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I. J\ TRANSD1SCIPLlNARIDADE É POSSíVEL EM LINGüíSTICA APLICADA?l Luiz Paulo da Moita Lopes Introdução Embora a chamada natureza interdisciplinar da Lingüística Apli- cada (LA) não tenha ainda sido suficientemente entendida e praticada, já se coloca para esta área de investigação um outro modo de produzir conhecimento, de cunho transdisciplinar, que começa a ser cada vez mais apresentado na literatura como envolvendo um tipo de pesquisa comum tanto nas ciências naturais quanto nas ciências sociais e humanas (cf. Gibbons et aI. 1995). Neste trabalho, vou inicialmente enunciar o modo de fazer pes- quisa reconhecido pelos pares como sendo típico da investigação em LA, pelo menos da parte daqueles que se alinham à maneira de fazer LA I. Este trabalho se tornou possível graças a uma bolsa de pesquisa do CNPq (523548/96-6) e a um auxílio da FUJB (38253). Agradeço a Alice Freire (TJFRJ) pelas sugestões feitas a uma primeira versão deste trabalho. Sua primeira versão foi apresentada em 4/9/1995 na mesa-redonda "Trandisciplinaridade em Lingüística Aplicada", por ocasião do IV Congresso Brasileiro de Lingüística Aplicada realizado em Campinas (SP). 101 I ADAIR Texto digitado MOITA-LOPES, Luiz Paulo da. A transdisciplinaridade é possível em Linguística Aplicada? In: SIGNORINI; Inês; CAVALCANTI, Marilda. (Orgs.). Linguística Aplicada e transdisciplinaridade: questões e perspectivas. Campinas: Mercado de Letras, 1998. p. 101-114. ADAIR Texto digitado ADAIR Texto digitado ADAIR Texto digitado ADAIR Texto digitado ADAIR Texto digitado 1 1_1 i j'.i J defendida internacionalmente (cf. o Vodemecum da AILA), e que não fazem LA de maneira pcri férica ao seu trabalho principal, mas de forma central é "sistemática, amparada pelo maior número de entidades e instituições possíveis" (Kleiman 1992, p. 35). A seguir, vou apresentar o que caracteriza a concepção transdisciplinar de pesquisa para então discuti-Ia em relação à investigação em LA, respondendo, desta forma, à pergunta que c1átítulo a este trabalho. Uma visão atual de LA esforço de abstração teórica e de pensamento crítico (cf. Tannen s/d) , que é barrado pelos limites de uma disciplina. Este esforço interdiscipli- nar envolve a integração de idéias ao nível macro ou do essencial na tentativa de construir urna nova teoria e uma nova compreensão do problema em estudo. Para aqueles que só obedecem aos limites da Análise do Discurso de linha x ou y, por exemplo, fica impossível o esforço interdisciplinar. Como já disse Moita Lopes (1994a), "a ausência desta compreensão teórica globalizadora pode levar a disputas metalingüísticas estéreis e reveladoras de um nível de teorização inadequado [isto é, disci- plinar], em wna área" que se quer interdisciplinar. Além disso, este esforço interdiseiplinar envolve um trabalho de síntese que, em geral, não é tão valorizado no mercado acadêmico quanto a análise: "as investigações sintéticas [são] geralmente suspeitas de contaminações filosóficas ou de desvios especulativos" (Faure 1992, p. 63). Outras dificuldades de uma área de investigação interdisciplinar estão relacionadas à aceitação institucional da área. No Brasil, que eu saiba, há um único departamento de Lingüística Aplicada (da Unicamp) e o CNPq, o principal órgão de financiamento de pesquisa no país, que influencia todos os outros, e entende a LA como uma subárea da Lingüística. Isso tem implicações relativas ao desenvolvimento de carreiras universitá- rias, como também à distribuição de verbas para pesquisa (cf. Faure 1992, p. 61). Áreas de investigação disciplinares são mais facilmente departamen- talizadas e se adequam com facilidade ao mundo universitário como ele é, isto é, se encaixam em práticas sociais de investigação naturalizadas, C0l110 acho que Fairclough (1989) diria. Na visão de Faure (1992, p. 61), as práticas de pesquisa interdisciplinares, por não constituírem disciplinas, constituem, na verdade, INdisciplina, e suscitam, portanto, problemas institueionais. Contemporaneamente, defende-se uma visão interdisciplinar de LA. O