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151151Temas de Direito Digital CAPÍTULO 6 VIOLÊNCIA DIGITAL CONTRA ADOLESCENTES MULHERES E A PROTEÇÃO JURÍDICA NO BRASIL Graciele da Silva30 Ady Faria da Silva31 Michel Canuto de Sena32 Paulo Roberto Haidamus de Oliveira Bastos33 Karine Corrêa34 INTRODUÇÃO A violência contra a mulher no Brasil pode ser caracterizada como uma grave problema de saúde pública. Além do mais, é uma modalida- de de violência, produto de uma discriminação do gênero, que abarca todas as classes sociais. Os avanços tecnológicos e a globalização aproximaram as pessoas, com melhorias e novas formas de resolver problemas do dia a dia; esse novo universo possibilitou igualdade entre os usuários da Internet, mas também impôs problemas sobre a sociedade de informação. A tecnolo- gia mudou o entendimento de espaço físico impondo novas fronteiras, trazendo benefícios e, ao mesmo tempo, risco. As mídias sociais altera- 30. Mestra em Saúde e Desenvolvimento na Região Centro-Oeste – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Doutoranda em Saúde e Desenvolvimento na Região Centro-Oeste – Universidade Fede- ral de Mato Grosso do Sul (UFMS). 31. Mestre em Saúde e Desenvolvimento na Região Centro-Oeste – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Doutorando em Saúde e Desenvolvimento na Região Centro-Oeste – Universidade Fede- ral de Mato Grosso do Sul (UFMS). 32. Doutor pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Doutorando em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Pós-doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Saúde e Desenvolvimento na Região Centro-Oeste – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Professor universitário. 33. Possui graduação em Farmácia Bioquímica pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (1980), Mestrado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) (1997), e Doutorado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) (1999). Professor no Programa de Pós-graduação em Saúde e Desenvolvimento na Região Centro-Oeste – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. 34. Especialista em Direito das Famílias e das Sucessões pela Faculdade Damásio de Jesus, Pós-Graduada em Advocacia Feminista e Direito das Mulheres e Direito e Processo Civil pela Faculdade Legale. 152152 Bruno Marini, Michel Canuto de Sena (orgs.) ram as regras de comportamento social, permitindo a inserção de novas estratégias com diferentes formas de competitividade. Diante desse contexto, a violência contra mulher também passou a ser praticada por meios digitais, considerando que grande parte dos usuários da Internet é de adolescentes e jovens, a migração dessa violên- cia para o espaço virtual aumentou a vulnerabilidade das vítimas, em decorrência da rapidez com que a informação é disseminada nas mídias sociais. Os meios digitais passaram, então, a gerar reflexos nas questões relacionadas à vida social, do mesmo modo que novas condutas lesivas passaram a ser praticadas pelos meios digitais. Nesse viés, a violência contra a mulher passou a ser difundida por meios digitais, visando des- qualificar as vítimas. 1 VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES NO BRASIL A violência contra as mulheres pode se apresentar de forma multi- facetada, em diferentes fases da vida da mulher, e pode ocorrer em todas as classes sociais. Frente a essa constatação, observa-se que a violência é um fenômeno repleto de silêncio e dor (BRASIL, 2011). A violência de gênero contra mulheres é decorrente de uma ques- tão multicausal advinda de questões culturais, econômicas, políticas, sociais dentre outras. Nesse contexto, a violência perpetrada contra a mulher, no Brasil, tem maior incidência contra adolescentes e jovens, decorrente da vulnerabilidade destes. A violência é cometida por al- guém de seu convívio, embora não