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Karl Kraus - Aforismos

Seleção de aforismos de Karl Kraus traduzida e organizada por Renato Zwick. Reúne seções temáticas (Ditos e contraditos; Pro domo et mundo; De noite), além de notas, glossário e índice onomástico.

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KRA 
AFORISMOS 
11 
KARLKRAUS 
AFORISMOS 
Seleção, tradução, glossário e apresentação 
Renato Zwick 
a 
Porto Alegre - 2010 
/ 
·- u· 
Título alemão: Aphorismen: Sprüche und Widersprüche; Pro domo et 
mundo; Nachts. 
Tradução baseada na edição digital das obras de Karl Kraus organi­
zada por Christian Wagenknecht (Schriften, Digitale Bibliothek Band 
156, Berlim, Directmedia, 2007}. 
2• reimpressão ------------··--
Capa 
Humberto Nunes 
Índice onomástico 
Rodrigo Breunig 
Revisão 
Eduardo Wolf 
Pedro Gonzaga 
f ,- ... 
ft ·- .­
Da~: 
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
K9la Kraus, Karl, 1874-1936 
Aforismos / Karl Kraus; trad. e org. Renato Zwick. - Porto 
Alegre: Arquipélago Editorial, 2010. 
208p.; 14 x 2 1 cm. 
Inclui notas, glossário e índice. 
ISBN 978-85-60171-14-9 
1. Literatura austríaca - aforismos. 2. Literatura austríaca -
pensamentos.!. Zwick, Renato, org. li. Título. 
CDU 821.112.2(436)-84 
(Bibliotecária responsável: Paula Pêgas de Lima - CRB 10/1229) 
Todos os direitos desta edição reservados a 
ARQUIPÉLAGO EDITORIAL LTDA. 
Avenida Getúlio Vargas, 901/506 
CEP 90150-003 
Porto Alegre - RS 
Telefone 51 3012-6975 
www.arquipelagoeditorial.com.br 
hete1tura Murucipa! ce i'ono Mgtc 
Secr•·.tar: .. ~{.~~,~1Jc!:•.1: '- .~ Cultura 
8iblioteca Pública Municipal 
Josué Guimarães 
Sumário 
Apresentação ............................................................................ 7 
Ditos e contraditos .... .... . .. ........ ....... .. ... ............. ........ ....... .. .. 17 
1. A mulher, a imaginação ................ ................ .............. 19 
2. A moral, o cristianismo ........................................ ....... 31 
3. O homem e o seu próximo ......................................... 41 
4. Imprensa, estupidez, política ...................................... 51 
5. O artista ......................................................................... 63 
6. Escrever e ler ..... ...... ............ .......... ... ... ......... ................. 69 
7. Países e pessoas .. .. . .. . ... . .. . . . . .. . .. . . .. . . . . . . .. . .. . .. . .. . . . .. . . . . . . .. . . . . 81 
8. Humores, sentenças ..................................................... 85 
9. Ditos e contraditos ....................................................... 91 
Pro domo et mundo ...... .... ...... .... ........................ ... ... ......... 1 O 1 
1. Da mulher, da moral ............................. ... ... ... .... ... ..... 103 
2. Da sociedade ............................................................... 109 
3. Dos jornalistas, estetas, políticos, psicólogos, 
imbecis e eruditos .. ................... .......... .. ... .... ... ... ........ 117 
4. Do artista ..................................................................... 129 
5. De duas cidades .......................................................... 139 
6. Acasos, lampejos ........................................................ 143 
7. Pro domo et mundo ................................................... 147 
De noite ................................................................................ 155 
1. Eros .............................................................................. 157 
2. A arte ........................................................................... 163 
3. A época ........................................................................ 169 
4. Viena ............................................................................ 175 
5. 1915 ·············································································· 177 
6. De noite ....................................................................... 187 
Glossário .............................................................................. 193 
índice onomástico ... ... ... ...... ..... .......... ... ... . ... ... ................. .. 201 
Apresentação 
Para fazer uma excelente sátira, basta 
dizer a maior parte das coisas como elas são. 
Karl Kraus, Hüben und Drüben 
(Do lado de cá e do lado de lá) 
Karl Kraus não foi apenas o maior autor satírico de lín­
gua alemã do século XX, mas chegou a ser considerado um 
dos maiores satiristas de todos os tempos, digno de figurar 
- no entender de outro grande escritor, Elias Canetti - ao 
lado dos nomes de Aristófanes, Juvenal, Quevedo, Swift e 
Gogol. Sua obra é vasta e multifacetada: milhares de páginas 
de ensaios, aforismos, poemas, peças teatrais e adaptações, 
cujas primeiras versões foram em boa medida publicadas no 
jornal Die Fackel (A tocha), que o escritor fundou em 1899 e 
passou a redigir sozinho a partir de 1911 até poucos meses 
antes de sua morte, em 1936. 
Kraus nasceu na cidade de Jicin, na Boêmia, em 1874; 
três anos depois, a família, cujo pai fizera fortuna no ramo 
da fabricação de papel, mudou-se para Viena, onde Kraus 
passaria toda a sua vida. De início, estudou.direito e, a partir 
de 1894, contrariando a vontade paterna, filosofia. Entre 
1892 e 1899 escreveu artigos para vários jornais, apartando­
se bruscamente do meio literário e jornalístico de que fazia 
parte para fundar seu próprio jornal. Sobre esse momento, 
Kraus diria anos depois num aforismo: "Logo se completarão 
Karl Kraus retratado por Trude Fleischmann, em 1928. 
[ACERVO DO WIEN M USEUM] 
8 
dez anos que não recobro mais a consciência. A última vez 
que a recobrei, fundei um jornal polêmico". 
A primeira obra de Kraus publicada em forma de livro foi 
a coletânea de ensaios Sittlichkeit und Kriminalitiit (Morali­
dade e criminalidade), de 1908, em que denunciava sobretu­
do os abusos cometidos pelo Estado nos processos envolven­
do os chamados crimes sexuais, como adultério, pederastia 
e proxenetismo. Num dos ensaios do livro, Eros und Themis 
(Eros e Têmis), o autor afirma, por exemplo, que em tais pro­
cessos se liam cartas de amor em audiência secreta - tão 
secreta que os cães de caça da opinião pública conseguiam 
abocanhar os nacos mais picantes ... Essa denúncia receberia 
expressão aforística numa obra posterior: "O escândalo co­
meça quando a polícia lhe dá um fim". 
O autor não considerava essa coletânea de ensaios uma 
mera reprodução de textos já publicados em Die Fackel, mas 
uma obra completamente nova, pois, segundo ele, os ensaios 
em que estava baseada foram inteiramente reelaborados 
quase linha por linha, procurando conservar aquilo que, na 
condição de valor duradouro, pôde ser salvo das garras dos 
interesses do dia. Nesse processo de "eternizar o dia", o pole­
mista se contrapunha de maneira evidente ao jornalismo de 
sua época, que, no seu entender, "jornalizava a eternidade". 
Esse processo é ainda mais evidente em sua obra seguin­
te, Sprüche und Widersprüche (Ditos e contraditos, de 1909; 
literalmente: Ditos e contradições), a primeira das três co­
letâneas de aforismos que publicou. Se nos ensaios ainda 
havia referências claras a fatos e pessoas, nos aforismos a 
mordacidade de Kraus se volta em especial contra estados 
de coisas - a vida em sociedade, a situação da cultura, a 
petrificação da língua sob a forma de chavões - e contra 
9 
tipos: o jornalista, o político, o esteta, o folhetinista, o cai­
xeiro, o filisteu e outros mais; raros são os nomes e raros são 
os fatos do dia. 
É essa condensação extrema que confere ao aforismo as 
arestas cortantes que inevitavelmente ferem o leitor. Expri­
mindo o que à primeira vista muitas vezes parece ser uma 
generalização abusiva, o aforismo requer reflexão; ele deses­
tabiliza as certezas cotidianas cristalizadas em frases feitas 
e, à luz de seu brilho repentino, apresenta aspectos da rea­
lidade até então ignorados. Talvez também valha aqui uma 
ideia de outro mestre do gênero, Nietzsche, que afirmou no 
prefácio de Zur Genealogie der Moral (A genealogia da mo­
ral): "Um aforismo, devidamente cunhado e moldado, ainda 
não foi 'decifrado' pelo fato de ser lido; ao contrário, é só 
então que deve começar a sua interpretação, para a qual umaarte da interpretação se faz necessária". 
Parece ser precisamente isso que Kraus expressa numa 
sentença de sua segunda coletânea aforística, Pro domo et 
mundo ("Em defesa dos meus interesses e dos interesses do 
mundo"), de 1912: "O aforismo requer o fôlego mais longo". 
E não só o fôlego do autor para redigi-lo, mas também o 
do leitor para lê-lo - e interpretá-lo ... Daí também a exi­
gência, ainda da primeira coletânea: "Meus trabalhos devem 
ser lidos duas vezes para serem bem compreendidos. Mas 
tampouco me oponho a que sejam lidos três vezes. Prefiro, 
porém, que não sejam lidos do que o sejam apenas uma vez. 
Não pretendo me responsabilizar pelas congestões de um 
imbecil que não tem tempo." 
No intervalo entre essas duas coletâneas de aforismos, 
em 1910, Kraus inaugurou uma terceira frente de batalha na 
luta contra o seu tempo: além de redigir um jornal e publicar 
10 
livros, começou a fazer leituras públicas de seus textos. No 
segundo volume de sua autobiografia, Die Fackel im 0hr (A 
tocha no ouvido, publicado no Brasil como Uma luz em meu 
ouvido), Elias Canetti nos dá um vivo retrato dessas confe­
rências. Em 1924, quando pela primeira vez assistiu a uma 
delas, o satirista já tinha um público cativo que o idolatrava 
com veneração incondicional; mais do que tudo, chamou ini­
cialmente a atenção de Canetti o comportamento de massa 
desse público, sua reação uniforme aos ditos e vereditos que 
emanavam de uma instância que parecia "pressupor uma lei 
intocável, estabelecida e absolutamente segura", para citar as 
palavras de outro texto de Canetti (o ensaio Karl Kraus, es­
cola da resistência, incluído na coletânea A consciência das 
palavras). Aliás, esse aspecto jurídico, por assim dizer, tam­
bém foi observado com precisão por Walter Benjamin em 
seus Asthetische Fragmente (Fragmentos estéticos): "Nada se 
compreende desse homem enquanto não se reconhece que 
tudo, necessária e absolutamente tudo - a língua e as coi­
sas - se passa para ele na esfera do direito". Ou ainda: "Em 
torno dele, os processos ·se acumulam. Não aqueles que ele 
precisa conduzir nos tribunais de Viena, mas sim aqueles 
cujo tribunal é Die Fackel." 
No entanto, a despeito da agressividade, da violência 
verbal e da verdadeira fúria assassina com que perseguia 
seus adversários (sobretudo jornalistas, políticos e figuras 
prestigiadas do meio cultural vienense), Kraus era pacifista. 
O que hoje pode parecer natural, nada tinha de óbvio nos 
tempos que precederam a Primeira Guerra. Em meio ao en­
tusiasmo belicista generalizado, Kraus foi a voz dissonante 
que alertou para o perigo de confundir patriotismo com in­
teresses comerciais. Na sua terceira coletânea de aforismos, 
n 
Capa da primeira edição do jornal Die Fackel, de 1899. 
[ACERVO DO WIEN MUSEUM] 
12 
Nachts (De noite), concluída em 1916, mas só publicada em 
1919, ele afirma: "Há lugares em que pelo menos se deixam 
os ideais em paz quando a exportação corre perigo, onde 
se fala tão honestamente dos negócios que eles não seriam 
chamados de pátria e em que por precaução se renuncia 
a ter uma palavra para ela. Nós, idealistas da exportação, 
chamamos tal povo de 'nação de negócios'." 
O repúdio de Kraus à guerra, contudo, alcançou sua ex­
pressão mais veemente na gigantesca peça Die Ietzten Tage 
der Menschheit (Os últimos dias da humanidade). Renun­
ciando às formas convencionais - não há herói, não há 
trama e, dada a sua extensão, a peça não é encenável -, 
seu conteúdo, nas palavras do prólogo do autor, é "irreal, 
inimaginável, impensável, inacessível a qualquer dos senti­
dos despertos, a qualquer lembrança, um conteúdo apenas 
conservado num sonho sangrento, uma vez que figuras de 
opereta representavam a tragédia da humanidade". E ain­
da: "Os fatos mais improváveis de que aqui se dá notícia 
realmente aconteceram; eu retratei o que outros apenas fi­
zeram. Os diálogos mais improváveis aqui travados foram 
pronunciados literalmente; as invenções mais chocantes são 
citações." Citações, sobretudo, da imprensa da época, que 
Kraus julgava não ser apenas uma instigadora da guerra, 
mas a responsável por ela. 
Mesmo os últimos dias da humanidade, porém, não fo­
ram os últimos; menos de uma década e meia após o fim da 
guerra, Hitler chegaria ao poder. A exemplo do que ocorrera 
depois de declarada a Primeira Guerra Mundial, Die Fackel 
deixou de circular durante vários meses depois que Hitler foi 
nomeado chanceler, em janeiro de 1933. A razão: Kraus ges­
tava outra obra, o monumental ensaio Dritte Walpurgisnacht 
13 
(Terceira noite de Valpúrgis), no qual, invocando o auxílio do 
Fausto de Goethe - o título é uma alusão a duas cenas da tra­
gédia -, tentou apreender o fato incomensurável da chegada 
dos nazistas ao poder. A famosa frase de abertura do ensaio é 
característica da perplexidade do satirista: "Nada me ocorre 
acerca de Hitler". Tal perplexidade, no entanto, é apenas retó­
rica, pois Kraus tinha noção clara do que estava acontecendo 
e das conclusões a tirar desses fatos: já em fevereiro de 1933, 
foram abertos os primeiros campos de concentração; notí­
cias de maus-tratos infligidos a prisioneiros eram divulgadas 
abertamente; políticos se gabavam sem constrangimento dos 
milhares de detentos em prisão preventiva nos seus estados; 
intelectuais como Gottfried Benn e Martin Heidegger mani­
festavam publicamente suas adesões ao regime; Hitler e seus 
asseclas não faziam segredo algum dos planos expansionistas 
de criar uma Grande Alemanha. 
Embora só tenha sido publicado na íntegra postumamen­
te, em 1952, trechos desse ensaio chegaram a ser publicados 
em Die Fackel. Mais uma vez, Kraus foi uma voz dissonante; 
mais uma vez, tinha razão ao alertar para o pior. Aliás, num 
aforismo escrito com clareza profética ainda durante a Pri­
meira Guerra Mundial, ele já afirmara: "Não, a alma não fica 
com cicatrizes. A bala entrará por um ouvido da humanida­
de e sairá pelo outro." 
Algumas palavras ainda sobre a tradução. Os critérios 
para a seleção dos aforismos ora traduzidos f~am basica­
mente dois: percuciência e traduzibilidade. Embora isso 
signifique dizer que quase sempre privilegiamos os aforis­
mos mais breves - os mais afiados - e aqueles que não exi­
gissem longas notas de rodapé explicando tudo o que fosse 
14 
perdido na tradução, ainda assim a presente coletânea traz 
um bom número de aforismos longos, quase ensaios, e outro 
bom tanto de aforismos em que só por muito pouco não se 
perderam as ideias do original (ou aquilo que entendemos 
que sejam essas ideias ... ). Dessa forma - e desafiando o im­
placável juízo do nosso autor sobre a tradução: "Uma obra 
da língua traduzida em outra língua: alguém que atravessa a 
fronteira sem sua pele e do outro lado veste o traje típico do 
país" -, buscamos apresentar um panorama o mais repre­
sentativo possível da criação aforística de Kraus. 
Renato Zwick 
15 
DITOS E CONTRADITOS 
Dedicado a Helene Kann 
Tormentos da vida - volúpias do pensamento 
1 
A mulher, a imaginação 
A sensualidade da mulher é a fonte primordial em que a 
espiritualidade do homem busca renovação. 
A volúpia estéril do homem se nutre do espírito estéril da 
mulher. Porém, o espírito masculino se nutre da volúpia fe­
minina. Esta cria as obras dele. Por meio de tudo aquilo que 
não foi dado à mulher, ela age de maneira a que o homem 
aproveite seus próprios dons. Os livros e os quadros são cria­
dos pela mulher - mas não por aquela que escreve ou pinta. 
Uma obra vem ao mundo: foi a mulher que gerou aquilo que 
o homem deu à luz. 
Eis a verdadeira relação entre os sexos, quando o homem 
confessa: "Meus pensamentos são sempre sobre você, e por 
isso são sempre novos!". 
A personalidade da mulher é a ausênéia de substância 
enobrecida pela inconsciência. 
O homem tem cinco sentidos; a mulher, apenas um. 
Alegrias de homem - agonias de mulher. 
11 
KARL KRAUS 
Primeiro foi criado o homem. Mas a mulher é um híste­
ron-próteron. 
Nada é mais insondáveldo que a superficialidade da 
mulher. 
Logo apreendemos o conteúdo de uma mulher. Mas até 
chegarmos à superfície! 
No caso do homem, o espelho serve apenas à vaidade; a 
mulher precisa dele para se assegurar de sua personalidade. 
Na alegria e na tristeza, por fora e por dentro, em qual­
quer situação, a mulher precisa do espelho. 
O erotismo do homem é a sexualidade da mulher. 
A superioridade masculina na aventura amorosa é uma 
vantagem mesquinha, por meio da qual nada se ganha e 
apenas se violenta a natureza feminina. Deveríamos per­
mitir que cada mulher nos introduzisse nos mistérios da 
vida sexual. 
O "sedutor" que se gaba de iniciar as mulheres nos mis­
térios do amor: o estrangeiro que chega à estação ferro­
viária e se dispõe a mostrar as belezas da cidade ao guia 
turístico. 
... ..,. 
Eles tratam uma mulher como se fosse um refresco. No 
entanto, não admitem o fato de as mulheres sentirem sede. 
20 
DITOS E CONTRADITOS 
Quanto mais forte a personalidade da mulher, tanto mais 
facilmente ela carrega o fardo de suas experiências. O orgu­
lho sucede a queda. 
A capacidade genial da mulher para ~squecer é algo dife­
rente do talento da senhora de não ser capaz de se lembrar. 
As qualidades intelectuais e morais da mulher também 
podem estimular a sexualidade fútil do homem. Pode ser 
comprometedor se mostrar na rua em companhia de uma 
mulher honrada, mas praticamente beira o exibicionismo 
conversar com _uma garota sobre literatura. 
Se uma mulher deixa um homem esperando e o homem 
se contenta com outra, ele é um animal. Se um homem 
deixa uma mulher esperando e a mulher não se contenta 
com outro, ela é uma histérica. Phallus ex machina - o 
Salvador. 
A vantagem da mulher de sempre poder atender aos desejos 
foi estorvada pela natureza com a desvantagem do homem. 
Pela desvantagem de não poder sempre atender aos dese­
jos, o homem foi compensado com a sensibilidade para perce­
ber cada imperfeição da natureza como uma culpa pessoal. 
Hamlet não compreende sua mãe: "Olhos sem tato, tato 
sem visão, ouvidos sem mãos ou sem olhos, o mero olfa­
to ou a parte mais enfermiça de um sentido verdadeiro não 
andaria assim às apalpadelas. Oh vergonha! Onde está o teu 
21 
KAIL KRAUS 
rubor?". Isso é algo que o homem não pode compreender; 
ele sente a ideia de que uma mulher copule com o rei Cláu­
dio como uma impertinência contra ele próprio. Ele mesmo 
se sente colocado no "suor fétido de um leito asqueroso", e 
sua consciência elevada se indigna. Mas é a partir dela que 
Shakespeare fala. E, por isso, Hamlet apenas se escandaliza 
com a idade da matrona, idade em que normalmente costu­
ma "estar domado o auge do sangue", este "espera pela ra­
zão" e um gosto discernente se impõe. Ele reconhece que 
a juventude da mulher não pode escolher entre um apolo e 
um miserável monarca remendado, que sexo e gosto quase 
sempre seguem caminhos diferentes, e "proclama que não é 
vergonha quando as paixões se lançam ao ataque". Não fosse 
seu filho, e ele concederia mesmo à mulher de mais idade 
que "o demônio que a vendou de tal maneira no jogo da ca­
bra-cega" é o mesmo sentido sexual que entorpece todos os 
outros sentidos da mulher - mais ainda do que no homem 
mais inclinado ao sexo - e age de maneira anestesiante so­
bre toda compreensão. 
Os Oberões jamais compreenderão o fato de Titânia tam­
bém poder acariciar um asno, pois, graças a uma sexualida­
de inferior, nunca seriam capazes de acariciar uma asna. Por 
isso, eles próprios se tornam asnos no amor. 
Perífrase: "Ele preenche meu ouvido in~eiramente com 
sua voz!", disse ela do cantor. 
Uma bela garotinha ouve um ruído rascante junto à pa­
rede de um quarto. Ela receia que sejam ratos, e só se acal-
22 
DITIS E CINTRIDITOS 
ma quando lhe dizem que ao lado há um estábulo e que 
um cavalo está agitado. "É um garanhão?", ela pergunta, e 
adormece. 
A mesma garotinha pôde certa vez dizer de alguém que 
a seguira: "Ele tinha uma boca que beijava por si mesma". 
Quão pouca confiança merece uma mulher que se deixa 
apanhar numa fidelidade! Hoje ela é fiel a ti, amanhã a outro. 
Ela disse a si mesma: "Dormir com ele, tudo bem - mas 
nada de intimidades!" . . 
O sexo da mulher toma parte em todos os assuntos da 
vida. Às vezes, até no amor. 
O fato de mesmo os ciumentos permitirem que suas mu­
lheres se movam livremente nos bailes de máscaras mostra o 
quanto o sexual é secundário e ausente para o homem. Eles 
esqueceram o quanto puderam se permitir outrora nesses 
bailes com as mulheres dos outros, e acreditam que desde 
que casaram a licença geral foi suspensa. Eles sacrificam o 
ciúme por meio da presença. Não veem que esta é uma espo­
ra e não um freio. Nenhuma mulher ciumenta deixaria seu 
marido ir a um baile de máscaras. 
Uma mulher cuja sensualidade nunca cessa e um homem 
ao qual ocorrem ideias sem parar: dois ideais de humanita­
rismo que parecem mórbidos à humanidade. 
23 
KARLKRAUS 
A mulher mediana está suficientemente equipada para a 
luta pela vida. Com a faculdade de não precisar sentir, a natu­
reza a compensou em abundância pela incapacidade de pensar. 
A mulher bonita recebeu tanto entendimento que se pode 
falar tudo a ela e nada com ela. 
Uma relação amorosa que não ficou sem consequências. 
O homem deu uma obra ao mundo. 
Decidiu-se em favor das mães e contra as heteras que 
nada produzem, no máximo gênios. 
Respeitemos o campo e amemos a paisagem. Esta é mais 
nutritiva. 
Que volúpia se deitar com uma mulher no leito de Pro­
custo de sua visão de mundo! 
Estou sempre sob a forte impressão daquilo que penso de 
uma mulher. 
Se puder interpretar uma mulher como eu bem entender, 
isso é mérito dela. 
Faltava-lhe apenas um defeito para ser perfeita. 
;I,: • .. · 
Os defeitos são os obstáculos em que Eros prova sua va-
lentia. Apenas as mulheres e os estetas fazem uma cara de 
desaprovação. 
24 
DITOS E CONTRADITOS 
Há mulheres que não são bonitas, apenas parecem sê-lo. 
Grandes traços: grande atração. 
A cosmética é a cosmologia da mulher. 
Se as mulheres que se maquiam são inferiores, então os 
homens que têm imaginação não valem nada. 
Certamente não é só o exterior de uma mulher que inte­
ressa. A lingerie também é importante. 
As mulheres pelo menos possuem cosméticos. Mas com 
o que os homens encobrem seu vazio? 
Quem exige que Xantipa seja mais desejável do que Alcibía­
des é um porco que sempre pensa apenas na diferença sexual. 
Em estilística, falamos de metáfora quando algo "não é 
usado no sentido próprio". Assim, as metáforas são as per­
versões da linguagem, e as perversões, as metáforas do amor. 
O voyeur passa na prova de força da sensibilidade natu­
ral: a vontade de ver a mulher com o homem supera inclusi­
ve a repugnância de ver o homem com a mulher. 
A satisfação erótica é uma corrida de obstáculos. 
É considerado normal santificar a virgindade em geral e 
ansiar pela sua destruição em particular. 
25 
KARLKRAUS 
O "masoquismo" é a incapacidade de ter prazer de outra 
forma a não ser na dor ou a capacidade de tirar prazer dela? 
Não há criatura mais infeliz sob o sol do que um fetichis­
ta que anseia por um sapato feminino e precisa se contentar 
com uma mulher inteira. 
As bailarinas têm a sexualidade nas pernas; os tenores, 
na laringe. É por isso que as mulheres se decepcionam com 
os tenores e os homens com as bailarinas. 
Eis precisamente a diferença entre os sexos: os homens 
nem sempre se deixam enganar por uma boca pequena, mas 
as mulheres sempre são ludibriadas por um nariz grande. 
Eles passam o tempo com cálculos mentais: ele extrai a 
raiz da sensualidade dela, e ela o eleva à potência. 
Façamos a distinção entre mulheres culposas e dolosas. 
Mulheres caridosas apresentam uma forma específica e 
muito perigosa de sexualidade modificada: a samaritíase. 
Gosto de monologar com mulheres. Mas o diálogo comi­
go mesmo é mais interessante. 
.~;i 
Visto que é proibido por lei ter feras selvagens, e os ani-
mais domésticosnão me dão prazer algum, prefiro continuar 
solteiro. 
2& 
DITOS E CONTRADITOS 
As vezes, uma mulher é um substituto bastante útil para 
a masturbação. No entanto, é preciso um excesso de fantasia. 
Com frequência as mulheres são um obstáculo para a sa­
tisfação sexual, mas, como tal, eroticamente utilizáveis. 
A noite todas as vacas são pretas, mesmo as loiras. 
Mas se abster da mulher não é lá um prazer assim tão 
especial, isso eu preciso reconhecer! 
Quando um conhecedor das mulheres se apaixona, ele 
se assemelha ao médico que se infecta junto ao leito de um 
doente. Risco profissional. 
Uma mulher sem espelho e um homem sem autoconfian­
ça - como poderão sobreviver neste mundo? 
Toda mulher parece maior à distância do que de perto. 
Nas mulheres, portanto, não apenas a lógica e a ética se en­
contram de pernas para o ar, mas também a óptica. 
As mulheres decentes consideram o maior dos atrevi­
mentos que as apalpemos debaixo de suas consciências. 
Em relação às mulheres, a ordem social nos deixa apenas 
a alternativa de sermos mendigos ou ladrões. 
A única coisa que importa no amor é não parecermos 
mais bobos do que nos fazem. 
27 
KARL KRAUS 
Só ama verdadeiramente uma mulher aquele que tam­
bém estabelece uma relação com seus amantes. No início, 
isso sempre causa a maior das preocupações. Mas a gente se 
acostuma a tudo, e chega o tempo em que ficamos ciumen­
tos e não suportamos que um amante seja infiel. 
Não é preciso que sejam sempre as qualidades do cará­
ter ou do espírito masculino que levem as mulheres a serem 
infiéis. O que é enganado é sobretudo o ridículo da posição 
oficial que o proprietário ocupa. E contra isso, nem mesmo 
qualidades físicas oferecem sempre proteção. 
Basta olhar uma mulher para ser tomado por um profun­
do desprezo pelos seus amantes. Jamais, porém, eu gostaria 
de responsabilizá-la por eles. 
Se dar presentes a uma mulher não dá prazer, deixemos 
isso de lado. Em comparação com algumas mulheres, o to­
nel de uma danaide é um autêntico cofre de economias. 
Não consigo me livrar assim tão rápido da impressão que 
causei numa mulher. 
Ele era tão ciumento que tomou as dores do homem que 
ludibriava e quis esganar a mulher. 
Temos de pagar pelos defeitos que o Criador deixou nas 
mulheres? Por serem lembradas todo mês de sua imperfei­
ção, nós precisamos nos esvair em sangue?! 
28 
DITOS E CONTRADITOS 
A mulher não sente as dores que o homem lhe causa. O 
homem, inclusive essas. 
Não é verdade que não se pode viver sem uma mulher. 
Apenas não se pode ter vivido sem uma. 
2 
A moral, o cristianismo 
O homem canalizou a torrente selvagem da sensualidade 
feminina. Agora ela não inunda mais a terra~ Mas também 
não a fertiliza mais. 
Os criadores de normas inverteram a relação entre os se­
xos: eles espartilharam o sexo da mulher com a convenção 
e deixaram livre o do homem. Assim, a graça e o espírito 
secaram. Ainda há sensualidade no mundo; mas ela não é 
mais o desenvolvimento triunfante de uma essência, e sim a 
deplorável degeneração de uma função. 
Quando a natureza quer estar a salvo de perseguições, 
trata de se refugiar na imundície. 
A moralidade é aquilo que, sem ser impudico, ofende 
profundamente o meu pudor. 
Responsabilidade moral é aquilo que falta ao homem 
quando a exige da mulher. 
Um erro jurídico da ordem social torna o outro neces­
sário. Visto que encarcerou as prostitutas na família, ela 
31 
KARL KRAUS 
precisa encarcerar as mães no bordel. É simplesmente uma 
questão de lugar. 
A sociedade precisa de mulheres de mau caráter. Aquelas 
que não têm caráter algum são elementos perigosos. 
Um mendigo foi condenado por estar sentado num ban­
co e "olhar tristemente". Nesta ordem do mundo, os homens 
de olhar triste e as mulheres de olhar alegre se tornam sus­
peitos. Em todo caso, essa ordem prefere os mendigos às 
mulheres de vida alegre. Pois as mulheres de vida alegre 
são aleijões ilegítimos que tiram vantagem do defeito físico 
da beleza. 
Consta no dicionário que "Afrodite" é a deusa do amor 
ou uma espécie de verme. 