lingüista aplicado, partindo de um problema com o qual as pessoas se deparam ao usar a Iinguagem na prática social e em um contexto de ação, procura subsídios em várias disciplinas que possam iluminar teoricamente a Cjuestãoemjogo, ou seja, que possam ajudar a esclarecê-Ia (cf. Widdowson 1979; Cavalcanti 1986; Moita Lopes 1996a etc.). Isso quer dizer que a pesquisa em si é aplicada, isto é, ocorre no contexto de aplicação, e não se faz aplicação em LA. Elabora-se, assim, uma compreensão teórica de natureza interdiseiplinar ao colocar-se o problema em estudo na "fronteira de duas ou mais ciências [, o que] as obriga a somarem seus esforços para, redefinindo o objeto, criarem uma nova perspectiva científica" (Tavares d' AmaraI1992,p.l04). Contudo, este percurso, na prática, ainda é muito pouco efetivado. Uma análise dos trabalhos em LA revelará que uma grande maioria normalmente ainda tem lima base teórica única: a Lingüística em um sentido macro. Os pesquisadores, em geral, operam dentro dos limites da Análise do Discurso, da lingüística textual, ou da Análise da Conver- sação na tentativa de compreender o problema em análise. Ou seja, ficam .dentro do limite disciplinar. É claro que, aqui, estou excluindo da discussão os pesquisadores que fazem aplicação de Lingüística, por ser um tópico já vastamente discutido na literatura, como uma forma inade- quada de produzir conhecimento de natureza aplicada (cf. Cavalcanti 1986; Moita Lopes I996a). Quem tenta operar de f0I111ainterdisciplinar, paga o preço da rNdisciplina, dando, freqüentemente, nas universidades em que imperam as áreas disciplinares departamentalizadas, margens a incompreensões do que seja o trabalho interdisciplinar. Estas são causadas pelo chamado fenômeno do "Rei sem reino" (ef. Faure 1992, p. 68). Em geral, nota-se, na prática, como decorrência de esses lingüistas aplicados trabalharem dentro elos limites ele uma disciplina teórica-como disse acima, uma dificuldade em aceitar a integração de idéias de campos variados como sendo compatíveis: um trabalho que requer um grande Para ilustrar meu reinado sem reino, por assim dizer, relato meus passos acadêmicos. Estou departamentalizado em letras Anglo-Germâ- nicas; atuo na pós-graduação em um programa Interdisciplinar de LA; minha pesquisa é na linha de interação em contextos institucionais (sala de aula de língua matema e estrangeira), com preponderância de pesquisa 102 103 em língua materna nos últimos seis anos;já orientei alunas do Programa de Letras Francesas; já fiz palestras na Faculdade de Educação, onde já examinei teses, e na Engenharia de Produção, onde já co-orientei uma tese de doutorado; já co-orientei e examinei teses na Lingüística e em Língua Portuguesa; já dei cursos e editei livros com lingüistas (aliás, repetindo Widdowson (1979), muitos dos meus melhores amigos são lingüistasl); já escrevi um artigo sobre o ensino de línguas clássicas; leio atualmente nas áreas de Análise do Discurso francesa, Análise Crítica do Discurso, Educação, Psicologia neo-vygotskiana, Psicologia social (na área de construção da identidade social), estudos culturais, Sociologia, Medicina social, e Psicanálise. Para quem opera dentro dos limites da disciplina ou departamentais, meus passos são, claramente, da INdiseiplina. Uma das críticas que se fazem às tentativas de interdisciplinari- dade na produção de conhecimento é a dc serem superficiais c despro- vidas de critérios de cientificidade. Contudo, como diz Jupiassu (1992, p. 87), "o que se encontra em jogo é certa concepção do saber, de sua repartição e de seu ensino, posto que o interdisciplinar aparece como um princípio novo de reorganização das estruturas pedagógicas do ensino das ciências". Esta reorganização requer uma interpenetração das disci- plinas tanto do ponto de vista teórico quanto do ponto de vista metodo- lógico. E é natural que a prática interdisciplinar, por desestabilizar as estruturas da universidade, seja repelida: é o princípioda territorialidade em desagregação, que desarticula os.velhos caciques e seus poderes. Na visão de Jupiassu (1992, p. 