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SANEAMENTO – TRATAMENTO DA ÁGUA AULA 5 Prof. César Augusto Marin 2 CONVERSA INICIAL Antes de começar esta etapa, é importante lembramos da definição de SAA dada por Azevedo Netto e Fernandez (2018, grifo nosso): o conjunto de obras, equipamentos e serviços destinado ao abastecimento de água potável a um determinado consumidor [...] em quantidade, qualidade e confiabilidade (continuidade) do abastecimento, adequada aos requisitos necessários e suficiente ao fim a que se destina. Em conteúdos anteriores, apresentamos grande parte do sistema industrial de um SAA. Você aprendeu os parâmetros de qualidade de água e os processos de tratamento necessários para obtê-los. Do ciclo de tratamento de uma ETA convencional, você já sabe agora como dimensionar os pré- tratamentos, o processo de coagulação e floculação e os tanques de sedimentação ou flotação. Nesta etapa, finalizaremos o processo de toda a ETA, aprendendo sobre o conceito, o dimensionamento e as formas de operação de filtros rápidos (Tópicos 1 a 3) e dos sistemas de desinfecção e fluoretação (Tópico 4 e Tópico 5), finalizando com a produção do lodo de ETA e seu manejo (Tópico 5). Nosso objetivo é que você, ao fim: • Conheça os princípios da filtração em profundidade; • Esteja apto a dimensionar filtros rápidos descendentes e suas formas de operação; • Conheça as principais formas de desinfecção e fluoretação e seu dimensionamento; • Consiga estimar a produção de lodo de uma ETA e as estruturas necessárias para seu manejo. TEMA 1 – PROCESSOS UNITÁRIOS: FILTRAÇÃO Em conteúdo anterior, aprendemos sobre os processos de separação de sólidos por sedimentação e por flotação por ar dissolvido. Grande parte das partículas são retiradas nestas etapas, porém isto não é suficiente para garantia da turbidez de 0,5 uT exigida na normativa nacional. Sedimentação, flotação e filtração são processos de remoção de partículas sólidas da água. O que separa fundamentalmente a sedimentação e a flotação da filtração é que nesta o mecanismo de atuação é a barreira física, o 3 qual, dependendo do seu dimensionamento, tem capacidade para remover partículas coloidais, e é esta última característica que garante turbidez abaixo de 0,5 uT. Por esse fato, podemos inclusive dizer que a filtração é o processo padrão de uma ETA, indispensável quando a água bruta não possui as características organolépticas mínimas de potabilidade. Dessa forma, é também a etapa em que o projeto e a operação devem tomar o maior cuidado possível, e por isso dedicamos três tópicos nesta etapa somente para esse processo. Primeiro, vamos conhecer os principais aspectos teóricos e de conceitos envolvidos. A primeira questão que precisamos conhecer é a diferença entre uma filtração em profundidade e uma filtração em superfície. 1.1 Filtração em profundidade e filtração em superfície O processo de filtração que estamos mais habituados a conhecer é o processo de filtração com ação em superfície, ou filtração de superfície. Nesse caso, cria-se uma barreira física com uma abertura pequena a ponto de permitir a passagem de sólidos somente menores que esta abertura. Ao diâmetro ou tamanho relativo dessa abertura chamamos de porosidade. Existem vários exemplos desse tipo de filtração em nosso cotidiano. O exemplo mais acessível são os filtros de café, os quais possuem uma porosidade de 10 a 15 µm, e a moagem fina de um café, que são aqueles adquiridos no mercado, é feita para que cerca de 90% do café fique retido em uma malha de 105 µm. Ou seja, a maior parte dos grãos moídos é muito maior que a passagem do filtro e, desta forma, somente o café que solubiliza o atravessa. Existem outros exemplos no cotidiano: filtros de ar dos veículos e dos equipamentos eletrônicos, filtros de cartucho de cozinha ou de piscina, sacos de chá. Em ETAs, já apresentamos as micropeneiras, que são um tipo de filtração em superfície. Mais recentemente, temos também as membranas que estão se tornando muito uteis, principalmente em processos de reuso de água, que possuem aberturas para microfiltração (de 0,1 a 10 µm), ultrafiltração (de 10 a 100 nm), nanofiltração (< 10 nm) e osmose reversa (para dessalinização e deionização). 4 Figura 1 – Esquemas representativos do processo de filtração com ação em superfície e com ação em profundidade (respectivamente, da esquerda para a direita) Crédito: Shmai/Shutterstock; John1179/Shutterstock. Porém, o processo padrão de ETAs é o processo de filtração em profundidade, que é o processo que ocorre com um fluido que atravessa um meio poroso de grande espessura. Como mostram Di Bernardo e Di Bernardo (2005), a remoção de sólidos em filtro de areia sempre intrigou os pesquisadores do tema, pois uma camada de areia tem vazios intergranulares com dimensões próximas a 500 µm (ou seja, muito maior que um coador de café) e consegue remover sólidos de 1 µm (ou seja, semelhante a membranas de microfiltração). Claramente, não é a ação de retenção pelo tamanho que ocorre nesse caso. A Figura 1 apresenta esquemas representativos dos dois tipos de filtração. A grande diferença é que, no caso da filtração em superfície, as partículas não atravessam o meio, ficando retidas na sua superfície. Já no caso da filtração em profundidade, as partículas vão sendo retidas ao longo do meio poroso, com vários mecanismos em ação, geralmente uma combinação dos fenômenos de floculação, de aderência e de transporte. Nesse caso, a irregularidade do meio poroso e dos flocos apresenta papel central e, por isto, são usados geralmente materiais heterogêneos como a areia. Em razão do seu grande uso em ETAs, iremos falar apenas dos filtros com ação de profundidade. Esse processo também possui diferentes formas de 5 ser executado. A primeira delas é em relação à velocidade do escoamento, que veremos a seguir. 1.2 Filtros rápidos e filtros lentos Como aprendemos em conteúdo anterior, em 1804, John Gibb criou o primeiro filtro utilizado em SAA, em Glasgow, na Escócia, 3 anos depois de sua criação. Esse filtro se baseava em taxas de filtração muito baixas, e não se compreendia muito bem o seu funcionamento na época, a não ser o fato de que exigia um tempo de maturação. Atualmente, já se sabe que esses filtros são essencialmente biológicos. No caso de filtros de fluxo descendente, os mais comuns, o tempo de maturação, na verdade, é o tempo necessário para desenvolver uma comunidade biológica que retém então partículas e micro- organismos. Filtros lentos produzem efluentes de ótima qualidade, tanto físico-química quanto bacteriológica. Entretanto, requerem áreas filtrantes muito grandes (a taxa é limitada a 6 m³/m².dia pela NBR 12.216:1992) e são facilmente perturbados por oscilações na água bruta. Além disso, sempre que saturam e precisam ser lavados, seu retorno exige novamente tempos de maturação longos para voltar a apresentar resultados. Dessa forma, são filtros hoje em desuso, e não abordaremos seu dimensionamento em nosso estudo. Os filtros que são mais utilizados em ETAs são os de alta taxa de filtração, ou chamados filtros rápidos. Trabalham com taxas de até 360 m3/m².dia (ou seja, 60 vezes em relação aos filtros lentos), e nesse caso todo seu funcionamento está embasado nos processos físicos de captura, como explicado no item anterior. Estes serão os filtros que serão abordados em nossa etapa. 1.3 Filtros descendentes e ascendentes Os filtros rápidos podem ter seu fluxo de cima para baixo, chamados filtros descendentes, ou de baixo para cima, chamados filtros ascendentes. Essa separação não é meramente em razão do sentido do fluxo. Esses filtros possuem características de funcionamento bastante distintas entre si, em razão da forma como o meio filtrante é acomodado no filtro. Para compreender essefato, precisamos sempre lembrar que a ação da gravidade se dá sempre para baixo e, portanto, o meio granular precisa de um suporte que permita a 6 passagem de água, mas o retenha. Além disso, os processos de lavagem eficientes, como veremos mais à frente, são realizados sempre em fluxo ascendente. Essa combinação faz com que a estrutura do meio filtrante sempre possua uma estratificação, com os grãos de menor diâmetro mais acima e os grãos de maior diâmetro mais abaixo. Dessa forma, a retenção de partículas se dará de forma diferente. No caso dos filtros ascendentes, também chamados de filtros russos ou filtros de contato, a água a ser filtrada encontra primeiro a barreira de maior diâmetro, com maior espaço intersticial. Isso permite que se utilize essa primeira parte do filtro como floculação, dispensando uma operação unitária anterior, e também garante que haja um maior aproveitamento da camada filtrante durante o período de filtração, pois permite uma retenção gradativa das partículas de maior diâmetro e a passagem das de menor para camadas posteriores. Entretanto, como mostra Vianna (2014), esses filtros possuem ainda algumas dificuldades que precisam ser sanadas, como a possibilidade de contaminação cruzada da água tratada com a água de lavagem (pois ambas são descartadas na parte superior) e a dificuldade no processo de retrolavagem, já que ocorre acúmulo de sólidos na parte inferior do filtro. Figura 2 – Representação temática do tamanho dos grãos em relação à profundidade e à diferença entre filtros ascendentes e descendentes. Crédito: César Augusto Marin. 