seja exclusiva do âmbito doméstico, em geral pode causar severos danos à saúde física e mental (BRASIL, 2007). O enfrentamento das situações de violência perpetradas contra a mulher adolescente e jovem é um fenômeno complexo e, para ser minimizada, necessita da intervenção de uma equipe multidisciplinar. Por outro lado, ainda existe uma precariedade nos investimentos que buscam uma melhora na qualidade de vida, no nível socioeconômico, 153153Temas de Direito Digital na escolarização e outros âmbitos negligenciados que, se cuidados, po- deriam resultar em um maior impacto na redução das taxas de violência (BRASIL, 2007). No Brasil, mais de 50% da população conhece uma mulher ou menina que já foi vítima de estupro (INSTITUTO PATRÍCIA GAL- VÃO/LOCOMOTIVA, 2022). Dados do Instituto Patrícia Galvão/Lo- comotiva (2022) mostram que uma parcela de 20% da sociedade não reconhece como estupro um homem fazer sexo com uma menor de 14 anos com consentimento dela. Nesse contexto de violência contra a mulher, dados revelam a de- sigualdade de gênero e violências contra as mulheres, em que 70,5% dos casos de sexting e exposição de conteúdo íntimo na Internet, a maior parte dos atendimentos foram por cyberbullying, ofensas e exposição a conteúdos impróprios e violentos. Levantamento feito pelo Instituto AVON (2018) mostra que a maioria dos homens, quando entram no debate sobre violência digital contra mulheres, são agressivos ou buscam desqualificar o relato das vítimas, julgando-as e desmerecendo-as. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2021) apresenta que 1.319 mulheres foram vítimas de feminicídio no último ano, e 56.098 do gênero feminino foram vítimas de estupros, incluindo vulneráveis. Números bastante significativos para um país que é signatário de trata- dos e documentos internacionais que definem medidas de eliminação da violência contra mulher, dentre elas, destacam-se: a Declaração so- bre a Eliminação da Violência contra as Mulheres (ONU, 1993) que fora elaborada das seguintes conferências: Conferência Internacional de Direitos Humanos (Viena, 1993), Conferência Mundial da Mulher (Pequim, 1995) e Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW, 1979) (BRASIL, 2011). Nesse contexto, Carvalho et al. (2022) descrevem que a informa- ção deve ser utilizada como instrumento para o enfrentamento da vio- lência contra as mulheres, “uma vez que a produção de estatísticas e a caracterização do fenômeno nos permite conhecer a sua natureza e a magnitude”. 154154 Bruno Marini, Michel Canuto de Sena (orgs.) A sociedade, em determinados casos, busca justificar a violência contra a mulher, com julgamentos sobre o comportamento da vítima, transformando-a em merecedora de determinada agressão, impondo uma invisibilidade sobre essa modalidade de violência, não somente no âmbito social e político, mas também na falta de aplicabilidade de proteção, na falta de políticas públicas ou punições penais. A violência contra a mulher, quando analisada sobre o ponto de vista semântico, tem definição jurídica no âmbito da Lei Maria da Penha, por ser uma categoria constituída por fenômeno social persistente e articulado por facetas psicológica, moral e física (BATISTA, 2022). Considera-se ine- ficaz imputar um crime com a condenação de uma violência, se estiver desacompanhado de meios alternativos de transformação e mudança da sociedade. 