89): públicas" e argumenta que a integração de idéias de campos diferentes é uma forma de pensamento crítico. Eu mesmo já presenciei discordân- cias acadêmicas públicas em eventos de LA causadas simplesmente pelo uso. de meta linguagens diferentes, ou seja, por uma inabilidade de reconhecer enfoques interacionais teóricos diferentes, fruto de paróquias disciplinares ou da ausência do que chamei acima de compreensão teórica globalizadora de natureza interdisciplinar, o que é essencial em uma área que se quer interdisciplinar. Como diz Portella (1992, p. 6), "Enquanto que o projeto disciplinar distingue, privilegia, consagra, o pro- grama interdisciplinar combina; solidariza, desmistifica. Ele corresponde, talvez, a um estágio avançado de secularização do conhecimento". Transdiscipllnaridade o intcrdisciplinar não é algo que se ensine ou que se aprenda. É algo que se vive. É fundamental uma atitude de espírito. Atitude feita de curiosidade, de abertura, de sentido da aventura, de intuição das relações existentes entre as coisas e que escapam à observação comum. Atitude de recusa dos especialismos que bitolam e dos dogrnatismos dos saberes verdadeiros. Tendo discutido acima a visão contemporânea de fazer LA, isto é, de forma interdisciplinar, passo agora a apresentar a concepção transdisciplinar de produzir conhecimento para, a seguir, analisar como esta concepção pode coadunar-se com a área de LA, ponto central deste trabalho. Em um livro chamado The New Production of Knowledge: publi- cado em 1994, os seis autores (Gibbons, Limoges, Nowotny, Schwartz- man, Scott e Trow) tentam descrever uma forma de produção de conhecimento que está emergindo, isto é, transdisciplinar, e que co-existe lado a lado com a forma tradicional, isto é, a forma disciplinar. A forma emergente chamam de Modo 2 em oposição à forma tradicional que denominam de Modo 1. O que vou fazer aqui é, portanto, discutir como o Modo 2 se encaixaria na concepção de LA que apresentei anteriormente, mas para tal é necessário esclarecê-lo. rara a caracterização do Modo 2, os autores discutem cinco pontos principais, que dcsenvolvo abaixo: a) tipo de conhecimento produzido e contexto de produção; b) modo de produção do conhefimen- to: c) organização do conhecimento; d) responsabilidade social e refle- Acrescentaria ainda que o interdisciplinar envolve interesse e respeito pela voz do outro, isto é, por ouvir o que o outro csui dizendo com a finalidade de analisar como suas idéias se coadunam com as perspectivas que se tenha. Na universidade, como afirma Tannen (s/d), o COIllUIll é ouvir o outro para destruir seu argumento, como se faz no discurso da vida privada quando csiamos aborrecidos com alguém. Tannen (s/d) indaga se este é "o melhor modelo para trocas intelectuais 2. Agradeço a José Luiz Meurer (UFSC) pela indicação desse livro. 104 105 I a) Tipo de conhecimento e contexto de produção de acordo com o problema em foco" (ibidem, p. 27). Isto implica que a distinção tradicional entre conhecimento básico e aplicado deixa de existir, já que, devido à natureza transdisciplinar deste modo de investi- gação, a teoria informa a prática e a prática informa a teoria. Nas palavras de Gibbons et aI. (1995, p. 19): "Tipicamente, a descoberta ocorre em contextos para os quais o conhecimento é desenvolvido e colocado em uso, enquanto que os resultados - que tradicionalmente seriam caracte- rizados como aplicados - alimentam outros avanços teóricos". Deste modo, o conhecimento produzido não é aplicado no sentido tradicional, já que é elaborado no próprio contexto de aplicação em que a descoberta e aplicação não são separados (ibidem, p. 33). Além disso, a transdisciplinaridade é entendida como: a) tendo uma natureza dinâmica: "uma solução particular pode tomar-se o espaço cognitivo que gerará novas descobertas" (id., ibid., p. 5), e b) envolvendo uma junção temporária de tipos de conhecimentos, isto é, tem uma configuração temporária, o que, portanto, exclui a possibilidade de se caracterizar uma disciplina/área de investigação como sendo transcliscipli- nar (id., ibid., p. 