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O espectro de Lukács Giovanni Alves • Ariovaldo Santos (Org.) Política, Estética e Estranhamento na Era da Barbárie Social Antonino Infranca Miguel Vedda Vitor Sartori Ranieri Carli Ronaldo Gaspar Cristina Lontra Nacif Thiago Lopez Karla Costa Pereira Frederico Ferreira Costa Rogerio Castro Lailah Garbero de Aragão O espectro de Lukács G iovanni A lves e A riovaldo Santos (org) O EspEctrO dE Lukács Organização Giovanni Alves • Ariovaldo Santos O EspEctrO dE Lukács Política, Estética e Estranhamento na Era da Barbárie Social Autores Antonino Infranca •Ronaldo Gaspar • Rogério Castro • Miguel Vedda • Vitor Sartori • Ranieri Carli • Cristina Lontra Nacif •Thiago Oliveira Gonzalez Lopez • Karla Raphaella Costa Pereira • Frederico Jorge Ferreira Costa • Lailah Garbero de Aragão Projeto editorial 2022 Rede de estudos do tRabalho Projeto editorial Praxis é a editora da RET (Rede de Estudos do Trabalho) (www.estudosdotrabalho.net) Copyright© Projeto editorial Praxis, 2022 Coordenador-geral: Prof. Dr. Giovanni Alves (UNESP) Conselho editorial Dr. Ariovaldo Santos (UEL) Dr. André Luiz Vizzaccaro-Amaral (UEL) Dr. Edilson Graciolli (UFU) Dr. Francsico Luiz Corsi (UNESP) Dr. Giovanni Alves (UNESP) Dr. José Meneleu Neto (UECE) Dr. Ricardo Antunes (UNICAMP) Dr. Renan Araújo (UNESPAR) Capa: Giovanni Alves e Ana Celeste Casulo “Um espectro ronda a Europa: o espectro do comunismo” - foi assim que Karl Marx e Friedrich Engels abriram o Manifesto Comunista de 1848 (em alemão: Ein gespenst geht in Europa – das Gespenst des Kommunismus). Muito antes, entre 1599 e 1601, William Shakespeare abriu a Cena I de Hamlet com o espectro [Ghost] anunciando “uma estranha comoção em nosso Estado”. Espectros [Gespenst, em alemão; ou Ghost, em inglês], significam provocações e prenúncios de comoções pessoais ou sócio- históricas. É nesse sentido que consideramos o pensamento vivo do “último Lukács” (1955-1971), com suas críticas do stalinismo e do capitalismo manipulatório, como sendo o espectro que anuncia, no século XXI, os elementos primordiais da profunda crise ideológica do sistema global do capital. O velho Lukács é um autor essencial para a crítica da manipulação e do estranhamento que caracteriza o sociometabolismo da barbárie, expressão suprema da fase de decadência histórica do capitalismo tardio. Sumário 1 Gyorgy Lukacs.........................................................................15 Antonino Infranca 2 O triunfo da manipulação: O “ultimo Lukács” e a crise estrutural do capital.............................................................42 Giovanni Alves 3 A “crise das democracias” e o debate lukácsiano................77 Ariovaldo Santos 4 Lukács e a transição socialista.........................................87 Ronaldo Gaspar 5 Lukács e a heurística marxiana: Uma nova forma de cientificidade e de ontologia.............................................100 Rogério Castro 6 Lukács, Hegel, o renascimento do marxismo e a Ética.........................................................................................131 Vitor Sartori 7 De la intensidad dramática al realismo: La presencia de Shakespeare en la teoría del drama del joven Lukács........................................................................................148 Miguel Vedda 8 György Lukács e a relação entre realismo e catarse na teoria da literatura..................................................................................160 Ranieri Carli 9 Lukács e a peculiaridade do jardim: As categorias estéticas como meio da crítica espacial.............................................175 Cristina Lontra Nacif Thiago Oliveira Gonzalez Lopez 10 O mundo próprio, a catarse e a função social da arte em György Lukács.......................................................................192 Karla Raphaella Costa Pereira Frederico Jorge Ferreira Costa 11 Corpo, estranhamento e pandemia de covid-19: Contribuições em Lukács para pensar o agravamento da reprodução da vida no capitalismo..............................................................................214 Lailah Garbero de Aragão antonino infRanca é formado em Filosofia na Universidade de Palermo (1980); especialização em Filosofia na Universidade de Pavia (1985); e doutorado em Filosofia (Ph . D.) pela Academia Húngara de Ciências (1989); e pela Universidade de Buenos Aires (2017). Em 1989 recebeu a Medalha Lukács de Pesquisa Filosófica. É autor de Giovanni Gentile e la cultura Siciliana (Roma, 1990), de Tecnecrate. Diálogo (em italiano Roma, 1998, II ed. 2005, III ed.: 2019); em português, São Paulo, 2003; em espanhol, Buenos Aires, 2004), O outro Ocidente. Sete ensaios sobre a realidade da Filosofia da Libertação (em espanhol, Buenos Aires, 2000; em francês, Paris, 2004; em italiano, Roma, 2010; em português, São Paulo, 2014); Trabalho, Indivíduo, História. O conceito de trabalho em Lukács (Buenos Aires, 2005, 2 edições; III ed., Caracas, 2006; em italiano, Milão, 2011; em português, São Paulo, 2015); Filósofos e mulheres (em espanhol, Buenos Aires, 2006; em italiano, Roma, 2010; em português, São Paulo, 2017); Apocalipse. Começo e fim da modernidade (Trieste, 2021). É autor de numerosos ensaios sobre Lukács, Bloch, Gentile, Gramsci, Croce, Kerényi, Heidegger, Anders; e sobre a Filosofia da Libertação e sobre a história da Sicília. Traduziu e editou a edição italiana de obras de Ricardo Antunes e Enrique Dussel; e editou a edição espanhola e italiana de obras de Lukács. Giovanni alves é professor livre-docente da Universidade Estadual Paulista (UNESP, campus de Marília/SP). É pós-doutor pelo Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra (Portugal); e pela Universidade Complutense de Madri (UCM). É pesquisador do CNPq; e autor de “Trabalho e subjetividade” (Boitempo editorial, 2011); “Dimensões da precarização do trabalho: Ensaios de sociologiua do trabalho” (Projeto editorial Praxis, 2013); “O duplo negativo do capital: Ensaios sobre a crise do capitalismo global” (Projeto editorial Praxis, 2018) e “O trabalho envelhecido”, volume 1 (Projeto editorial Praxis, 2021), dentre outros livros e artigos na área de trabalho, sindicalismo, reestruturação produtiva, precarização do trabalho e saúde do trabalhador. Sobre oS AutoreS aRiovaldo santos é professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR). Graduado em Ciências sociais (1984), pela Unesp Araraquara; Mestre em Ciência Política (1992), pela Unicamp; Doutor em Sociologie et Sciences Sociales (1997), pela Université Paris I; Doutor em Serviço Social (2018) pela Universidade Estadual de Londrina. É autor de “Marx, Engels e a Luta de Partido na Primeira Internacional” (EDUEL, 2001) e “Dicionário Sindical” (EDUEL, 2014). Ronaldo GaspaR é professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR). RoGeRio castRo é doutor em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Professor vinculado ao Mestrado Acadêmico em Serviço Social da Universidade Estadual do Ceará (MASS-UECE) por intermédio do Programa Nacional de Pós-Doutorado (PNPD/CAPES). É membro do Laboratório de Pesquisas e Estudos em Serviço Social (LAPESS-UECE). vitoR saRtoRi é professor da UFMG, mestre em história social pela PUC/ SP e doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela USP. MiGuel vedda é professor titular de Literatura Alemã (Faculdade de Filosofia e Letras, UBA) e pesquisador principal do CONICET (Argentina). Integrante do coletivo marxista "Herramienta". RanieRi caRli é professor e pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF, campus de Rio das Ostras) e professor associado do curso de serviço social. cRistina lontRa nacif é professora doutora do Departamentode Urbanismo da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF). thiaGo oliveiRa Gonzalez lopez é arquiteto e urbanista graduado pela Universidade Federal Fluminens (UFF) onde atua como pesquisador colaborador voluntário. KaRla Raphaella costa peReiRa é bolsista de pós-doutorado da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP), doutora e mestra em educação pelo Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Estadual do Ceará (UECE). fRedeRico JoRGe feRReiRa costa é professor adjunto da Faculdade de Educação de Itapipoca e do Programa de Pós-graduação em educação da Universidade Estadual do Ceará, bolsista de produtividade em pesquisa e estímulo à interiorização da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP) lailah GaRbeRo de aRaGão é mestra e doutoranda em Serviço Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Graduada em Direito e Pós-graduada em Consciência pelo Movimento e Jogos Corporais ApreSentAção O livro “O espectro de Lukács: Política, Estética e Estranhamento na Era da Barbárie Social”, publicado pelo Projeto editorial Praxis e organizado por Giovanni Alves e Ariovaldo Santos, é produto das atividades do Colóquio Internacional “Lukács e o século XXI” (50 anos sem György Lukács (1971-2021), realizado na Universidade Estadual Paulista (UNESP) - Campus de Marília, de 3 a 4 de junho de 2021. O evento foi realizado por meios virtuais com as lives sendo transmitidas para o canal da RET no You Tube e a página da RET no Facebook. O canal no You Tube do Grupo de Pesquisa “Estudos da Globalização” também participou das transmissões on-line. O livro teve a colaboração de autores que participaram da discussão das Mesas do Colóquio, contendo assim, artigos de pesquisadores da obra lukacsiana que aceitaram em colaborar com a publicação. Foram abordados vários aspectos da obra lukacsiana. O livro inicia- se com uma sucinta e brilhante exposição da biografia de György Lukács por Antonino Infranca. Depois, Giovanni Alves recupera (e atualiza) aspectos da abordagem lukacsiana do capitalismo manipulatório e do fenômeno do estranhamento. Ariovaldo Santos e Ronaldo Gaspar tratam da crítica do último Lukács à política, democracia e transição socialista. A problemática do método ontológico é tratada por Rogério Castro. A seguir, Vitor Sartori aborda o renascimento do marxismo e a Ética em Lukács. O livro dá enfoque especial às questões da estética lukacsiana, tratados com muita competência por Miguel Vedda e Ranieri Carli e pelos pesquisadores Cristina Lontra Nacif, Thiago Oliveira Gonzalez Lopez, Karla Raphaella Costa Pereira e Frederico Jorge Ferreira Costa. Finalmente, numa abordagem original, Lailah Garbero de Aragão tratou do tema do corpo, estranhamento e pandemia de covid 19: contribuições em Lukács para pensar o agravamento da reprodução social da vida no capitalismo. Agradecemos a todos que colaboraram com esta fundamental coletânea que visa contribuir para o esforço de refletir sobre vários aspectos da obra de György Lukács, principalmente do “último Lukács“(1955-1971). É claro que nem todos os textos se concentram no último período de vida do filósofo magiar, mas a maior parte das reflexões levam em consideração as obras do “último Lukács”. Numa entrevista em 1966, transcrita no livro “Essenciais são os livros não escritos: Últimas entrevistas (1966-1971)”, publicado em 2020 pela Boitempo editorial, Lukács observou: “Comecei minha verdadeira obra aos setenta anos”, isto é, em 1955. Portanto, o que denominamos de “último Lukács” é o período de 1955-1971. Nosso interesse foi contribuir para o discernimento de elementos essenciais da crise do nosso tempo histórico por meio das reflexões lukacsianas. Como um “espectro” que ronda o capitalismo manipulatório em sua fase de decadência histórica, György Lukács nos provoca a refletir sobre o sociometabolismo da barbárie e a estranha comoção do nosso tempo histórico. Os vários artigos são bastante ricos e necessários para o entendimento da obra lukacsiana – pelo menos do “último Lukács” - mas não apenas. O debate sobre os temas da estética e da ética marxista numa perspectiva socio-ontológica; e da crítica do capitalismo manipulatório e do sociometabolismo da barbárie, nunca foram tão urgentes para todos aqueles que buscam fazer a crítica do capital nas condições de sua crise estrutural. Prof. Dr. Giovanni Alves - UNESP/RET Prof. Dr. Ariovaldo Santos (UEL) (Organizadores) György Lukács Antonino Infranca 1 Até algumas décadas atrás, György Lukács era considerado um dos maiores filósofos do século XX, então o colapso do socialismo e a falta de interesse geral pelo marxismo o fizeram perder ime- recidamente a importância que havia alcançado. Comparado a todos os outros pensadores marxistas, porém, Lukács tem sua própria particulari- dade: ele era um grande pensador mesmo antes de se tornar um marxista. Para encontrar um caso semelhante ao dele, cito Agostinho de Hipona. Lukács nasceu em uma família de classe média alta em Budapeste em 1885. Seu pai, diretor do Banco Anglo-Húngaro, era um dos homens mais ricos do país. O jovem Lukács sentiu o vazio dos valores éticos da classe social à qual pertencia e se sentiu afastado dela, indo assim em busca de alternativas a esta ausência de valores. Esta consciência deu origem a muitas das reflexões de Lukács que deveriam levar a sua adesão ao marxismo. Muitas dessas reflexões já manifestam uma extraordinária maturidade teórica. Suas reflexões juvenis foram dirigidas à arte, esperando uma emancipação cultural da sociedade civil húngara das formas culturais e espirituais feudais que ainda a dominavam. Lukács encontrou no teatro um instrumento de crescimento cultural e espiritual, sobretudo porque o teatro era um espetáculo de massa, ao contrário das artes figurativas que permaneceram relegadas às elites. Dentro do caráter de massa do teatro, Lukács viu um fator democrático: “Estar na massa é, em si mesmo, algo muito democrático”1. É uma nova subjetividade, o estar na massa, que embora ainda não tenha uma consciência, tem um sentimento que é homogêneo com o dos outros seres na massa. São elementos de um 16 O espectro de Lukács sentimento comum, de uma forma de coexistência com outros no mesmo grau de fruição do próprio trabalho. É precisamente no decorrer de sua incipiente atividade como crítico literário e de arte que encontramos sua primeira menção ao marxismo: “Estou pensando acima de tudo em certos resultados das ciências naturais e humanas (por exemplo, o marxismo), os primeiros a chegar na ordem do tempo. Porque foram os primeiros a nos trazer a negação da concepção subjetivista e impressionista da vida, para nos oferecer afirmações inequí- vocas e controláveis, para restabelecer a ordem das coisas. Eles nos deram afirmações que comportavam consequências, porque eram verdadeiras ou falsas, certas ou erradas; e cada vez que a verdade de uma coisa era admi- tida, ela necessariamente levava à rejeição de mil outras”2. Dois aspectos já emergem, que são característicos de sua escolha de campo em direção ao marxismo: o partidarismo do marxismo e a opção pela objetividade. Parece claro que no marxismo, o jovem Lukács vê cânones inequívocos de interpretação que permitem tomar uma posição clara e inequívoca, é uma participação num confronto entre verdadeiro e falso, entre certo e errado e, ao mesmo tempo, uma rejeição de tudo o mais. Não é mais uma questão de subjetivismo, que pode sempre cair no questionável, numa visão pessoal ditada por humores e sentimentos, mas continuidade, e eu acrescentaria constância das coisas, além da mudança do espírito subjetivo. Aqui, não há mais a “mera negatividade” do adolescente - para citar Hegel - mas há uma busca por algo que permita tomar uma posição, tomar partido, com a certeza de estar do lado da verdade e do certo, mesmo que se possa errar,mas se saiba onde se está. Esta é a consciência de estar em um lugar, de ocupar uma posição, de estar do lado do positivo. Mencionando o nome de Marx pela primeira vez, Lukács lhe confia a tarefa de esclarecer a filosofia de Hegel: “Platão e Kant já vieram para pro- duzir efeitos, Plotino e Hegel ainda não (pode ser que através de Bergson e Marx em algumas décadas eles também terão se tornado ‘compreensíveis’). Mas uma nova filosofia só pode ser alcançada através da luta, e somente aqueles que obtiveram a faculdade da luta podem adquiri-la”3. Marx é concebido como um Hegeliano, que pode desempenhar a função de dis- seminador do pensamento de Hegel, mas a filosofia está unida à luta pela renovação da cultura. Na luta pela renovação da cultura húngara, Lukács argumenta que “o desenvolvimento da cultura se manifesta em parte na diminuição do nível e democratização (demokratizálódásában) dos pro- blemas”4. A democratização será o mesmo termo em seu último trabalho György Lukács 17 político de 1968, portanto sessenta anos depois o termo volta inalterado; é um sinal da maturidade de seu pensamento. Pode-se ver nestas primeiras reflexões lukacsianas, que tocam em temas políticos, um caráter fortemente ético, que permanecerá sempre presente em sua concepção de política e marxismo. O desejo de emancipação espiritual também passou para uma busca pessoal, individual, subjetiva, mística e, ao mesmo tempo, idealista que encontrou seu primeiro momento de expressão no livro A Alma e as Formas, o que lhe deu sua primeira notoriedade fora do ambiente húngaro. Pode-se ver, entretanto, que a luta da qual ele falou alguns anos antes se tornou uma luta interior: Lukács tem que se reconciliar consigo mesmo antes com o ambiente em que ele vive. Não é por acaso que ele deixa a Hungria e rejeita uma história de amor com Irma Seidler, uma história de amor que o obrigaria a ficar em Budapeste, a abandonar a especulação - o trabalho como ele o define - a fim de se consiliar com a vida. Ele prefere continuar a luta. O suicídio de Irma Seidler, decepcionada com a rejeição de Lukács, é um choque terrível. Em sua reflexão, vemos o abandono de temas idealistas, ditados pela interioridade, e o início da reflexão sobre temas objetivos, concretos. Da crítica literária das suas primeiras produções teóricas, Lukács avançou para reflexões mais profundas sobre temas estéticos. Este foi o período que ele passou em Heidelberg, onde frequentou os círculos do neokantismo e se envolveu em relações de discipulado com Max Weber, Rickert, Simmel, Lask e começou a redigir uma Estética, que no entanto ele deixaria inacabada. Nesta Estética ele trata de temas de abertura ao Outro, como a expressão artística, a comunicação da obra de arte, a relação sujei- to-objeto na obra. Estes são temas hegelianos que o levam a refletir sobre a objetivação na obra da subjetividade do artista e a comunicabilidade desta subjetividade. Neste período ele delineou um projeto para uma Filosofia da História baseada no pensamento de Dostoevsky, que ele publicou na Teoria do Romance. A comunidade popular russa o atraiu, provavelmente também devido à influência de Tolstoi. A dimensão espiritual da Grécia antiga torna-se uma meta de emanci- pação, provavelmente influenciada pela publicação naqueles anos (1911) dos escritos juvenis de Hegel. Trata-se, porém, sempre de projetos abstratos e subjetivos, ainda idealistas e, portanto, não ligados à história real. De fato, Lukács é fascinado pelos narodniki, os revolucionários russos que, num único gesto homicida, rompem a calma existente no ambiente burguês, ao mesmo tempo em que buscam não apenas uma redenção individual, mas 18 O espectro de Lukács também coletiva. Este período de reformulação dos temas estéticos foi abruptamente interrompido pela eclosão da Primeira Guerra Mundial. A política ocupou dramaticamente o centro de sua reflexão. Seus professores (Lask) ou amigos (Zalai) morreram na guerra; a reflexão abstrata sobre a arte não era mais possível; era preciso tomar partido. Lukács se opõe às monarquias russas, austro-húngaras e alemãs, mas ele se opõe igualmente às democracias ocidentais: Eu não estava nada disposto a aceitar o parlamentarismo inglês como um ideal. Mas naquela época eu não via nada que eu pudesse colocar no lugar do que existia. E é deste ponto de vista que a revolução de 1917 me impressio- nou tanto, porque de repente apareceu no horizonte que as coisas também poderiam ser diferentes. Esta ‘diversidade’ transformou por inteiro a vida de todos nós, de uma parte considerável da minha geração5. A insatisfação com a situação existente o levou a buscar uma terceira via, uma solução diferente para seu desejo de emancipação. Esta diversidade o levou à adesão ao movimento comunista em dezembro de 1918. Os primeiros ensaios abertamente marxistas de Lukács datam deste evento e período. Sua participação na República dos Conselhos (março-agosto de 1919) é o primeiro momento da atividade política de Lukács. Neste período tumultuado, no entanto, pode-se observar uma evolução igualmente tumultuada de seu pensamento, agora centrado em temas políticos. Naturalmente, o caráter idealista e ético dos anos pré-mar- xistas não se desvanece, pelo contrário, leva Lukács à sua escolha de campo: O idealismo ético é uma revolução permanente contra o existente como tal, como algo que não alcança seu ideal ético; e, por ser uma revolução permanente, uma revolução absoluta, é capaz de definir e corrigir a orientação e o caminho do verdadeiro progresso, aquele que nunca alcança um ponto de equilíbrio6. O idealismo ético, entretanto, abre a perspectiva de uma revolução contra o existente, esta é a grande novidade do período de adesão de Lukács ao comunismo. Os tons místicos ainda estão presentes em sua concepção de política, porque redenção (megváltás) é um termo que se repete continuamente na linguagem dos escritos políticos jovens de Lukács e indica claramente o caráter messiânico e místico. A rejeição da democracia representativa ainda está presente em sua primeira concepção política marxista e está interligada com a escolha ética: “A própria possi- bilidade de colocar a questão moral depende então da decisão sobre se a democracia é apenas parte das táticas do socialismo (...) ou se ela é parte György Lukács 19 integrante dela, na medida em que não pode ser suprimida antes que todas as consequências morais e filosóficas tenham sido completamente esclarecidas. Neste último caso, de fato, todo socialista consciente e res- ponsável terá um grande problema moral, o de renunciar ao princípio da democracia”7. Lukács se considera um socialista consciente, que não quer renunciar a nenhum dos dois pilares da escolha política, a democracia e o socialismo, ainda que os considere em contraste, pois privilegiar um em relação ao outro colocaria em crise a escolha ética. O dilema ético também surge na escolha de meios revolucionários, pois Lukács está consciente de que uma revolução requer não apenas o uso da força, mas também da violência, e então surge novamente uma questão dostoievsquiana: “O bolchevismo repousa na hipótese metafísica de que o bem poderia surgir do mal e que seria possível, como diz Rasumihin8 no romance Crime e Castigo: “alcançar a verdade por um caminho cheio de mentiras”. O autor [Lukács] não pode aceitar esta crença e, portanto, vê um dilema moral fundamental e insolúvel no bolchevismo, enquanto a democracia - em sua opinião - requer apenas renúncias e sacrifícios sobre-humanos daqueles que querem realizá-la consciente e honestamente até o fim. Mas no final, embora requeira força sobre-humana, não é uma questão tão insolúvel quanto “o problema moral do bolchevismo”9. Para Lukács, Dostoevsky é novamente o instrumento hermenêutico de sua adesão ao socialismo. Sua capacidade de vislumbrar as questões fundamentais da construção da sociedade socialista é extraordinária, mas ele prefere a democracia aobolchevismo, porque o dilema moral, o bem que surge do mal, parece insuperável para ele. A escolha ética, como princípio regulador, orienta a ação revolucionária, que tem um objetivo último que vai além de qualquer vantagem indivi- dual ou coletiva. Esta é uma posição moral do tipo kantiano, ecoando o neo-kantianismo juvenil de Lukács. Com base no estado de emergência revolucionário, Lukács rejeita a ideia de que alguns cálculos possíveis podem condicionar a práxis revolucionária. A análise é um pré-requisito para a ação, mas o verdadeiro critério é a pergunta contínua que o revolucionário deve fazer a si mesmo, se sua ação é capaz de atingir o objetivo final da transformação revolucionária da realidade ou não. Este é um critério de autocontrole que rejeita todo sociologismo fácil, que inibe a ação política, o condiciona de acordo com cálculos mais ou menos corretos e termina em inação. O objetivo da ação revolucionária é sempre a libertação do homem. Este é o ponto em que a moral se torna ética, o indivíduo revolucionário 20 O espectro de Lukács sente a responsabilidade de participar de um movimento para realizar o universal, um novo universal, a libertação da exploração. Neste contexto, Lukács vê a realização do espírito hegeliano no marxismo, ou melhor, a sua conclusão, porque no pensamento hegeliano não há ética, enquanto o marxismo se baseia em uma postura moral e em assumir a responsa- bilidade ética pelas consequências de uma ação revolucionária10. A ação revolucionária tem sua própria questão ética específica: se a libertação do homem passa pelo pecado, pode-se evitar agir? Este seria o dilema expresso na tragédia de Hebbel Judith, que no primeiro Lukács marxista toma o lugar do sacrifício planejado de Isaac da parte de Abraão, que assim influenciou o pré-marxista Lukács. Em ambos os dilemas se sente o peso da responsabilidade pela ação e o cálculo de suas consequências. A transição para a ética universal ocorrerá quando o indivíduo subor- dinar seu próprio caráter aos seus próprios interesses. Este processo é o resultado de um hábito que começa na disciplina do trabalho dentro da produção comunista. Esta disciplina do trabalho pode entrar em conflito com a economia de mercado, o que torna os bens escassos ou aumenta o preço deles. Durante a República dos Conselhos, Lukács trata da questão prática de uma fase crucial de transição entre a produção capitalista e comunista, quando a economia de mercado ainda prevalece e frustra os primeiros esforços do proletariado durante a revolução. A esta situação de crise, Lukács encontra duas soluções: fortalecer a disciplina do trabalho e da produção ou, no caso de falha da primeira solução, a formação de uma lei que os próprios produtores se dão e que os obriga a aumentar a disciplina do trabalho e da produção11. Este é, afinal, um direito que é autoimposto pelos produtores sobre si mesmos. É uma das formas mais antigas e livres de democracia de base: a auto ditadura sobre si mesmo, que ainda é uma escolha moral que se torna ética. Uma ditadura de fora ou de cima não é admissível, como acontecerá com o stalinismo, que imporá uma ditadura do proletariado sobre o proletariado a partir do partido. Lukács só admite uma sincera e profunda adesão à nova moralidade comunista. Dentro do proletariado, o indivíduo é realizado no universal, mas somente dentro da classe, porque na sociedade de classes, a ética proletária não é universal, mas é a ética de uma classe. Durante seu subsequente período de exílio em Viena, a militância atraiu totalmente a atividade do filósofo para a política. Estes foram os anos da publicação de sua obra marxista que o tornaria mundialmente György Lukács 21 famoso, História e Consciência de Classe, e também das polêmicas que se seguiram a essa publicação. Ao editar o trabalho, Lukács abordou a questão de saber se os partidos proletários deveriam participar dos parlamentos burgueses. Lukács argumentou que, em princípio, além de qualquer tática contingente, os comunistas não deveriam participar das eleições parlamentares e do trabalho parlamentar, pois “o envolvimento na atividade parlamentar implica, portanto, para todo partido comunista, a consciência e a admissão de que a revolução é impensável a curto prazo”12. Lukács preferiu “explosões revolucionárias à ação parlamentar [que] são ações de massa espontâneas, nas quais o partido tem a tarefa de tornar o objetivo consciente, de indicar a direção. Mas pelo próprio fato de o ponto de partida do confronto ser no parlamento, a espontaneidade das massas está em sério perigo”13. Este espontaneísmo messiânico foi drasticamente condenado pelo próprio Lenin: O artigo de G. L. é muito de esquerda e muito ruim. O marxismo nele é puramente verbal; a distinção entre táticas ‘defensivas’ e ‘ofensivas’ é artificial; não há análise concreta de situações históricas definidas; as coisas essenciais (a necessidade de conquistar e aprender a conquistar todos os campos de atividade e organismos nos quais a burguesia exerce sua influência sobre as massas etc.) não são levadas em consideração14. Quarenta anos depois, Lukács retorna ao episódio e reconhece a magreza de seus argumentos em comparação com a riqueza de Lenin: “Lenin propôs fazer uma distinção entre instituições que estão desatualizadas em um sentido histórico universal e instituições que estão desatualizadas em um sentido histórico contingente. Mesmo o parlamentarismo burguês, portanto, pode ser fortalecido e melhorado. E pelo menos em parte per- manecerá sempre assim, dentro do sistema capitalista”15, mas será sempre uma arma na luta política do proletariado. A intervenção de Lênin impôs a Lukács a disciplina partidária, que ele aceitou a ponto de conceber a Terceira Internacional como um princípio regulador da ação política: “a Terceira Internacional é uma ideia reguladora da ação do proletariado, é seu objetivo inevitável”16. A ideia ou princípio regulador é como uma espécie de imperativo categórico que atua como um guia na ação política. A sua utilização por Lukács revela novamente a influência do pensamento kantiano por si mesmo e também nos per- mite compreender sua ingenuidade política: a Terceira Internacional que acaba de ser constituída é formada por homens e, como fator humano, 22 O espectro de Lukács está sujeita a erros que podem ser desagradáveis e até fatais, como será demonstrado no decorrer dos próximos anos, quando Stalin assumirá a Terceira Internacional. História e Consciência de Classe, uma das obras filosóficas mais impor- tantes do século XX, foi escrita por Lukács em meio a uma lenta assimilação do marxismo, da atividade política combinada com uma forte idealidade ética, que não é de forma alguma entendida por Lukács como um ele- mento negativo17, um legado do caráter burguês de sua própria formação espiritual que permanecerá sempre uma nota pessoal característica da sua. Ele próprio não esconde a complicação de sua posição: “A passagem de uma classe para a classe que é especificamente hostil a ela é um pro- cesso muito complicado”18. E Lukács sempre permaneceu um pensador complexo, mas como sua posição de classe era complicada, ele era um intelectual burguês, com concepções espirituais muito aristocráticas, que aderiu à luta das classes mais excluídas e exploradas, vítimas do modo de produção capitalista-burguês. Praticamente toda postura que ele tomou em favor do proletariado foi uma autocrítica implícita. Faltava-lhe o que é definido na História e na Consciência de Classe como uma consciência de classe “atribuída por direito”, sua escolha pelas vítimas é uma escolha ética, partindo assim essencialmente de uma compreensão do mundo atual, ou seja, em ação, e depois uma escolha partidária, de querer parti- cipar deste mundo em ação, do lado das vítimas. O Lukács de 1923 não sabia que para Lenin “a consciência de classe socialista” é introduzida “de fora”. O “que em mim era, portanto, uma intenção subjetiva,e em Lênin o resultado de uma análise autenticamente marxista de um movimento prático dentro da totalidade da sociedade, tornou-se em minha exposi- ção um resultado puramente espiritual, e, portanto, algo essencialmente contemplativo”19. Os portadores da consciência de classe de fora para dentro do proletariado são os intelectuais, e Lukács foi precisamente um representante desta categoria. O papel da dialética na História e na Consciência de Classe é um dos elementos de continuidade entre as reflexões filosóficas do jovem pré-mar- xista Lukács e do marxista Lukács. Famosa é a abertura do ensaio “O que é o marxismo ortodoxo” - o primeiro dos ensaios que compõem a História e a Consciência de Classe: “No que diz respeito ao marxismo, a ortodoxia se refere exclusivamente ao método”. [...] - que continua na direção polí- tica - “A dialética materialista é uma dialética revolucionária”20. A função da dialética é superar a incomunicabilidade das ciências a fim de fundar György Lukács 23 uma totalidade dialética; somente o marxismo pode colocar as ciências particulares em movimento a fim de refundar uma nova concepção de sociedade. Mas a função da dialética na História e na Consciência de Classe é voltada para a história: O objetivo que nos propusemos é determinado, em vez disso, pela ideia de que na teoria e no método de Marx o método certo para o conhecimento da sociedade e da história foi finalmente descoberto. Em sua própria natureza, este método é histórico21. A dialética é, no entanto, um método que também se dirige a si mesmo, uma vez que o processo histórico é dialético. Entre a ciência em si, a história e seu método, a dialética, existe uma identidade que de outra forma não se encontra nas ciências naturais. A história é dialética, porque o sujeito que a coloca em ação, o homem, tem uma forma dialética de pensar e enfrenta contradições dialéticas em sua ação prática, chegando a resultados que, por sua vez, são contraditórios. Contraditório é o movimento da sociedade, especialmente na esfera da economia e, portanto, o método dialético foi a melhor ferramenta para a compreensão de tal movimento social. O proletariado estava ciente deste movimento dialético do modo de produção capitalista, pois ele mesmo é um produto do desenvolvimento da sociedade burguesa. O método científico naturalístico, por outro lado, negou a modi- ficabilidade dos fenômenos naturais, e isto causou a Lukács profunda perplexidade, tanto que ele não concebeu a natureza como sendo dotada de um movimento, porque lhe pareceu estático, como pareceu a Hegel, enquanto somente quando a natureza passa para o sujeito produtivo ela assume um movimento, que é considerado mais de origem social do que natural. Lukács reconhece o papel de divisor de águas da dialética hegeliana entre o marxismo autêntico e o marxismo revisionista da Segunda Inter- nacional, que era positivista e abstraído da realidade. Este uso da dialética Hegeliana atraiu as simpatias dos movimentos de protesto estudantis de 1968 à História e à Consciência de Classe, assim como atraiu as críticas do líder da Terceira Internacional, Zinoviev, na época de sua publicação. Mas não há dúvida de que Lukács recuperou uma tradição de marxismo autêntico, ou seja, do próprio Marx, que o ligava a Hegel. Marx foi capaz de captar na dialética hegeliana o caráter do movimento, da superação contínua e constante de cada momento em seu próximo. A dialética de Lukács é a mesma que a dialética da Lógica Hegeliana, a passagem do ser 24 O espectro de Lukács para o nada e depois para o devir; de fato, para Lukács as coisas acabam sendo momentos de um processo ontológico geral em movimento, em devir. O movimento dialético do ser ao tornar-se se apresenta no caráter fetichista da mercadoria e como mercadoria “no autoconhecimento do proletariado, como autoconhecimento da sociedade capitalista”22. A dialética do devir social é, segundo Lukács, revolucionária, porque um momento passa para seu oposto e, desta forma, seu sentido, sua direção é invertida, se inverte, de verdadeiro para o não verdadeiro, de positivo para negativo e vice-versa. A dialética na História e na Consciência de Classe também tem a função de superar a aparência para a essência, para a verdade do ser, como Hegel disse. Medir a distância entre aparência e essência é ciência, como Marx nos lembra, sob a condição de derrubar as aparências, a fim de trazer à tona a verdade que é escondida por elas, ou seja, a essência. A verdade da totalidade da sociedade capitalista só pode ser alcançada por este movimento de superação da aparência em direção à essência, que é ao mesmo tempo uma passagem quanto um devir. A totalidade é, portanto, uma construção conceitual dialética, e sem o uso do método dialético a existência e o significado da totalidade social nos iludiria. Lukács reconhece a superioridade teórica do marxismo para compreender a totalidade em movimento da sociedade burguesa. A dialética é a própria essência da política revolucionária. A teoria passa então à práxis concreta. Práxis é o momento de verificação da validade da teoria, pode também ser seu momento de negação, cabe às massas fazer o julgamento final, quando essa práxis se torna seu instrumento de ação revolucionária; mas a mudança revolucionária envolve a realização de algo “radicalmente novo”. Para a auto liberação do proletariado é essencial entender a sociedade burguesa como um todo, mas o proletariado deve entender sua própria função orgânica nesta sociedade. Ela deve entender-se como o motor da reprodução social e econômica do modo de produção capitalista, mas ao mesmo tempo como os excluídos desta sociedade e vislumbrar em teoria a futura condição social, que representa a superação da sociedade burguesa. A libertação do proletariado vem do conhecimento de sua situação real, ou seja, ser colocado em uma situação de classe, em um espaço histórico, social e econômico. A dialética, que o proletariado dominou graças aos intelectuais que a acompanharam, é capaz de revelar a essência do modo de produção capi- talista, ou seja, a relação entre trabalho e valor, entre valor de uso e valor György Lukács 25 de troca, entre trabalho e excedente de trabalho/valor excedente. Lukács ressalta que por trás da aparência das mercadorias existe uma relação entre os seres vivos. A vida é, portanto, a verdade do fetichismo da mercadoria, que por sua vez é a essência da sociedade capitalista; portanto, uma vida liberada do fetichismo da mercadoria, não mais reificada, é o objetivo a ser alcançado no movimento revolucionário. “Como produto do capitalismo, o proletariado está necessariamente sujeito às formas de existência de seu produtor. Esta forma de existência é desumanidade, reificação”23. A reifi- cação, como fenômeno social, surge na sociedade dominada pela forma de existência da mercadoria, ou seja, de uma coisa - um espectro, diz Marx - que impõe seu domínio sobre a totalidade social. As coisas substituem os homens nas relações entre os homens, como fantasmas (imagens) em vez de coisas. A paradoxalidade desta forma de dominação é que ela vem da atividade produtiva dos próprios homens. É uma espécie de reversão do produto contra o produtor, um truque da razão capitalista, que impõe o processo de produção através da divisão do processo de trabalho, que é, por sua vez, um reforço da divisão do trabalho. A relação do trabalhador com o produto de seu trabalho e com sua própria atividade trabalhista torna-se a relação do trabalhador com o tempo de trabalho. A divisão do trabalho exigiu a medição do movimento do trabalho, o qual, medido e calculado, mostrou sua capacidade de ser elástico, ou seja, com o hábito pode-se induzir um trabalhador a realizar movimentos de trabalho cada vez mais rápidos, até que a habilidade e a velocidade atingida se tornem a base para uma maior aceleração do ato trabalhista. Esta elasticidade da força de trabalho torna-se uma coisa, separáveldo corpo do trabalhador, especialmente se a força de trabalho se tornar mais e mais especializada. Esta especialização tem influência na psicologia do trabalhador, em sua “alma”, em sua racionalidade, porque induz o trabalhador a se comportar como uma máquina no local de trabalho. A mercadoria não é produzida para transformar em coisa as relações humanas, mas dentro da sociedade capitalista esta inversão de sua função ocorre, de modo que a partir do valor de uso ela se torna valor em si e o indivíduo não pode escapar desta situação. O Fordismo também consegue calcular as necessidades dos indivíduos e, portanto, manipulá-las como se fossem coisas que poderiam ser separa- das do indivíduo. Pela primeira vez na história, o Fordismo constrói uma verdadeira totalidade social, que, no entanto, domina o indivíduo. Como resultado desta forma de dominação sobre o indivíduo, todas as estruturas 26 O espectro de Lukács sociais devem, por sua vez, estar sujeitas à dominação da sociedade capi- talista. Lukács denuncia a incapacidade da filosofia de compreender o fenômeno da reificação, e a conseqüente alienação espiritual, do indivíduo moderno. A filosofia, em particular, e a cultura, em geral, na sociedade burguesa refletem a condição do indivíduo de falsa consciência que depende da esfera do modo de produção capitalista a que ele pertence, de modo que haverá uma consciência dependente do consumo, uma dependente da circulação do capital, outra da administração pública ou privada do capital, e assim por diante. Ao indivíduo, como aos intelectuais, faltará uma visão geral da totalidade social. A burguesia não pode compreender plenamente a totalidade da sociedade civil que domina, pois não está vinculada ao processo de produção da mercadoria, como o proletariado está, vinculou-se em posição de contemplação do processo de produção, para melhor dominá-lo. O proletariado é o elemento que reproduz a essência da sociedade capitalista, pois é o produtor material de mercadorias. Lukács defende a existência de uma consciência de classe atribuída por direito e explica o que ela é: “A consciência de classe é a reação racionalmente adequada que é assim atribuída por direito a uma determinada situação típica no processo de produção”24. Seria a consciência que todo proletário deveria ter ao con- siderar sua própria condição de ser, sua própria situação de classe, se fosse capaz de fazê-lo, isto é, superar a situação em que se encontra vivendo, isto é, após a derrota da revolução e dentro da hegemonia fordista. Ir além da aparência até a essência é um dos paradigmas epistemológicos marxistas que Lukács, portanto, respeita à letra, mesmo se ele toma a categoria de possibilidade objetiva da tradição filosófica. Seu objetivo é a conexão da consciência de classe com a totalidade, de acordo com os verdadeiros e autênticos interesses desta classe. Um intelectual burguês, como Lukács, contribui para a formação da consciência de classe proletária ao ocupar a posição de exterioridade em relação à totalidade social, de onde ele pode revelar a essência dessa totalidade. O caminho da aparência à essência, da falsidade da consciência burguesa à verdade da consciência proletária se completa assim, e esta verdade é imediata na consciência de classe proletária, pois o conhecimento das leis econômicas permite ao intelectual perceber que o proletariado é o elemento reprodutivo do todo social. Neste ponto, entretanto, o intelectual burguês não é mais burguês, mas se tornou um intelectual proletário - Gramsci diria “orgânico” -, ele é parte da consciência de classe proletária. Essa tomada de consciência, entretanto, requer uma György Lukács 27 compreensão do ser, que é uma forma de autoconsciência que se baseia em valores éticos, o que, por sua vez, representa um conflito entre o interesse moral individual, muitas vezes oportunista, e os valores éticos de perten- cer a uma classe. A consciência de classe se move de dentro de si mesmo para por si mesmo, ela se torna a postura da necessidade de libertação da reificação, da exploração, para a emancipação e o reino da liberdade. Para atingir este objetivo final, é necessária uma revolução, a derrubada do sistema capitalista e da sociedade burguesa. Para realizar a revolução, é necessária a organização de um partido revolucionário. A consciência do proletariado é uma forma subjetiva de organização, o partido comunista; a consciência do proletariado e do partido estão tão intimamente ligados que, segundo Lukács, são “certamente considerados do ponto de vista histórico-universal, um e o mesmo processo”25. O partido comunista, na medida em que é o guia da revolução, é um momento superior à cons- ciência de classe, na medida em que estabelece os objetivos finais da ação revolucionária e decide sobre o uso de táticas e, portanto, da violência. Esta liderança ocorre de forma autônoma a partir da consciência de classe. O partido deve ser capaz de manter a teoria e a práxis unidas, mas também fazer conviver tendências opostas, até mesmo transformar estas tendên- cias em elementos organizacionais. O verdadeiro partido comunista, por outro lado, exige a participação de toda a personalidade humana, não faz distinção entre direitos e deveres, mas os direitos tornam-se deveres e os deveres tornam-se direitos. O partido deve ser capaz de manter a tensão dialética entre o objetivo final da revolução para a construção da sociedade socialista e os momentos concretos dentro dos quais ele implementa sua ação revolucionária. O partido, e em particular seus líderes, deve ter uma capacidade dialética para interagir com esta realidade humana, que é a realidade que eles devem transformar primeiro, ou seja, estimular o surgimento de uma consciência de classe proletária. Para Lukács, o modelo do dirigente comunista é Lenin. Na realidade, os Lukács da História e da Consciência de Classe conhece muito pouco sobre Lenin. Após a morte de Lenin, Lukács aprofundou seu conhecimento sobre o pensamento de Lenin em poucos meses e escreveu o livreto Lenin. Teoria e práxis na personalidade de um revolucionário, que representou uma verdadeira superação da História e da própria consciência de classe. Lukács reconheceu em Lenin a capacidade de interpretar dialetica- mente o fator humano dentro da organização revolucionária do Partido 28 O espectro de Lukács Comunista. Fundamental para Lukács é a teoria do hábito de Lênin: os indivíduos devem estar acostumados a participar da política, tornando- -se cada um deles um membro autônomo do Estado, assim como já são membros autônomos da sociedade civil. Todo problema na construção do socialismo deve ser tratado dentro do partido, de modo que as discussões, os confrontos, os desacordos são extremamente úteis e férteis para a análise e a busca de soluções para as questões colocadas pela construção do socia- lismo. Este é também o sentido do realismo de Lenin, que foi capaz de captar e compreender as tendências sociais que poderiam facilitar e apoiar a luta do proletariado. Esta atitude em relação à realidade, que está em constante mudança, exigiu uma capacidade de mudar constantemente a atitude de cada um em relação a ela. O pensamento dialético nos permite compreender as contradições da realidade, os contrastes entre as classes, e, também sua mudança, sua síntese, a repetição de novos contrastes. A dialética está no coração da defesa de Lukács da História e da Consciência de Classe contra as acusações da ala ortodoxa do Partido Bolchevique; Lukács refere-se explicitamente a Lenin e ao esclarecimento da dialética em seu próprio trabalho. Além disso, Lukács quer mostrar o caráter dialético de sua concepção da natureza e da sociedade como um continuum inseparável. A militância no Partido Comunista Húngaro o desvia da verdadeira reflexão filosófica até a derrota de sua linha política, expressa nas teses de Blum, e o triunfo das tendências mais stalinistas (1930). Nas teses de Blum,Lukács argumenta que a ditadura democrática será baseada na aliança entre comunistas e social-democratas, entre o proletariado e a burguesia progressista. Esta ditadura democrática permitirá a transição da democracia burguesa, não mais considerada negativamente, para a ditadura