2 A INFLUÊNCIA DAS MÍDIAS SOCIAIS NA VIOLÊNCIA As novas regras de comportamento social permitiram a inserção de estratégias com diferentes formas de competitividade e maior cresci- mento como parte fundamental de um amplo conjunto de mudanças. Esse processo de inovação tecnológica está intimamente ligado à gera- ção de ideias com características distintas (SASS, 2015) e desempenha um importante papel na criação do futuro. Desse modo, a tecnologia digital tornou-se indispensável à vida do ser humano e passou a ampliar conhecimentos e implantar novas técni- cas utilizadas para manter e melhorar a qualidade de vida de todos, além de permitir a descoberta de novas técnicas que auxiliam na resolução de problemas práticos (LORENZETTIet al., 2012). O aumento rápido dos computadores pessoais, acompanhado da interconexão das redes existentes e o surgimento da web, permitiu que novas organizações fizessem parte do cotidiano de muitas pessoas, possi- bilitando uma maior interação entre os humanos, por meio da comuni- cação entre pessoas distantes (HUANG, 2021). Os novos meios de comunicação passaram a ser definidos por 155155Temas de Direito Digital troca de mensagens, utilizadas como novo instrumento de comunica- ção entre pessoas. Nesse contexto, a Internet possibilitou essa interação entre os usuários de modo remoto, com uma nova concepção descen- tralizada, permitindo que o sujeito participe, crie e troque conteúdos por meio das plataformas abertas e mídias sociais (RUFINO; RODRI- GUES; NUNES, 2010). Importante salientar que a Internet passou a disponibilizar vários serviços aos usuários, e isso permitiu um aumento e a popularização das redes no mundo, atraindo milhões de usuários, disseminando conteúdos via interação social. As tecnologias digitais passaram a ocupar esferas da vida social, profissional e pessoal, moldando comportamentos e se apre- sentando como influenciadoras nas relações dos sujeitos com o mundo (BOUTANG, 2011). O Brasil aparece entre os primeiros no ranking dos países em que as pessoas passam mais tempo acessando mídia social (KEMP, 2021). De tal modo, verifica-se que essas mídias exercem influência no proces- so social e transformam os aspectos da vida cotidiana em dados por meio das informações compartilhadas pelos usuários, que também apresen- tam riscos de terem sua privacidade invadida (KENSKI, 2007). Na modernidade, as tecnologias digitais têm sido utilizadas por grande parte da população mundial, mas apresentam alguns perigos, por exemplo, disseminar e influenciar comportamentos violentos entre crianças e adolescentes. Estudos apontam (RAY; JAT, 2010) que a ex- posição com frequência à violência pode alterar o desenvolvimento e o comportamento de crianças e adolescentes (EARLES, 2002). Segundo Huesmann (2010), o surgimento da mídia visual alterou a forma de aprendizado de crianças e adolescentes, que passaram a so- frer influências de culturas diferentes do meio social em que vivem, ou seja, passaram a ficar expostos à aparência, comportamentos e crenças de outras pessoas, que se comportam de modos diferentes. As mídias sociais se tornaram um meio popular de interação en- tre adolescentes e jovens, compartilhando e trocando informações em comunidades e redes, como consumidores e criadores de conteúdos compartilhado (WONG; MERCHANT; MORENO, 2014). Contudo, 156156 Bruno Marini, Michel Canuto de Sena (orgs.) a exposição à violência aumenta o risco de que o observador se compor- te de forma mais agressiva e violenta no futuro (HUESMANN, 2010). Newman, Fox e Roth (2005) frisam que existem algumas condi- ções necessárias para desencadear a violência, dentre elas, sofrer com problemas psicológicos, como doença mental, depressão ou tendência suicida, que aumentam o impacto da marginalidade social, e, ainda, quando se vive em uma cultura de violência. Contudo, segundo An- derson et al. (2017), os fatores de risco isolado não fazem uma criança ou adolescente se comportar de forma agressiva ou violenta, tais com- portamentos são provocados pelo acúmulo de fatores de risco e falta de proteção que levam a atos agressivos e violentos. No entanto, a mídia violenta pode deixar as pessoas menos sensíveis à dor e ao sofrimento alheio, provocando uma dessensibilização à violência, e esse processo pode ocorrer de forma gradual e inconsciente em decorrência de apre- sentações repetidas de violência. 