29). Esta configuração formula um arcabouço diferente do arcabouço das disciplinas envolvidas mas' não poderia ter sido desenvolvido sem elas (id., ibid., p. 30). xão; e e) mecanismos de controle dc qualidade do que é produzido (cf. Gibbons et aI. 1995, pp. 3-8). Trata-se de conhecimento centrado na resolução de um problema de um contexto de aplicação específico, ou seja, tem uma orientação para a prática social ou para a ação. Isto significa dizer que a resolução do problema gerará conhecimento útil para lU11 participante do mundo social e que seus interesses e perspectivas são considerados na investigação. Envolve, por- tanto, colaboração entre os participantes sociais em um contexto de aplica- ção (cf. Gibbons et al. 1995, pp. 3-4). Isto quer dizer que o tipo de conhecimento produzido é "altamente contextualizado" (idem, p. 17) e não se centra na procura de princípios fundamentais (como no Modo 1), mas em modos de investigação orientados para resultados contextualizados (ibidem, p. 19). b) Modo de produção do conhecimento: transdisciplinaridade Acredita-se que a complexidade dos problemas não permite os limites disciplinares e nem "uma descrição unitária [baseada na busca dos princípios primeiros] que seja totalizadora e útil no sentido de que possa guiar outras pesquisas" ilbidem, p. 23). O conhecimento gerado transdisciplinarmente não pode ser reduzido a nenhuma disciplina espe- cífica dentre as que contribuíram na sua produção: o consenso teórico em que se baseia não pode ser fragmentado com facilidade em suas partes diferentes (ibidem, p. 5). O conhecimento transdisciplinar é gerado no contexto de aplica- . ção "e não desenvolvido primeiramente e depois aplicado ao contexto por um grupo diferente de agentes sociais" (ibidem, p. 5), ou seja, não envolve aplicação de conhecimento que já exista previamente à investi- ,gação no próprio contexto de aplicação. Assim, "A integração das disciplinas não é gerada por estruturas disciplinares - neste sentido o processo de conhecimento não é interdisciplinar, corta várias disciplinas - mas é pensada e criada desde o início no contexto de uso ou aplicação" (ibidem, p. 27), ou seja, "o contexto de aplicação cria pressões que requerem o uso de fontes de conhecimento variadas e que as configuram Em resumo, "a transdisciplinaridade surge somente se a pesquisa é baseada em uma compreensão teórica comum e deve ser acompanha- da de uma interpenetraçãomútua de epistemologiasdisciplinares.A coo- peração neste caso conduz a uma junção de resolução de problemas enraizados disciplinarmente e cria uma teoria homogeneizada transdis- ciplinarmente". (Idem, ibidem, p. 29). c) Organização do conhecimento Utiliza-se uma organização diversificada e heterogênea no que se refere aos tipos dc habilidades e experiências que os participantes possuem, opondo-se, portanto, a um tipo de organização em que só o pesquisador era visto como tendo conhecimento privilegiado. Assim, os participantes da investigação vão ser incluídos na dependência da neces- sidade que se apresenta na resolução de problemas específicos. Deste modo, nãoestão localizados só na universidade, mas em outros espaços institucionais: faculdades, escolas, institutos não-universitários, agên- cias governamentais, indústrias, filmas etc, Há, portanto, vários espaços 106 107 I d) Responsabilidade social e reflexão os tópicos e os métodos adequados de investigação são determinados, portanto, pelos chamados vigias da disciplina. No Modo 2, acrescentam-se critérios outros determinados pelo próprio contexto de aplicação que envolve uma variedade de interesses sociais, econômicos e políticos, em que eficiência e utilidade são cen- trais. Desta f0l111a,os resultados são necessariamente comunicados àque- les engajados na própria produção do conhecimento ou àquelesenvolvidos em outros problemas sob investigação. A divulgação de resultados não é feita, portanto, só em revistas científicas e congressos. O controle de qualidade tem uma natureza multidimensional (cf. Gib- bons et a!. 1995, p. 8), ou seja, é exercido através de um processo social