7 Em razão dessas dificuldades, a grande maioria das ETAs se utiliza de processo de filtração descendente. Nesse caso, o processo de retenção se dá de forma diferente, em camadas. Como a camada superficial possui os menores diâmetros, a maior parte das partículas já fica ali retida até saturar e começar a perder flocos para as camadas inferiores, que já estavam em processo de saturação e também passam a reter flocos menores, e assim sucessivamente, até completa saturação. Nesse caso, o grande acúmulo de partículas se dá na parte superior do filtro e, assim, sua limpeza, realizada em contrafluxo, fica facilitada. 1.4 Meio filtrante – camada simples e camada dupla Como você já deve ter percebido, a maior parte dos filtros utilizados em ETAs são filtros rápidos descendentes, que serão abordados nesta etapa. Agora, mostraremos os meios filtrantes que são utilizados para esse fim. Os filtros podem ser construídos em diversas camadas de meios filtrantes, sendo o mais comum: • Filtros de camada simples: areia; • Filtros de camada dupla: carvão antracito e areia. Figura 3 – Meios filtrantes comumente utilizados – areia (esquerda) e carvão antracito (direita) Crédito: Ph. Wittaya/Shutterstock; Voss Tau/Shutterstock. A Figura 3 apresenta imagens desses meios filtrantes. Esses materiais precisam apresentar grãos com tamanhos e variações dentro de determinados padrões, entre outras características associadas a sua não reatividade. Para isso são realizados os seguintes testes: 8 • Análise gravimétrica, em peneiras; • Teste de solubilidade em HCl (para verificar condições de limpeza); • Teste de perda por ignição; • Teste de perda por lavagem; Da análise gravimétrica, se obtêm um importantíssimo padrão, que é o coeficiente de uniformidade: 𝑈 = 𝑑60 𝑑10 onde: • U: coeficiente de uniformidade; • d60: tamanho abaixo do qual ficam retidas 60% das amostras; • d60: tamanho efetivo abaixo do qual ficam retidas 10% das amostras. A NBR 12.216:1992 estabelece que a espessura e as características granulométricas do meio filtrante deve ser determinada por ensaios piloto sempre que possível (ABNT, 1992). Porém, como no caso dos sistemas de decantação, é comum esses estudos em plantas existentes, mas não no caso de ETAs a serem construídas, por isso é recomendado adotar os seguintes valores. Para filtros de camada simples: • Areia o Tamanho efetivo de 0,45 a 0,55 mm; o U entre 1,4 e 1,6; o Espessura mínima de 45 mm; Para filtros de camada dupla: • Areia: o Tamanho efetivo de 0,40 a 0,45 mm; o U entre 1,4 e 1,6; o Espessura mínima de 25 mm; • Antracito: o Tamanho efetivo de 0,8 a 1 mm; o U menor ou igual a 1,4; o Espessura mínima de 45 mm. 9 A areia pode ser obtida de vários locais, rios, lagos, ou até praias, mas precisa ser limpa, não podendo apresentar perda superior a 5% em 24 horas, no teste de HCl, e no teste de ignição a perda deve ser inferior a 0,7% (Vianna, 2014). A areia pesa em média 2,6 kg/L. Já o antracito é um carvão de origem mineral, e pesa em média 1,4 a 1,6 kg/L, quase metade do peso da areia. Por isso, mesmo com grãos maiores, o antracito sempre ficará localizado acima da areia nos processos de lavagem, o que garante que a retenção das partículas maiores ocorra no leito de antracito e a de menores no leito de areia, permitindo maiores taxas de filtração e menores taxas de lavagem. Mas, para isso ser possível, o antracito precisa atender algumas características: precisa possuir teor de carvão livre acima de 85%, e no máximo 30% de partículas planas; no teste de HCl de 24 horas deve ser desprezível, e no teste de lavagem por 60 horas não deve ser superior a 1%. 1.5 Expansão do leito durante lavagem Para poder remover os sólidos que ficaram aprisionados no filtro, é necessário proceder ao processo de lavagem que cause uma fluidificação do meio filtrante, aumentando os espaços intersticiais e facilitando então o arraste desses materiais. Porém, precisam também garantir que essa fluidificação não será tão grande a ponto de fazer com que o leito filtrante escoe junto com os sólidos. Por isso, é importante conhecermos os processos de expansão do leito filtrante. Uma metodologia de fácil aplicação e que dá bons resultados é baseada no trabalho de Amirtharaj e Cleasby (Vianna, 2014). Primeiro, calculamos a velocidade de fluidificação do meio filtrante, por meio de fórmula empírica: 𝑣𝑚𝑓 = 1,2845. 10−6. 𝑑1,82[𝛾𝐻2𝑂(𝛾𝑠−𝛾𝐻2𝑂)]0,94 𝜇𝐻2𝑂 0,88 onde: • vmf: velocidade mínima de fluidificação do meio filtrante (m/s); • γH2O: peso específico da água (kgf/m³); • γS: peso específico da partícula do leito filtrante (kgf/m³); • µH2O: viscosidade dinâmica da água (N/m); 10 • d = U*d10. Esse valor é válido para Remf < 10. Caso contrário deve se aplicar uma correção: 𝑣𝑚𝑓 ′ = 1,775. 𝑣𝑚𝑓 . 𝑅𝑒𝑚𝑓 −0,272 onde: 𝑅𝑒𝑚𝑓 = 𝜌𝐻2𝑂 . 𝑣𝑚𝑓 . 𝑑 𝜇𝐻2𝑂 Determina-se após isso o coeficiente de expansão, também derivado de expressão empírica: 𝜂 = (4,45 + 18. 𝑑 𝐷𝑡 ) . (8,45𝑅𝑒𝑚𝑓) −0,1 onde Dt = 4Rh, sendo Rh o raio hidráulico da seção do filtro perpendicular à direção do fluxo de lavagem. Todas essas determinações são necessárias pois esses fatores fazem parte da expressão geral de fluidificação de um meio, que nos diz que: 𝑣 = 𝑘𝜀𝜂 onde ε é a porosidade do meio. Então, como já conhecemos o coeficiente de expansão, precisamos determinar o coeficiente do meio, chamado k. Para calculá-lo, utilizamos a porosidade inicial do meio com a velocidade de início de fluidificação, pois este é o momento em que a porosidade começa a se alterar, obtendo então: 𝑘 = 𝑣𝑚𝑓 𝜀0 𝜂 onde ε0 é a porosidade inicial do meio. Com isso, podemos calcular a porosidade do meio após a fluidificação, a partir de uma velocidade de lavagem aplicada (v): 𝜀 = √ 𝑣𝑙𝑎𝑣𝑎𝑔𝑒𝑚 𝑘 𝜂 11 Como conhecemos a porosidade do meio antes e durante o processo de lavagem, e conhecemos sua altura antes da lavagem, fica fácil para determinamos a sua espessura durante lavagem: 𝐿𝑒 = (1 + 𝜀 − 𝜀0 1 − 𝜀 ) 𝐿0 onde: • Le: espessura do leito expandido; • L0: espessura do leito em operaçãonormal; • ε: porosidade do meio expandido; • ε0: porosidade do meio em operação normal. Quando existem duas ou mais camadas, é só resolver cada uma das camadas de forma independente e somar o resultado no final. Porém é preciso ter o cuidado na seleção dos materiais para que a seguinte condição seja atendida (Howe et al., 2016): 𝑑1 𝑑2 = ( 𝜌2 − 𝜌𝐻2𝑂 𝜌1 − 𝜌𝐻2𝑂 ) 0,625 Caso a relação entre diâmetros fique muito baixa, os meios acabarão por se misturar na retrolavagem. Se for muito elevada, um material irá descolar do outro e o cálculo da expansão fica inválido, tendo risco de lavagem do material. Porém, mantendo as condições preconizadas pela NBR 12.216:1992 para o meio filtrante, essa condição é atendida. Agora que você conhece o processo de filtração e suas variações, vamos conhecer a forma com que é realizado o projeto dos filtros rápidos descendentes. TEMA 2 – PROJETO DE FILTROS RÁPIDOS DESCENDENTES: ELEMENTOS Na etapa anterior, vimos que a grande maioria dos filtros utilizados em ETAs são os filtros rápidos descendentes, e iremos abordar o seu projeto nos próximos itens. Primeiro, vamos mostrar os principais elementos dos filtros, pensando-os como uma unidade isolada. Depois, no próximo item, iremos mostrar como projetar diferentes modos de operação e como é definida a capacidade de filtração da ETA em função das capacidades individuais. 12 Essa determinação não é trivial, pois os filtros não são unidades que operam de forma constante como seus processos à jusante. Na verdade, os filtros operam em ciclos, que chamamos de carreira de filtração, e que se caracterizam pelas seguintes etapas, como mostrado na Figura 4: • Etapa inicial ou amadurecimento: logo que o filtro é colocado em operação, este está limpo e apresenta então a menor perda de carga possível. Entretanto, ainda não possui qualidade no seu efluente, o que se atribui normalmente à lavagem insuficiente (Di Bernardo; Dantas, 2005), por isso também é chamado de período de amadurecimento; • Etapa intermediária ou de filtração efetiva: é todo o período em que o filtro se mantém produzindo o efluente desejado, ou seja, após os efeitos da lavagem serem neutralizados. Durante esse período, se o filtro for mantido com uma taxa de aplicação constante, a retenção de sólidos vai causando um aumento linear na perda de carga, pois os sólidos retidos vão ocupando os vazios intersticiais e dificultando a passagem de fluxo, até um momento em que a tensão cisalhante é tão grande que ocorre o trespasse ou a ruptura; • Etapa do transpasse ou ruptura: turbidez passa a se elevar em razão de indisponibilidade do filtro em adequar novos sólidos por estar saturado, ocorrendo então a ruptura e o trespasse. O ideal é que essa fase não ocorra. Em razão da ocorrência do trespasse e da saturação, os filtros precisam ser retirados de operação e submetidos à lavagem para voltar a produzir o efluente desejado. O período em que o filtro é colocado em operação até precisar ser retirado é chamado de carreira de filtração. 