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B io iogi» da Comservaçáo e D iversidade B ioeôgica
CA P ÍTU LO Q
Biologia da Conservação e
Diversidade Biológica
Comunidades biológicas que levaram milhões de anos para se desenvolver
vêm sendo devastadas pelo homem em toda a Terra. A lista de transformações de
sistemas naturais que estào diretamente relacionadas a atividades humanas é lon
ga. Inúmeras espécies diminuíram rapidamente, algumas até o ponto de extinção,
em conseqüência da caça predatória, destruição do habitat e a ação de novos preda
dores e competidores. Ciclos naturais hidrológicos e químicos vêm sendo perturba
dos pela devastação de terras. Bilhões de toneladas de solo então vão parar em rios,
lagos e oceanos a cada ano. A diversidade genética diminuiu, inclusive entre espécies
com grandes populações. O próprio clima do planeta pode ter sido alterado por uma
combinação de poluição atmosférica e desmatamento. As atuais ameaças à diversi
dade biológica não têm precedentes: nunca, na história natural, tantas espécies esti
veram ameaçadas de extinção em período tão curto. Essas ameaças à diversidade
biológica estão aumentando devido às demandas de uma população humana que
cresce rapidamente e aos contínuos avanços tecnológicos. A desigualdade na distri
buição de renda, no mundo e em nosso país, que abriga grande parte das espécies
do mundo, torna esta situação ainda pior. Além disso, muitas das ameaças à diver
sidade biológica são sinergéticas; ou seja, vários fatores independentes, tais como:
chuva, corte e transporte de madeira e caça predatória que, combinados e multipli
cados, tornam a situação ainda pior. (Myers, 1987). O que é ruim para a diversidade
biológica será, quase com certeza, ruim para a espécie humana uma vez que os seres
humanos obtêm no ambiente natural ar, água, matérias primas, alimento, medica
mentos e outras mercadorias e serviços de que tanto dependem.
'imo 1
Algumas pessoas sentem-se desencorajadas pelo alto índice de destruição de espé
cies que se verifica no mundo hoje, mas, por outro lado, também é possível sentir-se
desafiado diante da necessidade de se fazer algo para impedir essa destruição. As próximas
décadas determinarão quantas espécies sobreviverão. Os esforços hoje dispendidos para
salvar as espécies, estabelecer novas áreas de conservação e proteger os atuais Parques
Nacionais, determinarão quais espécies serão preservadas e quais serão extintas. A Biolo
gia da Conservação é a disciplina científica que foi desenvolvida a partir desses esforços.
Ela reúne pessoas e conhecimento de várias áreas diferentes para combater a crise da bio
diversidade. No futuro, as pessoas poderão olhar para a nossa época como um período
em que poucas pessoas determinadas salvaram inúmeras espécies e comunidades biológi
cas da extinção.
Métodos Interdisciplinares de Conservação:
Um estudo de caso
Tartarugas têm fama de serem lentas mas persistentes, vencendo sempre as adver
sidades. Na reaüdade, a situação das tartarugas é bastante diversa da lenda.
O projeto TAMAR (Tartarugas Marinhas), em atividade desde 1980, levantou ini
cialmente as muitas ameaças que as tartarugas sofrem em seu ambiente natural. Por anos,
as tartarugas sofreram uma coleta constante por pescadores e caiçaras. Essa coleta obvia
mente não levava em conta estimativas de densidade de população ou época de desova.
Um aspecto da história natural das tartarugas é importante para entendermos o efeito
dessa coleta. As tartarugas vêm à praia para colocar seus ovos na areia. Fora da água, as
tartarugas são facílimas de se alcançar. Matar uma fêmea nesse momento significa matar
um indivíduo adulto, a prole que está para nascer e as outras proles que nasceriam poste
riormente. O método normalmente utilizado para matar as tartarugas é virá-las de dorso
e deixá-las morrer à míngua. Também na praia, as tartarugas sofrem com a iluminação
artificial. Os filhotes possuem fototropismo positivo. Eles saem do ninho e buscam a
claridade do horizonte para encontrar o mar. Se houver luzes próximas, os filhotes irão
na direção oposta ao mar e reduzirão suas chances de sobrevivência. Quanto mais tempo
o filhote demorar para chegar à água, maiores serão as chances dele ser predado por aves
aquáticas, caranguejos ou até animais domésticos. Tráfego na praia é outra ameaça para
BiUIOOM H CmSEIVA(iO i Dm b m k Biologiu
a nidificação das tartarugas. Sendo per
turbadas, elas podem retornar para o
mar sem botar os ovos.
A construção de casas e prédios
à beira mar, consiste também uma ame
aça às tartarugas. Ao construir à beira-
Ao final dos anos 70, todas estas
ameaças eram desconhecidas, assim
como era também desconhecido o ciclo
de vida das tartarugas. Não existiam
programas de conservação marinha no
Brasil.
Uma saída possível seria maldiz
er os pescadores e caiçaras, ou aplicar
mar, impedimos a insolação da praia. O
sexo das tartarugas não é definido _
■ ilidas punitivas, ou ainda
na concepção, como * * ^ algum detalhe
nos mamíferos; st a -qp- . biologico da cspecie
temperatura da areia for
mais quente nasceção - i i f
mais fêmeas, e se for
mais fria nascerão
mais machos. Por
tanto o sombreamento
das praias potencial-
í f ........mente aumenta a propor-
* * *
e escrever inúmeras
Hjfees e artigos cientí
ficos, esquecendo do
f seu contexto. Essas
£ soluções, freqüente-
mente adoradas, tem
jH K gdo pouco positivas
Ta a conservação das
çào de machos nas popu- %& j F peclcs
O projeto
TAMAR também levantou
que as redes de pesca
. hose inicial, em 1982 o
** V
> projeto 'I AM AR passou
. ‘ AJ--M. ■ -S-lJptyincipais
sao grandes ameaças asjr# -> ^ ^ .
tartarugas. As tartarugas
possuem pulmões. Apesar de
conseguirem permanecer por até horas
embaixo da água, elas podem morrer
afogadas no caso de não conseguir se
desvencilhar de uma rede de pesca. Os
pescadores costumavam devolver ao
mar as tartarugas que vinham com a
rede, desavisadamente, assim, teminan-
do dc matá-las.
proteger três locais
de desova:
dos Comboios
(Espírito Santo), Praia
do Forte (Bahia) e Pirambu (Sergipe).
Hoje o projeto TAMAR protege 1.100
km de costas, divididos em 21 estações
(figura 1.1). Em 1999, 8.000 ninhos
foram protegidos,envolvendo aproxi
madamente 360.000 filhotes de tarta
ruga. Setenta por cento desses ninhos
foram mantidos “in situ”, ou seja, na
3
•PÍTUIO 1
P R A IA D O FO R TE ̂
Arembepe ■
própria areia da praia, evi
tando assim possíveis alter
ações na taxa de sexo das espé
cies.
Os benefícios do projeto
TAMAR não se limitam às populações de tar
tarugas. O projeto também implantou uma nova visão de
relação com a comunidade local, onde, mais do que a espécie
enfocada, interessa também às pessoas envolvidas. O projeto é
um modelo de empreendedorismo para outras iniciativas ambi
entais. Cinco grandes instituições subvencionam o projeto,
além de algumas fontes próprias de renda.
Pescadores e moradores locais perfazem a grande
maioria dos 400 funcionários do TAMAR. Eles são
responsáveis pela marcação de fêmeas, coleta e trans
porte de ovos. Apesar do pagamento de moradores
locais colocar algumas dúvidas sobre a manutenção
do trabalho após o fim do projeto, a ligação entre o
projeto e a comunidade é fundamental tanto para levar
o conceito de conservação para a comunidade local,
como para manter o projeto em contato com a real
idade da comunidade.
Além do pagamento direto, o TAMAR
mantém creches, uma confecção e um pro
grama de palestras em escolas locais. O
objetivo é conservar as tartarugas
marinhas com um benefício
correspondente à cornu
nidade local (Marcovaldi e
Marcovaldi, 1999).
Recentemente, o
projeto também tem se
preocupado com os mora
dores das grandes cidades.
FIGURA 1.1. Locais de dtrnçào do Projeto Tamar
* A lm o fa d a - CE
Pontadas
Mangues -
P IR A M B U J
Abais ■ Sg i
Mangue Secam
Sitio Jo Conde j
Subaüna J
t f
’Z)M ucuri - BA
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t f Pontal do Ipiranga
Povoação ■ ES
REGÊNCIA - ES
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Bacia de Camp»
r y
Trindade ■ ES
t f
Areas de
reprodução
Áreas de
alimentação
Áreas ie
alimentação
Bases de
importante
B iologia dl Conservação í D iversidade B iologica
Apesar de nào estarem envolvidos diretamente com o problema, são
os moradores das grandes cidades que trazem visibilidade ao projeto,
levando o conceito de conservação ao país como um todo. Estão sendo
oferecidos estágios para universitários c programas voltados para visi
tação turística. Meses após voltar da praia, onde visitaram um desses
programas, Yasmin (6 anos) e Arthur (9 anos), paulistanos, esponta
neamente fizeram cinco esculturas de tartarugas em sua escola, o mes
mo número de espécies que existe no Brasil (figura 1.2). As tartarugas
marinhas certamente terão um espaço no
FIGURA 1.2. Os paulistanos
Yasmin e Arthur
espontaneamente filtram
esculturas de tartarugas após
visitar o projeto Tomar. Isto
mostra o sucesso do projeto em
introduzir o conceito de espécie
e de diversidade de espécies.
A s tartarugas marinhas
certamente terão um lugar no
futuro mundo de Yasmin e
Arthur.
futuro mundo de Yasmin e Arthur.
As lições para a bio
logia da conservação são
claras: atacando o prob
lema a partir de vários
ângulos, os pesquisa
dores podem trabalhar
os problemas econômi
cos, sociológicos e geren
ciais que ameaçam as espé
cies.
0 Que é Biologia da Conservação?
A biologia da conservação é uma ciência multidisciplinar que foi desen
volvida como resposta à crise com a qual a diversidade biológica se confronta
atualmente (Soulé, 1985). A biologia de conservação tem dois objetivos: primeiro,
entender os efeitos da atividade humana nas espécies, comunidades e ecossistemas,
e, segundo, desenvolver abordagens práticas para prevenir a extinção de espécies e,
se possível, reintegrar as espécies ameaçadas ao seu ecossistema funcional.
A biologia de conservação surgiu uma vez que nenhuma das disciplinas
tradicionais aplicadas são abrangentes o suficiente, para tratar das sérias ameaças à
diversidade biológica. A biologia da agricultura, silvicultura, de gerenciamento da
vida selvagem e da piscicultura ocupam-se basicamente com o desenvolvimento
5
APÍIUIO
de métodos para gerenciar umas poucas espécies para fins mercadológicos e de recreação.
Essas disciplinas geralmente não tratam da proteção de todas as espécies encontradas nas
comunidades ou as tratam como um assunto secundário. A biologia da conservação com
plementa as disciplinas aplicadas fornecendo uma abordagem mais teórica e geral para a
proteção da diversidade biológica; ela difere das outras disciplinas porque leva em consid
eração, em primeiro lugar, a preservação a longo prazo de todas as comunidades biológi
cas e coloca os fatores econômicos em segundo plano.
Ás disciplinas de biologia populacional, taxonomia, ecologia e genética constituem
o centro da biologia da conservação e muitos biologistas de conservação procedem des
sas disciplinas. Além disso, muitos dos experts em biologia da conservação saíram de
zoológicos e jardins botânicos trazendo consigo experiência em manter e difundir espé-
Antropologin
Biogeognifia
Ecologia
dc comunidades
de ecossistemas
humana
da paisagem
Estudos Ambientais:
Ecologia económica
Bica ambiental BIOLOGIA DA
Legislação ambiental CONSERVAÇÃO
Biologia Evolucionária
Genética
Biologia de Populações
Sociologia
Taxonomia
... e outras áreas da
biologia, física c
ciências
humanas
Agricultura
Desenvolvimento comunitário
Gerenciamento de recursos
pesqueiros
Silvicultura
Planejamento de uso do solo
GERENCIAMENTO Manejo de populações cativas:
DE RECURSOS Zoológicos
NATURAIS Jardins Botânicos
Manejo de unidades de conservação:
Parques
Reservas naturais
Desenvolvimento Sustentável
Manejo de vida Silvestre
e outras atividades de geren
ciamento de recursos naturais
FIGURA 1.3. A biologia da conservação realiza uma nova síntese a partir de diversas áreas (esquerda) que oferece princípios e
novos enfoques para o manejo de recursos (direita). A experiência acumulada na área por sua ve% orienta a direção da pesquisa
acadêmica.
BlOLOGU DA CONSÍMÇAO f OlVÍASIDADt BlOlÚCIO
cies em cativeiro. Uma vez que grande parte da crise da biodiversidade tem ori
gem na pressão exercida pelo homem , a biologia da conservação também incor
pora idéias e especificidade de várias outras áreas além da biologia (figura 1.3). Por
exemplo, legislação e política ambiental dão sustentação à proteção governamental
de espécies raras e ameaçadas e de habitats em situação crítica. A ética ambien
tal oferece fundamento lógico para a preservação das espécies. As ciências sociais
tais como antropologia, sociologia e geografia fornecem a percepção de como as
pessoas podem ser encorajadas c educadas para proteger as espécies encontradas
em seu ambiente imediato. Os economistas ambientais analisam o valor econômi
co da diversidade biológica para sustentar argumentos em favor da preservação.
Ecologistas e climatologistas de ecossistemas monitoram as características físicas
e biológicas do meio ambiente e desenvolvem modelos para prever as respostas
ambientais a distúrbios.
Sob vários aspectos, a biologia da conservação é uma disciplina de crise. As
decisões sobre assuntos relativos à conservação são tomadas todos os dias, muitas
vezes com informação limitada e fortemente pressionadas pelo tempo. A biologia
de conservação tenta fornecer respostas a questões específicas aplicáveis a situações
reais. Tais questões são levanta'das no processo de determinar as melhores estraté
gias para proteger espécies raras, delinear reservas naturais, iniciar programas de
reprodução para manter a variação genética de pequenas populações e harmonizar
as preocupações conservacionistas com as necessidades do povo e governo locais.
Os biólogos e outros conservacionistas de áreas afins, são pessoas adequadas para
fornecer a orientação que os governos, as empresas e o público em geral necessitam
quando têm de tomar decisões cruciais. Embora alguns biólogos conservacionis
tas possam hesitar em fazer recomendações sem ter conhecimento detalhado das
especificidades de um caso, a urgência de muitas situações pede decisões com base
em determinados princípios fundamentais de biologia. Este livro descreve esses
princípios e dá exemplos de como eles podem ser usados nas tomadas de decisão.
Os Fundamentos da Biologia da Conservação
Crenças religiosas e filosóficas rela
cionadas ao valor da proteção das espécies
e vida natural são encontradas em muitas
culturas em todo o mundo há milhares
de anos (Hargrove, 1986; Callicott, 1994).
Muitas religiões enfatizam a necessidade
das pessoas viverem em harmonia com a
natureza e proteger as espécies, uma vez
que elas são uma criação divina. Filóso
fos como Ralph Waldo Emerson e Henry
David Thoreau elegeram a natureza como
um elemento importante para o desen
volvimento moral e espiritual do homem
(Callicott, 1990). Defensores da vida natu
ral, tais como John Muir e Aldo Leopold,
trabalharam pela preservação das paisagens
e a manutenção da saúde dos ecossistemas
naturais. Uma outra percepção relacio
nada ao tema é a hipótese de Gaia que
vê na Terra as propriedades de um "super
organismo" cujos componentes biológicos,
físicos e químicos interagem para manter
as características da atmosfera e do clima
(Lovelock, 1988). Proponentes dessa idéia
muitas vezes advogam a redução ou total
encerramento de ações e trabalho indus
trial que perturbam a interação natural dos
componentes da Terra.
Paralelamente a essas orientações
preservacionistas e ecológicas, um silvicul
tor chamado Gifford Pinchot (18651946),
desenvolveu a idéia de que os bens encon
trados na natureza tais como madeira,
água potável, vida selvagem, diversidadede espécies e mesmo as paisagens podem
ser considerados recursos naturais e
que estes recursos deveriam ser bem ger
enciados para favorecer o maior número
de pessoas pelo maior período de tempo
possível. Essas idéias vêm sendo amplia
das pelo conceito de adm inistração de
ecossistem a que dá prioridade máxima
à saúde do ecossistema e das espécies sil
vestres (Grumbine, 1994b; Noss e Cooper-
rider, 1994). O paradigma atual de desen
volvimento sustentado também defende
uma abordagem semelhante à de Pinchot;
desenvolver recursos naturais para atender
as necessidades humanas de forma a não
prejudicar as comunidades biológicas e
considerar ainda as necessidades das futur
as gerações (Lubchenco et al., 1991; IU C N /
UNEP/WWF, 1991).
A moderna disciplina biologia da
conservação fúndamenta-se em muitos
pressupostos básicos (Soulé, 1985). Esses
pressupostos representam um conjunto de
asserções éticas e ideológicas que impli
cam em abordagens científicas e aplicações
práticas. Embora nem todas essas asserções
B io io íia oa Conservação e D iversidade B ioiogica
sejam aceitas inequivocamente, a aceitação de uma ou duas já é razão suficiente para
justificar os esforços em favor da conservação.
1. A diversidade de organismos é positiva. Em geral, as pes
soas gostam da diversidade biológica. As centenas de milhares de pessoas
que visitam os zoológicos, parques naturais, jardins botânicos e aquários a
cada ano, são prova do interesse do público em geral na diversidade biológi
ca. A variação genética entre as espécies também tem apelo popular, como
é demonstrado nas exposições de cães e gatos, exposições agropecuárias e
de flores. Tem-se especulado, inclusive, que os seres humanos têm uma pre
disposição genética para gostar da diversidade biológica, chamada biofilia
(Wilson, 1984; Kellert e Wilson, 1993). A biofilia teria sido vantajosa para
o estilo de vida "caça e coleta" que o ser humano viveu durante centenas
de milhares de anos antes da invenção da agricultura. Uma grande diversi
dade biológica teria lhe proporcionado uma variedade de alimentos e out
ros recursos, protegendo-o das catástrofes naturais e da fome.
2. A extinção prematura de populações e espécies é negativa. A
extinção de espécies e populações como conseqüência de processos naturais
é um acontecimento normal. Através dos milênios do tempo geológico, as
extinções das espécies têm sido equilibradas pela evolução de novas espé
cies. Da mesma forma, a perda local de uma população é geralmente com
pensada pelo estabelecimento de uma nova população através de dispersão.
Entretanto, a atividade humana aumentou mil vezes o índice de extinção.
No século vinte, virtualmente todas as centenas de extinções conhecidas de
espécies de vertebrados, assim como os presumíveis milhares de extinções
de espécies de invertebrados, foram causadas pelo ser humano.
3. A complexidade ecológica é positiva. Muitas das propriedades
mais interessantes da diversidade biológica aparecem apenas em ambien
tes naturais. Por exemplo, as relações ecológicas e de coevolução existentes
entre as flores tropicais, beija-flores e ácaros que vivem nas flores. Os ácaros
utilizam os bicos dos beija-flores como um "veículo de transporte" para
ir de flor em flor (Colwell, 1986). Tais relacionamentos nunca teriam sido
descobertos se os animais e as plantas estivessem morando isoladamente
em zoológicos e jardins botânicos. As estratégias fascinantes de animais do
deserto para obter água não teriam existido se os animais estivessem viven
9
do em jaulas com água à vontade. Embora seja possível preservar a diversidade
biológica das espécies em zoológicos e jardins, a complexidade ecológica que existe
nas comunidades naturais estaria em grande parte perdida.
4. A evolução é positiva. A adaptação evolucionária é o processo que
eventualmente leva a novas espécies e ao aumento da diversidade biológica. Por
tanto, permitir as populações evoluir “in situ” é positivo. As atividades humanas
que limitam a habilidade das populações de evoluir, tais como reduzir severamente
o tamanho de uma população de espécies através da extração excessiva, são nega
tivas.
5. A diversidade biológica tem valor em si. As espécies têm seu próprio
valor, independentemente de seu valor material pata a sociedade humana. Este
valor é conferido pela sua história evolucionária e funções ecológicas únicas e tam
bém pela sua própria existência.
0 que é Diversidade Biológica?
Embora a proteção da diversidade biológica seja o ponto central da biologia da con
servação, o termo "diversidade biológica" tem significados diferentes para diferentes pes
soas. A definição dada pelo Fundo Mundial para a Natureza (1989) é: "a riqueza da vida
na terra, os milhões de plantas, animais e microorganismos, os genes que eles contêm e
os intrincados ecossistemas que eles ajudam a construir no meio ambiente". Portanto, a
diversidade biológica deve ser considerada em três níveis: A diversidade biológica no nível
das espécies inclui toda a gama de organismos na Terra, desde as bactérias e protistas até
reinos multicelulares de plantas, animais e fungos. Em uma escala mais precisa, a diversi
dade biológica inclui a variação genética dentre as espécies, tanto entre as populações geo
graficamente separadas como entre os indivíduos de uma mesma população; A diversidade
biológica também inclui a variação entre as comunidades biológicas nas quais as espécies
vivem, os ecossistemas nos quais as comunidades se encontram e as interações entre esses
níveis (figura 1.4).
Todos os níveis de diversidade biológica são necessários para a sobrevivência
contínua das espécies e das comunidades naturais e todos são importantes para a espécie
humana. A diversidade das espécies representa o alcance das adaptações evolucionárias e
ecológicas das espécies em determinados ambientes. A diversidade das espécies fornece
B iologia da Conservação e D iversidade B iológica
FIGURA 1.4. A diversidade
biológica inclui diversidade
genética (a variação genética
encontrada em muitas
espécies), diversidade
de espécies (as espécies
encontradas em um dado
ecossistema), e diversidade de
ecossistemas/ comu-nidades
(a variedade de tipos de
habitat e processos em uma
dada região). (Segundo
Temple, 1991) Figura do
Cerrado de Î agoa Santa
por Eugenins
Warmtng, 1864.
recursos e alternativas de recursos às pessoas; por exemplo, uma floresta tropical
com muitas espécies produz uma ampla variedade de plantas e produtos animais que
podem ser usados para alimentação, abrigo e medicamento. A diversidade genética é
necessária para qualquer espécie manter a vitalidade reprodutiva, a resistência a doen
ças e a habilidade para se adaptar a mudanças. A diversidade genética em plantas e
animais é especialmente importante para programas de melhoramento voltados para
desenvolver, manter e melhorar espécies agrícolas modernas. A diversidade em nível
de comunidade representa a resposta coletiva das espécies às diferentes condições
ambientais. Comunidades biológicas encontradas em desertos, pastagens, pântanos e
florestas dao continuidade ao funcionamento apropriado de ecossistemas, fornecendo
serviços benéficos tais como controle de enchentes, proteção do solo contra erosão, e
filtragem do ar e da água.
11
Diversidade das Espédes
Em cada nível de diversidade
biológica - espécies, genética e comunidade
- os biologistas da conservação estudam os
mecanismos que alteram ou mantêm a diver
sidade. A diversidade das espécies inclui a
lista completa de espécies encontradas na
Terra. Uma espécie é geralmente definida
de um ou dois modos. Primeiro, uma espé
cie pode ser definida como um grupo de
indivíduos que é morfológica, fisiológica ou
bioquimicamente distinta de outros grupos
em algumas características (definição mor
fológica de espécie). Mais e mais, as dife
renças nasseqüências de DNA estão sendo
usadas para distinguir espécies que parecem
quase idênticas, como é o caso das bacté
rias. Segundo, uma espécie pode ser distin
guida como um grupo de indivíduos que
pode potencialmente procriar entre si, mas
que não procria com indivíduos de outros
grupos (definição biológica de espécie).
A definição morfológica de espécie
é normalmente a mais usada pelos taxono-
mistas, biologistas que se especializam na
identificação de espécies desconhecidas e na
sua classificação. A definição biológica de
espécie é normalmente a mais usada pelos
biologistas de evolução, porque é baseada
nas relações genéticas mensuráveis, muito
mais do que em características físicas que
são de alguma forma subjetivas. Na prática,
entretanto, a definição biológica de espécie é
algo difícil de ser usado, pois requer conhec
imento sobre quais indivíduos são realmente
capazes de procriar uns com os outros, mas
esta informação raramente está disponível.
Como resultado, biologistas que trabalham
em campo separam as espécies pelo modo
como são vistas, algumas vezes as chaman
do de "morfo-espécies" ou por outros ter
mos, até que os taxonomistas lhes dêem ofi
cialmente seus nomes latinos (Quadro 1.1).
Os problemas para distinguir e iden
tificar as espécies são mais comuns do que
as pessoas possam pensar (Rojas, 1992;
Standley, 1992). Por exemplo, uma única
espécie pode ter inúmeras variedades, as
quais podem ter diferenças morfológicas
observáveis, ou essas variedades podem
ser tão semelhantes que esses indivíduos
poderão ser considerados membros de uma
única espécie biológica. Diferentes raças de
cachorros, tais como os pastores alemães,
fox paulistinha, fila e beagle pertencem
todos a uma espécie e podem cruzar entre si
a despeito de suas enormes diferenças. Por
outro lado, existem "espécies-irmãs" que
são muito semelhantes em sua morfologia
ou fisiologia e, ainda assim, são biologica
mente distintas e não cruzam entre si, como
B iologia da Conservação e D iversidade B iológica
a Peroba e o Guatambu. Na prática, os biologistas freqüentemente têm dificuldade
em distinguir as variações dentre uma única espécie, das variações entre espécies
aparentadas. Os fatores complicadores são o fato de espécies distintas poderem oca
sionalmente cruzar e produzir híbridos, formas intermediárias que confundem as
diferenças entre as espécies. A hibridização é especialmentc comum entre espécies
de plantas em habitats que foram alterados. Enfim, para muitos grupos de espécies,
os estudos taxonômicos necessários para determinação da espécie e identificação de
espécimes ainda não foram feitos.
A incapacidade de distinguir claramente uma espécie da outra, seja devido às
semelhanças de características ou devido à confusão sobre o nome cientifico correto,
freqüentemente atrasa os esforços de preservação das espécies. Isto é um problema
ainda mais sério em áreas de alta diversidade, como o nosso país. E difícil fazer leis
precisas e eficazes para proteger uma espécie quando não se tem certeza do nome
pelo qual deve ser chamada. E ainda necessário muito trabalho para catalogar e clas
sificar as espécies do mundo. Os taxonomistas descreveram apenas 10% - 30% das
espécies existentes no mundo e muitas espécies serão extintas antes que possam ser
descritas. Os esforços de identificação devem se concentrar em áreas com alta den
sidade de espécies, onde devem ser treinados grandes contingentes de taxonomistas
(Raven e Wilson, 1992).
A chave para a solução deste problema é o treinamento de taxonomistas,
particularmente para o trabalho nas áreas mais ricas em espécies da Terra, como os
trópicos.
13
Capítulo 1
Quadro 1.1. - Como as espécies recebem seus nomes?
Taxonom ia é a ciência que classifica os seres
vivos. O objetivo da taxonomia moderna é criar um
sistema de classificação que reflita a evolução de gru
pos de espécies desde os seus ancestrais. Identificando
as relações entre as espécies, os taxonomistas ajudam
os biologistas de conservação a identificar as espécies
ou grupos que são, pela evolução, únicos ou de valor
especial para a conservação. Na moderna classificação:
As espécies semelhantes são agrupadas em um
gênero: a Peroba Rosa (Aspidosperma po/yneitron) e
outras espécies do gênero Aspidosperma, (entre
eles o guatambu, Aspidosperma ramifiorum) ocupam
a 1 dores ta Atlântica.
Os gêneros similares são agrupados cm uma
família: Aspidosperma e outros gêneros que pos
suem látex {Peschiera, Geissospermnm c vários outros)
são agrupados na família Apocynaceac.
\s famílias similares são agrupadas em uma
ordem: rodas as famílias que possuem folhas sim
ples, inteiras, opostas c flores actmomorfas (entre
muitas outras características) são agrupadas na
ordem Gcntianales
As ordens similares são agrupadas em uma classe:
todas as ordens de plantas com flores simpétalas,
com poucos estames (5 a 2) pertencem à classe (ou
subclasse, neste caso) Astcridae.
As classes similares são agrupadas em uma divisão
(ou filo, para os animais): todas as plantas que
produzem sementes encerradas em ovário e que
portanto podem formar frutos formam a divisão
angiospermac.
Os filos similares são agrupados em um reino:
rodas as classes de plantas pertencem ao reino
Vegetal.
A maioria dos biologistas modernos reconhecem
cinco reinos no mundo das criaturas vivas: plantas,
animais, fungos, monera (espécies unicelulares sem
núcleo, como as bactérias) e protistas (espécies unice
lulares mais complexas, com um núcleo). Rmbora a
diversidade exista em todos os níveis de taxonomia, na
prática, os esforços de conservação têm geralmente as
espécies como foco.
Os biologistas no mundo todo têm usado uma
padronização para dar nomes a espécies. Este siste
ma de denominação conhecido como nom encla
tura binom ial foi desenvolvido no século dezoito
por um biologista sueco chamado Carolus Linacus.
O uso de nomes científicos evita uma provável con
fusão quando os nomes comuns da linguagem do
dia-a-dia são usados. Apenas os nomes científicos são
padronizados cm todos os países e em todas as lín
guas, c por isso facilitam a comunicação. Os nomes
científicos das espécies consistem de duas palavras. O
nome cientifico da Peroba, por exemplo, Aspidosperma
po{yneuron\ tem Aspidosperma como o gênero e po(y-
neuron é o seu nome específico. O nome do gênero é
algo como o sobrenome que as pessoas dirctamentc
aparentadas têm como nome de família (Demarco),
enquanto que o nome específico é como o primeiro
nome de uma pessoa (Paulo), como ela é conhecida
dentro de sua família.
Os nomes científicos são escritos de forma
padrão. A primeira letra do nome do gênero é sempre
maiúscula enquanto que o nome da espécie é quase
sempre minúsculo. Os nomes científicos são escritos
sempre em itálico ou sublinhados. Algumas vezes os
nomes científicos são seguidos do nome do cientista,
como por exemplo Homo sapiens Linnaeus, indicando
4
B iologia d» Conservarão t Dwbsmc B iologic
que Linnaeus foi a pessoa que
primeiro propôs que um nome
científico fosse dado para a
espécie humana. Quando
muitas espécies em um único
gênero estiverem em discussão
ou se a identidade de uma espécie
dentro de um gênero for incerta,
são usadas as abreviações spp. ou sp.,
respectivamente. (e. g., Aspidosptm/a
spp) Se uma espécie nào tem paren
tes próximos ela pode ser a única
espécie dentro de seu gênero. Da
mesma forma, um gênero que nào
tenha parentesco com quaisquer
outros gêneros poderá formar sua
própria família.
A definição de quào próximo
uma espécie deva estar de outra para serem
do mesmo gênero, envolve uma dose de
arbitrariedade por pane do taxonomista.
Um caso típico sào as leguminosas. Para
alguns taxonomistas, as leguminosas sào
uma família (I .eguminosac) composta por
três subfamüias: Mimosoideae, Caesalpin-oidcae e Papilionoideae . Para outros, sào
três famílias: Mimosaceae, Cacsalpinaceae
e Papilionaceae
E impossível criar critérios únic
os para formaçào de famílias e gêneros,
porque as características vanam grandemente nos reinos animais e vegetal. Apesar de
ser arbitrária, a classificação hierárquica propicia tanto uma visão geral, evolutiva dos
reinos animal c vegetal, quando enfocamos as classes superiores, (ordens e classes),
assim como propicia uma visào em detalhe quando enfocamos as classes inferiores
(espécie c gênero).
A Peroba:
Espiai: pofymuron
Género: Aspuiospema
- Vamiüa: apocfnactat
■ Ordem: Gentiana/es
■ Classe: As/eridae
- Divisão: Angiospermae
- Reino: Vegetal
1
Diversidade Genética
A diversidade genética dentro de uma espécie é freqüentemente afetada pelo com
portamento reprodutivo dos indivíduos dentro das populações. A população é um grupo
de indivíduos que acasalam entre si e produzem prole; uma espécie pode incluir uma ou
mais populações separadas. Uma população pode consistir de apenas uns poucos, ou de
milhões de indivíduos.
Os indivíduos dentro de uma população, normalmente são geneticamente diferentes
uns dos outros. A variação genética acontece porque os indivíduos têm genes levemente
diferentes, que são as unidades de cromossomos que codificam proteínas específicas. As
diferentes formas de um gene são conhecidas como alelos e as diferenças aparecem através
de mutações - mudanças que ocorrem no ácido desoxiribonucléico (DNA) que constitui
os cromossomos dos indivíduos. Os vários alelos de um gene podem afetar diferentemente
o desenvolvimento e a fisiologia de um organismo individual. Os produtores rurais e os cri
adores de animais se beneficiam dessa variação genética para conseguir produção rentável e
espécies cultivadas resistentes às pestes, como o trigo, o milho, gado e aves.
A variação genética aumenta quando a prole recebe uma combinação única de genes
e cromossomos de seus pais via recombinação de genes que ocorre durante a reprodução
sexual. Há uma troca de genes dentro dos cromossomos durante a meiose e novas combi
nações são criadas quando os cromossomos dos dois pais se combinam para formar uma
cria geneticamente única. Embora as mutações forneçam o material básico para a variação
genética, a habilidade de espécies que se reproduzem sexualmente de reorganizar os alelos
a esmo, em diferentes combinações, aumenta substancialmente seu potencial de variação
genética.
O conjunto de genes e alelos em uma população é conhecido como pool genético
enquanto que a combinação de alelos que um indivíduo possui é chamada de genótipo.
O fenótipo de um indivíduo representa as características morfológicas, fisiológicas e bio
químicas que resultam da reação de seu genótipo em um determinado ambiente (figura 1.5).
Algumas características dos seres humanos tais como a quantidade de gordura no corpo e
perda de dentes são fortemente influenciadas pelo meio ambiente, enquanto que outras car
acterísticas, como cor dos olhos e tipo de sangue, são determinadas, predominantemente,
pelo genótipo do indivíduo.
A quantidade de variabilidade genética em uma população é determinada tan
to pelo número de genes em seu pool genético que têm mais de um alelo (chamado de
B iologia d» Conservação e D iversidade B iológica
(A)
FIGURA 1.5. A s
características físicas,
fisiológicas r bioquímicas
de um indivíduo
- seu fenótipo - são
determinadas peio seu
genótipo e peio ambiente.
(A ) Indivíduos
geneticamente diferentes
podem possuir genótipos (g )
diferentes mesmo que
eles se desenvolvam no
mesmo ambiente (B)
Indivíduos geneticamente
similares podem mostrar
fenótipos diferentes se
eíes se desenvolverem em
ambientes diferentes (i.e.
clima quente X cíima
frio; alimento abundante
x alimento escasso)
(A/cock 199))
Genótipos
Diferentes
Genótipos
Iguais
Ambientes Fenótipos
Iguais diferentes
Ambientes Fenótipos
diferentes diferentes
gene polimórfico), quanto pelo número de alelos para cada gene polimórfico. A
existência de um gene polimórfico permite que indivíduos de uma população sejam
heterozigotos para o gene, ou seja, recebam um alelo diferente do gene de cada um
dos pais. A variabilidade genética possibilita que as espécies se adaptem a um meio
ambiente mutante. Descobriu-se que as espécies raras têm, em geral, menos variação
genética do que as espécies comuns e, conseqüentemente, sejam mais vulneráveis à
extinção quando as condições do meio ambiente se alteram.
Diversidade de Comunidade e de Ecossistema
Uma comunidade biológica é definida pelas espécies que ocupam uma
determinada localidade e pelas interações entre essas espécies. Uma comunidade
biológica juntamente com seu ambiente físico é chamada de ecossistema. Em um
17
Ca píiülo 1
ecossistema, a água evapora de suas comunidades biológicas e da superfície do solo para
cair novamente em forma de chuva e reabastecer os espaços aquáticos e terrestres. O solo
é formado de partículas de material de rocha matriz e matéria orgânica em degradação. As
plantas fotossintetizantes absorvem energia da luz para o seu crescimento. Esta energia é
capturada por animais que comem as plantas e é liberada na forma de calor, tanto durante
os ciclos vitais dos organismos, quanto depois que eles morrem e se decompõem. As plan
tas absorvem dióxido de carbono e liberam oxigênio durante a fotossíntese, enquanto que
os animais e fungos absorvem oxigênio e liberam dióxido de carbono durante a respiração.
Os nutrientes minerais, tais como nitrogênio e fósforo, fazem o seu ciclo entre os comparti
mentos vivos e não vivos do ecossistema.
O ambiente físico, especialmente a variação anual de temperatura e precipitação,
afeta a estrutura e as características de uma comunidade biológica, determinando se uma
área abrigará uma floresta, um deserto ou uma área alagadiça. A comunidade biológica
pode, inclusive, alterar as características físicas de um ecossistema. Em um ecossistema ter
restre, por exemplo, a velocidade do vento, umidade, temperatura e características do solo
de um dado lugar podem ser afetados pelas plantas e animais ali presentes. Nos ecossiste
mas aquáticos, características físicas tais como turbulência, transparência e profundidade
da água afetam as características da biota. Por outro lado, algas marinhas e recifes de corais
podem influenciar o ambiente físico nas comunidades onde ocorrem.
Em uma comunidade biológica cada espécie utiliza um único conjunto de recursos
que constitui seu nicho. O nicho de uma espécie de planta pode constituir-se de um tipo
de solo sobre o qual ela é encontrada, a quantidade de luz do sol e a umidade que ela exige,
o tipo de sistema de polinização que ela tem e seu mecanismo de dispersão de sementes.
O nicho de um animal pode incluir o tipo de habitat que ele ocupa, sua tolerância térmica,
suas exigências alimentares, seu limite ou território doméstico e suas necessidades de água.
Qualquer um dos componentes de um nicho passa a ser um recurso limitador quando ele
restringe o tamanho da população. Por exemplo, o lobo-guará, o maior canídeo da América
do Sul, evita áreas ocupadas pelo homem. D etido a este comportamento, sua área de ocor
rência, que originalmente incluía desde porções da Caatinga até o norte da Argentina, se
restringiu drasticamente.
O nicho muitas vezes inclui a fase de sucessão que a espécie ocupa. A sucessão
é o processo gradual de mudança na composição de espécies, estrutura da comunidade e
características físicas que ocorrem em resposta a distúrbios naturais ou causados pelo
homem em uma comunidade biológica. Algumas espécies estão muitas vezes associadas a
18
B hm o gu d« C o * sm »(A o i D iv m i o t « B iolocic
determinados estágios de sucessão. Por
exemplo, as borboletas "de sol" e plan-
tas pioneiras, como a embaúba (Cecro-
pia sp.) são encontradas, normalmente,
nos primeiros estágiosde sucessão, nos
meses imediatamente após a abertura de
uma clareira em uma floresta primária.
Outras espécies, incluindo plantas nati
vas "de sombra" e pássaros raros, que
não toleram contato com o homem, são
encontradas em estágios avançados de
sucessão entre as árvores climáticas de
uma floresta primária. Os padrões de
conduta do set humano muitas vezes
perturbam o padrão natural de sucessão;
são casos típicos, os pastos super explo
rados pelo gado c florestas que sofreram
corte seletivo, seguido de queima, as
quais não terão mais as espécies raras, de
estágios mais avançados de sucessão.
A formação das comunidades é
muitas vezes afetada pela competição
e predação (Terborgh, 1992a; Ricklefs,
1993). Os predadores muitas vezes redu
zem fortemente as densidade das espé
cies de suas vítimas e podem até elimi
nar algumas espécies de certos habitats.
Os predadores podem aumentar indire
tamente a diversidade biológica em uma
comunidade, mantendo a densidade
de algumas espécies tão baixa, que não
há competição para obter recursos. A
quantidade de indivíduos de uma deter
minada espécie, que os recursos de um
ambiente pode suportar, é chamada de
capacidade de carga. A densidade de
uma população é muitas vezes inferior à
capacidade de carga, quando ela é lim
itada pelos predadores. Se os predadores
são retirados, a população pode aumen
tar até o ponto de alcançar a capacidade
de carga ou além dela, de tal forma que
os recursos cruciais são insuficientes e a
população entra em colapso.
A composição da comunidade
também é afetada pelas relações de
mutualismo, quando duas espécies se
beneficiam da presença uma da outra.
As espécies mutualistas alcançam uma
densidade maior quando ocorrem jun
tas, muito mais do que quando apenas
uma das espécies está presente. Exem
plos comuns desses mutualismos são:
plantas de frutos carnosos e frutas que
são comidas pelos pássaros que dispers
am as suas sementes; insetos que polin
izam flores e plantas com flores; fungos
e algas que juntos formam líquens; plan
tas que servem de abrigo para formigas
e as abastecem de nutrientes (figura 1.6);
corais e as algas que vivem dentro deles
(Howe, 1984; Bawa, 1990). No mutual
ismo levado ao extremo, duas espécies
são sempre encontradas juntas e apar
entemente uma não pode viver sem a
outra. Por exemplo, a morte de certos
tipos de algas que habitam corais pode enfraquecer e, em consequência,
matar as espécies de coral às quais estão associadas.
Níveis tróficos. As espécies em uma comunidade biológica
podem ser classificadas pelo modo como elas obtêm energia do ambiente
(figura 1.7). A primeira dessas classes, chamadas níveis tróficos, com
preende as espécies fotossintetizantes (também conhecidas como produ
toras primárias), que obtêm energia diretamente do sol para formar as
moléculas orgânicas que necessitam para viver e crescer. Em ambientes
terrestres, as plantas mais altas, como as plantas com flores, os gimno-
spermas e as samambaias são responsáveis pela maior parte da fotossín-
tese, enquanto que em ambientes aquáticos, plantas marinhas, algas unice
lulares e cianobactérias (algas azuis-verdes) sào as produtoras primárias
mais importantes. Os herbívoros (também conhecidos como consumi
dores primários) se alimentam das espécies fotossintéticas. Os carnívo
ros (também conhecidos como consumidores secundários ou preda
dores) alimentam-se de outros animais. Os carnívoros primários (como
B iologia d» C o »a «v »ç jo i D iversidaoe B i o i t a
Energia iierclida
com o calor
Não absorvido
pelos produtores
i
Ambiente ambiótico
Radiação solar, água,
oxigêndo, dióxido de
cartxino, minerais
Produtores prim ários
Espécies
fotossintetizantes
Consumidores
Primários
Herbívoms obtêm
energia das espécies
fotossintetizames
Consumidores
secundários
Predadores e
parasitas se
alimentam dos
herbívoros
Decompositores
Detritivos se alimentam
de tecidos monos
e resíduos
:■ S : a © . - : i : :. 3 • : i : * ? ; -a-- S *
. .•■■d---. . .
<2 *
i 1.7. N ireis tráficos em um ecossistema
21
Capítulo I
as raposas) alimentam-se de herbívoros (como os coelhos), enquanto que os carnívoros
secundários (como as cobras) alimentam-se de outros carnívoros (como os sapos). Os
carnívoros são normalmente predadores, portanto alguns combinam a predação direta com
um comportamento necrófago. Outros, conhecidos como onívoros, incluem em sua dieta
uma proporção considerável de plantas. Em geral, os predadores são maiores e mais fortes
do que as suas presas. Porém, normalmente eles também ocorrem em densidade menor que
suas presas.
Os parasitas formam uma importante subclasse de predadores. Os parasitas, como
os mosquitos, carrapatos, vermes intestinais e micro-parasitas que causam doenças, como as
bactérias e protozoários, são tipicamente menores que suas presas, conhecidas como hos
pedeiros, e não matam suas presas imediatamente. Os efeitos das parasitas vão desde o
enfraquecimento imperceptível de seus hospedeiros até a sua debilitação, ou até mesmo
a sua morte. Os parasitas são freqüentemente importantes para controlar a densidade das
espécies hospedeiras. Quando as populações hospedeiras têm uma densidade muito alta, os
parasitas podem rapidamente espalhar-se de um indivíduo para o próximo, causando uma
grande infestação local e um subseqüente declínio da população hospedeira.
Os decom positores são espécies que se alimentam de plantas mortas, tecidos ani
mais e detritos, destruindo tecidos complexos e moléculas orgânicas. Os decompositores
liberam minerais como nitrogênio e fósforo, que voltam ao ambiente de onde eles foram
retirados pelas plantas e algas. Os decompositores mais importantes são os fungos e bac
térias, mas muitas outras espécies têm o mesmo papel de degradar a matéria orgânica. Por
exemplo, os urubus e outros necrófagos retalham e alimentam-se de animais mortos, os
besouros de estrume alimentam-se de estrume animal, e vermes degradam as folhas no chão
e outros materiais orgânicos. Se os decompositores não estivessem presentes para liberar os
nutrientes minerais através da destruição da matéria orgânica, o crescimento das plantas
poderia declinar consideravelmente.
Como regra geral, a maior biomassa (peso vivo) em um ecossistema é a dos produ
tores primários. Em quase todas comunidades, há mais indivíduos herbívoros do que
carnívoros primários e mais carnívoros primários do que carnívoros secundários. Embora
as espécies possam ser organizadas dentro desses níveis tróficos, suas reais necessidades
ou sua alimentação dentro dos habitats podem ser muito restritas. Por exemplo, uma certa
espécie de pulgão pode alimentar-se de apenas um tipo de planta e uma espécie de joaninha
pode alimentar-se de apenas um tipo de pulgão. Essas relações alimentares específicas
2 2
diminuto Alga Verde Filamentosa
(inúm eras espécies)
(
FIGURA 1.8. Diagrama de uma cadeia alim entar real estudada no lago Cia tu n, no Panamá. O fitoplâncton
(plantas flutuantes) tais como algas i>erdes, são as produtoras prim árias na base da cadeia. O Zooplàncton
é constituído por animais diminutos, algumas vestes microscópicos. Tiles sào os consumidores primários, não *
fiotossinteti^antes, ju n to com insetos e algas, sào fonte vita l de alimento para peixes em ecossistemas aquáticos.
<
(
foram denominadas de cadeia alimentar. As necessidades ecológicas particulares dc
cada espécie sào uma razão importante pela qual elas não conseguem reproduzir-
se em abundância dentro de uma comunidade. Porém, a situação mais comum em
muitas comunidades biológicas, é a de uma espécie que se alimenta de várias espé- (
cies do nível trófico abaixo dela, compete pela comida com várias espécies em seu (
próprio nível trófico e, a seguir, torna-se presa de outras várias espécies do nível tró- ^
fico acima dela. Consequentemente, uma descrição maisprecisa da organização das
comunidades biológicas é a teia alimentar, na qual as espécies sào ligadas através de
relações alimentares complexas, (figura 1.8). As espécies de um mesmo nível trófico
que usam os mesmos recursos de um ambiente sào consideradas membros de uma
guilda de espécies competidoras.
Capítulo I
Espécies-chave e recursos.
Dentro das comunidades biológicas,
certas espécies podem ser importantes
para determinar a persistência de mui
tas outras espécies na comunidade.
Essas espécies-chave afetam a orga
nização da comunidade em um grau
muito mais elevado do que se poderia
prever, baseado apenas na quantidade
de indivíduos ou sua biomassa (Ter-
borgh, 1976;Janzcn, 1986a). Proteger as
espécies-chave é urna prioridade para
os esforços de conservação, pois caso
se perca uma espécie-chave na área de
conservação, poderão também ser per
didas muitas outras espécies. Os preda
dores de topo de cadeia estão entre as
espécies-chave mais óbvias, pois eles
são importantes para controlar as popu
lações de herbívoros (Redford, 1992).
Mesmo a eliminação de um pequeno
número de predadores, embora consti
tuindo uma minúscula porção da bio
massa da comunidade, pode potencial
mente resultar em mudanças dramáticas
na vegetação e em uma grande perda
na diversidade biológica (Pimm, 1991;
McLaren e Peterson, 1994). Por exem
plo, o Peixe-Boi da Amazônia alimenta-
se de grandes quantidades de plantas
aquáticas. A redução de populações de
Peixe-Boi nos rios da região Norte causa
um crescimento exagerado de biomassa
e queda de fertilização da água, reduzin
do as populações de peixes. Em síntese,
a eliminação de uma espécie-chave pode
causar uma série de extinções, conhe
cidas como extinção em cascata, o que
resulta numa degradação do ecossistema
e em uma diversidade biológica muito
menor em todos os níveis tróficos.
Devolver as espécies-chave ã comuni
dade não significa ter a comunidade de
volta a suas condições originais, se out
ras espécies e componentes do ambien
te físico, tal como a cobertura de solo,
tiverem sido perdidos.
A identificação das espécies-
chave tem várias implicações impor
tantes para a biologia de conservação.
