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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, 
Meio Ambiente e Recursos Hídricos 
 
 
 
 
CONSEQÜÊNCIAS ECONÔMICAS DAS 
INUNDAÇÕES E VULNERABILIDADE: 
Desenvolvimento de metodologia para avaliação do 
impacto nos domicílios e na cidade 
 
 
 
 
 
 
Vanessa Lucena Cançado 
 
 
Belo Horizonte 
2009 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CONSEQÜÊNCIAS ECONÔMICAS DAS 
INUNDAÇÕES E VULNERABILIDADE: 
Desenvolvimento de metodologia para avaliação do 
impacto nos domicílios e na cidade 
 
 
 
 
 
 
Vanessa Lucena Cançado 
 
Vanessa Lucena Cançado 
 
 
 
CONSEQÜÊNCIAS ECONÔMICAS DAS 
INUNDAÇÕES E VULNERABILIDADE: 
Desenvolvimento de metodologia para avaliação do 
impacto nos domicílios e na cidade 
 
Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação em 
Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da 
Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito 
parcial à obtenção do título de Doutor em Saneamento, 
Meio Ambiente e Recursos Hídricos. 
 
Área de concentração: Recursos Hídricos 
 
Linha de pesquisa: Avaliação e gerenciamento de 
impactos e de riscos ambientais 
 
Orientador: Nilo de Oliveira Nascimento 
Co-orientador: Ricardo Machado Ruíz 
 
 
 
 
 
 
 
Belo Horizonte 
Escola de Engenharia da UFMG 
2009 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 C215c 
 
 
 
Cançado, Vanessa Lucena. 
 Conseqüências econômicas das inundações e vulnerabilidade [manuscrito] : 
desenvolvimento de metodologia para avaliação do impacto nos domicílios e na cidade / 
Vanessa Lucena Cançado . — 2009 
 xxiii, 394 f., enc.: il. 
 
 
Orientador: Nilo de Oliveira Nascimento 
 
Co-orientador: Ricardo Machado Ruíz 
 
 Tese (doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Engenharia. 
 
 Bibliografia: f. 357-381. 
 
 1. Recursos hídricos – Desenvolvimento – Teses. 2. Avaliação de riscos ambientais – 
Teses. 3. Inundações – Aspectos ambientais – Teses. 4. Impacto ambiental – Teses. 5. Dano 
patrimonial – Teses. I. Nascimento, Nilo de Oliveira. II. Ruíz, Ricardo Machado. III. 
Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Engenharia. IV. Título. 
 
 
 CDU: 556.166 (043) 
 Ficha elaborada pelo Processamento Técnico da Biblioteca da EE/UFMG 
 
 
 
 
 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
vi 
AGRADECIMENTOS 
Sobretudo ao professor Nilo de Oliveira Nascimento, que me deu todo apoio intelectual para 
realização desta tese. Tive a sorte de tê-lo como o mestre que me introduziu no mundo da 
engenharia ambiental, sempre com uma visão abrangente e rica das relações que envolvem a 
natureza e a sociedade; 
Ao professor Ricardo Machado Ruiz, pela orientação dada aos aspectos econômicos que 
envolvem a pesquisa, de forma sempre precisa e atenta. Agradeço também enormemente a 
ajuda preciosa na parte computacional; 
À professora Sylvie Barraud, minha orientadora durante o período de estágio no INSA de 
Lyon. Agradeço a atenção, disponibilidade e orientação na parte de indicadores; 
À professora Leise Kelli de Oliveira, que me apresentou o “mundo” da simulação de tráfego e 
colaborou imensamente nos aspectos relacionados à questão do sistema de transportes 
presentes nesta tese. Obrigada também pela revisão do texto, pela atenção, generosidade e por 
todo o avanço que pudemos incorporar nesta pesquisa em relação ao tema; 
Aos professores da banca de qualificação, Francisco de Assis de Souza Filho, Alisson 
Barbieri, Márcio Baptista, além do orientador e do co-orientador. Agradeço as análises atentas 
e críticas do trabalho, as quais me serviram de apoio e inspiração para o desenvolvimento 
posterior da tese; 
Às agencias financiadoras da presente pesquisa: FAPEMIG, durante dois anos e meio, Capes 
durante um ano e um mês, ao CNPq, pelo financiamento do meu período de pesquisa no 
exterior; 
À equipe de estudantes que trabalharam intensivamente na pesquisa: ao Brenner Rodrigues, 
pelo grande trabalho feito na parte de utilização do SIG; ao Farney Aurélio, que atuou na 
simulação do tráfego com presteza e eficiência e ao Julian Eleutério, Vitor do Vale e Vitor 
Queiroz, responsáveis pela execução da maior parte das modelagens hidrológicas e 
hidráulicas. Agradeço o empenho e esforço desta equipe de trabalho; 
Ao Wilson Borba, em especial na parte das rotinas computacionais em Excel, e ao Douglas 
Sathler, na parte de SIG. À professora Heloísa Barbosa pelas discussões e material sobre o 
sistema de transportes; 
Agradeço ainda ao Rodrigo França, colega a quem freqüentemente recorro nas dúvidas 
relacionadas ao comportamento do rio. Aos demais colegas do grupo de inundações, Rodrigo 
Bonnati e Cristiane Parisi, pela troca de idéias, bibliografia e apoio mútuos. Aos colegas 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
vii 
André Guerra, Nebai Gontijo, Bernardo Furtado e Fernando Pereira pela presteza no envio de 
informações sobre o espaço urbano; 
À Sonaly, especialmente pela assistência ao uso do SPSS. Ao Jorge Ávila, bolsista de 
iniciação científica no Cedeplar, por ter coletado e me disponibilizado grande parte das 
informações censitárias necessárias ao estudo; 
Agradeço à minha prima Ju que já é, desde o mestrado, minha principal consultora informal 
para assuntos de estatística, e que nesta pesquisa colaborou também com informações e 
análises que envolvem o setor educacional; agradeço a Dedé que, ante ao meu tempo curto, se 
disponibilizou a fazer a tradução do resumo para o inglês; 
Agradeço as professores do Programa de Pós-graduação, que sempre se mostraram solícitos 
em discutir e responder as dúvidas de uma estudante “estrangeira”; 
Agradeço aos professores do INSA-Lyon pela acolhida, pelo suporte técnico e discussões 
científicas; 
À UFMG, em especial ao Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e 
Recursos Hídricos e ao Departamento de Engenharia Hidráulica e Recursos Hídricos da 
Escola de Engenharia da UFMG, pelo apoio técnico e científico. Agradeço à Iara e a Jussara 
por toda atenção e apoio logístico; 
Ao Cedeplar, onde fiz as pesquisas no banco de dados do IBGE; 
Agradeço aos meus colegas de pós-graduação pela troca de idéias e pelos bons momentos de 
lazer; agradeço também aos colegas do INSA, pela excelente recepção e discussões sobre o 
trabalho; 
Agradeço enormemente o estímulo e apóio da minha família e amigos, estes imensuráveis; 
Ao Pascal, com quem tive um verdadeiro encontro. Agradeço as revisões críticas dos textos e 
apresentações feitas em francês e, sobretudo, o seu estímulo, serenidade e sensibilidade que 
me possibilitaram a “paz do espírito” para as horas de estudo. 
 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
viii 
RESUMO 
A análise dos impactos das inundações é parte integrante do planejamento e avaliação local, 
regional e global do risco. Na busca de sustentabilidade e segurança no desenvolvimento da 
comunidade, é uma ferramenta para tomada de decisões em todos os níveis de governos. As 
razões para um rigoroso processo de avaliação de danos – potenciais ou pós-desastre – são 
inúmeras e, normalmente, associam-se à dicotomia custo e benefício, uma dualidade presente 
na maior parte dos processos de decisão para a fixação do nível ótimo de projeto e da 
alocação eficiente dos investimentos públicos ou privados no tempo e no espaço. 
Este estudo busca estimar as conseqüências econômicas da inundação sobre os domicílios e a 
cidade, caracterizando os danos diretos e indiretos, mas incorporando também a 
vulnerabilidade, oque implica em avaliar a capacidade de enfrentamento e recuperação da 
população exposta. 
Com este objetivo foi feita uma análise multisistêmica, que incorpora a rede hidrográfica, os 
domicílios, o sistema de transportes e as firmas. Os fluxos monetários da região foram 
definidos a partir das trocas econômicas entre firmas e domicílios. As informações são 
agregadas por meio de uma modelagem computacional em rede. Para verificar as relações 
entre os sistemas e as várias regiões de um espaço urbano complexo foi construído um 
protótipo, o qual procura representar os principais elementos da cidade impactados por uma 
inundação. Adicionalmente, foram criados indicadores detalhados de vulnerabilidade, ameaça 
e exposição a fim de se captar várias dimensões relacionadas ao risco de inundação. 
As simulações feitas possibilitaram verificar a consistência dos fundamentos teóricos 
adotados, a coerência das rotinas analíticas e do banco de dados. A discussão metodológico-
teórica e os resultados obtidos mostraram a viabilidade e potencialidade de aplicação da 
metodologia para análise de impactos ambientais em uma perspectiva ampla e considerando a 
dimensão relacional que envolve os processos. 
 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
ix 
 
 ABSTRACT 
The analysis of flood impacts is an integral part of the planning and of the local, regional and 
global evaluation of risks. In the search for sustainability and safety in community 
development, the analysis of flooding impact is a tool for decision making in every level of 
government and also for risk management. There are several reasons to justify an accurate 
damage evaluation – pre or after disaster – and normally those reasons are connected to the 
cost-benefit dichotomy, a duality that is present in the great majority of decision-making 
processes to determine the most efficient allocation of public or private investment in time 
and space. 
This study tries to estimate the economic consequences of floods upon households and the 
city, characterizing the direct and indirect damages, but also incorporating the vulnerability, 
which implies the evaluation of the capacity of confrontation and recovery of the exposed 
population. 
For this purpose a multisystemic analysis was undertaken, incorporating the hydrographic 
system, the households, the transportation system and the companies. The monetary fluxes 
were defined based upon financial exchanges between companies and households. The 
information was aggregated using a network computational model. In order to verify the 
relationships between the system and the various regions of a complex urban space a 
prototype has been devised. In addition, detailed models of vulnerability, threat and 
exposition were created, to capture the several dimensions related to the risk of flooding. 
The devised simulations have verified the consistency of the adopted theoretical foundations, 
the coherence of the analytical routines and of the database. The methodological-theoretical 
discussion and the results obtained show the viability and the potentiality of applying the 
methodology to the analysis of environmental impacts from a broad perspective, also taking 
into account the relational dimension involving the processes. 
 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
x 
SUMÁRIO 
1 INTRODUÇÃO: O IMPACTO DA INUNDAÇÃO SOBRE AS FAMÍLIAS E 
VULNERABILIDADE.......................................................................................................................................... 1 
2 OBJETIVOS............................................................................................................................................... 11 
3 DANOS DAS INUNDAÇÕES ................................................................................................................... 12 
3.1 DANOS ÀS FAMÍLIAS E AOS DOMICÍLIOS ................................................................................................... 15 
3.1.1 Preocupação em relação ao risco de inundação e impactos na saúde ......................................... 16 
3.1.2 Perturbações da inundação ........................................................................................................... 18 
3.2 DANOS ÀS ATIVIDADES ECONÔMICAS ...................................................................................................... 19 
3.2.1 Danos indiretos potenciais do comércio varejista e prestadores de serviços ............................... 20 
3.2.2 Danos indiretos potenciais das atividades industriais .................................................................. 23 
3.3 INTERRUPÇÕES OU PERTURBAÇÕES NA INFRA-ESTRUTURA URBANA ........................................................ 24 
3.3.1 Perturbações no sistema de transporte ......................................................................................... 26 
3.4 CUSTOS DOS SERVIÇOS DE EMERGÊNCIA .................................................................................................. 27 
3.5 OS DANOS DIRETOS .................................................................................................................................. 28 
4 VULNERABILIDADE A INUNDAÇÕES .............................................................................................. 33 
4.1 AMEAÇA: CARACTERÍSTICAS DA INUNDAÇÃO .......................................................................................... 33 
4.2 ANÁLISE DE VULNERABILIDADE .............................................................................................................. 41 
4.3 MODELOS DE DESASTRE: PRESSÃO E ALÍVIO E ACESSO ........................................................................... 46 
4.3.1 Vulnerabilidade como um processo ............................................................................................... 50 
4.4 A DIMENSÃO ESPACIAL DA VULNERABILIDADE ........................................................................................ 52 
4.4.1 Vulnerabilidade da rede urbana .................................................................................................... 53 
4.4.2 Vulnerabilidade dos domicílios ..................................................................................................... 57 
4.4.3 Vulnerabilidade dos moradores à ocorrência de danos diretos (ferimentos, doenças e morte) ... 61 
4.5 METODOLOGIAS PARA MEDIR A VULNERABILIDADE À INUNDAÇÃO ......................................................... 64 
4.5.1 Procedimentos para padronização de variáveis ............................................................................ 76 
4.5.2 Definição dos pesos ....................................................................................................................... 77 
5 FUNDAMENTOS CONCEITUAIS E TEÓRICOS PARA AVALIAÇÃO DOS BENEFÍCIOS (OU 
DANOS EVITADOS) .......................................................................................................................................... 82 
5.1 O QUE É VALOR? ...................................................................................................................................... 82 
5.2 O BENEFÍCIO DE UM BEM PÚBLICO E COMO ESTIMÁ-LO .......................................................................... 84 
5.3 FUNDAMENTOS TEÓRICOS PARA AVALIAÇÃO DOS BENEFÍCIOS ............................................................... 91 
5.3.1 Economia do bem-estar, utilidade e a análise custo-benefício ..................................................... 92 
5.3.2 A Curva de demanda e a medida de benefício ............................................................................... 93 
5.4 METODOLOGIAS PARA AVALIAÇÃO DE DANOS DE INUNDAÇÃO: TÉCNICAS ANALÍTICAS, SIMULAÇÃO E 
ANÁLISE DE REDE ..............................................................................................................................................99 
6 AVALIAÇÃO DE DANOS: MODELOS ESTATÍSTICOS E ECONOMÉTRICOS ........................ 102 
6.1 MODELOS MICROECONÔMICOS BASEADOS EXPLICITAMENTE NO MERCADO REAL ................................. 102 
6.1.1 Despesas com prevenção/mitigação (defensive / averting Expenditures) ................................... 102 
6.1.2 Custos de relocalização ............................................................................................................... 102 
6.1.3 Método do custo de viagem ......................................................................................................... 103 
6.1.4 Método dos danos evitados à propriedade (property damages avoided method) ....................... 105 
6.1.5 Avaliação dos danos indiretos aos setores comercial, industrial e de serviços segundo o Modelo 
de Middlesex .............................................................................................................................................. 111 
6.1.6 Avaliação dos danos indiretos no sistema de transporte ............................................................. 114 
6.2 MODELOS MICROECONÔMICOS BASEADOS IMPLICITAMENTE NO MERCADO REAL: MÉTODO DOS PREÇOS 
HEDÔNICOS ..................................................................................................................................................... 121 
6.2.1 Considerações metodológicas e limitações ................................................................................. 128 
6.3 MODELOS MICROECONÔMICOS BASEADOS EM MERCADOS HIPOTÉTICOS: MÉTODO DA VALORAÇÃO 
CONTINGENTE ................................................................................................................................................. 130 
6.3.1 Considerações metodológicas e limitações: o que define o comportamento? ............................. 136 
6.4 MODELOS MACROECONÔMICOS E REGIONAIS ........................................................................................ 139 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
xi 
7 UTILIZAÇÃO DE MODELOS DE SIMULAÇÃO E ANÁLISE DE REDE PARA A AVALIAÇÃO 
DOS DANOS DAS INUNDAÇÕES ................................................................................................................. 144 
7.1 MODELOS DE SIMULAÇÃO SOCIAL ......................................................................................................... 147 
7.1.1 Celulares autômatas (CA) ........................................................................................................... 151 
7.1.2 A centralidade do indivíduo na simulação: a modelagem multiagentes ..................................... 153 
7.2 MODELOS DE SIMULAÇÃO DE TRÁFEGO ................................................................................................. 160 
7.3 ANÁLISE DE REDE .................................................................................................................................. 163 
7.3.1 Relações a atributos .................................................................................................................... 163 
7.3.2 Nós e linhas ................................................................................................................................. 165 
7.3.3 Medição da relação ..................................................................................................................... 166 
7.3.4 Seleção dos dados relacionais ..................................................................................................... 167 
7.3.5 Caracterização da rede ............................................................................................................... 168 
7.4 ANÁLISE DE AGENTES E REDE NOS ESTUDOS DE IMPACTOS AMBIENTAIS ................................................ 171 
8 MATERIAL E MÉTODOS: ANÁLISE DO IMPACTO DA INUNDAÇÃO SOBRE OS 
DOMICÍLIOS E SUA PROPAGAÇÃO NA CIDADE .................................................................................. 179 
8.1 HIPÓTESES DO ESTUDO .......................................................................................................................... 179 
8.1.1 Unidade geográfica de análise .................................................................................................... 180 
8.1.2 Pressupostos do sistema .............................................................................................................. 182 
8.1.3 O sistema urbano ......................................................................................................................... 183 
8.2 MATRIZES DE INFORMAÇÕES SOCIOECONÔMICAS .................................................................................. 187 
8.2.1 Matriz domicílio .......................................................................................................................... 188 
8.2.2 Matriz residente ........................................................................................................................... 200 
8.2.3 Matriz firma ................................................................................................................................. 201 
8.2.4 Relacionamento entre as matrizes ............................................................................................... 204 
8.3 BASE ESPACIAL DE ANÁLISE: CONSTRUÇÃO DE UM PROTÓTIPO .............................................................. 207 
8.3.1 Criação da rede viária ................................................................................................................ 208 
8.3.2 Zoneamento, parcelamento e adensamento na ADA e AE ........................................................... 210 
8.3.3 Definição das características das firmas na ADA, AE e nos nós ................................................ 212 
8.3.4 Definição das características dos domicílios na ADA, AE e nos nós .......................................... 214 
8.3.5 Definição das características dos moradores.............................................................................. 215 
8.3.6 Síntese das informações do protótipo .......................................................................................... 216 
8.4 UTILIZAÇÃO DO SIG .............................................................................................................................. 217 
8.5 SIMULAÇÃO DO COMPORTAMENTO DO RIO E INCORPORAÇÃO NO PROTÓTIPO ........................................ 218 
8.6 SIMULAÇÃO DE TRÁFEGO ...................................................................................................................... 222 
8.7 MODELAGEM ECONÔMICA EM REDE ...................................................................................................... 229 
8.8 AVALIAÇÃO DOS DANOS DIRETOS ......................................................................................................... 233 
8.8.1 Avaliação dos danos ao conteúdo dos domicílios (exceto veículos) ............................................ 233 
8.8.2 Avaliação dos danos aos veículos dos domicílios ....................................................................... 234 
8.8.3 Avaliação dos danos à construção do domicílio ......................................................................... 235 
8.8.4 Avaliação dos danos diretos às firmas ........................................................................................ 236 
8.9 CRIAÇÃO DE INDICADORES DE RISCO À INUNDAÇÃO .............................................................................. 237 
8.9.1 Hipóteses de trabalho .................................................................................................................. 237 
8.9.2 Risco aos domicílios .................................................................................................................... 245 
8.9.3 Risco no ambiente econômico .....................................................................................................299 
9 RESULTADOS ........................................................................................................................................ 305 
9.1 SIMULAÇÃO HIDROLÓGICA-HIDRÁULICA ............................................................................................... 305 
9.2 ESPAÇO DE FLUXOS ................................................................................................................................ 307 
9.2.1 Análise dos fluxos globais na ADA e na AE e sua inserção na rede virtual ................................ 307 
9.2.2 Fluxos discretos na ADA e na AE ................................................................................................ 311 
9.2.3 Análise sob a ótica dos domicílios: gastos, emprego e renda ..................................................... 312 
9.2.4 Análise sob a ótica das firmas atingidas: vendas, custos e lucros .............................................. 317 
9.2.5 Análise dos fluxos de tráfego ....................................................................................................... 322 
9.3 AVALIAÇÃO DOS DANOS DIRETOS E INDIRETOS SOBRE OS DOMICÍLIOS E FIRMAS DA ADA .................... 328 
9.3.1 Avaliação dos danos diretos e indiretos sobre os domicílios da ADA ........................................ 328 
9.3.2 Avaliação dos danos diretos e indiretos sobre as firmas da ADA ............................................... 334 
9.4 SÍNTESE DOS INDICADORES DE IMPACTO QUANTITATIVO E MONETÁRIO DO EVENTO.............................. 337 
9.5 INDICADORES DE RISCO E VULNERABILIDADE ........................................................................................ 339 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
xii 
9.5.1 Indicadores de risco para os domicílios ...................................................................................... 339 
9.5.2 Indicadores de risco no ambiente econômico .............................................................................. 347 
10 CONCLUSÕES E PERSPECTIVAS ..................................................................................................... 350 
10.1 CONCLUSÕES .................................................................................................................................... 350 
10.1.1 Modelagem econômica em rede .............................................................................................. 351 
10.1.2 Simulação do tráfego .............................................................................................................. 352 
10.1.3 Análise dos indicadores .......................................................................................................... 352 
10.2 PERSPECTIVAS................................................................................................................................... 353 
10.2.1 Aperfeiçoamento do protótipo ................................................................................................ 353 
10.2.2 Perspectivas com a utilização da proposta metodológica apresentada ................................. 355 
11 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................................... 357 
APÊNDICE I - O VALOR DA VIDA HUMANA ........................................................................................... 382 
APÊNDICE II – INDICADORES DE RISCO FÍSICO E FATORES DE IMPACTO ............................... 384 
APÊNDICE III- VARIÁVEIS DO INDICADOR DE RISCO TOTAL ........................................................ 385 
APÊNDICE IV- VARIÁVEIS DA MATRIZ “DOMICÍLIO” ...................................................................... 386 
APÊNDICE V– TIPOLOGIAS DE GASTO ................................................................................................... 387 
APÊNDICE VI - PADRÕES DE CONTEÚDO POR CÔMODO SEGUNDO AS CLASSES DE RENDA 
FAMILIAR ........................................................................................................................................................ 389 
APÊNDICE VII – TIPOS DE ATIVIDADES DAS UNIDADES ECONÔMICAS ..................................... 390 
APÊNDICE VIII - INDICADORES DE ENCADEAMENTO E FATORES MULTIPLICADORES DA 
PRODUÇÃO ...................................................................................................................................................... 392 
APÊNDICE IX – INFORMAÇÕES E PESOS DOS SETORES NO PROTÓTIPO SEGUNDO CÓDIGO 
CNAE.................................................................................................................................................................. 393 
 
 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
xiii 
LISTA DE FIGURAS 
Figura 1.1 - Etapas na avaliação global do risco ........................................................................ 1 
Figura 1.2 - Da ameaça aos danos .............................................................................................. 3 
Figura 1.3 - Marco analítico para estudo dos danos das inundações em uma cidade ................ 5 
Figura 3.1 - Conexões de uma cadeia econômica .................................................................... 20 
Figura 4.1 - Índice de ameaça ................................................................................................... 37 
Figura 4.2 - Índice de risco da ameaça, segundo o fator de velocidade e o tempo de retorno . 38 
Figura 4.3 - O modelo de pressão e alívio (PAR) e o modelo de acesso ................................. 48 
Figura 4.4 - Mudança do bem-estar com a ocorrência do desastre .......................................... 50 
Figura 4.5 - O ciclo de decisões nas famílias ........................................................................... 51 
Figura 4.6 - Diferença, em pontos percentuais, entre o número de fatalidades decorrentes da 
inundação e o número de habitantes do país por faixa etária. Estados Unidos, 1859-2005. .... 62 
Figura 4.7 - Marco conceitual de um índice de risco de desastre utilizado em Bollin et al. 
(2003) ....................................................................................................................................... 70 
Figura 5.1 - Curva de demanda de um bem i ........................................................................... 94 
Figura 5.2 - Curva de demanda e excedente do consumidor .................................................... 95 
Figura 5.3 - Curvas de demanda e excedentes do consumidor marshalliano e hicksiano ........ 97 
Figura 5.4 - Modelos para estimar os danos econômicos da inundação................................. 101 
Figura 6.1 - Valor adicionado por uma empresa comercial ................................................... 113 
Figura 6.2 - Exemplo de um diagrama de rede viária com a extensão da inundação (tempo de 
retorno de 20 e 100 anos), as junções e os tipos de via .......................................................... 120 
Figura 7.1 - Interação entre modelos ...................................................................................... 145 
Figura 7.2 - Modelo de fila para uma fila de verificação (check-in) em um aeroporto .......... 150 
Figura 7.3 - (a) Distribuição aleatória de células brancas e pretas; (b) distribuição das células, 
após cinco passos de tempo; (c) após dezenove passos e (d) após 482 passos ...................... 153 
Figura 7.4 - Curva de desempenho do BPR ........................................................................... 161 
Figura 7.5 - Tipos de dados e análises associadas .................................................................. 164 
Figura 7.6 - Duas representações de ligações entre nós ......................................................... 165 
Figura 7.7 - Matriz agentes x agentes (matriz 4 x 4) ..............................................................166 
Figura 7.8 - Sociograma de agentes........................................................................................ 166 
Figura 7.9 - Níveis de medida em dados relacionais .............................................................. 167 
Figura 7.10 - Redes e amostras ............................................................................................... 168 
Figura 7.11 - Uma rede com centralidade local...................................................................... 170 
Figura 8.1 - Os subsistemas do sistema urbano ...................................................................... 180 
Figura 8.2 - Etapas para definição da escolha locacional da firma ........................................ 204 
Figura 8.3 - As inter-relações entre os sistemas ..................................................................... 205 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
xiv 
Figura 8.4 - Regiões do protótipo ........................................................................................... 208 
Figura 8.5 - Organização espacial do protótipo – Área diretamente atingida, área de entorno e 
rede viária ............................................................................................................................... 209 
Figura 8.6 - Zonas, rede viária modelada e o rio na ADA e na AE........................................ 211 
Figura 8.7 - Exemplo de um TIN ........................................................................................... 217 
Figura 8.8 - Mapa digital da área de estudo, em formado .dwg. ............................................ 220 
Figura 8.9 - Perfil longitudinal da linha d`água do rio Betim, Minas Gerais, em dois 
momentos da cheia ................................................................................................................. 221 
Figura 8.10 - Área de inundação do rio Betim, no município de Betim, para chuva com 
duração de 2 h. ........................................................................................................................ 221 
Figura 8.11 - Rede viária do protótipo e identificação da região modelada ........................... 223 
Figura 8.12 - Rede viária na ADA e na AE ............................................................................ 223 
Figura 8.13 - Distribuição do fluxo de veículos ao longo do dia ........................................... 226 
Figura 8.14 - Interface do modelo .......................................................................................... 227 
Figura 8.15 - Os nós e links da rede econômica discutida neste estudo ................................. 230 
Figura 8.16 - Interface do NetLogo 4.0.4 ............................................................................... 231 
Figura 8.17 - Curva de danos a residências (danos à construção e ao conteúdo) em função da 
profundidade para a classe A - Ajuste da função logaritmo ................................................... 236 
Figura 8.18 - O risco e seus constituintes ............................................................................... 241 
Figura 8.19 - Marco analítico: das hipóteses à criação de índices associados ao risco de 
inundação ................................................................................................................................ 241 
Figura 8.20 - Critérios na definição dos danos potenciais ao domicílio................................. 246 
Figura 8.21 - Índice de ameaça à construção (IAM1) .............................................................. 249 
Figura 8.22 - Índice de ameaça ao conteúdo (IAM2) ............................................................... 251 
Figura 8.23 - Índice de ameaça aos moradores do domicílio (IAH) ....................................... 252 
Figura 8.24 - Índice de ameaça ao acesso ao bem-estar - IAA ............................................... 255 
Figura 8.25 - Índice de ameaça de inundação - IAI ................................................................ 256 
Figura 8.26 - Valor médio dos danos à construção segundo a área construída e as classes 
socioeconômicas (em reais de 2000) ...................................................................................... 257 
Figura 8.27 - Distribuição da área construída dos imóveis no protótipo ................................ 258 
Figura 8.28 - Índice de exposição da construção à inundação (IEM1) relacionado à área 
construída do domicílio .......................................................................................................... 259 
Figura 8.29 - Valor médio dos danos ao conteúdo segundo a área construída do domicílio (em 
reais de 2000).......................................................................................................................... 262 
Figura 8.30 - Índice de exposição do conteúdo à inundação (IEM2) relacionado à área 
construída do domicílio .......................................................................................................... 263 
Figura 8.31 - Freqüência de moradores por domicílio em Belo Horizonte no ano 2000. ...... 264 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
xv 
Figura 8.32 - Índice de exposição humana à inundação (IEH) relacionado ao número de 
moradores do domicílio .......................................................................................................... 265 
Figura 8.33 - Valor dos danos à construção por metro quadrado de área construída segundo as 
classes socioeconômicas e profundidade da inundação (em reais de 2000)........................... 267 
Figura 8.34 - Índice relacionado ao valor da suscetibilidade da construção à inundação (IVM1)
 ................................................................................................................................................ 268 
Figura 8.35 - Valor dos danos ao conteúdo por m
2
 de área construída segundo as classes 
socioeconômicas e profundidade da inundação (em reais de 2000) ....................................... 269 
Figura 8.36 - Valor dos danos ao conteúdo total e por unidade de área construída segundo as 
classes socioeconômicas padronizados com base 1 ............................................................... 270 
Figura 8.37 - Índice relacionado ao valor da suscetibilidade do conteúdo do domicílio à 
inundação (IVM2) .................................................................................................................... 270 
Figura 8.38 - Critérios e grupos de atributos relacionados ao indicador de vulnerabilidade 
humana do domicílio .............................................................................................................. 272 
Figura 8.39 - Critérios e grupos de atributos relacionados ao indicador de vulnerabilidade 
humana da família .................................................................................................................. 276 
Figura 8.40 - Índice de restrição ao acesso às unidades de consumo preferidas (IVA1) ......... 283 
Figura 8.41 - Critérios e variáveis relacionadas à possibilidade de resiliencia do domicílio à 
inundação pelo acesso à educação .......................................................................................... 286 
Figura 8.42 - Índice de resiliência humana (IS1) relacionado ao nível de escolaridade do 
responsável ou cônjuge do domicílio ..................................................................................... 288 
Figura 8.43 - Critérios e variáveis relacionadas à possibilidade de resiliencia do domicílio à 
inundação pelo acesso à renda ................................................................................................ 289 
Figura 8.44 - Critérios e indicadores de vulnerabilidade da estrutura econômica ................. 302 
Figura 8.45 - Critérios e indicadores de vulnerabilidade nasfontes de consumo das famílias
 ................................................................................................................................................ 303 
Figura 9.1 - Inundação para o Tr = 5 anos - Protótipo ........................................................... 305 
Figura 9.2 - Inundação para o Tr = 25 anos - Protótipo ......................................................... 306 
Figura 9.3 - Inundação para o Tr = 100 anos - Protótipo ....................................................... 306 
Figura 9.4 - Os fluxos de trabalho no protótipo ..................................................................... 310 
Figura 9.5 - Os fluxos de estudantes no protótipo .................................................................. 310 
Figura 9.6 - Os fluxos discretos na ADA e AE ...................................................................... 311 
Figura 9.7 - Distribuição percentual dos trabalhadores das firmas atingidas pela inundação 
segundo região de domicílio ................................................................................................... 314 
Figura 9.8 - Distribuição dos gastos segundo os grandes grupos de despesa e tempos de 
retorno da inundação .............................................................................................................. 315 
Figura 9.9 - Variação total dos gastos das famílias, considerando diferentes probabilidade de 
inundação e impacto ............................................................................................................... 316 
Figura 9.10 - Danos indiretos totais sofridos pelas firmas atingidas, considerando o custo dos 
salários pagos na inundação ................................................................................................... 319 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
xvi 
Figura 9.11 - Danos indiretos totais sofridos pelas firmas atingidas e que ofertam bens e 
serviços para as famílias, considerando o custo dos salários pagos na inundação e os lucros 
cessantes ................................................................................................................................. 320 
Figura 9.12 - Variação no valor das vendas segundo os três cenários de ocorrência da 
inundação ................................................................................................................................ 321 
Figura 9.13 - Rede viária e curso d`água na ADA e AE – Protótipo .................................... 323 
Figura 9.14 - Tempo médio de viagem e velocidade média por veículo nos quatro cenários de 
estudo – Início da inundação às 10h, ADA e AE – Protótipo ................................................ 324 
Figura 9.15 - Custos associados à poluição emitidas pelos veículos durante um dia nos quatro 
cenários de estudo – Início da inundação às 17h, ADA e AE – Protótipo ............................. 327 
Figura 9.16 - Total dos custos associados ao tráfego durante um dia – ADA e AE – Protótipo
 ................................................................................................................................................ 327 
Figura 9.17 - Danos diretos sofridos pelos domicílios da ADA para os cenários de inundação 
estudados - Protótipo .............................................................................................................. 329 
Figura 9.18 - Média da participação dos danos aos veículos em relação aos danos totais nos 
domicílios onde eles ocorrem – Protótipo .............................................................................. 330 
Figura 9.19 - Diagrama box plot para a relação entre danos diretos / rendimento presente nos 
domicílios atingidos (valores em percentual) ......................................................................... 331 
Figura 9.20 - A inundação na firma e os possíveis reflexos na economia urbana ................. 337 
Figura 9.21 - A propagação do impacto da inundação ........................................................... 338 
Figura 9.22 - Distribuição do risco potencial entre os domicílios .......................................... 339 
Figura 9.23 - Risco de danos materiais nos domicílios do primeiro pavimento– Inundação 
com tempo de retorno de 100 anos ......................................................................................... 343 
Figura 9.24 - Risco de danos humanos nos domicílios do primeiro pavimento – Inundação 
com tempo de retorno de 100 anos ......................................................................................... 344 
Figura 9.25 - Risco no acesso dos domicílios do primeiro pavimento – Inundação com tempo 
de retorno de 100 anos ............................................................................................................ 345 
Figura 9.26 - Resiliência dos domicílios do primeiro pavimento – Inundação com tempo de 
retorno de 100 anos ................................................................................................................ 346 
 
 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
xvii 
LISTA DE TABELAS 
Tabela 3.1 - Principais danos decorrentes de inundações em áreas urbanas ............................ 13 
Tabela 3.2 - Impactos da inundação nas famílias ..................................................................... 16 
Tabela 3.3 - Fases de um desastre e os possíveis impactos na saúde ....................................... 18 
Tabela 3.4 - O consumo das famílias e as conseqüências nas atividades comerciais .............. 23 
Tabela 3.5 - O consumo das famílias e as conseqüências nas atividades prestadoras de 
serviços ..................................................................................................................................... 23 
Tabela 3.6 - Elementos da construção e danos ......................................................................... 29 
Tabela 4.1 - Possibilidade de falha estrutural em edificações de alvenaria, segundo as 
características da inundação – Estudo de Clausen (1989) ....................................................... 34 
Tabela 4.2 - Parâmetros do escoamento com possível influência na ocorrência de danos 
estruturais em casas acabadas, segundo recomendação do RESCDAM ... (2000) .................. 35 
Tabela 4.3 – Recomendação para estabilidade humana em presença de escoamento, segundo 
RESCDAM ... (2000) ............................................................................................................... 35 
Tabela 4.4 - Ameaça de afogamento, segundo Prevene (2001) ............................................... 36 
Tabela 4.5 - Funções de mortalidade definidas a partir de dados sobre a inundação de New 
Orleans, segundo Jonkman et al., 2008.................................................................................... 36 
Tabela 4.6 - Os parâmetros de ameaça, segundo Stephenson (2002)....................................... 37 
Tabela 4.7 - Os fatores de ameaça ............................................................................................ 39 
Tabela 4.8 - Razão danos reais/danos potenciais ..................................................................... 60 
Tabela 4.9 - Distribuição do número de fatalidades decorrentes de inundação e da população 
segundo grupos etários - Estados Unidos, 1959-2005 .............................................................. 62 
Tabela 4.10 - Distribuição da população e do número de fatalidades decorrentes da inundação 
segundo local ou atividade desenvolvida no momento do evento ........................................... 63 
Tabela 4.11 - Componentes do índice de vulnerabilidade social à inundação ......................... 74 
Tabela 4.12 - Descrição das variáveis de estudo ...................................................................... 75 
Tabela 4.13 - Osprincipais métodos de padronização de vetores de informação .................... 77 
Tabela 4.14 - Escala de definição de pesos para o método AHP segundo Saaty (1977) ......... 80 
Tabela 5.1 - Alguns exemplos de métodos de valoração dos bens públicos baseados em 
associações comportamentais ................................................................................................... 86 
Tabela 5.2 - Medidas de bem-estar de Hicks............................................................................ 97 
Tabela 5.3 - Medidas de benefício de Hicks ............................................................................ 98 
Tabela 6.1 - Funções baseadas em curvas DPS obtidas em Machado (2005) para o setor 
residencial ............................................................................................................................... 109 
Tabela 6.2 - Métodos de estimativas de danos indiretos segundo o Modelo Middlesex ....... 112 
Tabela 6.3 - Síntese de estudos com a utilização do método dos preços hedônicos para avaliar 
o impacto do risco de inundação ............................................................................................ 128 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
xviii 
Tabela 6.4 - Formas de eliciação no Método de Valoração Contingente ............................... 134 
Tabela 6.5 - Possibilidades de vieses nas preferências declaradas ......................................... 138 
Tabela 7.1 - Técnicas de simulação social ............................................................................. 148 
Tabela 7.2 - Modelagem baseada em agentes x modelagem baseada em equações .............. 155 
Tabela 7.3 - Parâmetros para estimativa do tempo de viagem segundo BPR ........................ 162 
Tabela 7.4 - Indicadores associados à análise da vulnerabilidade da rede ao impacto da 
inundação ................................................................................................................................ 171 
Tabela 8.1 - Informações básicas do sistema urbano ............................................................. 184 
Tabela 8.2 - Tipologias de famílias e sua distribuição na amostra ......................................... 189 
Tabela 8.3 - Freqüência de deslocamento para aquisição do bem.......................................... 192 
Tabela 8.4 - Tipologias de gastos, segundo suas características de demanda e oferta ........... 192 
Tabela 8.5 - Alguns tipos de gastos estudados segundo a tipologia ....................................... 193 
Tabela 8.6 - Tipologias de gastos, segundo suas características de demanda e oferta ........... 193 
Tabela 8.7 - Classes de renda média familiar ......................................................................... 195 
Tabela 8.8 - Classes de renda média familiar per capita........................................................ 196 
Tabela 8.9 - Área por cômodo e padrão construtivo segundo classes de renda ..................... 197 
Tabela 8.10 - Correlações (coeficiente r) entre o número de ativos presente no domicílio e 
outras variáveis de estudo – Amostra de 14.314 domicílios .................................................. 198 
Tabela 8.11 - Classe de renda e qualidade dos bens ............................................................... 199 
Tabela 8.12 - Valores de automóveis por classe socioeconômica .......................................... 200 
Tabela 8.13 - Critérios para distribuição espacial das firmas no protótipo ............................ 204 
Tabela 8.14 - Edificações residenciais da ADA e da AE - Protótipo ..................................... 212 
Tabela 8.15 - Edificações comerciais e total de edificações ADA e da AE - Protótipo......... 212 
Tabela 8.16 - Distribuição dos domicílios da ADA e AE segundo as tipologias de família .. 214 
Tabela 8.17 - Distribuição dos domicílios da ADA e na AE segundo classes socioeconômicas
 ................................................................................................................................................ 214 
Tabela 8.18 - Síntese das informações do protótipo ............................................................... 217 
Tabela 8.19 - Cenários utilizados na simulação do tráfego ADA e AE - Protótipo .............. 226 
Tabela 8.20 - Critérios para fluxos de veículos durante o evento na ADA e AE - Protótipo. 227 
Tabela 8.21 - Grupos de gastos e critérios de escolha das unidades de consumo - Protótipo 232 
Tabela 8.22 - Valor dos danos dos veículos segundo sua categoria (em reais de 2000) ........ 235 
Tabela 8.23 - Intensidade de importância da alternativa (ou variável) ou do critério em 
escalas cardinais e verbais ...................................................................................................... 244 
Tabela 8.24 - Variação do dano médio à construção por metro quadrado de área construída 
segundo a altura da inundação e o índice correspondente ...................................................... 247 
Tabela 8.25 - Variação do valor da suscetibilidade média do conteúdo, segundo a altura da 
inundação, e índice associado ................................................................................................. 249 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
xix 
Tabela 8.26 - Fator velocidade e o peso e padronização utilizados ....................................... 252 
Tabela 8.27 - Profundidade associada ao acesso, peso e padronização utilizados ................. 254 
Tabela 8.28 - Padronização dos danos na base 1 .................................................................... 257 
Tabela 8.29 - Área por cômodo segundo classes de renda ..................................................... 259 
Tabela 8.30 - Matriz de correlações entre variáveis (coeficiente r) ....................................... 261 
Tabela 8.31 - Nível de exposição do domicílio e definição do IED ........................................ 265 
Tabela 8.32 - Tipos de vulnerabilidade física dos moradores e importância relativa na 
vulnerabilidade à inundação ................................................................................................... 272 
Tabela 8.33 - Atributos de vulnerabilidade e pesos em relação aos critérios ......................... 273 
Tabela 8.34 - Matriz normalizada de comparação dos critérios de segundo nível ................. 274 
Tabela 8.35 - Média e mediana do rendimento domiciliar per capita, segundo sexo do 
responsável pelo domicílio - Belo Horizonte, 2000 ............................................................... 277 
Tabela 8.36 - Mediana do rendimento domiciliar total e per capita médio, segundo tipologia 
de família - Protótipo, 2000 .................................................................................................... 278 
Tabela 8.37 - Tipologias de família, sua importância relativa em relação à vulnerabilidade à 
inundação (IVH1) e distribuição no protótipo ......................................................................... 279 
Tabela 8.38 - Tipologias de despesas e ponderação, segundo as características de demanda e 
oferta do bem consumido ....................................................................................................... 282 
Tabela 8.39 - Peso de cada tipologia de bens ou de gastos do domicílio ............................... 282 
Tabela 8.40 - Nível de escolaridade do responsável ou cônjuge do domicílio, sua distribuição 
no protótipo e sua escala de importância para o acesso à informação ................................... 287 
Tabela 8.41 - Classes socioeconômicas e transformação no IS2 ............................................ 290 
Tabela 8.42 - Escolaridade e classe socioeconômica dos domicílios do protótipo atingidos 
pela inundação de tempo de retorno de 100 anos ...................................................................290 
Tabela 8.43 - Importância relativa: classe socioeconômica x escolaridade .......................... 291 
Tabela 8.44 - Padronização dos pesos do índice de resiliência .............................................. 291 
Tabela 8.45 - Indicadores associados ao risco de inundação e hipóteses e variáveis utilizadas
 ................................................................................................................................................ 292 
Tabela 8.46 - Indicadores associados à resiliência ao risco de inundação e hipóteses e 
variáveis utilizadas ................................................................................................................. 296 
Tabela 9.1 - Domicílios e firmas (unidades econômicas) atingidas ....................................... 307 
Tabela 9.2 - Links econômicos na ADA e AE ....................................................................... 308 
Tabela 9.3 - Links econômicos na ADA e AE e os outros nós da rede .................................. 309 
Tabela 9.4 - Número total de domicílios e número de domicílio localizados em área atingida - 
Protótipo ................................................................................................................................. 312 
Tabela 9.5 - Número total de moradores e número de moradores localizados em área atingida 
- Protótipo ............................................................................................................................... 312 
Tabela 9.6 - Número total de trabalhadores atingidos – Protótipo
1
 ....................................... 313 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
xx 
Tabela 9.7 - Renda salarial em risco para uma inundação com Tr= 100 anos - Protótipo (em 
reais de 2000).......................................................................................................................... 314 
Tabela 9.8 - Impacto da inundação sobre as firmas da ADA e AE ........................................ 317 
Tabela 9.9 - Valor das vendas para as famílias nos quatro cenários de estudo ...................... 321 
Tabela 9.10 - Aspectos da ameaça da inundação sobre a rede viária ..................................... 322 
Tabela 9.11 - Resultados médios por viagem e por UVE na simulação de tráfego – ADA e 
AE, início da inundação às 10h .............................................................................................. 323 
Tabela 9.12 - Resultados médios por viagem e por UVE na simulação de tráfego – ADA e 
AE, início da inundação às 17h .............................................................................................. 324 
Tabela 9.13 - Custo total do tempo de viagem em um dia na rede viária da ADA e AE, 
segundo cenários de risco hidrológico.................................................................................... 325 
Tabela 9.14 - Custo total do consumo de combustível em um dia na rede viária da ADA e AE, 
segundo cenários de risco hidrológico.................................................................................... 326 
Tabela 9.15 - Custo total dos poluentes em um dia na rede viária da ADA e AE, segundo 
cenários de risco hidrológico .................................................................................................. 326 
Tabela 9.16 - Domicílios atingidos e valor total e médio dos danos diretos (em 
reais de 2000) - Protótipo ....................................................................................................... 328 
Tabela 9.17 - Danos diretos aos veículos dos domicílios atingidos ....................................... 329 
Tabela 9.18 - Domicílios atingidos, valor total dos danos diretos (em reais de 2000) e renda 
domiciliar (em reais de 2000) – Protótipo .............................................................................. 330 
Tabela 9.19 - Domicílios atingidos, valor total dos danos diretos (em reais de 2000) e renda 
domiciliar (em reais de 2000), por classe socioeconômica – Protótipo, Tr = 100 anos ......... 332 
Tabela 9.20 - Danos diretos e danos indiretos pelo congestionamento decorrentes da 
inundação - ADA, Protótipo (em reais de 2000) .................................................................... 334 
Tabela 9.21 - Danos diretos das firmas avaliadas no protótipo .............................................. 335 
Tabela 9.22 - Distribuição dos danos diretos por firma segundo classificação da atividade . 335 
Tabela 9.23 - Danos diretos e indiretos das firmas avaliadas na ADA (em reais de 2000) ... 336 
Tabela 9.24 - Indicadores quantitativos de impacto ............................................................... 338 
Tabela 9.25 - Indicadores monetários de impacto (em reais de 2000) ................................... 338 
Tabela 9.26 - Distribuição dos índices de risco e de resiliência entre os domicílios atingidos 
pela inundação – Inundação com tempo de retorno de 100 anos ........................................... 339 
Tabela 9.27 - Distribuição dos índices de risco nos domicílios com índice de resiliência global 
- IDSG – abaixo de 0,56 – Inundação com tempo de retorno de 100 anos ............................. 341 
Tabela 9.28 - IVE1 nos cenários de estudo .............................................................................. 347 
Tabela 9.29 - IVE2 nos cenários de estudo .............................................................................. 348 
Tabela 9.30 - IVE3 nos cenários de estudo .............................................................................. 349 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
xxi 
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS 
ABEP - Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa 
ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas 
EC - Excedente Compensatório 
EE - Excedente Equivalente 
AHP - Analytical Hierarchy Process (em português PAH) 
ANTP - Associação Nacional de Transportes Públicos 
AP - Área de Ponderação 
AIMSUN2-– Advanced Interactive Microscopic Simulator for Urban and Non-Urban 
Networks 
BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento 
BPR - Bureau of Public Roads 
CA - Celular autômata 
CASA - Centre for Advanced Spatial Analysis 
CEDEPLAR - Centro de Desenvolvimento e Análise Regional 
CEMPRE - Cadastro Central de Empresas 
CLT - Consolidação das Leis de Trabalho 
CNAE - Classificação Nacional das Atividades Econômicas 
CONCLA - Comissão Nacional de Classificação 
DPS (curva) - Curva de Danos versus Profundidade de Submersão 
DAP - Disposição a Pagar 
DAA - Disposição a Aceitar uma Compensação 
DPP - Domicílios Particulares Permanentes 
EC - Excedente Compensatório 
EE - Excedente Equivalente 
EGC (modelo) - Modelo de Equilíbrio Geral Computável 
EIRD - Estratégia Internacional para Redução de Desastres 
ELECTRE - ELimination Et Choix Traduisant REalité 
EM - Excedente do Consumidor Marshalliano 
FEMA - Federal Emergency Management Agency 
GEM - Graded Eigenvalue Method 
GIS - Geographic Information System 
HCM - Highway Capacity Manual 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
xxii 
IA - Inteligência Artificial 
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 
IDEA - Instituto de Estudios Ambientales de la Universidad Nacional de Colômbia 
IDH - Índice de Desenvolvimento Humano 
INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira 
IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada 
IPTU - Imposto sobre Propriedade Territorial e Urbana 
IPVS - Índice Paulista de Vulnerabilidade Social 
ISDR - International Strategy for Disaster Reduction (em português, EIRD) 
ISSQN - Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza 
MBA - Modelagem Baseada em Agentes ou Modelos Multi-Agentes 
MCC - Método Classificação Contingente 
MDE - Método dos Danos Evitados 
NBR – Norma BrasileiraNCHRP - National Cooperative Highway Research Program 
MDT - Modelo Digital de Terreno 
MPFHC - Middlesex Polytechnic Flood Hazard Centre 
MPH - Método dos Preços Hedônicos 
MVC - Método da Valoração Contingente 
ONU - Organização das Nações Unidas 
PAC - Pesquisa Anual do Comércio 
PAH - Processo Analítico Hierárquico 
PAR modelo - Modelo de Pressão e Alívio 
PAS - Pesquisa Anual de Serviços 
PBH - Prefeitura Municipal de Belo Horizonte 
POF - Pesquisa de Orçamentos Familiares 
PROMETHEE - Preference Ranking Organization METHod for Enrichment Evaluations 
RAIS - Relação Anual de Informações Sociais 
RAM - Rapid Appraisal Method 
SAS - Statistical Analysis System 
SEADE - Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados 
SIG - Sistema de Informações Geográficas (para a sigla em inglês, ver GIS) 
SPN (modelo) - Stochastic Petri Net Model 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
xxiii 
TIN - Triangular Irregular Network 
Tr – Tempo de Retorno 
TRASYT - Traffic Network Study Tool 
TRB - Transportation Research Board 
UD - Unidade de Decisão 
UP - Unidade de Planejamento 
USACE - US Army Corps of Engineers 
UVE - Unidade de Veículo Equivalente 
VA - Valor Adicionado 
VC - Variação Compensatória 
VE - Variação Equivalente 
VED - valor Esperado dos Danos 
 
