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KRA
AFORISMOS
11
KARLKRAUS
AFORISMOS
Seleção, tradução, glossário e apresentação
Renato Zwick
a
Porto Alegre - 2010
/
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Título alemão: Aphorismen: Sprüche und Widersprüche; Pro domo et
mundo; Nachts.
Tradução baseada na edição digital das obras de Karl Kraus organi
zada por Christian Wagenknecht (Schriften, Digitale Bibliothek Band
156, Berlim, Directmedia, 2007}.
2• reimpressão ------------··--
Capa
Humberto Nunes
Índice onomástico
Rodrigo Breunig
Revisão
Eduardo Wolf
Pedro Gonzaga
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ft ·- .
Da~:
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
K9la Kraus, Karl, 1874-1936
Aforismos / Karl Kraus; trad. e org. Renato Zwick. - Porto
Alegre: Arquipélago Editorial, 2010.
208p.; 14 x 2 1 cm.
Inclui notas, glossário e índice.
ISBN 978-85-60171-14-9
1. Literatura austríaca - aforismos. 2. Literatura austríaca -
pensamentos.!. Zwick, Renato, org. li. Título.
CDU 821.112.2(436)-84
(Bibliotecária responsável: Paula Pêgas de Lima - CRB 10/1229)
Todos os direitos desta edição reservados a
ARQUIPÉLAGO EDITORIAL LTDA.
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CEP 90150-003
Porto Alegre - RS
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www.arquipelagoeditorial.com.br
hete1tura Murucipa! ce i'ono Mgtc
Secr•·.tar: .. ~{.~~,~1Jc!:•.1: '- .~ Cultura
8iblioteca Pública Municipal
Josué Guimarães
Sumário
Apresentação ............................................................................ 7
Ditos e contraditos .... .... . .. ........ ....... .. ... ............. ........ ....... .. .. 17
1. A mulher, a imaginação ................ ................ .............. 19
2. A moral, o cristianismo ........................................ ....... 31
3. O homem e o seu próximo ......................................... 41
4. Imprensa, estupidez, política ...................................... 51
5. O artista ......................................................................... 63
6. Escrever e ler ..... ...... ............ .......... ... ... ......... ................. 69
7. Países e pessoas .. .. . .. . ... . .. . . . . .. . .. . . .. . . . . . . .. . .. . .. . .. . . . .. . . . . . . .. . . . . 81
8. Humores, sentenças ..................................................... 85
9. Ditos e contraditos ....................................................... 91
Pro domo et mundo ...... .... ...... .... ........................ ... ... ......... 1 O 1
1. Da mulher, da moral ............................. ... ... ... .... ... ..... 103
2. Da sociedade ............................................................... 109
3. Dos jornalistas, estetas, políticos, psicólogos,
imbecis e eruditos .. ................... .......... .. ... .... ... ... ........ 117
4. Do artista ..................................................................... 129
5. De duas cidades .......................................................... 139
6. Acasos, lampejos ........................................................ 143
7. Pro domo et mundo ................................................... 147
De noite ................................................................................ 155
1. Eros .............................................................................. 157
2. A arte ........................................................................... 163
3. A época ........................................................................ 169
4. Viena ............................................................................ 175
5. 1915 ·············································································· 177
6. De noite ....................................................................... 187
Glossário .............................................................................. 193
índice onomástico ... ... ... ...... ..... .......... ... ... . ... ... ................. .. 201
Apresentação
Para fazer uma excelente sátira, basta
dizer a maior parte das coisas como elas são.
Karl Kraus, Hüben und Drüben
(Do lado de cá e do lado de lá)
Karl Kraus não foi apenas o maior autor satírico de lín
gua alemã do século XX, mas chegou a ser considerado um
dos maiores satiristas de todos os tempos, digno de figurar
- no entender de outro grande escritor, Elias Canetti - ao
lado dos nomes de Aristófanes, Juvenal, Quevedo, Swift e
Gogol. Sua obra é vasta e multifacetada: milhares de páginas
de ensaios, aforismos, poemas, peças teatrais e adaptações,
cujas primeiras versões foram em boa medida publicadas no
jornal Die Fackel (A tocha), que o escritor fundou em 1899 e
passou a redigir sozinho a partir de 1911 até poucos meses
antes de sua morte, em 1936.
Kraus nasceu na cidade de Jicin, na Boêmia, em 1874;
três anos depois, a família, cujo pai fizera fortuna no ramo
da fabricação de papel, mudou-se para Viena, onde Kraus
passaria toda a sua vida. De início, estudou.direito e, a partir
de 1894, contrariando a vontade paterna, filosofia. Entre
1892 e 1899 escreveu artigos para vários jornais, apartando
se bruscamente do meio literário e jornalístico de que fazia
parte para fundar seu próprio jornal. Sobre esse momento,
Kraus diria anos depois num aforismo: "Logo se completarão
Karl Kraus retratado por Trude Fleischmann, em 1928.
[ACERVO DO WIEN M USEUM]
8
dez anos que não recobro mais a consciência. A última vez
que a recobrei, fundei um jornal polêmico".
A primeira obra de Kraus publicada em forma de livro foi
a coletânea de ensaios Sittlichkeit und Kriminalitiit (Morali
dade e criminalidade), de 1908, em que denunciava sobretu
do os abusos cometidos pelo Estado nos processos envolven
do os chamados crimes sexuais, como adultério, pederastia
e proxenetismo. Num dos ensaios do livro, Eros und Themis
(Eros e Têmis), o autor afirma, por exemplo, que em tais pro
cessos se liam cartas de amor em audiência secreta - tão
secreta que os cães de caça da opinião pública conseguiam
abocanhar os nacos mais picantes ... Essa denúncia receberia
expressão aforística numa obra posterior: "O escândalo co
meça quando a polícia lhe dá um fim".
O autor não considerava essa coletânea de ensaios uma
mera reprodução de textos já publicados em Die Fackel, mas
uma obra completamente nova, pois, segundo ele, os ensaios
em que estava baseada foram inteiramente reelaborados
quase linha por linha, procurando conservar aquilo que, na
condição de valor duradouro, pôde ser salvo das garras dos
interesses do dia. Nesse processo de "eternizar o dia", o pole
mista se contrapunha de maneira evidente ao jornalismo de
sua época, que, no seu entender, "jornalizava a eternidade".
Esse processo é ainda mais evidente em sua obra seguin
te, Sprüche und Widersprüche (Ditos e contraditos, de 1909;
literalmente: Ditos e contradições), a primeira das três co
letâneas de aforismos que publicou. Se nos ensaios ainda
havia referências claras a fatos e pessoas, nos aforismos a
mordacidade de Kraus se volta em especial contra estados
de coisas - a vida em sociedade, a situação da cultura, a
petrificação da língua sob a forma de chavões - e contra
9
tipos: o jornalista, o político, o esteta, o folhetinista, o cai
xeiro, o filisteu e outros mais; raros são os nomes e raros são
os fatos do dia.
É essa condensação extrema que confere ao aforismo as
arestas cortantes que inevitavelmente ferem o leitor. Expri
mindo o que à primeira vista muitas vezes parece ser uma
generalização abusiva, o aforismo requer reflexão; ele deses
tabiliza as certezas cotidianas cristalizadas em frases feitas
e, à luz de seu brilho repentino, apresenta aspectos da rea
lidade até então ignorados. Talvez também valha aqui uma
ideia de outro mestre do gênero, Nietzsche, que afirmou no
prefácio de Zur Genealogie der Moral (A genealogia da mo
ral): "Um aforismo, devidamente cunhado e moldado, ainda
não foi 'decifrado' pelo fato de ser lido; ao contrário, é só
então que deve começar a sua interpretação, para a qual umaarte da interpretação se faz necessária".
Parece ser precisamente isso que Kraus expressa numa
sentença de sua segunda coletânea aforística, Pro domo et
mundo ("Em defesa dos meus interesses e dos interesses do
mundo"), de 1912: "O aforismo requer o fôlego mais longo".
E não só o fôlego do autor para redigi-lo, mas também o
do leitor para lê-lo - e interpretá-lo ... Daí também a exi
gência, ainda da primeira coletânea: "Meus trabalhos devem
ser lidos duas vezes para serem bem compreendidos. Mas
tampouco me oponho a que sejam lidos três vezes. Prefiro,
porém, que não sejam lidos do que o sejam apenas uma vez.
Não pretendo me responsabilizar pelas congestões de um
imbecil que não tem tempo."
No intervalo entre essas duas coletâneas de aforismos,
em 1910, Kraus inaugurou uma terceira frente de batalha na
luta contra o seu tempo: além de redigir um jornal e publicar
10
livros, começou a fazer leituras públicas de seus textos. No
segundo volume de sua autobiografia, Die Fackel im 0hr (A
tocha no ouvido, publicado no Brasil como Uma luz em meu
ouvido), Elias Canetti nos dá um vivo retrato dessas confe
rências. Em 1924, quando pela primeira vez assistiu a uma
delas, o satirista já tinha um público cativo que o idolatrava
com veneração incondicional; mais do que tudo, chamou ini
cialmente a atenção de Canetti o comportamento de massa
desse público, sua reação uniforme aos ditos e vereditos que
emanavam de uma instância que parecia "pressupor uma lei
intocável, estabelecida e absolutamente segura", para citar as
palavras de outro texto de Canetti (o ensaio Karl Kraus, es
cola da resistência, incluído na coletânea A consciência das
palavras). Aliás, esse aspecto jurídico, por assim dizer, tam
bém foi observado com precisão por Walter Benjamin em
seus Asthetische Fragmente (Fragmentos estéticos): "Nada se
compreende desse homem enquanto não se reconhece que
tudo, necessária e absolutamente tudo - a língua e as coi
sas - se passa para ele na esfera do direito". Ou ainda: "Em
torno dele, os processos ·se acumulam. Não aqueles que ele
precisa conduzir nos tribunais de Viena, mas sim aqueles
cujo tribunal é Die Fackel."
No entanto, a despeito da agressividade, da violência
verbal e da verdadeira fúria assassina com que perseguia
seus adversários (sobretudo jornalistas, políticos e figuras
prestigiadas do meio cultural vienense), Kraus era pacifista.
O que hoje pode parecer natural, nada tinha de óbvio nos
tempos que precederam a Primeira Guerra. Em meio ao en
tusiasmo belicista generalizado, Kraus foi a voz dissonante
que alertou para o perigo de confundir patriotismo com in
teresses comerciais. Na sua terceira coletânea de aforismos,
n
Capa da primeira edição do jornal Die Fackel, de 1899.
[ACERVO DO WIEN MUSEUM]
12
Nachts (De noite), concluída em 1916, mas só publicada em
1919, ele afirma: "Há lugares em que pelo menos se deixam
os ideais em paz quando a exportação corre perigo, onde
se fala tão honestamente dos negócios que eles não seriam
chamados de pátria e em que por precaução se renuncia
a ter uma palavra para ela. Nós, idealistas da exportação,
chamamos tal povo de 'nação de negócios'."
O repúdio de Kraus à guerra, contudo, alcançou sua ex
pressão mais veemente na gigantesca peça Die Ietzten Tage
der Menschheit (Os últimos dias da humanidade). Renun
ciando às formas convencionais - não há herói, não há
trama e, dada a sua extensão, a peça não é encenável -,
seu conteúdo, nas palavras do prólogo do autor, é "irreal,
inimaginável, impensável, inacessível a qualquer dos senti
dos despertos, a qualquer lembrança, um conteúdo apenas
conservado num sonho sangrento, uma vez que figuras de
opereta representavam a tragédia da humanidade". E ain
da: "Os fatos mais improváveis de que aqui se dá notícia
realmente aconteceram; eu retratei o que outros apenas fi
zeram. Os diálogos mais improváveis aqui travados foram
pronunciados literalmente; as invenções mais chocantes são
citações." Citações, sobretudo, da imprensa da época, que
Kraus julgava não ser apenas uma instigadora da guerra,
mas a responsável por ela.
Mesmo os últimos dias da humanidade, porém, não fo
ram os últimos; menos de uma década e meia após o fim da
guerra, Hitler chegaria ao poder. A exemplo do que ocorrera
depois de declarada a Primeira Guerra Mundial, Die Fackel
deixou de circular durante vários meses depois que Hitler foi
nomeado chanceler, em janeiro de 1933. A razão: Kraus ges
tava outra obra, o monumental ensaio Dritte Walpurgisnacht
13
(Terceira noite de Valpúrgis), no qual, invocando o auxílio do
Fausto de Goethe - o título é uma alusão a duas cenas da tra
gédia -, tentou apreender o fato incomensurável da chegada
dos nazistas ao poder. A famosa frase de abertura do ensaio é
característica da perplexidade do satirista: "Nada me ocorre
acerca de Hitler". Tal perplexidade, no entanto, é apenas retó
rica, pois Kraus tinha noção clara do que estava acontecendo
e das conclusões a tirar desses fatos: já em fevereiro de 1933,
foram abertos os primeiros campos de concentração; notí
cias de maus-tratos infligidos a prisioneiros eram divulgadas
abertamente; políticos se gabavam sem constrangimento dos
milhares de detentos em prisão preventiva nos seus estados;
intelectuais como Gottfried Benn e Martin Heidegger mani
festavam publicamente suas adesões ao regime; Hitler e seus
asseclas não faziam segredo algum dos planos expansionistas
de criar uma Grande Alemanha.
Embora só tenha sido publicado na íntegra postumamen
te, em 1952, trechos desse ensaio chegaram a ser publicados
em Die Fackel. Mais uma vez, Kraus foi uma voz dissonante;
mais uma vez, tinha razão ao alertar para o pior. Aliás, num
aforismo escrito com clareza profética ainda durante a Pri
meira Guerra Mundial, ele já afirmara: "Não, a alma não fica
com cicatrizes. A bala entrará por um ouvido da humanida
de e sairá pelo outro."
Algumas palavras ainda sobre a tradução. Os critérios
para a seleção dos aforismos ora traduzidos f~am basica
mente dois: percuciência e traduzibilidade. Embora isso
signifique dizer que quase sempre privilegiamos os aforis
mos mais breves - os mais afiados - e aqueles que não exi
gissem longas notas de rodapé explicando tudo o que fosse
14
perdido na tradução, ainda assim a presente coletânea traz
um bom número de aforismos longos, quase ensaios, e outro
bom tanto de aforismos em que só por muito pouco não se
perderam as ideias do original (ou aquilo que entendemos
que sejam essas ideias ... ). Dessa forma - e desafiando o im
placável juízo do nosso autor sobre a tradução: "Uma obra
da língua traduzida em outra língua: alguém que atravessa a
fronteira sem sua pele e do outro lado veste o traje típico do
país" -, buscamos apresentar um panorama o mais repre
sentativo possível da criação aforística de Kraus.
Renato Zwick
15
DITOS E CONTRADITOS
Dedicado a Helene Kann
Tormentos da vida - volúpias do pensamento
1
A mulher, a imaginação
A sensualidade da mulher é a fonte primordial em que a
espiritualidade do homem busca renovação.
A volúpia estéril do homem se nutre do espírito estéril da
mulher. Porém, o espírito masculino se nutre da volúpia fe
minina. Esta cria as obras dele. Por meio de tudo aquilo que
não foi dado à mulher, ela age de maneira a que o homem
aproveite seus próprios dons. Os livros e os quadros são cria
dos pela mulher - mas não por aquela que escreve ou pinta.
Uma obra vem ao mundo: foi a mulher que gerou aquilo que
o homem deu à luz.
Eis a verdadeira relação entre os sexos, quando o homem
confessa: "Meus pensamentos são sempre sobre você, e por
isso são sempre novos!".
A personalidade da mulher é a ausênéia de substância
enobrecida pela inconsciência.
O homem tem cinco sentidos; a mulher, apenas um.
Alegrias de homem - agonias de mulher.
11
KARL KRAUS
Primeiro foi criado o homem. Mas a mulher é um híste
ron-próteron.
Nada é mais insondáveldo que a superficialidade da
mulher.
Logo apreendemos o conteúdo de uma mulher. Mas até
chegarmos à superfície!
No caso do homem, o espelho serve apenas à vaidade; a
mulher precisa dele para se assegurar de sua personalidade.
Na alegria e na tristeza, por fora e por dentro, em qual
quer situação, a mulher precisa do espelho.
O erotismo do homem é a sexualidade da mulher.
A superioridade masculina na aventura amorosa é uma
vantagem mesquinha, por meio da qual nada se ganha e
apenas se violenta a natureza feminina. Deveríamos per
mitir que cada mulher nos introduzisse nos mistérios da
vida sexual.
O "sedutor" que se gaba de iniciar as mulheres nos mis
térios do amor: o estrangeiro que chega à estação ferro
viária e se dispõe a mostrar as belezas da cidade ao guia
turístico.
... ..,.
Eles tratam uma mulher como se fosse um refresco. No
entanto, não admitem o fato de as mulheres sentirem sede.
20
DITOS E CONTRADITOS
Quanto mais forte a personalidade da mulher, tanto mais
facilmente ela carrega o fardo de suas experiências. O orgu
lho sucede a queda.
A capacidade genial da mulher para ~squecer é algo dife
rente do talento da senhora de não ser capaz de se lembrar.
As qualidades intelectuais e morais da mulher também
podem estimular a sexualidade fútil do homem. Pode ser
comprometedor se mostrar na rua em companhia de uma
mulher honrada, mas praticamente beira o exibicionismo
conversar com _uma garota sobre literatura.
Se uma mulher deixa um homem esperando e o homem
se contenta com outra, ele é um animal. Se um homem
deixa uma mulher esperando e a mulher não se contenta
com outro, ela é uma histérica. Phallus ex machina - o
Salvador.
A vantagem da mulher de sempre poder atender aos desejos
foi estorvada pela natureza com a desvantagem do homem.
Pela desvantagem de não poder sempre atender aos dese
jos, o homem foi compensado com a sensibilidade para perce
ber cada imperfeição da natureza como uma culpa pessoal.
Hamlet não compreende sua mãe: "Olhos sem tato, tato
sem visão, ouvidos sem mãos ou sem olhos, o mero olfa
to ou a parte mais enfermiça de um sentido verdadeiro não
andaria assim às apalpadelas. Oh vergonha! Onde está o teu
21
KAIL KRAUS
rubor?". Isso é algo que o homem não pode compreender;
ele sente a ideia de que uma mulher copule com o rei Cláu
dio como uma impertinência contra ele próprio. Ele mesmo
se sente colocado no "suor fétido de um leito asqueroso", e
sua consciência elevada se indigna. Mas é a partir dela que
Shakespeare fala. E, por isso, Hamlet apenas se escandaliza
com a idade da matrona, idade em que normalmente costu
ma "estar domado o auge do sangue", este "espera pela ra
zão" e um gosto discernente se impõe. Ele reconhece que
a juventude da mulher não pode escolher entre um apolo e
um miserável monarca remendado, que sexo e gosto quase
sempre seguem caminhos diferentes, e "proclama que não é
vergonha quando as paixões se lançam ao ataque". Não fosse
seu filho, e ele concederia mesmo à mulher de mais idade
que "o demônio que a vendou de tal maneira no jogo da ca
bra-cega" é o mesmo sentido sexual que entorpece todos os
outros sentidos da mulher - mais ainda do que no homem
mais inclinado ao sexo - e age de maneira anestesiante so
bre toda compreensão.
Os Oberões jamais compreenderão o fato de Titânia tam
bém poder acariciar um asno, pois, graças a uma sexualida
de inferior, nunca seriam capazes de acariciar uma asna. Por
isso, eles próprios se tornam asnos no amor.
Perífrase: "Ele preenche meu ouvido in~eiramente com
sua voz!", disse ela do cantor.
Uma bela garotinha ouve um ruído rascante junto à pa
rede de um quarto. Ela receia que sejam ratos, e só se acal-
22
DITIS E CINTRIDITOS
ma quando lhe dizem que ao lado há um estábulo e que
um cavalo está agitado. "É um garanhão?", ela pergunta, e
adormece.
A mesma garotinha pôde certa vez dizer de alguém que
a seguira: "Ele tinha uma boca que beijava por si mesma".
Quão pouca confiança merece uma mulher que se deixa
apanhar numa fidelidade! Hoje ela é fiel a ti, amanhã a outro.
Ela disse a si mesma: "Dormir com ele, tudo bem - mas
nada de intimidades!" . .
O sexo da mulher toma parte em todos os assuntos da
vida. Às vezes, até no amor.
O fato de mesmo os ciumentos permitirem que suas mu
lheres se movam livremente nos bailes de máscaras mostra o
quanto o sexual é secundário e ausente para o homem. Eles
esqueceram o quanto puderam se permitir outrora nesses
bailes com as mulheres dos outros, e acreditam que desde
que casaram a licença geral foi suspensa. Eles sacrificam o
ciúme por meio da presença. Não veem que esta é uma espo
ra e não um freio. Nenhuma mulher ciumenta deixaria seu
marido ir a um baile de máscaras.
Uma mulher cuja sensualidade nunca cessa e um homem
ao qual ocorrem ideias sem parar: dois ideais de humanita
rismo que parecem mórbidos à humanidade.
23
KARLKRAUS
A mulher mediana está suficientemente equipada para a
luta pela vida. Com a faculdade de não precisar sentir, a natu
reza a compensou em abundância pela incapacidade de pensar.
A mulher bonita recebeu tanto entendimento que se pode
falar tudo a ela e nada com ela.
Uma relação amorosa que não ficou sem consequências.
O homem deu uma obra ao mundo.
Decidiu-se em favor das mães e contra as heteras que
nada produzem, no máximo gênios.
Respeitemos o campo e amemos a paisagem. Esta é mais
nutritiva.
Que volúpia se deitar com uma mulher no leito de Pro
custo de sua visão de mundo!
Estou sempre sob a forte impressão daquilo que penso de
uma mulher.
Se puder interpretar uma mulher como eu bem entender,
isso é mérito dela.
Faltava-lhe apenas um defeito para ser perfeita.
;I,: • .. ·
Os defeitos são os obstáculos em que Eros prova sua va-
lentia. Apenas as mulheres e os estetas fazem uma cara de
desaprovação.
24
DITOS E CONTRADITOS
Há mulheres que não são bonitas, apenas parecem sê-lo.
Grandes traços: grande atração.
A cosmética é a cosmologia da mulher.
Se as mulheres que se maquiam são inferiores, então os
homens que têm imaginação não valem nada.
Certamente não é só o exterior de uma mulher que inte
ressa. A lingerie também é importante.
As mulheres pelo menos possuem cosméticos. Mas com
o que os homens encobrem seu vazio?
Quem exige que Xantipa seja mais desejável do que Alcibía
des é um porco que sempre pensa apenas na diferença sexual.
Em estilística, falamos de metáfora quando algo "não é
usado no sentido próprio". Assim, as metáforas são as per
versões da linguagem, e as perversões, as metáforas do amor.
O voyeur passa na prova de força da sensibilidade natu
ral: a vontade de ver a mulher com o homem supera inclusi
ve a repugnância de ver o homem com a mulher.
A satisfação erótica é uma corrida de obstáculos.
É considerado normal santificar a virgindade em geral e
ansiar pela sua destruição em particular.
25
KARLKRAUS
O "masoquismo" é a incapacidade de ter prazer de outra
forma a não ser na dor ou a capacidade de tirar prazer dela?
Não há criatura mais infeliz sob o sol do que um fetichis
ta que anseia por um sapato feminino e precisa se contentar
com uma mulher inteira.
As bailarinas têm a sexualidade nas pernas; os tenores,
na laringe. É por isso que as mulheres se decepcionam com
os tenores e os homens com as bailarinas.
Eis precisamente a diferença entre os sexos: os homens
nem sempre se deixam enganar por uma boca pequena, mas
as mulheres sempre são ludibriadas por um nariz grande.
Eles passam o tempo com cálculos mentais: ele extrai a
raiz da sensualidade dela, e ela o eleva à potência.
Façamos a distinção entre mulheres culposas e dolosas.
Mulheres caridosas apresentam uma forma específica e
muito perigosa de sexualidade modificada: a samaritíase.
Gosto de monologar com mulheres. Mas o diálogo comi
go mesmo é mais interessante.
.~;i
Visto que é proibido por lei ter feras selvagens, e os ani-
mais domésticosnão me dão prazer algum, prefiro continuar
solteiro.
2&
DITOS E CONTRADITOS
As vezes, uma mulher é um substituto bastante útil para
a masturbação. No entanto, é preciso um excesso de fantasia.
Com frequência as mulheres são um obstáculo para a sa
tisfação sexual, mas, como tal, eroticamente utilizáveis.
A noite todas as vacas são pretas, mesmo as loiras.
Mas se abster da mulher não é lá um prazer assim tão
especial, isso eu preciso reconhecer!
Quando um conhecedor das mulheres se apaixona, ele
se assemelha ao médico que se infecta junto ao leito de um
doente. Risco profissional.
Uma mulher sem espelho e um homem sem autoconfian
ça - como poderão sobreviver neste mundo?
Toda mulher parece maior à distância do que de perto.
Nas mulheres, portanto, não apenas a lógica e a ética se en
contram de pernas para o ar, mas também a óptica.
As mulheres decentes consideram o maior dos atrevi
mentos que as apalpemos debaixo de suas consciências.
Em relação às mulheres, a ordem social nos deixa apenas
a alternativa de sermos mendigos ou ladrões.
A única coisa que importa no amor é não parecermos
mais bobos do que nos fazem.
27
KARL KRAUS
Só ama verdadeiramente uma mulher aquele que tam
bém estabelece uma relação com seus amantes. No início,
isso sempre causa a maior das preocupações. Mas a gente se
acostuma a tudo, e chega o tempo em que ficamos ciumen
tos e não suportamos que um amante seja infiel.
Não é preciso que sejam sempre as qualidades do cará
ter ou do espírito masculino que levem as mulheres a serem
infiéis. O que é enganado é sobretudo o ridículo da posição
oficial que o proprietário ocupa. E contra isso, nem mesmo
qualidades físicas oferecem sempre proteção.
Basta olhar uma mulher para ser tomado por um profun
do desprezo pelos seus amantes. Jamais, porém, eu gostaria
de responsabilizá-la por eles.
Se dar presentes a uma mulher não dá prazer, deixemos
isso de lado. Em comparação com algumas mulheres, o to
nel de uma danaide é um autêntico cofre de economias.
Não consigo me livrar assim tão rápido da impressão que
causei numa mulher.
Ele era tão ciumento que tomou as dores do homem que
ludibriava e quis esganar a mulher.
Temos de pagar pelos defeitos que o Criador deixou nas
mulheres? Por serem lembradas todo mês de sua imperfei
ção, nós precisamos nos esvair em sangue?!
28
DITOS E CONTRADITOS
A mulher não sente as dores que o homem lhe causa. O
homem, inclusive essas.
Não é verdade que não se pode viver sem uma mulher.
Apenas não se pode ter vivido sem uma.
2
A moral, o cristianismo
O homem canalizou a torrente selvagem da sensualidade
feminina. Agora ela não inunda mais a terra~ Mas também
não a fertiliza mais.
Os criadores de normas inverteram a relação entre os se
xos: eles espartilharam o sexo da mulher com a convenção
e deixaram livre o do homem. Assim, a graça e o espírito
secaram. Ainda há sensualidade no mundo; mas ela não é
mais o desenvolvimento triunfante de uma essência, e sim a
deplorável degeneração de uma função.
Quando a natureza quer estar a salvo de perseguições,
trata de se refugiar na imundície.
A moralidade é aquilo que, sem ser impudico, ofende
profundamente o meu pudor.
Responsabilidade moral é aquilo que falta ao homem
quando a exige da mulher.
Um erro jurídico da ordem social torna o outro neces
sário. Visto que encarcerou as prostitutas na família, ela
31
KARL KRAUS
precisa encarcerar as mães no bordel. É simplesmente uma
questão de lugar.
A sociedade precisa de mulheres de mau caráter. Aquelas
que não têm caráter algum são elementos perigosos.
Um mendigo foi condenado por estar sentado num ban
co e "olhar tristemente". Nesta ordem do mundo, os homens
de olhar triste e as mulheres de olhar alegre se tornam sus
peitos. Em todo caso, essa ordem prefere os mendigos às
mulheres de vida alegre. Pois as mulheres de vida alegre
são aleijões ilegítimos que tiram vantagem do defeito físico
da beleza.
Consta no dicionário que "Afrodite" é a deusa do amor
ou uma espécie de verme.
A virtude e o vício são aparentados como o carvão e o
diamante.
O erotismo é a superação de obstáculos. O obstáculo mais
sedutor e mais popular é a moral.
Que bonito quando uma garota esquece sua boa educação!
O ideal da virgindade é o ideal daqueles qy~ querem des-
virginar.