13 Figura 4 – Etapas de filtração com taxa constante: 1. Etapa inicial ou amadurecimento; 2. Etapa intermediária ou filtração efetiva; 3. Etapa do transpasse ou ruptura Fonte: Marin, 2022. Assim, é necessário projetar os filtros para que produzam um efluente adequado e isento de risco de contaminação durante a etapa de filtração efetiva, mas também para que possa ter uma lavagem adequada e que o resíduo dessa lavagem seja destinado a outro local, separado do efluente, bem como o efluente do período de amadurecimento. Para isso ser possível, existem vários elementos que precisam ser adequadamente projetados. A Figura 5 apresenta um esquema representativo de um filtro rápido descendente de dupla camada típico, com as principais estruturas necessárias para seu funcionamento: • Canal superior: entrada da água no filtro. É importante tanto para garantir homogeneidade de fluxo como para permitir e controlar a carga hidráulica de operação ao longo de toda a carreira de filtração; • Canais de lavagem: canais por onde é destinado o resíduo do processo de lavagem, comumente chamado de lodo de lavagem, devendo garantir Tu rb id ez Tempo P er d a d e ca rg a Tempo 1 2 3 14 que seja retirado o máximo do resíduo, mas que não carregue material do filtro em razão de sua expansão durante o processo; • Leito filtrante ou meio filtrante (antracito e areia): leito onde ocorre a filtração de fato, como falamos no item anterior; • Meios suportes: materiais que servem como transição entre o leito e o fundo falso, nem sempre necessários; • Blocos ou fundo falso: precisam garantir a passagem de água com o mínimo de perda de carga possível, mantendo o leito suspenso acima de si; • Canal inferior: controle hidráulico e retirada da água filtrada. Figura 5 – Esquema representativo de um filtro rápido descendente de camada dupla. Crédito: Wasteresley Lima. Vamos conhecer, então, em detalhes o dimensionamento dessas estruturas. 2.1 Canal de entrada e canalizações adjacentes Para o canal de entrada e canalizações adjacentes, o único critério necessário é a garantia de que não sejam excedidas as seguintes velocidades, 15 para evitar arraste de ar e perdas de cargas excessivas, conforme Azevedo Netto e Fernandez (2018): • Canal de entrada: 0,6 m/s; • Canal de saída: 1,25 m/s para taxa constante, podendo ser maior para taxa declinante; • Canal de lavagem: 1,80 m/s; • Água para lavagem: 3,60 m/s. 2.2 Calhas coletoras de água de lavagem Devem ser projetadas para assegurar a coleta da água de lavagem de forma mais uniforme possível, sendo que sua forma e seu posicionamento em relação ao leito filtrante são fundamentais. Em relação à sua forma, devem possuir fundos em forma de “V” ou arrendondados, para evitar turbulências indesejáveis e acúmulo de sujeira. Devem possuir chanfros no local de vertimento da água, de preferência de dentro para fora. Já em relação ao seu posicionamento, devem ser feitos com muito cuidado, sobretudo sua altura em relação ao topo do leito filtrante. Se ela for muito pequena, ocorrerá arraste de material filtrante junto com o lodo de lavagem. Se for muito alta, a lavagem terá dificuldade para arrastar as partículas maiores, necessitando de volumes e tempos muito elevados. Portanto, normalmente são localizados um pouco acima da altura atingida pelo topo do leito filtrante expandido durante retrolavagem, não havendo um valor predefinido. Ferreira Filho (2017) recomenda utilizar os seguintes critérios (ver Figura 6 para referência): • Altura entre a borda superior da calha de água de lavagem e o topo do material filtrante (H0) entre 0,5 a 1 vezes a espessura do meio filtrante (L) acrescidos da altura da calha (D) – ou seja: (0,5𝐿 + 𝐷) < 𝐻0 < (𝐿 + 𝐷) • Distância entre calhas (S): entre 1,5 e 2,5 do valor de H0 1,5𝐻0 < 𝑆 < 2,5𝐻0 16 Figura 6 – Principais dimensões em aplicáveis às calhas coletoras de água de lavagem Crédito: César Augusto Marin. Já a ANBT 12.216:1992 traz recomendações diferentes: • Fundo localizado acima e próximo do meio filtrante expandido; • Se a largura do filtro for inferior a 3 metros, é possível utilizar só uma calha; • Para os outros casos, deve-se considerar S entre 1 e 3 metros, porém não sendo superior a 6 vezes a altura da água acima do leito expandido (ABNT, 1992). É comum as calhas de coleta de lavagem serem também utilizadas para admissão de água de lavagem, visando quebra primária dos flocos pela queda hidráulica, como mostra a Figura 7. 17 Figura 7 – Filtro rápido em início de operação de lavagem Crédito: W. Tab/Shutterstock. 2.3 Camada suporte A camada suporte normalmente é constituída de seixosrolados, colocados em camadas sucessivas, para permitir uma transição entre o tamanho dos grãos do leito filtrante e os orifícios do fundo falso. Conheceremos mais sobre estruturas de fundo falso a seguir, mas já citaremos o nome de algumas quando falarmos da camada suporte. Nem sempre são estruturas necessárias. A NBR 12.216 inclusive informa que são dispensáveis quando a estrutura de fundo falso impedir a passagem do meio filtrante por esta, porém nesse caso recomenda considerar uma espessura 1,5 vezes superior na camada inferior (normalmente a areia). Normalmente, no caso de blocos patenteados, o próprio fabricante recomenda a camada suporte a ser utilizada. Já no caso de sistemas com bocais perfurados ou estruturas de passagem semelhante, a recomendação é dada também pela NBR 12.216: • Deve ser distribuído em estratos com granulometria decrescente (do fundo para o topo); 18 • No estrato inferior, os menores seixos devem ter no mínimo 1 cm de diâmetro e ter o tamanho pelo menos o dobro do tamanho dos bocais; • No estrato superior, deve ter tamanho mínimo igual ou inferior ao tamanho máximo da camada inferior do leito filtrante; • As camadas intermediárias devem ser dispostas de forma que os seixos maiores de um estrato devem ser iguais ou inferiores aos menores do estrato abaixo; • A espessura de camada deve ser igual ou superior a 2,5 da dimensão característica dos seixos maiores, não sendo inferior a 5 cm. Dessa forma, criam-se linhas no mínimo duplas de cada camada. Existem também as camadas suporte simétricas, em que a camada tradicional é espelhada considerando o plano inferior do leito filtrante, que é mais adequada quando se utilizam lavagens com ar. 2.4 Fundos falsos Os fundos falsos são estruturas que coletam a água filtrada durante operação normal e distribuem a água de lavagem durante essa operação, bem como o ar quando este é utilizado. Usualmente, são sistemas com orifícios por onde se comunica o meio suporte do meio filtrante e o canal de escoamento, normalmente chamado de plenum. Existem muitos tipos de meios filtrantes, desde fabricados até construídos em obra. Os fabricados mais comuns são os bocais e os blocos perfurados (Figura 8), onde se destacam os blocos Leopold®. Esses equipamentos possuem curvas de perda de carga em relação à taxa de filtração e taxa de lavagem aplicadas e número de blocos ou bocais utilizados, que precisam ser utilizadas no dimensionamento hidráulico do sistema. 19 Figura 8 – Fundos falsos fabricados mais comuns: bocais (esquerda), blocos perfurados Crédito: Yuthtana Artkla/Shutterstock; Jefferson Schnaider. Fonte: Xylem, 2022. Podem ser utilizadas também tubulações perfuradas ou as chamadas vigas californianas, construídas no local. 2.5 Lavagem A respeito da lavagem, a NBR 12.216:1992 estabelece que deve ser considerado uma vazão em contracorrente que promova velocidade para expansão do leito de 20% a 30%, o que podemos fazer utilizando o procedimento expedito apresentado no item anterior (ABNT, 1992). Geralmente, esta velocidade fica entre 0,6 e 1,0 m/s. A água da lavagem geralmente é a própria água filtrada, que é armazenada em reservatório e pode ser feita das seguintes formas: • Reservatório em nível e bombeamento da água de lavagem; • Reservatório com cota para suprir a perda de carga necessária, e enchimento por bombeamento; • Sistemas autolaváveis, onde se usa o efluente dos outros filtros para lavagem, com bombeamento. Para dimensionamento do reservatório, a ABNT 12.216:1992 recomenda as seguintes considerações: • Volume mínimo para 10 minutos de lavagem de um filtro; • Tempo de enchimento inferior a 60 minutos (ABNT, 1992). 20 Resta apenas então dimensionar a perda de carga associada, necessária para definição do nível do reservatório ou do ponto de operação dos sistemas de bombeamento, que é realizada da seguinte forma: ℎ𝑓,𝑒 = (𝛿𝑠 − 1). (1 − 𝜀𝑒). 