A virtude e o vício são aparentados como o carvão e o 
diamante. 
O erotismo é a superação de obstáculos. O obstáculo mais 
sedutor e mais popular é a moral. 
Que bonito quando uma garota esquece sua boa educação! 
O ideal da virgindade é o ideal daqueles qy~ querem des-
virginar. 
, ... ~ 
A tragédia de Margarida - que comoção! O mundo fica 
em silêncio, o céu e o inferno se abrem, e nas esferas soa a 
32 
DITOS E CONTRADITOS 
música de um lamento infinito: não é toda garota que cai 
desse jeito na armadilha! 
Dizemos "amante" e não vemos mais a altura do páthos 
da qual essa palavra desceu até as planícies da ironia - mui­
to abaixo da respeitada condição intermediária das mulhe­
res que não amam. Quer o espírito da língua que a amante 
seja uma decaída. Mas se mulheres que amam fossem cha­
madas de "elevadas", nossa cultura logo também envolveria 
essa palavra com os tentáculos do escárnio. 
Aquele sujeitinho interesseiro, exclamou ela, me deixou 
em estado interessante! 
"Mulheres caídas"? Putas que caíram no casamento! 
Não é costume casar com uma mulher que antes teve um 
caso. Mas é costume ter um caso com uma mulher que se 
casou antes. 
Eis como uma mulher apta para a vida celebra sua paz 
duvidosa com o mundo: renuncia à personalidade e recebe 
galanterias em troca. 
O que não conseguem os costumes sociais! Apenas uma 
teia de aranha estendida sobre o vulcão, mas ele se contém. 
Eis o triunfo da moralidade: um ladrão que invadiu um 
quarto afirma que seu pudor foi ferido e, ameaçando fazer 
uma acusação de imoralidade, consegue se livrar da acusa­
ção de invasão. 
33 
KARL KRAUS 
A moral é um pé de cabra que possui a vantagem de nun­
ca ser deixado para trás na cena do crime. 
A imoralidade vem à luz e, no entanto, não tem efeito inti­
midador. Tanto mais aflitivo é o fato de a moralidade que rei­
na no Estado não ser descoberta e, por isso, não poder ter efei­
to exemplar. Se vez por outra não a notássemos sob a forma da 
chantagem, simplesmente não saberíamos que ela existe. 
A abstinência sempre se vinga. Num produz pústulas; 
noutro, códigos sexuais. 
Seria uma estatística interessante: quantas pessoas são le­
vadas pelas proibições a violá-las. Quantos delitos são conse­
quência das penas. Seria interessante saber se mais crianças 
são violadas apesar do limite de idade ou por causa dele. 
Nenhuma fronteira seduz mais ao contrabando do que a 
fronteira representada pelo limite de idade. 
As penas servem para intimidar aqueles que não querem 
cometer crimes. 
O escândalo começa quando a polícia lhe dá um fim. 
Eles julgam para não serem julgados. 
~- . 
Quousque tandem, Cato, abutere patientta nostra! 
O ciúme do homem é uma instituição social, a prostitui­
ção da mulher é um impulso natural. 
34 
DITOS E CONTRADITOS 
Uma prostituição moralmente aceita se baseia no princí­
pio da monogamia. 
A ordem moral do mundo mostrou estar à altura das 
misteriosas capacidades da mulher de ser prostituída e de 
se prostituir criando duas formas de vida monogâmicas: a 
concubina e o rufião. 
Um materialismo horripilante nos prega que o amor nada 
tem a ver com o dinheiro, e o dinheiro, nada com o amor. A 
concepção idealista pelo menos admite um limite de preços 
em que começa o amor verdadeiro. Esse é simultaneamen­
te o limite em que acaba o ciúme daquele que é amado por 
ser quem é. Tal limite acaba, embora pudesse começar nesse 
ponto. O terreno da concorrência está obstruído. 
Uma mulher que presta para o amor gozará na velhice 
as alegrias de uma alcoviteira. Uma natureza frígida apenas 
alugará quartos. 
O rufião é um sustentáculo da mulher. Caso o perca, 
pode acontecer facilmente que ela decaia. 
Primeiro se proteger das crianças, depois protegê-las! 
A moral do pecado tem o propósito de eliminar as causas 
às quais se pode atribuir a geração de crianças. Ela afirma 
que o aborto do prazeré inofensivo quando praticado com 
todas as cautelas da ciência teológica. 
35 
KARL KRAUS 
Está mais do que na hora das crianças esclarecerem os 
adultos sobre os mistérios da vida sexual. 
Para o diabo com a tagarelice sobre o esclarecimento 
sexual dos jovens! Ele ainda é melhor quando ocorre por 
meio do colega de classe que sublinha a palavra "putativo" 
no livro de leitura do que por meio do professor que expli­
ca o assunto como sendo uma instituição estatal que seria 
tão importante e tão complicada quanto o pagamento de 
impostos. 
O amor como ciência natural! A proibição do prazer con­
tinua em vigor, e agora também nos proíbem o romantismo 
da proibição. Mas imploramos: já que não nos livramos do 
cristianismo, então que pelo menos ainda tenhamos incen­
so, música de órgão e escuridão! Assim, a Igreja ainda nos 
oferece alguma compensação pelo que nos tira. 
Toda conversa sobre sexo é uma atividade sexual. O pai 
que esclarece o filho - esse ideal do esclarecimento - está 
envolto por uma aura de incesto. 
Os conhecimentos da vida erótica são próprios da arte, 
não da educação. Só às vezes eles precisam ser soletrados 
para os analfabetos. Importa, sobretudo, persuadir os anal­
fabetos, já que são eles que fazem os códigos penais. 
\,. 
Se os senhores tivessem reconhecido os direitos do corpo 
da mulher, se tivessem eliminado a servidão do baixo-ventre 
como eliminaram o trabalho servil, nunca teria ocorrido às 
36 
DITOS E CONTRADITDS 
mulheres a ideia ridícula de se vestir de homens para au­
mentar seu valor enquanto mulheres! 
As mulheres exigem o direito de voto ativo e passivo. Se­
ria o direito de escolher qualquer homem e de não serem 
recriminadas por se deixarem escolher por quem quer que 
seja? De jeito nenhum: elas estão falando de política! Mas 
foram os homens que as levaram a ter esses pensamentos 
desesperados. Agora nada restará a eles senão exigir do go­
verno que lhes outorgue o direito de menstruar. 
Os "direitos da mulher" são deveres do homem. 
Ouvi uma mulher elogiando outra: "Ela tem um quê de 
feminino". 
A beleza passa porque a virtude fica. 1 
Na vida fácil também há um trágico conflito entre perso­
nalidade e sociedade, e um triste conflito entre inadequação 
e vocação. Mas a hetera intelectualmente soberana que sabe 
se impor ao mundo na condição de grande amoureuse é ape­
nas uma construção de desejos eróticos que gostariam de 
eternizar o espetáculo de um pôr do sol. Uma consciência 
superior que controlasse inclusive o desregramento, e que 
mediante a sublimação da vida dos sentidos também alcan­
çasse sua preservação, é uma possibilidade romanesca. A 
mulher com espírito é uma perigosa enxadrista da sexua-
1 Em alemão se costuma dizer Schonheit vergeht, aber Tugend besteht, "a bele­
z11 passa, mas a virtude fica''. (N.T.) 
37 
KARL KRIUS 
lidade. Ou é assexuada e representa a abominação de uma 
calculadora mental que resolve uma equação integral na 
noite do casamento sem ser capaz de elevar à potência. 
O que melhor deveria deleitar o espírito do que a toli­
ce feminina que se esconde atrás de feições inteligentes? 
Quando a mulher é aquilo que deve parecer, o entendi­
mento masculino esmorece. O prodígio da banalidade 
profunda se mostra ao mundo desde os dias de Frineia; o 
mundo o aprecia, mas não quer acreditar nele. Visto que 
os homens intelectualmente superiores da Grécia procu­
ravam a companhia de heteras, as heteras devem ter sido 
mulheres intelectualmente superiores. Caso contrário, não 
teríamos respeito pelos gregos antigos. Por isso, os histo­
riadores elevaram o quanto puderam o nível cultural das 
mulheres atenienses de vida fácil. A educação cristã veria 
com bons olhos que a histeria que pôs no mundo tivesse 
força retroativa. Mas ela terá de descobrir uma maneira de 
tirar as mênades do jogo e queimar apenas as bruxas em 
que transformou as mulheres de seu tempo. 
Os pensadores gregos se contentavam com putas. Os cai­
xeiros germânicos não podem viver sem senhoras. 
O cristianismo enriqueceu o banquete erótico com o an­
tepasto da curiosidade e o arruinou co~ a sobremesa do 
arrependimento. 
O beijo de Judas que a cultura cristã deu no espírito hu­
mano foi o último ato sexual que ela permitiu. 
38 
DITOS E CONTRIIITOS 
Os deleites de Tântalo fazem parte da mitologia do cris­
tianismo. 
A disseminação das doenças sexuais produziu a crença 
de que o sexo é uma doença. 
A humanidade se tornou histérica na Idade Média por 
não ter recalcado devidamente as impressões sexuais de sua 
infância grega. 
Religião e moralidade. O catolicismo (kata e holos) alme­
ja o todo; mas o judaísmo é mosaico. 
São tempos difíceis aqueles em que o páthos da sensuali­
dade encolhe até se transformar em galanteria. 
Foi uma fuga através dos milênios, quando, na mais fria 
noite de inverno, ela saiu seminua de um baile e correu pelas 
ruas, entrando nas profundezas do Prater, com garçons, ca­
valheiros e cocheiros atrás dela ... Uma pneumonia e a morte 
a trouxeram de volta ao nosso século. 
Trata-se de um fato válido por toda a eternidade: que a 
força primordial da mulher não apenas atrai e aniquila os 
fracos, mas anima e rejuvenesce os fortes. Que as melho­
res cabeças foram nutridas por essa fraqueza do espírito, 
os maiores caracteres por essa leviandade. Que os mais po­
derosos senhores cumpriram incólumes os anos de serviço 
erótico. E que, de acordo com o magnífico plano da ordem 
do mundo, o deleite dos sentidos e a beleza sejam poções má-
39 
KARL KRAUS 
gicas, e, de acordo com o plano diabólico da ordem social, 
sejam trancados no armário de venenos da humanidade. 
4D 
3 
O homem e o seu próximo 
O super-homem é um ideal prematuro que pressupõe o 
homem. 
O sentimento que temos com a alegria do outro é de 
qualquer modo egoísta. Se nós mesmos lhe demos a alegria, 
reivindicamos a metade dela. Mas a alegria que um outro 
lhe dá diante de nossos olhos, nós a sentimos inteiramente: 
uma metade é inveja, a outra é ciúme. 
Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Pois cada um é 
o próximo de si mesmo. 
O cão é fiel, não há dúvida. Mas será por isso que deve­
mos tomá-lo como exemplo? Afinal, ele é fiel ao homem e 
não ao cão. 
É de bom tom não falar sobre uma má ação. Se um patife 
te confia a intenção de trair teu amigo, a discrição é uma 
questão de honra. 
Nada é mais caro ao caixeiro do que sua palavra de hon­
ra. Comprando um lote grande, porém, há desconto. 
41 
KARL KRAUS 
A honra é o apêndice do organismo psíquico. Sua função 
é desconhecida, mas pode provocar inflamações. Nas pes­
soas inclinadas a se sentirem ofendidas, devemos extirpá-la 
sem receio. 
A estupidez também possui honra em suas veias, e in­
clusive se defende do escárnio com maior energia do que a 
baixeza se defende da censura. Pois esta sabe que a crítica 
tem razão; aquela, porém, se recusa a acreditar. 
Com que soberania um imbecil trata o tempo! Ele sim­
plesmente o mata. E o tempo tolera isso. Pois nunca ouvimos 
falar que o tempo tenha matado um imbecil. 
,observe-se uma vez como os senhores respeitáveis cum­
primentam uma mulher da qual "se fala". No cumprimento 
se unem o orgulho reservado do pilar da sociedade e o olhar 
cúmplice, de conhecedor, do ajudante de feira. As duas coi­
sas nos dão vontade de esganá-los. 
Ouvi um alemão ligeiramente bêbado gritar as seguin­
tes palavras atrás de uma garota que dobrou a esquina, 
declamando-as humoristicamente: "Lá vai ela, a vadiazi­
nha!". Não se pode supor que algum dia se aprove uma 
lei que permita abater a tiros os alemães que tenham pro­
vado com uma só frase a sua completa inutilidade neste 
planeta. ~\ : 
Maldita lei! A maioria de meus próximos é a triste conse­
quência de um aborto não feito. 
42 
DITOS E CONTRADITOS 
Nada é mais tacanho do que o chauvinismo ou o ódio ra­
cial. Para mim, todos os seres humanos são iguais; há idiotas 
em toda parte e tenho o mesmo desprezo por todos. Nada de 
preconceitos mesquinhos! 
A religião, a moral e o patriotismosão sentimentos que 
só se manifestam quando feridos. Quando se diz de alguém 
que se ofende facilmente que ele "gosta" de se ofender, tal 
expressão está correta. Esses sentimentos nada amam tanto 
quanto serem magoados, e se revigoram a valer na queixa 
contra ateus, amorais e apátridas. Tirar o chapéu diante do 
ostensório não é de longe uma satisfação tão grande quanto 
arrancá-lo da cabeça daqueles que têm outra crença ou que 
são míopes. 
A perspicácia da polícia consiste no dom de considerar 
todas as pessoas capazes de um roubo e na sorte de a inocên­
cia de algumas não poder ser provada. 
Toda a vida no Estado e na sociedade repousa sobre o 
pressuposto tácito de que o homem não pensa. As coisas são 
bem difíceis para uma cabeça que, em qualquer situação, 
não representa um espaço oco e receptivo. 
Em qualquer caso, o não reconhecimento de uma vida 
mental é uma condição social. O homem fica satisfeito por 
ver respeitada a sua pele e atrás dela a chamada honra e a 
chamada moralidade. O olho e o ouvido não devem ser 
ofendidos, apenas as exigências que os mesmos fazem. O na­
riz precisa perceber cheiros que detesta, e quando o paladar 
43 
KARL KRAUS 
se preparou para uma refeição, o garçom vem dez minutos 
depois e lamenta não poder mais servir. Qualquer imbecil 
pode encará-lo com os olhos arregalados, você precisa tole­
rar o incômodo de qualquer palerma quando ele perguntou 
se não está incomodando, e exatamente quando você corre 
até a escrivaninha para anotar que você vive na companhia 
de pessoas que se julgam eticistas por não puxarem a car­
teira do seu bolso em plena rua, alguém certamente cruzará 
o seu caminho pedindo fogo. O fato de a civilização se or­
gulhar da cortesia neste ponto, o fato de nenhum fumante 
ousar responder o pedido indesejado com um brusco não -
nada é capaz de desnudar melhor a estupidez da convenção 
que estabelecemos entre nós. Prometeu foi buscar o fogo nos 
céus. Mas, em razão disso, até mesmo ele foi acorrentado por 
ordem de Júpiter num rochedo do Cáucaso onde um abutre 
come o seu fígado. 
Se o convite de um cocheiro para andar em seu coche 
apenas se chocasse com o nosso desejo de não andar com 
ele, a vida seria fácil. Mas às vezes ele se choca com pensa­
mentos melhores, e os destrói. Quem, afinal, pensa sempre 
em não andar de coche? 
Se alguém quer me dirigir a palavra, ainda espero até o 
último momento que o medo de se comprometer o impeça 
de fazê-lo. Mas as pessoas são corajosas. 
·1-. 
Olho por uma janela e o horizonte é ob;truído por uma 
cara de basbaque. Isso é trágico. Nada tenho contra o fato 
de existirem caras repugnantes. Mas por que a óptica dispôs 
44 
DITOS E CONTRADITOS 
as coisas de tal modo que uma pessoa possa encobrir um 
bosque? Podemos, por certo, encobrir a pessoa com um ppr­
rete. Mas, em todo caso, saímos prejudicados com a ilusão 
de óptica. E assim os raios luminosos servem para aumentar 
a misantropia. 
Em caso de igual estupidez, importa a diferença de volume 
corporal. Um imbecil não deveria ocupar espaço demais. 
"Estive ontem em Melk - que tempinho!", alguém me diz 
de repente no trem. "Dizem que o Eder morreu, o conselheiro 
imperial", alguém da mesa ao lado me diz de repente. "Tornou­
se um grande homem!", alguém me diz de repente no bonde 
com uma entonação muito diferente e aponta para alguém 
que acabou de descer, visivelmente orgulhoso por conhecê­
lo. Assim, sem pedir, fico sabendo o que vai pelo íntimo de 
meus contemporâneos. Não lhes basta que eu veja sua feiura 
exterior. Nos cinco minutos em que seguimos juntos pelo 
percurso da vida, também devo ser informado sobre o que os 
move, alegra, desilude ... Isso, e apenas isso, é o conteúdo de 
nossa cultura: a rapidez com que a imbecilidade nos arrasta 
em seu turbilhão. Algo também nos move, alegra, desilude: 
mas num piscar de olhos estamos em Melk, no velório do 
Eder, acompanhando a carreira do grande homem. Nunca 
conseguiríamos semelhante efeito sobre o nosso próximo. 
Fico parado, pois o sol se põe vermelho-sangue como nunca 
e alguém me pede fogo. Sigo um pensamento que acabou 
de virar a esquina e alguém grita atrás de mim: "Fi-a-cre!". 
Enquanto um taverneiro e um sapateiro permanecessem 
cartazes a vida seria suportável. Com a maior resignação, 
45 
KARL KRAUS 
gravaríamos os seus rostos. Mas, de repente, eis que estão em 
pessoa diante de nós, colocam a mão sobre nosso ombro e 
sucumbimos como Don Juan quando a estátua ganha vida. 
O homem pensa e o próximo dispensa. Este nem sequer 
pensa o suficiente para pensar que outro possa pensar. 
Muitos têm o desejo de me matar. Muitos, o desejo de ter 
dois dedos de prosa comigo. Daqueles a lei me protege. 
Gostaria muito de requerer a concessão para a operação 
manual de uma guilhotina. Mas o imposto sobre o lucro que 
eu teria de pagar! 
Sorrento, em agosto: por duas semanas não ouvi uma pa­
lavra em alemão e não entendi nenhuma em italiano. Assim 
é possível viver com as pessoas, tudo vai às mil maravilhas 
e qualquer mal-entendido desgastante está fora de questão. 
Não há lugar mais público do que um elevador em que 
nos dirigem a palavra. 
Onde começa propriamente a repugnância e onde ela 
acaba? Por que não existem privadas para refeições? Comer 
publicamente e digerir às ocultas, eis o que convém a nobres 
senhoras e senhores! E, no entanto, nada ultrapassa o desca­
ramento de uma table d'hôte. 
Conversas de barbeiro são a prova irrefutável de que as 
cabeças existem por causa dos cabelos. 
46 
DITOS E CONTRADITOS 
Fico preocupado quando mando cortar os cabelos, pois o 
barbeiro pode me cortar um pensamento. 
O pitoresco e o musical são argumentos que acabam com 
qualquer objeção. E há efeitos sobre os nervos de que nem 
mesmo o espírito mais antagonista pode se esquivar. Quando 
todos os sinos dobram, abraço um conselheiro municipal. 
Anestesia: ferimentos sem dor. Neurastenia: dor sem fe­
rimentos. 
A força mais enérgica não chega perto da energia com 
que alguns defendem suas fraquezas. 
Há pessoas que ficam roucas quando não falaram uma só 
palavra por oito dias seguidos. 
Sem dúvida, o artista é diferente. Mas justamente por isso 
ele deve ser igual aos outros em seu exterior. Ele só pode per­
manecer solitário se desaparecer na multidão. Se chamar a 
atenção sobre si através de alguma peculiaridade, ele se tor­
na vulgar e coloca os perseguidores em seu encalço. Quanto 
mais tudo dá razão ao artista para ser diferente, tão mais 
necessário é que ele se sirva dos trajes da média como um 
mimetismo. A aparência chamativa é o alvo da embriaguez. 
Esta, normalmente zombada, julga-se alinhada e superior 
quando se compara com a excentricidade de cabelos longos. 
Mesmo o bêbado do qual o populacho ri, ri do homem que 
usa um casaco de bufão. Desleixar-se intencionalmente para 
se destacar da média, usar roupas sujas como uma insígnia 
47 
KARL KRAUS 
da arte e da ciência, sacudir uma cabeleira despenteada so­
bre o absurdo da ordem social - um ideal dos poetas an­
darilhos medievais, há tempos abandonado pelos nobres e 
hoje ao alcance de qualquer pequeno-burguês. A verdadeira 
boemia não faz mais aos filisteus a concessão de irritá-los, e 
os verdadeiros ciganos vivem segundo um relógio que nem 
sequer precisa ser roubado. A pobreza continua não sendo 
uma vergonha, mas a sujeira não é mais uma honra. A "mãe 
estrada" renega seus filhos; mesmo ela já é mais cuidada hoje 
em dia. 
A mais arruinada das existências é a de uma pessoa que 
não tem justificativa para ser uma mancha em sua família 
nem um rebotalho da sociedade. 
Vestimos sentimentos familiares apenas em ocasiões 
especiais. 
A vida em família é uma invasão da vida privada. 
A expressão "laços de família" tem um ressaibo de verdade. 
Mesmo um homem decente, desde que isso nunca seja des­
coberto, pode conseguir um nome respeitado hoje em dia. 
Há homens que conseguem unir as vantagens do mundo 
com os benefícios de serem perseguidos. 1 . . ... 
Aquele suicídio foicometido durante um acesso de clare­
za intelectual. As vezes, as pessoas cheias de alegria de viver 
48 
DITOS E CONTRADITOS 
refletem; e em alguma delas poderia ter havido tantas vidas 
que ela sacrifica uma sem hesitação. O suicídio pode signifi­
car a sangria de uma natureza puro-sangue. Quem se limpa 
a boca dos deleites da vida tão calmamente a fim de fechá­
-la para sempre por certo se destaca de seus companheiros 
de mesa. Não me livro da suspeita, sobretudo, de que hoje 
alguém já deve ser um homem se a vida atual o derruba. 
Aquilo que tiver fogo e um ímpeto ligeiro, queima. Apenas 
homens sem medula e mulheres com cérebro estão à altura 
da ordem social. 
Mas que amigo da vida em sociedade era aquele rei báva~ 
ro que se sentava sozinho no teatro! Quanto a mim, também 
atuaria. 
A solidão seria um estado ideal se pudéssemos escolher 
que pessoas evitar. 
O mundo é uma prisão em que é preferível a solitária. 
49 
4 
Imprensa, estupidez, política 
As instituições humanas precisam se tornar tão perfeitas 
a ponto de podermos pensar sem ser perturbados sobre a 
imperfeição das divinas. 
A vida maquinal estimula a poesia interior, o ambiente 
artístico a paralisa. 
Como? A humanidade se imbeciliza em favor do pro­
gresso maquinal e nem sequer deveríamos fazer uso dele? 
Deveríamos manter diálogos com a estupidez quando pode­
mos escapar dela num automóvel? 
Para o filisteu, a arte é o enfeite das fadigas e tormentos 
do cotidiano. Ele tenta abocanhar os ornamentos como o 
cão a linguiça. 
O desenvolvimento das máquinas beneficia apenas a 
personalidade que, passando pelos obstáculos da vida ex­
terior, chega mais rapidamente a si mesma. No entanto, as 
cabeças medianas não estão à altura da hipertrofia desse 
desenvolvimento. Hoje ainda não podemos fazer a menor 
51 Biblioteca fwlica Z..lunicioal 
.... GuimaJiel . 
KARL KRAUS 
ideia da devastação promovida pela máquina de impressão. 
O dirigível foi inventado, e a imaginação se arrasta como 
uma diligência. O automóvel, o telefone e as gigantescas 
edições da estupidez - quem poderá dizer como serão os 
cérebros daqui a duas gerações? O afastamento em relação 
à fonte natural promovido pela máquina, a suplantação 
da vida pela leitura e a absorção de todas as possibilidades 
artísticas pelo espírito factual terão completado sua obra 
com rapidez surpreendente. Apenas nesse sentido se de­
veria compreender o despontar de uma era glacial. Nesse 
meio-tempo, não nos intrometamos na política social, mas 
deixemos que se ocupe de suas pequenas tarefas; deixemos 
que lide com a educação popular e com outros sucedâneos 
e opiáceos. Passatempos até a dissolução. As coisas estão se 
desenvolvendo de uma maneira para a qual não há exemplo 
nos períodos historicamente verificáveis. Quem não sente 
isso em cada nervo pode prosseguir sem receio a cômoda 
divisão em Antiguidade, Idade Média e Idade Moderna. De 
súbito se perceberá que as coisas não avançam. Pois a época 
moderna começou com a produção de novas máquinas para 
o funcionamento de uma ética antiga. Nos últimos trinta 
anos aconteceram mais coisas do que nos trezentos anos 
anteriores. E um dia, a humanidade terá se sacrificado pelas 
grandes obras que criou para seu alívio. 
Fomos complexos o bastante para construir as máquinas 
e somos primitivos demais para nos deixaf mos servir por 
elas. Praticamos o comércio internacional sobre trilhos ce­
rebrais de bitola estreita. 
52 
DITOS E CONTRADITOS 
Quando o madeirame do telhado pega fogo não adianta 
rezar nem esfregar o assoalho. Em todo caso, rezar é mais 
prático. 
O que a sífilis poupou será devastado pela imprensa. 
Nos amolecimentos cerebrais do futuro, não se poderá mais 
constatar a causa com segurança. 
Nossa cultura consiste em três gavetas, das quais duas se 
fecham quando uma está aberta: trabalho, diversão e ins­
trução. Os malabaristas chineses dominam a vida toda com 
um só dedo. As coisas serão fáceis para eles, portanto. A es­
perança amarela! 
O humanitarismo, a educação e a liberdade são bens va­
liosos que não foram comprados caro o bastante com san­
gue, entendimento e dignidade humana. 
A democracia divide os homens em trabalhadores e pre­
guiçosos. Ela não está preparada para aqueles que não têm 
tempo para trabalhar. 
Quando ainda não havia direitos humanos, eles perten­
ciam ao homem superior. Isso era inumano. Então se produ­
i,lu a igualdade pela recusa dos direitos humanos ao homem 
uperior. 
Quando alguém está diànte do tribunal, não há certa-
111 ·nte nenhum fato da chamada vida pregressa com o qual 
llílo se poderia produzir instantaneamente uma "impressão 
53 
KARL KRAUS 
desfavorável" e proporcionar aquele "movimento" registra­
do na ata da sala de audiências. Não é de se acreditar como 
os delitos realmente se aglomeram em torno de um homem 
que alguma vez se meteu com algum deles! Aquilo que se 
dividiu ao longo de quarenta anos, quando projetado no 
lapso de tempo de uma audiência, age como uma ilustração 
viva; aquilo que passou pela peneira do tempo, obtém uma 
atualidade reforçada, como se tivesse acontecido durante a 
prisão preventiva. O passado não ilumina apenas o ato, com 
o qual nada tem a ver, mas também é iluminado por ele, e o 
caráter do réu é sempre contemplado de dois lados. Esse é o 
método que se adapta convenientemente ao pensamento não 
perspectivo das cabeças julgadoras medianas. Ele significa 
sentar o banco dos réus na cabeça de um homem perdido. 
Quem é ela? É cega para o direito, olha de soslaio para o 
poder e é acometida pela doença de Basedow quando está 
diante da moral. E sacrificamos nossa liberdade pelos belos 
olhos dessa mulherzinha! 
Considero a política uma maneira pelo menos tão exce­
lente de liquidar a seriedade da vida quanto o jogo de ba­
ralho, e visto que há homens que vivem de jogar baralho, o 
político profissional é um fenômeno perfeitamente compre­
ensível. Tanto mais que ele sempre ganha às custas daqueles 
que não tomam parte no jogo. Mas está correto que o palpi­
teiro político pague as contas, já que a obse.r:y;ação paciente 
constitui o conteúdo de sua vida. Se' não houvesse política, 
o cidadão teria apenas a sua vida interior, ou seja, nada que 
pudesse ocupá-lo. 
54 
DITOS E CONTRADITOS 
Para se orientar em questões de política, bastam lem­
branças de opereta. Aquilo que pode ser dito contra a for­
ma de governo absolutista, por exemplo, nos foi ensinado 
pelas figuras de um rei Bobeche, de um príncipe herdeiro 
Kasimir ou de um general Kantschukoff. Se a exigência 
dos frasistas de que a arte se ocupe dos assuntos públicos 
possui mesmo um sentido, então ela só pode estar se refe­
rindo à produção de operetas. Esta é criticada com razão 
por negligenciar há décadas os únicos assuntos humanos 
que não cabe levar à sério, ou seja, os assuntos públicos. 
Pois a forma artística da opereta é adaptada à essência de 
todos os desdobramentos políticos por conceder à estupi­
dez uma improbabilidade redentora. Exigir que a criação 
artística se lance sobre os acontecimentos recém-saídos do 
forno é uma tolice; mesmo a sátira os desdenha, pois ainda 
que seja capaz de apreender os ridículos da política, estes 
ocorrem abaixo do nível de uma observação espirituosa de 
sentido superior. 
"Mais vale suportar os males que temos do que ir em 
busca de males desconhecidos." Só não entendo como a jus­
tificação da forma monárquica de Estado possa chegar ao 
entusiasmo. 
O segredo do agitador consiste em parecer tão idiota 
quanto seus ouvintes, de modo que eles acreditem ser tão 
1 n teligentes quanto ele. 
Crianças brincam de soldado. Isso é razoável. Mas por 
que soldados brincam de criança? 
55 
KARL KRlUS 
O esporte é um filho do progresso, e já contribui por con­
ta própria para a imbecilização da família. 
O jornalismo serve apenas aparentemente ao tempo 
atual. Na verdade, ele destrói a sensibilidade intelectual da 
posteridade. 