3 CRIMES VIRTUAIS CONTRA MULHERES São diversas as denominações quanto aos crimes praticados em ambiente virtual, dentre elas estão: os crimes de computação; delitos de informática; abuso de computador; fraude informática (SCHMIDT, 2014). Os delitos que se utilizam da Internet com o intuito de invadir dados da vida privada de outras pessoas, por meio de sites falsos, anún- cios e outros meios, para ficar na posse de informações pessoais, podem ser entendidos como crimes virtuais, praticados por meio de condutas típicas, antijurídicas e culpáveis. De tal maneira, quando é praticado um crime contra a honra de uma pessoa, utilizando-se de meios online, seus efeitos serão reproduzi- dos por todo o mundo, sem uma delimitação geográfica que impeça sua disseminação. No ambiente virtual, as pessoas são capazes de propagar discursos racistas, preconceito étnico e de gênero, divulgar atos de vio- lência, praticar crimes contra a honra para prejudicar outras pessoas. Assim, a divulgação de informações falsas ou distorcidas é capaz de con- 157157Temas de Direito Digital dicionar a opinião pública, “tudo isso com muito pouca ou nenhuma capacidade do Estado de exercer sua tutela jurisdicional objetivando coibir a prática de condutas tipificadas como criminosas nestes meios digitais” (COLTRO; WALDMAN, 2021, p. 107). Os crimes virtuais no Brasil podem ser classificados como pró- prios, ou seja, aqueles que, na maioria das vezes, não contam com ti- pificação na legislação penal e “os impróprios, que utilizam a Internet para potencializar o dano a um bem jurídico tutelado, seja por auxiliar a ocultar o autor ou impedindo que seja aplicada a lei” (LUCCHESI; HERNANDEZ, 2018, p. 3). 3.1 Cyberbullying Os indivíduos estão cada vez mais conectados, isso implica dizer que problemas da vida real passaram a fazer parte do mundo virtual e, ao mesmo tempo, apresentam mudanças quanto ao uso das tecnologias e quanto aos padrões de comportamento dos jovens nas redes sociais, nas manifestações e nos fatores de risco (ZHU et al., 2021). Um exem- plo é o bullying escolar que, com as TIC, adaptou-se para uma nova modalidade de violência conhecida como cyberbullying (GONZALES- -CALATAYUD; ESPINOSA, 2021). O cyberbullying pode ser descrito como comportamentos agres- sivos e intencionais, em que o indivíduo se utiliza de meio eletrônico, para a realização de insultos, de fotos e vídeos pelas mídias sociais, sem a necessidade da presença física dos envolvidos (FERREIRA; DESLAN- DES, 2018). O cyberbullying se tornou uma agressão cada vez mais utilizada, em decorrência do anonimato que protege e fortalece o agressor, dando- -lhe a sensação de impunidade. A escola tem sido palco para a prática do cyberbullying e de violência física, contrariando o discurso que a escola é somente um espaço de socialização, conhecimento, formação e prote- ção (ZEQUINÃO et al., 2017). Nesse sentido, o cyberbullying se configura como problema com- plexo e multifatorial, que pode acarretar consequências no desenvolvi- 158158 Bruno Marini, Michel Canuto de Sena (orgs.) mento social dos indivíduos (SOUZA; SIMÃO; CAETANO, 2014), de modo mais amplo, ele pode ser definido como comportamento que se utiliza de tecnologias para o envio repetido de mensagens agressivas ou outras ações semelhantes com a intenção de causar danos (GONZA- LES-CALATAYUD; ESPINOSA, 2021). Os ciberagressores têm como comportamento envio de mensa- gens com insultos, ameaçadoras, depreciativas ou intimidadoras; mani- pulam fotos com a intenção de ridicularizar ou criar uma falsa imagem da vítima; provocar o isolamento das vítimas nas redes sociais; utilizar a senha da vítima para enviar mensagens valendo-se da identidade dela; provocar a vítima em chats, jogos online, comunidades virtuais; criar um falso perfil da vítima; disseminar mentiras sobre a vítima para prejudicá- -la