𝐿𝑒 onde: • hf,e: perda de carga no leito filtrante expandido (mca); • δs: densidade relativa dos grãos do meio filtrante (2,6 para areia, 1,4 a 1,6 para antracito); • εe: porosidade no leito filtrante expandido; • Le: espessura do leito filtrante expandido. Deve se somar esta perda de carga às perdas causadas pelo meio suporte e fundo falso, bem como canais e tubulações de admissão. Ainda sobre a lavagem, a NBR 12.216:1992 recomenda também o uso de agitação auxiliar. Esse tipo de agitação é imprescindível para realizar a quebra de camadas de lodo que conferem resistência e tem maior dificuldade para ser realizada. Essa agitação auxiliar pode ser feita de duas formas: • Hidraulicamente, com lavagem superficial, a partir de bocais ou tubulações perfuradas. • A partir da introdução de ar. O Quadro 1 resume os principais critérios que devem ser usados no dimensionamento do sistema de lavagem auxiliar. 21 Quadro 1 – Sistemas de lavagem auxiliar e seu dimensionamento Tipo de dispositivo Critérios Bocais fixos Espaçamento: entre 60 e 75 cm Velocidade mínima do jato: 3,0 m/s Inclinação do jato: 15º Vazão: 80 a 160 L/min.m² Distância do leito expandido: 5 a 10 cm Tubulação perfurada Espaçamento dos furos: maior ou igual a 20 cm; Distância entre tubos: 0,8 a 1,0 m Velocidade mínima do jato: 3,0 m/s Inclinação do jato: 15º Vazão: 80 a 160 L/min.m² Distância do leito expandido: 5 a 10 cm Injeção de ar Vazão de ar: 0,6 a 1,2 m³/min Tempo de lavagem: de 2 a 3 minutos Pressão: altura de água + perda de carga no leito Distribuição: bolhas grossas Fonte: Marin, 2022. Com isso, você já conhece o dimensionamento das principais estruturas de um filtro rápido descendente. Agora, vamos mostrar como deve ser dimensionado o funcionamento dos filtros de uma ETA nos seus dois modos de operação, e como isso afeta a capacidade da planta. TEMA 3 – PROJETO DE FILTROS RÁPIDOS DESCENDENTES: MODO DE OPERAÇÃO Como mostramos na etapa anterior, os filtros operam em ciclos, que chamamos de carreira de filtração, e que se caracterizam por três etapas distintas, apresentadas na Figura 4. Em razão da ocorrência do trespasse e da saturação, os filtros precisam ser retirados de operação e submetidos à lavagem 22 para voltar a produzir o efluente desejado. Além disso, como mostra ainda a Figura 4, durante a operação em filtração, a perda de carga no meio filtrante se eleva, em razão do preenchimento dos espaços intersticiais pelos sólidos retidos ou, em outras palavras, pela redução da porosidade do meio. Dessa forma, o filtro vai perdendo sua capacidade de vazão ou vai exigindo cada vez mais carga hidráulica para seu funcionamento. Assim, a filtração de uma ETA precisa ser planejada em todos os seus modos de operação, e isso irá afetar a capacidade final de todo este processo. Temos as seguintes possibilidades de operar, que são as mais usuais: • Taxa constante e carga constante: distribui-se o afluente distribui-se o afluente por um sistema afogado. Utiliza-se um dispositivo controlador de vazão e medidor na saída do filtro, que causa perda de carga equivalente a do filtro sujo, e vai reduzindo sua perda conforme a perda do filtro aumenta. Com isso, é possível manter o nível de funcionamento e a taxa praticamente constantes; • Taxa constante e carga variável: distribui-se o afluente de forma controlada e uniforme, normalmente com vertedores de descarga livre. Permite-se então uma oscilação de nível durante o funcionamento para que a se mantenha taxa constante; • Taxa variável e carga variável: nesse método, distribui-se o afluente por um sistema afogado, e se controla o nível na saída dos filtros com vertedores, de forma que se mantenha então a mesma perda de carga em cada filtro, porém estes operem em taxas diferentes, pois os filtros maislimpos, com menor resistência, receberão mais vazão que aqueles mais sujos. Ou seja, não conseguimos definir a capacidade de filtração total simplesmente pela multiplicação das taxas individuais pelo número de cada filtros. E é sobre esse assunto que iremos falar nos próximos itens. 3.1 Quantidade e forma dos filtros Para definir a quantidade de filtros, vários são os aspectos que devem ser analisados: • Economia construtiva; • Arranjo geral e disposição das unidades; 23 • Condições de lavagem (diâmetros, bombas etc.). Como regra geral, primeiro se define a área necessária com base na taxa de filtração: 𝐴𝐹 = 𝑄 𝑇𝐹 onde: • TF: taxa de filtração (m³/m².dia); • Q: vazão no ciclo de filtração (m³/dia); • AF: área total dos filtros. O valor de TF deve preferencialmente ser determinado por estudos pilotos. Porém, quando isto não é possível, a ABNT 12.216:1992 recomenda os seguintes valores, para filtros descendentes rápidos: • Camada simples: até 180 m³/m².dia; • Camada dupla: até 360 m³/m².dia. Definida então a área total necessária, limita-se um valor de área para cada filtro. Em geral, se utilizam no mínimo 3 filtros, e a área fica entre 25 e 100 m². Uma boa aproximação apresentada por Ferreira Filho (2017) é a seguinte: 𝑁 = 1,2. ( 𝑄 3785 ) 0,5 onde: • N: número de filtros; • Q: vazão (m³/dia); • AF: área total dos filtros. Essa fórmula não deve ser adotada como regra, apenas como uma aproximação de início de projeto. Assim, estão definidas as áreas de cada filtro e sua quantidade. Ainda, Richter e Azevedo Netto (1991) recomendam a seguinte relação para levar a uma economia de paredes: 𝑏 𝑙 = 𝑁 + 1 2𝑁 onde: 24 • b: largura (m); • l: comprimento (m). Definidos então a quantidade, forma e número de filtros, agora é preciso definir como operá-los 3.2 Modos de operação em filtragem – taxa constante A primeira forma de operação que vamos conhecer é com a manutenção da taxa constante. Como sabemos já de antemão que haverá aumento na resistência do filtro ao fluxo conforme este vai saturando, já sabemos então que, para manter a taxa constante, é preciso variar ou perda de carga do conjunto ou a carga hidráulica aplicada no filtro. A primeira forma é variar a perda de carga do conjunto com um dispositivo, como mostrado na Figura 9. Nesse caso, a operação se dá da seguinte forma: • Filtro limpo: válvula de controle imprime a maior perda de carga possível. Neste momento, a carga hidráulica total será igual à perda de carga do filtro limpo mais a perda de carga da válvula em sua posição de maior fechamento; • Em operação: perda de carga do filtro vai aumentando, então o controlador condiciona a válvula a abrir para manter o nível de água sobre o filtro e a vazão; • Filtro sujo: válvula completamente aberta e nível no máximo. 25 Figura 9 – Esquema representativo de filtro para operação a taxa constante e carga constante, com controlador de nível e vazão Fonte: Marin, 2022. A perda de carga no filtro é dada pela expressão de Darcy (meio poroso em fluxo laminar): ℎ𝑚𝑓 𝐿𝑚𝑓 = 𝐾𝑓𝑇𝑓 onde: • hmf: perda de carga no meio filtrante (m); • Lmf: espessura do meio filtrante (m); • Kf: coeficiente de resistividade (s/m); • Tf: taxa de filtração (m/s). O coeficiente de resistividade para o filtro limpo é possível de ser calculado por meio da equação de uma simplificação da equação de Fair-Hatch (Di Bernardo; Dantas, 2005): 𝐾𝑓0 = 150. 𝜇𝐻2𝑂 . (1 − 𝜀0)2. 𝐿𝑚𝑓 𝑔𝜌𝐻2𝑂𝜀0 3𝐶𝑒 2 ∑ 𝑋𝑖 𝑑𝑒𝑖 2 𝑖=1 onde: 26 • Kf0: coeficiente de resistividade para o filtro limpo (s/m); • µH2O e ρH2O: viscosidade dinâmica e massa específica da água; • ε0: porosidade do meio filtrante limpo; • Ce: coeficiente de esfericidade; • Xi: fração do material filtrante entre duas peneiras consecutivas da série granulométrica; • dei: média geométrica dos tamanhos das aberturas das peneiras consideradas. Entretanto, não existem expressões suficientemente boas para a resistividade do filtro ao longo da carreira de filtração, sendo necessário o uso de estudos em filtros pilotos ou até verificação nas plantas existentes. Por isso, geralmente até o coeficiente de resistividade do filtro limpo é determinado experimentalmente. Com base nesses ensaios, sabemos que haverá um depósito dependendo das características de entrada realizadas, e no final do teste obteremos a perda de carga do filtro vazio e limpo. Como é mantida a taxa de aplicação constante, e a perda de carga sobe de forma quase linear, podemos aproximar que o comportamento da resistividade se dará da seguinte forma: 𝐾𝑓 ′ = 𝐾𝑓0 + (𝐾𝑓𝑠 − 𝐾𝑓𝑜) 𝑡𝑓 𝑡 onde: • Kf ’: coeficiente de resistividade para o filtro (s/m); • Kf0: coeficiente de resistividade para o filtro limpo (s/m); • Kf0: coeficiente de resistividade para o filtro na ruptura (s/m); • tf: carreira de filtração determinada no ensaio (s); • t: tempo decorrido do início da filtração (s). Adotando esta simplificação, o comportamento nesse caso será como na Figura 10. 