Quando se pensa que a mesmaconquista técnica serviu à 
Crítica da razão pura e a uma reportagem sobre a viagem da 
Sociedade Vienense de Canto Coral, toda discórdia abando­
na nosso peito e louvamos a onipotência do Criador. 
Com meus horizontes estreitos, não li certa vez um jornal 
com as seguintes manchetes: As negociações secretas entre 
a Áustria, a França e a Itália em 1869. - O movimento re­
formista na Pérsia. - A nomeação do chefe do ministério 
croata. - A Sublime Porta contra o arcebispo de Monastir ... 
Depois de não ter lido esse jornal, senti meus horizontes se 
ampliarem um pouco. 
A relação dos jornais com a vida é mais ou menos a mes­
ma das cartomantes com a metafísica. 
O barbeiro conta novidades quando deveria apenas cortar 
o cabelo. O jornalista é espirituoso quando deveria apenas 
contar novidades. Dois sujeitos que querem subir na vida. 
·~·. 
As revistas humorísticas são uma prova de .. que o filisteu 
não tem humor. Elas fazem parte da seriedade da vida como a 
bebida faz parte da refeição. "Dê-me todas as revistas humorís-
56 
DITOS E CONTRlDITIS 
ticas!", ordena um idiota cheio de preocupações ao garçom, e se 
atormenta para que um sorriso apareça em seu rosto. O humor 
que ele não tem deve lhe chegar de todos os cantos da vida co­
tidiana, e ele desdenharia inclusive a caixa de fósforos que não 
trouxesse uma piada em seu rótulo. Li numa delas: "Aprendiz 
de ofício (que comprou uma linguiça casualmente enrolada 
num poema): Muito bem! Primeiro vou comer a linguiça para 
alimentar o corpo e depois leio o poema para alimentar o espí­
rito!". Coisas assim alegram o filisteu, e ele nem sequer percebe 
o método do aprendiz de ofício como uma indireta. 
Quando um sacerdote declara repentinamente que não 
acredita no paraíso e que jamais desmentirá essa declaração, 
a imprensa liberal, cujos redatores, como se sabe, também 
não se deixam privar de suas crenças a preço nenhum, se en­
tusiasma. No entanto, um editor papal não divinizaria ime­
diatamente um funcionário que tivesse a ideia de confessar 
diante dos leitores que acredita no paraíso? Eis a visão mais 
repulsiva que a modernidade oferece: um sacerdote possuído 
pela razão cercado por vira-latas da imprensa a latir e para os 
quais ele joga a costela de Adão. 
Para mim é um enigma que se possa elogiar um teólogo 
porque ele conseguiu se decidir a não acreditar nos dogmas. 
Sempre me pareceu que merecia verdadeiro reconhecimen­
to, como se fosse um ato heroico, a realização daqueles que 
se decidiram a acreditar neles. 
Na cidade de Echternach, em Luxemburgo, ainda hoje 
ocorrem as chamadas procissões pulantes. Pelo fato de no 
51 
KARL KRAUS 
passado os animais terem sido acometidos de tarantulismo, 
os camponeses locais fizeram o voto de pular em honra de 
São Willibrord em lugar dos animais. Hoje, nem as pessoas 
nem o gado conhecem mais a origem da singular cerimônia, 
mas aquelas lhe permanecem fiéis, e se a força do hábito con­
tinuar a se afirmar entre os habitantes de Echternach, talvez 
chegue novamente o dia em que o gado pule em honra de 
São Willibrord. Por ocasião do Pentecostes, ainda hoje cerca 
de 15 mil pessoas dão "três pulos para a frente e dois para 
trás". O clero não salta junto, mas assiste. O espetáculo não 
o agrada inteiramente; ele preferiria que fossem dois pulos 
para a frente e três para trás. 
A ciência antiga não reconhecia o impulso sexual nos 
adultos. A ciência moderna admite que já o lactente tenha 
sensações voluptuosas ao evacuar. A concepção antiga era 
melhor. Pois pelo menos era contradita por determinadas 
declarações dos envolvidos. 
Os psicólogos modernos afirmam que tudo pode ser atri­
buído a causas sexuais. Seu método, por exemplo, poderia 
ser definido como erotismo de confessionário. 
Os neurologistas que patologizam o gênio merecem que 
lhes partamos o crânio com suas Obras Completas. Não de­
vemos agir diferente com os defensores da humanidade que 
deploram a vivissecção em cobaias e permitero a utilização 
de obras de arte para fins experimentais. Sempre que consi­
gamos agarrá-los, chutemos a cara de todos que se dispõem 
a provar que a imortalidade deve ser atribuída à paranoia, 
58 
DITOS E CONTRADITOS 
de todos os ajudantes racionalistas da humanidade normal 
que a tranquilizam por não ter inclinações para obras do 
engenho e da imaginação. Shakespeare louco? Então a hu­
manidade se ajoelha e, com medo de sua saúde, implora ao 
Criador por mais loucura! 
O bicho-papão é um recurso pedagógico imprescindível 
na vida familiar alemã. Quanto aos adultos, são intimidados 
com a ameaça de que o psiquiatra virá buscá-los. 
O psiquiatra sempre reconhece os loucos pelo fato de exi­
birem um comportamento agitado após a internação. 
A diferença entre psiquiatras e outros doentes mentais 
corresponde aproximadamente à relação entre loucura con­
vexa e côncava. 
A ciência não atravessa os abismos do pensamento, ape­
nas se encontra diante deles sob a forma de uma placa de ad­
vertência. Os infratores agem por sua própria conta e risco. 
Quando a estupidez se manifesta numa cidade, deve-se 
declará-la contaminada. E nenhum caso deve ser ocultado. 
Com que facilidade pode acontecer que um imbecil frequen­
te uma casa em que haja crianças! Nessas épocas, recomen­
da-se o fechamento das escolas e não, como se. poderia pen­
sar, a sua abertura. 
Não se deveria abolir a vara, e sim o professor que a em­
prega mal. A reforma ginasial, como todo remendo humani-
59 
KARL KRAUS 
tário, é uma vitória sobre a imaginação. Os mesmos profes­
sores que até então não eram capazes de chegar a um juízo 
com a ajuda do catálogo, agora terão de mergulhar carinho­
samente na individualidade do estudante. O humanitarismo 
eliminou o pesadelo do medo de ser "chamado à frente", mas 
a vida estudantil sem perigos será mais insuportável do que 
a perigosa. Entre "excelente" e "absolutamente insatisfató­
rio" havia um espaço para experiências românticas. Eu não 
gostaria de secar de minha memória o suor pelos troféus da 
infância. Juntamente com o aguilhão, também desaparece o 
estímulo. O ginasiano vive sem ambição como um filósofo 
sorridente e entra despreparado no arrivismo da vida que no 
passado seu caráter antecipava inofensivamente como o cor­
po vacinado antecipava a varíola. Ele experimentava todos 
os perigos da vida, chegando à beira do suicídio. Em vez de 
banir os professores que fazem a brincadeira dos perigos se 
transformar em coisa séria, prescreve-se a seriedade da vida 
sossegada. Antes os alunos vivenciavam a escola, agora de­
vem se deixar formar por ela. A beleza é banida juntamente 
com os calafrios, e o espírito jovem se encontra diante da 
parede caiada de um céu protestante. Os suicídios de estu­
dantes motivados pela estupidez de pais e professores irão 
cessar, e como motivo legítimo restará o tédio. 
Uma formação universal é uma farmácia bem provida, 
porém não há qualquer garantia de que não venda cianureto 
de potássio para tratar um resfriado. 
Não há, então, nada a fazer contra o erro de impressão que 
sempre transforma uma erudição estúpida em estupenda? 
60 
DITOS E CONTRADITOS 
Numa cabeça oca cabe muito conhecimento. 
O valor da formação se revela da maneira mais nítida 
quando as pessoas cultas tomam a palavra para falar de um 
problema que se encontra fora do campo de sua formação. 
A natureza adverte para refletirmos sobre uma vida que 
se apoia sobre trivialidades. Uma insatisfação cósmica se 
manifesta por toda parte; neves estivais e calores invernais 
protestam contra o materialismo que transforma a existên­
cia num leito de Procusto, trata doenças psíquicas como se 
fossem dores de barriga e gostaria de desfigurar a face da 
natureza onde quer que perceba suas feições: na natureza, 
na mulher e no artista. Um mundo que suportaria seu ocaso 
desde que não fosse impedido de ver sua exibição cinema­
tográfica não pode ser atemorizado com o incompreensível. 
Eu, porém, tomo facilmente um terremotocomo protesto 
contra as conquistas do progresso e não duvido por um ins­
tante da possibilidade de que um excesso de estupidez hu­
mana possa indignar os elementos. 
A tarefa da religião: consolar a humanidade que se dirige 
ao patíbulo; a tarefa da política: tirar seu gosto pela vida; a 
tarefa do humanitarismo: abreviar seu tormento e envene­
nar logo de uma vez a sua última refeição. 
61 
5 
O artista 
Compreender uma visão de mundo com um só olhar é 
arte. Porém, quanto não cabe num olho! 
Ter talento - ser um talento: essas coisas sempre são 
confundidas. 
O imitador segue os passos do original e espera que em 
algum momento o segredo da originalidade lhe seja reve­
lado. Porém, quanto mais se aproxima dele, tanto mais se 
afasta da possibilidade de aproveitá-lo. 
Não há volúpia que se aproxime da euforia da criação 
intelectual, e não há tristeza que se compare ao estado em 
que o artista mergulha depois de concluída a obra. A se­
gurança da inconsciência cria sempre a sua primeira obra 
e, por isso, sempre a melhor. Uma vez consumada, a inse­
gurança da consciência vê que é a última e, por isso, a pior. 
Qualquer crítica leviana impressiona semelhante desânimo. 
Um juízo capaz de acompanhar a criação artística apenas 
na sobriedade e não no gozo é uma verdadeira maldição. 
Nada sabem da volúpia aqueles que apenas sabem que ela 
precede a tristeza. 
KARL KRAUS 
O trabalho intelectual se parece tanto com o ato da volú­
pia que nele também obedecemos, de maneira involuntária, 
à convenção da vida sexual. Agimos discretamente, e quando 
recebemos a visita de uma mulher durante o trabalho, não a 
deixamos entrar para evitar um encontro embaraçoso. O fi­
listeu se ocupa com uma mulher, o artista corteja uma obra. 
Um bom estilista deve sentir o prazer de um Narciso du­
rante seu trabalho. Ele deve ser capaz de objetivar sua obra 
de tal maneira que se surpreenda com um sentimento de in­
veja e somente pela memória se aperceba que ele próprio é o 
criador. Em suma, ele deve dar provas daquela objetividade 
suprema que o mundo chama de vaidade. 
A ideia de que uma obra de arte possa ser alimento para o 
apetite do filisteu me enche de pavor. Recuso-me a ser dige­
rido pelo burguês. Mas ficar em seu estômago também não 
é tentador. O melhor, talvez, seja não se servir a ele de forma 
alguma. 
A receptividade do homem produtivo é pequena. O poeta 
que lê se torna suspeito. 
Vi um poeta correndo atrás de uma borboleta num grama­
do. Ele pôs a rede sobre um banco em que um garoto lia um 
livro. É uma infelicidade que normalmente seja o contrário. 
~,. 
Para que um artista deveria compreender o outro? O Vesú­
vio aprecia o Etna? No máximo, poderia se estabelecer uma re­
lação feminina de comparação invejosa: quem cospe melhor? 
64 
DITOS E CONTRADITOS 
Obras de arte são supérfluas. É necessário criá-las, é ver­
dade, mas não é necessário mostrá-las. Quem possui arte em 
si não necessita da ocasião externa. Quem não a possui vê 
apenas a ocasião. A um o artista se impõe, ao outro se pros­
titui. Em ambos os casos, deveria se envergonhar. 
Uns acham isso belo, outros acham aquilo. Mas eles pre­
cisam "achá-lo". Procurar ninguém quer. 
Há dois tipos de apreciadores da arte. Uns elogiam o que 
é bom porque é bom e criticam o que é ruim porque é ruim. 
Outros criticam o que é bom porque é bom e elogiam o que 
é ruim porque é ruim. A distinção entre esses tipos é simples 
pelo fato de o primeiro deles não existir. As coisas seriam 
fáceis de entender se não houvesse ainda uma terceira cate­
goria. Ela é formada por aqueles que elogiam o que é bom 
apesar de ser bom e criticam o que é ruim embora seja ruim. 
É a essa espécie perigosa que se deve toda a confusão nos 
assuntos artísticos. Seu instinto lhes diz que devem alvejar o 
que é errado, mas por precaução eles alvejam o que é certo. 
Eles possuem razões que se encontram fora da sensibilida­
de artística. O artista poderia viver sem o esnobismo que o 
exalta. Dificilmente, sem a estupidez que o degrada. 
Um esnobe não é confiável. A obra que ele elogia pode 
ser boa. 
Nem tudo que é condenado a um silêncio de morte vive. 
A crítica nem sempre demonstra sua perspicácia habitual; 
c.:om frequência, ignora os fenômenos mais insignificantes. 
65 
KARL KRAUS 
Os artistas têm o direito de ser modestos e a obrigação de 
ser vaidosos. 
Que é a Nona Sinfonia comparada a uma canção popular 
tocada por um realejo e por uma lembrança? 
Não confio na máquina de impressão quando lhe entrego 
meus manuscritos. Como pode um dramaturgo se fiar na 
boca de um ator? 
A obra de arte dramática nada tem a fazer no palco. O 
efeito teatral de um drama deve chegar até o desejo de vê­
lo encenado: mais do que isso destrói o efeito artístico. A 
melhor representação é aquela que o leitor faz do mundo do 
drama. 
Antes os cenários eram de papelão e os atores eram de 
verdade. Agora os cenários são completamente convincen­
tes, e os atores, de papelão. 
O naturalismo do cenário faz relógios de verdade bate­
rem as horas. É por isso que temos a impressão de que o 
tempo passa tão devagar. 
A atriz é a mulher elevada à potência; o ator, o homem de 
quem se extraiu a raiz. 
.~~: 
Rir da vaidade dos atores, de sua necessidade de aplausos 
e afins é ridículo. As pessoas de teatro precisam do aplauso 
para representar melhor; e para isso, também basta o aplau-
66 
DITOS E CONTRADITOS 
so fingido. O sentimento de felicidade que alguns atores 
mostram quando são aplaudidos por aqueles que pagaram 
para fazê-lo é uma prova de seu gênio artístico. Dificilmente 
alguém teria se tornado um grande ator se o público tivesse 
vindo ao mundo sem mãos. 
É provável que o riacho de Grinzing tenha estimulado 
Beethoven a compor a Sinfonia Pastoral. Mas isso não prova 
nada a favor do riacho de Grinzing e tudo a favor de Beetho­
ven. Quanto menor a paisagem, tanto maior pode ser a obra 
de arte, e vice-versa. É tolice, porém, dizer que a atmosfera 
que o riacho transmite a um caminhante qualquer é a mes­
ma recebida pelo ouvinte da sinfonia. Caso contrário, tam­
bém poderíamos dizer que o cheiro de maçãs podres nos dá 
o Wallenstein de Schiller. 
O gosto moderno necessita das complicações mais rebus­
cadas para finalmente descobrir que a melhor forma para 
um copo d'água é a redonda. Ele chega ao conveniente pelo 
caminho das incomodidades. Ele trabalha no suor de seu 
rosto para reconhecer que a Terra não é um cubo, mas uma 
•sfera. Esse assombro indígena da civilização frente às con­
lJU is tas da natureza tem algo tocante. 
Somos cultos o bastante para evitar restaurantes que são 
"Instituições de engorda". Porém o pensamento de se deixar 
urrcbatar às esferas celestes na companhia de mais quinhen­
l11s pessoas não perturba nenhum dos cultos frequentadores 
de concertos. Não me oponho a satisfazer as necessidades 
dn vida junto com meus concidadãos, mas a preço nenhum 
li7 
KARL KRAUS 
deste mundo gostaria de me encontrar com um único deles 
na ilha dos bem-aventurados. 
O esteta não vive tão longe do político quanto se pensa. 
Para aquele, a vida se reduz a uma linha; para este, a uma 
superfície. O jogo frívolo que ambos praticam os deixa 
igualmente distantes do espírito, num lugar em que absolu­
tamente não entram mais em consideração. É trágico ser re­
clamado por aquele partido quando não se quer saber nada 
deste, e ter de pertencer a este porque se detesta aquele. Po­
rém, da altura da verdadeira intelectualidade, vê-se a políti­
ca apenas como uma futilidade estética e a orquídea como 
uma flor partidária. É a mesma falta de personalidade que 
leva uns a buscar a vida no conteúdo e outros a buscá-la na 
forma. Eles nada querem saber um do outro; ambos, contu­
do, fazem parte do mesmo esfoladouro. 
O político está metido na vida, não se sabe onde. O esteta 
foge da vida, não se sabe para onde. 
6 
Escrever e ler 
Há duas espécies de escritores. Aqueles que são e aqueles 
que não são. Nosprimeiros, a forma e o conteúdo se harmo­
nizam como corpo e alma; nos segundos, a forma e o conteú­
do se ajustam como a roupa sobre o corpo. 
Que a palavra escrita seja a corporificação naturalmente 
necessária de um pensamento, e não o invólucro socialmen­
te aceitável de uma opinião. 
Quem emite opiniões não pode se deixar apanhar em 
contradição. Quem tem pensamentos também pensa entre 
ns contradições. 
As opiniões se reproduzem por divisão; os pensamentos, 
por brotação. 
O que entra no ouvido com facilidade também sai com 
l'ncilidade. O que entra com dificuldade também sai com 
dificuldade. Isso vale muito mais para a escrita do que para 
11 música. 
69 
KARL KRAUS 
Não falemos publicamente sobre os problemas da vida 
sexual. Que a vivamos e lhe demos forma, mas nos calemos 
a respeito. Para resguardar a verdade é lícito ser hipócrita. 
Um escritor que eterniza um fato cotidiano comprome­
te apenas a atualidade. Porém, quem jornaliza a eternidade 
tem perspectiva de ser reconhecido nas altas rodas. 
A matéria a que o compositor dá forma é o som, e o pin­
tor fala por meio de cores. Por isso, nenhum leigo respeitá­
vel que fala apenas por meio de palavras se atreve a emitir 
um juízo sobre música ou pintura. O escritor dá forma a um 
material acessível a qualquer um: a palavra. Por isso, qual­
quer leitor se atreve a emitir um juízo sobre a literatura. Os 
analfabetos do som e da cor são modestos. Mas pessoas que 
sabem ler não são consideradas analfabetas. 
A linguagem é o material do artista literário; porém, ela 
não pertence só a ele, enquanto a cor pertence exclusiva­
mente ao pintor. Por essa razão, as pessoas deveriam ser 
proibidas de falar. A linguagem de sinais basta perfeita­
mente para os pensamentos que têm para comunicar en­
tre si. É permitido lambuzar nossas roupas sem cessar com 
tinta a óleo? 
Será a literatura nada mais do que a habilidade de apre­
sentar ao público uma opinião com palavras? Então a pin­
tura seria a arte de expressar uma opinião em cores. No 
entanto, os jornalistas da pintura são os pintores de pare­
des. E eu acredito que um escritor é aquele que diz ao pú-
70 
DITIS E CINTRADITOS 
blico uma obra de arte. A maior honra que já recebi me 
foi prestada quando um leitor me confessou embaraçado 
que só conseguia entender meus textos na segunda leitura. 
Ele hesitou em me dizer isso, teve dificuldades para falar 
minha língua. Esse era um entendido e não sabia. O elogio 
ao meu estilo me deixa indiferente, mas as críticas que lhe 
fazem logo me deixarão orgulhoso. Por muito tempo re­
almente tive receio de que as pessoas tivessem prazer com 
meus textos já na primeira leitura. Como? Uma frase de­
veria servir para o público enxaguar a boca com ela? Os 
folhetinistas que escrevem em alemão possuem uma consi­
derável vantagem em relação aos escritores que escrevem a 
partir do alemão. Eles ganham à primeira vista e desiludem 
à segunda: é como se de repente estivéssemos nos bastido­
res e víssemos que tudo é de papelão. No caso dos outros, 
porém, é como se um véu cobrisse a cena. Quem já deveria 
aplaudir? Aqueles vaiam antes que a cena se torne visível. 
Assim se comporta a maioria; eles não têm tempo. E eles 
não têm tempo apenas para as obras da linguagem. No caso 
das pinturas, admitem que não devam representar apenas 
um processo apreendido pelo primeiro olhar: obrigam-se a 
dar um segundo olhar para chegar a perceber alguma coisa 
da arte das cores. Mas uma arte da construção de frases? Se 
1 hcs dissermos que isso existe, eles pensam na obediência 
1\s leis da gramática. 
O jogo de palavras, desprezível como fim em si mesmo, 
pode ser o recurso mais nobre de uma intenção artística na 
lllcd ida em que serve para abreviar uma intuição espirituo­
Nn. Ele pode ser um epigrama de crítica social. 
71 
KARL KRAUS 
Meus trabalhos devem ser lidos duas vezes para serem 
bem compreendidos. Mas tampouco me oponho a que se­
jam lidos três vezes. Prefiro, porém, que não sejam lidos do 
que o sejam apenas uma vez. Não pretendo me responsabili­
zar pelas congestões de um imbecil que não tem tempo. 
Devemos ler todos os escritores duas vezes, os bons e os 
ruins. Uns serão reconhecidos, e os outros, desmascarados. 
Ele domina a língua alemã - isso vale para o caixeiro. O 
artista é um criado da palavra. 
Há escritores que já conseguem dizer em vinte páginas 
aquilo para o que às vezes preciso de até duas linhas. 
A evolução do escritor: no início não se está acostumado 
e por isso as coisas vão às mil maravilhas. Mas depois vai 
ficando sempre mais difícil, e quando enfim pegamos a prá­
tica, há muitas frases que não conseguimos concluir. 
Primeiro o cão fareja, depois levanta a pern~. Contra essa 
falta de originalidade compreensivelmente não se pode ob­
jetar nada. Mas o fato de o literato ler antes de escrever é 
desolador. 
Escrever um romance pode ser puro deleite. Viver um ro­
mance já apresenta suas dificuldades. Porém ler um roman­
ce é algo que evito tanto quanto posso. 
De onde tiro tanto tempo para não ler tanta coisa? 
72 
DITOS E CONTRADITOS 
O leitor admite de bom grado que o autor o deixe confuso 
com sua cultura geral. Qualquer pessoa fica impressionada 
porque não sabia como a ilha de Corfu se chama em alba­
nês. Pois a partir de então ela sabe, e pode brilhar diante dos 
outros que ainda não sabem. A cultura geral é a única pre­
missa que o público não leva a mal, e um autor que humilha 
o leitor nesse ponto tem a sua fama presente garantida. Mas 
ai daquele que pressupõe faculdades que não possam ser re­
cuperadas ou cuja aplicação esteja ligada a incomodidades! 
Tudo bem que o autor saiba mais que o leitor; mas que ele 
tenha pensado mais não lhe será perdoado tão facilmente. 
O público não pode ser mais tolo. Ele é inclusive mais inte­
ligente do que o autor culto, pois fica sabendo através de sua 
revista como a ilha de Corfu se chama em albanês, enquanto 
aquele teve de consultar uma enciclopédia primeiro. 
Quando lemos um de seus ensaios mitológico-políticos 
aprendemos a odiar a cultura mais do que o absolutamente 
necessário. 
Um agitador toma a palavra. O artista é tomado por ela. 
Empregar palavras incomuns é um vício literário. Deve­
mos colocar apenas dificuldades de pensamento no cami-
11 ho do público. 
Heine é um Moisés que bateu com a vara no rochedo da 
11 ngua alemã. Porém, velocidade não é sortilégio; a água não 
brotou do rochedo, mas ele a apresentou com a outra mão, e 
era água de colônia. 
73 
KARL KRAUS 
A ironia sentimental é um cão que ladra para a Lua en­
quanto mija sobre sepulturas. 
"Escrever bem" sem personalidade pode bastar para o 
jornalismo. Na pior das hipóteses, para a ciência. Jamais 
para a literatura. 
Por que muitos escrevem? Porque não têm caráter sufi­
ciente para não escrever. 
Literatos alemães: os louros com que um sonha não dei­
xam o outro dormir. Outro, por sua vez, sonha que seus lou­
ros não deixam um outro dormir, e este não dorme porque o 
outro sonha com louros. 
Há cabeças ocas rasas e profundas. 
A ideia de que um jornalista escreva com a mesma cor­
reção sobre uma nova ópera quanto sobre um novo regula­
mento parlamentar tem algo de inquietante. Ele certamente 
também poderia dar lições a um bacteriólogo, a um astrôno­
mo e talvez até a um pastor. E se um especialista em mate­
mática superior cruzasse seu caminho, ele lhe provaria que é 
versado em matemáticas ainda mais altas. 
A prostituição do corpo partilha com o jornalismo a ca­
pacidade de não precisar sentir, mas o supera pela capacidade 
; \, . 
de poder sentir. · .,. 
O público não tolera qualquer coisa. Ele repele com indigna­
ção uma obra imoral quando percebe suas intenções culturais. 
74 
DITOS E CONTRADITOS 
O fato de um tema ser artístico não deve necessariamente 
prejudicá-lo junto ao público. Superestima-se o público ao 
acreditar que ele leva a mal e excelência da representação. 
Ele de forma alguma lhe dá atenção, e também tolera com 
tranquilidadecoisas valiosas desde que o objeto casualmen­
te corresponda a um interesse vulgar. 
Nem de longe um bom escritor recebe tantas cartas anô­
nimas ofensivas quanto normalmente se supõe. De cem as­
nos, nem dez admitem sê-lo, e no máximo um coloca isso 
por escrito. 
Lichtenberg cava mais fundo do que qualquer outro, mas 
não volta à superfície. Ele fala sob a terra. Só o escuta quem 
também cava fundo. 
São raros os livros antigos que, entre coisas incompreen­
síveis e óbvias, conservaram um conteúdo vivo. 
No começo era o exemplar para resenha, e alguém ore­
cebeu da editora. Então ele escreveu uma resenha. Então es­
creveu um livro, que o editor aceitou e passou adiante como 
exemplar para resenha. O próximo que o recebeu fez o mes­
mo. Assim nasceu a literatura moderna. 
O propósito do jovem Jean Paul era "escrever livros 
para poder comprar livros". O propósito de nossos jovens 
escritores é ganhar livros de presente para poder escrever 
livros. 
75 
KARL KRAUS 
Desde que maçãs podres serviram certa vez de estímulo 
no drama alemão, o público receia usá-las como meio de 
intimidação. 
Tal como sempre surgem rostos novos, embora o conte­
údo das pessoas pouco se distinga, assim deve haver sempre 
frases novas para o mesmo material intelectual. Isso depen­
derá do criador que tiver a capacidade de exprimir a mais 
ligeira nuance. 
Um cérebro criativo também diz por conta própria aqui­
lo que outro disse antes dele. Em compensação, outro pode 
imitar pensamentos que apenas mais tarde ocorrerão a um 
cérebro criativo. 
Pensamentos próprios não precisam ser sempre novos. 
Mas quem tem um pensamento novo, pode facilmente to­
má-lo de outro. 
Há verdades cuja descoberta pode demonstrar que não se 
tem espírito. 
Temas jornalísticos: não importa o tamanho do alvo, mas 
a distância. 
Uma verdade desprovida de arte acerca de um mal é um 
mal. Ela deve ser valiosa por si mesma. Assirr:f:.ela reconcilia 
com o mal e com a dor de que haja males. 
l& 
DITOS E CONTRADITOS 
Contar a piada inventada por uma pessoa engenhosa é 
o mesmo que apanhar uma seta do chão. A citação não diz 
como foi disparada. 
Muitas vezes é difícil escrever um aforismo quando se é 
capaz de fazê-lo. Muito mais fácil é escrever um aforismo 
quando não se é capaz de fazê-lo. 
Estou sempre disposto a publicar aquilo que contei a um 
amigo sob o selo do mais profundo sigilo. Mas ele não deve 
espalhá-lo. 
Ficar triste da vida por haver encontrado em seu traba­
lho um erro que ninguém vê; apenas se tranquilizar depois 
de encontrar um segundo, pois então a mancha na honra é 
coberta pelo conhecimento da imperfeição dos esforços hu­
manos: parece-me que é esse talento para a tortura o que dis­
tingue a arte do artesanato. Cabeças rasas poderiam tomar 
esse traço por pedantismo, mas elas não suspeitam de que 
1 iberdade nasceu essa coerção e a que facilidade de produção 
conduzem semelhantes dificuldades infligidas a si próprio. 
Nada seria mais tolo do que falar de niquice formal onde a 
forma não é a roupagem do pensamento, mas sua carne. Essa 
caçada às últimas possibilidades de expressão conduz até as 
entranhas da linguagem. É aí que se cria esse entrelaçamento 
110 qual os limites entre o que e como não são mais distinguí­
veis, e no qual, frequentemente, a expressão antecede o pen­
samento até o instante em que ele dá sua centelha sob a lima. 
Os diletantes trabalham seguros e vivem satisfeitos. Por cau­
sa de uma palavra recusada pela balança de precisão de mi-
11 
KARL KRAUS 
nha sensibilidade estilística, muitas vezes já detive a máquina 
de impressão e mandei destruir o que tinha sido impresso. A 
máquina violenta o espírito em vez de servi-lo: assim ele pre­
tende lhe mostrar quem manda. Quando é que acabo, visto 
que a publicação por fim não pode mais ser impedida e não 
traz a ansiada cesura da criação? Ah, eu só termino um tra­
balho quando começo outro; esse é o tempo que dura minha 
"correção de autor". Esse também é o tempo que dura a louvá­
vel loucura de acreditar que o leitor notará a ausência de um 
pensamento que nasceu depois da hora. E comparada a uma 
escrita que se arrepende de maneira tão sanguinolenta de 
suas imperfeições, esse leitor considera que sua faculdade de 
ler, deturpada pelo jornalismo, é perfeita. Por alguns vinténs, 
ele comprou um direito à superficialidade: será que ficaria sa­
tisfeito se tivesse de se lançar ao trabalho? Talvez as coisas es­
tivessem melhores se os escritores alemães aplicassem a seus 
manuscritos a décima parte do cuidado que dedico a meus 
textos depois de impressos. Um amigo que me socorre com 
frequência fazendo as vezes de parteira, ficou admirado com 
a facilidade de meus partos e a dificuldade de meu puerpério. 