com calúnias, injúria, difamação; divulgar informações pessoais da vítima; ofender a vítima na Internet; dentre outras ações (GARAIGOR- DOBIL; MARTÍNEZ-VALDERREY, 2018). No cyberbullying, as ações dependem de como os indivíduos en- volvidos se representam e como atuam. Nessa relação de agressão, o espectador ocupa um papel central, na divulgação e perpetração dessa modalidade de violência, suas ações têm plena capacidade de modificar o cursodessas ações, podendo reduzir os efeitos dos incidentes, ofere- cendo suporte aos agredidos (MORTTI, HERKOVITS, 2021). O cyberbullying exerce efeitos negativos na vida dos jovens, incluin- do invasão de privacidade pessoal e distúrbios psicológicos (MORTTI; HERKOVITS, 2021), e permite que perpetradores ajam anonimamente aumentando o desequilíbrio de poder entre a vítima e o agressor, que se utilizam de dispositivos eletrônicos e do ambiente virtual, para insul- tar, ameaçar ou envergonhar a vítima perante a sociedade (RONDINA; MOURA; CARVALHO, 2016). Uma vez divulgada a ofensa à vítima em meios eletrônicos, o dano é imediato e um único ato do perpetrador será repetido por outras pessoas, afetando a vítima diversas vezes (SCHREI- BER; ANTUNES, 2015). O cyberbullying não tem limites delimitados pela geografia e não pode ser contido em um único país, por esse aspecto se tornou um problema global e seu enfrentamento requer maior colaboração 159159Temas de Direito Digital internacional. Os efeitos adversos de insegurança, menor nível de escolaridade, piora da saúde mental e maior infelicidade levaram à UNICEF a afirmar que “nenhuma criança está absolutamente segura no mundo digital” (ZHU et al. 2021, p. 2). 3.2 Revenge e porn Com a evolução tecnológica, surgem comportamentos sexuais específicos, conhecido como pornografia real ou amadora. O interesse por esse tipo de material e a divulgação de cenas de sexo, sem consen- timento, ato feito apenas para constranger os parceiros, caracterizam-se “elementos da pornografia de vingança”. A pornografia da vingança, co- nhecida como Revenge Porn, diz respeito à divulgação, na Internet, de imagens ou vídeos de nudez ou sexo, sem autorização da vítima, com o objetivo único de causar danos a ela (LUCCHESI; HERNANDEZ, 2018). A Revenge Porn é uma forma de violência contra as mulheres, com cenas de sexo e exposição da nudez feminina, é entendida como degra- dação moral, em decorrência da construção cultural ao longo dos anos, o que gerou rotulações e padrões de comportamento (LUCCHESI; HERNANDEZ, 2018). a “pornografia da vingança” é a consequência de um contexto his- tórico e sociológico de dominação masculina sobre a autonomia e a sexualidade femininas, tal delito passa a ser uma forma parti- cular de violência perpetrada contra as mulheres pelos homens, o que reclama um olhar específico sobre a questão A mulher, como principal vítima dessa nova forma de violência, além da exposição e constrangimento sofridos quando da divulgação não consentida de sua imagem e a violação de sua intimidade privada, sofre ainda o julgamento moral da sociedade, que tende a culpabilizá-la pelas gravações e até mesmo a inibir a punição do agressor (ALVES; GONÇALVES, 2017, p.1). A pornografia da vingança pode ser vista como efeito de um con- texto histórico e sociológico de dominação masculina sobre a autono- mia e a sexualidade da mulher, essa modalidade criminosa é uma forma 160160 Bruno Marini, Michel Canuto de Sena (orgs.) particular de violência perpetrada por homens contra as mulheres por pura e simples vingança (ALVES; GONÇALVES, 2017, p.1). A Reven- ge Porn, enfatiza-se, consiste na divulgação de imagens e vídeos de nu- dez ou sexo, com o intuito específico de promover danos contra uma parceira, ou ex-companheiro (LUCCHESI; HERNANDEZ, 2018). Assim, na sociedade, a sexualidade, o desejo e a exposição do cor- po feminino ainda são vistos como reflexos da degradação moral, isso decorrente das construções culturais que impuseram papéis específicos a homens e mulheres, com rotulações e padrões de comportamento so- bre o que é permitido ou não (ALVES; GONÇALVES, 2017, p.1). 