, ... ~
A tragédia de Margarida - que comoção! O mundo fica
em silêncio, o céu e o inferno se abrem, e nas esferas soa a
32
DITOS E CONTRADITOS
música de um lamento infinito: não é toda garota que cai
desse jeito na armadilha!
Dizemos "amante" e não vemos mais a altura do páthos
da qual essa palavra desceu até as planícies da ironia - mui
to abaixo da respeitada condição intermediária das mulhe
res que não amam. Quer o espírito da língua que a amante
seja uma decaída. Mas se mulheres que amam fossem cha
madas de "elevadas", nossa cultura logo também envolveria
essa palavra com os tentáculos do escárnio.
Aquele sujeitinho interesseiro, exclamou ela, me deixou
em estado interessante!
"Mulheres caídas"? Putas que caíram no casamento!
Não é costume casar com uma mulher que antes teve um
caso. Mas é costume ter um caso com uma mulher que se
casou antes.
Eis como uma mulher apta para a vida celebra sua paz
duvidosa com o mundo: renuncia à personalidade e recebe
galanterias em troca.
O que não conseguem os costumes sociais! Apenas uma
teia de aranha estendida sobre o vulcão, mas ele se contém.
Eis o triunfo da moralidade: um ladrão que invadiu um
quarto afirma que seu pudor foi ferido e, ameaçando fazer
uma acusação de imoralidade, consegue se livrar da acusa
ção de invasão.
33
KARL KRAUS
A moral é um pé de cabra que possui a vantagem de nun
ca ser deixado para trás na cena do crime.
A imoralidade vem à luz e, no entanto, não tem efeito inti
midador. Tanto mais aflitivo é o fato de a moralidade que rei
na no Estado não ser descoberta e, por isso, não poder ter efei
to exemplar. Se vez por outra não a notássemos sob a forma da
chantagem, simplesmente não saberíamos que ela existe.
A abstinência sempre se vinga. Num produz pústulas;
noutro, códigos sexuais.
Seria uma estatística interessante: quantas pessoas são le
vadas pelas proibições a violá-las. Quantos delitos são conse
quência das penas. Seria interessante saber se mais crianças
são violadas apesar do limite de idade ou por causa dele.
Nenhuma fronteira seduz mais ao contrabando do que a
fronteira representada pelo limite de idade.
As penas servem para intimidar aqueles que não querem
cometer crimes.
O escândalo começa quando a polícia lhe dá um fim.
Eles julgam para não serem julgados.
~- .
Quousque tandem, Cato, abutere patientta nostra!
O ciúme do homem é uma instituição social, a prostitui
ção da mulher é um impulso natural.
34
DITOS E CONTRADITOS
Uma prostituição moralmente aceita se baseia no princí
pio da monogamia.
A ordem moral do mundo mostrou estar à altura das
misteriosas capacidades da mulher de ser prostituída e de
se prostituir criando duas formas de vida monogâmicas: a
concubina e o rufião.
Um materialismo horripilante nos prega que o amor nada
tem a ver com o dinheiro, e o dinheiro, nada com o amor. A
concepção idealista pelo menos admite um limite de preços
em que começa o amor verdadeiro. Esse é simultaneamen
te o limite em que acaba o ciúme daquele que é amado por
ser quem é. Tal limite acaba, embora pudesse começar nesse
ponto. O terreno da concorrência está obstruído.
Uma mulher que presta para o amor gozará na velhice
as alegrias de uma alcoviteira. Uma natureza frígida apenas
alugará quartos.
O rufião é um sustentáculo da mulher. Caso o perca,
pode acontecer facilmente que ela decaia.
Primeiro se proteger das crianças, depois protegê-las!
A moral do pecado tem o propósito de eliminar as causas
às quais se pode atribuir a geração de crianças. Ela afirma
que o aborto do prazeré inofensivo quando praticado com
todas as cautelas da ciência teológica.
35
KARL KRAUS
Está mais do que na hora das crianças esclarecerem os
adultos sobre os mistérios da vida sexual.
Para o diabo com a tagarelice sobre o esclarecimento
sexual dos jovens! Ele ainda é melhor quando ocorre por
meio do colega de classe que sublinha a palavra "putativo"
no livro de leitura do que por meio do professor que expli
ca o assunto como sendo uma instituição estatal que seria
tão importante e tão complicada quanto o pagamento de
impostos.
O amor como ciência natural! A proibição do prazer con
tinua em vigor, e agora também nos proíbem o romantismo
da proibição. Mas imploramos: já que não nos livramos do
cristianismo, então que pelo menos ainda tenhamos incen
so, música de órgão e escuridão! Assim, a Igreja ainda nos
oferece alguma compensação pelo que nos tira.
Toda conversa sobre sexo é uma atividade sexual. O pai
que esclarece o filho - esse ideal do esclarecimento - está
envolto por uma aura de incesto.
Os conhecimentos da vida erótica são próprios da arte,
não da educação. Só às vezes eles precisam ser soletrados
para os analfabetos. Importa, sobretudo, persuadir os anal
fabetos, já que são eles que fazem os códigos penais.
\,.
Se os senhores tivessem reconhecido os direitos do corpo
da mulher, se tivessem eliminado a servidão do baixo-ventre
como eliminaram o trabalho servil, nunca teria ocorrido às
36
DITOS E CONTRADITDS
mulheres a ideia ridícula de se vestir de homens para au
mentar seu valor enquanto mulheres!
As mulheres exigem o direito de voto ativo e passivo. Se
ria o direito de escolher qualquer homem e de não serem
recriminadas por se deixarem escolher por quem quer que
seja? De jeito nenhum: elas estão falando de política! Mas
foram os homens que as levaram a ter esses pensamentos
desesperados. Agora nada restará a eles senão exigir do go
verno que lhes outorgue o direito de menstruar.
Os "direitos da mulher" são deveres do homem.
Ouvi uma mulher elogiando outra: "Ela tem um quê de
feminino".
A beleza passa porque a virtude fica. 1
Na vida fácil também há um trágico conflito entre perso
nalidade e sociedade, e um triste conflito entre inadequação
e vocação. Mas a hetera intelectualmente soberana que sabe
se impor ao mundo na condição de grande amoureuse é ape
nas uma construção de desejos eróticos que gostariam de
eternizar o espetáculo de um pôr do sol. Uma consciência
superior que controlasse inclusive o desregramento, e que
mediante a sublimação da vida dos sentidos também alcan
çasse sua preservação, é uma possibilidade romanesca. A
mulher com espírito é uma perigosa enxadrista da sexua-
1 Em alemão se costuma dizer Schonheit vergeht, aber Tugend besteht, "a bele
z11 passa, mas a virtude fica''. (N.T.)
37
KARL KRIUS
lidade. Ou é assexuada e representa a abominação de uma
calculadora mental que resolve uma equação integral na
noite do casamento sem ser capaz de elevar à potência.
O que melhor deveria deleitar o espírito do que a toli
ce feminina que se esconde atrás de feições inteligentes?
Quando a mulher é aquilo que deve parecer, o entendi
mento masculino esmorece. O prodígio da banalidade
profunda se mostra ao mundo desde os dias de Frineia; o
mundo o aprecia, mas não quer acreditar nele. Visto que
os homens intelectualmente superiores da Grécia procu
ravam a companhia de heteras, as heteras devem ter sido
mulheres intelectualmente superiores. Caso contrário, não
teríamos respeito pelos gregos antigos. Por isso, os histo
riadores elevaram o quanto puderam o nível cultural das
mulheres atenienses de vida fácil. A educação cristã veria
com bons olhos que a histeria que pôs no mundo tivesse
força retroativa. Mas ela terá de descobrir uma maneira de
tirar as mênades do jogo e queimar apenas as bruxas em
que transformou as mulheres de seu tempo.
Os pensadores gregos se contentavam com putas. Os cai
xeiros germânicos não podem viver sem senhoras.
O cristianismo enriqueceu o banquete erótico com o an
tepasto da curiosidade e o arruinou co~ a sobremesa do
arrependimento.
O beijo de Judas que a cultura cristã deu no espírito hu
mano foi o último ato sexual que ela permitiu.
38
DITOS E CONTRIIITOS
Os deleites de Tântalo fazem parte da mitologia do cris
tianismo.
A disseminação das doenças sexuais produziu a crença
de que o sexo é uma doença.
A humanidade se tornou histérica na Idade Média por
não ter recalcado devidamente as impressões sexuais de sua
infância grega.
Religião e moralidade. O catolicismo (kata e holos) alme
ja o todo; mas o judaísmo é mosaico.
São tempos difíceis aqueles em que o páthos da sensuali
dade encolhe até se transformar em galanteria.
Foi uma fuga através dos milênios, quando, na mais fria
noite de inverno, ela saiu seminua de um baile e correu pelas
ruas, entrando nas profundezas do Prater, com garçons, ca
valheiros e cocheiros atrás dela ... Uma pneumonia e a morte
a trouxeram de volta ao nosso século.
Trata-se de um fato válido por toda a eternidade: que a
força primordial da mulher não apenas atrai e aniquila os
fracos, mas anima e rejuvenesce os fortes. Que as melho
res cabeças foram nutridas por essa fraqueza do espírito,
os maiores caracteres por essa leviandade. Que os mais po
derosos senhores cumpriram incólumes os anos de serviço
erótico. E que, de acordo com o magnífico plano da ordem
do mundo, o deleite dos sentidos e a beleza sejam poções má-
39
KARL KRAUS
gicas, e, de acordo com o plano diabólico da ordem social,
sejam trancados no armário de venenos da humanidade.
4D
3
O homem e o seu próximo
O super-homem é um ideal prematuro que pressupõe o
homem.
O sentimento que temos com a alegria do outro é de
qualquer modo egoísta. Se nós mesmos lhe demos a alegria,
reivindicamos a metade dela. Mas a alegria que um outro
lhe dá diante de nossos olhos, nós a sentimos inteiramente:
uma metade é inveja, a outra é ciúme.
Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Pois cada um é
o próximo de si mesmo.
O cão é fiel, não há dúvida. Mas será por isso que deve
mos tomá-lo como exemplo? Afinal, ele é fiel ao homem e
não ao cão.
É de bom tom não falar sobre uma má ação. Se um patife
te confia a intenção de trair teu amigo, a discrição é uma
questão de honra.
Nada é mais caro ao caixeiro do que sua palavra de hon
ra. Comprando um lote grande, porém, há desconto.
41
KARL KRAUS
A honra é o apêndice do organismo psíquico. Sua função
é desconhecida, mas pode provocar inflamações. Nas pes
soas inclinadas a se sentirem ofendidas, devemos extirpá-la
sem receio.
A estupidez também possui honra em suas veias, e in
clusive se defende do escárnio com maior energia do que a
baixeza se defende da censura. Pois esta sabe que a crítica
tem razão; aquela, porém, se recusa a acreditar.
Com que soberania um imbecil trata o tempo! Ele sim
plesmente o mata. E o tempo tolera isso. Pois nunca ouvimos
falar que o tempo tenha matado um imbecil.
,observe-se uma vez como os senhores respeitáveis cum
primentam uma mulher da qual "se fala". No cumprimento
se unem o orgulho reservado do pilar da sociedade e o olhar
cúmplice, de conhecedor, do ajudante de feira. As duas coi
sas nos dão vontade de esganá-los.
Ouvi um alemão ligeiramente bêbado gritar as seguin
tes palavras atrás de uma garota que dobrou a esquina,
declamando-as humoristicamente: "Lá vai ela, a vadiazi
nha!". Não se pode supor que algum dia se aprove uma
lei que permita abater a tiros os alemães que tenham pro
vado com uma só frase a sua completa inutilidade neste
planeta. ~\ :
Maldita lei! A maioria de meus próximos é a triste conse
quência de um aborto não feito.
42
DITOS E CONTRADITOS
Nada é mais tacanho do que o chauvinismo ou o ódio ra
cial. Para mim, todos os seres humanos são iguais; há idiotas
em toda parte e tenho o mesmo desprezo por todos. Nada de
preconceitos mesquinhos!
A religião, a moral e o patriotismosão sentimentos que
só se manifestam quando feridos. Quando se diz de alguém
que se ofende facilmente que ele "gosta" de se ofender, tal
expressão está correta. Esses sentimentos nada amam tanto
quanto serem magoados, e se revigoram a valer na queixa
contra ateus, amorais e apátridas. Tirar o chapéu diante do
ostensório não é de longe uma satisfação tão grande quanto
arrancá-lo da cabeça daqueles que têm outra crença ou que
são míopes.
A perspicácia da polícia consiste no dom de considerar
todas as pessoas capazes de um roubo e na sorte de a inocên
cia de algumas não poder ser provada.
Toda a vida no Estado e na sociedade repousa sobre o
pressuposto tácito de que o homem não pensa. As coisas são
bem difíceis para uma cabeça que, em qualquer situação,
não representa um espaço oco e receptivo.
Em qualquer caso, o não reconhecimento de uma vida
mental é uma condição social. O homem fica satisfeito por
ver respeitada a sua pele e atrás dela a chamada honra e a
chamada moralidade. O olho e o ouvido não devem ser
ofendidos, apenas as exigências que os mesmos fazem. O na
riz precisa perceber cheiros que detesta, e quando o paladar
43
KARL KRAUS
se preparou para uma refeição, o garçom vem dez minutos
depois e lamenta não poder mais servir. Qualquer imbecil
pode encará-lo com os olhos arregalados, você precisa tole
rar o incômodo de qualquer palerma quando ele perguntou
se não está incomodando, e exatamente quando você corre
até a escrivaninha para anotar que você vive na companhia
de pessoas que se julgam eticistas por não puxarem a car
teira do seu bolso em plena rua, alguém certamente cruzará
o seu caminho pedindo fogo. O fato de a civilização se or
gulhar da cortesia neste ponto, o fato de nenhum fumante
ousar responder o pedido indesejado com um brusco não -
nada é capaz de desnudar melhor a estupidez da convenção
que estabelecemos entre nós. Prometeu foi buscar o fogo nos
céus. Mas, em razão disso, até mesmo ele foi acorrentado por
ordem de Júpiter num rochedo do Cáucaso onde um abutre
come o seu fígado.
Se o convite de um cocheiro para andar em seu coche
apenas se chocasse com o nosso desejo de não andar com
ele, a vida seria fácil. Mas às vezes ele se choca com pensa
mentos melhores, e os destrói. Quem, afinal, pensa sempre
em não andar de coche?
Se alguém quer me dirigir a palavra, ainda espero até o
último momento que o medo de se comprometer o impeça
de fazê-lo. Mas as pessoas são corajosas.
·1-.
Olho por uma janela e o horizonte é ob;truído por uma
cara de basbaque. Isso é trágico. Nada tenho contra o fato
de existirem caras repugnantes. Mas por que a óptica dispôs
44
DITOS E CONTRADITOS
as coisas de tal modo que uma pessoa possa encobrir um
bosque? Podemos, por certo, encobrir a pessoa com um ppr
rete. Mas, em todo caso, saímos prejudicados com a ilusão
de óptica. E assim os raios luminosos servem para aumentar
a misantropia.
Em caso de igual estupidez, importa a diferença de volume
corporal. Um imbecil não deveria ocupar espaço demais.
"Estive ontem em Melk - que tempinho!", alguém me diz
de repente no trem. "Dizem que o Eder morreu, o conselheiro
imperial", alguém da mesa ao lado me diz de repente. "Tornou
se um grande homem!", alguém me diz de repente no bonde
com uma entonação muito diferente e aponta para alguém
que acabou de descer, visivelmente orgulhoso por conhecê
lo. Assim, sem pedir, fico sabendo o que vai pelo íntimo de
meus contemporâneos. Não lhes basta que eu veja sua feiura
exterior. Nos cinco minutos em que seguimos juntos pelo
percurso da vida, também devo ser informado sobre o que os
move, alegra, desilude ... Isso, e apenas isso, é o conteúdo de
nossa cultura: a rapidez com que a imbecilidade nos arrasta
em seu turbilhão. Algo também nos move, alegra, desilude:
mas num piscar de olhos estamos em Melk, no velório do
Eder, acompanhando a carreira do grande homem. Nunca
conseguiríamos semelhante efeito sobre o nosso próximo.
Fico parado, pois o sol se põe vermelho-sangue como nunca
e alguém me pede fogo. Sigo um pensamento que acabou
de virar a esquina e alguém grita atrás de mim: "Fi-a-cre!".
Enquanto um taverneiro e um sapateiro permanecessem
cartazes a vida seria suportável. Com a maior resignação,
45
KARL KRAUS
gravaríamos os seus rostos. Mas, de repente, eis que estão em
pessoa diante de nós, colocam a mão sobre nosso ombro e
sucumbimos como Don Juan quando a estátua ganha vida.
O homem pensa e o próximo dispensa. Este nem sequer
pensa o suficiente para pensar que outro possa pensar.
Muitos têm o desejo de me matar. Muitos, o desejo de ter
dois dedos de prosa comigo. Daqueles a lei me protege.
Gostaria muito de requerer a concessão para a operação
manual de uma guilhotina. Mas o imposto sobre o lucro que
eu teria de pagar!
Sorrento, em agosto: por duas semanas não ouvi uma pa
lavra em alemão e não entendi nenhuma em italiano. Assim
é possível viver com as pessoas, tudo vai às mil maravilhas
e qualquer mal-entendido desgastante está fora de questão.
Não há lugar mais público do que um elevador em que
nos dirigem a palavra.
Onde começa propriamente a repugnância e onde ela
acaba? Por que não existem privadas para refeições? Comer
publicamente e digerir às ocultas, eis o que convém a nobres
senhoras e senhores! E, no entanto, nada ultrapassa o desca
ramento de uma table d'hôte.
Conversas de barbeiro são a prova irrefutável de que as
cabeças existem por causa dos cabelos.
46
DITOS E CONTRADITOS
Fico preocupado quando mando cortar os cabelos, pois o
barbeiro pode me cortar um pensamento.
O pitoresco e o musical são argumentos que acabam com
qualquer objeção. E há efeitos sobre os nervos de que nem
mesmo o espírito mais antagonista pode se esquivar. Quando
todos os sinos dobram, abraço um conselheiro municipal.
Anestesia: ferimentos sem dor. Neurastenia: dor sem fe
rimentos.
A força mais enérgica não chega perto da energia com
que alguns defendem suas fraquezas.
Há pessoas que ficam roucas quando não falaram uma só
palavra por oito dias seguidos.
Sem dúvida, o artista é diferente. Mas justamente por isso
ele deve ser igual aos outros em seu exterior. Ele só pode per
manecer solitário se desaparecer na multidão. Se chamar a
atenção sobre si através de alguma peculiaridade, ele se tor
na vulgar e coloca os perseguidores em seu encalço. Quanto
mais tudo dá razão ao artista para ser diferente, tão mais
necessário é que ele se sirva dos trajes da média como um
mimetismo. A aparência chamativa é o alvo da embriaguez.
Esta, normalmente zombada, julga-se alinhada e superior
quando se compara com a excentricidade de cabelos longos.
Mesmo o bêbado do qual o populacho ri, ri do homem que
usa um casaco de bufão. Desleixar-se intencionalmente para
se destacar da média, usar roupas sujas como uma insígnia
47
KARL KRAUS
da arte e da ciência, sacudir uma cabeleira despenteada so
bre o absurdo da ordem social - um ideal dos poetas an
darilhos medievais, há tempos abandonado pelos nobres e
hoje ao alcance de qualquer pequeno-burguês. A verdadeira
boemia não faz mais aos filisteus a concessão de irritá-los, e
os verdadeiros ciganos vivem segundo um relógio que nem
sequer precisa ser roubado. A pobreza continua não sendo
uma vergonha, mas a sujeira não é mais uma honra. A "mãe
estrada" renega seus filhos; mesmo ela já é mais cuidada hoje
em dia.
A mais arruinada das existências é a de uma pessoa que
não tem justificativa para ser uma mancha em sua família
nem um rebotalho da sociedade.
Vestimos sentimentos familiares apenas em ocasiões
especiais.
A vida em família é uma invasão da vida privada.
A expressão "laços de família" tem um ressaibo de verdade.
Mesmo um homem decente, desde que isso nunca seja des
coberto, pode conseguir um nome respeitado hoje em dia.
Há homens que conseguem unir as vantagens do mundo
com os benefícios de serem perseguidos. 1 . . ...
Aquele suicídio foicometido durante um acesso de clare
za intelectual. As vezes, as pessoas cheias de alegria de viver
48
DITOS E CONTRADITOS
refletem; e em alguma delas poderia ter havido tantas vidas
que ela sacrifica uma sem hesitação. O suicídio pode signifi
car a sangria de uma natureza puro-sangue. Quem se limpa
a boca dos deleites da vida tão calmamente a fim de fechá
-la para sempre por certo se destaca de seus companheiros
de mesa. Não me livro da suspeita, sobretudo, de que hoje
alguém já deve ser um homem se a vida atual o derruba.
Aquilo que tiver fogo e um ímpeto ligeiro, queima. Apenas
homens sem medula e mulheres com cérebro estão à altura
da ordem social.
Mas que amigo da vida em sociedade era aquele rei báva~
ro que se sentava sozinho no teatro! Quanto a mim, também
atuaria.
A solidão seria um estado ideal se pudéssemos escolher
que pessoas evitar.
O mundo é uma prisão em que é preferível a solitária.
49
4
Imprensa, estupidez, política
As instituições humanas precisam se tornar tão perfeitas
a ponto de podermos pensar sem ser perturbados sobre a
imperfeição das divinas.
A vida maquinal estimula a poesia interior, o ambiente
artístico a paralisa.
Como? A humanidade se imbeciliza em favor do pro
gresso maquinal e nem sequer deveríamos fazer uso dele?
Deveríamos manter diálogos com a estupidez quando pode
mos escapar dela num automóvel?
Para o filisteu, a arte é o enfeite das fadigas e tormentos
do cotidiano. Ele tenta abocanhar os ornamentos como o
cão a linguiça.
O desenvolvimento das máquinas beneficia apenas a
personalidade que, passando pelos obstáculos da vida ex
terior, chega mais rapidamente a si mesma. No entanto, as
cabeças medianas não estão à altura da hipertrofia desse
desenvolvimento. Hoje ainda não podemos fazer a menor
51 Biblioteca fwlica Z..lunicioal
.... GuimaJiel .
KARL KRAUS
ideia da devastação promovida pela máquina de impressão.
O dirigível foi inventado, e a imaginação se arrasta como
uma diligência. O automóvel, o telefone e as gigantescas
edições da estupidez - quem poderá dizer como serão os
cérebros daqui a duas gerações? O afastamento em relação
à fonte natural promovido pela máquina, a suplantação
da vida pela leitura e a absorção de todas as possibilidades
artísticas pelo espírito factual terão completado sua obra
com rapidez surpreendente. Apenas nesse sentido se de
veria compreender o despontar de uma era glacial. Nesse
meio-tempo, não nos intrometamos na política social, mas
deixemos que se ocupe de suas pequenas tarefas; deixemos
que lide com a educação popular e com outros sucedâneos
e opiáceos. Passatempos até a dissolução. As coisas estão se
desenvolvendo de uma maneira para a qual não há exemplo
nos períodos historicamente verificáveis. Quem não sente
isso em cada nervo pode prosseguir sem receio a cômoda
divisão em Antiguidade, Idade Média e Idade Moderna. De
súbito se perceberá que as coisas não avançam. Pois a época
moderna começou com a produção de novas máquinas para
o funcionamento de uma ética antiga. Nos últimos trinta
anos aconteceram mais coisas do que nos trezentos anos
anteriores. E um dia, a humanidade terá se sacrificado pelas
grandes obras que criou para seu alívio.
Fomos complexos o bastante para construir as máquinas
e somos primitivos demais para nos deixaf mos servir por
elas. Praticamos o comércio internacional sobre trilhos ce
rebrais de bitola estreita.
52
DITOS E CONTRADITOS
Quando o madeirame do telhado pega fogo não adianta
rezar nem esfregar o assoalho. Em todo caso, rezar é mais
prático.
O que a sífilis poupou será devastado pela imprensa.
Nos amolecimentos cerebrais do futuro, não se poderá mais
constatar a causa com segurança.
Nossa cultura consiste em três gavetas, das quais duas se
fecham quando uma está aberta: trabalho, diversão e ins
trução. Os malabaristas chineses dominam a vida toda com
um só dedo. As coisas serão fáceis para eles, portanto. A es
perança amarela!
O humanitarismo, a educação e a liberdade são bens va
liosos que não foram comprados caro o bastante com san
gue, entendimento e dignidade humana.
A democracia divide os homens em trabalhadores e pre
guiçosos. Ela não está preparada para aqueles que não têm
tempo para trabalhar.
Quando ainda não havia direitos humanos, eles perten
ciam ao homem superior. Isso era inumano. Então se produ
i,lu a igualdade pela recusa dos direitos humanos ao homem
uperior.
Quando alguém está diànte do tribunal, não há certa-
111 ·nte nenhum fato da chamada vida pregressa com o qual
llílo se poderia produzir instantaneamente uma "impressão
53
KARL KRAUS
desfavorável" e proporcionar aquele "movimento" registra
do na ata da sala de audiências. Não é de se acreditar como
os delitos realmente se aglomeram em torno de um homem
que alguma vez se meteu com algum deles! Aquilo que se
dividiu ao longo de quarenta anos, quando projetado no
lapso de tempo de uma audiência, age como uma ilustração
viva; aquilo que passou pela peneira do tempo, obtém uma
atualidade reforçada, como se tivesse acontecido durante a
prisão preventiva. O passado não ilumina apenas o ato, com
o qual nada tem a ver, mas também é iluminado por ele, e o
caráter do réu é sempre contemplado de dois lados. Esse é o
método que se adapta convenientemente ao pensamento não
perspectivo das cabeças julgadoras medianas. Ele significa
sentar o banco dos réus na cabeça de um homem perdido.
Quem é ela? É cega para o direito, olha de soslaio para o
poder e é acometida pela doença de Basedow quando está
diante da moral. E sacrificamos nossa liberdade pelos belos
olhos dessa mulherzinha!
Considero a política uma maneira pelo menos tão exce
lente de liquidar a seriedade da vida quanto o jogo de ba
ralho, e visto que há homens que vivem de jogar baralho, o
político profissional é um fenômeno perfeitamente compre
ensível. Tanto mais que ele sempre ganha às custas daqueles
que não tomam parte no jogo. Mas está correto que o palpi
teiro político pague as contas, já que a obse.r:y;ação paciente
constitui o conteúdo de sua vida. Se' não houvesse política,
o cidadão teria apenas a sua vida interior, ou seja, nada que
pudesse ocupá-lo.
54
DITOS E CONTRADITOS
Para se orientar em questões de política, bastam lem
branças de opereta. Aquilo que pode ser dito contra a for
ma de governo absolutista, por exemplo, nos foi ensinado
pelas figuras de um rei Bobeche, de um príncipe herdeiro
Kasimir ou de um general Kantschukoff. Se a exigência
dos frasistas de que a arte se ocupe dos assuntos públicos
possui mesmo um sentido, então ela só pode estar se refe
rindo à produção de operetas. Esta é criticada com razão
por negligenciar há décadas os únicos assuntos humanos
que não cabe levar à sério, ou seja, os assuntos públicos.
Pois a forma artística da opereta é adaptada à essência de
todos os desdobramentos políticos por conceder à estupi
dez uma improbabilidade redentora. Exigir que a criação
artística se lance sobre os acontecimentos recém-saídos do
forno é uma tolice; mesmo a sátira os desdenha, pois ainda
que seja capaz de apreender os ridículos da política, estes
ocorrem abaixo do nível de uma observação espirituosa de
sentido superior.
"Mais vale suportar os males que temos do que ir em
busca de males desconhecidos." Só não entendo como a jus
tificação da forma monárquica de Estado possa chegar ao
entusiasmo.
O segredo do agitador consiste em parecer tão idiota
quanto seus ouvintes, de modo que eles acreditem ser tão
1 n teligentes quanto ele.
Crianças brincam de soldado. Isso é razoável. Mas por
que soldados brincam de criança?
55
KARL KRlUS
O esporte é um filho do progresso, e já contribui por con
ta própria para a imbecilização da família.
O jornalismo serve apenas aparentemente ao tempo
atual. Na verdade, ele destrói a sensibilidade intelectual da
posteridade.
Quando se pensa que a mesmaconquista técnica serviu à
Crítica da razão pura e a uma reportagem sobre a viagem da
Sociedade Vienense de Canto Coral, toda discórdia abando
na nosso peito e louvamos a onipotência do Criador.