 
 
Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
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1 INTRODUÇÃO: O IMPACTO DA INUNDAÇÃO SOBRE AS 
FAMÍLIAS E VULNERABILIDADE 
O estudo de inundações envolve essencialmente três dimensões: suas características físicas, 
hidrológicas e hidráulicas; a avaliação de impactos ambientais e sócio-econômicos e a 
formulação de ações e políticas públicas - inseridas em um contexto de gerenciamento dos 
recursos hídricos e gestão e planejamento urbanos - para minimização de seus danos 
(Yevjevich, 1994). São dimensões correlacionadas, pois o gerenciamento eficiente dos 
recursos hídricos requer o conhecimento das características das cheias e dos danos causados 
pelas inundações e esses só podem ser adequadamente estimados com a análise de suas causas 
e riscos. Esta pesquisa insere-se na segunda dimensão, com uma proposta de avaliação e 
valoração dos danos causados pelas inundações. 
Objetivamente, a avaliação do impacto de uma cheia traz informações relevantes no 
planejamento da recuperação e reconstrução de uma área atingida, na avaliação econômica de 
estratégias de mitigação, estruturais e não estruturais, e no desenvolvimento do planejamento 
emergencial. Metodologicamente, o desenvolvimento nas análises de risco possibilita que o 
custo provável das perdas em uma região e sua vulnerabilidade possam ser estimados mais 
rapidamente, com maior abrangência e com menor margem de incerteza (Handmer, Reed & 
Percovich, 2002). 
Em uma possível linha de ação de avaliação global do risco, têm-se seis etapas (Figura 1.1): 
 
Figura 1.1 - Etapas na avaliação global do risco 
Fonte: Adaptado de FLOOD... (2000: 22). 
A probabilidade, os danos e a avaliação do risco (causas e conseqüências) são discutidos nas 
sessões seguintes. A implantação de medidas mitigadoras, quando necessárias, envolve desde 
o levantamento dos recursos e escolha da tecnologia adequada, até a implantação efetiva, 
manutenção e monitoramento. 
•6
Risco 
residual
•5
Medidas 
de 
mitigação
•4
Avaliação das 
causas e 
consequências
•3
Consequência 
(danos)
•2
Probabilidade
•1
Identificação 
da ameaça
 
 
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As medidas de mitigação reduzem a probabilidade ou as conseqüências de um evento. 
Existem várias técnicas e abordagens para a avaliação das alternativas de projeto: desde 
análises de critério único, em que os diferentes efeitos e os ganhos são analisados de forma 
agregada em um único critério (e.g.: análise custo-efetividade, análise custo-benefício e 
análise risco-benefício), até abordagens multicritério, nas quais a multiplicidade dos aspectos 
de análise, como os econômicos, sociais, ambientais e políticos, são considerados no processo 
de escolha. Algumas medidas de mitigação podem tender a zero o limite do risco, outras 
podem deixar uma probabilidade residual, definida como tolerável, pois, supostamente, a 
comunidade atingida teria capacidade de enfrentar o risco, caso ele ocorra. 
1
 
Como se pode considerar impossível diminuir a zero a magnitude do risco, a questão é definir 
qual o risco aceitável, o que depende, entre outros fatores, do nível que a população está 
disposta a aceitar ou é capaz de absorver. Neste sentido, Chardon (1999) apresenta três níveis 
de risco: 
1. o risco tolerável devido ao baixo nível de exposição ou vulnerabilidade; 
2. o risco tolerável após o desenvolvimento de medidas com o objetivo de reduzi-lo, atuando 
na ameaça, com o uso de intervenção técnicas (redução da freqüência ou amplitude da 
ocorrência), ou nos elementos vulneráveis (e.g.: edificações resilientes, uso de alerta); 
3. o risco intolerável: quando a sociedade não tem possibilidade de resistir ou absorver as 
conseqüências do fenômeno natural gerando uma situação de crise. 
O risco intolerável representaria uma situação de desastre. 
O termo risco, embora cotidianamente utilizado, apresenta diversos enfoques na literatura 
específica, o que dá origem a diferentes formas de conceituação. No estudo estatístico, há o 
risco hidrológico: a análise da probabilidade de ocorrência de uma cheia ou, considerando 
uma estrutura de proteção, de sua falha ou ruptura (Etapas 1 e 2 na Figura 1.1). Ao ampliar 
essa definição, tem-se o risco como a esperança matemática do prejuízo. Ao componente 
probabilístico, são associadas as perdas monetárias do evento (Etapas 1, 2 e 3 na Figura 1.1). 
Pode-se, ainda, analisar o risco sob o ponto de vista da ameaça e de seus fatores físicos de 
impacto (hazard, em inglês), como velocidade, profundidade e duração da cheia. 
Nesta pesquisa, utiliza-se uma abordagem ampla do risco que agrega algumas das 
conceituações anteriores. O risco surge como conseqüência da interação entre a natureza e 
 
1
 Para uma analise sobre os diferentes métodos para avaliação de alternativas, ver Castro (2007). 
 
 
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as características do evento natural (ameaça) e aquelas da população exposta, ou seja, 
sua vulnerabilidade (Green, Parker & Tunstall, 2000) (Equação 1.1). Ocorrendo o fator de 
gatilho, a inundação, o risco se traduz pelo impacto na comunidade em danos e na capacidade 
de reconstrução. 
Risco = Ameaça x Vulnerabilidade 1.1 
Considerar, isoladamente, a população em risco, desprezando as características da inundação, 
implica em aceitar que a comunidade está exposta ao mesmo nível de risco, independente da 
magnitude e tipo de ameaça. O outro extremo, uma análise focada no evento, traduz-se em um 
estudo essencialmente hidrológico e o problema da inundação torna-se algo desconectado de 
suas conseqüências socioeconômicas. Dois componentes interagem e se realimentam: o físico 
- hidrológico e hidráulico - e o socioeconômico (Figura 1.2). 
 
Figura 1.2 - Da ameaça aos danos 
Na Figura 1.2, a ameaça compreende as propriedades da inundação, como probabilidade, 
profundidade, duração, velocidade do escoamento e área atingida. A vulnerabilidade se refere, 
entre outros fatores, às características sócio-econômicas, políticas e institucionais da área 
ameaçada. A interação entre estes dois elementos indica o nível de risco ao qual o local está 
exposto. Concretizada a ameaça, têm-se os danos. 
Este estudo busca estimar as conseqüências econômicas da inundação sobre as pessoas e a 
cidade, caracterizando os danos diretos e indiretos, mas incorporando também a 
vulnerabilidade, o que implica em avaliar a capacidade de enfrentamentoe recuperação da 
população exposta. A vulnerabilidade pode ser definida como uma situação de exposição ao 
risco, somada à falta de habilidade em se evitar ou absorver suas conseqüências (Pelling, 
 
 
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2003). Aqui, ela é estudada em dois níveis: a vulnerabilidade das famílias, considerada a 
unidade básica de análise, e a vulnerabilidade da economia urbana. As famílias, com 
características socioeconômicas e locacionais distintas, sofrem impacto diferenciado ante uma 
inundação. Mas a forma como a cheia as afeta também depende das interações que se 
estabelecem entre elas e o meio ambiente no qual desenvolvem funções básicas (e.g. 
consumo, educação, trabalho e atividades de lazer). 
Grande parte das pesquisas na área produz estimativa apenas dos danos decorrentes do 
contato direto de bens com as águas da inundação (Machado, 2005; Penning-Rowsell & 
Chatterton, 1977; Torterotot, 1993). Estudos que procuram captar os efeitos indiretos 
normalmente o fazem considerando danos específicos, como os decorrentes de 
congestionamentos de carros ou custos de serviços emergenciais. Há, ainda, abordagens que 
buscam captar a percepção de valor de uma diminuição do risco por meio de entrevistas 
diretas (Método de Valoração Contingente) ou pela comparação das condições imobiliárias 
entre áreas de risco hidrológico e áreas seguras (Método dos Preços Hedônicos) (Shabman et 
al., 1998; Brouwer et al., 2006). 
Estes estudos, embora tragam avanços para discussão sobre benefícios no controle de 
inundação, não incorporam aspectos que podem emergir de uma análise que capte a rede de 
relações econômicas que se estabelece entre domicílios e as atividades econômicas e sua 
alteração frente ao choque externo representado pela ocorrência da inundação. Normalmente, 
são metodologias que trabalham de forma estática, mensurando os danos (ou os benefícios de 
uma medida de controle) em um local específico, ou simplesmente desconsiderando a 
propagação espacial dos impactos de uma enchente. 
Por outro lado, modelos macroeconômicos, como os de Equilíbrio Geral Computável, 
necessitam de grande volume de dados, o que inviabiliza seu uso para eventos de inundação 
mais restritos ou com conseqüências limitadas ao município, sendo mais adequados para 
análise de desastres de abrangência regional ou nacional. Ademais, possuem limitações para 
captar efeitos de ocorrências temporárias e intensas, como as decorrentes de um desastre 
natural (THE IMPACTS..., 1999). 
Na tentativa de mensurar os impactos diretos e indiretos das inundações, orientou-se a 
pesquisa bibliográfica em torno fundamentalmente de três temas: a estrutura do espaço intra-
urbano, com ênfase nas relações de consumo empreendidas pelas famílias; os modelos de 
microsimulação, os quais se baseiam em micro-unidades de análise; e, de forma abrangente, 
 
 
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os estudos sobre danos decorrentes dos desastres naturais, especialmente, das inundações. 
Desta forma, procura-se unir três aspectos julgados relevantes para compreensão do impacto 
das inundações: o espaço intra-urbano, as relações dos agentes neste espaço e, como elemento 
de choque, a inundação. Não foram encontradas pesquisas relevantes onde estes três aspectos 
foram discutidos conjuntamente. 
Ante a análise crítica da literatura, verificou-se a análise de rede, os modelos regionais e a 
modelagem multi-agentes como metodologias eficazes para compreensão dos impactos das 
inundações em sistemas complexos e interligados como é o sistema urbano. Destas técnicas, 
tiraram-se elementos para elaborar a proposta metodológica no presente trabalho. 
 
Figura 1.3 – Marco analítico para estudo dos danos das inundações em uma cidade 
A Figura 1.3 mostra a linha de pesquisa utilizada no estudo. A análise tem início com os 
danos diretos, pois eles representam o impacto do evento no primeiro momento, quando as 
águas atingem as pessoas e os componentes do espaço urbano. A análise destes danos foi feita 
por meio de adaptação de metodologias já consideravelmente discutidas na literatura 
(essencialmente, a aplicação de fatores de suscetibilidade material ou o uso de curvas de 
“danos x profundidade de inundação” apresentadas no item 6.1.4.1). 
Os danos indiretos decorrem de perdas causadas pela interrupção das conexões físicas e 
econômicas existentes na economia, eles incorporam elementos de propagação espacial e 
Modelo de impacto econômico das inundação sobre a 
cidade e os domicílios 
Análise do impacto dos desastres 
naturais
Danos 
diretos
Adapatação de 
metodologias 
consolidadas
Danos 
indiretos
Análise do espaço intra-urbano
Análise de rede
Microsimulação, 
modelos multi-agentes
Modelos regionais
SIG 
 
 
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temporal do evento. Para sua análise buscou-se subsídios em estudos que discutem as relações 
econômicas existentes no espaço intra-urbano. 
Da análise de rede, retiraram-se elementos essenciais, como a configuração espacial do 
sistema de análise e o relacionamento entre os agentes por meio de links. 
A economia urbana pode ser modelada como uma rede formada por nós e ligações (links). Os 
nós são os pontos de atividade econômica ou de moradia. A infra-estrutura urbana necessária 
para que a rede funcione representa as ligações. A inundação provoca rupturas no 
funcionamento de ligações (e.g.: fechamento de uma via) e nós (e.g.: paralisação de atividades 
econômicas) com possibilidade de impactar famílias e o nível de atividade e renda local. 
Características da rede, como sua capacidade ociosa, existência de rotas ou ligações 
alternativas, poder de transferência e suscetibilidade, se refletem na forma e intensidade do 
impacto da cheia extrema e de como ele se propaga na cidade. Observa-se que os danos 
indiretos da inundação ocupam centralidade na análise. 
Os modelos de microsimulação analítica possibilitam, a partir da ampla caracterização das 
micro unidades e suas interações e, eventualmente, com a utilização de funções de 
probabilidade aplicadas a cada evento, verificar os possíveis comportamentos e estruturas que 
surgem ao nível macroeconômico. A microsimulação, na sua forma clássica, é feita nesta 
pesquisa na modelagem do sistema de transporte na área de impacto da cheia e na sua 
vizinhança. Os resultados do sistema são obtidos a partir das observações de cada veículo 
individualmente. 
Para a compreensão do comportamento dos domicílios e atividades econômicas pensou-se, 
inicialmente, em utilizar a modelagem computacional baseada em agentes (MBA). A MBA 
possibilita representar agentes em suas interações entre si e com o meio ambiente. Cada 
agente é individualmente diferenciado (e.g: sexo, idade e renda) e se relaciona com o meio 
segundo regras comportamentais que podem se adaptativas e reativas. Por ser um modelo 
dinâmico, é possível captar a propagação temporal e espacial do impacto. 
Entretanto, devido a limitações computacionais e de tempo, não foi possível efetuar 
integralmente a MBA, da qual, entretanto, retiraram-se alguns elementos: ênfase sobre as 
micro-unidades de análise espacialmente distribuídas, como os domicílios e seus moradores, e 
a utilização de padrões comportamentais de consumo e de alocação do trabalho. 
 
 
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Os modelos regionais são baseados na representação da área geográfica em zonas, as quais 
trocam entre si população, bens e capital (Benenson, 1999). Cada zona é então representada 
por um vetor de informações socioeconômicas. Na metodologia de análise aqui proposta 
utiliza-se, em parte do sistema urbano, sua representação em zonas, com informações 
agregadas, como é feito nos modelos regionais.Em outra parte, aquela que sofre o impacto, 
utilizam-se microunidades de informação. Tem-se, portanto, um modelo híbrido. 
Para localizar espacialmente os componentes estudados do sistema urbano - regiões, 
domicílios, firmas, vias e o curso d‟água em condições normais e inundado - são utilizadas 
ferramentas do Sistema de Informações Geográficas (SIG). O SIG permite armazenar, 
analisar e manipular os dados geográficos, o que o torna uma ferramenta relevante de suporte 
à decisão. 
Pretende-se, adicionalmente, mensurar a vulnerabilidade e o risco de inundação por meio de 
indicadores que ofereçam subsídios para compreensão dos fatores centrais que atuam sobre 
estes dois processos. 
A fim de discutir todos estes aspectos, a presente tese é dividida em 10 seções, excluída a 
presente introdução. O segundo capítulo mostra de maneira direta e sintética os objetivos do 
trabalho. Os capítulos 3 e 4 discutem os componentes do risco mencionados na Figura 1.2, a 
vulnerabilidade, a ameaça e os danos potenciais. No capítulo três são mostrados os danos 
diretos e indiretos decorrentes da inundação sobre um espaço urbano. Os danos indiretos, 
como as possíveis perturbações nas vendas dos estabelecimentos comerciais e na circulação 
de automóveis ocasionada pela inundação, são discutidos com maiores detalhes. Por não 
estarem diretamente associados à presença da água, estes impactos tendem a ter maior 
dimensão espacial e temporal do que os danos indiretos, o que torna os seus efeitos 
particularmente importantes para o funcionamento da cidade como um todo. 
A ameaça e a vulnerabilidade à inundação são analisadas no capítulo 4. A ameaça é 
conceituada e caracterizada e são apresentados parâmetros que definem a sua magnitude 
segundo o objeto de impacto (pessoas ou bens materiais). Entretanto, o enfoque recai sobre a 
análise de vulnerabilidade, tema ainda controverso, na qual dimensão social é incorporada de 
forma decisiva. A tese procura avançar na sua reflexão, com uma análise crítica da literatura e 
com propostas para sua avaliação. 
 
 
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No capítulo 5 entra-se nos fundamentos conceituais e teóricos para avaliação dos benefícios 
do controle de inundações. O valor dos benefícios é considerado, em uma análise econômica 
tradicional, como os danos evitados com a adoção da medida de controle. São conceituados 
termos usuais na economia ambiental, como “valor”, “benefício”, “bem-estar” e “excedente 
do consumidor”. A base teórica mostrada apóia-se na economia do bem-estar, em uma visão 
neoclássica. 
Para análise dos danos ou benefícios das inundações existe uma ampla gama de modelos 
matemáticos, computacionais e estatísticos. Eles também podem ter um enfoque em 
macrounidades – como o país ou uma cidade – ou em microunidades – como pessoas e 
domicílios. Estes modelos são apresentados nos capítulos 6 e 7. 
No capítulo 6 têm-se os modelos definidos como “estatísticos e econométricos”. 
Normalmente são modelos intensivos no uso de equações, onde não é necessário elevado 
conhecimento em programação computacional, já que existem softwares diversos que 
processam as variáveis e parâmetros de entrada por meio de procedimentos uniformes. 
O capítulo 7 mostra os modelos definidos como de simulação e análise de rede. Consideram-
se modelos de “simulação” aqueles em que este aspecto da modelagem, a simulação, recebe 
grande destaque no processo, sendo um espaço de experimentação e análise dos resultados. 
Muitas vezes são modelos dinâmicos e flexíveis, processados em intervalos curtos de tempo, 
nos quais é possível verificar o comportamento de várias variáveis ao longo do tempo. Alguns 
procedimentos exigem conhecimento de programação computacional, especialmente em 
simulações orientada para objetos. 
A análise de rede, além de apresentar um arcabouço analítico para estudo de variáveis 
relacionais, é uma ferramenta suplementar ou complementar que pode ser feita tanto nos 
modelos estatísticos, quanto nas simulações computacionais. Ela é utilizada na organização, 
estruturação e interpretação dos dados, pois eles são analisados a partir das relações que se 
estabelecem entre eles e não apenas de forma isolada ou agregada. 
Por meio destes sete capítulos tem-se uma ampla revisão dos conceitos e metodologias 
apresentados na literatura relacionados ao tema da tese, a qual contribuiu para justificar a 
escolha metodológica feita. Esta é apresentada no capítulo 8, de material e métodos. O 
capítulo mostra as hipóteses e procedimentos utilizados para criação de dois métodos de 
investigação do impacto econômico da inundação propostos nesta pesquisa: a modelagem 
 
 
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econômica em rede do espaço urbano para avaliação de impactos e a criação de indicadores 
de risco de inundação. 
O capítulo 8 é formado por nove grandes seções. Na primeira, têm-se as hipóteses que foram 
utilizadas no método proposto, como aquelas que envolvem a escolha dos sistemas de análise. 
Na segunda seção é apresentada as matrizes de informações socioeconômicas utilizadas e os 
procedimentos para sua aquisição e organização. Referem-se a três matrizes: “matriz 
domicílio”, “matriz residente” e “matriz firma” que inter-relacionam entre si. Elas 
compreendem, aproximadamente, a informações de 179 mil domicílios, 639 mil residentes e 
24 mil firmas, as quais são apresentadas de forma georeferenciada. 
Na terceira seção do capítulo 8 é mostrada a base espacial para a análise das metodologias 
propostas. Refere-se à criação de um protótipo, um ambiente de simulação que procura 
representar de forma simplificada os principais elementos do espaço intra-urbano que 
interferem na magnitude dos danos da inundação: os domicílios, as firmas, a rede viária e o 
rio. Na quarta seção são mostrados os procedimentos de SIG utilizados para definição da 
localização dos elementos do protótipo - os quais são representados por um vetor de 
informações socioeconômicas – e do mapa de inundação. 
Nas seções cinco, seis e sete têm-se os procedimentos de modelagem feitos na tese: a 
modelagem hidrológico-hidráulica, a modelagem de tráfego de veículos e a modelagem 
econômica em rede do espaço urbano. Estas são feitas para três cenários de tempo de retorno 
da inundação: 5 anos, 25 anos e 100 anos. As duas primeiras simulações são feitas em 
softwares distintos. Seus resultados são incorporados à terceira modelagem, feita em uma 
plataforma de MBA, que é simulada no protótipo. Por meio dela é possível verificar o 
impacto econômico, em termos de variação no consumo, renda e acesso ao trabalho, entre 
outros indicadores. 
Na seção oito, tem-se a metodologia para definição dos danos diretos, a qual segue 
parâmetros de suscetibilidade dos bens ao contato com a água propostos na literatura ou a 
utilização de curvas de danos versus profundidade de inundação (Penning-Rouwsell & 
Chatterton, 1977; Machado, 2005). 
Finalmente, na seção nove, são propostos indicadores de risco à inundação. Nele são 
apresentados diversos indicadores de ameaça, vulnerabilidade, suscetibilidade, exposição e 
resiliência, os quais variam segundo o objeto de impacto, material ou humano. Estes 
 
 
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indicadores são agregados, criando indicadores de risco e resiliência. Os indicadores são 
definidos para os domicílios e também para o ambiente econômico de maneira geral. 
Os resultados do estudo são apresentados no capítulo 9, o qual é dividido em cinco grandes 
seções. Na primeira seção são apresentados os resultados da simulação hidrológico-hidráulica 
do rio e sua espacialização, com a distribuição da velocidade e profundidade da inundação ao 
longo da área atingida, considerando os três tempos de retorno estudados. 
Na seçãodois, têm-se os resultados da simulação econômica de impacto, os quais identificam 
as rupturas na rede e seus efeitos em termo de acesso aos bens de consumo e à renda. A partir 
da agregação do impacto individual de cada domicílio, avalia-se a conseqüência do evento nas 
relações de consumo da “cidade virtual” como um todo. A seção três detalha a análise dos 
danos com a avaliação dos resultados para a área diretamente atingida pelas águas, a qual 
tende a sofrer maior impacto direto e indireto. Como o estudo envolve uma série de 
interconexões, o que possibilita vários tipos de análises, a seção quatro apresenta um resumo 
dos resultados para o protótipo. 
E, na última seção, têm-se os resultados obtidos pela análise dos indicadores para os 
domicílios e para o ambiente econômico. Os indicadores para cada domicílio puderam ser 
mapeados, o que possibilitou verificar a configuração espacial do risco em termos de micro-
unidades de análise, os domicílios. 
Finalmente, as conclusões e perspectivas do estudo mostradas no capítulo 10, indicam a 
consistência dos fundamentos teóricos adotados, a coerência das rotinas analíticas e 
computacionais e do banco de dados utilizados na pesquisa. Além disso, mostra a viabilidade 
e potencialidade de aplicação da metodologia para análise de impactos ambientais em uma 
perspectiva ampla e considerando a dimensão relacional que envolve os processos. 
 
 
 
 
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2 OBJETIVOS 
Criar metodologia para investigação dos impactos econômicos causados por inundações nas 
famílias e na cidade em uma análise de vulnerabilidade social, de rede urbana e danos 
associados, com potencialidades de generalização para vários municípios. Desta forma, busca-
se estimar os danos diretos e indiretos do evento, em uma dimensão espacial. A pesquisa 
compreende cinco objetivos específicos: 
1. Estudar a ameaça, vulnerabilidade, exposição, resiliencia e risco dos moradores 
atingidos com a criação de indicadores. 
2. Estimar o efeito do evento nas rotinas dos moradores: estudo da re-alocação dos 
gastos, alterações no acesso aos bens e à renda e perda de bens e diminuição do bem-
estar. 
3. Analisar a propagação do impacto na cidade: estudo sobre como os efeitos da 
inundação se propagam na cidade, não se restringindo aos locais fisicamente afetados 
por ela. 
4. Análise dos danos diretos da inundação. 
5. Analisar o impacto no sistema de transportes, em termos de distância e tempo de 
viagem adicionais, custos materiais de transporte e emissão de poluentes. 
 
 
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3 DANOS DAS INUNDAÇÕES 
Embora o termo “inundação” usualmente represente uma conotação negativa, de desastre e 
danos, as inundações possuem vários efeitos positivos: aumento da umidade do solo e 
reabastecimento de sedimentos, de origem aluvial ou de processos erosivos na bacia, 
influenciando na fertilidade e produtividade do solo; regulação da abundância e diversidade 
de peixes; ganhos financeiros de atividades relacionadas à recuperação pós-inundação e de 
setores econômicos situados fora da área inundada. 
No médio e longo prazo a inundação pode levar à maior eficiência produtiva, quando 
instalações e máquinas antigas, destruídas pelas águas, são substituídas por novas; incentivar 
o redesenho e reorganização da área urbana para reduzir a vulnerabilidade de uma maneira 
geral; e mesmo possibilitar o crescimento da união familiar e do senso de solidariedade na 
comunidade (Green, Parker & Tunstall, 2000). 
Mas há os impactos negativos que, com o processo de urbanização e adensamento, tendem a 
ser relevantes nas áreas urbanas. As características socioeconômicas da comunidade exposta, 
o padrão de uso e ocupação do solo, a ocorrência do evento e as características da cheia 
definem a magnitude dos danos da inundação na área atingida. 
Os danos causados por inundações classificam-se em tangíveis e intangíveis. Os danos 
tangíveis são aqueles passíveis de mensuração em termos monetários, normalmente estimados 
por meio dos preços de mercado. As perdas intangíveis, ao contrário, relacionam-se a bens de 
difícil quantificação ou quando esta, por questões éticas ou ideológicas, é considerada 
indesejável ou inapropriada. São exemplos a vida humana, bens de valor histórico e 
arqueológico e objetos de valor sentimental (Tabela 3.1). Os bens intangíveis relacionam-se a 
determinado estado da arte nos procedimentos de estimativa de danos; muitos bens, hoje 
intangíveis, podem tornar-se passíveis de mensuração no futuro (Green, Parker & Tunstall, 
2000). 
Em um segundo critério de classificação, os danos são diretos e indiretos. Os danos diretos 
resultam do contato físico de bens e pessoas com a água de inundação. Os danos que ocorrem 
em conseqüência dos danos diretos, como interrupções e perturbações das atividades sociais e 
econômicas, classificam-se como indiretos. Em termos simples, qualquer dano decorrente da 
inundação que não seja direto, é considerado indireto. Esses podem ocorrer dentro e fora da 
 
 
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área física atingida pelo evento (Tabela 3.1) (Machado, 2005; Parker, Green & Thompson, 
1987). 
Tabela 3.1 - Principais danos decorrentes de inundações em áreas urbanas 
Danos Tangíveis 
Danos Diretos Danos Indiretos 
Danos físicos aos domicílios: construção e 
conteúdo das residências. 
 Custos de limpeza, alojamento e 
medicamentos. Re-alocação do tempo e dos 
gastos na reconstrução. Perda de renda. 
Danos físicos ao comércio e serviços: 
construção e conteúdo (mobiliário, estoques, 
mercadorias em exposição, etc.). 
 Lucros cessantes, perda de informações e 
base de dados. Custos adicionais de criação 
de novas rotinas operacionais pelas 
empresas. Efeitos multiplicadores dos danos 
nos setores econômicos interconectados. 
Danos físicos aos equipamentos e plantas 
industriais. 
 Interrupção da produção, perda de produção, 
receita e, quando for o caso, de exportação. 
Efeitos multiplicadores dos danos nos 
setores econômicos interconectados. 
Danos físicos à infra-estrutura 
 Perturbações, paralisações e 
congestionamento nos serviços, custos 
adicionais de transporte, efeitos 
multiplicadores dos danos sobre outras 
áreas. 
Danos Intangíveis 
Danos Diretos Danos Indiretos 
Ferimentos e perda de vida humana. Estados psicológicos de stress e ansiedade. 
Doenças pelo contato com a água, como 
resfriados e infecções. 
Danos de longo prazo à saúde. 
Perda de objetos de valor sentimental. Falta de motivação para o trabalho. 
Perda de patrimônio histórico ou cultural. 
Inconvenientes de interrupção e 
perturbações nas atividades econômicas, 
meios de transporte e comunicação. 
Perda de animais de estimação. Perturbação no cotidiano dos moradores. 
Fonte: Elaboração própria baseada em Machado (2005) e Green, Parker & Tunstall (2000). 
O valor da magnitude dos danos indiretos é controverso na literatura. Segundo Barbat & 
Carreño (2004), os efeitos indiretos de um desastre natural dependem do tipo de desastre. Se 
“úmido”, como as inundações, os danos indiretos podem chegar a 50% dos danos diretos; se é 
do tipo “seco”, a exemplo dos terremotos, estima-se que este percentual seja até mesmo 
superior a 75%. 
Há impactos indiretos de médio e longo prazo, como alteração dos fluxos migratórios; 
mudanças nos valores de moradias; redução do padrão de consumo de famílias em 
 
 
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conseqüência do endividamento para cobrir os custos ocasionados pelos danos da enchente; e 
alteração dos gastos governamentais com o surgimento de um novo padrão migratório e de 
desenvolvimento na região, quando a consciência da inundação tenha se tornado efetivamentepresente (THE IMPACTS..., 1999). Estes efeitos são particularmente observados em grandes 
desastres naturais, como a seqüência de tsunamis no Oceano Índico no final de 2004 ou o 
furacão Katrina na região litorânea sul dos Estados Unidos em 2005. 
A definição espacial e temporal é central na avaliação dos danos da inundação. Ela se reflete 
no tipo de metodologia a ser utilizada: em uma perspectiva local de curto prazo, as análises 
microeconômicas baseada na economia do bem-estar tendem a ser adequadas; em um 
horizonte de tempo mais amplo e com a incorporação de danos indiretos, o uso de 
microsimulações pode trazer resultados satisfatórios; em escalas regionais ou nacionais, 
modelos econômicos de insumo produto ou equilíbrio geral talvez sejam apropriados. 
Os danos são diferentes segundo as escalas. As compensações e re-equilíbrio buscados pelo 
sistema variam no tempo e espaço. Compensações regionais - como financiamento à 
reconstrução por meio de ajuda estatal ou pagamento de seguros - são consideradas perdas em 
uma perspectiva nacional. 
Mas, segundo Parker, Green & Thompson (1987), os danos indiretos ocasionados pela 
inundação de atividades comerciais e de serviços, embora possam gerar prejuízos financeiros 
para o estabelecimento, dificilmente se traduzirão em uma perda econômica para a região ou 
nação, pois ocorrerá uma transferência da demanda para outros locais. Ressalta-se que, como 
os agentes econômicos “ganhadores” são diferentes dos “perdedores”, na ótica distributiva, o 
impacto do evento natural não é nulo (Handmer, Reed & Percovich, 2002). 
Em suma, o estudo dos danos das inundações envolve a dimensão espacial-temporal e um 
amplo leque de valores não observáveis no mercado. Corre-se o risco de dupla contagem, 
horizonte de análise estreito, ignorar os passivos pós-desastre e as perdas não identificáveis 
via mercado (e.g.: redução do tempo de lazer, danos a objetos de valor histórico, cultural e 
sentimental) (Cochrane, 2004). Como a análise dos danos envolve estoques (danos diretos) e 
fluxos (custos de interrupção e paralisação de atividades econômicas) freqüentemente existem 
erros de cálculo e sobreposições de valores. 
Torna-se necessário definir o tipo de abordagem adequado e possível, se financeira, 
econômica, social, ambiental ou integrada. Aspectos institucionais, políticos, técnicos e 
 
 
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metodológicos orientam esta escolha. Objetivamente, as inundações causam inúmeras 
perturbações, sofrimento e perdas econômicas individuais. Com ganhadores e perdedores 
diferentes, deixar de considerá-las no planejamento das políticas públicas não é compatível 
com uma economia socialmente justa. 
Tradicionalmente, as metodologias para estimar os danos baseiam-se na eficiência econômica, 
com a utilização da análise custo-benefício. O conceito de disposição a pagar (DAP) por um 
bem ou serviço é central. Segue-se o princípio de que o indivíduo é quem melhor conhece 
seus interesses. Os benefícios sociais de uma medida de proteção à inundação seriam a 
agregação das preferências de todas as partes afetadas por ela (Parker, Green & Thompson, 
1987). 
Utilizando o arcabouço teórico da microeconomia neoclássica, estas metodologias ligam as 
conseqüências da inundação a uma diminuição de nível de bem-estar da coletividade, ou seja, 
do excedente do consumidor. O excedente é medido pela diferença entre o preço que um 
consumidor estaria disposto a pagar por um bem (a percepção individual do seu valor) e o 
preço efetivamente pago (valor definido pelo mercado) (Nutti, 2000).
2
 
Em períodos recentes, a teoria do consumidor tem incorporado elementos de incerteza (risco) 
e tempo e a utilidade passa a ser percebida sob duas novas dimensões: a probabilidade de 
ocorrência do evento (risco) e a distribuição das preferências no tempo (Shabman et al., 
1998). Há ainda avanços advindos do uso de modelos de microsimulação e análise de rede, 
que introduzem elementos de teoria comportamental e inteligência artificial. 
As seções 3.1 a 3.3 discutem os danos das inundações sobre as famílias, atividades produtivas 
e rede viária. Embora o foco do trabalho sejam as famílias, os dois últimos também são 
tratados, pois é fonte de renda, consumo e meio de deslocamento dos residentes. A ênfase 
recai sobre os danos indiretos, aspecto mais relevante da tese. 
3.1 Danos às famílias e aos domicílios 
A Tabela 3.2 apresenta o leque de impactos que afetam os moradores, sendo que eles não são 
necessariamente mutuamente exclusivos. Entre os danos destacados, estão os efeitos sobre a 
saúde da população e as perturbações no dia-a-dia do domicílio após o desastre. 
 
 
2
 O conceito de excedente do consumidor é explicado com detalhes no capítulo 5, item 5.3.2. 
 
 
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Tabela 3.2 - Impactos da inundação nas famílias 
Danos diretos 
Danos à construção e ao conteúdo da residência. 
Danos nas instalações elétricas, telefônicas e de saneamento. 
Custos de limpeza. 
Perda de itens insubstituíveis, de valor sentimental. 
Perda de animais de estimação. 
Danos à saúde, ferimentos ou morte. 
Danos indiretos 
Preocupação sobre inundações futuras (ansiedade, stress e medo). 
Remoção permanente da área. 
Transtornos no cotidiano em conseqüência dos danos da inundação. 
Mudança temporária de residência. 
Perturbações devido aos sistemas de alerta e alarme de inundação. 
Piora e paralisações nos serviços de utilidade pública. 
Perda de renda pela falta no trabalho e perda de oportunidades. 
Gastos com a recuperação do domicílio diminuem a renda disponível 
para demanda de outros bens. 
Uso do tempo na recuperação dos danos as expensas de outras 
atividades, como as de lazer. 
Problemas financeiros de curto prazo pelo elevado volume de despesas 
associadas ao evento. 
Danos indiretos 
decorrentes de 
inundação em 
outras áreas 
Ajuda ou acomodação temporária de parentes e amigos, vítimas da 
inundação, causando custos adicionais e alteração da rotina. 
Custos adicionais de transporte, caso sejam utilizadas vias inundadas 
ou ocorra um aumento no congestionamento de trânsito. 
Diminuição das oportunidades de consumo na região ou cidade, caso 
lojas, serviços e locais de lazer tenham sido inundados. 
Perturbações nas redes podem interromper ou piorar os serviços de 
infra-estrutura. 
Possibilidade de aumento dos custos associados às compras domésticas 
e serviços de recreação. 
Fonte: Elaboração própria baseada em Parker, Green & Thompson (1987). 
3.1.1 Preocupação em relação ao risco de inundação e impactos na saúde 
O risco é uma noção virtual, um espaço vazio que pode conduzir ou dar lugar à ansiedade ou 
ao medo. Em função disso, podem ocorrer estratégias de construção do risco, ocultação e 
amplificação (Blancher, 1989). 
Numerosos trabalhos discutem a psico-sociologia do risco, ou seja, como os indivíduos 
percebem o risco e reagem ante a ele. Normalmente são trabalhos que procuram captar esta 
percepção segundo as diferentes características dos indivíduos (idade, escolaridade, etc.) ou 
dos diferentes eventos de risco. Há estudos menos usuais que se ocupam das formas de 
produção e avanço do risco pelos meios de comunicação ou entre categorias sociais ou grupos 
profissionais - as “culturas locais”, segundo denominação utilizada por Blancher, 1989:12. Os 
grupos profissionais compreendem desde experts em risco até trabalhadores que, face ao 
risco, desenvolvem seu próprio know-how em estratégias de proteção. 
 
 
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17 
Obviamente, como um fenômeno probabilístico, a percepção do risco da inundação pela 
população é central na magnitude de seus efeitos, sejam psicológicos ou materiais (apercepção individual do risco pode estar relacionada à construção de casas resilientes). Este 
item introduz alguns aspectos relacionados à expectativa em relação ao risco, enfatizando 
principalmente os seus efeitos psicológicos com a possível evolução para quadros de doenças. 
A preocupação é caracterizada por ansiedade, stress e medo. Residentes em áreas inundáveis 
freqüentemente afirmam possuir um elevado grau de preocupação quando acreditam que uma 
inundação pode ocorrer (Tapsell et al., 2002). A preocupação ocasiona stress e esse exige 
cuidados à saúde. Pode levar a ajustes no estilo de vida e uso de medidas adaptativas (e.g.: 
utilização do sótão como refúgio e implantação de medidas waterproofing na residência), os 
quais implicam em gastos financeiros. 
A ansiedade decorrente da possibilidade de uma inundação no futuro é função de dois 
aspectos principais: o risco “real”, em termos de freqüência e de magnitude das perdas 
potenciais, e as características dos que se sentem ameaçados. Claramente os residentes em 
áreas com eventos freqüentes e severos têm maior grau de preocupação do que os moradores 
em áreas de menor risco. Mas há aqueles localizados em áreas com inundações tão freqüentes 
que, muitas vezes, um processo adaptativo já foi desenvolvido. 
A consciência em relação ao risco associa-se, entre outros fatores, à experiência com 
inundação e ao tempo de residência na região inundável (Parker, Green & Thompson 1987). 
A mobilidade residencial diminui a memória agregada sobre o risco, na medida em que novos 
moradores sem experiência de cheia substituem antigos. Segundo Parker, Green & Thompson 
(1987), em uma área inundável, uma comunidade com maior mobilidade tende a ser menos 
ansiosa em relação ao risco do que em uma comunidade estável. Deve ser esperada maior 
ansiedade entre moradores proprietários do que moradores inquilinos. 
Embora exista a ansiedade em relação à inundação, indivíduos tendem a ter memória curta ou 
a acreditar que o evento é demasiado raro para ocorrer. Experiências mostram que a 
indiferença em relação ao risco é generalizada. Um percentual significativo de moradores em 
áreas inundáveis ignora a ameaça até a primeira ocorrência (Parker, Green & Thompson, 
1987; Debo & Reese, 1995). E, mesmo após um evento, a preocupação, inicialmente alta, cai 
rapidamente. Há indivíduos que consideram que o evento não vai se repetir, sendo apenas um 
fruto da casualidade. Estas pessoas, obviamente, não sofrem de ansiedade. 
 
 
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18 
O stress, da mesma forma que a ansiedade, depende da natureza do evento e das 
características do residente. O stress é o resultado de uma reação que o nosso organismo tem 
quando estimulado por fatores externos desfavoráveis. O “fator surpresa” tem um efeito 
importante, como também a magnitude dos danos e prejuízos. O choque será grande em um 
evento repentino, sem alerta, no meio da noite. Cheias de grande impacto - como em áreas 
costeiras onde o volume de água é acompanhado pela ação das ondas – levam a uma elevada 
carga de stress emocional. 
Embora eventos repentinos possam ser traumáticos, existe o stress constante dos eventos de 
longa duração. Relaciona-se a um prolongado período de isolamento, perda de serviços e 
perturbações no estilo de vida usual. Sabe-se que um estado de stress pode levar a uma 
sobrecarga de órgãos vitais, deixando-os debilitados. No meio médico é consensual sua 
influência no sistema imunológico, diminuindo a resistência a doenças. 
A saúde é um direito do cidadão. Os problemas agudos e crônicos que possam surgir em 
decorrência da experiência com a inundação implicam em menor tempo e energia disponíveis 
para a execução de todas as atividades, entre elas a própria subsistência. Parker, Green & 
Thompson (1987) citam estudos mostrando que inundações levam a um aumento na 
mortalidade. A Tabela 3.3 mostra as fases que acompanham os desastres naturais com alguns 
impactos à saúde observados. 
Tabela 3.3 - Fases de um desastre e os possíveis impactos na saúde 
Pré-ameaça: Ansiedade, preocupação, medo de chuva, sintomas psicológicos. 
Alerta: 
Excesso de exercício ante a ameaça (e.g.: movimentação de 
mobília e “correria”) causando dores na coluna, torções, etc. 
Impacto: Resfriados, gripes, infecções etc. 
Recuperação inicial: 
Preocupações pela perda financeira e de pertences com valor 
sentimental, depressão. 
Recuperação e 
conseqüências 
posteriores: 
Redução geral da resistência a doenças, decorrência do stress 
causado pelo evento e pela possibilidade de inundações futuras. 
Surgimento de doenças, mesmo a médio e longo prazo, ou piora 
de uma enfermidade atual. Pode causar mortalidade. 
Fonte: Parker, Green & Thompson (1987:105) baseados em vários autores. 
3.1.2 Perturbações da inundação 
Ocorrendo a inundação, talvez seja necessária uma mudança temporária de residência, 
principalmente se há ameaça de uma segunda cheia. Usualmente as autoridades locais provêm 
abrigos temporários, mas parte dos desabrigados encontram refúgio na casa de parentes e 
amigos. 
 