do proletariado, a abolição do Estado e o estabelecimento de uma democracia socialista. A ditadura democrática tem objetivos precisos: primeiro, a realização completa dos princípios da revolução burguesa, ou seja, igualdade, liberdade e fraternidade, depois a abolição das diferenças de classe, liberdade total dentro dos limites do respeito mútuo entre os cidadãos, a superação das diferenças nacionais, étnicas e sexuais. Com a ditadura democrática, a revolução burguesa se torna uma revolução prole- tária. As teses de Blum foram duramente criticadas pelo centro do partido, ou seja, por Bela Kun, que havia permanecido na União Soviética e que, apoiando-se na teoria do social-fascismo desenvolvida por Stalin naqueles anos, excluiu totalmente uma política de aliança com os social-democratas György Lukács 29 e a burguesia progressista. Lukács foi forçado a fazer uma autocrítica e deixou a luta política direta. Ele também deixou Viena para viver em Berlim porque temia a extradição para a Hungria, onde uma sentença de morte o aguardava. Em Berlim, ele se dedicou especialmente ao estudo da estética e da crítica literária. Em 1930, ele passou um ano estudando em Moscou no Instituto Marx-Engels-Lenin, em colaboração com a Lifsic. Foi durante esse período que ele pôde ler os Manuscritos Filosóficos e Econômicos de Marx de 1844, uma leitura que foi uma verdadeira iluminação para ele: “Ainda me lembro da impressão chocante que me causaram as palavras de Marx sobre a objetividade como propriedade material primária de todas as coisas e de todas as relações. Estava ligada, como já foi explicado, ao entendimento de que a objetivação é uma forma natural de dominação humana do mundo, enquanto o estranhamento é um tipo particular de objetivação que ocorre em determinadas circunstâncias sociais”26. As teses fundamentais da História e da Consciência de Classe foram desmentidas e Lukács começou a se distanciar desse trabalho. Ao mesmo tempo, ele se interessou pela teoria do espelhamento e da mimese estética de Lenin. Durante seu exílio em Moscou, Lukács se afastou da militância política mais ativa e se dedicou ao estudo da crítica literária, da história da filosofia, da fundação de uma estética marxista e da luta teórica contra o irraciona- lismo. Ele escreveu obras fundamentais para argumentar que o verdadeiro realismo é realismo burguês e não realismo socialista, que é uma aplicação literária de diretrizes políticas de cima. O verdadeiro realismo reflete as relações sociais, enfatiza os personagens humanos que se formam dentro dessas relações, de modo que somente os grandes escritores burgueses, como Balzac, Tolstoi, Thomas Mann, foram capazes de expressar esses tipos humanos. Lukács argumenta contra o naturalismo de Zola, porque acredita que não existe um verdadeiro espelhamento, mas uma reprodu- ção mecânica da realidade. O escritor não deve descrever, mas narrar a realidade de uma forma dialética, ou seja, representar a realidade objetiva dentro de sua narrativa subjetiva. O intelectual deve saber encontrar um equilíbrio entre sua própria subjetividade e a realidade objetiva, algo que os filósofos depois de Hegel não sabem mais como fazer, colocando sua própria interpretação subjetiva antes da compreensão objetiva da realidade social e histórica. Assim nascem mitos irracionais ou místicos, como o da raça, da superioridade da Alemanha sobre outras nações. Hegel é o divisor de águas entre as filosofias racionalista e irracionalista. Lukács vê 30 O espectro de Lukács no jovem Hegel um precursor de certos temas do marxismo, tais como a alienação. Lukács conduziu sua luta solitária contra o fascismo como um intelectual, com seus próprios meios intelectuais, oferecendo, no entanto, ferramentas hermenêuticas para interpretar a essência irracional do fascismo ou a essência hiper-racionalista do estalinismo. Foi somente com seu retorno à Hungria em 1945 que ele retomou a luta política direta, definiu o que é uma democracia popular e uma política cultural que pode atrair camadas sociais estranhas ou inimigas do movimento proletário. Esta breve temporada seria encerrada por acusações violentas por parte da liderança estalinista do Partido Comunista Húngaro. Lukács, agora um homem velho, aposentou-se para a vida privada. Ele voltou à luta política, primeiro intelectual e depois direto, aproveitando a morte de Stalin e o fim do estalinismo. A luta intelectual começou em 1954 com a publicação de um ensaio, The Young Marx, no qual Lukács retomou sua interpretação de Hegel, já apresentada em The Young Hegel, segundo a qual existem dois Hegel, um esotérico, revolucionário, crip- tomaterialista, liberal, em oposição ao exotérico Hegel, ou seja, místico, reacionário, idealista: a interpretação estalinista de Hegel, admitiu apenas um Hegel, o exotérico. Na inversão da dialética hegeliana, emerge a capacidade de Marx de trazer a alienação do trabalho, ou seja, a objetivação da idéia para a maté- ria, para as condições históricas da sociedade capitalista. Embora os dois utilizassem o mesmo método dialético, foi o ponto de vista, a perspectiva, que mudou sua análise e seu julgamento final sobre o sistema capitalista. Marx faz uma escolha ética: ele sai do sistema, coloca-se do lado das vítimas e fica do lado delas, Hegel não escolhe, ele permanece em seu lugar, ou seja, dentro do sistema. A diferença entre os dois emerge claramente em suas respectivas concepções de história. Hegel concebe a história como sendo feita por um “portador”. Para Marx é feita por homens, além de sua consciência de serem seus produtores. Mas aqueles que, como ele, sabem ir além da aparência fenomênica desta produção humana, podem então compreender o significado da história, que é então o significado do devir humano. A luta política direta começou na primavera de 1956, quando o regime estalinista húngaro de Rakosi começou a desmoronar e a possibilidade de descalinização se tornou grande. Lukács se lançou na luta política, fazendo discursos, publicando ensaios e argumentando teses que estavam totalmente em desacordo com as teses tradicionais do regime moribundo, contra as quais Lukács defendia uma mudança, um retorno György Lukács 31 ao Leninismo, claro, ao Leninismo autêntico, o que seria substanciado colocando a questão do “democratismo”27 no centro do debate político. O maior ponto de diferença entre o planejamento estalinista e a teoria marxista de reprodução social é a ausência no planejamento estalinista da participação das massas trabalhadoras nas decisões sobre planos quinquenais. Lukács participou da Revolução de 1956, como parte do governo Nagy, e, após a derrota da Revolução, foi deportado para a Romênia. Ele se recusou a deixar o grupo de prisioneiros, apesar do fato de que o novo regime de Kádár o queria libertar, temeroso da grande fama de seu nome no exterior. No final, ele foi sequestrado para ser libertado! Mas assim que ficou livre, Lukács retomou sua batalha política indireta pela renovação da cultura dentro do marxismo, para permitir o crescimento e o amadurecimento do senso comum também dentro dos estados socialistas. Esta renovação deve ser realizada em toda a frente cultural, também na arte, na literatura, onde o dogma da superioridade do realismo socialista reinava supremo. O dogmatismo estalinista, como qualquer dogmatismo, produz medio- cridade. Os pontos fixos da luta ideológica anti-estalinista de Lukács são a rejeição de uma “conciliação com a realidade” e a defesa da “perspec- tiva”, ou seja, de um autêntico leninismo contra a deformação stalinista do pensamento de Lênin. Lukács inicia assim uma análise constante de uma comparação entre Lênine Stalin a fim de revelar mais claramente os desvios de Stalin em relação a Lênin, desvios que em alguns pontos teóricos são traições reais ao autêntico pensamento leninista. Sua inten- ção é negar a legitimidade fundacional do estalinismo, que consistia em considerar Stalin o mais autêntico herdeiro de Lenin. Lukács sempre foi a favor da escolha de Stalin para a construção do socialismo em um país, contra a escolha de Trotsky pela revolução mundial. Mas Lukács lembra que “o socialismo em um país vem de Lenin”. Stalin só depois da morte de Lenine defendeu com sucesso esta ideia contra a chamada ortodoxia marxista de Trotsky”28. Outro aspecto característico do estalinismo foi a cristalização da emer- gência revolucionária, como se a revolução estivesse sempre em curso e não fosse possível construir uma situação normal de convivência civil; criando assim um clima de desconfiança horizontal mútua, mas de total confiança vertical no Partido e no Estado e em seu demiurgo: Stalin. Este crescente sectarismo, que garantiu o controle social, mas impediu o progresso social em todos os sentidos, do econômico ao cultural, e sufocou a sociedade civil 32 O espectro de Lukács num clima de desconfiança mútua, de constante necessidade de obediência ao líder, de disciplina forçada, aspectos típicos das seitas religiosas. O tipo humano que melhor se adaptou ao stalinismo foi o sem talento e medíocre, disposto a transigir. Esta é uma nova forma de homem, uma antropologia estranhada e deformada do ser social, certamente não aquela que Marx ansiava. Em Ontologia do Ser Social, Lukács reitera que o stalinismo é uma forma particular de estranhamento e reificação do marxismo29. A maior conseqüência da política estalinista em relação aos sindicatos é a perda da autonomia da classe trabalhadora, que permanece refém da política estatal, como no caso da transformação dos Soviet, uma forma de democracia popular de base, no Parlamento, que poderia ser facilmente manipulada de cima para baixo. As consequências do estalinismo também foram pesadas dentro do partido: para Stalin, a política partidária era a afirmação da centralidade do partido no mundo espiritual, enquanto Lenin, e Lukács com ele, entendiam a política partidária como a partici- pação, participando espontaneamente no mundo humano, e, portanto, no mundo espiritual, de acordo com a própria personalidade, tomando partido. Na arte, portanto, houve uma forte intervenção de Stalin: o artista, o engenheiro de almas, sempre teve que incutir valores positivos em seus leitores, ele não tinha “direito ao desespero”, ele não tinha liberdade artística, muito menos liberdade prática. O objetivismo, portanto, foi condenado pelo estalinismo, que favorecia o subjetivismo, outra atitude psicológica tipicamente burguesa, com uma postura resoluta nas questões políticas. Em geral, Stalin, a partir de sua crença de que era o legítimo e único herdeiro de Lenin, impôs imediatamente de cima suas decisões, ou seja, privando-as de todas as mediações dialéticas, que ao invés disso foram os detalhes concretos que Lenin mais cuidou. Além disso, a dialética entre universal e singular no estalinismo sempre se torna a redução do singular ao universal. Em suas notas sobre Ética, que nunca foi escrita, Lukács observa:"Período Estalinista Em vez do desenvolvimento avançado da moral (e da lei) sobre a ética, re-transformação da moral em lei Contra o período stalinista Uma exaltação infundada da moral desagua no jurídico (com todas as reservas, reserva mentalis, hipocrisia, autoilusão, etc., que necessariamente seguem aqui)"30. Lukács indica claramente que a con- sequência do stalinismo é a subordinação da moral e da ética ao direito, uma forma de fetichização do direito com respeito à moral do indivíduo. Stalin também estava muito distante de Marx. Lukács lembra que Stalin havia argumentado que o valor desapareceria na sociedade comunista, György Lukács 33 alegando que esta tese estava em continuidade com a teoria do valor de Marx. De fato, Marx havia argumentado que o valor estava presente, de várias formas, em cada época histórica, e que essa presença continuaria no comunismo, onde o trabalhador seria pago por todo o tempo de trabalho empregado, exceto pela parcela de trabalho excedente que seria utilizada para serviços sociais. Assim, o trabalho excedente não desapareceria na sociedade comunista. A conseqüência mais relevante do método de Stalin é que as declarações teóricas de Stalin parecem precipitadas, superficiais e sofisticadas, dando a impressão de que o marxismo é apenas ideologia política. Na verdade, a ideologia estalinista era incapaz de analisar o mundo de seu tempo com todas as suas complexidades. Lukács também apresenta uma suspeita: “Bastava refletir se a práxis manipulada do período estalinista não deu origem a um sistema, um método, que constitui um verdadeiro obstáculo ao retorno ao autêntico marxismo que é necessário hoje. Eu me inclinaria mais para o sim do que para o não”31. Lukács defende o uso autêntico do marxismo, ou seja, a capacidade de usar à letra os ensina- mentos de Marx e, ao mesmo tempo, um uso dialético dos mesmos, sua relação concreta com a realidade concreta. Em sua monumental Estética, Lukács volta a utilizar a dialética como método para analisar a estrutura da obra de arte. Ela existe indepen- dentemente do sujeito e depois, no momento da fruição, ela é colocada em relação ao sujeito. A obra de arte surge assim da comunhão entre subjetividade e objetividade, entre o artista e a realidade, que é o objeto do espelhamento do artista32, um espelhamento mais preciso, igual ao da ciência. Esta é a raiz da concepção de realismo de Lukacsi. A obra de arte traz consigo, em sua identidade de forma e conteúdo, duas relações: a de si mesma com a realidade objetiva como um todo e a de si mesma com a alma do usuário, de modo que a obra se torna o próprio mundo do usuário. A arte é, portanto, uma forma especial de objetivação e, como tal, o modelo de objetivação é o trabalho. Lukács reitera as raízes da dialética marxista, traçando até Hegel a compreensão do trabalho como um meio de relacionamento entre sujeito e natureza. O marxismo aprofundou esta compreensão colocando entre o sujeito e a sociedade as forças produtivas e as relações de produção, fazendo da sociedade uma “segunda natureza”33. Lukács faz uma clara distinção entre o homem inteiro e o homem plenamente comprometido, que é basicamente o homem estranhado: “Falaremos do homem ‘plenamente comprometido’ (em relação a uma determinada objetivação), contrastando-o com o homem inteiro da vida 34 O espectro de Lukács cotidiana, que, para colocá-lo em uma imagem, se volta para a realidade com toda a superfície de sua existência”34. Pode-se ver o quanto a Estética está em estreita relação com a política e a ética. De fato, Lukács argu- menta que “a arte eterniza um momento no desenvolvimento histórico do gênero humano”35. Estamos diante de uma estética de corte ontológico e ético e, de fato, o velho Lukács dedicaria os últimos anos de sua vida a escrever uma Ontologia do Ser Social, que seria a introdução a uma Ética que ele não tinha tempo de escrever e que permanece para nós sob a forma de simples notas. Nesta Ontologia, Lukács, a fim de reparar os danos do stalinismo, pede um retorno ao autêntico marxismo, um retorno a Marx e Lênin. Quando Lukács leu os Manuscritos Filosóficos e Econômicos de Marx de 1844 em Moscou, em 1930, ele descobriu a concretude ontológica do pen- samento de Marx. Por “concretude” quero dizer aquela referência contínua às coisas, aos homens, à realidade concreta e objetiva, que está fora do Ego; por “ontológico” quero dizer que aquela realidade concreta é uma realidade social e histórica, produzida por um ser social e histórico, que é um ser humano que pertence ao gênero humano e se reconhece em tal pertencimento. Lukács sabe que na fundação do capitalismo, como em qualquer sistemade produção de riqueza, existe o homem, mas não o homem em sua humanidade abstrata, mas na condição concreta de um ser humano explorado, alienado e estranhado pelo modo capitalista de produção de riqueza. O capitalismo tem sua própria forma específica de produção e reprodução da vida e existência humanas. Esta é a concretude da condição humana típica do capitalismo. É uma visão antropológica e ontológica do ser humano, o ser-propriamente-assim do homem na época do capitalismo. Lukács entende que uma ação revolucionária con- tra o sistema capitalista não pode ser considerada a curto prazo, porque o capitalismo impôs sua ontologia à humanidade, impôs uma forma ontológica capitalista ao ser social. O comunismo, a verdadeira dimensão na qual o ser social pode ser realizado, não está em oposição à sociedade burguesa, mas é o “reino da liberdade”, como Marx o define: "O reino da liberdade (Reich der Freiheit) começa apenas onde o trabalho determi- nado pela necessidade e pelo propósito externo cessa; ele está [...] além da esfera da produção material verdadeira e própria [...] além dele começa o desenvolvimento das capacidades humanas [culturais], que é um fim em si mesmo, o verdadeiro reino da liberdade"36 O reino da liberdade é o momento em que a história conhecida até agora, pré-história, torna-se György Lukács 35 a verdadeira história do homem, com a libertação do trabalho alienado, com a realização do ser humano em toda a plenitude de sua pertença à raça humana (Gattungsmässigkeit). Lukács indica claramente quando o ser humano entra na condição de pertencer ao gênero humano: Assim como a consciência especificamente humana só pode surgir em conexão e como um efeito da atividade social dos homens (trabalho e linguagem), assim a consciência de pertencer ao gênero se desenvolve a partir de sua convivência e cooperação concreta”37. O homem se sente homem quando age com outros seres humanos, e sua coerção e interação estabelece a humanidade concretamente, ou seja, através de ações práticas livres e sem constrangimentos. Em sua Ontologia, Lukács afirma que “o trabalho, portanto, pode ser considerado o fenômeno original [Urphänomen], o modelo [Modell] do ser social”38. Lukács utiliza o conceito de trabalho como Marx o havia utilizado, ou seja, como a “fonte original” do capital, e como Hegel o havia utilizado, ou seja, como o ser que se torna nada. Lukács vai ainda mais longe e argumenta que o trabalho é o momento original do ser humano e o modelo de qualquer forma de práxis humana. O trabalho é o momento dominante, ou superpujante (Übergreifendes Moment) do ser social, porque é o momento da reprodução da vida humana. O ser social é, portanto, dominado no corpo e na mente por sua atividade de trabalho e nela se eleva da individualidade à generalidade humana, no trabalho o homem começa a pertencer ao gênero humano. Pertencer ao gênero humano é o objetivo final a ser considerado como um princípio regulador de toda ação humana que deseja ter um valor ético, é um princípio regulador de toda ação humana entre os homens, portanto, é também essencialmente um princípio regulador da política. Lukács indica precisamente como deve ser a estrutura de tais princípios reguladores: Os princípios devem, antes de tudo, ser fundados na realidade dinâmica do desenvolvimento social, ou seja, devem ser ‘abstrações inteligíveis’, para usar as palavras de Marx; e depois é indispensável reconhecer as mediações dialéticas entre os princípios gerais e os simples objetivos concretos39. As relações sociais também são dominadas pelo trabalho e a posição teleológica dos fins a serem alcançados pelo trabalho, mais precisamente as relações sociais são dominadas pela questão: o que fazer com a mão-de-obra excedente e a mais-valia produzida, que é superior à reprodução natural 36 O espectro de Lukács da vida biológica, e que no sistema capitalista é a categoria dominante tanto na economia como na política. No socialismo, “a quantidade de trabalho necessário para a reprodução física do homem deve diminuir constantemente, o que significa que o espaço necessário para uma exis- tência socialmente humana pode ser encontrado para todos os homens”40. Trata-se, portanto, de dar outro valor à produção laborativa. A objetividade social também é formada sobre o valor, que é o momento em que uma sociedade reconhece um valor, que, em última análise, é a forma que assume o tempo socialmente necessário para produzir um objeto, uma forma que se torna a medida de julgamento de um valor, ou seja, quanto mais tempo leva para produzir uma mercadoria, mais valor essa mercadoria terá, em conjunto com a capacidade do produtor, que não perderá tempo produzindo essa mercadoria. Desta forma, um in-dividido, um não-dividido, é constituído em torno de um objeto entre o sujeito produtor e a sociedade, que reconhece o valor do objeto produzido. Lukács pode assim argumentar que a objetivação (Vergegenständlichung) torna-se exteriorização (Entäusserung), um termo ao qual Hegel deu o significado de “alienação”. Assim, a exteriorização do sujeito torna-se a objetivação de um valor, reconhecido por outros, mas é um resultado que só é alcançado com a condição de transformar o próprio comportamento de acordo com as regras necessárias do ato de trabalho e, portanto, coloca a necessidade da mudança de comportamento por parte do sujeito atuante. A objetiva- ção torna-se assim a origem da alienação, de tornar-se outra, mesmo que para Marx e Lukács esta outra não seja necessariamente estranha, mas a conseqüência e, ao mesmo tempo, o motor do progresso humano: o ser humano modifica seu ser em relação à práxis à qual ele se dedica. Não há dúvida, portanto, que os valores surgem somente através da objetivação-alienação. A mera objeti- vidade é, em princípio, indiferente ao valor. Somente na medida em que é introduzida no sistema de objetivações - alienações podem adquirir um valor41. O valor é, portanto, uma formação social, que não existe na natureza, mas é uma conseqüência da ação humana, que reúne elementos naturais e sua suposição dentro da esfera social. A objetivação, entretanto, mantém em si um caráter desantropomorfo, pois surge de um conhecimento do ser em si natural que se torna, após transformação em trabalho, valor de uso. A economia é, portanto, o campo em que nasce a política, que reage tentando dominar este momento original. A política, na realidade, domina György Lukács 37 o mundo fenomênico que surge da estrutura econômica, que é sempre a essência da sociedade. A política é precisamente o momento de escolha entre as decisões alternativas que são apresentadas pelo desenvolvimento das forças produtivas. As escolhas são determinadas pelo momento ideal e pela ideologia e, portanto, têm sua própria determinação histórica. A autonomia e independência da ideologia em relação à moral pode aumentar sua eficiência em relação às massas, até porque a ideologia pode efetivamente mascarar objetivos econômicos objetivos. Neste sentido, a unidade de essência (economia) e fenômeno (ideologia) é confirmada, mas é uma unidade dialética, na qual o fenômeno interage com a essência de uma forma que é decisiva para a essência e, da mesma forma, a essência encontra no fenômeno sua própria forma de objetivação, como Marx havia sustentado. Assim, nascem formas objetivadas e alienadas da práxis humana, dando origem a novas formas de objetivação e alienação, e este progredir também pertence à genericidade humana. O estranhamento, portanto, vem da alienação42. O estranhamento é o momento final da longa reflexão lukacsiana sobre a estrutura constitutiva do ser social. O estranhamento é um fenômeno que surge no desenvolvimento social e econômico da sociedade civil; neste desenvolvimento os homens são privados ou do resultado de sua produção (objetivação) ou dos processos de produção (alienação de e no trabalho). A alienação é também uma forma de exclusão, que o ser socialsofre, do controle da reprodução social e individual de seu próprio ser. O ponto mais alto que o estranhamento pode atingir é quando ela se torna uma norma, ou seja, quando ela atua como elemento regulador da vida cotidiana dos seres humanos43. O sujeito é o portador de um comportamento adequado à sua per- sonalidade, que é o que ele pode compreender e conceber de si mesmo. A personalidade depende das escolhas e ações, que são ditadas ou pela genericidade, que é um pertencimento ao gênero (Gattungsmässigkeit, termo que Lukács retoma de Marx), ou pela particularidade, que seria a singularidade do ser social. A genialidade revela nossa substância humana e racional, enquanto a particularidade é a esfera de nossa subjetividade individual. Naturalmente, nossa genericidade-em-si tende a passar para uma genericidade-para-si que é o momento da mais madura e consciente subjetividade, aquele que opera em circunstâncias muitas vezes indepen- dentes da vontade do indivíduo, mas que é também o momento consti- tutivo do indivíduo (In-dividido, ou seja, “indivisível”), ou seja, a unidade indivisível e indivisível do social e do particular, do universal e do singular, 38 O espectro de Lukács formando assim uma harmonia entre genericidade e individualidade que determina a consciência do ser social individual, mas também a consciência de uma coletividade social. Esta ampliação é o objetivo de Marx, Lênin, Gramsci e do próprio Lukács, de autores autenticamente revolucionários. Depois de 1956, a avaliação de Lukács sobre Lênin tornou-se mais livre e objetiva. O ponto a partir do qual ele inicia seu retorno a Lenin é o da autonomia dos sindicatos em relação ao partido e ao Estado. Sindicatos independentes teriam defendido os interesses do mundo do trabalho mesmo contra, possivelmente, o partido, o portador da “consciência socialista”, no curso da construção do socialismo. Os sindicatos deveriam estimular, por um lado, e controlar, por outro, a ação do partido e não permanecer, como aconteceu sob o controle do partido Stalin, sujeito ao controle do partido, um mecanismo de burocratização da vida social na URSS, precisamente o que Lenin sempre tentou evitar. A democracia socialista é concebida por Lukács na esteira de Lenin como práxis cotidiana, uma forma de manifestar a própria genericidade, ou seja, o próprio pertenci- mento ao gênero humano; uma práxis que envolve instituições a ponto de torná-las uma presença na vida cotidiana dos seres humanos. Trata-se de fazer das instituições, ou do Estado, um hábito na vida cotidiana dos seres humanos. O processo de democratização, um processo de libertação da vida cotidiana das restrições do planejamento estalinista, por um lado, e da produção capitalista e do consumismo, por outro, deve ser baseado no hábito. A democratização é um processo infinito, é uma realização incessante, é libertação e não liberdade. A liberação das forças produtivas é também a liberação do tempo de trabalho necessário: O nível de desenvolvimento da produção como diminuição do trabalho necessário para a autorreprodução dos trabalhadores e a batalha ideológica sobre o volume e o conteúdo do ‘supérfluo’ são fenômenos sociais, determi- nados objetivamente44. Este é o objetivo do desenvolvimento humano e, portanto, do socia- lismo: libertar o homem do trabalho necessário e permitir o desenvolvi- mento do trabalho livre, do trabalho como jogo, mas também como a primeira necessidade da vida: Marx costumava falar muito sucintamente sobre o desenvolvimento socialista futuro, mas ele considerava que um dos critérios do desenvolvimento socia- lista é que o trabalho imposto por obrigação deve ser transformado em uma necessidade vital para o homem. Eu diria até mesmo que somente um bom trabalho pode ser convertido em uma necessidade social - em oposição a uma György Lukács 39 mera necessidade econômica vital, já que por natureza todo trabalho feito pelo homem é a manifestação de uma necessidade vital. Mas o homem só considera -... - o trabalho bem feito como uma parte orgânica de seu próprio desenvolvi- mento. Somente o bom trabalho dá ao operário dignidade, auto-estima, etc.45. O “trabalho bem feito” é muito mais do que a satisfação de uma necessidade, já é um colocar em valor a humanidade do homem, depois de ter satisfeito as necessidades básicas da vida material. Somente o tra- balho realizado de acordo com o critério de “trabalho bem feito” permite ao trabalhador reapropriar-se espiritualmente de sua atividade produtiva, tomar consciência de sua atividade produtiva e superar o estranhamento. Naturalmente, o próximo passo será a vontade de recuperar a posse dos instrumentos de produção para poder realizar seu “trabalho bem feito”. Esta é a última mensagem que Lukács nos deixou: a convicção de que cada indivíduo pode iniciar um processo lento e crescente de sua própria emancipação e de sua emancipação coletiva. Tradução de Ariovaldo Santos Notas 1 G. Lukács, Il dramma moderno, tr. it. L. Coeta, Milano, Sugarco, 1967, II, p. 80. 2 G. Lukács, "Le vie si sono divise", in G. L., Cultura estetica, tr. it., M. D’Alessandro, Roma, Newton Compton, 1977, p. 35. 3 G. Lukács, "Prefazione” a G. L., Cultura estetica, cit., pp. 9-10. 4Idem, p. 10. 5 Cfr. G. Lukács, Pensiero vissuto. Autobiografia in forma di dialogo, interv. di I. Eörsi, tr. it. A. Scarponi, Roma, Editori Riuniti, 1983, p. 54. 6 G. Lukács, "Discussione sull idealismo conservatore e progressista", in Cerutti, Claussen, Krahl, Negt, Schmidt, Storia e coscienza di classe oggi con scritti inediti di Lukács (1918-1920), Milano, Aut Aut, 1977, p. 109. 7 G. Lukács, "Il bolscevismo come problema morale", in Storia e coscienza di classe oggi, cit., pp. 112-113. 8 É um óbvio erro de impressão de Rasumihin no lugar de Razumichin, um nome que vem do russo razumíčnyi que significa "sensato" e "judicioso". Além disso, a frase exata do romance é: «Diga mentiras e chegará à verdade! [...] Nem uma única verdade pode ser alcançada sem primeiro ter mentido" (F. Dostoevskij, Delitto e castigo, tr. it. C. De Michelis, Roma, La Repubblica, 2004, pp. 253-254). 9 G. Lukács, "Il bolscevismo come problema morale", cit., pp. 117-118. 40 O espectro de Lukács 10 Cfr. G. Lukács, "Tattica ed etica", in Id., Scritti politici giovanili 1919-1928, tr. it. P. Manganaro e N. Merker, Bari, Laterza, 1972, p. 9. 11 Cfr. G. Lukács, "Il ruolo della morale nella produzione comunista", in Id., Scritti politici giovanili (1919-1928), cit., p. 57. 12 G. Lukács, Sulla questione del parlamentarismo (1 marzo 1920), in G. L., Scritti politici giovanili 1919-1928, cit., p. 76. 13 Idem, p. 80. 14 Lenin, “Kommunismus“ (12 giugno 1920), in Opere, XXXI, Roma,1967, p. 134. 15 G. Lukács, "I compiti della sinistra nella società occidentale", in G. L., Cultura e potere, a cura di C. Benedetti, Roma, Editori Riuniti, 1974,, p. 162. 16 G. Lukács, "Questioni organizzative della Terza Internazionale", in Id., Cultura e rivoluzione, a cura di G. Spagnoletti, Roma, Newton Compton, 1975,, p. 93. 17 Cfr. G. Lukács, "Prefazione del 1967", a G. L., Storia e coscienza di classe, tr. it. G. Piana, Milano, Sugarco, 1978, p. IX. 18 Ibden. 19 Idem, p. XIX. 20 G. Lukács, "Che cos è il marxismo ortodosso?", in G. L., Storia e coscienza di classe, cit., p. 2 21 G. Lukács, "Prefazione del 1967", a G. L., Storia e coscienza di classe, cit., p. VII. 22 G. Lukács, "La reificazione e la coscienza del proletariato" in G. L., Storia e coscienza di classe, cit., III, p. 224. O paralelo entre a lógica hegeliana e a lógica do capital é retomado, por exemplo, por Dussel, que ao analisar a relação entre a dialética hegeliana e marxista sustentou o paralelo entre ser e valor, entre ser determinado e mercadoria, entre qualidade e valor de uso, entre quantidade e valor de troca, entre medida e dinheiro, entre a passagem na essência e a transformação do dinheiro em capital e, portanto, entre a essência e o capital, entre a essência como reflexoem si mesma e o processo de produção do capital, entre o mundo fenomênico e o processo de circulação. do capital, entre a realidade como unidade de essência e existência e realização do capital, isto é, unidade de produção e circulação de mercadorias. Cfr. E. Dussel, “Semejanzas de estrctura de la lógica de Hegel y El Capital de Marx", in E. D., Historia de la filósofia y Filósofia de la Liberación, Bogotá, Nueva America, 1994, pp. 187- 204. In italiano in Enrique Dussel, Un Marx sconosciuto, a cura di A. Infranca, Il Manifestolibri, Roma, 1999, pp. 207). 23 G. Lukács "Coscienza di classe" in G. L., Storia e coscienza di classe, cit., p. 100. 24 G. Lukács. "Coscienza di classe", in G. L., Storia e coscienza di classe, cit., p. 67. 25 G.Lukács, "Considerazioni metodologiche sulla questione dell organizzazione", in G. L, Storia e coscienza di classe, cit., p. 405. György Lukács 41 26 G. Lukács, "Introduzione" a Storia e coscienza di classe, cit., p. XL. 27 G. Lukács, "Discorso al dibattito filosofico del circolo Petöfi (estratto)", tr. it. F. Codino, in Id., Marxismo e politica culturale, Torino, Einaudi, 1977, p. 85. 28 G. Lukács, La democrazia della vita quotidiana, tr. it. A. Scarponi, Roma, Manifestolibri, 2013, pp. 67-68. 29 G. Lukács, Ontologia dell’essere sociale, tr. it. A. Scarponi, Roma, Editori Riuniti, 1982, vol. II, cap. 4, § 1, p. 586 e cap. 4, § 2, p. 663. 30 G. Lukács, Notizen zur Ethik, hrsg. Gy. I. Mezei, Budapest, Akadémiai Kiadó, 1994, K/63 e cfr. K/53, pp. 104-105. 31 G. Lukács, "Lettera del 27 agosto 1967 a W. Hoffmann" in G. Lukács- W. Hoffmann, Lettere sullo stalinismo, a cura di A. Scarponi, Gaeta, Bibliotheca, 1993, p. 73. 32 Cfr. G. Lukács, Estetica, tr. it. A. Marietti Solmi, Torino, Einaudi, 1970, X/1, p. 744. 33 Idem, XII/1, p. 998-1001. 34 Idem, I/1, p. 41. 35 Idem, III, p. 210. 36 Karl Marx, Il capitale, III, cap. 48, tr. it. M. L. Boggeri, Torino, Einaudi, 1975, pp. 1101-1102. 37 G. Lukács, Ontologia dell’essere sociale, tr. it. A. Scarponi, Roma, Editori Riuniti, 1976, vol. I, cap. IV, § 3, p. 381. 38 Cfr. G. Lukács, Ontologia dell’essere sociale, tr. it. A. Scarponi, Roma, Editori Riuniti, 1981, vol. II, cap. 1, p. 13. No sentido de "fenômeno original", "modelo", "princípio", "fundamento", etc. cf. meu ensaio Trabajo, Individuo, Historia. El concepto de trabajo en Lukács, Buenos Aires, Herramienta, 2005. 39 G. Lukács, "Sul dibattito tra Cina e Unione Sovietica", in Id., Marxismo e politica culturale, Torino, Einaudi, 1977, p. 143. 40 Conversazioni con Lukács, di W. Abendroth, H. H. Holz e L. Kofler, tr. it. C. Pianciola, Bari, De Donato, 1968, p. 67. 41 G. Lukács, Ontologia dell’essere sociale, cit., vol. II, cap. 3, § 2, p. 404. 42 Cfr. Ivi, cap. 3, § 2, p. 397. 43 G. Lukács, Versuche zu einer Ethik, cit., fr. O/139, pp. 48. 44 G. Lukács, La democrazia della vita quotidiana, a cura di A. Scarponi, Roma, Manifestolibri, 2013, p. 88. 45 G. Lukács, Testamento politico, a cura di A. Infranca e M. Vedda, Milano, Punto Rosso, 2015, pp. 108-109. O triunfo da manipulação: O "último Lukács" e a crise estrutural do capital 2Giovanni Alves Na última década de vida (1961-1971), György Lukács acom- panhou com atenção o que podemos considerar como sendo os primórdios da nova temporalidade histórica aberta com a crise estrutural do capital, ou ainda, o inicio da fase de decadência histó- rica do capitalismo manipulatório tal como se constituiu após o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945. A partir de meados dos anos 1960, Lukács tinha consciência de que, com a crise do American way of life, “estávamos no limiar de uma profunda crise mundial” (foi o que ele ob- servou em 1969) (Lukács, 2021:137). O velho filósofo magiar estava no seu último período de vida: o que denominamos "último Lukács", que correspondeu aos anos de 1955 a 1971, ano de sua morte (numa entre- vista de 1966. ele observou: "Comecei minha verdadeira obra aos setenta anos") (Lukács, 2021: 29). A profunda crise do sistema global do capital teve como principal marco histórico, a primeira recessão global após 1945 (1973-1975). Ela foi o cume de um processo de crise iniciado em meados da década de 1960. A grande crise impulsionou a partir dos anos 1970. a fúria reestruturativa do capital com a profunda (e larga) reação capitalista nas mais diversas esferas da vida social que persiste há mais de meio século. Podemos caracterizar a nova temporalidade histórica do capital global pela reestruturação produtiva (tecnológica, organizacional e territorial), O triunfo da manipulação 43 que teve profundos impactos na morfologia da classe operária; as políticas neoliberais de flexibilização do trabalho com a degradação da contratação salarial; e o aumento do desemprego de massa e a constituição de um novo e precário mundo do trabalho. Além disso, a crise de hegemonia do capital na produção e reprodução social, fez com que, a partir da década de 1970, o sistema impulsionasse uma verdadeira “revolução cultural” com o pós-modernismo e a disse- minação dos valores neoliberais. A mutação da ordem global do capital adquiriu impulso com o colapso das experiencias socialistas no Leste Europeu e URSS; a crise dos partidos socialistas e comunistas e a derro- cada do sindicalismo de classe. Abriu-se a nova temporalidade histórica do capitalismo manipulatório, o capitalismo global tal como o denominamos como fase histórica tardia do capitalismo manipulatório (Alves, 2018). A nova ordem global neoliberal do capital caracteriza-se essencialmente pelo aprofundamento e triunfo da manipulação tal como percebida por Lukács em meados da década de 1960. A revolução informacional (Lojkine, 1995); e a constituição da Internet e das redes sociais na década de 2010, além da proliferação dos smartphones e o império das corporações tecnológicas de informação e comunicação, aprofundaram a manipulação na vida cotidiana numa dimensão inaudita (trabalho, consumo, politica). Pelo menos em cinquenta anos (1970-2020), o triunfo da manipu- lação representou o aprofundamento do fetichismo da mercadoria e do estranhamento na vida social, consumando-se no sociometabolismo da barbárie (Alves, 2011). Nas entrevistas de Lukács da década de 1960 temos os elementos que vislumbram como problema fundamental da era do capitalismo senil, a intensificação e amplitude da manipulação e o aprofundamento do fenômeno do estranhamento tal como concebido por Lukács. Acompanhando o mestre, István Mészáros percebeu a importância da problemática da alienação publicando em 1970, “A teoria da alienação em Marx” [Marx´s theory of alienation, título original da 1ª. edição inglesa pela Merlin Press. A edição alemãdo livro publicada em 1973, intitulou-se Der Entfremdungsbegriff bei Marx, publicado pela List Verlag Munchen]. Num primeiro momento, iremos demonstrar que o último Lukács (1955-1971)1 previu a nova era do capitalismo manipulatório tal como se manifestou no auge (e crise) do capitalismo fordista-keynesiano após a Segunda Guerra Mundial. A partir de passagens de suas entrevistas organizadas por Ronaldo Vielmi Fortes no livro publicado pela Boitempo editorial (2020), iremos salientar a atualidade candente das reflexões tardia 44 O espectro de Lukács (e incompletas) do último Lukács2. Foi a profunda (e larga) crise capitalista da década de 1970 que levou à formação e ascensão do capitalismo global tal como nós o conhecemos. Um traço candente do capitalismo global é a exacerbação da manipulação. Na verdade, após a morte de Lukács em 1971, verificamos nas décadas seguintes de ascensão e crise do capitalismo global, o triunfo da manipulação e o sociometabolismo da barbárie com sendo o traço fundamental do sistema global do capital. Depois iremos tratar de modo introdutório, da natureza do capitalismo manipulatório e do aprofundamento do estranhamento como traço ineliminável de exacer- bação do choque reacionário do capital tal como se verificou nas décadas seguintes.Embora Lukács não tenha percebido o debacle das experiências socialistas do Leste Europeu e da URSS e tenha subestimado a capacidade do sistema global do capital – no caso, o capitalismo estadunidense – em reagir a sua crise profunda tal como ele constatou na década de 1960, as percepções dele sobre a necessidade de renovação do marxismo (critica do stalinismo, o socialismo como democratização da vida cotidiana e a afirmação do método do marxismo ontológico capaz de entender as mudanças substanciais do capitalismo tardio, isto é, o surgimento do capitalismo manipulatório e suas implicações ético-políticas e ideológicas). Parte I década de 1960: a cRise ideolóGica do capital Um dos temas candentes das várias entrevistas dadas pelo velho Lukács foi a crise da hegemonia estadunidense, não apenas pelo esgotamento do ciclo de crescimento da economia dos países capitalistas centrais, mas pela irrupção do movimento contra a guerra do Vietnã, a contracultura, a luta dos negros pelos direitos civis e pela revolução social, o movimento estudantil contestando os pilares da ordem burguesa tal como se consti- tuiu no imediato pós-guerra, as guerras de libertação nacional na África. Na perspectiva da totalidade do sistema-mundo do capital, tais eventos eram indícios da profunda crise geral do capitalismo e na perspectiva de Lukács, a falência da ideologia do American way of life. Numa entrevista de 1968, Lukács interpretou isto como sendo a crise ideológica do sistema: As ideologias formadas nos países capitalistas determinantes, sobre a base da vitória de 1945, entraram, sem exceção, em crise. Isso se vê claramente nos Estados Unidos, onde o sonho da ‘hegemonia estadunidense’ política e ideo- lógica depois de 1945, e a ilusão referente ao modo de viver estadunidense, desabou. Hoje, mais ainda, a guerra do Vietnã e as enormes dificuldades O triunfo da manipulação 45 de integração dos negros tornam evidente que essa ideologia estadunidense formada em 1945 está quase completamente falida (Lukács, 2020:43). É curioso que Lukács tenha acreditado na impossibilidade de incor- poração dos negros no capitalismo estadunidense (Lukács, 2020:198). A virada capitalista ocorrida na década de 1970, mostrou o folego do sistema capitalista estadunidense na renovação ideológica visando incorpora-los, tal como ocorreu com o movimento da juventude e das mulheres, na perspectiva liberal. Este foi um dos elementos do triunfo da manipulação. Mas, pelo menos desde 1966, como nos mostram as entrevistas de Lukács, ele observou sinais de crise do establishment. A ebulição social nos EUA e na Europa Ocidental indicava fraturas na ordem do capitalismo tardio. Em 1964, Herbert Marcuse publicou One-Dimensional Man: Studies in the Ideology of Advanced Industrial Society (no Brasil, o livro intitulou-se “A ideologia da sociedade industrial: O homem unidimensional”). Marcuse destacou a integração do proletariado pela sociedade industrial, vendo no movimento de contestação estudantil, os novos sujeitos revolucionários. Entretanto, diferentemente de Marcuse, Lukács foi um crítico dos movi- mentos de contestação intelectual e estudantil do sistema no Ocidente. Numa entrevista de 1969 observou: Estudantes e intelectuais ainda não produziram um programa genuinamente elaborado. O programa que eles produzem na maioria dos casos é muito ingênuo. Os jovens, por exemplo, muitas vezes falam sobre a necessidade de eliminar a manipulação e fazer do trabalho um jogo. Isso levaria à renovação do que [Charles] Fourier exigia no início do século XIX e que Marx ironizou nos anos 1840. Estamos lidando com um movimento ainda muito imaturo ideologicamente, mas que deve ser valorizado positivamente, porque repre- senta uma oposição às contradições da sociedade capitalista manipulatória (Lukács, 2020:137). E destacou: “Em termos de história universal, estamos no limiar de uma crise mundial. Esse período pode durar cinquenta anos. Isso deve ser esclarecido de vez, devemos germinar num tempo histórico de crise estar plenamente cientes disso” (Lukács, 2020:137) Lukács colocou a problemática da crise ideológica na perspectiva da luta de classes. Em que medida o movimento socialista poderia dar res- posta à crise? Disse ele: “A ideologia do American way of life está entrando em colapso com a guerra do Vietnã, como também internamente, com a questão dos negros. A situação é análoga na Inglaterra e mesmo em outros lugares. Trata-se de saber em que medida somos capazes de suplantar essa ideologia e apresentar uma nova ideologia” (Lukács, 2020:137) [o grifo é 46 O espectro de Lukács nosso]. Isto é, teriam os países do socialismo burocrático capacidade de apresentar uma nova ideologia que fizesse a disputa pela hegemonia cul- tural no Ocidente. Lukács destacou o dano desastroso do stalinismo no movimento dos trabalhadores europeus. A nostra res agitur – o sentimento de que, por exemplo, o que estava acontecendo na União Soviética e nos países socialistas era algo decisivo para a própria vida dos trabalhadores europeus (sentimento que havia na Europa logo após a Revolução Russa de 1917), só poderia ser recuperado com a revitalização da democracia socialista. Na perspectiva lukacsiana, a crise do capitalismo manipulatório representava a crise ideológica. Não se tratava de mera crise da economia capitalista (crise de lucratividade) tal como “explodiu” na recessão global de 1973-1975. Era uma crise cultural. Lukács salientou que a insatisfação com o capitalismo poderia ou não ser aproveitada pelo socialismo. Esta era a questão: Todos aqueles que estão insatisfeitos com o capitalismo, tanto económica quanto política e culturalmente, voltam-se instintivamente para nós para obter uma resposta inteligente a seus problemas. Agora, se lhes dermos uma resposta burocrática, nascida de um pensamento tático momentâneo, ou das obras de um suposto escritor bem considerado por nós, fica claro que o prestígio do socialismo diminui e se forma cada vez mais a opinião no Ocidente - entre os que não defendem o capitalismo, porque não podem defendê-lo - de que o destino da humanidade é, em essência, sem esperança, e infelizmente muita coisa já foi formada nesse sentido; nem o capitalismo nem o socialismo conse- guem dar uma resposta. Por isso temos a séria responsabilidade de prescrever imperativamente a via que devemos percorrer. (Lukács, 2020:137) A ruina do capitalismo não significaria o triunfo do socialismo. Foi isto que Lukács destacou. Caso o socialismo não apresentasse produtos culturais de ordem superior e a democratização da vida cotidiana, ele não conseguiria dar resposta às insatisfações das massas e aproximar a juventude do marxismo. O sentimento de revolta iria se diluir e o sistema do capital poderia se recompor numa nova ofensiva ideológica. Foi o que histori- camente aconteceu nas décadas de formação e ascensão do capitalismo global - os anos 1970-1990, quando o capital fez uma revolução cultural. A vigência dos valores do capitalismo liberal (individualismo, hedonismo e concorrencia) representou o triunfo da manipulação e a derrocada do socialismo burocrático que teve sua expressão histórica com o fim do Leste Europeu e da URSS. Com as primeiras manifestações da crise estrutural do capital em fins da década de 1960, colocou-se mais do que nunca, a necessidade da O triunfo da manipulação 47 renovação do marxismo na perspectiva de dar resposta às insatisfações das massas. Lukács na entrevista de 1970 foi bastante perspicaz ao reconhecer que “estamos num começo de choque revolucionário” (Lukács, 2020:191). Não se tratava de mera crise cíclica do capitalismo tardio. Naquela nova época histórica, o fator subjetivo era importante, senão fundamental, inclusive para calibrar o tempo de duração da crise. Mészáros denominou a crise do sistema global do capital de crise estrutural do capital, que - na perspectiva de hoje (2022), persiste há pelo menos cinquenta anos (1970-2022). Consideramos o capitalismo global como sendo a forma histórica da crise estrutural do capital no interior da qual as contradições do valor “afetado de negação” se manifestam com desenvoltura (Alves, 2018). A invasão da