mais amplo, que está além da comunidade científica. Isso resulta em um modo de produção de conhecimento com maior responsabilidade social e reflexão. sociais envolvidos com pesquisa fora da universidade ou cujos partici- pantes tê,m conhecimento singular sobre a prática social na qual vivem. Assim, os grupos se formam c se dissolvem na dependência de problemas novos, ou seja, são menos institucionalizados (cf. Gibbons et al. 1995, p. 6) e não necessariamente envolvem só pesquisadores. O foco de interesse é a área do problema e não instituições, disciplinas, e conheci- mento teórico e aplicado; portanto, o que é central é o trabalho colabo- rativo. Há cada vez mais uma preocupação da sociedade com os benefí- cios sociais dos investimentos da pesquisa em várias áreas (por exemplo, o espaço dedicado à ciência é cada vez maior na imprensa). A inclusão em grupos de pesquisa de participantes de especialidades variadas (cien- tistas sociais, advogados, engenheiros etc.) c atores sociais do contexto de aplicação, que possam ajudar a compreender a questão sendo estuda- da, possibilita retorno mais imediato da pesquisa para a prática social. Estes participantes se envolvem em todos os momentos da pesquisa: definição do problema, interpretação dos dados etc. Isto quer dizer que o impacto da pesquisa sobre o social está presente desde o início e torna os participantes mais reflexivos sobre os processos a que estão submeti- dos no contexto de aplicação. As soluções, portanto, têm que responder aos anscios dos participantes c não ser simplesmente colocadas em termos científicos ou técnicos. Essa característica aumenta a possibili- dade de distribuição social do conhecimento. Assim, a reflexão na qual se envolvem os vários participantes aprofunda a responsabilidade social da pesquisa influenciando desde aquilo que vale a pena ser estudado até a própria estrutura da investigação (cf. Gibbons et al. 1995, p. 7). De certa forma, o envolvimento em reflexão é mais importante do que a 'própria solução do problema que está sendo estudado. Transdisciplinaridade e Lingüística Aplicada e) Mecanismos de controle de qualidade Cabe agora analisar como a LA, uma área de investigação interdis- ciplinar, pode se engajar em processos de investigação transdisciplinares da perspectiva discutida anteriormente. Está claro que transdisciplinaridade é um modo de investigação que envolve uma forma de produção de conheci- mento que corta várias disciplinas, ou seja, não se pode fazer LA transdis- ciplinarmente. Pode-se, contudo, como lingüista aplicado, atuar em grupos de pesquisa de natureza transdisciplinar que estão estudando um problema em Wl1contexto de aplicação çspecífico para cuja compreensão as intravi- sões do lingüista aplicado possam ser úteis. Todavia, é curiosa a descrição que Gibbons et al. (1995) fazem de transdisciplinaridade como sendo típica de um modo de investigação emergente, o Modo 2, no sentido de que guardam semelhanças de natureza episternológica com a visão contemporânea de LA. Isto parece indicar que a concepção de LA com que se trabalha atualmente captou os princípios deste Modo 2 de produção do conhecimento. Vou discutir seis pontos que me parecem reveladores de seme- lhanças entre a visão atual de LAe o chamado Modo 2 de produção de conhecimento, a saber: a) contexto de aplicação; b) conhecimentoteórico e prático; cj.tipo de conhecimento: participativo c colaborativo; d) conheci- mento altamente contextualizado; e) responsabilidade social e divulgação dos resultados; e f) realidade complexa. No modo tradicional de investigação (Modo 1), o controle de qualidade é exercido pelos pares que avaliam trabalhos submetidos a revistas científicas, trabalhos apresentados em congressos, solicitação de auxílio para desenvolvimento de projetos de pesquisa etc. Os critérios, 108 109 I ) a) Contexto de aplicação contexto social em que a investigação está sendo realizada. Ou seja, o conhecimento produzido em pesquisas de natureza colaborativa ou etnográfica, metodologias que têm sido cada vez mais utilizadas em LA consideram a visão dos