 
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19 
A perda de itens insubstituíveis constitui um dos maiores danos para as famílias. Lembranças 
acumuladas reconstroem o passado de uma pessoa e são particularmente valiosas para os 
idosos. Há um elevado transtorno para reaquisição de documentos perdidos, como certidões, 
carteiras de habilitação, cheques e contratos. 
Passada a inundação, é o momento de verificar o estado da residência, avaliar as perdas e o 
que pode ser aproveitado, limpar a casa. Começam as reparações e a compra do que é 
necessário. Parte do tempo é direcionada para contatar advogados, empresas de seguro, 
administração pública, prestadores de serviços, serviços burocráticos de segunda-via, etc. A 
possibilidade de substituição de bens e reforma depende da renda disponível, da capacidade 
de empréstimo, da poupança, da existência de seguros e outras possíveis fontes de recursos. 
Um domicílio que sofreu danos dificilmente consegue repará-los imediatamente após a cheia. 
O dia-a-dia do domicílio é alterado. Geralmente a trajetória da qualidade da vida após a 
inundação não é analisada. É possível que danos se estendam por um longo período, ou 
mesmo indefinidamente, afetando de forma crônica a qualidade de vida (Green, 2004). 
3.2 Danos às atividades econômicas 
Segundo van der Veen et al. (2003), a magnitude dos efeitos indiretos na economia depende 
de 1) disponibilidade de fonte alternativa de oferta e demanda (substituibilidade); 2) duração 
da perturbação e 3) possibilidade de aumento da produção. 
Estes três aspectos interferem nos encadeamentos para frente e para trás presentes na 
economia (no inglês, forward and backward linkages), que podem propagar os danos. Se há 
redundância econômica, ou seja, fontes substitutas para suprir as rupturas que eventualmente 
ocorram, o impacto e seu encadeamento tendem a ser amortecidos. 
Na Figura 3.1, a interrupção da firma C2 não necessariamente afeta de forma significativa os 
outros setores da cadeia. Durante a paralisação de C2, a manutenção do restante da rede, sem 
custos adicionais relevantes, depende da habilidade dos estabelecimentos não inundados (C1) 
em suprir o crescimento do consumo (a qual é função do tempo de paralisação em C2 e da 
capacidade de aumento da produção) e da possibilidade de transferência dos consumidores de 
C2 para C1. Ressalta-se que os efeitos tendem a se diluir na cadeia, o impacto em B é maior 
do que em A. Em um cenário pessimista, C1 pode ter capacidade nula de produção adicional e 
toda a rede sofre o impacto da inundação em C2. 
 
 
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20 
 
Figura 3.1 - Conexões de uma cadeia econômica 
Fonte: Adaptado de van der Veen(2004) 
3.2.1 Danos indiretos potenciais do comércio varejista e prestadores de serviços 
Nesta categoria encontram-se atividades não envolvidas com a produção de um bem físico, 
mas com a sua venda. São atividades que tendem a ter menor grau de dependência do que a 
indústria em relação a máquinas e equipamentos, embora ele seja cada vez maior com a 
intensificação do uso da informática. 
O comércio varejista e os serviços são afetados pelas inundações de duas formas: 1) o próprio 
estabelecimento é inundado e com isto há perturbação dos negócios e 2) as residências dos 
consumidores ou as vias de acesso são atingidas pela cheia levando a uma diminuição na 
demanda (Parker, Green & Thompson, 1987). Geralmente o período de paralisação da 
atividade é maior do que o da inundação, especialmente se for um evento de grande 
magnitude que exija intenso trabalho de reparação e limpeza do estabelecimento. 
Os danos diretos tendem a ser significativos nestas atividades, principalmente se atingirem os 
estoques, já a magnitude dos efeitos indiretos é incerta. Para Parker, Green & Thompson 
(1987), se considerado o município como um todo e um horizonte temporal amplo, a 
tendência é de que eles sejam pequenos. Geralmente, não ocorre uma perda de demanda no 
setor, mas uma transferência ou adiamento. A diminuição ou paralisação momentânea do 
faturamento de uma firma poderá ser compensada por um aumento futuro ou por uma 
transferência da demanda com crescimento de receita em outro estabelecimento (ver item 
4.4). 
Ainda que o prejuízo financeiro da firma não se traduza em perda econômica para região ou 
país; para a comunidade, sempre haverá perda, pois há consumidores que incorrerão em 
gastos extras de transporte, pois terão que consumir em estabelecimentos mais distantes, e 
diminuição de bem-estar por adiar o consumo ou consumir bens menos satisfatórios. 
Demanda 
Final 
A B 
C2 
C1 
Sem inundação 
Com inundação 
 
 
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21 
3.2.1.1 Danos indiretos no comércio varejista 
O comércio varejista ocupa-se da distribuição final de bens. Ante a inundação de um 
estabelecimento, se os seus clientes optarem por adiar o consumo, ele sofrerá perdas pequenas 
de receita, apenas aquelas relacionadas a mudanças de rotinas ou perda de equilíbrio contábil 
decorrentes de uma súbita modificação no comportamento das vendas ou, eventualmente, 
alguma perda pelo estoque parado. Alternativamente, caso a estratégia do consumidor seja 
substituir ou transferir o consumo, o estabelecimento sofrerá prejuízos mais significativos. 
A opção por transferir ou substituir o consumo em detrimento do adiamento é função das 
opções existentes e da duração da inundação. Grande densidade de estabelecimentos, baixo 
grau de especialização e alto grau de substituição entre bens, implicam em maiores 
possibilidades para os consumidores e, em conseqüência, possíveis prejuízos financeiros para 
as lojas inundadas. Um exemplo são as padarias. Em outros setores, mais oligopolizados, 
específicos ou diferenciados, o comprador pode preferir adiar o consumo a substituí-lo, e as 
perdas individuais serão menores. 
Em relação à duração, embora se saiba da sua importância na magnitude dos danos, há 
dificuldades para se estimar como ocorre a relação entre danos e duração, embora se suponha 
que não seja linear. 
Do ponto de vista da firma, pode-se supor, por exemplo, que quanto maior o número de dias 
parados, maior a possibilidade de que os seus consumidores habituais escolham a 
transferência de consumo e não seu adiamento, logo, as perdas serão maiores. Por outro lado, 
há custos que não variam proporcionalmente no tempo, como os custos de limpeza. 
Do ponto de vista do consumidor, pode-se conjecturar uma tendência crescente de diminuição 
do bem-estar com a paralisação de uma unidade de consumo preferida, ou por adiar cada vez 
mais o consumo, ou por ser obrigado a escolher, a cada dia, locais de compras menos 
satisfatórios. Mas, pode-se supor também que ele acabe, com o tempo, a se adaptar a novas 
alternativas de consumo e haja um processo de acomodação. 
Ressalta-se que a opção temporal e espacial do consumidor é também determinada pelas 
características intrínsecas do produto. Alguns bens de consumo, como os jornais, não podem 
ter sua demanda adiada. Para os bens de consumo durável, o adiamento é mais provável. 
Considerando o país como um todo, uma perda econômica seria observada se houvesse um 
 
 
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22 
aumento do consumo de bens importados em detrimento dos nacionais, o que seria pouco 
provável de ocorrer como conseqüência de uma inundação, mesmo de grande magnitude. 
3.2.1.2 Danos indiretos nos estabelecimentos prestadores de serviços 
Nesta categoria estão serviços prestados por distribuidoras, escritórios, serviços de lazer, 
atividades de alimentação, entre outros. 
Distribuidoras são intermediárias entre indústrias e comércio, sendo similares ao comércio 
varejista em termos de danos potenciais de inundação. Os escritórios provêm serviços para o 
público em geral, para outras empresas ou é parte integrante de uma grande instituição (e.g.: 
serviços de advocacia, contabilidade, corretagem e financeiros). Seus serviços são 
freqüentemente representados por um produto físico, como contratos e plantas de engenharia. 
Serviços de lazer incluem bares, restaurantes, cinemas, teatros e clubes desportivos. 
O comportamento do consumidor frente à inundação das atividades prestadoras de serviços 
segue os mesmos princípios apresentados para o comércio. 
3.2.1.3 Interação famílias, comércio e serviços 
Segundo Parker, Green & Thompson (1987), um consumidor com residência inundada tem 
sua demanda alterada por três razões: 1) perda de renda por falta no trabalho; 2) gastos com 
substituição e reparos na residência leva a uma diminuição do consumo de outros bens e 
serviços, especialmente se há cobertura não integral dos danos oferecida pelo seguro contra 
inundação ou pelo auxílio estatal (no Brasil não há segurado contra inundações, ao contrário 
de países como Inglaterra e Estados Unidos) e 3) o tempo necessário para limpar e reparar a 
casa se traduz em menos tempo para outras atividades. 
A Tabela 3.4 mostra como a inundação de domicílios afeta o consumo nos estabelecimentos 
econômicos fora ou dentro da região inundada. Obviamente, a demanda de bens 
indispensáveis à sobrevivência do consumidor tenderá a se manter inalterada, como a de 
alimentos essenciais. Produtos para casa e material de construção possivelmente sofrerão um 
boom de consumo, no pós-desastre, para a recuperação da residência. Com a re-alocação da 
renda, perdem espaço no orçamento familiar os produtos supérfluos ou menos emergenciais. 
Para os serviços, o raciocínio é semelhante: frente ao desastre, as prioridades de gasto se 
alteram. A Tabela 3.5 apresenta um possível comportamento das famílias em relação à 
demanda por serviços. Ressalte-se que, pela infinidade de serviços existentes e pela 
importância diferenciada que eles possuem para cada agente, sintetizá-los em uma tabela tem 
 
 
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23 
alcance limitado. A questão central é o nível de urgência dos serviços, se ele pode ser adiado 
ou não, o que envolve um elevado componente individual. Entre todas as atividades usuais de 
prestação de serviços, talvez as únicas que possam ser consideradas menos prioritárias para 
todos os agentes, seriam as de lazer. 
Tabela 3.4 - O consumo das famílias e as conseqüências nas atividades comerciais 
Inundação de 
domicílios 
Demanda de alimentos e bens essenciais: inalterada. 
Demanda de bens não duráveis de alta elasticidade renda: diminui 
Bens duráveis para o domicílio: aumenta. 
Atividades 
comerciais 
localizadasna região 
inundada 
Venda de produtos alimentícios e bens essenciais: diminui. 
Venda de produtos não duráveis de alta elasticidade renda: diminui. 
Vendas de bens duráveis para o domicílio: adiada (não há como prever o 
comportamento das vendas). 
Atividades 
comerciais 
localizadas fora da 
região inundada. 
Venda de produtos alimentícios e essenciais: aumenta 
Venda de bens não duráveis de alta elasticidade renda: diminui ou permanece 
a mesma. 
Venda de bens duráveis para o domicílio: aumenta ou permanece a mesma. 
Fonte: Adaptado de Parker, Green & Thompson (1987: 63). 
Tabela 3.5 - O consumo das famílias e as conseqüências nas atividades prestadoras de 
serviços 
 
Inundação de 
domicílios 
Demanda por serviços financeiros: aumenta. 
Demanda por serviços de viagem e lazer: diminui. 
Demanda por serviços de salões de beleza e barbearia: inalterada ou diminui. 
Demanda por serviços de advocacia, contabilidade, corretagem de imóveis: 
inalterada. 
Serviços 
localizados na 
região inundada 
Serviços financeiros: transferência para filiais ou inalterados (adiamento da 
demanda). 
Serviços de viagem e lazer: diminuem. 
Serviços de salão de beleza e barbearia: diminuem ou inalterados. 
Serviços de advocacia, contabilidade, corretagem de imóveis: diminuem ou 
inalterados (adiamento da demanda). 
Serviços 
localizados fora 
da região 
inundada 
Serviços financeiros: inalterados ou aumentam. 
Serviços de viagem e lazer: inalterados ou diminuem. 
Serviços de salão de beleza e barbearia: inalterados ou aumentam. 
Serviços de advocacia, contabilidade, corretagem de imóveis: inalterados ou 
aumentam. 
Fonte: Adaptado de Parker, Green & Thompson (1987: 64). 
Um ponto a ressaltar é o de que a inundação pode ser acompanhada de mau tempo, o que 
também interfere no comportamento do consumidor. Seria necessário isolar o impacto do mau 
tempo daquele decorrente da inundação, o que envolveria estudos complexos, e nem sempre 
possíveis, de comparação de eventos e de dados históricos. 
3.2.2 Danos indiretos potenciais das atividades industriais 
Atividades industriais são aquelas envolvidas no processamento de materiais. Além dos danos 
diretos que possam ocorrer pelo contato com a água da inundação, existem dois componentes 
 
 
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24 
principais dos danos indiretos: 1) perda de valor adicionado e os 2) custos adicionais 
incorridos em decorrência da inundação. 
Geralmente o setor industrial possui maior volume de recursos financeiros (via recursos 
próprios, capacidade de empréstimo ou seguros) para minimizar ou neutralizar as 
conseqüências indiretas da inundação do que as atividades comerciais e de serviços. O setor 
não é tratado em detalhes nesta pesquisa que se ocupa principalmente das atividades 
econômicas relacionadas diretamente ao consumo das famílias. 
3.3 Interrupções ou perturbações na infra-estrutura urbana 
Como infra-estrutura, considera-se as aplicações sistêmicas de tecnologia para as 
necessidades da sociedade urbana, produzindo o que o historiador Joel Tarr (Tarr, 1984, p. 4) 
chama os tendões tecnológicos da cidade: sua rede de transporte, os serviços de utilidade 
pública (utilities) e o sistema de telecomunicações. 
A importância dos serviços de infra-estrutura é assinalada em Branscomb (2006). Segundo o 
pesquisador, o governo americano definiu uma lista dos serviços considerados vitais para a 
defesa e segurança econômica do país. Na primeira lista, deliberada em 1997 por um comitê 
do poder executivo americano, determinaram-se sete setores considerados “críticos”, os quais 
exigiam especial atenção quanto à garantia dos serviços: bancos e finanças; sistemas de 
energia elétrica; produção de gás e petróleo; armazenamento e transporte; serviços de 
emergência; informação e comunicação; transporte e sistema de abastecimento de água. 
Observa-se nesta lista que, com exceção dos serviços financeiros, todos os setores são 
relacionados à infra-estrutura do país. Anos mais tarde, em 2002, a lista foi ampliada, 
incorporando setores como o de alimentação e de indústria de base (US OFFICE..., 2002 apud 
Branscomb, 2006). 
A atenção dada aos serviços de infra-estrutura pelo governo americano associa-se a dois 
aspectos que se combinam tornando a sociedade especialmente vulnerável à ocorrência de 
falhas nos mesmos: a grande dependência que existe em relação a eles e a configuração em 
rede dos serviços, uma rede de grande alcance e elevada densidade de interconexões. 
Os elementos de infra-estrutura se interconectam em um sistema de dependência mútua. Um 
impacto sobre energia tende a afetar as telecomunicações que, por sua vez, afeta o transporte e 
o sistema de finanças e, em um efeito cascata, todas as funções desenvolvidas na cidade 
podem paralisar. O setor assume funções cada vez mais amplas e inter-relacionadas, com 
 
 
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25 
maior alcance e capacidade e passa mesmo a adotar o sistema just-in-time (Tang & Wen, 
2009; Branscomb, 2006). 
Branscomb (2006) destaca uma tendência dos gerentes e planejadores nos EUA em reduzir os 
custos dos serviços, diminuindo investimentos na redundância das conexões ou em medidas 
de proteção contra desastres. Buscam-se economias de escala, ou seja, um melhor 
desempenho e redução dos custos abarcando um amplo leque de funções e oportunidades de 
negócio. Com este objetivo, ocorrem fusões e aquisições no setor. Muitos sistemas tornaram-
se tão “eficientes” que resta pouca margem para mitigar as conseqüências de um desastre. A 
execução de alguma tarefa de inspeção mais rigorosa pode afetar a rapidez de produção ou 
distribuição do bem. Alguns componentes técnicos essenciais dos sistemas de energia elétrica, 
por exemplo, não podem ser rapidamente substituídos pela sua excessiva especialização. Cada 
vez mais os operadores humanos são substituídos por softwares, o que aumenta a 
vulnerabilidade ante a ocorrência de panes. Ao que parece, há uma preocupação com os riscos 
normais da atividade, mas a proteção a eventos de risco com menor probabilidade é 
negligenciada. 
Portanto, se por um lado, foram feitos progressos na engenharia e gestão de operações para se 
obter melhor qualidade e robustez dos serviços; por outro, grandes redes induzem a grandes 
riscos associados a uma potencial falha de operação. Uma pequena interrupção em suas 
conexões pode afetar imediatamente um grande número firmas e pessoas e, pelo “efeito 
cascata”, outras redes. 
Uma inundação é capaz de danificar diretamente as estruturas envolvidas na geração do bem e 
na distribuição dos serviços (e.g.: equipamentos, linhas de transmissão, estações e plantas) e 
promover uma piora ou paralisação da sua provisão dentro e fora da região inundada. Em 
conseqüência, as prestadoras sofrem perda de consumo e de receita e, os consumidores, falta 
de serviço adequado. 
Nas atividades econômicas, há possibilidade de avarias nas máquinas e nos materiais em 
processamento no momento da falta de energia. Com os serviços paralisados, corre-se o risco 
de perda de produção. Talvez a prestadora evite a interrupção do serviço empregando 
equipamentos e linhas alternativas, o que pode levar a custos adicionais pelo uso de 
equipamentos menos eficientes. 
 
 
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26 
Obviamente as redes têm características diferentes, o que interfere na sua vulnerabilidade. 
Redes de telecomunicação normalmente têm tecnologia em formato de árvore e são muito 
suscetíveis a um impacto externo, pois a perda de uma única ligação ou nó isola parte da rede. 
Outras podem ter maior grau de redundância e ligações, mas não necessariamente de 
capacidade. A magnitude do impacto é diferença se é um nó ou uma ligação que é atingida. 
Os nós das redes de serviçospúblicos, como as estações de bombeamento, estações 
telefônicas e transformadores, são normalmente mais suscetíveis do que as ligações – cabos, 
canalizações e correntes elétricas. 
Os danos nos serviços de utilidade pública são de difícil quantificação, envolve uma análise 
de rede (redundância, suscetibilidade e transferência) e uma estimativa do valor adicionado 
perdido, informação pouco divulgada pelas empresas. Como alternativa pode ser utilizada a 
perda de receita, inferindo quanto cada agente atingido deixou de consumir ou pagar. 
3.3.1 Perturbações no sistema de transporte 
Observou-se nas determinações do Executivo norte-americano como o setor de transporte de 
pessoas e bens é considerado vital para a cidade. Nesta pesquisa, pela impossibilidade de se 
estudar todos os serviços de infra-estrutura, o sistema de transportes, como a infra-estrutura 
que cumpre essencialmente a função de conectar os agentes, foi escolhido para representar os 
“tendões tecnológicos” da cidade. Grande parte dos danos indiretos citados anteriormente, em 
domicílios e atividades econômicas, possui relação com o sistema de transporte. 
O sistema de transporte é tipicamente uma rede. Nas vias, unidades discretas, como carros, 
ônibus ou caminhões locomovem-se. As pessoas, ao se deslocarem de um local para outro, 
esperam usufruir benefícios no local de destino. A interrupção ou perturbações nas vias leva à 
ocorrência, pelas dificuldades de acessibilidade, dos danos indiretos pelas firmas e domicílios 
discutidos no item 3.2, os quais envolvem substituição do consumo ou seu adiamento, mas 
também custos de transporte adicionais (custo material) e de oportunidade causados pelo 
atraso na chegada ao destino (custos por tempo de atraso) (Parker, Green & Thompson, 1987). 
A soma destes dois últimos custos representa o custo potencial pela perturbação no tráfego. 
O sistema viário e tráfego local possibilitam a propagação de efeitos localizados de um evento 
para outras áreas, aumentando a sua dimensão. Ante a ocorrência de uma inundação, não 
apenas as vias diretamente atingidas pelas águas sofrem perturbação, mas também as 
possíveis vias de desvio, onde o trânsito pode se congestionar. 
 
 
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27 
Em algumas situações, os custos associados a impactos no tráfego de veículos podem ser 
elevados, dominando os benefícios nas análises custo-benefício de medidas de proteção 
contra inundações. É o caso de vias que sofrem inundação com relativa freqüência em centros 
urbanos complexos, ou quando uma rede viária de uso intenso é inundada ou usada como 
desvio de tráfego ante a inundação de um centro urbano de relevância econômica. Outro 
exemplo são pontes e vias que, ao serem interrompidas, levam ao aumento significativo da 
distância entre origem e destino com o uso de rotas alternativas. 
Segundo Green (1995), a vulnerabilidade de uma rede é definida como o inverso do menor 
número de linhas que devem ser cortadas a fim de se isolar uma parte dela do restante.
3
 
Quanto maior o número de vias que precisem ser bloqueadas para isolar uma região, menos 
vulnerável é a rede ante a ocorrência de perturbações. Além deste aspecto dimensional, tem 
relevância a capacidade de trafego dos desvios, a fim de se viabilizar o deslocamento do fluxo 
sem transtornos, aspecto mostrado no item 4.4. 
3.4 Custos dos serviços de emergência 
Na cidade, há outras atividades que sofrem danos da inundação. Custos sistemáticos advindos 
da ocorrência de inundações são os custos sofridos pela administração pública e outras 
entidades envolvidas no socorro às vítimas. 
A função dos serviços de emergência é minimizar as perdas totais devido à inundação. Tanto 
o estado, quando organizações voluntárias ajudam vítimas potencias ou reais e auxiliam na 
proteção de propriedades. Entre os agentes envolvidos nos serviços de emergência, tem-se a 
polícia, a defesa civil, o corpo de bombeiros, os setores da administração pública ligados à 
assistência social e educação, os serviços de ambulância, os engenheiros e os voluntários, 
como Cruz Vermelha, Lions Club e outras organizações não governamentais. 
Serviços de emergência estão envolvidos desde a fase preparatória, quando são identificadas 
as ocupações de risco e estabelecidos os planos de emergência, até a fase de recuperação, com 
a coordenação dos grupos de assistência, avaliação do impacto, limpeza e fornecimento de 
ajuda monetária. 
Além do levantamento de todo os recursos e mão-de-obra envolvidos, a principal dificuldade 
que envolve a quantificação dos custos de emergência é a de definir adequadamente quais os 
custos adicionais são atribuídos somente à ocorrência da inundação. 
 
3
 Tradução do autor. Original em inglês. 
 
 
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28 
Muitos serviços prestados em uma situação crítica são concebidos para lidar com vários tipos 
de emergência (e.g.: incêndio, acidentes, inundação, desmoronamento). Se um evento 
necessitar de mais recursos do que o usualmente é atribuído a uma situação de emergência, há 
um custo marginal adicional associado a ele. 
As inundações envolvem o uso de serviços diversos. Desde bombeiros e ambulância, até 
setores da administração pública que, embora normalmente estivessem encarregados de outras 
funções menos específicas, passam a se ocupar das conseqüências causadas pela inundação. 
Portanto, a forma de cálculo dos danos tende a variar: para alguns serviços pode ser mais 
adequado utilizar o custo marginal (caso de ambulâncias); em outros, o custo médio (quando 
os serviços existem primeiramente para outros propósitos e não para emergências).
4
 
O custo dos serviços de emergência, como os custos associados a algumas atividades 
econômicas e de infra-estrutura, não é incorporado à metodologia de trabalho proposta. 
Primeiramente, pela impossibilidade de se tratar integralmente os danos da inundação, o que 
envolveria uma multiplicidade de agentes e uma análise espaço-temporal minuciosa. Além 
disso, embora um estudo centrado nos fluxos pudesse incorporar como base física, além do 
sistema viário, as outras redes que compõem uma cidade, como eletricidade e abastecimento 
de água, o modelo se tornaria demasiado complexo e inviável frente às limitações de tempo e 
recursos computacionais. Um estudo mais amplo dos fluxos existentes na cidade poderá ser 
feito posteriormente. 
3.5 Os danos diretos 
O enfoque do capítulo tem sido os danos indiretos. Eles ocupam centralidade na tese, pois 
avançar na sua compreensão é um dos principais objetivos deste trabalho. Mas os danos 
diretos também são impactantes e não há como excluí-los da análise, dado que eles originam 
os efeitos indiretos. 
Os danos diretos ocorrem na infra-estrutura, nas edificações (construção e conteúdo), nos 
veículos, nos equipamentos urbanos, como praças e parques, e nas plantas, animais e pessoas. 
Todos os bens e seres que tiveram contato físico com as águas das inundações são passíveis 
de sofrerem danos. 
 
4
 Para uma análise dos princípios e problemas que envolvem a estimação dos custos de emergência, ver Parker, 
Green & Thompson (1987). 
 
 
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29 
Considerando as edificações, a magnitude dos danos à construção depende, sobretudo, do 
padrão construtivo, da área construída, da idade do imóvel e das características da inundação 
que as atingiu (como profundidade e velocidade). A Tabela 3.6 mostra os principais 
componentes da construção e possíveis avarias associadas. 
Tabela 3.6 - Elementos da construção e danos 
(Continua) 
Elementos da construção Impacto da inundação 
Estruturas 
- Elevados níveis de água ou alta velocidade podem ocasionar danosestruturais 
relevantes. 
- Tempo é o fator chave. Se a água esteve na estrutura por várias horas, o dano e a 
quantia de material que precisará ser removido serão extensos. Artigos como tábua 
de gesso nas paredes e teto e isolantes debaixo do chão, dentro das paredes e sobre 
tetos poderão se danificar. 
Alvenaria 
Improvável que haja danos, a não ser que a inundação seja acompanhada de geada 
forte, quando pode ocorrer esfacelamento, trincas e rachaduras. 
Rejunte 
- Inundações curtas: entre 10 e 50% menos danos do que inundações de duração 
longa. 
- Inundações de duração longa: esfacelamento do rejunte, principalmente em prédios 
antigos onde ele é à base de cal. 
Revestimento em paredes 
de tijolos ou blocos 
 
- Imersão breve não deve causar danos se a condição pré-inundação era boa. 
- Argamassa de boa qualidade deve resistir à água durante certo período, mas, em 
contato prolongado, satura-se a massa que, sem adesão, necessitará restauração. 
- Caso água contaminada por efluente penetre o reboco, exige-se um novo. 
- Supõe-se, em geral, que o reboco sobre paredes de tijolos ou blocos vazados 
somente é afetado acima do nível do rodapé (inalterado até 0,1m, mas certamente 
danificado a 0,6m). 
- Reboco à base de cal em prédios antigos é fortemente afetado por inundações 
curtas ou longas. 
- Reboco sobre paredes de tijolo ou blocos vazados não é afetado em construções 
modernas em inundações de curta duração. 
- A área a ser restaurado pode ser 2 ou 3 vezes maior do que a área exposta ao 
contato. 
- Aparecimento de trincas. 
Porões e depósitos 
subterrâneos 
Imersão prolongada pode causar saturação de paredes, necessitando restauração de 
todo o acabamento. 
Pintura e paredes exteriores Danos em inundações de curta ou longa duração: descoloração e esfacelamento. 
Portas externas, marcos e 
batentes 
- Em níveis mais baixos de inundação (até 0,6m) e de curta duração, tintas a base de 
esmalte sintético podem protegê-las contra estragos. 
- Profundidades maiores tendem a danificar-las (efeitos de pressão e capilaridade). Se 
forem de madeira compensada, pode ocorrer seu empenamento, estufamento e 
descolamento. 
Marcos e Janelas 
- Janelas não são afetadas até que a água chegue ao peitoril, perto de 0,9m. 
- Inundações de curta duração não afetam a madeira até 1,5m, nível em que a pressão 
começa a causar danos. 
- Inundações de longa duração afetam a madeira e exigem reparos do nível do 
peitoril para cima. 
Pisos Desnível. Se forem de cerâmica, pode ocorrer deslocamento dos blocos. 
Pisos, portas e janelas de 
madeira 
Proliferação de fungos, manchas e encardimento. 
Porões e depósitos 
subterrâneos 
Imersão prolongada pode causar saturação de paredes, necessitando restauração de 
todo o acabamento. 
Pintura e paredes exteriores Danos em inundações de curta ou longa duração: descoloração e esfacelamento. 
 
 
 
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30 
 (Conclusão) 
Portas externas, marcos e 
batentes 
- Em níveis mais baixos de inundação (até 0,6m) e de curta duração, tintas a base de 
esmalte sintético podem protegê-las contra estragos. 
- Profundidades maiores tendem a danificar-las (efeitos de pressão e capilaridade). Se 
forem de madeira compensada, pode ocorrer seu empenamento, estufamento e 
descolamento. 
Marcos e Janelas 
- Janelas não são afetadas até que a água chegue ao peitoril, perto de 0,9m. 
- Inundações de curta duração não afetam a madeira até 1,5m, nível em que a pressão 
começa a causar danos. 
- Inundações de longa duração afetam a madeira e exigem reparos do nível do 
peitoril para cima. 
Pisos Desnível. Se forem de cerâmica, pode ocorrer deslocamento dos blocos. 
Fonte: Elaboração própria com informações disponíveis em Machado (2005). 
Além dos danos mostrados na Tabela 3.6, há outros, como em instalações elétricas e 
telefônicas, que talvez precisem ser substituídas ou reparadas. Podem ocorrer avarias em 
instalações hidráulicas e sanitárias, com contaminação de reservatórios e o rompimento de 
tubulações (Salgado, 1995). 
Os danos ao conteúdo das edificações, como em móveis, cortinas, tapetes e equipamentos e, 
quando ocorre em atividades produtivas, também no inventário (estoque de mercadorias e de 
matérias primas), dependem, principalmente, dos fatores de impacto do escoamento, da 
qualidade e quantidade de bens, de sua localização no imóvel e da suscetibilidade dos mesmos 
ao contato com a água. 
Fatores de suscetibilidade à inundação de várias mercadorias são encontrados em Penning-
Rowsell & Chatterton (1977). Eles indicam o valor residual de um bem que foi atingido pela 
água. Para a sua definição, foram consideradas as características do bem e a profundidade da 
inundação. Em geral, em produtos alimentícios e itens correlatos, a susceptibilidade é alta; em 
bens como jóias, ela é menor. Machado (2005) adaptou os fatores e os utilizou para elaborar 
estimativas de danos no Brasil. 
Deve ser dado destaque aos danos que podem ocorrer no estoque de mercadorias, 
principalmente de atividades comerciais. Alguns estudos indicam que os estabelecimentos de 
comércio são mais freqüentes na planície de inundação do que as indústrias (Machado, 2005). 
Segundo Machado (2005), pelo elevado estoque e intenso uso do espaço, o comércio possui 
um dano potencial ao conteúdo por unidade de área mais alto do que o das atividades de 
serviços e mesmo do que o das residências. 
Os danos ao estoque são função do volume estocado e de sua suscetibilidade após a 
inundação. A forma também interfere. Segundo estudo de Penning-Rowsell & Chatterton 
(1977), a reprodução gráfica da altura (acima do nível do chão) em relação ao percentual do 
 
 
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31 
valor do estoque seria tipicamente uma curva em forma de “S”. A distribuição do estoque de 
mercadorias em um estabelecimento comercial seguiria um padrão, com pouco estoque nos 
níveis mais próximos do chão e a maioria da mercadoria estocada entre 0,6m e 2,1m. 
 Há ainda os veículos. Eles também compõem o conteúdo de domicílios e firmas, são bastante 
suscetíveis ao impacto da águas, mas são especialmente problemáticos em relação à 
quantificação de danos. A primeira grande dificuldade é mensurar o número de veículos que 
se encontra no local do evento, dado que se trata de uma mercadoria cuja função é se deslocar. 
Appelbaum (1985) adota como hipótese de que os veículos atingidos são todos aqueles 
pertencentes aos domicílios da área afetada. O autor relativiza o impacto ao analisar o tempo 
de alerta. Se considerada uma antecedência de cerca de 2 horas, tem-se um percentual de 25% 
de veículos atingidos. Em um tempo de alerta significativamente superior a este, o percentual 
cairia para 10%. 
EASTWOOD... (2009) também utiliza em suas análises o número de veículos por domicílio 
(1,7 na Austrália) e adota o pressuposto de que 25% destes carros estão presentes durante as 
horas de trabalho (40 horas por semana) e 90% durante as horas de não trabalho (128 horas 
por semana), e, portanto, a expectativa de veículos presentes no momento da inundação, em 
uma média ponderada, é estimada em 1,3 por domicílio. 
No Brasil, há o trabalho de Nagem (2008), que, como em Appelbaum (1985) e 
EASTWOOD... (2009) utiliza a posse de veículos por domicílio na área inundada para 
mensurar a quantidade de veículos atingidos. O pesquisador, entretanto, contabiliza 100% dos 
automóveis. 
Contabilizados os veículos, é feita a análise de danos. Ela também encerra dificuldades, visto 
a variabilidade existente de modelos e ano de fabricação. A idade média da frota no Brasil, 
em 2009, por exemplo, é de nove anos.
5
 Um procedimento usual é escolher um veículo 
padrão para estimativa dos danos (Appelbaum, 1985; Nagem, 2008; EASTWOOD..., 2009), 
estes obtidos por meio de consultas em oficinas mecânicas,experimentos ou vistoria após o 
evento. 
Finalmente, têm-se os danos sobre equipamentos urbanos públicos (e.g.: praças e parques) e 
sobre a infra-estrutura urbana, como vias e redes de eletricidade e saneamento, que também 
 
5
 Segundo pesquisa do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores – 
Sindipeças, divulgada em agosto de 2009. Disponível em: 
 < http://www.sindipecas.org.br/paginas_NETCDM/modelo_pagina_generico.asp?ID_CANAL=514 > 
 
 
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32 
são susceptíveis ao contato com as águas do escoamento. As obras de infra-estrutura pública, 
pela sua dimensão e complexidade, tendem a exigir elevados custos de reparação, sobretudo 
nos componentes de construção (Merz et al., 2004). Segundo um amplo banco de dados da 
Bavarian Water Management Agency, em Munique, a infra-estrutura pública foi responsável, 
entre os anos de 1978 e 1994, pelo maior valor médio de danos decorrentes de inundações 
entre os setores econômicos na Alemanha. 
Há poucos estudos sobre estes impactos, possivelmente pelas dificuldades de mensuração e a 
diversidade existente. No Japão, por exemplo, os danos às obras de infra-estrutura são 
calculados de forma estatística, definindo, para os diferentes tipos, um percentual sobre os 
danos totais estimados para a área (Dutta, Herath & Musiake, 2001). 
Neste sentido, destaca-se estudo recém-desenvolvido no Brasil por Côrtes (2009). Nele são 
analisados os danos aos sistemas de abastecimento de água, esgotamento sanitário, drenagem 
urbana, distribuição de energia, limpeza pública e sistema viário. A sistemática de cálculo 
proposta foi aplicada para avaliar o impacto físico das inundações no município de Itajubá, 
em Minas Gerais, para diversos cenários de análise com a proposição de medidas de controle. 
No estudo, para uma inundação com tempo de retorno (Tr) de 100 anos, os danos de infra-
estrutura se situam entre 7% e 10% dos danos diretos totais, considerando três cenários de 
impacto do evento. 
Os custos de limpeza após uma inundação também são classificados como danos diretos 
(Parker, Green & Thompson, 1987). São necessários materiais de limpeza (e.g.: detergentes, 
alvejantes, desinfetantes, amônia, luvas e botas de borracha) e equipamentos (e.g.: baldes, 
ferramentas, esponjas, mangueiras, ferramentas, vassouras, pás, enxada, esfregão e carrinho 
de mão). Se o proprietário não os possuir, ele terá que incorrer em custos adicionais para 
comprá-los. Se for necessária a contratação de empregados ou a sobrecarga dos existentes, 
também haverá custo adicional. 
E há, ainda, os danos diretos intangíveis, como as perdas de bens insubstituíveis, de valor 
sentimental, o surgimento de doenças decorrentes do contato com a água, a perda de vidas 
humanas, entre outros. Embora quantificá-los encerre grandes dificuldades, o APÊNDICE I 
discute brevemente o valor da vida humana, esta afinal, a maior perda em uma inundação. 
 
 
 
 
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33 
4 VULNERABILIDADE A INUNDAÇÕES 
Antes de passar propriamente ao estudo da vulnerabilidade, são discutidos brevemente os 
fatores associados à ameaça, pois esses, ao atuarem sobre uma região e comunidade, se 
refletirão, em consonância com a vulnerabilidade, na magnitude dos danos. 
4.1 Ameaça: características da inundação 
O impacto da inundação sobre edificações e pessoas ocorre por ações hidrostáticas 
(resultantes da presença de água), hidrodinâmicas (resultantes do movimento da água) e de 
flutuabilidade (forças ascensionais) presentes no escoamento. Intensifica o impacto a carga de 
sólidos e componentes transportados, como entulhos, sedimentos, componentes químicos 
(e.g.: contaminação da água por esgoto e gasolina), nucleares (muito raros, apenas quando 
material nuclear é atingido pelas águas) e biológicos (ação de microorganismos que vivem em 
condições úmidas, especialmente mofo e fungos) (Kelman & Spence, 2004). 
A maioria dos estudos de risco não incorpora de forma integral todas estas forças e pressões, 
seria um trabalho exaustivo, quando não impossível, de quantificação. Muitas delas estão 
fortemente relacionadas às especificidades locais. Usualmente, usa-se a profundidade (força 
hidrostática) e, com menos freqüência, a velocidade (força hidrodinâmica) e duração. 
A profundidade da inundação é um fator relevante na criação de danos. Vários estudos 
quantificam os danos diretos relacionando-os à profundidade por meio de curvas (Penning-
Rowsell & Chatterton, 1977; Oliveri & Santoro, 2000; Dutta, Herath & Musiake, 2003; Merz 
et al., 2004). Segundo Penning-Rowsell & Chatterton, 1977: 
A profundidade da inundação dentro das edificações e a profundidade e 
extensão da água da inundação na planície de inundação são consideradas 
como as principais variáveis a afetarem os danos da inundação. A duração 
da inundação é assumida como menos importante, e quando foi 
sistematicamente estudada, esse parece ser o caso para edifícios residenciais 
(...). Assume-se que o papel da velocidade da inundação em produzir danos 
é pequeno, exceto em casos raros de falha estrutural. Os efeitos menores da 
velocidade são geralmente medidos pela variável de profundidade... 
(Penning-Rowsell & Chatterton, 1977:2, tradução da autora).
6
 
No Brasil, tem-se o trabalho de Salgado (1995), Machado (2005) e Nagem (2008) onde a 
profundidade também é a variável hidráulica associada aos danos. A suposição é de que não 
ocorre pressão hidrostática diferencial dentro e fora de uma edificação atingida, considerando 
como evento “padrão” uma inundação de lento crescimento (slow-rise). O efeito dominante 
 
6
 Original em inglês. 
 
 
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34 
seria o movimento moroso da água em contato com as construções e objetos. Estudos que 
fazem ressalvas a esta abordagem mostram que a profundidade explica, somente em parte, os 
danos, pois para cada altura de inundação, encontrar-se-ia também uma grande quantidade 
danos que também se associam às outras características da cheia (Merz et al., 2004). 
A velocidade não pode ser negligenciada; os danos tendem a aumentar à medida que as 
velocidades crescem (Green, Parker & Tunstall, 2000). Inundações rápidas (flash floods) e 
inundações causadas por ruptura de barragens são capazes de gerar escoamentos com 
velocidade suficiente para arrastar edifícios e estruturas de construção reforçada. Edificações 
em alvenaria e madeira provavelmente apresentarão falhas quando a velocidade da inundação 
ultrapassar 2 m/s (Tabela 4.1). 
A interação entre velocidade e profundidade acentua a força de colisão e é determinante na 
probabilidade de um colapso estrutural. Devido à presença de obstruções, estreitamentos e 
curvas para o fluxo de água na área urbana, efeitos localizados da velocidade criam 
turbulência e ondas, as quais aumentam a pressão hidrostática sobre as edificações. 
Inundações rápidas freqüentemente levam entulhos, estruturas danificadas, veículos e árvores 
atingidas, intensificando o impacto. Vários estudos utilizam a velocidade multiplicada pela 
profundidade, o chamado fator velocidade, para definição de parâmetros de ameaça. 
Green, Parker & Tunstall (2000) mostram alguns critérios de análise da ameaça apresentados 
por Penning-Rowsell et al. (1992), os quais, por sua vez, referem-se ao estudo de Clausen 
(1989), que relacionam as características das inundações ao possível impacto sobre a 
edificação (Tabela 4.1). O trabalho de Clausen (1989) é bastante referenciado em pesquisas na 
área de recursos hídricos e baseia-se em dados empíricos, essencialmente os adquiridos a 
partir da ruptura do Dale Dyke, ocorrida em Sheffield no dia 11 março 1864.Tabela 4.1 - Possibilidade de falha estrutural em edificações de alvenaria, segundo as 
características da inundação – Estudo de Clausen (1989) 
Resultado Velocidade Profundidade x Velocidade 
Danos sem afetar a estrutura da edificação < 2 m/s < 3 m
2
/s 
Falha parcial > 2m/s > 3m
2
/s e < 7m
2
/s 
Colapso estrutural > 2m/s > 7m
2
/s 
Fonte: Penning-Rowsell et al. (1992) tendo como referencia Clausen (1989) apud Green, Parker & 
Tunstall, 2000: 33. 
Trabalho da Helsinki University of Techology (RESCDAM..., 2000), baseado na análise de 
pesquisas que discutem as condições do escoamento que levariam a danos estruturais em 
 
 
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35 
residências (inclusive o de Clausen, 1989, mencionado acima), recomenda os parâmetros para 
identificação da possibilidade de danos estruturais mostrados na Tabela 4.2. 
Tabela 4.2 – Parâmetros do escoamento com possível influência na ocorrência de danos 
estruturais em casas acabadas, segundo recomendação do RESCDAM ... (2000) 
Tipo de casa Danos parciais Danos totais 
Madeira 
Sem fundação vy ≥ 2m
2
/s vy ≥ 3m
2
/s 
Com fundação vy ≥ 3m
2
/s vy ≥ 7m
2
/s 
Alvenaria, concreto e tijolo v ≥ 2m/s & vy ≥ 3m
2
/s v ≥ 2m/s & vy ≥ 7m
2
/s 
 Fonte: RESCDAM…, 2000: 18. Tradução da autora. 
A velocidade e profundidade da inundação também são utilizadas para definir o nível de 
ameaça a que uma pessoa está exposta. Por exemplo, um adulto médio começaria a perder 
estabilidade quando a profundidade e a vazão superam 0,91 m e 0,61 m
3
/s, respectivamente 
(FEDERAL EMERGENCY MANAGEMENT AGENCY - FEMA, 1979). 
Sobre este tema há outro estudo do RESCDAM... (2000) que mostra experiências com o uso 
de modelos físicos em análise de ruptura de barragens. Para exame da estabilidade de pessoas 
submetidas a diferentes características de escoamento, foram utilizados sete objetos humanos, 
cujo produto “massa x altura” (m x kg) variou de 77 até 195mkg. A partir daí, criaram-se 
funções que relacionam profundidade, velocidade do escoamento, massa e altura do 
indivíduo. As funções foram definidas para três cenários determinados segundo as condições 
do escoamento e da pessoa atingida: normal, bom (e.g.: boa visibilidade do escoamento, 
ausência de entulhos, indivíduos em boas condições de saúde) e ruim (e.g.: presença de 
obstáculos, sujeira, pessoa idosa) (Tabela 4.3). 
Tabela 4.3 – Recomendação para estabilidade humana em presença de escoamento, 
segundo RESCDAM ... (2000) 
Condições do escoamento e do indivíduo Funções
1, 2
 
Boas condições vy = 0,006 hm + 0,3 
Condições normais vy = 0, 004 hm +0,2 
Más condições vy = 0,002 hm + 0,1 
Fonte: RESCDAM... (2000) e Abt et al. (1989) apud RESCDAM .... (2000). Elaborado e traduzido pela 
autora. 
Nota: 1) A primeira e a última função estão presentes no estudo de RESCDAM... (2000) e a segunda, no estudo 
de Abt et al. (1989) apud RESCDAM .... (2000). 2) h = altura; m = massa; v=velocidade e y = profundidade. 
Em Prevene (2001) apud Courtel et al. (2006) a ameaça de afogamento é considerada em três 
níveis e com critérios mais simplificados, pois apenas a velocidade e a profundidade do 
escoamento são consideradas na análise (Tabela 4.4). 
 
 
 
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36 
Tabela 4.4 - Ameaça de afogamento, segundo Prevene (2001) 
Ameaça Profundidade (y) e Velocidade (v) 
Alta y > 1,5 m ou v > 1,5 m/s 
Média 0,5 m < y < 1,5 m ou 0,5 m/s < v < 1,5 m/s 
Baixa 0,1 m < y < 0,5 m e 0,1 m/s < v < 0,5 m/s 
Fonte: Prevene, 2001 apud Courtel et al., 2006. 
Segundo Jonkman et al. (2008), o número de fatalidades causado por um evento de inundação 
é fortemente influenciado pelas características da ameaça (e.g.: profundidade, velocidade e 
taxa da ascensão do nível d`água), pela existência de alerta, rotas de evacuação e abrigo e pela 
ocorrência de colapso estrutural de edificações, pois este, ao mesmo tempo que significa a 
perda de uma proteção contra a inundação, implica em um escoamento com maior carga de 
entulhos, uma ameaça adicional às pessoas. 
Acredita-se que as taxas de mortalidade são mais elevadas em quatro locais ou situações: em 
locais próximos aos diques rompidos e às barragens; onde há elevada profundidade de água; 
quando há uma taxa de ascensão acelerada no nível de água ou em áreas onde se verifica 
elevado volume de edificações destruídas (Jonkman et al., 2008). 
Jonkman et al. (2008) analisam a relação entre as características da inundação ocorrida em 
New Orleans após o furacão Katrina e a mortalidade. Observam também se há similaridade 
entre as conclusões de seu estudo e pesquisas anteriores feitas na Holanda, nas quais são 
utilizadas séries históricas de eventos ocorridos no país (Jonkman, 2007 e Jonkman, Vrijling 
& Vrouwenvelder, 2008). Os pesquisadores concluem que podem ser observados dois tipos 
de relação entre mortalidade e características do escoamento na planície de inundação, 
segundo a proximidade ou não da zona de diques. As funções de mortalidade são mostradas 
na Tabela 4.5. 
Tabela 4.5 – Funções de mortalidade definidas a partir de dados sobre a inundação de New 
Orleans, segundo Jonkman et al., 2008 
Zona de inundação 
Profundidade (y) 
x Velocidade (v) 
Mortalidade média (FD) 
Zona próxima da ruptura do dique y x v > 5m
2
/s FD = 0,053 
Zona mais distante da ruptura do dique y x v < 5m
2
/s FD(y)=ΦN[((ln(y)-5,20)/2,00] 
Fonte: Jonkman et al. (2008). 
Uma diferença destacada pelos autores entre os resultados de New Orleans e aqueles 
referentes à Holanda relaciona-se à influência da taxa de ascensão da cheia na mortalidade: na 
 
 
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37 
primeira ela é considerada não relevante, ao contrário dos resultados obtidos para as 
inundações holandesas. 
Uma análise mais abrangente da escala potencial da ameaça de uma inundação, considerando 
a profundidade e a velocidade, é mostrada na Figura 4.1. O índice de ameaça “1” é 
considerado o de menor impacto, quando as pessoas podem lidar sozinhas com os feitos 
adversos da cheia, mas os veículos não estão seguros. No valor extremo, “3”, há perigo para 
as pessoas e risco de dano estrutural. Nota-se que os danos passam a atingir as propriedades 
quando a profundidade ultrapassa 10 cm. Em altas profundidades de inundação (acima de 1 
m, por exemplo), a velocidade tem menor relevância do que a altura em relação ao impacto; o 
contrário ocorre em níveis mais baixos de profundidade, quando sua importância relativa é 
maior. Para que ocorra um evento que coloque gravemente em risco as pessoas e afete as 
estruturas das edificações, necessita-se uma velocidade mínima, ao contrário dos danos mais 
“superficiais” à propriedade, como em pisos e revestimentos. 
 