27 Figura 10 – Comportamento aproximado das perdas de carga e carga hidráulica total em um filtro com taxa e carga constante, controlado por válvula na saída Fonte: Marin, 2022. A outra forma de garantir taxa constante é variar a carga total disponível, como mostrado na Figura 11. Neste caso, o controle da taxa é realizado pelo vertedor de soleira livre, e a operação se dá da seguinte forma: • Filtro limpo: operação em carga mínima; • Em operação: perda de carga do filtro vai aumentando, então o nível de água sobe; • Filtro sujo: carga hidráulica atinge nível máximo. A lt u ra m an o m ét ri ca Tempo Carga hidraulica Perda de carga meio filtrante Perda de carga na valvula 28 Figura 11 – Esquema representativo de filtro para operação a taxa constante e carga variável Fonte: Marin, 2022. Nesses filtros, normalmente se considera o nível mínimo um pouco acima do meio filtrante, para evitar que a queda da água case quebra dos flocos na camada filtrante, o que induziria a perdas de sólidos na partida. Assim, utiliza-se um vertedor na saída que garanta o seguinte, considerando o fundo do filtro como altura zero: 𝐻𝑣 > 𝐻𝑓 + 𝐿𝑚𝑠 + 𝐿𝑚𝑓 − 𝐾𝑓0. 𝑇𝑓 onde: • Hv: altura da soleira do vertedor (m); • Hf: altura do fundo falso (m); • Lms e Lmf: espessura do meio suporte e do meio filtrante (m); • Kf0: coeficiente de resistividade do filtro limpo (s/m); • Tf: taxa de filtração (m/s). Assim, é mantido um nível mínimo. O nível máximo que o filtro irá atingir é então: 𝐻𝑚á𝑥 = 𝐻𝑉 + 𝐾𝑓𝑠 . 𝑇𝑓 onde: • Hmáx: nível máximo de água (m); 29 • Kfs: coeficiente de resistividade para o filtro na ruptura (s/m); Adotando a simplificação de aumento linear de resistividade, o comportamento neste caso será como na Figura 12. Figura 12 – Comportamento aproximado das perdas de carga e carga hidráulica total em um filtro com taxa constante e carga variável Fonte: Marin, 2022. Para definir os momentos em que a carreira de filtração é interrompida, Ferreira Filho (2017) traz alguns critérios comumente utilizados: • Turbidez da água filtrada superior a um valor pré-determinado (Geralmente superior a 0,5 UNT); • Perda de carga igual ou superior a carga hidráulica máxima disponível (Geralmente da ordem de 2,0 a 3,0 metros); • Carreira de filtração com duração superior a 40 horas No caso de filtros operando a taxa constante, a capacidade da ETA será dada pelo número de filtros em operação. A lt u ra m an o m ét ri ca Tempo Carga hidraulica Perda de carga meio filtrante 30 3.3 Modos de operação em filtragem – taxa variável Se mesclarmos os dois modelosanteriores, mantendo a entrada como a apresentada na Figura 9, ou seja, afogada, e comunicante entre os filtros e a saída como na Figura 11, com um vertedor, obteremos o sistema de taxa variável declinante. Este sistema é muito prático, sobretudo em grandes instalações, pois não exige praticamente nenhum controle, porém exige um conhecimento apurado dos operadores e dos projetistas quanto a sua simulação e a sua capacidade. Isto ocorre porque o aumento na perda de carga causado na filtração ou redução após limpeza afetará os outros filtros, na medida em que o conjunto de filtros operará com a mesma carga. O aumento na perda de carga de um filtro será distribuído para os outros filtros, e ambos terão então taxas diferentes. Nesse caso, a razão de crescimento linear da perda de carga não é válida, pois as taxas se alteram ao longo do processo. Uma forma de determinar estas alterações é utilizando-se da fórmula de Ives (Howe et al., 2016) aplicada ao ensaio de filtração: ℎ𝑓𝑡 = ℎ𝑓0 + 𝑘𝐻𝐿 𝐿 ∫ 𝑇𝑓(𝑡)𝑑𝑡 𝑡 0 sendo: 𝑘𝐻𝐿 = 𝐿. (ℎ𝑓𝑠 − ℎ𝑓0) 𝑇𝑓𝑒𝑡𝑠𝑒 onde: • t: tempo desde o início de operação; • hf,t: perda de carga do meio filtrante após tempo t (m); • hf,t: perda de carga do meio filtrante limpo (m); • hf,t: perda de carga do meio filtrante em ruptura (m); • Tf: taxa de aplicação em determinado instante t (m/s); • L: espessura do meio filtrante (m); • Tfe: taxa de aplicação no ensaio de filtração (m/s); • tse: carreira de filtração no ensaio (s). As configurações, nesse caso, podem ser várias, dependendo da quantidade de filtros e do momento em que cada um é colocado em operação. Aqui vamos apresentar um exemplo com 4 filtros, para elucidação do 31 comportamento, e considerando que cada um começa a operar a 1/3 do tempo de saturação, mostrado na Figura 13. Figura 13 – Comportamento aproximado de um sistema de 4 filtros operando em taxa declinante e carga variável Fonte: Marin, 2022. Sempre o filtro mais limpo estará filtrando mais que o filtro mais sujo, e esse ciclo segue para manter uma vazão desejada constante. A carga também sobe, sobretudo quando em período de limpeza, e essa é a principal definição que deve ser realizada para esse sistema: carga máxima admitida para um sistema poder entrar em limpeza. Porém, para definir as capacidades desse sistema, é necessário modelá- lo em diversas formas de operação e tempos de limpeza, como no caso da Figura 12. Lav.F4 Lav.F3 Lav.F2 Lav.F1 Lav.F4 Lav.F3 32 Com isso, fechamos o tema da filtração. Você já sabe dimensionar praticamente uma ETA inteira, porém ainda faltam algumas etapas químicas complementares, que veremos no tópico adiante. TEMA 4 – DESINFECÇÃO, FLUORETAÇÃO e CORREÇÃO DE PH Você já sabe como funciona e o dimensionamento dos sistemas desde a captação até a filtração. A partir desse ponto, a água já possui a turbidez necessária, bem como outros aspectos organolépticos que dariam a entender que é uma água potável. Porém, como foi explicado em conteúdo anterior, o principal objetivo do tratamento e distribuição de água é de saúde pública: evitar infecções e doenças de veiculação hídrica. As etapas que apresentamos até então contribuem de certa forma para redução dos patógenos, principalmente aqueles que se unem aos flocos na sedimentação ou ficam retidos nos sistemas de filtração, porém é a etapa de desinfecção que garante que a água que vamos beber é segura. Em conteúdo anterior, apresentamos as etapas de tratamento e classes de água segundo a ABNT 12.216, e em todas elas a desinfecção está presente, em razão de sua importância. Tanto que o Anexo XX de Portaria de Consolidação n. 5 (Brasil, 2017) dedica seu Anexo 1 a apresentar os padrões microbiológicos, e os Anexos 5 a 7 para especificar dosagens e tempos de contato necessários. Além da desinfecção, ainda é necessário realizar a fluoretação da água, conforme exigência do Anexo XXI de Portaria de Consolidação n. 5 (Brasil, 2017), e realizar o ajuste do pH, para evitar incrustações ou corrosão das tubulações da rede de distribuição, que veremos mais à frente. 4.1 Desinfecção O objetivo de uma boa desinfecção é eliminar de forma econômica os micro-organismos patogênicos existentes na água, sem conferir toxicidade ao seu usuário final. Como mostram Howe et al. (2016), as principais formas utilizadas para este fim no mundo são: • Aplicação de cloro livre (cloro líquido ou hipoclorito de sódio ou de cálcio); • Aplicação de cloro combinado (cloraminas) ou dióxido de cloro; • Aplicação de ozônio; • Radiação de luz-ultravioleta. 33 Nos três primeiros casos, estamos falando de produtos com alto poder de oxidação, cujo mecanismo de reação está normalmente associado a lesões ou mudanças nas paredes celulares que inviabilizam a continuação da atividade destes micro-organismos, enquanto no último estamos falando de alterações das moléculas de proteínas e de ácidos nucleicos que cessam a reprodução. Em ambos os casos, o processo não se dá de forma instantânea, de forma que é necessário um tempo de contato mínimo entre os micro-organismos e o agente desinfetante, que é o tanque de contato ou a zona de contato. A Figura 14 resume a forma como é realizado esse contato. Figura 14 – Esquema representativo e fotos de sistemas para contato visando desinfecção: a) uso de produtos químicos desinfetantes; b) uso de radiação ultravioleta; c) foto de um tanque de contato de cloro em uma ETA pequena; d) foto de um tanque de UV em uma instalação de grande porte. ‘ Fonte: Marin, 2022. Crédito: Siyanight/Shutterstock; Mohd Rodi/Shutterstock. Para o uso de desinfetantes químicos, a parte hidráulica é semelhante à do processo de coagulação/floculação, em que a zona de mistura é a mistura rápida, onde se dissolve o produto de forma que tenha o máximo de contato com o líquido, e o tanque de contato é a mistura lenta. Para dimensionar o tanque de a b c d 34 contato, é utilizado o conceito de inativação de micro-organismos expresso pela Lei de Chick-Watson (Ferreira Filho, 2017): 𝑙𝑜𝑔 ( 𝑁0 𝑁 ) = 𝑘𝑑 2,303 . 𝐶d 𝑛. 