Para os outros as coisas vão bem. Eles trabalham à escrivani­
nha e se divertem na sociedade. Eu me divirto à escrivaninha 
e trabalho na sociedade. Por isso evito a sociedade. No máxi­
mo, eu poderia perguntar às pessoas se essa ou aquela palavra 
lhes agrada mais. E isso elas não sabem. · 
Um bom autor sempre receará que o público P~f~eba quais 
foram os pensamentos que lhe ocorreram tarde demais. Mas 
quanto a isso, o público é muito mais indulgente do que se 
acredita, e também não percebe os pensamentos que aí estão. 
TB 
DITOS E CONTRADITOS 
Devemos escrever sempre como se escrevêssemos pela 
primeira e pela última vez. Dizer tanto como se fosse uma 
despedida, e tão bem como se estivéssemos estreando. 
Não domino a língua, mas a língua me domina completa­
mente. Ela não é a criada de meus pensamentos. Vivo numa 
relação com ela em que concebo pensamentos, e ela pode fa­
zer de mim o que bem quiser. Eu a obedeço à letra. Pois das 
letras salta o jovem pensamento ao meu encontro e dá forma 
retroativa à língua que o criou. Semelhante graça de gestar 
pensamentos me obriga a ficar de joelhos e transforma todo 
dispêndio de cuidado trêmulo em dever. A língua é uma se­
nhora dos pensamentos; ela pode ser útil na casa de quem 
consegue inverter essa relação, mas lhe fecha o útero. 
Que a palavra mais velha seja desconhecida nas redonde­
zas, recém-nascida e inspire dúvidas sobre se vai viver. En­
tão ela viverá. Ouvimos o coração da língua batendo. 
Oh deleite das experiências da língua, devorador da me­
dula! O perigo da palavra é o prazer do pensamento. O que 
foi que dobrou a esquina ali adiante? Ainda não divisada e já 
n mada! Lanço-me nessa aventura. 
79 
7 
Países e pessoas 
Espeto minha pena no cadáver da Áustria porque ainda 
acredito que ele viva. 
Prússia: liberdade de ir e vir usando focinheira. Áustria: 
solitária com permissão para gritar. 
Na Alemanha, bastam duas pessoas e temos uma asso­
ciação. Morre uma delas, a outra levanta de seu lugar em 
11lnal de luto. 
A polícia vigia com rigor para que apenas a velhice e a 
fcl u ra se entreguem ao vício. Só é aceita num bordel aquela 
' llja corrupção datar de uma era policial anterior e cuja vir­
tuJe tenha caído mais ou menos na mesma época em que 
'IIÍ ram as muralhas da cidade. Ela precisa ser uma emere­
lf'lt .... As inválidas cantam: "Eles nos sustentaram!". 
Às vezes lemos que uma cidade tem tantas centenas de 
mllhares de "almas", mas isso soa exagerado. Pela mesma ra­
V1 o, também se deveria romper finalmente com o sistema de 
1 l'c:nscamento por "cabeças". Mas não alimentaríamos mais 
li Nl.'.onfiança em relação à estatística das cifras gigantescas 
• 11111a outra parte do corpo fosse empregada como unidade 
81 
KARL KRAUS 
de contagem. Ninguém mais poderia dizer que semelhante 
estimativa - no caso de uma metrópole como Viena, por 
exemplo - é exagerada. A assimilação e a eliminação do ali­
mento são indiscutivelmente os interesses mais importantes 
que podem determinar a vida intelectual de uma população. 
Triste é apenas o fato de ela própria dominar tão mal aquilo 
que lhe é mais importante. A cultura dessa atividade vital 
não avança de forma alguma, e ainda que seja uma vanta­
gemser um bom ga~fo, não é vantagem alguma ser um garfo 
barulhento e se comportar de tal maneira que se ouçam os 
ruídos de bem-estar até no exterior. 
As camas de Hamburgo têm bordas altas. Estamos segu­
ros de que não cairemos quando o mar estiver agitado. Um 
uso sem sentido, com o qual o povo conserva a tradição do 
camarote. O enjoo do mar se reproduz em terra firme por 
gerações de marceneiros, e nada é mais doloroso ao acordar 
do que a recordação de que os hamburgueses são um povo 
de navegadores. 
A aglomeração: e depois que o acidente aconteceu, "apa­
receram muitos curiosos para ver o local". E então o aciden­
te já estava tão insensível às provocações da curiosidade que 
se contentou com o desprezo calado. 
Num domingo de inverno à tarde, num café de Viena, en­
curralados entre pais que jogam cartas, mulher~.s que berram 
e crianças que leem revistas humorísticas, podemos ser to­
mados por tal sentimento de solidão que ansiamos pela vida 
agitada que deve reinar por essa hora na Baía do Advento. 
82 
DITOS E CONTRADITOS 
Se eu perguntasse ao porteiro de um restaurante berli­
nense qual o significado dos relevos e frisos da escadaria, ele 
poderia responder: "Isso serve para levar em conta o senso 
de beleza". Se eu perguntasse a um catador de papéis quem 
é representado num monumento, ele poderia responder: "O 
homem fez algo pela educação". Certo, isso são abominações 
da civilização. Mas com o tempo também ficamos fartos das 
vantagens dela que gozamos em Viena quando a essas per­
guntas recebemos sempre a mesma resposta: "Que te impor­
tam os frisos, seu fedelho imbecil!". 
A beleza imerecida dessa cidade! Mas aqueles que a ani­
mam à chamada seriedade do trabalho são tão tolos quanto 
seus bajuladores e folhetinistas. Não é lamentável que seus 
habitantes não trabalhem, mas que não pensem. Chega a ser 
meritório contar com o fato de que o céu é azul e o prado é 
verde. Quem diz que não se pode viver disso é um filisteu. 
Mas quem diz que é triste viver disso quando não se é um 
urtista, diz a verdade. 
É uma injustiça sempre criticar Viena pelos seus defei­
los, visto que suas qualidades também merecem censura. 
No entanto, o livro de B. chega a criticar Viena por defeitos 
que são apenas qualidades que lhe faltam. Como esse autor 
deva o nível cultural dos vienenses para atacá-lo! É lasti-
1111\vel essa falsa óptica de uma crítica que primeiro preci­
NII inventar as qualidades de um povo para depois levá-las 
li ,uai. O autor descobriu no povo austríaco uma concepção 
Ilusória da vida, e culpa uma dinastia, que sem dúvida é a 
lllllis fi el guardiã das realidades, pelo fato de o vienense vi-
83 
KARL KRAUS 
ver num mundo irreal. A história "quis experimentar se o 
espírito podia governar sozinho", e instituiu os Habsburgos. 
Eles criaram o mundo a partir de seu espírito. E semelhante 
panegírico ao mais sublime senso artístico foi considerado 
desleal! Eu, no entanto, não tolero a concepção errônea de 
uma essência popular que se esgota exclusivamente em pe­
quenas autenticidades. Pois o mundo vienense não foi criado 
a partir do espírito, e sim a partir da carne de gado. Diante 
dessa solidez que se mede em quilos, toda imaginação capaz 
de criar um mundo qualquer é arruinada. O espírito cria­
tivo da irrealidade, descoberto pelo autor, interveio na his­
tória austríaca visivelmente apenas uma vez. Foi durante a 
construção da Linha Ferroviária Sul, entre Viena e Baden, 
quando se constatou que não havia montanha à disposição 
para construir o túnel que uma Alteza desejava - e o túnel 
foi construído. 
84 
8 
Humores, sentenças 
Aqueles dois não se casaram: vivem desde então em mú­
tua viuvez. 
Seu marido permite que ela faça teatro - a boemia não 
teria permitido que ela se casasse. Portanto, na sociedade 
uinda há mais liberdade do que na boemia, que tem suas 
normas imutáveis. 
Quem quiser praticar ginástica cerebral, que procure re­
construir tão rápido quanto possível a conversa de um grupo 
quando, em dado momento, chamar sua atenção o quanto 
essa conversa se afastou do tema original. Ele folheará essa 
enciclopédia e verá um caminho em ziguezague em cujas 
ex tremidades se encontram assuntos que fazem lembrar a 
divertida falta de relação dos títulos: De calefação a gótico e 
/)e Newton a pacífico. 
Em caso de dúvida, decida pelo correto. 
Uma fábrica de guarda-chuvas expõe ao gosto público 
11111 cartaz que mostra Rômulo e Remo com guarda-chuvas 
85 
KARL KRAUS 
abertos. Refleti muitas vezes sobre esse simbolismo. Sempre 
cheguei a essa mesma e triste explicação: em razão do mau 
tempo, a fundação de Roma foi suspensa. 
Que são a consciência que um Nero tinha de sua força, o 
ímpeto destruidor de um Gêngis Khan, a plenitude de po­
deres do Juízo Final comparados à altivez de um pequeno 
funcionário da Junta Geral de Alistamento do Distrito Judi­
cial que, por não obediência a uma convocação para inscri­
ção com fins de avaliação da taxação do imposto militar, nos 
condena a uma multa de duas coroas! 
É melhor que não nos roubem nada. Assim pelo menos 
não teremos problemas com a polícia. 
Nunca percebemos com tanta clareza a brutalidade da 
existência, a falta de fundamento de todas as coisas huma­
nas do que quando temos a infelicidade de estar num veículo 
que precisa parar porque é envolvido pela música folclórica. 
Tive uma visão medonha: vi uma enciclopédia se aproxi­
mar de um sabe-tudo e abri-lo. 
Que cortejo estranho! Ela vai atrás dele como um cadáver 
que segue um enlutado. 
Emerson: filosofia alemã que, ao ser transpo~tada através 
dos mares, absorveu um tanto de sua umidade. 
O novo esnobe: o retrato de Dori Gray. 
B& 
DITOS E CONTRADITOS 
O filósofo L. St., da Hungria: ele não é um líder, mas é o 
"primeiro-violino" entre os pensadores. Chamam-no à mesa 
e ele toca o transcendental aos ouvidos das pessoas. 
Um crítico literário que sempre encontra um juízo para 
as palavras certas. 
Dificilmente haverá um escritor que em tão pouco tempo 
tenha se tornado tão desconhecido quanto esse X. 
Ele deu rédeas soltas, que tomou emprestadas, a uma me­
galomania que não era_ sua. 
Ele não deixa seu aborrecimento durante as refeições ser 
estragado por nenhum apetite. 
Um excelente pianista, mas a sua execução precisa supe­
rar os arrotos da boa sociedade após um jantar. 
Ora vejam, o conselheiro administrativo da Cretinos S.A. 
e o diretor da Banalidades Associadas! 
Sua convicção estava acima de tudo, inclusive acima da 
vida. Mas como estava disposto a fazer sacrifícios, e surgiu 
ocasião para tanto, ele deu a convicção pela sua vida. 
Certo sujeito disse que tentei colocá-lo contra a parede. 
1 sso não é verdade. Eu simplesmente consegui. 
A boca transborda daquilo que o coração está vazio. 
87 
KARL KRAUS 
Há pessoas que são toleradas em locais públicos apenas 
porque não pagam. São chamadas de redatores. 
Um piadista: coceiras na cabeça não são atividade cerebral. 
Quando entramos em contato com ele é como se tocássemos 
uma gosma. Desde que sei disso, nunca mais toco em gosmas. 
Um pintor inescrupuloso que sob o pretexto de possuir 
uma mulher a atrai ao seu ateliê e lá a retrata. 
Ela começou o casamento com uma mentira. Era virgem 
e não disse isso a ele! 
Será que também podemos pegar uma pitada de rapé da 
caixa de Pandora? Bom proveito, amigo W.! 
Era ciumento e colecionava musgos. Queria que sua mu­
lher vivesse criptogamicamente. 
A ordem social tem tendências control-sexuais. 
Vivemos numa sociedade que traduz monogamia por ca­
samento. 
Não há mulheres incompreendidas. Elas são apenas a 
consequência de um equívoco das feministas, q~. não que­
rem ser compreendidas, mas apreendidas. Há mtilheres in­
compreendidas, afinal. 
88 
DITOS E CONTRADITOS 
A medicina: passe o dinheiro e a vida! 
Ele morreu picado pela serpente de Esculápio. 
Símbolo moderno: a morte com a buzina. 
Como leio as notícias da imprensa diária apenas de passa­
gem, confundi duas manchetes próximas:"Visita de Iswol­
ski à Áustria" e "Tentativa de roubo num bricabraque". 
Secularização: a Igreja tem um bom estômago. Apesar 
d isso, deveria ser submetida a uma lavagem estomacal de 
tempos em tempos. 
Os alemães - o povo dos juízes e dos carrascos.2 
Antes de nos submetermos à vida deveríamos ser anes­
tesiados. 
2 Costumava-se dizer que os alemães eram o povo dos poetas e dos pensadores 
( Dichter und Denker); para Kraus, são o povo dos Richter und Henker ... (N.T.) 
89 
9 
Ditos e contraditos 
O aforismo jamais coincide · com a verdade; ou é uma 
meia verdade ou uma verdade e meia. 
O preconceito é um criado indispensável que expulsa im­
pressões indesejáveis da soleira de nossa porta. Só não pode­
mos deixar que nosso criado também nos expulse. 
Que são todas as orgias de Baco comparadas à embria­
guez daquele que se entrega sem freio à abstinência? 
Quão limitada é a perfeição, quão ralo o bosque, quão 
insípida a poesia! Aula prática para os limitados, os ralos e 
os insípidos. 
Procura-se deserto apropriado para uma miragem. 
Ninguém acredita como muitas vezes é difícil traduzir 
uma ação num pensamento! 
A ideia que faço dele não é incorreta. Se ele é diferente, 
isso nada prova contra minha imaginação: é o sujeito que é 
incorreto. 
91 
KARL KRAUS 
Não há melhor refutação de uma teoria do que o fato de 
ser realizável. 
Os hipócritas morais não são odiosos por agir diferente 
do que professam, mas por professar algo diferente do que 
fazem. Quem amaldiçoa a hipocrisia moral precisa estar 
muito atento para não ser tomado por um amigo da moral 
que aqueles, pelo menos em segredo, traem. O condenável 
não é a traição à moral, mas a moral. Ela é a própria hipo­
crisia. Não é o fato de aqueles tomarem vinho que deve ser 
desmascarado, mas o fato de pregarem água. Demonstrar 
contradições entre a teoria e a prática é sempre melindroso. 
O que significa o ato de todos comparado ao pensamento de 
um só? O moralista poderia estar falando sério ao lutar con­
tra uma imoralidade da qual ele próprio se tornou vítima. 
E se alguém prega vinho, podemos até perdoá-lo por tomar 
água. Ele está em contradição consigo mesmo, mas faz com 
que se tome mais vinho no mundo. 
Sempre considerei o fato de alguém não ser responsável 
como o mais forte dos agravantes. 
Pai, perdoa-lhes, porque sabem o que fazem! 
Um paradoxo surge quando um conhecimento precoce 
se choca com o absurdo de sua época. 
1-. 
Uma antítese parece apenas uma inversão mec.ânica. Mas 
que conteúdo de experiências, sofrimentos e discernimentos 
precisa ser adquirido até que possamos inverter uma palavra! 
92 
DITOS E CONTRADITOS 
Logo se completarão dez anos que não recobro mais a 
consciência. A última vez que a recobrei, fundei um jornal 
polêmico. 
É inegável que sou alguém que escreve muito. Mas, na ver­
dade, isso se deve a uma compulsão irresistível. É certo que 
nenhuma máquina de escrever pode se queixar de que a so­
brecarreguei. Mas é correto dizer que minha mão nem sem­
pre consegue acompanhar as ordens de minha cabeça. Como 
invejo os autores cuja cabeça não consegue acompanhar as 
necessidades de sua mão! Eles pelo menos podem descansar. 
Meus leitores acreditam que escrevo para o dia por escre­
ver a partir dele. Assim, preciso esperar até que meus escritos 
envelheçam. Então possivelmente adquirirão atualidade. 
Os touros de todos os partidos são unânimes acerca do 
fato de que faço propaganda da luxúria. Certamente é ver­
dade que recomendo o reconhecimento da beleza como úni­
co remédio contra a estupidez e que atribuo todos os males 
deste mundo ao cruel soterramento e à malévola poluição, 
praticados por séculos, da fonte de toda a vida. Mas será que 
por isso me entusiasmei pela sexualidade dos touros? 
Eu e meu público nos entendemos muito bem: ele não 
ouve o que digo e eu não digo o que ele gostaria de ouvir. 
Meu desejo de que meus textos sejam lidos duas vezes 
causou grande irritação. Sem razão; o desejo é modesto. Não 
peço sequer que sejam lidos uma só vez. 
93 
KARLKRAUS 
A única concessão que poderíamos fazer seria a de nos 
guiarmos pelos desejos do público a ponto de fazermos o 
contrário do que ele deseja. Mas não faço isso, pois não faço 
concessões e escrevo determinadas coisas mesmo quando o 
público as espera. 
É de ficar megalomaníaco: o reconhecimento que se re­
cebe é tão escasso! 
Posso dizer com orgulho que empreguei dias e noites em 
não ler nada e que com energia férrea aproveitei cada minu­
to livre para adquirir pouco a pouco uma falta de cultura 
enciclopédica. 
Quanto material eu teria se não houvesse acontecimentos! 
Posso julgar o valor estético e cultural de um desfile ou 
de certa espécie de peças teatrais apenas quando não os as­
sisti. Caso contrário, sucumbo a uma reação nervosa qual­
quer e falo das cores como faz o cego. A música suborna a 
crítica, e com que facilidade um repicar de sinos pode levar 
alguém a tolerar uma nulidade! Assim, para conservar um 
juízo objetivo, não posso deixar de ficar conscienciosamente 
longe do espetáculo. 
Subestimam meu comodismo quando dizem que antipa­
tias pessoais me levaram a declarar que determin~d.o literato 
é um charlatão. Ora, não vou gastar meu ódio para liquidar 
uma mediocridade literária! 
94 
DITOS E CONTRADITOS 
Pestes e terremotos são grandes temas. Como é mesqui­
nho reconhecer dores articulares como sintomas da peste e 
se deter junto à turvação da água de uma fonte que indica 
um terremoto! Como é mesquinho sentir nojo do mundo 
quando passa um poetastro! 
Por que tantos me criticam? Porque me elogiam e apesar 
disso os critico. 
Quem não quiser fazer negócios com a vida, anuncie que 
pretende diminuir seu estoque de conhecidos e que está ven­
dendo suas experiências abaixo do preço de compra. 
Com o passar dos anos me tornei um oportunista em busca 
de desvantagens sociais. Eu espreito, farejo e caço as ocasiões 
cm que poderia escandalizar um conhecido ou perder uma 
relação influente. Talvez eu ainda alcance uma boa posição! 
Cuidado com as mulheres! Poderás apanhar uma visão 
de mundo que te devorará a medula. 
Refreia as tuas paixões, mas toma cuidado para não dar 
rédeas soltas à tua razão. 
As experiências são economias guardadas por um ava­
rento. A sabedoria é uma herança da qual um esbanjador 
não dá conta. 
Uma mentira inocente exigida pelas circunstâncias é 
sempre perdoável. Mas aquele que diz a verdade sem coação 
11iio merece indulgência. 
95 
KARL KRAUS 
A verdade é um criado desajeitado que espatifa os pratos 
quando faz a faxina. 
A vaidade é a guardiã imprescindível de um dom divino. 
É loucura exigir que a mulher abandone sua beleza sem pro­
teção e que o homem faça o mesmo com seu espírito só para 
não ofender a pobreza. É tolice afirmar que um valor não 
deva se referir a si mesmo para não revelar a falta de valor de 
outro. Quem me acusa de ser vaidoso torna-se suspeito de 
inveja, que nem de longe é uma qualidade tão bela quanto 
a vaidade. Mas quem se atreve a dizer que não sou vaidoso, 
torna-me suspeito de pobreza. 
A imaginação tem o direito de gozar a sombra da árvore 
que transforma em bosque. 
Toda descoberta deveria ser tão perturbadora quanto a 
do camponês que certo dia fica sabendo que um conselheiro 
imperial nada aconselha e que um fornecedor da corte nada 
tem a fornecer. Ele se torna desconfiado. 
Há uma credulidade inferior da confiança e uma cre­
dulidade superior do ceticismo. Um sujeito é enganado, 
outro é homem o bastante para enganar a si próprio. 
Aquele é feito de bobo, este é um sabedor que não dei­
xa aquilo que sabe estragar sua brincadeira quando olha 
sobre o próprio ombro. (Eu queria a assinatura dela num 
1''. • 
postal. Pedi a um amigo que a falsificasse. Se ele acres-
centar que é autêntica, certamente acreditarei.) Antes, 
quando eu ainda acreditava, não teria podido fazer ideia 
96 
DITOS E CONTRADITOS 
de minha credulidade. Agora, fico frequentemente per­
plexo com assurpresas que me faço e com o fato de me 
surpreender. Desde que minha desconfiança cresceu, sei 
o quanto acredito. 
Quando corrigimos um erro depois de muito tempo, os 
superficiais criticam o erro e os profundos nos chamam de 
inconsequentes. 
Numa festa a fantasia, cada um espera ser o mais chama­
tivo, mas apenas chama atenção aquele que não está fanta­
siado. Será que isso não daria uma comparação? 
A solidão na qual se está ocupado consigo mesmo ainda 
está longe de ser a verdadeira. 
Desprezemos as pessoas que não têm tempo. Lastimemos 
as pessoas que não têm trabalho. Mas invejemos os homens 
que não têm tempo para trabalhar! 
O que nos tortura são as possibilidades perdidas. Uma 
impossibilidade certa é um ganho. 
Os pensamentos são isentos de impostos. Mas acabamos 
lendo problemas do mesmo jeito. 
O maior acontecimento local, que ocorre em todas as ci­
dades simultânea e incessantemente, é o menos notado: a 
entrada do caixeiro na vida intelectual. 
97 
KARLKRAUS 
O bom senso diz que "ainda acompanha" um artista até 
determinado ponto. O artista deveria recusar a companhia 
mesmo até aí. 
Num escritor podemos observar sintomas que deixariam 
um grande negociante maduro para a internação. 
A "rígida letra da lei"? A própria vida se enrijeceu sob a 
forma de letras, e, comparada a tal estado, que significa a 
rigidez cadavérica da legalidade? 
A seriedade da vida é a brincadeira do adulto. Só que ela 
não se deixa comparar com as coisas razoáveis que enchem 
um quarto de criança. 
Pouco antes de pegar no sono, podemos desenhar no ar 
toda espécie de caretas. São as visões hipnagógicas. Quem vê 
dessa forma as pessoas de carne e osso encontra-se próximo 
da morte. 
Farto da vida, recorrer ao pensamento: um suicídio por 
meio d9 qual alguém se dá a vida. 
"Não se permitir mais ilusões": é então que elas começam. 
Observei que as borboletas estão em extinção. Ou será 
que elas são vistas apenas pelas crianças? Quand<:? eu tinha 
dez anos, convivia nos prados de Weidlingau exclu:sivamen­
te com almirantes-vermelhos. Posso dizer que foi o convívio 
mais soberbo de minha vida. Antíopas, pavões-reais-diurnos 
98 
DITOS E CONTRADITOS 
e borboletas-limão também coloriam a vida da infância. Va­
nessa io, Vanessa cardui - vanitas vanitatum! Quando voltei 
depois de alguns anos, todas tinham desaparecido. O sol do 
meio-dia vibrava como antes, mas não se via nenhum fulgor 
colorido; em compensação, havia pedaços de jornal pelo pra­
do. Mais tarde, fiquei sabendo que a madeira dos bosques fora 
utilizada para produzir papel de impressão e que o excesso de 
informação não havia deixado muitas linhas para as borbo­
letas. Um amigo de nosso jornal nos mandou a última bor­
boleta e um de nossos colaboradores teve a oportunidade de 
espetá-la na pena e lhe perguntar pelas causas de sua solidão. 
O mundo foge das cores da personalidade, as pessoas se prote­
gem ao se organizarem. Apenas as borboletas deixaram de se 
organizar. É por isso que agora vemos redatores e folhetinis­
tns iridescentes bebericando nos cálices das flores. Mesmo as 
monótonas borboletas-da-couve, com as quais o jornalismo, 
graças a um certo parentesco, ainda poderia ter entrado num 
ncordo, tiveram de fugir. A luta de extermínio contra as cria­
turas aladas significa o triunfo da cultura do jornal. As bor­
boletas e as mulheres, a beleza e o espírito, a natureza e a arte 
passaram a sentir o fato de uma edição dominical ter cento 
e cinquenta páginas. A humanidade persegue as borboletas 
, om mata-moscas. Ela esfrega a poeira colorida dos dedos. 
1·'.lcs precisam estar limpos para tocar na tinta de impressão. 
Se ao menos a natureza finalmente se cobrisse de trevas! 
l·'.ssa penumbra miserável ainda vai arruinar os olhos a to­
dos nós. 
Não se vive uma vida sequer uma vez. 
99 
PRO DOMO ET MUNDO 
1 
Da mulher, da moral 
E visto que agora ela quer todos e ele não quer mais ne­
nhuma, alarga-se o abismo entre os sexos para dar espaço a 
tanto tormento e a tanta moral. 
O prazer feminino se compara ao masculino como uma 
epopeia a um epigrama. 
Pelo fato de no homem o prazer ser seguido pelo aborre­
cimento, deve seguir-se que na mulher a fidelidade seja se­
guida pelo arrependimento. 
A histeria é o resto legítimo que fica da mulher depois 
que o prazer masculino encontrou sua congruência. 
Conhecer o Diabo sem assar no inferno é algo que con­
viria a muita gente. 
Mulheres são casos-limite. 
O esquecimento das mulheres às vezes é abalado pela dis­
crição dos homens. 
103 
KARL KRAUS 
As mulheres nunca estão com a cabeça no lugar, e por 
isso também querem que os homens não estejam com a sua 
no lugar, mas no lugar onde elas estiverem. 
A I d Ih 
x2+✓31,4-20+4,6-(4x2)+y2+2xy ( ) a ma a mu er = --- - - ------'-- --'-- 0,53+0,47 
(x+y)2-3,8+6-6,2 
Deus tomou a costela da mulher, fez o homem, tirou-lhe 
o fôlego vital e o transformou num torrão de terra. 
O que fazem os membros femininos das associações de bons 
costumes? Dedicam-se a eliminar a prostituição. O que im­
porta é o incêndio, mesmo quando as mulheres não queimam 
mais, mas querem apagar o fogo. O que importa é o incêndio! 
Vista de perto, muitas vezes uma mulher nos decepcio­
na. Sentimo-nos atraídos porque ela aparenta ter espírito, e 
ela o tem. 
Ninfa - esse também é um estágio da vida de alguns 
insetos. 
Não achei estranho que um sujeito que jurasse pela vir­
gindade de sua adorada se deixasse convencer disso, mas 
que se deixasse convencer disso. 
O ciúme é um ladrar de cães que atrai os ladrões. 
-~:.: 
Amar, ser enganado, ficar com ciúmes - isso qualquer 
um consegue. O outro caminho é mais incômodo: ficar com 
ciúmes, ser enganado e amar! 
104 
PRO DOMO ET MUNDO 
Enquanto o sexo do homem é o diminuendo e o da mu­
lher o subtraendo, a conta acaba mal: o mundo é infinita­
mente negativo. 
Na linguagem erótica também há metáforas. O analfabe­
to as chama de perversões. Ele abomina o poeta. 
Ao sadio basta a mulher. Ao erotista basta a meia para 
chegar à mulher. Ao doente basta a meia. 
O sexo pode se associar a tudo que há no céu e também 
na Terra. Com o incenso e o suor das axilas, com a música 
das esferas e o realejo, com uma proibição e uma verruga, 
com a alma e um espartilho. Tais associações são chamadas 
de perversões. Elas oferecem a vantagem de que se precisa 
apenas da parte para chegar ao todo. 
O erotismo se relaciona com a sexualidade como o ganho 
com a perda. 
O sexual é apenas a subtração de duas forças. O voyeur 
soma três. 
É preciso gozar a graça feminina fora das relações de pa­
rentesco, pois não podemos garantir que a insuficiência dos 
traços não se revele subitamente. Eu me esfalfo e faço a sín­
tese - eis que chega o pai e faz a análise! 
Que a mulher tenha tanto espírito quanto um espelho 
tem corpo. 
105 
KARL KRAUS 
A cabeça da mulher é apenas a almofada sobre a qual 
uma cabeça descansa. 
A moral na vida sexual é o expediente de um rei persa 
que acorrenta o mar agitado. 
A ética cristã conseguiu transformar heteras em freiras. 
Infelizmente, ela também conseguiu transformar filósofos 
em libertinos. E graças a Deus, a primeira metamorfose não 
é assim tão confiável. 
A sexualidade mal recalcada causou perturbações em 
muitas casas; a bem recalcada, no entanto, perturbou a or­
dem do universo. 
Não devemos nos entristecer com o que a cultura fez da 
mulher num trabalho de dois milênios. Um pouquinho de 
curiosidade remedeia tudo. 
A destruição de Sodoma foi um exemplo. Durante todas 
as épocas se pecará antes de um terremoto. 
O mundo ainda se recusa a admitir sem reservas que a 
fome e o amor governam sua economia. Pois ele por certo 
permite que a cozinheira dê as ordens, mas a prostituta é 
contratada meramente como ajudante. 
As crianças não entenderiam porque os adult6s se defen­
dem contra o prazer; os velhos, por sua vez, entendem me­
nos ainda. 
106 
PRO DOMO ET MUNDO 
Se o sexo tomasse parte apenas nareprodução, o escla­
recimento sexual seria sensato. Mas o sexo também toma 
parte em outras funções; por exemplo, no esclarecimento 
sexual. 