Primeiro: como já vimos, a eliminação
de espécies-chave de uma comunidade
pode precipitar a perda de muitas outras
espécies. Segundo: para proteger uma
espécie em que se tenha um interesse
especial, poderá ser necessário proteger
as espécies-chave das quais ela depende
direta ou indiretamente. Terceiro: se
um número reduzido de espécies-chave
puder ser identificado, a sua conser
vação será facilitada na hipótese deste
ambiente estar ameaçado pelas ativi
dades humanas.
As unidades de conservação da
natureza são comparadas e avaliadas em
função de seu tamanho, pois, em geral
as grandes unidades contém mais espé
cies do que as pequenas. Entretanto,
2 4
B iologia da Co m m ( áo f O iv h s id a o i B iológica
uma área sozinha poderá não ser significativa tanto quanto a variedade de habitats e
recursos que essa reserva contenha. Determinados habitats podem conter recursos-
chave que, apesar de ocupar apenas uma pequena área, sejam necessários a muitas
espécies na comunidade. Por exemplo, os riachos e aguadas em áreas de Cerrado se
restringem a uma pequena área em relação à área total, mas são a única fonte de água
superficial neste ecossistema, tanto para plantas como para animais. A disponibi
lidade de uma praia deserta para deposição de ovos de tartaruga é outro exemplo
de recurso essencial para espécies. Remansos mais profundos em ribeirões e fon
tes podem ser o único refúgio para os peixes e outras espécies aquáticas durante a
estação de seca, quando o nível da água abaixa. Esses remansos podem ser também
a única fonte de água para animais terrestres em uma época de seca. Gradientes
acentuados de altitude podem consdtuir-se em um aspecto essencial para as áreas
de conservação. Muitos vertebrados c insetos que se alimentam de frutas e néctar
exigem um suprimento continuo de alimento. Uma forma pela qual eles podem sat
isfazer suas necessidades, é se mover de uma comunidade para outra, à procura de
novas fontes de alimentos. Um gradiente de altitude acentuado, como a encosta de
uma montanha, é tipicamente ocupado por uma série de diferentes comunidades de
plantas, portanto, migrar para cima ou para baixo na encosta de uma montanha é um
comportamento eficiente para um animal à procura de novas fontes de alimento.
2 5
O í m i o I
Medindo a Diversidade Biológica
Além da definição de diversidade biológica geralmente aceita por biólogos conserva-
cionistas, existem muitas outras definições específicas e quantitativas que foram elaboradas
para estabelecer uma comparação entre as diversidades de diferentes comunidades. No seu
nível mais simples, a diversidade tem sido definida como o número de espécies encontra
das em uma comunidade, uma medida conhecida como riqueza de espécies. A maioria das
definições também inclui alguma medida de quão uniforme o número total (ou abundância)
de indivíduos é dividido entre as espécies. Por exemplo, se há 10 espécies diferentes de pássa
ros em uma comunidade de 60 pássaros, uma abundância uniforme seria 6 pássaros por espé
cie, enquanto que uma abundância desigual seria 2 pássaros por espécie em 5 espécies, e 50
pássaros na sexta espécie. No primeiro caso, nenhuma espécie seria considerada dominante,
enquanto que, no segundo caso, a comunidade seria dominada pela sexta espécie.
índices matemáticos de biodiversidade têm sido desenvolvidos para descrever a diver
sidade das espécies em escalas geográficas diferentes. O número de espécies em uma única
comunidade é normalmente descrito como diversidade alfa. A diversidade alfa chega perto
do conceito popular de riqueza das espécies e pode ser usado para comparar o número de
espécies em dpos diferentes de ecossistemas. O termo diversidade beta refere-se ao grau de
mudança da formação das espécies ao longo de uma variação ambiental qualquer. A diver
sidade beta é considerada alta, por exemplo, se a ocupação das espécies de comunidades de
musgos eleva-se substancialmente na subida de uma encosta de uma montanha, mas é baixa
se a mesma espécie ocupa todo o lado da montanha. A diversidade gama aplica-se a escalas
geográficas maiores; ela é definida como "o índice no qual outras espécies são encontradas
como substituições geográficas dentro de um tipo de habitat em diferentes localidades. Desta
forma, a diversidade gama é o índice de mudanças com distância entre espaços de habi
tat semelhante ou com áreas geográficas em expansão" (Cody, 1986) (figura 1.9). Na prática,
estes três índices estão muitas vezes altamente correlacionados. As comunidades de plantas
da Amazônia, por exemplo, mostram altos níveis de diversidade em escalas alfa, beta e gama
(Gentry, 1986). Estas definições quantitativas de diversidade são usadas basicamente na lit
eratura técnica ecológica e contêm apenas parte da definição ampla de diversidade biológica
utilizada por biólogos conservacionistas.
26
B iologia o» Conservação e D iversidade B iologic^
(
c
(
(
(
(
c
t
(
c
(
(
c
c
(
(
FIGURA 1.9. O brasil possui
uma diversidade inigualável
de espécies. Cada um dos
biomas apresentados possue
alta diversidade alfa e beta.
diversidade gama também é
alta, em função da presença de
diferentes Biomas.
Fonte: IB G E 1998
Savana(cerrado), Savana estép lca. E stepe
e C am pinarana
Floresta om brófila densa, Floresta
otnbrófila aberta , e Floresta om brófila
m ista (Araucária)
Floresta estacionai decidual e Floresta
estacionai sem idecidual
Form ações com Influência m arinha
ou fluviom arinha, e form ações com
influência fluvial ou lacustre
*
Capítulo 1
A Distribuição da Diversidade Biológica
Onde é Encontrada a Diversidade Biológica?
Os ambientes mais ticos em termos de quantidadesde espécies sào as flo
restas tropicais, os recifes de corais, os grandes lagos tropicais e as profundezas
do mar (Pianka, 1966; Groombridge, 1992). Há também abundância de espécies
em habitats tropicais secos, tais como florestas tropicais estacionais, savanas (cer
rados), desertos (Mares, 1992) e regiões temperadas de arbustos de clima mediter
râneo como as encontradas no sul da África, sul da Califórnia e sudoeste da Aus
trália. Nas florestas tropicais, esta diversidade é devida principalmente à grande
abundância de espécies de animais em uma única classe: os insetos. Nos recifes
de corais e nas profundezas do mar, a diversidade se deve a uma gama muito
mais ampla de filos e classes (Grassle et al., 1991). A diversidade no fundo do
mar pode ser devida à longa existência, tamanho de área e estabilidade desse meio
ambiente, bem como a especificidade de determinados tipos de sedimento (Etter
e Grassle, 1992). A razão da grande diversidade de peixes e outras espécies em
grandes lagos tropicais, é a rápida radiação evolucionária (Quadro 1.2) em uma
série de habitats produtivos e isolados (Kaufman e Cohen, 1993).
Em quase todos os grupos de organismos, a diversidade de espécies
aumenta em direção aos trópicos (Huston, 1994). Por exemplo, a Tailândia tem
251 espécies de mamíferos, enquanto que a França possui apenas 93, e os dois
países ocupam, a grosso modo, a mesma área (Tabela 1.1). O contraste é particu
larmente notável no caso das árvores. Um hectare de floresta na Amazônia perua
na ou na baixa Malásia tem aproximadamente 200 ou mais espécies, enquanto que
uma floresta temperada contém 30 espécies por hectare ou menos. Os padrões
de diversidade das espécies terrestres encontram paralelo nos padrões das espé
cies marinhas e aumento semelhante de diversidade de espécies em direção aos
trópicos (figura 1.10). Por exemplo, o Great Barrier Reef (Grande Barreira de Rec
ife), na costa da Austrália, tem 50 gêneros de corais formados por recifes em seu
limite norte onde ele se aproxima dos trópicos, mas apenas 10 gêneros em seu
limite sul.
A maior diversidade de espécies é encontrada nas florestas tropicais.
Embora as florestas tropicais ocupem apenas 7% da extensão da Terra (veja fig-
2 8
B iologia da Conservação e D iversidade B iológica
TABELA 1.1 - Quantidade de espécies de mamíferos em alguns países tropicais e temperados com área similar
País
tropical
Área
(1000 km2)
Quantidade de espécies
de mamíferos
País
temperado
Área
(1000 km2)
Quantidade de espécies
de mamíferos
Brasil 8.456 394 Canadá 9220 139
RDC 2.268 415 Argentina 2737 258
México 1909 439 Algéria 2.382 92
Indonésia 1.812 515 Irã 1.636 140
Colômbia 1.039 359 África do Sul 1.221 247
Venezuela 882 288 Chile 748 91
Tailândia 511 251 França 550 93
Pilipinas 298 166 Reino Unido 242 50
Ruanda 25 151 Bélgica 30 58
Ponte: li 'TU 1994
J Repnb/ica Democrática tio ( .ouço
ura 2.9), elas contêm mais da metade das espécies de todo o mundo (Whitmore,
1990). Esta estimativa é baseada apenas em amostras limitadas de insetos e outros
artrópodes, grupos que são conhecidos por conter a maioria das espécies do mundo.
Estimativas do número de espécies de insetos não descritos nas florestas tropicais,
variam de 5 a 30 milhões (May, 1992). Dez milhões é uma estimativa considera
da razoável atualmente. Se esta quantidade estiver correta, significa que os insetos
encontrados nas florestas tropicais podem representar 90% das espécies ou todo o
mundo.
FIGURA 1.10. D istribuição g loba l de géneros de corais form adores de recifes, m ostrando a m aior concentração
deles no Pacifico O este e Oceano Indico, e um a concentração m enor no C aribe. s4 s isoclinas indicam
quantidade de gêneros; as linhas ligam áreas com quantidades sim ilares de gêneros (S teh li e W ells, 1 9 7 1)
2 9
Quadro 1.2. - A Origem das Novas Espécies
O processo pelo qual uma espécie original evolui
para uma ou mais espécies novas e distintas, conhecido
como espcciação, foi primeiro descrito por Charles
Darwin e Alfred Russcl Wallace há mais de 100 anos.
A teoria da cvoluçào através da seleção natural é tào
simples quanto elegante. Indivíduos dentro de uma
população apresentam variações em certas caracter
ísticas e algumas destas características sào herdadas
- elas sào passadas geneticamente de pais para filhos.
Essas variações genéticas sào causadas por mudanças
espontâneas nos cromossomos e por rcalinhamento de
cromossomos durante a reproduçào sexual. Diferen
ças cm características genéticas permitirão que alguns
indivíduos cresçam, sobrevivam, c reproduzam melhor
que outros, uma idéia freqüentemente caracterizada
como “sobrevivência do mais apto”. Como resultado
da melhoria na habilidade de sobrevivência, relacionada
a cerras características genéticas, indivíduos com estas
características terào mais probabilidade de procriar do
que outros e, com o passar do tempo, a composição
genética da população será alterada.
O pool genético de uma população será alterado
com o passar do tempo, ao mesmo passo cm que o
ambiente das espécies se altera. Essas mudanças podem
ser biológicas (alteração de alimentos disponíveis, com
petidores, presa), assim como físicas (mudanças climáti
cas, disponibilidade de água, características de solo).
Quando uma população passa por tantas mudanças
genéticas que chega a não ser mais capaz de procriar
com a espécie original da qual ela procede, ela passa a
ser considerada uma nova espécie. Este processo pelo
qual uma espécie é gradarivamenre transformada cm
outra é chamado de evolução filética.
Para que duas ou mais espécies evoluam a partir
de seu ancestral comum, usualmente tem que haver
uma barreira geográfica que evite o movimento do
indivíduo entre populações. Para as espécies terrestres,
essas barreiras podem ser rios, cadeias de montanhas,
ou oceanos, que as espécies não possam facilmente
cruzar. A espcciação é particularmente rápida em ilhas.
Grupos de ilhas como os arquipélagos de Fernando de
Noronha, Galápagos e Havaí contém muitos gêneros
de insetos c plantas ricos em espécies que originalmente
eram populações de uma única espécie invasora. Essas
populações se adaptaram geneticamente às condições
locais de ilhas isoladas, montanhas, ou vales, e diver
giram o suficiente de sua espécie original para agora
serem consideradas espécies cm separado. Essas espé
cies permanecerão reprodutivamente isoladas umas
das outras mesmo que venham a se sobrepor. Por esta
razão, ilhas como a de Alcatrazes, no litoral paulista,
merecem um esforço concentrado de conservação,
por conterem espécies endémicas (exclusivas) como a
orquídea CattUya gutatta contacta e o Diplopoda (cento-
péia) Eurydesmus a/ca/raiçnsis, além dc outras quatorze
espécies de plantas e animais.
Este processo de adaptação local e subsequente
especiaçào é conhecido como radiação evolucionária
ou radiação adaptativa. Embora a evolução filética
não surta um efeito per se na biodiversidade, a radiação
adaptativa resulta em uma diversidade muito maior.
A origem de novas eípécies é normalmente um
(
(
(
(
(
processo lento, ocorrendo cm centenas, se não milhares, de gerações. A evolução
de grupos superiores, tais como novos gêneros e famílias, é um processo ainda
mais lento, durando centenas de milhares ou mesmo milhões de anos. Por sua
vez, atividades humanas estão destruindo, em apenas algumas décadas, as gigant
escas quantidades de espécies originadas destes lentos processos naturais.
Bioioa» h Con»(v«ÇAo i D iversidade B ioimka^
I
A ilba de Alcatrazes, no litoral de São Paulo, possui várias espécies exclusivas deste local (endemismos)
i
Os recifes de corais constituem um outro ponto focal de
concentração de espécies. Colônias de pequenos corais (figura
1.11) constroem os grandes ecossistemas de recifes de corais
que são os equivalentes marítimos das florestas tropicaisem sua
riqueza e complexidade de espécies. O maior recife de corais do
mundo é o Great Barrier Reef na costa leste da Austrália, com
uma área de 349.000 km2 O Great Barrier Reef contém mais de (
300 espécies de corais, 1.500 espécies de peixes, 4.000 espécies
I
de moluscos, 5 espécies de tartarugas, e é criatório para cerca
de 252 espécies de aves (IUCN/UNEP, 1988). O Great Barri
er Reef contém cerca de 8% das espécies de peixes do mundo,
embora ocupe apenas 0,1% da superfície do oceano. (Goldman
e Talbot, 1976).
31
Fatores históricos são também
importantes na definição de padrões da
riqueza das espécies. Áreas que são geo
logicamente mais velhas têm mais espé
cies do que áreas mais novas. A riqueza
de espécies de coral é muitas vezes maior
no Oceano Indico e Pacífico Ocidental do
que no Oceano Adântico, que é geologi
camente mais novo {figura 1.10). áreas que
são geologicamente mais velhas tiveram
mais tempo para receber espécies dispersas
a partir de outras partes do mundo e mais
tempo para que espécies já existentes pas
sassem pela radiação adaptativa em resposta
às condições locais.
Padrões de riqueza de espécies são
também afetados por variação local na topo
grafia, clima e meio ambiente (Diamond,
1988a; Currie, 1991). Em comunidades ter
restres, a riqueza de espécies tende a aumen
tar nas áreas mais baixas, com o aumento da
radiação solar, e com o aumento de precipi
tação. A riqueza de espécies pode também
ser maior onde há uma topografia com
plexa que permite que ocorram isolamento
genético, adaptação local e especiação. Por
exemplo, uma espécie de pouca mobilidade
ocupando uma série de picos montanho
sos pode eventualmente evoluir para uma
outra espécie diferente, cada uma adaptada
a seu ambiente montanhoso local. Um caso
análogo são as populações de Desmodium sp.
que ocupam o gramado da Escola Superior
de Agricultura Luiz de Queiroz - ESALQ.
Essas populações tiveram porcentagens de
germinação diferentes daquelas de outros
gramados ao redor. Estas populações estão
geneticamente divergindo em menos de um
século de isolamento reprodutivo (Veasey e
Martins, 1991).
Áreas que são geologicamente
complexas produzem uma variedade de
condições de solo com limites bem demar
cados entre si, levando a uma variedade de
comunidades e espécies adaptadas a um ou
outro tipo de solo. No Pico do Corcovado,
um gradiente altitudinal de 1.150m em Uba-
tuba — SP, foram encontradas 252 espécies
de aves. A alta riqueza de espécies na avifau-
na desta área deve-se provavelmente a um
grande número de fatores, incluindo varia
ções florísricas e estruturais na vegetação ao
longo de um gradiente altitudinal. (Goerck,
1996)
B ioiogi* da Co n s w a (ão f D iversidade B io iogk a
Também em comunidades oceânicas abertas, onde as águas de dife
rentes comunidades biológicas se sobrepõem, existe uma maior riqueza de
espécies, porém a localização do limite dessas áreas é freqüentemente ins
tável ao longo do tempo. (Angel, 1993).
F IG U R A l. il.
Recifes de
coral são fe ito s
de bilhões
de pequenos
indivíduos.
A intrincada
paisagem dos
corais cria um
hab ita t para
m uitas outras
espécies m arihnas
(Fotografia de L es
K aufm an)
Quantas Espécies Existem no Mundo?
Qualquer estratégia para conservar a diversidade biológica exige uma
quantificação das espécies existentes e como elas estão distribuídas. Atual
mente, cerca de 1.4 milhões de espécies são descritas. Pelo menos o dobro
deste número ainda não foi descrito, basicamente insetos e outros artrópo
des nos trópicos (May, 1992, figura 1.12). Nosso conhecimento da quan
tidade de espécies é impreciso porque espécies sem características marcantes
não recebem murta atenção em sua taxonomia. Por exemplo, os ácaros, os
nematóides, e os fungos encontrados no solo e os insetos que vivem em
copas de árvores da floresta tropical são pequenos e difíceis de se estudar.
Esses grupos pouco conhecidos poderiam chegar a centenas de milhares ou
33
Capítulo 1
FIGURA 1.12.
Aproximadamente
1.413.000 espécies têm
sido identificadas e descritas
pelos pesquisadores; a
maioria destas são insetos
e plantas. Grandes
quantidades de insetos,
bactérias e fungos ainda
não estão descritos, e
o número de espécies
identificadas pode chegar
a 5 milhões ou mais
Wilson, 1992)
até mesmo milhões de espécies. Bactérias são também pouco conhecidas (Hawksworth,
1992). Somente cerca de 4.000 espécies são identificadas por microbiologistas por causa
da dificuldade de criação e identificação de espécimes. No entanto, um trabalho recente
realizado na Noruega, analisando o DNA de bactérias, sinaliza que há provavelmente mais
do que 4.000 espécies somente em uma única grama de solo, e um número similar no
ambiente marítimo. O ambiente marítimo parece ser uma grande fronteira de diversidade
biológica. Um filo animal inteiramente novo, o Locifera, foi descrito pela primeira vez em
1983 a partir de espécimens de alto mar (Kristensen, 1983), sem dúvida muito mais espé
cies a serem descobertas.
Comunidades biológicas completamente novas ainda estão sendo descobertas,
frequentemente em localidades extremamente remotas e inacessíveis aos humanos. Técni
cas especializadas de exploração, particularmente em alto mar, e em copas de árvores em
florestas, têm revelado estruturas incomuns de comunidades:
• Comunidades diversas de animais, especialmente insetos, são adaptadas a viver
em copas de árvores tropicais, raramente ou quase nunca chegando ao solo. (Wil
son, 1991; Moffat, 1994).
• Uma reserva de floresta tropical montanhosa e remota na fronteira entre o
3 4
B iologia dl Co n s ík m ç a o i D i v i m d w B ioiogi
Vietnã e Laos foi somente recentemente pesquisada por biologistas. Para
sua surpresa, descobriram três espécies de mamíferos novos para a ciência,
agora conhecidos como o muntjac gigante, o boi Vu Quang, e uma nova
espécie de veado (Linden, 1994).
• O fundo do alto mar, que permanece quase totalmente inexplorado devido
a dificuldades técnicas de transporte de equipamentos, e da permanência de
pessoas em alta pressão na água, tem comunidades singulares de bactérias e
animais que crescem ao redor de aberturas/orifícios geotermais em alto mar
(Lutz, 1991; Tunnicliffe, 1992). Ainda não descritas, as bactérias ativas têm
também sido encontradas em sedimentos marítimos de até 500 metros abaixo
do nível do mar, onde indubitavelmente elas exercem um papel químico e
energético de importância neste vasto ecossistema (Parkes et al., 1994).
• Um projeto recente de escavação na Suécia apresentou evidências de bacté
rias anaeróbicas primitivas, conhecidas como archeobactérias, vivendo den
tro de fissuras de rochas a 5 quilômetros abaixo da superfície da terra (Gold,
1992). Se esta evidência for comprovada, pode ser que existam comunidades
grandes e ainda não descritas de bactérias vivendo dentro da Terra, existindo
à base de gases de enxofre, metano e outros gases de alto teor energético.
Extinção e Economia:
Perdendo um Bem de Valor
Para se descobrir, catalogar e preservar a grande diversidade de espécies, uma
nova geração de biólogos conservacionistas deve ser treinada, e maior prioridade deve
ser dada a museus, universidades, organizações de conservação, e outras instituições
que apoiam este trabalho. Tal mudança exigirá uma reversão total do pensamento
político e social atual; governos e comunidades em todo o mundo devem perceber que
a diversidade biológica é de extremo valor - na verdade, essencial, para a existência
humana. Por último, a mudança ocorrerá somente se as pessoas sentirem que elas estão
realmente perdendo algo de valor ao continuar a danificar as comunidades biológicas.
Mas o que estamos perdendo? Por que alguém deveria se preocupar caso uma espécie
se tome extinta? O que há precisamente de tão terrível na extinção?
Padrões de ExtinçãoA diversidade de espécies encontrada na Terra está aumentando
desde que a vida começou. Este aumento não tem sido estável, mas sim
caracterizado por períodos de altas taxas de especiaçào, seguidos de períodos
de mudança mínima e episódios de extinção em massa (Sepkoski e Raup,
1996; Wilson, 1989). A maior extinção em massa já ocorrida foi no final da
época permiana — 250 milhões de anos atrás — quando estima-se que 77%-
96% de todas as espécies dc animais marídmos tornaram-se extintas {figura
1.13\ Raup, 1979). É bem provável que uma alteração maciça, como as erup
ções vulcânicas ou a colisão dc um asteróide, tenha causado uma mudança
dramádca no clima da Terra e que muitas espécies não puderam sobreviver.
Foram necessários, ao processo de evolução, 50 milhões de anos para recu
perar o número de famílias de espécies perdidas durante a exdnção maciça da
era permiana. Entretanto, a exdnção de espécies ocorre mesmo na ausência de
um distúrbio violento. A teoria evolucionária afirma que uma espécie pode
rivalizar com outra ou levá-la à exdnção através da predação. Uma espécie
bem sucedida pode evoluir para outra, como resposta às mudanças ambi
entais ou devido a mudanças ocasionais em sua combinação de genes. Os
fatores determinantes da permanência ou desaparecimento de determinadas
espécies não são totalmente claros, mas a exdnção, tanto quanto a especia-
ção, é parte do ciclo natural.
Se a extinção faz parte do processo natural, por que nos preocupa
mos com a perda de espécies? A resposta está nas taxas relativas de exdnção
e especiaçào. A especiaçào é um processo lento que ocorre através da acu
mulação gradual de mutações e modificações das freqüências dos alelos em
dezenas de milhares ou, quem sabe, milhões de anos. A medida que a taxa de
especiaçào se torna igual ou excede à taxa de extinção, a biodiversidade per
manece constante ou aumenta. Nos períodos geológicos passados, a perda
de espécies existentes esteve relativamente equilibrada ou excedeu através da
evolução de novas espécies. Entretanto, as atividades humanas estão causan
do extinção em uma proporção que excede, em muito, a taxa de reposição
das espécies. A perda de espécies que está ocorrendo no presente não tem
precedentes, é única, e pode ser irreversível.
B iologia da Co n ser v ad o e D iversidade B iológica
P e r ío d o
Q u a te rn á r io -j
T erc iá r io _
C r e t á c e o .
Ju rá ssic o
T r i á s s i c o .
P e r m ia n o .
C arb o n ífe ro
D e v o n ia n o .
S iluriano
O r d o v ic ia n o
C am b rian o
M ilh õ e s d e
E x tin ç ã o
G r u p o s q u e s o f r e r a m e x t in ç ã o e m m a s s a
P le isto c en o : C irandes m am ífe ro s e aves;
In v e rte b ra d o s d e ág u a d o ce
C re tá c e o R ép te is (d in o ssau ro s) e
m u ita s e sp é c ies m a rin h a s , in c lu in d o
fo ram in ífe ro s e m o lu sc o s
T riássico : 3 5 % d as fam ílias d e an im ais, in c lu in d o
m u ito s ré p te is e m o lu sc o s m arinhos.
P erm ian o : 5 0 % d as fam ílias de anim ais,
in c lu in d o 95" ó d as e sp é c ies m arinhas;
m u ita s á rv o re s ; an fíb io s . A m aio r p a r te d o s
b n o z o á rio s , b ra q u ió p o d e s e crilobitas
D e v o n ia n o : 3 0 % d as fam ílias
d e an im ais , in c lu in d o agna tas,
p la c o d e rm o s e m u ito s trilo b ita s
O rd o v ic ia n o : 5 0 % d a s fam ílias an im ais
in c lu in d o m u ito s trilo b ita s
L argura d a b a rra re p rese n ta o
n ú m e ro re la tivo d e g ru p o s n ão
ex tin to s
FIGURA 1.13. Apesar do número total de famílias e espécies
ter aumentado ao longo das eras geológicas, durante cada um
dos cinco episódios naturais de extinção em massa, gratuU
parte destes grupos desapareceu. O período de extinções /mais
dramático ocorreu há cerca de 250 mil/jòes de anos, no fisn
do período permiano. Nós estamos agora no inicio de um
sexto episódio, a extinção do Pleistoceno, onde as populações
humanas eliminaram as espécies através de perda de habrtat
e super exploração.
3 7
Capítulo 1
Economia Ambiental
Antes mesmo que a tendência de extinção das espécies possa ser revertida, suas cau
sas fundamentais devem ser descobertas. Que fatores levam os humanos a agir de maneira
destrutiva? A degradação ambiental, basicamente ocorre por razões econômicas. As flores
tas são desmatadas para que produzam lucros com a venda de madeira. As espécies são
caçadas para consumo pessoal, comércio e lazer. As terras marginais são convertidas em
terras produtivas pois não há outros lugares para novas propriedades rurais. Espécies são
introduzidas em novos continentes e ilhas, acidental ou propositadamente, sem qualquer
consideração com o resultado, levando à devastação ambiental. Uma vez que as causas
dos danos ambientais são freqüentemente de natureza econômica, a solução deve também
incorporar princípios econômicos.
A compreeensão de alguns princípios econômicos básicos servirá para esclarecer
porque as pessoas tratam o ambiente de uma forma que nos parece restrita e destrutiva. Um
dos dogmas universalmente aceitos pela economia moderna é o de que a transação voluntária
ocorre apenas quando é benéfica para ambas as partes envolvidas. Um padeiro que vende
seus pães por cinquenta reais terá poucos clientes. Da mesma forma, um consumidor que
esteja disposto a pagar só 5 centavos por um pão, provavelmente ficará com fome. Somente
quando um preço acordado mutuamente for estabelecido de forma que ambos fiquem sat
isfeitos é que a transação poderá acontecer. Adam Smith, um filósofo do século dezoito,
cujos trabalhos se tomaram a base da economia, afirmou "Não é por causa da benevolência
do açougueiro, do padeiro ou do cervejeiro que comemos nosso pão diário, mas pelo seu
próprio interesse {Wealth ofNations [Riqueza das Nações], 1776). Todas as partes envolvidas
esperam melhorar sua própria situação. A soma de cada ato individual em seu próprio inter
esse resulta na sociedade, como um todo, tornar-se mais mercantil e mais próspera. Ele se
refere a este conceito como a "mão invisível" que guia o mercado.
Está fora do escopo deste texto tratar de todas as assertivas e exceções deste
princípio de livre troca que beneficia a sociedade. Entretanto, não há nenhuma exceção
relevante que afete diretamente as questões ambientais. Em geral, os custos e os benefí
cios do livre comércio são aceitos e admitidos pelos participantes da transação. Em alguns
casos, entretanto, alguns custos ou benefícios ocorrem para os indivíduos que não estão
diretamente envolvidos na troca. Estes custos e benefícios paralelos são conhecidos como
externalidades. Talvez a externalidade mais notável e relevante seja o dano ambiental que
ocorre como uma conseqüência indireta da atividade econômica humana. Onde existem
38
Bioioo» u CoNstRVAfjAO i Diversidade Biok
extemalidades o mercado não con
segue apresentar soluções que resultem
em uma sociedade mais próspera. Esta
falha do mercado resulta em uma alo
cação de recursos errada que favorece
algumas pessoas às custas da sociedade.
O principal desafio que os biolo
gistas de conservação enfrentam é o de
assegurar que todos os custos e bene
fícios da transação sejam levados em
conta. As empresas ou pessoas envolvi
das em produção que resulta em danos
ecológicos, geralmente não arcam com
todos os custos de suas atividades. Uma
refinaria de petróleo, como a REPAR,
em Araucária-PR, se beneficia da ven
da do combustível, assim como tam
bém o consumidor do produto. No
dia 14/07/2000, devido a uma falha do
sistema, quase 4 milhões de litros de
óleo cru foram lançados no ambiente,
boa parte destes no Rio Iguaçu (veja
fig. 2.16). Este é um custo de produção
que é pago por toda a população, não
somente pelos envolvidos na relação de
compra-venda de combustível Estar a
par dessa dicotomia é essencial parao
entendimento da falha do mercado: A
ampla distribuição do custo econômico
de uma atividade, em conjunto com um
benefício concentrado em pequenos
grupos, cria um conflito econômico/
ecológico. Ou de maneira mais direta:
Não é o homem ou a espécie humana
que degrada o ambiente. São alguns ^
homens que degradam o ambiente.
Assim como não são todos os homens
que têm que arcar com os tesultados (
dessa degradação. |
Em resposta a este desafio, uma
disciplina está sendo desenvolvida, inte
grando economia, ciência ambiental e
política pública e ainda incluindo valores
da diversidade biológica na análise |
econômica. (McNeely, 1988; Costanza, j
1991; Barbier et al, 1994). Esta discip
lina é conhecida como economia ambi
ental. Os biologistas de conservação ^
estão cada vez mais usando os conceitos (
e o vocabulário da economia ambiental,
de forma que o governo, os banqueiros
e os empresários possam ser convenci
dos, mais rapidamente, da necessidade
de proteger a diversidade biológica, se
houver uma justificativa econômica para
fazê-lo.
Os custos ambientais de grandes
projetos estão cada vez mais sendo
calculados em forma de avaliação do
impacto ambiental levando em conta
os efeitos, presentes e futuros, que estes
projetos possam ter no ambiente. O
ambiente é, de modo geral, determinado
de forma a incluir, além dos recursos
naturais de áreas agricultáveis, também a
qualidade da água, a vida dos habitantes
locais, e as espécies ameaçadas. Em sua
forma mais abrangente, uma análise do
custo-benefício compara os valores que são obtidos através do projeto, junto aos custos
do projeto e os valores que se perde com ele (Randatl, 1987). Teoricamente, se uma análise
mostra que o projeto é rentável, ele deve prosseguir, enquanto que um projeto não rentável
deve ser paralisado. Na prádca, as análises de custo-benefício são bastante complexas de se
realizar pois a avaliação destes benefícios e custos pode ser difícil de ser determinada e pode
mudar com o tempo.
Recentemente, foram feitas tentativas para incluir a perda de recursos naturais nos
cálculos do Produto Interno Bruto (PIB), que é amplamente usado e em outros índices
de bem-estar interno (Daly e Cobb, 1989); Repetto, 1992). O problema na forma como é
calculado o PIB, é que ele mede toda a atividade econômica de um país, não apenas a ativi
dade benéfica. Atividades econômicas não sustentáveis e improdutivas (incluindo pesca pre
datória em águas costeiras e a mineração) levam ao aumento do PIB, muito embora essas
atividades sejam realmente destrutivas a longo prazo para o país. Até mesmo os desastres
ambientais como o derramamento de óleo da Petrobras, ou a Guerra do Golfo, contribuem
para o aumento do PIB, pois temporariamente geram empregos e as compras necessárias
para a limpeza. Na realidade, os custos econômicos associados de um país que tenha danos
ambientais, podem ser consideráveis e, freqüentemente, ultrapassam os ganhos que o país
possa obter através do desenvolvimento agrícola e industrial (Repetto, 1990a, b, 1992). Na
Costa Rica, por exemplo, o valor das florestas destruídas durante os anos 80 excedeu bas
tante a renda dos produtos vindos das florestas, de forma que o setor florestal representou
uma drenagem da riqueza do país.
B iologia m Con seív alão e D iversidade B io ió g k j
Recursos de Propriedade Comum
Muitos recursos naturais, tais como ar puro, água limpa, qualidade do solo,
espécies raras e até mesmo as paisagens, são considerados recursos de proprie
dade comum, que pertencem a toda a sociedade. A esses recursos geralmente não
é atribuído valor monetário. As pessoas, as indústrias e os governos usam e danifi
cam esses recursos sem pagar mais do que o custo mínimo e muitas vezes pagando
absolutamente nada, uma situação descrita como a tragédia dos com uns (Hardin,
1968, 1985). Em sistemas mais completos de responsabilidade "ecológica" que estão
sendo desenvolvidos, tais como o Imposto pelo uso da água em São Paulo e Paraná,
ou a Responsabilidade pelos Recursos Nacionais nos EUA, o uso de tais recursos
de propriedade comum está sendo incluído como parte dos custos internos para
realização de negócios ao invés de estarem sendo vistos como uma externalidade.
Quando as pessoas e empresas tiverem que pagar pelos seus atos é provável que
elas parem de danificar o ambiente ou que se tornem mais cuidadosas (Repetto,
1990b, 1992). Algumas sugestões para concretizar isto incluem taxas mais altas sobre
os combustíveis fósseis, penalidades pelo uso ineficaz de energia, pela poluição, e
programas obrigatórios de reciclagem. Os investimentos podem ser dirigidos às
atividades que dèem mais benefícios a um grande número de pessoas pobres. Final-
mente, as penalidades financeiras pela danificação da diversidade biológica podem
ser criadas e tornar-se tão severas que as indústrias seriam mais cuidadosas no trato
com o mundo natural.
Demonstrar o valor da biodiversidade e dos recursos naturais é um assunto
complexo, pois este valor é determinado por uma variedade de fatores econômi
cos e éticos. O principal objetivo da economia ambiental é desenvolver métodos
para avaliar os componentes da diversidade biológica. Foram desenvolvidas várias
abordagens para atribuir valores econômicos à variabilidade genética, às espécies, às
comunidades e aos ecossistemas. Uma das mais úteis foi usada por McNeely (1988)
e McNeely et al. (1990). Nesta estrutura, os valores são divididos como valores dire
tos (conhecidos em economia como bens privados), aos quais estão relacionados os
produtos obtidos pelas pessoas e os valores indiretos (em economia, bens públicos)
aos quais estão relacionados os benefícios fornecidos pela diversidade biológica, e
que não implicam no uso ou destruição do recurso. Os benefícios aos quais se pode
atribuir valores indiretos incluem a qualidade da água, a proteção do solo, recreação,
41
Capítulo 1
educação, pesquisa científica, controle climático e a pro
visão de futuras opções para a sociedade humana. O valor
de existência é outra forma de valor indireto que pode
ser revertido em benefício. Por exemplo, a quantidade de
pessoas que desejam pagar para que as espécies sejam pro
tegidas da extinção.
Valores Econômicos Diretos
Os valores diretos são atribuídos àqueles produtos que são diretamente colhidos e
usados pelas pessoas. Esses valores podem ser muitas vezes prontamente calculados através
da observação das atividades de grupos representativos de pessoas, da monitoração dos
pontos de produtos naturais, e pela análise de estatísticas de importação e exportação. Os
valores diretos podem ser posteriormente divididos entre valor de consumo, relativo às
mercadorias que são consumidas internamente, e valor produtivo, relativo aos produtos
que são vendidos em mercados.
Valor de Consumo
O valor de consumo pode ser atribuído a mercadorias tais como lenha
e animais de caça que são consumidos internamente e não aparecem nos mer
cados nacionais e internacionais. Nas zonas Norte e Nordeste, por exemplo,
grande parte das pessoas extraem do seu meio ambiente uma considerável
quantidade dos produtos que precisam para sua subsistência. Esses produtos
não aparecem no PIB dos países porque não são nem comprados nem vendi
dos (Repetto et al., 1989). Entretanto, se a população da zona rural não estiver
capacitada a obter esses produtos, como pode ocorrer por conta da degradação
ambiental, da super exploração dos recursos naturais, ou mesmo da criação de
uma reserva protegida, então seu padrão de vida irá cair, possivelmente até o
ponto em que estiver incapacitada para sobreviver e terá então que mudar para
outro lugar.
Estudos sobre sociedades tradicionais nos países em desenvolvimento
mostram a extensão do uso de seus recursos naturais para abastecer a população
42
com madeira para lenha, vegetais, fru
tas, came, medicamentoe materiais de
construção (Prescott-Ailen e Prescott-
Allen, 1982; Myers, 1984; Hladick et
al., 1993). Por exemplo, quase 80% da
população mundial ainda utiliza medica
mentos tradicionais derivados de plantas
e animais, como sua principal fonte de
tratamento médico (Farnsworth, 1988).
Ao redor de 2.000 espécies são usadas
na Bacia Amazônica (Schultes e Raffaut,
1990), enquanto que mais de 500 espé
cies são utilizadas para fins médicos na
China.
Uma das exigências mais impor
tantes para a população rural é a proteína
que é obtida através da caça de animais
silvestres. Em muitas áreas da África, a
caça de animais representa uma porção
significativa da proteína para a dieta da
média das pessoas: em Botswana, cerca
de 40% e no Zaire, 75% (Myers, 1988b).
No mundo todo, 100 milhões de
toneladas de peixes, principalmente de
espécies silvestres, são pescados a cada
ano. Grande parte é consumida local
mente.
O valor de consumo pode ser
atribuído a um produto, considerando
a quantidade de pessoas que teriam
que pagar para comprar produtos equi
valentes no mercado, se as fontes locais
não estiverem mais disponíveis. Um
exemplo desse enfoque foi uma tenta-
B io logu da Conservação i D i v e i s i m k B io it a u
(
tiva de estimar o número de porcos sel
vagens abatidos por caçadores nativos
em Sarawak, Leste da Malásia, realizada
através da contagem dos cartuchos uti
lizados na zona rural e de entrevista com
caçadores. Esse estudo pioneiro (e con
trovertido de uma certa forma) avaliou
que o valor de consumo da carne de
porco selvagem estava em torno de 40
milhões de dólares por ano (Caldecott, (
1988). Mas, em muitos casos, as pessoas |
do local não têm dinheiro para comprar
os produtos no mercado. Quando o
recurso local se esgota, a pobreza rural
se instala e as pessoas migram para os
centros urbanos.
Se de um lado a dependência
de produtos naturais locais está asso
ciada, em primeiro lugar, a países em
desevolvimento, de outro, existem áreas 1
rurais nos Estados Unidos e Canadá
onde centenas de pessoas dependem da
lenha para aquecimento e da caça de ani
mais silvestres para obtenção de carne.
Muitas dessas pessoas seriam incapazes
de sobreviver em tais lugares remotos se
tivessem que comprar combustível ou
carne.
43
Capítulo 1
Valor Produtivo
O valor produtivo é um valor direto atribuído a produtos que sào extraídos do
ambiente e vendidos no comércio nacional ou internacional. Esses produtos têm seu valor
estabelecido por padrões econômicos aplicados ao preço pago no primeiro ponto de venda,
menos os custos desse ponto e não pelo seu custo final no varejo; como conseqüência, o
que parece ser um produto natural de menor importância pode ser, na verdade, o ponto de
partida de produtos industrializados de grande valor (Godoy et al., 1993). A castanha do
Pará, que rende aos catadores no Acre cerca de 50 centavos de real por kg (O Estado de
Sào Paulo, 28/02/2000), custa 18 reais aos consumidores no supermercado em Belo Hori-
zonte-MG.
Uma grande quantidade de produtos é extraída do meio amgbiente e depois vendida
no mercado. Entre os produtos de maiores vendas estão a lenha, madeira para construção,
peixes e mariscos, plantas medicinais, frutas e vegetais, carne e pele de animais silvestres,
fibras, ratam, mel, cera de abelha, tinturas naturais, algas marinhas, forragem animai, per
fumes naturais e cola e resina de plantas (Myers, 1984).
O valor produtivo dos recursos naturais é significativo mesmo em países indus
trializados. Prescott-Allen e Prescott-Allen (1986) avaliaram que 4,5% do PIB dos EUA
dependem, de alguma forma, das espécies silvestres, uma quantia que, em média, chegou
a aproximadamente 87 bilhões de dólares por ano. O percentual seria muito mais alto para
os países em desenvolvimento que têm menos indústrias e grande fração da população na
zona atrai.
Atualmente, a madeira está entre os produtos de maior importância que são obti
dos a partir de ambientes naturais, com um valor acima de US|75 bilhões por ano (Reid e
Miller, 1989). A madeira e seus derivados estão sendo rapidamente exportados de muitos
países tropicais para obtenção de moeda estrangeira de forma a financiar a industrialização
e pagar débitos externos. O Brasil exportou oficialmente 992 mil m5 de mogno nos últimos
11 anos {figura 1.I4A). Produtos que não são de madeira, mas vêm das florestas, incluindo
a caça, frutas, borrachas e resinas, ratam e plantas medicinais, também têm grande valor de
uso produtivo (figura 1.14B). Por exemplo, produtos que não são de madeira contabilizam
63% do total de divisas obtidas pela índia na exportação de produtos provenientes das flo
restas (Gupta e Guieira, 1982). Esses produtos além da madeira, os quais algumas vezes
sào denominados erroneamente como "produtos secundários de florestas", sào na realidade
muito importantes economicamente, e podem ter ainda mais valor se colhidos ao longo
4 4
Bio io cu da Conservação e D iversidade B ioiógica
FIGURA 1.14. (A) A dificuldade em conter
os aieinços da indústria madeireira sobre a
floresta se dá em parte em função do alto
custo da madeira. Cada tora de mogno
mostrada acima vale RS 4,5 mi! para
exportação. (B) Muitas comunidades
rurais (como as do Norte e Nordeste)
complementam sua entrada através da
coleta de produtos naturais para tender em
mercados locais. .Aqui a família Dayak
de Sarawak, na Malásia, vende me!
selvagem e frutas nativas. Os produtos não
madeireiros são importantes nas economias
locais e nacionais, seja em Caruaru, seja em
Sarawak.
4 5
O in iio 1
do tempo ao invés da madeira, colhida toda
de uma vez (Peters et al., 1989). O valor de
produtos não madeireiros, juntamente com
o valor das florestas em outras funções, são
uma forte justificativa para a manutenção
das florestas em muitas áreas do mundo.
O maior valor produtivo de muitas
espécies está em seu potencial de fornecer
novas possibilidades para a indústria, para a
agricultura e para o melhoramento genético
das espécies agrícolas (NAS/NRC, 1972;
Prescott-Allen e Prescott-Allen, 1986). Algu
mas espécies nativas de plantas c animais
que atualmente são aproveitadas em escala
local, podem ser produzidas em plantações
e fazendas e outras podem ser cultivadas em
laboratório. Essas colônias normalmente
provêm de populações silvestres e são uma
fonte de material para o melhoramento
genético das populações domesticadas. No
caso do cultivo de plantas, uma espécie ou
uma variedade selvagem pode fornecer um
gene especial que confira resistência a pes
tes ou aumento de produção. Este gene
precisa ser obtido na natureza apenas uma
vez, e poderá então ser incorporado às
espécies cultivadas e ser guardado em um
banco de genes. O contínuo melhoramento
genético das plantas cultivadas é necessário
não apenas para aumentar o rendimento,
mas também para resguardá-las dos insetos
resistentes aos pesticidas e aos fungos, vírus
e bactérias, de caráter cada vez mais viru
lento (Hoyt, 1988). A perda dramática de
culturas pode estar freqüentemente relacio
nada à baixa variabilidade genética: a perda
da cafeicultura no Norte do Paraná após a
década de 60, a praga das batatas de 1846, na
Irlanda, a perda do trigo em 1922 na União
Soviética e a explosão do cancro cítrico em
1984 na Flórida, estão todas relacionadas
à baixa variabilidade genética das espécies
agrícolas (Plucknett etal., 1987).
O desenvolvimento de novas varie
dades também tem um impacto econômico
notável. O melhoramento genético das
culturas nos Estados Unidos foi respon
sável pelo aumento do valor das colheitas
em uma média de US$1 bilhão por ano, de
1930 a 1980 (OTA, 1987). Os genes de alto
teor de açúcar e de grande tamanho das
frutas obtidos a partir de tomates silvestres
no Peru, foram transferidos para as varie
dades cultivadas de tomates,resultando em
um montante de 80 milhões para a indús
tria (Iitis, 1988). A descoberta de uma varie
dade perene e selvagem de milho no estado
mexicano de Jalisco (veja Capitulo 5) vale,
potencialmente, bilhões de dólares à mod
erna agricultura porque ela poderia permitir
o desenvolvimento de uma cultura perene
de milho altamente produtiva e eliminaria
a necessidade de plantios anuais. (Norton,
1988).
As espécies silvestres podem ser
também usadas como agentes de controle
biológico (Julien, 1987). Os biólogos, às
vezes, controlam espécies exóticas, noci-
46
Bioioti* da Conservação í D iversidade B io eo g iu
vas, através da busca do habitat original da praga que limita a população da espécie.
Então, a espécie-controlc pode ser levada à nova localidade, onde pode ser solta para
controlar a praga. Um exemplo clássico é o caso do cacto da pêra espinhosa (Opuntia
sp.) que foi introduzido na Austrália vindo da América do Sul para servir como cerca
viva. O cacto cresceu descontroladamente e alastrou-se por milhões de hectares de
pasto. No habitat original da pêra espinhosa, a larva de uma mosca Cactoblastis ali
mentava-se desse cactus. A mosca foi introduzida na Austrália com sucesso, onde
reduziu o cactus significadvamente.
O mundo natural é também uma importante fonte de
novos medicamentos. Vinte e cinco por cento das receitas usadas
nos Estados Unidos contêm ingredientes derivados de plantas.
Duas drogas potentes derivadas da pervinca rosada (Catharanthus
rosem) de Madagascar, por exemplo, demonstraram ser eficazes
no tratamento da doença de Hodgkin’s, leucemia e outros tipos
de câncer no sangue. Os tratamentos que utilizaram essas drogas
aumentaram o índice de sobrevivência de portadores de leucemia
infantil de 10% para 90%. Muitos dos antibióticos mais impor
tantes, tais como a penicilina e a tetraciclina, provêm de fungos
e outros microorganismos (Farnsworth, 1988; Eisner, 1991).
Mais recentemente, a droga ciclosporina derivada de um fungo,
demonstrou ser um elemento essencial para o sucesso de trans
plantes cardíacos e renais. Muitos outros medicamentos foram
primeiramente identificados em animais; animais venenosos
como as cobras, artrópodes e espécies marinhas são fontes ricas
de elementos químicos de aplicações médicas valiosas. Os 20 fár-
macos mais utilizados nos Estados Unidos são todos baseados
em elementos químicos primeiramente identificados em produ
tos naturais; essas drogas têm um valor de venda combinado de
6 bilhões de dólares por ano.
As comunidades biológicas do mundo estão sendo con
tinuamente pesquisadas para identificação de novas plantas,
fungos e microorganismos que possam ser usados na luta con
tra doenças tais como o câncer e a AIDS (Plotkin, 1993; Cox
e Balick, 1994, figura 1.15A ). Esta busca é geralmente realizada
4 7
Capítuiq 1
FIGURA 1.15. (A) Fjnobotànicos trabalham
com a população local - neste caso um
nativo do Suriname - para coletar plantas
medicinais e reunir informações sobre seu uso
{Cortesia de Mark Plotkin c Conservação
Internacional) (fí) Taxonomistas no InBio
estão organizando e classificando a rica
Canna e Flora da Costa Rica (Fotografia de
Mark Winter)
18
B ioiogia da Conservícáo t
por órgãos governamentais de pesquisas e empresas farmacêuticas. Para facilitar a
descoberta de novos medicamentos e obter lucros de novos produtos, o governo da
Costa Rica criou o Instituto Nacional de Biodiversidade (INBio), que coleta produ
tos biológicos e fornece amostras para as empresas farmacêuticas (figura 1.1 SB). A
Empresa Merck assinou um contrato para pagar ao INBio USS l milhão pelo direito
de analisar amostras e pagará os direitos de uso para ao INBio sobre os produtos
comerciais que resultarem da pesquisa (Eisner e Beiring, 1994). Programas como
estes propiciam incentivos financeiros a países para proteger seus recursos naturais.