Tchecoslováquia pela URSS em 1968 abateu a perspectiva otimista de Lukács no renascimento do socialismo. Na entrevista dada em 1970 pelo velho filosofo marxista a Franco Ferraroti, Lukács foi duro com o marxismo. “[…] ainda somos todos stalinistas. Sem uma teoria geral da sociedade e de seu momento não se sai do stalinismo.” O marxismo enquanto única teoria geral da sociedade estava fechado. Lukács obser- vou que o marxismo como uma teoria geral da sociedade e da história, sofreu uma interrupção: “Fechou-se”, disse ele. Ao ser provocado por Ferraroti, foi mais duro: “[o marxismo] não existe mais, já terminou já a algum tempo [...] não há mais teóricos. Existem apenas táticos” (Lukács, 2020:207) – isto é, aqueles que põem a prática a frente da teoria “e talvez contra ela”, tal como fez Stálin. No conjunto de entrevistas, Lukács salientou, de modo enfático, a necessidade dos marxistas irem além dos fragmentos e criarem uma teoria marxista da análise dos fenômenos sociais hodiernos (Lukács, 2003:78). Esta é a perspectiva da “totalidade concreta” que desde “História e Consciência de Classe: Estudos sobre a dialética marxista” (HCC) em 1923, Lukács tem enfatizado como sendo a perspectiva marxista. Enfim, não se tratou de mera crítica da economia política, embora ela própria seja a condição necessária para uma análise materialista do capitalismo manipulatório. A necessidade do novo O Capital é interpretar o novo capitalismo da crise, sendo esta a necessidade da luta ideológica. O renascimento da teoria e do método de Marx ocorreria quando enfrentarmos uma nova teoria marxista da reprodução ampliada, abrangendo de acordo com ele, três complexos de problemas: Em primeiro lugar, a genuína análise teorética da teoria da reprodução ampliada apresentada no Livro II de O Capital, pois de acordo com Lukács (e a confirmação de Engels), existem lacunas, sendo a descrição de natureza fragmentária. É curioso que Lukács tenha 48 O espectro de Lukács feito referência ao Livro II, mas não ao Livro III, onde hoje se concentra as críticas daquelas que dizem que Marx não tem uma teoria da crise capitalista (Nozaki, 2021). Em segundo lugar, Lukács destacou que Karl Marx escreveu O Capital há cem anos (1967-1867), exigindo de nós, uma análise efetiva do capitalismo hoje existente: Isso ainda não aconteceu. Não sou economista nem especialista nesse assunto, apenas me permita apontar um exemplo: na época de Marx basicamente só a indústria pesada e algumas indústrias de matérias-primas eram realmente capitalistas. Aquilo que era produzido para o consumo e para os chamados serviços estava quase inteiramente no nível do artesanato. E ao ler as teorias de Marx, você verá que evidentemente - isso não é uma cesura, pois não poderia ser de outra forma - elas estão baseadas no capitalismo que realmente existia em sua época (Lukács, 2020:213). Lukács salientou em meados da década de 1960 que o ramo de serviços se tornou um grande território capitalista. Mas, não se trata apenas de falar em “sociedade de consumo”. Economicamente, o capitalismo em tempos anteriores a Marx era um capitalismo da chamada indústria pesada no sentido mais amplo, e a produção dos meios de consumo estava em grande parte nas mãos dos artesãos. Lukács observou que isso teve duas consequências: Uma consequência foi que, para o capitalismo, o consumo dos trabalhadores era algo completamente indiferente, pois os bens de consumo dos trabalhadores eram comprados de pequenos artesãos e não-capitalistas, de modo que, para o capitalismo, se o trabalhador ganhava x ou 2x por semana, do ponto de vista económico, isso era completamente indiferente. [O capital] acumulava expropriando os pequenos artesãos, os artesãos entraram na fábrica, e o assunto acabou. Enquanto isso o processo tomou seu rumo, gradualmente e a indústria de bens de consumo se tornou completamente capitalista e mesmo, como se pode ver em toda parte, os chamados serviços, que há 100 ou 150 anos não tinham nada a ver com o capitalismo (Lukács, 2020:174/175) O filosofo húngaro deu um exemplo da sua vida cotidiana: Não sei se você sabe - você é muito jovem para isso, eu sei -, as férias de verão em minha juventude consistiam em alugar parte de um casarão num lugar com o dono do casarão e cozinhar com um cozinheiro da aldeia, ou passar o verão com os próprios cozinheiros, que eram levados para as terias. Hotéis em balneários eram grandes raridades naquela época. Não digo, pois, que Carlsbad, Marienbad etc. não tinham hotéis. Mas é claro que, de fato, ainda O triunfo da manipulação 49 que mais ridículas, remotas e climáticas, naturalmente não havia nas aldeias algo que pudesse ser considerado um hotel (Lukács, 2020:175). Enfim, o capitalismo tornou-se o proprietário de toda a indústria de produção, de toda a indústria de bens de consumo e de todos os serviços. Como resultado, por um lado, o terreno para a aquisição de novos trabalhadores tornou-se muito menor. Não existem mais artesãos, ou existem apenas em número mínimo: eles tiveram de perecer para se tornar trabalhadores na fábrica. Assim, a ampliação extensiva do capita- lismo torna-se mais difícil, ressaltando em uma ampliação intensiva por meio do aperfeiçoamento dos meios de produção. E, em segundo lugar, o capitalismo passou a ver seriamente o trabalhador como um consumidor. Por conseguinte, todo o capitalismo tem interesse – disse ele – “de que os salários aumentem e a hora de trabalho se reduza, pois, ao fazê-lo, o trabalhador torna-se um melhor consumidor, uma questão que no tempo em que Marx viveu nem sequer existia como questão” (Lukács errou ao desconsiderar que, face a crise de lucratividade tal como se manifestou na recessão global de 1973-1975, a lógica do capitalismo tardio em sua fase de decadência histórica, não permitiu manter a indexação dos salá- rios reais e produtividade do trabalho tal como ocorreu no capitalismo fordista-keynesiano). Portanto, a expansão da indústria de bens de consumo e da maioria dos “serviços” não se tratou de mera extensão quantitativa da esfera de influência do capitalismo, mas sim de mudanças qualitativamente novas diretamente relacionado do ponto de vista económico com o consumo da classe trabalhadora. A predominância da mais-valia relativa significou a expansão da reificação (e estranhamento) na vida social (eis a reiteração do “velho” tema que Lukács abordou em HCC de 1923). Disse ele: Sem entrar em detalhes, permita-me constatar como consequência disso, o mais-valor relativo, como forma de exploração acaba dominando o mais-va- lor absoluto, pois somente essa nova garantir a intensificação da exploração em caso de aumento do consumo con. temporâneo (e do tempo livre) dos trabalhadores. Com isso, no entanto, o capitalismo não deixa de ser capita- lismo. Marx escreveu em algum lugar que somente com o predomínio do mais-valor relativo, a “subsunção real” da economia pôde ocorrer no capita- lismo (Lukács, 2020:216). Foi com a dominância dos serviços que a produção social em sua tota- lidade se tornou capitalista. Portanto, observou ele, “não é coincidência que o chamado mais-valor absoluto tenha se tornado o fator dominante 50 O espectro de Lukács na exploração capitalista da época. Desde que a produção global se tornou capitalista - de acordo com as estatísticas estadunidenses, há mais pessoas empregadas nos serviços hoje do que na indústria pesada – o consumo da classe trabalhadora é da maior importância para o funcionamento do capital global. Mas existem problemas para o capital global na medida em que o consumo da trabalhadora se tornou da maior importância. Diz ele: “[...] o consumo total da sociedade representa um problema, pois se põe questão de que ostrabalhadores são considerados consumidores do capitalismo. Mas o capitalismo só pode resolver essa questão de maneira puramente mercadológica”. Enfim, para Lukács o capitalismo abarca, investe, compreende muito de perto, até condiciona, todos os aspectos da vida. A lógica do capitalismo tende a coincidir com a própria lógica do processo social como tal, expandindo-se e envolvendo-se toda a vida social: “Do capitalismo parcial do último século passamos para o capitalismo generalizado. Nesse sentido, longe de estar exaurido, pode-se dizer que o marxismo nem mesmo começou. Em todo caso, e paradoxos à parte, é preciso complementar o marxismo; é preciso estudar aquilo que Marx não estudou a fundo.” [o grifo é nosso](Lukács, 2020:204) O que Lukács reiterou de modo persistente, foi que, o capitalismo de hoje, isto na década de 1960, é, precisamente enquanto capitalismo, algo muito diferente do capitalismo da época de Marx. Podemos dizer do mesmo modo: o capitalismo do século XXI é precisamente do mesmo modo, diferente do capitalismo tardio em sua fase de ascensão histórica (1945-1975). A reivindicação lukacsiana foi produzir uma análise do capitalismo que, com métodos marxistas, mostre precisamente as carac- terísticas específicas do capitalismo hoje. (p.159). Enfim, temos hoje uma economia capitalista, mas estruturada de outro modo. E devemos agora submeter todas as categorias que Marx estabeleceu para o capitalismo da década de 1880 a uma nova investigação marxista. A necessidade da luta ideológica faz com que seja preciso ir além do dogmatismo. Para Lukács é o marxismo dogmático que nos coloca a espera da eclosão de uma nova crise como a de 1929. Ao mesmo tempo, é preciso confrontar os teóri- cos burgueses que dizem não existir mais capitalismo e que a análise de Marx é um documento do século XIX. Disse ele: “Embora eu não seja economista, penso que essa transformação pode ser inteiramente explicada com a ajuda do método marxista” (p. 211). Mas Lukács alertou que “os motivos econômicos não explicam nada. É preciso sempre estar atento ao risco de interpretar mecanicamente o marxismo. A interpretação positivista O triunfo da manipulação 51 do marxismo é premissa, política e filosófica, do oportunismo e também do stalinismo.” (p, 211). Finalmente, em terceiro lugar, Lukács observou que há cem anos, Marx pôde examinar as leis de reprodução da forma social de produção apenas no capitalismo. Hoje – diz Lukács - podemos perguntar se, além do número certamente considerável de aspectos comuns existentes na reprodução capitalista e na socialista, não existem determinações que se fazem valer em ambas as formações sociais. Inclusive, isto trata de um problema teórico muito importante; por isso, não se deve antecipar precipitadamente seus resultados. O renascimento do marxismo é isso: “Examinar exatamente quais são as peculiaridades económicas do capitalismo de hoje e então fazer com que a atitude em relação ao capitalismo dependa dessa análise e não das análises de oitenta anos atrás”. (p. 175) Lukács salientou a necessidade de elaboração de uma teoria geral mar- xista aplicada às condições atuais – o que se trata de uma tarefa coletiva e não de pensadores solitários individuais: “Há fenômenos novos sobre os quais não temos nada a dizer”. Mas, como iremos ver na próxima citação, Lukács cometeu erros teóricos na análise da economia política do capita- lismo tardio, superestimando, por exemplo, a capacidade do capitalismo tardio em driblar as crises por meio do consumo – pelo menos enquanto mecanismo da economia política (trata-se de um viés subconsumista que caracterizou por exemplo, a economia política marxista de Paul Baran e Paul Sweezy (vide “Capitalismo monopolista: Ensaio sobre a ordem econômica e social americana” [Monopoly capital: An essay on the ame- rican economic and social order], publicado originalmente em 1966 (Alves, 2018:130)3. Apesar do desenvolvimento do capitalismo ter conhecido mudanças radicais, qualitativas, isso não significa que se devesse desprezar (como determinação da crise capitalista), a lei do valor e o movimento de queda da taxa de lucro, colocando em seu lugar, o aumento de salários reais indexada a taxa de produtividade (o consumo da classe trabalhadora). Disse ele: Observo que os marxistas esperam pela grande crise do capitalismo, mas o capitalismo não tem uma crise de grande relevo desde aquela de 1929, porque, atualmente, o capitalismo tornou posse de toda a vida social. Não me agrada dizê-lo, mas é a verdade. O consumo em massa dos trabalhadores se tornou muito importante como meio de eliminar as crises do capitalismo. Do mercado estrutural, objetivo, dotado de uma função social importante, em muitos aspectos revolucionária, como Marx e Engels conheceram, em com- paração à idiotia da vida rural e à tradição em geral, passamos ao mercado 52 O espectro de Lukács manipulado deste século. Nossa análise estancou, o capitalismo continuou a evoluir. Nós paramos com Lênin. Depois dele não houve marxismo. (Lukács, 2020: 191) (o grifo é nosso) A idéia de capitalismo manipulatório como sendo a sociedade de consumo, tornou-se um idéia fértil enquanto movimento de reprodução social por meio da ideologia do mercado manipulado. Entretanto, o que explica a disseminação da manipulação como estratégia de reprodução social é a crise de produção de mais-valor. A discussão da crise capitalista tornou-se a partir da década de 1970 bastante fértil, o que não ocorria desde os anos de 1920 com a tese do colapso capitalista. Lukács confrontou a “teoria do colapso”, mas não ofereceu uma teoria da crise adequada à era de crise estrutural do capital que se iniciou com a crise do capitalismo tardio (o economista Ernest Mandel fez uma brilhante contribuição em 1972, com o livro “O capi- talismo tardio”). Mas Lukács enfatizou a crise da ideologia capitalista. A crise ideolófica é a forma fundamental da crise do capital nas condições do capitalismo manipulatório. É disso que se trata. Ele não faz uma discussão de crítica da economia política, mas sim de crítica da reprodução capitalista por meio da manipulação que se tornou - mais do que nunca - elemento crucial do sistema global do capital. Por exemplo, ao colocar o consumo e o tempo livre como elementos do capitalismo manipulatório ou da socie- dade industrial mais desenvolvida, como diria Marcuse, Lukacs remete a novas formas de alienação. É isto que interessa ao filosofo húngaro, pois a ideologia - mais do que nunca - tornou-se crucial na luta de classes: [...] no curso do século passado, a duração da jornada de trabalho foi uma questão importante: passou de quatorze horas para treze, doze, dez e assim por diante. Hoje, a própria questão se põe de maneira diferente. Não é tanto a duração da semana de trabalho que é importante; o importante é saber e programa o que os trabalhadores farão durante seu famoso «tempo livre”, o que eles consomem, aonde vão ... No século passado, em seus projetos e especulações, o capitalista não levava nunca em consideração a capacidade de consumo dos trabalhadores, porque esta era com efeito tranquilamente negligenciável. O capitalismo estava interessado, sobretudo, nos investimentos de base, na grande indústria. Importantes setores da vida coletiva lhe eram indiferentes. Hoje, o capitalismo se interessa profundamente por toda a vida social, desde botas femininas até automóveis, de utensílios de cozinha aos O triunfo da manipulação 53 meios de entretenimento... É uma mudança qualitativa sobre a qual sabemos pouco. [Lukács, 2020:215/216] Na segunda parte do ensaio iremos tratar da nova dinâmica sociome- tabólica do capitalismo manipulatório a partir de mudanças estruturais do modo de produção capitalista. Nossa hipótese é que o filósofo hún- garo conseguiu apreender a natureza manipulatória do capital em sua etapa de ascensão histórica. A questão é que assistimos hoje o capitalismo manipulatório na etapade crise estrutural do capital, onde a problemática da manipulação se torna mais candente por conta do capitalismo global. A idéia de capitalismo manipulatório, muito mais fértil que a de socie- dade industrial ou de “homem unidimensional” (Marcuse), tornou-se eixo central de uma percepção analítica que é o próprio pressuposto material da necessidade da ontologia e da nova ética marxista. Apesar da impor- tância da economia na perspectiva ontológica, a dimensão fundamental (e nem sempre foi assim) é hoje, mais do que nunca, a dimensão cultural no sentido do campo material a partir do qual os indivíduos fazem suas escolhas ético-moral diante das alternativas colocadas numa situação de crise. Por isso, a temática do estranhamento para ele foi tão crucial pois dizia respeito à luta política nas condições de crise estrutural e profunda manipulação do capital. Lukács não utilizou o termo “crise estrutural”, mas sim, “crise geral do capitalismo”. Mas ele sabia que a crise mundial que se manifestou em meados da década de 1960 não seria apenas uma crise cíclica qualquer, mas, de acordo com ele, poderia décadas (Lukács, 2020:137). Na ver- dade, com a crise estrutural do capital, a dinâmica do sistema seria o da “produção destrutiva” (Mészáros,2002:605). A ênfase na “democratização da vida cotidiana” como parte intrínseca da crítica do stalinismo, não foi mera “redução teoricista” de Lukács, como supõe José Paulo Netto na “Introdução” ao livro “Socialismo e democratização: Escritos políticos (1956-1971)”, de György Lukács (p.21/22), mas elemento necessário posto pela emergência da luta contra a manipulação que tem, como raiz, a vida cotidiana. Talvez o velho Lukács tenha sido, até certo ponto, otimista com a pos- sibilidade de reestruturar o socialismo burocrático por meio das reformas econômicas – e não apenas: ele foi enfático na afirmação da importância da democratização da vida cotidiana, pois, sem ela, a reestruturação da eco- nomia era impossível (foi o que, de fato, aconteceu). Nas suas entrevistas 54 O espectro de Lukács depois da invasão da Tchecoslováquia em 1968, Lukács tornou-se mais pessimista sobre a possibilidade de reformar o socialismo burocrático. Mas, após a morte do velho filosofo húngaro em 1971, o triunfo da manipulação ocorreria no plano do sistema global do capital - não só com a persistência do stalinismo nos países de socialismo burocrático, mas com a manipulação capitalista na política (apodrecimento da democracia liberal) e no consumo (o consumismo disseminado pelo globo com a ofensiva do capital a partir da globalização liberal). A vigência do neoliberalismo e a formação e ascensão do capitalismo global, e logo depois, a crise global de 2008 e o aprofundamento do sociometabolismo da barbárie, caracterizam a era de triunfo da manipulação (1980-2020). O triunfo da manipulação adquiriu substancia com a barbárie social alterando os termos do estranhamento, não apenas o reino do consu- mismo e a manipulação do tempo livre (os termos do capitalismo tardio historicamente ascendente), mas as novas formas de precarização da vida e do trabalho e a redução do tempo de vida (otium) a tempo de trabalho (Alves, 2013). A problemática da redução da jornada e do tempo livre, tendo em vista o "salto mortal" da produtividade do trabalho, perdeu importância da pauta de luta do movimento operário. Passou a vigorar a lógica da flexibilização do trabalho, a disseminação do precariado e da nova pobreza com a disseminação da forma extremas de particularismo (ou estranhamento). Mais do que nunca, coloca-se a necessidade urgente do marxismo dá respostas teóricas para o novo tempo histórico de bar- bárie social. Parte II o tRiunfo da Manipulação e o socioMetabolisMo da baRbáRie Na Parte I do nosso ensaio vimos que, em suas últimas entrevistas (1966-1971), as reflexões do último Lukács estava incisivamente voltada para a crítica da manipulação nos vários âmbitos do pensamento e da atividade do homem. Iremos nos deter para demarcar com cuidado o tema da manipulação na era do capitalismo tardio, na entrevista de 1965, concedida para os intelectuais alemães Hans Heinz Holz, Leo Kofler e Wolfgang Abendroth, publicada originalmente no Brasil, no livro “Con- versando com Lukács” (Ed. Paz e Terra, 1965). Gyorgy Lukács denominou o capitalismo do pós-II guerra mundial de “capitalismo manipulatório” (o que Ernest Mandel denominou de “capitalismo tardio”). Na verdade, sob o capitalismo tardio, a manipulação torna-se nexo essencial do metabolismo O triunfo da manipulação 55 social, penetrando os vários poros da vida cotidiana. A manipulação tor- nou-se a matriz estruturante e estruturadora da alienação em sua forma intensa e ampliada, contribuindo, deste modo, para a desefetivação do ser genérico do homem. Lukács colocou que, com a nova realidade sócio-histórica do capi- talismo manipulatório, tornam-se necessárias investigações ontológicas sobre a natureza da alienação/estranhamento que não se reduz àquela constatada por Karl Marx e Friedrich Engels na segunda metade do século XIX. Naquela época, o capitalismo industrial não tinha exposto ainda a manipulação como traço da conformação sociometabólica do capital, o que só ocorreria no decorrer do século XX, o século da modernização capitalista em escala planetária. Em sua entrevista de 1965, o velho Lukács observou que o capitalismo manipulatório é uma forma específica de capitalismo industrial. A partir de crise de 1929, o capitalismo mundial sofreu significativas transformações estruturais que alteraram o metabolismo social do capital. Por exemplo, o comunista Antonio Gramsci, no texto “Americanismo e Fordismo” (de 1934), conseguiu apreender os traços do novo capitalismo por meio dos conceitos de “americanismo” e “fordismo”, que expressam a nova realidade cultural hegemônica do capitalismo da produção em massa, caracterizada não apenas pelo novo modelo de produção de mercadorias, mas pela nova organização da cultura e dos intelectuais. Para György Lukács, o que se colocou como elemento crucial no plano da práxis humana foi o problema da manipulação que ele vinculou à ampliação do mundo das mercadorias, e por conseguinte, da presença da industrialização capitalista em nossas vidas: Se recuarmos 80 ou 100 anos, ao tempo em que Marx trabalhava, vemos que a indústria dos meios de produção estava, em sua essência, largamente organizada em uma escala capitalista; podemos observá-lo na indústria têxtil, na indústria de moagem, na indústria do açúcar, que formavam quase todos os setores económicos da grande indústria capitalista. Ora, nos oitenta anos seguintes, o consumo inteiro foi absorvido pelo processo capitalista. Não falo somente da indústria de sapatos, confec ções, etc; é muito interessante o fato de que com todas essas geladeiras, máquinas de lavar, etc, até mesmo o âmbito doméstico começa a ser dominado pela indústia. Mesmo o setor dos assim chamados serviços torna-se parte da grande in dústria capitalista. A figura semifeudal do empregado domés tico dos tempos de Marx torna-se 56 O espectro de Lukács cada vez mais anacrónica e surge um sistema de serviços capitalistas (Holz, Kofler e Abendroth, 1966: p.150). Produção em massa de mercadoria, consumo e manipulação O capitalismo da produção em massa, denominado “capitalismo fordista-keynesiano”, é o capitalismo da grande indústria, cujos produtos- -mercadorias devassam os mais diversos aspectos da vida social. O processo capitalista ocupou e preencheu os mais diversos espaços do consumo humano. O mundo social tornou-se uma imensa coleção de mercadorias. Foi salientando tal traço do mundo burguês que Karl Marx abriu o capítulo 1 do Livro I de “O Capital”. Diz ele: “A riqueza das sociedades em que domina o modo de produção capitalista aparece como uma ‘imensa coleção de mercadorias’ [...]” (Marx, 1996). Talvez, naquela singela constatação marxiana, que o século XX iria demonstrar à exaustão,estivesse contida o problema da manipulação irremediavelmente vinculada à expansividade da forma-mercadoria que impregnaria os produtos do trabalho humano. Na medida em que a mercadoria é, não apenas valor de uso, mas também valor de troca, a relação de compra-e-venda tende a implicar homens e mulheres com as imposições naturalizadas e, portanto, fetichizadas, do mercado e da lei do valor. Foi a seção 4 do capítulo 1 do livro I de “O Capital”, intitulada “O fetiche da mercadoria e seu segredo” que inspirou Lukács a tratar da reificação capitalista no seu livro clássico “História e Consciência de Classe” (de 1923). Naquela época, pela primeira vez, um autor marxista tratou das implicações do fetichismo da mercadoria no pensamento e na atividade do homem. A produção em massa de mercadorias colocou a necessidade de grandes aparatos de distribuição e circulação de mercadorias que abarcam a totalidade da vida social. Sob o capitalismo monopolista torna-se uma verdadeira obsessão vender produ- tos-mercadorias que são produzidos em larga escala. A grande indústria passou a abranger e transformar em produto-mercadoria, os mais diversos aspectos da vida social, como, por exemplo, a política e o lazer, que são impregnados pela forma-mercadoria. Diz Lukács: Tomemos um grande fabricante de máquinas ou qualquer outro industrial da época de Marx. É claro que sua clientela era extremamente limitada, de modo que podia distribuir seus produtos sem pôr em funcionamento um aparato de maior en vergadura. Mas, com os meios da grande indústria, surge um produto destinado ao consumo de massa (basta pensar em produtos tais como lâminas de barbear) que torna necessário um aparato especial para levar milhões de lâminas de barba aos consumidores particulares. Estou convencido O triunfo da manipulação 57 de que todo o sistema de manipulação, do qual estamos falando, surgiu desta necessidade e depois estendeu-se também à sociedade e à politica. Agora este mecanismo domina todas as expressões da vida social, desde as eleições do presidente até o consumo de gravatas e cigarros ((Holz, Kofler e Abendroth, 1966: p.150) (o grifo é nosso) Deste modo, Lukács vinculou o surgimento da manipulação com a emergência da sociedade do consumo de massa de mercadorias (o que Antonio Gramsci iria tratar em “Americanismo e fordismo”) (Gramsci, 2001). O capital foi obrigado a manipular para poder vender os produtos- -mercadorias e realizar a mais-valia contida neles. Este é o traço candente da nova sociabilidade fetichizada do capital. A perspectiva lukácsiana era uma perspectiva histórico-materialista que leva em consideração a totalidade concreta da produção do capital (produção, distribuição, cir- culação e consumo). A manipulação origina-se do movimento ampliado e voraz do mecanismo da produção do capital. Diz ele: “Agora este mecanismo domina todas as expressões da vida social, desde as eleições do presidente até o consumo de gravatas e cigarros.” ((Holz, Kofler e Abendroth, 1966:150) O que propiciou a expansividade espetacular da forma-mercadoria no século XX foi a nova base técnica da produção de mercadorias baseada na linha de montagem atrelada à esteira mecânica (o fordismo). O sistema de máquinas da grande indústria permitiu, no plano da produção, a posição da subsunção real do trabalho ao capital, cuja contrapartida, no plano da reprodução social, é a manipulação no tocante à imersão do homem que trabalha no mundo das mercadorias. A riqueza capitalista aparece como uma imensa coleção de mercadorias cuja forma de ser impregna a vida social. A idéia de impregnação da vida social pela forma-mercadoria é a idéia da aderência/disseminação do fetiche da mercadoria, tratada por Marx na seção IV do Capítulo 1 do Livro I de “O Capital”) quando buscou desvelar o segredo do “fetichismo que adere aos produtos de trabalho, tão logo são produzidos como mercadorias, e que, por isso, é inseparável da produção de mercadorias” (Marx, 1996:199). Mais-valia relativa e manipulação Em “História e Consciência de Classe” (1923), Lukács tratou, de forma pioneira, das implicações sociais da reificação capitalista na atividade e no pensamento do homem. Naquele estudo clássico, ao tratar da reificação capitalista, o filosófo hungaro abordou um aspecto cricial do problema da manipulação. Lukács explicitou a natureza do metabolismo social do novo capitalismo que emergiu com a expansão da forma-mercadoria sob 58 O espectro de Lukács a produção em massa de mercadorias (o fordismo-taylorismo). Lukács vinculou o problema da manipulação à predominancia da mais-valia relativa na dinâmica de exploração capitalista. Na medida em que se alterou a forma da exploração capitalista, alte- raram-se as condições de vida da força de trabalho no tocante não apenas a sua relação com o processo de trabalho com as novas máquinas no pro- cesso de produção, mas também, com a vigência do novo metabolismo social baseado na forma-mercadoria. Surgiu assim, um novo modo de organização do tempo livre e consumo com implicações decisivas no plano da subjetividade da pessoa-que-trabalha. Na entrevista de 1965, o velho Lukács salientou o novo (e importante) aspecto do problema da manipulação social. Ele observou que foi a exploração baseada na mais- -valia relativa que permitiu que o capitalismo pudesse elevar o nivel de vida do trabalhador, com profundas implicações no plano da consciência contingente da classe trabalhadora: A exploração da classe operária passa cada vez mais da exploração através da mais-valia absoluta para a que se opera através da mais-valia relativa. Isto significa que é possível um aumento da exploração ao lado de um aumento do nível de vida do trabalhador. No tempo de Marx havia algo semelhante, mas apenas em forma embrionária; não digo que não existisse absolutamente. Marx reconheceu, no terreno da economia, e creio que foi êle quem o fêz em primeiro lugar, a mais-valia relativa; mas êle mesmo fêz certa vez, numa parte de ‘O Capital’ não publicada, uma observação muito interessante; isto é: que através da mais-valia absoluta a produção é apenas formalmente sub- sumida ao capital, de modo que a subsunção da produção sob as categorias do capitalismo só surge com a mais-valia relativa, coisa que constitui uma características específica da nossa época (Holz, Kofler e Abendroth, 1966:152) [o grifo é nosso]. A posição da mais-valia relativa significou a instauração do modo de produção capitalistra propriamente dito, tendo em vista que a produção se subsumiu realmente ao capital. Antes, sob a predominancia da mais-valia absoluta, a produção capitalismo estava subsumida apenas formalmente ao capital. Mas o ponto decisivo é que o velho Lukács derivou da passa- gem histórica da subsunção formal à subsunção real do trabalho ao capital no plano da produção capitalista, implicações sociometabólicas; ou seja, a manipulação capitalista foi posta de modo incisivo na medida em que a maior exploração correspondeu, ao mesmo tempo, ao aumento do nivel de vida do trabalhador assalariado, com implicações significativas no plano da consciência contingente do homem que trabalha. Esta é a problemática O triunfo da manipulação 59 do aburguesamento da classe operária. Assim, nas condições históricas do capitalismo tardio, o fetichismo da mercadoria, que oculta, no plano da consciencia contingente, o trabalho social contido nos produtos-mer- cadorias, foi elevado à enésima potência. A exacerbação do fetiche da mercadoria sob o capitalismo tardio constituiu um metabolismo social baseado incisivamente na manipulação social, isto é, na ocultação - não apenas da exploração capitalista - mas da centralidade do trabalho social. Não é apenas o fato da exploração capitalista que é ocultado na forma- -mercadoria, mas o próprio fato dela ser produto do trabalho social. A consciência da alienação - e a natureza da alienação - se alteram de forma significativa, com a presença intensa (e extensa)da mais-valia relativa por conta do "salto mortal" da produtividade do trabalho, e a constituição do mundo social burguês como uma “imensa coleção de mercadorias”. O novo estranhamento Lukács faz uma importante observação sobre a mutação concreta do problema da alienação/estranhamento [Entfremdung] na medida em que se altera o modo de produção capitalista com a vigência plena da mais-valia relativa: O inteiro problema da alienação adquire uma fisionomia inteiramente nova. No tempo em que Marx escrevia os ‘Manuscri tos Económicos e Filosófi- cos’, a alienação da classe operária significava, imediatamente, um trabalho opressivo em um nível quase animal. Com efeito, a alienação era, em certo sentido, sinónimo de desumanidade. Exatamente por este motivo, a luta de classes teve por objetivo, por décadas, garantir, com reivindicações adequadas sobre salário e sobre o tempo de trabalho, o mínimo de vida humana para o trabalhador. A famosa reinvindicação de oito horas de trabalho colocada pela Segunda Internacional é um sintoma desta luta de classe (Holz, Kofler e Abendroth, 1966:165) No plano da consciência contingente do homem-que-trabalha, a alienação na época de Marx, aparecia como desumanidade no sentido de que a classe operária estava submetida a um trabalho opressivo em um nivel quase animal. Naquela época, a exploração capitalista aparecia, quase de modo imediato, à consciência contingente dos trabalhadores assalariados. Além disso, o proletariado industrial não tinha acesso, no plano do consumo, aos produtos-mercadorias da grande indústria capi- talista. No começo do capitalismo industrial, não tinha se constituido a “sociedade de consumo de massa”, o modo de organização social que oculta hoje, no plano do fetichismo da mercadoria, a dimensão incisiva da 60 O espectro de Lukács exploração capitalista. Na medida em que tornou-se vigente a mais-valia relativa, ocorreu o aumento do padrão de vida de uma parcela ampliada da classe dos trabalhadores assalariados, com o acesso do proletariado organizado a uma “imensa coleção de mercadorias” visando satisfazer as novas necessidades criadas pelo modo de produção capitalista. Alterou-se, de modo significativo, segundo Lukács, o problema da alienação/estranha- mento, que se recoloca noutros termos categóricos. Diz ele: “A mais-valia absoluta não morreu, mas simplesmente não desempenha mais o papel dominante; aquele papel que desempenhava quando Marx escrevia os ‘Manuscri tos Económicos e Filosóficos’. Ora, o que daí decorre? Que um novo problema surge no horizonte dos trabalhadores, isto é, o problema de uma vida plena de sentido.” (Holz, Kofler e Abendroth, 1966:162) O que Lukács sugere é o vinculo orgânico entre o problema da manipulação por conta da produção em massa da indústria capitalista e da obsessão candente em vender produtos-mercadorias para a classe trabalhadora com melhor capacidade aquisitiva, mobilizando assim, aparatos de marketing e da propaganda; e o problema do estranhamento, que se manifesta – por exemplo - no problema da vida plena de sentido. Manipulação, estranhamento e falta de uma vida plena de sentido A nova posição da mais-valia relativa operou dois momentos perver- sos no campo da subjetividade da classe do proletariado: Por um lado, aumentou a taxa de exploração ou extração de mais-valia relativa, com a redução do salário relativo4. Na última metade do século XX, o capitalismo tardio levou à exacerbação da extração de mais-valia relativa por conta das admiráveis inovações tecnológicas que incrementaram, de forma inédita, a produtividade do trabalho social e o poder do capital. Por outro lado, o aumento de extração de mais-valia permitiu o aumento relativo do padrão de vida de contingentes expressivos do prole- tariado, que passou a ter acesso a imensa coleção de produtos-mercadorias visando satisfazer novas necessidades necessárias da vida metropolitana. A disseminação da forma-mercadoria numa dimensão inaudita, com o fetiche da mercadoria impregnando a vida social, obnubilou com maior candência, a consciência necessária de classe. Deste modo, segundo Lukács, sob o capitalismo manipulatório (ou capitalismo tardio), o problema da alienação/estranhamento foi reposto, de forma ampla e candente, noutro patamar existencial, por meio do problema da falta de uma vida plena sen- tido. O mundo pleno de mercadorias é o mundo pleno de manipulações O triunfo da manipulação 61 que penetra não apenas os poros da produção, mas também do consumo e da reprodução social. Assim, se, por um lado, a percepção da exploração capitalista e o pro- blema da alienação no sentido originário exposto por Marx nos “Manus- critso de 1844”, tendeu a se esmaecer; por outro lado, põem-se, de modo incisivo, de acordo com o velho Lukács, o problema do estranhamento como o problema da vida plena de sentido (por exemplo, o psicanalista austriaco Viktor Frankl salientou que o problema crucial do nosso tempo é o pro- blema da busca de sentido da vida) (Frankl, 2005). A mudança estrutural no caráter da alienação colocou, de forma candente, no auge do capitalismo afluente (em 1968), novas exigências no plano da luta de classes: A luta de clas ses no tempo da mais-valia absoluta estava voltada para a cria- ção das condições objetivas indispensáveis a uma vida deste género. Hoje, com uma semana de cinco dias e um salário adequado, podem já existir as condições indispensáveis para uma vida cheia de sentido. Mas surge um novo problema: aquela manipulação que vai da compra do cigarro às eleições presiden- ciais ergue uma barreira no interior dos indivíduos entre a sua existência e uma vida rica de sentido. Com efeito, a manipulação do consumo não consiste, como se pretende oficialmente, no fato de querer informar exaustivamente os consumidores sobre qual é o melhor frigorífico ou a melhor lâmina de barbear; o que está em jogo é a questão do controle da consciência. Dou apenas um exemplo, o ‘tipo’ Gauloises: apresenta-se um homem de aspecto ativo e másculo, que se distingue porque fuma os cigarros Gauloises. Ou ainda, vejo numa foto de publicidade, não sei se de um sabonete ou de um creme de barbear, um jovem assediado por, duas belas garotas por causa da atração erótica que determinado perfume exerce sobre elas (Holz, Kofler e Abendroth, 1966: p.167) [o grifo é nosso]. Lukács, adotando a perspectiva histórico-ontológica, faz a conexão íntima entre mais-valia relativa e manipulação no sentido de que a explo- ração pela mais-valia relativa propiciou, a um contingente organizado da classe trabalhadora, semana de cinco dias e salário adequado, isto é, condições objetivas indispensáveis para uma vida cheia de sentido. Obje- tivamente o proletariado possui hoje condições materiais para uma vida plena de sentido que, entretanto, não se realiza, por conta da manipulação social que impregna a vida burguesa. O capitalismo da grande indústria de produção em massa tende, nas palavras do filosofo húngaro, a erguer, no interior dos individuos, “uma barreira entre a sua existência e uma vida rica de sentido”. A fruição da vida é reduzida ao gozo do consumo alienado. A ânsia fugaz pelo consumo de mercadoria é incapaz de dar um sentido à 62 O espectro de Lukács vida. Eis o sentido do estranhamento na ótica lukacsiana: o descompasso entre a existência dos individuos e uma vida plena de sentido. De certo modo, para Lukács, o problema do estranhamento diz respeito a questão do controle da consciência, alvo-chave da manipulação do consumo visando a venda das mercadorias e a realização da mais-valia. A manipulação se ergue no interior dos indivíduos cuja ânsia pelo consumo é instilada pelos aparatos de marketing e propaganda, como uma finalidade em si mesma. Diz Lukács: Por causa desta manipulação, o operário, o homem que trabalha, é afastado do problema de como poderia transformar seu tempo livre em otium, porque o consumo lhe é instilado sob a forma de uma superabundânciade vida com finalidade em si mesma, assim como na jornada de trabalho de doze horas a vida era ditatorialmente dominada pelo trabalho (Holz, Kofler e Abendroth, 1966:170). Em várias passagens da sua entrevista, Lukács denominou o operário ou trabalhador assalariado de “homem que trabalha”, expressão que explicita o que está, de fato, hoje, sob fogo cruzado do capitalismo manipulatório: o homem ou o núcleo humano-genérico dos trabalhadores assalariados. Antes de sermos trabalhadores assalariados, somos efetivamente, homens que trabalham. Salienta-se assim, a palavra “homem” no sentido do ser humano-genérico. Eis o sentido radical do marxismo humanista de Lukács (radical no sentido de ir até as raízes, e a raiz é o próprio homem). Tempo livre e otium Nos países capitalistas desenvolvidos, em 1965, o auge do capitalismo afluente, uma parcela significativa da classe do proletariado usufruia de uma semana de cinco dias e um salário adequado, que lhe garantia um melhor padrão de vida em comparação com os proletários industriais do século XIX. Para o velho Lukács, o que se coloca, nas condições do “Welfare State”, é o problema de como transformar tempo livre em otium (ócio) ou tempo liberado da manipulação do capital; enfim, tempo de vida como campo de desenvolvimento humano, o que não ocorre, de imediato, com a redução da jornada de trabalho. A produção da mais-valia relativa criou as bases objetivas para a liberação humana do trabalho como atividade exclusiva. Embora o homem que trabalha tenha hoje mais tempo liberado do trabalho estranhado, não significa que o tempo disponível seja tempo livre no sentido de ócio criativo. Na verdade, para Lukács, o problema é como transformar tempo liberado em tempo livre; ou tempo O triunfo da manipulação 63 livre em otium. Sob o capitalismo manipulatório, o tempo livre de trabalho estranhado tornou-se mero tempo de consumo manipulado. O problema da manipulação, que Lukács colocou como intrinseca ao capitalismo da grande indústria, deslocou a questão da luta pela redução da jornada de trabalho para a questão da transformação do tempo livre em otium (a crise do capitalismo tardio e a era histórica do capitalismo global com o sociometabolismo da barbarie alterou tal equação da manipulação: a preca- rização do trabalho significou efetivamente a transformação do tempo livre ou mesmo o espaço do otium em tempo de trabalho estranhado). Existe uma base material para a exacerbação da manipulação e a nova efetividade da alienação capitalista: o "salto mortal" da produtividade do trabalho. Na medida em que a sociedade burguesa tornou-se efetivamente uma "imensa coleção de mercadorias"(Marx), a liberação relativa do homem que trabalha da alienação do trabalho estranhado, apenas o colocou à mercê de outro senhor: a Mercadoria. Para Lukács, embora seja necessária, a luta pela redução da jornada de trabalho, ela - em si e para si - não é suficiente para criar as bases materiais da emancipação social do proletariado. Enfim, na ótica lukacsiana, colocou-se no auge do capitalismo tardio, mais do que nunca, a necessidade de formar sujeitos humanos capazes de transformar o tempo livre em otium, rompendo com a ânsia instilada pela lógica da mercadoria de transformar o tempo livre em tempo de consumo como finalidade em si mesma. Nos nossos dias, o complexo da precarização do trabalho que caracteriza o capitalismo global dos últimos trinta anos (1990-2020), faz com que o homem que trabalha fique a mercê de si próprio como Mercadoria. O espaço do otium e do tempo liberado pelo "salto mortal" da produtividade do trabalho, manifesta-se como tempo de trabalho estranhado na forma do novo salariato precário (por exemplo, o trabalho por conta própria à mercê da ideologia do empreendedorismo, que representa efetivamentea a miséria do sobrevivencialismo que "reduz" a vida das pessoas que traba- lham)(Han, 2020:33). Mas voltemos à reflexão de Lukács no auge do capitalismo tardio (1965). Se a redução da jornada de trabalho e a ampliação do tempo liberado do trabalho estranhado devia ocorrer por meio de um ato poli- tico, a transformação do tempo livre em otium, ou melhor, do tempo disponivel em tempo livre no sentido pleno da palavra, implicava um ato extraparlamentar, isto é, a formação de sujeitos humanos capazes de fruirem de ócio criativo, rompendo com o sociometabolismo do capital. Os individuos podem simplesmente não saber o que fazer com o tempo livre. Foi nesse 64 O espectro de Lukács sentido que Lukács fez em “História e Consciência de Classe” (de 1923), a critica dos homens contemplativos, individuos criados pela sociedade da indústria cultural e do entretenimento, homens e mulheres (de)formados para contemplarem meramente o mundo espetacular das mercadorias. Consumo estranhado e dessubjetivação humano-genérica Lukács identificou a manipulação como ocorrendo intensivamente na esfera do consumo que transformou a superabundancia de vida no sentido de imensa coleção de mercadorias a serem consumidas, como finalidade em si mesma. Deste modo, de meio de vida, o consumo torna-se fim em si mesmo (consumismo), o que é o sentido próprio – de acordo de Lukács - da alienação. Antes, ocorria (e ocorre) no trabalho estranhado, e hoje, diz ele, também no consumo estranhado. Ampliou-se assim, a esfera da alienação social.5 Na sociedade burguesa tardia, a esfera de consumo se ampliou, incor- porando não apenas produtos-mercadorias que satisfazem as necessidades do estômago, mas, como observou Marx, as necessidades da fantasia. O melhor exemplo é a indústria cultural que envolve homens e mulheres na sociedade do capital; e diga-se de passagem, não apenas operários e empregados, mas todos as individualidades humanas, inclusive (e princi- palmente) jovens e crianças que ainda não trabalham. Devido o fetichismo da mercadoria, a condição de consumidores oculta a condição de pro- dutores dos homens que trabalham, tornando-se hoje, mais ampla que a condição de trabalhadores assalariados. Por isso, o problema da manipulação, ou o problema de uma vida plena de sentido, aparece como sendo o problema universal que envolve não apenas operários e empregados, mas todos os indivíduos à mercê das implicações fetichizadas da estética da mercadoria. Como vimos, Lukács salientou que no capitalismo manipulatório na sua fase ascendente, “o consumo lhe é instilado sob a forma de uma superabundância de vida com finali- dade em si mesma.” Podemos tirar algumas conclusão desta colocação do velho Lukács: Em primeiro lugar, a manipulação aparece como instilação redutiva que apresenta a imagem do espetacular mundo das mercadorias, com sua “superabundância de vida”, como finalidade em si mesma. O melhor exemplo é o caso do admirável mundo dos shopping centers, cuja arquitetura espetacular visa expor o mundo das mercadorias como sendo o único mundo possivel. Em segundo lugar, a manipulação aparece como um processo (de)formativo ou processo de subjetivação estranhada, que (de)constitui personalidades humanas, ou melhor, subjetividades humanas O triunfo da manipulação 65 reduzidas à sua própria abstração, no sentido mesmo da redução levada a cabo pela vigencia do trabalho abstrato. É o que podemos chamar de “individualidades abstratas”. Portanto, os espaços de consumo sob o capitalismo manipulatório apa- recem como espaços da pedagogia da mercadoria, onde homens e mulheres, crianças, jovens, adultos e idosos, são educados, subrepticiamente a redu- zirem a fruição da vida ao deleite do consumismo. O ato de viver torna-se mero ato de consumir. Deste modo, podemos dizer, a partir de Lukács, que o metabolismo social do capital. sob o capitalismo manipulatório, implica um duplo processo: • Por um lado, o metabolismo social do capital é processo de dessubjeti- vação humano-genérico e, por conseguinte, processo de dessubjetivação de classe no sentido de corrosão do sujeito histórico capaz de fazer a história; •Por outro lado, o metabolismo social do capital é processo de subje- tivação fetichizado no sentido de formação de “individualidades humanas abstratas” “afetados de negação”. Isto é, na medida em que a vida é redu- zida ao consumismo, abriu-se