𝑡 onde: • N0: concentração original de micro-organismos; • N: concentração remanescente de micro-organismos; • t: tempo de contato, da ordem de minutos; • kd: constante de decaimento; • n: coeficiente que depende do micro-organismo; • Cd: concentração residual do desinfetante. A constante de decaimento depende de diversos fatores, como pH, Temperatura, turbidez e até da própria concentração de micro-organismos, sendo necessário conhecer de forma efetiva o produto utilizado. Já no caso da UV, usualmente se utiliza um canal ou uma tubulação em que é possível submergir as lâmpadas que irão emitir a radiação, e nesse caso a expressão mais utilizada é a de Bunsen-Roscoe: 𝑁 𝑁0 = f. e−𝐾𝑡𝐼𝑡 onde: • N0: concentração original de micro-organismos; • N: concentração remanescente de micro-organismos; • t: tempo de exposição, da ordem de segundos; • Kt: coeficiente de inativação; • I: intensidade de radiação; • f: fator empírico derivado da qualidade da água. O fator f depende principalmente da presença de turbidez e cor na amostra, pois os sólidos acabam funcionando como um refletor da radiação, impedindo que todos os raios atinjam os micro-organismos. Além da eficiência na remoção de micro-organismos, há ainda uma preocupação grande com a formação de subprodutos da desinfecção, como 35 Trihalometanos (THM) e Ácidos Haloacéticos (HAA), quando da aplicação em águas contendo Matéria Orgânica Nitrogenada (MON), porém esse problema está normalmente associado à prática de pré-oxidação, que não iremos conhecer neste texto, por se tratar de um tema mais avançado, fora do escopo do nosso estudo. Saiba mais Recomenda-se, nesse caso,a leitura do capítulo 16.4 de Di Bernardo e Dantas: DI BERNARDO, L.; DANTAS, A. B. Métodos e técnicas de tratamento de água. 2. ed. São Carlos, SP: RiMa, 2005. Cada agente oxidante possui vantagens e desvantagens, que podem ser verificadas a partir de comparação qualitativa apresentada no Quadro 2. Dióxido de cloro e ozônio são os melhores agentes oxidantes, abrangendo as três categorias de principais de micro-organismos, porém possuem alta complexidade operacional, sendo a do dióxido de cloro ainda maior, pois envolve uma reação química que pode provocar explosões. O ozônio apresenta uma dificuldade associada à manutenção do sistema de produção, e além disto afeta a turbidez final. Quadro 2 – Comparação qualitativa entre os agentes oxidantes mais utilizados Agente oxidante Inativação Bactérias Subprodutos (em presença de COT e Br) Complexidade Operacional Interferência na turbidez Dosagem típica Cloro livre Excelente (B,V) Fraco (P) 4 THM 5 HAA Baixa Baixa 1 - 6 mg/L Dióxido de cloro Excelente (B,V) Bom (P) Cloritos Altíssima Baixa 2 - 6 mg/L Cloro combinado (Cloramina) Bom (B) Razoável (V) Fraco (P) Traços de THM e HAA Baixa Baixa 0,2 - 1,5 mg/L 36 Ozônio Excelente (B,V) Bom (P) Bromato Alta Alta 1 – 5 mg/L Radiação UV Bom (B) Razoável (V) Excelente (P) Nenhum Média Alta 20 – 100 mJ/cm² Legenda: V: Vírus; B: Bactérias; P: Protozoários; COT: Carbono orgânico total; THM: Trihalometanos; HAA: Ácidos haloacéticos. Fonte: Marin, 2022. Em razão dessas dificuldades, o cloro livre, pela simplicidade e alta eficiência para vírus e bactérias, é o agente oxidante mais utilizado. Entretanto, deve ser usado com cuidado em locais com presença de COT, em razão da formação de THM e HAA. Nesse caso, o uso da cloramina passa a ser interessante. A radiação UV também é interessante em razão de ser a única que consegue ter alta eficácia contra protozoários e não produz subprodutos da desinfecção. Entretanto, precisa possuir um uso consorciado, normalmente com cloro, para garantir a desinfecção na rede de distribuição. Nesse âmbito, é importante salientar que, quando combinados os agentes de desinfecção, é possível otimizar os sistemas para duas funções diferentes. O Anexo XX da Portaria de Consolidação n. 5 (Brasil, 2017) traz os critérios necessários para cada um deles: • Desinfecção primária – Art. 32: é a inativação de micro-organismos para atender as exigências do padrão de potabilidade, por meio do controle do produto CT(concentração residual x tempo): o § 1º Cloração: concentração e tempos conforme Anexos 4 (cloro); 5 (cloraminas) e 6 (dióxido de cloro); o § 2º Ozônio: produto CT de 0,16 mg.min/L para 15º C; o §4º UV: dose mínima de 1,5 mJ/cm² para cada 0,5 log de inativação de cisto de Giardia spp. • Desinfecção secundária – Art. 34: é aplicação de desinfetante que gere residual para assegurar a qualidade microbiológica no sistema de distribuição: obrigatória a manutenção de no mínimo, 0,2 mg/L de cloro residual livre ou 2 mg/L de cloro residual combinado ou de 0,2 mg/L de 37 dióxido de cloro em toda a extensão do sistema de distribuição (reservatório e rede). Ou seja, o uso de cloro no Brasil é imperativo, ao menos como desinfecção secundária. Tendo em vista a sua facilidade no uso e ampla difusão em nosso país, falaremos da forma como este processo é realizado. 4.2 Cloração Em razão de seu uso difundido, a cloração é o método mais conhecido, tanto em sua efetividade como em suas interações. O Quadro 3 apresenta as principais formas de cloro disponíveis. Quadro 3 – Principais produtos disponíveis para cloração em água Produto Cloro disponível (%m/m) Forma de comercialização Cloro liquefeito (Cl2) 100 Cilindros verticais de 45 e 68 kg e horizontais de 900 kg, Carretas de 18 a 20 t para tanque de 50 toneladas Hipoclorito de sódio (NaOCl) 10 a 16% Líquido (bombonas, IBC ou granel) ou geradores a partir de sal Hipoclorito de cálcio (Ca(OCl)2) 60 a 65% Sólido, em sacarias Fonte: Marin, 2022. Quando colocamos qualquer um desses compostos na água, estes se dissolvem e formam o ácido hipocloroso (HOCl) que é o desinfetante desejado: 𝐶𝑙2(𝑎𝑞) + 𝐻2𝑂 ⇔ 𝐻+ + 𝐶𝑙− + 𝐻𝑂𝐶𝑙 𝑁𝑎𝑂𝐶𝑙 + 𝐻2𝑂 ⇔ 𝐻𝑂𝐶𝑙 + 𝑁𝑎+ + 𝑂𝐻− 𝐶𝑎(𝑂𝐶𝑙)2 + 2𝐻2𝑂 ⇔ 2𝐻𝑂𝐶𝑙 + 𝐶𝑎+2 + 2𝑂𝐻− Entretanto, o HOCl é um ácido fraco, que gera um sistema ácido-base altamente dependente do pH, podendo ter o equilíbrio deslocado para formação de hipoclorito (OCl-) em razão do pH: 38 • pH 5,0: somente HClO; • pH 7,0: 70% HClO, 30% OCl-; • pH 9,0: 4% HClO, 96% OCl-; Entretanto, o agente principal que realiza a desinfecção é o ácido hipocloroso (HOCl): segundo Vianna (2016), OCl- possui eficácia bactericida de somente 2% do HOCl. Portanto, é imperativo que a desinfecção ocorra em pH baixo, de preferência abaixo de 6,0. Outro grande interferente do processo de cloração é a amônia, a partir da formação das cloraminas, que é chamado de cloro residual combinado. As cloraminas possuem também ação desinfetante, porém mais lenta e mais estável, portanto, normalmente são indesejáveis para desinfecção primária, mas são muito úteis como desinfecção secundária. A formação de seus tipos é governada pelo pH e pela relação cloro/amônia (Cl2/N-NH3): • Monocloramina (NH2Cl): pH entre 7 e 9 e Cl2/N-NH3 < 5; • Dicloramina (NHCl2): pH entre 4,5 e 6,0 e Cl2/N-NH3 entre 5,0 e 7,6; • Tricloramina (NCl3): pH < 4,5 e Cl2/N-NH3 > 7,6. Existe também um ponto em que, mesmo tendo amônia na amostra, todo cloro dosado vira cloro livre. Este ponto é chamado de cloração ao Break Point (BP): Cl2/N-NH3 > 5 para pH entre 7 e 9 e Cl2/N-NH3 > 7,6 para pH entre 4,5 e 6,0. Dessa forma, antes da ocorrência do BP, o cloro formado é todo na forma de cloro residual combinado (CRC). Após o BP, todo cloro adicionado vira cloro livre (CRL): 𝐶𝑅𝐶 = [𝑁𝐻2𝐶𝑙] + [𝑁𝐻𝐶𝑙2] + [𝑁𝐶𝑙3] 𝐶𝑅𝐿 = [𝐻𝑂𝐶𝑙] + [𝑂𝐶𝑙−] O armazenamento e produção do cloro a ser aplicado também é um ponto importante a ser conhecido pelo projetista. No caso do hipoclorito de cálcio, o produto é fornecido em pó por meio de sacarias, e deve ser armazenado em local seco e protegido, pois não pode entrar em contato com umidade antes de ser usado. Para sua dosagem, é necessário ser diluído em água. Já no caso do hipoclorito de sódio, este é normalmente fornecido líquido, tendo então uma dosagem simples a partir de bomba dosadora. Porém, pode também ser produzido a partir do sal, processo muito utilizado em sistemas de 39 pequeno e médio porte. Esse sistema baseia-se na criação de uma solução salobra de água e aplicação de uma corrente elétrica por meio de uma pilha eletrolítica, que causa a seguinte reação: 𝑁𝑎𝐶𝑙 + 𝐻2𝑂 + 𝑒𝑛𝑒𝑟𝑔𝑖𝑎 ⟶ 𝑁𝑎𝑂𝐶𝑙 + 𝐻2 Esse processo possui os principais indicadores a seguir (Ferreira Filho, 2017): • Concentração de cloro gerado: 0,5% a 0,8% (como Cl2); • Consumo de sal: 3,0 a 4,0 kg NaCl por kg Cl2 produzido; • Consumo de energia:0,9 a 1,0 kWh por kg Cl2 produzido. Por fim, falaremos da forma mais utilizada no Brasil, que é o cloro liquefeito em cilindros. A Figura 15 apresenta as formas mais comuns, que são os cilindros verticais de 45 e 68 kg, para estações de pequeno e médio porte, e os cilindros de 900 kg, para estações de grande porte. Porém, ainda existem soluções quando são necessários armazenamentos maiores, que são tanques de até 50.000 kg. Figura 15 – Cilindros de cloro: na esquerda, verticais de 48 kg, na direita, horizontais de 900 kg Crédito: Ody Stocker/Shutterstock; Dale Stagg/Shutterstock. a b 40 Duas questões são muito importa7ntes para se compreender o projeto de sistemas contendo cloro liquefeito:• Segurança: o cloro é um gás muito tóxico, por isso os cilindros precisam estar instalados dentro de casas fechadas, com sistemas de exaustão e lavagem de gás para caso de ocorrência de vazamentos; • Quantidade: em virtude da liquefação dentro dos cilindros, a evaporação do gás cloro consome energia, o que limita a capacidade de retirada do gás dos cilindros, que não pode exceder a 1% da capacidade mássica por hora. Ou seja, cada cilindro de 45 kg pode 11 kg Cl2/dia e cada cilindro de 900 kg cerca de 180 kg Cl2/dia. Caso esse valor seja excedido, ocorrerá o congelamento das linhas de cloro gasoso, a não ser que um dispositivo evaporador seja utilizado; • Necessidade de água de arraste: atualmente não se utiliza mais a dosagem direta, sendo mais comum o uso de ejetores Venturi que geram vácuo a partir de uma água de arraste, como mostrado na Figura 16. Figura 16 – Instalação típica para sistemas de geração de água clorada a partir de cilindros de cloro liquefeito Fonte: Marin, 2022. 