Valores Economicos Indiretos
Os valores indiretos podem ser destinados a aspectos da diversidade biológi
ca, tais como processos ambientais e serviços proporcionados por ecossistemas, que
propiciam benefícios econômicos sem terem que ser colhidos e destruídos durante
o uso. Devido a esses benefícios não serem mercadorias ou serviços, no sentido
econômico usual, eles não aparecem nas estatísticas nacionais de economias, como
o PNB (Produto Nacional Bruto). Entretanto, eles podem ser cruciais para a dis
ponibilidade a longo prazo de recursos dos quais as economias dependem. Se os
ecossistemas naturais não estão disponíveis para propiciar tais benefícios, fontes
alternativas devem ser encontradas, freqüentemente a altos custos. Ao se pensar em
como podemos estimar os valores de uso indireto dos ecossistemas, consideramos
este resumo das conseqüências do desmatamento:
Temos que achar substitutos para os produtos feitos de madeira, controlar a erosão,
aumentar os reservatórios, incrementar a tecnologia de controle da poluição do ar, e
criar novas instalações de lasçer. Estes substitutos representam uma carga tributária
enorme, um dreno no suprimento de recursos naturais mundiais, e uma pressão ainda
maior na naturetça. (F.H. Bormann, 1976)
Capítulo 1
Valor Não Consumista
As comunidades biológicas fornecem uma grande variedade de serviços
ambientais que não são consumidos pelo uso. Este valor não consumista é,
às vezes, relativamente fácil de se calcular, como no caso do valor de insetos
que fazem a polinização em plantações. Culturas como maracujá, figo, abacate
e outras dependem de insetos para produzir.
O valor destes polinizadores poderia ser estimado através do cálculo
sobre o quanto a plantação tem seu valor aumentado através desta ação ou
sobre quanto o agricultor teria que pagar se tivesse que alugar colméias de
algum apicultor. Determinar o valor de outros serviços de ecossistemas pode
ser mais difícil, particularmente em nível global. A seguir temos uma listagem
parcial dos benefícios de se conservar a diversidade biológica que tipicamente
não aparecem nos cálculos de avaliações de impacto ambiental ou nos PNBs.
Produtividade do ecossistema. A capacidade fotossintética de plantas e algas per
mite que a energia solar seja capturada em tecidos vivos. Uma fração da energia estocada
em plantas é coletada pelos humanos de maneira direta como na madeira de combustão,
forragem e alimentos naturais. Esta matéria vegetal é também o ponto inicial de inúmeras
cadeias alimentares de todos os produtos animais que são consumidos pela população.
Aproximadamente 40% da produtividade do ambiente terrestre é dominada pelas neces
sidades humanas de recursos naturais (Vitousek, 1994). A destruição da vegetação em uma
área devido a excesso de pastagem por animais domésticos, excesso de cortes de árvores, ou
incêndios freqüentes, destrói a habilidade do sistema de fazer uso da energia solar, levando
a uma perda de produção da biomassa das plantas e degradação da comunidade animal
(inclusive humanos) que vive na área (Odum, 1993). Do mesmo modo, estuários coste
iros são áreas de rápido crescimento de algas e plantas que fornecem a base de cadeias ali
mentares que mantêm os estoques comerciais de peixes e mariscos. O Serviço de Pesca
Marítima Nacional Americano estima que o dano aos estuários costeiros tem custado aos
Estados Unidos mais de US$200 milhões por ano em valor produtivo perdido no comér
cio de peixes e mariscos e em valor recreacional perdido na pesca de lazer. (McNeely et
al., 1990). Mesmo quando os ecossistemas degradados ou danificados são reconstruídos ou
restaurados - frequentemente a altos custos - eles geralmente não desempenham suas fun
ções de ecossistemas tão bem quanto antes, e certamente não contêm mais sua diversidade
5 0
B io io g m da Conservação í D iversidade
original de espécies. Um outro problema sério, que os cientistas estão investigando
atualmente, é como a perda de espécies individuais de comunidadesbiológicas afeta
os processos de ecossistemas, tais como o crescimento de plantas e a sua habilidade
de absorver o dióxido de carbono atmosférico (Schulze e Mooney, 1993; Baskin,
1994a; Tilman e Downing, 1994). Quantas espécies terão que ser perdidas em uma
comunidade, antes que o ecossistema comece a se degradar?
Proteção da água e recursos do solo. Comunidades biológicas são vitais
pata proteção de bacias hidrográficas, no controle de ecossistemas por ocasião
de grandes enchentes ou secas, e na manutenção da qualidade da água (Ehrlich e
Mooney, 1983; Likens, 1991). A folhagem das plantas e folhas mortas interceptam
a chuva e reduzem seu impacto no solo, e raízes de plantas e organismos do solo o
arejam, aumentando sua capacidade de absorção de água. Esta capacidade aumenta
da de reter a água reduz inundações que ocorrem após chuvas fortes e permite uma
liberação lenta da água durante dias ou semanas após as chuvas terem cessado
Quando a vegetação é perturbada por cortes de madeira, atividades agrícolas
ou outras ações do homem, as taxas de erosão do solo e até mesmo de deslizamentos
dc terra aumentam. O dano causado ao solo limita a habilidade de vida das plantas em
se recuperar após algum distúrbio e pode tomar a terra inútil para a agricultura. Além
disso, partículas do solo que são levadas pelo fluxo superficial de água podem matar
animais de água doce, organismos de recifes de corais, e a vida marítima nos estuários
costeiros. Este assoreamento também toma a água dos rios não potável para as comu
nidades ribeirinhas, levando a um declínio na saúde humana. A erosão acelerada do
solo pode ocasionar assoreamento prematuro de reservatórios em represas, causando
perda de produção de energia, e pode criar barreiras de areia e ilhas, que reduzem a
navegabilidade de rios e portos. Enchentes catastróficas sem precedentes em São Pau
lo, Minas Gerais, Bangladesh, índia, Filipinas e Tailândia têm sido associadas ao corte
de árvores em áreas de bacias hidrográficas; tais incidentes têm levado a apelos feitos
pela comunidade local para a proibição do corte de árvores e incentivos a programas
de florestamento. O Estado do Paraná, no começo de 2001, está estudando o aumen
to da água em 5% para viabilizar programas de florestamento de bacias hidrográfi
cas. Este Estado, na década de 1980, implantou um programa no qual as microbacias
hidrográficas eram readequadas, envolvendo mudança de carreadores, construção de
curvas de nível c replantio das matas ciliares. Infelizmente o Programa de Microbacias
do Paraná não atingiu uma fração significativa do Estado.
Capítulo 1
Na índia, o dano causado por enchentes nas áreas agrícolas, fez com que o governo
e agências privadas criassem grandes programas de plantio de árvores no Himalaia. Em
alguns países a proteção de áreas alagadiças é priorizada a fim de evitar inundação de áreas
ocupadas. O valor dos marismas na região próxima a Boston, Massachusetts, foi estimada
em US$72.000 por hectare ao ano, simplesmente com base no seu papel na redução de
danos causados por enchentes (Hair, 1988).
Controle climático. Comunidades vegetais são importantes na moderação do clima
local, regional, e até mesmo global (Nobre et al., 1991; Clark, 1992). Em nível local, as
árvores fornecem sombra e transpiram água, o que reduz a temperatura do ambiente em
climas quentes. Este efeito de resfriamento reduz a necessidade de ventiladores e condicio
nadores de ar, e aumenta o conforto e a eficiência de trabalho das pessoas. As árvores são
também importantes em nível local, como quebra-ventos, e na redução da perda de calor de
edifícios em climas frios.
Em nível regional, a transpiração das plantas recicla a água de volta para a atmosfera
para então retornar em forma de chuva. A perda de vegetação existente em regiões do mun
do como a Bacia Amazônica e a África Ocidental poderia resultar em uma redução regional
da média anual de chuva (Fearnside, 1990). Em nível global, o crescimento de plantas está
ligado ao ciclo do carbono. Uma perda de cobertura de vegetação resuita na redução da
absorção de dióxido de carbono pelas plantas, contribuindo para a elevação dos níveis de
dióxido de carbono que leva ao aquecimento global. As plantas (lato-sensu) são também
a fonte de oxigênio do qual todos os animais, inclusive os humanos, dependem para sua
respiração.
Dejetos. As comunidades biológicas são capazes de degradar e imobilizar poluentes
tais como metais pesados, pesticidas e esgoto que tenham sido jogados no ambiente pela
ação do homem (Odum, 1993); Greeson et al., 1979). Fungos e bactérias são particular
mente importantes no desempenho deste papel. Quando estes ecossistemas são degradados
e perdem estas funções, sistemas de controle de poluição então precisam ser instalados e
operados para assumir as funções perdidas.
Um exemplo da função de depuração de ecossistema é o caso do Rio Tietê. O esgo
to a céu aberto que corta a porção norte da cidade de São Paulo nasce em Salesópolis, a
100 quilômetros da capital. O rio Tietê corta o Estado de São Paulo exatamente ao meio,
com 1.150 km de extensão desde a nascente, até a foz, no Rio Paraná. Em São Paulo, o rio
Tietê recebe 30.000 litros de esgoto por segundo, e mais 7.000 litros de resíduos diversos.
Com isto, a taxa de oxigênio cai a zero no trecho da capital. Já a 200 km da capital, a taxa
5 2
B iologia da Conservação i D iversidade B i o i t o
de oxigênio sobe a 4mg de oxigênio por litro devido ao trabalho de fungos e bac
térias. Este sistema constitui uma unidade gratuita de depuração de resíduos. Não
obstante, os paulistanos não desejam mais aturar o mau cheiro e mau aspecto do rio
Tietê. Em uma ação conjunta entre o Banco Interamericano de Desenvolvimento e
a SABESP (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), US$ 900
milhões foram investidos para aumentar de 20% para 60% o tratamento de esgotos
na região. Esperamos que este não seja um gasto inútil de dinheiro público.
Relacionamento entre espécies. Muitas das espécies cultivadas pelas pes
soas por seu valor produtivo dependem de outras espécies silvestres para a continu
ação de sua existência. Portanto, o declínio de uma determinada espécie nativa de
pouco valor imediato para o homem, pode resultar em um declínio correspondente
de uma espécie utilizada que seja economicamente importante. Por exemplo, a caça
e os peixes consumidos por pessoas dependem dc insetos silvestres e plantas para
sua alimentação. Um declínio nas populações de plantas e insetos resultará em um
declínio no número de animais. Plantações beneficiam-se de pássaros e insetos pre
dadores, tais como os louva-a-deus (da família Mantidae), que se alimentam de pra
gas que atacam as plantações. Muitas espécies úteis de plantas silvestres dependem
de animais que comem frutas, como os morcegos e pássaros, para dispersarem suas
sementes (Fujita e Tuttle, 1991).
Um dos relacionamentos mais significativos, em termos econômicos nas
comunidades biológicas, é o de muitas árvores encontradas em florestas com as plan
tações e os organismos de solo que fornecem a elas os nutrientes essenciais. Fungos
e bactérias degradam plantas mortas e matéria animal, de onde eles obtêm energia;
no processo, eles liberam nutrientes minerais como o nitrogênio para o solo, que
são usados por plantas para seu crescimento. Este, todavia, é um equilíbrio tênue.
Nem sempre mais nutrientes significa mais conservação. Em áreas poluídas, como
Cubatào, o aporte de nutrientes (ou poluentes, no caso) é grandemente aumentado
(Mayer et. al 2000), causando acidificação do solo e total desestruturaçào da comu
nidade.
Recreação e ecoturismo. O enfoque central da atividade de lazer é o prazer
não consurmsta, advindo da natureza através de atividades tais como caminhadas,
fotografia, rafting e observação de baleias e de pássaros (Duffus e Dearden, 1990). O
valor monetáriodestas atividades, às vezes chamado de valor de amenidade, pode
ser considerável (figura 1.16), especialmente se consideramos a sustentabilidade des-
5 3
Ca p ítm o I
FIGURA 1.16. Muiras pessoas
consideram a interação
com outras espécies uma
experiência educacional
e criativa. Nesta foto,
uma comunidade
de pescadores
de Ubatuba,
estimulada
pelo Projeto
TAMAR, produz
tartarugas de
madeira, que
incrementam a renda
familiar divulgando o
conceito de conservação
de espécies.
(Foto: Fundação Pró Tamar)
tas atividades. Os visitantes da Região de Bonito-MS, Brotas-SP e Tibagi-PR, continuarão
a trazer dinheiro para estas regiões, enquanto elas se mantiverem conservadas. O recente
crescimento do ecoturismo nessas regiões prova isto.
Os números para quantificar o valor de amenidade são difíceis de obter. Quanto
vale o acesso ao Parque Trianon ? (um fragmento de floresta encravado na Av. Paulista, a
região mais cara da América do Sul). Certamente é mais simples quantificar qual o custo da
área, quantos empregos um empreendimento neste local poderia gerar, e qual seria o lucro
líquido deste empreendimento. O valor de amenidade é de difícil mensuraçào, mas não é
pequeno. Nos Estados Unidos, quase 100 milhões de adultos e um número comparável
de crianças estão envolvidos a cada ano em alguma forma de recreação não destrutiva da
natureza, gastando 4 bilhões de dólares com taxas, viagem, alojamento, alimentação e equi
pamentos (Shaw e Mangun, 1984). Em lugares de relevância nacional e internacional para
a conservação ou de beleza natural excepcional, como o Parque Nacional do Iguaçu, ou o
Parque Yellowstone, nos EUA, o valor recreacional não consumista, frequentemente supera
em muito o de outras indústrias locais (Power, 1991). Mesmo atividades de recreação, tais
5 4
BlüLOGI» M CoKSlMyW I ÜIVÍlSIDADf Bioiocim
como a caça e a pesca, que em teoria são consumistas, são na prática não consumis-
tas, porque o valor alimentício dos animais capturados por pescadores e caçadores
é tipicamente insignificante em comparação com o tempo e dinheiro gastos nestas
atividades. Particularmente em economias rurais, a caça e a pesca geram centenas
de milhões de dólares. Ecoturismo é uma indústria que está crescendo em muitos
países em desenvolvimento, rendendo aproximadamente US$12 bilhões por ano no
mundo todo. Os ecoturistas visitam um determinado local e gastam parte de seu
dinheiro ou sua totalidade para vivenciar a diversidade biológica e ver determina
das espécies (Lindberg, 1991; Ceballos-Lascuráin, 1993). O Parque Nacional de Foz
do Iguaçu foi visitado por 1.361.000 turistas em 1996. Destes, 830.000 visitaram o
Parque Nacional do Iguaçu. De acordo com o Governo do Paraná, os gastos indi
viduais médios de um turista em Foz do Iguaçu é 118,6 dólares. Este mesmo gover
no, ao permitir que o Parque Nacional do Iguaçu seja cortado ao meio pela abertura
da Estrada do Colono, está arriscando perder um mercado de mais 364 milhões de
dólares/ano, que é o quanto esses visitantes do Parque gastaram no Estado. Ainda
segundo dados do Estado do Paraná, o sistema de Parques do Estado teve 1,5 mil
hão de visitações. Somente cm Londrina, o Parque Arthur Thomas, com sua pre
cária estrutura, teve em 1996 um número de visitações registradas igual a quase 30%
do total da população da cidade.
Porém, muito mais pode ser feito em termos de ecoturismo no Brasil. Ruan
da, apesar de toda a falta de infra-estrutura, desenvolveu uma indústria de turismo
para ver gorilas, que foi a terceira maior renda do país em moeda estrangeira (Wed-
der, 1989), até os problemas internos terem começado. O ecoturismo tem tradicio
nalmente sido a indústria-chave dos países africanos do leste, como o Quênia e a
Tanzânia, e é cada vez mais parte do cenário turístico em muitos países americanos e
asiáticos. No início dos anos 70 foi feita uma estimativa de que cada leão no Parque
Nacional de Amboseli, no Quênia, poderia ser avaliado em US$27.000 por ano de
renda proveniente do turismo, enquanto uma manada de elefantes valia US$610.000
por ano (Western e Henry, 1979); estes valores são certamente maiores atualmente.
O ecoturismo pode servir como uma das justificativas mais imediatas para a pro
teção da diversidade biológica, particularmente quando estas atividades estão incluí
das nos planos gerais de administração (Munn, 1992).
Há o perigo de que as instalações turísticas ofereçam uma experiência de
fantasia esterilizada, mais do que permitir que os turistas se conscientizem ou até
55
OiTUlO 1
mesmo percebam os sérios problemas sociais e ambientais que ameaçam a diver
sidade biológica (figura 1.17). As atividades de ecoturismo por si mesmas podem
contribuir para a degradação de áreas sensíveis, quando os turistas inadvertidam
ente pisam em flores, danificam corais e perturbam ninhadas de pássaros (Hawkins
c Roberts, 1994).
FIGURA 1.17.
Estruturas para
ecoturistas podem
criar uma fantasia
que igiora a
realidade local
IE.G. Magatjjn,
Alemanha)
Valor educacional e científico. Muitos livros, programas de televisão, e filmes
produzidos com fins educacionais e de entretenimento são baseados em temas da natureza.
Cada vez mais, materiais de história natural estão sendo incorporados aos currículos esco
lares (Hair e Pomerantz, 1987). Esses programas educacionais provavelmente movimentam
bilhões de dólares por ano. Um número considerável de cientistas profissionais, assim como
amadores altamente motivados, estão engajados em observações ecológicas que têm valor
de uso não consumista na forma de emprego e dinheiro gasto com produtos e serviços.
Enquanto essas atividades científicas fornecem benefícios econômicos para áreas próximas
de estações de pesquisa, seu valor real está na possibilidade de aumentar o conhecimento
humano, melhorar a educação e enriquecer a experiência humana.
56
B hh o g m da Conservação e D iversidade B ioióoica
Indicadores am bientais. Espécies que são particularmente sensíveis a toxi
nas químicas podem servir como um "sistema de alerta" para o monitoramento da
saúde do ambiente (Hellawell, 1986). Algumas espécies podem até servir como
substitutos para equipamentos caros de detecção. Entre as mais conhecidas espécies
indicadoras estão os líquens, que crescem em rochas e absorvem produtos químicos
encontrados na água de chuva e na poluição do ar (Hawksworth, 1990). Altos níveis
de materiais tóxicos matam os líquens, e cada espécie de líquen tem níveis distintos
de tolerância à poluição do ar. A composição da comunidade de líquens pode ser
usada como um indicador biológico do nível de poluição do ar, e a distribuição e
abundância de líquens podem ser usadas para identificar áreas de contaminação ao
redor de fontes de poluição, como as fundições. Os moluscos e outros seres que se
alimentam de filtragem de água, são também úteis para o monitoramento da polu
ição porque processam grandes volumes de água e concentram produtos químicos
tóxicos, como os metais pesados, PCbs e pesticidas, em seus tecidos (Stevens, 1988).
A abundância, distribuição e composição de líquens são muito influenciadas pelo
histórico de fogo de uma área, de modo que os líquens podem também ser utiliza
dos como indicadores de histórico de fogo. (Mistry, 1998). Muitas outras espécies
podem ser utilizadas como indicadoras, tais como Padina gymnospora, uma alga de
bento que ocorre na Baía de Sepetiba e que acumula Zinco (Karez et al. 1994), ou
plântulas do Manacá da Serra, espécie freqüente na Mata Atlântica ('Tiboucbinapulchra)
que é sensível â concentração de flúor (um poluente freqüentemente encontrado no
ar) (Klumpp et al, 2000).
Valor de Opção
O valor de opção de uma espécie é seu potencial para fornecer
um beneficio econômico para a sociedade humana em algum determinado
momento no futuro. Assim que as necessidades da sociedade mudam, tam
bém devem mudar os métodos desatisfação destas necessidades (Myers,
1984). Freqüentemente, a solução para um problema está em animais ou
plantas não considerados previamente. Busca-se novos produtos naturais nos
reinos animal e vegetal, ou quase inteiros. Entomologistas buscam insetos
que possam ser usados como agentes de controle biológico, os microbiolo-
gistas procuram bactérias que possam auxiliar nos processos de fabricação
5 7
Capítulo 1
FIGURA 1.18. O
Ginkgo i cultivado
em função do valor
medicinal das
suas folhas. A
cada ano, novos
ramos e folhas
brotam dos troncos
que são então
colhidos. Esta
espécie é a base
de um mercado de
centenas de milhões
de dólaresI ano.
(Foto de Peter Del
Tredici, Amold
Arboretnm)
bioquímica, e os zoologistas estão identificando espécies que possam pro
duzir proteína animal mais eficazmente e com menos dano ambiental do
que as espécies utilizadas. Se a diversidade biológica for reduzida no futu
ro, a habilidade dos cientistas em localizar e utilizar novas espécies para
tais fins será diminuída.
Agências de assistência à saúde e indústrias farmacêuticas estão se
esforçando ao máximo para coletar e identificar espécies para compostos
que tenham a habilidade de combater doenças humanas (Plotkin, 1988;
Eisner e Bering, 1994). A descoberta de um produto eficaz contra o câncer
no teixo do Pacífico, uma árvore nativa das florestas da América do Norte,
é apenas o mais recente resultado desta busca. Uma outra espécie é o ging-
ko (Gingko biloba), uma árvore que se encontra na selva em algumas locali
dades isoladas da China. Durante os últimos 20 anos uma indústria com
faturamento de USJ500 milhões ao ano desenvolveu o cultivo do gingko e
a fabricação de remédios extraídos de suas folhas, amplamente usados na
Europa e Ásia para o tratamento de problemas de circulação do sangue e
enfartes (figura 1.18; Del tredici, 1991).
5 8
B iologia o* Co m « » m> o i D ivlrsidaoe
A crescente indústria de bio
tecnologia está descobrindo novas
maneiras de reduzir a poluição, desen
volver processos industriais, e combater
doenças que ameacem a saúde humana
(Frederick e Egan, 1994). Em alguns
casos, espécies bem conhecidas e recém-
descobertas têm demonstrado ter exata
mente as propriedades necessárias para
tratar algum problema médico. Técnicas
inovadoras de biologia molecular estão
permitindo que genes valiosos e únicos
encontrados em uma espécie sejam
transferidos para uma outra. Uma das
novas espécies mais promissoras que
estão sendo investigadas por cientistas
industriais são as bactérias que vivem
em ambientes extremos como as aber-
turas/orifícios geotermais em alto mar
e mananciais de águas quentes. As bac
térias que se desenvolvem em ambientes
incomuns física e quimicamente, podem
ser adaptadas a usos industriais espe
ciais de considerável valor econômico.
Uma das mais importantes ferramentas
da indústria de biotecnologia de bilhões
de dólares, a técnica de reação em cadeia
polimerase (PCR) para multiplicação de
cópias de DNA depende de uma enzi
ma que é estável em altas temperaturas;
esta enzima foi derivada de uma bactéria
endêmica aos mananciais de águas quen
tes do Parque Nacional de Yellowstone,
nos Estados Unidos.
Enquanto a maioria das espécies
tem pouco ou nenhum valor econômico
direto, uma pequena parte pode ser de
uso potencial para novos medicamen
tos, apoiar um ramo industrial, ou evi
tar o declínio de uma grande cultura.
Se apenas uma destas espécies tornar-
se extinta antes de ser descoberta, será
uma grande perda para a economia
global, mesmo se a maioria das espécies
do mundo for conservada. Dito de uma
outra maneira, a diversidade das espécies
no mundo pode ser comparada a um
manual sobre como manter a Terra fun
cionando eficazmente. A perda de uma
espécie é como rasgar uma das páginas
deste manual. Se um dia precisarmos de
informações contidas nessa página para
nos salvar e salvar as outras espécies da
Terra, descobriremos que esta foi uma
perda irreparável.
Uma questão que está sendo
muito debanda é : Quem detém os direi
tos de desenvolvimento comercial sobre
a diversidade biológica do mundo? No
passado, as espécies eram coletadas
livremente onde quer que elas estives
sem, e as empresas, freqüentemente em
países desenvolvidos, vendiam então os
produtos resultantes com fins lucrativos.
Cada vez mais, os países do mundo em
desenvolvimento estão exigindo uma
parcela nas atividades comerciais resul
tantes da diversidade biológica encon-
Capítulo 1
rrada em suas fronteiras (Vogei, 1994). Tratados e procedimentos de desenvolvimento para
definir este processo serão o maior desafio dos próximos anos.
Recentemente, um acordo celebrado entre o Governo Brasileiro e uma Multinacio
nal Suíça quase facultou a esta, acesso irrestrito à Biodiversidade da Amazônia. O acordo foi
firmado entre a Bioamazônia, um braço autônomo do PROBEM da Amazônia - Programa
Brasileiro de Ecologia Molecular para o Uso Sustentável da Biodiversidade da Amazônia, e
a Novartis, uma multinacional suíça. Uma reunião da Secretaria dc Coordenação da Amazô
nia do Ministério do Meio Ambiente, no entanto, reviu as atribuições dc um convênio que
dava autonomia para a Bioamazônia firmar este ripo cie convênio, e uma medida provisória
(n° 2.052) foi promulgada em 29 de junho de 2000. Ela estabelece no seu artigo 2o, que:
A exploração do patrimônio genético existente no Pais somente será feita mediante autorização
ou permissão da União.
Valor de Existência
Muitas pessoas no mundo todo se preocupam com a vida selvagem
e com as plantas e estão voltadas para sua conservação (Randall, 1987).
Esta preocupação pode estar associada ao desejo de um dia visitar o habi
tat de uma espécie rara e ver esta espécie livre, caso contrário esta será
vista apenas como uma identificação abstrata. Algumas espécies tais como
a Baleia, o Mico Leão Dourado, o Lobo Guará, o Boto Rosa e muitos
pássaros, como a Gralha Azul, causam emparia nas pessoas e por isso sào
chamadas de “fauna carismática”^»™ 1.19).
No Brasil não chegamos a destinar muitos recursos para este
“ecologismo baleeiro” como é chamada a preocupação excessivamente
focada na espécie, independentemente de seu ambiente. Quando nós des
pertamos em relação ao nosso ambiente, na década de 80, já se acreditava
que é necessário conservar processos ecológicos, mais do que simples
mente espécies.
|á nos Estados Unidos, onde a preocupação ambientalista remonta
a alguns séculos, US$2,3 bilhões foram doados cm 1990 para organizações
6 0
Bioiocia da Conservação í Diversidade Bioiúgiu
FIGURA 1.19. A gralha ayil
(Cynocoras caem/ens) é uma ave
emblemática do Paraná. Acredita-
se que ela disperse as sementes
da Araucaria angustifoUa,
outra espécie emblemática
do Paraná. Espécies como a
gralha agf/l e a Araucária sào
chamadas de espécies carismáticas.
A conservação de espécies
carismáticas, se bem conduzida,
pode levar á conservação de
ecossistemas inteiros, como a
Mata de Araucária que ocupa
grande parte do Paraná.
ambientais de vida selvagem, tendo a Nature Conservancy, a World Wildlife Fund,
a Ducks Unlimited, e a Sierra Club no topo da lista de beneficiados (Grootnbridge,
1992). Os cidadãos também demonstram sua preocupação ao direcionarem seus
governos na destinação de dinheiro para programas de conservação. O governo dos
Estados Unidos já gastou mais de US$20 milhões para proteger uma única espécie
rara, o condor da Califórnia (Gymnogyps califonianus).
Apesar deste foco em uma única espécie parecer ingênuo, já que nenhuma
espécie vive separada de outras espécies e do seu ambiente, ele é uma estratégia con-
setvacionista de utilizar a “fauna carismática” para levantar fundos para conservar
também as outras espécies menos carismáticas, mas não menos importantes.
Tal valor de existência pode também ser dado às comunidadesbiológicas
tais como as florestas e os corais de recifes, e a áreas de beleza natural. Pessoas e
organizações doam grandes somas de dinheiro anualmente para assegurar a existência
61
Capítulo 1
continuada destes habitats. O dinheiro gasto para proteger a diversidade biológica,
particularmente nos países desenvolvidos, está na ordem de centenas de milhões,
se não bilhões, de dólares por ano. Esta soma representa o valor de existência de
espécies e comunidade; a quantia que as pessoas estão prontas a pagar para evitar
que espécies entrem em processo de extinção e que habitats sejam destruídos.
W
Considerações Éticas
Os métodos de economia ambiental representam um avanço científico, mas eles
também podem ser vistos como um sinal de aceitação do atual sistema econômico mundial
da maneira em que se encontra, com apenas pequenas alterações. Em um sistema econômi
co mundial no qual milhões de crianças morrem a cada ano por doença, desnutrição, crime
e guerra, e no qual milhares de espécies raras tomam-se extintas anualmente, devido à
destruição do habitat, nós precisamos de pequenas ou grandes alterações?
Uma abordagem complementar para proteger a diversidade biológica e melhorar a
condição humana através de uma legislação rigorosa, incentivos, multas e monitoramento
ambiental é mudar os valores fundamentais de nossa sociedade materialista. Se a preserva
ção do ambiente natural e a manutenção da diversidade biológica se tornassem um valor
fundamental em toda a sociedade, as conseqüências naturais seriam a teduçào do consu
mo de recursos e um crescimento limitado da população. Muitas culturas tradicionais têm
co-existido com sucesso com seu ambiente há milhares de anos, devide à ética social que
encoraja a responsabilidade pessoal e uso eficiente de recursos.
Os argumentos económicos são frequentemente apresentados para justificar a
proteção da diversidade biológica, mas há também fortes argumentos éticos para se fazer
isto (Rolston, 1988, 1989; Naess, 1989). Estes argumentos têm fundamento nos sistemas
de valores de muitas religiões, filosofias e culturas e, desta forma, podem ser prontamente
entendidos pelo público em geral. Argumentos éticos para a preservação da diversidade
biológica apelam para instintos mais nobtes das pessoas e são baseados em verdades amp
lamente aceitas. As pessoas aceitarão estes argumentos com base em seus próprios siste
mas de crenças (Hargrove, 1989; Callicot, 1994). Por outro lado, argumentos baseados em
princípios econômicos ainda estão sendo desenvolvidos e podem eventaalmente mostrar-
se inadequados, altamente imprecisos e não convincentes (Norton, 1988). Argumen-
6 2
(
B iologia da Conservação í D iversidade BioióGij
(
tos econômicos por si mesmos podem fornecer uma base para a valorização das |
espécies, porém eles também podem ser usados (ou abusados) para se decidir que
não precisaríamos salvar uma determinada espécie, ou que devemos salvar deter
minada espécie, mas não outra. Em termos econômicos, uma espécie que tem um
tamanho pequeno, pequena população, alcance geográfico limitado, e não é atraente
cm sua aparência, não tem uso imediato para as pessoas, e nenhuma relação com
qualquer espécie de importância econômica, será pouco valorizada. Estas qualidades
descrevem uma proporção substancial das espécies no mundo, particularmente inse
tos, outros invertebrados, fungos, plantas sem flores, bactérias e protistas. Esforços
dispendiosos para preservar estas espécies podem não ter justificativa econômica a I
curto prazo. I
Vários argumentos éticos podem ser apresentados para preservação de todas
as espécies, independente de seu valor econômico. Os seguintes princípios, basea
dos no valor intrínseco das espécies, são importantes para a biologia de conserva
ção, porque fornecem a justificativa para se proteger espécies raras e espécies com
nenhum valor econômico aparente.
Toda espécie tem o direito de existir. Todas as espécies representam
soluções biológicas singulares para o problema de sobrevivência. Com base nisto, a
sobrevivência de cada espécie deve ser garantida, independente de sua abundância ou
importância para nós. Isto é verdadeiro se a espécie é grande ou pequena, simples ou
complexa, velha ou recentemente surgida, de grande importância econômica ou de
pequeno valor imediato. Todas as espécies são parte da comunidade de seres vivos
e têm tanto direito quanto qualquer outro humano de existir. Toda espécie tem seu
próprio valor, um valor intrínseco não relacionado às necessidades humanas (Naess,
1986). Além de não ter o direito de destruir as espécies, as pessoas têm a respon
sabilidade de agir para evitar que as espécies entrem em extinção como resultado das
ações do homem. Este argumento apresenta os humanos como parte de uma comu
nidade biódca maior, na qual respeitamos e reverenciamos todas as espécies.
Como podemos designar direitos de existência e proteção legal a espécies não
humanas quando não se tem a auto-consciência que é geralmente associada à morali
dade de direitos e deveres? Além disso, como podem as espécies não humanas, tais
como os líquens e fungos, ter direitos, uma vez que não possuem o sistema nervoso
para terem a percepção de seu próprio ambiente? Muitos que são a favor da ética
ambiental, acreditam que as espécies reivindicam com sua vontade de viver, através
63
Capítulo 1
de sua procriação e sua contínua adaptação evolucionária ao ambien
te em transformação. A extinção prematura de uma espécie devido às
atividades humanas destrói este processo natural, e pode ser vista como
um "assassinato em massa" (Rolston, 1985) porque mata não apenas
indivíduos vivos, mas também futuras gerações de espécies e elimina os
processos de evolução e especiaçâo.
Todas as espécies são interdependentes. As espécies intera
gem de modo complexo como parte de comunidades naturais. A perda
de uma espécie pode ter conseqüências de longo alcance para outros
membros da comunidade.
Outras espécies podem se tornar extintas err. resposta, ou a
comunidade toda pode se desestabilizar como efeito cascata da extinção
das espécies. À medida que aprendemos mais sobre os processos glo
bais, descobrimos também que muitas características químicas e físicas
da atmosfera, do clima e do oceano interagem com processos biológi
cos, de modo que processos físicos, químicos e biológicos se auto-regu-
lam. A idéia de que a Terra é um super ecossistema, no qual a comu
nidade biódea tem seu papel na criação e manutenção de condições
adequadas para a vida, é apresentada na hipótese de Gaia (Lovelock,
1988). Se este for o caso, nossos instintos de auto-preservação podem
nos impelir a preservar a biodiversidade. E curioso pensar que a própria
gaia tenha nos impelido a escrever este livro, e você a lê-lo. Nós somos
obrigados a conservar o sistema como um todo porque isto é a unidade
de sobrevivência apropriada.
Os humanos devem viver dentro das mesmas limitações
em que vivem outras espécies. Todas as espécies no mundo são res
tritas pela capacidade de carga biológica de seu ambiente. Cada espécie
utiliza recursos de seu ambiente para sobreviver, e a densidade de uma
espécie se reduz quando seus recursos tornam-se escassos. Os humanos
devem ser cuidadosos em diminuir o dano que causam a seu ambiente
natural, porque tal dano prejudica não só outras espéaes, mas também
os próprios humanos. Muito da poluição e da degradação ambiental
que ocorre é desnecessária e poderia ser minimizada com melhor plane
jamento.
64
Biologia oa Conservação e Diversidade Biológica
FIG UR A 1.20.
Hierarquia ética,
onde a preocupação
individual se estende
para nineis cada
vez wais amplos,
além do indivíduo.
(Noss, 1992)
A sociedade tem a responsabilidade de proteger a
Terra. Se degradarmos os recursos naturais da Terra e fizermos
com que as espécies se tornem extintas, as gerações futuras terão
que pagaro preço em termos de um padrão inferior de qualidade
de vida. Portanto, a pessoas hoje deveriam usar os recursos de
maneira sustentável para que não danifiquem as espécies e comu
nidades. Nós podemos imaginar que estamos tomando empresta
do a Terra das gerações futuras, e que elas esperam recebê-la em
boas condições.
O respeito pela vida e diversidade hum ana é com
patível com o respeito pela diversidade biológica. Uma apre
ciação da complexidade da cultura humana e do mundo natural
faz com que as pessoas respeitem todas as formas de vida. Esfor
ços para trazer paz entre as nações do mundo e para erradicar a
pobreza, a criminalidade e o racismo beneficiarão as pessoas e
a diversidade biológica ao mesmo tempo, porque a
violência dentro e entre as sociedades huma
nas é um dos principais destruidores
da diversidade biológica. A maturi
dade humana leva naturalmente
a uma "identificação com
todas as formas de vida" e ao
"reconhecimento do valor
intrínseco destas formas"
(Naess, 1986). Esta visão
engloba um círculo em
expansão das obrigações
morais, saindo de si mesmo
para incluir deveres com
aqueles da sua família, do seu
grupo social, de toda a humani
dade, animais, todas as espécies,
o ecossistema, e finalmente a Terra
toda (Noss, 1992, figura 1.20,).
6 5
Capiiulo 1
A natureza tem um valor estético e espiritual que trans
cende seu valor econômico. Através de toda a história, pensadores
religiosos, poetas, escritores, artistas e músicos de todos os estilos têm
tirado inspiração da natureza. Para muitas pessoas, uma qualidade
essencial desta inspiração requer vivenciar a natureza em um ambiente
intocado. Simplesmente ler sobre as espécies ou vê-las em museus,
jardins e zoológicos não será suficiente. Quase todos gostam da vida
selvagem e de paisagens bonitas, e muitas pessoas consideram a Terra
uma criação divina com sua própria bondade e valor que devem ser
respeitados.
A diversidade biológica é necessária para determ inar a
origem da vida. Dois dos mistérios centrais no mundo da filosofia e
da ciência são como a vida se originou e como surgiu a diversidade da
vida encontrada hoje na Terra. Milhares de biólogos estão trabalhan
do nestas questões e estão cada vez mais próximos de respondê-las.
Entretanto, quando as espécies se tornam extintas, pistas importantes
se perdem, e o mistério fica mais difícil de ser solucionado.
Abordagens Filosóficas
Em todo o mundo, organizações ativistas ambientais, tais como o WWF Greenpeace
e a Earthfirst!, estão comprometidas em usar seu conhecimento sobre questões ambientais
para proteger as espécies e os ecossistemas. Uma das filosofias ambientais mais desenvolvi
das que apoiam este ativismo está descrita no livro Deep Ecolog: Living A : i f Nature Mattered
(Devall e Sessions, 1985; Sessions, 1987). Ecologia profunda se baseia na premissa de que
todas as espécies têm valor em si mesmas, e que os humanos não têm o direito de reduzir
esta riqueza. Uma vez que atividades humanas atualmente estão destruindo a diversidade
biológica da Terra, estruturas políticas, econômicas, tecnológicas e ideológicas devem ser
mudadas. Essas mudanças levam à melhoria da qualidade de vida das pessoas, com ênfase
na melhoria da qualidade do ambiente, da estética, da cultura e da religião mais do que dos
níveis mais altos de consumo material. A filosofia da ecologia profunda inclui obrigação
de se trabalhar para implementar as mudanças necessárias através do ativismo politico e o
comprometimento com as mudanças de estilo de vida de cada um.
6 6
(
Bioiogm DA Co m w a ü o í Divcrsidaoc BlOltf
Resumo
1. A biologia de conservação é uma síntese de algumas disciplinas cientí
ficas que lida com a crise sem precedentes da biodiversidade atual. Ela
combina as abordagens de pesquisa básica e aplicada para evitar a perda da
biodiversidade: especificamente, a extinção das espécies, a perda da variabi
lidade genética e a destruição de comunidades biológicas.
2. A biologia de conservação baseia-se em um número de premissas acei
tas pela maioria dos biólogos conservacionistas: A diversidade das espé
cies é positiva; a extinção das espécies devido à ação do homem é negativa;
a interação complexa das espécies em comunidades naturais é positiva; a
evolução das espécies é positiva; a diversidade biológica tem valor em si
mesma.
3. A diversidade biológica da Terra inclui: a extensão total de espécies vivas,
a variação genética que ocorre entre os indivíduos dentro de uma espécie,
as comunidades biológicas nas quais as espécies vivem, e as interações no
nível do ecossistema da comunidade com o ambiente físico e químico.
4. Certas espécies-chave parecem ser importantes para a sustentabilidade de
outras espécies em uma comunidade. Recursos essenciais, tais como des
ovar em uma praia, ocupam uma pequena fração de um habitat, mas podem
ser cruciais para a persistência de muitas espécies na área.
5. A maior diversidade biológica é encontrada nas regiões tropicais do mun
do, com grandes concentrações nas florestas tropicais, recifes de corais,
lagos tropicais e alto mar. A maioria das espécies do mundo ainda não foi
descrita e identificada.
6.0 novo campo da economia ambiental está desenvolvendo métodos para
estimar o valor da diversidade biológica, e com isso, está apresentando argu
mentos para sua proteção. Grandes projetos de desenvolvimento estão cada
vez mais sendo analisados por avaliações de impacto ambiental e análises
de custo-benefício, antes de serem aprovados.
7. Componentes da diversidade biológica podem receber valores econômi
cos diretos, designados a produtos consumidos pelas pessoas, ou valores
econômicos indiretos, destinados a benefícios fornecidos pela diversidade
biológica, que não envolvem o consumo ou destruição de recursos. Valores
(
(
(
(
(
c
(
(
c
(
(
(
(
(
(
(
6 7
Capítulo 1
diretos podem ainda ser divididos em valor de consumo e valor produtivo. Valor de
consumo é dado a produtos que são consumidos localmente, tais como a madeira
para queima, medicamentos locais e material para construção.
8. Valor indireto pode ser destinado a produtos coletados na vida selvagem e ven
didos em mercados, tais como a madeira e o pescado com fins comerciais. As espé
cies coletadas na natureza têm grande valor produtivo no seu potencial de fornecer
novas espécies cultivadas e de melhoria genética de espécies agrícolas. As espécies
nativas também têm sido fonte principal de novos medicamentos.
9. Valor produdvo pode ser destinado a aspectos da diversidade biológica que
provem benefícios econômicos para as pessoas, mas não são consumidos ou danifi
cados durante este uso. Valores não consumistas dos ecossistemas incluem a produ
tividade do ecossistema, proteção do solo e de recursos da água, as interações das
espécies silvestres com plantações comerciais, e o controle climático.
10. A diversidade biológica é parte da fundamentação do lazer ao ar livre e das
indústrias de ecoturismo. Em muitos países em desenvolvimento, o ecoturismo rep
resenta uma das maiores fontes geradoras de renda.
11. A diversidade biológica também tem uma opção de valor, cm termos de seu
potencial, para fornecer futuros benefícios à sociedade humana, tais como novos
medicamentos, agentes de controle biológico e plantações. Ela tem também um
valor de existência, baseado na quantia de dinheiro que as pessoas estão prontas a
pagar para proteger a diversidade biológica.
12. A diversidade biológica pode ser justificada em termos éticos tanto quanto em
termos econômicos. Os sistemas de valores da maioria das religiões, filosofias e
culturas fornecem justificativas para se preservar as espécies que são prontamente
entendidas pelas pessoas. Estas justificativas favorecem a proteção até mesmo de
espécies que não têm um valor econômico aparente para as pessoas.
13. O argumento ético mais importante é o de queas espécies têm o direito de
existir baseado em um valor em si mesmo, não relacionado às necessidades huma
nas. As pessoas não têm o direito de destruir as espécies e devem agir para evitar a
sua extinção.
6 8
Conservado de Popuuções e Espécies
CA P ÍTU LO 0
Conservação de
Populações e Espécies
Os esforços de conservação são freqüentemente dirigidos à proteção
de espécies cuja população encontra-se em declínio e ameaçada de exdnção.
Os biólogos de conservação devem determinar a estabilidade das populações
em determinadas circunstâncias, a fim de preservar as espécies nas condições
impostas pela ação do homem. Conseguiria a população de uma espécie amea
çada sobreviver, ou até mesmo aumentar se mantida em uma reserva natural?
Ou a espécie está em declínio, e necessita de atenção especial para que não se
torne extinta?
Muitos parques nacionais e santuários de vida selvagem têm sido cria
dos para proteger “espécies carismática? ', tais como o Mico Leão Dourado na
Reserva Biológica de Poço das Antas ou o Parque Nacional do Pau Brasil, em
Porto Seguro, que são importantes como símbolos nacionais, e até como atra
ções turísticas. Entretanto, simplesmente estabelecer que as comunidades nas
quais essas espécies vivem, sejam áreas protegidas pode, não ser suficiente para
evitar seu declínio e a sua extinção, mesmo quando legalmente protegidas. Os
santuários geralmente são criados apenas após a maioria das populações de
uma espécie ameaçada já ter sido reduzida pela perda, degradação e fragmen
tação do habitat, ou exploração excessiva. Nestas circunstâncias, uma espécie
pode ser levada à extinção rapidamente. Também, indivíduos fora dos limites
das unidades de conservação permanecem desprotegidos e em risco.
1 3 5
No passado, ONGS e ecologistas se preocuparam unicamente com espécies ca
rismáticas, de um modo quase que “pessoal’. Mais tccentemente, petcebeu-se que este en
foque é pouco efetivo para a conservação de espécies, já que nenhuma espécie pode ser
conservada independentemente de seu ambiente.
FIGURA 3.1. Espiats
carismáticas como o Lobo-
Guará despertam o a feto do
público em gerai Cabe aos
conservacionistas mostrar para
as pessoas a conexão entre
uma espécie carismática, as
outras espécies, o homem e o
ambiente como um todo (Loto
Dr José Carlos A \otta Jr ■ l KS P).
Os Problemas das Pequenas Populações
Como regra geral, um plano de conservação para uma espécie ameaçada requer que
o maior número possível de indivíduos seja preservado em um habitat protegido. Entretan
to, essa afirmação genérica não prevê diretrizes específicas para apoiar planejadores, admi
nistradores, polídeos e biólogos da vida silvestre em suas tentativas de evitar a extinção das
espécies. O problema é agravado pelo fato de que planejadores freqüentemente atuam sem
um entendimento adequado da extensão e das necessidades dos habitats. Por exemplo, os
5.300 ha da Reserva Biológica de Poço das Antas (RJ), onde vivem aproximadamente 400
Micos-Leòes-Dourados, são suficientes para sua preservação, ou seria necessário que seu
habitat fosse preservado para um número de 500, 5.000, 50.000, ou ainda mais indivíduos?
Além disso, os planejadores devem conciliar demandas conflitantes sobre recursos limita
dos - um problema bem evidenciado no debate sobre as alterações no Código Florestal,
que coloca frente a frente a questão vegetação nativa versus área agricultável.
Conservação de Popuuções í Espíges
Em um trabalho pioneiro, Shaffer (1981) definiu o número de indivíduos ne
cessário para assegurar a sobrevivência de uma espécie como sendo sua população
viável m ínim a (PVM): “Vma população viável mínima para qualquer espécie em um deter
minado habitat é a menor população isolada que tenha 99% de chances de continuar existindo por
1.000 anos, a despeito dos efeitos previsíveis de estocasticidade genética, ambiental e demográfica, c
de catástrofes naturais". Em outras palavras, uma PVM é a menor população que tenha
uma grande chance de sobrevivência no futuro. Shaffer enfatizou a natureza especu
lativa dessa definição, afirmando que as probabilidades de sobrevivência poderiam
ser estabelecidas em 95%, 99%, ou qualquer outra porcentagem, e que o tempo
poderia do mesmo modo ser ajustado, por exemplo, para 100 ou 500 anos. O pon
to-chave da PVM é que ela permite uma estimativa para se quantificar os indivíduos
necessários para que uma espécie seja preservada (Menges, 1991).
Shaffer (1981) compara os esforços de proteção da PVM com os esforços de
controle de inundações. Ao planejar sistemas de controle de inundações e regular a
construção em áreas alagáveis, não basta ter como ponto de referência a média anual
de densidade pluviométrica. É necessário planejar para prevenir inundações sérias,
mesmo que estas ocorram .somente uma vez a cada 50 anos. Do mesmo modo, em
relação aos sistemas naturais de proteção, entendemos que certos eventos catastró
ficos, tais como grandes furacões, terremotos, incêndios em florestas, erupções vul
cânicas, epidemias e desaparecimento progressivo de fontes de alimentos, podem
ocorrer em intervalos até mesmo maiores. Para se planejar a proteção a longo prazo
de uma espécie ameaçada, nós não apenas temos que considerar as necessidades da
espécie em anos normais, mas também em anos excepcionais. Em anos de seca, por
exemplo, os animais podem migrar para bem mais além das suas áreas normais, a
fim de obter a água que precisam para sobreviver.
Para se ter um número preciso da PVM de uma determinada espécie, é ne
cessário um estudo demográfico detalhado da população e uma análise ambiental da
área. Isto pode custar muito e exigir meses ou até mesmo anos de pesquisa (Thom-
as. 1990). Alguns biólogos têm sugerido de 500 a 1.000 indivíduos para vertebrados
como o número a ser protegido, de modo geral. Esta quantia parece ser a adequada
para que se consiga preservar uma variabilidade genética (Lande, 1988). Ao garantir
este número, é possível, então, que um mínimo de indivíduos sobreviva em anos
catastróficos e sua população retome ao seu nível anterior. Para espécies com ta
manhos populacionais extremamente variáveis, tais como certos invertebrados e
1 3 7
Capítulo 3
plantas anuais, tem-se sugerido a proteção
de urna população de cerca de 10.000 indi
víduos, como estratégia eficaz.
