num período peculiar do capitalismo, quando o expansionismo 
do valor estava em alta, sendo outra a situação na crise aberta a partir dos anos de 1970.
56 A resistência a essa reacomodação neoliberal do capitalismo não deixou de vir à tona e a juventude mundial 
reagiu em diversos pontos geopolíticos. Esses escombros mobilizaram insurgências contra a desenfreada 
expropriação social, contra as privatizações, o reordenamento do trabalho, o alto custo de vida e a violên-
cia sobre a população acantonada nas periferias urbanas. Contramovimentos de novo tipo, de natureza 
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No entanto, superar a restrição do debate da morfologia neoliberal do traba-
lho têm possibilitado a abertura de novas veredas investigativas. Dörre (2022), 
por exemplo, afi rma que uma nova etapa dos estudos se inicia na Europa, com o 
necessário reencontro da Sociologia com os estudos marxistas para aprofundar 
a compreensão sobre a sociedade precária, com a generalização de ocupações 
com baixa remuneração, com ampliação das ocupações relacionadas aos servi-
ços pessoais e com o crescimento do emprego de curta duração por toda parte. 
Ainda que a abordagem morfológica descritiva tenha bastante espaço em seus 
estudos, o autor considera o contexto atual como uma nova fase do capitalismo 
que engendra uma mobilidade social circular ao assalariado, com o trabalhador 
dependendo de seguro-desemprego, mesmo estando ocupado, devido à baixa 
remuneração, transitando entre “desemprego, trabalho substituto socialmente 
fomentado e empregos precários” (DÖRRE, 2022, p. 111) com, na melhor das 
hipóteses, uma movimentação horizontal na pirâmide social, quando não a 
derrocada para patamares mais baixos em termos de condições de vida.
Para o sociólogo, esse drama merece ser criticamente compreendido, 
superando-se também o conhecimento patriarcal que desde sempre, na Europa, 
tomou como referência as condições estáveis de trabalho, de homens brancos. 
As formas de trabalhos fl exíveis (atípicos, informais, temporários) mesmo nos 
países centrais, sempre abarcaram mulheres e migrantes, sendo que agora estão 
ingressando no radar da crítica e, por isso, a importância de ampliar a pesquisa 
sobre a multidimensionalidade das expressões da precariedade, abrangendo as 
dimensões de classe, de gênero, de etnia/raça e de nacionalidade/regionalidade. 
Em adição, o autor acentua que as condições de vida instáveis atingem também 
indivíduos não integrados no trabalho remunerado por serem inativos – crianças, 
jovens e aposentados - , o que signifi ca que de algum modo, a instabilidade social 
que marca a precariedade não envolve somente o indivíduo (trabalhador ocu-
pado), mas repercute sobre o entorno, nas relações sensíveis em que está inserido 
e isso não é adequadamente problematizado e dimensionado nas pesquisas57.
espontânea, contra esse novo estágio do capitalismo, que amplia a mercantilização e cria mais empecilhos 
para o acesso ao trabalho e a renda. O cerne da mobilização seriam os destroços da fi nanceirização. ata-
das à denúncia das relações de opressão, exploração e espoliação por forças fi nanceirizadas mundiais. A 
precariedade da condição proletária começou a aparecer, então, como o novo meio de possível unifi cação 
dos subalternos (BRAGA, 2012, 2017).
57 Para Dörre (2022), ainda que a precariedade, hoje, atinja a todos que dependem do assalariamento, a 
compreensão mais próxima da complexidade da realidade social exige que se pense esses marcadores 
sociais mencionados e a conexão entre classe e riscos de precariedade; frações de classe e de segmento 
social e a maior permeabilidade à insegurança e à instabilidade social. Mesmo que não forme uma classe 
à parte como precariado, tudo indica que os efeitos materiais e subjetivos na vida do assalariado merecem 
ser apreciados, inclusive, para entender essa universalização do trabalho abstrato e a menor expressão dos 
conteúdos particulares do trabalho concreto, que aprofundam os efeitos humanos negativos, ao passo que 
possibilitam entender e atuar sobre o nexo comum dos trabalhos, desviando de dispositivos corporativos 
hierarquizantes que tradicionalmente marcaram as identidades laborais fordistas.
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LABIRINTOS DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DAS CONDIÇÕES DE VIDA 155
Essa reviravolta nos estudos do trabalho exige, segundo Döre, considerar 
as conexões nas cadeias globais de valor, que como totalidade mostram indí-
cios importantes de que estamos diante de uma sociedade precária mundiali-
zada, não podendo essa dinâmica ser restringida a uma parte do mundo, a um 
ramo econômico ou a um capitalista particular, como comumente foi tratado 
- casos à parte ou como fruto do subdesenvolvimento do hemisfério sul58.
Esse universo de novas vias de estudos do trabalho já era abordado, 
em parte, na crítica de Alves (2013) e Antunes (2020). De Alves (2013), por 
exemplo, podemos ressaltar, em especial, a abordagem histórica da precari-
zação das últimas quatro décadas, como parte das novas determinações estru-
turais do capital em crise de valorização do valor, motivo da proeminência 
da fi nanceirização da riqueza e da hegemonia do capital fi nanceiro. Antecipa 
que a precariedade do trabalho é um traço estrutural do capitalismo e que esse 
tempo histórico da crise estrutural altera a sua forma de ser, mas não é uma 
realidade inesperada ou restrita ao pós-fordismo.
Para ele, há uma primeira geração de precarização manifesta no século XIX, 
como amadurecimento do modo de produção concomitante a precariedade sala-
rial extrema, que inclusive alimentou as lutas sociais por regulação do trabalho e 
as necessidades de ampliação de mercado (matérias-primas, trabalho e consumo). 
O capital monopolista, entre as duas grandes Guerras Mundiais associou o sis-
tema de produção (e sua expansão geopolítica) com a redistribuição de riqueza 
nos países cêntricos, envolvendo direitos trabalhistas, salários relativamente 
crescentes, carreira estável, organização sindical e serviços sociais públicos.
A segunda geração de precarização provocou a corrosão desse estatuto 
salarial, a partir dos anos de 1970, abrindo um novo tempo histórico de degra-
dação e incertezas nas condições de vida e trabalho. Entretanto, o novo (e 
precário) mundo do trabalho abriria, segundo o autor, uma terceira geração 
de precariedade que diz respeito à precariedade existencial provocada pelo 
emprego generalizado de tecnologia informacional e do Toyotismo (método 
just in time) na produção e na totalidade da vida social, engendrando maior

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