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O AUTOMÓVEL DEIXOU DE SER SINÔNIMO DE LIBERDADE Londrina 2023 O presente texto tem como objetivo analisar os motivos pelos quais a dependência do automóvel ainda é reafirmada por parte dos cidadãos, apesar desse modal possuir desvantagens estruturais, sociais, econômicas e ambientais. Inicia-se com um breve histórico da inserção do automóvel na vida urbana. Aponta, posteriormente, suas contradições, consequências no deslocamento cotidiano e na vivência das pessoas nas cidades grandes e médias e o papel do marketing na conservação desse pensamento. “A cidade é antes de mais nada um imã, antes mesmo de se tornar um local permanente de trabalho e moradia” (Raquel Rolnik, 1988: 13). Esse fundamento está na gênese das primeiras cidades que se tem registro, na Mesopotâmia - aglomerados populacionais associados pela dependência dos recursos naturais, que, aos poucos, passaram a compartilhar tradições, infraestrutura e políticas de organização do território. A cidade surgiu para as pessoas, em favor de suas necessidades. A indústria faz a cidade se tornar o centro do mundo ocidental, impulsionando o processo de urbanização e êxodo rural. Tudo continua concentrado, sob a lógica capitalista, visando a produção e a economia de tempo. É só através de Henry Ford que a ocupação urbana se transforma, quando em 1920 é lançado o primeiro automóvel de sua linha. Mais do que um artigo de luxo, o automóvel foi vendido como um símbolo de liberdade individual – poder ir e vir de qualquer lugar, a qualquer hora, de maneira fácil e rápida. Essa ideologia é inflamada no imaginário das pessoas, não evidenciando que esse sistema só funcionaria enquanto o carro estivesse exclusivamente sobre a posse de um grupo restrito. Quando todos tivessem acesso, deixaria de ser uma liberdade, para se tornar uma necessidade. Porém, não demorou muito para Ford, movido pelo capital, democratizar esse bem. O que tem de pior nos carros é serem como castelos ou mansões à beira do mar: bens luxuosos inventados para o prazer exclusivo de uma minoria muito rica, os quais em concepção e natureza nunca foram direcionados para o povo. Ao contrário do aspirador de pó, do rádio, ou da bicicleta, que retêm seu valor de uso quando todos possuem um, o carro, como uma mansão à beira do mar, é somente desejável e útil a partir do momento que as massas não têm um. Por isso, tanto em concepção quanto na sua finalidade original o carro é um bem de luxo. E a essência do luxo é a de que ele não pode ser democratizado. Se todos puderem ter o luxo, ninguém obtém as vantagens dele. Do contrário, todos logram, enganam e frustram os demais, e é logrado, enganado e frustrado por sua vez. (André Gorz, 1973) É isso que se observa na transformação da ocupação urbana citada anteriormente. A disseminação do automóvel induziu a formação de uma cidade espraiada, dispersa e fragmentada. A população tem o desejo cada vez maior de fugir do trânsito e do barulho dos centros. O capital imobiliário, por sua vez, aproveita esse estímulo para vender condomínio fechados, imóveis e shopping centers cada vez mais longe das áreas centrais. A gênese da cidade é desfigurada e agora ela passa a ser conformada para os carros. Esse movimento de saída da cidade é paralelo ao movimento de degradação das áreas centrais. Os investimentos na cidade são direcionados para os locais com possível especulação imobiliária e o gasto com infraestrutura é gigantesco considerando que aquela região tem que estar conectada a cidade através de um sistema viário extenso, que transporta poucas pessoas. Os centros vão ficando, assim, abandonados até haver uma política de recuperação dessas áreas, muitas vezes com perda de suas características iniciais para torná-la novamente rentável. Também é decretado a morte das calçadas e do pedestre, o que, consequentemente, afeta o pequeno comerciante. Nas cidades grandes, por exemplo, sem o automóvel não é mais possível abastecer uma casa. De uma aparente liberdade, a dependência do automóvel se tornou uma prisão. E cada vez mais seus impactos são sentidos, tanto no âmbito social – a imagem e vivência da cidade por parte de seus