3.3 Sextortion e Estupro virtual Sextotion é um termo advindo da junção entre as palavras sex e corruption, indica uma relação de poder para obter vantagem sexual. O modus operandi dos indivíduos que praticam essa modalidade criminosa consiste em obter conteúdo privado de conteúdo sexual e utilizar para fazer chantagens, visando à obtenção de vantagens. As mensagens priva- das trocadas entre autor e vítima são utilizadas para “extorqui-la através da ameaça de publicação, se a vítima não consentir em se relacionar sexualmente com o chantagista ou fornecer algum outro tipo de vanta- gem” (LUCCHESI; HERNANDEZ, 2018, p. 17). O estupro virtual surge como uma nova modalidade criminosa, que se utiliza das tecnologias digitais para a sua prática. O estupro na modalidade virtual, sem ter contato físico com a vítima, é uma nova interpretação do Código Penal, “que não citou o nome estupro virtual, mas passou a caracterizar como o ato de constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou per- mitir que com ele se pratique outro ato libidinoso” (VIGNOTO; SILVA, 2019, p. 5). Nesse contexto, o STJ por meio do RHC 70976 /MS considerou que não há necessidade de contato físico entre autor e vítima para que se configure o estupro, pois “a dignidade sexual não se ofende somente com lesões de natureza física” e “a maior ou menor gravidade do ato 161161Temas de Direito Digital libidinoso praticado […] constitui matéria afeta à dosimetria da pena” (LUCCHESI; HERNANDEZ, 2018, p. 12). 4 LEGISLAÇÃO APLICÁVEL A utilização da Internet pela sociedade é um instrumento cada vez mais utilizado e de fácil acesso, com espaços para a educação, interação e, também, para o cometimento de crimes, assim, violam-se garantias individuais e provoca-se a degradação social, tendo em vista que crimes cometidos virtualmente se alastram descoordenada e permanentemen- te. À superexposição virtual da privacidade alheia no ordenamento jurí- dico, bem como aos crimes de extorsão e de conotação sexual aplica-se a lei civil, com indenizações morais e materiais, e penal, tais crimes tipificados como crimes contra a honra, e, em menor escala, na Lei Ma- ria da Penha e no Estatuto da Criança e do Adolescente (LUCCHESI; HERNANDEZ, 2018, p. 12). Nesse contexto, os direitos fundamentais da criança e do adoles- cente são protegidos pela Constituição Federal, quando se refere à dig- nidade, à liberdade e à integridade físico-psíquica, tendo em vista a sua condição especial de pessoa em desenvolvimento (CONTE; ROSSINI, 2010). A dignidade da pessoa humana é um princípio constitucional e dele se determina a proteção contra qualquer ofensa e humilhação com tratamentos desumanos à criança e ao adolescente que, em sua condi- ção de ser humano em formação, necessita ter sua dignidade tutelada. As legislações vigentes no Brasil, aplicáveis como sanções aos cri- mes de cyberbullying, são o Código Civil, o Código Penal e o Estatuto da Criança e do Adolescente. Segundo o art. 186 do Código Civil, “Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou impru- dência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito” (BRASIL, 2002). A responsabilidade civil é aplicável a situações que a privacidade do indivíduo foi perturbada provocando danos morais e materiais, como 162162 Bruno Marini, Michel Canuto de Sena (orgs.) explica, Venosa (2011, p. 939) “qualquer situação na qual alguma pes- soa, natural ou jurídica, deva arcar com as consequências de um ato, fato ou negócio danoso. Sob essa noção, toda atividade humana, portan- to, pode acarretar o dever de indenizar”. O Estatuto da Criança e do Adolescente (2008), com a inserção dos