Uma vez que uma população viável
mínima tenha sido determinada para uma
certa espécie, a área dinâm ica m ínim a
(ADM), ou seja, a extensão de habitat ad
equado para manter esta PMV pode então
ser calculada. A ADM pode ser estimada
através de um estudo dos tamanhos de
áreas de habitação dos indivíduos e dos
grupos (Thiollay 1989). As estimativas são
de que reservas de 10,000 a 100,000 ha são
necessárias para a preservação de popu
lações de mamíferos de pequeno porte
(Schonewald - Cox 1983). Já para a preser
vação das Onças do Pantanal, por exemplo,
a superfície envolvida é enorme. Uma única
onça ocupa 14.200 ha (Crawshaw e Quigs-
ley, 1991).
Um dos exemplos melhor documen
tados de determinação de densidade popu
lacional viável mínima, vem de um estudo
sobre a sobrevivência de 120 ovelhas (Ovis
canadensis) nos desertos do Sudoeste dos
Estados Unidos (Berger, 1990). Algumas
dessas populações têm sido acompanhadas
por até 70 anos. Uma observação surpreen
dente foi a de que 100% das populações
com menos de 50 indivíduos se extinguiram
em 50 anos, enquanto que quase todas as
populações acima de 100 sobreviveram
nesse mesmo período de tempo (figura 3.2).
Estudos em campo e a longo prazo, com
pássaros das Ilhas do Canal da Mancha,
evidenciam a necessidade de grandes popu
lações para garantia de sua sobrevivência.
Somente as populações acima de 100 pares
tiveram uma chance maior que 90% de so
brevivência ao longo de 80 anos (Jones e
Diamond, 1976). Entretanto, não devemos
ignorar totalmente as populações pequenas:muitas populações de pássaros têm apar
entemente sobrevivido por 80 anos com 10
ou menos casais.
Apesar das exceções, as grandes
populações são necessárias para a proteção
da maioria das espécies, e as espécies com
baixa densidade demográfica encontram-
se em perigo ainda maior de extinção. As
pequenas populações estão sujeitas a um rá
pido declínio em número e à extinção local,
devido a 3 razões principais: problemas re
sultantes da perda de variabilidade genética,
endogamia e deriva genética; flutuações de
mográficas devido a variações ao acaso, nas
taxas de nascimento e mortalidade; flutua
ções ambientais devido às variações de
ação predatória, competição, incidência de
doenças e suprimentos de alimentos, assim
como catástrofes naturais resultantes de
eventos singulares em intervalos irregulares,
tais como incêndios, enchentes ou secas.
138
Conservação de Populações e Espécies
FIGURA 3.2. Relação entre
a densidade demográfica da
orelha Ovis canadensis e
a porcentagem de populações
que sobrevivem ao longo
do tempo. Os números no
gráfico indicam o tamanho
da população (N). Quase
todas as populações com mais
de 100 orelhas sobreviveram
mais de 50 anos, enquanto
populações com menos de 50
se extinguiram no mesmo
período. (Berger, 1990)
#ÍTULO 3
Perda de variabilidade genética
A variabilidade genética é impor
tante porque permite que as populações
se adaptem a um ambiente em transfor
mação (ver Capítulo 1). Indivíduos com
certos alelos ou combinações de alelos
podem ter exatamente as característi
cas necessárias para sobreviver e repro
duzir em situações novas. Dentro de
uma população, certos alelos podem ter
uma freqüência que varia de comum a
muito rara. Em populações pequenas, as
freqüências podem ser diferentes de uma
geração para outra, aleatoriamente, de
pendendo simplesmente do acasalamento
e reprodução dos indivíduos. Este é um
processo conhecido como deriva gené
tica. Quando a freqüência de um alelo em
uma população pequena é baixa, este tem
grandes possibilidades de se perder a cada
geração que passa. Considerando, teori
camente, uma população isolada na qual
há dois alelos por gene, Wrigth (1931)
propôs uma fórmula para expressar a ex
pectativa de declínio de heterozigozidade
(indivíduos possuindo duas formas dife
rentes de alelo do mesmo gene) por gera
ção (AF) para uma população de adultos
procriadores (Ne):
AF = _L
2Ne
De acordo com essa equação, uma
população de 50 indivíduos demonstraria um
declínio em heterozigozidade de 1% (1/ 100)
por geração, devido à perda de alelos raros.
Uma população de 10 indivíduos teria um
declínio de 5% (1/20, ou 5/100) por geração
{figura 3.3).
Esta fórmula demonstra que perdas
significativas de variabilidade genética podem
ocorrer em populações pequenas isoladas.
Entretanto, a migração de indivíduos entre
populações e a mutação regular de genes ten
dem a aumentar a variabilidade genética em
uma população e a equilibrar os efeitos da
deriva genética. Mesmo uma baixa freqüên
cia de movimento entre populações minimiza
a perda de variabilidade genética associada à
pequena densidade demográfica (Lacey, 1987).
Se apenas um novo imigrante chegar, a cada
geração, em uma população isolada de cerca
de 100 indivíduos, a deriva genética será mín
ima. Tal íluxo genético parece ser o princi
pal fator preventivo da perda de variabilidade
genética nos tentilhões das ilhas de Galápa-
gos (Grant e Grant, 1992). Embora as taxas
de mutação encontradas na natureza — cerca
de 1 em 1.000 até 1 em 10.000 por gene, por
1 4 0
Conservação de Populações e Espécies
geração - possam compensar as perdas
randômicas de alelos em grandes popu
lações, elas não afetam a deriva genética
em populações pequenas de aproxima
damente 100 ou menos indivíduos.
Além das teorias e simulações,
dados de campo também demonstram
que uma baixa densidade demográ
fica leva a população a uma perda mais
rápida de alelos. Em uma espécie de
conífera da Nova Zelândia, populações
pequenas sofreram perdas muito maio
res de variabilidade genédea do que
grandes populações (Billington, 1991).
Quando 11 pares de espécies de plan
tas foram comparados, todas as espécies
raras apresentaram variabilidade gené
rica menor do que as espécies comuns
do mesmo gênero (Karron, 1987). Uma
extensa revisão de estudos sobre variabi
lidade genérica em plantas, demonstrou
que apenas 8 de 113 espécies não tin
ham variabilidade genérica mensurável,
e que a maioria dessas 8 espécies eram
de ocorrência limitada (Hamrick e Godt,
1989).
Pequenas populações sujeitas
à deriva genérica são mais suscetíveis a
efeitos genéricos deletérios, tais como
depressão endogâmica, perda da flexi
bilidade evolucionária e depressão ex-
ogâmica. Estes fatores podem contribuir
para um declínio no tamanho da popula
ção e para uma maior probabilidade de
Ne = 1000
FIGURA 3.3. A iwiabilidade
genética é perdida aleatoriamente
com o passar do tempo, através
da deriva genética. Este gráfico
mostra a porcentagem média de
variabilidade genética restante
após 10 gerações em populações
hipotéticas de várias densidades
demográficas (Ne). Após
10 f f rações, há nina perda
de variabilidade genética de
aproximadamente 40% em unia
população de de\ indivíduos;
65% em uma densidade
demográfica de cinco; e 95 %
em uma população com dois
indivíduos.
141
ÍPÍTUIO 3
extinção (Ellstrand e Hlam 1993; Tomhill
1993; Loeschcke et al. 1994).
D epressão endogâm ica. Vários
mecanismos evitam a endogamia na maio
ria das populações silvestres. Em grandes
populações da maior parte das espécies
animais, os inidivíduos normalmente
não se acasalam com parentes próximos.
Frequentemente, ou eles se dispersam do
seu local de nascimento, ou o seu acasala
mento com parentes é inibido por odores
que são únicos e singulares, ou por outras
pistas sensoriais. Em muitas plantas, uma
variedade de mecanismos morfológicos
e fisiológicos favorece a polinização cru
zada e evita a autopolinizaçào. Em al
guns casos, entretanto, particularmente
quando a densidade demográfica é baixa
e nenhum outro acasalamento é possível,
estes mecanismos não conseguem evitar a
endogamia. O acasalamento entre paren
tes próximos, tais como pais e suas crias,
irmãos e primos, e a auto-fertilização em
espécies hermafroditas podem resultar em
depressão endogâm ica, caracterizada
por um número menor de cria ou por
uma cria fraca e estéril (Ralis et al., 1988)
Por exemplo, plantas da gilia escarlate
(Ipomopis aggregata) provenientes de popu
lações com menos de 100 indivíduos, pro
duzem sementes menores com uma taxa
inferior de germinação e apresentam su
scetibilidade maior ao estresse ambiental
do que as de populações maiores (Heschel
e Paige, 1995). Tais sintomas, associados à
depressão endogâmica e perdas de varia
ção genética, diminuem quando plantas de
populações pequenas são polinizadas por
cruzamento com o pólen de plantas de
grandes populações.
A explicação mais plausível para a
depressão endogâmica é que ela permite
a presença de alelos nocivos herdados de
ambos os pais (Charlesworth e Charles-
worth, 1987; Barrett and Kohn, 1991;). A
depressão endogâmica pode ser um prob
lema grave para pequenas populações que
vivem em cativeiro em zoológicos e em
programas de criação doméstica, e tam
bém parece ser significativa em algumas
populações selvagens (Jiménez et al., 1994;
Keller et al., 1994).
D epressão exogâmica. Indi
víduos de diferentes espécies raramente
se acasalam no ambiente selvagem, devido
a um número de mecanismos comporta-
mentais, fisiológicos e morfológicos que
assegura que o acasalamento aconteça
somente entre os de uma mesma espécie.
Entretanto, quando uma espécie é rara ou
seu habitat é danificado, o acasalamento
exogàmico - acasalamentoentre espé
cies diferentes - pode ocorrer. Os indi
víduos, incapazes de encontrar parceiros
4 2
Co»SiRV*(ÁO 0[ Popuuhõis i Espícies
dentro de suas próprias espécies, podem acasalar-se com uma espécie próxima. A
cria resultante é frequentemente fraca ou estéril devido à falta de compatibilidade
dos cromossomos e dos sistemas enzimáticos herdados de seus pais diferentes, uma
condição conhecida como depressão exogâmica (Templeton, 1986; Thornhill,
1993). Esta cria híbrida pode também não ter mais a combinação precisa de genes
que permitiria aos indivíduos sobreviverem em determinadas condições locais. A de
pressão exogâmica pode também ocorrer como resultado de um acasalamento entre
subespécies diferentes, ou até mesmo acasalamentos entre genótipos divergentes ou
populações da mesma espécie. Os programas de criação em cativeiro devem atentar
para a depressão exogâmica, evitando a parceria de indivíduos provenientes de pon
tos geográficos extremos.
A depressão exogâmica pode ser particularmente importante nas plantas, nas
quais a seleção do parceiro é, até certo ponto, uma questão de movimento aleatório
do pólen (Waser e Price,1989). Uma espécie de planta rara que cresça perto de uma
outra espécie comum com a qual ela seja aparentada, pode ser dominada pelo pólen
da espécie comum. Isto pode levar a uma procriação estéril ou a uma indefinição
dos limites das espécies (Ellstrand, 1992). Situações como esta podem estar ocor
rendo em locais como o Campus da Unicamp, em Campinas-SP, que concentra in
úmeras espécies de todo o Brasil, trazidas por décadas pelo Prof Hermógenes Leitão
(veja Capítulo 2). Ainda que a depressão exogâmica possa representar algum prob
lema local, especialmente em arboretos, estes locais representam uma oportunidade
única para educação dos novos conservacionistas. A depressão exogâmica, apesar
de representar um perigo possível, parece causar bem menos problemas do que a
depressão endogâmica.
Perda da flexibilidade evolucionária. Alelos raros e combinações inco-
muns de alelos que, em determinado momento, não oferecem vantagem alguma,
podem mais tarde ser considerados adequados para determinadas condições ambi
entais. A perda de variabilidade genética em uma população pequena pode limitar a
habilidade da população em conviver com as mudanças a longo prazo do ambiente,
tais como poluição, novas doenças ou mudança climática global (Allendorf e Leary,
1986). Sem variabilidade genética suficiente, uma espécie pode chegar à extinção.
1 4 3
' píniio 3
T am anho efetivo de população.
Quantos indivíduos são necessários
para manter a variabilidade genética
de uma população? Franklin (1980)
sugeriu que 50 indivíduos poderia ser
o número mínimo necessário para
manter a variabilidade genética. Este
número foi baseado na experiência
prática de criadores de animais, que
indica que os animais podem ser
mantidos com uma perda de 2% a
3% de sua variabilidade por geração.
A fórmula de Wright mostra que uma
população de 50 indivíduos perderá
apenas 1% de sua variabilidade por
geração. Portanto, o uso dessa fór
mula nos daria uma margem pequena
de erro. Entretanto, uma vez que
essa fórmula é baseada no trabalho
com animais domésticos, sua apli
cabilidade para as inúmeras espécies
silvestres é incerta. Usando dados
sobre taxas de mutação em moscas
de frutas (Drosopbila. sp), Franklin
(1980) sugeriu, que nas populações
de 500 indivíduos, a taxa de nova
variabilidade genética resultante da
mutação, poderia equilibrar a vari
abilidade que se perde devido à den
sidade demográfica. Essae conceito é
conhecido como a regra de 50/500:
as populações isoladas precisam ter,
pelo menos, 50 indivíduos, e pref-
crencialmente 500, para manter sua
variabilidade genética.
A regra de 50/500 é difícil de
se aplicar na prática, porque ela supõe
que uma população é composta de
N indivíduos, onde todos têm uma
probabilidade igual de acasalamento
e de procriação. Entretanto, em uma
população, muitos indivíduos não
procriam detido a fatores tais como
idade, saúde, esterilidade, desnu
trição, tamanho reduzido, ou estru
turas sociais que não permitem que
alguns animais encontrem parceiros.
Como resultado desses fatores, a ta
m anho efetivo de população (Ne)
de indivíduos reprodutores é, com
freqüência, muito menor do que a
verdadeira densidade populacional.
Uma vez que a taxa de perda de vari
abilidade genética é baseada na den
sidade demográfica eficaz, a perda
de variabilidade genética pode ser
bem acentuada, mesmo quando o
tamanho populacional real é muito
maior (Kimura e Crow, 1963; Lande
e Barrow-Clough, 1987; Nunney e
Elam, 1994). Uma densidade de
mográfica eficaz e menor do que a
esperada pode ocorrer em qualquer
das seguintes circunstâncias:
44
Conservação de Po pula çõ es e Espécies
Proporção desigual de sexos. Por puro acaso, a população pode ter números
desiguais de machos e fêmeas. Se, por exemplo, uma população de uma espécie de
ave monogâmica (na qual um macho e uma fêmea têm uma relação duradoura) tem
20 machos e 6 fêmeas, somente 12 indivíduos estarão envolvidos na atividade de
acasalamento. Neste caso, a densidade demográfica eficaz é 12, não 26. Em outras
espécies animais, os sistemas sociais podem não permitir que muitos indivíduos se
acasalem, embora eles sejam fisiologicamente capazes: no caso de elefantes marin
hos, por exemplo, um macho dominante pode controlar um grande grupo de fêmeas
e não permitir que outros machos se acasalem.
O efeito de números desiguais de machos e fêmeas em acasalamento sobre o
Ne, pode ser descrito pela fórmula geral:
N e =
4n n ,m i
N + N ,m t
onde Nm e N f são, respectivamente, os números de machos e de fêmeas que
se acasalam na população. Em geral, como a proporção de gênero de indivíduos que
se acasalam torna-se cada vez mais desigual, a proporção da densidade demográfica
eficaz quanto ao número de indivíduos reprodutores também diminui (Ne/N).
Variação na reprodução. Em muitas espécies, o número de crias varia
substancialmente entre os indivíduos. Isto é particularmente verdadeiro em plantas,
onde alguns indivíduos podem produzir algumas sementes enquanto outros produ
zem milhares de sementes. A procriação desigual leva a uma redução substancial do
Ne, porque alguns indivíduos de uma geração atual serão representados despropor
cionalmente no pool genético da próxima geração (Crow e Morton, 1955).
Flutuações de população e “bottlenecks” . Em algumas espécies, a den
sidade demográfica varia drasticamente de geração para geração. Exemplos particu
larmente bons de populações com tal variação são as borboletas, as plantas anuais
e os anfíbios (Pechmann et al. 1991). Nas populações que apresentam tais flutua
ções extremas, a densidade demográfica eficaz fica entre o maior e o menor número
de indivíduos. Entretanto, a densidade tende a ser determinada pelos anos, com os
números mais reduzidos. Um único ano em que a população foi drasticamente redu
zida, o valor de Ne será substancialmente diminuído.
1 4 5
»MILO 3
FIGURA 3.5. Liedes de populações
isoladas e endogâmicas
encontrados na C ratera
Ngorongoro, na T ansan ia ,
apresentam um alto n ivel de
anorm alidades de esperm a. (s \)
Fi Sperma de um leão norm al.
(B ) E Sperma Bicefálico ("duas
cabeças ”) . (C ) E sperm a não
fu n c io n a ! com um Jiagelo em
form a de espiral.
(Fotografia de D. WUdt.).
Este princípio tem relação com um fenô
meno chamado de efeito bottleneck (gargalo de
garrafa). Quando uma população é muito reduzida
cm tamanho, alelos raros se perdem se nenhum
dos indivíduos que os possuem sobrevive e repro
duz (Carson, 1983). Com menos alelos presentes
e um declínio na heterozigosidade, a adequação
média dos indivíduos na população pode diminu
ir. Uma categoria especial de bottleneck, conheci
da como efeito fundador,ocorre quando alguns
indivíduos deixam uma grande população para es
tabelecer uma nova população. A nova população
freqüentemente tem menos variabilidade genética
do que a população original.
Os leões da Cratera de Ngorongoro, na
Tanzânia, são um exemplo bem estudado de afu
nilamento genético (Packer et al., 1991; Packer
,1992). A população de leões era de 60 a 75 in
divíduos até a disseminação de moscas em 1962,
que reduziu a população para 9 fêmeas e 1 macho.
Dois anos mais tarde, 7 outros machos imigra
ram para esta cratera, não havendo mais imigra
ção desde então. O número reduzido de funda
dores, o isolamento da população, e a variação no
sucesso da reprodução entre os indivíduos, apa
rentemente, criaram um afunilamento genético,
embora a população tenha subseqüentemente au
mentado de 75 para 125. Em comparação com a
grande população de leões de Serengeti, próxima
da região, os leões da cratera mostraram variabili
dade genética reduzida, altos níveis de anormali
dades de esperma (figura 3.5) e reduzidas taxas de
reprodução.
46
CONSItVÂ AO Dl PoniUHÓIS I [SPÍEIES
Variação demográfica
Em um ambiente estável ideal, uma população aumentará até que atinja a
capacidade de carga do ambiente. Neste ponto, a taxa média de nascimento por in
divíduo é igual à taxa de mortalidade, e não há nenhuma alteração no tamanho da
população. Em uma população real, entretanto, os indivíduos geralmente não pro
duzem o número médio de crias, mas podem ou não procriar, procriar abaixo da
média, ou acima da média. A taxa média de nascimento é uma descrição apurada do
que está ocorrendo em uma população, somente quando esta população é grande.
Do mesmo modo, a taxa média de mortalidade de uma população pode ser determi
nada pelo estudo de grandes números de indivíduos.
Quando a densidade fica abaixo de 50 indivíduos, a variação nas taxas de nas
cimento e mortalidade começa a fazer com que o tamanho da população flutue aleato
riamente para cima ou para baixo. Se o tamanho da população diminui em um deter
minado ano devido a número médio maior de morte e um número médio menor de
nascimento, a população resultante será ainda mais susceptível a flutuações demográ
ficas nos anos seguintes. Flutuações aleatórias de aumento no tamanho da população
estão sujeitas à capacidade de transporte do ambiente, e a população pode novamente
entrar em declínio. Conseqüentemente, uma vez que a população se torna pequena
devido à destruição e fragmentação do habitat, esta variação demográfica, também
conhecida como estocasticidade demográfica, torna-se um fator importante, e a popu
lação tem uma probabilidade maior de se tornar extinta decido ao acaso. O risco de
extinção é também maior em espécies que têm taxas baixas de nascimento, tais como
as árvores de sombra, porque estas espécies levam mais tempo para se recuperar de
uma redução ao acaso na sua densidade demográfica.
A proporção de sexos é uma questão fundamental para populações, especial
mente as pequenas. Os últimos três indivíduos de uma margarida lacustre encontra
dos em Illinois-EUA foram incapazes de produzir sementes viáveis por ocasião de
polinização cruzada porque pertenciam a um mesmo tipo auto-incompatível. Quan
do uma população se reduz a um número crítico, há a possibilidade de um declínio
na taxa de nascimento devido a um desvio na proporção de sexos. Por este motivo,
o Projeto TAMAR monitora cuidadosamente a proporção de sexo das tartarugas que
nascem nos ninhos cuidados pelo projeto, A definição de sexo dos répteis ocorre em
função da temperatura dos ninhos. Eventualmente, mudando a condição ambiental
14/
Omuio3
dos ovos, pode-se diminuir a proporção
de fêmeas em uma população, colocando-
a em risco. Um caso interessante de rela
ção entre ambiente e proporção de sexos
ocorre com uma população de muriquis
(Brachyleles arachnoides), na estação Biológica
de Caratinga, Minas Gerais. Em épocas fa
voráveis, a prole tende a ser maior e com
mais proporção de fêmeas. Em épocas
desfavoráveis, a prole tende a ser menor e
com proporção de sexos equilibrada entre
machos e fêmeas (Strier, 1999).
Em muitas espécies animais, peque
nas populações podem se tornar instáveis
devido ao colapso da estrutura social uma
vez que a população cai a um nível infe
rior. Rebanhos de mamíferos de pastagem
e ninhadas de pássaros podem se tornar
incapazes de achar alimentação e de se
defender contra ataques quando encon-
tram-se em número reduzido. Animais que
caçam em bandos, tais como os queixadas
e os leões, podem necessitar de um certo
número de indivíduos para poderem caçar
eficazmente. Muitas espécies animais que
vivem em populações amplamente dis
persas, como as onças ou baleias, podem
se tornar incapazes de encontrar seus par
ceiros quando sua densidade populacional
declina. Este fenômeno é conhecido como
efeito Allee. Em plantas, à medida que sua
população decresce, a distância entre elas
aumenta; polinizadores podem deixar de
visitar mais do que uma destas plantas esp
alhadas e isoladas, resultando em uma per
da da produção de sementes (Bawa, 1990).
Esta combinação de flumações randômicas
em características demográficas, taxas de
gêneros desiguais, densidade demográfica
reduzida, e a quebra de comportamento
social contribuem para a instabilidade no
tamanho da população, freqüentemente
levando à extinção local.
Variação ambiental e catástrofes
A variação randômica ou ao acaso no ambiente biológico e
físico, conhecida como estocasticidade ambiental, pode também
causar variação no tamanho populacional de uma espécie. Por exem
plo, a população de uma espécie de coelho ameaçada pode ser afetada
por flutuações na população de uma espécie de veado que come os
mesmos tipos de plantas que uma capivara, na população de uma es-
1 4 8
Co nserv a çã o de Po pulações e Espéeies
pécie dc jaguatirica que caça as capivaras, e na presença de parasitas e doenças que
afetam as capivaras. Flutuações no ambiente físico podem também influenciar forte
mente a população de capivaras; a chuva durante um ano comum pode favorecer o
crescimento de plantas e permitir que a população aumente, enquanto que os anos
de seca podem limitar o crescimento da planta e fazer com que as capivaras passem
fome.
Catástrofes naturais em intervalos imprevisíveis, tais como secas, tempest
ades, enchentes, terremotos, erupções vulcânicas, incêndios, e enfraquecimentos
cíclicos na comunidade biológica, podem também causar flutuações drásticas nos
níveis de população. Catástrofes naturais podem matar parte de uma população ou
até mesmo eliminar a população inteira em uma área. Existem inúmeros exemplos
de enfraquecimentos nas populações de grandes mamíferos, incluindo muitos casos
nos quais 70%-90% da população morre (Young, 1994). Embora a probabilidade de
ocorrer uma catástrofe natural em um ano qualquer seja pouca, sua chance aumenta
em um período de décadas ou séculos.
Esforços exemplares, como os de Menges (1992) e outros, têm demonstrado
que a variação ambiental tandômica é geralmente mais importante do que a variação
demográfica randômica, no aumento da probabilidade de extinção em populações
de tamanho reduzido ou moderado. Nestes modelos, a variação ambiental aumenta
, em muito, o risco de extinção mesmo em populações que apresentam crescimento
populacional positivo sob a premissa de um ambiente estável (Mangei c Tier 1994).
Em geral, a introdução de variação ambiental em modelos de população, tornando-
os mais realistas, resulta em populações de taxas de crescimento mais baixas, diminui
sua densidade demográfica, e aumenta as probabilidades de extinção. Menges (1992)
introduziu variação ambiental em modelos de populações de plantas desenvolvidos
a partir de parâmetros obtidos em populações de palmeiras. Quando apenas a varia
ção demográfica era considerada, estesmodelos de populações sugeriam que o ta
manho mínimo de população viável, neste caso o número de indivíduos necessários
para dar à população 95% de probabilidade de existência em 100 anos, era cerca de
140 indivíduos adultos. Quando uma variação ambiental moderada era incluída, en
tretanto, o tamanho mínimo de população viável aumentava para 380 indivíduos.
149
j p i i u t o 3
Vórtices da extinção
Quanto menor a população se torna, mais vulnerável ela fica à variação demográfica,
variação ambiental e fatores genéticos, que tendem a reduzir o seu tamanho ainda mais.
Esta tendência das populações pequenas ao declínio e rumo à extinção tem sido relacionada
a um vórtice de extinção (Gilpin e Soulé, 1986). Por exemplo, uma catástrofe natural,
uma nova doença, uma perturbação humana poderiam levar uma grande população a um
número reduzido. Esta pequena população poderia então passar por depressão endogâmica,
resultando em uma taxa de sobrevivência juvenil reduzida. Este aumento na taxa de mortal
idade poderia resultar em uma população ainda menor e em mais acasalamento interno. Da
mesma forma, a variação demográfica aleatória reduz com frequência o tamanho populacio
nal, levando a flutuações demográficas ainda maiores e a uma maior probabilidade de extin
ção. Estes três fatores - variação ambiental, variação demográfica e a perda de variabilidade
genética - agem em conjunto, de forma que um declínio no tamanho da população causado
por um destes fatores aumentará a vulnerabilidade da população a outros fatores (figura 3.6).
Uma vez que uma população tenha sido diminuída, ela provavelmente se tornará extinta,
a menos que condições altamente favoráveis permitam que ela aumente de tamanho. Tais
populações exigem um programa cuidadoso de manejo de população e
de habitat para re
duzir a varia-
de ser uma
çao am
biental e
demográ
fica e, de
sta forma,
minimizar
os efeitos
população de ta
manho reduzido.
Destruição de habitat
Degradação ambiental
Fragmentação ambiental
Superexploraçáo
Efeito de espédes invasoras
FIGURA 3.6. I 'órtices de extinção reduzem progressivamente o tamanho populacional, levando a extinções
locais de espécies. Uma ve^ que uma população tem seu niimeio redundo, ela entra em um vórtice, no
qual os fatores que afetam populações pequenas tendem a, progressivamente, diminuir seu tamanho.
(Gdpin e Soulé 1986, e Guerrant 1992.)
1 5 0
(
(
História Natural e Auto-ecologia
(
A solução para proteger e manejar uma espécie rara ou ameaçada é entender
sua relação biológica com o seu ambiente e a situação amai de sua população. Esta in
formação é gcralmente chainada de história natural, ou algumas vezes, simplesmente
de ecologia das espécies, enquanto que, como disciplina científica que estuda as es
pécies individuais, é conhecida como auto-ecologia. Com informações a respeito da (
história natural de uma espécie rara, os manejadores podem conservar as espécies e ^
identificar os fatores que as colocam cm risco de extinção (Gilpin e Soulé ,1986).
A seguir apresentamos as categorias de perguntas auto-ecológicas que pre
cisam ser respondidas, a fim de que se possa planejar e implementar esforços eficazes
de conservação em nível de população. Para a maioria das espécies, apenas algumas (
dessas perguntas podem ser respondidas sem maiores investigações. As decisões sobre (
manejo, entretanto, freqüentcmente têm que ser tomadas antes que estas informações ^
estejam disponíveis ou enquanto elas estão sendo coletadas. Quais os tipos de respos
tas que devem ser reunidas, obviamente depende das características das espécies.
• Ambiente. Quais são os tipos de habitat nos quais as espécies são encon
tradas e quanto há em área para cada uma delas? Como o ambiente varia no (
tempo e no espaço? Com que freqüência o ambiente é afetado por perturba- ^
çòes catastróficas?
• Distribuição. Onde a espécie é encontrada em seu habitat? A espécie se des
loca ou migra entre os habitats ou para diferentes áreas geográficas durante o (
curso de um dia ou durante o período de um ano? A espécie é bem-sucedida
na colonização de novos habitats? ^
• Interações bióticas. Que tipos de alimento e outros recursos a espécie necessi
ta? Que outras espécies competem com esta espécie nesses recursos? Quais são
os predadores, as pestes e parasitas que afetam o tamanho de sua população? (
• Morfologia. Como a forma, tamanho, cor e textura dos indivíduos dessa es- (
pécie permitem sua existência em seu ambiente? ^
• Fisiologia. Qual a quantidade de alimento, água, minerais e de outras neces
sidades que um indivíduo dessa espécie precisa para sobreviver, crescer e re-
produzir-se? Qual a eficiência deste indivíduo no uso desses recursos? Qual a
vulnerabilidade dessa espécie a condições extremas de clima, tais como calor,
frio, vento e chuva? (
Conservado de Populações e Espécies (
151 (
(
j Pítuio 3
• Demografia. Qual é o tamanho atual da população e qual era no passado? O número
de indivíduos é estável, está aumentando ou diminuindo?
• Comportamento. Como as ações de um indivíduo dessa espécie permitem que ele so
breviva em seu ambiente? Como os indivíduos em uma população se acasalam e têm
filhotes? De que fonna os indivíduos de uma espécie interagem entre si, tanto de
forma cooperativa como de forma competitiva?
• Genética. Quanto de variação nas características morfológicas e fisiológicas entre os
indivíduos é controlada geneticamente?
Coleta de informações sobre a história natural
As informações básicas necessárias para conservar uma espécie ou determinar sua
situação podem ser obtidas de três principais fontes.
• L iteratura publicada. Os índices bibliográficos tais como Bio/ogical Abstracts (Resu
mos Biológicos) ou Zoohgical Recorri (Registros Zoológicos), normalmente acessíveis
pelo computador, são um acesso fácil a uma variedade de livros, artigos e relatóri
os. A Internet proporciona cada vez mais o acesso a banco de dados, boletins ele
trônicos e discussões em grupos especializados. As vezes as seções das bibliotecas
têm esse material reunido de forma que encontrando um livro este leva a outros
livros. Além disso, uma vez que uma referência-chave é obtida, sua bibliografia pode
freqüentemente ser usada para descobrir outras referência úteis. O Web of Science,
recentemente disponibilizado para as Universidades Brasileiras, é outro instrumen
to poderoso para procurar literatura correspondente. Por exemplo, procurando no
Web of Science o nome de Paulo Oliveira, autor de vários trabalhos científicos so
bre formigas, podem ser localizados outros trabalhos recentes sobre formiga que
citam os trabalhos desse autor.
• L iteratura não publicada. Um volume considerável de informações sobre bio
logia de conservação está contido em relatórios não pubücados feitos por pessoas,
agências governamentais e organizações de conservação. Este tipo de documento é
citado, às vezes, em literaturas públicas ou mencionados por autoridades da área, em
discussões e palestras. Freqüentemente, um relatório oral conhecido pode ser obtido
através de contato direto com o autor ou com organizações de conservação.
152
Conservação de Po p u w ç ó e s e Espécies
• Trabalho de campo. A história natural de uma espécie normalmente pode ser
conhecida através de cuidadosas observações de campo. O trabalho em
campo é frcqüentemente necessário, pois apenas uma pequena porcentageEn
das espécies do mundo foi estudada e porque a ecologia de muitas espécies
muda de um lugar para o outro. Somente em campo o estado de conservação
de uma espécie e suas relações com o ambiente biológico e físico podem
ser determinados. Enquanto muitas das informações sobre a história natural
podem ser obtidas através de uma cuidadosa observação, muitas das outras
estratégias usadas são técnicas, e podem ser melhor compreendidas pelo es
tudo desenvolvido sob a supervisão de um especialista ouatravés de leitura
de manuais (por exemplo, Rabinowitz, 1993; Heyer et al., 1994).
Monitorando as populações
O modo para se conhecer a situação das espécies raras de interesse espe
cial, é o seu censo no campo e o monitoramento de sua população ao longo do
tempo. Fazendo repetida e regularmente o censo de uma população, as mudanças
ocorridas através do tempo podem ser determinadas (Simberloff, 1988; Schem-
ske et al., 1994). Somente censos efetuados a longo prazo podem distinguir as
variações de curto prazo, devidas ao clima ou eventos naturais não previsíveis, das
variações de longo prazo, causadas pelo impacto humano e com resultados mar
cantes para a população. (Pechmann et al. 1991; Cohn, 1994). O monitoramento
é eficaz para mostrar a resposta de uma população às mudanças em seu ambiente;
por exemplo, após a fragmentação de florestas na Amazônia ocorre um aumento
na mortalidade, provavelmente relacionado com alterações no microdima (Love-
joy et al., 1986)
Os esforços de monitoramento podem também ser direcionados para es
pécies sensíveis, tais como as borboletas, usando-as como indicadores da estabili
dade, a longo prazo, das comunidades ecológicas (Sparrow et al., 1994).
Estudos de monitoramento estão aumentando consideravelmente na me
dida em que as agências governamentais se tornam mais preocupadas em prote
ger as espécies raras e ameaçadas (Goldsmith 1991). Uma revisão dos projetos de
1 5 3
O í tu i o 3
monitoramento de plantas raras e amea
çadas, nos Estados Unidos, mostrou um
aumento fenomenal no número de pro
jetos de pesquisas iniciados desde 1974
até 1984: apenas um projeto foi iniciado
nos três anos de 1974 a 1976 enquanto
que mais de 120 projetos iniciaram-se
de 1982 até 1984 (Palmer, 1987). Os ti
pos mais comuns de projetos de moni
toramento foram: inventários (40%) e
estudos sobre populações demográficas
(40%); os estudos sobre levantamentos
(20%) foram em menor quantidade. No
Brasil, o Departamento de Botânica da
Universidade de Campinas foi respon
sável por inúmeros trabalhos de levanta
mentos de vegetação que se transforma
ram em teses de Mestrado e Doutorado.
Em 1994, uma aluna sintetizou grande
parte destes levantamentos através de
análise multivariada (Siqueira, 1994).
Um inventário é simplesmente
uma contagem do número de indivíduos
de uma população. Repetindo um inven
tário em sucessivos intervalos de tempo,
pode ser determinado se uma população
permanece estável, se está aumentando
ou diminuindo em número. Um inven
tário é um método barato e confiável, e
responde perguntas tais como: Quantos
indivíduos existem atualmente na popu
lação? Esta população tem permanecido
estável em número durante o período
desse inventário? Os inventários realiza
dos em uma área mais ampla podem ajudar
a determinar a extensão de uma espécie e
suas áreas de abundância em escala local.
Um levantamento de população en
volve o uso de um método de amostragem
repetidamente, para fazer uma estimativa da
densidade de uma espécie em uma comuni
dade. Uma área pode ser dividida em par
celas de amostras e contado o número de
indivíduos de cada parcela. A média dessas
contagens pode ser usada para fazer uma
estimativa do real tamanho da população.
Os métodos de levantamento são usados
quando a população ou sua extensão são
muito grandes. Os métodos de levantamen
to são particularmente valiosos quando os
estágios do ciclo de vida da espécie não são
evidentes, são pequenos ou estão ocultos,
assim como a semente, as fases de germi
nação de muitas plantas ou ainda as fases
larvais dos invertebrados aquáticos.
Os estudos demográficos ocu-
pam-se de indivíduos conhecidos de uma
população para determinar suas taxas de
crescimento, reprodução e sobrevivência.
Indivíduos de todas as idades e tamanhos
têm de ser incluídos em tais estudos. Po
dem ser estudadas tanto uma população
completa, quanto uma amostra. No estudo
de uma população completa, todos os in
divíduos são contados, se possível têm sua
idade determinada, são medidos, identifica-
1 5 4
(
(
C o nservação d í P o pula çõ es e Espf
dos por sexo e recebem uma etiqueta ou são marcados para futura identificação; suas
posições no local são mapeadas e, às vezes, amostras de tecido são coletadas para
análise genética. As técnicas usadas para se fazer um estudo de população variam
dependendo das características da espécie e do objetivo do estudo. Cada disciplina
tem sua própria técnica para estudar os indivíduos durante um determinado tempo:
os ornitólogos etiquetam as pernas dos pássaros, os estudiosos de mamíferos muitas
vezes colocam etiquetas nas orelhas dos animais e os botânicos colocam etiquetas de
alumínio nas árvores (figura 3.7; veja Goldsmith, 1991). Informações provenientes
de estudos demográficos podem ser usadas como fórmulas da história de vida para
calcular a taxa de mudança da população e para identificar os estágios vulneráveis do
ciclo de vida (Menges, 1986; Caswell, 1989).
Os estudos demográficos fornecem informações sobre a estrutura etária de
FIGURA 3.7. 0 monitoramento de populações requer técnicas próprias para cada espécie. (A) l Ima ornitologista checa a
saude e peso de um pássaro da família Charadriidae em Cape Cod, EU A Note a tarja de identificação na perna da ave
(l:oto de Laurit Mdvor).
(B) 0 projeto Tamar condusçjreqiientes atuvudades de monitoramento das populações de tartarugas ao lonsp de toda costa
brasileira. (Foto Gustave Manopaldi)
1 5 5
uma população. Uma população estável tipicamente tem uma distribuição etária com
uma proporção característica de jovens, jovens adultos e adultos mais velhos. A ausên
cia ou um número baixo de qualquer uma das faixas etárias, espedalmente a de jovens,
pode indicar que a população corre o perigo de declínio. Da mesma forma, um grande
número de jovens e adultos jovens pode indicar que a população é estável ou está se
expandindo (algumas populações, no entanto, podem passar por fases onde o número
de jovens c menor que o de adultos, e ainda assim estarem estáveis a longo prazo). So
mente a análise cuidadosa, a longo prazo, desses dados ou das mudanças na população,
ao longo do tempo, pode distinguir as flutuações a curto prazo das de longo prazo.
Os estudos demográficos podem ainda revelar as características espaciais de
uma espécie, o que pode ser de grande importância para manter a viabilidade de de
terminadas populações. O número de populações da espécie, o movimento entre as
populações e a estabilidade das populações no espaço e no tempo são considerações
importantes, especialmente para espécies que aparecem num aglomerado de popu
lações temporárias ou flutuantes, que estão ligadas pela migração e que são conheci
das como m etapopulações (veja abaixo). A seguir, alguns exemplos de estudos de
monitoramento de metapopulações.
• Cuíca (Micounus demerarae) {figura 3.8) Em um inventário realizado em dois frag
mentos de Mata Adântica no Rio de Janeiro, distantes 300 m um do outro, e de
tamanhos de 7,1 e 8,8 ha, foram detectados 5 movimentos desta espécie entre
fragmentos durante o período de observação. Curiosamente, só machos se mov
imentaram de um fragmento para outro, criando urna estrutura de metapopula-
çào atípica, onde somente os machos dispersam (Pires e Fernandes, 1999)
• Eichomia paniculata. Este parente do aguapé é uma planta anual cujo habitat
são áreas alagadas e pastos encharcados no semiárido nordestino brasileiro.
Em quatro levantamentos, realizados entre 1982 e 1989, foram amostradas
167 populações isoladas. A taxa com que as populações se extinguem local
mente é independente do tamanho inicial da população e do tempo desde o
último levantamento. Por outro lado, a proporção de habitats ocupados por
Eichomia p. em uma região, foi relacionada com a densidade de áreas nesta
região. Nenhum habitat foi ocupado por E. paniculata.em regiões com menos
de 0,18 habitats/Km2. Isto mostra que E. paniculata. possui uma estrutura de
metapopulaçào (Husband e Barrett, 1998).
Os estudos de monitoramento estão tendo cada vez mais um papel impor-
Conservação oe Popuw ções e Espícies
(B)
FIGURA 3.8. (A) Cuíca (Micoureus demerarae), espécie
que possu i estru tura de luetapopu/açào, M ostrando a
ração do seu nom e popular.
(B) Locais de estudo de Micoureus demerarae,
mostrando a disposição espacial das snbpopnlaçòes
amostradas
X p.iiKlotr.iKi
' ifcflnrv
JSSm
F E P r
H
b . m
matriz
tante para a biologia de conservação. O monitoramento já tem uma longa história
em países temperados, onde um menor número de espécies coexiste com abundan
tes recursos para pesquisa, especialmente na Grã-Bretanha (Goldsmith, 1991). Na
América do Norte, o estudo de Criação de Pássaros vem fazendo o censo de pás
saros em cerca de 1.000 localidades durante os últimos 30 anos e estas informações
estão sendo agora usadas para determinar a estabilidade, ao longo do tempo, das
populações de pássaros canoros migrantes (James et al., no prelo). Alguns dos pro
jetos de monitoramento mais elaborados estabeleceram locais permanentes de pes
quisa, tais como 50 hectares na Ilha Barro Colorado, no Panamá, para monitorar as
mudanças nas espécies e nas comunidades ao longo do tempo (Condit et al., 1992;
Dallmeier, 1992). Esses estudos mostraram que muitas árvores tropicais e espécies
de pássaros são mais dinâmicas em número do que se havia imaginado anterior
mente (Bierregaard et al., 1992; Primack, 1992; Primack e Hall, 1992), sugerindo que
as estimativas de PMV precisam ser revisadas e melhoradas.
1 5 7
Capítulo 3
Análise da viabilidade
de população
A análise de viabilidade de
população (AVP) é uma extensão da
análise demográfica que busca deter
minar se uma espécie tem habilidade
de sobreviver cm um ambiente (Shaf-
fer, 1991; Boyce, 1992; Ruggiero et ai.,
1994). A AVP é um método pelo qual se
examina a série de exigências que uma
espécie tem e os recursos disponíveis
em seu ambiente, a fim de identificar es
tágios vulneráveis na sua história natu
ral (Gilpin e Soulé, 1986). A AVP pode
ser útil na compreensão dos efeitos de
perda de habitat, fragmentação do habi
tat, e degradação do habitat de uma es
pécie rara, embora a AVP esteja ainda
sendo desenvolvida como abordagem
para prever a sobrevivência das espé
cies, e ainda não tenha uma metodolo
gia padrão ou uma estrutura estatística
(Shaffer, 1990; Thomas, 1990; Burgman
et al., 1993). seus métodos de examinar
sistemática e extensivamente os dados
das espécies são uma complementação
natural da auto-ecologia, da pesquisa
da história natural e dos estudos de
mográficos. N o entanto, tais tentativas
de se usar a estatística para predizer as
tendências futuras em densidades de
mográficas de populações devem ser
usadas com cuidado e com uma boa
dose de bom senso, no que diz respeito
ao impacto da ação humana nas espécies
(Harcourt ,1995).
Já existem várias tentativas de
uso de análise de viabilidade populacio
nal. Um dos exemplos mais completos
de AVP, combinando análises demográ
ficas com sensoriamento remoto, é um
estudo realizado com o Mico-Leâo-Dou-
rado (Leontopithecm rosalin), encontrado
na Reserva Biológica de Poço das Antas.
Existem 559 Micos-Leões-Dourados na
natureza, divididos em 103 grupos e ocu
pando uma área total de 10.500 ha. Se
gundo Kierulff (1993), esses indivíduos
estão divididos em quatro populações e
foram encontrados, também, 12 grupos
isolados em “ilhas” de mata. Maria Ce
cília Kierulff determinou que nenhuma
população de Mico-Leão-Dourado pos
sui tamanho efetivo suficiente para evitar
futuros efeitos de consangüinidade. Ex
ceto a população formada pelos grupos
da Reserva Biológica de Poço das Antas
e áreas vizinhas, as populações de L. rosa-
lia extinguir-se-ão em poucos anos.
158
CoNSÍRVAgtO Df PoPUlAÇÕtS l ESPÍCIfS
Esforços de conservação em nome do elefante africano têm assumido im
portância internacional por causa do declínio vertiginoso da espécie em números e
sua importância simbólica como representante da vida silvestre em todo o mundo.
Uma análise de viabilidade populacional das populações de elefantes em terras semi-
áridas no Parque Nacional Tsavo, no Kenya, indicou que o tamanho mínimo de
reserva de 2.500 Km2 é necessário para atingir uma probabilidade de subsistência
da população de 99% para 1.000 anos (figura 3.9\ Armbruster and Lande, 1993). Nas
densidades com aproximadamente 12 animais para 10 Km2, isso significa uma den
sidade demográfica inicial de cerca de 3.000 animais. No tamanho dessa reserva, a
população poderia tolerar um nível modesto de extração sem aumentar substancial
mente aumentar sua probabilidade de extinção.
FIGURA 3.9. A probabilidade
cumulativa de extinção (na
escala hg) com o passar do
tempo para populações de
elefantes em áreas protegidas de
tamanhos diferentes. Com uma
densidade de 12 elefantes por
10 Kffr, uma área protegida de
2.500 K//r tem uma população
inicial (No) de 5.000 elefantes;
a probabilidade de extinção em
100 anos é próxima a 0%, e
em 1.000 anos é apenas 0,4%.
Uma população em uma área
protegida de 250 Kur com
uma população inicial de 500
elefantes tem uma pivbabilidade
de 20% de extinção
em 1000 anos.
(De acordo com Armbruster e
Lande, 1995).
159
Capítuio 3
Quadro 3 .1 .- Reestabelecendo os Micos-Leões-Pretos
(Leontopithecus chrysopygus)
Cláudio Valladares-Padua, PhD, UnB e IPÊ
Suspana Padua, MSc, IPE
Cristiana Saddy Martins, MSc, IPE
Laury Cullen Jr., MSc. IPê
O s m icos-leões-pretos foram considerados com o extintos entre o início do século 20 e o ano de 1971
quando foram redescobertos pelo pesquisador brasileiro A delm ar Coim bra-Filho no Parque Estadual do
M orro do D iabo no E stado de Sào Paulo. N os anos 70 e com eço dos anos 80 uma série de levantam entos
realizados pelo p róp rio Professor Coim bra-Filho, entào associado ao pesquisador norte-am ericano Russcll
M ittermeier, concluíram pela existência de apenas 100 indivíduos na N atureza distribuídos entre o Parque
do M orro do D iabo e a Estaçào Ecológica dos Caetetus.
N o com eço da década de 80, a Cia Energética de Sào Paulo - C ESP construía três usinas hidrelétricas
próxim o ao M orro do Diabo. A m enor delas, a Usina de Rosana, iria inundar 10% do m elhor habitat dos
m icos-leòes-pretos naquele Parque. A CESP, preocupada com as conseqüências que poderia advir sobre
os micos nos levou ao Pontal para participar do planejam ento e execução da operaçào de resgate que se
sucederia. N ào só participam os dessa prim eira fase com o decidim os criar um projeto conservacionista de
longa duração para os micos-leões-pretos.
O projeto m ico-leào-preto com o ficou conhecido traçou um plano de pesquisas e m anejo para os
próxim os dez anos que incluía:
Levantamentos e
Censos Genética Demografia
Ecologia e
Comportamento
Cativeiro
Educação
Ambiental
Restauração de
Habitat
Manejo por
Movimentação
O s prim eiros passos desse plano nào foram m uito bem sucedidos. O s levantam entos e censos nào
puderam indicar a existência de nenhum a outra sub-populaçào, e um inventario da situação genética
baseado em vinte e cinco enzimas do sangue das duas populações conhecida à época, indicaram que a
m esm a encontrava-se geneticam ente bastante depauperada, possuindo 0% de polim orfism o e 0% de
heterozigose. E m 1987, com eçam os uma das fases mais bem sucedidas do projeto, com a criação quase
que concom itantem ente, de um estudo com parativo intra-específico de ecologia e com portam ento e um
program a de educação ambiental, am bos no Parque Estadual do M orro do D iabo e sua região de entorno. O s
estudos de ecologia e com portam ento nos indicaram que em bora a espécie nào dem onstrasse variabilidade
genética, ela possuíagrande plasticidade ecológica e com portam cntal, p odendo viver em diversos gradientes
de habitat. O Program a de educação ambiental, entre m uitos outros sucessos, nos indicou claram ente que
nào conseguiríam os salvar a espécie, se nào concentrássem os nossos esforços também num a m udança de
com portam ento das populações humanas nas regiões de ocorrência dos micos.