no interior das individualidades pessoais de classe, uma aguda frustração humana, não apenas no tocante ao “desejo de sentido” (utilizando a expressão de Viktor Frankl), mas no que diz respeito à satisfação de “carecimentos radicais” postos, objetivamente, pelo processo civilizatório humano-genérico6. Deste modo, pode-se dizer que o cerne da manipulação como instilação da cultura redutivista do consumo como finalidade em si mesma, oculta a sinistra operação de desefetivação do ser genérico do homem, na medida em que o homem assume a posição de mera adaptação passiva ao meio-ambiente espetacular das mercado- rias. Não se trata da morte do sujeito humano, como supõe a metafisica pós-moderna, mas sim a abertura da “fenda” de contradições íntimas no seio das individualidades pessoais de classe. Na mesma medida em que são intensamente manipuladas, homens e mulheres são instigados, em si e para si, a darem respostas às suas frustrações humanas, seja no tocante ao “desejo de sentido” (Viktor Frankl), seja no tocante aos “carecimentos radicais” (Agnes Heller). A incapacidade de dar respostas satisfatórias é o que leva homens e mulheres ao adoecimento fisico-mental sob múltiplas formas. Socialismo e humanização do trabalho O estranhamento perpassa não apenas o ato de consumo, mas o processo de trabalho capitalista em seu núcleo essencial. O trabalho, como observou Marx, permanece sempre, necessariamente, o “reino da 66 O espectro de Lukács necessidade”. Para Lukács, o desenvolvimento do socialismo visa precisa- mente dar formas humanamente adequadas ao trabalho e ao desenvolvi- mento da humanidade (uma problemática candente na era de decadência histórica do capital com a precarização do trabalho). Lukács observou que Marx, na “Crítica ao Programa de Gotha”, asseverou que, uma das con- dições para o comunismo, é que o trabalho se torne para o homem uma necessidade vital. Enfim, o socialismo deve buscar humanizar o reino da necessidade. Sob o capitalismo manipulatório, o trabalho adquiriu formas intimamente desumanas, tendo em vista a manipulação no sentido do controle da consciência – e pior, com a crise estrutural do capital, a preca- rização do trabalho acentuou a dimensão de desumanização do trabalho alargando-a para o espaço do tempo liberado. É o que denominamos “captura” da subjetividade do homem que trabalha pelo capital (Alves, 2007). A produção destrutiva do capital tornou-se totalidade social. É nesse sentido que diz Lukács (em 1965): Hoje existe uma ciência do trabalho e uma assistência psicológica do tra- balhador, mas elas têm como finalidade tornar-lhe aceitável por meio da manipulação, a tecnologia capitalista existente, e não servem para criar, ao contrário, uma tecnologia capaz de transformar o trabalho numa experiência digna de ser vivida pelo trabalhador (Holz, Kofler e Abendroth, 1966: p.168). Mesmo com o progresso técnico-cientifico, o trabalho como inelimi- navel reino da necessidade, não se tornou “uma experiência digna de ser vivida pelo trabalhador”. Pelo contrário, o homem que trabalha ainda quer fugir dele, tendo em vista que não encontra nele elementos de dignidade humana. E hoje, diante da miséria do sobrevivencialismo e da precarização dos estatutos salariais, o homem que trabalha está acuado pelo dominio integral do trabalho estranhado. O trabalho estranhado sob a lógica social do toyotismo sistêmico (Alves, 2001), destrói o sentido da vida como campo de desenvolvimento humano. É o que atestam hoje as estatísticas sobre adoecimentos no mundo do trabalho, por conta das pressões por maior produtividade e cumprimento de metas, com metas desumanas e metas humanamente impossíveis. O dito "capitalismo de plataformas", expressão suprema do capitalismo tecnológico, agudizou tal contradição candente do capital em sua etapa de crise estrutural. Por mais que se tente “humanizar” os ambientes de trabalho, o trabalho capitalista não deixa de ser - e hje, de modo exacerbado - um trabalho estranhado no sentido de ser um trabalho para outrem, o outro estranhado, o capitalista que manipula. O trabalho O triunfo da manipulação 67 manipulado - o que salientamos alhures como "captura da subjetividade do trabalho pelo capital" (Alves, 2011), representa a forma superior de trabalho alienado das finalidades de fruição humano-genérica de homens e mulheres que trabalham. O mundo social do capitalismo tardio, segundo Lukács, é marcado pelo estranhamento em suas múltiplas dimensões. Lukács salientou o estranhamento no trabalho, tendo em vista que, para ele, o trabalho conti- nua sendo a experiência indigna para o homem que trabalha. Mas como vimos, Lukács destacou também o estranhamento no consumo: liberado do tempo de trabalho, os indivíduos não encontram uma vida plena de sentido. Além das instâncias do trabalho e do consumo, o estranhamento (e a manipulação) perpassa outras instâncias da vida social, como a política e a cultura – dimensão essenciais da formação da genericidade humana ( mundo das redes sociais por conta do capitalismo informacional ele vou à enésima potência, a capacidade material do capital em integrar as dimen- sões da manipulação: trabalho, consumo, lazer e vida pessoal). No caso da esfera do consumo, a impossibilidade do capital no auge do capitalismo tardio meados da década de 1960 - transformar tempo livre em otium, é a maior demonstração de que, como observa Lukács, “esta manipulação é contrária aos interesses propriamente humanos”. Com o capitalismo manipulatório emergiu, com vigor inédito, o poder da ideologia. Diante disso, põe-se a necessidade política do trabalho ideológico, no sentido da ideologia socialista, capaz de tornar mais claro, como a manipulação dos aparatos ideológicos do capital é contraria aos interesses propriamente humanos. Lukács salientou que a manipulação não é onipotente. Por exemplo, observou: Há vinte anos (por volta de 1948), existe uma luta permanente na haute Couture pelo fato de que ela, enquanto manipulação do traje feminino quer introduzir de qualquer modo as saias longas. É claro que isto acontece porque o lucro da indústria têxtil seria maior neste caso. A moda, que como se diz, é onipotente, fracassa, porém, neste ponto. Há vinte anos, em Paris, nos grandes desfiles de moda, continua-se a profetizar o encompridamento das saias; porém, neste ponto, as mulheres defendem seus direitos, porque as saias longas não são adequadas ao trabalho ou às subidas em um trem cheio (Holz, Kofler e Abendroth, 1966:170) . O que se colocava naquela época (e hoje na era do sociometabolismo da barbarie), mais do que nunca, são os interesses humanos no sentido da genericidade humana e nao apenas os interesses de classe em si e para si do proletariado. Enfim, de acordo com o velho Lukács, nestas novas 68 O espectro de Lukács circunstâncias históricas de crise ideológica do sistema global do capital, coloca-se a necessidade não apenas da consciencia em si e para si do pro- letariado, mas da consciencia de classe do proletariado para além de si (Mészáros, 2008:80-81). Estranhamento como fato universal É interessante retomarmos a discussão sobre o conceito de estranha- mento de acordo com o velho Lukács. Numa passagem da entrevista de 1965, ao tratar do processo de manipulação, ele faz uma observação deveras interessante: [...] trata-se verdadeiramente de um processo que não tem mais, como único ponto de referência, a classe operária; sob este aspecto, ou seja, quanto à mais-valia relativa e à manipulação, mesmo a camada intelectual e toda a burguesia estão igualmente sujeitas ao capitalismo e às suas manipulações, não menos do que a classe operária. Trata-se, por isto, de despertar a verdadeira autonomiada personalidade, e para isso o desenvolvimento econômico rea- lizado até o presente momento criou as condições necessárias (Holz, Kofler e Abendroth, 1966:165). Assim, sob o capitalismo manipulatório, não é apenas a classe operária que está sujeita às misérias da manipulação, mas, mesmo a camada intelec- tual e toda a burguesia, estão sujeitas ao estranhamento que amesquinha a autonomia da personalidade7. É claro que a burguesia, amesquinhada pelo estranhamento, não tem a capacidade político-ideológica para promover a negação da negação. Eles são incapazes de uma verdadeira consciência de classe “para além de si”. Pelo contrário, a burguesia e suas personas sociais, na medida em que experimentam o estranhamento como positividade, estão condenadas ao trágico suplicio de serem, ao mesmo tempo, agentes (e vítimas) das misérias da manipulação do capital. Nas condições do estágio avançado do processo civilizatório do capital, o problema da manipulação que alcançou seu auge com o capitalismo tardio, adquiriu um conteúdo problemático de novo tipo. Lukács observou que a quantidade de trabalho necessário para a reprodução física do homem tem diminuido constan- temente, o que significa que, para todos os homens, pode ser encontrado hoje, mais do que em qualquer outra época, o espaço necessário para uma existência socialmente humana. Esta redução das barreiras naturais que constrangem a espécie humana, mesmo ocorrendo sob o sistema sóciometabólico do capital, é o “processo civilizatório do capital”. É claro que a redução das barreiras naturais, a redução da quantidade de trabalho O triunfo da manipulação 69 necessário para a reprodução física do homem, não significa, em si e para si, a emancipação social do trabalho, mas apenas a explicitação de seus pressupostos objetivos necessários frustrados pela relação-capital. Segundo Lukács, um momento histórico como este, aconteceu de modo economi- camente limitado, com os pioneiros da civilização, quando, por exemplo, em Atenas, “a escravidão liberou do trabalho, uma camada privilegiada, permitindo assim o nascimento da grandiosa cultura ateniense”. Assim como na Grecia Antiga, a escravidão permitiu o nascimento de valores civilizatórios universais, sob o Ocidente tardio, o desenvolvimento do sistema de máquinas, no que ela representa de redução das barreiras naturais, permitiria, desde que abolida a relação-capital, um novo salto civilizatório, o desenvolvimento do socialismo. O novo salto civilizatório, o socialismo como sistema mundial, significa, não apenas a instauração de um novo modo de controle do metabolismo social, mas a salvação da humanidade de sua extinção irremediável pelo capital. Deste modo, podemos dizer que o socialismo torna-se uma necessidade histórica imposta, não pelo esgotamento da capacidade civilizatória do capital, mas sim, pelas candentes contradições sociometabólicas que emergem no seio da civilização do capital e que podem levar à extinção da humanidade. Lukács observou que é inegável que existem camadas sociais do prole- tariado para as quais ainda são válidas, quanto ao nível de vida, as velhas categorias do capitalismo, e, segundo ele, “é naturalmente uma grande tarefa preparar o desaparecimento delas e exigir para o trabalhador um outro nível de vida”. É possivel, no interior do capitalismo tardio, melho- rar o nível de vida de contingentes pobres do proletariado que ainda não tinham salários adequados e condições aviltantes de trabalho. Mas, observou Lukács, que, não há dúvida de que, para uma grande massa de trabalhadores assalariados, criaram-se condições objetivas capazes de tornar possível uma vida livre e adequada às exigências humanas. Por isso, segundo Lukacs, “é necessário empreender uma ampla discussão sobre as formas atuais da alienação”. O que Lukács indica é o acirramento da contradi- ção histórica objetiva e subjetiva que é intrínseca ao proceso civilizatório do capital, a contradição entre condições sociais materiais capazes, em si e para si, de tornar possível uma vida livre e adequada às exigências humanas; e o modo de controle estranhado do metabolismo social do capital, baseado na divisão hierarquica do trabalho e propriedade privada dos meios de produção, hoje, cada vez mais concentrada do que nunca nos oligopólios mundiais. A frustração irremediável das possibilidades objetivas de desenvolvimento humano-genérico e a irrealização efetiva 70 O espectro de Lukács das promessas contidas nas condições materiais abertas pelo processo civilizatório, compõem a natureza do fenômeno do estranhamento. Eis como o filósofo húngaro expõe na “Ontologia do ser social”, em termos singelos, o problema do estranhamento: "O desenvolvimento das forças produtivas é necessariamente também o desenvolvimento da capacidade humana, mas – e aqui emerge praticamente o problema do estranhamento – o desenvolvimento da capacidade humana não produz obrigatoriamente o [desenvolvimento] da personalidade humana. Ao contrário: justamente potencializando capacidades singulares, pode desfigurar, aviltar, etc., a personalidade do homem" (Lukács, 2013:561) [o grifo é nosso] O desenvolvimento das forças produtivas no sentido do processo civi- lizatório como redução das barreiras naturais significa o desenvolvimento da capacidade humana. Entretanto, como se expressaria o desenvolvimento das capacidades humanas? Primeiro, pelo aumento da produtividade do trabalho humano e pelo domínio do espaço-tempo e das forças naturais. É o que ocorreu nos últi- mos séculos de capitalismo industrial com o desenvolvimento das ciências e da tecnologia. O progresso da ciência e da técnica como tecnologia, é um dado inquestionável da civilização do capital. Este é o sentido instrumental do conceito de desenvolvimento das forças produtivas. Segundo, o desenvolvimento da capacidade humana significaria, na mesma medida, o desenvolvimento de habilidades humano-sociais capazes de promover o devir humano dos homens. O que implicaria conceber o homem como uma força produtiva não apenas no sentido instrumen- tal, mas no sentido da afirmação e negação da sociabilidade humana, mesmo que seja como pressuposto negado, como ocorre sob o sistema sociometabólico do capital. É inquestionável que, nos últimos séculos da civilização do capital, ocorreu um processo de individuação que pode ser concebido como um desenvolvimento de capacidade humana dos homens. Por exemplo, novos modos de cooperação e divisão do trabalho significam novos modos de organizar habilidades sócio-humanas capazes de impulsionar as forças produtivas do trabalho social, que são forças produtivas do capital. Por isso, hoje em dia, os gestores do capital sabem que o incremento das forças produtivas do trabalho social implica não apenas investir em tecnologia (hardware ou software), mas em gestão/ manipulação de habilidades/subjetividades humanas (humanware). O capital como “contradição viva” opera uma inversão/perversão do desen- volvimento das forças produtivas como desenvolvimento da capacidade O triunfo da manipulação 71 humana. O problema do estranhamento está no âmago da “contradição viva” do capital. Eis como ele se apresenta: Primeiro, a tecnologização das ciências, que se rendem à instrumenta- lidade dos interesses da produção do capital; a tecnologia como forma social do capital imprime a marca da manipulação no esteio dos empreen- dimentos científicos. O que explica a crítica voraz que o último Lukács fez do neopositivismo como ideologia do mundo manipulado do capital; Segundo, a (de)formação humana dos recursos de gestão/manipulação da produção e reprodução social. Existe uma tênue (e perversa) linha de continuidade entre os novos métodos de gestão que prometem mais pro- dutividade nas empresas e o discurso positivo da literatura de auto-ajuda que promete a auto-satisfação/realização pessoal. O sociometabolismo da barbárie que emerge com a crise estrutural do capital significa a corrosão paulatinadas capacidades humanas no sentido de efetivá-las em sua dimensão humano-genérico. Eis a “raiz” da crise de sociabilidade. O paradoxo da “captura” da subjetividade do trabalho é que efetivamente a subjetividade não se “captura”. Nesse caso, existe uma contradição perversa entre capacidades humanas objetivamente efetivadas, no plano da base técnica e científica; e subjetivamente desefetivadas, no sentido de apropriação prático-sensível delas pelos homens que trabalham. O desenvolvimento de (in)capacidades compõe a contradição fulcral entre possibilidades objetivas postas, uma objetividade que é irremediável subjetivamente mediada, e uma desrealização efetivada no interior do pró- prio sociometabolismo do capital. Lukács salientou que o desenvolvimento da capacidade humana sob o capital não produz obrigatoriamente o desen- volvimento da personalidade humana. O desenvolvimento de homens e mulheres como sujeitos humanos ou o devir humano dos homens, não depende em si, do desenvolvimento científico-tecnológico. Pelo contrário, o desenvolvimento das capacidades humanas, tanto capacidades técnicas intervertidas em (in)capacidades tecnológicas, quanto capacidades de for- mação intervertidas em manipulação deformativas, sob o mundo social do capital, tendem a desfigurar, aviltar, etc., a personalidade do homem que trabalha. A desfiguração e aviltamento da personalidade humana ocorre na medida em que o desenvolvimento das capacidades humanas potencializa, não as capacidades humano-genéricas, mas as capacidades singulares do homem que trabalha. Esta é a idéia da formação de personalidades imersos em particu- larismos ou a barbárie social tal como nós a concebemos. Tanto os aparatos tecnológicos que organizam o espaço-tempo da produção e reprodução 72 O espectro de Lukács Notas 1 Lukács foi um intelectual como muitas vidas. A prática da crítica e autocrítica fazia parte da sua personalidade. Nunca se recusou a afirmar a auto-crítica de idéias que defendeu no passado. Lukács falou em renascimento do marxismo. Mas a sua própria vida foi de uma vida ou vidas de renascimentos, critica e autocriticas. Lukács observou de modo categórico em 1966: “Comecei minha verdadeira obra aos setenta anos” (Lukács, 2020: 29) É por isso que designamos o “último Lukács” como sendo o Lukács de 1955 a 1971. Nenhum filósofo foi tão consciente de sua própria trajetória intelectual-filosófica como ele. Foi um homem em constante autoaprimoramento teórico-critico. Percorreu diversas conjunturas históricas no século XX e soube refleti-las com paixão pela razão dialética, não temendo a autocritica (o que o diferenciou radicalmente dos marxistas do século XX, muitos deles aprisionados no dogma marxista). Para ele, o pior erro do marxismo foi renunciar à crítica e autocritica. O stalinismo representou a maior degradação do marxismo no século XX. Vejamos um exemplo: Lucien Goldmann não cessava de glorificar Lukács como “o maior do capital, quanto os recursos de gestão/manipulação da subjetividade do homem que trabalha, contribuem para a (de)formação da personalidade humana por meio do cultivo de capacidades singulares (ou particularistas) das individualidades humanas. É interessante que, muitos dos recursos tecnológicos, sejam os gadgets hightechs ou mesmo os equipamentos urba- nísticos que organizam nosso estilo de vida burguês, contribuem para a formação de capacidades singulares ou disposições egoístico-particularistas dos indivíduos. O melhor exemplo é o privilegiamento dos automóveis em detrimento de transportes coletivos nos centros urbanos e a organi- zação dos espaços urbanísticos em função dessa capacidade singular de locomoção espacial. Outro dado desta formação de capacidades singulares como modo de deformação do ser genérico do homem é a degradação de espaços públicos e formas de sociabilidades coletivas). Enfim, Lukács na última década de vida, colocou importantes elemen- tos para refletirmos sobre a problemática da barbárie social que caracteriza nosso tempo histórico, isto é, a implicação perversa do sociometabolismo da barbárie que, de forma contraditória, descapacita o homem como ser genérico, potencializando suas capacidades singulares, deforman- do-o como ser social no interior de uma sociedade cada vez mais social no sentido objetivo. Esta potencialização de capacidades singulares em detrimento em capacidades humano-genéricas explicita-se na própria corrosão do ideal de coletividade como espaço de desenvolvimento de individualidades sociais. Na verdade, o problema do estranhamento é a contradição lancinante do processo civilizatório do capital. O triunfo da manipulação 73 1960. Trata-se de um Lukács para além dos lukácsianos. Nas entrevistas, Lukács reconheceu seus limites de crítica da economia política, mas soube apreender a importância do entendimento da materialidade da economia para tornar a filosofia marxista não apenas uma disciplina da especialidade acadêmica, novamente diferenciando-o, por exemplo, da geração de marxistas academicistas imersa nos particularismos disciplinar da filosofia (o que ele denominou "idiotia profissional"). O mestre Lukács diferenciou-se de seus epígonos que, no geral, indiferentes ao debate da crítica da economia política e à luta ideológica que enforma a luta de classes no plano geopolítico, reduziu o "marxismo ontológico" à discussões meramente escolásticas (estéticas ou éticas) dos textos do velho mestre húngaro, sendo incapazes de apreender de forma histórico-ontológica, os problemas do nosso tempo histórico, efetuando a crítica da efetividade real-histórica da era do capitalismo manipulatório. 3 István Meszáros também incorpou - na época - a percepção analítica de Paul Baran e Paul Sweezy exposta no livro Monopoly capital (ver Alves, 2018:128- 129). 4 A redução do salário relativo no século XX é resultado dos limites do sindicalismo, como denunciado, por exemplo, por Rosa Luxemburg que acreditava que “a produção capitalista não pode avançar um só passo adiante sem reduzir a participação dos operários no produto social”. A redução da participação dos operários no produto social e o aumento da participação dos capitalistas ocorriam por meio das inovações técnicas na produção, pelo aumento da produtividade do trabalho. Diante da lei da queda tendencial do salário relativo, considerado por ela como um “poder completamente invisível, uma ação simplesmente mecânica da concorrência e da produção de mercadorias”, que deixa aos operários uma porção cada vez menor da riqueza social produzida, os sindicatos nada poderiam pensador do século XX”, mas, exclusivamente, pela contribuição trazida por suas obras de juventude. Na verdade, o filósofo francês se apegou demasiadamente a História e Consciência de Classe, esquecendo todo o desenvolvimento posterior do filósofo magiar (Tertulian, 2008:292) [o grifo é nosso]. Numa carta enviada no dia 1o de outubro de 1959, Lukács deu-lhe uma resposta contundente, dando uma amostra do estilo epistoiar lukácsiano: “Se eu estivesse morto por volta de 1924, e se minha alma imutável tivesse olhado vossa atividade literária do além, estaria plena áe um verdadeiro reconhecimento por ocupar-vos tão intensamente com minhas obras da juventude. Mas, como não estou morto e, durante trinta e quatro anos, criei o que deve chamar-se de a obra de minha vida e como, em suma, para vós, essa obra não existe de forma alguma, é difícil para mim, como ser vivo, cujos interesses são dirigidos, evidentemente, para a sua própria atividade presente, levar em conta vossas considerações.” (Lukács, 2020:292). 2 O título do livro na edição brasileira das entrevistas de Lukács (“Essenciais são os livros não escritos”), é fraco,não expressando a riqueza candente das entrevistas do "último Lukács", que, como ideólogo marxista, abordou de modo claro, temas políticos e sociológicos do tempo histórico que emergiu na década de 74 O espectro de Lukács fazer. Os sindicatos só poderiamcuidar do “atentado visível dos capitalistas contra os operários”, ou seja, as reduções de salários reais, que diminui o padrão de vida da classe operária. Diante da queda invisível do salário relativo, eles se sentiriam impotentes: “A luta contra a queda do salário relativo não é já uma luta que se desenvolve no terreno da economia mercantil, mas sim um assalto revolucionário, subversivo, contra a existência desta economia, é o movimento socialista do proletariado”. (Rosdolsky, 2001) 5 Ao tornar-se um fim em si mesmo, o consumo interverte-se em consumismo. A rigor, a sociedade burguesa não é a “sociedade do consumo”, mas sim, “sociedade do consumismo”. Outra coisa: a ideologia quer nos fazer crer que, consumimos coisas que, de fato, compramos. Ora, comprar não é uma ação regida por necessidades necessárias, mas sim, um ato econômico com implicações sociais. Diz Jurandir Freire Costa: “Comprar se tornou equivalente a consumir porque o ritmo de produção das mercadorias nos obriga a descartá-las depois de um breve uso. Consumo é uma metáfora que alude à rapidez com que adquirimos novos objetos e inutilizamos os velhos [...] Depois das grandes revoluções tecnológicas e econômicas, a produção capitalista, para ser escoada, teve e tem de ser vendida em um fluxo contínuo. Os individuos, portanto, têm de comprar as mercadorias para que a máquina do lucro não pare”. Entretanto ele se interroga: por que os individuos se deixam seduzir pela propaganda de mercadorias? Ele sugere que o hábito do consumismo atende às reais necessidades psicossociais, ou seja, os individuos se deixam persuadir pela propaganda porque, em certa medida, encontra na posse dos objetos industriais um meio de realização pessoal. Essa aspiração à realização pessoal – ou o que Lukács sugere como sendo ter uma vida plena de sentido – é o motivo do anseio pelos “objetos ditos de consumo”. Costa observa que a nova moral do trabalho e a nova moral do prazer contribuem para a produção do desejo de consumir (Costa, 2004). Outra coisa: Juliet B. Schor utiliza corretamente no título de seu instigante livro (“Nascidos para comprar” [Born to buy]), a palavra adequada: não se trata de “Nascidos para consumir”, mas sim, “Nascidos para comprar”. 6 A manipulação é o fenômeno social que surge, no plano da produção e reprodução social, com a incapacidade do capital em tratar do dilaceramento da personalidade humana em virtude das candentes contradições sociometabólicas do sistema produtor de mercadorias. Ao ser incapaz de propiciar uma vida plena de sentido, o capital em sua forma histórica mais desenvolvida (o capitalismo global), se encontra diante de irremediáveis limites estruturais. Certa vez, Albert Camus observou: “Há um só problema verdadeiramente sério e é... estabelecer se vale ou não a pena viver.” (Camus,1955). O psiquiatra Viktor Frankl, em 1949, introduziu o conceito de “desejo de sentido” para tratar de um problema do nosso tempo histórico - a falta de uma vida plena de sentido - que conduz os indivíduos humanos à deriva pessoal. Diz ele: “Em alguns casos, a frustração do desejo de sentido teve um papel relevante como fator etiológico no dar origem à neurose ou a tentativa de suicídio.”. E mais adiante O triunfo da manipulação 75 MARX, Karl (1996) O Capital: Critica da economia política, Livro 1, Tomo I, Editora Nova Cultural, São Paulo. Referências ALVES, Giovanni (2009) A condição de proletariedade, Editora Praxis: Bauru. ______________(2011) Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório, Boitempo editorial: São Paulo. ______________ (2018) O duplo negativo do capital: Ensaios sobre a crise do capitalismo global. Bauru: Projeto editorial Praxis. COSTA, Jurandir Freire (2004) “Perspectivas da juventude na sociedade de mercado” In NOVAES, Regina e VANUCCHI, Paulo (Org.) Juventude e Sociedade – Trabalho, Educação, Cultura e Participação. Instituto Cidadania/Fundação Perseu Abramo, São Paulo. FRANKL, Viktor E. (2005) Um sentido para a vida: Psicoterapia e Humanismo, Idéias e Letras, São Paulo. _____________ (2003) Sede de Sentido, Quadrante, São Paulo. LUKÁCS, György (2013) Para uma ontologia do ser social, volume II, São Paulo: Boitempo editorial. LUKÁCS, György (2020) Essenciais são os livros não escritos: Ultimas entrevistas (1966-1971). São Paulo: Boitempo editorial. LUKÁCS, György (2007). “As bases ontológicas do pensamento e da atividade do homem” In LUKÁCS, György. O jovem Marx e outros escritos de filosofia, Editora UFRJ, Rio de Janeiro. ____________(1999) Pensamento Vivido – Autobiografia em diálogo. Ad Hominam/Editora UFV, Viçosa. LOJKINE, Jean (1995) A revolução informacional. São Paulo: Cortez. HAN, Byung-Chul (2020) Sociedade paliativa/A dor hoje. Rio de Janeiro: Editora Vozes. HOLZ, H., KOFLER, L. e ABENDROTH, W. (1969) Conversando com Lukács, Paz e Terra, Rio de Janeiro. salienta: “A busca pelo homem de um sentido para a vida é, obviamente, um fenômeno de extensão mundial.” (Frankl, 2006). Entretanto, o diagnostico de Frankl não é completo: a sede de sentido (que é outro título de livro de Frank, 2003) que ele constata como sendo um fenômeno de extensão mundial e a patologia do nosso tempo, é produto do capitalismo manipulatório (Lukács) e do controle estranhado do metabolismo social (Mészáros), isto é, do capital que, nesta etapa de desenvolvimento civilizatório, explicita à exaustão, suas contradições objetivas. 7 A condição universal do estranhamento, que envolve hoje, mais do que nunca, a humanidade, é o que nós denominamos "condição existencial de proletariedade", condição existencial do gênero humano que está subsumido e subalterno ao sociometabolismo do capital (Alves, 2009) 76 O espectro de Lukács MÉSZÁROS, István (2006). A teoria da alienação em Marx. Editora Boitempo, São Paulo. ______________(2008) Filosofia, Ideologia e Ciência Social. Editora Boitempo, São Paulo. ______________(2002) Para além do capital: Rumo a uma teoria da transição. São Paulo: Boitempo editorial. NOZAKI, Hajime Takeuchi (2021) A crise do capital em Marx: O debate contemporâneo entre os marxistas. Juiz de Fora: Editora UFJF. ROSDOLSKY, Roman (2001) Gênese e estrutura de O capital de Karl Marx. Contraponto: Rio de Janeiro. SCHOR, Juliet B. (2009) Nascidos para comprar – Uma leitura essencial para orientarmos nossas crianças na era do consumismo. Gente Editora, São Paulo. TERTULIAN, Nicola (2007) "El pensamiento del último Lukács" In In VEDDA, Miguel e INFRANCA, Antonino (Org.) György Lukács – Ética, Estética y Ontologia, Ediciones Colihue Universidad, Buenos Aires. ___________________(2008) Gyorgy Lukács: Etapas de seu pensamento estético. São Paulo: editora Unesp. A “crise das democracias” e o debate lukácsiano Ariovaldo Santos Tem aumentado substantivamente nos circuitos acadêmicos e jornalísticos, desde as eleições de Donald Trump, nos Estados Unidos, e a popularização da expressão “fake news”, pelo próprio ex-Presidente norte americano, o debate acerca do “declínio” ou da “crise” das democracias. O exemplo mais recorrente neste debate tem sido o livro Como as democracias morrem, de autoria de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (2018). Fica claro em entrevista concedida por Steven Levitsky que um dos sinais dessa crise é o declínio da prática dialógica entre os indivíduos no exercício da cidadania. Ou, como diz um dos autores do livro: "Os cidadãos perdem o hábito e a capacidade de coexistir, de tolerar a diferença, de discutir sobre política e depois ir jogar futebol juntos. Esta- mos perdendo essa capacidade mínima do cidadão de conseguir conviver com pessoas de outro partido. Os políticos representam seu território e se este é homogêneo não há necessidade de assumir compromissos, nem de negociar" (Mars, 2019). Analisando fundamentalmente a polarização nos Estados Unidos, onde, de acordo com sua leitura, a polarização não é entre “esquerda e direita” e sim “em raça, religião e cultura”,conclui que o produto “dessa polarização é o enfraquecimento das regras básicas da democracia” (Mars, 2019). A questão da raça esteve conosco desde o nascimento da república, e foi fonte de autoritarismo, abuso, conflito e até guerra civil no século XIX. O novo é que a raça está fortemente ligada ao partidarismo. Pela primeira vez desde o século XIX, desde a guerra civil, a identidade partidária tem a ver com raça e religião. As pessoas brancas e cristãs são republicanas, para generalizar, e as demais são democratas. O partido republicano se tornou um bastião de brancos cristãos que foi maioria em toda a história da república. Era o grupo 3 78 O espectro de Lukács que dominou as hierarquias políticas, econômicas, sociais e culturais deste país por 200 anos, mas que está perdendo peso na sociedade norte-americana. É uma mudança de longo prazo, inevitável [...] Em minha opinião, o efeito de gênero está aí no sentido de que a maioria das mulheres votam nos demo- cratas e que a figura de Trump representa um retrocesso de mais ou menos meio século em termos de normas sociais de gênero. Mas há muitas mulheres republicanas e democratas. A raça e a religião dividem a sociedade, nem tanto o gênero. Se você fosse norte-americana e eu lhe perguntasse sua religião, sua raça e seu nível de formação, acertaria mais facilmente em que partido você vota do que sabendo seu gênero (Mars, 2019). Para explicar a crise das democracias, Levitsky apresenta uma certa tipologia: "Os quatro indicadores são (1) rejeição das regras democráticas do jogo; (2) negação da legitimidade dos oponentes políticos; (3) propensão a restringir liberdades civis básicas de rivais ou da mídia; (4) encorajamento ou tolerância à violência" (Correio Brasiliense, 2020). Mas, afinal, o que é a democracia? A resposta a esta questão surge de maneira transparente em entrevista feita com Levitsky e publicada no Blog da Companhia das Letras: O que é democracia? E a quem interessa? SL: A democracia é o único sistema já inventado que permite à sociedade mudar o seu governo regularmente, de forma livre e sem violência. Também é o único sistema existente que garante aos cidadãos o direito de fazer oposi- ção ao governo – seja falando, escrevendo ou fazendo protestos. Isso deveria ser importante para qualquer pessoa. No entanto, na prática, isso deveria importar ainda mais para quem não tem muito poder ou dinheiro. Os ricos sempre encontram formas de se proteger em qualquer regime, inclusive em ditaduras. Só a democracia garante proteção para o restante de nós (Blog da Companhia, 2019) Os exemplos indicativos da discussão que se estabelece no livro pode- riam ser multiplicados. Chama a atenção, no entanto, não é o objeto que tomam por investigação e sim a maneira como dele se apropriam e que aponta para o tratamento da democracia como uma questão de ordem fundamentalmente superestrutural e, mais especificamente, cultural. Evidencia-se na resposta de Levitsky sobre o que é a democracia como esta questão é tratada a partir da perspectiva formal, abstrata. Mas, retoma-se a questão, o que é a democracia? A resposta a esta questão somente é possível de ser melhor estabelecida caso se considere a discussão do pro- blema tal como se apresenta no âmbito do pensamento formal burguês e naquele da perspectiva da grande massa dos que precisam vender sua força de trabalho, estejam eles na condição de trabalhadores produtivos, A “crise das democracias” e o debate lukácsiano 79 portanto, participando diretamente do processo de acumulação de capital, ou improdutivos. Neste sentido, são de grande importância e atualidade, resgatar aqui alguns pontos que norteiam o debate sobre a democracia nos escritos de Lukács, sobretudo a distinção que estabelece entre demo- cracia burguesa e democracia proletária. O ponto de partida de Lukács é o reconhecimento de que a reflexão sobre a democracia é inaugurada pelos gregos, a partir de Aristóteles, percorrendo, posteriormente, vários matizes de pensamento. No entanto, a resposta adequada ao problema não poderia brotar de uma sociedade que tinha a escravidão como sua base econômica. Para aquela forma de sociedade, a democracia, enquanto “superestrutura política”, necessariamente teria de conduzir a discussão para “determinações gerais” sobre “a grandeza do Estado” ou então a “considerações jurídicas” norteadas pela preocupação em definir “que é o cidadão?”. Do que resultavam “simples clarificações gerais e também valorações gerais (Lukács,1968, p. 34). Para Lukács, Marx foi o primeiro a partir dos elementos mais gerais que embasam a reflexão sobre a democracia para situa-la no plano ontológico. Quando trata da “polis” grega, a “caracteriza e fundamenta em termos eco- nômicos”. Primeiramente, Lukács resgata a reflexão de Marx, segundo a qual La comunidad como Estado es por un lado, la relación reciproca entre estos propietarios iguales y libres, su vínculo contra el exterior, y es, al mismo tiempo su garantía. La naturaleza de la entidad comunitaria se basa aquí en el hecho de que sus miembros son agricultores de parcelas, propietarios de la tierra que trabajan, y, en igual medida, la autonomía de éstos resulta de su relación recíproca en tanto miembros de la comunidad, de la salvaguardia del ager publicus para las necesidades colectivas y para su gloria colectiva, etc. En este caso, sigue siendo presupuesto para la apropiación del suelo el ser miembro de la comunidad, pero, en tanto miembro de la comunidad, el individuo es propietario privado. Se relaciona con su propiedad en tanto esto es el suelo, pero, al mismo tiempo, en tanto ésta es su ser como miembro de la comunidad, y el mantenimiento de sí mismo como miembro es igualmente el mantenimiento de la comunidad y a la inversa (Lukács, 968, p. 34-35) A partir desta passagem de Marx, que Lukács extrai do livro Para a Crítica da Economia Política, desenvolve a seguinte análise: La democracia que se deriva de esta constelación económica no depende simplemente de la base general de las formas del ser humano, de la práxis humana -lo que ocurre en toda sociedad- sino que está indisolublemente vinculada con un modo de existencia individual, particular, de aquellos 80 O espectro de Lukács que participan activamente de ella; un modo de ser concreto imposible de suprimir. Ser ciudadano de la polis, participante activo de su democracia, no es simplemente una categoría determinante de la superestructura política, sino también, e inseparablemente. la base económica del ser social, la forma material de vida para cada ciudadano individual (Lukács,1968, p. 34-35). Assim, continua Lukács: En primer lugar, toda la vida privada se sitúa en un plano secundário social- mente poco relevante. El verdadero ser de todos los ciudadanos, su acción en común en las tareas democráticas que surgen de su existencia y actividad, está indisolublemente unido a la base económica ya expuesta. Com su disolución -lo que ocurre necesariamente a partir del desarrollo de las fuerzas productivas, lo que aquí no sólo es posible sino además necesario- la existencia y capacidad de funcionamiento de la democracia de la polis termina por descomponerse. El gran prestigio, la gran consideración ideológica, el carácter de ejemplo luminoso que recibió esta forma de democracia; sobre todo en su forma “clásica” de Atenas y Roma, conduce, al mismo tiempo, por su necesidad económica a su autodisolución. [...] es la esclavitud la que forma la base de la cultura democrática de esta sociedad; la lucha democrática se desarrolla siempre v solamente en el interior de una minoría privilegiada; la gran massa efectivamente productiva está por principio excluida de ella como de toda participación activa en la vida social. [...] La división del trabajo y de la pro- piedad, fundamento de toda democracia de la polis, es en su génesis algo casi primitivo, en muchos aspectos natural [...] Es con el inicio del “retroceso de los límites naturales”que deberá retroceder. Así, esta democracia en el transcurso de su desarrollo económico más elevado, de la creciente civilización, pierde su peculiaridad humana, la que se presenta como modelo: el individuo que actúa en ella –precisamente porque ser ciudadano de la polis, poseer una parcela, pertenecer a una tribu, son condiciones económico-sociales de su existencia que convergen para formar la identidad- no tiene ni guna “puntualidad” en el sentido moderno. Para el ciudadano libre su propia identidad tiene exacta- mente el mismo significado para su ser que para su pertenencia a la polis. El carácter socialmente secundario de la vida privada del ciudadano de la polis es la outra cara de su existencia histórica; aquí ser hombre, desarrollarse como persona es sustancialmente, en su dinámica como en su tendencia, idéntico al cumplimiento de los deberes ciudadanos en la democracia, al modo de realización de la democracia (Lukács, 1968, p. 35). É sobre essa base que se erguerá a “forma clássica da moderna demo- cracia burguesa”, com seus ideais de “liberdade e igualdade”. Estes valores, “expressões ideológicas centrais das democracia modernas [...] podem A “crise das democracias” e o debate lukácsiano 81 assumir desde o ponto de vista ideológico formas muito diferentes; porém, quanto à essência econômico-social” o que as rege é “o intercâmbio dos valores de troca, é a base produtiva real”. Nelas estão fundadas as ideias de “igualdade e liberdade”. Lukács segue em sua análise nos caminhos inicialmente desen- volvidos por Marx e, também, por Engels, ao menos em três de seus textos: A origem da família, da propriedade privada e do Estado; o Anti-Duhring e Do socialismo utópico ao socialismo científico, para concluir que Esta realización práctica del dominio de la libertad y de la igualdad significa - con todas sus contradicciones- un enorme progreso en la prehistoria de la sociedad humana. Con ella toma vida la verdadera sociedad; el fundamentoreal, objetivo, de la esencia humana. Todas las determinaciones vinculadas, em mayor o en menor medida, a los límites naturales del ser social están conte- nidas en su manifestación. La lucha social que ha producido este hecho, en su forma inmediata, directa, está dirigida contra la articulación de la sociedad por clases, estructuración surgida en el y del feudalismo (Lukács, 1968, p. 36). Objetivamente, ressalta Lukács, “A Revolução francesa destruiu radical- mente toda a estrutura social e, com isto, pela primeira vez na história do mundo, construiu a relação entre Estado e sociedade civil em termos puramente sociais”. A partir daí, “as determinações ontológicas da democracia burguesa se converteram em formas dominantes do mundo estatal capitalista, da civilização capitalista”, cindindo o ser social em duas realidades. O cidadão e o homem: “Citoyen significa obviamente el ciudadano devenido idealmente, desligado de todas las ataduras materiales de la existencia socio-económica; el hombre, a la inversa, es el que forma parte de la sociedad civil (Lukács, 1968, p. 36). No mundo burguês moderno, o deslocamento das questões cada vez mais para o âmbito da esfera parlamentar se constitui na expressão mais abstrata da forma democrática. Acaba por se constituir a forma por exce- lência “o meio mais eficaz para possibilitar a realização sem dificuldades das tendências materiais-egoístas na vida social”. Diz Lukács: [...] es ninguna casualidad -volviendo a nuestro verdadero problema- que el más perfecto, el más explícito “idealismo” abstracto de las formas de gobierno del Estado, sea el instrumento más apropiado para que se afirmen los intereses egoístas-capitalistas sin dificultad bajo el pretexto de interesses generales, ideales. Resumiendo: cuanto más puro el parlamentarismo; cuanto más típica la realización central de este idealismo estatal –aparentemente independiente, formalmente autónomo de la vida real de la sociedad-; cuanto más llega a ser un instrumento con valor de figurar como un órgano puro de la voluntad ideal del pueblo, tanto más apropiado como instrumento para hacer valer los 82 O espectro de Lukács intereses egoístas de los grupos capitalistas, precisamente bajo la apariencia de una ¡limitada libertad e igualdad [...] aquí no se realiza simplemente una apariencia de libertad e igualdad, sino precisamente su esencia económica, las representan en verdad en la circulación capitalista de mercancías. (Lukács, 1968, p. 40-41). Diante disso e da apropriação burguesa a respeito do tema, Lukács coloca a segunte pergunta: O que é a democracia hoje? Sua resposta é bastante clara: Lo que hoy se acostumbra llamar libertad es el resultado del (por lo menos en la superficie) triunfo indiscutible de las fuerzas internas del capitalismo. Es obvio- que las modificaciones cualitativas que el capitalismo ha realizado desde sus inicios hasta hoy, también en su superestructura política -la libertad de la democracia burguesa- ha debido someterse a muchos cambios pero ha mantenido intacta su esencia, la structura fundamental Se puede y se debe decir que, en el transcurso de ese desarrollo el carácter fundamental que determinó su naturaleza, su propia vida interna, se ha realizado con mayor claridad y pureza de lo que fue posible en los inicios revolucionarios llenos de ilusiones [...] La democracia de hoy -actual culminación de un desarrollo de siglos- es la democracia de un imperialismo manipulador en cuyo dominio se reina mediante la manipulación (Lukács, 1968, p. 41-42) [...] La manipulación sutil consiste precisamente en que se le sugiere al comprador la adquisición de una determinada mercancía de manera tal que imagine su compra, su posesión, como el resultado de una decisión libre, como expresión de su propia personalidad. [...] Este principio de manipulación puede ser aplicado mucho más fácilmente a la participación de la persona en el ámbito “ideal” de la vida del Estado(Lukács, 1968, p. 47). Portanto, para Lukács, a democracia burguesa se constitui em uma falsa alternativa para a vida social, uma vez que ela só pode se confinar a uma existência jurídica dos indivíduos que constituem uma determinada sociedade. Se democracia pressupõe, em seu entender, pluralidade, esta não pode estar confinada a ser pluralidade abstrata. Este encaminhamento da discussão serve de base para a reflexões de Lukács sobre o caráter do qual deve se revestir a democracia operária. Perspectiva a partir da qual se abre o caminho para pensar a democracia enquanto manifestação real do interesse coletivo, uma vez que pressupõe a superação da sociedade de classes, de um lado, e o tratamento da ordem A “crise das democracias” e o debate lukácsiano 83 democrática em íntima sintonia com a base econômica da sociedade, de outro. Para Lukács: A idéia que une os democratas revolucionários radicais e o socialismo é uma nova concepção de democracia. É possível formulá- la brevemente: só se pode falar de democracia quando desaparecerem todas as formas de dependência do homem frente ao homem, de exploração e de opressão do homem pelo homem, de desigualdade social e de ausência de liberdade. Trata-se, pois, de alcançar uma liberdade e uma igualdade sem discriminação de condição econômica, nacionalidade, raça, sexo etc. Somente então se realizaria o terceiro grande estádio da igualdade humana (Lukács, 2009, p. 28). A posição de Lukács em relação à democracia burguesa se amarra à própria situação de como esta joga contra a possibilidade de instauração da sociedade socialista. Observa Lukács que Quando desestimamos a democracia burguesa como alternativa da socialista, o fazíamos, antes de tudo, por considerações político-práticas; vimos sintetica- mente algumas das experiências de nossos dias que indicam claramente como toda tentativa deste tipo conduz infalivelmente à liquidação do socialismo (e, com grande probabilidade, da própria democracia)(Lukács, 1989, p. 50). Daí que para Lukács, a democracianão é um problema de ordem exclusivamente político ou ideológico, ainda que nestas duas instâncias sejam tecidos elementos sem os quais ela não pode se realizar. Um problema ideológico na medida em que a ideologia é “momento teórico-práctico del desarrollo social, como medio para el combate de los conflitos pro- vocados por la marcha de la producción material”. Ela “es sin duda um componente importante, inevitable, de toda transformación social. Pero por su naturaleza sólo un componente, una respuesta que los hombres dan a la modificación de la producción. Debe por eso tener un fundamento material, el que naturalmente no anula su influencia práctica como potencia social; al contrario, la refuerza extensiva e intensivamente dándole una base real al conjunto del concreto ser-en-si-mismo” (Lukács, 1998, p. 109-110). Mas igualmente um problema no âmbito do Estado uma vez que só pode se constituir em sua plenitude com a dissolução deste após sua conquista. Esses dois momentos não se encontram, no entanto, dissociados da questão cultural, uma vez que, tanto para a transição de uma sociedade capitalista a uma sociedade socialista, quanto para o aprofundamento das bases desta última, se faz necessário forjar e aprofundar uma determinada consciência de genericidade humana. O campo da cultura joga, neste sentido, um papel de grande importância na análise lukacsiana. E, no 84 O espectro de Lukács campo da cultura, a primeira tarefa para a sua difusão é a eliminação do analfabetismo. Recuperando a proposta leniniana, diz Lukács: [...] quando na Rússia dos soviets foi introduzida a Nova política econô- mica, Lênin lançou ao mesmo tempo a palavra de ordem da liquidação do analfabetismo. Liquidar o analfabetismo significa que as pessoas devem ler e adquirir através da leitura uma autônoma capacidade de orientação, sem a qual não pode realizar-se a democracia socialista. O capitalismo cria meios de informação de massa com o qual transforma a leitura em um ato formal e inculca nas massas um grande número de loucura, contrária aos seus próprios interesses. O socialismo, pelo contrário, tem interesse no fato de que cada pessoa saiba orientar-se autonomamente na própria vida e saiba dizer, com base na própria reflexão, se isto ou qual fenômeno corresponde à própria concepção da vida. É, todavia, fora de questão que isto possa acontecer sem a ajuda da cultura (Lukács, 1970, p. 93). Construir uma sociedade democrática pressupõe, desse modo, trazer para o plano da cultura, e, portanto, da civilização, todos os indivíduos, desde os mais simples, uma vez que A essência da democracia socialista deve ser a democracia da vida cotidiana. A essência da democracia socialista exige que cada homem possa viver a seu modo a sua vida, em harmonia com os interesses sociais. No capitalismo tudo isto depende do mercado, da publicidade, da manipulação1, etc. Como consequência, a liberdade capitalista é só um ideal abstrato; a população vota uma vez a cada cinco anos para algo, e a partir deste momento a sua sorte está nas mãos da burocracia. Devemos saber que a democracia da vida cotidiana não surge por si só no socialismo. Só a capacidade de guia do estrato dirigente conscientemente socialista, isto é, do partido, pode fazer os homens aprenderem a representar e a defender os próprios interesses, das coisas mais pequenas até às maiores questões políticas. Se coloca aqui, sem dúvida o problema da verdadeira função da cultura, porque um estrato social sem cultura é incapaz de reconhecer os seus interesses, ou, melhor, troca por seus interesses apenas aqueles cotidianos, mais imediatos, não aqueles da comunidade (Lukács 1970. p. 94). Mas, transformar a cultura é um ato prático. Processo no qual desenvolve um papel ativo os movimento sociais, desde que estes “tenham suficiente força como para provocar modificações na base econômica, para incidir sobre sua relação dinâmica estrutural com a superestrutura ‘ideal’”(Lukács, 1989, p. 40). A democracia socialista, por sua vez, só pode se efetivar se desde o A “crise das democracias” e o debate lukácsiano 85 início estiver voltada a superar a dualidade entre o “reino da necessidade e o reino da liberdade. [...] la economía (“el reino de la necesidad”) es la “base” inevitable del comu- nismo (“el reino de la libertad”) [...] Las personas em el nivel del “reino de la libertad”, llevan adelante el trabajo “en las condiciones más adecuadas y más dignas de su naturaleza humana”.