Figura 4.1 – Índice de ameaça 
Fonte: Stephenson, 2002: 427. 
Os parâmetros principais da Figura 4.1 são apresentados na Tabela 4.6: 
Tabela 4.6 – Os parâmetros de ameaça, segundo Stephenson (2002) 
Ameaça 
Profundidade (y) e 
Velocidade (v) 
Baixa: apenas veículos em ameaça y < 0,1m 
Baixa: pessoas são afetadas, mas a auto ajuda é possível y < 0,2m e v < 1m/s 
Média: danos à propriedade y x v < 0,5m
2
/s, mas y > 0,1m 
Alta: perigo às pessoas, especialmente crianças 0,5 m
2
/s < y x v < 1 m
2
/s 
Muito alta: perigo de dano estrutural e erosão y x v > 1 m
2
/s 
Fonte: Elaboração própria com informações contidas em Stephenson, 2002: 427. 
 
 
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38 
Observe que os indicadores propostos por Stephenson (2002) mostram a presença de dano 
estrutural com um fator velocidade de 1m
2
/s, parâmetro bem inferior ao apresentado nos 
estudos Clausen (1989) apud Green, Parker & Tunstall (2000) (Tabela 4.1). 
Stephenson (2002) apresenta um segundo digrama que incorpora, além da velocidade e da 
profundidade,a probabilidade de ocorrência do evento e cria um índice de risco da ameaça 
(Figura 4.2): 
 
Figura 4.2 - Índice de risco da ameaça, segundo o fator de velocidade e o tempo de 
retorno 
Fonte: Stephenson, 2002: 428. 
O índice de risco da ameaça (IR) é obtido multiplicando-se o índice de ameaça (IA) pelo 
índice de risco hidrológico (IH). O que o autor nomeia como risco hidrológico é o tempo de 
retorno (Tr) do evento: de 1 a 10 anos, índice 2; de 10 a 100 anos, índice 1 e de 100 a 1.000 
anos, índice 0. A Figura 4.2 mostra que um índice de risco de ameaça menor ou igual a “2” é 
aceitável, o que ocorre em três situações: eventos raros (Tr > 100 anos); quando a ameaça 
(velocidade x profundidade) é menor do que “0,5” e o Tr está entre 1 e 10 anos; ou quando a 
ameaça é menor do que “1” e o Tr do evento varia entre 10 e 100 anos. 
Apesar da ênfase dada à velocidade e profundidade nos estudos, a duração da inundação 
interfere no valor dos danos diretos e, particularmente, nos indiretos (Parker, Green & 
Thompson (1983: 46). 
3 2 1 0 
2 
1 
6 3 0 3 
1 
4 2 0 2 
0 
2 1 0 1 
1 10 100 1000 
Índice de 
ameaça 
(IA) 
Tempo de retorno, em anos 
Índice de risco hidrológico (IH) 
Velocidade do 
escoamento x 
profundidade 
(m 2 /s) 
Índice de risco da ameaça (IR) = IA x IH 
IR ≤ 2: aceitável 
 
 
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39 
Há pesquisadores que consideram duas escalas de duração (maior ou menor do que 12 horas) 
como suficiente para distinguir a susceptibilidade dos bens ao contato com a água, pois ela 
variaria em uma escala discreta e não marginal (Penning-Rouwsell & Chatterton, 1977). Mas, 
para determinar a magnitude dos danos indiretos, o numero de dias de inundação é relevante. 
Quanto maior a duração, maiores serão as perturbações e paralisação na produção e vendas de 
mercadorias durante e após o desastre, embora possivelmente esta relação não seja linear. 
Quanto maior o número de dias sem atividades da firma, maior a probabilidade de que os seus 
consumidores habituais desistam de postergar o consumo e escolham outros locais para a 
aquisição do bem. Para os moradores, quanto maior a duração, maiores as perturbações e 
dificuldades de deslocamento. Compromete-se o acesso ao consumo e ao trabalho. 
Além da duração, da velocidade e da profundidade, outras variáveis interferem no impacto da 
inundação. A carga e tamanho de sedimentos e entulhos, a força da onda ou vento, a 
velocidade de crescimento do nível de água no início da inundação, a possível contaminação 
da água por esgoto ou substâncias químicas são exemplos. Pode ocorrer proliferação de 
doenças, contaminação da água potável e até incêndios pelo contato com material 
combustível. A Tabela 4.7 esquematiza os fatores de ameaça decorrentes das características 
da inundação: 
Tabela 4.7 – Os fatores de ameaça 
Danos de 
Inundação 
Profundidade 
Duração 
Carga 
Sedimentos 
Sal 
Química 
Águas residuais 
Entulhos 
Velocidade 
Profundidade +Velocidade 
Batida de entulhos 
Rompimento de fundações 
Fonte: Adaptado de Green, Parker & Tunstall, 2000: 28. 
Quais fatores da Tabela 4.7 devem ser considerados no estudo de vulnerabilidade e de danos 
depende de vários aspectos, desde a escala do evento e o objetivo do estudo, até as limitações 
técnicas ou de dados. Em uma análise de prejuízo, o interesse em criarem-se funções que 
apresentem uma rápida estimativa dos danos diretos dificulta a incorporação de muitos 
atributos da inundação. Os ganhos em simplicidade e possibilidade de generalização seriam 
perdidos. Em análises mais abrangentes de vulnerabilidade e risco, a magnitude da ameaça 
 
 
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40 
normalmente é medida pela velocidade, profundidade e freqüência. Kelman & Spence (2004), 
em análise de vários estudos, concluem que a profundidade ainda é a variável mais recorrente 
nas pesquisas sobre danos, mesmo se um número não desprezível de estudos incorpore outras 
características hidráulicas, principalmente a velocidade. 
US Army Corps of Engineers - USACE (1998) apud Kelman & Spence (2004), propõem uma 
matriz delineando escalas consideradas importantes para determinação de cenários de análise 
dos danos de inundação: 
 Profundidade diferencial dentro e fora da edificação (Fdif): superficial (<0,9m), moderado 
(0,9 a 1,8m) ou profundo (>1,8m); 
 Velocidade (v): baixa (<0,9m/s), moderada (0,9 a 1,5m/s) ou rápida (>1,5m/s); 
 Inundações rápidas (flash floods): sim (menos que 1 hora) ou não; 
 Gelo e carga de entulhos e destroços: sim ou não; 
 Localização: costa ou fluvial; 
 Tipo de solo: permeável e impermeável. 
Em suma, esta seção mostra que os resultados apresentados pelas pesquisas sobre a definição 
de parâmetros de ameaça apresentam relativa variação. Uma das possíveis razões para esta 
divergência é que muitos critérios baseiam-se em análises empíricas, nas quais as 
especificidades locais podem ser importantes. Neste sentido, os experimentos feitos por 
RESCDAM... (2000), em ambiente controlado e considerando diferentes cenários de 
escoamento e de condições físicas das pessoas atingidas, merecem atenção. 
Observou-se que três enfoques principais dominam os estudos que tratam os parâmetros da 
ameaça, nos quais a profundidade e a velocidade são as principais características do 
escoamento utilizadas: o impacto da ameaça é discutido sobre os elementos expostos de uma 
maneira geral (e.g: automóveis, pessoas e edificações), como em Stephenson (2002); 
especificamente sobre as pessoas (e.g.: perda de estabilidade, possibilidade de afogamento, 
ferimentos), a exemplo dos estudos de Prevene (2001) e Jonkman et al. (2008) ou sobre as 
edificações (e.g.: possibilidade de dano estrutural), como em Clausen (1989) e RESCDAM ... 
(2000). 
 
 
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41 
4.2 Análise de Vulnerabilidade 
Nesta sessão introduz-se especificamente o estudo de vulnerabilidade. As inundações 
acarretam danos porque, em alguma medida, as comunidades atingidas são vulneráveis. 
O conceito de vulnerabilidade começou a ser freqüentemente usado nas discussões sobre 
desastres naturais no final dos anos oitenta a início dos anos noventa. Como atesta Green 
(2004), embora eventualmente seja possível discutir vulnerabilidade satisfatoriamente sem 
uma definição explícita ou compartilhada de seu conceito, se o objetivo é mensurá-la, torna-se 
necessário defini-la em termos claros e segundo propósitos específicos. 
Existem múltiplos conceitos para vulnerabilidade, mais especificamente, vulnerabilidade a 
uma ameaça natural. 
Para Chambers (1983) apud Delor & Hubert (2000) vulnerabilidade seria a exposição a 
contingências e estresses somada à dificuldade em enfrentá-los. A vulnerabilidade teria dois 
lados: um lado exterior, relacionado ao choque ou stress do qual o domicílio está sujeito, e um 
lado interno, que representa a desproteção, a impotência, a falta de meios em lidar com o 
evento sem a ocorrência de danos. Chardon (1999), simplificadamente, considera que 
vulnerabilidade é a probabilidade de sofrer danos. 
Alexander (2002) a define como a susceptibilidade de pessoas e objetos aos danos associados 
a determinado nível de perigo. Por “perigo” considera-se uma ameaça, com dada 
probabilidade de se manifestar em um local, em determinado momento, de uma maneira 
particular e com certa magnitude. A ameaça é o “gatilho” que expõe a vulnerabilidade. 
Conceito semelhante ao Chambers (1983) apud Delor & Hubert (2000) é adotado por Pelling 
(2003). A vulnerabilidade denotaria uma situação de exposição ao risco aliada a inabilidade 
em evitar ou absorver danos potenciais. O autor faz distinção entre vulnerabilidade física, 
social e humana. A primeira refere-se à vulnerabilidade do ambiente construído,a segunda, à 
vulnerabilidade experimentada por pessoas e seu sistema social, econômico e político. A 
vulnerabilidade humana seria uma combinação das duas formas anteriores de vulnerabilidade. 
De uma perspectiva de sistemas, a vulnerabilidade seria definida, segundo Green (2004), 
como a relação entre determinado sistema e o seu ambiente, este variando ao longo do tempo. 
As perturbações ambientais tornam-se relevantes no momento em que elas passam a inibir o 
alcance dos objetivos pelo sistema. 
 
 
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42 
Wisner et al. (2004:11) denota como vulnerabilidade as características ou a situação de uma 
pessoa ou grupo de pessoas que influenciam em sua capacidade de antecipar, lidar, resistir e 
de se recuperar do impacto de uma ameaça natural. O desastre ocorreria como resultado do 
impacto de uma ameaça natural sobre pessoas vulneráveis. 
Há autores que afirmam que o desastre seria uma situação extrema já implícita na condição 
quotidiana da população ou das pessoas. Os desastres trariam à superfície a pobreza que 
caracteriza a vida de muitos habitantes (Hardy & Satterwaite, 1989 apud Delor & Hubert, 
2000). 
Delimitando mais precisamente o que se configuraria como desastre, Chardon (1999) 
considera que o desastre estaria associado ao risco intolerável pela sociedade, aquele em que, 
ante a ocorrência do evento, ela não é capaz de resistir ou absorver as conseqüências do 
fenômeno natural, gerando uma situação de crise. 
Bollin et al. (2003) segue a mesma linha conceitual, mas explicitando o componente 
financeiro: desastre seria o impacto de um evento com conseqüências ou danos que excedem 
a capacidade da comunidade afetada ou da sociedade em manejar a situação utilizando seus 
próprios recursos. 
O conceito de Bollin et al. (2003) pode ser apropriado, entretanto falta clareza na definição 
precisa da dimensão temporal, afinal, a recuperação com os recursos próprios pode ser 
possível, mas envolver um longo período até que se alcance o nível de bem-estar anterior à 
ocorrência do evento. Este conceito, como todos os outros relacionados ao risco de desastres 
utilizados por Bollin et al. (2003), tem como base as definições contidas nos documentos 
coordenados pela International Strategy for Disaster Reduction - ISDR, que discutem uma 
Estratégia Internacional para a Redução de Desastres (EIRD) (ISDR, 2002 apud Bollin et al., 
2003). 
Torna-se relevante destacar o estudo Green (2004), que expõe uma série de conceitos 
encontrados na literatura sobre vulnerabilidade. Nesses, o objeto “vulnerável” pode se 
relacionar a um sistema qualquer que responde adversamente a eventos perigosos (Yamada et 
al., 1995 apud Green, 2004); a propriedades materiais e layout de objetos suscetíveis à 
determinada ameaça natural (Clark et al., 1998 apud Green, 2004); a grupos de indivíduos 
que possuem características que o posicionam na sociedade como menos ou mais vulneráveis 
(Cannon, 1993 apud Green, 2004); a uma região ou população que possui fatores que 
 
 
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43 
influenciam sua exposição ao risco natural e a predispõem às conseqüências adversas 
(Downing, 1993 apud Green, 2004); a um elemento propenso a danos em decorrência de 
“fragilidade” social, econômica, cultural e política (Alcantara-Ayala, 2002 apud Green, 2004) 
ou a um sistema social ou ecológico e sua propensão a sofrer danos decorrentes de stress e 
choques externos (International Council for Science, 2002 apud Green, 2004). 
Os autores citados por Green (2004) relacionam a vulnerabilidade a diferentes aspectos do 
“objeto” vulnerável como, por exemplo: seus atributos; a extensão do impacto sobre ele; suas 
características; sua habilidade em lidar com a situação; uma medida dos seus atributos; sua 
propensão em sofrer perdas, estresse e choques externos; sua susceptibilidade e seu grau de 
incapacidade ante a ameaça. 
Como consenso entre os pesquisadores tem-se que a vulnerabilidade está associada a um fator 
específico de impacto potencial - que pode ser uma ameaça, um perigo, um choque ou um 
estresse – que atua sobre um objeto, material ou social, em conseqüência de uma ou mais 
propriedades que ele possui. É sempre uma relação entre sujeito e objeto. 
Em relação ao objeto de impacto, Green (2004) compartilha opinião de Wisner et al. (2004) 
de que a vulnerabilidade é um processo que se refere a pessoas, jamais a objetos, pressuposto 
que também é considerado neste trabalho. 
Outro conceito estreitamente associado ao de vulnerabilidade, por isso a relevância em 
explicitá-lo, é o de resiliência. Resiliência é um conceito originariamente encontrado na 
física, referindo-se à capacidade de um material em voltar ao seu estado normal depois de ter 
sofrido tensão. Quando ampliado para um sistema social, refere-se à capacidade deste sistema, 
quando impactado, em retornar às condições anteriores à ocorrência do evento. O nível de 
resiliência pode ser medido, então, pelo tempo até o retorno ao “ponto de equilíbrio” inicial 
do sistema. Segundo terminologia de Pelling (2003), resiliência é a capacidade de se ajustar à 
ameaça e de mitigar ou evitar danos. A resiliência seria encontrada, por exemplo, em edifícios 
resistentes ao impacto das ameaças ou em sistemas sociais adaptativos. 
Intuitivamente, associa-se vulnerabilidade às características de um sistema que o tornam 
potencialmente mais susceptível aos efeitos adversos de uma ameaça, ou seja, seriam as 
características que o tornariam mais fraco. A resiliência, ao contrário, relaciona-se aos 
aspectos que o tornariam mais forte para suportar o choque. Portanto, a resiliência atuaria em 
sentido contrário ao da vulnerabilidade. Mas, como ressalta King (2001), a resiliência, mesmo 
 
 
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44 
que o inverso da vulnerabilidade, não é exatamente o seu oposto, pois o conjunto de fatores 
presentes na comunidade que a fortalecem contra o risco natural e contribuem para a sua 
recuperação não são necessariamente os mesmos que definem a vulnerabilidade. 
Mesmo que esse sentido permaneça, na literatura os dois termos nem sempre são tratados de 
forma separada. Alguns estudos tratam a resiliência como um componente da vulnerabilidade. 
Cita-se pesquisa de Cross (2001), na qual a vulnerabilidade é considerada como o somatório 
das condições que definem a exposição física e social, a resiliência ao desastre, o preparo ou 
mitigação pré-evento e a resposta pós-evento. Estas condições atuariam negativamente ou 
positivamente, cuja resultante seria o nível de vulnerabilidade. Segundo o autor, as grandes 
cidades, por exemplo, tenderiam a ter maiores níveis de exposição social e de riqueza ao 
evento do que as pequenas, mas teriam também, pelo maior poder econômico e volume de 
recursos, maior resiliência. 
Ressalta-se que a definição de vulnerabilidade de Cross (2001) assemelha-se à de Wisner et 
al. (2004), citada parágrafos acima, na qual também pode se admitir a resiliência entre os 
aspectos que comporiam o nível de vulnerabilidade; entretanto Cross (2001) considera 
também a exposição como um elemento de vulnerabilidade. 
Mas há autores que, ao contrário, separam nitidamente os dois conceitos. Em Pelling (2003), 
eles são distintos e contrários: à vulnerabilidade se refere à inabilidade diante da ameaça, 
enquanto a resiliência, à habilidade. 
Smit & Wandel (2006) também individualizam os dois conceitos. Mas estes autores tratam 
vulnerabilidade e resiliência para discutir, principalmente, outras duas manifestações sociais 
inter-relacionadas, a de adaptação e capacidade adaptativa. 
Segundo os autores, a adaptação refere-se ao processo, ação ou resultado sobre um sistema 
(domicílio, comunidade, setor, etc.) que o torna mais adequado para lidar, controlarou se 
ajustar a uma mudança de condição, a qual pode ser uma tensão, ameaça, risco ou 
oportunidade. Adaptações são manifestações da capacidade adaptativa e elas representam 
caminhos de redução da vulnerabilidade. Smit & Wandel (2006) argumentam que capacidade 
adaptativa apresenta um sentido similar ou bem próximo ao encontrado na literatura para 
outros termos, como adaptabilidade, habilidade para lidar (do inglês, coping ability), 
capacidade de gerenciar, flexibilidade, estabilidade, robustez e resiliência. 
 
 
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45 
Em sua pesquisa, Smit & Wandel (2006) lançam questões relevantes para se entender a 
capacidade adaptativa de uma comunidade e, por conseguinte, sua resiliência e 
vulnerabilidade. Ressaltam trabalhos que discutem a importância da experiência e do 
conhecimento existentes entre os membros da comunidade para caracterizar a percepção, as 
estratégias de adaptação e o processo de tomada de decisão local, fatores determinantes na 
capacidade adaptativa e na resiliência. 
Com a finalidade de se estudar como se estruturam as organizações comunitárias podem ser 
utilizados métodos etnográficos (entrevistas semi-estruturadas, observação, grupos focais 
etc.); entrevistas com lideranças locais, cientistas e planejadores; consulta à literatura e fontes 
de dados secundários. Após a investigação, é possível estabelecer as condições de risco local, 
como as pessoas reagem a ele e quais os fatores e processos que limitam suas escolhas ou o 
nível de conhecimento sobre a situação. 
Esta abordagem, que investiga as experiências de comunidades e a sua relação com a criação 
de capacidade adaptativa local, insere-se na chamada abordagem botton-up (de baixo para 
cima), que difere das abordagens mais tradicionais, top-down (de cima para baixo), cuja 
ênfase são os sistemas político e socioeconômico em contexto mais amplo. 
Os autores, entretanto, não negligenciam que a capacidade adaptativa de indivíduos e 
domicílios seja moldada, limitada ou ampliada pelos processos social, político e econômico 
existentes em macro escala (a exemplo das “causas de origem” existentes no modelo 
desenvolvido por Wisner et al., 2004, que é mostrado na seção 4.3). Fundamentalmente, 
existiriam fatores locais (e.g.: experiência, redes de parentesco e influencia política) e globais 
(e.g.: existência de subsídios nacionais à reconstrução, fontes de financiamento oficiais e 
planos nacionais de minimização de impactos de desastres naturais) que se interconectariam 
na criação de capacidades adaptativas. Em outros termos, a capacidade adaptativa de um 
domicílio frente a riscos naturais dependeria, em algum grau, das condições impostas pela 
comunidade em que vive, e esta seria reativa aos recursos e processos existentes na região ou 
país (Smit & Wandel, 2006). 
Embora a adaptação seja um objetivo para as comunidades em risco, são elas que, por razões 
locais (condições de insegurança) ou globais (causas de origem), normalmente, têm menor 
capacidade adaptativa (Smit & Wandel, 2006). 
 
 
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46 
4.3 Modelos de desastre: Pressão e Alívio e Acesso 
Pesquisas recentes têm enfatizado a necessidade de se discutir a vulnerabilidade implícita na 
vida diária das pessoas, o que significa dar especial atenção às condições reais e cotidianas de 
vida dos indivíduos, a fim de discriminar as forças e fraquezas que definem sua 
vulnerabilidade ante um evento adverso (Delor & Hubert, 2000). 
Neste sentido, surgem modelos ou concepções que procuram compreender ou representar qual 
seriam as atitudes comportamentais ou o estilo de vida que caracterizariam os indivíduos e os 
grupos sociais. Segundo Delor & Hubert (2000), vários destes modelos baseiam-se na teoria 
liberal de que a sociedade pode ser vista como um aglomerado de indivíduos em busca de 
harmonia (no inglês, harmony-seeking agglomerates of individuals) que tentam otimizar seus 
interesses de forma essencialmente racional ante as informações disponíveis e com o suporte 
das instituições existentes. Uma discussão mais detalhada sobre o homem racional ou 
econômico é apresentada na seção 6.3.1. 
Mas a maneira harmoniosa, consensual ou de racionalidade econômica de entendimento da 
sociedade tem sido questionada por outras abordagens. A reação individual ao risco e a opção 
por um dado comportamento seria influenciada não apenas pela qualidade e quantidade de 
informações, mas também, e de maneira fundamental, pelas relações sociais e estruturas de 
dominação existentes na sociedade. 
As relações sociais compreendem o fluxo de bens, dinheiro e excedentes entre diferentes 
atores (e.g.: agentes imobiliários, produtores agrícolas, distribuidores e domicílios em suas 
várias relações de produção e consumo). As estruturas de dominação referem-se às relações 
políticas existentes entre as pessoas em diferentes níveis. Incluem as relações dentro do 
domicílio, entre homem e mulher, crianças e adultos; as relações entre classes definidas 
economicamente, como patrão e cliente, empregador e trabalhador, e entre membros de 
diferentes grupos étnicos. Compreendem também a família em sentido mais amplo e as 
reciprocidades e obrigações que envolvem os laços de parentesco e amizade. Estas relações 
moldam e são moldadas pelos diretos existentes, obrigações, reciprocidades e expectativas 
relacionadas à alocação de trabalho e recursos (Wisner et al, 2004). 
As estruturas de dominação envolvem ainda, em nível macro, as relações entre cidadãos e 
estado. Estas são multifárias e cruciais em momentos de choques e stress. Compreendem 
questões de lei e ordem e de como estas são exercidas, padrões de governança e a capacidade 
dos serviços civil e de polícia. O grau de competência administrativa no preparo do desastre, 
 
 
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47 
como também na assistência às vítimas e na reconstrução são fundamentais. Estruturas de 
dominação podem recorrer a ideologias dominantes e compartilhadas por outros países, 
crenças e visões do mundo para a sua legitimidade. Tais ideologias têm íntima relação com as 
causas de origem da vulnerabilidade que serão discutidas nesta seção. 
Destacam-se dois modelos de desastre propostos por Wisner et al. (2004): o modelo de 
Pressão e Alívio ou modelo PAR (do inglês, Pressure and Release model) e o modelo de 
Acesso (Acesses model). 
O PAR mostra a “pressão” sobre as pessoas decorrente de duas forças: a vulnerabilidade de 
um lado e a ameaça de outro (Figura 4.3). Aliviando-se a pressão, reduz-se a vulnerabilidade 
e reduz-se o desastre. De acordo com o modelo, para a análise bem fundamentada do desastre 
é necessário traçar as conexões que ligam o impacto da ameaça sobre as pessoas aos 
processos e fatores sociais que geram a vulnerabilidade. Três processos principais se 
conectariam para a formação da vulnerabilidade ao desastre: o mais distante é nomeado 
“causas de origem” (root causes), as quais dão origem ao segundo processo, as “pressões 
dinâmicas”, para chegar-se às “condições de insegurança” atuais. 
Considera-se um processo (ou causa) como distante por pelo menos um dos três motivos: 
espacialmente distante (e.g.: influência de um centro de poder econômico externo sobre a 
economia nacional), temporalmente distante (causas históricas) ou distante por estar tão 
profundamente instalado na cultura, ideologia, crenças e relações sociais da comunidade atual 
que o torna quase invisível ou considerado como um fator “dado”. 
Entre as “causas de origem”, têm-se os processos econômicos, políticos e demográficos, pois 
esses afetam a alocação e distribuição de recursos entre as pessoas e grupos. Nestes processos, 
a distribuição do aparato institucional - estatal, legal e de poder – é central. O efeito de 
guerraspassadas que se estendem durante um longo período também estão entre as causas 
originárias da vulnerabilidade. Angola, Moçambique, Afeganistão e vários outros países ainda 
sofrem as conseqüências de guerras ocorridas no passado. A escassez e fome presentes 
aumentam à vulnerabilidade a eventos extremos, como as secas. 
O segundo processo de conexão à vulnerabilidade atual é chamado por Wisner et al. (2004) 
de “pressões dinâmicas” (dynamics pressures). São os processos e atividades que traduzem os 
efeitos das causas de origem no tempo e espaço em “condições de insegurança” atuais da 
comunidade. São mais contemporâneas e imediatas do que as causas primárias, referindo-se 
 
 
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48 
às manifestações conjunturais da estrutura política, econômica e social. Como exemplos, têm-
se as epidemias, a rápida urbanização, as guerras atuais, os programas de ajustamento 
macroeconômico e as políticas públicas. 
O terceiro fator, o mais próximo da cadeia de vulnerabilidade, refere-se às “condições de 
insegurança” (unsafe conditions). Ela expressa a vulnerabilidade da população no momento 
de contato com a ameaça. Nesta etapa é possível o mapeamento das famílias segundo 
variáveis representativas da sua condição atual no acesso à renda e oportunidades e, em 
sentido mais amplo, bem-estar (e.g.: renda, condições de moradia e trabalho e 
marginalização). As condições de insegurança constituem a ponte entre o modelo PAR e o 
modelo de acesso. 
Cita-se o exemplo do grande crescimento do aglomerado metropolitano do município de Belo 
Horizonte ocorrido durante a década de 1970. Não raro, os altos crescimentos populacionais 
vieram antes das obras de urbanização e na ausência de uma supervisão efetiva do 
parcelamento, ocupação e uso do solo por parte das municipalidades. Este descompasso entre 
ocupação e urbanização atingiu níveis alarmantes especialmente no vetor norte, onde, 
relacionado com a ausência ou fragilidade das leis urbanas, o preço baixo da terra levou à 
proliferação de conjuntos habitacionais e loteamentos sem a mínima infra-estrutura urbana. 
Estas “pressões dinâmicas” deram origem às atuais “condições de insegurança” no local 
(Cançado, 2002). 
 
Figura 4.3 - O modelo de pressão e alívio (PAR) e o modelo de acesso 
Causas
de 
origem
Pressões 
dinâmicas
Condições 
de 
insegurança
Ameaça
D
E
S
A
S
T
R
E
Risco = 
Ameaça x 
Vulnerabilidade
Modelo 
de 
Acesso
 
 
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49 
O modelo PAR mostra a “progressão da vulnerabilidade” ou uma “cadeia de causa-efeito” 
que tem relevância como instrumento analítico. Ele hierarquiza os fatores que, juntos, 
constituem a pré-condição para o desastre. Mas, segundo Wisner et al.(2004), o PAR possui 
limitações ao não inter-relacionar adequadamente a geração da vulnerabilidade com a forma 
como as ameaças afetam as pessoas, ou seja, ele torna-se um modelo estático. 
No PAR há uma separação nítida entre a ameaça e o processo social, a fim de se enfatizar a 
causa social do desastre. Mas a natureza, em suas diversas manifestações, é parte da estrutura 
da sociedade, percebe-se isso de forma evidente no uso dos recursos naturais pelas atividades 
econômicas. Ameaças naturais inter-relacionam-se com o sistema social, afetando o padrão de 
riqueza e sustento das pessoas (e.g.: afetando a distribuição da terra e a propriedade após o 
evento). 
O modelo de acesso procura contornar esta limitação. Ele permite uma análise detalhada e 
teórica das interações entre sociedade e meio ambiente no “ponto exato de pressão”, o ponto 
onde e quando o desastre se revela. Por meio dele pretende-se aprofundar no entendimento da 
vulnerabilidade, de como ela se manifesta durante e após um desastre gerando novas 
condições de insegurança. Ele complementa o modelo PAR, unindo os dois lados da cadeia - 
a ameaça e as condições de insegurança - em um detalhado modelo de processo (Figura 4.3). 
Com o modelo de acesso busca-se explicar em um nível micro o estabelecimento e a trajetória 
da vulnerabilidade e sua variação entre indivíduos e famílias. Para isso, ele discute a 
vulnerabilidade em termos de acesso: acesso às oportunidades de aquisição de renda, aos 
recursos e à qualificação. Estes padrões de acesso são definidos pelo perfil e nível de recursos 
(pessoais e materiais) que o indivíduo possui, os quais representam o seu bem-estar. As 
“qualificações” de acesso possibilitam maiores escolhas individuais. A partir das escolhas, 
tem-se uma determinada renda, um orçamento, um padrão de vida e a possibilidade ou não de 
investimentos em ativos e recursos que realimentam as qualificações de acesso. Obviamente, 
os indivíduos possuem diferentes possibilidades de acesso e, por conseguinte, 
vulnerabilidades distintas. 
O PAR, pelo enfoque social e histórico detalhado, recebe maior atenção nas ciências sociais. 
No domínio da Engenharia, é mais freqüente o uso do Modelo de Acesso nas análises de 
vulnerabilidade. Sua formulação conceitual já foi mostrada em parágrafos anteriores. Nele 
considera-se o risco pela interação entre ameaça e vulnerabilidade (Equação 4.1): 
 
 
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50 
 Risco = Ameaça x Vulnerabilidade 4.1 
O impacto pode ser mais ou menos severo segundo os diferentes grupos sociais e econômicos. 
O nível de recursos e ativos tende a mudar profundamente com a ocorrência de um evento. 
Algumas famílias podem ser obrigadas a vender suas terras e bens a fim de obterem meios 
para a sobrevivência, o que possibilita, por conseqüência, que os “oportunistas” da inundação 
os compram a baixo preço. Há razões para ocorrência de um aumento das vendas (ou preços) 
dos bens associados à reconstrução e recuperação da área afetada e nos estabelecimentos 
comerciais e de serviços situados em locais seguros. Negócios temporários usualmente são 
criados durante o desastre como, por exemplo, a comercialização de água potável por meio de 
barcos e a oferta de serviços de limpeza nos locais atingidos. 
O conjunto de bens e ativos e as conexões econômicas das famílias com outros grupos podem 
ser perdidos, aumentados, interrompidos ou reforçados. Em alguns domicílios haverá uma 
queda significativa de bem-estar, outros sentirão o impacto de forma mais amena e há até 
mesmo aqueles em que a inundação possibilitará ganhos (Figura 4.4). 
 
Figura 4.4 - Mudança do bem-estar com a ocorrência do desastre 
4.3.1 Vulnerabilidade como um processo 
As pessoas possuem um leque de decisões, como se deslocar para o trabalho ou consumir a 
renda, que garante o seu sustento, sua subsistência (do inglês, livelihood) e seu bem-estar. 
Normalmente, são decisões rotineiras, embora a vida urbana sempre traga alguma 
irregularidade (e.g.: mudança de emprego, início de um novo negócio e falência de uma 
atividade). A forma como cada família tem acesso ao seu sustento varia segundo o meio 
político e econômico (representado, no esquema analítico de Wisner et al., 2004, pelas 
relações sociais e estruturas de dominação). 
A busca da sobrevivência é um processo interativo baseado em ciclos repetitivos de decisão. 
O processo decisório pode ser analisado em diferentes escalas de tempo ou ciclos, desde 
Nível inicial de bem-estar
Desastre
Nível final de bem-estar
 
 
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51 
segundos até anos, o que depende do tipo de impacto no comportamento que se deseja 
analisar e de como ele vai afetar a vida cotidiana. A Figura 4.5 ilustra a idéia da rotina de 
tomada de decisões no tempo. 
 
Figura 4.5 - O ciclo de decisões nas famílias 
Fonte: Baseado em Wisner et al., 2004: 88. 
Tem-se, portanto, a normalidade cotidiana. A ocorrência da inundação representa uma 
transição da normalidadepara uma situação de choque. São adotadas novas atitudes, novas 
decisões e comportamentos durante a transição e possivelmente após. Gera-se um provável 
impacto no perfil de recursos e no volume de ativos das famílias e, por conseqüência, no 
acesso às oportunidades de renda e bens. A magnitude das mudanças depende, entre outros 
fatores, do bem-estar inicial do agente, ou seja, do seu perfil de acesso anterior à inundação. 
Ao que parece, grupos vulneráveis tendem a ficar ainda mais vulneráveis após o evento. 
Observe na Figura 4.5 que, exterior ao retângulo de tomada de decisões da família, existe a 
“proteção social”, que representa a presença de uma possível ação coletiva e estatal. Ele 
mostra que decisões em esferas mais amplas trazem impacto no comportamento das famílias 
com a ocorrência do desastre. Há uma ampla gama de recursos que possibilita maior proteção 
(e.g.: presença de diques, regulação do uso e ocupação do solo e redes de solidariedade 
desenvolvidas pela comunidade). 
São estes processos que o modelo de acesso pretende analisar na normalidade, choque, 
transição e adaptação. 
 
 
 
 
 
tn 
 
 
 
 
 
t4 
 
 
 
 
 
t3 
 
 
 
 
 
t2 
t2 
 
 
 
 
 
t1 
Subsistência 
das famílias 
Relações sociais Estrutura de dominação 
Proteção 
social 
Vida normal 
 
 
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52 
4.4 A dimensão espacial da vulnerabilidade 
A dimensão espacial é um aspecto central na caracterização da vulnerabilidade: uma família, 
por exemplo, pode ser vulnerável, embora sua comunidade ou mesmo o país como um todo 
não o seja. Há vários trabalhos que procuram destacar as particularidades da vulnerabilidade e 
resiliência considerando a dimensão espacial. 
Cross (2001) discute as diferenças de vulnerabilidade entre megacities e pequenas cidades, e 
lança questões sobre as especificidades que envolvem as comunidades rurais, urbanas, países 
desenvolvidos, em desenvolvimento e as favelas nas grandes áreas urbanas. A questão sobre a 
exposição ao risco de magacities, complexos espaços econômicos e sociais, está presente em 
vários estudos, como de Kakhandiki & Shah (1998). Também pesquisam as grandes cidades, 
mas com ênfase sobre a sua população marginal e desabrigada, Uitto (1998) e Mitchell 
(1998). As especificidades que envolvem a vulnerabilidade das grandes e médias cidades na 
América Latina, normalmente vítimas de um crescimento urbano acelerado, desordenado e 
sem o acompanhamento da infra-estrutura necessária, são apresentadas em Chardon (1999). 
Jayaraman, Chandrasekhar & Rao (1997), enfatizando a vulnerabilidade a desastres dos países 
em desenvolvimento, apresentam um conjunto de informações necessárias para a gestão do 
risco de desastres, com destaque para o sensoriamento remoto. Davidson (1997) compara a 
vulnerabilidade a desastres ocasionados por terremotos entre dez grandes cidades no mundo. 
A vulnerabilidade assume características bem próprias em regiões situadas em terras 
especialmente baixas, como na Holanda, discussão presente em De Graaf (2008). Briguglio 
(1995) e Adrianto & Matsuda (2002) destacam as desvantagens associadas à pequena 
dimensão, insularidade, afastamento e a propensão para catástrofes naturais das pequenas 
regiões e estados insulares. O risco de desastres naturais medido em esfera nacional está 
presente em Hall et al. (2003). Os pesquisadores, em uma análise quantitativa do risco de 
inundação em escala nacional, associada à avaliação dos mecanismos que causam sua 
variação ao longo do tempo, definem cenários futuros de risco de inundação na Inglaterra e no 
País de Gales entre os anos de 2030 e 2100. Em direção oposta, Smit & Wandel (2006), como 
já referenciados no item 4.2, enfatizam as comunidades como espaço de análise em seu estudo 
sobre adaptação e capacidade adaptativa. 
No presente trabalho o interesse recai particularmente sobre a vulnerabilidade do espaço intra-
urbano, um complexo sistema de inter-relações. Esta complexidade, ao mesmo tempo em que 
garante eficiência, rapidez e funcionalidade, pode também representar vulnerabilidade. O 
potencial de desastre associado ao espaço urbano é ilustrado pelo trecho abaixo: 
 
 
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53 
Se não estivessem reunidas lá vinte mil casas de seis e sete andares e se os 
habitantes desta grande cidade estivessem mais igualmente dispersos e 
alojados de maneira menos concentrada, o estrago teria sido muito menor ou 
talvez nulo (Theys, 1987 apud Vidal-Naquet, 1989: 15) (tradução da autora, 
original em francês). 
O texto é um extrato de uma carta escrita por Jean-Jacques Rousseau a Voltaire em 1756 e faz 
referencia a um terremoto ocorrido em Lisboa. Ela exemplifica uma rara situação que 
paralisaria completamente uma cidade. 
Segundo Vidal-Naquet (1989), exemplos ao longo da história mostram as duas circunstâncias 
que ocasionariam a paralisação de uma cidade: sua destruição, como pelo desastre natural em 
Lisboa, ou uma situação de deserção de seus habitantes, ocasionada, por exemplo, pela fome 
ou pestes. 
E, com o passar dos anos, o espaço urbano cada vez se torna mais denso e complexo, uma 
rede intricada que compreende uma infinidade de interconexões e interdependências entre 
seus agentes. Se, pelo poder financeiro existente, a resiliência nos grandes centros urbanos 
talvez seja maior do que nas pequenas comunidades, o impacto econômico também tende a 
ser superior (Mitchell, 1998; Kakhandiki & Shah, 1998; Cross, 2001; Branscomb, 2006). 
4.4.1 Vulnerabilidade da rede urbana 
A economia urbana se configura como uma rede de atividades conectadas (os nós) por entre 
os quais circulam bens, pessoas, informações, serviços e dinheiro. Para se manter em 
funcionamento, cada atividade produtiva necessita de insumos (matérias-primas, trabalho, 
energia elétrica etc.). Em contrapartida, ela fornece bens e serviços. Do processo de produção 
e consumo, surgem também resíduos, poluição e lixo urbano. Os fluxos circulam pelas 
conexões (ou links) da rede (e.g.: rede viária, rede elétrica, telecomunicações e rede de 
saneamento). Os indivíduos e famílias também são nós nesta rede, e não apenas enquanto 
consumidores: conexões sociais, como relações de parentesco, amizade, solidariedade e outras 
interdependências se formam entre eles. 
Neste sentido, um impacto natural, mesmo que atinja uma pequena área, pode levar a um 
grande poder de destruição e de propagação dos danos As conseqüências econômicas e sociais 
podem se estender a vários quilômetros além da área efetivamente inundada, exatamente pela 
cidade se tratar de um sistema interligado. 
 
 
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54 
Segundo Parker, Green & Thompson (1987), três características principais determinam o grau 
de vulnerabilidade de uma rede, ou seja, o grau em que ela é perturbada: a dependência, a 
capacidade de transferência e a suscetibilidade (Equação 4.2) 
V = f (D, T, S) 4.2 
Onde: 
V = vulnerabilidade urbana à perturbação por uma inundação; 
D = dependência; 
T = capacidade de transferência; 
S = suscetibilidade. 
A dependência se manifesta em uma análise da infra-estrutura, do produtor e do consumidor. 
Representa a dependência da cidade ou região em relação a uma via; a dependência de uma 
atividade em relação a um insumo ou a dependência do consumidor a um tipo de produto ou 
serviço. Quanto maior a dependência em relação à área atingida pelas águas e os bens e 
produtos que são ofertados lá, maiores as conseqüências do evento 
A capacidade de transferência também é uma característica dos nós e conexões da rede. Em 
uma rede, relaciona-se ao grau de redundância (número e capacidade das ligações 
alternativas) e à capacidade ociosa que ela possui. Para o agente econômico, depende de sua 
habilidadee possibilidade em adiar compras ou utilizar bens e fontes substitutas, sem que para 
isto seja necessário incorrer em custos ou perda significativa de bem-estar. Nesta estratégia, a 
quantidade estocada de bens é um fator relevante, desde que não seja afetada pela inundação. 
Algumas considerações adicionais em relação à capacidade de transferência dos agentes, 
embora anteriormente mencionadas no item 3.2.1, são destacadas aqui. Quando as atividades 
e famílias são afetadas pela inundação - seja na área em que se situam, seja em outras áreas - 
existem duas possíveis estratégias: o adiamento da demanda até as condições de normalidade 
ou a transferência de demanda para outro local ou bem similar, supondo que a parte não 
inundada da rede continuará funcionando razoavelmente bem. A primeira representa uma 
transferência no tempo e a segunda, no espaço. Considerando a racionalidade econômica, os 
atores irão escolher a estratégia que minimize suas perdas. Entretanto, existe um custo 
associado às estratégias de adiamento e transferência. A fim de transferir a demanda para 
outro local ou mercadoria, os consumidores provavelmente incorrerão em custos adicionais de 
transporte, de tempo ou aceitarão uma mercadoria menos preferível à utilizada usualmente 
 
 
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55 
(second best). O adiamento implica em postergar um consumo que se desejava imediato, o 
que representa perda de bem-estar. 
Que fatores afetam a capacidade de transferir ou adiar a demanda? O adiamento (e 
adiantamento) ocorre se o produto é comprado posteriormente ou a compra é antecipada, o 
que depende do comportamento e informação do agente, do tipo de atividade e do produto. 
Em atividades que utilizam informação em tempo real, como mercado de capitais e 
commodities, uma decisão adiada significa uma perda. A estocagem á mais simples para 
alguns produtos (e.g.: bens finais) do que para outros (e.g.: energia elétrica). Tanto para os 
insumos, quanto para produtos, o armazenamento não ocorre indefinidamente sem perda 
financeira. A capacidade de armazenagem é limitada pelo espaço, número de bens e sua 
deterioração (Parker, Green & Thompson, 1987). 
Já a possibilidade de transferência associa-se ao tipo de bem e ao seu local de origem e 
destino. Quando o bem ou a sua fonte é única, não é possível a transferência. Se há um grande 
número de “concorrentes” ou de bens similares, a transferência e substituição são viáveis. 
A susceptibilidade mostra em que extensão a área inundada irá afetar o restante da região, o 
que envolve os dois aspectos tratados anteriormente (dependência e capacidade de 
transferência). É um conceito de suscetibilidade diferente do empregado para danos diretos. O 
relevante não é o valor da avaria, mas se o dano, talvez pequeno em custo, tem um impacto 
significativo no funcionamento normal das atividades e da rede. 
A suscetibilidade é equivalente a uma análise de “dependência física” (Parker, Green & 
Thompson, 1987). Para um serviço de utilidade pública, por exemplo, é relevante determinar 
qual a probabilidade de interrupção, sua duração e se a perda do serviço ficará restrita a área 
inundada ou se atinge outras regiões. 
 Os três aspectos mostrados na Equação 4.2 vão ao encontro das três estratégias citadas por 
Green (2004) para diminuir a vulnerabilidade de um determinado sistema, modificando-o: 
torná-lo maior; aumentar a sua diversificação e reduzir a sua concentração. 
Quando o sistema torna-se maior, reduz-se o possível impacto relativo da perturbação, 
especificamente, da inundação. Os indivíduos adotam esta estratégia ao se agruparem em 
domicílios, em comunidades locais e, mais amplamente, em sociedades. Segundo Green 
(2004), ao nível nacional, um pequeno país exposto a ameaças tende a ser mais problemático 
do que um grande país. 
 
 
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56 
As duas outras estratégias - aumentar a diversificação e reduzir a concentração – implicariam 
em diminuir a dependência, aumentar a capacidade de transferência e diminuir a 
susceptibilidade (Equação 4.2). Estas estratégias são de difícil execução, pois seguem direção 
contrária à tendência atual de especialização e concentração como forma de aumento de 
produtividade com ganhos em escala e economias de escopo.
7
 
Entre os textos que discutem a problemática do espaço intra-urbano, com seus agentes, nós e 
redes está o de Mitchell (1998). Ele compila as informações de trabalhos desenvolvidos pelo 
International Geographical Union’s Study Group sobre a vulnerabilidade humana aos 
desastres naturais nas grandes cidades. O autor mostra que normalmente os modelos de 
impacto de desastres possuem limitações rígidas em função da utilização de dados históricos e 
de, implicitamente, basearem-se em pressupostos sobre continuidade e estabilidade dos 
parâmetros do risco. Ele ressalta a importância de se obterem progressos nos modelos de 
desenvolvimento urbano e destaca trabalhos que utilizam modelos matemáticos e redes 
neurais inseridos na emergente “ciência da complexidade”. Estes modelos, ao serem 
incorporados à análise de risco, introduziriam as prováveis mudanças socioeconômicas e 
espaciais que ocorrem ao longo do tempo. 
Uitto (1998) mostra a importância de um estudo sobre a geografia da vulnerabilidade urbana. 
Em relação ao assunto, o autor propõe um procedimento de análise que enfatiza uma 
abordagem bottom-up, com a participação e a criação de parceiras entre os vários agentes 
envolvidos na problemática do risco. Entre eles, autoridades locais, agências, organizações 
não governamentais, comunidades atingidas, etc. O objetivo seria desenvolver um modelo 
replicável de vulnerabilidade nas megacities. De acordo com Uitto (1998), um estudo piloto 
sobre a vulnerabilidade da população moradora de rua a ciclones e terremotos está sendo feito 
em Tókio. 
Ressaltando a importância de incorporar a variação temporal na análise de risco, Kakhandiki 
& Shah (1998) propõem uma abordagem integrada de avaliação de risco urbano com foco na 
mudança de risco e vulnerabilidade aos terremotos nas grandes cidades. As cidades são vistas 
como complexos sistemas técnico-sociais, compreendendo subsistemas que possam ser 
modelados econometricamente. Esta pesquisa é retomada na seção 6.4. 
 