Com meus horizontes estreitos, não li certa vez um jornal
com as seguintes manchetes: As negociações secretas entre
a Áustria, a França e a Itália em 1869. - O movimento re
formista na Pérsia. - A nomeação do chefe do ministério
croata. - A Sublime Porta contra o arcebispo de Monastir ...
Depois de não ter lido esse jornal, senti meus horizontes se
ampliarem um pouco.
A relação dos jornais com a vida é mais ou menos a mes
ma das cartomantes com a metafísica.
O barbeiro conta novidades quando deveria apenas cortar
o cabelo. O jornalista é espirituoso quando deveria apenas
contar novidades. Dois sujeitos que querem subir na vida.
·~·.
As revistas humorísticas são uma prova de .. que o filisteu
não tem humor. Elas fazem parte da seriedade da vida como a
bebida faz parte da refeição. "Dê-me todas as revistas humorís-
56
DITOS E CONTRlDITIS
ticas!", ordena um idiota cheio de preocupações ao garçom, e se
atormenta para que um sorriso apareça em seu rosto. O humor
que ele não tem deve lhe chegar de todos os cantos da vida co
tidiana, e ele desdenharia inclusive a caixa de fósforos que não
trouxesse uma piada em seu rótulo. Li numa delas: "Aprendiz
de ofício (que comprou uma linguiça casualmente enrolada
num poema): Muito bem! Primeiro vou comer a linguiça para
alimentar o corpo e depois leio o poema para alimentar o espí
rito!". Coisas assim alegram o filisteu, e ele nem sequer percebe
o método do aprendiz de ofício como uma indireta.
Quando um sacerdote declara repentinamente que não
acredita no paraíso e que jamais desmentirá essa declaração,
a imprensa liberal, cujos redatores, como se sabe, também
não se deixam privar de suas crenças a preço nenhum, se en
tusiasma. No entanto, um editor papal não divinizaria ime
diatamente um funcionário que tivesse a ideia de confessar
diante dos leitores que acredita no paraíso? Eis a visão mais
repulsiva que a modernidade oferece: um sacerdote possuído
pela razão cercado por vira-latas da imprensa a latir e para os
quais ele joga a costela de Adão.
Para mim é um enigma que se possa elogiar um teólogo
porque ele conseguiu se decidir a não acreditar nos dogmas.
Sempre me pareceu que merecia verdadeiro reconhecimen
to, como se fosse um ato heroico, a realização daqueles que
se decidiram a acreditar neles.
Na cidade de Echternach, em Luxemburgo, ainda hoje
ocorrem as chamadas procissões pulantes. Pelo fato de no
51
KARL KRAUS
passado os animais terem sido acometidos de tarantulismo,
os camponeses locais fizeram o voto de pular em honra de
São Willibrord em lugar dos animais. Hoje, nem as pessoas
nem o gado conhecem mais a origem da singular cerimônia,
mas aquelas lhe permanecem fiéis, e se a força do hábito con
tinuar a se afirmar entre os habitantes de Echternach, talvez
chegue novamente o dia em que o gado pule em honra de
São Willibrord. Por ocasião do Pentecostes, ainda hoje cerca
de 15 mil pessoas dão "três pulos para a frente e dois para
trás". O clero não salta junto, mas assiste. O espetáculo não
o agrada inteiramente; ele preferiria que fossem dois pulos
para a frente e três para trás.
A ciência antiga não reconhecia o impulso sexual nos
adultos. A ciência moderna admite que já o lactente tenha
sensações voluptuosas ao evacuar. A concepção antiga era
melhor. Pois pelo menos era contradita por determinadas
declarações dos envolvidos.
Os psicólogos modernos afirmam que tudo pode ser atri
buído a causas sexuais. Seu método, por exemplo, poderia
ser definido como erotismo de confessionário.
Os neurologistas que patologizam o gênio merecem que
lhes partamos o crânio com suas Obras Completas. Não de
vemos agir diferente com os defensores da humanidade que
deploram a vivissecção em cobaias e permitero a utilização
de obras de arte para fins experimentais. Sempre que consi
gamos agarrá-los, chutemos a cara de todos que se dispõem
a provar que a imortalidade deve ser atribuída à paranoia,
58
DITOS E CONTRADITOS
de todos os ajudantes racionalistas da humanidade normal
que a tranquilizam por não ter inclinações para obras do
engenho e da imaginação. Shakespeare louco? Então a hu
manidade se ajoelha e, com medo de sua saúde, implora ao
Criador por mais loucura!
O bicho-papão é um recurso pedagógico imprescindível
na vida familiar alemã. Quanto aos adultos, são intimidados
com a ameaça de que o psiquiatra virá buscá-los.
O psiquiatra sempre reconhece os loucos pelo fato de exi
birem um comportamento agitado após a internação.
A diferença entre psiquiatras e outros doentes mentais
corresponde aproximadamente à relação entre loucura con
vexa e côncava.
A ciência não atravessa os abismos do pensamento, ape
nas se encontra diante deles sob a forma de uma placa de ad
vertência. Os infratores agem por sua própria conta e risco.
Quando a estupidez se manifesta numa cidade, deve-se
declará-la contaminada. E nenhum caso deve ser ocultado.
Com que facilidade pode acontecer que um imbecil frequen
te uma casa em que haja crianças! Nessas épocas, recomen
da-se o fechamento das escolas e não, como se. poderia pen
sar, a sua abertura.
Não se deveria abolir a vara, e sim o professor que a em
prega mal. A reforma ginasial, como todo remendo humani-
59
KARL KRAUS
tário, é uma vitória sobre a imaginação. Os mesmos profes
sores que até então não eram capazes de chegar a um juízo
com a ajuda do catálogo, agora terão de mergulhar carinho
samente na individualidade do estudante. O humanitarismo
eliminou o pesadelo do medo de ser "chamado à frente", mas
a vida estudantil sem perigos será mais insuportável do que
a perigosa. Entre "excelente" e "absolutamente insatisfató
rio" havia um espaço para experiências românticas. Eu não
gostaria de secar de minha memória o suor pelos troféus da
infância. Juntamente com o aguilhão, também desaparece o
estímulo. O ginasiano vive sem ambição como um filósofo
sorridente e entra despreparado no arrivismo da vida que no
passado seu caráter antecipava inofensivamente como o cor
po vacinado antecipava a varíola. Ele experimentava todos
os perigos da vida, chegando à beira do suicídio. Em vez de
banir os professores que fazem a brincadeira dos perigos se
transformar em coisa séria, prescreve-se a seriedade da vida
sossegada. Antes os alunos vivenciavam a escola, agora de
vem se deixar formar por ela. A beleza é banida juntamente
com os calafrios, e o espírito jovem se encontra diante da
parede caiada de um céu protestante. Os suicídios de estu
dantes motivados pela estupidez de pais e professores irão
cessar, e como motivo legítimo restará o tédio.
Uma formação universal é uma farmácia bem provida,
porém não há qualquer garantia de que não venda cianureto
de potássio para tratar um resfriado.
Não há, então, nada a fazer contra o erro de impressão que
sempre transforma uma erudição estúpida em estupenda?
60
DITOS E CONTRADITOS
Numa cabeça oca cabe muito conhecimento.
O valor da formação se revela da maneira mais nítida
quando as pessoas cultas tomam a palavra para falar de um
problema que se encontra fora do campo de sua formação.
A natureza adverte para refletirmos sobre uma vida que
se apoia sobre trivialidades. Uma insatisfação cósmica se
manifesta por toda parte; neves estivais e calores invernais
protestam contra o materialismo que transforma a existên
cia num leito de Procusto, trata doenças psíquicas como se
fossem dores de barriga e gostaria de desfigurar a face da
natureza onde quer que perceba suas feições: na natureza,
na mulher e no artista. Um mundo que suportaria seu ocaso
desde que não fosse impedido de ver sua exibição cinema
tográfica não pode ser atemorizado com o incompreensível.
Eu, porém, tomo facilmente um terremotocomo protesto
contra as conquistas do progresso e não duvido por um ins
tante da possibilidade de que um excesso de estupidez hu
mana possa indignar os elementos.
A tarefa da religião: consolar a humanidade que se dirige
ao patíbulo; a tarefa da política: tirar seu gosto pela vida; a
tarefa do humanitarismo: abreviar seu tormento e envene
nar logo de uma vez a sua última refeição.
61
5
O artista
Compreender uma visão de mundo com um só olhar é
arte. Porém, quanto não cabe num olho!
Ter talento - ser um talento: essas coisas sempre são
confundidas.
O imitador segue os passos do original e espera que em
algum momento o segredo da originalidade lhe seja reve
lado. Porém, quanto mais se aproxima dele, tanto mais se
afasta da possibilidade de aproveitá-lo.
Não há volúpia que se aproxime da euforia da criação
intelectual, e não há tristeza que se compare ao estado em
que o artista mergulha depois de concluída a obra. A se
gurança da inconsciência cria sempre a sua primeira obra
e, por isso, sempre a melhor. Uma vez consumada, a inse
gurança da consciência vê que é a última e, por isso, a pior.
Qualquer crítica leviana impressiona semelhante desânimo.
Um juízo capaz de acompanhar a criação artística apenas
na sobriedade e não no gozo é uma verdadeira maldição.
Nada sabem da volúpia aqueles que apenas sabem que ela
precede a tristeza.
KARL KRAUS
O trabalho intelectual se parece tanto com o ato da volú
pia que nele também obedecemos, de maneira involuntária,
à convenção da vida sexual. Agimos discretamente, e quando
recebemos a visita de uma mulher durante o trabalho, não a
deixamos entrar para evitar um encontro embaraçoso. O fi
listeu se ocupa com uma mulher, o artista corteja uma obra.
Um bom estilista deve sentir o prazer de um Narciso du
rante seu trabalho. Ele deve ser capaz de objetivar sua obra
de tal maneira que se surpreenda com um sentimento de in
veja e somente pela memória se aperceba que ele próprio é o
criador. Em suma, ele deve dar provas daquela objetividade
suprema que o mundo chama de vaidade.
A ideia de que uma obra de arte possa ser alimento para o
apetite do filisteu me enche de pavor. Recuso-me a ser dige
rido pelo burguês. Mas ficar em seu estômago também não
é tentador. O melhor, talvez, seja não se servir a ele de forma
alguma.
A receptividade do homem produtivo é pequena. O poeta
que lê se torna suspeito.
Vi um poeta correndo atrás de uma borboleta num grama
do. Ele pôs a rede sobre um banco em que um garoto lia um
livro. É uma infelicidade que normalmente seja o contrário.
~,.
Para que um artista deveria compreender o outro? O Vesú
vio aprecia o Etna? No máximo, poderia se estabelecer uma re
lação feminina de comparação invejosa: quem cospe melhor?
64
DITOS E CONTRADITOS
Obras de arte são supérfluas. É necessário criá-las, é ver
dade, mas não é necessário mostrá-las. Quem possui arte em
si não necessita da ocasião externa. Quem não a possui vê
apenas a ocasião. A um o artista se impõe, ao outro se pros
titui. Em ambos os casos, deveria se envergonhar.
Uns acham isso belo, outros acham aquilo. Mas eles pre
cisam "achá-lo". Procurar ninguém quer.
Há dois tipos de apreciadores da arte. Uns elogiam o que
é bom porque é bom e criticam o que é ruim porque é ruim.
Outros criticam o que é bom porque é bom e elogiam o que
é ruim porque é ruim. A distinção entre esses tipos é simples
pelo fato de o primeiro deles não existir. As coisas seriam
fáceis de entender se não houvesse ainda uma terceira cate
goria. Ela é formada por aqueles que elogiam o que é bom
apesar de ser bom e criticam o que é ruim embora seja ruim.
É a essa espécie perigosa que se deve toda a confusão nos
assuntos artísticos. Seu instinto lhes diz que devem alvejar o
que é errado, mas por precaução eles alvejam o que é certo.
Eles possuem razões que se encontram fora da sensibilida
de artística. O artista poderia viver sem o esnobismo que o
exalta. Dificilmente, sem a estupidez que o degrada.
Um esnobe não é confiável. A obra que ele elogia pode
ser boa.
Nem tudo que é condenado a um silêncio de morte vive.
A crítica nem sempre demonstra sua perspicácia habitual;
c.:om frequência, ignora os fenômenos mais insignificantes.
65
KARL KRAUS
Os artistas têm o direito de ser modestos e a obrigação de
ser vaidosos.
Que é a Nona Sinfonia comparada a uma canção popular
tocada por um realejo e por uma lembrança?
Não confio na máquina de impressão quando lhe entrego
meus manuscritos. Como pode um dramaturgo se fiar na
boca de um ator?
A obra de arte dramática nada tem a fazer no palco. O
efeito teatral de um drama deve chegar até o desejo de vê
lo encenado: mais do que isso destrói o efeito artístico. A
melhor representação é aquela que o leitor faz do mundo do
drama.
Antes os cenários eram de papelão e os atores eram de
verdade. Agora os cenários são completamente convincen
tes, e os atores, de papelão.
O naturalismo do cenário faz relógios de verdade bate
rem as horas. É por isso que temos a impressão de que o
tempo passa tão devagar.
A atriz é a mulher elevada à potência; o ator, o homem de
quem se extraiu a raiz.
.~~:
Rir da vaidade dos atores, de sua necessidade de aplausos
e afins é ridículo. As pessoas de teatro precisam do aplauso
para representar melhor; e para isso, também basta o aplau-
66
DITOS E CONTRADITOS
so fingido. O sentimento de felicidade que alguns atores
mostram quando são aplaudidos por aqueles que pagaram
para fazê-lo é uma prova de seu gênio artístico. Dificilmente
alguém teria se tornado um grande ator se o público tivesse
vindo ao mundo sem mãos.
É provável que o riacho de Grinzing tenha estimulado
Beethoven a compor a Sinfonia Pastoral. Mas isso não prova
nada a favor do riacho de Grinzing e tudo a favor de Beetho
ven. Quanto menor a paisagem, tanto maior pode ser a obra
de arte, e vice-versa. É tolice, porém, dizer que a atmosfera
que o riacho transmite a um caminhante qualquer é a mes
ma recebida pelo ouvinte da sinfonia. Caso contrário, tam
bém poderíamos dizer que o cheiro de maçãs podres nos dá
o Wallenstein de Schiller.
O gosto moderno necessita das complicações mais rebus
cadas para finalmente descobrir que a melhor forma para
um copo d'água é a redonda. Ele chega ao conveniente pelo
caminho das incomodidades. Ele trabalha no suor de seu
rosto para reconhecer que a Terra não é um cubo, mas uma
•sfera. Esse assombro indígena da civilização frente às con
lJU is tas da natureza tem algo tocante.
Somos cultos o bastante para evitar restaurantes que são
"Instituições de engorda". Porém o pensamento de se deixar
urrcbatar às esferas celestes na companhia de mais quinhen
l11s pessoas não perturba nenhum dos cultos frequentadores
de concertos. Não me oponho a satisfazer as necessidades
dn vida junto com meus concidadãos, mas a preço nenhum
li7
KARL KRAUS
deste mundo gostaria de me encontrar com um único deles
na ilha dos bem-aventurados.
O esteta não vive tão longe do político quanto se pensa.
Para aquele, a vida se reduz a uma linha; para este, a uma
superfície. O jogo frívolo que ambos praticam os deixa
igualmente distantes do espírito, num lugar em que absolu
tamente não entram mais em consideração. É trágico ser re
clamado por aquele partido quando não se quer saber nada
deste, e ter de pertencer a este porque se detesta aquele. Po
rém, da altura da verdadeira intelectualidade, vê-se a políti
ca apenas como uma futilidade estética e a orquídea como
uma flor partidária. É a mesma falta de personalidade que
leva uns a buscar a vida no conteúdo e outros a buscá-la na
forma. Eles nada querem saber um do outro; ambos, contu
do, fazem parte do mesmo esfoladouro.
O político está metido na vida, não se sabe onde. O esteta
foge da vida, não se sabe para onde.
6
Escrever e ler
Há duas espécies de escritores. Aqueles que são e aqueles
que não são. Nosprimeiros, a forma e o conteúdo se harmo
nizam como corpo e alma; nos segundos, a forma e o conteú
do se ajustam como a roupa sobre o corpo.
Que a palavra escrita seja a corporificação naturalmente
necessária de um pensamento, e não o invólucro socialmen
te aceitável de uma opinião.
Quem emite opiniões não pode se deixar apanhar em
contradição. Quem tem pensamentos também pensa entre
ns contradições.
As opiniões se reproduzem por divisão; os pensamentos,
por brotação.
O que entra no ouvido com facilidade também sai com
l'ncilidade. O que entra com dificuldade também sai com
dificuldade. Isso vale muito mais para a escrita do que para
11 música.
69
KARL KRAUS
Não falemos publicamente sobre os problemas da vida
sexual. Que a vivamos e lhe demos forma, mas nos calemos
a respeito. Para resguardar a verdade é lícito ser hipócrita.
Um escritor que eterniza um fato cotidiano comprome
te apenas a atualidade. Porém, quem jornaliza a eternidade
tem perspectiva de ser reconhecido nas altas rodas.
A matéria a que o compositor dá forma é o som, e o pin
tor fala por meio de cores. Por isso, nenhum leigo respeitá
vel que fala apenas por meio de palavras se atreve a emitir
um juízo sobre música ou pintura. O escritor dá forma a um
material acessível a qualquer um: a palavra. Por isso, qual
quer leitor se atreve a emitir um juízo sobre a literatura. Os
analfabetos do som e da cor são modestos. Mas pessoas que
sabem ler não são consideradas analfabetas.
A linguagem é o material do artista literário; porém, ela
não pertence só a ele, enquanto a cor pertence exclusiva
mente ao pintor. Por essa razão, as pessoas deveriam ser
proibidas de falar. A linguagem de sinais basta perfeita
mente para os pensamentos que têm para comunicar en
tre si. É permitido lambuzar nossas roupas sem cessar com
tinta a óleo?
Será a literatura nada mais do que a habilidade de apre
sentar ao público uma opinião com palavras? Então a pin
tura seria a arte de expressar uma opinião em cores. No
entanto, os jornalistas da pintura são os pintores de pare
des. E eu acredito que um escritor é aquele que diz ao pú-
70
DITIS E CINTRADITOS
blico uma obra de arte. A maior honra que já recebi me
foi prestada quando um leitor me confessou embaraçado
que só conseguia entender meus textos na segunda leitura.
Ele hesitou em me dizer isso, teve dificuldades para falar
minha língua. Esse era um entendido e não sabia. O elogio
ao meu estilo me deixa indiferente, mas as críticas que lhe
fazem logo me deixarão orgulhoso. Por muito tempo re
almente tive receio de que as pessoas tivessem prazer com
meus textos já na primeira leitura. Como? Uma frase de
veria servir para o público enxaguar a boca com ela? Os
folhetinistas que escrevem em alemão possuem uma consi
derável vantagem em relação aos escritores que escrevem a
partir do alemão. Eles ganham à primeira vista e desiludem
à segunda: é como se de repente estivéssemos nos bastido
res e víssemos que tudo é de papelão. No caso dos outros,
porém, é como se um véu cobrisse a cena. Quem já deveria
aplaudir? Aqueles vaiam antes que a cena se torne visível.
Assim se comporta a maioria; eles não têm tempo. E eles
não têm tempo apenas para as obras da linguagem. No caso
das pinturas, admitem que não devam representar apenas
um processo apreendido pelo primeiro olhar: obrigam-se a
dar um segundo olhar para chegar a perceber alguma coisa
da arte das cores. Mas uma arte da construção de frases? Se
1 hcs dissermos que isso existe, eles pensam na obediência
1\s leis da gramática.
O jogo de palavras, desprezível como fim em si mesmo,
pode ser o recurso mais nobre de uma intenção artística na
lllcd ida em que serve para abreviar uma intuição espirituo
Nn. Ele pode ser um epigrama de crítica social.
71
KARL KRAUS
Meus trabalhos devem ser lidos duas vezes para serem
bem compreendidos. Mas tampouco me oponho a que se
jam lidos três vezes. Prefiro, porém, que não sejam lidos do
que o sejam apenas uma vez. Não pretendo me responsabili
zar pelas congestões de um imbecil que não tem tempo.
Devemos ler todos os escritores duas vezes, os bons e os
ruins. Uns serão reconhecidos, e os outros, desmascarados.
Ele domina a língua alemã - isso vale para o caixeiro. O
artista é um criado da palavra.
Há escritores que já conseguem dizer em vinte páginas
aquilo para o que às vezes preciso de até duas linhas.
A evolução do escritor: no início não se está acostumado
e por isso as coisas vão às mil maravilhas. Mas depois vai
ficando sempre mais difícil, e quando enfim pegamos a prá
tica, há muitas frases que não conseguimos concluir.
Primeiro o cão fareja, depois levanta a pern~. Contra essa
falta de originalidade compreensivelmente não se pode ob
jetar nada. Mas o fato de o literato ler antes de escrever é
desolador.
Escrever um romance pode ser puro deleite. Viver um ro
mance já apresenta suas dificuldades. Porém ler um roman
ce é algo que evito tanto quanto posso.
De onde tiro tanto tempo para não ler tanta coisa?
72
DITOS E CONTRADITOS
O leitor admite de bom grado que o autor o deixe confuso
com sua cultura geral. Qualquer pessoa fica impressionada
porque não sabia como a ilha de Corfu se chama em alba
nês. Pois a partir de então ela sabe, e pode brilhar diante dos
outros que ainda não sabem. A cultura geral é a única pre
missa que o público não leva a mal, e um autor que humilha
o leitor nesse ponto tem a sua fama presente garantida. Mas
ai daquele que pressupõe faculdades que não possam ser re
cuperadas ou cuja aplicação esteja ligada a incomodidades!
Tudo bem que o autor saiba mais que o leitor; mas que ele
tenha pensado mais não lhe será perdoado tão facilmente.
O público não pode ser mais tolo. Ele é inclusive mais inte
ligente do que o autor culto, pois fica sabendo através de sua
revista como a ilha de Corfu se chama em albanês, enquanto
aquele teve de consultar uma enciclopédia primeiro.
Quando lemos um de seus ensaios mitológico-políticos
aprendemos a odiar a cultura mais do que o absolutamente
necessário.
Um agitador toma a palavra. O artista é tomado por ela.
Empregar palavras incomuns é um vício literário. Deve
mos colocar apenas dificuldades de pensamento no cami-
11 ho do público.
Heine é um Moisés que bateu com a vara no rochedo da
11 ngua alemã. Porém, velocidade não é sortilégio; a água não
brotou do rochedo, mas ele a apresentou com a outra mão, e
era água de colônia.
73
KARL KRAUS
A ironia sentimental é um cão que ladra para a Lua en
quanto mija sobre sepulturas.
"Escrever bem" sem personalidade pode bastar para o
jornalismo. Na pior das hipóteses, para a ciência. Jamais
para a literatura.
Por que muitos escrevem? Porque não têm caráter sufi
ciente para não escrever.
Literatos alemães: os louros com que um sonha não dei
xam o outro dormir. Outro, por sua vez, sonha que seus lou
ros não deixam um outro dormir, e este não dorme porque o
outro sonha com louros.
Há cabeças ocas rasas e profundas.
A ideia de que um jornalista escreva com a mesma cor
reção sobre uma nova ópera quanto sobre um novo regula
mento parlamentar tem algo de inquietante. Ele certamente
também poderia dar lições a um bacteriólogo, a um astrôno
mo e talvez até a um pastor. E se um especialista em mate
mática superior cruzasse seu caminho, ele lhe provaria que é
versado em matemáticas ainda mais altas.
A prostituição do corpo partilha com o jornalismo a ca
pacidade de não precisar sentir, mas o supera pela capacidade
; \, .
de poder sentir. · .,.
O público não tolera qualquer coisa. Ele repele com indigna
ção uma obra imoral quando percebe suas intenções culturais.
74
DITOS E CONTRADITOS
O fato de um tema ser artístico não deve necessariamente
prejudicá-lo junto ao público. Superestima-se o público ao
acreditar que ele leva a mal e excelência da representação.
Ele de forma alguma lhe dá atenção, e também tolera com
tranquilidadecoisas valiosas desde que o objeto casualmen
te corresponda a um interesse vulgar.
Nem de longe um bom escritor recebe tantas cartas anô
nimas ofensivas quanto normalmente se supõe. De cem as
nos, nem dez admitem sê-lo, e no máximo um coloca isso
por escrito.
Lichtenberg cava mais fundo do que qualquer outro, mas
não volta à superfície. Ele fala sob a terra. Só o escuta quem
também cava fundo.
São raros os livros antigos que, entre coisas incompreen
síveis e óbvias, conservaram um conteúdo vivo.
No começo era o exemplar para resenha, e alguém ore
cebeu da editora. Então ele escreveu uma resenha. Então es
creveu um livro, que o editor aceitou e passou adiante como
exemplar para resenha. O próximo que o recebeu fez o mes
mo. Assim nasceu a literatura moderna.
O propósito do jovem Jean Paul era "escrever livros
para poder comprar livros". O propósito de nossos jovens
escritores é ganhar livros de presente para poder escrever
livros.
75
KARL KRAUS
Desde que maçãs podres serviram certa vez de estímulo
no drama alemão, o público receia usá-las como meio de
intimidação.
Tal como sempre surgem rostos novos, embora o conte
údo das pessoas pouco se distinga, assim deve haver sempre
frases novas para o mesmo material intelectual. Isso depen
derá do criador que tiver a capacidade de exprimir a mais
ligeira nuance.
Um cérebro criativo também diz por conta própria aqui
lo que outro disse antes dele. Em compensação, outro pode
imitar pensamentos que apenas mais tarde ocorrerão a um
cérebro criativo.
Pensamentos próprios não precisam ser sempre novos.
Mas quem tem um pensamento novo, pode facilmente to
má-lo de outro.
Há verdades cuja descoberta pode demonstrar que não se
tem espírito.
Temas jornalísticos: não importa o tamanho do alvo, mas
a distância.
Uma verdade desprovida de arte acerca de um mal é um
mal. Ela deve ser valiosa por si mesma. Assirr:f:.ela reconcilia
com o mal e com a dor de que haja males.
l&
DITOS E CONTRADITOS
Contar a piada inventada por uma pessoa engenhosa é
o mesmo que apanhar uma seta do chão. A citação não diz
como foi disparada.
Muitas vezes é difícil escrever um aforismo quando se é
capaz de fazê-lo. Muito mais fácil é escrever um aforismo
quando não se é capaz de fazê-lo.
Estou sempre disposto a publicar aquilo que contei a um
amigo sob o selo do mais profundo sigilo. Mas ele não deve
espalhá-lo.
Ficar triste da vida por haver encontrado em seu traba
lho um erro que ninguém vê; apenas se tranquilizar depois
de encontrar um segundo, pois então a mancha na honra é
coberta pelo conhecimento da imperfeição dos esforços hu
manos: parece-me que é esse talento para a tortura o que dis
tingue a arte do artesanato. Cabeças rasas poderiam tomar
esse traço por pedantismo, mas elas não suspeitam de que
1 iberdade nasceu essa coerção e a que facilidade de produção
conduzem semelhantes dificuldades infligidas a si próprio.
Nada seria mais tolo do que falar de niquice formal onde a
forma não é a roupagem do pensamento, mas sua carne. Essa
caçada às últimas possibilidades de expressão conduz até as
entranhas da linguagem. É aí que se cria esse entrelaçamento
110 qual os limites entre o que e como não são mais distinguí
veis, e no qual, frequentemente, a expressão antecede o pen
samento até o instante em que ele dá sua centelha sob a lima.
Os diletantes trabalham seguros e vivem satisfeitos. Por cau
sa de uma palavra recusada pela balança de precisão de mi-
11
KARL KRAUS
nha sensibilidade estilística, muitas vezes já detive a máquina
de impressão e mandei destruir o que tinha sido impresso. A
máquina violenta o espírito em vez de servi-lo: assim ele pre
tende lhe mostrar quem manda. Quando é que acabo, visto
que a publicação por fim não pode mais ser impedida e não
traz a ansiada cesura da criação? Ah, eu só termino um tra
balho quando começo outro; esse é o tempo que dura minha
"correção de autor". Esse também é o tempo que dura a louvá
vel loucura de acreditar que o leitor notará a ausência de um
pensamento que nasceu depois da hora. E comparada a uma
escrita que se arrepende de maneira tão sanguinolenta de
suas imperfeições, esse leitor considera que sua faculdade de
ler, deturpada pelo jornalismo, é perfeita. Por alguns vinténs,
ele comprou um direito à superficialidade: será que ficaria sa
tisfeito se tivesse de se lançar ao trabalho? Talvez as coisas es
tivessem melhores se os escritores alemães aplicassem a seus
manuscritos a décima parte do cuidado que dedico a meus
textos depois de impressos. Um amigo que me socorre com
frequência fazendo as vezes de parteira, ficou admirado com
a facilidade de meus partos e a dificuldade de meu puerpério.