Os moralistas ainda resistem contra o fato de o valor da 
mulher determinar seu preço. Entretanto, faz tempo que o 
preço determina seu valor, e disso nenhuma moral dá conta. 
Nápoles é uma cidade altamente moralista em que se 
pode procurar mil rufiões até encontrar uma prostituta. 
Quando os inquilinos ficaram sabendo que a dona do 
prédio era uma cafetina, todos quiseram sair. Mas eles fica­
ram no prédio quando ela lhes garantiu que tinha mudado 
de ramo e agora se dedicava à agiotagem. 
Quando o pecado se atreve a avançar, ele é proibido pela 
polícia. Quando se esconde, recebe um alvará. 
O rufião é o órgão executivo da imoralidade. O órgão 
executivo da moralidade é o chantagista. 
O amor entre os sexos é um pecado na teologia, um acor­
do ilícito na jurisprudência e um insulto mecânico na me­
dicina; quanto à filosofia, absolutamente não se ocupa de 
coisas desse gênero. 
107 
2 
Da sociedade 
Que tormento é essa vida em sociedade! Muitas vezes al­
guém é tão amável em me oferecer fogo que preciso procurar 
um cigarro no bolsó para ser amável com ele. 
Divido as pessoas que não cumprimento em quatro gru­
pos. Há aquelas que não cumprimento para não me com­
prometer. Esse é o caso mais simples. Há aquelas que não 
cumprimento para não comprometê-las. Isso já exige uma 
certa atenção. Mas então há aquelas que não cumprimento 
para não me prejudicar junto a elas. Com essas é ainda mais 
difícil de lidar. E por fim há aquelas que não cumprimento 
"' para não me prejudicar junto a mim mesmo. Isso exige um 
cuidado especial. No entanto, já tenho uma rotina razoavel­
mente estabelecida, e, pela maneira como não cumprimento, 
sei expressar de tal modo cada uma dessas nuanças que não 
sou injusto com ninguém. 
Não cumprimentar não basta. Também não cumprl.men~ 
la mos pessoas que não conhecemos. 
A vida moderna deve explicar de algum modo uma des­
proporção entre oferta e demanda. De outra forma, não seria 
109 
KARL KRAUS 
possível que um diálogo socrático fosse interrompido tantas 
vezes por alguém nos perguntando se queremos comprar 
uma escova de dentes. 
Ver o trabalho individual ser suplantado em toda parte 
pelo maquinal é algo que nos toca de maneira melancólica. 
Apenas os defloradores ainda andam por aí, a cabeça ergui­
da, convencidos de serem insubstituíveis. Os cocheiros fala­
vam exatamente assim vinte anos atrás. 
Um garçom é uma pessoa que usa um fraque sem que 
percebamos isso. Em contrapartida, há pessoas que toma­
mos por garçons tão logo vistam um fraque. Logo, o fraque 
não tem valor em nenhum dos casos. 
Quando alguém se comportou como um animal, ele 
diz: "Ora, eu sou só um ser humano!". Mas quando é tra­
tado como animal, ele diz: "Ora, eu também sou um ser 
humano!". 
Em algum lugar, encontrei a seguinte inscrição: "Pede-se 
deixar o lugar assim como se deseja encontrá-lo". Se os edu­
cadores da vida falassem às pessoas com a metade da ênfase 
dos donos de hotéis! 
Não me relaciono de fato com pessoas que utilizam a pa­
lavra "efetivamente". 
Antes alguém te perdoar pela baixeza que cometeu con­
tra ti do que pelo favor que de ti recebeu. 
110 
PRD DOMO ET MUNDO 
Já passei tantas vezes pela experiência de alguém parti­
( har minha opinião e ficar com a metade maior para si que 
agora estou escaldado e só ofereço pensamentos às pessoas. 
"Todo mundo aqui é gente" - isso não é desculpa, mas 
presunção. 
Não basta à necessidade de solidão que se esteja senta­
do sozinho a uma mesa. Também precisa haver cadeiras 
vazias em volta. Quando o garçom tira uma dessas cadei­
ras nas quais não há ninguém sentado, sinto um vazio e 
minha natureza sociável desperta. Não posso viver sem 
cadeiras vazias. 
Durante a semana, conseguimos nos fechar para o mun­
do. Mas há um sentimento dominical penetrante do qual 
não conseguimos escapar nem mesmo num porão, no topo 
de uma montanha ou dentro de um elevador. 
Antes um cavalo do campo se acostumar a um automóvel 
do que um passante da Ringstrasse se acostumar comigo. 
Pessoas assustadiças já provocaram muitos acidentes. 
"Pode ir, não se aborreça!", diz o vienense a todo aquele 
que se aborrece em sua companhia. 
Quando um pensador erige um ideal, todos gostam de se 
sentir tocados. Eu descrevi o sub-homem - quem deveria 
me seguir? 
m 
KARL KRAUS 
Não acredito que uma avalanche de atos infames algu­
ma vez tenha causado no mundo tanta indignação moral 
quanto a insubornabilidade de meu pensamento causou na 
cidade em que moro. Vi pessoas às quais nunca fiz mal al­
gum explodirem ao me ver e se desintegrarem nos átomos 
da banalidade universal. Numa estação ferroviária, a mu­
lher de um redator embarcou num compartimento particu­
lar de primeira classe, me viu e morreu com uma maldição 
nos lábios. E isso porque não faço uso de passagens gratuitas 
nos trens, o que provavelmente é o menor de meus defeitos. 
Pessoas cujo sangue é mais lerdo cospem quando me enxer­
gam e seguem seu caminho. Todas são mártires; defendem 
a causa comum, sabem que meu ataque não se dirige a suas 
pessoas, mas à coletividade de que fazem parte. É o primei­
ro caso em que essa sociedade aleijada, que leva as lascas 
de seus ossos envoltas em ataduras, cobra ânimo para fazer 
um gesto. Há séculos não se cospe mais quando passa um 
escritor. A humanidade acorre a Messina, e a estupidez se 
sente solidária diante de Die Fackel. Não há antagonismos 
de classe, a questão nacional se cala e a Associação de De­
fesa do Antissemitismo pode descansar as mãos no colo ao. 
falar. Estou sentado no restaurante: à direita, uma mesa de 
gente mal vestida que mete os dedos no nariz, ou seja, evi­
dentemente deputados alemães; à esquerda, selvagens com 
barbas pretas que dão a impressão de que a crença na morte 
ritual, no fim das contas, tem algum traço de legitimidade, 
mas que certamente são apenas adeptos da política social 
que passam a faca pela boca à maneira dos carrticeiros ju­
daicos. Dois mundos, entre os quais aparentemente não há 
nenhuma conciliação. Wotan e Jeová dirigem olhares hostis 
112 
PRO DOMO ET MUNDO 
um ao outro - mas os raios do ódio se unem sobre minha 
humilde pessoa. O fato de ainda não ter ocorrido a um go­
verno austríaco a ideia de me reclamar para seu programa 
somente pode ser explicado pela desorientação fundamental 
dos governos deste país. 
O que faz de mim a maldição da sociedade a cuja mar­
gem vivo é o modo súbito como renomes, caracteres e cére­
bros se revelam diante de mim sem que eu precise desmas­
cará-los. Alguém carrega a sua importância por anos a fio 
até que eu o alivie desse peso num momento imprevisto. 
Deixo-me enganar pelo tempo que quiser. Não é assunto 
meu "penetrar as intenções" das pessoas, e de modo algum 
me preparo para isso. Mas certo dia meu vizinho coloca a 
mão na testa, sabe quem é e me odeia. A fraqueza foge de 
mim e diz que sou inconstante. Tolero o comodismo por­
que não pode me fazer mal; certo dia, quando se tratar de 
um sim ou de um não, ele morrerá espontaneamente. Bas­
ta que alguma vez eu esteja certo em fazer algo que tenha 
cheiro de caráter ou de algum modo me torne suspeito: a 
mentalidade se revela automaticamente. Se for verdadeiro 
que maus exemplos arruínam bons costumes, isso é válido 
em medida ainda maior para os bons exemplos. Qualquer 
um que tenha a força de ser um exemplo deforma seu am­
biente, e os bons costumes, que são o conteúdo da vida da 
má sociedade, sempre correm o risco de serem corrompi­
dos. A insipidez tolera meu comportamento enquanto ele 
se mantém em limites acadêmicos; se o demonstro numa 
ação, porém, ela se assusta e foge. Aguento o tédio por mui­
to mais tempo do que ele a mim. Dizem que sou intoleran-
113 
KARLKRAUS 
te. O contrário é verdadeiro. Posso me relacionar com as 
pessoas mais tediosas sem notá-lo. Estou tão ocupado co­
migo mesmo a cada momento que nenhuma conversapode 
me fazer mal. Para a maioria, a vida social é um banho de 
imersão em que se submerge a cabeça; a mim, ela mal ume­
dece os pés. Nenhuma anedota, nenhuma recordação de 
viagem, nenhuma dádiva do cofrezinho do conhecimento, 
numa palavra, aquilo que as pessoas consideram ser o su­
prassumo da conversação, é capaz de deter minha atividade 
interior. Em todas as épocas, a força criadora causou maior 
mal-estar à impotência do que esta a ela. A partir disso se 
explica porque minha companhia se torna insuportável a 
tanta gente e que perseverem ao meu lado apenas em razão 
de uma cortesia despropositada. Seria coisa fácil para mim 
ir ao encontro daqueles que sempre precisam ser estimula­
dos durante uma conversa. Por mais inculto que eu seja e 
por mais que eu entenda menos de astronomia, contrapon­
to e budismo do que um recém-nascido, eu por certo seria 
capaz, mediante a habilidosa intercalação de perguntas, de 
simular um interesse e de demonstrar um conhecimento 
superficial que daria mais alegrias a um sabe-tudo do que 
um conhecimento especializado que poderia envergonhá­
-lo. Mas eu, que em toda minha vida ainda não dei um 
passo ao encontro de necessidades que não reconheci como 
estimuladoras do espírito, mostro ser um completo mal­
criado nessas situações. E não, talvez, um malcriado que 
boceja - isso seria humano -, não, mas um lll.~lcriado 
que pensa! Ao mesmo tempo, desdenho comunicar meus 
próprios dons ao indigente que padece suplícios de Tântalo 
diante de seus conhecimentos adquiridos pela leitura e que 
114 
PRO DOMO ET MUNDO 
precisa passar fome nos celeiros egípcios do conhecimento. 
Com um coração endurecido ao ponto da petrificação, che­
go a fazer chistes piores do que aqueles que me ocorrem, e 
não revelo nada daquilo que escrevo no meu bloco de notas 
entre dois goles de café. No dia em que, num momento de 
descuido, não me ocorrer nenhuma ideia e existir o risco de 
que a vida social penetre no meu cérebro, dou-me um tiro. 
O mundo das relações, no qual um cumprimento é mais 
forte do que uma crença e no qual as pessoas se asseguram 
do inimigo quando agarram sua mão, considera como cál­
culo a renúncia ao seu sistema, e ainda que não chegue a 
detestar Hércules por dificultar sua própria vida e a de três 
mil bois, ele sonda seus motivos e pergunta: "O que o senhor 
tem contra Áugias?". 
Alguma verdade sempre se encontra. Dizem que certa 
vez fui monista. Eu realmente escrevi certa vez algo contra o 
monismo. Dizem que não consegui publicar naquele jornal 
que mais tarde combati. Eu realmente recusei suas propos­
tas. Dizem que procurei me insinuar na intimidade de um 
sujeito influente por meio de uma carta. Realmente recebi 
dele uma carta desse gênero. Em suma, alguma verdade 
sempre se encontra. 
Alguém que nunca conheci me cumprimenta na esperan­
ça de que após tanto tempo eu já tenha esquecido que nunca o 
conheci e retribua o cumprimento do novo conhecido como 
se ele fosse um conhecido antigo. Na verdade, não sei exata­
mente quem eu conheço; sei exatamente, porém, quem eu não 
115 
KARL KRAUS 
conheço. Não há possibilidade de erro. No entanto, se isso al­
guma vez acontecesse, o cumprimento me lembraria a tempo 
de que não conheço o sujeito, e então me lembraria dele até o 
fim de meus dias. Quem foi que você acabou de - pergunta 
um velho conhecido. Você não o conhece? Esse é aquele que 
acreditou que eu tinha esquecido que não o conheço! 
Posso imaginar que uma mulher feia se veja no espelho 
e se convença de que a imagem refletida seja feia, e não ela 
própria. É dessa forma que a sociedade vê sua baixeza num 
espelho e acredita, por idiotice, que sou eu o sujeito baixo. 
É natural morrer por uma pátria na qual não se pode vi­
ver. Mas nesse caso, enquanto patriota, eu preferiria o suicí­
dio de uma derrota. 
Quando se teme a ordem de batalha da vida burguesa não 
se deveria agarrar a oportunidade e desertar para a guerra? 
Dizem que meu estilo capturou todos os ruídos da época 
atual. Isso o torna aborrecido aos contemporâneos. Mas pes­
soas de outra época talvez o coloquem ao ouvido como uma 
concha na qual um oceano de lama toca música. 
Propostas para que essa cidade volte a conquistar minha 
simpatia: mudança do dialeto e proibição de reprodução. 
116 
3 
Dos jornalistas, estetas, políticos, 
psicólogos, imbecis e eruditos 
Por que a eternidade não abortou essa época aberrante? 
Sua marca de nascença é um carimbo de jornal, seu mecônio, 
tinta de impressão, e em suas veias corre tinta de escrever. 
"Eis que tu o verás com os teus olhos, porém disso não 
comerás." Para os descrentes de hoje, as coisas se cum­
priram de outra forma. Eles comem o que não chegam a 
ver. Isso é um milagre que acontece por toda parte em que 
a vida é vivida de segunda mão: no caso de fariseus e de 
escribas. 
Os finlandeses dizem: "Sem nós não haveria presunto!". 
Os jornalistas dizem: "Sem nós não haveria cultura!". 
Os vermes dizem: "Sem nós não haveria cadáveres!". 
Não ter pensamentos e ser capaz de expressá-los ·_ eis 
um jornalista. 
Os jornalistas escrevem porque não têm nada a dizer, e 
têm algo a dizer porque escrevem. 
117 
KARL KRAUS 
O pintor tem em comum com o pintor de paredes o fato 
de sujar as mãos. Precisamente isso distingue o escritor do 
jornalista. 
Agora os artistas escrevem contra a arte e defendem o 
contato com a vida. Goethe, desprovido de humanidade, 
"olha da altura fantasmagórica em que os gênios alemães 
talvez se entendam, impassível, para a sua pátria impas­
sível. Com seu nome, folgazões indolentes defendem suas 
existências vazias". Mas não há cultura sem humanidade ... 
Quem assim se exalta é alguém respeitado pela sua prosa. 
Ele quer uma Marselhesa para que ela não seja mais ouvida. 
Goethe guia a mão de Bõrne, e ele a levanta contra Goethe. 
Eu, porém, acredito que na obra de arte fica guardado aqui­
lo que o imediatismo das energias intelectuais desperdiça. 
Humanidade não é o primeiro, mas o último efeito da arte. 
A humanidade de Goethe é um efeito a longa distância. Há 
estrelas que não são vistas enquanto existem. Sua luz tem 
um longo caminho, e iluminam a Terra quando há muito 
já se apagaram. Elas são familiares aos flanadores notur­
nos: o que Goethe pode fazer pelos estetas? Para eles é um 
preconceito o fato de não poderem chegar a suas casas sem 
a sua luz. Pois eles não estão ·em casa em parte alguma, e 
a arte tem tão pouco a ver com eles quanto a luta com os 
fanfarrões. Também o esteta é covarde demais para a vida; 
mas o artista sai vencedor ao fugir da vida. O esteta é um 
fanfarrão das derrotas; o artista permanece na luta sem to­
mar parte nela. Ele não é alguém que acomp~riha. Não é 
questão sua acompanhar o presente, visto que é questão do 
futuro acompanhá-lo. 
118 
PRO DOMO ET MUNDO 
Se causa deleite ao esteta o gesto com que alguém rou­
ba cinco milhões do Tesouro Público, e ele afirma publi­
camente que a diversão que o escândalo traz aos "poucos 
apreciadores" tem mais valor do que o prejuízo total, então 
se deve dizer-lhe: Se o gesto dessa diversão é uma obra de 
arte, vamos ser generosos, e um milhão a mais ou a menos 
que o Estado perde não nos importa. Mas se isso se trans­
forma num editorial, então a nossa sensibilidade social des­
perta e não damos nem cinco centavos pelo divertimento. 
Pois se a bancarrota do Estado se transforma numa obra 
de arte, o mundo faz um negócio com isso. Caso contrá­
rio, vamos perceber os efeitos no orçamento e condenar a 
estética popular que desculpa os ladrões sem indenizar as 
vítimas do roubo. 
Uma individualidade pode resistir mais facilmente à co­
ação do que um indivíduo à liberdade. 
Uma forma de sociedade que conduz à liberdade median­
te a coação pode ficar atolada no meio do caminho. A outra 
forma, que conduz ao despotismo por meio da liberdade, 
sempre atinge sua meta. 
"Democrático" significa poder ser escravo de todo mundo. 
Talvez as coisas andassem melhor se os homens· recebes­
sem focinheiras e os cães, leis;se os homens fossem conduzi­
dos pela coleira e os cães pela religião. A hidrofobia poderia 
diminuir na mesma proporção da política. 
119 
KARL KRAUS 
O nacionalismo é um turbilhão em que qualquer outro 
pensamento desaparece. 
Com frequência, o historiador é apenas um jornalista 
voltado para o passado. 
O jornalismo empestou o mundo com talento; o histori­
cismo, sem ele. 
O que é um historiador? Alguém que escreve muito mal 
para poder colaborar num jornal. 
Um folhetinista - um corretor. O corretor também precisa 
ser rápido e conhecer a língua a fundo. Por que não o incluímos 
na literatura? A vida possui compartimentos. Aquele pode se 
familiarizar com este e este com aquele, todos com todos. A 
fortuna é cega. Os acasos determinam o homem. Sabemos, por 
certo, o que somos, mas não sabemos o que poderemos nos tor­
nar. Por que incluímos justamente o folhetinista na literatura? 
Na arte, pode ser custoso distinguir a autenticidade do 
embuste. Reconhecemos o embuste, quando muito, pelo fato 
de exagerar a autenticidade. A autenticidade, quando muito, 
pelo fato de o público não se deixar enganar por ela. 
Hoje em dia não é possível distinguir o ladrão da vítima 
do roubo: nenhum deles leva objetos de valor consi$~· 
:~;; 
Toda espécie de educação tem o propósito de tornar a 
vida insípida, quer dizendo como ela é, quer dizendo que ela 
120 
PRO DOMO ET MUNDO 
não é nada. Somos confundidos por uma alternância cons­
tante, nos esclarecem para cá e nos acalmam para lá. 
Escreve-se de tal maneira sobre o tempo e o espaço como 
se fossem coisas para as quais ainda não se tivesse encontra­
do qualquer aplicação na vida prática. 
Muitas vezes, a filosofia não é mais do que a coragem 
de entrar num labirinto. E quem se esquecer do portão de 
entrada, pode facilmente adquirir a reputação de pensador 
independente. 
O monista deveria se sacrificar pela sua verdade. Só então 
veríamos que a realidade nada perde e a imortalidade nada 
ganha, e a identidade estaria completamente demonstrada. 
Eis uma coisa que eu gostaria muito de saber: o que tan­
tas pessoas fazem com o seu horizonte ampliado? 
A nova psicologia se atreveu a cuspir no mistério do gênio. 
Se ela não se contentar com Kleist e Lenau, vou ficar de sen­
tinela e expulsar os vendedores ambulantes da medicina que 
ultimamente fazem ouvir o seu "Vai um tratamento aí?" por 
toda parte. Sua teoria pretende estreitar a personalidade depois 
de ter ampliado a irresponsabilidade. Enquanto o negócio per­
manecer uma prática privada, os interessados que se defendam. 
Mas quanto a Kleist e Lenau, vamos tirá-los do consultório! 
Os psicólogos modernos que ampliam os limites da irres­
ponsabilidade ocupam um vasto lugar nela. 
121 
KARL KRAUS 
Uma certa psicanálise é a ocupação de racionalistas lú­
bricos que atribuem tudo no mundo a causas sexuais, exce­
to a sua ocupação. 
Os filhos de pais psicanalistas definham precocemen­
te. Quando crianças de peito, precisam admitir que têm 
sensações voluptuosas ao evacuar. Mais tarde lhes per­
guntam que ideias lhes vieram à mente quando viram 
um cavalo defecando no caminho para a escola. Podemos 
falar de sorte quando uma criança dessas atinge a idade 
em que o jovem pode confessar um sonho em que violou 
sua mãe. 
Eles têm a imprensa, eles têm a bolsa de valores - e ago­
ra também o subconsciente! 
Se lhe roubarem alguma coisa, não vá à polícia, à qual 
isso não interessa, e também não vá ao psicólogo, a quem 
só interessa, no fundo, o fato de ter sido você que roubou 
alguma coisa. 
Os psicólogos são perscrutadores do vazio e embusteiros 
da profundidade. 
Boas opiniões não têm valor. O que importa é quem as 
tem. 
As sátiras que o censor compreende são proibid~s com 
razão. 
122 
PRD HMD ET MUNDO 
O clichê é o peitilho engomado sobre uma mentalidade 
normal que nunca é trocada. 
Comprometo-me a levar um homem ao patíbulo se ex­
clamar na rua com uma entonação bastante resoluta: "Ve­
jam só! E ai~da por cima ele usa uma camisa colorida!". Um 
grito indignado percorreria a multidão. A mesma multidão 
que agora procuram impressionar com sinfonias. 
O imbecil que não pode passar diante de nenhum enigma 
do universo sem observar, se desculpando, que se trata de sua 
humilde opinião, embolsa o elogio da modéstia. O artista que 
se deleita com seus pensamentos junto a um bueiro, se ufana. 
Uma das mais surpreendentes descobertas que o novo 
século nos trouxe é sem dúvida o fato de que em Die Fackel 
falo muitas vezes de mim mesmo, e ela é esfregada em meu 
nariz com um dos conhecimentos mais profundos que a 
sabedoria das almas contemplativas alguma vez alcançou, 
a saber, que o homem deve ser modesto. Alguns afirmam 
inclusive ter descoberto que publiquei o ensaio de S. sobre 
os dez anos de Die Fackel "em meu próprio jornal". Ten­
do sido chamada minha atenção, preciso confessar que 
é verdade. Não há dúvida de que jamais um escritor tor­
nou a descoberta da vaidade mais fácil ao seu leitor. Pois 
se ele não percebeu por conta própria que sou vaidoso, 
ficou sabendo disso pelas minhas repetidas confissões de 
vaidade e pelas glorificações que fiz desse vício. O ridículo 
estar-por-dentro que descobre um calcanhar de aquiles é, 
portanto, frustrado por uma intencionalidade que ele des-
123 
KARLKRAUS 
nudou voluntariamente antes. Mas eu capitulo. Se a mais 
estéril objeção contra mim é levantada mesmo durante o 
décimo ano de minha incorrigibilidade, então réplicas não 
adiantam. Não posso infundir em corações de pergaminho 
a sensibilidade para a situação de legítima defesa em que 
vivo, para o privilégio de uma nova forma jornalística e 
para a coincidência desse aparente interesse próprio com os 
fins universais de minha atuação. Eles não são capazes de 
compreender que se alguém se confunde com uma causa 
sempre falará dela, sobretudo quando falar de si. Eles não 
são capazes de compreender que aquilo que chamam de 
vaidade é aquela modéstia que nunca se tranquiliza, que se 
mede segundo sua própria medida e a possui em si, aquela 
vontade humilde de ascensão que se submete ao julgamen­
to mais implacável, que é sempre o seu próprio. Vaidoso é o 
contentamento que jamais retorna à obra. Vaidosa é a mu­
lher que nunca se olha no espelho. Ver-se no espelho é im­
prescindível à beleza e ao espírito. O mundo, porém, possui 
uma só norma psicológica para os dois sexos e confunde a 
vaidade de uma cabeça que se excita e se satisfaz na criação 
artística com o cuidado presunçoso que trabalha num pen­
teado. Mas esse penteado não é mudo no convívio social? 
Ele é incapaz de enervar o próximo da maneira como faz a 
modéstia dos espíritos reprodutores. 
Megalomania não é nos considerarmos mais do que so-
mos, mas nos considerarmos aquilo que somos. ~\ : 
Formação é aquilo que a maioria recebe, muitos passam 
adiante e poucos possuem. 
124 
PRD DOMO ET MUNDO 
Se o conhecimento fosse um assunto do espírito, como 
ele poderia atravessar tantos espaços ocos para, sem deixar 
um traço de sua permanência, passar a tantos outros espaços 
ocos? 
O que os professores digerem, os alunos comem. 
Quanto maior o material associativo, tanto menor a ca­
pacidade de associação. Não se precisa mais material do que 
aquele oferecido pelo ginásio. Quem, por exemplo, procura a 
citação "Ninguém caminha impunemente sob as palmeiras" 
em Natã, o sábio, foi mais longe do que aquele que a encon­
tra, com acerto, em As afinidades eletivas. 
Comparada ao sabe-tudo, a enciclopédia tem uma vanta­
gem: o orgulho. Ela se comporta com reserva, fica esperando 
e nunca dá mais do que se quer. Ela se contenta em responder 
quando Amenófis nasceu. O sabe-tudo folheia a si mesmo e 
logo também informa sobre as amebas, sobre o amperíme­
tro, os anfictiões, a anfoterodiplopia, a amrita, que é a bebida 
dos deuses da doutrina hindu, os amschaspands, que são os 
sete espíritos de luz supremos da religião persa, o amschir, 
que como se sabe é o sexto mês do calendário turco,sobre o 
amuleto (do árabe hamala), sobre a amigdalina, a peculiar 
substância encontrada nas amêndoas amargas, que, mistu­
rada em solução aquosa com a emulsina (cf.), fornece ácido 
cianídrico, essência de amêndoas amargas e açúcar, e sobre a 
conhecida vela de acetato de amila, e é capaz de se interrom­
per quando chega a Anaxágoras, justamente onde as coisas se 
tornam mais interessantes. E então ficamos insatisfeitos. 
125 
KARL KRAUS 
A ama de leite cuida da estimulação intelectual da criança 
com o seu "olha, olha - ali, ali". Aos adultos se mostra algo 
de arte e de ciência para que não gritem. A criança é ninada 
com a canção Sabes quantas estrelinhas há. Os adultos só se 
acalmam quando também sabem seus nomes e a que distân­
cia Cassiopeia se encontra da Terra, bem como que seu nome 
provém da esposa do rei etíope Cefeu e mãe de Andrômeda. 
Pessoas que beberam além da conta para matar sua sede 
de conhecimento são uma praga social. 
Não devemos aprender mais do que o absolutamente ne­
cessário contra a vida. 
Quando chegará o tempo em que se precisará informar no 
recenseamento o número de abortos feitos em cada casa? 
Qualquer criança vê o progresso que vai do Taígeto à in­
cubadora. 
O humanitarismo é uma lavadeira que torce as roupas 
sujas da sociedade enquanto se desfaz em lágrimas. 
O clichê e a coisa são uma coisa só. 
A distorção da realidade na reportagem é a reportagem 
mais verídica sobre a realidade. 
O mundo está surdo das cadências. Tenho a convicção de 
que os acontecimentos absolutamente não acontecem mais, 
126 
PRO DOMO ET MUNDO 
mas de que os clichês continuam trabalhando automatica­
mente. Se, ainda assim, os acontecimentos devessem acon­
tecer, sem serem intimidados pelos clichês, eles cessariam 
quando os clichês fossem destruídos. A coisa começa a apo­
drecer da língua. O tempo já cheira mal dos clichês. 
127 
4 
Do artista 
Homens criativos podem se fechar à impressão das cria­
ções alheias. Por isso, muitas vezes assumem uma atitude 
de rejeição ao mundo, embora não raras vezes sintam a sua 
imperfeição. 
Quando Deus viu que era bom, a crença humana sem 
dúvida lhe atribuiu a vaidade, mas rião a insegurança do 
criador. 
A arte deve desagradar. O artista quer agradar, mas não 
f(z nada para agradar. A vaidade do artista se satisfaz na 
criação. A vaidade da mulher se satisfaz no eco. Ela é criativa 
como aquela, como a própria criação. Ela vive no aplauso. O 
artista a quem a vida recusa o aplauso de direito o antecipa. 
A arte do escritor não o deixa balançar sobre a corda bam­
ba de um período bem esticado, mas lhe transforma um pon­
to final num problema. Ele pode se atrever ao insólito; cada 
regra, porém, se dissolve para ele num caos de dúvidas. 
Há uma dúvida produtiva que vai além de um ultimato 
morto. Eu poderia encher cadernos inteiros com os pensa-
129 
KARLKRAUS 
mentas que pensei até chegar a um pensamento, e volumes 
inteiros com aqueles que pensei depois. 
A exigência de que uma frase seja lida duas vezes porque 
só então o sentido e a beleza se revelam é considerada arro­
gante ou doida. A esse ponto o jornalismo levou o público. 
Sob a arte da palavra, este não é capaz de imaginar outra coi­
sa do que a capacidade de tornar uma opinião clara. Escreve­
se "sobre" alguma coisa. Os pintores de paredes ainda não 
corromperam tão radicalmente o gosto pela pintura quanto 
os jornalistas o gosto pela literatura. Ou, naquele caso, o es­
nobismo dá seu auxílio e protege o público de admitir que 
também na pintura ele apreende apenas o processo. Qual­
quer corretorzinho da bolsa hoje sabe que, por delicadeza, 
precisa ficar parado dois minutos diante de um quadro. Na 
verdade, ele també~ está satisfeito de que se pinte sobre al­
guma coisa. A hipocrisia com que os cegos falam das cores é 
grave. Porém mais grave é o atrevimento com que os surdos 
reclamam a linguagem como instrumento do ruído. 
Por que o público é tão insolente em relação à literatura? 