[...] cuanto más elevadas son las formas económicas en las cuales el trabajo interviene, tanto más debe crecer, también en las sociedades clasistas, la consideración hacia las personas que lo realizan. La reducción del tiempo de trabajo socialmente necesario, la creación de condiciones de trabajo higiénicas, incluso lo que hoy comienza a desarrollarse en el capitalismo moderno, es decir los intentos por aplicar prácticamente una psicología del trabajo, etc., no tienen nada que ver con este problema. Se tratan, sin excepción, de medios para aumentar la productividad del tra- bajo, vale decir un contenido puramente económico con el fin de obtener tal aumento con el mínimo posible de conflicto. Donde, por fuerza, el primer elemento es siempre el cálculo económico: la persona que trabaja debe estar adaptada a sus exigencias. Las fases inferiores del desarrollo económico –em correspondencia con su atraso económico- realizaron esta adaptación com métodos de violencia brutal y, únicamente debido a esto es que determinadas medidas actuales en este sentido están falsamente valoradas. En efecto, em este último caso -como en las fases precedentes, sólo que con medios muy diferentes se trata exclusivamente de la adaptación de los trabajadores a las condiciones productivas impuestas por el cálculo económico. Marx piensa aqui algo completamente distinto: la adaptación de la producción a las con- diciones más adecuadas a la naturaleza humana y más dignas para ella. Una finalidade de este tipo y su puesta en práctica no puede más que traspasar los princípios en su conjunto de la esfera económica; la que no se modifica en nada, incluso en la posibilidad real que tal adaptación presupone em uma economia altamente desarrollada (Lukács, 1998, p. 95-96). Acrescente-se a este rol de problemas, outro, não menos importante. Uma sociedade verdadeiramente democrática, pressupõe um novo campo de eticidade: A nova ética, ao contrário, afirma em primeiro lugar que o homem social (o Mitmensch) não constitui um limite para os outros, mas, ao contrário, um fator essencial da sua liberdade. O indivíduo só pode ser verdadeiramente livre numa sociedade livre. Daqui deriva uma nova concepção acerca do desenvolvi- mento da personalidade. Se a ética burguesa o procura no fortalecimento e na expansão da individualidade isolada, para o marxismo o desenvolvimento da personalidade sempre significa riqueza de vida, riqueza de relações humanas as mais diversas, campo aberto para as diferentes atividades humanas. O homem que oprime e explora outros homens não pode, mesmo individualmente, ser livre (como o reconheceram, mesmo que de forma negativa, inclusive 86 O espectro de Lukács os estoicos e Epicuro) . Uma base da ética marxista é o reconhecimento de que a liberdade consiste na necessidade tornada consciente. Intimamente vinculado a isto é o fato de os homens se sentirem parte do gênero humano (Lukács, 2007, p. 75). Vê-se, pois, que o tratamento da questão democrática é muito mais complexo do que a sua redução aos aspectos formais que têm alimentado o debate editorial e midiático. Nestes dois referidos âmbitos, em geral, se esvazia o debate da democracia de seu conteúdo real de classe, de tal modo que ela é apresentada basicamente como uma adesão ou não a valores de caráter coletivo ou, mais abstratamente, de “interesse da sociedade”. Resgatar os elementos mais profundos para a compreensão do caráter radical da democracia, assim como de outros temas quesão colocados sob véu pelo pensamento que se encontra em sintonia com os interesses da acumulação capitalista, ocorra isso consciente ou inconscientemente, continua a ser uma tarefa nma ordem do dia nos tempos que correm. Notas 1 A manipulação sutil consiste precisamente em que se lhe sugere ao comprador a aquisição de uma determinada mercadoria de maneira tal que imagine sua compra, sua possessão, como o resultado de uma decisão livre, como expressão de sua própria personalidade” (Lukács, 1989, p. 47). Referências LUKÁCS, Györg, O jovem Marx e outros escritos de filosofia, R.J., Editora UFRJ, 2007. LUKÁCS, Györg, Cultura e potere, Roma, Editori Riuniti, 1970. LUKÁCS, Györg, Democracia y Revolucion, Hijos, 1998. MARS, Amanda, Steven Levitsky: “Perdemos a capacidade de discutir política e depois ir jogar futebol juntos” , El País, 1’4 abril de 2019. https://brasil.elpais. com/brasil/2019/04/05/internacional/1554485166_408018.html, acesso em 23 de novembro de 2021. LEVITSKY, Steven e ZIBLATT, Daniel Ziblatt, Como as democracias morrem, R.J., Zahar Editores, 2018. BLOG DA COMPANHIA, Entrevista com steven Levitsky, 30 de março de 2019, https://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/Entrevista- com-Steven-Levitsky CORREIO BRASILIENSE, 27/05/2020, acesso em 23 de novembro de 2021, https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/05/27/ interna_politica,858575/entrevista-steven-levitsky.shtml Lukács e a transição socialista Ronaldo Gaspar Homenagear György Lukács é um privilégio e um desafio. Pri- vilégio porque Lukács é um dos grandes – se não o maior – fi- lósofo marxista do século 20; desafio por causa da dificuldade de abordar qualquer aspecto de sua obra sem ser reducionista ou injusto com o seu legado. Por isso, antes de adentrar no aspecto escolhido para ilustrar essa homenagem, pensamos ser necessário destacar que Lukács não apenas tem uma produção filosófica bastante longa, diversa e muito complexa, mas que ela também é marcada por autocríticas, rupturas e continuidades. E, assim como aconteceu com outros grandes pensado- res, o filósofo húngaro também deixou obras incompletas (Ontologias) e um grande projeto irrealizado (Ética), dificultando o esclarecimento de alguns aspectos de seu pensamento. O indubitável é que, como uma das maiores tarefas da sua vida, Lukács visou, de um lado, depurar o marxismo de enxertos idealistas e materialis- tas vulgares, tendo sido um duro crítico da influência que as filosofias bur- guesas exerceram sobre muitos pensadores que as tomaram para supostas correções ou complementações do marxismo (tais como, dentre outros, o positivismo em Plekhanov, Kautsky, Bukhárin, e o kantismo em Edward Bernstein e Max Adler). De outro, por meio de reflexões profundas e variadas, expôs os erros teóricos e funções sociais dessas filosofias, desde seus pressupostos “metodológicos” (ontológicos e gnosiológicos) até suas implicações políticas, éticas e estéticas, demonstrando que o marxismo não precisa ser corrigido/complementado por nenhuma outra filosofia. 4 88 O espectro de Lukács Se a realidade é unitária e os modos de apreensão dessa realidade unitária são diversos (senso comum/prático, estético, científico, filosófico etc.), o marxismo é capaz de impulsionar/subsidiar/orientar a sua correta apreen- são conceitual – filosófica e científica – em todas as suas dimensões. Essa compreensão do marxismo como uma filosofia totalizante e a “ortodoxia metodológica” por ele defendida não fizeram de Lukács um dogmático incapaz de reconhecer a relevância de alguns questionamentos e reflexões pontuais de pensadores burgueses ou, muito menos, negligenciar ou subestimar a importância das conquistas teóricas e estéticas da bur- guesia do período revolucionário. Sem negar que todo pensamento está socialmente condicionado, Lukács era completamente avesso a julgar ideias tomando como referência a ancoragem social do sujeito que as produz. Tanto que, apesar de análises muito críticas – às vezes, demolidoras, como em A destruição da razão –, ele foi generoso e soube reconhecer, com a devida mediação da crítica, mesmo em seus maiores adversários, ideias e insights capazes de contribuir com o esclarecimento de teorias e fatos e, assim, com o desenvolvimento do pensamento marxista. Nos seus muitos escritos, sobressaem preocupações com a estética e a ética e, também, o combate às filosofias irracionalistas e àquelas de uma razão mitigada, empobrecida (nas palavras do marxista brasileiro Carlos Nelson Coutinho (1972), filosofias da “miséria da razão”). No entanto, enquanto o combate a essas filosofias e às suas apropriações indevidas ocorreu desde a sua adesão ao marxismo, os outros dois temas – estética e ética – atravessaram as suas preocupações desde os tempos juvenis (ante- riores à referida adesão) e perduraram até a velhice. Porém, o tratamento desses temas pelo filósofo húngaro a partir de fundamentos filosóficos distintos não impediu Nicolas Tertulian (1999, p. 126) de ter ficado impressionado “com a continuidade de certas ideias desenvolvidas nestes textos de juventude com as reflexões do último Lukács”. Quanto à política, embora muito conectado aos acontecimentos do seu tempo, Lukács não era um pensador político ao modo de Gramsci, cujas reflexões gerais foram quase sempre forjadas a partir de análises sobre problemas políticos imediatos, ou de Poulantzas, que desenvolveu reflexões detalhadas sobre a “arquitetônica” do Estado. Numa entrevista de 1966, Lukács (1969, p. 89) afirmou: “infelizmente, sou apenas um filósofo e não um político; temos hoje necessidade de um Lênin, que tivesse a capacidade de traduzir o estado atual da teoria marxista em práxis Lukács e a transição socialista 89 política”. Mas, apesar disso, o certo é que, desde a adesão ao marxismo, as suas reflexões sempre estiveram relacionadas ao objetivo político maior no qual ele se engajou no final da década de 1910 e que nunca mais abandonou: a revolução proletária, a revolução comunista. No Brasil, onde as suas ideias foram introduzidas no início dos anos 1960, o seu nome é indissociável das discussões sobre ontologia. Inclusive, não fosse o gigantismo da empreitada intelectual que resultou em mais de mil e quinhentas páginas densas sobre o assunto, esse destaque relacionado à ontologia seria curioso porque – em sua acepção madura – o termo ontologia não foi utilizado por ele até a última década de vida – ou seja, quando Lukács tinha mais de 75 anos e já era autor de uma vasta obra1. Enfim, com sua variada gama de interesses, Lukács foi um intelectual de inequívoco compromisso político e ético com a causa revolucionária do proletariado. Compromisso este que se manteve mesmo quando o con- texto político foi marcado pela terrível presença do fascismo, do nazismo e, sob aspectos sumamente distintos, mas também altamente problemáticos, do estalinismo. E é justamente por suas ideias estarem conectadas a esse compromisso com a revolução proletária e as exigências teóricas, políticas e éticas para a sua realização que Lukács é um pensador muito atual. Eis-nos, então, de volta ao tema: a atualidade de Lukács no século XXI. ••• Em nossos dias, é uma obviedade a afirmação de que atravessamos um período de múltiplas crises e retrocessos em praticamente todos os complexos/dimensões da vida social2. Mesmo naquele complexo social em que, pelo tipo de vinculação que tem com a reprodução do capital, o progresso é mais saliente – é o caso da ciência orientada para o incremento tecnológico e subordinada ao imperativo do lucro –, observa-se que os seus fins são alheios e, muitas vezes, opostos aos interesses dos produtores e, sob muitos aspectos, à própria sobrevivência da humanidade. Diferentemente das crises do século 20, os principais acontecimen- tos das últimas décadas – ruína (URSS e Leste Europeu) ou estagnação (Cuba) das experiências de transição socialista, heterodoxa experiência de acumulação decapital na China, reestruturação produtiva, neoliberalismo e o consequente domínio avassalador do capitalismo – eliminaram o socia- lismo do horizonte ideológico das classes trabalhadoras, permanecendo 90 O espectro de Lukács apenas em segmentos muito reduzidos de uma aguerrida militância políti- co-ideológica. Com isso, nunca esteve tão agudo o dilema da maturidade das condições objetivas da revolução conexa ao rebaixamento ideológico (subjetivo) da classe trabalhadora. Nas palavras do mais conhecido discí- pulo ortodoxo de Lukács, Rosa Luxemburgo colocou as coisas no seu devido lugar quando insistiu na dramática alternativa entre “socialismo ou barbárie”. Ora, o capital só pode, na melhor das hipóteses, avançar até o ponto de nos apresentar a própria alterna- tiva, mas não pode se propor a solucioná-la por sua própria supressão. Muito pelo contrário, já que a perigosa lógica interna do capital pode apenas forçá-lo a resolver a alternativa em seu próprio favor, pela destruição radical das pers- pectivas de um final socialista por intermédio de suas bárbaras determinações materiais. (Mészáros, 2002, p. 698) Por conseguinte, num estarrecedor contexto de crise aguda do capital e da consciência político-ideológica das classes trabalhadoras, as mesmas forças produtivas que tornaram as condições objetivas tão maduras para a construção do socialismo (e do comunismo) também têm resultado em inédita destruição ambiental e enorme ampliação do potencial destrutivo das armas, tornando a extinção da espécie humana uma possibilidade real. Como alento, há que se lembrar que nenhuma situação é eterna, nenhuma crise é interminável. Se bloquearmos a “alternativa” de apro- fundamento da barbárie capitalista e o consequente aumento do risco de extinção da humanidade, uma saída duradora, uma efetiva superação da crise, passa necessariamente pela emersão político-revolucionária dos trabalhadores, isto é, dos únicos sujeitos capazes de construir os caminhos da revolução comunista. Esclarecendo: não apenas os caminhos da tomada do poder político, mas da efetiva construção de uma sociabilidade não mais regida pelo capital e, assim, por um modo de produção fundado na auto-organização dos produtores. É necessário sublinhar esse substrato social da revolução porque os revolucionários do século 20 parecem ter- -lhe subestimado. Na Revolução Russa, por exemplo, embora alguns dos revolucionários – Lenin entre eles – tivessem consciência dos fundamentos incontornáveis da nova sociabilidade – a auto-organização dos produto- res –, a força das circunstâncias (guerra civil, fome, baixa produtividade do trabalho etc.) e/ou a secundarização da importância da regência da produção pelos produtores naquele início de transição os afastaram da implementação de medidas nessa direção. Por esses e outros motivos, a devida avaliação histórico-crítica das experiências revolucionárias do Lukács e a transição socialista 91 século 20 é parte tanto da necessária compreensão dos seus descaminhos quanto da correção de rumo para as revoluções do século 21. E, sobre isso, desde o curtíssimo artigo “O papel da moral na produção comunista”, escrito em 1920, até os portentosos livros Para uma ontologia do ser social e Prolegômenos para uma ontologia do ser social, de fins dos anos 1960, as reflexões de Lukács são de grande valia atualmente. “O papel da moral na produção comunista” é importante porque, ainda que contenha alguns traços voluntaristas, uma questão – por assim dizer, ético-moral – colocada por Lukács nesse artigo continua funda- mental para qualquer reflexão séria sobre a transição socialista: como fazer com que a regência jurídica dos produtores nos processos de trabalho seja substituída pela regência moral? Se, no contexto da crise sistêmica do capital, “os amedrontadores e sempre crescentes poderes de destruição que se acumulam – graças à inclinação suicida da “astúcia da história” – podem nos precipitar na ‘barbárie’ de Rosa Luxemburgo, em vez de garantir o final socialista” (Mészáros, 2002, p. 558), é então decisivo pensarmos tanto nos caminhos da revolução quanto nos problemas envolvidos nessa transição – afinal, esses caminhos e problemas estão imbricados. Também consideramos importante a recuperação de algumas ideias desse texto porque, como sabemos, na Revolução Russa, o controle dos processos de produção – de seus meios (como?) e fins (o quê? Para quem? Por quê?) – se tornou uma questão de grande importância econômica e política no curso dos acontecimentos logo nos seus primeiros meses. Numa obra excelente, S. A. Smith demonstra como, a partir de fevereiro de 1917, o proletariado russo avançou muito na luta contra o despotismo dos proprietários e seus capatazes (havia fábricas que ainda mantinham práticas de castigo corporal contra os operários) e na cons- tituição de comitês de fábricas, além de um Congresso dos Conselhos de Fábrica em Petrogrado. Segundo Smith (1985, p. 57), “a expulsão da velha administração era o lado negativo da democratização da vida na fábrica. O positivo, de longe o mais importante, consistiu na criação de comitês de fábrica para representar os interesses da força de traba- lho”. Com os Conselhos, os operários tinham como objetivo organizar o controle da produção por meio da articulação do poder proletário no chão de fábrica com a centralização necessária em razão da dispersão geográfica das unidades produtivas. Porém, as dificuldades resultantes dos conflitos entre o novo status do proletário na fábrica (com alguns direitos 92 O espectro de Lukács recém-adquiridos3) e a necessidade de aumentar a produtividade levaram os bolcheviques a decidir pela centralização via sovietes – e, portanto, via Estado4 – do controle dos processos produtivos, com a disciplinarização da força de trabalho sendo imposta de cima para baixo. Premidos pelas circunstâncias terríveis da guerra imperialista e da guerra civil, com consequências dramáticas sobre a produção – especialmente a produção industrial e o declínio numérico do proletariado5 –, as decisões tomadas pelos bolcheviques nesses primeiros meses/anos da “tomada do poder polí- tico” podem ter sido decisivas para a vitória política dos revolucionários, mas, também, podem ter contribuído decisivamente para a não-superação do capital e a sua recomposição sob formas não-capitalistas na Rússia soviética. Como sabemos, essa recomposição teve influência direta na definição dos contornos políticos do século 20 e, também, com o ocaso daquela experiência – e suas correlatas do leste europeu –, para os atuais obstáculos e impasses ideológicos e políticos relativos à revolução e à construção do socialismo. Outro fato que demonstra a importância das preocupações de Lukács sobre o controle da produção pelo proletariado é que mesmo uma teórica marxista arguta como Rosa Luxemburgo não atentou para essa questão em suas reflexões sobre os acontecimentos na Rússia revolucionária. Em seu famoso livreto de 1918, Revolução Russa, publicado apenas em 1922, ao mesmo tempo que assinalou, com aprovação, que “o partido de Lenin foi /.../ o único na Rússia que compreendeu os verdadeiros interesses da revolução neste primeiro período foi o seu elemento motor, e, nesse sentido, o único partido a praticar uma política realmente socialista” (Luxemburgo, 1991, p. 68), ela também o recriminou pela supressão das liberdades democráticas (liberdade de imprensa, direito de associação e reunião). E isso porque, ao contrário da dominação burguesa, a ditadura proletária demanda “a educação e a formação política de toda a massa do povo /.../ Para a ditadura proletária, esta educação é o elemento vital, o ar sem o qual não pode viver” (Luxemburgo, 1991, p. 90). Os seus questionamentos, então, chamaram a atenção para o impacto da supressão de liberdades políticas para o curso da revolução, especialmente para a conexão dos interesses de classe do proletariado com aqueles da emanci- pação humana, mas,ao menos naquele momento, não o fizeram para a necessidade de construção do socialismo a partir da transformação dos processos produtivos. Por sua vez, Lukács, que, em muitos textos, também tratou dos problemas relacionados à supressão das liberdades políticas nos países “socialistas”, buscou conectar os interesses do proletariado com Lukács e a transição socialista 93 as demandas de construção do socialismo não apenas nos momentos e instâncias da ação política, mas nos próprios processos de produção. Nas sociedades cindidas pelos interesses antagônicos das classes sociais, disse ele, “é inevitável que a função de regular a atividade social seja assumida pelo direito, não pela moral” (Lukács, 2005, p. 64). Em condições normais da reprodução social, o trabalhador assalariado pode ser ideologicamente cooptado e, assim, conceber que há uma conjunção entre os seus interesses individuais e aqueles socialmente prevalecentes, mas isso somente por causa do alheamento ante os interesses de sua própria classe – e, portanto, de suas demandas reais. Porém, nos momentos em que os antagonismos sociais afloram, como são os casos das greves e das revoluções, a força do direito – e seu braço armado – torna-se a única garantia de regulação da atividade social, de manutenção da ordem vigente, à disposição das classes dominantes. O princípio jurídico que parecia pairar acima das classes e garantir o direito individual universal explicita-se, nessas conturbadas condições, como a condição para que uns, os proprietários, não tenham o seu direito violado pela exigência de efetivação do mesmo direito pelos outros, os não-proprietários. Há, porém, uma diferença crucial nas condições de reprodução das classes capitalistas e das classes trabalhadoras. Segundo Lukács, “nas clas- ses capitalistas, somente pode existir uma solidariedade de classe para fora, mas não para dentro. Por isso, a força do direito nunca poderia ser substituída pela moral no interior dessa classe” (Lukács, 2005, p. 64-5). Se o direito à propriedade une os capitalistas contra os trabalhadores, internamente, pelas leis capitalistas da valorização do valor, cada um está sendo permanentemente ameaçado com a perda de sua propriedade. Para os capitalistas, não há saída. Mesmo em condições de oligopolização eco- nômica, nas quais a concorrência é parcialmente mitigada, essa situação instável é o habitat necessário à sua existência. Para os trabalhadores, a situação é diferente. Não é na abstração do direito que a solidariedade de classe do proletariado pode se realizar, mas na prática cotidiana, nas relações imediatas nas quais os indivíduos estão inseridos. Ao contrário da burguesia, que, em razão da guerra comercial permanente entre seus membros, não pode forjar senão uma unidade defensiva, os proletários, que também conflitam entre si na concorrência por emprego, somente podem constituir-se como uma classe na ofensiva, pois é somente na luta pela realização de seus interesses de classe que os anseios individuais 94 O espectro de Lukács confluem com os interesses gerais6. E mais, somente os interesses de classe do proletariado pode convergir com demandas emancipatórias da humanidade. Nesse sentido, se a ditadura do proletariado se caracteriza, essencialmente, “pelo triunfo da ideia [orientada para os interesses da classe] sobre as vontades egoístas dos homens individuais” ou, melhor, “sem o prejuízo de seus interesses pessoais” (Lukács, 2005, p. 65), o fundamento material dessa solidariedade é a existência de complexos produtivos que somente podem ser colocados em movimento a serviço de interesses gerais por meio de uma racionalização conduzida pelos produtores auto-organizados dentro e fora das unidades fabris. Essa confluência de interesses individuais e gerais impulsiona tanto o desenvolvimento dos indivíduos (enriquecimento da personalidade) quanto da sociedade (técnica, ciência, filosofia, arte etc.) (Marx, Engels, 2005, p. 73). Porém, em circunstâncias desfavoráveis, especialmente de grave escassez de bens de consumo, a construção dessa promissora solidariedade pode ser bastante traumática e há sempre o risco de não se conseguir alcançá-la. Sobre isso, nos trilhos das reflexões de Marx e Engels, Lukács destaca que não é possível a construção dessa solidariedade sem que a produtividade do trabalho seja suficientemente elevada para liberar tempo para o desenvolvimento da personalidade dos indivíduos proletários – os quais, inclusive, devem deixar de sê-lo com a consumação da revolução, pois o objetivo é que se tornem seres humanos que, dentre outras coisas, produzem. Em suas palavras, o ponto no qual confluem o interesse individual e o de classe é, pois, o incre- mento da produção, o aumento da produtividade do trabalho e, com ela, da disciplina dos trabalhadores. Sem esses fatores, o proletariado não pode existir; sem eles, a hegemonia de classe do proletariado se desvanece; sem eles, também o indivíduo /.../ não pode desenvolver-se plenamente (Lukács, 2005, p. 66). Porém, se o aumento da produção e, sobretudo, da produtividade do trabalho dependem do aumento da disciplina dos trabalhadores, como discipliná-los? Pois bem, só há duas maneiras de fazê-lo: pela compul- são interna ou pela compulsão externa. No primeiro caso, por meio da tomada de consciência das demandas produtivas, os próprios indivíduos se autodisciplinam e, assim, conectam os interesses individuais e os cole- tivos. No segundo, a ditadura do proletariado tem que se voltar contra o próprio proletariado, fazendo valer o interesse da classe sobre os interesses individuais. Para Lukács, o perigo desse uso da compulsão externa é que o proletariado “tem que criar para si uma ordem jurídica que não pode Lukács e a transição socialista 95 ser eliminada automaticamente pela evolução histórica. A evolução ten- deria, pois, para uma direção que colocaria em perigo a manifestação e a realização do fim último” – a saber, colocaria em perigo a emancipação dos trabalhadores. Por conseguinte, se aquela ordem jurídica que o proletariado se vê obrigado a criar dessa maneira deve ser abolida; quem sabe que comoções e padecimentos serão ocasionados por aquela transição que, por meio de tal rodeio, conduz do reino da necessi- dade ao reino da liberdade? (Lukács, 2005, p. 67). Olhando retrospectivamente para os desdobramentos da Revolução Russa, essa análise de Lukács demonstra-se certeira e premonitória na cap- tação de características decisivas do problema ainda em estado germinal. E, arrematando corretamente a sua reflexão, ele assinala que “a pergunta pela disciplina laboral não é, pois, para o proletariado, uma questão existencial de ordem econômica, mas também de ordem moral”. Isso porque, nessas condições, “a evolução já não é desenvolvida através das leis pelas quais regem forças sociais cegas, mas por meio da decisão voluntária do proletariado” (Lukács, 2005, p. 67). Portanto, sem o trânsito da disciplina forjada pela compulsão externa para a disciplina internamente orientada não se realiza a própria transição para o comunismo e, assim, também não a transição da pré-história da humanidade para a sua história propriamente dita. Essa com- preensão de Lukács torna-se ainda mais surpreendente quando lembramos que, em 1919, ainda não tinham sido descobertos textos fundamentais de Marx sobre o assunto, como os Manuscritos econômico-filosóficos, e nem A ideologia alemã (escrito com Engels). Neste último, lemos: [A apropriação dos meios de produção] só pode ser realizada por meio de uma união que, devido ao caráter do próprio proletariado, pode apenas ser uma união universal, e por meio de uma revolução na qual, por um lado, sejam derrubados o poder do modo de produção e de intercâmbio anterior e o poder da estrutura social e que, por outro, desenvolva o caráter universal e a energia do proleta- riado necessária para a realização da apropriação; uma revolução na qual, além disso, o proletariadose despoje de tudo o que ainda restava de sua precedente posição social. Somente nessa fase a autoatividade coincide com a vida material, o que corresponde ao desenvolvimento dos indivíduos até se tornarem indivíduos totais e à perda de todo seu caráter natural; e, assim, a trans- formação do trabalho em autoatividade corresponde à transformação do restrito intercâmbio anterior em intercâmbio entre os indivíduos como 96 O espectro de Lukács tais. Com a apropriação das forças produtivas totais pelos indivíduos unidos, acaba a propriedade privada. Enquanto na história anterior uma condição particular aparecia sempre como acidental, agora se tornou aci- dental o isolamento dos próprios indivíduos, a aquisição privada particular de cada um (Marx, Engels, 2007, p. 73-74). Nos termos que viriam posteriormente a ser adotados na Ontologia, pode- ríamos dizer que a pergunta de Lukács era: como construir a solidariedade de classe (a classe para si) no âmago dos processos de trabalho, da atividade vital, atividade que constitui a forma primária (protoforma) de todas as outras atividades humanas? Num de seus últimos textos, Lukács afirma que “a transformação de uma sociedade capitalista numa sociedade socialista parece ser, antes de mais nada, uma questão econômica” (2008, p. 108). Isso porque, numa formulação geral, abstrata, o “aspecto ontológico primário” da totalidade social é o “próprio processo econômico, que, emergindo do trabalho, como determinação central ontológica do ser social assim surgido, determina de maneira primária todas as linhas de desenvolvimento” (Lukács, 2010, p. 293). E, de modo mais concreto, com a socialização dos meios de produção, “os trabalhadores deixam de ser senhores do desenvolvimento social do homem. A estrutura social e suas transformações, no contexto de uma economia assim governada, devem surgir de modo socialmente consciente” (Lukács, 2008, p. 111). Portanto, a ideia que Marx e Engels expõem n’A ideologia alemã, segundo a qual a revolução é um processo de transformação das coisas e dos homens simultaneamente, é incorporada por Lukács. Embora com uma leitura um pouco diferente da que fazemos aqui, Ivo Tonet, em seu texto “Lukács, trabalho e emancipação humana”, tem razão em afirmar que: “mesmo que de modo inicial e sempre processual, o trabalho associado, em sua verdadeira expressão, tem de entrar em cena desde o início para nortear todo o processo revolucionário” (Tonet, 2013, p. 85). Isso exige uma correta compreensão da práxis revolucionária, tanto em seus aspectos gerais e em suas determinações ontológicas, como tam- bém na avaliação concreta da situação concreta, pois somente isso pode ultrapassar os entendimentos mecanicistas e os voluntaristas que podem resultar em impedimento efetivo da eclosão e/ou da vitória da revolução. Por conseguinte, a afirmação do Lukács de 1919 contém inequívoca Lukács e a transição socialista 97 conexão com suas preocupações éticas e políticas da velhice, pois, afinal, na sintética definição de Tertulian, para Lukács, a ação ética ultrapassa, ao mesmo tempo, a norma abstrata do direito e a irreduti- bilidade das aspirações individuais à norma /.../ A ação ética é um processo de ‘ge- neralização’, de mediação progressiva entre o primeiro impulso e as determinações externas; a moralidade torna-se ação ética no momento em que nasce uma con- vergência entre o eu e a alteridade, entre a singularidade individual e a totalidade social (Tertulian, 1999, p. 134). Numa revolução socialista, as liberdades de expressão, organização e reunião jamais poderiam estar completas – e, assim, atingir os objetivos da emancipação humana – sem que o seu fundamento seja o trabalho associado dos produtores livremente organizados. Enfim, se, de algum modo, Lukács empenhou esforços para o renascimento do marxismo, esse renascimento, hoje, passa necessariamente pela sua obra e pelo enfrenta- mento dos desafios teóricos e práticos que a crise sistêmica do capital e as exigências da transição socialista impõem a todos aqueles que pretendem fazer jus à famosa afirmação de Marx: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo” (Marx, Engels, 2007, p. 535). Notas 1 Segundo Guido Oldrini, somente após o contato com a obra Philosophische Grundfragen (Questões filosóficas básicas), de Bloch, e “as grandes obras ontológicas de Hartmann”, que “Lukács também decidiu utilizar, pela primeira vez, em sentido positivo, ‘a bela palavra ontologia’” (Oldrini, 2002, p. 68). Portanto, a sua produção intelectual sobre o tema ocorreu somente em idade avançada. Mas, de qualquer modo, dentre outros, o próprio Oldrini frisa que o reconhecimento de Lukács sobre a orientação ontológica do pensamento de Marx remonta aos anos 1930. 2 Nesse sentido, é indubitável que as reflexões de Lukács sobre a decadência ideológica burguesa, especialmente o neopositivismo nas ciências e o incremento do irracionalismo na filosofia e na política, podem nos auxiliar muito na elucidação das tendências em curso no capitalismo contemporâneo, tanto em âmbito local (por exemplo, os fundamentos e as características das tendências protofascistas no Brasil) como global (relação entre o aumento da mais-valia relativa e a ascensão do fundamentalismo religioso e o aprofundamento do estranhamento nas relações sociais). tanto pela ampliação das potencialidades manipulatórias destas proporcionadas pelo racionalismo formal quanto pelas brechas que, ao renunciar a uma visão unitária do mundo, permite o convívio teoricamente não conflituoso com a religião 98 O espectro de Lukács Referências ANWEILER, Oskar. 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Algumas indicações bibliográficas e uma pequena síntese dos dados pode ser encontrada em Gaspar (2019, p. 258-268). 6 “Os indivíduos singulares formam uma classe somente na medida em que têm de promover uma luta contra uma outra classe /.../ Essa subsunção dos indivíduos a determinadas classes não pode ser superada antes que se forme uma classe que já não tenha nenhum interesse particular de classe a impor à classe dominante” (Marx e Engels, 2007, p. 63-64). Ou seja, uma classe cujos interesses particularessão, em última instância, os interesses de toda a humanidade. Essa classe é o proletariado. Lukács e a transição socialista 99 2007. MÉSZÁROS, István. Para além do capital. São Paulo, Boitempo, 2002. OLDRINI, Guido. Em busca das raízes da ontologia (marxista) de Lukács. In: PINASSI, Maria Orlanda; LESSA, Sérgio (Orgs.). Lukács e a atualidade do marxismo. São Paulo: Boitempo, 2002. SMITH, S. A. Red Petrograd. Revolution in the factories, 1917-1918. 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O homem, diz Lukács, ao trabalhar – portanto, ao atuar sobre a natureza exterior –, ele, ao mesmo tempo, também se modifica, altera a sua própria natureza. Tem-se, então, no trabalho, o momento de uma dupla transformação. Ao converter o objeto em uma coisa útil, o ser humano não apenas altera materialmente o objeto, que existe fora da consciência dele; ele, afirma Lukács, realiza no objeto o seu propósito, dando-lhe uma forma previamente idealizada, sendo este, portanto, um processo teleológico. A pré-condição para que essa transformação material da realidade material seja efetivada – e, portanto, haja êxito o pôr teleológico – é o conhecimento correto das propriedades das coisas, das leis da natureza. As categoriais e leis desta última constituem, em última instância, uma base irrevogável das categorias sociais. Por possuir sua gênese no ser natural e por reprodu- zir-se no interior desse quadro, o ser social nunca pode se desvincular por 101 completo, em sentido ontológico, dessa base. No seu desenvolvimento, no entanto, o ser social exibe uma sua tendência de fundo que é a explicitação, a partir daquela base, das suas determinações puramente sociais – processo este chamado por Marx de “recuo das barreiras naturais” –, ou ainda a substituição das determinações naturais puras por formas ontológicas mistas (animais domésticos). [...] o ser social pressupõe, em seu conjunto e em cada um dos seus processos singulares, o ser da natureza inorgânica e da natureza orgânica. Não se pode considerar o ser social como independente do ser da natureza, como antítese que o exclui, o que é feito por grande parte da filosofia burguesa quando se refere aos chamados “domínios do espírito” (Lukács, 2012, p. 286-87). Como o ser social nunca pode se desvincular por completo de sua base natural, o fato de a transformação de um objeto da natureza em coisa útil mediante um pôr teleológico trazer à luz, em termos ontológicos, algo completamente novo, ou uma forma de objetividade inteiramente nova, que não possui nenhuma analogia no ser natural, poderia suscitar uma aparente separação; entretanto, o vínculo ontológico entre natureza e sociedade ajuda-nos a diluir essa falsa aparência. Ainda que o objeto pareça permanecer em sua forma imediatamente natural, enquanto valor de uso ele em si é algo qualitativamente diverso em relação à natureza. Sob o prisma da dupla determinação, vê-se, portanto, essa indissociável relação: através da práxis que surge e se explicita a partir do ser natural, surgem – tanto nos seres humanos como nos seus objetos – relações, vínculos, etc. como determinação de uma ineliminável base natural e, simultaneamente, como constante transformação social dessa base (Lukács, 2012, p. 285). Seria dessa inter-relação entre natureza e sociedade – defende Lukács – que o autor d’O Capital teria falado em uma ciência da história, que abrangeria tanto o mundo natural quanto o mundo humano2. Para o filósofo húngaro, haveria uma indissolúvel unidade do materialismo na ontologia de Marx e a saudação dele e de Engels à Darwin (com ressalvas), bem como o entusiasmo do segundo à teoria de Kant-Laplace comprovariam o seu pensamento3. Nessa direção, ele nos diz: Aqui, porém, foi necessário sublinhar simplesmente que a fundação de uma ontologia materialista da natureza, que compreenda em si a historicidade e a processualidade, a contraditoriedade dialética etc., já está implicitamente 102 O espectro de Lukács contida no fundamento metodológico da ontologia marxiana (Ibidem, p. 289; ênfase minha). O ser social tem início com a posição teleológica do trabalho, com um salto ontológico, que tem por base formas de transição4. O ato do pôr teleológico é algo exclusivo do ser social, não possui analogia na natureza; com ele, desde então, tem-se presente o ser social em si. É com o seu des- dobramento que se opera a transformação do ser-em-si no ser-para-si. De acordo com Lukács, as formas de transição de onde deriva geneticamente o trabalho só podem ser corretamente apreendidas a partir do seu resul- tado. O filósofo húngaro retira essa premissa da famosa Introdução (1857) de Marx, onde se acha desenvolvida a ideia de que a forma inferior só é devidamente compreendida quando a forma superior atingiu a sua plena explicitação – “A anatomia do ser humano é uma chave para a anatomia do macaco” (Marx, 2011, p. 58). Esse que seria um protesto de Marx contra as tentativas de se introdu- zir categorias superiores em estágios inferiores – já que o filósofo alemão também utiliza esse raciocínio para o âmbito da sociedade: “a economia burguesa é a chave para a economia antiga” (Ibidem, p. 58) – é onde Lukács vai apoiar a compreensão de que as formas de transição só podem ser ontologicamente compreendidas quando a sua conformação final estiver concluída (o trabalho). G. Lukács vai atribuir a virada materialista de Marx à descoberta da prioridade ontológica da economia no âmbito do ser social. Por prioridade ontológica o autor húngaro entende o seguinte: “a primeira pode existir sem a segunda, enquanto o inverso é ontologicamente impossível” (Lukács, 2012, p. 307). Isso vale tanto para uma categoria em relação a outra, ou mesmo para o caso, por exemplo, da tese de todo materialismo, aquela segundo a qual o ser tem prioridade ontológica diante da consciência. Para elucidar este último caso, Lukács cita pesquisas que indicam que só num determinado grau de desenvolvimento da matéria é que a consciência pode se tornar possível: “a biologia moderna está em vias de provar como surgem gradualmente, a partir dos originários modos físico-químicos de reação do organismo ao ambiente, formas cada vez mais explícitas de consciência”5 (Ibidem, p. 307). Ademais, esta passagem indica (e confirma) o caminho ou a orientação – segundo a proposta do autor – para uma investigação ontológica concreta. Foi igualmente nesse estrito sentido que Engels, segundo nos assegura o pensador húngaro, em seu discurso durante o funeral de Marx, disse ter sido o falecido amigo o Lukács e a heurística marxiana 103 pioneiro em descobrir que antes de toda atividade puramente intelectual – filosofia, ciências, política, artes, etc. – o homem precisa comer, beber, vestir-se, etc. Seria exatamente esse fato elementar da vida humana, sem o qual nenhum outro pode existir, que possuiria prioridade ontológica perante todos os outros: “[...] a prioridade da produção e da reprodução do ser humano em relação a outras funções” (Ibidem, p. 307). Marx: novaforma de cientificidade e de ontologia Na sistematização da obra de Marx que propõe, Lukács chega à conclusão de que atua nela uma crítica ontológica que teria por função despertar a consciência científica e fazê-la restaurar em si, no âmbito do pensamento, “a realidade autêntica, existente em si” (Ibidem, p. 295). Ele sustenta essa sua posição amparando-se na vasta produção deixada pelo autor alemão – as citações dos vários trabalhos atestam o seu amplo conhecimento. No caso em tela, o que o faz afirmar existir uma crítica ontológica permanente em Marx é uma crítica dirigida n’O Capital contra economistas vulgares, que, de acordo com Lukács, se fechariam nas formas fenomênicas e deixariam de lado as conexões reais. Por estar vinculada à práxis, a relação fenômeno-essência no ser social ganharia novas determinações por poder sujeitar-se, por exemplo, ao que Hobbes chamou de agir interessado. No caso dos economistas vulgares objeto da crítica de Marx, a ciência, à qual eles estariam vinculados, contaminada pelo agir interessado de grupos sociais, torna-se o órgão com o qual se encobre a essência (Ibidem, p. 295) – daí, então, a frase de Marx sobre a ciência e a relação fenômeno-essência na qual o autor húngaro sustenta a sua argumentação. Seriam em casos como o mencionado que estaria a crítica ontológica de Marx a falsas representações. De acordo com Lukács, esse modo peculiar com o qual Marx desen- volve seus argumentos é uma forma completamente nova e que estaria presente na “estrutura interna de sua obra madura” (Ibidem, p. 295). Tal maneira seria uma nova forma de cientificidade em geral, assim como de ontologia – algo que atingiria “o estágio máximo da consciência”6 (Ibidem, p. 296). Assimilar esse “mecanismo unificador” que satura a sua obra é, portanto, a condição para não apenas dar o salto e ultrapassar numa época vindoura a cientificidade moderna7 – permeada de grandes descobertas, é verdade –, mas também estaria no entendimento dessa nova forma de cientificidade o núcleo dinâmico da concepção marxiana pela qual o 104 O espectro de Lukács marxismo poderia ser desenvolvido a partir dele mesmo8. Nas palavras do autor, essa nova forma seria... [...] uma cientificidade que, no processo de generalização, nunca abandona esse nível, mas que, apesar disso, em toda verificação de fatos singulares, em toda reprodução ideal de uma conexão concreta, tem sempre em vista a totalidade do ser social e, com base nela, sopesa a realidade e o significado de cada fenô- meno singular; uma análise ontológico-filosófica da realidade em si que jamais vaga, mediante a autonomização de suas abstrações, acima dos fenômenos operados, mas, ao contrário, justamente por isso, conquistou para si crítica e autocriticamente o estágio máximo da consciência, para poder captar todo ente na plena concretude da forma de ser que lhe é própria, que é