Para os outros as coisas vão bem. Eles trabalham à escrivani
nha e se divertem na sociedade. Eu me divirto à escrivaninha
e trabalho na sociedade. Por isso evito a sociedade. No máxi
mo, eu poderia perguntar às pessoas se essa ou aquela palavra
lhes agrada mais. E isso elas não sabem. ·
Um bom autor sempre receará que o público P~f~eba quais
foram os pensamentos que lhe ocorreram tarde demais. Mas
quanto a isso, o público é muito mais indulgente do que se
acredita, e também não percebe os pensamentos que aí estão.
TB
DITOS E CONTRADITOS
Devemos escrever sempre como se escrevêssemos pela
primeira e pela última vez. Dizer tanto como se fosse uma
despedida, e tão bem como se estivéssemos estreando.
Não domino a língua, mas a língua me domina completa
mente. Ela não é a criada de meus pensamentos. Vivo numa
relação com ela em que concebo pensamentos, e ela pode fa
zer de mim o que bem quiser. Eu a obedeço à letra. Pois das
letras salta o jovem pensamento ao meu encontro e dá forma
retroativa à língua que o criou. Semelhante graça de gestar
pensamentos me obriga a ficar de joelhos e transforma todo
dispêndio de cuidado trêmulo em dever. A língua é uma se
nhora dos pensamentos; ela pode ser útil na casa de quem
consegue inverter essa relação, mas lhe fecha o útero.
Que a palavra mais velha seja desconhecida nas redonde
zas, recém-nascida e inspire dúvidas sobre se vai viver. En
tão ela viverá. Ouvimos o coração da língua batendo.
Oh deleite das experiências da língua, devorador da me
dula! O perigo da palavra é o prazer do pensamento. O que
foi que dobrou a esquina ali adiante? Ainda não divisada e já
n mada! Lanço-me nessa aventura.
79
7
Países e pessoas
Espeto minha pena no cadáver da Áustria porque ainda
acredito que ele viva.
Prússia: liberdade de ir e vir usando focinheira. Áustria:
solitária com permissão para gritar.
Na Alemanha, bastam duas pessoas e temos uma asso
ciação. Morre uma delas, a outra levanta de seu lugar em
11lnal de luto.
A polícia vigia com rigor para que apenas a velhice e a
fcl u ra se entreguem ao vício. Só é aceita num bordel aquela
' llja corrupção datar de uma era policial anterior e cuja vir
tuJe tenha caído mais ou menos na mesma época em que
'IIÍ ram as muralhas da cidade. Ela precisa ser uma emere
lf'lt .... As inválidas cantam: "Eles nos sustentaram!".
Às vezes lemos que uma cidade tem tantas centenas de
mllhares de "almas", mas isso soa exagerado. Pela mesma ra
V1 o, também se deveria romper finalmente com o sistema de
1 l'c:nscamento por "cabeças". Mas não alimentaríamos mais
li Nl.'.onfiança em relação à estatística das cifras gigantescas
• 11111a outra parte do corpo fosse empregada como unidade
81
KARL KRAUS
de contagem. Ninguém mais poderia dizer que semelhante
estimativa - no caso de uma metrópole como Viena, por
exemplo - é exagerada. A assimilação e a eliminação do ali
mento são indiscutivelmente os interesses mais importantes
que podem determinar a vida intelectual de uma população.
Triste é apenas o fato de ela própria dominar tão mal aquilo
que lhe é mais importante. A cultura dessa atividade vital
não avança de forma alguma, e ainda que seja uma vanta
gemser um bom ga~fo, não é vantagem alguma ser um garfo
barulhento e se comportar de tal maneira que se ouçam os
ruídos de bem-estar até no exterior.
As camas de Hamburgo têm bordas altas. Estamos segu
ros de que não cairemos quando o mar estiver agitado. Um
uso sem sentido, com o qual o povo conserva a tradição do
camarote. O enjoo do mar se reproduz em terra firme por
gerações de marceneiros, e nada é mais doloroso ao acordar
do que a recordação de que os hamburgueses são um povo
de navegadores.
A aglomeração: e depois que o acidente aconteceu, "apa
receram muitos curiosos para ver o local". E então o aciden
te já estava tão insensível às provocações da curiosidade que
se contentou com o desprezo calado.
Num domingo de inverno à tarde, num café de Viena, en
curralados entre pais que jogam cartas, mulher~.s que berram
e crianças que leem revistas humorísticas, podemos ser to
mados por tal sentimento de solidão que ansiamos pela vida
agitada que deve reinar por essa hora na Baía do Advento.
82
DITOS E CONTRADITOS
Se eu perguntasse ao porteiro de um restaurante berli
nense qual o significado dos relevos e frisos da escadaria, ele
poderia responder: "Isso serve para levar em conta o senso
de beleza". Se eu perguntasse a um catador de papéis quem
é representado num monumento, ele poderia responder: "O
homem fez algo pela educação". Certo, isso são abominações
da civilização. Mas com o tempo também ficamos fartos das
vantagens dela que gozamos em Viena quando a essas per
guntas recebemos sempre a mesma resposta: "Que te impor
tam os frisos, seu fedelho imbecil!".
A beleza imerecida dessa cidade! Mas aqueles que a ani
mam à chamada seriedade do trabalho são tão tolos quanto
seus bajuladores e folhetinistas. Não é lamentável que seus
habitantes não trabalhem, mas que não pensem. Chega a ser
meritório contar com o fato de que o céu é azul e o prado é
verde. Quem diz que não se pode viver disso é um filisteu.
Mas quem diz que é triste viver disso quando não se é um
urtista, diz a verdade.
É uma injustiça sempre criticar Viena pelos seus defei
los, visto que suas qualidades também merecem censura.
No entanto, o livro de B. chega a criticar Viena por defeitos
que são apenas qualidades que lhe faltam. Como esse autor
deva o nível cultural dos vienenses para atacá-lo! É lasti-
1111\vel essa falsa óptica de uma crítica que primeiro preci
NII inventar as qualidades de um povo para depois levá-las
li ,uai. O autor descobriu no povo austríaco uma concepção
Ilusória da vida, e culpa uma dinastia, que sem dúvida é a
lllllis fi el guardiã das realidades, pelo fato de o vienense vi-
83
KARL KRAUS
ver num mundo irreal. A história "quis experimentar se o
espírito podia governar sozinho", e instituiu os Habsburgos.
Eles criaram o mundo a partir de seu espírito. E semelhante
panegírico ao mais sublime senso artístico foi considerado
desleal! Eu, no entanto, não tolero a concepção errônea de
uma essência popular que se esgota exclusivamente em pe
quenas autenticidades. Pois o mundo vienense não foi criado
a partir do espírito, e sim a partir da carne de gado. Diante
dessa solidez que se mede em quilos, toda imaginação capaz
de criar um mundo qualquer é arruinada. O espírito cria
tivo da irrealidade, descoberto pelo autor, interveio na his
tória austríaca visivelmente apenas uma vez. Foi durante a
construção da Linha Ferroviária Sul, entre Viena e Baden,
quando se constatou que não havia montanha à disposição
para construir o túnel que uma Alteza desejava - e o túnel
foi construído.
84
8
Humores, sentenças
Aqueles dois não se casaram: vivem desde então em mú
tua viuvez.
Seu marido permite que ela faça teatro - a boemia não
teria permitido que ela se casasse. Portanto, na sociedade
uinda há mais liberdade do que na boemia, que tem suas
normas imutáveis.
Quem quiser praticar ginástica cerebral, que procure re
construir tão rápido quanto possível a conversa de um grupo
quando, em dado momento, chamar sua atenção o quanto
essa conversa se afastou do tema original. Ele folheará essa
enciclopédia e verá um caminho em ziguezague em cujas
ex tremidades se encontram assuntos que fazem lembrar a
divertida falta de relação dos títulos: De calefação a gótico e
/)e Newton a pacífico.
Em caso de dúvida, decida pelo correto.
Uma fábrica de guarda-chuvas expõe ao gosto público
11111 cartaz que mostra Rômulo e Remo com guarda-chuvas
85
KARL KRAUS
abertos. Refleti muitas vezes sobre esse simbolismo. Sempre
cheguei a essa mesma e triste explicação: em razão do mau
tempo, a fundação de Roma foi suspensa.
Que são a consciência que um Nero tinha de sua força, o
ímpeto destruidor de um Gêngis Khan, a plenitude de po
deres do Juízo Final comparados à altivez de um pequeno
funcionário da Junta Geral de Alistamento do Distrito Judi
cial que, por não obediência a uma convocação para inscri
ção com fins de avaliação da taxação do imposto militar, nos
condena a uma multa de duas coroas!
É melhor que não nos roubem nada. Assim pelo menos
não teremos problemas com a polícia.
Nunca percebemos com tanta clareza a brutalidade da
existência, a falta de fundamento de todas as coisas huma
nas do que quando temos a infelicidade de estar num veículo
que precisa parar porque é envolvido pela música folclórica.
Tive uma visão medonha: vi uma enciclopédia se aproxi
mar de um sabe-tudo e abri-lo.
Que cortejo estranho! Ela vai atrás dele como um cadáver
que segue um enlutado.
Emerson: filosofia alemã que, ao ser transpo~tada através
dos mares, absorveu um tanto de sua umidade.
O novo esnobe: o retrato de Dori Gray.
B&
DITOS E CONTRADITOS
O filósofo L. St., da Hungria: ele não é um líder, mas é o
"primeiro-violino" entre os pensadores. Chamam-no à mesa
e ele toca o transcendental aos ouvidos das pessoas.
Um crítico literário que sempre encontra um juízo para
as palavras certas.
Dificilmente haverá um escritor que em tão pouco tempo
tenha se tornado tão desconhecido quanto esse X.
Ele deu rédeas soltas, que tomou emprestadas, a uma me
galomania que não era_ sua.
Ele não deixa seu aborrecimento durante as refeições ser
estragado por nenhum apetite.
Um excelente pianista, mas a sua execução precisa supe
rar os arrotos da boa sociedade após um jantar.
Ora vejam, o conselheiro administrativo da Cretinos S.A.
e o diretor da Banalidades Associadas!
Sua convicção estava acima de tudo, inclusive acima da
vida. Mas como estava disposto a fazer sacrifícios, e surgiu
ocasião para tanto, ele deu a convicção pela sua vida.
Certo sujeito disse que tentei colocá-lo contra a parede.
1 sso não é verdade. Eu simplesmente consegui.
A boca transborda daquilo que o coração está vazio.
87
KARL KRAUS
Há pessoas que são toleradas em locais públicos apenas
porque não pagam. São chamadas de redatores.
Um piadista: coceiras na cabeça não são atividade cerebral.
Quando entramos em contato com ele é como se tocássemos
uma gosma. Desde que sei disso, nunca mais toco em gosmas.
Um pintor inescrupuloso que sob o pretexto de possuir
uma mulher a atrai ao seu ateliê e lá a retrata.
Ela começou o casamento com uma mentira. Era virgem
e não disse isso a ele!
Será que também podemos pegar uma pitada de rapé da
caixa de Pandora? Bom proveito, amigo W.!
Era ciumento e colecionava musgos. Queria que sua mu
lher vivesse criptogamicamente.
A ordem social tem tendências control-sexuais.
Vivemos numa sociedade que traduz monogamia por ca
samento.
Não há mulheres incompreendidas. Elas são apenas a
consequência de um equívoco das feministas, q~. não que
rem ser compreendidas, mas apreendidas. Há mtilheres in
compreendidas, afinal.
88
DITOS E CONTRADITOS
A medicina: passe o dinheiro e a vida!
Ele morreu picado pela serpente de Esculápio.
Símbolo moderno: a morte com a buzina.
Como leio as notícias da imprensa diária apenas de passa
gem, confundi duas manchetes próximas:"Visita de Iswol
ski à Áustria" e "Tentativa de roubo num bricabraque".
Secularização: a Igreja tem um bom estômago. Apesar
d isso, deveria ser submetida a uma lavagem estomacal de
tempos em tempos.
Os alemães - o povo dos juízes e dos carrascos.2
Antes de nos submetermos à vida deveríamos ser anes
tesiados.
2 Costumava-se dizer que os alemães eram o povo dos poetas e dos pensadores
( Dichter und Denker); para Kraus, são o povo dos Richter und Henker ... (N.T.)
89
9
Ditos e contraditos
O aforismo jamais coincide · com a verdade; ou é uma
meia verdade ou uma verdade e meia.
O preconceito é um criado indispensável que expulsa im
pressões indesejáveis da soleira de nossa porta. Só não pode
mos deixar que nosso criado também nos expulse.
Que são todas as orgias de Baco comparadas à embria
guez daquele que se entrega sem freio à abstinência?
Quão limitada é a perfeição, quão ralo o bosque, quão
insípida a poesia! Aula prática para os limitados, os ralos e
os insípidos.
Procura-se deserto apropriado para uma miragem.
Ninguém acredita como muitas vezes é difícil traduzir
uma ação num pensamento!
A ideia que faço dele não é incorreta. Se ele é diferente,
isso nada prova contra minha imaginação: é o sujeito que é
incorreto.
91
KARL KRAUS
Não há melhor refutação de uma teoria do que o fato de
ser realizável.
Os hipócritas morais não são odiosos por agir diferente
do que professam, mas por professar algo diferente do que
fazem. Quem amaldiçoa a hipocrisia moral precisa estar
muito atento para não ser tomado por um amigo da moral
que aqueles, pelo menos em segredo, traem. O condenável
não é a traição à moral, mas a moral. Ela é a própria hipo
crisia. Não é o fato de aqueles tomarem vinho que deve ser
desmascarado, mas o fato de pregarem água. Demonstrar
contradições entre a teoria e a prática é sempre melindroso.
O que significa o ato de todos comparado ao pensamento de
um só? O moralista poderia estar falando sério ao lutar con
tra uma imoralidade da qual ele próprio se tornou vítima.
E se alguém prega vinho, podemos até perdoá-lo por tomar
água. Ele está em contradição consigo mesmo, mas faz com
que se tome mais vinho no mundo.
Sempre considerei o fato de alguém não ser responsável
como o mais forte dos agravantes.
Pai, perdoa-lhes, porque sabem o que fazem!
Um paradoxo surge quando um conhecimento precoce
se choca com o absurdo de sua época.
1-.
Uma antítese parece apenas uma inversão mec.ânica. Mas
que conteúdo de experiências, sofrimentos e discernimentos
precisa ser adquirido até que possamos inverter uma palavra!
92
DITOS E CONTRADITOS
Logo se completarão dez anos que não recobro mais a
consciência. A última vez que a recobrei, fundei um jornal
polêmico.
É inegável que sou alguém que escreve muito. Mas, na ver
dade, isso se deve a uma compulsão irresistível. É certo que
nenhuma máquina de escrever pode se queixar de que a so
brecarreguei. Mas é correto dizer que minha mão nem sem
pre consegue acompanhar as ordens de minha cabeça. Como
invejo os autores cuja cabeça não consegue acompanhar as
necessidades de sua mão! Eles pelo menos podem descansar.
Meus leitores acreditam que escrevo para o dia por escre
ver a partir dele. Assim, preciso esperar até que meus escritos
envelheçam. Então possivelmente adquirirão atualidade.
Os touros de todos os partidos são unânimes acerca do
fato de que faço propaganda da luxúria. Certamente é ver
dade que recomendo o reconhecimento da beleza como úni
co remédio contra a estupidez e que atribuo todos os males
deste mundo ao cruel soterramento e à malévola poluição,
praticados por séculos, da fonte de toda a vida. Mas será que
por isso me entusiasmei pela sexualidade dos touros?
Eu e meu público nos entendemos muito bem: ele não
ouve o que digo e eu não digo o que ele gostaria de ouvir.
Meu desejo de que meus textos sejam lidos duas vezes
causou grande irritação. Sem razão; o desejo é modesto. Não
peço sequer que sejam lidos uma só vez.
93
KARLKRAUS
A única concessão que poderíamos fazer seria a de nos
guiarmos pelos desejos do público a ponto de fazermos o
contrário do que ele deseja. Mas não faço isso, pois não faço
concessões e escrevo determinadas coisas mesmo quando o
público as espera.
É de ficar megalomaníaco: o reconhecimento que se re
cebe é tão escasso!
Posso dizer com orgulho que empreguei dias e noites em
não ler nada e que com energia férrea aproveitei cada minu
to livre para adquirir pouco a pouco uma falta de cultura
enciclopédica.
Quanto material eu teria se não houvesse acontecimentos!
Posso julgar o valor estético e cultural de um desfile ou
de certa espécie de peças teatrais apenas quando não os as
sisti. Caso contrário, sucumbo a uma reação nervosa qual
quer e falo das cores como faz o cego. A música suborna a
crítica, e com que facilidade um repicar de sinos pode levar
alguém a tolerar uma nulidade! Assim, para conservar um
juízo objetivo, não posso deixar de ficar conscienciosamente
longe do espetáculo.
Subestimam meu comodismo quando dizem que antipa
tias pessoais me levaram a declarar que determin~d.o literato
é um charlatão. Ora, não vou gastar meu ódio para liquidar
uma mediocridade literária!
94
DITOS E CONTRADITOS
Pestes e terremotos são grandes temas. Como é mesqui
nho reconhecer dores articulares como sintomas da peste e
se deter junto à turvação da água de uma fonte que indica
um terremoto! Como é mesquinho sentir nojo do mundo
quando passa um poetastro!
Por que tantos me criticam? Porque me elogiam e apesar
disso os critico.
Quem não quiser fazer negócios com a vida, anuncie que
pretende diminuir seu estoque de conhecidos e que está ven
dendo suas experiências abaixo do preço de compra.
Com o passar dos anos me tornei um oportunista em busca
de desvantagens sociais. Eu espreito, farejo e caço as ocasiões
cm que poderia escandalizar um conhecido ou perder uma
relação influente. Talvez eu ainda alcance uma boa posição!
Cuidado com as mulheres! Poderás apanhar uma visão
de mundo que te devorará a medula.
Refreia as tuas paixões, mas toma cuidado para não dar
rédeas soltas à tua razão.
As experiências são economias guardadas por um ava
rento. A sabedoria é uma herança da qual um esbanjador
não dá conta.
Uma mentira inocente exigida pelas circunstâncias é
sempre perdoável. Mas aquele que diz a verdade sem coação
11iio merece indulgência.
95
KARL KRAUS
A verdade é um criado desajeitado que espatifa os pratos
quando faz a faxina.
A vaidade é a guardiã imprescindível de um dom divino.
É loucura exigir que a mulher abandone sua beleza sem pro
teção e que o homem faça o mesmo com seu espírito só para
não ofender a pobreza. É tolice afirmar que um valor não
deva se referir a si mesmo para não revelar a falta de valor de
outro. Quem me acusa de ser vaidoso torna-se suspeito de
inveja, que nem de longe é uma qualidade tão bela quanto
a vaidade. Mas quem se atreve a dizer que não sou vaidoso,
torna-me suspeito de pobreza.
A imaginação tem o direito de gozar a sombra da árvore
que transforma em bosque.
Toda descoberta deveria ser tão perturbadora quanto a
do camponês que certo dia fica sabendo que um conselheiro
imperial nada aconselha e que um fornecedor da corte nada
tem a fornecer. Ele se torna desconfiado.
Há uma credulidade inferior da confiança e uma cre
dulidade superior do ceticismo. Um sujeito é enganado,
outro é homem o bastante para enganar a si próprio.
Aquele é feito de bobo, este é um sabedor que não dei
xa aquilo que sabe estragar sua brincadeira quando olha
sobre o próprio ombro. (Eu queria a assinatura dela num
1''. •
postal. Pedi a um amigo que a falsificasse. Se ele acres-
centar que é autêntica, certamente acreditarei.) Antes,
quando eu ainda acreditava, não teria podido fazer ideia
96
DITOS E CONTRADITOS
de minha credulidade. Agora, fico frequentemente per
plexo com assurpresas que me faço e com o fato de me
surpreender. Desde que minha desconfiança cresceu, sei
o quanto acredito.
Quando corrigimos um erro depois de muito tempo, os
superficiais criticam o erro e os profundos nos chamam de
inconsequentes.
Numa festa a fantasia, cada um espera ser o mais chama
tivo, mas apenas chama atenção aquele que não está fanta
siado. Será que isso não daria uma comparação?
A solidão na qual se está ocupado consigo mesmo ainda
está longe de ser a verdadeira.
Desprezemos as pessoas que não têm tempo. Lastimemos
as pessoas que não têm trabalho. Mas invejemos os homens
que não têm tempo para trabalhar!
O que nos tortura são as possibilidades perdidas. Uma
impossibilidade certa é um ganho.
Os pensamentos são isentos de impostos. Mas acabamos
lendo problemas do mesmo jeito.
O maior acontecimento local, que ocorre em todas as ci
dades simultânea e incessantemente, é o menos notado: a
entrada do caixeiro na vida intelectual.
97
KARLKRAUS
O bom senso diz que "ainda acompanha" um artista até
determinado ponto. O artista deveria recusar a companhia
mesmo até aí.
Num escritor podemos observar sintomas que deixariam
um grande negociante maduro para a internação.
A "rígida letra da lei"? A própria vida se enrijeceu sob a
forma de letras, e, comparada a tal estado, que significa a
rigidez cadavérica da legalidade?
A seriedade da vida é a brincadeira do adulto. Só que ela
não se deixa comparar com as coisas razoáveis que enchem
um quarto de criança.
Pouco antes de pegar no sono, podemos desenhar no ar
toda espécie de caretas. São as visões hipnagógicas. Quem vê
dessa forma as pessoas de carne e osso encontra-se próximo
da morte.
Farto da vida, recorrer ao pensamento: um suicídio por
meio d9 qual alguém se dá a vida.
"Não se permitir mais ilusões": é então que elas começam.
Observei que as borboletas estão em extinção. Ou será
que elas são vistas apenas pelas crianças? Quand<:? eu tinha
dez anos, convivia nos prados de Weidlingau exclu:sivamen
te com almirantes-vermelhos. Posso dizer que foi o convívio
mais soberbo de minha vida. Antíopas, pavões-reais-diurnos
98
DITOS E CONTRADITOS
e borboletas-limão também coloriam a vida da infância. Va
nessa io, Vanessa cardui - vanitas vanitatum! Quando voltei
depois de alguns anos, todas tinham desaparecido. O sol do
meio-dia vibrava como antes, mas não se via nenhum fulgor
colorido; em compensação, havia pedaços de jornal pelo pra
do. Mais tarde, fiquei sabendo que a madeira dos bosques fora
utilizada para produzir papel de impressão e que o excesso de
informação não havia deixado muitas linhas para as borbo
letas. Um amigo de nosso jornal nos mandou a última bor
boleta e um de nossos colaboradores teve a oportunidade de
espetá-la na pena e lhe perguntar pelas causas de sua solidão.
O mundo foge das cores da personalidade, as pessoas se prote
gem ao se organizarem. Apenas as borboletas deixaram de se
organizar. É por isso que agora vemos redatores e folhetinis
tns iridescentes bebericando nos cálices das flores. Mesmo as
monótonas borboletas-da-couve, com as quais o jornalismo,
graças a um certo parentesco, ainda poderia ter entrado num
ncordo, tiveram de fugir. A luta de extermínio contra as cria
turas aladas significa o triunfo da cultura do jornal. As bor
boletas e as mulheres, a beleza e o espírito, a natureza e a arte
passaram a sentir o fato de uma edição dominical ter cento
e cinquenta páginas. A humanidade persegue as borboletas
, om mata-moscas. Ela esfrega a poeira colorida dos dedos.
1·'.lcs precisam estar limpos para tocar na tinta de impressão.
Se ao menos a natureza finalmente se cobrisse de trevas!
l·'.ssa penumbra miserável ainda vai arruinar os olhos a to
dos nós.
Não se vive uma vida sequer uma vez.
99
PRO DOMO ET MUNDO
1
Da mulher, da moral
E visto que agora ela quer todos e ele não quer mais ne
nhuma, alarga-se o abismo entre os sexos para dar espaço a
tanto tormento e a tanta moral.
O prazer feminino se compara ao masculino como uma
epopeia a um epigrama.
Pelo fato de no homem o prazer ser seguido pelo aborre
cimento, deve seguir-se que na mulher a fidelidade seja se
guida pelo arrependimento.
A histeria é o resto legítimo que fica da mulher depois
que o prazer masculino encontrou sua congruência.
Conhecer o Diabo sem assar no inferno é algo que con
viria a muita gente.
Mulheres são casos-limite.
O esquecimento das mulheres às vezes é abalado pela dis
crição dos homens.
103
KARL KRAUS
As mulheres nunca estão com a cabeça no lugar, e por
isso também querem que os homens não estejam com a sua
no lugar, mas no lugar onde elas estiverem.
A I d Ih
x2+✓31,4-20+4,6-(4x2)+y2+2xy ( ) a ma a mu er = --- - - ------'-- --'-- 0,53+0,47
(x+y)2-3,8+6-6,2
Deus tomou a costela da mulher, fez o homem, tirou-lhe
o fôlego vital e o transformou num torrão de terra.
O que fazem os membros femininos das associações de bons
costumes? Dedicam-se a eliminar a prostituição. O que im
porta é o incêndio, mesmo quando as mulheres não queimam
mais, mas querem apagar o fogo. O que importa é o incêndio!
Vista de perto, muitas vezes uma mulher nos decepcio
na. Sentimo-nos atraídos porque ela aparenta ter espírito, e
ela o tem.
Ninfa - esse também é um estágio da vida de alguns
insetos.
Não achei estranho que um sujeito que jurasse pela vir
gindade de sua adorada se deixasse convencer disso, mas
que se deixasse convencer disso.
O ciúme é um ladrar de cães que atrai os ladrões.
-~:.:
Amar, ser enganado, ficar com ciúmes - isso qualquer
um consegue. O outro caminho é mais incômodo: ficar com
ciúmes, ser enganado e amar!
104
PRO DOMO ET MUNDO
Enquanto o sexo do homem é o diminuendo e o da mu
lher o subtraendo, a conta acaba mal: o mundo é infinita
mente negativo.
Na linguagem erótica também há metáforas. O analfabe
to as chama de perversões. Ele abomina o poeta.
Ao sadio basta a mulher. Ao erotista basta a meia para
chegar à mulher. Ao doente basta a meia.
O sexo pode se associar a tudo que há no céu e também
na Terra. Com o incenso e o suor das axilas, com a música
das esferas e o realejo, com uma proibição e uma verruga,
com a alma e um espartilho. Tais associações são chamadas
de perversões. Elas oferecem a vantagem de que se precisa
apenas da parte para chegar ao todo.
O erotismo se relaciona com a sexualidade como o ganho
com a perda.
O sexual é apenas a subtração de duas forças. O voyeur
soma três.
É preciso gozar a graça feminina fora das relações de pa
rentesco, pois não podemos garantir que a insuficiência dos
traços não se revele subitamente. Eu me esfalfo e faço a sín
tese - eis que chega o pai e faz a análise!
Que a mulher tenha tanto espírito quanto um espelho
tem corpo.
105
KARL KRAUS
A cabeça da mulher é apenas a almofada sobre a qual
uma cabeça descansa.
A moral na vida sexual é o expediente de um rei persa
que acorrenta o mar agitado.
A ética cristã conseguiu transformar heteras em freiras.
Infelizmente, ela também conseguiu transformar filósofos
em libertinos. E graças a Deus, a primeira metamorfose não
é assim tão confiável.
A sexualidade mal recalcada causou perturbações em
muitas casas; a bem recalcada, no entanto, perturbou a or
dem do universo.
Não devemos nos entristecer com o que a cultura fez da
mulher num trabalho de dois milênios. Um pouquinho de
curiosidade remedeia tudo.
A destruição de Sodoma foi um exemplo. Durante todas
as épocas se pecará antes de um terremoto.
O mundo ainda se recusa a admitir sem reservas que a
fome e o amor governam sua economia. Pois ele por certo
permite que a cozinheira dê as ordens, mas a prostituta é
contratada meramente como ajudante.
As crianças não entenderiam porque os adult6s se defen
dem contra o prazer; os velhos, por sua vez, entendem me
nos ainda.
106
PRO DOMO ET MUNDO
Se o sexo tomasse parte apenas nareprodução, o escla
recimento sexual seria sensato. Mas o sexo também toma
parte em outras funções; por exemplo, no esclarecimento
sexual.
Os moralistas ainda resistem contra o fato de o valor da
mulher determinar seu preço. Entretanto, faz tempo que o
preço determina seu valor, e disso nenhuma moral dá conta.