Porque ele domina a língua. As pessoas se atreveriam exa­
tamente da mesma maneira em relação às outras artes caso 
se dirigir cantando aos demais, lambuzar-se com tinta ou 
atirar gesso fossem meios de comunicação. A desgraça está 
justamente no fato de a arte da palavra trabalhar a partir de 
um material que passa todo dia pelas mãos da ralé. É por 
isso que a literatura não tem mais salvação. Quanto Ifiais ela 
se afasta da compreensibilidade, tanto maior é a impertinên­
cia com que o público reclama seu material. O melhor seria 
130 
PIO DOMO ET MUNDO 
esconder a literatura do público até entrar em vigor uma lei 
que proíba as pessoas de usarem a linguagem coloquial e 
apenas lhes permita fazer uso de uma linguagem de sinais 
em casos de urgência. Mas até que essa lei entre em vigor, 
elas poderiam ter aprendido a responder à ária "Como vão 
os negócios?" com uma natureza morta. 
O jornalismo, que conduz os espíritos para dentro de seu 
curral, conquista sua pastagem nesse meio tempo. Jornalistas 
querem ser autores. Publicam-se antologias de folhetim nas 
quais nada causa mais espanto do que o trabalho não ter se 
desintegrado nas mãos do encadernador. Assa-se pão a par­
tir de migalhas. O que lhes dá a esperança da permanência? 
O interesse permanente no material que eles "escolhem". Al­
guém que tagarela sobre a eternidade não deveria ser ouvido 
enquanto a eternidade durar? Dessa falácia vive o jornalismo. 
Ele tem sempre os maiores temas, e em suas mãos a eternidade 
pode se tornar atual; mas ela acaba envelhecendo com a mes­
ma facilidade. O artista dá forma ao dia, à hora, ao minuto. 
Por mais limitado e condicionado temporal e espacialmente 
que seja seu motivo, sua obra cresce mais ilimitada e livre­
mente quanto mais dele se afasta. Que ela envelheça serena­
mente no instante: ela rejuvenesce com o passar das décadas. 
Contra isso, a tendência deslocadora de valores do jorna­
lismo nada pode fazer. Ele pode dar certificados de garantia 
válidos por um século para os relógios aos quais dá corda: 
eles já estão parados quando o comprador saiu da loja. O 
relojoeiro diz que a culpa é do tempo, e não do relógio, e 
gostaria de fazer aquele parar a fim de salvar a reputação do 
131 
KARL KRAUS 
relógio. Ele fala mal da hora ou a condena a um silêncio de 
morte. Mas o gênio da hora segue em frente e faz amanhecer 
e anoitecer, embora o mostrador queira outra coisa. Quan­
do ele bate dez horas e mostra onze, podemos contar que é 
meio-dia, e o sol dá risada dos relojoeiros ofendidos. 
O que vive do tema morre antes do tema. O que vive na 
língua vive com a língua. 
O homem que não pensa, pensa que só ternos um pensa­
mento quando o ternos e o vestimos com palavras. Ele não 
compreende que na verdade só o tem aquele que tem a pala­
vra dentro da qual o pensamento cresce. 
O sentido tornou a forma, ela resistiu e se entregou. Nas­
ceu o pensamento, que leva os traços de ambos. 
A língua é a mãe, e não a criada do pensamento. 
A língua é a vara devedor que encontra fontes de pen­
samento. 
Porque torno o pensamento pela palavra, ele vem. 
A ciência é análise espectral. A arte é síntese luminosa. 
O pensamento está no mundo, mas não o ternos. Ele está 
decomposto em elementos linguísticos pelo prisrni :da expe­
riência material: o artista os compõe num pensamento. 
132 
PRO DOMO ET MUNDO 
O pensamento é algo que se encontra, que se reencontra. 
E quem o procura é um encontrador honesto; ele é seu, mes­
mo que outro também já o tenha encontrado antes dele. 
Há imitadores de originais. Quando dois têm um pensa­
mento, ele não pertence àquele que o teve antes, mas àquele 
que o tem melhor. 
O senhor v. H. foi criticado por causa de urna frase ruim. 
Com razão. Pois se descobriu que a frase era de Jean Paul e 
era boa. 
O original sempre volta a absorver o que lhe foi retirado. 
Mesmo que venha ao mundo mais tarde. 
Um pensamento só é legítimo quando ternos a sensação 
de que nos surpreendemos plagiando a nós mesmos. 
Opiniõessão contagiosas; o pensamento é um rniasrna. 
O aforismo requer o fôlego mais longo. 
Alguém que é capaz de escrever aforismos não deveria se 
estilhaçar em artigos. 
Que para o artista e para o pensamento valham o·dito de 
Nestroy: "Fiz um prisioneiro e ele não me larga mais". 
Mais de um já provou pelos seus imitadores que não é um 
original. 
133 
KARL KRAUS 
Um original cujos imitadores são melhores não é um 
original. 
Heinrich Heine afrouxou tanto o espartilho da língua 
alemã que hoje qualquer caixeiro pode passar a mão em 
seus seios. 
Oh, essa mão canhota de Midas do jornalismo, que 
transforma todo pensamento alheio que toca numa opinião! 
Como podemos reclamar ouro roubado se o ladrão tem ape­
nas cobre no bolso? 
Minhas palavras nas mãos de um jornalista são piores 
do que aquilo que ele próprio pode escrever. Para que, por­
tanto, o aborrecimento de citar? Eles acreditam que po­
dem oferecer provas de um organismo. Para mostrar que 
uma mulher é bonita, arrancam seus olhos. Para mostrar 
que minha casa é habitável, colocam minha varanda sobre 
suas calçadas. 
Uma obra da língua traduzida em outra língua: alguém 
que atravessa a fronteira sem sua pele e do outro lado veste 
o traje típico do país. 
Pode-se traduzir um editorial, mas não um poema. É 
verdade que se pode atravessar a fronteira nu, mas não sem 
pele, pois ao contrário da roupa, ela não volta a crescer . .. 
>.';,;. 
Há uma originalidade que provém da carência, que não é 
capaz de se elevar até a banalidade. 
134 
PRO DOMO ET MUNDO 
Quem pensa profissionalmente nas razões do ser, nem 
sequer precisa realizar tanto a ponto de conseguir aquecer 
seus pés com isso. Mas ao remendar sapatos, mais de um já 
chegou perto das razões do ser. 
Na poesia épica há algo de superfluidade congelada. 
Não tenho objeções à literatura romanesca pela razão de 
que me parece conveniente que aquilo que não me interessa 
seja dito de maneira prolixa. 
O leitor com espírito alimenta a mais forte desconfiança 
contra aqueles escritores que vagueiam por ambientes exóti­
cos. No melhor dos casos, eles não estiveram lá. Mas a maio­
ria é feita de tal maneira que precisa fazer uma viagem para 
ter algo a contar. 
Há também um exotismo temporal que socorre a fal­
ta de talento exatamente da mesma maneira que a abor­
dagem de ambientes estrangeiros. A distância, em todo 
caso, não é um obstáculo, mas o mimetismo da falta de 
personalidade. 
Os outros são artistas da prancheta. Loos é o arquiteto da 
tábula rasa. 
Kokoschka fez um retrato meu. É possível que aqueles 
que me conhecem não me reconheçam. Mas aqueles que não 
me conhecem certamente me reconhecerão. 
135 
KARL KRAUS 
Num retrato de verdade, precisamos reconhecer qual 
pintor representa. 
Ele pintava os vivos como se estivessem mortos há dois 
dias. Quando certa vez quis pintar um morto, o caixão já 
tinha sido fechado. 
Teatro de variedades. O humor da comédia-pastelão é 
hoje em dia o único humor com visão de mundo. Por ter um 
fundamento mais profundo, ele parece não ter fundamento, 
tal como a ação que oferece. Sem fundamento é o riso que ele 
provoca em nossa região. Quando uma pessoa acaba subita­
mente de quatro, trata-se de um efeito de contraste primitivo 
do qual corações simples não conseguem se esquivar. Uma 
compreensão mais refinada já pressupõe a representação de 
um mestre de cerimônias que se esborracha no parquê. Se­
ria a demonstração do absurdo da dignidade, da pompa, da 
vida decorativa. A cultura da Europa Central oferece todos 
os pressupostos para a compreensão desse humor. O humor 
dos clowns não tem raízes aqui. Quando um deles salta sobre 
a barriga do outro, o que pode cativar é apenas a comicidade 
da mudança de posição, do acidente nunca visto. Mas o hu­
mor norte-americano é a demonstração do absurdo de uma 
vida em que o homem se tornou uma máquina. O trânsito 
flui sem obstáculos; por isso, é plausível que alguém entrevo­
ando pela janela e seja lançado pela porta, que leva com ele. A 
vida foi imensamente simplificada. Visto que o conforto é o 
princípio supremo, é algo óbvio que se pode obter &rveja fa­
zendo um furo numa pessoa e segurando uma caneca debai­
xo da abertura. As pessoas dão golpes de picareta no crânio 
136 
PRO DOMO ET MUNDO 
das outras e perguntam atenciosas: "O senhor notou isso?". 
É uma interminável carnificina de máquinas, na qual não 
corre nenhum sangue. A vida tem um humor que caminha 
sobre cadáveres, sem machucar. Por que essa violência? Ela é 
apenas uma prova de força imposta à comodidade. Aperta-se 
um botão e um criado morre. O que for incômodo é tirado 
do caminho. Vigas se dobram à vontade, tudo anda com de­
sembaraço, ninguém está à toa. Mas, de repente, um pedaço 
de papel não quer parar no lugar. Ele não fica onde foi jogado 
por uma questão de comodidade, mas sempre volta a subir. 
Isso é incômodo, e a pessoa se vê obrigada a convencê-lo com 
o martelo. Ele ainda estremece. A pessoa quer abatê-lo a ti­
ros. Ele é explodido com dinamite. Uma aparelhagem nunca 
vista é empregada para aquietá-lo. A vida se tornou terrivel­
mente complicada. No fim, tudo vira uma grande confusão 
porque um objeto qualquer da natureza não quis se encaixar 
no sistema ... Talvez um farrapo de sentimentalismo que um 
defraudador trouxe lá da Europa. 
O burguês não tolera nada incompreensível dentro de 
casa. 
O escritor está aí para as pessoas? Para quando as noi­
tes se tornam longas? Vamos encurtá-las de outro modo! 
Contar-lhes mais alguma coisa? Algo empolgante antes que 
anoiteça completamente? Algo em fascículos? Estricnina e 
tortura! A noite é longa demais. 
137 
5 
De duas cidades 
Nada disso, não sou um resmungão; meu ódio contra essa 
,cidade não é um amor que perdeu seu rumo, mas encontrei 
uma maneira inteiramente nova de achá-la insuportável 
O austríaco por certo tem a sensação de que nada pode 
lhe acontecer porque a consciência de ter nascido num lugar 
condenado o protege de surpresas. 
A política nos engana com valores germano-austríacos 
de simpatia. Mas, exceto por brindes e libretos, não há nada 
que prove uma comunidade de espírito entre esses dois po­
vos. Diplomatas e agentes teatrais estão empenhados na 
aproximação. Os de fora ficam sabendo então que há um 
reino misterioso em que ltzig e Janosch dão o tom, e nos 
estimam pela subvenção de sangue hussardo e amor cigano 
que o dia de trabalho berlinense recebe. Um teatro chamado 
judaísmo, que flutua entre a Ringstrasse e a Unter den Lin­
den, atesta e representa nossa vida intelectual diante da Ale­
manha. Que diz a política sobre o fato de que não há livro 
que provenha da Áustria que não seja posto em música? A 
proveniência vienense é tão odiosa que só lhe são perdoados 
139 
KARLKRAUS 
os produtos da imbecilidade e da patifaria. Por estas pelo 
menos se reconhece a origem e se admite a autenticidade. 
Mas que esforço sobre-humano custa impingir a literatura 
austríaca como presente a um vendedor ambulante! Que diz 
a política sobre o fato de que Die Fackel, que há tempos luta 
por não ser mais notória na Áustria, depois de apenas dez 
anos começa a se tornar o que ela é: um fato alemão? 
Em Viena, os zeros se colocam à frente do um. 
O que distingue Berlim de Viena ao primeiro olhar é a 
observação de que lá se consegue um efeit~ ilusório com o 
material mais desprovido de valor, enquanto aqui, na produ­
ção do kitsch, se emprega apenas material autêntico. 
A visãu da vida vienense. Pudesse eu ter visões aqui! 
Mas não há espaço para isso entre as quimeras que por 
aqui vivem. A loucura do mundo não está encarcerada 
aqui? Quando se chega, uma individualidade leva nossa 
mala até uma sala isolada em que personalidades verdes 
nos contemplam mudas, sem vontade ou curiosidade. O 
carregador nos esclarece o significado disso com a palavra 
Verzehrungssteuer, imposto sobre o consumo, que soa como 
Verzierungssteuer, imposto sobre o enfeite. Nesse dialeto, ele 
também poderia dizer tattwam asi. Pois o reconhecimento 
da inutilidade de toda a vida exterior se encontra na entrada. 
Depois ouvimos um berreiro. Ele começa porque um filósofo 
precisa conduzir um cavalo, os filósofos que o encontram rrâ:o 
querem se desviar, e prossegue numa disputa sobre você não 
ser altruísta o suficiente e encurtar os meios necessários para 
140 
PRO DOMO ET MUNDO 
que um homem, que é pai de família e além disso não quer 
prejudicá-lo, possa levar uma vida tranquila. Conheço isso. 
Sou um instrumento nas mãos dos mais bem organizados. 
1 
Passageiro, existo para os cocheiros. Caso tenham me 
alugado para um trajeto e eu tenha conseguido abrir e fechar 
a porta do coche, uma personalidade desconhecida, de pés 
descalços, volta a abri-la, deixa entrar vento e chuva e pede 
uma recompensa por ter conseguido abrir e fechar a porta 
sem minha ajuda. Pessoa que precisa comer, existo para os 
donos de restaurante, que também querem viver. Pessoa que 
é roubada, para a polícia. Cidadão, para o Estado. Fumante, 
sou um isqueiro para os fumantes. Pessoa privada, sirvo 
para o observador. A única compensação que tenho é a de 
que também eu posso contar os fios grisalhos nas têmporas 
do senhor Pollak. Sinto-me no meio de um público de teatro 
que no entreato se decompõe em conhecidos que trocam 
novidades de família. Ouço a pergunta: "O quê, não foi esse 
ano a St. Moritz?", a afirmação: "Ele ganha mesmo muito 
bem", a constatação: "Bunzl se batizou" e a exclamação: 
"Nó Kramer, não duvido!". Eu me refugio na solitária para 
telefonar. Estou sozinho e ouço os ruídos da cidade inteira. 
Um oceano de loucura faz música na concha do telefone. 
"Reserve o 26 duplo - Você, ei, você, manda um abraço pra 
Steffi - 9982 - 9182? - 9982 - 9983, entendido - Me 
ligue de uma vez com o III do 437 - Mas o senhor já está 
ligado com o II do 525 ... " A cidade está aos pés de cada um 
de seus moradores. Cada um parece envolver seus arredores 
à sua maneira especial, cobertos de videiras, ensolarados, 
um passeio que vale a pena. Não há grupos de artistas 
nem figurantes nem massas. Os cortejos são formados por 
141 
KARL KRAUS 
cantores de ópera que se declararam dispostos a cooperar 
em coro a favor do fundo de aposentadoria. No 1° de maio, 
distingo uma mulher gorda de uma magra, um homem 
magro de um gordo. Todos vivem como se tivessem sido 
desenhados por Schõnpflug. Quem caminha, fica parado. 
Os cavalos estão suspensos no ar. Ou cruzam alegremente 
as pernas como os cocheiros. A Ringstrasse é preenchida por 
um bigode bem retorcido. Não se pode passar sem esbarrar 
nele. A vida chegou ao fim antes de ele ter se afastado. O 
sujeito é mais alto que a casa no segundo plano. Ele encobre 
o céu. A vida em volta está morta. Sigo pelo prolongamento 
da Kãrntnerstrasse. Uma nuvem de fumaça se eleva na 
noite. Aos poucos, os contornos se definem. Um cabriolé 
está parado, e no meio da rua. O condutor me pergunta se 
quero andar. Eu me dou um tiro. 
142 
6 
Acasos, lampejos 
Nessa espelunca em que ladrões de cavalo húngaros tro­
cam suas chances, nessa fumaceira de tabaco e usura, ouço 
subitamente entre teschek e betschkerek a palavra: Glaucope. 
Dita por um boca-aberta, mas com um efeito que me arrasta 
através dos milênios. Volto rapidamente a mim quando me 
ocorre que a deusa devia ser um cavalo de corrida. 
O Diabo é um otimista se acredita que pode tornar os 
seres humanos piores. 
"Espaço de tempo": isso é um quodlibet de eternidade. 
Tentemos uma vez imaginar, sem ter dores de cabeça, o tem­
po de espaço. 
O imortal experimenta a calamidade de todas as épocas. 
A carreira é um cavalo que chega sem cavaleiro diante 
dos portões da eternidade. 
Em relação à nata da sociedade, um gourmet me disse que 
preferia a borra da humanidade. 
143 
KARL KRAUS 
Eu gostaria de separar minha existência da coexistência 
deles. 
Uma aparência de profundidade surge com frequência 
pelo fato de uma cabeça rasa ser ao mesmo tempo uma ca­
beça confusa. 
O sujeito gostava muito de citar um dito de Jean Paul: 
"Todo especialista é um asno na sua especialidade". É que 
ele se sentia em casa em todas as especialidades. 
Muitos negociantes de cavalos agora alimentam esperan­
ças em relação a Pégaso. 
Hoje, um original é aquele que roubou primeiro. 
Um plagiador deveria copiar o autor cem vezes. 
Os jovens falam tanto da vida porque não a conhecem. 
Ela os deixaria sem fala. 
Um lobo em pele de lobo. Um patife sob o pretexto de 
sê-lo. 
O ódio deve tornar produtivo. Caso contrário, é mais 
sensato amar logo de uma vez. 
Muitos têm a megalomania de ser loucos e são aperi~s 
cabeças-tontas. 
144 
PRO DOMO ET MUNDO 
Uma completa confusão tomou conta da vida amorosa 
dos seres humanos. Encontramos formas mistas das quais 
até agora não se fazia a menor ideia. Dizem que há pouco 
uma sádica berlinense deixou escapar: "Escravo miserável, 
eu ordeno que você me dê uma bofetada imediatamente! ... ". 
O assessor em questão fugiu apavorado. 
"Prostituta húngara detida em Paris por causa de com­
portamento imoral": a serpente no paraíso deve ter mordido 
a própria cauda. 
O amor do próximo não é o melhor, mas em todo caso é 
o mais cômodo. 
Conheci um Don Juan da castidade cujo Leporello nem se­
quer era capaz de compor uma lista das mulheres inacessíveis. 
O progresso não se deixa deter por proibições. Na Enga­
dina não é permitida a circulação de automóveis. A conse­
quência? Os cocheiros dão sinais de buzina. 
Uma das doenças mais disseminadas é a diagnose. 
Uma pessoa que começou a me contar suas lembranças 
tinha uma voz que rangia como o portão do passado. 
Seu riso é um regulador da insanidade do mundo. 
E se a Terra apenas suspeitasse do quanto o cometa teme 
o contato com ela! 
145 
l 
Pro domo et mundo 
Ai do tempo em que a arte não faz a terra vacilar e em 
que, diante do abismo que separa o artista do homem, o ar­
tista é tomado por vertigens e não o homem! 
A arte coloca a vida em desordem. Os poetas da humani­
dade restabelecem o caos continuamente. 
A cultura chega ao fim com a evasão dos bárbaros. 
O progresso celebra vitórias de Pirro sobre a natureza. 
O progresso faz porta-moedas de pele humana. 
As épocas morrem da gordura ou da magreza. A atual quer 
zombar da morte por meio de uma pobreza superalimentada. 
Quando uma cultura sente que está chegando ao fim, 
manda chamar o padre. 
A verdadeira metafísica repousa na crença de que um dia 
haverá sossego. O pensamento de uma ressurreição da carne 
lhe repugna. 
141 
KARL KRAUS 
Para a eternidade, a evolução é um passatempo. Não é 
coisa que leve a sério. 
Se devesse acreditar em algo que não vejo, ainda preferi­
ria os milagres aos bacilos. 
Quando ocorrem as primeiras desilusões, saboreamos 
o desgosto pela vida em grandes goles, somos doidivanas 
da morte e estamos facilmente dispostos a sacrificar toda 
expectativa ao momento. Somente mais tarde amadurece­
mos para uma gastronomia do suicídio e reconhecemos 
que ainda é melhor ter a morte diante de si do que a vida 
atrás de si. 
O Sol tem visão de mundo. A Terra se move. Contradi­
ções no arlisla são contradições nu observador, que não ex­
perimenta o dia e a noite ao mesmo tempo. 
Os autores são agora aconselhados a ter experiências. Isso 
não poderia ajudá-los. Pois se precisam ter experiências para 
poder criar, eles não criarão. E se não precisam criar para 
poder ter experiências, eles não as têm. Mas os outros, os 
artistas, fazem as duas coisas ao mesmo tempo. E a eles não 
há o que aconselhar nem como ajudar. 
O artista deve viver mais? Ele vive mais! 
Quem levou sua pele ao mercado tem mais direitb' a se 
mostrar sensível do que aquele que lá comprou uma roupa 
pechinchando. 
148 
PRO DOMO ET MUNDO 
"Se não tivesses escrito o ataque contra A., ele elogiaria 
tuas obras." Mas será que eu teria podido escrever todas as 
outras obras se, para servi-lo, tivesse omitido uma delas? 
Não tenho mais colaboradores. Eu tinha inveja deles. Elesafastam os leitores que eu mesmo quero perder. 
Dói meu coração quando vejo que a vantagem de me trair 
é menor do que o prejuízo de estar em relações comigo. 
O que me apresentam como objeção é com frequência 
minha premissa. Por exemplo, que minha polêmica ataca a 
existência. 
Não obstante, jamais ataquei uma pessoa por ela mesma, 
ainda que a tenha chamado pelo nome. Se fosse um jorna­
lista, me orgulharia de criticar um rei. Mas visto que ataco 
a turba dos cocheiros, seria megalomania que um indivíduo 
se sentisse atingido. Caso mencione um deles, isso apenas 
ocorre porque o nome intensifica o efeito plástico da sáti­
ra. Depois de dez anos de trabalho artístico, minhas vítimas 
deveriam estar suficientemente instruídas para reconhecer 
isso e finalmente desistir de se lamentar. 
Minhas glosas necessitam de comentário. Caso contrá­
rio, são muito fáceis de compreender. 
Considero meu direito inalienável colocar na forma ar­
tística que quiser o menor dos corpúsculos de sujeira que 
me tocar. Esse direito é um pobre equivalente do direito do 
leitor de não ler o que não lhe interessa. 
149 
KULKRAUS 
A sátira não escolhe nem conhece objetos. Ela surge do 
fato de fugir deles e eles se imporem a ela. 
Que posso fazer se as alucinações e as visões vivem, têm 
nome e endereço? 
Que posso fazer se M. realmente existe? Não o inventei, 
apesar disso? Se ele fosse um objeto, eu escolheria melhor. 
Caso reivindique ter sido ofendido pela sátira, ele a ofende. 
O palerma que não só não possui uma visão de mundo, 
mas também não a vê quando ela lhe é oferecida pela arte, 
precisa subtrair tanto de uma síntese satírica para compre­
endê-la até que sobre um nada, pois esse ele compreende, 
e pelo caminho do desmembramento, para ele transitável, 
chega aos motivos que o satirista deixou para trás e se iden­
tifica carinhosamente com o detalhe contra o qual, segundo 
sua opinião, o satirista se dirigiu. O palerma também preci­
sa se sentir atingido por uma sátira que não lhe diz respeito 
ou acerta muito longe de sua esfera de interesses. 
O satirista nunca pode sacrificar algo mais elevado a 
um chiste, pois seu chiste é sempre superior àquilo que 
sacrifica. Reduzido à opinião, seu chiste pode causar in­
justiça; o pensamento sempre tem razão. Ele já coloca as 
coisas e as pessoas de tal modo que a nenhuma ocorra uma 
injustiça. 
O pensamento regula o mundo como o bíter faz com o 
estômago arruinado: ele não tem nada contra o órgão. 
150 
PRD DOMI ET MUNDO 
A sátira está longe de toda hostilidade e significa um be­
nefício para uma coletividade ideal, rumo à qual ela avança 
não contra, mas através dos indivíduos reais. 
Muitas pessoas com quem mantive contato ao longo de 
uma vida variada têm algo contra mim, sabem algo contra 
mim. E há algo que também poderão provar contra mim: 
que mantive contato com elas. 
Quem deserdaria um erro que trouxe ao mundo e o tro­
caria por uma verdade adotada? 
Entrar por um ouvido e sair pelo outro: nesses casos, a 
cabeça seria sempre uma estação de passagem. O que ouço 
tem de sair pelo mesmo ouvido. 
Quem precisa de experiências em tamanho grande certa­
mente será encoberto por elas. Eu travo titanomaquias com 
vírgulas. 
Eu me alimento de escrúpulos que eu mesmo preparo. 
O fraco duvida antes da decisão. O forte, depois. · 
Apenas no deleite da geração das palavras surge um mun­
do a partir do caos. 
O pensamento é aquilo que falta a uma banalidade para 
ser um pensamento. 
151 Bibliot~a i.' ;,.JUCa Munic 
lftgaÚ) r,,ntfl'tO:ri',Aa 
KARL KRAUS 
Minha língua é a puta de todo mundo que transformo 
em virgem. 
Sentado de noite à escrivaninha, num estágio avançado 
de deleite intelectual, eu sentiria a presença de uma mulher 
como sendo algo mais incômodo do que a intervenção de 
um germanista no quarto de dormir. 
Não gosto de me intrometer nos meus assuntos privados. 
Quando o impressor me mandou as provas deste livro, vi 
minha vida dividida no sumário. Observei que a mulher ocu­
pava dez páginas, mas o artista trinta. Ele deve isso a ela. 
Quando chamaram a atenção desse presente que ronca 
para o fato de alguém ter ficado dez anos sem dormir, ele se 
virou para o outro lado e continuou dormindo. 
Os cegos não querem admitir que eu tenha olhos, e os 
surdos dizem que sou mudo. 
Eu falo de mim e me refiro à coisa. Eles falam da coisa e 
se referem a si próprios. 
Quando tomo a pena na mão, nada pode me acontecer. O 
destino deveria tomar nota disso. 
Não peço fogo a ninguém. Não quero devê-lo a pessdà 
alguma. Não na vida nem no amor, nem na literatura. E no 
entanto, fumo. 
152 
PRO DOMO ET MUNDO 
Não deixo de dar forma àquilo que me impede de dar 
forma. 
O tormento não me deixa escolha? Bem, eu escolho o 
tormento. 
Tenho as experiências de que preciso diante da parede 
corta-fogo que vejo da minha escrivaninha. Ali há espaço 
suficiente para a vida, e posso pintar Deus ou o Diabo nela. 
E do último cantinho de uma folha de jornal que ain­
da tenho nas mãos, já me espreita, visto que apenas passo 
os olhos, a carantonha de Judas do século, sempre ames­
ma, quer se trate do jornalista ou do médico, do vendedor 
ambulante ou do adepto da política social, do vendedor de 
especiarias ou do esteta. Sempre o mesmo estupor, com os 
cabelos frisados da moda e empanturrado de cultura. Com a 
toalha de barbeiro da época sobre os ombros, todos os idio­
tas são iguais, mas quando se levantam e começam a falar 
sobre sua especialidade, um deles é filósofo e o outro é cor­
retor da bolsa. Tenho essa capacidade funesta de não poder 
distingui-los, e reconheço o rosto primordial sem me esfor­
çar pelo desmascaramento. 
As verdadeiras verdades são aquelas que se pode inventar. 
Quem agora exagera, pode facilmente se tornar suspeito 
de dizer a verdade. Quem inventa, de estar informado. 
153 
KARL KRAUS 
Anseio ardentemente por aquela condição psíquica em 
que, livre de toda responsabilidade, sentirei a estupidez do 
mundo como um destino. 
A vida é um esforço que seria digno de uma causa melhor. 
Sonhei que não acreditavam que eu tinha razão. Eu dizia 
que eles eram dez. Não, doze, disseram. Tantos dedos quan­
to há nas duas mãos, eu disse. Então um deles levantou a 
mão, e veja só, ela tinha seis dedos. Onze, portanto, eu disse, 
e apelei à outra mão. E veja só, ela tinha seis dedos. Soluçan­
do, corri para a floresta. 
O mundo externo é um sintoma secundário inoportuno 
de um estado de indisposição. 
Eu e a vida: o caso foi decidido cavalheirescamente. Os 
adversários se separaram irreconciliados. 
154 
DE NOITE 
A memória da amiga Elisabeth Reitler 
1 
Eros 
O prazer do homem seria apenas um ímpio passatempo 
e jamais teria sido criado se não fosse o acessório do prazer 
feminino. A inversão dessa relação, transformada numa or­
dem em que um mísero clímax se arvora de essencial e, de­
pois de deflagrado, interrompe tiranicamente a rica epopeia 
da natureza, significa o fim do mundo: mesmo que o mun­
do, com a compensação técnica, intelectual e esportiva, não 
o perceba por algumas gerações e não tenha mais fantasia 
suficiente para imaginá-lo. 
A mulher toma um por todos; o homem, todas por uma. 
Sua criação artística oferecia um aspecto centauresco: 
embaixo havia o desejo próprio de um garanhão, que se pro­
longava em cima no espírito de um homem. 
Esse escritor só era despudorado por puro pudor. Ele se 
envergonhava tanto de sua moralidade que se cobriu com 
temas que escandalizavam o público. 
Bastaria, no devido tempo, ter proibido às crianças de se 
assoarem e os adultos já enrubesceriam ao fazê-lo. 
157 
KARL KRAUS 
O esclarecimento sexual é aquele procedimento impie­
doso por meio do qual se impede os jovens por motivos de 
higiene de satisfazer sua curiosidade por conta própria. 