participantes, no caso da Etnografia (cf. Moita Lopcs 1995), c envolvem a colaboração do participante como pesquisa- dor, no caso da pesquisa colaborativa (cf. Magalhães 1994) de modo que este esteja diretamente engajado na formulação do conhecimento, mu- dando sua prática imediatamente. Aqui há também aspectos do Modo 2, não só quanto ao envolvimento de outros tipos de conhecimento que não o do cientista (por exemplo, em sala de aula, o conhecimento do professor e do aluno, e no consultório médico, o conhecimento do paciente e do médico), como também uma maior preocupação com o retomo dos resulta- dos para a prática social, isto é, um aspecto relacionado a uma maior responsabilidade social da pesquisa que já está embutido no próprio desenho da investigação. Outra característica do Modo 2 que também se pode incluir aqui é o fator reflexão, já que a colaboração ativa do participante como pesquisador o envolve em W11 processo de reflexão sobre sua prática.' Deve-se mencionar também que lingüistas aplicados que tratam de processos de formação de professores/ as)- têm defendido cursos de formação que envolvem os professores como pesquisadores através de pesquisa-ação sobre a sua prática, não só pela necessidade de envolvê-los em processos de reflexão sobre seu trabalho como também para gerar conhecimento singular da perspectiva de um participante interno da prática social da sala de aula (cf. Cavalcanti c Moita Lopes 1991; Celani 1989 e Moita Lopes e Freire, no prelo). Tal conhecimento é entendido como sendo extremamente útil para um pesquisador externo. Note-se que a pesquisa-ação tem sido apontada como útil pelos mesmos motivos para outros contextos como firmas, indústrias etc. (cf. Thiollent 1986). Há urna preocupação cada vez maior em LA com a investigação de problemas de uso da linguagem em contextos de ação ou em contextos institucionais, ou seja, há um interesse pelo estudo das pessoas em ação no mundo. Este interesse também perpassa várias áreas de investigação como Análise do Discurso, Psicologia, Ergonomia, Sociologia etc. (cf. Moita Lopes 1996b) c tem focal izado cada vez mais a intcração para se ter acesso a como as pessoas agem no mundo através do discurso. Por outro lado, tem-se argumentado que em LA não se faz aplicação de nada, ou seja, a pesquisa é feita no próprio contexto de aplicação, isto é, no contexto de ação. Isso tem produzido muitas críticas a trabalhos que utilizam conhecimentos adquiridos em Lingüística e que são formulados como aplicações para que oCa)professor(a), por exemplo, as use em sala de aula. Para ilustrar: faz-se uma pesquisa em Sociolingüística e descobrem-se certos aspectos da varia- ção lingüística e, então, sugerem-se certas atividacles pedagógicas, ou seja, aplicações destes aspectos para a sala de aula. Um outro ponto semelhante em relação ao Moclo 2 é o fato de que é o problema no contexto de aplicação que determina as disciplinas relevantes que vão iluminar a questão em estudo. b) Conhecimento teórico e prático Em LA, a teoria informa a prática e a prática informa a teoria. A teoria que se quer é formulada interdisciplinarmente mas é modificada pela prática. Para se formular conhecimento que tenha efeito 110 mundo social, ele tem que ser informado pela prática social onde as pessoas agem. É, em última análise, gerado no contexto de aplicação. Daí até dizermos, por exemplo, que em trabalhos nos quais se faz aplicação de Lingüística ao ensino de línguas é necessário que outra pesquisa na ação da sala de aula seja feita. Isso quer dizer que, igualmente como no Modo 2, o conhecimento gerado não é aplicado no sentido do Modo 1,já que a descoberta e a aplicaçãosão gerados conjuntamente (cf. Gibbons et al. 1995, p. 33). d) Conhecimento altamente contextualizado Ao invés da busca dos princípios gerais e fundamentais, típicos do Modo 1, há pesquisas em LA que se têm centrado na resolução de problemas específicos, isto é, que respondem questões de contextos de aplicação específicos. Aqui se filiam as pesquisas de natureza interpre- tativa, que se baseiam no fato de que "o que é específico