7
As economias de escopo ocorrem quando o custo total de uma firma para produzir conjuntamente, pelo menos 
dois produtos/serviços, é menor do que o custo de duas ou mais firmas produzirem separadamente estes mesmos 
produtos/serviços, a preços dados de insumos (conceito disponível no sítio da Secretaria de Acompanhamento 
Econômico do Ministério da Fazenda na Internet). 
 
 
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57 
Em seu estudo, Chardon (1999) considera sistema urbano como sinônimo de sociedade, esta 
compreendida em sentido amplo, no qual se incluem os habitantes, as estruturas onde eles 
atuam e os diferentes tipos de redes que se estabelecem entre eles. O risco seria a combinação 
de quatro fatores: a ameaça, a probabilidade - da ameaça, das conseqüências e dos fatores 
circunstanciais - a complexidade (associada ao sistema) e os danos. O rico teria um aspecto 
multidimensional, correspondendo a um sistema complexo. Os fatores da vulnerabilidade se 
inter-relacionariam entre eles, individualmente e em conjunto, criando um sistema. 
Chardon (1999) especifica em sua pesquisa a vulnerabilidade existente nos países da America 
Latina, nos quais alguns aspectos a faria criar contornos próprios, como o rápido crescimento 
urbano agravado pela exposição inadequada de abrigos; moradias pobremente construídas; 
planejamento ineficaz; pouco policiamento sobre a lei de uso e ocupação do solo e a 
impossibilidade destas cidadesem prover a infra-estrutura adequada a todos os seus 
habitantes. A corrupção, normalmente presente e disseminada, agravaria os aspectos 
anteriores. 
Estes estudos representam importantes subsídios para uma análise de rede intra-urbana. 
Atomizando-se a análise, chega-se aos nós considerados centrais nesta pesquisa: os 
domicílios. 
4.4.2 Vulnerabilidade dos domicílios 
Uma questão que limita o estudo da vulnerabilidade à inundação em uma escala mais ampla - 
de um país, de uma cidade e mesmo de uma região da cidade -, é a suposição implícita de que 
ao reduzir a vulnerabilidade na escala, reduz-se também, proporcionalmente, a 
vulnerabilidade de seus habitantes, o que não ocorre na realidade. 
Green (2004) é um dos pesquisadores relevantes que tem como foco de análise os domicílios. 
Segundo Green (2004), a definição de vulnerabilidade envolve quatro elementos chaves: 1) 
um sistema proposto; 2) os objetivos específicos deste sistema; 3) um ambiente dinâmico no 
qual sua variação pode ajudar ou limitar o alcance dos objetivos do sistema; 4) uma variedade 
de variáveis mediadoras entre o sistema e o ambiente, de estratégias adaptativas para o 
sistema e de meios para modificar o ambiente. 
Green (2004), baseando-se no modelo de subsistência sustentável de Ashley & Carney 
(1999), apresenta um modelo de sistema. Nele, os domicílios possuem dois recursos básicos: 
tempo e energia. O meio básico em que vivem é o meio ambiente, em diferentes graus 
 
 
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58 
modificado pelo homem, mas que preserva suas fontes vitais, como energia solar e água. O 
domicílio divide o tempo e a energia entre a própria manutenção, a contribuição de bens e 
serviços para comunidade e a geração de renda. Escolhe entre a produção direta de um bem 
ou a aquisição de renda para comprá-lo de terceiros. Algum recurso pode ser investido para 
gerar multiplicadores, como educação e habilidades, resultando em um aumento da razão 
entre entrada e saída de recursos (tempo, energia e dinheiro). 
Uma perturbação no meio ambiente, como um desastre natural, traz efeitos sobre a qualidade 
de vida das famílias: redução da energia disponível (e.g.: através de uma doença); diminuição 
dos produtos fornecidos pelo meio ambiente (e.g.: comida, água); redução da renda familiar 
pela perda de oportunidades ou pela diminuição da quantidade de energia e de tempo para 
serem vendidas na forma de trabalho; decréscimo da taxa de retorno dos recursos; ocorrência 
de danos diretos à construção e ao conteúdo da moradia e redução dos serviços oferecidos 
pela comunidade, inclusive os médicos. 
Ocorrendo uma inundação, tempo, energia e renda são redirecionadas para outras atividades, 
como proteção, reparação e limpeza da residência. As distâncias para o trabalho ou para as 
compras podem se tornar maiores de acordo com a área atingida pelo evento. Como o tempo é 
finito, outras atividades são renunciadas, as de lazer são usualmente as primeiras. O poder 
aquisitivo da renda familiar provavelmente cairá, custos adicionais de transporte, tempo, alta 
de preços de mercadorias e gastos com reconstrução e assistência médica são prováveis 
(Green, 2004). 
O sistema apresentado por Green (2004) trata de maneira indiferenciada o domicílio urbano 
ou rural, do que decorre a relativa ênfase dada à produção direta de bens ou ao impacto da 
inundação sobre a produção agrícola. Propõe-se neste trabalho um modelo semelhante, mas 
que apresenta domicílios fundamentalmente urbanos, com maior detalhamento de suas 
funções, enfatizando sua existência enquanto consumidores e trabalhadores em uma rede 
urbana (o modelo proposto, com suas hipóteses de trabalho, é mostrado na seção 8.1). 
Quais as intervenções possíveis para reduzir a vulnerabilidade de determinado sistema? Green 
(2004) destaca três: 1) tentar reduzir o desafio (do inglês, challenge), para diminuir a 
magnitude da perturbação ou a sua natureza; 2) filtrar a perturbação antes que ela afete o 
sistema; 3) reduzir o impacto sobre o sistema, reduzindo a natureza do próprio sistema. 
 
 
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59 
Estas três intervenções, em relação ao risco, corresponderiam a: 1) controle na fonte e 
armazenamento (e.g.: bacias de detenção, áreas úmidas - no inglês, wetlands -, terras 
inundáveis – no inglês, washlands -, barragens)
8
; 2) separação (e.g.: taludes) e 3) modificação 
do sistema (e.g.: medidas waterproofing, lei de controle e uso do solo)
 9
. 
Ante um ambiente em constante mudança, o sistema procura intencionalmente aumentar o 
nível de realização de seus objetivos ao longo do tempo. Para isto busca também 
simultaneamente minimizar a extensão e a duração dos desvios de trajetória na consecução 
destes objetivos que possam ocorrer em conseqüência de perturbações ambientais. Esta busca 
envolve trade-offs entre o nível médio de realização dos objetivos, a susceptibilidade do 
sistema a choques, e a taxa em que ele se recupera desses choques (Green, 2004). Ao definir 
sua estratégia comportamental, o sistema deve considerar todo o espectro de perturbações a 
que ele se expõe e, em conseqüência, definir as perturbações centrais para as quais vai dirigir 
prioritariamente sua atenção e recursos. A atitude ante a ocorrência da inundação insere-se em 
um processo de tomada de decisões que não é isolado; o risco de uma cheia extrema pode, por 
exemplo, ser considerado insignificante quando comparado ao de outras ameaças existentes. 
As famílias, inseridas no ambiente, fazem parte de um meio econômico-social em constante 
transformação. Entram componentes de previsão e incerteza. Elas são confrontadas com 
vários eventos de risco, como secas, inundações, doenças, depressões econômicas, guerras e 
desemprego. Logicamente recebem atenção os eventos com maior percepção de risco 
probabilístico ou de maiores impactos. O risco de inundação tende a ser percebido como 
comparativamente baixo em relação ao de uma doença ou ao do desemprego. A forma como 
cada domicílio incorpora a probabilidade e o impacto em suas decisões de gasto depende de 
características pessoais e culturais, do nível de informação e da capacidade de poupança, o 
que é fundamental na sua vulnerabilidade ante a ameaça. 
Uma diminuição do impacto à saúde poderia advir da adoção de medidas que diminuam a 
sobrecarga de atividades que ocorre ante a iminência ou ocorrência de um desastre, ou seja, 
seriam ações para reduzir a energia e o tempo dispensados na execução das tarefas. 
 
8
 Washlands são áreas na região inundável atingidas naturalmente ou de maneira deliberada pela inundação para 
fins de gestão das cheias. As washlands podem ser wetlands ou as incluí-las, estas caracterizadas por reterem a 
água em nível elevado, natural ou artificialmente, para benefício da flora e da fauna associada ao tipo de 
ambiente (A NEW FLOODPLAIN..., 2003) 
9
 O termo, inglês, refere-se a medidas feitas na residência para evitar os danos da inundação. Entre elas: elevação 
do primeiro andar da edificação, utilizando o nível inferior como área de estacionamento ou de acesso à 
residência; construção de muros ao redor da residência; utilização de comportas para passagem de água e 
selagem das paredes para impermeabilização. 
 
 
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60 
Um dos meios mais eficazes para redução da vulnerabilidade disponíveis aos domicílios passa 
por um deslocamento da esfera individual para a coletiva: fazer amigos, criar relações de 
parentesco ou, mais geralmente, formar uma comunidade ou uma sociedade. A criação de 
redes sociais é cada vez mais considerada um atributo de capital social que aumenta as 
oportunidades de acesso à informação, educação e renda (Brunie, 2009). De um lado,cria-se 
uma rede de direitos e obrigações a que se pode recorrer no caso de um evento extremo e, por 
outro, as economias de escala resultante de uma atuação comunitária permitem maior acesso a 
recursos a fim de que uma gama mais ampla de adaptações possa ser adotada. 
Os sistemas de alerta têm sido considerados um dos meios de se reduzir os danos decorrentes 
da inundação. De uma perspectiva de redução de vulnerabilidade, ante o alerta, as pessoas em 
risco adotariam algumas atitudes: colocar em local seguro os objetos necessários para uma 
sobrevivência confortável (e.g.: água, rádio, cobertores, alimentos e medicamentos); salvar 
itens insubstituíveis (e.g.: fotografias e papéis); recolher bens que ajudarão na recuperação 
(e.g.: detalhes dos seguros, contatos telefônicos, artigos de limpeza e ferramentas) e mover 
ativos de alto valor ou itens de baixo peso que possam ser deslocados sem risco de 
ferimentos. 
A Tabela 4.8 mostra um estudo que apresenta uma possível razão entre danos reais e danos 
potenciais (ou danos máximos prováveis), considerando a existência de sistema de alerta e a 
experiência anterior de inundação da comunidade (Read, Sturgess and Associates, 2000 apud 
Handmer, Reed & Percovich, 2002). 
Tabela 4.8 - Razão danos reais/danos potenciais 
Tempo de Alerta 
Comunidade com 
Experiência de Inundação 
Comunidade sem Experiência 
de Inundação 
Menos do que 2 horas 0,8 0,9 
2 a 12 horas 
Redução linear de 0,8 em 2 
horas até 0,4 em 12 horas 
0,8 
Mais de 12 horas 0,4 0,7 
Fonte: Read, Sturgess and Associates, 2000 apud Handmer, Reed & Percovich, 2002. 
Observa-se na Tabela 4.8 como a experiência é considerada um fator relevante para eficiência 
do sistema de alerta. Um tempo de alerta de mais de 12 horas pode implicar em uma 
diminuição de 30% nos danos, caso a comunidade não tenha experimentado uma inundação 
anterior. Se a experiência existe, esta redução é de 60%. Mas o essencial a ser apreendido da 
Tabela 4.8 não é a razão dos danos, valor controverso e de difícil generalização, mas que o 
sistema de alerta reduz o impacto socioeconômico - pois possibilita que os agentes consigam 
 
 
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61 
proteger alguns bens e se preparar melhor para enfrentar a situação - e que a experiência o 
torna mais eficiente.
10
 
4.4.3 Vulnerabilidade dos moradores à ocorrência de danos diretos (ferimentos, doenças 
e morte) 
O menor nível possível de agente social é o indivíduo. Os domicílios são a unidade básica de 
análise, pois se contitui em um micro-sistema onde grande parte das decisões são tomadas. 
Mas o domicílio é formado por indivíduos e estes possuem características próprias, como 
idade e condições físicas e mentais, o que torna necessária, em algum medida, sua análise 
individual. 
Nesta seção se dicute brevemente a vulnerabilidade das pessoas, mais especificamente, a 
vulnerabilidade aos danos físicos, como ferimentos, afogamentos e doenças correlacionadas à 
ocorrência do evento. 
A vulnerabilidade de um indivíduo a ferimentos ou morte em um evento de inundação 
depende de vários fatores: idade; histórico físico e mental; condições físicas e mentais atuais; 
tipo de atividade desenvolvida no momento do evento; comportamento (e.g.: tentativa de 
resgate de pessoas ou objetos no momento do evento, se adormecido ou não, etc.); tipo de 
roupas usadas; habilidade para nadar; experiência; impedimento temporário (e.g.: uso de 
álcool ou drogas); conhecimento da área; localização (e.g.: se o indivíduo estava a pé, de 
bicicleta, em um veículo ou em um prédio); existência e eficiência do resgate (incluindo auto-
salvamento) e capacidades de resposta médica (Jonkman & Kelman, 2005). A questão do 
gênero como fator de vulnerabilidade também é amplamente discutida na literatura, mas os 
estudos são contraditórios em relação à sua significância estatística. Ao que parece, aspectos 
ligados à cultura de cada país influenciam na sua relevância como elemento de 
vulnerabilidade. 
Embora existam todos estes fatores, normalmente a literatura enfatiza três: idade, gênero e 
atividade. Uma referência é o trabalho de Jonkman & Kelman (2005) que apresenta uma 
síntese dos resultados obtidos em vários estudos empíricos sobre a relação entre estes 
atributos e a mortalidade. 
 
10
 Green (1995) contesta a idéia de que a experiência por si só possa ser considerada um fator significativo na 
redução da vulnerabilidade. Afirma que, muitas vezes, as pessoas esperam que a inundação corrente seja igual à 
experimentada no passado, o que pode levar à adoção de medidas inadequadas e inapropriadas. A experiência só 
é válida quando se tem uma acurada expectativa do tipo de inundação a ser enfrentada, os seus sinais de alerta e 
as melhores maneiras de minimizar suas conseqüências. 
 
 
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62 
Com foco, uma das pesquisas estatísticas mais amplas foi desenvolvida por Ashley & Ashley 
(2008). Nela é utilizado como fonte de análise um banco de dados com 4.586 registros de 
mortes devido a inundações ocorridas nos Estados Unidos nos últimos 47 anos. A Tabela 4.9 
mostra os resultados obtidos pelos pesquisadores em relação à questão etária, a qual interessa 
particularmente a esta pesquisa. 
Tabela 4.9 – Distribuição do número de fatalidades decorrentes de inundação e da 
população segundo grupos etários - Estados Unidos, 1959-2005 
Faixa etária % da população % de mortes 
Diferença em pontos 
percentuais 
> 9 anos 14,0 14,0 0,0 
10 a 19 anos 14,8 19,0 4,2 
20 a 29 anos 13,5 15,4 1,9 
30 a 39 anos 15,3 12,2 -3,1 
40 a 49 anos 15,1 11,0 -4,1 
50 a 59 anos 11,1 9,2 -1,9 
60 a 69 anos 7,1 9,6 2,4 
> 70 anos 9,1 9,8 0,7 
Total 100,0 100,0 0,0 
Fonte: Elaboração própria com dados presentes em Ashley & Ashley (2008: 814). 
A Tabela 4.9 mostra o percentual da população e de fatalidades por faixa etária. A última 
coluna mostra a diferença, em pontos percentuais, entre as duas variáveis, em uma possível 
indicação de vulnerabilidade etária à inundação. A Figura 4.6 apresenta graficamente esta 
diferença. 
 
Figura 4.6 – Diferença, em pontos percentuais, entre o número de fatalidades 
decorrentes da inundação e o número de habitantes do país por faixa etária. Estados 
Unidos, 1859-2005. 
Fonte: Elaboração própria com dados presentes em Ashley & Ashley (2008: 814). 
- 5,0 
- 4,0 
- 3,0 
- 2,0 
- 1,0 
0,0 
1,0 
2,0 
3,0 
4,0 
5,0 
> 9 10 a 19 20 a 29 30 a 39 40 a 49 50 a 59 60 a 69 > 70 
Pont os perce ntuai s 
faixa etária 
 
 
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63 
As informações apresentadas na Tabela 4.9 e na Figura 4.6 indicam que os grupos etários 
mais vulneráveis em relação à mortalidade a inundações situam-se entre 10 e 29 anos e acima 
de 60 anos. Ashley & Ashley (2008) corroboram estes resultados citando várias pesquisas que 
mostraram o mesmo padrão na distribuição de fatalidades (Coates, 1999; French et al.; 1983 e 
Mooney, 1983 apud Ashley & Ashley, 2008). Análise de Jonkman & Kelman (2005) também 
vai de encontro a estas conclusões. 
Algumas observações sobre estas informações devem ser feitas. Como mencionado, a 
ocorrência de fatalidades está relacionada não apenas às características físicas dos indivíduos, 
como a idade, mas, em grande parte, a fatores diversos e aleatórios, como o comportamento 
do agente ou o local em que ele se encontrava no momento da cheia (Ashley & Ashley, 2008; 
Jonkman & Kelman, 2005). Logo, não se pode assumir, segundo as informações de Ashley & 
Ashley (2008), e sem um tratamento estatístico adequado, que a idade é um fator 
determinante na vulnerabilidade 
Em relação ao local ou à atividade executada pelo indivíduo no momento da fatalidade, o 
estudo de Ashley & Ashley (2008) mostra que63% das mortes com causas conhecidas 
ocorrem dentro de veículos. Em seguida, têm-se as ocorrências no “exterior” (e.g. pessoas 
sentadas em bancos ao lado de cursos d‟água) e na “água” (nesta categoria estão pessoas que 
intencionalmente caminharam ou nadaram nas águas da inundação), as quais registram, 
respectivamente, 14 e 9% das ocorrências (Tabela 4.10). 
Tabela 4.10 – Distribuição da população e do número de fatalidades decorrentes da 
inundação segundo local ou atividade desenvolvida no momento do evento 
Estados Unidos, 1959-2005 
Local ou atividade desenvolvida Percentual de número de mortes 
Veículos 63% 
Exterior 14% 
Água 9% 
Estrutura permanente (imóvel) 5% 
Outros 9% 
Fonte: Elaboração própria com dados presentes em Ashley & Ashley (2008: 814). 
Destaca-se o fato que, entre as vítimas que caminhavam nas águas, 43% tinham como 
objetivo alcançar algum destino, como o automóvel ou a residência, logo, grande parte destas 
mortes poderia ter sido evitada, uma vez que não tinham como finalidade a fuga ou o resgate 
de alguém.
11
 Este aspecto está associado ao comportamento de risco das pessoas, o qual se 
 
11
 Ressalta-se que na categoria “água” não estão incluídas as pessoas que acidentalmente caíram ou foram 
levadas pelo escoamento, estas classificadas na categoria “exterior”. 
 
 
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64 
observa freqüentemente durante as inundações, em atitudes como a busca de pertences na 
residência ou a tentativa de atravessar com o veículo uma rua inundada (Reimer, 2002 apud 
Jonkman & Kelman, 2005). 
Portanto, a mortalidade como impacto direto da inundação pode estar mais relacionada ao 
local onde os indivíduos se encontravam no momento do impacto e ao comportamento do que 
à idade; o que explicaria o maior número de jovens como vítimas fatais. 
Observou-se em vários estudos a limitação de discutirem de forma absoluta o número de 
fatalidades segundo faixas de idade, sem relativizar a informação (por exemplo, pelo número 
de pessoas do mesmo grupo etário existente no local do evento ou na população). E, sem o 
trato estatístico necessário, o dado torna-se meramente quantitativo sem indicar a existência 
de algum possível aspecto relacionado à vulnerabilidade etária. 
Há estudos que ampliam o horizonte temporal de análise e procuram captar a ocorrência de 
doenças e mortalidade após o evento. Estudo de Osaki & Minowa (2001) sobre a ocorrência 
de mortes um ano após o episódio de um terremoto verificou que há associação significativa 
entre a mortalidade e os danos estruturais sofridos pela habitação da vítima em decorrência do 
terremoto. A explicação é de que os indivíduos cujas habitações foram mais destruídas são 
aqueles com acesso mais precário ao sistema de saúde. 
Nesta linha, os autores citam estudo desenvolvido na Armênia quatro anos após a ocorrência 
de um terremoto. Nele se sugere que o aumento, em longo prazo, da morbidade da doença 
cardíaca e doença crônica depois de um sismo está relacionada com a intensidade da 
exposição da vítima aos danos diretos das edificações (Armenian et al., 1998 apud Osaki & 
Minowa, 2001). Embora os efeitos do terremoto tenham particularidades, como a intensidade 
da destruição física das edificações - as quais podem facilmente ser completamente destruídas 
-, e o tipo mais usual de doença e de mortalidade associado ao evento, ele oferece indícios 
para estudos em outros tipos de desastres naturais. 
4.5 Metodologias para medir a vulnerabilidade à inundação 
Um elemento crucial na discussão sobre vulnerabilidade refere-se à dificuldade em aplicar um 
conceito muito geral - vulnerabilidade - a situações específicas e reais. Este é um dos motivos 
pela qual a vulnerabilidade às inundações é freqüentemente identificada por apenas uma de 
suas causas, seja uma determinada desvantagem, como a pobreza, certos estilos de vida, 
formas de produção específicas ou qualquer outro fator que tornaria grupos humanos mais 
 
 
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65 
vulneráveis a desastres. Tal reducionismo esconde o fato de que mesmo quando as pessoas 
sofrem as influências dos mesmos fatores, elas não os sentem da mesma maneira (Delor & 
Hubert, 2000). 
Percebe-se, atualmente, o surgimento crescente de metodologias para criação de índices de 
risco à inundação, este composto por vários sub-indices, entre os quais, usualmente há um que 
represente a vulnerabilidade, a qual é mensurada, por sua vez, por vários indicadores. 
A criação de um índice de risco à inundação permite comparar rapidamente o risco de 
inundação de diversas regiões. O índice mostra quais os fatores determinantes na magnitude 
do risco (subindicadores e variáveis): a ameaça, os níveis de vulnerabilidade e a falta de 
capacidade de resposta da população atingida. Por meio do índice tem-se também uma 
referência de magnitude dos danos associados aos vários componentes da cidade, o que 
auxilia a sua quantificação em termos monetários. Por estas possibilidades, o índice de risco 
de inundação tem sido considerado instrumento relevante no planejamento e gestão urbana e 
do risco, orientando na definição de políticas e áreas prioritárias de intervenção. 
Entre as técnicas mais usuais para definição do índice e, em especial, para a ponderação dos 
subindicadores, Cardona (2005) destaca: igual ponderação, modelos de regressão múltipla, 
fronteira eficiente, análise fatorial, decisão multicritério e opinião de especialistas. 
A técnica de regressão múltipla é usada para analisar a relação entre uma única variável 
dependente (critério) e diferentes variáveis independentes (preditoras). Em um índice de 
vulnerabilidade, a vulnerabilidade seria a variável a estimar a partir de outras já conhecidas, 
como sexo, idade e renda. Esta técnica torna-se pouco viável na sua concepção, pois não 
existem medidas de vulnerabilidade observadas (únicas e padronizadas) para várias 
localidades que poderiam ser utilizadas na análise de correlação. 
O método da fronteira eficiente pode ser mais bem compreendido em termos visuais. As 
variáveis definidas (e.g: taxa de desemprego, faixa etária e nível de renda) são relacionadas, 
para cada região, em um gráfico multidimensional. A fronteira eficiente é a envoltória das 
melhores posições possíveis. O indicador de cada região é calculado segundo a distância da 
origem em relação à curva envoltória, ou seja, segundo a sua eficiência relativa (igual a um, 
na fronteira). A limitação é de que os pesos são calculados por meio da comparação entre as 
regiões, ou seja, o peso depende da dispersão dos dados em relação às posições mais 
eficientes (regiões mais “eficientes”). Como afirma Cardona (2005:79) sobre o método, 
 
 
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66 
a definição do peso não está baseada em algum juízo de valor, mas sim nos 
dados (…) este método é muito pouco generoso a respeito das suposições da 
ponderação porque permite aos dados decidir sobre a questão do peso 
(Cardona, 2005: 79). (tradução da autora) 
12
 
A análise fatorial permite analisar a estrutura das inter-relações (correlações) entre um grande 
número de variáveis definindo um conjunto de dimensões latentes comuns, os fatores (Hair et 
al., 2005). Identificadas as dimensões é possível determinar o grau em que cada variável é 
explicada pela respectiva dimensão. Supõe-se que a variância é uma medida eficiente para 
traduzir a importância de uma variável no conjunto. Existem dois modelos básicos de análise 
fatorial - a análise de fatores comuns e análise de componentes principais - que se diferem no 
tipo de variância utilizado para formar os fatores (Hair et al., 2005). A análise fatorial é útil 
como medida resumo de variáveis e comumente é usada juntamentecom outras técnicas 
multivariadas. 
Com freqüência utiliza-se a análise fatorial associada à análise de agrupamentos (ou de 
cluster) para criar índices (Kubrusly, 2001). Esta permite classificar objetos com base nas 
similaridades que possuem criando um pequeno número de grupos mutuamente excludentes. 
Foi empregada, por exemplo, para criar o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS) 
pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), por meio do qual os setores 
censitários paulistas são classificados segundo a sua vulnerabilidade socioeconômica. 
O que torna complexa a criação de um índice de vulnerabilidade à inundação com a utilização 
da analise fatorial é a existência de um fator externo, a ameaça. A base da análise fatorial para 
ponderar é a correlação, o que não necessariamente indica uma relação causal entre os 
subindicadores (os fatores) e o fenômeno. Ou seja, correlação e casualidade têm significados 
distintos (Cardona, 2004, 2005). 
Outra maneira de se definir indicadores é por meio de análises multicritério. Este tipo de 
análise pode ser utilizado sempre que o decisor necessite fazer uma escolha em presença de 
múltiplos critérios (Pomerol & Barba-Romero, 1993). Ela seria adequada como ferramenta 
para a criação de um indicador de risco de inundação, pois nele estão presentes critérios 
físicos, como profundidade e duração da inundação, e socioeconômicos, relacionados às 
variáveis sociais e demográficas da população exposta. 
Em uma situação onde existem entre várias alternativas ou possibilidades para consecução de 
determinado fim, a análise múlticritério pode ser utilizada para selecionar qual a melhor 
 
12
 Original em espanhol. 
 
 
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67 
alternativa, para definir as alternativas que parecem “boas” e descartar as que parecem 
“ruins”, para gerar uma ordenação de alternativas ou mesmo para realizar uma descrição de 
alternativas. 
As análises multicritério pressupõem que não existe apenas um único ótimo em um problema 
com vários critérios, mas um conjunto ótimo de soluções atendendo de formas diferentes aos 
critérios envolvidos. “Este conjunto é chamado de conjunto Pareto ótimo, no qual, só é 
possível a melhora em relação a um critério, com a piora em relação a outro” (Castro, 2002). 
Os métodos multicritérios são divididos em três grandes grupos: métodos baseados na teoria 
de utilidade-multiatributo; métodos seletivos e métodos interativos (Castro, 2007). 
O primeiro grupo caracteriza-se, segundo Harada (1999) apud Castro (2007), pela agregação 
de diferentes atributos dentro de uma única função. O processo de tomada de decisão baseia-
se, então, na otimização dessa função. Os principais métodos do grupo são os métodos dos 
pesos; o método das restrições; o método AHP – Analytical Hierarchy Process; o método 
multiobjetivo linear e a Programação de Compromisso. 
O segundo grupo de técnicas, chamado métodos seletivos, tem como principal característica: 
o estabelecimento de comparações entre alternativas, duas a duas, com a 
construção de uma relação que acompanhará as preferências dos decisores. 
(...). A partir dessa relação entre cada duas alternativas, é possível verificar 
se há argumentos para decidir se uma é melhor do que outra (Castro, 2007: 
112) 
Entre os métodos desse grupo, destacam-se os métodos da família ELECTRE (ELimination Et 
Choix Traduisant REalité) e PROMETHEE (Preference Ranking Organization METHod for 
Enrichment Evaluations). 
Já no terceiro grupo de métodos multiatributo estão aqueles interativos, nos quais o decisor 
não tem estabelecido a priori o seu sistema de preferências. Ao longo do processo decisório, à 
medida que o problema é mais bem compreendido, novas informações são incorporadas à 
análise (Castro, 2007). Entre os métodos que apresentam a característica da interatividade, 
tem-se o método do valor substituto de troca e o método dos passos. 
Outra técnica amplamente difundida na criação de índices, especialmente na definição dos 
pesos dos subindicadores, é a utilização de opiniões de especialistas. Segundo Cardona 
(2005), o método é adequado para um máximo de doze subindicadores (ou variáveis), pois se 
esses são em número elevado, pode significar uma tensão cognitiva excessiva para os 
 
 
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68 
especialistas na definição das ponderações. Entres trabalhos que utilizam a opinião de 
especialistas na definição dos pesos dos indicadores ou das dimensões tem-se o estudo de 
Davidson (1997) que apresenta um índice de risco de desastre por terremoto. 
Entre as técnicas para organização das opiniões de especialistas, destaca-se o Método Delphi. 
O método permite o uso estruturado do conhecimento e da experiência, pressupondo que o 
julgamento coletivo, quando organizado adequadamente, é mais eficiente do que a opinião de 
apenas um indivíduo. Entre suas características principais está o anonimato dos participantes, 
a dispersão geográfica, a representação estatística da distribuição dos resultados e o feedback 
de respostas do grupo. 
Conceitualmente o método Delphi é simples. Por meio de uma série de questionários 
interativos enviados aos participantes (rounds) busca-se alcançar suas melhores repostas e 
opiniões sobre determinado assunto e, quando possível, o consenso (Wright & Giovinazzo, 
2000). Existem duas fases básicas no método – exploração e avaliação. Na primeira, o tema é 
explorado com a obtenção de informações adicionais e novos pontos de vista. Na segunda, 
avaliam-se e estruturam-se as opiniões dos especialistas, definindo discordâncias e consensos. 
Se existe um nível significativo de diferença de opinião, é necessário descobrir e analisar as 
razões para isto (Linstone & Turoff, 2002). Na área ambiental, o método Delphi vem sendo 
bastante utilizado, principalmente na criação de indicadores de qualidade (Lopes, 2005). 
Observe-se que a criação de índices compostos normalmente envolve um nível de 
subjetividade, seja na definição das variáveis ou das ponderações. Ao lado das técnicas 
estatísticas, entra o julgamento do pesquisador, sempre amparado em ampla base conceitual e 
bibliográfica. 
Alguns estudos apresentam subsídios relevantes para a criação dos índices de risco e 
vulnerabilidade às inundações e na definição das variáveis propostas neste trabalho. 
Destacam-se duas formulações sugeridas em trabalhos do IDEA/BID. A primeira é destacada 
em Cardona (2004, 2005). 
 
4.3 
Onde: 
RT = risco total de desastre; 
RF = risco físico; 
F = fator de agravamento ou impacto. 
  F 1 R R F T    
 
 
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69 
Ao índice de risco físico ou direto – RF – associa-se um fator de impacto “F”. O risco direto é 
formado pelas conseqüências potenciais do desastre sobre os elementos expostos fisicamente 
ao evento. O fator de impacto caracteriza a fragilidade social e a falta de resiliência local; 
representa a potencialidade de agravamento dos danos ou, similarmente, a ocorrência de 
danos indiretos. O valor de F varia de 0 a 1 considerando que os efeitos indiretos são, no 
máximo, 100% dos diretos. O rico físico e o fator de impacto são formados a partir de 
indicadores os quais possuem um peso específico, definido segundo o Processo Analítico 
Hierárquico. Através de funções de transformação, em sua maioria funções sigmodais, os 
indicadores passaram a ter valores variando de 0 a 1. Estes valores, depois de multiplicados 
pelo peso atribuído a cada indicador, foram agrupados e somados segundo o critério – risco 
físico ou fator de agravamento. Definidos a magnitude dos dois critérios, pôde-se encontrar o 
índice final de risco “RT”. O APÊNDICE II mostra os critérios e indicadores utilizados nocálculo do índice. 
Esta metodologia pode ser utilizada para qualquer unidade sub-nacional e mesmo intra-
urbana. Barbat & Carreño (2004) a utilizaram para avaliar os efeitos de uma ameaça sísmica 
nas localidades menores de Bogotá, capital da Colômbia.
13
 Encontrou-se um índice de risco 
total para cada localidade e também para o município como um todo. Este compreendeu um 
índice de risco físico de 0,2246 e um fator de impacto de 0,663. Logo, tem-se, segundo a 
Equação 4.4: 
 
4.4 
 
Observe que o fator de agravamento representa 66,3% do risco físico, resultando em um risco 
final de 0,3735. Um fator de agravamento máximo igual a 1 significaria um risco final igual a 
duas vezes o valor do risco físico. 
Um segundo índice interurbano destacado nas publicações do BID passível de adaptação para 
a realidade brasileira é proposto em Bollin et al., 2003: 
 
4.5 
Onde: 
RT = risco total; 
A = ameaça; 
 
13
 Bogotá está dividida em localidades menores. Uma localidade é uma divisão política, administrativa e 
territorial municipal com competências claras e critérios de financiamento e aplicação de recursos (Cardona, 
2005). 
 
wC ) wV wE wA ( R T     
  0,3735 663 , 0 1 2246 , 0 R T     
 
 
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70 
E = exposição; 
V = vulnerabilidade; 
C =capacidades e medidas. 
A ameaça (A) representa o perigo à que é submetida uma comunidade diante da possível 
ocorrência de um fenômeno natural. A exposição (E) descreve a população, o valor das 
estruturas e as atividades econômicas afetadas adversamente pelo desastre. Ela indica aos 
tomadores de decisão o que está “em jogo” quando se presencia uma catástrofe, dado que 
existem diferenças de uma ameaça sobre uma pequena comunidade ou sobre uma grande 
cidade. A vulnerabilidade (V) lista os fatores que representam a susceptibilidade a uma 
ameaça, agrupando-os em físico, econômico, social e ambiental. Nele, estão inseridos fatores 
como taxa de crescimento populacional, assentamentos em área de risco, nível de pobreza, 
base local de recursos e extensão da área degrada. O critério de capacidades e medidas (C) 
mostra a prevenção, mitigação, preparação, resposta, reabilitação e recuperação da cidade 
atingida. Ele é co-relacionado ao critério de vulnerabilidade, uma vez que um acréscimo no 
segundo representa um decréscimo no primeiro e vice-versa. A Figura 4.7 apresenta o marco 
conceitual utilizado por Bollin et al. (2003). 
 
Figura 4.7 – Marco conceitual de um índice de risco de desastre utilizado em Bollin 
et al. (2003) 
Segundo a Figura 4.7, tem-se quatro critérios ou fatores que procuram representam o risco de 
desastre. Estes são divididos em subcritérios, como probabilidade, severidade, estruturas, etc. 
Cada um destes subcritérios é, por sua vez, definido a partir de indicadores. No APÊNDICE 
Risco de 
desastre
Ameaça
Probabilidade
Severidade
Exposição
Estruturas
População
Economia
Vulnerabilidade
Física
Social
Econômica
Ambiental
Capacidade e 
medidas
Planejamento 
físico
Capacidade 
social
Capacidade 
econômica
Gestão
 
 
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71 
III tem-se os critérios e indicadores que compõem o índice de risco proposto em Bollin et al. 
(2003). 
Para tornar comparáveis as diferentes medidas dos indicadores, os pesquisadores criaram uma 
escala de 1 a 3 que representa a categoria baixo, médio ou alto do indicador. O valor zero 
mostra que o indicador não é aplicável. Cada valor foi então multiplicado por um coeficiente 
constante, sem unidade, cuja magnitude representa a importância do indicador em relação aos 
outros. Esta etapa é necessária, pois se acredita que alguns indicadores são mais importantes 
do que outros, contribuindo de maneira distinta na magnitude do critério. Como se considerou 
que cada um dos quatro critérios contribui da mesma forma no índice final, o somatório destes 
valores para cada critério é 33 pontos, de tal forma que ao serem multiplicados pelo valor do 
indicador (1 a 3) obtenham-se critérios variando entre 0 e 100 pontos.
14
 
Portanto Bollin et al. (2003) consideram uma relação linear entre os critérios, cada qual 
contribuindo da mesma forma no índice global de risco: quando aumenta-se os valores dos 
fatores associados à ameaça, exposição e vulnerabilidade, aumenta se ao risco; por outro lado, 
quando aumenta-se o fator de capacidade e medidas, o risco diminui. A equação 4.5 
representa esta relação. 
Aplicando esta metodologia para definir o risco total associado à ocorrência de terremotos em 
Villa Canales, na Guatemala os autores encontraram valores de 59, 52, 67 e 30 para os 
critérios ameaça, exposição, vulnerabilidade e capacidades e medidas, respectivamente. 
Considerando que cada peso “w” da equação 4.5 possui valor igual “0,33”, pois os critérios 
possuem a mesma ponderação no índice, e substituindo-se os valores na Equação 4.6, tem-se: 
 
4.6 
 
Uma questão não discutida pelos autores é de qual deve ser a magnitude do risco aceitável. 
Pode-se considerar 48,84 como um risco elevado? Esta resposta depende de uma variedade de 
critérios, como ideológicos, políticos, técnicos e financeiros. De toda forma, o índice permite 
comparar o nível de risco entre localidades, definindo aquelas de intervenção prioritária. 
Observa-se também que em Villa Canales devem ser feitas intervenções que aumentem o 
critério “capacidades e medidas” e que a vulnerabilidade possui um peso maior do que a 
ameaça. 
 
14
 O estudo de Bollin et al. (2003) apresenta a ponderação criada para terremotos em Villa Canales, na 
Guatemala. 
48,84 30 . 33 , 0 ) 67 . 33 , 0 52 . 33 , 0 59 . 33 , 0 ( R 
T      
 
 
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72 
Destaca-se, ainda, o trabalho de Wei et al. (2004) por ser um exemplo de criação de 
indicadores de vulnerabilidade com o uso do método da fronteira eficiente. O objetivo é a 
criação de um índice, chamado índice de impacto de desastre, para cada região da China. 
No estudo considera-se que o desastre tem dois inputs e dois outputs. Os dois inputs são a 
densidade populacional, medida pela população, e a complexidade da estrutura comercial, 
aferida pelo produto interno bruto. Considera-se que, quanto maiores estes dois fatores, 
maiores os custos de curto e longo prazo decorrentes do evento. Os outputs são o número total 
de pessoas afetadas pelo desastre e o custo total dos danos. O método envolve a criação de 
unidades de análise, chamadas unidades de decisão (UD). Neste caso, as unidades de decisão 
observadas são as regiões sub-nacionais da China. Estas são relacionadas com uma UD 
hipotética criada. A UD virtual tem, pelos menos, a mesma magnitude no valor dos outputs do 
que as UDs estudadas e utiliza, no máximo, o mesmo valor nos inputs. Resolve-se para cada 
região, ou UD, por meio de um modelo de programação linear, um problema de maximização 
da eficiência (que, no estudo, é igual ao índice de impacto do desastre) e a solução é o índice 
em questão. Criou-se um índice anual de 1989 a 2000. 
No contexto nacional, Marcelino, Nunes & Kobiyama (2006) apresentam um índice de 
vulnerabilidade municipal com a proposta de mapeamento do risco de desastres naturais, 
associado às instabilidades atmosféricas severas, para o Estado de Santa Catarina. Para a 
obtenção do índice de risco foram calculados os índices de perigo, de vulnerabilidade e de 
reposta para cada município catarinense. Segundo a metodologia dos pesquisadores, tem-se 
(Equação 4.7): 
R = [P * (DD + IP + PI)] / IDHM 4.7 
 
Onde: 
R = risco; 
P = perigo; 
DD = densidade demográfica; 
IP = intensidade da pobreza; 
PI = população idosa; e 
IDHM = índice de desenvolvimentohumano municipal. 
O P é expresso pelo número de eventos ocorridos por ano; DD é a razão entre a população 
residente total e a área do município (habitantes/km²); IP fornece o desvio entre a renda per 
capita média dos pobres (R$ 75,50) e o valor da linha de pobreza e PI é o número de pessoas 
 
 
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73 
com 65 anos ou mais. O IDHM é obtido pela média aritmética de três sub-índices, referentes 
às dimensões Longevidade (IDH-Longevidade), Educação (IDH-Educação) e Renda (IDH-
Renda). 
Um exemplo de indicador intra-urbano associado ao risco de inundação é mostrado por 
Chardon (1999) que elaborou índices de risco de desastres naturais para a cidade de 
Manizales, na Colômbia. Utilizou-se a análise de componentes principais para determinar os 
fatores de risco mais relevantes. Por meio da matriz de Bertin, classificaram-se as zonas do 
município segundo a influência de fatores socioeconômicos e naturais. A matriz de Bertin ou 
fichário-imagem é um instrumento para tratamento gráfico dos dados. É uma matriz ordenável 
na qual por meio de permutações de suas linhas ou colunas é possível visualizar as relações 
que existem entre os elementos e, assim, criar grupos semelhantes. O nome deve-se a um de 
seus criadores, o cartógrafo francês Jacques Bertin. 
Inicialmente, o estudo de Chardon (1999) apresentava quinze fatores de risco, sete “naturais” 
e oito socioeconômicos. Após a análise de componentes, este número foi reduzido para dez e, 
com a ajuda da matriz de Bertin, foi dado um coeficiente para cada uma deles (variando de 1 a 
8): experiências passadas de eventos (8); declividade (7); erosão (7); existência de favelas ou 
áreas de urbanização precária (6); nível socioeconômico (6); densidade urbana (6); 
deslizamento de terra (5); organização da comunidade (4); infra-estrutura para atenção e 
prevenção de desastres, inclusive centros de saúde (2) e acessibilidade à rede viária (2). Os 
fatores definidos para cada bairro foram então ponderados e classificados segundo o risco. 
Tapsell et al. (2002) apresenta trabalho relevante com elaboração de indicadores intra-
urbanos. Nele é avaliada a vulnerabilidade social à inundação a partir de dois critérios: 
qualitativo, via grupos focais, e quantitativo, por meio da criação de um índice. A utilização 
dos grupos focais teve como objetivo captar a percepção da comunidade em relação ao risco, 
com ênfase nos impactos sobre a saúde. Na abordagem quantitativa foi criado um índice de 
vulnerabilidade social à inundação ou, no idioma original, Social Flood Vulnerability Index 
(SFVI). Como fonte de dados, foram utilizadas informações censitárias, agregadas em setores, 
da Inglaterra e do País de Gales, regiões onde é realizada a pesquisa. Definiram-se três 
indicadores relacionados às características sociais e quatro de privação financeira (Tabela 
4.11). 
Segundo os autores, escolheu-se o “Indicador de Townsend” (Townsend et al., 1998 apud 
Tapsell et al., 2002) para identificar a privação financeira por ele possuir como foco os 
 
 
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74 
resultados da privação (e.g.: desemprego) e não a segmentação predefinida de grupos sociais, 
como o fazem vários índices do mesmo tipo (Tabela 4.11). 
Tabela 4.11 - Componentes do índice de vulnerabilidade social à inundação 
(Tapsell et al., 2002) 
Privação 
financeira 
“Indicador de 
Townsend” 
Desemprego 
Desempregados / População economicamente 
ativa 
Densidade domiciliar 
Domicílios com mais de uma pessoa por quarto 
/ total de domicílios 
Não existência de carro 
Domicílios sem carro próprio / total de 
domicílios 
Condição do domicílio 
Domicílios habitados por não proprietário / 
total de domicílios 
Características 
sociais 
Doença crônica 
Residentes com doenças crônicas que limitam / 
total de residentes 
Famílias monoparentais Pai ou mãe só / total de residentes 
Envelhecimento 
Residentes com mais de 75 anos / total de 
residentes 
Os percentuais brutos de cada indicador do SFVI foram transformados segundo o método que 
produziu os menores coeficientes de curtose (kurtosis) a assimetria (skewness) dentro de suas 
distribuições. Após a transformação, os dados foram padronizados em escores Z e então 
somados, dando origem ao índice de vulnerabilidade social à inundação.
15
 Ressalta-se que os 
indicadores de privação financeira foram antes somados e multiplicados por “0,25” a fim de 
se evitar um viés no índice global em relação ao critério. 
No Brasil cita-se trabalho de Cançado et al. (2007) que fizeram estudo criando um indicador 
de risco à inundação para a cidade de Manhuaçu, no estado de Minas Gerais. O índice é 
formado por duas dimensões: ameaça e vulnerabilidade social. A vulnerabilidade decorre da 
combinação de dois subíndices: vulnerabilidade socioeconômica, que mostra as características 
socioeconômicas médias da população em risco, e o índice de impacto, composto por fatores 
que intensificam os efeitos adversos da inundação, como a existência de idosos e crianças no 
local, a vulnerabilidade das construções e a taxa de pobreza. O índice de ameaça foi 
caracterizado segundo classificação proposta em Prevene (2001) (Prevene, 2001 apud Courtel 
et al., 2006) e o indicador da magnitude da vulnerabilidade por meio da análise de 
componentes principais e análise de cluster. 
As Equações 4.8 e 4.9 mostram a formulação do índice proposto em Cançado et al. (2007): 
 
15
 Processo no qual os dados originais são transformados em novas variáveis com uma média de 0 e um desvio-
padrão de 1 (Hair et al., 2005: 135). 
 