específica precisamente dele (Ibidem, p. 296; ênfase minha). De imediato, chamamos a atenção para dois fatos: primeiro, a conexão concreta; ela é reproduzida no pensamento, de modo que a sua existência externa ao homem pressupõe uma indiferença dela para com ele, e que, “na luta pela sua existência”, resta ao ser humano apreendê-la, reproduzindo idealmente a conexão concreta, que existe, novamente, independente da consciência dele; a conexão concreta, então, tem predominância sobre o pensamento, que só pode reproduzi-la nele. O segundo fato diz respeito à permanente articulação entre fatos singulares, conexões e totalidade do ser. O fenômeno singular (ou a conexão) é sempre analisado em seu em-si, porém nunca é apartado da realidade de onde ele nunca – para o intento de ser apreendido e reproduzido idealmente – poderá ser suprimido. Daí, portanto, a exigência, e não mero recurso formal, dele ser apreendido em conexão com a totalidade do ser, para que ele, o fenômeno singular, ou a conexão concreta, possa ser reproduzido idealmente em sua inteira perfeição (aproximativa) do que ele é na realidade em-si, e não sofra, portanto, no seu processo de apreensão, deformações decorrentes do seu isolamento – possível de ser realizado apenas no plano ideal – da totalidade do ser9. Em outras palavras, o fenômeno singular, a conexão concreta nunca pode ser corretamente apreendidos sem a mediação da totalidade do ser. Procedendo dessa forma, isto é, observando a prevalência do fenômeno singular, da conexão concreta frente a sua reprodução ideal e a correlata apreensão em articulação – e sem separação, vale dizer – com a totalidade do ser, estar-se-á resguardado justamente da “autonomização de suas Lukács e a heurística marxiana 105 abstrações” e, consequentemente, do pôr-se acima – idealmente – dos fenômenos considerados, desvinculando-se, no plano da realidade em si, deles: A elaboração puramente ideal, por conseguinte, pode facilmente cindir o que forma um todo no plano do ser, e atribuir às suas partes uma falsa autonomia, não importando se isso sucede em termos empírico-historicistas ou em termos abstrativo-teóricos10 (Ibidem, p. 306). O contraste entre “reprodução ideal” (dos fatos singulares, das cone- xões concretas) e “autonomização de suas abstrações” é algo balizador, e decisivo, para essa forma de análise ontológico-filosófica da realidade, para a qual a totalidade do ser, outra referência inibidora da autonomização das abstrações, seria dessa maneira constituída (ou caracterizada): A totalidade não é, nesse caso, um fato formal do pensamento, mas constitui a reprodução ideal do realmente existente; as categorias não são elementos de uma arquitetura hierárquica e sistemática, mas, ao contrário, são na realidade “formas de ser, determinações da existência”, elementos estruturais de com- plexos relativamente totais, reais, dinâmicos, cujas inter-relações dinâmicas dão lugar a complexos cada vez mais abrangentes, em sentido tanto extensivo quanto intensivo11 (Ibidem, p. 297; ênfase minha). A totalidade do ser é o ponto de partida da visão marxiana na investigação das suas conexões12, um processo que tenta apreendê-la em suas múlti- plas e intrincadas relações – “no grau máximo de aproximação possível” (Lukács, 2012, p. 297). Não sendo – para essa visão – as categorias algo sistematizado numa conexão definitiva, tornadas homogêneas por uma hierarquia sistemática13, e sim, “formas de ser, determinações da existên- cia” (Marx), dinâmicas, a lógica – de acordo com Lukács – perde então a sua função no processo de condução da filosofia. Ou seja, como são às conexões reais, aos fenômenos que deve se submeter toda reprodução no pensa- mento do realmente existente, sendo esta reprodução mental do realmente existente uma outra noção de totalidade, a lógica enfraqueceu-se, apesar de a filosofia – não ao preço, vale dizer, de dominar e submeter à ela os fenômenos e suas conexões – continuar a ser o princípio condutor dessa nova cientificidade. O que se encontra por detrás dessa fala, por exemplo, é a crítica à ideia de sistema de Hegel, um tipo de unidade estática que surge quando as categorias são ordenadas numa conexão hierárquica. É aqui, portanto, devido à prevalência das conexões reais ante a reprodução ideal e ao caráter dinâmico das categorias, que se encontra a rejeição marxiana 106 O espectro de Lukács à ideia de ordenação hierárquica14, embora, o filósofo alemão não tenha prescindido em suas análises da sobreordenação e da subordinação, bem como não deixasse escapar delas a interação e, conforme observa Lukács, tenha, por conseguinte, no bojo desse processo, introduzido a questão do momento predominante ao tratar das interações. Ainda de acordo com ele, tal caráter dinâmico das categorias justificariam também a opção nominal das obras de Marx, isto é, seria ela uma atenção para o caráter ininterrupto, e nunca acabado, da crítica ontológica imanente de todo fato15, uma forma antissistemática portanto – porém, não afeita a um empirismo vulgar dotado de um ontologismoingênuo. Os rumos do legado de Marx após a sua morte Lukács atribui à Lenin o mérito de ter sido o único marxista, após Engels, a não apoiar a lógica e a teoria do conhecimento em si mesmas – isto é, de maneira ideal. Segundo ele, um exame minucioso do legado de Marx revela que este não só diferenciaria ontologia de teoria do conheci- mento, como também atribui a esta não diferenciação a causa das ilusões idealistas (Hegel). Noutras palavras, o pensador húngaro está nos dizendo que o caráter metodológico-filosófico geral marxiano é antissistemático, dispensa o ordenamento categorial hierárquico, estático, e, ao contrário, preza pela realidade em si, pelo caráter dinâmico das categorias. Estas últimas seriam elementos estruturais de complexos reais e dinâmicos, os quais, por meio de inter-relações, cedem lugar a complexos mais vastos tanto em sentido intensivo quanto extensivo. Seria nesse preciso último sentido que o pensamento marxiano se tornaria peculiar, embora, na época em que surgira como modo de pensar, como forma específica de enfrentar os complexos – cuja existência enquanto complexos de ser seria primária –, dado o ambiente da época, tal concepção geral, segundo a avaliação de Lukács, era estranha a interlocutores críticos e até mesmo a admiradores. O colapso da filosofia hegeliana a partir de 1848 e o posterior triunfo do neokantismo e do positivismo piorariam ainda mais a situação, visto que o primeiro não tolerava até mesmo a incognoscibilidade da coisa-em-si16, enquanto que o segundo invalidava o valor objetivo da verdade do conhe- cimento17. A propensão para problemas ontológicos revela-se, assim, assaz hostil. É nesse contexto, portanto, que o trabalho de economia de Marx aos olhos da comunidade científica – submetida a tais influências – será visto como metodologicamente inferior ao “axiologicamente neutro” – i. e., o modo dominante de análise. Após a morte de Marx em 1883, entre Lukács e a heurística marxiana 107 os seus discípulos declarados, a imensa maioria já se encontra sob tais influxos. Aos olhos de Lukács, a ortodoxia inicial era fundada em “afir- mações e inferências singulares de Marx (...) mal compreendidas e sempre coaguladas em slogans radicais” (Lukács, 2012, p. 299); após tentativas fracassadas de Engels, via conselhos epistolares, alertando para os riscos de rigidez da dialética, Bernstein, num movimento oposto, visando a dar força às tendências que propunham a revisão das ideias de Marx, publica tais cartas. De modo que, para o autor húngaro, a seguinte conclusão pode ser extraída daquele momento: O fato de que a elasticidade exigida por Engels e a rejeição da vulgarização coagulante pudessem ter sido entendidas desse modo mostra que nenhuma das duas orientações em disputa havia compreendido a essência metodológica da doutrina de Marx (Ibidem, p. 299; ênfase minha). O arremate lukacsiano ratifica o essencial para a compreensão do legado de Marx, a saber, a configuração metodológica. Se em Hegel, como vimos, a disputa deu-se em torno da “reconciliação com a realidade” ou não do ex-reitor da Universidade de Berlim, após a morte de Marx a disputa ia se dar, na opinião de Lukács, fora do foco central ou do seu núcleo dinâmico. E aqui, uma vez mais, como contributo importante para tal situação, vale ressaltar o ambiente extremamente hostil ao entendimento da proposta de Marx (a nova cientificidade), agravado após o colapso da filosofia hegeliana em 1848 e piorado após a assunção das correntes neokantianas e positivistas. Não seria de se estranhar, por exemplo, que Bernstein, junto com Max Adler e outros, buscasse em Kant um “com- plemento” ao marxismo, ou mesmo Franz Mehring ter negado haver relação entre marxismo e filosofia. Embora este último, junto com Rosa Luxemburgo, fosse teórico e marxista em questões singulares, ambos, na opinião de Lukács, possuíam pouca sensibilidade para as questões filosófi- cas de fundo presentes em Marx. É só em Lenin, como já sinalizado, que as fundamentais tendências de fundo serão assimiladas e desenvolvidas. O posterior líder revolucionário russo, após a morte de Engels, seria o primeiro entre a primeira geração de sucessores de Marx a, de maneira exitosa, restaurar integralmente o essencial do pensador alemão e desenvol- vê-lo18 – ou seja, aplicando à realidade presente com o intuito de resolver os problemas dela brotados. Na breve leitura que faz do que veio a se chamar marxismo, Lukács aponta para os anos 1920, em decorrência da crise revolucionária ocasionada pela Primeira Guerra e pelo surgimento da República Soviética, um interesse renovado nos estudos de Marx, não 108 O espectro de Lukács contaminado pelos influxos – denominados por ele – aburguesados da socialdemocracia (Gramsci, Caudwell, o próprio Lukács, etc.). Observa-se, também nessa época, uma gradual marginalização de Marx e de Lenin por Stalin, ainda que – de acordo com o filósofo húngaro – a teoria lenineana tivesse sido utilizada como “renovação do marxismo” na luta contra a Segunda Internacional19 – fato que (sob Stalin), embora cor- reto em seu destaque a respeito da renovação lenineana, em si já colocaria Marx em segundo plano diante de Lenin. A marginalização de Lenin, finalmente, por Stalin será consumada após a publicação do capítulo de sua autoria sobre filosofia (O materialismo dialético e o materialismo histórico) no livro História do Partido, fato que, indubitavelmente, traria consequências irreparáveis para o desenvolvimento da teoria marxiana, visto que, por exemplo, Marx e Lenin passariam a ser utilizados pelos teóricos oficiais apenas como citações de apoio aos escritos de Stalin. Derivaria o seguinte de tal situação, segundo o pensador nascido na Hungria: "Na terminologia marxista surgiu um subjetivismo total e totalmente voluntarista, que era porém o meio adequado (e para alguns o é ainda hoje [referência aos anos 1960], para legitimar com métodos sofísticos qualquer resolução como sendo um corolário lógico do marxis- mo-leninismo" (Ibidem, p. 302). A alusão lukacsiana é certamente às “justificações a posteriori” stali- nianas, tratadas com vagar por ele nos “Processos de democratização”20. Nada mais estranho às originais prospecções de Marx, compreendidas por Lukács como uma nova forma de cientificidade, do que essa tentativa de “controlar, regular os fatos” ao invés de tentar compreendê-los em sua imanente espontaneidade. Vista sob o prisma da obra de Marx inaugurado por Lukács, essa metodologia não passa de pura escatologia. A rejeição das categorias como elementos de uma estrutura hierárquica e sistemática, tornando-as, via conexão definitiva, homogêneas, e sua com- preensão como elementos estruturais de complexos reais relativamente totais – sujeitas, portanto, por meio da interação dinâmica entre os complexos, sempre a novas situações –, com a consequente perda da lógica do posto de guia filosófico, contrasta ruidosamente com essa forma esquemática de manipular a realidade. É esse, por conseguinte, o quadro (marxista) de onde o autor húngaro parte no seu intento de renovar o marxismo. Fato Lukács e a heurística marxiana 109 que, como faz questão de frisar o próprio, só pode ser alcançado mediante retorno ao próprio Marx: [...] o dogmatismo, em seu subjetivismo afirmado de modo apodíctico, interdi- tava qualquer aprofundamento no objeto, qualquer generalização que partisse do objeto. Quem tolerou semelhantes antolhos em sua fisionomia intelectual pôde somente apresentar dogmas prontos e acabados e perdeu qualquer ligação com a realidade. Minha luta guerrilheira contra o dogmatismo não apenas salvou a minha relação com a vida e seus objetos, mas também a promoveu. Se hoje posso trabalhar numa estética e sonhar com a elaboração de uma ética, devo-o a esta luta21 (Lukács, 2008, p. 51). A virada marxiana e o método para o conhecimento do real: a viagem de retorno Parte da incompreensão teórica da obra de Marx, do essencial dela,deve-se – além do ambiente hostil às questões ontológicas, circunstâncias históricas, etc., como visto – ao descuido e à inobservância de textos como a Introdução22, escrito no ano de 1857, e publicado por Kautsky em 190723. Esse escrito singular é tido por Lukács como um dos poucos em que o filósofo alemão, em sua fase madura, trata em separado de questões de filosofia e ciência. A sua repercussão na concepção que se elaborou do método de Marx cinquenta anos após a sua publicação, segundo a avaliação do filósofo magiar, pode ser considerada bastante insatisfatória. No entanto, nesse esboço, de acordo com ele, se encontrariam resumido aspectos centrais para a ontologia do ser social, bem como para a compreensão da realidade econômica. A observação lukacsiana no que diz respeito à concepção meto- dológica de Marx faz sentido quando se analisa esse escrito. Nele, o autor d’O Capital procura desenvolver o modo adequado pelo qual devemos conhecer a sociedade, tida por ele, desde a Miséria da filosofia dez anos antes, como uma totalidade24. O conhecimento da realidade social seria obtido mediante uma dupla via: primeiro, as meras representações obtidas mediante contato com a realidade imediatamente dada devem ser melhor determinadas através de abstrações isoladoras25. Em seguida, continua, deve se “dar início à viagem de retorno” (Marx, 2011, p. 54; ênfase minha), buscando a população, porém não mais tida como um todo caótico, mas sim como uma “rica totalidade de muitas determinações e relações”26 (Ibidem, p. 54; ênfase minha). A população é o “real e o concreto” – ou seja, ela é “a base e o sujeito do ato social de 110 O espectro de Lukács produção como um todo”27. Entretanto, Lukács observa que esse caminho do processo cognoscitivo deve ser sempre resguardado de autonomizações28 (que conduz à autofalsificações) pela permanente vigilância quanto à dependência do ser. Instrutivas, nesse sentido, são as palavras do próprio Marx a respeito: "O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações, portanto, unidade da diversidade. Por essa razão, o concreto aparece no pensamento como processo da síntese, como resultado, não como ponto de partida, não obstante seja o ponto de partida efetivo [o real e o concreto29] e, portanto, também o ponto de partida da intuição e da representação30" (apud Lukács, 2012, p. 305). Pela via (primeira) das “representações plenas” surgem as “determinações abstratas” (Ibidem, p. 54), enquanto que pela segunda via estas últimas “levam à reprodução do concreto por meio do pensamento” (Ibidem, p. 54). O limite idealista do pensamento de Hegel estaria dado aqui por ele ficar na primeira via, não “ascender do abstrato ao concreto” (Ibidem, p. 54) e, com isso, não fazer a “viagem de retorno”. Pois, de acordo com Marx, a “viagem de retorno” ou “o método de ascender do abstrato ao concreto” é apenas “o modo do pensamento de apropriar-se do concreto, de reproduzi-lo como um concreto mental” (Ibidem, p. 54-55; ênfase minha); ele jamais seria “o processo de gênese do próprio concreto” (Ibi- dem, p. 54-55). Destarte, fica nítida nessas considerações a demarcação fronteiriça que faz Marx entre realidade e pensamento, sobre a forma de como este deve conhecer aquela, os dois percursos que deve fazer o processo cognoscitivo para atingir o concreto, isto é, “reproduzi-lo como concreto mental”, já que o concreto é “a síntese de múltiplas determinações” e o mesmo não aparece no pensamento como ponto de partida; ele aparece neste último como resultado. Lukács ainda acrescenta que esse caminho até o conhecimento da totalidade concreta é o necessário caminho do conhecimento, mas não o caminho da totalidade concreta, da própria realidade. Essa distinção se faz necessária pelo fato de que uma mudança da totalidade (inclusive das parciais que a constituem), conforme essa concepção, nunca pode ser obtida mediante deduções categoriais reali- zadas pelo pensamento, mas sim explicitando a gênese real da mudança (via processo cognoscitivo que começa com os “elementos” obtidos pela abstração e vai até o conhecimento da totalidade concreta – i. e., a dupla via, o verdadeiro caminho do conhecimento). Vemos, portanto, como Lukács e a heurística marxiana 111 o que tudo que foi dito a respeito da nova cientificidade inaugurada por Marx converge com o que acabamos de enunciar. O cuidado analítico em demonstrar o modo como se deve conhecer a realidade nesse escrito nos mostra que, se bem assimilado e aproveitado, sua repercussão no que tange à compreensão da metodologia de análise de Marx poderia ter provocado outros rumos ao marxismo no século XX. Embora não deva haver dúvidas quanto ao real e ao concreto serem o ponto de partida efetivo do pensamento – conquanto apareçam neste como resultado –, os “elementos” obtidos através de abstração também são, do ponto de vista ontológico, complexos processuais do ser31. Não obstante pareça um contrassenso, já antes – ao falar ser o caminho do conhecimento diferente do caminho da própria realidade32 –, Lukács observa que o segundo é constituído de “interações reais e concretas entre esses ‘elementos’ [obtidos por abstração]”33 (Lukács, 2012, p. 305). Apesar dessa diferença entre os caminhos, que é uma clara diferenciação com o modo idealista, o autor húngaro vai afirmar que as conexões entre os “elementos34” obtidos por abstração não são, de modo algum, indiferentes para o conhecimento da realidade35 – porém, reitera-se, importantes não no sentido idealista36. Logo, é de extrema relevância observar o comporta- mento deles (funcionamento interno e sua legalidade, compreender como eles são em si, como suas forças internas os fazem mover-se, por si, quais inter-relações surgem entre eles e outros “elementos” quando são isolados de interferência externa). Tal apreciação é possível de ser feita mediante observações empíricas, para atestar (ou não) o que se presume deles, e por meio de experimentos ideais abstrativos. Assim, o importante a reter aqui é que, embora sejam obtidos mediante abstração, os “elementos” – do ponto de vista ontológico – possuem caráter de ser37. Não à toa, por exemplo, Marx vai falar do modo de ser antediluviano do valor de troca como categoria38 (a mais simples das econômicas), enquanto sua existência efetiva depende da população, desta produzindo em determinadas circunstâncias, etc. – já que o “concreto mental” não corresponde ao processo originário do concreto, o caminho do conhecimento difere do caminho da realidade, etc. N’O Capital, por outro lado, ele vai definir essa categoria econômica como uma “objetividade fantasmagórica”39. Para se ter maior clareza do 112 O espectro de Lukács que está sendo enunciado aqui, vejamos como o autor d’O Capital aborda a questão na Introdução de 1857: [...] para a consciência para a qual o pensamento conceitualizante é o ser humano efetivo, e somente o mundo conceituado enquanto tal é o mundo efetivo (...), o movimento das categorias40 aparece, por conseguinte, como o ato de produção efetivo – que, infelizmente, recebe apenas um estímulo do exterior –, cujo resultado é o mundo efetivo; e isso (...) é correto na medida em que a totalidade concreta como totalidade de pensamento, como um concreto de pensamento, é de fato um produto do pensar, do conceituar (Marx, 2011, p. 55; ênfase minha). O todo de pensamentos, tal como aparece no cérebro, é um produto da cabeça que pensa, do pensar. É sob esse ângulo que Marx julga correto o fato do movimento das categorias dá início ao ato de produção do mundo efetivo (sob o prisma da consciência), mas isso sendo válido somente se visto pelo ângulo de que a totalidade concreta, enquanto um concreto de pensamento, é produzida pelo pensar, pelo conceituar (a totalidade concreta enquanto totalidade de pensamento é produzida pelo pensar). Eis, então, uma crucial advertência: esse concreto de pensamento, no entanto, não é, de modo algum, produtodo conceituar pensado acima ou fora da intuição e da representação originárias; ao contrário, os conceitos são resultados da elaboração da intuição e da representação, e não produtos de si mesmos. Assim, Marx resume a questão: O todo como um todo de pensamentos, tal como aparece na cabeça, é um produto da cabeça pensante que se apropria do mundo do único modo que lhe é possível, um modo que é diferente de sua apropriação artística, religiosa e prático-mental (Ibidem, p. 55). O importante a deixar claro, portanto, é que o sujeito real, tal como antes, continua a existir em sua autonomia fora da cabeça, enquanto esta funciona teoricamente. E é esta observação que deve ser rigorosamente con- siderada quando se diz que a totalidade concreta é um produto do pensar. De resto, vale frisar que, pelo mesmo motivo de subsistir fora da cabeça teórica, no método teórico o sujeito está permanentemente pressuposto via representação41. Dito isso, talvez esteja mais claro o que se disse acima sobre o fato das conexões racionais entre os “elementos” – obtidos por abstração – não serem indiferentes para o conhecimento da realidade (todavia, vale dizer, fala-se aqui não no sentido do idealismo). Ora, conforme vimos, o concreto, conquanto apareça no pensamento como resultado, é o ponto de partida da intuição e da representação. Seguindo o mesmo exemplo de Lukács e a heurística marxiana 113 Marx no supramencionado escrito, se partíssemos da população – o real e o concreto, no caso da economia; o ponto de partida dos economistas do século XVII –, mesmo sendo ela uma representação caótica do todo, se chegaria, mediante análise, a conceitos cada vez mais simples – “do concreto representado [chegaria42] a conceitos abstratos cada vez mais finos” (Marx, 2011, p. 54), até se chegar às determinações mais simples. Só que no método dos economistas a representação plena acaba “volatilizada” em determina- ções abstratas (primeira via). É aqui que reside, de acordo com o pensador alemão, o erro deles (voltaremos a isso). E é a partir daí que se interpõe a virada marxiana. Ao se atingir as determinações mais simples (abstração), dar-se início à viagem de volta ao real para que “as determinações abstratas conduzam à reprodução do concreto por meio do pensamento” (segunda via) (Marx, 1982, p. 14). Numa palavra, as determinações abstratas por essa via não evaporam; vão ao encontro do concreto. Voltemos aos economistas. Ao partirem da população, que não deixa de ser uma abstração – se vista de modo rigoroso – por desconsiderar que a mesma é constituída por classes43, eles, mediante a análise, seguiram o caminho em que termina sempre em relações gerais abstratas (divisão do trabalho, dinheiro, etc.); será por meio desses elementos isolados que os sistemas econômicos terão origem. Por isso, uma vez mais, a representação fora “volatilizada” em determinações abstratas, exatamente pelo fato de os economistas não realizarem a “viagem de retorno”, “o método cientifica- mente correto” (Marx, 2011, p. 54) segundo Marx, o caminho em que as “determinações abstratas” reproduzem no pensamento o concreto, ou seja, (conforme nosso exemplo) a população deixa de ser aquele todo caótico de onde se partiu e, após a abstração, passa a ser o ponto de chegada a ser atingido (a segunda via), mas agora como “uma rica totalidade de muitas determinações e relações” (Ibidem, p. 54). O método da viagem de retorno requer, portanto, uma cooperação permanente entre o procedimento histórico (genético) e o procedimento abstrativo-sistematizante acima descrito; será através dessa colaboração entre eles que as leis e as tendências serão evidenciadas. Lukács ainda assegura que sem uma crítica ontológica permanente em todos os momentos, já que tanto um quanto o outro tem como objetivo compreender, por ângulos distintos, os mesmos complexos da realidade, a inter-relação orgânica entre os dois procedimentos pode se tornar problemática. A elaboração puramente ideal, por conseguinte, pode facilmente cindir o que forma um todo no plano do ser, e atribuir às suas partes uma falsa autonomia, não importando se isso sucede em 114 O espectro de Lukács termos empírico-historicistas ou em termos abstrativo-teóricos. Tão só uma ininterrupta e vigilante crítica ontológica de tudo o que é reconhecido como fato ou conexão, como processo ou lei, é que pode reconstituir no pensamento a verdadeira inteligibilidade dos fenômenos (Lukács, 2012, p. 306). A condição fundamental para não escapar a uma correta apreensão do concreto, e reproduzi-lo, portanto, no pensamento, é não deixar de observar o “método de ascender do abstrato ao concreto”, isto é, não prescindir de realizar a “viagem de retorno”. Ao descuidar-se disso que aqui tem efeito de premissa, fica-se adstrito ao mundo da elaboração ideal, incorrendo-se no que foi chamado aqui de “autonomização das abstrações”, ou, no que é o mesmo, na “volatilização das determinações abstratas”, não se aproprian- do-se, assim, de fato, daquele concreto que é “unidade da diversidade”, “síntese de múltiplas determinações”. Mas o êxito da “viagem de retorno” (“o método cientificamente correto”) só é possível mediante a equalização pela crítica ontológica dos dois procedimentos; somente por meio dela – e do seu critério – é que as potencialidades desses dois caminhos do conhecimento poderão ser corre- tamente aproveitadas. Por sua vez, Lukács ainda ressalta as consequências da rígida separação entre os dois procedimentos para ciências singulares como a economia: se por um lado, a corrente empirista dá vida a uma história econômica desconectada do concreto processo histórico global, por outro as “teóricas” se peculiarizam por não tocarem as conexões autênticas e reais, ainda que – em alguns casos singulares – possam aparecer vestígios de relações reais (o mesmo raciocínio vale aqui para outras ciências singu- lares, como a história). Ao trazer à luz o importante problema da contraditoriedade, de acordo com Lukács, a concepção puramente ontológica das teses marxianas mais uma vez se confirma. Segundo ele, a contraditoriedade, em Marx, é o motor da interação dinâmica entre os complexos reais, entre os processos que surgem de tais relações; ela se apresenta como o veículo da mudança. Ao se posicionar dessa maneira, Marx estaria evidenciando o contraste entre a sua concepção e a de Hegel, para quem a contraditoriedade estaria reduzida a passagem de um estágio (stadium44) a outro. A contraditoriedade seria, então, a força motriz da mudança; e esta, para ser conhecida, demandaria uma investigação das condições específicas onde se sucedeu. A fulgurante diferença entre essa argumentação para a hegeliana é que para esta última a mudança deriva de “consequências ‘lógicas’” (Lukács, 2012, p. 291) de Lukács e a heurística marxiana 115 uma contraditoriedade abstrata, enquanto que para a primeira ela é o motor da mudança, constitui-se como princípio do ser45, ou, como diz Marx ao buscar no exemplo da elipse uma relação com o que a certa altura escrevia n’O Capital, (a contradição) tanto se realiza como se resolve na realidade onde se desdobra46. Duas notas críticas sobre a análise lukacsiana de Marx A respeito da trajetória intelectual de Marx, duas observações acerca da abordagem de Lukács nos parecem se fazer necessárias. A primeira delas é sobre o papel que teve o Esboço de uma crítica da economia política de Friedrich Engels no trânsito de Marx para os estudos de economia política. Abertamente admitido pelo próprio autor d’O Capital, no seu Prefácio de 1859, a omissão desse fato – ou a sua não lembrança – por parte de Lukács no capítulo em que expõe aquilo que chama de “os princípios ontológicos fundamentais de Marx” em sua Para uma ontologia do ser social deixa a reconstituição da trajetória do filósofo alemão – as vitais e decisivas influências de sua formação, assim como a ambiência da Alemanha e da Europa de sua época – de certa maneirarelativamente empobrecida, ou não inteiramente condizente com a realidade. Ainda que se admita não ser esse o escopo principal do texto, a refe- rência ao escrito engelsiano, assim como o seu exame, contribuiriam em muito para lançar luz sobre os passos dados pelo pensador alemão, bem como compreender de que maneira se deu a consecução de sua formação intelectual47. A segunda observação é a respeito da influência de Feuerbach – e o erro aqui nos parece mais problemático. Já nas primeiras páginas do capítulo dedicado ao marxismo de sua Para uma ontologia do ser social, Lukács escreve o seguinte sobre a influência de Feuerbach à Marx: “Os documentos nos apresentam uma aceitação compreensiva e simpática de Feuerbach, que aparece, porém, sempre como crítica e exige um desenvolvimento crítico” (Lukács, 2012, p. 283). Ora, por mais que Marx visse nessa época limites em Feuerbach por ele estar interessado em mover a crítica para o terreno da “política”48, não nos parece ter sido pouco decisiva a influência feuerbachiana nesse período – em 1888, Engels lança o livro Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã. Aliás, o próprio juízo lukacsiano transcrito dá margem para isso, embora não desenvolva adequadamente. Se exige um “desenvolvimento 116 O espectro de Lukács crítico” e há “uma aceitação compreensiva e simpática” é porque no estrito estágio em que se encontra o filósofo alemão recai sobre ele uma certa influência do autor de A essência do cristianismo. Ao sustentar o seu argumento em cartas de 1841 e, em seguida, transpor sua atenção para a Ideologia Alemã de 1845 – para atestar a ruptura total, tal como, de fato, ela foi feita –, acreditamos que o autor húngaro suprimiu importantes estágios de transição no processo de evolução do pensador alemão – prejudicando, inclusive, a sua própria percepção dele. O entendimento de Lukács sobre tal questão é manifesto também no Prefácio à reedição do seu livro História e consciência de classe, do ano de 1967. Nele, o pensador húngaro explica – segundo a sua visão – que Marx parte diretamente de Hegel e que, nesta obra de 1923, o papel mediador de Feuerbach entre Marx e Hegel é atenuado – um dos pontos fortes do seu trabalho de então, segundo a sua avaliação do final dos anos 196049. A sua visão quanto à influência de Feuerbach sobre Marx, que segundo o próprio se chocava com a de Plekhanov e outros, apareceu também já no escrito da segunda metade dos anos 1920 sobre Moses Hess, onde ele critica o caráter não-dialético da crítica de Feuerbach à Hegel50. Por sua vez, ao analisar a recepção da sua obra de 1923 sobre parcelas da intelectualidade marxista, George Lichtheim aponta para uma das causas da difícil tomada de posição face a obra por parte dos comunistas: o fato de que, ao concordarem com Lukács a respeito da ligação direta de Marx à Hegel – e, por conseguinte, com a filosofia idealista –, a intelectualidade ligada ao movimento comunista estaria se chocando com o ensaio “indul- gente sobre Feuerbach” (Lichtheim, 1970, p. 65-6), publicado por Engels – junto com as Teses ad Feuerbach de Marx, onde o filósofo alemão leva a cabo o seu acerto de contas com o materialismo feuerbachiano – em 1888, Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã. A legitimação de Lenin ao trabalho de Plekhanov, cuja visão sobre a influência de Feuerbach sobre Marx era tida como “muito valorizada” por Lukács, acabava, segundo as observações de Lichtheim, por embaraçar ainda mais o filósofo húngaro e o seu trabalho aos olhos dos comunistas russos. Não obstante manifeste tal tomada de posição, na sequência do texto de Para uma ontologia... Lukács diz que não se pode precisar com clareza até que ponto Feuerbach exerceu influência na evolução filosófica que culmina com o interesse de Marx pela economia (o texto Esboço de uma crítica da economia política, de Engels, novamente não comparece aqui). Por outro Lukács e a heurística marxiana 117 lado, o pensador húngaro consente com o fato da inteira concordância de Marx, em princípio, com a atitude antirreligiosa feuerbachiana, assim como com a filosofia da natureza deste. Mas, ainda assim, teria ido além de Feuerbach, por exemplo, na posição diante da natureza, posto que, segundo Lukács, desde muito cedo o pensador alemão assumira uma posição contra a tradicional separação entre natureza e sociedade, não superada por Feuerbach51. De todo modo, tais observações, em nossa avaliação, não infirmam, de modo algum, os lineamentos gerais de Lukács a respeito do legado marxiano. Acredita-se que as eventuais fragilidades detectadas na reconstituição da evolução intelectual do pensador alemão, de certa forma, em quase nada comprometem as bases sobre as quais o filósofo húngaro vai sustentar a tese da assim chamada por ele ontologia marxiana. Considerações Finais Vimos, ao longo do texto, que, para Lukács, Marx representa uma clivagem na história da filosofia no que diz respeito ao modo de conhecer a realidade. Ao inverter o sistema hegeliano e ao estabelecer na práxis o ponto de diferenciação entre o seu materialismo e o de Feuerbach, Marx estaria inaugurando uma nova forma de abordagem da realidade – i. e., um novo método de deslindar o real. À luz de Lukács, poderíamos asseverar que haveriam ao menos três pontos cardeais – ou momentos balizadores – que guiariam uma investigação científica fundamentada no novo método, também chamado de marxiano: trabalho enquanto cate- goria central, observância à totalidade e prevalência da realidade (do ser) diante do pensamento (subjetividade). Esses três momentos, observados simultaneamente, seriam chaves para se certificar se se opera no interior do escopo de análise marxiano ou fora dele. Como a sua forma de análise é materialista, Marx estabelece como ponto de partida o ser humano real (Marx e Engels, 2009, p. 23-24). O que todo ser humano tem de fazer – antes de qualquer outra coisa – é reproduzir a sua existência, o que ele faz – e, com isso, se peculiariza – com o ato de pro- dução. Toda comunidade humana necessita, portanto, como ato primário, produzir a sua subsistência. A esse ato de transformar a natureza em bens úteis para a satisfação das necessidades humanas (alimentação, vestuário, etc.) denomina-se trabalho e, enquanto tal, constitui-se como categoria central da vida humana. O segundo ponto de referência para se orientar pela heurística marxiana é a observância à totalidade. Com o desenvolvimento social (iniciado a partir do trabalho), vão surgindo vários ramos da vida 118 O espectro de Lukács (linguagem, educação, direito, etc.) – aos quais Lukács denominou com- plexos singulares – que, com o passar do tempo (desenvolvimento intensivo e extensivo), vão adquirindo a aparência de uma total autonomia. Para conter essa falsa aparência (fonte, inclusive, de mistificação), a observância à totalidade – a de que o todo é constituído por partes, ainda que ele não seja meramente o somatório delas – é o critério fundamental sem o qual o pensamento pode vir a se perder no labirinto da imaginação. O terceiro e último ponto cardeal, que se vincula intimamente com o anterior, é a prevalência da realidade (do ser). No processo cognoscitivo, outro ponto fulcral do propósito de conhecer a realidade é não se desligar – voluntária ou involuntariamente – do solo material e incorrer, p. ex., naquilo que Lukács denominou de “autonomização das abstrações”. A busca pelo conhecimento da realidade em si, e a vigilância de que esta deve ter prioridade diante do pensamento, uma vez que a realidade exterior existe independente da consciência humana, é outro preceito metodológico sem o qual a apreensão do real deverá ser distorcida. Uma análise correta da realidade, segundo Marx, deve fazer como que esta seja reproduzida no pensamento, o que, desde então, demarca resplandecentemente o limite dela com a subjetividade52. Convencido de que os enunciados marxianos são, portanto, enunciadosa partir do ser, Lukács passa a designá-los como ontológicos, ou simplesmente ontologia. Por fim, o pesquisador interessado em lastrear-se no método marxiano deve atentar-se também ao princípio de que a forma inferior apenas pode ser conhecida quando a forma superior estiver plenamente desenvolvida. Ademais, Lukács ainda nos assegura que o marxismo é uma nova forma de cientificidade e de ontologia. Haveria nele uma crítica ontológica permanente por conta do seu caráter antissistemático (caráter dinâmico das categorias), uma decorrência (também) do princípio enunciado da prioridade da realidade em si (do seu movimento) diante do pensamento. Eis aqui, então, sumariamente uma bússola para quem pretende se lançar nas águas nem sempre tranquilas, não raramente revoltas, onde se costuma navegar com o intuito de alcançar o conhecimento. Transpor mares e atracar em terra firme – com pouco risco de ficar à deriva – costuma ser a recompensa de quem bem assimila a metodologia marxiana em toda a sua profundidade. Lukács e a heurística marxiana 119 Notas 1 György Lukács (nome de batismo) – ou Georg Lukács – nasceu em Budapeste, na Hungria, a 13 de abril de 1885. Ele falece aos 86 anos de idade, em sua cidade natal, precisamente no dia 4 de junho de 1971. Ver cronologia da vida e da obra de Lukács em: Lukács, G. O jovem Marx e outros escritos de filosofia. Rio de Janeiro: EDUFRJ. 2007. Coleção Pensamento Crítico, v. 9. Os textos dessa coletânea foram selecionados sob a curadoria dos professores Carlos Nelson Coutinho e José Paulo Netto. 2 Estaria aqui, a nosso ver, a razão pela qual G. Lukács se convenceria, em meados dos anos 1960, a utilizar a palavra ontologia para se referir à filosofia de Marx. Em uma entrevista concedida no ano de 1966, em Budapeste, aos professores Leo Kofler, Wolfgang Abendroth e Hans Heinz Holz, Lukács é indagado a respeito de qual o sentido de utilizar a expressão ontologia na filosofia marxiana. Interessados em conhecer aquela novidade, Holz trouxe um debate ocorrido entre ele e alguns alunos que lhe perguntaram se, de um ponto de vista marxista, a ontologia não se “resolveria” na sociologia. Ao explicar o seu ponto de partida – a vida cotidiana – e utilizar o exemplo de um homem que, ao andar pela rua, se depara com um automóvel em um cruzamento e, sob pena de ser atropelado, precisa tomar uma decisão (agir) e parar, Lukács completa: “[...] na nossa vida as diversas formas de ser estão sempre unidas entre elas e o inter-relacionamento constitui o dado primário” (ênfase minha); ver: Lukács, G. Conversando com Lukács: entrevista a Leo Kofler, Wolfgang Abendroth e Hans Heinz Holz. São Paulo: Instituto Lukács, 2014, p. 23-24; ver também: p. 91. Já no Pensamento vivido: autobiografia em diálogo (Lukács, 1999), entrevista concedida em 1971, o filósofo húngaro, ao ser perguntado sobre em que medida a sua argumentação estaria alicerçada na obra do autor d’O Capital, afirma que, quando Marx diz que existe uma única ciência, isto é, a história, ele está, em outras palavras, asseverando a unitariedade do ser. Para mais informações, ver: Castro, R. Lukács: a reviravolta dos anos 1930 e a adoção da ontologia como expressão da filosofia de Marx. Revista Katálysis. v. 22, n. 2, p. 330-341, maio/ago. 2019. 3 Convergem fortemente na direção da argumentação lukacsiana os escritos engelsianos: Anti-Dühring e a Dialética da natureza. Ver: ENGELS, F. Anti-Dührin: a revolução da ciência segundo o senhor Engen Dühring. São Paulo: Boitempo, 2015; Id. Dialética da natureza. São Paulo: Boitempo, 2020. 4 Em O que aconteceu na História, o arqueólogo Gordon Childe assim explica esse momento: “A mais curiosa de todas as espécies que surgiram foi, porém, o próprio homem. Os primeiros ‘homens’ diferem tão radicalmente, em sua estrutura óssea, de qualquer das raças de hoje, que os zoólogos os classificam em espécies ou gêneros distintos e lhes recusam o mesmo nome científico que dão ao homem moderno, Homo sapiens” (p. 31). E continua: “Os homens primitivos são chamados homínidas, ‘criaturas semelhantes ao homem’.. Os mais antigos fósseis homínidas demonstram muitos ‘traços simiescos’, características próprias do macaco. [...] Assim, no plistoceno inferior, a antropologia mostra, como era de prever, o aparecimento de espécies e 120 O espectro de Lukács gêneros intermediários entre o macaco e o homem, no sentido pleno desta última palavra” (Ibidem, p. 31). 5 A título de observação, o livro Para uma ontologia do ser social foi escrito na década de 1960. 6 Mediante crítica (a autores, etc.) e autocrítica. 7 A respeito da problemática do conhecimento – filosofia greco-medieval, crítica à perspectiva gnosiológica (ou cientificidade moderna) e o padrão marxiano (ontológico) –, ver o livro deveras instrutivo do Ivo Tonet: Método científico: uma abordagem ontológica. São Paulo: Instituto Lukács, 2013. 8 Para mais informações, ver: Castro, R. O trabalho como modelo da práxis social: os aspectos ‘in nuce’ do legado marxiano segundo o entendimento do último Lukács. Escola de Serviço Social, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, 2018 (Tese de Doutorado). 9 “[A totalidade] constitui a reprodução ideal do realmente existente” (Lukács, 2012, p. 297). 10 Tal preceito deve ser considerado uma premissa metodológica. À luz dele, muitos dos problemas atuais considerados pelas chamadas ciências sociais conheceriam o seu contraponto marxiano. Para informações acerca do debate na filosofia e nas ciências humanas contemporâneas, ver: Mészáros, I. O poder da ideologia. São Paulo: Boitempo, 2014; Netto, J. P. Posfácio. In: Coutinho, C. N. O estruturalismo e a miséria da razão. 2ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2010; ______. Razão, ontologia e práxis. In: Braz, M. (org.) José Paulo Netto. Ensaios de um marxista sem repouso. São Paulo: Cortez, 2017. Ver também os textos de Alexandrina Luz Conceição, de quem somos tributários pela feliz expressão “banalização da teoria”: Epistemologia e ontologia como estruturantes na formação dos Grupos de Pesquisa de Geografia Agrária. In: Menezes, Sonia de Souza M. & Pinto, Josefa Eliane Santana S. Geografias e Geograficidades: Escolhas, Trajetórias e Reflexões. São Cristóvão, SE: EDUFS, 2020, p. 17-51; e também: Apresentação. In: Conceição, A.; Silva, J. D. (orgs.) O fim do pensamento crítico reflexivo? A negação do humano e a banalização da teoria. São Cristóvão, SE: Editora UFS, 2019. E ainda: Castro, R. Os 40 anos sem Lukács e o debate contemporâneo nas ciências humanas. In: Revista Serviço Social e Sociedade, n. 114. abril/junho 2013, p. 207-239. 11 No texto Introdução, de 1857, de onde Lukács extrai aspectos estruturais acerca da sua compreensão sobre o método em Marx, o entendimento sobre categoria utilizado pelo filósofo húngaro aparece na seguinte passagem: “Do mesmo modo que em toda ciência histórica e social em geral é preciso ter sempre em conta, a propósito do curso das categorias econômicas, que o sujeito, nesse caso, a sociedade burguesa moderna, está dado tanto na realidade efetiva como no cérebro; que as categorias exprimem portanto formas de modos de ser, determinações de existência, frequentemente aspectos isolados dessa sociedade determinada, desse sujeito, e que, Lukács e a heurística marxiana 121 por conseguinte, essa sociedade de maneira nenhuma se inicia, inclusive do ponto de vista científico, somente a partir do momento em que se trata dela como tal” (Marx, 1982, p. 18; grifos originais). A polêmica de fundo que Marx está a tratar (uma polêmica metodológica) é sobre o ponto de partida para a análise da sociedade burguesa moderna; contrapondo os fisiocratas, para quem a análise deveria começar pela renda da terra (propriedade fundiária, agricultura), Marx argumenta que, diferente das sociedades precedentes, onde a agricultura (ponto de arranque do desenvolvimento vindouro) tinha um caráter específico de propriedaderural, na sociedade burguesa (objeto do debate de a partir de qual ponto se começar a analisar) a agricultura se transforma em ramo da indústria e passa a ser dominada pelo capital. “Não se compreende a renda da terra sem o capital, entretanto compreende-se o capital sem a renda da terra” (Ibidem, p. 18-19). Justificando o que seria o correto ponto de partida da análise da sociedade em questão, assim ele procede ao arremate: “O capital é a potência econômica da sociedade burguesa, que domina tudo. Deve constituir o ponto inicial e o ponto final e ser desenvolvido antes da propriedade da terra. Depois de considerar particularmente um e outro, deve-se estudar sua relação recíproca [consideração metodológica]” (Ibidem, p. 19). 12 Na tradução do capítulo sobre Marx de Para uma ontologia do ser social, realizada em 1979 por Carlos Nelson Coutinho, o trecho que origina essa frase é traduzido da seguinte maneira: “[Marx] parte, ao contrário – pelo fato mesmo de pesquisar as conexões –, da totalidade do ser” (Lukács, 1979, p. 28). 13 Devem ser reduzidas “ao máximo a uma dimensão única das conexões”, ao custo do empobrecimento e do violentar do seu conteúdo [das categorias] (Lukács, 2012, p. 296). 14 Pelo fato do sistema ser o “ideal da síntese filosófica” e conter “o princípio da completude e da conclusividade”, ou seja, estar em franca oposição a qualquer historicidade ontológica do ser (Lukács, 2012, p. 296). 15 “Por isso, não é casual, não é uma peculiaridade surgida das contingências históricas da ciência o fato de o Marx maduro ter intitulado suas obras econômicas não como Economia, mas como Crítica da economia política. Naturalmente, a referência imediata diz respeito à crítica dos pontos de vista econômicos burgueses [...] mas também está implícito o aspecto para o qual temos chamado a atenção, ou seja, a ininterrupta crítica ontológica imanente de todo fato, de toda relação, de toda conexão relativa a leis” (Lukács, 2012, p. 297). 