O esclarecimento sexual apenas é justificado na medida 
em que as meninas não possam saber cedo demais como as 
crianças não vêm ao mundo. 
Não me deixo mais enganar por nenhuma barba cerrada.Já sei qual é o sexo que usa calças nessa casa. 
Posso precisar de objetos femininos no máximo em mi­
nhas leituras públicas. Lá eles apoiam o efeito e remedeiam 
em meus nervos aquilo que contra eles pecaram na lite­
ratura. Mãos devem ser usadas para aplaudir e não para 
escrever. Com as minhas, eu preferiria esbofetear a escre­
ver caso não existisse o risco de que isso fosse considera­
do como aprovação e uma voz meiga sussurrasse trêmula: 
"De novo!". 
Eles ficaram me devendo a mais autêntica e mais profun­
da prova de sua veneração: reconhecer a própria superflui­
dade e se aposentar pelo menos literariamente durante a mi­
nha vida. Enquanto não tiver obtido esse efeito, não acredito 
na durabilidade de minha influência. Oderint, dum metuant. 
Que amem, desde que não escrevam! 
Tornei-me cauteloso. Quando certa vez expulsei ufu 
adorador, ele quis me denunciar por perturbação da liber­
dade religiosa. 
158 
DE NOITE 
Um dos caracteres sexuais voltou a ser inteiramente sufi­
ciente. Podemos distinguir uma sufragista de um bailarino. 
Para saber se o homem tem talento para o palco é preciso 
submetê-lo a um teste. A mulher está sempre em teste e é 
apta para o palco por natureza. Ela vive diante de espectado­
res. Ela sente que é o centro das atenções quando atravessa a 
rua, ainda que os figurantes saúdem a entrada de Napoleão. 
E ela relaciona todos os olhares com o centro. 
O homem imagina preencher a mulher. Mas é apenas um 
tapa-buraco. 
A situação dos sexos é tão humilhante quanto o resultado 
do negócio amoroso individual: a mulher ganhou menos em 
prazer do que o homem perdeu em força. Aqui há diferença em 
vez de soma. Um menos desprezível, contente por se colocar 
em segurança, faz de um mais um menos. Aqui está o verda­
deiro logro. Pois nada se ajusta pior a um prazer que acaba de 
começar do que uma força que já acabou; nenhuma situação 
em que seres humanos possam se encontrar é mais impiedosa 
e mais digna de piedade. Nessa lacuna mora toda a doença do 
mundo. Uma ordem social que não reconheça isso e não se de­
cida a trocar a medida de liberdade renunciou à humanidade. 
O erotismo faz de um apesar disso um pois. 
O homem criativo vê Helenas em todas as mulheres. Só 
que ele fez a conta sem o analista, que primeiro lhe esclarece 
o que realmente ele deve ver em Helena. 
159 
KARL KRAUS 
Como surge a beleza - a vizinha sabe disso. Como surge 
o gênio - isso ela também sabe, a análise. 
O casamento é uma mésalliance. 
O quarto conjugal é a convivência da brutalidade e do 
martírio. 
Rubor, palpitações do coração, uma consciência pesada 
- isso acontece quando não se pecou. 
Ciumentos são agiotas que tomam os juros mais altos do 
próprio dote. 
O verdadeiro ciúme não quer apenas fidelidade, mas a 
prova da fidelidade como um estado imaginável. Não basta 
ao ciumento que a amada não seja infiel. Justamente aquilo 
que ela não faz é o que não lhe deixa sossegar. Porém, como 
não há provas daquilo que não se fez e o ciumento insiste 
numa prova, ele termina por se contentar com ·a prova da 
infidelidade. 
O ciúme é sempre injustificado, acham as mulheres. 
Pois ou ele é justificado ou injustificado. Se for injustifi­
cado, logo ele não se justifica. Mas se for justificado, ele 
não se justifica. Pois bem. E assim nada resta a não ser o 
desejo de alguma vez surpreender o instante em que ele 
seja justificado! -r;,: 
O escravo! Ela faz com ele simplesmente o que ele quer. 
160 
DE NOITE 
A mulher culta está incessantemente ocupada com a in­
tenção de não ter nenhuma relação sexual, e também é capaz 
de praticá-la - a intenção, quer dizer. O homem culto nun­
ca está ocupado com a intenção de não ter pensamentos, só 
que isso ocorre antes que se decida a fazê-lo. 
Nietzsche teria dito: "Por amor, as mulheres assumem 
inteiramente aquela forma sob a qual vivem na imaginação 
dos homens por quem são amadas". Mas neste caso eu pre­
feriria confiar na imaginação. 
Uma mulher não deve ser sequer da minha opinião, que 
dirá da dela. 
Uma mulher deve parecer tão inteligente que sua estupi­
dez signifique uma surpresa agradável. 
A sensualidade nada sabe do que fez. A histeria se lembra 
de tudo que não fez. 
As putas na rua se comportam tão mal que disso se pode 
tirar uma conclusão do comportamento dos cidadãos den­
tro de casa. 
Há mulheres que levam estampadas no rosto mais men­
tiras do que nele cabem: a do sexo, a da moral, a da raça, a 
da sociedade, a do Estado, a da cidade e, se forem vienenses, 
a do bairro e a da rua. 
Com as calculistas do amor é difícil chegar a um resultado. Ou 
elas temem que um mais um dê zero, ou esperam que dê três. 
161 
KARLKRAUS 
Ele foi muito imprudente ao tirar as pedras do caminho 
dela a cada passo. Levou um pontapé. 
A mulher não tolera nenhum protetor que não seja ao 
mesmo tempo um perigo. 
Não se pode superestimar uma mulher o bastante. 
Em torno da bela senhora, saltavam os cães como se fos­
sem os pensamentos dele, e se deitavam aos pés dela como 
os desejos dele o faziam. 
Ela disse que ia levando a vida. Bem que eu gostaria de ir 
levando a vida com ela! 
162 
2 
A arte 
A tristeza e a vergonha deveriam cobrir todas as pausas 
da verdadeira virilidade. Fora da criação, o artista tem a ex­
perimentar apenas a sua insignificância. 
O ciúme da matéria informe que diariamente se balança 
e se esfrega, transborda e tagarela diante de meu nariz, o 
ciúme de pessoas que infelizmente ainda existem, mas que 
ainda não foram criadas, dificilmente poderá ser compreen­
dido por uma delas. 
Todos são ofendidos por mim, não os indivíduos. E quan­
to ao amor, todos devem ficar furiosos, e não aqueles que 
foram enganados. 
A compreensão de meu trabalho é dificultada pelo co­
nhecimento de meu material. As pessoas não compreendem 
que aquilo que aí está precisa ser inventado primeiro, e que 
vale a pena inventá-lo. Assim como também não compreen­
dem que um satirista para quem as pessoas existem como se 
ele as tivesse inventado precisa de mais força do que aquele 
que inventa as pessoas como se existissem. 
163 
KARL KRAUS 
Meus ensejos são conhecidos pessoalmente. Por isso se 
acredita que minha arte não valha grande coisa. 
Uma velha crença de idiotas concede ao "satirista" o 
direito de fustigar as fraquezas do forte. Só que a fraque­
za mais fraca do forte ainda é mais forte do que a força 
mais forte do fraco, e por isso o satirista que se encontra no 
topo dessa concepção é um sujeito sórdido, e o fato de ser 
tolerado, um verdadeiro~gma da sociedade. Foi da ne­
cessidade infame da sociedade de tratar as personalidades 
como seus iguais e, por meio da sua degradação ao próprio 
nível, se tranquilizar acerca de sua baixeza, que surgiram 
os jornais humorísticos. Todas as carecas brilham porque 
Bismarck não tinha mais do que três fios de cabelo. Essa 
maldade enfadonha, a partir da qual o jornal humorístico 
acode à necessidade de vingança da sociedade, é por ela 
chamada de "inofensiva". Porém ela abomina o homem po­
sitivo que destroça um mundo sem deuses. Não suspeita 
que o satirista seja alguém que apenas fustiga as fraquezas 
dos fracos e não vê as dos fortes porque elas não existem, e 
se existissem, as cobriria respeitosamente. Para as pessoas, 
a sátira é algo que alguém pode exercer como um segun­
do emprego, por exemplo, quando é oficial publicamente e 
possui humor em segredo. Mais autêntico, por certo, é pra­
ticar a sátira publicamente e ser um guerreiro em segredo. 
Pois, na verdade, a sátira só é compatível com uma função, 
a do homem, e ela até parece realmente exigi-la. O fato de 
o satirista ser um homem já é provado tão-só pela imp€tti­
nência satírica da qual ele próprio precisa se defender. Pois 
o satirista não tolera brincadeiras. Mas se ele matar o in-
164 
DE NOITE 
seto que tem em mira suas "fraquezas", todos se espantam 
e perguntam por que afinal, e dizem que alguém que é ele 
próprio satirista também deveria tolerar que umoutro - e 
assim por diante in infinitum da banalidade humana. 
Os críticos e os apologistas são testemunhas indesejadas. 
Os que estão na margem metem seus pés na água para de­
monstrar que ela está suja. Os que estão na margem enchem 
a mão em concha para mostrar a beleza do elemento. 
A lógica é a inimiga da arte. Mas a arte não precisa ser 
a inimiga da lógica. A lógica precisa ter experimentado o 
gosto da arte e ter sido completamente digerida por ela. Para 
afirmar que dois vezes dois é cinco, é preciso saber que dois 
vezes dois é quatro. Todavia, quem sabe apenas isso, dirá que 
aquilo é falso. 
Eu domino apenas a língua dos outros. A minha faz co­
migo o que ela bem entende. 
Cada frase deveria ser lida tantas vezes quantas fossem 
as correções que acompanharam seu crescimento do ma­
nuscrito até a leitura. Porém, para poupar o leitor do que 
vai além de suas forças e de sua crença, gostaria de publicar 
cada frase nas suas dez metamorfoses, para que o todo, por 
fim, ainda fosse menos lido do que compreendido. Seria um 
caso raro na literatura. Mas poderia ser de alguma utilidade 
para compensar os danos de um século de tagarelices e de 
opiniões facilmente compreendidas. 
165 
KARLKRAUS 
Ninguém que examine meus trabalhos impressos re­
conhecerá uma costura. E, no entanto, tudo foi descosido 
cem vezes, e de uma página que foi para a impressão tive­
ram de resultar sete. No fim, se é que há um fim, a articu­
lação é tão evidente que não se vê a justaposição e não se 
acredita nela. Escritores que possuam tudo na cabeça, e que 
ao escrever tomam parte apenas com as mãos, são mani­
puladores infames com os quais nada tenho em comum a 
não ser o alfabeto, e mesmo isso apenas a contragosto. Eles 
não se alimentam, mas seguem vivendo porque têm tudo 
no estômago. 
Se a linguagem é apenas uma roupagem, ela se tornará 
andrajosa ou fora de moda. Até que chegue esse momen­
to, pode-se andar entre as pessoas. Um smoking não torna 
imortal, mas popular. Mas o que vestem os jovens senhores 
ultimamente? Uma linguagem que consiste inteiramente de 
epítetos! Um traje sem tecido, mas todo feito de botões! 
O contador de histórias se distingue do político apenas pelo 
fato de ter tempo. Comum a ambos é que o tempo os tem. 
Ainda não tentei, mas acho que para ler um romance eu 
precisaria primeiro me encorajar e então fechar bem os olhos. 
Um artista que tem sucesso não deve baixar a cabeça. Ele 
só deve desesperar de si quando um embusteiro fracassa. 
O espírito alemão escarrou duas espécies: a bailarina e 
a meditativa. Heine é mais responsável por esta, Nietzsche 
166 
DE NOITE 
por aquela. No segundo caso, também se descobrirá quem 
foi o precursor. 
A literatura atual consiste de receitas prescritas pelos 
doentes. 
A maioria dos críticos escreve críticas que são dos autores 
sobre os quais escreve críticas. Isso ainda não seria o pior. Só 
que a maioria dos autores também escreve obras que são dos 
críticos que escrevem críticas sobre elas. 
A sujeira ainda lhe conferia solidez. O que restou dele 
quando se lavou? Uma esponja. 
Muitos talentos conservam sua precocidade até idade 
avançada. 
Um professor de literatura afirmou que meus aforismos 
são apenas a inversão mecânica de frases feitas. Isso é intei­
ramente correto. Só que ele não apreendeu o pensamento 
que impele a mecânica: o fato de que da inversão mecânica 
de frases feitas resulta mais do que da repetição mecânica. 
Esse é o segredo da época atual, e é preciso tê-lo experimen­
tado. Ao mesmo tempo, a frase feita ainda se distingue, para 
sua vantagem, de um professor de literatura, de quem não 
sai nada se eu o deixar em seu lugar e menos ainda se inver­
tê-lo mecanicamente. 
O futuro dos futuristas é um pretérito perfeito. 
167 
KARL KRAUS 
A maioria dos autores não tem outra qualidade a não ser 
a do leitor: o gosto. Mas o do leitor é melhor, pois não escre­
ve, e melhor ainda quando não lê. 
Só é artista aquele que da solução pode fazer um enigma. 
Parece-me que toda arte é apenas arte para hoje se ela não 
for arte contra hoje. Ela é um passatempo - ela não passa 
por cima dele! A verdadeira inimiga do tempo é a língua. 
Ela vive num entendimento direto com o espírito a quem a 
época atual causa indignação. É aqui que pode se materiali­
zar essa conspiração que é a arte. A complacência que rou­
ba as palavras da língua vive nas graças dessa época. A arte 
pode vir apenas da recusa. Apenas do grito, não do sossego. 
Chamada para consolar, a arte deixa com um~ maldição o 
quarto em que a humanidade agoniza. Ela se realiza através 
do desespero. 
168 
3 
A época 
A técnica é um criado que coloca ordem na sala ao lado com 
tanto estardalhaço que impede os patrões de fazer música. 
O que foi impresso num único dia dos últimos cinquenta 
anos fez mais contra a cultura do que a obra completa de 
Goethe fez a seu favor. 
Preto no branco: é assim que se mente agora. 
A mais dolorosa imagem da civilização: um leão que estava 
acostumado com o cativeiro é devolvido à selva e nela cami­
nha de um lado para outro como se estivesse atrás das grades. 
A cultura é o cultivo da negligência de uma disposição 
natural. 
Adolf Loos e eu, ele literal e eu linguísticamente, nada 
mais fizemos que mostrar que entre uma urna funerária e 
um penico existe uma diferença, e que só nessa diferença há 
espaço para a cultura. Mas os outros, os positivos, se divi­
dem entre aqueles que usam a urna como penico e aqueles 
que usam o penico como urna. 
169 
KARL KRAUS 
"O senhor é o Karl Kraus, não é verdade?", perguntou-me 
no trem um companheiro de compartimento que superesti­
mou minha incapacidade de defesa. Respondi: "Não". Com 
isso evidentemente admiti sê-lo. Pois se eu fosse outro, teria 
entrado numa conversa com o imbecil. 
"O que o senhor tem contra X?", perguntam geralmente 
aqueles que têm algo de X. 
Quando o sr. Shaw ataca Shakespeare, age em legítima 
defesa. 
O analista transforma o ser humano em poeira. 
Agora há botas sujas diante do santuário em que o artis­
ta sonha. Elas são do psicólogo, que está lá dentro como se 
estivesse em casa. 
Alguns partilham meus pontos de vista comigo. Mas eu 
não os partilho com eles. 
"O senhor está sendo injusto com ele. Ele concorda com 
o senhor em tudo!" "Exceto no fato de que o considero um 
asno." 
O bibliófilo tem aproximadamente a mesma relação com 
a literatura que o filatelista com a geografia. 
A escola sem notas deve ter sido inventada por alguém 
que se embriagou com vinho sem álcool. 
170 
DE NOITE 
Agora as crianças têm sinfonias na idade em que no pas­
sado tinham sarampo. Não acredito que escapem. 
O que as pessoas têm contra os internatos, afinal? É mais 
bela, por acaso, a convivência no curral da liberdade em que 
os jovens praticam psicologia mútua? 
Uma ciência que sabe tão pouco de sexo quanto de arte 
espalhou o boato de que a sexualidade do artista é "subli­
mada" na obra de arte. Poupar o bordel, eis uma bela finali­
dade para a arte! Ao poupar a sublimação por meio de uma 
obra de arte, a finalidade do bordel é bem mais refinada. O 
quanto o procedimento dos artistas, não considerada sua 
prolixidade, é arriscado em seu efeito sobre os receptores, 
é algo provado justamente pelo caso do notável compositor 
que a referida ciência gosta de citar como exemplo de subli­
mação bem-sucedida. Os ouvintes de sua música sentem-se 
estimulados de tal modo pela sexualidade nela sublimada 
que muitas vezes não lhes resta outra saída do que aquela 
que o artista evitou, a não ser que eles próprios sejam ca­
pazes de fazer uma sublimação a tempo. Se o artista tives­
se escolhido o caminho mais simples, esse efeito teria sido 
poupado aos ouvintes. Assim, por meio do mau hábito dos 
artistas de sublimar a sexualidade, esta é liberada de vez, 
e um assunto que deveria ficar restrito à vida privada do 
artista degenera num escândalo público. 
Após madura reflexão, prefiro fazer o caminho de volta 
ao país dainfância com Jean Paul do que com S. Freud. 
171 
KARL KRAUS 
A análise é a tendência do mendigo para explicar a exis­
tência das fortunas. Aquilo que ele não possui sempre foi 
obtido por meio de fraude. O outro apenas tem; ele, feliz­
mente, conhe_ce o segredo. 
Agora os especialistas em doenças nervosas precisam li­
dar com os escritores que vêm ao consultório depois de mor­
tos. Bem feito para os escritores, já que não foram realmente 
capazes de levar a humanidade a um estágio que exclui o 
surgimento de especialistas em doenças nervosas. 
A psicologia é o ônibus que acompanha uma aeronave. 
A psicanálise: um coelho que foi engolido pela Boa cons­
trictor apenas queria investigar como era lá dentro. 
A psicanálise é mais uma paixão do que uma ciência: 
pois lhe falta a mão serena no exame, e essa falta constitui a 
única aptidão para a psicanálise. O psicanalista ama e odeia 
seu objeto, inveja sua liberdade ou sua força e os deriva de 
seus próprios defeitos. Ele apenas analisa porque ele próprio 
é feito de partes que não resultam numa síntese. Ele acredita 
que o artista sublima uma enfermidade porque ele próprio 
ainda padece dela. A psicanálise é um ato de vingança por 
meio do qual a inferioridade adquire compostura, quando 
não superioridade, e procura equilibrar a desarmonia. Ser 
médico é mais do que ser paciente, e por isso todo imbecil 
busca hoje tratar todo gênio. O que neste caso falta ao mé~~\: 
dico é a doença. Como quer que se comporte, nada mais 
conseguirá apresentar para explicar o gênio do que a prova 
172 
DE NOITE 
de que ele próprio não o possui. Porém, visto que o gênio 
não precisa de uma explicação, e uma que defenda a medio­
cridade contra o gênio é danosa, resta à psicanálise apenas 
uma única justificativa para sua existência: a muito custo, 
ela pode ser empregada para desmascarar a psicanálise. 
Os doentes são a maioria. Mas só poucos sabem que po­
dem se gabar disso. Esses são os psicanalistas. 
A psicanálise é aquela doença mental que se toma por sua 
terapia. 
Um bom psicólogo é capaz de te colocar facilmente na 
situação dele. 
Minha consciência tem um criado que está sempre atento 
para que nenhum intruso atravesse seu limiar. Os psicana­
listas não têm nada a procurar abaixo dele. Caso meu criado 
apanhe um desses que quer consultar o arquivo, ele o conduz 
ao vestíbulo, onde, com a sua lanterna de ladrão, eu mesmo 
ilumino sua cara. 
Eles metem a mão em nosso sonho como se fosse a nossa 
carteira. 
Isso que se chama de homem agora pode ser raspado psi­
canaliticamente. 
Conheci alguém que levava sua formação no bolso do co­
lete porque ali havia mais espaço do que na cabeça. 
173 
KARL KRAUS 
A formação é uma muleta com a qual o paralítico espan­
ca o sadio para mostrar que também tem força. 
O historiador nem sempre é um profeta voltado para o 
passado, mas o jornalista é sempre alguém que depois já sa­
bia de tudo antes. 
A humanidade inteira já se encontra diante da imprensa 
no estado do ator a quem um cumprimento não feito pode­
ria prejudicar. As pessoas nascem com medo da imprensa. 
Se durante o dia a arte está a serviço do comerciante, a 
noite é dedicada à sua distração com ela. Isso é exigir bas­
tante da arte, mas ela e o comerciante dão conta do recado. 
Vós, oh deuses, sois propriedade do comerciante! 
174 
4 
Viena 
O ser humano objeta ao cão o fato de buscar a sujeira. O 
que o desacredita ainda mais é o fato de buscar o ser huma­
no. Em todo caso, o cão dá provas de sua superioridade por 
não correr à Dreimiiderlhaus. 
A convicção austríaca de que "nada pode te acontecer" 
chega ao ponto de um homem se decidir a quebrar uma per­
na por estar segurado contra acidentes. 
Por meio de seus fiascos políticos, a Áustria conseguiu 
chamar a atenção do grande mundo e finalmente não ser 
mais confundida com a Austrália. 
(Leitura escolar.) Entrei num restaurante. Todas as me­
sas estavam ocupadas. Numa delas havia só uma pessoa. 
Tomei assento. Chega uma família, pai, mãe e filha. A filha 
cutuca a mãe, esta cutuca o pai. O pai não entende. A filha 
anota num papel. O pai olha apavorado para meu vizinho e 
pega um jornal. Depois de um momento, meu vizinho vai 
embora. O pai o acompanha com o olhar e diz triunfante: 
"Não fiz cerimônias e li o Neue Presse na frente dele, ele se 
enfureceu e se foi!". A filha cutucou a mãe, esta cutucou o 
pai. O orco se abriu e fui embora discretamente. 
175 
5 
1915 
Um aprendiz de feiticeiro parece ter se aproveitado da au­
sência do mestre. Só que em vez de água corre sangue. 
O jogo infantil "nós brincamos de guerra mundial" é 
ainda mais desolador do que a realidade "nós brincamos de 
criança". Seria desejável a essa humanidade que suas crian­
ças de colo começassem a matar com êxito as outras de fome 
e acabassem com a clientela das amas de leite. 
O desenvolvimento técnico deixará apenas um problema: 
a caducidade da natureza humana. 
Entre a língua e a guerra podemos constatar aproximada­
mente a seguinte relação: aquela língua que mais estiver enri­
jecida sob a forma de chavões também será responsável pela 
tendência e pela disposição para substituir a substância por 
um sucedâneo de entonação; com convicção, a achar irrepre­
ensível em si própria tudo aquilo que no outro apenas provoca 
censura; a desmascarar com indignação aquilo que também 
se gosta de fazer; a enredar qualquer dúvida num matagal de 
frases e a repelir sem esforço, como um ataque inimigo, qual-
177 
KARL KRAUS 
quer suspeita de que alguma coisa não esteja em ordem. Essa 
é sobretudo a qualidade de uma língua que hoje se parece 
com aquele produto acabado cuja venda constitui o conteúdo 
da vida de seus falantes; ela brilha como uma auréola e tem 
apenas a alma óbvia do homem de bem que não tem tempo de 
cometer uma maldade porque sua vida se limita aos negócios 
e, caso não seja suficiente, deixa uma conta em aberto. 
O número de exemplares do Zaratustra que os soldados 
levam na mochila dificilmente poderia ser um critério confiável 
para medir a cultura de um povo. Antes a circunstância de 
que se atribui aos soldados a leitura de mais exemplares do 
Zaratustra do que de fato chegam a ser utilizados no campo 
de batalha, e que isso é algo que aqueles que estão em casa 
lendo seu Zaratustra e seu jornal querem ouvir. 
É com razão que sempre se afirma nas reflexões sobre cul­
tura e guerra que os utilitários são os outros. Essa concepção 
provém do idealismo alemão, que também transfigurou os 
gêneros alimentícios e os laxantes. 
Posso provar que os alemães são mesmo o povo dos poe­
tas e dos pensadores. Tenho um volume de papel higiênico, 
publicado em Berlim, que em cada folha traz uma citação de 
um clássico apropriada à situação. 
Contra a acusação de que soldados alemães cortam pés 
de crianças a golpes de machado, jornalistas alemães ape- \, 
1am ao fato de esse povo ter produzido Lutero, Beethoven 
e Kant. Mas em relação a isso, esse povo é pelo menos tão 
178 
DE NOITE 
inocente quanto em relação às atrocidades que lhe são atri­
buídas, e seria mais eficaz, contra tais acusações, apelar aos 
espíritos que a Alemanha ainda quer produzir no futuro. Se 
chegamos ao ponto de julgar que a pátria não exige de seus 
gênios outros serviços que de seus lenhadores, e se aqueles, 
por um acaso mortal, podem ser dispensados da oportuni­
dade de lhe prestar outros serviços voluntariamente, então 
por certo não surgirá mais gênio algum. As façanhas inte­
lectuais de Lutero, Beethoven e Kant, apesar de tudo o que 
a cultura alemã sabe a respeito e a ideologia alemã nelas 
inclui, não têm qualquer ligação com um estado do qual 
hoje, ao nível pessoal, talvez apenas se libertassem graças 
ao ofício sacerdotal, à surdez e a uma deformação da colu­
na vertebral. 
O elmo prussiano é mais cultivado do que o cossaco; este, 
porém, não vive tão longe de Dostoievski quanto aquele de 
Goethe. 
Os alemães também se denominam o povo de Schope­
nhauer, enquanto Schopenhauerera tão modesto que não se 
considerava o pensador dos alemães. 
No que se refere às invenções da pólvora e da tinta de im­
pressão, deveríamos admitir sobretudo a importância que 
sua simultaneidade tem para a humanidade. 
Como o mundo é governado e conduzido à guerra? Os 
diplomatas mentem aos jornalistas e acreditam na mentira 
quando a leem. 
179 
KARL KRAUS 
Que confusão mitológica é essa, afinal? Desde quando 
Marte é o deus do comércio e Mercúrio o deus da guerra? 
Esta época sempre prefere uma informação certa a uma 
morte heroica incerta. É por isso que o jornal, que fala a lín­
gua da época como ninguém, noticiou o seguinte: "Morte 
heroica iminente dos soldados alemães na China". 
Compreendo que alguém sacrifique algodão por sua vida. 
Mas o contrário? 
Os povos que ainda adoram fetiches jamais descerão ao 
ponto de supor que a mercadoria tenha uma alma. 
Há lugares em que pelo menos se deixam os ideais em 
paz quando a exportação corre perigo, onde se fala tão ho­
nestamente dos negócios que eles não seriam chamados de 
pátria e em que se renuncia por precaução a ter uma palavra 
para ela. Nós, idealistas da exportação, chamamos tal povo 
de "nação de negócios". 
A reivindicação por um lugar ao sol é conhecida. Menos 
conhecido é o fato de ele se pôr tão logo ela seja alcançada. 
Não gosto das condições de vida no estrangeiro. Só fui 
ao exterior com frequência para não desaprender a língua 
alemã. 
Que convocação de instrução! Editores têm a Cruz de 
Ferro, soldados escrevem folhetins e generais são doutores. 
180 
DE NOITE 
"Nesta guerra, o negócio é ... " - "Sem dúvida, esta guerra 
é um negócio!" 
Um poeta alemão chamou o barulho das metralhadoras 
de "música das esferas" e um poeta austríaco observou como 
"todos os caules estão em posição de sentido". Se os poetas 
obedecem dessa forma, o cosmos e a natureza começarão a 
se rebelar. 
"Em função dos acontecimentos bélicos, precisamos, 
para nosso pesar, restringir temporariamente o tamanho 
de nossos números; contudo, assim que as condições nor­
mais forem restabelecidas, nos empenharemos em compen­
sar nossos assinantes com a publicação de números mais 
volumosos." É o que promete a Ósterreichische Rundschau. 
Como se vê, há circunstâncias que poderiam levar o mais 
encarniçado pacifista a pensar de maneira menos preconcei­
tuosa acerca do valor da guerra. 
Vae victoribus! 
O mal nunca prospera melhor do que quando há um ide­
al à sua frente. 
O herói é alguém que encara uma multidão. Na nova guer­
ra, o primeiro a conquistar essa posição é o lançador de bom­
bas aéreas, alguém que inclusive encara a multidão de cima. 
Talvez a guerra traga uma única mudança, mas uma 
mudança em razão da qual ela certamente não foi empre-
181 
KARL KRIUS 
endida: as vítimas da psicanálise voltarão sadias para casa. 
Pois a guerra entende quase tão pouco de psicologia quanto 
a psicanálise, mas, diante do método individualizante desta, 
que na maioria dos casos se atém ao nada, a guerra pelo me­
nos tem a vantagem de, na maioria dos casos, padronizar os 
indivíduos, e assim, proporcionar ao nada a sua verdadeira 
posição. É bom quando águas-vivas que nem sequer eram 
instrumentos sejam elevadas a tal condição. 
A quantidade diminui o lucro sob todos os aspectos. A 
atração que os trajes exercem sobre as mulheres diminuiu, 
e o que sobrou foi a desilusão erótica. Visto que às mulheres 
agrada apenas aquilo que chama a atenção, o homem que 
usa uma roupa civil voltou a ter hoje as melhores perspec­
tivas, o que também vale para o trapalhão de quem se diz 
ter se destacado por uma covardia especial diante do ini­
migo; pois qualquer um pode ser herói. Ocorre exatamente 
o mesmo que nos bailes de máscaras, em que cada pessoa 
promete para si mesma causar a maior sensação; quando ele 
termina, porém, ela reconhece que se quisesse ter chamado 
a atenção deveria ter usado um fraque, pois o nariz postiço 
era comum a todos. 