artigos 241-A ao 241-E, estabelece medidas de combate à pornogra- fia infantil, criminalizando a oferta, troca, transmissão, distribuição, pu- blicação ou divulgação em qualquer meio, de sistema de informática ou telemático, fotografia, vídeo ou outro registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica, envolvendo criança ou adolescente. Dispõe sobre punir quem adquirir, possuir ou armazenar, por qualquer meio, fotografia, vídeo ou outra forma de registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente; simular aparticipação de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica por meio de adulteração, montagem ou modificação de fo- tografia, vídeo ou qualquer outra forma de representação visual; aliciar, assediar, instigar ou constranger, por qualquer meio de comunicação, criança, com o fim de com ela praticar ato libidinoso. Explica o ECA que cena de sexo explícito ou pornográfica compreende qualquer situa- ção que envolva criança ou adolescente em atividades sexuais explícitas, reais ou simuladas, ou exibição dos órgãos genitais de uma criança ou adolescente para fins primordialmente sexuais (BRASIL, 1990). A Lei 12.965 de 2014, denominada Marco Civil da Internet, esta- belece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil (BRASIL, 2014, p. 1) e dispõe alguns princípios que devem ser observados: I - garantia da liberdade de expressão, comunicação e manifesta- ção de pensamento, nos termos da Constituição Federal; II - proteção da privacidade; III - proteção dos dados pessoais, na forma da lei; IV - preservação e garantia da neutralidade de rede; V - preservação da estabilidade, segurança e funcionalidade da rede, por meio de medidas técnicas compatíveis com os padrões internacionais e pelo estímulo ao uso de boas práticas; VI - responsabilização dos agentes de acordo com suas atividades, 163163Temas de Direito Digital nos termos da lei; VII - preservação da natureza participativa da rede; VIII - liberdade dos modelos de negócios promovidos na internet, desde que não conflitem com os demais princípios estabelecidos nesta Lei (BRASIL, 2014). A Lei 12.737 de 2012, também conhecida como Lei Carolina Dieckmann, acrescentou os artigos 154-A e 154-B ao Código Penal, cri- minalizando atos de invadir dispositivo informático alheio, conectado ou não à rede de computadores, mediante violação indevida de meca- nismo de segurança e com o fim de obter, adulterar ou destruir dados ou informações sem autorização expressa ou tácita do titular do dispositivo ou instalar vulnerabilidades para obter vantagem ilícita. Assim, impôs penalidades à divulgação de imagens conseguidas por meio da invasão de dispositivos tecnológicos, não se aplicando àquelas que são divulga- das espontaneamente, como no caso da prática do sexting (BRASIL, 2012). Paralelamente, se a divulgação de imagens íntimas sem autoriza- ção é passível de responsabilização civil, aqueles que o fizerem com o intuito de ofender a honra e a moral de alguém incorre em responsabi- lização penal, de acordo com os danos provocados à vítima (LUCCHE- SI; HERNANDEZ, 2018, p. 12). Atualmente, adaptam-se condutas criminosas virtuais aos artigos previstos no Código Penal. A “dignidade da pessoa humana e a honra do indivíduo, pois quem vive em sociedade possui uma imagem de re- conhecimento e todos são merecedores da igualdade”, ou seja, viver em sociedade requer um respeito mútuo que deve ser observado, visando à preservação da dignidade da pessoa humana (NUCCI, 2019, p. 281). E a definição de honra, segundo o autor citado, tem-se a honra ‘objetiva’ ou ‘subjetiva’. A honra objetiva é o julgamento da sociedade contra o indiví- duo, é a imagem que a pessoa tem refletida na sociedade, e a honra sub- jetiva é o julgamento que o indivíduo faz dele mesmo (NUCCI, 2019). Nesse contexto, no que tange à responsabilização da conduta do agente, esta pode ser enquadrada nos crimes estabelecidos pelo código penal. 