N o começo da década de 90, jámunidos de um conhecimento mais profundo sobre a ecologia e com portam entos
dos micos, resolvemos retom ar os levantamentos em busca de novas populações. Isso nos levou desde aquela
época até agora a descoberta de oito novas populações e uma estimativa populacional bastante promissora dc
cerca de 1000 indivíduos. Os novos números trazem também nova esperança para a espécie. Uma análise de
* 0
Co nservação d í Populaçõ es e Espécies
viabilidade dessas sub-populaçòes
todavia, nos indica que somente a
sub-populaçào do M orro do Diabt)
tem alguma chance mesmo que
remota de sobreviver sem nenhum
tipo de manejo conservacionista.
Ainda no começo dos anos 90,
uma avaliação da situação da sub-
população em cativeiro mostra
que a mesma encontra-se na faixa
dos 100 indivíduos e que necessita
urgentemente da introdução
de novos indivíduos vindos na
Natureza para corrigir sua grande
consanguinidade.
Foi nesse momento tomamos a decisão de enfocar o manejo conservacionista nas sub-populaçòes
da Natureza tratando-a como uma mctapopulaçào (veja figura 3.10) e mantendo os animais de cativeiro
confinados a um número máximo de 200 indivíduos (com uma diversidade gênica de pelo m enos 95%)
em cerca de 10 instituições em todo o mundo. Esta estratégia considera a população em cativeiro,
chamada de população núcleo, como uma sub-populaçào da metapopulaçào (as outras sendo as demais
sub-populaçòes, àquelas confinadas a fragmentos florestais isolados) e assume que o fluxo gcnico entre
as sub-populaçòes é parte da estratégia de conservação. Dessa maneira a população cm cativeiro possuirá
sempre uma alta proporção da diversidade de genes selvagens e com isso toma-se uma população auto-
suficiente pode ser usada para repovoar a Natureza caso algum fator adverso obrigue-nos a tal.
T o d o esse manejo requer um fluxo razoável de animais entre as diversas sub-populaçòes.
Para isso adotam os duas estratégias: a prim eira envolve m anejo de m ovim entação onde somos
responsáveis pelas transferência de animais e para tal utilizamos reintroduções, translocaçòes e
dispersão po r manejo; na segunda, sempre que possível, estam os criando as condições para que o
fluxo de animais se faça naturalm ente. Estam os trabalhando com produtores rurais e assentados
pela reform a agrária na restauração da paisagem florestal principalm ente na região do Pontal. Como
parte desse manejo, já foram realizadas duas translocaçòes, uma reintroduçào de grupos mistos de
animais selvagens c nascidos em cativeiro e uma dispersão. Estão em andam ento tam bém o piando
de dois corredores florestais entre fragmentos.
Para concluir, podem os dizer que a principal lição que tiramos desse pro jeto é que para
restabelecerm os um a população viável de uma espécie ameaçada, cinco aspectos foram fundamentais:
a) um conhecim ento aprofundado da biologia da espécie; b) o manejo integrado na N atureza c em
cativeiro, mas com ênfase na N atureza; c) o envolvim ento das comunidades hum anas da região
de ocorrência, com programas de educação ambiental; e) uma visão conservacionista baseada
na paisagem, com o uso de técnicas de extensão conservacionista na restauração do habitat e
finalmente) o uso de manejo adaptativo com avaliações periódicas dos resultados.
161
Capítulo 3
A metapopulação
Com o passar do tempo, populações de uma espécie podem se tornar extintas em
uma escala local, e novas populações podem se formar em outras áreas próximas. Estas
espécies podem ser caracterizadas por uma ou mais populações centrais, com densidades
razoavelmente estáveis, e várias áreas satélites, com populações flutuantes (Bleich et al.,
1990). Populações nas áreas satélites podem se tornar extintas em anos desfavoráveis, mas
as áreas são recolonizadas por migrantes da população central quando as condições se tor
nam mais favoráveis. Este sistema de populações temporárias ou flutuantes dependentes
de migração é conhecido como metapopulação (figura 3.10). Em algumas espécies, toda
a população é de vida curta, e a distribuição das espécies se altera muito a cada geração.
Muitas espécies que vivem em habitats efêmeros, tais como as ervas encontradas em beiras
de riachos freqüentemente inundados ou em florestas recentemente queimadas, são carac
terizadas por populações compostas por um mosaico alternativo de populações temporárias
dependentes de algum grau de migração (Menges, 1990; Murphy et al., 1990).
O alvo de um estudo populacional é tipicamente uma ou várias populações, mas
uma metapopulação inteira pode ser
estudada e isto resultaria em um retra
to mais apurado da espécie, do que o
estudo de uma única população. Mod
elos de metapopulação têm a vanta
gem de reconhecer que as populações
locais são dinâmicas e que há movi
mento de organismos de uma popu
lação local para outra (Hanski, 1989;
Olivieri et al., 1990; Stacey and Ta-
pet, 1992). O reconhecimento de que
eventos de colonização infreqüentes e
migrações estão ocorrendo, também
permite que os biólogos considerem o
impacto de efeitos do fundador e mu
danças genéticas sobre as espécies.
A aranha Anelosimus eximus
(figura 3.11) é encontrada na Floresta
Três populações
independentes
O
O O
Metapopulação de
três populações
em interação
Metapopulação com uma
população grande central
e três populações satélite
Metapopulação com
interações complexas
FIGURA 3.10. Alguns padrões possíveis de metapopulação, com o tamanho da
população indicado pelo tamanho do circulo representativo. A s Jlechas indicam a
direção e intensidade da migração entre populações (segundo White, 1996).
1 6 2
(
Conservação oe P o pula çõ es e E spécies^
(
Amazônica. Nesta região, o projeto Biologia e Dinâmica de Fragmentos (
Florestais (BDFF) monitora uma rede de fragmentos de floresta onde
as populações desta aranha foram levantadas. Venticinque e Fowler (no
prelo) notaram que as colônias desta espécie possuem uma dinâmica
assincrônica, e que isto pode ajudar a manter esta metapopulaçào frente
a variações estocásticas
do ambiente. Este es
tudo também determi
nou que pequenos frag
mentos necessitam da
proximidade dc fontes
de colonizadores para
se manterem, ou seja:
a configuração espacial
da paisagem parece ser
mais importante que o
tamanho do fragmento
em que a população se
encontra. Conforme previsto na teoria de metapopulações, a troca de in
divíduos foi bem mais freqüente entre grupos de fragmentos próximos e
menos freqüente entre fragmentos distantes.
Em situações de metapopulaçào, a destruição do habitat de uma
população central pode resultar na extinção de numerosas populações sa
télites que dependem da população central para sua colonização periódi
ca. Também, perturbações humanas que inibem a migração, tais como
cercas, estradas e represas, podem reduzir a taxa de migração entre faixas
de habitat e assim reduzir ou até mesmo eliminar a probabilidade de re-
colonizaçào após a extinção local (I.amberson et al. 1992; Harrison 1994).
Em tais situações, um modelo de metapopulaçào pode não ser adequado.
Modelos de metapopulaçào destacam a natureza dinâmica dos processos
de população e mostram como a eliminação de algumas populações cen
trais pode levar a extinção de uma espécie em uma área muito maior. O
manejo eficaz de uma espécie freqüencemente exige uma compreensão
destas dinâmicas de metapopulaçào.
FIGURA 3.11. A
aranha Anelo si mus
eximns que ocorre
na Amazônia,
possui estrutura
He metapopulaçào
(National Gtographic)
163
PiTULO 3Monitoramento a longo prazo de
espécies e ecossistemas(
(
(
(
I ano
í
C
(
. J
1972 1971
"F.stc k ii
um inwmo frio"
3 anos
1970 1971 1972 1973
"Cada inverno está
mais frio que o
anterior"
( 1
23 anos
"A cada três anos a temperatura
cai abaixo de um grau"
< .
FIG U RA 3.12. Dados coletados durante longos períodos de
( tempo podem revelar informações que não estejam visíveis
em um único ano ou até mesmo durante alguns anos.
Aqui, a ocorrência de temperaturas mínimas mensais
et baixo de um grau centígrado foram apresentadas em
períodos de um, três e vinte e cinco anos. em Londrina-
PR (dados fornecidos peto IAPAR).
(
\
6 4
O monitoramento a longo prazo de fa
tores de ecossistema (temperatura, densidade
pluviométrica, umidade, acidez do solo, quali
dade da água, taxas de descargas de riachos,
erosão do solo, etc.), comunidades (espécies
presentes, quantia de cobertura vegetativa,
quanddade de biomassa presente em cada nível
trópico, etc.) e populacionais (números de indi
víduos presentes de uma espécie em especial), é
necessário porque de outra forma seria difícil dis
tinguir flutuações anuais normais de tendências a
longo prazo (Magnuson, 1990; Primack, 1992),
(figura 3.12). Por exemplo, muitas populações de
plantas anuais, dc insetos e de anfíbios são alta
mente variáveis de ano para ano, portanto mui
tos anos de coleta de dados são necessários para
determinar se uma certa espécie está na verdade
declinando em abundância ou meramente pas
sando por um número de anos de baixa popu
lação, de acordo com o seu padrão regular de
variação. O monitoramento é particularmente
importante na conservação integrada e em pro
jetos de desenvolvimento nos quais a proteção a
longo prazo da diversidade biológica é um obje
tivo importante (Kremen et al., 1994).
O desafio para se entender a mudança
em ecossistemas está no fato de que efeitos po
dem ser retardados por muitos anos em suas
causas iniciais. Por exemplo, a chuva ácida e
outros componentes da poluição do ar podem
enfraquecer e matar árvores por um período de
Conservação de Populações t Espécies
décadas, aumentando a quantidade de erosão do solo em riachos adjacentes e, por
último, tornando o ambiente aquático inadequado para as larvas de certas espécies
de insetos raros. Em tal caso, a causa (poluição do ar) pode ter ocorrido décadas an
tes do efeito (declínio de insetos), ser detectado.
A chuva ácida, a mudança climática global, a sucessão de vegetação, a de
posição de nitrogênio, e invasões de espécies exóticas são todos exemplos de pro
cessos que causam alterações a longo prazo em comunidades biológicas, mas passam
frequentemente despercebidos por nossa visão de curto prazo {figura 3.12). Algumas
informações a longo prazo estão disponíveis a partir de estações meteorológicas,
censos anuais de pássaros, mapeamentos de florestas, autoridades em água, e vel
has fotografias de vegetação, mas o número de esforços de monitoramento a lon
go prazo para as comunidades biológicas é inadequado para a maioria dos fins de
conservação. Para remediar esta situação, muitas estações de pesquisas científicas
começaram a implementar programas para o monitoramento de mudanças ecológi
cas ao longo do curso de décadas e séculos. Um desses programas é o sistema de
172 campos de Pesquisa Ecológica a Longo Prazo (LTER) criado pela Fundação
Nacional de Ciências dos. Estados Unidos (Swanson e Sparks, 1990). Estes campos
fornecerão um sistema de aviso de emergência no caso de interrupção ou queda de
funções do ecossistema. Outra iniciativa de longo prazo é a rede de parcelas de 50
ha do Instituto Smithsonian. Nestas parcelas, que estão sendo instaladas em vários
países ao redor do mundo, todas as plantas acima de 1 cm de DAP são amostradas
a cada dois anos, de modo a se conhecer as alterações de longo prazo na população.
Existem duas destas parcelas no Brasil. Uma na Amazônia, ligada ao projeto Bio
logia e Dinâmica de Fragmentos de Floresta, e a outra na Mata Atlântica, ligada à
Fundação Boticário.
Estabelecimento de Novas Populações
Ao invés de apenas observar passivamente as espécies em
perigo caminharem para a extinção, muitos biólogos de conserva
ção começaram a desenvolver abordagens para salvar essas espécies.
Alguns métodos novos e interessantes estão sendo desenvolvidos
para estabelecer novas populações silvestres e semi-silvestres de es-
pécies raras e ameaçadas, e para aumentar o tamanho das populações existentes (Gipps,
1991; Bowles e Whelan, 1994). Estes experimentos oferecem a esperança de que as espécies
agora vivendo apenas em cativeiro possam recuperar seus papéis ecológicos e evolucionári
os dentro da comunidade biológica. As populações na natureza podem ter menos chances
de serem destruídas por catástrofes (tais como epidemias ou guerras), do que as populações
confinadas em cativeiro. Além disso, simplesmente aumentar o número e o tamanho das
populações de uma espécie geralmente já diminui sua probabilidade de extinção.
Os programas de estabelecimento não serão eficazes, a menos que os fatores que
levam ao declínio das populações silvestres originais sejam claramente entendidos e então
eliminados, ou pelo menos controlados (Campbell, 1980). Por exemplo, se uma espécie
endémica de pássaros foi caçada quase até a sua extinção no seu ambiente selvagem, por ha
bitantes locais, suas áreas de criação danificadas pelo desenvolvimento, e seus ovos comidos
por uma espécie exótica, essas questões têm que ser tratadas como parte integral de um pro
grama de reestabelecimento. Simplesmente liberar pássaros criados em cativeiro na natureza
sem uma discussão que envolva os vários segmentos da sociedade local, sem uma mudança
nos padrões de uso da terra, e sem controle de espécies exóticas, resultaria em uma recor
rência da situação original.
Três abordagens básicas têm sido usadas para estabelecer novas populações de ani
mais e plantas. Um program a de reintrodução compreende soltar indivíduos retirados do
ambiente selvagem ou criados em cativeiro, dentro de uma área de sua ocorrência histórica
onde essa espécie não mais existe ou está em declínio (Kleiman, 1996).
O principal objetivo de um programa de reintrodução é criar uma nova população
no ambiente original. Por exemplo, um plano recentemente implementado para reintroduzir
micos leões pretos (Leontbopitbecus cljtysopigus) nos fragmentos de floresta ao redor do Parque
Estadual do Morro do Diabo, de modo que o fluxo gênico entre o Parque e os fragmentos
de floresta seja aumentado. Indivíduos são freqüentemente liberados no local de onde eles
ou seus ancestrais foram retirados para garantir adaptação genética ao ambiente. Indivíduos
são também, às vezes, soltos em outros lugares dentro da abrangência da espécie com uma
nova área protegida sendo estabelecida, uma vez que uma população existente está sob uma
nova ameaça ou não mais conseguirá sobreviver em sua localização atual, ou porque há
barreiras naturais ou artificiais dificultando as tendências normais de dispersão da espécie.
Infelizmente há uma confusão entre os termos que denotam a reintrodução de populações,
e às vezes esses programas também são chamados de “reestabelecimentos”, “restaurações”,
ou “translocações.”
CoKSfívmm oi PoniiAçóís f Esrtacs
Dois outros tipos distintos de programas de liberação também estão sendo
usados. Um program a de acréscim o consiste em liberar indivíduos em uma popu
lação existente para aumentar o seu tamanho e o seu pool genético. Estes indivíduos
liberados podem ser indivíduos selvagens retirados de algum outro lugar ou indi
víduos criados em cativeiro. Um exemplo especial de acréscimo é a abordagem de
“vantagem inicial”, na qual filhotes de tartaruga marinha são criados em cativeiros
ou protegidos durante seu estágio de vida vulnerável, e depois são liberados no am
biente natural, como no projeto TAMAR TartarugasMarinhas. O program a de in
trodução transporta animais e plantas para áreas fora da sua extensão histórica, na
esperança de estabelecer novas populações (Conant, 1988). Tal abordagem pode ser
adequada quando o ambiente dentro da extensão histórica de uma espécie se dete
riorou a ponto da espécie não mais conseguir sobreviver ali, ou quando o fator que
causa o declínio original ainda está presente, tornando a reintroduçâo impossível. A
introdução de uma espécie para novos sítios precisa ser cuidadosamente pensada,
para assegurar que a espécie não danifique seu novo ecossistema ou prejudique pop
ulações de qualquer espécie ameaçada no local. Também deve ser tomado cuidado
para garantir que os indivíduos liberados não tenham contraído doenças enquanto
em cativeiro que poderiam se espalhar e dizimar populações selvagens. Em várias
ilhas do Litoral Paulista foram introduzidas cabras trazidas da Europa, com o intuito
de ter carne disponível quando os navegadores voltassem ao Novo Mundo. Essa
estratégia causou extensos danos para a vegetação nativa nessas ilhas.
No Sertão da Paraíba, um proprietário rural, auxiliado pelo IBAMA e a Uni
versidade Federal da Paraíba, está realizando um programa que não se enquadra em
nenhum dos três tipos de reintroduçâo. O objetivo do fazendeiro José Bráulio Japi-
assu é menos do que reestabelecer as populações originais da caatinga, mas somente
evitar que as aves e animais apreendidos pelo IBAMA sejam mortos ou liberados
antes que estejam recuperados do stress do cativeiro. Na fazenda Veneza do Juá, as
aves são mantidas por 40 dias cm viveiros grandes onde podem exercitar suas asas
atrofiadas pelas gaiolas, e são adequadamente alimentadas antes de serem liberadas.
Programas como este devem ser monitorados intensamente de modo a evitar que os
indivíduos liberados compitam por territórios já ocupados, desestruturando a orga
nização espacial da espécie, e podendo levar à eventual morte de outros indivíduos.
Essa parceria é um exemplo de quanto podemos avançar em conservação quando o
setor privado e o governo agem em parceria.
167
Análise de Alguns Programas de Reintrodução
Os programas de reintrodução possuem muito apelo junto
ao grande público. Para o leigo, a reprodução e liberação de ani
mais parecem ser uma panaceia, uma atividade sem contra-indica
ções que só pode redundar em aumento e melhora das populações.
Em função deste apelo, muitos empreendimentos, como usinas
hidrelétricas e mineradoras possuem programas de reintrodução,
visando atenuar, junto à opinião pública, o impacto negativo de
suas atividades. Alguns destes programas possuem resultados con
cretos para apresentar, outros não.
Infelizmente, a reintrodução de animais não é uma panacéia. A morte dos animais
rcintroduzidos talvez seja o mais inofensivo entre os possíveis malefícios de um mau pro
grama de reintrodução, mesmo significando o desperdício de muitos anos de trabalho. Al
guns animais possuem uma forte organização de território, como as aves. A sua liberação
sem um levantamento prévio das populações pode colocar em risco esta organização, e
alguns indivíduos podem defender seu território até a morte por exaustão. Outras espécies
possuem uma forte organização de grupo, como o Cachorro-do-Mato-Vinagre, Speot/jus ve-
naticus. A reintrodução de indivíduos sem a sua incorporação a um grupo, ou sem a forma
ção de um novo grupo, pode também ou levar à morte dos indivíduos reintroduzidos, ou
a própria desestruturaçâo do grupo. Um terceiro aspecto a ser levado em conta em relação
às reintroduçòes é as habilidades aprendidas dos animais introduzidos, tais como a busca e
manipulação de alimento, a fuga de predadores, competição por fêmeas, entre outras.
Devido a estes aspectos, o monitoramento dos animais reintroduzidos é um aspec
to vital de qualquer programa de reintrodução, sem o qual sua avaliação é impossível. A
avaliação da reintrodução pode ser feita de diversos modos. O mais simples é a marcação
individual e acompanhamento, conforme feito por Lange (1998), com onze cutias (Dasy-
procta asprae) reintroduzidas no Jardim Botânico Municipal de Curitiba. Todas as cutias so
breviveram ao primeiro ano, enquanto foram monitoradas. A simples observação dos ani
mais, quando é possível, pode além de informar sobre o sucesso da reintrodução, também
fornecer dados valiosos sobre os hábitos alimentares do animal, aumentando a chance de
sucesso em outras reintroduçòes do animal.
O acompanhamento pode também ser feito por marcações que a comunidade re
conhece e reporta aos pesquisadores. O Projeto TAMAR e o Projeto Peixe-Boi, da Barra
Conservação de Pohiuçòes e Espécies
FIGURA 3.13. OPnjelo
Peixe-Boi já rein/rodnsfiu nove
indivíduos desde 1994
da Ilha de Itamaracá-PE,
trabalham deste modo. Este
modo de trabalho parece
mais adequado para lidar
com grandes quantidades de
animais, como no projeto
TAMAR, mas para anmçais
raros e de difícil observação,
os resultados são mais difí
ceis, e os animais podem ser n ---- ----------:---- ,— ,r http://wwv.projetopaxe-boi.com.br
dados como mortos quando
nào há observações deles. O Projeto Peixe-Boi já reintroduziu 9 indivíduos desde
1994 (figura 3.13), sendo que dois estão desaparecidos e um morreu. Além de obser
vações da comunidade, o projeto também conta com equipamento de telemetria.
Este equipamento mostrou que os casais que são reintroduzidos juntos não perman
ecem juntos na natureza. Por causa disto, a última reintroduçào, em dezembro de
1999, foi realizada com dois machos (guape e guaju).
Um método freqüentemente utilizado com espécies aquáticas, ou felinos,
de difícil observação, é a radiotelemetria, através do qual um rádio é colocado no
animal, e sua posição é conhecida por meio de estações de recepção colocadas no
campo. Alguns Botos-Rosa são monitorados deste modo no Projeto Mamirauá, em
Tefé-AM (figura 3.14), além de várias espécies ao redor do lago de Itaipu. Mais do
que saber se o animal permanece vivo, a telemetria permite conhecer a movimenta
ção do animal no campo.
1 6 9
Cum ulo 3
FIGURA 3.14. Tom cie
Trltmetria na Estação
Ecológica Mamimuá. Um terceiro tipo de monitoramento é do pool genético da espécie,
lefe-yiM. através da medição da contribuição genédca dos animais introduzidos para a
população, que, em última instância, é o objetivo final de todo o programa
de reintrodução. Pereira e Wajntal (1999) mediram o grau de parentesco en
tre populações livres e em cativeiro de duas espécies de Jacu Penelope obscura
bnn^ina e P. superciliarisjacupemba. Os resultados mostraram que as populações
livres que se estabeleceram nas áreas são aparentadas com as populações do
programa de reprodução e reintrodução.
Infelizmente, nem sempre as condições permitem o monitoramento
dos animais. Na Paraíba, uma fazenda particular (Veneza do Juá) é responsável
pela reintrodução de animais comercializados ilegalmente e apreendidos pelo
IBAMA. O foco deste trabalho é o fortalecimento dos animais, e muito pouco
parece ser feito em relação ao acompanhamento das reintroduções. A se somar
a falta de recursos, este projeto lida com grandes quantidades de animais. Mais
de 3.000 animais de 50 espécies já foram reintroduzidos pela Fazenda Veneza
do Juá.
Uma etapa muito importante dos programas de reintrodução é a acos-
tumaçào do animal ao ambiente em que ele vai ser reintroduzido. Os animais
liberados podem necessitar de atençào especial durante e imediatamente após
1 7 0
Conservação de Populações e Espíy
(
a sua liberação; essa abordagem é conhecida como “liberação suave”. Os animais
podem precisar ser alimentados e protegidos no momento da liberação até que se
jam capazes de subsistir por conta própria, ou podem necessitar de uma liberação
gradual , até que se familiarizem com a área. Grupos sociais abruptamente retirados
de seu cativeiro podem se dispersar em diferentes direçõese longe da área protegida,
resultando cm um esforço de estabelecimento fracassado. Intervenções podem ser
necessárias se os animais parecerem incapazes de sobreviver, particularmente du- |
rante episódios de seca ou pouca abundância alimentar. Os programas brasileiros de
reintrodução parecem estar bastante atentos àacostumação dos animais antes de sua
liberação.
I
I
Comportamento Social de Animais Soltos
Os programas bem-sucedidos de reintrodução, acréscimo e in
trodução precisam considerar a organização social e o comportamento
dos animais que estão sendo liberados. Quando animais sociais, em espe
cial mamíferos e alguns pássaros, crescem num ambiente selvagem, eles
aprendem sobre o seu ambiente e como interagir socialmente com outros
membros de sua espécie. Os animais criados em cativeiro podem não ter
as habilidades necessárias para sobreviver no seu ambiente natural, assim
como as habilidades sociais necessárias para encontrar comida de maneira
cooperativa, perceber o perigo, encontrar parceiros e criar seus filhotes.
Para superar esses problemas de socialização, os mamíferos e pássaros cri
ados em cativeiro podem necessitar de um treinamento prolongado tanto
antes quanto depois da sua liberação no ambiente. Os chimpanzés cativos,
por exemplo, foram ensinados a usar gravetos para se alimentar de para
sitas e para construir os seus ninhos. Os Micos-Leões-Dourados recebem
caixas de alimento complexas para aprenderem as habilidades que serão
usadas na abertura de frutas silvestres (figura 3.15; Kleiman, 1989). Os ani
mais cativos aprendem a temer predadores potenciais ficando assustados
de algum modo quando um predador simulado lhes é mostrado.
A interação social é um dos comportamentos mais difíceis para
as pessoas transmitirem a mamíferos e pássaros criados em cativeiros,
171
,io 3
porque, para a maioria das espécies, as sudlezas do comportamento social não são bem
compreendidas. Entretanto, algumas tentativas bem-sucedidas têm sido feitas para sociali
zar os mamíferos criados em cativeiro. Em alguns casos, os humanos imitam a aparência e
o comportamento dos indivíduos em ambientes selvagens. Este método é particularmente
importante quando se lida com animais muito jovens, os quais precisam aprender a iden
tificar-se com suas próprias espécies mais do que com uma espécie substituta ou com hu-
FIGURA 3.15. O mico-káo-dourado (Leontopithecus
rosidiu) deve aprender habilidades necessárias para
a rida num ambiente selvagem; neste caso, o animal
deve encontrar comida dentro de uma caixinha de
quebra-cabeça complexo, (fotografia de Jessie Cohen,
Parque Zoológico Nacional, Instituto Smitbsonian.)
FIGURA 3.16. Filhotes de condor da Califórnia
('Gymnogyps ca/ifomianus) criados em cativeiro são
alimentados por pesquisadores que usam marionetes
de mào que se patecem com pássaros adultos. Os
biólogos de conservação esperam que ao minimizar o
contato humano com os pássaros, esses melhorarão
suas chances de sobrevivência quando forem
devolvidos ao ambiente selvagem. (Fotografia de
Mike Wallacc, Zoológico de Los Angeles).
(mm/n BE Populações e Espécies
manos. Os filhotes de condor da Califórnia criados em cativeiro, inicialmcntc não
conseguiram aprender os comportamentos de seus parentes do ambiente selvagem
porque tinham aprendido o de seus criadores humanos. Os condores recém-nasci
dos são agora alimentados com marionetes de mão imitando um condor e mantidos
longe da vista dos visitantes do zoológico figura 3.16). Em outros casos, indivíduos
selvagens são usados como “instrutores” para indivíduos em cativeiros da mesma
espécie. Os micos leões dourados são presos e mantidos com micos criados cm cat
iveiros para formar grupos sociais que são então liberados em conjunto, na esperan
ça de que os micos criados em cativeiros aprendam a partir do comportamento dos
selvagens {figura 3.17) (Kleiman, 1989). Quando os animais criados em cativeiros são
soltos de volta na natureza, eles, às vezes, se juntam a grupos sociais já existentes ou
se acasalam com animais selvagens e, desta forma, adquirem algum conhecimento
sobre o seu ambiente. O desenvolvimento de relações sociais com animais selvagens
pode ser crucial para o sucesso dos animais criados em cativeiros uma vez que sejam
liberados.
Ano
FIGURA 3.17. Umi população experimental cie Mico Ixão Dourado inicialmente consistia inteiramente de animais
reintrodngidos, nascidos em cativeiro, mas agora é composta principalmente por animais nascidos na floresta. Isto pode ser
devido ao convívio entre animais nascidos bines e nascidos em ca fiteiro. Isto parece indicar um programa bem-sucedido e
uma população que poderá em breve se tomar auto-sustentável (Ponte: Beck e Martines, 1995).
173
Capítulo 3
Estabelecimento de Novas Populações de Plantas
O estabelecimento dc novas populações de plantas raras e ameaçadas é bas
tante diferente do estabelecimento de vertebrados terrestres. Os animais conseguem
se dispersar para novos locais e procuram ativamente as condições locais que lhes
são mais adequadas. N o caso das plantas, as sementes são dispersadas para novos lo
cais por agentes, tais como o vento, animais e água (Guerrant, 1992; Primack and
Miao, 1992). Uma vez que uma semente chega ao solo, ela não consegue se deslocar,
mesmo que exista um micro-ambiente adequado a alguns centímetros de distância. O
micro-ambiente imediato é crucial para a sobrevivência da planta: Se o lugar é muito
ensolarado, ou há sombra demais, ou é muito úmido, ou muito seco, a semente ou
não germinará ou suas mudas morrerão. Perturbações como fogo ou revolvimento
dc solo podem também ser necessárias para o estabelecimento de plântulas de muitas
espécies. Portanto, um local pode ser adequado para o estabelecimento de plântulas
apenas uma vez a cada vários anos, tornando as reintroduçòes difíceis de se realizar e
de se avaliar.
As populações de espécies de plantas raras e ameaçadas típicamente deixam de
se estabelecer a partir de sementes introduzidas na maioria dos locais que parecem ser
adequados para elas. Para aumentar suas chances de sucesso, os borânicos freqüente-
mente germinam sementes em ambientes controlados e cultivam as plantas jovens
em condições protegidas. Somente após as plantas terem passado o estágio frágil de
plântula é que elas são transplantadas para o campo. Em outros casos, as plantas são
retiradas de uma população silvestre de área existente (geralmente uma que está amea
çada de destruição ou uma onde a remoção de uma pequena porcentagem das plan
tas aparentemente não danificará a população), e então transplantadas para um lugar
ocupado mas aparentemente adequado. Enquanto tal método de transporte tem uma
boa chance de assegurar que uma espécie sobreviva na sua nova localização, ele não
imita um processo natural, e novas populações freqüentemente deixam de produzir as
sementes e as mudas necessárias para formar a próxima geração (Allen, 1987; Pavlik et
al., 1993; Primack, 1995). Os ecologistas vegetais estão atualmente tentando descobrir
novas técnicas para superar estas dificuldades, tais como o levantamento de cercas
para evitar a presença de animais, a remoção de alguma vegetação já existente para
redução da competição (Tabanez et al,l 997) , e o acréscimo de nutrientes minerais
(Almeida, 2000).
1 7 4
(
(
Conservação de Populações e Espécies
c
Estratégias de Conservação Ex Situ
A melhor estratégia para proteção a longo prazo cia diversidade biológica é
a preservação de comunidades naturais e populações no ambiente selvagem, conhe
cida como preservação in situ ou preservação local. Somente na natureza as espécies
são capazes de continuar o processo de adaptação evolucionária para um ambiente
em mutação dentro de suas comunidades naturais. A princípio, a conservação in situ
pode não ser eficiente para pequenas populações, ou no caso de todos indivíduos
remanescentes estarem foradas áreas protegidas (Conway, 1980; Dresscr, 1988; Seal,
1988). Todavia, em grande parte dos trópicos, incluindo o Brasil, não se conhece o
tamanho de população da maior parte das espécies de plantas. Na verdade, existem
até mesmo inúmeras espécies que nem foram nomeadas e descritas. Desta forma, a
conservação in sim se configura como principal estratégia de conservação para estas
espécies, para que antes que elas possam ser conservadas, elas possam ao menos ser
estudadas. )á para grupos com menos espécies e grandes exigências de espaço, como
os grandes vertebrados [figura 3.18) é provável que a única maneira de se evitar que
as espécies se tornem extintas seja manter os indivíduos em condições artificiais sob
a supervisão humana, como por exemplo em zoológicos.
FIGURA 3.18. Felidm.
como a onça pardo
Puma concolor
gera/mente necessitam de
grandes territórios para
manterem popa/ações
sustentáveis. Por este
motivo. a conservação
ex sitn i uma estratégia
importante para conservar
este grupo, mesmo que em
caráter emerge nciaí
(
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C
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1 7 5
Esta estratégia é conhecida
como preservação ex situ. Instalações
ex situ para preservação animal incluem
zoológicos, fazendas com criação de
caça, aquários e programas de criação
em cativeiro. As plantas são manti
das em jardins botânicos, arboretos e
bancos de sementes. Uma estratégia
intermediária que combina elementos
tanto da preservação ex situ quanto da
preservação in situ é o monitoramento
intensivo e o manejo de populações de
espécies raras e ameaçadas em peque
nas áreas protegidas; tais populações
estão ainda de certa forma em nível
selvagem, porém a intervenção huma
na pode ser usada ocasionalmente para
evitar o declínio da população.
Os esforços de conservação ex
situ são parte importante de uma es
tratégia de conservação integrada para
proteger as espécies ameaçadas (Falk,
1991) . As estratégias de conservação
ex situ e in situ são abordagens comple
mentares (Kennedy, 1987; Robinson,
1992) . Indivíduos de populações ex
situ podem ser periodicamente soltos
na natureza para aumentar os esfor
ços de conservação in situ. Pesquisas
sobre populações em cativeiro podem
fornecer idéias para a biologia básica
de uma espécie e sugerir novas estra
tégias de conservação para populações
in situ. As populações ex situ que são
sustentáveis podem também reduzir a
necessidade de se retirar indivíduos do
ambiente selvagem para serem coloca
dos à mostra ou para fins de pesquisa.
Finalmente, os indivíduos criados em
cativeiros que estão à mostra podem
ajudar a educar o público sobre a ne
cessidade de preservar as espécies, e
desta forma, proteger outros membros
das espécies que se encontram no mun
do selvagem. A preservação in situ de
espécies, por sua vez, é vital para a so
brevivência de espécies que são difíceis
de se manter em cativeiro, tais como o
lobo guará (figura 3.1), assim como para
dar condições para zoológicos, aquários
e jardins botânicos de continuamente
apresentar novas espécies. A conserva
ção ex-situ não é barata; o custo para se
manter elefantes africanos e rinocero
ntes pretos em zoológicos é 50 vezes
mais do que proteger o mesmo número
de indivíduos em Parques Nacionais do
Leste Africano (Leader-Williams, 1990).
Como Michael Soulé diz, “Não há ca
sos perdidos, somente pessoas sem
esperança e situações caras demais”
(Soulé, 1987).
Conservação de Popuiações e Espécies
Jardins Zoológicos
Os jardins zoológicos ao redor do mundo, junto com universidades afiliadas,
departamentos governamentais para a proteção da vida selvagem, e organizações de
conservação, atualmente mantêm mais de 700 mil indivíduos representando 3 mil
espécies de mamíferos, pássaros, répteis e anfíbios (Groombridge, 1992). Enquanto
esse número de animais em cativeiro pode parecer impressionante, ele é reduzido
em comparação aos números de gatos, cachorros e peixes domésticos mantidos
por pessoas como animais de estimação. A ênfase dada pelos jardins zoológicos
em apresentar “uma megafauna carismática” e além disto muitas vezes exótica, tal
como os pandas, girafas e elefantes, tende a ignorar as enormes ameaças aos grandes
números de insetos c outros invertebrados que formam a maioria da espécie animal
do mundo. E além disso, pode passar a impressão errônea para os visitantes, que o
lugar adequado para os animais grandes e coloridos é dentro de uma jaula.
O objetivo principal da maioria dos grandes jardins zoológicos é estabelecer
populações de criação em cativeiro de animais raros e ameaçados. Somente cerca
de 10% das 274 espécies de mamíferos raros mantidos por jardins zoológicos do
mundo todo atualmente têm populações de cativeiro auto-sustentáveis de tamanho
suficiente para manter a sua variação genética (Ralis e Bailou, 1983; Groombridge,
1992). Para remediar essa situação, os jardins zoológicos e organizações de conser
vação afiliadas têm se esforçado para construir as instalações e desenvolver a tec
nologia necessárias para estabelecer colônias de criação de animais raros e ameaça
dos, tais como o leopardo da neve e o orangotango, e desenvolver novos métodos
e programas para reestabelecimento das espécies silvestres {figura 3.19\ Foose, 1983;
Dresser, 1988). Algumas dessas instalações são altamente especializadas, tais como
a International Crane Foundation (Fundação Internacional da Garça), no Estado de
Wisconsin, que está tentando estabelecer populações de criação em cativeiro de to
das as espécies de garças.
O sucesso de programas de criação em cativeiro tem aumentado, através de
vários programas que coletam e disseminam conhecimentos sobre espécies raras e
ameaçadas. O grupo de especialistas em criação de conservação da Comissão de So
brevivência da Espécie do UICN-Uniào de Conservação Mundial, fornece aos jar
dins zoológicos as informações necessárias para o adequado tratamento e manejo
dessas espécies, incluindo dados sobre exigências nutricionais, técnicas anestésicas,
177
m o 3
condições ideais de habitação, vacinas e antibióticos. Bases de dados, centrais de registros
de criação e livros de controle estão sendo desenvolvidos para evitar acasalamentos entre
parentes próximos e a resultante mortalidade de crias associada com deriva genética e de
pressão endogâmica. Um dos mais importantes é o Sistema Internacional de Inventários de
Espécies (ISE), que fornece informação sobre 4.200 tipos de animais em 395 instituições
zoológicas em 39 países.
FIGURA 3 .19 . Leopardos da neve se reproduzem bem em cativeiro. A m anutenção de colônias de criação desses anim ais pode red u zira
necessidade dos ja rd in s zoológicos de capturar ind ivíduos de populações selvagens em declínio. D esde 1 974 , a m aioria dos leopardos da
neve em ja rd in s zoológicos tem nascido em cativeiros. (Ponte: Foose, 1 9 83 .)
Uma grande variedade de técnicas inovadoras está sendo desenvolvida para aumen
tar as taxas de reprodução de espécies em cadveiros. Algumas dessas vêm diretamente da
medicina humana e da veterinária, enquanto outras são métodos novos desenvolvidos para
determinadas espécies. Essas técnicas incluem a adoção cruzada, tendo mães de espé
cies comuns criando os filhotes de espécies raras; insem inação artificial quando adultos
demonstram não ter nenhum interesse em acasalar ou estão vivendo em locais diferentes;
incubação artificial de ovos em condições de chocagem ideal; e transferência de em
brião, a implantação de ovos fertilizados dc espécies raras cm mães substitutas de espécies
comuns.
Quando ciendstas decidem usar esses métodos para preservar uma espécie, eles de
vem considerar uma série de questões édeas. Primeiro, qual a necessidade e qual a eficácia
desses métodos para uma determinada espécie? É melhor deixar que os últimos indivíduos
de uma espécie vivam os seusúltimos dias em um ambiente selvagem, ou começar uma
população em cativeiro que pode scr incapaz de se adaptar às condições naturais? Segundo,
Conservação os Popuuçõfs e Espécies
uma população de espécies raras que tenha sido criada cm cativeiro e não sabe como
sobreviver no seu próprio ambiente natural realmente representa a sobrevivência da
espécie? Terceiro, as espécies mantidas em cativeiro são para o seu próprio benefício
ou para o benefício de um jardim zoológico?
Mesmo quando as respostas para essas questões indicam que o manejo ex
situ é adequado, nem sempre é possível criar populações ex situ de espécies animais
raras. Uma espécie pode ter sido tão reduzida em número que ela tem pouco suces
so de criação c altas taxas de mortalidade de jovens devido à depressão endogâmica.
Certos animais, especialmente os mamíferos marinhos, são tão grandes ou exigem
ambientes tão específicos que as instalações para manutenção e manejo são proibi
tivamente caras. Muitos invertebrados têm ciclos de vida complexos nos quais suas
dietas mudam assim que eles crescem, e suas necessidades ambientais variam de ma
neira pouco perceptível para nós. Muitas destas espécies não podem ser criadas com
o que conhecemos delas hoje. Finalmente, certas espécies são muito difíceis de se
criar, apesar dos esforços dos cientistas. Dois exemplos clássicos são as espécies de
papagaios e os rinocerontes da Sumatra, que têm baixas taxas de reprodução em am
biente selvagem e não têm conseguido se reproduzir bem em cativeiros, a despeito
de consideráveis esforços para se encontrar métodos eficazes de criação.
Aquários
Para se lidar com as ameaças às espécies aquáticas, os ictiologistas,
os estudiosos dos mamíferos marinhos e os especialistas em recifes de
corais que trabalham em aquários públicos estão cada vez atuando em
conjunto com seus colegas de institutos de pesquisa marinha, departa
mentos públicos de piscicultura e organizações de conservação para de
senvolverem programas de conservação de ricas comunidades naturais
e de espécies que requerem atenção especial. Atualmente, aproximada
mente 580.000 espécies de peixes são mantidas em aquários, a sua maioria
retirada da natureza (Olney e Ellis, 1991). Grandes esforços estão sendo
feitos hoje para o desenvolvimento de técnicas de criação para que espé
cies raras possam ser mantidas em aquários, às vezes para serem liberadas
de volta ao seu ambiente natural, e para que os indivíduos selvagens não
tenham que ser recolhidos (Kaufman, 1988). Muitas das técnicas usadas
1 / 9
O i r u i o 3
na criação de peixes foram originalmente desenvolvidas pot piscicultores para
operações em grande escala de estocagcm envolvendo trutas, carpas, salmões e
outras espécies comerciais. Outras técnicas foram descobertas no comércio de
peixes de aquários domésticos, enquanto os negociantes tentavam propagar a
venda de peixes tropicais. Essas técnicas estão agora sendo aplicadas na fauna
ameaçada de água doce, tais como os filhotes de foca do deserto encontrados
no Sudoeste Americano, os peixes de riachos da Bacia do Rio Tennessee, e os
ciclídios dos Lagos Africanos Rift. Programas para a criação de peixes marinhos
ameaçados e espécies de corais estão ainda em um estágio inicial, porém esta é
uma área de pesquisa ativa no momento amai.
Os aquários têm um papel particularmentc importante na conservação
de espécies ameaçadas. O conhecimento adquirido ao longo dos anos sobre as
espécies mantidas em aquários é de grande valia, também, para a conservação
in-sitn destas espécies e deveria ser melhor aproveitado pelos pesquisadores. Em
Ubatuba-SP, um aquário particular mantém o maior tanque de água salgada do
Brasil (80.000 litros), gera renda e empregos, além de expor para os turistas das
grandes cidades inúmeros aspectos de ecologia marinha que de outra maneira
passariam despercebidos para os turistas.
Jardins Botânicos e Arboretos
Os 1.500 jardins botânicos do mundo contêm as mais importantes coleções de plan
tas vivas e representam um recurso essencial para os esforços de conservação das plantas.
Os jardins botânicos do mundo estão atualmente produzindo pelo menos 35.000 espécies
de plantas, aproximadamente 15% da flora mundial (UICN/WWF 1989; Given, 1994);
talvez o dobro do número dessas espécies está sendo criado em estufas, jardins particulares,
e em outros ambientes (embora freqüentemente com poucos indivíduos por espécie). O
maior jardim botânico do mundo, o Royal Botanical Gardens o f England, em Kew, tem
aproximadamente 25.000 espécies de plantas em cultivo - cerca de 10% do total encon
trado no mundo — das quais 2.700 estão ameaçadas. Os jardins botânicos precisam aumen
tar o número de indivíduos produzidos para cada espécie, a fim de proteger a extensão de
variabilidade genética encontrada em cada uma delas.
’ 8 0
Conservação de Populações e Espícies
A história dos Jardins Botânicos brasileiros mostra como nós, aos poucos,
passamos a valorizar a flora local. O primeiro jardim botânico brasileiro, o Jardim
Botânico do Rio de Janeiro, foi fundado 1808 por Dom João, como Jardim de Acli
mação {figura 3.20). O propósito deste Jardim era aclimatar as especiarias vindas do
Oriente. Entre as primeiras espécies recebidas pelo então Jardim da Aclimação es
tava a Palma-Mater, espécie exótica que até hoje é o símbolo do Jardim Botânico do
Rio de Janeiro. Nestes quase duzentos anos de vida, o Jardim Botânico do Rio de
Janeiro se transformou cm um dos maiores depositários da flora nacional, incluindo
a exposição de 7.200 espécies, um herbário com mais de 330.000 exsicatas, e uma
equipe de pesquisadores em inúmeras áreas ligadas a conservação de espécies da
flora nativa. O Jardim Botânico Adopho Ducke, em Manaus, possui uma história
bem mais recente e já nasceu voltado para a flora nativa. Fde consiste de algumas
edificações e trilhas interpretadvas que permitem aos visitantes conhecer um trecho
da floresta amazônica. Ao todo, o Brasil possui 26 Jardins Botânicos.
FIG UR A 3.20. O
Jardim botânico do
Rio de Janeiro foi
fundado em í 808
por Dom João.
Sua função inicia!
era de aclimatar as
especiarias vindas do
Oriente.
Fora do Brasil, os jardins botânicos cada vez mais concentram-se no cultivo
de espécies de plantas raras e ameaçadas, e muitos têm se especializado em tipos
específicos de plantas. O Arnold Arboretum da Universidade de Harvard produz
centenas de diferentes espécies de árvore de clima temperado. A New England Wild
Flower Society tem uma coleção de centenas de herbáceas perenes de clima temper
ado no seu Jardim na Floresta. Na Califórnia, um arboreto especializado em pinhei
ros produz 72 das 110 espécies de pinheiros encontradas no mundo, enquanto que
o principal Jardim Botânico da África do Sul tem 25% das muitas espécies de planta
daquele país em cultivo.
181
Zapíiulo 3
Os jardins botânicos encontram-se em uma posição singular quanto à contribuição
para os esforços de conservação, uma vez que suas coleções de indivíduos vivos e herbários
associados de exsicatas (plantas secas) representam uma das melhores fontes de informação
sobre distribuição de plantas e exigências de habitat. As pessoas que trabalham em jardins
botânicos são frequentemente vistas como autoridades em identificação de plantas e estado
de conservação. Expedições realizadas por funcionários de jardins botânicos descobrem
novas espécies e fazem observações sobre espécies conhecidas, enquanto que 250 jardins
botânicos mantêm reservas naturais que servem como importantes áreas de conservação
em si próprios. Além disso, os jardins botânicos têm o papel de educar o público quanto a
questões de conservação, uma vez que cerca de 150 milhões de pessoas os visitam por ano.
Em nível internacional, o Botanical Gardens Conservation Sccretariat (BGCS) da
UICN-The World Conservation Union, está organizando e coordenando os esforços deconservação feitos pelos jardins botânicos de todo o mundo (BGCS, 1987). As prioridades
desse programa incluem o desenvolvimento de um sistema de banco de dados sobre ambi
entes nativos para coordenar a atividade de coleta e identificação de espécies que se encon
tram mal representadas ou ausentes nas coleções vivas. Um problema com a localização dos
jardins botânicos é que a maioria encontra-se na zona temperada, embora a maior parte das
espécies encontradas no mundo esteja nos trópicos. Ainda que os principais jardins estejam
em lugares tais como Singapura, Sri Lanka, Java e Colômbia, a abertura de novos jardins
botânicos nos trópicos é uma prioridade para a comunidade de conservação internacional,
junto com o treinamento de taxonomistas de espécies vegetais locais.
Bancos de Sementes
Além da produção de plantas, os jardins botânicos e institutos de pesquisa têm de
senvolvido coleções de sementes, às vezes chamadas de bancos de sem entes, retiradas do
ambiente natural ou de plantas cultivadas. As sementes de muitas espécies de plantas po
dem ser estocadas em temperatura fria e ambiente seco nesses bancos de sementes por um
período de tempo e mais tarde serem germinadas. A habilidade das sementes em perman
ecerem dormentes é extremamente valiosa para os esforços de conservação ex situ ,porque
permite que as sementes de um grande número de espécies raras sejam congeladas e esto
cadas em um pequeno espaço, com pouca supervisão e a baixo custo. Existem no mundo
mais de 50 bancos de sementes reconhecidos, muitos deles nos países em desenvolvimento,
8 2
Conservação oe Popuuçôís e Espécies
com suas atividades coordenadas pelo Grupo Consultor de Pesquisa Agrícola Inter
nacional (CGIAR).
Embora os bancos de sementes tenham um grande potencial para a con
servação de espécies, eles também apresentam alguns problemas. Se ocorrer algum
problema de energia elétrica ou se algum equipamento quebrar, uma coleção inteira
de indivíduos congelados pode ser danificada. Mesmo em estocagem a frio, as se
mentes gradativamente perdem sua habilidade de germinação, devido à exaustão
de suas reservas energéticas e ao acúmulo de mutações danosas. Para superar esta
deterioração gradativa da qualidade da semente, amostras de sementes devem ser
periodicamente germinadas, as plantas adultas cultivadas até a maturidade, e novas
amostras de sementes estocadas. Para os bancos de sementes com grandes coleções,
este teste e rejuvenescimento constante de amostras de sementes é uma tarefa gigan
tesca.
FIGURA 3.21. Espiei'!
ameaçadas de plantas>
podem frequentemente ser
propagadas em grande escala
usando modernas técnicas
de cultura de tecido. Cada
orquídea nesta foto foi
obtida através de cultura
de teàdos na Uniiersidade
Estadual de Londrina (foto
Prof Ricardo Faria)
Aproximadamente 15% das espécies de plantas do mundo têm sementes
“recalcitrantes” que não possuem dormência ou não toleram as condições de es
tocagem em baixa temperatura, e conseqüentemente não podem ser mantidas em
bancos de sementes. Estas sementes devem germinar imediatamente, caso contrário,
morrem. As espécies com sementes recalcitrantes são muito mais comuns na flores
ta tropical do que na zona temperada; as sementes de muitas árvores de grande valor
econômico, tais como o cacau e a borracha, não podem ser estocadas (BGCS, 1987).