moradores – quanto na preocupação ambiental – na impermeabilização do solo, poluição do ar e ocorrência de altas taxas de mortes por acidentes. “O carro tornou a cidade grande inabitável. Tornou-a fedorenta, barulhenta, asfixiante, empoeirada, congestionada, tão congestionada que ninguém mais quer sair de tardinha” (André Gorz, 2004: 79). Semelhante futuro se aproxima das cidades médias. Nelas, apesar de o tempo gasto no trânsito ainda não ser exorbitante, com um crescimento horizontal, matando cada vez mais os centros e tentado solucionar o próprio caos com infraestrutura e novas tecnologias, é questão de tempo até também se tornar inabitável. Se a quantidade de viagens de carro acompanhar o mesmo ritmo do crescimento da população, os ganhos com a eficiência de combustível e tecnologia mais limpas serão anuladas por velocidades menores e os mesmo problemas urbanos. ‘O que queremos é prosperidade’, foi o slogan que motivou a Ford a se instalar no mercado, mas o que tem se esperado para as cidades está muito longe disso. Apesar de atualmente se apresentar como uma necessidade, o automóvel ainda pertence a um certo fetichismo da mercadoria. Como foi visto, há toda uma simbologia idealizando seu uso. Comprar um carro é sinônimo de sucesso e autonomia. Mas na verdade, o quanto dessa autonomia está limitada, sendo guiada pelas rédeas do capital? Afinal, o próprios governos insistem nessa propaganda, já que o valor embolsado não envolve apenas a indústria de carros e obras de infraestrutura. Os investimentos envolvem também a exploração, refinamento e comercialização do petróleo – e é nesse campo que tem ocorrido as maiores transações econômicas e relações de poder. Hoje, é a produção que determina o consumo. O cidadão, nesse esquema, continua pagando mais, se deslocando com menos eficiência, perdendo qualidade de vida e acreditando que, com um carro, dois carros, três carros, seus problemas de mobilidade vão acabar. Ele está alheio a sua própria situação. Por fim, destaca-se que não é necessário revolucionar todo sistema de uma única vez, exterminar o carro e afins. Simples atitudes podem contribuir para que a infraestrutura já criada seja compartilhada com outros modais. Afinal, a demanda é o usuário que faz. Uma das medidas para reduzir os prejuízos da cultura automotiva é o urbanismo tático, uma intervenção de baixo custo e em microescala que tem como modo de ação, dentre outros, a pintura de vias como forma de utilizar a mesma infraestrutura, mas destiná-la ao pedestre. Garantindo mais pessoas circulando na via - mais vitalidade - e aquecendo a economia local, pois, onde há fluxo, o comércio reascende e gera mais segurança. Contribuindo para fazer a cidade voltar a ser para as pessoas e suas necessidades. Sendo assim, existe uma dependência do automóvel, tanto nas cidades grandes, quanto nas médias, devido a ocupação territorial urbana dispersa e ao forte marketing que põe o automóvel como meio de locomoção principal, mais rápido e definitivo. A população, em geral, desembolsa muito dinheiro com a manutenção desse modal e recebe menos qualidade vida, reafirmando esse sistema por ele se apresentar como uma necessidade. Contudo, por meio de estratégias urbanas, aliado as forças políticas e sociais é possível mudar essa mentalidade e estimular modais mais econômicos, sustentáveis e participativos para a cidade das pessoas. Referências: MARICATO, Ermínia. O automóvel e a cidade. 23 Set 2016. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/795885/o-automovel-e-a-cidade-erminia-maricato. Acesso em 12 jul. 2023. ROLNIK, Raquel. O que é cidade. Coleção primeiros passos: 203. São Paulo: Brasiliense, 1988. GORZ, André. A ideologia social do carro a motor. 1973. Disponível em: https://bibliotecaanarquista.org/library/andre-gorz-a-ideologia-social-do-carro-a-motor. Acesso em: 15 jul. 2023. BRASIL. Instituto de Políticas deTransporte e Desenvolvimento. Como as medidas de desestímulo ao uso do automóvel melhoram a mobilidade urbana. 10 Mar 2017. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/866944/como-as-medidas-de-desestimulo-ao-uso-do-automovel-melhoram-a-mobilidade-urbana. Acesso em: 15 jul. 2023. 1 image1.png