16 “As correntes dominantes da filosofia burguesa [no século XIX] mantiveram-se fiéis ao compromisso belarminiano e até o aprofundaram na direção de uma pura teoria do conhecimento, de orientação resolutamente antiontológica; pense-se como os neokantianos expurgam cada vez mais energicamente a coisa-em-si kantiana da teoria do conhecimento, pois nem mesmo uma realidade ontológica por princípio incognoscível podia ser reconhecida” (Lukács, 2012, p. 40). Lukács afirma que a posição da filosofia burguesa desde a época do cardeal Berlamino [a questão da dupla 122 O espectro de Lukács verdade] face aos problemas ontológicos estaria delimitada amplamente pela atitude dela ante a objetividade do mundo, questão posta pelo fato de a Igreja poder aprovar (ou não) os novos conhecimentos obtidos e o seu uso na subjugação das forças da natureza (uma questão vital para a burguesia em ascensão), isto é, ela seria dividida entre a posição de saber se as verdades produzidas pela ciência reproduzem idealmente o mundo existente ou se servem apenas para a manipulação prática do mesmo; e é exatamente essa posição frente a realidade que vai determinar a sua posição face aos problemas ontológicos, uma posição, portanto, que pode variar da incognoscível coisa- em-si kantiana (teoria do conhecimento) até a sua não-consideração (neokantianos). Sumariamente falando, a questão, posta enquanto ponto de partida para a filosofia burguesa, também poderia ser colocada da seguinte maneira: o sujeito cognoscente pode conhecer, ou até que ponto, a realidade em-si? 17 Com respeito à filosofia ‘profana’, já sublinhamos a tendência decisiva: o domínio exclusivo da teoria do conhecimento, o afastamento sempre mais decisivo e refinado de todos os problemas ontológicos do âmbito da filosofia. A já mencionada postura dos neokantianos em relação à questão da coisa-em-si coincide, na virada do século [XIX-XX], com o forte advento de um novo gênero de positivismo. Trata-se, nesse caso, de um movimento internacional. [...] as diversas correntes dessa tendência (empiriocriticismo, pragmatismo, etc.) põem de lado cada vez mais resolutamente o valor objetivo da verdade do conhecimento (...) e procuram substituir a verdade pelas posições de finalidade prático-imediata... por uma manipulação dos objetos indispensáveis à prática imediata” (Lukács, 2012, p. 42). 18 Nos anos 1930, Lukács, após a leitura de textos até então inéditos (como os Manuscritos de 1844) e depois de tomar parte em debate aberto sobre filosofia na ex-URSS, passa a defender que o marxismo é uma “concepção universal de mundo”. O futuro autor de Para uma ontologia do ser social se convence de que, no corpo da obra de Marx, teria “um elenco de sólidas verdades” que, aos seus sucessores, caberia o desenvolvimento (como, p. ex., os princípios de uma concepção estética, etc.). O filósofo magiar, ao lado de M. Lifschitz, irá, assim, se posicionar contra F. Mehring e G. Plekhanov, que defendiam recorrer a outros autores para “completar” Marx naquilo em que ele não teria deixado nada escrito em específico (ética, etc.); para estes, a teoria marxiana se tratava de uma teoria “econômico-social”. Ver: Lukács, G. Pensamento vivido: autobiografia em diálogo. São Paulo: Ad Hominen: Viçosa, MG: Ed. UFV, 1999; Id. O meu caminho para Marx. In: Lukács, G. Socialismo e democratização: escritos políticos 1956-1971. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2008; e mais: Castro, R. O trabalho como modelo da práxis social: os aspectos ‘in nuce’ do legado marxiano segundo o entendimento do último Lukács. Escola de Serviço Social, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, 2018 (Tese de Doutorado). E ainda: Id. Lukács: a virada dos anos 1930 e a adoção da ontologia como expressão da filosofia de Marx (op. cit.). 19 Lukács chama a atenção aqui para o fato de, no início, Stalin se apresentar como defensor da teoria lenineana, principalmente na luta contra Trotski, ainda na jovem República Soviética. Sobre esse assunto, vale a pena conferir “Cartas sobre o Lukács e a heurística marxiana 123 Stalinismo”, ou mesmo “O processo de democratização”, ambos de Lukács. Ver: G. Lukács. Cartas sobre o Stalinismo. In: Revista Civilização Brasileira. Ano III. Caderno Especial n° 1. 1967; Id. Socialismo e democratização. op. cit., respectivamente.20 In: LUKÁCS, Socialismo e democratização. op. cit. 21 Nesse escrito, do ano de 1957, após o degelo do XX Congresso do PCUS realizado um ano antes, ocasião em que o então secretário-geral do partido Nikita Kruschev apresenta o relatório sobre o período stalinista destacando o fenômeno do “culto à personalidade”, pode se verificar, mais exatamente no trecho destacado, um contraponto aos que o criticavam por uma “adesão incondicional” ao stalinismo. Ademais, nota-se que nesse período o filósofo já estava empenhado na redação de sua estética e tinha em mente a elaboração de uma ética. Se tivermos em conta que, desde os anos 1930, Lukács estava convencido de que a tarefa dos marxistas era “desenvolver o marxismo” a partir da obra de Marx (“elenco de sólidas verdades”), que este é uma “concepção universal de mundo”, ver-se-á que toda a sua produção pós-virada dos anos 1930 é guiada por esse princípio. Ver: Castro, R. O trabalho como modelo da práxis social.... (Tese de Doutorado); Id. Lukács: a virada dos anos 1930 e a adoção da ontologia como expressão da filosofia de Marx (op. cit.). 22 Disponível em: K. Marx. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboço da crítica da economia política. São Paulo: Boitempo; Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2011. 23 A primeira informação é devida à edição brasileira de 1982 de Para a crítica da economia política (In: Marx, 1982, p. 3-21); já a segunda ao próprio autor de Para uma ontologia do ser social. 24 “A totalidade na natureza pode ser apenas inferida de muitas maneiras, por mais rigoroso que seja o raciocínio; no campo social, ao contrário, a totalidade sempre estádada de modo imediato (Não entra em contradição com isso o fato de Marx considerar a economia mundial e, com ela, a história mundial como resultado do processo histórico)” (Lukács, 2012, p. 304). A bem da verdade, no “Prefácio” aos escritos de 1844, Marx, ao anunciar o seu plano de tratar de modo autônomo diversas matérias (crítica do direito, da moral, da política, etc.), fala na elaboração de um trabalho complementar (e específico) em que se verifique “a conexão do todo, a relação das partes singulares” (Marx, 2015, p. 238). A respeito do escrito que sucede ao “prefácio”, ele explica: “[...] no presente escrito, a conexão da economia nacional [termo corrente entre os alemães equivalente à economia política] com o Estado, o direito, a moral, a vida burguesa, etc., apenas se encontra abordada na medida em que a própria economia nacional aborda ex professo [declaradamente] esses assuntos” (Ibidem, p. 238). 25 Caminho seguido incialmente, conforme salienta o autor húngaro, pela economia. 26 Aqui nos parece justificado, a partir de Marx, o acento lukacsiano à categoria totalidade. 27 Para ser mais preciso, Marx nos fala que a população é uma abstração se se deixa de fora as classes, sendo estas palavras vazias se se desconhece os elementos 124 O espectro de Lukács nos quais elas estão fundadas (trabalho assalariado, capital, etc.); estes, por sua vez, supõem troca, divisão do trabalho, preço, etc. Nesse sentido, escreve ele: “Por isso, se eu começasse pela população, esta seria uma representação caótica do todo (...) do concreto representado [chegaria - idem ao texto] a conceitos abstratos cada vez mais finos, até que tivesse chegado às determinações mais simples” (Marx, 2011, p. 54). A partir daqui dá-se início a “viagem de retorno”, como descrita anteriormente. 28 A mesma “autonomização de abstrações” que falamos acima. Abstração aqui no sentido de “população” descrito por Marx, ou seja, esta é uma abstração se se deixa de fora as classes, etc. 29 Um pouco antes dessa passagem, Marx assevera: “Parece ser correto começarmos pelo real e pelo concreto, pelo pressuposto efetivo, e, portanto, no caso da economia, por exemplo, começarmos pela população” (Marx, 2011, p. 54) 30 (In: Marx, 2011, p. 54). Ver também o Posfácio da Segunda Edição d’O Capital, de 1873, em que Marx, analisando a repercussão do Livro I de sua obra lançada em 1867, aborda a questão do método, citando inclusive como referencial metodológico (“a fundamentação materialista do meu método”) do seu trabalho objeto do debate o "Prefácio" do livro Para a crítica da economia política, do ano de 1859 (Marx, 1983, p. 19). Ademais, coincide com esse trecho do escrito de 1857 (“o método de ascender do abstrato ao concreto é somente o modo do pensamento de apropriar-se do concreto, de reproduzi-lo como um concreto mental”) a seguinte passagem do posfácio citado: “Para mim, pelo contrário, o ideal não é nada mais que o material, transposto e traduzido na cabeça do homem” (Marx, 1983, p. 20; ênfase minha). 31 O que os difere dos complexos totais dos quais são “elementos” é que eles são mais simples e de mais fácil apreensão conceitual. 32 N’O Capital, Marx explica o que, a nosso ver, parece ser a problemática para a qual Lukács se refere: “É mister uma produção de mercadorias totalmente desenvolvida antes que da experiência mesma nasça o reconhecimento científico” (Marx, 1983, p. 73; ênfase minha). E mais adiante: “A reflexão sobre as formas de vida humana, e, portanto, também sua análise científica, segue sobretudo um caminho oposto ao desenvolvimento real. Começa post festum e, por isso, com os resultados definitivos do processo de desenvolvimento. As formas que certificam os produtos do trabalho como mercadorias e, portanto, são pressupostos da circulação de mercadorias, já possuem a estabilidade de formas naturais da vida social, antes que os homens procurem dar-se conta não sobre o caráter histórico dessas formas, mas sobre seu conteúdo” (Ibidem, p. 73; ênfase minha). 33 Cf. também: Lukács, 2018, p. 580-581. 34 “O que não se pode esquecer é que tais ‘elementos’, em suas formas generalizadas, obtidas por abstração, são produtos do pensamento, do conhecimento” (Lukács, 2012, p. 305-306). 35 Note-se que as conexões aqui são racionais – por derivarem de abstração –, e não Lukács e a heurística marxiana 125 concretas, como as “conexões concretas” anteriormente colocadas. As conexões são entre “elementos”, e estes, embora remetam aos “elementos estruturais de complexos relativamente totais, reais, dinâmicos” (“formas de ser, determinações da existência”), são obtidos por abstração; de acordo com Lukács, essas conexões podem ser tanto “conexões essenciais racionais” (entre os “elementos”), como “conexões processuais”. Ademais, para um entendimento da problemática em tela, vale a leitura do livro Marx: estatuto ontológico e resolução metodológica, de José Chasin, onde o mesmo, à luz do mesmo texto do qual se vale Lukács (a Introdução, de 1857), desenvolve, de modo persuasivo, o que chama de “teoria das abstrações” em Marx. Para refugar qualquer espectro de idealismo, citemos o breve trecho: “[...] em sua determinação ontológica, as abstrações admitidas por Marx são representações gerais extraídas do mundo real” (Chasin, 2009, p. 123; grifo original). 36 Em um texto em que também aborda a questão do método, o Posfácio da Segunda Edição d’O Capital, de punho do próprio K. Marx, do ano de 1873, o filósofo alemão – tratando da repercussão da sua opus magnum lançada seis anos antes – faz a seguinte diferenciação entre o seu método e o de Hegel: “Por sua fundamentação, meu método dialético não só difere do hegeliano, mas é também a sua antítese direta. Para Hegel, o processo de pensamento, que ele, sob o nome de ideia, transforma num sujeito autônomo, é o demiurgo do real, real que constitui apenas a sua manifestação externa. Para mim, pelo contrário, o ideal não é nada mais que o material, transposto e traduzido na cabeça do homem” (Marx, 1983, p. 20; ênfase minha). 37 Tal observação lukacsiana serve aqui, p. ex., para divisar a visão de mundo marxiana – tradicionalmente conhecida como materialista (e, portanto, oposta ao idealismo) – da visão empirista. Entre a concepção materialista (marxiana) e a coleta (e o uso) de dados empíricos (no sentido kantiano, p. ex.) para atestar a verdade científica do conhecimento da realidade há uma crucial, e profunda, diferença [“O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações” (Marx, 2011, p. 54)]. Para ilustramos, do ponto de vista marxista, a diferença entre esse modo de pensar em relação ao empirismo (que, repetimos, não é o mesmo que materialismo) basta citarmos os conceitos marxistas de fetiche da mercadoria, trabalho abstrato, ideologia e alienação. Instrutivo para pensar também o problema para o qual G. Lukács está a chamar a atenção é a designação, por Marx, n’O Capital, do valor de troca como uma objetividade fantasmagórica (Ver: Marx, K. O Capital: crítica da economia política. L. I, T. I. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 47). Citamos também aqui, para dilucidar o problema, José Chasin (2009), que, ao tratar do chama de “teoria das abstrações”, ressalta: “De imediato esse contorno presta um grande serviço, esclarecendo de modo definitivo que, na reflexão marxiana, a tomada da realidade concreta como ponto de partida do conhecimento não implica nenhum empirismo, mas ‘caminhos objetivo-ontológicos’ (Lukács), que tornam de maneira translúcida que qualquer roteiro analítico especulativo ou centrilógico é, para ela, totalmente inadmissível, seja pelo seu fundamento, seja porque suas exigências de rigor ultrapassam de longe o que podem oferecer os critérios lógico-formais em sua 126 O espectro de Lukács natureza homogeneizante” (p. 136-37; ênfase minha). E conclui: “Por conseguinte, a teoria das abstrações se mostra como o arcabouço dos procedimentos cognitivos marxianos e, a rigor,está colada à base do que pode ser chamado de seu método científico” (p. 137; grifo original). 38 Não à toa, Aristóteles irá diferenciar o que chama de dois modos de aquisição: o natural, que ele chama de “economia”, e o artificial, chamado por ele de “crematística”. Ver: Aristóteles. A política. São Paulo: Martins Fontes, 1991. Sobre isto, ver: Castro, R. Breve excurso sobre Platão e Aristóteles. In: Id. O trabalho como modelo da práxis social.... (Tese de Doutorado). 39 Uma categoria que tem no valor de uso o seu portador material. Daí o fato de sua objetividade ser fantasmagórica. 40 Abordando as categorias no âmbito da discussão econômica, Marx escreve: “[...] as categorias simples são a expressão de relações nas quais o concreto pouco desenvolvido pode ter se realizado sem haver estabelecido ainda a relação ou o relacionamento mais complexo, que se acha expresso mentalmente na categoria mais concreta, enquanto o concreto mais desenvolvido conserva a mesma categoria como uma relação subordinada” (Marx, 1982, p. 15; ênfase minha). Ele continua e toma como exemplo o dinheiro: “O dinheiro pode existir, e existiu historicamente, antes que existisse o capital, antes que existissem os Bancos, antes que existisse o trabalho assalariado. Desse ponto de vista, pode-se dizer que a categoria mais simples pode exprimir relações dominantes de um todo menos desenvolvido, ou relações subordinadas de um todo mais desenvolvido, relações que já existiam antes que o todo tivesse se desenvolvido, no sentido que se expressa em uma categoria mais concreta” (Ibidem, p. 15). 41 “Por isso, também no método teórico o sujeito, a sociedade, tem de estar continuamente presente como pressuposto da representação” (Marx, 2011, p. 55). 42 Idem ao texto 43 As classes também são palavras vazias se desconsidera-se os elementos onde elas se baseiam – trabalho assalariado, capital, etc. (Marx, 2011, p. 54). 44 Na tradução da Boitempo, opta-se por grafar essa passagem dessa maneira; por uma questão de facilitar o entendimento imediato, utilizamos a opção feita por Carlos Nelson Coutinho em sua tradução de 1979, embora se registre a observação feita pelos que verteram (e revisaram) mais recentemente a obra Para uma ontologia do ser social para o vernáculo local. 45 “[...] a contradição se revela como princípio do ser precisamente porque é possível apreendê-la na realidade também enquanto base de tais processos” (Lukács, 2012, p. 291). 46 “É, por exemplo, uma contradição o fato de que um corpo seja atraído por outro e, ao mesmo tempo, afaste-se dele constantemente. A elipse é uma das formas de movimento em que essa contradição tanto se realiza como se resolve” (apud Lukács, Lukács e a heurística marxiana 127 2012, p. 291). Lukács se serve dessa passagem para ilustrar também como os que cindem o pensamento do autor alemão entre jovem filósofo e velho puro economista estariam equivocados. A citação, que como se disse fora extraído d’O Capital, busca justamente impugnar essa visão, além de ser, na opinião lukacsiana, uma concepção inteiramente nova da suprassunção das contradições. 47 É preciso dizer que Lukács dedicou um estudo em separado a esse período da vida do autor alemão que se convencionou a chamar de jovem Marx. Na coletânea “O jovem Marx e outros escritos de filosofia” pode se encontrar um exame em separado sobre esse assunto feito por ele. Ver: G. Lukács. O jovem Marx e outros escritos de filosofia. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2007. A bem da verdade, neste escrito há menção, por parte de Lukács, ao texto engelsiano, que teria sido publicado nos Anais franco-alemães, em 1844 – ver: Lukács, 2007, p. 179-182. 48 Carta de Marx à Ruge, 13 de maio de 1843. (apud Frederico, 2009, p. 198). 49 Em Meu caminho para Marx, Lukács diz que, durante o debate filosófico aberto por Stálin nos anos 1929-30, nutriu esperanças quanto ao esclarecimento, segundo o seu entendimento, das relações entre Feuerbach-Marx, Hegel-Marx, Marx-Lenin, o que, por conseguinte, significava a ultrapassagem da ortodoxia plekhanoviana (Lukács, 2008, p. 42). 50 Ver: Lukács, 2003, p. 44; 22. Note aqui que, admitir a correção da tese de que Marx parte diretamente de Hegel, pode não significar a negativa da influência de Feuerbach sobre Marx. 51 Para ratificar a sua posição, Lukács cita uma passagem constante na Ideologia alemã. Novamente, a nosso ver, há uma subvalorização do período de evolução do autor alemão, especificamente o momento da transição, já que no texto de 1845 ele está consumando o seu processo de evolução intelectual. Em Para uma ontologia do ser social I, Lukács escreve: “[...] o ser social pressupõe, em seu conjunto e em cada um dos seus processos singulares, o ser da natureza inorgânica e da natureza orgânica. Não se pode considerar o ser social como independente do ser da natureza, como antítese que o exclui, o que é feito por grande parte da filosofia burguesa quando se refere aos chamados ‘domínios do espírito’” (Lukács, 2012, p. 286-87). Tal assertiva estaria alicerçada na concepção marxiana segundo a qual só existiria uma só ciência, a ciência da história, que abrangeria tanto a natureza quanto o mundo dos homens. 52 Ao tratar do problema da prioridade ontológica no âmbito do pensamento de Marx (o que, por extensão, pode ser utilizado para a explicação de todo problema ontológico) e explicar os mal-entendidos de sua incompreensão, inclusive pelo que veio a denominar de marxismo vulgar, Lukács afirma: “[...] é preciso distinguir claramente o princípio da prioridade ontológica dos juízos de valor gnosiológicos, morais etc. inerentes a toda hierarquia sistemática idealista ou materialista vulgar” (Lukács, 2012, p. 307). Ou seja, quando tratamos de questões ontológicas, estamos nos atendo à constatação de um fato (algo despido de juízo de valor), que é elevado à mente através de sua correta apreensão que intenta compreendê-lo enquanto realidade em si (que 128 O espectro de Lukács DEL ROIO, M. (org.) 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Lukács, Hegel, o renascimento do marxismo e a Ética Vitor Sartori Introdução Geralmente, os melhores comentadores de Lukács rendem home- nagem à sua Ontologia ao passo que ela prepararia o terreno para uma Ética: de acordo com Tertulian, seria preciso “estabelecer a especificidade da atividade ética fora de uma reflexão de conjunto, em contraposição aos componentes principais da vida da sociedade (econo- mia, política, direito, religião, arte, filosofia)” e, com isto, seria possível dizer que “a Ontologia do ser social representa a concretização desse vasto programa totalizante, destinado a preparar a Ética (que infelizmente não virá a ser realizada).” (Tertulian, 2010 a, p. 390) Entre nós, José Paulo Netto chega a dizer que o marxista húngaro vem a “avançar para a cons- trução da sua Ética” a partir dos estudos realizados em sua Ontologia e, assim, tal obra madura de Lukács, no limite, seria, em relação à Ética, “a ‘introdução’” que “não se alongou excessivamente, tornando-se a Onto- logia por motivos idiossincráticos.” (Netto, 2012, p. 16) Ou seja, a Ética lukacsiana aparece nos grandes estudiosos como uma empreitada essencial e que poderia trazer aspectos de grande relevo ao marxismo da atualidade. A Ontologia, bem como a Estética, – embora sempre reconhecidas como importantes por estes autores – são vistas como um passo na direção de uma Ética. Esta perspectiva, deste modo, mesmo reconhecendo a relevân-cia das obras de maturidade do marxista húngaro (Cf. Tertulian, 2010 b), tende a ver a Ética como algo que infelizmente não teria sido concluído e que, no limite, seria uma espécie de lacuna importante para o presente e para a própria defesa lukacsiana do marxismo. Tertulian e Netto, por- tanto, destacam este ponto; porém, algo importante a se pensar é qual 6 132 O espectro de Lukács o sentido que a categoria “ética” tem em Lukács. O autor húngaro é ex- plícito no sentido de que pretende desenvolver uma Ética. Porém, nem sempre se verifica o que ele entende pela categoria. E, assim, é bom que avancemos neste sentido. No presente artigo, a partir das colocações do próprio Lukács sobre o assunto, procuraremos verificar até que ponto os melhores comentadores do autor húngaro acertam sobre a sua Ética. O projeto lukaciano de uma ética e o seu contexto O contexto em que Lukács desenvolve sua Ontologia, e em que diz pensar em uma Ética, segundo o próprio autor, tem um ponto de inflexão em 1956, momento em que é derrotada a revolução húngara, de que o próprio autor fez parte. (Cf. Mészáros, 2018) Ou seja, o cenário no qual se coloca a questão que nosso autor pretende abordar não é dos melhores para o movimento comunista, sendo as tentativas de ultrapassar a forma de organização da produção e da política stalinistas fracassadas. De certo modo, pode-se dizer que há, no limite, uma crise no movimento comu- nista. (Cf. Claudin, 2013) As preocupações do filósofo húngaro, assim, são bastante práticas, mas também se voltam, como não poderia deixar de ser em um marxista, a aspectos teóricos. O autor está muito preocu- pado com o futuro do comunismo e diz o seguinte sobre o momento: Minha atividade essencial depois de 1956 está ligada a estas tarefas. As obras maiores, uma recém-concluída Ontologie des gesellschaftlichen Seins (Onto- logia do ser social) e uma projetada Ética pretendem oferecer contribuições para a fundamentação de uma práxis comunista no presente ... e no futuro. (Lukács, 2008, p. 212) A tentativa de uma fundamentação de uma práxis comunista no pre- sente e no futuro estaria presente tanto na Ontologia quanto na projetada Ética. E, assim, há de se notar alguns aspectos sobre a questão: primeira- mente, percebe-se que a empreitada lukacsiana de voltar-se ao desenvolvi- mento de uma ontologia e de uma ética se relaciona, mesmo que de modo mediado, com a práxis. Não se trata, seja de um estudo “desinteressado” e professoral, seja de o desenvolvimento de algo nos moldes da filosofia como normalmente concebida. Nota-se também que a motivação para estes passos distintos – um em direção à ontologia, outro à ética – tem um enraizamento bastante claro na história, e situando-se após 1956, ou seja, depois do fracasso da revolução húngara e de tentativas similares de reformular o sistema soviético. Outro ponto a se destacar diz respeito ao modo pelo qual o autor trata as duas obras que menciona: elas não são Lukács, Hegel, o renascimento do marxismo e a Ética 133 postas como algo colocado em campos de incisão absolutamente dife- rentes. Ambas se voltam à fundamentação da práxis comunista. E, assim, ao que parece, desde o início, podemos dizer que a hipótese segundo a qual a Ontologia prepara a Ética, ou é uma “introdução” a ela, precisa ser vista com cuidado. Lukács é explícito quanto à existência de um projeto sobre uma Ética. Mas o modo pelo qual se deve entender isto precisa ser esclarecido. Isto é necessário para que se entenda a diferença específica do projeto do autor, que reflete o modo pelo qual ele pensa as questões de sua época em consonância com uma tentativa de ler de modo o mais rigoroso e preciso possível as obras do próprio Marx. Para que se possa tornar clara a questão, o contexto que mencionamos é importante, e remete a certa postura crítica de Lukács quanto ao desen- volvimento do marxismo de sua época. Ele diz, por exemplo, que “é mui- to baixo o número daqueles que realmente leram Marx.” (Lukács, 2020 b, p. 92) E, assim, um passo inicial, mesmo que não suficiente, para um marxismo digno de tal nome estaria profundamente comprometido. Na melhor das hipóteses, o autoproclamado marxismo da época de Lukács teria um déficit gigantesco sendo possível dizer que a análise marxista da história, não raro, estaria sendo realizada – desde os seus fundamentos mais básicos – às cegas. De acordo com nosso autor, inclusive, “a última análise marxista séria foi aquela feita por Lênin sobre o imperialismo, no tempo da Primeira Guerra Mundial.” (Lukács, 2020 b, p. 146) E, assim, há de se notar que o ponto de vista do autor da Ontologia é bastante rígido, por exemplo, quanto ao stalinismo: “o marxismo, concebido acertadamente, [...] não existe mais. Em seu lugar, temos o stalinismo, e continuaremos a tê-lo ainda por algum tempo.” (Lukács, 1972, p. 32) O autor húngaro diz ain- da que “não há mais marxistas. Nós simplesmente não temos uma teoria marxista.” (Lukács, 1972, p. 31) O momento em que se desenvolvem a Ontologia e a Ética, portanto, do ponto de vista do autor, é aquele em que não se lê Marx propriamente e no qual o marxismo está, no mínimo, defasado. Diz nosso autor que “devemos começar reconhecendo o fato de que o marxismo estagnou durante trinta anos”; e ele continua: “nesse período em que Stálin determinava o que era marxismo e o que não era marxismo muitas idiotices foram reconhecidas universalmente ao longo dos anos como científicas”. E, assim, trata-se de restaurar o marxismo. Quanto tempo esse processo levará, se será lento ou rápido, não podemos dizer antecipadamente.” (Lukács, 2020 b, pp. 45-46) Ou seja, de acor- 134 O espectro de Lukács do com György Lukács, a capacidade explicativa do marxismo estaria profundamente defasada. No que é bom destacar que há uma conexão íntima entre duas posições de Lukács que parecem não ter correlação: de um lado, nosso autor manifesta o ponto de vista segundo a qual não se pode falar de “nenhuma ética sem ontologia” (Lukács, 2015, p. 181), ele também coloca a questão da ética em torno da condição de mundo: “Ad Ética e ontologia. Impossível colocar-se o ético sem adicionar condição do mundo”. (Lukács, 2015, p. 193) Doutro lado, ele diz que “nós, marxistas, devemos partir, acima de tudo, do fato de que, por causa do stalinismo, não fornecemos até agora uma análise verdadeiramente séria do capita- lismo contemporâneo.” (Lukács, 2020 b, p. 146) É preciso perceber que tais posicionamentos não são só contemporâneos; eles, em verdade, estão relacionados ao passo que tanto a Ontologia quanto a Ética são formas mediadas pelas quais Lukács traz respostas a um contexto em que, dentre outras coisas, ainda vige o stalinismo e em que o movimento comunista não estaria em seus melhores dias. De acordo com o marxista húngaro, só é possível se falar de ética com ontologia porque a atividade humana só pode ser compreendida em meio à condição de mundo. Porém, na época, com o stalinismo, de acordo o marxista húngaro, não se entende real e efetivamente o ser-propriamen- te-assim da sociedade. Para Lukács, a práxis comunista do presente e do futuro que se apoie em tal ignorância é cega. (Cf. Lukács, 2020 b) E, com isto, podemos dizer que, em verdade, Para uma ontologia do ser social não é uma espécie de “introdução” à Ética do autor; nela, primeiramente, compreende-se o pensamento filosófico ocidental na sua lida com a histo- ricidade, com a objetividade e com a processualidade do real (no volume I) e, depois, dentre outras coisas, busca-se apreender a especificidade de cada complexo social (no volume II). Isto certamente é uma condição para que se possa pensar a atividade humana colocada em sociedade. Porém, não é porque a exposição lukacsiana está em um grau de abstração mais elevado que ela é uma “introdução” a algo colocado em maior concretu- de. Conceber a coisa desta maneira deixa de lado toda a teorização luka- csiana sobre as abstrações isoladoras, que, posteriormentedissolvem-se na concretude do real. (Cf. Fortes, 2016) Se isso fosse verdade, algo como a lei do valor marxiana seria somente aquilo que prepara o terreno para o tratamento do lucro, da renda e dos juros, por exemplo. E não é isto que ocorre, por exemplo, ao se trazer à tona a correlação entre os livros I e III de O capital. Lukács diz sobre a relação entre ontologia e ética que “os problemas ontológicos não possuem apenas um caráter puramente Lukács, Hegel, o renascimento do marxismo e a Ética 135 teórico, ainda que, naturalmente, a correção teórica seja decisiva para sua extensão à prática, à ética.” (Lukács, 2012, p. 104) E, assim, vê-se que não há ética sem ontologia porque a correlação entre a teoria e a prática perpassa tanto a apreensão da especificidade dos complexos sociais – vista na Ontologia – como o modo pelo qual concretamente tais complexos estão postos na prática, o que se volta à ética. Nosso autor, ao analisar as diversas esferas do ser social, bem como os conteúdos distintos e as formas diversas da práxis, diz que isto “só pode receber um tratamento adequa- do e aprofundado no âmbito das ciências sociais concretas, nas análises concretas da práxis humana, incluída a ética.” (Lukács, 2012, p. 74-75) Ele também se expressa no sentido que sempre seria preciso se traçar uma “caracterização adequada da atividade humana. Seu campo de realização estende-se do trabalho, da vida cotidiana, até as formas mais elevadas de atividade, na ética.” (Lukács, 2010, p. 225) Em todos estes casos, não há uma oposição entre a ética e quaisquer campos apartados do conhecimen- to; nota-se que a correlação entre a teoria e a prática é sempre mediada, mas que, ao se tratar mais concretamente da atividade, da práxis humana, em maior concretude, tem-se a ética. Em um cenário em que o stalinismo ainda se colocava como um parâmetro para o marxismo, Lukács volta-se, de um lado, à ontologia; doutro, à ética. E isto não se dá por o autor procurar se colocar no em- bate da filosofia burguesa. Antes, mesmo que ele critique filósofos como Hartmann e Heidegger em um campo, e Kant e Hegel noutro, ele está desenvolvendo uma concepção de mundo marxista que possa integrar a análise e a compreensão da realidade com o tratamento cuidadoso da prática concreta. A Ética de Lukács, assim, na contramão do stalinismo, bem como de autores heterodoxos que acabariam deixando de lado a com- preensão tanto de Marx quanto de seu método1, está colocada em meio às pretensões do autor de renascimento do marxismo. E estas pretensões levam Lukács a procurar estabelecer os alicerces para uma retomada do marxismo como uma força material, como algo que pode influenciar nos rumos da humanidade real e efetivamente, como teria acontecido, por exemplo, com Lenin. No campo teórico, o embate lukacsiano contra o stalinismo, e diante de teorias que acabam por desconsiderar aspectos importantes da teo- ria marxiana, dá-se com a tentativa de renascimento do marxismo. (Cf. Lukács, 2020 b) De acordo com nosso autor, seria preciso tanto voltar-se à apreensão reta das categorias marxianas quanto desenvolver o marxismo 136 O espectro de Lukács a partir do método de Marx. Ou seja, a práxis comunista dependeria tanto de um passo para trás, caracterizado pela leitura cuidadosa dos clássicos do marxismo (colocados, principalmente, em Marx, Engels e Lenin) quanto de um passo para a frente, ligado à atualização destes clássicos. Tal atua- lização, por sua vez, estaria voltada, não só à análise da forma pela qual os problemas tratados por Marx aparecem hoje, mas também à crítica de novos problemas, que ainda não se colocavam efetivamente na época em que o autor de O capital escreveu sua obra magna e seus outros textos. O cenário com o qual Lukács se depara é aquele em que problemas essenciais de seu tempo são tratados, mesmo que de modo invertido, pela filosofia, pela sociologia e pela economia burguesas; mas o marxismo, se- gundo nosso autor, não teria conseguido abordar estes problemas de modo minimamente satisfatório. Um filósofo como Heidegger, bem como os existencialistas, teriam se debruçado sobre a questão da vida carente de sentido; um sociólogo como Wright Mills teria abordado as elites políticas e militares; o economista Galbraith teria tratado da anatomia dos trustes e do modo pelo qual o mercado capitalista diferencia-se profundamente daquele do século XIX sob aspectos decisivos. (Cf. Lukács, 2020 b) Diante destes aspectos, Lukács tenta desenvolver uma crítica ao que chama de capitalismo manipulatório, em que tais elementos são proemi- nentes. (Cf. Lukács, 2014) Porém, ele reconhece que é incapaz de fazer uma análise detida destes temas já que algo essencial a qualquer análise marxista – a compreensão adequada das relações de produção de uma época – lhe é estranha até certo ponto. Ele diz sobre isto: “ora, não sou economista, mas me dou conta de que existem fenômenos sobre os quais os marxistas não refletiram ainda.” (Lukács, 2020 b, p. 146) E complementa dizendo que “pessoalmente, sei tanto sobre economia quanto qualquer marxista decente pode saber, mas não me considero um especialista em economia.” (Lukács, 2020 b, p. 174) Nosso autor, assim, reconhece um problema sério. E, ao mesmo tempo, assume que a resolução dele não está no horizonte imediato. E, assim, podemos dizer que a crítica de Lukács ao stalinismo e ao capitalismo de sua época, mesmo que seminal, de acordo com o próprio autor, não consegue ir às raízes das coisas como deveria. Ao tratar da éti- ca, primeiramente, Lukács ataca teorias como as de Kant e de Hegel (Cf. Lukács, 2018 a, b) Para tanto, utiliza-se do diagnóstico marxiano sobre o capitalismo do início do século XIX. Depois, vem a criticar a degene- Lukács, Hegel, o renascimento do marxismo e a Ética 137 ração do neohegelianismo a partir de meados do século XIX e, para isto, novamente, parte de posicionamentos do próprio Marx. (CF. Lukács, 2018 a, 2020 a) Depois, ataca a ideologia irracionalista que começa a se formar com Schelling e aparece de modo muito forte na ética de Scho- penhauer e de Kierkegaard. Ainda neste ímpeto, critica Nietzsche e sua ética.2 A fundamentação do autor húngaro nestas empreitadas está, em um primeiro momento, na análise marxiana do capitalismo, tanto em seu desenvolvimento que vai até 1848 quanto em sua fase senil. (Cf. Marx, 2013, 1986 a, b) Depois, Lukács recorre a Imperialismo, fase superior do capitalismo, de Lenin, para tratar da ética que se expressa durante o período imperialista e que vai até o fim da II Guerra Mundial. Ou seja, estava clara a Lukács a base econômica que dava ensejo, de modo mediado, às formas ideoló- gicas que criticava. Isto, porém, não acontece do mesmo modo quando nosso autor se coloca a falar sobre ética no momento posterior à II Guerra. As críticas que realiza aos fundamentos da filosofia de autores como Wittgeinstein, Heidegger e Hartmann não vêm acompanhadas de uma crítica igualmente contundente de suas éticas. Mesmo que o autor passe pela questão, percebe-se que, quando ele vai tratar da função social destas concepções de mundo, ele não está em terreno tão sólido quanto estava ao tratar do momento anterior da filosofa burguesa. E, assim, a temática que se coloca na projetada ética de Lukács exige uma apreensão mais rigo- rosa da realidade. Isto ocorre, de um lado, para que se possa analisar com cuidado o ser-propriamente-assim da sociedade que dá ensejo às éticas dos autores que critica; porém, o elemento mais importante para o autor neste momento é a compreensão da realidade. Isto se dá para que esta compreensão subsidie a atividade que possa mover em um terreno cujas determinações são conhecidas e que, assim, trazem bases sólidas para a prática comunista do presente e do futuro. Destacamos tal aspecto porque, se isto é verdade, longe de a Ética de Lukács ser uma lacuna a ser completada em seu pensamento tardio, ela remete à necessidade de um trabalhoque precisaria de nada menos que o renascimento do marxismo. Ou seja, o modo como o marxista húngaro enxerga sua obra é infinitamente menos otimista do que normalmente se supõe ao se destacar o seu projeto de uma Ética: de modo realista, ele vê que contribui no debate marxista e na crítica à filosofia burguesa. Porém, não acredita que o mínimo necessário para uma análise marxista do pre- 138 O espectro de Lukács sente esteja posto, não obstante os esforços, em sua obra. Vejamos o que diz o autor sobre a investigação econômica do presente: Devemos agora submeter todas as categorias que Marx estabeleceu para o capitalismo da década de 1880 a uma nova investigação econômica. Isso não aconteceu. Ao mesmo tempo, nós, comunistas, como incapazes, enfrentamos o novo capitalismo e constantemente atribuímos a ele categorias antigas, com as quais em geral não explicamos nada. O que chamo de renascimento do marxismo teria, portanto, como uma de suas primeiras tarefas examinar exatamente quais são as peculiaridades econômicas do capitalismo de hoje e então fazer com que a atitude em relação ao capitalismo dependa dessa análise e não das análises de oitenta anos atrás. (Lukács, 2020 b, p. 175) Nosso autor é bastante duro quanto ao marxismo de sua época. Seu projeto de renascimento do marxismo traz consigo uma crítica ao modo pelo qual os comunistas apreendem a realidade de suas épocas, na melhor das hipóteses – quando conhecem e leram a obra de Marx – aplicando mecanicamente as categorias do autor alemão. Assim, seria necessária uma nova investigação econômica para que, com isto, fosse possível uma análise que abrisse caminho para atitude acertada diante do capitalismo da época. Ou seja, o projeto lukacsiano de renasci- mento do marxismo reivindica justamente o conhecimento da realidade efetiva para que a prática comunista seja possível. Note-se: também em relação a este aspecto, há uma correlação íntima com a posição segundo a qual não é possível qualquer ética sem ontologia. De acordo com nosso autor, a práxis comunista só é possível ao se compreender o ser-propria- mente-assim da sociedade e isto ainda estaria bastante distante. O renasci- mento do marxismo necessitaria de uma análise séria de diversos aspectos sobre os quais, de acordo com Lukács, os comunistas foram incapazes até aquele momento. Nota-se, portanto, a conexão íntima da Ética com este tema; também é possível ver como que ontologia e ética caminhariam lado a lado no renascimento do marxismo, embora passem por graus de abstração diferentes e precisem de exposições distintas. (Cf. Sartori, 2021) No que, neste ponto de nosso escrito, é preciso que se destaque que há uma correlação entre a crítica de Lukács ao stalinismo e seus posi- cionamentos diante da filosofia burguesa, abordada, por exemplo, em Marxismo ou existencialismo. Na época, nosso autor critica tanto o irra- cionalismo, que ainda seria efetivo, por exemplo, por meio da influência de Heidegger e de seus seguidores (Cf. Lukács, 2021, 1967) quanto uma espécie de racionalismo formal, que está presente no estruturalismo (Cf. Lukács, Hegel, o renascimento do marxismo e a Ética 139 Lukács, 2005) e no stalinismo: “no stalinismo domina, filosoficamente, um hiperracionalismo. [...] Com Stalin o racionalismo assume um aspec- to que o transforma em certa absurdidade.” (Lukács, 1999, p. 105) Ou seja, os embates filosóficos nos quais Lukács se coloca remetem tanto à continuidade de sua crítica à filosofia burguesa quanto ao seu projeto de renascimento do marxismo. O modo pelo qual a crise do pensamento da época deve ser vista leva a constatar que não se trata só da decadên- cia do pensamento burguês, mas também da necessidade de retomar o marxismo, tanto em suas bases como, depois, desenvolvendo-o à luz do presente. (Cf. Lukács, 2020 b). O contexto em que Lukács se posiciona, portanto, leva-o a se colocar de modo crítico diante das perspectivas do pensamento burguês – pensamento este que já toma como pressuposto um momento histórico marcado pelo fato de que “depois de 1848 a so- ciedade capitalista se apresenta já com toda a sua fealdade consumada” (Lukács, 1965, p. 106) – mas também perante o marxismo de sua época. Com isto, ele procura correlacionar a teoria e a práxis de modo mediado; isto, por sua vez, ocorre ao se ter em conta a indissociabilidade entre on- tologia e ética, ou seja, entre a apreensão do ser-propriamente-assim da sociedade (no caso de uma ontologia do ser social) e a teorização sobre a atividade prática dos homens concretos. Aquilo que está envolvido neste projeto foi levantado acima rapidamente e remete ao que o autor de Para uma ontologia do ser social chamou de renascimento do marxismo. E, com isto, notamos, desde já, que não se tem em Lukács nada parecido com uma Ética sistemática aos moldes kantianos ou da tradição filosófi- ca, ou mesmo acadêmica. Para que se perceba isto com mais clareza, no entanto, é preciso avançar e analisar a maneira pela qual se põe o embate lukacsiano com Hegel no que diz respeito à eticidade e à crítica ao dever- -ser. (Cf. Lukács, 2018 a) Lukács, Hegel e a eticidade Pelo que vemos, o centro da reflexão lukacsiana sobre a ética não está na produção de uma Ética sistemática aos moldes tradicionais. Normal- mente, quando o autor húngaro analisa a temática, está simplesmente remetendo à análise da prática dos homens. Ao dizer que está preparando uma Ética, diz também que, juntamente com sua Ontologia, elas “preten- dem oferecer contribuições para a fundamentação de uma práxis comu- nista no presente ... e no futuro.” (Lukács, 2008, p. 212) Ou seja, não há como procurar no tratamento de Lukács sobre a o assunto que tratamos algo como uma “uma teoria das obrigações morais que se colocaria como 140 O espectro de Lukács referência ao agir moral individual, para além da moralidade vigente – portanto, com um caráter prescritivo.” (Albinati, 2020, p. 14). É preciso que fique claro que, muito embora nosso autor trate, no primeiro volu- me de Para uma ontologia do ser social, da moral e de sua relação com as escolhas alternativas que se colocam objetivamente na realidade efetiva, o nível de abstração para a tematização da atividade concreta é outro. É preciso – segundo Lukács – superar o ponto de vista da moralidade e ru- mar à compreensão da ação inserida na condição de mundo, enfocando neste último aspecto, ligado ao processo unitário de desenvolvimento da história. Por isso, talvez não seja possível aceitar o ponto de partida mais comum para analisar o projeto da Ética de Lukács, aquele que relacio- na trabalho, escolhas alternativas e moral. (Cf. Albinati, 2015; Andrade, 2015) As notas de Lukács sobre a ética são bastante claras neste sentido também. (Cf. Lukács, 2015) Embora o caráter fragmentário deste escrito seja bastante pronunciado, nota-se que um dos motes do texto lukacisiano é a necessidade de crítica à moral a partir do ponto de vista da eticidade. Sobre o assunto, nosso autor critica, por exemplo, o apego stalinista ao Direito e à moral em detrimento da ética: “período stalinista: Em vez do desenvolvimento avante da moral (e Direito) para a ética, reconversão da moral em Direito.” (Lukács, 2015, p. 173) O stalinismo deixaria de lado a apreensão reta da práxis social, bem como das condições concretas nas quais ela sempre se dá, e apostaria em certa centralidade do Direito. (Cf. Sartori, 2015, 2017, 2018). Haveria tanto no stalinismo quanto no pen- samento burguês sobre a normatividade – sobretudo quando se tem em conta o Direito – certa oscilação entre o moralismo atado à individualida- de e o Direito, pretensamente colocado em uma forma de universalidade concreta. (Cf. Sartori, 2015) A ênfase lukacsiana na ética distingue-se destas duas abordagens. Ela trata da prática em meio às suas determina- ções sociais, enfocando o papel decisivo das últimas, que, concretamente, colocam-se na oposição existente na sociedade capitalista entre família,sociedade civil-burguesa e Estado. (Cf. Lukács, 2018 a, b) E, com isto, chega-se a um ponto importante da teorização lukacsiana sobre nosso tema: vimos que ele não toma a ética como normalmente ela é concebida. Porém, há de se perceber que, ao lado de um uso mais prosaico do termo – que simplesmente a toma como um tratamento da práxis que se coloca em um nível de concretude maior se comparado, por exemplo, àquele da Ontologia – há uma forma de colocar o tema que nos leva a Hegel: aquela da eticidade. Em grande parte, nosso autor vê as críticas de Lukács, Hegel, o renascimento do marxismo e a Ética 141 Hegel a Kant, e à ética kantiana como justas. (Cf. Lukács, 2012, 2018 a, b) E, assim, Lukács se apoia de modo considerável em uma leitura marxista da crítica hegeliana ao dever-ser kantiano. Ao invés de enfocar a morali- dade, Hegel – e com ele Lukács – voltam-se à eticidade, ou seja, à relação concreta que se coloca entre família, sociedade civil-burguesa e Estado: Para Hegel, [...] a inteira moralidade é tão somente uma parte da práxis humana que encaminha para a autêntica eticidade. E o dever-ser tem um significado real apenas enquanto expressa a defasagem entre a vontade humana e “o que é em-si”. Na eticidade, essa defasagem é superada e, por conseguinte, o posto central do dever-ser é eliminado também no mundo da práxis. A profunda correção e a igualmente profunda problematicidade dessa posição só poderão ser adequadamente discutidas na Ética. (Lukács, 2012, p. 189) Os estudos de nosso autor sobre Hegel o levam a ver a problemática abordada por Marx, principalmente no que diz respeito ao trabalho, à alie- nação e ao estranhamento em meio à sociedade capitalista, como algo que traz continuidades consideráveis diante daquilo tratado, principalmente na Fenomenologia do espírito. (Cf. Lukács, 2018 a) Ou seja, ao tratar da ética, nosso autor se volta a Hegel porque ele é um parâmetro na crítica àqueles que se atém à moralidade; porém, Lukács usa de tal procedimento porque intenta explicitar o caminho marxiano para a superação tanto do ponto de vista da filosofia hegeliana – ligado às esperanças em um Estado que reconcilie as contradições da sociedade civil-burguesa – quanto do próprio idealismo do autor da Filosofia do Direito. O preparo do terreno para a Fenomenologia, segundo Lukács, vem jus- tamente no embate – com Schelling, principalmente, mas também com Höderlin – sobre a eticidade da sociedade capitalista em comparação com a comunidade antiga. Lukács enfatiza este aspecto tanto em seu O jovem Hegel quanto em algumas passagens de suas Notas para uma Ética. E, assim, ele toma a crítica ao kantismo – este último que tem a moral por central – como algo que já fora, até certo ponto, realizado por Hegel de modo bem-sucedido. Neste último autor, de acordo com o marxista húngaro, ao contrário da busca por imperativos morais de um sujeito cujas raízes sociais não são explicitadas, tem-se um enfoque nas contradições sociais. E, por isto, Lukács destaca a “riqueza de relações sociais dos homens que caracteriza a ética em Hegel” (Lukács, 2020 a, p. 244) Desde a juventu- de do autor alemão, o desenvolvimento social objetivo ganha espaço e a moralidade é vista como subordinado a ele. Diz o marxista que “o desen- 142 O espectro de Lukács volvimento de Hegel em Iena consiste essencialmente no fato de que, no âmbito da concepção global da ‘eticidade’, o fator objetivo, econômico e histórico é enfatizado com intensidade cada vez maior, em contraposição ao papel da simples moralidade.” (Lukács, 2018 a, p. 493) E, mais: isto se dá ao passo que “a dialética de moralidade e eticidade prescreve para Hegel imperativamente que a consciência moral individual, que neces- sariamente é abstrata, só pode chegar à plenitude na eticidade concreta.” (Lukács, 2018 a, p. 502) Ou seja, de acordo com Lukács, a ética hegeliana teria por central aspectos que se entrelaçam em meio ao complexo desen- volvimento social. E, portanto, já neste autor, a ética não é algo voltado às ponderações morais mais ou menos abstratas, mas à compreensão da relação que se coloca entre família, sociedade civil-burguesa e Estado. Daí a “riqueza das relações sociais” que marca a temática. Algo importante para uma Ética, portanto, seria compreender estas relações sociais e averiguar o posicionamento correto a se tomar diante delas. O ponto de vista a ser adotado, portanto, diz respeito à conformação efetiva da sociedade e, em especial, às esferas que mencionamos. Pode ser importante estudar a moralidade, certamente. Mas ela é só parte da práxis humana e precisa ser vista em meio à eticidade. O dever-ser é, portanto, um fator da atividade humana, mas está colocado em meio à realidade efetiva, que é o resultado objetivo do processo histórico no qual, para que se diga com Marx: “os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, le- gadas e transmitidas pelo passado.” (Marx, 1997, p. 21) Tal passagem, que é continuamente mencionada por Lukács, leva ao seguinte resultado: o dever-ser, de um lado, expressa a defasagem entre a vontade humana e aquilo que se coloca em-si. Doutro, ele percorre esta correlação entre a vontade individual que se depara com a realidade efetiva mesma. Isto pode ser importante em diversos sentidos, porém, para a Ética, segundo Lukács, não é o caso de se enfatizar o fator subjetivo desta relação; antes, trata-se de enxergar como que este fator se entrelaça sempre com o cará- ter objetivo do ser social de uma época. Inclusive, neste sentido, nosso autor enfatiza que na eticidade o centro não está nesta defasagem, mas na conformação concreta das relações sociais, que têm uma existência relativamente autônoma e objetiva diante da vontade dos homens. Este ponto de partida, que remete à problematização hegeliana da relação entre moralidade e eticidade, é aceito por Lukács. Mas, ao mesmo tempo, ele caracteriza a ética de Hegel como profundamente problemática, já que o Lukács, Hegel, o renascimento do marxismo e a Ética 143 autor alemão vem a estabelecer de modo unilateral a primazia do Direi- to e do Estado frente à sociedade. (Cf. Lukács, 2018 b, 2012) Ou seja, o terreno no qual Lukács está discutindo a ética não é aquele da moral; e mais, em verdade, não se tem algo absolutamente novo no marxismo: os temas que aparecem como centrais ao assunto nos levam a considerar a dialética entre a sociedade civil-burguesa, a família e o Estado, e isto é, de certo modo, o bê-á-bá do marxismo. Tal tema foi abordado por Marx com bastante cuidado desde 1843, em sua crítica a Hegel, bem como em suas críticas aos neohegelianos. O autor de Sobre a questão judaica se coloca sobre seus próprios pés justamente questionando os pontos de partida de Hegel sobre a eticidade. Tal aspecto é destacado por Lukács em A destruição da razão ao se travar um diálogo com Engels, que, em Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã aponta que “Hegel cuja ética ou doutrina da eticidade [Sittlichkeit] é a filosofia do direito e abrange: 1. o direito abstrato, 2. a moralidade [Moralität], 3. a eticidade [Sittlichkeit]” e ele complementa dizendo sobre a eticidade, “sob a qual, por sua vez, estão reunidos: a família, a sociedade civil-burguesa [bürger- liche Gesellschaft], o Estado. Tão idealista é aqui a forma, quanto realista é o conteúdo.” (Engels, 1982, p. 401) E, assim, uma das questões impor- tantes para a Ética de Lukács passa pela relação Marx-Hegel, bem como pela relação entre sociedade civil-burguesa e Estado. E, assim, pelo que vemos, podemos dizer que, quando Lukács aborda a ética com uma referência mais precisa à tradição filosófica, e não trazen- do uma denominação para o estudo da atividade humana concreta, ele repisa aspectos clássicos do marxismo. Ou seja, a Ética do autor húngaro não é propriamente um estudo que trariaem sua base enormes novidades ao desenvolvimento filosófico marxista. (Cf. Sartori, 2021) Tratar-se-ia de repisar aspectos clássicos do marxismo para que, então, fosse possível avançar para a compreensão da atividade concreta dos homens na socie- dade atual. Isto, para que fique claro, não é problema algum. Mesmo que pareça ser uma balde de água fria àqueles que gostam de enxergar a obra madura lukacsiana como algo que prepararia um grande projeto de uma Ética, não é o caso. Aquilo que deve nortear a compreensão da obra madu- ra de Lukács não é a sua pretensão de desenvolver uma Ética – pretensão esta muitas vezes hipertrofiada pelos estudiosos do autor húngaro – mas seu ímpeto no sentido do renascimento do marxismo. A lida teórica com a atividade prática é essencial, até mesmo porque, conjuntamente com o estudo da objetividade da sociedade, poderia “oferecer contribuições para a fundamentação de uma práxis comunista no presente ... e no futuro.” 