Nápoles é uma cidade altamente moralista em que se
pode procurar mil rufiões até encontrar uma prostituta.
Quando os inquilinos ficaram sabendo que a dona do
prédio era uma cafetina, todos quiseram sair. Mas eles fica
ram no prédio quando ela lhes garantiu que tinha mudado
de ramo e agora se dedicava à agiotagem.
Quando o pecado se atreve a avançar, ele é proibido pela
polícia. Quando se esconde, recebe um alvará.
O rufião é o órgão executivo da imoralidade. O órgão
executivo da moralidade é o chantagista.
O amor entre os sexos é um pecado na teologia, um acor
do ilícito na jurisprudência e um insulto mecânico na me
dicina; quanto à filosofia, absolutamente não se ocupa de
coisas desse gênero.
107
2
Da sociedade
Que tormento é essa vida em sociedade! Muitas vezes al
guém é tão amável em me oferecer fogo que preciso procurar
um cigarro no bolsó para ser amável com ele.
Divido as pessoas que não cumprimento em quatro gru
pos. Há aquelas que não cumprimento para não me com
prometer. Esse é o caso mais simples. Há aquelas que não
cumprimento para não comprometê-las. Isso já exige uma
certa atenção. Mas então há aquelas que não cumprimento
para não me prejudicar junto a elas. Com essas é ainda mais
difícil de lidar. E por fim há aquelas que não cumprimento
"' para não me prejudicar junto a mim mesmo. Isso exige um
cuidado especial. No entanto, já tenho uma rotina razoavel
mente estabelecida, e, pela maneira como não cumprimento,
sei expressar de tal modo cada uma dessas nuanças que não
sou injusto com ninguém.
Não cumprimentar não basta. Também não cumprl.men~
la mos pessoas que não conhecemos.
A vida moderna deve explicar de algum modo uma des
proporção entre oferta e demanda. De outra forma, não seria
109
KARL KRAUS
possível que um diálogo socrático fosse interrompido tantas
vezes por alguém nos perguntando se queremos comprar
uma escova de dentes.
Ver o trabalho individual ser suplantado em toda parte
pelo maquinal é algo que nos toca de maneira melancólica.
Apenas os defloradores ainda andam por aí, a cabeça ergui
da, convencidos de serem insubstituíveis. Os cocheiros fala
vam exatamente assim vinte anos atrás.
Um garçom é uma pessoa que usa um fraque sem que
percebamos isso. Em contrapartida, há pessoas que toma
mos por garçons tão logo vistam um fraque. Logo, o fraque
não tem valor em nenhum dos casos.
Quando alguém se comportou como um animal, ele
diz: "Ora, eu sou só um ser humano!". Mas quando é tra
tado como animal, ele diz: "Ora, eu também sou um ser
humano!".
Em algum lugar, encontrei a seguinte inscrição: "Pede-se
deixar o lugar assim como se deseja encontrá-lo". Se os edu
cadores da vida falassem às pessoas com a metade da ênfase
dos donos de hotéis!
Não me relaciono de fato com pessoas que utilizam a pa
lavra "efetivamente".
Antes alguém te perdoar pela baixeza que cometeu con
tra ti do que pelo favor que de ti recebeu.
110
PRD DOMO ET MUNDO
Já passei tantas vezes pela experiência de alguém parti
( har minha opinião e ficar com a metade maior para si que
agora estou escaldado e só ofereço pensamentos às pessoas.
"Todo mundo aqui é gente" - isso não é desculpa, mas
presunção.
Não basta à necessidade de solidão que se esteja senta
do sozinho a uma mesa. Também precisa haver cadeiras
vazias em volta. Quando o garçom tira uma dessas cadei
ras nas quais não há ninguém sentado, sinto um vazio e
minha natureza sociável desperta. Não posso viver sem
cadeiras vazias.
Durante a semana, conseguimos nos fechar para o mun
do. Mas há um sentimento dominical penetrante do qual
não conseguimos escapar nem mesmo num porão, no topo
de uma montanha ou dentro de um elevador.
Antes um cavalo do campo se acostumar a um automóvel
do que um passante da Ringstrasse se acostumar comigo.
Pessoas assustadiças já provocaram muitos acidentes.
"Pode ir, não se aborreça!", diz o vienense a todo aquele
que se aborrece em sua companhia.
Quando um pensador erige um ideal, todos gostam de se
sentir tocados. Eu descrevi o sub-homem - quem deveria
me seguir?
m
KARL KRAUS
Não acredito que uma avalanche de atos infames algu
ma vez tenha causado no mundo tanta indignação moral
quanto a insubornabilidade de meu pensamento causou na
cidade em que moro. Vi pessoas às quais nunca fiz mal al
gum explodirem ao me ver e se desintegrarem nos átomos
da banalidade universal. Numa estação ferroviária, a mu
lher de um redator embarcou num compartimento particu
lar de primeira classe, me viu e morreu com uma maldição
nos lábios. E isso porque não faço uso de passagens gratuitas
nos trens, o que provavelmente é o menor de meus defeitos.
Pessoas cujo sangue é mais lerdo cospem quando me enxer
gam e seguem seu caminho. Todas são mártires; defendem
a causa comum, sabem que meu ataque não se dirige a suas
pessoas, mas à coletividade de que fazem parte. É o primei
ro caso em que essa sociedade aleijada, que leva as lascas
de seus ossos envoltas em ataduras, cobra ânimo para fazer
um gesto. Há séculos não se cospe mais quando passa um
escritor. A humanidade acorre a Messina, e a estupidez se
sente solidária diante de Die Fackel. Não há antagonismos
de classe, a questão nacional se cala e a Associação de De
fesa do Antissemitismo pode descansar as mãos no colo ao.
falar. Estou sentado no restaurante: à direita, uma mesa de
gente mal vestida que mete os dedos no nariz, ou seja, evi
dentemente deputados alemães; à esquerda, selvagens com
barbas pretas que dão a impressão de que a crença na morte
ritual, no fim das contas, tem algum traço de legitimidade,
mas que certamente são apenas adeptos da política social
que passam a faca pela boca à maneira dos carrticeiros ju
daicos. Dois mundos, entre os quais aparentemente não há
nenhuma conciliação. Wotan e Jeová dirigem olhares hostis
112
PRO DOMO ET MUNDO
um ao outro - mas os raios do ódio se unem sobre minha
humilde pessoa. O fato de ainda não ter ocorrido a um go
verno austríaco a ideia de me reclamar para seu programa
somente pode ser explicado pela desorientação fundamental
dos governos deste país.
O que faz de mim a maldição da sociedade a cuja mar
gem vivo é o modo súbito como renomes, caracteres e cére
bros se revelam diante de mim sem que eu precise desmas
cará-los. Alguém carrega a sua importância por anos a fio
até que eu o alivie desse peso num momento imprevisto.
Deixo-me enganar pelo tempo que quiser. Não é assunto
meu "penetrar as intenções" das pessoas, e de modo algum
me preparo para isso. Mas certo dia meu vizinho coloca a
mão na testa, sabe quem é e me odeia. A fraqueza foge de
mim e diz que sou inconstante. Tolero o comodismo por
que não pode me fazer mal; certo dia, quando se tratar de
um sim ou de um não, ele morrerá espontaneamente. Bas
ta que alguma vez eu esteja certo em fazer algo que tenha
cheiro de caráter ou de algum modo me torne suspeito: a
mentalidade se revela automaticamente. Se for verdadeiro
que maus exemplos arruínam bons costumes, isso é válido
em medida ainda maior para os bons exemplos. Qualquer
um que tenha a força de ser um exemplo deforma seu am
biente, e os bons costumes, que são o conteúdo da vida da
má sociedade, sempre correm o risco de serem corrompi
dos. A insipidez tolera meu comportamento enquanto ele
se mantém em limites acadêmicos; se o demonstro numa
ação, porém, ela se assusta e foge. Aguento o tédio por mui
to mais tempo do que ele a mim. Dizem que sou intoleran-
113
KARLKRAUS
te. O contrário é verdadeiro. Posso me relacionar com as
pessoas mais tediosas sem notá-lo. Estou tão ocupado co
migo mesmo a cada momento que nenhuma conversapode
me fazer mal. Para a maioria, a vida social é um banho de
imersão em que se submerge a cabeça; a mim, ela mal ume
dece os pés. Nenhuma anedota, nenhuma recordação de
viagem, nenhuma dádiva do cofrezinho do conhecimento,
numa palavra, aquilo que as pessoas consideram ser o su
prassumo da conversação, é capaz de deter minha atividade
interior. Em todas as épocas, a força criadora causou maior
mal-estar à impotência do que esta a ela. A partir disso se
explica porque minha companhia se torna insuportável a
tanta gente e que perseverem ao meu lado apenas em razão
de uma cortesia despropositada. Seria coisa fácil para mim
ir ao encontro daqueles que sempre precisam ser estimula
dos durante uma conversa. Por mais inculto que eu seja e
por mais que eu entenda menos de astronomia, contrapon
to e budismo do que um recém-nascido, eu por certo seria
capaz, mediante a habilidosa intercalação de perguntas, de
simular um interesse e de demonstrar um conhecimento
superficial que daria mais alegrias a um sabe-tudo do que
um conhecimento especializado que poderia envergonhá
-lo. Mas eu, que em toda minha vida ainda não dei um
passo ao encontro de necessidades que não reconheci como
estimuladoras do espírito, mostro ser um completo mal
criado nessas situações. E não, talvez, um malcriado que
boceja - isso seria humano -, não, mas um lll.~lcriado
que pensa! Ao mesmo tempo, desdenho comunicar meus
próprios dons ao indigente que padece suplícios de Tântalo
diante de seus conhecimentos adquiridos pela leitura e que
114
PRO DOMO ET MUNDO
precisa passar fome nos celeiros egípcios do conhecimento.
Com um coração endurecido ao ponto da petrificação, che
go a fazer chistes piores do que aqueles que me ocorrem, e
não revelo nada daquilo que escrevo no meu bloco de notas
entre dois goles de café. No dia em que, num momento de
descuido, não me ocorrer nenhuma ideia e existir o risco de
que a vida social penetre no meu cérebro, dou-me um tiro.
O mundo das relações, no qual um cumprimento é mais
forte do que uma crença e no qual as pessoas se asseguram
do inimigo quando agarram sua mão, considera como cál
culo a renúncia ao seu sistema, e ainda que não chegue a
detestar Hércules por dificultar sua própria vida e a de três
mil bois, ele sonda seus motivos e pergunta: "O que o senhor
tem contra Áugias?".
Alguma verdade sempre se encontra. Dizem que certa
vez fui monista. Eu realmente escrevi certa vez algo contra o
monismo. Dizem que não consegui publicar naquele jornal
que mais tarde combati. Eu realmente recusei suas propos
tas. Dizem que procurei me insinuar na intimidade de um
sujeito influente por meio de uma carta. Realmente recebi
dele uma carta desse gênero. Em suma, alguma verdade
sempre se encontra.
Alguém que nunca conheci me cumprimenta na esperan
ça de que após tanto tempo eu já tenha esquecido que nunca o
conheci e retribua o cumprimento do novo conhecido como
se ele fosse um conhecido antigo. Na verdade, não sei exata
mente quem eu conheço; sei exatamente, porém, quem eu não
115
KARL KRAUS
conheço. Não há possibilidade de erro. No entanto, se isso al
guma vez acontecesse, o cumprimento me lembraria a tempo
de que não conheço o sujeito, e então me lembraria dele até o
fim de meus dias. Quem foi que você acabou de - pergunta
um velho conhecido. Você não o conhece? Esse é aquele que
acreditou que eu tinha esquecido que não o conheço!
Posso imaginar que uma mulher feia se veja no espelho
e se convença de que a imagem refletida seja feia, e não ela
própria. É dessa forma que a sociedade vê sua baixeza num
espelho e acredita, por idiotice, que sou eu o sujeito baixo.
É natural morrer por uma pátria na qual não se pode vi
ver. Mas nesse caso, enquanto patriota, eu preferiria o suicí
dio de uma derrota.
Quando se teme a ordem de batalha da vida burguesa não
se deveria agarrar a oportunidade e desertar para a guerra?
Dizem que meu estilo capturou todos os ruídos da época
atual. Isso o torna aborrecido aos contemporâneos. Mas pes
soas de outra época talvez o coloquem ao ouvido como uma
concha na qual um oceano de lama toca música.
Propostas para que essa cidade volte a conquistar minha
simpatia: mudança do dialeto e proibição de reprodução.
116
3
Dos jornalistas, estetas, políticos,
psicólogos, imbecis e eruditos
Por que a eternidade não abortou essa época aberrante?
Sua marca de nascença é um carimbo de jornal, seu mecônio,
tinta de impressão, e em suas veias corre tinta de escrever.
"Eis que tu o verás com os teus olhos, porém disso não
comerás." Para os descrentes de hoje, as coisas se cum
priram de outra forma. Eles comem o que não chegam a
ver. Isso é um milagre que acontece por toda parte em que
a vida é vivida de segunda mão: no caso de fariseus e de
escribas.
Os finlandeses dizem: "Sem nós não haveria presunto!".
Os jornalistas dizem: "Sem nós não haveria cultura!".
Os vermes dizem: "Sem nós não haveria cadáveres!".
Não ter pensamentos e ser capaz de expressá-los ·_ eis
um jornalista.
Os jornalistas escrevem porque não têm nada a dizer, e
têm algo a dizer porque escrevem.
117
KARL KRAUS
O pintor tem em comum com o pintor de paredes o fato
de sujar as mãos. Precisamente isso distingue o escritor do
jornalista.
Agora os artistas escrevem contra a arte e defendem o
contato com a vida. Goethe, desprovido de humanidade,
"olha da altura fantasmagórica em que os gênios alemães
talvez se entendam, impassível, para a sua pátria impas
sível. Com seu nome, folgazões indolentes defendem suas
existências vazias". Mas não há cultura sem humanidade ...
Quem assim se exalta é alguém respeitado pela sua prosa.
Ele quer uma Marselhesa para que ela não seja mais ouvida.
Goethe guia a mão de Bõrne, e ele a levanta contra Goethe.
Eu, porém, acredito que na obra de arte fica guardado aqui
lo que o imediatismo das energias intelectuais desperdiça.
Humanidade não é o primeiro, mas o último efeito da arte.
A humanidade de Goethe é um efeito a longa distância. Há
estrelas que não são vistas enquanto existem. Sua luz tem
um longo caminho, e iluminam a Terra quando há muito
já se apagaram. Elas são familiares aos flanadores notur
nos: o que Goethe pode fazer pelos estetas? Para eles é um
preconceito o fato de não poderem chegar a suas casas sem
a sua luz. Pois eles não estão ·em casa em parte alguma, e
a arte tem tão pouco a ver com eles quanto a luta com os
fanfarrões. Também o esteta é covarde demais para a vida;
mas o artista sai vencedor ao fugir da vida. O esteta é um
fanfarrão das derrotas; o artista permanece na luta sem to
mar parte nela. Ele não é alguém que acomp~riha. Não é
questão sua acompanhar o presente, visto que é questão do
futuro acompanhá-lo.
118
PRO DOMO ET MUNDO
Se causa deleite ao esteta o gesto com que alguém rou
ba cinco milhões do Tesouro Público, e ele afirma publi
camente que a diversão que o escândalo traz aos "poucos
apreciadores" tem mais valor do que o prejuízo total, então
se deve dizer-lhe: Se o gesto dessa diversão é uma obra de
arte, vamos ser generosos, e um milhão a mais ou a menos
que o Estado perde não nos importa. Mas se isso se trans
forma num editorial, então a nossa sensibilidade social des
perta e não damos nem cinco centavos pelo divertimento.
Pois se a bancarrota do Estado se transforma numa obra
de arte, o mundo faz um negócio com isso. Caso contrá
rio, vamos perceber os efeitos no orçamento e condenar a
estética popular que desculpa os ladrões sem indenizar as
vítimas do roubo.
Uma individualidade pode resistir mais facilmente à co
ação do que um indivíduo à liberdade.
Uma forma de sociedade que conduz à liberdade median
te a coação pode ficar atolada no meio do caminho. A outra
forma, que conduz ao despotismo por meio da liberdade,
sempre atinge sua meta.
"Democrático" significa poder ser escravo de todo mundo.
Talvez as coisas andassem melhor se os homens· recebes
sem focinheiras e os cães, leis;se os homens fossem conduzi
dos pela coleira e os cães pela religião. A hidrofobia poderia
diminuir na mesma proporção da política.
119
KARL KRAUS
O nacionalismo é um turbilhão em que qualquer outro
pensamento desaparece.
Com frequência, o historiador é apenas um jornalista
voltado para o passado.
O jornalismo empestou o mundo com talento; o histori
cismo, sem ele.
O que é um historiador? Alguém que escreve muito mal
para poder colaborar num jornal.
Um folhetinista - um corretor. O corretor também precisa
ser rápido e conhecer a língua a fundo. Por que não o incluímos
na literatura? A vida possui compartimentos. Aquele pode se
familiarizar com este e este com aquele, todos com todos. A
fortuna é cega. Os acasos determinam o homem. Sabemos, por
certo, o que somos, mas não sabemos o que poderemos nos tor
nar. Por que incluímos justamente o folhetinista na literatura?
Na arte, pode ser custoso distinguir a autenticidade do
embuste. Reconhecemos o embuste, quando muito, pelo fato
de exagerar a autenticidade. A autenticidade, quando muito,
pelo fato de o público não se deixar enganar por ela.
Hoje em dia não é possível distinguir o ladrão da vítima
do roubo: nenhum deles leva objetos de valor consi$~·
:~;;
Toda espécie de educação tem o propósito de tornar a
vida insípida, quer dizendo como ela é, quer dizendo que ela
120
PRO DOMO ET MUNDO
não é nada. Somos confundidos por uma alternância cons
tante, nos esclarecem para cá e nos acalmam para lá.
Escreve-se de tal maneira sobre o tempo e o espaço como
se fossem coisas para as quais ainda não se tivesse encontra
do qualquer aplicação na vida prática.
Muitas vezes, a filosofia não é mais do que a coragem
de entrar num labirinto. E quem se esquecer do portão de
entrada, pode facilmente adquirir a reputação de pensador
independente.
O monista deveria se sacrificar pela sua verdade. Só então
veríamos que a realidade nada perde e a imortalidade nada
ganha, e a identidade estaria completamente demonstrada.
Eis uma coisa que eu gostaria muito de saber: o que tan
tas pessoas fazem com o seu horizonte ampliado?
A nova psicologia se atreveu a cuspir no mistério do gênio.
Se ela não se contentar com Kleist e Lenau, vou ficar de sen
tinela e expulsar os vendedores ambulantes da medicina que
ultimamente fazem ouvir o seu "Vai um tratamento aí?" por
toda parte. Sua teoria pretende estreitar a personalidade depois
de ter ampliado a irresponsabilidade. Enquanto o negócio per
manecer uma prática privada, os interessados que se defendam.
Mas quanto a Kleist e Lenau, vamos tirá-los do consultório!
Os psicólogos modernos que ampliam os limites da irres
ponsabilidade ocupam um vasto lugar nela.
121
KARL KRAUS
Uma certa psicanálise é a ocupação de racionalistas lú
bricos que atribuem tudo no mundo a causas sexuais, exce
to a sua ocupação.
Os filhos de pais psicanalistas definham precocemen
te. Quando crianças de peito, precisam admitir que têm
sensações voluptuosas ao evacuar. Mais tarde lhes per
guntam que ideias lhes vieram à mente quando viram
um cavalo defecando no caminho para a escola. Podemos
falar de sorte quando uma criança dessas atinge a idade
em que o jovem pode confessar um sonho em que violou
sua mãe.
Eles têm a imprensa, eles têm a bolsa de valores - e ago
ra também o subconsciente!
Se lhe roubarem alguma coisa, não vá à polícia, à qual
isso não interessa, e também não vá ao psicólogo, a quem
só interessa, no fundo, o fato de ter sido você que roubou
alguma coisa.
Os psicólogos são perscrutadores do vazio e embusteiros
da profundidade.
Boas opiniões não têm valor. O que importa é quem as
tem.
As sátiras que o censor compreende são proibid~s com
razão.
122
PRD HMD ET MUNDO
O clichê é o peitilho engomado sobre uma mentalidade
normal que nunca é trocada.
Comprometo-me a levar um homem ao patíbulo se ex
clamar na rua com uma entonação bastante resoluta: "Ve
jam só! E ai~da por cima ele usa uma camisa colorida!". Um
grito indignado percorreria a multidão. A mesma multidão
que agora procuram impressionar com sinfonias.
O imbecil que não pode passar diante de nenhum enigma
do universo sem observar, se desculpando, que se trata de sua
humilde opinião, embolsa o elogio da modéstia. O artista que
se deleita com seus pensamentos junto a um bueiro, se ufana.
Uma das mais surpreendentes descobertas que o novo
século nos trouxe é sem dúvida o fato de que em Die Fackel
falo muitas vezes de mim mesmo, e ela é esfregada em meu
nariz com um dos conhecimentos mais profundos que a
sabedoria das almas contemplativas alguma vez alcançou,
a saber, que o homem deve ser modesto. Alguns afirmam
inclusive ter descoberto que publiquei o ensaio de S. sobre
os dez anos de Die Fackel "em meu próprio jornal". Ten
do sido chamada minha atenção, preciso confessar que
é verdade. Não há dúvida de que jamais um escritor tor
nou a descoberta da vaidade mais fácil ao seu leitor. Pois
se ele não percebeu por conta própria que sou vaidoso,
ficou sabendo disso pelas minhas repetidas confissões de
vaidade e pelas glorificações que fiz desse vício. O ridículo
estar-por-dentro que descobre um calcanhar de aquiles é,
portanto, frustrado por uma intencionalidade que ele des-
123
KARLKRAUS
nudou voluntariamente antes. Mas eu capitulo. Se a mais
estéril objeção contra mim é levantada mesmo durante o
décimo ano de minha incorrigibilidade, então réplicas não
adiantam. Não posso infundir em corações de pergaminho
a sensibilidade para a situação de legítima defesa em que
vivo, para o privilégio de uma nova forma jornalística e
para a coincidência desse aparente interesse próprio com os
fins universais de minha atuação. Eles não são capazes de
compreender que se alguém se confunde com uma causa
sempre falará dela, sobretudo quando falar de si. Eles não
são capazes de compreender que aquilo que chamam de
vaidade é aquela modéstia que nunca se tranquiliza, que se
mede segundo sua própria medida e a possui em si, aquela
vontade humilde de ascensão que se submete ao julgamen
to mais implacável, que é sempre o seu próprio. Vaidoso é o
contentamento que jamais retorna à obra. Vaidosa é a mu
lher que nunca se olha no espelho. Ver-se no espelho é im
prescindível à beleza e ao espírito. O mundo, porém, possui
uma só norma psicológica para os dois sexos e confunde a
vaidade de uma cabeça que se excita e se satisfaz na criação
artística com o cuidado presunçoso que trabalha num pen
teado. Mas esse penteado não é mudo no convívio social?
Ele é incapaz de enervar o próximo da maneira como faz a
modéstia dos espíritos reprodutores.
Megalomania não é nos considerarmos mais do que so-
mos, mas nos considerarmos aquilo que somos. ~\ :
Formação é aquilo que a maioria recebe, muitos passam
adiante e poucos possuem.
124
PRD DOMO ET MUNDO
Se o conhecimento fosse um assunto do espírito, como
ele poderia atravessar tantos espaços ocos para, sem deixar
um traço de sua permanência, passar a tantos outros espaços
ocos?
O que os professores digerem, os alunos comem.
Quanto maior o material associativo, tanto menor a ca
pacidade de associação. Não se precisa mais material do que
aquele oferecido pelo ginásio. Quem, por exemplo, procura a
citação "Ninguém caminha impunemente sob as palmeiras"
em Natã, o sábio, foi mais longe do que aquele que a encon
tra, com acerto, em As afinidades eletivas.
Comparada ao sabe-tudo, a enciclopédia tem uma vanta
gem: o orgulho. Ela se comporta com reserva, fica esperando
e nunca dá mais do que se quer. Ela se contenta em responder
quando Amenófis nasceu. O sabe-tudo folheia a si mesmo e
logo também informa sobre as amebas, sobre o amperíme
tro, os anfictiões, a anfoterodiplopia, a amrita, que é a bebida
dos deuses da doutrina hindu, os amschaspands, que são os
sete espíritos de luz supremos da religião persa, o amschir,
que como se sabe é o sexto mês do calendário turco,sobre o
amuleto (do árabe hamala), sobre a amigdalina, a peculiar
substância encontrada nas amêndoas amargas, que, mistu
rada em solução aquosa com a emulsina (cf.), fornece ácido
cianídrico, essência de amêndoas amargas e açúcar, e sobre a
conhecida vela de acetato de amila, e é capaz de se interrom
per quando chega a Anaxágoras, justamente onde as coisas se
tornam mais interessantes. E então ficamos insatisfeitos.
125
KARL KRAUS
A ama de leite cuida da estimulação intelectual da criança
com o seu "olha, olha - ali, ali". Aos adultos se mostra algo
de arte e de ciência para que não gritem. A criança é ninada
com a canção Sabes quantas estrelinhas há. Os adultos só se
acalmam quando também sabem seus nomes e a que distân
cia Cassiopeia se encontra da Terra, bem como que seu nome
provém da esposa do rei etíope Cefeu e mãe de Andrômeda.
Pessoas que beberam além da conta para matar sua sede
de conhecimento são uma praga social.
Não devemos aprender mais do que o absolutamente ne
cessário contra a vida.
Quando chegará o tempo em que se precisará informar no
recenseamento o número de abortos feitos em cada casa?
Qualquer criança vê o progresso que vai do Taígeto à in
cubadora.
O humanitarismo é uma lavadeira que torce as roupas
sujas da sociedade enquanto se desfaz em lágrimas.
O clichê e a coisa são uma coisa só.
A distorção da realidade na reportagem é a reportagem
mais verídica sobre a realidade.
O mundo está surdo das cadências. Tenho a convicção de
que os acontecimentos absolutamente não acontecem mais,
126
PRO DOMO ET MUNDO
mas de que os clichês continuam trabalhando automatica
mente. Se, ainda assim, os acontecimentos devessem acon
tecer, sem serem intimidados pelos clichês, eles cessariam
quando os clichês fossem destruídos. A coisa começa a apo
drecer da língua. O tempo já cheira mal dos clichês.
127
4
Do artista
Homens criativos podem se fechar à impressão das cria
ções alheias. Por isso, muitas vezes assumem uma atitude
de rejeição ao mundo, embora não raras vezes sintam a sua
imperfeição.
Quando Deus viu que era bom, a crença humana sem
dúvida lhe atribuiu a vaidade, mas rião a insegurança do
criador.
A arte deve desagradar. O artista quer agradar, mas não
f(z nada para agradar. A vaidade do artista se satisfaz na
criação. A vaidade da mulher se satisfaz no eco. Ela é criativa
como aquela, como a própria criação. Ela vive no aplauso. O
artista a quem a vida recusa o aplauso de direito o antecipa.
A arte do escritor não o deixa balançar sobre a corda bam
ba de um período bem esticado, mas lhe transforma um pon
to final num problema. Ele pode se atrever ao insólito; cada
regra, porém, se dissolve para ele num caos de dúvidas.
Há uma dúvida produtiva que vai além de um ultimato
morto. Eu poderia encher cadernos inteiros com os pensa-
129
KARLKRAUS
mentas que pensei até chegar a um pensamento, e volumes
inteiros com aqueles que pensei depois.
A exigência de que uma frase seja lida duas vezes porque
só então o sentido e a beleza se revelam é considerada arro
gante ou doida. A esse ponto o jornalismo levou o público.
Sob a arte da palavra, este não é capaz de imaginar outra coi
sa do que a capacidade de tornar uma opinião clara. Escreve
se "sobre" alguma coisa. Os pintores de paredes ainda não
corromperam tão radicalmente o gosto pela pintura quanto
os jornalistas o gosto pela literatura. Ou, naquele caso, o es
nobismo dá seu auxílio e protege o público de admitir que
também na pintura ele apreende apenas o processo. Qual
quer corretorzinho da bolsa hoje sabe que, por delicadeza,
precisa ficar parado dois minutos diante de um quadro. Na
verdade, ele també~ está satisfeito de que se pinte sobre al
guma coisa. A hipocrisia com que os cegos falam das cores é
grave. Porém mais grave é o atrevimento com que os surdos
reclamam a linguagem como instrumento do ruído.
Por que o público é tão insolente em relação à literatura?