Não obstante, aquele que retorna para casa não se dei­
xará reintegrar facilmente na vida civil. Acredito, pelo con­
trário, que ele invadirá o interior do país e só então dará 
início à guerra. Ele arrebatará os êxitos que lhe foram nega-.k, 
dos e a guerra terá sido uma brincadeira de crianças com- ... 
parada à paz que então irromperá. Que Deus nos proteja da 
ofensiva que então será iminente! Uma atividade medonha, 
182 
DE NOITE 
não mais domada por comando algum, pegará em armas e 
em prazeres em todas as situações da vida, e haverá mais 
morte e mais doença no mundo do que a guerra alguma 
vez lhe exigiu. 
Tudo o que no passado era paradoxal agora é confirmado 
pela grande época. 
Na guerra, ou a mentira é uma embriaguez ou uma ciên­
cia. Esta última é mais prejudicial ao organismo. 
A língua alemã é a mais profunda; o discurso alemão, o 
mais raso. 
O francês ainda não se afastou tanto de sua superfície 
quanto o alemão de sua profundidade. 
A guerra só seria correta se apenas os não aptos fossem 
enviados para o campo de batalha. 
O chiste abraça a realidade e a loucura salta sobre o 
mundo. Como ainda podemos inventar se atrás de cada ca­
rantonha surge um rosto que lhe é igual inclusive na fala? 
Como podemos exagerar se os fatos se transformam em ca­
ricatura do exagero? A e B estão em conflito. Diz-se que A 
praticou um ato ilegal. Porém, visto que por alguma razão 
não se pode dizer isso em voz alta, o que se diz em voz alta 
é o seguinte: "O senhor já sabe do ato ilegal que B cometeu 
mais uma vez?". Quando se diz isso, não se pensa no fato de 
B realmente poder tê-lo cometido. Também não se acredi-
183 
KARL KRAUS 
ta que A, consciente de seu próprio delito, alguma vez pu­
desse censurá-lo a B, caso este também o tivesse cometido. 
Não se acredita nisso, pelo menos nesse caso especialmente 
crítico. Apenas a experiência geral de que algo semelhante 
por certo já aconteceu, de que se imputou a B aquilo que so­
mente A cometeu, justifica a jocosa confusão: "Imagine só 
o senhor do que B não é capaz!". No dia seguinte, publica­
-se um protesto de A contra o procedimento de B. Este teria 
cometido exatamente aquele ato ilegal, o pior numa série 
de crimes semelhantes. Desse modo, o próprio A assume 
o método parodístico com o qual se atribui a B os pecados 
de A porque não se tem outra saída. Resta assim apenas a 
explicação de que ele sentiu remorsos e, na esperança de 
ser corretamente compreendido, confessou sua falta sob 
a forma de uma imputação a B. Caso B realmente tivesse 
cometido essa falta, A pelo menos deveria perceber a jus­
ta compensação e silenciar. O que constitui a comicidade 
do caso não é a indignação contra aquilo que também se 
fez, ou que se fez apenas sozinho, mas a exatidão com que 
A aproveita a distorção intencional empregada pela pessoa 
cautelosa que precisa dizer B quando se refere à A. Por con­
seguinte, não se evita apenas dizer a verdade; também se é 
cauteloso com a mentira, pois ela também é vã e serve no 
máximo para motivo de farsa. 
A diplomacia é um jogo de xadrez em que os povos são 
colocados em xeque. ~ •. 
,:,!' 
A guerra seria uma punição razoável se não fosse a con­
tinuação do delito. 
184 
DE NOITE 
La bourse est la vie. 
Se alguém tivesse dito ao Diabo, para quem a guerra des­
de sempre foi uma pura paixão, que alguma vez haveria ho­
mens com um interesse comercial na continuação da guerra, 
que eles nem sequer se dariam ao trabalho de ocultá-lo e 
que seus lucros ainda lhes proporcionariam reconhecimento 
social, ele o mandaria contar essa história a outro. Porém, 
quando tivesse se convencido do fato, o Inferno enrubesce-
, ria de vergonha e ele teria de reconhecer que durante toda a 
sua vida foi um pobre diabo! 
185 
6 
De noite 
Preciso estar outra vez entre seres humanos. Pois neste 
verão, em meio às abelhas e aos dentes-de-leão, minha mi­
santropia degenerou gravemente. 
Na maioria dos seres humanos não avanço até a alma, mas 
sou assaltado por dúvidas já nas entranhas. Pois não pos­
so acreditarque esse magnífico mecanismo foi criado para 
compor um grande comerciante, e apenas por meio da au­
tópsia me deixo convencer de que um agiota tem um baço. 
Muitas vezes arranho minha mão com a pena e só então 
sei que vivi aquilo que se encontra escrito. 
Pediram-me muitas vezes para ser justo e observar uma 
coisa de todos os lados. E fiz isso, na esperança de que uma 
coisa talvez pudesse se tornar melhor se eu a observasse de 
todos os lados. Mas cheguei ao mesmo resultado. De manei­
ra que continuei a observar uma coisa apenas de um lado, 
poupando muito trabalho e desilusão. Pois é consolador 
considerar que uma coisa é ruim e, ao fazê-lo, poder sedes­
culpar apelando a um preconceito. 
187 
KARL KRAUS 
No caminho pelo qual chegamos a nós mesmos também 
encontramos uma inoportuna fileira de curiosos que gosta­
riam de saber como são as coisas por lá. 
Woodie, um cãozinho de pelo longo que conheci pesso­
almente - ele ria quando as pessoas conversavam com ele 
e chorava porque não podia conversar com elas, e seu olhar 
era em si e para elas a gratidão da criatura - , foi morto por 
um automóvel. Quem teria tanta pressa? Deveria o pouqui­
nho de espaço entre os corpos humanos que um passante 
desses exigia - ele podia se encolher como uma cobra -
ser melhor empregado? Os dignos pagam para que os outros 
continuem vivendo indignamente. E para quê, afinal, já que 
esse exemplo não melhora os ruins? Ele seguia seu caminho 
e morreu por isso. Quando a mulher se voltou, ele jazia ao 
sol. Quando a vida não tem palavras, resta tanto silêncio. 
Conheci um cão que era tão grande quanto uma pes­
soa, tão ingênuo quanto uma criança e tão sábio quanto um 
ancião. O tempo que parecia ter era tanto que não caberia 
numa vida humana. Quando ele tomava sol e observava al­
guém enquanto isso, era como se quisesse dizer: "Por que 
vocês têm tanta pressa?". E ele certamente o diria; bastaria 
que se esperasse. 
O dono não suporta tão dignamente a dignidade quanto 
o cavalo suporta o ultraje. 
O incompreensível na arte da palavra - nas outras ar­
tes também não compreendo o compreensível - não deve 
188 
DE NOITE 
tocar o sentido exterior. Este deve ser mais claro do que 
aquilo que fulano e sicrano têm a dizer um ao outro. O mis­
terioso se encontra atrás da clareza. A arte é algo tão claro 
que ninguém compreende. Qualquer alemão entende que 
sobre todos os cimos há paz3; todavia, não há um que já 
tenha apreendido isso. 
Eis algo que não consigo superar: que uma linha inteira 
possa ter sido escrita por um meio homem. Que uma obra 
fosse construída sobre a areia movediça de um caráter. 
O defeito que consiste no fato de o gênio provir de uma 
família apenas pode ser reparado por ele ao não formar 
nenhuma. 
Os filhos das pessoas andam por aí como gracejos que 
não foram reprimidos. Eles são os chistes estéreis dos esté­
reis, incômodos para os genitores. 
Eros tem sorte no amor. O desperdício lhe proporciona 
crescimento; a ofensa, honra. Magoe-o, e isso lhe será um 
prazer; difame-o, e isso lhe será útil. Podes lhe fazer de tudo, 
só não dizer tua opinião na sua cara. Ele não é queixoso, 
mas também não é ávido de saber. Ele só é curioso, e quer 
descobrir as coisas por conta própria. Ainda que saibas tudo 
melhor do que ele, saiba disso: ele toma parte de tudo no 
mundo, só não toma parte no tédio. O que dele escondes, ele 
partilhará contigo; mas ele desdenha tua ciência. 
3 De um poema de Goethe. (N.T.) 
189 
KARLKRAUS 
O palavrório é conduzido por milhares de tubos à 
consciência popular. Um soldado ferido, que certamente 
jamais lera um livro ou mesmo um jornal, não obstante 
se apropriou do tom com que uma consciência tranquila 
se despede. "Agora posso morrer em paz", disse ele, "hoje 
matei catorze!" 
Não, a alma não fica com cicatrizes. A bala entrará por 
um ouvido da humanidade e sairá pelo outro. 
Uma vez que ornamentos e flores de retórica são osten­
tados com o maior gosto por uma época a cuja essência re­
pugna o sentido perdido dessas formas - e com gosto tanto 
maior quanto mais essa época tiver ultrapassado tal sentido, 
sem que ela seja, no entanto, capaz de criar novos ornamen­
tos e novas flores de retórica que correspondam ao seu pró­
prio conteúdo -, um Estado ainda "lançará mão da espada" 
quando há muito já será comum lançar mão do gás. Pode­
mos imaginar que semelhante decisão algum dia se trans­
forme numa frase feita? Deveria ser esclarecedor acerca da 
técnica o fato de ela não ser capaz de criar novos chavões, 
mas de deixar o espírito da humanidade no estado de não 
poder prescindir dos antigos. O mal do mundo vive e cresce 
nessa duplicidade de uma vida transformada e de uma for­
ma de vida que se arrasta consigo. A época não cria chavões, 
mas está cheia deles; e justamente por isso, por um conflito 
incurável consigo mesma, precisa lançar mão da espada re-
-~-. 
petidamente. Os novos acontecimentos não produzirão ne:: 
nhuma frase feita, mas as velhas frases feitas produzirão os 
acontecimentos! 
191 
DE NOITE 
"Conquistar o mercado mundial": porque os comercian­
tes falam assim, os soldados tiveram de agir assim. Desde 
então se conquista, ainda que não seja o mercado mundial. 
A exigência, feita pelos inimigos, de que a artilharia alemã 
se renda é uma insanidade. Apenas seria lógica a exigência de 
que a visão de mundo alemã se rendesse, e isso é irrealizável. 
O clero e a guerra: a casaca do amor ao próximo também 
pode ser virada. 
O que há de surpreendente na situação atual é que a men­
tira, com suas pernas curtas, seja forçada a correr pelo mun­
do - e que o consiga. 
De início, a guerra é a esperança de que as coisas andem 
melhores para si mesmo; depois, a expectativa de que as coi­
sas andem mal para o outro; então, o contentamento com 
o fato de as coisas também não andarem melhores para o 
outro, e, por fim, a surpresa com o fato de as coisas irem mal 
para ambos. 
A superioridade de fogo é uma vantagem se por meio dela 
se devem proteger bens culturais ainda mais importantes 
do que ela. Porém, visto que a superioridade de fogo exclui 
a existência de bens culturais mais importantes, não resta 
nada para explicar a vantagem da superioridade de fogo se­
não a consideração de que a superioridade de fogo serve para 
proteger a superioridade de fogo. 
191 
KARL KRAUS 
Para acertar com mais precisão numa estação ferroviária, 
eles deveriam fazer mira num Tiepolo. 
Negócio é negócio: porque uns disseram isso, outros dis­
seram que eles são negociantes. Aqueles, porém, queriam 
dizer que negócio é negócio, e não que negócio também é 
vida e religião. 
A situação em que vivemos é o verdadeiro fim do mundo: 
a situação estável. 
192 
Glossário alfabético de nomes, 
lugares e expressões estrangeiras 
Alcibíades: personagem do diálogo platônico O banque­
te. Neste diálogo, cujo tema é o amor, Alcibíades se lamenta 
por ter sido rejeitado por Sócrates, ao mesmo tempo em que 
exalta a sua virtude. 
Anaxágoras (c.499-428 a.C.): filósofo pré-socrático. Ao 
contrário de seus predecessores, que supuseram a existên­
cia de um único princípio imutável e material para todas as 
coisas transitórias, Anaxágoras concluiu que havia um nú­
mero infinito de elementos que, diversamente combinados, 
dariam origem às coisas visíveis. Tais elementos, original­
mente misturados no caos primitivo, teriam sido ordenados 
pelo espírito (inteligência, mente - nous). 
Áugias: rei mitológico, dono de um · imenso rebanho, 
cujos estábulos, nos quais o esterco se acumulava há déca­
das, Hércules limpou num só dia desviando para dentro de­
les o curso de dois rios. 
Basedow, doença de: doença da glândula tireóide entre 
cujos sintomas se encontram os olhos esbugalhados. 
193 
Boa constrictor: nome científico da jiboia. 
Bobeche, Kasimir e Kantschukoff: personagens, respec­
tivamente, das operetas O barba-azul, de Jacques Offenbach 
(1819-1880), A princesa de Trebisonda, também de Offenba­
ch, e Fatinitza, de Franz von Suppé(1819-1895). 
Bõrne, Ludwig (1786-1837): escritor e crítico alemão. 
Publicou contos, ensaios e aforismos. Sua principal obra 
são as Cartas de Paris, cuja base é a correspondência com a 
amante Jeanette Wohl. 
Danaide: cada uma das cinquenta filhas do mitológico 
rei Dânaos, que, instigadas pelo pai, assassinaram seus ma­
ridos na noite de núpcias e por isso foram condenadas a en­
cher eternamente um tonel furado nos Infernos. 
Dreimiiderlhaus (A casa das três donzelas): opereta de 
Heinrich Berté (1857-1924), composta a partir de canções de 
Franz Schubert (1797-1828). De gosto duvidoso, alcançou 
imenso sucesso popular. 
Emerson, Ralph Waldo (1803-1882): ensaísta, poeta e 
filósofo norte-americano. Um dos principais representan­
tes do transcendentalismo, movimento que incorporou 
não só aspectos da filosofia de Immanuel Kant, mas tam­
bém do platonismo e do neoplatonismo, e que defendia, 
por um lado, a superioridade do espírito e, por outro, ·ia 
necessidade de uma origem imediatamente evidente das 
verdades religiosas. 
194 
Esculápio: deus da medicina na mitologia greco-romana, 
também chamado de Asclépio, cujo símbolo é uma serpente 
enrolada num bastão. 
Frineia: cortesã grega, célebre por sua beleza. 
Glaucope: "a de olhos claros". Epíteto da deusa grega da 
sabedoria, Palas Atena. 
Habsburgos: dinastia que ocupou o trono da Áustria do 
século XIII até o final da Primeira Guerra Mundial. 
Iswolski, Alexander (1856-1919): político russo. Embai­
xador em Paris entre 1910 e 1917. 
Itzig: prenome judeu muito comum, variante de Isaak 
(Isaque) e, como tal, designação pejorativa para judeu. 
Janosch: germanização do prenome húngaro János 
(João). 
Jean Paul: pseudônimo de Johann Paul Friedrich Richter 
(1763-1825), prolífico escritor do romantismo alemão. Entre 
seus principais romances se encontram Siebenkas e Titã. 
Kleist, Heinrich von (1777-1811): escritor alemão, autor 
de peças teatrais e contos. Dentre as peças, destaca-se a co­
média A bilha quebrada; entre os contos, Michael Kohlhaas, 
O duelo e A marquesa de O. Seu fim foi trágico: na compa­
nhia de Henriette Vogel, suicidou-se às margens do Wann­
see, em Berlim. 
195 
Kokoschka, Oskar (1886-1980): pintor e escritor austrí­
aco, um dos maiores representantes do expressionismo. 
La bourse est la vie: A bolsa é a vida. Em francês no 
original. 
Lenau, Nikolaus (1802-1850): poeta de expressão ale­
mã nascido na Hungria. Seus Poemas o fizeram conhecido; 
deixou também um Fausto e o fragmento de um Don Juan. 
Sofreu um derrame em 1844, seguido de graves perturba­
ções psíquicas. No mesmo ano, cometeu várias tentativas 
de suicídio; morreu num sanatório nas proximidades de 
Viena. 
Lichtenberg, Georg Christoph (1742-1799): físico 
alemão. De 1764 até a sua morte registrou seus pensa­
mentos sobre os mais variados assuntos nos chamados 
Sudelbücher ("cadernos de rascunhos"). Extratos desses 
cadernos, publicados postumamente e contendo sobretudo 
sentenças e aforismos filosóficos, tiveram grande influên­
cia sobre Schopenhauer, Nietzsche, Kierkegaard e, natural­
mente, Kraus. 
Loos, Adolf (1870-1933): arquiteto vienense. Após via­
gem pelos Estados Unidos, pass~u a atacar a ornamentação 
na arquitetura e a defender a simplicidade funcional em uma 
série de artigos e no livro Ornamento e crime. 
Mésalliance: casamento inadequado, especialmente 
quando um dos cônjuges é de condição social inferior. 
19& 
Messina: cidade italiana devastada por terremotos em 
1908 e 1912 que destruíram 90% de seus edifícios e causa­
ram a morte de 84 mil pessoas. 
Nestroy, Johann (1801-1862): ator e dramaturgo austrí­
aco. Suas farsas lhe trouxeram grande reconhecimento do 
público vienense. 
Oderint, dum metuant: Odeiem-me, contanto que me 
temam. Conforme Suetônio, essa expressão, embora mais 
antiga, era o lema do imperador romano Calígula. 
Pégaso: cavalo alado da mitologia grega, símbolo da 
poesia. 
Phallus ex machina: um falo (que desce) por uma má­
quina. Paródia da expressão deus ex machina, "um deus (que 
desce) por uma máquina", expediente empregado na tragé­
dia grega para resolver situações desesperadas: por meio de 
um sistema de roldanas, um deus descia à cena e dava uma 
solução externa aos acontecimentos. 
Pirro: na batalha em que derrotou os romanos na cidade 
de Ásculo, em 279 a.C., o rei Pirro de Épiro perdeu pratica­
mente todo o seu exército. Daí o sentido da expressão "vitó­
ria de Pirro": uma vitória que mais parece uma derrota. 
Prater: do italiano prato, "prado". Grande parque vienen­
se. Originalmente de uso exclusivo da nobreza, foi aberto à 
visitação pública em 1767 sob a influência do chamado abso­
lutismo esclarecido do imperador Josef II (1741-1790). No sé-
197 
culo XIX, foi dotado de parque de diversões e, no século XX, 
de instalações esportivas. É um dos mais famosos parques 
da Europa, de larga menção na obra de Arthur Schnitzler e 
de outros escritores austríacos. 
Procusto: na mitologia grega, bandido que amarrava 
suas vítimas a um leito e as esticava ou mutilava conforme 
fossem menores ou maiores que esse leito. 
Quodlibet: peça musical de caráter humorístico que com­
bina várias melodias sucessiva ou simultaneamente. 
Quousque tandem, Cato, abutere patientia nostra!: Até 
quando, Catão, abusarás de nossa paciência! Paródia de Cí­
cero, que, nos discursos que ficaram conhecidos como Ca­
tilinárias, empregava essa exclamação referindo-se ao cons­
pirador Catilina. Catão (Marcos Pórcio Cato, 234-149 a.C.): 
político e censor romano que se tornou célebre por seu rigor, 
severidade e austeridade. 
Ringstrasse: rua que contorna a parte antiga de Viena. 
Literalmente, "rua circular". 
Schõnpflug, Friedrich (1873-1951): caricaturista e pin­
tor vienense. 
Shaw, Bernard (1856-1950): dramaturgo e crítico teatral 
irlandês. Autor de peças de sucesso, como Pigmalião (1913) 
e Santa Joana (1923). A irreverência com que tratou Shakes­
peare em suas críticas provocou escândalo. 
198 
\.• , 
Taígeto: montanha da Grécia onde as crianças que nas­
ciam defeituosas eram abandonadas para morrer. 
Tântalo: rei mitológico que ludibriou a morte várias ve­
zes e, como punição, foi condenado a padecer eternamente 
de sede amarrado no meio de um lago nos Infernos. Daí o 
suplício que leva seu nome. 
Tat twam asi: "Isto és tu", fórmula do bramanismo que 
significa que o universo e a alma individual são uma coisa 
só, que são feitas da mesma substância. 
Tiepolo: família de pintores italianos do séc. XVIII. Des­
tacam-se Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770) e seu filho 
Giovanni Domenico Tiepolo (1727-1804). 
Unter den Linden: em português, "Debaixo das tílias". 
Poético nome de uma rua do centro de Berlim. 
Vae victoribus!: Ai dos vencedores! Paródia do dito atri­
buído ao rei gaulês Breno após derrotar os romanos em 387 
a.C.: Vae victis!, "Ai dos vencidos!". 
Vanessa io, Vanessa cardui: nomes científicos de duas 
espécies de borboleta, a pavão-real-diurno e a borboleta­
dos-cardos. 
Vanitas vanitatum!: das primeiras palavras do livro do 
Eclesiastes: "Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade". 
199 
Wallenstein: trilogia teatral (O acampamento de Wal­
lenstein, Os Piccolomini e A morte de Wallenstein) de Frie­
drich Schiller (1759-1805), escrita entre os anos de 1797 e 
1799. A menção de Kraus ao cheiro de maçãs podres, que 
teria inspirado essas e outras peças, é uma referência a um 
hábito de Schiller: o poeta deixava maçãs passadas do ponto 
(não exatamente podres, portanto, como a.firma Kraus mal­
dosamente ... ) na gaveta de sua escrivaninha porque o seu 
cheiro o inspirava. 
Xantipa: a mulher de Sócrates. Conta-se que era intratá­
vel; em alemão, seu nome é sinônimo de megera. 
ZDI 
Índice onomástico 
Acampamento de Wallenstein, 
O (Schiller), 200 
Afinidades eletivas, As (Goethe), 
125 
Afrodite, 32 
Alcibíades ( O banquete, 
Platão), 25, 193 
Alemanha, 14,81, 139, 179 
Amenófis, 125 
Anaxágoras, 125, 193 
Andrômeda, 126 
Aristófanes, 7 
Asclépio,195 
Ásculo, 197 
Asthetische Fragmente (Walter 
Benjamin), 11 
Augias, 115, 193 
Austrália, 175 
Áustria, 56, 81, 89, 139-40, 175, 
195 
Baco,91 
Baden,84 
Barba-azul, O (Jacques 
Offenbach), 194 
Basedow, doença de, 54, 193 
Beethoven, 67, 178-9 
Benjamin, Walter, 11 
Benn, Gottfried, 14 
Berlim, 140, 178, 195, 199 
Berté, Heinrich, 194 
Bilha quebrada, A (Heinrich 
von Kleist), 195 
Bismarck, 164 
Bobeche (O barba-azul, 
Zll 
Jacques Offenbach), 55, 194 
Boêmia, 7 
Bõrne, Ludwig, 118, 194 
Breno, 199 
Calígula, 197 
Canetti, Elias, 7, 11 
Cartas de Paris (Ludwig 
Bõrne), 194 
Cassiopeia, 126 
Catão, 34, 198 
·.,·m 
... \ ;1tt;~1, 
Catilina, 198 Eclesiastes, 199 Heidegger, Martin, 14 Kraus, Karl, 7-15, 170,196,200 
Catilinárias (Cícero), 198 Emerson, Ralph Waldo, 86, 194 Heine, Heinrich, 73, 134, 166 
Cáucaso, 44 Engadina, 145 Hércules, 115 Lenau, Nikolaus, 121, 196 
Cefeu, 126 Épiro, 197 Hitler, 13-4 Leporello (Don Giovanni, 
China, 180 Eros, 24, 157, 189 Hüben und Drüben (Karl Mozart), 145 
Cícero, 198 Eros und Themis (Karl Kraus), 9 Kraus), 7 Lichtenberg, Georg Christoph, 
Cláudio (Hamlet, Shakespeare), Esculápio, 89, 195 Hungria, 87, 196 75,196 
22 Estados Unidos, 196 Loos, Adolf, 135, 169, 196 
Consciência das palavras, A Etna,64 Iswolski, Alexander, 89, 195 Lutero, 178-9 
(Elias Canetti), 11 Itália, 56 Luxemburgo, 57 
Corfu, 73 Fatinitza (Franz von Suppé), 
Crítica da razão pura (Kant), 194 Jean Paul (Johann Paul Margarida, 32 
56 Fausto (Goethe), 14 Friedrich Richter), 75, 133, Marquesa de O, A (Heinrich 
Fausto (Nikolaus Lenau), 196 144,171, 195 von Kleist), 195 
Danaide, 24, 194 Fleischmann, Trude, 8 Jeová, 112 Marselhesa, 118 
Dânaos, 194 França, 56 Jicin, 7 Marte, 180 
Die Fackel, 7, 9, 11-4, 112, 123, Freud, Sigmund, 171 Josef II, 197 Melk, 45 
140 Frineia, 38, 195 Júpiter, 44 Mercúrio, 180 
Die Fackel im 0hr (Elias Juvenal, 7 Messina, 112, 197 
Canetti), 11 Gêngis Khan, 86 Michael Kohlhaas (Heinrich 
Die letzten Tage der Menschheit Glaucope, 143, 195 Kann, Helene, 17 von Kleist), 195 
(Karl Kraus), 13 Goethe, 118,169,179,189 Kant, 178-9, 194 Moisés, 73 
Don Juan, 46, 145 Gogol, Nikolai, 7 Kantschukoff (Fatinitza, Franz Morte de Wallenstein, A 
Don Juan (Nikolaus Lenau), 196 Gray, Dori (alusão a O retrato de von Suppé), 55, 194 (Schiller), 200 
Dostoievski, 179 Dorian Gray, Oscar Wilde), Karl Kraus, escola da resistência 
Dreimiiderlhaus (Heinrich 86 (Elias Canetti), 11 Nachts (Karl Kraus), 11-2 
Berté), 175, 194 Grécia, 38, 199 Karntnerstrasse, 142 Napoleão, 159 
Dritte Walpurgisnacht (Karl Grinzing, 67 Kasimir (A princesa de Nápoles, 107 
Kraus), 13-4 Trebisonda, Jacques Narciso, 64 
Duelo, O (Heinrich von Habsburgos,84, 195 ,.;I:_: Offenbach), 55, 194 Natã, o sábio (Gotthold 
Kleist), 195 Hamburgo, 82 Kierkegaard, 196 Ephraim Lessing), 125 
Hamlet (Shakespeare), 21-2 Kleist, Heinrich von, 121, 195 Nero, 86 
Echternach, 57-8 Helena, 159 Kokoschka, Oskar, 135, 196 Nestroy, Johann, 133, 197 
202 213 
Neue Presse, 175 
Newton, Isaac, 85 
Nietzsche, 10, 161, 166-7, 196 
Nona S~nfonia (Beethoven), 66 
Oberon (Sonho de uma noite 
de verão, Shakespeare), 22 
Ornamento e crime (Adolf 
Loos), 196 
ôsterreichische Rundschau, 
181 
Palas Atena, 195 
Paris, 145, 195 
Pégaso, 144,197 
Pérsia, 56 
Piccolomini, Os (Schiller), 200 
Pigmalião (Bernard Shaw), 198 
Pirro, 147, 197 
Poemas (Nikolaus Lenau), 196 
Prater, 39, 197 
Princesa de Trebisonda, A 
(Jacques Offenbach), 194 
Procusto, 198 
Pro domo et mundo (Karl 
Kraus), 10 
Prometeu, 44 
Prússia, 81 
Quevedo, Francisco de, 7 
Roma, 85-6 
Rômulo e Remo, 85-6 
Santa Joana (Bernard Shaw), 198 
São Willibrord, 58 
Schiller, Friedrich, 67, 200 
Schnitzler, Arthur, 198 
Schõnpflug, Friedrich, 142, 198 
Schopenhauer, Arthur, 179, 196 
Schubert, Franz, 194 
Shakespeare, 21-2, 59, 170, 198 
Shaw,Bernard, 170, 198 
Siebenkiis (Jean Paul), 195g 
Sinfonia Pastoral (Beethoven), 
67 
Sittlichkeit und Kriminalitiit 
(Karl Kraus), 9 
Sócrates, 193, 200 
Sodoma, 106 
Sorrento, 46 
Sprüche und Widersprüche 
(Karl Kraus), 9 
St. Moritz, 141 
Sudelbücher (Georg Christoph 
Lichtenberg), 196 
Suetônio, 197 
Swift, Jonathan, 7 
Taígeto, 126, 199 
Tântalo, 39, 199 
Tiepolo, Giovanni Battista 
Reitler, Elisabeth, 155 e seu filho Giovanni 
Ringstrasse, lll, 139, 142, 198 Domenico, 192, 199 
Titã (Jean Paul), 195 
Titânia (Sonho de uma noite de 
verão, Shakespeare), 22 
Unter den Linden, 139, 199 
Vesúvio, 64 
Viena, 7, ll, 82-4, ll2, 139-40, 
175,196,198 
Vogel, Henriette, 195 
Wallenstein (Schiller), 67, 200 
Wannsee, 195 
Weidlingau, 98-9 
Wohl, Jeanette, 194 
Wotan, 112 
Xantipa, 25, 200 
Zaratustra (Assim falou 
Zaratustra, Nietzsche), 178 
Zur Genealogie der Moral 
(Nietzsche), 10 
204 2115 
"O aforismo jamais coincide com a verdade; ou 
é uma meia verdade ou uma verdade e meia': escreveu 
Karl Kraus (1874-1936) a respeito do gênero em que se 
tornou um mestre. Personagem singular do debate 
intelectual europeu do começo do século XX, Kraus 
encontrou na brevidade e na condensação extrema dos 
aforismos a forma ideal de espetar seus adversários -
notadamente jornalistas, políticos e figuras prestigiadas 
do meio cultural vienense. Exprimindo o que à primeira 
vista pode parecer uma generalização abusiva, o aforismo 
desestabiliza as certezas cotidianas cristalizadas em frases 
feitas e, à luz de seu brilho repentino, desvenda aspectos 
da realidade até então ignorados. Neste volume, 
apresenta-se uma poderosa mostra de como podem 
ser cortantes esses pequenos textos - e de como Kram · 
manejando a sátira, feriu seus inimigos com grande 
concisão. Como ele mesmo dizia: "Há escritores que 
já conseguem dizer em vinte páginas aquilo para o 
que às vezes preciso de até duas linhas:' 
Seleção e tradução de Renato Zwick 
11111111 11 1111111111111 
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