 
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75 
RT =A x VT 4.8 
 
VT = f unção (E, I) 4.9 
Onde: 
RT = Risco Total; 
A = Índice de ameaça; 
VT = Índice de vulnerabilidade total da comunidade à inundação; 
E = Índice de vulnerabilidade socioeconômica; e 
I = Índice de impacto. 
As variáveis e indicadores relacionados à vulnerabilidade, são apresentadas na Tabela 4.12. 
Tabela 4.12 - Descrição das variáveis de estudo 
Indicador Medida 
Renda mensal média dos 
responsáveis no setor 
Média da renda média nominal dos responsáveis pelo domicílio 
no setor censitário. 
Índice de pobreza 
% de responsáveis pelo domicílio no setor censitário que 
ganham até 350 reais ao mês. 
Índice de escolaridade 
relativa dos responsáveis 
Média ponderada dos níveis de escolaridade dos responsáveis 
pelos domicílios no setor censitário. 
Taxa de analfabetismo % de população analfabeta no setor. 
Vulnerabilidade etária 
% da população com menos de 12 anos ou mais de 65 anos de 
idade no setor. 
Densidade domiciliar 
Relação entre a população total e o número de domicílios 
(pessoas/domicílio) no setor. 
Vulnerabilidade relativa 
das construções 
Razão entre os danos diretos potenciais médios do domicílio 
(construção e conteúdo) e a renda média do responsável no 
setor. 
Os índices foram definidos para cada setor censitário de Manhuaçu, os quais foram 
apresentados em tabelas e, espacialmente, por meio de mapas. 
Há ainda trabalho de Zonensein (2007) que cria um índice de risco de cheia (IRC). O índice 
segue a formulação clássica: é composto por dois sub-índices, sendo um relativo às 
propriedades da inundação e outro relativo às conseqüências da cheia. Cada um destes dois 
sub-índices é calculado a partir do somatório ponderado dos indicadores. Na definição dos 
pesos foi utilizada a metodologia de análise hierárquica. 
As Equações 4.10, 4.11 e 4.12 apresentam a formulação do indicador proposta em Zonensein 
(2007): 
 
 
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76 
IRC = PI x C 4.10 
Sendo que: 
 
 
 
 4.11 
 
 
 
 
 4.12 
Onde: 
IRC= Índice de Risco de Cheia variável (0 < IRC < 100); 
PI = sub-índice relativo às propriedades da inundação (0 < PI < 100); 
C = sub-índice relativo às conseqüências da cheia (0 < C < 100); 
I
PI
i = i-ésimo indicador que compõe o sub-índice PI (0 < I
PI
i < 100); 
I
C
j = j-ésimo indicador que compõe o sub-índice C (0 < I
C
j < 100); 
n = número total de indicadores que compõem o sub-índice PI; 
m = número total de indicadores que compõem o sub-índice C; 
Os indicadores relativos às propriedades das inundações são três: cota, fator velocidade 
(profundidade x velocidade) e fator de permanência (duração da inundação). Compõem o sub-
índice de conseqüências da cheia quatro indicadores: densidade de domicílios, renda, tráfego 
e saneamento inadequado. 
A metodologia de cálculo do indicador foi aplicada em pequenas subdivisões da bacia do rio 
Joana na cidade do rio de Janeiro. 
4.5.1 Procedimentos para padronização de variáveis 
Na definição de índices, duas etapas críticas são a padronização de variáveis e definição de 
pesos. Elas são mostradas com mais detalhes nesta seção e na seção 4.5.2. 
Um número índice é uma razão usada para avaliar variações relativas a quantidades, preços ou 
valores (Stevenson, 1981). Este procedimento é chamado de normalização ou padronização. 
Ao se padronizar os indicadores, elimina-se o viés introduzindo pelas diferenças nas escalas, e 
é possível comparar variáveis de natureza diferente ou comparar objetos no espaço ou no 
tempo. Na Tabela 4.13 têm-se os principais procedimentos de padronização utilizados. Parte-
se de um vetor de variáveis brutas a = (a1, a2,..., an) a fim de obter o vetor padronizado v = (v1, 
v2,..., vn). 
 
 
 
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77 
Tabela 4.13 – Os principais métodos de padronização de vetores de informação 
 Procedimento 
1 2 3 4 5
1
 
Definições 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Vetor 
Padronizado 
0 < vI ≤ 1 0 < vI ≤ 1 0 < vI < 1 0 < vI < 1 0 ≤ vI ≤ 1 
Conservação da 
proporcionalidade 
Sim Não Sim Sim Não 
Interpretação 
% do 
máximo ai 
% do máximo ai 
% do total 
 
Inézimo 
componente 
do vetor 
unitário 
Distância 
em relação 
à média 
Fonte: Adaptado de Pomerol & Barba-Romero (1993: 69) e Hair et al. (2005) 
Nota: 1. = média do vetor de variáveis; = desvio-padrão do vetor de variáveis. 
Segundo Pomerol & Barba-Romero (1993), o procedimento 1 é o mais utilizado. Ele é 
simples e respeita a proporcionalidade, ou seja: . Alguns estudos 
recomendam a utilização do procedimento 2, pois ele evita que seja dada excessiva 
importância aos valores extremos (Cardona, 2004). Além disso, as avaliações cobrem todo o 
intervalo de zero a um: o pior critério recebe o valor zero, e o melhor, o valor um. Sua 
desvantagem é a de não respeitar a proporcionalidade. 
O terceiro procedimento é similar ao primeiro; ele é bastante utilizado na definição de pesos. 
O quarto procedimento é citado apenas como informação suplementar. Ele é raro e de difícil 
interpretação para o decisor, logo não é discutido aqui. O quinto critério também é usual, 
especialmente em técnicas de análise multivariada de dados, como análise de agrupamentos e 
análise fatorial (Hair et al., 2005). Ele representa a transformação de cada variável em escores 
padrão (ou escores Z). Sua natureza é um pouco diferente dos demais, já que o valor zero 
representa a média e não o menor valor. 
Neste trabalho, utiliza-se comumente o termo padronização para o procedimento de 
transformação das variáveis brutas em números índices, a fim de evitar qualquer referência à 
“distribuição normal” que o termo “normalização” pode induzir. 
4.5.2 Definição dos pesos 
Outro aspecto fundamental na definição de indicadores é a escolha dos pesos. Considera-se 
peso como a medida de importância relativa entre os critérios, a qual é definida segundo a 
visão do decisor. Por diversas razões, ideológicas, empíricas ou teóricas, o decisor pode 
considerar que um critério é mais ou menos importante do que os outros. 
 
 
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78 
Segundo Pomerol & Barba-Romero (1993), os pesos são definidos como ordinais quando a 
sua importância refere-se à ordem que ocupam (e.g.: o maior, o segundo maior, etc.). Quando 
é dado um valor numérico exato aos pesos segundo sua importância no critério, considera-se 
que eles são de natureza cardinal. A escolha do peso ordinal ou cardinal depende dos 
objetivos da análise. 
Neste item são apresentados alguns procedimentos de definições dos pesos: o método da 
entropia, o método da classificação simples, a avaliação cardinal simples, o método de 
comparações sucessivas e o método dos valores próprios. A análise detalhada dos mesmos é 
encontrada em Pomerol & Barba-Romero (1993). 
4.5.2.1 O método da entropia 
O método de entropia é uma proposta de determinação objetiva de pesos, sem intervenção do 
decisor, em função dos valores aij contidos na matriz de decisão.
16
 
A importância relativa de um critério j, medido pelo peso wj é diretamente função de 
quantidade de informação trazida pelo critério em relação aos objetivos da análise. A 
importância do critério j está relacionada à dispersão dos valores aj, ou seja, os critérios mais 
importantes serão aqueles com maior poder de discriminação entre as ações. 
4.5.2.2 Classificação simples 
Este método e os dois apresentados a seguir, nos itens 4.5.2.3 e 4.5.2.4, são definidos como 
métodos de avaliação discreta. Refere-se aos métodos onde o decisor assinala diretamente o 
valor dos pesos. São os métodos mais antigos, largamente utilizados em diversos domínios 
científicos. 
A classificação refere-se ao ordenamento dos critérios. A única informação demandada ao 
decisor é a de ordenar os critérios segundo sua ordem de preferência. Ao critério menos 
importante se dá o valor 1, ao próximo o valor 2 e assim sucessivamente até obter-se o 
número n (que corresponde ao número total de atributos). Ao se dividir cada valor pela soma 
total dos valores, obtém o peso, que varia entre 0 a 1. 
Algumas desvantagens do método é impedir que os pesos possam ter todos os valores 
possíveis entre 0 e 1 e considerar uma ordenação eqüidistante entre os atributos. 
 
16
 Na matriz de decisão, cada linha “i” exprime as performances de cada alternativa relativamente aos atributos 
considerados; e cada coluna “j” exprime as avaliações de todas as alternativas feitas pelo decisor relativamente 
ao atributo “j”. No cruzamento entre uma linha e coluna tem-se o valor “aij” na matriz (Pomerol & Barba-
Romero, 1993). 
 
 
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79 
4.5.2.3 Avaliação cardinal simples 
Neste método, o decisor avalia cada critério segundo uma escala de medida predefinida (e.g.: 
de zero a cinco, de zero a cem, etc.). Os valores são então normalizados por meio da divisão 
pela soma dos mesmos. 
Uma variação do método, conhecida como “avaliação direta por relações”, consiste em pedir 
ao decisor para avaliar a importância relativa de cada critério em relação ao menos importante 
entre eles. 
Segundo Pomerol & Barba-Romero (1993), a combinação de avaliação direta de utilidades 
cardinais e de estimação de pesos pelo método das relações e uma agregação por ponderação 
simples estão entre as soluções mais simples de um problema de decisão multicritério. 
4.5.2.4 O método de comparações sucessivas 
Ele exige alguns esforços do decisor, mas traz resultados que eliminam incoerências obtidas 
com o uso do método cardinal simples. Primeiramente, os critérios são avaliados segundo 
uma escala cardinal. Pede-se depois ao decisor para comparar o primeiro critério com o 
segundo,a seguir, com o segundo mais o terceiro e assim sucessivamente até que se tenha 
uma mudança das preferências. Em seguida, faz-se a mesma coisa com os outros critérios. 
Uma das inconveniências do método é a de que a informação demandada ao decisor não é 
imediata. São necessários suportes computacionais associados à capacidade de análise dos 
decisores. 
4.5.2.5 Métodos dos valores próprios 
Nesta família está o conjunto de métodos para avaliação de pesos baseados no cálculo do 
vetor próprio de maior módulo de uma matriz de comparações binárias entre os critérios. O 
trabalho mais conhecido neste domínio é o de Saati, proposto ao final dos anos 70 no âmbito 
AHP (Analytic Hierarchy Process). 
O AHP propõe avaliar um vetor de pesos w = (w1, w2, w3, ..., wn) ligado aos critérios de um 
determinado problema de decisão multicritério. Cada critério (i) é comparado individualmente 
a cada um dos outros critérios (j), o que produz os valores aij que são agrupados em uma 
matriz quadrada de dimensão n chamada matriz de comparação binária A = (aij). A idéia de 
introdução de comparações binárias baseia-se na suposição que é mais fácil ao decisor efetuá-
la do que apreender todo o conjunto de critérios, como é implicitamente necessário aos 
 
 
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80 
métodos de avaliação direta. Considera-se que o cérebro não sabe tratar, à curto prazo na 
memória, mais do que 7 itens, aproximadamente (Pomerol & Barba-Romero, 1993). 
Saaty (1977), após diversos estudos, apresenta a escala considerada adequada para análise dos 
critérios (Saaty, 1977) (Tabela 4.14). 
Tabela 4.14 – Escala de definição de pesos para o método AHP segundo Saaty (1977) 
Aij Quando o critério i é comparado ao critério j 
1 Igualmente importante 
3 Ligeiramente mais importante 
5 Notavelmente mais importante 
7 Muito mais importante 
9 Indiscutivelmente mais importante 
Fonte: Saaty, 1977. 
Os valores intermediários 2, 4, 6 e 8 são utilizados se nuances de grau de importância são 
necessárias. Se o valor i não é superior ou igual à j, avalia-se aji da mesma maneira 
precedente, e após coloca-se aij = 1 / aji na matriz. 
Entre as razões práticas para escolha desta escala de valores, tem-se: 
 Um grande conjunto de possibilidades de análise que não ultrapassa a capacidade de 
memória de curto prazo; 
 Valores inteiros e a passagem de uma escala à outra por aumento de 1 ou 2 unidades; 
 A equivalência entre i e j é caracterizada pelo valor 1. 
O método AHP de determinação de pesos se resume em três etapas: 
1. Pede-se ao decisor para preencher a matriz A de comparações binárias; 
2. Acha-se o vetor próprio dominante w e o grau de consistência das respostas GC; 
3. Se GC < 10% se aceita w, se não, demanda-se ao decisor rever suas comparações. 
O termo hierarquia presente no nome do método refere-se à possibilidade de se estabelecer 
uma hierarquia de critérios. Os pesos são atribuídos em cada hierarquia para finalmente ser 
feita uma soma ponderada entre os diversos níveis. 
Um dos pontos fortes do método é ele detectar e aceitar, dentro de certos limites, a 
incoerência dos decisores humanos. Ele aceita a hierarquização de critérios, o que não é feito 
pelos métodos que exigem comparação global de ações. 
 
 
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81 
Variantes recentes do método AHP são os métodos GEM (Graded Eigenvalue Method) de 
Takeda et al. (1987) apud Pomerol & Barba-Romero (1993) e o método Graduelle, de Harker 
(1987) apud Pomerol & Barba-Romero (1993), que não exigem um conjunto de “n (n-1) /2” 
comparações de critérios, uma limitação do método AHP de Saaty, pois em muitas situações 
reais o valor de n é elevado ou as situações são repetitivas o que inviabiliza as comparações 
binárias. 
Os cinco métodos mostrados nesta seção são os mais usuais de definição de pesos, existem 
outros, como aqueles que se baseiam na taxa de substituição e na declaração da disposição a 
pagar, mas eles não serão discutidos aqui. 
. 
 
 
 
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82 
5 FUNDAMENTOS CONCEITUAIS E TEÓRICOS PARA 
AVALIAÇÃO DOS BENEFÍCIOS (OU DANOS EVITADOS) 
5.1 O que é valor? 
Ao estimar os danos de inundação, o primeiro conceito a esclarecer é o de valor. Afinal, não 
apenas os valores dos danos físicos - mais facilmente observáveis e mensuráveis - são 
incorporados na análise, mas uma classe de valores de quantificação difícil, relacionados a 
danos indiretos ou intangíveis. 
Condicionados pelo seu orçamento, dois agentes econômicos negociam entre si até que não 
seja possível uma troca que implique em aumento da utilidade de um deles. O valor de um 
bem é o máximo que o agente está disposto a dar para adquiri-lo ou, na perspectiva do outro 
agente envolvido na transação, o mínimo que ele está disposto a aceitar como compensação 
por desistir do bem. Em um contexto econômico, nada tem valor por si mesmo; a existência 
do valor só é possível quando relacionado ao sistema econômico como um todo. Uma 
definição usual e objetiva é que o valor de um bem para um indivíduo pode ser definido como 
o seu preço de mercado mais o excedente do consumidor. Na ausência de um mercado para o 
bem, há grandes dificuldades para se mensurar este preço e, mais ainda, o valor. 
Podem ocorrer quatro tipos de valores associados aos bens e serviços (Lanna, 2001; Daun & 
Clark, 2000): valor de uso; valor de opção de uso, valor de quase-opção de uso e valor de 
existência. O primeiro refere-se aos benefícios adquiridos com o uso físico do bem. Todos os 
artigos negociados no mercado privado possuem valor de uso para alguém. Nadar em um rio, 
práticas de lazer em um parque e a Floresta Amazônica enquanto fonte de madeiras nobres 
são exemplos de valores de uso associados aos bens ambientais. 
O valor de uso não possui uma relação direta com o valor de troca. Um bem pode ser 
essencial, mas não ser “vendável”, não ter ninguém disposto a pagar por ele, a trocar dinheiro 
por ele. O ar, apesar de essencial para a sobrevivência humana, é oferecido sem custo. 
Normalmente, o valor de troca está combinado a uma situação de escassez do bem e à sua 
elasticidade-renda. A água, antes percebida como abundante e de livre acesso, sem valor 
econômico, hoje é considerada bem escasso. Por isso, o atual debate sobre formas de avaliar o 
seu valor de troca e precificá-la. 
O valor de opção de uso relaciona-se ao uso potencial. Há certo desconhecimento do valor de 
uso corrente do bem, mas se espera o seu conhecimento futuro e de que ele seja relevante. A 
 
 
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83 
percepção deste valor está presente nas estratégias de preservação ambiental: a Floresta 
Amazônica, por sua diversidade ecológica, pode vir a ser uma grande fonte de medicamentos. 
O preço de opção é o máximo que um indivíduo está disposto a pagar agora para assegurar a 
provisão futura de um recurso, dada certa probabilidade de sua ocorrência. Em outras 
palavras, é o pagamento máximo que tornará segura uma opção pelo uso futuro (Jakobsson & 
Dragun, 1996). 
O valor de quase-opção ocorre devido à incerteza no processo decisório e à possibilidade de 
irreversibilidade dos atos. É o valor obtido pela oportunidade de esperar melhor informação 
adiando uma decisão que poderia resultar em uma perda irreversível (Jakobsson & Dragun, 
1996). A possibilidade de que uma decisão possa ser tomada à luz de eventos futuros é algo 
que possui valor. 
A diferença entre o valor de opção e o valor de quase-opção é de que o primeiro é o prêmio de 
risco (risk premium) de uma situação incerta no presente e o segundo relaciona-se à 
possibilidade de adiamento da tomada de decisão para diminuição do componente relacionado 
ao risco (Jakobsson & Dragun, 1996). Pelasdificuldades práticas em analisá-los 
separadamente, freqüentemente o valor de quase-opção e de opção são estudados de forma 
indistinta. 
Os valores de existência ocorrem pela própria existência do bem, independente de sua 
utilização física atual ou futura. Ele decorre de uma posição moral, cultural, ética ou altruísta 
sobre o direito de existência e sobrevivência (Motta, 1998). Tem-se o exemplo da preservação 
de animais em extinção ou de um patrimônio histórico. Mesmo que o indivíduo nunca venha a 
vê-los, ele pode conferir-lhes valor. Com características subjetivas e pessoais, é uma classe de 
valores de quantificação extremamente difícil. É um valor que não se revela por 
complementaridade ou substituição a um bem privado, o que dificulta sua mensuração de 
forma indireta a partir de outros bens.
 17
 
O valor econômico total de um bem é a soma dos quatro tipos de valores: 
Valor econômico = valor de uso + valor de opção + valor de quase-opção + valor de 
existência 
5.1 
 
17
 Bens complementares são aqueles normalmente consumidos conjuntamente (e.g: café e açúcar). Sendo assim, 
quando o preço de um deles aumenta, a demanda de ambos tende a cair. Bens substitutos são bens que podem ser 
substituídos entre si, como o lápis e a caneta. Em termos econômicos, se a demanda de um bem x sobe quando o 
preço do bem y aumenta, diz-se que o bem x é substituto do bem y. 
 
 
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84 
Os três primeiros valores da Equação 5.1 são considerados valores de uso; o valor de 
existência é um valor de não-uso (ou valor passivo). 
No caso de bens privados transacionados entre agentes econômicos, a determinação do valor 
(de troca) não é muito problemática. Em função de suas necessidades, preferências e 
capacidade de pagar, as pessoas decidem individualmente as quantidades consumidas de 
determinado bem e serviço. Segundo a teoria microeconômica tradicional, cada consumidor, 
ao resolver o quanto comprar dos vários bens e serviços, leva a um padrão geral de consumo 
eficiente de Pareto, a um nível “ótimo” de consumo e oferta dos bens. A hipótese central desta 
teoria é de que o consumo de um indivíduo não afeta a utilidade das outras pessoas, o que 
pressupõe a inexistência de externalidade de consumo.
18
 
Nos serviços com características de bem públicos, como as várias intervenções associadas ao 
controle de inundação, a situação é diferente. O que caracteriza um bem público é a não 
excludência e a não rivalidade (ou não subtractibilidade).
19
 Isto significa que não é possível 
excluir um agente de seu consumo: quando oferecido o bem, todos podem ou vão 
obrigatoriamente consumi-lo (não excludência). Além disso, a demanda de um usuário não 
afeta a disponibilidade de outros (não rivalidade). Apesar de cada indivíduo avaliar os bens 
públicos diferentemente, pois percebem valores de maneira diferente, suas utilidades estão 
inexoravelmente ligadas, uma vez que todos são obrigados a dispor do mesmo nível de bem. 
Como definir a provisão adequada do bem, levando-se em conta a multiplicidade de 
preferências, de poder aquisitivo e, em última instância, da disposição a pagar? Neste caso, os 
mecanismos de mercado dificilmente funcionam na definição de sua provisão eficiente. Nas 
próximas seções buscar-se-á esta resposta, iniciando-se com as formas de se estimar os 
benefícios de bens públicos ou ambientais. 
5.2 O Benefício de um Bem Público e como Estimá-lo 
Estritamente relacionado ao valor, está o benefício que o indivíduo recebe ou espera receber 
pelo consumo de determinado bem ou serviço. O benefício de uma mudança ambiental é 
medido comparando-se o valor do nível atual do bem ambiental com uma alternativa em que 
 
18
 Externalidades são efeitos econômicos colaterais de um processo de produção ou consumo que não são 
considerados na formação de preço de mercado do produto (Lanna, 2001). 
19
 Os bens públicos podem variar de puros a impuros. Esta variação decorre da ênfase que é dada aos dois 
aspectos da “impureza”: a presença de congestionamento/rivalidade no uso do bem ou a possibilidade de 
excludência. Nos chamados bens “quase-públicos” ou “quase-privados” enfatiza-se o primeiro tipo de impureza, 
e nos “bens de pedágio”, o segundo. 
 
 
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85 
ele apresenta aumento ou melhora (Freeman III, 1993). Em outros termos, benefícios são os 
ganhos associados à melhora ambiental. 
Duas formas principais de métodos para medir benefícios podem ser destacadas: técnicas que 
se baseiam em associações físicas e técnicas baseadas em associações comportamentais 
(Mitchell & Carson, 1989). 
Os métodos baseados em associações físicas são bastante utilizados na prática, embora 
possuam pouca base teórica na economia do bem-estar. Baseiam-se na suposição de que há 
algum tipo de relação técnica (uma relação biológica ou de engenharia, por exemplo) entre o 
bem público em questão e o consumidor. Mitchell & Carson (1989: 74) citam o exemplo da 
pesca de truta. Ao contrário de serem feitas inferências sobre as motivações comportamentais 
do pescador de trutas ou de outros agentes econômicos, o foco seria as qualidades específicas 
da água, como temperatura e composição químico-orgânica, que permitiriam a pesca do 
peixe. Métodos de associações físicas são freqüentemente mostrados por meio de função de 
danos ou, no caso de relações biológicas, em experimentos de dose-resposta. 
Na análise de avaliação de danos, estes experimentos baseiam-se na relação física descrita 
entre a causa e o efeito de um dano ambiental. “Funções de danos” ou "funções dose-
resposta" relacionam o nível da atividade impactante (como o nível de água ou o tipo e nível 
de poluentes) à magnitude de dano físico ao ativo, natural ou realizado pelo homem, ou ao 
impacto sobre a saúde (Nutti, 2000). O valor do benefício do bem público seria, então, os 
danos evitados. Na estimativa das funções de danos, os valores utilizados são obtidos por 
meio de preços de mercado, um atributo que tem encorajado seu uso pelos pesquisadores. 
Os métodos de associação comportamental procuram valorar a mudança de uma amenidade 
(e seus efeitos) por meio de uma análise do comportamento dos agentes econômicos. Duas 
dimensões principais os envolvem: a forma como se revelam as preferências e o tipo de 
associação comportamental. 
Partindo do pressuposto de que preferências são reveladas por meio de um mercado, tem-se a 
abordagem pela preferência revelada.
20
 Na Tabela 5.1, os métodos definidos como 
“Observados” inserem-se nesta abordagem. A abordagem pela preferência declarada ocorre 
quando os valores são estimados por consultas a indivíduos que, por meio de técnicas de 
 
20
 Observe que embora as curvas “danos x profundidade de inundação” tenham uma associação física, como 
classificadas por Mitchell & Carson (1989), eles possuem também um aspecto comportamental, já que os danos 
diretos à edificação decorrentes de uma inundação podem ser estimados por meio de orçamentos de reforma e 
pesquisa de preço de bens, ou seja, via mercados, locais onde as preferências se revelam. 
 
 
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86 
entrevistas ou pesquisa, são levados a declararem ou expressarem suas preferências. Utiliza-se 
esta abordagem essencialmente para avaliar bens e serviços onde não há possibilidade de se 
criar um mercado real. Pesquisadores que preferem a abordagem revelada à declarada tendem 
afirmar que há maior confiabilidade no que as pessoas “fazem” do que no que elas “dizem 
que vão fazer”. Nesta linha estão os métodos caracterizados como “Hipotéticos”. 
A segundo dimensão envolve o tipo de associaçãocomportamental entre os benefícios 
medidos e as preferências: direta ou indireta. As associações diretas ocorrem quando é 
possível ao agente econômico inferir diretamente sobre determinada mudança ambiental, via 
entrevista, questionário, referendo ou mercado simulado. Contrariamente, em uma associação 
indireta o agente não revela diretamente os valores monetários de um benefício, sendo 
necessário algum tipo de modelo analítico para derivar as medidas de bem-estar dos 
respondentes (Freeman III, 1993: 166). 
A interação entre as duas dimensões - preferências e associação comportamental - origina 
quatro tipologias: Observado/Direto, Observado/Indireto, Hipotético/Direto e 
Hipotético/Indireto (Mitchell & Carson, 1989). Estas são mostradas na Tabela 5.1. 
Tabela 5.1 - Alguns exemplos de métodos de valoração dos bens públicos baseados em 
associações comportamentais21 
Tipo de preferência 
Tipo de associação 
comportamental 
Métodos de valoração 
Preferência Revelada 
(comportamento 
observado por meio do 
mercado real) 
Direta 
(Observado/Direto) 
- Referendo 
- Mercados experimentais 
- Mercados privados paralelos 
Indireta 
(Observado/Indireto) 
- Produção de moradias 
- Preços hedônicos 
- Ação de burocratas e políticos 
- Modelos econômicos agregados 
- Modelagem baseada em agentes 
Preferência Declarada 
(comportamento 
inferido por meio de 
mercados hipotéticos) 
Direta 
(Hipotético / Direto) 
- Análise contingente 
- Jogos alocativos com taxa de 
reembolso 
Indireta 
(Hipotético / Indireto) 
- Classificação contingente 
- Jogos alocativos 
- Técnica de valoração prioritária 
Fonte: Adaptado de Mitchell & Carson, 1989: 75. 
Nota: Os modelos econômicos agregados e a modelagem baseada em agentes foram acrescentados 
pela autora. 
 
21
 Sobre outros métodos de valoração bens públicos e ambientais, ver Mitchell & Carson (1993) e Freeman III 
(1993). 
 
 
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87 
Na tipologia Observado/Direto estão presentes metodologias em que as preferências são 
reveladas em mercados reais e os benefícios medidos estão diretamente relacionados às 
preferências pessoais. Esta é a situação ótima para valoração de bens e são raras para bens 
públicos. 
Um exemplo é a realização de um referendo pela administração pública. Pode-se avaliar, por 
exemplo, se a população está disposta a arcar com o pagamento de um programa de controle 
de poluição da água. O voto será favorável se o cidadão avalia que a utilidade marginal do 
programa é maior do que a utilidade marginal da quantia que ele irá pagar. Ocorre 
verdadeiramente a criação de um mercado para o bem público. Difere de um mercado 
hipotético, pois o valor e forma de pagamento são especificados e politicamente executados. 
Utilizou-se um método observado/direto, na localidade Roanoke, nos Estados Unidos, onde 
foi feito um referendo, em 1989, para verificar a aprovação dos moradores a um projeto de 
canalização para controle de inundações de 7,5 bilhões de dólares. O financiamento do projeto 
implicaria no aumento 10 para 12% de uma taxa municipal (a city-wide utility tax, em inglês). 
Em termos médios, representaria um acréscimo de dois dólares por mês nas contas dos 
residentes. Apenas com a aprovação da população o projeto seria implantado. O projeto foi 
aprovado por mais de 56% dos votos (Shabman et al., 1998). 
Incluída também nesta tipologia está a criação de mercados experimentais onde os agentes 
realmente compram e vendem bens, mas em condições controladas.
22
 Exemplos são os 
mercados criados para praticantes de caça, nos quais se pode comprar e vender permissões de 
caça em áreas de preservação. Estes mercados são restritos a bens quase privados (necessitam 
de exclusão a fim de se instituir o mercado), são de difícil condução e envolvem custos 
elevados (Mitchell & Carson, 1989). Outro exemplo são alguns mercados privados paralelos, 
como os sítios para pescaria (“pesque e pague”). 
A tipologia Observado/Indireto é considerada pelos economistas uma boa opção de análise, 
por basear-se, ainda que indiretamente, no comportamento real do mercado. São utilizados 
dados de situações onde os consumidores fazem escolhas reais de mercado, como decidir por 
uma viagem ou comprar uma casa. O valor do bem ambiental é inferido a partir de 
informações sobre outro bem relacionado. 
 
22
 Originalmente o termo utilizado Mitchell & Carson (1993) foi mercados “simulados”. Optou-se pela sua 
mudança para “experimentais” para distingui-los de mercado simulados computacionalmente. 
 
 
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88 
Muitos modelos da tipologia baseiam-se na função de produção de moradias. Esta representa 
a combinação de insumos e fatores de produção - entre eles, os ambientais – que geram a 
utilidade para uma moradia comprada pelo consumidor. O valor do bem ambiental é estimado 
pelo seu impacto ou contribuição no valor da moradia. Uma variante é o método do custo de 
viagem, muito utilizado para valorar os benefícios de áreas de lazer. Esse, assim como o 
método dos preços hedônicos, é discutido nas seções seguintes. 
Um método observado indireto e subjetivo é a análise das ações dos políticos na tomada de 
decisões para provisão de bens públicos. O pressuposto é de que os representantes políticos 
maximizam suas chances de reeleição pela identificação e realização das preferências do 
eleitorado, em particular do votante “médio”. Dado um significativo número de observações 
nos votos dos representantes políticos em diferentes programas de governo, a demanda por 
um bem público específico pode ser derivada por meio de suposições sobre a disposição a 
pagar dos eleitores por bem específicos e a distribuição esperada dos tributos. Incertezas sobre 
provisão e tributação e a probabilidade de que a maioria dos políticos tenha múltiplos 
objetivos ao votarem em determinada medida, associado ao grande número de suposições 
pouco realistas necessárias ao método, torna-o frágil para estimar benefícios (Mitchell & 
Carson, 1989). 
Ainda inserida na classificação observado/indireto tem-se uma visão analítica ainda pouco 
discutida na literatura sobre bens ambientais. As variações ambientais podem ser estimadas 
por meio de modelos econômicos agregados de impacto e previsão. São metodologias 
tradicionalmente utilizadas em análises de políticas públicas, estratégias de desenvolvimento, 
mudanças estruturais e distribuição de renda. Incluem os modelos de insumo-produto, 
modelos de equilíbrio geral computável e modelos econométricos de equações simultâneas 
(THE IMPACTS..., 1999). 
Um aspecto que dificulta a utilização dos modelos econômicos de insumo-produto e de 
equilíbrio geral é o grande volume de dados históricos necessários para captar o 
comportamento de variáveis como salário, renda, vendas e produção setorial. Isto inviabiliza 
seu uso em eventos de inundação restritos ou aqueles com impacto limitado ao município, 
sendo mais apropriados para desastres de abrangência regional. 
Inserem-se também como modelos comportamentais observados no mercado, mas de forma 
indireta, a modelagem baseada em agentes. A parametrização do modelo utiliza informações 
reais como, no caso de famílias e domicílios, o valor de ativos, da estrutura de gastos e 
 
 
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89 
orçamento familiar. Mensura-se a variação no bem-estar por meio da análise de como as 
rotinas comportamentais dos agentes se alteram a partir da introdução do fator de impacto no 
modelo, seja ele positivo (e.g: construção de um reservatório de detenção), ou, negativo (e.g: 
piora ambiental com ocorrência de uma inundação). No caso da mensuração dos impactos 
negativos,o benefício seriam os danos que poderiam ser evitados com a introdução de uma 
medida para mitigá-los. A modelagem baseada em agentes, utilizada no desenvolvimento dos 
objetivos desta tese, é mostrada com detalhes no item 7.1.2. 
A classe Hipotético/Direto engloba métodos que permitem ao pesquisador obter as 
estimativas dos benefícios diretos com uma medida ex ante de mudanças no bem-estar, o que 
possibilita grande flexibilidade no número de benefícios e tipos de bens que podem ser 
valorados. 
Todos os métodos baseados em mercados hipotéticos assumem que os entrevistados darão 
respostas sem leviandade, não agirão de forma estratégica e não serão influenciados por 
fatores externos à pesquisa e ao processo de entrevista. Sem esta suposição, deve ser 
introduzida uma avaliação do erro no método. 
A valoração individual de uma mudança hipotética qualitativa ou quantitativa em um bem 
ambiental é medida diretamente, o que torna desnecessária uma série de suposições presente 
em métodos indiretos. Sua suposição central é de que as repostas dos indivíduos a mercados 
hipotéticos são comparáveis a de mercados reais. Garantida esta premissa, o método possui 
vantagens como simplicidade, justificação teórica e habilidade para estimar todas as 
categorias de valores (Mitchell & Carson, 1989). 
Entre os métodos classificados como hipotéticos/diretos, tem-se a valoração contingente 
(MVC); entrevistas na forma de questões em que você declara se gastaria menos, igual ou 
mais que determinado valor (spend more-same-less survey question method) e jogos 
alocativos com imposto reembolsável. O primeiro será visto com detalhes em seção própria, 
os dois seguintes são mostrados aqui sinteticamente. 
Uma forma de se obter informações sobre preferência e valores é mostrando à população os 
gastos da administração pública em determinado programa social/ambiental e perguntá-la se 
os consideram altos, baixos ou razoáveis. Achar o gasto elevado significa preferência por 
menos quantidade do bem ou por pagamentos menores. Raciocínio oposto é feito quando o 
 
 
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90 
gasto é considerado insuficiente. Estas informações são utilizadas para estimar curvas de 
demanda para determinados bens públicos (ver referências em Mitchell & Carson, 1989). 
Outro método são os jogos alocativos que oferecem ao respondente a possibilidade de 
reembolso do tributo. Neles o participante aloca um orçamento fixo entre diferentes itens de 
dispêndio e pode também fazer recomendações sobre a magnitude do tributo a ser cobrado. 
Neste sistema, o individuo vê-se forçado a valorar um grande número de bens públicos 
simultaneamente, e não de apenas um, como no MVC. Como o orçamento é fixo e os 
respondentes têm que considerar uma grande variedade de alocações, existe menor 
possibilidade de parcialidade. Como desvantagem, há descrição superficial das diferentes 
categorias de bens públicos. 
Finalmente, na categoria Hipotético/Indireto estão os métodos baseados nas respostas dos 
indivíduos em mercados hipotéticos, mas suas respostas estão apenas indiretamente 
relacionadas ao valor do bem de interesse. Entre eles, tem-se a “classificação contingente”, 
“jogos alocativos” e “técnicas de avaliação de prioridades”. 
Jogos alocativos e as técnicas de avaliação de prioridades são bastante similares. Como 
mostrado na tipologia hipotético/direto, pede-se aos pesquisados para alocar um orçamento 
limitado entre um conjunto de itens. Mas aqui, ele não participa na magnitude do tributo 
cobrado e taxa de reembolso. 
Situações onde estes tipos de técnica são úteis são limitadas. Tem-se o exemplo da 
distribuição de um orçamento de uma organização entre várias áreas funcionais (educação, 
saúde, meio ambiente, etc.) a fim de maximizar o bem-estar social (Mitchell & Carson, 1989). 
Como os itens orçados geralmente têm abrangência ampla, estes métodos apresentam 
dificuldades metodológicas na mensuração de benefícios específicos. Seria necessário 
descrever cada item orçamentário em detalhes suficientes para que seja possível a avaliação. 
Alocar um orçamento fixo entre categorias não significa necessariamente disposição a pagar 
pela quantia alocada em uma categoria particular, daí sua impossibilidade em captar as 
preferências e utilidade para o consumidor. 
O método da classificação contingente - MCC - pede aos pesquisados que associem diferentes 
bens aos respectivos pagamentos requeridos. Tem sido utilizado em vários estudos. Mitchell 
& Carson (1989) citam pesquisas para estudar o mercado potencial de carros elétricos; avaliar 
a visibilidade de parques nacionais; valorar locais para recreação; medir benefícios de 
 
 
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91 
melhora na qualidade de água, entre outras. Um procedimento usual é a distribuição de 
cartões, cada um com uma combinação de nível de qualidade ambiental (por exemplo, da 
água) e a quantia que o respondente pagaria por aquele nível de qualidade. Os pesquisados 
ordenam os cartões do mais preferido até o menos preferido. O resultado da ordenação é 
usado para estimar a função de utilidade indireta para diferentes mudanças na qualidade do 
bem. 
Um possível benefício da classificação contingente em relação à avaliação contingente é que 
com o primeiro pode-se obter respostas mais acuradas, pois a tarefa de classificar um pequeno 
conjunto de cartas é menos trabalhosa do que a de dar respostas a questões sobre disposição a 
pagar por uma mudança ambiental. O ganho em simplicidade de administração não significa 
custos mais baixos. Para um mesmo grau de precisão, a classificação contingente requer em 
geral muito mais observações do que as exigidas em um estudo de valoração contingente 
(Mitchell & Carson, 1989). Além disso, o primeiro necessita de estudos estatísticos mais 
sofisticados, envolvendo interpretações de função de utilidade indireta. 
Uma limitação do método de classificação contingente, também presente nos jogos alocativos, 
é o fato de que o pesquisador tende a eleger preferências “impostas” que não refletem 
verdadeiras intenções comportamentais. Significa que os valores associados à melhora 
ambiental não são aqueles que necessariamente maximizariam a preferência do consumidor. 
Ele poderá ordenar as cartas de maneira ótima de forma a minimizar a “falta de utilidade” 
(disutility) de valores que ele não escolheu, mas foi obrigado a atribuir. Esse é um pressuposto 
do modelo, que tem benefícios e complicadores. Caso haja um desnível muito grande entre as 
preferências do entrevistado e os valores presentes nos cartões ele não se empenhará em 
ordenar o conjunto de cartões e compromete-se o resultado da avaliação. 
5.3 Fundamentos Teóricos para Avaliação dos Benefícios 
Após definidas as bases conceituais e as possibilidades metodológicas para avaliação dos 
benefícios ambientais e sociais, este capítulo apresenta a fundamentação teórica que 
usualmente é utilizada nos estudos sobre o tema, a qual se baseia na teoria microeconômica 
tradicional, especialmente na teoria do consumidor. Os danos evitados representam o 
benefício de uma melhora ambiental em uma análise custo-benefício. Discutir benefício 
significa discutir preferência, utilidade, demanda e valor excedente. Elementos centrais do 
comportamento do consumidor. 
 
 
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92 
5.3.1 Economia do bem-estar, utilidade e a análise custo-benefício 
A economia do bem-estar examina os fatores econômicos que afetam o bem-estar; a 
satisfação das necessidades materiais e aspirações humanas. Pode ser interpretada como a 
economia da eficiência. Para seus adeptos, qualquer estado da sociedade que não seja 
economicamente eficiente é indesejável, porque é possível aumentar as utilidades de algumas 
pessoas sem diminuira de outras. Este posicionamento incorpora o conceito econômico de 
eficiência de Pareto ou eficiência econômica. Ela ocorre quando, em uma circunstância 
econômica, não existe meios de melhorar a situação de uma pessoa ou de um grupo sem 
piorar a de outra pessoa ou grupo (Varian, 1997). Segundo o critério de Pareto, qualquer ação 
política deve, no mínimo, levar ao aumento do bem-estar de um indivíduo, sem que os demais 
sofram perdas. 
A análise custo-benefício pode ser vista como uma aplicação da moderna economia do bem-
estar. Baseia-se na atribuição de valores monetários aos ganhos e perdas decorrentes de uma 
mudança na provisão de um bem público, o que permite calcular o seu ganho líquido. Como 
talvez não existam políticas em que ninguém sofra algum tipo de perda, o ganho líquido da 
política representaria uma “potencial” melhora de Pareto. 
Os críticos da melhora potencial afirmam que uma política pode representar benefícios para 
poucos e prejuízos para muitos e ainda assim ocorrer um ganho líquido. Para que realmente 
ocorra uma melhora de Pareto é necessário que os beneficiários da política compensem os 
eventuais perdedores e que, após esta compensação, ocorra pelo menos um indivíduo com 
aumento do bem-estar. 
A criação destes mecanismos compensatórios é difícil e encerra problemas práticos e 
políticos. Mas ainda que os projetos sejam decididos com base estritamente na eficiência 
econômica, eles podem, em um segundo momento, serem avaliados pelas autoridades 
políticas e efetuadas as transferências necessárias com fins redistributivos. O critério de 
Pareto é apenas um fator a ser considerado no processo decisório, esse influenciado por 
inúmeros fatores, desde institucionais até ambientais e sociais. 
As suposições que fundamentam a economia do bem-estar implicam em duas características 
da análise custo-benefício (Parker, Green & Thompson, 1987). A primeira é a aceitação da 
soberania do consumidor, princípio envolvido na crença de que o consumidor é quem melhor 
julga o que lhe dá utilidade. A segunda é a tendência da analise custo-benefício em enfatizar a 
eficiência econômica em detrimento das questões distributivas. Ao aceitar o critério de Pareto 
 
 
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93 
como base da analise custo benefício, alguns critérios de decisão são rejeitados, como o 
paternalismo, o autoritarismo e o modelo tecnocrático – a noção de que o governo, cientistas 
ou qualquer outro grupo de “elite” é quem melhor sabe o que deve ser feito para aumentar a 
utilidade dos indivíduos de uma comunidade. Projetos igualitaristas também podem ser 
contrários ao critério de Pareto. 
5.3.2 A Curva de demanda e a medida de benefício 
A curva de demanda representa o quanto as pessoas gostariam de demandar a cada preço. A 
curva de oferta mostra o quanto as pessoas gostariam de ofertar a cada preço. No preço de 
equilíbrio, a quantidade ofertada é igual à quantidade demandada (Varian, 1997). Estes 
conceitos econômicos e a “lei” de equilíbrio são centrais no entendimento do benefício 
econômico. 
A escolha do consumidor é orientada pela maximização da utilidade sujeita a sua restrição 
orçamentária, essencialmente, ele é orientada pela sua preferência, renda e preços dos bens. 
Como representação do processo de escolha, têm-se as funções de demanda. Em um modelo 
simplificado, elas mostram as quantidades ótimas de cada um dos bens como uma função da 
renda e dos preços com os quais o consumidor se defronta (Equação 5.2): 
qi = qi (p, m) 5.2 
onde: 
qi = quantidade demandada do bem i 
p = vetor de preços da economia 
m = renda individual 
A Equação 5.2 mostra a função que relaciona os preços da economia (p) e a renda individual 
(m) com a quantidade demandada do bem. Investigar a influência do ambiente econômico 
sobre a demanda significa, em um modelo simplificado, analisar os efeitos da renda e dos 
preços. 
Intuitivamente, imagina-se que um aumento da renda represente um aumento na quantidade 
demandada do bem. Caso o bem seja “normal”, é o que tende a ocorrer. Mas existem aqueles 
artigos em que um acréscimo no orçamento signifique uma diminuição do seu consumo. São 
 
 
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94 
chamados de bens “inferiores” ou bens de Giffen
23
. O consumo de salsicha e mortadela, por 
exemplo, tende a diminuir com o aumento da renda e conseqüente ampliação das 
possibilidades de escolha. Obviamente, isto depende também das preferências e do nível 
inicial de renda. Exemplos de bens normais típicos são aqueles voltados para as classes de 
renda mais elevadas, como vinhos envelhecidos de safra superior, jóias e obras de arte. 
Para cada nível de renda m, há uma escolha ótima de cesta de bens. Considerando variações 
de preço, uma diminuição no preço do bem i, esse “normal”, representa um aumento do seu 
consumo e vice-versa. A curva de demanda mostra o consumo do bem associado a variações 
no seu preço, mantendo a renda e os demais preços da economia constantes (Figura 5.1). 
Pode-se analisar a curva de demanda sob outro aspecto. Para cada nível de demanda do bem i, 
a curva mostraria qual deveria ser o preço do bem para que os consumidores escolham tal 
nível de consumo. Neste caso, a curva é chamada de curva de demanda inversa. Ela também é 
negativamente inclinada e mede a mesma relação que a curva de demanda direta, porém com 
outro ponto de vista. 
 