Porque ele domina a língua. As pessoas se atreveriam exa
tamente da mesma maneira em relação às outras artes caso
se dirigir cantando aos demais, lambuzar-se com tinta ou
atirar gesso fossem meios de comunicação. A desgraça está
justamente no fato de a arte da palavra trabalhar a partir de
um material que passa todo dia pelas mãos da ralé. É por
isso que a literatura não tem mais salvação. Quanto Ifiais ela
se afasta da compreensibilidade, tanto maior é a impertinên
cia com que o público reclama seu material. O melhor seria
130
PIO DOMO ET MUNDO
esconder a literatura do público até entrar em vigor uma lei
que proíba as pessoas de usarem a linguagem coloquial e
apenas lhes permita fazer uso de uma linguagem de sinais
em casos de urgência. Mas até que essa lei entre em vigor,
elas poderiam ter aprendido a responder à ária "Como vão
os negócios?" com uma natureza morta.
O jornalismo, que conduz os espíritos para dentro de seu
curral, conquista sua pastagem nesse meio tempo. Jornalistas
querem ser autores. Publicam-se antologias de folhetim nas
quais nada causa mais espanto do que o trabalho não ter se
desintegrado nas mãos do encadernador. Assa-se pão a par
tir de migalhas. O que lhes dá a esperança da permanência?
O interesse permanente no material que eles "escolhem". Al
guém que tagarela sobre a eternidade não deveria ser ouvido
enquanto a eternidade durar? Dessa falácia vive o jornalismo.
Ele tem sempre os maiores temas, e em suas mãos a eternidade
pode se tornar atual; mas ela acaba envelhecendo com a mes
ma facilidade. O artista dá forma ao dia, à hora, ao minuto.
Por mais limitado e condicionado temporal e espacialmente
que seja seu motivo, sua obra cresce mais ilimitada e livre
mente quanto mais dele se afasta. Que ela envelheça serena
mente no instante: ela rejuvenesce com o passar das décadas.
Contra isso, a tendência deslocadora de valores do jorna
lismo nada pode fazer. Ele pode dar certificados de garantia
válidos por um século para os relógios aos quais dá corda:
eles já estão parados quando o comprador saiu da loja. O
relojoeiro diz que a culpa é do tempo, e não do relógio, e
gostaria de fazer aquele parar a fim de salvar a reputação do
131
KARL KRAUS
relógio. Ele fala mal da hora ou a condena a um silêncio de
morte. Mas o gênio da hora segue em frente e faz amanhecer
e anoitecer, embora o mostrador queira outra coisa. Quan
do ele bate dez horas e mostra onze, podemos contar que é
meio-dia, e o sol dá risada dos relojoeiros ofendidos.
O que vive do tema morre antes do tema. O que vive na
língua vive com a língua.
O homem que não pensa, pensa que só ternos um pensa
mento quando o ternos e o vestimos com palavras. Ele não
compreende que na verdade só o tem aquele que tem a pala
vra dentro da qual o pensamento cresce.
O sentido tornou a forma, ela resistiu e se entregou. Nas
ceu o pensamento, que leva os traços de ambos.
A língua é a mãe, e não a criada do pensamento.
A língua é a vara devedor que encontra fontes de pen
samento.
Porque torno o pensamento pela palavra, ele vem.
A ciência é análise espectral. A arte é síntese luminosa.
O pensamento está no mundo, mas não o ternos. Ele está
decomposto em elementos linguísticos pelo prisrni :da expe
riência material: o artista os compõe num pensamento.
132
PRO DOMO ET MUNDO
O pensamento é algo que se encontra, que se reencontra.
E quem o procura é um encontrador honesto; ele é seu, mes
mo que outro também já o tenha encontrado antes dele.
Há imitadores de originais. Quando dois têm um pensa
mento, ele não pertence àquele que o teve antes, mas àquele
que o tem melhor.
O senhor v. H. foi criticado por causa de urna frase ruim.
Com razão. Pois se descobriu que a frase era de Jean Paul e
era boa.
O original sempre volta a absorver o que lhe foi retirado.
Mesmo que venha ao mundo mais tarde.
Um pensamento só é legítimo quando ternos a sensação
de que nos surpreendemos plagiando a nós mesmos.
Opiniõessão contagiosas; o pensamento é um rniasrna.
O aforismo requer o fôlego mais longo.
Alguém que é capaz de escrever aforismos não deveria se
estilhaçar em artigos.
Que para o artista e para o pensamento valham o·dito de
Nestroy: "Fiz um prisioneiro e ele não me larga mais".
Mais de um já provou pelos seus imitadores que não é um
original.
133
KARL KRAUS
Um original cujos imitadores são melhores não é um
original.
Heinrich Heine afrouxou tanto o espartilho da língua
alemã que hoje qualquer caixeiro pode passar a mão em
seus seios.
Oh, essa mão canhota de Midas do jornalismo, que
transforma todo pensamento alheio que toca numa opinião!
Como podemos reclamar ouro roubado se o ladrão tem ape
nas cobre no bolso?
Minhas palavras nas mãos de um jornalista são piores
do que aquilo que ele próprio pode escrever. Para que, por
tanto, o aborrecimento de citar? Eles acreditam que po
dem oferecer provas de um organismo. Para mostrar que
uma mulher é bonita, arrancam seus olhos. Para mostrar
que minha casa é habitável, colocam minha varanda sobre
suas calçadas.
Uma obra da língua traduzida em outra língua: alguém
que atravessa a fronteira sem sua pele e do outro lado veste
o traje típico do país.
Pode-se traduzir um editorial, mas não um poema. É
verdade que se pode atravessar a fronteira nu, mas não sem
pele, pois ao contrário da roupa, ela não volta a crescer . ..
>.';,;.
Há uma originalidade que provém da carência, que não é
capaz de se elevar até a banalidade.
134
PRO DOMO ET MUNDO
Quem pensa profissionalmente nas razões do ser, nem
sequer precisa realizar tanto a ponto de conseguir aquecer
seus pés com isso. Mas ao remendar sapatos, mais de um já
chegou perto das razões do ser.
Na poesia épica há algo de superfluidade congelada.
Não tenho objeções à literatura romanesca pela razão de
que me parece conveniente que aquilo que não me interessa
seja dito de maneira prolixa.
O leitor com espírito alimenta a mais forte desconfiança
contra aqueles escritores que vagueiam por ambientes exóti
cos. No melhor dos casos, eles não estiveram lá. Mas a maio
ria é feita de tal maneira que precisa fazer uma viagem para
ter algo a contar.
Há também um exotismo temporal que socorre a fal
ta de talento exatamente da mesma maneira que a abor
dagem de ambientes estrangeiros. A distância, em todo
caso, não é um obstáculo, mas o mimetismo da falta de
personalidade.
Os outros são artistas da prancheta. Loos é o arquiteto da
tábula rasa.
Kokoschka fez um retrato meu. É possível que aqueles
que me conhecem não me reconheçam. Mas aqueles que não
me conhecem certamente me reconhecerão.
135
KARL KRAUS
Num retrato de verdade, precisamos reconhecer qual
pintor representa.
Ele pintava os vivos como se estivessem mortos há dois
dias. Quando certa vez quis pintar um morto, o caixão já
tinha sido fechado.
Teatro de variedades. O humor da comédia-pastelão é
hoje em dia o único humor com visão de mundo. Por ter um
fundamento mais profundo, ele parece não ter fundamento,
tal como a ação que oferece. Sem fundamento é o riso que ele
provoca em nossa região. Quando uma pessoa acaba subita
mente de quatro, trata-se de um efeito de contraste primitivo
do qual corações simples não conseguem se esquivar. Uma
compreensão mais refinada já pressupõe a representação de
um mestre de cerimônias que se esborracha no parquê. Se
ria a demonstração do absurdo da dignidade, da pompa, da
vida decorativa. A cultura da Europa Central oferece todos
os pressupostos para a compreensão desse humor. O humor
dos clowns não tem raízes aqui. Quando um deles salta sobre
a barriga do outro, o que pode cativar é apenas a comicidade
da mudança de posição, do acidente nunca visto. Mas o hu
mor norte-americano é a demonstração do absurdo de uma
vida em que o homem se tornou uma máquina. O trânsito
flui sem obstáculos; por isso, é plausível que alguém entrevo
ando pela janela e seja lançado pela porta, que leva com ele. A
vida foi imensamente simplificada. Visto que o conforto é o
princípio supremo, é algo óbvio que se pode obter &rveja fa
zendo um furo numa pessoa e segurando uma caneca debai
xo da abertura. As pessoas dão golpes de picareta no crânio
136
PRO DOMO ET MUNDO
das outras e perguntam atenciosas: "O senhor notou isso?".
É uma interminável carnificina de máquinas, na qual não
corre nenhum sangue. A vida tem um humor que caminha
sobre cadáveres, sem machucar. Por que essa violência? Ela é
apenas uma prova de força imposta à comodidade. Aperta-se
um botão e um criado morre. O que for incômodo é tirado
do caminho. Vigas se dobram à vontade, tudo anda com de
sembaraço, ninguém está à toa. Mas, de repente, um pedaço
de papel não quer parar no lugar. Ele não fica onde foi jogado
por uma questão de comodidade, mas sempre volta a subir.
Isso é incômodo, e a pessoa se vê obrigada a convencê-lo com
o martelo. Ele ainda estremece. A pessoa quer abatê-lo a ti
ros. Ele é explodido com dinamite. Uma aparelhagem nunca
vista é empregada para aquietá-lo. A vida se tornou terrivel
mente complicada. No fim, tudo vira uma grande confusão
porque um objeto qualquer da natureza não quis se encaixar
no sistema ... Talvez um farrapo de sentimentalismo que um
defraudador trouxe lá da Europa.
O burguês não tolera nada incompreensível dentro de
casa.
O escritor está aí para as pessoas? Para quando as noi
tes se tornam longas? Vamos encurtá-las de outro modo!
Contar-lhes mais alguma coisa? Algo empolgante antes que
anoiteça completamente? Algo em fascículos? Estricnina e
tortura! A noite é longa demais.
137
5
De duas cidades
Nada disso, não sou um resmungão; meu ódio contra essa
,cidade não é um amor que perdeu seu rumo, mas encontrei
uma maneira inteiramente nova de achá-la insuportável
O austríaco por certo tem a sensação de que nada pode
lhe acontecer porque a consciência de ter nascido num lugar
condenado o protege de surpresas.
A política nos engana com valores germano-austríacos
de simpatia. Mas, exceto por brindes e libretos, não há nada
que prove uma comunidade de espírito entre esses dois po
vos. Diplomatas e agentes teatrais estão empenhados na
aproximação. Os de fora ficam sabendo então que há um
reino misterioso em que ltzig e Janosch dão o tom, e nos
estimam pela subvenção de sangue hussardo e amor cigano
que o dia de trabalho berlinense recebe. Um teatro chamado
judaísmo, que flutua entre a Ringstrasse e a Unter den Lin
den, atesta e representa nossa vida intelectual diante da Ale
manha. Que diz a política sobre o fato de que não há livro
que provenha da Áustria que não seja posto em música? A
proveniência vienense é tão odiosa que só lhe são perdoados
139
KARLKRAUS
os produtos da imbecilidade e da patifaria. Por estas pelo
menos se reconhece a origem e se admite a autenticidade.
Mas que esforço sobre-humano custa impingir a literatura
austríaca como presente a um vendedor ambulante! Que diz
a política sobre o fato de que Die Fackel, que há tempos luta
por não ser mais notória na Áustria, depois de apenas dez
anos começa a se tornar o que ela é: um fato alemão?
Em Viena, os zeros se colocam à frente do um.
O que distingue Berlim de Viena ao primeiro olhar é a
observação de que lá se consegue um efeit~ ilusório com o
material mais desprovido de valor, enquanto aqui, na produ
ção do kitsch, se emprega apenas material autêntico.
A visãu da vida vienense. Pudesse eu ter visões aqui!
Mas não há espaço para isso entre as quimeras que por
aqui vivem. A loucura do mundo não está encarcerada
aqui? Quando se chega, uma individualidade leva nossa
mala até uma sala isolada em que personalidades verdes
nos contemplam mudas, sem vontade ou curiosidade. O
carregador nos esclarece o significado disso com a palavra
Verzehrungssteuer, imposto sobre o consumo, que soa como
Verzierungssteuer, imposto sobre o enfeite. Nesse dialeto, ele
também poderia dizer tattwam asi. Pois o reconhecimento
da inutilidade de toda a vida exterior se encontra na entrada.
Depois ouvimos um berreiro. Ele começa porque um filósofo
precisa conduzir um cavalo, os filósofos que o encontram rrâ:o
querem se desviar, e prossegue numa disputa sobre você não
ser altruísta o suficiente e encurtar os meios necessários para
140
PRO DOMO ET MUNDO
que um homem, que é pai de família e além disso não quer
prejudicá-lo, possa levar uma vida tranquila. Conheço isso.
Sou um instrumento nas mãos dos mais bem organizados.
1
Passageiro, existo para os cocheiros. Caso tenham me
alugado para um trajeto e eu tenha conseguido abrir e fechar
a porta do coche, uma personalidade desconhecida, de pés
descalços, volta a abri-la, deixa entrar vento e chuva e pede
uma recompensa por ter conseguido abrir e fechar a porta
sem minha ajuda. Pessoa que precisa comer, existo para os
donos de restaurante, que também querem viver. Pessoa que
é roubada, para a polícia. Cidadão, para o Estado. Fumante,
sou um isqueiro para os fumantes. Pessoa privada, sirvo
para o observador. A única compensação que tenho é a de
que também eu posso contar os fios grisalhos nas têmporas
do senhor Pollak. Sinto-me no meio de um público de teatro
que no entreato se decompõe em conhecidos que trocam
novidades de família. Ouço a pergunta: "O quê, não foi esse
ano a St. Moritz?", a afirmação: "Ele ganha mesmo muito
bem", a constatação: "Bunzl se batizou" e a exclamação:
"Nó Kramer, não duvido!". Eu me refugio na solitária para
telefonar. Estou sozinho e ouço os ruídos da cidade inteira.
Um oceano de loucura faz música na concha do telefone.
"Reserve o 26 duplo - Você, ei, você, manda um abraço pra
Steffi - 9982 - 9182? - 9982 - 9983, entendido - Me
ligue de uma vez com o III do 437 - Mas o senhor já está
ligado com o II do 525 ... " A cidade está aos pés de cada um
de seus moradores. Cada um parece envolver seus arredores
à sua maneira especial, cobertos de videiras, ensolarados,
um passeio que vale a pena. Não há grupos de artistas
nem figurantes nem massas. Os cortejos são formados por
141
KARL KRAUS
cantores de ópera que se declararam dispostos a cooperar
em coro a favor do fundo de aposentadoria. No 1° de maio,
distingo uma mulher gorda de uma magra, um homem
magro de um gordo. Todos vivem como se tivessem sido
desenhados por Schõnpflug. Quem caminha, fica parado.
Os cavalos estão suspensos no ar. Ou cruzam alegremente
as pernas como os cocheiros. A Ringstrasse é preenchida por
um bigode bem retorcido. Não se pode passar sem esbarrar
nele. A vida chegou ao fim antes de ele ter se afastado. O
sujeito é mais alto que a casa no segundo plano. Ele encobre
o céu. A vida em volta está morta. Sigo pelo prolongamento
da Kãrntnerstrasse. Uma nuvem de fumaça se eleva na
noite. Aos poucos, os contornos se definem. Um cabriolé
está parado, e no meio da rua. O condutor me pergunta se
quero andar. Eu me dou um tiro.
142
6
Acasos, lampejos
Nessa espelunca em que ladrões de cavalo húngaros tro
cam suas chances, nessa fumaceira de tabaco e usura, ouço
subitamente entre teschek e betschkerek a palavra: Glaucope.
Dita por um boca-aberta, mas com um efeito que me arrasta
através dos milênios. Volto rapidamente a mim quando me
ocorre que a deusa devia ser um cavalo de corrida.
O Diabo é um otimista se acredita que pode tornar os
seres humanos piores.
"Espaço de tempo": isso é um quodlibet de eternidade.
Tentemos uma vez imaginar, sem ter dores de cabeça, o tem
po de espaço.
O imortal experimenta a calamidade de todas as épocas.
A carreira é um cavalo que chega sem cavaleiro diante
dos portões da eternidade.
Em relação à nata da sociedade, um gourmet me disse que
preferia a borra da humanidade.
143
KARL KRAUS
Eu gostaria de separar minha existência da coexistência
deles.
Uma aparência de profundidade surge com frequência
pelo fato de uma cabeça rasa ser ao mesmo tempo uma ca
beça confusa.
O sujeito gostava muito de citar um dito de Jean Paul:
"Todo especialista é um asno na sua especialidade". É que
ele se sentia em casa em todas as especialidades.
Muitos negociantes de cavalos agora alimentam esperan
ças em relação a Pégaso.
Hoje, um original é aquele que roubou primeiro.
Um plagiador deveria copiar o autor cem vezes.
Os jovens falam tanto da vida porque não a conhecem.
Ela os deixaria sem fala.
Um lobo em pele de lobo. Um patife sob o pretexto de
sê-lo.
O ódio deve tornar produtivo. Caso contrário, é mais
sensato amar logo de uma vez.
Muitos têm a megalomania de ser loucos e são aperi~s
cabeças-tontas.
144
PRO DOMO ET MUNDO
Uma completa confusão tomou conta da vida amorosa
dos seres humanos. Encontramos formas mistas das quais
até agora não se fazia a menor ideia. Dizem que há pouco
uma sádica berlinense deixou escapar: "Escravo miserável,
eu ordeno que você me dê uma bofetada imediatamente! ... ".
O assessor em questão fugiu apavorado.
"Prostituta húngara detida em Paris por causa de com
portamento imoral": a serpente no paraíso deve ter mordido
a própria cauda.
O amor do próximo não é o melhor, mas em todo caso é
o mais cômodo.
Conheci um Don Juan da castidade cujo Leporello nem se
quer era capaz de compor uma lista das mulheres inacessíveis.
O progresso não se deixa deter por proibições. Na Enga
dina não é permitida a circulação de automóveis. A conse
quência? Os cocheiros dão sinais de buzina.
Uma das doenças mais disseminadas é a diagnose.
Uma pessoa que começou a me contar suas lembranças
tinha uma voz que rangia como o portão do passado.
Seu riso é um regulador da insanidade do mundo.
E se a Terra apenas suspeitasse do quanto o cometa teme
o contato com ela!
145
l
Pro domo et mundo
Ai do tempo em que a arte não faz a terra vacilar e em
que, diante do abismo que separa o artista do homem, o ar
tista é tomado por vertigens e não o homem!
A arte coloca a vida em desordem. Os poetas da humani
dade restabelecem o caos continuamente.
A cultura chega ao fim com a evasão dos bárbaros.
O progresso celebra vitórias de Pirro sobre a natureza.
O progresso faz porta-moedas de pele humana.
As épocas morrem da gordura ou da magreza. A atual quer
zombar da morte por meio de uma pobreza superalimentada.
Quando uma cultura sente que está chegando ao fim,
manda chamar o padre.
A verdadeira metafísica repousa na crença de que um dia
haverá sossego. O pensamento de uma ressurreição da carne
lhe repugna.
141
KARL KRAUS
Para a eternidade, a evolução é um passatempo. Não é
coisa que leve a sério.
Se devesse acreditar em algo que não vejo, ainda preferi
ria os milagres aos bacilos.
Quando ocorrem as primeiras desilusões, saboreamos
o desgosto pela vida em grandes goles, somos doidivanas
da morte e estamos facilmente dispostos a sacrificar toda
expectativa ao momento. Somente mais tarde amadurece
mos para uma gastronomia do suicídio e reconhecemos
que ainda é melhor ter a morte diante de si do que a vida
atrás de si.
O Sol tem visão de mundo. A Terra se move. Contradi
ções no arlisla são contradições nu observador, que não ex
perimenta o dia e a noite ao mesmo tempo.
Os autores são agora aconselhados a ter experiências. Isso
não poderia ajudá-los. Pois se precisam ter experiências para
poder criar, eles não criarão. E se não precisam criar para
poder ter experiências, eles não as têm. Mas os outros, os
artistas, fazem as duas coisas ao mesmo tempo. E a eles não
há o que aconselhar nem como ajudar.
O artista deve viver mais? Ele vive mais!
Quem levou sua pele ao mercado tem mais direitb' a se
mostrar sensível do que aquele que lá comprou uma roupa
pechinchando.
148
PRO DOMO ET MUNDO
"Se não tivesses escrito o ataque contra A., ele elogiaria
tuas obras." Mas será que eu teria podido escrever todas as
outras obras se, para servi-lo, tivesse omitido uma delas?
Não tenho mais colaboradores. Eu tinha inveja deles. Elesafastam os leitores que eu mesmo quero perder.
Dói meu coração quando vejo que a vantagem de me trair
é menor do que o prejuízo de estar em relações comigo.
O que me apresentam como objeção é com frequência
minha premissa. Por exemplo, que minha polêmica ataca a
existência.
Não obstante, jamais ataquei uma pessoa por ela mesma,
ainda que a tenha chamado pelo nome. Se fosse um jorna
lista, me orgulharia de criticar um rei. Mas visto que ataco
a turba dos cocheiros, seria megalomania que um indivíduo
se sentisse atingido. Caso mencione um deles, isso apenas
ocorre porque o nome intensifica o efeito plástico da sáti
ra. Depois de dez anos de trabalho artístico, minhas vítimas
deveriam estar suficientemente instruídas para reconhecer
isso e finalmente desistir de se lamentar.
Minhas glosas necessitam de comentário. Caso contrá
rio, são muito fáceis de compreender.
Considero meu direito inalienável colocar na forma ar
tística que quiser o menor dos corpúsculos de sujeira que
me tocar. Esse direito é um pobre equivalente do direito do
leitor de não ler o que não lhe interessa.
149
KULKRAUS
A sátira não escolhe nem conhece objetos. Ela surge do
fato de fugir deles e eles se imporem a ela.
Que posso fazer se as alucinações e as visões vivem, têm
nome e endereço?
Que posso fazer se M. realmente existe? Não o inventei,
apesar disso? Se ele fosse um objeto, eu escolheria melhor.
Caso reivindique ter sido ofendido pela sátira, ele a ofende.
O palerma que não só não possui uma visão de mundo,
mas também não a vê quando ela lhe é oferecida pela arte,
precisa subtrair tanto de uma síntese satírica para compre
endê-la até que sobre um nada, pois esse ele compreende,
e pelo caminho do desmembramento, para ele transitável,
chega aos motivos que o satirista deixou para trás e se iden
tifica carinhosamente com o detalhe contra o qual, segundo
sua opinião, o satirista se dirigiu. O palerma também preci
sa se sentir atingido por uma sátira que não lhe diz respeito
ou acerta muito longe de sua esfera de interesses.
O satirista nunca pode sacrificar algo mais elevado a
um chiste, pois seu chiste é sempre superior àquilo que
sacrifica. Reduzido à opinião, seu chiste pode causar in
justiça; o pensamento sempre tem razão. Ele já coloca as
coisas e as pessoas de tal modo que a nenhuma ocorra uma
injustiça.
O pensamento regula o mundo como o bíter faz com o
estômago arruinado: ele não tem nada contra o órgão.
150
PRD DOMI ET MUNDO
A sátira está longe de toda hostilidade e significa um be
nefício para uma coletividade ideal, rumo à qual ela avança
não contra, mas através dos indivíduos reais.
Muitas pessoas com quem mantive contato ao longo de
uma vida variada têm algo contra mim, sabem algo contra
mim. E há algo que também poderão provar contra mim:
que mantive contato com elas.
Quem deserdaria um erro que trouxe ao mundo e o tro
caria por uma verdade adotada?
Entrar por um ouvido e sair pelo outro: nesses casos, a
cabeça seria sempre uma estação de passagem. O que ouço
tem de sair pelo mesmo ouvido.
Quem precisa de experiências em tamanho grande certa
mente será encoberto por elas. Eu travo titanomaquias com
vírgulas.
Eu me alimento de escrúpulos que eu mesmo preparo.
O fraco duvida antes da decisão. O forte, depois. ·
Apenas no deleite da geração das palavras surge um mun
do a partir do caos.
O pensamento é aquilo que falta a uma banalidade para
ser um pensamento.
151 Bibliot~a i.' ;,.JUCa Munic
lftgaÚ) r,,ntfl'tO:ri',Aa
KARL KRAUS
Minha língua é a puta de todo mundo que transformo
em virgem.
Sentado de noite à escrivaninha, num estágio avançado
de deleite intelectual, eu sentiria a presença de uma mulher
como sendo algo mais incômodo do que a intervenção de
um germanista no quarto de dormir.
Não gosto de me intrometer nos meus assuntos privados.
Quando o impressor me mandou as provas deste livro, vi
minha vida dividida no sumário. Observei que a mulher ocu
pava dez páginas, mas o artista trinta. Ele deve isso a ela.
Quando chamaram a atenção desse presente que ronca
para o fato de alguém ter ficado dez anos sem dormir, ele se
virou para o outro lado e continuou dormindo.
Os cegos não querem admitir que eu tenha olhos, e os
surdos dizem que sou mudo.
Eu falo de mim e me refiro à coisa. Eles falam da coisa e
se referem a si próprios.
Quando tomo a pena na mão, nada pode me acontecer. O
destino deveria tomar nota disso.
Não peço fogo a ninguém. Não quero devê-lo a pessdà
alguma. Não na vida nem no amor, nem na literatura. E no
entanto, fumo.
152
PRO DOMO ET MUNDO
Não deixo de dar forma àquilo que me impede de dar
forma.
O tormento não me deixa escolha? Bem, eu escolho o
tormento.
Tenho as experiências de que preciso diante da parede
corta-fogo que vejo da minha escrivaninha. Ali há espaço
suficiente para a vida, e posso pintar Deus ou o Diabo nela.
E do último cantinho de uma folha de jornal que ain
da tenho nas mãos, já me espreita, visto que apenas passo
os olhos, a carantonha de Judas do século, sempre ames
ma, quer se trate do jornalista ou do médico, do vendedor
ambulante ou do adepto da política social, do vendedor de
especiarias ou do esteta. Sempre o mesmo estupor, com os
cabelos frisados da moda e empanturrado de cultura. Com a
toalha de barbeiro da época sobre os ombros, todos os idio
tas são iguais, mas quando se levantam e começam a falar
sobre sua especialidade, um deles é filósofo e o outro é cor
retor da bolsa. Tenho essa capacidade funesta de não poder
distingui-los, e reconheço o rosto primordial sem me esfor
çar pelo desmascaramento.
As verdadeiras verdades são aquelas que se pode inventar.
Quem agora exagera, pode facilmente se tornar suspeito
de dizer a verdade. Quem inventa, de estar informado.
153
KARL KRAUS
Anseio ardentemente por aquela condição psíquica em
que, livre de toda responsabilidade, sentirei a estupidez do
mundo como um destino.
A vida é um esforço que seria digno de uma causa melhor.
Sonhei que não acreditavam que eu tinha razão. Eu dizia
que eles eram dez. Não, doze, disseram. Tantos dedos quan
to há nas duas mãos, eu disse. Então um deles levantou a
mão, e veja só, ela tinha seis dedos. Onze, portanto, eu disse,
e apelei à outra mão. E veja só, ela tinha seis dedos. Soluçan
do, corri para a floresta.
O mundo externo é um sintoma secundário inoportuno
de um estado de indisposição.
Eu e a vida: o caso foi decidido cavalheirescamente. Os
adversários se separaram irreconciliados.
154
DE NOITE
A memória da amiga Elisabeth Reitler
1
Eros
O prazer do homem seria apenas um ímpio passatempo
e jamais teria sido criado se não fosse o acessório do prazer
feminino. A inversão dessa relação, transformada numa or
dem em que um mísero clímax se arvora de essencial e, de
pois de deflagrado, interrompe tiranicamente a rica epopeia
da natureza, significa o fim do mundo: mesmo que o mun
do, com a compensação técnica, intelectual e esportiva, não
o perceba por algumas gerações e não tenha mais fantasia
suficiente para imaginá-lo.
A mulher toma um por todos; o homem, todas por uma.
Sua criação artística oferecia um aspecto centauresco:
embaixo havia o desejo próprio de um garanhão, que se pro
longava em cima no espírito de um homem.
Esse escritor só era despudorado por puro pudor. Ele se
envergonhava tanto de sua moralidade que se cobriu com
temas que escandalizavam o público.
Bastaria, no devido tempo, ter proibido às crianças de se
assoarem e os adultos já enrubesceriam ao fazê-lo.
157
KARL KRAUS
O esclarecimento sexual é aquele procedimento impie
doso por meio do qual se impede os jovens por motivos de
higiene de satisfazer sua curiosidade por conta própria.