144 O espectro de Lukács (Lukács, 2008, p. 212) E, assim, há de se perceber que a Ontologia e a Ética de nosso autor não são projetos apartados, mas estudos organizados em torno do intento de fazer com que o marxismo se tornasse novamente uma força material ao se desenvolver, atualizar – no limite, renascer – e se apossar das massas. Conclusão As pretensões do marxista húngaro não são poucas no final de sua vida. Mesmo nutrido de certa visão crítica sobre o estado atual da teoria e da práxis comunista de sua época, como vimos, o seu projeto de renasci- mento do marxismo é grandioso. No que diz respeito à ética, ele se volta, ao mesmo tempo, para o passado, para o presente e para o futuro: nosso autor traz um diálogo com a filosofia hegeliana, mostrando como que as críticas de Marx à ética do autor alemão – focadas no modo como se configura a eticidade no autor da Filosofia do Direito – redundam na con- formação de sua própria posição filosófica e prática. O ponto de partida do marxismo, assim, deveria ter em vista o embate com a ética hegeliana para que a própria obra de Marx pudesse ser vista de modo sério. E isto, infelizmente, não aconteceria no presente. Em verdade, na época do autor húngaro, poucos leriam o autor de O capital, e aqueles versados na obra de Marx, não raro, aplicariam de modo mecânico as categorias do autor em uma realidade que já teria passado por mudanças, até certo ponto, substanciais. Ou seja, o caminho a se percorrer seria bastante longo. E, por isto, a Ética que Lukács pretendia escrever precisa ser vista em meio à tematização que o autor húngaro faz do renascimento do marxismo. Não há qualquer Ética sistemática aos moldes tradicionais sendo de- senvolvida pelo autor. Antes, a concepção de “ética” de Lukács é bastante prosaica e se volta à compreensão da atividade humana que ocorre dian- te de determinada condição concreta do mundo. Isto faz com que, ao se apoiar em um diálogo crítico com a noção hegeliana de eticidade, nosso autor veja como profundamente idealista qualquer centralidade atribuída ao dever-ser e à moralidade. Deste modo, a busca lukacsiana vai no sentido de trazer maior grau de concretude àquilo que ele havia desenvolvido em sua Ontologia. E, portanto, esta última obra não é uma introdução a uma Ética. Também não é a ausência da obra lukacsiana uma grande lacuna em seu pensamento. Se é verdade que o próprio pensador húngaro deu somente os primeiros passos no sentido do renascimento do marxismo, não se deve pensar sua Ética como algo que completaria o aparato luka- Lukács, Hegel, o renascimento do marxismo e a Ética 145 csiano e daria os nortes para o marxismo do presente. Lukács é claro no sentido de que muito trabalho ainda precisaria ser feito para que a teoria e a práxis comunista pudessem voltar a ter força nas novas condições sociais de sua época. E, acreditamos, caso se adote a posição marxista, é preciso perceber que isto ainda pode ser válido hoje. Referencias ALBINATI, Ana Selva. A questão da moralidade na obra de Marx. São Paulo: Instituto Caio Prado Jr., 2020. _________. 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De la intensidad dramática al realismo: La presencia de Shakespeare en la teoría del drama del joven Lukács Miguel Vedda I Aun cuando Lukács no ha escrito un trabajo de grandes dimen- siones sobre Shakespeare, comparable con los que el filósofo húngaro ha dedicado a Goethe, Balzac o Thomas Mann, es notorio que este se encuentra entre las figuras más importantes de su canon estético. En trabajos de vasto alcance como La novela histórica o La peculiaridad de lo estético, la poética del dramaturgo isabelino es cotejada positivamente, por ejemplo, con la tragédie classique francesa, a la vez que es objeto de análisis puntuales. El artículo engañosamente más espe- cífico en la obra tardía podría ser “Sobre un aspecto de la actualidad de Shakespeare” (1964), en el que se establece, por un lado, un cotejo entre este y Sófocles, mostrando, en una línea de análisis que se remonta a la estética alemana del período clásico, las afinidades entre ambos, más allá de las comprensibles divergencias. Por otra parte, la obra de Shakespeare es contrastada con el drama naturalista, en el cual la gravitación ominosa del milieu remite a una era en la cual la sociedad “toma el aspecto de un medio que se sitúa frente a los humanos a la manera de una fuerza extraña e irresistible. La intimidad humana está a un tiempo atada a este medio y carente de raíces en él”.1 Frente al paradigma sofocleo y al naturalista, Shakespeare constituye un incomparable tertium datur; en él las formas populares y externas procedentes del Medioevo perviven y hacen posible la 7 De la intensidad dramática al realismo 149 elaboración de las grandes tragedias –individuales y sociales– que germinan en el suelo del Renacimiento. El drama isabelino es visto por Lukács como un drama de la individualidad; en primer lugar, porque jamás fue configu- rado “el carácter indivisible y no fragmentario del ser humano como en él, ni antes ni después, de modo idéntico a como jamás ha sido [como] en él configurado el primado indisoluble del núcleo humano, incluso ante todas sus objetivaciones”.2 En segundo lugar, porque, en Shakespeare cada una de las escenas es una individualidad autónoma indisoluble, una mónada: el dialogismo interno y el vaivén interno de los movimientos anímicos de los personajes impide que cada escena se diluya en la totalidad general de la pieza. La manera absolutamente única en que Shakespeare plantea la relación entre el individuo y el mundo social que lo rodea no ha sido emulada por ningún dramaturgo posterior; como instancias excepcionales de aproximación al mayor poeta dramático de la Modernidad menciona Lukács solo a tres autores, y es a partir de esta mención que comenzamos a comprender cuál es el propósito subrepticio del artículo: el Büchner de La muerte de Danton, el Pushkin de Boris Godunov y el Brecht de las grandes obras del exilio. Como en los ensayos de juventud, el viejo Lukács retoma aquí la estrategia de escribir sobre un autor para en verdad referirse a otro por vía indirecta: el artículo sobre Shakespeare es en realidad un estudio sobre Brecht, en el que trata de arreglar cuentas sobre la proble- mática relación que mantuvo con el creador del teatro dialéctico. Lukács sigue juzgando con antipatía tanto los dramas tempranos de Brecht como la concepción del teatro épico, pero considera que las llamadas “piezas morales” –las que pasaron a constituir, al fin de cuentas, el canon central de la dramaturgia brechtiana: Madre Coraje, El círculo de tiza caucásico, Galileo Galilei– representan una valiosa continuación de las experimentos de Büchner y Pushkin al tiempo que una reelaboración productiva de determinados aspectos del teatro shakespeareano. Un cotejo entre estas observaciones y las que aparecen en el segun- do capítulo de La novela histórica permitiría entender de manera más específica la función que Shakespeare cumple en la estética lukácsiana. Dedicado a establecer las afinidades y divergencias entre drama histórico y novela histórica, dicho capítulo sostiene que los hitos más importan- tes en la evolución de ambos subgéneros estuvieron dados por aquellas obras en las que se ha buscado elaborar una materia enraizada en las vi- vencias e intereses de un público amplio y heterogéneo, antes que en una pequeña élite ilustrada. Esto explica que, al discutir el drama histórico, Lukács elogie el “vivo y estrecho vínculo que mantenía Shakespeare con 150 O espectro de Lukács el pueblo, por lo que se le enfrentaron los grandes problemas palpitantes de su época exigiéndole su plasmación dramática”3 y contraponga al gran dramaturgo isabelino con la tragédie classique, que era “un arte cortesano que en cuanto tal se encontraba mucho más sometida a la influencia de corrientes teóricas, y que además había perdido la comprensión de los grandes problemas del pueblo y, por siguiente, la de los sucesos históri- cos análogos que ejemplificaban de manera inmediata esos problemas”.4 En una línea que recuerda algunas de las perspectivas desarrolladas por Bajtín en el libro sobre Rabelais, el Lukács maduro subraya el valor de las novelas y los dramas históricos que extraen su materia de la vida popular –entendida latissimo sensu–, en contraste con ciertas obras academicistas y elitistas que, parafraseando a Borges, no pertenecen a la literatura, sino a la historia de la literatura. Un detalle sugestivo es que la línea dramática privilegiada por el Lukács marxista se distingue por su aproximación a lo épico, si se asocia a esto último –siguiendo a Hegel– con la plasmación de los hombres en relación con su pensamiento y su praxis cotidianos; en la épica [l]os momentos significativos se plasman […] como partes, como elementos de una totalidad más amplia, extensiva y comprensiva, con toda su complicada formación y decadencia, con su inseparable vínculo con el lento e intrincado crecimiento de la vida del pueblo, con la cooperación capilar de lo grande y lo pequeño, de lo nimio y lo importante.5 Entendida la cuestión en estos términos, el drama de Shakespeare, como los dramas históricos de Goethe (Götz von Berlichingen, Egmont) o los ya mencionados Büchner y Pushkin, son, en un sentido diferente del brechtiano, dramas épicos, que reducen la concentración dramática con vistas a una incorporación más concreta y realista de la experiencia cotidiana. Un jalón fundamental, dentro de este desarrollo inaugurado por Shakespeare, es el Fausto de Goethe, cuya proximidad a lo épico fue destacada ya por el propio autor y por Schiller. Este último, en carta a Goethe, comparó la falta de unidad del Faust con la de grandes obras nar- rativas –la Odisea, el Gil Blas–. En esta dirección avanza la observación, hecha por Goethe en carta a Schiller del 21 de abril de 1797, de que ‘la independencia de sus partes constituye un carácter fundamental del poema épico’. Ya según estos parámetros puede percibirse en el Fausto una apro- ximación a la épica, ante todo en vista de la innegable falta de unidad de su acción, de sus múltiples hiatos y digresiones. En carta a Schiller del 27 de junio de 1797, dice Goethe: ‘Procuraré que las partes sean agradables De la intensidad dramática al realismo151 y entretenidas, y dejen algo para pensar; en cuanto al todo, que siempre quedará como un fragmento, quizás pueda resultarme útil la nueva teo- ría del poema épico’. Pero convendría ahora colocar estas observaciones, que destacan la dimensión “épica” que posee el drama goetheano, con la declaración citada más arriba a propósito de esa heterogeneidad, e inclu- so de esa fusión de componentes contradictorios, en virtud de la cual los Años itinerantes de Wilhelm Meister se aproximan a la variedad de la vida. Goethe indicó, en un boceto destinado a un epílogo finalmente no es- crito para el Fausto: ‘La vida es un poema épico / tiene, ciertamente, un comienzo y un final / solo que no es un todo’ (FA VII/1, 548, P97v). Si la autonomía de las partes contrapuesta a lo inconmensurable del todo es, según Schiller, un rasgo específico de la épica, Lukács infiere que el Faust refleja en su estructura el carácter épico de la hu manidad. Porque con la elevación del individuo al nivel de la especie, se reduce la inciden- cia de los eventos trágicos en la historia. Los efectos de este proceso no solo pueden verse en que el drama moderno se aproxime a la épica, sino también en que, como señalara Balzac, la novela asuma cada vez más ele- mentos propios del drama.6 Es habitual que se piense en Lukács como en un teórico de la novela. Esto es válido para su obra marxista, o ante todo a partir de la cesura que significó para su producción Teoría de la novela (1914-5, publ. como libro en 1920), escrita bajo el impacto de la Primera Guerra Mundial. En las etapas madura y tardía, la centralidad de la novela se explica por el lugar que esta ocupa en cuanto forma representativa de la Modernidad bur- guesa; desde el mencionado tratado sobre la novela y aun hasta el tardío análisis de Un día en la vida de Iván Denísovich (1962), el filósofo hún- garo se mantiene apegado a la esperanza en el surgimiento de un nuevo epos, que exprese la superación del horizonte individualista de la novela y el crecimiento de una cultura comunitaria. Visto el problema desde este punto de vista, puede parecer explicable que Lukács celebre en el gran dramaturgo isabelino y sus sucesores un acercamiento a la mundanidad de las formas épicas; pero esta disposición encierra a la vez la adopción de un gesto crítico respecto de su propia obra juvenil, en la que estaba colocado en el centro de su atención el drama y, en particular, el drama trágico, y en la cual la valoración de Shakespeare era netamente diversa. En ella, el paradigma insuperable, dentro del sistema de los géneros, está dado por una variedad clasicista de tragedia cuyo modelo más alto está en Sófocles, y que presenta como atributos esenciales la economía de acción, tiempo y caracteres, la exclusión de lo vulgar y cotidiano, la configuración 152 O espectro de Lukács de un orden cerrado del que ha sido excluido el azar y en el que todo pa- rece avanzar en dirección al encuentro del héroe con su propia esencia. En Evolución histórica del drama moderno (escrita, en su mayor parte, entre 1907-9, y editada, con algunos cambios significativos, en 1911), la historia del drama aparece expuesta como una historia de decadencia. Es ilustrativo comparar los dos capítulos iniciales del libro: si el primero se desarrollan los atributos pertenecientes a la norma universal, al arqueti- po –casi en un sentido platónico– del género, el segundo expone de qué manera se ha producido, a partir de la modernidad, la depravación de la norma primigenia. Aquí, como en otras obras lukácsianas, el punto de partida es el clasicismo antiguo: el drama griego y, ante todo, lo que re- presenta para el autor su expresión más alta, la tragedia sofoclea. En esta no encontramos una totalidad (Totalität) de contenido, como en la épi- ca, sino conclusión (Geschlossenheit); en otras palabras: en el lugar de la infinitud del mundo real aparece, por efecto de la estilización dramática, un pequeño mundo regido según leyes autónomas; la historia del drama moderno aparece como una declinación respecto de la perfección antigua. Una dificultad del tratado está dada justamente por el papel histórico de Shakespeare; el joven Lukács lo coloca, junto a la tragedia griega, como una de las dos posibilidades extremas, frente a las cuales ha tenido que tomar posición el drama moderno: Shakespeare significaba la totalidad y el drama antiguo la unidad (ambas tomadas unilateralmente; una de las cuales, de ser necesario, es alcanzada mediante el sacrificio de la otra). Shakespeare significa la riqueza de la vida y el colorido brillo de la vida […], los griegos significaban la síntesis de esta vida en unos pocos símbolos grandes. Una significa la caracterización de los hombres individuales; la otra, la estilización en grandes destinos trágicos; una significa el libre albedrío del individuo autónomo […]; la otra, la nece- sidad inexorable, el destino, el fatum. Una significa el lugar, el tiempo y las circunstancias históricamente determinados de los sucesos, la otra la ausencia de espacio y temporalidad de los sucesos.7 Si Shakespeare puede proveer, en este sentido, el antecedente por exce- lencia para el realismo Sturm und Drang y, en niveles cada vez más bajos, para el naturalismo de un Hauptmann o un Ibsen, los griegos pudieron proveer un modelo inalcanzable para la tragedia clásica de Racine, para el Goethe de la Ifigenia y del Tasso, para el Schiller de Wallenstein y Demetrius, para el drama del destino de Hebbel, para los experimentos neoclásicos de Paul Ernst. El libro sobre el drama moderno abunda en análisis particu- lares y se empeña en eludir las condenas o las celebraciones unívocas; en De la intensidad dramática al realismo 153 todo caso, considera el desarrollo reciente del drama como un proceso que, partiendo de las dos opciones extremas indicadas, conduce, por un lado, a un drama naturalista que busca ser comprensible y ejercer efecto sobre las masas de espectadores; por otro, un drama estilizado que ha perdido tanto el contacto con el público como la densidad teatral. La escisión tie- ne lugar, pues, “entre, por un lado, la élite [...] que tiende, cada vez más, al drama libresco; y, por otro, el ‘panvaudevillismo’ que produce, para sus fines, una técnica y una tendencia íntegras: el drama y el escenario del burgués ‘promedio’, el drama de tendencia francés”.8 Aquí los dos polos son fenómenos de decadencia; pero algunos indicios parecen sugerir que las simpatías del autor del libro están más cerca de la variante estilizada y elitista, en la que en todo caso consiguen expresarse sin concesiones con- soladoras la incomunicación, el solipsismo que definen a la civilización burguesa, en contraposición con la comunidad orgánica tradicional. II El otro gran estudio temprano sobre el drama, “Metafísica de la tra- gedia” (1911), diverge del libro sobre el drama moderno por su defensa categórica del neoclasicismo como única alternativa válida ante la crisis del arte y la cultura contemporáneos. Ya en el artículo “Esencia y forma del ensayo”, que abre la compilación El alma y las formas (en la que está incluido, como coda final, el estudio sobre la tragedia) cobraba expresión el entusiasmo ante la posible aparición de una dramaturgia que, contra- riamente a la de Lessing, repruebe a Shakespeare y ensalce a Corneille; y en Metafísica de la tragedia saluda Lukács en la Brunhild de Paul Ernst un auténtico renacimiento de la tragédie classique: “una profundización, una asimilación de los más elevados propósitos de Corneille, Racine y Alfieri; un regreso más puro al modelo eternamente grandioso de una dramatur- gia que busca el alma de la forma, un regreso al Edipo de Sófocles”.9 El paradigma estético promovido en “Metafísica de la tragedia” se encuentra sustentado por una ética trágica que sostiene toda la filosofía juvenil de Lukács, y que implica una actitud de no conciliación frente a la realidad contemporánea: el autor de El alma y las formaspiensa que el mundo burgués es inadmisible, pero también que no hay vías disponibles para transformarlo. De cara a un presente visto como estado de corrupción y crisis, Lukács señala como únicas esferas válidas de realización la artística y la filosófica: el ámbito de las formas, en el cual es posible crear un orden perfecto, contrapuesto con el caos del mundo externo. En la medida en que es cardinal, para el volumen de ensayos, el enaltecimiento de la vida 154 O espectro de Lukács auténtica (que solo tiene lugar en el espacio de las formas) y la condena de la vida empírica, puede entenderse que Lukács privilegie aquellas ex- presiones artísticas en que esta última queda tajantemente impugnada y excluida. La forma vivo-verosímil, que deja ingresar en la obra de arte la anárquica multiplicidad de lo real, es contrapuesta negativamente a la forma dramático-necesaria, que excluye la realidad cotidiana de manera tajante y cuya expresión más consumada se encuentra en la tragedia. La grandeza de esta última reside en el juicio despiadadamente crítico que pronuncia sobre la sociedad humana: muestra que el sentido solo puede ser alcanzado en una esfera que ha roto relaciones con la empiria, y en la cual el héroe se encuentra con su destino –con la autenticidad– en el instante mismo de enfrentarse con la muerte. Frente a la contingencia histórica se yergue, como realidad antagónica, la pureza de la vivencia trágica: en ella no existen el espacio ni el tiempo; todo lo insustancial y atmosférico (es decir: todo lo que procede a la azarosa vida empírica) ha sido subyugado, y los héroes se encuentran, en gloriosa soledad, con su íntima esencia, hasta entonces ignorada: Almas desnudas mantienen aquí diálogos solitarios con destinos desnudos. A ambos les ha sustraído todo lo que no constituye su esencia más íntima; todas las relaciones de la vida han sido destruidas para poder establecer la relación del destino; todo lo atmosférico entre los hombres y las cosas ha desapareci- do a fin de que entre ellos se encuentre el claro, duro aire de las alturas, que nada oculta; el aire de las últimas preguntas y de las últimas respuestas... La tragedia tiene una única dimensión: la de la altura. Comienza en el momen- to en que enigmáticas fuerzas extraen la esencia del hombre, lo obligan a ser esencial, y su marcha es solo un volverse cada vez más manifiesto de ese ser único, verdadero.10 Ferenc Fehér ha señalado la afinidad entre el carácter atemporal del encuentro del héroe trágico con su íntima esencia y el concepto de ins- tante, tal como se encuentra desarrollado en El concepto de angustia: el instante señala la temporalidad misma de la tragedia: en esta “no puede aparecer el pasado [...] tampoco el futuro, ya que el héroe de la tragedia no puede trascender su destino: ‘más allá’ de este no hay nada para él”; el instante funciona, en Lukács, como polo contrario a la vida, permite “confrontar la obra con la vida empírica”. En esta concepción del instante trágico como categórica ruptura con el azaroso mundo de la vida reside, según Lukács, el fundamento de la concentración temporal, del precep- to clásico de unidad de tiempo: este, en efecto, solo posee sentido en la medida en que contribuye a establecer un hiato insalvable entre el espacio De la intensidad dramática al realismo 155 sin atmósfera en el que se mueven los héroes trágicos y las contingencias de la vida corriente. De este encarecimiento del concepto neoclásico de tragedia deriva Lukács un cuestionamiento de aquellos defensores “pre- cipitados”, “cobardes” de esta forma dramática que procuran mitigar la despiadada dureza de lo trágico aludiendo a “la plenitud de Shakespeare, el inquieto tornasol de los diálogos naturalistas, el desdibujamiento de todos los contornos del destino en las piezas de Maeterlinck”.11 Así como impugna el drama naturalista presuntamente derivado de Shakespeare, también rechaza Lukács el drama histórico, que posee uno de sus puntos de partida decisivos en el dramaturgo isabelino. El autor de “Metafísica de la tragedia” supone que la forma del drama histórico encierra una ten- tativa de conciliación entre realidades de por sí inconciliables: “Lo trági- co que cobra expresión en la historia no es enteramente puro, y ninguna técnica del drama puede encubrir esa disonancia metafísica; incluso, en cada punto del drama se destacará como una variante –diversa en cada caso– de irresolubilidad técnica”12. En la base de estas definiciones hay una sanción condenatoria frente al concepto burgués de democracia, y aun por momentos frente a la democracia tout court; el joven Lukács postula la incompatibilidad entre democracia y tragedia, y declara que el reino de los cielos de lo trágico se encuentra perpetuamente cerrado para los pobres de espíritu; de ahí que aquellos demócratas consecuentes que piensan hasta el final su exigencia de igualdad se opongan a la existencia de la tragedia. Para Lukács, las expresiones estéticas y éticas del huma- nismo implican un intento de estetizar lo real, de impedir que la inexo- rabilidad del destino se haga visible en toda su intolerable crudeza; en la tragedia elevada advierte, en cambio, una representación desprovista de ornamentos atemperadores: la dureza y frialdad del diálogo dramático, la crudeza de las situaciones plasmadas, la omnipresencia de la muerte consiguen desbaratar el cómodo optimismo del hombre medio. Privilegio de los grandes hombres, la tragedia es definida, al mismo tiempo, como la más mundana de las formas: su condición histórica de posibilidad está dada por la existencia de un mundo degradado y carente de esencialidad, por encima del cual se eleva la presencia estática, inactiva de Dios. La au- sencia de este –que ha abandonado el escenario para circunscribirse a la función de mero espectador– explica que el mundo asuma ante los hom- bres una apariencia hostil. Lukács señala que un auténtico renacimiento de la tragedia solo tendrá lugar “cuando hayan desaparecido de la natu- raleza todas las sombras fluctuantes de un orden para nosotros amistoso, 156 O espectro de Lukács que nuestros cobardes sueños han proyectado en aquella en busca de una propia, ficticia seguridad”.13 III A la luz de lo que sabemos sobre la obra posterior de Lukács, podría- mos preguntarnos cómo se produjo el pasaje desde el aristocratismo que comporta la ética trágica hasta la ulterior opción por una visión demo- crática del mundo y la predilección por aquellas formas épicas que, como la novela histórica, exigen una exploración –aunque crítica o aun indig- nada14– de lo real. Un paso importante en este sentido fue la reflexión, inmediatamente posterior al ensayo sobre la tragedia, de algunas formas que señalan una disposición frente al mundo diversa de la trágica. Entre ellas se destacan los estudios sobre el cuento maravilloso (Märchen) y sobre el drama no trágico, que Lukács designa con el nombre de Romance. La atención a esta última forma vuelve a colocar en el centro de la conside- ración el interés por Shakespeare: en sus dos artículos “El problema del drama no trágico” y “La estética del Romance” (1911), Lukács sostiene que es inevitable que fracasen los intentos por introducir componentes antitrágicos en el interior mismo de la tragedia, pero en cambio sí es posible concebir una forma dramática de naturaleza enteramente diversa, en la cual resulte conjurada la fatal potencia del destino; exponentes acabados de dicha forma son las obras de Eurípides, el drama hindú y el del Siglo de Oro español; pero el momento de mayor esplendor coincide con el final de la era de Shakespeare: a él pertenecen no solo La tempestad, sino también los Romances de Beaumont-Fletcher y de Ford. El nuevo drama debe retomar, según Lukács, los senderos trazados por estos dramaturgos, anulando la rígida contraposición entre un Deus absconditus y una realidad desencantada y recuperando la unión de esta con la esfera del sentido. Siel drama trágico presuponía un estado de desesperación absoluta, el Ro- mance acarrea una anticipación utópica de la redención: de ahí que su forma se aproxime, e incluso se superponga con la del “drama de la gracia” (Gnadendrama). Las bases de esta apología del drama no trágico son, según puede verse, intensamente religiosas; sin embargo, de ella se deduce una enérgica rehabilitación de la vida terrena. En efecto, en el mundo del Ro- mance la divinidad ya no está relegada a la condición de mero espectador trascendente; por el contrario, la Providencia se encuentra directamente implicada en el proceso de la vida, tal como lo atestiguan, ante todo, el drama hindú y en el calderoniano; en Shakespeare, el trasfondo teológico De la intensidad dramática al realismo 157 se encuentra ausente, y a ello obedece el que, en sus dramas no trágicos, en el lugar de la voluntad divina aparezca la figura desacralizada del sabio, y aquí Lukács piensa ante todo en el Próspero de La tempestad. De todos modos, esta posibilidad no es la más elevada; por encima de este encum- bramiento del “hombre nuevo” se eleva una posibilidad más alta: la de un modelo comunitario en el que los hombres, librados del ascendiente del héroe y del sabio, se unan en una universal hermandad. De ahí el esencial democratismo de la variedad más perfecta del Romance, en la que son trascendidos el individualismo y el racionalismo propios de la tragedia: El drama no trágico es una forma democrática; no establece castas entre los hombres como lo hace la tragedia; su solución más pura debía ser, a la vez, una configuración que en la esencia común de los hombres –sin héroes, e incluso sin sabios– encontrase el camino hacia la plenitud de la vida, hacia la forma perfecta. Esta tarea – por así decirlo, el misterio sin teología– sigue siendo hasta hoy un problema y una tarea por cumplir.15 A diferencia de lo que ocurría en la tragedia, el Romance desconoce el concepto de un Dios puramente trascendente; aquí, la lucha no se plantea exclusivamente entre héroe y destino. Libre de los perturbadores dualismos que escindían el mundo trágico, el Romance incorpora dentro de su ámbito al hombre y a la naturaleza, a la divinidad y al destino; to- dos los componentes se integran “en una masa nueva, luminosa, fluida; en cada momento se encuentra contenido cada uno de los principios del mundo”.16 Altamente revelador es el paralelo que se establece entre este nuevo modelo dramático y la forma del cuento maravilloso (Märchen). En este último, vemos cómo lo religioso, desacralizado, desciende al ámbito terreno y se funde con la belleza; gracias a este descenso –condición ine- ludible para que resulte posible la configuración artística–, los principios vitales más profundos se hacen visibles, pero pierden, en el curso de esta elaboración, su profundidad originaria. De ahí que el cuento maravilloso sea, por definición, antimetafísico, superficial, puramente decorativo; de ahí que los personajes que lo habitan no sean, en rigor, individuos, sino meras siluetas. El personaje del Romance no posee la individualidad y la fría rigidez de estatuaria que caracterizan al héroe trágico, pero tampoco se circunscribe ya a la elemental superficialidad que singulariza a los ca- racteres del Märchen. En tanto este último presenta únicamente figuras planas, el drama no trágico se ve en la necesidad de establecer una terce- ra dimensión: una profundidad espacial, en la que se expresa una mayor profundidad espiritual. El Romance ocupa, pues, un lugar intermedio 158 O espectro de Lukács entre la tragedia y el cuento maravilloso. Sus personajes están a mitad de camino entre las marionetas y los héroes sobrehumanos; son criaturas, y necesitan tener, pues, una psicología y una cosmología propias. En vista de las observaciones que hicimos al comienzo sobre el Lukács maduro, vale la pena destacar dos cualidades del Romance, que lo contraponen a la tragedia; en primera instancia, su carácter antiindividualista: en la medida en que la esencia de la psicología que presentan los personajes del género es “la ruptura del yo, la pérdida de su unidad”,17 se abre un espacio para un sentido colectivo que apunta más allá del horizonte burgués. En se- gundo lugar, el Romance muestra una proximidad a lo cotidiano que no la contrapone solo a la tragedia, sino a las formas dramáticas en general. En “La estética del Romance” se sostiene que las formas dramática y épica se encuentran tajantemente contrapuestas a causa del modo de concebir sus caracteres; en la épica o bien se configura el yo empírico (epopeya, novela), o bien se desarrolla una acción que presenta una abreviatura simbólica del yo empírico (novela corta, cuento maravilloso). El punto de partida y la materia del drama es, en cambio, “la más profunda y concreta forma del carácter, su idea: el yo inteligible”.18 El drama no trágico representa una especie de anomalía: “El ‘romance’ está más cerca de la vida, pues en él esencia y periferia están separadas solo en la propia obra, y su interde- pendencia a pesar de su conflicto, su unidad a pesar de toda la incohe- rencia y la inadecuación son elevadas a sustancia independiente, a punto de partida de la configuración del mundo”.19 Este desplazamiento desde la entronización de la tragedia a la ocupación con un drama cercano a la mundanidad de lo épico anuncia ya al posterior Lukács: al teórico de la novela y al filósofo de la vida cotidiana. Notas 1 Lukács, György, “Sobre un aspecto de la actualidad de Shakespeare”. En: –, Realistas alemanes del siglo XIX. Trad. de Jacobo Muñoz. Barcelona: Grijalbo, 1970, pp. 459-464; aquí, p. 459. 2 Ibíd., pp. 460s. 3 Lukács, György, La novela histórica. Trad. de Jasmin Reuter. México: Era, 1966, p. 194. 4 Íd. 5 Ibíd., p. 150; las bastardillas son nuestras; la traducción ha sido levemente corregida. 6 Es sugestivo que Schiller afirmara, en carta a Goethe, que la tragedia siempre aspira al carácter épico, y que igualmente el epos busca apropiarse de las cualidades De la intensidad dramática al realismo 159 del drama: “Luego Schiller analiza el Hermann und Dorothea de Goethe como epos que tiende a la tragedia, y su Iphigenie como drama que tiende al epos. Esa interacción dialéctica de los géneros literarios, ese enriquecimiento recíproco de todos ellos, es un rasgo característico de la teoría y la práctica literarias del período postrevolucionario. Desde el punto de vista de la teoría de los géneros podría identificarse incluso el núcleo de la estética romántica en la acentuación de este momento, que es sin duda al mismo tiempo una exageración. Y aunque no lo supiera la mayoría de los escritores y teóricos románticos de la literatura, la tendencia procedía de la creciente contradictoriedad de la moderna vida burguesa, ya indominable con la vieja pureza y la vieja simplicidad de la forma clásica” (Lukács, G., Goethe y su época. Trad. de M. Sacristán. Barcelona: Grijalbo, 1968, p. 136). 7 Lukács, G., Entwicklungsgeschichte des modernen Dramas. Ed. de Frank Benseler. Darmstadt, etc.: Luchterhand, 1981, pp. 166s. Cuando no se indica algo diferente, las traducciones son mías. 8 Fehér, F., “Die Geschichtsphilosophie der Tragödie, die Metaphysik der Tragödie und die Utopie des untragischen Dramas. Scheidewege der Dramentheorie des jungen Lukács”. En: VVAA, Die Seele und das Leben. Studien zum frühen Lukacs. Frankfurt/M: Suhrkamp, 1977, pp. 7-53; aquí, p. 17. 9 Lukács, G., “Metafísica de la tragedia”. En: –, El alma y las formas / Teoría de la novela. Trad. de M. Sacristán. Barcelona: Grijalbo, 1985, p. 235. 10 Ibíd., p. 223. 11 Ibíd., p. 244. 12 Ibíd., p. 248. 13 Ibíd., p. 221. 14 “El gran realista puede reaccionar negativamente en el plano político, moral, etc., frente a muchos fenómenos de su época y frente a la evolución histórica; pero, en un sentido determinado, está enamorado de la realidad, considera siempre a esta con los ojos de un enamorado, aunque, eventualmente,escandalizado o indignado” (Lukács, György, Was ist das Neue in der Kunst? (1939-1940?). En: Benseler, Frank y Jung, Werner (eds.), Lukács 2003. Jahrbuch der Internationalen Georg-Lukács- Gesellschaft. Bielefeld: Aisthesis, 2003, pp. 11-102; aquí, p. 44). 15 Lukács, György, “El problema del drama no trágico”. En: –, Acerca de la pobreza de espíritu y otros escritos de juventud. Edición al cuidado de Belén Castano y Miguel Vedda. Introd. de Miguel Vedda. Buenos Aires: Gorla, 2015, pp. 129-133; aquí, p. 133. 16 Ibíd., p. 132. 17 Lukács, György, “La estética del ‘romance’”. En: –, Acerca de la pobreza de espíritu y otros escritos de juventud, pp. 135-159; aquí, p. 141. 18 Ibíd., 142. 19 Ibíd. György Lukács e a relação entre realismo e catarse na teoria da literatura 8Ranieri Carli Pretende-se afirmar neste artigo que, para Lukács, a catarse realista aparece como o fim último da literatura que se porta como forma de conhecimento. Nesse sentido, há uma apropriação particular da categoria da catarse por Lukács, associada ao realismo, que é tomada como o instante em que o caráter genérico que consta na obra se realiza frente a seu fruidor. Lukács recorda a noção aristotélica de catarse enquanto purificação do homem, orientado para os interesses universais do gênero. A arte como forma de conhecimento do homem sobre si mesmo. A interpretação marxista da arte em Lukács parte do pressuposto de que as criações estéticas são uma forma de conhecimento. Estamos, portanto, no polo diametralmente oposto ao de Kant, quando o filósofo iluminista afirma que o “gosto é a faculdade de ajuizamento de um objeto ou de um modo de representação mediante uma complacência ou descomplacência independente de todo o interesse” (Kant, 2005, p. 55; grifos originais). A independência da fruição estética de todo o interesse é completada por Kant com um certo relativismo subjetivo no que diz respeito ao caráter agradável do fruir: “com respeito ao agradável, cada um resigna-se com o fato de que seu juízo, que ele funda sobre um sentimento privado e mediante o qual ele diz de um objeto que lhe apraz, limita-se também simplesmente a sua pessoa” (Kant, 2005, p. 56; grifos originais). Ao conceber a arte como uma forma de conhecimento, Lukács se habilita a esquivar-se tanto da muralha chinesa que Kant ergueu entre a arte e a A relação entre realismo e catarse na teoria da literatura 161 prática, quanto do subjetivismo característico da filosofia kantiana. Na Estética, Lukács refuta com uma boa dose de argumentos a pretensão kantiana em considerar a fruição estética desprovida de calço no real, sem que sejam explicitadas as suas relações com a prática histórica de que a imagem artística se apropria: Sobretudo, Kant colocou esta questão [a relação entre o útil e o agradável] com claridade [...] A determinação kantiana põe questões de extraordinária importância, cuja fecundidade, sem embargo, diminui muito por consequência da metafísica rigidez na contraposição do Agradável e do Belo. Kant percebe com finura que a linha fronteiriça deve ser buscada nas relações reais que subjazem a ambos os conceitos [...] Porém, o idealismo subjetivo de Kant, que não reconhece reflexo algum de uma realidade independente da consciência, tem que desembocar em rígidas contraposições (Lukács, 1982, v. 1, p. 308, 309). Esse trecho da Estética anuncia desde já a diferença entre o que Kant declara acerca da arte e aquilo que o filósofo húngaro sustenta em seu lugar: seria uma contraposição de rígida metafísica separar a arte da realidade histórica dos homens, uma vez que a arte ela mesma está arraigadamente vinculada ao devir humano; a consciência estética não se explica por si só, abrindo mão dos conteúdos abstraídos do solo da história. Certo que a reflexão estética e o movimento do real sejam instâncias que possuem legalidades próprias e que a criação artística não é uma transposição foto- gráfica do real para as letras de um romance, as cores de uma tela ou as notas de uma sinfonia; dito isso, no entanto, não se descarta em Lukács a noção de que a arte se debruça sobre a vida real dos homens para lhes legar uma forma de conhecimento a seu propósito. Ao se preocupar em vincular a arte à realidade e, assim, alocar a arte no leque das formas humanas de conhecimento, Lukács põe-se no seio das correntes da teoria estética que remetem a Aristóteles e que alcançam na filosofia clássica alemã um alto grau de desenvolvimento. É conhecida a afirmação de Aristóteles segundo a qual as formas artísticas podem ser consideradas “imitações”; a estética aristotélica centra-se na mimese, assim como a de Lukács. As diversas formas de imitação respeitam aos “objetos” a serem reproduzidos mimeticamente, segundo Aristóteles (1999, p. 37, 38). Vê-se que consta na poética do filósofo antigo a união entre a imagem estética e o objeto a ser reproduzido. Posteriormente, alguns pensadores da filosofia clássica alemã resgataram o que está dito em Aristóteles e conceberam suas respectivas filosofias da arte por sobre a mesma noção de elo entre arte e objetividade do real, como Herder (um dos primeiros 162 O espectro de Lukács a criticar a separação entre o útil e o agradável em Kant), Schiller, o jovem Schelling, Goethe e Hegel, entre outros. Propriamente de Hegel, podemos ler a seguinte passagem: A bela arte é, pois, apenas nesta sua liberdade verdadeira e leva a termo a mais alta tarefa quando se situa na mesma esfera da religião e da filosofia e torna-se apenas um modo de trazer à consciência e exprimir o divino [das Göttliche], os interesses mais profundos da humanidade, as verdades mais abrangentes do espírito. Os povos depositaram nas obras de arte as suas intuições interiores e representações mais substanciais, sendo que para a compreensão da sabedoria e da religião a bela arte é muitas vezes a chave – para muitos povos inclusive a única (Hegel, 2001, v. 1, p. 32; grifos originais). Há em Hegel não somente o vínculo entre o belo e o interessante – que não existe em Kant –, como, antes de tudo, são os interesses mais profundos da humanidade, as verdades mais abrangentes do espírito, de acordo com a menção acima. É Lukács o esteta responsável por desenvolver a trilha iniciada por Marx e Engels e, também no âmbito da estética, retirar o invólucro místico com o qual Hegel vestiu sua teoria. Leiam que Hegel associa os interesses mais profundos do homem com uma suposta dimensão divina da arte. Ao contrário, na Estética de Lukács, a determinação do objeto que se dá à reflexão artística subtrai qualquer misticismo em torno da arte: “seu objeto [da arte] é o entorno concreto do homem, a sociedade (o homem na sociedade), o intercâmbio da sociedade com a natureza, mediado, naturalmente, pelas relações de produção; e tudo isso do ponto de vista do homem inteiro” (Lukács, 1982, v. 1, p. 254). Para Lukács, é esse o objeto com o qual se confronta a arte, o homem que pertence a uma particularidade histórica situada, pleno de determinações concretas, que, mediado pelas relações societárias em que se insere, põe-se em metabolismo com a natureza. A arte é antropomórfica e terrena. A partir daí, é muito pouco provável que Lukács afirmasse à maneira de Hegel, que a arte está na mesma esfera que a religião. Na concepção lukacsiana, a arte é uma forma de conhecimento humano que detém peculiaridades. Não é ciência, certamente. Antes de Lukács, Marx tratou de diferenciar as formas de conhecimento, atribuindo-lhes uma peculiaridade, para que a apropriação científica do real não fosse equiparada a outras modalidades de conhecimento. No concernente à ciência, “o todo como um todo de pensamentos, tal como aparece na A relação entre realismo e catarse na teoria da literatura 163 cabeça, é um produto da cabeça pensante que se apropria do mundo do único modo que lhe é possível, um modo que é diferente de sua apro- priação artística, religiosa e prático-mental” (Marx, 2011, p. 55). Embora