Prévia do material em texto
por um caminhão cheio de chocolates! Para mim o senhor é mais importante do que minha coleção de bonecas! Mais importante do que meus papéis de carta! O senhor é o máximo! REI: Está bem, filha, já disse o bastante. Puxa, você gosta mesmo de mim! Aqui está a sua parte do reino. (rasga o mapa e entrega um pedaço a ela, que sai feliz) REGANE: (inclinando-se mais que a primeira) Meu pai, faço minhas as palavras de minha irmã e ainda digo mais: o senhor é mais fofo que uma cama de algodão-doce! Mais alegre e colorido que um pote de jujubas! Mais perfumado que brilho labial com cheirinho de frutas! Mais lindo que aquele vestidinho rosa que está lá na vitrine esperando por mim e ninguém foi comprar... Eu quero, eu quero, eu quero! (começa a ter um ataque de consumismo, mas perce- be e se recompõe) Ahã, bem, resumindo: o senhor é simplesmente deslumbrante! REI: A ti e aos da tua descendência, pertença para sempre esta outra parte do nosso reino. (ele rasga outra parte do mapa e dá para Regane, que a pega e sai) O bobo volta e observa. REI: E agora você, Cordélia, minha filha mais moça, minha alegria. O que poderá dizer que mereça um pedaço de reino mais opulento que o de suas irmãs? Cordélia volta amordaçada e demora um pouco para responder. CORDÉLIA: (se livrando da mordaça) Nada, papai. REI: Como assim, nada? CORDÉLIA: (aparte) Infeliz de mim que, de tão tímida, não consigo trazer o que sinto no coração até a boca. REI: Vamos, fale! CORDÉLIA: Meu bom senhor é meu rei e pai, me educou e me protegeu, por isso o amo como é meu dever, nem mais nem menos. REI: Pense bem, você está prejudicando sua herança. CORDÉLIA: Senhor, meu amor pelo senhor é mais profundo do que a minha fala. Mas não poderia dizer que o amarei mais do que possa vir a amar o meu futuro marido. REI: (furioso) Pois, então, fique com sua verdade como seu dote. De hoje em diante, não tenho mais você como filha. Para mim, você não existe mais: quem não existe não precisa de herança. Suma da minha frente, desapareça! Nunca mais quero vê-la nestas terras. CORDÉLIA: Mas, senhor... REI: Desapareça, eu já disse! Cordélia sai em prantos. BOBO: Olha, vossa majestade me desculpe, mas isso não está certo. Se eu fosse o senhor... REI: Mas não é! Eu sou o rei, um grande rei. E você não passa de um bobo boneco nanico. BOBO: O senhor está se deixando levar pelas aparências. Na verdade, Cordélia é a filha que mais o ama. REI: Cuidado, bobo! Estou com a mão fechada, pronto para socar você. descendência: parentesco baseado em laços de sangue. opulento: que é muito rico, luxuoso. amordaçado: que está com mordaça cobrindo a boca. nanico: quem é muito baixo. 151 151 Reprodução do Livro do Estudante em tamanho reduzido. 146-185_Telaris7_LP_MPU_U05_PNLD24.indd 151146-185_Telaris7_LP_MPU_U05_PNLD24.indd 151 8/5/22 1:42 PM8/5/22 1:42 PM baranga: mulher muito feia. BOBO: Pode socar! Mas, antes, escute este seu bobo! O senhor está sendo insensato. Primei- ro dividiu seu próprio reino e ficou sem nada, depois expulsou a única filha que realmente o ama! É, preciso me conformar: o senhor é mesmo o maior de todos os bobos. O rei joga um sapato no bobo, que desvia. BOBO: (aparte) Ih, lá vêm aquelas barangas de novo... Quer saber? Vou me mandar. Não vou ficar aqui com esses malucos, mas sim procurar outro emprego, outro rei. (ele foge) CENA 4 Entram Goneril e Regane, deliciando-se com seus mapas. REI: Agora só tenho vocês duas. Acabei de expulsar para sempre a desalmada de sua irmã e quero que fiquem com a parte do reino que estava destinada àquela traidora. (sai) As duas avançam sobre a terceira parte do mapa até rasgá-la ao meio. Depois cantam: GONERIL E REGANE: Ha, ha, ha, ha... Agora somos donas de tudo, mandamos na terra e no mar. Estamos ricas e temos poder e ninguém mais irá nos segurar. Nossa irmã que só diz a verdade ficou sem nada e vai se mandar. Quem é esperto mente o que sente, quem é boboca não sabe inventar. Agora somos donas de tudo, o velho rei foi fácil de enganar. Somos o máximo, as maiorais, e a maninha vai se amargar. Ha, ha, ha... (Saem.) [...] BRANDINI, Angelo. O bobo do rei. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2015. p. 10-20. Interpretação do texto Compreensão inicial O texto teatral O bobo do rei é dividido em cenas. No trecho lido, foram reproduzidas as cenas 1 a 4. 1 A cena 1 tem início com a observação: “Quando o público entra, os atores já estão em cena”. a) Na cena inicial, o que os atores fazem para envolver a plateia? b) Qual é a função do jogo “Eu vou pagar para ver” nessa cena? NÃO ESCREVA NO LIVRO. Jogam a peteca para o público de vez em quando, convidando-o a participar da brincadeira. Esse jogo de representação é uma estratégia para iniciar a peça teatral e, ao mesmo tempo, mostrar ao público o que é a atuação no teatro, evidenciando que os personagens são representados por atores. J o ã o C a ld a s F º/ A c e rv o d o F o tó g ra fo O mineiro Angelo Brandini é autor, diretor, palhaço e ator. Fundador da Cia. Vagalum Tum Tum, também participou do trabalho realizado pelos Doutores da Alegria. R e p ro d u ç ã o /C o m p a n h ia d a s L e tr in h a s Capa do livro O bobo do rei, de Angelo Brandini. 152 152 Reprodução do Livro do Estudante em tamanho reduzido. É importante que os estudantes ob- servem, por meio da linguagem empre- gada no texto, a construção de ideias, de sentimentos e de valores expressos na relação entre as filhas e o rei. 146-185_Telaris7_LP_MPU_U05_PNLD24.indd 152146-185_Telaris7_LP_MPU_U05_PNLD24.indd 152 8/5/22 1:42 PM8/5/22 1:42 PM