O esclarecimento sexual apenas é justificado na medida
em que as meninas não possam saber cedo demais como as
crianças não vêm ao mundo.
Não me deixo mais enganar por nenhuma barba cerrada.Já sei qual é o sexo que usa calças nessa casa.
Posso precisar de objetos femininos no máximo em mi
nhas leituras públicas. Lá eles apoiam o efeito e remedeiam
em meus nervos aquilo que contra eles pecaram na lite
ratura. Mãos devem ser usadas para aplaudir e não para
escrever. Com as minhas, eu preferiria esbofetear a escre
ver caso não existisse o risco de que isso fosse considera
do como aprovação e uma voz meiga sussurrasse trêmula:
"De novo!".
Eles ficaram me devendo a mais autêntica e mais profun
da prova de sua veneração: reconhecer a própria superflui
dade e se aposentar pelo menos literariamente durante a mi
nha vida. Enquanto não tiver obtido esse efeito, não acredito
na durabilidade de minha influência. Oderint, dum metuant.
Que amem, desde que não escrevam!
Tornei-me cauteloso. Quando certa vez expulsei ufu
adorador, ele quis me denunciar por perturbação da liber
dade religiosa.
158
DE NOITE
Um dos caracteres sexuais voltou a ser inteiramente sufi
ciente. Podemos distinguir uma sufragista de um bailarino.
Para saber se o homem tem talento para o palco é preciso
submetê-lo a um teste. A mulher está sempre em teste e é
apta para o palco por natureza. Ela vive diante de espectado
res. Ela sente que é o centro das atenções quando atravessa a
rua, ainda que os figurantes saúdem a entrada de Napoleão.
E ela relaciona todos os olhares com o centro.
O homem imagina preencher a mulher. Mas é apenas um
tapa-buraco.
A situação dos sexos é tão humilhante quanto o resultado
do negócio amoroso individual: a mulher ganhou menos em
prazer do que o homem perdeu em força. Aqui há diferença em
vez de soma. Um menos desprezível, contente por se colocar
em segurança, faz de um mais um menos. Aqui está o verda
deiro logro. Pois nada se ajusta pior a um prazer que acaba de
começar do que uma força que já acabou; nenhuma situação
em que seres humanos possam se encontrar é mais impiedosa
e mais digna de piedade. Nessa lacuna mora toda a doença do
mundo. Uma ordem social que não reconheça isso e não se de
cida a trocar a medida de liberdade renunciou à humanidade.
O erotismo faz de um apesar disso um pois.
O homem criativo vê Helenas em todas as mulheres. Só
que ele fez a conta sem o analista, que primeiro lhe esclarece
o que realmente ele deve ver em Helena.
159
KARL KRAUS
Como surge a beleza - a vizinha sabe disso. Como surge
o gênio - isso ela também sabe, a análise.
O casamento é uma mésalliance.
O quarto conjugal é a convivência da brutalidade e do
martírio.
Rubor, palpitações do coração, uma consciência pesada
- isso acontece quando não se pecou.
Ciumentos são agiotas que tomam os juros mais altos do
próprio dote.
O verdadeiro ciúme não quer apenas fidelidade, mas a
prova da fidelidade como um estado imaginável. Não basta
ao ciumento que a amada não seja infiel. Justamente aquilo
que ela não faz é o que não lhe deixa sossegar. Porém, como
não há provas daquilo que não se fez e o ciumento insiste
numa prova, ele termina por se contentar com ·a prova da
infidelidade.
O ciúme é sempre injustificado, acham as mulheres.
Pois ou ele é justificado ou injustificado. Se for injustifi
cado, logo ele não se justifica. Mas se for justificado, ele
não se justifica. Pois bem. E assim nada resta a não ser o
desejo de alguma vez surpreender o instante em que ele
seja justificado! -r;,:
O escravo! Ela faz com ele simplesmente o que ele quer.
160
DE NOITE
A mulher culta está incessantemente ocupada com a in
tenção de não ter nenhuma relação sexual, e também é capaz
de praticá-la - a intenção, quer dizer. O homem culto nun
ca está ocupado com a intenção de não ter pensamentos, só
que isso ocorre antes que se decida a fazê-lo.
Nietzsche teria dito: "Por amor, as mulheres assumem
inteiramente aquela forma sob a qual vivem na imaginação
dos homens por quem são amadas". Mas neste caso eu pre
feriria confiar na imaginação.
Uma mulher não deve ser sequer da minha opinião, que
dirá da dela.
Uma mulher deve parecer tão inteligente que sua estupi
dez signifique uma surpresa agradável.
A sensualidade nada sabe do que fez. A histeria se lembra
de tudo que não fez.
As putas na rua se comportam tão mal que disso se pode
tirar uma conclusão do comportamento dos cidadãos den
tro de casa.
Há mulheres que levam estampadas no rosto mais men
tiras do que nele cabem: a do sexo, a da moral, a da raça, a
da sociedade, a do Estado, a da cidade e, se forem vienenses,
a do bairro e a da rua.
Com as calculistas do amor é difícil chegar a um resultado. Ou
elas temem que um mais um dê zero, ou esperam que dê três.
161
KARLKRAUS
Ele foi muito imprudente ao tirar as pedras do caminho
dela a cada passo. Levou um pontapé.
A mulher não tolera nenhum protetor que não seja ao
mesmo tempo um perigo.
Não se pode superestimar uma mulher o bastante.
Em torno da bela senhora, saltavam os cães como se fos
sem os pensamentos dele, e se deitavam aos pés dela como
os desejos dele o faziam.
Ela disse que ia levando a vida. Bem que eu gostaria de ir
levando a vida com ela!
162
2
A arte
A tristeza e a vergonha deveriam cobrir todas as pausas
da verdadeira virilidade. Fora da criação, o artista tem a ex
perimentar apenas a sua insignificância.
O ciúme da matéria informe que diariamente se balança
e se esfrega, transborda e tagarela diante de meu nariz, o
ciúme de pessoas que infelizmente ainda existem, mas que
ainda não foram criadas, dificilmente poderá ser compreen
dido por uma delas.
Todos são ofendidos por mim, não os indivíduos. E quan
to ao amor, todos devem ficar furiosos, e não aqueles que
foram enganados.
A compreensão de meu trabalho é dificultada pelo co
nhecimento de meu material. As pessoas não compreendem
que aquilo que aí está precisa ser inventado primeiro, e que
vale a pena inventá-lo. Assim como também não compreen
dem que um satirista para quem as pessoas existem como se
ele as tivesse inventado precisa de mais força do que aquele
que inventa as pessoas como se existissem.
163
KARL KRAUS
Meus ensejos são conhecidos pessoalmente. Por isso se
acredita que minha arte não valha grande coisa.
Uma velha crença de idiotas concede ao "satirista" o
direito de fustigar as fraquezas do forte. Só que a fraque
za mais fraca do forte ainda é mais forte do que a força
mais forte do fraco, e por isso o satirista que se encontra no
topo dessa concepção é um sujeito sórdido, e o fato de ser
tolerado, um verdadeiro~gma da sociedade. Foi da ne
cessidade infame da sociedade de tratar as personalidades
como seus iguais e, por meio da sua degradação ao próprio
nível, se tranquilizar acerca de sua baixeza, que surgiram
os jornais humorísticos. Todas as carecas brilham porque
Bismarck não tinha mais do que três fios de cabelo. Essa
maldade enfadonha, a partir da qual o jornal humorístico
acode à necessidade de vingança da sociedade, é por ela
chamada de "inofensiva". Porém ela abomina o homem po
sitivo que destroça um mundo sem deuses. Não suspeita
que o satirista seja alguém que apenas fustiga as fraquezas
dos fracos e não vê as dos fortes porque elas não existem, e
se existissem, as cobriria respeitosamente. Para as pessoas,
a sátira é algo que alguém pode exercer como um segun
do emprego, por exemplo, quando é oficial publicamente e
possui humor em segredo. Mais autêntico, por certo, é pra
ticar a sátira publicamente e ser um guerreiro em segredo.
Pois, na verdade, a sátira só é compatível com uma função,
a do homem, e ela até parece realmente exigi-la. O fato de
o satirista ser um homem já é provado tão-só pela imp€tti
nência satírica da qual ele próprio precisa se defender. Pois
o satirista não tolera brincadeiras. Mas se ele matar o in-
164
DE NOITE
seto que tem em mira suas "fraquezas", todos se espantam
e perguntam por que afinal, e dizem que alguém que é ele
próprio satirista também deveria tolerar que umoutro - e
assim por diante in infinitum da banalidade humana.
Os críticos e os apologistas são testemunhas indesejadas.
Os que estão na margem metem seus pés na água para de
monstrar que ela está suja. Os que estão na margem enchem
a mão em concha para mostrar a beleza do elemento.
A lógica é a inimiga da arte. Mas a arte não precisa ser
a inimiga da lógica. A lógica precisa ter experimentado o
gosto da arte e ter sido completamente digerida por ela. Para
afirmar que dois vezes dois é cinco, é preciso saber que dois
vezes dois é quatro. Todavia, quem sabe apenas isso, dirá que
aquilo é falso.
Eu domino apenas a língua dos outros. A minha faz co
migo o que ela bem entende.
Cada frase deveria ser lida tantas vezes quantas fossem
as correções que acompanharam seu crescimento do ma
nuscrito até a leitura. Porém, para poupar o leitor do que
vai além de suas forças e de sua crença, gostaria de publicar
cada frase nas suas dez metamorfoses, para que o todo, por
fim, ainda fosse menos lido do que compreendido. Seria um
caso raro na literatura. Mas poderia ser de alguma utilidade
para compensar os danos de um século de tagarelices e de
opiniões facilmente compreendidas.
165
KARLKRAUS
Ninguém que examine meus trabalhos impressos re
conhecerá uma costura. E, no entanto, tudo foi descosido
cem vezes, e de uma página que foi para a impressão tive
ram de resultar sete. No fim, se é que há um fim, a articu
lação é tão evidente que não se vê a justaposição e não se
acredita nela. Escritores que possuam tudo na cabeça, e que
ao escrever tomam parte apenas com as mãos, são mani
puladores infames com os quais nada tenho em comum a
não ser o alfabeto, e mesmo isso apenas a contragosto. Eles
não se alimentam, mas seguem vivendo porque têm tudo
no estômago.
Se a linguagem é apenas uma roupagem, ela se tornará
andrajosa ou fora de moda. Até que chegue esse momen
to, pode-se andar entre as pessoas. Um smoking não torna
imortal, mas popular. Mas o que vestem os jovens senhores
ultimamente? Uma linguagem que consiste inteiramente de
epítetos! Um traje sem tecido, mas todo feito de botões!
O contador de histórias se distingue do político apenas pelo
fato de ter tempo. Comum a ambos é que o tempo os tem.
Ainda não tentei, mas acho que para ler um romance eu
precisaria primeiro me encorajar e então fechar bem os olhos.
Um artista que tem sucesso não deve baixar a cabeça. Ele
só deve desesperar de si quando um embusteiro fracassa.
O espírito alemão escarrou duas espécies: a bailarina e
a meditativa. Heine é mais responsável por esta, Nietzsche
166
DE NOITE
por aquela. No segundo caso, também se descobrirá quem
foi o precursor.
A literatura atual consiste de receitas prescritas pelos
doentes.
A maioria dos críticos escreve críticas que são dos autores
sobre os quais escreve críticas. Isso ainda não seria o pior. Só
que a maioria dos autores também escreve obras que são dos
críticos que escrevem críticas sobre elas.
A sujeira ainda lhe conferia solidez. O que restou dele
quando se lavou? Uma esponja.
Muitos talentos conservam sua precocidade até idade
avançada.
Um professor de literatura afirmou que meus aforismos
são apenas a inversão mecânica de frases feitas. Isso é intei
ramente correto. Só que ele não apreendeu o pensamento
que impele a mecânica: o fato de que da inversão mecânica
de frases feitas resulta mais do que da repetição mecânica.
Esse é o segredo da época atual, e é preciso tê-lo experimen
tado. Ao mesmo tempo, a frase feita ainda se distingue, para
sua vantagem, de um professor de literatura, de quem não
sai nada se eu o deixar em seu lugar e menos ainda se inver
tê-lo mecanicamente.
O futuro dos futuristas é um pretérito perfeito.
167
KARL KRAUS
A maioria dos autores não tem outra qualidade a não ser
a do leitor: o gosto. Mas o do leitor é melhor, pois não escre
ve, e melhor ainda quando não lê.
Só é artista aquele que da solução pode fazer um enigma.
Parece-me que toda arte é apenas arte para hoje se ela não
for arte contra hoje. Ela é um passatempo - ela não passa
por cima dele! A verdadeira inimiga do tempo é a língua.
Ela vive num entendimento direto com o espírito a quem a
época atual causa indignação. É aqui que pode se materiali
zar essa conspiração que é a arte. A complacência que rou
ba as palavras da língua vive nas graças dessa época. A arte
pode vir apenas da recusa. Apenas do grito, não do sossego.
Chamada para consolar, a arte deixa com um~ maldição o
quarto em que a humanidade agoniza. Ela se realiza através
do desespero.
168
3
A época
A técnica é um criado que coloca ordem na sala ao lado com
tanto estardalhaço que impede os patrões de fazer música.
O que foi impresso num único dia dos últimos cinquenta
anos fez mais contra a cultura do que a obra completa de
Goethe fez a seu favor.
Preto no branco: é assim que se mente agora.
A mais dolorosa imagem da civilização: um leão que estava
acostumado com o cativeiro é devolvido à selva e nela cami
nha de um lado para outro como se estivesse atrás das grades.
A cultura é o cultivo da negligência de uma disposição
natural.
Adolf Loos e eu, ele literal e eu linguísticamente, nada
mais fizemos que mostrar que entre uma urna funerária e
um penico existe uma diferença, e que só nessa diferença há
espaço para a cultura. Mas os outros, os positivos, se divi
dem entre aqueles que usam a urna como penico e aqueles
que usam o penico como urna.
169
KARL KRAUS
"O senhor é o Karl Kraus, não é verdade?", perguntou-me
no trem um companheiro de compartimento que superesti
mou minha incapacidade de defesa. Respondi: "Não". Com
isso evidentemente admiti sê-lo. Pois se eu fosse outro, teria
entrado numa conversa com o imbecil.
"O que o senhor tem contra X?", perguntam geralmente
aqueles que têm algo de X.
Quando o sr. Shaw ataca Shakespeare, age em legítima
defesa.
O analista transforma o ser humano em poeira.
Agora há botas sujas diante do santuário em que o artis
ta sonha. Elas são do psicólogo, que está lá dentro como se
estivesse em casa.
Alguns partilham meus pontos de vista comigo. Mas eu
não os partilho com eles.
"O senhor está sendo injusto com ele. Ele concorda com
o senhor em tudo!" "Exceto no fato de que o considero um
asno."
O bibliófilo tem aproximadamente a mesma relação com
a literatura que o filatelista com a geografia.
A escola sem notas deve ter sido inventada por alguém
que se embriagou com vinho sem álcool.
170
DE NOITE
Agora as crianças têm sinfonias na idade em que no pas
sado tinham sarampo. Não acredito que escapem.
O que as pessoas têm contra os internatos, afinal? É mais
bela, por acaso, a convivência no curral da liberdade em que
os jovens praticam psicologia mútua?
Uma ciência que sabe tão pouco de sexo quanto de arte
espalhou o boato de que a sexualidade do artista é "subli
mada" na obra de arte. Poupar o bordel, eis uma bela finali
dade para a arte! Ao poupar a sublimação por meio de uma
obra de arte, a finalidade do bordel é bem mais refinada. O
quanto o procedimento dos artistas, não considerada sua
prolixidade, é arriscado em seu efeito sobre os receptores,
é algo provado justamente pelo caso do notável compositor
que a referida ciência gosta de citar como exemplo de subli
mação bem-sucedida. Os ouvintes de sua música sentem-se
estimulados de tal modo pela sexualidade nela sublimada
que muitas vezes não lhes resta outra saída do que aquela
que o artista evitou, a não ser que eles próprios sejam ca
pazes de fazer uma sublimação a tempo. Se o artista tives
se escolhido o caminho mais simples, esse efeito teria sido
poupado aos ouvintes. Assim, por meio do mau hábito dos
artistas de sublimar a sexualidade, esta é liberada de vez,
e um assunto que deveria ficar restrito à vida privada do
artista degenera num escândalo público.
Após madura reflexão, prefiro fazer o caminho de volta
ao país dainfância com Jean Paul do que com S. Freud.
171
KARL KRAUS
A análise é a tendência do mendigo para explicar a exis
tência das fortunas. Aquilo que ele não possui sempre foi
obtido por meio de fraude. O outro apenas tem; ele, feliz
mente, conhe_ce o segredo.
Agora os especialistas em doenças nervosas precisam li
dar com os escritores que vêm ao consultório depois de mor
tos. Bem feito para os escritores, já que não foram realmente
capazes de levar a humanidade a um estágio que exclui o
surgimento de especialistas em doenças nervosas.
A psicologia é o ônibus que acompanha uma aeronave.
A psicanálise: um coelho que foi engolido pela Boa cons
trictor apenas queria investigar como era lá dentro.
A psicanálise é mais uma paixão do que uma ciência:
pois lhe falta a mão serena no exame, e essa falta constitui a
única aptidão para a psicanálise. O psicanalista ama e odeia
seu objeto, inveja sua liberdade ou sua força e os deriva de
seus próprios defeitos. Ele apenas analisa porque ele próprio
é feito de partes que não resultam numa síntese. Ele acredita
que o artista sublima uma enfermidade porque ele próprio
ainda padece dela. A psicanálise é um ato de vingança por
meio do qual a inferioridade adquire compostura, quando
não superioridade, e procura equilibrar a desarmonia. Ser
médico é mais do que ser paciente, e por isso todo imbecil
busca hoje tratar todo gênio. O que neste caso falta ao mé~~\:
dico é a doença. Como quer que se comporte, nada mais
conseguirá apresentar para explicar o gênio do que a prova
172
DE NOITE
de que ele próprio não o possui. Porém, visto que o gênio
não precisa de uma explicação, e uma que defenda a medio
cridade contra o gênio é danosa, resta à psicanálise apenas
uma única justificativa para sua existência: a muito custo,
ela pode ser empregada para desmascarar a psicanálise.
Os doentes são a maioria. Mas só poucos sabem que po
dem se gabar disso. Esses são os psicanalistas.
A psicanálise é aquela doença mental que se toma por sua
terapia.
Um bom psicólogo é capaz de te colocar facilmente na
situação dele.
Minha consciência tem um criado que está sempre atento
para que nenhum intruso atravesse seu limiar. Os psicana
listas não têm nada a procurar abaixo dele. Caso meu criado
apanhe um desses que quer consultar o arquivo, ele o conduz
ao vestíbulo, onde, com a sua lanterna de ladrão, eu mesmo
ilumino sua cara.
Eles metem a mão em nosso sonho como se fosse a nossa
carteira.
Isso que se chama de homem agora pode ser raspado psi
canaliticamente.
Conheci alguém que levava sua formação no bolso do co
lete porque ali havia mais espaço do que na cabeça.
173
KARL KRAUS
A formação é uma muleta com a qual o paralítico espan
ca o sadio para mostrar que também tem força.
O historiador nem sempre é um profeta voltado para o
passado, mas o jornalista é sempre alguém que depois já sa
bia de tudo antes.
A humanidade inteira já se encontra diante da imprensa
no estado do ator a quem um cumprimento não feito pode
ria prejudicar. As pessoas nascem com medo da imprensa.
Se durante o dia a arte está a serviço do comerciante, a
noite é dedicada à sua distração com ela. Isso é exigir bas
tante da arte, mas ela e o comerciante dão conta do recado.
Vós, oh deuses, sois propriedade do comerciante!
174
4
Viena
O ser humano objeta ao cão o fato de buscar a sujeira. O
que o desacredita ainda mais é o fato de buscar o ser huma
no. Em todo caso, o cão dá provas de sua superioridade por
não correr à Dreimiiderlhaus.
A convicção austríaca de que "nada pode te acontecer"
chega ao ponto de um homem se decidir a quebrar uma per
na por estar segurado contra acidentes.
Por meio de seus fiascos políticos, a Áustria conseguiu
chamar a atenção do grande mundo e finalmente não ser
mais confundida com a Austrália.
(Leitura escolar.) Entrei num restaurante. Todas as me
sas estavam ocupadas. Numa delas havia só uma pessoa.
Tomei assento. Chega uma família, pai, mãe e filha. A filha
cutuca a mãe, esta cutuca o pai. O pai não entende. A filha
anota num papel. O pai olha apavorado para meu vizinho e
pega um jornal. Depois de um momento, meu vizinho vai
embora. O pai o acompanha com o olhar e diz triunfante:
"Não fiz cerimônias e li o Neue Presse na frente dele, ele se
enfureceu e se foi!". A filha cutucou a mãe, esta cutucou o
pai. O orco se abriu e fui embora discretamente.
175
5
1915
Um aprendiz de feiticeiro parece ter se aproveitado da au
sência do mestre. Só que em vez de água corre sangue.
O jogo infantil "nós brincamos de guerra mundial" é
ainda mais desolador do que a realidade "nós brincamos de
criança". Seria desejável a essa humanidade que suas crian
ças de colo começassem a matar com êxito as outras de fome
e acabassem com a clientela das amas de leite.
O desenvolvimento técnico deixará apenas um problema:
a caducidade da natureza humana.
Entre a língua e a guerra podemos constatar aproximada
mente a seguinte relação: aquela língua que mais estiver enri
jecida sob a forma de chavões também será responsável pela
tendência e pela disposição para substituir a substância por
um sucedâneo de entonação; com convicção, a achar irrepre
ensível em si própria tudo aquilo que no outro apenas provoca
censura; a desmascarar com indignação aquilo que também
se gosta de fazer; a enredar qualquer dúvida num matagal de
frases e a repelir sem esforço, como um ataque inimigo, qual-
177
KARL KRAUS
quer suspeita de que alguma coisa não esteja em ordem. Essa
é sobretudo a qualidade de uma língua que hoje se parece
com aquele produto acabado cuja venda constitui o conteúdo
da vida de seus falantes; ela brilha como uma auréola e tem
apenas a alma óbvia do homem de bem que não tem tempo de
cometer uma maldade porque sua vida se limita aos negócios
e, caso não seja suficiente, deixa uma conta em aberto.
O número de exemplares do Zaratustra que os soldados
levam na mochila dificilmente poderia ser um critério confiável
para medir a cultura de um povo. Antes a circunstância de
que se atribui aos soldados a leitura de mais exemplares do
Zaratustra do que de fato chegam a ser utilizados no campo
de batalha, e que isso é algo que aqueles que estão em casa
lendo seu Zaratustra e seu jornal querem ouvir.
É com razão que sempre se afirma nas reflexões sobre cul
tura e guerra que os utilitários são os outros. Essa concepção
provém do idealismo alemão, que também transfigurou os
gêneros alimentícios e os laxantes.
Posso provar que os alemães são mesmo o povo dos poe
tas e dos pensadores. Tenho um volume de papel higiênico,
publicado em Berlim, que em cada folha traz uma citação de
um clássico apropriada à situação.
Contra a acusação de que soldados alemães cortam pés
de crianças a golpes de machado, jornalistas alemães ape- \,
1am ao fato de esse povo ter produzido Lutero, Beethoven
e Kant. Mas em relação a isso, esse povo é pelo menos tão
178
DE NOITE
inocente quanto em relação às atrocidades que lhe são atri
buídas, e seria mais eficaz, contra tais acusações, apelar aos
espíritos que a Alemanha ainda quer produzir no futuro. Se
chegamos ao ponto de julgar que a pátria não exige de seus
gênios outros serviços que de seus lenhadores, e se aqueles,
por um acaso mortal, podem ser dispensados da oportuni
dade de lhe prestar outros serviços voluntariamente, então
por certo não surgirá mais gênio algum. As façanhas inte
lectuais de Lutero, Beethoven e Kant, apesar de tudo o que
a cultura alemã sabe a respeito e a ideologia alemã nelas
inclui, não têm qualquer ligação com um estado do qual
hoje, ao nível pessoal, talvez apenas se libertassem graças
ao ofício sacerdotal, à surdez e a uma deformação da colu
na vertebral.
O elmo prussiano é mais cultivado do que o cossaco; este,
porém, não vive tão longe de Dostoievski quanto aquele de
Goethe.
Os alemães também se denominam o povo de Schope
nhauer, enquanto Schopenhauerera tão modesto que não se
considerava o pensador dos alemães.
No que se refere às invenções da pólvora e da tinta de im
pressão, deveríamos admitir sobretudo a importância que
sua simultaneidade tem para a humanidade.
Como o mundo é governado e conduzido à guerra? Os
diplomatas mentem aos jornalistas e acreditam na mentira
quando a leem.
179
KARL KRAUS
Que confusão mitológica é essa, afinal? Desde quando
Marte é o deus do comércio e Mercúrio o deus da guerra?
Esta época sempre prefere uma informação certa a uma
morte heroica incerta. É por isso que o jornal, que fala a lín
gua da época como ninguém, noticiou o seguinte: "Morte
heroica iminente dos soldados alemães na China".
Compreendo que alguém sacrifique algodão por sua vida.
Mas o contrário?
Os povos que ainda adoram fetiches jamais descerão ao
ponto de supor que a mercadoria tenha uma alma.
Há lugares em que pelo menos se deixam os ideais em
paz quando a exportação corre perigo, onde se fala tão ho
nestamente dos negócios que eles não seriam chamados de
pátria e em que se renuncia por precaução a ter uma palavra
para ela. Nós, idealistas da exportação, chamamos tal povo
de "nação de negócios".
A reivindicação por um lugar ao sol é conhecida. Menos
conhecido é o fato de ele se pôr tão logo ela seja alcançada.
Não gosto das condições de vida no estrangeiro. Só fui
ao exterior com frequência para não desaprender a língua
alemã.
Que convocação de instrução! Editores têm a Cruz de
Ferro, soldados escrevem folhetins e generais são doutores.
180
DE NOITE
"Nesta guerra, o negócio é ... " - "Sem dúvida, esta guerra
é um negócio!"
Um poeta alemão chamou o barulho das metralhadoras
de "música das esferas" e um poeta austríaco observou como
"todos os caules estão em posição de sentido". Se os poetas
obedecem dessa forma, o cosmos e a natureza começarão a
se rebelar.
"Em função dos acontecimentos bélicos, precisamos,
para nosso pesar, restringir temporariamente o tamanho
de nossos números; contudo, assim que as condições nor
mais forem restabelecidas, nos empenharemos em compen
sar nossos assinantes com a publicação de números mais
volumosos." É o que promete a Ósterreichische Rundschau.
Como se vê, há circunstâncias que poderiam levar o mais
encarniçado pacifista a pensar de maneira menos preconcei
tuosa acerca do valor da guerra.
Vae victoribus!
O mal nunca prospera melhor do que quando há um ide
al à sua frente.
O herói é alguém que encara uma multidão. Na nova guer
ra, o primeiro a conquistar essa posição é o lançador de bom
bas aéreas, alguém que inclusive encara a multidão de cima.
Talvez a guerra traga uma única mudança, mas uma
mudança em razão da qual ela certamente não foi empre-
181
KARL KRIUS
endida: as vítimas da psicanálise voltarão sadias para casa.
Pois a guerra entende quase tão pouco de psicologia quanto
a psicanálise, mas, diante do método individualizante desta,
que na maioria dos casos se atém ao nada, a guerra pelo me
nos tem a vantagem de, na maioria dos casos, padronizar os
indivíduos, e assim, proporcionar ao nada a sua verdadeira
posição. É bom quando águas-vivas que nem sequer eram
instrumentos sejam elevadas a tal condição.
A quantidade diminui o lucro sob todos os aspectos. A
atração que os trajes exercem sobre as mulheres diminuiu,
e o que sobrou foi a desilusão erótica. Visto que às mulheres
agrada apenas aquilo que chama a atenção, o homem que
usa uma roupa civil voltou a ter hoje as melhores perspec
tivas, o que também vale para o trapalhão de quem se diz
ter se destacado por uma covardia especial diante do ini
migo; pois qualquer um pode ser herói. Ocorre exatamente
o mesmo que nos bailes de máscaras, em que cada pessoa
promete para si mesma causar a maior sensação; quando ele
termina, porém, ela reconhece que se quisesse ter chamado
a atenção deveria ter usado um fraque, pois o nariz postiço
era comum a todos.