Intensivas investigações estão em andamento para descobrir maneiras de se estocar
sementes recalcitrantes; um possível modo seria estocar somente o embrião após do
1 8 3
JPÍTUIO 3
endosperma e de outros tecidos. Algumas espécies de plantas podem também ser mantidas
em cultura de tecido em condições controladas ou propagadas por cultivo de tecidos de
uma planta mãe, embora estes processos em alguns casos sejam mais caros do que cultivar
plantas a partir das sementes {figura 3.21).
Bancos de sementes têm sido considerados pela comunidade agrícola internacional
como um meio eficaz de preservar a variabilidade genética que existe em espécies agríco
las {figura 3.22). Freqüentemente os genes resistentes a uma determinada doença ou praga
são encontrados em apenas uma variedade de uma plantação, conhecidos como genótipos
selvagens, que são produzidos em apenas uma pequena área do mundo. Esta variabilidade
genética é com freqüência essencial para a indústria agrícola em seus esforços para manter e
aumentar altas produtividades em face ao aparecimento frequente de novas pragas. Os pes
quisadores estão em uma corrida contra o tempo para preservar esta variabilidade genética,
uma vez que os agricultores em todo o mundo estão abandonando suas variedades agrícolas
locais em favor de variedades padrões de alta produção (Altieri e Anderson, 1992; Cleve-
land et al., 1994). Este fenômeno mundial é ilustrado pelos agricultores do Sri Lanka, que
plantaram 2.000 variedades diferentes de arroz até o final da década de 50, e posteriormente
se voltaram para a plantação de apenas 5 variedades com altas taxas de produção (Rhoades,
1991). Até o momento, mais de 2 milhões de coletas de sementes foram adquiridas dos ban
cos de sementes. Muitas das grandes culturas, como o trigo, milho, aveia e batata, estão bem
representadas nos bancos de sementes, e outras importantes culturas, como o arroz, painço
FIGURA 3.22. A variação
genética no núlbo (Zea mays)
é evidente na sua variedade de
formas de espiga, semente e cor.
(Troto Stevtn King)
184
Conservação of Populações e Espécies
FIGURA 3.23.
Espécies cultivadas
apresentam
alta diversidade
genética em certas
áreas do mundo,
freqiientemente a
área onde a espécie
foi domesticada
pela primeira tr%
ou onde ela ainda
é cultivada em
ambientes agrícolas
tradicionais.
(Cortesia de
Garrison Wilkes)
e sorgo, estão sendo intensivamente coletadas também (Plucknett et al., 1987). En
tretanto, culturas de apenas relevância regional, as plantas medicinais, plantas de fi
bras e outras plantas de-utilidade não se encontram bem representadas. Também,
as espécies com sementes recalcitrantes não estão representadas nas coleções de se
mentes, mesmo assim, estas sementes têm grande importância para as economias de
países tropicais e para a dietas de habitantes locais. As espécies aparentadas a plan
tas cultivadas não estão adequadamente representadas embora sejam extremamente
úteis nos programas de melhoria de culturas.
Há uma grande controvérsia sobre o desenvolvimento de bancos de semen
tes no que diz respeito a quem possui e controla os recursos genédeos de plantas
cultivadas. Os genótipos selvagens locais de plantas de cultura e parentes naturais de
espécies de cultura fornecem a estrutura necessária para se desenvolver variedades de
“elite” e de alta produção adequadas à agricultura moderna. Cerca de 96% da vari
abilidade genética necessária para a agricultura moderna vem dos países em desen
volvimento, tais como a índia, Etiópia, Peru, México, Indonésia e Egito {figura 3.23),
mesmo assim os programas de criação para linhagens de “elite” freqüentemente en-
contram-se nos países industrializados da América do Norte e da Europa. No pas
sado, bancos de sementes internacionais livremente coletavam sementes e tecidos
de plantas dos países em desenvolvimento e os entregavam para centros de pesquisa
e empresas de sementes. Entretanto, assim que as empresas de sementes desenvol
1 8 5
viam novas linhagens de “elite” através de sofisticados programas de melhoramento e testes
em campo, elas vendiam suas sementes a um preço alto e com fins lucrativos. Os países em
desenvolvimento estão agora questionando este sistema, argumentando que isto não é justo
e que seja até mesmo uma “postura colonial e controladora para se manter a ignorância” na
qual “nações dependentes têm sua diversidade roubada” (Goldstein, em Shulman, 1986). A
partir desta perspectiva, os países em desenvolvimento perguntam por que deveriam com
partilhar seus recursos genéticosgratuitamente e ao mesmo tempo pagarem pelas sementes
melhoradas com base nesses mesmos recursos genéticos. Uma solução proposta é que os
países desenvolvidos e as empresas de sementes paguem pelos recursos genéticos que eles
obtêm dos países em desenvolvimento (Vogei, 1994). Uma outra solução, talvez extrema
mente idealista, é que todas as amostras de sementes, inclusive aquelas desenvolvidas pelas
empresas, sejam compartilhadas gratuitamente.
E stratégias de am ostragem de espécies nativas. Ao se estabelecer os bancos
de sementes, as estratégias para a coleta de sementes de espécies nativas raras ou amea
çadas devem levar em conta a distribuição da variabilidade genética: espécies com maior
variabilidade genética podem exigir amostragem mais extensiva para adquirir a maioria de
seus alelos, do que as espécies com menor variabilidade genética. O “Center for Plant Con-
servation - Centro para Conservação de Plantas (1991)” estabeleceu certas orientações para
amostragem de sementes a fim de conservar a variedade genética das espécies de plantas
ameaçadas. Estas orientações são diferentes no caso de animais.
1. A prioridade de coleta deve recair sobre as espécies que: (a) estão ameaçadas de ex
tinção isto é, as espécies apresentando um rápido declínio em número de indivíduos
ou número de populações; (b) são únicas em caráter de evolução ou em sua taxono-
mia; (c) podem ser reintroduzidas na natureza; (d) têm potencial para serem preser
vadas em situações ex situ; (e) têm valor econômico para a agricultura, medicina,
silvicultura ou indústria.
2. As sementes devem ser retiradas de no máximo cinco populações por espécie para assegu
rar que a maior parte da variação genética seja amostrada. Onde possível, as popula
ções devem ser selecionadas para representar a total extensão geográfica e ambiental
das espécies.
3. As sementes devem ser retiradas em número de 10 a 50 indivíduos por população.
Amostragem inferior a 10 indivíduos pode não apresentar alelos que são comuns na
população.
4 .0 número de sementes (ou mudas, bulbos, etc.) retirado por planta é determinado
Conservação df Popuuçôes f Espécies
pela viabilidade das sementes das espécies; isto é, sua habilidade em
germinar e transformar-se em novas plantas quando em condições
adequadas. Se a viabilidade da semente for alta, então somente al
gumas sementes precisam ser coletadas por espécime.
5. Se as plantas individuais de uma espécie tiverem uma reprodução
baixa, a coleta de muitas sementes em um ano pode ter um efeito
negativo nas populações amostradas. Uma melhor estratégia seria
realizar a coleta por vários anos.
Como conclui o Centro para Conservação de Plantas (1991):
“Coletas para conservação são tão boas quanto a diversidade contida nelas. Desta for
ma, a prevenção e os métodos que acompanham o trabalho de amostragem têm um papel
essencial na determinação da qualidade da coleta, assim como sua utilidade para fins
tais como a reintrodução e restauração. A longo prasp, a importância das coletas na
biologia de conservação é o seu papel em reforçar o manejo e. manutenção das populações
naturais. Os coletores deveriam se ver não como entidades estáticas de preservação”,
mas sim como um elo da corrente da sobrevivência e evolução. ”
Categorias de Conservação de Espédes
A UICN - União Mundial para Conservação - estabeleceu a seguinte clas
sificação de espécies com a finalidade de preservação das espécies consideradas raras
(UICN 1984, 1988) . As espécies nas categorias 2-4 são classificadas como “amea
çadas” de extinção. Esta classificação tem se mostrado útil nacional e internacional
mente ao chamar a atenção sobre as espécies que merecem cuidado, e ao identificar
as ameaçadas de extinção e que requerem sua proteção através de acordos interna
cionais tais como a Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies Ameaça
das (CITES).
1. Extintas: espécies (e outras taxas, tais como subespécies e variedades) que
não mais existem no ambiente natural. As buscas nas localidades onde as
espécies eram encontradas e de outros possíveis sidos não têm sido bem-su
cedidas na descoberta destas espécies.
1 8 7
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2. E m perigo: Espécies que têm grande probabilidade de extinção no futuro próxi
mo. Estão incluídas as espécies cujo número tenha sido reduzido ao ponto em que a
sobrevivência das espécies é improvável se tal tendência persistir.
3. Vulneráveis: Espécies que podem se tornar ameaçadas no futuro próximo uma
vez que suas populações estão diminuindo em tamanho em toda a sua extensão. A
viabilidade a longo prazo das espécies vulneráveis é incerta.
4. Raras: Espécies que têm um número reduzido de indivíduos, freqüentemente
devido às extensões geográficas limitadas ou a baixas densidades populacionais. Em
bora estas espécies possam não enfrentar nenhum perigo imediato, seus números
reduzidos tornam-nas possíveis candidatas à extinção.
5. Insuficientem ente conhecidas: Espécies que provavelmente pertencem a uma
das categorias de conservação mas que não são suficientemente conhecidas para ser
em classificadas.
Usando as categorias da UICN, o Centro de Monitoramento de Conservação Mun
dial (WCMC) tem avaliado e descrito as ameaças de cerca de 60.000 plantas e 2.000 espécies
animais em seus Livros Vermelhos (Tabela 3.1; IUCN, 1990). A grande maioria das espé
cies nestas listagens são plantas, refletindo a atual tendência de listar espécies de plantas em
habitats ameaçados. Entretanto, há também numerosas espécies listadas de peixes (343),
TABELA 3.1 - Número de espécies ameaçadas e presumivelmente ameaçadas por
táxon e categorias de ameaça.
Espécies Ameaçadas Espécies
Táxon Categoria Presumivelmente
E X CR E N VU Total Ameaçadas
M am íferos 5 13 12 10 40 25
Aves 4 12 27 40 83 64
Répteis 0 3 2 5 10 15
A nfíbios 0 0 1 10 11 17
Peixes 0 1 0 2 3 32
Invertebrados 3 4 13 11 31 12
Total 12 33 55 78 178 165
O bs: EX Provavelmente extinta; CR Criticamente em perigo; EN Em perigo; IV Vulnerável
F onte: M achado et al. 1998
(
Conservação de Popüuções e Espécies
anfíbios (50), répteis (170), invertebrados (1.355, pássaros (1.037), e mamíferos
(497). O sistema do IUCN tem sido utilizado para áreas geográficas específicas
como um meio de ressaltar as prioridades de conservação.
O Estado de Minas Gerais é um exemplo disto. A Tabela 3.1 mostra que
12 espécies são consideradas extintas, após o que aumenta a cada classe o número
de espécies. Esta ordem reversa sugere que a dinâmica de perda de espécies já
se encontra instalada no Estado de Minas Gerais, porque de modo geral, se es
pera que uma espécie, antes de seu desaparecimento completo na natureza, passe
por um gargalo representado pelos sucessivos estágios de ameaça (Machado et ai.,
1998).
Para ajudar a centrar a atenção nas espécies ameaçadas mais necessitadas
de esforços de conservação imediatos, o IUCN produz listagens das plantas e ani
mais mais “ameaçados” do mundo (Cahn e Cahn, 1985). Estas listagens incluem
espécies de valor de conservação exemplar. Entre os animais está o kago, um pás
saro raro não voador que é o símbolo da Caledónia; o komprey, uma raça bovina
primitiva do sudeste da Ásia que tem sido caçada e levada quase à extinção; e o
crocodilo do Rio Orinoco, que está sendo dizimado pelo comércio ilegal de peles.
As categorias estabelecidas pelo UICN nos livros vermelhos são o
primeiro passo para a proteção das espécies do mundo; entretanto, há certas
dificuldades no uso do sistema de categorias (Fitter e Fitter, 1987). Primeiro, cada
espécie listada deve ser estudada para determinar sua densidade demográfica e a
tendência em seus números. Tais estudos podem ser difíceis, caros e demorados.
Segundo, uma espécie deve ser estudada em toda a sua extensão, o que pode sig
nificar dificuldades logísticas. Terceiro, as categorias do UICN não sãoadequadas
para a maioria das espécies de insetos, que são pouco conhecidos em sua taxo-
nomia e biologia, e ainda ameaçados de extinção toda vez que se desmatam flo
restas tropicais. Quarto, as espécies são freqüentemente listadas como ameaçadas
mesmo que não tenham sido localizadas por muitos anos, presumivelmente por
suposição de que serão relocalizadas se uma busca mais completa for feita. Como
exemplo, um levantamento da história natural da Ilha de Sulawesi, na Indonésia,
mostrou que muitos peixes endêmicos e espécies de pássaros não tinham sido
vistos por várias décadas; seu status era desconhecido e eles não foram listados
no Livro Vermelho (Whitten et ah, 1987). Em tais situações, as espécies que não
tenham sido localizadas por muitos anos e cujos habitats tenham sido seriamente
189
danificados pela ação humana deveriam ser listadas como extintas ou ameaçadas, até que
estudos de campo tenham sido feitos para determinar sua real condição (Diamond, 1987).
O problema mais sério com o sistema do UICN é que os critérios para designar as
espécies em categorias específicas são subjetivos. Com um número maior de pessoas e orga
nizações envolvidas na classificação e avaliação das categorias, há uma possibilidade de que
as espécies sejam categorizadas arbitrariamente em determinadas categorias. Para remediar
esta situação, Mace e Lande (1991) propuseram um sistema cm três níveis de classificação
baseado na probabilidade de extinção:
1. A s espécies críticas têm 50% ou mais de probabilidade de extinção dentro de 5 anos
ou 2 gerações.
2. A s espécies ameaçadas têm de 20 a 50 % de probabilidade de extinção dentro de 20
anos ou 10 gerações.
3. A s espécies vulneráveis têm de 10 a 20% de probabilidade de extinção dentro de 100
anos.
Os critérios para estas categorias são baseados em métodos de desenvolvimento da
viabilidade populacional e enfocam particularmente as tendências da população e a condição
do habitat. Por exemplo, uma espécie crítica tem duas ou mais das seguintes características:
uma densidade demográfica total inferior a 50 indivíduos, menos que duas populações com
mais de 25 indivíduos para procriação, mais de 20% de declínio nos números populacio
nais dentro de 2 anos ou 50% dentro de uma geração, ou uma população sujeita a eventos
catastróficos a cada 5 ou 10 anos nos quais metade ou mais da sua população morre. As
espécies podem também ser classificadas como críticas a partir de uma perda de habitat
comprovada ou prevista, um desequilíbrio ecológico, ou exploração comercial. Usando esta
abordagem, até 43% de todas as espécies de vertebrados podem ser considerados com al
gum grau de ameaça de extinção (Mace, 1994). A vantagem deste sistema é que ele fornece
um método padrão pelo qual as decisões podem ser revistas e avaliadas por outros cientistas
de acordo com critérios quantitativos aceitos e usando qualquer informação disponível. No
entanto, este método pode ainda se tornar arbitrário quando as decisões têm que ser feitas
sem dados suficientes.
Conservação de Popuuções e Espécies
Proteção Legal de Espécies
Legislações Nacionais
A nossa legislação ambiental é voltada pata a conservação de ecossiste
mas. Existem historicamente poucas menções pardculares a espécies. A primeira
limitação à extração de uma espécie foi feita pela Coroa Real Portuguesa, que
tornou as árvores de Pau-Brasil propriedade real, e o seu corte sujeito a con
cessão. Menos do que preocupação com a conservação da espécie, a Coroa pre
tendia impedir que navios franceses extraíssem madeira da colônia. Posterior-
mente, outras espécies foram incluídas na lista, criando o tenno madeira de lei
(Dean, 1995).
A legislação ambiental atual raramente trata de espécies, como no artigo
16 do código florestal, que obriga a extração racional da floresta de Araucária
(sem no entanto definir este termo), e pela Portaria IBAMA 439, de 1989, que
obriga os produtores de palmito a repor os indivíduos extraídos na razão de três
para um.
Recentemente, os Estados passaram a publicar listas de espécies ameaça
das, como o Rio de Janeiro (Portaria SEMA, 01 de 1998) e Minas Gerais (De
liberação 041/95 do Conselho Estadual de Política Ambiental), além da Lista
Oficial de Espécies da Fauna Ameaçada de Extinção (Portaria IBAMA 1.522,
1989).
A estratégia de listar espécies em extinção é recomendada pela UICN,
que edita suas conhecidas Listas Vermelhas de Espécies Ameaçadas. Esta estra
tégia é bastante utilizada nos Estados Unidos, cuja principal lei para a proteção
de espécies é a Lei das Espécies em Extinção [Endangered Species Act] de 1973.
Esta lei sentiu como modelo para outros países, além do Brasil, embora sua im
plementação freqüentemente tenha se mostrado controversa (Rohlf, 1989,1991;
Clark et al., 1994; Chadwick, 1995).
A Lei das Espécies em Extinção foi criada pelo Congresso dos EUA
para “proporcionar um meio no qual os ecossistemas dos quais dependem es
pécies em extinção e espécies ameaçadas possam ser consen-ados (e) para pro
porcionar um programa para a consen açào de tais espécies”. As espécies são
protegidas pela Lei se estiverem incluídas em uma lista oficial de espécies em
191
extinção ou ameaçadas. De acordo com
a definição da lei, espécies em extinção
são aquelas que correm o risco de se ex
tinguir, como resultado de atividades hu
manas ou por causas naturais, completa
mente, ou uma parcela importante de sua
classe, enquanto que espécies ameaçadas
são aquelas que tendem a se tornar espé
cies em extinção em um futuro próximo.
A Secretaria do Interior, agindo por in
termédio do Serviço de Vida Selvagem e
Peixes dos EUA (U.S. Fish and Wildlife
Service), e a Secretaria de Comercio, ag
indo por intermédio do Serviço Nacional
de Pesca Marinha (National Marine Fish-
eries Service - NMFS), podem acrescentar
e retirar espécies da lista com base nas in
formações que lhes são disponibilizadas.
Além disso, é necessário um plano de re
cuperação para cada espécie listada. Nos
Estados Unidos, mais de 900 espécies
foram listadas, além de cerca de 500 espé
cies de outras partes do mundo. A lei ex
ige que todas as agencias governamentais
consultem o Serviço de Vida Selvagem e
Peixes dos EUA e o NMFS para deter
minar se suas atividades afetarão espécies
incluídas na lista, e proíbe atividades que
possam prejudicar essas espécies ou seu
habitat. A lei também evita que pessoas
físicas ou jurídicas e autoridades locais
danifiquem ou “se apropriem” das espé
cies incluídas na lista, e proíbe todo o seu
comércio.
Nas duas décadas desde sua cria
ção, a Lei das Espécies em Extinção tor-
nou-se cada vez mais importante como
ferramenta de conservação. A lei propor
cionou uma base legal para a proteção
das espécies animais mais significativas
nos Estados Unidos, tal como o urso
cinza, a águia de cabeça branca, o grou
e o lobo cinzento. Devido ao fato de a
legislação proteger o ecossistema no qual
as espécies em extinção vivem, comu
nidades biológicas inteiras e milhares de
outras espécies também foram protegidas
efetivamente (Orians, 1993). A lei tam
bém se tornou uma fonte de discussão
entre a conservação e os interesses com
erciais nos Estados Unidos. A proteção
garantida às espécies listadas é tão forte
que interesses comerciais freqüentemente
provocam grandes “lobbies” contra a
listagem de espécies em suas áreas. Atu
almente, 3.700 espécies são candidatas a
fazerem parte da listagem; na espera por
decisões oficiais, algumas dessas espécies
provavelmente se extinguiram (Horton,
1992). O lobby dos empresários reluta
em permitir que novas espécies sejam
adicionadas à lista, por causa da dificul
dade de reabilitar espécies a ponto de elas
poderem ser retiradas da lista. Até agora
apenas 5 de 749 espécies Lstadas foram
removidas da lista, sendo que os suces
sos mais notáveis foram o pelicano marrom e o crocodilo americano. Em 1994 a
Conservação de Popueaçóes e Espécies
águia de cabeça branca saiu da categoria “em extinção” altamente controlada para a
categoria “ameaçada”, menos crítica, em reconhecimento de que seu número havia
aumentado de 400 casais em procriação na década de 1960 para os amais 4.000. A
dificuldade em implementar planos de recuperação geralmente não é primariamente
biológica, mas é em grande medida política, administrativa e principalmente finan
ceira. O Serviço de Vida Selvagem e Peixes dos EUA gasta anualmente menos de
US$ 50 milhões cm atividades relacionadas com a Lei, mas uma estimativa recente
sugere que são necessários mais de USS 4 bilhões para eliminar a ameaça de extinção
de todas as espécies listadas.
O uso de listas de espécies ameaçadas traz cm si alguns
problemas, que podem ser conhecidos através da experiência
americana com a Lei de Espécies Ameaçadas, já de duas déca
das. A grande maioria das espécies relacionadas na Lei é de
plantas e vertebrados, a despeito do fato de que a maioria das
espécies é de insetos e outros invertebrados. Também cerca
da metade de 300 espécies de mexilhões de água doce encon
trados nos Estados Unidos está diminuindo, em perigo de ex
tinção ou já extinta. Mesmo assim 56 espécies estão listadas
na lei (Stolzenburg, 1992); (Chawick, 1995). Ambos os fatos
mostram que existe uma dose de subjetividade na elaboração
das listas. Além disto, em um país como o Brasil, diferente
mente dos Estados Unidos, estamos longe de conhecer todas
as nossas espécies. As espécies ainda não descritas, que são,
em muitos casos, também as mais raras, nunca constarão de
uma lista de espécies ameaçadas.
As listas de espécies ameaçadas têm, no entanto,
grande apelo junto ao público, servindo como instrumento
de educação ambiental. A divulgação de uma lista de espé
cies ameaçadas é afinal uma discriminação do patrimônio que
estamos arriscados a perder se nenhuma medida for tomada.
As vantagens e desvantagens de se utilizar listas de espécies
ameaçadas devem ser conhecidas por todos aqueles que estão
envolvidos na elaboração de políticas ambientais.
1 9 3
Ca p í m o 3
Acordos Internacionais
A proteção da diversidade biológica precisa ser considerada nos vários níveis
de governo. Se, de um lado, os principais mecanismos de controle existentes no
mundo são feitos de forma isolada pelos países, por outro, os acordos internacionais
estão, cada vez mais, sendo usados para proteger as espécies e os habitats. A coop
eração internacional é uma exigência crucial por várias razões. Em primeiro lugar,
as espécies freqüentemente migram para além das fronteiras internacionais. Os es
forços de conservação para proteger as espécies migratórias de pássaros no norte da
Europa não funcionarão, se o habitat dos pássaros que se protegem do inverno na
África for destruído.
Em segundo lugar, o comércio internacional de produtos biológicos pode
resultar numa super-exploração de espécies para suprir a demanda. O controle e o
manejo do comércio são necessários tanto na exportação quanto na importação.
Em terceiro lugar, os benefícios da diversidade biológica são de importância
internacional. Os países ricos das zonas temperadas, que se beneficiam da diversi
dade biológica tropical, precisam estar dispostos a ajudar os países menos ricos que
a preservam.
Finalmente, muitos dos problemas que ameaçam as espécies e os ecossiste
mas são de âmbito internacional e requerem cooperação internacional para resolvê-
los. Essas ameaças incluem a caça e a pesca predatórias, a poluição atmosférica, a
chuva ácida, a poluição de lagos, rios e oceanos, a mudança climática global e a
redução do ozônio.
O único tratado internacional importante que protege as espécies é a Con
venção do Tratado Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES) firmada cm 1973,
em conjunto com o programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP)
(Wijnstkers, 1992; Hemley, 1994). O tratado está atualmente endossado por mais de
120 países. O CITES fomecc uma lista de espécies cujo comércio internacional será
controlado; os países membros concordam em restringir o comércio e a exploração
destrutiva daquelas espécies (Fitzgerald, 1989). O Anexo I do tratado inclui aproxi
madamente 675 animais e plantas cuja comercialização está proibida e o Anexo II
inclui cerca de 3.700 animais e 21.000 plantas cujo comércio internacional é regulado
e monitorado. Entre as plantas, os Anexos I e II contemplam importantes espécies
herbáceas tais como, orquídeas, cicadáceas, cactos, plantas carnívoras e samambaias;
1 9 4
Conservação oe Populações í Espécies
FIG UR A 3.24. A s populações
de elefantes africanos estavam
declinando à taxas alarmantes
em muitos países africanos até
que o comércio fo i banido pelo
tratado CITES. O comércio
ilegal continua a ameaçar os
animais; estas presas foram
confiscadas com traficantes pelos
guardas parque' de Kmuçu/u
(Foto R. de Lui Harpe /
Biological Photo Service)
cada vez mais eles contemplam espécies de árvores. Entre os animais, os grupos cui
dadosamente controlados incluem os papagaios, felinos, baleias, tartarugas marinhas,
pássaros predadores, rinocerontes, ursos, primatas, as espécies escolhidas como ani
mais de estimação, para zoológicos, e comercialização em aquários, e as espécies
caçadas para o comércio de pele, lã ou outros produtos comerciais.
Os tratados internacionais tais como o CITES são implementados quando
um país signatário emite leis que caracterizam sua violação como ato criminoso.
Uma vez que as leis do CITES são promulgadas em um país, a polícia, as autori
dades alfandegárias, as autoridades ambientalistas e outros agentes governamentais
podem prender e processar os indivíduos em posse ou que comercializam as espé
cies listadas no CITES e apreender os produtos ou órgãos envolvidos. Os seguintes
organismos fornecem Consultoria Técnica aos países: UICN - The World Conserva-
195
tion Union Wildlife Trade Specialist Group (Grupo Especializado em Comercialização de
Espécies Silvestres do Sindicato Internacional para Conservação), o Fundo Internacional
para a Natureza (WWF) a Rede TRAFFIC e o Centro Mundial de Monitoração da Conser
vação (WCMC), Unidade de Monitoração do Comércio das Espécies Silvestres. O sucesso
mais notável do CITES foi uma interdição no comércio de marfim que estava causando
graves reduções das populações de elefantes da África {figura 3.24).
Outro tratado internacional é a Convenção sobre as Espécies Migratórias de Animais
Silvestres, assinada em 1979, com enfoque principal nas espécies de pássaros. Esta conven
ção serve como importante complemento ao CITES por encorajar os esforços internacio
nais no sentido de preservar as espécies de pássaros que migram para além das fronteiras
internacionais, e por enfatizar as abordagens regionais no que diz respeito à regulamentação
da pesquisa, administração e caça. O problema com esta convenção é que apenas 36 países
a assinaram e seu orçamento é muito limitado. Ela também não contempla outras espécies
migratórias, tais como os mamíferos e peixes marinhos.
Outros acordos internacionais importantes que protegem as espécies são:
• A Convenção sobre a Conservação dos Recursos Marinhos Vivos da A n
tártica
• A Convenção Internacional para a Regulamentação da pesca à Baleia, que
constituiu a Comissão Internacional de Pesca à Baleia
• A Convenção Internacional para a Proteção de Pássaros e a Convenção
Bene/ux sobre Caça e Proteção de Pássaros
• A Convenção sobre Pesca e Conservação dos Recursos Vivos no Mar Bálti
co
• Diversos acordos que protegem grupos específicos de animais tais como os
pitus, lagostas, caranguejos, focas (comércio de pele), salmões e vicunhas
Um ponto fraco nestes tratados internacionais é que a participa
ção é voluntária; os países podem sair da convenção para ir atrás de seus
própriosinteresses quando consideram difícil a obediência ao acordo
(French, 1994). Esta falha foi evidenciada recentemente quando muitos
países deixaram a Comissão Internacional de Pesca à Baleia porque esta
proibiu a caça (Ellis, 1992). É necessário que haja persuasão e pressão
pública para induzir os países a colocar em vigor as cláusulas dos tratados
e processar aqueles que a violam.
Cm m h à o oí Populações e Espéões
Resumo
1. Os biólogos têm observado que as populações reduzidas têm uma tendência
maior de se extinguir do que as grandes populações. A densidade demográ
fica mínima viável (MVP) é o número de indivíduos necessário para assegu
rar que a população tenha uma alta probabilidade de sobreviver no futuro.
2. As populações de tamanho reduzido estão sujeitas à rápida extinção devido a
três razões principais: perda de variabilidade genética e depressão endogãmi-
ca, flutuações demográficas; e a variação ambiental combinada com catástro
fes naturais. Os efeitos conjuntos desses fatores têm sido comparados a um
vórtice que tende a levar populações de tamanho reduzido à extinção. A
análise da viabilidade populacional usa dados demográficos, genéticos, ambi
entais, e de catástrofes naturais para estimar a MVP de uma população e sua
probabilidade de sobrevivência em um ambiente.
3. Os biólogos de conservação freqüentemente determinam se uma espécie
ameaçada é estável, está aumentando, flutuando, ou em declínio, através
do monitoramento, de suas populações. Em geral, a chave para a proteção
e manejo de uma espécie rara ou ameaçada é a compreensão de sua história
natural. Algumas espécies raras são mais precisamente descritas como meta-
populações nas quais um mosaico de populações temporárias depende de um
certo grau de migração e recolonização.
4. As novas populações de espécies raras e ameaçadas podem ser reestabeleci-
das através do uso de indivíduos criados em cativeiro ou retirados da na
tureza. Os mamíferos e pássaros criados em cativeiro provavelmente exigem
treinamento social e comportamental antes de serem libertados, e necessitam
de uma certa manutenção depois de soltos. A reintroduçào de plantas requer
uma abordagem diferente devido às suas necessidades ambientais específicas
quando em estágio de semente e muda.
5. Algumas espécies ameaçadas de extinção no ambiente natural podem ser
mantidas em zoológicos, aquários e jardins botânicos; esta estratégia é conhe
cida como conservação ex situ. Estas colônias em cativeiro podem, às vezes,
ser usadas posteriormente para o restabelecimento das espécies na natureza.
6. Para evidenciar o status de espécies para fins de conservação, a UICN -
União Internacional para Conservação da Natureza estabeleceu cinco cat-
197
egorias principais dc conservação: extintas, ameaçadas, vulneráveis, raras e insufici
entemente conhecidas. Este sistema de classificação é atualmente amplamentc usado
para avaliar o status das espécies e estabelecer prioridades de conservação.
7. A legislação brasileira é pouco voltada para espécies em particular, ao contrário da
legislação americana, baseada na Lei de Espécies Ameaçadas, de 1973. O conceito
de lista de espécies ameaçadas têm vantagens e desvantagens que devem ser conhe
cidas por aqueles que elaboram políticas ambientais.
8. Acordos e convenções internacionais sobre a proteção da diversidade biológica
são necessários porque as espécies migram para além das fronteiras, porque há
um comércio internacional de produtos biológicos, porque os benefícios da diver
sidade biológica são dc relevância internacional, e porque as ameaças à diversidade
freqüentemente ocorrem em nível internacional. A Convenção de Comércio Inter
nacional de Espécies Ameaçadas (CITES) foi assinada para regulamentar e moni
torar o comércio.
CA P ÍTU LO Q
Conservação de
Comunidades
A conservação de comunidades biológicas intactas é o modo mais eficaz de
preservação da diversidade biológica como um todo. Como nós temos recursos e
conhecimento suficientes para manter em cativeiro somente uma pequena parcela das
espécies do mundo, esta é a única forma de se preservar espécies em larga escala. As
comunidades biológicas podem ser preservadas através do estabelecimento de áreas
protegidas, implementação de medidas de conservação fora das áreas protegidas, e
restauração das comunidades biológicas em habitats degradados.
Comunidades biológicas variam desde algumas que são praticamente intactas,
tais como as comunidades encontradas no fundo do oceano ou nas áreas mais re
motas da floresta tropical amazônica, até aquelas que são em grande parte alteradas
pela ação do homem, como as áreas cultívadas, as cidades e os lagos artificiais. No
entanto, mesmo nas áreas mais remotas, pode-se observar a ação do ser humano na
forma de aumento dos níveis de dióxido de carbono e de exploração de produtos nat
urais e, por outro lado, mesmo nos ambientes mais modificados pelo homem, ainda
encontra-se remanescentes da biota original. Os habitats com níveis intermediários
de perturbação consistem em um dos mais interessantes desafios e oportunidades de
conservação biológica, já que quase sempre ocupam grandes áreas. Uma considerável
diversidade biológica pode ser encontrada em florestas tropicais onde foi feita ext
ração seletiva de madeira, em oceanos e mares com grande atividade pesqueira e em
pastagens (Western, 1989). Quando se estabelece uma área de conservação, é preciso
'viTillO 4
que se tenha o compromisso de proteger a diversidade biológica e a função do ecos
sistema e de satisfazer as necessidades imediatas e de longo prazo da população local
junto à autoridade nacional responsável pelos recursos.
(
(
Áreas Protegidas
Uma das medidas mais controvertidas na preservação de comuni
dades biológicas é o estabelecimento das áreas legalmente protegidas. Se,
por um lado, a legislação e a aquisição de terras, por si só, não asseguram
a preservação do habitat, por outro, representam um importante ponto de
partida.
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l
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c
O estabelecimento de áreas protegidas pode ser feito de muitas ma
neiras mas os dois mecanismos mais comuns são a ação governamental
(freqüentemente em nível nacional, mas também em nível regional ou local)
e aquisição de terras por pessoas físicas e organizações de conservação. Os
governos podem estabelecer as terras que serão consideradas áreas prote
gidas e promulgar leis que permitam vários níveis na sua utilização comer
cial dos recursos, utilização tradicional pela população local, e utilização para
fins de lazer. Muitas áreas protegidas têm sido estabelecidas por organiza
ções privadas de conservação, tais como a Fundação Boticário, a Fundação
Biodiversitas, a Nature Conservancy e a Audubon Society (Grove, 1988).
Uma prática cada vez mais comum é a da parceria entre o governo
e organizações internacionais de conservação, bancos multinacionais e os
governos dos países ricos. Em tais parcerias, as organizações de conserva
ção muitas vezes fornecem recursos financeiros, treinamento e assistência
científica e administrativa para ajudar o governo a estabelecer uma nova área
de proteção. O ritmo dessa colaboração está se acelerando graças aos novos
recursos fornecidos pela Global Environmental Facility (GEF) criado pelo
Banco Mundial e por agências das Nações Unidas (veja Capítulo 5).
As áreas protegidas também têm sido estabelecidas por sociedades
tradicionais que desejam manter seu modo de vida. O governo federal tem
• '0
CoNSHvmÃo D! Comunidades
reconhecido os direitos que as sociedades tradicionais têm sobre a terra nào só no
Brasil, como também nos Estados Unidos, Canadá e Malásia, embora isto mui
tas vezes só aconteça após brigas em tribunais, na imprensa e na própria terra em
questão. Em muitos casos, a alegação de direito sobre terras tradicionais leva a con
frontos violentos, várias vezes com perdas de vida, comas autoridades que desejam
o desenvolvimento das mesmas (Poffenberger, 1990; Gadgil e Guha, 1992).
Uma vez que a área esteja sob proteção, devem ser tomadas decisões quanto
ao grau de interferência humana que será permitido naquele local. O IUCN - The
World Conservation Union desenvolveu um sistema de classificação para áreas pro
tegidas que vai de uso mínimo a uso intensivo do habitat (IUCN 1984, 1985; Mc-
Neely et al., 1994):
1. As reservas naturais e as áreas virgens são territórios rigorosamente protegi
dos para fins de estudos científicos, educação e monitoramento ambiental.
Estas reservas pennitem a manutenção das populações de espécies e a con
tinuidade dos processos de ecossistema com a menor interferência possível.
2. Os Parques Nacionais são grandes áreas de beleza natural e cênica, manti
das com o propósito'de dar proteção a um ou mais ecossistemas e para uso
científico, educacional e recreativo. Não são habitualmente utilizados para
extração comercial de recursos.
3. Monumentos e áreas de referência nacionais são reservas menores destina
das a preservar características biológicas, geológicas ou culturais singulares
de interesse especial.
4. Os santuários e reservas naturais manejados são semelhantes às reservas
naturais restritas, porém um pouco de manipulação pode ocorrer a fim de
se manter as características da comunidade. Um certo grau de extração
controlada pode também ser permitida.
5. As áreas de proteção ambiental (paisagens, seguindo a nomenclatura da
IUCN) permitem o uso tradicional nào destrutivo do meio ambiente pela
população local, particularmente onde este uso tenha gerado uma área
de características culturais, estéticas e ecológicas distintas. Tais lugares
oferecem oportunidades especiais para turismo e recreação.
6. Reservas são áreas nas quais os recursos naturais são preservados para o
futuro e onde a utilização de recursos é controlada de forma compatível
com as políticas nacionais.
201
iio 4
7. Áreas naturais bióticas e reservas antropológicas permitem que as so
ciedades tradicionais continuem mantendo seu modo dc vida sem inter
ferência externa. Freqüentemente estas pessoas caçam c extraem recur
sos para uso próprio e praticam uma agricultura tradicional.
8. As áreas de manejo de uso múltiplo dão oportunidade a uma utilização
sustentável de recursos naturais, incluindo água, vida selvagem, pasta
gem pata gado, extração de madeira, turismo e pesca. Quase sempre a
preservação de comunidades biológicas é compatível com estas ativi
dades.
Dessas categorias, as cinco primeiras podem ser consideradas verdadeiramente áreas
protegidas, sendo que o habitat é manejado, em primeiro lugar, para a diversidade biológi
ca. As áreas que se enquadram nas três últimas categorias são manejadas, mas não basica
mente para fins de diversidade biológica, embora este possa ser um objetivo secundário.
Estas áreas manejadas podem ter um significado particular porque são, muitas vezes,
maiores do que as áreas protegidas; porque contêm ainda muitas ou mesmo a maioria de
suas espécies originais, e porque as áreas protegidas freqüentemente encontram-se imersas
em uma matriz de áreas manejadas.
Áreas de proteção existentes
Até 1993, um total de 8.619 áreas protegidas tinha sido instituído em
todo o mundo, num total de 7.922.660 Knv (Tabela 4.1; W RI/U N EP/UN DP,
1994). O maior Parque individual do mundo está na Groenlândia, com 700.000
Km2. O maior Parque brasileiro é o Parque Nacional do Jaú-AM com 22.720
Km2, superior ao Estado de Sergipe (figura 4. /). Embora a extensão total de área
protegida possa impressionar pelo seu tamanho, ela representa apenas 5,9% da
superfície seca da Terra. Somente 3,5% da superfície seca da Terra está dentro
das categorias estritamente protegidas de reservas científicas e Parques Nacio
nais. A maior área protegida está na América do Norte, na América Central e na
Conservação oi Comunidades
TABELA 4.1. A reas Protegidas e Manejadas no M undo'
Areas Totalmente Protegidas
(Categorias da 11JCN de 1411)
Areas Manejadas
(Categorias da IÖ C N de 1V - V )
Região N°. dc áreas Tamanho (x 1000 ha) N °. de áreas Tamanho (x 1000 ha) % de área protegida
África 300 90.091 446 63.952 5,2
Ásia 629 105.553 1.104 57.324 5,3
América do Norte 1.243 113.370 1.090 101.344 11,7
América Central 200 8.346 214 6.446 5,6
América do Sul 487 81.080 323 47.933 7,4
Europa'' 615 47.665 2.538 57.544 4,7
Oceania* 1.028 53.341 184 7.041 7,1
Mundo 4.502 499.446 5.899 348.433 6,4
fonte: i na, im a Inclui somente áreas acima de 1000 ha não inclui áreas protegidas particulares ou locais;
também não inclui Antártida ou Groenlândia
b Incha a antiga Rjissia
c Inclui a Austrália, Nova Zelândia, Papua Nova Guiné, Piji e as Uhas Salomão.
(
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I
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(
I
FIGURA 4.1. O Parque Nacional do Jau ê a maior Unidade de Conservação de uso indireto no
Brasil, com uma área superior ao Estado de Sergipe. A criação deste Parque objetiva a proteção
integral da sua área e da bacia hidrográfica do Rio Jaú. t
Oceania, e a menor, na antiga União Soviética. A proporção de terras em áreas protegidas
varia muito entre os países, com grandes proporções de áreas de proteção em países como
a Alemanha (24,6%), Áustria (25,3%) e Reino Unido (18,9%), e proporções surpreendente-
mente pequenas em outros, incluindo a Rússia (1,2%), Grécia (0,8%) e Turquia (0,3%). O
Brasil, segundo os controvertidos dados do Ministério d o Meio Ambiente, possui 8,3% de
sua superfície em áreas protegidas, porém somente 1,85% está nas categorias mais restritas,
também chamadas de uso indireto (WWF, 2000). Os números por países e continentes são
apenas estimativos, porque, às vezes, as leis de proteção aos Parques Nacionais e santuários
virgens não estão efetivamente em vigor e, outras vezes, as reservas de recursos c áreas de
manejo de múltiplo uso são cuidadosamente protegidas na prática. Exemplos dessas últimas
são as porções das Florestas Nacionais Americanas instituídas como áreas virgens.
As áreas protegidas nunca serão mais
que uma pequena porcentagem da superfí
cie da Terra — talvez 7% a 10%, ou um pouco
mais - detido às necessidades da sociedade humana de re
cursos naturais. O estabelecimento de novas áreas de pro
teção teve o seu auge no período de 1970-1975, e desde
então vem decrescendo, provavelmente porque as terras
ainda existentes já tenham sido designadas para outros fins
(McNeely, et al. 1994). Muitas áreas protegidas estão situa
das em terras consideradas de pouco valor econômico. Esta
área limitada de habitat protegido enfatiza o significado bi
ológico da terra que é manejada para a produção de recur
sos. Nos Estados Unidos, o Serviço Florestal e o Bureau
de Manejo de Terras, juntos, administram 23,5% da área,
enquanto que na Costa Rica, cerca de 17% da área é admin
istrada como florestas e reservas indígenas.
T______________ A área total em unidades de conservação no Bra-
http :// www.mma.gov.br 1
--------------------- ----- -> sil é matéria controversa. Enquanto o M inistério do Meio
Ambiente afirma que as Unidades de Conservação prote
gem 8,5% da superfície do Brasil, o WWF afirma que a su
perfície total das unidades d e conservação de uso restrito
minimamente ou razoavelmente implementadas representa
0,4% da superfície total dopais (WWF, 2000).
Conservação de Comunidades
A Eficácia das Áreas Protegidas
Qual a eficácia das áreas protegidas para a preservação de espécies, se elas
representam apenas uma pequena porcentagem da superfície da Terra? Alguns locais
apresentam uma grande concentração de espécies, como ao longo de gradientes de
elevação, onde formações geológicas diferentes estão justapostas, em áreas geologi
camente antigas e em locais com abundância de recursos naturais essenciais (estuári
os de rios que concentram nutrientes e matas ciliares que concentram umidade no
cerrado) (Terborgh, 1976; Bibby et al.,1992; Carroll, 1992). Muitas vezes uma região
contém grandes extensões de um tipo de habitat razoavelmente uniforme e apenas
algumas áreas pequenas de tipos raros de habitats. Proteger a diversidade biológica,
neste caso, provavelmente não dependerá tanto da preservação das grandes áreas de
habitat, quanto da inclusão de representantes de todos os tipos de habitats em um
sistema de áreas protegidas. Os exemplos a seguir ilustram a eficácia potencial de
áreas protegidas com extensão limitada.
• A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) da Mata do Sossego,
em Simonésia, abriga várias espécies ameaçadas de extinção, como a onça parda
(Puma concolor) e o Mono-Carvoeiro (Bracbyte/es aracnoides) (figura 4.2). Somente os 180
ha desta reserva (figura 3.18) não consumiriam área suficiente para abrigar estas es
pécies. Não obstante, a Mata do Sossego faz parte de um maciço florestal maior,
de aproximadamente 800 ha. Além disto, a Fundação Biodivcrsitas utiliza esta mata
como uma ponte entre duas outras reservas da Região: O Parque Estadual do Rio
Doce e o Parque Nacional do Caparaó.
• Na maior parte dos países tropicais da África, a maioria das espécies de pás
saros nativos tem populações dentro de áreas protegidas (Tabela 4.2) Por exemplo,
o Zaire tem mais de 1.000 espécies de pássaros e 89% deles estão em 3,9% da área
sob proteção. Da mesma forma, 85% dos pássaros do Quênia estão protegidos em
5,4% das áreas dos Parques (Sayer e Stuart, 1988).
• O Parque Santa Rosa, no noroeste da Costa Rica, é um bom exemplo da
importância de pequenas áreas protegidas. Este Parque cobre apenas 0,2% da área
da Costa Rica, e assim mesmo contém populações reprodutivas de 55% das 135
espécies de mariposas do país. O Parque Santa Rosa está dentro do Novo Parque
Nacional Guanacaste com 82.500 ha, no qual estima-se estarem as populações de
quase todas as mariposas Qanzen, 1988b).
2 0 5
TABELA 4.2. Porcentagem de espécies de pássaros encontrados em áreas protegidas em algumas nações africanas
País
Porcen tagem de
área p ro tegida por
território nacional
N úm ero de e sp éc ie s
de pássaros
Porcentagem de espécies
de pássaros encontradas
cm áreas pro tegidas
Camarões 3,6 848 76,5
Costa do Marfim 6,2 683 83,2
Gana 5,1 721 77,4
Quênia 5,4 1064 85,3
Malawi 11,3 624 77,7
Nigéria 1,1 831 86,5
Somália 0,5 639 47,3
Tanzânia 12,0 1016 82,0
Uganda 6,7 989 89,0
Zaire 3,9 1086 89,0
Zâmbia 8,6 728 87,5
Zimbabwe 7,1 635 91,5
I 'ontr. Saytr r St/inii, 1988
Esses exemplos mostram claramente que as áreas protegidas, bem selecionadas, po
dem incluir muitas, se não a maioria das espécies de um país. Entretanto, o futuro a longo
prazo de muitas espécies nessas reservas permanece duvidoso. As populações de muitas
espécies podem reduzir-se tanto em tamanho que eventualmente estas chegarão à exdnção
(Janzen, 1986b). Conseqüentemente, enquanto o número de espécies existentes em um
Parque relativamente novo é importante como indicador do seu potencial, o valor real do
Parque está na sua habilidade de manter populações de espécies viáveis a longo prazo. Por
tanto, são importantes o tamanho do Parque e o modo como ele é manejado.
Estabelecimento de Prioridades para Proteção
Em um mundo com uma superpopulação e com restrições econômicas, é
necessário estabelecer prioridades para a conservação da diversidade biológica. En
quanto alguns conservacionistas argumentam que não se deveria perder nenhuma
espécie, a realidade é que espécies são extintas todos os dias. A verdadeira pergunta
é como esta perda de espécies pode ser minimizada tendo em vista a disponibi
lidade dos recursos humanos e financeiros. As questões fundamentais que devem
ser tratadas pelos conservacionistas sào: O que precisa ser protegido, onde deve ser
protegido, e como deve ser protegido (Johnson, 1995). Três critérios podem ser usa
dos para estabelecer as prioridades de conservação para proteção das espécies e co
munidades.
1. D iferenciação - É dada maior prioridade de conservação a uma comu
nidade biológica quando ela se compõe basicamente de espécies endêmicas
raras do que quando é composta basicamente de espécies comuns dissemi
nadas. Frcqüentemente é dado mais valor de conservação para uma espécie
quando ela é única em termos de taxonomia, ou seja, quando é a única es
pécie em sua classe ou família, do que quando é um membro de uma classe
com muitas espécies (Faith, 1994; VaneWright, et al 1994).
2. Perigo - As espécies em perigo de extinção preocupam mais do que as es
pécies que não estão ameaçadas. Enquanto o macaco prego de peito amarelo
(Cebus apella xantbostemos) está na lista de espécies ameaçadas como espécie
criricamente em perigo, o mico prego (Cebus apella) aumenta sua densidade
em fragmentos pequenos e intensamente impactados. As comunidades bi
ológicas ameaçadas pela destruição iminente, também sào uma prioridade.
3. U tilidade - As espécies que têm um valor atual ou em potencial têm mais
importância para conservação do que as espécies que não têm nenhum uso
evidente para as pessoas. Por exemplo, as espécies selvagens parentes do ar
roz, que sào potencialmente úteis para o melhoramento de variedades cul
tivadas, têm mais prioridade do que as espécies de gramíneas que não têm
relações com alguma planta economicamente importante.