no mundo social é o fato de os significados que o caracterizam serem construidos pelo ser humano, que interpreta e re-interpreta o mundo a sua volta, fazendo, c) Tipo de conhecimento: participativo e colaborativo Há, em algumas pesquisas em LA, uma tendência a privilegiar conhecimento que leva em consideração a visão dos participantes cio 110 111 I .) assim, com que não haja uma realidade única, mas várias realidades" (cf. Moita Lopes 1994a, p. 331). Portanto, os conhecimentos quc interessam são aqueles contcxtualizados, isto é, quc dão conta da multiplicidudc de realidades, estudando-as em suas especificidades. complexa e já bastante comum na área. Isso levou à compreensão da importância de se trabalhar interdisciplinarmentce, portanto, à necessi- dade de se deslocar a LA da dependência única da Lingüística. O Modo 2, igualmente, constitui-se com base na idéia de que os limites discipli- nares não dão conta da complexidade do que se estuda. e) Responsabilidade social e divulgação dos resultados Há uma cobrança cada vez maior em relação à responsabilidade social do trabalho do lingüista aplicado. Como é que a pesquisa que fazemos pode mudar a prática social? Acho que muitos de nós têm se defrontado com esta questão quando relatamos nossas pesquisas em eventos e em sala de aula. Há, por conseguinte, uma maior preocupação da parte dos pesquisadores, em nível internacional e nacional, eom aspectos desta natureza. Acho que a própria tendência de se fazer pesquisas altamente contextualizadas já é uma decorrência desta preocupa- ção. Além disso, nota-se um grande interesse por questões relativas à ética e poder nas pesquisas, que é um fator também relacionado à responsabili- dade sçcial do lingüista aplicado (cf. Camcron et aI. 1992). Perguntas do tipo "fazer pesquisa para quem e com que objetivo" começam a preoeupá-Io (ef. Moita Lopes 1996b). Observa-se também uma atenção dirccionada na divulgação de resultados para profissionais para quem nosso trabalho de investigação possa ser útil (cf. Moita Lopes 1994b, p. 76), ou seja, a divulgação típica do Modo I,isto é, para os pares, parece ser insuficiente. Contudo, o controle de qualidade ainda é feito pelos pares. Os profissio- nais para quem relatamos os resultados de nossa pesquisa funcionam C01110 receptores de resultados de pesquisa feita por outros. Para que os resultados sejam aval iados diretamente por esses profissionais, eles têm de estar diretamente envolvidos no contexto de aplicação, como na pesquisa colaborativa discutida no item c, que é bem típica do Modo 2. Ou seja, a distinção aqui é entre pesquisa sobre alguém (agentes sociais como receptores de pesquisa) e pesquisa com alguém (agentes sociais como produtores de pesquisa). Conclusão Estes seis pontos indicam que, embora a LA não se encaixe perfeitamente no chamado Modo 2 de produção de conhecimento, es- sencialmente transdisciplinar, o que seria impossível para uma área de investigação, conforme já argumentado, a produção de conhecimento em LA tem semelhanças claras com esse Modo. Isto é provavelmente devido ao fato de a LA ser uma área de investigação relativamente nova, o que permitiu a captação de idéias emergentes sobre proceclimentos episte- mológicos de natureza transdisciplinar na formulação de seus percursos de investigação. Quero crer que este fato possibilite maior facilidade na vinculação de lingüistas aplicados a grupos de pesquisa de natureza transd iscipl inar. Referências bibliográficas f) Realidade complexa ;\11.;\ Vadcmccum (1992). lnformation on thc lntcrnational Association of _ Applied Linguistics. CAMERON, D.; FRAZER, E.; HARVEY, P.; RAMPTON, M.RH., RI- CHARDSON, K. (1992). 'Researching language. Issues of power and method. Londres: Routledge. CAVALCANTI, M. (1986). A propósito de Lingüística Aplicada. Trabalhos de Lingüística Aplicada 7, pp. 5-12. CAVALCANTI, M. e MOITA LOPES, L.P. (l991).lmplementação de pesquisa na sala eleaula elelínguas no contexto brasileiro. Trabalhos de Lingüís- tica Aplicada 17, pp. 133-144. CI':L;\N I, M.A.I\. 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