Figura 5.1 - Curva de demanda de um bem i 
Com renda constante, a variação no preço de um bem afeta a demanda de duas formas: varia-
se a taxa com a qual você pode trocar um bem por outro e o poder aquisitivo da renda é 
alterado. O primeiro efeito é chamado efeito-substituição: a variação nos preços relativos 
altera a proporção de cada bem desejada pelo consumidor. O segundo efeito é o efeito-renda: 
o nível de preços se reflete na capacidade de consumo associada à renda. A variação total na 
demanda (∆qi) de um bem devido à variação no preço pode ser dividida entre os dois efeitos. 
Supondo um aumento de preços, tem-se (Equações 5.3 e 5.4): 
∆qi = qi (pi`, m) – qi (pi, m) 5.3 
 
 
23
 Homenagem ao economista do século XIX que percebeu, pela primeira vez, a possibilidade deste 
comportamento entre renda e demanda. 
p i 
q i 
 
 
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95 
∆qi = ∆qiS + ∆qiN 5.4 
onde: 
∆qi = variação na quantidade demanda do bem i 
pi` = preço final do bem i 
pi = preço inicial do bem i 
m = renda constante (renda inicial = renda final) 
∆qiS = efeito substituição 
∆qiN = efeito renda 
O efeito substituição é sempre oposto à variação no preço do bem (uma deflação no preço do 
bem representa um aumento deste efeito); o efeito renda pode ter qualquer sinal, dependendo 
se o bem é normal ou inferior. 
Esclarecida a função demanda, pode-se agora compreender a medida tradicional de benefício: 
o excedente do consumidor. Graficamente, é a área sob a curva de demanda e sobre a linha de 
preços. Na Figura 5.2 tem-se a curva de demanda marcada pela linha D. Ao preço P1 (ou à 
quantidade Q1), o custo total do bem para o consumidor é representado pelo quadrilátero 
P1AQ1Q0, mas a sua disposição a pagar pela quantidade Q1 é maior, correspondente à área 
P0AQ1Q0. O excedente do consumidor representa a diferença entre a disposição a pagar e o 
custo total de aquisição (triângulo P0AP1). 
 
Figura 5.2 - Curva de demanda e excedente do consumidor 
O dano ambiental define-se pela diminuição do excedente do consumidor. Se há, por 
exemplo, um aumento do preço, a área que representa o excedente na Figura 5.2 irá diminuir. 
A sua diferença em relação à área original representa o dano ambiental. Inversamente, se há 
um aumento do excedente do consumidor, ocorre um ganho ou benefício. 
Preço 
P 0P 1 A 
D = Q (P, M) 
Q 0 Q 1 Qd Quantidade 
 
 
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96 
Esta forma clássica, o excedente do consumidor marshalliano
24
, pode mostrar alguns 
problemas. A curva de demanda não considera o nível de utilidade ou satisfação constante, 
mas a renda. Uma diminuição do preço do bem i não necessariamente ocasiona um aumento 
do bem-estar, pois não se sabe como os outros preços se comportam na economia (lembrar do 
efeito-substituição e efeito-renda). 
A fim de mostrar uma função que mantivesse constante o nível de utilidade, John Hicks 
(1904-1989), economista britânico como Marshall, propôs uma curva de demanda 
compensada (Equação 5.5). Ela mantém constante o nível de utilidade por meio de ajustes no 
efeito-renda, ou seja, incorpora na função o montante de renda que compensaria a variação de 
preço, de forma a manter o consumidor em certo nível de utilidade. Em outras palavras, a 
curva de demanda hicksiana mostra as quantidades consumidas quando a renda do 
consumidor é ajustada, a cada preço, para manter um nível constante de utilidade. Pode-se 
também afirmar que a função de demanda hicksiana mostra qual seria a cesta de consumo 
para um determinado nível de utilidade e gasto total mínimo. 
A curva de demanda compensada pode ser idealizada de duas formas: com o nível de 
utilidade constante igual ao nível inicial ou com a utilidade também constante, mas em um 
nível alternativo. A primeira forma dá origem à variação compensatória (VC) e ao excedente 
compensatório (EC) e a segunda, à variação equivalente (VE) e ao excedente equivalente 
(EE). Tem-se, portanto, quatro medidas de bem-estar. 
qi = qi (p, u) 5.5 
em que: 
qi = quantidade demandada do bem i 
p = vetor de preços da economia 
u = nível de utilidade 
Observe a diferença entre a Equação 5.2 e a Equação 5.5. Enquanto nesta o problema é 
minimizar a renda, dada a utilidade fixa, naquela é maximizar a utilidade, dada uma renda 
fixa (em essência, são duas formas de analisar o problema de maximização da utilidade do 
consumidor). 
 
24
 Alfred Marshall (1842 - 1924), economista inglês, é considerado o organizador da economia moderna. Foi o 
criador do conceito de excedente do consumidor, embora a idéia já existisse nos trabalhos do engenheiro de 
obras e economista francês J. Dupuit (1804-1866). O engenheiro preocupava-se com a questão de que as pessoas 
que utilizavam uma ponte estariam certamente pagando menos pela sua construção do que estavam se 
beneficiando e, portanto, obtinham um "excesso de satisfação" (Motta, 1998: s.d.). Dupuit foi um dos primeiros 
a analisar a relação custo-benefício das obras públicas. 
 
 
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97 
As medidas de excedente (EC e EE) ocorrem quando não é possível ao consumidor ajustar as 
quantidades consumidas após uma variação nos preços. Em contrapartida, as de variação (VC 
e VE) aplicam-se em uma situação mais flexível, onde as quantidades consumidas podem ser 
modificadas frente a uma mudança de preço (Nogueira, Medeiros & Arruda, 2000) (Tabela 
5.2). 
Tabela 5.2 - Medidas de bem-estar de Hicks 
Medida de Benefício Nível de Utilidade 
Possibilidade de ajustamento na 
quantidade consumida 
Variação Compensatória – VC Inicial Sim 
Variação Equivalente – VE Final Sim 
Excedente Compensatório – EC Inicial Não 
Excedente Equivalente – EE Final Não 
Na Figura 5.3 tem-se um exemplo de curvas de demanda compensadas e “tradicional”. Ela 
apresenta graficamente as medidas de benefício identificadas para um aumento da quantidade 
consumida de Q0 para Q1, conforme seja utilizada a abordagem marshalliana ou hicksiana. 
 
Figura 5.3 - Curvas de demanda e excedentes do consumidor marshalliano e hicksiano 
O equilíbrio inicial do consumidor encontra-se no ponto A, em que ele dispõe da quantidade 
Q0 de bens e serviços ambientais, gerando um nível de utilidade U
0
. Dado um acréscimo na 
disponibilidade de bens de Q0 para Q1, considerando a abordagem de Hicks, o consumidor 
deslocar-se-á para uma curva de indiferença com utilidade superior dada por U
1
; 
conseqüentemente, haverá um novo equilíbrio, no ponto B. Se a renda for reduzida por uma 
variação compensatória, o consumidor retornará para U
0
, no ponto C. 
Preço
P0 A E
D = Q (P, M)
P1 B H 0 = Q (P, U
0
)
C H 1 = Q (P, U
1
)
 H 0 D
 H 1
Q0 Q1 Quantidade
 VC ≈ EC = P0 A C P1
 VE ≈ EE = P0 E B P1
 EM = P0 A B P1
 
 
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98 
Como anteriormente mencionado, o excedente do consumidor marshalliano (EM) 
corresponde à área do polígono P0ABP1. O excedente compensatório (EC) está sob a área da 
curva de demanda compensada hicksiana H0 e corresponde à área P0ACP1, e o excedente 
equivalente (EE) situa-se sob a curva de demanda compensada hicksiana H1 (área do polígono 
P0EBP1). Neste sentido, o excedente do consumidor marshalliano é uma medida intermediária 
entre os dois excedentes hicksianos.
25
 
Embora as medidas de excedente compensatório (EC) e excedente equivalente (EE) não 
estejam apresentadas na Figura 5.3, elas possuem valores próximos de VC e de VE, 
respectivamente. 
A Tabela 5.3 apresenta as medidas de benefício de Hicks. 
Tabela 5.3 - Medidas de benefício de Hicks 
Medida de Benefício Interpretação 
Variação 
Compensatória -VC 
Montante a ser diminuído (ou aumentado) da renda para que o 
consumidor se mantenha no mesmo nível de utilidade, dada uma 
variação nos preços. 
Variação 
Equivalente - VE 
Montante de renda para adquirir um novo nível de utilidade e 
desprezar a variação de preços. 
Excedente 
Compensatório- EC 
Montante a ser diminuído (ou aumentado) da renda para que o 
consumidor se mantenha no mesmo nível de utilidade, dada uma 
variação na quantidade 
Excedente 
Equivalente - EE 
Montante de renda para adquirir um novo nível de utilidade e 
desprezar a variação de preços. 
As medidas de benefício de Hicks, embora pareçam similares, possuem diferenças no campo 
de aplicação ou na sua interpretação. As mudanças na provisão dos bens públicos, entre eles 
vários produtos ambientais e de infra-estrutura, normalmente são “impostas” ao consumidor, 
que não é livre para ajustar as quantidades consumidas. Isto torna os bens ambientais 
adequadamente mensuráveis pelas medidas de excedente de Hicks (Mitchell & Carson, 1989). 
Entretanto, Freeman III (1993) observa que as medidas de excedente são restritivas e 
desnecessárias. Segundo ele, para os bens públicos, não há diferença entre as medidas de 
excedente e variação de Hicks para as situações de equivalência ou compensatória. 
Mitchell & Carson (1989) ressaltam que a escolha da medida de bem-estar está associada aos 
direitos de propriedade vis-à-vis o bem em questão. As medidas compensatórias assumem que 
 
25
 Não é possível identificar as medidas de variação (VC e VE) no mesmo gráfico por estas permitirem 
ajustamentos na quantidade consumida pelo consumidor. 
 
 
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99 
o indivíduo tem direito ao seu nível corrente de utilidade ou, alternativamente, direito de 
propriedade no status quo. As medidas equivalentes, por outro lado, consideram que o 
indivíduo tem direito a um nível alternativo de utilidade ou direitos de propriedade na 
mudança (Mitchell & Carson, 1989: 25). 
Embora as medidas hicksianas sejam consistentes teoricamente, nenhuma delas é prontamente 
observável a partir de dados de mercado, ao contrário do excedente do consumidor 
marshalliano. Segundo Nogueira, Medeiros & Arruda (2000: 92): 
Assim, existe a possibilidade de usar o excedente do consumidor como uma 
aproximação das medidas de variaçãomais rigorosas teoricamente (Hanley 
& Spash, 1993, p.39 apud Nogueira, Medeiros & Arruda, 2000: 92). 
Nesse contexto, justifica-se o uso da curva de demanda marshalliana para avaliar as mudanças 
de bem-estar dos indivíduos por variações no nível de bens ambientais. 
5.4 Metodologias para avaliação de danos de inundação: técnicas 
analíticas, simulação e análise de rede 
Este capítulo mostrou as bases conceituais e teóricas que fundamentam os métodos para 
estimar os benefícios; é a primeira etapa no entendimento das formas para avaliação dos 
danos da inundação. Aqui, eles foram mostrados de forma genérica para os bens ambientais e 
públicos. No capítulo 6 procura-se delimitá-los para o caso específico de danos de inundação. 
A fim de se encontrar a metodologia adequada para análise do impacto das inundações sobre 
o cotidiano de uma cidade ou comunidade, iniciou-se a procura pelos métodos de estimativas 
de danos relativamente freqüentes na literatura internacional, embora ainda incipientes no 
Brasil. Entre estes métodos, estão o método dos preços hedônicos, a valoração contingente e a 
criação de curvas ajustadas que mostram a relação entre danos e profundidade. 
Estes métodos utilizam preponderantemente técnicas analíticas, as quais, com freqüência, são 
formadas por equações estatisticamente definidas que incluem os parâmetros que se pretende 
estimar. Muitos formulam o problema como de otimização e empregam técnicas matemáticas 
para resolvê-lo, tendo a desvantagem do aumento da complexidade matemática segundo o 
tipo de problema. Normalmente, no seu desenvolvimento, o pesquisador coleta os dados 
necessários e compara-os com os dados estimados (Gilbert & Troitzsch, 2005: 16). 
No capítulo 6 são mostradas metodologias que recorrem os modelos analíticos de forma 
central. Algumas delas foram, inicialmente, avaliadas como instrumento para alcançar os 
 
 
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100 
objetivos propostos nesta tese, em conseqüência, tem-se um amplo estudo de suas bases 
teóricas, conceituais e revisão bibliográfica. 
A literatura destaca, tradicionalmente, dois tipos principais de modelos analíticos utilizados 
para estimativas dos custos econômicos de uma cheia extrema ou, alternativamente, os 
benefícios de uma medida de controle de inundação: microeconômicos e macroeconômicos. 
Eles incluiriam modelos estatísticos, matemáticos ou baseados em equações. Os modelos 
microeconômicos são subdivididos entre modelos que utilizam o mercado real como base de 
análise e os que usam mercados hipotéticos. Entre os modelos macroeconômicos, têm-se os 
modelos regionais e de equilíbrio geral (Figura 5.4). 
No decorrer do processo, entretanto, as metodologias tradicionais mostraram limitações, e os 
estudos apontaram para o uso da simulação e da análise de rede como método de pesquisa 
socioeconômica (capítulo 7).
26
 Como as técnicas analíticas, a simulação é um modelo da 
realidade, mas é um tipo particular de modelagem. Segundo Ingalls (2002) apud Dourado 
(2007), a simulação é o processo de se criar um modelo de um sistema real, com o qual se 
conduz experimentos a fim de entender tanto o comportamento do sistema, quanto de avaliar 
estratégias para a sua operação. Assim, a simulação tenta reproduzir, em um programa de 
computador, uma seqüência de eventos ao longo do tempo de um sistema a ser modelado. 
Já análise de rede pode ser sempre utilizada quando se discutem dados relacionais, ou seja, as 
conexões entre entidades e agentes e de como estes se inserem em um sistema de relações. Ao 
discutir aspectos como centralidade e redundância na rede, ela pode fornecer indícios 
relevantes sobre a vulnerabilidade da rede urbana e a capacidade de propagação do impacto 
na mesma. Pode-se considerar a análise de rede como uma maneira de representar as 
informações e analisá-las, a qual tem origem nos modelos estruturais e na sociometria (Scott, 
2000). Ao que parece, ainda é uma técnica pouco usada nos estudo do impacto da inundação, 
pois não foram encontradas referências sobre o assunto 
 
26
 Alguns autores, como Parunak, Savit & Riolo (1998) e Sawyer (2005), não consideram que “simulação” seja 
um termo que diferencie métodos analíticos, baseados em equações, de modelos computacionais dinâmicos 
baseados em agentes. A diferença estaria na forma do modelo e em como ele é executado. No primeiro, ter-se-ia 
o cálculo de equações e, no segundo, a emulação de comportamentos. Para fins didáticos, este texto utiliza 
“simulação” como uma forma de distinguir os dois tipos de abordagem dos problemas. 
 
 
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101 
 
Figura 5.4 - Modelos para estimar os danos econômicos da inundação 
No capítulo 6 são estudados os modelos considerados preponderantemente analíticos. Será 
dada maior relevância ao Método dos Preços Hedônicos, Método da Valoração Contingente e 
Método do Valor Esperado dos Danos, pois eles foram avaliados inicialmente como possíveis 
metodologias a serem utilizadas na tese. Alguns, como o Método do Valor Esperado dos 
Danos, permaneceram no estudo como ferramentas auxiliares de pesquisa. As simulações e 
análise de rede são mostradas em capítulo a parte por, além de possuírem especificidades, 
representam uma abordagem ainda raramente explorada na análise do impacto das 
inundações. 
 
Modelos para estimar danos 
Modelos microeconômicos Modelos macroeconômicos 
Mercado real Mercado hipotético 
Explícito Implícito 
Simulações 
- Método do valor 
esperado dos danos 
- Despesas com 
prevenção e mitigação / 
custos de relocalização 
- Método do custo de 
viagem 
 
- Método dos preços 
hedônicos 
 
- Método da valoração 
contingente 
 
- Modelos 
econômicos regionais 
agregados 
 
Técnicas analíticas Análise de rede 
 
 
 
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102 
6 AVALIAÇÃO DE DANOS: MODELOS ESTATÍSTICOS E 
ECONOMÉTRICOS 
Este capítulo discute os métodos mais tradicionais utilizados na análise de danos de inundação 
e, em conseqüência, dos benefícios associados à sua mitigação. São métodos que 
normalmente têm sua fundamentação teoria na Economia do Bem-Estar. Muitos envolvem a 
criação de uma curva de demanda para o benefício, baseado nas preferências do consumidor, 
reveladas ou declaradas, e na definição do excedente. Há também modelos econômicos de 
equilíbrio geral, nos quais as variáveis são tratadas de forma agregada eu setorial. Diferem da 
simulação por normalmente não exigirem como ferramenta essencial a programação em 
computadores, mas a análise estatística, e de não incluírem o comportamento dinâmico de 
forma central e contínua e interativa. Ao contrario de modelos baseados em agentes, seriam 
modelos baseados em equações. 
6.1 Modelos microeconômicos baseados explicitamente no mercado 
real 
6.1.1 Despesas com prevenção/mitigação (defensive / averting Expenditures) 
São aqueles gastos efetuados por ações defensivas e de prevenção à inundação. Entre elas, a 
criação de áreas de controle e retenção, reservatórios de detenção, sistemas waterproofings, 
diques, instalações de drenagem e bombeamento e modificações em canal. Segundo Bouma, 
François & Troch (2005), dado que as pessoas normalmente não gastariam mais na prevenção 
de um problema do que o custo dos danos causados por ele, o valor destes investimentos é 
considerado o limite inferior da estimativa de danos. 
O método serve apenas como uma primeira aproximação e parece mais adequado quando 
analisados os investimentos privados. A definição de obras no orçamento público baseia-se 
em múltiplos aspectos, não só econômicos e técnicos, e o conteúdo político tende a ser 
relevante no processo de tomada de decisão. Ademais, inverte-se a ordem dos fatores, pois a 
analisedos possíveis danos deveria ser feita antes da implantação de medidas preventivas, 
considerando as especificadas locais da região. 
6.1.2 Custos de relocalização 
São os custos envolvidos na mudança de indivíduos e instalações para locais com menor risco 
de inundação. Podem ser utilizados os custos de medidas atuais de relocalização para avaliar 
os benefícios potenciais (e custos associados) de sua prevenção. Segundo Bouma, François & 
 
 
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103 
Troch (2005), uma nova localização pode ser considerado uma forma particular de medida 
preventiva e defensiva, mencionadas anteriormente. 
A construção de novas instalações, mas altas e seguras, é um exemplo. O custo incorrido pelo 
governo ao doar ou subsidiar moradias para que famílias se desloquem de áreas inundáveis 
para áreas de menor risco também pode ser mencionado, sendo um tipo de intervenção 
dispendioso para o orçamento público. 
6.1.3 Método do custo de viagem 
Este método é empregado principalmente para medir o valor de áreas de lazer. Os custos para 
usufruir um local de recreação são utilizados como aproximação do preço do lazer. 
Preferencialmente, incluem-se não apenas os custos diretos (gastos financeiros com a visita, 
como as despesas de transporte e de estadia), mas também os indiretos (custo do tempo de 
viagem e de permanência). 
Os custos são utilizados como a variável independente da função demanda por serviços 
recreativos. São também incorporados à função atributos socioeconômicos do consumidor. A 
partir da função demanda e dos custos médios de viagem define-se o excedente do 
consumidor, que é a medida de benefício do lazer. A Equação 6.1 exemplifica o método: 
qi = f (cti, ei, mi, ti, di) 6.1 
 
Em que: 
qi = quantidades de visitas ao bem ambiental; 
cti = custo total do deslocamento e dos demais dispêndios com a estadia; 
ei = escolaridade do indivíduo i; 
mi = renda total do indivíduo i; 
ti = tempo total, medido em horas, para o deslocamento do indivíduo i de sua residência até o 
ativo ambiental; 
di = distância, medida em km, da residência do indivíduo i até o ativo ambiental. 
No método de custo de viagem mais simples são desenhados círculos concêntricos com 
diferentes raios ao redor do local de estudo. Calcula-se a média per capita de visitas ao local 
pelos residentes em cada zona do círculo (a área entre dois círculos). Os dados são utilizados 
para traçar a curva de demanda da localidade em função da distância. Se um valor monetário é 
assimilado a cada quilômetro de distância em relação ao local de análise, o cálculo do 
 
 
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104 
excedente do consumidor pode ser obtido para todas as zonas, medindo-se a área sob a curva 
de demanda e sobre a curva de custo de viagem para o residente daquela zona em particular 
(Mitchell & Carson, 1989). As possibilidades metodológicas de utilização do custo de viagem 
em estudos ambientais são grandes. Ele pode, por exemplo, ser utilizado em problemas de 
programação linear que incorporam a acessibilidade como a função objetivo para criação de 
áreas de lazer ou reservas ambientais, dado as restrições ambientais (Önala & Yanprechaset, 
2007). 
No contexto de danos à inundação, é possível usar o método para avaliar os efeitos de uma 
inundação em situações muito específicas, como em uma área de lazer com risco. Ele seria 
aplicado antes e depois da ocorrência da inundação e os resultados comparados. Uma 
alternativa seria estimar o valor recreacional que seria perdido em decorrência de uma 
inundação e computá-lo como benefício de uma medida de controle. Em outro enfoque, uma 
técnica mitigadora associada à criação de um local para lazer, como parques e quadras, 
incorpora valores sociais à área. Caso estes valores sejam relevantes, o método do custo de 
viagem pode ser empregado para estimá-los. 
Alguns problemas do método são destacados por Mitchell & Carson (1989): gera resultados 
específicos para a localidade; ignora a possibilidade de o consumidor substituir um local de 
lazer por outro; o tempo de viagem é uma variável de difícil mensuração; grande sensibilidade 
às formas funcionais utilizadas na estimação e possibilidade de medir apenas um número 
limitado de benefícios, como os benefícios diretos da recreação e algumas categorias de 
valores estéticos e serviços ambientais. 
Uma explicação simplificada, mas suficiente do método, com seus pressupostos e questões 
relevantes estão presentes em Freeman III (1993). O autor discute questões associadas ao 
“tempo” como um custo e elemento de escolha, mostra como fazer uma escolha locacional 
entre um conjunto de locais alternativos possíveis e formas de valorar mudanças qualitativas 
na área. 
Os três métodos seguintes são apresentados com maior riqueza de detalhes, por terem sido 
metodologias exaustivamente estudas em decorrência de suas potencialidades para os 
objetivos desta pesquisa. 
 
 
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105 
6.1.4 Método dos danos evitados à propriedade (property damages avoided method) 
O método dos danos evitados - MDE - é o mais usual para estimar as perdas econômicas de 
propriedades afetadas pelas inundações. É utilizada principalmente para medir o impacto 
físico do evento. Será dado maior destaque a ele do que foi dado aos métodos anteriores, tanto 
pela sua consolidação como método de estimativa de danos diretos, como por ser base da 
análise dos danos diretos na metodologia de trabalho desta pesquisa. 
O MDE define quais seriam os danos da propriedade se esta sofresse uma inundação (Bouma, 
François & Troch, 2005). O indivíduo estaria disposto a pagar, por uma medida de controle de 
inundação, o valor esperado dos danos evitados. Supõe-se que quanto maior o nível de água, 
maiores as avarias. Ao nível do chão, por exemplo, o piso é danificado e possivelmente 
também as mobílias e itens em contato direto com ele. Com dois ou três metros de água 
dentro da residência, todo o conteúdo sofre danos e a própria estrutura da edificação está em 
risco. 
Os danos são definidos segundo os custos de reparação e reposição incorridos pelo 
proprietário durante toda a perturbação trazida pela inundação, desde a desocupação, se 
ocorrer, até a reocupação e recuperação da propriedade. Os danos físicos à construção são 
estimados por meio de orçamentos de reforma, e os prejuízos ao conteúdo, em consulta de 
preços no mercado de itens novos e de estimativas de seu valor residual.
27
 
O MDE continua a ser a principal técnica para medir os benefícios das medidas de mitigação 
de danos, apesar de métodos como valoração contingente e preços hedônicos serem capazes 
de quantificar um espectro mais amplo de valores (Shabman et al., 1998). Sua disseminação 
deve-se a dois aspectos básicos: 1) são usadas no modelo informações hidrológicas 
habitualmente obtidas para o planejamento público e 2) o método tem uma fundamentação 
lógica simples: se os gastos correntes com um projeto de controle forem menores do que o 
valor presente dos danos futuros evitados, justifica-se a sua implantação. 
O total dos danos para um evento particular é assumido como função h(x) do nível de água da 
inundação xi. O nível da inundação é probabilístico por natureza e segue alguma função 
densidade de probabilidade g(x). Matematicamente, o valor esperado dos danos (VED) em um 
ano, de uma propriedade específica, para todos os níveis de inundação, é dado por: 
 
27
 Construções que incorporam valores históricos, artísticos ou de interesse arquitetônico, como monumentos e 
igrejas antigas, necessitam de uma avaliação mais complexa, pois incorporam valores de não uso. Sobre este 
tema, ver Bouma, François &Troch (2005) e Oliveri & Santoro (2000). 
 
 
Programade Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG 
106 
 
6.2 
Onde: 
VED = Valor esperado dos danos à propriedade; 
xi = inundação i, com y1 representando o menor nível possível de inundação que gera danos e 
xn o maior nível possível com probabilidade superior a zero de ocorrência. 
O valor esperado dos danos é medido com e sem um projeto de controle e a diferença é o 
benefício anual esperado para a propriedade. O valor presente do benefício anual esperado, 
calculado por meio de uma taxa de desconto, é o benefício total da propriedade. 
Em uma expressão mais geral de benefício da implantação de uma medida de controle, podem 
ser incorporadas as atitudes em relação ao risco: 
 
6.3 
 
Onde: 
t = representa o ano t do horizonte de planejamento que consiste em T anos; 
r = taxa de desconto do projeto; 
a = medida de aversão ao risco relativo do ocupante da planície de inundação. 
Como a implantação do projeto altera a probabilidade de ocorrência da inundação, as funções 
de probabilidade e de danos alteram-se das condições iniciais g
0
(xi) e h
0
(xi) para as condições 
de projeto. 
Para o agente avesso ao risco (a>0), o benefício é maior do que para o agente neutro (a=0). 
Com o valor presente dos danos evitados, ou seja, o benefício do projeto, efetua-se uma 
análise custo-benefício. Se os gastos correntes de uma medida de controle de inundação forem 
menores do que o valor presente dos danos futuros evitados, justifica-se a implantação do 
mesmo. É simplesmente uma análise de viabilidade econômica de projetos. 
A questão central que envolve o MDE é como calcular os danos da inundação, o h(xi) da 
Equação 6.2. Uma forma é efetuar uma análise corrente dos prejuízos. É feito um 
levantamento das perdas econômicas reais de áreas afetadas pela inundação. Levantados os 
  
   
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  
 
T 
1 t 
t 
N 
1 i 
it 
0 
it 
o 
it it t 
r 1 
) x ( h ) x ( g ) x ( h ) x ( g ) a 1 ( 
Benefício 
) x ( h ) x ( g VED i 
N 
1 i i    
 
 
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107 
danos e os custos associados, obtém-se uma relação direta entre nível de inundação e prejuízo 
total. Segundo Machado (2005) é uma estratégia que retrata o prejuízo corrente da bacia em 
um dado instante, com suas características socioeconômicas e de rede de drenagem. Seria algo 
estático, fotográfico. 
Um avanço viria com uma metodologia que possibilitasse uma estimativa de danos que não 
fosse estática, mas passível de se deslocar no tempo-espaço, permitindo uma avaliação 
aproximada dos danos em locais diferentes ou em tempos diferentes. A curva de danos versus 
profundidade de submersão (curva DPS) apresenta estas potencialidades. 
6.1.4.1 Curva de danos versus profundidade de submersão 
A curva DPS mostra o valor esperado dos danos de uma edificação segundo a profundidade 
da inundação em seu interior. Obviamente, esta relação entre danos e profundidade não é 
linear, pois a edificação e o seu interior não são homogêneos. 
Dois enfoques principais são considerados na construção de curvas DPS: uso de uma síntese 
de danos reais (ou históricos) e o uso de danos sintéticos (ou potenciais). Os danos “reais” são 
aqueles avaliados empiricamente após a inundação. Os danos sintéticos baseiam-se na opinião 
de especialistas, em ensaios de laboratórios, em dados secundários e até mesmo na 
experiência acumulada de eventos passados. Considera-se que são os danos máximos 
prováveis, logo não incorporam suposições sobre os danos que poderiam ser evitados com 
medidas emergenciais. São definidos segundo padrões de susceptibilidade dos bens ao contato 
com água em vários intervalos de profundidade ou de duração da submersão. 
Embora a caracterização “realista” do evento seja uma vantagem, as informações coletadas 
associam-se à vulnerabilidade específica da localidade a um determinado evento de 
inundação. A organização do espaço urbano, os padrões construtivos utilizados, o uso ou não 
de sistemas de alerta, o perfil da população atingida, a existência de experiência anterior de 
inundação e a utilização de medidas waterproofing são algumas das especificidades locais que 
interferem no valor calculado dos danos. A padronização destes danos e a sua generalização 
para eventos similares podem ser possíveis, mas é necessário que ocorra um número 
significativo de observações em uma localidade com características urbanas e de inundação 
que possibilitem estimar uma ampla variedade de danos. Outra possibilidade é a coleta de 
dados em vários municípios e localidades a fim de se obter uma aproximação de qual seria o 
valor médio dos danos. 
 
 
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108 
Vários guias de avaliação de danos, como o produzido pelo Middlesex Polytechnic Flood 
Hazard Research Centre (Parker, Green & Thompson, 1987) e pelo Department of 
Emergency Services of Queensland, Austrália (Handmer, Reed & Percovich, 2002) 
recomendam o uso do método dos danos potenciais. Segundo Handmer, Reed & Percovich 
(2002), o uso dos danos reais pode ser feito em situações onde a avaliação não é feita com 
propósitos comparativos. 
Como forma de aproximar os danos potenciais aos reais, existem fatores de ajuste. Tem-se, 
por exemplo, fatores utilizados caso a localidade avaliada possua algum sistema de alerta. A 
Tabela 4.8, mostrada no capítulo 4, mostra qual seria a razões entre danos reais e potenciais 
para um método de avaliação rápida (em inglês, Rapid Appraisal Method – RAM) 
considerando a existência de um sistema de alerta (Read, Sturgess and Associates, 2000 apud 
Handmer, Reed & Percovich, 2002). 
Com a utilização de inventários de danos em zonas sinistradas (avaliação a posteriori) ou 
construção de cenários de danos por meio da definição a priori de patologias causadas pela 
inundação, levantam-se os danos associados à profundidade e criam-se curvas para cada 
categoria de uso do solo (e.g.: residencial, comercial, prestação de serviços, industrial e área 
agrícola). Estes grandes categorias podem ser subdivididas, segundo a variabilidade dos 
danos, criando novas curvas mais específicas para os padrões de residência e uso do solo, o 
que tende a aumentar a exatidão e possibilidade de aplicação. Por exemplo, para o setor 
residencial são criadas curvas para cada classe social baseadas no critério de maior 
similaridade do valor dos danos. 
A sintetização destes dados em curvas representativas de diferentes padrões de 
susceptibilidade possibilita que sejam estimados os danos médios ou potenciais de qualquer 
propriedade com as mesmas características (mesmo padrão de habitação ou mesma classe de 
atividade). No estudo de Penning-Rowsell & Chatterton (1977), considerando apenas o setor 
residencial, foram definidos cinco tipos de moradia, quatro períodos de construção do imóvel 
e quatro diferentes classes sociais dos moradores. O cruzamento de todos estes aspectos, 
considerados pelos autores como os fatores determinantes de susceptibilidade à inundação, 
deram origem a 80 conjuntos de dados padronizados. 
Uma desvantagem do método sintético é a dificuldade em padronizar informações de danos 
relacionadas a todos os aspectos da inundação, como a velocidade e a qualidade da água. 
Geralmente, a profundidade da inundação é considerada o fator determinante dos danos e, em 
 
 
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109 
um segundo nível, sua duração. Além disso, a padronização acaba por desconsiderar algumas 
particularidades locais. Em áreas com características muito específicas, que possam ter 
atividades econômicas voltadas para um segmento social de altíssima ou baixíssima renda ou 
com padrões construtivos próprios, como os centros históricos, a aplicação destas curvassó 
pode ser feita com alguns ajustes que levem em consideração a realidade local. 
A metodologia de criação de curvas DPS foi utilizada por Machado (2005) para estimativa 
dos danos diretos decorrentes de uma inundação de grande magnitude (tempo de retorno de 
100 anos) que ocorreu no ano 2000 no vale do rio Sapucaí. Combinaram-se dois enfoques: 
síntese de dados sobre danos reais e estimativas de danos hipotéticos. A pesquisa de campo 
foi elaborada mediante a aplicação de cerca de mil questionários nos municípios de Itajubá e 
Santa Rita do Sapucaí. A Tabela 6.1 mostra as funções obtidas em Machado (2005) para 
residências. Foram também elaboradas curvas para o setor comercial e de serviços, que, 
entretanto, apresentaram menor coeficiente de correlação, tanto pelo menor tamanho da 
amostra (147 estabelecimentos comerciais e cinqüenta de prestação de serviços), quanto pela 
grande diversidade existente entre as unidades. 
Tabela 6.1 - Funções baseadas em curvas DPS obtidas em Machado (2005) para o setor 
residencial 
Tipo de dano Função 
Danos ao conteúdo – residências – classe A y = 67,221 + 29,806 * ln (x) 
Danos ao conteúdo – residências – classe B y = 77,737 + 33,921 * ln (x) 
Danos ao conteúdo – residências – classe C y = 52,13 + 21,089 * ln (x) 
Danos ao conteúdo – residências – classe D y = 32,211 + 12,32 * ln (x) 
Danos ao conteúdo – residências – classe E y = 28,738 + 10,663 * ln (x) 
Danos totais – residências – classe A y = 90,832 + 39,334 * ln (x) 
Danos totais – residências – classe B y = 103,938 + 43,844 * ln (x) 
Danos totais – residências – classe C y = 74,685 + 27,388 * ln (x) 
Danos totais – residências – classe D y = 18,049 + 33,364 * SQRT (x) 
As funções apresentadas na Tabela 6.1, mostram o valor dos danos expressos por unidade de 
área (R$/m2), representado pela variável dependente y, em função da profundidade de 
submersão (em metros), indicada por x. O valor dos danos à construção pode ser obtido pela 
diferença entre o valor dos danos totais e o dos danos ao conteúdo. 
No Brasil, outro estudo com criação de curvas DPS foi realizado por Salgado (1995). A 
pesquisa é mais simplificada do que em Machado (2005) e contempla apenas o setor 
residencial. Para os danos à construção, ateve-se à consulta a especialistas sobre as patologias 
causadas, considerando diferentes profundidades de inundação, em projetos tipos 
representativos da área inundada. Para a estimativa dos danos ao conteúdo foram utilizados 
 
 
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110 
padrões de conteúdo e qualidade, segundo os projetos tipos, e estimadas suas avarias pelo 
contato com água por meio de pesquisas em lojas de reparo e assistência técnica. 
6.1.4.2 Considerações Metodológicas e Limitações 
A questão destacada por Shabman et. al. (1998) é se o método realmente produz uma medida 
de disposição a pagar (DAP) do proprietário pelo projeto de mitigação de danos, ou seja, se é 
uma medida de excedente do consumidor. 
Normalmente, apenas argumentos relacionados aos danos físicos à propriedade são 
computados no MDE. Mas questões como redução do estresse, do trauma após o evento ou de 
perturbações no cotidiano da comunidade, possivelmente compõem as análises dos moradores 
sobre os benefícios de um projeto de controle. Sua exclusão pelo método implica na 
conseqüente subestimação da DAP. 
Além disso, deve haver uma igualdade da percepção do risco e do valor do dinheiro no tempo 
entre os proprietários de imóveis inundáveis e o planejador da medida de controle (taxa de 
desconto r). Isto possibilita que a análise de viabilidade econômica do projeto se iguale à 
análise de aumento do bem-estar da população. A forma como o valor do tempo é 
considerado pode implicar em uma subestimação ou superestimação da DAP pelos 
planejadores urbanos. 
O mesmo ocorre em relação à percepção do risco hidrológico, representado pela função g (xi). 
Sabe-se que as informações são imperfeitas e nem sempre acessíveis e que a população forma 
suas probabilidades individuais de ocorrência de um evento extremo de forma subjetiva e 
diferenciada. Sem as informações de percepção de g (xi) pelos ocupantes não há como saber 
se MDE capta adequadamente as preferências. 
De forma usual, o método tem como pressuposto que os proprietários são neutros em relação 
ao risco (a = 0, na Equação 6.3). Mas, segundo Fischoff (1991) apud Shabman et. al. (1998), 
as situações que tipicamente criam um alto nível de ansiedade - fator que desencadeia a 
aversão ao risco - são aquelas involuntárias, retardatárias, incontroláveis, desconhecidas, 
severas e potencialmente catastróficas. Muitas destas características comumente estão 
presentes no risco de inundação. Mais uma vez, o método dos prejuízos evitados tenderia a 
levar a uma subestimação da DAP.
28
 
 
28
 Não se considera aqui a situação rara de um agente ávido pelo risco. 
 
 
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111 
Finalmente, todos os proprietários de área inundável esperam ter o valor da sua DAP 
integralmente compensada pelo mercado imobiliário quando forem vender ou alugar sua 
propriedade na planície de inundação. Apenas desta maneira é assegurado que os pagamentos 
feitos pelo projeto de controle serão iguais aos benefícios recebidos tanto na forma de 
mitigação dos danos quanto na forma de compensação em dinheiro pela venda ou aluguel. Ou 
seja, aqueles que irão comprar ou alugar áreas na planície deverão possuir as mesmas 
considerações sobre os danos evitados que os ocupantes da planície de inundação. Esta 
coincidência de avaliação entre agentes é improvável. 
Obviamente, simplificações e pressupostos são necessários em um modelo. A questão é em 
que medida tais suposições não são excessivamente fortes diminuindo o seu nível de 
credibilidade ou tornando-o uma opção menos adequada frente a alternativas de representação 
do fenômeno. A limitação evidente do MDE é enfoque nos danos diretos, deixando de captar 
uma ampla gama de danos associados à inundação, os indiretos, o que leva à subestimação na 
avaliação dos benefícios de medidas de mitigação. 
Mas, como mostrado no item 5.2, o MDE é um método de associação física, por isso suas 
inadequações em captar as preferências dos proprietários. Sua utilização, em conjunto com 
outros métodos, de análise comportamental, pode trazer grandes avanços em uma avaliação 
integrada das conseqüências da inundação. 
6.1.5 Avaliação dos danos indiretos aos setores comercial, industrial e de serviços 
segundo o Modelo de Middlesex 
Nesta seção é discutido o modelo para estimativa de danos proposto em Parker, Green & 
Thompson (1987), pesquisadores do Middlesex Polytechnic Flood Hazard Centre (MPFHC), 
aqui denominado, “Modelo de Middlesex”. O centro de pesquisa publicou, em 1977, o 
chamado “Manual Azul” (Penning-Rowsell & Chatterton, 1977), com investigações sobre os 
danos diretos de inundações e a criação das curvas DPS. As pesquisas avançaram, originando 
o “Manual Vermelho”, a publicação de 1987, na qual se enfatizam as conseqüências indiretas 
dos eventos. As metodologias sugeridas pelos pesquisadores são utilizadas de forma 
padronizada e generalizada na Grã-Bretanha. 
Os métodos de avaliação de danos indiretos recomendados são divididos em sete categorias 
básicas (Tabela 6.2): 1) manufaturas; 2) varejo, distribuição, salas de escritórios e serviços de 
lazer; 3) perturbação ao trânsito; 4) serviços de utilidade pública; 5) serviços públicos; 6) 
residências e 7) serviços de emergência. 
 
 
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112 
Tabela 6.2 - Métodos de estimativas de danos indiretos segundo o Modelo Middlesex 
Dano Método de avaliação 
Interrupções e perturbações na atividade 
industrial 
Perda do valor adicionado potencialInterrupções e perturbações nas atividades 
de varejo, distribuição e serviços 
Perda do valor adicionado potencial 
Interrupções e perturbações de trânsito de 
veículos 
Custo marginal de perturbação do tráfego de veículos nas 
vias devido a uma inundação (custos adicionais de 
transporte e custos de oportunidade causados pelo atraso). 
Interrupções e degradação nos serviços de 
utilidade pública (transporte, 
telecomunicações, eletricidade, etc.) 
Perda de consumo 
Interrupção e subutilização de serviços 
públicos (educação, saúde, defesa, 
cultura, etc.) 
Difícil quantificação, por serem bens públicos. Análise de 
vulnerabilidade para detectar os custos adicionais. 
Transtornos às famílias e domicílios Custo adicional, “preferência revelada” 
Serviços de emergência adicionais 
Custo marginal dos serviços de emergência realizados em 
decorrência da inundação 
O levantamento destes custos foi feito por meio de pesquisas (entrevista ou carta) a indústrias, 
atividades comerciais e de serviços, entidades representativas (e.g.: federação das indústrias e 
associações comerciais), prefeituras, moradores, empresas de serviços públicos e através de 
bibliografia. Em Parker, Green & Thompson (1987) são mostradas várias investigações 
anteriores na área, como em White (1964) e Penning-Rowsell & Chatterton (1977). 
Dos danos elencados na Tabela 6.2, esta pesquisa procura trazer avanços na discussão sobre 
as interrupções e perturbações nas atividades de varejo, serviços e no trânsito de veículos. 
Como as pesquisas desenvolvidas nestas áreas em Middlesex foram uma importante fonte de 
análise para o desenvolvimento dos estudos propostos nesta tese, no item 6.1.5.1 detalha-se os 
danos indiretos associados ao setor comercial, de serviços e à indústria. A avaliação dos danos 
devido a perturbações no tráfego desenvolvida pelos pesquisadores do MPFHC é mostrada no 
item 6.1.6, que discute especificamente o sistema de transportes. 
6.1.5.1 Setor comercial, de serviços e indústrias 
A perturbação e paralisação das atividades do setor comercial, de serviços e indústria 
implicam em diminuição das vendas ou da produção e na perda de receita (ainda que 
momentânea). O prejuízo não é medido como a diminuição ocorrida no faturamento ou no 
valor total da produção, esse incorpora salários, matérias-primas, estoque e gastos, como de 
aluguel e tributos. A medida de calculo é a perda potencial do valor adicionado. 
O valor adicionado (VA) é a diferença entre o valor total das vendas ou da produção e o custo 
dos insumos adquiridos de terceiros. Em outros temos, é o valor gerado pela firma por meio 
 
 
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113 
do seu processo de produção e serviços. A Figura 6.1 mostra o valor adicionado por uma 
firma, no caso, uma empresa comercial: 
 
 
Figura 6.1 - Valor adicionado por uma empresa comercial 
O total dos danos indiretos é calculado somando-se a perda do valor adicionado aos custos 
adicionais incorridos pela firma pela menor eficiência produtiva em conseqüência da 
inundação. Estes custos incluem o pagamento de horas-extras aos funcionários, custo de 
transferência da produção para locais mais seguros e custos adicionais de energia elétrica. 
Para o setor de comércio e serviços, um custo adicional significativo tende a ser o de limpeza 
do estabelecimento, geralmente já computado como dano direto (Parker, Green & Thompson, 
1987). 
Segundo Parker, Green & Thompson (1987), para cada profundidade de inundação, os danos 
diretos potenciais (Dir) da firma, região ou nação são calculados segundo a Equação 6.4: 
Dir = Ds + Dep/2 + Der + C 6.4 
Onde: 
Ds = danos potenciais ao estoque (matérias primas, produtos semi-acabados e bens finais); 
Dep = custos potenciais de substituição de equipamentos ou plantas; 
Der = custos potenciais de conserto/reparação de equipamentos e plantas; 
C = custos potenciais de limpeza adicional. 
Considerou-se uma depreciação média de 50% dos equipamentos e plantas no momento 
anterior à inundação. Em decorrência, os custos de substituição (Dep) na Equação 6.4 são 
divididos por dois, supondo-se que os bens depreciados foram substituídos por itens novos. 
A perda potencial do valor adicionado pela firma (Lva) é: 
Lva = t.V.[Dn + (Dp.Pn)](1 - R) 6.5 
Onde: 
 
 
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114 
t = vendas totais (turnover) por dia; 
V = proporção da venda bruta que representa o valor adicionado pelas firmas no processo de 
produção; 
Dn = número de dias com vendas nulas; 
Dp = número de dias com vendas parciais; 
Pn = proporção das vendas perdidas durante Dp; 
R = proporção da receita (receita que ocorre normalmente, sem inundação) que é recuperada 
pela firma. 
Os danos indiretos potenciais da firma (IndF) são: 
InF = Lva + A 6.6 
Onde: 
A = custo adicional para recuperação das vendas; 
Lva = perda potencial do valor adicionado. 
Os danos indiretos potenciais da região são (InR): 
InR = Lva (F + Rg) + A 6.7 
Em que: 
A = custo adicional para recuperação das vendas; 
Lva = perda potencial do valor adicionado; 
F = proporção de vendas provavelmente perdidas pelo país para concorrentes estrangeiros; 
Rg = proporção de vendas provavelmente perdidas pela região para concorrentes de outras 
regiões. 
Observe-se que aqui foi mostrada a formulação para o setor de comércio. Segue-se 
exatamente a mesma lógica para o setor industrial e de serviços, bastando substituir as 
referencias a “vendas” por “produção” ou “serviços”. Por exemplo, “V” na Equação 6.5, 
representa, para as atividades industriais, a proporção de produção bruta que representa valor 
adicionado pela empresa e, para os serviços, a proporção referente ao faturamento. 
6.1.6 Avaliação dos danos indiretos no sistema de transporte 
Optou-se por discutir separadamente o sistema de transportes pelas particularidades que 
envolvem a avaliação dos danos associados à perturbação nos fluxos de veículos. Entretanto, 
 
 
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115 
muitos dos elementos contidos nesta seção têm forte influência das recomendações de 
Middlesex para avaliação dos danos indiretos do sistema de transporte. 
A forma encontrada na literatura para se calcular as deseconomias de transporte baseia-se no 
custo de transporte adicional (custo material marginal) e nos custos de oportunidade causados 
pelo atraso na chegada ao destino (custos por tempo de atraso). A soma destes dois custos 
representa o custo potencial pela perturbação no tráfego. Ressalta-se que não apenas as vias 
inundadas apresentam transtornos, mas também as vias de desvio, onde o trânsito pode fluir 
devagar. 
Muitos fatores influenciam os custos associados às perturbações no transito de veículos: 
intensidade do tráfego; tráfego em relação à capacidade da via; freqüência, profundidade, 
extensão e duração da inundação; extensão e duração do desvio; tipos de vias das rotas de 
desvio, entre outros. 
Os custos materiais de transporte ocorrem pelo aumento da distância de viagem ou pelo uso 
de uma velocidade menos eficiente. Incluem o combustível e os óleos adicionais e os custos 
de depreciação do novo tempo de viagem. 
Os custos pelo tempo de atraso (delay costs) associam-se a uma variável fundamental: o 
tempo. O princípio que envolve os danos indiretos de inundação é de que eles representam 
uma perda de oportunidade que nunca será recuperada; não há como voltar no tempo. O 
tempo perdido não é recuperado, por isso ele representa um dano. 
O valor do tempo representa a quantia máxima que um indivíduo estaria disposto a pagar por 
uma economia de tempo ou, alternativamente, a compensação mínima aceitável para um 
aumento de tempo de deslocamento. O valor marginal do tempo é composto de dois 
componentes: a utilidade marginal do tempo e a utilidademarginal do dinheiro (Parker, Green 
& Thompson, 1987). 
Variações no valor da utilidade marginal do tempo dependem das condições e motivos do 
deslocamento e do seu custo de oportunidade. O valor do tempo gasto na viagem por motivos 
de lazer tende a ser menor do que o utilizado no deslocamento para o trabalho. O último pode 
ser cerca de cinco vezes maior do que o primeiro (Parker, Green & Thompson, 1987: 72). A 
utilidade marginal do dinheiro depende de características pessoais e da renda. 
 