4.3 Fluoretação e correção de pH A fluoretação é uma prática que teve início em 1974 no Brasil, como uma forma barata e segura de reduzir a incidência de cárie dentária em crianças (Vianna, 2014). É tema de debates atualmente em razão de que, em excesso, pode provocar fluorese, e como hoje a higiene bucal é algo muito ensinado nas escolas, se discute que não haveria mais necessidade de sua prática no SAA. 41 Entretanto, a legislação atual do tema obriga as companhias a aplicar o flúor na água potável, conforme explicado no Anexo XXI – Normas e Padrões sobre Fluoretação da Água dos Sistemas Públicos de Abastecimento, Destinada ao Consumo Humano – da Portaria de Consolidação n. 5 (Brasil, 2017). A dosagem desse produto é realizada nas tubulações, não havendo necessidade de tempo de contato pois o processo é instantâneo. Conforme o art. 4º da PC citada, a concentração recomendada de íon fluoreto nas águas de abastecimento público é obtida pela fórmula constante no Anexo 2 do Anexo XXI: [𝐹]𝑅 = 22,2̅̅ ̅̅ ̅̅ 10,3 + 0,725. 𝑇 onde: • [F]R: concentração de íon fluoreto recomendada (mgF/L); • T: média de Temperaturas máximas diárias observadas durante um período mínimo de 1 ano (recomendado 5 anos) (°C). Os produtos que podem ser utilizados estão apresentados no Quadro 4, sendo o mais comum e fácil de lidar o ácido fluossilícico. Como a água já contém teor de flúor normalmente, a dosagem deve ser calculada descontando o existente: 𝐷𝐹 = 𝑄([𝐹]𝑅 − [𝐹]𝐴) 1000. 𝑇𝐹 onde: • DF: Dosagem de produto com flúor (kg/hora); • [F]R: concentração de íon fluoreto recomendada (mgF/L); • [F]A: concentração de íon fluoreto na água (mgF/L); • Q: vazão (m³/h); • TF: teor de flúor no produto (% m/m). 42 Quadro 4 – Compostos de flúor Produto Forma comercial Peso Molecular Pureza Comercial (%) Solubilidade (g/100g a 25ºC) Fluoreto de cálcio (Fluorita) - CaF2 Pó 78,08 85 a 98 0,0016 Fluossilicato deSódio - Na2SiF6 Pó ou cristais finos 188,05 98 a 99 0,762 Fluoreto do sódio- NaF Pó ou cristal 42,0 90 a 98 4,05 Ácido Fluossilícico - H2SiF6 Líquido 144,08 22 a 30 - Fonte: Brasil, 2017. O controle de pH geralmente é a última etapa, na passagem da água para o reservatório, para permitir que a cloração ocorra em pH baixo. Porém, em caso de águas com pH alto, poder ser realizada antes da cloração também. O produto mais utilizado é a cal hidratada. Normalmente, objetiva-se obter uma água próxima da neutralidade (ph 7), mas é recomendado definir um valor ótimo para cada sistema, pois o objetivo final é reduzir características corrosivas e incrustantes. Com isso, completamos a etapa da fase líquida das ETAs. Antes de passarmos para nossa próxima etapa, em que você conhecerá o sistema distribuidor de água, precisamos falar de um tema que muitas vezes acaba esquecido, que é geração de resíduo que ocorre no tratamento da água: o lodo de ETA. TEMA 5 – GESTÃO DO LODO DE ETA Como aprendemos ao longo do nosso curso, grande parte do tratamento de água se destina a remover os sólidos presentes na água bruta. Esses sólidos não desaparecem, são retirados dos decantadores ou flotadores como lodo de decantação ou lodo flotado, e dos filtros como água de lavagem. É prática comum ainda hoje que esses resíduos devolvidos brutos aos corpos de água. Tendo em vista que a ETA é uma indústria de transformação, e que parte desses 43 lodos possui características diferentes da forma como foram retirados do meio ambiente, em razão da adição dos produtos coagulantes e floculantes, essa operação acaba causando prejuízos principalmente na redução da biodisponibilidade de alimento em razão de toxidade a alguns microcrustáceos e no impacto no ciclo do fósforo. Por isso, pela legislação atual, o lodo de ETA é considerado um resíduo e precisa ter uma destinação final adequada, seja como resíduo sólido, seja como lançamento outorgado, conforme a Resolução Conama n. 430/2011 (Brasil, 2011). Para permitir que seja lançado e tenha sua outorga, é necessário também o seu tratamento, que se dá de forma um pouco mais simplificada, em que o objetivo é somente a remoção dos sólidos para um material que tenha características físicas que o permitam o uso como um sólido. Para possibilitar seu adequado dimensionamento, primeiro precisamos saber quanto de lodo uma ETA produz. 5.1 Produção O sólido quando retirado dos tanques de tratamento geralmente é um lodo cujo principal componente é a água com os sólidos que foram retirados da água bruta acrescidos daqueles adicionados para seu tratamento. A Figura 17 mostra uma foto onde é possível ver o lodo estocado em um tanque, como se parece mais como uma “água suja” do que um resíduo sólido. 44 Figura 17 – Lodo de decantação e água de lavagem estocados em tanque . Crédito: Kittirat Roekburi/Shutterstock. Para estimarmos a quantidade de sólidos que estará presente nesse lodo, precisamos saber as seguintes componentes: • Sólidos oriundos da água bruta: areia, siltes, argilas e matéria orgânica; • Sólidos gerados devido a precipitação do coagulante na forma de hidróxido metálico; • Outros aditivos (CAP, polímeros, cal etc...). Di Bernardo e Dantas (2004) nos apresentam algumas fórmulas úteis para considerar estas componentes de acordo com o coagulante e outros aditivos utilizados. 𝑃𝑆𝑆𝑇 = 𝑄. (𝑓𝐶 . 𝐷𝐶 + 𝑆𝑆𝑇𝐴𝐵 + 𝐷𝐶𝐴𝑃 + 𝐷𝑃 + 0,1. 𝐷𝑐𝑎𝑙 + 𝑂𝐴).10−3 onde: • PSST: produção de sólidos (SST/dia); • Q: vazão (m³/d); • fC: fator de produção do coagulante: • 4,89 kgSST/kgAl dosado (sulfato de alumínio) • 2,88 kgSST/kgFe dosado (cloreto férrico) 45 • DC: dosagem de coagulante (em mgAl/L ou mgFe/L); • SSTAB: concentração de Sólidos Suspensos Totais na água bruta (mgSST/L); • DCAP: dosagem de carvão ativado em pó (em mg/L); • DP: dosagem de polímero seco (em mg/L); • Dcal: dosagem de cal hidratada (em mg/L); • OA: Outros Aditivos (em mg/L seco). A maior parte dos componentes dessa expressão é componente do projeto da planta ou é de fácil determinação no caso de ETAs em operação. Porém, o parâmetro SST da água bruta não é comum, sendo uma análise mais lenta e de maior instrumentação em relação à análise de turbidez, que é muito mais comum nas ETAs. Por isso, geralmente se adotam expressões empíricas como a seguinte: 𝑆𝑆𝑇𝐴𝐵 = 𝑎. 𝑇𝑢 onde: • a: coeficiente a ser determinado experimentalmente para cada manancial (mgSST/L.uT); • Tu: turbidez da água bruta (uT). Para águas com baixa cor verdadeira (ou seja, não derivada de sólidos), o coeficiente se situa geralmente entre 0,7 e 2,0 mgSST/L.uT; enquanto locais com muito COT e baixa turbidez esse valor chega a mais de 20, tornando difícil a expressão por este método (Di Bernardo e Dantas, 2004). Por isso, é altamenterecomendado o uso de campanhas de análise de turbidez e SST em conjunto. Uma vez definidas as quantidades de sólidos, falta definirmos as vazões necessárias. Nesse caso, somente um balanço de massa é capaz de definir quanto a ETA irá produz de lodo, pois os volumes dependem da forma e frequência de retirada do lodo do decantador e dos ciclos de lavagem previstos para os filtros, bem como da forma como são estocados. Este é o assunto do próximo item. 5.2 Concepção de sistemas de manejo O manejo dos lodos produzidos pela ETA possui sempre dois objetivos: 46 • Obter uma água com qualidade para ser reutilizada na ETA, lançada como efluente da ETA no corpo hídrico mais próximo; ou lançada no afluente de uma ETE próxima; • Obter um resíduo com características físico-químicas que possa ser destinado em aterro sanitário ou reciclado no meio como solução para recuperação de áreas degradadas por mineração, produção de cimento, tijolos etc. A alternativa que normalmente apresenta o menor custo é a destinação para a Rede Coletora de Esgotos visando sua incorporação ao lodo da ETE. Esse processo é bastante controverso no Brasil, sobretudo em sistemas de tratamento de esgoto que possuem reatores anaeróbios tipo UASB ou digestores de lodo, em razão do lodo de ETA ser um lodo sem nenhuma atividade microbiológica, e que geralmente a prejudica. Porém, caso a ETE seja preparada para esse fim, considerando este lodo em seu dimensionamento, e possua um sistema com condição de receber essa operação, é a mais recomendada, pela praticidade e pelo menor risco associado. Quando isso não é possível, a estratégia mais comum é o desaguamento desse lodo, visando obter um material semelhante ao da Figura 18, fazendo adquirir teores de umidade inferiores a 85%. Para isso, é imprescindível considerar os lodos de forma separada pois: • O lodo decantado ou flotado possui maior quantidade de sólidos, e menor volume: no caso de lodo decantado, podem oscilar entre 1.000 até 30.000 mgSST/L (0,1 a 3%), enquanto em lodo flotado usualmente fica entre 2 a 3%, sendo armazenado no TRDD/TRLF: tanque de recepção de descarga de decantador/lodo flotado; • A água de lavagem apresenta maiores volumes, e menor quantidade de sólidos, usualmente abaixo de 500 mgSST/L, sendo armazenada no TRALF: tanque de recepção e acúmulo de água de lavagem dos filtros. 