164164 Bruno Marini, Michel Canuto de Sena (orgs.) O crime de calúnia pode ser descrito como ato de imputar a al- guém uma falsa acusação, para que indivíduo perca sua credibilidade dentro da sociedade (NUCCI, 2019). “Calúnia: art. 138 - Caluniar al- guém, imputando-lhe falsamente fato definido como crime” (BRASIL, 1940). A difamação significa desacreditar publicamente uma pessoa, manchando sua reputação, não se trata de qualquer fato inconveniente ou negativo, mas sim de fato ofensivo à sua reputação (NUCCI, 2019). “Difamação: art. 139 - Difamar alguém, imputando-lhe fato ofensivo à sua reputação” (BRASIL, 1940). O crime de injúria ocorre quando se ofender o indivíduo ou in- sultá-lo de modo vulgar com xingamentos, atingindo a dignidade do indivíduo ou sua compostura. Esse insulto mancha a honra, o conceito que esse indivíduo tem dele mesmo (NUCCI, 2019). “Injúria: art. 140 - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro” (BRASIL, 1940, p. 1). O constrangimento ilegal se configura como o fato de obrigar al- guém, mediante violência ou grave ameaça, reduzir, por qualquer meio, sua capacidade de resistência, a não fazer o que a lei permite ou fazer o que ela não manda (JESUS, 2020). Constrangimento ilegal: art. 146 - Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois de lhe haver reduzido, por qualquer outro meio, a capacidade de resistência, a não fazer o que a lei permite, ou a fazer o que ela não manda. (BRASIL, 1940). A ameaça ocorre quando o sujeito, por palavra, por escrito, ges- to, ou qualquer outro meio simbólico, expressar contra o indivíduo ou terceiro temor na vítima, como determina a legislação penal (JESUS, 2020). “Ameaça: o art. 147 do CP, ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave”. (BRASIL, 1940). Quanto a crimes de perseguição, estão tipificados pelo Código Penal no artigo 147-A como: “Perseguir alguém, reiteradamente e por 165165Temas de Direito Digital qualquer meio, ameaçando-lhe a integridade física ou psicológica, res- tringindo-lhe a capacidade de locomoção ou, de qualquer forma, inva- dindo ou perturbando sua esfera de liberdade ou privacidade” (BRASIL, 1940). Em casos de falsa identidade, o Código Penal tipifica no artigo 307 como “Atribuir-se ou atribuir a terceiro falsa identidade para obter vantagem, em proveito próprio ou alheio, ou para causar dano a ou- trem” (BRASIL, 1940). CONSIDERAÇÕES FINAIS A violência contra a mulher decorre de questões culturais, eco- nômicas, políticas, sociais dentre outras. A vulnerabilidade de mulhe- res adolescentes e jovens permite que estas sejam maiores vítimas, isso ocorre por diversos fatores, por exemplo, dependência financeira e falta de apoio familiar, podendo acarretar diversos problemas psicológicos e isolamento social. A violência contra as mulheres é uma grave violação dos direi- tos humanos e acarreta consequências na vida das vítimas e de sua família, bem como de toda a sociedade, pois, quando essa violência é praticada nas mídias sociais, aumenta-se o risco de a vítima ser discri- minada e culpabilizada pela sociedade. Isso porque a sociedade tende a julgar as relações e a sexualidade das mulheres como comportamen- tos inadequados. Assim, a violência online contra mulheres adolescentes se configu- ra como um grave problema social e de saúde pública, decorrente das consequências que essa violência pode provocar na vida das vítimas e na vida de seus familiares. Além do mais, essa violência se apresenta como um fenômeno multifatorial de natureza social, política e de saúde pú- blica, tornando-se necessária a adoção de medidas, voltadas ao enfrenta- mento, à efetiva proteção das vítimas e à redução das desigualdades de gênero no Brasil. 166166 Bruno Marini, Michel Canuto de Sena (orgs.) 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