O mono carvoeiro (Brachyteles arachinoides) (figura 4.2) é um exemplo de uma
espécie a qual deveria ter prioridade para conservação, usando-se três critérios; O
Mono-Carvoeiro é a única espécie do seu gênero, é o maior primata do continente
americano, e o maior mamífero endêmico ao território brasileiro (diferenciação). Ele
é encontrado apenas na Mata Atlântica, onde se concentra a maior parte da popu
lação brasileira (perigo); e tem um potencial importante como atração turística (uti
lidade). (Biodiversitas, 1998) Usando-se esses critérios, foram desenvolvidos vários
sistemas de prioridade tanto em escala nacional quanto internacional, enfocando a
espécie e as comunidades (Johnson, 1995). Essas abordagens sào geralmente com
plementares, fornecendo cada uma, uma perspectiva diferente.
'.o 4
•ôURA 4.2. O mono-catroeiro
')nicbjteles arachinoides) é
•ma espécie com prioridade paro
( nseiração, de acordo com os
ritérios de diferenciação, perigo
utilidade. A ocorrência desta
̂ 'hécie na Mata do S ossego
m Simonésia-MG é uma das
~òes pelas quais a Fundação
Viodiversitas está investindo
into esforço na conservação
, ksta área..
I) Jovem macho suspenso
lo rabo. B) Agntpamento de
•tachos adultos.
(
Abordagens de Espécies
Áreas protegidas podem ser estabelecidas a fim de conser
var espécies únicas. Muitos parques nacionais têm sido criados para
proteger a “megafauna carismática” que cativa o público, tem valor
simbólico e é essencial para o ecoturismo. No processo de pro
teção dessas espécies, comunidades inteiras que podem englobar
milhares de outras espécies também são protegidas. A Reserva de
Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, por exemplo, foi implan
tada com a finalidade de proteger uma espécie endémica, o Uacari.
No processo, um ecossistema único e uma cultura também única
estão sendo preservados (veja Quadro 4.1)
3
Conservação de Comunidades
A identificação de espécies altamentc prioritárias é o primeiro passo para
o desenvolvimento de planos dc sobrevivência de espécies individuais. Nas Améri
cas, o Programa de Herança Natural e os Centros de Dados de Conservação asso
ciados às agências governamentais, estão conseguindo dados sobre a distribuição e
ecologia de espécies ameaçadas, tanto do passado como do presente, em todos os
50 estados americanos, 3 províncias canadenses e 13 países da América Latina (Mas-
ter, 1991). Esta informação está sendo usada no estabelecimento de novos locais de
conservação. Outro programa importante é o de Planos de Ação da Comissão para
Sobrevivência das Espécies, da IUCN. Cerca de 2.000cientistas se organizaram cm
80 grupos de especialistas para fornecer avaliações e recomendações sobre mamífe
ros, pássaros, invertebrados, répteis, peixes e plantas (Stuart, 1987; Species Survival
Commission, 1990). Um grupo, por exemplo, apresentou um Plano de Ação para os
primatas asiáticos, no qual uma hierarquia de prioridades foi criada para 64 espécies,
com base no grau de risco, singularidade de taxonomia, e associação com outros
primatas ameaçados (Eudey, 1987). As áreas necessárias para a proteção desses pri
matas foram destacadas de forma a ajudar as autoridades e as organizações de con
servação.
Abordagens de Comunidade e de Ecossistema
Alguns conservacionistas argumentam que as comuni
dades e ecossistemas, muito mais que as espécies, deveriam ser
o alvo dos esforços de conservação (McNaughton, 1989; Scott,
et al. 1991; Reid, 1992; Grumbine, 1994b). A conservação das
comunidades pode preservar grande quantidade de espécies em
uma unidade auto-sustentável, enquanto que o resgate de espé
cies-alvo é muitas vezes difícil, caro e ineficaz, especialmente
em um país com um número gigantesco de espécies, como o
nosso. O uso de US$1 milhão na proteção e manejo de um
habitat pode preservar mais espécies a longo prazo do que se
conseguiria com a mesma quantia sendo gasta no esforço de
salvar apenas uma única espécie notável.
2 0 9
m u io 4
Quadro 4.1.- Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá
A Reserva de
Desenvolvim ento
S u s t e n t á v e l
Mamirauá é um
exemplo de unidade
de conservação bem
manejada. O histórico
desta unidade de
conservação dara
de 1983, quando o
Dr. Mareio Ayres
realizou sua tese de
doutorado sobre
a conservação do
Uacari (Çuiujao
caivus calvas), que é >'
endêmico da região.
Em 1990, após cinco
anos de idas e vindas
com os governos
federal e estadual,
é criada a Estação
Ecológica Mamirauá, situada na confluência
dos rios Solimòes e Japurá, com 1.124.000 ha.
A característica mais marcante de Mamirauá é ser uma
área de várzea, ou uma floresta inundável
O regime de cheias do Solimòes determina
quanto da reserva será inundada, e quanto
estará seca, e por isso é o fator mais importante
para a vida silvestre na área. Até mesmo o
relevo é determinado pela deposição e erosão
de sedimentos, causadas pelas cheias.
Este ambiente
raro faz com que
Mamirauá seja
c a r ac t e r i z ada
muito mais
pelo alto grau
de endemismo
do que pela alta
diversidade, já que
poucas espécies
estão adaptadas
a este ambiente
raro. Não
obstante, a grande
variação sazonal
e diversidade
de ambientes
aquáticos faz com
que Mamirauá
tenha o maior
número de
espécies de peixes
(300) já registrado em uma várzea.
A colonização humana recente em Mamirauá data
do início do século. Atualmente, existem poucas
comunidades indígenas na região, e mesmo estas,
apresentam bastante miscigenação, tanto cultural
quanto genética.
A maior parte dos assentamentos humanos em
Mamirauá está situada ao longo dos rios Japurá e
Solimòes. A natureza dinâmica do ambiente produz
um padrão de ocupação humana que também é
)
j
Conservarão de Comunidadê
(
(
caracterizado pela mobilidade. Conform e muda o
relevo, m udam os assentam entos. A té mesmo o gado
é criado em balsas flutuantes.
A qualidade de vida das pessoas que vivem em
M amirauá era incompatível com a definição legal
de Estaçào Ecológica, que não prevê nenhum
uso direto, som ente conservação e pesquisa, e
m esm o esta c restrita a 10% da área da Estaçào. A
im plantação de uma unidade de conservação nestes
m oldes contaria com a oposição dos m oradores,
que praticam vários tipos de extração na área.
E m 1996, após quatro anos de projetos na área,
o G overno Estadual do Amazonas reclassificou
M amirauá com o uma Reserva de Desenvolvim ento
Sustentável. N este m esm o ano, o plano de Manejo
da Reserva passou a ser implementado. Ele prevê
três program as principais: Extensão e Participação,
Pesquisa e M onitoram ento e Administração. O
program a de extensão é dividido em extensão
ecológica e extensão econôm ica. A pesquisa e
m onitoram ento visam ao manejo da reserva,
à inform ação do público e à viabilização do
desenvolvim ento sustentável.
A base da Reserva, em Tefé-AM , se parece com um
form igueiro em plena atividade. Nela coexistem a
central administrativa, a loja de lem branças, um estúdio
de rádio e TV , a cozinha, garagem , dorm itórios,
centro de inform ática, sala de reuniões, biblioteca,
freezers com material dc pesquisa, en tre outros. Um
time jovem e extrem am ente m otivado administra
a reserva com organização impecável. A estrutura
hum ana e material que o Dr. M areio Ayres conseguiu
m ontar em M amirauá se deve não só a sua capacidade
administrativa, mas tam bém a sua agilidade em captar
recursos para a Reserva.
Inúm eras entidades colaboram com a reserva , tanto
brasileiras quanto estrangeiras. U m flutuante com todos
os confortos da cidade grande está sendo construído
para receber turistas estrangeiros a preços diferenciados,
o que irá auxiliar a m anutenção da reserva a longo
prazo. N o entanto, no m enos confortável flutuante dos
pesquisadores, é possível experim entar M amirauá mais
de perto , ouvir as estórias dos guias, dorm ir em redes
e acordar no meio da noite com o guinchado alegre de
um bo to embaixo da sua janela.
Mamirauá prova que para im plem entar projetos
práticos, os profissionais dc conservação devem se
envolver com aspectos financeiros, adm inistrativos e
políticos.
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211
As prioridades globais para novas áreas protegidas no Brasil e em outros
países em desenvolvimento precisam ser estabelecidas de forma que recursos e
pessoas estejam voltados para as necessidades mais essenciais. Esse processo de
alocação pode reduzir a tendência das agências internacionais de financiamento,
cientistas, e executores de desenvolvimento, de subvencionar um pequeno grupo
em alguns países oolitícamente estáveis e acessíveis com perfil para projetos de
conservação.
Estabelecer prioridades globais de conservação é mais importante agora do
que nunca, pois a quantia de recursos financeiros disponíveis para adquirir e mane
jar novos Parques Nacionais está aumentando substancialmente, como resultado
da criação do programa Recursos Globais para o Ambiente (Global Environment
Facility) e dos novos fundos para conservação. O GEF está disponibilizando 1,2
bilhões por um período de 3 anos para projetos ambientais, sendo um terço desses
fundos alocado para projetos de biodiversidade. Os biólogos de conservação po
dem ter um papel importante no processo de alocação destes recursos, usando sua
experiência de campo para identificar e recomendar novas áreas adequadas para
preservação.
A definição de novas áreas de proteção deveria tentar assegurar a proteção
de representantes do maior número possível de tipos de comunidades biológicas.
Determinar quais áreas do Brasil e do mundo apresentam proteção de conserva
ção adequada e quais necessitam urgentemente de proteção adicional é crucial para
o movimento de conservação mundial. Recursos, pesquisa e publicidade devem
ser dirigidos a áreas no mundo que precisam de mais proteção. Em todo o mundo,
estão sendo avaliadas as regiões que devem ser transformadas em áreas de pro
teção, sob ameaça, com necessidade de ação e dc importância para a conservação
(McNeely, et al. 1994).
Análise de lacunas. (Gap Analysis) Uma forma de se determinar a eficá
cia dos programas de conservação de comunidades e de ecossistema é com
parar as prioridades de biodiversidade com as áreas de proteção existentes e
aquelas propostas (Scott, et al. 1991). Este trabalho visa identificar “lacunas”
na preservação da biodiversidade que predsam ser preenchidas com novas
áreas proteg.das. Silva e Dinnouti (2001), levantaram a área cm unidades deconservação de uso indireto (Parque Nacional, Reserva Biológica e Estação
Conservação de Comunidades
Ecológica), em cada uma das treze ecorregiões da Mata Atlântica e Campos
Sulinos (figura 4.3). Eles concluíram que além da área coberta por unidades de
conservação ser reduzida, ela está mal distribuída, pois inclui somente uma
pequena parte da variabilidade ambiental existente nos dois domínios (Mata
Atlântica e Campos Sulinos). Oito das treze ecorregiões apresentam menos de
1% de suas áreas cobertas por unidades de conservação, e por isso devem ter
prioridade para o estabelecimento de novas unidades. São elas: Florestas Cos
teiras de Pernambuco, Florestas Interioranas de Pernambuco, Brejos Nordesti
nos, Florestas Costeiras da Bahia, Florestas Interioranas da Bahia, Florestas do
Paraná-Paranaíba, Florestas de Araucária e Campos Sulinos.
Análises de lacunas podem ser realizadas também para o mundo como um
todo, o que significa proteger exemplares representativos de todas as sete regiões
biogeográficas e as 193 províncias biológicas do mundo. Embora todas estas sete
regiões do mundo tenham algumas áreas
/ \ protegidas (Tabela 4.1), 10 das 193
y províncias não as possuem e 38
\ j • diPtrmmbm delas têm menos de 1% de sua
/ / área sob proteção (McNeely et
FIGURA 4.3. O domínio
da Mata Atlântica e dos
Campos Sulinos incluem
juntos 13 ecorregiões. A
Maia Atlântica inclui 12
ecorregiões e os Campos
Sulinos 1. Nas ecorregiões
da Mata Atlântica, uma
(Brejos Nordestinos) não
é reconhecida no mapa
elaborado pela WWF. Neste
mapa, todos os brejos são
incluídos dentro da
ecorregiào da Caatinga.
Fonte: WWF, 2000.
al, 1994).
Florestas Costeiras a
Pernambuco
I dores tas Secas do Nordeste
Florestas Costeiras da Bahia
Florestas Interioranas da Bahia
Florestas da Serra do M ar
Florestas de Araucária
Campos Sulinos
2 1 3
IPÍMO 4
FIGURA 4.4 LocaHqafão do Parqree
Naciona/ Marinho de Abrolhos.
Este, cjue fói o primeiro Parque
Nacional Marinljo brasileiro, só tvie,
a ser a i ado em 1983.
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MIW»vrçO
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A conservação do mar tem
tido bem menos prioridade que a
conservação terrestre. O primeiro
Parque Nacional Marinho, em
Abrolhos, só foi criado em 1983.
Seu objetivo é conservar este
ecossistema marinho excepcional
mente rico em recifes (são mais de
dezoito espécies), a.gas e ictiofau-
na, e proteger espécies ameaçadas
de extinção, principalmente as Tartarugas Marinhas, Baleias-Jubarte e Coral Cérebro. Sendo
um Parque Nacional, não são permitidos usos diretos da área, apenas usos indiretos de con
servação integral da flora, fauna e das belezas naturais, e a educação, recreação e pesquisa.
As cinco ilhas de Abrolhos estão a 70 km da costa, em uma área protegida de 266 milhas
náuticas {figura 4.4). Os projetos TAMAR e Baleia Jubarte possuem estações em Abrolhos e
trabalham ativamente pela conservação do Parque. Recentemente, outras Unidades de Con
servação Marinhas foram criadas, como a área de Proteção Ambiental do Anhatomirim, a
Reserva Ecológica da Ilha dos Lobos, e a Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, graças
ao esforço da Coalizão Internacional da Vida Silvestre.
Cerca de 1/4 das 300 reservas de bioesfera internacionalmente reconhecidas no
mundo, compreendem habitats da costa marítima ou de estuários (Ray e Gregg,1991). A
proteção das áreas de criação das espécies comercializadas e de áreas para a prática do mer
gulho recreacional estão entre as principais razões para se estabelecer estas áreas (Moley e
Leidy, 1992). Infelizmente, muitas dessas reservas só existem nos mapas e recebem pouca
proteção efetiva contra a extração predatória e poluição.
'1 4
(
Conservação de ComunidadÍ.
Nos Estados Unidos, a diversidade biológica é mais eficientemente protegida
ao se assegurar que todos os principais tipos de ecossistema estejam incluídos em
um sistema de áleas protegidas. Várias agências federais e estaduais estão envolvi
das em um esforço intensivo “de baixo para cima” para identificar e classificar os
ecossistemas ein nível local, como parte de um programa de proteção à diversidade
biológica. Por outro lado, uma abordagem “de cima para baixo” compara um mapa
detalhado de vegetação com um mapa de áreas sob proteção governamental (Crum-
packer et al., 1988). Nos Estados Unidos, o mapeamento mais amplo de ecossistema
foi baseado no sistema de vegetação natural em potencial de Küchler (1964). Este
sistema identifica 135 tipos de vegetação natural. Deste total, nove não estão repre
sentados pelos 348 milhões de hectares em unidades de conservação, e outros 11 es
tão representados apenas por áreas pequenas; estes tipos são naturalmente raros ou
foram devastados. Estes tipos de comunidades deveriam ter destaque nos esforços
de conservação e, se possível, fazerem parte das novas áreas protegidas.
Os Sistemas dc lnfonnaçòes Geográficas (SIG) representam o desenvolvi
mento das últimas tecnologias de análise de lacunas, usando computadores para
integrar a riqueza de dados sobre o ambiente natural com as informações sobre a
distribuição de ecossistemas (Scott et al., 1991; Sample, 1994; Wright et al., 1994).
As análises feitas por meio de SIG tornam possível evidenciar as áreas críticas que
necessitam ser incluídas nos Parques Nacionais e as áreas que deveriam ser poupa
das nos projetos de desenvolvimento. A abordagem básica do SIG envolve arma
zenamento, visualização e manipulação de dados originados de fontes diversas, tais
como tipos de vegetação, clima, solos, topografia, geologia, hidrologia e distribuição
de espécies (figura 4.5). Esta abordagem pode evidenciar as relações entre os elemen
tos abióticos e bióticos da paisagem, pode ajudar no planejamento de Parques que
incluam a diversidade do ecossistema e, até mesmo, sugerir os locais com potencial
para a busca de espécies raras. Fotografias aéreas e imagens de satélite são fontes
adicionais de dados para as análises por meio de SIG. Uma série de imagens toma
das ao longo do tempo pode revelar padrões de destruição de habitat que requerem
atenção imediata.
Centros de biodiversidade. Com a finalidade de se estabelecer prioridades
para conservação, a IUCN - União de Conservação Mundial, o Centro de
Monitoramento de Conservação Mundial e outros, tèm tentado identificar
as áreas-chave no mundo com grande diversidade biológica e altos níveis de
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2 1 5
, j i 4
•URA 4.5. Os Sistemas
le Informações Geográficas
AS) garantem um método
I 'ra integrar uma grande
mriedade de dados fiara
alise e disposição em
•uapas. Neste exemplo, tipos
* vegetações, distribuições de
••dmais e áreas protegidas são
sobrepostas para evidenciar
I áreas que necessitam de
Proteção adicional. (Segundo
:ott et a l 1991).
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endemismo e sob perigo imediato de extinções das espécies e de destruição de habi-
tats: chamadas de “áreas-chave” (hot-spots) para preservação (figura 4.6; Tabela 4.3).
Usando esses critérios para plantas de florestas tropicais, Mittermeier (1999) identi
ficou 25 “áreas chave” tropicais que, juntas, reúnem 44°/o das espécies de plantas do
mundo, 28% das espécies de aves, 30% das espécies de mamíferos, 38% dos répteis
e 54% dos anfíbios em apenas 1,4% da superfície terrestre. Outra abordagem valiosa
foi a identificação de dezessete países com “megadiversidade” que, juntos, concen
tram 60-70% da diversidade biológica do mundo: México, Colômbia, Brasil, Peru,
Equador, Venezuela, Estados Unidos, Congo, África d o Sul, Madagascar, Indoné
sia, Malásia, Filipinas, índia, China, Papua Nova Guiné e Austrália. Esses países são
possíveis alvos para maiores financiamentos e cuidados de conservação (Tabela 4.4;
Mittermeier et al., 1999).
16
Conservação de Comunidades
T A B E L A 4 .3 . De ̂países com o maior número de espécies de grupos de organismos bem conhecidose selecionados.
Extensão Número de
original % %
(x 1000 Km2) Remanescente Protegida Plantas Aves Mamíferos
1. Andes Tropicais 1.258 25,0 6,3 45.000 1.666 414
2. Chile Central 300 30,0 3,1 3.429 198 56
3. Chocó/Darien/(li|uadoiOcidental) 261 24,2 6,3 9.000 830 235
4. Mesoamérica 1.155 20,0 12,0 24.000 1.193 521
5. Califórnia 324 24,7 9,7 4.426 341 145
6. Caribe 264 11,3 15,6 12.000 668 164
7. Cerrado 1.783 20,0 1,2 10.000 837 161
8. Floresta Atlântica 1.227 7,5 2,7 20.000 620 261
9. Honestas de Guiné (África C íadental) 1.265 10,0 1,6 9.000 514 551
10. Karoo (África do Sul) 112 27,0 2,1 4.849 269 78
11. Região do Cabo (África C Icidenca!) 74 24,3 19,0 8.200 288 127
12. Florestas das Montanhas Orientais
do Quênia e Tanzânia 30 6,7 16,9 4.000 585 183
13. Madagascar e índias 594 9,9 1,9 12.000 359 112
14. Bacia Mediterrânea 2.362 4,7 1,8 25.000 345 184
15. Cáucaso a Leste do Mar Negro 500 10,0 2,8 6.300 389 152
16. Western Ghats e Sri Lanka 182 6,8 10,4 4.780 528 140
17. Indo-Burma 2.060 4,9 7,8 13.500 1.170 329
18. Montanhas do
centro-sul da China 800 8,0 2,1 12.000 686 300
19. Ilhas Sunda 1.600 7,8 5,6 25.000 815 328
20. Ilhas Wallacea 347 15,0 5,9 10.000 697 201
21. Filipinas 301 8,0 1,3 7.620 556 201
22. Polinésia/Micronésia 46 21,8 10,7 6.557 254 16
23. Nova Caledónia 19 28,0 2,8 3.332 116 9
24. Nova Zelândia 271 22,0 19,2 2.300 149 3
25. Sudoeste Australiano 310 10,8 10,8 5.469 181 54
Fuite: Mitttrmmr tt.a l, 1999
217
ULO 4
TABELA 4.4. D e^ países com o maior número de espécies nos grupos mais conhecidos
'lassificação Plantas superiores"’ Mamíferos Aves Répteis Anfíbios Peixes de água doce Borboletas
í. Brasil Brasil Colômbia Austrália Colômbia Brasil Peru
53.000 524 1.815 755 583 >3.000 3.532
2. Colômbia Indonésia Peru México Brasil Colômbia Brasil
47.000 515 1.703 717 517 >1.500 3.132
3. Indonésia China Brasil Colômbia Equador Indonésia Colômbia
37.000 499 1.622 520 402 1.400 3.100 .
4. China Colômbia Equador Indonésia México Venezuela Bolívia
28.000 456 1.559 511 284 1.250 3.000
5. México México Indonésia Brasil China China Venezuela
24.000 450 1.531 468 274 1010 2.316
6. África do Sul EUA Venezuela índia Indonésia RDC México
23.000 428 1.360 408 270 962 2237
7. Equador RDC índia China Peru Peru Equador
19.000 415 1.258 387 241 855 2200
8. Peru índia Bolívia Equador índia Tanzânia Indonésia
19.000 350 1.257 374 206 800 1.900
9. PNG Peru China PNG Venezuela EUA RDC
18.000 344 1.244 .305 204 790 1.650
10. Venezuela Uganda RDC Madagascar PNG índia Camarão
18.000 315 1.094 300 200 750 1.550
ponte: Mittermeier et. a i 1997
PNG • Papua Nova Guiné RDC - Rep. Democrática tio Congo EU A ■ Estados Unidos a Angiospermas Gimnospermas t Pteridófitas
As prioridades internacionais e as “áreas-chave” globais se sobrepõem de
forma considerável. Há um consenso geral sobre a necessidade de aumentar os es
forços de conservação nas seguintes áreas:
• América Latina - Mata Atlântica e Florestas litorâneas do Equador
• África - As florestas das montanhas da Tanzânia e do Quênia; os grandes
lagos em todo o continente; a ilha de Madagascar
• Asia - Sudoeste do Sri Lanka; o leste do Himalaia; Indochina (Myanmar,
Tailândia, Camboja, Laos, Vietnã e sudeste da China); as Filipinas
• Oceania - Nova Caledónia
218
Outras prioridades são o leste e o sul da Amazônia Brasileira, as terras mais
altas do oeste da Amazônia, Colômbia, Camarões, Oeste da África Equatorial, o
Sudão, Borneo, Sulawesi, Península da Malásia, Bangladesh/Butão, leste do Nepal
e Havaí.
Certos organismos podem ser usados como indicadores da diversidade bi
ológica quando dados específicos sobre as comunidades não estão disponíveis. A
diversidade de pássaros, por exemplo, é considerada um bom indicador da diver
sidade de uma comunidade. Várias análises têm posto em prática esse princípio.
O escritório dc Conservação Vegetal da IUCN, na Inglaterra, está identificando e
documentando cerca de 250 centros globais de diversidade de planta com grandes
concentrações de espécies (Groombridge, 1992). O Conselho Internacional de Pro
teção aos Pássaros (ICPB) está identificando localidades com grandes concentrações
de pássaros que têm extensões limitadas (Bibby et al., 1992). Até agora 221 dessas
localidades, contendo 2.484 espécies dc pássaros, já foram identificadas; 20% não
estão em área protegidas. Muitas delas são ilhas e montanhas isoladas que também
têm muitas espécies endêmicas de lagartos, borboletas e árvores e, portanto, repre
sentam prioridades para conservação.
Áreas silvestres. Grandes áreas de ambiente intacto são prioridades para
os esforços de conservação. Grandes áreas pouco perturbadas pela ação
do homem, baixa densidade de população humana, e sem probabilidade
de desenvolvimento em um futuro próximo, são talvez os únicos lugares
na Terra onde os processos naturais de evolução podem ter continuidade.
Essas áreas intactas têm o potencial de atuar como testemunhas, demonst
rando como são as comunidades naturais com reduzida ação humana. Em
países de altíssima diversidade e pouquíssimos recursos para pesquisa em
conservação, como o nosso, o manejo de ecossistemas inteiros é a única
solução, pelo menos temporariamente, até possuirmos dados para manejá-
los adequadamente. Nos Estados Unidos, os proponentes do Projeto de
Áreas Silvestres estão pressionando em favor do manejo de ecossistemas
inteiros de forma a preservar as populações viáveis de grandes carnívoros,
como os ursos pardos, lobos e grandes felinos (Noss e Cooperrider, 1994).
Três áreas selvagens tropicais também foram identificadas e determinadas
como prioridades de conservação (veja figura 4.6A\ McCloskey e Spauld-
ing, 1989; Conservation International, 1990).
•TULO 4
FIGURA 4.6(A) Quinze
regiões consideradas "áreas
chave" de florestas tropicais
(áreas sombreadas)
com alto endemismo e
ameaçadas de extinções
iminentes. Os números
nos círculos mostram as
três únicas áreas selvagens
da floresta tropical ainda
remanescentes. (B) De%
"áreas chave" em outros
ecossistemas climáticos.
(Fonte: Mittermeier, et al
1999)
\
• América do Suh Um arco de áreas silvestres contendo floresta tropical, savana e mon
tanhas passa pelo sul das Guianas, sul da Venezuela, Norte do Brasil, Colômbia,
Equador, Peru e Bolívia.
• África: Uma grande área da áfrica equatorial, tendo como centro a bacia do Zaire,
tem uma baixa densidade populacional e um habitat intacto. Esta área inclui grandes
partes do Gabão, República do Congo e Zaire.
• Nova Guiné: A ilha de Nova Guiné tem as maiores extensões de florestas virgens na
região do Pacífico Asiático, a despeito dos efeitos da indústria madereira, da min
eração e dos programas de transmigração. A metade oriental da ilha é a nação inde
pendente de Papua Nova Guiné, com 3.9 milhões de pessoas em 462.840 Km2 . A
metade ocidental da ilha, Irian | aya, é o estado da Indonésia e tem uma população de
apenas 1,4 milhões de habitantes em 345.670 Km-.
2 0
Conservação oi Comunidades
Quadro 4.2. - A Reabertura da Estrada do Colono
0 Parque Nacional do Iguaçu, localizado no
extremo sudoeste do Paraná, na fronteira com a
Argentina, c um dos mais importantes Parques
brasileiros. Com 185 mil hectares, abriga, além das
Cataratas do Iguaçu, uma grande área contínua
da floresta subtropical. Essa Floresta já cobriu
largas extensões do território brasileiro, do oeste
da Argentina e parte do Paraguai. Hoje, no sul
do Brasil, ela praticamente desapareceu, sendo
o Parque Nacional do Iguaçu seu remanescente
mais significativo. Considerado Patrimônio
Natural da Humanidade pela UNESCO, o Parque
Nacional do Iguaçu abriga ecossistemas ainda nào
pesquisados,espécies de fauna e flora sob risco
de extinção,bacias hidrográficas integralmentc
protegidas, e uma paisagem inigualável.
No ano em que completa 60 anos de criação, o
Parque Nacional do Iguaçu enfrenta mais uma
ameaça: a Estrada do Colono.
Um rasgo de 18 km , que dividiu em duasa área do
Parque, aberto pelas comunidades agrícolas dos
municípios limítrofes. Ainda atreladas a práticas
colonizadoras, essas comunidades veem na
floresta preservada um obstáculo à expansão
agrícola.
lideradas por políticos sem nenhuma
resnnnsahilifkrlf* com o patrimônio natural e
com o futuro, essas comunidades invadiram o Parque
em 1996 e reabriram a estrada, fechada há anos por
recomendação técnico-dentífica c determinação
judicial, para fazer um atalho entre duas cidades. A
invasão bascia-sc na falácia de que o fechamento da
estrada acarretará enormes prejuízos econômicos para
os municípios, porém nào leva cm conta os prejuízos
com o comprometimento do turismo internacional
no Estado do Paraná, que movimenta 364 milhões de
dólares/ano.
A divisão do Parque e o trânsito de automóveis no seu
interior provocam danos ambientais irreparáveis. Por
exemplo, a morte de animais por atropelamento na
estrada, e a perturbação da estrutura dc territórios de
muitas espécies animais, a caça e a extração de espécies
da flora; além de provocar alteração do ciclo hidrológico,
de intensidade da luz, contato com microorganismos
estranhos, contaminação do ambiente por agrotóxicos
e pelo chumbo da gasolina.
A Estrada do Colono demonstra a indiferença do
governo brasileiro com seus Parques e áreas protegidas.
Os Governos federais e Estaduais têm sido omissos,
mesmo com a Justiça tendo determinado seu imediato
fechamento, e a UNESCO exigindo providências
imediatas ameaçando inclusive retirar o título dc
Patrimônio da Humanidade, (extraído de um abaixo
assinado pedindo o fechamento da Fistrada do Colono).
221
no 4
Acordos Internacionais
As convenções sobre habitat em nível internacional complementam
as convenções sobre as espécies, como por exemplo, o CITES, enfatizando
as características de um ecossistema singular que precisa ser protegido. Den
tro desses habitats, grandes quantidades de espécies podem ser protegidas.
Três das mais importantes dessas convenções são:
• Convenção Ramsar de Áreas Alagadiças
• Convenção Mundial de Proteção do Patrimônio Cultural e Natural
• Programa de Reservas da Biosfera da UNESCO
(McNeely et al. 1994).
A Convenção Ramsar sobre Áreas Alagadiças foi criada em 1971
para interromper a destruição continuada destas áreas, especialmente aquelas
que abrigam aves aquáticas migratórias e para reconhecer seu valor ecológi
co, científico, econômico, cultural e recreacional (Kusler e Kentula, 1990).
A Convenção Ramsar trata de habitats em água doce, estuários e costas
marinhas e inclui mais de 590 locais com uma área total de mais de 37 mil
hões de hectares. Um destes locais é a Reserva de Desenvolvimento Susten
tável Mamirauá, em Tefé-AM, contando com 260.000 ha. Os 61 países sig
natários desta Convenção concordaram em conservar e proteger suas áreas
alagadiças e destinar, pelo menos uma de suas áreas com relevância interna
cional, para fins de conservação.
A Convenção Sobre Proteção do Patrimônio Cultural e Natural do Mundo está as
sociada ao UNESCO, IUCN e ao Conselho Internacional de Áreas relevantes e Monumen
tos (Thorsell e Sawyer, 1992). Esta tem sido apoiada de maneira incomum, comparando-se
ao apoio que qualquer outra convenção receba, ao contar com a participação de 109 países.
O objetivo dessa convenção é proteger áreas naturais de significância internacional através
de seu programa Patrimônio do Mundo. A convenção c diferenciada uma vez que enfatiza
tanto a importância cultural quanto a biológica das áreas naturais e reconhece que a comun
idade mundial tem obrigação de apoiar financeiramente esses locais. Como parte da lista de
100 Patrimônios do Mundo, algumas das primeiras áreas de conservação do mundo: Parque
Nacional do Iguaçu, o Parque Nacional Serengeti (Tanzânia), a Reserva Florestal Sinharaja
(Sri Lanka), Parque Nacional Manu (Peru), Floresta Tropical de Queenslar.d (Austrália) e
Parque Nacional de Great Smoky Mountains (Estados Unidos).
Conservação de Comunidades
O Programa Homem e Biosfera (MAB), da UNESCO, criou uma rede in
ternacional de Reservas dc Biosfera, em 1971 (figura 4.7). As Reservas de Biosfera
foram planejadas como modelos de demonstração da compatibilidade dos esforços
de conservação com um desenvolvimento sustentável em benefício das populações
locais, conforme descrito no capítulo 5. Até 1998, 337 reservas tinham sido cria
das em mais de 80 países, em uma extensão total de 220 milhões de ha. No Bra
sil existem duas Reservas da Biosfera. Uma delas é a Reserva da Biosfera da Mata
Adântica. Ela envolve parte de 14 estados brasileiros, compreendendo cerca de 5
dos 8 mil quilômetros de litoral, estende-se por um número de aproximadamente
1.000 municípios e abrange cerca de 290.000 Km2 do território nacional. A segunda
é a Reserva da Biosfera do Cerrado. Ela compreende a área situada no entorno de
Brasília. O sucesso do conceito Reserva de Biosfera estará condicionado a uma or
ganização desses locais em uma rede que lide com as maiores questões sobre ecos
sistemas e biodiversidade em nível regional (Dyer e Holland 1991).
FIGURA 4.7. Reservas da Biosfera (pontos). A falta de
reservas é evidente em locais de importância biológica tais
como Nova Guiné, o subcontinente Indiano, África do Sul
e Amazônia
Fonte: Unesco 1996
2 2 3
o4
Essas três convenções estabelecem um consenso geral no que diz respeito à conser
vação genérica de tipos de habitats. Acordos mais específicos protegem ecossistemas sin
gulares e habitats em regiões específicas, incluindo o Hemisfério Ocidental, a flora e fauna
da Antártica, o Pacífico Sul, a África e a vida selvagem e habitat natural da Europa (WRI/
UNEP/U ND P, 1994). Foram assinados outros acordos internacionais para evitar ou limitar
a poluição que apresenta alguma forma de risco regional ou internacional ao ambiente. A
Convenção sobre Poluição Atmosférica de Longo Alcance e Além-Fronteiras, na Região
Européia, reconhece o papel que este transporte exerce através da chuva ácida, na acidifi-
cação de lagos e na degradação de florestas. A Convenção sobre a Proteção da Camada de
Ozônio foi assinada em 1985 para regulamentar e desencorajar o uso dos clorofluorcarbon-
os, que é relacionada à destniição da camada de ozônio e ao aumento dos níveis de danos
dos raios ultravioletas .
A poluição marinha é outra área-chave de preocupação devido às extensas áreas de
águas internacionais sem controle nacional e a facilidade com que os poluentes despejados
em uma determinada área chegam até outra (Norsc, 1993). Entre os acordos sobre poluição
marinha estão a Convenção sobre a Prevenção da Poluição Marinha por Aterros de Lixos e
Outros Materiais e as Convenções de Mares Regionais do Programa Ambiental das Nações
Unidas (UNEP). Os acordos regionais tratam do Nordeste do Atlântico, o Báltico e outros
locais específicos, especialmente na região do Adântico Norte.
Planejamento de Áreas Protegidas
O tamanho e local das áreas protegidas no mundo todo, são freqüentemente
determinados pela distribuição das populações, pelo valor da terra e pelos esforços de
conservação dos cidadãos conscientes. Em muitos casos, a terra é preservada por não
ter valor comercial imediato; esses Parques estão localizados nas “terras que ninguém
quis” (Runte, 1979; Pressey, 1994). Em Balsas-MA, por exemplo, uma cooperativa da
Batavo, implementada com financiamento da JICA )apan International Cooperation
Agency, reservou metade da área total do empreendimento (50.000 ha) para conserva
ção. Esta área está toda localizada nos solos de areias quartzosas, inférteis para agricul
tura (Queiroga, 2001) [figura 4.8). Embora a maioria dos Parques e áreas de conservação
tenham sido adquiridos e criados por outras razões que não seu valor de conservação,
Conservação de Comunidades
FIG URA 4.8 . A
C ooperativa
batavo , em G erais
de balsas, reservou
a m etade da área
de seu empre
endim entopara
conse/vação. E sta
área fo i locada
nos solos m enos
feríeis, de areias
quarígpsas
(Im agem L a n d sa l
processada no
Laboratório de
Ecologia da
Paisagem - U E L ).
dependendo da disponibilidade.de dinheiro e de terra, uma literatura considerável na
área de ecologia da paisagem tem discutido as melhores formas de planejamento de
áreas de conservação para proteção da diversidade biológica, com base em padrões es
paciais da paisagem (figura 4.9; Shafer, 1997). As diretrizes desenvolvidas a partir desse
enfoque são de grande interesse dos governos, empresas e proprietários particulares de
terras, que estão sendo pressionados para administrar suas propriedades tanto para a
produção comercial de recursos naturais como para diversidade biológica. Entretanto,
os biologistas de conservação têm também sido alertados para não apresentar diretrizes
simples e gerais para o planejamento de reservas naturais, pois cada uma das situações
de conservação requer considerações específicas (Ehrenfeld, 1989). As questões-chave
que os biologistas de conservação tentam apresentar incluem:
1. Qual a extensão que reservas naturais devem ter para proteger as espécies?
2. É melhor criar uma única reserva ou muitas de tamanho menor?
3. Quantos espécimes de uma espécie ameaçada devem ser protegidos em
uma reserva para evitar a extinção?
4. Que forma deveria ter uma reserva natural?
5. Quando várias reservas são criadas, elas deveriam estar próximas umas das out
ras ou bem distantes, e deveriam ser isoladas ou interligadas por corredores?
2 2 5
FIGURA 4.9. Princípios He
planejamento He reserva
foram propostos com base
nus teorias He biogeografia
He ilhas. Imagine que as
reservas sejam "ilhas”
He comnniHaHe biológica
’Tynal cercaHas por terra
tomaram inabitáveis
ira aquelas espécies HeviHo
a atividades humanas,
tais como, agricultura,
■ i ou desenvolvimento
nHustrial. A aplicação
prática desses princípios
nda está sendo estudada.
>.< princípios contidos aqui
têm sido objeto de muita
discussão, mas de maneira
geral, aqueles mostrados
à direita são considerados
preferíveis aos da direita
(Fonte: Shafer, 1997)
Pior Melhor
ç) Ecossistema
parcialmente
protegido (S
- Rio
A Ecossistema
completamente
protegido
) Reserva
menor
O o Reserva
maior
) Reserva
fragmentado OD o Reserva não
fragmentado
)) Menos
reservas O O ooo Mais
reservas
) Reservas
isoladas O O oo Reservas com
corredores
(F) Reservas
isoladas o o o°o Teimes"
facilitam o
nnvi mento
(G) Habitat
uniforme
protegido
(H) Formato
irregular
(D Somente
grandes
reservas
30 ha de reserva
oo
o o... Reservas _
manejadas O 0
individualmente Q q
Pare
(K) Pessoas - ' 'A
excluídas r í
100 ha
interior
300 lia de reserva
o ° 0 0
Habitats
diversificados
(montanhas, lagos,
florestas) protegidos
Formato da reserva
é próximo ao
circular (menos
efeitos de bordas)
Mistura de
reservas grandes
e pequenas
Reservas
manejadas
regionalmente
Integração
social;
zonas tampão
(
Tamanho de reserva
(
Conservação dí Comunidades
(
<
I
Uma antiga controvérsia na área de biologia de conservação surgiu a partir da
questão da riqueza das espécies ser maximizada em uma grande reserva natural ou em di
versas pequenas reservas com área total igual (Diamond, 1975; Simbcrloff e Abele, 1976,
1982; Terbotgh, 1976); esta controvérsia veio a ser conhecida na literatura como o “De
bate SLOSS” (sigla em inglês para o termo “única e grande” ou “várias e pequenas”). E
melhor ter tuna reserva de 10.000 hectares ou quatro reservas de 2.500 hectares cada? Os
proponentes de grandes reservas argumentam que somente estas podem conter quantidade
suficiente de indivíduos de espécies de grande porte, ampla extensão e baixa densidade
(tais como os grandes carnívoros) de forma a manter as populações a longo prazo {figura
4.10). Ainda, tuna grande reserva minimiza os efeitos de borda, abriga mais espécies, e tem
maior diversidade de habitat do que uma reserva pequena. Estas vantagens que os grandes
Parques têm, de acordo com a teoria biogeográfica de ilhas (veja capítulo 2), têm sido
demonstradas em vários levantamentos de animais e plantas em unidades de conservação.
Há três implicações práticas para este ponto de vista. Primeiro, quando uma nova unidade
está sendo estabelecida, esta deveria ser de um tamanho que pudesse comportar o maior
número de espécies possível. Segundo, quando possível, mais tetras vizinhas às reservas
naturais deveriam ser adquiridas a fim de aumentar a área das unidades já existentes. E por
último, se houver possibilidade de escolha entre criar uma nova unidade pequena ou uma
grande em habitats semelhantes, a opção deve recair sobre a grande. Por outro lado, urna
vez que uma unidade supera um determinado tamanho, o número de novas espécies in
cluídas começa a diminuir para um determinado aumento de área. Nesse caso, a criação de
uma segunda grande unidade, um pouco mais longe, pode ser uma estratégia melhor para
preservação de espécies adicionais do que introduzi-las na unidade já existente.
Os proponentes mais extremistas argumentam que pequenas reservas não de
veriam ser mantidas porque sua incapacidade para manter as populações a longo prazo
confere pouco valor de conservação. Contrários a este ponto de vista, outros biologis
tas de conservação argumentam que reservas pequenas e bem localizadas podem incluir
uma grande variedade de tipos de habitats e mais populações de espécies raras do que
seria possível em uma grande extensão na mesma área (Simberloff e Gotelli, 1984). Tam
bém, com o estabelecimento de mais reservas, mesmo que pequenas, evitar-se-ia a possi
bilidade de uma única força catastrófica, tal como a presença de um animal exótico, uma
doença, ou incêndio, viesse a destruir uma população inteira localizada em uma única
2 2 7
Área da reserva (hectares)
FIGURA 4.10. Estudos populacionais mostram que grandes parques e áreas protegidas na África contém maiores densidades
de cada espécie do que os parques pequenos. Somente os parques maiores podem conter populações viáveis a longo praeço de
muitas espécies de vertebrados. Cada símbolo representa uma população animal. Se o tamanho da população viável de uma
espécie é de 1.000 (103; Unhas pontilhadas) indivíduos, serão necessários parques de pelo menos 100 hectares (102) para
proteger pequenos herbívoros (por exemplo, coelhos, esquilos); serão necessários parques de mais de 10.000 hectares (104 )
para proteger grandes herbívoros (por exemplo, veados, gebras. girafas); e serão necessários parques dt pelo menos 1 milhão
de hectares para proteger grandes carnívoros (por exemplo, leões, lobos). (Ponte: Schoneiva/d-Cox, 1983).
grande reserva. Além disso, as reservas pequenas, localizadas próximo a áreas habitadas,
podem servir de excelentes centros dc estudos da natureza e de educação para conserva
ção, estendendo os objedvos de longo alcance da biologia de conservação e conscienti
zando as pessoas.
Parece que agora há um consenso quando se diz que a decisão sobre tamanho
das reservas depende do grupo de espécies que está sendo considerado, bem como
das circunstâncias científicas (Soulé e Simberloff, 1986). Aceita-se que as grandes
reservas são mais adequadas do que as pequenas para manter muitas espécies, por
causa dos tamanhos maiores das populações e da maior variedade dc habitats que
elas contêm. Entretanto, pequenas reservas bem manejadas também têm seu valor,
Conservação de Comunidades
especialmente para a proteção de muitas espécies de plantas (Rodrigues, 1998), in
vertebrados e pequenos vertebrados (Lesica e Allendorf, 1992). Freqüentemente não
há outra escolha que não seja aceitar o desafio de manejar as espécies em pequenas
reservas uma vez que não existe disponibilidade de mais área para conservação. Isto
se aplica particularmente nos locais que foram cultivados intensamente e estão esta
belecidoshá séculos, tais como a Europa, China e Java. Por exemplo, a Suécia tem
1.200 pequenas reservas naturais com uma média de cerca de 350 hectares cada, e
reservas pequenas representam de 30% a 40% da área protegida na Holanda (Mc-
Neely et al.,1994). A situação pode ser crítica também em áreas convertidas mais
recentemente, como o Norte do Paraná, onde a metade dos 5,9% da área florestal
está contida em fragmentos menores que 34 ha (Rodrigues, 1993).
Minimizando os efeitos de borda e de fragmentação
De uma maneira geral, concorda-se que Parques devem ser planejados de for
ma a minimizar os efeitos de borda. Áreas que possuem forma circular minimizam a
relação borda/área, e o centro dessas áreas encontra-se mais distante das bordas do
que qualquer outra forma, especialmente as alongadas. Parques longos e lineares têm
mais bordas e todos os seus pontos estão próximos das bordas. Usando esses mesmos
argumentos para os Parques com quatro lados retos, um Parque quadrado é melhor do
que um retangular alongado que tenha a mesma área. Essas idéias raramente têm sido
implantadas. A maioria dos Parques tem forma irregular porque a aquisição de terras
é, na grande maioria das vezes, muito mais uma questão de oportunidade do que uma
questão de completar um padrão geométrico.
A fragmentação interna das reservas, motivada por estradas, cercas, cultivo,
extração de madeira e outras atividades humanas deveria ser evitada o máximo pos
sível em função dos muitos efeitos negativos que a fragmentação pode causar nas es
pécies e nas populações (veja Capítulo 2). As forças responsáveis pela fragmentação
são poderosas, já que as áreas protegidas são freqüentemente as únicas terras deso
cupadas disponíveis para a realização de novos projetos, como agricultura, represas
e áreas residenciais. Os planejadores governamentais freqüentemente estabelecem
redes de transporte e outras infra-estruturas nas áreas protegidas, uma vez que ali a
oposição política é menor do que em terras de propriedade particular.
2 2 9
Capítulo 4
FIGURA 4.11. O Corredor do Descobrimento. Esta nora
estratégia em implementação pela Conservation International
e Eundaçào Biodiversitas integra reseivas de nso direto e
indireto, com áreas privadas, visando à maximização do nso
dos recursos disponíveis para conservação. (Eonte: CABS
2000)
| F loresu | «“ '" S 1
Floresci secund ilta O Pru ttK>üa
Cacau predominante ; | Área de proteção
■ ambiental (APA)Pbmação de Eucaliptos
O Parque Estadual do Morro do
Diabo, por exemplo, perdeu muito de sua
área por alagamento para a hidrelétrica de
Porto Primavera e também foi cortado
pela Rodovia Arlindo Bétio (SP-613). Re
centemente, o biólogo Laury Curren, do
Instituto de Pesquisas Ecológicas (Ipê),
denunciou a morte por atropelamento de
22 onças nos últimos sete anos. Destas,
quatro possuíam colares de rastrcamento
e faziam parte de um estudo de conectivi
dade na região (Estado de S.Paulo - 2000).
As reservas naturais muitas vezes
são parte de uma matriz maior de habi
tat manejado para a extração de recur
sos, tais como a madeira, pastagem ou
cultivo agrícola. Se a proteção da diver
sidade biológica puder ser incluída como
prioridade secundária no manejo das áreas
produtivas, áreas maiores poderão ser in
cluídas nos planos de manejo de conserva
ção e os efeitos da fragmentação poderão
ser reduzidos. Sempre que possível, as
reservas naturais deveriam ser manejadas
como um sistema regional para facilitar o
fluxo e a migração de genes entre as popu
lações e para garantir representação ad
equada das espécies e dos habitats {figura
4.11). A cooperação entre proprietários de
terra dos setores público e privado é par
ticularmente muitas unidades pequenas e
isoladas sob o controle de vários órgãos
governamentais e organizações privadas
(Salwasser et al., 1987).
3 0
Conservação de Comunidades
Sempre que possível, as áreas protegidas deveriam compreender um ecos
sistema completo (tais como uma bacia hidrográfica, um lago ou uma cordilheira),
uma vez que o ecossistema é a unidade mais adequada de manejo. O dano a uma
parte não protegida do ecossistema poderia ameaçar a saúde do mesmo como um
todo. O controle de todo o ecossistema permite aos administradores dos parques
defendê-lo mais efetivamente contra influências externas destrutivas (Peres e Ter-
borgh, 1995).
Corredores de Habitat
Uma idéia interessante para o manejo de um sistema de reser
vas naturais seria conectar áreas protegidas isoladas a um grande siste
ma através do uso de corredores de habitat: faixas de terra protegida
entre as reservas (Simberloff et al., 1992). Esses corredores de habitat,
também conhecidos como corredores de conservação ou corredores de
movimento, permidriam que plantas e animais se dispersassem de uma
reserva para outra, facilitando o fluxo de genes e a colonização. Os corre
dores também poderiam ajudar a preservar os animais que são obrigados
a migrar sazonalmente entre uma série de habitats diferentes para obter
alimento; se estes animais esdvessem confinados em uma única reserva,
eles poderiam passar fome. Este princípio foi posto em prádea na Costa
Rica para conectar duas reservas de vida selvagens, o Parque Nacional de
Braulio Carillo e a Estação Biológica La Selva. Um corredor de 7.700 ha
de floresta com vários quilômetros de largura, conhecido como La Zona
Protectora, foi separado para permitir uma ligação elevada que permite
que pelo menos 35 espécies de pássaros migrem entre as duas grandes
áreas de conservação (Wilcove e May, 1986). Um corredor semelhante foi
proposto para permitir que rebanhos de grandes herbívoros migrem entre
dois parques nacionais da Tanzânia (figura 4.12).