47 Figura 18 – Lodo de ETA após um processo de desaguamento eficiente Crédito: Anongnaj Phewngern/Shutterstock. Quando possível sem prejuízo à ETA, é recomendado recircular a água de lavagem para a entrada dos floculares, em razão do seu alto teor de água e possibilidade de melhorar a coagulação no caso de águas muito limpas, como é mostrado na Figura 19. O uso dos tanques TRDD e TRALF são imprescindíveis para amortecer os picos de vazão das descargas, que normalmente não são continuas, tornando-as continuas tanto para a mistura com a água bruta como para os processos de desaguamento (adensamento e desidratação). 48 Figura 19 – Concepções de gestão do lodo de ETA visando destino: a. Águas brutas limpas, mantendo TRALF e TRDD com agitação, destinando toda a água de lavagem para a mistura com água bruta. b. Águas brutas medianas ou ruins, mantendo somente TRDD com agitação, deixando ocorrer separação de água e sólidos no TRALF, e destinando o sobrenadante para a mistura com água bruta e o lodo de fundo para mistura com descarga do decantador Fonte: Marin, 2022. Quando há risco de prejuízo à ETA com a recirculação de água de lavagem, é recomendado então não manter o TRALF com agitação, de forma que ocorrerá uma separação água sólidos, e então recircular somente o a b 49 sobrenadante deste processo, misturando futuramente o lodo de fundo deste tanque com a descarga do decantador no TRDD. Isso é imprescindível para melhorar o desempenho dos sistemas de desaguamento. Os sistemas de desaguamento mais à frente são o adensamento e desidratação. O adensamento objetiva reduzir o volume total de lodo pela retirada do excesso de umidade, mas mantendo-o ainda com características de líquido. Já a desidratação objetiva retirar toda a água livre presente no lodo adensado, de forma que este mude o seu estado físico e comece a apresentar características de sólido ou pasta. Ambos podem ser realizados de forma natural ou mecânica. Vamos primeiro ao adensamento: • Natural (gravitacional): semelhante a um decantador, porém dimensionado em relação à capacidade de adensamento do lodo. O lodo adensado pro meio gravitacional normalmente possui teor de sólidos de 1,5 a 2,5% e eficiência de captura de 85%. Seu dimensionamento é feito a partir da Taxa de Aplicação de Sólidos: o TAS: 20 a 50 kgSST/m².dia. • Mecânico: sistema mecanizado, com utilização de polímero, sendo o mais comum a mesa adensadora e tambores de adensamento. Podem produzir adensados melhores, entre 2% a 4% e possuem eficiência de captura acima de 90%. Porém, introduzem um custo de polímero no sistema. O dimensionamento é feito da seguinte forma, levando-se em conta os dados dos fabricantes: o Mesas adensadoras: ▪ Vazão por metro de esteira (L/m.h); ▪ Carga de sólidos por metro de esteira (kgST/m.h). o Tambores: ▪ Tempo de detenção no tambor (minutos); ▪ Carga de sólidos por área de tambor (kgST/m².h). Agora vamos falar da desidratação: • Natural (Leitos de secagem): leito que permite a drenagem da água livre e a retenção dos sólidos para secagem natural. O lodo desaguado em 50 leitos pode ficar entre 30 a 40%, com uma eficiência de captura superior a 90%. Seu dimensionamento é feito de acordo com o ciclo de secagem esperado e a altura máxima de enchimento sobre o leito: o Ciclo de secagem: de 10 a 60 dias; o Altura máxima: até atingir 15 kgST/m²; • Mecânico: sistema mecanizado, também com utilização de polímero, e a partir de intensa força normal ao lodo para retirar umidade, produzindo tortas de 18% a 25% e possuem eficiência de captura acima de 95%. O equipamento mais utilizado no Brasil são os decantes centrífugos, mas o filtro prensa parafuso tem ganhado destaque. Seu dimensionamento é sempre para os dois valores abaixo não serem excedidos, e recomenda- se a aplicação de um superdimensionamento de 30% por segurança o Vazão máxima (m³/h); o Carga de sólidos máxima (kgST/h). É recomendado também a construção de lagoas de emergência para o caso de problemas nos sistemas de desaguamento. FINALIZANDO Vamos relembrar os principais tópicos que abordamos nesta etapa: • O processo de filtração que estamos mais habituados a conhecer é o processo de filtração com ação em superfície, ou filtração de superfície. Porém, o processo padrão de ETAs é o de filtração em profundidade, que que ocorre com um fluido que atravessa um meio poroso de grande espessura; • A remoção de sólidos em filtro de areia sempre intrigou os pesquisadores do tema, pois uma camada de areia tem vazios intergranulares com dimensões próximas a 500 µm (ou seja, muito maior que um coador de café) e consegue remover sólidos de 1 µm (ou seja, semelhante a membranas de microfiltração); • Os filtros podem ser rápidos ou lentos e ascendentes ou descendentes, sendo que o mais comum são os mais utilizados atualmente são os filtros rápidos descendentes; 51 • Esses filtros podem ser construídos com camada simples, de areia, ou com camada dupla, de areia e carvão antracito; • Os filtros são unidades que operam em ciclos, chamados carreiras de filtração, e que se caracterizam pelas etapas inicial ou amadurecimento; intermediária ou de filtração efetiva; e transpasse ou ruptura; • Em razão da ocorrência do transpasse ou ruptura, é necessário que o filtro seja retrolavado. Durante este momento, ocorre expansão do leito filtrante; • Os elementos que compõem um filtrosão: canal superior; canais de lavagem; leito filtrante ou meio filtrante; meios suportes: blocos ou fundo falso: canal inferior: controle hidráulico e retirada da água filtrada; • A retrolavagem de filtros precisa de apoio de uma lavagem secundária, que pode ser hidráulica superficial ou com auxílio de ar; • Os filtros podem ser dimensionados para operar em três formas diferentes: taxa constante e carga constante; taxa constante e carga variável; e taxa variável e carga variável, conhecido como taxa declinante; • O objetivo de uma boa desinfecção é eliminar de forma econômica os micro-organismos patogênicos existentes na água, sem conferir toxicidade ao seu usuário final; • As formas mais comuns de desinfecção são a partir da aplicação de cloro livre (cloro líquido ou hipoclorito de sódio ou de cálcio); aplicação de cloro combinado (cloraminas) ou dióxido de cloro; aplicação de ozônio; e radiação de luz-ultravioleta; • A desinfecção primária é a inativação de micro-organismos para atender as exigências do padrão de potabilidade, por meio do controle do produto CT (concentração residual versus tempo); e a desinfecção secundária é a aplicação de desinfetante que gere residual para assegurar a qualidade microbiológica no sistema de distribuição; • A legislação atual obriga as companhias a aplicar o flúor na água potável, conforme explicado no Anexo XXI – Normas e Padrões sobre Fluoretação da Água dos Sistemas Públicos de Abastecimento, Destinada ao Consumo Humano – da Portaria de Consolidação n. 5 do Ministério da Saúde; • A correção de pH deve ser feita somente para reduzir a agressividade da água as tubulações de distribuição; 52 • O lodo de ETA é considerado um resíduo pela legislação vigente no Brasil, e precisa ter uma destinação final adequada, seja como resíduo sólido, ou como lançamento outorgado, conforme a Resolução Conama n. 430/2011 (Brasil, 2011); • O manejo dos lodos produzidos pela ETA possui o objetivo de obter uma água com qualidade para ser reutilizada na ETA, lançada como efluente da ETA no corpo hídrico mais próximo; ou lançada no afluente de uma ETE próxima; e obter um resíduo com características físico-químicas que possa ser destinado em aterro sanitário ou reciclado no meio como solução para recuperação de áreas degradadas por mineração, produção de cimento, tijolos etc. 53 REFERÊNCIAS ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 12.211/1992: Estudo de concepção de sistemas públicos de abastecimento de água – Procedimento. 1992. _____. NBR 12.216/1992: Projeto de estação de tratamento de água para abastecimento público. 1992. AZEVEDO NETTO, J. M.; FERNANDEZ, M. F. Manual de hidráulica, 9. ed., São Paulo: Edgard Blucher, 2018. BRASIL. Portaria de Consolidação n. 5, de 28 de setembro de 2017. Ministério da Saúde, Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 3 out. 2017. BRASIL. CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 16 maio 2011. COSTA, A. G. Curso de Especialização a Distância em Elaboração e Gerenciamento de Projetos para a Gestão Municipal de Recursos Hídricos. Trabalho de Conclusão de Curso (Monografia) – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, Fortaleza, 2015. DI BERNARDO, L.; DANTAS, A. B.; Métodos e técnicas de tratamento de água. 2. ed. São Carlos, SP: RiMa Editora, 2005. FERREIRA FILHO, S. S. 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