Não obstante, aquele que retorna para casa não se dei
xará reintegrar facilmente na vida civil. Acredito, pelo con
trário, que ele invadirá o interior do país e só então dará
início à guerra. Ele arrebatará os êxitos que lhe foram nega-.k,
dos e a guerra terá sido uma brincadeira de crianças com- ...
parada à paz que então irromperá. Que Deus nos proteja da
ofensiva que então será iminente! Uma atividade medonha,
182
DE NOITE
não mais domada por comando algum, pegará em armas e
em prazeres em todas as situações da vida, e haverá mais
morte e mais doença no mundo do que a guerra alguma
vez lhe exigiu.
Tudo o que no passado era paradoxal agora é confirmado
pela grande época.
Na guerra, ou a mentira é uma embriaguez ou uma ciên
cia. Esta última é mais prejudicial ao organismo.
A língua alemã é a mais profunda; o discurso alemão, o
mais raso.
O francês ainda não se afastou tanto de sua superfície
quanto o alemão de sua profundidade.
A guerra só seria correta se apenas os não aptos fossem
enviados para o campo de batalha.
O chiste abraça a realidade e a loucura salta sobre o
mundo. Como ainda podemos inventar se atrás de cada ca
rantonha surge um rosto que lhe é igual inclusive na fala?
Como podemos exagerar se os fatos se transformam em ca
ricatura do exagero? A e B estão em conflito. Diz-se que A
praticou um ato ilegal. Porém, visto que por alguma razão
não se pode dizer isso em voz alta, o que se diz em voz alta
é o seguinte: "O senhor já sabe do ato ilegal que B cometeu
mais uma vez?". Quando se diz isso, não se pensa no fato de
B realmente poder tê-lo cometido. Também não se acredi-
183
KARL KRAUS
ta que A, consciente de seu próprio delito, alguma vez pu
desse censurá-lo a B, caso este também o tivesse cometido.
Não se acredita nisso, pelo menos nesse caso especialmente
crítico. Apenas a experiência geral de que algo semelhante
por certo já aconteceu, de que se imputou a B aquilo que so
mente A cometeu, justifica a jocosa confusão: "Imagine só
o senhor do que B não é capaz!". No dia seguinte, publica
-se um protesto de A contra o procedimento de B. Este teria
cometido exatamente aquele ato ilegal, o pior numa série
de crimes semelhantes. Desse modo, o próprio A assume
o método parodístico com o qual se atribui a B os pecados
de A porque não se tem outra saída. Resta assim apenas a
explicação de que ele sentiu remorsos e, na esperança de
ser corretamente compreendido, confessou sua falta sob
a forma de uma imputação a B. Caso B realmente tivesse
cometido essa falta, A pelo menos deveria perceber a jus
ta compensação e silenciar. O que constitui a comicidade
do caso não é a indignação contra aquilo que também se
fez, ou que se fez apenas sozinho, mas a exatidão com que
A aproveita a distorção intencional empregada pela pessoa
cautelosa que precisa dizer B quando se refere à A. Por con
seguinte, não se evita apenas dizer a verdade; também se é
cauteloso com a mentira, pois ela também é vã e serve no
máximo para motivo de farsa.
A diplomacia é um jogo de xadrez em que os povos são
colocados em xeque. ~ •.
,:,!'
A guerra seria uma punição razoável se não fosse a con
tinuação do delito.
184
DE NOITE
La bourse est la vie.
Se alguém tivesse dito ao Diabo, para quem a guerra des
de sempre foi uma pura paixão, que alguma vez haveria ho
mens com um interesse comercial na continuação da guerra,
que eles nem sequer se dariam ao trabalho de ocultá-lo e
que seus lucros ainda lhes proporcionariam reconhecimento
social, ele o mandaria contar essa história a outro. Porém,
quando tivesse se convencido do fato, o Inferno enrubesce-
, ria de vergonha e ele teria de reconhecer que durante toda a
sua vida foi um pobre diabo!
185
6
De noite
Preciso estar outra vez entre seres humanos. Pois neste
verão, em meio às abelhas e aos dentes-de-leão, minha mi
santropia degenerou gravemente.
Na maioria dos seres humanos não avanço até a alma, mas
sou assaltado por dúvidas já nas entranhas. Pois não pos
so acreditarque esse magnífico mecanismo foi criado para
compor um grande comerciante, e apenas por meio da au
tópsia me deixo convencer de que um agiota tem um baço.
Muitas vezes arranho minha mão com a pena e só então
sei que vivi aquilo que se encontra escrito.
Pediram-me muitas vezes para ser justo e observar uma
coisa de todos os lados. E fiz isso, na esperança de que uma
coisa talvez pudesse se tornar melhor se eu a observasse de
todos os lados. Mas cheguei ao mesmo resultado. De manei
ra que continuei a observar uma coisa apenas de um lado,
poupando muito trabalho e desilusão. Pois é consolador
considerar que uma coisa é ruim e, ao fazê-lo, poder sedes
culpar apelando a um preconceito.
187
KARL KRAUS
No caminho pelo qual chegamos a nós mesmos também
encontramos uma inoportuna fileira de curiosos que gosta
riam de saber como são as coisas por lá.
Woodie, um cãozinho de pelo longo que conheci pesso
almente - ele ria quando as pessoas conversavam com ele
e chorava porque não podia conversar com elas, e seu olhar
era em si e para elas a gratidão da criatura - , foi morto por
um automóvel. Quem teria tanta pressa? Deveria o pouqui
nho de espaço entre os corpos humanos que um passante
desses exigia - ele podia se encolher como uma cobra -
ser melhor empregado? Os dignos pagam para que os outros
continuem vivendo indignamente. E para quê, afinal, já que
esse exemplo não melhora os ruins? Ele seguia seu caminho
e morreu por isso. Quando a mulher se voltou, ele jazia ao
sol. Quando a vida não tem palavras, resta tanto silêncio.
Conheci um cão que era tão grande quanto uma pes
soa, tão ingênuo quanto uma criança e tão sábio quanto um
ancião. O tempo que parecia ter era tanto que não caberia
numa vida humana. Quando ele tomava sol e observava al
guém enquanto isso, era como se quisesse dizer: "Por que
vocês têm tanta pressa?". E ele certamente o diria; bastaria
que se esperasse.
O dono não suporta tão dignamente a dignidade quanto
o cavalo suporta o ultraje.
O incompreensível na arte da palavra - nas outras ar
tes também não compreendo o compreensível - não deve
188
DE NOITE
tocar o sentido exterior. Este deve ser mais claro do que
aquilo que fulano e sicrano têm a dizer um ao outro. O mis
terioso se encontra atrás da clareza. A arte é algo tão claro
que ninguém compreende. Qualquer alemão entende que
sobre todos os cimos há paz3; todavia, não há um que já
tenha apreendido isso.
Eis algo que não consigo superar: que uma linha inteira
possa ter sido escrita por um meio homem. Que uma obra
fosse construída sobre a areia movediça de um caráter.
O defeito que consiste no fato de o gênio provir de uma
família apenas pode ser reparado por ele ao não formar
nenhuma.
Os filhos das pessoas andam por aí como gracejos que
não foram reprimidos. Eles são os chistes estéreis dos esté
reis, incômodos para os genitores.
Eros tem sorte no amor. O desperdício lhe proporciona
crescimento; a ofensa, honra. Magoe-o, e isso lhe será um
prazer; difame-o, e isso lhe será útil. Podes lhe fazer de tudo,
só não dizer tua opinião na sua cara. Ele não é queixoso,
mas também não é ávido de saber. Ele só é curioso, e quer
descobrir as coisas por conta própria. Ainda que saibas tudo
melhor do que ele, saiba disso: ele toma parte de tudo no
mundo, só não toma parte no tédio. O que dele escondes, ele
partilhará contigo; mas ele desdenha tua ciência.
3 De um poema de Goethe. (N.T.)
189
KARLKRAUS
O palavrório é conduzido por milhares de tubos à
consciência popular. Um soldado ferido, que certamente
jamais lera um livro ou mesmo um jornal, não obstante
se apropriou do tom com que uma consciência tranquila
se despede. "Agora posso morrer em paz", disse ele, "hoje
matei catorze!"
Não, a alma não fica com cicatrizes. A bala entrará por
um ouvido da humanidade e sairá pelo outro.
Uma vez que ornamentos e flores de retórica são osten
tados com o maior gosto por uma época a cuja essência re
pugna o sentido perdido dessas formas - e com gosto tanto
maior quanto mais essa época tiver ultrapassado tal sentido,
sem que ela seja, no entanto, capaz de criar novos ornamen
tos e novas flores de retórica que correspondam ao seu pró
prio conteúdo -, um Estado ainda "lançará mão da espada"
quando há muito já será comum lançar mão do gás. Pode
mos imaginar que semelhante decisão algum dia se trans
forme numa frase feita? Deveria ser esclarecedor acerca da
técnica o fato de ela não ser capaz de criar novos chavões,
mas de deixar o espírito da humanidade no estado de não
poder prescindir dos antigos. O mal do mundo vive e cresce
nessa duplicidade de uma vida transformada e de uma for
ma de vida que se arrasta consigo. A época não cria chavões,
mas está cheia deles; e justamente por isso, por um conflito
incurável consigo mesma, precisa lançar mão da espada re-
-~-.
petidamente. Os novos acontecimentos não produzirão ne::
nhuma frase feita, mas as velhas frases feitas produzirão os
acontecimentos!
191
DE NOITE
"Conquistar o mercado mundial": porque os comercian
tes falam assim, os soldados tiveram de agir assim. Desde
então se conquista, ainda que não seja o mercado mundial.
A exigência, feita pelos inimigos, de que a artilharia alemã
se renda é uma insanidade. Apenas seria lógica a exigência de
que a visão de mundo alemã se rendesse, e isso é irrealizável.
O clero e a guerra: a casaca do amor ao próximo também
pode ser virada.
O que há de surpreendente na situação atual é que a men
tira, com suas pernas curtas, seja forçada a correr pelo mun
do - e que o consiga.
De início, a guerra é a esperança de que as coisas andem
melhores para si mesmo; depois, a expectativa de que as coi
sas andem mal para o outro; então, o contentamento com
o fato de as coisas também não andarem melhores para o
outro, e, por fim, a surpresa com o fato de as coisas irem mal
para ambos.
A superioridade de fogo é uma vantagem se por meio dela
se devem proteger bens culturais ainda mais importantes
do que ela. Porém, visto que a superioridade de fogo exclui
a existência de bens culturais mais importantes, não resta
nada para explicar a vantagem da superioridade de fogo se
não a consideração de que a superioridade de fogo serve para
proteger a superioridade de fogo.
191
KARL KRAUS
Para acertar com mais precisão numa estação ferroviária,
eles deveriam fazer mira num Tiepolo.
Negócio é negócio: porque uns disseram isso, outros dis
seram que eles são negociantes. Aqueles, porém, queriam
dizer que negócio é negócio, e não que negócio também é
vida e religião.
A situação em que vivemos é o verdadeiro fim do mundo:
a situação estável.
192
Glossário alfabético de nomes,
lugares e expressões estrangeiras
Alcibíades: personagem do diálogo platônico O banque
te. Neste diálogo, cujo tema é o amor, Alcibíades se lamenta
por ter sido rejeitado por Sócrates, ao mesmo tempo em que
exalta a sua virtude.
Anaxágoras (c.499-428 a.C.): filósofo pré-socrático. Ao
contrário de seus predecessores, que supuseram a existên
cia de um único princípio imutável e material para todas as
coisas transitórias, Anaxágoras concluiu que havia um nú
mero infinito de elementos que, diversamente combinados,
dariam origem às coisas visíveis. Tais elementos, original
mente misturados no caos primitivo, teriam sido ordenados
pelo espírito (inteligência, mente - nous).
Áugias: rei mitológico, dono de um · imenso rebanho,
cujos estábulos, nos quais o esterco se acumulava há déca
das, Hércules limpou num só dia desviando para dentro de
les o curso de dois rios.
Basedow, doença de: doença da glândula tireóide entre
cujos sintomas se encontram os olhos esbugalhados.
193
Boa constrictor: nome científico da jiboia.
Bobeche, Kasimir e Kantschukoff: personagens, respec
tivamente, das operetas O barba-azul, de Jacques Offenbach
(1819-1880), A princesa de Trebisonda, também de Offenba
ch, e Fatinitza, de Franz von Suppé(1819-1895).
Bõrne, Ludwig (1786-1837): escritor e crítico alemão.
Publicou contos, ensaios e aforismos. Sua principal obra
são as Cartas de Paris, cuja base é a correspondência com a
amante Jeanette Wohl.
Danaide: cada uma das cinquenta filhas do mitológico
rei Dânaos, que, instigadas pelo pai, assassinaram seus ma
ridos na noite de núpcias e por isso foram condenadas a en
cher eternamente um tonel furado nos Infernos.
Dreimiiderlhaus (A casa das três donzelas): opereta de
Heinrich Berté (1857-1924), composta a partir de canções de
Franz Schubert (1797-1828). De gosto duvidoso, alcançou
imenso sucesso popular.
Emerson, Ralph Waldo (1803-1882): ensaísta, poeta e
filósofo norte-americano. Um dos principais representan
tes do transcendentalismo, movimento que incorporou
não só aspectos da filosofia de Immanuel Kant, mas tam
bém do platonismo e do neoplatonismo, e que defendia,
por um lado, a superioridade do espírito e, por outro, ·ia
necessidade de uma origem imediatamente evidente das
verdades religiosas.
194
Esculápio: deus da medicina na mitologia greco-romana,
também chamado de Asclépio, cujo símbolo é uma serpente
enrolada num bastão.
Frineia: cortesã grega, célebre por sua beleza.
Glaucope: "a de olhos claros". Epíteto da deusa grega da
sabedoria, Palas Atena.
Habsburgos: dinastia que ocupou o trono da Áustria do
século XIII até o final da Primeira Guerra Mundial.
Iswolski, Alexander (1856-1919): político russo. Embai
xador em Paris entre 1910 e 1917.
Itzig: prenome judeu muito comum, variante de Isaak
(Isaque) e, como tal, designação pejorativa para judeu.
Janosch: germanização do prenome húngaro János
(João).
Jean Paul: pseudônimo de Johann Paul Friedrich Richter
(1763-1825), prolífico escritor do romantismo alemão. Entre
seus principais romances se encontram Siebenkas e Titã.
Kleist, Heinrich von (1777-1811): escritor alemão, autor
de peças teatrais e contos. Dentre as peças, destaca-se a co
média A bilha quebrada; entre os contos, Michael Kohlhaas,
O duelo e A marquesa de O. Seu fim foi trágico: na compa
nhia de Henriette Vogel, suicidou-se às margens do Wann
see, em Berlim.
195
Kokoschka, Oskar (1886-1980): pintor e escritor austrí
aco, um dos maiores representantes do expressionismo.
La bourse est la vie: A bolsa é a vida. Em francês no
original.
Lenau, Nikolaus (1802-1850): poeta de expressão ale
mã nascido na Hungria. Seus Poemas o fizeram conhecido;
deixou também um Fausto e o fragmento de um Don Juan.
Sofreu um derrame em 1844, seguido de graves perturba
ções psíquicas. No mesmo ano, cometeu várias tentativas
de suicídio; morreu num sanatório nas proximidades de
Viena.
Lichtenberg, Georg Christoph (1742-1799): físico
alemão. De 1764 até a sua morte registrou seus pensa
mentos sobre os mais variados assuntos nos chamados
Sudelbücher ("cadernos de rascunhos"). Extratos desses
cadernos, publicados postumamente e contendo sobretudo
sentenças e aforismos filosóficos, tiveram grande influên
cia sobre Schopenhauer, Nietzsche, Kierkegaard e, natural
mente, Kraus.
Loos, Adolf (1870-1933): arquiteto vienense. Após via
gem pelos Estados Unidos, pass~u a atacar a ornamentação
na arquitetura e a defender a simplicidade funcional em uma
série de artigos e no livro Ornamento e crime.
Mésalliance: casamento inadequado, especialmente
quando um dos cônjuges é de condição social inferior.
19&
Messina: cidade italiana devastada por terremotos em
1908 e 1912 que destruíram 90% de seus edifícios e causa
ram a morte de 84 mil pessoas.
Nestroy, Johann (1801-1862): ator e dramaturgo austrí
aco. Suas farsas lhe trouxeram grande reconhecimento do
público vienense.
Oderint, dum metuant: Odeiem-me, contanto que me
temam. Conforme Suetônio, essa expressão, embora mais
antiga, era o lema do imperador romano Calígula.
Pégaso: cavalo alado da mitologia grega, símbolo da
poesia.
Phallus ex machina: um falo (que desce) por uma má
quina. Paródia da expressão deus ex machina, "um deus (que
desce) por uma máquina", expediente empregado na tragé
dia grega para resolver situações desesperadas: por meio de
um sistema de roldanas, um deus descia à cena e dava uma
solução externa aos acontecimentos.
Pirro: na batalha em que derrotou os romanos na cidade
de Ásculo, em 279 a.C., o rei Pirro de Épiro perdeu pratica
mente todo o seu exército. Daí o sentido da expressão "vitó
ria de Pirro": uma vitória que mais parece uma derrota.
Prater: do italiano prato, "prado". Grande parque vienen
se. Originalmente de uso exclusivo da nobreza, foi aberto à
visitação pública em 1767 sob a influência do chamado abso
lutismo esclarecido do imperador Josef II (1741-1790). No sé-
197
culo XIX, foi dotado de parque de diversões e, no século XX,
de instalações esportivas. É um dos mais famosos parques
da Europa, de larga menção na obra de Arthur Schnitzler e
de outros escritores austríacos.
Procusto: na mitologia grega, bandido que amarrava
suas vítimas a um leito e as esticava ou mutilava conforme
fossem menores ou maiores que esse leito.
Quodlibet: peça musical de caráter humorístico que com
bina várias melodias sucessiva ou simultaneamente.
Quousque tandem, Cato, abutere patientia nostra!: Até
quando, Catão, abusarás de nossa paciência! Paródia de Cí
cero, que, nos discursos que ficaram conhecidos como Ca
tilinárias, empregava essa exclamação referindo-se ao cons
pirador Catilina. Catão (Marcos Pórcio Cato, 234-149 a.C.):
político e censor romano que se tornou célebre por seu rigor,
severidade e austeridade.
Ringstrasse: rua que contorna a parte antiga de Viena.
Literalmente, "rua circular".
Schõnpflug, Friedrich (1873-1951): caricaturista e pin
tor vienense.
Shaw, Bernard (1856-1950): dramaturgo e crítico teatral
irlandês. Autor de peças de sucesso, como Pigmalião (1913)
e Santa Joana (1923). A irreverência com que tratou Shakes
peare em suas críticas provocou escândalo.
198
\.• ,
Taígeto: montanha da Grécia onde as crianças que nas
ciam defeituosas eram abandonadas para morrer.
Tântalo: rei mitológico que ludibriou a morte várias ve
zes e, como punição, foi condenado a padecer eternamente
de sede amarrado no meio de um lago nos Infernos. Daí o
suplício que leva seu nome.
Tat twam asi: "Isto és tu", fórmula do bramanismo que
significa que o universo e a alma individual são uma coisa
só, que são feitas da mesma substância.
Tiepolo: família de pintores italianos do séc. XVIII. Des
tacam-se Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770) e seu filho
Giovanni Domenico Tiepolo (1727-1804).
Unter den Linden: em português, "Debaixo das tílias".
Poético nome de uma rua do centro de Berlim.
Vae victoribus!: Ai dos vencedores! Paródia do dito atri
buído ao rei gaulês Breno após derrotar os romanos em 387
a.C.: Vae victis!, "Ai dos vencidos!".
Vanessa io, Vanessa cardui: nomes científicos de duas
espécies de borboleta, a pavão-real-diurno e a borboleta
dos-cardos.
Vanitas vanitatum!: das primeiras palavras do livro do
Eclesiastes: "Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade".
199
Wallenstein: trilogia teatral (O acampamento de Wal
lenstein, Os Piccolomini e A morte de Wallenstein) de Frie
drich Schiller (1759-1805), escrita entre os anos de 1797 e
1799. A menção de Kraus ao cheiro de maçãs podres, que
teria inspirado essas e outras peças, é uma referência a um
hábito de Schiller: o poeta deixava maçãs passadas do ponto
(não exatamente podres, portanto, como a.firma Kraus mal
dosamente ... ) na gaveta de sua escrivaninha porque o seu
cheiro o inspirava.
Xantipa: a mulher de Sócrates. Conta-se que era intratá
vel; em alemão, seu nome é sinônimo de megera.
ZDI
Índice onomástico
Acampamento de Wallenstein,
O (Schiller), 200
Afinidades eletivas, As (Goethe),
125
Afrodite, 32
Alcibíades ( O banquete,
Platão), 25, 193
Alemanha, 14,81, 139, 179
Amenófis, 125
Anaxágoras, 125, 193
Andrômeda, 126
Aristófanes, 7
Asclépio,195
Ásculo, 197
Asthetische Fragmente (Walter
Benjamin), 11
Augias, 115, 193
Austrália, 175
Áustria, 56, 81, 89, 139-40, 175,
195
Baco,91
Baden,84
Barba-azul, O (Jacques
Offenbach), 194
Basedow, doença de, 54, 193
Beethoven, 67, 178-9
Benjamin, Walter, 11
Benn, Gottfried, 14
Berlim, 140, 178, 195, 199
Berté, Heinrich, 194
Bilha quebrada, A (Heinrich
von Kleist), 195
Bismarck, 164
Bobeche (O barba-azul,
Zll
Jacques Offenbach), 55, 194
Boêmia, 7
Bõrne, Ludwig, 118, 194
Breno, 199
Calígula, 197
Canetti, Elias, 7, 11
Cartas de Paris (Ludwig
Bõrne), 194
Cassiopeia, 126
Catão, 34, 198
·.,·m
... \ ;1tt;~1,
Catilina, 198 Eclesiastes, 199 Heidegger, Martin, 14 Kraus, Karl, 7-15, 170,196,200
Catilinárias (Cícero), 198 Emerson, Ralph Waldo, 86, 194 Heine, Heinrich, 73, 134, 166
Cáucaso, 44 Engadina, 145 Hércules, 115 Lenau, Nikolaus, 121, 196
Cefeu, 126 Épiro, 197 Hitler, 13-4 Leporello (Don Giovanni,
China, 180 Eros, 24, 157, 189 Hüben und Drüben (Karl Mozart), 145
Cícero, 198 Eros und Themis (Karl Kraus), 9 Kraus), 7 Lichtenberg, Georg Christoph,
Cláudio (Hamlet, Shakespeare), Esculápio, 89, 195 Hungria, 87, 196 75,196
22 Estados Unidos, 196 Loos, Adolf, 135, 169, 196
Consciência das palavras, A Etna,64 Iswolski, Alexander, 89, 195 Lutero, 178-9
(Elias Canetti), 11 Itália, 56 Luxemburgo, 57
Corfu, 73 Fatinitza (Franz von Suppé),
Crítica da razão pura (Kant), 194 Jean Paul (Johann Paul Margarida, 32
56 Fausto (Goethe), 14 Friedrich Richter), 75, 133, Marquesa de O, A (Heinrich
Fausto (Nikolaus Lenau), 196 144,171, 195 von Kleist), 195
Danaide, 24, 194 Fleischmann, Trude, 8 Jeová, 112 Marselhesa, 118
Dânaos, 194 França, 56 Jicin, 7 Marte, 180
Die Fackel, 7, 9, 11-4, 112, 123, Freud, Sigmund, 171 Josef II, 197 Melk, 45
140 Frineia, 38, 195 Júpiter, 44 Mercúrio, 180
Die Fackel im 0hr (Elias Juvenal, 7 Messina, 112, 197
Canetti), 11 Gêngis Khan, 86 Michael Kohlhaas (Heinrich
Die letzten Tage der Menschheit Glaucope, 143, 195 Kann, Helene, 17 von Kleist), 195
(Karl Kraus), 13 Goethe, 118,169,179,189 Kant, 178-9, 194 Moisés, 73
Don Juan, 46, 145 Gogol, Nikolai, 7 Kantschukoff (Fatinitza, Franz Morte de Wallenstein, A
Don Juan (Nikolaus Lenau), 196 Gray, Dori (alusão a O retrato de von Suppé), 55, 194 (Schiller), 200
Dostoievski, 179 Dorian Gray, Oscar Wilde), Karl Kraus, escola da resistência
Dreimiiderlhaus (Heinrich 86 (Elias Canetti), 11 Nachts (Karl Kraus), 11-2
Berté), 175, 194 Grécia, 38, 199 Karntnerstrasse, 142 Napoleão, 159
Dritte Walpurgisnacht (Karl Grinzing, 67 Kasimir (A princesa de Nápoles, 107
Kraus), 13-4 Trebisonda, Jacques Narciso, 64
Duelo, O (Heinrich von Habsburgos,84, 195 ,.;I:_: Offenbach), 55, 194 Natã, o sábio (Gotthold
Kleist), 195 Hamburgo, 82 Kierkegaard, 196 Ephraim Lessing), 125
Hamlet (Shakespeare), 21-2 Kleist, Heinrich von, 121, 195 Nero, 86
Echternach, 57-8 Helena, 159 Kokoschka, Oskar, 135, 196 Nestroy, Johann, 133, 197
202 213
Neue Presse, 175
Newton, Isaac, 85
Nietzsche, 10, 161, 166-7, 196
Nona S~nfonia (Beethoven), 66
Oberon (Sonho de uma noite
de verão, Shakespeare), 22
Ornamento e crime (Adolf
Loos), 196
ôsterreichische Rundschau,
181
Palas Atena, 195
Paris, 145, 195
Pégaso, 144,197
Pérsia, 56
Piccolomini, Os (Schiller), 200
Pigmalião (Bernard Shaw), 198
Pirro, 147, 197
Poemas (Nikolaus Lenau), 196
Prater, 39, 197
Princesa de Trebisonda, A
(Jacques Offenbach), 194
Procusto, 198
Pro domo et mundo (Karl
Kraus), 10
Prometeu, 44
Prússia, 81
Quevedo, Francisco de, 7
Roma, 85-6
Rômulo e Remo, 85-6
Santa Joana (Bernard Shaw), 198
São Willibrord, 58
Schiller, Friedrich, 67, 200
Schnitzler, Arthur, 198
Schõnpflug, Friedrich, 142, 198
Schopenhauer, Arthur, 179, 196
Schubert, Franz, 194
Shakespeare, 21-2, 59, 170, 198
Shaw,Bernard, 170, 198
Siebenkiis (Jean Paul), 195g
Sinfonia Pastoral (Beethoven),
67
Sittlichkeit und Kriminalitiit
(Karl Kraus), 9
Sócrates, 193, 200
Sodoma, 106
Sorrento, 46
Sprüche und Widersprüche
(Karl Kraus), 9
St. Moritz, 141
Sudelbücher (Georg Christoph
Lichtenberg), 196
Suetônio, 197
Swift, Jonathan, 7
Taígeto, 126, 199
Tântalo, 39, 199
Tiepolo, Giovanni Battista
Reitler, Elisabeth, 155 e seu filho Giovanni
Ringstrasse, lll, 139, 142, 198 Domenico, 192, 199
Titã (Jean Paul), 195
Titânia (Sonho de uma noite de
verão, Shakespeare), 22
Unter den Linden, 139, 199
Vesúvio, 64
Viena, 7, ll, 82-4, ll2, 139-40,
175,196,198
Vogel, Henriette, 195
Wallenstein (Schiller), 67, 200
Wannsee, 195
Weidlingau, 98-9
Wohl, Jeanette, 194
Wotan, 112
Xantipa, 25, 200
Zaratustra (Assim falou
Zaratustra, Nietzsche), 178
Zur Genealogie der Moral
(Nietzsche), 10
204 2115
"O aforismo jamais coincide com a verdade; ou
é uma meia verdade ou uma verdade e meia': escreveu
Karl Kraus (1874-1936) a respeito do gênero em que se
tornou um mestre. Personagem singular do debate
intelectual europeu do começo do século XX, Kraus
encontrou na brevidade e na condensação extrema dos
aforismos a forma ideal de espetar seus adversários -
notadamente jornalistas, políticos e figuras prestigiadas
do meio cultural vienense. Exprimindo o que à primeira
vista pode parecer uma generalização abusiva, o aforismo
desestabiliza as certezas cotidianas cristalizadas em frases
feitas e, à luz de seu brilho repentino, desvenda aspectos
da realidade até então ignorados. Neste volume,
apresenta-se uma poderosa mostra de como podem
ser cortantes esses pequenos textos - e de como Kram ·
manejando a sátira, feriu seus inimigos com grande
concisão. Como ele mesmo dizia: "Há escritores que
já conseguem dizer em vinte páginas aquilo para o
que às vezes preciso de até duas linhas:'
Seleção e tradução de Renato Zwick
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