No Brasil, vários corredores estão sendo propostos, mas nenhum
foi ainda viabilizado. Entre eles, o Corredor do Descobrimento, na Bahia,
e o Corredor do Rio Paraná. A idéia é biologicamente interessante, mas a
conservação de áreas grandes e alongadas representa, ou um custo político
231
I
(
(
í
(
(
{
{
f
{
(
FIGURA 4.12. Um corredor de
caça foi proposto para permitir
que rebanhos pudessem migrar
entre os Parques Nacionais do Lago
Manyara e de Tarangire no nordeste
da Tanzânia. Muitos dos animais que
vivem nesta área precisam migrar para seguir
a disponibilidade sagpna! de boa pastagem. A
área de cultivo atua! está indicada por sombreado
em diagonal. A área riscada na horizontal entre o
lago e o corredor proposto é usada por tribos para
pastagem de seus rebanhos na época da seca. A
"Zpna tampão" (sombreado escuro) permitiria a
existência de áreas extras para pastagem.
(1'onte: Mwalyosi, 1991)
7ima Tampão
pmpost.i
que poucos governos estão dispostos a pagar, ou um volume de recursos difícil de se obter.
Em alguns dos corredores propostos, pretende-se apenas uma integração entre os gestores
de reservas (governos Federal e Estaduais), a população, e os proprietários de terras. Esta
é uma idéia inovadora para a gestão de reservas, mas encontra grandes obstáculos para se
implementar em face da burocracia governamental e resistência da iniciativa privada.
Embora a idéia dos corredores seja a princípio atraente, ela tem alguns inconvenien
tes em potencial. Os corredores poderiam facilitar o trânsito de espécies daninhas (especial
mente em corredores estreitos, tomados por efeito de borda) e de doenças, de forma que
uma única infestação poderia se espalhar rapidamente em toda a área de reservas naturais
conectadas e causar a extinção de todas as populações de espécies raras. Além disso, os ani
mais que dispersam por entre os corredores poderiam ser expostos a maiores riscos de ex
tinção porque os caçadores, assim como os predadores de animais, tendem a concentrar-se
em rotas utilizadas pelos animais selvagens. Apesar destas possibilidades serem plausíveis,
inexistem dados que as suportem.
Conservação dí
Os corredoressão obviamente mais necessários nas rotas de
migração conhecidas . Em alguns casos, pequenos blocos de habitat
original entre grandes áreas de conservação podem também ser úteis
ao facilitar a movimentação através de um processo de alcance gra
dativo. Onde já existem corredores, estes deveriam ser preservados.
Muitos dos corredores que existem atualmente estão ao longo de cur
sos de água e podem ser habitats de importância biológica por si só.
Todas essas teorias de planejamento de reservas têm sido de
senvolvidas principalmente com vertebrados terrestres, plantas superi
ores e grandes invertebrados. A aplicabilidade dessas idéias para reser
vas aquáticas, onde os mecanismos de dispersão são desconhecidos,
requer investigações mais profundas.
Ecologia de paisagem e desenho de parques
A interação dos padrões espaciais de uso do solo, com a teoria de conser
vação e o planejamento de reservas, fica evidente na disciplina de ecologia da
paisagem. A ecologia da paisagem investiga os padrões de tipos de habitat e sua
influência na distribuição das espécies e os processos de ecossistemas (Urban et al.
1987; Hansson et al 1995). Uma paisagem é definida por Forman e Gordon como
uma “região, onde um conjunto de áreas (patches) em interação, ou ecossistemas, se
repete de forma similar” {figura 4.13). A ecologia da paisagem tem sido estudada mais
intensamente em ambientes dominados pelo homem. Ela representa uma tendên
cia histórica de incorporar processos sociais, econômicos e políticos à ecologia, de
modo a planejar paisagens mais sadias.
A ecologia da paisagem é importante para a proteção da diversidade biológi
ca, pois muitas espécies não são confinadas em um único habitat, mas movem-se
entre habitats ou vivem nas fronteiras onde dois habitats se encontram. Para essas
espécies, os padrões de tipos de habitat que existem em uma escala regional são de
importância crucial. A presença e a densidade de muitas espécies podem ser afetadas
pelos tamanhos dos “patches” de habitat e seu grau de ligação, ou conectividade,
como dizem os ecólogos da paisagem. Por exemplo, o tamanho da população de
uma espécie animal rara será diferente em dois parques de 100 ha, um deles for
mando um desenho alternado xadrez contendo 100 patches de campo e de floresta.
uio 4
\) Paisagens com patches diS|iersos
lareiras em
ma floresta
Grupos tie
árvores em um posto
(B) Paisagens em retle
Rede de carteadores em
largas fazendas
Rede hídrica
em florestas
t) Paisagens intertligiiatlas
tios Bordas de floresta • pastagem
(D) Paisagem tipo tabuleiro de xadrez
Terras com diferentes
culturas
Loteamenti) pira
residências
FIGURA 4.13. Quatm versões de tipos depaisagm nas quais os ecossistemas interativos ou outros usos da tetra formata
padrões irpe/itiivs. A disciplina de Ecologia da Paisagem enfoca lais interações e não simplesmente um único tipo dt
habitat. (De acordo com Zonnereld e Forman, 1990.)
cada um com 1 hectare de área, e o outro formando um xadrez com 4 fragmentos, cada um
com 25 hectares de área. Estes padrões alternativos de paisagem podem ter efeitos muito
diferentes no microclima (vento, temperatura, umidade e luz), na ocorrência de pragas, e
nos padrões de movimentação dos animais.
Para aumentar a quantidade e a diversidade de animais, os gerentes de vida selvagem
em áreas tem peradas, muitas vezes tentam criar a maior quantidade possível de variação da
paisagem dentro da sua unidade de manejo (Yahner, 1988), porque “a vida selvagem é um
produto dos lugares onde dois habitats se encontram” (Yoakum e Dasmann, 1971). Nos
trópicos, a situação é exatamente inversa. Bordas de florestas tropicais são tomadas por
um reduzido número de espécies resistentes (Rodrigues, 1998). O aumento da quantidade
(comprimento) de bordas, portanto, significa aumentar a densidade destas espécies, além de
expor a reserva aos impactos do entorno.
f
Conservação de Comunidade
O objetivo dos biólogos de conservação, entretanto, não é simplesmente
incluir o maior número possível de espécies dentro das reservas naturais, mas
também proteger aquelas espécies que estão mais expostas ao perigo de extin
ção em consequência da ação humana. Pequenas reservas divididas em peque
nas unidades de habitat dentro de uma paisagem restrita podem ter um maior
número de espécies, porém é mais provável que essas sejam espécies “ruderais”
- espécies que dependem da perturbação causada pelo homem - e espécies não
nativas. Um fragmento que possua uma grande quantidade de bordas pode não
ter muitas espécies raras que habitam apenas grandes blocos de habitat intacto.
Para evitar este problema localizado, a diversidade biológica precisa ser
manejada ao nível de paisagem regional, na qual o tamanho das unidades de
paisagem - tais como bacias hidrográficas ou cadeias de montanhas - aproxi
mam-se mais das unidades naturais antes da perturbação humana (Grumbine
1994); Noss e Cooperrider, 1994). Uma alternativa para criar uma paisagem em
miniatura de habitats contrastantes em uma pequena escala é conectar todos os
Parques de uma área em nível regional, de forma que unidades maiores de habi
tat possam ser criadas. Algumas dessas seriam, então, grandes o suficiente para
proteger as espécies raras que não suportam a interferência humana.
Manejo de áreas protegidas
C
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c
(
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1
A partir do momento em que uma área de proteção é legalmente estabe
lecida, ela deve ser eficazmente manejada se quisermos que a diversidade biológica
seja mantida. A sabedoria popular de que “a natureza sabe o que é melhor” e de
que existe um “equilíbrio da natureza” faz com que muitas pessoas cheguem à con
clusão de que a biodiversidade está melhor sem a intervenção humana. A realidade
é muitas vezes diferente: em muitos casos o homem já alterou de tal forma o meio
ambiente que as espécies e comunidades remanescentes precisam da intervenção hu
mana para sobreviver (Blockhus et al., 1992; Spellerberg, 1994). O Brasil e o mundo
estão cheios de Parques que existem apenas no papel, criados por decreto governa
mental mas não efetivamente manejados na prática. Esses Parques gradativamente
- ou algumas vezes rapidamente - perderam as espécies e sua qualidade de habitat se
deteriorou. Em muitas situações, as pessoas não hesitam em cultivar, extrair madeira
e minério em áreas protegidas porque a terra pertencente ao governo é de “todos”,
2 3 5
“qualquer um” pode pegar o que quiser e “ninguém” está querendo interpor-se. O ponto
crucial é que a unidades de conservação, às vezes, precisam ser ativamente manejadas para
evitar a sua deterioração. Entretanto, as decisões sobre o manejo de uma unidade de con
servação podem ser tomadas mais eficazmente quando as informações são fornecidas por
um programa de pesquisas e quando há financiamento disponível para a implementação dos
planos de manejo.
Também é verdade que às vezes o melhor manejo é justamente não fazer coisa al
guma; as medidas de manejo são, algumas vezes, ineficazes ou mesmo negativas (Chase,
1986). Por exemplo, realizar um manejo eficaz para promover a abundância de espécies de
caça, tais como o veado, envolve eliminar os predadores maiores, como os lobos e os feli
nos. A remoção desses predadores pode resultar numa explosão de populações de espécies
de caça (e, incidentemente, de roedores). O resultado é uma superpastagem, degradação de
habitat e um colapso das comunidades de plantas e de animais. Manejadores de Parques
excessivamente entusiastas, que retiram árvores caídas e vegetação rasteira para “melhorar”
a sua aparência podem, inadvertidamente, remover um recurso essencial para a feitura dos
ninhos de certas espécies e habitat para outras. Em muitos Parques, o incêndio faz parte
da ecologia da área. As tentativas de suprimir incêndios por completo são caras e artificiais,
eventualmente causando grandes e incontroláveis incêndiostais como o que ocorreu em
Brasília em 1994, e no Parque Yellowstone em 1988
Muitos dos bons exemplos de manejo de unidades de conservação vêm da Inglat
erra, com uma história de monitoramentos bem sucedidos e manejos de pequenas reservas
feitos por cientistas e voluntários, como o da Floresta dos Monks e a Reserva de Natureza
de Castle Hill (Usher, 1975; Peterken , 1994). Nesses locais, os efeitos de diferentes méto
dos de pastagem (ovelhas versus gado, pastagem leve versus pesada) sobte as populações
de espécies selvagens, borboletas e pássaros são acompanhados de perto. Em um simpósio
chamado Manejo Científico de Comunidades de Plantas e Animais para Conservação (Duffey e Watt,
1971) Morris concluiu,
“Não há modo algum de se manejar uma reserva natural que seja certo ou errado ... o talento
de qualquer método de manejo deve estar relacionado aos objetos de manejo para cada local de
terminado ... Somente quando os objetos de manejo tenham sido formulados é que os resultados
de manejo científicos podem ser aplicados."
Muitas vezes, a proteção de uma reserva com uma política tipo “não me toque/man
tenha distância” pode determinar a redução da sua diversidade. Em Campinas, a Mata Santa
Genebra, um reduzido fragmento de floresta em meio a uma matriz urbana/rural, vinha
Conservação oe Comunidadrs
sendo tomada por algumas espécies escandentes (trepadeiras) e espé
cies arbóreas pioneiras. Recentemente, adotou-se um controle da veg
etação escandente, de modo que as árvores tenham luz suficiente para
se desenvolver. A fisionomia da Mata Santa Genebra já mostra mel
horas. Também em Monte Verde-MG, um fragmento muito pequeno
de floresta, da Família Altmann, com menos de 1 ha, estava há dez
anos, tomado por trepadeiras e com a fisionomia bastante compro
metida. Hoje, após um controle contínuo das trepadeiras, as árvores
desta pequena floresta retomaram seu crescimento. A radiação solar
se reduziu dentro da floresta, o que é por si só um fator de controle
das trepadeiras. Hoje, este diminuto fragmento se encontra em um
estado de conservação atípico para fragmentos de seu tamanho.
Lidando com as ameaças aos Parques
Em 1990, o Centro de Monitoramento de Conservação Mundial e a UNES
CO realizaram um levantamento de 89 Sítios de Patrimônio Mundial para ter uma
idéia dos problemas de manejo (WRI, 1992). As ameaças às áreas protegidas eram
geralmente maiores na América do Sul e menores na Europa. Os problemas mais
sérios de manejo na Oceania (Austrália, Nova Zelândia e nas Ilhas do Pacífico) eram
as espécies de plantas introduzidas, enquanto que a coleta ilegal de vida selvagem,
incêndios, pastagens e cultivo representavam as maiores ameaças tanto na América
do Sul quanto na África. O manejo inadequado de Parques era um problema em
países em desenvolvimento da África, Ásia e América do Sul. As maiores ameaças
enfrentadas por Parques em países industrializados eram ameaças internas e externas
associadas às atividades econômicas tais como a mineração, o corte de madeira, a
agricultura e os projetos aquáticos. Embora esses padrões gerais possam dar uma
noção, qualquer Parque tem seus próprios problemas, como as invasões e caça nos
Parques no Sul do Brasil, a falta de demarcação no Norte, o corte de madeira e caça
ilegais em muitos Parques da América Central, ou o grande número de turistas que
se aglomeram em julho e agosto no Parque Nacional Yellowstone.
Avaliar as ameaças aos Parques não significa necessariamente uma tentativa
de eliminar sua presença. Em muitos casos é quase impossível fazer isso. Por exem-
2 3 7
Conservação oe Comunidadrs
sendo tomada por algumas espécies escandentes (trepadeiras) e espé
cies arbóreas pioneiras. Recentemente, adotou-se um controle da veg
etação escandente, de modo que as árvores tenham luz suficiente para
se desenvolver. A fisionomia da Mata Santa Genebra já mostra mel
horas. Também em Monte Verde-MG, um fragmento muito pequeno
de floresta, da Família Altmann, com menos de 1 ha, estava há dez
anos, tomado por trepadeiras e com a fisionomia bastante compro
metida. Hoje, após um controle contínuo das trepadeiras, as árvores
desta pequena floresta retomaram seu crescimento. A radiação solar
se reduziu dentro da floresta, o que é por si só um fator de controle
das trepadeiras. Hoje, este diminuto fragmento se encontra em um
estado de conservação atípico para fragmentos de seu tamanho.
Lidando com as ameaças aos Parques
Em 1990, o Centro de Monitoramento de Conservação Mundial e a UNES
CO realizaram um levantamento de 89 Sítios de Patrimônio Mundial para ter uma
idéia dos problemas de manejo (WRI, 1992). As ameaças às áreas protegidas eram
geralmente maiores na América do Sul e menores na Europa. Os problemas mais
sérios de manejo na Oceania (Austrália, Nova Zelândia e nas Ilhas do Pacífico) eram
as espécies de plantas introduzidas, enquanto que a coleta ilegal de vida selvagem,
incêndios, pastagens e cultivo representavam as maiores ameaças tanto na América
do Sul quanto na África. O manejo inadequado de Parques era um problema em
países em desenvolvimento da África, Ásia e América do Sul. As maiores ameaças
enfrentadas por Parques em países industrializados eram ameaças internas e externas
associadas às atividades econômicas tais como a mineração, o corte de madeira, a
agricultura e os projetos aquáticos. Embora esses padrões gerais possam dar uma
noção, qualquer Parque tem seus próprios problemas, como as invasões e caça nos
Parques no Sul do Brasil, a falta de demarcação no Norte, o corte de madeira e caça
ilegais em muitos Parques da América Central, ou o grande número de turistas que
se aglomeram em julho e agosto no Parque Nacional Yellowstone.
Avaliar as ameaças aos Parques não significa necessariamente uma tentativa
de eliminar sua presença. Em muitos casos é quase impossível fazer isso. Por exem-
2 3 7
por exemplo, é submetido a fogo há milhares de anos. As espécies que ocorrem no
Cerrado portanto são adaptadas a ocorrências eventuais de fogo. Para manter esta
comunidade, é necessário manter a frequência de fogo a que ela era submetida.
Em outros casos, partes das áreas protegidas precisam ser cuidadosamente
manejadas para minimizar a ação do homem e prover as condições necessárias para
as espécies adultas. Por exemplo, certas espécies de besouros do solo são encon
tradas em áreas de florestas boreais maduras e desaparecem das áreas submetidas a
corte raso (Niemelá et al., 1993).
• Áreas alagadiças. O manejo de áreas alagadiças é uma questão
particularmente crítica. A manutenção de áreas alagadiças é necessária para
preservar populações de pássaros aquáticos, peixes, anfíbios, plantas aquáti
cas e muitas outras espécies (Moyle e Leid)’, 1992). Mesmo assim, os Parques
podem concorrer pela água com os projetos de irrigação, planos de controle
de inundações e represas hidrelétricas e hidrovias, em lugares como o Pan
tanal e os Everglades da Flórida, nos Estados Unidos (Holloway, 1994). As
áreas alagadiças são freqüentemente interligadas, portanto uma decisão que
afete os níveis de água e a qualidade de um local tem repercussões em out
ras áreas. Os gerentes de Parques precisam ter o engajamento político e a
eficiência necessária para lidar com o público, de modo a assegurar que as
áreas alagadiças sob sua supervisão continuem a receber a água que precisam
para sua sobrevivência.
• Espécies raras. A necessidade de manejo de habitat para manter
populações de espécies raras é ilustrada pelo exemplo do Pântano Crystal,
no norte de Maine, reconhecido por suas numerosas espécies de plantas ra
ras (jacobson et al., 1991). A drenagem de uma área alagadiça e aumento
na quantidade árvores , foram atribuídos à construção de uma ferrovia em
1893 e à uma vala de drenagem, em 1937. Havia uma preocupação de que
pudesse se perder a comunidade biológica deste pântano. Estudos subse
quentesusando fotografias aéreas, história da vegetação e fósseis retirados da
turfa, demonstraram que a construção do leito da ferrovia, ao impedir a dre
nagem, fez com que o pântano se expandisse em área. O pântano também
aumentou em área com as queimadas provocadas pelas brasas lançadas pelas
locomotivas. Hoje, a grande área de pântano onde crescem espécies vegetais
raras é basicamente um produto da atividade humana. A construção da vala
i 4
de drenagem e a diminuição de incêndios que resultara da troca por locomodvas a
diesel estão permitindo que a vegetação volte ao seu estado original. Se o objetivo é
manter a atual extensão do pântano e as populações de espécies raras, as práticas de
manejo tais como queimadas periódicas, remoção de plantas arbóreas e manipulação
dos padrões de drenagem são necessárias.
•Espécies-chave. Ao se manejar Parques, deve-se tentar preservar e manter
recursos básicos dos quais dependem muitas espécies (veja Capítulo 1). Se não for
possível manter esses recursos-chave intactos, deve-se tentar reconstruí-los. Por ex
emplo, lagos artificiais podem ser construídos em leitos de rios para que haja a ma
nutenção do abastecimento de água, ninhos artificiais podem ser incluídos em locais
onde determinada árvore não exista mais. Recursos-chave e espécies-chave poderiam
ser melhorados em áreas de conservação manejadas para aumentar as populações
de espécies cujos números tenham sido reduzidos. Por exemplo, plantando-se ár
vores frutíferas, construindo-se um pequeno lago artificial e criando-se cevas de sal,
poderá ser possível manter as espécies de vertebrados em uma área de conservação
menor, com densidades mais altas do que se poderia prever com base nos estudos
da distribuição das espécies em habitat virgem. Outro exemplo é providenciar caixas
que sirvam como substitutos de ninhos de pássaros, quando poucas árvores com
cavidades para ninhos estão disponíveis. Dessa forma uma população viável de uma
espécie rara pode se estabelecer, sendo que sem essas intervenções o tamanho da
população poderia ser muito pequeno para que ela sobrevivesse. Em cada caso, um
equilíbrio deve ser encontrado entre o estabelecimento de reservas naturais livres da
influência humana e a criação de áreas seminaturais, nas quais as plantas e animais
são dependentes do cuidado humano.
Conservação de
O manejo de Parques e a
população
O uso da paisagem pelo
homem é uma realidade que deve ser
considerada quando se planeja um
Parque. As pessoas têm sido parte de
quase todos os ecossistemas do mun
do por milhares de anos, e excluir os
homens das reservas de natureza pode
ter conseqüências imprevisíveis (Go-
mez-Pompa e Kaus, 1992). Uma área
de Cerrado protegida contra queima
das provocadas pelo homem pode
se transformar em floresta, com uma
perda subscqüente das espécies de cer
rado. Entretanto, excluir a população
local das áreas protegidas pode ser a
única opção quando os recursos estão
sendo devastados a ponto da integri
dade das comunidades biológicas estar
sendo ameaçada. Tal condição poderia
ser resultante de super-pastagem do
gado, extração excessiva de madeira
para combustão ou caça com arma de
fogo. O melhor seria que um enten
dimento fosse alcançado antes que a
situação chegasse a esse ponto.
A utilização de Parques pela
população local e por visitantes tem
de ser o enfoque central de qualquer
planejamento de manejo, tanto nos
países ricos, como nos pobres (MacK-
innon et al., 1992; Wells e Brandon,
1992; Western at al.,1994). As pessoas
que sempre se serviram dos produtos
de uma reserva natural e repentina
mente se vêem impossibilitadas de en
trar nesta área, sofrerão com a perda de
acesso aos recursos necessários à sua
sobrevivência. E compreensível que
elas se irritarão e se frustrarão e, nestas
condições, não seriam grandes conser-
vacionistas. Muitos Parques nascem ou
são destruídos dependendo do grau de
apoio, negligência, hostilidade ou explo
ração que recebem da população que se
utiliza deles. Se o objetivo de uma área
de proteção é apresentado à população
local e se a maioria aceita estes objedvos
e respeita as regras do Parque, então é
possível que este consiga manter suas
comunidades naturais. Na melhor das
hipóteses, a população local envolve-se
no manejo e planejamento do Parque,
são treinadas e empregadas para trbal-
har nele, e beneficiam-se da proteção
de biodiversidade e da regulamentação
de atívidades dentro do Parque. No
outro extremo, se existe uma história
de más relações e desconfiança entre a
população e o governo, ou se o objetivo
do Parque não é explicado de maneira
adequada, os habitantes locais podem
rejeitar esta idéia e ignorar suas regula
mentações. Neste caso, os habitantes
entrarão em conflito com o pessoal do Parque, em prejuízo deste.
Atualmente existe um reconhecimento crescente de que o envolvim
ento da população local é o elemento principal que está faltando nas estraté
gias de manejo de conservação. Estratégias “de cima para baixo”, através das
quais os governos tentam impor seus planos de conservação, precisam estar
integradas a programas “de baixo para cima”, nos quais as cidades e outros
grupos locais sejam capazes de formular e alcançar seus próprios objetivos
de desenvolvimento (Clay, 1991). Conforme explicado por Lewis e colabora
dores (1990):
“Se alguma lição pode ser tirada de fracassos anteriores com relação ã con
servação na África, esta seria que a conservação implementada unicamente
pelo governo para o possível beneficio de sua população, provavelmente terá
um sucesso limitado, especialmente nos países de economia fraca. Por sua
verÇj uma conservação voltada para a população e realirçada por ela, com um
pape! de prestação de serviços e supervisão mais amplos delegado ao governo,
poderia promover uma relação mais cooperativa entre governo e o povo que
vive deste recurso. Isto poderia redurçir os custos de execução da lei e au
mentar as receitas a serem empregadas em outros setores do manejo da vida
silvestre. E também ajudaria a apoiar as necessidades de conservação assim
com oas necessidades da comunidade local. Ta! abordagem teria a vantagem
adicional de resgatar o senso maior de propriedade e responsabilidade dos
moradores locais sobre este recurso".
Este tipo de relação posinva, entre população e Unidades de Conser
vação, pode ser demonstrada na Estação Ecológica Mamirauá, no Amazo
nas e no Projeto TAMAR, no Nordeste. A razão de serem poucos os pro
jetos que atingiram este nível, é que desenvolver uma relação positiva com
a sociedade demanda mais do que diagnosticar e resolver os problemas de
conservação de uma espécie. Uma interação positiva com a sociedade se de
senvolve ao ouvir e atender os anseios das pessoas que vivem dentro e no
entorno dos Parques.
A Organização Educacional, Científica e Cultural das Nações Unidas
(UNESCO) foi pioneira com seu Programa O Homem e a Biosfera (MAB).
Este programa destinou um número de Reservas de Biosfera por todo o
mundo numa tentativa de integrar as atividades humanas, a pesquisa e a pro-
Opening conservation to man
(
COHSÍMÇÀO D! C0MUNIDA(
(
FlftUIA 4.14A. A s políticas passadas tentaram várias vetçes proteger as áreas naturais afastando-as das influências externas. O
programa M AB é uma tentativa de integrar as necessidades e as culturas das populações locais no planejamento e proteção dos
Parques. (Pôster “Ecologia em Ação: Uma exposição," UNESCO, 1981).
(
(
(
Monitoramento
Q Turismo c recreação
£ Ocupação humana
Q Estação ile pesquisa,
educação c treinamento
F£UU 4.141 0 padrão
geral de uma reserva MAB
- Homem e Meio Ambiente
- inclui uma área protegida central, cercada por
uma sçpna tampão onde as atividades humanas
são monitoradas e manejadas e pesquisas são
realizadas, que, por sua è cercada por
uma zpna de transição de desenvolvimento
sustentávele de pesquisas experimentais.
2 4 3
4
teção do meio ambiente natural em um único lugar {figura 4 .14A; Batisse, 1997). O conceito
de Reserva de Biosfera compreende uma área central, na qual as comunidades biológicas e
os ecossistemas são bem protegidos, cercados por uma zona tampão na qual as advidades
humanas tradicionais, tais como a extração de sapé, plantas medicinais e extração moderada
de madeira para combustão, são monitoradas e pesquisas não destrutivas são realizadas. Ao
redor da zona tampão há uma zona de transição onde algumas formas de desenvolvimento
sustentável, tais como o plantio em pequena escala e uma certa extração de recursos nat
urais como o corte seletivo de madeira, assim como a pesquisa experimental, são permiti
das {figura 4.14B). Esta estratégia geral de cercar áreas de conservação nucleares com zonas
tampão e de transição tem vários efeitos positivos. Primeiramente, a população local pode
se sentir incentivada a apoiar os objetivos da área protegida. Em segundo lugar, alguns tra
ços desejáveis da paisagem criados pelo uso do homem podem ser mantidos. E, em terceiro
lugar, as zonas tampão podem facilitar a dispersão dos animais e o fluxo de genes entre as
áreas de conservação nucleares altamente protegidas e as áreas de transição dominadas pelo
homem e não protegidas.
De acordo com a organização não-governamental Conservation International - Cl,
as áreas tampão podem levar ao isolamento de reservas. Esta instituição tem proposto o
uso de corredores, compreendendo uma rede de Parques, reservas e outras áreas de uso
menos intensivo, sendo gerenciadas de maneira integrada, de modo a garantir a sobrevivên
cia do maior número de espécies de uma região. Este gerenciamento integrado do mosaico
de diferentes usos de terras leva, segundo a Cl, ao máximo de resultados positivos à conser
vação, com o mínimo de custos para a sociedade (CABS, 2000).
Conservação fora das áreas protegidas
Um elemento essencial das estratégias de conservação deve ser a
proteção da diversidade biológica dentro e fora das áreas protegidas. O
perigo de se depender apenas de Parques e Reservas é que essa estratégia
pode criar um “estado de sítio”, onde as espécies e comunidades dentro
dos parques são rigorosamente protegidas enquanto que aquelas que estão
fora podem ser livremente exploradas. Se as áreas que cercam os Parques
Conservação de Comunidades
TABELA 4.5. O número de espécies herbívoros em Parques africanos e a redução esperada
em caso de isolamento dos Parques
Parque Nacional
Número de espécies no parque
Área
(x 1000 ha)
Atualmente Caso as áreas fora
dos parques excluam a vida selvagem'1
Serengcti, Tanzânia 1.450 31 30
Mara, Quênia 181 29 22
Meru, Quênia 102 26 20
Amboseli, Quênia 39 24 18
Samburu, Qucnia 30 25 17
Nairobi, Quênia 11 21 11
I :onte: dados da Western e Seniaknla 1981.
J Número estimado de espécies que permanecerão se as áreas fora dos Parques protegidos exclu irem a vida selvagem devido à agricultura, caça,
pecuária ou outras atividades humanas.
forem degradadas, de qualquer forma, a diversidade biológica dentro dos parques di
minuirá também, sendo séria a perda de espécies nos parques pequenos (Tabela 4.5).
Este declínio ocorrerá porque muitas espécies devem migrar para além das fronteiras
das Unidades de Conservação a fim de ter acesso a recursos que o Parque por si só
não pode oferecer. Além disso, o número de indivíduos de qualquer espécie que vive
dentro das fronteiras de um Parque pode ser menor que o tamanho mínimo viável de
uma população. Conforme declarado por Western (1989), “Se não pudermos salvar a
natureza fora das áreas protegidas, muito pouco sobreviverá dentro delas”.
Mais de 90% da superfície da Terra ficará fora das áreas de proteção, de
acordo com as previsões mais otimistas. As estratégias de conciliação entre as ne
cessidades humanas e os interesses da conservação nessas áreas não protegidas são
primordiais para o sucesso dos planos de conservação. A maior parte das terras não
protegidas não é usada intensamente pelo homem e ainda mantém algumas de suas
biotas originais. Uma vez que grande parte da Terra jamais estará protegida, muitas
espécies raras só ocorrerão fora das áreas protegidas. Na Austrália, por exemplo,
79% das espécies de plantas ameaçadas e vulneráveis vivem fora das áreas de pro
teção (Leigh et al., 1982). A maioria das espécies relacionadas na Lei Americana de
Espécies Ameaçadas é encontrada em território particular. No Brasil, é impossível
saber quantas espécies ocorrem em áreas protegidas e não protegidas, em função
do grande número de espécies. Considerando somente a área de habitat em proprie-
2 4 5
LO 4
dades particulares em Londrina é 100 vezes maior que a área protegida pelo governo
(Lima e Rodrigues, 2001), o que confirma o padrão encontrado em outros países.
As estratégias de conservação que incluem a conscientização e o incentivo
aos proprietários de terras particulares em proteger as espécies raras são, obvia
mente, a chave para uma sobrevivência a longo prazo de muitas espécies. Os pro
gramas governamentais para espécies ameaçadas, em muitos países, informam os
construtores de estradas e os responsáveis pelo desenvolvimento de áreas sobre os
locais onde se encontram as espécies raras, e os ajudam a modificar seus planos
no sentido de evitar danos a estes lugares. As florestas de onde a madeira é ex
traída seletivamente dentro de um ciclo prolongado de corte, ou que são usadas
para cultura itinerante tradicional por um pequeno número de agricultores, conseg
uem manter uma porcentagem considerável de suas biotas originais (Johns, 1987;
Thiollay, 1992). Na Malásia, a maioria das espécies de pássaros pode ser ainda en
contrada em florestas tropicais, 25 anos após a extração seletiva de madeira. Isto é
possível também devido à presença de uma outra área intacta que se pode encontrar
nas proximidades e que serve como fonte de espécies colonizadoras (Wong, 1985).
As espécies nativas podem, muitas vezes, viver em áreas não protegidas
quando estas áreas são preservadas ou manejadas para algum fim que não seja dan
oso ao ecossistema. As zonas de segurança ao redor de instalações governamentais
são algumas das áreas naturais de maior destaque no mundo.
O maciço da Juréia, ao sul do Estado de São Paulo, foi protegido pelo exér
cito brasileiro, pois era uma área designada para receber uma usina atômica. A Esta
ção Ecológica da Juréia/Itatins, com seus 79.830 hectares, existe hoje devido a esta
proteção. Também nos Estados Unidos, habitats naturais estão localizados em áreas
militares tais como o Forte Bragg, na Carolina do Norte; e as instalações nucleares
na área do Rio Savannah, na Carolina do Sul. Embora as represas, reservatórios,
canais, operações de dragagem, instalações portuárias e desenvolvimento do litoral
destruam e danifiquem as comunidades aquáticas, algumas espécies são capazes de
se adaptar a essas condições, particularmente se a água não for poluída. Nos estuári
os e mares manejados para a atividade pesqueira comercial e não comercial, muitas
das espécies nativas ficam preservadas porque tanto as espécies comerciais quanto
as não comerciais exigem que o ambiente químico e físico não seja danificado.
Outras áreas que não estão protegidas por lei provavelmente mantêm a di
versidade biológica porque a densidade demográfica humana e o seu grau de uti-
lização são tipicamente muito baixos,
como foi o caso do Vale do Ribeira
e do Pontal do Paranapanema até os
anos 70. Pelo mesmo motivo, áreas
de fronteira, tais como a zona militar
neutra entre a Coréia do Norte e do
Sul são, muitas vezes, abundantes em
vida selvagem porque permanecem
subdesenvolvidas e pouco habitadas.
Também as áreas montanhosas são,
geralmente, muito íngremes e inac
essíveis ao desenvolvimento. Estas
áreas são freqüentemente tratadas
pelos governos como bacias hidrográficas por seu valor no fornecimento
constante de água e na prevenção
contra inundações, e ainda por terem
comunidades naturais, como a Serra
do Cipó, próximo a Belo Horizonte,
ou as porções mais íngrimes da Mata
Atlântica. Da mesma maneira, as co
munidades de deserto podem estar
menos expostas a riscos, em compa
ração a outras comunidades não pro
tegidas, uma vez que as regiões desér
ticas são consideradas inadequadas
para uso e habitação pelo homem.
Em muitas partes do mundo e
no Brasil também, pessoas abastadas,
empresas e fundações têm adquirido
grandes áreas de terra para construção
de suas propriedades particulares. Es
sas propriedades particulares são por
(
(
C onservação de Co m u n id a d e s
vezes pouco utilizadas, muitas vezes ^
devido à intenção de seus propri
etários de preservar a vida silvestre.
Algumas terras na Europa, adquiridas
e protegidas durante centenas de anos
por famílias reais, têm preservado
florestas centenárias singulares. No
Brasil, a Fundação Boticário adquiriu
em 1993, 2.340 ha de Mata Adântica,
com o objetivo de preservar uma por
ção deste Bioma. Também a família
Klabin comprou uma área de 53.000
no Pantanal em 1940 e desde 1970,
7.000 ha foram destinados à preser
vação. Ainda que em muitos casos a
intenção do proprietário seja unica
mente preservacionista, em muitos
outros também se vislumbra a possi
bilidade de lucros com ecoturismo e
safáris fotográficos.
Em muitos países, grandes
quantidades de terras de proprie
dade do governo são destinadas para
múltiplo uso, de modo similar às
Florestas Nacionais, onde se prevê
extração sustentável de madeira e
outros produtos florestais, além de
recreação. Cada vez mais, as áreas
de múltiplo uso também estão sendo
valorizadas e manejadas pela sua ca
pacidade de proteger as espécies, as
comunidades biológicas e os ecos
sistemas (Norse et al., 1986; Johnson
247
i 4
e Cabarale, 1993; Noss e Cooperrider, 1994). Os biólogos de conservação
estão agora se valendo de leis e tribunais para evitar que atividades aprovadas
pelos governos sejam desenvolvidas em terras públicas quando apresentam
ameaça à sobrevivência das espécies (Mlot, 1992).
Manejo de Ecossistemas
Muitos gerentes de unidades de conservação em todo o mun
do estão ampliando seus objetivos para incluir a saúde dos ecossiste
mas. O conceito de manejo de ecossistemas é descrito por Grumbine
(1994a): “O manejo do ecossistema coloca o conhecimento cientifico
de relacionamentos ecológicos dentro de uma estrutura complexa so-
ciopolítica e de valores, com o objetivo geral de proteger a integridade
do ecossistema nativo a longo prazo”. Os manejadores de recursos
estão, cada vez mais, sendo pressionados para expandir seu enfoque
tradicional sobre a produção máxima de bens (tais como o volume de
madeira extraída) e de serviços (tais como o número de visitantes em
Parques) e, por sua vez, ter uma perspectiva mais ampla que inclua
a conservação da diversidade biológica (Grumbine, 1994b; Noss e
Cooperrider, 1994; Poiani, 2000). Por exemplo, em uma grande bacia
florestada ao longo da costa, o manejo de ecossistemas iria integrar
todos os proprietários e usuários desde o topo do morro até a costa,
incluindo silvicultores, fazendeiros, conservacionistas, comerciantes,
moradores da cidade e a indústria pesqueira (Costanza, 1998) (figura
4.15). Entretanto, nem todos os ecologistas têm aceitado o paradigma
de manejo de ecossistema; alguns consideram improvável mudar as
práticas de manejo voltadas para o homem, que levam a uma super-
exploração dos recursos naturais (Stanley, 1995).
Conservação de Coaaunidaoes
Refugio de vida selvagem
Área residencial
e industrial
Zona proibida
para pesca por
poluição cíágua
Cesta pesqueira
Zona marinha protegida
Area montanhosa
de recreação
w Silvicultura
paraprodu
r f i M Ü ! Ä : ^ raP Çá°
— r ^Pastagem
Estação de tratamento de esgoto Vila de Pescadores
— -------- ---------------------- ------afiSS^Mn
Fazenda
Refugio de vida selvagem
S g à r T *7 -» « m
» i ' .
Recreaçao e
utbanizacão costeira
As principais questões de manejo de ecossiste
m as com preendem :
1. Buscar as conexões entre todos os níveis e escalas
da hierarquia do ecossistema; por exemplo, de um indivíduo
à espécie, à comunidade, até do ecossistema.
2. Manejar na escala apropriada, não apenas em con
formidade com as fronteiras políticas artificiais e com as
prioridades administrativas estabelecidas pelos governos. O
objetivo do manejo regional deve ser o de assegurar popu-
FIGURA 4.15. O manejo de
ecossistemas envolve a integração
de todos os agentes que afetam
o ecossistema e recebem
benefícios dele. Neste caso, uma
baàa hidrográfica precisa ser
manejada para uma variedade
de propósitos. muitos dos quais
interagem entre si.
Fonte: Mi/ler, 1996
2 4 9
LO 4
lações viáveis de todas as espécies, exemplos tepresentadvos de todas as comu
nidades biológicas e dos estágios de sucessão e das funções de um ecossistema
saudável.
3. Monitorar os componentes significativos do ecossistema (números de
espécimes de espécies significativas, cobertura vegetal, qualidade da água, etc.),
reunir os dados necessários e então usar os resultados para ajustar as práticas de
manejo de uma forma adequada.
4. Alterar as rígidas políticas e práticas dos órgãos responsáveis pelo
manejo de áreas, que, muitas vezes, resultam em uma abordagem fragmentada.
Ao invés disto, a integração e a cooperação inter-órgãos nos níveis local, region
al, nacional e internacional, e a cooperação entre órgãos públicos e organizações
privadas, devem ser incentivadas.
5. Reconhecer que o ser humano faz parte dos ecossistemas e que os va
lores humanos influenciam os objetivos relativos a manejo.
A vida selvagem africana fora dos Parques. Os países do leste afri
cano como o Quênia, são famosos pelo grande número de espécies selvagens
em seus Parques nacionais, que são a base de uma valiosa indústria de ecotur-
ismo. A despeito da fama desses Parques, cerca de três quartos dos dois mil
hões de animais de grande porte no Quênia vivem fora dos Parques, freqüente-
mente dividindo as pastagens com o gado doméstico (Western, 1989). Esses
pastos no Quênia ocupam 700.000 n r , ou cerca de 40% do país. Entre as es
pécies conhecidas encontradas principalmente fora dos Parques, estão as gira
fas (89%), os antílopes (72%), as zebras de Grevy (99%), os órix (73%) e os
avestruzes (92%). Apenas os rinocerontes, elefantes e os gnus são encontrados
dentro dos Parques; os dois primeiros estão concentrados nos Parques porque
os caçadores de marfim, chifres e peles eliminaram quase que toda as popula
ções externas desses animais. Os grandes herbívoros encontrados nos Parques
freqüentemente pastam sazonalmente fora deles; muitas dessas espécies seriam
incapazes de sobreviver caso tivessem que ser mantidas dentro dos Parques
limitados por cercas, ou por causa da caça predatória ou do desenvolvimento
agrícola.
Os principais fatores que afetam a existência continuada das espécies
selvagens de grandes mamíferos em áreas não protegidas do território africano
parecem ser uma estrutura social estável e posse garantida de terra pela
população humana local (Western, 1989). Esses fatores tendem a ser uma
característica das sociedades tradicionais e das modernas altamente desen
volvidas. Nessas situações, o uso dos recursos é regulamentado por uma
autoridade reconhecida e as necessidades do momento podem ser adiadas
para intensificar a produção futura de recursos.
No Quênia existe um movimento em favor da criação de uma
nova política governamental que permita às comunidades rurais e aos
proprietários de terras se beneficiarem diretamente da presença de
grandes animais de caça em áreas não protegidas (Lewis, 1995; Western,
1997). Com a ajuda de entidades beneficentes internacionais estãosendo
estabelecidas empresas locais de ecoturismo (incluindo caminhadas, foto
grafia, canoagem e safáris a cavalo). Nos locais onde a terra tem um bom
número de animais, poderiam ser permitidos torneios de caça mediante
o pagamento de altas taxas. Essa renda poderia ser dividida entre as co
munidades locais e o governo do país. A carne e as peles obtidas com
essas caçadas poderiam ser também vendidas para uma renda adicional
que seria compartilhada. As comunidades que recebessem essas receitas
teriam um forte incentivo para proteger os animais selvagens e evitar a
caça predatória.
Ecologia de Restauração
A restauração de ecossistemas degradados representa uma oportunidade im
portante para os biologistas de conservação (Daily, 1995), não só pelo que podemos
realizar diretamente, mas também pelo que podemos aprender sobre ecologia. A
ecologia da restauração é definida como “o processo de alterar intencionalmente
um local para restabelecer um ecossistema que ocupava aquele local originalmente.
O objetivo deste processo é copiar a estrutura, o funcionamento, a diversidade e a
dinâmica de ecossistemas específicos” (Society for Ecological Restoration, 1991). A
ecologia da restauração se originou a partir de tecnologias que recuperam as fun
ções de um ecossistema de valor econômico: pântanos artificiais para prevenção
de enchentes, regeneração de áreas de mineração para prevenir a erosão do solo,
recuperação de solos para assegurar a produção de pastagens e manejo de florestas para
produção de madeira, e preservação de áreas com valor cênico (Gilbert e Anderson, 1998).
Entretanto, essas tecnologias algumas vezes produzem apenas comunidades simplificadas
ou comunidades que não podem se manter. Com a diversidade biológica sendo agora uma
preocupação generalizada, o restabelecimento de espécies e comunidades tem se transfor
mado em uma das principais metas dos planos de restauração.
A ecologia de restauração é importante para o conhecimento ecológico, pois testa
nosso conhecimento sobre as comunidades biológicas, desafiando-nos a juntar as partes
que as compõem (Diamond, 1990). Como disse Bradshaw, (1990),
“Os ecologistas que trabalham com ecologia de restauração atuam no ramo da construção, e igual
aos seus colegas engenheiros, podem rapidamente descobrir se sua teoria está correta quando um
avião cai, quando uma ponte desaba, ou quando um ecossistema não consegue se desenvolver".
Neste sentido, a ecologia de restauração pode ser vista como uma metodologia ex
perimental que interage com o conhecimento obtido na pesquisa básica de ecossistemas
intactos. A ecologia de restauração dá oportunidade de se reconstituir comunidades, na sua
íntegra e de modos diversos, a fim de verificar se estas funcionam bem, e de testar idéias em
uma escala maior, o que seria impossível de outra forma. (Dobson, 1997).
Engenheiros civis e outras pessoas envolvidas em grandes projetos de desenvolvi
mento trabalham com a restauração de habitats degradados de maneira prática e técnica.
Seus objetivos são encontrar formas econômicas para estabilizar de forma permanente su
perfícies de solos, prevenir a erosão, permitir que vizinhos e o público em geral tenham um
local de melhor aparência, e se possível, recuperar o valor produtivo das terras. O esforço
de restauração se dá através do restabelecimento da diversidade e composição de estrutura
da vegetação e funções do ecossistema. Os profissionais de ecologia de restauração pre
cisam ter uma compreensão clara de como os sistemas naturais funcionam e que métodos
de restauração são viáveis. Para ser prática, a ecologia de restauração deve também levar em
consideração a velocidade da restauração, o custo, a confiabilidade dos resultados e a habi
lidade que a comunidade final tem para sobreviver com pouca ou nenhuma manutenção.
Considerações tais como o custo e disponibilidade de sementes, quando irrigar as plantas,
quanto de fertilizante deve ser aplicado, e como preparar o solo, podem se tomar essenciais
para o sucesso de um projeto. Lidar com estes detalhes agronômicos não é um trabalho
normalmente atraente para os biólogos mais tradicionais, mas são considerações que devem
ser levadas em conta pela ecologia de restauração.
Conservação de Comunidades
Restaurar para quê?
Genericamente falando, restauram-se ecossistemas para que eles voltem a
propiciar os mesmos serviços de antes de serem degradados, tais como melhoria
da qualidade de água, redução de erosão, alimento para a fauna e refúgio de biodi
versidade. Deste modo, a reconstrução de ecossistemas degradados tem um grande
potencial para aumentar e intensificar o atual sistema de áreas protegidas. A Floresta
da Tijuca foi restaurada a partir de 1845, com o objetivo de restabelecer o abastec
imento de água no Rio de Janeiro. A melhora já era notável em 1848, ainda que fosse
insuficiente para o tamanho da cidade. Em 1991, a Floresta Nacional da Tijuca foi
declarada uma Reserva da Biosfera pela Unesco. Também a cidade de Iracemápolis-
SP restaurou a margem do reservatório de água da cidade, após a seca de 1985.
A restauração de ecossistemas envolve profissionais graduados de várias
áreas, e demanda também grande quantidade de trabalho de campo, apresentando
portanto potencial de geração de empregos longe das grandes cidades, onde eles são
mais necessários. A ecologia de restauração provavelmente se tornará uma das áreas
mais ativas da biologia de conservação, em função de sua aplicabilidade direta.
Um motivo menos nobre para restaurar ecossistemas é o impacto na opinião
pública. Ainda que seja legítimo que uma empresa divulgue suas realizações em ter
mos de restauração de ecossistemas, e melhore sua imagem com isto, muitas vezes
estas realizações são menores do que se apresentam nos folders das empresas. O
profissional de conservação deve evitar se envolver neste tipo de situação, mas pode
também fazer uso desta necessidade da empresa, para conseguir recursos para a
implementação de fato de programas de restauração de ecossistemas.
Um serviço de ecossistemas para o qual se presta pouca atenção em nosso
pais são aqueles providos por áreas alagadiças. Por serem áreas impróprias para uso
humano, elas são subestimadas em seu potencial biológico. Áreas alagadiças fisica
mente funcionam como filtros do material particulado em suspensão no rio, e são
também sítios de alta concentração de nutrientes, fundamental para várias espécies
animais e vegetais. Em outros países, muitos projetos de desenvolvimento incluem
a criação ou recuperação de áreas alagadiças em substituição àquelas que foram
destruídas ou degradadas pelo projeto, como parte do seu plano geral. Esta restau
ração é exigida como condição para a aprovação governamental dos projetos. A in
tenção dessa exigência é garantir que não haja perda de áreas alagadiças. Entretanto,
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a grande maioria dessas novas áreas é vista como um fracasso, uma vez que elas não têm a
mesma composição de espécies ou propriedades hidrológicas das comunidades originais.
Em nosso país, ainda inexiste uma preocupação com a manutenção das áreas ala
gadiças. O Rio Tietê, que corta a cidade de São Paulo, era ladeado por uma área alagável, re
sponsável pela contenção de cheias na cidade e pela manutenção da fauna, no outrora vivo
Rio Tietê. O aterramento de fundos de vale para construção de vias expressas é quase que
uma norma nas grandes cidades brasileiras. A restauração biológica de uma área como a da
Marginal do Tietê, em São Paulo, é virtualmente impossível depois que a cidade a ocupa. A
melhor opção é evitar sua ocupação, para que elas continuem a propiciar o serviço ecológi
co de contenção das cheias. Este lição é importantíssima para cidades de médio porte que
estão ampliando sua rede viária. A cidade de Londrina-PR, por exemplo, possui uma malha
de fundos de vale que permeia toda a cidade. Existe o risco de que um