 
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116 
Em termos sintéticos, o valor do tempo de deslocamento está associado a fatores diversos: 
habilidade de trabalhar no percurso (caso de transportes coletivos, como metrôs e ônibus); 
tempo de deslocamento feito à custa de tempo de lazer; risco de perda de produtividade 
associada ao desgaste dos funcionários nas longas viagens entre residência e trabalho; e 
aspectos mais óbvios, como a distância e as características e renda dos indivíduos. Evidências 
apontam que se deslocar com tráfego congestionado produz maiores valores para o tempo do 
que em condições normais, conseqüência do maior nível de stress, frustração e desconforto. 
Valores do tempo por passageiro tendem a crescer à medida que o tempo de deslocamento 
aumenta e em proporção à renda (Nash & Sansom, 1999). 
Estimar valor para o tempo de atraso é um procedimento complexo. O Departamento de 
Transportes na Grã Bretanha utiliza-o para avaliar os benefícios em melhorias de vias. Este 
arcabouço metodológico pode ser adaptado na avaliação de medidas de proteção a inundação, 
mas com dificuldades adicionais. As inundações são eventos extremos de difícil previsão e 
pequena duração, ao contrário de uma solução de melhoria no sistema viário criada ante um 
problema permanente de tráfego. 
Segundo Parker, Green & Thompson (1987) os custos materiais são função do tipo de veículo 
e da velocidade e são computados segundo a Equação 6.8: 
 
 
 
 6.8 
Onde: 
a, b, c = coeficientes relacionados ao custo material (combustível e outros) que variam 
segundo o tipo de veículo; 
v = velocidade em quilômetros por hora. 
A diferença do custo material com e sem inundação representa o custo material marginal 
decorrente da ocorrência do evento. 
Já o valor do tempo da jornada é calculado segundo a Equação 6.9 (Parker, Green & 
Thompson, 1987): 
 
 
 
 
6.9 
 
Onde: 
Cj = custo da jornada; 
 
 
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117 
d = distância do trecho viário (km); 
v = velocidade média da jornada (km/h); 
n = número de veículos no trecho; 
ct = custo do tempo ($/h). 
A medida do valor do tempo da jornada (ct) é de difícil quantificação e possui elevado grau de 
subjetividade. A diferença do custo da jornada com e sem inundação representa o custo do 
tempo de atraso em decorrência do evento. 
Uma formulação semelhante é a de custo marginal externo de congestionamento (CC) 
proposta em Nash & Sansom (1999).
29
 O CC deriva-se do custo externo de congestionamento 
em vias (interação entre oferta e demanda na rede viária), nas quais são verificadas como 
pequenas mudanças no volume de trafego afetam o tempo de jornada. Em termos 
matemáticos: 
 
6.10 
 
Onde: 
∂v/∂q = variação da velocidade em relação ao fluxo de carros; 
q = volume de trafego (em unidades de carro de passageiros/ hora); 
v = velocidade resultante média; 
ct = o valor do tempo de deslocamento. 
As Equações 6.9 e 6.10 apresentam semelhanças. A diferença principal é que a primeira trata 
de uma variação discreta (antes e após a inundação) e a segunda capta mudanças marginais na 
velocidade e fluxo de carros. 
No Brasil, ressalta-se o trabalho de Nagem (2008) que elaborou uma adaptação das fórmulas 
do estudo IPEA/ ANTP (1997) para calcular os prejuízos dos congestionamentos causados 
pelas cheias urbanas. Ela apresenta duas formulações - custo relacionado ao tráfego de 
combustíveis e custo relacionado ao tempo perdido - que são calculadas para cada via da 
região atingida (Equação 6.11 e Equação 6.12): 
 
29
 Os autores nomeiam o custo marginal como “externo” por considerarem que, em uma situação de 
congestionamento, cada usuário adicional inflige um custo aos outros, ele próprio sofrendo o efeito deste custo. 
Este é o elemento externo: algo que é infligido por um usuário aos outros. 
 
q 
v 
v 
c 
q C 
2 
t 
C   
 
 
  
 
 
 
 
    
 
 
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118 
 
 
 
 6.11 
Onde: 
CTC = Custo com combustíveis relacionado ao tráfego; 
P = preço de gasolina na bomba; 
v = velocidade (km/h); 
E = extensão da via (km); 
VMH = Volume médio horário; 
h = tempo de duração da inundação. 
 
 
 
 
 6.12 
Onde: 
CTT = Custo relacionado ao tráfego com tempo perdido; 
RSM = Renda média dos habitantes; 
ES = Encargos sociais 95,02% = 1,9502; 
FA = Possibilidade de uso alternativo do tempo (0,3); 
HP = Número de horas de trabalho por mês = 168 horas; 
NP = Número de pessoas por veículo = 1,5 pessoas/auto, de acordo com o Plano 
Diretor de Transporte Urbano da cidade do Rio de Janeiro; 
HP = Percentual de uso produtivo do tempo (% viagens a trabalho + % viagens 
casa/trabalho x 0,75). Caso não disponível, usar 0,5; 
VMH = Volume médio horário; 
h = tempo de duração da inundação. 
6.1.6.1 Aspectos a serem discutidos em uma metodologia de avaliação dos danos da 
inundação em decorrência de perturbações nos fluxos de veículos 
Uma metodologia de avaliação de danos por inundação da malha viária deve incorporar 
custos em decorrência da utilização de rotas alternativas como desvio, mas também o impacto 
sobre estas novas rotas, que tendem a ficar sobrecarregadas. Alguns aspectos centrais na 
metodologia: 
 Construção de um diagrama da rede viária local com seus nós e conexões (Figura 6.2). 
Este digrama inclui as principais rotas de tráfego, com aquelas que provavelmente serão 
inundadas e aquelas que serão utilizadas como desvios. 
 
 
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119 
 Determinação do comprimento em quilômetros de cada conexão viária e os tipos de vias 
presentes na rede (regional, arterial, coletora, local ou rodovia). O fluxo de veículos e a 
velocidade dependem do tipo de via. 
 Estimação do fluxo de veículos (veículos/hora) em condições normais e em condições de 
inundação. 
 Identificação dos tipos de veículos (mix de veículos) em cada conexão viária. 
 Determinação das vias obstruídas em decorrência da inundação. As vias a serem fechadas 
variam segundo as circunstâncias. Se a polícia está envolvida, as ruas são bloqueadas 
quando a água proveniente da movimentação dos carros começa a ameaçar as casas. Caso 
não seja introduzido um fechamento formal das vias, seu bloqueio efetivo depende do tipo 
de veículo e do julgamento do motorista. Neste caso, a via é fechada progressivamente à 
medida que os motoristas decidam evitar o percurso inundado. Considera-se que uma rua 
está fechada quando ela é ocupada apenas por água e sua capacidade de transporte de 
veículos é nula. Nestas análises é necessário o conhecimento da duração da inundação para 
cada via inundada e a estimativa deve ser feita para vários tempos de retorno. 
 Seleção das rotas de desvio e re-alocação do tráfego. As vias de desvio são potencialmente 
afetadas pelo desejo (escolha) do “viajante”, capacidade do sistema viário e tempo de 
alerta. A capacidade viária determina o quanto o tráfego pode ser transferido para trechos 
específicos do sistema. A habilidade dos viajantes em escolher, entre as rotas existentes, a 
que diminui o tempo total de viagemvaria segundo o tempo de alerta e o conhecimento do 
motorista sobre a rede viária local. Segundo o tempo de retorno, um número crescente de 
vias é inundado e novos desvios são gradativamente incorporados. Mais e mais o tráfego é 
desviado para rotas cada vez mais distantes. Torna-se necessário estimar desvios, fluxo de 
carros e também a duração da interrupção do trecho para cada freqüência de inundação. 
 Cálculo dos custos materiais e de tempo de deslocamento com e sem as condições de 
inundação. A diferença entre ambos mostra o custo marginal de perturbações no trafego 
em decorrência da inundação. 
 
 
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120 
 
Figura 6.2 - Exemplo de um diagrama de rede viária com a extensão da inundação 
(tempo de retorno de 20 e 100 anos), as junções e os tipos de via 
Fonte: Parker, Green & Thompson, 1987:74. 
Se o tráfego original na via de desvio é baixo e não é direcionado um fluxo significativo de 
automóveis para lá, a velocidade dos carros na via tende a não variar significativamente. Em 
conseqüência - como os custos materiais por quilômetro de viagem relacionam-se à 
velocidade - o custo adicional por deslocamento em condições de inundação será pequeno, 
incorporando apenas os efeitos do aumento da distância. 
Por outro lado, como a velocidade do fluxo varia segundo uma função curvilínea; se o fluxo 
aumenta, os custos materiais crescem rapidamente, assim com os custos pelo tempo de atraso. 
Para uma análise minuciosa dos problemas e limitações dos métodos, ver Parker, Green & 
Thompson (1987:80-81). 
Além da capacidade das vias, um aspecto a considerar é a hora e o dia em que a inundação 
ocorre, e mesmo o mês, pois a intensidade do tráfego varia significativamente no tempo. 
Observa-se, por exemplo, uma tendência de aumento na intensidade do tráfego nos horários 
de fim de expediente de trabalho, sextas-feiras e no mês de dezembro. 
Uma escolha metodológica a ser feita refere-se ao nível de detalhamento da rede viária. 
Parker, Green & Thompson (1987) consideram que esta decisão depende da magnitude dos 
 
 
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121 
danos associados à perturbação do tráfego e das características da rede viária impactada. 
Autores, como Sohn (2006), atestam que nem sempre a inclusão das vias locais é necessária. 
Embora se saiba que elas, principalmente na vizinhança dos links impactados, são alternativas 
possíveis de desvio de tráfego, tanto como escolha dos próprios condutores para que alcancem 
os seus locais do destino, como para um plano de emergência e evacuação, o pesquisador 
aponta algumas razões para sua não inclusão. 
Segundo Sohn (2006), o sistema viário principal normalmente já cobre grande parte da área 
analisada e do fluxo de veículos da região. Logo, representa o eixo estruturante da circulação 
de agentes e bens da região de estudo. Em segundo lugar, o sistema viário local pode não ser 
um substituto para uma interrupção da via coletora ou arterial, uma vez que sua capacidade 
tende a ser bem inferior. E ainda que a malha viária local tenha capacidade para receber o 
fluxo interrompido e este se distribua em vários links, esta repartição precisa ser feita de 
maneira criteriosa e organizada - o que normalmente não ocorre - sob pena de que surjam 
enormes congestionamentos que levem atém mesmo à paralisação do fluxo. Se há um plano 
de emergência eficiente, a possibilidade de fluidez do tráfego é maior. Observe que a 
habilidade do sistema viário em absorver impactos na rede está associada à sua 
vulnerabilidade, com análise do seu grau de redundância e de dependência da rede em relação 
à via atingida. 
Obviamente, todas estas questões devem ser discutidas à luz do sistema viário atingido. Se um 
dos focos de pesquisa são os planos de evacuação e emergência de curto prazo, deve ser 
verificada a capacidade das vias alternativas e possivelmente será necessário considerar o 
sistema viário local. 
6.2 Modelos microeconômicos baseados implicitamente no mercado 
real: Método dos Preços Hedônicos 
O método dos preços hedônicos - MPH-, também denominado método de preço implícito, 
baseia-se na identificação dos atributos que interferem no preço de um bem transacionado no 
mercado (Shabman L. et al., 1998; Chao, Floyd & Holliday, 1998). Reconhecidos estes 
atributos, é possível isolá-los e estimar seus valores os quais, implicitamente, estão no preço 
final do bem. É uma forma de conhecer valores não diretamente negociados na economia, 
mas que são atributos de produtos existentes no mercado. 
Nas inferências, utilizam-se com freqüência os preços de propriedade (ou da terra), 
considerando que refletem as características naturais e sócio-econômicas da área. Os modelos 
 
 
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122 
baseados na propriedade (Housing Models) têm sido amplamente utilizados para investigar 
diversos efeitos, como presença de escolas, qualidade do ar, taxas de criminalidade, 
miscigenação racial, acesso a empregos, zonas de terremoto e, mais recentemente, a 
influência de áreas inundáveis (Donnelly, 1989). 
O método dos preços hedônicos é um método de valoração econômica antigo é com ampla 
utilização. Segundo Lezcano (2004), a referência mais antiga de aplicação da teoria remonta a 
1929: 
A análise do preço hedônico tem origem na economia agrícola quando 
Fedreick V. Waugh (1929) publicou seu pioneiro estudo sobre fatores 
qualitativos que influenciam os preços dos vegetais, (...) Waugh fez uma 
regressão dos preços por lote de aspargos em Boston (maio-junho, 1927) sob 
três diferentes dimensões de qualidade: avaliação da cor, tamanho da haste e 
uniformidade dos brotos. Seu objetivo era determinar a valorização relativa 
que os consumidores davam a essas características, as quais consideravam 
como informações úteis para os produtores de aspargos. (Ferreira Neto, 
2002:03 apud Lezcano, 2004). 
Como os grandes difusores do MPH, têm-se Griliches (1971) apud Rondon (2003),
 
com uma 
formulação mais genérica, e Rosen (1974) apud Chao, Floyd & Holliday, (1998), referência 
clássica por ter formalizado as suas bases teóricas. A partir de então houve grande utilização 
do método, notadamente na segunda metade da década de 70 e durante a década de 80. 
Apesar de possível a aplicação do MPH em qualquer bem composto privado cujos atributos 
sejam complementares a bens ou serviços ambientais, a utilização mais usual está relacionada 
aos preços de propriedades. O preço de uma propriedade é função de várias características, 
classificadas essencialmente em quatro grandes grupos: 1) características da propriedade (e.g.: 
tamanho, idade e tipo de revestimento), 2) características da localização (e.g.: índice de 
criminalidade, renda média e qualidade das escolas), 3) acessibilidade (e.g., acesso a serviços 
e áreas comerciais, proximidade de rodovias ou metrôs) e 4) condições de mercado 
(influência de fatores conjunturais de mercado, como desemprego e crescimento 
populacional). Em áreas sujeitas à inundação, o risco de sua ocorrência também é uma 
variável que pode interferir no preço do imóvel, podendo ser considerada uma característica 
da propriedade. Em termos matemáticos, 
pi = f (ai1, ai2, ai3, ai4, ai5, ..., Fi) 6.13 
Onde: 
pi = preço da propriedade i 
ai = vários atributos da localidade i 
 
 
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123 
Fi = variável que mede o risco de inundação 
O modelo de preços hedônicos mede a contribuição de cada atributo no valor da propriedade, 
para a variável “inundação”, tem-se: 
Preço Hedônico = ∂ pi / ∂ Fi 6.14 
O preço hedônico corresponde ao preço marginal do atributo Fi e representa a disposição a 
pagar do consumidor por uma unidade adicional de Fi. Espera-se que a função diferencialseja 
não linear. Sua linearidade implicaria na constância do preço marginal de Fi e sua 
independência em relação aos demais atributos ambientais. Isto não seria possível em uma 
situação real: significaria que o morador poderia escolher separadamente a quantidade 
desejada de Fi e dos demais atributos de sua residência (Maia, 2002). 
Comparando-se o preço de um imóvel com as mesmas características dentro e fora da planície 
de inundação tem-se: 
∆ pi = pout – pin = f (aout, 0) – f (ain, 1) = 

n
1d
dΔ p +

n
1i
np  - 

n
1p
pp  6.15 
Onde: 
∆pi = variação no preço de propriedades devido à sua localização dentro ou fora da planície de 
Inundação; 
pout = preço da propriedade não sujeita ao risco de inundação; 
pin = preço da propriedade sujeita ao risco de inundação; 
aout = atributos da localidade situada fora da planície de inundação, com excessão do atributo 
relacionado ao risco de inundação; 
ain = atributos da localidade situada dentro da planície de inundação, com excessão do 
atributo relacionado a risco de inundação; 
0 e 1 = variável dammy para localização do imóvel dentro da planície de inundação (“1”) ou 
fora dela (“0”); 
∆ pd = preços hedônicos para danos diretos; 
∆ pn = preços hedônicos para atributos negativos da localização na planície de inundação 
(exceto danos diretos); 
∆ pp= preços hedônicos para atributos positivos da localização na planície de inundação. 
 
 
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124 
Na Equação 6.15, ∆pi representa o custo adicional de se morar em uma planície de 
inundação.
30
 Seu valor baseia-se na avaliação subjetiva que os consumidores fazem dos 
atributos associados à localização em uma área inundável e de quanto estariam dispostos a 
pagar para evitá-los. 
Embora, para fins analíticos, a Equação 6.15 faça distinção entre atributos positivos (e.g.: 
valores estéticos e possibilidade de recreação), atributos negativos (e.g.: fatores emocionais 
associados à experiência com inundação, custos de evacuação temporária, projeção de perda 
de renda e pagamento de seguro contra inundação) e danos diretos, o método normalmente 
captura integramente os efeitos da inundação no valor da localização, não sendo possível 
distinguir os tipos de danos. Ressalta-se que como no interior da planície de inundação os 
atributos tendem a variar, uma variável que capte os incrementos no nível de risco seria mais 
adequada do que a utilização de uma variável dummy. 
Mas o modelo de preços hedônicos tem pressupostos rígidos que acompanham a análise 
econômica neoclássica. Supõe-se que o mercado de moradias é concorrencial e está em 
equilíbrio. Para garantir este equilíbrio, as seguintes suposições adicionais devem ser feitas: 
os consumidores têm completa informação sobre os preços das residências; os agentes 
possuem mobilidade de deslocamento entre bairros; os custos de transação e de deslocamento 
são nulos e os preços se ajustam instantaneamente ante mudanças na oferta e demanda. Além 
disso, os agentes têm percepção sobre o risco de inundação e sobre as características dos 
imóveis. 
Segundo Rondon (2003), a hipótese de mercado concorrencial pode ser considerada 
verossímil, uma vez que, 
...há um elevado número de compradores e vendedores no mercado de 
imóveis (mercado atomizado) e informação perfeita quanto à qualidade do 
produto e preço, pois, usualmente, os inquilinos podem visitar o imóvel 
antes de alugá-lo (Rondon, 2003: 67). 
A mobilidade de deslocamento seria justificada pelo dinamismo do mercado imobiliário, no 
qual o ajustamento a mudanças nas condições de oferta é bastante rápido, em virtude do 
elevado número de apartamentos disponíveis para locação (Rondon, 2003). 
 
30
 Também podem existir benefícios atribuídos à localização em uma área inundável, como as possibilidades de 
recreação dentro e no entorno do rio e a incorporação de valores estéticos e ambientais à área. 
 
 
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125 
A hipótese que, possivelmente, encerre mais discussão seja a de há conhecimento sobre o 
risco. Como será discutido no item 6.2.1, se esse existe, ele tende a ser limitado e assimétrico. 
Atualmente já existe um volume significativo de estudos que aplicam o MPH para estimar o 
impacto do risco da inundação sobre o valor das propriedades e, adicionalmente, calcular os 
benefícios de medidas de controle. Parte significativa dos estudos utiliza variável dummy para 
representar se a propriedade está dentro ou fora da planície de inundação de 100 anos. 
Texto usualmente referenciado é o de Donnelly (1989) que utilizou um modelo de regressão 
linear múltipla para analisar 345 moradias a montante do Rio Mississipi nos Estados Unidos. 
Os resultados mostram que o valor de venda de uma residência diminui 12,05% pela sua 
localização em uma planície de inundação. Segundo o autor, o valor é significativamente 
superior ao pago às seguradoras como prêmio em caso de inundação (cerca de 5% do valor do 
imóvel), o que indica que o risco percebido pelos comparadores difere do risco atuarial. O 
estudo contraria uma visão freqüente de que as pessoas são “míopes” em relação à localização 
em uma planície de inundação (Donnelly, 1989). 
Miyata & Abe (1994) utilizaram o método de preços hedônicos para estimar os efeitos de um 
projeto de controle de inundação na bacia do rio Chitose, região de Hokkaido, no Japão. O 
estudo mede os benefícios de uma redução do risco por meio do MPH e por meio da 
utilização de curvas DPS. Utilizando-se o método dos preços hedônicos, chega-se a uma 
relação benefício-custo da medida de controle de 0,27, indicando que, dentro da perspectiva 
do estudo, o projeto não é eficiente. Com a utilização das curvas de danos, o resultado indicou 
uma razão benefício-custo de 1,99, valor bastante superior ao da analise anterior. 
Há estudo relevante desenvolvido por Shabman et al. (1998) comparando técnicas de 
estimação de benefícios para a redução do risco em Roanoke, Virgínia. A variável de risco foi 
medida considerando a localização de cada propriedade na zona de inundação (ZI). Os 
resultados mostram que os compradores de imóveis, após 1985, quando ocorreu uma grande 
inundação, estariam dispostos a pagar maiores preços pelas propriedades com menor 
probabilidade de serem inundadas. Antes de 1985, ao contrário, a localização das residências 
em zonas de inundação não teve um impacto significativo no preço da terra. A pesquisa 
sugere a importância da memória da inundação. Apesar do risco de inundação sempre ter 
existido, ele só se tornou presente nas formulações de percepção do risco após o evento. 
 
 
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126 
Chao, Floyd & Holliday (1998) apresentam dois estudos de caso: Abilene no Texas e South 
Frankfort, Kentucky. Compõe o estudo uma amostra relativamente grande, 4.700 observações 
compreendidas entre o período de1988 e 1993. Para a localização fora da planície ou em área 
sujeita a cheia com tempo de retorno de 100 anos, os coeficientes não foram estatisticamente 
significativos ao nível de confiança de 95%. Este comportamento se justificaria pela hipótese 
de que os consumidores não consideram a ocorrência de eventos raros em suas análises 
subjetivas sobre o valor da residência. Os resultados apenas mostraram-se significativos para 
as residências com valores de venda mais baixos e que se localizavam em áreas afetadas por 
inundações mais freqüentes (tempo de retorno de 10 anos ou 25 anos). 
A segunda área pesquisada pelos estudiosos é South Frankfort em Kentucky. O estudo 
englobou características de treze pares comparáveis de residências vendidas entre 1989 e 
1991. Compunham os pares, propriedades estruturalmente similares, mas que se diferiam por 
terem sofridoou não impacto direto da cheia de 1978, um evento de tempo de retorno de 150 
anos. As conclusões são que, tanto a probabilidade de inundação quanto a área, tem um efeito 
estatisticamente significativo sobre o preço das propriedades. Em média, os preços das 
propriedades caem 0,16% para cada aumento de 1% na probabilidade da inundação. 
Bartosová et al. (1999) realiza um estudo amplo e detalhado com algumas possibilidades de 
variável de risco. O modelo utiliza quarenta variáveis independentes e as informações 
compreendem o período de 1995 a 1998 para 1.431 propriedades. A área de estudo tem 
aproximadamente 18,5 km e localiza-se ao longo do rio Menomonee em Wisconsin, Estados 
Unidos. O estudo mostrou uma clara relação entre redução do risco de inundação e 
crescimento no preço das propriedades: as propriedades próximas ao rio tenderiam a ser 
vendidas por um valor aproximadamente 7,8% menor do que o daquelas fora da planície. 
Entretanto, quando o risco de inundação diminui em 10 anos, o preço das residências 
cresceria em 2,3%. Ao intervalo de recorrência de 33,3 anos ou mais, eliminar-se-ia o efeito 
negativo do risco de inundação. A pesquisa discutiu ainda os efeitos sobre os preços das 
propriedades de uma inundação ocorrida em 1997. Concluiu-se que, antes da inundação, 
propriedades próximas ao rio foram vendidas por um valor 5,1% menor do que o de 
propriedades semelhantes fora da planície. Considerando um ano após a inundação, esta 
relação entre preços é de 18,9%, o que indica também a interferência da memória da 
inundação sobre o valor das propriedades. 
Entre os estudos mais recentes, está o de Zhai, Fukuzono & Ikeda (2003). Utiliza-se o método 
de preços hedônicos para avaliar os efeitos do risco de inundação em uma área densamente 
 
 
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127 
ocupada e com intensa atividade econômica no Japão. A região foi alvo de uma cheia de 
grande magnitude em setembro de 2000 (inundação Tokai), que causou inclusive a morte de 
10 pessoas. Relacionadas ao risco, além da variável “profundidade da inundação”, foram 
utilizadas variáveis dummy para medir a variação de preços de propriedade antes e depois da 
cheia de 2000. Nos resultados, observou-se que a inundação tem efeito sobre o preço das 
propriedades e de que esse foi afetado pela grande cheia de 2000. 
No Brasil, o único trabalho encontrado sobre a utilização do método dos preços hedônicos 
para estimar o efeito do risco da inundação sobre o valor das propriedades foi de Lezcano 
(2004). A pesquisadora utilizou o modelo para relacionar os efeitos do risco de ocorrência de 
inundação, representado pelo período de retorno, sobre a variação no preço dos imóveis. 
Como área de estudo tem-se a bacia do rio Atuba, localizada na Região Metropolitana de 
Curitiba. É uma bacia de densa ocupação urbana que sofre com relativa freqüência os efeitos 
negativos de enchentes urbanas. Foram coletados dados de 159 imóveis residenciais com o 
levantamento de doze variáveis consideradas relevantes na valorização do preço de venda: 
estruturais (área construída, área do terreno, tipo de construção e idade do imóvel); 
localizacionais (município, distância ao centro de Curitiba e proximidade a áreas de ocupação 
irregular); de infra-estrutura (tipo de pavimentação, disponibilidade de sistema de coleta de 
esgoto e proximidade de equipamentos urbanos); ambiental (proximidade a áreas verdes e de 
recreação) e de inundação (risco de ocorrência de inundação na área onde se localiza o 
imóvel, expresso pelo período de retorno). 
Utilizou-se o modelo de regressão log-linear para relacionar o valor de mercado dos imóveis 
com suas respectivas características. Com as informações obtidas, Lezcano (2004) avaliou o 
impacto que uma medida de controle de inundação teria sobre o valor dos imóveis ao 
aumentar o tempo de retorno das cheias que os atingem de 10 para 100 anos. Os resultados 
mostram que eles apresentariam uma valorização de 17% em seu preço de venda. 
A Tabela 6.3 mostra uma síntese de alguns trabalhos consultados e suas conclusões. 
 
 
 
 
 
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128 
Tabela 6.3 - Síntese de estudos com a utilização do método dos preços hedônicos para 
avaliar o impacto do risco de inundação 
 
6.2.1 Considerações metodológicas e limitações 
Uma das vantagens do MPH é a possibilidade de estimar o benefício por meio do 
comportamento de consumidores no mercado. O preço da terra (e do imóvel) é o resultado de 
uma avaliação subjetiva feita pelos agentes, que incorpora tanto benefícios associados à 
segurança da propriedade (danos diretos evitados), quanto aqueles relacionados ao bem-estar 
social e individual (danos indiretos e intangíveis evitados). Utilizar o mercado e as relações 
subentendidas que o governam como fonte de análise tem conveniências, pois não são 
necessárias suposições sobre a atitude pessoal de risco, taxas individuais de desconto e 
probabilidades objetivas. Mas também é fonte potencial de problemas. 
Estudo Interesse Conclusão 
Donnely 
(1989) 
Um dos primeiros trabalhos relevantes na área. Valor de venda de um imóvel é menor pela sua 
localização em uma planície de inundação (Tr=100 
anos). Queda no valor do imóvel é superior ao 
prêmio pago pelas seguradoras. 
Miyata & Abe 
(1994) 
Comparação entre o Método dos Preços 
Hedônicos e o Método dos Danos Evitados 
(danos associados aos níveis de vazão). 
Utlização de malha regular. 
Pelo Método dos Preços Hedônicos, um projeto de 
controle de cheias não é viável economicamente, pelo 
método dos danos evitados, ele é. 
Shabman et al. 
(1998) 
Estudo didático e consistente. Utilização de 
zonas de inundação. 
Antes de um evento de inundação, os valores das 
propriedades não refletiam o risco, após o evento, 
eles passaram a refletir. 
Chao, Floyd & 
Holliday 
(1998) 1 
Segmentou-se o mercado de imóveis segundo o 
preço de venda. Grande volume de 
observações (4.700). 
O preço de venda não reflete a ocorrência de eventos 
raros (Tr superior a 100 anos). 
Chao, Floyd & 
Holliday 
(1998) 2 
Utilização de pares comparáveis de 
residências. Inclusão de apenas duas variáveis 
independentes (freqüência da inundação e área 
da propriedade). Relação entre desconto pela 
localização em uma planície de inundação e 
valor esperado dos danos diretos anuais. 
Os preços das propriedades caem para cada aumento 
da probabilidade de inundação. Maior consciênca dos 
moradores sobre danos onde o seguro é obrigatório e 
inundações mais frequentes. 
Bartosová et al. 
(1999) 
Utlização de 40 variáveis dependentes, 5 
relacionadas ao risco de inundação. Utilização 
de sistema de informação geográfica (SIG). 
Correlação entre redução do risco e crescimento do 
valor da propriedade (dentro da planície de 
Tr=100anos). Ao intervalo de recorrência de 33,3 
anos, elimina-se o efeito negativo do risco obre o 
valor das propriedades. Ocorrência de um evento de 
inundação tem efeito sobre o valor da prpriedade no 
curto-prazo. 
Zhai, Fukuzono 
& Ikeda 
(2003) 
Estudo relativamente recente. Utilização da 
variável profundidade de inundação. 
Inundação tem efeito sobre o preço das propriedades 
e estas foram afetadas pela grande cheia de 2000. 
Lezcano 
(2004) 
Estudo feito no Brasil. Aumento considerável do preço de venda das 
residências com o aumento do tempo de retorno das 
cheias que os atingem de 10 para 100 anos. 
 
 
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129 
A análise de preços hedônicos somente pode gerar estimativas de benefícios de projetos de 
mitigação por meio de residências diretamente afetadas pela inundação. Se não existe ameaça 
de inundação na propriedade, seu preço não será influenciadopela construção de uma medida 
de controle. Isto significa que a avaliação de um residente fora da planície de inundação, mas 
que por razões cívicas estaria disposto a pagar por um projeto de mitigação de danos, não é 
considerada na análise. Motivações cívicas não são então captadas pelo modelo (Shabman et 
al., 1998). 
O conhecimento sobre a ocorrência de inundação é diferente entre planejadores públicos, 
agentes imobiliários e compradores e também entre indivíduos em cada um destes grupos. Os 
corretores de imóvel, mesmo inteirados sobre risco e inundações, podem omitir informações 
aos possíveis compradores por motivos estratégicos. Existe a possibilidade dos indivíduos 
subestimarem ou superestimarem a probabilidade de ocorrência da inundação (Parker, Green 
& Thompson, 1987). Informações técnicas sobre o risco de inundação são escassas, algumas 
vezes de difícil entendimento e nem sempre de fácil acesso. A presença de seguro de 
inundação é um fator que pode estimular a busca de informações pela comunidade, conforme 
estudo de Chao, Floyd & Holliday, 1998. 
O modelo de preços hedônicos não é capaz de distinguir entre a “falta de consciência” sobre o 
risco de inundação e falta de disposição a pagar por uma medida de controle. Obviamente, 
logo após um evento extremo, esta falta de consciência tende a diminuir, como mostraram 
alguns trabalhos apresentados (Shabman et al., 1998; Bartosová et al., 1999; Zhai, Fukuzono 
& Ikeda, 2003). Fatores como expectativa em relação à assistência governamental após o 
desastre natural e existência de seguro contra inundação adicionam complexidade ao 
funcionamento do mercado em alguns países. 
O MPH possui dificuldades técnicas intrínsecas (Shabman et al., 1998). Para que o modelo 
seja válido, os atributos devem variar significativamente entre as propriedades que compõem 
a amostra. Quanto menor a variação nas características, maior é o potencial de erro. 
Adicionalmente, vários problemas podem surgir ao ser utilizada uma análise transversal para 
estimar a equação de preço. Algumas vezes, os preços em uma planície de inundação são 
afetados por fatores exclusivos à planície que não necessariamente são decorrentes dos efeitos 
potenciais de uma inundação. Seu desenvolvimento pode ter sido único em relação ao resto da 
região tornando-a um mercado com características bem próprias e, portanto, não comparável 
ao restante. 
 
 
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130 
Para Mitchell & Carson (1989) há dificuldade em se encontrar residências genuinamente 
comparáveis em uma região. Há ainda o grande número de variáveis que interferem no preço 
das propriedades. Muitas delas de difícil acesso e outras, impossíveis de capturar. Podem 
existir expectativas em relação a mudanças futuras na localidade, como a construção de 
alguma área de lazer ou centro comercial, que interferem na determinação dos preços, mas 
não são capturáveis na equação de regressão. Um problema verificável frente à análise da 
literatura é a dificuldade em encontrar a forma funcional adequada para mostrar a relação 
entre preço e atributos, embora tenham sido percebidos avanços nesta área, como a utilização 
da transformação Box-Cox.
31
 
Ainda que o modelo de preços hedônicos possa ser usado com razoável confiabilidade, os 
resultados nem sempre originam uma medida da disposição a pagar. Conceitualmente, o 
modelo gera o preço implícito marginal da característica em questão. Para medir os benefícios 
de uma mudança não marginal no nível de proteção, alguns procedimentos ainda seriam 
necessários, como definir a função de demanda inversa, função da disposição a pagar pela 
amenidade de interesse, por meio da qual seria calculado o excedente do consumidor (Maia, 
2002; Shabman et al. 1998). 
6.3 Modelos microeconômicos baseados em mercados hipotéticos: 
Método da Valoração Contingente 
O Método da Valoração Contingente - MVC - é bastante difundido na definição de valores 
monetários para bens públicos e, especialmente, para recursos e serviços ambientais – 
proteção de ecossistemas, parques naturais, espécies em extinção, melhora da qualidade da 
água, ecoturismo, conservação do solo, etc. -, quando pode ser a única alternativa viável de 
valoração (Nunes & Bergh, 2001). Pelas características teóricas e conceituais do método, a 
literatura registra suas potencialidades e qualidades para estudos de impacto da inundação e 
na estimativa dos benefícios de medidas de controle. 
Por meio do MCV procuram-se saber, com a utilização de entrevistas individuais, as 
preferências da população no consumo de bens públicos e inferir a disposição a pagar pela 
melhoria quantitativa ou qualitativa na sua provisão (DAP). Diz-se “contingente”, por extrair 
valores de DAP que são contingentes a um mercado hipotético específico descrito ao 
entrevistado. Por não utilizar o mercado real como base de análise, MVC capta uma classe de 
valores de quantificação difícil, como os valores de existência e de opções de uso. 
 
31
 A transformação Box-Cox permite, através da variação de um parâmetro, englobar toda uma classe de 
formas funcionais de transformação de atributos em variáveis explicativas. (Lezcano, 2004: 85). 
 
 
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131 
A origem do método remonta à década de quarenta, quando o economista Ciriacy-Wantrup 
sugeriu o uso de entrevistas diretas para medir os valores associados aos recursos naturais. No 
seu livro - Resource Conservation: Economics and Policies, de 1952 – ele preconiza o 
método de entrevistas e propõe o desenvolvimento de uma nova área de conhecimento, a 
“economia da diversidade biológica”. 
Mas o grande difusor e responsável pelo arcabouço metodológico do MVC foi Robert Davis, 
no início dos anos sessenta. A fim de estimar os benefícios da recreação ao ar livre no estado 
norte-americano de Maine, famoso pelas suas florestas de pinheiros, o pesquisador, utilizando 
os jogos de oferta
32
, recorreu a uma série de entrevistas individuais. Foram entrevistadas 121 
pessoas. Segundo Davis, os entrevistados responderam às questões seriamente e expressaram 
valores críveis: 
Durante os jogos de oferta, os comentários dos respondentes indicaram que 
eles raciocinam sobre as possíveis alternativas da mesma forma que um 
comprador, diante de diferentes tipos e cortes de carne, analisa seu preço e 
aspecto. Além disso, a relação entre a renda e as outras respostas 
relacionadas à preferência sugerem consistência econômica (Davis, 1964: 
397 apud Mitchell & Carson, 1989:10).
33
 
Para testar a racionalidade das respostas, Davis estimou uma equação que explicava uma 
grande porcentagem da variância na quantia de DAP como função da renda, tempo de 
permanência na área e familiaridade com o local. Seguiram-se vários estudos influenciados 
pela pesquisa de Davis, especialmente para avaliar áreas de lazer associadas à natureza, como 
parques e bosques. 
A partir dos anos setenta, o método é utilizado para uma ampla variedade de temas, como 
lazer, caça, qualidade da água e do ar, despejo de lixo tóxico, benefícios estéticos de obras 
públicas e benefícios do suporte do governo a artes. Associado à sua generalização, há o 
refinamento do MVC, e vários estudos estabelecem sua consistência teórica com a economia 
do bem-estar. Ressaltam-se os esforços conduzidos pelo pesquisador Randall e colaboradores, 
especialmente no trabalho Biddings Games for Valuation of Aesthetic Environmental 
Improvements, feito em 1974 (Randall et al., 1974). A consolidação do método veio com a 
sua aceitação e recomendação por órgãos oficiais e entidades norte-americanas, como Water 
Resource Concil, U. S. Army Corps of Engineers, Department of the Interior e U.S. 
Environmental Protection Agency.32
 Forma de questão onde o entrevistado responde se está de acordo ou não com uma quantia estabelecida (ver 
Tabela 6.4). 
33
 Escrito originalmente em inglês. 
 
 
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132 
O MVC tem como base metodológica a criação de cenários hipotéticos, com características 
que estejam o mais próximo possível das existentes no mundo real, para que os agentes 
revelem suas preferências e decisões da forma mais realística possível. Na avaliação de danos 
de inundação podem ser criados dois cenários alternativos: com inundação e sem inundação, 
ou, em termos mais relativos, negocia-se a mercadoria “diminuição do risco”. 
Nesta situação virtual, a diminuição do risco ou a adoção de uma medida de controle de cheia 
é uma mercadoria que pode ser negociada e consumida segundo necessidades e preferências, 
tal como no mercado real. As preferências, na ótica da teoria econômica, devem ser expressas 
em termos monetários (Shabman et al., 1998). 
Para um proprietário de um imóvel residencial, sua DAP pode ser expressa segundo a 
Equação 6.16: 
DAP = f (E∆DP, E∆VI, E∆ANX, E∆L, SI, RN, HT) 6.16 
Onde: 
DAP: Disposição individual a pagar por um projeto de mitigação dos danos da inundação; 
E∆DP: Expectativa de variação dos danos à propriedade após o projeto; 
E∆VI: expectativa de variação no valor dos imóveis após o projeto; 
E∆ANX: expectativa de diminuição do stress decorrentes da inundação; 
E∆L: expectativa de diminuição dos transtornos na localidade; 
SI: presença ou não de seguro pelo proprietário; 
RN: Renda do proprietário; 
HT: horizonte de tempo utilizado na análise individual. 
A Equação 6.16 mostra alguns possíveis fatores considerados na análise do agente econômico 
sobre sua DAP. No caso do proprietário de um estabelecimento comercial ou industrial, outras 
variáveis também são incorporadas, como a esperança de menores danos ao estoque e a não 
paralisação das atividades. 
Este método utiliza dois mecanismos de valoração: a disposição a pagar (DAP) e a disposição 
a aceitar (DAA). A DAP é a soma máxima de dinheiro que o indivíduo estaria disposto a 
pagar por um bem, por exemplo, por uma amenidade ambiental. É o chamado “preço de 
reserva” na teoria microeconômica. Por este preço, a pessoa é indiferente entre ter o bem (e 
perder o dinheiro) ou não (e manter o dinheiro). A DAA é a soma mínima de dinheiro que o 
consumidor exigiria para voluntariamente renunciar a uma melhoria que, caso contrário, seria 
 
 
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133 
experimentada. É a quantia que tornaria o indivíduo indiferente entre ter a melhoria ou 
renunciá-la com o ganho extra de dinheiro (Freeman III, 1993). 
A DAP teria como cenário inicial a ausência de melhoria ambiental, a DAA pressuporia a 
presença de algum benefício ambiental no nível atual de bem-estar ou utilidade (Freeman III, 
1993). Como preconizam Daun & Clark (2000): se a amenidade ambiental representa um 
aumento do status quo, o método de eliciação seria o DAP; se, ao contrário, o respondente 
tem que comparar o seu status quo corrente com um novo, onde a qualidade ambiental é 
menor, seria utilizado o formato DAA. Em uma situação intermediária, quando o gasto está 
associado a uma manutenção do atual nível de bem-estar, a forma apropriada seria o DAP. 
Supondo racionalidade econômica, as medidas DAP e DAA em relação a alterações no risco 
(R) devem implicar, no mínimo, à manutenção da utilidade inicial do consumidor. Tem-se: 
U (R
0
, RN
0
) = U (R
-
, RN
-
) = U (R
+
, RN
+
) = U (R
-
, RN 
-
, DAP) = U (R
+
, RN 
+
, DAA) 6.17 
Sendo: 
U: Utilidade; 
R: Risco de Inundação; 
RN: Renda; 
DAA: Disposição a aceitar uma compensação pelo aumento do risco (pouco verossímil); 
DAP: Disposição a pagar por uma medida para diminuição do risco. 
Os subscritos 0, +, - representam, respectivamente, valor inicial da variável, acréscimo no 
valor e redução no valor. 
As equações acima mostram combinações distintas de renda e risco que satisfariam da mesma 
forma o consumidor.
34
 Como não é possível estimar a função utilidade diretamente no 
mercado, as informações sobre “disposição a pagar” ou “disposição a aceitar” são feitas via 
método da valoração contingente, por meio de pesquisa de campo. Comumente usam-se 
questionários em formato aberto ou em modo de referendo. O estudo pode ser enriquecido 
com uma estimativa da função demanda que correlaciona os valores da DAP/DAA com 
indicadores socioeconômicos (nível de renda e educação dos entrevistados) e outras variáveis 
explicativas (Mikhailova & Barbosa, 2004). Para alcançar resultados confiáveis, a definição 
metodológica deve ser feita de maneira criteriosa. 
 
34
 As curvas de indiferença mostram combinações de bens e consumo (cestas de bens) em que o consumidor 
estaria igualmente satisfeito de consumi-las, ou seja, é indiferente entre as cestas. 
 
 
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134 
A forma de obtenção da DAP/DAA – ou de “eliciação”, termo usualmente empregado na 
literatura sobre o tema que possui o sentido de “extrair” uma informação - é uma etapa 
fundamental do método (Mitchell & Carson, 1989; Motta, 1998; Nutti, 2000). As formas de 
eliciação são divididas em dois grandes formatos: formato aberto e formato fechado. Na 
forma aberta, também chamada lances livres (open-ended), pergunta-se ao entrevistado 
quanto ele estaria disposto a pagar ou a aceitar como compensação financeira por uma 
mudança na oferta de determinado bem ou serviço. O método é apropriado caso a população 
pesquisada possua algum conhecimento sobre o bem em questão. Segundo Motta (1998), esta 
é a forma pioneira do MVC, mas tem sido abandonada em favor de outras técnicas. 
No formato fechado o pesquisador já oferece um valor ao respondente, e este o aceita ou não. 
Segundo a interatividade desejada, existe várias possibilidade de condução da entrevista: 
jogos de oferta ou jogos de leilão (bidding games), cartões ou opções de pagamento, 
referendo (escolha dicotômica) e referendo com acompanhamento (mais de um valor). 
Atualmente, a escolha dicotômica tem sido preferível em relação às demais (Motta, 1998). 
A Tabela 6.4 apresenta uma síntese das formas de eliciação no MVC. 
Tabela 6.4 - Formas de eliciação no Método de Valoração Contingente 
Forma de Liciação Características 
Lances livres 
Pergunta-se ao entrevistado o quanto ele estaria disposto a 
pagar ou a aceitar como compensação financeira por uma 
mudança na oferta de determinado bem ou serviço 
Jogos de oferta 
ou jogos de leilão 
(bidding games) 
O entrevistado concorda ou não com a quantia estabelecida. 
Repete-se o experimento com novos valores, até o consenso 
entre entrevistador e entrevistado. Forma mais recomendável 
para populações com baixo grau de renda. 
Cartões ou opções de pagamento 
O entrevistado recebe um cartão com uma escala de valores 
associados e escolhe uma. 
Referendo 
(escolha dicotômica) 
Responde-se à questão: “você está disposto a pagar um valor 
X?”. A quantia é variada sistematicamente no decorrer da 
amostra para avaliar a freqüência das respostas. 
Referendo com acompanhamento 
(mais de um valor) 
Como o referendo, mas, acrescenta-se uma segunda pergunta, 
aumentando ou diminuindo o valor. 
Entre os trabalhos mais recentes relacionados ao risco de inundação, está o de Brouwer et al. 
(2006), feito para Bangladesh, país que, com 80% de sua área situada dentro de uma planície 
de inundação, sofre inundações freqüentes. Brouwer et al. (2006) consultou 672 moradores 
rurais, de baixa renda, sobre sua DAP pela construção de um dique para reduzir o nível 
corrente e futuro de risco. A eliciação foi feita por escolha dicotômica com uma oferta 
específica. 
 
 
Programa de

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